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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FUNDAÇÃO II / Isaac Asimov
FUNDAÇÃO II / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

FUNDAÇÃO II

 

       O Primeiro Império Galáctico estava caindo. Estivera decaindo e se fragmentando por séculos, e só um homem percebeu completamente o fato.

       Era Hari Seldon, o último grande cientista do Primeiro Império, e foi ele que aperfeiçoou a psico-história - a ciência do comportamento humano reduzida a equações matemáticas.

       O ser humano individual é imprevisível, mas as reações das multidões humanas, Seldon descobriu, podiam ser tratadas estatisticamente. Quanto maior a multidão, maior a precisão que poderia ser atingida. E o tamanho das massas humanas com que Seldon trabalhava era nada menos que a população de todos os milhões de mundos habitados da Galáxia.

       As equações de Seldon lhe diziam que, deixado a si mesmo, o Império cairia e que trinta mil anos de miséria e agonia se passariam antes que um Segundo Império se reerguesse das ruínas. Ainda assim, se se pudessem ajustar algumas das condições já existentes, aquele Interregno poderia ser diminuído para um só milênio - apenas mil anos.

       Foi para garantir isto que Seldon estabeleceu duas colônias de cientistas, que ele chamou “Fundações”. Com intenção deliberada estabeleceu-as “em extremos opostos da Galáxia”. A Primeira Fundação, centrada na ciência física, foi estabelecida à luz do sol da publicidade. A existência da outra, a Segunda Fundação, um mundo de cientistas psico-históricos e “mentálicos”, foi afogada no silêncio.

       Na Trilogia da Fundação, é narrada a história dos primeiros quatrocentos anos do Interregno. A Primeira Fundação (comumente conhecida simplesmente como “Fundação”, pois que a existência de uma outra era desconhecida de quase todos) começou como uma pequena comunidade perdida no vazio da Periferia Exterior da Galáxia. Periodicamente defrontava-se com uma crise em que as variáveis das relações humanas - e das correntes econômicas e sociais da época se fechavam à sua volta. Sua liberdade de movimento ficava apenas ao longo de uma certa linha, e quando se deslocava naquele sentido, um novo horizonte de desenvolvimento se abria diante dela. E tudo havia sido planejado por Hari Seldon, morto havia muito.

       A Primeira Fundação, com sua ciência superior, tomou os planetas barbarizados que a circundavam. Defrontou-se com os chefetes anárquicos que rompiam com o Império moribundo e derrotou-os. Defrontou-se com o próprio remanescente do Império, sob seu último Imperador forte e seu último general forte - e bateu-o.

       Parecia que o “Plano de Seldon” estava se desenvolvendo suavemente e que nada evitaria que o Segundo Império fosse estabelecido em tempo - e com um mínimo de devastação intermediária.

       Mas a psico-história é uma ciência estatística. Sempre há pequena chance que algo dê errado, e algo deu errado - algo que Hari Seldon não poderia ter previsto. Um homem, chamado o Mula, apareceu do nada. Tinha poderes mentais numa Galáxia que não os tinha. Podia moldar as emoções humanas e conformar suas mentes de modo que seus oponentes mais encarniçados se transformavam em seus servidores mais devotados. Os exércitos não podiam, e não queriam combatê-lo. A Primeira Fundação caiu e o Plano de Seldon parecia estar em ruínas.

       E sobrou a misteriosa Segunda Fundação, que foi apanhada despreparada pela súbita aparição do Mula, mas que agora estava elaborando lentamente um contra-ataque. Sua grande defesa era sua localização desconhecida. O Mula procurou-a para tornar completa a sua conquista da Galáxia. Os leais ao que foi deixado da Primeira Fundação procuraram-na para obter ajuda.

       Nenhum dos dois a encontrou. O Mula foi detido pela ação de uma mulher, Bayta Darell, e que ganhou tempo suficiente para a Segunda Fundação organizar uma ação adequada, com o que pôde deter o Mula permanentemente. Lentamente, prepararam-se para restabelecer o Plano de Seldon.

       Mas, de certa maneira, o disfarce da Segunda Fundação tinha-se ido. A Primeira Fundação sabia da existência da Segunda, e a Primeira não queria um futuro em que fosse sobrepujada por mentalistas. A Primeira Fundação era superior em força física, ao passo que a Segunda Fundação era prejudicada não só por este fato, mas por encarar uma tarefa dupla: não só tinha de deter a Primeira Fundação, mas reconquistar sua anonimidade.

       Esta Segunda Fundação, sob seu maior “Primeiro Orador”, Prim Palver, conseguiu-o. À Primeira Fundação concedeu-se uma vitória aparente, parecendo derrotar a Segunda Fundação, e avançou rumo a uma força cada vez maior, pela Galáxia, totalmente ignorante de que a Segunda Fundação ainda existia.

       Agora, estamos a quatrocentos e noventa e oito anos depois do nascimento da Primeira Fundação. Está no ápice de sua força, mas há um homem que não aceita aparências...

 

Conselheiro

       - Não acredito nisso, é claro - disse Golan Trevize, na ampla escadaria do Seldon Hall, contemplando a cidade a rebrilhar ao sol.

       Terminus era um planeta ameno, com uma elevada relação água / terra. A introdução do controle climático tornara-o ainda mais confortável e consideravelmente menos interessante, costumava pensar Trevize.

       - Não acredito em nada disso - ele repetiu, sorrindo. Seus dentes brancos e regulares brilharam em seu rosto juvenil.

       Seu amigo e colega Conselheiro, Munn Li Compor, que adotara um nome intermediário, desafiando a tradição de Terminus, abanou a cabeça, recalcitrando. - Em que você não acredita? Que salvamos a cidade?

       - Ah, nisso acredito. Conseguimos, não é? E Seldon disse que conseguiríamos, e que estaríamos certos ao fazê-lo, ele sabia de tudo há uns quinhentos anos.

       A voz de Compor caiu de tom e disse, num quase-sussurro: - Olhe, eu não me importo que você fale disso comigo, porque aceito essas coisas como simples conversa, mas se você ficar gritando essas coisas no meio do povo, outros ouvirão e, francamente, não quero estar por perto quando um raio o atingir. Não estou certo se a pontaria vai ser boa.

       O sorriso de Trevize era inabalável. - Há algum mal em dizer que a cidade está salva? E que o fizemos sem uma guerra?

       - Não havia uma guerra para lutar - disse Compor. Tinha o cabelo de um amarelo-manteiga, olhos de céu azul, e sempre resistiu ao impulso de alterar aqueles tons já fora de moda.

       - Já ouviu falar da guerra civil, Compor? - Trevize era alto, cabelos negros, com uma suave ondulação,e tinha o habito de andar com os polegares encaixados no cinto de fibra macia que sempre usava.

       - Uma guerra civil na área da capital?

       - A questão foi suficiente para acarretar uma Crise Seldon. Destruiu a carreira política de Hannis. Colocou você e eu no Conselho na última eleição e a questão permaneceu... - E torceu a mão lenta- mente, para um lado e para o outro, como uma balança procurando o equilíbrio.

       Parou na escadaria, ignorando os outros membros do governo e meios de comunicação, bem como os tipos da alta sociedade que cavaram um convite para testemunhar a volta de Seldon (ou a volta de sua imagem, pelo menos).

       Todos estavam descendo a escada, conversando, rindo, rejubilando-se com a correição de tudo, banhados na aprovação de Seldon.

       Trevize deixara-se ficar, deixava a multidão passar à sua volta. Compor, tendo descido dois degraus, fez uma pausa - um cordão invisível se distendendo entre eles. Disse: - Você não vem?

       - Não há pressa. Não vão começar a reunião do Conselho até que a Prefeita Branno tenha revisado a situação de sua maneira usual, arrastando os pés, sílaba por sílaba. Não tenho pressa de suportar outro discurso pesado. Veja só a cidade!

       - Estou vendo. Já a vi ontem, também.

       - Sim, mas você a viu quinhentos anos atrás, quando foi fundada?

       - Quatrocentos e noventa e oito - corrigiu-o Compor automaticamente. - Daqui a dois anos, teremos a celebração do sesquimilênio e a prefeita Branno ainda estará no cargo, se não contarmos com eventos, esperemos, de menor probabilidade.

       - Esperemos - disse Trevize, secamente. - Mas, como era há quinhentos anos, quando foi fundada? Uma cidade! Uma vila, ocupa da por um grupo de homens preparando uma Enciclopédia que nunca foi acabada!

       - Claro que foi acabada.

       -- Você está se referindo à Enciclopédia Galáctica que temos agora? O que temos não é aquilo em que eles estavam trabalhando. A que temos está num computador, e é revisada diariamente. Já viu o original incompleto?

       - Quer dizer, o do Museu Hardin?

       - O Museu Salvor Hardin das Origens. Digamos o nome inteiro, por favor, já que você é tão cuidadoso sobre datas exatas. Já o examinou?

       - Não. Deveria?

       - Não, não vale a pena. Mas, de qualquer maneira - lá estavam eles - um grupo de enciclopedistas, formando o núcleo de uma cidade - um vilarejo num mundo virtualmente desprovido de metais, rodeando um sol isolado do resto da Galáxia, à margem, bem no limite. E agora, quinhentos anos depois, somos um mundo suburbano. Todo o local é um grande parque, com todo o metal que queremos. Estamos no centro de tudo, agora!

       - Não de fato - disse Compor. - Ainda estamos circulando à volta de um sol isolado do resto da Galáxia. Ainda nos limites da Galáxia.

       - Ah, não, está falando isso sem pensar. É esse o tema de toda es ta pequena Crise Seldon. Somos mais que o mundo isolado de Terminus. Somos a Fundação, que estende seus tentáculos por toda a Galáxia e a governa de sua posição limítrofe. Podemos fazê-lo porque não estamos isolados, exceto pela posição, e isto não conta.

       -Está bem; aceito. - Compor estava claramente desinteressado e desceu mais um degrau. O cordão invisível entre eles estendeu-se mais.

       Trevize estendeu a mão, como que para puxar seu companheiro escada acima, de novo. - Não percebe a significância, Compor? Há esta enorme mudança, mas não a aceitamos. Em nossos corações, queremos a pequena Fundação, aquela operação pequena, num mundo só, que tínhamos nos velhos tempos - os tempos dos heróis de ferro e nobres santos, que se foram para sempre.

       - Ora, vamos!

       - Estou falando sério. Olhe só o Seldon Hall. Para começar, nas primeiras crises, nos tempos de Salvor Hardin, era só a Cápsula do Tempo, um pequeno auditório onde a imagem holográfica de Seldon aparecia. E era tudo. Agora, é um mausoléu colossal, mas há uma rampa de campo de força no lugar? Uma esteira deslizante? Um ascensor gravítico? Não, só estes degraus, e subimos e descemos por eles como Hardin teria de fazer. Em momentos estranhos e imprevisíveis, nos agarramos, com medo, ao passado.

       Estendeu os braços, apaixonadamente. - Há algum componente estrutural metálico visível? Nenhum. Não ficaria bem, pois no  tempo de Salvor Hardin não havia metal nativo algum, e pouquíssimo metal importado. Instalamos mesmo plástico envelhecido, rosado pela idade, quando construímos esse enorme amontoado, de modo que visitantes de outros mundos possam parar e dizer: “Pela Galáxia! Que adorável plástico antigo!” Estou lhe dizendo, Compor, é uma impostura.

       - E em que você não acredita, então? No Seldon Hall?

       - E todo o seu conteúdo - disse Trevize sussurrando com raiva. - Não acredito realmente que haja algum sentido em esconder-se aqui, na fronteira do Universo, só porque nossos ancestrais assim o fizeram. Acredito que deveríamos estar lá, no meio de tudo.

       - Mas Seldon diz que você está errado, O Plano Seldon está funcionando como deveria.

       - Eu sei, eu sei. E toda criança em Terminus é educada acreditando que Hari Seldon formulou um Plano, que previu tudo há cinco séculos, que estabeleceu a Fundação de tal modo que ele poderia localizar essas crises, e que sua imagem apareceria holograficamente durante essas crises, e nos dizer o mínimo que precisaríamos saber até a próxima crise, e assim nos levar através de mil anos de história, até que pudéssemos seguramente constituir um Segundo e Maior Império Galáctico sobre as ruínas da estrutura velha e decrépita que estava caindo aos pedaços há cinco séculos, e há dois séculos desintegrara-se completamente -

       - Por que está me contando tudo isto, Golan?

       - Para lhe mostrar que é uma impostura. É tudo uma farsa. Ou se era real no começo, é uma farsa agora! Agora somos senhores de nós mesmos. Não somos nós que estamos seguindo o Plano.

       Compor olhou para o outro, interrogativo. - Você já disse coisas como esta antes, Golan, mas eu sempre pensei que estava dizendo coisas ridículas só para me provocar. Pela Galáxia, de fato creio que você fala sério.

       - É claro que estou falando sério!

       - Não pode estar. Ou isto é alguma piada complicada às minhas expensas, ou você perdeu a cabeça.

       - Nem um, nem outro - disse Trevize, quieto agora, pendurando os polegares em seu cinto, como se não mais precisasse dos gestos das mãos para pontuar sua paixão. - Especulei sobre isto antes, admito, mas era apenas intuição. A farsa desta manhã, porém, tomou tudo subitamente muito simples para mim e pretendo, por outro lado, tornar tudo muito claro para o Conselho.

       Compor retrucou: - Você está louco!

       - Está bem, venha comigo e ouça.

       Os dois desceram a escadaria. Eram os únicos a ficar para trás - os últimos a completar a descida. E ao Trevize adiantar-se ligeira mente, os lábios de Compor moveram-se silenciosamente, lançando uma palavra sem voz na direção das costas do outro: - Seu louco!

      

       A Prefeita Harla Branno convocou o início da sessão do Conselho Executivo. Seus olhos olharam, sem nenhum sinal visível de interesse, para a reunião, mas ninguém duvidava que ela anotara todos os que estavam presentes, e todos os que ainda não chegaram.

       Seu cabelo grisalho estava penteado de modo que não era marcadamente feminino, nem imitação do masculino. Era simplesmente o penteado dela, nada mais. Seu rosto comum não era notado pela beleza, mas de certa forma, nunca era beleza que alguém procurava nele.

       Era a administradora mais capaz do planeta. Ninguém podia, ou realmente a acusava, do brilho dos Salvor Hardins e dos Hober Mallows, cujas histórias enriqueceram os primeiros dois séculos da existência da Fundação, mas tampouco alguém a associaria à insensatez dos Indburs hereditários que dirigiram a Fundação pouco antes dos tempos do Mula.

       Seus discursos não exaltavam, nem ela possuía o dom do gesto dramático, mas tinha a capacidade de tomar decisões silenciosas e segui-las enquanto estivesse convencida de ter razão. Sem qualquer carisma óbvio, tinha a habilidade de persuadir os eleitores de que aquelas decisões silenciosas seriam as melhores.

       Como pela doutrina Seldon, a mudança histórica é em grande parte difícil de desviar (sempre descontando o imprevisível, algo que a maioria dos seldonistas esquece, a despeito do catastrófico incidente do Mula), a Fundação poderia ter retido sua capital em Terminus sob quaisquer condições. Apenas “poderia”. Seldon, em sua última aparição, na qualidade de um simulacro de quinhentos anos de idade, calmamente colocara a probabilidade de ela continuar em Terminus em 87,2 por cento.

       Não obstante, mesmo para os seldonistas, isso significava haver uma probabilidade de 12,8 por cento que a mudança para algum ponto mais perto do centro da Federação da Fundação poderia ter sido feita, com todas as temíveis conseqüências que Seldon delineara. Que esta chance, dentre oito, não ocorreu, devia-se à Prefeita Branno.

       Era certo que ela não a permitiria. Através dos períodos de considerável impopularidade, ela ateve-se à decisão de que Terminus era a sede tradicional da Fundação e que lá permaneceria. Seus inimigos políticos caricaturaram seu forte maxilar como se feito de granito, para ilustrar sua teimosia (com o que atingiram algum efeito, deve-se admitir).

       E agora Seldon apoiara o ponto de vista dela, e pelo menos por hora, isto lhe daria uma esmagadora vantagem política. Informou-se que, um ano antes, ela dissera que se na próxima aparição de Seldon este a apoiasse, consideraria sua tarefa completada com sucesso. Então se aposentaria e assumiria o papel de decana dos políticos, ao invés de arriscar futuros embates políticos.

       Ninguém realmente acreditara nela, estava em casa, em meio aos embates políticos, a um ponto que poucos predecessores estiveram, e agora que a imagem de Seldon viera e se fora, não havia nela o menor sinal de aposentadoria.

       Ela discursava numa voz perfeitamente clara, e num desavergonhado sotaque da Fundação (ela uma vez servira como embaixatriz em Mandress, mas não adotara o antigo estilo de discursar do Império, que estava agora tão em voga -- e era parte do que quase tinha sido um impulso quase Imperial em direção às Províncias Interiores).

       Disse ela: - A Crise Seldon passou, e é uma tradição, e uma tradição sábia, que nenhuma represália de qualquer espécie - em ações ou verbalmente - seja tomada contra os que apoiaram o lado errado. Muitas pessoas honestas acreditaram ter boas razões para desejar o que Seldon não desejou. Não há sentido em humilhá-las a ponto de só poderem reconquistar seu auto-respeito denunciando o próprio Plano de Seldon. Por outro lado, é um forte e desejável costume que aqueles que apoiaram o lado perdedor aceitem a derrota com alegria, e sem mais discussões. O assunto está ultrapassado para nós, ambos os lados, para sempre.

       Fez uma pausa, e encarou firmemente as faces ali reunidas por um momento, e continuou: - Metade do tempo passou, povo do Conselho - metade do intervalo de mil anos entre os Impérios. Foi um tempo de dificuldades, mas já caminhamos bastante. De fato, já somos quase um Império Galáctico, e não restam inimigos externos significativos.

       - O Interregno duraria trinta mil anos, se não fosse pelo Plano de Seldon. Após trinta mil anos de desintegração, poderia não restar força alguma com que fundar um Império de novo. Restariam apenas mundos isolados, e provavelmente agonizantes.

       - O que temos hoje, devemos a Hari Seldon, e é em sua mente, há muito morta, que devemos confiar quanto ao resto. O perigo, daqui por diante, Conselheiros, somos nós mesmos, e deste ponto em diante, não deve haver dúvida oficial quanto à validade do Plano. Concordemos agora, tácita e firmemente, que não deve haver dúvidas oficiais, criticismos, ou condenações do Plano. Devemos apoiá-lo inteiramente. Provou a si mesmo por mais de cinco séculos. É a segurança da humanidade, e não se deve brincar com ele - De acordo?

       Houve um murmúrio abafado. A Prefeita mal ergueu os olhos para buscar prova visual de argumento - Ela conhecia cada membro do Conselho, e como cada um reagiria. Na onda da vitória, não haveria objeções: No ano seguinte, talvez. Mas não agora. Ela abordaria os problemas do ano seguinte no ano seguinte.

       Sempre excetuando...

       - Controle do pensamento, Prefeita Branno? - perguntou Golan Trevize, descendo pelo anfiteatro e falando em voz alta, como que para compensar o silêncio dos demais. Não se preocupou em tomar o assento que, por ele ser membro novo, era na última fileira.

       Branno ainda não erguera os olhos: - Sua opinião, Conselheiro Trevize?

       - É que o governo não pode impor uma proibição à liberdade de expressão, que todos os indivíduos - certamente, acima de tudo, incluindo os Conselheiros e Conselheiras que foram eleitos para este fim - têm o direito de discutir assuntos políticos do dia, e que nenhum assunto político pode possivelmente ficar divorciado do Plano de Seldon.

       Branno cruzou as mãos e ergueu o olhar; seu rosto estava sem expressão: - Conselheiro Trevize, o senhor entrou neste debate irregularmente e estava fora da ordem, ao fazê-lo. Entretanto, pedi-lhe para expressar a sua opinião, e agora vou responder-lhe. Não há limite à liberdade de expressão no contexto do Plano de Seldon. É só o Plano em si mesmo que nos limita, por sua própria natureza. Pode haver muitas maneiras de interpretar os eventos antes que a imagem de Seldon force a decisão final, mas uma vez tomada esta decisão, não mais pode ser questionada no Conselho. Nem pode ser questionada antecipadamente, como se alguém dissesse: Se Hari Seldon dissesse assim e assim, ele estaria errado.

       - E se alguém honestamente achasse assim, Senhora Prefeita?

       - Então alguém poderia dizê-lo, se fosse um particular, discutindo o assunto privadamente.

       - Quer dizer então que as limitações à liberdade de expressão que a senhora propõe devem-se aplicar inteira e especificamente aos funcionários do governo?

       - Exatamente. E este não é um princípio novo da lei da Fundação. Foi aplicado antes por Prefeitos de todos os partidos. Um ponto de vista particular nada significa; uma expressão oficial de opinião tem peso e pode ser perigosa. Não chegamos tão longe a ponto de arriscar algum perigo, até agora.

       - Posso apontar, Senhora Prefeita, que este seu princípio tem sido aplicado, esparsa e ocasionalmente, a atos específicos do Conselho. Nunca foi aplicado a algo tão vasto e indefinível como o Plano de Seldon.

       - O Plano de Seldon é o que mais precisa de proteção, pois é precisamente aí que o questionamento pode ser fatal.

       - A senhora não consideraria, Prefeita Branno - e Trevize voltou-se, dirigindo-se agora às fileiras onde estavam sentados os membros do Conselho, que pareciam ter a um só tempo perdido a respiração, como que esperando o resultado de um duelo. - Vocês não considerariam, membros do Conselho, que há toda razão para pensar que não há nenhum Plano de Seldon?

       - Todos testemunhamos sua eficácia hoje - disse a Prefeita Branno, mais calma, enquanto Trevize alteava a voz, e tornava-se mais exaltado.

       - Precisamente por termos visto sua eficácia hoje, Conselheiros e Conselheiras, é que podemos ver que o Plano de Seldon, como nos foi ensinado a acreditar que é, não pode existir.

       - Conselheiro Trevize, o senhor está fora de ordem e não deve continuar nessa linha.

       - Tenho o privilégio do cargo, Prefeita.

       - Aquele privilégio foi retirado, Conselheiro.

       - A senhora não pode retirar o privilégio. Sua afirmação limitando a liberdade de expressão não pode, em si, ter força de lei. Não houve voto formal do Conselho, Prefeita, e mesmo que houvesse, eu teria o direito de questionar a sua legalidade.

       - A remoção, Conselheiro, nada tem a ver com minha afirmação de proteção ao Plano de Seldon.

       - Do quê, então, depende?

       - O senhor é acusado de traição, Conselheiro. Desejo fazer ao Conselho a cortesia de não prendê-lo dentro da Câmara do Conselho, mas esperando à porta, há membros da Segurança que o levarão sob custódia, quando o senhor sair. Peço-lhe agora que saia em silêncio. Se fizer qualquer gesto impensado, então isso será considerado um perigo real e a Segurança entrará na Câmara. Acredito que o senhor não tornará isso necessário.

       Trevize fez uma expressão de desagrado. Havia um silêncio sepulcral na sala. (Será que todos esperavam isto - todos, exceto ele e Compor?) Olhou para trás, para a saída. Não viu ninguém, mas não tinha dúvidas de que a Prefeita Branno não estava blefando.

       Gaguejou, com raiva: - Eu repre... represento um eleitorado importante, Prefeita Branno.

       - Sem dúvida, eles ficarão desapontados com você.

       - Sobre que evidência a senhora faz essa acusação absurda?

       - Isso aparecerá no devido momento, mas esteja certo de que temos toda evidência de que precisamos. O senhor é um rapaz sumamente indiscreto, e deveria perceber que alguém, mesmo sendo seu amigo, não desejaria acompanhá-lo na traição.

       Trevize girou para encontrar os olhos azuis de Compor. Encontrou-os como que de pedra.

       A Prefeita Branno disse calmamente: - Todos são testemunhas disto, agora que fiz minha última declaração: que o Conselheiro Trevize voltou-se para fitar o Conselheiro Compor. O senhor nos deixará agora, Conselheiro, ou nos forçará a nos envolver na indignidade de uma prisão dentro da Câmara?

       Golan Trevize virou-se, subiu os degraus de novo, e à porta, dois homens uniformizados, e bem armados, surgiram de cada lado.

       E Harla Branno, acompanhando-o com o olhar, impassível, sussurrou com os lábios entreabertos: - Seu louco!

      

       Liono Kodell fora Diretor da Segurança por toda a administração da Prefeita Branno. Não era um trabalho estafante, como ele gostava de dizer, mas quer estivesse mentindo ou não, não se podia saber ao certo. Ele não parecia mentiroso, mas isso não queria dizer necessariamente alguma coisa.

       Ele parecia à vontade e amigável, e pode bem ser que isso fosse apropriado para o seu trabalho. Tinha estatura abaixo da normal e peso acima do normal, usava um basto bigode (muito inusitado para um cidadão de Terminus) que agora era mais branco que grisalho, olhos castanhos luminosos, e uma faixa de cor primária marcando o bolso do peito de seu sobretudo:

       - Sente-se, Trevize, vamos manter isto numa base amigável, se possível.

       - Amigável? Com um traidor? - Trevize enganchou os polegares em seu cinto e ficou de pé.

       - Acusado de traidor. Ainda não chegamos ao ponto em que a acusação - mesmo pela própria Prefeita - é equivalente a condenação. Acredito que jamais chegaremos a isso. Meu trabalho é livrá-lo, se eu puder. Gostaria muito de fazê-lo agora, enquanto nenhum mal foi feito - exceto, talvez, ao seu orgulho - ao invés de ser forçado a transformar isto em assunto de julgamento público. Espero que você esteja comigo neste sentido.

       Trevize não amoleceu: - Não nos preocupemos com gentilezas. Seu trabalho é me considerar como se eu fosse um traidor. Não sou um, e sinto a necessidade de que isso lhe seja satisfatoriamente demonstrado. Por que você não precisa provar a sua lealdade para mim?

       - Em princípio, nada impede. O triste, porém, é que tenho o poder do meu lado, e você não tem nenhum. Por causa disto, é meu privilégio questionar, e não seu. Se qualquer suspeita de deslealdade ou traição caísse sobre mim, aliás, creio que seria substituído, e então eu seria questionado por alguém mais, que,espero sinceramente, não me trataria pior do que pretendo tratá-lo.

       - E como você pretende tratar-me?

       - Eu espero que como amigo e igual, se me tratar assim.

       - Devo oferecer-lhe uma bebida? - perguntou Trevize, amargoso.

       - Depois, talvez, mas por hora, apenas sente-se. Estou pedindo como amigo.

       Trevize hesitou, então sentou-se. Qualquer outro desafio pareceu-lhe sem sentido. - E agora?

       - Agora, posso pedir-lhe para responder às minhas perguntas sincera e completamente, e sem evasivas?

       - E se não? Qual é a ameaça por detrás disto? Uma Sonda Psíquica?

       - Acredito que não.

       - Também não acredito nisso. Não num Conselheiro. Não revelará traição nenhuma, e quando eu for liberado, terei a sua cabeça, e também a da Prefeita, talvez. Talvez valha a pena fazer você experimentar uma Sonda Psíquica.

       Kodell franziu o sobrolho e abanou a cabeça: - Ah, não, não. Muito perigo de dano cerebral. É demorado de curar, às vezes, e não valeria a pena. Definitivamente, não. Sabe, às vezes, quando a Sonda é usada em desespero de causa...

       - Uma ameaça, Kodell?

       - Estou enunciando um fato, Trevize. Não me interprete mal, Conselheiro. Se eu tiver que usar a Sonda, vou usá-la, e mesmo que você seja inocente, não terá outro recurso.

       - O que você quer saber?

       Kodell calcou um botão da mesa à sua frente: - O que eu perguntar e o que você responder às minhas perguntas será gravado, som e imagem. Não quero nenhuma afirmação voluntária sua ou qualquer coisa não-cooperativa. Não agora. Você entende, estou certo.

       - Entendo que você vai gravar apenas o que lhe agradar - disse Trevize, com desprezo.

       -Está certo, mas de novo, não me leve a mal. Não vou distorcer nada do que você disser. Vou usar ou não, e é tudo. Mas você sabe que eu não vou usar a gravação, e você não vai perder o seu tempo e o meu.

       - Veremos.

       - Temos razão para pensar, Conselheiro Trevize - e o toque formal de sua voz era evidência bastante de que ele estava gravando -, que o senhor afirmou abertamente, e em numerosas ocasiões, que não acredita na existência do Plano de Seldon.

       Trevize falou lentamente: - Se eu o disse tão abertamente, e em numerosas ocasiões, o que mais você precisa?

       - Não percamos nosso tempo com jogos de palavras, Conselheiro. O senhor sabe que o que eu quero é uma afirmação clara com sua própria voz, caracterizada por sua própria impressão vocal, em condições em que o senhor esteja senhor de si e em plena consciência.

       - Porque, eu suponho, o uso de qualquer hipno-efeito, químico ou outro, alteraria as impressões vocais?

       - Muito notavelmente.

       - E você está ansioso por demonstrar que não fez uso de qualquer método ilegal ao interrogar um Conselheiro? Não o culpo.

       - Ainda bem que não me culpa, Conselheiro. Então, vamos continuar. O senhor afirmou abertamente, e em numerosas ocasiões, que não acredita na existência do Plano de Seldon. Admite isso?

       Trevize respondeu lentamente, escolhendo as palavras: - Não creio que o que chamamos Plano de Seldon tenha o significado que usualmente aplicamos ao termo.

       - Uma afirmação vaga. Quer explicar melhor?

       - Minha opinião é que o conceito usual de que Hari Seldon, há quinhentos anos, fazendo o uso da ciência matemática da psico-história, elaborou o curso dos eventos humanos até o último detalhe e que estamos seguindo um curso destinado a nos levar do Primeiro Império Galáctico ao Segundo Império Galáctico ao longo da linha de probabilidade máxima, é ingênuo. Não pode ser assim.

       - O senhor quer dizer que, em sua opinião, Hari Seldon nunca existiu?

       - Não, absolutamente; é claro que ele existiu.

       - Ou que ele nunca tenha desenvolvido a ciência da psico-história?

       - Não, claro que não quero dizer tal coisa. Veja, Diretor, eu teria explicado isto ao Conselho, se me tivesse sido permitido, e vou explicar a você. A verdade do que vou dizer é tão simples...

       O Diretor de Segurança, calma e obviamente, desligara o dispositivo de gravação.

       Trevize interrompeu-se, contrariado: - Por que fez isso?

       - Está desperdiçando o meu tempo, Conselheiro. Não estou lhe pedindo discursos.

       - Está pedindo para explicar minha opinião, não é?

       - Não, absolutamente. Estou pedindo que responda a perguntas - simples, direta e sinceramente. Responda apenas às perguntas e não ofereça nada que eu não esteja pedindo. Faça isso e não vai levar muito tempo.

       - Você quer dizer que vai omitir as minhas afirmações que reforcem a versão oficial do que se supõe que eu tenha feito?

       - Estamos pedindo apenas que faça afirmações verdadeiras, e garanto-lhe que não vamos distorcê-las. Por favor, deixe-me tentar de novo. Estávamos falando sobre Hari Seldon. - O gravador estava funcionando mais uma vez e Kodell repetiu calmamente: - Ou que ele nunca tenha desenvolvido a ciência da psico-história?

       - Claro que ele desenvolveu a ciência que chamamos de psico-história - respondeu Trevize, não conseguindo mascarar sua impaciência, e gesticulando, exasperado.

       - Que o senhor definiria... como?

       - Pela Galáxia! É usualmente definida como o ramo da matemática que trata das reações gerais de grandes grupos humanos a dados estímulos, sob dadas condições. Em outras palavras, supõe-se que prediga mudanças históricas e sociais.

       - O senhor diz “supõe-se que”. O senhor questiona isso do ponto de vista do conhecimento matemático?

       - Não; não sou um psico-historiador. Mas tampouco o é qualquer membro do governo da Fundação, ou qualquer cidadão de Terminus, ou...

       A mão de Kodell ergueu-se. Disse baixinho:- Conselheiro, por favor! - E Trevize calou-se.

       - O senhor tem qualquer razão para supor que Hari Seldon não fez a análise necessária que combinaria, tão eficientemente quanto possível, os fatores de probabilidade máxima e duração mínima, no caminho que leva do Primeiro ao Segundo Império, por intermédio da Fundação?

       - Eu não estava lá; como posso saber? - respondeu Trevize, sardonicamente.

       - O senhor pode saber se ele não o fez?

       - Não.

       - O senhor talvez negue que a imagem holográfica de Hari Seldon que apareceu em cada uma de um certo número de crises históricas nos últimos quinhentos anos seja, de fato, uma reprodução do próprio Hari Seldon, feita no último ano de sua vida, pouco antes do estabelecimento da Fundação?

       - Suponho que não posso negar isso.

       - O senhor “supõe”. O senhor se importa em dizer se é uma fraude, uma falsificação imaginada por alguém, na história passada, com algum propósito?

       Trevize suspirou: - Não, não estou sustentando isso.

       - O senhor está disposto a sustentar que as mensagens que Hari Seldon transmite de algum modo são manipuladas por alguém?

       - Não; não tenho razão para pensar que tal manipulação seja possível, ou útil.

       - Percebo, O senhor testemunhou a aparição mais recente da imagem de Seldon - O senhor acha que esta análise - preparada há quinhentos anos - não se adequa às atuais condições, bem de perto?

       - Ao contrário - disse Trevize, subitamente animado. - Correspondeu bem de perto.

       Kodell pareceu indiferente à emoção do outro. -- No entanto, Conselheiro, após a aparição de Seldon, o senhor ainda insiste que o Plano de Seldon não existe.

       - Claro que sim! Insisto que não existe precisamente por que a análise foi tão perfeitamente adequada...

       Kodell tinha desligado o gravador. - Conselheiro - disse, abanando a cabeça -, o senhor me dá ainda o trabalho de apagar. Pergunto se ainda conserva essa estranha crença, e o senhor começa a me dar razões. Deixe-me repetir a pergunta.

       E ainda: - No entanto, Conselheiro, após a aparição de Seldon, o senhor ainda insiste que o Plano de Seldon não existe.

       - Como sabe disso? Ninguém teve chance de falar com meu amigo delator, Compor, depois da aparição.

       - Vamos dizer que adivinhamos, Conselheiro. E digamos que o senhor já respondeu “Claro que sim”. Se o senhor disser isso mais uma vez sem voluntariamente acrescentar informação, podemos continuar.

       - Claro que sim - disse Trevize, ironicamente.

       - Bem, eu vou escolher qual dos “Claro que sim” soa mais natural. Obrigado, Conselheiro - e o gravador foi desligado de novo.

       - Isso é tudo?

       - Para o que preciso, sim.

       - O que você precisa, muito claramente, é de um conjunto de perguntas e respostas que possa apresentar a Terminus e toda a Federação da Fundação que ele governa, para mostrar que eu aceito a lenda do Plano de Seldon totalmente. O que tornará qualquer retratação que venha a fazer quixotesca ou totalmente maluca.

       - Ou mesmo traição, aos olhos de uma multidão excitável, que vê o Plano como essencial à segurança da Fundação. Talvez não seja necessário dar isto a público, Conselheiro Trevize, se pudermos chegar a alguma espécie de acordo, mas se for necessário, faremos com que a Federação venha a saber.

       - O senhor é louco o bastante - replicou Trevize - para estar totalmente desinteressado no que eu realmente tenho a dizer?

       - Enquanto ser humano, estou muitíssimo interessado, e havendo um momento apropriado, escutá-lo-ei com interesse, e uma certa quantidade de ceticismo. Enquanto Diretor de Segurança, porém, no momento presente, tenho exatamente o que quero.

       - Espero que você saiba que isto não lhe causará nenhum bem, e tampouco à Prefeita.

       - É esquisito, mas não sou dessa opinião. Agora, o senhor sairá. Sob guarda, é claro.

       - Para onde devo ser levado?

       Kodell meramente sorriu. - Até logo, Conselheiro. O senhor não foi perfeitamente cooperativo, mas não seria realista esperar que fosse.

       Estendeu a mão.

       Trevize, erguendo-se, ignorou-a. Alisou os vincos de seu cinto, e disse: - Você só vai adiar o inevitável. Outros devem pensar como eu agora, ou pensarão, mais tarde. Aprisionar-me ou matar-me só servirá para levantar suspeitas, e eventualmente acelerar tal forma de pensar. Ao fim, a verdade e eu venceremos.

       Kodell retraiu a mão e abanou a cabeça, lentamente: - Trevize, você é um louco.

      

       Só quando chegou a meia-noite foi que dois guardas vieram remover Trevize daquilo que era, ele tinha de admitir, uma sala luxuosa no Quartel-general da Segurança. Luxuosa, mas trancada. Uma cela de prisão, fosse qual fosse o seu nome.

       Trevize teve mais de quatro horas para interrogar a si mesmo, amargamente, andando incansavelmente por todo esse tempo.

       Por que confiou em Compor?

       E por que não? Parecia concordar tão claramente! Não, não foi isso. Ele parecia tão pronto para aceitar a argumentação! Não, tampouco isso. Ele pareceu tão estúpido, tão facilmente dominável, tão certamente sem idéia e opinião próprias que Trevize aproveitou a oportunidade de usá-lo como uma confortável caixa de ressonância. Compor ajudara Trevize a improvisar e burilar suas opiniões. Fora útil, e Trevize confiara nele por nenhuma outra razão que não fora a conveniência de fazê-lo.

       Mas agora, era inútil decidir se deveria ter adivinhado sobre Compor. Deveria ter seguido a generalização simples: não confie em ninguém.

       No entanto, como alguém pode atravessar uma vida sem confiar em ninguém?

       Claramente, era preciso.

       E quem diria que Branno teria a audácia de remover um Conselheiro do Conselho... e que nenhum dos outros Conselheiros se moveria para proteger um deles mesmos? Muito embora tivessem discordado de Trevize no mais fundo do coração, mesmo que estivessem prontos a apostar sobre seu sangue, gota a gota, pela correição de Branno; ainda, por princípio, deveriam ter-se interposto contra esta violação de suas prerrogativas. Branno de Bronze, ela era por vezes chamada, e certamente atuava com um rigor metálico...

       A menos que ela mesma já estivesse nas garras...

       Não! Isso o levaria à paranóia!

       E ainda assim...

       Sua mente andava em círculos, na ponta dos pés, e não tinha rompido o círculo inutilmente vicioso quando os guardas vieram.

       - O senhor terá de vir conosco, Conselheiro - o mais graduado dos dois disse, com gravidade sem emoção. Sua insígnia indicava ser um tenente. Tinha uma pequena cicatriz na face direita, e parecia cansado, como se estivesse já há muito naquele trabalho, e feito muito pouco - como se poderia esperar de um soldado cujo povo estivera em paz por um século.

       Trevize não se moveu: - Seu nome, tenente.

       - Sou o tenente Evander Sopellor, Conselheiro.

       - Você percebe que está transgredindo a lei, tenente Sopellor? Não pode prender um Conselheiro.

       - Temos ordens diretas, senhor - respondeu o Tenente.

       - Isso não importa. Você não pode receber ordem de prender um Conselheiro. Deve entender que se arrisca a uma corte marcial, como resultado.

       - O senhor não está sendo preso, Conselheiro.

       - Então, não preciso ir com você, preciso?

       - Fomos instruídos para escoltá-lo até sua casa.

       - Eu sei o caminho.

       - É para protegê-lo, no caminho.

       - De quê? Ou de quem?

       - De qualquer multidão que possa se reunir.

       - À meia-noite?

       - Por isso esperamos pela meia-noite, senhor. E agora, para sua proteção, devemos pedir que nos acompanhe. Devo dizer, não como ameaça, mas a título de informação, que estamos autorizados a usar a força, se necessário.

       Trevize percebera os chicotes neurônicos de que estavam armados. Levantou-se com o que, esperou, fosse dignidade. - Para minha casa, então. Ou será que descobrirei que vão me levar para a cadeia?

       - Não fomos instruídos para lhe mentir, senhor - disse o tenente, com um orgulho todo dele. Trevize tomou consciência de que estava na presença de um profissional que exigiria uma ordem direta antes de mentir; e mesmo assim, sua expressão e o tom de voz o trairiam.

       - Peço-lhe desculpas, tenente. Não quis implicar que duvidava de sua palavra.

       Um veículo terrestre estava esperando por eles lá fora. A rua estava vazia e não havia sinal de viv’alma, quanto mais uma multidão, mas o tenente fora sincero. Não disse que haveria uma multidão lá fora, ou que se formaria uma. Referira-se a “qualquer multidão que possa se reunir”. Disse apenas “que possa”.

       O tenente cuidadosamente manteve Trevize entre ele e o carro. Trevize não poderia ter-se esgueirado e correr, O tenente entrou imediatamente e sentou-se ao seu lado, no banco de trás.

       O carro saiu.

       - Um vez estando eu em casa, poderei dedicar-me a meus negócios livremente, isto é, poderei sair, se quiser?

       - Não temos ordens para interferir com o senhor, Conselheiro, de qualquer maneira, exceto que devemos protegê-lo.

       - Até que ponto? O que isso significa, neste caso?

       - Estou instruído para dizer-lhe que uma vez estando em casa, não poderá deixá-la, As ruas não são seguras para o senhor e eu sou responsável pela sua segurança.

       - Quer dizer que estou sob prisão domiciliar,

       - Não sou advogado, Conselheiro. Não sei o que isso significa.

       Olhava diretamente para a frente, mas seu cotovelo o tocava de lado, Trevize não podia se mover, mesmo que levemente, sem que o tenente viesse a saber,

       O carro parou na frente da pequena casa de Trevize, no subúrbio de Flexner. Naquele momento, ele não tinha companheira. Flavella tinha se cansado da vida errática a que o Conselheiro era forçado, de modo que não esperava ninguém em casa.

       - Posso sair agora? - perguntou Trevize.

       - Sairei primeiro, Conselheiro. Vamos escoltá-lo até lá dentro.

       - Para minha segurança?

       - Sim, senhor.

       Havia dois guardas esperando junto à porta de entrada, do lado de dentro. Um quebra-luz estava brilhando, mas as janelas estavam opacas, e nada se via do lado de fora.

       Por um momento, ele ficou indignado com a invasão, mas logo deu de ombros. Se o Conselho não podia protegê-lo na própria Câmara do Conselho, então certamente sua casa não seria o seu castelo.

       - Quantos de vocês há aqui no total? Um regimento?

       - Não, Conselheiro - veio uma voz dura e monótona -, só uma pessoa, além das que vê, e estive esperando pelo senhor há um bom tempo.

       Harla Branno, Prefeita de Terminus, estava junto à porta que levava à sala de estar. - Já está bem em tempo, não acha, para conversarmos?

       Trevize começou: - Todo esse palavrório para...

       Mas Branno impôs, em voz baixa: - Calma, Conselheiro. E vocês quatro, fora! Tudo estará bem aqui dentro.

       Os quatro guardas saudaram e fizeram meia-volta. Trevize e Branno ficaram a sós.

      

Prefeita

       Branno estivera esperando por uma hora, pensando calmamente. Tecnicamente, ela era culpada de arrombamento e invasão. E mais: violara bem inconstitucionalmente os direitos de um Conselheiro. Pelas leis estritas que regulavam as ações dos Prefeitos - desde os dias de Indbur III e do Mula, quase dois séculos antes - ela era passível de “impeachment”.

       Neste dia em particular, porém, por vinte e quatro horas, ela não poderia errar.

       Mas isso passaria. Ela não poderia deixar de ficar inquieta.

       Os primeiros dois séculos foram a Idade de Ouro da Fundação, os Tempos Heróicos; pelo menos em retrospecto, mas não para aqueles infelizes que viveram naqueles tempos inseguros. Salvor Hardin e Hober Mallow foram os dois grandes heróis, semideificados a ponto de rivalizar com o incomparável Hari Seldon. Os três estavam numa trípode sobre a qual repousava toda a lenda da Fundação (e mesmo sua história).

       Naqueles dias, entretanto, a Fundação fora um mundinho insignificante, com um fraco poder sobre os Quatro Remos, e apenas com uma fraca consciência da extensão com que o Plano de Seldon estava mantendo sua mão protetora sobre ela, cuidando dela mesmo contra o remanescente do poderoso Império Galáctico.

       E quanto mais poderosa a Fundação ia ficando enquanto entidade política e comercial, menos significantes seus governantes e militares pareciam ficar. Lathan Devers foi quase esquecido. Se é que ele era lembrado, era mais por sua trágica morte nas minas de escravos do que por sua luta desnecessária mas bem-sucedida contra Bel Riose.

       Quanto a Bel Riose, o mais nobre dos adversários da Fundação, ele também fora esquecido, ou colocado na sombra, pelo Mula, que só, dentre os inimigos, rompeu o Plano de Seldon e derrotou e governou a Fundação. Só ele fora o Grande Inimigo - de fato, o último dos Grandes.

       Era pouco lembrado que o Mula fora, essencialmente, derrotado por uma só pessoa, uma mulher: Bayta Darell, e que ela conquistou esta vitória sem a ajuda de ninguém, sem sequer o apoio do Plano de Seldon. Assim também foi esquecido que seu filho e sua neta, Torã e Arcádia Darell tinham derrotado a Segunda Fundação, deixando a Fundação, a Primeira Fundação, suprema.

       Estes vitoriosos dos últimos dias não mais eram figuras heróicas. A época tomara-se expansionista demais para fazer algo além de diminuir os heróis à dimensão de mortais ordinários. Em compensação, no passado, a biografia que Arcádia escreveu de sua avó a reduzira de heroína a personagem de romance.

       E desde então, não houve mais heróis, nem mesmo figuras de romance. A guerra kalganiana foi o último momento de violência a engolfar a Fundação, e esse foi apenas um conflito menor. Quase dois séculos de virtual paz! Cento e vinte anos sem sequer uma nave arranhada.

       Tinha sido uma boa paz, Branno não o negava, e uma paz lucrativa. A Fundação não tinha fundado um Segundo Império Galáctico; estava apenas a meio caminho, pelo Plano de Seldon, mas enquanto Federação da Fundação, mantinha um forte controle econômico sobre um terço das unidades políticas esparsas da Galáxia, e influenciava aquelas sobre as quais não tinha controle. Havia poucos lugares onde o “Eu sou da Fundação” não inspirava respeito. Não havia ninguém mais respeitado em todos os milhões de mundos habitados do que o Prefeito de Terminus.

       Aquele ainda era o titulo. Foi herdado do líder de uma só cidadezinha quase despercebida, num mundo solitário, na fronteira mais distante da civilização, uns quinhentos anos antes, mas ninguém sonharia em mudá-lo ou dar-lhe um átomo de glória a mais ao título. Tal como estava, só o quase esquecido título de Majestade Imperial poderia rivalizar com ele em portento.

       Exceto no próprio Terminus, onde os poderes do Prefeito eram cuidadosamente cerceados. A memória dos Indburs ainda permanecia. Não era sua tirania que o povo não conseguia esquecer, mas o fato de que perderam para o Mula.

       E ali estava ela, Harla Branno, a mais forte a governar desde a morte do Mula (e ela sabia disso), e apenas a quinta mulher a fazê-lo. Apenas neste dia ela pôde usar sua força abertamente.

       Lutou por sua interpretação do que julgara estar certo e o que deveria estar, contra a oposição encarniçada daqueles que ansiavam pelo prestigioso Interior da Galáxia, e pela aura do poder imperial; e fora vitoriosa.

       Mas ainda não, dizia ela. Ainda não! Pule muito cedo para o interior, e perderá de um e de outro lado. E Seldon aparecera e a apoiara numa linguagem quase idêntica.

       Tornou-a temporariamente tão sábia quanto Seldon, aos olhos da Fundação. Sabia, no entanto, que eles podiam esquecer disso a qualquer momento.

       E esse rapaz se atrevia a desafiá-la neste dia dos dias!

       E se atrevia a ter razão!

       Esse era o perigo. Ele estava certo! E, estando certo, poderia destruir a Fundação!

       E agora, ela o encarava, e estavam a sós.

       Disse tristemente: - Você não poderia ter-me visitado privada- mente? Tinha de gritar tudo na Câmara do Conselho, em seu desejo idiota de fazer-me de tola? O que fez, rapaz insensato?

      

       Trevize sentiu-se corar, e lutou para controlar sua fúria. A Prefeita era uma senhora que faria sessenta e três anos em seu próximo aniversário. Ele hesitava em se engajar numa briga verbal com alguém quase com o dobro de sua idade.

       Além do que, ela era traquejada em lutas políticas e sabia que se pudesse fazer com que o oponente perdesse o equilíbrio logo de início, a batalha estava meio-vencida. Mas era preciso uma audiência para tornar uma tal tática eficaz, e não havia ninguém perante quem alguém pudesse ser humilhado. Só estavam ali os dois.

       Assim, ele ignorou as palavras dela e fez o máximo para observá-la desapaixonadamente Ela era uma senhora vestindo a moda unissex que já prevalecia há dois séculos. Mas não lhe era adequada. A Prefeita, líder da Galáxia - se é que poderia haver um líder galáctico - era apenas uma velha que podia ser confundida com um velho; exceto que seu cabelo cinza-feno estava bem puxado e preso atrás, ao invés de solto, ao estilo masculino.

       Trevize sorriu simpaticamente. Por mais que um oponente de idade procurasse fazer o epíteto “rapaz” soar como um insulto, este “rapaz” em particular tinha a vantagem da juventude e boa aparência - e toda a consciência de ambos.

       Reconheceu: - É verdade. Tenho trinta e dois e portanto sou um rapaz, de certa forma. E sou um Conselheiro, e portanto, a ex officio, insensato. A primeira condição é inevitável. Quanto à segunda, só posso dizer que lamento.

       - Sabe o que fez? Não fique aí procurando parecer brilhante. Sente-se. Ponha sua mente para funcionar, se puder, e responda-me racionalmente

       - Sei o que fiz. Disse a verdade tal como a vi.

       - E neste dia é que você tentou me desafiar com ela? Num dia em que o meu prestígio é tal que eu poderia expulsá-lo da Câmara do Conselho e prendê-lo, sem que ninguém protestasse?

       - O Conselho recuperará o fôlego, e vai protestar. Podem estar protestando agora mesmo. E vão me escutar mais ainda pela perseguição a que a senhora está me submetendo

       - Ninguém vai escutá-lo, porque se eu achasse que você poderia continuar, eu o consideraria um traidor segundo todo o peso da lei.

       - Então, eu teria de ser julgado. E teria o meu dia no tribunal.

       - Não conte com isso. Os poderes de emergência de um Prefeito são enormes, mesmo que raramente usados

       - Em que base a senhora declararia uma emergência?

       - Inventaria as bases. Tenho a engenhosidade suficiente para tanto, e não temo assumir os riscos políticos. Não me provoque, meu rapaz. Vamos chegar a um acordo aqui ou você nunca ficará livre de novo. Ficará aprisionado pelo resto da vida, pode estar certo disso.

       Encaravam-se: Branno de cinza, Trevize em vários tons de marrom.

       - Que tipo de acordo?

       - Ah! Você está curioso! Assim é melhor. Então podemos encetar uma conversação, ao invés de uma confrontação. Qual é o seu ponto de vista?

       - A senhora bem o sabe. Já esteve rastejando na lama com o Conselheiro Compor, não é?

       - Quero ouvir de você; e à luz da Crise Seldon que acabamos de passar

       - Muito bem, se é isso que a senhora quer... Senhora Prefeita! - Ele estivera a ponto de dizer “sua velha!” - A imagem de Seldon estava correta, muito impossivelmente correta, depois de quinhentos anos. É a oitava vez que aparece, segundo creio. Em algumas ocasiões, ninguém estava lá para ouvi-lo. Em pelo menos uma ocasião, no tempo de Indbur III, o que ele tinha a dizer estava totalmente fora de sincronia com a realidade; mas aquele foi o tempo do Mula, não é? Mas quando, em qualquer dessas ocasiões, ele esteve tão correto quanto agora?

       Trevize permitiu-se um pequeno sorriso: - Nunca antes, Senhora Prefeita, tanto quanto concerne a nossos registros do passado, Seldon conseguiu descrever a situação tão perfeitamente, em todos os seus mínimos detalhes

       - É sua sugestão, pois, que a aparição de Seldon, a imagem holográfica, é falsificada; que as gravações de Seldon foram preparadas por um contemporâneo, assim como eu, quem sabe, e que um ator estava fazendo o papel de Seldon?

       - Não é impossível, Senhora Prefeita, mas não é o que eu quero dizer. A verdade é muito pior. Acredito que a imagem de Seldon que vemos é real, e que a sua descrição do momento histórico presente é a descrição que ele preparou há quinhentos anos atrás. Disse o mesmo para o seu homem, Kodell, que cuidadosamente guiou-me por uma charada na qual eu parecia apoiar as superstições do fundacionista irracional.

       - Sim, a gravação será usada, se necessário, para permitir que a Fundação nunca o deixe ficar realmente na oposição

       Trevize abriu os braços: - Mas estou. Não há Plano de Seldon no sentido em que acreditamos haver, e não tem havido por talvez dois séculos. Já há dois anos que suspeito disso, e o que passamos na Cápsula do Tempo, há doze horas, só serve de prova.

       - Porque Seldon foi muito preciso?

       - Isso mesmo. Não sorria. É a prova definitiva.

       - Não estou sorrindo, como pode ver. Continue.

       - Como ele poderia ter sido tão acurado? Há dois séculos, a análise de Seldon do que era então o presente, estava completamente errada. Trezentos anos se passaram desde que a Fundação nasceu, e ele estava longe do alvo. Completamente!

       - Isso, Conselheiro, o senhor explicou há uns momentos atrás. Foi por causa do Mula. O Mula era um mutante com um intenso poder mental e não haveria maneira de prevê-lo no Plano.

       - Mas de qualquer modo, lá estava ele, previsto ou não. O Plano de Seldon descarrilou. O Mula não governou por muito tempo e não teve sucessor. A Fundação reconquistou sua independência e seu domínio, mas como o Plano de Seldon poderia ter voltado ao alvo depois de um rasgão tão grande em sua trama?

       Branno estava apreensiva e suas mãos nodosas estavam firmemente entrelaçadas: - Você sabe a resposta a isto. Éramos uma de duas Fundações. Você leu os livros de história.

       - Li a biografia que Arcádia escreveu, de sua avó; leitura obrigatória na escola, afinal, e li suas novelas, também. Li a versão oficial da história, e a do Mula, depois. Permite-me duvidar dela?

       - Em que sentido?

       - Oficialmente nós, a Primeira Fundação, devíamos reter o conhecimento das ciências físicas, e fazê-las progredir. Devíamos operar abertamente, nosso desenvolvimento histórico seguindo, quer soubéssemos ou não, o Plano de Seldon. Havia, porém, a Segunda Fundação, que deveria preservar e desenvolver mais as ciências psicológicas, inclusive a psico-história, e sua existência deveria permanecer um segredo até para nós. A Segunda Fundação era o agente de ajuste fino do Plano, visando ajustar as correntes da história Galáctica, quando se desviassem dos caminhos delineados pelo Plano.

       - Então, você responde a si mesmo. Bayta Darell derrotou o Mula, talvez sob inspiração da Segunda Fundação, muito embora sua neta insista que não foi assim. Foi a Segunda Fundação, sem dúvida, que trabalhou para trazer a história galáctica de volta ao Plano, depois que o Mula morreu e, muito obviamente, tiveram sucesso. Em nome de Terminus, do que o senhor está falando, Conselheiro?

       - Senhora Prefeita, se seguirmos o relato de Arcádia Darell está claro que a Segunda Fundação, ao fazer a tentativa de corrigir a história galáctica, minou todo o esquema de Seldon, pois que na tentativa de corrigir, destruiu seu próprio anonimato. Nós, a Primeira Fundação, percebemos que nossa imagem especular, a Segunda Fundação, existia, e não podíamos continuar vivendo com o conhecimento de que éramos manipulados. Assim, labutamos para encontrar a Segunda Fundação e destruí-la.

       Branno assentiu: - E tivemos sucesso, de acordo com a narrativa de Arcádia Darell, mas muito obviamente, não antes que a Segunda Fundação tivesse colocado a história galáctica firmemente de volta nos trilhos, depois de sua disrupção pelo Mula. E ainda está nos tri lhos.

       - A Senhora consegue acreditar nisso? A Segunda Fundação, de acordo com a narrativa, foi localizada, e seus vários membros eliminados. Isso foi em 378 E.F., há cento e vinte anos. Por cinco gerações, supostamente estivemos operando sem a Segunda Fundação, e ainda assim, ficamos tão perto do alvo, no que concerne ao Plano, que a senhora e a imagem de Seldon falaram quase identicamente.

       - Isto pode ser interpretado como eu ter percebido o significado do desenvolvimento histórico com uma notável intuição.

       - Desculpe-me. Não quero lançar dúvida sobre sua notável intuição, mas a mim me parece que a explicação mais óbvia é que a Segunda Fundação nunca foi destruída. Ainda nos dirige. Ainda nos manipula. E é por isso que voltamos aos trilhos do Plano de Seldon.

      

       Se a Prefeita parecia chocada pela assertiva, não mostrava nenhum sinal.

       Já passava da uma hora, e ela queria desesperadamente acabar com aquilo, mas não podia apressar-se. O rapaz tinha de ser cansado, e ela precisava dar corda, para não perdê-lo. Não queria se livrar dele inutilmente, quando ele é que poderia ser o primeiro a servir a deter minada função.

       Respondeu ela: - De fato? Você diz então que a história da guerra kalganiana, de Arcádia, e a destruição da Segunda Fundação eram falsas? Inventadas? Uma brincadeira? Uma mentira?

       Trevize deu de ombros: - Não precisam ser. Isso está além do assunto. Suponha que o relato de Arcádia fosse completamente veraz, ao máximo de seu conhecimento. Suponha que tudo ocorreu exatamente como Arcádia disse; que o ninho dos segundofundacionistas fora descoberto, e que eles foram eliminados. Como poderíamos dizer, porém, que acabamos com todos? A Segunda Fundação estava mexendo com toda a Galáxia. Não estavam manipulando isoladamente a história de Terminus, ou mesmo da Fundação, apenas. Suas responsabilidades envolviam mais que nosso mundo-capital, ou toda nossa Federação. Poderia haver segundofundacionistas a mil parsecs de distância, ou mais. Será provável que tenhamos agarrado todos? E se falhamos em agarrar todos, poderíamos dizer que vencemos? O Mula poderia tê-lo dito, em seu tempo? Ele tomou Terminus, e com ele, todos os mundos que controlava diretamente, mas os Mundos Mercantes Independentes ainda restaram. Ele tomou os Mundos Mercantes, mas ainda restaram três fugitivos: Ebling Mis, Bayta Darell e seu marido. Manteve ambos os homens sob controle e deixou Bayta, e só Bayta, sem controle. Fez isto por sentimentalismo, se devemos acreditar no romance de Arcádia. E bastou apenas isto. De acordo com o que nos diz Arcádia, uma pessoa, apenas Bayta, foi deixada para agir como quisesse, e por causa de suas ações, o Mula não conseguiu localizar a Segunda Fundação, e assim foi derrotado.

       - Uma pessoa deixada intocada - continuou ele - e tudo foi perdido! Eis a importância de um indivíduo, a despeito de todas as lendas que cercam o Plano de Seldon, quanto a que o indivíduo é nada e a massa é tudo. E se deixamos não apenas um segundofundacionista para trás, mas várias dúzias, como parece perfeitamente possível, o que então? Não se reuniriam, reconstruiriam suas fortunas, retomariam suas carreiras, multiplicariam seu número por recrutamento e treinamento, e de novo fazendo peões de nós?

       Branno disse gravemente: - Você acredita nisso?

       - Tenho certeza.

       - Mas diga-me, Conselheiro, por que deveríamos nos preocupar? Por que um lamentável remanescente continuaria se agarrando a uma tarefa que não é bem-vinda por ninguém? O que os leva a manter a Galáxia ao longo de seu caminho rumo ao Segundo Império Galáctico? E se o pequeno bando insiste em cumprir esta missão, por que deveríamos nos preocupar? Por que não aceitarmos a trajetória do Plano e ficarmos gratos porque eles cuidarão que não vamos nos per der?

       Trevize esfregou os olhos. A despeito de sua juventude, ele parecia o mais cansado dos dois. Fitou a Prefeita e disse: - Não posso acreditar! A senhora está sob a impressão de que a.Segunda Fundação está fazendo tudo isso por nós? Que eles são alguma espécie de idealistas? Não lhe é claro, pelo seu conhecimento da política, dos assuntos práticos do poder e da manipulação, que eles estão fazendo isso por si mesmos? Somos o bordo de ataque. Somos o motor, a força. Trabalhamos e suamos, e sangramos e choramos. Eles meramente controlam, ajustando um amplificador aqui, fechando um contato ali, e fazendo tudo com facilidade e sem risco para eles. Então, quando tudo estiver pronto e quando, depois de mil anos de trabalho duro, tivermos estabelecido o Segundo Império Galáctico, o povo da Segunda Fundação virá com a mudança, na qualidade de elite governante.

       E Branno disse: - Quer eliminar a Segunda Fundação, então? A meio caminho do Segundo Império, você quer arriscar-se a completar a tarefa por si mesmo, e servindo como a sua própria elite? É isso?

       - Certamente! Isso mesmo! Não é o que a senhora quer também? Nós não vamos viver para ver isso, mas a senhora tem netos, e algum dia, eu poderei tê-los, e eles também terão os seus netos, e assim por diante. Quero que eles tenham os frutos de nosso trabalho, e quero que eles olhem para nós, no passado, como a origem, e que nos elogiem pelo que cumprimos. Não quero que tudo caia como uma conspiração oculta idealizada por Seldon, que não é um herói meu. Digo-lhe que ele é uma ameaça maior que o Mula, se deixarmos que este Plano chegue a termo. Pela Galáxia, desejaria que o Mula afinal tivesse acabado totalmente como Plano, e para sempre! Teríamos sobrevivido a ele. Ele era o único da espécie, e mortal. A Segunda Fundação parece ser imortal.

       - Mas você gostaria de destruir a Segunda Fundação, não é mesmo?

       - Se eu soubesse como!

       - Já que você não sabe como, não acha provável que ela é que vai destruí-lo?

       Trevize tomou um ar de desprezo: - Pensei que mesmo a senhora poderia estar sob o controle deles. Sua adivinhação acurada quanto ao que a imagem de Seldon diria, e seu subseqüente tratamento em relação a mim, tudo isso poderia ser da Segunda Fundação. A senhora poderia ser uma concha oca, recheada com a Segunda Fundação.

       - Então por que está falando comigo desse modo?

       - Porque se a senhora está sob o controle da Segunda Fundação, estou perdido, de qualquer jeito, e posso muito bem desabafar um pouco da minha raiva, e porque, de fato, estou jogando, acreditando que a senhora não está sob o controle deles, que a senhora está simplesmente sem consciência do que está fazendo.

       Ao que respondeu Branno: - E você ganha o jogo, de qualquer modo. Não estou sob o controle de ninguém, senão no meu próprio. Ainda assim, você não pode ter certeza de que estou dizendo a verdade? E se eu estivesse sob o controle da Segunda Fundação, será que eu o admitiria? Será que mesmo eu saberia estar sob o controle deles? Mas, nada se ganha com tais perguntas. Acredito não estar sob o controle deles, e você não tem chance se não acreditar também. Considere o seguinte, porém: se a Segunda Fundação existe, é certo que sua maior necessidade é certificar-se de que ninguém na Galáxia sabe que eles existem. O Plano de Seldon só funciona direito se os peões, isto é, nós, não têm consciência de como o Plano funciona e como são manipulados. Foi porque o Mula focalizou a atenção da Fundação sobre a Segunda Fundação que esta foi destruída no tempo de Arcádia. Ou deveria dizer quase destruída, Conselheiro?

       - A partir disto - prosseguiu Branno - podemos deduzir dois corolários. Primeiro, podemos supor razoavelmente que, de modo geral, eles interferem o mínimo que podem. Podemos presumir que seria impossível nos dominar a todos. Mesmo a Segunda Fundação, se existe, deve ter limites para seu poder. Dominar alguns e deixar que outros adivinhem o ato introduziria distorções no Plano. Conseqüentemente, chegamos à conclusão de que sua interferência é tão delicada, indireta e esparsa quanto possível, e que portanto não estou controlada. Tampouco você.

       - Esse é um corolário, e eu tendo a aceitá-lo; talvez unicamente por um pensamento positivo. Qual é o outro?

       - Um mais simples e mais inevitável. Se a Segunda Fundação existe e quer guardar essa existência em segredo, então uma coisa é certa. Qualquer um que pense que ela ainda existe, e falar sobre o assunto, e o anunciar, e gritar para toda a Galáxia, deve, de alguma maneira sutil, ser removido imediatamente por eles, varrido, eliminado. Não seria essa sua conclusão, também?

       - Por isso a senhora me colocou sob custódia, Prefeita? Para me proteger da Segunda Fundação?

       - De certa maneira. Até certo ponto. A cuidadosa gravação feita por Liono Kodell, de suas crenças, será publicada não só para manter o povo de Terminus e da Fundação sem ser perturbado por sua conversa mole, mas para não perturbar a Segunda Fundação. Se ela ainda existe, não quero que sua atenção se dirija para você.

       - Imagine só - disse Trevize, com uma pesada ironia. - Por minha segurança? Por meus adoráveis olhos cor de mel?

       Branno inquietou-se e então, sem aviso, riu-se baixinho: - Não sou tão velha, Conselheiro, para não perceber que o senhor tem adoráveis olhos cor de mel e há trinta anos, poderia ter sido um bom motivo. Agora, porém, não me moveria um milímetro para salvá-los, ou o resto de você, se mesmo seus olhos estivessem envolvidos. Mas se a Segunda Fundação existe, e se a atenção deles for atraída para você, poderão não se contentar só com você. Há a minha vida a considerar, e a de numerosos outros, bem mais inteligentes e valiosos que você e que todos os planos que você tenha feito.

       - Ah, a senhora então acredita que a Segunda Fundação existe, a ponto de reagir tão cuidadosamente à possibilidade de uma resposta dela?

       Branno desceu o punho sobre a mesa à sua frente: - Mas é claro que acredito, seu louco consumado! Se não soubesse da existência da Segunda Fundação, e se não a estivesse combatendo tão dura e eficazmente quanto pudesse, eu cuidaria do que você poderia dizer sobre tal assunto? Se a Segunda Fundação não existisse, importaria que você anunciasse o contrário? Há meses que tenho desejado calá-lo, antes que viesse a público, mas não tinha o poder político para maltratar um Conselheiro. A aparição de Seldon melhorou a minha imagem e deu-me o poder - mesmo que temporário - e naquele momento, você veio a público. Movi-me imediatamente, e agora vou matá-lo sem a menor dor de consciência, ou microssegundo de hesitação, se não fizer exatamente como eu disser.

       - Toda nossa conversa agora - acrescentou -, numa hora em que preferiria muito estar na cama, dormindo, destinou-se a fazê-lo acreditar em mim. Quero que saiba que o problema da Segunda Fundação, que tive o cuidado de fazer você delinear, dá-me razão suficiente e inclinação para acabar com o seu cérebro, sem julgamento.

       Trevize quase ia se erguendo.

       Branno interrompeu-o: - Vamos, não tente qualquer movimento. Sou apenas uma velha, como você sem dúvida está dizendo para si mesmo, mas antes que pudesse pôr a mão em mim, estaria morto. Estamos sendo observados, rapazinho tolo, por gente minha.

       Trevize sentou-se de novo. Disse, um pouco abalado: - Você não faz sentido. Se acreditasse que a Segunda Fundação existe, não estaria falando dela tão livremente. Não se exporia aos perigos que diz que eu estou me expondo a mim mesmo.

       - Ah, reconhece que eu tenho um pouco mais de bom senso que você. Em outras palavras, você acredita que a Segunda Fundação existe, mas fala livremente sobre ela, porque é insensato. Eu acredito que ela existe, e também falo livremente, mas tomo minhas precauções. Como parece que você leu cuidadosamente a história de Arcádia, talvez se lembre que ela fala de seu pai como tendo inventado o que ela chamou de “Dispositivo de Estática Mental”. Serve como escudo contra o tipo de poder mental da Segunda Fundação. Ainda existe, e foi muito aperfeiçoado, também, sob condições do mais alto segredo. Esta casa, no momento, está razoavelmente segura contra a espionagem deles. Isso entendido, deixe-me dizer o que deve fazer.

       - E o que é?

       - Deve descobrir se o que você e eu pensamos de fato é assim. Deve descobrir se a Segunda Fundação ainda existe, e caso afirmativo, onde. Isso significa que você deverá deixar Terminus e ir não sei para onde - mesmo que resulte, como nos dias de Arcádia, que a Segunda Fundação existe no meio de nós. Significa que você não retornará até ter algo para nos contar; e se não tiver nada para contar, nunca voltará, e a população de Terminus terá um doido a menos.

       Trevize encontrou-se gaguejando: - Como, por Terminus, posso procurá-los sem me denunciar? Simplesmente arranjarão uma morte conveniente para mim, e você não saberá de nada a mais.

       - Então não procure por eles, criança ingênua. Procure algo diferente. Procure por algo com todo seu coração, com toda sua mente, e se, no processo, cruzar com eles porque eles não se preocuparam em lhe dar atenção, então tanto melhor! Você pode, neste caso, nos enviar a informação por hiperonda fechada e codificada, e então poderá voltar, como recompensa.

       - Suponho que a senhora tenha algo em mente para que eu procure.

       - Claro que tenho. Conhece Janov Pelorat?

       - Nunca ouvi falar.

       - Vai conhecê-lo amanhã. Ele vai lhe dizer pelo que vão procurar, e ele vai partir com você numa de nossas naves mais avançadas. Só irão vocês dois, pois dois já é o bastante para arriscar. E se porventura voltarem sem nos satisfazer de que têm o conhecimento que queremos, então explodirão no espaço antes de chegarem a um parsec de Terminus. E isso é tudo. Esta conversa está encerrada.

       Levantou-se, olhou para suas mãos, e lentamente colocou suas luvas. Voltou-se para a porta, e por ela entraram dois guardas, armas na mão. Abriram alas para deixá-la passar.

       À porta, virou-se: - Há outros guardas lá fora. Não faça nada para perturbá-los, ou nos poupará o trabalho de aturá-lo vivo.

       - Então perderá também os benefícios que eu poderei trazer-lhe - respondeu Trevize, e com esforço, conseguiu dizê-lo sem rancor.

       - Arriscaremos isso - disse Branno, com um sorriso nada surpreso.

      

       Lá fora, Liono Kodell estava esperando por ela: - Escutei tudo, Prefeita. A senhora foi extraordinariamente paciente.

       - E estou extraordinariamente cansada. Acho que o dia teve setenta e duas horas. Você assume, agora.

       - Claro, mas diga-me... Havia realmente um Dispositivo de Estática Mental à volta da casa?

       - Ora, Kodell - disse Branno, cansada. - Você bem sabe. Qual a chance de alguém estar espiando? Imagina que a Segunda Fundação está espionando tudo, em todo lugar, sempre? Não sou uma jovem romântica, como é o Trevize; ele pode pensar isso, mas não eu. E mesmo se fosse esse o caso, a presença de um DEM não nos denunciaria imediatamente? E portanto, seu uso não indicaria à Segunda Fundação a existência de um escudo contra seus poderes - uma vez que detectassem uma região mentalmente opaca? O segredo da existência de um tal escudo - até que estejamos prontos para usá-lo totalmente - não é algo que vale mais que Trevize, mas também algo que vale mais que você e eu juntos? E no entanto...

       Estavam no veículo terrestre, Kodell dirigindo: - E no entanto... - repetiu Kodell -

       - E no entanto, o quê? - disse Branno. - Ah, sim. E aquele rapaz é inteligente. Chamei-o de tolo de várias maneiras, meia dúzia de vezes, só para mantê-lo no seu lugar, mas ele não é nada bobo. É jovem, e leu muitas das novelas de Arcádia Darell, e fizeram-no pensar que é assim que a Galáxia é - mas ele tem intuições rápidas sobre si mesmo, e seria uma pena perdê-lo.

       - Está certa então que ele vai se perder?

       - Bem certa - respondeu Branno, triste. - De qualquer modo, é melhor assim. Não precisamos de jovens românticos investindo cegamente por aí e esmagando, talvez um instante, o que levamos anos para construir. Além do que, ele servirá a um propósito: Certamente atrairá a atenção dos segundofundacionistas - sempre presumindo que eles existam, e realmente estejam preocupados conosco. E enquanto forem atraídos para ele, talvez nos ignorem. Talvez ainda possamos ganhar mais que a boa sorte de sermos ignorados. Poderão, esperemos, inadvertidamente se mostrar a nós, em sua preocupação com Trevize, e nos deixando uma oportunidade e tempo para pensar em contra-medidas.

       - Trevize, então, atrai o raio.

       Os lábios de Branno torceram-se: - Ah, a metáfora que tenho procurado! Ele é o nosso pára-raios, absorvendo o golpe e nos protegendo do mal.

       - E esse tal Pelorat, que também estará no trajeto do raio?

       - Ele poderá sofrer, também. Isso não se pode evitar.

       Kodell assentiu: - Bem, você sabe que Salvor Hardin costumava dizer: Nunca deixe o seu senso moral evitar que você faça o que é certo.

       - No momento, não tenho um senso moral - murmurou Branno -, tenho um senso de estar esgotada até os ossos. E ainda.. . poderia mencionar muitas pessoas que eu preferiria perder, ao invés de Golan Trevize. Ele é um belo rapaz. E é claro, sabe disso. - Suas últimas palavras foram borradas, ao fechar os olhos e cair num sono profundo.

      

Historiador

       Janov Pelorat tinha os cabelos brancos e sua face, em repouso, parecia inexpressiva. E raramente estava em outro estado que não em repouso. Tinha altura e peso medianos, e tendia a se mover sem pressa e falar ponderadamente. Parecia consideravelmente mais velho do que seus cinqüenta e dois anos.

       Nunca deixara Terminus, algo muito inusitado, especialmente para alguém da sua profissão. Ele mesmo não estava certo se suas maneiras sedentárias se deviam ou eram a despeito de sua obsessão pela história.

       A obsessão o assaltara bem de súbito, aos quinze anos, quando, durante uma indisposição, foi-lhe dado um livro de lendas antigas. Nele, encontrou repetidamente o motivo de um mundo só e isolado - um mundo que nem mesmo tinha consciência de seu isolamento, pois que nunca conhecera nada além.

       Sua indisposição começou a passar imediatamente. Em dois dias, tinha lido o livro três vezes, e estava fora da cama. No dia seguinte, estava no terminal de um computador, verificando quaisquer registros que a Biblioteca da Universidade de Terminus poderia ter sobre lendas semelhantes.

       Foram precisamente essas lendas que o ocuparam desde então. A Biblioteca da Universidade de Terminus de modo algum fora um grande recurso, sob este aspecto, mas quando ficou mais velho, descobriu as alegrias dos empréstimos entre bibliotecas. Tinha cópias em sua posse que haviam sido tomadas de sinais hiper-radirecionais tão distantes quanto Ifnia.

       Tornara-se professor de história antiga e agora começava sua primeira licença sabática - uma que ele solicitara com a idéia de fazer uma viagem espacial (sua primeira) a Trantor mesmo - trinta e sete anos depois de ter começado a carreira.

       Pelorat tinha bem consciência de que era muito incomum para uma pessoa de Terminus nunca ter estado no espaço. Nunca fora sua intenção se notabilizar desta maneira. Mas sempre que ele poderia ter ido para o espaço, algum novo livro, algum novo estudo, alguma nova análise aparecia no seu caminho. Então ele adiaria sua projetada viagem até ter dissecado o material novo, e ter acrescido, se possível, mais um item de fatos, ou especulação, ou imaginação, à montanha já colecionada. Ao fim, só lamentava que aquela viagem a Trantor, em especial, nunca fora feita.

       Trantor tinha sido a capital do Primeiro Império Galáctico. Fora o trono dos Imperadores por doze mil anos e, antes disso, capital de um dos mais importantes reinos pré-imperiais, que aos pouquinhos foi dominando ou absorvendo outros reinos até fundar o Império.

       Trantor tinha sido uma cidade que abrangeu um mundo inteiro, uma só cidade, toda de metal. Pelorat lera sobre isto nas obras de Gaal Dornick, que a visitara no tempo do próprio Hari Seldon. O volume de Dornick não mais circulava, e o que Pelorat tinha poderia ter sido vendido por metade do salário anual do historiador. A sugestão de que ele poderia vendê-lo causaria grave ofensa.

       É claro que, no que concernia a Pelorat, o importante de Trantor era a Biblioteca Galáctica que, nos tempos imperiais (quando era a Biblioteca Imperial), fora a maior da Galáxia. Trantor foi a capital do maior e mais populoso império que a humanidade já vira. Uma só cidade, atingindo o planeta inteiro, com uma população bem além dos quarenta bilhões, e sua Biblioteca, o registro reunido de todo trabalho criativo (às vezes, não tão criativo) da humanidade, sumário completo de seu conhecimento. E tudo estava computerizado de maneira tão complexa, que eram precisos especialistas para manejar os computadores.

       E mais, a Biblioteca tinha sobrevivido. Para Pelorat, era o que havia de mais surpreendente. Quando Trantor caiu e foi saqueada, quase dois séculos e meio antes, sofreu assombrosa destruição, e as histórias de miséria humana e morte eram insuportáveis de repetir - mas a Biblioteca tinha sobrevivido, protegida (pelo que se dizia) pelos estudantes da Universidade, que usaram armas engenhosamente concebidas. (Alguns pensavam que a defesa pelos estudantes bem poderia ter sido muito romantizada.)

       Em qualquer caso, a Biblioteca suportou o período de devastação. Ebling Mis outrora tinha trabalhado numa Biblioteca intacta, num mundo arruinado, quando quase localizara a Segunda Fundação (de acordo com a crença do povo da Fundação, mas que os historiadores sempre encararam com reserva). As três gerações de Darells: Bayta, Torã e Arcádia - cada uma, em uma ou outra ocasião, estiveram em Trantor. Porém, Arcádia não visitara a Biblioteca, e desde seu tempo, a Biblioteca não mais afetou a história galáctica.

       Nenhum fundacionista houvera estado em Trantor, em cento e vinte anos, mas não havia razão para crer que a Biblioteca ainda não estivesse lá. Que não tinha sofrido nada era a evidência mais segura de que ainda devia estar lá. Sua destruição teria causado algum ruído.

       A Biblioteca estava fora de moda, arcaica - já estava assim desde o tempo de Ebling Mis - mas, tanto melhor. Pelorat sempre esfregava as mãos de excitação quando pensava numa Biblioteca velha e fora de moda. Quanto mais velha e obsoleta, mais provável ter o que ele precisava. Em seus sonhos, ele entrava na Biblioteca, e perguntava, alarmado, sem fôlego: - A Biblioteca foi modernizada? Vocês jogaram fora as antigas fitas e computerizações? E sempre imaginava a resposta de velhos e empoeirados bibliotecários: - Assim como era, professor, ainda é.

       E agora, seu sonho seria realidade. A própria Prefeita lhe assegurara isso. Como ela veio a saber de seu trabalho, não tinha certeza. Ele não conseguira publicar muitas obras. Pouco do que fizera era sólido o bastante para ser aceitável para publicação, e o que aparecera, não deixou sinal. Ainda assim, diziam que Branno de Bronze sabia tudo do que acontecia em Terminus, e tinha olhos nos extremos de cada dedo, das mãos e dos pés. Pelorat quase acreditava nisto, mas se ela reconhecia o seu trabalho, por que, por Terminus, ela não viu sua importância, e lhe deu um pequeno apoio financeiro antes?

       De algum modo, pensou ele, com tanto amargor quanto ele podia gerar, a Fundação tinha os olhos firmemente no futuro. Era o Segundo Império e seu destino, o que a absorvia. Não tinham tempo, nem desejo de espiar de volta o passado - e irritavam-se com os que o faziam.

       Tanto mais estúpidos isto os tornava, mas ele não podia varrer sozinho a insensatez. E talvez fosse bom, assim. Ele poderia abraçar-se à grande pesquisa, forte contra seu peito, e viria o dia quando seria lembrado como o grande Pioneiro do Importante.

       Isso significava, é claro (e ele era intelectualmente demasiado honesto para se recusar a percebê-lo) que ele também estaria absorvido no futuro - um futuro em que ele seria reconhecido, e em que ele seria um herói, lado a lado com Hari Seldon. De fato, ele seria o maior, pois como a elaboração de um futuro claramente visualizado de um milênio se poderia comparar com a elaboração de um passado perdido de pelo menos vinte e cinco milênios? E chegou o dia; este era o dia.

       A Prefeita dissera que seria no dia depois daquele em que a imagem de Seldon aparecesse. Essa era a única razão pela qual Pelorat estivera interessado na Crise Seldon que por meses ocupara toda mente em Terminus, e de fato, quase todas as mentes da Federação.

       Parecera-lhe da mais completa insignificância se a capital da Fundação permanecesse em Terminus, ou se mudasse para qualquer outro lugar. E agora que a crise fora resolvida, permanecia incerto quanto a que lado da matéria Hari Seldon defendera, ou se a questão disputada fora sequer mencionada.

       Era suficiente que Seldon tinha aparecido, e que agora, este era o dia.

       Foi pouco depois das duas da tarde que um veículo terrestre deslizou até parar na calçada de sua casa um tanto isolada, um pouco longe de Terminus propriamente dita.

       Uma porta traseira deslizou para trás. Um guarda com o uniforme do Corpo de Segurança da Prefeitura saiu, então um rapaz, e mais dois guardas.

       Pelorat, malgrado ele mesmo, ficou impressionado. A Prefeita não só conhecia o seu trabalho, mas claramente o considerava da mais al ta importância. A pessoa que deveria ser o seu companheiro merecia uma guarda de honra, e fora-lhe prometida uma nave de primeira classe, que seu companheiro estaria capacitado a pilotar. Muito desvanecedor! Muito.

       A governanta de Pelorat abriu a porta. O rapaz entrou e os dois guardas tomaram posição a cada lado da entrada. Pela janela, Pelorat viu que o terceiro guarda permanecia lá fora, e que um segundo carro havia chegado. Guardas adicionais!

       Perturbador!

       Voltou-se, para encontrar o rapaz em sua sala, e surpreendeu-se ao reconhecê-lo. Já o tinha visto nas holonoticias: - Você é aquele Conselheiro. Você é Trevize!

       Golan Trevize. Isso mesmo. E o senhor é o Professor Janov Pelorat!

       - Sim, sim - respondeu Pelorat. - Você é aquele que...

       - Seremos companheiros de viagem - respondeu Trevize, marmóreo. - Ou pelo menos assim mo disseram.

       - Mas você não é um historiador.

       - Não, não sou. Como disse, sou um Conselheiro, um político.

       - Sim, é mesmo. - . mas, o que estou dizendo? Eu sou o historiador, portanto que necessidade tenho de um outro? Você sabe pilotar uma espaçonave.

       - Sim, até que sou bom nisso.

       - Bem, é tudo o que precisamos. Excelente! Receio não ser um espírito prático, como vocês; de modo que, meu rapaz, se por acaso você o é, faremos uma boa equipe. Esperemos, então, que eu possa superar minhas incertezas sobre o espaço. Nunca estive no espaço, você sabe, Conselheiro. Sou um “bicho da terra”, sabe? Aliás, gostaria de uma xícara de chá? Posso pedir a Kloda que nos prepare algo. Pelo que sei, ainda há algumas horas antes de partirmos, afinal. No entanto, já estou totalmente preparado. Tenho tudo o que é necessário para nós dois. A Prefeita tem sido muito cooperativa. Surpreendente... o interesse dela no projeto.

       - O senhor sabia a respeito disto, então? Já há quanto tempo?

       - A Prefeita entrou em contato comigo - aqui Pelorat fez uma careta, parecendo fazer alguns cálculos - há duas, talvez três sema nas atrás. E agora tenho bem claro na mente que preciso de um piloto, e não de um segundo historiador, e também estou contente que meu companheiro seja você, meu caro rapaz.

       - Duas, talvez três semanas atrás - repetiu Trevize, soando um pouco atordoado. - Então, ela esteve preparada todo este tempo. E eu... - e silenciou.

       - Como disse?

       - Nada, professor. Tenho o mau hábito de resmungar para mim mesmo. É algo com que o senhor terá de se acostumar, se nossa viagem se estender muito.

       - E vai, e vai - disse Pelorat, empurrando o outro para a mesa da sala de refeições, onde um elaborado chá estava sendo preparado por sua governanta. - A Prefeita disse que deveríamos demorar tanto quanto quiséssemos, e que a Galáxia inteira estava à nossa frente, e de fato, onde quer que fôssemos, poderíamos requisitar fundos da Fundação. Ela disse, é claro, que deveríamos ser razoáveis. O que também prometi. - Riu-se e esfregou as mãos. - Sente-se bom rapaz, sente-se. Esta pode ser nossa última refeição em Terminus, por um longo tempo.

       Trevize sentou.se. - O senhor tem família, professor?

       - Tenho um filho. Ele está na faculdade, Universidade de Santanni. Ele é químico, creio, ou algo assim. Puxou pela mãe. Ela não está comigo há já um bom tempo, de modo que não tenho responsabilidades, e creio que você também não tem nenhuma... sirva-se de sanduíches, rapaz.

       - Nenhum dependente, no momento. Umas poucas mulheres. Elas vão e vêm.

       - Sim; sim, é delicioso, quando funciona. Ainda mais delicioso quando você descobre que não precisa levar nada a sério. Sem filhos, então?

       - Nenhum.

       - Ótimo! Você sabe, estou no melhor dos humores. Fiquei meio ressabiado quando você chegou, admito, mas acho tudo muito animador, agora. O que preciso é de juventude e entusiasmo, e alguém que saiba os caminhos da Galáxia. Estamos numa busca, você sabe. Uma pesquisa notável. - O rosto e a voz tranqüilos de Pelorat atingiram uma animação inusitada, sem nenhuma mudança particular de expressão ou entonação. - Imagino se lhe contaram algo a respeito.

       Os olhos de Trevize se estreitaram. - Uma busca notável?

       - Sim, realmente. Uma pérola de grande valor está escondida entre as dezenas de milhões de mundos habitados na Galáxia, e não temos nada, senão as pistas mais tênues para nos guiar. Mesmo assim, será um prêmio incrível se pudermos encontrá-la. Modéstia à parte... nossos nomes ressoarão por todas as eras, até o fim dos tempos

       - O prêmio de que o senhor fala, essa pérola de grande valor..

       - Pareço Arcádia Darell, a escritora, você sabe, falando da Segunda Fundação, não é mesmo? Não admira que você esteja admirado. - Pelorat inclinou a cabeça para trás, como se fosse gargalhar, mas meramente sorriu: - Nada tão tolo e sem importância, asseguro-lhe.

       - Se o senhor não está falando da Segunda Fundação, professor, de que está falando?

       Pelorat ficou subitamente grave, como se pedisse desculpas: - Ah, então a Prefeita não lhe contou? Estranho... Passei décadas ressentido com o governo e sua incapacidade de entender o que estou fazendo, e agora a Prefeita Branno está sendo notavelmente generosa!

       - Sim - respondeu Trevize, não tentando esconder um tom irônico -, ela é uma mulher de uma notável filantropia oculta, mas ela não me contou sobre o que tudo isto vem a ser.

       - Você não está informado de minha pesquisa, então?

       - Lamento, mas não estou.

       - Não precisa se desculpar. Está perfeitamente bem. Não tenho sido exatamente um sucesso estrondoso. Então, deixe-me contar. Você e eu vamos procurar, e encontrar, pois tenho uma excelente possibilidade em mente: a Terra.

      

       Trevize não dormiu bem naquela noite. Repetidamente, ele percorria a cadeia que aquela velha construíra em torno dele. E de modo algum podia encontrar uma saída.

       Estava sendo levado ao exílio, e nada podia fazer. Ela fora calmamente inexorável, e nem se deu ao trabalho de mascarar a inconstitucionalidade de tudo aquilo. Ele confiara em seus direitos de Conselheiro, e de cidadão da Federação, e ela nem mesmo formalmente os respeitara.

       E agora esse Pelorat, esse estranho acadêmico que parecia se encontrar no mundo, sem fazer parte dele, disse-lhe que a temível megera estivera fazendo arranjos para isto havia semanas.

       Ele sentiu-se como o “menino” como ela o chamara.

       Devia ser exilado junto com um historiador que ficava sempre chamando-o de “caro rapaz”, e que parecia estar sob um silencioso ataque de alegria por começar uma busca por toda a Galáxia pela... Terra?

       E o que, em nome da avó do Mula, era a “Terra”?

       Ele perguntara, mas é claro! E no momento mesmo em que foi mencionada.

       - Desculpe, professor, sou um ignorante na sua especialidade, e confio que o senhor não se irritará se eu pedir uma explicação em termos simples: o que é a “Terra”?

       Pelorat observou-o gravemente, enquanto vinte segundos lenta- mente se passavam. - É um planeta; o planeta original. Aquele onde os seres humanos primeiro apareceram, meu caro rapaz.

       Trevize olhou, com cara de bobo: - Primeiro apareceram? Vindos de onde?

       - De lugar algum. É o planeta onde a humanidade se desenvolveu por um processo evolucionário, a partir de animais inferiores.

       Trevize ficou pensando, então abanou a cabeça: - Não sei do que o senhor está falando.

       Uma expressão de enfado cruzou brevemente o rosto de Pelorat. Limpou a garganta e disse: - Houve um tempo em que Terminus não tinha seres humanos em sua superfície. Foi povoado por humanos a partir de outros mundos. Você sabe disso, eu suponho?

       - Sim, é claro - retrucou Trevize, impaciente. Estava irritado com o súbito tom professoral do outro.

       - Muito bem, e isso é válido para todos os outros mundos: Anacreon; Santanni; Kalgan... todos eles. Todos eles, em algum momento do passado, foram descobertos. As pessoas chegavam neles, vindas de outros mundos. Isso é válido mesmo para Trantor. Pode ter sido uma vasta metrópole por vinte mil anos, mas antes, não era nada.

       - Ora,e o que foi, antes?

       - Um deserto! Pelo menos, de humanos.

       - É difícil de acreditar.

       - É verdade; os antigos registros mostram isso.

       - E de onde vieram as pessoas que primeiro povoaram Trantor?

       - Ninguém tem certeza. Há centenas de planetas que alegam ter sido populados nas nuvens difusas da antiguidade, e cujo povo apresenta lendas intrincadas sobre a natureza da primeira chegada da humanidade. Os historiadores tendem a descartar essas coisas, e discutir em torno da “Questão das Origens”.

       - E o que é isso? Nunca ouvi falar.

       - O que não me surpreende. Não é um problema histórico popular, agora, admito, mas houve um tempo, durante a decadência do Império, quando levantou uma certa celeuma entre os intelectuais. Salvor Hardin o menciona brevemente, em suas memórias. É a questão da identidade e localização daquele planeta onde tudo começou. Se olharmos para trás, no tempo, a humanidade vai refluindo para dentro, dos mundos mais recentemente povoados, para os mais antigos, e para outros ainda mais antigos, até que tudo se concentra num só - o original.

       Trevize pensou logo na falha óbvia do argumento: -Não poderia haver um grande número de planetas originais?

       - Claro que não. Todos os seres humanos, por toda a Galáxia, são de uma só espécie. Uma só espécie não pode se originar em mais de um planeta. Totalmente impossível.

       - Como sabe?

       - Em primeiro lugar... - Pelorat indicou o primeiro dedo de sua mão esquerda com o primeiro dedo da direita, e então pensou melhor no que seria sem dúvida uma longa e intrincada exposição: - Meu caro rapaz, dou-lhe minha palavra de honra - foi o que disse, colocando as mãos na cintura, e falando com grande seriedade.

       Trevize assentiu formalmente e disse: - Eu nem sonharia em duvidar, professor Pelorat. Digamos, então, que haja um planeta de origem, mas não poderia haver centenas a reclamar essa honra para si?

       - Não só poderia, mas há. Mas todas as alegações são desprovidas de mérito. Nenhum dessas centenas que aspiram ao crédito da prioridade mostra qualquer traço de uma sociedade pré-hiperespacial, quanto mais qualquer traço de evolução humana a partir de organismos pré-humanos.

       - Então o senhor está dizendo que há um planeta original, mas que, por alguma razão, não reclama o título para si?

       - Acertou precisamente a questão.

       - E o senhor vai procurá-lo?

       - Nós vamos. E essa é nossa missão. A Prefeita Branno já arranjou tudo. Você vai pilotar nossa nave até Trantor.

       - Para Trantor? Não é o planeta da origem! O senhor o disse agora há pouco.

       - Claro que não é Trantor; é a Terra.

       - Então por que não me diz para pilotar a espaçonave até a Terra?

       - Creio que não estou me fazendo muito claro. “Terra” é um nome lendário. Está encerrado em mitos antigos. Não tem significado do qual possamos estar certos, mas é conveniente usar a palavra, como um sinônimo de duas silabas para: “o planeta de origem da espécie humana”. Exatamente que planeta no espaço real estamos definindo como “Terra”, isso não é conhecido.

       - E é conhecido em Trantor?

       - Espero encontrar informação lá, certamente. Trantor possui a Biblioteca Galáctica, a maior do sistema.

       - Certamente essa biblioteca foi pesquisada pelas pessoas que o senhor disse estarem interessadas na “Questão das Origens”, no tempo do Primeiro Império.

       Pelorat assentiu, pensativo: - Sim, mas talvez não o suficiente. Aprendi muito sobre a “Questão das Origens”, que talvez os imperiais de há cinco séculos não sabiam. Poderia pesquisar os antigos registros com uma maior compreensão, percebe? Tenho pensado nisso por muito tempo, e tenho uma excelente possibilidade em mente.

       - O senhor contou tudo isto à Prefeita Branno, eu imagino, e ela aprovou?

       - Aprovou? Meu caro rapaz, ela ficou extasiada. Disse-me que Trantor era exatamente o lugar onde encontrar tudo o que eu precisaria saber.

       - Sem dúvida - resmungou Trevize.

       E isso era parte do que o ocupava naquela noite. A Prefeita Branno o estava mandando descobrir o que podia sobre a Segunda Fundação. Estava enviando-o com Pelorat, de modo que ele poderia mascarar o seu real objetivo com a pretensa busca da Terra, uma busca que poderia carregá-lo para qualquer ponto da Galáxia. Era um disfarce perfeito, de fato, e ele admirou o engenho da Prefeita.

       Mas, Trantor? Qual o sentido disso? Uma vez em Trantor, Pelorat se embarafustaria pela Biblioteca Galáctica e nunca emergiria de lá. Com pilhas infinitas de livros, filmes e gravações, com inumeráveis computerizações e representações simbólicas, ele certamente não quereria sair nunca mais.

       Além do que...

       Ebling Mis fora uma vez a Trantor, no tempo do Mula. A história dizia que ele descobrira a localização da Segunda Fundação ali, onde morreu antes de poder revelá-la. Mas, então veio Arcádia Darell, e ela também conseguiu localizar a Segunda Fundação. Mas o local que ela encontrou foi o próprio Terminus, e ali o ninho da Segunda Fundação foi varrido. Onde quer que a Segunda Fundação estivesse agora seria em qualquer outro lugar; então, o que mais Trantor teria para revelar? Se ele estava procurando pela Segunda Fundação, era melhor ir a qualquer lugar que não Trantor.

       Além do que...

       Que outros planos Branno teria, ele não sabia, mas não podia especular junto a ela. Branno então ficara extasiada sobre uma viagem a Trantor, hein? Se Branno queria Trantor, eles não iriam justamente é para Trantor! Qualquer lugar, mas não Trantor!

       E, exausto, com a noite se aproximando do alvorecer, Trevize caiu num sono irregular.

      

       A Prefeita Branno tivera um bom dia, naquele que se seguiu à prisão de Trevize. Ela ficara em posição privilegiada, e o incidente nunca mais foi mencionado.

       Não obstante, ela sabia que o Conselho logo emergiria de sua paralisia, e objeções seriam levantadas. Ela teria de agir rapidamente. Assim, colocando muitos assuntos de lado, continuava a tratar do caso de Trevize.

       No momento em que Trevize e Pelorat estavam discutindo acerca da Terra, Branno defrontava-se com o Conselheiro Munn Li Compor, no escritório da prefeitura. Enquanto ele se sentava à frente de sua escrivaninha, ela o avaliava de novo.

       Ele era mais baixo e mais magro que Trevize, e só dois anos mais velho. Ambos eram Conselheiros novatos, jovens e irrequietos, e isso devia ser só o que tinham em comum, pois eram diferentes sob todos os outros aspectos.

       Onde Trevize parecia irradiar uma brilhante intensidade, Compor emitia uma quase serena auto-confiança. Talvez fosse seu cabelo loiro e olhos azuis, não muito comuns entre fundacionistas. Emprestavam-lhe uma delicadeza quase feminina que (julgava Branno) o tornava menos atraente às mulheres do que Trevize. Ele claramente era vaidoso quanto ao seu aspecto, porém, e extraia o máximo dele, ostentando o cabelo um tanto longo e certificando-se de que estava cuidadosamente ondulado. Usava uma leve sombra azul nas pálpebras abaixo das sobrancelhas, para acentuar a cor de seus olhos. (Sombras de vários tons tomaram-se comuns entre os homens, nestes últimos dez anos.)

       Ele não era mulherengo. Vivia pacatamente com sua esposa, mas ainda não registrara intenção parental, e não se sabia ter uma segunda companheira clandestina. Nisso também era diferente de Trevize, que mudava de companheira tão freqüentemente quanto mudava os cintos de cores berrantes, pelos quais era notório.

       Havia pouco sobre ambos os conselheiros que o departamento de Kodell não tivesse descoberto, e o próprio Kodell sentava-se quietamente num canto da sala, exalando um confortável bom humor, como sempre.

       Branno disse: - Conselheiro Compor, o senhor prestou à Fundação um bom serviço, mas desgraçadamente para o senhor, não é da espécie que pode ser louvada em público ou paga de qualquer maneira ordinária.

       Compor sorriu. Ele tinha dentes brancos e regulares, e Branno ociosamente imaginou, por um instante somente, se todos os habitantes do setor de Sirius tinham aquela aparência. A história de Compor, sobre descender daquela região em especial, um tanto periférica, remontava à sua avó materna, que também tinha cabelos louros e olhos azuis e que afirmava que a mãe dela é que vinha do setor de Sirius. De acordo com Kodell, porém, não havia nenhuma forte evidência em favor disso.

       As mulheres sendo o que são, Kodell dissera, ela poderia ter alegado uma descendência distante e exótica para acrescer a seu “glamour” e seu encanto, já formidáveis.

       - E é assim que são as mulheres? - Branno perguntara secamente, e Kodell sorrira e murmurara que estava se referindo às mulheres comuns, é claro.

       Compor retrucou: - Não é necessário que o povo da Fundação saiba de meu serviço: apenas a senhora.

       - Eu sei, e não o esquecerei. O que também não farei é deixá-lo presumir que suas obrigações agora estão encerradas. Você embarcou numa corrida complicada, e deve continuar. Queremos mais a respeito de Trevize.

       - Já lhe disse tudo concernente a ele.

       - Isso pode ser o que você queria que eu aceitasse. Isso pode mesmo ser o que você sinceramente acredita. No entanto, responda às minhas perguntas: conhece um cavalheiro chamado Janov Pelorat?

       Apenas por um instante, a testa de Compor enrugou-se. Disse cuidadosamente: - Talvez o reconhecesse, se o visse, mas o nome não parece causar nenhuma associação, para mim.

       - Ele é um erudito.

       A boca de Compor arredondou-se num “Oh?” quase de desprezo, mas não pronunciado, como se se surpreendesse que a Prefeita esperasse que ele soubesse a respeito de eruditos.

       - Pelorat é uma pessoa interessante que, por razões particulares, tem a ambição de visitar Trantor. O conselheiro Trevize o acompanhará. Agora, como você tem sido um bom amigo de Trevize, e talvez conheça o seu modo de pensar, diga-me: acha que Trevize consentirá em ir para Trantor?

       Ao que respondeu Compor: - Se a senhora providenciar que Trevize entre na nave, e se a nave for pilotada para Trantor, o que ele pode fazer senão ir para lá? Certamente, a senhora não está sugerindo que ele se amotine e tome a nave.

       - Você não entendeu. Ele e Pelorat estarão sós na nave e Trevize no comando.

       - Está me perguntando se ele iria voluntariamente para Trantor?

       - Sim, é isso o que estou perguntando.

       - Senhora Prefeita, como poderia eu saber o que ele faria?

       - Conselheiro Compor, o senhor esteve muito perto de Trevize. O senhor sabe da crença dele na existência de uma Segunda Fundação. Ele nunca lhe falou de suas teorias sobre onde ela poderia existir, e onde poderia ser encontrada?

       - Nunca, Senhora Prefeita.

       - Acha que ele a encontrará?

       Compor riu: - Creio que a Segunda Fundação, o que quer que tenha sido e por mais importante que possa ter sido, foi varrida no tempo de Arcádia Darell. Acredito na História dela.

       - De fato? Neste caso, por que traiu seu amigo? Se ele estivesse procurando por algo que não existisse, que mal poderia ter feito, propondo suas infundadas teorias?

       - Não é só a verdade que pode prejudicar. Suas teorias poderiam ser frágeis, mas poderiam ter sucesso em abalar o povo de Terminus, e ao introduzir dúvidas e temores quanto ao papel da Fundação no grande drama da história galáctica,enfraqueceria seu controle da Federação e seus sonhos de um Segundo Império Galáctico. Claramente, a senhora mesma pensou nisso, ou não teria mandado prendê-lo na própria sala do Conselho, e não o estaria forçando ao exílio sem julgamento. Por que o fez, aliás, se posso perguntar, Prefeita?

       - Vamos dizer que fui cuidadosa o suficiente para imaginar se havia uma pequeníssima chance de que ele poderia estar certo, e que a expressão de suas opiniões poderia ser ativa e diretamente perigosa.

       Compor nada disse.

       - Concordo com o senhor, mas sou forçada, pelas responsabilidades de minha posição, a considerar a possibilidade. Deixe-me perguntar-lhe de novo se o senhor teria qualquer indicação quanto a se ele poderia pensar que a Segunda Fundação existe, e para onde ele poderia ir.

       - Não tenho nenhuma.

       - Ele nunca lhe deu nenhuma pista nesse sentido?

       - Não, claro que não.

       - Nunca? Não dispense a idéia facilmente. Pense! Nunca mesmo?

       - Nunca - confirmou Compor, peremptório.

       - Nenhuma pista? Nenhuma observação jocosa? Nenhum cismar abstrato, em momentos que poderiam assumir significado, agora ao rememorar-se?

       - Nenhum, assevero-lhe, Senhora Prefeita, seus sonhos de uma Segunda Fundação são feitos do mais nebuloso luzir das estrelas. A senhora bem o sabe, e desperdiça o seu tempo e os seus nervos com sua preocupação a respeito.

       - Por acaso o senhor não estaria virando a bandeira de novo, protegendo o amigo que entregou em minhas mãos?

       - Não, entreguei-o pelo que me pareceram boas e patrióticas razões. Não tenho motivo para lamentar tal ação, ou mudar minha atitude.

       - Então o senhor não pode me dar nenhuma pista sobre para onde ele poderá ir, uma vez a nave esteja à sua disposição?

       - Como já disse, eu...

       - E no entanto, Conselheiro - e aqui as rugas do rosto da Prefeita dobraram-se, evidenciando a sua astúcia -, eu gostaria de saber para onde ele vai.

       - Nesse caso, creio que a senhora deveria colocar um hiper-relê na nave dele.

       - Pensei nisso, Conselheiro. Ele é, porém, um homem desconfiado, e suspeito que o descobriria, por mais engenhosamente que fosse ocultado. Claro, poderia ser colocado de maneira que ele não pudesse removê-lo sem danificar a nave, e assim poderia ser forçado a deixá-lo no lugar.

       - Uma excelente idéia.

       - Exceto que, então, ele ficaria inibido. Poderia não ir para onde pensou, se se sentisse livre e sem peias. O conhecimento que eu ganharia ser-me-ia inútil.

       - Nesse caso, parece que a senhora não pode ficar sabendo para onde ele vai.

       - Eu poderia, pois pretendo ser muito primitiva. Uma pessoa que espera o completamente sofisticado e fica em guarda contra ele, pode muito bem nunca pensar no completamente primitivo. Estou pensando em mandar seguir Trevize.

       - Seguir?

       - Exatamente. Por um outro piloto, numa outra espaçonave. Está vendo como ficou abismado com a idéia? Ele também ficaria igualmente abismado. Poderia não pensar em sondar o espaço e investigar uma massa que o acompanhasse e, em qualquer caso, providenciaremos que sua nave não esteja equipada com os últimos detectores de massa.

       - Senhora Prefeita, falando com todo o respeito possível, devo apontar sua falta de experiência com o vôo espacial. Uma nave seguir outra, é algo que nunca é feito, porque não adianta. Trevize escapará no primeiro Salto hiperespacial. Mesmo que não saiba estar sendo seguido, aquele primeiro Salto será seu caminho para a liberdade. Se ele não tiver um hiper-relê a bordo de sua nave, não poderá ser detectado.

       - Admito minha falta de experiência. Diversamente de você e Trevize, não tive treinamento naval. No entanto, meus assessores me dizem - e eles têm tal treinamento - que, se uma nave for observada imediatamente antes de um Salto, sua orientação, velocidade e aceleração possibilitam avaliar qual seria o Salto - de uma maneira geral. Dado um bom computador e um excelente senso de julgamento, um  piloto que o seguisse poderia duplicar o Salto de perto o suficiente para retomar a pista no outro extremo - especialmente se quem segue tiver um bom detector de massa.

       - Isso poderia acontecer uma vez - disse Compor, energicamente -, mesmo duas vezes, se o piloto tiver muita sorte, mas é tudo. Não se pode confiar em tais coisas.

       - Talvez possamos... Conselheiro Compor, o senhor participou de hiper-corridas, em sua juventude. Como vê, sei muito a seu respeito, O senhor é um excelente piloto, e fez coisas admiráveis quando se tratou de seguir um competidor por um Salto.

       Os olhos de Compor se arregalaram. Ele quase se torceu em sua poltrona. - Eu estava no colégio, então; agora, sou mais velho.

       - Não tão mais velho. Não completou trinta e cinco. Conseqüentemente, você vai seguir Trevize, Conselheiro. Onde ele for, você o seguirá, e fará um relatório para mim. Vai partir assim que Trevize se for, o que será em umas poucas horas. Se recusar a tarefa, Conselheiro, será aprisionado por traição. Se levar a nave que vamos lhe entregar, e não conseguir segui-los, não precisa se preocupar em voltar. Será destruído no espaço, se tentar voltar.

       Compor levantou-se bruscamente: - Tenho uma vida para viver. Tenho trabalho a fazer. Tenho uma esposa. Não posso deixar tudo!

       - Pois vai ter que deixar. Os de nós que escolhem servir à Fundação devem estar preparados a qualquer momento para servi-la de maneira prolongada e desconfortável, se for necessário.

       - Minha esposa deve ir comigo, é claro.

       - Você me toma por uma idiota? Ela fica aqui, é claro.

       - Como refém?

       - Se gostar da palavra. Prefiro dizer que você vai rumo ao perigo, e meu bondoso coração quer que ela fique onde não correrá perigo algum. Não há espaço para discussão. Você está tão preso quanto Trevize, e estou certa de que você entenderá que devo agir depressa, antes que a euforia que envolve Terminus se desgaste. Receio que minha estrela logo estará descendo.

      

       - A senhora não facilitou nada para ele, Senhora Prefeita - disse Kodell.

       A Prefeita respondeu, bufando: - E por que deveria? Ele traiu um amigo.

       - O que nos foi muito útil.

       - Sim, foi o que resultou. Sua próxima traição, porém, talvez não seja útil.

       - E por que deveria haver outra?

       - Ora, vamos, Liono - disse Branno, impaciente -, não brinque comigo. Qualquer um que apresente tal duplicidade fica para sempre suspeito de repetir-se.

       - Ele pode fazer as pazes com Trevize. Juntos, eles podem...

       - Você não acredita nisso. Com toda sua insensatez e ingenuidade Trevize vai direto para seu objetivo. Ele não entende a traição e nunca, sob nenhuma circunstância, vai chegar a um acordo com Compor uma segunda vez.

       - Desculpe, Prefeita, mas deixe certificar-me se sigo seu pensamento. Até que ponto a senhora pode confiar em Compor? Como sabe que ele seguirá Trevize e informará honestamente? Conta com o medo dele pelo bem-estar de sua esposa, como coerção? Seu desejo de voltar para ela?

       - Ambos são fatores, mas não confio inteiramente nisso. Na nave de Compor haverá um hiper-relê. Trevize suspeitaria de algo assim e procuraria por um. Entretanto Compor, sendo o espião, eu presumo, não suspeitará estar sendo espionado, e não procurará um. É claro, se o fizer, e se descobrir, então deveremos depender da atração de sua esposa.

       Kodell riu-se: - E pensar que uma vez lhe dei lições. E o propósito dessa perseguição?

       - Uma camada dupla de proteção. Se Trevize for apanhado, pode ser que Compor aja de acordo com o que esperamos e nos dê informações de que Trevize não seria capaz.

       - Mais uma pergunta. E se, por algum acaso, Trevize encontrar a Segunda Fundação, e soubermos através dele, ou de Compor, ou se acumularmos razões para suspeitar de sua existência - a despeito das mortes de ambos?

       - Estou esperando que a Segunda Fundação de fato exista, Liono. Em qualquer caso, o Plano de Seldon não vai nos ajudar por muito mais tempo. O grande Hari Seldon o idealizou nos dias de agonia do Império, quando o avanço tecnológico estava virtualmente parado. Seldon também era um produto de seus dias, e por mais brilhante que essa ciência semi-mítica da psico-história tenha sido, não poderia erguer-se muito além de suas raízes. Certamente não preveria um avanço tecnológico rápido. E é o que a Fundação tem conseguido, especialmente neste último século. Temos detectores de massa de um tipo que nem se poderia sonhar antes, computadores que respondem ao pensamento, e acima de tudo, o escudo mental. A Segunda Fundação não pode nos controlar por muito mais tempo, mesmo que o possam agora. Desejo, nos anos finais de meu mandato, iniciar Terminus num novo caminho.

       - E se, de fato, não existir Segunda Fundação?

       - Então começaremos um novo caminho imediatamente.

      

       O sono perturbado que finalmente tomara Trevize não durou muito. Um toque em seu ombro foi repetido uma segunda vez.

       Trevize acordou, estremunhado,e totalmente incapaz de entender  por que deveria estar numa cama estranha. - O quê? Quê?...

       Pelorat disse-lhe, à guisa de desculpa: - Lamento, Conselheiro Trevize. O senhor é meu hóspede, e devo-lhe o descanso, mas a Prefeita está aqui. - Ele estava de pé, ao lado da cama, de pijama de flanela, e tremendo um pouco. Os sentidos de Trevize pularam para um despertar desconfiado, e então lembrou-se.

       A Prefeita estava na sala de Pelorat, parecendo tão impecável quanto sempre. Kodell estava com ela, cofiando levemente seu bigode branco.

       Trevize ajustou seu cinto e imaginou se e quando os dois - Branno e Kodell - ficavam separados.

       Trevize disse, galhofeiro: - O Conselho já se recuperou? Seus membros estariam preocupados pela ausência de um deles?

       Ao que respondeu a Prefeita: - Há sinais de vida, sim, mas não o suficiente para lhe causar nenhum bem. Não há questão quanto a que eu ainda tenha poder suficiente para forçá-lo a partir. Será levado ao Espaçoporto de Ultimato...

       - Não o Espaçoporto de Terminus, Senhora Prefeita? Devo ser privado de uma despedida adequada dos milhares que choram?

       - Vejo que já recuperou sua tendência para tolices adolescentes, Conselheiro, o que muito me agrada. Detém o que de outro modo poderia ser o elevar-se de um pequeno traço de consciência moral. No Espaçoporto de Ultimato, você e o professor Pelorat partirão em silêncio.

       - E nunca voltaremos?

       - E talvez nunca retomem. É claro - e aqui, ela sorriu por um instante -, se você descobrir algo de tamanha importância e utilidade que mesmo eu fique contente de tê-lo de volta com a informação, você voltará. Poderá até mesmo ser tratado com honras.

       Trevize assentiu, descuidadamente: - Isso até pode acontecer.

       - Quase qualquer coisa pode acontecer. Em todo caso, você estará confortável. Ser-lhe-á destinado um cruzador de bolso recém- construído, o Far Star, segundo o nome do cruzador de Hober Mallow. Uma só pessoa pode pilotá-lo, se bem que pode transportar até três pessoas com um conforto razoável.

       Trevize foi sacudido de sua disposição cuidadosamente ostentada, de ironia bem-humorada: - Totalmente armado?

       - Desarmado, mas totalmente equipado quanto ao resto. Onde quer que vão, serão cidadãos da Fundação, e sempre haverá um cônsul a quem recorrer, de modo que não precisarão de armas. Poderão levantar fundos segundo suas necessidades. Não ilimitadamente, devo acrescentar.

       - A senhora é generosa.

       - Bem o sei, Conselheiro. Mas, compreenda-me. O senhor está ajudando o professor Pelorat a achar a Terra. O que quer que o senhor pense estar procurando, estará procurando pela Terra. Todos os que encontrarem deverão pensar o mesmo. E lembre-se sempre que o Far Star não está armado.

       - Estou procurando pela Terra - disse Trevize. - Entendi perfeitamente.

       - Então pode partir agora.

       - Perdão, mas certamente há mais em tudo isso do que já discutimos. Já pilotei naves antes, mas não tenho experiência com um cruzador de bolso do último tipo. E se eu não conseguir pilotá-lo?

       - Pelo que sei, o Faz Star é totalmente computerizado. E, antes de me perguntar, você não precisa saber manejar o computador de uma nave de último tipo. Ele mesmo lhe dirá qualquer coisa que precise saber. Está precisando de algo em especial?

       Trevize olhou para si mesmo, lamentando: - Uma muda de roupas.

       - Vai encontrá-la a bordo. Inclusive essas fitas que você usa, ou cintos, ou seja lá como se chamem. O professor também terá tudo o que precisar. Tudo o que é razoável já está a bordo, muito embora devo apressar-me a dizer que isto não inclui companhia feminina.

       - Isso é mau - disse Trevize. - Seria agradável, mas afinal, não tenho nenhuma candidata no momento. Ainda assim, presumo que a Galáxia seja populosa, e uma vez longe daqui, posso fazer como me agradar.

       - Em relação a companheiras? Sirva-se!

       Ela levantou-se, pesadamente: - Não vou levá-lo ao espaçoporto, mas há quem o faça por mim, e não faça nenhum esforço para qualquer coisa que não lhe seja pedida. Acredito que poderão matá-lo, se fizer um esforço para escapar. O fato de que eu não estarei com eles removerá qualquer inibição.

       E Trevize disse: - Não farei nenhum esforço não autorizado, Senhora Prefeita, mas uma coisa...

       - Sim?

       Trevize procurou depressa em sua mente, e finalmente disse, com um sorriso que ele esperava muito que não parecesse forçado: - Pode chegar o tempo, Senhora Prefeita, que a senhora vai me pedir um favor. E então farei como achar melhor, mas me lembrarei destes dois últimos dias.

       A Prefeita Branno suspirou: - Poupe-me o melodrama. Se vier esse dia, ele virá, mas por hora não estou pedindo nada.

      

Espaço

       A nave parecia ainda mais impressionante do que Trevize - com suas memórias dos tempos em que a nova classe de cruzador fora brilhantemente propagandeada - esperara.

       Não era o tamanho que impressionava - pois era até pequena. Fora projetada para manobrabilidade e velocidade, para motores totalmente gravíticos e, acima de tudo, computerização avançada. Não precisava de tamanho - o tamanho faria fracassar o seu propósito.

       Era um aparelho de um só tripulante que podia substituir com vantagem as naves mais velhas, que requeriam uma tripulação de uma dúzia ou mais. Com uma segunda, ou mesmo uma terceira pessoa para fazer turnos ao comando, tal nave poderia combater uma frota muito maior de naves de fora da Fundação. Ademais, podia ultrapassar e escapar de qualquer outra nave então existente.

       Havia uma elegância em torno dela - nenhum linha desperdiçada, nenhuma curva supérflua dentro ou fora. Cada metro cúbico era utilizado ao máximo, de modo a deixar uma aura paradoxal de espaço interior. Nada que a prefeita pudesse ter dito sobre a importância de sua missão poderia ter impressionado Trevize mais que a nave com a qual pedira que fosse executada.

       Branno de Bronze, pensou ressentido, o tinha manobrado para uma missão perigosa do maior significado. Ele poderia não ter aceito com tanta determinação se ela não arranjasse as coisas de modo que ele quisesse mostrar a ela o que ele podia fazer.

       Quanto a Pelorat, estava transportado de maravilha: - Você acredita - disse ele, pousando um dedo delicadamente no casco, antes de subir a bordo - que eu nunca estive perto de uma nave espacial?

       - É claro que acredito, se o senhor assim o diz, professor, mas como conseguiu?

       - Mal saberia dizer, para ser honesto com você, meu caro rap... quero dizer, Trevize. Presumo ter estado demasiado preocupado com a minha pesquisa. Quando se tem em casa um excelente computador, capaz de atingir outros computadores em qualquer ponto da Galáxia, mal é preciso fazer algum movimento, você sabe. De certo modo, eu esperava que espaçonaves fossem maiores que isto.

       - Este é um modelo pequeno, mas mesmo assim, é maior por dentro que qualquer outra nave de mesmo porte.

       - Como pode ser? Você está fazendo pouco de minha ignorância.

       - Não, não; estou falando sério. Esta é uma das primeiras naves totalmente gravitizadas.

       - E o que isso significa? Mas por favor, não explique se for preciso se estender pela física. Aceitarei sua palavra, como você aceitou a minha ontem, quanto à unicidade da espécie humana e o mundo único de origem.

       - Vamos tentar, professor Pelorat. Por todos os milhares de anos de vôo espacial, tivemos motores químicos, iônicos e hiperatômicos, e todas estas coisas foram volumosas. A antiga Frota Imperial tinha naves de quinhentos metros de comprimento sem mais espaço habitável dentro dela do que o de um pequeno apartamento. Afortunadamente, a Fundação se especializou em miniaturização por todos os seus séculos de existência. Faz uso da antigravidade e o dispositivo que a possibilita virtualmente não toma nenhum espaço, e de fato, está incorporado ao casco. Se não fosse por isso, ainda precisaríamos do motor hiperatômico.

       Um guarda da Segurança aproximou-se: - Precisam embarcar, cavalheiros!

       O céu estava ficando claro, se bem que o nascer do sol ainda estava a uma hora de distância.

       Trevize olhou em volta: - Minha bagagem já foi carregada?

       - Sim, Conselheiro, o senhor encontrará a nave totalmente equipada.

       - Com roupas, eu suponho, que não sejam do meu tamanho ou ao meu gosto.

       O guarda sorriu, súbita e quase infantilmente: - Pelo contrário, a Prefeita nos fez trabalhar extra nestas últimas trinta ou quarenta horas, e arranjamos de tudo o que lhe agrada, bem satisfatoriamente. Sem limites quanto aos custos. Escute só - e olhou em volta, como que para certificar-se de que ninguém observava esta repentina confraternização - vocês dois são sortudos. Melhor nave do mundo: totalmente equipada, exceto as armas. Estão nadando na sopa e no mel.

       - Sopa estragada, possivelmente - disse Trevize. - Bem, professor, está pronto?

       - Com isto, estou - e ergueu uma chapinha quadrada de uns vinte centímetros de lado, numa caixa de plástico prateado. Trevize subitamente tomou consciência de que o professor a estivera segurando desde que saíram de casa, passando-a de um mão para a outra, e nunca deixando-a de lado, mesmo quando pararam para um rápido desjejum.

       - E o que é isso, professor?

       - Minha biblioteca. Indexada por assunto e origem, e consegui colocar tudo em uma só folha. Se você acha que essa nave é uma maravilha, imagine esta folha. Uma biblioteca inteira! Tudo o que reuni! Maravilhoso! Maravilhoso!

       - Bem - disse Trevize -, realmente é sopa e mel!

      

       Trevize maravilhou-se com o interior da nave. A utilização do espaço era engenhosa. Havia uma despensa, com suprimento de comida, roupas, filmes e jogos. Havia um ginásio, uma sala de estar, e dois quartos de dormir praticamente iguais.

       - Este - disse Trevize - deve ser o seu, professor. Pelo menos, tem uma leitora FX.

       - Ótimo - disse Pelorat, satisfeito. - Que burro eu fui em evitar viagens espaciais. Poderia viver aqui, meu caro Trevize, na mais total satisfação.

       - Mais espaçoso do que eu esperava - comentou Trevize, alegre.

       - E os motores, estão de fato no casco, como disse?

       - Os dispositivos de controle estão, de qualquer modo. Não precisamos armazenar combustível ou usá-lo localizadamente. Estamos recorrendo à energia fundamental do universo, de modo que o combustível e os motores estão todos ... lá fora - e fez um gesto vago.

       - Bem, agora que penso no assunto... E se algo sair errado?

       Trevize deu de ombros: - Fui treinado em navegação espacial, mas não destas naves. Se algo sair errado com a gravítica, receio não poder fazer nada a respeito.

       - Mas você sabe operar esta nave, pilotá-la?

       - Eu mesmo estou pensando nisso...

       - Você supõe que seja uma nave automática? Talvez sejamos apenas passageiros? Poderíamos apenas ter de sentar e esperar.

       - Eles têm dessas coisas no caso de naves de ligação entre planetas e estações espaciais, dentro de um sistema estelar, mas nunca ouvi falar em viagem hiperespacial automatizada. Pelo menos, não até agora... não até agora.

       Olhou em volta de novo, e apareceu um fio de apreensão nele. Aquela bruxa velha da Prefeita, será que podia manobrar tanto à frente dele? Será que a Fundação também tinha o vôo interestelar automático, depositando-o em Trantor bem contra a vontade dele, sem que ele nada pudesse falar, como se fosse mais uma peça do mobiliário a bordo da nave?

       Respondeu com uma animação que não sentia: - Professor, sente-se. A Prefeita disse que esta nave era completamente computerizada. Se seu quarto tem uma leitora FX, o meu deve ter um terminal de computador. Fique à vontade, e deixe-me olhar as coisas por mim mesmo, por algum tempo.

       Pelorat imediatamente pareceu ansioso: - Trevize, meu caro amigo, você não vai sair da nave, vai?

       - Não é meu plano, absolutamente, professor. E se eu tentasse, pode contar que eu seria detido. Não é intenção da Prefeita deixar- me sair. Tudo o que eu estou planejando fazer é aprender o que faz o Far Star funcionar. - E, sorrindo: - Não vou desertá-lo, professor.

       Ele estava ainda sorrindo, enquanto entrava no que achava ser o seu próprio quarto, mas seu rosto ficou sério ao fechar a porta suavemente atrás de si. Por certo, deve haver algum meio de se comunicar com um planeta nas vizinhanças da nave. Era impossível imaginar uma nave deliberadamente isolada de suas vizinhanças, e, quem sabe, num recesso da parede, poderia haver um Ligador. Poderia usá-lo para chamar o escritório da Prefeita para perguntar sobre os controles.

       Cuidadosamente inspecionou as paredes, e o criado-mudo junto à cabeceira da cama, e a mobília lisa e limpa. Se nada aparecesse por ali, inspecionaria todo o resto da nave.

       Estava para ir embora quando seu olho percebeu um brilho sobre a superfície lisa, castanho-claro, da escrivaninha. Um circulo de luz, com letras bem claras: INSTRUÇÕES DO COMPUTADOR.

       Ahá!

       No entanto, seu coração batia acelerado. Havia computadores e computadores, e havia programas que levavam um longo tempo para dominar. Trevize nunca cometera o erro de subestimar sua própria inteligência, mas, por outro lado, não era um Grão-mestre em programação. Havia aqueles com todo o jeito para saber usar um computador, e aqueles que não o tinham... e Trevize sabia muito bem em que categoria estava.

       Em sua estada na Frota da Fundação, ele atingira o posto de tenente e, ocasionalmente, fora o oficial do dia, tendo assim ocasião de usar o computador da nave. Ele nunca tinha estado totalmente encarregado, porém, e nunca se esperara que soubesse qualquer coisa além das manobras de rotina que se exigia serem de conhecimento do oficial do dia.

       Lembrou-se, com um sentimento humilhante, dos volumes ocupa dos pela cópia impressa de um programa detalhadamente descrito, e podia lembrar-se do comportamento do Sargento-Técnico Krasnet ao console do computador da nave. Ele o tocava como se fosse o mais complexo dos instrumentos musicais da Galáxia, e fazia tudo com um à-vontade, como se até se entediasse com a sua simplicidade - e mesmo assim, por vezes tinha necessidade de consultar os volumes, praguejando sozinho, todo embaraçado.

       Hesitantemente, Trevize pousou um dedo sobre o círculo de luz, e imediatamente a luz se expandiu até cobrir todo o tampo da escrivaninha. Sobre ela, agora havia o perfil de duas mãos: direita e esquerda. Com um movimento pronto e suave, a mesa inclinou-se a quarenta e cinco graus.

       Trevize tomou o assento à frente da mesa. Não eram necessárias palavras. Estava claro o que se esperava que fizesse.

       Colocou as mãos sobre as silhuetas em cima da mesa, que estavam posicionadas para que ele o fizesse sem o mínimo esforço. O tampo da mesa parecia macio, quase aveludado, onde o tocou, e suas mãos se afundaram nele.

       Ficou a observar suas mãos, aparvalhado, pois afinal, elas não haviam mergulhado. Estavam na superfície, seus olhos lhe diziam. Mas, para seu tato, era como se a mesa tivesse cedido, e como se algo estivesse segurando suas mãos, suave e quente.

       Isso era tudo?

       E agora?

       Olhou à volta, e então fechou os olhos, em resposta à sua sugestão.

       Nada ouvia. Não estava escutando nada!

       Mas, dentro de seu cérebro, como se fosse um de seus próprios pensamentos vagabundos, encontrava-se a sentença: “Por favor, feche os olhos e relaxe. Vamos fazer a conexão”.

       Através das mãos?

       De algum modo, Trevize sempre presumiu que se alguém fosse se comunicar pelo pensamento com um computador, seria através de um capacete, com elétrodos contra os olhos e crânio.

       Mas, as mãos?

       E por que não as mãos? Trevize encontrou-se flutuando, afastando-se, quase cochilando, mas sem perda da acuidade mental. Por que não as mãos?

       Os olhos nada mais eram que órgãos sensoriais. O cérebro nada mais era senão um quadro central de comutação, encerrado em ossos e removidos da superfície de trabalho do corpo. Eram as mãos a superfície de trabalho, as mãos é que sentiam e manipulavam o universo.

       Os humanos pensam com as mãos. Eram suas mãos a resposta à curiosidade, que sentiam e apertavam e giravam e erguiam, e sopesavam. Havia animais de cérebros de tamanho respeitável, mas não tinham mãos, e isto fazia toda a diferença.

       E enquanto ele e o computador estavam de mãos dadas, seus pensares confundiram-se, e não mais importava se seus olhos estivessem abertos ou fechados. Abri-los não melhorava sua visão, nem fechá-los a piorava.

       De qualquer dos modos, via o quarto na mais completa clareza não só na direção em que estava olhando, mas a toda volta, e acima, e abaixo.

       Via todos os aposentos da espaçonave e lá fora também. O sol estava se erguendo e seu brilho estava atenuado na neblina da manhã, mas podia olhar diretamente para ele, sem ficar ofuscado, pois o computador filtrava automaticamente as ondas de luz.

       Sentiu o vento suave e sua temperatura, e os sons do mundo à sua volta. Detectava o campo magnético do planeta e as mínimas cargas elétricas nas paredes da nave.

       Ficou consciente dos controles da nave, sem mesmo conhecê-los em pormenor. Sabia apenas que se quisesse erguer a nave, ou virá-la, ou acelerá-la, ou usar qualquer de suas capacidades, o processo era o mesmo análogo do corpo. Precisava apenas usar sua vontade.

       Mas, sua vontade não era totalmente sem restrição. O próprio computador podia se impor. No momento, havia uma sentença formada em sua cabeça, e ele sabia exatamente e como a nave decolaria. Não havia flexibilidade no que concernia àquilo. Mas depois, ele sabia com a mesma certeza, ele estada totalmente à vontade para decidir.

       Descobriu - ao lançar para fora a rede de consciência intensificada pelo computador - que podia sentir a condição da atmosfera superior; que podia “ver” os padrões climáticos; que podia detectar as outras naves que enxameavam para cima, e as outras, que estavam se dirigindo para a descida. Tudo tinha de ser levado em conta, e o computador estava fazendo isso. Se o computador não o estivesse fazendo, Trevize percebeu, bastaria apenas desejar, e assim seria.

       Pouco importavam os compêndios de programação; não havia nenhum. Trevize pensou no Sargento-Técnico Krasnet, e sorriu. Já lera muito sobre a imensa revolução que a gravítica causaria ao mundo, mas a fusão de computador e mente ainda era segredo de estado. Certamente produzida uma revolução ainda maior.

       Tinha consciência da passagem do tempo. Sabia exatamente que horas eram, no tempo local de Terminus e pelo Padrão Galáctico.

       Como sair dali?

       E no mesmo instante em que este pensamento veio-lhe à mente, suas mãos foram liberadas e o tampo da escrivaninha voltou à posição original - e Trevize foi deixado aos seus sentidos nus.

       Sentiu-se cego e inerme, como se por um momento tivesse sido carregado e protegido por uma supercriatura e agora fosse abandonado. Se não soubesse que poderia restabelecer contato a qualquer momento, seria reduzido às lágrimas.

       Tal como estava, simplesmente se esforçava para se reorientar, para se ajustar às suas limitações; então levantou-se, meio tonto, e saiu da sala.

       Pelorat ergueu o olhar. Tinha ajustado sua Leitora, obviamente:

       - Funciona muito bem. Tem um excelente programa de pesquisa. Achou os controles, meu rapaz?

       - Sim, professor, e tudo está bem.

       - Nesse caso, não deveríamos fazer algo para a decolagem? Quero dizer, autoproteção? Não deveríamos nos amarrar a alguma coisa, ou algo assim? Procurei instruções por aí, mas nada encontrei, e isso me deixou nervoso. Precisei voltar à minha biblioteca. De algum modo, quando estou trabalhando...

       Trevize tinha estendido as mãos para o professor, como que para barrar e cessar o dilúvio de palavras. Agora, precisava falar mais alto, para calá-lo: - Nada disso é necessário, professor. A antigravidade é equivalente de não-inércia. Não há sensação de aceleração quando a velocidade varia, pois que tudo na nave sofre a variação simultaneamente.

       - Quer dizer que nem vamos saber quando estivermos fora do planeta, e já no espaço?

       - Exatamente o que quero dizer, porque agora mesmo, enquanto lhe falo, decolamos. Estaremos cortando a alta atmosfera em poucos minutos, e em meia hora, estaremos no espaço sideral!

      

       Pelorat pareceu encolher-se um pouco, enquanto ficava olhando para Trevize. Sua longa face retangular ficou petrificada, e sem mostrar qualquer emoção, transparecia um grande mal-estar.

       Então seus olhos viraram: à direita.... à esquerda.

       Trevize lembrou-se de como se sentira em sua primeira viagem além da atmosfera.

       Disse tão casualmente quanto pôde: - Janov - era a primeira vez que se dirigia ao professor familiarmente, mas neste caso, era a experiência que se dirigia à inexperiência, e era necessário parecer o mais velho dos dois -, estamos perfeitamente seguros aqui. Estamos no ventre metálico de uma nave de combate da Frota da Federação. Não estamos totalmente armados, mas não há lugar da Galáxia em que o nome da Fundação não nos proteja. Mesmo se alguma nave enlouquecesse e nos atacasse, poderíamos nos mover para fora de seu alcance em um instante. E garanto-lhe que descobri que posso manobrar a nave perfeitamente.

       Pelorat disse: - É a idéia, Go... Golan, do nada.

       - Ora, há exatamente o nada à volta de Terminus. Há apenas uma muito tênue camada de ar entre nós, na superfície do planeta e o nada logo acima. Tudo o que estamos fazendo é atravessar essa camada sem importância.

       - Pode ser sem importância mas é o que respiramos.

       - Respiramos aqui, também. O ar nesta nave é mais limpo e mais puro, e ficará assim indefinidamente, mais do que a atmosfera natural de Terminus.

       - E os meteoritos?

       - O que há com os meteoritos?

       - A atmosfera nos protege dos meteoritos. Da radiação também, aliás.

       - A humanidade tem viajado pelo espaço por vinte milênios, eu creio...

       - Vinte e dois. Se formos pela cronologia Hallblockiana, isso fica bem claro, contando...

       - Chega! Já ouviu falar de acidentes com meteoritos ou mortes por radiação? Quero dizer, recentemente? Quero dizer, no caso de naves da Fundação?

       - De fato, não acompanhei as notícias sobre tais assuntos, mas sou um historiador, meu rapaz, e...

       - Historicamente, sim, tem havido tais coisas, mas a tecnologia se aperfeiçoa. Não há um meteorito grande o bastante para nos danificar que possa se aproximar de nós antes que possamos tomar ação evasiva. Quatro meteoritos - aproximando-se simultaneamente a partir dos vértices de um tetraedro - possivelmente poderiam nos acertar, mas calcule as chances, e verá que vai morrer de velho um trilhão de trilhão de vezes antes de ter uma chance de 50 por cento de observar um fenômeno tão interessante.

       - Quer dizer, se você estivesse ao computador?

       - Não - respondeu Trevize, com desdém. - Se eu estivesse operando o computador, com base em meus próprios sentidos e respostas, seríamos atingidos antes de saber o que aconteceu. É o próprio computador que trabalha nisso, respondendo milhões de vezes mais depressa que você ou eu poderíamos. - Estendeu a mão, abruptamente: - Janov, venha, deixe-me mostrar-lhe o que o computador pode fazer, e deixe-me mostrar como é o espaço.

       Pelorat arregalou os olhos, engasgando um pouco. Então riu-se um pouquinho: -Não tenho certeza se quero saber, Golan.

       - Claro que não tem certeza, Janov, porque não sabe o que há para conhecer. Arrisque! Venha! No meu quarto!

       Trevize segurou a mão do outro, quase levando, quase puxando. Disse, ao sentar-se ao computador: - Já viu a Galáxia, Janov? Já olhou para ela?

       - Você quer dizer, no céu?

       - Sim, claro, onde mais?

       - Já vi, sim. Todos já a viram. Se se olha para cima, ela é visível.

       - Já olhou para ela numa noite clara e quando os Diamantes estão abaixo do horizonte?

       Os “Diamantes” são aquelas poucas estrelas luminosas e próximas o bastante para ter um brilho razoável no céu noturno de Terminus. Eram um pequeno grupo que abrangia um arco de não mais de vinte graus, e grande parte da noite ficava abaixo do horizonte. A parte este grupo, havia umas poucas estrelas isoladas, fracas, mal visíveis a olho nu. Nada mais havia que não a fraca leitosidade da Galáxia: a vista que é de esperar quando se vive num mundo como Terminus, no extremo da espiral mais externa da Galáxia.

       - Suponho que sim, mas por que olhar muito? É uma cena comum.

       - Claro que é comum. Por isso que ninguém a vê. Para que ficar olhando, se se pode ver a qualquer momento? Mas agora, vai vê-la realmente, e não de Terminus, onde a neblina e as nuvens estão sempre atrapalhando. Vai vê-la como se nunca a tivesse visto de Terminus, não importa como a observou, e não importa quão clara a noite. Como eu gostaria de nunca ter estado no espaço antes para, como você, poder ver a Galáxia em toda sua beleza crua pela primeira vez.

       Empurrou uma cadeira na direção de Pelorat: - Sente-se aí, Janov. Poderá levar algum tempo. Ainda preciso me acostumar ao computador, mas pelo que já percebi, sei que a visão é holográfica, de modo que não precisaremos de uma tela de qualquer tipo. Faz contato direto com meu cérebro, mas creio que posso fazê-lo produzir uma imagem real que você verá, também. Quer apagar a luz, por favor? Não, mas que bobagem a minha. O computador o fará. Fique onde está.

       Trevize fez contato com o computador, dando-lhe as mãos com calor e intimidade.

       A luz amorteceu, e então apagou completamente, e no escuro, Pelorat agitou-se.

       - Não fique nervoso, Janov. Posso ter alguma dificuldade para controlar o computador, mas começarei logo, e você terá de ser paciente comigo. Está vendo? O crescente?

       Estava pendurado no escuro, à frente deles. Um pouco fraco, a imagem ondulando, de início, mas ficando mais brilhante e nítida.

       A voz de Pelorat revelava admiração: - Aquilo é Terminus? Já estamos tão longe assim?

       - Sim, a nave está se movendo depressa.

       A nave estava descrevendo uma curva na sombra noturna de Terminus, que aparecia como um espesso crescente bem luminoso. Trevize sentiu uma urgência momentânea para enviar a nave num amplo arco, que os carregaria para o lado diurno do planeta, para mostrá-lo em toda sua beleza, mas refreou-se.

       Pelorat podia achar tudo isto novidade, mas aquela beleza não era tão nova. Havia muitas fotografias, muitos mapas, muitos globos. Toda criança sabia qual era o aspecto de Terminus. Um planeta aquático - ou quase - rico em e pobre em minerais; bom em agricultura e pobre em indústria pesada, mas o melhor da Galáxia em alta tecnologia e miniaturização.

       Se ele pudesse fazer o computador usar microondas e traduzi-las num modelo visível, veriam cada uma das dez mil ilhas habitadas de Terminus, juntamente com a única grande o bastante para ser considerada um continente, onde estava localizada a cidade de Terminus,

       Meia-volta!

       Foi apenas um pensamento, um exercício da vontade, mas a vista mudou imediatamente. O crescente iluminado moveu-se para as margens do campo visual e desapareceu. A escuridão de um espaço sem estrelas encheu seus olhos.

       Pelorat pigarreou: - Gostaria que você trouxesse Terminus de volta, meu rapaz, sinto como se estivesse cego. - Havia um pouco de angústia em sua voz.

       - Você não está cego; olhe!

       No campo visual entrou uma película nebulosa de pálida luminescência. Expandiu-se e ficou mais brilhante, até que toda a sala parecia brilhar.

       Reduzir!

       Outro exercício da vontade, e a Galáxia recuou, como vista por um telescópio às avessas, cada vez mais poderoso em sua capacidade de redução. A Galáxia se contraía e tornava-se uma estrutura de luminosidade variável. Mais brilho!

       Ficou mais luminosa, sem mudar de tamanho, e como o sistema estelar a que Terminus pertencia estava acima do plano galáctico, a Galáxia não era vista exatamente de lado. Era uma espiral dupla fortemente achatada, com brechas escuras do lado iluminado de Terminus. O luzir leitoso do núcleo - distante e diminuído pela distância - parecia sem importância.

       Pelorat sussurrou, admirado: - Você está certo. Nunca vi nada assim, antes. Nunca pensei que havia tanto detalhe

       - E como poderia? Não se pode ver a outra metade, quando a atmosfera de Terminus está na frente. Mal se pode ver o núcleo, da superfície de Terminus.

       - Que pena que estamos vendo tão de lado

       - Não precisamos. O computador pode mostrar qualquer orientação, Só preciso expressar o desejo - e nem mesmo em voz alta.

       Mudança de coordenadas!

       Este exercício da vontade de modo algum foi um comando preciso. Mesmo assim, a imagem da Galáxia começou a sofrer uma pequena mudança, sua mente guiando o computador e fazendo o que ele queria.

       Lentamente, a Galáxia estava virando, de modo a ser vista em ângulo reto com o plano galáctico. Expandiu-se como um torvelinho gigante, luminoso, com curvas de escuridão, e nós brilhantes, e um brilho central homogêneo.

       Ao que perguntou Pelorat: - Como o computador pode vê-la de uma posição no espaço que deve estar a mais de cinqüenta mil parsecs deste lugar? - E acrescentou em voz baixa: - Desculpe-me perguntar, não sei nada a respeito disto.

       - Sei sobre este computador tanto quanto você. Mesmo um computador simples, porém, pode ajustar as coordenadas e mostrar a Galáxia em qualquer posição, começando com o que pode captar na posição natural, isto é, como apareceria da posição local do computador no espaço. É claro, faz uso apenas da informação que pode captar, para começar, mas quando muda para uma visão ampla, mostrará borrões e falhas, naquilo que pode mostrar. Neste caso, porém...

       - Sim?

       - Temos uma vista excelente. Desconfio que o computador está dotado de um mapa completo da Galáxia, e portanto, pode mostrá-la de qualquer ângulo com igual facilidade.

       - O que você quer dizer com “um mapa completo”?

       - As coordenadas espaciais de todas as estrelas da Galáxia devem estar nos bancos de memória do computador.

       - Todas as estrelas? - Pelorat parecia assombrado.

       - Bem, talvez nem todos os três bilhões. Incluiria as estrelas com planetas povoados, por certo, e provavelmente todas as estrelas de classe espectral K e acima. O que significaria pelo menos setenta e cinco bilhões.

       - Todas as estrelas dos sistemas povoados?

       - Talvez não exatamente todas. Afinal, havia vinte e cinco milhões de sistemas povoados, no tempo de Hari Seldon - o que parece bastante, mas é apenas uma estrela em cada doze mil. E depois, nos cinco séculos desde Seldon, a desagregação geral do Império não evitou que a colonização continuasse. Creio até que a encorajou. Há ainda muitos planetas habitáveis para onde se pode ir, de modo que pode haver uns trinta milhões, agora. E possível que nem todos os novos estejam nos registros da Fundação.

       - Mas, e os velhos? Seguramente todos eles devem estar lá, sem exceção.

       - Imagino que sim. Não posso garantir, claro, mas eu ficaria surpreso se qualquer sistema habitado há muito colonizado estivesse ausente dos registros. Deixe-me mostrar-lhe algo - se minha habilidade em controlar o computador for suficiente.

       As mãos de Trevize se enrijeceram um pouco com o esforço, e pareceram afundar mais ainda no abraço do computador. Isso talvez não fosse necessário; ele poderia ter apenas pensado quieta e casualmente: Terminus!

       Pois ele pensou assim e ali estava, em resposta, um coruscante diamante vermelho bem na borda do torvelinho.

       - Ali está nosso sol! É a estrela em tomo da qual Terminus orbita.

       - Ah - reconheceu Pelorat, com um longo e trêmulo suspiro.

       Uma mancha luminosa amarela ressaltou num rico acúmulo de estrelas, perto do coração da Galáxia, bem de lado da nebulosidade central. Estava mais para o lado da Galáxia em que estava Terminus, do que para o outro lado.

       - E ali - disse Trevize - está o sol de Trantor.

       Outro suspiro, e então Pelorat disse. - Está certo? Sempre falam de Trantor como localizado no centro da Galáxia.

       - E está, de certa forma. Está tão perto do centro quanto um planeta possa estar e ainda ser habitável. Está mais perto que qualquer outro grande sistema populado. O centro real da Galáxia consiste de um buraco negro com massa de quase um milhão de estrelas, de modo que o centro é um lugar violento. Tanto quanto saibamos, não há vida no centro real, e talvez não possa haver vida nenhuma ali. Trantor é o sub-anel mais interno dos braços espirais, e, creia-me, se você pudesse ver o seu céu noturno, pensaria ser mesmo o centro da Galáxia. Está cercado por um acúmulo extremamente rico de es trelas.

       - Já esteve em Trantor, Golan? - perguntou Pelorat, claramente com inveja.

       - De fato, não, mas vi representações holográficas de seu céu.

       Trevize ficou contemplando a Galáxia, acabrunhado. Na grande busca da Segunda Fundação, no tempo do Mula, como todos brincaram com mapas galácticos! E quantos volumes foram escritos e filmados sobre o assunto!

       E tudo porque Hari Seldon dissera, no começo, que a Segunda Fundação seria estabelecida “no outro extremo da Galáxia”, chamando aquele lugar de “Star’s End”

       No outro extremo da Galáxia! Mesmo enquanto Trevize pensava nisso, uma fina linha azul apareceu à vista, esticando de Terminus, através do buraco negro central da Galáxia, até o outro extremo. Trevize quase saltou. Ele não ordenara diretamente aquela linha, mas pensara nela bem claramente, e isso foi o bastante, para o computador.

       Mas, é claro, a rota em linha reta ao lado oposto da Galáxia não era necessariamente uma indicação do “outro extremo” de que Seldon tinha falado. Foi Arcádia Darell (se se podia acreditar em sua autobiografia), que fizera uso da frase “um círculo não tem fim” para indicar o que todos agora aceitavam como verdade.

       E embora Trevize procurasse de súbito suprimir o pensamento, o computador foi mais rápido que ele. A linha azul desapareceu e foi substituída por um círculo que nitidamente cercava a Galáxia em azul e passou pela mancha vermelho-escura do sol de Terminus.

       Um circulo não tem fim, e se o circulo começou em Terminus, então se procurarmos pelo “outro lado”, meramente retornaria a Terminus, e onde a Segunda Fundação de fato fora encontrada, habitando o mesmo mundo que a Primeira.

       Mas, se na realidade não tivesse sido encontrada - e se o assim chamado achado da Segunda Fundação tivesse sido uma ilusão - o que então? O que além de uma linha reta e um círculo fariam senti do nesta conexão?

       E Pelorat disse: - Você está criando ilusões? Por que aquele círculo azul?

       - Eu estava apenas testando os meus controles. Você gostaria de localizar a Terra?

       Houve silêncio por um momento ou dois, e então Pelorat disse: - Você está brincando?

       - Não; vou tentar.

       Ele tentou. Nada aconteceu.

       - Desculpe - disse Trevize.

       - Não está aí? Não há Terra?

       - Suponho que poderia não ter pensado bem minha ordem, mas isso não é provável. Acho mais é que a Terra não está listada nas entranhas do computador.

       Pelorat alegou: - Pode estar listada sob outro nome -

       Trevize animou-se logo: - Que outro nome, Janov?

       Pelorat nada disse, e, no escuro, Trevize sorriu. Ocorreu-lhe que as coisas simplesmente poderiam estar se encaixando em seus lugares. Deixe passar, por algum tempo. Deixe amadurecer. Ele deliberadamente mudou de assunto: Imagino se podemos manipular o tempo. 

       - Tempo! E como podemos fazer isso?

       - A Galáxia está girando. Leva quase meio bilhão de anos para Terminus se mover em tomo de toda a circunferência da Galáxia por uma vez. As estrelas mais próximas do centro completam a jornada muito mais depressa, é claro, O movimento de cada estrela, em relação ao buraco negro central, poderia ser gravado no computador e, assim, pode-se fazer o computador multiplicar cada movimento por bilhões de vezes e tomar visível o efeito rotacional. Posso tentar fazê-lo.

       Assim o fez, e não pôde evitar tensionar os músculos com o esforço de vontade que estava exercendo - como se estivesse agarrando a Galáxia, e acelerando-a, torcendo-a, forçando-a a girar, contra uma terrível resistência.

       A Galáxia estava se movendo. Lenta, poderosamente, estava girando na direção que deveria distender os braços espirais.

       O tempo estava passando incrivelmente depressa, enquanto assistiam - um tempo falso, artificial - e ao se tomar assim, as estrelas se tomavam coisas evanescentes.

       Algumas das maiores - aqui e ali - avermelhavam-se e ficavam mais brilhantes, ao se expandirem em gigantes vermelhas. E então uma estrela dos agrupamentos centrais explodiu sem ruído, num lampejo cegante que, por pequena fração de segundo, atenuou a Galáxia, e desapareceu. Então outra, num dos braços espirais, e ainda mais outra, não muito longe.

       - Supernovas - disse Trevize, um tanto estremecido.

       Seria possível que o computador podia prever exatamente que estrelas explodiriam e quando? Ou estava apenas usando um modelo simplificado, que servia para mostrar o futuro das estrelas em termos gerais, e não precisamente?

       Pelorat disse, num sussurro apressado: - A Galáxia parece uma coisa viva, rastejando pelo espaço.

       - É mesmo - concordou Trevize - mas estou ficando cansado. A menos que eu aprenda a fazer isto com menos tensão, não vou poder fazer esta brincadeira por muito tempo.

       Ele afastou-se. A Galáxia retardou-se, parou, inclinou-se, até voltar à vista lateral que tinham tido no começo.

       Trevize fechou seus olhos e respirou profundamente. Tinha consciência de Terminus reduzindo de tamanho atrás deles, com os últimos traços perceptíveis de atmosfera desaparecendo de vista. Também tinha consciência de todas as naves enchendo o espaço próximo ao planeta.

       Não lhe ocorreu verificar se havia algo especial a respeito de qualquer uma daquelas naves. Haveria uma gravítica tal como a dele, e se guindo sua trajetória mais de perto do que a mera chance permitiria?

      

Orador

       Trantor!

       Por oito mil anos, fora a capital de uma grande e poderosa entidade política que abarcava uma sempre crescente união de sistemas planetários. Por doze mil anos depois disto, foi a capital de uma entidade política que abarcava toda a Galáxia. Era o centro, o coração, a epítome do Império Galáctico.

       Era impossível pensar no Império sem pensar em Trantor.

       Trantor não atingiu seu ápice físico senão quando o Império estava em avançada decadência. De fato, ninguém percebia que o Império tinha perdido o impulso, sua previsão, porque Trantor rebrilhava de metal.

       Seu crescimento atingira um pico, com a cidade rodeando todo o planeta. Sua população fora estabilizada (por lei) em quarenta e cinco bilhões, e a única área verde estava no Palácio Imperial e no complexo da Universidade-Biblioteca Galáctica.

       A terra da superfície de Trantor estava revestida de metal. Seus desertos e áreas férteis foram igualmente engolfados, e transformados em colméias humanas, selvas administrativas, elaborações computerizadas, vastos armazéns de alimentos e peças de reposição. Suas cordilheiras foram derrubadas; seus abismos preenchidos. Os infinitos corredores da cidade, enterrados nas plataformas continentais, e os oceanos foram transformados em cisternas aquaculturais subterrâneas - a única (e insuficiente) fonte nativa de alimento e minerais.

       As conexões com os Mundos Exteriores, dos quais Trantor obtinha os recursos de que necessitava, dependiam de seus milhares de espaçoportos, suas dez mil belonaves, suas dez mil espaçonaves mercantes, seu milhão de cargueiros espaciais.

       Nenhuma cidade tão vasta fora reciclada tão rigorosamente. Nenhum planeta da Galáxia fez tanto uso da energia solar ou chegou a extremos tamanhos para se livrar do excesso de calor. Radiadores brilhantes se erguiam pela atmosfera rarefeita, no lado noturno, e eram retraídos na cidade de metal, no lado diurno. Com a revolução planetária, os radiadores erguiam-se à medida que a noite progressivamente caía à volta do mundo, e desciam à medida que o dia ia se erguendo. Assim Trantor sempre tivera uma assimetria artificial que era quase o seu símbolo.

       Em seu ápice, Trantor governara o Império!

       Governava frouxamente, mas nada poderia ter governado bem o Império. O Império era grande demasiado para ser dirigido por um só mundo - mesmo sob o mais dinâmico dos Imperadores. Como Trantor podia fazer, senão governar mal quando, na era da decadência, a coroa imperial era comerciada de um lado para outro por políticos matreiros, e incompetentes insensatos, e a burocracia se tornara uma subcultura de corruptos?

       Mesmo em seu pior período,houve algum valor naquele maquinário. O Império não poderia ter sido governado sem Trantor.

       O Império desabava metodicamente, mas enquanto Trantor permanecia Trantor, um núcleo do Império permanecia e retinha um ar de orgulho, de milênios, de tradição e poder, e exaltação.

       Só quando o impensável acontece: quando Trantor finalmente caiu e foi saqueado, quando seus cidadãos foram mortos aos milhões e deixados à míngua aos bilhões; quando seu revestimento noturno de metal foi arranhado e perfurado e fundido pelo ataque da frota “bárbara” - só então se considerou que o Império havia caído. Os remanescentes daquele mundo que uma vez fora grande, desfizeram mais o que sobrou, e em uma geração, Trantor foi transformado do maior planeta que a raça humana jamais vira, num inconcebível emaranhado de ruínas.

       Isso tinha sido havia dois séculos e meio. No resto da Galáxia, a Trantor-tal-como-fora ainda não estava esquecida. Viveria para sempre como o local favorito de novelas históricas, o símbolo e memória favorita do passado, o termo favorito para provérbios tais como: “Todas as naves pousam em Trantor”; “Assim como procurar uma pessoa em Trantor” e “Não se parecem mais que isto e Trantor”.

       Em todo o resto da Galáxia...

       Mas isto não era verdade em Trantor mesmo! Aqui, a velha Trantor estava esquecida. A superfície de metal foi-se embora, quase em todo o lugar. Trantor era agora um mundo esparsamente habitado, de lavradores auto-suficientes, um lugar onde as naves de comércio raramente aportavam e não eram particularmente bem-vindas, se e quando vinham. A própria palavra “Trantor”, se bem que ainda em uso oficial, era chamado “Hame”, que em seu dialeto era o que seria chamado “Home” no Galáctico-Padrão.

       Quindor Shandess pensava em tudo isto e mais, ao sentar-se num abençoado estado de semitorpor, em que podia deixar sua mente percorrer um fluxo autopropelido e desorganizado de pensamentos.

       Tinha sido Primeiro Orador da Segunda Fundação por dezoito anos, e poderia manter-se por mais dez ou doze, se sua mente permanecesse razoavelmente vigorosa continuando as guerras políticas.

       Era o análogo especular do Prefeito de Terminus que governava a Primeira Fundação, mas quão diferentes eram! O Prefeito de Terminus era conhecido em toda a Galáxia, e a Primeira Fundação era simplesmente “a Fundação.”

       O Primeiro Orador da Segunda Fundação era conhecido apenas de seus associados.

       E no entanto, ainda era a Segunda Fundação, sob ele e seus predecessores, que detinha o real poder. A Primeira Fundação era suprema no campo da força física, da tecnologia, das armas de guerra. A Segunda Fundação era suprema no campo da força mental, da capacidade de controle. Em qualquer conflito entre as duas o que importaria quantas naves e armas a Primeira Fundação tivesse, se a Segunda Fundação poderia controlar as mentes daqueles que a controlavam?

       Mas, quanto tempo ele poderia se confortar com a consciência deste poder secreto?

       Ela era o vigésimo quinto Primeiro Orador, e seu mandato já estava um pouquinho além da média. Talvez não deveria ser tão rigoroso com os aspirantes mais novos? Havia o Orador Guendibal, o mais perspicaz e o mais novo. Hoje à noite estariam juntos, e Shandess estava ansioso. Deveria considerar também a possível ascensão de Guendibal?

       A resposta à pergunta era que Shandess não tinha real intenção de deixar seu posto. Gostava demais dele.

       Ficava ali sentado, em sua velhice, ainda perfeitamente válido. Seu cabelo era grisalho, mas sempre fora claro, e o usava bem curto, de modo que a cor mal importava. Seus olhos eram de um azul mortiço e sua roupa conformava-se ao estilo pobre dos lavradores trantorianos.

       O Primeiro Orador podia, se quisesse, passar por um cidadão Há mish* comum, mas seu poder oculto, no entanto, existia. Ele poderia focalizar seus olhos e mente a qualquer momento, e eles então agiriam de acordo com a sua vontade e nada se lembrariam depois.

       Raramente acontecia. Quase nunca. A Regra de Ouro da Segunda Fundação era: “Não faça nada a menos que precise, e quando precisar agir, hesite”.

       O Primeiro Orador suspirou, baixinho. Viver na velha Universidade, com a sombra da grandeza das ruínas do Palácio Imperial não muito longe, fazia ocasionalmente alguém imaginar o quão de Ouro a Regra poderia ser.

       Nos dias do Grande Saque, a Regra de Ouro fora esticada quase até rebentar. Não havia maneira de salvar Trantor sem sacrificar o Plano de Seldon, para o estabelecimento de um Segundo Império. Seria humano salvar os quarenta e cinco bilhões, mas não poderiam poupá-los sem a retenção do cerne do Primeiro Império, o que retardaria o Plano. Levaria a uma destruição ainda maior alguns séculos depois, e talvez nenhum Segundo Império depois...

       Os antigos Primeiros Oradores trabalharam no Saque, claramente previsto, por décadas, mas não encontraram solução - nenhuma maneira de garantir a salvação de Trantor e o eventual estabelecimento do Segundo Império. O mal menor tinha de ser escolhido, e Trantor morrera!

       Os segundofundacionistas da época conseguiram - por uma margem bem estreita - salvar o complexo da Universidade-Biblioteca e houve culpa para sempre, por causa daquilo, também. Muito embora ninguém jamais demonstrasse que a salvação do complexo levou à ascensão meteórica do Mula, sempre havia a intuição de existir alguma conexão.

       O quanto aquilo arruinara quase tudo!

       Ainda assim, seguindo-se às décadas do Saque, e do Mula, veio a Idade de Ouro da Segunda Fundação.

       Antes disso, por mais de dois séculos e meio, depois da morte de Seldon, a Segunda Fundação se enterrou, coma toupeira, na Biblioteca, na única intenção de sair do caminho dos imperiais. Serviam como bibliotecários de uma sociedade em decadência, que se importava cada vez menos com a mais que nunca mal nomeada Biblioteca Galáctica, que logo caiu no desuso que mais se adequava ao propósito dos segundofundacionistas.

       Era uma vida ignóbil. Eles meramente conservavam o Plano, ao passo que no outro extremo da Galáxia, a Primeira Fundação lutava por sua vida contra inimigos cada vez maiores, sem ajuda da Segunda Fundação nem qualquer conhecimento real a respeito dela.

       Foi o Grande Saque que libertou a Segunda Fundação - outra razão (o jovem Guendibal - que tinha coragem - recentemente disse que essa foi a razão principal) pela qual o Saque foi deixado continuar.

       Depois do Grande Saque, o Império acabou, e, em todo o tempo que se seguiu, os sobreviventes trantorianos nunca invadiram o território da Segunda Fundação sem serem convidados, Os segundofundacionistas providenciaram para que o complexo Universidade- Biblioteca, que sobrevivera ao Saque, também sobrevivesse ao Grande Renascimento. As ruínas do Palácio foram preservadas, também. O metal tinha-se ido quase em todo o resto do planeta. Os grandes e infindáveis corredores foram cobertos, soterrados, retorcidos, ignorados; e tudo sob a rocha e o solo, tudo exceto aqui, onde o metal ainda circundava espaços abertos.

       Podia ser visto como um grande memorial de grandeza, o sepulcro do Império, mas para os trantorianos - o povo Hamish - esses lugares eram assombrados, cheios de fantasmas, que não deviam ser perturbados. Só os segundofundacionistas jamais punham os pés nos antigos corredores, ou tocavam seu brilho de titânio.

       E, mesmo assim, tudo dera quase em nada, por causa do Mula.

       O Mula de fato estivera em Trantor. E se ele tivesse descoberto a natureza do mundo em que estava? Suas armas físicas eram muito superiores àquelas à disposição da Segunda Fundação, e suas armas mentais, tão grandes quanto as dela. A Segunda Fundação era sempre atrapalhada pela necessidade de nada fazer, senão o que fosse a estrita necessidade, e pelo conhecimento de que quase qualquer esperança de ganhar a luta mais imediata poderia implicar eventualmente uma perda ainda maior.

       Não fosse por Bayta Darell e seu rápido movimento... E isso também fora sem a ajuda da Segunda Fundação!

       E então - a Idade de Ouro, quando, de algum modo, os Primeiros Oradores da época encontraram maneiras de se tomarem ativos, detendo o Mula em sua carreira de conquistas, controlando, por fim, a sua mente; e então detendo a própria Primeira Fundação, quando ela, por sua vez, tomou consciência, e ficou curiosa sobre a natureza e identidade da Segunda Fundação. Houve Prim Palver, décimo nono Primeiro Orador, e o maior de todos eles, que conseguira pôr fim a todo perigo - não sem um terrível sacrifício - e que salvara o Plano de Seldon.

       E agora, por cento e vinte anos, a Segunda Fundação de novo como fora antes, ocultando-se numa parte assombrada de Trantor. Não mais se escondiam dos imperiais, mas ainda da Primeira Fundação - uma Primeira Fundação quase tão grande quanto o Império Galáctico tinha sido, e ainda maior em experiência tecnológica.

       Os olhos do Primeiro Orador fecharam-se no calor agradável e passaram para aquele estado indefinido de experiências alucinatórias que não eram exatamente sonhos, e não eram exatamente pensamento.

       Chega de cismar. Tudo estaria bem. Trantor ainda era a capital da Galáxia, pois a Segunda Fundação estava aqui, e era mais poderosa e estava mais no controle do que qualquer Imperador jamais estivera.

       A Primeira Fundação seria contida, e guiada, e se moveria corretamente. Por mais formidáveis que fossem suas naves e armas, nada poderiam fazer enquanto os principais líderes, se necessário, pudessem ser mentalmente controlados.

       E o Segundo Império viria, mas não seria como o primeiro. Seria um Império Federado, com seus componentes possuindo um considerável governo autônomo, de modo que não haveria nada da força aparente e fraqueza real de um governo unitário, centralizado. O novo Império seria mais frouxo, mais dúctil, mais flexível, mais capaz de tolerar tensões, e não seria sempre guiado - nem sempre - pelos homens e mulheres ocultos, da Segunda Fundação. Trantor então ainda seria a capital, mais poderosa, com seus quarenta mil psico-historiadores, do que jamais fora com seus quarenta e cinco bilhões...

       O Primeiro Orador acordou, num sobressalto, O sol estava mais baixo, no céu. Ele estivera resmungando? Será que tinha falado algo em voz alta?

       Se a Segunda Fundação tinha que saber muito e dizer pouco, os Oradores governantes tinham que saber mais ainda e falar ainda menos, e o Primeiro Orador era o que mais tinha de saber e menos de falar.

       Sorriu, com um ar astuto. Era sempre tão tentador tornar-se um patriota trantoriano - ver todo o propósito do Segundo Império - como trazer de volta a hegemonia trantoriana. Seldon já tinha advertido a respeito; previra mesmo isso, cinco séculos antes de acontecer.

       O Primeiro Orador não tinha dormido muito, porém. Ainda não era hora da audiência de Guendibal.

       Shandess estava ansioso por aquele encontro. Guendibal era jovem o bastante para ver o Plano com novos olhos, e perspicaz o bastante para ver o que outros poderiam não ver. E não estava além das possibilidades que Shandess aprendesse com o que o jovem tivesse a dizer.

       Ninguém jamais teria certeza sobre o quanto Prim Palver - o grande Palver em pessoa - tinha tirado proveito daquele dia em que o jovem Kol Benjoam, ainda não chegado aos trinta anos quando veio falar-lhe de possíveis maneiras de lidar com a Primeira Fundação. Benjoam, que depois foi reconhecido como o maior teórico desde Seldon, nunca falou daquela audiência, nos anos subseqüentes, mas eventualmente tomou-se o vigésimo primeiro dos Primeiros Oradores. Havia os que creditavam a Benjoam, mais que a Palver, os grandes feitos da administração deste.

       Shandess entretinha-se com a idéia do que Guendibal poderia dizer. Era tradicional que jovens talentosos, confrontando-se com o Primeiro Orador sozinhos, pela primeira vez, colocassem sua tese inteira na primeira sentença. E certamente eles não pediriam aquela preciosa primeira audiência por algo trivial algo que poderia arruinar toda sua carreira futura convencendo o Primeiro Orador que eram pesos-pena.

       Quatro horas depois, Guendibal o encarava. O jovem não mostrou nenhum sinal de nervosismo. Esperou calmamente que Shandess falasse primeiro.

       E Shandess disse: - O senhor pediu uma audiência particular, Orador, sobre um assunto de importância. Poderia por favor sumariar o assunto para mim?

       E Guendibal falou manso, quase como se estivesse descrevendo o que comeu no jantar: - Primeiro Orador, o Plano de Seldon é sem sentido!

      

       Stor Guendibal não exigia a evidência de outrem para ter seu senso de valores. Ele não conseguia lembrar de quando não se reconheceu como incomum. Tinha sido recrutado pela Segunda Fundação quando tinha apenas dez anos, por um agente que reconheceu as potencialidades de sua mente.

       Ele tinha se saído notavelmente bem nos estudos, e seguiu a psico-história assim como uma espaçonave responde a um campo gravitacional. A psico-história o atraíra e ele fez uma curva na sua direção, lendo o texto de Seldon sobre seus fundamentos, quando os outros de sua idade estavam meramente tentando resolver equações diferenciais.

       Quando chegou aos quinze, entrou para a Universidade Galáctica de Trantor (como a Universidade de Trantor fora oficialmente rebatizada), depois de uma entrevista durante a qual, quando lhe foi perguntado quais eram suas ambições, respondeu firmemente: - Ser Primeiro Orador antes dos quarenta.

       Não se preocupou em mirar a cadeira do Primeiro Orador com qualificações. Ganhá-la, de um modo ou de outro, parecia-lhe uma certeza. Era consegui-la na juventude o que lhe parecia o objetivo. Mesmo Prim Palver tinha quarenta e dois anos, quando de sua ascensão ao cargo.

       A expressão do entrevistador estremeceu quando Guendibal disse aquilo, mas o jovem já tinha o talento da psico-linguagem e soube interpretar aquele estremecimento. Ele sabia, tão certamente quanto se o entrevistador o tivesse anunciado, que uma pequena anotação iria para sua ficha, apontando que ele seria difícil de controlar.

       É lógico!

       Guendibal pretendia mesmo ser de trato difícil.

       E agora, ele tinha trinta anos. Faria trinta e um em questão de dois meses, e já era membro do Conselho de Oradores. Tinha nove anos, no máximo, para tomar-se Primeiro Orador, e sabia que o conseguiria. Esta audiência com o Primeiro Orador era crucial para seus planos, e labutando para causar a impressão adequada, não poupou esforços em polir seu domínio da psico-linguagem.

       Quando dois Oradores da Segunda Fundação se comunicam um com o outro, a linguagem é como nenhuma outra na Galáxia. É tanto uma linguagem de gestos fugazes quanto de palavras, mais de detecção de padrões mentais variáveis que qualquer outra coisa.

       Um estranho ouviria pouco, ou nada, mas em pouco tempo, muitas idéias seriam trocadas e a comunicação seria irreprodutível em sua forma literal a qualquer outro que não fosse também Orador.

       A linguagem dos Oradores tinha sua vantagem em velocidade e infinita delicadeza, mas tinha a desvantagem de tornar quase impossível mascarar a verdadeira opinião.

       Guendibal sabia sua própria opinião sobre o Primeiro Orador. Achava que o Primeiro Orador era um homem que já ultrapassara o seu ápice intelectual. O Primeiro Orador - na avaliação de Guendibal - não esperava nenhuma crise, não estava treinado para encarar uma, e faltava-lhe a acuidade para enfrentar uma, caso aparecesse. Com toda a boa vontade e amabilidade de Shandess, ele era a própria matéria-prima dos desastres.

       Tudo isto Guendibal precisava esconder não meramente de palavras, gestos e expressões faciais, mas mesmo de seus pensamentos. Ele não conhecia modo de fazê-lo com eficiência bastante para evitar que o Primeiro Orador percebesse traços de sua opinião.

       Nem Guendibal poderia evitar saber de algo dos sentimentos do Primeiro Orador em relação a ele. Através da bonomia e boa vontade - bem aparentes e razoavelmente sinceras - Guendibal podia perceber a aresta distante de condescendência e admiração surpresa, e apertava seu controle mental para evitar revelar qualquer ressentimento, por sua vez - ou tão pouco quanto possível.

       O Primeiro Orador sorriu e reclinou-se em sua poltrona. De fato, não pousou os pés no tampo da mesa, mas transmitiu sobre ela a mistura certa de auto-confiança segura e amizade informal - só o bastante para deixar Guendibal incerto quanto ao efeito de sua assertiva.

       Como Guendibal não fora convidado para sentar-se, as ações e atitudes que lhe estavam disponíveis para minimizar a incerteza ficavam limitadas. Era impossível que o Primeiro Orador não entendesse isso.

       Shandess disse: - O Plano de Seldon é sem sentido? Que afirmação notável! Tem consultado o Radiante Primário ultimamente, Orador Guendibal?

       - Eu o estudo com freqüência, Primeiro Orador. É meu dever fazê-lo, e também meu prazer.

       - Por algum acaso, você estuda só aquelas porções que caem sob seu olhar, vez ou outra? Já o observou microscopicamente - um sistema de equações aqui, um fiozinho de ajuste ali? Altamente importante, é claro, mas eu sempre achei um excelente exercício ocasional observar o curso total. O estudo do Radiante Primário acre por acre tem seus usos - mas observá-lo como um continente é inspirador. Para dizer-lhe a verdade, Orador, eu mesmo não o faço há muito. Quer juntar-se a mim?

       Guendibal não se atreveu a calar-se por muito tempo. Aquilo tinha de ser enfrentado, e fácil e agradavelmente, ou muito bem poderia ficar sem se fazer nada: - Seria uma honra e um prazer, Primeiro Orador.

       O Primeiro Orador deprimiu uma alavanca ao lado de sua mesa. Havia uma daquela no escritório de todo Orador, e a do escritório de Guendibal de modo algum era inferior á do Primeiro Orador. A Segunda Fundação era uma sociedade equalitária em todas as suas manifestações de superfície - aquelas sem importância. De fato, a única prerrogativa oficial do Primeiro Orador era aquela explícita em seu título - ele era sempre o primeiro a falar.

       A sala escureceu, ao se baixar a alavanca, mas quase imediatamente a escuridão ergueu-se para uma penumbra nacarada. Ambas as longas paredes ficaram levemente leitosas, e então mais brilhantes e mais brancas, e finalmente apareceram equações nitidamente escritas - tão pequenas que não podiam ser lidas facilmente.

       - Se você não tem objeções - disse o Primeiro Orador, deixando bem claro que nenhuma seria permitida -, reduziremos a ampliação para ver o máximo que pudermos de uma vez só.

       A escrita nítida reduziu-se a fios de cabelo, finos meandros negros sobre o fundo de pérola.

       O Primeiro Orador tocou as teclas do pequeno console embutido no braço de sua poltrona: - Vamos voltar ao começo, quando Hari Seldon era vivo - e vamos ajustá-lo para um lento movimento progressivo. Vamos delimitá-lo de modo a ver apenas uma década de desenvolvimento de cada vez. Dá uma sensação maravilhosa do fluxo da história, sem distorções com os detalhes. Imagino se você já fez isto.

       - Nunca exatamente assim, Primeiro Orador.

       - Deveria; a sensação é fascinante. Observe a falta de traçado no começo. Não havia muita chance para alternativas, nas primeiras poucas décadas. Os pontos de ramificação, porém, aumentam exponencialmente com o tempo. Se não fosse pelo fato de que, assim que se toma um ramo em particular, há a extinção de uma vasta seqüência de outros em seu futuro, tudo logo ficaria incontrolável. É claro, ao tratar com o futuro, precisamos ser cuidadosos quanto às extinções em que confiarmos.

       - Eu sei, Primeiro Orador. - Havia um toque de secura na resposta de Guendibal, que ele não conseguiu remover completamente.

       O Primeiro Orador não respondeu a isto. - Note as linhas tortuosas de símbolos em vermelho. Há um padrão nelas. Segundo toda a aparência, eles existem aleatoriamente, pois que cada Orador ganha seu lugar acrescentando refinamentos ao plano original de Seldon. Pareceria não haver maneira, afinal, de predizer onde um refinamento pode ser acrescido facilmente, ou onde um Orador em particular encontrará a tendência de seu interesse ou habilidade, mas há muito que suspeito que a mistura de Seldon Preto e Orador Vermelho segue uma lei estrita que é fortemente dependente do tempo, e pouca coisa mais.

       Guendibal observava os anos passando, e as linhas capilares em preto e vermelho formando um padrão entrelaçado quase hipnótico. O padrão nada significava por si só, é claro. O que contava eram os símbolos de que se compunha.

       Aqui e ali um arabesco azul brilhante fazia sua aparição, sobressaindo-se, ramificando-se e tornando-se proeminente, então caindo sobre si mesmo e desaparecendo sobre o preto ou o vermelho.

       Disse o Primeiro Orador: - Desvio Azul - a sensação de desgosto, originando-se em ambos, encheu o espaço entre eles: - Nós o apanhamos de novo, e de novo, e logo chegaremos ao Século dos Desvios, eventualmente.

       E foi o que aconteceu. Podia-se dizer exatamente quando o avassalador fenômeno do Mula momentaneamente encheu a Galáxia, com o Radiante Primário tomando-se cheio de arabescos ramificados em azul - muitos mais começando do que poderiam ser eliminados - até que toda a sala pareceu ficar azul, com as linhas engrossando e marcando a parede com uma poluição cada vez mais luminosa. (Poluição era a única palavra possível).

       Atingiu um pico e então empalideceu ,adelgaçou-se, e juntaram-se por um longo século antes de reduzir-se a seu fim. Quando se foi, e quando o Plano voltou ao preto e vermelho, estava claro que a mão de Prim Palver estivera ali.

       Avante; avante...

       - Aí está o presente - disse o Primeiro Orador,com uma sensação de conforto.

       Avante; avante...

       Então, um estreitamento num nó indiscernível de preto, com pouco vermelho aparecendo.

       - Esse é o estabelecimento do Segundo Império - disse o Primeiro Orador.

       Desligou o Radiante Primário e a sala ficou banhada na luz normal.

       - Foi uma experiência emocionante - disse Guendibal.

       - Sim - sorriu o Primeiro Orador e você é cuidadoso em não identificar a emoção, tanto quanto não consegue identificá-la. Não importa. Deixe-me ressaltar alguns pontos. Você notará primeiro a total ausência de Azul-Desvio depois do tempo de Prim Palver - pelas duas últimas décadas, em outras palavras. Notará que não há probabilidades razoáveis de Desvios acima da quinta classe pelos próximos cinco séculos. Você notará também que começamos a estender os refinamentos da psico-história além do estabelecimento do Segundo Império. Como você sem dúvida sabe, Hari Seldon, muito embora um gênio transcendente, não é, e nem poderia ser, onisciente. Fizemos aperfeiçoamentos em cima dele. Sabemos mais sobre psico-história do que ele jamais poderia saber. Seldon encerrou seus cálculos com o Segundo Império, e nós fomos além. De fato, se posso dizer sem querer ofender, o novo Hiper-Plano, que vai além do estabelecimento do Segundo Império, é grandemente de minha autoria, e valeu-me meu cargo atual.

       - Digo-lhe tudo isto - continuou ele - para que você me poupe ulteriores discussões desnecessárias. Com tudo isso, como você conseguiu concluir que o Plano de Seldon não tem sentido? É impecável. O mero fato de que sobreviveu ao Século dos Desvios - com todo o respeito pelo gênio de Palver - é a melhor evidência de que o que temos é sem falha. Onde está sua fraqueza, meu rapaz, para que você rotule o Plano como sem sentido?

       Guendibal estava rígido, de pé: - O senhor está certo, Primeiro Orador. O Plano de Seldon não tem falha.

       - Você retira sua observação, então?

       - Não, Primeiro Orador. Sua falha é sua ausência de falhas. Sua infalibilidade é fatal!

      

       O Primeiro Orador observou Guendibal com equanimidade. Tinha aprendido a controlar suas expressões, e era divertido observar a inaptidão de Guendibal neste aspecto. A cada troca de palavras, o rapaz fazia o que podia para esconder seus sentimentos, mas a cada vez, ele os expunha completamente.

       Shandess o estudava desapaixonadamente. Era um rapaz esbelto, não muito acima da estatura normal, com lábios finos e mãos ossudas e inquietas. Tinha olhos escuros e sérios, que tendiam a se tornar intensos.

       Ele seria, o Primeiro Orador percebeu, uma pessoa difícil de demover de suas convicções.

       - Você fala por paradoxos, Orador.

       - Parece um paradoxo, Primeiro Orador, porque há muito sobre o Plano de Seldon que tomamos como pressuposto, e aceitamos inquestionavelmente.

       - E o que é que você questiona, então?

       - A própria base do Plano. Todos sabemos que o Plano não vai funcionar se sua natureza - ou mesmo sua existência - for conhecida por muitos daqueles cujo comportamento destina-se a prever.

       - Creio que Hari Seldon entendia isso. Acredito mesmo que ele tornou isso um de seus dois axiomas fundamentais da psico-história.

       - Ele não antecipou o Mula, Primeiro Orador, e portanto, não podia antecipar a extensão com que o povo da Primeira Fundação ficaria obcecado com a Segunda Fundação, uma vez que sua importância fosse evidenciada pelo Mula.

       - Hari Seldon... - e, por um momento, o Primeiro Orador estremeceu e caiu em silêncio.

       O aspecto físico de Hari Seldon era conhecido de todos os membros da Segunda Fundação. Por todo lugar encontravam-se reproduções dele, em duas e três dimensões, fotográficas e holográficas, em baixo-relevo e alto-relevo, sentado, de pé... Todas eram de um homem velho, bonachão, rosto vincado com a sabedoria dos anciãos, simbolizando a quintessência do gênio bem amadurecido.

       Mas o Primeiro Orador agora lembrava-se de ter visto uma fotografia tida como do jovem Seldon. Ela era desprezada, pois que a idéia de um jovem Seldon era quase uma contradição. No entanto, Shandess a vira, e de repente veio-lhe a idéia de que Stor Guendibal parecia-se notavelmente com o jovem Seldon.

       Ridículo! Era o tipo de superstição que afligia a todos, vez ou outra, por mais racionais que fossem. Foi iludido por uma fugaz semelhança. Se tivesse a fotografia na frente dele, veria de imediato que a similaridade era ilusória. Mas, por que aquela idéia tola ter-lhe-ia ocorrido agora?

       Recobrou-se. Fora um tremor momentâneo - um descarrilar transiente do pensamento - muito breve para ser notado por qualquer um que não um Orador. Guendibal poderia interpretá-lo como quisesse.

       - Hari Seldon - disse muito firmemente a segunda vez - sabia muito bem que havia um número infinito de possibilidades que não podia antecipar, e por essa razão estabeleceu a Segunda Fundação. Não previmos o Mula tampouco, mas o reconhecemos, quando caiu sobre nós, e o detivemos. Não previmos a subseqüente obsessão da Primeira Fundação quanto a nós, mas logo percebemos quando apareceu, e a detivemos. O que há em tudo isso onde possivelmente você possa achar um defeito?

       - Por uma coisa: a obsessão da Primeira Fundação conosco ainda não passou.

       Houve um distinto decréscimo na deferência com que Guendibal estivera falando. Notara o tremular na voz do Primeiro Orador (Shandess decidira) e o interpretou como incerteza. Isso precisava ser compensado.

       E o Primeiro Orador disse bruscamente: Deixe-me antecipar. Haverá pessoas da Primeira Fundação que - comparando as dificuldades febris dos primeiros quase quatro séculos de existência, com a placidez das últimas doze décadas - chegarão à conclusão de que só pode ser a Segunda Fundação que está cuidando do Plano - e, é claro, estarão certas ao assim concluírem. Decidirão que a Segunda Fundação poderá não estar destruída, afinal - e é claro, estarão certos em assim decidir. De fato, recebemos relatórios de que há um rapaz do mundo-capital da Primeira Fundação, Terminus, um funcionário de seu governo, que está bem convencido de tudo isto. Esqueço seu nome...

       - Golan Trevize - disse Guendibal, em voz baixa. - Fui eu que primeiro observei o assunto nos relatórios, e fui eu que dirigi o assunto para seu escritório.

       - Mesmo? - retrucou o Primeiro Orador, com exagerada poli dez. - E como sua atenção veio a se focalizar sobre ele?

       - Um de nossos agentes em Terminus enviou um relatório tedioso sobre os membros recém-eleitos de seu Conselho - uma questão perfeitamente rotineira usualmente enviada e ignorada por todos os Oradores. Este captou minha atenção por causa da natureza da descrição do novo Conselheiro, Golan Trevize. Pela descrição, ele parecia inusitadamente autoconfiante e combativo.

       - Reconheceu uma alma irmã, não é mesmo?

       - Não tanto - retrucou Guendibal, rigidamente. - Ele parecia um inconformista que só fazia coisas ridículas, descrição que não se aplica a mim. Em qualquer caso, dirigi um estudo aprofundado. Não me levou muito tempo para decidir que ele teria sido bom material para nós, se tivesse sido recrutado ainda criança.

       - Talvez, mas você sabe que não recrutamos em Terminus.

       - Sei muito bem disso. Em qualquer caso, mesmo sem nosso treinamento, ele tem uma intuição incomum. É claro, muito indisciplinada. Portanto, não fiquei muito surpreso que ele percebesse o fato de a Segunda Fundação ainda existir. Achei importante o suficiente para dirigir um memorando sobre o assunto para o seu escritório.

       - E pela sua atitude, suponho que houve um novo desenvolvi mento?

       - Tendo percebido o fato de que ainda existimos, graças às suas capacidades intuitivas altamente desenvolvidas, ele então as utilizou de um modo caracteristicamente indisciplinado e, como resultado, foi exilado de Terminus.

       O Primeiro Orador ergueu os sobrolhos: - Você se interrompeu de repente. Quer que eu interprete a importância disso. Sem usar meu computador, deixe-me aplicar mentalmente uma aproximação grosseira das equações de Seldon, e adivinhar que uma Prefeita astuta, capaz de suspeitar que a Segunda Fundação existe, prefere não ter um individuo indisciplinado gritando o fato para toda a Galáxia e assim alertar a tal da Segunda Fundação para o perigo. Suponho que Branno de Bronze decidiu que Terminus está mais seguro com Trevize fora do planeta.

       - Ela poderia tê-lo aprisionado ou assassinado silenciosamente.

       - As equações não são confiáveis quando aplicadas a indivíduos, como você bem sabe. Tratam apenas com massas humanas. O comportamento individual é, portanto, imprevisível, e é possível presumir que a Prefeita é um ser humano que acha que a prisão, quanto mais o assassinato, é impiedosa.

       Guendibal nada disse por um momento. Era um nada eloqüente, e o manteve tempo o bastante para que o Primeiro Orador ficasse incerto, mas não tanto a ponto de induzir uma irritação defensiva.

       Prolongou o silêncio até o momento exato e então disse: - Essa não é minha interpretação. Creio que Trevize, neste momento, representa o bordo de ataque da maior ameaça à Segunda Fundação em toda sua história - um perigo maior mesmo que o Mula!

      

       Guendibal estava satisfeito. A força da assertiva funcionou direi to. O Primeiro Orador não a esperava, e foi apanhado desprevenido. A partir deste momento, Guendibal passou da defensiva ao ataque. Se tinha ainda qualquer dúvida, deveria desaparecer com a observação seguinte de Shandess.

       - Isto tem algo a ver com sua tese de que o Plano de Seldon não tem sentido?

       Guendibal jogou aparentando completa certeza, dirigindo com um didatismo que não permitiria que o Primeiro Orador se recuperasse: - Primeiro Orador, é um artigo de fé que foi Prim Palver quem restaurou o Plano em seu curso, depois da violenta aberração do Século dos Desvios. Estude o Radiante Primário e verá que os Desvios só desapareceram duas décadas depois da morte de Palver, e nenhum Desvio apareceu desde então. O crédito pode ficar com os Primeiros Oradores depois de Palver, mas isso é improvável.

       - Improvável? Por certo que nenhum de nós não foi nenhum Palver, mas... por que improvável?

       - Permite-me demonstrar, Primeiro Orador? Usando a matemática da psico-história, posso mostrar claramente que as chances do desaparecimento total de Desvios são muito microscopicamente pequenas para terem ocorrido por meio de qualquer coisa que a Segunda Fundação pode fazer. Não precisa exigir a demonstração, se não tiver tempo, ou não desejá-la, o que exigiria meia hora de muita atenção. Posso, como alternativa, convocar uma reunião plenária da Mesa dos Oradores e demonstrá-lo lá. Mas isso significaria uma perda de tempo para mim, e uma controvérsia desnecessária.

       - Sim, e uma possível desmoralização minha. Demonstre-me a questão agora, mas uma palavra de advertência - e o Primeiro Orador estava fazendo um esforço heróico para se recuperar -, se o que você me mostrar não tiver valor, não vou esquecer disso.

       - Se se provar sem valor - disse Guendibal com um orgulho natural, que sobrepujou o outro - terá minha demissão no mesmo instante.

       De fato, levou mais que meia hora, pois o Primeiro Orador questionou a matemática com uma intensidade quase selvagem.

       Guendibal tomou parte do tempo pelo uso do seu Micro-Radiante. O dispositivo - que podia localizar qualquer porção do vasto Plano holograficamente e que não exigia parede ou console de escrivaninha - entrara em uso havia uma década, e o Primeiro Ora dor nunca pegara o jeito de lidar com aquilo. E Guendibal sabia disso. E o Primeiro Orador sabia que ele sabia.

       Guendibal enganchou-o em seu polegar direito, e manipulou seus controles com os outros quatro dedos, usando a mão deliberadamente como se fosse um instrumento musical. (De fato, ele escrevera um pequeno trabalho sobre as analogias.)

       As equações que Guendibal apresentou (após tê-las encontrado com segurança e facilidade) moviam-se para a frente e para trás como minhocas, acompanhando seus comentários. Ele podia obter definições, se necessário; estabelecer axiomas; e apresentar gráficos, tanto bi quanto tridimensionais (para não falar das projeções de relações multidimensionais).

       Os comentários de Guendibal eram claros e incisivos, e o Primeiro Orador abandonou o jogo. Foi vencido, e disse: - Não me lembro de já ter visto uma análise desta natureza. De quem é esse trabalho?

       - Primeiro Orador, é meu próprio. Já publiquei a matemática básica que ela envolve.

       - Muito inteligente, Orador Guendibal. Algo como isto coloca-o na linha de sucessão para Primeiro Orador, caso eu morra... ou me aposente.

       - Não pensei nesse assunto, Primeiro Orador... mas se não há chance de o senhor acreditar nisso, retiro o comentário. Pensei nisso e espero ser o Primeiro Orador, pois quem quer que seja o sucessor deve seguir um procedimento que só eu vejo claramente.

       - Sim - respondeu o Primeiro Orador -, uma modéstia mal co- locada pode ser muito perigosa. Que procedimento? Talvez o atual Primeiro Orador possa acompanhá-lo. Se eu for velho demais para não ter dado o salto de criatividade que você deu, não sou tão velho que não possa entendê-lo.

       Era uma rendição cortês, e o coração de Guendibal abriu-se, inesperadamente, para o outro, mesmo ao perceber que era exatamente essa a intenção do Primeiro Orador.

       - Obrigado, Primeiro Orador, pois preciso muitíssimo de sua ajuda. Não posso esperar virar a Mesa sem a sua iluminada liderança. - (Troca de gentileza.) - Presumo, pois, que o senhor já viu, pelo que demonstrei, que é impossível que o Século dos Desvios tenha sido corrigido sob nossa política, ou que todos os Desvios tenham cessado, desde então.

       - Está claro para mim - disse o Primeiro Orador. - Se a sua matemática está correta, para que o Plano tenha se recuperado como fez, e para funcionar perfeitamente, como parece estar funcionando, seria necessário para nós ser capazes de predizer as reações de pequenos grupos de pessoas - mesmo de indivíduos isolados - com algum grau de certeza.

       - Isso mesmo. Desde que a matemática da psico-história não permite isto, os Desvios não deveriam ter desaparecido, e ainda mais, nunca deveriam ter permanecido ausentes. O senhor vê, assim sendo, que o que eu queria dizer antes era que a falha do Plano de Seldon estava na sua ausência de falhas.

       Ao que respondeu o Primeiro Orador: - Ou o Plano de Seldon apresenta Desvios, ou há algo de errado com a sua matemática. Como devo admitir que o Plano de Seldon não apresentou Desvios em mais de um século, segue-se que não há nada errado com a sua matemática - exceto que não detectei nenhuma falácia ou passo em falso.

       - O senhor faz mal em excluir uma terceira alternativa. É bem possível que o Plano de Seldon não possua Desvios e ainda não haja nada errado com a minha matemática, quando diz ser tal coisa impossível.

       - Não consigo perceber qual é a terceira alternativa.

       - Suponha que o Plano de Seldon esteja sendo controlado por meio de um método psico-histórico tão avançado que as reações de pequenos grupos de pessoas - talvez mesmo de indivíduos isolados - possam ser preditos, métodos que nós, da Segunda Fundação, não possuímos. Então, e só então minha matemática prediria que o Plano de Seldon de fato não experimentaria Desvios!

       Por um instante (pelos padrões da Segunda Fundação), o Primeiro Orador não deu resposta. Então disse: - Não há método psico-histórico tão adiantado de que eu tenha conhecimento, ou, estou certo pelo seu comportamento, você. Se você e eu não sabemos de nenhum, a chance de que qualquer outro Orador, ou qualquer grupo de Oradores tenha desenvolvido tal micropsico-história - se posso chamá-la assim - e a tenha mantido em segredo do resto da Mesa, é infinitesimalmente pequena. Não concorda?

       - Concordo.

       - Então, ou sua análise está errada, ou a micropsico-história está nas mãos de algum grupo fora da Segunda Fundação -

       - Exatamente, Primeiro Orador, esta última alternativa deve ser a correta.

       - Pode demonstrar a veracidade de tal afirmação?

       - Não posso, de qualquer maneira formal, mas considere - já não houve uma pessoa que pôde afetar o Plano de Seldon tratando com pessoas individualmente?

       - Presumo que se refere ao Mula.

       - Sim, por certo.

       - O Mula podia apenas destruir. O problema aqui é que o Plano de Seldon está funcionando bem demais, consideravelmente mais perto da perfeição que a sua matemática permitiria. Seria preciso um Anti-Mula - alguém tão capaz de sobrepujar o Plano como o Mula, mas agindo pelo motivo oposto - sobrepujar não para destruir, mas para aperfeiçoar.

       - Exatamente, Primeiro Orador. Gostaria de ter pensado nessa expressão. O que foi o Mula? Um mutante. Mas, de onde ele veio? Como ele veio a ser? Ninguém realmente sabe. Não poderia haver mais alguém como ele?

       - Aparentemente, não. A única coisa bem conhecida sobre o Mula é que ele era estéril. Daí o seu nome. Ou pensa que isso é um mito?

       - Não estou me referindo a descendentes do Mula. Poderia ser que o Mula fosse um membro aberrante do que é - ou agora se tornou - um grupo considerável de pessoas com poderes “muarinos” que - por alguma razão deles mesmos - não estão destruindo o Plano de Seldon, mas o apóiam?

       - E por que, pela Galáxia, o apoiariam?

       - Por que nós o apoiamos? Planejamos um Segundo Império em que nós - ou melhor, nossos descendentes intelectuais - é que tomarão as decisões. Se algum outro grupo está apoiando o Plano ainda mais eficazmente que nós, não podem estar planejando deixar a tomada de decisões para nós. Eles é que tomarão as decisões - mas com que fim? Não deveríamos procurar saber para que tipo de Segundo Império eles nos estão empurrando?

       - E como você propõe descobrir?

       - Bem, por que a Prefeita de Terminus exilou Golan Trevize? Ao fazê-lo, ela deixa uma pessoa possivelmente perigosa mover-se livremente pela Galáxia. Que ela o faça por razões humanitárias, não posso crer. Historicamente, os governantes da Primeira Fundação sempre agiram realisticamente, o que quer dizer, usualmente, sem consideração pela “moralidade”. Um de seus heróis - Salvor Hardin - aconselhou contra a moralidade na verdade. Não; creio que a Prefeita agiu sob compulsão dos agentes dos Anti-Mulas, para usar a sua expressão. Acho que Trevize foi recrutado por eles e acho que ele é a cabeça de ponte do perigo, para nós. Mortalmente perigoso.

       -Por Seldon! - disse o Primeiro Orador. - Você pode estar certo! Mas como convenceremos a Mesa?

       - Primeiro Orador, o senhor subestima a sua eminência.

      

Terra

       Trevize estava ansioso e aborrecido. Ele e Pelorat estavam sentados na pequena área da sala de refeições terminando o almoço.

       E disse Pelorat: - Estamos no espaço só há dois dias, e considero-me bem à vontade, muito embora sinta falta de ar fresco, da natureza, e tudo o mais. Estranho! Nunca pareci notar todas essas coisas quando estavam todas à minha volta. No entanto, entre minha microficha e aquele seu notável computador, tenho toda minha biblioteca comigo - ou tudo o que importa dela, pelo menos. E não me sinto minimamente assustado por estar no espaço exterior, agora. Surpreendente!

       Trevize fez um grunhido. Seus olhos estavam focalizados para dentro.

       Pelorat disse, delicadamente: - Não quero me intrometer, Golan, mas, realmente, não creio que esteja escutando. Não que eu seja uma pessoa particularmente interessante - sempre fui meio chato, sabe? Mas você parece preocupado de uma outra maneira. Estaríamos em dificuldades? Não precisa me contar, por favor. Não há muito que eu possa fazer, suponho, mas não vou entrar em pânico, meu caro rapaz.

       - Em dificuldades? - Trevize pareceu voltar a si, estremunhado.

       - Quero dizer, a nave. É um modelo novo, de modo que suponho que algo poderia sair errado - e Pelorat permitiu-se um sorriso curto e inseguro.

       Trevize abanou a cabeça, vigorosamente: -Foi estúpido de minha parte deixá-lo em tamanha incerteza, Janov. Não há absolutamente nada errado com a nave. Está funcionando perfeitamente. Só que estive procurando por um hiper-relé -

       - Ah, percebo... Mas não entendi bem. O que é um hiper-relê?

       - Bem, deixe-me explicar-lhe, Janov. Estou em comunicação com Terminus. Pelo menos, posso entrar em contato a qualquer momento que eu quiser, e Terminus pode, em contrapartida, entrar em comunicação conosco. Eles conhecem a localização da nave, tendo observado a sua trajetória. Mesmo se não o tivessem feito, poderiam localizar-nos sondando o espaço de suas vizinhanças, à procura de massa, o que os alertaria para a presença de uma nave, ou possivelmente um meteorito. Mas ainda poderiam detectar um padrão de energia, que não só distinguiria uma nave de um meteorito, mas identificaria uma nave em particular, pois nunca duas naves podem fazer uso da energia exatamente da mesma maneira. De certo modo, nosso padrão é uma característica, não importa que acessórios ou instrumentos liguemos ou desliguemos. A nave pode ser desconhecida, é claro, mas se for uma nave cujo padrão energético esteja registrado em Terminus - como o nosso - poderá ser identificada assim que detectada.

       - Parece-me, Golan, que o progresso da civilização nada mais é que um exercício da limitação da privacidade.

       - Você pode estar certo. Mais cedo ou mais tarde, porém, precisaremos nos deslocar pelo hiper-espaço, ou estaremos condenados a ficar a um ou dois parsecs de Terminus pelo resto de nossas vidas. Então seremos incapazes de iniciar qualquer viagem interestelar senão no grau mais mínimo. Ao passar pelo hiperespaço, por outro lado, sofreremos uma descontinuidade no espaço comum. Passaremos daqui para ali - e com isto quero dizer um espaço de centenas de parsecs, por vezes - num só instante do tempo experimentado. Subitamente ficaremos enormemente distanciados, numa direção que é muito difícil de predizer, e, num sentido prático, não mais poderemos ser detectados.

       - Percebo.

       - A menos, é claro, que eles tenham instalado um hiper-relê a bordo. Um hiper-relê envia um sinal pelo hiper-espaço - um sinal característico desta nave - e as autoridades de Terminus saberiam sempre onde estamos. Isso responde à sua pergunta, como vê. Não haveria lugar na Galáxia onde pudéssemos nos esconder, e nenhuma combinação de Saltos pelo hiper-espaço nos possibilitaria escapar dos instrumentos deles.

       - Mas, Golan - perguntou Pelorat, suavemente -, então não que remos a proteção da Fundação?

       - Sim, Janov, mas só quando a pedirmos. Você disse que o progresso da civilização significa uma continua restrição da privacidade. Bem, não quero ser tão progressista assim. Quero liberdade para me mover não-detectado, tanto quanto quiser - a menos que, e até que eu queira proteção. Assim eu me sentiria melhor, muitíssimo melhor se não houvesse um hiper-relê a bordo.

       - E você achou um, Golan?

       - Não, não achei. Se tivesse achado, poderia tentar torná-lo inoperante.

       - Você reconheceria um se o visse?

       - Essa é uma das dificuldades. Eu poderia não conseguir reconhecê-lo. Eu sei qual o aspecto de um hiper-relê, de um modo geral, e sei as maneiras de testar um objeto suspeito - mas esta nave é novíssima, projetada para aplicações especiais. Um hiper-relé poderia ter sido incorporado em sua construção de tal maneira que não aparente nenhum sinal de sua presença.

       - Por outro lado, pode não haver hiper-relê algum, e é por isso que você não o encontrou.

       - Não ousaria presumir isso, e não gosto da idéia de fazer um salto, até eu saber.

       Pelorat pareceu iluminar-se: - É por isso que simplesmente temos derivado pelo espaço. Estive imaginando por que não Saltamos. Já ouvi falar sobre Saltos, você sabe. Sendo um pouco nervoso a respeito dessas coisas, de fato, eu estava imaginando quando você me mandaria me amarrar, tomar uma pílula, ou algo assim.

       Trevize conseguiu sorrir: - Não precisa ficar apreensivo. Não estamos mais nos tempos antigos. Numa nave como esta, simplesmente deixe tudo por conta do computador. Você dá as instruções e ele faz o resto. Você não ficará sabendo de nada que acontece, exceto que o panorama do espaço subitamente mudará. Se você já viu um show de slides, vai saber o que acontece, quando se é subitamente projetado de um lugar para outro. Bem, é assim que o Salto vai parecer.

       - Ai de mim! E não se vai sentir nada? Acho isso de algum modo desapontador.

       - Eu nunca senti nada, e as naves em que estive ainda não eram tão avançadas quanto esta nossa. Mas não é por causa do hiper-relê que não Saltamos. Precisamos nos afastar ainda um pouco mais de Terminus - e do sol, também. Quanto mais distantes estivermos de qualquer objeto maciço, mais fácil controlar o Salto, e reemergir no espaço nas coordenadas exatas que se deseje. Numa emergência, pode-se arriscar um Salto apenas a duzentos quilômetros da superfície de um planeta, e confiar na sorte, podendo acabar num lugar seguro. Como há muito mais volume seguro do que inseguro na Galáxia, pode-se contar razoavelmente com a segurança. Ainda há a possibilidade de que fatores aleatórios o farão reemergir a uns poucos milhões de quilômetros de uma estrela de grande porte, ou no núcleo galáctico - você estará frito antes de poder piscar. Quanto mais longe estiver de qualquer massa, menores esses fatores ficam, e menos provável que algum imprevisto ocorra.

       - Nesse caso, recomendo-lhe cuidado. Não estamos numa pressa aterradora.

       - Exatamente. Especialmente porque eu gostaria muitíssimo de achar o hiper-relê antes de fazer um movimento. Ou achar um modo de me convencer de que não há hiper-relê.

       Trevize pareceu deslizar de volta para sua concentração particular, e Pelorat disse, erguendo a voz um pouco para superar a barreira da preocupação: - Quanto ainda nos resta?

       - Quê?

       - Quero dizer, quando daremos o Salto, se você não tiver mais inquietações com o hiper-relé, meu caro amigo?

       - À nossa atual velocidade e trajetória, eu acho que no quarto dia de viagem. Vou calcular a data exata no computador.

       - Bem, você tem dois dias ainda para a revista. Posso fazer uma sugestão?

       - Vá em frente.

       - Sempre descobri, em meu trabalho - bem diferente do seu, é claro, mas possivelmente podemos generalizar - que focalizar estritamente um só problema particular é derrotar a si mesmo. Por que você não relaxa e conversa sobre outra coisa, enquanto sua mente inconsciente resolve o problema para você?

       Trevize ficou olhando, por um momento, chateado, e então riu: - Bem, e por que não? Diga-me, professor, o que o fez interessar-se pela Terra? O que lhe trouxe esta estranha noção de um planeta em particular, do qual tudo começou?

       - Ah! - E Pelorat assentiu com a cabeça, começando a se recordar. - Temos de voltar um pouco ao passado. Por trinta anos, planejei ser um biólogo, quando estava na escola. Estava particularmente interessado nas variações das espécies em diferentes mundos. A variação, como você sabe, bem, talvez você não saiba, então não vai se importar se eu lhe disser - é muito pequena. Todas as formas de vida, por toda a Galáxia - pelo menos todas as que encontramos até agora - partilham uma química baseada em água e proteína - ácido nucléico.

       - Freqüentei a academia militar, que enfatizava a nucleônica e a gravítica, mas não sou bem um especialista bitolado. Sei um pouco da base química da vida. Ensinaram-nos que água, proteínas e ácidos nucléicos são as únicas bases possíveis para a vida.

       - Isso, eu acho, é uma conclusão não garantida. É mais seguro dizer que nenhum outra forma de vida ainda foi encontrada - ou de qualquer forma, foi reconhecida - e deixemos assim, por hora. O que é mais surpreendente é que espécies indígenas - isto é, espécies encontradas num só planeta e nenhum outro - são pouco numerosas. A maioria das espécies que existem, incluindo o homo sapiens, em particular, são distribuídas por todos, ou pela maioria dos mundos habitados da Galáxia e têm parentesco próximo, bioquímica, fisiológica e morfologicamente. As espécies indígenas, por outro lado, estão amplamente separadas em suas características, tanto das for mas mais difundidas, quanto umas das outras.

       - Bem, e o que isso quer dizer?

       - A conclusão é que um mundo da Galáxia - um só mundo - é diferente dos restantes. Dezenas de milhões de mundos na Galáxia - ninguém sabe exatamente quantos - desenvolveram a vida. Era uma vida simples, esparsa, frágil - não muito variegada, não facilmente mantida, e não facilmente difundida. Um mundo, um só mundo, desenvolveu vida aos milhões de espécies - sim, milhões, com certeza - algumas altamente especializadas, altamente desenvolvidas, com forte tendência à multiplicação e propagação, e inclusive nós. Fomos inteligentes o bastante para formar uma civilização, desenvolver o vôo hiperespacial e colonizar a Galáxia - e, ao nos propagarmos pela Galáxia, carregamos conosco muitas outras formas de vida - formas relacionadas umas com as outras e conosco.

       - Parando para pensar nisso - disse Trevize, com alguma indiferença - suponho que tem razão. Quero dizer, estamos numa Galáxia humana. Se presumirmos que tudo começou num só mundo, então aquele planeta deveria ser diferente. Mas, por que não? As chances de a vida se desenvolver de um modo tão caótico devem ser muito pequenas, na verdade - talvez uma numa centena de milhões - de modo que as chances são de ter ocorrido num só mundo habitado dentre cem milhões. Tinha de ser em algum deles.

       - Mas o que tornou aquele mundo em particular tão diferente dos outros? - continuou Pelorat, animado. - Quais foram as condições a torná-lo único?

       - Mero acaso, quiçá. Afinal, os seres humanos e as formas de vida que carregaram consigo agora existem em dezenas de milhões de planetas, todos podendo sustentar a vida, de modo que qualquer um desses mundos poderia ser o tal.

       - Não! Uma vez evoluída a espécie humana, uma vez tendo desenvolvido a tecnologia, uma vez tendo-se endurecido na dura luta pela sobrevivência, poderia então adaptar-se à vida em qualquer mundo que seja minimamente hospitaleiro - em Terminus, por exemplo. Mas você consegue imaginar vida inteligente se desenvolvendo em Terminus? Quando Terminus foi inicialmente ocupado por humanos, nos dias dos Enciclopedistas, a forma mais elevada de vida vegetal que produzia era uma espécie de musgo sobre as rochas, as formas animais mais elevadas eram pequenos corais no oceano e insetos voadores na terra. Acabamos com eles e enchemos o mar e a terra com peixes, e coelhos e cabras, e grama, grãos, árvores, e o mais. Nada deixamos da vida indígena, exceto pelo que existe em zoológicos e aquários.

       - Hum - respondeu Trevize.

       Pelorat ficou olhando para ele por todo um minuto, então suspirou e disse; - Você não se importa mesmo, não é? Notável! Não consigo achar ninguém, que se interesse, não sei por quê. Minha falha, eu acho. Não consigo fazer este assunto interessante, mesmo que a mim interesse tanto.

       - É interessante; realmente é. Mas... e daí?

       - Não o surpreende que pode ser cientificamente interessante estudar o mundo que originou o único equilíbrio realmente florescente que a Galáxia já conheceu?

       - Talvez, se você for um biólogo. Eu não sou, você bem o sabe. Deve perdoar-me.

       - É claro, meu caro rapaz. é que nunca encontrei nenhum biólogo interessado, tampouco. Eu lhe disse já ter estudado biologia. Apresentei o assunto a meu professor e ele mesmo não estava interessado. Disse-me para me voltar para algum problema prático. Isso me desgostou tanto que passei para o curso de história - que tinha sido mais um passatempo meu desde minha adolescência, e abordei a “Questão das Origens” daquele ângulo.

       - Mas ao menos lhe motivou o trabalho de uma vida, de modo que você deve agradecer a seu professor tão pouco ilustrado.

       - Sim, suponho que se possa ver o assunto assim. E esse trabalho de uma vida é um trabalho interessante, do qual nunca me cansei. Mas eu gostaria muito que interessasse a você. Detesto esta sensação de falar só para mim mesmo, para sempre.

       Trevize jogou a cabeça para trás e riu gostosamente.

       O rosto quieto de Pelorat mostrou um traço de ressentimento: - Por que está rindo de mim?

       - Não de você, Janov, estava rindo de minha própria estupidez. No que lhe concerne, sou-lhe grato. Você estava perfeitamente certo, sabia?

       - Sobre perceber a importância das origens humanas?

       - Não, não. Bem, isso também. Mas eu quero dizer que você estava certo em dizer-me para parar de pensar conscientemente em meu problema e voltar minha mente para qualquer outra coisa. E funcionou. Quando você estava falando sobre a maneira como a vida evoluiu, finalmente ocorreu-me que eu sabia como achar aquele hiper-relê, se é que existe.

       - Ah, aquilo!

       - Sim, aquilo! Essa é minha monomania, no momento. Estive procurando aquele hiper-relê tal como se estivesse na lata velha de minha nave de treinamento, estudando cada urna de suas partes visualmente, procurando algo que se destacasse do resto. Esqueci que esta nave é o produto resultante de milhares de anos de evolução tecnológica. Não percebe?

       - Não, Golan.

       - Temos um computador a bordo. Como pude esquecer?

       Ele acenou e passou para o quarto ao lado, puxando Pelorat consigo.

       - Preciso apenas comunicar-me - disse, colocando as mãos sobre o contato do computador.

       Era uma questão de tentar atingir Terminus, que agora estava alguns milhares de quilômetros para trás.

       Atingir! Falar! Era como se terminações nervosas brotassem e se estendessem para fora com assustadora velocidade - a velocidade da luz, é claro - para estabelecer contato.

       Trevize sentiu-se tocando - bem, não exatamente tocando, mas “sensoriando”.. bem, não exatamente sensoriando, mas... não importava, pois não havia palavra para aquilo.

       Ele estava consciente de Terminus ao seu alcance, e, muito embora a distância entre ele e o planeta estivesse aumentando de uns vinte quilômetros por segundo, o contato persistia como se o planeta e a nave estivessem imóveis e separados por alguns metros.

       Ele nada dizia. Forçava-se a ficar calado. Estava meramente testando o princípio da comunicação; ele não estava comunicando ativamente.

       Lá fora, a oito parsecs de distância, estava Anacreon, o mais próximo planeta importante - em seu quintal, pelos padrões galácticos. Enviar uma mensagem pelo mesmo sistema, à velocidade da luz, que estava funcionando para Terminus - e receber igualmente uma resposta - levaria cinqüenta e dois anos.

       Atingir Anacreon! Pensar em Anacreon! Pensar nele tão claramente quanto puder. Você conhece sua posição relativa a Terminus e ao núcleo galáctico; estudou sua planetografia e história; resolveu problemas militares quando foi necessário recapturar Anacreon (no caso impossível - nestes dias - de ser tomado por um inimigo).

       Pelo espaço! Você esteve em Anacreon!

       Imaginar! Visualizar! Você vai sentir como estando lá, pelo hiper-relê.

       Nada! Seus terminais nervosos estremeceram e pousaram no nada. Trevize desligou-se: - Não há hiper-relé a bordo da Far Star, Janov. Definitivamente. E se eu não tivesse seguido a sua sugestão, imagino o quanto teria me levado para atingir esta conclusão.

       Pelorat, sem mover um músculo facial, positivamente estava radiante - Estou tão contente por ter sido de alguma utilidade! Isto quer dizer que vamos Saltar?

       - Não, ainda esperaremos mais dois dias, por segurança. Precisamos nos afastar de qualquer massa, lembra-se? Ordinariamente, considerando que tenho uma nave nova e não-testada, com que não estou de modo algum familiarizado, provavelmente me levaria dois dias para calcular o procedimento exato - o hiper-impulso apropriado para o primeiro Salto, especialmente. Tenho a sensação, porém, de que o computador fará tudo.

       - Ai de mim! Isso vai nos deixar um tempo um tanto enfadonho, eu receio.

       - Enfadonho? - e Trevize sorria amplamente. .- Tudo menos isso! Você e eu, Janov, vamos conversar sobre a Terra.

       - De fato? Ou você só está tentando agradar a um velho? É muita bondade sua, muita mesmo.

       - Bobagem! Estou tentando agradar a mim mesmo. Janov, você fez de mim um convertido. Como resultado do que me disse, percebo que a Terra é o objeto mais importante e mais devoradoramente interessante no Universo.

      

       Certamente devia ter atingido Trevize no momento em que Pelorat apresentara seu enfoque da Terra. Foi só porque sua mente estava reverberando com o problema do hiper-relé, que não respondera de imediato. E no instante em que o problema se fora, ele respondeu.

       Talvez a frase isolada de Hari Seldon repetida com mais freqüência era sua observação concernente à Segunda Fundação estar “no outro extremo da Galáxia” em relação a Terminus. Seldon até mesmo dera um nome ao lugar. Deveria estar no “fim das estrelas”, em “Star’s End”

       Isto fora incluído no depoimento de Gaal Dornick, no dia do julgamento perante a Corte Imperial. “O outro extremo da Galáxia”: eram as palavras que Seldon usara com Dornick, e desde aquele dia, seu significado era alvo de polêmica.

       O que conectava um extremo da Galáxia com “o outro extremo”? Seria uma linha reta, uma espiral, um círculo, ou o quê?

       E agora, luminosamente, subitamente, ficara claro para Trevize que não era reta nem curva que deveria, ou poderia ser traçada no mapa da Galáxia. Era mais sutil que aquilo.

       Estava perfeitamente claro que um extremo da Galáxia era Terminus. Estava na borda da Galáxia, sim, o nosso limite da Fundação - o que dava à palavra “extremo” um significado literal. Era, porém, o mundo mais novo da Galáxia, na época em que Seldon falava, um mundo que estava para ser fundado, que ainda não existira um só momento.

       Qual seria o outro extremo da Galáxia, naquele enfoque? O outro limite da Fundação? Ora, seria o mundo mais velho da Galáxia? E de acordo com o argumento que Pelorat apresentara - sem o saber - isso só poderia ser a Terra. A Segunda Fundação muito bem poderia estar na Terra!

       Mas também Seldon dissera que o outro extremo da Galáxia estava no “fim das estrelas”. Quem podia dizer que ele não falava metaforicamente? Traçando a história da humanidade para trás, como Pelorat fez, a linha se estenderia para trás, a partir de cada sistema planetário, até um outro, alguma outra estrela de onde os primeiros imigrantes vieram, e então para outra estrela anterior - até que finalmente todas as linhas se recolheriam no planeta onde a humanidade teria tido origem. Era a estrela que brilhava sobre a Terra, que era o “fim das estrelas”.

       Trevize sorriu e disse quase amorosamente: - Diga-me mais sobre a Terra, Janov.

       Pelorat abanou a cabeça: - Já lhe disse tudo o que há para dizer, realmente. Vamos descobrir mais em Trantor.

       - Não, não vamos, Janov. Não vamos encontrar nada lá, Por quê? Porque não estamos indo para Trantor. Eu controlo esta nave e garanto-lhe que para lá é que não vamos.

       Pelorat ficou com a boca aberta. Forçou recuperar o fôlego por um momento e disse, desconsolado: - Ó, meu caro rapaz!

       - Ora, vamos, Janov. Não fique assim. Vamos encontrar a Terra.

       - Mas é só em Trantor que...

       - Não, não é. Trantor é só algum lugar onde você pode estudar filmes que estão se desfazendo, e documentos poeirentos, e ficar quebradiço e poeirento também.

       - Por décadas eu sonhei...

       - Você sonhou em encontrar a Terra.

       -Mas é só...

       Trevize levantou-se, inclinou-se para a frente, agarrou a lapela da túnica de Pelorat, e disse: - Não repita isso, professor; não repita. Quando você me disse pela primeira vez que íamos procurar a Terra, mesmo antes de entrarmos nesta nave, disse que estava certo de poder encontrá-la porque, e vou citar suas próprias palavras: “Tenho uma excelente possibilidade em mente”. Agora eu não quero mais ouvi-lo dizer “Trantor” de novo. Eu só quero que me conte sobre essa excelente possibilidade.

       - Mas precisa ser confirmada. Até agora, é apenas um pensamento, uma esperança, uma vaga possibilidade.

       - Ótimo! Fale-me a respeito dela!

       - Você não entende; simplesmente, não entende. Não é um campo onde alguém, que não eu, tenha feito pesquisa. Não há nada histórico, nada firme, nada real. As pessoas falam da Terra como se fosse um fato, e também como se fosse um mito. Há um milhão de lendas contraditórias...

       - Mas de que consistiu a sua pesquisa?

       - Fui forçado a coligir cada lenda, cada fragmento de história suposta, cada lenda, cada nebuloso mito. Mesmo ficção! Qualquer coisa que incluísse o nome da Terra ou a idéia de um planeta de origem. Por mais de trinta anos, estive colecionando tudo o que pude encontrar de cada planeta da Galáxia. Agora, se eu pudesse encontrar algo mais confiável que tudo isso, na Biblioteca Galáctica em... Mas você não quer mais que eu diga aquele nome.

       - É isso mesmo, não fale. Ao invés disso, diga-me que um desses itens chamou a sua atenção, e diga-me das suas razões para pensar que de todos os outros, esse seria legítimo.

       Pelorat abanou a cabeça: - Golan, desculpe-me, mas aí você está falando como um político, ou um militar. Não é assim que a história funciona.

       Trevize respirou fundo e controlou-se: - Diga-me como funciona, Janov. Temos dois dias; eduque-me.

       - Você não pode confiar em qualquer mito, nem em qualquer grupo de mitos. Tive de reunir todos, analisar todos, organizar todos, elaborar símbolos para representar diferentes aspectos de seu conteúdo - lendas sobre clima impossível, detalhes astronômicos de sistemas planetários discordantes dos que existem atualmente, local de origem de heróis culturais especificamente enunciados como não sendo nativos, e literalmente centenas de outros itens; não adianta repassar toda a lista. Mesmo dois dias não seriam suficientes. Gastei mais de trinta anos, estou lhe dizendo.

       - Então elaborei um programa de computador que pesquisou todos esses mitos, procurando componentes comuns, e busquei uma transformação que eliminaria as impossibilidades reais. Gradualmente construí um modelo de como a Terra deve ter sido. Afinal de contas, se todos os humanos se originaram num só planeta, aquele único planeta deve representar aquele fato que todos os mitos das origens, todas as lendas sobre heróis culturais devem ter em comum. Você quer que eu entre em pormenores matemáticos?

       - Não no momento, obrigado, mas como sabe que não vai se perder com a sua matemática? Sabemos ser um fato que Terminus foi fundado só há cinco séculos, e que os primeiros humanos chegaram como colonos de Trantor, mas foram reunidos de dezenas - se não centenas - de outros mundos. Porém, alguém que não soubesse disto, presumiria que Hari Seldon e Salvor Hardin, nenhum deles oriundo de Terminus, vieram da Terra, e que Trantor era realmente um nome que equivaleria à Terra. Certamente, se Trantor tal como descrito no tempo de Seldon fosse procurado - um mundo com toda sua superfície revestida de metal - ele não seria encontrado, e poderia ser considerado um mito irreal.

       Pelorat parecia contente: - Retiro minha observação anterior sobre políticos e militares, meu caro rapaz. Você tem um notável senso da intuição. É claro, eu tive que estabelecer critérios. Inventei uma centena de falsidades baseadas em distorções da história presente e limitando mitos do tipo que eu coligira. Tentei então incorporar minhas invenções no modelo. Uma de minhas invenções até se baseava na história primitiva de Terminus. O computador rejeitou-as todas. Todas elas. Para dizer a verdade, isso pode significar que eu simplesmente não tinha o talento literário para inventar algo razoável, mas fiz o melhor que pude -

       - Estou certo que sim, Janov. E o que o seu modelo lhe disse sobre a Terra?

       - Um certo número de coisas, de diversos graus de verossimilhança. Uma espécie de perfil. Por exemplo, cerca de 90 por cento dos planetas habitados na Galáxia têm períodos de rotação entre vinte e duas e vinte e seis Horas Galácticas-Padrão. Bem...

       Trevize interrompeu: - Espero que não tenha dado atenção a isso, Janov. Não há mistério. Para que um planeta seja habitável, não se deseja que gire tão depressa que os padrões de circulação atmosférica produzam condições impossivelmente tempestuosas, ou tão lentamente que as variações de temperatura sejam extremas. É uma propriedade auto-seletiva. Os seres humanos preferem viver em planetas com características adequadas, e quando todos os planetas habitáveis se assemelham quanto a estas características, alguns dizem: “Que notável coincidência!”, quando não é nada notável, e nem mesmo uma coincidência.

       - De fato - respondeu Pelorat calmamente - esse é um fenômeno bem conhecido das ciências sociais. Na física também, acredito, mas não sou um físico e não tenho certeza. Em qualquer caso, é o chama do “principio antrópico”. O observador influencia os eventos que observa, pelo mero ato de observá-los, ou por estar lá para observá-los. Mas a questão é: - Onde está o planeta que serviu como modelo? Que planeta gira precisamente em um Dia Galáctico-Padrão de vinte e quatro Horas Galácticas-Padrão?

       Trevize ficou olhando, pensativo, e projetou o lábio inferior: - Acha então que poderia ser a Terra? Claro que o Padrão Galáctico poderia ter sido escolhido pelas características locais de qualquer mundo, não poderia?

       - Pouco provável. Não é a maneira humana. Trantor foi o mundo-capital da Galáxia por doze mil anos o mundo mais populoso por vinte mil anos - e não impôs seu período de rotação de 1,08 Dias Galácticos-Padrão para toda a Galáxia. E o período de rotação de Terminus é de 0,91 DGP, e não o impomos aos planetas por nós dominados. Todo planeta faz uso de seus próprios cálculos em seu sistema de Dia Planetário Local, e para questões de interesse interplanetário, converte - com a ajuda de computadores - entre o DPL e o DGP. O Dia Galáctico-Padrão deve vir da Terra!

       - Por que é uma necessidade?

       - Por uma coisa: outrora a Terra foi o único mundo habitado, de modo que o seu dia e ano seriam o padrão, e muito provavelmente permaneceria o padrão, por causa da inércia social, à medida que outros mundos iam sendo povoados. Então, também o modelo que elaborei foi o de uma Terra que girava em torno de seu eixo em exatamente vinte e quatro Horas Galácticas-Padrão e girava em torno de seu sol em exatamente um Ano Galáctico-Padrão.

       - Não poderia ser uma coincidência?

       Pelorat riu-se: - Agora você é que está falando de coincidências. Gostaria de fazer uma aposta sobre a chance de uma tal coisa acontecer por coincidência?

       - Bem, bem - resmungou Trevize -

       - De fato, há mais nesse assunto - Há uma medida arcaica de tempo, chamada mês...

       - Já ouvi falar.

       - Aparentemente, encaixa-se no período de revolução do satélite da Terra em torno do planeta. Entretanto...

       - Sim?

       - Bem, um fator um tanto surpreendente do modelo é que o satélite que mencionei é grande; mais de um quarto do diâmetro da Terra.

       - Nunca ouvi falar de tal coisa, Janov. Não há um planeta povoado na Galáxia com um satélite assim.

       - Mas isso é ótimo - disse Pelorat com animação. - Se a Terra é um mundo único na sua produção de espécies variegadas, e na evolução da inteligência, então o que nos falta é alguma peculiaridade física.

       - Mas o que um grande satélite teria a ver com espécies variadas, inteligência, e tudo o mais?

       - Bem, aí atingimos uma dificuldade. Não sei, realmente. Mas vale a pena examinar, não acha?

       Trevize levantou-se e cruzou os braços à frente do peito: - Mas, qual é o problema, afinal? Consulte as estatísticas sobre os planetas habitados e descubra um que tenha um período de rotação e revolução que sejam exatamente um Dia Galáctico-Padrão e um Ano Galáctico-Padrão. E se também tiver um satélite gigante, achou o que queria. Presumo de sua afirmação, que você tem em mente uma “excelente possibilidade”, e que procedeu exatamente assim, e que descobriu o seu mundo.

       Pelorat parecia desconcertado: - Não é exatamente o que aconteceu. Consultei as estatísticas, ou pelo menos foi o que pedi ao Departamento de Astronomia e, para ser franco, não há um tal mundo.

       Trevize sentou-se de novo, abruptamente: - Mas isso significa que todo o seu argumento cai.

       - Não é absolutamente o que me parece.

       - O que você quer dizer com “não absolutamente”? Você apresenta um modelo com toda espécies de descrição detalhada e não pode encontrar nada que se encaixe? Seu modelo então é inútil. Precisa recomeçar tudo de novo!

       - Não! Isso só quer dizer que as estatísticas sobre planetas povoados são incompletas. Afinal de contas, há dezenas de milhões deles, e alguns são mundos obscuros. Por exemplo, não há dados confiáveis sobre a população de quase a metade. E quanto a seiscentos e quarenta mil mundos povoados, quase não há informação além de seus nomes e, por vezes, localização. Alguns galactógrafos estimaram haver até dez mil planetas de modo algum arrolados. Os mundos presumivelmente preferem assim. Durante a Era Imperial, pode tê-los ajudado a se esquivar da taxação.

       - E nos séculos que se seguiram, também - disse Trevize cinicamente. - Pode tê-los ajudado a servir de base de operações para piratas, o que ocasionalmente pode ter-se mostrado mais lucrativo que o comércio normal.

       - Não sei nada a respeito disso - comentou Pelorat, duvidoso.

       - Não faz mal, parece-me que a Terra deveria estar na lista dos planetas habitados, mesmo contra sua vontade. Seria o mais antigo de todos, por definição, e não poderia ter passado despercebido nos primeiros séculos da Civilização Galáctica. E uma vez na lista, ficaria nela. Por certo que neste ponto, poderíamos contar com alguma inércia social.

       Pelorat hesitou e pareceu angustiar-se: - De fato, há... existe um planeta chamado “Terra” na lista dos planetas habitados.

       Trevize encarou-o: - Tenho a impressão de que você me disse agora há pouco que a Terra não estava na lista.

       - Enquanto “Terra”, não. Há, porém, um planeta chamado “Gaia”.

       - E o que tem a ver com o resto? Como é mesmo: Gaiá?

       - Diz-se G-A-I-A. Significa “Terra”.

       - Por que deveria significar “Terra”, Janov, e não qualquer outra coisa? O nome não tem significado algum para mim.

       O rosto de Pelorat, ordinariamente sem expressão, chegou perto de uma careta. Não sei se você vai acreditar, mas se for pela minha análise dos mitos, havia várias línguas diferentes, mutuamente ininteligíveis, na Terra.

       - O quê?!

       - Isso mesmo. Afinal, temos milhares de diferentes maneiras de falar por toda a Galáxia...

       - Através da Galáxia, há certas variações dialetais, mas não são mutuamente ininteligíveis. E mesmo se a compreensão de algumas delas é difícil, compartilhamos todos o Galáctico-Padrão.

       - Certamente, mas há a constante viagem interestelar. E se algum mundo tivesse ficado isolado por um período prolongado?

       - Mas você está falando da Terra. Um só planeta. Onde o isolamento?

       - A Terra é o planeta de origem, não esqueça, onde a humanidade eventualmente deve ter sido primitiva além da imaginação. Sem a viagem interestelar, sem computadores, sem nenhuma tecnologia, lutando para erguer-se a partir de ancestrais não-humanos.

       - Mas isso tudo é tio ridículo!

       Com este comentário, Pelorat deixou cair a cabeça, embaraçado: - Talvez não adiante discutir isto, meu velho. Nunca consegui tomar o assunto convincente para ninguém. Minha culpa, estou certo.

       Trevize arrependeu-se na hora: - Janov, desculpe-me. Falei sem pensar. São opiniões, afinal, com as quais não estou acostumado. Você tem desenvolvido suas teorias já por mais de trinta anos, enquanto que vim a conhecê-las de uma vez só. Você precisa fazer concessões. Olhe, eu vou supor que há um povo primitivo na Terra, que fala duas línguas completamente diferentes, mutuamente ininteligíveis.

       - Meia dúzia, quiçá? - disse Pelorat, desafiadoramente. - A Terra pode ter estado dividida em várias grandes massas continentais e pode ser que, de início, não houvesse comunicação entre elas. Seus habitantes poderiam ter desenvolvido uma língua própria.

       Trevize falou, com uma cuidadosa seriedade: - E em cada um desses continentes, uma vez que tenham tomado conhecimento uns dos outros, podem ter-se feito uma “Questão das Origens”, e ficaram pensando em qual deles os seres humanos primeiro derivaram de outros animais.

       - Podem muito bem tê-lo feito, Golan. Seria uma atitude muito natural para eles.

       - E numa daquelas línguas, “Gaia” significava “Terra”. E a própria palavra “Terra” deriva de uma outra daquelas línguas.

       - Sim; sim.

       - E enquanto o Galáctico-Padrão é a língua que descendeu da língua particular em que “Terra” significa “Terra”, o povo da Terra, por alguma razão chama seu planeta de “Gaia”, a partir de uma outra de suas línguas.

       - Exatamente! Você aprende depressa, Golan.

       - Mas parece-me que não há necessidade de fazer mistério disto. Se Gaia é realmente a Terra, a despeito da diferença nos nomes, então Gaia, por seu argumento prévio, deveria ter um período de rotação de exatamente um Dia Galáctico, um período de revolução de exatamente um Ano Galáctico, e um satélite gigante que gira em torno dela exatamente em um mês.

       - Sim, é o que deveria ser.

       - E então, ela satisfaz ou não a esses requisitos?

       - De fato, não sei dizer. A informação não é dada nas tabelas.

       - É mesmo? Bem, Janov, então vamos zarpar para Gaia, e vamos cronometrar seus períodos e observar seu satélite?

       - Eu gostaria, Golan - Pelorat hesitou. - O problema é que sua localização não é dada exatamente, tampouco.

       - Você quer dizer que tem o nome e nada mais, e essa é sua excelente possibilidade?

       - Mas é por isso que quero visitar a Biblioteca Galáctica!

       - Espere aí. Você disse que a tabela não dá a localização exatamente. Mas dá qualquer espécie de informação?

       - Está arrolada no Setor de Sayshell,* e acrescenta um ponto de interrogação.

       - Ora, Janov, não fique desanimado, pois. iremos ao Setor de Sayshell e, de algum modo, vamos encontrar Gaia!

      

Lavrador

       Stor Guendibal praticava corrida pela estrada de terra próxima à Universidade. Não era prática comum para segundofundacionistas se aventurarem pelo mundo rural de Trantor. Podiam fazê-lo, por certo, mas quando o faziam, não se aventuravam muito longe, ou por muito tempo.

       Guendibal era uma exceção e, no passado, ficava a pensar por quê. Cismar significava explorar a própria mente, algo que especialmente os Oradores eram encorajados a fazer. Suas mentes eram a um tempo suas armas e seus alvos, e tinham de mantê-las tanto ofensiva como defensivamente bem afiadas.

       Guendibal decidira, para sua própria satisfação, que a razão pela qual ele era diferente é porque viera de um planeta que era tanto mais frio quanto mais maciço que a média dos planetas habitados. Quando ele foi levado para Trantor, era menino (através da rede cuidadosamente lançada por toda a Galáxia pelos agentes da Segunda Fundação, à caça de talentos), e encontrou-se num campo gravitacional mais fraco e num clima deliciosamente ameno. Naturalmente, ele gostou de espairecer ao ar livre, mais do que os outros poderiam.

       Em seus primeiros anos em Trantor, tomou consciência de seu porte atarracado, baixinho, e temia que se acomodar ao conforto de um mundo benigno o deixaria totalmente frouxo. Assim, passou a fazer uma série de exercícios, que ainda o mantinham atarracado, mas o deixavam lépido e bem disposto. Parte de seu regime eram estas longas caminhadas e corridas - sobre o que alguns na Mesa dos Oradores murmuravam. Guendibal desprezava seu papaguear.

       Mantinha seus próprios costumes, a despeito do fato de ser de primeira geração. Todos os outros, à Mesa, eram de segunda e terceira geração, com pais e avós que haviam sido segundofundacionistas. E eram todos mais velhos que ele, também, O que seria de esperar senão mexericos?

       Por um antigo costume, todas as mentes à Mesa dos Oradores estavam abertas (supostamente de um modo global, pois era raro o Orador que não conservava um cantinho de privacidade em algum lugar - a longo prazo, sem efeito, é claro) e Guendibal sabia que o que eles sentiam era inveja. E assim era; assim como Guendibal sabia que sua própria atitude era defensiva, supercompensando a ambição. E eles também sabiam.

       Além do mais (a mente de Guendibal reverteu às razões de suas aventuras pelo sertão) ele passara sua infância num mundo grande, vasto, com cenários amplos e grandiosos - e num vale fértil daquele mundo, cercado pelo que acreditava ser a mais bela cadeia de montanhas da Galáxia. Eram inacreditavelmente espetaculares no inverno carrancudo daquele planeta. Lembrava-se de seu antigo mundo e das glórias de uma infância agora distante. Sonhava freqüentemente com isso. Como poderia ser levado a confinar-se a umas poucas dúzias de milhas quadradas de arquitetura antiga?

       Olhava em torno com menoscabo, enquanto corria. Trantor era um mundo suave, mas não tinha a beleza da rusticidade. Apesar de ser um mundo agrícola, não era fértil.

       Nunca tinha sido. Talvez isso, tanto quanto qualquer outro fator, levaram-no a ser o centro administrativo de, primeiro, uma vasta união de planetas, e depois, de um Império Galáctico. Não havia impulso para se tornar qualquer outra coisa. Não era lá muito bom para nada mais.

       Depois do Grande Saque, uma coisa que mantinha Trantor progredindo era seu enorme estoque de metal. Era uma grande mina, suprindo meia centena de mundos com aço-liga, alumínio, titânio, cobre, magnésio, tudo a baixo preço, e devolvendo destarte o que tinha acumulado por milhares de anos; esgotando suas reservas a uma taxa centenas de vezes mais rápida do que a taxa original de acumulação.

       Havia ainda um suprimento enorme de metais disponível, mas estavam sob o solo, e mais difíceis de extrair. Os lavradores Hamish (que nunca chamavam a si mesmos “trantorianos”, termo que consideravam de mau agouro e que os segundofundacionistas reservavam para si mesmos) acabaram se tornando relutantes em comerciar com o metal. Superstição, sem dúvida.

       Bobagem deles. O metal que ficara sob o solo poderia estar envenenando este mesmo solo, reduzindo ainda mais sua fertilidade. Mas, por outro lado, a população estava muito esparsa e a terra podia sustentá-la. E de qualquer modo, sempre havia algumas vendas de metal.

       Os olhos de Guendibal exploravam o horizonte plano. Trantor estava geologicamente vivo, como quase todos os planetas habitados, mas já haviam se passado pelo menos cem milhões de anos desde o último grande período geológico de elevação de montanhas. As elevações que existiram foram erodidas em colinas suaves. De fato, muitas delas foram niveladas na fase de revestimento de metal da história de Trantor.

       Para o sul, bem fora das vistas, estava a praia de Capital Bay, e além, o Oceano Oriental, ambos restabelecidos depois da disrupção das cisternas subterrâneas.

       Para o norte, as torres da Universidade Galáctica, obscurecendo a Biblioteca, baixa, porém larga (a maior parte da qual era subterrânea), e o remanescente do Palácio Imperial, ainda mais ao norte.

       Imediatamente a cada lado, fazendas, com edifícios aqui e ali. Ele passava por algumas cabeças de gado, cabras, galinhas - a grande variedade de animais domésticos encontrada em qualquer fazenda trantoriana. Nenhum deles lhe deu a mínima atenção.

       Guendibal pensou casualmente que em qualquer lugar da Galáxia, em qualquer do vasto número de mundos habitados, se poderiam encontrar esses animais, e que não haveria dois planetas onde eles seriam exatamente iguais. Lembrou-se das cabras de seu mundo, e de sua própria cabra de leite, que ele mesmo outrora ordenhara. Eram muito maiores e mais resolutas que os espécimes pequenos e filosóficos que foram trazidos para Trantor e ali estabelecidos desde o Grande Saque. Pelos mundos habitados da Galáxia, havia muitas variedades destes animais, em número quase incontável, e por mais sofisticada que fosse a pessoa em qualquer mundo, não havia quem não jurasse por sua espécie favorita, quer fornecesse carne, leite, ovos, lã ou qualquer outra coisa que produzisse.

       Como de costume, nenhum Hamish à vista. Guendibal tinha a sensação de que os lavradores fugiam à vista daqueles que chamavam de “dotô” (uma pronúncia errada - talvez deliberada - da palavra “doutor” no dialeto deles). - Superstição, de novo.

       Guendibal relanceou o sol de Trantor. Estava bem alto no céu, mas seu calor não era opressivo. Neste lugar, nesta latitude, o calor era sempre suave, e o frio nunca em demasia. (Guendibal até sentia falta do frio por vezes, ou pensava que sentia falta. Nunca mais voltara a seu mundo natal. Talvez, admitia para si mesmo, por não querer se decepcionar.)

       Tinha a sensação agradável de músculos fortalecidos e retesados, e decidiu que já tinha corrido o suficiente. Passou a caminhar, apenas, respirando profundamente.

       Estaria pronto para a reunião da Mesa, que se aproximava, e para um último esforço para forçar uma alteração na política, uma nova atitude que reconheceria o crescente perigo da Primeira Fundação e alhures e que colocaria um fim na fiabilidade fatal no funcionamento “perfeito” do Plano. Quando eles perceberiam que essa mesma per feição era o sinal mais certo do perigo?

       Se qualquer um que não ele fizesse a proposição, teria passado sem problemas. Mas como as coisas estavam agora, haveria problemas, mas passaria do mesmo jeito, pois o velho Shandess o apoiava, e sem dúvida, continuaria a apoiar. Não queria entrar para os livros de história como aquele Primeiro Orador sob quem a Segunda Fundação fenecera.

       Hamish!

       Guendibal estava surpreso. Tomou consciência do distante fiapo de uma mente antes de ver a pessoa. Era uma mente Hamish - um lavrador - grosseira, nada sutil. Cuidadosamente Guendibal retraiu a sua, deixando um toque tão leve que não poderia ser detectado. A política da Segunda Fundação era muito firme quanto a este aspecto. Os lavradores eram os escudos inconscientes da Segunda Fundação. Deviam ficar tão intocados quanto possível.

       Ninguém que vinha a Trantor para negócios ou turismo jamais via algo além dos lavradores, e talvez mais alguns estudiosos sem importância, vivendo no passado. Removam-se os lavradores, ou meramente altere-se a sua inocência, e os estudiosos se tornariam mais conspícuos - com resultados catastróficos- (Era uma das demonstrações clássicas que os neófitos da Universidade deviam elaborar sozinhos. Os tremendos Desvios indicados pelo Radiante Primário quando as mentes dos lavradores eram mesmo levemente alteradas eram assombrosos.)

       Guendibal viu-o. Era um lavrador, certamente, Hamish até o cerne. Era quase uma caricatura do que um lavrador trantoriano deveria ser - alto e forte, pele bronzeada, vestido grosseiramente, braços expostos, cabelo escuro, olhos escuros, passos longos e deselegantes. Guendibal sentia como se pudesse cheirar o celeiro à volta dele. (Não os despreze, pensou. Prim Palver não desprezou fazer o papel de lavrador, quando isto foi necessário para seus planos. Mas que péssimo lavrador ele foi - baixo, gordo e flácido. Foi sua mente que impediu que a adolescente Arcádia o fizesse de tolo, não seu corpo.)

       O lavrador se aproximava dele, pisoteando a estrada, encarando-o abertamente - algo que aumentou a curiosidade de Guendibal. Nenhum homem ou mulher Hamish nunca o tinham olhado desse modo. Mesmo as crianças corriam para longe, e ficavam olhando, à distância.

       Guendibal não diminuiu seu passo. Haveria espaço bastante para passar pelo outro sem comentário nem olhar, e assim seria melhor. Determinou-se a ficar longe da mente do lavrador.

       Guendibal foi para um lado da estrada, mas o lavrador não deixou aquilo escapar. Parou, abriu bem as pernas, abriu os braços, para bloquear a passagem, e disse: - Hô! Océ é um dotô?

       Por mais que tentasse evitar, Guendibal não podia deixar de sentir uma onda de beligerância na mente que se aproximava. Parou. Seria impossível tentar passar sem conversação e isso seria, por si mesmo, uma tarefa cansativa. Acostumado como estava ao intercâmbio ligeiro e sutil de som e expressão, e pensamento e mentalidade que se combinavam para compor a comunicação entre os segundofundacionistas, era cansativo recorrer à combinação de palavras tão-somente. Era como levantar uma rocha com os braços e ombros, tendo uma alavanca bem à mão.

       Guendibal falou calmamente e com uma cuidadosa falta de emoção: - Sim, sou um estudioso, sim.

       - Hô! E claro que ocê é um dotô. Ou será qui tamo falando outra língua, agora? I eu num sei que ocê é um dôlis? - Inclinou a cabeça, zombeteiro. - Só pudia sê, baxínhu, branco, nariz impinádu...

       - O que quer de mim, hamish? - perguntou Guendibal, sem se comover.

       - Meu sobrenómi é Rufirant. E meu nómi é Karoll. - Seu sotaque tornou-se mais notavelmente Hamish. Seus “rr” ficaram mais guturais.

       - O que quer comigo, Karoll Rufirant?

       - I como ocê si chama, dotô?

       - Importa? Pode continuar a me chamar de “dotô”.

       - Si eu pregunto, importa que ocê respôndi, dotozinho improádu.

       - Está bem: meu nome é Stor Guendibal, e agora, vou tratar dos meus negócios.

       - I u qui são us seus negócio?

       Guendibal sentiu os cabelos se arrepiarem na sua nuca. Havia outras mentes presentes. Não precisava se voltar para saber que havia mais três hamish atrás dele. À distância, outros. O cheiro dos lavradores era forte.

       - Os meus negócios, Karoll Ruf’irant, certamente nada têm a ver com os seus.

       - É mému? - A voz de Rufirant se ergueu. - Ei, génti, ele diz qui us negócio dele num é cum a gente!

       Ouviram-se risadas atrás, e uma voz soou: - Tá certo, pruquê us negócio dele é fuçá us livro i si isfregá nus computadô, i isso num é coisa di hómi!

       - Seja o que for o meu negócio - disse Guendibal firmemente - vou indo tratar deles, agora.

       - I como é qui ocê vai fazé, dotô?

       - Passando por vocês.

       - Quê tentá? Num tem medo dus meu braço?

       - Seus e dos seus companheiros? Ou só você? - E Guendibal su bitamente caiu no grosseiro dialeto hamish: - ‘Tá cum médu di mi infrentá sozinho?

       Falando estritamente, não era adequado provocá-lo assim desta maneira, mas evitaria um ataque em massa, e isso sim é que deveria ser evitado, para não forçar uma indiscrição ainda maior de sua parte.

       E funcionou. A expressão de Rufirant mudou: - Eu áchu, seo livresco, que ocê é qui tá cum mêdu. Gente, ábri ala! Fica pra trais i dexa ele passá, prá vê si eu tó cum mêdu.

       Rufirant ergueu seus grandes braços e movimentou-os. Guendibal não temia a ciência pugilística do lavrador; havia porém sempre a chance de ser atingido por um golpe feliz.

       Guendibal aproximou-se cuidadosamente, trabalhando com delicadeza e rapidez na mente de Rufirant. Não muito, só um toque, sem poder ser sentido - mas o suficiente para retardar os reflexos de um crucial nada. Então para fora, e nas mentes de todos os outros, que agora se reuniam em maior número. A mente do Orador Guendibal disparava daqui para ali com virtuosismo, nunca descansando numa só mente o bastante para deixar uma marca, mas o suficiente para a detecção de algo que poderia vir a ser útil.

       Aproximou-se do lavrador como um gato, alerta, atento, e aliviado porque ninguém mais fez um movimento para interferir.

       Rufirant atacou de repente, mas Guendibal viu o golpe em sua mente antes que qualquer músculo começasse a contrair-se, e deu um passo para o lado. O golpe passou zunindo, por um fio. Mas Guendibal continuava de pé, inabalado. Houve um suspiro coletivo dos outros.

       Guendibal não fez sequer uma tentativa para aparar ou devolver um golpe. Seria difícil defender-se sem paralisar seu próprio braço, e devolver um golpe não adiantaria, pois o lavrador o suportaria sem problema.

       Podia manobrar com o homem como contra um touro, forçando- o a perder a pontaria. Isso serviria para abater sua moral, mais que a oposição direta.

       Investindo como um touro, e rugindo, Rufirant atacava. Guendibal estava pronto, e afastou-se rápido para um lado, apenas o suficiente para que o lavrador não conseguisse agarrá-lo. Mais uma investida. E mais um golpe perdido.

       Guendibal sentia a própria respiração começar a assobiar pelo seu nariz. O esforço físico era pequeno, mas o esforço mental de tentar controlar sem controlar era enormemente difícil. Ele não poderia agüentar muito tempo mais.

       E disse, tão calmamente quanto podia, golpeando levemente o mecanismo de depressão do medo de Rufirant, para despertar o mínimo possível o que certamente deveria ser o medo supersticioso do lavrador em relação aos eruditos: - Agora, vou tratar de meus negócios.

       O rosto de Rufirant ficou distorcido de raiva, mas por um mo mento, não se moveu. Guendibal podia sentir o seu pensamento. O pequeno erudito derretera - como que por magia. Guendibal podia sentir o medo do outro se elevar por um momento.

       Mas então o furor hamish subiu mais alto e afogou o medo.

       E Rufirant gritou: - Companheiro! O dotô é dançarino. Sarta na ponta dos pé e zomba da regra honesta dos hamish, de gorpe por gorpe. Agarra ele. Vamo trocá gorpe por gorpe, intão. Ele pódi dá u primêru, di lambuja, i eu, eu vã pur úrtimu.

       Guendibal localizou os espaços que ainda havia entre aqueles que agora o cercavam. Sua única chance era manter um daqueles espaços tempo bastante para poder passar no meio deles, e então correr, confiando em seu próprio fôlego e em sua capacidade para amortecer a vontade dos lavradores.

       Para a frente e para trás, ele negaceava, sua mente doendo de tanto esforço.

       Mas não adiantava. Havia muitos deles, e a necessidade de se ater às regras do comportamento trantoriano era uma férrea imposição.

       Sentiu mãos em seus braços. Foi agarrado.

       Poderia interferir com ao menos algumas daquelas mentes. Mas seria inaceitável, e sua carreira seria destruída. Mas sua vida - sua própria vida estava em risco.

       Como isto podia ter acontecido?

      

       A reunião da Mesa não estava completa.

       Não era costume esperar se qualquer Orador estivesse atrasado. Nem tampouco, pensou Shandess, a Mesa estava com disposição para esperar. Stor Guendibal era o mais jovem, e longe de estar cônscio o bastante deste fato. Agia como se a juventude fosse uma virtude por si só e a velhice uma questão de negligência da parte daqueles que deviam ter mais bom senso. Guendibal não era popular junto aos outros Oradores. Não era, para dizer a verdade, totalmente popular com o próprio Shandess. Mas, popularidade não era o que estava em questão aqui.

       Delora Delarmi interrompeu as divagações dele. Estava olhando para ele com seus grandes olhos azuis, seu rosto redondo - com seu costumeiro ar de inocência e amizade - mascarando uma mente aguçada (para todos, exceto os segundofundacionistas de seu nível), e ferocidade de concentração.

       Disse, sorrindo: - Primeiro Orador, vamos esperar mais? - A reunião não tinha sido ainda formalmente aberta, de modo que, falando estritamente, ela podia abrir uma conversação, muito embora um outro poderia ter esperado Shandess falar primeiro, pelo direito que lhe dava o título.

       Shandess olhou para ela de maneira pacificadora, a despeito da leve quebra de etiqueta: - Ordinariamente não esperaríamos, Oradora Delarmi, mas como a Mesa se reunirá precisamente para ouvir o Orador Guendibal, é adequado esticar um pouco o protocolo.

       - Onde está ele, Primeiro Orador?

       - Isso, Oradora Delarmi, eu não sei.

       Delarmi olhou à volta o retângulo de rostos. Havia o Primeiro Orador e o que deveriam ser outros onze Oradores. Só doze. Por cinco séculos, a Segunda Fundação tinha expandido seu poder e suas obrigações, mas todas as tentativas para expandir a Mesa além de doze tinham falhado.

       Eram doze após a morte de Seldon, quando o segundo Primeiro Orador (o próprio Seldon sempre fora considerado como o primeiro da linha) a estabelecera, e ainda eram doze.

       Por que doze? Aquele número se dividia facilmente em grupos de mesmo tamanho. Era pequeno o bastante para consultas como um todo, e grande o bastante para fazer trabalhos em subgrupos. Mais teria sido difícil de operar; menos, demasiado inflexível.

       Assim eram as explicações. Mas, de fato, ninguém sabia por que o número fora escolhido - ou por que deveria ficar imutável. Mas mesmo a Segunda Fundação poderia se tomar escrava da tradição.

       Levou para Delarmi apenas um momento para sua mente examinar a questão, ao olhar de rosto para rosto, de mente para mente, e então para o assento vazio - o assento do mais novo.

       Estava satisfeita ao não encontrar nenhuma simpatia para com Guendibal. O rapaz, ela sempre sentira, tinha todo o encanto de uma centopéia, e era melhor que fosse tratado como uma. Até agora, só sua capacidade e talento inquestionáveis impediram qualquer um de abertamente propor um julgamento para expulsão. (Só dois Oradores já tinham sofrido “impeachment” - mas não condenados - na sesqüimilenar história da Segunda Fundação.)

       O desprezo óbvio, entretanto, implicado por perder uma reunião da Mesa, era pior que qualquer ofensa, e Delarmi estava deliciada em perceber que a predisposição para um julgamento tinha-se adiantado pouco mais de um degrau.

       - Primeiro Orador, se o senhor não sabe do paradeiro do Orador Guendibal, eu ficaria encantada em dizer-lhe.

       - Sim, Oradora?

       - Quem dentre nós não sabe que este rapaz (não usou nenhum título honorífico ao falar dele, e foi algo que todos notaram, é claro) continuamente acha o que fazer entre os hamish? O que esses negócios poderão ser, eu não questiono, mas ele está com eles, agora, e sua preocupação com eles é claramente importante o suficiente para ter precedência sobre esta Mesa.

       - Acredito - disse um dos outros Oradores - que ele meramente caminha, ou corre, como uma forma de exercício físico -

       Delarmi sorriu mais uma vez. Ela gostava de sorrir. Não lhe custava nada. - A Universidade, a Biblioteca, o Palácio, e toda a região que os rodeia são nossas. É pequena, em comparação com o planeta todo, mas contém espaço o bastante, penso, para exercício físico. Primeiro Orador, podemos começar?

       O Primeiro Orador suspirou, dentro de si. Tinha todo o poder para manter a Mesa esperando - ou adiar a reunião até um momento em que Guendibal estivesse presente.

       Nenhum Primeiro Orador podia exercer seu cargo eficientemente, porém, sem ao menos o apoio passivo dos outros Oradores, e nunca era sensato irritá-los. Mesmo Prim Palver ocasionalmente fora forçado a alguma adulação para conseguir as coisas à sua maneira. Além do que, a ausência de Guendibal era perturbadora, mesmo para o Primeiro Orador. O jovem Orador poderia muito bem aprender que ele não era a personificação da lei.

       E agora, na qualidade de Primeiro Orador, com efeito, falou em primeiro lugar, dizendo: - Vamos começar. O Orador Guendibal apresentou algumas surpreendentes deduções a partir dos dados do Radiante Primário. Acredita existir alguma organização que está trabalhando para manter o Plano de Seldon mais eficazmente do que nós, e que assim o faz para cumprir seus próprios propósitos. À luz disto, antes de mais nada, precisamos saber mais, para nossa auto-defesa. Todos vocês já foram informados disto, e esta reunião é para permitir-lhes uma oportunidade de interrogar o Orador Guendibal para que possamos chegar a alguma conclusão quanto à nossa orientação futura.

       De fato, era desnecessário falar tanto. Shandess manteve sua mente aberta, de modo que todos ficaram sabendo. Falar era uma questão de cortesia.

       Delarmi olhou rapidamente á sua volta. Os outros dez pareciam contentes em lhe permitir tomar o papel de porta-voz anti-Guendibal: - No entanto, Guendibal - de novo a omissão do honorífico - não sabe, e não pode dizer o que ou quem essa organização é.

       A frase foi enunciada como uma afirmativa, roçando a fronteira da rudeza. Era tanto quanto dizer: posso analisar sua mente; não se dê ao trabalho de explicar.

       O Primeiro Orador reconheceu a rudeza e tomou a rápida decisão de ignorá-la. - O fato de o Orador Guendibal - pontilhisticamente evitou a omissão do honorífico e nem mesmo apontou o fato, sublinhando-o - não saber e não poder dizer o que a outra organização é, não significa que ela não exista. O povo da Primeira Fundação, através da maior parte de sua história, não sabia virtualmente nada a nosso respeito, e, de fato, sabe quase nada sobre nós, agora. E você questiona a nossa existência?

       - Não se segue - disse Delarmi - que por sermos desconhecidos e no entanto, existirmos, que qualquer coisa, para existir, só precise ser desconhecida - e riu-se um pouco.

       - É bem verdade. Por isso que a afirmação do Orador Guendibal deve ser examinada com muito cuidado. É baseada em rigorosa dedução matemática, que repassei eu mesmo e que insto todos vocês a considerar. Não deixa de ser - e procurou moldar a mente de maneira a melhor expressar suas opiniões - convincente.

       - E esse primeirofundacionista, Golan Trevize, que flutua por sua mente, mas que o senhor não mencionou? - Outra impolidez, e, agora, o Primeiro Orador corou um pouco. - O que há sobre ele?

       - É pensamento do Orador Guendibal que este homem, Trevize, é a ferramenta, quiçá involuntária, desta organização, e que não devemos ignorá-lo -

       - Se - disse Delarmi, reclinando-se em sua poltrona, e empurrando seu cabelo cinzento para trás, afastando-o de seus olhos - esta organização, o que quer que seja, existir, e se for perigosamente poderosa em suas habilidades mentais, e está tão escondida, será provável que tenha manobrado tão abertamente através de alguém tão conspícuo como um Conselheiro exilado da Primeira Fundação?

       - Não é crível - falou gravemente o Primeiro Orador. - No entanto, observei algo muito inquietante. Não compreendo. - Quase involuntariamente enterrou o pensamento, envergonhado de que os outros pudessem vê-lo.

       Cada um dos Oradores notou aquela ação mental e, como era rigorosamente exigido, respeitaram-no. Delarmi também, mas o fez com impaciência. Disse, de acordo com a fórmula de praxe: - Podemos pedir que o senhor nos deixe conhecer os seus pensamentos, pois que entendemos e perdoamos qualquer vergonha que o senhor possa sentir?

       - Como você, não vejo em que bases dever-se-ia supor que o Conselheiro Trevize seja uma ferrramenta da outra organização, ou a que propósito possivelmente poderia servir se o fosse. Mas o Orador Guendibal parece ter certeza disso, e não se pode ignorar o possível valor da intuição em qualquer um qualificado para ser Orador. Por tanto, tentei aplicar o Plano a Trevize.

       - A uma pessoa isolada? - disse um dos Oradores numa surpresa murmurada, e então indicou sua contrição de imediato, por ter acompanhado a pergunta com um pensamento que era o claro equivalente de: - Mas que idiota!

       - A uma só pessoa - confirmou o Primeiro Orador - e você tem razão. Que idiota eu sou! Sei muito bem que o Plano possivelmente é inaplicável a indivíduos, nem mesmo a pequenos grupos. Entretanto, eu estava curioso. Extrapolei as Interseções Interpessoais bem além dos limites razoáveis, mas o fiz de dezesseis diferentes maneiras e escolhi uma região, mais que um ponto. Então fiz uso de todos os pormenores que conhecemos sobre Trevize - um Conselheiro da Primeira Fundação não passa totalmente despercebido - e da Prefeita da Fundação. Então lancei tudo junto, de maneira um tanto precipitada, receio. - Fez uma pausa.

       - Bem? - quis saber Delarmi. - Acredito que o senhor ... Os resultados foram surpreendentes?

       - Não houve nenhum resultado, como todos poderiam esperar. Nada pode ser feito com um só indivíduo, no entanto... no entanto...

       - No entanto?

       - Já passei quarenta anos analisando resultados, e fiquei acostumado a obter uma clara sensação do que os resultados seriam antes de serem analisados - e raramente tenho me enganado. Neste caso, mesmo sem obter resultados, desenvolvi a forte sensação de que Guendibal estava certo e que Trevize não devia ser deixado à própria sorte.

       - E por que não, Primeiro Orador? - perguntou Delarmi, claramente assustada com a forte sensação na mente do Primeiro Orador.

       - Estou envergonhado por ter-me permitido a tentação de usar o Plano para um propósito para o qual não se destina. Estou ainda mais envergonhado agora, por permitir-me ser influenciado por algo que é puramente intuitivo. Mas preciso, pois esta sensação é demasiado forte. Se o Orador Guendibal estiver certo - se estivermos sob um perigo que vem de alguma direção - então sinto que quando vier o tempo em que nossos negócios estiverem em crise, será Trevize quem terá e vai jogar a carta decisiva.

       - Em que bases o senhor sente isso? - perguntou Delarmi, chocada.

       O Primeiro Orador Shandess olhou à roda da mesa, num estado de miséria: - Não tenho base nenhuma. A matemática psico-histórica nada fornece, mas à medida que observava o jogo das inter-relações, parecia-me que Trevize é a chave de tudo. Deve-se prestar atenção neste jovem.

 

       Guendibal sabia que não voltaria a tempo para a reunião da Mesa. Poderia mesmo ser que ele não mais voltasse de modo algum.

       Foi seguro firmemente e experimentava desesperadamente à sua volta qual a melhor maneira que podia conseguir para forçá-los a soltá-lo.

       Rufirant estava à frente dele, exultante. - Océ ti preparado, dotô? Gorpe por gorpe, soco por soco, à moda dos hamish. Intão, ocê é o menor; bate primero.

       Ao que Guendibal disse: - E arguém vai ti segurá, como a mim?

       E Rufirant disse: - Deixa ele. Nao, não. Só sorta us braço. Dexa os braço sorto, mas sigura bem as perna. Num quero qui ele dance.

       Guendibal achou-se pregado ao chão. Seus braços estavam livres.

       - Bate, dotã - disse Rufirant. - Dá um soco.

       E então a sonda da mente de Guendibal encontrou algo que respondia indignação, um senso de injustiça e piedade. Ele não tinha escolha; teria de correr o risco de reforçar descaradamente e depois improvisar com base em...

       Não havia necessidade! Nem mesmo tocara esta novamente, mas ela reagiu como ele queria. Precisamente.

       Ele subitamente tomou consciência de um pequeno vulto - atarracado, com cabelo negro longo e emaranhado, e braços estendidos para a frente - investindo para dentro de seu campo de visão e empurrando o lavrador hamish.

       O vulto era de mulher. Guendibal pensou amargamente que não tê-la notado até que seus olhos a identificassem, era uma medida de sua tensão e preocupação.

       - Karoll Rufirant! - ela gritou para o lavrador - , ocê é muito metido a valentão, e é um covarde! Gorpe por gorpe, à moda hamish? Océ é duas veis do tamanho do dotô. Vai corrê mais perigo atacando eu. Tem vantage batê nessa coisinha ai? Tem vergonha, isso sim. Todo mundo vai apontá o dedo e dizê: “Aquele é o Rufirant, famoso espancadô de criança”. Vão dá risada, eu acho, e nenhuma muié hamish decente vai bebê cum ocê - i nenhuma muié hamish decente vai querê ficá cum océ.

       Rufirant estava tentando deter aquela torrente, desviando os golpes que ela lhe dirigia, tentando fracamente responder e apaziguar:

       - Ora, carma, Sura!

       Guendibal percebia que as mãos não mais o agarravam, e que Rufirant não mais o fitava, e que as mentes de todos não mais estavam preocupadas com ele.

       Sura não estava preocupada com ele, tampouco; sua fúria estava unicamente concentrada em Rufirant. Guendibal, recuperando-se, agora procurava tomar medidas para manter aquela fúria viva e reforçar a vergonha incômoda que invadia a mente de Rufirant, e fazê-lo tão hábil e levemente de modo a não deixar marca. De novo, não houve necessidade.

       E a mulher disse: - Tudo ocêis: vai pra trais. Óia aqui. num basta qui esta montanha do Karoll aqui seja como um gigántï perto dêsti magrela? Pricisa tê mais cincu ou seis di oceis prá passá a mema vergonha i vortá prá fazenda cum a glória di batê em criança? Um vai dizê: “Eu segurei o braço do fracote”, e também: “O gigante do Rufirant ismagô a cara dele quandu ele num pudia respondê”. 1 otro vai dizê: “Mais eu também sigurei u pé dele, tamém merêçu elogiu”. 1 u grandi Rufirant vai dizé: - Eu num cunseguia agarrá ele, i us meu colega agarraro ele, e cum a ajuda di mais seis, fiz cum ele o qui eu bem intendi”.

       - Mais, Sura - fez Rufirant, quase gemendo - , eu disse pru dotô qui ele pudia dá u priméru soco.

       - I ocê ‘tava cum um bruto medo dus gorpe dus bracinho dele, né, Rufirant, seo cabeça dura. Vamo. Dexa ele ir prá onde ‘tava indo, e o resto di oceis pódi rastejá di vorta prá casa, si é qui oceis pódi sê bem-vindo nas suas casa. I é melhó isquecê as grândi coisa qui fizero nestí dia. Mais ninguém vai isquecé, pruqué eu vã espaiá elas, se oceis mi dexá mais nervosa qui eu já tô agora.

       E todos saíram quietamente, cabeças baixas, sem olhar para trás.

       Guendibal ficou olhando para eles, e de novo para a mulher. Ela estava vestida com uma blusa e calças, com sapatos grosseiros. Seu rosto estava molhado com suor e respirava pesadamente. Seu nariz era um pouco grande, seus seios, pesados (tanto quanto Guendibal podia avaliar através de sua blusa solta), e seus braços, descobertos, musculosos. Mas, afinal, a mulher hamish trabalhava nos campos, junto de seu homem.

       Ela olhava para ele séria, mãos na cintura: - Bem, dotô, prá quê ficá atrasado? Vai pro Lugá dus Dotã. ‘Tá cum medo? Qué qui eu ti acompanhe?

       Guendibal sentia o cheiro de suor naquelas roupas que claramente não eram lavadas há um bom tempo, mas naquelas circunstâncias seria muito descortês mostrar qualquer repugnância.

       - Agradeço-lhe, senhorita Sura...

       - O nómi é Novi... - ela interrompeu, resmungando. - Sura Novi. Pódi falá Novi. Num piicisa dizê u otro nómi.

       - Agradeço, Novi. Você pode ter-me ajudado bastante. É bem vinda para me fazer companhia, não porque eu tenha medo, mas por que sua companhia me dá prazer. - E inclinou-se graciosamente, como poderia tê-lo feito para uma das moças da Universidade -

       Novi enrubesceu, pareceu insegura, e então tentou imitar seu ges to.- O prazê... é todo meu - ela disse, como que procurando pelas palavras que mais adequadamente expressariam seu prazer, e para afetar um ar de cultura.

       Caminharam juntos. Guendibal sabia bem que cada passo à vontade o deixaria mais indesculpavelmente atrasado para a reunião da Mesa, mas agora, ele tinha uma chance de pensar no significado do que ocorrera, e estava friamente contente por se deixar atrasar.

       Os prédios da Universidade cresciam à frente deles, quando Sura Novi parou e disse, hesitante: - Seo dotô?

       Aparentemente, pensou Guendibal, à medida que ela se aproximava do que chamava o “Lugá dos Dotõ”, ia ficando mais polida. Ele teve um impulso momentâneo de dizer: “Ocê num qué falá cum este fracote?” - Mas isso a deixaria totalmente envergonhada.

       - O que é, Novi?

       - É tudo muito fino e rico, no Lugá dus Dotô?

       - É bonito - respondeu Guendibal.

       - Uma veis eu sonhei que ‘tava lá. 1. - - i qui eu era uma dotora.

       - Algum dia - falou Guendibal, polidamente - vou mostrar-lhe o lugar.

       O olhar que ela deu mostrou-lhe que ela não aceitou aquilo como mera polidez. Disse: - Eu sei iscrevê. Um professã primário mi insinô. Si eu ti iscrevê uma carta - e ela tentou mencionar isto casualmente -, cõsnu é qui eu iscrevo prá ela chegá até ocê?

       - Apenas escreva: “Casa dos Oradores, apartamento 27”, e ela chegará a mim. Mas, eu preciso ir, Novi.

       Inclinou-se de novo, e de novo ela tentou imitar o gesto. Foram-se em direções opostas e Guendibal prontamente a esqueceu. Pensou, ao invés, na reunião da Mesa e, em particular, na Oradora Delora Delarmi. E seus pensamentos não eram nada gentis.

 

Lavradora

       Os Oradores estavam sentados à volta da Mesa, congelados em seu escudo mental. Era como se todos - unanimemente - tivessem escondido suas mentes para evitar um irretratável insulto ao Primeiro Orador, após sua afirmação concernente a Trevize. Sub-repticiamente relanceavam para Delarmi e mesmo aquilo era revelador. De todos, ela é que era mais conhecida pela irreverência - mesmo Guendibal respeitava mais as convenções.

       Delarmi estava consciente dos olhares, e sabia que não tinha escolha senão encarar esta situação impossível. De fato, ela não queria se esquivar. Em toda a história da Segunda Fundação, nenhum Primeiro Orador jamais fora impedido por erro de análise (e por detrás do termo, inventado à guisa de fachada, estava a inominável incompetência). Tal impedimento agora tornava possível. E ela não daria um passo atrás, sequer.

       - Primeiro Orador! - E ela falou com seus lábios finos e incolores quase invisíveis, na brancura geral de seu rosto: - O senhor mesmo diz não ter base para sua opinião, e que a matemática psico-histórica nada mostra. O senhor nos pede uma decisão crucial sobre uma sensação mística?

       O Primeiro Orador ergueu o olhar, o rosto corrugado. Tinha consciência do escudo universal, à Mesa. Sabia o que significava. Disse friamente - Não oculto a falta de evidência. Não lhes apresento nada com falsidade, O que ofereço é a sensação fortemente intuitiva de um Primeiro Orador, um com décadas de experiência, que gastou quase o tempo de uma vida com uma análise estrita do Plano de Seldon. - Olhou à roda com uma orgulhosa rigidez que já apresentara antes, e com a qual os escudos mentais atenuaram-se e caíram. O de Delarmi (quando ele fitou-a) foi o último a cair.

       Ela disse com uma franqueza tranqüila que encheu sua mente como se nada mais houvesse ali jamais: -Aceito sua declaração, Primeiro Orador. Entretanto, acho que talvez o senhor queira reconsiderar. Tal como o senhor pensa agora, já tendo expressa sua vergonha em ter de recorrer à intuição, gostaria que suas observações fossem canceladas da gravação, caso, em julgamento, elas sejam...

       E a voz de Guendibal interrompeu: - O que são essas declarações que deveriam ser canceladas da gravação?

       Todos os pares de olhos se voltaram em uníssono. Se seus escudos não estivessem levantados durante aqueles cruciais momentos anteriores, teriam tido consciência de sua aproximação muito tempo antes de assomar à porta.

       -Todos os escudos erguidos, há um momento? Ninguém percebeu minha entrada? - disse Guendibal sardonicamente. - Que reunião mais rotineira da Mesa, a que temos aqui! Ninguém estava em guarda quanto à minha chegada? Ou todos esperavam com certeza que eu não viria?

       Esta explosão era uma violação flagrante de todas as normas. Para Guendibal, chegar tarde já era ruim o suficiente. Entrar sem ser anunciado, era ainda pior. Falar perante o Primeiro Orador antes que este reconhecesse sua presença, era o pior de tudo.

       O Primeiro Orador voltou-se para ele. Tudo o mais foi suplantado. A questão disciplinar vinha em primeiro lugar.

       - Orador Guendibal, o senhor está atrasado. Chegou sem se fazer anunciar. O senhor falou. Há alguma razão pela qual o senhor não deva ser suspenso de seu posto por trinta dias?

       - É claro. A moção pela suspensão não deve ser considerada até que consideremos quem se certificou de que eu deveria me atrasar - e por quê. - As palavras de Guendibal eram frias e comedidas, mas sua mente revestia seus pensamentos com raiva, e ele pouco se importava com quem os estivesse captando.

       E por certo que Delarmi os captava. Disse de maneira tensa: - Esse homem está louco.

       - Louco? Essa mulher é que está louca, ao dizer isso. Ou tem a consciência culpada - Primeiro Orador, dirijo-me especialmente ao senhor para propor uma questão de privilégio pessoal.

       - Privilégio pessoal de que natureza, Orador?

       - Primeiro Orador, acuso alguém aqui de tentativa de homicídio.

       A sala explodiu, com todos os Oradores levantando-se num bruaá simultâneo de palavra, expressão e estado mental.

       O Primeiro Orador levantou os braços, e gritou: - O Orador pré cisa ter uma chance de expressar sua questão de privilégio pessoal. - Viu-se obrigado a intensificar sua autoridade, mentalmente, de maneira muito imprópria para o lugar, mas não havia escolha.

       O tumulto aquietou-se.

       Guendibal esperou imóvel até que o silêncio fosse audível e mentalmente profundo. Disse: - A caminho para cá, caminhando ao longo de uma estrada hamish, a uma distância tal e a uma velocidade tal que facilmente garantiriam que eu chegasse bastante a tempo para a reunião, fui interpelado por vários lavradores e por pouco escapei de ser espancado, e talvez morto. Tal como aconteceu, fui retardado e cheguei neste exato momento. Permitam-me apontar, para começar, que não sei de nenhuma circunstância, desde o Grande Saque, que um segundofundacionista tenha sido interpelado com falta de respeito - muito menos atacado - por um dos hamish.

       - Tampouco eu - confirmou o Primeiro Orador.

       Delarmi interrompeu: - Os segundofundacionistas habitualmente não caminham sós em território hamish! Você os provoca com seu comportamento!

       - É verdade que habitualmente caminho só em território hamish. Já caminhei por lá centenas de vezes, em todas as direções. Mas nunca fui abordado antes. Outros não caminham com a mesma liberdade que eu, mas ninguém se exila do mundo ou se aprisiona na Universidade, e ninguém jamais foi abordado. Lembro-me de ocasiões em que Delarmi. . - e então, como se lembrando do honorífico muito tarde, deliberadamente converteu isso num verdadeiro insulto: - - Quero dizer, quando a Oradora Delarmi esteve em território hamish, vez ou outra, ela não foi abordada.

       - Talvez - respondeu Delarmi, com olhos arregalados e fixos - porque não me dirigi a eles, em primeiro lugar, e porque me mantive afastada. Porque me comportei como quem merece respeito, e o recebi.

       - Estranho, e eu estava para dizer que foi porque você apresentou um aspecto mais formidável que eu. Afinal, poucos se atrevem a se aproximar de você, mesmo aqui... Mas diga-me, por que, de todas as ocasiões para interferir, os hamish escolheriam este dia para se defrontarem comigo, quando devo apresentar-me numa importante reunião da Mesa?

       - Se não foi por seu comportamento, então deve ter sido por acaso - retrucou Delarmi. - Nunca ouvi dizer que mesmo toda a matemática de Seldon tenha removido o papel de acaso, da Galáxia; certamente não no caso de eventos individuais. Ou você também está falando a partir de inspiração intuicional? - E houve um suave suspiro mental de um ou dois dos Oradores, com este ataque indireto ao Primeiro Orador.

       - Não foi meu comportamento; não foi acaso. Foi interferência deliberada.

       - Como podemos ter certeza disso? - interpôs gentilmente o Primeiro Orador. Não podia evitar senão amolecer para Guendibal, em resultado da última observação de Delarmi.

       - Minha mente está aberta para o senhor, Primeiro Orador. Dou- lhe - e a toda a Mesa - minha memória dos eventos.

       A transferência não levou mais que alguns momentos. O Primeiro Orador disse: - Chocante! Você se comportou bem, Orador, sob circunstâncias de considerável pressão. Concordo que o comportamento hamish é anômalo e pede uma investigação. Entrementes, por favor, junte-se à nossa reunião. . -

       - Um momento! - intrometeu-se Delarmi. - Como podemos ter certeza de que o relato do Orador é acurado?

       As narinas de Guendibal expandiram-se com aquele insulto, mas reteve seu nível de compostura. - Minha mente está aberta.

       - Já conheci mentes abertas que não estavam abertas.

       - Não tenho dúvidas quanto a isso, Oradora, pois que você, como todos nós, deve manter a própria mente sob inspeção todo o tempo. Minha mente, porém, quando aberta, está aberta.

       Ao que disse o Primeiro Orador: - Não vamos ter outras...

       - Uma questão de privilégio pessoal, Primeiro Orador, com as desculpas pela interrupção - disse Delarmi.

       - Privilégio pessoal de que natureza, Oradora?

       - O Orador Guendibal acusou um de nós de tentativa de homicídio, presumivelmente instigando o lavrador a atacá-lo. Enquanto a acusação não for retirada, devo ser vista como a possível assassina, bem como todas as outras pessoas nesta sala, incluindo o senhor, Primeiro Orador -

       Disse o Primeiro Orador: - O senhor vai retirar a acusação, Ora dor Guendibal?

       Guendibal tomou seu assento e pousou as mãos nos braços da poltrona, agarrando-os com força, como para tomar posse dela, e disse:

       - Vou retirá-la, assim que alguém me explicar por que um lavrador hamish, reunindo vários outros, deliberadamente deveria se dispor a me atrasar a caminho desta reunião.

       - Por mil razões, quiçá - retorquiu o Primeiro Orador. - Repito que este evento será investigado. Agora, temporariamente, Orador Guendibal, e no interesse de continuar a presente discussão, quer retirar a sua acusação?

       - Não posso, Primeiro Orador. Gastei longos minutos tentando, tão delicadamente quanto podia, sondar a mente dele procurando maneiras de alterar seu comportamento sem causar dano, e falhei. Sua mente não tinha a flexibilidade que deveria ter. Suas emoções estavam fixas, como se por uma mente exterior.

       E Delarmi disse, com um súbito sorrisinho: - E você pensa que um de nós era a mente exterior? Não poderia ter sido a sua misteriosa organização que está competindo conosco, mais poderosa que nós?

       - Poderia.

       - Nesse caso, nós, que não somos membros dessa organização da qual só você sabe, não somos culpados, e você deveria retirar sua acusação. Ou será que você está acusando um de nós aqui de estar sob o controle desta estranha organização? Será que um de nós aqui não é bem o que parece ser?

       - Talvez - respondeu Guendibal, estolidamente, bem consciente de que Delarmi estava lhe dando corda, com um bom cabresto na ponta.

       - Poderia ser - continuou Delarmi, pegando o cabresto e preparando-se para apertá-lo - que você sonha com uma misteriosa organização, secreta, desconhecida, oculta, como um pesadelo de paranóia. Adequar-se-ia com sua fantasia paranóide de que lavradores hamish estão sendo influenciados, e que os Oradores estão sob um controle oculto. Estou disposta, porém, a seguir esta peculiar linha de pensamento por mais algum tempo. Qual de nós aqui, Orador Guendibal, o senhor acha que está sob controle? Poderia ser eu?

       - Não creio, Oradora. Se você estivesse tentando se livrar de mim, e de uma maneira tão indireta, não anunciaria tão abertamente sua aversão por mim.

       - Um engodo dentro do outro, talvez? - E Delarmi estava virtualmente ronronando. - Isso seria uma conclusão comum numa fantasia paranóide.

       - Assim poderia ser. Você tem mais experiência nesses assuntos do que eu.

       O Orador Lestim Gianni interrompeu, acaloradamente: - Escute aqui, Orador Guendibal, se o senhor está exonerando a Oradora Delarmi, está dirigindo suas acusações tanto mais fortemente ao resto de nós. Em que bases qualquer de nós desejaria retardar sua presença nesta reunião, quanto mais desejá-lo morto?

       Guendibal respondeu depressa, como se estivesse esperando por esta pergunta: - Quando entrei, o ponto em discussão era o cancelamento de declarações da gravação, declarações feitas pelo Primeiro Orador. Eu era o único Orador que não esteve em posição de ouvir tais observações. Deixem-me saber quais eram e acho que então lhes poderei dizer o motivo para me retardarem.

       E o Primeiro Orador disse: - Eu afirmei - e foi algo de que a Oradora Delarmi e outros tomaram como exceção - que eu decidira, com base em intuição e um uso altamente impróprio da matemática que todo o futuro do Plano pode repousar sobre o exilado da Primeira Fundação - Golan Trevize.

       Guendibal respondeu: - O que outros oradores podem pensar é lá com eles. De minha parte, concordo com esta hipótese. Trevize é a chave. Acho sua súbita expulsão pela Primeira Fundação demasiado peculiar para ser inocente.

       E Delarmi: - Você se importaria em dizer, Orador Guendibal, se Trevize está nas garras dessa misteriosa organização - ou se as pessoas que o exilaram, estão? Talvez tudo e todos estejam sob seu controle, exceto você e o Primeiro Orador, e eu, que você declarou que não estou controlada?

       - Esses desvarios não requerem resposta. Ao invés disto, deixe- me perguntar se há qualquer Orador aqui que gostaria de expressar concordância neste assunto com o Primeiro Orador e eu mesmo? Já leram, eu presumo, o tratamento matemático que eu, com a aprovação do Primeiro Orador, circulei entre vocês.

       Houve silêncio.

       - Repito meu pedido. Ninguém?

       De novo, o silëncio.

       - Primeiro Orador, agora o senhor tem o motivo para o meu atraso.

       - Enuncie-o explicitamente.

       - O senhor exprimiu a necessidade de cuidar de Trevize, esse primeiro-fundacionista. Representa uma iniciativa política importante, e se os Oradores leram meu tratamento, saberiam, de uma maneira geral, do que estava no ar. Se, não obstante, eles unanimemente discordaram do senhor - unanimemente - então, pela auto-limitação tradicional, o senhor ficaria incapacitado de ir adiante. Se mesmo um Orador o apoiasse, então o senhor estaria capacitado a implantar essa nova política.. Eu era um orador que o apoiaria, como qualquer um que lesse meu trabalho saberia, e era necessário que, a qualquer custo, eu fosse mantido longe da Mesa. Esse truque quase teve sucesso, mas agora estou aqui, e apóio o Primeiro Orador. Concordo com ele e ele pode, de acordo com a tradição, desprezar o acordo dos dez outros Oradores.

       Delarmi golpeou a mesa com o punho: - A implicação é que alguém sabia antecipadamente do que o Primeiro Orador aconselharia, sabia antecipadamente que o Orador Guendibal o apoiaria, e que todos os mais, não: enfim, que alguém sabia o que era impossível saber. Há também a implicação ulterior de que esta iniciativa não é do agrado da organização inspirada pela paranóia do Orador Guendibal, e que estão lutando para preveni-la, e que, portanto, um ou mais de nós está sob o controle daquela organização.

       - A implicação está aí - concordou Guendibal. - Sua análise é magistral.

       - A quem você acusa? - exclamou Delarrni.

       - A ninguém. Conclamo o Primeiro Orador para cuidar deste assunto. Está claro que há alguém em nossa organização que está trabalhando contra nós. Sugiro que todos os que estejam trabalhando para a Segunda Fundação passem por uma exaustiva análise mental. Todos, inclusive os Oradores. Inclusive eu mesmo - e o Primeiro Orador.

       A reunião da Mesa interrompeu-se numa confusão ainda maior e um tumulto maior que os que já estavam gravados.

       E quando o Primeiro Orador finalmente falou a frase de adiamento, Guendibal - sem falar com ninguém - dirigiu-se de volta para seu quarto. Sabia bem não ter um só amigo entre os Oradores, que mesmo qualquer apoio que o Primeiro Orador pudesse dar-lhe seria hesitante, na melhor das hipóteses.

       Ele não sabia dizer se temia por si mesmo ou se por toda a Segunda Fundação. O sabor da derrocada era amargo em sua boca.

      

       Guendibal não dormiu bem. Seus pensamentos de vigília e seus sonhos durante o sono eram igualmente sobre a querela com Delora Delarmi. Numa passagem de um sonho, houve mesmo uma confusão entre ela e o lavrador hamish, Rufirant, de modo que Guendibal encontrou-se encarando uma Delarmi desproporcional avançando sobre ele com punhos enormes e um doce sorriso, que revelava dentes aguçados como agulhas.

       Finalmente, ele acordou, mais tarde que o usual, sem nenhuma sensação de ter descansado, e com o zumbido do comunicador no criado-mudo funcionando em surdina. Virou-se, para descer a mão sobre o contato.

       - Sim? Quem é?

       - Orador! - A voz era a do vigia do térreo, num tom quase desrespeitoso. - Há uma visita que quer falar-lhe.

       - Visita? - Guendibal ligou sua agenda e a tela não mostrou nada à frente dele. Apertou o botão do relógio: eram 832 da manhã. Perguntou, um tanto entediado: - Mas quem é, em nome do tempo e do espaço?

       - Não quer dar o nome, Orador. - E então, com uma clara reprovação: - Um desses hamish, Orador. Veio a seu convite. - Esta última sentença foi dita com uma reprovação ainda mais evidente.

       - Mande esperar na sala de recepção até eu descer. Vai levar algum tempo.

       Guendibal não se apressou. Ao longo das abluções matinais, ele se perdia em pensamentos. Que alguém estava utilizando os hamish para atrapalhar seus movimentos, fazia sentido - mas ele gostaria de saber quem era esse alguém. E o que era essa nova intrusão dos hamish em seu próprio domicilio? Alguma espécie de armadilha complicada?

       Como, em nome de Seldon, um lavrador hamish entraria na Universidade? Que razão poderia apresentar? Que razão poderia ter, na realidade?

       Por um momento fugaz, Guendibal imaginava se deveria ir armado. Decidiu contra isto quase imediatamente, pois sentia-se desdenhosamente seguro de poder controlar qualquer lavrador isolado no terreno da Universidade, sem qualquer perigo para si mesmo - e sem qualquer indício de marcar inaceitavelmente uma mente hamish.

       Guendibal decidiu que tinha sido afetado demasiado fortemente pelo incidente com Karoll Rufirant, no dia anterior. Aliás, será que foi mesmo por causa do lavrador? Não mais sob a influência, talvez - de o que ou quem quer que fosse - ele poderia até mesmo ter vindo ter com Guendibal para se desculpar pelo que fizera, e preocupado com uma possível punição. Mas como Rufirant saberia aonde ir? Com quem falar?

       Guendibal foi resolutamente pelo corredor abaixo e entrou na sala de espera. Parou, estupefato, e então voltou-se para o funcionário, que fingia estar ocupado em seu cubículo de vidro.

       - Vigia, você não disse que a visita era uma mulher.

       E o vigia respondeu quietamente: - Orador, eu disse “um hamish”. O senhor não fez mais perguntas.

       - Informação mínima, vigia? Devo lembrar que essa é uma de suas características. - (E ele precisava verificar se o vigia era homem de Delarmi. E precisava se lembrar, doravante, de prestar atenção nos funcionários que o rodeavam. “Inferiores” que era demasiado fácil ignorar das alturas de seu recém-conquistado cargo de Orador).

       - Alguma das salas de conferência está disponível?

       - A de número 4 é a única disponível, Orador. Estará livre por três horas. - Relanceou brevemente para a mulher hamish, para Guendibal, com a mais total inocência.

       - Usaremos a de número 4, vigia, e aconselho-o a limitar seus pensamentos... Guendibal golpeou, não muito de leve, no escudo do funcionário, que não o ergueu depressa o bastante. Guendibal sabia muito bem que estava abaixo de sua dignidade impor-se a uma mente mais fraca, mas uma pessoa que era incapaz de escudar uma conjectura desagradável contra um superior deveria aprender a não mais se permitir isso. O funcionário ficaria com uma leve dor de cabeça por algumas horas. E era muito bem feito.

      

       O nome dela não lhe surgiu logo à mente, e Guendibal não estava com disposição de mergulhar mais fundo na memória. Ela mal podia esperar que ele se lembrasse, em qualquer caso.

       Ele disse, distraidamente: - Você é...

       - Eu só a Novi, professô dotô - disse ela, quase engasgando. - Meu primêru nómi é Sura, mas pódi mi chamá só di Novi.

       - Isso mesmo, Novi. Encontramo-nos ontem, agora me lembro. Não me esqueci que você veio em minha defesa. - Não conseguia se forçar a adotar a pronúncia hamish dentro da Universidade. - Agora, como você conseguiu chegar aqui?

       - Dotô, o sinhô disse qui eu pudia iscrevé uma carta. Ocê disse qui divia iscrevê: “Casa dos Oradores, Apartamento 27”. Eu mesma vim trazê ela, e mostrá u iscrito, eu mema qui iscrevi, dotô. - O que disse com uma espécie de orgulho. - Elis perguntaro: “Pra quem é êssi iscrito?” 1 eu ovi u seu nómi quando ocô falô cum aquêli vagabundo grandalhão du Ruflrant; intão eu disse qui era pru professô dotô Stor Guendibal.

       - E eles a deixaram passar, Novi, não pediram para ver a carta?

       - Eu ‘tava cum muito médu. Eu âchu qui êlis tivero pena de mim. Eu disse: “U dotô Guendibal mi primeteu mostrá o Lugá dus Dotã, i êlis sorriro. Um dêlis na porta disse pru ôtru: “1 num é só isso qui êli vai mostrá prá ela”. 1 êlis mi disséru prá ondi ir, i disséru prá num ir em ninhum ôtru lugá, ou eu seria ixpulsa na hora.

       Guendibal corou um pouco. Por Seldon! Se ele sentisse necessidade de se entreter com mulheres hamish, não seria de maneira tão aberta, e sua escolha seria feita mais seletivamente. Olhou para a mulher trantoriana com um abanar de cabeça interior.

       Ela parecia muito jovem, mais jovem talvez que a aparência que o trabalho duro lhe deu. Ela não podia ter mais de vinte e cinco anos, idade em que as mulheres hamish já costumavam estar casadas. Usava seus cabelos negros em tranças, o que significava que ela era solteira. Virgem, de fato, e ele não estava surpreso. Seu desempenho de ontem mostrara que ela tinha enormes talentos para megera e duvidou que seria fácil encontrar um homem hamish que se atreveria a suportar o jugo de sua língua e seu punho sempre pronto. Nem tampouco sua aparência tinha muito atrativo. Muito embora ela tivesse se dado a algum trabalho para se fazer apresentável, seu rosto era anguloso e comum, suas mãos vermelhas e nodosas. O que ele podia ver de sua figura parecia construído para resistência, mais que para a graça.

       Seu lábio inferior começou a tremer, sob aquele escrutínio. Ele sentiu o embaraço dela, e o medo, e sentiu pena. De fato, ontem ela fora de utilidade para ele, e isso era o que contava.

       Disse, numa tentativa de ser cordial e consolador: - Com que em tão você veio conhecer o... Lugar dos Doutores?

       Ela arregalou bem os olhos negros (que não deixavam de ser belos) e disse: - Dotô, u sinhô num si irrite cumigo, mas eu vim prá eu mema virá dotora

       - Você quer ser uma doutora? - Guendibal parecia atingido por um raio. -Minha boa mulher...

       Fez uma pausa. Como, por Trantor, podia-se explicar a uma lavradora completamente não-sofisticada o nível de inteligência, treinamento e energia requeridos para ser o que os trantorianos chamavam “um dotô”?

       Mas Sura Novi continuou, atrevidamente: - Sei lê i sei iscrevê. Já li lívrus intérus du comêçu ao fim, também. 1 eu quéru muito sê dotôra. Num quéru sé muié di fazendêru. Num sã gênti prá lavora. Num vã casá cum fazendêru, ou tê fílhu di fazendêru. - E, erguendo a cabeça, orgulhosamente: - Já fui pidida em casamento, muitas veis. 1 eu sempre dígu: “Nao”. Sô educada, mais dígu “não”.

       Guendibal podia ver muito claramente que ela mentia. Nunca fora pedida, mas manteve a expressão inalterada. - E o que você vai fazer da sua vida, se não se casar?

       Novi bateu na mesa com a palma da mão: - Vô sê dotora; num vô trabaiá na lavora di jeito ninhum.

       - E se eu não puder fazer de você uma doutora?

       - Intão, eu num só nada, i ispéru até morrê. Num sô nada na vida, si num fâ dotora.

       Por um momento, teve o impulso de sondar a mente dela e descobrir a extensão de sua motivação. Mas estaria errado fazê-lo. Um Orador não fica se divertindo passeando pelas mentes indefesas dos outros. Havia um código para a ciência e a técnica do controle mental - a mentálica - assim como para outras profissões. Ou deveria haver. (Subitamente lamentou ter atacado aquele funcionário).

       Disse então: - E por que não ser uma lavradora, Novi? - Com um pouco de manipulação, poderia fazê-la contente com isso, e manipular algum marmanjo hamish para ser feliz em casar-se com ela - e ela em casar-se com ele. Não faria mal algum. Seria até uma caridade.

       Mas era contra a lei, e assim sendo, impensável

       - Eu num quéru sê. Um pião é um cretino. Trabaia cos torrão de terra, i fica iguar a um torrão de terra. Si eu virá lavradora, viro torrão de terra, tamém. Num vai tê tempo prá lê i iscrevê, i eu vê is quecê cômu é. Minha cabeça - e levou a mão à têmpora - vai ficá amarga i podre. Não! Um dotô é diferénti, Pensativo! - Ela queria dizer com a palavra, Guendibal notou, “inteligente”, mais que “ponderado”

       - Um dotô vive cum us livru, i cum... cum... isqueci u nómi. - E fez um gesto como se fizesse uma vaga manipulação que nada significaria para Guendibal, se ele não tivesse as radiações da mente dela, para guiá-lo.

       - Microfilmes. Como você sabe sobre os microfilmes?

       - Nus livru, eu leio sobre muita coisa - disse ela, toda orgulhosa.

       Guendibal não podia reprimir mais o desejo de saber mais sobre ela. Esta hamish era inédita, nunca ouvira falar de nada assim. Os hamish nunca eram recrutados, mas se Novi fosse mais jovem, digamos, uns dez anos...

       Que desperdício! Ele, não a perturbaria; não a perturbaria minimamente, mas de que adiantava ser um Orador se não se podia observar mentes inusitadas, e aprender com elas?

       - Novi, quero que se sente aqui por um momento. Fique bem quietinha. Não diga nada. Nem pense em dizer algo. Só pense em dormir. Entendeu?

       O medo dela retomou imediatamente: - Pruquê priciso fazê íssu, dotô?

       - Porque quero pensar em como você poderia se tomar uma doutora.

       Afinal, não importava o que ela poderia ter lido, não havia maneira possível pela qual ela soubesse o que ser uma “doutora” realmente significasse. Portanto, era necessário descobrir o que ela pensava que era uma doutora

       Muito cuidadosamente, e com uma delicadeza infinita, ele sondou a mente dela; sondar sem, de fato, tocar - como pousar a mão numa superfície metálica polida sem deixar impressões digitais. Para ela, um doutor era alguém que estava sempre a ler livros. Não fazia a menor idéia de porque se liam livros. Para ela, ser doutora era fazer - segundo a imagem em sua mente - o mesmo trabalho que ela estava acostumada a fazer - apanhar coisas, carregar coisas, cozinhar, lavar, obedecer ordens - mas dentro da Universidade, onde havia muitos livros disponíveis e onde ela teria tempo para lê-los, e, muito vagamente, “ficar estudada”. O que resultava em seu desejo de ser uma serva - serva dele

       Guendibal fez uma carranca. Uma empregada hamish - e uma simplória, sem graça, sem educação, semi-analfabeta. Inimaginável. Ele simplesmente teria de desviá-la. Deveria haver alguma maneira de ajustar seus desejos de modo a fazê-la uma lavradora feliz, de alguma maneira que não deixasse marca, alguma maneira na qual nem Delarmi encontraria defeito.

       Ou será que ela tinha sido enviada por Delarmi? Será que tudo isto seria um plano complicado para atraí-lo a brincar com uma mente hamish, de modo que poderia ser apanhado e destituído?

       Ridículo. Ele estava em perigo de ficar paranóico. Em algum local da fiação simples de sua mente descomplicada, um nadinha das correntes mentais precisava ser desviado. Só precisaria de um empurrãozinho.

       Era contra a letra da lei, mas não faria mal, e ninguém jamais perceberia.

       Parou.

       Voltar. Voltar. Voltar.

       Pelo espaço! Quase o perdeu!

       Será que ele era vítima de uma ilusão?

       Não! Agora que sua atenção fora despertada, ele podia discernir claramente. Havia um minúsculo desarranjo - um desarranjo anormal. Mas era tão delicado, tão livre de ramificações.

       Guendibal emergiu da mente dela. - Novi!

       Seus olhos entraram em foco: - Sim, dotô?

       - Você pode trabalhar comigo, vou fazer de você uma doutora.

       Alegre, olhos acesos, ela ia respondendo: - Dotô...

       Ele percebeu instantaneamente. Ela ia jogar-se aos pés dele. Pôs as mãos nos ombros dela e a segurou. - Não se mova, Novi, fique onde está. Pare!

       Era o mesmo que falar com um animal semi-treinado. Quando viu que a ordem tinha penetrado, deixou-a estar. Percebeu os músculos fortes ao longo de seus braços.

       - Se você vai ser uma doutora, precisa se comportar como uma. Significa que você deverá estar sempre quieta, falar sempre baixo, e sempre fazer o que eu lhe disser. E precisa tentar aprender a falar como eu. Também vai precisar conhecer outros doutores. Não vai ficar com medo?

       - Num tenhu médu, dotô; si u sinhô ficá cumigo.

       - Estarei com você. Mas agora, primeiro... preciso arranjar-lhe um quarto, designar-lhe um lavatório, um lugar na sala de refeições, e roupas, também. Vai ter de usar roupas mais adequadas a uma dou tora, Novi

       - Isso é tudo o qui... - ela ia dizendo, desanimada.

       - Vamos arranjar outras.

       Estava claro que ele precisava arranjar uma mulher para providenciar roupas novas para Novi. Também precisaria de alguém para ensinar à hamish os rudimentos de higiene pessoal. Além do que, apesar de que as roupas que ela estava vestindo serem provavelmente o melhor de que ela dispunha, e que ela tinha se arrumado ao máximo, ainda emanava um odor levemente desagradável.

       E precisava certificar-se de que o relacionamento entre eles fosse entendido. Era um segredo de todos que os homens ( e as mulheres, também) da Segunda Fundação faziam incursões ocasionais entre os hamish, para seu entretenimento. Se não houvesse interferências com as mentes dos hamish, no processo, ninguém nem pensava em levantar objeções. O próprio Guendibal nunca havia se dedicado a isto, e gostava de pensar que era porque não sentia necessidade de sexo que pudesse ser mais grosseiro e de tempero mais forte do que o que era disponível na Universidade. As mulheres da Segunda Fundação podiam ser pálidas, em comparação com as hamish, mas eram limpas, e sua pele era suave.

       Mas mesmo que o assunto fosse mal.entendido e se torcesse o nariz para um Orador que não só se voltasse para os hamish, mas trouxesse um deles para seus aposentos, teria de agüentar aquele embaraço. Tal como era, esta lavradora, Sura Novi, era a sua chave para a vitória no inevitável duelo que se aproximava com a Oradora Delarmi, e o resto da Mesa.

      

       Guendibal não viu Novi senão na hora do jantar, quando ela lhe foi levada pela mulher a quem ele dera explicações sem.fim sobre a situação - pelo menos, sobre o caráter não-sexual da situação. Ela entendeu - ou, pelo menos, não se atreveu a mostrar qualquer indicação de incapacidade de entender, o que talvez fosse igualmente bom.

       Novi estava agora à frente dele, tímida, orgulhosa, embaraçada, triunfante tudo ao mesmo tempo, numa mistura incongruente.

       - Você está muito bem, Novi.

       As roupas que lhe deram caíam surpreendentemente bem, e não havia dúvida que ela não parecia nem um pouco ridícula. Será que tinham apertado sua cintura? Levantaram seus seios? Ou será que tudo isso apenas não era particularmente notável em suas roupas de camponesa?

       Suas nádegas eram proeminentes, mas não desagradavelmente. Seu rosto, claro, continuava o mesmo, mas quando o tom da vida ao ar livre desaparecesse, e ela aprendesse a cuidar de seu aspecto, não pareceria feio.

       Pelo Antigo Império! Aquela mulher realmente pensava que Novi passaria a ser sua amante! E tinha procurado embelezá-la para ele.

       E então, pensou. - Bem, e por que não?

       Novi teria de enfrentar a Mesa dos Oradores, e quanto mais atraente parecesse, mais facilmente poderia impor sua opinião.

       Foi com este pensamento que a mensagem do Primeiro Orador chegou até ele. Era o tipo de harmonia comum numa sociedade mentálica. Era chamada, mais ou menos informalmente, o “Efeito Coincidência”. Se você pensa vagamente em alguém, quando alguém está pensando vagamente em você, há um estímulo mútuo e crescente, que em questão de segundos faz os dois pensamentos nítidos, decididos, e, para todas as aparências, simultâneos.

       Pode ser surpreendente, mesmo para aqueles que o entendem intelectualmente, particularmente se os pensamentos vagos preliminares forem muito apagados - de um lado ou do outro (ou de ambos) - a ponto de terem passado despercebidos conscientemente.

       - Não poderei estar com você esta noite, Novi. Tenho trabalho de doutor para fazer. Vou levá-la a seu quarto. Haverá alguns livros, lá, e você pode praticar a sua leitura. Vou mostrar-lhe como dar sinal se precisar de ajuda para qualquer coisa - vejo-a amanhã.

      

       Guendibal disse polidamente: - Primeiro Orador?

       Shandess meramente inclinou a cabeça. Parecia sorumbático, e com todo o peso de sua idade. Parecia um homem que não bebia, mas que de vez em quando podia tomar uma dose mais forte. Disse, por fim: - “Chamei” você...

       - Sem mensageiro. Presumi, pelo “chamado”direto, que era algo importante.

       - E é. Sua presa... O primeiro-fundacionista... Trevize...

       - Sim?

       - Ele não está vindo para Trantor.

       Guendibal não pareceu surpreso. - E por que deveria? A informação que recebemos foi que ele ia partir com um professor de história antiga, que estava à busca da Terra.

       - Sim, o Planeta Primitivo das lendas. E é por isso que ele deveria estar vindo para Trantor Afinal de contas, o professor sabe onde é a Terra? Você sabe? Eu sei? Podemos ter certeza de que sequer existe, ou se jamais existiu? Certamente eles teriam de vir a esta Biblioteca para obter a informação necessária. Se é que pode ser obtida em algum lugar, é aqui. Até esta hora, não senti a situação chegar ao nível de uma crise - que o primeiro-fundacionista viria aqui e nós, através dele, aprenderíamos o que precisássemos saber.

       - Que certamente seria a razão pela qual não lhe é permitido vir aqui.

       - Mas onde ele está indo, afinal de contas?

       - Pelo que sei, ainda não descobrimos.

       O Primeiro Orador falou, um pouco irritado: --Você parece estar muito calmo.

       - Imagino se não é melhor assim. O senhor quer que ele venha a Trantor para mantê-lo seguro e usá-lo como fonte de informações. Porém nós não forneceríamos uma fonte de informação mais importante, envolvendo outros ainda mais importantes que ele mesmo, se ele for onde quiser e fizer o que quiser, desde que não o percamos de vista?

       - Não o bastante! Você me persuadiu da existência desse nosso novo inimigo, e agora não posso descansar. Pior: persuadi a mim mesmo que precisamos segurar Trevize, ou perdemos tudo. Não posso me livrar da sensação de que ele - e nada mais - é a chave.

       Guendibal respondeu, intensamente: - O que quer que aconteça, não vamos perder, Primeiro Orador. Isso só seria possível se esses Anti-Mulas, para usar de novo o seu termo, continuassem a se esconder no subterrâneo, despercebidos de nós. Mas agora, sabemos que eles existem. Não mais estamos trabalhando às cegas. Na próxima reunião da Mesa, se pudermos trabalhar juntos, poderemos contra-atacar.

       - Não foi a questão de Trevize que me fez chamá-lo. O assunto apareceu primeiro só porque me parece uma derrota pessoal. Deixei de analisar esse aspecto da situação. Estava errado em colocar o impulso pessoal acima da política geral, e penitencio-me por isso. E há ainda algo mais.

       - Ainda mais sério, Primeiro Orador?

       - Mais sério, Orador Guendibal. - O Primeiro Orador suspirou e tamborilou seus dedos sobre a mesa enquanto Guendibal ficava de pé pacientemente à sua frente, e esperava.

       O Primeiro Orador finalmente disse, de modo afável, como se isso atenuasse o golpe: - Numa reunião de emergência da Mesa, convocada pela Oradora Delarmi...

       - Sem o seu consentimento, Primeiro Orador?

       - Para o que ela queria, precisava do consentimento de apenas três outros oradores, sem contar a mim. Na reunião de emergência que então foi convocada, o senhor foi impedido, Orador Guendibal. Foi acusado de ser indigno do posto de Orador, e deve ser julgado. É a primeira vez em mais de três séculos que um mandato de impedimento é expedido contra um Orador.

       Guendibal retrucou, tentando combater qualquer sinal de fúria:

       - Certamente, o senhor mesmo não votou pelo meu “impeachment”.

       - Não, mas fiquei sozinho. O resto da Mesa foi unânime, e a votação foi de dez a um pelo “impeachment”. O quorum para “impeachment”, como você sabe, é de oito votos, incluindo o Primeiro Orador, ou dez sem ele.

       - Mas eu não estava presente.

       - Você não poderia ter votado.

       - Poderia ter falado em minha defesa.

       - Não naquela altura. Os precedentes são poucos, mas bem claros. Sua defesa será no julgamento, que virá o mais cedo possível, naturalmente.

       Guendibal baixou a cabeça, meditando. - Isto não me preocupa demasiado, Primeiro Orador. Seu instinto inicial, eu creio, estava certo. A questão de Trevize tem precedência. Posso sugerir que adie o julga mento com base nisso?

       O Primeiro Orador ergueu a mão: - Não o culpo por não entender a situação, Orador. O “impeachment” é um evento tão raro que eu mesmo fui forçado a consultar os procedimentos legais envolvidos. Nada tem precedência sobre ele. Somos forçados a nos mover diretamente para o julgamento, adiando tudo o mais.

       Guendibal pousou os punhos sobre a mesa e inclinou-se para o Primeiro Orador: - O senhor não está falando sério.

       - É a lei.

       - A lei não pode ficar no caminho de um perigo claro e imediato.

       - Para a Mesa, Orador Guendibal, você é o perigo claro e imediato. Não, ouça-me! A lei envolvida neste caso baseia-se na convicção de que nada pode ser mais importante que a possibilidade de corrupção ou o mau uso do poder de parte de um Orador.

       - Mas não sou culpado de nenhuma dessas coisas,Orador, e o senhor o sabe. Isto tudo é uma questão de vingança pessoal de parte da Oradora Delarmi. Se há algum abuso do poder, é de parte dela. Meu crime é nunca ter trabalhado para me fazer popular - até aqui, eu admito - e dei muito pouca atenção a imbecis que são velhos o bastante para serem senis, mas ainda jovens o bastante para deterem o poder.

       - Como eu, Orador?

       Guendibal suspirou. - Está vendo? Fiz de novo. Não me refiro ao senhor, Primeiro Orador. - Muito bem, então: vamos fazer um julga mento relâmpago. Vamos fazê-lo amanhã. Ainda melhor: esta noite! Vamos acabar com ele e passar à questão de Trevize. Não podemos nos atrever a esperar.

       - Orador Guendibal, não acho que o senhor compreende a situação. Já tivemos “impeachments” antes - não muitos, só dois. Nenhum deles resultou em condenação. Você, porém, será condenado! Você não mais será membro da Mesa e não mais terá palavra nos assuntos políticos. De fato, nem mesmo terá voto na reunião anual da Assembléia.

       - E o senhor não vai fazer nada para evitar isso?

       - Não posso. Eu seria vencido unanimemente na votação. Então seria forçado a pedir demissão, o que penso que é o que os Oradores gostariam de ver.

       - E Delarmi se tornaria Primeira Oradora?

       - Isso certamente é uma forte possibilidade.

       - Mas não devemos deixar que isso aconteça!

       - Exatamente! É por isso que terei de votar por sua condenação.

       Guendibal suspirou fundo. - Ainda peço um julgamento-relâmpago.

       - Você deve ter tempo para preparar sua defesa.

       - Que defesa? Eles não ouvirão defesa nenhuma. Julgamento-relâmpago!

       - A Mesa deve ter tempo para preparar a acusação dela.

       - Não prepararão acusação nenhuma, e nem vão querer preparar nada. De fato, preferirão condenar-me amanhã do que depois de amanhã - e hoje à noite, mais que amanhã. Sugira isso para eles.

       O Primeiro Orador levantou-se. Defrontaram-se um ao outro por sobre a mesa. Disse: - Por que está com tamanha pressa?

       - Essa questão do Trevize não pode esperar.

       - Uma vez você condenado e eu enfraquecido perante uma Mesa unida contra mim, o que se terá conseguido?

       Guendibal disse, num sussurro intenso. - Não tema! A despeito de tudo, não serei condenado.

      

Hiperespaço

       - Está pronto, Janov?

       Pelorat ergueu os olhos do livro a que estava assistindo: - Você quer dizer, para o Salto, meu velho?

       - É, para o Salto hiperespacial, sim.

       Pelorat engoliu em seco: - Você tem mesmo certeza que não será desconfortável de maneira alguma? Eu sei que é uma coisa boba esse receio, mas o pensamento de ter a mim mesmo reduzido a táquions incorpóreos, que nunca ninguém jamais viu ou detectou...

       - Ora, vamos, Janov, é uma coisa já aperfeiçoada. Palavra de honra! O Salto tem estado em uso há vinte e dois mil anos, como você mesmo explicou, e nunca ouvi falar sequer de uma morte no hiperespaço. Poderíamos sair do hiperespaço num lugar desconfortável, mas então o acidente aconteceria no espaço - e não enquanto somos compostos de táquions.

       - Triste consolo, é o que me parece.

       - Não vamos cair em erro, tampouco. Para lhe dizer a verdade, eu estava pensando em fazer a coisa sem lhe contar, de modo que você nunca soubesse o que estava acontecendo. Afinal de contas, acabei pensando que seria melhor que você passasse conscientemente pela experiência, para ver que não havia problema de qualquer tipo, e poderia doravante esquecer qualquer preocupação a respeito.

       - Bem - ia respondendo Pelorat, ainda em dúvida. - Suponho que você esteja certo, mas honestamente, não tenho pressa nenhuma.

       - Posso garantir-lhe que...

       - Não, não, meu velho; aceito suas garantias inequivocamente. É apenas que... Você já leu Santerestil Mau?

       - Claro; não sou nenhum iletrado.

       - Certamente, certamente. Eu nem deveria ter perguntado. Lembra-se bem dele?

       - Tampouco sou amnésico.

       - Pareço ter o talento para ofender as pessoas. Tudo o que quero dizer é que fico pensando nas cenas em que Santerestil e seu amigo Ban fugiram do Planeta 17 e estão perdidos no espaço. Fico pensando naquelas cenas perfeitamente hipnóticas em meio às estrelas, movendo-me preguiçosamente, num profundo silêncio, tudo inalterável... Nunca acreditei na história, sabe? Gostei muito dela, e fiquei comovido, mas nunca acreditei nela. Mas agora... depois que me acostumei com a noção de estar no espaço, estou experimentando aquilo e... é bobagem, eu sei, mas não quero desistir. É como se eu fosse Santerestil.

       - E eu sou Ban - interrompeu Trevize, com um pouquinho de impaciência.

       - De certa forma, O pequeno aglomerado de estrelinhas lá fora está imóvel, exceto nosso sol, é claro, que deve estar encolhendo, mas nós não percebemos. A Galáxia conserva sua pálida majestade inalterável. O espaço é silencioso e eu não tenho distrações.

       - Exceto eu.

       - Exceto você. Mas aí, Golan, meu caro amigo, falar-lhe sobre a Terra e tentar ensinar-lhe um pouco sobre pré-história tem seus prazeres, também. E eu tampouco quero que isso chegue a um fim.

       - E não vai. Não de imediato, de qualquer forma. Você não supõe que vamos dar o Salto e vamos chegar na superfície de um planeta, não é? Ainda estaremos no espaço, e o Salto não terá levado nenhum tempo mensurável. Poderá bem se passar toda uma semana antes de chegarmos a qualquer superfície; portanto, relaxe.

       - Por superfície, você não quer dizer Gaia. Poderemos estar perto de lugar algum quando sairmos do Salto.

       - Eu sei disso, Janov, mas estaremos no setor certo, se sua informação está correta. Se não estiver, então...

       Pelorat abanou a cabeça, sombriamente: - Como pode ajudar estar no setor certo, se não soubermos das coordenadas de Gaia?

       - Janov, suponha que você está em Terminus, rumando para a cidade de Argiropol, sem saber onde é essa cidade, exceto que está em algum lugar do istmo. Uma vez no istmo, o que faria?

       Pelorat esperou cuidadosamente, como sentindo alguma resposta terrivelmente sofisticada que tivesse que encontrar. Finalmente desistindo: - Suponho que teria de perguntar a alguém.

       - Exatamente! O que mais haveria para fazer? Está pronto?

       - Você quer dizer, agora? - Pelorat levantou-se depressa, seu rosto agradavelmente desprovido de emoções agora chegando tão perto quanto podia da preocupação. - O que devo fazer? Sentar? Ficar de pé? O quê?

       - Mas, pelo tempo e pelo espaço, Pelorat! Não precisa fazer nada! Apenas venha para meu quarto, de modo que eu possa usar o computador, e então fique de pé ou sentado, ou dê umas cambalhotas - o que quer que o deixe confortável. Minha sugestão é que você se sente à frente da visitela e fique olhando. Estou certo de que será interessante. Venha!

       Foram pelo curto corredor até o quarto de Trevize e ele mesmo sentou-se perante o computador. - Quer fazer o Salto, Janov? - perguntou, de abrupto. - Eu lhe dou os números, e você pensa neles, O computador vai fazer o resto.

       - Não, obrigado, O computador não funciona bem comigo, não sei por quê. Você já disse que é preciso praticar, mas não acredito nisso. Há algo a respeito de sua mente, Golan...

       - Não seja tolo.

       - Não, não! Aquele computador parece feito de encomenda para você. Você e ele parecem um só organismo, quando estão ligados. Quando eu estou ligado, há dois objetos envolvidos: .Janov Pelorat e o computador. Não é a mesma coisa.

       - Ridículo - respondeu Trevize, mas ficou vagamente orgulhoso com o pensamento e tocou os descansos para as mãos, do computador, com dedos amorosos.

       - Assim sendo, prefiro olhar, isto é, acho que nada de mais aconteceria, mas prefiro ficar olhando. - Fixou os olhos ansiosamente na visitela, e na nebulosa com o fino pó de estrelas. - Avise-me quando estiver para acontecer. - Lentamente, ele se apoiou contra a parede e se segurou.

       Trevize sorriu. Pousou as mãos nos descansos, e sentiu a união mental. Vinha a cada dia com mais facilidade, e mais intimamente, também, e mesmo que zombasse do que Pelorat dissera, de fato era o que sentia. Parecia-lhe mal precisar pensar nas coordenadas de qual quer maneira consciente. Quase parecia que o computador sabia o que ele queria, sem o processo consciente de “dizer”. Retirava a informação de seu cérebro, sozinho.

       Mas Trevize lhe “disse” e então pediu um intervalo de dois minutos antes do Salto.

       - Muito bem, .Janov, temos dois minutos: 120 - 115 - 110 - Fique olhando a visitela.

       E foi o que Pelorat fez, com os cantos da boca levemente tensos, e segurando o fôlego.

       Trevize ia dizendo, em voz baixa: 15 - 10-5 -4 -2 - 1 - Sem movimento perceptível, sem sensação perceptível, a vista na tela mudou. Houve um espessamento distinto do campo de estrelas, e a Galáxia desapareceu.

       Pelorat assustou-se e disse: - O que foi aquilo?

       - O que foi o quê? Você se encolheu, mas foi porque quis. Não sentiu nada; vamos, reconheça!

       - Está bem, reconheço.

       - Então é isso mesmo. Quando a viagem hiperespacial era relativamente nova, num passado distante, de acordo com os livros, havia uma sensação interior esquisita, e algumas pessoas sentiam tonturas ou náusea. Talvez fosse psicogênico, talvez não. Em qualquer caso, com mais e mais experiência com a hiperespacialidade, e com melhor equipamento, isso diminuiu. Com um computador como este a bordo, qualquer efeito está bem abaixo do limiar de sensação. Pelo menos, é o que penso.

       - E eu também, devo admitir. Onde estamos, Golan?

       - Apenas um passo à frente. Na região kalganiana. Há ainda um longo caminho a percorrer, e antes de fazermos um outro movimento, precisaremos aferir a precisão do Salto.

       - O que me incomoda é... onde está a Galáxia?

       - À nossa volta, Janov. Estamos bem dentro dela, agora. Se focalizarmos adequadamente a visitela, poderemos ver suas partes mais distantes como uma faixa luminosa através do céu.

       - A Via-láctea! - Pelorat exclamou com alegria. - Quase todos os mundos a descrevem em seu céu, mas é algo que não vemos em Terminus. Mostre-a para mim, velho amigo!

       A visitela girou o seu campo, dando o efeito de uma ondulação nas estrelas a atravessá-la, e então apareceu uma luminosidade espessa, de pérola, quase enchendo o campo visual. A tela deu uma panorâmica, com a Via-láctea adelgaçando-se, e depois engrossando.

       Disse Trevize: - É mais espessa na direção do centro da Galáxia. Não tão espessa ou luminosa quanto poderia ser, quiçá, por causa das nuvens escuras nos braços espirais. Vê-se algo assim da maioria dos mundos habitados.

       - E da Terra, também.

       - Isso não a distinguiria. Essa característica não a identificaria.

       - É claro que não. Mas você sabe...Você não estudou a história da ciência, não é?

       - Não muito, muito embora li alguma coisa, é claro. Ainda assim, se você tem perguntas a fazer, não espere que eu seja um entendido no assunto.

       - É só que fazer este Salto trouxe-me à mente algo que sempre me intrigou. É possível elaborar uma visão do Universo em que a viagem hiperespacial é impossível, e em que a velocidade da luz no vácuo é a máxima absoluta.

       - Por certo que sim.

       - Sob estas condições, a geometria do Universo é tal que é impossível fazer a viagem que acabamos de fazer em menos tempo que um raio de luz levaria. E se a fizéssemos à velocidade da luz, nossa experiência de duração não mais coincidiria com a do Universo em geral. Se este lugar está a, digamos, quarenta parsecs de Terminus, se tivéssemos chegado aqui à velocidade da luz, não teríamos sentido o lapso de tempo - mas em Terminus e em toda a Galáxia, ter-se-iam passado cento e trinta anos, Agora, fizemos uma viagem, não à velocidade da luz, mas a milhares de vezes a velocidade da luz, na verdade, e não houve adiantamento do tempo em lugar nenhum. Pelo menos, eu espero que não.

       Ao que respondeu Trevize: - Não espere que eu lhe dê a matemática da Teoria Hiperespacial de Olanjen. Tudo o que posso dizer é que se você tivesse viajado à velocidade da luz, dentro do espaço normal, o tempo de fato teria avançado à razão de 3,26 anos por parsec, tal como você descreveu, O assim chamado “Universo relativista”, que a humanidade entendeu tanto quanto podemos sondar a pré-história - muito embora esse seja o seu departamento, eu creio - continua válido, e suas leis não foram rejeitadas. Em nossos Saltos hiper-espaciais, porém, fazemos algo dentro das condições em que a relatividade funciona e as regras são diferentes. Hiperespacialmente, a Galáxia é um objeto pequeno - idealmente um ponto não-dimensional onde não pode haver efeito relativista algum.

       - De fato, nas formulações matemáticas da cosmologia, há dois símbolos para a Galáxia: G para a “Galáxia relativista”, onde a velocidade da luz é a máxima, e G para a “Galáxia hiperespacial”, onde a velocidade realmente não tem significado. Hiperespacialmente, o valor de toda velocidade é zero, e não nos movemos; em relação ao espaço propriamente dito, a velocidade é infinita. Não posso explicar as coisas nem um pouco além disto.

       - Ah, sim: exceto que uma das lindas armadilhas da física teórica é colocar um símbolo ou um valor que tenha significado em numa equação que trata com G - ou vice-versa - deixando-o lá para que algum estudante calcule. As chances são enormes de que o estudante caia na armadilha e geralmente fica lá, suando e perdendo o fôlego, nada parecendo dar certo, até que algum veterano bondoso o ajude a sair dessa. Quase fui apanhado assim, uma vez.

       Pelorat considerou isto gravemente por algum tempo, e então disse, quase perplexo: - Mas qual é a verdadeira Galáxia?

       - As duas, dependendo do que você está fazendo. Se você está lá em Terminus, pode usar um carro para cobrir distâncias terrestres e um navio para cruzar uma distância pelo mar. As condições são diferentes em cada caso e, assim, qual é o verdadeiro Terminus, terra ou mar?

       Pelorat concordou: - As analogias são sempre arriscadas, mas eu prefiro aceitar essa ao invés de arriscar minha saúde mental pensando ainda mais sobre o hiperespaço. Vou me concentrar só no que me ocupa por hora.

       Considere o que acabamos de fazer - disse Trevize - como nossa primeira parada rumo à Terra.

       E, pensou consigo mesmo, rumo a sabe-se lá o quê mais.

      

       - Bem disse Trevize. - Perdi um dia.

       - Hã? - Pelorat ergueu os olhos de sua cuidadosa indexação. - De que maneira?

       Trevize abriu os braços: - Não confiei no computador. Não me atrevi a fazê-lo, de modo que conferi nossa posição atual com a posição que visamos com o Salto. A diferença não é mensurável. Não houve erro detectável.

       - E isso é bom, não é?

       - É mais do que bom: é inacreditável! Nunca ouvi falar de tal coisa. Passei por muitos Saltos, e os dirigi, de todas as maneiras e com todo tipo de equipamento. Na escola, tive de calcular um com um computador manual e então enviar um hiper-relê para conferir os resultados. Naturalmente, eu não podia enviar uma nave de verdade, pois além da despesa, eu poderia facilmente colocá-la no meio de uma estrela, lá do outro lado.

       - Nunca fiz nada tão errado, é claro - continuou Trevize -, mas sempre havia um erro considerável. Sempre há algum erro, mesmo com os especialistas. Precisa haver, pois há sempre tantas variáveis. Pense o seguinte: a geometria do espaço é complicada demais para se manipular e o hiperespaço compõe todas essas complicações com uma complexidade toda própria que não podemos presumir que entendemos. Por isso que precisamos ir passo a passo, ao invés de fazer um só grande Salto, daqui até Sayshell. Os erros ficariam cada vez piores com a distância.

       - Mas você disse que este computador não errava - falou Pelorat.

       - Ele disse que não errava. Eu ordenei.lhe que conferisse nossa posição atual contra nossa posição pré-calculada - “o que é” contra “o que foi pedido”. E ele disse que as duas eram idênticas dentro de seus limites de medição, e eu pensei: “E se ele estiver mentindo?”

       Até aquele momento, Pelorat estivera segurando sua impressora na mão. Agora largou-a, parecendo abalado: - Está brincando? Um computador não pode mentir. A menos que você pensou que ele estaria defeituoso.

       - Não, não é isso o que pensei. Pelo espaço! Eu pensei mesmo que ele estava mentindo! Este computador é tão avançado que não posso pensar nele senão como humano - supra-humano, quiçá. Humano o bastante para ter orgulho - e, quem sabe, mentir. Dei-lhe instruções - elaborar um curso pelo hiperespaço rumo a uma posição próxima do Planeta Sayshell, capital da União de Sayshell. Ele o fez, e mapeou um curso em vinte e nove etapas, o que é arrogância da pior espécie.

       - E por que arrogância?

       - O erro no primeiro Salto faz o segundo Salto um tanto menos certo desse mesmo valor, e o erro acrescido faz o terceiro Salto bastante incerto, e não-confiável, e assim por diante. Como calcular vinte e nove escalas de uma só vez? O vigésimo nono poderia terminar em qualquer ponto da Galáxia, num lugar qualquer. Assim eu o dirigi para fazer a primeira escala, apenas. Então poderíamos conferir antes de continuar.

       - Uma aproximação cuidadosa - aprovou Pelorat, calorosamente. - Eu aprovo!

       - Sim, mas tendo feito a primeira escala, o computador não poderia sentir-se ofendido, por eu não ter confiado nele? Então ele seria forçado a salvar seu orgulho, dizendo-me não haver erro nenhum, quando eu perguntasse? Talvez ele achasse impossível admitir um erro, devido a imperfeição? Se assim for, poderíamos bem dispensar um computador.

       O rosto longo e suave de Pelorat entristeceu-se: - O que podemos fazer neste caso, Golan?

       - Podemos fazer o que já fiz: perder um dia. Conferi a posição de várias das estrelas vizinhas pelos métodos mais primitivos possíveis: observação telescópica, fotografia, e medidas manuais. Comparei cada posição atual com a posição esperada, se não tivesse havido erro. E o trabalho levou-me todo o dia, e cansou-me para nada.

       - Sim, mas o que aconteceu?

       - Encontrei dois grandes erros e os verifiquei de novo, e os encontrei em meus cálculos. Era eu que tinha cometido os erros. Corrigi os cálculos, e passei-os pelo computador a partir do início - só para ver se ele apresentaria os mesmos resultados, independentemente. Exceto que ele os apresentou com muito mais casas decimais, resultou que meus valores ficaram certos, e evidenciaram que o computador não tinha cometido erro algum. O computador pode ser um arrogante filho-do-Mula, mas ele tem razões para ser arrogante!

       Pelorat suspirou, de alívio: - Bem, isso é bom!

       - Sim, de fato! Vou deixar então que ele faça as outras vinte e oito escalas.

       - De uma só vez? Mas...

       - Não todas de uma vez. Nada tema. Não me transformei num temerário... ainda. Vou fazê-las uma depois da outra - mas após cada escala ele vai conferir as vizinhanças, e, se estivermos dentro de limites toleráveis, será autorizado a fazer a seguinte. Em qualquer momento que achar o erro demasiado grande - e, creia-me, não estabeleci tolerâncias generosas - terá de parar e recalcular as escalas remanescentes.

       - E quando você vai fazer isso?

       - Quando? Agora mesmo. Veja, você está trabalhando na inde xação de sua biblioteca...

       - Oh, mas esta é a oportunidade de fazê-lo, Golan. Tive a intenção de fazê-lo por anos, mas algo sempre acontecia e ficava no meu caminho.

       - Não tenho objeções. Continue, e não se preocupe. Concentre-se na indexação. Vou cuidar de tudo o mais.

       Pelorat abanou a cabeça: - Não seja tolo; não poderei relaxar até que tudo isto tenha acabado. Estou petrificado de medo.

       - Então, não deveria ter-lhe contado, mas eu precisava contar para alguém, e você é o único alguém, por aqui. Deixe-me explicar- lhe francamente. Há sempre a chance de que pararemos numa posição perfeita no espaço interestelar, e isso resultará na posição precisa ocupada por um meteoro a alta velocidade, ou um mini-buraco negro, caso em que a nave ficaria arruinada, e estaríamos mortos. Tais coisas, em teoria, poderiam acontecer.

       - As chances, porém, são muito pequenas. Afinal, você poderia estar na sua casa, Janov - em seu escritório, e trabalhando em seus filmes ou em sua cama, dormindo - e um meteoro poderia estar se dirigindo para você, através da atmosfera de Terminus, e atingi-lo bem na cabeça, e matá-lo. Mas as chances são pequenas.

       - De fato, a chance de interceptar a trajetória de alguma coisa fatal, mas muito pequena para que o computador possa prevê-la, no decurso de um Salto hiperespacial, é muitíssimo menor que a de ser atingido por um meteoro em sua casa. Nunca ouvi falar de uma nave ser perdida dessa maneira, em toda a história da viagem hiperespacial. Qualquer outro tipo de risco - assim como acabar no meio de uma estrela - é ainda menor.

       Então Pelorat disse: - E por que afinal você me contou tudo isso? Trevize fez uma pausa, baixou a cabeça, pensativo, e acabou dizendo: - Eu não sei... Ou melhor: eu sei. O que eu pressuponho é que, por mínima que possa ser a probabilidade de uma catástrofe, se um número suficientemente grande de pessoas se arriscar, a tal catástrofe deverá acontecer, eventualmente. Não importa quão certo eu possa estar de que nada sairá errado, há sempre uma vozinha perturbadora dentro de mim, que diz: “Talvez aconteça desta vez”. E faz- me sentir culpado. É, acho que é isso. Janov, se algo sair errado, perdoe-me!

       - Mas, Golan, meu caríssimo amigo, se algo sair errado, ambos morreremos instantaneamente. Eu não estarei capacitado a perdoar, nem você a ser perdoado.

       - Eu sei, eu sei; portanto, perdoe-me agora, sim?

       Pelorat sorriu: - Não sei por que, mas isto me alegra. Há algo agradavelmente humorístico em tudo isto. E claro, Golan, eu o perdôo. Há muitos mitos sobre alguma forma de vida após a morte, na literatura dos mundos, e se porventura houver um tal lugar... quase a mesma chance de aterrissar num buraco negro - e nós dois acabarmos no mesmo lugar, então serei testemunha de que você fez o melhor que podia, e minha morte não será deixada à sua porta.

       - Obrigado! Agora, estou aliviado. Estou disposto a me arriscar, mas não gostei da idéia de você também se arriscar comigo.

       Pelorat agarrou a mão do outro: - Sabe, Golan, só o conheço há uma semana, e suponho que não deveria fazer julgamentos apressados nestes assuntos, mas creio que você é um excelente sujeito. Mas, vamos em frente e vamos acabar logo com isso.

       - Absolutamente! Tudo o que tenho de fazer é tocar aquele contato. O computador já tem as suas instruções e está apenas esperando que eu diga: Partida! Você gostaria de..

       - Jamais! Ele é todo seu! É o seu computador!

       - Muito bem; é também a minha responsabilidade. Ainda estou procurando me esquivar dela, como vê. Mantenha os olhos na tela!

       Com uma mão notavelmente firme, e com seu sorriso parecendo totalmente genuíno, Trevize fez o contato.

       Houve uma pausa momentânea, e então o campo de estrelas mudou - e de novo - e de novo. As estrelas apareciam cada vez mais densas e luminosas, sobre a visitela.

       Pelorat estava contando, respiração presa. No “15” houve uma parada, como se alguma peça do equipamento se quebrasse.

       Pelorat sussurrou, claramente temendo que qualquer ruído pudesse danificar fatalmente o mecanismo: - O que está errado? O que aconteceu?

       Trevize deu de ombros: - Imagino que ele está recalculando. Algum objeto no espaço está acrescentando uma protuberância perceptível ao formato do campo gravitacional geral - algum objeto que não foi levado em conta - alguma estrela-anã não-mapeada ou algum planeta errante...

       - Perigo?

       - Como ainda estamos vivos, quase certamente não há perigo. Um planeta poderia estar a cem milhões de quilômetros de distância, e ainda introduzir uma alteração gravitacional grande o bastante para exigir re-calculação. Uma estrela-anã poderia estar a dez bilhões de quilômetros de distância e...

       A tela mudou de novo, e Trevize caiu em silêncio. Mudou de novo e de novo. Por fim, quando Pelorat disse “28”, não houve mais movimento.

       Trevize consultou o computador: - Aqui estamos - disse ele.

       - Contei o primeiro Salto como “1”, e esta série, comecei por “2”. Isso totaliza vinte e oito Saltos. E você disse vinte e nove.

       - O recálculo no Salto 15 provavelmente nos economizou um Salto. Posso verificar com o computador, se você quiser, mas realmente, não há necessidade. Estamos nas vizinhanças do planeta Sayshell. O computador assim o diz, e eu não duvido. Se eu orientasse a tela adequadamente, veríamos um belo sol, bem brilhante, mas não serve para nada sobrecarregar a capacidade de filtragem da tela. O planeta Sayshell é o quarto, e está a cerca de 3,2 milhões de quilômetros de distância de nossa posição atual, o que é o mais perto que desejaríamos estar ao fim de um Salto. Podemos chegar lá em três dias - ou dois, se tivermos pressa.

       Trevize tomou fôlego e tentou escoar a tensão.

       - Percebe o que isto significa, Janov? Toda a nave em que estive - ou de que ouvi falar - teria feito estes Saltos com um intervalo de pelo menos um dia, para trabalhosos cálculos e aferição, mesmo com um computador. A viagem teria levado quase um mês. Ou talvez de duas a três semanas, se estivessem com muita pressa. E nós, nós a fizemos em meia hora. Quando todas as naves estiverem equipadas com um computador como este aqui.

       E Pelorat disse: - Imagino por que a Prefeita nos deixou usar uma nave assim tão avançada. Deve ser incrivelmente dispendiosa.

       - É experimental - respondeu Trevize, secamente. - Talvez a boa da mulher estivesse com vontade de nos deixar experimentar e ver que deficiências poderiam aparecer.

       - Está falando sério?

       - Não fique nervoso. Afinal de contas, não há nada com que se preocupar. Não achamos quaisquer deficiências. Mas eu não esfregaria isto na cara dela, no entretanto. Não solicitaria em nada o senso de humanidade dela. Além do que, ela não nos deu nenhuma arma ofensiva, o que corta as despesas consideravelmente.

       Pelorat acrescentou, pensativo: - É no computador que estou pensando. Parece estar tão bem ajustado para você - e não pode ser tão bem ajustado assim para qualquer um. Mal funciona direito comigo.

       - Tanto melhor para nós, por funcionar bem com um de nós.

       - Sim, mas será isso meramente o acaso?

       - E o que mais, Janov?

       - Certamente a Prefeita o conhece muito bem.

       - Acredito que sim, o velho canhão.

       - Ela não poderia mandar fazer um computador especialmente para você?

       - Por quê?

       - Fico imaginando se não estamos indo exatamente para onde o computador quer que vamos.

       Trevize ficou olhando: - Você quer dizer que, enquanto eu estou conectado ao computador, é o computador... e não eu... que realmente está nos controles?

       - Só imaginei.

       - Isso é ridículo, paranóide, ora, tenha paciência, Janov. Trevize voltou-se para o computador para focalizar o planeta Sayshell na tela, e para calcular um curso no espaço normal para ele.

       Ridículo!

       Mas, por que Pelorat introduziu aquela noção em sua mente?

      

Mesa

       Dois dias tinham-se passado, e Guendibal não se sentia tão deprimido quanto enfurecido. Não havia razão por que não poderia haver uma audiência imediata. Mas se ele estivesse despreparado - se ele precisasse de tempo - então eles o forçariam a uma audiência imediata, disso ele tinha certeza

       Mas como nada mais se defrontou com a Segunda Fundação desde a maior crise, a do Mula, eles desperdiçavam tempo - e sem nenhum propósito senão irritá-lo.

       E eles conseguiam irritá-lo, e, por Seldon! Isto tornaria o seu contra-ataque tanto mais pesado. E estava determinado a contra-atacar.

       Olhou à sua volta. A ante-sala estava vazia. Tinha sido assim já por dois dias. Ele era um homem marcado, um Orador que todos sabiam - por meio de uma ação sem precedentes nos cinco séculos da história da Segunda Fundação - logo perderia sua posição. Seria destituído, ocupando um simples posto de segundofundacionista, apenas.

       Uma coisa, porém - uma coisa muito honrada - era ser um segundofundacionista qualquer, especialmente se se tinha algum honorífico, como Guendibal, mesmo depois de um “impeachment”. Mas era totalmente outra coisa ter sido Orador e depois ser destituído.

       Mas não vai acontecer, pensou Guendibal, enraivecido, mesmo tendo sido evitado por dois dias. Apenas Sura Novi o tratava como antes, mas era muito ingênua para entender a situação. Para ela, Guendibal ainda era o “Dotô”

       E também irritava Guendibal o fato de ainda encontrar nisto um certo conforto. Sentia-se envergonhado quando começava a notar que seu ânimo se erguia quando notava que ela o olhava com veneração. Será que ele estava ficando grato por dons assim tão pequenos?

       Um funcionário emergiu da Câmara para lhe dizer que a Mesa ia recebê-lo, e Guendibal marchou para dentro. O funcionário era um que Guendibal bem conhecia; era um que sabia - até a mínima fração - o grau preciso de civilidade de que cada Orador era digno. No momento, o que cabia a Guendibal era decepcionantemente pouco. Mesmo o funcionário pensava nele como condenado.

       Estavam todos sentados gravemente, à volta da Mesa, com a roupa preta do julgamento. O Primeiro Orador Shandess parecia um pouco desconfortável, mas não permitia que seu rosto se vincasse no menor traço inamistoso. Delarmi - uma das três Oradoras que havia - nem mesmo olhou para ele.

       E o Primeiro Orador disse: - Orador Stor Guendibal, o senhor foi impedido por se comportar de maneira indigna de um Orador. O senhor, perante todos nós, acusou a Mesa, vagamente e sem evidência - de traição e tentativa de homicídio. Implicou que todos os segundofundacionistas - incluindo os Oradores e o Primeiro Orador - requerem uma completa análise mental para certificar quem dentre eles não é confiável. Tal comportamento rompe os liames da comunidade, sem a qual a Segunda Fundação não pode controlar uma Galáxia intrincada e potencialmente hostil, sem o que não pode construir, com segurança, um Segundo Império viável.

       - Como todos nós testemunhamos essas ofensas, passaremos à apresentação formal do caso para o processo. Passaremos assim diretamente à segunda etapa. Orador Stor Guendibal, o senhor tem uma defesa a apresentar?

       E agora Delarmi - ainda sem olhar para ele - permitiu-se um pequeno sorriso felino.

       Guendibal respondeu: - Se a verdade pode ser considerada uma defesa, eu tenho uma. Há bases para suspeitar que houve uma quebra na segurança. Essa quebra pode envolver o controle mental de um ou mais segundofundacionistas - não excluindo os membros aqui presentes - o que criou uma crise mortal para a Segunda Fundação. Se, de fato, vocês apressarem este julgamento porque não podem perder tempo, talvez possam vagamente reconhecer a seriedade da crise, mas nesse caso, por que perderam dois dias depois de eu ter requerido formalmente um julgamento imediato? Confirmo que foi essa crise mortal que me forçou a dizer o que disse. Eu teria me comportado de uma maneira indigna de um Orador se eu não tivesse agido assim.

       - Ele apenas repete a ofensa, Primeiro Orador - disse Delarmi, suavemente.

       O assento de Guendibal estava mais afastado da Mesa, em relação aos dos outros - já em claro sinal de rebaixamento. Empurrou-o ainda mais para trás, como se isso pouco lhe importasse, e levantou-se.

       - Vão condenar-me agora, de abrupto, à revelia da lei... ou posso detalhar minha defesa?

       Disse o Primeiro Orador: - Esta assembléia não é de foras-da-lei, Orador. Sem muitos precedentes para nos orientar, inclinamo-nos na sua direção, reconhecendo que se nossas capacidades demasiado humanas poderiam nos desviar da justiça absoluta, é melhor deixar ir-se um culpado do que condenar um inocente. Portanto, muito embora o caso que se nos apresenta seja tão grave que não podemos levianamente deixar ir o culpado, permitir-lhe-emos que apresente o caso da maneira que bem entender, e por tanto tempo quanto queira, até que seja decidido, por voto unânime, incluindo o meu próprio (e ergueu a voz, nesta frase), que já se ouviu o suficiente.

       Então disse Guendibal: - Deixe-me começar, então, dizendo que Golan Trevize - o primeiro-fundacionista que foi expulso de Terminus e que o Primeiro Orador e eu acreditamos ser o bordo de ataque da crise que está se acumulando - moveu-se numa direção inesperada.

       - Uma informação - interrompeu docemente a Oradora Delarmi. - Como o orador (a entonação claramente indicava que a palavra não era o honorífico) sabe disto?

       - Fui informado pelo Primeiro Orador, mas confirmo a informação por mim mesmo. Nestas circunstâncias, porém, considerando minhas suspeitas quanto ao nível de segurança da Câmara, deve-se permitir-me manter secretas as minhas fontes de informação.

       Retrucou o Primeiro Orador: - Vou reservar-me o julgamento sobre isso. Vamos continuar sem esse item de informação, mas se no julgamento da Mesa a informação se mostrar necessária, o Orador Guendibal terá de fornecê-la.

       Delarmi interpôs: - Se o orador não der a informação agora, é apenas justo que eu presuma que ele tem um agente a seu serviço, um agente particularmente empregado pôr ele, e que não é, em geral, responsável perante a Mesa. Não podemos ter certeza de que um tal agente esteja obedecendo às regras de comportamento que governam o pessoal da Segunda Fundação.

       O Primeiro Orador respondeu, com algum desagrado: - Vejo todas as implicações, Oradora Delarmi. Não há necessidade de recitá-las para mim.

       - Estou meramente mencionando para registro, Primeiro Orador, pois que isto agrava a ofensa e não é um item mencionado na acusação, que, eu gostaria de acrescentar, não foi lida totalmente, e que proponho que a ela seja acrescido este item.

       - O escrevente tem instrução para acrescentar este item - disse o Primeiro Orador - e as palavras precisas serão ajustadas oportunamente. Orador Guendibal - ele, ao menos, respeitava o título - sua defesa de fato é um passo para trás. Continue.

       - Não só esse Trevize moveu-se em direção inesperada, mas a uma velocidade sem precedentes. Minha informação, que o Primeiro Orador ainda não tem, é que ele viajou quase dez mil parsecs em bem menos de uma hora.

       - Num só Salto? - quis saber um dos Oradores, incrédulo.

       - Em mais de duas dúzias de Saltos; algo que é ainda mais difícil de imaginar que um só Salto. Mesmo que ele seja localizado agora, levará tempo para segui-lo, e se ele nos detectar e realmente quiser fugir de nós, não poderemos alcançá-lo. E vocês perdem o seu tempo em brincar de “impeachment” e deixando passar dois dias, para saborear melhor as suas brincadeiras.

       O Primeiro Orador conseguiu mascarar sua angústia: - Por favor, diga-nos, Orador Guendibal, o que o senhor pensa que possa ser o significado disto.

       - É uma indicação, Primeiro Orador, dos avanços tecnológicos que estão sendo feitos pela Primeira Fundação, que é muito mais poderosa agora do que no tempo de Prim Palver. Não poderíamos nos contrapor a eles, se nos achassem e estivessem livres para agir.

       A Oradora Delarmi ergueu-se: - Primeiro Orador, nosso tempo está sendo gasto com irrelevâncias. Não somos crianças para nos assustarmos com lendas da Vovó Torção do Espaço. Não importa quão impressionante a maquinaria da Primeira Fundação seja, quando, em caso de crise, as mentes deles estarão sob nosso controle.

       - O que o senhor tem a dizer, Orador Guendibal? - perguntou o Primeiro Orador.

       - Simplesmente que chegaremos à questão da mente no seu devido tempo. Por hora, só quero sublinhar o superior - e crescente - poderio tecnológico da Primeira Fundação.

       Interveio o Primeiro Orador: - Passe para o ponto seguinte, Orador Guendibal. Seu primeiro ponto, devo adverti-lo, não me impressiona como sendo muito pertinente ao assunto contido na acusação de “impeachment”.

       Houve um claro gesto de concordância da Mesa, em geral.

       - Está bem; passarei adiante - Trevize tem um companheiro em sua atual jornada. - Fez uma pausa momentânea para destacar melhor o que iria pronunciar. - Um certo Janov Pelorat, um erudito obscuro que devotou sua vida a detectar mitos e lendas concernentes à Terra.

       - E você sabe tudo isso a respeito dele? Seu informante oculto, eu presumo? - quis saber Delarmi, que se estabelecera em seu papel de promotora, com um claro sentimento de conforto.

       - Sim, eu sei tudo isto a respeito dele - reconheceu Guendibal, estolidamente. - Há alguns meses atrás, a Prefeita de Terminus, uma mulher enérgica e capaz, ficou interessada neste erudito, também, aliás. Nem conservei isto só para mim. Toda a informação que adquiri foi colocada à disposição do Primeiro Orador.

       - Sou testemunha disso - reconheceu o Primeiro Orador, em voz baixa.

       Um Orador mais velho perguntou: - E o que é essa Terra? É o mundo original que costumamos encontrar nas fábulas? Aquele que criou tanto caso nos velhos tempos do Império?

       Guendibal assentiu: - Nas lendas da Vovó Torção do Espaço, como diria a Oradora Delarmi. Suspeito que o sonho de Pelorat era vir a Trantor para consultar a Biblioteca Galáctica, para achar a informação concernente à Terra, que ele não conseguiu obter no serviço de biblioteca interestelar disponível em Terminus.

       - Quando deixou Terminus com Trevize, deve ter estado sob a impressão de que aqueles sonhos seriam realizados. Certamente estávamos esperando os dois e contávamos com a oportunidade de examiná-los, em nosso próprio benefício. Como resultou - e como agora todos vocês já sabem - eles não virão. Voltaram-se para algum destino que ainda não está claro, e por alguma razão que ainda não é conhecida.

       O rosto redondo de Delarmi tinha todo o aspecto de um querubim, ao dizer: - E por que isto é tão perturbador? Não estamos melhor nem pior pela ausência deles. Aliás, desde que eles nos descartaram tão facilmente, podemos deduzir que a Primeira Fundação desconhece a verdadeira natureza de Trantor, e podemos aplaudir o trabalho braçal de Prim Palver.

       - Se não pensássemos mais nisso, efetivamente poderíamos chegar a uma tal solução reconfortante - retrucou Guendibal. - Mas será que esta mudança não teria sido resultante de não se ver a importância de Trantor? Poderia ser que a mudança de rota resultou de uma ansiedade em relação a Trantor, que, ao examinar esses dois homens, visse a importância da Terra?

       Houve uma agitação na Mesa.

       - Qualquer um - começou Delarmi friamente - pode inventar proposições que soam formidavelmente e acomodá-las em sentenças bem balanceadas. Mas será que fazem sentido, quando são inventadas? Por que alguém se importaria com o que nós, da Segunda Fundação, pensamos da Terra? Se é o real planeta das origens, ou se é um mito, ou se não há local de origem, só para começar, é por certo algo que deve interessar apenas a historiadores, antropólogos e colecionadores de folclore, assim como esse seu Pelorat. Por que nós?

       - Por que, com efeito? - replicou Guendibal. - Como é, então, que não há referências à Terra, na Biblioteca?

       Pela primeira vez, algo na atmosfera que não era hostilidade, fez-se sentir em volta da Mesa.

       - Não há nenhuma? - perguntou Delarmi.

       Disse Guendibal, bem calmamente: - Quando pela primeira vez chegou-me noticia de que Trevize e Pelorat poderiam estar vindo para cá à busca de informação a respeito da Terra, eu, naturalmente, pedi ao computador de nossa Biblioteca que fizesse um rol dos documentos contendo tal informação. Fiquei levemente intrigado, quando ele não descobriu nada. Nem pequenas referências. Nem uma só palavra. Nada!

       - Mas então vocês insistiram para que eu esperasse dois dias antes que esta audiência pudesse ter lugar, e ao mesmo tempo, minha curiosidade foi ainda mais espicaçada pelas novas de que os primeiro fundacionistas, afinal de contas não estavam vindo para cá. Eu precisava ficar cismando, de algum modo. Enquanto o resto de vocês estava aí, como diz o provérbio, bebericando vinho enquanto a casa estava caindo, repassei alguns livros de história de minha propriedade. Encontrei passagens que especificamente mencionavam algumas investigações sobre a “Questão das Origens” nos últimos tempos imperiais. Havia referências a documentos particulares - tanto impressos quanto filmados - e havia citações. Retornei à Biblioteca e fiz uma verificação em pessoa, para encontrar tais documentos. Garanto-lhes que não havia nenhum.

       Delarmi respondeu: - Mesmo sendo assim, não é preciso se surpreender. Se a Terra é de fato um mito.

       - Então eu a encontraria sob as referências mitológicas. Se fosse uma história da Vovó Torção do Espaço, eu a encontraria sob as antologias da Vovó Torção do Espaço. Se fosse uma ficção da mente doentia, eu a encontraria sob a psicopatologia. O fato é que existe algo sobre a Terra, ou ninguém teria ouvido falar dela, e com efeito, reconhecer esse nome como o do presuntivo planeta de origem da espécie humana. Por que, então, não há referência alguma a ela na Biblioteca, em lugar nenhum?

       Delarmi ficou calada por um momento e então um outro Orador interpôs-se. Era Leonis Cheng, um homem de pequena estatura, com um conhecimento enciclopédico das minúcias do Plano de Seldon, e uma atitude um tanto míope em relação à Galáxia real. Seus olhos tendiam a piscar rapidamente, enquanto falava:

       - É bem sabido que o Império, em seus dias finais, tentou criar uma mística imperial abafando todo interesse nos períodos pré-imperiais.

       Guendibal concordou: - Abafar é o termo preciso, Orador Cheng. E isso não é equivalente a destruir evidências. Como o senhor devia saber melhor que ninguém, outra característica do decaimento imperial foi um súbito interesse em tempos mais antigos - e presumivelmente - melhores. Acabo de referir-me ao interesse na “Questão das Origens” nos tempos de Hari Seldon.

       Cheng interrompeu com um estrondoso pigarro: - Sei disso muito bem, meu jovem, e conheço muito mais desses problemas sociais do decaimento do Império do que você parece pensar que sei. O processo de “imperialização” superou em muito esses jogos diletantes a respeito da Terra. Sob Cleon II, durante o último renascimento do Império, dois séculos depois de Seldon, a imperialização atingiu o seu pico, e toda especulação sobre a questão da Terra chegou a um termo. Houve mesmo uma diretriz no tempo de Cleon sobre isto, com referência ao interesse em coisas tais como (e creio que faço a citação corretamente) “especulação passada e contraproducente, que tende a minar o amor do povo pelo Trono Imperial”.

       Guendibal sorriu: - Então é no tempo de Cleon II, Orador Cheng, que o senhor coloca a destruição de toda referência à Terra?

       - Não tiro nenhuma conclusão. Simplesmente disse o que disse.

       - Foi hábil de sua parte não tirar conclusões. No tempo de Cleon, o Império pode ter passado por um renascimento, mas a Universidade e Biblioteca, pelo menos, estavam em nossas mãos, ou, de qual quer maneira, nas de nossos predecessores. Teria sido impossível que qualquer material fosse removido da Biblioteca sem o conhecimento dos Oradores da Segunda Fundação. Na verdade, uma tal tarefa deveria ser confiada aos Oradores, embora o Império moribundo não viesse a saber disso.

       Guendibal fez uma pausa, mas Cheng, nada dizendo, ficou olhando acima da cabeça do outro.

       Guendibal continuou: - Segue-se que a Biblioteca não poderia ter sido esvaziada do material sobre a Terra no tempo de Seldon, desde que então a “Questão das Origens” era uma preocupação ativa. Não poderia ter sido esvaziada depois porque a Segunda Fundação estava encarregada dela. Mas a Biblioteca está vazia dele agora. Como pode ser?

       Delarmi interrompeu, impacientemente: - Pode parar de ostentar o dilema, Guendibal. Já o percebemos. E o que você sugere como solução? Que você mesmo removeu os documentos?

       - Como de hábito, Delarmi, você penetra o âmago da questão. - E Guendibal fez uma mesura na direção dela, em sardônico respeito (ao que ela se permitiu um leve levantar do lábio). - Uma solução é que a limpeza foi feita por um Orador da Segunda Fundação, alguém que saberia usar curadores sem deixar memória para trás, e computadores sem deixar nenhum registro para trás.

       O Primeiro Orador Shandess ruborizou: - Ridículo, Orador Guendibal. Não posso imaginar um Orador fazendo isto. Qual seria sua motivação? Mesmo se, por alguma razão, o material sobre a Terra fosse removido, por que escondê-lo do resto da Mesa? Por que arriscar uma completa destruição da própria carreira mexendo com a Biblioteca, quando as chances de ser descoberto são tão grandes? Além do que, acho que nem o mais hábil dos Oradores conseguiria levar tal tarefa a cabo sem deixar rastros.

       - Então deve ser, Primeiro Orador, que o senhor discorda da Oradora Delarmi em sua sugestão de que eu o fiz.

       - Por certo que sim! Por vezes, duvido de seu julgamento, mas ainda não cheguei a considerá-lo totalmente maluco.

       - Então nunca deve ter acontecido, Primeiro Orador. O material sobre a Terra ainda deve estar na Biblioteca, pois agora parece termos eliminado todas as maneiras possíveis pelas quais poderia ter sido removido; e no entanto, o material ainda não está lá.

       Delarmi disse, afetando cansaço: - Bem, bem, vamos acabar com isso. De novo, o que você sugere como solução? Estou certa de que você pensa que tem uma.

       - Se você está certa, Oradora, todos podemos estar igualmente certos. Minha sugestão é que a Biblioteca foi limpa por alguém da Segunda Fundação que estava sob o controle de uma sutil força exterior à Segunda Fundação. A limpeza passou despercebida porque a mesma força providenciou para que passasse despercebida.

       Delarmi riu-se: - Até que você descobriu tudo! Você - o não- controlado e incontrolável. Se essa misteriosa força existisse, como você descobriu a ausência de material da Biblioteca? Por que você não foi controlado?

       Guendibal alegou, gravemente: - Não é questão para riso, Oradora. Eles podem sentir, tal como eu, que toda interferência deve ser mantida num mínimo. Quando minha vida esteve em perigo há alguns dias, eu estava mais preocupado em impedir-me de mexer com uma mente hamish do que com minha proteção. Assim pode ser com esses outros - enquanto eles tenham julgado seguro deixar de interferir. Esse é o perigo, o perigo mortal. O fato de que eu descobri o que aconteceu pode significar que eles sintam que já ganharam. E nós continuamos a nossa brincadeira, por aqui!

       - Mas, que objetivo eles podem ter em tudo isso? Que objetivo possível? - perguntou Delarmi, movendo seus pés e mordendo os lábios. Sentiu seu poder desvanecendo, com a Mesa ficando cada vez mais interessada - preocupada...

       - Pense só: a Primeira Fundação, com seu enorme arsenal de poder físico, está procurando pela Terra. Fingem mandar dois exilados, esperando que pensemos que é tudo o que eles são, mas por que seriam equipados com uma nave de poder inacreditável - naves que podem mover-se dez mil parsecs em menos de uma hora - se eles fossem apenas exilados?

       - Quanto à Segunda Fundação, não estivemos procurando pela Terra, e claramente medidas foram tomadas sem o nosso conhecimento para manter qualquer informação sobre a Terra longe de nós. A Primeira Fundação agora está tão perto de encontrar a Terra e nós estamos tão longe de fazê-lo, que...

       Guendibal interrompeu-se e Delarmi voltou: - Que o quê? Termine sua lenda infantil. Você sabe ou não sabe de alguma coisa?

       - Eu não sei tudo, Oradora. Não penetrei toda a profundidade da teia que está nos circundando, mas sei que a teia está lá. Não sei qual a importância de encontrar a Terra, mas estou certo de que a Segunda Fundação está em enorme perigo e, com ela, o Plano de Seldon e o futuro de toda a humanidade.

       Delarmi levantou-se. Não estava sorrindo e falou com voz tensa, mas controlada: - Tolices! Primeiro Orador, ponha um fim a isto! O que está em pauta é o comportamento do acusado. O que ele diz é não só infantil mas irrelevante. Ele não pode atenuar seu comportamento elaborando uma teia de teorias que só fazem sentido em sua própria mente. Peço uma votação sobre o assunto agora - um voto unânime pela condenação.

       - Espere - interveio Guendibal agressivamente. - Fui informado de que teria uma oportunidade de defender-me, e resta ainda um item - só mais um. Deixem-me apresentá-lo, e poderão passar a uma votação sem mais objeções de minha parte.

       O Primeiro Orador esfregou os olhos, cansado: - Pode continuar, Orador Guendibal. Deixe-me apontar à Mesa que a condenação de um Orador ao “impeachment” é tão grave, e de fato, sem precedentes, que não queremos dar a impressão de não permitir uma defesa completa. Lembrem-se também que mesmo que o veredito satisfaça a nós, poderá não satisfazer àqueles que vierem depois de nós, e não posso acreditar que um segundofundacionista de qualquer categoria - muito menos os Oradores da Mesa - não consigam apreciar inteiramente a importância da retrospectiva histórica. Vamos agir de modo que possamos estar certos da aprovação dos Oradores que nos sucederão nos séculos vindouros.

       Delarmi falou, amargamente: - Corremos o risco, Primeiro Orador, de ter a posteridade rindo de nós por elaborar sobre o óbvio. Continuar a defesa foi sua decisão.

       Guendibal respirou fundo: - Seguindo a sua decisão, pois, Primeiro Orador, desejo chamar uma testemunha - uma jovem mulher que encontrei há três dias, e sem a qual talvez eu não pudesse absolutamente chegar à reunião da Mesa, ao invés de meramente me atrasar.

       - A mulher de que o senhor fala é conhecida da Mesa? - quis saber o Primeiro Orador.

       - Não, Primeiro Orador, ela é nativa deste planeta.

       Os olhos de Delarmi se arregalaram: - Uma mulher hamish?

       - De fato! Isso mesmo!

       Ao que Delarmi disse: - E o que temos a ver com eles? Nada que eles digam pode ser de qualquer importância. Eles simplesmente não existem!

       Os lábios de Guendibal retraíram-se um pouquinho sobre seus dentes, em algo que dificilmente poderia ser confundido com um sorriso. Disse bruscamente: - Fisicamente, todos os hamish existem. São seres humanos e executam sua parte no Plano de Seldon. Em sua proteção indireta da Segunda Fundação, desempenham papel crucial. Desejo desassociar-me da desumanidade da Oradora Delarmi, e espero que sua observação seja conservada no registro, e doravante considerada como evidência da possível inadequação dela para o posto de Oradora. O resto da Mesa concordará com a incrível observação da Oradora e me privará de minha testemunha?

       - Chame sua testemunha,Orador - disse o Primeiro Orador.

       Os lábios de Guendibal relaxaram nas feições normais, sem expressão de um Orador quando está sendo pressionado. Sua mente estava em guarda e fechada, mas por detrás desta barreira protetora, sentia que o ponto perigoso já havia passado, e que ele era vitorioso.

 

       Sura Novi parecia tensa. Seus olhos estavam arregalados, e seu lábio inferior estava tremendo ligeiramente. Suas mãos abriam-se e fechavam-se lentamente, e seu peito arfava pesadamente. Seu cabelo estava puxado para trás, e tinha uma trança enrolada num coque; seu rosto queimado de sol mostrava um tique, de vez em quando. Suas mãos estavam sempre ajeitando sua saia longa. Olhava rapidamente à volta da Mesa - de Orador para Orador - seus grandes olhos cheios de assombro.

       Devolveram-lhe o olhar com graus variáveis de desprezo e desconforto. Delarmi conservou seus olhos bem acima da cabeça de Novi, esquecida de sua presença.

       Cuidadosamente, Guendibal tocou a epiderme da mente dela, confortando-a e relaxando-a. Ele poderia ter feito o mesmo acariciando a mão ou o rosto dela, mas aqui, sob estas circunstâncias, isso era impossível, claro.

       Disse ele: - Primeiro Orador, estou amortecendo a percepção consciente desta mulher, de modo que seu testemunho não seja distorcido pelo medo. Faça o obséquio de observar - e os demais, se quiserem juntem-se a mim e observem que não vou, de modo algum, modificar a mente dela.

       Novi teve um sobressalto de terror com a voz de Guendibal, o que não o surpreendeu de modo algum. Percebeu que ela nunca ouvira segundofundacionistas de classe elevada falar entre si. Ela nunca experimentara aquela estranha e rápida combinação de som, tom, expressão e pensamento. O terror, porém, dissipou-se tão rapidamente quanto veio, quando ele acalmou sua mente.

       Uma expressão de placidez cruzou o rosto dela.

       - Há uma cadeira atrás de você, Novi; por favor, sente-se - ofereceu Guendibal.

       Novi fez uma mesura curta e desajeitada, e sentou-se, rigidamente.

       Ela falava bem claramente, mas Guendibal fazia com que repetisse quando seu sotaque hamish ficava muito forte. E como ele mantinha uma linguagem formal em deferência à Mesa, ocasionalmente tinha de repetir para ela suas próprias perguntas.

       A história da luta entre ele e Rufirant foi bem descrita, e silenciosamente.

       Guendibal perguntou: - Você mesma viu tudo isso, Novi?

       - Não, dotô, ô eu tinha parado a briga ántis. Rufirant é um bom sujeito, mais é meiu lerdo prá pensá.

       - Mas você descreveu tudo. Como é possível, se você não viu tudo?

       - Rufirant andô mi contându depois, quando eu preguntei. Êli ‘tava cum vergonha.

       - Vergonha? Você sabe se ele já tinha se comportado dessa maneira em outras ocasiões?

       - Rufirant? Não, dotô! Éli é gentir, memo sendo grandalhão. Ëli num é briguêntu, i tem mêdu dus dotô. Custuma dizê qui êlis são fórti itém podêris.

       - Por que ele não pensava assim quando me encontrou?

       - Isquisito; num intêndu. - Ela abanou a cabeça. - Êli num era mais êli mêmu. Eu díssi pra Eli: - Sêo cabeça de pau, é da tua conta assartá us dotô? I Êli respondeu: - Eu num sei u qui aconteceu. Era cômu si eu ‘tivesse dum lado, di pé, e assistindo um otro qui num era eu.

       O Orador Cheng interrompeu: - Primeiro Orador, de que vale fazer esta mulher informar o que um homem lhe contou? O homem não está disponível para ser interrogado?

       - Está. Se, ao se completar o testemunho desta mulher, a Mesa desejar mais evidencia, estarei pronto a chamar Karoll Rufirant - meu recente antagonista - à barra. Se não, a Mesa pode passar diretamente ao julgamento, quando eu tiver acabado com esta testemunha.

       - Muito bem - disse o Primeiro Orador. - Continue com a sua testemunha.

       - E você, Novi? Achou norma! você mesma interferir numa luta desta maneira?

       Novi não disse nada por um momento. Uma pequena ruga apareceu entre suas sobrancelhas espessas, e então desapareceu: -  Num sei. Num quiria qui fizessem mar prus doto. Fui irnpurrada, i sem pensá, mi intrumeti. - Fez uma pausa: - I si pricisá, eu faço túdu di nóvu!

       Guendibal disse: - Novi, você vai dormir, agora. Não vai pensar em nada. Vai descansar e não vai nem mesmo sonhar.

       Novi resmungou por um momento. Seus olhos fecharam-se e sua cabeça caiu para trás, contra o espaldar de sua cadeira.

       Guendibal esperou por um momento, e então: - Primeiro Orador, com o devido respeito, por favor siga-me para dentro da mente desta mulher. Vai achá-la simples e simétrica, o que é afortunado, pois o que o senhor verá poderia não ser visível, em qualquer outro caso. Aqui! E aqui! Observou? Se os demais entrarem, será mais fácil se o fizerem um de cada vez.

       Houve um zumbido crescente à volta da Mesa.

       Guendibal perguntou: - Há alguma dúvida?

       Delarmi ia dizendo: - Eu duvido, porque... - e interrompeu-se a ponto de dizer o que, mesmo para ela, era indizível.

       E Guendibal disse, por e!a: - Pensa que eu deliberadamente alterei esta mente, para apresentar falsa evidência? Pensa, portanto, que sou capaz de fazer um ajuste tão delicado - uma fibra mental claramente deformada, sem nada nela ou em sua vizinhança que esteja minimamente perturbada? Se eu pudesse fazer isso, que necessidade teria eu de enfrentar qualquer um de vocês? Por que eu me submeteria à indignidade de um julgamento? Por que batalhar para convencê-los? Se eu pudesse fazer o que se pode ver na mente desta mulher, vocês todos estariam inermes perante mim, a menos que estivessem muito bem prevenidos. O fato cru é que nenhum de vocês poderia manipular uma mente como a desta mulher foi manipulada. Tampouco eu. No entanto, foi feito.

       Pausa, contemplando cada um dos Oradores, e então fixando o olhar em Delarmi. Falou lentamente: - Agora, se algo mais é requerido, chamarei o lavrador hamish, Karoll Rufirant, a quem examinei e cuja mente também foi alterada desta mesma maneira.

       - Isso não será necessário - disse o Primeiro Orador, que estava apresentando uma expressão assustada. - O que vimos foi avassalador

       Nesse caso - retorquiu Guendibal - posso despertar esta hamish e dispensá-la? Há pessoas lá fora para cuidar da recuperação dela.

       Quando Novi saiu, dirigida de leve por Guendibal, pelo cotovelo, ele retomou: - Deixem-me sumariar rapidamente. As mentes podem - e foram alteradas de maneiras que estão além do nosso poder. Destarte, os próprios curadores poderiam ter sido influenciados para remover material da Biblioteca - sem nosso conhecimento, nem o deles. Vimos como foi arranjado para que eu fosse retardado para chegar á reunião da Mesa. Fui ameaçado; fui salvo. O resultado foi meu “impeachment”. O resultado desta concatenação aparentemente natural de eventos é que eu poderia ser removido de uma posição de poder - e o curso de ação que defendo, e que ameaça essa gente, poderia ser negado.

       Delarmi inclinou-se para a frente. Estava claramente abalada: - Se essa organização secreta é tão competente, como você conseguiu descobrir tudo isso?

       Guendibal sentia-se livre para sorrir, agora: - Não me dê crédito; não reclamo competência superior à de outros Oradores; certamente não à do Primeiro Orador. Entretanto, esses Anti-Mulas - como o Primeiro Orador veio a chamá-los, muito a propósito - não são infinitamente sábios nem imunes a todas as circunstâncias. Talvez tenham escolhido esta hamish em particular como seu instrumento precisamente porque ela precisava de pouco ajuste. Por seu próprio caráter, era simpática a quem ela chama de “doutores”, e os admira intensamente. Mas então, uma vez isto passado, seu contato momentâneo comigo reforçou sua fantasia de ela mesma se tomar uma “doutora”. Veio a mim no dia seguinte, com esse propósito em mente. Curioso com esta ambição particular dela, estudei sua mente - coisa que, por certo, por outro motivo eu não teria feito, dei com aquele ajuste, e notei seu significado. Se alguma outra mulher tivesse sido escolhida - uma com uma tendência pró-doutores menos natural - os Anti-Mulas poderiam ter de elaborar mais o ajuste, mas as conseqüências poderiam não se ter seguido, e eu continuaria ignorante de tudo isto. Os Anti-Mulas calcularam errado - ou não pude ram antecipar imprevistos o suficiente. Que eles possam tropeçar dessa maneira, é encorajador.

       Disse Delarmi: - O Primeiro Orador e você chamam a essa organização os “Anti-Mulas”. Presumo que é porque eles parecem trabalhar para manter a Galáxia no caminho do Plano de Seldon,ao invés de desagregá-lo, como fez o próprio Mula. Se os Anti-Mulas fazem isso, por que eles são perigosos?

       - Por que eles trabalhariam, se não fosse com algum propósito? Não sabemos que propósito é esse. Um cínico poderia dizer que eles pretendem entrar na dança em algum momento futuro, e dirigir a corrente em outra direção, uma que seja mais do agrado deles do que do nosso. Essa é minha própria opinião, mesmo que eu não me destaque pelo cinismo. Será que a Oradora Delarmi estaria disposta a sustentar, por puro amor e fé, que todos sabemos formam tão grande parte de seu caráter, que eles são altruístas cósmicos fazendo todo o trabalho por nós, sem sequer sonhar em recompensa?

       Houve um leve murmúrio de risada em torno da Mesa, e Guendibal percebeu que tinha ganho. E Delarmi sabia que tinha perdido, pois surgiu uma onda de raiva que transpareceu por seu rígido controle mental como um momentâneo raio de sol através de uma espessa copa de árvore.

       Guendibal continuou: Quando primeiro experimentei o incidente com o lavrador hamish, saltei para a conclusão de que um outro Orador estava por detrás dele. Quando notei o ajuste na mente da mulher hamish, eu sabia que estava certo quanto à conspiração, mas errado quanto ao conspirador. Peço desculpas quanto ao erro de interpretação, e rogo que considerem as circunstâncias como atenuantes.

       O Primeiro Orador disse: - Creio que isto pode ser tomado como desculpa...

       Delarmi interrompeu. Estava bastante calma, de novo, seu rosto estava amigável, sua voz totalmente sacarina: - Com o mais total respeito, Primeiro Orador, se posso interromper - vamos abandonar essa questão do “impeachment”. Neste momento, eu não votaria pela condenação, e imagino que ninguém o faria. Eu sugeriria mesmo que o “impeachment” seja riscado do registro imaculado do Orador. O Orador Guendibal inocentou-se de maneira muito capaz. Eu o congratulo por isso - e por descobrir uma crise que o resto de nós poderia deixar escoar indefinidamente, com resultados incalculáveis. Ofereço ao Orador as minhas sinceras desculpas por minha anterior hostilidade.

       Ela virtualmente sorria para Guendibal, que sentiu uma relutante admiração pela maneira como ela mudou de direção instantaneamente, para reduzir suas próprias perdas. Também sentiu que tudo isto era apenas a preliminar de um novo ataque, de uma nova direção.

       Estava também seguro de que o que estava para vir não seria nada agradável.

       

       Quando se esforçava por ser encantadora, a Oradora Delora Delarmi tinha um jeito todo seu de dominar a Mesa dos Oradores. Sua voz ficava macia, seu sorriso indulgente, seus olhos rebrilhavam, ela era toda doçuras. Ninguém se importava em interrompê-la, até que o golpe descesse.

       E disse: - Graças ao Orador Guendibal, penso que agora todos nós entendemos o que devemos fazer. Não vemos os Anti-mulas; nada sabemos sobre eles, exceto de seus fugazes toques nas mentes de pessoas bem aqui na própria fortaleza da Segunda Fundação. Não sabemos o que o centro de poder da Primeira Fundação está tramando. Podemos nos defrontar com uma aliança dos Anti-Mulas e da Primeira Fundação. Não sabemos. Sabemos que esse Golan Trevize e seu companheiro, cujo nome me escapa no momento, estão indo não sabemos para onde - e que o Primeiro Orador e Guendibal acham que Trevize detém a chave do resultado desta grande crise. O que, então, devemos fazer? Claramente, devemos descobrir tudo o que pudermos a respeito de Trevize: para onde está indo, o que pensa, qual pode ser o seu propósito; ou de fato, se é que ele tem algum destino, algum pensamento, algum propósito; ou se de fato ele não poderia ser uma mera ferramenta de uma força muito maior que ele.

       Guendibal interveio: - Ele está sob observação.

       Delarmi deu um sorriso indulgente: - Por quem? Por um de seus agentes extraplanetários? Deve-se esperar que tais agentes possam se contrapor aos poderes que vimos serem demonstrados aqui? Por certo que não. No tempo do Mula, e depois, também, a Segunda Fundação não hesitou em enviar - e mesmo sacrificar - voluntários dentre os melhores que tínhamos, pois nada mais adiantaria. Quando foi necessário restaurar o Plano de Seldon, Prim Palver mesmo viajou pela Galáxia como negociante trantoriano para trazer de volta aquela menina, Arcádia. Não podemos nos sentar aqui e esperar, agora que a crise pode ser maior que em qualquer dos casos anteriores. Não podemos nos apoiar em funcionários subalternos - espiões e meninos de recado.

       Ao que disse Guendibal: - Por certo que você não está sugerindo que o Primeiro Orador deixe Trantor agora?

       - Certamente, não. Precisamos muito dele aqui. Por outro lado, há você, Orador Guendibal. Foi você que percebeu corretamente e corretamente avaliou a crise. Você que detectou a sutil interferência exterior com a Biblioteca e com as mentes hamish. Você que sustentou seus pontos de vista contra a oposição unida de toda a Mesa - e venceu. Ninguém aqui viu tão limpamente quanto você, e ninguém poderia ser tão confiável para continuar a enxergar tão nitidamente. É você quem deve, em minha opinião, sair para se defrontar com o inimigo. Será que tenho o consenso da Mesa?

       Não foi preciso nenhuma votação formal para revelar um tal consenso. Cada Orador sentia as mentes dos outros e ficou claro, para um Guendibal amedrontado, que, no momento de sua vitória, e da derrota de Delarmi, aquela mulher formidável estava conseguindo mandá-lo irrevogavelmente para o exílio, numa missão que poderia deixá-lo ocupado por um período indefinido, ao passo que ela ficava para trás, para controlar a Mesa e, portanto, a Segunda Fundação, e, portanto, a Galáxia - enviando tudo junto, quem sabe, para o desastre.

       E se Guendibal-no-exílio de algum modo conseguisse a informação que permitiria que a Segunda Fundação evitasse a crise que estava se acumulando, seria Delarmi a ganhar o crédito por tê-lo permitido, e o sucesso dele nada mais seria que a confirmação do poderio dela. Quanto mais rápido fosse Guendibal, quanto mais eficiente fosse o seu sucesso, mais seguramente ele confirmaria a força dela.

       Era uma linda manobra; uma recuperação inacreditável.

       E tão claramente ela dominava a Mesa mesmo agora, que estava virtualmente usurpando o papel do Primeiro Orador. O pensamento de Guendibal nesta direção foi apagado pela fúria que captou vindo do Primeiro Orador.

       Voltou-se. O Primeiro Orador não estava fazendo esforço algum para ocultar sua ira - e logo ficou claro que mais uma crise interna estava despontando para substituir a que acabara de ser resolvida.

      

       Quindor Shandess, o vigésimo quinto Primeiro Orador, não tinha nenhuma ilusão extraordinária sobre si mesmo.

       Sabia que não era um daqueles poucos Primeiros Oradores dinâmicos que iluminaram os cinco séculos de história da Segunda Fundação - mas tampouco precisava sê-lo. Controlava a Mesa num período quieto da prosperidade Galáctica, e não era tempo para dinamismo. Parecia ser um tempo de jogar um jogo estacionário e ele tinha sido o homem adequado a este papel. Seu predecessor o escolhera por esta razão.

       - Você não é um aventureiro, você é um erudito - dissera o vigésimo quarto Primeiro Orador. - Você preservará o Plano, onde um aventureiro poderia arruiná-lo. Preservação! Que esta seja a palavra-chave para a sua Mesa.

       Ele tentara, mas isto significou um mandato passivo, o que ocasionalmente foi interpretado como fraqueza. Havia rumores que sempre reapareciam, que ele queria renunciar, e as intrigas se davam abertamente para garantir a sucessão numa direção ou noutra.

       Não havia dúvida, na mente de Shandess, de que Delarmi era uma líder da luta pela sucessão. Era a personalidade mais forte na Mesa e mesmo Guendibal, com todo o fogo e loucura da juventude, retraiu-se perante ela, como estava fazendo agora mesmo.

       Mas, por Seldon, ele poderia ser passivo, ou mesmo fraco, mas havia uma prerrogativa do Primeiro Orador de que nenhum da linhagem jamais abriu mão, e nem ele o faria.

       Levantou-se para falar, e rapidamente se impôs o silêncio em torno da Mesa. Quando o Primeiro Orador erguia-se para falar, não podia haver interrupções. Mesmo Delarmi ou Guendibal não se atreve riam a interromper.

       - Oradores! Concordo que nos defrontamos com uma perigosa crise, e que devemos tomar medidas de força. Eu é que deveria sair ao encontro do inimigo. A Oradora Delamil, com a gentileza que a caracteriza, excusou-me da missão, afirmando que sou necessário aqui. A verdade, porém, é que não sou necessário nem aqui nem lá. Estou ficando velho; estou ficando cansado. Há muito tem havido a expectativa de que algum dia eu renunciaria, e talvez eu o deva fazer. Quando esta crise for superada com sucesso, eu vou renunciar.

       - Mas é claro, é privilégio do Primeiro Orador escolher o seu sucessor. E é o que vou fazer agora. Há um dos Oradores que há muito tem dominado as reuniões da Mesa; que, pela força de sua personalidade, freqüentemente forneceu a liderança que eu não pude oferecer. Todos sabem que estou falando da Oradora Delarmi.

       Fez uma pausa, e então continuou: - Só o senhor, Orador Guendibal, está registrando desaprovação: Posso perguntar por quê? - Sentou-se, de modo que Guendibal pudesse ter o direito a responder.

       - Não desaprovo, Primeiro Orador - falou Guendibal, em voz baixa. - É sua prerrogativa escolher o seu sucessor.

       - E assim o farei. Quando você retomar - com o sucesso ao iniciar o processo que porá um termo a esta crise - será o momento de minha aposentadoria. Meu sucessor então estará diretamente encarregado de conduzir qualquer política que possa ser necessário conduzir, e completar aquele processo. Tem algo a acrescentar, Orador Guendibal?

       Guendibal falou calmamente: - Quando o senhor fizer a Oradora Delarmi a sua sucessora, Primeiro Orador, espero que o senhor ache adequado aconselhá-la a...

       O Primeiro Orador interrompeu-o com brusquidão: - Eu falei na Oradora Delarmi, mas não a nomeei minha sucessora. Mas, o que o senhor tinha a dizer?

       - Minhas desculpas, Primeiro Orador. Eu deveria ter dito: presumindo que o senhor faça a Oradora Delarmi a sua sucessora, quando da minha volta desta missão, o senhor acharia adequado aconselhá-la a...

       - Tampouco vou fazê-la minha sucessora no futuro, sob quaisquer condições. E agora, o que tem a dizer? - O Primeiro Orador era incapaz de fazer este anúncio sem uma pontada de satisfação com o golpe que estava para aplicar em Delarmi. Não poderia fazê-lo de modo mais humilhante.

       - Bem, Orador Guendibal, o que o senhor tem a dizer?

       - Que estou confuso.

       O Primeiro Orador ergueu-se de novo. - A Oradora Delarmi tem dominado e liderado, mas não é tudo o que é necessário para o posto de Primeiro Orador. O Orador Guendibal viu o que nós não vimos. Enfrentou a hostilidade unânime da Mesa, e forçou-a a reconsiderar a questão, e arrastou-a a concordar com ele. Tenho minhas suspeitas quanto à motivação da Oradora Delarmi em colocar a responsabilidade de ir ao encontro de Golan Trevize nos ombros do Orador Guendibal, mas é onde a carga deve ser depositada. Eu sei que ele terá sucesso - coloco minha intuição nisto - e quando ele voltar, o Orador Guendibal se tornará o vigésimo sexto Orador.

       Sentou-se abruptamente e cada Orador passou a tornar bem clara sua opinião num vozerio misturado com pensamento e expressão. O Primeiro Orador não deu atenção à cacofonia, mas ficou olhando à frente, indiferentemente - Agora que estava feito, ele percebia - com alguma surpresa - o grande conforto que havia em deixar cair o manto da responsabilidade. Deveria tê-lo feito antes disto - mas não o poderia.

       Só agora é que ele tinha encontrado o seu sucessor óbvio.

       E então, de alguma maneira, sua mente captou a de Delarmi, e olhou para ela.

       Por Seldon! Ela estava calma e sorridente. Seu desapontamento desesperado não era aparente; o que era sinal de que ela não desistira. Ficou a imaginar se não tinha feito o jogo dela. O que mais ainda havia para ela fazer?

       Delora Delarmi teria aparentado livremente seu desespero e desapontamento se isso se tivesse mostrado de qualquer utilidade.

       Ter-lhe-ia dado muita satisfação dar um murro naquele louco senil que controlava a Mesa, ou naquele imbecil precoce com quem a Fortuna havia conspirado - mas uma satisfação não era o que ela queria. Ela queria algo mais.

       Ela queria ser a Primeira Oradora.

       E enquanto houvesse uma carta para jogar, ela a usaria.

       Sorriu gentilmente, e conseguiu erguer a mão como se estivesse para falar, e então manteve a pose tempo bastante para garantir que quando ela falasse, tudo estaria não só normal, mas radiantemente quieto.

       - Primeiro Orador, como o Orador Guendibal disse antes, eu não desaprovo. É sua prerrogativa escolher o seu sucessor. Se falo agora, é para poder contribuir - eu espero - para o sucesso do que agora tornou-se a missão do Orador Guendibal. Posso explanar meus pensamentos, Primeiro Orador?

       - Por favor; faça-o - disse brevemente o Primeiro Orador. Ela estava muito suave, muito cordata, parecia-lhe.

       Delarmi inclinou a cabeça, gravemente. Não mais sorria: - Temos naves. Não são tecnologicamente tão magnificentes quanto as da Primeira Fundação, mas transportarão o Orador Guendibal. Ele sabe como pilotar uma, creio, como todos nós. Temos nossos representantes em todos os principais planetas da Galáxia, e seremos bem-vindos em qualquer lugar. Ademais, ele pode se defender contra até mesmo esses Anti-Mulas, agora que está bem consciente de seu perigo. Mesmo quando não tínhamos consciência, suspeito que eles teriam preferido trabalhar com as classes inferiores e mesmo com os lavradores hamish. É claro, inspecionaremos exaustivamente as mentes de todos os segundofundacionistas, inclusive dos Oradores, mas estou certa de que elas ficaram invioladas. Os Anti-Mulas não se atreveriam a interferir conosco.

       - Não obstante - prosseguiu - não há razão por que o Orador Guendibal deva arriscar-se mais do que deve. Não pretende engajar-se em temeridades e será melhor se sua missão, até certo ponto, seja disfarçada - caso consiga surpreender a eles. Será útil se ele for no papel de comerciante hamish. Prim Palver, todos sabemos, saiu pela Galáxia como comerciante.

       Ao que disse o Primeiro Orador: - Prim Palver tinha um propósito especifico ao fazê-lo; o Orador Guendibal não tem. Se um disfarce de alguma espécie for necessário, estou certo de que ele será engenhoso o suficiente para adotar um.

       - Com todo o respeito, Primeiro Orador, desejo apontar um disfarce sutil. Prim Palver, o senhor se lembrará, levou consigo sua mulher e companheira de muitos anos. Nada estabeleceu tão completamente a natureza rústica de seu caráter quanto o fato de estar viajando com sua esposa. Dissipou toda suspeita.

       Guendibal respondeu: - Não tenho esposa. Já tive companheiras, mas nenhuma que seria voluntária para assumir o papel marital.

       - Isso é bem sabido, Orador Guendibal - disse Delarmi - mas as pessoas presumirão esse papel, desde que qualquer mulher vá com você. Certamente alguma voluntária pode ser encontrada. E se você sentir a necessidade de apresentar evidência documental, isso pode ser-lhe fornecido. Creio que uma mulher deveria ir com você.

       Por um momento, Guendibal prendeu a respiração. Por certo que ela não estava querendo...

       Será que era um piano para ter parte no sucesso? Seria um plano para ocupar conjuntamente, ou por revezamento, o cargo de Primeiro Orador?

       Guendibal falou, sério: - Estou honrado pela Oradora Delarmi achar que ela...

       E Delarmi riu-se abertamente, olhando para Guendibal com o que pareceu um afeto quase verdadeiro. Caíra na armadilha e parecia um bobo. A Mesa não se esqueceria da piada.

       - Orador Guendibal, eu não teria a impertinência de tentar com partilhar desta missão. Ela é sua, e apenas sua, assim como o posto de Primeiro Orador será seu, e seu apenas. Eu nunca pensaria que você me quereria consigo. Realmente, Orador, em minha idade, eu não me considero mais como uma encantadora....

       Havia sorrisos por toda a volta da Mesa, e mesmo o Primeiro Orador procurava esconder o seu.

       Guendibal sentiu o golpe e procurou não complicar a perda tentando responder à altura, com a mesma leveza. Era uru trabalho perdido.

       Disse tão pouco ferozmente quanto pôde: - Então, o que você sugere? Não passou por minha cabeça, asseguro-lhe, que você quisesse me acompanhar. Está melhor com a Mesa e não na agitação dos negócios galácticos, eu sei.

       - Concordo, Orador Guendibal, concordo. Minha sugestão, porém, refere-se ao seu papel como comerciante hamish. Para torná-lo indiscutivelmente autêntico, que melhor companheira você poderia ter, senão uma mulher hamish?

       - Uma mulher hamish? Uma segunda vez, numa rápida sucessão, Guendibal foi apanhado de surpresa, e a Mesa adotou.

       - Aquela mulher hamish - Delarmi prosseguiu -, aquela que o salvou de uma surra. Aquela que o contempla com veneração. Aquela cuja mente você sondou e que então, muito involuntariamente, salvou-o de algo bem pior que uma surra. Sugiro que você a leve.

       O impulso de Guendibal era recusar, mas ele sabia que ela esperava exatamente isto. Significaria ainda mais diversão para a Mesa. Estava claro agora que o Primeiro Orador, ansioso por atacar Delarmi, tinha cometido um erro ao nomear Guendibal como seu sucessor - ou, no mínimo, que Delarmi rapidamente tinha transformado aquela decisão num engano.

       Guendibal era o mais jovem dos Oradores. Tinha irritado a Mesa e então conseguira evitar a condenação por ela. De uma maneira bem real, tinha humilhado a Mesa. Ninguém podia vê-lo como herdeiro presuntivos sem ressentimento.

       Isso por si só já seria difícil de superar, mas agora eles também se lembrariam quão facilmente Delarmi o lançara no ridículo, e o quanto gostaram disso. Ela usaria o fato para convencê-los, o que seria fácil, de que a ele faltava a idade e a experiência para o cargo de Primeiro Orador. Sua pressão conjugada forçaria o Primeiro Orador a mudar sua decisão, enquanto Guendibal estivesse fora, em sua missão. Ou, se o Primeiro Orador mantivesse sua posição, ele se encontraria eventualmente numa posição em que estaria para sempre inerme contra uma oposição unida.

       Percebeu tudo isso num só instante, e percebeu igualmente que poderia responder sem hesitação:

       - Oradora Delarmi, admiro sua perspicácia. Eu mesmo tinha pensado em surpreender vocês. De fato, foi minha intenção levar comigo a mulher hamish, se bem que não pela excelente razão que você apresentou. Foi por causa de sua mente que desejei levá-la comigo. Todos vocês examinaram aquela mente. Viram-na tal como era: surpreendentemente inteligente, mas mais que isso, clara, simples, totalmente sem mácula. Nenhum toque nela por terceiros passará despercebido, como estou certo que todos vocês concluíram.

       - Imagino se lhe ocorreu, Oradora Delarmi, que ela serviria como um excelente alarme. Eu detectaria a primeira presença sintomática de mentalismo por intermédio da mente dela, antes, eu creio, que pela minha mente.

       Houve uma espécie de silêncio surpreso perante isso, e ele disse, superficialmente: - Ah, ninguém percebeu isso. Bem, não importa! E agora, sairei. Não há tempo a perder.

       - Espere - disse Delarmi, sua iniciativa perdida uma terceira vez. - O que pretende fazer2

       Guendibal deu de ombros: - Por que entrar em detalhes? Quanto menos a Mesa souber, menos provável que os Anti-Mulas possam perturbá-la.

       Disse tal coisa como se a segurança da Mesa fosse sua principal preocupação. Encheu sua mente com a idéia, e deixou transparecer.

       Isso os agradaria. Mais que isso, a satisfação que lhes causaria os impediria de ficar imaginando se, de fato, Guendibal sabia exatamente o que deveria fazer.

      

       O Primeiro Orador falou com Guendibal a sós, naquela noite.

       - Você estava certo; não pude evitar roçar abaixo da superfície da sua mente, e vi que você considerou o anúncio como um erro, e foi. Foi minha ansiedade em apagar aquele eterno sorriso do rosto dela, e responder à maneira tão sem-cerimônia com que ela tão freqüentemente usurpa meu papel.

       Guendibal disse, gentilmente: - Poderia ter sido melhor se o senhor me dissesse em particular, e então esperasse por minha volta, para dar mais um passo.

       - Isso não me teria permitido atingi-la. Pobre motivação para um Primeiro Orador, eu sei.

       - Isto não vai detê-la, Primeiro Orador. Ela ainda vai fazer intrigas para conseguir o posto, e talvez com boas razões. Estou certo de que há alguns que argumentam que eu deveria ter recusado a sua nomeação. Não seria difícil alegar que a Oradora Delarmi tem a melhor mente da Mesa, e seria uma melhor Primeira Oradora.

       - A melhor mente à Mesa, mas não longe dela - resmungou Shandess. - Ela não reconhece inimigos reais, exceto se forem outros Oradores. Ela nunca deveria ter sido feita Oradora, para começar. Posso proibi-lo de levar aquela hamish? Ela o manobrou para aceitar a coisa, eu sei.

       - Não, não: a razão que adiantei para levá-la é verdadeira. Ela vai ser o meu alarme, e sou grato à Oradora Delarmi por me levar a perceber tal coisa. A mulher vai se mostrar muito útil, estou convencido disso.

       - Muito bem, então. Aliás, eu também não estava mentindo. Estou mesmo certo de que você vai conseguir fazer o que quer que seja necessário para pôr fim a esta crise. - Se é que você pode confiar em minha intuição.

       - Creio que posso confiar nela, pois concordo com o senhor. Prometo-lhe que o que quer que aconteça, darei melhor do que recebo. Voltarei, para ser Primeiro Orador, o que quer que os Anti-Mulas ou a Oradora Delarmi possam fazer.

       Guendibal estudou sua própria satisfação, à medida que falava  Por que estava tão contente, tão insistente, nesta aventura com uma nave solitária no espaço? Ambição, é claro. Prim Palver certa vez fizera exatamente este tipo de coisa, e ele ia mostrar que Stor Guendibal também podia fazê-lo. Ninguém poderia impedi-lo de ser Primeiro Orador depois desse feito. E no entanto, haveria ali algo além da ambição? A atração do combate? O desejo geral de excitação em alguém que estivera confinado a um lugarejo escondido num planeta atrasado por toda a vida adulta? Ele não entendia inteiramente, mas sabia que estava desesperadamente determinado a ir.

      

Sayshell

       Janov Pelorat observava, pela primeira vez em sua vida, à medida que a estrela brilhante gradativamente ia se tomando um orbe, o que Trevize chamara um ‘micro-Salto”, O quarto planeta - aquele habitável, e seu destino imediato, Sayshell - cresceu de tamanho e proeminência mais lentamente - por um período de vários dias.

       O computador apresentou um mapa do planeta, continuamente exibido numa tela portátil, que Pelorat sustentava no colo.

       Trevize, com o aprumo de alguém que em seus tempos já aportara em dúzias de mundos, disse: - Não comece a procurar muito tão cedo, Janov. Precisamos passar por todo o procedimento de entrada primeiro, o que pode ser muito chato,

       Pelorat ergueu os olhos: - Mas por certo que isso é apenas uma formalidade.

       - E é; mas ainda assim, pode ser muito chato.

       - Mas é tempo de paz.

       - Ë claro. Isso significa que vão nos deixar passar. Primeiro, porém, há uma questãozita de equilíbrio ecológico. Todo planeta tem o seu, e nenhum o quer perturbar. Assim, naturalmente fazem questão de inspecionar a nave à cata de organismos indesejáveis, ou infecções. É uma precaução razoável.

       - Não carregamos essa espécie de coisas, ao que me parece.

       - Não, não carregamos, e eles logo vão saber disso. Lembre-se também que Sayshell não é membro da Federação da Fundação, assim deveremos sofrer algum atraso, a título de demonstração de independência por parte deles.

       Uma pequena nave veio inspecioná-los, e um funcionário da alfândega de Sayshell veio a bordo. Trevize foi brusco, não tendo esquecido seus dias de militar.

       - A Far Star, vinda de Terminus. Os papéis da nave. Desarmado. Nave particular. Meu passaporte. Há um passageiro. O passaporte dele. Somos turistas.

       O funcionário alfandegário usava um garrido uniforme em que o carmesim era a cor dominante. As faces e o lábio superior estavam bem barbeados, mas tinha uma barba curta dividida de tal modo que dois tufos se projetava para ambos os lados de seu queixo. Perguntou: - Nave da Fundação?

       Ele pronunciou “Nave da Fundazão”, mas Trevize teve o cuidado de não corrigi-lo, nem sorrir. Havia tantas variedades de dialeto do Galáctico-padrão quantos planetas, e cada um falava o seu, Enquanto houvesse compreenmútua, não importava.

       - Sim, senhor. Nave da Fundação. Propriedade particular.

       - Muito bem. Sua calga, pur favor.

       -Minha o quê?

       - Sua calga. O que está tlansportando?

       - Ah, sim, minha carga. Aqui está o manifesto. Apenas propriedade pessoal. Não estamos aqui para comerciar. Corno lhe disse, somos simplesmente turistas.

       O funcionário olhou à volta, com curiosidade: - Ë uma nave um tanto sofisticada, para turistas.

       - Não pelos padrões da Fundação - disse Trevize, num momento de bom humor. - Tenho o bastante para me permitir isto.

       - O senhor está sugerindo que eu poderia enricar? - E o funcionário olhou-o por um instante, e logo desviou o olhar.

       Trevize hesitou um momento para interpretar o significado da palavra, e então mais um momento para decidir seu curso de ação. - Não, não é minha intenção suborná-lo, e o senhor não parece o tipo de pessoa que poderia ser subornada, mesmo que essa fosse minha intenção. Pode inspecionar a nave, se quiser.

       - Não há necessidade - respondeu o oficial, pondo de lado o seu gravador de bolso. - O senhor já foi inspecionado especificamente quanto a infecção contrabandeada e passou. A nave recebeu um comprimento de onda que servirá como feixe de aproximação.

       Saiu. Todo o procedimento tomara quinze minutos. Pelorat disse, em voz baixa: - Ele poderia criar caso? Ele esperava uma propina?

       Trevize deu de ombros: - Subornar o funcionário da alfândega é tão velho quanto a Galáxia, e eu já o teria feito, se ele tentasse fazer uma segunda aproximação. Mas tal como foi, acho que ele preferirá não se arriscar com uma nave da Fundação, e uma tão sofisticada, aliás. A velha Prefeita, abençoado seja o seu couro duro, disse que o nome da Fundação nos protegeria onde quer que fôssemos, e ela não estava errada. Poderia ter-nos custado muito mais tempo.

       - Por quê? Ele pareceu ter descoberto tudo o que queria saber.

       - Sim, mas foi cortês o bastante para nos inspecionar por varredura remota por rádio. Se ele quisesse, poderia ter visitado toda a nave com um aparelho manual, e levado horas. Poderia ter colocado a nós dois num hospital de campanha e nos mantido lá por dias.

       - O quê? Mas, meu caro amigo!

       - Não fique alarmado. Ele não o fez. Pensei que poderia, mas não o fez. O que significa que estamos livres para aterrissar. Gostaria de descer graviticamente - o que nos levaria quinze minutos - mas não sei qual a localização dos lugares permitidos para isso, e não quero causar problemas. O que significa que teremos de seguir o feixe de rádio - o que levará horas - enquanto espiralamos atmosfera abaixo.

       Pelorat parecia alegre. - Mas isso é excelente, Golan! Vamos passar devagar o bastante para observar o terreno? - Levantou sua visitela portátil, com o mapa numa ampliação pequena.

       - Mais ou menos. Precisaríamos passar sob a cobertura de nuvens e estaríamos nos deslocando a uns poucos quilômetros por segundo. Não será como passear de balão pela atmosfera, mas você poderá re conhecer a planetografia.

       - Excelente! Excelente!

       Trevize disse, pensativo: - Imagino, porém, se vamos ficar no planeta Sayshell tempo bastante para justificar o ajuste do relógio da nave ao tempo local.

       - Depende do que planejarmos fazer, eu creio, O que acha que podemos fazer, Golan?

       - Nossa tarefa é encontrar Gaia, e eu não sei quanto tempo isso nos levará.

       - Podemos ajustar só nossas pulseiras e deixar o relógio da nave como está.

       - Está bem, então - respondeu Trevize. Olhou para o planeta, numa visão ampla sob eles. - Não adianta esperar mais. Vou ajustar o computador para o feixe de rádio que nos foi designado e ele poderá usar a gravítica para imitar um vôo convencional. Isso mesmo! Vamos descer, Janov, e vejamos o que podemos descobrir.

       Ficou contemplando o planeta pensativamente, à medida que a nave começou a se mover ao longo de sua curva eqüipotencial suavemente ajustada.

       Trevize nunca tinha estado na União de Sayshell, mas sabia que ao longo do último século ela tinha sido constantemente inamistosa em relação à Fundação. Ficou surpreso - e um tanto desorientado - por terem passado pela alfândega tão rapidamente.

       Simplesmente não parecia razoável.

      

       O nome do funcionário alfandegário era Jogoroth Sobhaddartha e estava servindo na estação esporadicamente por toda sua vida.

       Não se incomodava com aquela vida, pois lhe dava uma chance - um mês a cada três - de ver seus livros, ouvir música, e estar longe de sua mulher e do filho pequeno.

       É claro, durante os últimos dos anos, o chefe da alfândega era um Sonhador, o que era irritante. Não há ninguém tão insuportável quanto uma pessoa que não dá nenhuma desculpa para uma ação em particular do que dizer que foi instruído para isso num sonho.

       Pessoalmente, Sobhaddartha decidiu não acreditar em nada disso, tendo o cuidado de não dizê-lo em voz alta, pois a maioria das pessoas em Sayshell reprovava dúvidas antipsíquicas Tomar-se conhecido como materialista poderia colocar em risco sua aposentadoria, que já estava próxima.

       Cofiou os dois tufos em seu queixo, um com a mão direita e o outro com a esquerda, limpou o pigarro um tanto ruidosamente e então, com um à-vontade um tanto impertinente, disse: - Era aquela nave, chefe?

       O chefe, que tinha o nome igualmente sayshelliano de Namarath Godhisavatta estava preocupado com um assunto de informações originadas no computador, e não ergueu o olhar. - Que nave?

       - A Far Star. A nave da Fundação. Aquela que deixei passar. Aquela que foi holografada de todos os ângulos. Foi aquela com que o senhor sonhou?

       Godhisavatta agora ergueu os olhos. Era um baixinho, com olhos quase negros e cercados por rugas finas que não foram produzidas por nenhuma tendência a sorrir. - Por que pergunta?

       Sobhaddartha empertigou. e deixou que suas sobrancelhas escuras e abundantes se aproximassem uma da outra: - Disseram ser turistas, mas nunca vi uma nave como aquela antes, e minha opinião é que são agentes da Fundação.

       Godhisavatta reclinou-se em sua Poltrona: - Veja, meu caro, por mais que eu tente, não consigo me lembrar de ter pedido sua opinião.

       - Mas, chefe, considero meu dever patriótico apontar que.. Godhisavatta cruzou os braços sobre o peito e fitou o subordinado, que (muito embora mais impressionante na estatura física e no porte) se permitiu abater e assumir uma aparência submissa, sob o olhar de seu superior.

       Godhisavatta disse; - Meu bom homem, se você souber o que é melhor para você, vai fazer seu trabalho sem comentário - ou vou providenciar que não haja pensão quando você se aposentar, o que será logo, se ouvir mais alguma coisa sobre um assunto que não lhe concerne.

       Em voz baixa, Sobhaddartha respondeu; - Sim, senhor. - E então, com um grau de subserviência suspeito em sua voz, acrescentou: - Estaria no âmbito de meus deveres, senhor, informar que uma segunda nave está ao alcance de nossas telas?

       - Considere-a informada - disse Godhisavatta, irritado, voltando ao seu trabalho.

       - Com características muito similares àquela que acabo de deixar passar - disse Sobhaddartha ainda mais humildemente.

       Godhisavatta colocou suas mãos sobre a escrivaninha e ficou de pé: - Uma segunda nave?

       Sobhaddartha sorriu, interiormente. Aquela pessoa sanguinária, nascida de uma união irregular (referia-se ao chefe), claramente não tinha sonhado com duas naves. Acrescentou: - Aparentemente, senhor! Agora, voltarei ao meu posto e esperarei ordens e espero, se nhor...

       - Sim?

       Sobhaddartha não podia resistir, apesar de arriscar a sua pensão: - E espero, senhor, que não tenhamos deixado passar a nave errada.

      

       A Far Star movia-se rapidamente sobre a superfície do planeta Sayshell, e Pelorat a observava fascinado. À camada de nuvens estava mais tina e rarefeita do que em Terminus, e precisamente como o mapa mostrava, as massas de terra eram mais compactas e extensas - inclusive áreas desérticas maiores, a julgar pela cor enferrujada de boa parte da extensão continental.

       Não havia sinal de qualquer coisa viva. Parecia um mundo de deserto estéril, planície cinzenta, de rugas infinitas que poderiam representar áreas montanhosas, e, é claro, o oceano.

       - Parece sem vida - murmurou Pelorat.

       - Não se espera ver sinais de vida a esta altitude. Ao baixarmos mais, você verá a terra apresentando manchas verdes. Ainda antes, na verdade, será possível ver as luzes na paisagem noturna. Os seres humanos têm a tendência de iluminar os seus mundos, quando vem a escuridão; nunca ouvi falar de um mundo que seja exceção a essa regra. Em outras palavras, o primeiro sinal de vida que se vê não só é humano, mas também tecnológico.

       Pelorat disse, meditativo: - Os seres humanos são de natureza diurna, afinal de contas. Parece-me que dentre as primeiríssimas tarefas de uma tecnologia em desenvolvimento seria a conversão da noite em dia. De fato, se a um mundo faltasse a tecnologia e tivesse de desenvolvê-la, seria possível seguir o desenvolvimento tecnológico pelo aumento de iluminação no seu lado escuro. Quanto tempo levaria, na sua opinião, para sair da escuridão uniforme para a iluminação uniforme?

       Trevize riu: - Você tem estranhos pensamentos, mas eu suponho que isso se deve a ser um mitólogo. Não creio que um mundo jamais venha a adquirir um brilho uniforme. A luz da noite acompanharia o padrão da densidade populacional, de modo que os continentes brilhariam em nós e fieiras. Mesmo Trantor em seu apogeu, quando era uma só grande estrutura, deixava escapar luz daquela estrutura só em pontos esparsos.

       A terra foi ficando verde, como Trevize previra, e na última órbita em torno do globo, apontou marcas que disse que eram cidades. - Não é um mundo muito urbanizado. Nunca estive na União de Sayshell antes, mas de acordo com a informação que o computador me dá, tendem a se apegar ao passado. A tecnologia, aos olhos de toda a Galáxia, sempre esteve associada à Fundação, e onde quer que a Fundação seja impopular, há a tendência de se apegar ao passado - exceto, é claro, no que concerne às armas de guerra. Garanto-lhe que Sayshell é bem moderno quanto a este aspecto.

       - Ai de mim, Golan; isso não vai acabar ficando desagradável, não é? Somos fundacionistas, afinal de contas, e estando em território inimigo...

       - Não é território inimigo, Janov. Eles serão perfeitamente polidos, não tema. A Fundação só não é popular, e isso é tudo. Portanto, porque eles são orgulhosos de sua independência e porque não gostam de se lembrar que são muito mais fracos que a Fundação e permanecem independentes só porque deixamos que eles continuem assim, permitem-se o luxo de não gostarem de nós.

       - Receio, ainda assim, que seja desagradável - disse Pelorat, desapontado.

       - De modo algum. Ora, vamos, Janov, estou falando só da atitude oficial do governo sayshelliano. Uma pessoa do planeta é apenas povo, e se formos agradáveis e não agirmos como se fôssemos os Senhores da Galáxia, eles também serão agradáveis. Não estamos chegando em Sayshell para estabelecer o domínio da Fundação. Somos apenas turistas, fazendo o tipo de perguntas sobre Sayshell que qualquer turista faria. E podemos relaxar um pouco legitimamente, também, se a situação permitir. Não há nada errado em ficar aqui por alguns dias, e experimentar o que eles têm a oferecer. Talvez tenham uma cultura interessante, paisagens interessantes, comida interessante, e, se tudo o mais falhar, mulheres interessantes. E temos dinheiro para gastar!

       Pelorat fez uma careta: - Ora, meu caro rapaz...

       - Ora, vamos. Você não é tão velho assim. Será que não está interessado?

       - Não digo que eu jamais tenha exercido esse papel adequadamente, mas certamente esta não é ocasião para tal. Temos uma missão. Queremos atingir Gaia. Não tenho nada contra uma boa diversão; de fato, não, mas se começarmos a nos envolver, poderá ser difícil cair fora. - Abanou a cabeça e disse, calmo: - Acho que você receou que eu poderia gostar demais da Biblioteca Galáctica em Trantor, e não quisesse mais sair de lá. Certamente a Biblioteca é para mim o que uma jovenzinha atraente de olhos negros, ou umas cinco ou seis, seriam para você.

       - Não sou um tarado, Janov, mas não tenho nenhuma intenção de ser ascético, tampouco. Muito bem, prometo-lhe que vamos continuar com esse negócio de Gaia, mas se algo agradável aparecer no meu caminho, não há razão na Galáxia pela qual eu não deva reagir normalmente.

       - Se pelo menos você puser Gaia em primeiro...

       - Eu vou; eu vou. Apenas lembre-se que não deve dizer a ninguém que somos da Fundação. Eles vão saber que somos, porque temos créditos da Fundação, e falamos com um forte sotaque de Terminus, mas se não dissermos nada a respeito, poderão fingir que somos estrangeiros sem residência fixa, e serão amigáveis. Se fizermos questão de ser fundacionistas, eles vão conversar conosco polidamente, mas não vão nos contar nada, não vão mostrar nada, não vão nos levar a lugar algum, e vão nos deixar totalmente sós.

       Pelorat suspirou: - Acho que nunca vou entender as pessoas.

       - Não é nada difícil. Tudo o que tem a fazer é olhar bem de perto para si mesmo, e vai entender tudo o que precisa. De modo algum somos tão diferentes. Como Seldon teria elaborado o seu Plano - e não me importo quão sutil foi sua matemática - se ele não entendesse as pessoas; e como ele poderia, se as pessoas não fossem fáceis de entender? Mostre-me alguém que não consegue entender as pessoas, e vou mostrar-lhe alguém que construiu uma falsa imagem de si mesmo, sem querer ofendê-lo.

       - Ora, não é nada. Admito que sou inexperiente e que passei uma vida um tanto egocêntrica e restrita. Pode ser que nunca dei uma boa olhada para mim mesmo, de modo que deixarei que seja o meu guia e conselheiro, no que quer que diga respeito a pessoas.

       - Ótimo; então, ouça meu conselho agora e aprecie a paisagem. Estaremos aterrissando logo e garanto-lhe que não vai sentir nada. O computador e eu vamos cuidar de tudo.

       - Golan, não fique agastado. Se uma jovem porventura...

       - Esqueça! Apenas deixe-me cuidar da aterrissagem.

       Pelorat voltou-se para olhar para o mundo na ponta da espiral da nave, que se contraía. Seria o primeiro mundo estranho sobre o qual poria os pés. Este pensamento de algum modo o assombrava, a despeito de todos os milhões de planetas da Galáxia terem sido colonizados por pessoas que não tinham nascido sobre eles.

       Todos exceto um, pensou ele, com tremor e antecipado deleite.

      

       O espaçoporto não era grande, pelos padrões da Fundação, mas era bem conservado. Trevize observou a Far Star sendo deslocada para um berço e trancada em seu lugar. Receberam um elaborado recibo em código.

       Pelorat disse, voz baixa: - Vamos deixá-lo aqui, assim?

       Trevize fez que sim e colocou a mão no ombro do outro, para reconfortá-lo. - Não se preocupe - disse em voz baixa.

       Entraram no veículo terrestre que alugaram, e Trevize ligou nele o mapa da cidade, cujas torres podia ver no horizonte. - Cidade de Sayshell; capital do planeta. Cidade - planeta - es trela - todos com o nome de Sayshell.

       - Preocupo-me com a nave - insistiu Pelorat.

       - Mas não há nada para se preocupar. Estaremos de volta esta noite, porque é onde dormiremos, se quisermos ficar aqui mais que algumas horas. Você precisa entender, também, que há um código interestelar de ética espaçoportuária que, tanto quanto eu saiba, nunca foi quebrado, mesmo em tempo de guerra. As espaçonaves que vêm em paz são invioláveis. Qualquer mundo onde esse código fosse quebrado seria boicotado pelos pilotos espaciais de toda a Galáxia. E garanto-lhe, nenhum mundo arriscaria isso. Além do que...

       - O quê?

       - Além do mais, arranjei com o computador que qualquer um que não pareça um de nós, nem tenha a nossa voz, seja morto se tentar subir a bordo. Tomei a liberdade de explicar isso para o Comandante do Porto. Disse-lhe muito polidamente que adoraria desligar esse acessório em deferência à reputação que o Espaçoporto da Cidade de Sayshell tem por sua absoluta integridade e segurança em toda a Galáxia, mas que a nave é de um modelo novo e eu não sabia como desligá-lo.

       - E ele não acreditou nessa, com toda a certeza.

       - É claro que não! Mas ele teve de fingir que sim, pois de outro modo ele não teria alternativa senão aceitar uma ofensa. E como não haveria nada mesmo que ele pudesse fazer a respeito, ser insultado só poderia levar a uma humilhação. E como isso seria a última coisa que ele desejaria, o caminho mais simples a seguir foi acreditar no que eu disse.

       - E isso, é um outro exemplo de como as pessoas são?

       - Sim; e você vai ficar acostumado com isso.

       - Como você sabe que este veículo não tem microfones?

       - Pensei que bem poderia ter. Assim, quando eles me ofereceram um, peguei um outro, ao acaso. Se eles todos têm microfones - bem, o que estivemos dizendo de tão terrível?

       Pelorat parecia infeliz: - Não sei como dizer, mas parece mesmo mal-educado reclamar, mas não gosto do cheiro daqui... Há um... odor.

       - Neste veículo?

       - Bem, para começar, no espaçoporto. Suponho que é como cheiram os espaçoportos, mas este veículo trouxe o cheiro com ele. Podemos abrir as janelas?

       Trevize riu - - Acho que poderia descobrir que parte do painel de controle faz o truque, mas não vai adiantar. Este planeta simplesmente fede. É tão ruim assim?

       - Não é muito forte; mas dá para notar - e é um tanto repulsivo. Será que o mundo inteiro cheira assim?

       - Sempre esqueço que você nunca esteve em outro mundo. Todo mundo habitado tem o seu cheiro característico. É em geral toda a vegetação, mas suponho que os animais e os seres humanos contribuam. E tanto quanto eu saiba, ninguém gosta do cheiro de qualquer planeta quando desce nele pela primeira vez. Mas você se acostuma, Janov. Em algumas horas, prometo que não vai mais notar.

       - Certamente, você não quer dizer que todos os mundos cheiram como este.

       - Não; como eu disse, cada um tem o seu. Se realmente prestássemos atenção ou se nossos narizes fossem mais aguçados, como os dos cães anacreonianos, provavelmente poderíamos dizer o mundo em que estamos com uma só cheirada. Quando entrei na frota, nunca conseguia comer no primeiro dia num novo planeta; então aprendi o truque dos velhos espaçonautas de cheirar um lenço com o cheiro do mundo nele, durante a descida. Quando se sai ao ar livre, não se percebe mais o cheiro. E depois de um momento, fica-se endurecido; aprendemos a não ligar para o cheiro. O pior torna-se voltar para casa.

       - Por quê?

       - Você acha que Terminus não cheira?

       - Está me dizendo que ele cheira?

       - É claro que sim. Uma vez acostumado ao cheiro de algum outro mundo, como Sayshell, você vai ficar abismado com o fedor de Terminus. Nos velhos dias, sempre que as comportas se abriam em Terminus, depois de uma missão mais longa, toda a tripulação dizia: “De volta para a lixeira”.

       Pelorat parecia repugnado.

       As torres da cidade estavam perceptivelmente mais perto, mas Pelorat manteve os olhos fixos em suas vizinhanças imediatas. Havia outros veículos movendo-se em ambos os sentidos e um ocasional aerocarro lá em cima, mas Pelorat estava estudando as árvores.

       - A vida vegetal parece estranha. Acha que algumas plantas sejam nativas?

       - Duvido - disse Trevize, distraído. Estava estudando o mapa e tentando ajustar a programação do computador do carro. - Não há muita vida nativa em qualquer planeta humano. Os colonos sempre importaram suas próprias plantas e animais, quer no tempo da colonização, quer pouco tempo depois.

       - Mas, parece estranho.

       - Não espere encontrar as mesmas variedades de planeta para planeta, Janov. Certa vez disseram-me que o pessoal da Enciclopédia Galáctica compilou um atlas das variedades que chegou a oitenta e sete gordos discos de computador, e mesmo assim, era incompleto - e de qualquer modo,já ultrapassado, quando foi terminado.

       O carro continuava a viagem, e os subúrbios se abriram e os engoliram. Pelorat estremeceu de leve: - Não é grande coisa a arquitetura das cidades deles.

       - Sua alma, sua palma - disse Trevize, com a indiferença do viajante espacial experimentado.

       - Aliás, para onde estamos indo?

       - Bem - respondeu Trevize, com alguma exasperação - , estou tentando fazer o computador guiar esta coisa para o centro de turistas. Espero que o computador conheça as ruas de mão única e o regulamento de tráfego, porque eu não os conheço.

       - E o que faremos lá, Golan?

       - Para começar, somos turistas, de modo que é o lugar para onde naturalmente iríamos, e queremos ser tão inconspícuos e naturais quanto pudermos. E em segundo lugar, onde você iria para obter informação sobre Gaia?

       - A uma universidade - ou a uma sociedade de antropologia - ou a um museu - mas certamente não a um centro de turistas.

       - Bem, você está errado. No centro de turistas seremos o tipo intelectual, ansioso para obter uma lista das universidades na cidade e dos museus, e tudo o mais. Decidiremos para onde ir em primeiro lugar e lá poderemos encontrar as pessoas certas para consultar a respeito de história antiga, galactografia, mitologia, antropologia, ou qualquer outra coisa que você puder pensar. Mas tudo começa no centro de turistas.

       Pelorat calou-se, e o carro movia-se tortuosamente, ao se juntar ao tráfego local. Mergulharam numa via secundária e passaram por sinais que poderiam estar representando direções e instruções de tráfego, mas num estilo de caligrafia que os tornava totalmente ilegíveis.

       Afortunadamente, o carro se comportava como se conhecesse o caminho, e quando parou e manobrou para dentro de um estacionamento, apareceu um anúncio: AMBIENTE EXTRAPLANETÁRIO DE SAYSHELL, naquelas mesmas letras difíceis de ler, e logo em baixo: CENTRO DE TURISTAS DE SAYSHELL, nas letras do Galáctico-Padrão, mais fácil de ler.

       Adentraram pelo edifício, que não era tão grande quanto a fachada os levara a acreditar. Certamente não era muito movimentado, lá

       Havia uma série de saletas de espera, uma das quais ocupada por um homem lendo as tiras de notícias emergindo de um pequeno ejetor; uma outra continha duas mulheres que pareciam estar jogando algum complicado jogo de cartas e fichas. Atrás de um balcão muito grande para ele, com controles computerizados piscando que pareciam demasiado complexos para ele, estava um entediado funcionário sayshelliano vestindo o que parecia um axadrezado multicolorido.

       Pelorat só ficava olhando; e sussurrou: - Certamente, este é um mundo de roupas bem extrovertidas.

       - É mesmo - disse Trevize. - Já reparei. As modas sempre mudam, de planeta para planeta, e por vezes, de região para região, num mesmo mundo. E também mudam com o tempo. Há cinqüenta anos atrás, todos em Sayshell poderiam estar vestindo só preto. Aceite essas coisas tais como são, Janov.

       - É, suponho que é o que me resta; mas prefiro nossa própria moda. Pelo menos, não é uma agressão ao nervo óptico.

       - Por que tantos de nós só usam cinza sobre cinza? Isso ofende algumas pessoas, também. Já ouvi se referirem a nós como “vestidos de pó”. E talvez seja mesmo a ausência de cores da Fundação que mantenha os outros povos no arco-íris - só para enfatizar a independência deles. Mas é tudo uma questão de se acostumar. Vamos, Janov.

       Os dois se dirigiram ao balcão, e ao fazê-lo, o homem na saleta abandonou suas notícias, levantou-se e veio ao encontro deles, sorridente. As roupas dele também eram em tons de cinza.

       Trevize não o olhou, de início, mas quando o fez, parou, estarrecido.

       Quase perdeu o fôlego: - Pela Galáxia! Meu amigo - o traidor!

      

Agente

       Munn Li Compor, Conselheiro de Terminus, pareceu inseguro ao estender a mão direita para Trevize.

       Trevize olhou sério para aquela mão, e não a apertou. Disse, aparentemente para o ar: - Não estou em posição de criar uma situação na qual eu talvez seja preso por perturbar a ordem pública num planeta estrangeiro, mas eu o farei se este indivíduo se aproximar mais um passo.

       Compor parou instantaneamente, hesitou, e por fim disse em voz baixa, depois de relancear para Pelorat: - Posso ter uma chance de falar? Explicar? Você vai escutar?

       Pelorat olhou de um para outro com uma leve ruga em seu rosto comprido: - O que significa isto, Golan? Viemos até este mundo distante e logo encontramos algum conhecido seu?

       Os olhos de Trevize permaneceram fixos em Compor, mas torceu o corpo levemente,para deixar claro que estava falando com Pelorat.

       - Esta... criatura... pelo menos é o que se depreende de seu formato, humana... outrora foi meu amigo em Terminus. E como é meu hábito com amigos, confiei nele. Contei-lhe sobre minhas opiniões, que talvez não fossem do tipo que pudessem ser ventiladas em qual quer lugar. E ele as levou às autoridades, em pormenor, ao que parece, e nem se preocupou em me contar o que fez. Por essa razão, fui direitinho para uma armadilha e agora estou no exílio. E agora este... ser humano... quer ser reconhecido como amigo. Voltou-se de frente para Compor e passou os dedos pelos cabelos, conseguindo apenas desarranjá-los ainda mais. - Escute aqui: eu tenho uma pergunta para você. O que está fazendo aqui? De todos os mundos da Galáxia em que você podia estar, por que está neste aqui? E por que agora?

       A mão de Compor, que tinha permanecido estendida durante todo o discurso de Trevize, agora caiu a seu lado e o sorriso deixou sua face. O ar de auto-confiança, que ordinariamente era parte integrante dele, tinha-se ido, e em sua ausência, parecia mais jovem que seus trinta e quatro anos, e um pouco acabrunhado. - Posso explicar! Mas só do começo.

       Trevize olhou rapidamente à volta: - Aqui? Você realmente quer tratar desse assunto aqui? Num local público? Quer que eu o nocauteie aqui depois de ter ouvido o bastante de suas mentiras?

       Compor erguia ambas as mãos agora, palmas uma contra a outra: - Ë o lugar mais seguro, acredite! - E então, interrompendo-se e percebendo o que o outro estava para dizer, acrescentou, apressado: - Ou não acredite, não importa. Estou dizendo a verdade. Estou no planeta há algumas horas, e já sei, é um dia especial, aqui em Sayshell. É um dia de meditação, por algum motivo. Quase todos estão em casa - ou deveriam estar. - Veja como este lugar está vazio. Você não supõe que seja assim todo dia.

       Pelorat concordou: - Eu estava mesmo tentando descobrir por que estava tão vazio. - Pelorat inclinou-se para a orelha de Trevize e acrescentou: - Por que não o deixa falar, Golan? Ele parece num estado miserável, o pobre camarada, e ele pode mesmo estar tentando se desculpar. Não parece justo não lhe dar uma chance.

       - O dr. Pelorat parece ansioso por ouvi-lo. Vou conceder-lhe isso, mas se quiser falar comigo, seja breve. Hoje parece ser um bom dia para eu perder o bom humor. Se todos estão meditando, alguma perturbação que eu causar poderá não atrair os guardiões da lei. E amanha eu talvez não tenha tanta sorte. Por que perder esta oportunidade?

       Compor disse, em voz tensa: - Se você quer me acertar, faça-o logo. Não vou sequer me defender. Vamos, bata em mim, mas escute!

       - Vamos lá, fale! Vou ouvir por alguns momentos.

       - Em primeiro lugar, Golan..

       - Dirija-se a mim por “senhor Trevize”, por favor. Não quero mais que você me trate com intimidade.

       - Em primeiro lugar, senhor Trevize, o senhor fez um bom trabalho em me convencer das suas opiniões...

       - Você escondeu isso muito bem. Eu poderia jurar que você só se divertia às minhas custas.

       - Aparentei isso para esconder de mim mesmo o fato de que você estava conseguindo me abalar muito. Vamos nos sentar junto àquela parede. Mesmo com o lugar vazio, alguns ainda podem vir aqui e não creio que precisemos dar na vista desnecessariamente.

       Lentamente, os três homens cruzaram a maior parte da extensão da grande sala. Compor estava procurando sorrir de novo, mas continuou cuidadosamente à distância de um braço longe de Trevize.

       Sentaram.se cada um num assento, que cedeu, quando seus corpos se colocaram sobre eles, e se amoldaram ao formato de seus quadris e costas. Pelorat sobressaltou-se e quis levantar-se.

       - Relaxe, professor disse Compor. - Já passei por isso. Eles estão à nossa frente, em algumas coisas. É um mundo que acredita em pequenos confortos.

       Voltou-se para Trevize, colocando um braço para trás, sobre o encosto de sua poltrona, e falando com mais facilidade: - Você me abalou. Fez-me sentir que a Segunda Fundação existe, o que é profundamente perturbador. Considere as conseqüências, se eles ainda estivessem por aí. Não parece que eles viriam atrás de você? Removê-lo como a uma ameaça? E se eu acreditasse em você abertamente, eu também poderia ser removido. Percebe minha posição?

       - Percebo um covarde.

       - De que adiantada esse heroísmo barato? - foi o que respondeu Compor, olhos azuis arregalando-se de indignação. - Você, ou eu, podemos nos contrapor a uma organização capaz de moldar nossas mentes e emoções? A única maneira que encontraríamos para lutar eficazmente seria, para começar, ocultar nosso conhecimento.

       - Então, você o escondeu e está seguro? Mas você não o escondeu da Prefeita Branno, não é? Esse foi um risco e tanto.

       - Sim! Mas pensei que valia a pena. Falar apenas entre nós poderia, no máximo, acarretar que só nós mesmos ficássemos mentalmente controlados, ou com nossas memórias totalmente apagadas. Se eu contasse à Prefeita, por outro lado... ela conhecia bem o meu pai, você sabe. Meu pai e eu éramos imigrantes de Smirno, e a Prefeita teve uma avó que...

       - Sim, sim! - ia dizendo Trevize, com impaciência -, e há muitas gerações atrás, você pôde detectar seus ancestrais até o Setor de Sirius. Você já contou isso a todas as pessoas que conhece. Continue, Compor!

       - Então eu fiz com que ela ouvisse. Se eu pudesse convencer a Prefeita de que havia perigo, usando os seus argumentos, a Federação poderia tomar alguma atitude. Não estamos tão inermes quanto nos dias do Mula e, na pior das hipóteses, este conhecimento perigoso se difundida mais amplamente e nós mesmos não estaríamos num perigo tão especifico.

       Trevize disse, sardonicamente: - Ponha em perigo a Fundação, mas deixe a nós seguros. Bom tema patriótico.

       - Isso seria a pior das hipóteses. Eu estava contando com a melhor. - Sua testa estava ficando um pouco suada. Parecia estar fazendo força contra o desprezo inamovível de Trevize.

       - E você não me falou nada desse seu plano tão inteligente, não?

       - Não, não disse, e estou arrependido. A Prefeita ordenou-me para não contar. Disse que queria saber tudo o que você sabia, mas que você era o tipo de pessoa que emudeceria se soubesse que suas observações estavam sendo passadas adiante.

       - E como ela estava certa!

       - Eu não sabia - não podia adivinhar - não tinha jeito de conceber que ela estava planejando prendê-lo, e expulsá-lo do planeta.

       - Ela estava esperando pelo momento político certo, quando minha condição de Conselheiro não me protegeria. Não previu isso, também?

       - Como poderia? Você mesmo não previu isso!

       - Se eu soubesse que ela tinha conhecimento de minhas opiniões, eu o teria previsto.

       Compor retrucou, com um súbito traço de insolência: - Isso é muito fácil de dizer - depois que tudo aconteceu!

       - E o que você quer de mim, aqui? Agora que você também já deixou as coisas acontecerem

       - Para compensar tudo o que aconteceu. Para compensar todo o mal que eu, contra a minha vontade - contra a minha vontade - fiz contra você.

       - Céus! - disse Trevize, secamente. - Quanta bondade a sua! Mas você não respondeu à minha pergunta original. Como veio acabar aqui? Como pode ter acabado no mesmo planeta que eu?

       - Não é necessária nenhuma resposta complicada para isso. Eu o segui!

       - Pelo hiperespaço? Com minha nave dando Saltos em série?

       Compor abanou a cabeça: - Não há mistério. Tenho uma nave igual à sua, com o mesmo tipo de computador. Você sabe que eu sempre soube o truque de adivinhar em que direção uma nave sairia pelo hiperespaço. Usualmente, não é uma adivinhação muito boa, e erro duas vezes a cada três, mas com o computador, fico muito melhor. E você hesitou muito no começo, dando-me uma chance de avaliar a direção e a velocidade com que você estava indo, antes de entrar no hiperespaço. Alimentei os dados - juntamente com minhas próprias extrapolações intuitivas - e o computador fez o resto.

       - E você ainda chegou à cidade antes de mim?

       - Sim. Você não usou a gravítica, e eu, sim. Adivinhei que você viria à capital, de modo que desci diretamente, ao passo que você... - e Compor fez um curto movimento espiral com o dedo, como uma nave seguindo um feixe direcional.

       - Você se arriscou a um choque com os funcionários sayshelianos.

       - Ora! - O rosto de Compor abriu-se num sorriso que lhe dava um inegável charme, e Trevize sentiu-se quase amigo dele, de novo. - Não sou um covarde todo o tempo, e com todas as coisas.

       Trevize voltou a ficar impassível: - E como você arranjou uma nave como a minha?

       - Precisamente da mesma maneira que você arranjou. A velha - a Prefeita Branno - deu-me uma.

       - E por quê?

       - Estou sendo inteiramente franco com você. Minha missão era segui-lo. A Prefeita queria saber para onde você iria, e o que faria.

       - O que você tem lhe informado fielmente,eu suponho.Ou traiu a Prefeita, também?

       - Eu a informei. De fato, não tinha escolha. Ela colocou um hiper-relê a bordo de minha nave, que eu supostamente não deveria achar, mas que acabei encontrando.

       - E daí?

       - Desgraçadamente, está ligado de tal maneira que não posso removê-lo sem imobilizar a nave. Pelo menos, não há maneira que eu conheça para poder removê-lo. Conseqüentemente, ela sabe onde estou - e sabe onde você está.

       - Suponha que você não pudesse seguir-me. Então ela não saberia onde estou. Pensou nisso?

       - Claro que sim. Pensei em informar logo de cara que eu o tinha perdido, mas ela não teria acreditado, não é? E eu não poderia voltar para Terminus por sabe-se lá quanto tempo. E eu não sou como você, Trevize. Não sou um sujeito sem compromissos. Tenho uma esposa em Terminus - que está grávida - e quero voltar para ela. Você pode se permitir pensar só em si mesmo; eu não. Além do que, vim para avisá-lo. Por Seldon! Estou tentando, mas você não quer me escutar. Fica só falando em outras coisas.

       - Não fiquei impressionado por sua súbita preocupação por mim. Contra o quê poderia você me alertar? Parece que a única coisa contra a qual devo me precaver é você. Você me traiu, e agora me segue para me trair de novo. Ninguém mais está me causando nenhum mal.

       Compor disse, sincero: - Esqueça o teatro, homem. Trevize, você é um pára-raios! Foi enviado para provocar alguma reação da Segunda Fundação - se é que há alguma coisa assim como a Segunda Fundação. Tenho um sentido intuitivo para outras coisas que não a perseguição hiperespacial e estou certo que é isso o que ela está planejando. Se você tentar achar a Segunda Fundação, eles tomarão consciência disso e tomarão medidas contra você mesmo. Se o fizerem, mostrarão a ponta do dedo, e é quando a Prefeita Branno sairá à caça deles.

       - Uma pena que a sua famosa intuição não estivesse funcionando quando Branno estava planejando prender-me.

       Compor enrubesceu e resmungou: - Sabe que nem sempre funciona.

       - E agora, sua intuição lhe diz que ela está planejando atacar a Segunda Fundação. Ela não se atreveria.

       - Creio que sim. Mas não vem ao caso, O que importa é que agora mesmo ela o está usando como isca.

       -E daí?

       - Daí por todos os buracos negros do espaço! Não procure pela Segunda Fundação! Ela não vai se importar se você for morto nessa busca, mas eu me importo. Sinto-me responsável por isto, e me importo.

       - Ó, estou tocado! - disse Trevize, friamente. - Mas acontece que tenho outra coisa para fazer, no momento.

       - E o que é?

       - Pelorat e eu estamos à busca da Terra, o planeta que alguns pensam foi o lar original da raça humana. Não é mesmo, Janov?

       Pelorat assentiu: - Sim, é um tópico puramente científico e de interesse a longo prazo, para mim.

       Compor ficou sem reagir, por um instante; e então: - Procurando pela Terra? Mas por quê?

       - Para estudá-la - respondeu Pelorat. - Sendo o mundo em que se desenvolveram os seres humanos - presumivelmente a partir de formas de vida inferior, ao invés de, como nos outros, meramente ter chegado já feito - deveria ser um estudo fascinante por sua originalidade.

       - E - acrescentou Trevize - um mundo onde, possivelmente, eu poderia aprender mais sobre a Segunda Fundação. Apenas possivelmente.

       Mas Compor devolveu: - Não há Terra alguma; não sabia disso?

       - Não existe? - Pelorat parecia sem ação, como sempre fazia, quando se preparava para ostentar a sua teimosia. - Está dizendo que não houve planeta em que a espécie humana originou-se?

       - Não, não. É claro que houve uma Terra. Não questiono isso. Mas não há nenhuma Terra atualmente. Nenhuma Terra habitada. Ela se foi!

       Pelorat contrapôs, sem se abalar: - Há lendas. -.

       - Espere, Janov - interrompeu Trevize. - Diga-me, Compor, como sabe disso?

       - Como? É minha herança cultural. Remeto minha ascendência ao Setor de Sirius, se é que posso repetir esse fato sem entediá-lo. Todo mundo por lá sabe da Terra. Ela está naquele setor, o que significa não só que não é parte da Federação da Fundação, como também, aparentemente, por isso ninguém em Terminus se preocupa com ela. Mas é lá que está a Terra, sem dúvida alguma.

       - Essa é uma boa sugestão, sim - disse Pelorat. - Houve já um considerável entusiasmo por essa “Alternativa de Sirius”, como foi chamada, nos dias do Império.

       Compor disse, veemente: - Não é só uma alternativa; é um fato!

       Pelorat retorquiu: - O que você diria se eu lhe dissesse quantos lugares da Galáxia são chamados “Terra”, ou já foram chamados “Terra” pelas pessoas que viviam em suas vizinhanças estelares?

       - Mas essa é de verdade - insistiu Compor. - O Setor de Sirius é a porção da Galáxia habitada há mais tempo. Todos sabem disso.

       - É o que os sirianos alegam, é verdade. - Pelorat voltou à carga, sem se comover.

       Compor parecia frustrado: - Mas eu lhe digo...

       Ao que interpôs Trevize: - Mas, diga-nos o que aconteceu à Terra. Você disse que ela não é mais habitada. Por que não?

       - Radiatividade. Toda a superfície planetária é radiativa por causa de reações nucleares que saíram de controle, ou explosões nucleares - não tenho certeza - e agora, a vida é impossível, lá.

       Os três ficaram olhando um para o outro por um pouco, e então Compor achou necessário repetir: - Eu lhes digo que não há mais Terra. Não adianta procurar por ela.

      

       A face de Janov Pelorat, por um momento, não esteve sem expressão. Não que não transparecesse paixão - ou qualquer das emoções mais instáveis. É que seus olhos tinham-se estreitado - e uma espécie de forte intensidade tinha enchido cada plano de seu rosto.

       Falou, e sua voz não apresentava qualquer traço de sua tentativa usual de qualidade: - Como disse que sabia de tudo isso?

       - Já lhe disse, é minha herança cultural.

       - Não seja tolo, rapaz. O senhor é um Conselheiro. O que quer dizer que nasceu num dos mundos da Federação - Smirno, acho que você disse antes.

       - Isso mesmo.

       - Ora, então de que herança cultural está falando? Está me dizendo que tem gens sirianos que lhe conferem conhecimento congênito dos mitos sirianos referentes à Terra?

       Compor parecia desarvorado: - Não, é claro que não.

       - Então, o que está tentando me fazer acreditar?

       Compor fez uma pausa, e pareceu reorganizar seus pensamentos. Disse calmamente: - Minha família tem livros antigos da história de Sirius. É uma herança externa, não intrínseca. Não é algo de que falamos para qualquer um, especialmente se se tem pretensões a uma carreira política. Trevize pensa que tenho, mas acredite, só menciono o fato aos amigos chegados.

       Havia um pouco de amargor em sua voz: - Teoricamente, todos os cidadãos da Fundação são iguais, mas aqueles dos mundos antigos da Federação são mais iguais que os dos mundos mais novos, e aqueles oriundos de planetas de fora da Federação são os menos iguais de todos. Mas, não importa. À parte os livros, visitei uma vez os planetas antigos. Trevize! Ei, Trevize!

       Trevize tinha se afastado lentamente para um extremo do salão, e olhava por uma janela triangular. Servia para dar uma vista do céu, e cortava a vista da cidade: mais luz e mais privacidade. Trevize ficou na ponta dos pés para poder olhar para baixo.

       Voltou através da sala vazia. - Interessante desenho de janela. Chamou-me, Conselheiro?

       - Sim; lembra-se da viagem que fiz logo após a formatura?

       - Depois da formatura? Lembro-me bem. Éramos camaradas. Camaradas para sempre. Alicerçados na confiança mútua. Dois contra o mundo. Você foi para sua viagem. Eu me alistei na Frota, cheio de patriotismo. Por alguma razão, achei que não devia viajar com você - algum instinto me dizia para não ir. Gostaria que esse instinto ficasse comigo.

       Compor não reagiu ao gambito: - Visitei Comporellon. A tradição familiar dizia que meus ancestrais eram originários de lá, pelo menos do lado paterno. Éramos da família governante nos tempos antigos antes de o império nos absorver, e meu nome deriva daquele planeta, ou pelo menos é o que sustenta a tradição familiar. Tínhamos um velho e poético nome, pois a estrela Comporellon orbita em torno de... Épsilon Eridani.

       - E o que isso significa? - quis saber Pelorat.

       Compor abanou a cabeça: - Não sei se isso tem qualquer significado. É só tradição. Eles vivem com uma grande quantidade de tradições. É um mundo antigo. Têm longos e detalhados registros da história da Terra, mas ninguém fala muito a respeito. São supersticiosos. Sempre que mencionam esse nome, erguem ambas as mãos com o indicador e o médio cruzados, para afastar a má sorte.

       - Você falou disso para alguém quando voltou?

       - É claro que não Quem estaria interessado? E eu não impingi a lenda para ninguém. Não, muito obrigado! Eu tinha uma carreira política a zelar, e a última coisa que quero destacar é minha origem estrangeira.

       - E sobre o satélite? Descreva o satélite da Terra - cortou Pelorat.

       Compor parecia surpreso: - Não sei nada sobre isso.

       - Ela tem um satélite?

       -Não me lembro ter lido ou ouvido nada a respeito. Mas estou certo de que, se se consultar os registros comporelianos, pode-se descobrir isso.

       - Mas e você, nada sabe?

       - Não sobre o satélite. Não que eu me lembre.

       - Humm. E como a Terra veio a ficar radiativa?

       Compor abanou a cabeça e nada disse.

       Pelorat insistiu: - Pense! Você deve ter ouvido falar de alguma coisa!

       - Foi há sete anos atrás, professor. Não sabia então que agora o senhor me interrogaria a respeito. Havia uma espécie de lenda - e eles a consideravam história.

       - E qual era a lenda?

       A Terra era radiativa, ostracizada e maltratada pelo Império, sua população definhando, e que de algum modo iria destruir o Império.

       - Um mundo agonizante iria destruir todo o Império? - interpôs Trevize.

       Compor disse, na defensiva: - Eu disse que era uma lenda! Não sei dos detalhes. Bel Arvardan estava envolvido na lenda, disso eu sei.

       - E quem era ele? - quis saber Trevize.

       - Um personagem histórico. Fui conferir. Era um honesto arqueólogo nos primeiros dias do Império, e ele sustentava que a Terra era no Setor de Sirius.

       - Já ouvi esse nome antes - confirmou Pelorat.

       - Ele é um herói do folclore de Comporellon. Olhe, se quiser saber destas coisas, vá a Comporellon. Não adianta nada ficar à-toa por aqui.

       Ao que disse Pelorat: - Como eles diziam, exatamente, que a Terra planejava destruir o Império?

       - Isso eu não sei, - Uma certa monotonia estava penetrando a voz de Compor.

       - A radiação tinha algo a ver com isso?

       - Não sei. Havia lendas de algum expansor da mente desenvolvi do na Terra - um sinapsificador, ou coisa assim.

       - E criada supermentes? - perguntou Pelorat, nos tons mais profundos da incredulidade.

       - Não acho, O que mais me lembro é que não funcionou. As pessoas ficavam brilhantes e morriam cedo.

       Trevize entrou na conversa: - Era provavelmente um mito moralizante. Quem pede muito, perde mesmo o que já tem.

       Pelorat voltou-se para Trevize, um pouco irritado: - O que você sabe sobre mitos moralizantes?

       Trevize ergueu os sobrolhos: - O seu campo pode não ser o meu, Janov, mas isso não quer dizer que eu seja totalmente ignorante.

       - E o que mais você se lembra sobre o que chamou de “sinapsificador”, Conselheiro Compor? - perguntou Pelorat.

       - Nada, e não vou ficar aqui sendo interrogado. Escute, eu o segui de acordo com as ordens da Prefeita. Não recebi ordens de fazer contato pessoal com você. Só o fiz para avisá-lo de que estava sendo seguido, e que foi exilado para servir aos propósitos da Prefeita, quaisquer que possam ser. Não havia nada mais a tratar, mas fui surpreendido com essa questão da Terra. Deixe-me repetir: o que quer que tenha existido no passado, Bel Arvardan, o sinapsificador, seja lá o que for, nada tem a ver com o que existe hoje. E digo e repito: a Terra é um mundo morto. Aconselho-o enfaticamente a ir a Comporellon, onde descobrirá tudo o que quiser saber. Apenas vá embora daqui.

       - E é claro, você fielmente informará à Prefeita que estamos indo para Comporellon, e nos seguirá, só para se certificar. Ou talvez a Prefeita já saiba. Eu imagino se ela não o instruiu e o ensaiou cuidadosamente em todas as palavras que nos disse aqui, porque para os propósitos dela, é em Comporellon que ela nos quer, não é?

       Compor empalideceu. Levantou-se e quase gaguejou, num esforço para controlar a voz: - Tentei explicar. Tentei ser útil. Mas não deveria. Você pode muito bem jogar-se num buraco negro, Trevize!

       Voltou-se sobre os calcanhares e saiu pisando duro, sem olhar para trás.

       Pelorat aparentava estar chocado: - Isso foi um passo em falso, de sua parte, Golan, meu velho. Eu poderia ter conseguido mais com ele.

       - Não, você não poderia - Trevize contestou, gravemente. - Não poderia ter tirado dele uma só palavra que ele não quisesse dizer. Janov, você não sabe o que ele é... Até hoje, eu mesmo não sabia o que ele era.

      

       Pelorat hesitou, não querendo perturbar Trevize, que estava sentado em sua poltrona, imerso em pensamentos.

       Por fim, Pelorat disse: - Vai ficar sentado aí toda a noite, Golan?

       Trevize teve um sobressalto: - Não, você tem razão. Estaremos melhor com gente à nossa volta. Vamos!

       Pelorat levantou-se e disse: - Não haverá gente à nossa volta.Com por disse que era uma espécie de dia de meditação.

       - Foi o que ele disse? Havia tráfego quando viemos pela estrada?

       - Sim, algum.

       - Até bastante, eu pensei. E então, quando entramos na cidade, ela estava vazia?

       - Não muito. Mas você tem de admitir que este lugar está vazio.

       - Sim, está. Chamou-me muito a atenção. Mas vamos, Janov, estou com fome. Deve haver algum lugar onde se possa comer, e onde possamos pagar por alguma coisa boa. De qualquer modo, podemos achar um lugar para experimentar alguma novidade saysheliana, ou se não tivermos coragem de comê-la, podemos arranjar alguma boa comida galáctica. Vamos, uma vez que estivermos num ambiente seguro, vou lhe dizer o que realmente aconteceu aqui.

      

       Trevize reclinou-se, com uma agradável sensação de renovação. O restaurante não era dispendioso, pelos padrões de Terminus, mas era, por certo, novidade. Era parcialmente aquecido por um forno aberto, onde a comida era preparada. A carne era servida em pedaços do tamanho de bocados - acompanhada por numerosas variedades de molhos - que eram apanhados com a mão, os dedos protegidos da gordura e do calor por folhas verdes e macias, que eram frias, úmidas e tinham um sabor vagamente mentolado.

       Cada folha servia para um bocado de carne, e o todo era engolido de uma vez. O garçon explicou cuidadosamente como tinha de ser feito. Aparentemente acostumado com hóspedes de outros planetas, ele sorria paternalmente, enquanto Trevize e Pelorat pescavam os pedaços fumegantes de carne, e ficava claramente deliciado com o alívio dos estrangeiros quando descobriam que as folhas conservavam os dedos frios e esfriavam a carne, também, à medida que se mastigava.

       Trevize comentou: - Delicioso! - e eventualmente partiu para uma segunda porção. O mesmo fez Pelorat.

       Por fim chegaram a uma sobremesa esponjosa, vagamente doce, e a uma xícara de café com um sabor de caramelo para o que abana ram as cabeças, em dúvida. Acrescentaram xarope, ao que o garçon é que abanou a cabeça.

       Daí Pelorat quis saber: - Bem, e o que aconteceu lá no centro de turistas?

       - Você quer dizer, com Compor?

       - E há outra coisa que poderíamos discutir?

       Trevize olhou em volta. Estavam numa alcova profunda e tinham alguma privacidade, mas o restaurante estava cheio, e o zumbido natural do ruído era uma cobertura perfeita.

       Disse, em voz baixa: - Não é estranho que ele nos tenha seguido até Sayshell?

       - Disse que tinha sua habilidade intuitiva.

       - Sim, ele foi campeão intercolegial de hiper-rastreamento. Nunca questionei isso, até hoje. Eu bem vejo que alguém possa avaliar para onde se vai num Salto pelas manobras preparatórias, se se tem algum discernimento e prática, certos reflexos - mas eu não consigo imaginar como um rastreador pode avaliar uma série de Saltos, Só podemos nos preparar para o primeiro; o computador faz todos os outros, O rastreador pode avaliar esse primeiro, mas por que mágica ele pode adivinhar o que está nas entranhas do computador?

       - Mas ele o fez, Golan.

       - Por certo que sim; e a única maneira possível pela qual posso imaginar que o tenha feito é sabendo antecipadamente para onde estávamos indo. Sabendo, e não avaliando.

       Pelorat ficou digerindo a idéia. - E bem impossível, meu rapaz. Como ele poderia saber? Só decidimos sobre nosso destino depois de estarmos a bordo da Far Star.

       - Eu sei. E que tal este dia de meditação?

       - Compor não mentiu para nós, O garçon disse que era um dia de meditação, quando viemos aqui e lhe perguntamos.

       - Sim, foi o que ele disse, mas ele disse que o restaurante não es tava fechado. De fato, o que ele disse foi: “A cidade de Sayshell não é nada provinciana. Não fecha”. Às pessoas meditam, em outras palavras, mas não na cidade grande, onde todos são sofisticados e não há lugar para a pieguice da aldeia. Assim, há tráfego, e a cidade continua trabalhando - talvez não tanto quanto nos dias comuns - mas se trabalha.

       - Mas, Golan, ninguém entrou no centro de turistas enquanto estávamos lá. Eu notei isso. Nenhuma pessoa entrou.

       - Eu também notei isso. Até fui à janela a certa altura, e olhei pa ra fora e vi claramente que as ruas em volta do centro apresentavam uma boa quantidade de pedestres e veículos - e, mesmo assim, ninguém entrou. O dia de meditação foi apenas um bom disfarce. Não teríamos desconfiado da afortunada privacidade se eu simplesmente não estivesse absolutamente determinado a nunca mais confiar naquele filho de forasteiros.

       - E o que tudo isto significa, então?

       - Acho que é simples, Janov. Temos aqui alguém que sabe para onde vamos, desde a hora em que chegamos a esta decisão, mesmo estando em astronave diferente, e também temos alguém que pode conservar um edifício público vazio, enquanto está cercado de gente, para que possamos conversar convenientemente em particular.

       - Você quer que eu acredite que ele pode fazer milagres?

       - Por certo que sim. Se Compor for agente da Segunda Fundação e puder controlar as mentes; se ele pode ler a sua mente e a minha, numa espaçonave distante; se ele pode influenciar as coisas a seu favor, imediatamente, num posto alfandegário , se ele pode aterrissar graviticamente, sem nenhuma patrulha de fronteira ultrajada, por seu desafio aos feixes direcionais; e se ele puder influenciar mentes de modo a impedir que as pessoas entrem num edifício onde ele não quer que entrem.

       - Por todas as estrelas! - e Trevize continuou com um ar de notável ressentimento. - Posso mesmo seguir essas tendências até a escola. Eu não quis ir na viagem com ele. Lembro-me que não queria ir. Não foi por influência dele? Ele tinha de estar só. Para onde ele realmente foi?

       Pelorat empurrou os pratos à frente dele, como se quisesse abrir um espaço à sua roda para ter lugar para pensar. Parecia ser um gesto que dava sinal para o robô de serviço, uma mesa que se movia por si mesma, parando perto deles e esperando, até que eles colocaram os pratos e talheres sobre ela.

       Quando estavam sós, Pelorat disse: - Mas isso é loucura. Nada aconteceu lá que não poderia ter acontecido naturalmente. Uma vez que você coloca em sua cabeça que alguém está controlando os eventos, pode interpretar tudo a essa luz, sem achar uma certeza razoável em lugar algum. Vamos, meu velho, é tudo circunstancial, e uma questão de interpretação. Não ceda à paranóia.

       - Não vou ceder tampouco à complacência.

       - Bem, vamos considerar o assunto logicamente. Suponha que ele seja um agente da Segunda Fundação. Por que ele correria o risco de levantar as nossas suspeitas mantendo o centro de turistas vazio? O que ele disse de tão importante que algumas pessoas a alguma distância - que, aliás, estariam imersas em suas próprias atividades pudessem atrapalhar?

       - Há uma resposta fácil para isso, Janov. O que era tão importante em sua conversa conosco? Faria sentido supor, como ele mesmo insistiu, que foi ao nosso encontro apenas para explicar o que tinha feito, desculpar-se por sua conduta, e avisar-nos das complicações que poderiam estar à nossa espera. Por que precisaríamos procurar algo além disto?

       O pequeno receptáculo para cartões no outro extremo da mesa brilhou e os números representando o valor da refeição se acenderam. Trevize procurou, sob seu cinto, o cartão de crédito que, com seu sinal da Fundação, era válido em qualquer lugar da Galáxia - ou em qualquer lugar para onde um cidadão da Fundação pudesse ir. Inseriu-o na fenda apropriada. Levou um momento para completar a transação, e Trevize (com seu cuidado congênito) verificou o saldo remanescente, antes de guardar o cartão.

       Olhou em volta casualmente, para se certificar de que não havia nenhum interesse indesejável por ele nos rostos dos poucos que ainda estavam no restaurante, e então disse: - Por que procurar outro motivo? Por que procurar mais? Não foi tudo sobre o que conversa mos. Ele falou sobre a Terra. Disse-nos que estava morta, e instou que fôssemos a Comporellon. Devemos ir?

       - É algo que estive sopesando, Golan.

       - E saímos logo daqui?

       - Poderemos voltar, depois de verificar aquele Setor de Sirius.

       - Não lhe ocorreu que todo o propósito dele era nos desviar de Sayshell e tirar-nos daqui? Que estivéssemos em qualquer lugar, menos aqui?

       - E por quê?

       - Eu não sei. Veja: eles esperavam que fôssemos a Trantor. Era o que você queda fazer e talvez era algo com que eles contassem. Estraguei as coisas insistindo em ir para Sayshell, que era a última coisa com que eles contavam, e agora eles nos querem longe daqui.

       Pelorat parecia distintamente infeliz: - Mas, Golan, você está apenas enunciando frases. Por que eles não nos quereriam aqui em Sayshell?

       - Eu não sei, Janov. Mas para mim basta que eles nos queiram fora. Eu vou ficar é aqui mesmo. Não penso em partir.

       -Mas... mas... olhe, Golan, se a Segunda Fundação quisesse que partíssemos, por que simplesmente não influenciaram nossas mentes para que quiséssemos partir? Por que se importar em arrazoar conosco?

       - Agora que você levantou a questão, não será o que fizeram em seu caso, professor? - e os olhos de Trevize se estreitaram, numa súbita suspeita. - Não está querendo partir?

       Pelorat olhou para Trevize, pasmado. - Creio que isso faz algum sentido.

       - E claro que é isso o que quereria, se tivesse sido influenciado.

       - Mas eu não fui...

       - É claro que juraria não ter sido, se realmente tivesse sido.

       - Se você me encurrala desse jeito, não há modo de desmentir sua afirmação. E o que vai fazer?

       - Ficarei em Sayshell. E você também. Não pode navegar aquela nave sem mim; assim, se Compor o influenciou, influenciou a pessoa errada.

       - Muito bem, Golan. Ficaremos em Sayshell até termos razões independentes para sair. A pior coisa que podemos fazer, afinal de tudo, pior que ficar ou partir, é nos separarmos. Vamos, meu velho, se eu tivesse sido influenciado, será que eu mudaria de idéia e ficaria com você de bom grado, como agora?

       Trevize pensou por um momento e então, com um sacudir interior, sorriu e estendeu a mão: - Concordo, Janov. Agora, vamos voltar à nave e pensar num recomeço amanhã. Se é que poderemos.

      

       Munn Li Compor não se lembrava de quando tinha sido recrutado. Primeiro, porque na época era muito criança; depois, os agentes da Segunda Fundação eram meticulosos em remover seus rastros, tanto quanto possível.

       Compor era um “Observador”, e para um segundofundacionista, era instantaneamente reconhecido como tal.

       Significava que Compor estava familiarizado com a mentálica, e podia conversar com segundofundacionistas à sua própria maneira, até um certo ponto, mas estava no degrau mais baixo da hierarquia. Podia captar relances dos estados mentais, mas não podia ajustá-los. A educação que recebera nunca fora tão longe. Ele era um Observa dor, não um Fazedor.

       Isto no máximo o fazia de segunda classe, mas ele não se importava - não muito. Sabia qual sua importância no conjunto das coisas.

       Durante os primeiros séculos da Segunda Fundação, ela subestimara a tarefa à sua frente. Imaginara que sua mancheia de membros poderia monitorar a Galáxia inteira e que o Plano de Seldon, para ser mantido, requereria apenas o mais ocasional e leve dos toques, aqui e ali.

       O Mula os arrancara dessas ilusões. Vindo do nada, apanhou a Segunda Fundação (e, é claro, a Primeira - mesmo que isso não importasse) totalmente de surpresa, e os deixara inermes. Levou cinco anos até um contra-ataque ser organizado, e então só ao custo de um certo número de vidas.

       Com Palver, foi conseguida uma recuperação total, de novo a um terrível custo, e ele finalmente conseguiu tomar as medidas apropriadas. As operações da Segunda Fundação, ele decidiu, devem ser enormemente expandidas sem ao mesmo tempo aumentar as chances de detecção indevidamente, de modo que ele instituiu o corpo dos Observadores.

       Compor não sabia quantos Observadores havia na Galáxia, ou sequer quantos havia em Terminus. Não era da conta dele saber. Idealmente não deveria haver conexão detectável entre dois Observa dores quaisquer, de modo que a perda de um não acarretaria a perda de qualquer outro. Todas as conexões estavam nos escalões superiores em Trantor

       Era ambição de Compor ir a Trantor, algum dia. Muito embora ele considerasse isso extremamente improvável, ele sabia que, ocasionalmente, um Observador poderia ser levado a Trantor e promovido, mas isso era raro. As qualidades que faziam um bom Observador não eram as que apontavam rumo à Mesa.

       Havia Guendibal, por exemplo, que era quatro anos mais jovem que Compor. Deve ter sido recrutado enquanto menino, assim como Compor, mas ele foi removido diretamente para Trantor, e era agora um orador. Compor não tinha ilusões sobre o porquê disso. Tinha estado muito em contato com Guendibal recentemente, e tinha experimentado o poder da mente daquele jovem. Não poderia ter-lhe resistido por um segundo, sequer.

       Compor, normalmente, não tinha consciência de sua baixa condição. Quase nunca havia tempo para pensar nela Afinal (como no caso de outros Observadores, ele imaginou), era só inferior pelos padrões de Trantor. Em seus próprios mundos não-trantorianos, em suas próprias sociedades não-mentálicas, era fácil para os Observadores obterem condição elevada.

       Compor, por exemplo, nunca tivera problema em entrar para boas escolas, ou encontrar boa companhia. Pôde usar a mentálica que sabia, de um modo simples, para destacar sua capacidade intuitiva natural (a capacidade natural foi exatamente o porquê ele foi recrutado para começar, ele tinha certeza) e, destarte, mostrar-se um ás no rastreamento hiperespacial- Tornou-se um herói no colégio, e isto proporcionou-lhe o primeiro degrau de uma carreira política. Uma vez passada esta presente crise, não se poderia dizer o quanto ele poderia progredir.

       Se a crise se resolvesse com sucesso, como era o que parecia, não seria lembrado que foi Compor o primeiro a notar Trevize, não como ser humano (qualquer um poderia fazer isto), mas como uma mente?

       Encontrara Trevize no colégio e viu-o, de início, apenas como um companheiro jovial e perspicaz. Uma manhã, porém, tentando acordar, no fluxo de semiconsciência que acompanhava a emersão do sono, ele sentiu pena por Trevize nunca ter sido recrutado.

       Trevize não poderia ser recrutado, é claro, pois ele nascera em Terminus, e não era como Compor, nativo de um outro mundo. E mesmo que não se levasse isso em conta, era já muito tarde. Só os bem jovens são plásticos o suficiente para receber uma educação na mentálica; o doloroso princípio daquela arte - e o era mais que uma ciência - em cérebros adultos, já enferrujados em seus moldes, era uma coisa que só foi surgir duas gerações depois de Seldon.

       Mas se Trevize não podia ter sido recrutado logo para começar, e já passara da idade para uma segunda chance, o que levantou a preocupação de Compor?

       Em seu encontro seguinte, Compor penetrou na mente de Trevize profundamente, e descobriu o que deveria tê-lo perturbado inicialmente. A mente de Trevize apresentava características que não se adaptavam às regras que lhe foram ensinadas. Repetidamente, escapava-lhe. Ao acompanhar seu funcionamento, encontrou falhas - não, não poderiam ser falhas reais - saltos de não-existência. Havia lugares em que o modo de pensar de Trevize mergulhava profundamente demais para ser seguido.

       Compor não tinha meios de determinar o que isto significava, mas observava o comportamento de Trevize à luz do que tinha descoberto, e começou a suspeitar que Trevize tinha uma habilidade excepcional para chegar às conclusões certas a partir do que pareceriam dados insuficientes.

       Será que isto teria algo a ver com as falhas? Por certo, era uma questão de mentalismo muito além de seus próprios poderes - para a própria Mesa, quem sabe. Ele tinha a incômoda sensação de que os poderes decisórios de Trevize eram desconhecidos, em sua verdadeira grandeza, para si mesmo, e que ele poderia ser bem capaz de...

       De fazer o quê? O conhecimento de Compor não era suficiente. Ele quase podia ver o significado do que Trevize possuía - mas não exatamente. Só havia a conclusão intuitiva - ou talvez apenas uma adivinhação - que Trevize poderia ser potencialmente uma pessoa da maior importância.

       Arriscou-se a presumir que assim poderia ser e arriscar-se a não parecer qualificado para um posto tão baixo. Afinal de contas, se estivesse correto...

       Ele não tinha certeza, em retrospectiva, de como conseguiu achar coragem para continuar seus esforços. Não conseguia penetrar as barreiras administrativas que rodeavam a Mesa. Já tinha se conformado com uma reputação duvidosa. Tinha se exaurido até chegar (desesperado) até o membro mais jovem da Mesa e, finalmente, Stor Guendibal respondera ao seu chamado.

       Guendibal escutou pacientemente e daquela data em diante houve um relacionamento especial entre eles. Foi em atenção a Guendibal que Compor manteve sua amizade com Trevize, e sob a orientação de Guendibal que ele cuidadosamente construiu a situação que resultara no exílio de Trevize. E foi através de Guendibal que Compor ainda poderia (ele estava começando a esperar) realizar seu sonho de promoção para Trantor.

       Todas as preparações, porém, foram destinadas a enviar Trevize para Trantor. A recusa de Trevize em partir para lá tomou Compor inteiramente desprevenido e (Compor pensou) fora imprevista por Guendibal, igualmente.

       De qualquer modo, Guendibal estava correndo para aquele local, e para Compor, isso aprofundava a sensação de crise.

       Compor enviou seu hipersinal.

      

       Guendibal foi despertado de seu sono pelo toque em sua mente. Era eficaz, e não perturbava minimamente. Como afetava o centro de vigília diretamente, ele simplesmente acordou.

       Sentou-se na cama, o lençol caindo de seu torso musculoso e bem conformado. Reconheceu o toque; as diferenças eram tão distintas para os mentalistas quanto as vozes, para aqueles que se comunicavam primariamente pelo som.

       Guendibal enviou o sinal-padrão, perguntando se um pequeno atraso era possível, e o sinal de chamada “sem emergência” retornou.

       Sem uma pressa indevida, então, Guendibal atendeu à rotina matinal. Ainda estava na ducha da nave - com a água servida sendo drenada para os mecanismos de reciclagem - quando fez contato de novo.

       - Compor?

       - Sim, Orador.

       - Já falou com Trevize e com o outro?

       - Pelorat. Janov Pelorat. Sim, Orador.

       - Bom. Dê-me mais cinco minutos e vou providenciar o visual.

       Passou por Sura Novi, a caminho dos controles. Ela olhou para ele interrogativamente e fez que ia falar, mas ele pousou um dedo sobre os lábios, e ela calou-se imediatamente. Guendibal ainda sentia-se um pouco desconfortável com a intensidade de adoração/respeito na mente dela, mas estava começando a se tomar uma parte reconfortantemente normal de seu ambiente, de algum modo.

       Enganchou um pequeno tentáculo de sua mente na dela, e agora não haveria meio de afetar-se a mente dela, sem afetar a dele. A simplicidade da mente dela (e havia um enorme prazer estético em contemplar essa simetria sem adornos, Guendibal não podia parar de pensar) tornava impossível a qualquer mente estranha se infiltrar nas suas vizinhanças sem detecção. Sentiu gratidão pelo impulso cortês que o movera naquele momento em que ficaram juntos fora da Universidade, e que a levou a vir para ele precisamente quando podia ser mais útil.

       - Sim, Orador.

       - Relaxe, por favor. Eu preciso estudar a sua mente. Não se ofenda, por favor.

       - Como queira, Orador. Posso perguntar a finalidade?

       - Para me certificar de que você está intocado.

       Compor respondeu: - Eu sei que o senhor tem adversários políticos na Mesa, Orador, mas seguramente nenhum deles...

       - Não especule, Compor; relaxe... Sim, você está intocado. Agora, se cooperar comigo, estabeleceremos contato visual.

       O que se seguiu, no sentido ordinário da palavra, era uma ilusão, pois ninguém que não fosse auxiliado pelo poder mentálico de um segundofundacionista bem treinado poderia detectar qualquer coisa, pelos sentidos ou por qualquer dispositivo de detecção física.

       Era a constituição facial e seu aspecto pelo contorno mental, e mesmo o melhor mentalista só conseguia produzir uma figura incerta, em meio a sombras. O rosto de Compor estava ali, no meio do ar, como se visto por uma fina cortina de gaze, sempre a se mover, e Guendibal sabia que sua própria face aparecia de maneira idêntica perante Compor.

       Pela hiperonda física, a comunicação podia ser estabelecida por imagens tão claras que interlocutores a mil parsecs de distância poderiam se considerar face a face. A nave de Guendibal estava assim equipada.

       Porém, havia vantagens na “mentalista-visão”. A principal era que não podia ser espionada por qualquer dispositivo conhecido da Primeira Fundação. Nem tampouco um segundofundacionista podia espionar a mentalista-visão de um outro, O jogo da mente poderia ser acompanhado, mas não a delicada mudança da expressão facial que dava à comunicação os seus pontos mais finos.

       Quanto aos Anti-Mulas - a pureza da mente de Novi era suficiente para garantir-lhe que nenhum estava por perto.

       - Diga-me precisamente, Compor, a conversa que teve com Trevize e com o tal de Pelorat. Precisamente, até o nível mental.

       - Ê claro, Orador.

       Não levou muito tempo. A combinação de som, expressão e mentalismo comprimia o assunto consideravelmente, a despeito do fato de que havia muito mais para contar ao nível mental do que pelo mero palrar.

       Guendibal olhava com toda atenção. Havia pouca redundância, ou nenhuma, na mentalista-visão. Na visão real, ou na hipervisão física através dos parsecs, via-se enormemente mais como bits de informação do que era absolutamente necessário para a compreensão, e podia-se perder muito, sem perder nada significativo.

       Sempre havia histórias de horror passadas de instrutor para estudante em Trantor, histórias que eram destinadas a impressionar os jovens com a importância da concentração. O mais freqüentemente repetido era certamente o menos confiável. Uma história falava do primeiro relatório sobre o progresso do Mula antes de ter tomado Kalgan - e do funcionário subalterno que recebeu o relatório e teve nada mais que a impressão de um animal semelhante ao cavalo, por não ter visto ou entendido o pequeno piscar que significava “nome pessoal”. O funcionário portanto decidiu que toda aquela coisa não tinha importância para ser passada adiante para Trantor. Quando chegou a mensagem seguinte, já era muito tarde para tomar ação imediata, e mais cinco amargos anos tiveram de passar.

       O evento quase com certeza nunca acontecera, mas isso não importava. Era uma história dramática e servia para motivar todos os estudantes para o hábito da concentração atenta. Guendibal lembrava-se de seus dias de estudante, quando ele cometeu um erro de recepção que parecia, em sua mente, ser tão insignificante quanto compreensível. Seu professor, o velho Kendast, um tirano até a raiz de seu cerebelo, simplesmente fez um esgar e disse: “Um animal semelhante ao cavalo, Cadete Guendibal?” - e isso foi o bastante para fazê-lo desabar de vergonha.

       Compor acabara.

       Guendibal disse: - Sua estimativa, por favor, da reação de Trevize. Você o conhece melhor que eu; melhor que ninguém.

       - Foi clara o bastante. As indicações mentálicas eram inconfundíveis. Ele pensa que minhas palavras e ações representam minha extrema ansiedade em fazê-lo ir para Trantor ou para o Setor de Sirius ou qualquer lugar, exceto, de fato, aquele para onde está indo agora. Significou, em minha opinião, que ele vai ficar firmemente onde está. O fato de que associei muita importância à sua mudança de posição, em suma, forçou-o a dar a isto a mesma importância, e como ele sente que seus interesses são diametralmente opostos aos meus, agirá contra o que ele interpreta como sendo o meu desejo.

       - Está certo disso?

       - Muito certo.

       Guendibal pensou um pouco no assunto, e decidiu que Compor estava correto. Disse: - Estou satisfeito. Você fez bem. Sua história da destruição radiativa da Terra foi sabiamente escolhida para ajudar a produzir a reação adequada sem a necessidade de manipulação direta da mente. Elogiável!

       Compor pareceu lutar contra si mesmo por um momento. - Orador - disse ele -, não posso aceitar seu elogio. Não inventei a lenda. Realmente há um planeta chamado “Terra” no Setor de Sirius e realmente é considerado o lar original da humanidade. Era radiativo, no começo, ou eventualmente ficou, e ficou cada vez pior, até que o planeta morreu. De fato, existiu uma invenção intensificadora da mente que deu em nada. Tudo isto é considerado história no planeta natal de meus ancestrais.

       - Mesmo? Que interessante! - disse Guendibal, sem convicção óbvia. - Tanto melhor. Saber quando a verdade nos servirá é admirável, pois que nenhuma inverdade pode ser apresentada com a mesma sinceridade. Palver uma vez disse: - Quanto mais próximo da verdade, melhor a mentira, e a própria verdade, quando puder ser usada, é a melhor mentira.

       Compor acrescentou: - E há mais uma coisa para dizer. Ao seguir instruções para manter Trevize no Setor de Sayshell até que o senhor chegasse - e fazê-lo a todo custo - tive que ir tão longe em meus esforços que está claro que ele suspeita que estou sob a influência da Segunda Fundação.

       Guendibal concordou: - Isso, eu acho, é inevitável sob as circunstâncias. Sua monomania sobre o assunto seria suficiente para fazê-lo ver a Segunda Fundação mesmo onde ela não está. Precisamos simplesmente levar isso em consideração.

       - Orador, se é absolutamente necessário que Trevize fique onde está até que o senhor possa alcançá-lo, a coisa ficaria mais simples se eu fosse ao seu encontro, para tomá-lo a bordo de minha nave, e o trouxesse para cá. Levaria menos de um dia...

       - Não, Observador - cortou Guendibal. - O senhor não deve fazer isso. O pessoal de Terminus sabe onde o senhor está. O senhor tem um hiper-relê em sua nave que não pode remover, não é?

       - Sim, Orador.

       - E se Terminus souber que o senhor desceu em Sayshell, e seu embaixador em Sayshell souber disso - o embaixador saberá também que Trevize terá descido. Seu hiper-relê dirá a Terminus que o senhor saiu para um certo ponto a centenas de parsecs de distância e voltou; e o embaixador os informará que Trevize, entretanto, permaneceu no setor. A partir disto, quanto o pessoal de Terminus poderá avaliar? A Prefeita de Terminus, sob todos os pontos de vista, é uma mulher muito perspicaz, e a última coisa que queremos é alarmá-la apresentando-lhe uma charada obscura. Não queremos que ela traga boa parte de sua frota para cá. As chances disso são, de qual quer maneira, desconfortavelmente altas.

       - Com todo o respeito, Orador, que razão temos para temer a frota, se podemos controlar o comandante?

       - Por mínima que seja a razão, ainda há menos razão para temer se a frota não está aqui. Fique onde está, Observador. Quando alcançá-lo, juntar-me-ei ao senhor na sua nave, e então...

       - E então, Orador?

       - Ora, então eu assumo o comando.

      

       Guendibal ficou sentado em seu lugar, enquanto desfazia a menta lista-visão, e ficou ali longos minutos - meditando.

       Durante esta longa viagem para Sayshell, inevitavelmente longa em sua nave, que de modo algum podia equiparar-se ao avanço tecnológico dos produtos da Primeira Fundação, repassou todos e cada um dos relatórios sobre Trevize. Os relatórios se estenderam por quase uma década.

       Vistos como um todo, e à luz dos eventos recentes, não mais havia qualquer dúvida que Trevize daria um maravilhoso recruta para a Segunda Fundação, se a política. de nunca tocar os nativos de Terminus não estivesse estabelecida desde o tempo de Palver.

       Não havia como dizer quantos recrutas da mais alta qualidade foram perdidos para a Segunda Fundação ao longo dos séculos. Não havia maneira de avaliar cada um dos quatrilhões de pessoas que povoavam a Galáxia. Nenhum deles seria mais promissor que Trevize, no entanto, e certamente nenhum poderia estar num local mais sensível.

       Guendibal abanou a cabeça, de leve. Trevize nunca deveria ter sido desprezado, tivesse ou não nascido em Terminus. E devia-se dar crédito ao Observador Compor, por ter percebido isso, mesmo depois de muitos anos de distorção.

       Trevize não mais lhes era útil, porém, é claro. Era muito velho para ser moldado, mas ainda tinha a intuição congênita, aquela capa cidade de adivinhar uma solução na base de informação totalmente inadequada e algo... algo...

       O velho Shandess - que, a despeito de passado do zênite, era Primeiro Orador e, no todo, tivera sido um bom Orador - viu algo ali, mesmo sem os dados correlacionados, e sem o raciocínio que Guendibal elaborou no decurso de sua viagem. Trevize, pensava Shandess, era a chave para a crise.

       Por que Trevize estava aqui em Sayshell? O que estava ele planejando? O que estava fazendo?

       E não podia ser tocado! Disso, Guendibal tinha certeza. Até que fosse conhecido precisamente qual era o papel de Trevize, seria totalmente errado tentar modificá-lo de qualquer modo. Com os Anti-Mulas, quem quer que fossem, o que quer que pudessem ser, em campo, um movimento errado em relação a Trevize (Trevize, acima de tudo) poderia explodir um micro-sol em suas caras, de modo totalmente inesperado.

       Sentiu uma mente flutuando perto da sua, e distraidamente afastou-a como se fosse um insistente inseto trantoriano - mais com a mente que com a mão. Sentiu a instantânea reação da dor causada, e sobressaltou-se.

       Sura Novi tinha a palma da mão contra a testa: - Perdão, dotô, mais mi deu a maió dô di cabeça, de repênti.

       Guendibal logo ficou contrito: - Lamento, Novi. Não estava pensando, ou melhor, estava pensando com muita força. - Instantaneamente, e com delicadeza, suavizou os perturbados tendões mentais dela.

       Novi sorria com novo ânimo: - Passô de repénti, também. A sua voiz simpática, dotô, mi faiz bem.

       - Ótimo! Há algo errado? Por que está aqui? - Ele hesitava penetrar na mente dela em pormenor, para descobrir sozinho. Mais e mais, ele sentia relutância em invadir a privacidade dela.

       Novi titubeou. Inclinou-se levemente para ele. - ‘Tô preocupada. O sinhô ‘tava olhando pru nada i fazêndu barúlhu, i u róstu tava torcéndu. Fiquei aqui, morréndu di médu, cum médu qui u sinhô ‘tava caíndu - du - i eu sem sabê u qui fazê.

       - Não foi nada, Novi. Não tema. - Ele afagou a mão dela. - Não há nada a temer, entende?

       O medo - ou qualquer emoção mais forte - estragava a simetria de sua mente. Ela a preferia calma e pacífica e feliz, mas hesitava em ajustá-la nessa posição, por influência exterior. Ela sentira o ajustamento prévio como efeito de suas palavras, e pareceu-lhe melhor assim.

       - Novi, por que não devo chamá-la Sura?

       Ela ergueu o olhar, desgostosa: - Ora; dotô, num fais íssu, não.

       - Mas Rufirant a chamava assim naquele dia em que nos encontramos. Agora que a conheço bem...

       -Eu sei qui êli mi chamava assim, dotô. É cômu um ômi fala cuma moça qui num tem ômi, qui num tá prometida, qui num tá compreta. Si chama pélu priméru nómi. Ë mais miô u sinhô mi chamá “Novi”, i eu fico orguiosa. 1 si eu num tênhu ómi, tênhu um dotô, i gosto. Ispero qui u sinhõ num si ofenda di mi chamá “Novi”.

       - Claro que não, Novi.

       E sua mente estava lindamente lisa, e Guendibal gostava disso. Mas será que ele devia gostar tanto?

       Um pouco envergonhado, lembrou-se que o Mula fora supostamente afetado desta maneira por aquela mulher da Primeira Fundação, Bayta Darell, para sua própria desgraça.

       Isto, é claro, era diferente. Esta hamish era sua defesa contra mentes alienígenas e ele queria que ela servisse a esta finalidade o mais eficazmente possível.

       Não; isso não era verdade Seu cargo de Orador estaria com prometido se deixasse de entender sua própria mente, ou, pior, se deliberadamente a alterasse para evitar a verdade. A verdade era que lhe agradava vê-la calma e pacífica e feliz endogenamente - sem a interferência dele - o que lhe agradava simplesmente porque ela lhe agradava; e pensou (desafiadoramente) que não havia nada errado com isso.

       - Sente-se, Novi.

       Ela o fez, equilibrando-se precariamente na beira da poltrona, e sentando-se tão longe quanto os limites da sala permitiam. Sua mente estava inundada de respeito.

       - Quando você me viu fazendo ruídos, Novi, eu estava falando à distância, à maneira dos doutores.

       Novi disse triste, olhos baixos: - Eu vêju, dotô, qui tem muita coisa dus dotó qui eu num intêndu, i nem póssu imaginá. É arte difícir cômu subi im montanha. Tênhu vergonha di vi prá sê dotora. Cumo é qui u dotô num si riu di mim?

       - Não é vergonha aspirar a alguma coisa, mesmo que esteja além de nosso alcance. Agora, você já está muito velha para ser feita doutora tal como eu sou, mas nunca está velha demais para aprender mais do que já sabe, e poder fazer mais do que já sabe. Vou lhe ensinar algo a respeito desta nave. Quando atingirmos nosso destino, você já saberá bastante a respeito dela.

       Ele sentiu-se deliciado. E por que não? Ele estava deliberadamente dando as costas para o estereótipo do povo hamish. Afinal, que direito tinha o grupo heterogêneo da Segunda Fundação de estabelecer um tal estereótipo? Os jovens produzidos por ela só ocasionalmente eram adequados para se tomarem segundofundacionistas. Os filhos dos Oradores quase nunca estavam qualificados para se tornarem Oradores. Houve três gerações de Linguesters, três séculos atrás, mas sempre houve a suspeita de que o Orador do meio daquela série não estava realmente qualificado. E se isto fosse verdade, quem era aquele pessoal da Universidade para se colocar num pedestal tão alto?

       Observou os olhos de Novi brilharem, e isso o agradou muito.

       Ela disse: - Vô tentá aprendê túdu u qui u sinhô mi insiná, dotô.

       - Tenho certeza que sim - respondeu, e então. - - hesitou. Ocorreu-lhe que, em sua conversação com Compor, ele de modo algum indicou, a qualquer momento, que não estava sozinho. Não deu o menor indício de ter companhia.

       Uma mulher poderia ficar subentendida, quem sabe; pelo menos, Compor não ficaria surpreso. Mas, uma hamish?

       Por um momento, a despeito de qualquer coisa que Guendibal pudesse fazer, o estereótipo reinava supremo e ele descobriu-se grato por que Compor nunca estivera em Trantor e nunca reconheceria Novi como uma hamish.

       Afastou tais pensamentos. Não importava se Compor sabia ou se qualquer um soubesse. Guendibal era um Orador da Segunda Fundação, e podia fazer como quisesse dentro das restrições do Plano de Seldon - e ninguém poderia interferir.

       Novi disse: - Dotô, dispois de nóis chegá, quando é que nóis vai se separá?

       Olhou para ela e respondeu, talvez com mais força do que pretendia: - Não vamos nos separar, Novi.

       E a hamish sorriu, encabulada, e, por toda a galáxia!, ficou com o aspecto que qualquer mulher ficaria.

 

Universidade

       Pelorat retorceu o nariz, quando ele e Trevize reentraram na Far Star.

       Trevize disse, com indiferença: - O corpo humano é um poderoso emissor de odores. A reciclagem nunca funciona instantaneamente, e odores artificiais meramente se sobrepõem, nunca substituem.

       - E eu suponho que não há duas naves que cheiram igual, depois de terem sido ocupadas por um certo período por várias pessoas.

       - Isso mesmo, mas você sentia o cheiro do planeta Sayshell de pois de uma hora?

       - Não - admitiu Pelorat.

       - E você não vai sentir o cheiro da nave daqui a pouco, também. De fato, se você morar bastante tempo na nave, vai aceitar o cheiro que o receberá na volta como o cheiro do lar. E, aliás, se você se tomar um viajor galáctico depois disto, Janov, vai ter de aprender que não é educado comentar o cheiro de qualquer nave, ou de qualquer mundo, com aqueles que vivem na nave ou no planeta. Entre nós, é claro, está tudo bem.

       - Com efeito, Golan, o engraçado é que realmente considero a Far Star como minha casa. Pelo menos foi feita na Fundação. - Pelorat sorriu. - Você sabe, nunca me considerei um patriota. Gosto de pensar que reconheço só a humanidade como minha nação, mas devo reconhecer que estar longe da Fundação enche meu coração de amor por ela.

       Trevize estava preparando a sua cama: - Você não está muito longe da Fundação, sabe? A União de Sayshell é quase totalmente cercada por território da Federação. Temos aqui um embaixador e uma enorme presença, de cônsules para baixo. Os sayshelianos gostam de se opor a nós em palavras, mas usualmente são muito cuidadosos sobre fazer qualquer coisa que possa nos desagradar. Janov, vamos dormir, agora. Não chegamos a lugar algum, hoje, e precisamos nos sair melhor, amanhã.

       Ainda, não havia dificuldade em ouvir através da parede entre os dois quartos, e quando a nave estava escura, Pelorat, tossindo sem parar, finalmente disse, em voz não muito alta: - Golan?

       - Sim?

       - Não está dormindo?

       - Não, enquanto você fala.

       - Chegamos a algum lugar, hoje. Seu amigo, Compor...

       - Ex-amigo - resmungou Trevize.

       - Seja qual for a condição dele, falou sobre a Terra e nos disse algo que não tinha encontrado em minhas pesquisas antes. Radiatividade!

       Trevize ergueu-se e apoiou-se num cotovelo: - Olhe, Janov, se a Terra está realmente morta, isso não quer dizer que tenhamos de voltar para casa. Eu ainda quero encontrar Gaia.

       Pelorat fez um ruído com a boca, como se estivesse soprando penas. - Meu caro amigo, eu também. Tampouco penso que a Terra está morta. Compor pode ter contado o que ele acha ser a verdade, mas quase não há setor na Galáxia que não tenha uma lenda ou outra que coloque a origem da humanidade em algum planeta local. E eles quase invariavelmente chamam-no Terra ou algum nome que seja de perto equivalente. - Fez uma pequena pausa e continuou: - E o que chamamos “Globocentrismo”, em antropologia. As pessoas tendem a admitir tacitamente que são melhores que seus vizinhos; que sua cultura é mais antiga e superior à de outros mundos; o que há de bom em outros mundos foi tomado emprestado deles, ao passo que tudo o que é distorcido ou pervertido é estrangeiro, vindo de alhures. E a tendência é igualar a superioridade na qualidade com a superioridade na duração. Se não conseguem sustentar razoavelmente que seu planeta é a Terra, ou seu equivalente - e o princípio da espécie humana - quase sempre fazem o melhor que podem para colocar a Terra em seu próprio setor, mesmo quando não a podem localizar exatamente.

       Ao que Trevize disse: - E você está tentando me dizer que Compor estava apenas seguindo um hábito comum quando disse que a Terra existiu no Setor de Sirius. Mesmo assim, o Setor de Sirius, com efeito, tem uma longa história; assim, todos os mundos dele deveriam ser bem conhecidos, e seria fácil verificar o assunto, mesmo sem ir até lá.

       Pelorat deu uma risadinha: - Mesmo que você demonstrasse que provavelmente nenhum mundo do Setor de Sirius fosse a Terra, isso não ajudaria. Você subestima as profundezas em que o misticismo pode enterrar a racionalidade, Golan. Há pelo menos meia dúzia de setores na Galáxia onde respeitáveis eruditos repetem, com toda a aparência de solenidade e sem traço de um sorriso, lendas locais de que a Terra, ou o que quer que escolham chamá-la, está localizada no hiperespaço, e não pode ser alcançada, exceto por acidente.

       - E eles dizem que alguém já a atingiu, por acidente?

       - Há sempre lendas e sempre há uma recusa patriótica em não acreditar, mesmo que as lendas não sejam minimamente críveis, e nunca são acreditadas por ninguém que não seja do mundo que as produziu.

       - Então, Janov, não vamos nós passar a acreditar nelas. Vamos  entrar em nosso próprio hiperespaço particular do sono.

       - Mas, Golan, é esse negócio da radiatividade da Terra o que me intriga. Para mim, parece ter a marca do verossímil - ou uma espécie de verdade.

       - O que você quer dizer com uma espécie de verdade?

       - Ora, um mundo que é radiativo, seria um mundo em que a radiação dura estaria presente em concentração mais alta que o usual. A taxa de mutações seria mais alta nesse mundo, e a evolução agiria mais depressa - e mais diversamente. Eu lhe disse, se é que você se lembra, que dentre os pontos nos quais quase todas as lendas concordam é que a vida na Terra era incrivelmente variada: milhões de espécies de todos os tipos de vida. E esta diversidade da vida - este desenvolvimento verdadeiramente explosivo que poderia ter originado a inteligência na Terra, e então seu impulso a se esparramar pela Galáxia. Se a Terra fosse, por alguma razão, radiativa, isto é, mais radiativa que os outros planetas - isso poderia explicar todos os aspectos pelos quais a Terra é - ou foi - única.

       Trevize fez silêncio por um instante. - Em primeiro lugar, não temos razão para crer que Compor estava dizendo a verdade. Pode muito bem ter mentido deslavadamente para nos induzir a abandonar este local e sair à-toa rumo a Sirius que foi exatamente o que ele quis fazer. E mesmo se ele estivesse dizendo a verdade, o que ele disse é que lá havia tanta radiatividade que a vida tornou-se impossível.

       Pelorat fez o gesto de soprar, de novo. - Não havia muita radiatividade para deixar a vida se desenvolver na Terra, e é mais fácil para a vida se manter - uma vez estabelecida - que se desenvolver em primeiro lugar. Admitindo, pois, que a vida estabeleceu-se e manteve-se na Terra, o nível de radiatividade não poderia ser incompatível com a vida, para começar, e só poderia decair com o tempo. Não há nada que possa elevar o nível da radiatividade.

       - Explosões nucleares? - sugeriu Trevize.

       - E o que isso teria a ver com tudo o mais?

       - Quero dizer, suponha que explosões nucleares tenham ocorrido na Terra?

       - Na superfície da Terra? Impossível. Não há registro na história da Galáxia de qualquer sociedade tão louca a ponto de usar explosões nucleares como arma de guerra. Nunca teríamos sobrevivido. Durante as insurreições triguelianas, quando ambos os lados foram reduzidos à fome e desespero, e quando Jendipurus Khoratt sugeriu o início de uma reação de fusão em...

       - Ele foi enforcado pelos marujos de sua própria frota. Eu conheço a história Galáctica. Eu estava pensando num acidente.

       - Não há registro de acidentes dessa natureza que seja capaz de elevar significativamente a intensidade da radiatividade de um planeta, em geral - e suspirou. - Suponho que acabemos sendo obrigados a ir ao Setor de Sirius e fazer alguma prospecção por lá.

       - Algum dia, talvez, iremos. Mas por hora...

       - Sim, sim; vou parar de falar.

       Calou-se, e Trevize ficou deitado, no escuro, pensando, por quase uma hora, se já tinha atraído demasiado a atenção, e se não seria aconselhável ir ao Setor de Sirius e então voltar para Gaia, quando a atenção - a atenção de todos - estivesse em algum outro lugar.

       Não tinha chegado a uma conclusão clara, no momento em que caiu no sono. Seus sonhos foram perturbados.

      

       Não voltaram para a cidade senão na metade da manhã seguinte. O centro de turistas estava bem cheio agora, mas conseguiram obter as instruções necessárias para chegar a uma biblioteca, onde, por sua vez, receberam instruções sobre o uso dos modelos locais dos computadores processadores de informação.

       Passaram cuidadosamente pelos museus e universidades, começando com os mais próximos, e verificaram qualquer informação disponível sobre antropólogos, arqueólogos e historiadores da antiguidade.

       E Pelorat disse: - Ahá!

       E Trevize respondeu, com alguma aspereza: - Ahá? Ahá o quê?

       - Este nome, Quintesetz. Parece familiar.

       - Você o conhece?

       - Não, é claro que não, mas já li alguns de seus trabalhos. Na nave, onde posso recorrer à minha coleção bibliográfica...

       - Não vamos voltar agora, Janov. Se o nome é familiar, já é um ponto de partida. Se ele não puder nos ajudar, sem dúvida alguma poderá nos aconselhar para onde ir. Levantou-se. - Vamos achar um meio de ir para a Universidade de Sayshell. E como não haverá ninguém lá na hora do almoço, vamos comer, primeiro.

       Só no fim da tarde foi que conseguiram chegar até a universidade, encontraram o caminho por seu labirinto, e encontraram-se numa ante-sala, esperando por uma moça que saíra à busca de informação e que poderia - ou não - levá-los a Quintesetz.

       - Fico imaginando - disse Pelorat, incomodado - quanto mais deveremos esperar. Deve estar chegando o fim do dia escolar.

       E como se isto fosse um sinal, a moça que viram havia uma meia hora aproximou-se rapidamente deles, sapatos rebrilhando de vermelho e violeta, e golpeando o chão com uma nota musical aguda, ao caminhar. O tom variava com a velocidade e a força dos passos.

       Pelorat fez uma careta. Ele supunha que cada mundo tivesse suas próprias maneiras de assaltar os sentidos, assim como cada um tinha o seu cheiro, Agora cismava se, não mais notando o cheiro, conseguiria não notar a cacofonia das moças na moda, quando andavam.

       Ela veio até Pelorat e parou: - Posso saber o seu nome completo, professor?

       - Janov Pelorat, senhorita,

       - Planeta natal?

       Trevize começou a erguer uma mão, como que para ordenar silêncio, mas Pelorat, não vendo, ou não percebendo, disse:- Terminus.

       A moça sorriu amplamente, e pareceu gostar: - Quando eu disse ao professor Quintesetz que um professor Pelorat estava perguntando por ele, ele disse que o veria se fosse Janov Pelorat, de Terminus, mas não outro,

       Pelorat piscou rápido: - Você... você... quer dizer que ele ouviu falar de mim?

       - Certamente, é o que parece.

       Pelorat conseguiu dar um sorriso sem jeito, ao voltar-se para Trevize: - Ele ouviu falar de mim! Honestamente, eu nunca pensei... Quero dizer, escrevi pouquíssimos trabalhos, e não pensei que alguém... - Sacudiu a cabeça. - Eles não eram realmente importantes.

       - Ora, vejam - disse Trevize, sorrindo -, pare de se abraçar num êxtase de auto-estima e vamos lá. - Voltou-se para a moça: - Presumo, senhorita, que há alguma espécie de transporte para nos levar?

       - Podemos ir a pé. Não precisaremos deixar o complexo deste edifício, e terei prazer em levá-los até lá. Vocês dois são de Terminus? - E lá foi ela.

       Os dois seguiram-na, e Trevize disse, com um traço de aborrecimento: - É, somos. Isso faz diferença?

       - Não, não, é claro que não. Há pessoas em Sayshell que não gostam de fundacionistas, mas aqui na universidade somos mais cosmopolitas. Viva e deixe viver; é o que sempre digo. Quero dizer, fundacionistas são gente, também. Sabe o que quero dizer?

       - Sim, eu sei o que você quer dizer. Muitos de nós dizem que também os sayshelianos são gente.

       - E é assim que deveria ser. Nunca vi Terminus. Deve ser uma cidade bem grande.

       - De fato, não é - disse Trevize, casualmente. - Suspeito ser menor que a cidade de Sayshell.

       - Você está brincando! - ela respondeu. - É a capital da Federação da Fundação, não é? Quero dizer, não há outra Terminus, há?

       - Não, há só uma Terminus, tanto quanto eu saiba, e é de onde viemos: a capital da Federação da Fundação.

       - Ora, então, deve ser uma cidade enorme! E vocês percorreram todo esse caminho para ver o professor. Temos muito orgulho dele, sabe? É considerado a maior autoridade de toda a Galáxia.

       - Realmente? Em quê?

       Seus olhos se arregalaram, de novo. - Você deve estar me provocando! Ele deve saber mais sobre história antiga que... que eu sei sobre minha própria família. - E ela continuou andando à frente, sobre seus sapatos musicais.

       Não se pode ser chamado de gozador e provocador sem desenvolver uma tendência nesse sentido. Trevize sorriu e disse: - O professor sabe tudo sobre a Terra, eu suponho?

       - Terra? - Ela parou à porta de um escritório e olhou para ele, sem expressão.

       - Você sabe; o mundo onde a humanidade começou.

       - Ah, você quer dizer o.planeta-que-foi-primeiro. Creio que sim. Creio que ele deve saber tudo a respeito. Afinal, está localizado no Setor de Sayshell. Todos sabem disso! Este é o escritório dele. Deixem-me anunciá-los.

       - Não agora - disse Trevize. - Espere um minuto. Fale-me sobre a Terra.

       - Na verdade, não ouvi ninguém chamá-lo Terra. Suponho que seja uma palavra da Fundação. Nós o chamamos de Gaia, aqui.

       Trevize lançou um olhar rápido para Pelorat: - Mesmo? E onde está localizado?

       - Em lugar nenhum. Está no hiperespaço, e não há jeito de ir lá. Quando eu era menininha, minha avó disse que Gaia esteve uma vez no espaço real, mas ficou tão aborrecida com...

       - Com os crimes e a estupidez dos humanos - murmurou Pelorat -, que, de vergonha, deixou o espaço e recusou-se a ter qualquer coisa a ver com os seres humanos que enviara pela Galáxia afora.

       - Ah, você conhece a história, então! Está vendo? Uma amiga minha diz que é superstição. Mas eu é que sei. Se é boa o bastante para os professores da Fundação...

       Um letreiro brilhante no vidro opaco da porta dizia: SOTAYN QUINTESETZ ABT, na caligrafia saysheliana, de difícil leitura, e embaixo, escrito da mesma maneira: DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA ANTIGA.

       A mulher colocou o dedo num círculo de metal polido. Não houve nenhum ruído, mas o vidro cinzento ficou leitoso por um momento e uma voz suave disse, distraidamente: “Identifique-se, por favor”.

       - Janov Pelorat, de Terminus - disse Pelorat - com Golan Trevize, do mesmo planeta. - A porta se abriu imediatamente.

      

       O homem estava de pé, andou à volta de sua escrivaninha e adiantou-se ao encontro deles; era alto e de meia-idade. Sua pele era de um castanho-claro, e seu cabelo, crespo, era grisalho. Estendeu a mão para cumprimentar, e sua voz era macia e baixa: - Sou S.Q. e é uma alegria conhecê-los, professores.

       Trevize disse: - Não tenho um título acadêmico. Meramente acompanho o professor Pelorat. Pode chamar-me simplesmente Trevize. É um prazer conhecê-lo, professor Abt.

       Quintesetz levantou uma mão, claramente embaraçado. - Não, não; Abt é simplesmente um título bobo que não tem significado algum fora de Sayshell. Ignore-o, por favor, e chame-me S.Q. Tende mos a usar as iniciais no relacionamento social comum, em Sayshell. Estou mais contente por conhecê-los a ambos, já que estava esperando um só.

       Pareceu hesitar um momento, então estendeu a mão direita, de pois de limpá-la nas calças.

       Trevize tomou-a, imaginando qual seria a maneira adequada de cumprimentar em Sayshell.

       Quintesetz disse, então: - Por favor, sentem-se. Receio que só encontrarão poltronas inanimadas, mas eu não quero que minhas poltronas me abracem. É a última moda, poltronas que abraçam, hoje, mas prefiro um abraço que signifique algo, não é melhor?

       Trevize sorriu, e disse: - E quem não gosta? Seu nome, S.Q., parece ser dos Mundos da Fronteira, e não de Sayshell. Desculpe-me, se a observação for impertinente.

       - Não me importo; minha família descende, em parte, de Askona. Há cinco gerações atrás, meus trisavós deixaram Askona quando o domínio da Fundação ficou mais pesado.

       Pelorat respondeu: - E nós somos fundacionistas. Nossas desculpas.

       Quintesetz abanou a mão, bem-humorado. - Eu não vou guardar ressentimento por um intervalo de cinco gerações. Não que tais coisas não tenham acontecido, o que é mais lamentável. Querem comer alguma coisa? Beber? Querem música de fundo?

       - Se não se importa - falou Pelorat -, eu gostada de ir direto aos negócios, se a etiqueta saysheliana o permitir.

       - A etiqueta saysheliana não é uma barreira para isso, garantolhe. O senhor não faz idéia de como isto é notável, dr. Pelorat. Só há duas semanas que li seu artigo sobre os mitos das origens na Revista Arqueológica, que me surpreendeu como uma síntese notável, para dizer pouco.

       Pelorat enrubesceu de prazer. - Estou deliciado em saber que o senhor o leu. Tive de condensá-lo, é claro, pois a revista não queria editar um estudo completo. Tenho planejado escrever um tratado sobre o assunto.

       - Oxalá o escreva. De qualquer modo, assim que li o artigo, tive o desejo de conhecê-lo. Tive mesmo a idéia de visitar Terminus para ir ao seu encontro, muito embora isso seja difícil de arranjar...

       - E por quê? - quis saber Trevize.

       Quintesetz mostrou-se embaraçado: - Lamento ter de dizer que Sayshell não está ansioso para juntar-se à Federação da Fundação, e desencoraja qualquer comunicação social com a Fundação. Temos uma tradição de neutralismo, percebe? Mesmo o Mula não nos perturbou, exceto para nos extorquir uma declaração de neutralidade. Por essa razão, qualquer requerimento para licença para visitar território da Fundação geralmente, e em particular quanto a Terminus, é visto com suspeita, mesmo que um estudioso como eu, em assunto acadêmico, provavelmente acabasse obtendo um passaporte. Mas, nada disso foi necessário: o senhor acabou vindo a mim. Mal posso acreditar. Fico me perguntando: por quê? O Senhor já ouviu falar de mim, assim como eu ouvi falar do senhor?

       - Conheço o seu trabalho, S.Q., e em meu arquivo tenho resumos de seus artigos. Foi por isso que vim até o senhor. Estou explorando a questão da Terra, que é o suposto planeta de origem da espécie humana, bem como o período primitivo da exploração e povoamento da Galáxia. Em especial, vim aqui para saber sobre a fundação de Sayshell.

       - Pelo seu artigo, presumo que o senhor esteja interessado em mitos e lendas.

       - E mesmo em história, fatos objetivos - se é que existem. Se não, mitos e lendas.

       Quintesetz levantou-se e passou a andar depressa, para lá e para cá em todo o seu escritório, parou pan olhar para Pelorat, e continuou andando.

       Trevize falou, com impaciência: - Bem, senhor...

       - Esquisito! Realmente esquisito! Foi apenas ontem que...

       Pelorat perguntou: - O que foi ontem mesmo?

       - Eu lhe disse, dr. Pelorat; posso chamá-lo J.P.? Acho pouco natural usar o nome inteiro.

       - Sim, por favor.

       - Eu lhe disse, J.P., que admirei seu artigo e que queria vê-lo. A razão pela qual queria vê-lo é que você tinha claramente uma extensa coleção de lendas concernentes ao começo dos mundos, e ainda não tinha a nossa. Em outras palavras, eu queria vê-lo para dizer-lhe precisa aquilo pelo que você veio me perguntar.

       - E o que isto tem a ver com ontem, S.Q.? - perguntou Trevize.

       - Temos lendas. Uma lenda. Uma lenda importante para nossa sociedade, pois tornou-se nosso mistério central.

       - Mistério? - inquiriu Trevize.

       - Não quero dizer um enigma, ou algo assim. Esse, acredito, seria o significado usual da palavra no Galáctico Padrão. Há um significado especializado, aqui. Significa “algo secreto”; algo de que apenas alguns adeptos conhecem o significado total, algo de que não se deve falar para estranhos. E ontem foi o dia.

       - O dia de que, S. Q.? - perguntou Trevize, exagerando levemente o seu ar de impaciência.

       - Ontem foi o Dia da Fuga.

       - Ah! - foi dizendo Trevize - um dia de meditação e silêncio, quando se supõe que todos fiquem em casa.

       - Algo assim, em teoria, exceto que nas cidades maiores, as regiões mais sofisticadas há pouca observância dos costumes antigos. Mas vejo que já conhecem o assunto.

       Pelorat, que ficou agastado com o tom apressado de Trevize, corrigiu logo: - Ouvimos falar ontem, quando chegamos.

       - Justo neste dia! -_ disse Trevize, sarcasticamente - Escute aqui, S.Q, como disse, não sou acadêmico, mas tenho uma pergunta. Você disse estar falando de um mistério central, querendo dizer que não se deveria falar dele para estranhos. Por que, então, está falando disto conosco? Nós somos estranhos.

       - De fato, são. Mas não sou um observador do dia e a profundidade da minha superstição neste assunto tampouco é grande. O artigo de J.P., porém, reforçou um sentimento que tenho já há muito. Um mito ou lenda simplesmente não é feito do vácuo. Nada acontece assim. De algum modo tem algum núcleo de verdade, por mais distorcido que possa ser, e eu gostaria de saber da verdade atrás de nossa tenda do Dia da Fuga.

       - É seguro conversar a respeito? - quis saber Trevize.

       Quintesetz deu de ombros. - Não inteiramente, eu creio. Os elementos conservadores de nossa população ficariam horrorizados. Entretanto, eles não controlam o governo, e não o têm feito por um século, já. Os secularistas são fortes e seriam ainda mais fortes, se os conservadores não tirassem vantagem de nossas tendências - per doem-me - anti-Fundação. E como também estou discutindo o assunto por meu interesse acadêmico em história antiga, a Liga dos Acadêmicos me apoiaria fortemente, se fosse necessário.

       - Neste caso - interveio Pelorat - você nos contaria sobre o seu mistério central, S.Q.?

       - Sim, mas deixe certificar-me de que não seremos interrompidos, ou que ninguém nos ouça. Se se quer encarar o touro, não precisa esmurrar o focinho dele, como diz o provérbio.

       Fez piscar um sinal na face de um instrumento em sua escrivaninha e disse: - Estamos incomunicáveis, agora.

       - Tem certeza que não há abelhudos por aqui?

       - Abelhudos?

       - Espiões! Olhos e ouvidos nas paredes! Sujeitos a algum dispositivo que nos tenha sob observação visual, ou auditiva, ou ambas.

       Quintesetz pareceu chocado: - Não aqui em Sayshell.

       Trevize, desconfiado: - Se você diz assim...

       - Por favor, continue, S.Q. - insistiu Pelorat.

       Quintesetz estufou os lábios, reclinou-se em sua cadeira (que cedeu levemente, sob a pressão) e juntou as pontas dos dedos umas contra as outras. Parecia estar especulando sobre como começar.

       - Sabem o que é um robô?

       - Um robô? - repetiu Pelorat. - Não.

       Quintesetz olhou na direção de Trevize, que abanou lentamente a cabeça.

       - Mas sabem o que é um computador?

       - É claro - replicou Trevize, impaciente.

       - Bem, uma ferramenta móvel computerizada...

       - É uma ferramenta móvel computerizada! - Trevize estava perdendo a calma. - Há infinitas variedades e eu não sei de nenhum termo geral para elas, exceto ferramenta móvel computerizada

       - ... e que se parece exatamente com um ser humano, é um robô - S.Q. completou sua definição, equanimemente. - A característica de um robô é que ele é humaniforme.

       - Por que humaniforme? - perguntou Pelorat, honestamente perplexo.

       - Não tenho certeza. É uma forma notavelmente ineficiente para uma ferramenta, garanto-lhes, mas estou apenas repetindo a lenda. “Robô” é uma antiga palavra de nenhuma língua reconhecível, apesar de que os expertos digam que tem a conotação de “trabalho”.

       - Não posso pensar em nenhuma palavra - disse Trevize ceticamente - que soe sequer vagamente como “robô” e que tenha qualquer conexão com “trabalho”.

       - Nada em Galáctico, certamente - disse Quintesetz -, mas é o que dizem.

       Pelorat alegou: - Pode ter sido etimologia reversa. Esses objetos eram usados para trabalhar, e assim a palavra ficou significando “trabalho”. De qualquer modo, por que está nos contando isso?

       - Porque é uma tradição firmemente estabelecida aqui em Sayshell que quando a Terra era um mundo isolado, e a Galáxia estava toda desabitada perante ela, é que os robôs foram idealizados, inventados. Havia então duas espécies de humanos: naturais e inventa dos, carne e metal, biológico e mecânico, complexo e simples...

       Quintesetz interrompeu-se e disse, com uma ruidosa gargalhada: - Desculpe, mas é impossível falar sobre robôs sem mencionar o Livro da Fuga. O povo da Terra idealizou robôs... e não preciso dizer mais nada: isso é claro o bastante.

       - E por que idealizaram robôs? - quis saber Trevize.

       Quintesetz ignorava: - Quem pode saber, a esta distância no tempo? Talvez fossem pouco numerosos e precisaram de ajuda, particularmente na grande tarefa de explorar e povoar a Galáxia.

       Trevize alegou: - Sugestão razoável. A Galáxia colonizada, os robôs não mais seriam necessários. Por certo que não há ferramentas móveis computerizadas humanóides, hoje em dia, na Galáxia.

       - Em qualquer caso - continuou Quintesetz - a história continua assim, se é que posso simplificar enormemente e deixar de lado muito floreio poético que, francamente não aceito, muito embora o povo em geral goste, ou finja que gosta. Em torno da Terra, vicejaram colônias nas estrelas adjacentes, e estes planetas-colônia eram muito mais ricos em robôs que a própria Terra. Havia mais utilidade para robôs nos mundos novos e desocupados. A Terra mesmo voltou atrás; não queria mais robôs, e se rebelaram contra eles.

       - E o que aconteceu? - perguntou Pelorat.

       - Os Mundos Exteriores eram mais fortes. Com a ajuda de seus robôs, os filhos derrotaram e controlaram a Terra, a Mãe. Perdoem- me, mas não consigo deixar de ficar repetindo citações do Livro. Mas houve aqueles da Terra que fugiram de seu mundo - com naves melhores e modalidades mais potentes de vôo hiperespacial. Voaram para estrelas e planetas distantes, muito além dos planetas próximos anteriormente colonizados. Novas colônias foram fundadas - sem robôs - onde os humanos podiam viver livremente. Foram os Tempos da Fuga, como foram chamados, e o dia em que os primeiros terráqueos atingiram o Setor de Sayshell, este exato planeta, de fato, é o Dia da Fuga, celebrado anualmente por milhares de anos.

       Pelorat concluiu: - Meu caro amigo, o que você está então dizendo é que Sayshell foi fundado diretamente a partir da Terra.

       Quintesetz hesitou um momento. - É, essa é a crença oficial.

       - Obviamente - continuou Trevize - você não aceita isso.

       - Parece-me... - Quintesetz começou, e então desabafou: - Mas pelas Grandes Estrelas e pelos Pequenos Planetas, é claro que não! É totalmente improvável, mas é o dogma oficial, e por mais secularizado que o governo se torne, conservar as aparências é sempre essencial. Mas, voltemos ao assunto. Em seu artigo, J.P., não há indicação de que você saiba desta história, de robôs e duas ondas de colonização, uma pequena, com robôs, e uma grande, sem.

       - Por certo que não a conhecia - admitiu Pelorat. - Estou ouvindo-a pela primeira vez e, meu caro S.Q., sou-lhe eternamente grato por ter-me dado a conhecê-la. Estou perplexo por nem sombra disto ter aparecido em qualquer dos escritos...

       - Mostra - afirmou Quintesetz - quão eficiente é o nosso sistema social. É nosso segredo sayshelliano; o nosso grande mistério.

       - Quiçá - encerrou Trevize, secamente. - No entanto, a segunda onda de colonização - a onda sem os robôs - deve ter-se deslocado em todas as direções. Por que só em Sayshell este grande segredo existe?

       Ao que retrucou Quintesetz: - Pode existir alhures, e ser igualmente segredo. Nossos próprios conservadores acreditam que apenas Sayshell foi colonizado a partir da Terra, e que todo o resto da Galáxia, a partir de Sayshell. Isso, claro, é provavelmente bobagem.

       Pelorat falou: - Esses enigmas subsidiários podem ser esclareci dos com o tempo. Agora que tenho o ponto de partida, posso procurar informação similar em outros planetas. O que conta é que descobri qual a pergunta a fazer, e uma boa questão é, claro, a chave pela qual infinitas respostas podem ser deduzidas. Foi um evento feliz que eu...

       Trevize interrompeu: - Sim, Janov, mas o bom S.Q. aqui ainda não nos contou toda a história, com certeza, O que aconteceu com as colônias mais antigas e seus robôs? As suas tradições dizem isso?

       - Não em minúcia, mas na essência. Os humanos e os humanóides não podem viver juntos, aparentemente. Os mundos com robôs morreram. Não eram viáveis,

       - E a Terra?

       - Os humanos a abandonaram e estabeleceram.se aqui e presumivelmente, muito embora os conservadores possam discordar, em outros planetas, também,

       - Certamente nem todos os humanos abandonaram a Terra. O planeta não ficou deserto.

       - Presumivelmente não. Eu não sei.

       Trevize disse, de repente: - Foi deixado radiativo?

       Quintesetz assustou-se: - Radiativo?

       - É o que estou perguntando.

       - Não que eu saiba. Nunca ouvi falar de tal coisa.

       Trevize colocou um nó de seu dedo contra os dentes e ficou pensando, Por fim, disse: - S.Q., está ficando tarde, e ultrapassamos o suficiente do seu tempo, talvez. - Pelorat fez um movimento como se fosse protestar, mas a mão de Trevize estava apertando seu joelho, de modo que Pelorat, a contragosto, submeteu-se.

       Quintesetz falou: - Gostei muito de poder ter sido útil.

       - Você foi, e se houver qualquer coisa que pudermos fazer em troca, é só falar.

       Quintesetz riu baixinho: - Se o bom J.P. fizer a gentileza de não mencionar o meu nome em conexão com qualquer coisa que ele escreva sobre o nosso mistério, será um pagamento suficiente.

       Pelorat disse, ansioso: - Você poderia receber o crédito que merece - e talvez ser mais apreciado - se pudesse visitar Terminus e mesmo ficar lá como visitante em nossa universidade, por um período mais extenso. Poderíamos arranjar isso. Sayshell pode não gostar da Federação, mas não saberá recusar um pedido direto de permissão para que você vá a Terminus para presenciar, digamos, um colóquio sobre algum aspecto da história antiga.

       O sayshelliano quase ficou de pé. - Está querendo dizer que pode puxar os cordões de modo a arranjar isso?

       - Ora, eu não tinha pensado antes, mas J.P. está perfeitamente certo - disse Trevize - Isso seria exeqüível, se tentássemos E, é claro, quanto mais gratos você nos tornar, mais entusiasticamente tentaremos.

       Quintesetz parou, e interrogou: - O que quer dizer, senhor?

       - Tudo o que tem a fazer é nos contar sobre Gaia, S.Q. - contra- pôs Trevize. - Toda a luz no rosto de Quintesetz apagou-se.

 

       Quintesetz baixou os olhos para sua mesa. Passou a mão distraidamente sobre o cabelo curto e crespo. Então olhou para Trevize e apertou os lábios. Foi como se estivesse determinado a não falar.

       Trevize ergueu os sobrolhos e esperou, e ao fim, Quintesetz falou, com a voz estranhamente embargada: - Está ficando mesmo tarde, já está escurecendo.

       Até então ele tinha falado em bom Galáctico, mas agora suas palavras assumiram uma forma estranha, como se o linguajar sayshelliano estivesse prorrompendo através de sua polidez.

       - Escurecendo, S.Q.?

       - Já é quase noite.

       Trevize concordou. - Acabei me esquecendo da hora. E estou com fome, também. Quer juntar-se a nós para a refeição da noite, S.Q., às nossas expensas? Poderíamos então continuar, quem sabe, nossa discussão a respeito de Gaia.

       Quintesetz levantou-se pesadamente. Era mais alto que os dois homens de Terminus, mas era mais velho e mais gorducho, e sua altura não lhe emprestava a aparência de força. Parecia muito mais cansado do que quando os dois chegaram.

       Piscou, e disse: - Esqueci de minha hospitalidade. Vocês são extraplanetários e não seria apropriado que me entretivessem. Venham para minha casa. É no campus, e não é longe, e se quiserem conversar, posso fazê-lo mais à vontade lá do que cá. Só o que lastimo - ficou meio encabulado - é que só posso oferecer-lhes uma refeição limitada. Minha esposa e eu somos vegetarianos; se vocês são carnívoros, só posso expressar minhas desculpas mais sinceras.

       - J.P. e eu ficaremos muito contentes em nos esquecer de nossas naturezas carnívoras por uma refeição - disse Trevize. - Sua conversa vai compensar muito mais que isso, espero.

       - Posse prometer-lhes uma refeição interessante, qualquer que seja a conversação - continuou Quintesetz -, se seu paladar se adequar às especiarias sayshelianas. Minha mulher eu fizemos um estudo raro de tais coisas.

       - Estou ansioso por qualquer exoticidade que você queira nos apresentar, S.Q. - disse Trevize friamente, se bem que Pelorat ficara um pouco nervoso com esta perspectiva.

       Quintesetz foi à frente, mostrando o caminho. Os três deixaram a sala e foram por um corredor aparentemente infinito, com o saysheliano cumprimentando estudantes e colegas vez ou outra, mas sem fazer qualquer tentativa de apresentar seus companheiros. Trevize estava incomodamente cônscio de que os outros fitavam com curiosidade seu cinto, que por acaso era um dos de cor cinza. Um tom suave não era o que havia de rigueur na moda do campus, aparentemente.

       Por fim passaram pela porta, para o ar livre. Estava, de fato, escuro, e um pouco frio, com árvores avultando-se à distância e um gramado em um tom escuro, de cada lado da calçada.

       Pelorat parou, dando as costas para o reluzir do prédio de onde acabavam de sair, e das luzes ao longo das calçadas do campus. Olhou direto para cima.

       -Lindo! - disse ele. - Há um verso famoso de um de nossos melhores poetas que fala do “cintilar do amplo céu de Sayshell”.

       Trevize ficou olhando, de acordo, e disse em voz baixa: - Somos de Terminus, S.Q., e meu amigo, pelo menos, nunca viu outros céus. Em Terminus, vemos apenas a nebulosa opaca da Galáxia, e umas poucas estrelas são visíveis a olho nu. Você mesmo apreciaria o seu céu ainda mais, se tivesse vivido algum tempo sob o nosso.

       Quintesetz disse, gravemente: - Nós o apreciamos em sua totalidade, garanto-lhes. Não por estarmos numa área não-congestionada da Galáxia, mas porque a distribuição das estrelas é notavelmente regular. Não creio que encontrarão, em qualquer região da Galáxia, estrelas de primeira grandeza tão geralmente distribuídas. Mas não demais, porém. Já vi céus de planetas que estão na periferia de cúmulos globulares, onde se vêem muitas estrelas brilhantes. Estraga a escuridão do céu noturno, e reduz consideravelmente a sua magnificência.

       - Concordo - assentiu Trevize.

       - Conseguem perceber aquele pentágono quase regular de estrelas quase do mesmo brilho? - perguntou Quintesetz. - As Cinco Irmãs, nós as chamamos. Está naquela direção, pouco acima do topo das árvores. Estão vendo?

       - Sim, vejo - disse Trevize. - Muito bonitas.

       - Sim - concordou Quintesetz. - Simbolizam o sucesso no amor e não há carta de amor que não termine num pentágono de pontos, para indicar o desejo de fazer amor. Cada uma das cinco estrelas é um diferente estágio do processo, e há poemas famosos que competiram uns com os outros em tornar cada estágio tão explicitamente erótico quanto possível. Em meus dias de juventude, tentei versificar sobre o assunto e jamais pensaria que viria o tempo em que me tornaria tão indiferente às Cinco Irmãs, se bem que acho que seja nosso destino comum. Estão vendo aquela estrela fraca perto do centro das Cinco Irmãs?

       - Sim.

       - Aquela, supõe-se que representa o amor não-correspondido. Há uma lenda de que aquela estrela foi uma vez tão brilhante quanto as outras, mas apagou-se, de dor... - e continuou andando, mais depressa.

      

       O jantar, Trevize foi forçado a admitir, fora delicioso. Houve uma variedade sem fim, e o tempero e o preparo era sutil, mas eficaz.

       Trevize disse: - Todos esses vegetais, que foram um prazer para devorar, aliás, são todos parte da dieta galáctica, não são, S.Q.?

       - Sim, é claro.

       - Presumo, porém, que há formas de vida indígenas, também.

       - Ë claro, o planeta Sayshell era um mundo com oxigênio quando os primeiros colonizadores chegaram, de modo que apresentava formas de vida. E preservamos parte da vida nativa, pode estar certo. Temos parques naturais bastante extensos, onde a fauna e a flora do Antigo Sayshell ainda sobrevivem.

       Pelorat disse, entristecido: - Nesse ponto, vocês estão mais adiantados que nós. Havia pouca vida terrestre em Terminus quando os humanos chegaram, e receio que por um longo tempo não foi feito nenhum esforço organizado para preservar a vida marinha, que produziu o oxigênio que tornou Terminus habitável. Terminus tem um ecossistema agora que é de natureza puramente Galáctica.

       - Sayshell - replicou Quintesetz, com um sorriso de modesto orgulho - tem um longo e constante histórico de valorização da vida.

       E Trevize escolheu aquele momento para dizer: - Quando deixamos o seu escritório, S.Q., creio que foi sua intenção nos oferecer o jantar e então falar sobre Gaia.

       A esposa de Quintesetz, uma mulher muito simpática, gorducha e bem morena, que pouco falara durante a refeição, ergueu o olhar, assustada, levantou-se, e deixou a sala sem fazer ruído.

       - Minha esposa - disse Quintesetz, incomodado - é bem conservadora, receio, e fica meio sem jeito com a menção da... palavra. Por favor, desculpem-na. Mas, por que pergunta sobre isso?

       - Porque é importante para o trabalho de J.P., eu creio.

       - Mas por que vieram perguntar para mim? Estávamos discutindo sobre a Terra, robôs, a fundação de Sayshell. O que tudo isto tem a ver... com o que você perguntou?

       - Talvez nada, e há tantas coisas estranhas sobre a questão. Por que sua esposa ficou tão perturbada com a menção de Gaia? Por que você ficou perturbado? Alguns falam dela até com bastante naturalidade. Só hoje nos disseram que Gaia é a própria Terra, e desapareceu no hiperespaço por causa dos males provocados pela espécie humana.

       Um olhar de dor cruzou o rosto de Quintesetz. - Quem lhe contou tanta besteira?

       - Alguém que conheci lá na universidade.

       - Isso é só superstição.

       - Então, não é parte- do dogma central de suas lendas concernentes à Fuga?

       - Não, é claro que não. É apenas uma fábula que apareceu entre o povo não-educado.

       - Está certo? - perguntou friamente Trevize.

       Quintesetz reclinou-se em sua cadeira e ficou contemplando os restos da refeição á sua frente. - Venham para a sala de estar. Minha esposa não deixará limpar esta sala enquanto estivermos aqui, discutindo... isto.

       - Mas, tem certeza de que é uma fábula? - repetiu Trevize, quando sentaram-se em outra sala, à frente de uma janela côncava para cima e para dentro para dar uma vista clara do maravilhoso céu noturno de Sayshell. As luzes da sala foram atenuadas, para evitar a competição, e o rosto moreno de Quintesetz fundiu-se na penumbra.

       Ao que Quintesetz replicou: - E você, está certo? Pensa que qualquer mundo pode dissolver-se no hiperespaço? Deve entender que o cidadão mediano tem apenas a noção mais vaga do que seja o hiperespaço.

       - A verdade - tornou Trevize - é que eu mesmo só tenho a mais vaga noção do que o hiperespaço seja, e já estive nele centenas de vezes.

       - Deixe-me falar de realidades, pois. Asseguro-lhes que a Terra, onde quer que esteja, não está localizada nos limites da União de Sayshell, e que o mundo que vocês mencionaram não é a Terra.

       - Mas, S.Q., mesmo que você não saiba onde está a Terra, deveria saber onde está o mundo que eu mencionei. Deve estar dentro das fronteiras da União de Sayshell. Até aí sabemos, não é, Pelorat?

       Pelorat, que estivera escutando estolidamente, sobressaltou-se ao ser interpelado: - Se é esse o problema, Golan, eu sei onde é.

       Trevize virou-se para ele: - Desde quando, Janov?

       - Desde a noitinha, meu caro Golan. Você nos mostrou as Cinco Irmãs, S.Q., a caminho de seu escritório para cá. Você apontou uma estrelinha no centro do pentágono. Tenho certeza de que é Gaia.

       Quintesetz hesitou - seu rosto, escondido na penumbra, estava além de qualquer traço de interpretação. Por fim, disse: - Bem, é o que os nossos astrônomos dizem, à boca pequena. É um planeta em torno daquela estrela.

       Trevize ficou contemplando Pelorat, mas a expressão no rosto do professor era indecifrável. Trevize voltou-se para Quintesetz: - Então fale-nos daquela estrela. Tem suas coordenadas?

       - Eu? Não. - Foi quase violento em sua recusa. - Não tenho coordenadas estelares aqui. Vocês podem obtê-las em nosso departamento de astronomia, se bem que, imagino, não sem algum trabalho. Não admira que viagens àquela estrela não são permitidas.

       - Por que não? Está dentro de seu território, não é?

       - Espaciograficarnente, sim. Politicamente, não.

       Trevize esperou que algo mais fosse dito. Quando nada aconteceu, levantou-se: - Professor Quintesetz - ele disse, formalmente - eu não sou um policial, nem soldado, nem diplomata, ou assassino. Não estou aqui para forçá-lo a dar informações. Ao invés disto, contra a minha vontade, poderei ir ao nosso embaixador. Deve ficar bem claro que não é por meu interesse pessoal essa requisição de informações. É assunto da Fundação, e não quero transformar isto em um incidente interestelar. Não creio tampouco que a União de Sayshell vá querer uma coisa dessas.

       Quintesetz disse, inseguro: - O que é esse negócio da Fundação?

       - Não é algo que eu possa discutir com o senhor. Se Gaia é algo que o senhor não pode discutir comigo, então vamos transferir tudo ao nível governamental, e sob estas circunstâncias, poderá se