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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FÚRIA DIVINA / José Rodrigues dos Santos
FÚRIA DIVINA / José Rodrigues dos Santos

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

FÚRIA DIVINA

Primeira Parte

 

As luzes dos faróis rasgaram a noite glacial, prenunciando um fragor cavado que logo se ouviu a aproximar. O camião percorreu a Prospekt Lenina devagar, o estrépito do motor sempre em crescendo, e abrandou quando chegou perto do portão. O veículo virou lentamente, galgou a ladeira com um ronco de esforço e imobilizou-se diante das grades do portão, os travões a soltarem um guincho desafinado, o motor a bufar de exaustão.

A sentinela sonolenta abandonou a casamata, o corpo encolhido no sobretudo e a Kalasbnikov displicentemente a tiracolo, e acercou-se do condutor.

"O que se passa?", perguntou o soldado, mal-humorado por se ver forçado a largar o aconchego do abrigo e a enfrentar o agressivo frio exterior. "Que estão aqui a fazer?"

"Viemos efectuar uma entrega", disse o motorista, exalando pela janela um denso vapor de respiração.

A sentinela franziu o sobrolho, intrigada.

 

 

"A esta hora? Tchort! Já são quase duas da manhã..." O rosto do motorista chamou-lhe a atenção. Tinha a tez trigueira e os olhos negros cintilantes, a fisionomia típica de um homem do Cáucaso. "Mostrem-me os documentos."

O motorista baixou a mão direita e extraiu um objecto da sombra.

"Estão aqui", disse.

O soldado apenas teve tempo de perceber que o condutor do camião lhe apontava aos olhos um cano protegido por um silenciador.

Ploc.

Sem um gemido sequer, a sentinela tombou de costas, como um boneco articulado, o corpo a emitir apenas o som abafado de um saco a cair no chão, um esguicho de sangue a jorrar da nuca sobre a neve enlameada.

"Agora!", exclamou o motorista, voltando a cabeça para trás.

Obedecendo ao plano previamente delineado, quatro homens saltaram da carga do camião, todos eles fardados como soldados do exército russo, o número do regimento 3445 cosido ao tecido. Dois deles foram recolher o corpo do soldado e guardá-lo na carga, um outro limpou a neve ensanguentada enquanto o quarto desapareceu na casamata.

 

O portão abriu-se com um zumbido eléctrico e, sem recolher o homem que deixara na casamata, o camião cruzou uma placa suja a anunciar PO Mayak em caracteres cirílicos e entrou no perímetro.

O complexo era enorme, mas o motorista sabia muito bem para onde ir. Viu os edifícios de pesquisa de Chelyabinsk-60 e, conforme havia sido combinado, estacionou na berma, pegou no telemóvel e digitou os números.

"/4//of", respondeu uma voz do outro lado.

"Coronel Pryakhin?"

"Sim?"

"Estamos cá dentro, no local combinado."

"Muito bem", respondeu a voz. "Venha agora para o complexo químico e siga os procedimentos delineados."

O camião arrancou e seguiu em direcção ao eufemis-ticamente designado "complexo químico". O veículo percorreu a estrada, passou pela Zavod 235 e aproximou-^e das instalações de armazenamento do complexo.

Um muro de cimento com arame farpado no topo apareceu à direita. A estrada desembocou numa casa da guarda, e o motorista sabia que havia mais duas noutros pontos do muro. Entre a casinha e o portão, uma tabuleta desgastada por manchas de ferrugem indicava Rossiyskoye Hranilichshe Delyascbyksya Materialov.

Sempre a seguir o plano de operações, o condutor do camião estacionou num canto discreto diante do casinhoto, desligou o motor e os faróis, voltou a digitar os números do telemóvel, deixou tocar duas vezes, desligou e ficou a aguardar.

 

O portão começou a dobrar-se automaticamente. Logo a seguir foi a vez de se abrir a porta do casinhoto, deixando a luz do interior recortada como um fio, e um homem saiu para a rua. Pelo boné percebia-se que se tratava de um oficial do exército. O militar olhou em redor, como se procurasse alguma coisa, e o motorista fez uma piscadela com os faróis para se fazer notar.

O oficial viu as luzes ligarem e desligarem e, acto contínuo, dirigiu-se ao camião em passo apressado.

"Komsomolskaya", exclamou o oficial, dando a senha.

"Pravda", respondeu o motorista com a contra-senha.

O militar saltou para o lugar ao lado do condutor, que o cumprimentou com um aceno de cabeça.

"Privet, coronel. Está tudo bem?"

"Normalno, meu caro Ruslan", assentiu Pryakhin com uma voz tensa, fazendo um gesto impaciente. "Vamos. Não há tempo a perder."

Ruslan encaixou as mudanças e o camião arrancou em direcção ao portão aberto. O veículo passou lentamente a casa da guarda e franqueou o portão, entrando no perímetro do complexo químico.

"E agora?"

O coronel russo apontou para uma porta à esquerda.

"Estacione frente àquela porta de serviço."

O camião posicionou-se diante da porta e, sem desligar o motor para impedir que ele congelasse, Ruslan gritou uma ordem para a carga. De imediato cinco homens saltaram do veículo. O motorista apeou-se também e deu novas ordens; claramente, era ele quem estava no comando. Da carga foram retiradas duas pequenas arcas metálicas.

"Davai, davaü", grunhiu nervosamente o coronel Pryakhin, tentando apressá-los. "Mexam-se!"

Com as duas arcas na sua posse, e deixando para trás apenas um homem de guarda ao camião, os cinco acompanharam o oficial russo em direcção à entrada de serviço e penetraram no edifício.

 

A temperatura lá dentro era acolhedora e os intrusos tiraram as luvas, mas mantiveram os sobretudos. Ruslan olhou em redor, avaliando as instalações. O interior era iluminado por uma luz amarelada e as paredes de betão pareciam incrivelmente grossas.

"Têm oito metros de espessura", disse o coronel ao ver Ruslan a contemplar as paredes. Apontou para cima. "E o tecto está coberto por cimento, alcatrão e cascalho."

O oficial russo conduziu os intrusos pelos corredores desertos, virando consecutivamente à direita e à esquerda, até que se imobilizou numa esquina e olhou para trás, encarando Ruslan.

"Daqui para a frente já não vou", sussurrou. "No próximo corredor situa-se a sala de monitorização vídeo, que vigia o acesso e também todo o interior do cofre. Comojá vos^expli-quei, estão lá dois homens. Mais à frente, ao fundo do corredor, há umas escadas e lá em cima fica a antecâmara com a entrada do cofre. Lembrem-se de que os dois funcionários que lá se encontram são imprescindíveis para aceder ao cofre. Um tem uma parte do código, o outro tem a outra. Se vocês apenas controlarem um deles, só terão acesso a metade do código. E por isso que..."

"Eu sei", cortou Ruslan com súbita rispidez, como quem ordena silêncio.

O coronel calou-se por um momento e fitou intensamente o chefe do comando, a avaliá-lo. Estava habituado a dar ordens àquele tipo de gente, não a recebê-las.

"Boa sorte", resmungou enfim.

Ruslan voltou-se para trás e cravou os olhos em dois dos seus homens.

"Malik. Aslan." Fez um movimento curto com a cabeça. "Vão."

Os dois homens empunharam as pistolas com silenciadores, cruzaram a esquina e avançaram em surdina pelo corredor. No lado direito abria-se uma porta e lá dentro havia luz. Mergulharam ambos nessa sala e, de imediato, houve uma breve agitação, que culminou em quatro plocs surdos das armas a serem disparadas.

Sem esperar pelos companheiros, Ruslan e os outros dois homens avançaram pelo corredor com as duas arcas que tinham trazido do camião e só pararam quando se lhes depararam as escadas. Escalaram-nas com cautela e deram com a antecâmara; era uma sala protegida por grades, parecia uma jaula.

 

"Quem vem aí?", perguntou uma voz. Um quarentão barrigudo ergueu-se de uma secretária e aproximou-se das grades para encarar os desconhecidos. "Quem são vocês?"

"Sou o tenente Ruslan Markov", identificou-se o desconhecido do outro lado das grades, fazendo continência. Apontou para as duas arcas que os seus companheiros traziam. "Viemos da fábrica química de Novossibirsk com material para armazenar."

"A esta hora?", estranhou o barrigudo. "Isto não é regulamentar. Qual é o protocolo que vocês estão a seguir?"

Depois de passar os olhos pela placa com o nome que o barrigudo ostentava ao peito, Ruslan extraiu o telemóvel e digitou um número. Ao segundo toque, uma voz atendeu do outro lado e Ruslan estendeu o telemóvel por entre as grades.

"É para si."

O barrigudo olhou o telemóvel com surpresa e, as sobrancelhas cerrando-se num ar intrigado, pegou no aparelho e encostou-o ao ouvido.

"A//of"

"Vitaly Abrosimov?", perguntou uma voz do outro lado da linha.

"Sim, sou eu. Quem fala?" "Vou-lhe passar a sua filha Irina."

Ouviu-se um som embrulhado no outro lado e um fio trémulo e medroso de voz percorreu a linha.

"Está? Pai?" "Irisha?"

"Paizinho." A filha soluçou, a voz molhada pelas lágrimas. "Eles dizem que me matam. Matam-me a mim e à mãezinha." "O quê?"

"Têm armas, paizinho." Mais um soluço. "Dizem que nos matam. Por favor, vem..."

A frase foi interrompida por um clic e seguiu-se o som contínuo característico de linha desligada.

"Irisha!"

Os olhares de Vitaly e de Ruslan cruzaram-se entre as grades, um de receio e interrogação, o outro de autoridade e afirmação.

"Abre a porta!", ordenou Ruslan.

Vitaly recuou um passo, sem saber o que fazer, o medo estampado no rosto.

"Quem são vocês? O que desejam?"

"Queres ver a tua família viva?", perguntou o intruso, retirando do bolso uma máquina fotográfica digital. Ligou a câmara e exibiu o pequeno ecrã na direcção de Vitaly. "Olha esta fotografia. Foi tirada há uma hora em Ozersk."

O barrigudo viu no ecrã a imagem da filha e da mulher, ambas a chorar, cada uma com os cabelos agarrados por uma mão masculina e a lâmina serrada de uma faca militar colada ao pescoço.

"Meu Deus!"

"Abre a porta imediatamente!", ladrou Ruslan, guardando a máquina.

Com as mãos a tremer, Vitaly tirou a chave do bolso das calças e apressou-se a destrancar a porta. Os três homens entraram de rompante na antecâmara, as Kalashnikov apontadas para o guardião do cofre.

"Por favor, deixem-nas em paz", implorou Vitaly, recuando e com as mãos coladas numa prece. "Elas não fizeram nada, deixem-nas em paz."

Ruslan fixou os olhos negros na grande porta de aço ao fundo da antecâmara, o símbolo nuclear colado ao centro.

"Abre o cofre!"

"Não lhes façam mal."

O intruso pegou em Vitaly pelos colarinhos e puxou-o para si.

"Ouve-me bem, pedaço de esterco", rosnou. "Se abrires este cofre e os alarmes soarem, garanto-te que as tuas meninas serão cortadas aos bocadinhos, percebeste?"

"Mas não sou só eu quem tem o código..."

"Eu sei", assentiu Ruslan. "Chama o teu amiguinho. Mas sem levantar suspeitas, hã?"

Sempre a tremer e com gotas de transpiração a escorrerem--lhe da testa, Vitaly sentou-se na secretária, respirou fundo, pegou no telefone e digitou o número.

"Misha, vem cá." Pausa. "Sim, agora. Preciso de ti." Mais uma pausa. "Eu sei que é tarde, mas preciso de ti imediatamente." Ainda outra pausa. "Blin, vem cá, já te disse! Despacha-te, anda."

Desligou o telefone.

"Onde está ele?", quis saber Ruslan.

Vitaly olhou de esguelha para uma porta lateral.

"No quarto, a dormir. Não se esqueçam de que são duas da manhã."

Ruslan olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, os elementos do seu comando foram imediatamente pôr-se em posição, ambos encostados à parede, um de cada lado da passagem.

A porta abriu-se e o rapaz que entrou foi imediatamente agarrado por trás.

"O que é isto?", protestou.

Ruslan ergueu a pistola, colou aos lábios o cano com o silenciador e arregalou os olhos. "Caluda!"

Sentindo-se imobilizado por dois homens e vendo um militar armado diante dele na antecâmara, o rapaz achou melhor obedecer.

"Tu e o Vitaly vão abrir o cofre."

O rapaz olhou para a porta de aço, incrédulo.

"O quê?"

Ruslan deu um passo em frente e fitou-o com intensidade.

"Presta atenção a isto que te vou dizer", murmurou, as palavras impregnadas de um tom de agressão latente. "Eu sei que existe um código secreto que abre o cofre e que ao mesmo tempo activa o alarme. Não é esse código que vais accionar. Eu quero o verdadeiro código, percebeste?"

"Sim."

Ruslan sorriu sem humor e retirou a máquina fotográfica do bolso.

"Eu sei no que estás a pensar", disse, enquanto voltava a ligar a câmara. "Dizes-me que não activas alarme nenhum, metes o código de alarme e, cinco minutos depois, catra-pumba!, isto está cheio de homens do 3445." Colou o dedo às têmporas do rapaz. "Péssima ideia, Mikhail Andreev. Péssima ideia." Voltou o pequeno ecrã da máquina digital na direcção do seu prisioneiro. "Esta fotografia foi tirada há uma hora. Reconheces alguém?"

Mikhail fixou o ecrã e arregalou os olhos de horror.

"lulia!"

O ecrã mostrava o rosto choroso da mulher, com o bebé ao colo e os canos de duas Kalashnikov apontados às cabeças.

"Oh, que bonitos que eles estão!", exclamou Ruslan num tom carregado de ironia. "A linda Iulia e o pequeno Sasha!" Guardou a câmara no bolso. "Se por acaso aparecer por aqui algum rapaz do 3445 depois de vocês abrirem o cofre, juro-te por Deus que os meus homens que estão no teu apartamento, em Ozersk, de imediato enviarão a tua família para o Inferno. Está claro?"

"Não lhes façam mal, por favor."

"A segurança das vossas famílias depende de vós, não de nós. Se vocês se portarem bem, irá correr tudo às mil maravilhas. Se se portarem mal, isto vai acabar num banho de sangue. Entendido?"

Mikhail e Vitaly assentiram com as cabeças, a capacidade de resistência reduzida a nada.

Satisfeito, Ruslan deu um passo atrás e fez sinal aos seus homens de que largassem Mikhail.

"Juizinho, hem?"

Nesse instante chegaram à antecâmara os dois homens que haviam ficado para trás, a "limpar" a sala de monitorização vídeo. Um deles acenou com uma cassete, como se exibisse um troféu.

"Tudo tratado."

"Bom trabalho", disse Ruslan num registo monocórdico. Dirigiu-se para a porta do cofre e olhou para os dois prisioneiros. "Metam o código."

Trémulos, em estado de choque, os dois aproximaram-se, inclinaram-se sobre a caixa que controlava o ferrolho da porta de aço e, à vez, digitaram os números que lhes competiam. A grande porta emitiu um clac, fez o barulho expirado de descompressão e destrancou.

Com cuidado, Ruslan rodou o manípulo e a porta do cofre soltou-se.

"Abre-te sésamo!", exclamou com um sorriso.

 

Chamar cofre ao que os intrusos viram abrir-se diante deles depressa lhes pareceu demasiado redutor. A porta de aço deu-lhes acesso a um enorme armazém ch#io de contentores com símbolos de radioactividade expostos em cada um dos lados. Os contentores estavam amontoados uns em cima dos outros, mas com corredores entre eles, como ruas a separar blocos de apartamentos.

Ruslan virou-se para Vitaly.

"Como está isto organizado?"

O russo barrigudo apontou para o interior do grande armazém.

"O plutónio encontra-se ali à esquerda. O urânio do outro lado."

Ruslan fez um sinal e os homens desceram as escadas e mergulharam no labirinto de contentores. Movimentavam-se com rapidez; ninguém queria permanecer naquele lugar mais tempo que o necessário. Era verdade que os contentores se encontravam todos selados, mas a radioactividade tinha o condão de os deixar nervosos.

O comando palmilhou o labirinto e só parou quando Ruslan ergueu a mão.

"E aqui!", exclamou ao ler as inscrições em caracteres cirílicos no novo grupo de contentores. Olhou para um dos seus homens. "Beslan, mostra o que vales."

Um homem que transportava uma das arcas provenientes do camião pousou-a no chão e extraiu instrumentos do interior, que usou no acesso a um contentor. O contentor foi aberto em alguns segundos e o homem ligou uma lanterna e acedeu ao interior. Encontravam-se lá dentro várias caixas com caracteres cirílicos e o símbolo do nuclear. Beslan pegou numa delas e meteu-a na arca que trouxera consigo. Instantes depois repetiu a operação com a outra arca.

"O que estão vocês a fazer?", perguntou Vitaly, já suficientemente alarmado para perder a prudência. "Isto é urânio enriquecido a mais de noventa por cento!"

"Cala-te."

"Mas você não está a perceber", insistiu, quase num tom de súplica. "Cada uma destas caixas contém uma quantidade subcrítica de urânio. Se vocês as juntarem, as duas massas ultrapassam o valor crítico e pode haver uma explosão nuclear. Isto é uma coisa muito..."

Paf.

"Cala-te, já disse!"

A estalada ressoou com fragor pelo armazém e Vitaly, a face incendiada pela bofetada, nem se atreveu a emitir um gemido.

Ruslan voltou a atenção para os seus homens.

"Malik e Aslan, mantenham as arcas sempre a mais de dois metros uma da outra." Apontou para o homem que abrira o contentor. "Beslan, sela-me isto. Quero que deixes o contentor exactamente como o encontrámos."

Beslan fechou o contentor e iniciou o trabalho de selagem, enquanto os companheiros se afastavam com as duas pequenas arcas. Reuniram-se minutos mais tarde na antecámara e fecharam a porta de aço do cofre.

"Vocês vêm connosco", ordenou Ruslan, apontando para os prisioneiros russos.

O grupo percorreu o caminho de volta em fila indiana, Ruslan sempre a liderar, Malik atrás dele com uma arca, Aslan a fechar a fila com a segunda arca, os outros dois homens e os dois prisioneiros no meio. Passaram pela sala de monitorização vídeo e o chefe do comando inspeccionou rapidamente o interior. Estava arrumada e limpa, não se vislumbravam quaisquer sinais do tiroteio. "Muito bem."

Retomaram a marcha pelos corredores e, duas esquinas à frente, depararam-se com o coronel Pryakhin.

"Então? Correu tudo bem?" "Sim, net problema

 

O ar gelado acolheu-os quando saíram do edifício. Calçaram as luvas e dirigiram-se ao camião. O veículo mantinha ainda o motor a trabalhar e o homem que o vigiava aguardava ao volante. Ao ver os companheiros regressarem, saltou para fora e foi abrir a porta traseira.

Pularam para a carga e arrumaram as duas arcas em contentores especiais, separados um do outro. Uma vez o material radioactivo em segurança, Ruslan apontou para os três cadáveres estendidos num canto, um da sentinela que havia sido eliminada no portão de entrada, os outros dois dos homens abatidos na sala de monitorização vídeo e transportados para ali.

"Cubram-me estes corpos e mandem entrar os presos."

Os homens atiraram uma tela para cima dos três cadáveres, enquanto Ruslan e Aslan preparavam as respectivas pistolas. Uma vez concluídos os preparativos, Malik fez um sinal lá para fora e os dois prisioneiros russos subiram para a carga do camião. Ruslan e Aslan deixaram-nos passar, apontaram--lhes o cano das armas às nucas e dispararam quase em simultâneo.

Ploc.

Ploc.

Enquanto os seus homens limpavam o sangue espalhado pela carga e arrumavam estes novos cadáveres em cima dos outros, Ruslan saltou para fora e foi instalar-se no lugar do condutor. Ao lado acomodava-se já o coronel Pryakhin. O camião arrancou e cruzou o portão, abandonando o perímetro do complexo químico.

"O senhor coronel tem a certeza de que quer sair connosco?", perguntou o chefe do comando ao oficial russo.

"Você deve estar a brincar", retorquiu Pryakhin com uma gargalhada nervosa. "Claro que tenho. Oficialmente não estou em Mayak. Não se esqueça de que entrei com uma credencial anónima e não há nenhum registo da minha presença aqui. Não posso ser agora visto cá dentro. Se não sair convosco, saio com quem?"

Ruslan indicou com o polegar a casa da guarda que ia ficando lá para trás, o portão já fechado.

"Podemos mesmo estar tranquilos com os tipos da casa da guarda?"

"Já lhe disse que são homens da minha confiança. Comandei-os na Chechénia e respondo por eles."

O camião percorreu o perímetro de PO Mayak no sentido inverso ao de meia hora antes e regressou ao portão de entrada. O homem que ficara de guarda à casamata saltou para a carga e o veículo retomou a marcha, metendo pela Prospekt Lenina e fundindo-se na neblina com a escuridão da noite gelada.

Na carga levava o novo pesadelo da humanidade.

 

Foi a meio da estreita ponte baixa, entre a lagoa Azul e a lagoa Verde, que Tomás reparou no homem. Era loiro e tinha o cabelo cortado muito curto, quase eriçado, óculos escuros a ocultarem-lhe os olhos e uma pose ambígua. Estava sentado ao volante do seu pequeno automóvel negro e contemplava a paisagem com a postura de alguém que passeava e ao mesmo tempo esperava.

"Deve ser um turista", murmurou Tomás.

"O quê?", perguntou a mãe.

"Aquele homem. Vinha atrás de nós desde Ponta Delgada, não reparou?" "Não. Porquê?"

Após um longo instante a fitar o desconhecido estacionado à entrada da ponte, Tomás abanou a cabeça e sorriu, tranquilizador.

"Não é nada", disse. "Sou eu com as minhas manias, só isso."

Dona Graça passeou o olhar pela paisagem, deixando-se inebriar pela harmonia serena do panorama que a abraçava. O vale verde e viçoso espraiava-se até uma longínqua parede circular, a verdura apenas interrompida pelos dois grandes espelhos de água que se estendiam em ambos os lados da ponte baixa. Uma floresta de pinheiros bordejava terrenos de pastagem, com hortênsias e fúcsias a colorirem as encostas.

"Que bonito!", exclamou ela. "E lindo, lindo."

O filho aquiesceu com a cabeça.

"E uma das mais belas paisagens do mundo, não há dúvida."

"Ah, lá isso é! Um espectáculo!"

"A mãe sabe como foi isto tudo formado?"

"Não faço a mínima ideia."

Tomás esticou o braço direito e indicou com o dedo a longa muralha que rodeava o horizonte como um anel.

"Esta é a caldeira de um vulcão, já reparou?"

O alarme incendiou o olhar de dona Graça, subitamente assustada.

"Estás a brincar!"

"A sério", insistiu o filho. "Não vê que aquela muralha ali ao fundo cerca todo o vale? Aquilo são as paredes da cratera, têm mais de quinhentos metros de altura. Nós estamos mesmo no meio da caldeira."

"Ai Jesus! Isto é a caldeira de um vulcão? E... e não é perigoso permanecermos aqui, filho?"

Tomás sorriu e puxou-a pelo ombro, terno.

"Não se assuste, mãe. Não vai haver nenhuma erupção, pode ficar descansada."

"Como podes ter tu a certeza disso, valha-me Deus? Se isto é um vulcão pode... pode rebentar tudo! Não viste aquele programa na televisão sobre o Vesúvio?"

O filho apontou para a encosta ocidental da cratera.

"A última vez que houve aqui actividade vulcânica ocorreu ali ao fundo, no pico das Camarinhas. Foi há trezentos anos."

"E então? Isto pode explodir outra vez!"

"Claro que pode. Mas quando isso acontecer haverá sinais. Um vulcão não entra assim em erupção máximaxle um momento para o outro. Primeiro aparece alguma actividade que serve de alarme." Indicou umas casas que bordejavam a lagoa Azul. "Olhe, isto é tão seguro que até vive ali gente, está a ver?"

A mãe espreitou o casario, uma expressão pasmada no olhar.

"Ah, ora esta! Há aqui uma povoação?" "Chama-se Sete Cidades. Vivem aqui mil pessoas." Dona Graça levou as mãos à cabeça.

"Credo, eles são malucos! Como é possível viver na cratera de um vulcão, Virgem santíssima?" Benzeu-se. "Valha-me Deus! E se isto rebenta tudo?"

"Já lhe disse que, se o vulcão recomeçar a actividade, primeiro haverá sinais."

"Quais sinais?"

Tomás indicou os dois lagos que os cercavam, um azulado como o céu e o outro esverdeado como a floresta em redor.

"A água punha-se a fervilhar, por exemplo. Ou então começava a erguer-se fumo do chão e haveria tremores de terra de origem vulcânica. Sei lá, há muitos sinais que servem de aviso. Mas, como vê, está tudo tranquilo, não vai acontecer nada."

Uma aragem fresca descia pelas paredes da enorme cratera e percorria a superfície plácida dos lagos. Dona Graça ajeitou o colarinho do casaco de modo a proteger melhor o pescoço e puxou o filho pelo braço. "Está frio."

"Tem razão. Se calhar é melhor sairmos daqui."

Entraram no carro encostado à berma da ponte e logo se sentiram mais aquecidos, refugiados do vento que soprava, desagradável.

"Onde vamos agora?", perguntou a mãe.

"Não sei. Onde quer ir? Lá à frente está Mosteiros..."

"Não", disse ela, indicando as casas na margem da lagoa Azul. "Vamos antes ali à vila."

Tomás ligou a ignição e o motor começou a funcionar. Arrancou, fez meia volta e passou pelo carro negro do homem loiro, seguindo em direcção à povoação. Uma placidez aprazível espreguiçava-se naquele recanto verde da ilha de São Miguel; ali era tudo tão sereno que dava a impressão de que o tempo parara.

Uma tabuleta indicava as Sete Cidades. Mais por hábito do que por desconfiança, ao fazer a curva para a direita Tomás espreitou pelo retrovisor.

O carro negro do homem loiro vinha atrás.

 

O automóvel que Tomás alugara em Ponta Delgada percorreu devagar a pequena localidade das Sete Cidades, que parecia adormecida àquela hora da manhã. As casas, mimosas e bem arranjadas, tinham as janelas abertas e roupas estendidas ao sol, mas não se via vivalma nas ruas.

"Isto é tão engraçado", observou dona Graça. "Devíamos ter trazido o teu pai."

Tomás, que mantinha a atenção fixa no espelho retrovisor, desviou o olhar para a mãe. Uns dias eram piores e outros melhores, mas não havia dúvidas de que o

Alzheimer estava lá. Aquele parecia ser um dos dias melhores; a mãe reconhecia-o e conversava quase normalmente com ele, com tanta naturalidade que Tomás por momentos se esquecia da senilidade prematura que tomara conta dela. A observação relativa ao pai, porém, servira para lhe lembrar que aquela lucidez era enganadora e que havia acontecimentos relativamente recentes que a mãe já ,apaga*a da memória. Um deles era, obviamente, a morte do marido. Dona Graça falava dele como se ainda vivesse e Tomás já desistira de estar sempre a contar-lhe uma verdade que ela de imediato iria esquecer. E quem sabe se não era melhor assim? Se achava que o marido ainda estava vivo, talvez fosse sensato deixá-la acreditar nisso; a ilusão parecia inofensiva e mantinha-a feliz.

"Olha ali! Olha ali!"

"O quê?"

A mãe indicou uma elegante fachada branca com uma torre ao meio, coroada por uma cruz. "A igreja! Anda, filho, vamos ver."

Sabendo que a mãe tinha a mania das coisas religiosas, Tomás não hesitou; estacionou o carro na berma da rua e saiu. Olhou para trás e viu o pequeno automóvel negro dobrar a esquina e parar junto ao passeio, a uns cem metros de distância.

"Mas que raio!", exclamou, intrigado, com a mão a segurar a porta do carro ainda aberta. "O que é, filho?"

"E aquele carro", disse. "Não nos larga." A mãe lançou o olhar na direcção do automóvel. "Anda a passear, como nós. Deixa-o." "Mas ele vai para onde vamos e pára onde nós paramos. Não é normal!"

Dona Graça sorriu.

"Achas que nos está a seguir?"

"Se não está, parece!"

"Ai que disparate! Vê-se mesmo que andas a ver muitos filmes, Tomás. Quando chegarmos a casa vou falar com o teu pai, acho-te com a imaginação muito fértil. Esta semana não vai haver O Santo. A televisão anda a fazer-te muito mal à cabeça!"

Tomás fechou a porta do carro com estrondo e começou a caminhar na direcção do automóvel negro, disposto a tirar aquilo a limpo.

"Espere aí, eu já venho."

"Tomás! Onde vais tu, rapaz? Vem aqui à mãe! Imediatamente!"

Mas Tomás continuou a caminhar. Ao vê-lo aproximar-se, o homem loiro do carro negro ligou a viatura e fez marcha atrás, repondo a distância. Tomás parou, embasbacado com este comportamento ostensivo.

"Ora essa!", murmurou, atónito. "O gajo está mesmo a seguir-me! Querem lá ver isto?"

Recomeçou a caminhar na direcção do automóvel negro, desta vez um pouco mais depressa, e o homem loiro, mais uma vez, fez marcha atrás; pareciam ambos envolvidos no jogo do gato e do rato, embora não se percebesse bem quem era quem. Tomando consciência de que o desconhecido não queria ser interpelado, embora pelos vistos não se importasse de o seguir sem disfarçar, Tomás deu meia volta e regressou para junto da mãe.

"O que estás a fazer, Tomás? Que história é esta?"

"Se quer que lhe diga, não sei. O homem está a seguir-nos, mas pelos vistos não se quer explicar."

"Está a seguir-nos? A que propósito?"

"Sei lá!", devolveu o filho com um encolher de ombros. "É um maluco qualquer." Resignado, apontou para a fachada alva. "Vamos ver a igreja?"

Seguiram os dois para a igreja das Sete Cidades. Tomás voltou a cabeça duas vezes para tentar perceber se continuavam a ser seguidos. O automóvel negro mantinha-se parado lá ao fundo, mas, quando mãe e filho cruzaram a parta e desapareceram no interior do santuário, a viatura voltou a entrar em movimento.

Aproximou-se e estacionou quase ao lado da igreja.

 

A visita durou uns quinze minutos e, no momento em que Tomás e a mãe se dirigiram à saída para se irem embora, depararam-se com um vulto encostado à porta, o perfil recortado a negro diante do halo de luz matinal. Aproximaram-se e Tomás percebeu que era o homem loiro de cabelo curto do automóvel negro.

"Em que posso ajudá-lo?", perguntou Tomás.

"'Professor Thomas Norona?", perguntou o homem num inglês fortemente nasalado.

Era americano.

"Tomás Norona", corrigiu o português. "How can I help your.

O homem tirou os óculos escuros, extraiu um cartão do bolso do casaco e esboçou um sorriso forçado.

"Eu sou o tenente Jack Anderson, da base aérea das Lajes", identificou-se enquanto exibia o cartão.

Tomás pegou no documento e inspeccionou-o. O cartão anunciava que o seu detentor era o lieutenant Joseph H. Anderson, exibia a cores o seu rosto lácteo com boné de oficial e indicava-o como liaison officer da USAF nas Lajes AFB.

"Por que razão anda atrás de mim?"

"Desculpe os meus modos, sir. Recebi ordens para me assegurar do seu paradeiro, mas sem entrar em contacto consigo."

"Recebeu ordens para me seguir? De quem?" "Dos serviços de informações militares." "Deve estar a brincar comigo..."

"Asseguro-lhe que nada do que faço em serviço é a brincar, s/r", disse o tenente Anderson com ar muito compenetrado. "Há instantes enviaram-me novas instruções. Tenho de o levar o mais depressa possível para as Furnas."

"O quê?"

"O senhor tem um almoço marcado e o seu interlocutor já lá está." "O quê?"

O tenente consultou o relógio.

"Temos uma hora para lá chegar. Vamos agora para Ponta Delgada, onde um helicóptero da USAF nos levará até às Furnas."

"Desculpe, mas é preciso ter lata!", exclamou Tomás num tom incrédulo. "Eu estou aqui de férias com a minha mãe e não tenciono encontrar-me com quem quer que seja!"

"Mas é uma pessoa muito importante de Washington, s/r."

"Nem que seja o presidente! A minha mãe vive num lar, tirei férias para estar com ela e é com ela que vou ficar!"

"Tenho a informação de que o assunto que trouxe essa pessoa até aqui é da mais alta importância. Seria mesmo muito conveniente que o senhor tirasse umas horas para ir às Furnas."

"Quero lá saber!"

"Oiça apenas o que temos para lhe dizer. Vai ver que não se arrependerá..."

Tomás fez uma careta de estranheza. "Mas que raio de assunto é esse?" "E confidencial."

"O senhor está mesmo à espera que eu interrompa as minhas férias e vá ter com não sei quem para falar sobre não sei o quê?"

"Apenas sei que se trata de matéria da mais alta importância."

Tomás olhou para o tenente americano, reflectindo no convite. Viera um big shot de Washington para lhe falar de um assunto muito importante? Em boa verdade não via como poderia tal coisa dizer-lhe respeito, mas era um facto que a sua proverbial curiosidade acabara de ser espicaçada.

"Vai lá, filho", atalhou dona Graça. "Não te apoquentes comigo."

O historiador mordeu o lábio, hesitante. "Diz que são apenas umas horas?" "Yes, sir." "E a minha mãe?"

"Dada a natureza confidencial do encontro, receio que ela não possa ir, sir. Teremos de a deixar em Ponta Delgada." Tomás olhou para dona Graça. "O que acha, mãe?"

"Ai filho, eu quero é ir para o hotel. Sinto-me cansada e vou dormir um bocadinho, se não te importas."

Tomás esfregou o queixo e mirou o tenente Anderson.

"Quem é esse sujeito que quer falar comigo?"

O tenente deixou escapar o fio de um sorriso vitorioso, acreditando que a partida estava ganha. Meteu a mão no bolso das calças e retirou um telemóvel.

"Conversei com ele mas não sei o nome. Chamamos-lhe Eagle One.'" Exibiu o telemóvel. "No entanto, ele autorizou--me a ligar-lhe para falar consigo, se fosse caso disso. Acha necessário?"

"Claro que sim."

O americano digitou um número e estabeleceu a ligação.

"Bom dia, sir. Tenente Anderson aqui. Estou neste momento com o professor Norona e ele quer falar consigo... yes, sir... right away, sir.n

Anderson estendeu o telemóvel ao seu interlocutor. Tomás pegou nele com cautela, como se o aparelho pudesse estar armadilhado.

"Hello?"

Ouviu uma risada do outro lado da linha e um rugido irrompeu pelo telemóvel.

"Fucking génio! Como vai isso?"

Aquela voz baixa e rouca e aqiuela expressão eram inconfundíveis e tinham a assinatura do chefe do Directorate of Science and Technology da CIA, que conhecera anos antes.

Era Frank Bellamy.

"Olá, mister Bellamy", saudou Tomás com uma certa frieza ao reconhecer a voz. "Como vai o senhor?"

"Mas que tom é esse?", perguntou o homem do outro lado da linha com uma nova gargalhada. "Não me diga que não está contente por falar comigo...'"

"Estou de férias, mister Bellamy", suspirou o historiador. "O que deseja a CIA de mim?"

"Precisamos de falar."

"Já lhe disse que estou de férias."

"Fuck para as suas férias! Estce assunto é da mais elevada importância!"

Tomás revirou os olhos, enchendo-se de paciência. "Diga lá."

Frank Bellamy fez uma pausía, como se avaliasse o que poderia dizer pelo telefone, e baiixou a voz ao responder. "Segurança nacional."

"De quem? Vossa?"

"Dos Estados Unidos e da Europa. Incluindo de Portugal." O português riu-se.

"Você deve estar a gozar", disse. "Portugal não tem pro-
blemas de segurança nacional, pode ficar descansado."
"Isso diz você. Mas eu tenho outras informações."
"Que informações?" ^ ,

"Estão a passar-se coisas de grande gravidade." Tomás cerrou as sobrancelhas, já intrigado. "O quê?"

O americano fungou e pousou o dedo no botão vermelho para desligar, consciente de que o pássaro já não lhe escapava. "Vemo-nos ao almoço."

 

A voz de trovão rasgou o ar num tom imperativo. "Ahmed, anda cá!"

O rapaz ergueu-se de um salto, quase com medo daquele rugido, e nem se permitiu hesitar. Saiu do quarto a correr e deu com o pai sentado no sofá da sala ao lado de um ancião de barbas brancas pontiagudas e um turbante na cabeça, uma figura que Ahmed conhecia à distância na mesquita; vira-o inúmeras vezes a conduzir as orações.

"Sim, pai?"

Ignorando a pergunta do filho, o senhor Barakah voltou-se para o visitante.

"E este o meu rapaz."

O ancião passou os olhos atentos por Ahmed, estudando-o com uma expressão de bonomia. "Quando quer que eu comece?"

"Amanhã, se for possível", disse o senhor Barakah. "Era bom aproveitar o início do novo ano." Voltou-se para trás e

meneou os dedos cobertos de anéis, chamando o filho. "Anda cá, Ahmed. Já cumprimentaste o xeque Saad?"

Ahmed deu dois passos em frente e baixou a cabeça, quase envergonhado.

"As salaatn alekum", murmurou num fio de voz.

"Wa alekum salema", devolveu o clérigo, inclinando também a cabeça. "Então és tu o famoso Ahmed?"»

"Sim, xeque."

"Quantos anos tens?"

"Sete."

"És um bom muçulmano?"

Ahmed balouçou a cabeça afirmativamente, com convicção. "Sou."

"Cumpres jejum no Ramadão?"

O rapaz ficou atrapalhado e olhou para o pai de esguelha, incerto quanto ao que deveria responder.

"Eu... a minha família...", gaguejou. "O meu pai... o meu pai não deixa."

O xeque Saad soltou uma gargalhada, no que foi acompanhado pelo anfitrião.

"E faz ele muito bem!", exclamou o visitante, ainda a rir--se com o embaraço do rapaz. "O Profeta, na sua imensa sabedoria, isentou as crianças do jejum." Ajeitou o turbante, que se deslocara com a gargalhada. "Agora diz-me lá, quantas vezes rezas ao dia?"

O rapaz abriu a mão e exibiu a palma e os dedos esticados.

"Cinco."

O mullah soergueu o sobrolho com uma expressão céptica, como se duvidasse.

"De certeza?", inquiriu. "Acordas mesmo de madrugada para a primeira oração?"

"Sim", devolveu Ahmed com grande resolução.

"Não acredito!"

"Juro."

O clérigo olhou para o anfitrião, procurando confirmar o que lhe era dito.

"É verdade", garantiu o senhor Barakah. "Ainda o Sol não nasceu e já o vejo a rezar. E muito devoto."

"E faz isso todos os dias?"

O pai olhou de relance para o filho.

"Bem... todos não. Às vezes fica-se a dormir, coitado."

"Seja como for, parece-me muito bom", considerou o xeque Saad, impressionado. "Muito bem, Ahmed! Estás de parabéns, sim senhor! Es mesmo um bom muçulmano!"

O rapaz quase rebentava de orgulho.

"Cumpro apenas o meu dever", disse, simulando modéstia.

O clérigo fez um gesto na direcção do seu anfitrião.

"O teu pai acredita que gostarias de conhecer melhor a palavra de Alá. É mesmo assim?"

Ahmed hesitou e lançou um novo olhar fugidio para o pai, como se tentasse perceber o sentido daquela pergunta.

"Já viste o xeque Saad na nossa mesquita, não viste?", interveio o senhor Barakah. "Ele é o mullah que nos guia e um profundo conhecedor do Livro Sagrado. Convidei-o para te ensinar o Alcorão e as orações e para te ajudar a aprofundar os conhecimentos em relação ao islão. Ele deu-nos a suprema honra de aceitar essa responsabilidade. O xeque será doravante o teu mestre. Percebeste?"

"Sim, meu pai."

"Serás um bom aluno e crescerás como um muçulmano virtuoso", sentenciou o senhor Barakah. "Viverás conforme os ensinamentos do Profeta e as leis de Alá."

"Sim, meu pai."

O anfitrião inclinou-se sobre a mesa, pegou num bule fumegante e deitou chá na chávena do visitante, que mantinha nos olhos uma expressão de bondosa afabilidade.

"Amanhã é o primeiro dia do mês de Moharram e vamos celebrar a Hégira", disse o mullab. Fez uma pausa para beber um trago do chá. "Sabes o que é?"

"E a fuga do Profeta para Medina, xeque."

O clérigo pousou a chávena e sorriu.

"E um excelente dia para começarmos as lições."

 

O xeque Saad pousou o livro com grande cerimonial e, sem o ler, começou a recitar, a voz a fluir numa melodia cadenciada, os olhos cerrados na adoração das palavras divinas, as mãos abrindo-se como se recebessem o céu.

"Biçmillab Irrahman Irrahim!", entoou. "Em nome de Deus, beneficente e misericordioso!"

Fez uma pausa, dando ao seu pupilo oportunidade para lançar o versículo seguinte.

"Al-bâmdo li' Llábi Râbbil-álamin, arrabmáni rrahim, Máliqui yâumi ddinl", devolveu Ahmed. "Louvado seja Deus, Senhor dos Mundos, Beneficente e Misericordioso, Senhor do Dia do Julgamento!"

"lyyáca nâebudo wa-lyáca naçtaín!", retomou o clérigo. "A Ti somente adoramos, de Ti somente esperamos socorro!"

"Ehdená' çeráta' Imustaquim, çeráta' ladina aneâmta âlaihim, gâiri' Imaghdubi âlaibim, wala dalinl", entoou o rapaz. "Mostra-nos o bom caminho, o caminho desses que tens favorecido, não o caminho desses que incorrem na Tua cólera nem o dos que se perdem!"

"Amin!", solfejaram ambos em simultâneo, proferindo o ámen final.

O xeque Saad abriu os olhos, acariciou a capa com ternura e olhou enfim o jovem pupilo.

"Reza assim a fatiha, a primeira sura do Alcorão", disse, referindo-se ao curto capítulo inicial. Pegou no livro com cuidado e ergueu-o diante do rosto de Ahmed, como se ostentasse nas mãos uma coroa imperial. "O que sabes tu sobre o Alcorão?"

O rapaz arregalou os olhos.

"Eu, xeque? É o Livro dos Livros, a voz de Alá a falar directamente para nós."

"E sabes quem o escreveu?"

Ahmed mirou o livro, depois o mestre, depois o livro outra vez; sentia-se surpreendido com a pergunta, tão óbvia era a resposta.

"Bem... foi Alá, Ele próprio."

O clérigo sorriu e afagou de novo o volume que tinha nas mãos.

"Esta é uma cópia perfeita do livro eterno, o Umm Al-Kittab, que Deus guarda sempre junto de si. O Alcorão regista, de facto, as palavras de Alá a dirigir-se directamente aos crentes e a fazer a última revelação à humanidade. A voz de Deus, vibrante e poderosa, jorra destas páginas sagradas, der-ramando-se por estes versículos de beleza sem igual. Mas não te esqueças de que, para transmitir a Sua mensagem, Alá Al--Khalid, o Criador, recorreu ao serviço do Seu mensageiro, o Profeta. No último sermão antes de morrer, Maomé disse: «Deixo atrás de mim duas coisas, o Alcorão e o meu exemplo, a sunnah, e se os seguirem nunca se sentirão perdidos.» Louvado seja o Senhor!"

"Alá An-Nur", devolveu o pupilo. "Deus é a luz."

"A primeira vez que Deus se manifestou foi numa noite do mês do Ramadão, quando Maomé, como fazia habitualmente, se recolheu a uma gruta de Hira para meditar. Só que dessa feita apareceu de repente o anjo Gabriel, que lhe disse: «Lê!» Ora Maomé era analfabeto e explicou ao anjo que não sabia ler. Mas o anjo insistiu três vezes e, como por magia, o coração de Maomé abriu-se às palavras de Alá."

O xeque abriu de novo o Alcorão, foi direito às páginas finais e localizou o capítulo 96.

"Esta é a sura da revelação", disse, estendendo o livro ao seu pupilo. "Lê tu os versículos revelados ao Profeta na gruta de Hira."

Ahmed pegou no volume e leu a sura 96, reproduzindo as primeiras palavras divinas escutadas por Maomé.

"«Lê, em nome do teu Senhor, que tudo criou, criou o homem de um coágulo. Lê, porque o teu Senhor é generoso, que ensinou pela pena aquilo que o homem não sabia.»"

Acabada a leitura dos versículos primordiais, o mestre estendeu as mãos e recuperou o livro.

"O Senhor ensina pela pena o que o homem não sabe. Ou seja, Alá fala directamente aos crentes através do Alcorão." Passou mais uma vez a mão pela capa ricamente trabalhada do livro. "Quando Maomé voltou para casa, em Meca, sentia-se confuso, mas acabou por perceber que Alá o havia escolhido como Seu mensageiro. Seguiram-se novas revelações, que trouxeram a essência do islamismo. O Profeta explicou-as à mulher, Cadija, que de imediato as aceitou, tornando-se a primeira muçulmana. Depois explicou-as ao primo, Ali, que também as aceitou, tornando-se o primeiro muçulmano. A seguir o Profeta começou a pregar o islamismo em público, mas não foi escutado. Andou treze anos sem que o ouvissem. Pior do que isso, como ele começou a pregar contra os ídolos de Meca, que atraíam peregrinos que faziam prosperar o comércio da cidade, a população revoltou-se contra Maomé. Foi então que um grupo de peregrinos lhe pediu que mediasse um velho conflito entre duas grandes tribos de Medina, os Aws e os Khazraj. Como a mediação foi bem sucedida, as duas tribos aceitaram o islão e convidaram o Profeta a ir viver com eles. Uma vez que a sua própria tribo em Meca o perseguia, Maomé aceitou o convite e partiu para Medina."

"Foi hoje!", exclamou o pupilo, saltitando de excitação. "Foi hoje!"

O xeque sorriu.

"Sim, hoje é a Hégira", disse, pegando numa chávena de chá e bebericando pela borda. "Faz hoje mil trezentos e cinquenta e quatro anos que Maomé saiu de Meca para atravessar o deserto e ir para Medina." Pousou a chávena na mesa. "E por que razão é a Hégira tão importante?"

O rapaz hesitou, desconcertado. Conhecia a história da Hégira, claro, mas escapava-se-lhe a relevância do evento. A ida de Maomé para Medina era importante porque os adultos diziam que era importante e isso sempre lhe bastara. A pergunta do mestre suscitava-lhe por isso alguma perplexidade. A Hégira era importante, ponto final. Seria precisa alguma razão?

"Bem...", hesitou, a voz submissa. "A Hégira é importante porque... porque foi o primeiro dia."

"O primeiro dia de quê?"

Ahmed quase embatucou com esta pergunta.

"Do ano?", murmurou quase a medo.

"Sim, claro, a Hégira marca o início do nosso calendário, toda a gente o sabe. Mas porquê?"

O rapaz baixou a cabeça, sem resposta. Aquela pergunta era muito difícil; por mais que pensasse nada lhe ocorria. Vendo o pupilo num beco sem saída, Saad foi em seu socorro.

"A Hégira é importante porque constituiu o primeiro dia do islão", disse, condescendente. "Foi em Medina que Maomé criou a primeira comunidade muçulmana e construiu a primeira mesquita e é por isso que este é o mais santo de todos os dias, o primeiro dos restantes, aquele que assinala o início do ano. Louvado seja o Senhor!"

Por influência do xeque Saad, Ahmed tornou-se um menino ainda mais pio. Fazia o salat completo, isto é, rezava cinco vezes por dia. Antes falhava por vezes a oração da madrugada, a mais difícil porque lhe interrompia o sono, mas agora deixara de haver falhas; tornara-se tão rigoroso que lhe nasceram entre os olhos uns círculos permanentes sombreados de olheiras, que depois exibia na escola e na mesquita como troféus, prova inequívoca da sua fé.

O salat era apenas o segundo dos pilares do islão, e o seu mestre cuidou que respeitasse os restantes. O primeiro, a shahada, era o mais fácil, uma vez que não passava de uma mera declaração a afirmar a crença num só Deus e o reconhecimento de que Maomé era o Seu mensageiro. Isso já fizera quando era criança e ainda não entendia o que estava a dizer. Mas o xeque insistia muito no respeito pelo terceiro pilar, a zakat, que consistia em dar esmolas aos necessitados.

"O Profeta, que Alá o tenha para sempre na Sua guarda, disse: «Não é um crente aquele que come à vontade, enquanto o vizinho a seu lado tem fome.»" Saad fez um gesto em redor, exibindo o quarto onde ensinava o islão a Ahmed. "Tudo isto à tua volta pode pertencer temporariamente à tua família, mas o verdadeiro proprietário é Deus. Devemos por isso exercer sempre a zakat e partilhar entre todos nós os bens de Alá Ar-Rahman, o Beneficente."

Depois desta conversa, Ahmed fez questão de mostrar que se tinha tornado pródigo na zakat e, na oração da sexta-feira seguinte, aproveitou na mesquita um momento em que o xeque cruzou com ele o olhar para entregar a um pedinte estropiado uma nota que guardara de propósito para a ocasião. Foi um gesto difícil, porque aquele era na verdade todo o dinheiro que conseguira amealhar nos últimos meses, mas acreditava que assim impressionaria o mestre. Quando olhou para Saad, porém, viu-o abanar a cabeça, claramente desagradado com o gesto.

O rapaz ficou surpreendido primeiro e intrigado depois com esta reacção inesperada. Pois não fora ele suficientemente generoso? Afinal aquela nota era todo o dinheiro que possuía; resultara da soma de múltiplos trocos insignificantes que o pai lhe fora concedendo ao longo do último ano e ele guardara com zelo numa caixinha de sapatos. Havia-lhe custado muito entregar todo o seu dinheiro ao pedinte e apenas o fizera porque era um bom muçulmano. Não tinha sido um gesto de um crente respeitador dos ensinamentos do islão? Na verdade, nada via de errado no que fizera. Assim sendo, por que razão o xeque desaprovara aquela zakat? Seria a quantia pequena de mais? Se calhar era necessário dar ainda mais dinheiro... mas qual dinheiro? Ele não passava de um menino que andava na escola, não possuía mais do que aquilo!

A resposta a estas perplexidades veio na aula seguinte.

"Não é um problema de quantidade, cada um dá o que pode", explicou o mestre Saad com suavidade. "O problema é que a zakat é para ser concedida discretamente."

"Mas porquê, xeque?"

"Para que o pedinte não se sinta envergonhado." Apontou o dedo peremptório ao seu pupilo. "E para que tu não te sintas superior a ele." Exibiu as palmas das duas mãos. "O

Profeta disse: «A melhor caridade é aquela em que a mão direita dá e a esquerda não tem conhecimento disso.» Lembra-te de que não tens de me agradar a mim nem aos teus semelhantes."

"Então a quem tenho eu de agradar, xeque?"

O mestre Saad ergueu os olhos e apontou para cima.

"A Alá."

 

Vista do ar, a pequena povoação das Furnas parecia um lugar extraído de um conto de fadas, com as suas casinhas pequenas e muito bem arranjadas ao longo das encostas verdes, os quintais cuidados e os espaços arrumados. Aqui e ali erguiam-se no ar jactos de vapor, sinalizando a forte actividade geotérmica visível nas caldeiras fervilhantes do pequeno povoado.

O helicóptero contornou o casario e pousou num campo ajardinado, entre uma vivenda alva e umas vacas que pastavam no monte ao lado, vagamente incomodadas com o estrepitar das hélices do intruso que ali aterrara. O tenente Anderson foi o primeiro a saltar para fora e estendeu a mão para ajudar Tomás a sair. Afastaram-se do helicóptero em corrida, os corpos curvados e a cabeça baixa, e só pararam diante de um Humvee militar que os aguardava na estrada vizinha. Saltaram para o interior e o jipe arrancou, serpenteando pelas ruas pacatas das Furnas.

 

"Sabe o que os Açores me fazem lembrar?", perguntou Tomás ao americano, o olhar preso nas fachadas das casas que desfilavam pelos passeios.

"O quê, sir?"

"Um filme da Disney que vi no cinema quando era miúdo." "A Cinderela?"

"Não, não. Um daqueles filmes com gente^a sér^o, em carne e osso."

"Como a Mary Poppins..."

"Isso. Só que este contava uma viagem ao Árctico. Sem saberem como, os viajantes encontraram de repente uma terra perdida no meio da neve, onde tudo era verde e havia vulcões, florestas com árvores altíssimas e animais já extintos." Fez um gesto a indicar a paisagem no exterior. "Os Açores parecem-me essa terra perdida."

O tenente Anderson olhou em redor e assentiu.

"Sim, esta paisagem tem de facto um pouco de fantasia. A mim, confesso, faz-me lembrar a Suíça."

O Humvee percorreu o emaranhado de artérias e estacionou bruscamente numa rua estreita, ao lado de um hotel. O americano fez sinal ao convidado para sair.

"E aqui, sir."

Tomás saltou do jipe mas admirou-se por ver o tenente Anderson quieto no seu lugar. "Você não vem?"

"Nope", disse ele, abanando a cabeça. "O seu encontro com Eagle One será a sós, sir. Não se esqueça de que tudo isto é confidencial, eu não passo de um correio." Acenou em despedida. "Bye-bye."

O Humvee arrancou com um rugido, deixando o passageiro para trás. Tomás respirou fundo e dirigiu-se para a entrada do hotel; não sentia particular simpatia pelo homem que iria encontrar, mas a curiosidade era mais forte que ele. Cruzou o átrio e ouviu de imediato a voz rouca interpelá-lo. "Hell, você está atrasado!"

Voltou-se e viu a figura hirta e envelhecida de Frank Bellamy com um copo de whisky na mão. Mantinha o porte militar e as mesmas rugas rasgavam-lhe os cantos dos olhos glaciais e cruéis, mas o cabelo tornara-se todo branco. O americano deu um passo e estendeu-lhe a mão para o cumprimentar.

"Olá, mister Bellamy", disse Tomás, devolvendo-lhe a saudação. "O que o traz por cá?"

O homem da CIA pousou o copo de whisky numa mesa e fez um gesto na direcção do restaurante do hotel.

"A gastronomia, Tomás. A gastronomia."

"O que tem ela de especial?"

"Ouvi dizer que é fucking delicious."

 

O grande e arejado salão do restaurante regurgitava de animação, os empregados afadigando-se de mesa em mesa com largas travessas carregadas de enchidos, couves, cenouras, cebolas, arroz, nabos e, sobretudo, muitas batatas, tudo fumegante e bem cheiroso. Um deles aproximou-se da mesa dos recém-chegados e de imediato começou a servi-los.

"Como se chama este prato?", quis saber Bellamy enquanto ajeitava o guardanapo no regaço.

"Cozido à portuguesa", esclareceu Tomás. "É um clássico da culinária portuguesa, originalmente de uma região do Norte de Portugal chamada Trás-os-Montes."

"Mas você tem de concordar que este dos Açores é especial", atalhou o americano. "Não é todos os dias que se come um almoço cozinhado pela terra..."

"Viu como se faz isto?"

"Não."

"E aqui perto, na lagoa das Furnas. Por causa da actividade geotérmica, a terra ali é muito quente e eles cavaram no chão umas estruturas onde põem as panelas com toda a comida lá dentro. Tapam a estrutura e deixam o calor da terra cozer a comida durante cinco horas. Por volta do meio-dia vão lá buscar as panelas e trazem-nas directamente aqui para»o restaurante."

"Você já viu essas estruturas?"

"Já, pois. Estão num cantinho, ao lado da lagoa."

Frank Bellamy experimentou uma morcela com arroz e rolou os olhos de prazer.

"Hmm... é uma maravilha!"

O português também provou.

"É o melhor cozido à portuguesa de todos", disse. "Na verdade, este cozido das Furnas é uma das maravilhas da gastronomia mundial. Por ser cozinhada muito lentamente pela terra, a comida fica com este gostinho especial... é difícil de explicar. O senhor escolheu bem o prato, está de parabéns."

"Quando cheguei esta manhã, recomendaram-mo muito."

Veio o empregado e deitou vinho tinto para os copos dos comensais. Tomás sentiu-se descontrair; era realmente uma maravilha voltar às Furnas e deliciar-se com um daqueles cozidos. Mas talvez fosse bom conhecer o resto da ementa do almoço, o menu que o seu interlocutor trouxera para alimentar a conversa.

"Para além da gastronomia, o que o trouxe por cá?", perguntou, a curiosidade sempre a espicaçá-lo. "O que há em mim que possa interessar à CIA?"

Bellamy pegou no guardanapo, limpou a boca, bebeu um trago de vinho e encarou o seu interlocutor.

"Não é a CIA", disse. "É a NEST."

"A quê?"

"NEST", repetiu. "É uma unidade de resposta rápida criada nos Estados Unidos em meados da década de 1970 para lidar com contingências especiais."

"NEST, diz você? O que significam essas iniciais?"

"Nuclear Emergency Search Team."

"Nuclear? Isso é um laboratório de física nuclear?"

"Não. É uma unidade especial que lida com emergências que envolvem armas nucleares."

Apanhado de surpresa, Tomás parou de mastigar e fixou o olhar em Frank Bellamy.

"Caramba! No que você está metido!" Digeriu a revelação e o pedaço de comida que tinha na boca. "O senhor deixou a CIA?"

"Não, não. Ainda lá continuo. Permaneço na chefia do Directorate of Science and Technology. Aliás, é por isso mesmo que pertenço à NEST. A nossa unidade da NEST é composta por especialistas em armamento ligados ao DOE, à NNSA e aos laboratórios nacionais, ou seja, as organizações responsáveis pelo desenvolvimento, pela manutenção e pela produção das armas nucleares americanas."

"Ah, a NEST controla as armas nucleares americanas..."

"Errado. A NEST é uma unidade criada para localizar, identificar e eliminar material nuclear."

O português fez uma careta intrigada.

"Que material nuclear?"

"Bombas atómicas, por exemplo. Na verdade, todo o material nuclear que possa ser usado contra os Estados Unidos pelos seus inimigos, como países ou organizações terroristas. Temos ao todo mais de setecentas pessoas preparadas para responder a uma ameaça nuclear, embora utilizemos equipas muito mais pequenas. Em apenas quatro horas, por exemplo, podemos pôr um Search Response Team em qualquer local onde haja uma ameaça."

"Ena, isso parece coisa de filme americano."

"Receio que seja muito real."

Tomás trincou uma batata cozida, quase com medo de fazer a pergunta seguinte.

"E... e têm ocorrido ameaças dessas?"

"Algumas."

"A sério?"

"Um mês depois do 11 de Setembro, por exemplo, a CIA recebeu a informação de um agente com o nome de código Dragonfire a indicar que os terroristas estavam na posse de uma arma nuclear de dez quilotoneladas e que essa arma se encontrava em Nova Iorque. Como deve imaginar, foi o pânico na administração. O vice-presidente Dick Cheney foi de imediato retirado de Washington e o presidente Bush mandou a NEST para Nova Iorque com a missão de procurar a bomba."

"E então? Encontraram-na?"

Bellamy fez um ruído aspirado com o canto da boca, como se tentasse chupar um pedaço de comida preso entre os dentes.

"Era falso alarme."

"Ah, bom. Mas o que eu quero saber é se há ameaças dessas que se revelam reais." "Todos os dias."

Foi a vez de Tomás emitir um estalido com a língua e esboçar uma expressão impaciente. "Oh, vá lá... Fale a sério."

"Estou a falar a sério", insistiu Bellamy. "Todos os dias há uma ameaça de ataque nuclear contra nós." "Não pode ser."

"Não acredita? Olhe, o Paquistão construiu armas nucleares devido à tecnologia que o seu chefe de projecto, um homem chamado Abdul Qadeer Khan, roubou ao Ocidente. E esse senhor pôs-se depois a vender a tecnologia para a construção de armas nucleares a outros países, como o Irão, a Líbia e a Coreia do Norte, pelo menos."

"Ah, lá vêm vocês com a mesma conversa", troçou Tomás. "Já com o Iraque disseram o mesmo e foi o que foi."

"O Iraque foi um disparate pegado do Bush filho e a história das armas de destruição em massa não passou de um pretexto para viabilizar a guerra pelo petróleo e estender o domínio americano ao Médio Oriente. No entanto, no caso das exportações da rede Khan receio que estejamos a falar de uma coisa muito séria."

"Vocês têm provas?"

"Claro."

"Não me estou a referir às provas do estilo daquelas que o vosso secretário de Estado foi à ONU apresentar contra o Iraque..."

"Não tenha dúvidas de que temos provas. Olhe, em 2003 recebemos uma denúncia relativa a um navio alemão com destino à Líbia chamado BBC China. O navio foi interceptado no Mediterrâneo e, quando fomos inspeccioná-lo, descobrimos que ele transportava milhares de componentes para centrifugadoras. Apanhada em flagrante, a Líbia confessou que o remetente era o senhor Khan e revelou que ele havia prometido equipar o país com armas nucleares a troco de uns míseros cem milhões de dólares. Isto foi a Líbia que disse, não fui eu. O mesmo senhor Khan efectuou pelo menos treze viagens à Coreia do Norte. O que acha você que ele foi lá fazer? Ver se as coreanas tinham tetas grandes? Há também registos de viagens deste cavalheiro ao Irão e suspeitas de negócios com um quarto país, mas não temos a certeza de qual. Será a Síria ou a Arábia Saudita. Quer mais provas?"

"Se as tiver..."

"Então aqui vão", prontificou-se Bellamy, embalado. "Na mesma altura da intercepção do BBC China, os laboratórios do senhor Khan distribuíram numa feira internacional de armamento uma brochura a disponibilizar diferentes tipos de tecnologia nuclear a quem a quisesse comprar. Pressionámos o Paquistão por causa das actividades ilícitas do chefe do seu projecto nuclear. O senhor Khan foi preso e em 2004 apareceu na televisão paquistanesa a confessar tudo."

"Ele confessou?"

"Em directo na televisão. Disse que actuou sozinho." "Ah! Ele fez tudo sozinho..."

Impaciente com a ingenuidade implícita nesta observação de Tomás, Bellamy rolou os olhos.

"Oiça lá, as baratas peidam-se em francês? Não, pois não? Pois a probabilidade de o senhor Khan ter actuado sem o conhecimento dos militares paquistaneses é igual à probabilidade de uma barata se peidar em francês." Formou um O com o polegar e o indicador. "Ou seja, um grandessíssimo zero!" Bebeu um gole de tinto. "Então o tipo despacha centrifugadoras para a Líbia, distribui brochuras a oferecer equipamento nuclear numa feira de armamento e faz viagens sucessivas ao Irão e à Coreia do Norte e os militares paquistaneses não topam nada? Mas há alguém que acredite nisso? Claro que o senhor Khan é apenas a face visível do problema! Claro que os militares paquistaneses estão enterrados até ao pescoço nesta porcaria! Então não haviam de estar? Eles são os mentores da proliferação nuclear em todo o mundo! O chefe dos serviços secretos paquistaneses, o ISI, era o general Hamid Gul. Pois sabe o que ele disse? O homem afirmou em público que era dever do Paquistão desenvolver a infra-estrutura nuclear islâmica e, quase no mesmo fôlego, acrescentou que os Estados Unidos não têm maneira de travar atentados suicidas muçulmanos. Isto é, relacionou em público a questão nuclear com a questão dos suicídios. E se disse isso em público imagine o que não fará em privado! Basta ver que o ISI tem fortes ligações aos grupos terroristas islâmicos, como por exemplo o Lashkar-e-Taiba, que levou a cabo os grandes atentados em Mumbai e tem filiação à Al-Qaeda. Não lhe parece que esta ligação de um estado islâmico a terroristas é um barril de pólvora à beira de rebentar?"

"Claro que sim. Mas eu julgava que o Paquistão era vosso aliado. Se as coisas são assim, por que razão vocês não fazem nada?"

Bellamy abanou a cabeça, frustrado.

"Por causa do fucking Afeganistão", desabafou. "Depois do 11 de Setembro tornou-se essencial obter a cooperação do Paquistão na luta contra os talibãs e a Al-Qaeda, pelo que se decidiu fechar os olhos ao que os militares andavam a fazer com as armas nucleares. Mas claro que é tudo uma grande fantochada. O Paquistão diz em público que está contra os fundamentalistas islâmicos, mas em privado ajuda-os, arma--os e protege-os. Sabe qual é o problema? E que há muitos poderes dentro do Paquistão e o maior deles é o do ISI e dos militares. O poder dessa gente é tal que a falecida antiga primeira-ministra paquistanesa, Benazir Bhutto, revelou que a primeira vez que viu a bomba atómica do seu país foi uma maqueta que o meu antigo director da CIA lhe apresentou. Quer dizer, os seus próprios militares recusaram-se a mostrar--lhe a bomba do país que ela supostamente governava, veja só! E, quando a senhora Bhutto foi afastada do poder, ela própria disse que tinha sido vitimada por um golpe nuclear montado pelos militares para a impedirem de assumir o controlo dessas armas. Ora é com esta gente que nós temos de lidar. Com os militares a constituírem um estado dentro do estado no Paquistão e com as suas ligações aos fundamentalistas islâmicos, tudo é possível. Daqui até as armas nucleares paquistanesas chegarem às mãos dos terroristas, meu caro, basta um pequeno e terrível passo. Está claro?" "Claríssimo."

"É por isso que, e em resposta à sua pergunta, só lhe posso dizer que todos os dias paira a ameaça de um atentado nuclear contra nós. Em boa verdade, o que está em questão agora já não é saber se ele vai acontecer, porque vai. A questão é saber quando." Suspirou e deixou a palavra ecoar. "Quando."

Tomás remexeu-se no lugar, pouco à vontade. Para tentar descontrair-se, deslizou o olhar para o vasto jardim que se estendia para lá do restaurante, passeando a atenção pela flora exuberante, e em especial pelos hibiscos e pelas hidrân-geas que enchiam o parque. Tudo ali era pacato e lento, em contraste com as palavras tensas com que o seu interlocutor o brindava à mesa.

"Oiça, mister Bellamy", disse. "O que deseja o senhor de mim?"

O americano recostou-se na cadeira e mirou-o com o desafio a cintilar-lhe nos olhos azuis gelados. "Que se junte a nós." "A nós, quem?" "À NEST."

Tomás franziu o sobrolho, admirado com a sugestão. "Eu? A que propósito?"

"Oiça, a NEST tem equipas especiais na Europa, na região do golfo Pérsico e na base aérea de Diego Garcia, no Indico. Precisamos de si para a nossa equipa europeia."

"Mas porquê eu? Não sou militar nem engenheiro nem físico nuclear. Não vejo como vos possa ser útil numa unidade dessas."

"Não se faça modesto. Você tem outros talentos." "Quais?"

"É um criptanalista de primeira categoria, por exemplo." "E depois? De certeza de que vocês têm outros por aí, provavelmente bem mais talentosos do que eu." "Não. Você é único." "Não vejo em quê..."

Frank Bellamy brincou com a colher de sobremesa. "Diga-me uma coisa, onde passou você o seu último ano?" A pergunta deixou Tomás desconcertado. "Bem... no Cairo. Porquê?" "O que esteve lá a fazer?"

"Estive na Universidade de Al-Azhar a tirar uma especialidade em islamismo e a aprender árabe." "Porquê?"

"Ora, porque é muito útil para o meu estudo de línguas antigas do Médio Oriente. Como sabe, já falo e leio aramaico, a língua de Jesus, e hebraico, a língua de Moisés. O árabe, enquanto língua de Maomé, pode ajudar-me como instrumento de pesquisa na história das grandes religiões, uma área que me interessa muito em termos académicos. Além disso, o primeiro tratado de criptanálise está redigido em árabe."

"E aprendeu alguma coisa útil no Cairo?" "Sim, claro. Aliás, até já dou aulas a alguns alunos muçulmanos lá em Lisboa. Porque pergunta?"

O americano inclinou-se para a frente, apoiou os cotovelos na mesa e cravou os olhos em Tomás.

"Ainda pergunta porquê? Então você é um excelente criptanalista, lê e fala árabe, conhece o islão a fundo e, depois de me ouvir falar sobre o tipo de ameaça a que estamos sujeitos, ainda me vem perguntar porquê? É preciso ter lata!"

O português respirou fundo e devagar.

"Ah, já estou a perceber tudo..."

"Ainda bem!"

"Mas não conte comigo. Eu não quero fazer parte dessa organização que você representa."

"Prefere fazer como a avestruz? Mete a cabeça na areia e finge que não se passa nada? Pois eu tenho a dizer-lhe que estão a acontecer coisas muito graves, coisas de que o público em geral não tem a mínima noção. E você pode ajudar-nos a enfrentá-las."

"Mas por que motivo hei-de eu ajudar a América? Vocês inventaram o problema no Iraque, agora andam para aí a lamuriar-se e nós é que temos de vos ajudar?"

"Este problema não é exclusivamente americano. E europeu também."

"Pois, pois. Vá-me contando histórias."

Bellamy torceu os lábios finos e recostou-se de novo na cadeira, a atenção sempre presa no português, os dedos entre-laçando-se uns nos outros.

"Descobrimos uma coisa, Tom. Precisamos da sua ajuda."

"Que coisa?"

"Um e-mail da Al-Qaeda."

"O que tem esse e-mail de especial?"

"Não lhe posso dizer agora. Esta informação só lhe poderá ser fornecida se. você se juntar a nós." "Isso é tudo conversa!"

O esboço de um sorriso perpassou pelo olhar gelado e calculista do homem da CIA.

"Diga-me uma coisa, Tom. Gosta de Veneza?"

Tomás não percebeu a mudança de direcção na conversa e ainda hesitou na resposta, mas deixou-se embalar, sempre queria ver onde iria aquilo dar.

"É uma das minhas cidades favoritas. Porquê?"

"Venha comigo a Veneza."

O português soltou uma gargalhada.

"Eu gosto de Veneza, mas confesso que, para companhia, idealizava outro tipo de pessoa... uma figura talvez mais curvilínea, não sei se está a ver o género. Além do mais, encontro-me aqui de férias com a minha mãe e não a vou abandonar."

"E quando acabam essas férias?"

"Depois de amanhã."

"Então é perfeito. Eu parei aqui nos Açores a caminho de Veneza. Encontramo-nos lá dentro de três dias." "Mas o que há em Veneza assim tão especial?" "O Grande Canal." Tomás voltou a rir-se. "E que mais?"

"E uma senhora que quero que você conheça." "Quem?"

Frank Bellamy ergueu-se, dando o almoço por encerrado. Tirou a carteira do bolso e, com um gesto displicente, largou uma nota gorda sobre a mesa antes de responder.

"Uma brasa."

 

O homem que apareceu ao fundo do corredor tinha de certo modo um aspecto ascético. Era magro, vestia uma jalabiyya, a longa túnica branca que os homens mais religiosos habitualmente usam, e ostentava uma barba negra, larga e farfalhuda.

"É ele! É ele!", disse uma voz excitada entre o grupo de rapazes que aguardava à porta da sala.

"Ele, quem?", perguntou Ahmed, mirando interroga-doramente a figura que percorria com tranquilidade o corredor.

"O novo professor, estúpido!"

O professor de Religião tinha-se aposentado no ano anterior, pelo que havia agora um novo responsável por aquelas aulas. Ahmed frequentava uma madrassa financiada pela Al-Azhar, a mais poderosa instituição de ensino do mundo islâmico. Estudava Matemática, Árabe e o Alcorão. A matéria religiosa ocupava mais de metade do tempo de aulas na

madrassa, embora os seus principais conhecimentos sobre o islão lhe fossem transmitidos em casa ou na mesquita pelo xeque Saad, com quem aprendia havia já quase cinco anos. Passou quase todo esse tempo, não a discutir o islão, mas a decorar o Alcorão, tarefa que o enchia de entusiasmo e o fazia sentir-se adulto. Chegara já à sura 24 e sabia que, quando tivesse todo o Livro Sagrado na ponta da língua, atrairia grande respeito pela sua família e seria considerado um menino muito pio.

O aparecimento daquele homem ao fundo do corredor, porém, tudo iria mudar. O novo professor aproximou-se da porta da sala e abrandou. Fez com a cabeça sinal aos alunos de que entrassem e foi ocupar o seu lugar diante da classe.

"As saldam alekum", cumprimentou. "Chamo-me Ayman bin Qatada e sou o vosso novo professor de Religião. Vamos começar a aula por recitar a primeira sura."

As lições iniciais foram em tudo semelhantes a outras que Ahmed tivera sobre o islão, ali na madrassa, em casa ou na mesquita. O professor Ayman era senhor de uma voz rica e enganadoramente suave. As suas palavras e o tom em que as proferia adquiriam por vezes tanta força nos momentos certos que, ao fim de algumas aulas, o professor se revelou capaz de galvanizar os alunos e inflamar a classe com tiradas vibrantes de emoção.

Foi-se tornando gradualmente claro que as suas aulas não eram apenas ocupadas pela memorização em coro do Alcorão. Interessante e imaginativo, o professor Ayman contava muitas histórias e encorajava os alunos a participarem, o que fazia daquelas lições de Religião um momento muito animado. Eram talvez as aulas mais interessantes que havia na madrassa.

A certa altura, a matéria começou a revelar-se um pouco diferente da que o anterior professor havia dado ou daquela que o xeque Saad ensinava a Ahmed em casa ou na mesquita. Até que chegou o dia em que veio a lição mais inesquecível de todas.

 

Depois da recitação de algumas suras, o professor Ayman não se concentrou nas mensagens de virtude do Alcorão, como era habitual nas aulas do seu antecessor, njas anües na história do islão. Com um brilho nos olhos e um timbre ardente e inflamado na voz, dedicou toda aquela hora a falar sobre a grandeza do império erguido em nome de Alá.

"Maomé, que a paz esteja com ele, começou a expansão do islão com a força da espada", explicou o professor Ayman, brandindo o punho no ar como se ele próprio segurasse uma cimitarra ensanguentada. "Quando estava em Medina, o Profeta, que Deus o tenha para sempre na Sua guarda, iniciou a conversão dos Árabes à verdadeira fé. Fê-lo pela pregação, mas também lançando uma guerra contra as tribos de Meca. Foram precisas vinte e seis batalhas, mas o mensageiro divino, com a graça de Alá, acabou por submeter todo o povo árabe e convertê-lo ao islão. Quando os muçulmanos se juntaram em Meca para o primeiro Hadj, Maomé, que a paz esteja com ele, subiu ao monte Arafat e fez o seu discurso de despedida." O professor inspirou fundo, como se nesse instante emulasse o Profeta. "«Depois de hoje já não haverá mais duas religiões a coexistir na Arábia»", disse, citando as palavras de Maomé. "«Eu desci por Alá com a espada na minha mão e a minha riqueza virá da sombra da minha espada. E aquele que discordar de mim será humilhado e perseguido.»"

Os alunos não conheciam estas palavras do Profeta, mas, ao ouvi-las da boca exaltada do professor, a turma inteira ergueu-se a uma só voz.

"Allah u akbar!", gritaram os alunos em uníssono. "Deus é o maior!"

Ayman sorriu, agradado com a reacção de fervor religioso. O burburinho, porém, revelou-se talvez ruidoso de mais e o homem fez com as duas mãos um gesto para impor o regresso do silêncio à sala.

"Dias depois do sermão final, Maomé, que a paz esteja com ele, apanhou uma febre que durou vinte dias e acabou por morrer. Tinha sessenta e quatro anos de idade quando Alá o chamou para o jardim eterno. Por essa altura já toda a Arábia era muçulmana."

"Allah u akbar!", voltaram a entoar os alunos, desta vez repetidamente. "Allah u akbar!"

O professor pediu de novo calma.

"Pensam que a morte do Profeta, que a paz esteja com ele, foi o fim da história?" Abanou a cabeça. "Não foi. Foi apenas o princípio de uma grande e gloriosa epopeia. Após a morte de Maomé, que a paz esteja com ele, a utnma ficou temporariamente dividida, mas acabou por escolher um sucessor. Sabem quem foi?"

"O califa", respondeu um aluno de imediato.

"Claro que o sucessor foi o califa", disse Ayman, um pouco exasperado com a resposta. "Califa quer dizer sucessor, toda a gente sabe isso. O que eu quero saber é quem foi o primeiro califa."

"Abu Bakr", disseram outros dois.

"Abu Bakr", confirmou o professor. "Ele era um dos sogros de Maomé, que a paz esteja com ele. Abu Bakr e os três califas que se lhe seguiram são hoje conhecidos como os quatro Califas Bem Guiados, por terem ouvido a revelação dos lábios do próprio Profeta e por terem aplicado a sharia, protegido a umma e atacado os kafirun."

Todos os alunos na sala sabiam que a sharia era a lei do islão, a umma o conjunto universal da comunidade islâmica e os kafirun os infiéis, plural de kafir, mas houve uma mão hesitante que se levantou. Pertencia a Ahmed, para quem a afirmação do Profeta de que a sua riqueza viria da sombra da espada constituía novidade; jamais o xeque Saad ou o anterior professor na madrassa lhe haviam falado naquela declaração.

"E como foi que o fizeram, senhor professor?"

"Ora, da mesma forma que o Profeta, que a paz esteja com ele, o fez! Com o Santo Alcorão numa mão e a espada na outra! Abu Bakr exerceu o califado em pleno respeito pela Justiça de Deus, contemporizando quando era de contemporizar, punindo quando era de punir. E o segundo califa, Omar ibn Al-Khattab, lançou uma grande jihad contra as nações que faziam fronteira com a Arábia, como aqui o Egipto e também a Síria, a Pérsia e a Mesopotâmia, para expandir a fé e o império. Com a graça de Alá, conquistámos ainda Al-Quds." Ergueu o punho vitorioso. "Allah u akbarV

"Allah u akbar!", devolveu a turma, entusiasmada.

Nenhuma desta matéria trazia necessariamente novidades, mas o novo professor tinha o condão de a apresentar de uma forma que os alunos achavam bem mais interessante.

"Crescemos e prosperámos, espalhando a sharia pelo mundo conforme ordenado por Alá no Santo Alcorão!" O tom entusiástico e inflamado de Ayman tornou-se subitamente lúgubre. "As coisas complicaram-se, no entanto, com a morte de Uthman bin Affan, o terceiro dos quatro Califas Bem Guiados. E que ele foi assassinado por revoltosos muçulmanos, os Kharij. Quando Ali ibn Abu Talib, o quarto califa, começou a reinar, decidiu não vingar a morte do terceiro califa por recear que a insurreição dos Kharij alastrasse. Só que isso ia contra a sharia e os mandamentos divinos, conforme notou o governador da Síria, Muawiyya, que exigiu a punição dos Kharij. Como o califa Ali não cedeu, Muawiyya concluiu que Ali estava em violação da sharia e já não era o califa legítimo, pelo que se revoltou. Ali respondeu, argumentando que ele era o sucessor de Maomé e que o Profeta, que a paz esteja com ele, jamais permitiria uma revolta contra si, pelo que esta revolta significava ela própria a violação da sharia. A umma dividiu-se assim essencialmente em dois campos: os xiitas, que apoiavam Ali, e os sunitas, que apoiavam Muawiyya. Seguiram-se muitas batalhas, mas Ali acabou por morrer e Muawiyya tornou-se califa, iniciando assim a primeira dinastia de califas, a dinastia omíada."

"Nós somos sunitas, não somos?", perguntou um aluno.

"A umma é sunita", sentenciou Ayman. "Só o Irão é xiita. O Irão e partes do Iraque e do Líbano. Mas os muçulmanos legítimos somos nós, os sunitas. Vamos de Marrocos ao Paquistão, da Turquia à Nigéria, somos a verdadeira umma. Os xiitas estão em apostasia por terem ficado com Ali depois de ele ter violado a sharia e por andarem a adorar santos, como Ali e o seu filho Hussein."

"E depois?", quis saber outro aluno.

"E depois o quê?"

"O que aconteceu quando a primeira dinastia de califas começou?"

"Ah, a dinastia omíada...", exclamou o professor, retomando o fio à meada. "Pois... seguiram-se tempos turbulentos, claro. O califado ficou sedeado em Damasco, mas os Kharij continuavam em insurreição, o que impediu o exército islâmico de se concentrar na sua missão principal, a expansão e a conquista, para se ocupar da pacificação do império. Muawiyya recorreu a todos os métodos possíveis, incluindo a matança em grande escala, até que acabou por pôr fim à revolta dos Kharij. Mas o mais importante é que o seu filho Yazid, quando se tornou califa, esmagou uma outra revolta, conduzida por Al-Hussein ibn Ali, um neto de Maomé, que a paz esteja com ele. O califa decapitou Hussein e exterminou a sua família."

A turma reagiu em choque a esta revelação.

"O califa matou o neto do Profeta?", admirou-se um aluno, os olhos arregalados.

"Ele pôde fazer isso?", quis saber outro.

"Maomé, que a paz esteja com ele, foi um grande homem", disse o professor. "Mas, atenção, ele era um homem, não era Deus nem se fazia passar por tal. Todos os homens se devem submeter à sharia, incluindo os descendentes do Profeta, porque as leis de Alá são universais e eternas. A violação da sharia pode implicar apostasia e o Enviado de Deus estabeleceu a pena de morte para esse crime." Inclinou a cabeça, como se fizesse uma concessão. "Mas também é verdade que a matança de descendentes do Profeta, que a paz esteja com ele, chocou a umma e foi por isso que os abássidas, que eram leais à família de Maomé, assassinaram o último califa dessa dinastia e puseram fim aos omíadas."

"Acabaram os califas?"

"Não, começou a segunda dinastia de califas, a dos abássidas."

"Ah! Então a umma ficou unificada..." O professor Ayman hesitou.

"Bem, não exactamente. A prioridade dos abássidas foi exterminar os omíadas até ao último. Não foi por acaso que o primeiro califa desta segunda dinastia, Abu al Abbas, ficou conhecido por o Exterminador. Ele mandou matar qualquer omíada que ainda vivesse, mesmo que fosse uma mulher, um velho ou uma criança. E, quando acabaram de os exterminar a todos e já não havia mais ninguém para matar, foram exumar-lhes os ossos e esmagá-los." "Não escapou ninguém?"

"Apenas Abdul Rahman, que fugiu para o Al-Andalus e reconstituiu o califado omíada em Córdova. Os outros morreram todos."

"Mas isso não permitiu unificar a umma, senhor professor?"

"Infelizmente, não. Os abássidas transferiram a sede do califado para Bagdade, mas o nosso império começou a fragmentar-se devido às múltiplas cisões internas. Apareceram estados independentes, surgiram os fatimidas, os mamelucos... eu sei lá, foi uma confusão. A única coisa que nos manteve unidos, para além do Santo Alcorão, foram as agressões externas que entretanto se deram. Foi nessa altura que os kafirun vieram da Europa e atacaram Al-Quds e a Terra Santa, apa-nhando-nos fragilizados." Todos os alunos presentes na sala sabiam que os kafirun, ou infiéis, da Europa a que o professor se referia eram os cruzados que conquistaram Al-Quds, o nome árabe de Jerusalém. "Pouco depois sofremos as invasões dos Mongóis, que ocuparam Bagdade e puseram fim a quinhentos anos de dinastia abássida." Fez uma curta pausa, como se preparasse o que ia dizer a seguir. "E depois? Quando os Mongóis se instalaram na capital do califado, quem de entre nós se ergueu contra eles?"

Passeou o olhar pela sala silenciosa. Os alunos faziam um esforço para pensar num nome, mas nada lhes ocorria.

"Quem?", perguntou Ayman de novo.

"Saladino?", arriscou uma voz.

O professor soltou uma gargalhada.

"Saladino venceu os kafirun da Europa. Eu estou a referir--me a quem se ergueu contra os Mongóis. Quem?"

O silêncio mais completo foi a resposta.

"Nunca ouviram falar de Ibn Taymiyyah?"

Muitas cabeças balouçaram afirmativamente; os alunos reconheciam aquele nome. Ahmed não era porém um deles; nunca tinha ouvido falar em tal figura.

"Quem foi Ibn Taymiyyah?", perguntou o professor.

"Foi um grande muçulmano", retorquiu um ^Jos alunos que identificara o nome.

"Um gigante!", atalhou Ayman. "O xeque Ibn Taymiyyah foi um gigante. Nasceu dez anos depois da invasão mongol e o seu pai tornou-se imã da mesquita de Damasco. Os mamelucos continuaram a combater os Mongóis, mas o problema é que a elite mongol se converteu ao islão. Como sabem, o Profeta, que Alá o abençoe, proibiu que se matassem muçulmanos. Se os Mongóis se tornaram muçulmanos, isso significava que já não poderiam ser combatidos. Ou poderiam? O xeque Ibn Taymiyyah consultou os textos sagrados, analisou o assunto e emitiu uma fatwa a legalizar a jihad contra os Mongóis, dizendo: «Está provado pelo Livro e pela sunnah e pela unanimidade da nação que quem se desvie de uma única das leis do islão será combatido, mesmo que tenha proferido as duas declarações de aceitação do islão.» E o xeque também disse: «Fé é obediência. Se uma parte dela estiver em Alá e outra não estiver em Alá, terá de haver combate até que toda a fé esteja em Alá.» Desse modo, o xeque Ibn Taymiyyah deu cobertura legal e divina à guerra contra os Mongóis convertidos ao islão. O xeque disse aos nossos soldados que a derrota que haviam sofrido diante do inimigo era como a derrota de Maomé, que a paz esteja com ele, na batalha de Uhud, mas que a sua insurreição seria como o triunfo do Profeta, que a paz esteja com ele, na batalha das trincheiras. Os acontecimentos seguintes provaram que ele tinha razão. Com a ajuda espiritual do xeque Ibn Taymiyyah, os Mongóis foram finalmente derrotados." O professor estendeu as mãos para cima. "Deus é o maior!"

"Allah u akbarr, repetiram os alunos, de novo galvanizados.

"O xeque Ibn Taymiyyah ainda era vivo quando nasceu o grande Império Otomano, que deu origem ao terceiro califado, com a capital em Istambul. Os Otomanos destruíram o Império Romano do Oriente, assumiram o controlo de Constantinopla, conquistaram os países vizinhos e atacaram os kafirun europeus por todo o lado. O grande califado otomano chegou às portas de Viena e durou quase sete séculos. Mas os Otomanos e a umma começaram a desviar-se da sharia e a ceder à tentação de obedecer a leis humanas, não à lei de Alá. Isso aconteceu numa altura em que os kafirun se puseram a desenvolver máquinas e mais máquinas, cada vez mais poderosas. O resultado foi a fragilização dos Otomanos, e com eles de toda a umma. Até que, em 1924, o califado otomano foi extinto."

"Que Alá amaldiçoe os kafirun!", berrou Abdullah, um rapaz sentado mesmo atrás de Ahmed. "Morte aos infiéis!"

"Sim, os kafirun estão por detrás do fim do grande califado", disse o professor Ayman. "Mas a decisão de acabar com o califado foi tomada pelo novo emir turco, Mustafa Kemal, que arda para sempre no grande fogo. Este apóstata auto-intitulou-se Atatürk, o pai dos turcos, mas estava evidentemente sob a diabólica influência dos kafirun e da sua cultura no momento em que decidiu separar a religião do estado. Teve até o desplante, vejam só, de transformar a grande mesquita de Santa Sofia num museu!"

"Morte ao apóstata!", gritou o mesmo Abdullah.

Um outro secundou-o de imediato:

"Que Alá o retenha para sempre no Inferno!"

O professor ergueu as mãos, procurando sossegar a turma. Queria incutir nos alunos o orgulho de serem muçulmanos, mas não estava nos seus projectos iniciar ali um motim.

"Calma, calma!", pediu. "Tenham calma!"

A sala serenou, com o bruá de vozes a amansar. Ahmed, que até ali se havia mantido calado a digerir tudo o que ouvia, deu consigo de mão erguida a pedir para falar. *

O olhar do professor pousou nele.

"Sim, rapaz. O que é?"

Ahmed sentia o coração a ribombar-lhe no peito, forte e descontrolado; não sabia se era de nervosismo por falar em público ou de indignação pelo que os kafirun haviam feito à umma.

"Senhor professor, como podemos ter calma?", perguntou num tom empertigado. "Neste momento não há nenhum califado! O senhor disse há pouco que o profeta Maomé deixou os califas como seus sucessores. Se agora estamos sem califa, não estaremos nós a desrespeitar a vontade do apóstolo de Deus?"

O professor Ayman aproximou-se de Ahmed e passou-lhe a mão pelo cabelo, mostrando que achara aquela pergunta muito pertinente.

"Tende paciência e esperai. A umma vai acordar."

"Mas quando, senhor professor? Quando?"

O professor respirou fundo e fez um sorriso enigmático antes de voltar costas.

"Em breve."

 

A faixa de água era uma estrada a cortar a cidade e a lancha acelerava pelo Grande Canal como se fosse um bólide desportivo, ziguezagueando entre os pesados vaporetti, as elegantes gôndolas e os táxis ligeiros, mas o olhar de Tomás mantinha-se preso sobretudo às deslumbrantes fachadas bizantinas que o espelho líquido reflectia em ondulação; viam--se palacetes lado a lado, desfilando pálidos e orgulhosos, ocasionalmente com as luzes interiores acesas, o que permitia vislumbrar pelas janelas múltiplos quadros, candelabros e estantes de livros, sempre por baixo de tectos cuidadosamente trabalhados.

"Falta pouco", prometeu Guido, o guia italiano que fora esperar Tomás ao aeroporto.

Havia já alguns anos que o historiador não vinha a Veneza e regressar à grande e velha cidade dos canais revelava-se uma experiência de cortar a respiração. Pousou os olhos na água; o mar era verde-garrafa e pequenas vagas gorgulhavam de encontro à base da lancha. Inspirou o ar fresco da tarde. Cheirava a maresia e as gaivotas grasnavam sem cessar; num instante os pipilares pareciam alegres e no seguinte melancólicos.

A lancha flectiu para a esquerda, o Grande Canal abriu-se e revelou as torres da San Giorgio Maggiore ao fundo à direita. A embarcação atravessou o Bacino di J»an Marco, passando ao lado da grande praça e do imponente Campanile, à esquerda, e encostou perto da movimentada Ponte delia Paglia.

"Chegámos", anunciou Guido.

Tomás saltou para o pequeno cais, onde as filas de gôndolas negras aguardavam clientes, e o guia veio no seu encalço. "Onde é a reunião?"

Guido apontou para a grande estrutura gótica coberta por mármore rosa mesmo ali ao lado.

"E aqui, signore. No Palazzo Ducale."

"Aqui?", admirou-se Tomás. "Vocês organizam reuniões no palácio dos doges?"

"Claro. Haverá melhor local em Veneza?"

"Mas eu pensei que isto era para turistas..."

O italiano encolheu os ombros e riu-se.

"Inventámos uns trabalhos de restauração para fechar o palazzo ao público. Fique descansado que ninguém nos incomodará."

Dirigiram-se directamente às arcadas da fachada voltada para o mar e, a ladear a porta de entrada, deram com dois carabinieri com armas automáticas. Identificaram-se e entraram no palácio. Estava escuro. O guia conduziu o historiador pela escadaria até ao segundo piso, onde se viam mais carabinieri armados. Depois de se identificarem de novo, passaram pelas estátuas da Sala dei Guariento e Guido parou diante da porta seguinte, fazendo sinal a Tomás de que avançasse sozinho.

"Faça o favor", disse. "A reunião é aqui, na Sala dei Maggior Consiglio."

A porta abriu-se e revelou um enorme salão ricamente decorado nas paredes e no tecto alto. Tomás sabia que, no tempo dos doges, era justamente ali que se realizavam as reuniões do grande conselho, o que, como é evidente, requeria um espaço amplo, de modo a albergar os cerca de dois mil conselheiros da cidade. Tal como nesse tempo, uma enorme mesa ocupava agora toda a extensão central da Sala dei Maggior Consiglio e várias dezenas de pessoas fervilhavam em torno dela, algumas sentadas, outras a deambular nervosamente para um lado e para outro, papéis a saltarem de mão em mão.

Na cabeceira, diante do descomunal Paraíso de Tintoretto, como se ele próprio fosse o doge que governava Veneza, sentava-se a figura austera e dominadora de Frank Bellamy.

 

Um martelo de madeira bateu na mesa. Toe. Toe. Toe.

"Minhas senhoras e meus senhores", chamou a voz rouca e baixa de Bellamy, "peço a vossa atenção, por favor."

As cadeiras arrastaram-se uma última vez, suspenderam-se as conversas cruzadas, as derradeiras tosses ecoaram pelo salão e o silêncio acabou enfim por se impor. Lá fora o mar rumorejava com suavidade e apenas as gaivotas não se calaram.

"Bem-vindos à reunião anual da NEST na Europa", retomou o homem da CIA. "A maior parte dos presentes tem estado connosco nos últimos anos, mas, como é hábito, juntaram-se a nós alguns elementos novos. Desta feita, em vez de militares, engenheiros e físicos, trouxemos para a NEST pessoas com diferentes perfis e competências. Acreditamos que elas nos poderão ser úteis a identificar ameaças concretas. Até aqui temos deixado essa parte sobretudo aos serviços secretos, como a CIA, o MI5, a Mossad e outros do género, concentran-do-nos mais na missão de lidar com qualquer ameaça concreta que esses serviços nos indiquem. Mas, após o 11 de Setembro, optámos por fazer um upgrade às nossas capacidades, pelo que aí estão as novas aquisições." Fez um sinal para a mesa. "Peço aos estreantes na NEST que se ponham de pé."

O pedido deixou Tomás desconcertado. Ele era um estreante, mas a verdade é que não aceitara integrar a NEST, apenas concordara ir àquela reunião. Em resposta ao pedido do orador, umas dez pessoas ergueram-se e Tomás sentiu o olhar frio de Bellamy pousar em si. Relutantemente, empurrou a cadeira para trás e levantou-se também.

"Por favor, dêem um acolhimento caloroso a estes novos membros da nossa equipa."

Uma vaga de aplausos irrompeu na Sala del Maggior Consiglio. Tomás teve ganas de contestar estas palavras e dizer que não era membro da equipa, mas calou-se diante da aclamação. Apercebendo-se da atenção que recaía sobre ele, sorriu com embaraço e, ardendo por se tornar invisível, sentou-se o mais depressa que pôde.

"Vamos fazer uma breve reunião introdutória, com informação geral sobretudo relevante para estes novos elementos da equipa, mas que servirá também para nos lembrar a todos por que razão estamos aqui e por que motivo a nossa missão é tão importante", retomou Bellamy. "Depois teremos reuniões separadas mais especializadas, para discutir a evolução em cada teatro de operações e analisar respostas aos novos desafios. Parece-vos bem?"

Um coro de assentimento correu pela mesa. "O Ocidente vai ser atacado por armas nucleares", começou por dizer.

Gerou-se um burburinho na sala, com os presentes a trocarem olhares inquisitivos.

"Não vos estou a contar nada de novo, pois não? O Ocidente vai de facto ser atacado por armas nucleares. A única dúvida é saber quando. E por isso que nós existimos." O burburinho acalmou. "A NEST, como sabem, foi instituída nos Estados Unidos na década de 1970, mas é bom não nos esquecermos de que tudo isto começou em 1945, quando os cientistas do Projecto Manhattan fizeram explodir a primeira bomba atómica em Alamogordo, no Novo México, e depois em Hiroxima e Nagasáqui." Bellamy suspirou. "Eu naquele tempo trabalhava em Los Alamos, no Projecto Manhattan, e lembro-me do choque que senti quando me apercebi de que a América pensava estar na posse de um grande segredo."

Ouviram-se risos na mesa.

"A sério", insistiu ele, reagindo às gargalhadas. "Hoje pode parecer anedota, mas os nossos políticos achavam mesmo que a bomba atómica era um grande segredo da América. Não percebiam que nos tínhamos limitado a resolver um problema de engenharia e que, no momento em que fizemos explodir a bomba, provámos que era possível resolver esse problema. A partir daí, qualquer outro cientista poderia fazer o mesmo. O conhecimento ficou ao alcance do mundo inteiro. Pensar que quem inventa a bomba atómica pode ficar com o segredo da sua construção é o mesmo que pensar que quem inventou a roda podia ficar com o segredo da sua concepção. Na verdade, a caixa de Pandora fora aberta. A era nuclear havia começado e já não era possível desfazê-la. Um grupo de físicos, incluindo Einstein, Oppenheimer e Bohr, veio então a público alertar para o facto de que não havia segredo nenhum a proteger e de que em breve todo o mundo estaria armado com engenhos nucleares."

"Essa previsão não se concretizou", observou um homem fardado que se encontrava na outra ponta da mesa.

"Não imediatamente", concordou o orador. "Mas o facto é que a produção de uma arma nuclear não jtem grande segredo, pois não? Existem já pelo menos dez países que as possuem e mais uns vinte com a possibilidade de as fabricar. O Tratado de Não Proliferação Nuclear conseguiu estancar o problema, mas, como sabem, a situação ameaça ficar em breve fora de controlo. Não nos podemos esquecer de que a bomba atómica é a arma mais barata alguma vez inventada na relação entre poder de destruição e custo. Com uma arma nuclear, a destruição de uma cidade é muito mais barata do que com outras armas."

"Não se esqueçam de que a Líbia pagou apenas cem milhões de dólares para que o senhor Khan lhe construísse armas nucleares", atalhou um homem sentado ao lado de Bellamy. "Estas bombas são tão baratas quanto isso."

"Exacto", retomou Bellamy. "Lembrem-se também que, com a evolução tecnológica, a tecnologia nuclear está a tornar--se cada vez mais barata e eficiente. O que a torna acessível aos países subdesenvolvidos. E lembrem-se que a tecnologia para construir uma central nuclear destinada a produzir electricidade é praticamente a mesma que é necessária para construir armas nucleares. O que significa que nos países subdesenvolvidos não existem projectos nucleares pacíficos. A bomba atómica é relativamente fácil e barata de construir, pelo que se tornou especialmente atraente para os países pobres. Com pouco dinheiro, esses países conseguem tornar-se incrivelmente ameaçadores. Basta-lhes produzir armas nucleares. No instante em que um país toma a decisão estratégica de se tornar uma potência nuclear, não há sanções internacionais que o travem. O país não precisa de ser rico nem desenvolvido. Basta-lhe querer." Olhou em redor da mesa. "Meus amigos, as armas nucleares são agora as armas dos pobres. Se eu tiver uma, posso ameaçar e intimidar o meu vizinho. E as probabilidades de um país pobre de facto fazer explodir uma bomba atómica são, como sabem, muito maiores do que no caso de um país rico."

A maior parte das pessoas naquela sala já tinha consciência de tudo isto, mas mesmo assim reagiu com um silêncio pesado a estas palavras. Embora quase todos conhecessem a ameaça, relembrá-la não constituía uma experiência agradável. Era como a morte; todos sabem que vão conhecê-la, embora ninguém goste de pensar nela.

"Mas a maior ameaça não é esta, pois não? No fim de contas, se um país subdesenvolvido nos atacar com uma bomba nuclear, sempre podemos responder com dez bombas termonucleares. A maior ameaça é, como sabem, a dos terroristas. E, entre estes, os mais ameaçadores são os jihadistas islâmicos. Se eles fizerem explodir uma bomba nuclear aqui em Veneza, por exemplo, contra quem é que retaliamos? Os fundamentalistas muçulmanos não têm um quartel-general, não têm uma cidade, não têm um país. Na verdade, não possuem nenhum endereço para o qual possamos responder. Com estes terroristas, a ameaça de retaliação não funciona. E desde o 11 de Setembro que nós já percebemos que, logo que possam, eles vão atacar-nos com armas nucleares. Por um lado, não receiam retaliações. Por outro, gostam de actos dramáticos que chamem a atenção. As armas nucleares são por isso perfeitas para os fundamentalistas islâmicos. São eles a maior ameaça existente, e no fundo é por causa deles que nós existimos."

Terminou a sua exposição e consultou o relógio, exasperado.

"Daran/", praguejou.

"Passa-se alguma coisa, mister Bellamy?"

"Era uma pessoa que devia estar aqui a conduzir a reunião e que se atrasou." Apoiou as mãos na mesa e ergueu-se com um suspiro. "Bom, vou ali pedir ajuda a um colaborador nosso que se encontra numa reunião restrita pa Saia dei Consiglio dei Dieci à Armeria. Não se importam de aguardar um bocadinho?"

"Com certeza."

Frank Bellamy dirigiu-se à porta para ir chamar o colaborador, mas deteve-se a meio caminho, como se se tivesse lembrado de alguma coisa.

"Ah!", exclamou. "Respeitinho com ele, hem? É da Mossad."

 

O grupo de rapazes juntou-se ao longo do canal, os olhares presos às casas brancas perfiladas na outra margem, os punhos cerrados numa fúria de vingança. Ahmed estava entre eles e fitava as casas com o mesmo sentimento a ruminar-lhe no espírito.

"Temos de dar uma lição aos kafirun", comentou Abdullah entre dentes, os cabelos lisos desfraldados ao vento. "Não ouviram o professor? Os kafirun odeiam-nos e fazem tudo o que podem para humilhar a umma. Temos de vingar o fim do califado!"

A declaração funcionou como a chama que se cola ao rastilho: incendiou-lhes a vontade.

"Por Alá, vai ser hoje mesmo", exclamou Ahmed, dando um murro na palma da mão. Girou a cabeça em redor com uma expressão de desafio no rosto. "Quem vem comigo?"

"Eu!", responderam os restantes num tropel.

Olharam uns para os outros, a decisão tomada mas sem saberem bem como proceder a seguir. Uma coisa era decidir, outra era actuar. Voltaram-se para Ahmed.

"O que fazemos?"

O rapaz reflectiu um instante.

"Vamos todos a casa vestir uma jalabiyya." Apontou para a ponte sobre o canal. "Encontramo-nos aqui dentro cje meia hora. Quem não aparecer é um apóstata!"

O grupo separou-se à pressa, todos a correr. Ahmed entrou furtivamente em casa, o olhar dançando de um lado para outro. Não queria que os pais ou os irmãos o vissem, não lhe fossem perguntar alguma coisa. Esgueirou-se para o quarto, abriu o armário e tirou a longa túnica branca que costumava usar nas orações de sexta-feira na mesquita do bairro. Vestiu-a depressa e, quando ia a sair, a irmã mais nova apareceu de repente e quase embateu nele.

"Onde vais assim vestido?", admirou-se ela.

Ahmed ficou um instante especado, sem reagir.

"Eu? Vou... vou... vou à mesquita."

"A esta hora?"

O rapaz afastou-a do caminho e apressou-se a sair de casa com receio de que aparecesse mais alguém.

"Ordens do xeque", ainda lançou da porta antes de desaparecer.

 

Reencontraram-se junto à ponte do canal. Ahmed foi o terceiro a comparecer, mas em breve surgiram os restantes. Vinham todos de jalabiyya, conforme combinado.

"E agora?", perguntou um deles, quase embaraçado.

Ahmed fez um sinal em direcção às casas brancas do outro lado.

"Agora atravessamos a ponte e vamos ter com os kafirun."

"E quando chegarmos lá? O que fazemos?"

Era uma boa pergunta. Ahmed esfregou o queixo, pensativo. Pois, não tinha pensado nisso. Atravessavam a ponte, entravam no bairro cristão e... e... e depois? Os olhos do rapaz passearam pelo canal e pousaram nos seixos arredondados que estavam espalhados ao longo das margens.

"Apanhem as pedras", exclamou, apontando para os seixos. "Vamos atacar os kafirun com elas!"

"Boa ideia!"

Os rapazes foram a correr para o canal e encheram os bolsos de pedras. Depois, com a jalabiyya anormalmente pesada, subiram até à entrada da ponte e pararam um instante para ganhar coragem. Já haviam chegado àquele ponto. Seriam capazes de dar o passo seguinte?

"Por Alá, vamos!", gritou Ahmed, mais para se encher de bravura do que para encorajar os outros.

"Allah u akbar!", berraram os restantes, esforçando-se também por ganhar valentia.

O grupo avançou. Eram dez rapazes, todos vestidos com túnicas brancas e os bolsos a abarrotar de pedras. Atravessaram a ponte a tremer de medo, os rostos fechados a exibir uma determinação que não sentiam. Ai se os pais os vissem! Mas eles eram muçulmanos e do outro lado estava o inimigo, os kafirun... os cruzados. Não era o seu dever de bons muçulmanos impor o respeito pelo islão?

Entraram no bairro cristão copta e calaram-se, não fosse a berraria atrair atenções indesejadas. O ânimo quase se esvaiu. Que lhes aconteceria agora? Iria algum cruzado aparecer-lhes pela frente a brandir uma espada? O que fariam se isso acontecesse realmente? A imaginação tornara-se subitamente febril e já viam cruzados a espreitar em todas as esquinas.

Talvez seja melhor despachar isto, pensou Ahmed ao chegar à primeira casa do outro lado da ponte, o nervosismo a fazer-lhe tremer as pernas e as mãos. Tirou uma pedra do bolso e apontou na direcção da casa.

"Esta já serve", disse. "Vamos atacá-la."

Os outros elementos do grupo, também ansiosos por saírem dali o mais depressa possível, pegaram igqalmenjte nas pedras que traziam nos bolsos das jalabiyya.

"Allab u akbarl", gritaram em coro para ganhar coragem.

Uma chuva de pedras cruzou o ar e foi cair sobre a casa sem consequências aparentes. Tiraram mais pedras dos bolsos e fizeram novo lançamento, mas agora com mais convicção. Esta segunda vaga culminou no som de vidros a partirem-se.

Pararam um instante, numa expectativa receosa. "O que é isto?", ouviram uma voz adulta gritar do outro lado.

Tomados de pânico, deram meia volta e correram como desesperados, correram pela rua de terra avermelhada, correram a levantar poeira atrás das sandálias, correram até à ponte e para além dela, correram até chegarem ao seu bairro e pararem para recuperar o fôlego e rirem-se de nervosismo e excitação.

Por Alá, como se sentiam orgulhosos! Haviam dado uma lição aos kafirun.

 

Durante as aulas de Religião na madrassa, o professor Ayman falava abundantemente da história do islão, e em particular dos grandes confrontos com os kafirun. Descrevia o massacre feito pelos duzentos mil soldados do Império Romano do Oriente entre os três mil homens do exército de Maomé quase como se tivesse acontecido na semana anterior, e no mesmo tom abordava as guerras com os cruzados por causa de Jerusalém, ou Al-Quds.

"Quando Omar conquistou Al-Quds recusou-se a rezar numa igreja para que ninguém se atrevesse a transformá-la numa mesquita", contou. "Deu ordens para que os kafirun cristãos não fossem molestados e autorizou o regresso dos kafirun judeus, cuja entrada em Al-Quds havia sido proibida pelos cristãos. Pois sabem o que fizeram os kafirun cristãos quando tomaram Al-Quds durante as cruzadas?"

Os alunos ficaram calados, à espera que o professor respondesse à sua própria pergunta.

"Mataram todos os crentes! Homens, mulheres, velhos, crianças... ninguém escapou! Ninguém! Passaram todos os fiéis pelo fio da espada!" A voz tornou-se arrebatada e o tom empolgado e vibrante. "E não se ficaram por aí, esses cães. Atreveram-se a transformar a sagrada Cúpula do Rochedo numa igreja, vejam só! E à santa mesquita de Al-Aqsa, sabem o que lhe fizeram, sabem? Mudaram-lhe o nome e passaram a chamar-lhe Templo de Salomão! Templo de Salomão, vejam bem! Pegaram na santa mesquita de Al-Quds e fizeram dela a morada do emir kafir. Foi isso o que eles fizeram!"

Um burburinho indignado percorreu a sala.

"Os kafirun odeiam-nos", concluiu, repetindo a frase com que terminava cada uma destas histórias. "Eles querem exterminar o islão."

Atrás de uma história vinha outra e outra ainda. Ayman gostava de as contar e os alunos adoravam escutá-las. Comparava o comportamento dos cristãos com o dos muçulmanos, repetindo sempre com novos pormenores a história de Saladino, o grande emir muçulmano que, ao conquistar Jerusalém, deixara sair em liberdade todos os cristãos e até indemnizara as viúvas e as órfãs dos soldados cristãos mortos em combate.

"Acham que os kafirun mereceram tamanha consideração?", perguntava sempre o professor depois de uma nova descrição dos actos de Saladino.

"Por Alá, não!", respondia a turma.

"Os kafirun exterminaram os três mil mártire»do exército de Maomé, que o seu nome seja para sempre sagrado! Os kafirun mataram todos os crentes em Al-Quds! Os kafirun de Napoleão invadiram o Egipto e a Síria! Os kafirun vieram para as nossas terras mandar no nosso petróleo! Os kafirun impuseram governos-fantoches para nos governarem à vontade deles! Os kafirun impõem-nos leis que vão contra a sharia! Será que ainda merecem tanta consideração?"

"Por Alá, não!"

 

Os ataques ao bairro cristão copta foram-se tornando mais arrojados. Ahmed e o seu grupo enchiam os bolsos das jalabiyya de pedras, atravessavam a ponte e atacavam casas cada vez mais longe. Chegaram até a apedrejar um restaurante, mas fugiam sempre que aparecia um adulto e voltavam em corrida para o seu bairro. No final de cada um destes raides, a adrenalina fazia-os sentirem-se tão bravos como Saladino, embora talvez menos clementes.

Mesmo sabendo que os seus pais desaprovariam os ataques, Ahmed acreditava que cumpria assim o seu dever de bom muçulmano. Tinha consciência, no entanto, de que respeitava apenas uma parte das suas obrigações de crente. A outra, mais espiritual, decorria no recolhimento da mesquita ou na memorização diária do Alcorão. Mas o maior desafio espiritual que enfrentava aparecia todos os anos no mesmo mês.

O Ramadão.

Quando o mês sagrado chegou pela primeira vez depois de conhecer o xeque Saad, Ahmed decidira em segredo cumprir o quarto pilar do islão, o sawm, ou jejum. As crianças estavam isentas de sawm, como os pais e o mullab lhe disseram abundantemente, mas Ahmed acreditava que era seu dever de bom muçulmano respeitar o jejum.

"O sawm ajuda-nos a termos uma ideia do que sofrem os menos afortunados que não têm comida", explicou-lhe o xeque numa ocasião em que falaram do Ramadão. "Os bons muçulmanos devem jejuar em obediência a Deus."

No mês sagrado Ahmed acordava antes do amanhecer, como já fazia anteriormente, mas dessa feita passou a comer com a família uma refeição leve e muito insonsa à luz das lâmpadas amareladas da sala. O sal era evitado para não dar sede, uma vez que o jejum se estendia às bebidas. O sawm começava ao alvorecer, altura que a mãe fazia a merenda para os filhos levarem para a escola.

Os cinco irmãos saíam de casa pelas oito da manhã. Ahmed e os dois mais velhos iam para uma madrassa, as irmãs dirigiam-se a outra. Uma vez na escola, o rapaz atirava a comida para o lixo e passava o dia em jejum. Custaram-lhe mais as primeiras horas e os primeiros dias sem comer, mas ao fim de algum tempo começou a habituar-se e, embora sentindo alguma fraqueza e uma certa irritabilidade, lá foi respeitando o sawm às escondidas.

Descobriu assim que a melhor hora do Ramadão era a do crepúsculo. Quando o Sol se punha para lá do horizonte avermelhado e da mesquita soava o chamar melancólico do muezzin à oração, a mãe espalhava pela mesa tâmaras e jarros com água, que todos consumiam de imediato, os mais pequenos também, apesar de os adultos presumirem que eles não tinham jejuado. Seguia-se a oração do princípio da noite e o grande jantar, verdadeiramente opíparo: a mesa enchia-se dos melhores pratos, como ricos koshari, deliciosos taamiyya ou suculentos molokhiyya, acompanhados de pão baladi e queijo domiati, tudo regado a muito chá e iogurte; a fechar vinham os inevitáveis doces de baklava variada, que o rapaz devorava com indisfarçável gula.

Ahmed abraçou o Ramadão como o mês das boas acções. Para além de se preocupar com a confecção do jantar, a mãe aproveitava o ócio do dia para cozinhar comida para os pobres. O filho, piedoso e imbuído de um espírito de boa vontade, aproveitava os feriados de sexta-feira para a ajudar; depois levava a panela para a mesquita, onde entregava a comida para ser distribuída pelos necessitados.

Quando nessa primeira vez em que respeitou o sawm em segredo chegou a Lailat al-Qadr, a Noite do Poder, que assinalava a primeira revelação recebida por Maomé na gruta de Meca, já perto do fim do mês sagrado, Ahmed não pregou olho. Passou a noite inteira a rezar, acreditando na promessa feita por Deus de que, naquela noite, nenhuma oração passaria despercebida.

"Está escrito no Livro Sagrado: «A Noite do Poder vale mais do que mil meses»", dissera-lhe o xeque Saad durante uma lição na mesquita, recitando de cor os versículos 3 e 4 da sura 97. "«Nela descem os Anjos e o Espírito com a permissão do teu Senhor para executarem todas as Suas ordens»."

A Noite do Poder tem mais poder do que mil meses? Os anjos descem à Terra nesta noite para executar as ordens de Alá? Ele próprio foi consultar o Alcorão e leu e releu a sura 97. Era verdade, estava lá! Como não aproveitar para rezar a noite inteira, se ela valia mais do que mil outras noites?

Rezou por isso horas a fio, mas a verdade é que não tinha muito a pedir a Deus. Claro, como bom muçulmano, seria mais piedoso se rezasse pelos pobres e pelos desfavorecidos. E rezou. Precisava também de rezar para que fosse sempre honesto e íntegro, como requeria o Alcorão, e que Alá lhe desse forças para que respeitasse escrupulosamente as Suas leis e não o deixasse cair em tentação. E rezou.

Passou doravante a cumprir o sawm na íntegra no Ramadão, mesmo que em segredo, e a rezar na Noite do Poder até de madrugada. Às habituais orações que fazia desde os sete anos, depois de conhecer o professor Ayman passou a acrescentar outras preces nessa noite sagrada. A partir dos doze anos rezou pelos desfavorecidos e rezou pela incorrupti-bilidade da sua alma. Mas, a partir dessa altura, achou que deveria rezar igualmente pelo islão nessa sua hora difícil, deveria rezar para que o Profeta tivesse enfim um sucessor, deveria rezar para que o califado fosse restaurado.

E rezou.

 

Toe. Toe. Toe.

Alguém bateu à porta com suavidade à hora do almoço. O Ramadão já tinha passado havia cerca de um mês e toda a família estava à mesa a comer um cabrito assado.

"Ahmed, vai ver quem é", ordenou o pai, agarrado a um pedaço de carne.

O filho ergueu-se e foi abrir a porta. Do outro lado viu um homem de olhar submisso e corpo curvado.

"O senhor Barakah está?"

Ahmed olhou em direcção à sala.

"Pai, é para si."

"Quem é?"

"É um senhor. Quer falar consigo."

 

O senhor Barakah limpou as mãos a um guardanapo e levantou-se. Ahmed foi sentar-se à mesa e não prestou atenção à conversa que começou à porta.

Instantes mais tarde, porém, ouviu a voz do pai troar pelo ar.

"Ahmed, anda cá!"

O tom era inesperadamente imperativo e o rapaz deu um salto de susto na cadeira.

"Anda cá, já te disse!"

Ahmed levantou-se, interrogando-se sobre o que se passaria e o que teria acontecido para irritar assim o pai. Aproximou-se a medo da porta, onde ele permanecia. O visitante encontrava-se ainda do lado da rua e tinha a cabeça baixa, como um penitente.

"Sim, pai?"

Paf.

Nem a viu chegar. A estalada foi repentina e brutal, de tal modo forte que o rapaz cambaleou e embateu desamparado contra a parede.

"Não tens vergonha?", gritou o pai, puxando-o de novo para a porta. "Não tens decência?"

"O que foi, pai?", ainda conseguiu perguntar, a voz embargada. "O que fiz eu?"

Paf.

Mais uma estalada, desta feita na outra face.

"O que fizeste? Ainda tens o descaramento de me perguntar o que fizeste?" Agarrou-o pelo pescoço e forçou-o a encarar o visitante. "Conheces este senhor?"

Com o olhar embaciado pelas lágrimas, Ahmed fitou o desconhecido.

"Não", balbuciou, abanando a cabeça.

"Este senhor mora no outro lado do canal, no bairro cristão. Diz que tu e os teus amigos foram lá apedrejar-lhe a casa. É verdade?"

Ahmed sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo e olhou melhor para o visitante de olhar submisso e tronco curvado. Era isto um kafir? Era aquilo um temível cruzado? Era aquela gente que andava a humilhar o islão?

"Responde", insistiu o pai, abanando-o como a um saco de batatas. "É verdade?"

Foi a vez de Ahmed baixar a cabeça.

"Sim", murmurou.

Sem largar o filho, o senhor Barakah olhou para o visitante, apresentou-lhe desculpas e despediu-se. Quando o desconhecido se afastou, fechou a porta e arrastou o rapaz para o seu quarto. Uma vez a porta trancada, Ahmed viu o pai tirar o cinto das calças e de imediato soube o que o esperava.

Maldito kafir.

 

A porta da Sala dei Maggior Consiglio abriu-se e Frank Bellamy reentrou acompanhado de um homem baixo e redondo, de barba grisalha e pequenos óculos encavalitados na ponta do nariz. Tinha um ar tão patusco e inofensivo que o vizinho de Tomás se inclinou na direcção do português e sussurrou um gracejo.

"Se a Mossad for toda assim, Israel está perdido!"

O historiador sorriu por cortesia, mas manteve a atenção fixa nos dois homens que se aproximavam da mesa. Bellamy indicou ao seu convidado um lugar para se sentar.

"Meus amigos, apresento-vos o David Manheimer."

O recém-chegado inclinou a cabeça para cumprimentar os presentes.

"Shalom"

O grupo devolveu a saudação e o homem da CIA retomou a apresentação.

"Como alguns de vocês sabem, o David é o nosso elemento de ligação à Mossad e tem grande experiência no estudo de grupos terroristas islâmicos. Ele interrogou muitos desses terroristas e traçou-lhes um perfil e um quadro motivacional que se tornou uma referência para os serviços de informações de todo o mundo ocidental. E um privilégio tê-lo aqui connosco, mesmo que apenas por breves instantes, uma vez que ele tem de voltar à sua outra reunião." Sorriu para o israelita. "Go on, David."

O homem da Mossad afinou a voz.

"O que posso dizer que vocês não saibam já?", perguntou num inglês gutural. "O terrorista religioso é um zelota. Tem tendência a concentrar-se num único valor e a excluir todos os outros. No caso dos terroristas muçulmanos, o valor central é obedecer a Alá e ao Profeta e impor a lei islâmica, custe o que custar. A religião explica-lhes o mundo e o seu lugar enquanto indivíduos, mas ao mesmo tempo impulsiona-os à acção. Para estes zelotas não existem áreas cinzentas, mas branco e negro, e todas as ambiguidades morais são destruídas. As coisas são ou não são, não há meio-termo. Os terroristas vêem-se a si mesmos como o povo de Deus e aos outros como o inimigo de Deus, e assim desumanizam o adversário ao ponto de o quererem matar como quem mata... formigas, por exemplo. Pretendem purificar o mundo e não percebem que apenas o conspurcam ainda mais."

"Uns malucos, portanto", observou uma voz.

Manheimer olhou imediatamente para o homem que falara, um indivíduo magro, com os malares muito salientes.

"Nem pense nisso", corrigiu-o, peremptório. "Todos os testes psicológicos que lhes fizemos mostram que estamos a lidar com pessoas perfeitamente normais. Não são psicopatas nem sequer desequilibrados. São pessoas como quaisquer outras. Aliás, se reparar, quando a polícia vai falar com vizinhos e conhecidos de um terrorista depois de ele ter cometido um atentado, a resposta típica é de completa surpresa, uma vez que todos o achavam absolutamente banal. E é o que eles são! Muitos terroristas mostram-se até bastante simpáticos e afáveis, ninguém diria que eles fazem estas coisas terríveis."

"De certeza que não são loucos?"

"Absoluta! Se quiser, a única fraqueza psicológica c#mum que lhes encontramos é sofrerem quase todos de um forte complexo de inferioridade. Eles convivem mal com o domínio intelectual, cultural e tecnológico do Ocidente. Como não o conseguem igualar, sentem-se complexados e então rejeitam o Ocidente, agarrando-se à religião e declarando-a superior a tudo. Ora só proclama superioridade, como sabe, quem sente inferioridade. O que eles fazem é racionalizar esse complexo de inferioridade, convencendo-se a si próprios de que eles é que são superiores, eles é que são bons, eles é que têm razão. Na verdade, os terroristas muçulmanos encaram-se a si mesmos como santos e mártires, pessoas que abraçam causas nobres, que dão a vida para o bem da humanidade. O facto é que estão apenas a exorcizar o seu complexo de inferioridade."

"Mas fazem coisas loucas..."

"Do nosso ponto de vista, sim. Mas não do ponto de vista deles. Se percebermos a forma como eles raciocinam ficamos até surpreendidos com a maneira absolutamente lógica como tudo bate certo. Basta que demos por bons alguns pressupostos, como, por exemplo, que as ordens do Alcorão e de Maomé são mesmo para ser seguidas à letra. O resto é apenas consequência disso..."

"Tem de haver uma explicação para esses comportamentos", insistiu o homem dos malares salientes, sempre combativo. "Se não são malucos, são necessariamente pessoas mcultas e pobres, uma vez que..."

"Está mais uma vez enganado!", cortou Manheimer. "Todos os estudos mostram que os terroristas em geral são pessoas com uma educação acima da média, a maior parte das vezes de nível universitário. O perfil do terrorista islâmico não é excepção. E verdade que alguns são pobres e incultos, mas a maioria frequentou ou tirou cursos superiores e há até vários casos de pessoas ricas. Bin Laden, por exemplo, é milionário!" Abanou a cabeça e esboçou um sorriso condescendente. "Eu sei que os políticos e os académicos ocidentais gostam de arranjar causas socioeconómicas que expliquem tudo. Isso de certo modo conforta-vos, faz-vos pensar que, se resolverem os problemas socioeconómicos desses povos, resolvem o problema do terrorismo. Consigo perceber esse modo de raciocinar. Mas já repararam que uma percentagem anormalmente elevada de terroristas é saudita? Ora que eu saiba a Arábia Saudita está a nadar em petrodólares e não existem praticamente sauditas pobres! Isso deita por terra essa conversa politicamente correcta das causas socioeconómicas!"

O israelita ergueu o dedo, professoral, num esforço para enfatizar o seu ponto de vista.

"E preciso que vocês percebam uma coisa: embora em alguns casos as questões socioeconómicas possam de facto desempenhar um papel, os terroristas muçulmanos são sobretudo motivados por questões religiosas. Eu sei que, para um ocidental, isso é difícil de entender, mas é a pura verdade: os terroristas muçulmanos limitam-se a acatar as ordens do Alcorão e de Maomé, acreditando que, através da obediência cega às palavras divinas, conseguem libertar-se do seu complexo de inferioridade em relação ao Ocidente."

"Não posso aceitar essa explicação" insistiu o homem dos malares salientes.

"E, no entanto, é o que revelam os interrogatórios e exames aos terroristas muçulmanos que capturámos. Como deve calcular, fizemos perfis extensíssimos a muitos e muitos fundamentalistas islâmicos. As conclusões não deixam lugar para dúvidas."

"Acho isso inacreditável. Decerto que..."

O corpo Frank Bellamy, até aí passivo, de repçnte ganhou vida.

"Desculpem, meus senhores, mas não vamos entrar em discussão", interrompeu. "Se o senhor Dahl alimenta dúvidas quanto ao que escutou, estou certo de que o David lhe poderá fazer chegar às mãos os relatórios adequados." Consultou o relógio, como quem dá aquele assunto por encerrado devido a falta de tempo. "David, creio que o seu tempo se esgotou..."

"De facto, assim é", confirmou o homem da Mossad, er-guendo-se. "Peço desculpa, mas aguardam-me noutra reunião. Foi um prazer ter estado aqui convosco."

Apesar do seu porte arredondado, Manheimer abandonou a sala com passo ligeiro, tão depressa como havia chegado. Bellamy voltou a ficar com a reunião nas mãos.

"Estamos já perto do final desta reunião geral e daqui a pouco começam as reuniões especializadas. Mas não queria terminar sem lembrar as consequências de um eventual fracasso da nossa missão de vigilância." Virou-se para uma senhora de meia-idade sentada à sua esquerda. "Evelyn, por favor. Explique-nos o que acontecerá às nossas sociedades se ocorrer um atentado destes."

Evelyn levantou-se e ajeitou o casaco negro.

"Jolly good, mister Bellamy."

"A professora Evelyn Cosworth é uma das nossas novas aquisições", esclareceu o homem da CIA. "É catedrática em Sociologia pelo Imperial College, em Londres, e tem uma tese de doutoramento sobre os efeitos das grandes catástrofes na sobrevivência ou morte das civilizações. Faça o favor, Evelyn."

A professora lançou um derradeiro olhar sobre as suas notas.

"O que eu tenho para dizer é muito simples e breve", começou por dizer, falando com um forte sotaque de upper dass britânica. "As únicas bombas atómicas lançadas contra sociedades humanas foram as do Japão, em 1945. Essas explosões provocaram o colapso imediato da sociedade japonesa. Será que o mesmo aconteceria agora? O terrorismo nuclear é uma experiência que ainda não vivemos, pelo que só podemos calcular os efeitos sem ter muitas certezas. Mas há algumas coisas que podemos dar por certas. Se ocorrer um atentado nuclear na América, por exemplo, as ondas de choque serão sentidas com brutalidade por todo o planeta. Claro que as primeiras vítimas serão as pessoas atingidas pela explosão, muitas das quais morrerão ou ficarão feridas. Mas, tal como aconteceu no Japão, as consequências de tal evento irão muito para além disso. Toda a confiança das populações nos governos que as dirigem seria automaticamente destruída. Com a perda de confiança, a economia americana poderia quase parar. E possível que eclodissem motins, revoltas e insurreição generalizada, tornando os Estados Unidos ingovernáveis. Ora o grande crash financeiro de 2008 serviu para nos recordar que hoje em dia todas as economias do planeta estão ligadas por uma rede invisível, mas bem real. E serviu também para nos lembrar quão importante é existir confiança - confiança na economia, confiança no sistema, confiança na administração. Um colapso da confiança na América poderia suscitar um novo colapso da economia mundial. E possível que a nossa civilização sobreviva a um choque desses. Mas se os terroristas tiverem a intenção de destruir o

Ocidente, é só uma questão de fazerem depois explodir uma segunda bomba atómica e uma terceira e uma quarta. Meus amigos, garanto-vos que a nossa civilização não sobreviveria a uma catástrofe dessas."

O silêncio da Sala dei Maggior Consiglio tornou-se absoluto. Aproveitando o impacto das palavras da professora Cosworth, Frank Bellamy retomou o comando *da reanião.

"Aqueles que pensam que o terrorismo nuclear é apenas um problema americano deveriam pensar melhor", disse à laia de conclusão. "Está terminada esta reunião geral. Nos vossos cadernos poderão encontrar o programa para hoje. Podem dirigir-se às salas onde vão decorrer as reuniões de especialidade. Aqui neste salão está marcada a reunião com os novos membros da NEST, a quem convido para se sentarem mais perto do meu lugar. Minhas senhoras e meus senhores, bom trabalho!"

Seguiu-se uma cacofonia de cadeiras a serem arrastadas, documentos arrumados e conversas retomadas. Com a barafunda momentaneamente instalada, Tomás ergueu-se e foi ocupar um lugar entretanto deixado vago, a duas cadeiras de distância de Bellamy. O americano estava a endireitar os seus papéis, mas ergueu o olhar na direcção do recém-chegado.

"Então, Tomás? Aprendeu alguma coisa?"

"Sim, claro. Mas olhe que eu não sou um novo membro da NEST. Vim apenas assistir a uma reunião, mais nada."

Bellamy ficou um longo segundo a fitá-lo, com uma expressão algures entre pensativa e irónica.

"Que eu me lembre, você não veio apenas assistir a uma reunião..."

"Ai não? Então vim cá fazer o quê?"

"Veio ajudar-nos a decifrar um e-mail da Al-Qaeda."

"Mas o senhor disse que eu só poderia ter acesso a esse e-mail se aceitasse integrar a NEST. Ora que eu saiba ainda não aceitei tal coisa."

"Vai aceitar."

O historiador riu-se.

"O que lhe dá tanta certeza?"

"A pessoa que lhe vou apresentar. Ela está quase a chegar." "Está a falar de quem?"

O rosto do americano abriu-se no seu habitual sorriso sem humor.

"Da brasa, claro."

 

Os dedos magros do xeque deslizaram docemente sobre o couro da capa do Alcorão, como se o mestre acreditasse que, com aquele gesto, estava a acariciar Deus.

"Porque fizeste isso?", perguntou o xeque Saad, a voz melíflua.

Ahmed manteve o rosto hirto, os olhos a segurarem o olhar do mestre, convicto de que nenhuma censura o afastaria do caminho da verdade.

"São kafirun, xeque."

"E depois? Que mal te fizeram eles?"

"Fizeram mal ao islão. Quem faz mal ao islão faz mal a Alá e faz mal à umma. E quem faz mal a Alá e à umma faz-me mal a mim."

"Achas mesmo isso?"

"Sim."

"Foi isso que eu te andei a ensinar nestes últimos cinco anos? Foi isso o que aprendeste comigo? Foi isso o que aprendeste nesta mesquita?"

O rapaz baixou cabeça e não respondeu. O xeque cofiou a barba, pensativo.

"Quem é que te anda a contar essas coisas?"

"Pessoas."

"Quais pessoas?"

O rapaz calou-se por um instante. Se mencionasse o professor Ayman era capaz de lhe arranjar problemas, pensou. Talvez fosse melhor recorrer a uma resposta evasiva.

"Os meus amigos."

Saad apontou o dedo ao seu pupilo.

"Então vais dizer aos teus amigos que, ao perseguir os cristãos, eles próprios são os kafirun." Ahmed levantou os olhos admirados. "O que quer dizer com isso, xeque?" O mestre indicou o Alcorão que tinha nas mãos. "Em que sura vais?" "Perdão?"

"Até que sura já decoraste?" O pupilo sorriu com orgulho. "Já cheguei à sura 25, xeque."

"Nestes cinco anos já decoraste todo o Alcorão até à sura 25?" "Sim."

"Então recita-me a sura 5. Já."

"A sura 5, xeque?", surpreendeu-se Ahmed de novo, arregalando os olhos. "Mas é enorme..."

"Recita-me o versículo 82 da sura 5."

O rapaz fechou os olhos e fez um esforço de memória. Passou em revista mental a sura 5 e chegou enfim ao versículo pedido.

"«Nos judeus e nos que adoram ídolos encontrarás a mais violenta inimizade para com os que crêem»", recitou. "«Nos que dizem: 'Nós somos cristãos', encontrarás os mais próximos, em amor, para os que crêem»."

"Vês?", perguntou o xeque. "Vês? Entre os cristãos encontrarás os mais próximos dos crentes! E o que diz Alá no Alcorão! E a própria voz de Alá a dizê-lo!"

"Mas, xeque, a mesma sura 5 revela outras coisas também", argumentou Ahmed, combativo. "No versículo 54, Alá diz o seguinte: «O vós que credes! Não tomeis a judeus e cristãos por confidentes: uns são amigos dos outros. Aquele de entre vós que os tome por confidentes será um deles»."

"É verdade", reconheceu Saad. "Mas lembra-te do que Alá diz no versículo 256 da sura 2: «Não há constrangimento na religião!» Ou seja, não podemos obrigar os cristãos a converterem-se."

"O problema, xeque, é que na mesmíssima sura 2, versículo 191, Alá diz outra coisa: «Se vos combatem, matai-os: essa é a recompensa dos incrédulos.» E, dois versículos adiante, Alá diz: «Matai-os até que a perseguição não exista e esteja no seu lugar a religião de Deus. Se eles se converterem, não haverá mais hostilidade.»"

O xeque endireitou-se no seu lugar. Diabo do rapaz, pensou, para além de ser precoce tem mesmo a primeira parte do Alcorão na ponta da língua! Onde quer que ele estivesse a beber toda esta informação, a verdade é que trazia sempre resposta pronta.

"Ouve, Ahmed, é um facto que tudo isso está escrito no Alcorão e corresponde à vontade de Alá", afirmou, falando devagar como se pesasse as palavras. "Mas devo lembrar-te que Deus reconhece os judeus e os cristãos, a quem chama os Adeptos do Livro. E, no versículo 109 da sura 2, Alá diz: «Muitos Adeptos do Livro, por inveja, queriam voltar a fa-zer-vos incrédulos depois de haverdes professado a vossa fé, depois de a verdade se lhes mostrar claramente. Perdoai e contemporizai.»" Vês? "«Perdoai e contemporizai»." Mesmo que Alá censure os judeus e os cristãos, Ele apela aos crentes para que perdoem os Adeptos do Livro. Temos, pois, de perdoar e contemporizar. E uma ordem directa de Alá."

"Mas, xeque, o senhor não recitou todo esse versículo", corrigiu o pupilo. "Há uma parte que omitiu."

"O quê? Que parte omiti eu?"

"No versículo 109, Alá diz tudo o que o senhor disse que Ele disse", admitiu. "Mas a frase completa do «perdoai e contemporizai» é: «Perdoai e contemporizai até que Deus venha com a Sua Ordem.» Ou seja, os crentes só devem perdoar e contemporizar até Alá aparecer com a Sua Ordem. Isto implica que, uma vez a Ordem aparecida, já não se deve perdoar nem contemporizar! Deve-se fazer outra coisa. Deve--se: «Matai-os até que a perseguição não exista e esteja no seu lugar a religião de Deus», como vem na mesma sura, alguns versículos adiante."

O xeque Saad suspirou, exasperado.

"Ouve, Ahmed", disse. "O Livro Sagrado é complexo e por vezes contraditório. Deves acima de..."

"Complexo? Contraditório?", admirou-se o pupilo, ganhando atrevimento. Indicou o Alcorão com o olhar. "Xeque, o que está escrito no Livro Sagrado é simples e directo. Alá diz na sura 2, versículo 193: «Matai-os até que a perseguição não exista e esteja no seu lugar a religião de Deus». Isto é muito claro! Isto é..."

"Cala-te!", cortou Saad em tom subitamente agastado, o rosto enrubescendo como uma malagueta, a voz elevando-se pela primeira vez nos três anos em que instruía Ahmed. "Não deves falar assim! Nenhum bom muçulmano deve falar assim! Tens apenas doze anos, és ainda uma criança! Não me venhas ensinar o que diz ou não diz Alá no Alcorão! Eu sei muito bem o que está dito por Deus no Livro Sagrado! Eu estudei o Alcorão toda a minha vida! O islão é Alá, a quem chamamos Ar-Rabman e Ar-Rahim, o Beneficente e o Misericordioso! O islão é Maomé, que disse que era irmão de todo o homem piedoso! O islão é Saladino, que poupou os cristãos quando libertou Al-Quds! O islão são os cento e catorze versículos do Alcorão que falam sobre o amor, a paz e o perdão!"

Ahmed encolheu-se no seu lugar, intimidado com aquela fúria repentina.

"Alá aconselha-nos no Alcorão a sermos generosos com os nossos pais, com a nossa família, com os pobres, com os viajantes", continuou Saad no mesmo tom, quase atropelando as palavras. "Não devemos ser perdulários, não devemos enganar os outros. A ostentação e o orgulho são grandes defeitos, a honestidade é uma virtude. E isso o que Alá diz no Alcorão!" No empolgamento das palavras, ergueu o dedo justiceiro. "O islão é o que o Misericordioso enuncia na sura 2, versículo 177: «Recto é quem crê em Deus, no Ultimo Dia, nos anjos, no Livro e nos Profetas; quem dá dinheiro por seu amor aos parentes, órfãs, pobres, ao viajante, aos mendigos e para o resgate de escravos. Os que fazem a oração e dão esmolas, os que cumprem os pactos quando os têm, os perseverantes na adversidade, na desgraça e no momento da calamidade; esses são os verdadeiros e esses são os tementes.»" Fixou no pupilo os olhos ainda furiosos. "E, acima de tudo, não te esqueças de que o islão é pacífico, ouviste? Pa-cí-fi-co! «Ó vós que credes!», ordena Alá na sura 4, versículo 29: «Não vos mateis!» Matar é, pois, proibido! Está sentenciado por Alá no Alcorão! «Não vos mateis!»"

Fez-se silêncio na salinha da mesquita; apenas se ouvia a respiração ofegante do xeque e o eterno zunir irritante das moscas. Saad passou a mão pela cara, num esforço para se acalmar e retomar o dominio emocional de si próprio, e o pupilo baixou os olhos, embaraçado com o próprio embaraço do seu mestre.

Já mais sereno, o clérigo afinou a voz.

"Através do Alcorão, Alá reconheceu os profetas dos judeus e dos cristãos como Seus mensageiros", disse, a voz retomando a tranquilidade habitual. "Deus diz na sura 3, versículo 3: «Deus te revelou, ó Profeta, o Livro com a verdade, testemunhando os que o precederam: a Tora e o Evangelho.» E Alá acrescenta na sura 4, versículo 163: «Inspirámos--te como inspirámos a Noé e aos Profetas que vieram depois dele, pois inspirámos a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob, às doze tribos, a Jesus, a Job, a Jonas, a Aarão, a Salomão e a David, a quem demos os salmos.» O problema é que as mensagens originais destes profetas da Tora e do Evangelho foram deturpadas por intermediários, como os rabinos e os padres. Daí a necessidade que Alá teve de fazer a revelação por uma última vez, desta feita a Maomé, e ordenar que as Suas palavras ficassem registadas no Livro Sagrado para não mais serem deturpadas. Quando o Alcorão fala, é pois Alá que fala. E no Alcorão está o reconhecimento de que Jesus era um Profeta verdadeiro. Ou não leste isso?"

"Sim, xeque. Li."

"A mensagem de Alá é uma mensagem de bondade, de piedade e de tolerância. No último sermão que fez antes de morrer, Maomé disse: «Não existe superioridade de um árabe em relação a um não árabe, nem de um não árabe sobre um árabe, nem de um branco sobre um negro, nem de um negro sobre um branco, excepto a superioridade que se obtém através da consciência de Deus»." Fez uma pausa para deixar esta frase assentar. "Está claro isto?"

"Sim, xeque", assentiu Ahmed de novo.

O pupilo hesitou, como se quisesse acrescentar mais alguma coisa, mas, preocupado com a inesperada irascibilidade do mestre, conteve-se.

"O que é, rapaz?", perguntou Saad, que havia notado a hesitação.

"Nada, xeque." *

"Diz."

O olhar de Ahmed pousou no volume que o mestre ainda acariciava.

"Quando Maomé disse que não havia superioridade de raças, estava a dizer o que vem no Alcorão." "Claro."

"Mas, xeque, nessa mesma frase o Profeta torna claro que, não havendo superioridade de raças, há superioridade no islão. O que o apóstolo de Alá diz é: não há superioridade entre os homens «excepto a superioridade que se obtém através da consciência de Deus». Ou seja, os muçulmanos são superiores. Alá diz na sura 3, versículo 19: «A religião, para Deus, é o islão.»"

"Claro, o islão é a submissão a Deus. Quem se submete a Deus é superior. Mas lembra-te de que os Adeptos do Livro também têm consciência de Deus..."

"É uma consciência deturpada pelos rabinos e pelos padres, xeque. Não é a verdadeira consciência. Eles só têm conhecimento de Deus através de intermediários, não de forma directa, como nós."

"E verdade", reconheceu o mestre. "E então?"

"Isso mostra que não somos todos iguais, xeque."

"Admito que não", reconheceu Saad. "Mas lembra-te que Alá diz na sura 2, versículo 62: «Na verdade, os que crêem, os que praticam o judaísmo, os cristãos e os sabeus - os que crêem em Deus e no Último Dia e praticam o bem - terão a recompensa junto do seu Senhor. Para eles não há temor.» A mesma mensagem é repetida em dois outros versículos. Como vês, as pessoas boas dos Adeptos do Livro serão recompensadas por Alá. Isto mostra tolerância para com as outras religiões."

"E, no entanto, na sura 5, versículo 51, Alá torna claro que um crente não pode ser amigo de um judeu ou de um cristão..." "É verdade."

Ahmed voltou a hesitar, na dúvida sobre se deveria expor o que tinha em mente, mas desta feita venceu a hesitação.

"E há outra coisa, mas peço-lhe que não se zangue com aquilo que vou dizer ...."

Saad sorriu, benigno.

"Fica descansado."

"O senhor disse há pouco que Alá proibiu no Alcorão que se matasse." "Sim."

"Mas se assim é, xeque, por que razão a sura 2, versículo 193, diz: «Matai-os até que a perseguição não exista e esteja no seu lugar a religião de Deus»? Se assim é, por que razão o versículo 191 da mesma sura diz: «Se vos combatem, matai--os: essa é a recompensa dos incrédulos.» Se assim é, por que razão Alá ordena no Alcorão a morte dos que cometem certos crimes? Afinal, matar é ou não proibido?"

O mestre ficou momentaneamente sem saber o que dizer.

"Bem... quer dizer, é proibido, mas... também é permitido... enfim... é permitido, mas só em certas circunstâncias, claro."

"E isso, xeque. E permitido em certas circunstâncias. Mais do que isso, a morte é ordenada, como acontece no caso dos crentes envolvidos em assassínio, apostasia ou relações sexuais ilegais ou no caso dos kafirun. Lembre-se que a sura 4, versículo 29, se dirige aos crentes, não aos kafirun. «Ó vós que credes», diz Alá: «Não vos mateis!" Ou seja, não mateis outros crentes, não mateis outros muçulmanos, com excepção dos criminosos. Mas Alá não proíbe a matança de kafirun.
Aliás, ainda nem sequer falámos sobre o que vem na sura 9, versículo 5, onde Alá..." ,. #

A voz de Ahmed morreu ao ver o mestre empalidecer no instante em que mencionou este versículo. Mas o xeque permaneceu calado e o pupilo retomou a voz e concluiu a frase.

"... na sura 9, versículo 5, Alá diz: «Matai os idólatras onde os encontrardes. Apanhai-os! Preparai-lhes todas as espécies de emboscadas!»"

Os músculos dos maxilares do mestre contraíram-se, denunciando o esforço que ele fazia para se dominar.

"Isso é para os idólatras, não é para os Adeptos do Livro", argumentou, a voz fria e tensa.

"São todos idólatras, xeque! Os kafirun cristãos, não rezam eles a estátuas que põem nas igrejas? Não adoram eles santos e a mãe de Jesus? Não dizem eles que Jesus é o filho de Deus? Isso é idolatria! Está no Alcorão: «Não há outro Deus que não seja Deus!» O senhor mesmo o disse nas inúmeras lições que tivemos ao longo destes anos! Só há um Deus! Ninguém reza a Maomé! Ninguém reza à mãe de Maomé! Ninguém reza a Abu Bakr ou a qualquer outro califa! Um verdadeiro crente só reza a Deus, unicamente a Deus! Mas os kafirun cristãos rezam a Jesus, rezam à mãe dele, rezam ao Espírito Santo, rezam ao santo este e ao santo aquele, rezam ao papa, rezam diante de estátuas... rezam a tudo! Acham até que Jesus é uma espécie de Deus... Isso é idolatria! E Alá diz: «Matai os idólatras onde os encontrardes.»"

"Está bem, mas essa ordem foi dada no contexto de urna batalha específica, não pode ser lida como ordem geral."

"Só não é lida como ordem geral por quem não a quer ler assim, xeque", devolveu o pupilo com um esgar sobranceiro. "É evidente que todos os versículos do Alcorão têm um contexto. Mas não é Alá As-Samad, o Eterno? Então as Suas ordens, embora sempre proferidas num contexto, também são eternas. Quando Alá, na Sua infinita sabedoria, revelou ao Profeta o versículo a ordenar que certas acusações envolvessem um mínimo de quatro testemunhas, essa ordem tem ou não tem um contexto?"

"Claro que sim."

"E, no entanto, é eterna. O mesmo se passa com a ordem da matança dos idólatras. Como todos os versículos do Alcorão, esse versículo tem igualmente um contexto. Porém, é tão eterno quanto os outros." Apontou para o seu mestre. "O senhor mesmo disse várias vezes que o Livro Sagrado é atem-poral. Se assim é, este versículo também o é."

Saad respirou fundo, subitamente cansado.

"Não sei quem te anda a ensinar essas coisas", exclamou com um gesto impotente, contornando o problema que o pupilo lhe apresentava. Em jeito de que a conversa estava concluída, pegou carinhosamente no Alcorão e ergueu-se da cadeira. "Mas deves ter cuidado."

Ahmed ergueu as sobrancelhas, surpreendido com o inesperado aviso.

"Porquê, xeque?"

O mestre lançou um derradeiro olhar ao pupilo antes de lhe voltar as costas e abandonar a salinha. "Porque o que andas a dizer é perigoso."

 

"Fuck! Já passa da hora!"

Frank Bellamy levantou os olhos do relógio e espreitou a porta, ardendo de impaciência.

"O que se passa?", quis saber Tomás.

"E uma das nossas chefes de equipa. Está atrasada."

"Esperamos mais um pouco."

"Não pode ser", insistiu, consultando mais uma vez o relógio. "Tenho outra reunião marcada a seguir e depois um jantar."

O salão já se havia esvaziado e Bellamy olhou em redor para a dezena de figuras que ali permaneciam, todas especadas à espera de instruções sobre o que fazer. A hora do crepúsculo aproximava-se e a iluminação da Sala del Maggior Consiglio fora ligada instantes antes. Verificou se o ecrã de plasma e o DVD se encontravam instalados, lançou uma derradeira miradela esperançosa na direcção da porta e, tomando a decisão inadiável, fez sinal para as cadeiras vazias.

"Meus senhores, façam o favor de tomar os vossos lugares", disse. "Vamos então começar a reunião."

A cacofonia de cadeiras a arrastarem-se e das pessoas a sentarem-se foi agora bem mais breve e tranquila do que quinze minutos antes, quando a reunião preliminar acabara. Desta vez os presentes não se conheciam uns aos outros, pelo que as conversas trocadas não passaram de amabilidades de circunstância.

"Como expliquei há pouco, todos os presentes vieram de áreas de recrutamento pouco tradicionais na NEST. O que esperamos é sobretudo ajuda vossa no processo de detecção de qualquer ameaça potencial aqui na Europa. Cada um tem, por um motivo ou por outro, conhecimentos aprofundados sobre o islão e relações com as comunidades muçulmanas que vivem nos seus países. Mas, que eu saiba, ninguém aqui possui uma noção aprofundada do tipo de ameaça que enfrentamos, razão pela qual achei importante falarmos um pouco." Ajeitou os papéis e deixou respirar uma pausa antes de lançar a pergunta provocatória que marcaria o tom da reunião. "Se eu fosse um terrorista e quisesse efectuar um atentado nuclear, o que acham que teria de fazer?"

A pergunta ficou no ar, insidiosa, até os presentes perceberem que Bellamy esperava de facto uma resposta.

"Arranjar uma bomba, suponho eu", arriscou Tomás.

"Muito bem", disse, parecendo aprovar a ideia. "Mas onde a iria eu encontrar?"

"Sei lá. Comprava-a esse tal Khan, por exemplo."

O homem da CIA considerou a resposta.

"Seria uma boa opção. O problema é que o senhor Abdul Khan já foi neutralizado, mas isso, admito, não constitui necessariamente um grande obstáculo. O senhor Khan pode estar fora do circuito, mas há por aí outros Khan à solta. E bom lembrarmo-nos de que ele acabou por confessar em 2008 ser apenas o testa-de-ferro dos militares paquistaneses e esses, receio bem, continuam a operar com relativa impunidade. Muitos deles são fundamentalistas muçulmanos e, se eu fosse um terrorista islâmico, poderia de facto pensar em pedir-lhes ajuda. Mas se assim é, pergunto eu, por que razão os jihadistas ainda não fizeram explodir uma dessas bombas?".

O grupo permaneceu calado. Era uma boa questão.

"A resposta é simples", adiantou Bellamy, respondendo à sua própria pergunta. "Porque uma bomba dessas teria a morada do remetente."

"Não estou a perceber", confessou a professora Cosworth do outro lado da mesa.

"O que eu quero dizer é que as bombas atómicas têm uma assinatura individual que pode ser lida. A NEST possui uma base de dados muito completa sobre tudo o que diz respeito à concepção de armas nucleares, de textos publicados em revistas científicas a passagens de romances de espionagem. Está tudo lá. No caso de uma bomba nuclear ser detonada, a NEST tem por obrigação analisar as características da explosão, incluindo a sua força destrutiva e a composição dos isótopos da chuva radioactiva que inevitavelmente se seguirá. Essas características serão comparadas com a informação de que dispomos sobre os arsenais nucleares já existentes. Na nossa base de dados possuímos elementos muito concretos relativos às bombas que estão na posse do Paquistão, da índia, da Coreia do Norte... de toda a gente. Comparando as características da explosão com esses dados poderemos saber qual foi o país que construiu a bomba detonada e a entregou aos terroristas. Ou seja, as características da explosão dão--nos a morada do remetente. Sabendo onde os terroristas foram buscar a bomba poderemos retaliar, destruindo o país que a entregou aos terroristas. Estão a perceber? É isso que tem impedido os militares paquistaneses de entregarem armas nucleares aos jihadistas muçulmanos. Eles sabem que nós podemos localizar a origem da bomba."

Todas as cabeças assentiram ao mesmo tempo, num movimento sincronizado de compreensão.

"A hipótese mais verosímil para os terroristas obterem uma arma nuclear intacta é, por isso, o roubo", retomou Bellamy. "Aqui, receio que o principal suspeito seja a Rússia. Desde o fim da União Soviética que os sistemas de controlo e segurança atómicos entraram em colapso na Rússia. O país tem entre quarenta mil e oitenta mil ogivas nucleares, mas a forma como essas armas são guardadas deixa qualquer pessoa arrepiada. Basta pensarmos que a inflação na Rússia chegou a atingir os dois mil por cento para percebermos como se tornou fácil subornar um cientista ou um militar em situação mais vulnerável. Aliás, eles alienaram armas ao desbarato logo que o sistema comunista acabou. Houve até um almirante que foi condenado por ter vendido sessenta e quatro navios da frota russa do Pacífico, incluindo dois porta-aviões, à índia e à Coreia do Sul! Quem nos garante a nós que os Russos não venderam também armas nucleares?"

"Se o tivessem feito", argumentou a professora Cosworth, "presumo que já se saberia."

O homem da CIA levantou-se do seu lugar e ligou o ecrã de plasma e o aparelho de DVD.

"Acha que sim? Então veja esta entrevista dada em 1997 pelo general Alexander Lebed, na altura conselheiro do presidente Bóris Yeltsin, ao programa 60 Minutes, da CBS."

Bellamy carregou num botão do aparelho de DVD, o ecrã iluminou-se e apareceu a figura do general russo sentado numa cadeira. Diante de Lebed encontrava-se o entrevistador

Steve Kroft. O texto introdutório, apresentado com a voz de Kroft, mencionava o problema do paradeiro de bombas nucleares soviéticas de uma quilotonelada com o tamanho de uma pasta de executivo. As vozes de Kroft e Lebed irromperam pelas colunas de som ligadas ao aparelho de DVD.

"Acredita que essas armas estão seguras e contabilizadas?"',
perguntou o entrevistador. 0

"De modo nenhum", retorquiu Lebed. "De modo nenhum."

"Seria fácil roubar uma delas?"

"Têm o tamanho de uma pequena pasta."

"E possível pôr uma numa pasta e sair com ela?"

"A própria bomba tem a forma de uma pasta. Na verdade, é uma pasta. E possível transportá-la. Mas também se pode pôr noutra pasta, se quisermos."

"Mas já é uma pasta."

"Sim."

"Eu poderia passear pelas ruas de Moscovo ou Washington ou Nova Iorque e as pessoas pensariam que eu estava a transportar uma pasta?"

"Sim, sem dúvida."

"É fácil detoná-la?"

Lebed reflectiu um instante.

"Bastariam vinte, trinta minutos."

"Mas não são precisos códigos secretos do Kremlin ou coisas do género?" "Não."

"O senhor está a dizer-me que há um número significativo destas bombas que desapareceram e que ninguém sabe onde estão?"

"Sim. Mais de uma centena." "Onde se encontram elas?"

"Algures na Georgia, algures na Ucrânia, algures nos países bálticos - quem sabe? Talvez algumas esteiam mesmo fora desses países. Basta uma pessoa para detonar esta arma nuclear - uma única."

"O senhor está a afirmar que estas armas já não se encontram sob o controlo militar russo..."

"Eu estou a afirmar que mais de cem armas de um total de duzentas e cinquenta não estão sob o controlo das forças armadas da Rússia. Não sei onde se encontram. Não sei se foram destruídas ou se foram guardadas ou se foram vendidas ou roubadas. Não sei."

Bellamy desligou o aparelho de DVD e a imagem no ecrã de plasma desfez-se.

"Penso que estas declarações são elucidativas sobre a dimensão do problema que temos em mãos", disse, reocupando o seu lugar. "Convém esclarecer que, depois desta entrevista do general Lebed, um porta-voz governamental russo declarou que essas armas nunca existiram e que as existentes foram destruídas." Sorriu com sarcasmo. "Uma pequena contradição, não vos parece? Primeiro dizem que essas armas nunca existiram e logo a seguir afirmam que elas já foram destruídas, o que significa que afinal sempre existiram."

Fez-se silêncio da Sala del Maggior Consiglio. Tomás tinha dificuldade em assimilar o que acabara de ouvir.

"Acha que essas armas desaparecidas caíram nas mãos de terroristas?", perguntou ele.

"É possível", assentiu Bellamy. "Mas o importante desta entrevista é que as palavras do conselheiro do presidente ilustram o colapso do sistema de segurança na Rússia. Se calhar as bombas nucleares em pastas de executivo não caíram nas mãos dos terroristas, mas outras bombas podem ter caído. Lembrem-se que o arsenal russo se situa algures entre as quarenta mil e as oitenta mil ogivas. Como podemos ter a certeza de que, com a corrupção lá existente, todas elas estão em segurança? E depois não é só a corrupção, é o laxismo também. Os inspectores americanos que foram visitar instalações nucleares russas em 2001 revelaram que, quando chegaram ao armazém onde as armas eram guardadas, encontraram a porta aberta!"

"Gott im Himmel!", murmurou um homem que até aí permanecera calado, obviamente alemão.

"Este problema é pois de extrema gravidade", insistiu Bellamy. "Acontece que as coisas entretanto parecem ter melhorado na Rússia e houve um forte regresso à disciplina. Por outro lado, é bom lembrarmo-nos de que as armas nucleares requerem manutenção, sob pena de não funcionarem. Além disso, muitas delas estão protegidas por ferrolhos electrónicos, o que dificulta consideravelmente as coisas. Não quer dizer que não haja risco de roubo. Esse risco mantém-se, claro, mas na nossa análise existem riscos ainda maiores."

"Maiores?", admirou-se a professora Cosworth. "Good Lord! Que riscos poderão ser maiores do que os terroristas roubarem uma... uma bomba atómica?"

A conversa foi interrompida por uma voz feminina proveniente da porta e que ressoou pela sala.

"Porque não os terroristas construírem, eles próprios, uma bomba nuclear?"

Todos os rostos sentados à mesa se voltaram na direcção da entrada, procurando identificar a recém-chegada.

"Rebecca!", exclamou Bellamy, aliviado. "Está atrasada!"

A caminhar em direcção à mesa com uma pasta de executivo negra na mão vinha uma rapariga de cabelo curto e tão loiro que parecia palha. Tinha uns grandes olhos azuis, luminosos e expressivos, e uns lábios suculentos e apetitosos como morangos. Vestia um pullover amarelo e jeans azul-claros, uma combinação a condizer na perfeição com os cabelos e os olhos.

Despindo-a com o olhar, Tomás reparou que o corpo dela se desenhava curvilíneo como uma viola, com seios pequenos mas arrebitados, e foi nesse instante que percebeu quem ela era.

"Peço desculpa", disse Rebecca, com o sotaque nasalado dos Americanos. "Fui retida pelo tráfego no Grande Canal." Era a brasa prometida por Bellamy.

O corpo de Ahmed balouçava para a frente e para trás, ao ritmo monocórdico das palavras que repetia sem cessar, uma ladainha a cujos sons se esforçava por se familiarizar.

"«Mas os infiéis desmentem a Hora»", entoou, recitando os mesmos versículos da sura 25 pela quinta vez consecutiva, numa tentativa de completar a memorização daquele capítulo do Alcorão. "«E para os que desmentem a Hora preparámos uma fogueira. Quando esta de um lugar distante os veja, ouvirão a sua fúria e o seu crepitar. Quando forem lançados num lugar estreito, dentro dela, ali mesmo pedirão a aniquilação. Responder-se-lhes-á...»"

Calou-se.

Ouviam-se vozes excitadas na casa. Inclinou-se em direcção à porta fechada do quarto, tentando destrinçar os sons que ela abafava. Vinham da sala, percebeu. Era a voz do pai. E da mãe. Estariam outra vez a discutir? Aquilo ia acabar mal, pensou com desânimo; dali a pouco o pai já estaria a espancar a mãe. Não se sentia com vontade de suportar mais uma

cena, mas no momento em que ia tapar os ouvidos apercebeu-se de outras vozes. Aguçou de novo a atenção. O que era aquilo? Ouviam-se... ouviam-se também os irmãos, estavam todos a falar com grande exaltação. Por Alá, o que estaria a acontecer?

Hesitou. Estava sentado no chão e tinha o Alcorão pousado num kursi, um suporte desdobrável de madeira que facilitava a leitura e, sobretudo, garantia que o Livro Sagrado ficava acima dos seus joelhos, uma posição adequadamente respeitosa. Mas o barulho perturbava-lhe a recitação, pelo que acabou por fechar o Alcorão e guardá-lo com cuidado na estante. Depois abriu a porta e esticou a cabeça lá para fora.

"O que se passa?"

A algazarra continuava e ninguém respondeu à sua pergunta. Intrigado, saiu para o corredor e foi para a sala. Viu a família a discutir com grande agitação e no meio estava o televisor ligado, mostrando um homem de gravata a falar.

"Que aconteceu?", perguntou de novo, a atenção já fixa no ecrã em busca de uma resposta.

"Não sabemos bem", devolveu o pai, sem tirar os olhos do televisor. "Houve problemas numa parada militar e parece que dispararam sobre o presidente."

"Qual presidente?"

"Qual é que havia de ser? Sadat, claro!" "Dispararam sobre Sadat? Porquê?"

"Sei lá, é isso que estamos a discutir. Eu acho que são rivalidades entre eles, o poder cria muitos inimigos. Mas o teu irmão pensa que foram os sionistas."

Ahmed apontou para o televisor.

"O que dizem na televisão?"

"Nada", devolveu o irmão mais velho com um encolher de ombros. "Dizem que o presidente foi para o hospital."

"Mais nada?"

"E que foi decretado o estado de emergência."

 

Depressa se tornou evidente que da televisão não viriam mais notícias. Mas toda a família mergulhara num estado de excitação febril e ninguém conseguia permanecer fechado em casa.

Apesar do calor que fervia lá fora, saíram todos para a rua e deram com o nariz nos vizinhos; toda a gente sentia a mesma coisa, ninguém era capaz de conter a agitação nervosa que se apossara de si. As conversas centravam-se obsessivamente no mesmo assunto: o que acontecera e quem o fizera. Uns diziam que era um golpe de estado dos generais, outros que aquilo era tudo inventado, os primeiros indignavam-se com os segundos, havia quem insistisse nos Israelitas e dissesse que o acordo de paz de Camp David havia sido uma emboscada; o facto é que a algazarra se transferira para a rua.

A mãe de Ahmed, que tinha ido inspeccionar um tacho que deixara ao lume, apareceu de repente à porta de casa, esbaforida.

"Depressa! Depressa! Venham ver!"

Foram todos a correr para casa, família e vizinhos, e as atenções fixaram-se de novo no ecrã. O homem engravatado desaparecera; em seu lugar surgiram imagens do Alcorão, com uma voz a recitar o Livro Sagrado. Ficaram paralisados, tentando digerir o significado daquilo. Por que motivo a televisão recitava o Alcorão?

"O rádio!", exclamou o senhor Barakah.

O pai de Ahmed foi apressadamente ao quarto buscar um pequeno receptor de ondas curtas. Voltou para a sala, pousou o aparelho sobre a mesa, ligou-o e sintonizou a estação que habitualmente ouvia. Uma voz melódica e melancólica irrompeu do rádio. Estava a dar um qualquer programa de música e os sons flutuavam como ondas, iam e vinham, tornavam-se mais límpidos num momento e logo a seguir mais distantes, pelo meio ouviam-se uns assobios, como era característico das recepções de onda curta.

"Que horas são?", quis saber o irmão mais velho de Ahmed.

O pai consultou o relógio. Faltavam quatro minutos para a hora certa.

"O noticiário é daqui a quatro minutos."

Aguardaram em volta do aparelho, a impaciência a rumi-nar-lhes no estômago. No televisor continuava a recitação do Alcorão; Ahmed identificou os versículos da sura 2. O programa musical da rádio, que até ali lhes parecera infindável, chegou entretanto ao fim e uma voz pausada e distante encheu a sala.

"Aqui Londres. Esta é a BBC. Estão a ouvir os serviços em língua árabe."

Seguiu-se uma pausa cheia de estática e os toques metálicos e imponentes do Big Ben romperam devagar o silêncio. A voz voltou.

"Morreu o presidente Anwar al-Sadat. O chefe de estado egípcio foi vitimado hoje por um atentado no Cairo. O ataque ainda não foi reivindicado, mas..."

 

Só na semana seguinte recomeçaram as aulas. A lei marcial decretada pelo vice-presidente Mubarak obrigou Ahmed e toda a família a ficarem em casa durante alguns dias, como aconteceu com a generalidade dos Egípcios. Reinava na altura a maior das confusões sobre os reais motivos do atentado, mas, dois dias depois, a televisão deu a conhecer a identidade dos assassinos.

"Quem são esses homens da Al-Jama'a?", perguntou Ahmed ao pai, ao almoço, depois de ouvirem o noticiário.

"Al-Jama'a al-Islamiyya", corrigiu o senhor Barakah, dando o nome completo do movimento. "São radicais."

"O que é isso?"

"O filho, tens cada pergunta!", retorquiu o pai com impaciência. "São muçulmanos que querem a aplicação da sharia."

"Uns malucos!", acrescentou a mãe, inclinada sobre a travessa para cortar uma fatia de carneiro. "Uns doidos!"

"Cala-te, mulher! Que sabes tu disso?"

"Sei que assim as coisas vão piorar..."

"Não vão nada!", sentenciou o marido, estendendo o prato na direcção da mulher para que ela o servisse de carne. "O Mubarak vai ter mão firme para lidar com esta gente, vais ver."

"E se não tiver?"

"Se não tiver, olha... isto pode realmente acabar mal."

"Matar o presidente!", insistiu a mãe, olhando de relance para cima como se consultasse Alá. "Onde já se viu isto, meu Deus? Onde já se viu isto? Queira o Misericordioso que tudo se componha! Inch'Allah!"

"Devem pensar que estamos na América!", exclamou o pai, preparando-se para meter o primeiro pedaço de carneiro na boca. "Lá é que se matam presidentes..."

"O Sadat não devia ter feito a paz com os sionistas", opinou o filho mais velho, que até ali permanecera calado. "Isso foi mal feito!"

"Lá isso é verdade", assentiu o senhor Barakah, já a mastigar. "O presidente devia ter tido mais cuidado. Foi um desrespeito para com a umma e para com os mártires das guerras contra os sionistas. Isso é verdade."

"O Sadat estava a pedi-las...", insistiu o mais velho. "Sabem o que disse um dos homens que disparou sobre ele? «Matei o faraó!»"

O pai riu-se.

"Faraó? E boa, essa!"

A conversa prosseguia animada, mas Ahmed já não prestava atenção. Tinha a mente mergulhada num turbilhão, tão pensativo ficara quando o pai lhe explicara o que eram radicais. São muçulmanos que querem a aplicação da sharia? E qual o mal disso? A sharia é a lei de Deus e está ordenada por Alá no Livro Sagrado. Se a Al-Jama'a quer a aplicação da lei de Deus, não será isso porventura justo? A cabeça de Ahmed enchia-se de interrogações e perplexidade, mas, considerando o clima de medo que se instalara após a morte do presidente e a purga entretanto iniciada pelo vice-presidente, sabia que aquele era o pior momento possível para começar a fazer perguntas em voz alta.

O melhor era permanecer calado.

 

A madrassa reabriu portas na semana seguinte e Ahmed compareceu às aulas logo no primeiro dia. Tinha a noção de que não conseguiria calar-se indefinidamente; precisava de saber. A mente fervilhava-lhe ainda de dúvidas e necessitava de respostas urgentes. Talvez as encontrasse na aula de Religião, pensou, e foi por isso com ansiedade que aguardou a hora da lição.

Quando o professor Ayman apareceu, descobriu-lhe no rosto uma expressão estranha; era como se misturasse alegria com apreensão; num momento sorria, no seguinte quase espreitava por cima do ombro. Havia de facto um clima de medo que perpassava por toda a gente e pelos vistos o professor não era excepção. A tensão tornou-se palpável, mas Ahmed acreditava que a aula de Religião lhe mostraria caminhos.

Não foi isso, porém, o que aconteceu. A aula revelou-se nesse dia uma enorme decepção; em vez de falar do que lhe interessava, o professor Ayman limitou-se a pôr os alunos a recitar o Alcorão em coro.

A recitação do Livro Sagrado era uma coisa mufto belã, repreendeu-se de imediato Ahmed, subitamente mortificado com o seu desapontamento. Como podia ele estar decepcionado por recitar o Alcorão? Aquelas eram as palavras de Alá As-Samad, o Eterno, e qualquer oportunidade para as proferir constituía uma grande honra e era assim que tinha de pensar sempre!

 

Momentos após a lição terminar e depois de toda a gente sair da sala, deu consigo a caminhar no encalço do professor. Não o planeara, mas o facto é que o estava a seguir.

Ayman percorria o corredor com a sua longa jalabiyya branca a roçar o chão e o rapaz vinha em silêncio dois metros atrás. Muito atento a tudo em seu redor, no entanto, o professor depressa se apercebeu de que estava a ser seguido e parou de repente para encarar Ahmed.

"O que é?", perguntou com inesperada rispidez. "Porque vens atrás de mim?"

O rapaz quase se sobressaltou com o tom agressivo da interpelação e arregalou os olhos.

"Eu... eu preciso de falar consigo, senhor professor."

Ayman olhou de imediato em redor, como se procurasse uma ameaça escondida.

"Porquê? Passa-se alguma coisa?"

"Não, senhor professor. Sou eu que estou com umas... umas dúvidas."

"Dúvidas? Que dúvidas?"

"Dúvidas sobre o que diz o Alcorão."

O professor fez um ar interrogativo.

"Ora essa!", exclamou com admiração. "As coisas que Alá diz no Santo Alcorão são muito claras. Basta ler o que lá está e obedecer às Suas ordens."

"Pois, senhor professor, mas o mullab da minha mesquita está a dizer-me coisas diferentes."

"Que coisas?"

"Sobre os kafirun."

O corpo de Ayman descontraiu-se visivelmente. Fez um gesto rápido com a mão para que o aluno o seguisse.

"Anda daí", ordenou, recomeçando a avançar pelo corredor. "Vamos ali ao meu gabinete falar."

De novo a caminhar atrás do docente, Ahmed sentiu uma beatífica serenidade a envolvê-lo. O professor Ayman sabia, tranquilizou-se enquanto o via deslizar na sua jalabiyya. Ele esclarecê-lo-ia quanto à verdade.

A verdade sobre os kafirun.

 

Frank Bellamy indicou a loira que acabara de chegar.

"Apresento-vos Rebecca Scott, uma operacional da CIA que se encontra agora adstrita à NEST e que se junta à nossa pequena reunião."

Seguiu-se um coro de "hello" e "good afternoon" com muitos acenos de cabeça e sorrisos; a recém-chegada era realmente vistosa e todos os olhares incidiram nela. A loira sentou-se ao lado de Bellamy e pousou a sua mala de executivo aos pés.

"A especialidade de miss Scott", continuou o orador, "está relacionada com a montagem e desmontagem de armas nucleares. Isto quer dizer que, se houver uma crise, ela é uma das pessoas que poderão ser chamadas de emergência para neutralizar uma bomba atómica. Além disso, miss Scott tem experiência de combate no Afeganistão." Fixou a atenção nela. "Olhando para este rosto bonito ficamos com a impressão de que estamos perante um anjo, não acham? Mas lembrem-se, meus caros: os dentes dela são feitos de aço!"

O grupo riu-se, embora ninguém tivesse a certeza de que se tratava de uma piada. Com modos muito profissionais, Rebecca endireitou-se na cadeira e enfrentou a mesa.

"Muito obrigado, mister Bellamy", começou ela por dizer. "É um prazer estar aqui convosco. Segundo me pareceu, do que escutei ao entrar aqui na sala, vocês já analisaram as possibilidades de os terroristas adquirirem uma bomba nuclear intacta."

"Exacto", confirmou Bellamy. "íamos agora ponderar os cenários ainda mais prováveis." Rebecca Scott assentiu.

"Bem, mais provável do que roubarem uma arma nuclear é os próprios terroristas construírem uma bomba dessas. É esse, aliás, o cenário mais preocupante. As probabilidades de se verificar são incrivelmente elevadas."

As pessoas à mesa carregaram as sobrancelhas, surpreendidas e intrigadas.

"Isso é possível?", quis saber Tomás, sem perder tempo a fazer-se notar pela beldade que iluminava a sala. "Repare que estamos a falar de uma bomba nuclear..."

"E depois?"

"Bem... suponho que não se construa uma bomba nuclear assim do pé para a mão." Rebecca ergueu dois dedos. "Bastam dois dias", disse. "Ou menos." "O quê?"

"Construir uma bomba nuclear é facílimo. Sublinhe a palavra facílimo, por favor. A única dificuldade é mesmo arranjar material físsil. Se um grupo terrorista tiver esse material na sua posse e contar com um engenheiro minimamente competente, o resto é uma brincadeira de crianças."

"Está a falar a sério?"

"Não tenha dúvidas! A maior parte das pessoas pensa que para construir uma bomba nuclear é necessário um mega-projecto com instalações e recursos gigantescos, como oProjecto Manhattan, por exemplo. Nada mais errado. As instruções sobre como se monta uma bomba destas estão divulgadas na Internet e em vários livros técnicos disponíveis em qualquer boa biblioteca. É só ler."

"Desculpe, mas não pode ser assim tão simples..."

"Há algumas dificuldades, claro", reconheceu ela. "Mas, no essencial, a construção de uma bomba nuclear é realmente simples. Para que tenham uma noção, deixem-me explicar--vos o seguinte: existem dois tipos de bombas nucleares. Uma é a de plutónio, preferida pelas forças armadas por ser altamente físsil, o que permite provocar uma explosão com pequeníssimas quantidades, tornando-se portanto miniaturizável."

"Como as pastas de executivo russas."

"Isso mesmo. A bomba de Nagasáqui, por exemplo, era uma bomba de plutónio. Mas um engenho destes levanta alguns problemas delicados. O primeiro é a sua construção. A bomba de plutónio detona por implosão, o que requer uma engenharia complexa e muito minuciosa de simetria explosiva. Além do mais, o plutónio é de difícil manuseamento por ser altamente radioactivo. Basta respirarmos quantidades ínfimas deste elemento para morrermos."

"Eu julgava que tinha dito que a construção de uma arma nuclear era uma brincadeira de crianças...", observou Tomás.

"E é", assegurou Rebecca. "Mas nenhum grupo terrorista irá para a bomba de plutónio, devido aos problemas que acabei de enumerar. A opção será sempre a bomba de urânio, do género da utilizada em Hiroxima. Trata-se de um engenho que usa urânio altamente enriquecido, contendo mais de noventa por cento do isótopo físsil U-235. Se estivermos na posse de urânio altamente enriquecido com esse isótopo, podemos montar uma bomba atómica em qualquer lado - até numa garagem."

"Está a brincar...", disse a professora Cosworth.

"Infelizmente não. Tendo urânio altamente enriquecido, a construção do engenho é de uma simplicidade infantil."

"Sim, mas o manuseamento do urânio altamente enriquecido há-de requerer cuidados especiais", argumentou Tomás. "Não nos podemos esquecer de que estamos a lidar com material radioactivo. Que eu saiba isso não se faz numa... numa garagem!"

"Basta uma garagem", repetiu Rebecca, categórica. "Reparem, o que é exactamente o urânio altamente enriquecido? Em forma natural, o urânio é constituído por três isótopos: U-234, que é residual, U-235 e U-238. Para efeitos militares, apenas interessa o U-235. O problema é que, quando se extrai o urânio da terra, a presença deste isótopo é inferior a um por cento. A esmagadora maioria do urânio em estado natural é constituída pelo isótopo U-238. E preciso, pois, processar o urânio em centrifugadoras de modo a eliminar o U-238 e enriquecer a proporção do isótopo U-235. Estão a perceber?"

"E isso o enriquecimento?"

"Exacto. Procura-se enriquecer o urânio com o isótopo U-235. E essa é a única parte complexa da produção de uma bomba atómica. O urânio extraído da terra é esmagado e molhado em ácido sulfúrico, de modo que só sobreviva o urânio puro. Esse urânio puro é secado e filtrado, transformando-se num pó chamado yellowcake. Este pó é então submetido a um gás a temperaturas elevadas e convertido assim num composto gasoso que depois é enviado para máquinas de rotação supersônica chamadas centrifugadoras. À medida que as centrifugadoras rodam, os diferentes pesos dos isótopos levam-nos a separarem-se, com o mais pesado, o U-238, atirado para o exterior das centrifugadoras e o mais leve, o U-235, a fixar-se mais perto do eixo. O gás vai passando de centrifugadora em centrifugadora, extraindo a cada passo mais U-235. Este processo requer cerca de mil e quinhentas centrifugadoras a trabalharem em cascata durante um ano até se conseguir apurar U-235 suficiente para cruzar o ppnto arítico de detonação. Nessa altura o gás é convertido num pó metálico, chamado óxido de urânio, e finalmente num metal cinzento, de preferência com a forma de um ovo. Ao tocarmos nele verificamos que é frio e seco. Bastam..."

"Ao tocarmos nele?", insistiu Tomás. "Mas esse urânio não é radioactivo?"

"Claro que é radioactivo", confirmou ela. "Mas tem baixa toxicidade. O urânio altamente enriquecido é tão tóxico como... sei lá, como o chumbo, por exemplo. Se uma pessoa respirar ou engolir traços deste elemento irá sentir-se mal disposta, claro, mas apenas isso. O urânio altamente enriquecido é moderadamente radioactivo, o que significa que pode ser manuseado sem luvas e até transportado numa simples mochila. Com um pouco de protecção nem sequer é assinalado pelos detectores de radiação, vejam só!"

"Good beavensV exclamou a professora Cosworth, horrorizada.

"É por isso que uma bomba atómica de urânio é tão interessante para os terroristas. Podemos até dormir com uma pequena quantidade deste material debaixo da almofada!" Ergueu o indicador. "Mas, atenção, há alguns cuidados que é preciso ter. O urânio altamente enriquecido não pode ser amontoado a partir de determinadas quantidades, uma vez que ocasionalmente os átomos de U-235 dividem-se de forma espontânea, disparando neutrões que, a partir de uma massa com urna certa dimensão, poderiam dividir um número de átomos suficiente para provocar uma reacção em cadeia e uma consequente explosão nuclear. O quê eu quero dizer é que há um valor crítico de massa de urânio enriquecido que não pode ser cruzado. Se estivermos na posse deste material, temos de ter o cuidado de o manter separado em pequenas quantidades subcríticas, perceberam?"

"No caso do urânio altamente enriquecido, qual é o valor crítico?", quis saber Tomás, infinitamente curioso. "Como é que eu sei que a quantidade de material na minha posse é sub-crítica ou crítica?"

"A massa crítica de urânio é inversamente proporcional ao nível de enriquecimento. O nível mais baixo de enriquecimento necessário para desencadear uma reacção nuclear é vinte por cento. Nesse caso, teria de se acumular quase uma tonelada de urânio para provocar uma explosão nuclear espontânea. Na outra extremidade do espectro está o enriquecimento a noventa por cento ou mais. Neste caso bastam pequenas quantidades."

"Quanto?"

"Uns cinquenta quilos." Fez um gesto com as mãos, indicando o volume. "Fica assim com o tamanho de uma bola de futebol."

"Está a dizer-nos que, se eu juntar cinquenta quilos de urânio enriquecido a noventa por cento, posso gerar uma explosão nuclear espontânea?"

"Sim."

"Caramba!"

"É tão simples como isso!", exclamou Rebecca, balouçando a cabeça afirmativamente. "Daí que a construção de uma bomba destas seja tão fácil." Pegou numa caneta e pôs-se a rabiscar um desenho numa folha A4. "Basta construir um tubo... pôr vinte e cinco quilos de urânio altamente enriquecido numa extremidade, a que chamaremos bala... pôr outros vinte e cin

co quilos na outra extremidade, a que chamaremos alvo... pôr um pouco de material propulsor atrás da bala... disparar a bala em direcção ao alvo... as duas quantidades subcríticas colidem, tornando-se críticas... e bang, dá-se a reacção nuclear!"

Exibiu o desenho diante dos rostos embasbacados à mesa.

"Eu avisei que a construção de uma bomba nuclear era simples, não avisei?", observou Rebecca, mantendo o desenho virado para o seu auditório. "Quando duas massas subcríticas de urânio altamente enriquecido se juntam e cruzam o limiar crítico dos cinquenta quilos, dá-se a detonação. A bomba de Hiroxima era assim." Guardou o desenho. "E vocês ainda não sabem o pior!"

"Há pior?"

"Em última instância, os terroristas podem nem sequer construir este engenho. Basta-lhes pôr vinte e cinco quilos de urânio altamente enriquecido no chão, subir a um primeiro andar e lançar das alturas os outros vinte e cinco quilos de urânio altamente enriquecido sobre o material que deixaram no chão. Quando as duas partes subcríticas colidirem, e apesar de não estarem dentro de um engenho, podem fazer cruzar o limiar crítico e desencadear a explosão nuclear." Encolheu os ombros. "Brincadeira de crianças."

O alemão sentado à mesa voltou a pôr as mãos na cabeça, estarrecido. "Mein Gott!"

 

A reunião terminou meia hora mais tarde, com a distribuição de documentos e literatura para consulta posterior. Tomás folheou o material e viu esquemas e equações a multiplicarem--se na documentação. Teria talvez dificuldade em seguir aqueles raciocínios, mas sabia que, para um engenheiro, tudo aquilo era cristalino.

"Tom!", chamou uma voz.

O português levantou a cabeça e viu Frank Bellamy ao lado da loira, ambos a olharem para ele. "Sim?"

"Venha cá. Deixe-me apresentar-lhe a Rebecca Scott."

Tomás ergueu-se e estendeu-lhe a mão.

"How do you do?", cumprimentou-a Tomás no seu melhor inglês britânico.

A loira tinha uma palma da mão macia e quente.

"Hi, Tom", devolveu Rebecca no seu sotaque americano. "Mister Bellamy falou-me muito de si."

"Espero que bem."

A mulher riu-se.

"Disse-me que aqui o Palazzo Ducale de Veneza era o sítio perfeito para nos conhecermos." "Ai sim? Porquê?"

Rebecca encolheu os ombros e olhou para o homem da CIA, endereçando-lhe a pergunta.

"Então você não sabe quem esteve aqui preso, Tomás?", perguntou Bellamy.

"Aqui neste palácio? Não faço a mínima ideia."

"Foi o seu colega italiano." Indicou um ponto para além da grande pintura de Tintoretto que adornava a parede.

"Esteve ali nas prisões e tentou fugir por um buraco no tecto."

"Não sei de quem está a falar."

"Ora, do seu colega italiano, já lhe disse." Bellamy espreitou Rebecca pelo canto do olho. "Casanova."

A loira soltou uma gargalhada, divertida com a observação e sobretudo com a cara embasbacada de Tomás. .

"Oh, lá vem você com as suas piadinhas!", observou o historiador com acidez, acusando o toque.

Bellamy manteve a atenção fixa em Rebecca.

"Tenha cuidado com este português", avisou. "Tem ar de sonso mas é um predador de fêmeas."

"Não ligue", pediu Tomás, tentando recuperar do embaraço. "Está há muito tempo a trabalhar na NEST?"

A melhor táctica era mudar de assunto.

"Há já algum tempo", confirmou ela. "Fui colocada em Madrid e coordeno as operações na Península Ibérica."

"Ah, bom! Isso explica que mister Bellamy nos tenha apresentado."

O homem da CIA aproveitou para meter a colher.

"Conto que a vossa colaboração seja profícua!"

O historiador lançou-lhe um olhar de repreensão.

"Mister Bellamy, já lhe disse que não tenho a certeza de vir trabalhar para a NEST..."

"Come on, Tom. Isto é só uma colaboração. Pagamos-lhe bem e você nem terá grande trabalho, vai ver."

"Não sei, não. Tenho de pensar nisso."

"Não me diga que não quer trabalhar para mim...", disse Rebecca, fazendo beicinho e pestanejando muito.

O português soltou uma gargalhada.

"Caramba, vocês usam todos os argumentos!"

"Vamos lá, Tom", incitou Bellamy. "Precisamos de uma decisão! Como é? Junta-se a nós ou não?"

Os olhos do historiador dançaram entre Bellamy e Rebecca, hesitantes.

"Garante-me que isto não me ocupará muito tempo?"

"Claro que não! O que queremos de si não é quantidade de trabalho, é qualidade. Como já lhe expliquei, há um e-mail da Al-Qaeda que precisa de ser decifrado e estamos convencidos que só você o pode fazer."

Realmente, pensou Tomás, o que tinha a perder? Iria fazer trabalho de consultoria e ser bem pago. Qual era a dúvida? A decisão estava tomada.

"Muito bem! Contem comigo."

Os dois americanos sorriram e apertaram-lhe as mãos.

"Atta boy!", exclamou Bellamy. Consultou o relógio pela enésima vez e olhou de seguida para Rebecca. "Oiça, eu agora tenho de sair para uma outra reunião. Uma vez que vocês vão trabalhar juntos, presumo que tenham muito que falar..."

"Sim, mister Bellamy", assentiu ela. "Preciso mesmo de conversar aqui com o Tom. Vou só ali ao quarto de banho e já volto."

A americana afastou-se, deixando os dois homens atrás dela a apreciarem-lhe as formas femininas.

"Uma pin-up, hem?", observou o homem da CIA. "Conhe-cendo-o como conheço, aposto que ela foi o argumento crucial na sua decisão de se juntar a nós."

Sem tirar os olhos da mulher que dobrava a esquina, Tomás riu-se.

"O que o faz pensar isso?"

Rebecca saiu da sala e Frank Bellamy suspirou. Voltou-se para o português, os olhos azuis a chisparem de frieza. "Você é um fucking tarado!"

 

A salinha era pequena e escura, de tal modo despojada de decoração que quase tinha um aspecto ascético, à semelhança do seu circunspecto ocupante. As paredes sustentavam posters com fotografias de santuários sagrados; num lado via-se uma imensa multidão em torno da Caaba de Meca durante o Hadj, no outro uma imagem da mesquita de Al-Aqsa no topo da colina de Al-Quds.

O professor Ayman trancou a porta à chave e convidou o aluno a sentar-se diante dele.

"Então?", perguntou. "O que se passa? Que dúvidas são essas que te põem a seguir os meus passos como uma sombra?"

Agora que ali estava, Ahmed quase se envergonhou por ter confessado que tinha dúvidas. Como era possível alimentar dúvidas sobre o que Alá dizia? As interrogações varreram-se--lhe por momentos da mente e fez um esforço para se lembrar da conversa que tivera semanas antes com o xeque Saad.

"O mullah da minha mesquita, senhor professor, diz que temos de perdoar e contemporizar com os kafirun Adeptos do Livro, como está na sura 2, e que os cristãos são os mais próximos dos muçulmanos, como está na sura 5."

O rapaz calou-se um instante, à espera da reacção do professor.

"E tu? O que achas?"

"É verdade que Alá diz isso no Livro Sagrado", reconheceu Ahmed. "Mas Alá também diz outras coisas. Estou um pouco confuso."

"Como se chama esse mullah}"

"É o xeque Saad."

O professor Ayman pegou num bloco de notas e escrevinhou o nome. A seguir guardou o bloco e encarou de novo o aluno, desta feita para assumir as rédeas da conversa.

"Diz-me, rapaz, onde está escrita a lei islâmica?"

"No Alcorão, senhor professor."

"E o que fazemos quando aparece uma situação nova que não foi prevista pelo Santo Alcorão?"

O pupilo hesitou; nunca havia pensado em tal possibilidade.

"Há situações que não estão previstas no Livro Sagrado?", admirou-se, uma expressão interrogativa na face.

"Claro que há. Como fazes para as resolver?"

O olhar de Ahmed tornou-se opaco; não tinha resposta para esta pergunta.

"Julguei que estava tudo previsto no Alcorão, senhor professor."

"Pois não está", replicou Ayman.

A questão deixou Ahmed baralhado. A palavra de Alá estava gravada no Alcorão. Seria possível encontrá-la em qualquer outra parte?

"Então... então está onde?"

"Recuemos ao tempo do Profeta para percebermos como nasceu a sbaria", convidou o professor, indicando o poster da Caaba de Meca como se a fotografia os transportasse para aquela época remota. "Sempre que os crentes tinham uma disputa e não sabiam qual a vontade de Deus, a solução era perguntar a Maomé, que a paz esteja com ele. O apóstolo de Deus recebia então uma revelação de Alá e dava a resposta. Mas às vezes Alá não se pronunciava. Quando isso acontecia, o Profeta decidia por ele próprio. Na sura 3, versículo 32, Alá diz: «Obedecei a Deus e ao Enviado.» A mesma exortação vem noutros pontos do Santo Alcorão, ou não vem?"

"Vem, senhor professor. E preciso obedecer sempre a Deus e ao Profeta."

"Pois é assim que se conhece a lei de Alá: através do Santo Alcorão. E se por acaso aparecer uma situação para a qual o Livro Sagrado não tem resposta, teremos de perguntar ao Profeta."

Ahmed ficou um instante a ponderar o que o professor acabava de lhe dizer. As leis estão no Alcorão ou nas palavras do Profeta. Quando há dúvidas, pergunta-se a Maomé. Remexeu-se, mais por perplexidade do que por desconforto.

"Mas, senhor professor, o Profeta já morreu!", argumentou, abrindo os braços como quem exibe uma evidência. "O que fazemos agora quando aparece alguma coisa que não está esclarecida no Livro Sagrado?"

"Ah!", exclamou Ayman, erguendo o dedo peremptório. "Boa pergunta! Esse foi justamente o problema que os primeiros crentes enfrentaram quando o apóstolo de Deus foi para o Paraíso, que Alá o tenha para sempre consigo."

"O que fizeram eles para o resolver?"

"Como sabes, a autoridade passou para o sucessor do Profeta, não é verdade? Quem ficou a mandar foi o primeiro califa, Abu Bakr. Sempre que havia uma disputa, as pessoas recorriam a Abu Bakr ou a alguns dos outros companheiros de Maomé, todos eles testemunhas de anteriores decisões do apóstolo de Deus, como a sua segunda mulher, Aisha, e ainda Ma'az ibn Jabel, Abu Hurairah, Abu Obayda ou Omar ibn Al-Khattab. Os companheiros do Profeta actuavam como juízes e consultavam o Santo Alcorão. Quando o Livro Sagrado não dava resposta, aplicava-se o que Alá estabelece na sura 33, versículo 21: «No Enviado tendes um formoso exemplo», e na sura 4, versículo 80: «Quem obedece ao Enviado obedece a Deus.» Ou seja, o Profeta, que a paz esteja com ele, é um exemplo para ser seguido. Daí que procurassem orientação em episódios da vida de Maomé, que a paz esteja com ele."

"São os hadith!", exclamou Ahmed, os olhos iluminando--se. "São os hadith! E por isso que os mullahs nas mesquitas estão sempre a falar nos hadith e na sunnah..."

"Nem mais!", confirmou o professor. "Mas não se diz os hadith. E um hadith e vários ahadith. Plural é ahadith, singular é hadith.'"

"Desculpe."

"Os ahadith relatam histórias de Maomé, que a paz esteja com ele, estabelecendo desse modo a sua sunnah, ou exemplo. Os episódios da vida do Profeta, que a paz esteja com ele, servem assim de fonte legal, só suplantados pelo Santo Alcorão." Alterou o tom da voz, como se fizesse um aparte. "Aliás, muitos versículos do Livro Sagrado só se entendem se conhecermos as circunstâncias em que apareceram. Essas circunstâncias estão relatadas justamente nos ahadith."

"Mas, senhor professor, como sabemos se esses episódios narrados nos ahadith ocorreram mesmo? O meu mullah disse-me que há muitos ahadith falsificados..."

"E disse bem", confirmou Ayman. "Há imensos relatos fraudulentos de episódios da vida de Maomé, que a paz esteja com ele. Foi por isso que, duzentos anos depois da morte do Profeta, que a paz esteja com ele, alguns estudiosos se puseram a coleccionar ahadith e a verificar a forma como foram transmitidos ao longo do tempo, de modo a garantir a sua fiabilidade. A colecção mais importante é a do imã Al-Bakhari, que analisou trezentos mil ahadith e determinou que dois mil eram autênticos, uma vez que conseguiu seguir-lhes a pista até ao próprio mensageiro de Alá. Esses ahadith estão publicados numa colecção chamada Sahih Bukhari. Também o imã Muslim fez uma colecção muito credível, conhecida por Sahih Muslim.'"

"Portanto, qualquer hadith que esteja nessas colecções é considerado verdadeiro?"

"Sem dúvida", assegurou o professor. "Mas deixa-me voltar à questão de como se formam as leis islâmicas, porque isso é importante. Imagina agora que era preciso pronunciar uma decisão legal... uma fatwa. O que se fazia? Se o Santo Alcorão era omisso quanto ao assunto em apreço, ia-se ter com Aisha e ela lembrava-se de uma sunnah, um exemplo da vida de Maomé, que a paz esteja com ele, que se adaptava à circunstância em questão. Mas imagina que não lhe ocorria nenhum episódio, não encontrava nenhum hadith adequado. O que fazia ela? Dizia para a pessoa ir falar com Abu Obayda, por exemplo. Talvez ele se lembrasse de algum hadith apropriado. Se Obayda não se lembrasse, remetia a pessoa para Abu Bakr."

"E se o califa também não tivesse resposta?"

"Bom, nesse caso reunia um conselho e apresentava a questão, perguntando se alguém se lembrava de alguma coisa na vida de Maomé, que a paz esteja com ele, que resolvesse o problema. Se ninguém se lembrasse, então o conselho pronunciava uma nova decisão, mas sempre inspirada no espírito do Santo Alcorão ou da sunnah." "Isso não é uma ijma'ah?"

"Sim, essas decisões são as ijma'ah. Portanto, a fonte superior do islão é o Santo Alcorão. Quando o Livro Sagrado não tem resposta, vamos aos ahadith que contam episódios da vida do Profeta, que a paz esteja com ele, e extraímos uma sunnah, um exemplo apropriado ao problema. Quando os ahadith não têm resposta, os sábios emitem uma ijma'ah inspirada no Santo Alcorão ou na sunnah."

"Mas isso era no tempo em que ainda viviam pessoas que conheceram o Profeta. Como se fazem hoje as ijma'ah?"

"Da mesma maneira, com um conselho de sábios", retorquiu Ayman. "Grande parte das ijma'ah é actualmente pronunciada pelo Conselho Islâmico para a Pesquisa, que se reúne aqui no Cairo, na Universidade Al-Azhar."

"A nossa universidade?"

"Sim, a nossa. Al-Azhar é a mais prestigiada universidade do islão, não sabias?"

"Então não havia de saber?", exclamou Ahmed, subitamente orgulhoso. "E nós pertencemos a ela..."

"A nossa madrassa pertence a Al-Azhar, sim."

O aluno manteve por momentos um sorriso desenhado no rosto, mas logo uma interrogação o assaltou.

"Tenho uma dúvida, senhor professor: como podemos ter a certeza de que as decisões desses sábios são todas acertadas?"

"Pois, esse é um problema", reconheceu o professor Ayman, o olhar de repente toldado. "O Conselho Islâmico para a Pesquisa está sob influência do governo e as suas ijma'ah tendem a ser feitas para agradar ao governo, não a Alá." Abanou a cabeça. "Isso não pode ser. Eu acho que a umma não pode confiar nestes sábios que só dizem o que é conveniente, não o que é verdadeiro. Há outros sábios cujas ijma'ah são mais fiéis ao Santo Alcorão ou à sunnah." "Quem?"

"O grande mufti da Arábia Saudita, por exemplo. Ou a Escola de Lei Islâmica do Qatar."

Fez-se silêncio. O eterno zunir das moscas, ;até aí» mero ruído de fundo, tornou-se dominante, acompanhado pelo som abafado de vozes e passos no corredor, para além da porta trancada.

Ahmed remexeu-se no seu lugar.

"Senhor professor, ainda não percebi bem. Permite-me que lhe faça uma pergunta?" "Claro."

O rapaz calou-se um instante, considerando a melhor maneira de reformular a questão.

"Não entendo o que tem isto a ver com o problema dos kafirun", disse, retomando a questão que ali o levara. "O mullah da minha mesquita diz que os cristãos são os mais próximos de nós e que devemos perdoar e contemporizar. Isso está de facto dito por Alá no Alcorão. Mas, ao mesmo tempo, Alá diz outras coisas no Livro Sagrado. Diz que não podemos ser amigos dos kafirun judeus e cristãos. Diz que devemos matar os kafirun até que a perseguição pare e eles se convertam e deixem de ser kafirun. Diz que devemos preparar todas as espécies de emboscadas aos idólatras e matá-los. Afinal onde está a verdade?"

"Está em tudo o que te disse."

O aluno sacudiu a cabeça, inconformado.

"Desculpe, mas continuo a não entender. O que têm estas coisas de que o senhor professor falou a ver com o problema dos kafirun?"

"Têm tudo. Tudo. O Santo Alcorão e os ahadith contêm uma resposta clara para o problema dos kafirun." "Qual resposta? Qual?"

O professor acariciou distraidamente o queixo, passando os dedos devagar por entre os pelos negros e levemente encaracolados da barba farfalhuda.

"Já ouviste falar na nasikh?"

"Sim, claro. O meu mullab mencionou isso numa lição, aí há um ano. Porquê?" "O que é a nasikh?"

"Bem... é a revelação progressiva do Alcorão." "Sim, mas o que quer isso dizer?"

Ahmed mordeu o lábio. O xeque Saad já tinha de facto abordado aquele assunto, mas fora uma coisa de tal modo breve que o significado do conceito não ficara firme na sua mente.

"Não sei."

O professor sorriu.

"Nasikh é a chave para as aparentes contradições do Alcorão. Na verdade não há contradições nenhumas. O Livro Sagrado é perfeito. Nasikh significa que Alá decidiu, na Sua imensa sabedoria, revelar progressivamente o Santo Alcorão. Podia ter revelado tudo de uma vez, mas Deus, que tudo sabe e tudo planeia, optou por fazê-lo por fases, através do sistema de revelação progressiva, ou nasikh. Isso quer dizer que as novas revelações cancelam as anteriores. Compreendeste?"

O rapaz fez um ar intrigado.

"Hmm... sim."

Pelo tom hesitante da resposta, o professor Ayman percebeu que aquele "sim" significava na realidade um "não" encapotado.

"Já vi que não compreendeste nada", observou. "Mas eu explico-te melhor. Antes de Meca, para que direcção o Santo Alcorão mandava os crentes rezarem?"

"Al-Quds."

"Exactamente! Primeiro foi mandado aos crentes que rezassem na direcção de Al-Quds e depois na direcção de Meca. Parece haver aqui uma contradição. Afinal, qual-a ordeTn que é válida?"

"Ora, a segunda."

"Isso é nasikh, ou ab-rogação. Através do Santo Alcorão, Alá mandou primeiro rezar na direcção de Al-Quds e depois na de Meca. Quando há contradição aparente, aplica-se o princípio da revelação progressiva. As novas revelações cancelam as anteriores. A ordem de rezar na direcção de Meca cancelou a anterior. O mesmo acontece com o álcool, por exemplo. Primeiro o álcool era permitido em todas as circunstâncias, depois passou a ser proibido só durante a oração e mais tarde foi proibido em qualquer circunstância. Qual a ordem que é válida?"

"A última, claro."

"Nasikb! As revelações anteriores são canceladas pelas novas. É isso a ab-rogação. Podemos continuar a ler os versículos cancelados no Santo Alcorão, claro, mas já não são válidos. Compreendeste?"

"Sim", retorquiu o aluno com a convicção de quem finalmente entendera.

"Agora é preciso que percebas mais outra coisa", disse. "A revelação progressiva divide-se em dois períodos fundamentais: o de Meca e o de Medina. O primeiro período é o de Meca, altura em que o Profeta, que a paz esteja com ele, nunca falou em guerras e defendeu a tolerância e o perdão para com os Adeptos do Livro. Neste primeiro período de treze anos, ele limitou-se a pregar e a rezar e a meditar. O único conflito que teve foi com a adoração dos ídolos. Mas depois o Profeta, que a paz esteja com ele, fugiu para Medina e tudo mudou. Neste segundo período ele quase só falou em guerras e passou a pregar o islão com a espada na mão. Comandou pessoalmente os crentes em vinte e seis batalhas, ordenou a morte de pessoas, regozijou-se quando lhe mostraram as cabeças decapitadas dos seus inimigos e combateu os Adeptos do Livro. Agora repara: quando começou a era islâmica?" "Foi com a Hégira."

"Que foi justamente a fuga do Profeta, que a paz esteja com ele, para Medina. Isso quer dizer que a fase de Medina é que é a do verdadeiro islão, não a fase de Meca. Se fosse a de Meca, a era islâmica teria começado com a primeira revelação. Mas não. A era islâmica só começou quando Maomé, que a paz esteja com ele, foi para Medina; só se iniciou quando o Enviado de Deus, que a paz esteja com ele, começou a pregar a guerra e a intolerância para com os Adeptos do Livro. Percebeste?"

"Sim."

"E eu pergunto-te agora: em que fase da revelação progressiva do islão está dito por Alá no Santo Alcorão que, em relação aos judeus e aos cristãos, devemos perdoar e contemporizar?"

"Na fase de Meca."

"E em que fase está dito que devemos emboscar e matar os idólatras?"

"Na de Medina, claro."

"À luz do princípio de nasikh, o que se deve concluir quanto a essa aparente contradição?"

"A fase de Medina é posterior à fase de Meca", constatou Ahmed. "Logo, a revelação que está na sura 9 cancelou a da

sura 2. É essa a ordem de Alá que permanece válida. A que se encontra na sura 9, versículo 5."

Ayman abriu os braços, fechou os olhos, levantou o rosto e, com a expressão mística de um asceta em transe, entoou o versículo que a revelação progressiva autenticara.

"«Matai os idólatras onde os encontrardes. Apanhai-os! Preparai-lhes todas as espécies de emboscadas!»

 

O sino da basílica tocou compassadamente, como se marcasse o ritmo de Veneza, o som a reverberar com melancolia pela enorme praça, pontuando o farfalhar surdo das revoadas de pombos que saltitavam por entre a multidão.

"Já são sete horas", constatou Rebecca, lançando um olhar sobre a discreta Torre dell'Orologio situada em frente. "Quer ir tomar qualquer coisa?"

"Sim, porque não?", concordou Tomás. "Vamos comer um gelado?"

"Está bem. Mas depois damos um salto ao Harry's, pode ser?"

"Combinado."

Atravessaram a Piazzeta e passaram entre o Campanile e a basílica. As cúpulas brancas e arredondadas do santuário reflectiam os derradeiros raios de Sol e o lusco-fusco semeava sombras nas colunas sujas das velhas galerias que cercavam a Piazza San Marco. Toda a praça se abria num bulício nervo

so; era um verdadeiro mar de pessoas, com os turistas a encherem as esplanadas e a fotografarem-se diante dos edifícios, ignorando os pombos que esvoaçavam de ponto em ponto, à cata das migalhas que lhes eram lançadas às mãos--cheias pelos venezianos.

Tomás e Rebecca tomaram o caminho de uma das esplanadas ao lado da Torre dell'Orologio, onde homens e#n elegantes smokings afinavam violinos, violoncelos e um piano para o concerto ao ar livre do início da noite. Contornaram a esplanada e, nas galerias veccbie, detiveram-se diante da pequena montra de gelados do Gran Caffé Lavena.

"Um chocolate ice cream", pediu ela.

Decidido a impressioná-la, Tomás optou por exibir o seu melhor italiano. Aproximou-se do balcão de estilo antigo e, espreitando a reacção de Rebecca no reflexo dos espelhos oxidados pelo tempo, lançou o pedido ao empregado.

"Per me, uno gelato di fragola, per favore."

A americana lançou-lhe um olhar surpreendido.

"Gee, não sabia que você falava italiano!"

"Oh, falo muitas línguas." Piscou-lhe o olho verde e sorriu com malícia. "Na verdade, adoro exercitar línguas!"

Atenta ao duplo sentido da graçola, Rebecca não deu parte de fraca e soltou uma gargalhada.

"Reserve a língua para o sorvete."

Com os gelados nas mãos, abandonaram o Lavena e atravessaram a Piazza San Marco em direcção à estreita passagem aberta no vértice entre o Museu Correr e as longas arcadas da Procuratie Nuove. Lá atrás, a orquestra da esplanada começou a tocar os primeiros acordes de Strangers in the Night, enchendo o ar de uma melancolia vibrante.

"Então o que faz uma mulher bonita como você na NEST?", perguntou Tomás entre duas lambidelas no gelado de morango.

"Gosto de aventura e desafio", devolveu ela, uma mão com o gelado, a outra a segurar a pasta negra de executivo. "Quando acabei o curso de Engenharia fui recrutada para a CIA e acabei sob as ordens de mister Bellamy no Directorate of Science and Technology. Depois do 11 de Setembro ocorreu um grande susto com o incidente Dragonfire, um alerta nuclear em Nova Iorque que..."

"Eu sei, mister Bellamy contou-me."

"Ah, bom. Pois, no rescaldo desses atentados percebeu-se que os terroristas muçulmanos estavam dispostos a tudo. Mesmo ao impensável. O meu governo chegou à conclusão de que um ataque nuclear terrorista se tinha tornado inevitável e decidiu reforçar a NEST. Mister Bellamy foi enviado para lá e convidou-me para me juntar à equipa. Ao fim de algum tempo, no entanto, concluiu-se que a ameaça não podia ser apenas enfrentada na América e era necessário estender a nossa área operacional ao resto do planeta. Por causa disso, primeiro fui enviada para o Afeganistão e depois para chefiar o nosso centro operacional no Sul da Europa, em Madrid."

"Porquê Madrid?"

Rebecca franziu o sobrolho.

"Você é historiador, viveu o último ano no Cairo a estudar o islão e ainda pergunta «porquê Madrid»?" "Está a referir-se ao Al-Andalus?" "Claro."

Tomás ficou a matutar na escolha de Madrid para a sede daquele centro operacional da NEST.

"Faz sentido", reconheceu. "Os muçulmanos ocuparam grande parte da Península Ibérica entre 711 e 1492. Quando eu estava na Universidade de Al-Azhar, no Cairo, ouvi alguns fundamentalistas falarem nostálgicamente no Al-Andalus e na necessidade de o islão recuperar a Península Ibérica." Encolheu os ombros. "Mas aquilo pareceu-me um objectivo a longo prazo."

"Está enganado."

O português olhou para a americana, que trincava já a bolacha do cone do gelado.

"Que quer dizer com isso? Acha que eles têm mesmo desígnios imediatos sobre a Península Ibérica?"

Rebecca parou de mastigar por um instante e olhou-o de soslaio.

"Você está a brincar? Claro que sim! Osama Bin Laden escreveu, e cito de cor: «Pedimos a Alá que a umma recupere a sua honra e o seu prestígio, e erga de novo a única bandeira de Alá sobre toda a terra islâmica que nos foi roubada, da Palestina ao Al-Andalus»."

"Bin Laden escreveu isso?"

"Numa carta ao grande mufti da Arábia Saudita, em 1994." "Caramba!"

"E olhe que isto é apenas uma pequena amostra. A recuperação do Al-Andalus faz parte do discurso dos jihadistas. O braço direito de Bin Laden na Al-Qaeda, o egípcio Ayman Al-Zawahiri, declarou numa gravação difundida em 2007: «O nação muçulmana do Magrebe, zona de batalha e de jibad. Fazer regressar o Al-Andalus ao islão é um dever da umma em geral e vossa em particular.» E também o mentor de Bin Laden, Abdullah Azzam, estabeleceu ser obrigatório fazer guerra para recuperar as terras muçulmanas do Al-Andalus. Até a revista infantil do Hamas fala do assunto!"

"A sério? O que andam os tipos do Hamas a dizer às criancinhas palestinianas?"

"Que é dever dos muçulmanos recuperar Sevilha e todo o Al-Andalus. Isto para não falar, claro, do xeque Qaeadawi, líder espiritual da Irmandade Muçulmana, que escreveu que o islão foi expulso de duas regiões da Europa, o Al-Andalus e os Balcãs e a Grécia, mas ia agora voltar. Ou do xeque Al-Hawali, que, numa carta ao presidente Bush logo a seguir ao 11 de Setembro, escreveu: «Imagine, senhor presidente, que ainda choramos por causa do Al-Andalus e nos lembramos do que Fernando e Isabel fizeram à nossa religião, cultura e honra! Sonhamos reconquistá-lo!»"

"Bem, se for a ver, tudo isso não passa ainda de conversa..."

A americana imobilizou-se logo a seguir à esplanada do Caffé Florian, diante da estreita passagem que os conduzia para fora da Piazza San Marco.

"Conversa, Tom? Com esta gente não se brinca! Passámos anos a achar que era tudo conversa, que os muçulmanos falavam, falavam, mas não fariam nada e... e olhe onde essa ingenuidade nos levou!"

"Mas houve alguns passos concretos dados pelos muçulmanos fundamentalistas em relação ao Al-Andalus?"

Recomeçaram a andar e saíram da praça, virando à esquerda na direcção do cais dos vaporetti.

"Os atentados de Madrid, em Março de 2004."

"Está bem, mas isso esteve relacionado com o apoio espanhol à invasão do Iraque."

"Não, Tom. Os atentados de Madrid estiveram relacionados com os desígnios muçulmanos sobre o Al-Andalus. O apoio espanhol à invasão do Iraque foi apenas o pretexto. Não percebeu o que Bin Laden disse na carta ao grande mufti? Essa carta é de 1994, dez anos antes dos atentados de Madrid! E não ouviu o que Al-Zawahiri declarou na sua gravação de 2007? Estes são os chefes da Al-Qaeda a falar! Se eles afirmam que o Al-Andalus é para ser recuperado, pode acreditar que vão actuar em conformidade!"

"Muito bem", aceitou Tomás. "Admitamos que os atentados de Madrid estão relacionados com os desígnios islâmicos sobre a Península Ibérica. O que eu quero saber é se vocês tiveram mais alguns sinais de que os fundamentalistas tencionam agir para recuperar o Al-Andalus."

"Por acaso, tivemos."

"Quais?"

"Na Argélia existe uma organização terrorista chamada Grupo Salafista para a Pregação e o Combate. Este grupo filiou--se na organização de Bin-Laden e Al-Zawahiri e mudou o seu nome para Al-Qaeda no Magrebe Islâmico. Num atentado efectuado em 2007 em Argel, esta gente declarou: «Não descansaremos enquanto não voltarmos a ter o nosso amado Al-Andalus.» Desde então, as autoridades espanholas têm andado muito alarmadas com a actividade destes grupos. Os serviços secretos espanhóis, o CNI, detectaram a presença de um autodenominado Grupo para a Libertação do Al-Andalus na Internet. Sabe-se que mais de três mil pessoas em Espanha consultam regularmente os sites muçulmanos fundamentalistas e que quase oitenta por cento das pessoas presas nos últimos anos em Espanha por ligações ao terrorismo internacional são provenientes do Norte de África. Isto significa que os terroristas estão a instalar células adormecidas no país. As autoridades espanholas descobriram entretanto que os muçulmanos fundamentalistas assumiram o controlo de dez por cento das mesquitas informais do país e andam a pregar em caves, garagens e locais do género. E isto não é tudo. Foram detectados muitos mudjabedin oriundos de Espanha a treinar em campos terroristas no Mali, no Níger e na Mauritânia. Também já se percebeu que uma importante parte dos mudjabedin enviados para o Iraque é oriunda de Espanha. Imagine o que eles farão com a experiência adquirida nos campos de treino do Sahel e nos campos de batalha do Iraque quando regressarem a Espanha! Não tenha ilusões, a situação é muito preocupante!"

"Não fazia ideia de que isto já estava assim..."

"A verdade, Tom, é que a Al-Qaeda acredita que toda a terra que foi muçulmana tem de voltar a ser muçulmana. Bin Laden quer recuperar o Al-Andalus para o integrar no grande califado. O público está a ser mantido na ignorância, mas há políticos que sabem muito bem o que se passa. O antigo ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fischer, afirmou em círculos restritos que, se Israel cair, o próximo país a ser atacado será, com toda a certeza, Espanha."

Tomás coçou a nuca.

"Pois, realmente...", suspirou. "Não há dúvida de que está montado um grande problema para Espanha." "E para Portugal." "Como assim?"

"Tom, você anda a dormir ou quê? Já se esqueceu do que era Portugal antes de se formar como país?"

"Você está a insinuar que a Al-Qaeda... a Al-Qaeda já tem os olhos postos em Portugal?"

Pararam os dois à porta do Harry's, a alguns metros do embarcadouro dos vaporetti. As águas do Grande Canal lambiam a pedra do cais e as gôndolas negras passavam paulatinamente, como espectros cosidos à sombra do destino.

"Oiça lá, que territórios integravam afinal o Al-Andalus?"

"Bem, Espanha e... e Portugal, claro."

Rebecca abriu a porta do Harry's Bar e, antes de entrar, ainda olhou de relance para o historiador.

"Pois aí tem a sua resposta."

 

A caminho da aula, alguns dias depois da conversa no gabinete, Ahmed seguia pelo corredor quando sentiu alguém agarrá-lo pelo ombro e puxá-lo, forçando-o a virar-se. Levantou o rosto surpreendido e viu o vulto branco e esguio do professor Ayman inclinar-se na sua direcção, a barba negra a roçar-lhe o ombro.

"Estive a investigar o teu mullah", segredou-lhe ele ao ouvido. "É um sufi." Ayman endireitou-se e retomou a voz normal. "Afasta-te dele."

Logo que deu o conselho, o professor virou as costas e retomou o passo. O aluno ficou pregado ao chão, sem saber o que dizer, os olhos cravados na jalabiyya que se distanciava, incapaz de perceber o significado do que acabara de ouvir.

"Professor!", ainda conseguiu lançar na direcção do vulto. "Qual é o problema de ele ser sufi?"

Já à porta da sala, Ayman virou a cabeça para trás e lançou-lhe um sorriso enigmático.

"Já vais perceber."

A aula começou com as recitações habituais do Alcorão. Vários alunos, incluindo Ahmed, esforçavam-se por memorizar todo o Livro Sagrado e eram capazes de recitar as primeiras suras sem olhar para o texto. Mas, meia hora mais tarde, o professor anunciou que o resto da lição seria dedicado à história do islamismo, o que provocou uma vibração alegre na classe; não havia quem não gostasse dos episódios grandiosos que ele narrava com inigualável perícia.

"O islão teve nos primeiros tempos um crescimento glorioso", começou Ayman por dizer, voltando a um tema que a todos era caro naquelas aulas. "O exército do Profeta, que a paz esteja com ele, submeteu toda a Arábia à vontade de Alá, e logo a seguir, seguindo a ordem de Deus dada através do Santo Alcorão ou da sunnah, os nossos valentes mudjahedin atacaram e impuseram o islão aos países vizinhos. Foi um período de luta constante, de guerras e batalhas, mas o islão saía sempre vencedor."

"Allah u akbar!", exclamaram alguns alunos, pressentindo que vinha aí mais uma grande narrativa épica.

O professor fez sinal para se calarem.

"Ao fim de algum tempo, porém, alguns crentes mais fracos começaram a sentir-se cansados de guerra. Estavam mais preocupados com o seu bem-estar do que em obedecer às ordens de Alá no Santo Alcorão e espalhar a palavra de Deus. Quando o nosso exército conquistou povos que não eram árabes, como aqui no Egipto ou ali na Síria, esses crentes fracos tiveram contactos com os kafirun cristãos que por aqui viviam e acabaram por ser influenciados por eles."

"O que quer dizer com isso de haver crentes influenciados pelos kafirun, senhor professor?", perguntou um aluno, estranhando a observação.

"Por exemplo, viam os monges cristãos fechados num mosteiro a dizer que estavam em meditação para comungar com Deus e para encontrar a paz e o amor. Toda essa conversa influenciou os crentes fracos, muitos dos quais se puseram então a falar no amor de Alá, não na força de Alá. Nasceu assim o sufismo, um movimento que prega o amor, a paz e a espiritualidade." A cabeça de Ayman girou pela sala. "Algum de vós por acaso é sufi?"

Três mãos hesitantes ergueram-se no ar. O professor fixou o rosto dos três alunos e esboçou uma expressão de desdém.

"Pois ficai a saber que o sufismo não é islão."

Os três arregalaram os olhos, surpreendidos. Os olhares dos colegas incidiram de imediato sobre eles, deixando-os subitamente intimidados. O que queria o professor dizer com aquilo?

"Mas eu sou crente, senhor professor", argumentou um deles, quase num queixume assustado. "Faço o salat completo, cumpro a zakat, respeito o..."

"O mero respeito de alguns preceitos do islão não faz de uma pessoa um crente", cortou Ayman, um tom agreste a en-sombrar-lhe a voz. "Para se ser muçulmano é preciso respeitar todos os preceitos, sem excepção. Todos. E isso o que Alá diz na sura 4, versículo 65 do Santo Alcorão e é isso o que está estabelecido na sunnab do Profeta, como é relatado num hadith apropriado. O mensageiro de Alá comandava homens no campo de batalha e os sufis vêm agora desvalorizar a importância da guerra? Os sufis renegam o exemplo do Profeta, que a paz esteja com ele, e ainda acham que são crentes? Acaso não está estabelecido por Alá na sura 33, versículo 21 do Santo Alcorão: «No Enviado tendes um formoso exemplo»? Se o Profeta, ele próprio, fazia a guerra e mandava degolar kafirun, não é isso um formoso exemplo? Se ele mandava matar em guerra, quem são os sufis para desvalorizar a guerra?" O olhar de Ayman cravou-se num dos outros alunos que dissera ser sufi, um rapaz gordo de grandes olhos negros. "Onde está dito no Santo Alcorão que devemos evitar o uso da força?"

A pergunta ficou a pairar no silêncio, os olhos do professor sempre fixos naquele aluno. Sentindo-se interpelado, o rapaz viu-se na obrigação de responder. Estava encolhido no seu lugar e, quando falou, a sua voz não passava de um fio trémulo.

"Como... como diz, senhor professor?"

"Mostra-me onde está a ordem de Alá no Santo Alcorão a dizer que devemos evitar o uso da força."

O rapaz olhou atrapalhado para o volume que tinha diante de si.

"Está ... está na... na sura 3, senhor professor." "Recita o versículo."

O aluno não o sabia de cor e abriu o Alcorão, a mão sapuda agitando-se de nervos. Localizou o terceiro capítulo e deslizou o indicador grosseiro pelas folhas, seguindo em silêncio os versículos sucessivos. O processo prolongou-se, mas o professor deixou correr; aquele silêncio aumentava a intensidade dramática do momento.

"Está aqui!", exclamou enfim o aluno, um tom quase aliviado na voz. "Está aqui! E o versículo 134!"

"Recita-o."

O rapaz bufou para aliviar o nervoso miudinho, como se fosse uma máquina a vapor e tivesse de descarregar a pressão para não explodir. O corpanzil tremia-lhe e a leitura saiu-lhe aos solavancos no momento em que começou a recitar o versículo.

"«Esses que praticam a caridade, obedecendo a Deus nas alegrias e nas desgraças, que reprimem a cólera e apagam a ofensa dos homens - Deus ama os que fazem o bem!»"

"Só isso?"

O aluno gordo ergueu a cabeça; transpirava abundantemente e engolia em seco.

"Há outras suras onde... onde Alá diz o mesmo, senhor professor."

"Claro que há", assentiu Ayman, a voz gelada. "Por exemplo, na sura 42, versículo 37, Deus promete o melhoo»para aqueles «que se afastam dos grandes pecados e das torpezas e que, quando se irritam, perdoam»." Encolheu os ombros. "E depois? Alá quer que haja perdão entre os crentes e que se faça o bem. Perdoemos então e façamos o bem entre os crentes. E por isso que somos bons muçulmanos. Mas engrandecer o islão também é fazer o bem! Perdoar os kafirun que se convertam ao islão também é perdoar! Há, no entanto, limites ao perdão. Ou não há? O que diz Alá no Santo Alcorão para os que roubam? Diz para perdoar? Não! Diz para lhes cortarem as mãos! O que diz Alá através da sunnah para as adúlteras? Diz para perdoar? Não! Diz para as lapidarem até à morte! O que diz Alá no Santo Alcorão para os idólatras? Diz para perdoar? Não! Diz para os emboscar e para os matar! O Santo Alcorão é para ler no seu todo, a sharia é para ser respeitada no seu todo! Entenderam?"

Um murmúrio de assentimento percorreu a aula.

Apontou para o aluno gordo que regressara ao silêncio e permanecia encolhido no seu lugar.

"Os sufis enfraqueceram o islão", acusou, como se aquele rapaz representasse todos os sufis. "Quando os kafirun cruzados invadiram o islão e conquistaram Al-Quds, que Alá os amaldiçoe para sempre, alguns sufis opuseram-se ao uso da força, dizendo que a guerra pregada no Santo Alcorão não era física, mas espiritual. Esta conversa enfraqueceu o islão e foi Por causa desses sufis malditos que os cruzados conseguiram humilhar a umma. E quando, mais tarde, os Mongóis atacaram e conquistaram a sede do califado, Bagdade, vários sufis repetiram a mesma heresia, afirmando que não se devia lutar com as armas, que pela força não se resolvia nada... essa conversa cristã. Qual foi o resultado disso? Enfraqueceram de novo o islão e deixaram mais uma vez humilhar a umma! E sabem quem se ergueu contra os sufis e os denunciou como hereges? Foi Ibn Taymiyyah! Sabem o que disse Ibn Taymiyyah?"

Encarou a classe, como se aguardasse resposta, embora todos soubessem perfeitamente que a pergunta era retórica e que ninguém iria responder.

"Ibn Taymiyyah declarou que o sufismo é um movimento cristão!" Ergueu o dedo, para sublinhar a afirmação. "Um movimento cristão! Dizem-se crentes, mas são cristãos! Tal como os kafirun cristãos, os sufis acham que, quando oram a Alá, eles estão com Alá e Alá está com eles. Onde se encontra isto escrito no Santo Alcorão? Em parte nenhuma! Esse tipo de oração é dos kafirun cristãos, não de um verdadeiro crente! E ainda por cima os sufis puseram-se a interpelar os santos, exactamente como os infiéis cristãos e xiitas, negando assim que só existe um Deus." Voltou a apontar para o aluno. "Eles não passam de kafirun a fingir-se crentes! Não se deixem, pois, enganar por esses apóstatas! O islão que os sufis pregam não é o islão que está no Santo Alcorão! Leiam o que se encontra de facto escrito no Livro Sagrado e conhecerão a palavra de Deus. Não deixem que os intermediários façam as interpretações que lhes convêm!"

 

A aula foi inesperadamente tensa, sobretudo devido à presença dos três alunos que se disseram sufis e da forma como o professor explicara esse movimento. Toda a gente já tinha ouvido falar dos sufis, claro; havia até poemas sufis que se liam na madrassa ou em casa. Mas o que ninguém tinha ainda pensado é que a doutrina sufi constituía um desvio em relação ao Alcorão e à sunnah do Profeta.

Em nenhum aluno teve esta revelação maior impacto do que em Ahmed. À medida que a sala esvaziava, o rapaz ia pensando no que o professor lhe havia dito uma hora antes no corredor. O xeque Saad era sufi. Sufi! A palavra,agora»amal-diçoada ecoava-lhe continuamente na mente. Sufi! O xeque Saad era sufi!

Com tanta novidade a atormentá-lo, Ahmed queria mais alguns esclarecimentos. Foi para junto do professor e aguardou que todos os colegas saíssem.

"Percebeste agora por que motivo tens de te afastar do teu mullah?", perguntou-lhe Ayman com um olhar severo.

"Sim, senhor professor. Mas ainda preciso de perceber mais algumas coisas."

A sala ficara vazia e Ayman dirigiu-se à porta para sair, acompanhado pelo seu último aluno.

"Diz lá."

"Os sufis, senhor professor. Qual a sura e o versículo do Alcorão onde se..." "É ele!"

A voz no corredor e a imagem do grupo de polícias a cercar a saída da sala de aula paralisaram Ayman e emudeceram Ahmed, que vinha atrás e levou um instante a perceber o que se passava.

"É ele!", repetiu a mesma voz, apontando para o vulto de jalabiyya que se detivera junto à porta da sala.

Ahmed olhou para o homem que falara e apontava agora para o professor de Religião e reconheceu o emir da madrassa. Um dos polícias, decerto o chefe, fez um sinal aos seus homens.

"Apanhem-no!"

Os polícias agarraram Ayman de imediato. Um deles torceu-lhe o braço e obrigou-o a dobrar o tronco.

"O que é isto?", perguntou o professor, a voz alterada, o corpo a remexer-se num esforço para se libertar. "Larguem--me! Por Alá, larguem-me! Eu quero..."

Um polícia esmurrou Ayman no estômago e outros dois algemaram-lhe as mãos por trás das costas. Com o professor imobilizado, os polícias puxaram-no à força ao longo do corredor. Foi tudo muito rápido e Ayman acabou por tropeçar e cair com um gemido de dor, mas os polícias não se detiveram e continuaram a puxá-lo, arrastando-o pelo chão até desaparecerem lá ao fundo, ao virar da esquina.

Aterrorizado, Ahmed tudo viu sem conseguir mexer um músculo que fosse.

 

Uma atmosfera densa acolheu-os no Harry's Bar. O rés-do--chão formigava de gente e Tomás preferiu levar Rebecca para o primeiro andar, onde o ambiente era mais tranquilo. Sentaram-se num canto, à meia-luz amarelada, e pediram um bellini para começar.

"Não me quero queixar", observou Tomás com uma careta, "mas o Harry's Bar é mais fama que proveito." Indicou o menu. "A relação qualidade-preço deixa um pouco a desejar."

"Não se preocupe, é a NEST que paga."

"Eu sei e foi justamente por isso que fiz o comentário", riu-se. "Se isto saísse do meu bolso, eu pagava e calava!"

Rebecca ajeitou o cabelo loiro e passeou os olhos azuis brilhantes pelo restaurante.

"Mas tem de admitir que isto tem classe..."

"Não nego."

A americana encheu os pulmões de ar, como se quisesse assim inspirar toda a história do Harry's.

"Awesome!", exclamou, extasiada. "Hemingway costumava vir aqui! Já viu?"

Tomás manteve um sorriso desenhado nos lábios.

"Vocês, os Americanos, parece que têm uma fixação pelo Hemingway."

"Foi um dos nossos melhores escritores, o que quer? Mas este também era o poiso de grandes figuras europeias. Maria Callas, Onassis..." Pegou no menu e indicou o prato mais famoso do restaurante. "Sabia que foi aqui que inventaram o carpaccio? Fantástico, não é? Que tal pedirmos uma dose para cada um?"

"Se é a NEST a pagar..."

Instantes mais tarde já o empregado estava na posse da ordem para a refeição. Rebecca parecia realmente excitada por se encontrar ali, mas Tomás ainda tinha a mente retida no que a americana lhe dissera antes de entrarem no Harry's.

"Acredita mesmo que os fundamentalistas islâmicos têm os olhos postos em Portugal?"

Ela fitou-o provocadoramente.

"O que acha, Tom?", perguntou em tom de desafio. "Você é historiador e conhece o islão a fundo. Pensa que, se eles estão interessados em recuperar o Al-Andalus, se vão contentar com Espanha? Acredita mesmo nisso?"

Tomás suspirou, de repente angustiado.

"Tem toda a razão", reconheceu. "À luz do que aprendi na Universidade de Al-Azhar, a ameaça é muito mais séria do que nós pensamos." Tamborilou os dedos na mesa. "Considera que a ameaça sobre a Península Ibérica é nuclear?"

Rebecca curvou os lábios, céptica.

"Hoje em dia ninguém pode ter a certeza de nada", indicou. "Mas eu diria que, quando usarem armas nucleares, os terroristas vão procurar alvos muito mediáticos. O 11 de

Setembro colocou os padrões de terror muito altos. Depois desses atentados, decerto que procurarão uma coisa ainda mais espectacular ou terrível. O nuclear é a escolha óbvia, mas podem até nem atacar com uma bomba atómica. Existem outras armas nucleares..."

O rosto do historiador abriu-se numa expressão interro-
gadora. „

"Que outras armas nucleares? Que eu saiba as armas nucleares que existem são as bombas atómicas."

A americana abanou a cabeça.

"Há outras armas."

"A sério? Quais?"

"Olhe, um avião, por exemplo."

Tomás agitou a cabeça, num esforço para retirar sentido daquela informação.

"Não estou a perceber. De que maneira um avião pode ser uma arma nuclear?"

O empregado reapareceu com dois copos de bellini, que pousou sobre a mesa. A americana deixou-o afastar-se, provou um golo e encarou o português com os seus grandes olhos azuis.

"Imagine, Tom, que os terroristas que assumiram o controlo do voo da American Airlines que embateu na torre norte do World Trade Center, no 11 de Setembro, tinham optado por voar mais uns sessenta quilómetros para norte e atiravam o avião sobre a central nuclear de Indian Point. O que acha que aconteceria?"

Tomás arregalou os olhos, imaginando a cena.

"Eu faço-lhe um desenho", retomou ela. "Se o aparelho atingisse o sistema de arrefecimento do reactor nuclear, teríamos um meltdown que faria Chernobyl parecer um piquenique. Libertar-se-iam centenas de milhões de curies de radioactividade. Para que tenha uma ideia, estamos a falar de uma quantidade de radioactividade centenas de vezes superior à libertada pelas bombas de Hiroxima e Nagasáqui! E isto com Nova Iorque e New Jersey mesmo ali ao lado!" "Não tinha pensado nisso..."

"Pois nós estamos a pensar. E os terroristas também. Depois de termos invadido o Afeganistão conseguimos deter um dos cérebros do 11 de Setembro, um tipo chamado Khalid Sheikh Mohammed. Sabe o que ele confessou? Revelou que o primeiro alvo dos aviões eram instalações nucleares, mas acabaram por decidir não as atacar para já. E repetiu a expressão para já."

"Caramba! Mas não são essas centrais que estão concebidas para aguentar terramotos e outros desastres?"

"E verdade, mas um avião carregado de combustível a cair em cima de uma central nuclear é coisa nunca prevista. Nenhum dos mais de cem reactores nucleares actualmente existentes na América foi concebido para aguentar o impacto de um Boeing. Nenhum. E vinte desses reactores, Tom, estão situados num raio de sete quilómetros em volta de um aeroporto. Além disso, nem é preciso o avião provocar um meltdown dos reactores nucleares. Basta que o aparelho caia no edifício onde é armazenado o combustível nuclear já gasto. O combustível poderia incendiar-se e espalhar em redor uma quantidade de radioactividade equivalente a três ou quatro Chernobyls. Seria uma catástrofe!"

Tomás bebeu de uma assentada metade do seu bellini.

"O que vale é que agora os cockpits dos aviões estão blindados", observou. "Tomar um aparelho de assalto é hoje em dia muito mais difícil do que em 2001..."

"É verdade", assentiu Rebecca. "Mas você não está a perceber a dimensão do problema. Da mesma maneira que um avião pode colidir com uma central nuclear, um camião
carregado de explosivos também pode! Para os objectivos
que os terroristas pretendem atingir, é a mesma coisa! Não
interessa se usam um avião ou um camião armadilhado. O
que interessa é provocar uma catástrofe nuclear. E isso está
ao alcance de qualquer organização terrorista suficientemen-
te competente." ^ m
"Como a Al-Qaeda."

"Por exemplo. E o pior é que as ameaças nucleares não se ficam por aqui. Há mais armas atómicas ao dispor dos terroristas."

Tomás abriu a boca, estupefacto. "Mais ainda?"

"Chamamos-lhes bombas sujas."

O empregado apareceu novamente, desta feita com o carpaccio e os pratos principais. Distribuiu a comida pela mesa e sumiu-se tão depressa como aparecera.

"Os militares preferem uma designação mais sofisticada", disse Rebecca, retomando o fio à meada. "Chamam-lhes aparelhos de dispersão radiológica."

"Até parece que estão a falar de máquinas de raios X."

"E de certo modo estão. A ideia por detrás destas bombas é muito simples. Põe-se dinamite numa pasta cheia de césio e faz-se explodir. Ou enche-se um camião de TNT com cobalto e detona-se. As possibilidades são imensas e resumem-se ao conceito elementar de associar explosivos comuns a material radioactivo. E isso uma bomba suja."

"Está a dizer-me que essas bombas têm capacidade de desencadear explosões nucleares?"

"Não, claro que não. Mas se forem detonadas ao ar livre podem espalhar radioactividade por um raio de centenas de quilómetros quadrados. Já viu o impacto psicológico que isso causaria? O césio, por exemplo, emite raios gama, que podem causar danos nos tecidos biológicos, envenenamento radioactivo e cancro. Um atentado destes desencadearia o pânico generalizado, devido à ameaça invisível da radioactividade. Provavelmente haveria até mais mortes de acidentes de automóvel provocados pela tentativa de fuga desesperada do que pela explosão ou pela radioactividade propriamente ditas. Se fosse usado material radioactivo especialmente forte, as partes da cidade onde ocorresse a explosão teriam de ser evacuadas e descontaminadas ao longo de vários meses. As primeiras camadas de solo e até a vegetação, o asfalto e o cimento teriam de ser retirados e armazenados em locais seguros. Milhares de pessoas seriam forçadas a mudar de casa e muitas nunca mais poderiam voltar. Já viu a confusão que se geraria?"

"Mas onde iriam eles buscar o material radioactivo?"

"Ora, a qualquer parte. Hospitais, por exemplo. Os aparelhos de raios X que mencionou há instantes são radioactivos. Até os detectores de fumo usados nos escritórios têm material radioactivo. Qualquer terrorista pode pegar nesse material, juntar-lhe dinamite e... bum!"

"Se é assim tão fácil, por que razão ainda não pensaram nisso?"

Rebecca recostou-se na cadeira, de repente cansada. "Já pensaram." "O quê?"

"Em 1995, os terroristas chechenos puseram uma bomba no Parque Ismailovsky, em Moscovo. O engenho era constituído por dinamite e alguns quilos de césio-137, um material altamente radioactivo. Felizmente, em vez de o detonarem, telefonaram a uma estação de televisão local para indicar a localização da bomba. Dessa feita não quiseram provocar destruição, apenas criar medo. À luz do que aconteceu no 11 de Setembro, não sei se da próxima vez os terroristas serão assim tão escrupulosos..."

O empregado veio com os cappuccinos fumegantes e desapareceu de imediato. Tomás deitou açúcar no café e ficou a remexê-lo distraidamente com a colher, a mente absorvida pelos problemas novos que lhe haviam sido apresentados.

"Com tudo isso, desviámo-nos de Portugal", constatou.

"Pois desviámos."

"Confesso que ainda não percebi por que razão vocês me contactaram."

"Precisamos de si para perceber o que se passa em Portugal, o que estão os fundamentalistas islâmicos a fazer aí, se há alguma coisa anormal... essas coisas."

"Mas para isso tem a secreta portuguesa, o SIS."

"O SIS serve para algumas coisas, mas para outras não. Você tem relações dentro da comunidade islâmica, o SIS não tem."

O rosto de Tomás assumiu uma expressão inquisitiva.

"O que tem a comunidade islâmica em Portugal? Aquilo é tudo boa gente. Conheço-os bem, são pessoas fantásticas e muito pacíficas, de uma gentileza incrível. A maior parte veio de Moçambique, é gente que ocupa lugares de relevo na sociedade portuguesa e, quando falamos entre nós, a questão da religião nem sequer se põe. Sabe, ponho as mãos no fogo por eles."

"E verdade que as referências que temos dos muçulmanos em Portugal são excelentes. Aliás, isso aplica-se aos muçulmanos de todos os países de língua portuguesa, como o Brasil, a Guiné-Bissau e Moçambique. Ao contrário do que acontece na maior parte dos países ocidentais, os muçulmanos em Portugal não são uma minoria ostracizada, mas cidadãos de primeiro plano, muito bem integrados e com formação superior. Ao que parece, urna importante parte até põe a lusofonia à frente do islamismo, ou pelo menos lado a lado." "Então qual é a dúvida?"

Rebecca ficou um instante a fitar o seu interlocutor. "Em todos os rebanhos há ovelhas ronhosas..." "Que está a querer dizer com isso?"

A americana inclinou-se no seu lugar, pegou na pasta de executivo que pousara aos pés, pousou-a no regaço e abriu-a. Extraiu do interior um computador portátil metálico e, afastando o cappuccino para abrir espaço, instalou-o sobre a mesa.

"A Al-Qaeda gosta muito da Internet", disse, carregando no botão para ligar o portátil. "Desde os atentados de 1998 contra as embaixadas americanas em Nairobi e Dar-es-Salaam, a organização de Bin Laden e Al-Zawahiri tem coordenado todas as suas grandes operações através da Internet." O ecrã do computador acendeu-se. "Usam formas muito sofisticadas de esconder mensagens. Por exemplo, recorrem a programas de encriptação que..."

"Está a desviar-se do assunto", observou Tomás. "Não foi isso que lhe perguntei."

"Tenha calma", pediu Rebecca. "Não estou a mudar de assunto, fique descansado. Estou antes a tentar demonstrar--lhe algo." Os vários programas do portátil encheram o ecrã do computador. "Esteganografía. Já ouviu falar?"

A americana carregou no programa da Internet.

"Claro que sim", retorquiu Tomás, quase ofendido por uma tal pergunta lhe ser feita, a ele, um criptanalista. "E uma ideia de encriptação muito engenhosa, destinada a esconder a existência de mensagens. Como elas estão ocultas em imagens inocentes, ninguém vai lá procurar nada. Porque pergunta?"

A Internet ficou acessível no portátil e a americana procurou o Hotmail.

"Porque é uma técnica muito usada pela Al-Qaeda. A organização do nosso amigo Bin Laden gosta de ocultar nas imagens instruções destinadas aos seus operacionais ou às células adormecidas. Ora, entre outras coisas, nós estamos sempre a vigiar endereços electrónicos suspeitos e aqueles cujas mensagens são abertas no Sul da Europa vêm-me calhar a mim." Escreveu uma morada electrónica no Hotmail. "Este endereço é usado pela Al-Qaeda para comunicar com as suas células adormecidas." O endereço foi aberto e o ecrã exibiu a lista de mensagens. "Quer ver agora uma coisa curiosa?"

"Mostre lá..."

Rebecca carregou em spam, exibindo todo o lixo electrónico ali acumulado.

"Você não costuma receber muito lixo de natureza sexual?", perguntou ela.

"UÜ", riu-se Tomás. "Muitas propostas de operações para aumentar o meu pénis! Como se eu precisasse..."

A americana olhou-o de relance.

"Dispenso o marketing.'" Voltou a concentrar-se nas mensagens acumuladas no spam até detectar uma em particular, intitulada naugbty redhaired. "Repare agora nesta mensagem."

Carregou na linha e a mensagem abriu, exibindo um link para um site designado sexmaniacs. Rebecca carregou no link e o computador fez ligação ao site. Instantes depois, o ecrã exibiu a imagem de uma ruiva a fazer sexo oral.

Em close up.

"Caramba!", exclamou Tomás, chocado com a fotografia que cobria todo o ecrã. Você anda a frequentar estes sites.

Rebecca revirou os olhos.

"Engraçadinho", disse. "Agora vou usar o key-tracker para identificar a password." Ligou o software de intercepção e, em alguns instantes, o programa desvendou a chave que lhe permitia aceder à mensagem oculta. "Boa! Agora repare no que está escondido aqui dentro."

Digitou a password que o key-tracker lhe fornecera. Apareceu a ampulheta do computador a tremer sobre a imagem da ruiva de boca escancarada e, em poucos segundos, a fotografia pornográfica foi substituída por uma linha composta por letras e números.

"Bingo!"

Tomás inclinou a cabeça para a frente e, a mente a funcionar como um criptanalista, leu a mensagem que a Al-Qaeda havia escondido naquela fotografia.

 

"Ah, então é este o e-mail da Al-Qaeda de que mister Bellamy me falou!", percebeu o criptanalista. "Mas o que tem ele assim de tão especial que requeira que seja especificamente eu a decifrá-lo?"

"Tenha calma, já vai perceber", disse Rebecca. "Seguimos a rota desta mensagem e descobrimos que ela foi aberta por alguém, decerto o destinatário a quem a Al-Qaeda estava a dar instruções. Através da identificação do IP do computador onde a mensagem encriptada foi aberta localizámos o paradeiro da célula adormecida. Era um cibercafé. O operacional obviamente não abriu a mensagem em casa, mas num local público, de modo a evitar qualquer possibilidade de ser identificado."

"De qualquer modo, esse cibercafé dá-vos já uma localização, não é? Em que parte do mundo estava o computador que abriu esta mensagem da Al-Qaeda? No Paquistão? No Iraque?"

Rebecca manteve os olhos fixos em Tomás, de modo a medir a reacção dele ao ouvir a revelação.

"Em Lisboa."

 

A notícia correu célere pela madrassa: o professor de Religião tinha sido preso pela polícia. O colega sufi gordo que Ayman interpelara na sua última aula parecia aliviado e tentava convencer os amigos de que o professor havia sido preso por ter dito que os sufis não eram muçulmanos. Os companheiros de turma fingiram acreditar, mas todos sabiam que não podia ser; o professor demonstrara na aula que o sufismo ia contra o Alcorão e a sunnah. Além do mais, como poderia a polícia ter sabido e reagido tão depressa? Claro que não era por isso! Mas então porque o tinham prendido?

Foi só no dia seguinte à detenção que as coisas se esclareceram. O rumor começou a circular logo pela manhã e fazia todo o sentido.

"Anda cá", disse Abdullah logo que viu Ahmed chegar à madrassa, puxando-o para um canto do corredor. "Já sabes porque prenderam o professor de Religião?"

O recém-chegado pousou a mochila no chão.

"Há novidades?"

O colega olhou para todos os lados, uma expressão conspirativa estampada no rosto, antes de se voltar de novo para Ahmed e murmurar o segredo.

"Ele é da Al-Jama'a."

"O quê?", admirou-se Ahmed, levantando inadvertidamente
a voz. "O professor Ayman?"

"Chiu!", ordenou Abdullah, olhando de novo em redor, quase alarmado. "Mais baixo."

"Desculpa", pediu Ahmed. "Mas tens a certeza?"

Abdullah fingiu-se ofendido.

"Então não tenho? Estou a dizer-te que ele é membro da Al-Jama'a al-Islamiyya."

"Ah!", exclamou o amigo, pondo a mão na boca de espanto. "Tu achas... tu achas que ele matou o... o presidente?"

Estas últimas palavras foram proferidas num sussurro tão baixo que se tornaram quase inaudíveis.

"Não sejas parvo!", retorquiu Abdullah com uma risada nervosa. "Os que mataram o faraó foram logo presos. Mas parece que o professor é militante da Al-Jama'a e eles andam a prender toda a gente ligada ao movimento."

"Como sabes que ele é da Al-Jama'a?"

"Ouvi há pouco o emir da madrassa falar com o professor de Árabe. O nome do professor Ayman estava nas listas da Al-Jama'a."

A informação provocou grande excitação na escola, não só junto dos alunos, mas também entre professores e funcionários. Por Alá, já viram isto?, interrogava-se toda a gente. Tivemos um conspirador a ensinar aqui na escola!

Ahmed sentia-se em estado de choque. Como era possível que tivessem detido uma pessoa tão conhecedora da palavra de Deus? A história do envolvimento do professor Ayman na conspiração para matar o presidente deixou-o pensativo. Se o professor se metera nisso, raciocinou, lá devia ter os seus motivos. A Al-Jama'a era descrita na televisão como um movimento radical por defender a aplicação da sharia, mas, aos olhos de Ahmed, isso não a diminuía; pelo contrário, enaltecia-a. Afinal, a sharia era a lei de Alá e querer a sua aplicação devia ser um desejo natural de qualquer muçulmano! Como era possível haver muçulmanos que se opusessem à sharia?

 

A discussão começou à mesa quando a família almoçava.

"Estes koftas estão carbonizados", resmungou o pai, mirando com repulsa os três pastéis de carneiro picado que tinha no prato.

"Por Alá, lá estás tu!", disse a mulher, revirando os olhos de enfado. "Estão como sempre estiveram."

"Estou-te a dizer que estes koftas estão carbonizados!", insistiu o senhor Barakah, erguendo a voz. Pegou num dos pastéis e exibiu-o como prova. "Olha para isto! Olha para isto! Isto é coisa que se apresente à mesa?"

"Se não gostas, vai cozinhar tu!", devolveu a mulher, ofendida pela crítica do marido.

O senhor Barakah ergueu-se de rompante.

Paf.

A estalada ecoou pela casa e os filhos, todos eles à mesa, encolheram-se nos seus lugares e mantiveram os olhos baixos.

"Isso é maneira de me falares?", gritou o senhor Barakah, fora de si. "Já não há respeito nesta casa?"

"Es um estúpido!"

Com a violência de um touro, o marido contornou a mesa e agarrou na mulher.

"Como te atreves, mulher, a faltar-me ao respeito?"

"Larga-me! Larga-me!"

"Eu já te ensino! Eu já te ensino!"

Pelo canto do olho, Ahmed viu o pai a arrastar a mãe para fora do seu campo de visão e, instantes depois, a porta do quarto deles a fechar-se e o som de estaladas e murros e a mãe a gritar. Ninguém dizia uma palavra à mesa, aquele era um assunto tabu entre os irmãos; todos viam o q«e se passava mas ninguém alguma vez falara no caso.

Ahmed sentiu ganas de se levantar e ir a correr em socorro da mãe, mas conteve-se e deixou-se ficar sentado, a cabeça baixa, o coração pesado.

"Toma, sua cabra!", gritava o pai no quarto. "Eu mato-te, ouviste? Eu mato-te!"

Sons de impacto.

"Pára! Pára!"

Era a mãe a implorar.

Para se isolar dos sons brutais que lhe chegavam do exterior, Ahmed pôs-se a recitar mentalmente o Alcorão. Num esforço de se abstrair da violência e de se convencer de que o correctivo que estava a ser aplicado à mãe era justo, escolheu os versículos relacionados com o papel da mulher, e em particular o versículo 34 da sura 4.

"«Os homens têm responsabilidade sobre as mulheres, porque Deus favoreceu a uns em relação aos outros, e porque eles gastam parte das suas riquezas em favor das mulheres»", recitou num murmúrio quase inaudível. "«As mulheres piedosas são submissas às disposições de Deus; são reservadas na ausência dos seus maridos no que Deus mandou ser reservado. Àquelas de quem temais desobediência, admoestai-as, confinai-as nos seus aposentos, castigai-as. Se vos obedecem, não procureis pretexto para as maltratar. Deus é altíssimo, grandioso»."

A recitação de cor só terminou quando sentiu o pai sentar--se no seu lugar para retomar o almoço. Vinha a transpirar e com a respiração arfante. Logo que o senhor Barakah cortou a kofta e meteu metade do pastel à boca, os filhos seguiram--lhe o exemplo sem pronunciar uma única palavra. Ouviam a mãe gemer do quarto, onde o marido a confinara, mas ninguém se atrevia a fazer fosse o que fosse.

Ninguém, com excepção de Ahmed. Atormentado por aqueles gemidos que não cessavam, e apesar de saber que tal tratamento era justo e correcto, o rapaz tomou em silêncio uma decisão que iria mudar a sua vida.

 

Começou por evitar ficar em casa. Logo que as aulas terminavam, ia para a mesquita rezar e estudar e só chegava a casa pela noite, a tempo do jantar. Mas em breve se interrogou quanto à sensatez da opção de se refugiar naquela mesquita. O xeque Saad era o mullab do santuário, mas sempre que o via Ahmed lembrava-se das palavras do professor Ayman, que Alá o protegesse: o teu mullah é um sufi, afasta-te dele.

Passou a prestar uma atenção crítica a tudo o que Saad dizia. Até que um dia lhe ouviu uma oração que o fez erguer o sobrolho.

"«Meu Deus, como és bom com aquele que vai contra os Teus princípios»", rezou o xeque nessa ocasião. "«Quem Te procurou e foi renegado por Ti, ou quem procurou refúgio em Ti e foi traído, ou quem se aproximou de Ti e foi afastado?»"

Ahmed ficou a pensar nesta oração. "Meu Deus, como és bom com aquele que vai contra os Teus princípios"? Mas o que é isto? Alá é bom com quem não O respeita? Onde estaria isso escrito?

Quando a oração terminou, Ahmed foi ter com Saad.

"Xeque, posso fazer-lhe uma pergunta?" "Diz, rapaz."

"Que oração foi essa que o senhor recitou? Não me lembro de a ver no Alcorão..."

"É uma oração da ordem Naqshbandi." "O Profeta recitou-a?"

Saad sorriu e contornou a pergunta. 0

"A ordem Naqshbandi surgiu alguns séculos depois do Profeta, rapaz." Inclinou-se para o seu pupilo, afagando-lhe o cabelo. "Estou a ver que esta oração te interessou. E bela, não é? Nela se reflecte a bondade e a tolerância do islão."

Ahmed não fez comentários, mas registou na mente o nome da ordem. A primeira oportunidade escapuliu-se para a biblioteca da mesquita e foi procurar num livro referências dos Naqshbandi. Descobriu que se tratava de uma ordem ligada a Bahauddin Naqshband, o santo de Bucara que viveu no século xiv. A meio do texto, o livro referiu a corrente islâmica a que pertencia essa ordem.

Era sufi.

"Logo vi", murmurou Ahmed, estreitando os olhos. "Logo vi!"

 

A associação do xeque aos sufis tornava-se-lhe agora clara, mas faltava-lhe ainda uma prova definitiva. Não foi Maomé que disse que não se pode acusar ninguém sem provas suficientes? Não foi o Profeta que exigiu até em certos casos a presença de quatro testemunhas para que ninguém fosse injustamente acusado?

A prova surgiu-lhe inesperadamente na sexta-feira seguinte. No final da oração do meio-dia, Saad aproximou-se do pupilo.

"Lembras-te daquela oração que no outro dia te deixou fascinado?"

Ahmed levou alguns instantes a perceber que o clérigo se referia à oração da ordem Naqshbandi.

"Sim...", murmurou com uma expressão velada, de modo a ocultar o que verdadeiramente pensava.

"Pois há mil maneiras de chegarmos ao Criador", disse o xeque enigmaticamente. "A oração é apenas uma delas."

"Não entendo. O que pretendes dizer com isso?"

"Queres que eu te mostre?"

Ahmed ainda pensou em dizer que não; suspeitava daquelas novidades. Mas percebeu que estava ali uma oportunidade de ouro para melhor conhecer o seu mestre e, vencendo a relutância, acabou por aquiescer.

 

Nessa noite o clérigo levou-o ao coração do Cairo, o souq de Khan Al-Khalili. Metendo por uma ruela, conduziu-o a um edifício antigo com um grande pátio central coberto de cadeiras e um palco montado ao fundo. O pátio estava cercado pelos três andares do edifício, com elegantes mashrabiyya cravados nos andares superiores.

"Isto é um wikala", anunciou. Perante o olhar inquisitivo do pupilo, percebeu que a palavra nada lhe dizia. "Sabes que antigamente, quando ainda não havia hotéis, existiam aqui no Cairo pousadas usadas pelos mercadores que atravessavam o Sara em caravanas. Esta é uma delas."

Ahmed contemplou com desconfiança as cadeiras e o palco montados no pátio e a multidão que se aglomerava no local. Viam-se turistas kafirun a tomar alguns lugares.

"Estas pessoas não têm ar de ser caravaneiras. O que estão aqui a fazer?"

"Tem paciência e já perceberás."

Minutos mais tarde um grupo de homens com turbantes e vestes brancas ou coloridas subiu ao palco e outro apareceu nas varandas com instrumentos na mão, sobretudo tabla. Os aplausos encheram o pátio e, acto contínuo, os homens das varandas começaram a tocar e os do palco puseram-se a rodopiar ao ritmo da música. Era uma melodia estranha, quase hipnótica, com um poder que fazia vibrar o ar e reverberar as paredes do wikala. Os dançarinos rodopiavam e rodopiavam, seguindo a cadência viciante da música, gitando as túnicas como rodas, a melodia a crescer sem cessar, num frenesim empolgante, num remoinho arrebatador; eram piões, eram o vento do deserto, eram vórtices coloridos, vários corpos num movimento único, reduzidos a manchas, transformados num torvelinho, mergulhados em transe. "O que estão eles a fazer?"

"Buscam a comunhão com o Criador." O xeque fez um gesto em direcção às figuras rodopiantes; as anteriores tinham revoluteado para fora do palco e agora eram homens com túnicas e turbantes negros que redemoinhavam em crescendo. "Vê como é belo! Vê como é sublime! Unem-se a Deus através da música e da dança. Mas também o fazem através da meditação e da recitação. Há mil maneiras de comungar com Alá."

Ahmed fez um esgar de repulsa.

"Comungar com Alá? São cristãos?"

"Muçulmanos."

O rapaz quase abanou a cabeça em desaprovação, mas dominou-se. Onde já se vira tal coisa? Muçulmanos a comungar com Deus? Muçulmanos a usar a meditação, a música e a dança para se unirem ao Misericordioso? Onde estava isso escrito no Alcorão?

Cravou os olhos no xeque, que se mantinha preso ao bailado hipnótico dos dançarinos rodopiantes, e fez-lhe a pergunta com intensidade.

"Quem são estes homens?"

"Dervish."

"O que é isso?"

O xeque desviou enfim a atenção dos dançarinos e sorriu com bonomia para o seu pupilo. "Ascetas sufis." A prova!

Ahmed não sabia se devia estar revoltado ou sentir-se esfu-ziante por ter finalmente confirmado as suas suspeitas. Mas agora não havia dúvidas. O xeque era um sufi! O professor Ayman tinha razão! O xeque era um sufi! E o que era um sufi senão um muçulmano submetido a influências cristãs?

Um kafir, portanto.

Isso queria dizer que ele, Ahmed, estava a ser ensinado por um kafir! Isso queria dizer que o verdadeiro islão não era aquele que o xeque lhe explicava nas suas lições. Pior ainda, o verdadeiro islão não era aquele que o mullah pregava todas as sextas-feiras na mesquita. Ele e a família estavam a ouvir uma doutrina cristã encapotada, não o verdadeiro islão! O verdadeiro islão era outro. O verdadeiro islão era o que se encontrava exposto por Alá no Alcorão e exemplificado pelo Profeta na sunnah. O verdadeiro islão era o da sura 9, versículo 5.

"«Matai os idólatras onde os encontrardes. Apanhai-os! Preparai-lhes todas as espécies de emboscadas!»"

Como poderiam os verdadeiros muçulmanos ignorar tão claras ordens de Alá?

 

Passou a evitar o xeque Saad e aquela mesquita. Quando as aulas terminavam na madrassa optava por escapar-se para longe, deambulando pelas ruas do Cairo, primeiro perdido em busca de um rumo que não sabia definir, depois encontrando-se quando, a dois passos do wikala onde actuavam os dervish sufis, deparou com aquela que lhe pareceu a mais bela mesquita do souq de Khan Al-Khalili.

A grande mesquita de Al-Azhar passou a ser o seu destino depois das aulas. A hora das orações convergia para o santuário, em pleno bazar, onde recitava com redobrado vigor as orações a Alá. Os mullabs pareciam-lhe ainda demasiado desviantes, mas ao menos não eram sufis. Além disso, concluiu que o islão desviante era defeito geral no Egipto, o medo de desagradar ao governo parecia maior do que a fé desses clérigos cobardes. Para contornar o problema, concentrava a sua atenção essencialmente na recitação do Alcorão, ignorando a maior parte do sermão pregado à hora da oração.

O resto do tempo era passado entre os comerciantes do bazar. Gostava do bulício, das cores, dos aromas, da excitação, das gentes diversas que por ali passavam. Vagueava sozinho pelo souq, embora o seu poiso habitual fosse um trecho da Sharia Al-Muizz li-Din Allah onde a certa hora pousava a longa sombra do minarete em xadrez vermelho do complexo Al-Ghouri. Ouvia da rua as vozes em coro de crianças da madrassa do complexo a recitarem o Alcorão e, sentado no passeio, entretinha-se a acompanhar a recitação. Ah, como era retemperador ouvir as palavras de Alá entoadas por aquelas vozes macias!

 

"Pssst!"

Ahmed voltou a cabeça, tentando perceber se era com ele. Estava sentado num degrau do acesso ao complexo de Al-Ghouri, mesmo junto à mesquita. Havia algumas semanas que frequentava aquele trecho da rua e tornara-se notado entre os comerciantes da zona.

"Pssst! Ó miúdo, anda cá!" Era mesmo consigo.

Viu o vendedor de uma loja de cachimbos de água chamá--lo com o dedo e, após uma hesitação, foi ter com ele. "Queres falar comigo?" "Sim, miúdo. Como te chamas?" "Ahmed."

"Não me ajudas a arranjar fregueses para o meu negócio?" O rapaz espreitou com curiosidade os múltiplos cachimbos de água espalhados pelo chão e pelas prateleiras. "Eu, senhor?"

"Apesar de estarmos na Al-Muizz, os turistas raramente vêm para esta parte do souq", queixou-se o comerciante. "Preciso de alguém que os vá buscar à Midan Hussein." Tirou do bolso uma moeda de cobre reluzente. "Dou-te vinte piastras por cada turista que me tragas e que me compre uma sheesha." Acenou com a moeda como se tentasse o rapaz com uma doce baklava. "Vinte piastras!"

Desconcertado com a inesperada proposta, Ahmed levantou o rosto para a tabuleta no topo da porta de entrada. Tinha escrito Arif e o adolescente presumiu que se tratava do nome do dono do estabelecimento.

"E se ele não comprar nada?"

"Bem, nesse caso não levas dinheiro, claro. Mas, se fizeres..." "Pai!"

A voz, suave e melodiosa, veio de dentro da loja e os dois voltaram os olhos naquela direcção. Apareceu nesse instante, por uma porta atrás do balcão, uma rapariga de uns dez anos, magra e com uns olhos negros luminosos, pareciam pérolas polidas. Ahmed sentiu um baque. Aquela menina era a criatura mais bela que alguma vez vira.

"Adara!", exclamou o comerciante. "Vai lá para dentro!" "Mas, pai..."

"Vai lá para dentro imediatamente! Agora estou ocupado, não vês? Já te chamo."

A rapariga deu meia volta e desapareceu. Era um anjo como Ahmed jamais havia visto. E ele sabia como se chamava. Adara. Que nome tão belo e apropriado! Adara. A*pala-vra árabe para virgem era perfeita para criatura tão sublime. Adara...

Sem hesitar, o rapaz estendeu a mão na direcção do comerciante. "Aceito."

Arif encarou-o e abriu a boca num sorriso feio, revelando incisivos apodrecidos. "Excelente!"

"Vou encher-lhe a loja de clientes."

 

"Onde é o seu hotel?"

Tinham acabado de sair do Harry's e Tomás decidiu fazer de cavalheiro até ao fim.

"Ao pé do teatro La Fenice", disse Rebecca. "É aqui perto, não se preocupe."

"Eu acompanho-a. O meu hotel também não é longe."

Veneza à noite tinha algo de irreal, parecia um palco fantasmagórico. A luz desmaiada dos candeeiros afagava timidamente as fachadas coloridas de branco, de amarelo, de rosa. Por toda a parte viam-se lojas elegantes, alternando com restaurantes acolhedores e edifícios históricos requintadamente conservados. A multidão deambulava distraída, os olhos a saltitarem pelas vitrinas ricamente decoradas, os passos levando-as ao abandono pelo enredado de calles.

"É curioso os muçulmanos fundamentalistas usarem imagens pornográficas para esconder mensagens cifradas, não acha?", observou a americana.

"Isso tem a ver com uma ordem dada por Alá no Alcorão." "A sério? Alá manda ocultar mensagens em mulheres debochadas?" Tomás riu-se.

"Claro que não", disse. "Mas há um trecho do Alcorão, julgo que no capítulo 57, onde é dito: «Criámos o ferro — nele há grandes danos e grande utilidade para os homens —*para que Deus em segredo conheça os que O socorrem a Ele e aos Seus Enviados.» Este versículo é interpretado como uma autorização divina para os muçulmanos usarem tecnologias modernas de modo a difundirem o islão. Daí que os fundamentalistas não hesitem em recorrer a armas sofisticadas e a computadores, incluindo esses sites pornográficos. Em tempo de guerra vale tudo, é a filosofia desses tipos. Presumo até que vocês tenham detectado muita actividade na Internet..."

"Muita mesmo", confirmou Rebecca. "A Internet é hoje em dia um elemento-chave da Al-Qaeda numa série de coisas: propaganda, treino, planificação, logística... Tudo! Eles usam-na para comunicar entre si, para mostrar vídeos de atentados, para transmitir informações, ordens e planos secretos e para atacar os computadores ocidentais. Já contámos uns cinco mil sites fundamentalistas, alguns deles com instruções pormenorizadas sobre como fabricar bombas simples. Há outros com cbat-rooms onde as pessoas fazem as perguntas que quiserem e têm do outro lado um especialista em lei islâmica a dar as respostas. Uma vez vi num desses chat-rooms um internauta fundamentalista dizer que pertencia a um grupo que estava na posse de um refém e queria saber se, à luz do islão, era permissível decapitá-lo com um serrote ou se teriam de usar uma faca ou uma espada, conforme o exemplo do Profeta..."

"E o que respondeu o especialista?"

"Disse que o exemplo do Profeta devia ser seguido, como ordena o Alcorão, e aconselhou-os a usarem a faca ou a espada."

Sem conseguir deixar de visualizar a cena, Tomás fez uma careta de repulsa e respirou fundo. "O que fazem vocês a esses sites}"

"Encerramos uns e vigiamos outros. Temos ainda uma táctica, que é abrir sites fundamentalistas para ver quem vem ter connosco. Apanha-se assim muito peixe..."

"Miúdo, suponho."

"Claro. Os tubarões têm os seus próprios sites e só frequentam aqueles nos quais têm confiança." "Como Bin Laden?" "Esse já nem usa a Internet." "Tem medo de ser apanhado?"

"Sim. Actualmente todo o núcleo duro da Al-Qaeda evita a Internet. Eles sabem que o risco é demasiado grande; a nossa tecnologia de intercepção é de tal modo sofisticada que os pode localizar a qualquer momento. Ao que sabemos, Bin Laden recorre a mensageiros para transmitir as suas ordens. Quando usa um computador, só vê informação que outros carregam para um CD ou um DVD. Nem pensar em fazer ligações à Internet."

 

La note xe bela, Fa presto Nineta, Andemo in barcbeta l frescbi a chiapar. "

 

A voz, entoando uma melodia melancólica, rompeu do estreito canal em frente. Atraídos pela promessa de romantismo que aquele som encerrava, Tomás e Rebecca calaram-se e subiram a uma ponte que ligava os dois quarteirões separados pelo canal; a ponte era pequena e pitoresca, curvando-se em arco sobre as águas escuras.

Da penumbra líquida emergiu então uma gôndola furtiva, o gondoleiro de pé a empurrar suavemente o remo, a voz embalando os turistas que o ouviam. Parados no topo da curvatura da ponte, o português e a americana- tinhffm os olhos colados à pequena embarcação, fruindo o instante. A gôndola passou por baixo da ponte, deslizando suavemente pelo canal, e a melodia ecoou pelo canal.

 

E Toni el so remo L'è atento a menar. Nol varda, nol sente L'è un orno de stuco.

 

O vulto negro desapareceu numa curva, a voz do gondoleiro a sumir-se na distância, tão irreal que a sua passagem parecia agora não ter passado de ilusão.

"Sabe uma coisa?", perguntou Tomás, a mente voltando ao problema que o preocupava mais. "Ainda me custa acreditar que haja fundamentalistas em Portugal."

Rebecca demorou um instante a libertar-se dos efeitos inebriantes da barcarolle, a canção dos gondoleiros venezianos, e a regressar ao presente.

"Não sei porquê", disse por fim.

"Porque eu conheço a nossa comunidade islâmica. Encontro-me com eles muitas vezes, temos discussões, falamos muito. É tudo boa gente, já lhe disse."

"E eu já lhe disse que todas as comunidades têm as suas ovelhas tresmalhadas!"

"Mas neste caso não há precedentes. Nunca se viu um muçulmano português envolvido em actos de... de terrorismo islâmico. Isso é coisa impensável!"

Rebecca recomeçou a caminhar, descendo da ponte e pisando o quarteirão.

"Está enganado."

A curiosidade espevitada, Tomás lançou-lhe um olhar inquisitivo do topo da ponte curvada. "Que quer dizer com isso?"

"Já houve fundamentalistas islâmicos oriundos de Portugal envolvidos em atentados."

O historiador desceu por fim a ponte, indo no encalço da americana.

"Está a falar a sério?"

"Claro."

"Diga-me quem!"

Rebecca continuou a andar, imperturbável, mas voltou a cabeça para trás.

"Sabe qual foi o primeiro atentado feito pela Al-Qaeda em solo europeu?"

Tomás apressou o passo e posicionou-se ao lado dela.

"Não foi o de Madrid?"

"Deve estar a gozar..."

"A Al-Qaeda atacou na Europa antes dos atentados de 2004?"

"E evidente que sim." "Quando?"

"O primeiro ataque da organização de Bin Laden em solo europeu ocorreu em 1991. Foi em Roma. O antigo rei do Afeganistão, Mohammad Zahir Shah, na altura planeava regressar ao seu país, o que constituía uma óbvia ameaça aos mudjahedin fundamentalistas e, por arrastamento, à Al-Qaeda.

Foi nessa altura que um elemento da Al-Qaeda se fez passar por jornalista e conseguiu aproximar-se do rei. Uma vez diante dele, o terrorista sacou de uma faca e desferiu-a contra o coração do ex-monarca. O que salvou o rei foi uma caixa de prata para cigarrilhas que tinha no bolso e que impediu que a lâmina penetrasse no coração."

"Não sabia disso."

"Sabe como se chamava esse elemento da Al-Qaeda?"

A americana parou, tirou uma fotografia da pasta e voltou-a na direcção de Tomás. A imagem mostrava um homem barbudo e bem nutrido, de aspecto europeu mediterrânico, sentado numa cela. Uma legenda em baixo indicava Cárcere di Rebibbia, Roma.

O historiador encolheu os ombros.

"Ignoro."

"Paul Almida Santous."

Rebecca pronunciou o nome com um sotaque fortemente americano; da sua boca saiu um nome tão estranho que Tomás levou um instante a converter estes sons bizarros num nome português.

"Ah!...", exclamou. "Paulo Almeida Santos."

"Isso."

O historiador levou um outro longo momento a fazer a ligação entre este nome, aquela fotografia e a história do atentado em Roma.

"Está a dizer-me que... que esse terrorista da Al-Qaeda era português?"

"You bet", confirmou ela. "Os italianos prenderam-no, claro. Ele primeiro fechou-se em copas e só anos mais tarde é que aceitou falar, mas limitou-se a dizer coisas que já eram do nosso conhecimento. Mesmo assim ficámos a saber que o senhor Santos tinha treinado nos campos da organização existentes no Afeganistão e que teve três reuniões com o próprio Bin Laden para preparar o atentado."

"Desconhecia esse caso em absoluto."

"Estou a contar-lhe isto para que tenha a noção de que o trabalho que esperamos de si não é necessariamente um piquenique", acrescentou Rebecca, voltando a guardar a fotografia na pasta. "E um facto que a comunidade islâmica em Portugal é tranquila e constituída por gente boa. Mas, tal como entre os portugueses cristãos, também é possível encontrar entre os portugueses muçulmanos quem opte por caminhos diferentes. Ou pode pôr as mãos no fogo por toda a gente no seu país?"

"Claro que não."

"Os nossos sistemas de vigilância mostram que a mensagem que lhe mostrei no Harry's foi aberta há dois meses num cibercafé de Lisboa. O remetente é um endereço que andamos a vigiar há alguns anos e que sabemos ser apenas usado para emitir ordens operacionais de grande magnitude. Isso mostra que..."

"Se é assim", interrompeu Tomás, "porque não encerram esse endereço?"

"Porque já o temos localizado e não o queremos queimar. Se o encerrássemos, a Al-Qaeda abriria outro, provavelmente com maiores cautelas ainda, e emitiria ordens operacionais sem que pudéssemos saber nada. Tendo este endereço identificado, dispomos ao menos da possibilidade de observar o tráfego, de interceptar mensagens e de perceber se vai ou não acontecer alguma coisa."

"Estou a entender."

Rebecca calou-se por um momento, tentando retomar a ideia que expunha quando foi interrompida.

"Como eu estava a dizer, o facto de terem sido emitidas ordens através desse endereço mostra-nos que vai acontecer alguma coisa. E o facto de esse e-mail ter sido aberto num computador cujo IP está num cibercafé de Lisboa mostra-nos que os operacionais a quem foram dadas as ordens se encontram em Portugal."

"Acha, portanto, que vai ocorrer um atentado em solo português..."

"Isso já não sei", retorquiu ela. "Só há uma maneira de responder a essa pergunta, não lhe parece?" "Qual?"

"Decifre a mensagem que lhe passei há pouco. Tudo depende do que estiver contido nela."

Tomás meteu a mão ao bolso e extraiu o bloco de notas. Folheou-o e localizou a página para onde havia copiado a linha de letras e números que se encontrava oculta sob a imagem pornográfica.

 

6 AY-H AS 1 H A 2 R.U

 

"Não há forma de vocês me arranjarem a chave desta cifra, pois não?"

A americana soltou uma gargalhada.

"Se a tivéssemos, Tom, pode acreditar que já a teríamos usado!", exclamou. "Oiça, o e-mail contém sem dúvida ordens operacionais. Essa mensagem foi aberta em Lisboa, o que significa que este atentado pode envolver o seu país. Se eu fosse a si, sabe o que fazia? Metia horas extraordinárias para decifrar o que aí está escrito!"

"Oiça, eu sou apenas um historiador. Porque não entregam antes este assunto ao SIS?"

"Já entregámos."

"E eles?"

Rebecca revirou os olhos.

"Não sabem nada."

"Mas o que disseram eles?"

"Que a comunidade muçulmana portuguesa é muito pacífica e que não há problemas." "E têm razão."

A americana apontou para o papel que Tomás mantinha entre os dedos.

"Acha que sim? Se têm razão, então quem foi que usou um cibercafé de Lisboa para abrir a mensagem da Al-Qaeda que escondia essa cifra? O menino Jesus?"

O português parou para reler a linha que tinha anotado no bloco de notas. Dois segundos depois, fechou o bloco com um gesto decidido e arrumou-o de novo no bolso.

"Não sei", disse. "Mas acredite que vou descobrir."

 

O homem era loiro, de pele avermelhada pelo sol, e olhava com interesse para os produtos expostos ao longo da ruela adjacente à Midan Hussein.

"Mister! Mister!", chamou Ahmed com um sorriso encantador ao acercar-se do potencial cliente. "Venha ver a gruta de Ali Babá!"

"Ai sim?", sorriu o ocidental. "O que tem ela de especial?" "Está cheia de tesouros."

A vida de Ahmed depois das aulas passou a ser deambular pelas ruelas do souq em busca de clientes ocidentais. Sabia um inglês elementar com jargão para turistas que Arif lhe ensinara e que foi aperfeiçoando no contacto com os estrangeiros.

Muitos ocidentais achavam-lhe graça e deixavam-se arrastar pelo labirinto do Khan Al-Khalili até à loja dos cachimbos de água, quase à sombra do minarete de Al-Ghouri. Havia dias em que angariava tantos clientes e recebia por isso tantas piastras que chegava a somar cinco ou dez libras egípcias.

"Masba'allab!, Ahmed! Masbaallah!"

Arif, o dono da loja, mostrava-se de tal modo satisfeito com o desempenho do seu jovem angariador que passou a chamar-lhe o meu menino. Convidava-o para almoçar à sua mesa, na copa, de onde Ahmed espreitava amiúde as mulheres a comer na cozinha. Arif tinha várias filhas, todas elas esbeltas e ruidosas, mas o rapaz só parecia ter olhos para a bela Adara. As mulheres mantinham-se à parte, mas sempre que a rapariga, por qualquer motivo, se aproximava, Ahmed corava e baixava o rosto.

Desde que começara a trabalhar para a loja dos cachimbos de água, jamais trocara uma palavra com ela. Astuto, como bom comerciante que era, Arif acabou inevitavelmente por notar o interesse que o seu protegido nutria pela filha. Não ficou aborrecido. Não tinha a certeza de que Ahmed fosse a pessoa ideal para Adara, menina que considerava especialmente rebelde, mas também era verdade que não estava certo do contrário, pelo que decidiu acompanhar o pupilo com atenção.

O comportamento que ao longo do tempo foi observando em Ahmed agradou-lhe. Descobriu que o rapaz, como bom muçulmano, gastava parte do dinheiro que ganhava na zakat, as esmolas que distribuía aos necessitados. Ahmed limitava-se a cumprir com zelo os ensinamentos do xeque Saad, uma vez que percebera já que a maior parte do que o mullab lhe explicara não eram necessariamente ideias sufis, mas o verdadeiro islão. E foi esse islão que Arif descortinou em Ahmed. O Alcorão e a sunnab do Profeta ordenavam a generosidade e o respeito pelos outros, virtudes que começavam justamente pela distribuição desinteressada da zakat pelos desfavorecidos. Ahmed orgulhava-se de ser o mais crente de todos os crentes, pelo que nunca descurava esta obrigação, facto que não passou despercebido a Arif.

Alá ordenara também o respeito pela família e Ahmed, apesar de evitar passar tempo em casa, entregava à mãe a parte que lhe restava do dinheiro ganho no souq.

"Onde arranjaste isto?", perguntou-lhe a mãe da primeira vez que o filho lhe estendeu duas notas de uma libra.

"No souq", respondeu com honestidade, tal como ordenado por Alá no Alcorão. "A trabalhar nuraa loj« de sheesha."

Os pais encolheram os ombros à novidade e deixaram-no fazer como quisesse; desde que frequentasse a madrassa e fosse passando de ano, para eles estava tudo bem.

Mas Arif, a quem nada escapava, chegava já a conclusões.

 

"O que achas de Adara?"

A pergunta de Arif apanhou Ahmed de surpresa. A rapariga acabara de passar pela copa e o seu admirador secreto seguira-lhe o vulto com mal disfarçado interesse.

"Hã?", exclamou o rapaz, atarantado, como se tivesse sido apanhado com a mão nas baklavas.

"Adara. O que pensas dela?"

Ahmed corou e, sentindo-se desnudado pelos olhos perscrutadores do patrão, baixou os olhos. "Eu... eu... não sei."

"Não sabes? Então não a vês? Ora essa, ela acabou de passar por aqui..."

O adolescente manteve-se muito quieto no seu lugar, horrorizado com a forma tão transparente como se deixara ler.

"Gostarias de casar com ela um dia?"

Ahmed ergueu os olhos, uma centelha de esperança a iluminar-lhe o rosto.

"Eu?"

Arif riu-se.

"Sim, tu. Quem haveria de ser? Achas que darias um bom marido para Adara? Ela é uma boa rapariga."

Com o coração a ribombar-lhe no peito e a garganta estrangulada pela emoção, o rapaz apenas conseguiu balouçar afirmativamente a cabeça e deixar escapar pelos lábios um fiozinho de voz. bim.

"Terás de a domar, claro. A minha filha é um pouco rebelde e precisa da mão firme de um homem. Sentes-te à altura dessa tarefa?"

O fiozinho de voz voltou:

"Sim."

"Isso implica que sejas sempre um bom muçulmano, não um mole como esses kafirun que aqui me trazes à loja. Achas que posso estar descansado quanto a isso?"

Neste ponto a voz de Ahmed ganhou corpo e firmeza; isso de bom muçulmano era algo que estava determinado a ser ao longo da vida, custasse o que custasse.

"Com a graça de Deus não o desiludirei!"

Arif soltou uma gargalhada e deu-lhe uma palmada nas costas. O acordo estava selado; agora era apenas deixar que Ahmed e Adara crescessem.

 

Crescer foi coisa que os dois se encarregaram de fazer sem que ninguém lhes desse ordens para tal. Nos anos seguintes a vida de Ahmed centrou-se na madrassa de manhã e no souq à tarde. Foram tempos de maturação e experiência.

O contacto com os turistas provocava no rapaz uma repulsa que se esforçava por ocultar. Desaprovava a forma desnudada e imodesta como as mulheres ocidentais se apresentavam em público; elas atreviam-se mesmo a expor os ombros e as coxas, pareciam verdadeiras mulheres de rua, ordinárias e desavergonhadas. Não tinha sido o Profeta que ordenara o decoro? Onde estavam os véus que as protegiam dos olhares ínvios? Por vezes observava até casais de turistas a andarem de mão dada em público!

Encolhia os ombros, num misto de fúria e resignação. Eram kafirun, o que se havia de fazer? Os relatos sobre os cruzados é que falavam verdade, concluiu. O professor Ayjnan, que Alá o protegesse onde quer que o tivessem encerrado, é que tinha razão, confirmou. Esta gente bárbara desconhecia as mais elementares regras de decência e boa conduta, não passavam todos de animais entregues aos instintos mais primários. Os kafirun pareciam ricos, claro; mas nem por isso eram mais do que meros selvagens.

Que diferença entre essa gente e Adara, por exemplo! Os meses haviam-se feito anos e o corpo de Adara evoluíra de menina para uma mulherzinha. Logo que teve a primeira menstruação, o pai ordenou-lhe que se cobrisse quando saísse à rua, não fosse a nudez da sua pele leitosa desencadear involuntariamente a excitação sexual dos homens. Ahmed aprovou esta decisão com todo o coração; não tinha sido o Profeta que, segundo um hadith, havia dito que "quando uma mulher atinge a idade da menstruação não é adequado que ela exiba partes do seu corpo, excepto isto e isto", apontando para o seu rosto e mãos? As mulheres kafirun não passavam de umas ordinárias, enquanto bastava pousar os olhos na filha de Arif para perceber a modéstia e o decoro que caracterizavam as crentes. Que contraste! As kafirun exibiam o corpo despudoradamente, enquanto Adara saía totalmente coberta, como o mensageiro de Deus requeria.

O problema é que, com o tempo, a rapariga pareceu dar alguns sinais de rebeldia e, a certa altura, começou a escolher certos adereços que pareciam pouco apropriados ao rapaz a quem estava prometida. Ahmed calou-se de início, mas, quando estes comportamentos se tornaram demasiado ostensivos, chegou o momento em que não se conteve e decidiu chamar a atenção de Arif.

"Adara vai sempre à rua adequadamente coberta", observou certo dia ao almoço, medindo as palavras com cuidado. "Mas, há pouco, vi-a sair e fazer uma coisa que chama um pouco a atenção dos homens."

"O quê?", alarmou-se Arif, preocupado com a reputação da filha. "O que a viste fazer?"

"Levava saltos altos", denunciou Ahmed, baixando a voz. "Deixa os homens imaginarem-lhe as pernas..."

O patrão deu um murro na mesa, subitamente irado.

"Por Alá, isso não pode ser! Quando essa rapariga voltar vou ter uma conversa com ela!"

"Ela tem de andar de sapatos baixos." Ergueu o indicador. "E há outra coisa: cheirava a champô perfumado. Isso é perigoso! Distrai a mente dos homens, afastando-os de Alá e inspirando-lhes fantasias pecaminosas."

Arif levantou-se de rompante, incapaz já de conter a justa indignação de pai ultrajado.

"Tens razão", vociferou. "Quando ela chegar vai receber um correctivo! Não quero poucas-vergonhas na minha casa!"

 

O contacto com os ocidentais expôs Ahmed a algumas ideias novas. Certo dia, quando seguia pelas ruas do souq em direcção à loja dos cachimbos de água, ouviu um dos turistas perguntar-lhe o que achava do governo do Egipto. O rapaz riu-se e encolheu os ombros.

"Eu não acho nada, mister. Sou um simples muçulmano."

"Mas não gostarias de ter democracia no teu país?"

A pergunta extraiu uma expressão vazia de Ahmed. "O que é isso, mister?" Foi a vez de o turista se rir.

"Democracia? Nunca ouviste falar de democracia?" "Eu não, mister."

"E tu poderes escolher o teu presidente", explicou o europeu. "É tu teres uma palavra a dizer na forma corrfb se governa e se fazem as leis do teu país. Não gostavas?"

"Mas para que preciso eu disso, mister?"

A pergunta pareceu ao turista tão ingénua que o deixou por momentos desconcertado.

"Sei lá, para... para poderes substituir o teu presidente, por exemplo. Olha, imagina que achas que ele está a governar mal. Em vez de o teres a mandar para sempre, podes tirá-lo e pôr lá outro que governe melhor."

"Mas ele não vai deixar, mister."

O turista riu-se outra vez.

"Claro que não! É por isso que precisas de leis democráticas, que permitam substituí-lo. Não gostavas de as ter?"

"Nós não precisamos de novas leis, mister", retorquiu Ahmed, abrandando o passo porque estavam prestes a chegar à loja dos cachimbos de água. "Para nos governar já temos as leis apropriadas."

"Quais? As destes ditadores que mandam em vós?"

O rapaz apontou para cima.

"As de Alá."

 

Com o tempo foi-se apercebendo de que o souq estava cheio de polícias. Alguns andavam uniformizados, eram facilmente detectáveis. Mas havia outros que circulavam à paisana, se misturavam na multidão e se infiltravam por toda a parte; pareciam formigas.

Ahmed tomou pela primeira vez consciência de que andavam por ali quando viu uns desconhecidos a apreenderem produtos espalhados por um vendedor sobre um tapete no passeio - camisas de marca, rádios, perfumes.

"Contrabando", explicou-lhe, lacónico, Arif, encostado à porta a acompanhar a cena.

Sentado no degrau da loja dos cachimbos de água, Ahmed observava surpreendido os homens a algemarem o comerciante que havia sido apanhado em flagrante.

"Mas qualquer pessoa pode prendê-lo?"

Arif riu-se.

"Estes tipos não são pessoas quaisquer, rapaz", disse, suficientemente baixo para apenas ser escutado pelo seu jovem empregado. "São polícias."

O incidente despertou Ahmed para uma nova realidade. Havia polícias à paisana a circular pelo bazar. Daí em diante começou a estar mais atento a tudo o que se passava em seu redor. Sempre que via esses polícias actuar e deter alguém, parava para os observar com cuidado. Registava os rostos, as atitudes, as expressões, o que diziam, o modo como andavam, a forma de olharem.

Começou assim a distinguir as características que os diferenciavam. Percebeu que esses homens não eram sorridentes ou espontâneos como as outras pessoas que se viam no souq; em vez disso tinham um rosto tenso, grave, compenetrado. Apresentavam também uma maneira característica de caminhar; não o faziam com uma descontracção natural, embora se esforçassem por parecê-lo, antes revelavam uma rigidez que não conseguiam ultrapassar.

Ahmed aprendeu desse modo a reconhecê-los, e sobretudo a evitá-los. O seu negócio era angariar clientes para a loja e procurava fazê-lo bem. Apesar de estar a lidar com kafirun,

não achava o trabalho totalmente desagradável. Alguns turistas mostravam-se amigáveis e uns davam-lhe até baksbeesh de cinquenta piastras ou mesmo uma libra, mas o rapaz não se deixava enganar. Tinha sempre bem presente o aviso de Deus na sura 5, versículo 51 do Alcorão: "O vós que credes! Não tomeis a judeus e cristãos por confidentes: uns são amigos dos outros. Aquele de entre vós que os tome por confkienteíserá um deles."

A amizade com os Adeptos do Livro era assim proibida por Alá e Ahmed não o esquecia. Daí que, quando o viam passar pelas ruelas labirínticas do souq com um casal de turistas no encalço e lhe perguntavam para onde ia, tinha sempre a mesma resposta na ponta da língua:

"Vou levar este cão kafir e a sua prostituta para o Inferno!"

 

O grupo de jovens palmilhava as ruelas em declive, apreciando as fachadas pitorescas das casas com as flores nas va-randas e as roupas coloridas a secarem às janelas. Em alguns cantos cheirava a vinho, por influência das tabernas àquela hora ainda encerradas, e noutros a urina; eram os efeitos da folia nocturna. À frente do grupo, o professor ia chamando a atenção para os pormenores que deveriam observar.

"Já não existem aqui casas mouriscas", explicou Tomás aos seus alunos da disciplina de Estudos Islâmicos. "Mas, se repararem bem, Alfama mantém um certo ar de casbab, não acham?"

Os alunos assentiram, as cabeças voltadas em todas as direcções. A maior parte da classe era muçulmana, mas alguns revelavam-se cristãos ou agnósticos movidos pela curiosidade. Desceram as escadarias e dobraram a igreja, alcançando o terraço do Miradouro de Santa Luzia. Os múltiplos telhados vermelhos e o distante caudal azul do Tejo abriram-se

diante dos seus olhos, mostrando-lhes Lisboa antiga em todo o seu esplendor.

"Pintarola!", exclamou um dos estudantes.

Deixaram-se ali ficar, a descansar e a contemplar a magnífica vista da cidade. A mente do professor, porém, fervilhava de ideias. Desde que voltara de Veneza que andava a imaginar qual a melhor forma de interpelar os seus alunos mruçulnfanos sobre questões políticas, e em particular as relacionadas com o fundamentalismo islâmico. O problema é que não via maneira satisfatória de o fazer. O assunto era totalmente estranho às aulas e aqueles jovens, despreocupados e alegres, pareciam-lhe ter tanta relação com o fundamentalismo como a água com o azeite.

Mas, que diabo!, o facto é que aquele e-mail da Al-Qaeda fora aberto em Lisboa. Era fundamental que começasse a fazer perguntas, mesmo às pessoas mais improváveis. Como os seus alunos muçulmanos. Foi por isso que decidiu sair da faculdade e dar aquela aula ali, ao ar livre, visitando Alfama e a Mouraria, os bairros da antiga Lisboa muçulmana. Sabia que só nesse contexto conseguiria criar um ambiente propício às questões que precisava de levantar.

O estudante mais próximo de si era Suleiman, um rapaz tranquilo cujos pais, de origem indiana, tinham vindo de Moçambique na década de 1960 e se tinham tornado advogados de grande nome em Lisboa. Tomás viu ali a sua oportunidade.

"Suli, viste ontem as notícias?"

O aluno desviou os olhos da paisagem lisboeta.

"Sim, claro. Porquê?"

"Grande chatice, aquilo na índia, hem?"

Suleiman suspirou e fez uma interjeição com a língua.

"Nem me fale nisso."

"Já viste o que lhes deu? Saíram às ruas e puseram-se a disparar sobre toda a gente..." "São malucos. Doidos varridos."

Três gaivotas aproximaram-se do miradouro em voo rasante e a grasnar sem parar, obrigando alguns jovens a encolherem-se. Seguiram-se algumas risadas e piadas trocadas entre eles a propósito do incidente.

Tomás deixou passar uns segundos antes de voltar à carga.

"E se isso acontecesse aqui?"

"O quê?"

"Os atentados, Suli. Imagina que esses tipos, esses fundamentalistas, pegavam em armas e... sei lá, vinham aqui para Alfama, por exemplo, e começavam a matar toda a gente que lhes aparecia pela frente. Já viste a confusão que era?"

Suleiman fez um ar interrogativo.

"O professor está a falar a sério?"

"Ó Suli, quem nos garante a nós que isso não acontece aqui? No fim de contas, há fundamentalistas em toda a parte, não é verdade? Basta um punhado deles para lançar o caos..."

"Nós estamos em Portugal!", devolveu o rapaz, como se esse facto fosse, por si próprio, eloquente. "Aqui não há dessa gente!"

"Como podes ter a certeza disso?"

Uma expressão baralhada perpassou pelo rosto do estudante.

"Porque... não sei, porque... ora, porque isso saber-se-ia", gaguejou.

"Saber-se-ia como?"

"Quer dizer, eu já teria ouvido alguém falar nisso, por exemplo. Ou alguém já teria comentado alguma coisa. Sabe, a conversa dos fundamentalistas é uma coisa que se nota, não passa despercebida..."

"E tu nunca ouviste nada?" "Claro que não." Tomás olhou em redor. "Nem o resto do pessoal?"

Suleiman virou também o rosto para o grupo e, com descontracção, lançou a pergunta.

"Malta! Alguma vez alguém ouviu... sei lá... aJguém*escu-tou um caramelo qualquer a falar de... de jihad, ou coisas no estilo?"

O grupo assumiu uma expressão de perplexidade. Mas um deles, o Alcides, deu um passo em frente, o rosto muito compenetrado.

"Eu já."

Tomás arregalou os olhos. "A sério? Quem?"

Alcides estreitou os olhos, assumiu uma pose de conspirador, olhou em redor e, assegurando-se de que ninguém o ouvia fora do grupo, inclinou-se para a frente e murmurou com ar muito compenetrado:

"O Sylvester Stallone. No Rambo."

A conversa desfez-se em galhofa.

 

"Vou levar este cão kafir e a sua prostituta para o Inferno!"

Andava havia três anos a responder a mesma coisa sempre que o interpelavam em árabe no souq a caminho da loja dos cachimbos de água com um casal de turistas no encalço.

Só que, certo dia, aconteceu uma coisa inesperada. Ahmed tinha já quinze anos e percorria o Khan Al-Khalili com perfeito à vontade, como se sempre tivesse ali vivido. Nessa tarde decidiu ir ao El Fishawy angariar turistas. O café mais antigo do Cairo situa-se numa ruela estreita e movimentada por trás da Midan Hussein. É um estabelecimento com história, dis-tinguindo-se por uma atmosfera exótica que um dia atraíra até o próprio rei Faruk e que parecia ser do agrado dos kafirun.

Os turistas refastelavam-se nos sofás e nas cadeiras do El Fishawy para fumar sheesha ou beber chá aromático, apreciando a decoração requintadamente deteriorada do café e o burburinho agitado no souq. A viela era uma passagem estrei

ta, protegida do Sol inclemente por enormes toldos, mas focos de luz esgueiravam-se pelos cantos e faziam brilhar a poeira e o fumo perfumado dos cachimbos de água, formando no ar diamantes cintilantes e assumindo tonalidades fantásticas num incessante jogo com as sombras.

Depois de passar os olhos pelos clientes instalados no exterior do El Fishawy, a atenção de Ahmed prendeu-se num casal que fumava sheesha numa salinha interior. "Mister, está boa a sheesha}"

O americano levantou o polegar direito e piscou o olho. "Excelente."

"Gostaria de comprar um cachimbo de água ainda melhor do que esse?"

O turista soltou uma gargalhada.

"Gee, nem aqui vocês nos deixam em paz!"

"Mas, mister, é a mais antiga loja de sheesha do Cairo!" Apontou para a fotografia que o El Fishawy expunha na parede com o rei Faruk sentado numa mesa do café. "Até o rei ia lá abastecer-se!"

Era tudo mentira, claro. O estabelecimento de Arif estava longe de ser antigo e muito menos tivera visitantes ilustres, mas aquelas palavras pareciam funcionar junto de muitos turistas e estes não seriam excepção. Depois de trocarem algumas palavras, Ahmed apercebeu-se de que se tratava de americanos. O homem era um loiro falador, mas a mulher, de tez trigueira e grandes óculos escuros, permanecia calada, para agrado do jovem egípcio. A americana teve o cuidado de manter o recato, o que lhe parecia de louvar; afinal as mulheres sempre têm de saber ocupar o seu lugar. Assim sendo, Ahmed apenas tivera de conversar com o marido em inglês, acabando por convencê-lo a visitar a loja de Arif para ver o que pomposamente designou como "os cachimbos de água mais procurados do Cairo".

O guia e os clientes saíram do El Fishawy e calcorrearam apressadamente as ruas do souq. Já na movimentada Sharia Al-Muizz li-Din Allah, a principal rua do Cairo medieval, viraram em direcção ao complexo Al-Ghouri. O minarete pintado com os motivos de xadrez vermelho funcionava como um farol, uma vez que era à sombra dele que se encontrava a loja dos cachimbos de água de Arif, e passaram pelo velho vendedor de especiarias que há anos fazia a Ahmed a mesma pergunta galhofeira.

"Onde vais tu tão apressado?"

Sem se deter, Ahmed lançou a resposta habitual.

"Vou levar este cão kafir e a sua prostituta para o Inferno!"

Alguns passos adiante, o guia apercebeu-se de que o casal parara atrás dele. Parou também e deu meia volta, sem compreender qual era o problema.

"Então, mister} O que se passa?"

Para espanto de Ahmed, quem respondeu não foi o americano, mas a mulher.

"O que nos chamaste?"

Ahmed ficou boquiaberto. A americana falara. Em árabe. "Como disse?"

"Eu perguntei-te o que nos chamaste", repetiu ela, a voz cortante e fria.

O rapaz abanou a cabeça, tentando reordenar os pensamentos. A americana dirigira-se a ele num árabe fluente, embora com um inconfundível sotaque estrangeiro; pareceu--Ihe libanês. E o que dissera ele que suscitasse aquela pergunta naquele tom? Fez um esforço para reconstituir o minuto anterior. Vinha ele a andar pela ruela, desaguara na rua principal, vira o velho do costume sentado no sítio de sempre, o velho perguntara-lhe onde iam e ele dera-lhe a resposta habitual, ia levar o cão kafir e a sua prostituta para...

Por Alá! A cadela kafir entendera!

"O que se passa?", interrogava-se o americano em inglês, sem nada compreender. "Porque parámos?"

O homem manifestamente não falava árabe, confirmou Ahmed. Só a mulher. Ela continuava a fitar o rapaz de um modo intenso e o jovem, passada a surpresa de perceber que as suas palavras haviam sido compreendidas, deyolveifr-lhe o olhar sem se mostrar intimidado. Pelo Profeta, nenhuma mulher o faria vacilar!

"O que nos chamaste?", insistiu a turista.

"Chamei-vos o que vocês são!", disse Ahmed, olhando-a nos olhos com uma expressão de desafio.

"O que se passa, sweetie?", voltou o americano a perguntar, pressentindo que algo não estava bem. "Explica-me."

Sem descolar os olhos de Ahmed, a mulher falou em inglês.

"Este tipo chamou-te cão infiel a ti e prostituta a mim." O homem arregalou os olhos, perplexo e embasbacado, duvidando até de que ouvira bem. "O quê?"

"E o que te digo, Johnny. Ele insultou-nos." Passado o pasmo inicial, o rosto do americano enrubesceu e, com um gesto rápido e inesperado, esbofeteou Ahmed. Paf.

"Como te atreves?", rosnou, subitamente enraivecido.

Apanhado de surpresa, o rapaz caiu no chão e sentiu o americano aproximar-se.

"Porco árabe!" Seguiu-se um pontapé, que passou de raspão nas costas do guia. "Toma! Quem pensas tu que és?"

O medo de Ahmed tornou-se subitamente fúria. Ergueu-se de um salto e atirou-se às cegas sobre o americano, socando-o consecutivamente, de qualquer maneira, umas vezes acertando-lhe no rosto ou no corpo, outras atingindo o ar, mas sempre a socar, num frenesim furioso, imparável, louco. Deixou de ver bem, tudo o que registava era uma refrega raivosa, via uma mão, um rosto, o chão, uma loja, um pé, uma mão, tudo numa sequência imparável, numa confusão indescritível, numa cólera descontrolada.

"Cão kafir!", vociferou no meio daquele caos enfurecido. "Que Alá te envie para o fogo eterno!"

Gerou-se um pequeno tumulto em plena rua. Ahmed sentiu inicialmente que a violência do seu ataque apanhara o adversário em contrapé, embora ao cabo dos primeiros golpes ele tenha começado a reagir. Redobrou a fúria do assalto, numa tentativa de decidir logo a contenda, mas o seu novo ímpeto foi inesperadamente interrompido por duas mãos duras como ferro que o puxaram pelo ar.

"Larga-o!", ordenou uma voz em árabe. "Larga-o!"

Ahmed sentiu o braço direito rodar e quase explodir de dor, preso atrás das costas. Levou um murro no estômago e a dor transferiu-se para aí, aguda e devastadora. Contorceu-se sobre si próprio e bateu com a testa no chão. Sentiu dois pontapés nas costelas e um no nariz. Tentou abrir os olhos e viu tudo vermelho; era o sangue que lhe jorrava abundantemente pela cara. Mas no meio de toda aquela barafunda conseguiu vislumbrar de relance os homens que intervieram e, reconhecendo os rostos sérios e compenetrados, percebeu que estava perdido.

Eram polícias à paisana.

 

O juiz tinha um ar algures entre displicente e indiferente no momento em que ergueu o martelo de madeira e olhou para o rapaz que, do banco dos réus, o fitava com assustada ansiedade.

"Por ofensas à integridade física de um turista e à integridade moral de uma mulher", proclamou apaticamente, "condeno o arguido, Ahmed ibn Barakah, a três anos de prisão!"

O martelo caiu com estrondo na mesa. Pak.

Acto contínuo, um polícia puxou-o pelos ombros e Ahmed mal teve tempo de ver a mãe esconder a cara para ocultar as lágrimas, o pai estremecer de vergonha nas bancadas semi-desertas do tribunal e Arif abanar a cabeça de desalento. Num piscar de olhos saiu da sala de audiências e foi arrastado pelos corredores deslavados e opressivos até ao carro celular, onde o aguardavam os outros condenados do dia. Fazia calor, como sempre no Cairo, mas o que lhe ardia nesse dia era a alma. De medo e de indignação.

Sentou-se no carro celular, os olhos perdidos no infinito, enquanto aguardava que chegassem ainda mais condenados e os levassem para a cadeia. Três anos de prisão por ter posto na ordem um kafir e a sua prostituta! Três anos! Mas que país era aquele que dava mais importância a dois kafirun que a um crente? Ainda por cima, ele limitara-se a responder às agressões de um desses cães! Abanou a cabeça, num misto de indignação e de comiseração. Queriam lá ver aquilo? Um kafir já era mais importante do que um crente! Como era possível?! Um kafir tornara-se mais importante do que um crente! Por Alá, onde aquele país já chegara!...

Aos olhos de Ahmed, o seu julgamento resumia-se a uma narrativa de simplicidade arrepiante. O turista americano não passava afinal de um jornalista que estivera a cobrir a guerra civil no Líbano. Viera ao Cairo com a sua meretriz libanesa, uma cadela cristã decerto apaniguada dos malditos Gemayel, e, por vingança pelo justo correctivo que lhe fora aplicado, usara toda a sua influência para arregimentar a embaixada americana e pressionar a condenação de um crente. O governo, constituído evidentemente por fantoches dos Americanos, vira-se decerto forçado a meter-se ao barulho e pressionara o tribunal. O juiz tinha tido medo e condenara-o. Realmente, só assim se conseguia entender que o juiz desse mais importância a um kafir do que a um crente.

Ah, enquanto aquele governo existisse não se ia a lado nenhum! Não fora aquela gente que tivera o desplante de ir a Al-Quds e fazer a paz com os sionistas? O faraó Sadat dera a cara, mas Mubarak também estivera envolvido na traição, o apóstata! E o que era o pequeno Ahmed diante de tão grande afronta? Se tiveram a falta de vergonha de irem à terra dos kafirun abraçar os sionistas, o que lhes custava mandar um pobre e humilde crente durante três anos para a cadeia por se ter defendido de um cruzado?

O sentimento de revolta levou Ahmed a pensar numa coisa que um outro turista lhe dissera. Qual fora a palavra que ele utilizara? Democracia, não fora? Ele perguntara se Ahmed gostaria de ter democracia no Egipto. Claro que na altura tinha ido ver essa palavra à enciclopédia. Democracia. Com base no que lera, tinha percebido que isso significava organizarem-se umas eleições e ir toda a gente votar num novo governo.

A ideia, assim à primeira vista, não lhe parecia má de todo. Teria de verificar com um mullab, claro; não com um desviante sufi, mas com um verdadeiro crente. O facto é que, se houvesse eleições, poderia votar contra Mubarak e os seus esbirros e toda aquela miserável corrupção que os arrastava pela decadência. Em vez daqueles vermes, poderiam pôr no governo gente séria e honesta, bons muçulmanos que respei

tassem a sbaria e a vontade de Alá e distribuíssem zakat pelos necessitados e fizessem frente aos kafirun que humilhavam a umma. Sim, talvez fosse disso mesmo que o Egipto precisava. Democracia.

 

A vida de Tomás retomou a rotina de sempre. Dava aulas de História na Universidade Nova de Lisboa e fazia consultoria na Fundação Calouste Gulbenkian, curiosamente na mesma rua da faculdade. Aos fins-de-semana ia a Coimbra visitar a mãe ao lar; quando a encontrava mais lúcida levava-a a passear pela Baixinha ou à beira-rio, junto à ponte pedonal.

A novidade na sua vida chegava por telefone. Rebecca Scott telefonava-lhe com frequência de Madrid para saber se ele tinha conseguido quebrar o segredo da mensagem cifrada que ela lhe mostrara em Veneza ou se obtivera progressos nos seus inquéritos sobre os muçulmanos fundamentalistas em Portugal.

"Descobri alguns sítios em Lisboa onde se fala muito em jihad", anunciou Tomás. "Ai sim? Onde?"

"Os cinemas que passam os filmes do Chuck Norris", gracejou, ecoando a piada de Alcides.

"Olhe que faz mal em levar as coisas para a brincadeira", repreendeu-o a americana do outro lado da linha. "Isto é muito sério!"

As conversas entre os dois limitavam-se às questões do trabalho relacionado com a NEST, mas Tomás tinha a intuição de que ela usava o assunto como pretexto para falar com ele. Era verdade que a intuição nunca fora cr seu forte e poderia até dar-se o caso de ele estar a imaginar coisas, mas era um facto que as conversas telefónicas com Rebecca lhe deixavam essa impressão.

As revelações de Veneza pareceram-lhe na altura de grande gravidade, mas agora, ali na tranquilidade mansa de Lisboa, espreguiçando-se na placidez soalheira dos dias mornos, aquelas ameaças terríveis afiguravam-se-lhe fantasiosas. Para todos os efeitos, decidiu não deixar o assunto morrer por completo. Bem vistas as coisas, a NEST começara a pagar-lhe um salário, modesto é certo, mas suficientemente interessante para o convencer de que tinha de apresentar serviço.

Começou por isso a frequentar as mesquitas com regularidade. Às sextas-feiras o seu poiso principal tornou-se a Mesquita Central, à Praça de Espanha, tão acessível por se encontrar quase ao lado da faculdade e da Gulbenkian. Foi recebido pelos muçulmanos que a frequentavam com um misto de surpresa e satisfação; não era habitual ver por ali gente de olhos verdes.

"Quer tornar-se muçulmano?", perguntaram-lhe com frequência nas primeiras vezes.

"Não, não. Estou aqui só para ver."

 

Com o tempo começaram a meter-se com Tomás, em particular os moçambicanos e os guineenses que com ele se cruzavam durante as abluções antes da oração.

"Então quando é que o professor declara a sbabada?", perguntavam-lhe na brincadeira, referindo-se à declaração de aceitação de que existe apenas um Deus e de que Maomé era o Seu Profeta.

De início ria-se e mantinha a versão de que estava ali apenas para ver, mas sentiu que também precisava de se tornar brincalhão e um dia decidiu ir a jogo.

"Ando a pensar nisso", respondeu dessa vez.

Esta réplica foi diferente da habitual, o que suscitou a curiosidade dos seus bem-dispostos interlocutores.

"A sério, pá?"

"Pois", confirmou. "Desde que descobri que os muçulmanos podem ter várias mulheres que não penso noutra coisa!"

Seguiu-se a gargalhada geral, acompanhada de muitas palmadas nas costas.

"Depende das gajas", contrapôs um moçambicano de mãos mergulhadas na água. "Há mulheres que a malta paga para se ver livre delas, caraças!"

Novas gargalhadas.

"Agora a sério", insistiu o historiador. "Existe alguém que seja casado com várias mulheres?"

"Aqui em Portugal?", perguntou um guineense que aguardava a sua vez nas abluções. "Era bom, era!"

"Aqui não há haréns", confirmou o moçambicano, agora a lavar os pés. "O pessoal respeita a lei. Que remédio!"

Tomás descobriu que este ambiente descontraído era o ideal para criar a atmosfera propícia às perguntas de maior alcance sem correr riscos de ofender ninguém. Passou a usar os gracejos cúmplices entre homens, sobretudo a propósito das mulheres, para sondar o terreno de um modo mais eficiente.

"Quem tem grandes vidas são esses fundamentalistas, hem?", passou a dizer na sequência das piadas sobre os haréns.

"Esses é que só obedecem à sharia e casam com todas as miúdas que querem..."

"Podes crer, meu. Podes crer."

"Gostava de conhecer malta dessa. Será que vocês me podem apresentar alguém?"

Sempre que lhes fazia este pedido, os muçulmanos portu-
gueses riam-se. *

"Só na Arábia Saudita, pá", tornou-se a réplica mais comum.

"Tens de perguntar ao Bin Laden!", era outra resposta habitual.

 

Só quatro semanas depois de voltar de Veneza, e após mais um telefonema de Rebecca a questioná-lo sobre os resultados do seu trabalho, é que abriu o bloco de notas e fixou os olhos na mensagem cifrada que a Al-Qaeda ocultara debaixo da fotografia pornográfica da ruiva de boca escancarada.

 

6AY-H ASI M

 

Começou por ler a linha em voz alta, procurando respeitar as sílabas.

"Seis ay has um ha oito ru." Calou-se, num esforço para discernir o sentido do que lera. "Que raio quererá isto dizer?"

Era um feriado e dispunha de todo o tempo do mundo para resolver aquele mistério. Coçou a cabeça. Assim à primeira vista, aquilo parecia-lhe claramente uma...

Rrrrrrrrrr ...

O som fê-lo endireitar a cabeça. Era o estremecer mudo do telemóvel. Meteu a mão no bolso e extraiu o aparelho. "Está lá?"

"Boa tarde. É o professor Noronha?" "Sim. Quem fala?" "Daqui Norberto."

Tomás fez um esforço de memória, mas o nome não lhe dizia nada.

"Desculpe, não estou a ver..."

"Norberto Mamede. Sou seu aluno na faculdade, em Estudos Islâmicos."

"Ah!", exclamou, batendo com a palma da mão na testa. "Norberto! Desculpa, tinha a cabeça noutro lado. Está tudo bem, rapaz?"

A voz na linha hesitou.

"Mais ou menos, professor."

"Então? O que se passa?"

Norberto fez uma curta pausa antes de responder. "O professor lembra-se daquela aula que deu no outro dia, quando nos levou a passear por Alfama e pela Mouraria?" "Sim..."

"Lembra-se de ter feito perguntas sobre os... enfim, sobre os fundamentalistas?"

O coração de Tomás deu um salto. Sentou-se devagar no sofá e empurrou o auscultador do telefone o mais possível contra o ouvido, para se assegurar de que estava a ouvir bem.

"Sim..."

"Pois... a coisa é que eu recebi agora um telefonema e... não sei bem o que fazer, não sei a quem me dirija.... Lembrei--me da sua conversa no outro dia e decidi ligar-lhe, não sei se fiz bem."

"Fizeste bem, Norberto", assegurou-lhe. "Fizeste bem. Comigo estás perfeitamente à vontade. Conta lá, que telefonema foi esse que recebeste?"

A voz do aluno voltou a hesitar.

"O professor lembra-se do Zacarias?"

"Quem? Aquele moço de barbas que andou lá na faculdade no ano passado?"

"Sim, esse mesmo! Lembra-se dele, não lembra? Foi ele que me ligou."

"E então?"

"O Zacarias sempre teve a mania que era mais-muçulmano do que o resto do pessoal, mais isto, mais aquilo, chateava-se quando nos via a beber cerveja... enfim, ele era rigoroso no cumprimento dos nossos costumes. Acontece que o Zacarias desapareceu no ano passado e nunca mais deu notícias. Confesso que não liguei muito a isso, o gajo às vezes era até um bocado chato. Mas ontem à noite, estava eu a jantar, tocou o telefone. A minha mãe foi atender e disse que era uma chamada de longa distância para mim. Quando peguei no telefone percebi que se tratava do Zacarias."

"Ah. O que te disse ele?"

"Pareceu-me assustado e queria ver se eu o podia ajudar a voltar a Portugal."

"Mas por que razão estava ele assustado?"

"Acho que os tipos com quem ele anda são fundamentalistas."

"Ai sim?"

"A ligação não estava boa, havia muitas interferências na linha, mas pareceu-me que ele disse uma palavra... enfim, uma palavra que me acagaçou um pouco, confesso. Ainda estou nervoso."

"O quê? O que disse ele?"

Norberto suspirou para ganhar coragem.

"Terroristas."

 

A porta da cela era metálica e, quando o guarda a abriu, Ahmed viu um mar de cabeças e de corpos voltar-se na sua direcção; o guarda empurrou-o para o interior da cela e a porta fechou-se atrás dele. Um forte fedor a fezes infestava o ar pesado e viciado da cela. Fazia um calor insuportável e o recém-chegado depressa percebeu que era difícil conseguir mexer-se no meio daquela multidão. Os prisioneiros pareciam enlatados, todos comprimidos uns contra os outros.

"Quem és tu, irmão?", perguntou um dos companheiros de cela, um velho de barbas brancas.

Ahmed apresentou-se e, respondendo ao questionário cerrado a que o submeteram, explicou por que motivo havia sido preso. A dado ponto da narrativa elevou-se entre os restantes prisioneiros um leve clamor de aprovação, em apoio aos insultos e aos murros que haviam estado na origem da detenção.

"Estes kafirun têm de aprender que não podem vir aqui à nossa terra comportar-se como cruzados", observou o ho

mem das barbas brancas, arrancando novo coro de assentimento. "Fizeste bem, irmão."

A cela tinha o piso forrado a azulejo branco, com duas pequenas janelas quadradas no tecto e uma retrete no canto.
Era realmente difícil mexerem-se naquele espaço, havia gente a mais. Quando Ahmed comentou o assunto, recebeu como resposta uma pergunta inesperada:

"Tens dinheiro?"

O recém-chegado olhou desconfiado para o homem que lhe fizera a pergunta. "Porque queres saber?"

"Porque o dinheiro compra favores. Tens dinheiro?"

Ainda sem entender o propósito da pergunta, Ahmed extraiu do bolso uma moeda de vinte piastras. Os olhares em redor tombaram na moeda como abutres.

"Não chega", disse o homem. "Tens mais?"

Do bolso saiu com hesitação mais uma moeda de vinte piastras.

"Quarenta piastras. E capaz de chegar." O homem aproximou-se da porta da cela e gritou: "Guarda! Guarda!"

Instantes mais tarde abriu-se uma janelinha na porta e o guarda, um homem gordo e mal barbeado, espreitou para a cela.

"O que querem?"

"Não se consegue respirar aqui. Abre a porta durante dez minutos, por favor."

"O que ganho eu com isso?"

O homem virou a cabeça e olhou para Ahmed.

"Mostra-lhe."

Percebendo enfim o que se estava a passar, o novo recluso exibiu as duas moedas ao guarda. "Quarenta piastras."

A fechadura rodou com três clacs sonoros, a porta foi aberta e o ar fresco jorrou para dentro da cela como um rio. O interior tornou-se de repente mais respirável e menos abafado e uma frescura agradável acariciou os rostos magros e transpirados. Mas durou pouco este bálsamo. Dez minutos mais tarde, o guarda aproximou-se e trancou de novo a porta. A armadilha voltara a fechar-se.

 

O alívio só voltou ao cair da noite, quando a porta da cela se abriu de novo e os prisioneiros foram encaminhados como cordeiros pelos corredores da prisão. Assustado, Ahmed bateu no ombro do prisioneiro que caminhava à sua frente e perguntou-lhe para onde iam.

"É o jantar."

Desembocaram de facto num salão com uma grande mesa e três guardas sentados nas pontas. Os reclusos formaram uma fila e, um a um, aproximaram-se dos guardas. Quando chegou a vez de Ahmed, o guarda, percebendo que tinha diante dele um novo preso, olhou-o dos pés à cabeça, como se o inspeccionasse.

"Ya ibn al Kalb, ismakeb?", perguntou. "Filho de um cão, como te chamas?"

"Ahmed ibn Barakah."

O guarda estendeu-lhe um prato de alumínio e mandou-o sentar-se. Um cozinheiro aproximou-se com um grande tacho e despejou-lhe arroz, couves e queijo de ovelha no prato. Como não lhe entregaram talheres, Ahmed viu-se forçado a comer com as mãos; mas não se incomodou. Afinal, era assim que o Profeta comia. E ele tinha muito orgulho em comer como o mensageiro de Deus.

No final do jantar, os reclusos foram devolvidos à sua cela, situada no segundo andar do edifício. A sensação de claustrofobia voltou quando a porta foi fechada. Era já noite cerrada e os presos deitaram-se no chão de azulejo, tentando dormir. A impressão de que não passavam de sardinhas enlatadas tornou-se nesse instante mais forte e, esquadrinhando a cena em torno dele, Ahmed apercebeu-se de que cada pessoa só tinha espaço suficiente para ocupar dois azulejos e meio. Sentia pés a tocarem-lhe na cabeça e os seus próprios pés encontravam-se à cabeça de outra pessoa. Tentou abstrair-se disso e adormecer.

Não conseguiu. Por mais que se esforçasse por dormir, o facto é que permanecia acordado. Que estava ali a fazer?, interrogava-se continuamente. Como fora possível tudo aquilo ter acontecido? Queria ir para casa, queria frequentar a madrassa, queria percorrer o souq em busca de clientes para a loja dos cachimbos de água, queria deleitar-se com a figura de Adara à hora do almoço na cozinha de Arif. Por Alá, perdera tudo isso! E agora? Que seria da sua vida? Sentiu as lágrimas a inundarem-lhe os olhos e os soluços a escaparem-se-lhe pela boca. Tudo aquilo era culpa do governo, concluiu. Seria admissível que, no seu próprio país, um kafir fosse mais importante do que um crente?

Dava voltas e mais voltas no seu estreito lugar, o sentimento de injustiça a ensombrar-lhe o coração. No tempo do Profeta, pensou, nada daquilo teria acontecido. Se levasse o seu caso directamente ao apóstolo de Deus, decerto Maomé não só o ilibaria de toda a culpa como o cumprimentaria por não ter deixado que um kafir o humilhasse! Quantos crentes haviam sido perdoados por terem morto muitos kafirun? Não seria ele, Ahmed, perdoado por ter defendido a sua honra? Não, em definitivo o governo estava nas mãos dos kafirun!

A certa altura sentiu a bexiga apertar e teve necessidade de urinar. Levantou-se e saltitou entre os corpos deitados até chegar junto da retrete. O fedor a fezes era ali especialmente forte; havia uma nuvem de moscas a zunir em torno da latrina e Ahmed teve pena dos que estavam deitados naquela zona. Como era possível dormir ali? E verdade que junto à retrete havia mais espaço do que no resto da cela, o que não admirava: todos iam para o mais longe possível da imundice. Mesmo assim, e porque havia gente a mais, alguns não encontravam outro espaço que não fosse aquele.

Ahmed urinou longamente para o buraco fétido e, a tarefa cumprida, foi a saltitar de regresso ao seu lugar. Quando lá chegou, porém, percebeu que o seu espaço desaparecera, os corpos tinham-se encostado de modo a ocupar a vaga que deixara aberta. Procurou noutro canto, mas era a mesma coisa. Não havia espaço. Andou de um lado para o outro, o desespero a crescer, mas estava toda a gente encostada, não havia azulejo visível que pudesse ocupar.

"Queremos dormir", protestou uma voz, incomodada com aquele vulto que andava por toda a parte.

"Não tenho lugar", queixou-se Ahmed.

Seguiu-se um coro de chius irritados.

"Vai-te deitar!"

O novo recluso olhou mais uma vez em redor, já desesperado. Foi então que percebeu como aquilo funcionava. Claro que havia espaço. Claro. Era onde se deitavam aqueles que não encontravam lugar. Resignado, derrotado e horrorizado, Ahmed saltitou devagar entre os corpos por uma última vez e, com um esgar enojado, deitou-se no único espaço que havia disponível.

Ao lado da retrete.

 

Quando acordou na manhã seguinte, Ahmed iniciou uma rotina que se prolongaria enquanto estivesse na cadeia de Abu Zaabal. Os presos da sua cela foram arrebanhados pouco depois da oração do amanhecer e levados para a cantina, onde lhes foi servido o pequeno-almoço. Eram favas cozidas com pão. Logo nessa primeira manhã, ao mergulhar os dedos no empapado das favas, sentiu um objecto sólido escondido no meio da comida. Estranhou e extraiu o objecto do meio das favas.

"O que é isto?", perguntou, exibindo o que parecia ser umpequeno tubo.»

Os parceiros do lado, dois irmãos chamados Walid, riram-se.

"Uma beata", disse um deles.

Sem acreditar, Ahmed aproximou o tubo do nariz e cheirou. Tinha o odor a cinza e a tabaco; era realmente uma beata.

"Que porcaria!"

"São os guardas", acrescentou o outro irmão Walid, encolhendo os ombros. "Põem nojeiras na comida para nos chatearem..."

Ahmed aprendeu logo ali que as refeições em Abu Zaabal eram sempre uma caixinha de surpresas. Podia não encontrar nada, como acontecera na véspera ao jantar, embora também houvesse sempre a possibilidade de aparecerem as coisas mais inesperadas. O mais comum eram pequenas pedrinhas ou areia misturada com comida, mas corriam histórias de reclusos que tinham ouvido guardas gabarem-se de escarrar para a panela quando estavam constipados.

O pior, porém, vinha a seguir ao pequeno-almoço. Os presos eram levados para um pátio no segundo andar do edifício onde os guardas os obrigavam a correr às voltas, no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio. Se alguém abrandava era de imediato insultado e açoitado por um grande cinto nas mãos de um guarda. Ahmed não percebia o propósito daquela cena, mas corria como os outros e, também como os outros, levava uma ocasional vergastada.

Só ao final da manhã o grupo era reconduzido à cela. Não foram necessários muitos dias para Ahmed começar a encarar aquele reduzido espaço sobrepovoado, irrespirável e malcheiroso como uma bóia de salvação. O que quando chegou lhe parecia absolutamente insuportável foi-se-lhe afigurando pouco a pouco como um verdadeiro oásis. Já lhe haviam explicado que aquela cela fora concebida para vinte pessoas, mas estavam ali sessenta; a informação escandalizara-o na altura, mas já deixara de o chocar agora.

A cela tornara-se um refúgio.

 

Viveu cinco meses assim. Dormia mal, a comida não prestava, sofria com saudades da vida que perdera e de vez em quando era agredido pelos guardas. Preencheu uma requisição especial e a família foi autorizada a enviar-lhe pequenas quantias de dinheiro, o que lhe permitia comprar cigarros, verduras, queijo e melancias na cantina. Como ninguém tinha faca, as melancias eram esmagadas contra o chão para poderem ser abertas.

Ao longo deste período a única coisa que o alegrou foi uma carta que recebeu de Arif. O antigo patrão endereçou-lhe uma missiva terna e calorosa, chamando-lhe meu filho e asseguran-do-lhe que no seu coração nada mudara e que o acordo que haviam feito três anos antes permanecia válido. Adara estava--lhe prometida e seria sua, acontecesse o que acontecesse.

Até que um dia, a meio de uma corrida em círculos no pátio com os guardas a vergastarem com os cintos os reclusos que se atrasavam, um funcionário da cadeia apareceu no local.

"Ahmed ibn Barakah!", chamou, lendo o nome num papel. Como ninguém respondeu, repetiu o nome, mas dessa vez mais alto: "Ahmed ibn Barakah!"

Ahmed arfava pesadamente, o rosto a escorrer suor e as roupas coladas ao corpo com a transpiração, e só à segunda chamada percebeu que era consigo. O que lhe quereriam dessa vez? Teria feito algum disparate? Iria ser sujeito a mais alguma punição? Ainda pensou em deixar-se ficar, em fazer--se despercebido, mas depressa concluiu que isso seria pior; se o viessem a castigar, castigá-lo-iam com .mais -durezft por desobediência. Abrandou por isso, e, ofegante, apresentou-se diante do funcionário que berrara o seu nome.

"Sou eu", disse por entre golfadas de ar, o peito a inchar e a esvaziar-se. "Ahmed ibn Barakah."

"Vai à tua cela buscar as tuas coisas e apresenta-te dentro de cinco minutos no pátio central", ordenou, virando-se de imediato para o pátio de modo a continuar a chamada: "Mohammed bin Walid!"

 

Foi assim, sem perceber bem o que se passava, que Ahmed foi metido num carro celular, juntamente com outros oito reclusos, e pelas grades da janelinha viu o complexo prisional de Abu Zaabal ficar para trás. Vislumbrou o edifício da prisão, mas também o hospital e a escola, com a aldeia de Abdel Moneim Riad lá ao fundo, até que a nuvem de pó erguida pelo carro tudo tapou e os prisioneiros se acomodaram nos seus lugares.

Entre eles estavam os irmãos Walid.

"Será que nos vão libertar?", perguntou um deles, esperando contra a esperança.

"Não pode ser", disse Ahmed, mais para manter as expectativas baixas. "Ainda me falta cumprir pena."

"A mim também", disse o segundo irmão.

"E a mim", acrescentou um outro preso.

Depressa perceberam que todos os que iam no carro celular ainda tinham tempo para cumprir, o que lhes ensombrou a esperança. Se não era para os libertar, para que os haviam tirado de Abu Zaabal? Um dos reclusos que seguia no carro celular olhou para os seus companheiros um a um e o olhar iluminou-se-lhe.

"Vocês já repararam numa coisa?"

"O quê?"

"Somos todos da Irmandade Muçulmana." Olharam uns para os outros, reconhecendo a sua filiação no grupo radical islâmico. "Pelo Profeta, tens razão!" Ahmed afinou a voz. "Eu não."

Olharam-no com curiosidade. "O que fizeste para ser preso?"

"Bati num kafir", disse, com orgulho. "E o tribunal, em vez de me proteger a mim, um crente, protegeu o kafir, que Alá o amaldiçoe para sempre!"

Um coro de aprovação percorreu o carro celular.

"Falas e comportas-te como um verdadeiro crente, meu irmão", declarou um dos seus companheiros de viagem com uma certa solenidade respeitosa. "Podes não ser da Irmandade Muçulmana, mas é como se fosses."

A descoberta de que os que ali seguiam pertenciam à mesma organização islâmica ou partilhavam as mesmas ideias deixou-os algo apreensivos. Tornara-se evidente que o facto de todos respeitarem o Alcorão e a sunnab do Profeta tinha sido um critério para serem seleccionados e retirados de Abu Zaabal. Isso levantava importantes questões. Que se passava? O que lhes iriam fazer? Para onde seguiam?

Com crescente ansiedade, puseram-se a espreitar lá para fora, tentando descortinar o caminho. Perceberam que desciam pela província de Qaliubiya na direcção do Cairo.

Duas horas depois já a grande cidade havia ficado para trás e acercavam-se de Maadi, a sudeste da capital. Foi então que repararam numa tabuleta com a inscrição.

Tora.

"Que Alá Ar-Rabim, o Misericordioso, se apiede de nós", murmurou um dos reclusos ao ver a inscrição.

"Porquê?", alarmou-se Ahmed, interrogando-o com o «lhar. "Conheces este lugar?"

"Sim."

"E então? Para onde vamos?"

O homem que falara afastou-se da janela do carro celular e sentou-se no seu lugar com um suspiro prolongado, os olhos baixos e conformados, o ânimo pesado.

"Para o inferno."

 

Optou de início por manter secreta a informação. Rebecca voltou a ligar de Madrid, mas Tomás nada lhe disse sobre a conversa com Norberto. Queria primeiro apurar algumas coisas e certificar-se dos factos antes de revelar o que quer que fosse.

A primeira prioridade foi localizar a família de Zacarias. Norberto não tinha o contacto do seu antigo colega, que lhe ligara de um número não identificado, pelo que o professor precisava de encontrar outro caminho. Procurou as fichas dos alunos do ano anterior e folheou-as até chegar ao registo do estudante desaparecido. A pequena folha rectangular com o logótipo da faculdade identificava Zacarias Ali Silva e tinha colada ao canto uma fotografia tipo passe colorida, mostrando um rosto coberto por uma barba negra encaracolada que o envelhecia prematuramente.

Tomás pegou no telemóvel e ligou para o número de telefone registado na ficha.

"Está lá?", respondeu uma voz feminina do outro lado da linha.

"Bom dia, minha senhora. Será que posso falar com o Zacarias?"

"O Zacarias não está."

"Daqui fala o professor Noronha, da Universidade Nova de Lisboa. Tenho muita urgência em chegar à «fala ocm o Zacarias. Será que me pode dizer onde o posso localizar?"

"O meu filho não se encontra no país."

"A senhora é a mãe?"

"Sou, sim."

"Muito prazer, minha senhora. Eu dei aulas ao Zacarias no ano passado e a senhora está de parabéns, tem um filho muito esperto."

A voz do outro lado quase ronronou de prazer.

"Obrigada."

"Quando é que o Zacarias volta?" "Só daqui a uns meses."

"Ah, que maçada! Tenho tanta urgência em falar com ele... Não haverá nenhuma maneira de o contactar?"

"Bem... o meu filho foi estudar para o Paquistão. Agora é um pouco difícil chegar até ele."

"Mas o Zacarias não deixou nenhum contacto?"

"Deixou, claro."

"E será que... que mo poderia dar?" A mãe fez uma pausa de hesitação antes de responder. "Antes de partir, o meu filho pediu-nos que não lhe ligássemos."

"Ai sim? Porquê?"

"Oh, manias dele! Sabe como é, esta rapaziada hoje em dia quer é fazer o que lhe apetece..."

"Então como fala a senhora com o seu filho?"

"O Zacarias às vezes telefona-nos."

"E o contacto que ele lhe deui? Não o usa?"

"Este número é só para coisas muito urgentes. Ele foi muito insistente. Só deveríamos ligar-lhe em caso de uma grande emergência."

"Bem... este caso é uma granide emergência. Será que mo pode dar?"

A voz feminina voltou a fazeir uma pausa.

"Isso não sei."

Tomás respirou fundo. Percebeu que teria de ser persuasivo se queria chegar a algum ladio.

"Oiça, minha senhora", dissie, a mente freneticamente à procura da mentira mais convimcente e sedutora que conseguisse imaginar. "Eu preciso mesmo de chegar à fala com o Zacarias. Abriu-se agora uma..,, uma grande oportunidade profissional para ele e temos de actuar com enorme rapidez."

A senhora adoptou um tom distante, desconfiado até.

"Será que me pode explicar dlo que se trata?"

A mentira teria mesmo de ser boa, percebeu Tomás.

"Bem, passa-se o seguinte. Eu dou aulas na faculdade, mas também trabalho na Gulbenkian. A fundação está ligada ao negócio do petróleo, não sei se sabe..."

"Toda a gente sabe."

"Acontece que eles estão à pnocura de uma pessoa versada em estudos islâmicos para chetfiar o seu departamento de relações com o mundo islâmico., Sabe como é, a Gulbenkian acha que nada melhor do que urm muçulmano para falar com outro muçulmano, parece que issso facilita os negócios lá no Médio Oriente. A pessoa que deísempenhava essa função, um muçulmano muito respeitado, mtorreu subitamente e eles precisam de um substituto com girande urgência. Está a ver, trata-se de um trabalho que lidai com muitos milhões, não é verdade? Como calcula, a responsabilidade é enorme e... e estamos a falar de um trabalho principescamente pago." Disse estas últimas palavras num tom de confidência, como se estivesse a partilhar com ela um grande segredo. "Ora eles vieram falar comigo e eu sugeri-lhes o Zacarias. Agora, se eu não o encontrar... lá se vai a oportunidade..."

O silêncio voltou ao outro lado da linha, desta feifa um pouco mais prolongado do que as pausas anteriores.

"Eu vou ali buscar o número do Zacarias."

 

Os algarismos já estavam registados no bloco de notas e Tomás ficou um instante a contemplá-los. Depois levantou-se e foi buscar a lista telefónica. Localizou as páginas das ligações internacionais e só parou quando chegou ao Paquistão. Olhou de novo para o número que a mãe de Zacarias lhe havia dado.

00-92-42-973...

O indicativo nacional, 92, era mesmo do Paquistão. Fixou o indicativo de área e percorreu a lista dos indicativos por cidade, obviamente estabelecida por ordem alfabética.

Faisalabad 41

Islamabad 51

Karachi 21

Lahore 42

Reteve o olhar neste último indicativo, 42, e verificou mais uma vez o número que lhe havia sido dado. 00-92-42-973... Lahore.

O número de emergência de Zacarias era de Lahore. Conhecia a cidade de nome e de múltiplas referências históricas, mas percebeu que não era capaz de a situar no mapa. Pegou no atlas e procurou as páginas da Ásia. Encontrou o Paquistão e deslizou o indicador até Lahore. Ficava perto da fronteira com a índia, constatou.

Ainda hesitou em relação ao que deveria fazer de seguida. A hipótese mais simples era entregar já o assunto a Rebecca e ao seu pessoal da NEST. Mas, se calhar, o melhor seria mesmo certificar-se de que estava numa pista correcta, não se fosse dar o caso de lançar um falso alarme. Poderia ser embaraçoso. Além do mais, Zacarias conhecia-o a ele, não a uns americanos que lhe aparecessem pela frente.

Vencendo as derradeiras reticências, pegou no telemóvel e digitou o número. Da linha vieram os sons das ligações a serem estabelecidas e finalmente do aparelho a chamar.

Trrrr-trrrr... trrrr-trrrr...

"Salaam", soltou uma voz masculina do outro lado. "Hello?", perguntou Tomás em inglês. "Será possível falar com Zacarias Silva, por favor?" "Muje angrezee naheeng aateel"

O homem não falava inglês, percebeu. Tentou por isso em árabe, mas a resposta veio novamente em urdu. "Kyaap aap ko urdu atee hay?"

O português suspirou, impaciente com aquela conversa de surdos. Assim não iria lá.

"Zacarias Silva", disse, repetindo a seguir o nome próprio sílaba a sílaba. "Za-ca-ri-as!"

"Zacareya? Zacareya?"

"Isso! Isso!", entusiasmou-se. "Ele está?"

O paquistanês retorquiu com uma algaraviada em urdu tão longa que deixou Tomás sem saber como responder.

"Zacarias!", foi tudo o que conseguiu dizer mal o outro lhe deu oportunidade. "Vá chamá-lo, por favor! Zacarias!"

Uma nova barreira cerrada em urdu encheu o telefone. Quando Tomás já desesperava, porém, o homem deixou de falar e a linha permaneceu em suspenso.

"Está lá?", chamou o historiador, sem perceber bem o que se passava. "Está lá? Alô!"

O silêncio prolongou-se e o português ficou na dúvida sobre o que fazer. Deveria aguardar? Seria melhor desligar e tentar outra vez? A chamada teria caído? Na verdade, não tinha a menor ideia de qual o melhor procedimento.

"Está sim?" »

A linha parecia morta. A medida que o silêncio se prolongava, Tomás ia-se inclinando para a possibilidade de desligar e ligar de novo. Quando o ia a fazer, todavia, a ligação animou-se.

"Salaam'", disse uma nova voz do outro lado, mais suave do que a anterior.

Talvez este falasse inglês, pensou Tomás, esperançado.

"Hello? Queria falar com Zacarias Silva, por favor."

Detectando o Zacarias Silva pronunciado à maneira portuguesa, a voz mudou inesperadamente para português.

"Sou eu. Quem fala?"

"Zacarias Silva?"

"Sim, sou eu."

"Daqui Tomás Noronha, o teu professor em Lisboa. Estás--me a ouvir bem?"

"Sim, sim. Estou a ouvir. O que se passa?"

"Zacarias, o Norberto falou comigo e parece que estás a precisar de ajuda. Diz-me o que é preciso fazer e eu farei."

Fez-se um curto silêncio do outro lado.

"Professor, não posso falar agora", disse Zacarias, tão depressa que ia atropelando as palavras. "Depois ligo-lhe."

Click.

A chamada foi desligada.

 

Manteve o telemóvel por perto durante o resto do dia, sempre preocupado com a possibilidade de receber uma chamada de Zacarias. Nem sequer nas aulas desligou o aparelho. Sentia-se quase como um miúdo apaixonado, tão ansioso pelo prometido telefonema da namorada que chegava a suspirar.

Sempre que o telemóvel tocava, metia a mão no bolso e agarrava-o com uma rapidez expectante, para se sentir desapontado logo a seguir, ao constatar que a chamada afinal não era do antigo aluno.

"Você anda estranho", constatou Rebecca, a autora de uma das chamadas que Tomás recebeu entretanto. "Passa-se alguma coisa?"

"Por acaso, passa."

"Ai sim? O quê?"

"Tenha calma", riu-se ele. "Logo que tenha alguma informação mais concreta digo-lhe, está bem?" Rebecca soltou um grito de excitação. "Não me diga que descobriu alguma coisa!" "Tenha calma..."

Calma era, porém, um bem de que o próprio Tomás não dispunha em abundância por aqueles dias. Permaneceu atento ao telemóvel durante dois dias sem que nada acontecesse, o que o deixou ainda mais enervado. Que se passaria? Que segredos eram aqueles que Zacarias escondia? Do que tinha ele medo? Porque falara ele em terroristas quando tinha ligado a Norberto?

Com o ex-aluno teimosamente silencioso, o historiador começou a recear ser ultrapassado pelos acontecimentos. Nessa noite, quando se foi deitar, decidiu abrir o jogo com Rebecca logo na manhã seguinte. No fim de contas, raciocinou, ela e a NEST é que tinham os meios para chegar a Zacarias.

 

Crrrrrrr Crrrrrrr Crrrrrrr

O telemóvel acordou-o a meio da noite. Olhou estremunhado para o enorme mostrador digital do despertador pousado na mesinha de cabeceira e viu as horas exibidas a âmbar fluorescente. 04:27

Esticou o braço e agarrou o aparelho. "Está sim?", atendeu, sonolento. "Professor Noronha?"

A voz distante despertou-o como se naquele jnomanto o tivessem encharcado de água gelada. Endireitou-se de imediato na cama, de repente muito alerta.

"Sim, sou eu", confirmou. "Es tu, Zacarias?"

"Não tenho muito tempo para falar", disse a voz. "O professor estava a falar a sério quando disse que me ajudava?"

"Sim, absolutamente. O que precisas que eu faça?" "Preciso que me tire daqui!"

"Queres dinheiro para comprar uma passagem de avião?"

"Eu tenho dinheiro", respondeu Zacarias. "O problema é que eles desconfiam de mim e têm-me debaixo de olho. Se eu for à estação de comboios ou ao aeroporto, eles descobrem."

Tomás teve vontade de perguntar quem eram eles, mas conteve-se. O tom de urgência que sentia na voz do antigo aluno mostrava-lhe que Zacarias não dispunha de muito tempo para falar, pelo que teria de se limitar à informação útil.

"Então que queres que eu faça?"

"Não sei bem. Preciso de protecção para sair."

"Queres que vá aí?"

"E perigoso, professor..."

"Não te preocupes comigo. Estás em Lahore, não estás?" "Sim."

"Então encontramo-nos exactamente de hoje a oito dias ao meio-dia, aí em Lahore." Abriu a gaveta da mesa-de--cabeceira e tirou um lápis. "Diz-me em que sítio."

Zacarias fez uma pausa, claramente a tentar escolher um ponto de encontro.

"O forte da cidade velha", decidiu. "Sabe onde é?" Tomás tomou nota da referência.

"Não sei, mas vou descobrir. Encontramo-nos então no forte da cidade velha de Lahore, ao meio-dia, precisamente daqui a uma semana."

"Combinado." Fez-se um súbito silêncio na linha, como se o ex-aluno quisesse acrescentar mais alguma coisa. "E... professor?"

"O que é, Zacarias?"

"Tenha muito cuidado."

 

Os portões abriram-se em dois e revelaram um complexo prisional absolutamente gigantesco. Tora incluía quatro prisões e Ahmed e os seus companheiros de viagem foram levados para uma delas. O elemento da Irmandade Muçulmana que vira o nome de Tora inscrito na tabuleta contemplou lugubremente o edifício, identificando-o.

"Mazra Tora."

O nome foi instantaneamente assimilado por todos os outros presos, mas extraiu de Ahmed uma expressão vazia. "Conheces?"

"E a cadeia para onde vão os nossos irmãos."

A vida em Abu Zaabal havia sido um completo inferno e Ahmed estava convencido de que, dissessem o que dissessem, nada poderia ser pior. Mas enganava-se. Os primeiros dias em Tora revelaram-lhe que o inferno tinha diversos níveis e que Mazra estava talvez situada no patamar mais profundo.

Os recém-chegados foram levados para uma das alas da prisão e depressa perceberam que se tratava de um sector especial. O grupo proveniente de Abu Zaabal foi atirado para uma cela imunda e, horas depois, os guardas foram buscar um deles.

"O que será que lhe querem?"

Ninguém foi capaz de responder.

"Vamos esperar para ver", sugeriu o mais velho do grupo.

 

A resposta foi dada duas horas depois, quando o seu companheiro reapareceu, ensanguentado e quase incapaz de falar. Foi nesse instante que perceberam que aquela era a ala dos interrogatórios.

Depois de ver o estado em que o preso viera e consciente do que o esperava, o segundo recluso a ser chamado resistiu e tentou escapar aos carcereiros. Foi espancado logo ali, à frente dos companheiros, e arrastado pelos cabelos para fora da cela.

"Já vais aprender a obedecer", rugiu um dos guardas que o levaram.

O segundo preso voltou horas depois numa maca. Trazia alguns dentes partidos, os olhos inchados e as mãos ensanguentadas. Seguiu-se outro recluso e outro ainda, até que, já na madrugada do dia seguinte, Ahmed sentiu mais uma vez a porta da cela reabrir-se, dois guardas a entrarem e atirarem para o chão o homem que haviam acabado de interrogar, e aproximarem-se e pararem à sua frente.

"É a tua vez."

Como um autómato, quase sem sentir as pernas e com as mãos subitamente a tremerem-lhe, Ahmed ergueu-se do seu lugar e acompanhou-os para fora da cela. Caminhava num transe, sem pensar, sabendo o que o esperava mas entregando-se ao destino, resignado, como se deixasse a sua vida nas mãos de Alá Ar-Rabim Al-Halim Al-Karim - o Misericordioso, o Clemente, o Benévolo.

 

A sala estava caiada de branco, com poças de sangue no chão e manchas avermelhadas na parede. Havia uma cadeira no centro, com correias para prender braços e pernas, e uma máquina eléctrica ao lado. Um homem gordo e ^transpirado, de aspecto brutal e com barba rala, aproximou-se dele.

"Despe-te!", ordenou.

Olhando de relance para a salinha, o coração aos saltos e todo o corpo a tremer quase em convulsões, Ahmed hesitou. "O que... o que me vão fa..." Paf.

Uma estalada violenta incendiou-lhe o rosto. "Despe-te."

O preso tirou de imediato as roupas até ficar nu. O homem gordo puxou-o pelo cabelo e obrigou-o a sentar-se na cadeira. Os guardas que o tinham ido buscar à cela apertaram-lhe as correias aos braços e às pernas, imobilizando-o no assento, e retiraram uns eléctrodos da máquina ao lado, fixando-os aos testículos de Ahmed. Quando terminaram, o homem gordo posicionou-se diante do recluso com uma grande pasta nas mãos.

"Como te chamas?"

"Ahmed ibn Barakah."

O homem abriu a pasta e folheou os papéis até encontrar o que queria. Parou e leu durante uns instantes

"Estou aqui a ler o teu dossiê", murmurou, enquanto percorria o documento com os olhos. "Diz aqui que és um radical." Fitou o preso com os olhos muito arregalados, como quem sabe a verdade e não admite que lhe mintam. "E verdade?"

O coração de Ahmed saltava-lhe descontroladamente no peito. Sabia que tinha de responder a cada pergunta sem cometer uma falha, mas não percebia com exactidão o que lhe queria aquele homem. "É verdade?"

O preso engoliu em seco. Precisava de responder, mas tinha medo de falar, não fosse dizer a coisa errada.

"Eu... eu sou um crente", balbuciou por fim. "Acredito em Alá Ar-Rahman Ar Rabim, o Beneficente e o Misericordioso. Sou testemunha de que não há nenhum Deus senão Alá, sou testemunha de que Maomé é o Seu profeta."

O homem gordo mudou a perna de apoio.

"Todos acreditamos em Alá e somos testemunhas de que não há nenhum Deus senão Alá", retorquiu, a voz no limite da paciência. "Mas aqui quem manda é Alá Al-Hakam, o Juiz, e o que eu quero saber é se és ou não um radical."

"Não sei o que é um radical", tentou Ahmed argumentar, num esforço para contornar a questão. "Sou um crente, sigo as ordens de Alá no Alcorão e a sunnak do..."

Uma dor violentíssima subiu-lhe do ventre, como facas a dilacerá-lo; a dor era tão forte que o cegou, enchendo-lhe a visão de luzinhas. Contorceu-se na cadeira para tentar dobrar-se, mas as correias eram resistentes e mantiveram-no no seu lugar.

"Es ou não um radical?"

Percebeu que o espaço para negociar tinha terminado e decidiu que diria tudo o que lhe pedissem. "Sim... sim, sou um radical." "Pertences à Irmandade Muçulmana?" "Não."

A dor voltou, imensa e poderosa, e Ahmed quase perdeu os sentidos. Sentiu água fria ser-lhe despejada pela cabeça e, reabrindo os olhos, viu o homem gordo a mirá-lo.

"Pertences à Irmandade Muçulmana?", perguntou ele de novo.

"Não."

"Mas vinhas com eles de Abu Zaabal."

"Eu... eu vim com quem me puseram no carro. Nem sabia... nem sabia quem eles eram."

"Não os conhecias em Abu Zaabal?"

"Só... só de vista. Dois... dois deles eram da minha cela em
Abu Zaabal."

"Quem?"

"Os irmãos... os irmãos Walid."

O homem gordo consultou os documentos que tinha na mão e assentiu com a cabeça; pareceu aceitar a resposta. Porém, depressa ergueu de novo os olhos e fixou-os no recluso.

"E a Al-Jama'a alTslamiyya? Pertences a ela?"

Era uma pergunta muito perigosa, percebeu Ahmed. Uma facção da Al-Jama'a era a responsável pela morte de Sadat e todo o movimento se tornara objecto de cerrada perseguição pelo governo. Qualquer associação sua a esta organização seria explosiva, devastadora.

Abanou a cabeça, enfático.

"Não. Não pertenço à Al-Jama'a."

Mais uma explosão de dor e de cegueira e de luzes. O sofrimento era incrivelmente doloroso, como se mil facas pontiagudas o espetassem no corpo. Desta feita perdeu mesmo os sentidos.

 

Voltou a si com uma impressão fria e húmida na cara; tinham-lhe novamente atirado água à cabeça.

"Volto a perguntar: pertences à Al-Jama'a al-Islamiyya? Diz a verdade!"

"Não!" negou de novo, abanando veementemente a cabeça. "Não!"

O homem gordo apontou para os papéis que tinha nas mãos.

"Diz aqui que há testemunhas de que tinhas simpatias." "Quais... quais testemunhas? Não sei de nada, juro! Pelo Profeta, juro que não sei de nada!" "Mentes!"

"É verdade! Não sou da Al-Jama'a! Juro!" "Não estiveste envolvido no martírio do presidente?" "Eu?", surpreendeu-se Ahmed, arregalando os olhos horrorizados. "Claro que não! Claro que não!" "Podes prová-lo?"

"Eu... eu tinha doze anos quando isso aconteceu! Claro que não estive envolvido!"

"Mas tinhas amigos da Al-Jama'a!"

"Eu tinha muitos amigos. Se calhar alguns eram da Al-Jama'a... não sei."

O homem folheou mais umas páginas, os olhos sempre a percorrer a informação ali registada.

"Dizem que te tornaste radical."

"Sou um crente. Sigo as instruções de Alá no Alcorão e a sunnah do Profeta. Se isso é ser um radical, sou um radical."

O interrogador voltou a estudar os documentos que tinha na mão e fixou a atenção na data de nascimento.

"Pois, nasceste em 1969, não foi?" Coçou os pelos da barba enquanto fazia as contas. "Realmente, tinhas apenas doze quando o presidente foi martirizado." Leu mais algumas linhas dos documentos e ergueu a cabeça quando descobriu algo que lhe despertou a atenção. "Olha lá, porque deixaste de frequentar a tua mesquita?"

Nesse instante Ahmed percebeu, surpreendido, que a polícia andara a investigá-lo com algum pormenor. Até haviam feito perguntas sobre ele na mesquita!

"Qual mesquita?", perguntou, sabendo muito bem a qual o seu interlocutor se referia mas procurando ganhar tempo para reordenar os seus pensamentos.

"A do teu bairro. Porque deixaste de ir lá?"

"Porque... porque não era o verdadeiro islão o que ali se ensinava."

O homem gordo levantou o sobrolho.

"Ai não? Então era o quê?"

"Era uma versão cristianizada do islão, uma versão feita para agradar aos kafirun. Aquilo não era o verdadeiro islão."

"Então o que é o verdadeiro islão?"

"E o que está no Alcorão e na sunnab do Profeta."

"Nessa mesquita não ensinavam o Alcorão e a sunnab"

"Sim, claro", reconheceu. "Mas só uma parte. Havia coisas que não eram ensinadas."

"Tais como?"

"Que não devemos ser amigos dos Povos do Livro, por exemplo. É o que Alá diz no Alcorão e o que algumas pessoas que se afirmam crentes parecem querer ignorar. Ou que temos de emboscar e matar os idólatras onde os encontrarmos, tal como Alá ordena no Livro Sagrado. Nenhuma dessas coisas era ensinada nessa mesquita, o mullab fingia que não estavam lá."

O homem gordo respirou fundo e atirou os documentos para cima de uma mesinha. Depois olhou para os seus homens e fez com a cabeça um sinal na direcção de Ahmed.

"Levem-no e tragam-me outro."

 

Coff! Coff!

O cheiro ácido e penetrante da poluição penetrou-lhe nas narinas e invadiu-lhe os pulmões. Tomás tossiu, aflito, e olhou lá para fora. Uma nuvem violeta erguia-se das ruas, pairando sobre os milhares e milhares de motos e automóveis que enchiam como formigas as artérias poeirentas de Lahore. O pior, percebeu, eram os auto-riquexós, cujos escapes exalavam rolos densos de fumo; pareciam chaminés de fábricas montadas sobre rodas.

Coff! Coff!

Os pulmões desfaziam-se em tosse.

"Por favor", pediu ao condutor, já a sentir-se asfixiar. "Será que pode fechar as janelas?" "Yes, mister'", assentiu o taxista.

O paquistanês rodou o manipulo até fechar a janela da sua porta e, com o carro sempre em movimento e uma mão ao volante, inclinou o corpo para o outro lado e começou a rodar o outro manipulo.

"Cuidado!", gritou Tomás ao ver o táxi ir na direcção de um auto-riquexó.

Uma guinada rápida evitou a colisão no último momento. O taxista voltou a cabeça para trás e exibiu os dentes amarelos, no que parecia ser a caricatura de um sorriso.

"Não se preocupe, mister. Aqui em Lahore é sempre assim."

As janelas ficaram fechadas e o interior do táxi pareceu enfim selado, uma caixa respirável no meio de uma nuvem incrivelmente vasta de poluição.

Tomás inspirou fundo, aliviado.

"Puf! Agora está-se bem melhor."

Olhou lá para fora e examinou o emaranhado urbano. Lahore era uma cidade plana e poeirenta, mas sobretudo caótica. Tinha o casario baixo, os edifícios cor-de-tijolo inacabados e uma permanente nuvem de smog a flutuar ao longo do horizonte irregular; a neblina era tão cinzenta que escurecia a manhã. A névoa de poluição nascia nas grandes artérias, todas elas muito movimentadas, e ascendia devagar para o firmamento até ficar a pairar como um espectro.

"O Zamzama é longe?", perguntou o cliente, impacien-tando-se.

A avenida onde o táxi se metera estava tão congestionada que parecia quase impossível avançar. "Não, mister." A informação tranquilizou-o.

"Quanto tempo para chegar lá? Cinco minutos? Dez?" O taxista riu-se.

"Não, mister. Da forma como o trânsito está, vamos levar pelo menos uma hora..." Tomás rolou os olhos. "Oh, não!"

Recostou-se no assento, mentalizando-se para uma viagem lenta e demorada. Apanhado na armadilha daquele trânsito infernal, o táxi avançava aos solavancos. Não admirava que a viagem demorasse uma hora, percebeu. Só os últimos duzentos metros tinham levado uns dez minutos!

Sentia-se cansado depois de muitas ligações aéreas. Passara as últimas vinte e quatro horas a apanhar voos consecutivos, de Lisboa para Londres, onde não havia nesse dia ligação directa para o Paquistão; de Londres para Manchester, a tempo de apanhar o voo nocturno das linhas aéreas paquistanesas; de Manchester para Islamabade, onde desembarcara de madrugada; e finalmente de Islamabade para Lahore. Tinham sido ao todo quatro voos para ali chegar. O que valia, considerou, é que havia aproveitado todo aquele tempo para trabalhar.

Cerrou as pálpebras, tentando descontrair-se e descansar. Mas as imagens do trabalho que o ocupara ao longo dos voos invadiram-lhe a mente; eram tão obsessivas como aqueles jogos de computador que lhe permaneciam na retina depois de passar horas a jogá-los. Apesar de ter os olhos fechados, só via as letras e os números formarem combinações no escuro, como um imenso sudoku mental.

"Porra!", praguejou, abrindo os olhos.

Percebeu que não iria conseguir dormir enquanto não solucionasse o enigma no qual finalmente se embrenhara. Ren-dendo-se à evidência, inclinou-se no assento e abriu a mala de mão, de onde extraiu o bloco de notas. Folheou-o e voltou à linha que o assombrava sempre que cerrava as pálpebras.

 

6A7-H A51 H A2R.U

 

Ao lado da linha, e nas páginas seguintes, multiplicavam-se as tentativas frustradas de quebrar a cifra. As coisas não estavam a resultar, percebeu. Talvez fosse melhor encarar a charada de uma forma nova. Tal como os criptanalistas da NEST, sempre partira do princípio de que se encontrava diante de uma cifra de grande complexidade, uma vez que os seus autores pareciam ter recursos de tal modo sofisticados qae até haviam conseguido ocultar a mensagem por baixo de uma imagem. Mas estaria mesmo no caminho certo? Os seus consecutivos fracassos, e também os dos criptanalistas da NEST, constituíam um indício evidente de que estavam a cometer um erro.

E se mudasse de perspectiva? E se tentasse pôr-se no lugar dos homens que tinham enviado aquela mensagem? Melhor ainda, e se conseguisse compreender a posição do destinatário em Lisboa?

Coçou a cabeça, inteiramente absorvido naquele mistério.

A primeira coisa a notar era que a mensagem, embora tivesse sido enviada por muçulmanos, possivelmente por árabes, se encontrava redigida em caracteres latinos. Esse pormenor, raciocinou, não era despiciendo. Que leitura deveria fazer dele? Em primeiro lugar, isto parecia mostrar que o destinatário em Lisboa não tinha modo de abrir uma mensagem em caracteres árabes. Claro, tinha-a consultado num cibercafé, como descobrira a NEST, e era natural que o computador desse cibercafé não estivesse apetrechado com software para língua árabe. Fora por isso que a mensagem tivera de ser enviada em caracteres latinos.

Mas havia ainda uma outra conclusão a extrair deste facto. Quem enviara a mensagem não tinha manifestamente a noção de que o endereço do remetente se encontrava sob vigilância. Já Rebecca, aliás, o dissera. Assim sendo, e uma vez ocultada a mensagem por baixo da fotografia pornográfica, decerto que os terroristas não veriam necessidade de utilizar uma cifra muito complexa. Porque o fariam se se achavam em segurança? De resto, era até admissível que o destinatário em Lisboa não dispusesse de meios para decifrar uma mensagem que utilizasse um sistema demasiado sofisticado. Posto o problema nestes termos, havia uma coisa que se tornava muito clara.

A cifra só podia ser simples. Simples.

"É evidente...", murmurou Tomás, caindo em si. "Como é que eu não vi isto antes?" "Perdão, mister."

O português olhou aparvalhado para o taxista que o fitava pelo retrovisor, a mente mergulhada no enigma, os olhos momentaneamente presos no rosto do paquistanês, e levou um instante de perplexidade a perceber o que o homem lhe perguntara.

"Não é nada", disse, a atenção a voltar-se de novo para o bloco de notas. "Sou eu a falar para os meus botões."

Com movimentos frenéticos, pôs-se a ensaiar com a caneta soluções tradicionais para a mensagem. A chave deveria ser simples. Tentou a cifra de César, mas não obteve quaisquer resultados. Exercitou depois as cifras de substituição homófonas, também sem sucesso. Pegou num quadro de Vigenère e procurou aí a solução, mas mais uma vez falhou.

"Tenho de me pôr outra vez na posição de quem enviou e de quem recebeu a mensagem", sussurrou, pensativo.

Voltou a fixar os olhos na mensagem, como se a intensidade do olhar pudesse resgatar o segredo que ela escondia. Se o remetente era da Al-Qaeda, com toda a probabilidade estaria diante de um árabe. E o receptor também deveria ser árabe.

Mesmo que não fossem árabes, eram pelo menos muçulmanos fundamentalistas, o que obrigatoriamente significava que sabiam árabe, nem que fosse por terem memorizado o Alcorão. Ou seja, apesar de estar redigida em caracteres latinos, com toda a probabilidade a mensagem original encontrava-se em árabe.

Em árabe.

Ora o árabe escreve-se da direita para a esquerda! Como diabo lhe escapara um pormenor desses?

Voltou a recorrer à cifra de César, às cifras de substituição homófonas e ao quadro de Vigenère, mas lendo os resultados no sentido inverso. Novamente sem êxito. Suspirou, já desanimado. Num derradeiro fôlego, pôs-se a escrever a sequência de números e letras em tamanho gigante, como se através da ampliação pudesse extrair o segredo oculto na charada.

Desenhou as letras num tamanho descomunal, mas elas ficaram tão grandes que não couberam todas numa única linha do bloco de notas, pelo que teve de as repartir em duas linhas com dimensões iguais.

 

éAYHAS 144 A 8 RU

 

"Seis-Aybas-Um-Ha-Oito-Ru?"

De repente, esta forma inesperada pareceu-lhe ter potencialidade. Da esquerda para a direita não fazia sentido. E da direita para a esquerda?

"Sahya-Seis-Ur-Oito-Ah-Um."

Também não.

A não ser que fossem coordenadas geográficas. Ur, sabia-o, foi a primeira cidade do mundo. A escrita nascera aí. E Abraão também. Situava-se na Suméria, hoje Iraque, e tinha nas proximidades uma base aérea americana. Seria uma pista? Seria esta mensagem as coordenadas de um lugar? Seria a localização do sítio onde iria ocorrer um atentado? Em Ur?

Era uma possibilidade, concluiu. Mas a separação dos algarismos, o seis de um lado, o oito de outro e o um numa posição solitária não lhe pareciam corresponder a coordenadas. Pôs-se então a imaginar rotas diferentes, que lograssem juntar os algarismos. A primeira vista só poderia conciliar o seis e o um, uma vez que um estava por baixo do outro, pelo que ensaiou uma rota a deambular entre a linha de cima e a linha de baixo. Começou num sentido, sem resultados, e depois ensaiou outro.

"Meu Deus..."

De boca aberta, a mensagem emergiu-lhe de repente diante dos olhos, poderosa e cristalina. Pegou na caneta e, num frenesim nervoso, rabiscou com setas a rota do segredo que a cifra ocultara.

 

£ A-Y S t t t

1~H A-8 RrU

 

"Descobri!", gritou.

O motorista quase deu um salto de susto. "O quê? O que se passa?"

Percebendo que se tinha descontrolado no seu entusiasmo, Tomás corou, embaraçado.

"Nada! Nada!", garantiu, regressando ao presente. Espreitou lá para fora. "Oiça lá, ainda falta muito?"

O carro passou ao lado de um pequeno campo ajardinado de hóquei e desembocou no início de uma grande avenida de aspecto europeu, com um canhão oitocentista instalado no início.

"Chegámos."

O carro estacionou ao lado do passeio e pela janela Tomás viu uma mulher escultural junto ao canhão, o cabelo coberto por um lenço de seda cor-de-laranja. Como se tivesse um sexto sentido, a mulher rodou o corpo na direcção do^táxi, tirou os óculos de sol e fitou-o com os seus olhos azuis brilhantes.

Era Rebecca.

 

Ahmed chegou à cela arrastado pelos carcereiros, dorido no ventre e incapaz de caminhar. Mas, tirando as dificuldades de locomoção, vinha num estado incomparavelmente melhor do que todos os outros reclusos que haviam sido interrogados antes dele. E, outro pormenor que não passou despercebido aos seus companheiros de cela, o interrogatório não excedera a meia hora.

"O que aconteceu?", perguntou-lhe um dos reclusos que ainda não fora interrogado, algures entre a esperança e a desconfiança.

"Acho que ainda andam à procura de crentes envolvidos na matança do faraó", explicou Ahmed, numa referência ao assassínio de Sadat.

"E não estiveste?"

"Claro que não."

"Como os convenceste disso, meu irmão?" "Eu tinha doze anos na altura."

Todos os elementos da cela acabaram por passar pelas mãos dos interrogadores e a grande maioria regressou quase inconsciente para junto dos companheiros. A primeira fase dos interrogatórios durou dois dias, seguindo-se mais dois dias em que ninguém os incomodou, o que permitiu aos mais maltratados recuperarem forças.

Ao quinto dia, porém, três carcereiros entraram na sala e um deles, depois de chamar pelo mais velho dos irmãos Walid, estendeu-lhe um frasco e uma colher.

"Toma duas doses deste xarope!"

Walid lançou um olhar interrogador ao frasco.

"O que é isso?"

"Toma!", rugiu.

Sabendo que não tinha modo de se opor àquela ordem, o recluso aceitou o frasco e engoliu duas colheradas do xarope. Quando terminou, os guardas permaneceram na cela, como se esperassem que o remédio fizesse efeito.

Alguns minutos mais tarde consultaram o relógio e deram uma nova ordem.

"Massaja-te nas partes baixas."

"O quê?"

"Faz o que eu te digo!", voltou a gritar. "Massaja-te!"

O preso obedeceu e massajou-se, sem perceber bem o objectivo daquela ordem. Ao fim de poucos instantes parou, surpreendido com a enorme erecção que se lhe formara nas calças. Os carcereiros pareceram ter ficado satisfeitos com aquele resultado, pois logo sorriram entre eles antes de se voltarem de novo para o recluso.

"O teu irmão?"

Walid apontou para um homem que estava do outro lado da cela. "Está ali."

Um dos guardas foi buscá-lo e o que parecia ser o chefe ladrou a ordem seguinte. "Despe-te!"

Sem se atrever sequer a hesitar, o Walid mais novo tirou as roupas e ficou nu no meio da cela, os braços, as costas e o peito a exibirem as equimoses do interrogatório a que fora sujeito logo na primeira noite.

"Põe-te de gatas!"

O recluso baixou-se e ficou de gatas. Havia um silêncio pesado na cela; os outros reclusos quase nem se atreviam a respirar, com medo de atraírem as atenções sobre si. O chefe dos carcereiros olhou então para o Walid mais velho, que continuava com uma grande erecção a erguer-se das calças, e sorriu com malícia.

"Sodomiza-o!"

O preso arregalou os olhos, espantado com a ordem. "Como?"

"Es surdo ou quê?", gritou o guarda. "Sodomiza-o!" Uma expressão de pânico encheu o rosto do Walid mais velho.

"Mas... mas... mas ele é meu irmão!"

O guarda deu um passo em frente, puxou o recluso pelo pescoço e apertou-o com tanta força que ele enrubesceu e deixou por momentos de respirar.

"Se voltas a questionar mais uma ordem minha, mato-te! Ouviste? Aperto-te o gasganete com força e mato-te!" Apontou para o irmão mais novo, que permanecia nu e de gatas no meio da cela. "Sodomiza-o!"

Encurralado e sem alternativas, o Walid mais velho baixou as calças e aproximou-se do irmão por trás. Atónitos com o que se estava a passar na cela, Ahmed e os outros reclusos não sabiam o que fazer. A maior parte voltou a cabeça para o outro lado, num esforço para não ver o que acontecia no meio da cela, mas os gemidos de dor e o choro convulsivo dos dois irmãos eram demasiado terríveis para serem ignorados. Foi nesse instante e naquelas circunstâncias que Ahmed percebeu onde realmente se encontrava. No último grau do inferno.

Dois dias depois da terrível cena que envolveu os irmãos Walid, os carcereiros voltaram à cela. "Ahmed ibn Barakah!"

Ao ouvir o seu nome pronunciado por um dos guardas, Ahmed sentiu o coração dar um salto e começar a bater com força, como se quisesse saltar-lhe do peito.

"Sou eu."

"Acompanha-nos."

O recluso seguiu os carcereiros com o medo a anestesiar--lhe o corpo. Não era apenas a breve experiência de tortura que o assustava daquela maneira, nem o estado em que vinham os outros reclusos depois dos interrogatórios, mas sobretudo a humilhação a que vira os irmãos Walid serem submetidos. Se aqueles homens que geriam a cadeia haviam sido capazes de fazer aquilo, concluiu, não existia perfídia que não estivesse ao seu alcance. Preparou-se, por isso, para o pior. Teria de ser forte, entregar o corpo ao destino e esperar que Alá Ar-Rasbid, o Guia, o conduzisse à salvação.

Acompanhado por dois guardas, Ahmed percorreu o mesmo corredor por onde o tinham levado quando fora interrogado dias antes, mas, em vez de entrar na sala do interrogatório, seguiu em frente até à porta que dava acesso àquela ala. Um dos homens desaferrolhou a porta e o recluso foi empurrado para além dela até chegar a um átrio. Conduziram-no pelas escadas para o andar inferior e levaram-no por um novo corredor até uma outra porta, que também abriram. "Entra."

Embora a medo, Ahmed obedeceu e cruzou a porta. Era uma nova cela. Encontravam-se ali talvez uns quinze reclusos, mas todos tinham um ar bem mais saudável do que aqueles que deixara para trás.

Clac.

Ouviu o som metálico atrás de si e voltou-se. A porta da cela tinha-se fechado. O alívio encheu-lhe o corpo como o oxigénio preenche os pulmões e Ahmed tomou consciência de que havia abandonado a ala dos interrogatórios e fora transferido para uma ala normal.

 

A vida tornou-se consideravelmente mais fácil dali em diante. Nesta nova ala os reclusos eram autorizados todos os dias a fazer exercícios no pátio e até a jogar futebol. O quotidiano converteu-se assim numa experiência primeiro mais agradável, depois rotineira e por fim enfadonha. Quando não havia jogos nem outras actividades, Ahmed arrastava-se langorosamente pelo pátio, sem nada para fazer e com a eternidade por preencher.

Havia, porém, alguns momentos para os quais vivia. Ahmed passou a receber a comida que a mãe lhe enviava duas vezes por mês e tinha até acesso a jornais, como o Al-Abram e o Al-Goumbouria, que os presos passavam de mão em mão. Foi assim que tomou conhecimento das últimas novidades sobre a sagrada guerra dos mudjabedin no Afeganistão, que Alá os protegesse e os acolhesse no Seu jardim, e dos pormenores mais revoltantes relativos à ocupação sionista do Líbano, que Alá os amaldiçoasse e os enviasse para o grande fogo. Ah, como gostaria de se juntar aos mudjabedin!

A sua solidão terminou justamente num dia em que estava sentado num canto do pátio da prisão a ler pormenores sobre uma grandiosa batalha envolvendo o Leão de Panjshir, o glorioso comandante Ahmed Shah Massoud, contra os kafirun russos que se haviam atrevido a pôr os pés imundos em terra islâmica. Quando ia a meio do texto, empolgado pela narrativa da vitória nessa batalha, desta feita em Jalalal^ade, sentiu uma sombra incómoda projectar-se sobre o jornal.

Ergueu os olhos e vislumbrou um vulto plantado diante dele, o sol atrás a impedi-lo de distinguir as feições do intruso. Para se proteger da luz que o encandeava, pôs a mão sobre a testa como se fosse a pala de um boné e, a boca entreabrin-do-se de pasmo, reconheceu o homem que o fitava com um sorriso caloroso.

Era Ayman.

 

O professor de Religião que tanto influenciara Ahmed na madrassa havia envelhecido consideravelmente em apenas três anos de cadeia. A barba farfalhuda tornara-se grisalha e Ayman apresentava um aspecto cansado, o corpo curvando-se já ligeiramente, as rugas a riscarem o canto dos olhos.

Mesmo assim, para Ahmed o encontro foi emocionante. Ao longo dos três anos anteriores interrogara-se muitas vezes sobre o que teria acontecido ao professor, como se encontraria ele, se estaria ainda vivo. Rezava amiúde a Alá para que protegesse o seu mestre e agora ali o tinha, mesmo diante de si, é certo que envelhecido e gasto, o corpo quebrado pela prisão, mas a chama do islão ainda lhe cintilava nos olhos; era ao mesmo tempo um recluso e um homem livre, o corpo confinado à prisão e a alma entregue a Alá.

"Que lhe fizeram eles, senhor professor?", perguntou depois da emoção do reencontro.

Ayman fez um gesto de amável reprimenda.

"Não me chames professor", disse. "Aqui não sou professor. Além do mais, já sabes o suficiente sobre o islão para seres tratado como um aluno."

"Então como lhe chamarei?"

"Irmão, como toda a gente. Somos ambos muçulmanos e Alá exige modéstia e pudor de todos nós. Chama-me irmão."

Ahmed sentiu dificuldade em chamar irmão ao antigo professor, de tal modo estava o hábito enraizado, mas tinha também consciência de que era uma questão de se ir acostumando.

"Sim... meu irmão."

Custou, mas lá o disse.

"Muito bem", aprovou Ayman. "Então conta-me, como vais tu?"

"Eu estou bem, mashaallab. Mas o que lhe fizeram eles, senhor profes... meu irmão?"

O antigo professor de Religião encolheu os ombros.

"Fizeram-me o que fizeram a todos os irmãos, que Alá os amaldiçoe para sempre! Torturaram-me." Desabotoou a camisa e mostrou equimoses no peito. "Bateram-me, deram-me choques eléctricos, penduraram-me como carne num açougue." Estendeu as mãos e exibiu as pontas dos dedos deformadas. "Arrancaram-me as unhas uma a uma, que Alá os leve para o Inferno!"

Ahmed olhou impressionado para os dedos estropiados e abanou a cabeça, mal contendo a fúria que lhe fervilhava no sangue.

"Também a mim me torturaram, esses cães malditos!" "O que te fizeram?" "Deram-me choques." "E mais?"

"Acha pouco?"

Ayman balançou a cabeça de um lado para o outro, como se dissesse que poderia ter sido pior.

"E agora que já passaste pela tortura? Ganhaste-lhes medo?"

O jovem encarou o seu antigo professor com uma expressão escandalizada, como se tivesse acabado de ser insultado.

"Medo, eu? Claro que não!"

"E então?"

Ahmed tremia.

"Odeio-os! Odeio-os! Como podem eles comportar-se assim? Como podem eles fazer-nos isto?" Cuspiu para o chão, num gesto de desprezo. "Estes cães envergonham o islão! Onde já se viu um crente punir outro crente para proteger os kafirun?"

"Esta gente do governo fez a shabada e pratica o salat", disse o antigo professor, "mas não é crente." "São cães raivosos!"

Mirando o arame farpado enrodilhado sobre os muros em torno do pátio da cadeia, Ayman fungou com força e lançou um escarro para o chão, num gesto de profundo desprezo.

"Pior do que isso", sentenciou. "São kafirun!"

 

"Alguma vez leu Kipling?", perguntou Rebecca. "Claro, não se esqueça de que sou historiador..." A americana pousou a mão no cobre trabalhado da peça de artilharia que dominava a grande avenida. "Então já conhece o Zamzama."

Os olhos verdes de Tomás deslizaram das grandes rodas laterais para a arma que elas sustentavam.

"«Quem controla o Zamzama controla o Punjabe», escreveu Kipling a abrir o seu maior romance, Kim." Ergueu a atenção para ela. "Isso é mesmo verdade?"

Rebecca sorriu, como se não houvesse resposta para a pergunta, ou como se não a soubesse, ou talvez como se ela nem sequer fosse importante, e fez um sinal com a cabeça na direcção do lado esquerdo da avenida.

"Vamos! Temos muito trabalho a fazer."

Atravessaram o The Mali em direcção ao museu de Lahore, uma bela construção em estilo neomogul que Tomás logo

admirou. Estavam em pleno Raj britânico. Neste sector da cidade tudo era grandioso e imponente, com a grande avenida a separar Lahore como um rio majestoso, de um lado o belo museu naquele estilo neomogul à Taj Mahal, do outro a Universidade do Punjabe, os dois lados da avenida com amplos passeios e espaços verdes, tudo muito bem ordenado e arejado, num flagrante contraste com o caos e a p»luiçã(f com que se confrontara ao entrar na cidade.

"Sabe", disse Tomás, "já quebrei o segredo da charada que vocês interceptaram."

"A sério?"

Apesar de caminhar ao longo do passeio, o historiador abriu a mala de mão e procurou o bloco de notas.

"É verdade. Passei a viagem toda à volta dela e consegui descobrir a cifra utilizada pela Al-Qaeda para ocultar a mensagem."

"E o que diz ela?"

"A mensagem? Ainda não cheguei lá, mas apenas por falta de tempo. O facto é que já..."

Rebecca consultou o relógio e ergueu a mão, travando-o.

"Agora não temos tempo para isso", disse, a voz baixa e tensa. "São dez da manhã e o encontro com o seu ex-aluno é daqui a duas horas. Temos muita coisa com que preocupar--nos neste momento. A charada fica para depois."

Travado no seu entusiasmo, Tomás calou-se e deixou-se guiar pela americana, os olhos de historiador perdendo-se pela arquitectura imperial daquela parte da cidade.

As fachadas dos edifícios estavam degradadas, era certo, mas cintilava ali ainda com esplendor a grande jóia arquitectónica do Raj. Olhando para o The Mali era possível viajar no tempo e recuar às indolentes tardes de cricket, com os gentlemen a encherem os passeios pela avenida, as ladies com pequenas sombrinhas a protegê-las, os The Times com semanas de atraso dobrados por baixo dos braços, os cavalos e as charretes a percorrerem a estrada com os seus clip-clops característicos, as figuras de laço ou gravata a entrarem nos clubs para o tea time com scones e as conversas em torno do great imperial game, as mensabib vestidas com... "É aqui."

A voz de Rebecca desfez a imagem do Raj em Lahore e trouxe Tomás de regresso ao presente. A americana parara ao lado de urna grande carrinha azul estacionada junto ao passeio.

 

Uma nave espacial.

Foi essa a impressão que teve quando pôs o pé no interior da carrinha. Vista de fora, a viatura apresentava a chapa envelhecida e amolgada em alguns pontos, com o azul da pintura já algo esbatido e meio coberto por uma densa camada de poeira e por espessas manchas de lama. Os pneus estavam quase carecas e, em bom rigor, a única coisa que distinguia a carrinha das carcaças ambulantes que atafulhavam o trânsito de Lahore era o vidro escuro, colocado aparentemente para proteger os ocupantes do calor escaldante do Punjabe.

Considerando o aspecto exterior tão degradado, Tomás esperava um interior sujo e desarranjado, se calhar até com buracos nos assentos, pelo que, ao entrar, experimentou um sentimento de absoluta irrealidade. O ambiente era escuro e fresco, cheio de ecrãs de LCD e alta tecnologia, um aroma sofisticado a pairar no ar. O contraste com as suas expectativas era tal que duvidou dos sentidos. Aquela não podia ser a carrinha desmazelada que vira ainda instantes antes! Decerto que se enganara!

"Howdy!"

A voz masculina veio da dianteira da carrinha. Ou, em rigor, do cockpit. Esforçando-se por habituar os olhos ao escuro, Tomás distinguiu duas figuras ali dentro. Eram dois homens na casa dos vinte anos, de camisa clara e gravata, e com enormes auscultadores a abraçar-lhes a cabeça.

"O meu nome é Jarogniew", disse um deles,,volta»do-se para trás e estendendo a mão para o cumprimentar. "Mas eles chamam-me Jerry, é mais fácil. Como vai isso?"

"Eu sou o Sam", disse o outro, imitando o gesto do seu parceiro.

O recém-chegado apertou-lhes as mãos. "Eu sou o Tomás", identificou-se.

"No shit, Sherlock!", sorriu Jarogniew. "Pensámos que você era o fucking Bin Laden!"

Riram-se os dois numa grande algazarra e Tomás juntou--lhes o seu sorriso, mais por cortesia social do que por ter achado realmente graça.

"Rapazes! Rapazes!", disse Rebecca, que entrara também na carrinha e acabara de fechar a porta. "Tenham juízo e portem-se bem! O que vai o nosso convidado pensar?"

"Sim, Maggie", respondeu Jarogniew, claramente o mais brincalhão. "Partimos agora, boss?"

"Sim."

Jarogniew ligou a ignição e a carrinha arrancou bruscamente, atirando os ocupantes de encontro aos assentos. Rebecca sorriu e voltou o rosto para o português.

"Não lhes ligue, Tom. Estão sempre na brincadeira, mas pode confiar neles. São os melhores operacionais que temos no Paquistão."

"Eles chamaram-lhe Maggie?"

A americana encolheu os ombros.

"Oh, não faça caso."

"Afinal você chama-se Maggie ou Rebecca?" "Não é isso. Eles têm a mania de que eu me pareço com a Meg Ryan..."

Tomás encarou-a com atenção e observou melhor os grandes olhos azuis e o cabelo loiro curto da mulher sentada ao seu lado.

"Não está mal visto", reconheceu. "Dá realmente um certo ar."

"Acha?"

"Claro que você é mais bonita", apressou-se a acrescentar. "Se quer que lhe diga, a Meg Ryan nem lhe chega aos calcanhares..."

Rebecca soltou uma gargalhada.

"Ai esse sangue latino! Mister Bellamy bem me avisou! Tenho de ter cuidado consigo!"

"E eu? Tenho de ter cuidado com quem?"

O olhar da americana desviou-se para as ruas que desfilavam lá fora. A carrinha acabara de sair do The Mali e entrava no sector paquistanês de Lahore.

"Você tem de ter cuidado com o que se passar no forte", disse ela, mudando o tom ligeiro da conversa. "Esta gente não é para brincadeiras."

"E quem me vai proteger? Você?"

"Claro." Fez um sinal para os dois homens sentados na dianteira. "E eles."

A atenção de Tomás transferiu-se para os homens da frente.

"A NEST tem operacionais no Paquistão?"

"Não. O Jerry e o Sam trabalham na nossa embaixada em Islamabade. Digamos que eles nos foram emprestados para esta operação. Está a ver ali o Jerry?"

Tomás observou o homem que conduzia a carrinha. Jarogniew era gordo e tinha uma careca reluzente, com cabelo apenas por trás das orelhas.

"Sim."

"E o nosso perito em comunicações. Os avós vieram da Polónia, mas o seu país é agora esta carrinha. Ele monta sistemas de comunicações e faz vigilância operacionak Se houver alguma anomalia, o Jerry será o primeiro a detectá-la."

O português manteve o olhar preso na careca do motorista.

"E se ele identificar uma anomalia? O que acontece?"

"Nesse caso terá de a comunicar", disse ela. "Tudo dependerá então de mim e do Sam."

Os olhos de Tomás deslizaram para o homem sentado ao lado do motorista. Sam era um indivíduo corpulento, de cabelo curto e barba rala, e totalmente vestido de negro.

"O Sam é o vosso músculo?"

"Acho que lhe pode chamar assim."

"Parece uma versão mais feia do Van Damme", observou. "Será que ele também sabe karate?"

O comentário tinha sido feito a brincar, mas Rebecca pareceu considerá-lo pertinente.

"Sam!", chamou.

O homem de negro voltou a cabeça. "O que é, Maggie?"

"Antes de vir aqui para Islamabade, o que fazia você?" "Receio que isso seja informação confidencial..." Rebecca fez beicinho e pestanejou exageradamente. "Oh, vá lá!" O homem riu-se.

"Navy SEALS", disse. "Fazia operações especiais no Afe ganistão, como muito bem sabe. Não se lembra de tomarmos um chá em Kandahar?"

"Então não me lembro? Eles andavam aos tiros lá fora e nós a saborear aquela zurrapa..."

"Então se se lembra, porque pergunta?"

"Por nada", devolveu ela. "Queria apenas que o nosso amigo percebesse melhor em que mãos está entregue."

"Rigkt."

O operacional voltou a atenção para a frente, retomando a conversa com o motorista, e Rebecca inclinou-se na direcção do português.

"Está a ver? O Sam é o responsável pela sua segurança. Se o Jerry detectar algum problema, o Sam e eu teremos de actuar. A sua vida poderá depender da nossa capacidade de reacção."

Tomás endireitou-se no assento.

"Caramba, já me está a assustar. Acha mesmo que isto pode dar para o torto?"

O olhar de Rebecca regressou ao caos urbano de Lahore, por onde a carrinha ziguezagueava.

"Oiça, Tom. Tem alguma ideia do tipo de muçulmanos que vivem nesta cidade?"

"Sufis", retorquiu Tomás. "Aliás, os sufis de Lahore são famosos. Quem não conhece as noites sufis no santuário de Baba Shah Jamal? Parece que dançam até entrarem em transe, entregando-se assim a Deus. Dizem que é interessante. E muito místico."

Ela fitou-o de novo, uma cintilação incrédula nos olhos. "Sufis, diz você?"

"Sim. E a corrente mais pacífica do islão, juntamente com a dos ismaelitas. Os sufis vivem em paz e harmonia. Para eles a jihad é um conceito de luta do espírito para atingir a perfeição, não é necessariamente guerra nem matança."

Rebecca balançou afirmativamente a cabeça, mas sem a convicção de quem concordava.

"Sim, é verdade que há sufis em Lahore", reconheceu. "É verdade que esta cidade é um centro de misticismo islâmico." O tom da voz da americana ensombrou-se. "Mas também é verdade que vivem aqui muçulmanos de outro tipo. Já ouviu falar na Lashkar-e-Taiba?"

O historiador assentiu.

"O Exército dos Puros", traduziu ele. "Foram eles que levaram a cabo os atentados de 2008 em Mumbai. Porquê?" "A Lashkar-e-Taiba é de Lahore." "Está a brincar..."

"E mais uma mão-cheia de outras organizações fundamentalistas islâmicas. Lahore, Peshawar, Rawalpindi e Carachi são autênticos viveiros de radicais." Indicou as ruas lá fora. "Esta pode ser a cidade da noite sufi de Baba Shah Jamal, mas não se esqueça de que Lahore é também a cidade das manhãs sangrentas da Lashkar-e-Taiba."

A carrinha saiu do tráfego denso e meteu por um caminho desimpedido que desembocou junto a umas grandes muralhas. Havia dois autocarros estacionados em frente e alguns peões com máquinas fotográficas penduradas ao peito. A carrinha aproximou-se devagar e estacionou ao lado de um dos autocarros.

"Chegámos!", anunciou Jarogniew. "E aqui o forte."

O silêncio instalou-se dentro da viatura. Com um misto de curiosidade e preocupação, Tomás esticou a cabeça e observou a movimentada entrada do forte.

"Lahore é a cidade dos fundamentalistas islâmicos", repetiu Rebecca. "Não se esqueça de que é com esse tipo de gente que você se vai encontrar aqui."

As pessoas lá fora tinham um ar absolutamente normal. A maior parte das que entravam no forte eram turistas, pelo que a atenção de Tomás se centrou nos poucos paquistaneses

que ali se encontravam. Havia os motoristas dos autocarros, alguns taxistas, três ou quatro condutores de auto-riquexós, mais um punhado de vendedores de bebidas ou de panfletos turísticos e ainda alguns transeuntes. O historiador procurou uma ameaça em cada um destes rostos, mas todos tinham um ar inofensivo.

"Que horas são?", perguntou.

Rebecca espreitou o relógio.

"Onze", disse. "Falta uma hora."

 

O reencontro com o antigo professor reacendeu uma chama de esperança em Ahmed. Aproveitava todas as horas em que podia sair da cela e ir para o pátio para se juntar a Ayman e beber um pouco mais da sua sabedoria. Nem sempre o mestre estava disponível para ele, uma vez que se encontrava rodeado de outros elementos da Al-Jama'a alTslamiyya e passavam todos muito tempo juntos em animadas discussões políticas e teológicas.

Mas Ahmed gostava da companhia daqueles homens com quem partilhava tantas ideias e a quem admirava pela coragem de terem morto o faraó. Aprendeu com eles a comportar--se como um verdadeiro crente: a maneira de falar, a forma de rezar, o modo de vestir, em tudo isso se foi gradualmente educando. Passou a caminhar com os olhos baixos, como se exigia entre os crentes mais pios, de modo a evitar os olhos dos outros. Ensinaram-lhe também a não olhar uma mulher acima do queixo. Como não havia nenhuma ali na cadeia, exercitou esse olhar respeitoso com os outros reclusos.

Aprendeu a cobrir sempre a cabeça, de modo a afugentar o Diabo, e sobretudo a rezar correctamente; não devia olhar para os pés no momento em que se ajoelhava, mas sim para o ponto onde iria pousar a testa quando se inclinasse diante de Deus. Além do mais, na cantina passou a comer como os outros elementos da Irmandade Muçulmana ou da Al-Jama'a, isto é, com os dedos; era esse o modo como Maomé se alimentava, conforme descrito pelos ahaditb, pelo que seria assim que os verdadeiros crentes teriam de comer.

Constatou que os outros reclusos, mais instruídos religiosamente, moviam os lábios sem cessar, mas só ao fim de algum tempo reuniu coragem para perguntar porque o faziam.

"Estou a rezar", explicou Ayman. "Devemos rezar constantemente, devemos arrepender-nos a todo o momento, devemos purificar-nos em permanência. Não te esqueças de que fazer o salat cinco vezes ao dia é o mínimo exigido aos crentes e que Alá até queria que o fizéssemos mais vezes."

Ahmed passou a ter as orações nos lábios murmurantes, embora por vezes se esquecesse e só a imagem de um outro irmão a rezar o lembrasse do seu dever de bom muçulmano. Vendo-o sempre tão devoto, Ayman vinha ter com ele com frequência para lhe revelar mais facetas do verdadeiro islão.

O antigo aluno já tinha todo o Alcorão decorado, o que fazia dele um hafiz, "aquele que preservou", mas o facto é que, tal como a maioria dos crentes, não compreendia bem o seu conteúdo; as implicações filosóficas, políticas e teológicas escapavam-lhe. O árabe do século vil em que o Livro Sagrado estava escrito era de difícil compreensão. Para agravar as coisas, os versículos só podiam ser entendidos quando integrados nos abadith que explicavam as circunstâncias que os originaram. Ahmed suspeitava por esta altura que o xeque Saad tinha propositadamente evitado revelar-lhe o contexto de muitos dos versículos, pelo que buscava em Ayman a explicação que tudo esclareceria.

E o antigo professor fazia-lhe a vontade.

 

A primeira ocasião em que se voltaram a encontrar a sós
no pátio da cadeia foi numa manhã soalheira, mas anormalmente fresca.

"O nosso governo é formado por kafirun", proclamou Ayman. "Toda esta gente que manda em nós, todas estas leis que nos regem e que nos enviaram para a prisão... tudo isto é coisa de kafirun que se fingem crentes."

Falava como se não os estivesse a insultar, mas a fazer uma mera constatação teológica, o que intensificou a curiosidade de Ahmed.

"Meu irmão, achas mesmo isso? O nosso governo é... é kafirr

"Com certeza. Está no Livro Sagrado. Qualquer crente estudioso sabe isso. O governo é kafir, não há dúvida nenhuma."

Ahmed meditou nestas palavras.

"Mas onde está isso escrito no Livro Sagrado, meu irmão?" Que eu saiba, os nossos governantes declararam a shahada, fazem o salat e acreditam em Alá. Isso não faz deles muçulmanos?"

Ayman sentou-se com um gemido de prazer num banco do átrio, o sol ardente a tostar-lhe a tez.

"Deixa-me contar-te um haditb que teve grandes implicações no islão", começou por dizer enquanto se acomodava no seu lugar. "Certa vez dois homens foram ter com Maomé, que a paz esteja com ele, e pediram-lhe que decidisse uma disputa. O Profeta, que a paz esteja com ele, decidiu, mas o homem prejudicado disse que não aceitava essa decisão e foram os dois falar com Omar ibn Al-Khattab. Ao saber que o prejudicado não aceitara o julgamento do Profeta, que a paz esteja com ele, Omar pegou na espada e decapitou-o." Inclinou a cabeça na direcção do aluno, num gesto interrogativo. "Estás a ver o problema que se criou, não estás?"

"Omar violou a sbaria", percebeu Ahmed.

"Recita-me o versículo que estabelece a lei que Omar violou", ordenou Ayman, testando a compreensão e a memorização do Alcorão pelo seu antigo aluno.

"«0 vós que credes», diz Alá na sura 3, versículo 3: «Não vos mateis!»"

Ayman balançou aprovadoramente a cabeça.

"Nem mais! Omar tinha violado a sbaria! Ou, pelo menos, assim parecia. Tendo um muçulmano assassinado outro muçulmano, a sbaria requeria que o assassino fosse executado. Omar teria pois de ser morto. O Profeta, que a paz esteja com ele, viu-se então obrigado a julgar o caso. Foi nessa altura que Deus, através do anjo Gabriel, lhe recitou a frase que está na sura 4, versículo 65: «Mas não, pelo teu Senhor! Não acreditaram antes de te haverem obrigado a julgar sobre o que está em litígio entre eles; em seguida, não encontrando em si mesmos queixa sobre o que sentencies, submeter-se-ão totalmente.» Ou seja, o que Alá comunicou ao Profeta através do anjo foi que, ao não aceitar a decisão do Profeta, o homem prejudicado deixara de ser muçulmano. Assim sendo, Omar não matara um muçulmano, mas um kafir. Não tinha então de ser executado. Percebeste?"

"Sim, meu irmão."

"Agora diz-me: quais as consequências desta decisão?" Ahmed franziu o sobrolho. "Omar foi salvo?"

"Isso é evidente!", exclamou Ayman, subitamente exasperado. "Claro que Omar foi salvo! Mas o que este episódio e este versículo têm de importante não é isso! O importante é que ficaram estabelecidas duas coisas fundamentais: matar kafirun não é necessariamente crime e não aceitar todas as decisões do Profeta faz de nós kafirun. Repito: todas. Lembra-te que está dito no final da sura 4, versículo 65: «Sebme-ter-se-ão totalmente.» Se a submissão for parcial, a pessoa deixa de ser muçulmana. A submissão tem, pois, de ser total. O mesmo, aliás, diz Alá na sura 4, versículos 150 e 151 do Santo Alcorão: «Os que não crêem em Deus nem nos Seus Enviados desejam estabelecer uma distinção entre Deus e os Seus Enviados. Dizem: 'Cremos nuns e não cremos nos outros.' Desejam tomar entre aqueles um caminho intermédio. Esses são verdadeiramente os infiéis.» Ou seja, não há caminho intermédio. Se não aceitarmos todas as leis, tornamo-nos kafirun."

"O que quer dizer com isso, meu irmão? Se eu falhar uma lei, uma única que seja, deixo de ser muçulmano?"

"E isso mesmo o que diz Alá no Santo Alcorão! Para se ser muçulmano é preciso respeitar sempre todas as leis. Basta falhares em algumas delas e deixas de ser muçulmano. Por exemplo, tu rezas cinco vezes por dia, não é verdade?"

"Sim, sem falhar."

"Se rezas cinco vezes por dia, como o Santo Alcorão requer, mas se por acaso não respeitas o jejum no Ramadão, como o Santo Alcorão exige, deixas de ser crente e tornas-te kafir. Entendeste? O próprio Ibn Taymiyyah, referindo-se aos Mongóis que aceitaram o islão mas mantiveram algumas das suas práticas pagãs, disse: «Qualquer grupo que aceite o islão, mas ao mesmo tempo não pratique alguns dos seus preceitos, deve ser combatido por acordo de todos os muçulmanos»."

"Ah!", exclamou Ahmed, coçando o couro cabeludo. "Foi por isso que, naquela última aula na madrassa, o meu irmão disse que os sufis não são crentes!"

"Exacto! Fizeram a sbahada e praticam o salat e a zakat, podem até cumprir o hadj e respeitar o jejum no mês sagrado, mas, ao invocar santos nas suas orações, renegam que só há um Deus. Não cumprem assim todos os preceitos do islão, o que, à luz do estabelecido no Santo Alcorão e na sunnab, faz deles kafirun."

"Estou a perceber..."

"Mas ainda é preciso que percebas uma outra coisa", apressou-se a acrescentar. "Como sabes, Alá cansou-se de ver a Sua palavra deturpada por intermediários e decidiu ditar as Suas leis uma última vez aos homens. Escolheu Maomé, que a paz esteja com ele, como mensageiro. Só que, para impedir que a Sua palavra fosse de novo deformada, Alá proibiu a existência de intermediários e obrigou que a Sua lei ficasse inscrita no Santo Alcorão. Não haveria desse modo possibilidade de desvios. Quem quisesse reinterpretar a vontade de Deus seria confrontado com o que Ele deixara escrito no Livro Sagrado. A sbaria é assim uma ordem dada directamente por Alá aos crentes, sem influência de intermediários. «Não temais os homens, mas temei-Me», diz Deus na sura 5, versículo 44."

"Tudo isso já eu sei, meu irmão. E então?"

Ayman fitou os olhos do seu antigo aluno.

"Recita-me, por favor, a frase do testemunho que o muezzin faz no adhan, quando chama os crentes para a oração."

"«Ash-hadu na la illaba illallab", entoou Ahmed. "«Sou testemunha de que não há nenhum Deus senão Alá». u«Asb-hadu Mubammad ur rasulullab»", completou. "«Sou testemunha de que Maomé é o Seu profeta»."

"Essa declaração que acabaste de recitar implica a nossa submissão a Deus e Deus apenas", atalhou Ayman. "«Não há nenhum Deus senão Alá.» Isso significa que todas as outras autoridades existentes na Terra, incluindo presidentes e governos, valem menos do que a vontade de Alá, expressa directamente no Santo Alcorão. Isto quer dizer que a vontade de Alá tem de ser obedecida, mesmo que isso implique*deso-bedecer a um presidente ou a um polícia. Alá manda acima de todos. Está claro?"

"Bem... sim." Hesitou. "O Profeta defendia isso?"

"Claro!", exclamou Ayman, quase escandalizado com a pergunta. "Não conheces o hadith do encontro do cristão Adi com o apóstolo de Deus, que a paz esteja com ele?"

"Confesso que não."

"O cristão Adi foi ter com o Profeta, que a paz esteja com ele, e ouviu-o recitar o versículo que diz que os Adeptos do Livro, em vez de Deus, escolheram prestar culto aos seus rabinos e aos seus padres. O cristão negou que isso fosse verdade e Maomé, que a paz esteja com ele, para demonstrar que tinha razão, sentenciou: «Tudo o que os seus padres e os seus rabinos consideram permissível, eles aceitam como per-missível; tudo o que eles declaram proibido, eles consideram proibido e, dessa forma, prestam-lhes culto»."

Ahmed meditou por momentos no sentido do baditb que acabara de lhe ser relatado.

"Portanto, o Profeta achava que os kafirun não adoravam Deus, mas os intermediários de Deus", concluiu.

"Claro. Mas este hadith tem especial importância porque estabelece que a obediência a leis e decisões humanas constitui uma forma de prestar culto. Assim sendo, quem aceite leis cuja fonte não é Alá está a prestar culto a algo diferente de Alá. Como sabes, meu irmão, isso é contra o islão. Quem o fizer torna-se kafir. Não te esqueças de que até o próprio califa Ali foi destituído e morto por não ter respeitado integralmente a sharia. Ninguém está acima da Lei Divina! Nem califas, nem presidentes, nem polícias! Alá é a única autoridade."

"E... e no caso das leis do nosso país? Como se compatibilizam elas com o islão?"

O antigo professor respirou fundo, como se a referência ao assunto o enervasse.

"Alá me dê paciência!", murmurou. "Hoje não a tenho!"

Sem pronunciar mais uma única palavra, levantou-se e foi--se embora.

 

Foram precisos dois dias para Ayman reunir toda a paciência de que era capaz e voltar a sentar-se com Ahmed para abordar o assunto que o enervava. Trazia consigo um grosso livro azul que mostrou ao seu pupilo.

"Isto é o Código Penal do Egipto", anunciou, começando a folhear o livro azul à procura das partes que considerava relevantes. "Deixa-me mostrar-te aqui o artigo 274... ora cá está!" Afinou a voz para ler o texto. "«Uma mulher adúltera deve ser presa até dois anos.»" Olhou para o seu interlocutor. "Agora recita-me o que diz Alá na sura 24, versículo 2 do Livro Sagrado."

Ahmed fez um esforço de memória; sabia que o mestre não estava apenas a questioná-lo sobre aquele versículo em particular, mas também a testar os seus conhecimentos do Alcorão.

"«À adúltera e ao adúltero, a cada um deles dai cem açoites»."

"E há também um hadith que relata a ordem do Profeta, que a paz esteja com ele, de lapidar até à morte um casal de adúlteros", acrescentou Ayman. "Existe ainda um outro baditb que revela que Alá recitou ao Profeta, que a paz esteja com ele, um versículo a ordenar a lapidação até à morte dos adúlteros, mas esse versículo perdeu-se inadvertidamente. Para todos os efeitos, o que nos interessa é que Alá manda no Santo Alcorão dar cem açoites aos adúlteros e a sunnah do Profeta, que a paz esteja com ele, ordena que eles sejam executados por lapidação. Mas a nossa lei, pasme-se, appenas prevê até dois anos de prisão às adúlteras e até seis meses de prisão aos adúlteros! É isto o islão?" "Claro que não."

Ayman folheou de novo o Código Penal egípcio.

"Agora o artigo 317", disse, localizando rapidamente a página que procurava. "Ora escuta: «A sentença por roubo é três anos de prisão com trabalhos forçados»." Ergueu os olhos. "Agora recita-me a ordem de Alá na sura 5, versículo 38."

Ahmed precisou de alguns segundos para identificar mentalmente o trecho.

"«Cortai as mãos do ladrão»."

"O que o Profeta, que a paz esteja com ele, também ordenou, conforme contado em ahadith apropriados, explicando que o corte deveria ser da mão direita. Ou seja, Alá mandou cortar as mãos dos ladrões e o Profeta esclareceu que Ele se referia às mãos direitas, mas a nossa lei apenas prevê três anos de prisão com trabalhos forçados. Pergunto eu outra vez: é isto o islão?"

"Não, meu irmão, é evidente que não."

O antigo professor ergueu o Código Penal ao nível dos olhos e fez um esgar de desprezo.

"Já li a lei egípcia de trás para a frente e de cima para baixo e não vejo nada aqui a penalizar a apostasia. À luz da lei egípcia, qualquer pessoa pode deixar de ser crente e tornar-se kafir cristã ou outra coisa qualquer. Agora recita-me o que diz Alá na sura 2, versículo 217."

A sura 2 é o capítulo mais comprido do Alcorão, pelo que Ahmed levou algum tempo a localizá-lo na memória.

"«Aquele de vós que abjure a sua religião e morra é infiel, e para esses serão inúteis as suas boas acções nesta vida e na outra; esses serão entregues ao fogo»."

"O que é completado pela sunnah do Profeta, que a paz esteja com ele", atalhou Ayman. "Um haditb apropriado registou esta ordem do mensageiro de Alá, que a paz esteja com ele: «Matem quem renegar a nossa religião.»" Exibiu o livro azul que mantinha na mão. "Ou seja, Alá envia os apóstatas para o fogo e o Profeta manda matá-los, mas a lei egípcia nem sequer diz que isso é crime! E eu pergunto mais uma vez: é isto o islão?"

"Por Alá, claro que não!"

"Dei apenas três exemplos, mas há inúmeros outros em que se verifica absoluta dissonância entre a Lei Divina e a lei em vigor no Egipto." Fungou e escarrou. "Sabes o que o Egipto me faz lembrar?"

Ahmed abanou a cabeça.

"Antes de o Profeta, que a paz esteja com ele, ter começado a pregar a palavra de Alá, a Arábia estava toda ela mergulhada em jahiliyya, na ignorância de Deus. Uma sociedade jahili é justamente aquela que não se submete exclusiva e totalmente a Alá, vive na ignorância das Suas leis. Ora isso é muito grave porque a Lei Divina é a lei universal." Baixou-se e apanhou uma pequena pedra. "Estás a ver esta pedra? Vou largá-la." Deixou-a tombar. "Caiu, viste? E porque caiu ela?"

"Por causa da lei da gravidade, meu irmão."

"Que é uma Lei Divina! A lei da gravidade é igual na Terra e na Lua, é igual hoje e há mil anos, é eterna e universal porque foi estabelecida por Alá. O mesmo se passa com a sbaria. A Lei Divina que Alá prescreveu para os homens, tal como a lei da gravidade e todas as leis da natureza, é eterna e universal, válida para todos os homens independentemente da sua raça ou nacionalidade, válida aqui ou na América, válida hoje, amanhã ou no tempo do Profeta, que a paz esteja com ele. A sbaria é a melhor lei porque vem de Deus e, eu saiba, as leis das criaturas não se podem comparar com a lei do Criador."

"Portanto, temos de rejeitar as leis humanas."

"Com todas as nossas forças! A base da mensagem de Alá é essa mesmo: todos têm de aceitar a Lei Divina e rejeitar todas as outras leis. O princípio que tudo funda é a verdade eterna que tu enunciaste há pouco: «La illaha illallab», «não há nenhum Deus senão Alá.» Essa proclamação constitui uma declaração de guerra à possibilidade de os homens proclamarem leis que não são permitidas por Deus. «La illaba illallab» tornou os homens livres uns dos outros. Um crente já não pode ser escravo de outro, todos somos finalmente livres e ninguém pode exercer autoridade sobre o outro. A única submissão é a Alá e à Sua sbaria. O islão pôs fim à justiça humana e instituiu a Justiça Divina. Alá disse que não se pode consumir álcool e logo os crentes obedeceram. Compara isso com os governos seculares jabilis, com toda a sua legislação, com todas as suas instituições, polícias e militares, e que têm tanta dificuldade em fazer com que uma pessoa obedeça às suas leis. A América também tentou abolir o álcool, ou não tentou? E conseguiu? Não é o fracasso da América em proibir o álcool, comparado com o sucesso do islão na mesma proibição, a prova de que a Lei Divina é muito mais eficiente do que as leis humanas?"

"Além disso, somos mais livres."

"Mais livres? Somos totalmente livres! O islão liberta o homem das imperfeitas leis e tradições humanas e submete-o unicamente a Deus. O universo inteiro fica assim sob a autoridade de Alá, e o homem, sendo uma ínfima parte desse universo, passa a obedecer às leis universais. A Lei Divina regula todas as matérias e põe o homem em harmonia com o resto do universo. O ser humano liberta-se. No islão não interessa a raça, a língua, a nacionalidade, a classe social, somos todos gotas de água que se juntam num ribeiro e todos os ribeiros convergem para um grande rio que desagua no oceano imenso. Compara, por exemplo, o império de Deus com os impérios humanos do passado. Olha para o Império Romano! Já viste o que se passava aí?"

Ahmed ficou na dúvida sobre o sentido da pergunta.

"Acabou?"

"Claro que o Império Romano acabou, isso era inevitável. O que eu quero dizer, no entanto, é que se juntavam aí pessoas de todas as raças, mas a relação entre elas não era livre. Uns eram nobres e outros eram escravos, e os Romanos mandavam mais do que as pessoas de outras regiões. Olha para os grandes impérios europeus, como o britânico, o espanhol, o português ou o francês! Todos eles eram fundados na ganância e no orgulho, na opressão e na exploração de povos. Olha para o império comunista! Em vez de mandarem os nobres, ali quem manda é o proletariado, ou, para ser mais verdadeiro, uma elite privilegiada que usurpou o poder em nome do proletariado. Todo o comunismo é fundado na luta de classes, não na harmonia. Compara tudo isso com o islão, que liberta o ser humano destes grilhões e o submete universalmente à Lei Divina. No seu sentido mais profundo, «la illaha illallab» significa que todos os aspectos da vida humana devem ser regulados pela sharia, mas isso, meu irmão, tem uma importante consequência. Sabes qual é?"

A pergunta era retórica e Ahmed permaneceu calado.

"Aqueles que se revoltam contra a soberania de Alá e decidem proclamar leis humanas têm de ser enfrentados! Deus quis que o Profeta, que a paz esteja com ele, pusesse fim à jabiliyya e impusesse a Lei Divina entre os homens. Impusesse, repito. O problema é que, com o tempo, a sharia foi suspensa e a vontade de Alá já não está a ser respeitada entre os homens."

"O meu irmão acha que o Egipto vive agora em jabiliyya}" "Então não vive?", perguntou Ayman, o corpo inteiro de súbito a tremer, o tom de voz a inflamar-se. "Então não vive? Alá instituiu o islão justamente para pôr fim ao culto das imperfeitas leis humanas. Todas as pessoas da Terra devem obediência a Deus e a Deus apenas. Ninguém tem o direito de fazer leis. Aceitar a autoridade pessoal de um ser humano é aceitar que esse ser humano partilha a autoridade de Alá. Isso é heresia! Isso é a fonte de todos os males do universo!"

Incapaz de permanecer sentado, ergueu-se num gesto de exaltação, o braço erguido a sublinhar as sentenças empolgadas.

"Só há um Deus: Alá! Só há uma autoridade na Terra: Alá! Só há uma lei: a sharia! Mas aqui, no Egipto e nos países que se dizem do islão, a autoridade é do governo e a lei que vigora é a lei desse governo. E eu pergunto: é isso o islão? Claro que não! Claro que não! Estes governos que se dizem do islão são, na verdade, jahili, uma vez que estabelecem limites à sharia, não punindo os adúlteros com a lapidação até à morte nem ordenando a amputação da mão direita dos ladrões, nem sequer considerando que a apostasia é crime, conforme está previsto na Lei Divina. Uma pessoa pode ser adúltera, bêbeda ou até kafir, mas desde que obedeça à lei humana é classificada como boa cidadã! Isto faz algum sentido? E um crente que mate urna adúltera à pedrada, respeitando assim a sbaria, é, imagine-se!, classificado como criminoso e fanático e até vai para a prisão! E este um país islâmico? Como já te expliquei, Alá ordena no Santo Alcorão que se respeitem todos os Seus preceitos, não apenas alguns. Quem respeitar uns preceitos e ignorar outros é, em bom rigor, kafir. Isso significa que estes governos jahili que mandam em nós não passam, aos olhos de Deus, de governos kafirun."

Ahmed tentou digerir as implicações do que acabara de escutar. Os governos que não aplicam a sharia são kafirun, repetiu mentalmente. Isso significava que o seu governo era também kafir.

"Mas... mas... como podemos nós viver num país kafir}" "E isso justamente o que eu e os meus companheiros perguntamos. O Egipto é ou não é um país crente? Se é, tem de respeitar integralmente a Lei Divina. Se não a respeitar na totalidade, torna-se kafir."

"Tens toda a razão, meu irmão!", exclamou Ahmed. "O que podemos nós fazer para impor o respeito pela vontade de Alá?"

Ayman, passada a paixão que o arrebatara momentos antes, voltou a sentar-se.

"Temos de derrubar o governo, não há outra possibilidade. Repito o que te disse: Alá quis que o Profeta, que a paz esteja com ele, pusesse fim à jahiliyya e impusesse a Lei Divina entre os homens. A palavra impusesse é aqui crucial, não me canso de o sublinhar. Somos, por isso, obrigados por Deus a reinstituir a comunidade islâmica na sua forma original, de modo a acabar com o estado de jahiliyya em que o mundo mergulhou. A soberania foi retirada a Alá e de novo transferida para o homem, fazendo com que uns homens mandem noutros e façam leis que contradizem a Lei Divina. Como resultado dessa rebelião, voltou a opressão. Olha para o nosso governo: não é ele corrupto? Não vês tu corrupção por toda a parte? Como é possível que os judeus tenham hoje mais força do que toda a umma? Como é possível que os cristãos mandem em nós e usem governos-fantocbes pam nos oprimirem? Como é possível que nos deixemos dividir? Precisamos de iniciar um movimento que una a umma, reinstitua a Lei Divina entre os homens e restabeleça o verdadeiro islão."

"Foi por isso que a Al-Jama'a matou o faraó?"

"Claro. Não foi por causa do acordo com os sionistas em Camp David, como alguns pensam. O conflito com os sionistas é apenas um sintoma do mal, não o mal em si. O verdadeiro mal é termos leis humanas que se sobrepõem à Lei Divina. Todo o mal que está acontecer à umma é resultado desse erro. Foi por isso que mandámos o faraó para o grande fogo!"

"Mas a morte dele não resultou", constatou Ahmed. "A jahiliyya continua."

"A matança do faraó foi um primeiro passo, que terá de ser seguido por outros. Não há alternativa. As ordens de Alá no Livro Sagrado são muito claras e não vale a pena fingirmos que elas não estão lá, como fazem muitos que se dizem crentes e que são, na verdade, jabili."

Ahmed inspirou fundo e balançou-se no seu lugar, como um pêndulo, considerando o problema. Havia algum tempo que pensava no assunto, em particular desde que um turista que guiara pelo souq do Cairo lhe tinha dado uma ideia.

"Se calhar há um outro caminho", murmurou.

"Qual?"

"Houve um kafir que uma vez me falou na possibilidade de se mudar de governo sem grandes problemas", disse, falando devagar. "Ele chamou a isso democracia. Segundo esse kafir, é..."

O antigo professor ergueu-se de rompante.

"Democracia?", perguntou quase aos berros, a voz carregada de indignação. "Democracia?"

Ahmed deu um salto de susto no seu lugar; não esperava aquela reacção e muito menos o ardor escandalizado que nela sentia.

"Porquê, meu irmão? Eu disse... eu disse alguma coisa de errado?"

"Tu não tens estado a ouvir o que tenho explicado? Então ando eu aqui a revelar-te o islão, a mostrar-te que Alá ordenou o respeito integral da sbaria, que a verdadeira liberdade está no respeito da Lei Divina e tu... tu... tu vens-me falar de... de democracia? Não percebeste nada do que eu te ensinei?"

"Mas, senhor profes... meu irmão!", tentou Ahmed argumentar, a voz submissa e tímida, o corpo encolhendo-se de embaraço. "Que eu saiba até agora não falámos sobre isto! Eu... eu na verdade nem sei bem o que pensar da democracia, queria perceber o que diz Alá sobre o assunto. Por favor, não se ofenda!"

Ayman bufou, como uma máquina a vapor a libertar-se da pressão, e fez um esforço para se acalmar. Sentou-se e fitou o seu pupilo.

"Tu sabes o que é democracia?"

A pergunta deixou Ahmed momentaneamente atrapalhado.

"Bem... quer dizer, democracia é... é nós podermos escolher um novo governo."

"O que tem grandes e graves implicações. Imagina que os crentes estão em minoria e o governo que é eleito é kafir. O que acontece então? Aceitamos ser governados por kafirunV

Posto perante uma possibilidade que nunca considerara, o pupilo ficou de sobrolho carregado a matutar no assunto.

"Pois, não tinha pensado nisso."

"E esse é apenas o menor dos problemas", apressou-se Ayman a adiantar. "O grande problema é teológico. Esse é inultrapassável."

"Não estou a entender..."

"Diz-me, qual é a lei verdadeira que deve reger os homens?"

"Ora, é a Lei Divina, a sharia."

"Então tu não estás a ver que a democracia dá às pessoas o poder de fazerem elas próprias a lei? Numa democracia são as pessoas que decidem o que se pode ou não fazer, o que se pode ou não proibir. Isso é contra o islão! No islão as pessoas não têm o poder de decidir o que é legal ou ilegal. Esse poder é exclusivo de Alá! Os adúlteros têm de ser lapidados até à morte, mesmo que as pessoas discordem dessa penalização. Quem faz a lei é Deus, não são as pessoas! A Lei Divina está enunciada no Santo Alcorão e na sunnah do Profeta, que a paz esteja com ele, e as pessoas, gostem ou não, têm de a respeitar na íntegra. Se não o fizerem, tornam-se kafirun e a sociedade mergulha na jakiliyya. É por isso que a democracia é inaceitável para o islão. Ao retirar o poder a Deus e entregá-lo aos homens, ela está a semear a heresia e o politeísmo."

"Mas, meu irmão, já li que a América quer que o islão tenha democracia..."

Ayman soltou uma gargalhada sonora.

"Isso dá-me vontade de rir!", exclamou. "Só pode dizer isso quem desconheça o islão! Ou, mais provavelmente, quem tenha um plano para destruir o islão! Dizer que um crente pode ser democrata é o mesmo que dizer que um crente pode ser politeísta. As duas coisas são contraditórias, é como querer misturar água e azeite! A democracia prevê liberdade de religião, incluindo o direito de as pessoas mudarem de crença, mas isso vai contra o islão, como muito bem sabes! Não foi o

Profeta, que a paz esteja com ele, que decretou a pena de morte para os apóstatas? Como pode isso ser compatível com a liberdade de religião? A democracia prevê também a liberdade de expressão, o que significa que se pode até criticar Alá e as Suas decisões. Ora o islão proíbe terminantemente que se faça tal coisa."

"Tem razão", reconheceu Ahmed. "Só não sei onde está estabelecida essa proibição."

"Na sunnah. Existe um hadith que revela que o Profeta, que a paz esteja com ele, perguntou a um grupo de amigos: «Quem pode tratar do Kaab bin Ashraf?» Referia-se a um poeta que criticava Maomé, que a paz esteja com ele. Um homem chamado Musslemah perguntou: «Quer que o mate?» O Profeta, que a paz esteja com ele, respondeu: «Sim.» Musslemah decapitou então o poeta e Maomé, que a paz esteja com ele, disse: «Se ele se tivesse calado como todos os que partilham a sua opinião, não teria sido morto. Mas ele ofendeu-nos com a sua poesia e qualquer de vós que fizesse o mesmo também mereceria a espada». Este haditb mostra que não se pode criticar o islão e que a punição para quem o fizer é a morte. Aliás, é uma evidência que a crítica ao islão não pode ser feita. Como pode o respeito por Deus ser compatível com a liberdade de expressão? Como pode ser o islão compatível com a democracia?" Abanou a cabeça e esboçou um sorriso agastado. "Sabes o que desejam realmente os kafirun americanos, sabes?"

Ahmed ficou calado, aguardando que Ayman respondesse ele próprio à pergunta que fazia.

"Recita-me o que Alá diz na sura 5, versículo 51."

O pupilo voltou a concentrar-se.

"«O vós que credes! Não tomeis a judeus e cristãos por confidentes: uns são amigos dos outros. Aquele de entre vós que os tome por confidentes será um deles»."

"O que Alá está a dizer nesse versículo é que, para além de não podermos ser amigos dos Povos do Livro, não podemos confiar neles. Isso está repetido noutras partes do Santo Alcorão, como a sura 3, versículo 100. Seria ingenuidade nossa acreditar que os judeus e os cristãos estão de boa-fé quando analisam a história islâmica e fazem propostas para a nossa sociedade, como essa da democracia. Quando vêrp con>essas ideias, o que eles realmente querem é atingir as fundações do islão e demolir a estrutura da nossa sociedade. Ao pregar a liberdade, a democracia e os direitos humanos, os kafirun cristãos estão a atacar o islão com poderosas armas intelectuais."

"Mas o Irão tem democracia, meu irmão", argumentou Ahmed. "E, que eu saiba, os iranianos são muito respeitadores da sharia."

"Já foram mais", retorquiu o mestre com um esgar irónico. "Além disso os iranianos são xiitas, não praticam o verdadeiro islão. De qualquer modo, é preciso notar que quem realmente manda no Irão são os ayatollahs, e esses não são eleitos. Os presidentes e os parlamentos do Irão, embora eleitos, não têm o poder de violar a sharia, apenas de a fazer respeitar. Mas o que é verdadeiramente importante é resistir à tentação de ceder perante as armas intelectuais do Ocidente kafir, sob pena de abandonarmos a Lei Divina e passarmos a querer a lei dos homens. Onde está dito no Santo Alcorão que é preciso democracia? Se Alá não fala nisso é porque ela não é necessária! Basta a Lei Divina, que regula o universo inteiro. Se a lei de Alá é boa para todo o universo, porque não há-de ela ser boa para os homens?"

Ahmed coçou a cabeça, simultaneamente esclarecido e confuso.

"Então o que fazemos, meu irmão?"

"Fazemos o que Ibn Taymiyyah disse que fizéssemos."

O pupilo soergueu o sobrolho, admirado com a referência ao xeque que combateu o domínio mongol. "Que quer dizer com isso?"

"Posto perante uma situação semelhante à nossa, Ibn Taymiyyah consultou o Santo Alcorão e a sunnab do Profeta, que a paz esteja com ele, e concluiu que um governo que só acata parte da sharia e ignora a outra parte está, na verdade, a seguir homens e não Deus. O xeque disse: «Fé é obediência. Se alguma dela estiver com Alá e outra dela estiver com outro que não Alá, a guerra é obrigatória até que toda a fé esteja com Alá.»"

Ahmed ficou um instante calado, amadurecendo as implicações da fatwa de Ibn Taymiyyah.

"O meu irmão está a dizer que a única solução é a guerra?"

O antigo professor de religião ergueu-se do seu lugar, dando a conversa por encerrada. Mas antes de regressar para o grupo dos seus companheiros da Al-Jama'a que se juntavam no outro lado do átrio para se prepararem para a oração do meio-dia, voltou-se para o seu pupilo.

"Chamamos-lhe jibad."

 

A ansiedade e a expectativa corroíam-lhe o espírito. Tomás espreitou o relógio pela décima vez em apenas cinco minutos e respirou fundo, sem saber se desejava que o tempo acelerasse ou abrandasse. Cerrou os olhos e desejou ardentemente saltar as duas horas seguintes. Que bom seria que, quando dentro de instantes abrisse de novo as pálpebras, fosse já uma da tarde e o encontro com Zacarias já tivesse ocorrido!

Abriu os olhos e consultou mais uma vez o relógio.

Onze e cinco.

"Porra!"

"O que foi?", perguntou Rebecca.

"Ainda faltam cinquenta e cinco minutos." Remexeu-se no assento, desassossegado. "Não será melhor irmos agora?" "Para onde?"

"Lá para fora!", exclamou Tomás, a voz numa tensão impaciente. "O Zacarias já cá pode estar." Rebecca passeou o olhar pelo exterior.

"Já o viu?"

"Não, claro que não." "Então qual é a pressa?"

"Bem... sempre saímos desta maldita carrinha, não acha? Além disso, despachamos isto de uma vez por todas! Quanto mais cedo este assunto ficar resolvido melhor."

A americana fitou-o, uma expressão maternal a derramar--se pelo seu olhar azul.

"Tenha calma, Tom", disse num tom tranquilizador. "Vamos lá para fora no momento em que tivermos de ir. Nem um minuto antes, nem um minuto depois. Compreendeu?"

As palavras de Rebecca pareciam funcionar como sedativos e Tomás deu consigo a descontrair-se.

"Está bem."

"Não se preocupe, estamos a controlar a situação", acrescentou ela, indicando com a cabeça os dois operacionais lá à frente. "O Jerry e o Sam estão a monitorar o que se passa lá fora." Os dois homens tinham parado de conversar entre eles e pareciam atarefados com os instrumentos electrónicos que enchiam aquilo a que a Tomás parecia ser um cockpit. "Deixe-os trabalhar. Mas se vir o Zacarias avise-me. Okay?"

"Fique descansada."

 

O silêncio imperava na carrinha. Apenas se ouviam as comunicações electrónicas no cockpit, com Jarogniew a testar os instrumentos e Sam a perscrutar todo o movimento exterior. Aquela espera era enervante, descobriu Tomás, sentindo o nervoso miudinho apoderar-se de novo dele. Onde seria exactamente o encontro com Zacarias? O antigo aluno apenas lhe falara no forte da cidade velha, mas agora que ali estava percebia que se tratava de um complexo enorme. Como localizar o ponto exacto do encontro? E o que iria acontecer?

Será que Zacarias iria mesmo aparecer? Pelo telefone ele tinha-lhe parecido incrivelmente nervoso. E se sucedesse algum imprevisto?

Rebecca sentiu a inquietação gradualmente apoderar-se de novo do historiador, que se remexia e suspirava no seu lugar, e percebeu que teria de lhe manter a mente ocupada.

"Você viveu no Egipto?", perguntou ela.

Tomás assentiu com a cabeça.

"Presumo que tenha lido um dossiê sobre mim."

"Sim, mas a documentação raramente mostra o que se passa dentro da cabeça de uma pessoa", devolveu a americana. "Diz o que ela fez, mas não consegue necessariamente explicar porquê."

"Quer saber porque fui para o Cairo?"

"Sim."

"Porque quis aprender árabe e conhecer o islão", retorquiu ele. "Sou perito em línguas antigas e criptanálise. Até sei hebraico, a língua de Moisés, e aramaico, a língua de Jesus. Mas faltava-me a língua e a cultura de Maomé. Além do mais, não se esqueça de que o mais antigo tratado de criptanálise está escrito em árabe."

"A sério?"

"Não sabia? E um texto do século ix, mas só foi descoberto em 1987, num arquivo de Istambul. Intitula-se Um Manuscrito para Decifrar Mensagens Criptográficas.'1'' Arqueou as sobrancelhas. "Fascinante título, hem?"

"Quem é o autor?"

"Abu Yusuf Yacub ibn Ishaq ibn as-Sabbah ibn Omran ibn Ismail Al-Kindi."

Tomás pronunciou o nome muito depressa, extraindo um esgar perplexo do rosto da sua interlocutora.

"Quem?"

O historiador soltou uma gargalhada.

"Para facilitar chamamos-lhe apenas Al-Kindi", esclareceu, divertido. "É ele o principal responsável pelo meu interesse pela língua árabe. Fiz questão de ler na língua original o manuscrito que Al-Kindi escreveu. É fascinante. Foi por isso que fui para o Cairo aprender árabe. Mas, claro, acabei por me interessar também pelo islão. Estudei na Universidade de Al-Azhar, a mais prestigiada universidade islâmica do mundo, e passei a perceber melhor o que se passa na mente dos muçulmanos. Falei com todo o tipo de gente, nem imagina."

"Conheceu fundamentalistas?"

"Claro."

Rebecca mudou de posição no assento, subitamente interessada. Começara por questionar Tomás sobre a sua passagem pelo Egipto apenas para o manter distraído, mas percebera nesse instante que o historiador podia abrir-lhe perspectivas novas.

"E então?"

"Então, o quê?"

"Ora, não se faça desentendido!", exclamou Rebecca; agora era ela que se mostrava impaciente. "O que lhe disseram os tipos, Tom? Por que razão andam eles a atacar toda a gente? Porque fazem estes atentados horríveis? Eles explicaram-lhe isso?"

O historiador franziu o sobrolho.

"Está a insinuar que não sabe por que motivo os radicais levam a cabo estes ataques?"

"Bem, presumo que isso se deva a... a razões socioeconómicas, à pobreza, à ignorância..."

"Quais razões socioeconómicas? Qual pobreza? Qual ignorância? Não sabe que o Bin Laden é milionário? Não sabe que uma importante parte dos homens que levam a cabo estes atentados tem estudos universitários? Aliás, na reunião da

NEST em Veneza apareceu um tipo da Mossad a dar-nos um perfil dessa gente."

"Pois... tem razão. Então qual é a explicação? Descobriu-a?"

"Claro."

"E então?"

"Aqueles a quem você chama fundamentalistas limitam-se a seguir à letra as ordens que estão no Alcorão %. na vida de Maomé. Tão simples quanto isso."

"Não é bem assim", corrigiu ela. "Eles fazem uma interpretação abusiva do islão."

"Quem lhe disse isso?"

"Quer dizer...", hesitou Rebecca, desconcertada com a pergunta. "Isso está... sei lá, está na imprensa. Já li isso na Newsweek... ou na Time, não sei bem."

Tomás inclinou ligeiramente a cabeça, como um professor a repreender com o olhar o seu aluno favorito.

"E acreditou?"

"Bem, não há razões para duvidar... ou há?"

O historiador respirou fundo, desta vez já não de ansiedade, mas para ganhar balanço. O seu problema não era o que responder, mas por onde começar.

"Oiça, é preciso entender um conjunto de coisas sobre o islão", disse. "A primeira, e talvez a mais importante de todas, é que o islão não é o cristianismo. Nós temos esta fantasia de que os profetas promovem sempre a paz e de que para eles a vida é sagrada, seja em que circunstâncias for. Em momento algum os profetas aceitam que se faça guerra e se mate outras pessoas. E ou não é verdade?"

"Bem... sim, é verdade." Mudou de tom e tornou-se mais assertiva. "Mas também é verdade que a maior parte das guerras são provocadas pelas religiões! Quantas matanças não se fizeram em nome de Cristo?"

"Ordenadas por Cristo?"

"Não, claro que não. Mas em nome dele..."

"Não confunda coisas", rectificou Tomás. "Quando um cristão faz a guerra, é importante que perceba que ele está a desobedecer a Cristo. Não foi Jesus que disse que, quando nos batem numa face, devemos dar a outra? Ao recusar-se a dar a outra face e ao optar pela guerra, o cristão está a desobedecer ao seu Profeta, ou não está?"

"Claro que sim."

"Pois essa é uma importante diferença entre o cristianismo e o islão. É que, no islão, quando um muçulmano faz a guerra e mata gente pode estar simplesmente a obedecer ao Profeta. Não se esqueça de que Maomé era um chefe militar! No islão pode acontecer que o muçulmano que se recuse a fazer a guerra seja precisamente aquele que desobedece ao seu Profeta!"

Rebecca franziu o sobrolho, numa expressão de absoluta incredulidade.

"Está a falar a sério?"

"Registe isto que eu lhe vou dizer", acrescentou o historiador, quase a soletrar as palavras. "A maior parte do Alcorão é constituída por versículos relacionados com a guerra."

O rosto da americana manteve desenhada a incredulidade.

"Isso não pode ser!", exclamou. "Sempre ouvi dizer que o islão é totalmente pacífico e tolerante."

"E é, se formos todos muçulmanos. O islão impõe regras de paz e concórdia entre os crentes. O problema é se não formos muçulmanos. Está escrito no Alcorão, creio que no capítulo 48: «Muhammad é o Enviado de Deus. Os que estão com ele são duros com os incrédulos, compassivos entre si.» O compassivos entre si é lido como uma ordem de tolerância entre os crentes e o duros com os incrédulos de intolerância para com os infiéis. No nosso caso, os não muçulmanos, as
ordens inscritas no Alcorão ou no exemplo de Maomé são
que temos de pagar aos muçulmanos uma taxa humilhante.
Se não o fizermos, seremos mortos. Ou seja, se levarmos à
letra as regras do islão, a escolha é muito simples: ou nos
convertemos em muçulmanos, ou nos humilhamos, ou somos
assassinados."

"Mas eu nunca ouvi falar nisso..."

"Nunca ouviu porque no Ocidente estes factos são ocultados. A versão do islão que nos é apresentada é uma versão expurgada destes pormenores perturbadores. Dão-nos uma versão cristianizada do islão. É até frequente ouvir líderes islâmicos no Ocidente a citarem textos sufis para mostrar que o islão é só paz e amor. Acontece que o sufismo é um movimento místico islâmico muito minoritário e com forte influência cristã, coisa que não nos é explicada. A ideia que fica é que o islão é muito próximo do cristianismo, o que não é bem verdade. Maomé fazia coisas que, sendo naturais naquele tempo, são hoje inaceitáveis para uma mente ocidental. Essas coisas são-nos cuidadosamente escondidas."

"Hmm... isso é novidade para mim", disse Rebecca com um esgar céptico. "Dê-me exemplos de coisas que não nos são contadas."

"Olhe, a primeira grande batalha em que Maomé esteve envolvido foi a batalha de Badr, contra a sua própria tribo de Meca. Os muçulmanos venceram e os líderes inimigos foram mortos ou capturados. Um deles, chamado Uqba, implorou pela sua vida e perguntou a Maomé quem olharia pelos seus filhos no caso de ele ser executado. Sabe o que o Profeta lhe respondeu? «O Inferno», disse, e mandou matá-lo. Um outro líder inimigo, chamado Abu Jahl, foi morto e o muçulmano que o decapitou exibiu a cabeça decepada diante de Maomé.

Ao ver a cabeça, e depois de se certificar de que se tratava realmente de Abu Jahl, o Profeta deu graças a Deus pela morte do seu inimigo."

"Jesus!", exclamou Rebecca. "Isso aconteceu mesmo?"

"Está amplamente documentado", assegurou Tomás. "Daí que o antigo líder da Al-Qaeda no Iraque, Al-Zarkawi, tenha invocado este incidente quando decapitou um refém americano em 2004. Se bem me lembro, Al-Zarkawi disse: «O Profeta, o mais misericordioso, ordenou que se cortassem os pescoços de alguns prisioneiros em Badr. Ele estabeleceu um bom exemplo para nós.»"

Rebecca mordeu o lábio.

"Daí que estes fundamentalistas andem a decapitar reféns..." "Estão simplesmente a seguir o exemplo do Profeta, coisa que o Alcorão lhes ordena que façam." "E há mais situações dessas?"

"Quer mais?", admirou-se Tomás. "Então vou contar-lhe a história de uma tribo judaica que se recusou a converter-se ao islão. Eram os Qurayzah. Maomé cercou a tribo durante quase um mês e os Qurayzah acabaram por se render. Maomé pediu--lhes que escolhessem alguém que decidisse o seu destino. Os judeus escolheram um muçulmano chamado Mu'adh, que já conheciam e de quem esperavam clemência. Mas Mu'adh optou por executar os homens e escravizar as mulheres e as crianças. Ao tomar conhecimento desta decisão, Maomé disse: «Decidiste em conformidade com o julgamento de Alá lá em cima nos sete céus.» Maomé foi então ao mercado de Medina e ordenou a abertura de uma trincheira no chão. Depois mandou buscar os prisioneiros e, à medida que eles lhe eram apresentados, decapitava-os nas trincheiras. As mulheres e crianças cativas foram depois entregues aos muçulmanos, com excepção daquelas que se converteram ao islão."

"Que horror! Tem a certeza de que isso aconteceu?" "Claro que sim. Aliás, há até um versículo do Alcorão que se refere a este episódio." Rebecca abanou a cabeça. "Não fazia ideia nenhuma disso."

"E o que eu lhe estava a tentar explicar há pouco", insistiu o historiador. "No Ocidente é apenas apresentada uma jíersão cristianizada do islão, havendo sempre o cuidado de eliminar todos estes pormenores que nos poderão chocar e alienar. Está a ver Jesus a mandar cortar cabeças de pessoas e a dizer a condenados que quem vai tratar dos seus filhos será o Inferno e a vangloriar-se perante a cabeça decepada de um inimigo? Isto é chocante para nós e é por isso que estes pormenores não nos são revelados! Mas é importante que os conheçamos para percebermos melhor a Al-Qaeda, o Hamas e toda essa gente."

"Claro, tem razão."

"Lembre-se de que os fundamentalistas não estão a inventar nada. Limitam-se a executar à letra as ordens do Alcorão e a seguir o exemplo do Profeta. Eles citam profusamente os textos sagrados do islão e o grande problema é que, quando vamos às fontes verificar o que está lá de facto escrito, descobrimos que os fundamentalistas têm razão. Está lá mesmo escrito o que eles dizem que está escrito."

"Mas isso é muito grave!", exclamou Rebecca. "Se as coisas são realmente assim, então..."

"Pessoal."

"... não estou a ver como poderemos nós..." "Pessoal!"

A segunda vez, o tom de voz tornou-se mais peremptório e conseguiu sobrepor-se àquele diálogo empolgado. Rebecca e Tomás pararam de falar, voltaram a cabeça para os bancos da frente e viram Sam inclinado para trás, a olhá-los.

"O que é, Sam?"

"Odeio interromper a vossa conversa. Vocês parecem tão entusiasmados que até me custa."

"Está bem, mas o que é? Passa-se alguma coisa?"

O operacional voltou o braço para eles, exibiu o relógio e bateu com o dedo no mostrador.

"Está a chegar a hora."

 

 

                                                                               CONTINUA

 

                      

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