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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ESPERTO DEMAIS PARA CASAR / Cathy Williams
ESPERTO DEMAIS PARA CASAR / Cathy Williams

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ESPERTO DEMAIS PARA CASAR

 

  • Adoro casamentos! — Hattie falou, batendo as asas rapidamente.Betty, a mais velha das trigêmeas Goodie, fez um gesto de aprovação ao observar as mesas postas com diversas iguarias desde lagostas e camarões até morangos cobertos com chocolate e fondue de chocolate branco. Seu penteado combinava com a personalidade meio abrutalhada.O comentário foi feito por Muriel, sentada sobre uma pilha de presentes colocada em uma mesa lateral. Hattie, que adorava estar mais no alto do que qualquer outra pessoa, acomodara-se sobre a maior pilha, e Betty mar­chava por sobre a mesa, na beirada, como um general verificando a tropa antes de uma batalha.—  Ora, eu não quis ofuscar o brilho da noiva — respondeu, ajeitando as dobras daquela que era uma de suas camisetas favoritas. — Ademais, você devia ler isto e ficar calada. Apontou para as letras, escritas na roupa: "Fadas-madrinhas Voam Porque Levam Sua Existência Com Suavidade".

 

  • —  Não posso acreditar que vocês duas tenham se vestido de maneira tão casual para uma ocasião elegante assim. — Hattie, muito aprumada em seu vestido de noite amarelo, usava chapéu, sapatos e bolsa da mesma cor. Balançou a cabeça em sinal de desaprovação. — Betty, ca­misetas não são apropriadas para recepções de casamento.
  • —  E ótimo que, como fadas-madrinhas, não tenhamos de nos preocupar com calorias.
  • —Realmente espalham bons fluidos.
  • Somos invisíveis — ponderou Betty. — Pelo amor de Petúnia!
  • Uma de nós, pelo menos, deve manter as aparências — Hattie falou orgulhosamente.Percebendo que não venceria aquela batalha, Hattie redirecionou sua ira a Muriel.—  Gosto dos bolsos — respondeu, dando de ombros. Hattie lembrou-se da briga que tivera com Muriel havia algumas semanas quando tentara mudar o visual da irmã. Decidiu deixar as coisas como estavam ou, para ser mais específica, deixar que a moda das fadas-madrinhas perma­necesse tristemente antiquada. Focou a atenção nos arredores.O Carousel Banquet Hall estava banhado em luz. As mesas receberam toalhas de Unho branco e guardanapos cor de pérola. Luzes colocadas em lugares estratégicos da­vam aparência de encantamento ao salão e revelavam flo­res e mais flores.—  Estou tão feliz por Jason e Heather estarem final­ mente casados.

 

    • Hattie secou o canto dos olhos com um lenço, com delicadeza.
    • Bem a um canto estava a noiva, vestindo um elegante modelo de seda e renda. Oferecia uma fatia generosa do bolo de casamento ao marido.
    • —  Pelo menos o salão está belamente decorado... embora vocês duas não estejam bonitas — acrescentou.
    • —  E você, usando essa roupa de fotógrafa! Só lhe falta uma câmera.
    • A outra resmungou algo nada apropriado a senhoritas ou fadas-madrinhas.
  • Eu temia que este dia jamais fosse chegar — Betty comentou.
  • Ryan e Courtney fizeram a coisa certa. Simplesmente foram morar juntos. —A voz de Muriel refletia sua apro­vação às atitudes de seu protegido.—  Jason chegou a duvidar quando Ryan lhe anunciou que seria transferido para Chicago, já casado com Courtney — comentou Betty.

 

    • Aquilo não causou surpresa a Hattie. Muriel era pouco responsável como fada-madrinha, logo aprovava atitudes semelhantes em humanos.
  • Jason estava bravo por não ter sido o primeiro dos trigêmeos Knight a ser enlaçado — respondeu Muriel.
  • Ele não parece estar nem um pouco bravo — co­mentou Betty. — Está feliz.

 

    • Muriel assentiu.
  • Assim como Ryan.
  • Por isso agora temos de nos preocupar com a irmã dos dois, Anastasia.Seus longos cabelos estavam presos no alto da cabeça, deixando à mostra um par de brincos que, examinados de perto, revelavam se tratarem de livros em miniatura. Ela trocara os sapatos de salto alto por sapatilhas confortáveis.

 

    • As três fadas-madrinhas direcionaram a atenção para a jovem de cabelos escuros usando um vestido de dama de honra cor de lavanda.
  • Está bem — proferiu Betty. — Desta vez vamos mu­dar nossa maneira de agir. Com Jason e Ryan fomos muito radicais e tomamos algumas atitudes que não com­petiam a nossa alçada...
  • Não sejamos modestas — interrompeu-a Muriel. — Nós definitivamente fizemos coisas que nada tinham a ver conosco.

 

    • Betty franziu a testa. Detestava ser interrompida.
  • Desde que iniciamos essa tarefa de sermos fadas-madrinhas e, inadvertidamente, deixamos cair muito pó mágico em nossos pequenos protegidos no dia do batismo, estamos lidando com nosso erro. Precisamos a todo custo uni-los as suas almas gêmeas para nos redimir.
  • Não devemos desanimar. Temos lidado com outros trigêmeos nascidos em nossa jurisdição com bastante su­cesso. Mas os trigêmeos Knight sempre foram únicos — lembrou-as Hattie.
  • Provavelmente porque demos a Jason muita sen­sualidade e bom senso quando era bebê. Enquanto seu irmão Ryan ganhou muito bom humor e teimosia.
  • Não se esqueça de Anastasia. Demos-lhe inteligência demais e excesso de determina-ção. Cai bem nela, não acham? — indagou Hattie orgulhosamente
  •   Qualquer coisa ficaria bem nela — admitiu Muriel. Voltaram a atenção para a festa e notaram que os con­vidados começavam a dançar.Anastasia, entretanto, não aparentava estar igualmente satisfeita. Dançava com um homem cambaleante que be-bera além da conta. Quando o rapaz cometeu a indelica-deza de passar a mão em seu traseiro, ela pisou com força no pé dele.Hattie imediatamente foi em defesa de sua protegida.Com um indisfarçado olhar de desdém, arrumou o cha­péu. A mão, com uma perfeita luva branca, ajeitou a fita presa sob o queixo.

 

    • —  Ela vai nos dar muito trabalho — comentou Muriel. —           Já sabemos quem é sua alma gêmea?
    • —  Anastasia agiu de maneira tão rude porque foi provocada. Aquele tolo não deveria agir de maneira tão pouco cavalheiresca!
    • —  Muito determinada — Betty falou, balançando a cabeça em sinal de desalento.
    • A música, providenciada por um sistema de som oferecido pelo patrão de Heather, dono da estação de rádio WMAX, animava a festa. A canção Sorry Seems To Be The Hardest Word de Elton John, tinha um significado muito especial para Jason e Heather. Os recém-casados pareciam abençoa­damente felizes, assim como Ryan e Courtney.
  • Claro que sim! E nosso trabalho saber —proferiu Betty.
  • David Sullivan. Um homem que não acredita em sonhos — admitiu Hattie.
  • Esta é uma das razões de eu achar que precisaremos traçar um plano específico para Anastasia — continuou Betty.
  • Sempre temos um plano mas raramente funciona —falou Hattie.
  • Sim... Bem... Admito que algumas vezes acontecem acidentes... —considerou a irmã mais velha, desconcertada.
  • Certamente acontecem. Você notou que parecem ocor­rer com mais freqüência conosco do que com outras? — observou Muriel.

 

  • E por isto que vamos precisar de ajuda... — Betty quis propositadamente criar suspense.
  • De um anjo da guarda? — Hattie falou as palavras com reverência.
  • Não, de uma avó.
  • Avó?
  • Exatamente. Precisamos de uma assistência humana para unirmos as pessoas. Alguém que possa ficar de olhos atentos em tudo — explicou Betty. — Afinal de contas, temos outras tarefas a serem cumpridas.
  • E onde nos encaixamos em tudo isto? — indagou Mu-riel. — Pensei que esta fosse uma tarefa de Hattie e que nós estivéssemos aqui apenas para aconselhá-la. Foi o que você me falou diante de meu compromisso de fazer Ryan apai­xonar-se. Quero dizer, foi Hattie quem derrubou muito pó mágico referente a inteligência e determinação no bebê Anastasia... Ela agora terá de lidar com a situação que criou.
  • Ora, deixe disto — disse Betty. — Conhece nosso lema: "Uma por todas e todas por uma".
  • Esse era o lema dos três mosqueteiros.
  • Bem, se foi bom para eles, para nós também será. E onde, mesmo, eu estava?
  • Disse que iríamos buscar assistência humana para esse caso. De uma avó.
  • Certo. Eu já coloquei a avó de David Sullivan a favor de nossa causa.
  • Isso é permitido? — perguntou Hattie, insegura. Betty deu de ombros.
  • Eu nada direi se vocês ficarem caladas também.
  • Por que David e Anastasia simplesmente não se en­contram e se apaixonam a primeira vista? — perguntou Hattie, esperançosa.
  • Assim seria fácil demais — comentou Betty.
  • O que há de errado com a facilidade? O fácil é bom — ponderou Muriel.
  • Pode ser bom, mas não é o que acontece na vida. Ora — falou Betty em tom de comando —, onde está seu espírito de aventura? Um trio de fadas-madrinhas conse­gue dar conta de qualquer caso. Somente especialistas como nós podem encontrar maneiras criativas de lidar' com. casos realmente desafiadores.
  • Somos especialistas e/n exatamente o quê? — indagou Hattie.
  • Em problemas — respondeu Muriel de maneira sucinta.
  • Em criá-los ou resolvê-los?
  • Ambas as coisas, temo eu. Mas isso está prestes a mudar. Claire Sullivan quer ver seu único neto casado. Ela o cria desde que os pais do menino morreram quando o pequeno tinha dez anos. David ouve a avó e respeita suas opiniões. Com ela de nosso lado, isto será como sa­borear um delicioso pedaço de bolo.Empurrou-o, e o moço, dado seu estado de embriaguez, tropeçou. A imagem dele de braços abertos pareceu ficar congelada durante alguns segundos antes de o rapaz cair bem no meio do bolo de casamento. 

 

  • —  Um pedaço de bolo — falou Muriel com desdém. — Pois sim!
  • Mal Betty havia proferido as palavras, houve uma con­fusão ao redor do bolo de casamento. Anastasia, furiosa, discutia com seu parceiro de dança. O rapaz ainda não havia compreendido que ela não queria mais sua companhia.
  • Denton não me largava! Eu apenas lhe dei um empurrão, mas como estava bêbado, perdeu o equilíbrio e acabou destruindo o bolo de casa­mento de meu irmão. Foi assim que arruinei a recepção de Jason em meu último final de semana —: Anastasia Knight contava o ocorrido a sua amiga, Claire Sullivan.Claire colocara um capacete de beisebol do Chicago Cubs para manter o penteado no lugar. Tinha quase setenta anos mas parecia bem mais jovem, especialmente quando usava aquele conjunto cor de safira.

 

  • Anastasia dirigia seu conversível vermelho, os cabelos castanhos presos em um rabo-de-cavalo para evitar que se embaraçassem ao sabor do vento. Aquele dia de agosto estava quente, mas a temperatura era razoável por causa da brisa fria vinda do lago.
  • Oh, querida! — Claire exclamou, com ar de preocupação. — Ele ficou muito bravo?
  • Quem? — indagou Anastasia ao diminuir a velocidade devido ao trânsito lento.

 

    • Dirigia do modo como vivia: com confiança e um quê de excitação.
  • Denton ou Jason?
  • Denton mereceu o que ganhou — proferiu Claire. — Eu me referia a Jason.
  • Não ficou exatamente feliz, mas Heather foi brilhante. Fez com que todos rissem e, em seguida, distraiu as pessoas ao reunir as mulheres para jogar o buquê.
  • E como foi?
  • Bem, a produtora do programa de rádio de Heather era sua dama de honra. Chama-se Nita Weisskopf. Ela certamente não poderia ser definida como tímida. Nita estava bem na frente, pronta para fazer qualquer coisa para pegar aquele buquê. Eu estava logo atrás.
  • E sendo tímida como você é... — observou Claire com um sorriso provocador.
  • Sim, certo — Anastasia sorriu de volta. — Ambas sabemos que não tenho um só traço de timidez. Eu estava atrás porque não queria pegar o buquê e ser considerada a próxima noiva.
  • Tem algo contra noivas?
  • Absolutamente, não, desde que eu não seja uma delas. Gosto demais de minha liberdade. De qualquer maneira, Heather jogou o buquê bem na direção de Nita. Então uma coisa esquisita acon­teceu. — Fez uma pausa. — A despeito de meus melhores esforços para ficar longe daquele objeto voador, o buquê subitamente fez uma curva e caiu bem em cima de mim. Ou o pegava ou as flores passariam a enfeitar minha cabeça.
  • Mas que sorte a sua!
  • Isso não pode ser chamado de sorte. Sorte é quando acontece alguma coisa boa, como conhecê-la na biblioteca.

 

    • Anastasia sentira imediata afinidade pela senhora, e a amizade entre elas se desenvolveu no decorrer do último ano.
  • Foi um dia memorável para mim também — declarou Claire com afeição. — Assim como hoje. Pense nisto. Eu, uma mulher de negócios! Ainda mal posso acreditar.
  • Você se sairá muito bem.—  Foi um golpe de sorte que os donos do prédio em que moro decidissem vendê-lo exatamente agora — disse Anastasia. — A loja no piso térreo tem aquele maravilhoso balcão de mármore, perfeito para uma sorveteria. O lugar estava implorando por ser renovado. Nem posso acreditar. Depois que o sapateiro que alugava aquela sala se mudou, a loja permaneceu vazia durante um ano.

 

    • Fez uma pausa e sorriu para Claire.
    • -— Sonho em abrir minha sorveteria há anos. Jamais imaginei que um dia fosse ser realizado.
  • Sabe que serei boa inquilina, Claire. E quando você alugar o apartamento do terceiro andar, terá outra renda regular.
  • Eu sei. Mal posso esperar pelo início da reforma da loja. Espero abri-la em seis semanas.—  Por Deus, estou tão nervosa que nem consigo abrir a porta. A senhora fez um carinho no braço de Anastasia.

 

  • Quinze minutos mais tarde, Anastasia estacionava na rua, em frente ao prédio onde morava. Mal desligou o motor, e Claire já descia do carro e se apressava em direção à porta principal.
  • Obrigada novamente por ter me acompanhado no fechamento É para isto que servem as amigas — disse, abraçando-a.Anastasia censurava a falta de bom senso de David. Nunca haviam se encontrado, mas conhecia-o muito bem por causa das constantes descrições que a avó fazia dele.Os límpidos olhos azuis de Claire brilhavam, e os cabelos avermelhados não mostravam nem um sinal sequer de fios bran­cos, graças as suas religiosas visitas ao salão de beleza Paula PowderPuff.

 

  • Claire tinha um coração enorme. Merecia muito mais do que um neto que nunca estava a seu lado quando ela precisava de ajuda.
  • Parecia ser uma pessoa viciada em trabalho e que não dedicava tempo algum para estar ao lado da avó, que era uma mulher incrível.
  • Eu esperava que meu neto já houvesse retornado da conferência em Nova York para ir comigo... Mas acho que foi detido por algum motivo especial.
  • do negócio. Significou muito para mim tê-la a meu lado, segurando minha mão.
  • Não pense em David. Venha... Anastasia abriu a porta e fez um floreio.
  • Bem-vinda à... Já decidiu qual será o nome de sua sorveteria?
  • Ainda não.—  É meu! Tudo meu!Nem se importaram em reformar a loja, mas os apartamentos do segundo e terceiro piso estavam em bom estado.Ficava em uma esquina em que havia trânsito suficiente para atrair fregueses, mas sem excesso de veículos que pudesse com­prometer o estacionamento dos fregueses. A loja ficava relativa­mente próxima ao campus da Universidade de Northwestern, por isso sempre havia estudantes nos arredores.—  O que está acontecendo aqui?—  Para trás!Acostumada aos perigos da cidade, alcançou a bolsa em busca de uma lata de spray de pimenta. Manteve os olhos fixos no rosto do homem e apontou em sua direção. Era melhor ser precavida do que lamentar.Longe de se sentir intimidado, o intruso teve a audácia de lhe dar um olhar de desdém.

 

    • —  Ou o quê? Você irá me sufocar com creme de depilação? Olhando para baixo, ela percebeu que pegara a lata de creme para depilação que comprara na drogaria naquele dia.
    • —  Saia daqui!
    • A voz de Anastasia era poderosa e breve, conforme seu professor de autodefesa lhe ensinara.
    • A pergunta furiosa veio de um belo homem em pé ao batente da porta que ambas tinham esquecido de trancar. Parecia bravo o bastante para bater em alguém.
    • Sob todos os aspectos, era o lugar perfeito para a realização do sonho de Claire. E Anastasia estava determinada a fazer qual­quer coisa para ajudá-la.
    • O edifício de três andares era de tijolinhos vermelhos e fora construído na década de vinte. Localizava-se no subúrbio norte de Evanston, muito próximo dos limites da cidade de Chicago.
    • Anastasia riu da exuberância de sua amiga. Assim como Claire, podia ver as possibilidades do local embora a loja não estivesse em sua melhor aparência. O dono anterior do edifício havia falecido havia um ano, e os herdeiros discutiram muito entre si até final­mente decidirem vender a propriedade.
    • Claire entrou rapidamente. Ficou em pé no meio do terraço de tom claro, deu uma volta e gritou:
  • David, mas que surpresa! — exclamou Claire, aproximan­do-se para lhe dar um grande abraço. — Achei que ainda estivesse naquela conferência em Buffalo.
  • Acabei de chegar e ouvi seu recado na secretária eletrônica. Disse algo sobre ter comprado uma sorveteria...
  • Eu deixei esse endereço, mas não achei que você dirigiria até aqui para ver o lugar. E logo ao chegar em casa! Mas que menino adorável você é!Embora fossem apenas três horas da tarde, o queixo anguloso já mostrava manchas de barba crescida. Parecia cansado, como se houvesse enfrentado uma viagem difícil.Era alto e de compleição avantajada, embora atlética e bem proporcional.

 

    • Vestia calça jeans que já devia ter visto dias melhores e camisa de brim moldada a seus ombros largos. As mangas tinham sido enroladas, deixando à mostra os antebraços bronzeados.
    • Menino?, pensou Anastasia descrente. Não havia nada de in­fantil naquele homem. Tinha a boa aparência dos irlandeses, com cabelos escuros e sobrancelhas grossas. Os cílios espessos emol­duravam olhos incrivelmente azuis.       »
  • O que está acontecendo aqui? — indagou David novamente.
  • Aqui — Claire falou, fazendo um movimento a seu redor — é meu futuro.
  •   Não, não é — o neto imediatamente a corrigiu. — Um bom depósito no banco é seu futuro.
  • Não mais. Eu investi tudo aqui. David arregalou os olhos.
  • Fez o quê?
  • Não precisa gritar, querido. — Lançou ao neto um olhar repreensor. — Posso estar perto dos setenta anos, mas ainda não estou surda.
  • Não posso acreditar que tenha feito algo assim sem me con­sultar primeiro.
  • Tem estado tão ocupado ultimamente; não quis aborrecê-lo com meus problemas.

 

    • Estaria Anastasia vendo um brilho de derrota no rosto dele ou era apenas um reflexo da pouca iluminação? Não pôde se certificar porque a expressão se transformou rapidamente, denotando ape­nas raiva.
  • Não deveria ter agindo com tanta pressa. Diga-me exata­mente o que fez.
  • Comprei este prédio.

 

    • Claire deu um tapinha na parede com carinho. David sentiu-se esbofeteado pela avó.
  • Comprou isto — repetiu com cuidado — em dinheiro vivo?
  • Exatamente. E o hipotequei — acrescentou.
  • O que a possuiu para fazer algo assim?
  • Vou abrir uma sorveteria. Eu lhe disse isto na secretária eletrônica.
  • Uma sorveteria! Será que algum franqueador de conversa mole a engabelou e lhe tirou o dinheiro?
  • E claro que não! Minha sorveteria será como nos tempos antigos, quando o sorvete era feito em casa — falou com orgulho.
  • Não acha que é um pouco tarde na vida para começar um projeto como este? Tocar um negócio próprio nos dias de hoje dá mais trabalho do que dinheiro. Devia estar gastando seus anos de aposentadoria divertindo-se e não trabalhando aqui durante horas.Sentia-se brava demais para falar. Felizmente Claire era calma e estava ansiosa por convencer o neto das boas perspectivas de sua ação.

 

  • Pessoalmente Anastasia achava aquilo perda de tempo. O su­jeito evidentemente não estava disposto a escutar nada. Tinha a mente bloqueada.
  • David falava com a avó como se estivesse admoestando uma criança teimosa, o que enfureceu Anastasia. Mas que ousadia!
  • Os dois apartamentos dos andares de cima estão em bom estado — Claire estava a lhe dizer —, mas a loja realmente precisa de um certo trabalho.
  • Um certo trabalho? — repetiu David, olhando ao redor des­consolado. — Precisa de um milagre!
  • Achei que talvez você pudesse nos ajudar a arrumar tudo. Claire o fitou com expectativa.
  • Você está iniciando sua licença-prêmio agora, certo?
  • Certo, mas...
  • Pretendo fazer uma grande inauguração em seis semanas, em primeiro de outubro — Claire falou, animada.
  • Pelo que sei, o período de alta demanda para sorvetes já terá acabado há bastante tempo.
  • Qualquer época é boa para se tomar sorvete — falou Anas-tasia finalmente. — Além do mais, propriedades como esta, em uma localização tão boa, são raras, e Claire não poderia esperar até o próximo verão.

 

    • David focou seu olhar irado em Anastasia.
  • E você é...
  • Oh, por favor, perdoe minhas maneiras rudes! — exclamou Claire, colocando ambas as mãos nas bochechas enrubescidas. — David, esta é Anastasia Knight, uma amiga minha. Você se lembra, já lhe falei a respeito dela.
  • Não, não falou. Assim como nada comentou sobre este lugar.
  • Eu com certeza já lhe falei sobre Anastasia. Não tenho tantas amigas assim.
  • Falou-me apenas daquela esquisita que trabalha na biblio­teca infantil.—  Esquisita?—  Eu me esqueci de como você a descreveu exatamente, mas todas as bibliotecárias são iguais. Mas acho maravilhoso que tenha encontrado alguma amiga de sua idade com quem se relacionar.—  Quero dizer que acho ótimo você ter encontrado uma mulher de idade para ser sua amiga.—  Uma mulher prestes a se aposentar para ser sua compa­nheira? — ele tentou com esperança.—  Eu nunca disse que minha amiga era velha, muito velha ou prestes a se aposentar — Claire falou com firmeza. — Nem mesmo o adjetivo "esquisita" foi usado alguma vez.

 

    • David estava tendo um péssimo pressentimento àquele respeito.
    • Os olhares glaciais que recebeu o deixaram saber que não acer­tara daquela vez também. E a batida impaciente do tênis de Anas-tasia no chão lhe dizia que a moça se sentira particularmente ofendida por aquele comentário.
    • Sua avó normalmente tinha um temperamento tranqüilo mas balançava a cabeça de um lado a outro, irritada, mostrando sua desaprovação. Será que a avó iria protestar por ele tê-la chamado de velha? Então qual era o termo politicamente correto?
    • Fez uma pausa, consciente da hostilidade reinante no salão. Talvez não fosse o rapaz mais polido do quarteirão... Afinal, tato não era sua característica mais forte. Para piorar seu humor a viagem de Buffalo fora péssima. Tentou recobrar o terreno perdido.
    • David deu de ombros.         
    • Claire franziu a testa.
  • Deixe-me adivinhar... — pediu ele.
  • Eu sou a velha bibliotecária esquisita — Anastasia confir­mou, antecipando-se.A nastasia não se parecia com bibliotecária alguma que David já conhecera. Não que pas­sara muito tempo freqüentando bibliotecas. Nunca tivera in­clinação para aquilo.David não era otimista, principalmente depois da morte de seus pais em um acidente de carro quando ainda era garoto.Sabia que os avós haviam passado por momentos emocionais e financeiros difíceis em decorrência daquela insensatez, embora jamais lhe houvessem dito e nem sequer comentado que David fosse um fardo para eles.Quando ouvira a palestra do bombeiro chefe na escola, soubera ter encontrado sua profissão. Após terminar o colegial, tornara-se bombeiro e então fora mudando de um cargo a outro até ser trans­ferido para a divisão de investigação criminal. Sua visão crítica tornou-se mais apurada a cada ano de trabalho.No decorrer de poucos anos, muitas coisas ruins haviam acon­tecido a pessoas boas, por isso fora perdendo a fé.A idéia de estar desocupado o enlouquecia. Não gostava de ficar sentado tentando descobrir quais seriam os motivos de o time para o qual torcia não ter vencido o campeonato.Mas estava ali naquele momento e não iria deixar que alguém tirasse vantagem do temperamento doce de sua avó. Seus instintos lhe diziam que Anastasia exercia péssima influência sobre Claire, uma mulher tranqüila que não mudava de banco ou cabeleireiro havia décadas.Mas não para a mulher impetuosa que o ameaçara com uma lata de creme para depilaçao. Pressentia que aquela atitude de desafiar os outros era algo comum em sua rotina. Suspeitava até de que fora ela quem induzira sua avó a usar as economias para comprar aquele estabelecimento.David de» mais um olhar à bibliotecária, um olhar crítico. A tal Anastasia parecia ser confiante. Apenas uma mulher confiante usaria uma roupa como aquela.Os longos cabelos castanhos estavam presos em um rabo-de-cavalo, deixando à mostra os olhos cor de mel. Era alta; mas sua cabeça devia ficar bem debaixo do queixo de David.David tentou tirar a suspeita de sua voz ao falar:

 

  • — Então, Anastasia, você está aqui para ajudar minha avó a ajeitar este lugar, não é mesmo?
  • Não que se imaginasse muito próximo dela. Anastasia parecia ser uma mulher acostumada a fazer as coisas a sua própria ma­neira. Era bonita, mas definitivamente não era seu tipo. E não lhe despertava confiança.
  • O vestido amarelo sem mangas era comprido o bastante para alcançar o tênis alaranjado, mas ela conseguira tornar o conjunto sensual. Por algum motivo, o vestido o fez pensar em noites bem quentes de verão, limonada fresca e beijos roubados.
  • Claire admitira que tinha poucas amigas, então poucas pessoas podiam ter tal influência sobre ela.
  • Comprar um edifício em ruínas com a idéia maluca de abrir uma sorveteria era algo pouco característico de sua avó.
  • Por isso planejara certificar-se de que a avó estava usufruindo bem de sua aposentadoria e economias. Era a única pessoa viva de sua família, e ele se sentia culpado por passar tão pouco tempo a seu lado.
  • Tirara a licença do trabalho por requisição de seu chefe. Ele o aconselhara a tentar ver a vida sob nova perspectiva e usar parte das férias que vinha postergando durante os últimos oito anos.
  • Qual era a vantagem de se ter sonhos se eles poderiam se dissolver em uma cortina de fumaça? As fantasias podiam cegar à realidade da vida, do modo como cegaram seu pai, deixando a seus avós a tarefa de sanar as conseqüências.
  • Desde garoto tinha uma visão prática das coisas e trabalhava muito e com afinco, zombando dos sonhos grandiosos de outras crianças em serem estrelas de basquete ou cantores de rock.
  • Ele vivera em uma família de sonhadores. Seu pai aplicara tudo que possuía em um negócio que prometia torná-lo rico rapi­damente e deixara somente dívidas atrás de si.
  • Seu trabalho como investigador criminal vinha consumindo sua vida durante os últimos anos. A investigação de incêndios que com freqüência resultavam na perda dos sonhos de famílias de bom padrão de vida era suficiente para fazer uma pessoa otimista tornar-se céptica.
  •  
  • Eu moro aqui. Bem, não exatamente na loja, é óbvio — acrescentou, o rabo-de-cavalo balançando como se fosse uma ado­lescente. — Moro em um dos apartamentos do andar de cima.
  • Isto é muito conveniente — comentou com ironia, confir­mando seus instintos. — Suponho que você tenha recomendado a minha avó comprar esse... esse... esse prédio antigo — conseguiu finalmente pensar em um bom adjetivo para aquele imóvel.

 

    • Claire respondeu por Anastasia.      
  • Quando Anastasia me disse que encontrara o lugar perfeito para minha sorveteria, não acreditei a princípio.
  • Não a culpo — murmurou David, decidindo então não acre­ditar em nada do que a moça dissesse sem verificar tudo primeiro.— O que mais tem feito por minha avó, Anastasia?Não tinha dúvida de que comprar o prédio fora um tremendo erro. Que espécie de segurança havia em possuir uma sorveteria? Ainda mais abrindo-a no outono. Não era preciso ser um gênio para descobrir que a idéia era estúpida.                                                                        

 

    • —  Fui com ela até o cartório esta manhã fechar o negócio. David calara-se. Então o fechamento do negócio ocorrera havia apenas poucas horas. Se o horário de vôo original não houvesse sido cancelado por causa do tempo ruim, estaria em casa mais cedo naquela manhã e poderia ter sido capaz de impedir que sua avó cometesse tamanha tolice.
    • A vigarista provavelmente convencera sua avó a comprar o prédio em troca de tornar-se sua administradora. Seria útil ter como locadora uma amiga próxima, alguém que não se importasse com os possíveis atrasos no pagamento do aluguel ou até mesmo na falta dele.
  • Como eu disse anteriormente, vovó, possuir um negócio pode parecer algo divertido, mas a realidade é diferente. Há muitas tarefas com as quais lidar: contratar pessoas para ajudar, manter livro-caixa, pagar os impostos. — Esperou um pouco para então dizer: — Na verdade não é uma proposta prática.
  • Claro que é. Qualquer pessoa com um pouco de imaginação pode ver isto.O sol se esgueirava pela janela da frente e envolvia a petulante bibliotecária em um manto dourado, criando uma aura ao redor de seus longos cabelos castanhos.

 

  • Não havia, entretanto, nada de angelical em sua aparência pas­sional e exótica. Era o tipo de mulher capaz de perturbar a paz de espírito de um homem e encher a mente de uma senhora de idade com idéias tolas.
  • As palavras inflamadas vieram não de Claire e sim de Anas­tasia, o que absolutamente não o surpreendeu.
  • Como conheceu minha avó?
  • Conhecemo-nos na biblioteca em que trabalho, com um grupo de outras velhas bibliotecárias esquisitas — acrescentou com ironia.—  Sua avó salvou minha pele — disse ela com um olhar cari­nhoso para Claire.—  Não, querida, não lhe conte essa história — protestou Claire. Bingo!, pensou David. Alguma coisa que as duas não gostariam que ele soubesse, o que significava ser algo que precisava descobrir.—  Bem, é um tanto constrangedor. As coisas estavam difíceis na biblioteca, com os recentes cortes de orçamento e tudo o mais. Anastasia com freqüência brincava, dizendo que ser uma biblio­tecária era como ter proferido voto de pobreza.

 

    • Talvez ela estivesse devendo aluguéis para os donos anteriores. Pudera Anastasia, a vigarista, ter tantos esquemas em mente para sua avó.
    • —  Por que não? Eu adoraria saber como salvou a pele dela, vovó.
    • O que David traduziu como sua avó tendo provavelmente lhe emprestado dinheiro. Podia conhecer pouco sobre bibliotecárias, mas ouvira dizer que o salário era baixo.
    • David sorriu. Então Anastasia não tivera uma boa impressão a seu respeito. Não importava. Ela também não estava exatamente no topo de sua lista de pessoas simpáticas.
  • Então eu me apresentei como voluntária para ser contadora de histórias — Claire estava dizendo. — Foi assim que nos conhecemos.
  • E como isto salvou sua pele? — David indagou a Anastasia.
  • Obviamente você nunca tentou-ler uma história para vinte e cinco crianças em idade pré-escolar.

 

    • David arrepiou-se ante o mero pensamento. Sua experiência com crianças era limitada. Estava habituado a trabalhar com pes­soas mais velhas, como as que participavam das ligas de beisebol às quais prestava auxílio.
  • Havia dois pares de gêmeos no grupo; eles eram particular­mente rebeldes — Anastasia estava dizendo, seu sorriso mistu­rando humor e terror. — Corriam feito malucos, fazendo-me de­sejar ter mais dez mãos. Eu tinha uma assistente para me ajudar, mas quando ela pediu a conta, sua vaga não foi preenchida. Ale­garam que excesso de pessoas poderia gerar atritos. Eu chamaria isto de visão curta, economia burra e estupidez para os negócios. Não faça com que eu comece a falar sobre economia.
  • Não farei.

 

  • Duvidava de que sua visão sobre responsabilidade monetária combinasse com a dela.
  • De qualquer maneira, sua avó, a doçura que é, interferiu e evitou que Terry, o Terrível, um dos gêmeos, cortasse meus cabelos com uma tesoura que ele, de alguma maneira, conseguira confiscar em sua casa. Claire é maravilhosa com as crianças. E lhes conta as melhores histórias.
  • Não tão boas quanto as de Anastasia — protestou Claire, sorrindo. — Ela incorpora as personagens.

 

    • David pensou que apostaria todas suas fichas na capacidade de contar histórias de Anastasia.
  • Sobre um trio de fadas-madrinhas, por exemplo — acres­centou Claire. — Ela até faz alguns desenhos para ilustrar a his­tória. Eu lhe disse que deveria enviá-los a uma editora. São boas o bastante para serem publicadas.
  • Então você realmente quer ser escritora, Anastasia?
  • Não. Eu gostaria é de ter independência financeira para poder ser escritora — disse com um sorriso impertinente.
  • Posso apostar que sim.

 

    • David estava prestes a lhe dizer que de modo algum ela ficaria rica à custa de sua avó quando Claire o distraiu ao pegar seu braço e levá-lo para um canto da loja.
  • David, veja só este balcão de mármore e o piso claro do terraço. Não são um amor? Este lugar realmente tem um grande potencial. Eu estava pensando... O que precisaremos fazer para abrir a sorveteria? Certamente teremos de nos livrar do excesso de paredes. Eu queria fazer a cozinha nos fundos.
  • Cozinha? Por que precisará de uma cozinha?
  • Para fazer o sorvete.
  • Fazer? Achei que fosse comprá-lo.
  • Morda sua língua. Conforme lhe disse, meu sorvete será feito em casa. Estou até trabalhando em algumas receitas especiais. En­contrei um livro nas coisas de seu avô. Há algumas receitas clássicas.
  • A do "Sundae Especial" é uma de minhas favoritas — disse Anastasia. — Você decora uma montanha de sorvete para fazer com que pareça um rádio antigo. O "Terceiro Grau" também é bom, mas não tão original.O marido de Claire falecera quando David se formara no colegial e, bem sabia, a avó sentia sua falta imensamente. Mas nunca suspeitou que sua solidão fosse levá-la a tamanha tolice.

 

    • Passou a mão pelos cabelos, frustrado.
    • David queria que ela explicasse como ficara tão ligada à vida de sua avó durante sua ausência. Tinha até, aparentemente, lido o livro de receitas de seu avô... E ele nem sabia da existência de algo assim.
  • Por que não falou comigo antes de fazer isso? — indagou mais uma vez.
  • Eu lhe disse, querido... Não queria aborrecê-lo, já que estava tão ocupado. Como foi a conferência, a propósito?
  • A conferência foi bem, e eu não estou ocupado demais para algo importante como isso.
  • David é investigador criminal — Claire falou com orgulho para Anastasia.
  • Você já me falou.

 

    • Diferentemente de David, ela se recordava do que a senhora havia lhe contado, e o olhar que lançou ao rapaz o informou daquilo. David a ignorou. Não se deixaria intimidar.
  • Adquirir um imóvel é algo sério e importante, ainda mais para se iniciar um novo negócio. Sabe quantos negócios fracassam em seu primeiro ano? A maior parte. E por que uma sorveteria e não outra coisa?
  • Porque seu avô e eu nos conhecemos em uma sorveteria quando ele trabalhava como sorveteiro antes da guerra. Jamais me esquecerei da primeira vez em que o vi.—  Ele tinha tanto estilo e graça ao jogar uma bola de sorvete por sobre o ombro e a fazer pousar em um prato metálico para um "Banana Split". Sua agilidade era notória.—  Todos têm direito a um sonho — disse Anastasia, desafiando-o.—  Claire pôs em andamento um plano financeiro ao decidir quanto capital precisaria para seu negócio. É uma mulher esperta. Não percebe que está fazendo uma coisa que a torna feliz? Algo que tem um significado pessoal muito importante para ela ao resgatar lembranças dos dias vividos com seu avô? Esse é o sonho dela!

 

    • David ficou aborrecido por Anastasia ter insinuado que conhecia sua avó melhor do que ele.
    • —  Então é isso? — indagou David como se falando para si mesmo. — E o que me diz de comportamento responsável e se­gurança financeira?
    • David observou que Anastasia se movia. O vestido dançava em seus quadris a cada passo.
    • Sua expressão se suavizou, e os dedos passaram pela superfície lisa do balcão de mármore.
  • Em que espécie de mundo nós estaríamos se todos corrês­semos atrás de nossos sonhos desvairados?
  • Um mundo melhor — falou Anastasia. — Pense nisso enquanto eu vou para o andar de cima e me visto para iniciar o trabalho.
  • Bem, aquilo deu certo — Hattie falou, suas asas batendo rapidamente para mantê-la no ar.Hattie se orgulhava muito de sua habilidade em coordenar acessórios.Passou os dedos pelos cabelos brancos, o que a fez parecer uma vassoura despenteada e então meteu as mãos nos bolsos de sua roupa caqui.

 

    • —  Deu certo? — perguntou Muriel do empoeirado balcão de mármore mais abaixo. — Como pode dizer isto?
    • Não havia um só lugar na loja limpo o bastante para que pou­sasse. Com a mão livre, tentava manter as penas azuis de seu chapéu no lugar. Combinava com o vestido que também era en­feitado com pérolas.
  • Só porque não houve derramamento de sangue, você acredita que eles serão felizes para sempre?
  • Você está debochando — falou Hattie.
  • Ora, ora — disse Muriel. — Tal comentário vindo da tra-palhona da família...
  • Garotas!

 

    • Betty lançou às duas um olhar de reprimenda e começou a andar pelo balcão. Usava uma camiseta bem larga onde se lia "Eu Grito Porque me Importo". Aquela frase revelava que seu humor já vira dias melhores.
  • Pelo que pude ver, existem alguns problemas quanto ao que David pensa sobre Anastasia. Acha que ela é uma vigarista ten­tando tirar dinheiro de sua avó. E não acredita em sonhos.
  • Duvido de que acredite em fadas-madrinhas também — in­terveio Muriel.
  • Mas ainda é muito cedo — falou Betty. — Apenas viemos verificar o encontro inicial e ter certeza de que Claire estava fa­zendo seu papel como cupido. Não temos muita experiência em colocar idéias na cabeça de estranhos, mas devo dizer que estou satisfeita com os resultados.
  • Tem certeza de que a ajuda de Claire é uma boa idéia? — indagou Hattie, insegura.

 

    • Betty deu de ombros.
  • O que poderia sair errado?
  • Apenas alterar o equilíbrio do universo, só isto — respondeu Muriel de maneira enigmática.
  • Você deve ser corajosa! — aconselhou Anastasia. — Lem­bre-se de sua herança genética.—  Aquele rato não irá machucá-la. Coloquei um pedaço de queijo fresco em uma ratoeira esta manhã. Tenho certeza de que ele vai morder a isca a qualquer momento e parar de atormentá-la. O rato está correndo apenas para aborrecê-la. Não deveria deixá-lo agir dessa maneira, Xena.—  Aquele rato não tem o direito de aborrecê-la — insistiu ela. — E você precisa ser mais assertiva. Não se esconda debaixo do sofá deste jeito!A imagem que fizera daquele petulante viciado em trabalho fora exatamente igual à realidade. O homem simplesmente nunca tivera sonhos.Anastasia notara desconfiança naquele olhar. Lamentava que olhos de um tom tão especial de azul pudessem pertencer a alguém obstinado e desagradável como David.—  Talvez seja desejo, não interesse — murmurou ao descalçar os sapatos.Não havia um só item em seu quarto que fosse neutro ou branco. As paredes eram amarelas, o tapete indiano no chão azul com estrelas douradas e luas. Pingos adicionais de cores estavam evi­dentes no abajur cheio de estilo, na cômoda e no pôster de Van Gogh a enfeitar uma parede.Tinha jeito de quem raramente confiava nos outros. Não acre­ditava em gentilezas. Se o carro defronte ao dele lhe pagasse o pedágio, David provavelmente o seguiria e investigaria por que o motorista fizera aquilo.E por que ela se importava?E se não fossem complementados pelo porte irlandês...Seus namorados normalmente tinham grandes sonhos, mas ra­ramente os realizavam. E bem, eram de alguma maneira imaturos e irresponsáveis, mas aquilo fazia parte de seu charme. No começo apenas.Talvez ele em breve as deixasse em paz. Ou Claire o estivesse fazendo pensar com alguma sensibilidade naquele exato momento.

 

  • Crescera com dois irmãos dominadores, sendo a única garota em trigêmeos. Aquilo a fizera não sentir atração por pessoas mandonas como David.
  • Sempre tivera queda por tipos assim.
  • Eram aqueles malditos olhos, tão intensamente azuis. Se ao menos fossem castanhos.
  • O que o teria tornado assim? O trabalho como investigador criminal? Ou a perda de seus pais quando era muito jovem?
  • Enquanto ajustava as alças do macacão, repassava as perguntas feitas por David. Ele claramente não apreciava sua presença ali e estava desconfiado de suas intenções para com Claire.
  • Uma vez no quarto, despiu o vestido e pôs uma blusa alaranjada sem mangas e macacão branco. Gostava de roupas coloridas. Tam­bém apreciava ambientes alegres, daí os tons de azul e amarelo brilhantes a decorar o ambiente.
  • Então por que sentia tão interessada na opinião dele?
  • Pois não iria permitir que aborrecesse Claire e a fizesse desistir de seus sonhos. Era culpa de David o fato de não estar envolvido nas decisões da avó. Ela imaginou que o neto tentaria afastar Claire de seu sonho em vez de colaborar.
  • O mesmo poderia ser verdadeiro em relação a David, pensou. Ele não tinha o direito de tentar intimidá-la.
  • Anastasia tivera esperanças de que, ao dar à gata o nome de uma princesa, pudesse ajudar a solucionar os problemas de afe-tividade do animal, mas não lograra êxito. Ganhara-a de um de seus namorados fazendeiros. Na verdade, o rapaz lhe empurrara a gata, dizendo não ter tempo para cuidar de felinos neuróticos. Dois dias mais tarde, Anastasia rompera com Trevor mas manti-vera a gata consigo.
  • A gata com a qual falava apenas piscou os reluzentes olhos azuis, sem sair de debaixo do sofá.
  • Estou tão feliz que você tenha concordado em me ajudar a arrumar aqui — Claire falou para David. — Nada sei sobre poder ou não derrubar paredes. Você é tão inteligente, querido. E trabalhou naquelas obras em todos aqueles verões enquanto estava no colégio.
  • Faz bastante tempo — David a fez lembrar-se.
  • Tenho certeza de que é como andar de bicicleta; algo de que não se esquece. E você está de folga agora, certo, querido? Seis semanas, acho que foi isto que você falou.—  Então será perfeito! Poderemos deixar tudo pronto em seis semanas.

 

    • David suspirou. Ao menos teria oportunidade de descobrir o que Anastasia tinha em mente.
    • David assentiu.
  • E quanto ao prédio em construção? — indagou Claire. — Você não disse que ia se mudar logo? Teve tempo de encontrar outro lugar para morar? Porque, caso negativo, o apartamento do terceiro andar está vago, e você seria muito bem-vindo em ficar aqui pelo tempo que desejasse.
  • Vou pensar nessa proposta.
  • Oh, espero que venha para cá. Seria maravilhoso tê-lo por perto. Eu não me preocuparia em deixar a loja à noite, não com você cuidando de tudo.
  • Sim, porque defender o estabelecimento com uma lata de creme para depilação não é algo que assuste criminosos — David falou em tom de pilhéria.
  • Oh, não fique magoado com Anastasia. Ela estava apenas tentando me ajudar.
  • Sei o que ela estava tentando fazer — disse David em tom de censura.

 

  • E sabia muito bem o que faria para combater aquilo. Aceitaria o convite para viver ali e cuidaria dos interesses de sua avó.
  • Ele foi embora? — perguntou Anastasia ao entrar na loja e encontrar Claire sozinha.
  • Sim. Sinto muito por David tê-la chamado de esquisita.
  • Já fui chamada de coisas bem piores. Logo ele descobrirá o quão errado estava.
  • Eu o amo muito, mas ele tende a ser um tanto...
  • ...mandão, metido a julgar as pessoas, impossível?
  • Eu ia dizer sério.
  • Este seria meu próximo palpite — falou Anastasia, sorrindo.
  • Ele apenas precisa que alguém lhe ensine como relaxar — falou Claire esperançosa. — Uma pessoa que possa ajudá-lo a compreender quanto é bom ter sonhos. E eu sei qual é a mulher certa para esta tarefa.—  Quem? Eu? Oh, deixe disso!

 

    • Anastasia balançou a cabeça com tanta veemência que seu rabo-de-cavalo bateu contra o rosto.
    • Não havia como deixar de perceber o olhar esperançoso que Claire lhe lançou.
  • Você seria a pessoa perfeita para ensinar David a sonhar... e a se divertir um pouco. Eu nunca encontrei uma pessoa tão cheia de vida quanto você.
  • Pois eu tenho esta vivacidade porque não namoro rapazes sérios como David, sujeitos que ignoram toda a alegria da vida.

 

    • A expressão magoada de Claire a fez sentir-se mal.
  • Sinto muito. Eu sei que é seu neto e que você o ama, mas...
  • Provavelmente tem razão, querida. Duvido de que até mesmo você fosse capaz de mudar David. Você é boa, mas não tanto assim.
  • Ora, espere um minuto! — Anastasia não admitia ser me­nosprezada. — Tenho convicção de minha competência. Eu poderia fazê-lo ver a alegria de...
  • E isto tornaria muito melhor a presença de David por aqui — interrompeu Claire. — Você quer que ele fique dando broncas durante as próximas semanas enquanto nos ajuda a arrumar a loja ou prefere fazê-lo pensar da maneira como você pensa?
  • Espere um pouco. Que história é esta de ele nos ajudar?
  • David concordou em fazer parte da reforma para eu econo­mizar com a mão-de-obra. E está se mudando para o apartamento vago no terceiro andar.
  • Então ele ficará aqui por uns tempos... — Anastasia fez uma pausa para avaliar as opções. — Nesse caso, suponho que seja melhor para nós que ele seja convertido. Além do mais, eu tenho experiência com pessoas desse tipo. Meu irmão Jason é man­dão demais. E consegui lidar bem com sua personalidade difícil. Mas seu neto é mais...

 

    • Como poderia dizer? Durão? Atraente? Ora, seu irmão tinha boa aparência. Afinal fora nomeado o "Solteiro mais Sexy de Chi­cago" no ano anterior. Mas David era mais do que bem-apessoado. Exalava uma masculinidade impressionante.
  • Ele é mais o quê, querida?
  • E um desafio maior — complementou. — E me sinto atraída por desafios.Claire tinha razão. As próximas semanas seriam bem mais fá­ceis se David estivesse do lado das duas e não contra elas. E a maneira mais rápida de fazer aquilo era convencê-lo da felicidade de se ter sonhos e se divertir a valer.

 

    • Imaginou-se fazendo-o descobrir os próprios erros.
  • Diga-me — continuou Anastasia. — O que David faz para se divertir?
  • Trabalha.—  Justamente o que eu temia. Está bem, Claire, combinado. Tentarei deixar David em forma para você.Aquela visão normalmente a fazia sorrir, mas viu que já eram quase duas horas da manhã.Tudo que pôde ver foi um tecido jeans... e os contornos que ele revelava de um corpo masculino, perfeito, tinha de admitir.Havia dois dias, Anastasia aguardava que ele finalmente apa­recesse... Chegara a pensar que David havia decidido retroceder no acordo feito com a avó.Procurando tomar partido do momento, abriu a porta e colocou as mãos nos quadris, à moda de Mae West. O que você é, o comitê de boas-vindas?

 

    • David quase largou no chão a caixa com equi­pamentos de ginástica que acabara de pegar no carro. Olhou para Anastasia, confuso.
    • — Bem-vindo à vizinhança, garotão.
    • Tudo naquele momento indicava, entretanto, que os planos se­riam mantidos, pensou satisfeita ao espiá-lo novamente.
    • Então viu o restante do homem quando ele se aprumou e lançou um olhar de preocupação para a porta. Era David.
    • Caminhou, pé ante pé, até a sala de estar e então para a porta da frente, acendendo as luzes conforme andava. Cuidadosamente observou pelo olho mágico.
    • Um barulho acordou Anastasia do sono profundo. Sentou-se na cama, acendeu o abajur e lançou um olhar para seu despertador ornado com ilustrações de personagens de desenhos animados.
    • Anastasia suspirou.          
  • Pode-se dizer que sim.

 

    • Não mostrava qualquer sinal de remorso por tê-lo assustado.
  • Então o que o fez decidir esgueirar-se edifício adentro no meio da noite?
  • Não estou me esgueirando.
  • Tem certeza?—  Neste caso, eu presumi corretamente.Ela tinha uma espécie de corpo luxurioso feito para um catálogo de lingerie. Deveria ser crime cobri-lo da maneira como o fizera. Os longos cabelos caíam em cascata sobre os ombros como se ela tivesse acabado de sair da cama. Uma mistura inusitada de vidro frio com brasa ardente.A voz de Anastasia estava rouca e sonolenta, uma combinação sensual. Momentos mais tarde ela bocejava, o movimento reve­lando melhor a silhueta. Em seguida deu um passo para ver o que havia na caixa aos pés de David.David talvez nem dormisse pois não se sentia nada satisfeito com as reações de seu corpo. Estava ali para manter olhos astutos em Anastasia a fim de proteger a avó e não para excitar-se como um adolescente.

 

    • Mas os olhos cor de mel eram puro ouro e o aqueceram de modo perturbador.
    • —  O que causou aquele barulho e por quanto tempo mais você ficará perambulando pelo hall? Eu gostaria de saber porque tenho de acordar às sete horas.
    • —  Sabe que horas são, não é mesmo?
    • Anastasia usava uma camisola branca que a cobria do pescoço aos tornozelos. Mas a luz logo atrás dela delineava o contorno do corpo de maneira exuberante. David sentiu a garganta ficar seca e não se furtou de apreciar aquela visão.
    • Uma das sobrancelhas delicadamente curvadas indicava o pa­tente descrédito.
  • Estou quase terminando — disse ele, a voz rouca ao abai­xar-se para pegar a caixa de novo.
  • Que alívio! Bem, divirta-se.—Se precisar de alguma ajuda, basta assobiar. Você sabe assobiar, não é mesmo David? Apenas junte os lábios e sopre.No dia seguinte, o trabalho foi tão atribulado com tantas tarefas a serem cumpridas que Anastasia nem conseguiu pensar em como David poderia estar na casa nova.A única pausa foi para o almoço na própria sala de reuniões. Já havia comido metade da salada quando recebeu o recado de que havia uma ligação para ela. Pegou a extensão e deliciou-se em ouvir a voz da mãe.

 

    • Um grupo de crianças de uma creche foi fazer um passeio na biblioteca, e ela fora designada para trabalhar no balcão durante três horas, após as quais teve de comparecer a uma reunião interna.
    • Enquanto ele observava o leve balançar dos quadris de Anas­tasia, seus lábios ficavam mais ressecados, tornando muito difícil um assobio. Vendo pelo lado positivo, havia um consolo. Pelo menos ele não estava babando.
    • Com um bocejo e um aceno, deu um passo em direção à porta mas fez pausa tempo o bastante para acrescentar, sorrindo de modo irreverente:
  • Sinto muito por aborrecê-la no trabalho, querida. Tentei dei­xar um recado em sua secretária eletrônica, mas durante toda a manhã o telefone sempre dava sinal de ocupado.
  • Xena deve ter pisado no aparelho que fica em meu quarto —falou Anastasia. — Eu queria comprar um aparelho melhor em que se pudesse pendurar o gancho apropriadamente.Suspirando, Anastasia se arrependeu de ter confessado o pro­blema com o rato à mãe.

 

  • —Não quero que Xena coma ratos. Não quero quaisquer ratos mortos em minha consciência.
  • —Enquanto não compra, talvez consiga ter um gato melhor —sugeriu a mãe. — Um que consiga ganhar o próprio sustento caçando ratos.
  • Seu pai poderia ir até lá e...
  • Não se preocupe, mamãe, tudo ficará bem — acrescentou rapidamente.

 

    • Podia imaginar o que o pai faria. Era meio atrapalhado e poderia destruir seu apartamento em seus esforços para pegar o rato. Anas-tasia ainda estava se recuperando da vez em que ele insistira em trocar a lâmpada fluorescente da cozinha e terminara queimando todos os fusíveis do prédio.
  • A situação está sob controle.
  • Bem, estou telefonando para convidá-la para jantar nesse final de semana. O filho da sra. Sanduski está na cidade, e pensei que você poderia conhecê-lo.
  • Mamãe, lembra-se do que aconteceu na última vez em que quis bancar o cupido?
  • Como eu poderia saber que Denton ficaria bêbado durante o casamento? Parecia ser um jovem simpático...
  • Esqueça!

 

    • A voz de Anastasia era firme. Era a única maneira de lidar com a mãe quando ela insistia naquele assunto. Suspirou. Algumas vezes pressentia estar rodeada por cupidos.
  • Minha agenda já está repleta de compromissos.
  • Oh? Conheceu alguém?

 

    • A pergunta estava cheia de esperança.
  • Estarei bastante ocupada nas próximas semanas ajudando Claire a reformar a loja. Será inaugurada em primeiro de outubro.
  • Por que ela não contratou alguém?
  • Seu neto a está ajudando...
  • E qual a idade dele?
  • Trinta e poucos anos.

 

    •  
  • E mesmo?--- Anastasia quase podia ver o sorriso materno.
  • E é solteiro?
  • Gostaria que não se preocupasse com minha vida amorosa.
  • Eu simplesmente não quero vê-la sozinha, querida. Anastasia deu de ombros.
  • Agora fala como Claire.
  • Ela está tentando uni-la ao neto?
  • Não.O que significava que David estaria por perto o tempo todo.

 

    • Ele apenas se mudara no dia anterior, mas parecia que sua pre­sença já havia dominado todo o prédio.
    • Ou estaria? Fora Claire quem sugerira que Anastasia ensinasse a David como se soltar mais, divertir-se. E o convidara a morar em um de seus apartamentos, além de pedir que supervisionasse a reforma.
  • Ouça, mamãe, preciso voltar ao trabalho. Dê um abraço em papai por mim, está bem? E lembre-se: chega de bancar o cupido!
  • Hattie, você influenciou a mãe de Anastasia? Encorajou-a a meter-se na vida amorosa da filha? — indagou Betty, fixando seu olhar na irmã de modo reprovador e ignorando as diversas crianças ao redor das duas na biblioteca.

 

    • Hattie, sentada em uma prateleira, imediatamente começou a ajeitar o chapéu demasiadamente decorado, quase caindo.
  • Não. Não mesmo! Bem, um pouco talvez, mas não em relação a Denton. Não tive responsabilidade alguma no fato de Denton ter agarrado Anastasia durante a festa de casamento. Aquela idéia foi péssima.
  • Ela está nervosa — falou Muriel. — Sinal de que fez alguma coisa que não devia.
  • Foi apenas uma coisinha — comentou Hattie. — Quero dizer, foi você quem disse, Betty, que precisávamos arriscar e buscar ajuda humana. Eu pensei que, se uma avó era bom, uma mãe seria ainda melhor.
  • Pois enganou-se — falou Betty com firmeza. — Anastasia vai perder o equilíbrio e ficar aborrecida se duas pessoas insistirem na idéia de fazê-la se casar.
  • Usei pouca magia — protestou Hattie. — Acho que a mãe de Anastasia quer que ela se case. Não tive de fazer muito para convencê-la. Lembra-se de como a sra. Knight se portava em re­lação aos namorados de Anastasia quando ela estava no ginásio? Fazia-lhes toda espécie de perguntas. Amedrontava-os.
  • Parecia a Santa Inquisição.
  • Então eu realmente não saí dos eixos — continuou Hattie. —Talvez minha varinha mágica nem mesmo tenha surtido efeito. Isto acontece às vezes, você sabe.
  • Bem, não faça isso novamente — ordenou-lhe Betty. — Não comece a tomar decisões sozinha e ser criativa demais. Mantenha-se atenta ao nosso plano e nos daremos bem. Limite sua criatividade aos enfeites de seus chapéus — acrescentou ao ver um cacho de uvas adornando o chapéu da irmã. — Isso deve mantê-la bastante ocupada.
  • Os humanos têm tendência para complicar as coisas — acres­centou Muriel.
  • E nós conseguimos dar conta de tudo, ou quase tudo, sozinhas —concordou Hattie.Claire imediatamente fez um sinal para que entrasse.

 

    • Anastasia retornou de seu dia atribulado na biblioteca e en­controu Claire na loja, a folhear livros de papéis de parede. Em vez de usar a entrada lateral que conduzia à escada e a seu apar­tamento, deteve-se e bateu no vidro da janela da loja.
  • E exatamente você quem eu gostaria de ver! — exclamou, puxando Anastasia em direção a uma mesa posta no centro do salão.
  • O que é isto?
  • Papéis de parede.
  • Onde está David?

 

    • Olhou ao redor. A única evidência de sua presença era uma madeira bem larga descansando sobre dois cavaletes.
  • Está trabalhando nos fundos — Claire falou.
  • É mesmo? — Anastasia piscou diversas vezes ante a imagem de David usando calça jeans. Aquele corpo era tão tentador... — Então... — Passou as palmas úmidas na calça comprida. Seriam seus pensamentos ou o lugar tornara-se subitamente quente de­mais? — Em que posso ajudar?
  • Não consigo me decidir entre esse papel de parede — Claire lhe mostrou um listrado de rosa e branco — ou este. — Pegou outro em que havia cones de sorvetes.
  • Não posso ser objetiva sobre papel de parede listrado de rosa — Anastasia tristemente confessou. — Não desde que eu tinha dez anos de idade e derrubei leite com chocolate enquanto ajudava papai a colocar papel de parede em meu quarto.

 

    • Claire franziu a testa, confusa.
  • Não compreendo a conexão.
  • Meu irmão Ryan me contou uma piada muito engraçada, e eu perdi o equilíbrio, derrubando leite com chocolate sobre o papel de parede listrado de rosa. Foi uma confusão. Desde então, acredito firmemente que leite com chocolate e papel de parede rosa não combinam. E também aprendi a não beber nada quando meu irmão Ryan está por perto.
  • Aquele que é agente U.S. Marshal?
  • Exatamente. Recentemente foi transferido de volta para esta área após ter estado em Oregon por diversos anos. E bem típico dele surpreender a todos. Retornou casado. Mas eu gostei de Court-ney, sua nova esposa.
  • Então o casamento é assunto tranqüilo em relação a seus irmãos, menos para você?
  • Meus irmãos precisavam de uma mulher esperta para mantê-los na linha — informou-lhe. — Eu sei me manter na linha sozinha.

 

    • —  Mas muitos homens podem estar precisando de sua ajuda. Anastasia deu de ombros.
  • Os rapazes com os quais saio tendem a ser mandões. Não precisam de que eu os corrija. Mas querem fazer isto comigo. — Procurou mudar de assunto e indagou: — E quanto ao nome da sorveteria? Teve mais idéias?
  • Vamos ver. — Claire pegou sua lista. — Já pensamos em Planeta do Sorvete, mas isto me parece algo comum demais.
  • Há também o Cometa de Sorvete — acrescentou Anastasia. — Mas isso pode parecer muito literário — acrescentou. — Temos de continuar pensando. Ainda vamos àquele leilão esta noite?
  • Claro que sim.
  • Que leilão? — perguntou David ao juntar-se às duas, lim­pando a mão.

 

    • Usava calça jeans empoeirada, camiseta branca e parecia ainda mais poderoso e saudável do que nas duas vezes anteriores em que Anastasia o vira. Como poderia estar com tão boa aparência?
  • Sua avó e eu vamos a um leilão de antigüidades para com­prarmos móveis para a sorveteria.
  • Não irão sem mim.—  Por mim tudo bem.Limitou-se, entretanto, a não dar mais crédito à situação por ora. Trocou de roupa, vestindo calça comprida escura e camisa azul. Colocara até uma gravata e naquele instante lá estava, sen­tado em uma cadeira acolchoada próximo a Anastasia e à avó, mal acomodado na casa de leilões lotada. E pensar que perdia um jogo pela televisão para ver aquilo!

 

    • —  Quanto tempo mais teremos de ficar aqui? — indagou, inclinando-se para sussurrar ao ouvido de Anastasia e inalando o aroma cítrico de seu perfume.
    • Aquela concordância imediata, sem nada contestar, foi respon­sável pela confirmação do primeiro palpite de David de que alguma coisa errada estava acontecendo.
    • Em vez de discutir, Anastasia apenas sorriu e falou:
  • Até que o leilão termine. David suspirou.
  • E quanto mais irá durar? Em vez de responder, ela falou:
  • Se você quiser ir a outro lugar, fique à vontade para pegar um táxi e ir para casa.
  • E deixar você e minha avó aqui sozinhas? Nem sonharia em fazer isso! — exclamou, com um olhar de desdém.
  • Você não acredita em sonhos, não é mesmo? Fico pensando no porquê.
  • Porque sou prático. E posso lhe dizer que uma pessoa prática não pagaria tanto dinheiro por algo que se pode conseguir em um leilão de garagem.
  • São objetos de colecionadores de peças de arte — corrigiu-o.
  • Oh, sim. Aqueles sofás mofados, mesas e luminárias desbo­tadas são peças de arte?

 

    • Franziu a testa ao olhar para uma mesa particularmente mons­truosa cujas pernas eram compostas por esculturas de dragões.
  • Certamente são.
  • E quanto àqueles armários de vidro cheios de porcarias?
  • Contêm algumas peças finas de porcelana e jóias de grande valor. Incluindo o móvel. Não são porcarias!
  • Acho que nasce um tolo a cada minuto.
  • Aparentemente sim — respondeu com suavidade. — Estou sentada próxima a um neste exato momento.
  • Vovó não é tola — revoltou-se ele, deliberadamente fingindo não a compreender.
  • Não, ela certamente não é. Mas seu neto teimoso mostra sinais de ser. — Deu-lhe um olhar reprovador. — Talvez se você ficar sentado aí com a mente bem aberta, possa aprender algo. Quem sabe poderá até se divertir.
  • Estou me divertindo — murmurou.O leiloeiro anunciava outra peça e parecia ter tomado uma dose extrema de cafeína.Tudo aquilo dito no espaço de cinco segundos. Era o suficiente para fazer uma pessoa sã delirar. O sujeito pechinchava mais uma peça sem qualquer valor que era logo arrematada por alguém e todo o processo começava novamente.Dormira pouco na noite anterior. Ficara o tempo todo lembran-do-se de Anastasia de camisola. A imagem permanecera insisten­temente em sua mente.O martelo foi batido.

 

    • Franzindo a testa, ergueu a mão para cocar o nariz.
    • Uma palavra seguia a outra, e David cruzou os braços, fazendo esforço para manter os olhos abertos, como durante as reuniões de trabalho.
    • —  Dois mil, dois mil e cem, dois mil e duzentos, tenho dois mil e duzentos. Quem me dará dois mil e quinhentos?
    • Apreciava ver a raiva dar aos olhos cor de mel de Anastasia um brilho especial. Gostava de observá-la. Nada mais não era capaz de atrair seu interesse.
  • Vendido por oitenta dólares para o homem usando gravata.
  • Parabéns! — cumprimentou-o Anastasia com um sorriso in­crédulo. — Você superou os outros.
  • Sobre o que está falando? Tudo que eu fiz foi cocar meu nariz.
  • Algo perigoso de se fazer em um leilão.
  • Então qual peça inútil eu adquiri?
  • Um netsuke erótico.Finalmente David conseguiu respirar com normalidade e fitou o objeto. Não sabia o que era um netsuke mas tinha certeza de que aquilo definitivamente era erótico.

 

    • Ele piscou diversas vezes, começou a tossir, e Anastasia lhe deu tapas nas costas com veemência.
  • Você me fez apostar em algo censurável. O que é netsuke, de qualquer maneira?
  • É uma pequena escultura oriental. Objeto de desejo de muitos colecionadores. Você tem um olho e tanto para quem acha que arte é porcaria — provocou.Mas sua avó apenas fizera um lance para uma mesa de ferro com duas cadeiras combinando, algo que o leiloeiro chamara de um autêntico bistrô. Em vez disso, fora ele quem comprara um objeto inútil e esquisito.

 

    • Mas David não se sentia nem um pouco divertido. E era culpa deAnastasia. Se não houvesse suspeitado de sua tentativa de fazer Claire comprar algo naquele estúpido leilão, não teria ido.
  • Ainda está se divertindo? — indagou Anastasia com ar inocente.
  • Não.
  • Então saia comigo no sábado para um piquenique.
  • Por quê? — indagou com cautela, ainda se lembrando do olhar insistente que ela lançara as suas pernas e quadris.
  • Para que eu possa lhe colocar um par de botas de cimento e jogá-lo no rio — brincou. — Calma, rapaz, deixe de ser tão desconfiado! Não há qualquer risco envolvido. Nada de peças. Ape­nas vamos nos divertir. A menos que você não goste de um desafio.
  • Combinado. Sábado. Um piquenique.Seu horário de almoço no trabalho também poderia ser quali­ficado como piquenique. Naquelas ocasiões ele comia hambúrguer ao ar livre... observando fotografias de edifícios incinerados para analisar pistas, entre outras coisas.—  Ótimo — ela falou, sorrindo. — Eu levarei a comida. En­contre-me em meu apartamento às seis horas.

 

    • David nem ousou assentir, temendo que o gesto o fizesse com­prar outra monstruosidade do leilão.
    • Poderia fazer aquilo. Enquanto estivesse lá, descobriria quais eram os planos de Anastasia.
    • Não ia a um desde os dez anos. Qual problema poderia existir naquilo? Bastaria levar alguns hambúrgueres e comê-los em uma mesa de piquenique.
  • Combinado — falou baixinho.
  • Já demos o primeiro passo — declarou Betty em cima de uma prateleira da cristaleira cheia de porcelanas chinesas na casa de leilão. — As coisas estão se movendo conforme o plano. Eu lhe disse que a ajuda de Claire iria simplificar as coisas para nós.
  • Não posso acreditar que pela primeira vez as coisas estejam indo de acordo com nosso plano — disse Hattie da prateleira mais alta, onde havia jóias. — Você viu a esperteza com que Claire manipulou Anastasia para que concordasse em fazer David relaxar outro dia? E com que habilidade Anastasia o convidou para sair!
  • Isto não significa que ele afrouxou. Ainda não confia nela —acrescentou Muriel, ao tirar poeira da roupa e colocar a mão no bolso em busca de cereais, seu petisco favorito.Betty impaciente ajeitou os cabelos e olhou para a irmã.

 

    • —  Ignore Muriel.
  • As coisas serão bem tranqüilas dessa vez.
  • Talvez devesse bater na madeira quando diz isto — Hattie nervosamente sugeriu. — Só por precaução.
  • Somos fadas-madrinhas. Não devemos ser supersticiosas — declarou Muriel. — Olhe, isto está escrito bem aqui.

 

    • Surgiu um livro quase de seu tamanho, muito bonito. Com a varinha mágica ela fez com que as centenas de folhas fossem pas­sando até encontrar a que procurava.
  • Regra número mil trezentos e cinqüenta e nove.
  • Já rompemos muitas regras deste livro — Hattie lhe disse.
  • Rompemos? — indagou Betty, fazendo o livro desaparecer.

 

    • —  Pelo amor de Petúnia, nós torcemos algumas delas para que ficassem do jeito que queríamos.
  • Mas isto é uma coisa boa? — Hattie ansiosamente indagou.
  • Ainda estamos aqui, não estamos? — respondeu Betty.
  • Bem, isso não podemos negar.—  Enquanto estamos aqui, talvez devamos dar uma olhada nas jóias que estão nesta prateleira. Eu sempre quis ter uma.Zonza, tentou decifrar os números do visor digital de seu des­pertador. Cinco horas. Lembrou-se da última vez em que fora acor­dada no meio da noite.Será que o homem nunca dormia? O que poderia estar fazendo lá? E se não estivesse sozinho?Ajeitou a alça de sua camisola de seda cor de pêssego. Estendeu a mão para pegar o fone e ligou para o serviço de informações. Disseram-lhe que o número de David não estava na lista. Prova­velmente para impedir que vizinhos o perturbassem por ser tão barulhento...Tentou colocar o travesseiro sobre a cabeça para abafar o ba­rulho. Não funcionou. Conseguiu apenas ficar sufocada.Incapaz de suportar mais, saiu da cama e vestiu uma camiseta lilás e calça comprida. A roupa era esquisita, mas não se importava. Não iria ao andar de cima seduzir David; apenas avisá-lo para não fazer tanto barulho . Porque não apenas a acordara mas tam­bém perturbava Xena, que não gostava de barulho.Minutos mais tarde, estava no terceiro andar diante do apar­tamento de David. Sua batida à porta não foi atendida de imediato, por isso usou mais força. Finalmente ouviu o barulho da fechadura sendo aberta. 

 

  • Um segundo mais tarde, ela quase desmaiara ao vê-lo diante de si usando apenas short e um sorriso à guisa de desculpas.
  • — Não se preocupe, criança. — Levantou o cobertor para se assegurar de que a gata não se sufocasse sob as cobertas. — Eu cuidarei disto.
  • Precisava dormir mais. Não se sentia bem quando descansava apenas quatro horas. Aquilo era uma tortura que contrariava as necessidades humanas. E o homem fa.zia de propósito.
  • O barulho continuava, ininterrupto.
  • Aquilo a fez dar uma pausa nos pensamentos. Talvez não de­vesse ir para o andar de cima e bater a sua porta para lhe pedir silêncio. Infelizmente, não tinha o número de seu telefone, caso contrário poderia telefonar.
  • Como o som incessante vinha do alto, suspeitou de que o culpado era David.
  • Nas manhãs de sábado, Anastasia gostava de dormir até as dez horas. Era uma de suas poucas indulgências. Mas naquela manhã um barulho horrível a acordou ao amanhecer.
  • Hattie assentiu e passou a mão pelos cabelos como que para verificar o fato.
  • Eu a acordei? — indagou David, dando-lhe uma piscadela. Anastasia não ia se deixar impressionar por aqueles deslum­brantes olhos azuis.Sentiu-se atordoada com o que via. O peito largo estava nu, permitindo-lhe ver os músculos bem torneados.Até mesmo os joelhos eram maravilhosos. Não ossudos como os da maioria dos rapazes. Mas os homens que ela conhecia não faziam... O que ele fizera: acordá-la ao amanhecer.

 

  • Ele era esguio mas de compleição sólida. E não tinha muitos pêlos no peito. As pernas também estavam nuas.
  • —  O que você tem na cabeça? Sabe que falta pouco para as cinco horas da manhã?
  • Você está fazendo barulho suficiente para acordar um morto.
  • Estava fazendo ginástica.
  • Sozinho? — indagou, sem saber qual poderia ser o exercício físico preferido dele.
  • Sim, sozinho. — Ele pegou uma toalha e passou pelo peito. — Por quê?
  • Parecia haver uma manada de elefantes aqui. O que estava fazendo?
  • Pulando obstáculos.

 

    • Deveria fazer parte de seu condicionamento no Corpo de Bom­beiros. Apenas homens de uniformes pulavam obstáculos. Ou, no caso de David, homem totalmente sem uniforme.
  • Tente tai chi chuan em vez disto — sugeriu. — É mais silencioso.
  • Tai o quê?
  • Tai chi chuan. Uma antiga forma de exercitar a mente e o corpo. — Ante o olhar estupefato, acrescentou: — Ora, esqueça! Lembre-se somente de que estou dormindo bem abaixo de você.Rapidamente perscrutou o rosto másculo e viu a passional inten­sidade de sua expressão. Suspeitou de que David chegara à mesma conclusão. Ela dormindo sob seu corpo, as pernas entrelaçadas, o peso do corpo másculo descansando de maneira confortável e sensual.A seda roçando sua pele ganhou conotação sensual, como se David pudesse ver por debaixo de suas roupas.O movimento podia não ser dos mais graciosos mas foi capaz de trazê-la de volta à realidade. Ergueu o queixo e o fitou como a dizer para que não se movesse.

 

    • Anastasia apenas precisava dormir mais, aquele era seu problema.
    • Assustada, deu um passo para trás, quase tropeçando na barra da calça. Subiu a cintura da roupa, percebendo que na pressa não havia fechado o botão.
    • Viu os olhos azuis se estreitarem, deixando-a muito mais cons­ciente de que David estava em pé seminu enquanto ela ainda usava camisola por debaixo da camiseta e calça comprida.
    • Aquela não fora a melhor maneira de verbalizar a situação, percebeu tardiamente. Suas palavras evocaram algo muito mais sedutor do que gostaria de ter sugerido.
  • Chega de ficar pulando aqui ou terei de me queixar à dona do imóvel.
  • Conheço vovó há mais tempo do que você. O que acha que ela fará comigo? Irá me expulsar?
  • Não, acho que lhe dará um daqueles olhares de reprimenda para deixá-lo saber que está em maus lençóis.Mas Anastasia não estava impressionada. Era esperta demais para se deixar perturbar por aquele homem que mal conhecia.Ele inclinou-se para a frente e jogou a toalha branca na direção de Anastasia. Ela rapidamente deu um passo para trás.

 

    • —              Aquilo em seu rosto era uma covinha? — provocou-o. — Não, talvez a falta de sono esteja me fazendo ter alucinações.
    • Para sua surpresa, David sorriu. Ficava com ótima aparência quando fazia aquilo. Na verdade, tornava-se diabolicamente lindo.
  • Fique atento, fantasma! — exclamou ela com o dedo em riste. — Sou uma ágil ladra de toalhas. Não queira confusão comigo. Cresci com dois irmãos, por isto papai me ensinou como me proteger.
  • Com creme de depilação e roubos de toalhas?
  • Entre outras coisas.—  Preciso dormir mais, então, por favor, faça seus exercícios entre o meio-dia e a meia-noite. — Bocejou mais uma vez e falou: — Hasta Ia vista, baby.Nunca conhecera uma mulher assim. Ela certamente tinha seu jeito próprio de fazer as coisas. Quando achava que a havia do­minado, recebia um golpe.Mas aquilo não significava que era inocente e incapaz de ter más condutas. Apenas dizia que era esperta demais para ser apa­nhada. Ainda.David consultou o relógio mais uma vez para ter certeza de que eram seis horas da tarde em ponto. Somente então ergueu a mão para bater na porta de Anastasia.—  Ei!—  Você está bem?Ela andava de maneira muito esquisita, virando-se em rápidos círculos e quase batendo nas plantas ao fazer aquilo.

 

    • Não obteve resposta, por isso continuou acompanhando-a, embora em passo mais lento. Encontrou-a na ruela que ficava atrás do prédio.
    • Preocupado, apressou-se a segui-la.
    • Mas antes que suas juntas fizessem contato com a madeira, a porta já estava plenamente aberta, e ela disparava, quase passando por cima dele, em uma corrida para o andar debaixo.
    • Seu objetivo era mudar aquilo. E iria começar com o piquenique logo mais, naquele mesmo dia.
    • Verificara na delegacia sobre o passado de Anastasia. Ela fora presa havia quatro anos. Estivera detida, juntamente com vinte e oito outras pessoas, por ter protestado contra a demolição de um prédio histórico.
    • Logo David a via descer as escadas. Não conseguiu desviar o olhar até perdê-la de vista.
    • Um grande bocejo a pegou de surpresa, fazendo-a lembrar-se do propósito de ter ido até ali. Não para brincar ou ficar brava e sim para fazê-lo calar-se.
  • O que está fazendo? Praticando ó íoi chi chuan sobre o qual falou? Está tentando caçar a comida do piquenique ou algo assim?
  • Estou tentando confundir o rato — respondeu-lhe sem ar.
  • Como não percebi antes?! A mulher era louca.
  • E ele a está observando de detrás dos arbustos?
  • Não, está exatamente aqui.—  Você... pegou... um rato? — perguntou assustado. Constrangido, procurou disfarçadamente secar a palma das mãos úmidas.Deu mais uma volta e abriu a ratoeira, deixando o rato zonzo sair. Uma vez livre, correu em direção a uma garagem do lado oposto à ruela.

 

    • —  Não, estou tentando me livrar dele. Estou virando em círculos para desorientá-lo a fim de que não volte a entrar em minha casa.
    • Mostrou-lhe a ratoeira, fazendo-o rapidamente retroceder. O bicho lhe dava arrepios.
  • Por que simplesmente não o matou? Aquilo faria com que deixasse de entrar nas casas.
  • Meu irmão Ryan tinha um rato branco, seu animal de es­timação quando éramos crianças, por isto não poderia matar um rato sem me lembrar de Pescado.
  • Pescado? Ele tinha um rato chamado Pescado? É nome de peixe e não de rato!
  • Sei disto, e Ryan também, mas meu irmão gostou do nome.
  • Se você não pode matar um rato, então tenha um gato e deixe que ele faça o serviço sujo por você.
  • Eu tenho unia gata — respondeu-lhe, inclinando-se para pegar a armadilha. — O nome dela é Xena. Mas tem medo de ratos.
  • Que espécie de gato teme ratos?

 

    • Ela o fitou com frieza, praticamente ordenando para que não insultasse seu animal de estimação.
  • A minha gata.
  • Impressionante — murmurou.
  • O que quer dizer?
  • Você não faz nada de maneira normal.
  • Eu vivo muito bem.

 

    • Foi a vez de ele a fitar. Não apreciava ser desafiado daquela maneira.
  • Sabe o que eu quis dizer.
  • Se está tentando me elogiar por eu ser tão única, então obrigada — disse Anastasia com uma expressão de superioridade que logo foi seguida por um sorriso provocador. — Se for qualquer outra coisa, eu diria que a culpa é sua, pela noite mal dormida. Lembre-se de que eu providenciei a comida.
  • Você cozinhou?
  • Sim, cozinhei. E baixe suas sobrancelhas. Não tem de parecer tão surpreso sobre isto. Sou uma excelente cozinheira. — Deu uma olhada no relógio de pulso suíço e falou: — Devemos ir ou iremos nos atrasar.Um segundo mais tarde, ela disparava escada acima. Acompa­nhá-la era um bom exercício, decidiu ao segui-la. Enquanto fazia aquilo, apreciava o modo como o vestido floral se ajustava ao corpo sinuoso nos lugares certos. Usava uma camisa branca sobre a peça, amarrada à cintura.Quando entraram no apartamento dela, David deu uma breve olhada ao redor. Apenas teve tempo de notar que havia poucos móveis na sala: duas poltronas floridas em vez de um sofá e uma mesa muito colorida e de aspecto estranho. Então sua atenção se virou para a parafernália no chão.Ela lhe deu um tapinha no braço do modo como Claire sempre fazia.E quanto ao poder de atração sexual? Anastasia teria intenção de seduzi-lo? O que estaria planejando?

 

    • —  Precisaremos de tudo o que está aqui. Confie em mim. Aquele era o problema. Não podia confiar completamente nela... Ouvira dizer que as melhores vigaristas eram charmosas.
    • —  O que é tudo isto? Apenas vamos a um piquenique e não a um passeio com duração de um mês.
    • Anastasia não tinha um corpo macérrimo que parecia tão po­pular nos dias atuais. Era mais ao estilo de Marilyn Monroe. A confirmação veio quando a saia de seu vestido se enrolou nas pernas maravilhosas.
    • "Atrasar-se? Para um piquenique?", pensou David.
  • Para onde vamos exatamente? — indagou ao pegar duas cadeiras portáteis e uma enorme frasqueira plástica.
  • Ravinia. — Ela colocou uma sacola plástica no braço de David.— Já esteve lá?  
  • É onde fazem apresentações musicais, não é?
  • Isso! — concordou, jogando os longos cabelos para detrás das orelhas ao pegar mais duas sacolas. — E a apresentação de verão da orquestra sinfônica de Chicago.
  • Cheguei a pensar que talvez fosse uma apresentação de David Bowie esta noite.
  • Relaxe. — Deu-lhe mais um tapinha, dessa vez nas costas. — Você vai se divertir.       
  • Por que está tão preocupada assim com minha diversão?
  • Porque acho que não faz isto com freqüência. Algum problema em irmos em sua caminhonete? É maior do que meu conversível vermelho.Olhando para as sensuais sandálias roxas, percebeu que muito tinha a aprender sobre bibliotecárias e ainda mais sobre Anastasia em particular.A conversa foi tranqüila durante o trajeto até o subúrbio de High-land Park, local do festival Ravinia. Não era um longo percurso.Anastasia ficou discutindo sobre o local onde iriam se instalar até finalmente escolher o que chamou de lugar perfeito. Ficava entre dois carvalhos, próximo o bastante do pavilhão coberto para propiciar boa visão da orquestra.Ajudou-a a colocar a toalha sobre o que parecia ser uma su­perfície plástica. Após abrir as duas cadeiras, ela lhe estendeu uma sacola longa e comprida pedindo:Ele ficou temeroso, achando que poderia estar sendo testado e perguntou:

 

    • —  Poderia armar isto para mim, por favor?
    • David não se importava muito em ver os músicos; queria comer. Estava faminto. Mas aparentemente Anastasia tinha uma rotina a seguir primeiro.
    • David ficou surpreso com o número de pessoas que estavam no estacionamento adiante. Muitos levavam suas coisas até o par­que usando pequenas carretas rodoviárias.
    • Em um sobressalto, percebeu que realmente gostaria de saber mais sobre aquela mulher.
    • Então o carro esporte espalhafatoso estacionado defronte ao prédio era dela? Que espécie de bibliotecária dirigia um carro da­queles? Antes de conhecê-la, achou que bibliotecárias usassem sa­patos ortopédicos e dirigissem carros antiquados.
  • O que é?
  • Uma mesa.

 

    • Cinco minutos mais tarde, depois de muito esforço, ele falava:
  • Detesto lhe dizer isto, mas alguém quebrou sua mesa. Dei­xaram as pernas muito curtas.
  • São assim mesmo — respondeu ao colocar uma toalha clara sobre a superfície e depois acrescentar diversas velas de cor tur­quesa em castiçais de vidro.
  • Por quê?
  • Para ficar mais fácil de carregar.

 

    • Como fora ele quem carregara a mesa, tinha dúvidas sobre o fato de as pernas curtas terem ajudado na locomoção, mas não iria alongar o assunto.
  • Parece ser um jeito estranho de fazer um piquenique.
  • Oh, então você é experiente em piqueniques?
  • Sei o suficiente.

 

    • Ele abriu a frasqueira plástica e olhou dentro.
  • Estou faminto. Onde está a galinha frita?
  • Você sabe o mal que isto faz as suas artérias? — perguntou ela, estremecendo.
  • Sei o que faz com meu paladar. Gosto de galinha frita. E você devia saber que sorvete também não é exatamente amigo das artérias.
  • Eu preferiria tomar sorvete a comer galinha frita.
  • Que espécie de piquenique tem mesa montada, velas e nada de galinha frita?
  • Calma! Trouxe muitas coisas boas. Experimente isto.—         Desculpe por ser tão afoito.

 

    • Brindou-a com um sorriso especial enquanto limpava um pe­dacinho de queijo com o dedo indicador.
    • Ele avançou no prato de quitutes e comeu vários durante os cinco minutos seguintes.
  • E que eu não comi nada durante todo o dia.
  • Coma algumas bolachas — estendeu-lhe a caixa. — Demo­rarei a arrumar tudo.—         Parece trabalho demais para um piquenique.—    Pronto. Trouxe sopa de abacate gelada para entrada, seguida de salada de batatas e cenoura e... — Tirou um pote da sacola e falou: — Aqui está! Galinha assada e aquecida. E como sobremesa, um pouco do sorvete feito por sua avó, no sabor pistache.É Anastasia tinha razão; a maior parte dos presentes havia colocado velas sobre cobertores ou mesas, aparentemente para afastar mosquitos...Também apreciou a maneira com que os casais procuravam ficar mais confortáveis nos cobertores, as mulheres pousando a cabeça no ombro dos rapazes.Virando-se, viu o que restava do sol e as luzes das velas ilu­minando o parque.

 

    • David ia sugerir que Anastasia fizesse aquilo quando ela lhe deu um tapinha no ombro e apontou para mais adiante.
    • A música clássica era alta e emotiva, não algo que se pudesse dançar, mas chegava a agradar David. De fatd, estava gostando bastante.
    • Quando o concerto começou, às oito horas, ele e Anastasia es­tavam sentados lado a lado nas espreguiçadeiras. David sentia-se sonolento. A comida fora maravilhosa, até inusitada para um ho­mem acostumado a comer lanches rápidos.
    • —         É uma tradição aqui em Ravinia — informou-lhe. Olhando ao redor, David teve de admitir que não eram os únicos a terem aquela decoração.
    • Colocou um vaso de vidro e algumas flores frescas que trouxera em uma das sacolas. Usando água em garrafa, encheu o vaso e o colocou no meio da mesa.
  • Bonito, não é? — sussurrou ela.
  • Nada mal — concordou.Normalmente, naquele momento, ela se deitava sobre a colcha do piquenique e a enrolava ao redor do corpo conforme a noite se tornava um pouco fria.Talvez o houvesse julgado erroneamente ao achar que não era capaz de relaxar.Ela se sentiu confusa, sem saber onde colocar as mãos ou os braços e teve de sorrir quando David pediu que parasse de se mexer e a puxou para bem perto.Mal tiveram tempo de registrar o fato antes que os primeiros pingos de chuva começassem a cair. As nuvens que haviam tornado o pôr-do-sol tão maravilhoso estavam sobre suas cabeças.Anastasia teria feito o mesmo, mas .esquecera sua sombrinha em casa.

 

    • Houve um burburinho quando uma parte da platéia pegou suas coisas às pressas e partiu, mas a maioria ficou e abriu guarda-chuvas.
    • Seus corpos estavam pressionados lateralmente, a cabeça de Anastasia pousada no ombro largo, o braço de David sobre seus ombros. Aquilo tudo parecia surpreendentemente correto.
    • Em vez de dizer alguma coisa, Anastasia simplesmente aban­donou sua espreguiçadeira e foi para a colcha, deixando-o livre para juntar-se ou não a ela. David foi com surpreendente prontidão. Acomodou-se bem próximo, fazendo-a sentir o calor de seu corpo.
    • Mas David parecia gostar da formalidade da mesa de piqueni­que e da espreguiçadeira, embora a calça e camisa jeans que ele usava lhe dessem aparência de casualidade.
    • Anastasia esperava que aquelas palavras significassem que Da­vid estava finalmente se divertindo. Duvidara a princípio, mas parecia que ele estava bem acomodado naquele momento. Talvez tivesse sido ríspido anteriormente por causa da fome.
  • Não se preocupe — falou para David ao sentar-se e puxar a colcha de debaixo dele. — Sou muito experiente em Ravinia. Sei o que fazer.
  • Partir?
  • Não.—    É uma velha cortina de banheiro — explicou-lhe ao acomodá-la sobre a cabeça com uma mão e colocar o acolchoado sobre os joelhos dos dois com a outra. — Ainda poderemos ouvir a música. Com um pouco de sorte, a chuva em breve passará. Adoro a próxima peça. E Rimsky Korsakov's Scherazade. — Começou a ler o Programa que estava em suas mãos: — O sultão Schahriyar, convencido da duplicidade e infidelidade de todas as mulheres, porco chauvinista que era...

 

    • David tentou ler por sobre seu ombro.
    • Anastasia sentou-se na espreguiçadeira, naquele instante colo­cada diretamente sobre a grama, e deu um tapinha na cadeira a seu lado. Quando David se acomodou, ela lhe estendeu o lado oposto da capa plástica. Ele franziu a testa ante os pingüins co­loridos impressos no material.
  • Diz isto mesmo?
  • Está bem, eu acrescentei a parte do porco — confessou. — De qualquer maneira, ele jurou matar cada esposa sua após a primeira noite de amor. A sultana Scherazade salvou a própria vida ao contar ao marido uma série de histórias durante mil e uma noites. Levado pela curiosidade, a cada dia o monarca pos­tergava a execução para ouvir a parte seguinte do conto, até que por fim resolveu deixar Scherazade viva.Era evidente que Anastasia era péssima influência. Havia pou­cos dias, David flagrara a avó, que toda vida adorara Lawrence Welk, ouvindo e cantando a música Born in the U.S.A., do cantor Bruce Springsteen. Sem dúvida influência de Anastasia, enchendo a cabeça de sua avó com idéias ousadas.Afinal de contas, perdera um jogo do Cubs para estar ali com ela. E durante aqueles poucos minutos, com o corpo sinuoso pres­sionado contra o seu, percebera ter valido a pena. A propósito, desejara que a experiência houvesse durado mais.

 

    • E enchendo-o com.,. O quê? Como poderia chamar o que sentia? Interesse? Desejo? Loucura? Era melhor focar sua atenção em ou­tra coisa.
    • David não achava que fosse uma coincidência que Anastasia adorasse tanto Scherazade. Ambas eram espertas contadoras de histórias. Mesmo que não houvesse feito nada de errado, enchera a cabeça de sua avó com expectativas irrealistas e colocara as economias de Claire em risco.
  • E então? — perguntou ela alegremente. — Está se divertindo?
  • Sim, sim.Poderia!                          

 

    • O comichão começou enquanto caminhavam de volta à cami­nhonete parada no canto mais distante do estacionamento. David teve de fazer pausa diversas vezes para cocar os braços e o pescoço.
    • Não poderia ser muito pior do que aquilo, poderia?
  • Será que colocaram inseticida no parque? — indagou ele.
  • Não.

 

    • Com desespero observou caroços se formando em seus braços.
  • O que você colocou na comida?
  • Nada condenável.
  • Camarões?
  • Sim, havia alguns camarões em um dos pratos.
  • Então é isto. Sou alérgico a camarões. Eles me causam ca­roços na pele.
  • Sinto muito! Deveria ter me falado. Sua alergia é muito intensa? Precisa de alguma espécie de medicamento? Devemos ir até um hospital?
  • Não. Preciso apenas de um antialérgico.
  • Quando falei que gostaria de tornar esta noite inesquecível para você, não tinha isso em mente — falou em tom de desculpas.
  • Nem eu.

 

    • —          Então talvez devamos planejar outra coisa logo, não acha? O sorriso de Anastasia era irreverente e contagiante.
  • Talvez sim — concordou. — Mas da próxima vez eu lhe mostrarei a minha versão do que é diversão.
  • E qual é?
  • Beisebol!

 

    • Foi por isso que Anastasia foi ao Wrigley Field na tarde seguinte.
  • Não tinha certeza se conseguiríamos entrar — disse David. — Ele se recuperara completamente da reação alérgica da noite anterior. — Você tem sorte; consegui comprar dois ingressos para nós sem reserva prévia.
  • Certo. Sorte. As pessoas devem estar fazendo fila para ver um time que não ganha um campeonato desde 1908.
  • Pensei que você nada soubesse sobre beisebol.—          Sou bibliotecária. Informação é minha especialidade.Ela já começava a apreciar o som de sua voz, a entonação especial e única. Uma pena não ter apreciado a maior parte do que David falou durante o trajeto chamado de Wrigleyville pelos nativos.

 

    • Tentara convencê-las das vantagens da responsabilidade e acer­ca da tolice de sonhar.
    • A especialidade de David parecia ser fazer o coração de Anas­tasia disparar.
    • Pegou-a pelo braço para ajudá-la a descer os degraus de concreto até os assentos mais adiante.
  • O que você tem contra sonhos, afinal? — indagou ela en­quanto o seguia rumo às cadeiras.
  • De onde vem o assunto?
  • De nossa conversa a caminho daqui. Vamos, diga-me.
  • Sonhos são perda de tempo. Ainda pior, podem ser perigosos.
  • Como assim?
  • Podem nos cegar à realidade e nos deixar despreparados para o futuro.
  • Está se referindo a sua avó? Sei que está preocupado com sua aposentadoria, mas...
  • Eu falava de meus pais — disse brevemente. — Papai ar­riscou tudo em seu sonho de ficar rico rapidamente. Nem sempre os sonhadores pagam por suas inconseqüèncias... No caso de meu pai, quem pagou as dívidas foi o restante da família. — Sua ex­pressão se entristeceu antes de ele dar de ombros. — Vamos dizer que eu seja um homem prático. Não acredito no coelhinho da Páscoa ou na existência de um pote de ouro no final do arco-íris.
  • Em que você acredita?
  • Em trabalho duro e beisebol. Agora diga-me, como você pôde crescer ao lado de dois irmãos e nunca ter ido a um jogo de beisebol?
  • Acho que tive sorte. Então você acredita que os sonhos sejam perigosos por causa de seu pai?
  • E porque vi muitos sonhos virarem pó. Você não encontrará muitos sonhadores em minha espécie de trabalho.
  • Acho que posso entender isto.Um certo quê de irritação já era evidente em seu olhar. Anas-tasia já descobrira o bastante por ora.

 

    • David não falava de si com facilidade e, caso o continuasse pressionando, provavelmente acabaria se tornando agressivo.
  • E para responder sua pergunta sobre eu não ter ido a um jogo antes, saiba que meu pai gosta dos Cubs mas normalmente assiste a eles na televisão, enquanto meus irmãos preferem bas­quete e os Bulls.
  • E você? O que prefere?
  • Bale.

 

    • Anastasia sentou-se e aspirou profundamente. O dia estava en­solarado, uma brisa fresca vinda do lago a fez lembrar-se de que setembro estava próximo.
  • Sabe, achei que jogos de beisebol tivessem um cheiro diferente. Ele a fitou como se Anastasia estivesse louca.
  • O quê?
  • Sabe, não tem muito cheiro de ar fresco e sim de cachorro-quente e mostarda.
  • Ora, é o cheiro das barracas que vendem guloseimas. Os ven­dedores de cachorros-quentes não trazem mostarda aqui. Minha ex­periência diz que os lanches são frios embora a cerveja seja quente.

 

    • Anastasia sorriu.
  • Puxa!
  • Eu trouxe uns sacos de amendoins para beliscarmos. Quer um pouco?Anastasia o fitou, e seus olhares se encontraram. Gostava da maneira como ele usava o capacete de beisebol, de forma que não sombreasse seus olhos. Talvez estivesse fascinada pela cor incrível de azul...David, entretanto, não parecia estar chateado.

 

    • Aproveitou a chance para escapar daquele olhar poderoso quan­do levantou-se para cantar o hino nacional. A partir de então tudo ficou muito aborrecido. Uma verdadeira tortura.
    • Os dedos de David tocaram nos dela quando Anastasia virou a mão de palma para cima para receber alguns amendoins que ele lhe oferecia. Um murmúrio baixo seguiu seu toque.
  • Aquele rapaz é mesmo demais! — exclamou, inclinando-se para a frente e repetindo o que vinha falando durante a última hora.
  • Qual?
  • Aquele ali.Ficar descansando no chão em Ravinia fora bem mais confor­tável do que aquilo.

 

    • O homem pesadão que estava ao lado de Anastasia bateu aci­dentalmente em seu braço, e os amendoins voaram duas fileiras adiante. Quando as pessoas, se viraram para dar um olhar gélido em sua direção, ela tentou se esconder embaixo do assento.
  • Tome — David falou, estendendo-lhe mais amendoins. — Sirva-se de mais. Isto a manterá ocupada quando não estiver ocor­rendo nada de emocionante no jogo.
  • O que parece ser bastante freqüente — murmurou.
  • Ora, mas ainda há muito jogo.
  • Eu sei.Quando seu colo ficou limpo, todos já estavam sentados. Era melhor se preparar para a próxima vez em que as pessoas se levantariam.

 

    • Todos ficaram em pé. Todos menos Anastasia, cujo colo estava cheio de amendoins. Usava calça jeans e camiseta, imaginando ser a roupa adequada a um jogo de beisebol. Em seu capacete estava escrito: "Ler é Fundamental".
  • Sabe qual é a melhor coisa neste "jogo? — ela perguntou.
  • Que só estamos perdendo por um par.
  • Par de quem?
  • O placar é dois a quatro.
  • Sei disto. — Mordeu um amendoim antes de acrescentar: — O melhor deste jogo é que se pode gritar à vontade.
  • Sobre o que está falando?
  • Você pode ficar em pé e dizer qualquer coisa e ninguém notará. Observe só. — Ela se levantou com o restante das pessoas e gritou: — Estes jogadores são surdos e incompetentes.

 

    • David a fez sentar-se, constrangido.
  • Pare com isto!
  • Por quê? Ninguém prestou atenção. — Na vez seguinte, ela ficou em pé e gritou: — Os dois times não jogam nada!

 

    • Quando sentou-se, o rapaz da fileira de baixo gritou:
  • Tem toda razão, garota. Sorrindo para David, Anastasia falou:
  • Agora eu estou me divertindo!

 

  •  
  • Você acha que terminaremos a tempo da grande inauguração? — Claire in­dagou a David quando ele fez uma pausa em seu trabalho na reforma.

 

  • O lugar estava de pernas para o ar; era a segunda semana do projeto. O cheiro de madeira e de materiais de construção se mis­turava aos aromas de café e baunilha.
  • Acho que sim. Já concluí o esquema da parte hidráulica e elétrica. Deverão estar prontas no início da próxima semana e só então será iniciado o trabalho do aquecimento central.
  • A loja parece muito maior agora que você derrubou aquelas duas paredes, não é mesmo?Vira a planta do prédio quando solicitara a permissão para a reforma e sabia onde as paredes deveriam estar. O problema era haver uma discrepância de medidas entre o que constava na planta e o que fora construído.Ao fazer aquilo, descobrira que o lugar um dia pertencera a Chester Chesty Ferguson, o proprietário de um estabelecimento comercia] muito próspero durante a década de vinte.Sob outras circunstâncias, poderia ter ignorado a diferença nas medidas entre as paredes do porão como se fosse um simples erro de cálculo da parte de alguém. Mas o contexto sugeria a possibilidade de existir uma sala secreta ali, para garantir alguma pri­vacidade a Chesty em plena época de repressão.

 

    • Ainda não tivera tempo de fazer uma inspeção mais detalhada. Havia muito trabalho a ser feito no piso principal e teria de ser realizado a tempo da inauguração em primeiro de outubro, con­forme o desejo de sua avó.
    • David nutria um interesse especial por aquela época da história de Chicago desde criança, quando assistira às aventuras de Elliot Ness em Os Intocáveis.
    • Na mesma manhã em que ob ti vera a permissão, também ve­rificara o histórico da propriedade para ter certeza de que a venda seguira os trâmites legais.
    • David assentiu de modo ausente, o pensamento na descoberta que fizera após a remoção das paredes. Algo estava errado.
  • Você se arrependeu de ter concordado em me ajudar com este projeto? — Claire subitamente lhe indagou, a expressão in­dicando preocupação. — Não sei se sabia exatamente em que es­tava se metendo.
  • Eu sabia. E não estou arrependido, exceto pelo fato de a senhora ter comprado o prédio sem ter me consultado antes.
  • Eu sabia que você não concordaria; não veria o local como eu o vejo. Mas acho que talvez esteja começando a gostar dele, não é mesmo?Tirara demãos e demãos de tinta das paredes. Lixara os rodapés e tentara revelar sua beleza natural; eram de carvalho e estavam em excelente estado.O piso também fora coberto. Havia poeira por toda parte, mas Claire passava a maior parte de suas tardes ali para verificar tudo.

 

    • O balcão de mármore ficava coberto com uma toalha durante todo o tempo para não ser danificado. Claire verificava seu estado duas vezes por dia para ter certeza de que ainda estava impecável.
    • David fez um gesto de aquiescência, mas a contragosto. Era difícil admitir que a loja começava a mostrar boas promessas.
  • E então, já decidiu qual será o nome daqui? — perguntou ele.
  • Ainda não.
  • Não sei o que há de errado com The Scoop Coop.
  • Enrola-se muito a língua para falar. E meio esquisito dizer; "Vamos para o The Scoop Coop!".—    A propósito, eu queria mesmo lhe falar. Estou muito feliz por você e Anastasia estarem se dando melhor e até se divertindo juntos.

 

    • David revirou os olhos para o teto.
    • Claire deu olhou mais uma vez em sua lista antes de dizer em tom casual:
  • A senhora faz isto soar como se tivéssemos dois anos de idade e brincássemos no quintal.
  • Bobagem, querido! — exclamou, dando-lhe um tapinha no braço. — Posso lhe garantir que estou muito mais consciente de que ambos são adultos e de que o tempo marcha a passos largos.Por mais que detestasse admitir, sentia sua falta e gostaria que estivesse por perto durante mais tempo.

 

    • O pensamento mal havia passado por sua mente quando ouviu a voz de Anastasia. Vinha diretamente de suas costas.
    • David também estava consciente do passar do tempo. Já fazia cinco dias desde que levara Anastasia para seu primeiro jogo de beisebol. Desde então apenas a vira de passagem, quando ela ia à loja após o trabalho para falar com sua avó sobre tudo, desde papel de parede até taças de vidro para sorvete.
  • Sonhando novamente à luz do dia, Sullivan? — provocou-o. Ele virou-se para encará-la.
  • Como conseguiu ser tão silenciosa usando botas de combate?
  • Não gostou de meus sapatos? — Ergueu o pé direito para que ele o observasse melhor. — Não fazia idéia de que fosse tão entendido em moda — acrescentou matreira, olhando para a calça jeans puída e a camiseta empoeirada que ele usava.
  • Sim, está bem.

 

    • David não agüentou. Sorriu.
  • Vi isto. Está tentando me distrair novamente com seu jeito sensual, mas não vai funcionar — assegurou Anastasia. — Estou aqui para dizer a Claire que encontrei uma empresa em Chicago que faz potes de sorvete e armários sob encomenda. — Virou-se para Claire. — Tirei a informação de um livro sobre a história do sorvete. Aqui está a cópia da página para você.
  • A história do sorvete? — repetiu David.
  • Sim. Se você for um bom menino, algum dia poderei lhe contar algo a respeito.
  • Estarei aguardando ansiosamente.Seria o modo como pronunciava a letra erre, o ar displicente, ou simplesmente a ressonância? Não tinha certeza de nada.Fora bom esportista na experiência de Ravinia e também durante o jogo de beisebol. E embora ainda resmungasse sobre a falta de racionalidade em abrir uma sorveteria, seus protestos perdiam con­vicção a cada dia. Até sugerira o nome: The Scoop Coop!—Como irá fazer com que estes dois se casem se ainda nem conseguiu que se beijassem? — Betty perguntou, marchando sobre o balcão de mármore coberto com uma toalha empoeirada.

 

    • Faltava a Anastasia apenas fazê-lo admitir como era bom so­nhar. Então sua missão estaria concluída.
    • Uma coisa sabia: David ainda não confiava nela completamente. Mas, tinha de admitir, vinha sendo bastante simpático.
    • Ela estava muito consciente do tom provocador daquela voz e do brilho especial nos olhos azuis. Cada vez mais apreciava ouvi-lo falar e mentalmente tentava decifrar o que existia naquela voz que a intrigava tanto.
  • Eles não estão agüentando de vontade — respondeu Hattie, flutuando.
  • Tenho de concordar com Betty desta vez — falou Muriel. —Jason e Ryan já teriam beijado suas almas gêmeas nesta etapa. Hattie deu às irmãs um olhar de reprimenda.—Pensei que, com a ajuda de Claire, as coisas se acelerariam. Hattie balançou a cabeça e quase derrubou o chapéu vermelho.

 

    • —Anastasia tem seu próprio ritmo. Vocês duas já deveriam saber disto.
  • Não me recordo de Betty ter falado qualquer coisa sobre velocidade. Pelo que me lembro, falou que a assistência de Claire nos daria mais tempo para que cuidássemos de nossas outras ta­refas e faria este compromisso ser como saborear um pedaço de bolo. E claro, logo depois que falou isto, Anastasia empurrou aquele bobalhão para cima do bolo de casamento.
  • Meu primeiro palpite de que as coisas não transcorreriam com muita facilidade — murmurou Betty.
  • Mas nunca transcorrem! Você disse que era mais um desafio —Hattie a lembrou.
  • Menti.
  • Ora, ora! — falou Hattie. — Acho que vocês duas estão se preocupando desnecessariamente. As coisas estão indo bem. David já se simpatiza com Anastasia. Pode estar confuso com a atração que sente, mas age de maneira positiva. E ela está vendo uma promessa definitiva nos olhos azuis. Notaram como o provocou ao falar da história do sorvete?
  • E o que há de especial em fazer uma provocação sobre a história do sorvete? — perguntou Muriel. — Todos sabem que o sorvete foi criado pelas fadas-madrinhas há muitos e muitos anos.
  • Na verdade, a história humana escrita em livros diz que as origens do sorvete são um mistério — disse Hattie.

 

    • Muriel deu de ombros.
  • Ora, é apenas a maneira de eles contarem que foram as fadas-madrinhas as criadoras do sorvete.
  • Talvez Anastasia queira dizer isso a ele.
  • Certo, certo — ironizou Betty.—Se ela falar em fadas-madrinhas, aí sim David nunca mais lhe dará crédito algum.

 

  • Muriel, como sempre, teve a última palavra.
  • Tem certeza de que está pronta para isto? — David perguntou a Anastasia uma semana mais tarde. — É um passo importante a ser dado.
  • Já esperamos demais — respondeu sem ar. — Estou pronta. Agora dê-me o rolo. — Pegou-o da mão de David. — Temos muitas paredes para pintar,
  • Tem certeza de que é assim que quer passar seu dia de folga?
  • Absoluta.

 

    • Arrumou as alças de seu macacão e o fitou.
  • Por quê? Teme que eu seja melhor pintora do que você?
  • Sim, estou tremendo de medo — ironizou.
  • Você me desafiou, sr. Reforma. Pegue seu rolo e se prepare para encarar um ser superior.
  • Superior em quê?
  • Mexa-se! Já está atrasado.Ou bons genes.David colocara uma seleção de música dos anos oitenta, de Kenny Loggins a David Bowie e Cyndi Lauper.Naquele instante, inadvertidamente, o pincel escapou de sua mão durante um passo de dança particularmente entusiasmado. Infelizmente o objeto voou na direção de David, atingindo o ombro direito de sua camiseta.

 

    • Anastasia terminara a parede que lhe fora designada e estava usando um pincel para acertar os cantos enquanto tocava a música: Garotas Apenas Querem se Divertir.
    • Acabaria se acostumando a tê-lo por perto, embora tudo pare­cesse bastante perturbador com David por ali. Até mesmo a cor azul escolhida por Claire para pintar as paredes parecia pertur­bá-la ao lembrar os olhos do atraente neto.
    • Anastasia notou o quão sensual era David. Talvez fossem os exercícios de pular obstáculos, que felizmente já não aconteciam às cinco horas da manhã.
  • Oops
  • Oops? — ele repetiu, fingindo raiva. — Esta era a última camiseta limpa que me restou desde que eu iniciei este trabalho. Vou lhe mostrar o que é oops.

 

    • Avançou na direção de Anastasia como um homem pronto a revidar. Ela rapidamente se postou como uma mulher que não se sentia amedrontada.
  • Está bem, venha! — exclamou em desafio. — Mas pense melhor antes que faça algo de que possa se arrepender.
  • Oh, não acho que me arrependerei. Você poderá, entretanto.
  • Foi um acidente, eu juro! — Anastasia levou a mão ao peito para fazer o juramento. Então acrescentou: — Se eu realmente tivesse tido intenção de atingi-lo, teria feito algo melhor do que isto.
  • Como o quê?

 

    • Alcançou-a, espirrando pingos de tinta azul no meio da camiseta alaranjada que ela usava por debaixo do macacão.
  • Também posso fazer isso, camarada! Daquela vez foi ela quem avançou.
  • Acho que deveríamos ser adultos e terminar isto imediatamente.
  • É fácil para você falar.—  Ao ataque!Aquilo lhe chamou a atenção.A próxima coisa que Anastasia percebeu foi que ele a pegava nos braços. O riso cessou quando, em sua tentativa de se livrar, seus lábios ficaram a milímetros dos de David.O beijo foi longo e envolvente. Anastasia ficou pasma com a paixão que David lhe despertara. Será que percebera? Estaria sentindo o mesmo?Então não era a única a estar afetada. Mas aquilo tudo terminou com a mesma rapidez com que começou.Tentou manter o equilíbrio, apesar de estar trêmula. Lançou a David um sorriso brilhante e disse:

 

    • Ficou pensando no motivo de terem se afastado e só então notou que já não estavam mais sozinhos. A pessoa contratada para cuidar do aquecimento central e seu assistente haviam re­tornado da pausa para o almoço.
    • As mãos dela estavam pousadas no peito largo, postas ali com uma atitude para se prevenir de que ele a pintasse mais uma vez, mas naquele instante... Naquele instante agarravam o tecido com tenacidade felina. Podia sentir o coração de David bater for­temente sob suas palmas.
    • Baixando a cabeça, ele a beijou. Não havia qualquer traço da insegurança que normalmente surgia durante um primeiro beijo. Em vez daquilo, existia muita precisão. E sensualidade.
    • —  Agora você me provocou.
    • David estava tão distraído, rindo, que ela com facilidade pintou seu braço nu.
    • Usando o pincel como se fosse uma espada, gritou:
  • Foi uma boa tentativa de me distrair, mas ainda sou melhor pintora do que você.
  • E também não beija mal.
  • Obrigada.Era algo com o qual não poderia lidar no momento, por isto pegou o pincel e retornou ao trabalho, acrescentando:O beijo a deixara insegura e poderia colocá-la em sérios apuros. Tinha plena convicção daquilo.David não sabia o que o levara a passar na biblioteca onde Anastasia trabalhava, Mas não estava se sentindo sossegado du­rante todo o dia. Aquele beijo que partilharam no dia anterior o deixara fora de órbita.Mas, e se Anastasia não tivesse plano algum? O pensamento lhe ocorrera várias vezes nos últimos dias.Deteve-se. De onde viera o pensamento de que poderiam ficar juntos? Eram diferentes demais!A seção da biblioteca pública de Chicago onde ela trabalhava pa­recia mais ser uma loja. Teve pouca dificuldade em encontrar o de­partamento infantil; apenas seguiu o mural feito em forma de arco-íris na parede até encontrar uma mesa gigantesca e cadeiras.Naquele dia, seus longos cabelos castanhos caíam em cascata por sobre os ombros. Usava jeans e blusão sobre uma camiseta vermelha.Era claro que aquilo o fez pensar no incrível beijo partilhado com Anastasia, e foram necessários cinco bons minutos até que conseguisse retornar à Terra. Na ocasião, ela já contava outra história.—Henrietta, Betina e Maria adoram rir. Vocês conseguem rir? — Anastasia perguntou às crianças.

 

    • Todos fizeram aquilo com enorme entusiasmo.
    • Em suas mãos havia uma série de desenhos feitos em papel laminado. Relatava um conto sobre um trio de fadas-madrinhas que desejavam ter asas maiores.
    • Lia para as crianças uma história engraçada de um sapo que, quando beijado por um príncipe, tornara-se uma linda bibliotecária.
    • Logo localizou Anastasia. Estava no meio de uma multidão de vinte e cinco crianças.
    • Talvez vê-la em seu próprio ambiente lhe desse um pouco mais de perspectiva.
    • Talvez fosse apenas ingênua, entusiasmada e nada prática. Po­dia não estar enganando sua avó. Mas aquilo não significava que era a mulher certa para ele.
    • Quem poderia ter previsto que a moça beijaria daquela maneira? Seria seu modo de distraí-lo de sua missão em descobrir o que ela planejava?
    • Temia que David também tivesse.
    • — Mas ficar flertando comigo não o levará a lugar algum.
    • A voz de Anastasia estava inconstante. O beijo a fez vê-lo de outra maneira, de um modo que lhe tirava o controle da situação.
  • Também apreciam sorvetes. Vocês gostam de sorvete? A maioria gritou, mas uma garotinha falou com desdém:
  • Engorda.Diversas crianças foram para a frente e apontaram para um canto da ilustração.

 

    • —    Mas fadas-madrinhas não engordam, Mitsy — comentou Anastasia, sorrindo. — Hoje nossas fadas-madrinhas têm um trabalho a fazer. Precisam ajudar a princesa Sarah a encontrar seu gatinho perdido. Vocês conseguem encontrar o gatinho nesta gravura?
  • Gatinhos arranham as pessoas e os sofás. — A informação viera de Mitsy.
  • Já que fadas-madrinhas podem voar — continuou Anastasia —, ficam no alto das árvores. Talvez o gatinho tenha subido em uma árvore. Vocês podem apontar a árvore desta gravura?—    Viram diversos pássaros, mas nada do gatinho. Então per­guntaram a Robbie se ele vira o animal.—    As fadas-madrinhas começaram a^ficar preocupadas. Como vocês ficam quando estão preocupados?Quando Anastasia sorriu para encorajar uma das crianças, Da­vid momentaneamente distraiu-se com a curva dos belos lábios e a lembrança do beijo.O que significava? Que tinha muita experiência? Ou que apenas possuía um dom natural?

 

    • Franzindo a testa, tentou focar a atenção nas palavras em vez de na boca sensual.
    • Onde ela teria aprendido a beijar daquela maneira? Certamente não fora em um livro.
    • O grupo fez caretas, torcendo o nariz e franzindo a testa. A pequena queixosa não precisou fazer nada; sua expressão já era bem próxima de uma criança mal-humorada.
    • —  Passarinhos fazem sujeiras nos carros — disse Mitsy. David sentiu-se tentado a dizer à criança para relaxar, mas Anastasia parecia estar acostumada aos comentários pessimistas da menina.
    • —  Há insetos nas árvores — falou Mitsy, estremecendo. Anastasia não perdeu o ritmo.
  • Então elas usaram as varinhas mágicas para separar as folhas das árvores — estava dizendo. — Fizeram o vento soprar.
  • Folhas causam sujeira — Mitsy falou.
  • E na árvore mais alta, escondido por entre folhas, estava o pequenino gatinho Smitten. Smitten estava com medo de descer daquela árvore. Então vocês sabem o que as fadas-madrinhas fizeram?
  • Deram um tiro nele? — um garotinho ruivo perguntou.
  • Não, claro que não! — gritou Anastasia, fazendo-se de as­sustada e dando-lhe um olhar reprovador. — Aquilo machucaria o gatinho e vocês nunca devem machucar os animais ou atirar em qualquer coisa.
  • Usaram magia — um menino falou, tirando momentanea­mente o polegar da boca.
  • Exatamente, Bobby! Usaram as varinhas mágicas para levar o gatinho para perto da princesa Sarah. As fadas-madrinhas, que sempre se acharam estranhas e feias porque tinham pequenas asas, viraram heroínas. A princesa ficou muito feliz em ter o ga­tinho de volta, e vocês sabem o que ela deu às fadas-madrinhas?
  • Um montão de dinheiro? — o ruivinho sugeriu.
  • Deu a elas um dia de folga — opinou David. Anastasia pareceu surpresa em vê-lo mas continuou com a história.
  • Deu de presente às fadas o riso e a confiança.
  • Se elas rirem como você, o presente não é nada ruim — disse ele com voz rouca.
  • Oh, vocês dois vão se beijar? — o ruivinho perguntou curioso.
  • Não, não vamos — disse Anastasia com o que David as­sumiu ser sua voz de bibliotecária. — Estarei com você em um minuto, David.

 

    • Primeiro completou a seqüência de histórias contando sobre um animal de estimação chamado srta. Mouse e, somente quando os pré-escolares retornaram para junto dos pais, ela voltou a aten­ção ao inesperado visitante.
  • O que faz aqui?
  • Pensei em passar para ver o que você faz para viver. Canta e conta histórias. Não é uma tarefa ruim.
  • É algo bom, mas faço bem mais do que cantar e ler histórias. Também atendo no balcão, respondendo às perguntas das crianças, como que espécies de animais vivem na América do Sul, por exem­plo. Também recomendo livros para que leiam para se distraírem. Tomo decisões administrativas, crio novos programas e projetos. E preciso gostar muito de crianças para se executar bem este trabalho. Não é algo que se possa aprender.Seu instinto de solteiro o alertou para o perigo daquele pensamento.

 

  • —  Então que animais vivem na América do Sul?
  • A visão dela rodeada de crianças o fez imaginar que espécie de mãe seria.
  • Onças, pacas, cotias, macacos, jacarés e cobras. Sei disto porque respondi sete perguntas sobre o assunto ontem. Também atendi um garoto da quarta série que queria uma fotografia de um dinossauro e ficou bem aborrecido por eu não ter sido capaz de mostrar uma.
  • Você fez com que ele contatasse Steven Spielberg?
  • Isso mesmo!

 

    • David pegou alguns cartões com ilustrações que estavam pró­ximos. Sentia necessidade de ocupar as mãos.
  • De que livro tirou estas figuras?
  • Eu as desenhei.
  • Não são ruins — observou surpreso. — Embora eu não en­tenda muito desse assunto.
  • Obrigada.Ele usava computador às vezes, mas nunca se sentira confor­tável com a máquina. Anastasia, entretanto, parecia estar perfei­tamente à vontade.Parecia competente e muito inteligente, o tipo de mulher com a qual sempre evitara se envolver.Quando ela se aproximou novamente, David falou:

 

    • Admitia atualmente um certo absurdo em achar que Anastasia seria capaz de ludibriar sua avó, mas aquilo não mudava o fato de ser bibliotecária e ele um investigador criminal passando por crise de identidade.
    • Ali, em seu ambiente de trabalho, não parecia esfuziante, ma­luca ou com intenção de enlouquecê-lo com seu sorriso sensual e riso provocador.
    • Um momento mais tarde Anastasia pediu licença para ajudar uma mãe a encontrar um livro para seu filho ler. Quando foi para a escrivaninha digitar algo no computador, David ficou impres­sionado em ver o quão profissional parecia ser.
  • Você notou que temos poucas coisas em comum?
  • Por que está falando isto?
  • Você é uma bibliotecária que gosta de música clássica, e eu um investigador que aprecia beisebol. E os Three Stooges.
  • Você prefere Shemp ou Curly? — ela o impressionou ao indagar.
  • Curly.
  • E quantos comediantes atualmente fazem parte dos Three Stooges?
  • Seis. Qual o sobrenome de Larry?
  • Fine. Larry Fine.
  • Certo. Você é boa nisso!
  • É isto que tenho tentado lhe dizer — respondeu-lhe com um sorriso.
  • Nunca conheci uma mulher que gostasse dos Three Stooges.
  • Ah, você nunca conheceu uma mulher como eu...
  • Começo a pensar que pode estar certa sobre isso — murmurou.
  • Eu sempre estou certa — observou Anastasia com sorriso irreverente.
  • Espero que não se importe. Convidei David para nos acom­panhar à feira de pechinchas hoje — disse Claire para Anastasia na tarde seguinte.
  • Não, não me importo.— Ótimo. Fico feliz em ouvir isto. Também fico contente em ver como você está honrando sua palavra e dando um jeito de fazer meu neto se divertir. Notou como parece estar mais relaxado?Os rapazes com os quais namorara eram divertidos e amorosos, mas irresponsáveis. Começava a achar muito interessante um ho­mem que cumpria o que dizia, que beijava como se não houvesse amanhã, que tivesse incríveis olhos azuis e voz rouca.A voz de David a assustou. O jeans e a blusa indiana amarela que ela usava haviam lhe parecido apropriados para acompanhar Claire, mas naquele instante ficou preocupada com sua aparência perante os olhos do neto da amiga.   Claire insistira em sentar-se no assento de trás. Se não a co­nhecesse bem, suspeitaria de que tentava brincar de cupido. Cer­tamente não. A amiga sabia o quanto Anastasia valorizava a pró­pria independência.A feira acontecia no pavilhão Kane Country. Do lado de fora, fazendeiros do Michigan e Wisconsin vendiam sacolas de maçãs frescas e sidra de maçã.Cada equipe ocupava espaços com placas onde se lia: carneiro 1965, porcos 1960... As baias de animais haviam se tornado es-tandes individuais. Em um se via porcelanas, no seguinte materiais plásticos, no outro prateleiras com enfeites de Natal.Anastasia fora designada a chefe de expedição.Fizeram algumas paradas ao longo do caminho. Anastasia não resistiu e comprou um pedaço de bolo. David quase não conseguira resistir ao açúcar grudado nos lábios dela, mas apenas se permitiu comprar um pôster do Three Stooges.

 

    • Uma vez tendo seu achado nas mãos, ele lhe disse:
    • —    Ouvi dizer que mais adiante deve haver um bar espelhado — disse. — Algo assim ficaria lindo na parede atrás do balcão de mármore.
    • Alguns ofereciam jóias antigas e uma grande variedade de mó­veis feitos a mão e restaurados.
    • Dentro do pavilhão, fileiras imensas de vendedores ofereciam desde máquinas industriais até vidros para janelas.
    • Decidiu que o dia estava bonito demais para permitir quaisquer preocupações. Quanto mais iam para oeste, mais se distanciavam da cidade e da poluição. E mais intensamente azul o céu se tornava.
    • Enquanto David dirigia a caminhonete rumo ao sul, indo da interestadual 294 para a 88, Anastasia mantinha a conversa casual e tranqüila.
    • —  Vocês duas estão prontas?
    • Anastasia assentiu. Notara muitas coisas em David. Presen­ciara o quão bondoso era para com a avó. Ele tinha um sólido senso de responsabüidade e faria algo, por mais impossível que se revelasse, se houvesse prometido fazê-lo.
    • Era o primeiro sábado de setembro, e iriam à Feira Kane Coun-try em St. Charles, a cerca de noventa minutos ao sul de Chicago, para procurar mais objetos para a sorveteria.
  • A maior parte das mulheres não gosta do humor dos Three Stooges.
  • Esta foi a coisa mais sensual que já me disse. Meu irmão Ryan me apresentou aos Three Stooges quando éramos crianças. Meu irmão Jason não gosta do grupo até hoje.
  • Jason tem a mesma idade que você?
  • Diferença de poucos minutos apenas. Mas você jamais adi­vinharia se notasse o modo como tentava mandar em Ryan e em mim quando éramos pequenos. Na verdade nascemos todos no mesmo ano e dia.
  • Você quer dizer que...
  • Somos trigêmeos.
  • Trigêmeos?
  • Exatamente. Meus pais estavam tentando ter filhos havia muito tempo sem qualquer êxito. Então foram a um especialista em fertilidade e, como papai diz, funcionou. A única parte difícil foi nos criar em uma casa com apenas um banheiro e dois irmãos que pareciam ser donos do quarto.Sabia que um trabalhava para o escritório U.S. Attorney em Chicago, e o outro era agente U.S. Marshal. Aparentemente for­mavam uma família de boa índole.Ela poderia não ser uma vigarista, mas era uma sonhadora, e David sabia o quão perigoso aquilo poderia ser. Não estava pronto para dar aceitar plenamente Anastasia ou aquele projeto.Quando encontraram o estande que procuravam, David obser­vou que Anastasia exigiu que Claire formasse sua própria opinião sobre comprar o bar espelhado ou não.Quando David se aproximou para olhar a peça vitoriana, per­cebeu que realmente ficaria bonita na parede dos fundos da loja. E o trabalho fora bem-feito. Já não se faziam mais peças assim atualmente.Enquanto o pedido era preenchido, David finalmente registrou os olhares surpresos de Anastasia e Claire, e falou:

 

    • Começou então a barganhar com o vendedor em busca de um bom preço, incluindo entrega gratuita.
    • Percebeu que a avó realmente o queria e o objeto era maravi­lhoso. Duvidava de que coubesse em sua caminhonete, mas o ven­dedor dissera que o entregaria.
    • Era verdade que sua avó parecia ser capaz de cuidar da vida financeira sozinha, mas a sorveteria ainda era um negócio de risco. E ele não fazia idéia de qual seria a próxima idéia esquisita da bonita bibliotecária.
    • Não acreditava que ela fosse desonesta. Era franca demais para enganar alguém. Aquilo não significava, entretanto, que exercesse boa influência sobre Claire.
    • Em sua investigação sobre o passado de Anastasia, notara que ela tinha dois irmãos, mas não prestara atenção às idades ou datas de nascimento.
  • O que foi? Quando se está em um negócio, deve-se procurar o melhor preço possível. Dinheiro não cresce em árvores, vocês sabem.
  • Eu sei — murmurou Anastasia, o riso e apreciação evidentes em sua voz. — Apenas não achei que o veria tão envolvido assim em decorar uma sorveteria.
  • Não se acostumem com isto... — respondeu encabulado.Não se acostumem com isto." As palavras de David imediatamente ecoaram na cabeça de Anastasia com impressionante ênfase. A questão é que ela estava se acostumando a tê-lo por perto, a provocá-lo e a sentir seus beijos.

 

    • Talvez estivesse indo longe demais para alguém que se propu­sera somente lhe ensinar a sonhar e se divertir. Por que estava se permitindo entrar em terreno tão perigoso?
    •  
  • Você está bem? — David indagou ao vê-la subitamente quieta. — Está com uma expressão esquisita.
  • Estou bem — mentiu, passando a mão pelo rosto para afu­gentar o pânico. — Está calor aqui dentro. Acho que vou lá fora respirar ar fresco e talvez tomar uma limonada gelada.O esforço físico que ele estivera fazendo na reforma da casa mostrava-se na forma dos músculos bem delineados.

 

  • Olhar para David enquanto falava apenas a fez sentir mais calor. Ele usava jeans e a mesma camisa da primeira vez em que o vira. Naquele instante, como sempre, as mangas estavam enro­ladas para cima, mostrando os antebraços morenos.

Anastasia mantinha olhos atentos em tudo que se referia a David e aquilo a preocupava. A idéia fora lhe ensinar a relaxar, divertir-se e sonhar. Apenas aquilo.

 

E estava tendo sucesso. Embora a viagem a Ravinia não hou­vesse transcorrido da maneira como planejara, ele mostrava sinais de tranqüilidade.

Queixava-se menos sobre o quão tola Claire fora em comprar o prédio, pouco falava dos negócios que fracassavam no primeiro ano e coisas do gênero.

—    Você enrubesceu, querida — notou Claire, parecendo preo­cupada. — Espero que não esteja sentindo nada de errado.

—    Eu também — murmurou.

Era melhor não sentir nada pelo neto de sua grande amiga. Porque, por melhor que beijasse, ainda não a aceitava nem confiava nela plenamente.

—    Sente-se zonza? — indagou David, colocando o braço ao redor de sua cintura como se temesse que Anastasia fosse desmaiar.

A proximidade apenas a fez sentir mais calor.

  • Apenas preciso tomar uma limonada.
  • Nada de sorvete? — ele a provocou.
  • Não seria tão bom quanto o de Claire. Fiquei mimada.
  • Vovó é muito boa nisso.Anastasia não fazia idéia de quanto tempo permaneceram em pé ali, fitando-se como tolos apaixonados antes de o som da voz de Claire trazê-los de volta ao planeta Terra. Rezou para terem sido apenas um ou dois segundos e não os dez minutos que pareciam.

 

    • Os olhos de Anastasia encontraram os de David casualmente mas ela viu-se fascinada pelo tom maravilhoso daqueles olhos mais uma vez.
  • Oh, vejam! — exclamou Claire. — Lá está o simpático sr. Rozenkrantz. Talvez queira se juntar a nós para tomar limonada.
  • Quem é o sr. Rozenkrantz? — perguntou David quando a avó caminhou na direção do homem e para fora do pavilhão.
  • É dono de uma loja de antigüidades vizinha a nosso prédio — respondeu Anastasia, sentindo-se melhor ao aspirar ar puro.
  • O que minha avó está fazendo?
  • Bem, eu estou apenas supondo... — respondeu Anastasia, em tom de pilhéria —, mas parece estar conversando com o sr. Rozenkrantz.
  • Está fazendo mais do que apenas conversar com o homem. Veja como mexe os cílios. Está... flertando com ele!

 

    • Parecia escandalizado. Anastasia não agüentou e riu,
  • Qual a graça?
  • Você.

 

    • Não pôde dizer mais nada porque Claire se juntou aos dois com um embevecido sr. Rozenkrantz a seu lado.
  • Ira, gostaria que conhecesse meu neto David. E esta é minha amiga Anastasia.
  • Anastasia vai sempre a minha loja. Como ficou aquele tapete em sua casa?
  • Combinou perfeitamente com a decoração da sala — respondeu. Sorrindo, Ira apertou a mão de David e a balançou com vigor.
  • Prazer em conhecê-lo. Sua avó sempre me fala de seus feitos.
  • Quando ela faz isto?
  • Quando pára em minha loja para um chá à tarde. O desprazer de David aumentou.
  • E há quanto tempo isso vem acontecendo? Anastasia rapidamente interveio.Puxou-o até estarem fora de serem ouvidos por Claire e seu amigo.

 

    • — Oh, vejam! Há uma sela de camelo bem ali. Busco uma há anos. David — colocou a mão em seu braço —, venha comigo para me conseguir um bom preço pela peça.
  • Por que você precisa de uma sela para camelo?
  • Não preciso, apenas estava evitando que você fizesse papel de bobo.
  • Eu?
  • Parece um pai com ciúme da filha adolescente. — Imitou seu tom de voz: — "E há quanto tempo isto vem acontecendo?" Credo! — Voltando a sua voz normal, ela falou: — Ora, vamos! Sua avó é adulta. Pode tomar chá com um amigo se quiser.
  • Foi você quem promoveu isso, não foi?
  • A amizade dela com Ira? Claro! Por que não? — Porque ela é minha avó.
  • E o que a impede de ter vida própria?
  • Está na casa dos setenta anos!
  • Ira também — disse Anastasia. — E daí? Mantendo o olhar fixo em seu oponente, David falou:
  • Quais são as intenções dele?

 

    • Estava começando a aborrecê-la de verdade.
  • O que o faz pensar que ele tem quaisquer intenções?
  • Todos têm intenções.
  • Então quais são as suas?
  • Estou apenas tentando proteger minha avó.
  • De quê?
  • De se machucar. De ser explorada.
  • Assim como achou que eu estava tirando vantagem dela?
  • Não tenho certeza se você exerce uma boa influência sobre minha avó.
  • E você exerce?

 

    • David pareceu atônito com a pergunta.
  • E claro que sim. Busco apenas o que é melhor para ela.
  • Contanto que seja o que você acha que é o melhor.
  • Se Claire fizesse as coisas a sua maneira, jamais teria opor­tunidade de realizar seu sonho... Arriscando a própria segurança financeira — complementou.

 

    • Anastasia não iria deixar de responder à acusação.
  • Você realmente pensa tão pouco sobre sua avó? Ela é muito esperta. Sabe o que está fazendo.
  • Meu Deus! Ela está flertando com um homem que cuida de antigüidades. Olhe só para o sujeito! Está colocando a mão no ombro dela!
  • Pare com isto! — gritou, e depois riu.
  • Não é divertido — protestou David.
  • Certamente é.
  • Apenas porque você tem um senso de humor esquisito.
  • O que é melhor do que não ter senso de humor algum — murmurou, lançando-lhe um olhar de superioridade.
  • Não vou discutir isto com você.
  • Está certo, não vai. Mas apenas porque é preciso duas pessoas para discutir, e eu não tenho intenção de travar uma briga com você.
  • Que espécie de briga?
  • Uma que você perderia.Não podia acreditar o quão infantil ele estava sendo a respeito da amizade de Claire com Ira. Tão destrutivo e detestável! Todas suas maneiras rudes estavam vindo à tona conforme quando o conhecera.

 

  • Justamente quando achava que estava melhorando, o velho Da­vid retornava.
  • Levantando a cabeça, marchou para perto de Claire e Ira, dei­xando para trás um David furioso.
  • Então, Ira, há quanto tempo você está no negócio? — David lhe perguntou ao juntar-se aos três para tomar limonada. — O que foi? — acrescentou quando as mulheres o fitaram com censura.
  • Ao menos aguarde até que ele se sente e tome um gole de limonada antes de fazer perguntas — respondeu Anastasia. Olhou para Ira e disse: — David é investigador criminal. Faz parte de sua natureza ser intrometido e desconfiado. Não leve isto de modo pessoal.
  • Não levarei — Ira lhe garantiu, os olhos castanhos brilhando de divertimento.

 

    • Os cabelos brancos podiam ser ralos, mas o homem era charmoso.
  • Estou no negócio há dois anos, David.
  • Não é muito tempo. Sempre trabalhou com antigüidades?
  • Não, tentei diversas coisas.
  • Aposto que sim — murmurou.—  Comprei um bar espelhado maravilhoso, Ira, com lâmpadas estilo Tiffany e um adorável espelho no centro. Já posso imaginar como ficarão bonitos meus vasos com tulipas nas prateleiras. Foi um achado!

 

    • Com um olhar de reprimenda na direção de David, Claire mudou de assunto.
  • Assim como você — murmurou Ira galantemente.
  • Já foi casado, Ira? — indagou David com a sutileza de um búfalo em uma loja de porcelanas.
  • Diversas vezes — admitiu o senhor.—    Talvez você deva pegar Ira pelos colarinhos agora e terminar de uma vez por todas com isso — sugeriu Anastasia.

 

    • David a fitou. Estaria cega? Não podia ver que o tal Ira sig­nificava problemas?
    • Ótimo!, pensou com ironia. Então o homem era mulherengo. David sabia haver alguma coisa estranha no sujeito. E a resposta evasiva sobre ter tido diferentes negócios também era suspeita.
  • Eu estava apenas conversando.
  • Certo.Fingia não estar prestando atenção, mas quando mais tarde percebeu que Ira fazia planos para levá-la para jantar naquela noite, soube o que tinha de ser feito.Nem pôde acreditar em sua sorte quando o encontrou.Quando David a convidara para jantar, Anastasia se sentira tentada a recusar porque ele fora muito rude com Ira. Mas então observara a expressão de desculpas, cheia de sensualidade e re­morso, uma combinação absolutamente irresistível. Capitulou como um castelo de areia batido por uma onda.—    Está maravilhosa — disse ele de modo convincente. — Pensei em caminharmos até o restaurante, já que o tempo está tão bonito. E é tão perto — acrescentou, olhando então para os sapatos de salto alto.Ele usava terno escuro e camisa azul combinando com a gravata. Cores escuras lhe caíam muito bem.Andaram de mãos dadas os três quarteirões até o restaurante escolhido. Anastasia conhecia o Rosa's muito bem; oferecia a me­lhor comida italiana da vizinhança. Será que David sabia ser um de seus lugares favoritos?Ao ver Ira e Claire apreciando um romântico jantar a dois, compreendeu o que realmente acontecia. Furiosa, falou:Mas era tarde demais. O casal já os havia avistado.

 

    • —    Seu traidor! Não vou ficar aqui e ser parte de sua missão de espionagem!
    • Sentiu-se aquecida e entusiasmada ao considerar que ele se preocupara em tornar aquela noite especial. Desde a rosa que lhe trouxera até a escolha do restaurante. Somente quando entraram no Rosa's a realidade a recepcionou de sobressalto.
    • —  Gostaria muito de caminhar — concordou.
    • —    Podem ser bonitos, mas acima de tudo são confortáveis — disse-lhe Anastasia quando conseguiu recuperar o fôlego.
    • David chegou a sua porta precisamente no horário marcado. Em sua mão havia uma única rosa vermelha, a qual lhe estendeu com um sorriso estonteante.
    • O batom de um vivido tom de vermelho combinava com o clima dos anos quarenta. Assim como os brincos e o bracelete que ad­quirira na feira daquela tarde, depois que ela e David haviam deixado Claire com Ira por algumas horas.
    • Anastasia verificou sua aparência no espelho pela quinta vez. Estava muito bonita. O vestido, desenhado à moda dos anos qua­renta, tinha um corpete preto combinando com a saia de seda da mesma cor.
    • David rapidamente percebeu que não conseguiria informações adicionais sobre Ira enquanto Claire e Anastasia estivessem por perto. Por isso resolveu ficar quieto enquanto ouvia a conversa do homem com sua avó sobre sorvete e milhares de outras coisas.
  • Anastasia... David! — chamou Ira. — Venham se juntar a nós.
  • Nós não podemos... — disse Anastasia.
  • Mas veja só que sorte virmos até aqui — David a interrom­peu. — Que coincidência!
  • Que farsa! — murmurou Anastasia.Um garçom trouxe mais duas cadeiras e colocou outros pratos na mesa. David observou o cardápio e falou:

 

    • Poderia ter ido embora, mas não queria aborrecer Claire. Tam­bém estava determinada a proteger sua amiga da maldita influên­cia do neto. Por isso ficou. Mas estava brava, furiosa.
  • E então, o que recomendam?
  • Fingido! — Anastasia exclamou baixinho.
  • Não vejo isto no cardápio — respondeu David.
  • Vocês dois estão brigando? — perguntou Claire, preocupada.
  • Ainda não — respondeu Anastasia. — Mas a qualquer minuto a partir de agora...

 

    • Claire franziu a testa para David.
  • O que você fez?
  • Eu? O que a faz pensar que foi algo que eu fiz?
  • Ela o conhece — falou Anastasia.—  Claire está namorando?

 

    • Hattie estava sobre uma saliência feita de gesso e que adornava o teto do Rosa's. Franzia a testa.
    • —  Sim, querido, eu realmente conheço você. Agora comporte-se. Anastasia sorriu. Claire, felizmente, havia colocado o neto em seu devido lugar. Mas teimoso como era, duvidava de que levasse a reprimenda a sério por muito tempo.
  • Achei que a tarefa dela fosse ser cupido para Anastasia e David. Devia focar sua atenção nisto. Eu não falei para ela na­morar. Por que está fazendo isto?
  • Porque é humana, e você não.
  • Com toda certeza — disse Hattie, brava.
  • Oh, supere isto!Arrumou o chapéu e mirou-se no espelho que recentemente instalara na ponta de sua varinha mágica.Muriel deu de ombros.Betty balançou a cabeça ao ouvir a frase da irmã e lhe deu um olhar de reprovação.

 

    • —    Então recebemos multa por excesso de velocidade na estrada da vida.
    • —    Apenas estou dizendo que as coisas estavam indo bem demais entre Anastasia e David na feira até que o tal de Ira apareceu e Claire começou a namorá-lo. Agora David ficou distraído com a avó, e Anastasia quer enforcá-lo.
    • Muriel lançou um pedacinho de pão na irmã. Errou o alvo por­que Hattie saiu voando naquele exato instante e a desconcentrou.
  • Você esteve surfando na Internet novamente, não é mesmo? Eu a avisei para não visitar as salas de bate-papo.
  • Eu apenas as uso como fonte de pesquisa sobre o compor­tamento humano e coisas assim — defendeu-se Muriel.
  • Devíamos nos preocupar com Anastasia e David... — lembrou Hattie. — O que vamos fazer?
  • Se eu fosse você, sairia de perto deste ventilador de teto — falou Betty.
  • E por quê?
  • Porque alguém acabou de ligá-lo.O chapéu passou a cobrir seu rosto e a bainha do vestido estava na altura da cintura, mostrando sua calcinha colorida.

 

    • O pouso forçado derrubou a garrafa aberta de água com gás que o barman estivera bebendo, fazendo o líquido escorrer pela beirada e cair bem sobre o rosto de Hattie.
    • Um instante mais tarde, Hattie era jogada para o outro lado da sala. Caíra no bar, perto de uma garrafa de uísque.
  • Primeira regra para fadas-madrinhas — recitou Muriel. — Cuidado com onde pousa.
  • Está bem — David falou ao acompanhar Anastasia para casa. — Admito não ter sido justo ao incluir você em meus planos de proteger minha avó...

 

    • Anastasia, que estivera marchando dez passos à frente dele, virou-se e lhe lançou um olhar glacial.
  • Vou lhe dizer o que não é justo. Você... Ora! Levou uma das mãos para o alto.
  • Estou brava demais até mesmo para falar com você.
  • Isto significa que não vou ganhar um beijo de boa-noite?
  • David, David...—  Como você me conhece pouco!— Não apenas receberá um beijo assim... — Puxando-o para perto, Anastasia deu-lhe um beijo na boca bem no meio da calçada. — ...como também sentirá falta disto.David estava em seu apartamento, prestes a abrir a segunda lata de cerveja quando ouviu uma batida à porta. Achando que pudesse ser Anastasia, abriu-a com cautela e antecipação.

 

    • No segundo beijo, ela premiu seus corpos com tamanha paixão que David imediatamente quis abraçá-la, mas então já era tarde demais. Anastasia se afastava, correndo até o prédio. Em segundos, a porta batia com veemência suficiente para derrubar o casa.
    • David assustou-se com aquela mudança de comportamento.
    • Em vez de ficar mais brava, conforme ele esperara, falou:
  • Parece que estava esperando alguém — notou Claire.
  • Sinto muito, vovó. Entre. Acho que está aqui para falar sobre meu comportamento — disse, sentando-se novamente no sofá de couro que era sua única peça de mobília na sala de estar, além do móvel onde estavam a televisão e outros apetrechos.
  • E claro que não, querido.—  Quer um copo? — perguntou ele, observando-a dar um gole. Nunca vira a avó beber cerveja antes.Claire mais uma vez deu-lhe um tapinha na mão.—    Como dependo do seguro social, é muito mais sensato morar com alguém — disse ela. — Caso contrário eu perderia os benefícios.

 

    • David a fitou de maneira tão intensa que Claire acrescentou:
    • —  Eu jamais sonhei em me casar novamente. Mais tranqüilo, ele tomou um gole de cerveja.
    • —    Não, assim está bem. Sei que você estava apenas preocupado comigo e que por isto agiu daquela maneira esta noite. Mas embora eu aprecie sua atenção, não deve se preocupar comigo, querido.
    • Sentou-se a seu lado e deu um tapinha na mão do neto antes de pegar a lata de cerveja e abri-la.
  • Oh, querido. Eu o choquei?
  • Diabos, sim!
  • Bem, mas terá de conviver com isto — falou sem um só toque de remorso. — Não se preocupe comigo. Preocupe-se apenas com Anastasia. É onde está seu futuro.Tem de estar aqui em algum lugar — murmurou David ao abrir a cópia da planta do edifício sobre a mesa de trabalho que colocara no porão.Se houvesse uma sala escondida, Chesty a teria camuflado bem.David verificava as dimensões que estavam no papel em relação às medidas verdadeiras da parede leste quando ouviu um barulho na sorveteria. Era domingo. Nenhum trabalhador fora designado para aquele dia.—Está bem, Ryan e Jason vão pintar o teto. Courtney e Heather, verifiquem aqueles rolos de papel de parede que estão no canto.Enquanto falava, também andava... até bater em David.Seus olhos claros a observaram. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça. A camiseta tinha mãos de crianças estampadas e o short jeans, pingos coloridos em lugares interessantes.David não pôde conter a suspeita que passou por sua mente. O que estaria Anastasia planejando? Parecia estar se sentindo culpada. Ou apenas aborrecida? Estivera evitando-o deliberada-mente durante a última semana, e David sentira sua falta.

 

    • —Eu não sabia que você estaria aqui hoje — disse ela. — Disse que tiraria um dia de folga.
    • —Desculpe.
    • Temos de tomar a decisão final entre os dois padrões e começar a colar. Papai e mamãe, venham para a cozinha para ajudar Claire.
    • Imaginando o que estaria acontecendo, apressou-se escada aci­ma para checar. Foi surpreendido pelo caos. E no centro estava Anastasia, dando ordem para sua tropa.
    • Durante a última semana, David mergulhara em livros sobre a década de vinte em Chicago e descobrira poucas referências a Chester Chesty Ferguson. Apenas uma sentença ou duas, sempre à sombra de uma figura muito mais famosa naquele tempo... Al Capone.
    • A iluminação não era boa, mas suficiente para lhe permitir ver as marcas que fizera quando já verificara a integridade da estru­tura das paredes. Deixara a parte mais difícil por último. A parede leste estava parcialmente bloqueada pela estrutura de aquecimen­to e refrigeração e pelo novo aquecedor de água.
    •  
  • O que está acontecendo por aqui?
  • Nada que mereça sua preocupação. Vá para o porão e con­tinue a fazer o que estava fazendo. — Colocou as mãos nos ombros largos e o fez virar-se em direção à escada. — Esqueça-nos.
  • Impossível.—  Não nos vai apresentar?— Claro, mamãe, este é David Sullivan, neto de Claire, mas ele não pode conversar agora porque está no meio de um projeto muito importante no andar de baixo — disse sem nem sequer respirar.

 

    • Shirley não se deu por rogada e foi logo perguntando:
    • Shirley Knight podia parecer um anjo, mas na verdade era terrível. Achava que todos os homem que Anastasia conhecesse deveriam passar por seu crivo.
    • Anastasia ficou imaginando o que ele teria desejado dizer com aquilo, mas foi distraída por sua mãe.
  • E casado?
  • Mamãe!Poderia lidar com a situação. Só Deus sabia o que seria capaz de fazer com sua mãe naquele momento.

 

    • David parecia estar gostando de vê-la embaraçada. Anastasia percebia pelo modo com que lhe sorria, o traidor! Sentiu o próprio rosto tornar-se vermelho. Era um absurdo enrubescer. Detestava aquilo. Era adulta.
  • Não sou casado, sra. Knight — disse David.
  • Mas que bom!— Fuja agora, filho, enquanto ainda tem oportunidade. Sou pai de Anastasia, a propósito. Meu nome é Tom Knight.

 

    • O som de uma música de Dean Martin subitamente preencheu o ar com: Everybody Loves Somebody Sometime.
    • Anastasia sentiu-se aliviada quando seu pai se juntou ao grupo, mesmo sendo para oferecer um conselho irônico.
  • Papai, eu lhe disse para deixar seus discos em casa — falou Jason.
  • E eu deixei — respondeu Bob. — Esta é uma fita cassete. — Com orgulho apontou para o aparelho de som. — O tocador de CD é grande demais. Esperem! Não toquem no botão de volume!— Ora, querido — admoestou-o Shirley. — Não fique tão alte­rado. Sabe como isto lhe faz mal.

 

    • Felizmente a esposa o seguiu.
    • Saiu para discutir vigorosamente o assunto com seus filhos Os dois não partilhavam seu amor por Dean.
  • Eu devia tê-lo avisado de que minha família viria ajudar Claire hoje, mas não achei que você estivesse pronto para conhe­cê-los — disse Anastasia.
  • O que a faz dizer isto?
  • O fato de que uma pessoa sã jamais estará pronta para conhecer meus familiares — observou com tristeza, porém afeto.Quando o vira aparecer na sala, seu coração quase parará. Ape­nas porque já antecipara qual seria a reação de sua mãe.O problema era que desde o casamento de Jason no mês anterior, sua mãe começara a ficar ansiosa demais quanto ao futuro da filha.Mas, perverso como era, ele decidiu ignorar seu afazer no porão e ficar por ali.

 

    • Seus irmãos, também se sentiriam tentados a acrescentar seu tempero à mistura para ajudar naquele possível romance. Por isso Anastasia desejava que David ficasse o mais longe possível de todos.
    • Era sempre assim quando Shirley via sua única filha ao lado de um homem que tinha menos de sessenta anos. Antes que Jason e Ryan se casassem, ela agia com mais discrição.
    • —  Acha que não sou capaz de lidar com situações inusitadas? Seria sua imaginação ou David escolhera as palavras deliberadamente? Havia um brilho esquisito em seu olhar. Estaria fler­tando com ela? Bem diante de seus familiares?
  • Está bem. Pique se quiser. Mas não diga que eu não o avisei.
  • Nem sonharia com isto.

 

    • Como para provar o que Anastasia dissera, Jason juntou-se aos dois.
  • Se você colocar minha irmã na linha, imediatamente será meu amigo. Sou Jason Knight.
  • O irmão mandão — acrescentou, aborrecida.
  • E eu sou sua esposa, Heather Grayson Knight — disse uma mulher que se postara ao lado do rapaz.
  • A famosa radialista do programa "Amor no Ar" — comentou Anastasia.
  • Não ouço muito rádio — disse David em tom de desculpas.
  • David é formado em uma universidade que proibia diversões — explicou Anastasia. — Diferentemente de meu outro irmão Ryan, que tem um enorme senso de humor. Apenas um aviso importante: não tome leite com chocolate perto dele.
  • Não pergunte — Jason falou para David ao vê-lo franzir a testa, confuso.
  • Eu ouvi isto — disse Ryan ao juntar-se ao grupo. — Aquele incidente com chocolate e papel de parede aconteceu há muitos anos.
  • Algumas coisas jamais são esquecidas — disse Anastasia solenemente.
  • Ou algumas pessoas — comentou Ryan, olhando para a mu­lher que postava-se a seu lado e colocava o braço em sua cintura.
  • Ryan está se referindo a sua esposa, uma pessoa muito es­pecial que ele deixou escapar na primeira vez em que namoraram — explicou Anastasia. — Mas depois o mais velho e bem mais esperto Ryan percebeu seu engano.
  • Ryan nunca admite ter cometido um erro. Olá, sou Courtney. A cara-metade de Ryan.
  • Falou corretamente — concordou Ryan.
  • Anastasia, acho uma idéia fantástica abrir uma sorveteria à moda antiga — comentou Heather. — Vou comentar isso no programa.
  • Descobriu agora por que as duas se dão tão bem? — per­guntou Jason.

 

    • David assentiu em tom de simpatia.
  • Acho que é uma brühante idéia — concordou Courtney.
  • Também acho — disse Jason.Em sua opinião, Anastasia era a que mais se destacava. Parecia ser dona da exuberância da natureza, com seus olhos cor de mel e longos cabelos castanhos, que naquele instante caíam soltos, fazendo-o desejar passar seus dedos pelos fios brilhantes.

 

    • Olhando para as três mulheres, David podia ver como eram di­ferentes fisicamente. Alta e esguia, Courtney tinha cabelos longos e louros, enquanto Heather era mais baixa e de cabelos avermelhados.
  • Sim, bem, eu não convidei vocês para virem até aqui para conversar — ela falava aos irmãos.
  • Você não convidou nenhum de nós absolutamente — disse Ryan. — Exigiu nossa presença.
  • Somos irmãos. É minha tarefa lhes dar trabalho.
  • Achei que isso cabia às esposas — respondeu Ryan.
  • Ai!

 

    • Courtney lhe deu um tapa.
  • O que eu disse?
  • Se ele lhe causar qualquer problema, apenas fale comigo — orientou-a Anastasia. — Sei onde estão aquelas fotografias hor­rorosas de quando ele era criança.
  • Você está na maioria também — Ryan a lembrou.
  • Eu era um lindo bebê. Você era aquele que ficava sorrindo como um idiota.
  • E foi você quem beliscou o nariz do padre durante nosso batismo — falou Ryan. — Deveria pedir para mamãe lhe contar esta história, David. Faz isto maravilhosamente bem.
  • Esqueça-a.

 

    • Anastasia pegou um dos rolos para pintar o teto e o estendeu a Ryan.
  • Vamos, o tempo voa. É melhor começar.
  • Por que está colocando seus familiares para trabalhar? — indagou David.
  • Para me ajudar, a despeito do que Ryan falou. Será útil um auxílio extra. Quero dizer, a inauguração será em apenas duas semanas e ainda há muito a ser feito. E você tem trabalhado tanto que eu imaginei que precisasse de alguma ajuda.—  Está aborrecido por eu ter lhes pedido para ajudar?

 

    • — Não, absolutamente. Tem razão, eu preciso de ajuda sim. Obrigado.
    • David estava tendo uma tremenda sensação de realização ao fazer a reforma. Desde o princípio via-se ansioso por acordar todas as manhãs. Havia se esquecido de quanto apreciava trabalhar com as mãos.
  • De nada — falou sorrindo antes de resmungar quando o som da música de Dean Martin, Welcome to My World, invadiu o salão e metade do quarteirão. — Papai, está alto demais!
  • Talvez você devesse permitir que vovó colocasse a fita do Bruce Springsteen — sugeriu David.
  • Oh, então você notou isso?
  • Foi fácil perceber já que seus gostos musicais costumavam se limitar a Lawrence Welk — observou secamente.

 

    • Anastasia deu de ombros.
  • Tudo que fiz foi tocar a fita em meu carro, e ela gostou.
  • Assim me disse também. Vovó também me falou para eu não me meter no relacionamento dela com Ira.
  • Eu também lhe disse isto — Anastasia o fez lembrar-se.
  • Sim, e resolvi dar ouvidos a ela.
  • Bem, este é um ponto a seu favor.—    Esta é outra tentativa de fazer com que eu baixe a guarda, e você consiga uma aliada para espionar Claire?

 

  • —  Então não está mais brava comigo? Fitou-o com cautela.
  • Juro que não — proferiu solenemente.
  • Está bem, mas se falhar desta vez, estará em apuros.
  • Para uma bibliotecária, você tem um jeito especial de lidar com as palavras.
  • Deve ser influência do Three Stooges.
  • Anastasia, vou levar seus pais para a cozinha — falou Claire.
  • Vá em frente! — Olhou para David e falou: — Mamãe vai ajudar sua avó a preparar sorvete enquanto papai os experimen­tará. Claire ainda está testando sabores especiais.
  • Sim, eu sei — falou divertido. — Evite o de pêssego com menta e nozes! — David gritou para Tom Knight.
  • Nos velhos tempos realmente havia sabores como aspargos ou sorvete de ostras. Em Nova York existia um lugar que fabricava um sorvete de pão. Comparado a isto, o pêssego com menta e nozes não é ruim.
  • Imaginei que dar nome ao lugar fosse mais importante do que pensar em novos sabores de sorvete.
  • Ouvi isto — falou Claire à porta da cozinha com uma colher de sorvete à mão. — Venha, experimente este.

 

    • David a fitou com cautela.
  • O que é?
  • Sorvete.
  • De que sabor...

 

    • O final da frase foi interrompido porque a avó meteu uma co-lherada em sua boca.
  • Estava derretendo — explicou a senhora. — Tom achou gostoso, não é mesmo Tom? — Virou-se para perguntar por sobre o ombro.
  • Muito gostoso. Acho que terei de afrouxar o cinto em um ou dois espaços antes de ir embora daqui.Mas, para a filha, sempre seria o homem que endireitava os erros do mundo quando era pequenina, alguém que lhe dera con­fiança para lutar pelos próprios sonhos.

 

    • O pai de Anastasia ganhara peso desde sua aposentadoria como autoridade de trânsito de Chicago, e os cabelos ralos estavam in­teiramente brancos.
  • O sabor é... interessante — disse David. — De que é?
  • Um tipo de ameixa.
  • Não é minha favorita.
  • Ainda não sei o nome de sua sorveteria — Tom falou para Claire.
  • Talvez porque ela ainda não tenha sido escolhido o nome — disse David.
  • O que acham de Cone Home?—  Ou The Inside Scoop — sugeriu Heather.—  Ou The Big Dipper.

 

    • Claire levantou os braços, animada.
    • Estava à mesa com Courtney, escolhendo o papel de parede. A próxima sugestão veio de Jason.
    • Ryan fez uma pausa na pintura para sugerir.
  • Isto mesmo! Este é o nome. Eu sabia que o reconheceria quando o ouvisse.
  • Já não era sem tempo — observou David. — A grande inau­guração será em apenas duas semanas.
  • Vou ligar para a pessoa que elabora anúncios imediatamente e lhe dizer para ir em frente com o design que eu escolhi. The Big Dipper — repetiu Claire. — Sim, parece perfeito.

 

    • Quando os parentes de Anastasia partiram, já estava quase escuro.
  • Nem sei como lhe agradecer por fazer com que todos viessem para ajudar — disse Claire.
  • Para isso servem os amigos e familiares.—    A sorveteria já tem um nome, e o papel de parede foi escolhido graças à família Knight. As paredes serão pintadas de azul, mas aquela bem distante precisava de algo diferente e a escolha foi acertada.

 

    • O modelo de papel de parede era alegre e à moda antiga. Fora unanimidade para Heather e Courtney.
    • —  Mas normalmente amigos não são como você. Claire lhe deu um grande abraço.
  • Onde está David? — indagou Claire.
  • No andar de baixo há uma hora — respondeu Anastasia, aliviada por ele ter escapado das perguntas de sua mãe.
  • O pobre garoto jamais descansa.
  • Quando eu lhe perguntei em que acreditava, David falou que era em trabalho duro e beisebol. Nada de sonhos. Disse-me que seu pai arriscou tudo em uma idéia tola e que o restante da família teve de pagar por aquilo.
  • Oh, meu Deus! — Claire levou a mão à boca, os olhos refletindo preocupação. — Não fazia idéia de que ele sentisse as coisas dessa maneira. E verdade que meu filho era um sonhador e não planejou suas finanças bem, mas não poderia saber que sua vida e a da esposa seriam interrompidas por um acidente. Não foi culpa de ninguém.

 

  • —David sabe disto? — perguntou Anastasia com gentileza. — Sim, eu lhe disse diversas vezes, mas ele pode ser bem tei­moso quando mete uma idéia na cabeça.
  • Eu sei. Disse-me que poucos investigadores criminais eram sonhadores. Começo a achar que talvez tenha sido isso que o atraiu ao emprego.
  • Talvez tenha razão. E eu continuo torcendo para que esta pausa, esta licença, seja boa para ele e lhe dê alguma tranqüilidade. Mas David não está descansando muito ao trabalhar o dia todo aqui.
  • Está fazendo reparos no porão?
  • Não, o trabalho basicamente é aqui.—  Vamos olhar...Mas havia uma excitação inquestionável nele. Aquele não era um homem interessado em fazer reformas e sim alguém com uma missão. E missões não eram tão distantes assim de sonhos. 

 

    • David deu um pulo e ficou em pé em segundos. — Ora, ora — provocou Anastasia. — Veja só o olhar de culpa no rosto dele, Claire. Acho que o pegamos procurando um tesouro escondido.
    • — Se esta reforma pode lhe dar tanto prazer, nós queremos participar também! — exclamou Anastasia alegremente.
    • Encontraram-no a um canto do porão, ajoelhado de encontro à parede e agindo de maneira suspeita.
    • Parecia que David havia descoberto algo que capturara sua aten­ção. Anastasia imediatamente começou a divagar sobre o que seria.
  • Ele sempre adorou desafios quando era garotinho.
  • E verdade? Jamais suspeitaria disto. Então que espécie de tesouro procura, David? — perguntou Anastasia ao aproximar-se da planta da casa.
  • Não estou procurando um tesouro.
  • Deveria — falou Claire. — Este edifício tem uma história bastante intrigante.

 

    • Fitou a avó com surpresa.
  • Sabe disto?
  • Sei que há rumores de que o lugar era usado como uma sala de conferências.
  • Brincadeira!

 

    • Anastasia estava impressionada.
  • Por que não me falou nada?
  • Porque ela não queria que você ficasse batendo nas paredes em busca de salas escondidas — respondeu David.
  • Por que eu faria isto?
  • Então é isto que você tem estado fazendo aqui no porão? — falou Claire, sorrindo.

 

    • Anastasia olhou de um para outro.
  • O que quer dizer?
  • David encontrou algo.
  • Encontrou?

 

    • Claire assentiu antes de se virar para o neto.
  • Diga-lhe.
  • Não é nada demais. Tudo o que descobri é uma discrepância entre as medidas que estão na planta e as verdadeiras paredes do porão. Poderia simplesmente ser um erro.

 

    • —         Então por que está batendo nas paredes? — perguntou Anastasia.
  • Porque ele estava procurando por uma sala secreta — res­pondeu Claire.
  • Talvez estivesse vendo se há cupim — respondeu David.
  • O prédio é sólido — disse Claire —, e nós já o dedetizamos.
  • Está bem, eu estava procurando por uma sala secreta.
  • Não precisa fazer isto soar como se estivesse comprometido com algum crime terrível e se sentisse mal a respeito — disse Anastasia com gentileza. — Isto é emocionante. Isto é...
  • Provavelmente nada — interrompeu ele, tentando ser prático. — Lembre-se do que aconteceu quando Geraldo Rivera abriu o cofre de Al Capone ao vivo na televisão. Não havia nada de valor dentro.Aproximou-se e lhe deu um grande abraço, sussurrando:Ele a fitou com um típico olhar de homem confuso antes de falar:

 

    • —          Estou muito orgulhosa de você.
    • Mas quando David falava, Anastasia podia ver o brilho em seus olhos e sabia que, admitindo ou não, estava envolvido em descobrir aquele tesouro.
  • Não há sentido algum em ficar esperançosa.
  • Ah, mas eu nunca fui sensata.

 

    • Anastasia não tinha certeza, mas poderia jurar que ele murmurou:
  • Graças aos céus por isto.
  • Ele está começando a ceder — falou Betty, praticamente sorrindo de satisfação. — Eu disse a vocês que acrescentar a ten­tação de uma sala secreta o faria acreditar em sonhos.
  • Ainda não consigo ver a conexão — murmurou Hattie do topo do bar espelhado.
  • Está à caça do tesouro — explicou Betty. — Exatamente como quando era garoto.

 

    • Hattie franziu a testa.
  • Mas nós devíamos estar trabalhando em unir Anastasia à sua alma gêmea. Esta é nossa tarefa, não fazer David acreditar em sonhos.
  • Mas uma coisa tem a ver com a outra.
  • Isto está ficando complicado. — Hattie cocou as costas com a varinha mágica e murmurou: — Você sabe como me sinto in­segura quando há complicações. Não gosto disto.
  • Também não gosta da cor caqui — falou Muriel —, mas isto não muda a realidade da vida. E David precisa acreditar em sonhos antes de ele e Anastasia poderem ter uma união feliz.
  • Aposto que anjos da guarda não têm de lidar com coisas assim — queixou-se Hattie. — Aposto que suas vidas são mais fáceis do que as nossas. Têm de ser, com aquelas maravilhosas e elegantes asas. Não estas pequenininhas que temos.
  • Eu já lhe disse antes, suas asas são tão boas em aerodinâmica quanto as dos anjos da guarda — falou Muriel. — Além do mais, não se queixe. Não é você quem tem uma infecção no ouvido e que por isso voa com dificuldade. Eu sempre perco o equilíbrio.

 

    • Hattie balançou a varinha mágica no ar quando teve uma idéia.
  • Aposto que foi isto que aconteceu quando eu acidentalmente derramei muito pó mágico de inteligência em Anastasia. Aposto que tive uma infecção de ouvido e nunca soube.
  • Poderia ser uma boa desculpa, mas você derrubou o pó porque estava se exibindo, como sempre. Pelo que me recordo, estava fazendo floreios com o pote de pó, vendo qual a melhor maneira de se apresentar. Flutuava sobre aquela almofada de veludo que usa como se fosse um tapete mágico e...
  • Não é como um tapete! E muito mais bonito! — protestou Hattie. — É de veludo escarlate com elegantes franjas douradas. E no centro há um enorme e glorioso bordado dourado onde se vê diversos querubins.
  • Certo — bufou Muriel. — Como eu disse, exibida. E não foi seu equilíbrio que faltou e sim o da almofada. Você não pôde resistir em dar um de seus triunfantes olhares superiores e a queda de concentração foi suficiente para fazer derrubar a mistura mágica.
  • Oh, pelos céus! — exclamou Hattie. — Como você consegue se lembrar desses detalhes trinta e três anos depois.

 

    • Muriel deu de ombros.
  • Isto é apenas um piscar de olhos no tempo das fadas-madrinhas.
  • Já basta, vocês duas — ordenou Betty. —• Que tal se retor­nássemos ao assunto Anastasia e David? Como eu disse, acho que Claire tem sido tremendamente útil para todos nós. Você viu como a expressão de Anastasia se suavizou quando a senhora falou que David fora um garoto louco por achar tesouros?

 

    • Hattie e Muriel assentiram.
  • Ótimo. Então vamos continuar com nosso plano, mantendo em mente que o tempo é tudo. Se David descobrir a sala logo, a artimanha não causará o efeito que desejamos. O mesmo aconte­cerá se a encontrar tarde demais. Compreendem?
  • E quando saberemos qual a hora certa?
  • Faz parte de nosso trabalho saber. — Sua varinha mágica vai brilhar quando for a hora certa — falou Betty.
  •    Faça com que ela possa ver isto — interveio Muriel. — Lembre-se, Hattie não usa óculos e sempre nos faz tomar o caminho errado.
  • Não apreciei esse comentário. Como se você pudesse fazer melhor!
  • Posso mesmo.
  • Mas não fez, então fique quieta!—          Não agüento mais seus comentários! Pare com isto!

 

    • Para espanto de Hattie, Muriel sorriu e lhe deu um grande abraço de aprovação.
    • Hattie voou para baixo para juntar-se a Muriel sobre o balcão de mármore. Puxou as mangas de seu vestido de chiffon dourado.
  • Assim está melhor! Você está brilhando como uma fada-ma-drinha. Bom para você. Agora sei que é minha irmã.
  • Minha também — falou Betty com aprovação, juntando-se às duas para um abraço em grupo.
  • Cuidado com meu chapéu! — pediu Hattie ao ajeitar o pen­teado. — E já que estão tão felizes, por qvie não me deixam re-decorar este lugar? Eles não têm a noção certa das cores. Todo este vermelho, branco e azul. Precisam de mais amarelo e rosa.

 

    • Com um toque da varinha, Hattie transformou as paredes em um listrado de amarelo e rosa.
  • Esqueça isso — falou Betty, devolvendo à sala suas cores anteriores. — Você é uma fada-madrinha, pelo amor de Petúnia, e não decoradora. Guarde sua magia para a grande tarefa.
  • Você está me compreendendo?—    Não estou dando preferência ao rato em vez de a você. Meu irmão tinha um rato de estimação, por isto não posso matar este que a está aborrecendo. Está bem, admito que minha relutância também pode ter algo a ver com a srta. Mouse que eu às vezes uso para contar histórias no trabalho. Tudo pode ter começado na primeira vez em que eu vi Mickey Mouse. Agora tenho este receio de machucar ratos.A gata ronronou preguiçosamente.A gata estremeceu.—    E você não é a única a estar aborrecida por aqui. Ponha-se em meu lugar. David está me deixando maluca. As vezes eu o acho impossível. Então começo a me perguntar se ele tem algum potencial e concluo que é adorável e sensual. O que há de errado comigo?A colorida mesa marroquina deveria estar rodeada por cadeiras com diferentes padronagens florais, mas não estava.Encontrando a resposta nos arredores, resumiu seu monólogo com Xena.Estendeu a mão para pegar o telefone.Obtivera o número de David na manhã seguinte àquela em que fora acordada devido aos exercícios físicos que ele fazia.

 

    • —    Está ocupado? — perguntou, mal lhe dando tempo para dizer olá.
    • —          Vou ligar para ele agora.
    • —    Você sabe que David me beijou e me deixou atarantada. É claro, naquela noite em que me levou ao Rosa's eu também o beijei. Então acho que estamos empatados. Mas pressinto que caberá a mim dar o próximo passo. Eu poderia fazer isto, certo? E não ficar sentada aqui conversando com você sobre o assunto.
    • Havia uma máscara feita em madeira chamada: "O Silêncio Vale Ouro", onde havia um dedo sobre os lábios. As paredes também eram adornadas por pôsteres e figuras de seus livros infantis favoritos.
    • Anastasia olhou ao redor de sua sala de estar como se pudesse encontrar a resposta ali. Deliberadamente deixara o cômodo quase vazio, permitindo que as poucas peças tivessem o destaque merecido.
    • Foi todo encorajamento de que Anastasia precisou para prosseguir.
    • —    Não me leve a mal, não o quero vivendo aqui mais do que você quer. Nem posso acreditar que o rato teve a petulância de aparecer novamente. Mas eu coloquei a ratoeira. Da próxima vez em que o pegar, vou levá-lo para um longo passeio. Bem, não tão longo assim; pode ser que ele passe mal por estar confinado, e não quero que se machuque.
    • Fez uma pausa para acarinhar as orelhas de Xena do jeito que a felina adorava.
    • Anastasia estava sentada em uma poltrona bem macia, a gata em seu colo a fitá-la com os enormes olhos azuis.
  • Depende. Por que está perguntando? — indagou com cautela. A voz de Anastasia estava cheia de promessas quando falou:
  • Encontre-me na sorveteria em meia hora e irá descobrir. As sandálias cor de manteiga faziam um barulho agradável ao bater nos degraus, mas a fizeram perder o equilíbrio. Os braços de David a ampararam. Anastasia sentiu-se protegida e aquecida.— E você tem esta tendência de ser mandão, não é mesmo? — indagou ela, afastando-se para destrancar a porta da The Big Dipper com a chave que Claire lhe dera.

 

    • David tinha uma similar, mas ela alcançara a porta primeiro. _ Eu? — perguntou descrente, acompanhando-a. — k você quem gosta de ficar dando ordens.
    • —          Você anda muito rapidamente.
    • Encontrou-o mais cedo do que aquilo, apressando-se em descer a escadaria que conduzia ao térreo. Trocara de roupas e usava um vestido âmbar que se enroscava em suas pernas conforme andava.
  • Eu não.
  • E quando seus irmãos estavam aqui?
  • Irmãos não contam - respondeu, acendendo as luzes do bar espelhado e iluminando a área ao redor de maneira agradável. _ E e bom que saiba que eles me dão muitas ordens também. Especialmente Jason. Isto me fez ficar determinada em nao obe­decer a ninguém. Não pode imaginar o que é crescer com dois irmãos mandões.
  • Não, não posso.—         Sinto muito. Acho que sua infância foi bastante diferente.

 

  • As palavras de David a fizeram perceber que ele crescera sem irmãos e sem pais.       .
  • Tive avós maravilhosos. Meu avô morreu poucos anos após eu ter me formado no colegial. Seu coração não agüentou. Eu nem mesmo soube que ele e minha avó haviam se conhecido em uma sorveteria. Você soube antes de mim.

 

    • Anastasia percebeu que havia muita dor por ali. Querendo ale­grá-lo, sorriu e disse:
  • Sim, bem, às vezes eu sou intrometida mesmo.
  • Você tem o dom de escutar as pessoas.
  • Posso lhe ensinar como fazer isto. Começando por esta noite. Tudo começa com sorvete e imaginação. A única coisa num e que você precisa manter suas mãos ao lado do corpo o tempo todo. Acha que pode conseguir isto? Será um teste para sua força de vontade.— Certo.                                     Anastasia sorriu por antecipação. Ansiava muito por aquilo. David podia ter dito na escadaria que ela se movia com muita rapidez, mas não se queixaria de seus avanços naquela noite.

 

    • A ressonância da voz máscula estava mais forte do que a usual... E mais sensual também.
    • —       Sou famoso por minha força de vontade - fez a bravata. _ Foi o que imaginei. Então, algo assim... - Inclinou-se e deu minúsculos beijos no queixo de David *- ...não o aborreceria, certo?
  • Então qual a grande surpresa? — inquiriu ele.
  • Vá atrás do balcão e verá. Bem, na verdade, talvez nao veja, porque vendarei seus olhos para a próxima etapa

 

  • —      Este procedimento envolverá lençóis de seda. Ele fez a pergunta soar esperançosa.
  • Não. Por quê? Estava contando com isso?
  • Talvez.
  • Uma pena. Terá de usar sua imaginação em vez disso. Inclinando-se para frente, pegou o lenço de seda preta que en­feitava seu próprio pescoço e cobriu os olhos de David.
  • Não espie — avisou.
  • Você não vai fazer nada que um freguês da sorveteria não poderia ver, vai? — indagou igualmente ansioso e preocupado.
  • Como ficar nua, você quer saber?
  • Sim — falou secamente.
  • E claro que não.
  • Uma pena. Ela riu.
  • Está bem, vamos começar com uma pequena lição de biologia.
  • Isto soa promissor.David balançou a cabeça em sinal de negativa. Sabia apenas que sua língua queria lamber sorvete derretido no corpo de Anas-tasia. Aquele provavelmente era seu plano. Enlouquecê-lo. Bem, dois adultos podiam brincar assim.—    Hummm, doce e salgado. Todos os nove mil pontos de paladar concordam.Anastasia precisou se concentrar para conseguir falar.

 

    • Confiando em seu toque, ele pegou-lhe a palma da mão. Passou a língua de um modo sedutor, pretendendo deixá-la com os joelhos trêmulos.
    • Andando às cegas, teve sorte em capturar-lhe a mão. Levando-a até a boca, lambeu a pele delicada do pol*egar e do dedo indicador.
    • —    Você sabia que sua língua é o lar para nove mil pontos de paladar e que cada pequeno ponto tem de dez a quinze receptores que dizem ao cérebro se algo que você está saboreando é salgado, doce ou azedo?
  • Você está pronto para experimentar algumas das iguarias?
  • Mais do que pronto — respondeu com voz rouca.
  • Abra a boca.—    Ninguém sabe com certeza onde ou quando o sorvete foi primeiramente criado — disse ela —, mas há muitas histórias interessantes sobre a origem. No século primeiro, dizem que o imperador Nero ficou tão viciado que enviava corredores aos Alpes para pegar neve.—    Demorou um mês para levarem a neve a Roma onde Nero a poderia comer com sucos de fruta ou mel. O que você está experimentando agora é sorvete de framboesa.—    A lenda diz que Marco Polo voltou de sua jornada à China com uma receita de creme congelado. Ficou conhecido como gelati que, na verdade, é sorvete. O que você está experimentando agora é sorvete de baunilha, uma receita francesa. Quando Catarina de Médicis mudou-se para a França para se casar com o rei, levou consigo o cozinheiro que sabia fazer gelati, e os franceses foram expostos a essa delícia.—    Ainda está me ouvindo? Afinal de contas, isto é um exercício para aprender a escutar e para desenvolver seus sentidos.—    Em 1600, Charles I, da Inglaterra, contratou um cozinheiro francês que sabia fazer sorvete. Pagou para o chef manter a receita em segredo, mas assim que o rei foi decapitado, o segredo do sorvete se espalhou pelo mundo. George Washington o saboreou, e chegou a gastar duzentos dólares em sorvete em um único verão. Era uma pequena fortuna naquela época. Mas o gosto é tão pe­caminosamente delicioso que quem poderia resistir?Pecaminoso, definitivamente. O sorvete era bom mas ela era melhor. Estava construindo uma boa fogueira. Com bastante ma­deira para sustentar as chamas.Homens que trabalhavam aos domingos recebiam uma reprimenda no jornal local. Vender sorvetes aos domingos era visto como um incentivo à distração e era condenado.—    Para ludibriar a lei, aos sábados as sorveterias serviam sorvete apenas com xarope. A combinação de sorvete com xarope de chocolate quente pode ser irresistível. Hummm!

 

    • Encheu uma colher com sorvete e o alimentou.
    • Os pensamentos de David deviam ser condenados também. E por falar em incentivos... E quanto à distração, nunca encontrou antes uma distração como Anastasia.
    • Os americanos criaram o sorvete de casquinha e os misturados com refrigerantes. E então o sundae, cuja lenda reza que foi de­senvolvido aqui em Evanston, algumas vezes chamado de Heavenston por causa da estrita observância ao Sabbath.
    • Colocou outra colherada na boca de David.
    • —          Oh, eu estou desenvolvendo sim... Só não lhe disse o quê.
    • David poderia jurar que ela usava as palavras deliberadamente. Expostos. Delícia. Estava sentindo um calor e ficando maluco ao pensar no corpo de Anastasia.
    • O gosto de framboesa e a imagem da fruta o fizeram pensar nos lábios de Anastasia e em como estariam saborosos após o sorvete. Antes que pudesse descobrir, ela colocou mais uma porção em sua boca.
    • David estava começando a compreender o conceito de vício. Tor­nava-se viciado no som sensual daquela voz. A contadora de his­tórias, Scherazade, devia ter uma voz como a de Anastasia.
    • Ele entreabriu os lábios, pronto para sentir a boca sensual de Anastasia em um beijo quente o suficiente para os incendiar. Em vez daquilo, sentiu um pequeno objeto plástico com algo frio e saboroso em sua boca.
  • Uma combinação incrível.
  • Sei de uma combinação ainda melhor — murmurou ele, sua força de vontade reduzida a pó ao puxá-la pela mão e tomá-la nos braços.Enquanto se beijavam, ela decidiu que o sabor de David era muito melhor do que o mais primoroso sorvete do planeta.Anastasia sentiu o gosto de chocolate e da incrível essência daquele homem.Uma trilha de beijos calorosos partiu da boca de Anastasia até o pescoço e início do vestido. A cada botão que era solto, David fazia uma pausa para celebrar. Beijava e então começava mais uma trilha de beijos em busca do próximo botão.O primeiro toque no peito másculo e nu a fez dar uma pausa para apreciar a liberdade de tocá-lo.Beijaram-se, e David sentiu-se estremecer de desejo e erótica antecipação.Reclinando-se no banco, ela tinha a madeira firme nas costas e o corpo másculo sobre o seu. Pôde sentir os músculos das coxas de David se flexionando a fim de poupá-la de todo seu peso.Havia algo incrivelmente sensual na maneira como a mão enor­me se insinuava por debaixo do tecido de seda, acariciando as curvas suaves dos seios, mais do que se ela estivesse completa­mente nua para seus olhos.Como sentindo aquilo, David baixou os lábios e beijou-lhe os seios através da seda, acariciando os bicos com a ponta da língua.Ela queria mais. Não queria roupas entre os dois. David gostaria do mesmo. Insinuava-lhe aquilo através do beijo úmido e do mo­vimento dos quadris.Sem fôlego, David se aprumou, protegendo-a com o próprio corpo.

 

    • Estava prestes a tirar-lhe o vestido quando a luz explodiu ao redor dos dois.
    • Anastasia mergulhou os dedos nos cabelos escuros, moldando seu corpo ao dele. Quando a boca de David finalmente pousou na sua, o beijo ganhou nova intensidade.
    • Anastasia não podia ver o que a mão fazia, apenas a sentia. E sentiu plenamente quando desceu até sua intimidade. Criou-se uma onda de felicidade tão grande que chegou a ser dolorosa.
    • A gentileza a excitou mais, criando uma atmosfera íntima, elé­trica, que trouxe uma nova dimensão de desejo. Seu toque a in­flamava, assim como o de Anastasia parecia enlouquecê-lo.
    • Ele se movia com lentidão, como se tivesse todo o tempo do mundo para apreciar os contornos do corpo de Anastasia. Tocava-a e a beijava como se intrigado e deliciado com tudo o que descobria.
    • Quando ele escorregou a mão por debaixo do tecido sedoso do vestido para a cariciar os seios nus, Anastasia não conseguiu conter um murmúrio de puro prazer.
    • Ela demorou um ou dois minutos para pensar com clareza e também começar a abrir a camisa de David. Seus dedos não tinham o mesmo talento, mas o que lhe faltava em habilidade era com­pensado pelo entusiasmo.
    • Um beijo levou a outro, e a paixão flamejou fora de controle. De alguma maneira terminaram no banco que ficava nos fundos da sorveteria. Os dedos provocadores de David escorregaram pelas coxas femininas e bem torneadas.
    • Tirou-lhe a venda dos olhos e viu paixão nos olhos azuis antes de baixar as pálpebras, permitindo-se sentir a plenitude do mo­mento. Ele a provocou com a língua, induzindo-a a entreabrir os lábios e recompensando-a quando lhe obedeceu.
    • O instinto e desejo guiaram sua boca até a de Anastasia e a beijou cegamente, com ardor e ternura.
  • O que...
  • Oh, não! — exclamou Claire, de olhos arregalados.

 

  •  
  • Eu não quis interromper — disse Claire embaraçada. — Não sabia que alguém estaria aqui a esta hora. Vi as luzes do bar acesas, achei que talvez as tivesse deixado assim, mas lembrei-me de tê-las apagado. Talvez eu devesse ter suposto que eram vocês dois, não que eu suspeitasse, quero dizer, não é da minha conta... Ora, não consigo parar de falar.
  • Não há problema — disse Anastasia, a despeito de seu co­ração estar batendo aceleradamente enquanto abotoava o vestido.
  • Este é seu negócio. Quero dizer, The Big Dipper é seu es­tabelecimento comercial, e você tem o direito de entrar aqui na hora em que desejar. Além do mais, como poderia saber... Agora sou eu quem está tagarelando. David, diga algo!

 

    • O tom de voz refletia seu desespero.
  • Por que eu deveria? Estou me divertindo muito vendo vocês duas falando sem parar. Além do mais, eu não tagarelo.
  • Você quer bater nele, Claire, ou eu devo fazê-lo? — indagou Anastasia.
  • O que foi? O que eu disse?
  • Bem, querido, você tem um jeito todo especial de se esquivar. Mas eu o amo de qualquer maneira — disse Claire, dando-lhe um tapinha no braço.
  • O que a fez retornar ao The Big Dipper agora à noite? — David perguntou à avó. — Achei que estivesse cansada e fosse para a cama mais cedo.
  • Eu realmente tentei, mas acordei após ter um sonho muito estranho sobre uma fada-madrinha que usava chapéus esquisitos. — Claire balançou a cabeça. — De qualquer maneira, passei a me preocupar com a inauguração, por isto decidi verificar algumas coisas na cozinha. Jamais imaginei que encontraria vocês dois...Porque finalmente percebia que estava se apaixonando por Da­vid e tinha sérias dúvidas sobre as conseqüências de algo assim.

 

    • Divertir-se ao lado dele era uma coisa. Mas amar alguém tão diferente dos rapazes com quem usualmente saía, era um grande risco. Era, portanto, hora de colocar as coisas em seus devidos lugares.
    • Anastasia mais uma vez sentiu-se enrubescer... Pela segunda vez naquele ano. E David estava envolvido em ambas as vezes. Precisava sair dali antes que fizesse papel de tola, ou melhor, de mais tola ainda.
  • Sim, bem, é melhor eu ir para o meu apartamento — Anas­tasia falou rapidamente. — David pode ficar aqui e ajudá-la a fazer... O que você precisa para a grande inauguração. Quero dizer, preciso ir trabalhar amanhã. Será um dia cheio. Terei de praticar uma nova rotina de brincadeiras com os dedos e precisarei dar aulas aos alunos da primeira série que irão fazer um passeio à biblioteca. Também irei a algumas lojas à tarde. Estou tagarelando novamente. Jamais tagarelo. Vou embora agora.
  • Não é preciso, querida — Claire começou a falar, mas Anas­tasia já havia ido embora.
  • Qual vantagem de se ter um telefone celular se você não atende a chamada? — indagou Betty para Hattie, que estava dez segundos atrasada para o encontro de emergência solicitado pela irmã mais velha na sala de estar de Anastasia.
  • E por isto que minha varinha mágica estava piscando? — perguntou Hattie, colocando-a na luz para ver melhor. — A prin­cípio achei que brilhasse porque chegara a hora de David encontrar a sala secreta. Então eu me lembrei de que você falou que a varinha iria brilhar e não piscar. Achei que talvez precisasse de baterias novas ou algo assim.
  • Elas não precisam de pilhas; são movidas a energia solar. Já deveria saber disto — Muriel a informou, mas Hattie já estava distraída com algumas ilustrações nas quais Anastasia estivera trabalhando em seu apartamento.—    Lembra-se de quando Anastasia era garotinha? Era como se ela realmente nos pudesse ver e ouvir.

 

    • Betty assentiu.
    • Sua voz estava calorosa e terna quando falou:
  • Tenho certeza de que é por isto que ela conta aquelas his­tórias maravilhosas sobre fadas-madrinhas.
  • Devo dizer, entretanto, que sou muito mais bonita do que Anastasia me descreve. E ela faz com que eu vista verde. Eu raramente uso verde. Deixa-me com aparência entristecida.
  • Oh, poupe-me, está bem? — pediu Muriel. — Temos de lidar com problemas muito maiores do que este.

 

    • Hattie a fitou com ingenuidade.
  • Que problemas? Onde está Anastasia?
  • Adormecida no outro quarto.
  • Então qual o problema? Por que esta reunião de emergência? Eu diria que ela e David estavam se dando muito bem. E quanto a Claire aparecer em um momento tão inoportuno, bem, isto é culpa de Betty.

 

    • Betty pareceu surpresa com as novidades.
  • Ah, é?
  • Foi você quem quis ajuda humana — Hattie a fez lembrar-se.
  • Tudo o que fiz foi colocar a idéia de David e Anastasia como um casal na cabeça de Claire.

 

    • — Então você deveria ter colocado na cabeça dela para que ficasse em casa esta noite.
  • Acidentes acontecem. E aquilo sobre Claire ter tido um sonho sobre fadas-madrinhas usando chapéus esquisitos? Você teve al­guma coisa a ver com isto, Hattie?
  • Com certeza não. Não uso chapéus esquisitos. Por que vocês duas estão rindo?—    Acha que é grande? — perguntou, indicando a fita dourada atada sob seu queixo.—    Parem! — gritou Hattie, colocando as mãos na cintura. — Não vou ficar aqui fazendo papel de boba. Anastasia é minha protegida, e eu digo que ela está se dando muito bem.— O problema é que ela também diz que não usa chapéus esquisitos. Então o que isto nos diz sobre seu senso de julgamento?

 

    • Betty suspirou.
    • Desapareceu em uma onda roxa de desprazer. Muriel falou para Betty:
    • A pergunta fez as irmãs rirem ainda mais, até estarem sem fôlego e prestes a desmaiar.
    • Betty e Muriel apontaram para o enfeite que Hattie trazia no topo da cabeça no exato momento. Era como um jardim decorado com laranjas e frutas amarelas.
  • Que nós não estamos fora da jogada ainda. Quantos dias faltam até nossa aposentadoria?
  • Muitos — respondeu Muriel, desconsolada.Em vez de fugir do pensamento de que o amava, decidiu avaliar e examinar com cuidado a situação. .Sem dúvida, ele era muito diferente dos homens pelos quais se apaixonara no passado, embora não fossem muitos.Sim, por debaixo de toda aquela aparência rude havia um bom homem que provavelmente estava tão confuso com aquele rela­cionamento quanto Anastasia.Mas não lhe dera quaisquer indicações verbais de seus senti­mentos. Olhar sensual capaz de derreter o mais puro aço não contava. Podia ser apenas a voz do desejo.Mantendo as chaves do carro em uma mão, usou uma assadeira para carregar a ratoeira. Porque na última vez em que carregara a ratoeira para fora sentira os movimentos do rato e aquilo a fizera fraquejar um pouco.

 

    • Apressou-se escada abaixo em direção ao carro. Estava quase pronta para ligar o motor quando David subitamente apareceu, vindo da sorveteria.
    • No instante em que entrou no apartamento, as preocupações com David tiveram de ser afastadas para que cuidasse do rato, novamente preso na ratoeira. Estava tentando capturá-lo havia dias. A manteiga de amendoim finalmente conseguira o feito.
    • Embora estivesse apaixonada, não havia motivos para achar que o sentimento era recíproco. Claro que ele lhe mostrara sinais de sentir atração. E a beijara com ardor.
    • O modo como ele a fizera sentir-se era ímpar. E era terna a maneira como cuidava dos interesses da avó.
    • O que podia haver de tão ruim em amá-lo? Ele tinha uma tendência a ser mandão e controlador, sem mencionar altamente desconfiado dos outros. Os únicos interesses que partilhavam eram apreciar os Three Stooges e amar Claire.
    • Anastasia passou a segunda-feira ocupada demais com o tra­balho para se preocupar com David. Mas no momento em que se dirigia para sua casa, ele era o centro de suas atenções novamente.
  • Precisamos conversar — disse em um tom que nada revelava.
  • Entre.Achando que o rato poderia se sentir mais seguro se não pudesse ver para onde ia, cobriu-o o melhor que pôde.—          É porque há um rato ali. David fez uma expressão de terror.David colocou a mão dela de volta no volante. Não sabia o que mais o apavorava: o rato ou o jeito selvagem de Anastasia dirigir.

 

    • —          Relaxe! — disse-lhe, tirando uma mão do volante para dar um tapinha em sua perna. — O rato está na ratoeira.
    • —    Aquele pano está se movendo — David notou quando se aproximaram da esquina.
    • Não tinha tempo de lhe explicar que precisava levar o rato para seu novo lar no parque e tinha de fazê-lo rapidamente para que o bicho não tivesse uma contusão ou algo pior de tanto bater a cabeça contra as laterais da ratoeira.
  • E qual o motivo de estarmos levando o rato para um passeio? — indagou, o sarcasmo mascarando seu desconforto. — Está abor­recido com sua vizinhança ou o quê?
  • Ele sempre retorna.
  • Como sabe que é o mesmo rato?
  • Eu simplesmente sei — murmurou, cantando o pneu ao parar no farol vermelho.
  • Pode ser que haja uma dúzia de ratos em seu apartamento.
  • Ouça, se houvesse doze ratos em casa, Xena nem dormiria à noite. Nem você. Não, é o mesmo rato. Posso jurar. Ele está rindo de mim. E assustando Xena.
  • Então o extermine.
  • Não posso fazer isto...
  • Por causa do Pescado. Certo. Então para onde estamos le­vando o sr. Rato?
  • Para aquele estacionamento no noroeste — respondeu, ace­lerando quando o farol se tornou verde.

 

    •  
  • Então ele poderá aterrorizar outra pobre donzela? Ela franziu a testa. Aquilo não lhe havia ocorrido.
  • Tem uma idéia melhor? Uma alternativa a matá-lo?
  • Não — admitiu.
  • Ótimo.—          Então será o parque!

 

    • —    Espero que vivamos tempo o bastante para chegar lá — murmurou David, agarrando-se à porta quando ela fez um retorno ilegal.
    • Decidiu que lindas donzelas deveriam encontrar soluções para seus próprios problemas.
  • Calma. Sou boa motorista. Sobre o que queria conversar? David não esperara ter aquela discussão com um rato tão próximo.
  • Sobre o que aconteceu na outra noite.
  • Sim?
  • Não planejei aquilo.Fez uma curva com tamanha rapidez que voltou a cantar pneus. Deu uma olhada para David.Não, o olhar de David estava direcionado para o rato cativo.Não teve tempo de lidar com seus pensamentos porque tinha de andar rápido para obter a última vaga no estacionamento pró­ximo ao parque. Quando o carro parou subitamente, escutou David suspirar, aliviado.Em questão de segundos David saltava do carro com mais ve­locidade do que dignidade.

 

    • O rato pareceu estranhar a falta de movimento, porque se de­bateu ruidosamente.
    • Aquilo parecia pertencer aos contos de fadas que lia para as crianças e não à vida real.
    • Será que a expressão de nervosismo em seu olhar era uma pista? Será que fora aquele olhar carente que a fizera caminhar até a beirada do despenhadeiro e apaixonar-se por ele?
    • —    Eu sei. Nem eu. Quando o convidei para descer, achei que poderíamos ficar próximos, mas não tinha como saber que as coisas ficariam tão... intensas e fora de controle. E com tamanha rapidez. Eu não estava tentando provocá-lo ou algo assim.
  • Você não gosta de ratos — notou Anastasia.
  • Conheço poucas pessoas que gostam além de você.
  • Como disse a Xena, não é que eu goste de ratos, apenas que eu...
  • ...não quer que morram. Eu sei.

 

    • David meteu as mãos nos bolsos frontais da calça jeans, como para deixá-las o mais longe possível do roedor.
  • Então mexa-se para fazê-lo ir embora. Deve haver uma lei municipal contra a soltura de ratos em um parque público.
  • Espero que não.Em uma ou duas árvores do parque já era possível perceber as cores do outono. Sabia, por experiência, que quando chegasse outubro, os carvalhos estariam maravilhosos.—          Force-o a sair — David ordenou com impaciência. Obedeceu, mas com força demais. O rato voou e quase bateuMas aquilo não salvou Anastasia, para cima de quem David correu, levando os dois ao chão. No último instante conseguiu protegê-la da pior parte da queda, usando o próprio corpo como escudo.—    Você está bem? — indagou ela, baixando a cabeça para ouvir-lhe o coração pelo simples prazer do ato, não para aplicar quais­ quer técnicas de salvamento.A longa saia marrom estava levantada, mostrando uma porção tentadora das pernas bem torneadas. A blusa alaranjada e o aga­salho marrom lhe davam uma aparência adorável e o lenço de seda estava atado na base do pescoço.Não era exatamente fã de vinhos, mas aquela mulher era capaz de embriagar qualquer um.Então a coxa marota escorregou por entre suas pernas, e David a capturou ali, as mãos puxando para bem perto seus corpos a fim de que ela sentisse sua excitação.David piscou várias vezes enquanto Anastasia se desvencilhava do abraço. Ela o deixava louco.

 

    • —    Ei, vocês dois! — uma voz masculina gritou. — Nada destas coisas no parque.
    • Foi seu último pensamento antes de se perder na intimidade da língua de Anastasia a brincar com a sua.
    • Ele a puxou para bem perto. Com delicadeza saboreou-lhe os lábios entreabertos como se fossem um vinho raro.
    • David assentiu. Ele ergueu a cabeça, mergulhando os dedos nos deslumbrantes cabelos castanhos. Eram pura seda. E tinham um perfume incrível.
    • Aconteceu tão rapidamente que Anastasia não podia acreditar que estava deitada sobre o peito de David, prensando-o no chão. Sentiu-se culpada por ter exagerado nas porções de sorvete de Claire e rapidamente rolou para o lado.
    • no ombro dele. Meros centímetros o protegeram.
    • Mas no momento precisava focar a atenção no rato, que uma vez levado ao meio do parque, mostrava grande relutância em deixar a ratoeira embora a porta estivesse aberta.
    • Anastasia tirou a ratoeira do carro. Não pôde deixar de apreciar a beleza do parque, localizado próximo ao lago Michigan. O céu estava encoberto, parecendo indeciso quanto a chover ou não. Mas aquilo apenas tornava os tons azuis e verdes do lago mais vibrantes.
  • E a polícia — sussurrou, escandalizada.
  • Vocês ouviram, os dois. Vão para outro lugar. — Quando o oficial se aproximou, falou: — Puxa, vocês têm idade suficiente para saber o que fazem. — Fez uma pausa antes de perguntar:David resmungou. De todos os policiais de todos os subúrbios, tinha de ser detido por Abe Carver, que comparecera à mesma conferência sobre investigação criminal a que fora em agosto...

 

    • —  Sullivan, é você?
  • Soube que você tirara uma licença, mas não fazia idéia que a pretendia passar em um parque — falou Abe, dando um tapinha no ombro de David com o entusiasmo típico dos machões. — Vida difícil, rapaz!
  • Certo — respondeu David entredentes e com um sorriso falso. — Já estávamos de saída.
  • Tenho de dizer que nunca havia enrubescido até conhecê-lo —Anastasia teve a petulância de lhe dizer assim que estavam de volta ao carro.
  • Você? E quanto a mim?
  • Você estava enrubescido?

 

    • Fitou-o com cuidado como que buscando sinais remanescentes.
  • Nunca fui apanhado em praça pública rolando na grama — informou-lhe.
  • Está insinuando que isso já aconteceu comigo? Ouça — or­denou, virando-se no assento e colocando o dedo indicador no peito de David —, posso ser pouco convencional a respeito de algumas coisas, mas...
  • Mas o quê?
  • Eu gosto do jeito como você beija. — A mão direita de Anas-tasia voou até a boca como para deter as palavras que acabaram de sair, mas já era tarde demais. Tristemente, acrescentou: — Eu não ia dizer isso. Escapou. Esqueça!Os poucos dias que faltavam para a grande inauguração da The Big Dipper transcorreram plenos de atividade. Ira, entretanto, exaltou-se ao dar a Claire três dúzias de rosas amarelas e um beijo quando a sorveteria oficialmente foi aberta.Um número muito grande de clientes que compareceram dis­seram serem fãs do "Amor no Ar".No sábado tudo estava tão atribulado que David postou-se atrás do balcão para ajudar a atender os clientes que chegavam sem lhes dar sossego.

 

    • Começara servindo mesas mas fora colocado ali por Anastasia, que fizera Barry tomar-lhe o lugar. O estudante fora contratado por Claire no dia anterior.
    • Como mostra de agradecimento, Claire renomeou o sorvete "Orvalho da Floresta" para "Amor no Ar" em honra a Heather. Ime­diatamente o sabor esgotou.
    • Os quatro dias de celebração foram um sucesso, graças em parte a Heather ter mencionado a The Big Dipper em seu pro­grama de rádio.
    • Como se esquecer a mais remota coisa sobre Anastasia fosse possível...
  • Por que Barry não pode ficar no balcão? — perguntou David quando Anastasia já o empurrava para lá.
  • Porque Claire ainda não terminou de treiná-lo.
  • Não me treinou também.
  • Eu lhe dei um curso sobre a história do sorvete e é assim que me trata?
  • Bem, se você colocar as coisas assim... Eu não gostaria que você achasse que eu deixei de apreciar aquela lição inesquecível.Ao final do dia de trabalho, David estava mostrando a habili­dade de seu avô ao dramatizar como se fosse uma dança a pre­paração de uma taça de sorvete.Enquanto limpava, David percebeu que se divertira muito. Aquilo era estranho porque sempre se considerara um machão compenetrado e uma sorveteria não era exatamente um recanto de masculinidade.—    Já está se divertindo? — Anastasia o provocou, como com freqüência fizera no passado.—          Sim, estou.Embora tivesse trabalhado longas horas na The Big Dipper no sábado, David desceu a escadaria para retomar o que sua avó e Anastasia haviam chamado de "busca do tesouro escondido".—    David, você está aqui? — chamou Anastasia, descendo alguns degraus da escada para confirmar que sim.O mesmo que Anastasia usara quando lhe dera a memorável lição sobre a história do sorvete. E da sedução.O sorriso dela era mais brilhante do que a luz fluorescente.

 

    • —          Alguma sorte na caçada ao tesouro?
    • Fez uma pausa em sua busca tempo suficiente para observar que o avental igual ao que ele ainda usava, no qual se lia "The Big Dipper", fora substituído por um vestido incrível.
    • Praticamente desistira de encontrar qualquer coisa, mas era me­ticuloso e havia um pequeno espaço que ainda não havia explorado.
    • Só não conseguia mensurar, ainda, a dimensão da felicidade que sentia.
    • Mas daquela vez ele pôde dizer com plena honestidade:
    • Suspeitou que Anastasia ficaria satisfeita em saber que estava se divertindo. Ela usava um avental branco para proteger as rou­pas, uniforme adotado por todos, mas que parecia particularmente melhor seu belo corpo.
    • Infelizmente errou o alvo. A boa nova é que por pouco deixou de atingir Anastasia com o sorvete lançado ao ar. A bola alaranjada caiu sobre o piso.
    • Deu um sorriso devastador que tirou o fôlego de Anastasia e foi de encontro ao próximo cliente da fila para pegar o pedido.
  • Desisto. Não há nada aqui — disse mais a si mesmo. Aproximando-se, Anastasia lhe fez um afago no braço e falou:
  • Sim, há. Posso sentir.
  • Então me conduza.Deu uma olhada na planta por um momento e então apontou para algo.Estudando a planta novamente, ele falou:Aproximou-se da quina e a estudou detalhadamente antes de balançar a cabeça.— Bingo!

 

  •  
  • — Já examinei esta área. Eu lhe digo, não há nada aqui. Empurrou a parede de concreto para provar o que dizia. Para seu espanto, uma parte do reboco abruptamente caiu, abrindo um espaço. Anastasia sorriu ante a expressão de susto no rosto de David e gritou:
  • —          Você pode ter razão.
  • —    Espere um pouco. Por que este canto não é igual ao real? Aqui parece haver um ângulo bem preciso, mas, na verdade, há uma certa inclinação na parede construída. Talvez fosse o jeito encontrado para colocarem uma frente falsa em um canto da área que usamos como despensa.
  • —    Eu gostaria de poder, mas não tenho aqueles aparelhos di­vinos que podem encontrar água ou tesouros escondidos.
  • O que há aí dentro? — perguntou Anastasia, a voz trêmula de excitação. — Consegue ver?
  • Não com você apontando a lanterna para meus olhos — protestou David.
  • Desculpe-me.

 

    • Ajustou o foco poderoso enquanto tentava ver alguma coisa por sobre o ombro dele.
  • Assim está melhor? Como há poeira aí dentro — acrescentou, bem antes de espirrar. — Quem diria que aquele tal de Chesty era esperto o bastante para ter uma sala escondida atrás da pa­rede? Sabe, parece uma adega em miniatura.
  • Não compreendo — murmurou David. — Eu verifiquei cada polegada desta parede e não encontrei absolutamente nada.
  • Então o que há aí?

 

    • A voz de Anastasia mostrava toda sua ansiedade. A de David não.
  • As prateleiras estão vazias — declarou ele. — Eu lhe disse que aconteceria isto. Assim como com Geraldo Rivera e o cofre vazio de Al Capone.
  • Sim, mas naquele caso os fiscais do imposto de renda estavam ao lado de Geraldo, prontos para confiscar qualquer coisa de valor que fosse encontrada.
  • Sim, bem, isto prova que nada é certo na vida a não ser a morte e os impostos.—  Espere um segundo. Acho que há alguma coisa no topo da­quela prateleira nos fundos. Vê?—    Sim.Anastasia sabia que apesar de proferir que nada seria encontrado, ele se entregara à emoção de uma caçada ao tesouro. Detestava vê-lo desapontado e perdida sua única experiência próxima a um sonho.Anastasia pegou uma caixa de madeira que estava por ali.Ambos teriam ido ao chão se ele não tivesse conseguido recobrar o equilíbrio rapidamente.Anastasia não sabia como responder àquela pergunta. Pressio­nada fortemente contra o corpo firme, as mãos absorvendo o calor da camiseta de algodão, a coxa entre as pernas de David... Estava fisicamente desarmada, mas o desejo percorria suas veias como as lavas de um vulcão.

 

    • —    Você está bem?
    • —  Posso sentir — disse ele, a animação envolvendo-o ao ficar na ponta dos pés... apenas para desabar de sobre a caixa para os braços de Anastasia.
    • —  Não consigo alcançar — murmurou frustrado. — Terei de subir em um banquinho ou algo assim.
    • Havia entusiasmo na voz de David.
    • Apontou a lanterna para o local.
    • Anastasia não queria desistir ainda.
  • Precisamos parar de nos encontrar assim — murmurou ela. — A última vez em que fizemos isto, fomos pegos pela polícia no meio de um parque.
  • Eu me lembro.Teria sido muito fácil ficar ali onde estava, apenas pressionada contra o corpo musculoso, mas Anastasia lembrou-se de que era adulta e se afastou.

 

    • A voz rouca a envolveu.
  • Acho que é melhor você usar um banquinho apropriado desta vez.
  • É a primeira vez que você usa sua voz de bibliotecária comigo. E sabe de uma coisa? Gosto disto.A licença que David tirara estava quase findando, e ela pensou em como o retorno ao trabalho o afetaria. Era curioso ele nada ter comentado sobre seu emprego.

 

    • Anastasia gostava do sorriso másculo que via com freqüência no rosto de David. Quando recordou-se do homem sisudo que a confrontara havia seis semanas, sentiu-se deliciada, encorajada e ansiosa por mudá-lo.
  • Você está me encarando? — perguntou a Anastasia. — O que foi? Há sujeira em meu rosto ou algo assim?
  • Ou algo assim — murmurou suavemente.Ele não se distanciou. Um sorriso iluminou-o com humor en­quanto pequeninas rugas enfeitavam o canto dos olhos.David podia adorar uma boa caçada ao tesouro, mas nunca de­monstrara sinais de querer possuir o objeto encontrado. O mesmo poderia ser aplicado ao romance que de alguma forma estavam vivendo.—   A sala oculta. Certo — disse em tom deliberadamente im­pessoal. — Vamos voltar ao trabalho.— Encontrei algo!

 

    • Passou os dedos ao redor do objeto e o puxou para a frente.
    • Ele pegou um banquinho e retomou a tarefa.
    • Logo não havia motivos para Anastasia continuar em pé ali como uma tola.
    • — Percebeu que ainda não sabemos o que há na sala escondida? A voz de David era suave, divertida e sugeria algo mais. Desejo talvez? Por ela?
    • Seus olhares se encontraram, e a magia familiar recomeçou. Anastasia reconheceu os estágios: antecipação, prazer, alegria, apreciação. No final, podia se perder naqueles olhos azuis até que o céu desabasse sobre os dois.
  • E uma... velha e empoeirada garrafa de vinho. Anastasia percebeu decepção no rosto de David.
  • Deve valer algo. Li um artigo sobre o valor de vinhos antigos.Anastasia com cuidado pegou a garrafa, tirou um pouco da poeira e a contemplou.Pegou a mão de David.

 

    • —   Pouco conheço sobre vinhos, mas este rótulo parece ser francês. Venha.
    • —   Duvido de que tenham mantido esta espécie de vinho na sala de Chesty.
  • Para onde vamos?
  • Para meu apartamento — respondeu-lhe, conduzindo-o e à garrafa empoeirada escada acima.
  • Para fazer o quê?Enquanto ela alegremente percorria os degraus a sua frente, David apreciava o tecido moldar o belo corpo de modo adorável. Estava pronto para esticar a mão e acariciar sua cintura quando Anastasia se virou e lhe deu um olhar faceiro por sobre o ombro.

 

    • — Sei em que está pensando.
    • — Para verificarmos na Internet e na World Wide Web. Não era a resposta que David esperava. Quando a tomara nos braços havia poucos minutos, o corpo quente pressionado contra o seu, quisera deixá-la nua e fazer amor com Anastasia, bem ali contra a parede do porão.
  • Eu sinceramente espero que sim — murmurou com voz rouca ao segui-la para dentro do apartamento um minuto depois.
  • Você está pensando no que a World Wide Web tem a ver com vinhos.
  •    Nem mesmo suspeita de quais são meus pensamentos. Não chegou nem perto.

 

    • Ela, entretanto, não deu atenção as suas palavras e continuou alegremente:
  • A resposta é que lá há ferramentas importantes, boas refe­rências sobre assuntos diversificados.
  • Eu achei que fosse um local para salas de bate-papo pornográficos.
  • Há isto, também — disse, sentando-se em frente ao compu­tador. — Agora vou digitar a palavra vinho...
  • Está usando sua voz de bibliotecária novamente — disse-lhe, acomodando-se em uma cadeira confortável e pousando a garrafa de vinho a seus pés por não haver outra opção de lugar.
  • Oh! Há cerca de duzentos e dezessete mil e quinhentos sites que incluem a palavra vinho. Acho melhor eu ser mais específica em minha requisição de pesquisa.—   Está bem, ótimo. Eu vou mandar um e-mail para eles... Para eles... E para eles.—    Aqui está.

 

    • Com um gesto enfático, virou o computador e o pousou na mesa.
    • David não estava realmente prestando muita atenção, distraído pelo decote do vestido que lhe permitia ver uma generosa porção do belo colo.
    • Seus dedos passearam pela tela do computador portátil pousado em seu colo enquanto Anastasia se curvava na cadeira. Após pou­cas palavras falou:
  • Talvez amanhã já tenhamos a resposta.
  • Acho que deveríamos fazer um brinde a esta noite.
  • Esqueça!Então caminhou até diante da poltrona em que David estava sentado, colocou as mãos nos quadris e o fitou, exasperada.—    Vou lhe dizer o que vale — murmurou David. —; Você! Em questão de segundos, fez com que ela se sentasse em seu colo. Os lábios já estavam entreabertos para um protesto quando David a beijou.Ansiosa, escorregou as mãos pelos ombros largos e aproximou seus corpos, fazendo com que os seios se pressionassem firmemente contra a fortaleza do peito largo. Sentiu através das roupas a excitação de David e a cada segundo queria estar mais próxima.Daquela vez agiu com mais rapidez e em pouco tempo a peça escorregava pelos ombros de Anastasia.Passou com avidez a mão delicada pelos ombros largos e fortes enquanto sentia carícias ensandecedoras em seus seios. O movimento lhe provocava intenso prazer e o bico de seus seios se intumesceram.Mas seu olhar de paixão foi dissipado por um súbito barulho seguido pelo praguejar de David. Afagou o cotovelo que acabara de bater na beirada da mesa.— O que estamos fazendo aqui?!Tão confuso estava com o desejo por Anastasia que demorou um ou dois segundos para focar a atenção nas próximas palavras.—    Que boa idéia! — ele conseguiu exclamou, tomado de felicidade. O quarto era colorido e esfuziante como Anastasia, mas David não estava interessado em suas habilidades como decoradora.O incidente na sala de estar não fora uma interrupção de fato; fizera apenas crescer a ansiedade. Quando estavam reclinando na cama, Anastasia já baixara o zíper da calça jeans de David.

 

    • Temendo perder o controle rápido demais, ele deliberadamente agiu com lentidão.
    • Encontrava-se muito mais fascinado pelos incríveis e pequenos movimentos que ela fazia contra seu corpo conforme suas línguas se tocavam em um caloroso beijo.
    • —   Deveríamos estar fazendo isso no quarto — murmurou, fa­ceira, com um sorriso sensual.
    • Resmungou novamente. Não naquele momento! Ela não iria desistir naquele instante, iria? David ia morrer! Queria-a com tanta intensidade que aquilo o estava matando.
    • Saindo do colo dele, Anastasia, trêmula, exclamou:
    • Ela abandonou a razão e submeteu-se aos desejos de seu corpo, permitindo que ditassem suas ações. A fricção dos corpos famintos era um delicioso tormento.
    • Enquanto isso, ela conseguira tirar a camiseta de David por sobre a cabeça antes que ele baixasse a mão para provocá-la atra­vés da renda do corpete de seda.
    • Ele murmurava roucas palavras de prazer, beijando-a nos lábios e pescoço, seus dedos hábeis abrindo os botões do vestido conforme fizera antes.
    • Anastasia acolheu bem o tentador convite representado pelas gentis investidas da língua em sua boca, retribuindo com criativos movimentos. Ele pousou o polegar no decote do vestido, a sensual apreciação de seu toque fazendo-a sentir-se acarinhada e desejada.
    • —    Estou lhe dizendo que aquele vinho pode valer algo.
    • Mais uma vez Anastasia agarrou a garrafa de sua mão, levan­do-a para a cozinha onde a colocou em um lugar seguro. Retornou à sala de estar e fez uma pausa para ligar o aparelho de som, no qual automaticamente começou a tocar o CD de Scherazade que ela ouvira no dia anterior.
  • Lembra-se daquela vez em que vovó nos flagrou?
  • Como poderia me esquecer? — respondeu, beijando-o no om­bro. — Foi a segunda vez em que eu enrubesci em todo o ano.
  • Você disse que tinha de praticar uma nova brincadeira com os dedos. O que quis dizer com aquilo?

 

    • Ela franziu a testa.
  • E uma brincadeira de uma aranha sobre um bolo, algo assim para crianças. Por quê?
  • Porque eu nutri fantasias sexuais sobre você e sua brinca­deira com os dedos. Mas não era nada infantil e sim meio parecido com isto...—  Você sabe como adoro uma boa caçada ao tesouro — sussurrou ele. — E não posso imaginar um prêmio melhor do que este...Ele sentiu o clímax passar por todo o corpo feminino, viu sua pele brilhar, os olhos se arregalarem com incontestável felicidade.Sentindo a evidência de que Anastasia continuava se excitando, ficou seguro para prosseguir. Sorriu ao senti-la arquear os quadris para ser possuída ainda mais completamente, fazendo-o gemer de cego prazer. 

 

  • Escravo do desejo, David seguia um ritmo primitivo, cada mo­vimento levando-a para mais perto da plenitude novamente. So­mente quando Anastasia perdeu suas forças, ele se permitiu ca­pitular, gritando seu nome e a abraçando com ardor.
  • Quando percebeu que estava esgotada e satisfeita, David ra­pidamente colocou o preservativo e postou-se a seu lado. O com­passo da música da sala de estar aumentava quando ela o re­cebeu dentro de si.
  • Quando David pousou os lábios no bico do seio, e seus dedos insistiram nas carícias, Anastasia arqueou as costas, entreabriu os lábios e gemeu em êxtase.
  • Escorregou os dedos para a intimidade de Anastasia, esguei-rando-os por debaixo do sedoso confinamento da calcinha até o centro de sua feminilidade, quando praticou sua erótica magia com ela. Fez tudo com bastante lentidão, certificando-se de que tivesse prazer intenso e devastador.
  • Foi incrível! — murmurou Anastasia sa­tisfeita   ao sentar-se   na beirada da cama, tendo David a seu lado.

 

  • — Você se referiu à maneira como fizemos amor ou à tigela de sorvete de nozes que acabou de devorar? — inquiriu ele secamente.
  • A ambas as coisas — respondeu antes de mergulhar a colher para pegar uma última porção de sorvete. Olhando para a tigela de David, onde havia sorvete de chocolate, falou: — O seu está derretendo.
  • Estou trabalhando em uma nova receita de sorvete derretido, uma que não constava no receituário de meu avô. Mas vou precisar de sua ajuda.
  • Quer que eu a experimente quando terminar?
  • Não, eu a irei saborear. Apenas preciso que você se deite e fique bem confortável.—   Assim está bem — disse ao ajeitá-la melhor. — Chamo oficialmente esta criação de sundae Anastasia. Depois de despir uma bela Anastasia — falou solenemente com um sorriso sensual ao tirar seu robe —, pega-se sorvete derretido sabor chocolate.

 

    • Colocou gotas sobre os seios nus dela, fazendo-a gritar, surpresa.
    • Pegou a vasilha vazia da mão de Anastasia e a colocou na cabeceira da cama pintada com luas e estrelas.
  • Está frio!
  • Não se preocupe. Vou cuidar disto.—   Isso é uma sarda ou um pedacinho de chocolate? — ele indagou. — Humm, delicioso.

 

    • Anastasia mergulhou os dedos nos sedosos cabelos escuros e sussurrou com voz rouca:
    • Baixando a cabeça, David lambeu o sorvete, a língua a aque­cendo com seu calor, criando um rastro de fogo. O creme frio fizera o bico dos seios se enrijecerem, mas os lábios foram suficientes para a aquecer e fazer arquear o corpo de prazer.
  • Eu não fazia idéia de que você era tão criativo.
  • Você faz aflorar o que há de melhor em mim.David nunca soubera que gostava de ter seu dedão do pé lambido até experimentar aquilo pela primeira vez na manhã seguinte. Demorou um ou dois segundos até perceber que era a gata de Anastasia quem o lambia.Afastou o pé, fazendo a gata cair e lhe dar um olhar de censura em seguida com seus belos olhos azuis.Para sua surpresa, a gata postou a cabeça bem debaixo de seus dedos em um convite para ser acarinhada.Não pensava em gatos havia anos. Desde que entrara para o Corpo de Bombeiros, praticamente só dava atenção ao trabalho. Além do beisebol, não tinha outros interesses ou passatempos. Sua identidade fora formada pelo trabalho.A constatação não fora súbita; estivera se insinuando havia algum tempo. Descobrir aquela sala escondida na noite anterior o fizera lembrar-se do prazer de tèr um sonho, mesmo que o achado fosse uma velha garrafa de vinho empoeirada.—   Parece imerso em pensamentos — observou sonolenta antes de se achegar a David e passar os dedos dos pés pela perna máscula.

 

  • Gemendo de prazer, ele a apertou de forma que os seios nus se pressionassem contra seu corpo.
  • Sonhos o faziam pensar em Anastasia. Fazer amor com ela fora melhor do que jamais havia imaginado.
  • Descansando sobre os coloridos travesseiros de Anastasia, perce­beu que era hora de mudar sua vida. Já a alterara muito desde que conhecera a amiga da avó e ajudara Claire a alcançar seu sonho.
  • David sempre gostara de animais, exceto ratos. Em sua infância tivera um cachorro e um gato. Sua avó ainda tinha alguns felinos, descendentes de Hank, aquele que crescera com ele.
  • —   Sinto muito — ouviu-se sussurrar ao estender a mão em sinal de conciliação.
  • Assustado, afastou o pé, e o movimento fez com que o bichano se agarrasse ao dedão tenazmente, como se fosse um rato. Então recordou-se de que era aquele o felino que tinha medo de ratos.
  • A voz de David estava plena de paixão, e ele derramou mais sorvete no corpo sinuoso. Anastasia arrepiou-se quando o sorvete atingiu sua pele e gemeu de prazer quando a boca máscula e a língua ousada o consumiram em sensual deleite.
  • Eu estava pensando que deveria manter o sundae Anastasia como uma receita exclusiva para mim.
  • Acho que é uma decisão inteligente — respondeu, pousando a cabeça na altura do coração de David e a mão sobre o abdômen.

 

    • Capturando a mão de Anastasia, ele a levou aos lábios e falou:
  • Foi a primeira vez que você me chamou de inteligente.
  • Talvez porque seja a primeira coisa inteligente que já tenha dito — rebateu, erguendo a cabeça para lhe dar um sorriso faceiro e beijá-lo no queixo.
  • E quanto a minha sugestão de sorvete de ovos em vez de torta de menta para os feriados? Foi uma idéia esperta também. Vendemos à beca.
  • E isto veio de um homem cujo sabor favorito era baunilha quando o conheci.
  • Como sabia que meu sabor favorito era baunilha? Nunca lhe disse isto.
  • Eu poderia dizer que você definitivamente tinha o perfil de um rapaz que gosta de baunilha — falou com confiança.
  • É mesmo?

 

    • — Sim. Tradicional, durão, responsável, mandão, cheio de von­tade de julgar os outros...
  • Esses elogios não irão levá-la a lugar algum.
  • Você não precisa de elogios. Tem um ego bem desenvolvido e estável.
  • Para um ex-investigador criminal...
  • Sobre o que está falando?Ela queria sugerir que talvez ele tivesse sido expulso por ser tão durão com seus colegas, mas então viu a expressão sombria nos olhos azuis. David não estava brincando. Falava sério.

 

    • — Foi por isto que tirei uma licença. Para avaliar melhor alguns fatos sob nova perspectiva.
  • Nunca me disse isto.
  • Por que acha que eu tirei a licença?
  • Claire deu a entender que era para você usufruir de todas as férias que já tinha acumulado.
  • Foi o que eu lhe disse.

 

    • — Por que não falou nada sobre isso antes? David deu de ombros.
  • O que deveria dizer? Que sou um investigador criminal de­missionário? Soa muito atraente.
  • Notei que nunca falava sobre suas atividades o que, para uma pessoa viciada em trabalho como você, deveria significar que algo de errado estava acontecendo.
  • O velho David era viciado em trabalho. Mas ao longo das últimas semanas, reaprendi a ver as prioridades em minha vida.
  • Então agora beisebol é a número um — provocou-o.
  • Não, você é.—    Eu a amo e quero me casar com você.David achou que aquele não era um bom sinal. Poucas vezes pedira mulheres em casamento, mas tinha certeza de que ela de­veria mostrar alguns sinais de excitação. Como: gritar, chorar, dizer "sim, sim, sim!". Esperava algum comportamento conhecido.

 

    • Mas Anastasia nunca fazia as coisas da maneira regular; tinha seu jeito especial de ser. Mesmo assim, não deveria estar perambu-lando pelo quarto. Mas David não era um especialista em propostas.
    • A expressão de Anastasia foi de espanto em vez de deleite. Sem dizer uma palavra, pegou o robe com nervosismo e saiu da cama.
    • As palavras vieram com mais facilidade do que David antecipara. E uma vez tendo começado a falar, não pôde mais se deter. Foi adiante, seguindo os pensamentos com a costumeira organização.
  • Por que tenho a impressão de que você não está animada com a idéia?
  • Jamais sonhei que você fosse me fazer esta proposta.

 

    • A resposta não o agradou. Sentiu-se em definitiva desvantagem porque ainda estava nu na cama de Anastasia enquanto ela usava um robe. Apressou-se em pegar a calça jeans e a vestiu.
  • Por que não? Sou bom o suficiente para dormir com você mas não para ser seu marido?
  • Não é isto!

 

    • Fitou-o, os olhos denotando desespero.
  • Nunca imaginei que você fosse me fazer esta proposta porque parece valorizar sua independência tanto quanto eu.
  • Está me dizendo que não me ama?
  • Não, não é isto. Eu o amo. Sinto isto desde que você deu aquele olhar nervoso para o rato em meu carro. Bem, na verdade, eu me apaixonei por você antes disto, mas tive certeza no carro há alguns dias. — Passou os dedos pelos cabelos longos antes de admitir: — A questão é que eu não quero um marido me dizendo o que devo fazer. Aos trinta e três anos, estou acostumada a fazer as coisas a minha maneira.

 

    • David não podia acreditar naquela resposta.
  • Achei que todas as mulheres quisessem se casar. Anastasia virou-se e o fitou, a raiva iluminando seu olhar.
  • Esta é uma coisa idiota para se dizer,

 

  • —   Não mais idiota do que você falar que não quer um marido lhe dizendo o que deve fazer.
  • Não fui boba em dizer aquilo — respondeu —, mas fui em achar que você poderia compreender como me sinto!
  • Vou lhe dizer o que é estupidez! — gritou Hattie do lustre, embora os dois não a pudessem ouvir. — Eu fiz todo esse trabalho para uni-los, fazer David pedi-la em casamento e ela diz não! Não posso acreditar! Todas chegamos aqui a tempo para a proposta de casamento e agora somos obrigadas a ouvir isso!
  • Não levamos esta possibilidade em consideração — admitiu Muriel.

 

    • Hattie a encarou.
  • Não brinque.
  • Focamos nossa atenção em fazer David perceber quanto ama­va Anastasia, e ela descobrir que o amava também — acrescentou Betty. — Quem podia imaginar que Anastasia precisaria ser con­vencida sobre as vantagens de se casar?
  • Você é a mais velha. É tarefa sua saber destas coisas — Hattie não sabia como agir diante da situação inesperada.
  • Ei, este trabalho é seu — devolveu-lhe Betty. — Eu já lidei com Jason e Heather. Anastasia é seu bebê.
  • Se ela fosse meu bebê, eu a colocaria em meu colo e lhe daria um tapa no bumbum.
  • Sim, está certo — interveio Muriel. — Mas não parece possível vindo de uma fada-madrinha que não pode machucar uma pulga.
  • Ela o ama — argumentou Hattie sem conseguir entender o porquê da recusa. — Disse isto.
  • Nós deveríamos cer suspeitado de que ela ficaria nervosa com a perspectiva de partilhar sua vida e cotidiano com alguém. Deveríamos ter previsto que temeria o casamento. Ela é tão tenaz em manter sua independência. Tanta teimosia só podia gerar pro­blemas — comentou Muriel com grande autoridade.Seu chapéu amarelo, o mesmo que usara no casamento de Jason, ficara torto pelo modo como mexia a cabeça ao continuar murmurando:Mexeu tanto com as mãos que a varinha mágica tornou-se tão vermelha até que, como uma flecha em chamas, soltou um lampejo de energia. 

 

    • Em um minuto, Anastasia estava discutindo com David e, no seguinte, o quarto estava cheio de fumaça. Notara um brilho de fogo, como um vulcão em miniatura saindo do teto antes de seus olhos captarem a estranha fumaça.
    • — Fogo! — Todos no quarto, humanos e fadas-madrinhas, gri­taram em uníssono.
    • —    Não, isto não pode estar acontecendo.
    • Hattie não se sentiu impressionada. De fato, estava se tornando cada vez mais agitada a cada segundo em que perambulava pelo teto do quarto.
  • Precisamos sair daqui — disse David, guiando-a em direção à porta da frente. — Onde está seu extintor de incêndio?
  • Debaixo da pia da cozinha.

 

    • David pegou o extintor e apressou-se de volta ao quarto. O coração de Anastasia batia descompassado até ela ouvir o barulho do equipamento sendo usado um momento depois.
  • Está tudo bem. Não precisa telefonar para o Corpo de Bom­beiros. Deve ter ocorrido algum problema na fiação da lâmpada. Criou um pouco de fumaça, mas não causou muitos problemas. Solucionamos a tempo.
  • Graças a Deus!

 

    • Aqueles poucos segundos em que ele estivera sozinho no quarto cheio de fumaça haviam parecido uma eternidade.
  • Foi o fogo mais esquisito que já vi — falou David estudando a área. — Tanta fumaça e não há marcas de queimado. A pen­teadeira fica bem próxima à lâmpada mas não há qualquer marca ali. E no minuto em que abri a janela, o fogo cessou e a fumaça voou para fora como se fosse um morcego saindo para a escuridão.
  • Talvez o ventilador de teto tenha ajudado a afugentá-la.
  • Não estava ligado. Foi como se alguma personagem daquelas histórias que você conta às crianças, com alguma varinha mágica ou algo do gênero houvesse dito algo e a fumaça ido embora.
  • Bonito! — ironizou Betty, olhando para Hattie que se em-poleirara na cabeceira da cama.
  • Não fiz de propósito — queixou-se, ajeitando.o chapéu. — Foi um acidente. Eu estava aborrecida.
  • E acha que nós não estávamos? Mas não nos viu iniciando um incêndio, viu?

 

    • A voz de Betty refletia sua ira.
  • Como eu poderia saber que mexendo a mão daquele jeito iniciaria um incêndio? — ponderou Hattie, segurando com cuidado a varinha mágica. — Você deveria ter me avisado.
  • Não tente colocar a culpa em mim — avisou Betty. — Olhe só o que fez com minha camiseta.—    Vou consertar isso — Hattie rapidamente se ofereceu.

 

    • A um toque da varinha mágica, ela substituiu a camiseta por uma nova, em um tom claro de lilás. Vendo o olhar furioso de Betty, rapidamente fez a peça ficar branca.
    • Puxou-a, apontando as marcas pretas sobre as letras: "Por que Você Está Olhando?".
  • Se você acha que isto torna tudo correto, está tristemente enganada.
  • Pelo menos minha varinha mágica ainda funciona — obser­vou Hattie, abraçando-a com gratidão.—  Estou lhe dizendo, posso ser teimosa sobre algumas coisas, mas isto realmente é de impressionar.

 

    • Hattie encarou seu olhar, ajeitando o chapéu.
    • Betty colocou as mãos nos amplos quadris e olhou para a irmã mais nova com evidente desaprovação.
  • Foi você quem disse que isso tudo seria como um pedaço de bolo.
  • Quietas vocês duas — ordenou Muriel. — Anastasia e David estão conversando.
  • Não foi assim que imaginei iniciar esta manhã — disse David ao colocar o extintor de fogo no chão. — Já ouvi dizer que as coisas ficavam quentes em um quarto, mas isto é ridículo.

 

    • —    Tem razão — concordou Anastasia com um sorriso nervoso. Suas mãos tremiam devido à adrenalina que ainda corria em seu sangue, por isso as meteu no bolso do robe, onde encontrou um brinquedo de gato.
  • Xena! Você viu Xena? — perguntou, frenética.
  • Eu a vi na sala de estar, debaixo daquela mesa esquisita. Anastasia disparou para o cômodo, abaixando-se para espiar para—    Sinto muito — murmurou Anastasia. — Sei como você detesta catástrofes. Eu também não gosto. De fato, sinto-me como se fosse desmaiar.Gentilmente a fez aprumar-se, amparando-a. Ela assentiu. As costas de Anastasia pousaram no peito largo, e ele disse:

 

    • —   Provavelmente porque todo seu sangue foi para o cérebro ao colocar seu traseiro para o alto desse jeito. Que, aliás, é muito sensual, não me leve a mal — disse David ao ficar a seu lado. — Venha sentar-se.
    • debaixo da mesa. Os olhos azuis de Xena lhe piscaram de volta.
  • Tenho de lhe dizer que aquela proposta de casamento não aconteceu exatamente da maneira como previ. Tenho pouca expe­riência com essas coisas. Com fogo certamente posso lidar. Sei buscar evidências e pistas sobre a origem de um incêndio. Mas parece que não sei desvendar você.
  • Já fui acusada de ser complicada — Anastasia admitiu, fa­lando baixinho.

 

    • Sentia-se feliz e protegida naqueles braços.
  • Posso entender o motivo.
  • Você também não é um astro em simplicidade — apressou-se em dizer.
  • Vou encarar isto como um elogio... Acho eu.
  • Sabe bem o que eu quis dizer — respondeu, adorando a maneira como a voz máscula reverberava por seu corpo enquanto David falava.
  • O que me apavora é que eu realmente entendo o que você quer dizer. Posso nem sempre ser apto a decifrá-la, mas durante as últimas poucas semanas aprendi a entender o que você quer dizer mesmo não sabendo o motivo de ter dito aquilo.

 

    • Pousou o queixo na cabeça de Anastasia, e ela acomodou-se melhor em seu corpo.
  • Antes de sermos interrompidos pelo incêndio, você disse que valorizava sua independência e que achava que eu também valori­zava. Bem, tinha razão. Eu realmente dou valor a minha indepen­dência. Confie em mim quando lhe digo que não saio por aí fazendo propostas de casamento a todas as mulheres com as quais faço amor.
  • Isto é reconfortante — ironizou, detestando a idéia de vê-lo ao lado de uma outra mulher, bem como a hipótese de estar com ciúme.—    Sua natureza impetuosa é uma das coisas que adoro em você. Ela observou-o com desconfiança.

 

    • David sorriu.
  • Alguns rapazes já me disseram isto antes, apenas para tentar fazer com que eu mudasse e fosse mais dócil.
  • Acho que nem mesmo aquelas fadas-madrinhas que você tanto gosta de desenhar seriam capazes de fazê-la se tornar uma pessoa apática — observou secamente. — Isto não irá acontecer
  • Com toda certeza.
  • Viu, concordamos em alguma coisa.—   Eu sinto ter de lhe falar isto, más minha avó não irá aprovar que eu viva em pecado com você. Pode persegui-la com uma espingarda ou um pote de sorvete e exigir que faça de mim um homem honesto. Eu apenas acho justo avisá-la, para sua própria segurança.—   Então me pediu em casamento porque temia que eu fosse insultada por sua avó?

 

    • — Mais ou menos isto — concordou com um sorriso leve. Os lindos olhos azuis a deixaram com os joelhos trêmulos.
    • Anastasia levou alguns segundos para perceber que, em vez de estar lhe dando ordens ou com raiva, David na verdade a estava provocando.
    • Passou os dedos pelos longos cabelos de Anastasia e murmurou:
  • Eu adoraria fazer amor com você apaixonadamente e esque­cer as convenções, mas há minha avó a ser considerada. E embora ela me tenha dito que não tem planos de se casar, que apenas moraria com um homem para garantir seu seguro social, eu não tenho uma desculpa como esta em que me amparar.
  • Somente daqui a vários anos — concordou ela, percebendo que David fazia tudo aquilo para tentar deixá-la mais tranqüila.

 

    • Nunca o amou tanto quanto naquele momento. Foi então que percebeu que estar casada com David não necessariamente signi­ficaria desistir de quem ela era.
  • Puxa, você realmente sabe como fazer um rapaz se sentir bem... Respirando profundamente, ela o interrompeu e falou:
  • Sim!
  • E é modesta sobre isto também.
  • Não, eu quero dizer sim, eu quero me casar com você!
  • Isto foi um sim ou um não? Virou-se para encará-lo.
  • Foi e é um sim.

 

    • —  Demorou muito — murmurou David antes de pegá-la nos braços e a beijar. — Espere, acabei de perceber que confundi as coisas.
  • Você estava maravilhoso em minha opinião — sussurrou sedutoramente.
  • Quero dizer sobre minha proposta de casamento. Eu não lhe disse o que decidi sobre minha carreira. Consigo me lembrar agora do que gostava, no princípio, naquele emprego... Era da busca por pistas como se estivesse em uma caçada ao tesouro. Acho que recarreguei meu compromisso em relação ao trabalho.
  • Você é viciado em trabalhar. Nunca pareceu que não estivesse comprometido com o que fazia. Talvez estivesse comprometido de­mais até.
  • Isto foi antes de eu ter você para me distrair.
  • Está dizendo que acha que sou uma distração?
  • Você é a melhor distração possível. Venha — falou, pegando-a pela mão.
  • Para onde vamos? O quarto fica na outra direção.
  • Vamos pegar aquela garrafa de vinho que encontrei. Acho que devemos brindar nosso noivado.—    Espere!

 

    • Tirou-a das mãos de David.
    • Quando chegaram à cozinha, ele encontrou garrafa empoeirada.
  • Antes de abrirmos o vinho, deixe-me verificar se recebi res­posta dos e-mails que enviei na noite passada.
  • Ora! Trata-se apenas de uma velha garrafa de suco de uva fermentado — falou ao observá-la abrir o computador portátil.
  • Puxa! — espantou-se ao acessar seu endereço eletrônico. — Aquela velha garrafa de suco de uva fermentado, como você disse, por acaso vale cinqüenta mil dólares.

 

    • David riu.
  • Sim, sim. Muito engraçado.
  • Não estou brincando. Dê uma olhada aqui. Recebi diversos e-mails sobre o vinho, que é de uma rara safra francesa. Dois colecionadores me enviaram propostas oferecendo ofertas firmes para comprá-lo por cinqüenta mil dólares.—   Parece que Chesty tinha um tesouro escondido, afinal — sussurrou ela.—   Eu procurava por David. Como ele não estava em seu apartamento... Ah, aí está você — falou como se nada houvesse de inusitado em encontrar seu neto sem camisa no apartamento de Anastasia. — Ela continuou a falar: — Fui até o porão e encontrei aquela estranha porta aberta conduzindo a uma pequena área construída no canto. Você encontrou o tesouro pelo qual procurava?—    Encontramos uma garrafa de vinho.A voz de Claire refletia sua decepção.Levando a mão ao peito, ela arfou.

 

    • —  A garrafa vale cinqüenta mil dólares — acrescentou com um sorriso.
    • —    Oh!
    • David deliberadamente manteve sua voz controlada.
    • Uma batida à porta da frente os interrompeu. Era Claire, muito faceira e bonita usando calça comprida caqui e uma camiseta pólo onde se lia: The Big Dipper.
    • David estava tão atônito que a garrafa quase escorregou de sua mão. Ele e Anastasia a seguraram ao mesmo tempo e a sal­varam. Colocaram-na sobre a mesa e a fitaram, espantados.
  • Oh, não acredito!
  • O dinheiro é seu — falou David.
  • Bobagem. Você encontrou a sala oculta e o vinho. O dinheiro lhe pertence.
  • De jeito nenhum. Estava em seu prédio. Pertence à senhora.
  • Talvez vocês dois possam dividir o dinheiro — sugeriu Anastasia.
  • É uma excelente idéia! — exclamou Claire. — Eu lhe disse desde o princípio, David, que Anastasia era uma mulher muito inteligente.
  • Jamais duvidei disto.

 

    • Claire franziu a testa e fitou Anastasia.
  • Mas ela pode não ser esperta o bastante para saber o que é bom para si quando o assunto é casamento.
  • Antes que você corra atrás de mim com um pote de sorvete, eu planejo tornar seu neto um homem honesto e me casar com ele — Anastasia lhe garantiu com um sorriso provocador.
  • Ele sempre foi um homem honesto — disse Claire com or­gulho, os olhos cheios de lágrimas —, mas você o fará um homem feliz também.
  • Eu lhe disse que ensinaria seu neto a se divertir — Anastasia falou com um sorriso faceiro. — Nunca deixo de cumprir uma promessa.  

 

  •                      UM ANO MAIS TARDE
  • —   Estou contando com isto — murmurou David ao tomá-la nos braços.
  • A responsabilidade é tremenda — falou Muriel   solenemente,   a voz ecoando igreja adentro.
  • Concordo — falou Betty, ajeitando a bainha de sua camiseta onde se lia: "Não se Queixe".
  • Este chapéu combina com o vestido? — indagou Hattie, ajei­tando as pregas de seu vestido turquesa e as luvas. — O casamento não devia estar começando agora?
  • Contenha sua impaciência — falou Betty. — E não crie con­fusão. Este chapéu que você está usando já é dramático o bastante.

 

    • Hattie ajeitou a pena branca de seu elaborado chapéu.
  • Fico feliz que tenha gostado.
  • E sua cara.—    Oh, querida, bati no anjo novamente.

 

    • —    Obrigada, mas estou tão nervosa que não consigo ficar quieta. Bateu suas asas bem rapidamente e voou com tanta velocidade que bateu na estátua de um anjo.  
  • Acho que é um reflexo de sua latente hostilidade para com os anjos da guarda, porque tem inveja de suas asas — disse Muriel, usando o recém-adquirido par de óculos vermelhos na ponta do nariz.
  • Oh, por Deus! — bufou Hattie. — É que eu estou ansiosa demais para que a cerimônia comece.
  • Eu também — concordou Betty. — Quem imaginaria que Anastasia seria a mais conservadora dos trigêmeos Knight e gos­taria de um noivado com duração de um ano seguido por um casamento na igreja onde foi batizada?
  • Tudo começou aqui — observou Hattie com sentimentalismo.A voz de Betty era reflexiva ao dizer:

 

    • Flutuando de volta ao balcão onde estavam as irmãs, secou os olhos com um lenço.
  • Quem diria que o choro ensurdecedor dos trigêmeos Knight iria conduzir a algo tão bom?
  • Não é nossa tarefa saber disto? — perguntou Hattie com a testa franzida.
  • Não, foi nosso trabalho uni-los às suas almas gêmeas e fi­zemos isto.
  • Anastasia e David ainda não se casaram — Muriel avisou em tom de cautela.
  • Como pode estar tão calma? — perguntou Heather ao ver Anastasia na ante-sala da igreja. — Quando eu estava para me casar com Jason, senti-me uma pilha de nervos.
  • E devia mesmo estar assim — falou Anastasia, sorrindo. — Meu irmão tinha uma reputação e tanto. Não apenas era mandão como também era dono do duvidoso título de solteiro mais sexy de Chicago. Até que você o agarrou.
  • Na verdade foi ele quem me agarrou — murmurou Heather.— Ou talvez um tenha agarrado ao outro.
  • Você está tão deslumbrante nesse vestido de noiva, Anas­tasia, que eu quase desejo não ter desistido de um casamento formal — falou Courtney entrando na conversa pela primeira vez.
  • Eu sempre dizia a David que iria me casar usando macacão de veludo vermelho, uma camiseta cor-de-rosa e meus sapatos alaranjados ou botas. Ele ainda não sabe nada sobre o vestido. Você o acha bonito?Os cabelos estavam presos no alto da cabeça, de onde saía um véu a cascatear por suas costas em leve abandono.

 

    • Observou-se no espelho mais uma vez. O vestido branco de noiva, sem mangas e decotado, moldava seu corpo até a cintura, e a saia era rodada, com uma romântica cauda.
  • É deslumbrante, e você também está linda. Claire, a madrinha, juntou-se às moças.
  • Os convidados estão todos aqui. E quase hora de começar.
  • Como está Ira?
  • Muito nervoso. Fica repetindo que nunca foi padrinho antes —comentou com evidente afeição.—    Quem diria que ele e David se dariam tão bem? Ou que David elegeria meus dois irmãos como seus padrinhos? Ainda estou ques­tionando a sabedoria de tal escolha — disse Anastasia. — Acho que os dois danados seriam capazes de convencê-lo a não se casar comigo.

 

    • —    Ainda não é tarde demais — Jason estava falando para David em outra ante-sala da igreja. — Você ainda pode fugir.
    • Anastasia estava satisfeita por Claire ter encontrado a felici­dade com Ira.
  • Nós o encobriremos — acrescentou Ryan. — Poderemos dizer que você foi raptado por alienígenas.
  • Como a alienígena que vocês levaram para minha despedida de solteiro, ontem à noite? — inquiriu David.
  • Ela era muito bonita.Apenas rezava para que ela não colocasse o macacão ou algo inusitado. Na verdade, rezava apenas para que aparecesse.—  Ora, achamos que você estava brincando quando nos disso que não queria uma dançarina de bordel — disse Ryan, fazendo caretas ao ajeitar a roupa formal.—  Vocês sabiam que, por terem arrumado uma dançarina para minha festa, as mulheres contrataram um homem para dançar e tirar a roupa diante de Anastasia ontem?

 

    • Vendo o modo como seus cunhados arregalaram os olhos, David teve de sorrir.
    • Jascn e Ira eram os únicos que pareciam totalmente à vontade nas roupas sérias.
    • Sabia que ela já estava na igreja. Seu futuro sogro tinha lhe dado a informação, mas se recusara a dizer como estava vestida.
    • — Eu disse que não queria uma dançarina de bordel... David ajeitou a gravata. Nunca usara um smoking antes e sabia bem a razão: era desconfortável demais. Mas Anastasia insistira para que usasse o traje formal.
  • Ah, vocês dois parecem um pouco surpresos.
  • Não fizeram isto! — Jason e Ryan falaram em uníssono.
  • Fizeram sim. E pior, Anastasia adorou me contar cada de­talhe. O rapaz estava vestido de policial e depois foi tirando tudo. Ou quase tudo.

 

    • Jason e Ryan estremeceram.
  • Vocês dois deviam fazer coisa melhor do que aborrecer sua irmã — disse o pai. — Receberam uma boa lição!
  • Sim — observou Ryan secamente. — Aprendemos agora que nunca se deve deixar Anastasia, Heather e Courtney juntas na mesma sala sem supervisão masculina.
  • Elas estão sozinhas neste exato momento — observou David.
  • Sim, mas sua avó está com elas — respondeu Jason.
  • Como se isto fosse uma boa garantia — ironizou David.
  • O que quer dizer? — perguntou Ira, juntando-se à conversa pela primeira vez.
  • Foi minha avó quem contratou o rapaz — esclareceu David.
  • Todas as garotas estão vestidas? — perguntou Ira do lado de fora da porta. — David mandou um presente para sua noiva.
  • Ele não a poderá ver até que Anastasia entre pela nave — disse Claire antes de abrir um pouquinho a porta. — Meu neto não está aí com você, está?
  • Não. Pediu-me para dar isto a ela. Você está adorável, Claire — acrescentou, fazendo um trejeito galante e dando um passo para dentro da ante-sala. — Você também, Anastasia.
  • Não diga a David o que ela está vestindo. Anastasia quer surpreendê-lo — Claire o instruiu.
  • Meus lábios estão selados. Mas devo dizer que a gargantilha de pérolas vitoriana que o noivo escolheu em minha loja ficará excepcional com este vestido.

 

    • Anastasia, com ansiedade, abriu o elegante papel do embrulho. Heather e Courtney estavam a seus ombros, curiosas para ver o que David lhe comprara.
  • Jóias. Aposto que são mais jóias — disse Heather.
  • É um livro infantil."Para minha princesa Sapo,

 

    • Eu me apaixonei por você desde a primeira vez em que a vi lendo esta história para as crianças. Achei que já era hora de ter sua própria cópia do livro. Tenho certeza de que, a exemplo do casal dessa história, também seremos felizes para sempre. Você me fez acreditar que sonhos podem se tornar realidade. Seu futuro marido, David"
    • A voz de Courtney refletiu confusão. David escrevera na primeira página:
  • Você está chorando ao ler um livro infantil? — indagou Heat­her, atônita.
  • Não é qualquer livro. E a Princesa Sapo, um de meus fa­voritos. Este sapo estranho torna-se uma adorável jovem que é...
  • Uma princesa — Heather e Courtney disseram ao mesmo tempo.
  • Não, uma bibliotecária.

 

    • Abraçando o livro, Anastasia secou as lágrimas e virou-se para Ira com um sorriso esfuziante.
  • Diga a David que eu o amo, e acho que devemos dar pros­seguimento ao espetáculo. Vamos nos casar!
  • Ainda não é tarde demais para tocarem aquela canção de Dean Martin: Everybody Loves Somebody Sometimes — o pai de Anastasia sussurrou quando a pegou pelo braço em preparação para a entrada rumo ao altar.
  • Esqueça. Não tem algumas palavras de aconselhamento, papai?Conduzida pelo pai nave adentro, Anastasia sentia-se muito tranqüila com sua decisão. Temera que após anos evitando o ca­samento pudesse experimentar algum pânico no último momento.Ele a aguardava no altar, sensual em sua roupa de gala. Ob­servou os belos olhos azuis se arregalarem em apreciação quando a viu no vestido de noiva.A cerimônia aconteceu em meio a muitas emoções novas até que o padre falou:Houve uma breve pausa, e todos na igreja prenderam a respiração. Inclinando-se para a frente, as três fadas-madrinhas gritaram a plenos pulmões:Virando a cabeça, Anastasia olhou para o pequeno balcão, como se as tivesse escutado.—    Aceito. Solenemente aceito!

 

  • Então, com seu sorriso maroto, encarou o padre, o mesmo que tivera o nariz apertado por ela durante o batismo, antes de olhar para David e dizer:
  • —    Ela aceita! Ela aceita!
  • —   Anastasia, aceita este homem, David, como seu marido, para o amar e honrar pelo restante de sua vida?
  • Podia sentir seu amor ao aproximar-se do futuro marido. E então estava ali, a seu lado, de mãos dadas.
  • Mas o longo noivado, durante o qual ela e David moraram juntos, a havia convencido de que ele era o homem certo, sua alma gêmea, a pessoa que verdadeiramente a compreendia. E nas raras ocasiões em que aquilo não acontecia, David procurava ouvi-la para chegarem a um consenso.
  • —   Você não me chama assim desde que tinha doze anos. E quanto a conselhos, você não precisa deles. E muito esperta, mas apenas lembre-se de que por debaixo de tudo sempre deve existir minha garotinha. Oh, está na hora de entrarmos.
  •  
  • Ela nos viu — Hattie murmurou deliciada.Betty tentou enxugar os olhos sem ser notada, usando para aquilo a manga longa da camiseta.

 

  • — Ou nos ouviu — disse Muriel. — Ou pensamos que sim.
  • Estas são lágrimas de alívio, caso vocês duas estejam pensando em bobagens.
  • Bem, mas essas são de alegria.—   Estou feliz por finalmente termos cumprido nossa missão com os trigêmeos Knight. Todos os três estão felizes com suas almas gêmeas agora.

 

    • Após assoar o nariz ruidosamente, Betty assumiu sua posição de autoridade.
    • Hattie nem se preocupava em ocultar as lágrimas que corriam livremente.
  • Sim, mas há apenas uma coisa que tenho a dizer a vocês duas.
  • O que él — perguntou Hattie, nervosa.
  • Somos danadas de boas! — Betty exclamou, recom-pensando-as com um grande abraço. — Vamos iniciar as comemorações!

 

 

 

                                                                                Cathy Williams  

 

                      

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