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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ÍCONE / Frederick Forsyth
ÍCONE / Frederick Forsyth

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ÍCONE

 

ERA o Verão em que o preço de uma pequena carcaça atingiu o milhão de rublos.

Era o Verão do terceiro ano consecutivo de colheitas calamitosas e o segundo da hiperinflação.

Era o Verão em que os primeiros russos começaram a morrer de subalimentação, nas vielas de distantes vilas da província.

Era o Verão em que o Presidente teve um colapso na sua limtisina, demasiado longe de qualquer possibilidade de socorro para poder ser salvo, e um velho empregado da brigada de limpeza roubou um documento.

Depois disto, nada voltaria a ser o mesmo.

Era o Verão de 1999.

 

            Fazia calor, naquela tarde, um calor opressivo, e foram necessárias várias buzinadelas antes que o porteiro emergisse apressadamente da guarita para abrir as duas pesadas portas de madeira do edifício do gabinete.

            O guarda-costas presidencial baixou a janela para lhe indicar que se perfilasse, enquanto o longo Mercedes 600 deslizava sob o arco, em direção à Staraya Ploshchad. O embaraçado interpelado tratou de erguer a mão naquilo que esperava passasse por uma saudação formal, enquanto o segundo veículo,  um Chalka russo, com mais quatro guarda-costas, seguia a limusine.

            O presidente Cherkassov, imerso em reflexões, era o único ocupante do banco de trás do Mercedes. No da frente, sentavam-se  o seu condutor da Polícia e o guarda-costas pessoal atribuído pelo Grupo Alfa.

            Enquanto aos pouco atraentes subúrbios se sucediam os campos e árvores, o estado de espírito do presidente da Rússia era de profunda amargura, aliás muito justificada. Havia três anos que exercia o cargo que conquistara depois de substituir o enfermo Boris Ieltsin, durante os quais assistira ao afundamento do seu país na pobreza, sem dúvida o período mais miseravel da sua vida.

            No Inverno de 1995, quando era primeiro-ministro, nomeado pelo próprio Ieltsin como um premier “tecnocrata” para reorganizar  e conseguir a retomada da economia, o povo russo fora às urnas para eleger um novo parlamento, ou Duma.

            Essas eleições eram importantes, mas não vitais. Nos anos precedentes, passara cada vez mais poder do Parlamento para a presidência, num processo cuja autoria se devia, na sua maior parte, a Boris Ieltsin. No Inverno de 1955, o possante siberiano, que, quatro anos atrás, montara um tanque durante a tentativa de golpe de Agosto de 1991, conquistara a admiração não só da Rússia, mas também do Ocidente como grande lutador em prol da democracia e assumira a presidência, convertera-se em um ser alquebrado.

            Convalescente de um segundo ataque cardíaco em três meses, corado e inchado pelos medicamentos, observou as eleições parlamentares de uma clínica nas Colinas dos Fardais, antigas Colinas de Lenin, a nordeste de Moscou, e viu os seus próprios protegidos políticos serem relegados para o terceiro lugar entre os deputados. Isto não se revelou tão crucial como teria acontecido numa democracia ocidental, devido largamente ao fato de que, graças a Ieltsin, a grande maioria do atual poder permanecia nas mãos do próprio presidente. A semelhança dos Estados Unidos, a Rússia tinha uma presidência executiva, mas, ao contrário daqueles, a teia de contenções e equilíbrios que o Congresso pode impor à Casa Branca não existia, Ieltsin podia governar com eficiência por decreto, e fazia-o.

            No entanto, as eleições parlamentares mostraram pelo menos de que lado soprava o vento e forneceram uma indicação da tendência para as eleições presidenciais, muito mais importantes, marcadas para Junho de 1996.

            A nova força no horizonte político do Inverno de 1995 eram, ironicamente, os comunistas. Após setenta anos de tirania destes últimos, cinco de reformas de Gorbachev e outros tantos de Ieltsin, o povo russo começava a recordar os velhos tempos com nostalgia.

            Os comunistas, sob a égide die Gennady Zyuganov, pintavam um quadro cor-de-rosa de como as coisas tinham sido: garantia de emprego, salário assegurado, alimentação acessível a todas as bolsas e lei e ordem. Não faziam, porém, qualquer alusão ao despotismo do KGB, ao arquipélago de Gulag dos campos de trabalhos forçados ou à supressão de toda a liberdade de movimentos e expressão.

            Os eleitores russos já estavam numa condição de profunda desilusão com os dois outros outrora proclamados salvadores: capitalismo e democracia. O segundo termo era pronunciado com desdém. Para muitos, ao olharem em volta para a corrupção  e crime pandêmico que grassavam, tudo não passara de uma mentira gigantesca. Quando foram contados os votos parlamentares, os criptocomunistas dispunham do maior bloco único de deputados na Duma e o direito de nomear o seu presidente.

            No outro extremo, encontravam-se os seus opositores aparentemente diametrais  os neofascistas de Vladimir Zhirnovsky, dirigente do ironicamente chamado Partido Democrático Liberal. Nas eleições de 1991, esse rude demagogo, com o seu gosto pelo comportamento bizarro e expressões escatológicas, obtivera um resultado satisfatório, mas a sua estrela achava-se em declínio. Não caíra, todavia, o suficiente para lhe arrebatar o segundo maior bloco de deputados.

No meio, situavam-se os partidos do centro político, apegados

 às reformas econômicas e sociais que haviam introduzido.

Figuravam em terceiro lugar.

            Mas o verdadeiro efeito dessas eleições consistiu em preparar o terreno para a corrida presidencial de 1996. Houvera quarenta e três partidos separados contestatários das eleições da Duma, e a maioria dos dirigentes dos principais partidos reconhecia que seriam mais bem servidos por meio de um programa de coalescência.

            Antes do Verão, os criptocomunistas aliaram-se aos seus amigos naturais, o Partido Agrário, ou dos Camponeses, para formar a União Socialista, um título inteligente, porque incluía duas das iniciais da velha URSS, o líder continuava a ser Zyuganov. Na ala ultra-direita, também se achavam em atividade movimentos para a unificação, aos quais, porém. Zhirinpvsky resistia tenazmente. Vlad, o Louco, considerava que podia chegar à presidência sem a ajuda das outras fações daquele quadrante.

            As eleições presidenciais russas, à semelhança das francesas, realizam-se em dois turnos. Na primeira, todos os candidatos competem entre si. Somente os que ficam nos dois primeiros lugares concorrem à segunda. A terceira posição não serve para nada. Ora, Zhirinovsky foi o terceiro, e os políticos mais atilados da extrema-direita furiosos com ele.

            Os doze partidos do centro uniram-se, mais ou menos, na Aliança Democrática, com a dúvida fundamental ao longo da Primavera de 1996 sobre se Boris Ieltsin estaria com saúde suficiente para se candidatar e vencer, à presidência mais uma vez.

            A sua queda seria mais tarde atribuída pelos historiadores a uma única palavra  Chechenia.

            Exasperado ao ponto da ruptura doze meses antes, Ieltsin lançara todo o poder do exército e força aérea russos contra uma pequena tribo montanhesa guerreira, cujo autonomeado chefe insistia na independência total de Moscou. As perturbações causadas pelos chechenos não tinham nada de novo, pois a sua resistência remontava aos tempos dos czares e até antes.

            No entanto, tinham conseguido sobreviver aos pogroms (1) desencadeados por vários soberanos e pelo tirano mais cruel de sempre, José Stalin , resistir à repetida devastação da sua minúscula pátria, deportações e genocídio e continuado a lutar.

            O envio de todo o poderio das forças armadas contra os chechenos constituiu uma decisão impetuosa que não conduziu a uma vitória rápida e gloriosa, mas à destruição total – tudo na pequena tela e em maravilhoso tecnicolor  da capital da Chechenia, Grozny, e ao cortejo interminável de soldados russos,  que regressavam da campanha encerrados em sacos de plástico.

            Com a sua capital reduzida a escombros, mas continuando armados até aos dentes com material vendido por generais russos corruptos, os chechenos refugiaram-se nos montes que tão bem conheciam e recusaram-se a ser varridos de lá. O mesmo exército da Rússia que enfrentara o seu inglório Vietnã na tentativa para invadir e ocupar o Afeganistão criara assim um segundo nas faldas silvestres da Cordilheira do Cáucaso.

            Se Boris Ieltsin desencadeara a sua campanha na Chechenia  para provar que era um homem forte segundo o molde russo tradicional, tornou-se num gesto malogrado. Durante todo o ano de 1995, ansiou pela sua vitória final, que sempre lhe escapou. À medida que via os seus jovens filhos regressar do Cáucaso sem vida, a indignação do povo concentrou-se nos chechenos, mas também contra o homem que não conseguia oferecer-lhes a vitória.

            Após um esforço pessoal esgotante, Ieltsin reconquistou a presidência por uma unha negra e na sequência de uma ponta final extremamente difícil. No entanto, um ano mais tarde extinguiu-se. O cargo passou para o tecnocrata Josep Cherkassov, líder do Partido Patriótico Russo, então incorporado na mais numerosa Aliança Democrática.

Nome dado na Rússia à perseguição organizada contra uma classe ou raça. (N. do T.)

            Cherkassov pareceu começar bem. Conservou a aprovação benigna do Ocidente e, mais importante, os seus créditos financeiros para manter a economia do país dentro de um certo equilíbrio. E, atendendo a conselhos dos ocidentais, negociou finalmente uma trégua com a Chechenia, e o fato de  mau grado os vingativos russos abominarem a idéia de os chechenos saírem airosos da sua rebelião  fazer os soldados regressar a casa resultou popular.

            As coisas começaram, todavia, a correr mal passados dezoito meses. As causas eram duas Em primeiro lugar, as depredações da Mafia russa tornaram-se finalmente muito opressivas para que a economia nacional as pudesse suportar e, em segundo, registrou-se outra alucinada aventura militar. Em fins de 1997, a Sibéria, fonte de noventa por cento da riqueza da Rússia, ameaçou separar-se do resto do país.

            Na verdade, tratava-se da menos submissa das províncias russas. No entanto, sob os seus gelos permanentes, explorados muito pela rama, encontravam se depósitos de petróleo e de gás natural que faziam a própria Arábia Saudita parecer carente neste capítulo. Além disso, havia ouro, diamantes, bauxite, manganésio, tungsténio, níquel e platina. No final dos anos noventa, a Sibéria continuava a ser a última fronteira do planeta.

            Começaram a chegar a Moscou informações de que emissários  japoneses e, em particular, sul-coreanos circulavam naquela região incitando à secessão. O presidente Cherkasov, mal aconselhado pelo seu círculo de sicofantas e aparentemente esquecido dos erros do seu predecessor na Chechenia, enviou o exército para o leste, decisão que provocou uma dupla catástrofe.

            Depois de doze meses sem uma solução militar, tinha de negociar um acordo que concedia aos siberianos mais autonomia  e controle sobre os destinos da sua própria riqueza do que jamais acontecera. Além disso, a aventura acelerou a hiperinflação.

            O governo tentou abrir um caminho para se livrar de apuros. No Verão de 1999, os dias dos cinco mil rubles por cada dólar de meados dos anos noventa não passavam de uma recordação. A colheita do trigo da região da terra negra do Kuban resultara ruinosa em 1997 e 1998 e a da Sibéria atrasou-se até apodrecer, porque os rebeldes destruíram a via férrea. O presidente Cherkassov mantinha-se no seu cargo, mas era óbvio que já não detinha o poder.

            Nos campos, onde deveria crescer alimentação pelo menos suficiente para satisfazer as suas necessidades, as condições tinham atingido o ponto mais crítico. Sem fundos, com insuficiência de mão-de-obra e as infra-estruturas a desmoronarem-se, as fazendas permaneciam inativas e as duas ricas terras limitavam-se a produzir ervas daninhas. Os comboios que paravam em apeadeiros eram assaltados por camponeses, na sua maioria idosos, que ofereciam mobília, vestuário e bricabraque em troca de dinheiro ou, de preferência, comida. A aceitação era, porém, escassa.

            Em Moscou, capital e mostruário da nação, os indigentes dormiam nos cais ao longo do Moskva e nos becos. A Polícia chamada Polícia, na Rússia, que abandonara virtualmente a luta contra o crime, tentava encafuá-los em comboios de mercadorias  em direção aos lugares de que provinham. Mas chegavam cada vez mais, à procura de trabalho, alimentação e/ou auxílio de qualquer natureza. Muitos deles viam-se reduzidos à mendicidade e morriam nas ruas.

            No dealbar da Primavera de 1999, o Ocidente parou finalmente de verter subsídios no poço sem fundo, e os investigadores estrangeiros, mesmo os que mantinham ligações com a Mafia, retiraram-se. A economia russa, como um refugiado de guerra espoliado vezes demais, estendeu-se na beira da estrada e morreu de desespero.

            Era este o tenebroso cenário que o presidente Cherkassov enfrentava, enquanto abandonava a cidade, naquele dia quente de Verão, a caminho da sua residência de Verão.

            O motorista conhecia bem o percurso para a dacha no campo, para além de Usovo, nas margens do rio Moskva, onde o ar era mais fresco, debaixo das árvores. Anos atrás, os adiposos gatos do Politburo soviético tinham mandado construir  as suas casas estivais entre o arvoredo ao longo daquela curva do curso de água. Muitas coisas tinham entretanto mudado na Rússia, mas não a esse extremo.

            O tráfego era escasso devido ao preço elevado da gasolina, e os caminhões com que a limusine se cruzava expeliam densas colunas de fumo negro. Depois de Arkchangelskoye, atravessou a ponte e enveredou pela estrada paralela ao rio, cuja corrente deslizava suavemente sob a bruma de Verão, rumo à cidade.

            Cinco minutos mais tarde, o presidente Cherkassov começou a ter dificuldade em respirar. Embora o sistema de ar condicionado estivesse regulado para o máximo, apertou o botão para abrir a janela e permitir que o ar da Natureza lhe incidisse no rosto. Era quente e pouco ou nada lhe facilitou a respiração. Do outro lado da divisória, tanto o motorista como o guarda-costas não haviam percebido nada.

            O desvio para Peredelkino encontrava-se um pouco adiante, à direita. Quando entraram nele, o presidente da Rússia inclinou-se  para a esquerda e tombou no assento.

            A primeira coisa que o motorista se deu conta foi que a cabeça do Presidente desaparecera do espelho retrovisor e murmurou algo ao companheiro, que se voltou para trás. No instante imediato, o Mercedes imobilizava-se na beira da estrada.  O Chalka, que o seguia de perto, parou igualmente, e o chefe do grupo da segurança, antigo coronel de Spetsnaz, saltou do lugar do passageiro ao lado do motorista e precipitou-se para lá. Entretanto, os outros abandonavam também os seus lugares, de armas em punho, e formavam um círculo de proteção Não faziam a menor idéia do que acontecera.

            O coronel alcançou o Mercedes, onde o guarda costas abrira a porta e se debruçava para dentro, e afastou-o para ver melhor. O Presidente inclinava-se para o lado, com ambas as mãos pousadas no peito, olhos fechados e respiração difícil.

            O hospital mais próximo com uma unidade de cuidados intensivos de alta qualidade era a Clínica Estatal Número Um, a quilômetros dali, nas Colinas dos Pardais. O coronel sentou-se no banco de tras, ao lado do angustiado Cherkassov e ordenou ao motorista que invertesse a direção e seguisse para a cintura orbital. O homem, de faces lívidas, apressou-se a obedecer. Depois, servindo-se do seu telefone portátil, o oficial entrou em contacto com a clínica e pediu uma ambulância.

            O encontro ocorreu meia hora mais tarde, no meio da auto-estrada dividida. Paramédicos transferiram o homem inconsciente da limusine para a ambulância e iniciaram os trabalhos, enquanto o comboio de três veículos seguia velozmente em direção à clínica.

            Uma vez chegados, o Presidente foi confiado aos cuidados do cardiologista de serviço, cuja equipe utilizou todos os meios à sua disposição, os mais recentes e melhores, mas era muito tarde. A linha que cruzava a tela do monitor recusava-se a indicar a mínima reação, mantendo-se uniforme, juntamente com o sinal acústico agudo. Às quatro e dez, o cardiologista endireitou-se e meneou a cabeça. O homem que utilizava o desfibrilador afastou-se da mesa.

            O coronel marcou um número no telefone portátil e, quando alguém respondeu, ao terceiro toque, indicou:

            - Ligue-me ao gabinete do Primeiro-Ministro.

           

            Seis horas mais tarde, no mar ondulante ao largo das Antilhas, o Foxy Lady alterou a rota para regressar à procedência. Na coberta da popa, o barqueiro, Julius, recolheu as linhas e arrumou as canas de pesca. Fora um longo dia de fretamentos, o casal americano abriu duas latas de cerveja e sentou-se confortavelmente sob o toldo para saciar a sede.

            No compartimento do peixe, havia dois pesados wahoo com cerca de vinte quilogramas cada um e meia dúzia de douradas grandes que, poucas horas antes nadavam calmamente a umas dez milhas dali.

            O patrão, na coberta superior, corrigiu o rumo em direção às ilhas e acelerou, convencido de que chegariam à Baía da Tartaruga dentro de menos de uma hora.

            O Foxy Lady parecia ciente de que o trabalho do dia estava quase terminado e o ancoradouro o aguardava para um período de repouso. Julius encheu um balde no oceano e alagou a coberta da popa mais uma vez.

            Quando Zhirinovsky fora líder dos democratas-liberais, a sede do partido situava-se num decrépito edifício da Travessa do Peixe, perto da Rua Stretenka. Os visitantes desconhecedores  das estranhas maneiras de proceder de Vlad, o Louco, tinham-se surpreendido ao descobrir as suas indesejáveis condições, com o estuque em avançado estado de escamação e as janelas exibindo dois cartazes do demagogo conspurcado pelas moscas, havia mais de dez anos que o interior não contactava com um pano molhado. Transposta a porta preta rachada em vários pontos, descobriram um átrio mal iluminado com uma barraca de venda de camisetas que exibiam a efígie do líder no peito e os blusões negros de couro que os seus apoiantes usavam.

            No topo da escada sem passadeira, encontrava-se o primeiro patamar, com um guiche gradeado, atrás do qual um puarda inquiria a natureza da visita. Só se a explicação era satisfatória o interpelado podia subir aos inclassificáveis aposentos onde Zhirinovsky celebrava corte, quando estava na cidade Rock, ao pesado, ecoava ruidosamente no edifício. Era assim que o excêntrico fascista preferira manter o quartel-general do partido,  baseado no princípio de que a imagem exteriorizava um homem do povo e não um ricaço corrupto. No entanto, há muito que ele desaparecera da circulação, e o Partido Democrático Liberal fundira-se com as outras organizações ultradireitistas e neofascistas naquilo que dava pelo nome de União das Forças Patrióticas.

            O seu líder indiscutido era Igor Komarov, um homem de personalidade completamente diferente. No entanto, em obediência à lógica fundamental de mostrar aos pobres e espoliados, cujos votos procurava, que a União das Forças Patrióticas não se permitia confortos dispendiosos, conservava o edifício na Travessa do Peixe, embora tivesse o seu escritório privado em outro lugar.

            Formado em engenharia, Komarov trabalhara sob a égide do comunismo, mas não para o partido, até que, a meio do período de Ieltsin , decidira dedicar-se à política. Escolhera o Partido Democrático Liberal e, apesar de detestar intimamente Zmnnovsky pelos seus excessos alcoólicos e constantes observações de natureza sexual de mau gosto, a sua ação discreta em segundo plano conduzira-o ao politburo, conselho interno do partido. Daí, graças a uma série de reuniões secretas com líderes de outras organizações de ultradireita, alinhavara a aliança de todos os elementos de direita da Rússia na UFP.

            Ao ver-se perante um fato consumado, Zhirinovsky aceitou, não sem relutância, a sua existência e caiu na armadilha de presidir à primeira reunião plenária.

            Ora, esta aprovou uma resolução em que exigia a sua demissão e expulsou-o. Komarov recusou assumir a liderança, mas providenciou para que fosse confiada a uma entidade de relevo secundário, um homem sem carisma e pouco talento organizador.

            Um ano mais tarde, foi fácil explorar e aproveitar a sensação de desapontamento no conselho dirigente da União, afastar o substituto e ocupar ele próprio o lugar. Os atrativos e carreira de Vladimir Zhirinovsky tinham chegado ao fim.

            Dois anos após as eleições de 1996, os criptocomunistas começaram a desaparecer. Os seus apoiantes tinham sido sempre predominantemente de meia-idade e idosos e houvera dificuldade em angariar fundos. Sem a contribuição dos grandes banqueiros, o produto das quotizações já não bastava. O dinheiro e atrativo da União Socialista atenuaram-se gradualmente.

            Em 1998, Komarov era o líder incontestada da ultra-direita e achava-se na posição ideal para explorar o desespero crescente do povo russo, sem dúvida em quantidade elevada. Contudo, entre toda aquela pobreza e indigência, também se registrava uma riqueza ostensiva que obrigava as pessoas a pestanejar de assombro. Os que possuíam dinheiro tinham-no às montanhas, na sua maioria em moeda estrangeira, e pavoneavam-se nas ruas em longas e elegantes limusines, americanas ou alemãs pois a fábrica Zil suspendera a produção, acompanhadas com frequência de motocicletas que abriam caminho e, em regra, um segundo carro com guarda-costas.

            No átrio do Teatro Bolshoi e nos bares e salas de banquetes do Metropol e do National, podiam ver-se todas as noites, ao lado das respectivas prostitutas com dispendiosos casacos de peles, os perfumes mais recentes de Paris e reluzentes diamantes. Eram os gatos nutridos, mais adiposos que nunca.

            Na Duma, os delegados gritavam e aprovavam resoluções “Isto faz-me pensar no que li sobre os últimos dias da República de Weimar”, observou um correspondente britânico.

            O único homem que parecia oferecer um possível raio de esperança era Igor Komarov.

            Durante os dois anos que havia desde que pegara nas rédeas do poder do partido de direita, surpreendera a maioria dos observadores, tanto da Rússia como do estrangeiro. Se se contentasse com permanecer simplesmente um excelente organizador político, não teria passado de mais um apparatchik. Ao invés, mudou. Ou, pelo menos, assim pensavam os observadores. O mais provável era que dispunha de um talento que tivera o cuidado de conservar oculto.

            Salientou-se como orador popular apaixonado e carismático. Quando subiu ao pódio, aqueles que se recordavam do homem recatado, de falas mansas e enfadonho ficavam surpresos. Com efeito, parecia transformado. A sua voz aumentava de tom e adquiria inflexões de barítono, aproveitando todas as numerosas expressões e cambiantes do idioma para obter as reações mais convenientes. Podia baixá-la até quase um murmúrio, pelo que, mesmo com os microfones, a audiência experimentava dificuldades em captar as palavras, e em seguida elevá-la numa peroração retumbante que punha as multidões de pé, e até os céticos o aclamavam.

            Não tardou a dominar a área da sua própria especialidade a multidão ao vivo. Evitava a conversa de lareira ou entrevistas na televisão, consciente de que, embora o processo funcionasse no Ocidente, não convinha para a Rússia. Na verdade, os russos raramente convidavam pessoas a visitá-los em suas casas. E também não estava interessado em ser encostado à parede com perguntas hostis. Todos os discursos que pronunciava eram estudados como uma peça teatral, mas obtinham o resultado pretendido. Só se dirigia aos fiéis do partido, com as câmaras nas mãos da sua equipe de realizadores de filmes, chefiada pelo jovem Litvinov. Após a montagem apropriada, essas produções eram colocadas à disposição da televisão em escala nacional, segundo as condições que ele próprio impunha.

            Lograva assim comprar tempo de antena na TV, em vez de se conformar com os caprichos imprevisíveis dos jornalistas.

            O tema era sempre o mesmo e invariavelmente popular: a Rússia, a Rússia e ainda a Rússia. Invectivava os estrangeiros, cuja conspiração internacional colocara a nação de rastos. Propugnava a expulsão de todos os “negros”, maneira popular russa de aludir aos armênios, georgianos e outros povos do sul, muitos dos quais se sabia figurarem entre os mais abastados dos beneficiados com o produto de crimes. Clamava justiça para os pobres e maltratados habitantes que um dia se ergueriam com ele para restaurar as glórias do passado e varrer a imundície  que conspurcava as ruas da pátria.

            Prometia tudo a todos. Haveria emprego para os sem trabalho, com um salário correspondente à atividade executada, comida na mesa e recuperação da dignidade. Para os privados das parcas poupanças, reapareceria o metal sonante para as despesas quotidianas e algo para pôr de parte, com vista à velhice. Para quem usava o uniforme da rotina  a pátria de outrora, ressurgiria o amor-próprio para eliminar as humilhações provocadas pelos gananciosos elevados a cargos públicos cimeiros pelo capital estrangeiro.

            E escutavam-no com atenção. A sua voz chegava às vastas estepes, através da rádio e televisão. Os soldados do grandioso exército russo de outros tempos ouviam-no com concentração, encolhidos em tendas de lona, expulsos do Afeganistão, Alemanha Oriental, Checoslováquia, Hungria, Polonia, Letonia, Lituânia e Estonia, numa série interminável de retiradas do império.

            Os camponeses escutavam-no nas suas pequenas vivendas E izbas, dispersos pela ampla paisagem. Assim como as classes médias, entre as peças de mobiliário que não tinham empenhado para se alimentar e dispor de carvão para o lume. Até os patrões industriais o ouviam e sonhavam que as fábricas recomeçavam a trabalhar. E quando ele prometia que o anjo da morte caminharia entre os escroques e gangsters que haviam saqueado a sua querida Rússia, adoravam-no virtualmente.

            Na Primavera de 1999, por sugestão do seu conselheiro de relações públicas, um jovem particularmente sagaz que frequentara uma universidade americana, Igor Komarov concedeu uma série de entrevistas. Boris Kuznetsov, o responsável das RP, escolheu bem os candidatos, na sua maioria legisladores e jornalistas da ala conservadora da América e Europa Ocidental.

            O objetivo em vista consistia em serenar-lhes receios.

            Como campanha, funcionou de forma brilhante. Muitos esperavam que se lhes deparasse aquilo que tinham ouvido dizer: um demagogo fanático da ultradireita, considerado racista ou neofascista, quando não ambas as coisas.

            Pelo contrário, viram-se perante um homem de traje sóbrio e maneiras comedidas. Como não falava inglês, o conselheiro de RP sentava-se a seu lado, ora para orientar a entrevista, ora para servir de intérprete. Sempre que o seu venerável líder dizia algo que decerto seria mal interpretado no Ocidente, Kuznetsov  tratava de o converter em palavras mais aceitáveis em inglês. Ninguém se dava conta, pois tomara a precaução prévia de só aceitar entrevistadores que não entendiam russo.

            Assim, Komarov pôde explicar que, como políticos ativos, todos temos um eleitorado próprio que não convém melindrar desnecessariamente, se desejamos ser eleitos. Por conseguinte, por vezes precisamos ocasionalmente dizer aquilo que lhes interessa ouvir, embora a concretização das promessas possa resultar mais difícil do que supúnhamos, e os senadores inclinavam a cabeça em sinal de compreensão.

            Explicou que, nas antigas democracias ocidentais, se entendia, de um modo geral, que a disciplina social principiava na própria pessoa, e a imposta exteriormente, pelo Estado, poderia ser mais leve. Mas em todos os casos em que a autodisciplina fraquejava, o Estado necessitava ser mais firme do que o aceitável no Ocidente. E os membros do parlamento voltavam a acenar compreensivamente.

            Revelou aos jornalistas conservadores que a restauração de uma moeda sólida não seria possível sem medidas draconianas contra o crime e a corrupção a curto prazo. Os representantes da Imprensa ocidental escreveram que Igor Komarov era um homem que escutaria a voz da razão em questões econômicas e políticas, como a cooperação com o Ocidente. Talvez fosse muito rigoroso para ter aceitação numa democracia européia ou americana, e a sua vincada demagogia excessivamente assustadora para os paladares ocidentais, mas podia muito bem tratar-se do homem que a Rússia precisava na atual situação. De qualquer modo, a sua vitória nas eleições presidenciais do ano 2000 era quase certa, como as sondagens confirmavam. Portanto, as pessoas de vistas mais largas deviam apoiá-lo.

            Nas chancelarias, embaixadas, ministérios e gabinetes dos principais dirigentes políticos do Ocidente, o fumo de charutos erguia-se ao teto e as cabeças inclinavam-se afirmativamente.

           

            No setor norte da área central de Moscou, já na estrada circular e a meio caminho do Bulevar Kiselny, há uma rua transversal. Um pouco adiante, no setor ocidental da artéria, encontra-se um pequeno parque, com cerca de cinquenta metros quadrados, rodeado em três lados por edifícios sem janelas e fachadas protegidas por sebes verdejantes de três metros de altura, acima das quais se descortinava o topo de uma série de coníferas. Embutido na parede de aço, há um portão do mesmo metal.

           O pequeno parque é na realidade o jardim de uma soberba vivenda ou mansão pré-revolucionária, admiravelmente restaurada em meados dos anos oitenta. Embora o interior seja moderno e funcional, a fachada clássica foi pintada em tonalidades pastel e o estuque acima das portas e janelas de branco. Era aí que funcionava o verdadeiro quartel-general de Igor Komarov.

            Um visitante que se aproximasse do portão da frente era abarcado perfeitamente pela câmara no topo do muro e anunciava-se através de um intercomunicador. Falava com um guarda numa guarita do outro lado do portão, que consultava o gabinete da segurança no interior da casa.

            Se o portão se abrisse, um carro rolaria durante dez metros e se imobilizaria junto de uma série de espigões, enquanto aquele voltava a fechar-se automaticamente, o guarda surgiria então para inspecionar os documentos de identificação. Se estivessem em ordem, entraria na guarita e acionaria um controle automático. Ato contínuo, os espigões se afastariam e o veículo seguiria em frente até o pátio, onde haveria mais guardas à sua espera.

            De cada lado da casa, estendia-se uma vedação até aos limites da propriedade. No interior, havia os cães. Eram dois grupos, cada um dos quais sob as ordens de um único tratador, os quais trabalhavam em noites alternadas. Após anoitecer, as cancelas da vedação eram abertas e a propriedade ficava totalmente à disposição dos animais. A partir de então, o guarda do portão permanecia na guarita e, na eventualidade de aparecer um visitante retardatário, ele teria de contactar com o tratador para chamar os cães.

            Para evitar perder muitos membros do pessoal graças aos dentes dos animais, havia uma passagem subterrânea nos fundos do edifício que conduzia a um beco estreito que comunicava com o Bulevar Kiselny. Tinha três portas  uma dentro da casa, outra na rua e a terceira a meio caminho. Tratava-se da via de acesso e saída dos fornecedores e pessoal em geral.

            À noite, quando o último membro dos quadros políticos se retirara e os cães patrulhavam a propriedade, dois seguranças mantinham-se de serviço no interior do edifício. Dispunham de um quarto, com televisão e apetrechos para preparar refeições leves e rápidas, mas sem qualquer cama ou divã, porque não estavam autorizados a dormir. Inspecionavam alternadamente os três pisos da casa, até serem rendidos pelos colegas que chegavam à hora do café da manhã. Komarov fazia a sua aparição mais tarde.

            Mas o pó e teias de aranha não manifestam o mínimo respeito por semelhantes precauções, pelo que, todas as noites, à exceção do domingo, quando soava o alarme da entrada dos fundos, um dos guardas admitia o empregado da limpeza.

            Em Moscou, essas funções costumam ser exercidas por mulheres, mas Komarov preferia ver-se rodeado de pessoal totalmente masculino, incluindo o da limpeza, um velho soldado inofensivo chamado Leónidas Zaitsev. O apelido significa lebre ou coelho em russo e, devido ao seu aspecto insignificante e retraído, capote da tropa no fio, usado indistintamente no Inverno e no Verão e três dentes de aço que brilhavam na parte da frente da boca  os dentistas do Exército Vermelho costumavam ser muito básicos, os guardas da casa tratavam-no simplesmente por Coelho. Na noite em que o Presidente morreu, deixaram-no entrar às dez horas, como sempre.

            Era uma da madrugada, quando, munido de um balde e pano numa das mãos e arrastando o aspirador com a outra, chegou ao gabinete de N. I. Akopov, secretário pessoal de Komarov.

            O Coelho só vira o homem uma vez, um ano atrás, quando se apresentara ao trabalho e encontrara o pessoal superior fazendo horas extras. O secretário tratara-o com aspereza e mandara-o sair através de uma série de insultos. Depois disso, ele retaliara diversas vezes, sentando-se na confortável cadeira rotativa de Akopov. Como sabia que os guardas se encontravam no piso inferior, o Coelho fazia-o com satisfação e tranquilidade, consciente de que nunca tivera nem teria  uma cadeira como aquela. Havia um documento em cima da mesa, que se compunha de cerca de quarenta páginas datilografadas.

            Perguntou-se por que o teriam deixado à vista. Normalmente, Akopov guardava tudo no cofre embutido na parede. Pelo menos, devia fazê-lo, porque o Coelho nunca vira nenhum, e todas as gavetas da mesa estavam sempre fechadas à chave. Após breve hesitação, levantou a capa de cartolina preta e leu o título. Depois, abriu o documento ao acaso.

            Embora não soubesse ler com desembaraço, fazia-o de modo minimamente satisfatório. A mãe adotiva ensinara-lhe o suficiente para não ser considerado analfabeto, noções ampliadas mais tarde pelos professores da escola pública e, finalmente, um oficial do exército atencioso.

            O que viu inquietou-o. Leu uma página várias vezes. Embora algumas palavras fossem muito longas e complexas, compreendia o significado. As suas mãos artríticas tremiam, enquanto voltava as páginas. Por que diria Komarov aquelas coisas? E acerca de pessoas como a sua mãe adotiva, que amara. Apesar de não compreender totalmente, sentia-se cada vez mais preocupado. Talvez devesse ir lá abaixo consultar os guardas. No entanto, se limitariam a aplicar-lhe alguns sopapos e ordenar que se concentrasse apenas no trabalho.

            Passou uma hora. Eles já deviam ter aparecido para uma das rondas habituais, mas conservavam-se diante do televisor, cujo noticiário informara a nação de que o Primeiro-Ministro, de acordo com o estipulado no Artigo 59 da Constituição russa, assumira as funções de Presidente Interino durante os três meses prescritos.

            O Coelho releu as mesmas passagens diversas vezes, até que compreendeu o significado. No entanto, não conseguia abarcar o verdadeiro sentido. Komarov era um grande homem. Agora, tudo indicava que seria o próximo Presidente da nação. Nessa conformidade, por que dizia aquelas coisas sobre a sua mãe adotiva e as pessoas como ela, pois havia muito tempo que morrera?

            Às duas da madrugada, ocultou a pasta de cartolina dentro da camisa, terminou o trabalho e pediu para o deixarem sair. Os guardas afastaram-se do televisor com relutância para abrir as portas, e o Coelho embrenhou-se na noite. Era um pouco mais cedo do que habitualmente, mas eles não objetaram.

            Zaitsev pensou em seguir para casa, mas decidiu que era preferível não o fazer. Era muito cedo. Os autocarros, “elétricos” e metropolitano já não funcionavam, como habitualmente. Ele tinha sempre de efetuar o percurso a pé, às vezes debaixo de chuva, mas precisava conservar o emprego. O trajeto demorava uma hora. Se entrasse em casa agora, acordaria a filha e o neto, e ela não ficaria contente. Por conseguinte, decidiu vaguear pelas ruas, enquanto tentava decidir o que faria.

            Às três e meia da madrugada, encontrava-se no Cais Kremlevskaya, abaixo do muro sul do Kremlin. Havia mendigos e vagabundos dormindo ao longo do molhe, mas ele descobriu um banco com espaço suficiente para se sentar e contemplar o rio.

            O mar acalmara quando se aproximavam da ilha, como costumava acontecer à tarde, parecendo informar os pescadores e os marinheiros de que a competição quotidiana terminara e o oceano propunha uma trégua até ao dia seguinte.

 

            À direita e à esquerda, o patrão via várias outras embarcações que rumavam à Passagem Wheeland, uma abertura no recife a noroeste que permitia o acesso do mar à lagoa de águas serenas.

            Arthur Dean, no seu Silver Deep aberto, passou velozmente a estibordo, conseguindo mais oito nós que o Foxy Lady. O ilhéu acenou com o braço e o patrão americano retribuiu a saudação. Ao ver os dois mergulhadores na coberta do Silver Deep, supôs que tinha estado explorando o coral ao largo do Cabo Noroeste. Haveria lagosta para o jantar em casa de Dean.

            Reduziu a velocidade do Foxy Lady para enveredar pela passagem, pois em cada lado o coral aguçado como uma navalha distava escassos centímetros da superfície e, uma vez , transposta, descontraiu-se para o tranquilo percurso de dez minutos ao longo da costa da Baía da Tartaruga.

            O patrão adorava o seu barco, o modo de vida a que se dedicava e a amante que escolhera todos em doses iguais. A embarcação era um Bertram Moppie de doze metros de comprimento e dez anos de idade assim batizado em homenagem à esposa do designer Dick Bertram e, embora não fosse o charter de pesca mais luxuoso da Baía da Tartaruga, o seu proprietário e patrão não hesitaria em o fazer enfrentar qualquer tipo de mar e de peixe. Comprara-o cinco anos atrás, quando se mudara para as ilhas, em segunda mão, na Florida do Sul, graças a um anúncio publicado no Boat Trader, e passara dias e noites a introduzir-lhe melhoramentos até o converter numa das embarcações mais vistosas da área. E não se arrependera de um único dólar que despendera com ele, embora ainda não tivesse terminado de pagar à companhia que lhe adiantara o dinheiro.

            Uma vez no ancoradouro, fixou a amarra no espaço que lhe competia junto do pertencente ao seu compatriota Bob Colins, dono do Sakitumi, desligou o motor e dirigiu-se à popa, a fim de perguntar aos clientes se tinham passado um dia satisfatório. Eles asseguraram-lhe que sim, pagaram a quantia estabelecida e juntaram-lhe uma gratificação generosa para ele e Julius. Quando se afastaram, piscou o olho a este último, entregou-lhe todo e o peixe capturado, tirou o boné e fez deslizar os dedos entre os cabelos louros desgrenhados.

            Por último, deixou o sorridente ilhéu concluir a lavagem do barco e embeber os apetrechos de pesca em água doce, para que o Foxy Lady apresentasse o aspecto impecável habitual, na manhã seguinte. Ele voltaria para fechar tudo, antes de recolher a casa. Entretanto, queria um daiquiri* , pelo que percorreu a plataforma de madeira em direção ao Banane Boat, trocando saudações com todas as pessoas com as quais se cruzava.

 

            DUAS horas depois de se sentar no banco à beira do rio, Leónidas Zaitsev ainda não resolvera o seu problema. Agora, lamentava ter se apoderado do documento, e não compreendia por que o fizera. Se o descobrissem, sofreria as consequências. No entanto, a vida parecia tê-lo sempre castigado, sem que lograsse compreender o motivo.

            O Coelho nascera numa pequena e miserável aldeia a oeste de Smoilenks, em 1936. Não era um lugar de modo algum notável, mas igual a dezenas de milhares de outros dispersos pelo território: uma única rua, poeirenta no Verão, um rio de lama no Outono e dura como uma rocha devido à geada do Inverno. De piso de terra batida, naturalmente. Cerca de trinta casais, alguns celeiros e os antigos camponeses reunidos numa fazenda coletiva estalinista. O pai era um trabalhador rural e viviam num casebre perto da estrada.

            Na rua principal e única, com uma pequena loja e um apartamento por cima, morava o padeiro da aldeia. O pai do Coelho advertira-o de que não devia falar com o homem, o que o intrigara, pois este mostrava-se sempre cordial e costumava atirar-lhe um bulochka acabado, de sair do forno, que Zaitsev ia comer para os fundos dos estábulos, em virtude da recomendação. O padeiro vivia com a esposa e duas filhas, as quais ele via por vezes espreitar à porta, embora nunca saíssem para brincar.

            Certo dia de Julho de 1941, a morte visitou a aldeia. Na altura, o garoto não sabia o que era. Ouviu o tumulto e saiu do celeiro para se inteirar da causa. Havia enormes monstros de ferro que se aproximavam pela estrada principal. O primeiro deteve-se no meio das casas e Leónidas aproximou-se para o ver melhor.

            Parecia gigantesco, grande como um prédio, mas rolava numa cremalheira e tinha um cano alongado que emergia da parte da frente. No topo, acima da peça, encontrava-se um homem visível da cintura para cima, que retirou o capacete almofadado e pousou-o a seu lado.  Fazia  muito  calor,  nesse  dia.   De súbito, voltou-se e fixou os olhos em Leónidas.

            O garoto viu que ele tinha cabelo platinado e olhos de um azul tão aguado como se o céu estival brilhasse dliretamente através da nuca. O olhar carecia de expressão  sem afeto, nem animosidade, além de uma espécie de vago tédio. Movendo a mão devagar, introduziu-a numa algibeira lateral e puxou de uma pistola.

            O instinto indicou a Leónidas que havia algo de indesejável na situação. Ouviu o estampido de granadas lançadas através de janelas e gritos. Aterrorizado, deu meia volta e pôs-se a correr. Registrou-se uma detonação, e um objeto abriu caminho por entre o seu cabelo. Alcançou os fundos dos estábulos, começou a chorar e continuou a correr. Havia um crepitar crescente atrás dele e o cheiro de madeira queimada, proveniente das casais em chamas. Avistou o bosque à sua frente e correu ainda mais velozmente.

            Uma vez entre o arvoredo, ficou sem saber o que fazer. Continuava a chorar pelos pais. Mas não lhe podiam acudir. Jamais os tornaria a ver.

            Percebeu uma mulher que gritava pelo marido e filhas e reconheceu a senhora Davidova, esposa do padeiro. Abraçou-o e apertou-o ao peito, sem que ele compreendesse por que procedia assim a pensar no que o pai diria, pois tratava-se de uma yevreycka.

            A aldeia deixara de existir e a unidade de panzers das SS nazis prosseguira o seu caminho, depois de completada a destruição. Havia mais uns  poucos  sobreviventes no bosque. Mais tarde, encontraram alguns guerrilheiros, homens de expressões duras, barbudos, armados, que viviam aí. Uma coluna formada pelos aldeões partiu para leste, sempre para leste, guiada por um dos guerrilheiros.

            Quando Leónidas se cansava, a senhora Davidova levava-o no colo, até que, por fim, chegaram a Moscou, onde ela conhecia umas pessoas, que lhes concederam abrigo, alimentação e conforto. Trataram-no com ternura e pareciam-se com a senhora Davidova, com aros das têmporas até ao queixo e chapéus de abas largas. Embora ele não fosse yevrey, ela insistiu e cuidou dele durante anos.

            No final da guerra, as autoridades descobriram que não era seu filho verdadeiro e separaram-nos, enviando-o para um orfanato. Leónidas chorou muito quando se despediram, assim como ela, mas não tornou a vê-la. No orfanato, ensinaram-lhe que yevrey significava “judeu”.

            O Coelho mantinha-se sentado no banco e entregava-se a reflexões sobre o documento que tinha no interior da camisa. Não compreendia bem o significado de expressões como “extermínio  total” ou “aniquilação absoluta”. As palavras eram muito longas para ele, mas achava que não tinha nada de agradável. Não compreendia a razão pela qual Komarov desejaria fazer aquilo a pessoas como a senhora Davidova.

 

            O céu começava a assumir uma tonalidade rosada, a Nascente. Numa mansão da outra margem do rio, no Cais Sofiskaya, um fuzileiro real pegou uma bandeira e começou a subir a escada de acesso ao terraço.

            O patrão pegou o daiquiri, levantou-se da mesa e aproximou-se do parapeito de madeira, de onde contemplou a água e depois o ancoradouro que a escuridão começava a envolver.

            “Quarenta e nove”, refletiu. “Quarenta e nove, e ainda empenhado no depósito da companhia. Está ficando velho e ultrapassado, Jason Monk”. Ingeriu um sorvo e sentiu o suco de lima e o rum exercerem o efeito desejado. “De qualquer modo, tem sido uma vida muito satisfatória. Pelo menos, acidentada”.

            Não começara assim, mas numa humilde cabana de madeira na povoação de Crozet, na Virgínia do Sul, a leste do Shenandoah e oito quilômetros da auto-estrada de Waynesboro para Charlottesville.

            O condado de Albemarle é uma região agrícola, impregnada de monumentos comemorativos da Guerra Civil, pois 80 por cento dela foi travada na Virgínia, e nenhum virginiano o esquecerá jamais.

            O pai de Jason Monk, em contraste com a maioria dos outros, que cultivavam tabaco, soja ou porcos, ou tudo junto, era guarda florestal e trabalhava no Parque Nacional de Shenandoah. Não há memória de alguém se ter tornado milionário nos Serviços Florestais, mas tratava-se de uma boa vida para um jovem, embora a remuneração não se pudesse considerar avultada. As férias não se destinavam à ociosidade, mas a procurar oportunidades para atividades suplementares susceptíveis de proporcionar mais algum dinheiro e reforçar o orçamento doméstico.

            Recordava-se de, quando era um mero garoto, o pai o levar ao parque, que abarcava as Montanhas da Crista Azul, e mostrar-lhe a diferença entre diversas espécies de árvores. Às vezes, cruzavam-se com fiscais da caça, e ele escutava de olhos arregalados as suas histórias que envolviam ursos pardos e veados, além de faisões e galos silvestres.

            Mais tarde, aprendeu a utilizar uma arma de fogo com pontaria infalível, detectar pistas para localizar indivíduos à margem da lei, montar um acampamento e eliminar todos os vestígios na manhã seguinte, e, quando tinha idade e corpulência suficientes, obteve uma ocupação de férias num acampamento de rachadores de madeira.

            Frequentou a escola primária do condado, dos cinco aos doze anos e, pouco após o décimo terceiro aniversário, matriculou-se no Liceu Estadual, em Charlottesville, levantando-se todas as manhãs antes da alvorada, a fim de seguir num dos primeiros transportes de Crozet para a cidade.

            Em 1944, um certo sargento do Exército partira, com milhares de outros militares, de Omaha Beach e fora parar ao interior da Normandia. El algum lugar nas cercanias de Saint-Lô, separado  da sua unidade, surgira na mira de um atirador furtivo alemão, mas teve sorte, porque a bala se limitou a roçar-lhe o braço. O americano de vinte e três anos rastejou até uma casa de campo das proximidades, onde a família que lá residia tratou o ferimento e concedeu-lhe abrigo. No momento em que a filha de dezesseis anos lhe aplicou a compressa e o fitou nos olhos, ele compreendeu que fora atingido mais gravemente do que qualquer projétil alemão jamais conseguiria.

            Um ano mais tarde, regressou de Berlim à Normandia, revelou-lhe o seu afeto e intenções e casaram, no pomar da fazenda do pai dela, com um capelão das Forças Armadas dos Estados Unidos presidindo à cerimônia. Posteriormente, porque os franceses não costumam contrair matrimônio em pomares, o sacerdote católico local reiterou a união na igreja da aldeia. Por último, ele levou a noiva para a Virgínia.

            Vinte anos mais tarde, ocupava um cargo importante no Liceu Estadual de Charlottesville e a esposa, com os filhos fora das suas mãos, sugeriu que podia inscrever-se na faculdade como professora de francês. Embora o idioma já figurasse no currículo do estabelecimento, Mrs. Brady não só era natural daquele país, mas também bonita e insinuante. Assim, as suas aulas não tardaram a ser muito frequentadas.

            No Outono de 1965, surgiu um novo aluno, um jovem assaz tímido de cabelo louro desgrenhado e sorriso atraente, chamado Jason Monk. Passado um ano, ela garantia que nunca ouvira um estrangeiro falar francês assim. O talento tinha de ser natural, impossível de ter sido herdado. Mas existia, não só no domínio da gramática em geral e da sintaxe em particular, como igualmente na habilidade para copiar com perfeição.

            No seu último ano no liceu, visitava a casa dela e liam juntos Malraux, Proust, Gide e Sartre (incrivelmente erótico para aqueles tempos), porém os seus favoritos comuns eram os velhos poetas românticos: Rimbaud, Mallarmé, Verlaine e De Vigny. Embora não estivesse previsto que acontecesse, foi-lhes impossível evitá-lo. A culpa talvez pertencesse aos poetas, mas, apesar da diferença de idades, que não os preocupava, tiveram uma breve aventura.

            Quando atingiu os dezoito anos, Jason Monk conseguia duas coisas invulgares em adolescentes da Virgínia do Sul falava francês e fazia amor com considerável perícia. Foi com essa idade que se alistou no Exército.

            Em 1968, a Guerra do Vietnã encontrava-se no auge e muitos jovens americanos tentavam esquivar-se ao serviço militar. Por conseguinte, os que se apresentavam como voluntários e assinavam um contrato por três anos, eram recebidos de braços abertos.

            Momk submeteu-se ao treino básico e, em dada altura, teve de preencher um questionário. Na alínea destinada a “idiiomas estrangeiros”, escreveu “francês”. Ato contínuo, foi convocado ao gabinete do ajudante de campo.

            - Você fala mesmo francês?

            Monk explicou a situação, e o oficial entrou em contato com o Liceu Estadual de Charlottesville e falou com a secretária do estabelecimento, a qual prometeu consultar Mrs. Brady e telefonou mais tarde. Tudo isto ocupou um dia inteiro, após o que Monk foi de novo chamado. Desta vez, achava-se presente  um major do G2, Serviço Secreto do Exército.

            Além do idioma local, a maioria dos habitantes do Vietnã de uma certa idade falava francês, e Monk foi enviado para Saigon, onde cumpriu duas missões de serviço, com um período nos Estados Unidos entre ambas.

            No dia da desmobilização, o comandante chamou-o ao seu gabinete, onde já se encontravam dois homens em traje civil, e deixou-os a sós.

            - Sente-se, por favor, sargento  indicou o mais velho e cordial dos dois.

            Em seguida, moveu os dedos em torno de um cachimbo apagado, enquanto o outro, de expressão circunspecta, irrompia numa torrente de francês, à qual Monk replicava sem hesitar.

            Após cerca de dez minutos de vaivém de palavras, exibiu um sorriso e voltou-se para o colega.

            - Ele é bom, Carey. Muito bom, mesmo. 

            E retirou-se.

            - Que pensa do Vietnã?  - perguntou o outro, que aparentava cerca de quarenta anos e tinha o rosto algo enrugado, embora o ar jovial predominasse.

            A cena desenrolava-se em 1971.

            - É  um  castelo de  cartas  - declarou  Monk. - E está desmoronando-se. Mais dois anos e teremos de abandoná-lo.

            Carey pareceu ser da mesma opinião e inclinou a cabeça várias vezes.

            - Tem razão, mas não diga nada ao Exército. Que pensa fazer, agora?

            - Ainda não decidi.

           - Bem, não posso fazê-lo por você. No entanto, possui um dom especial, que nem eu próprio tenho. O meu amigo que acaba de sair é tão americano como nós, mas viveu em França durante vinte anos. E se ele o considera bom, não preciso de uma segunda opinião. Portanto, por que não continua?

            - Refere-se aos estudos?

            - Exato. O Fundo dos Combatentes encarrega-se da maior parte das despesas. O Tio Sam acha que o merece. Aproveite.

            Durante os seus anos na tropa, Monk enviara quase todo o dinheiro que lhe sobrava à mãe, para a ajudar a criar os outros filhos.

            - Mesmo que ascendam a um milhar de dólares?

            Carey encolheu os ombros.

            - Creio que o Fundo não declarará a bancarrota por essa quantia. Se você se formar em russo.

            - E se o conseguir?

            - Dê-me uma apitadela. A organização para a qual trabalho talvez lhe arranje uma ocupação.

            - Pode demorar quatro anos.

            - Somos muito pacientes.

            - Como se lembrou de mim?

            - No Vietnã, uns funcionários do Programa Fênix inteiraram-se da sua  existência e respectiva  folha  de  serviços.

            - Suponho que se refere ao pessoal de Langley? À CIA.

            - De modo algum. Apenas a um pequeno dente da engrenagem.

            Na realidade, Carey Jordan era muito mais do que um pequeno dente. Com efeito, se tornaria subdiretor (Operações), ou seja, chefe de todo o braço da espionagem.

            Monk aceitou o conselho e matriculou-se na Universidade de Virgínia, em Charlottesville. Voltou a tomar chá com Mrs. Brady, mas apenas como amigos. Estudou línguas eslavas e completou o curso de russo a um nível que o professor, natural daquele país, qualificou de “bilingue”. Formou-se aos vinte e cinco anos, em 1975 e, logo após o aniversário seguinte, foi admitido na CIA. Depois do treino básico habitual em Fort Peary, conhecido na agência simplesmente por “a Fazenda”, colocaram-no em Langley, a seguir em Nova Iorque e novamente em Langley.

            Seriam cinco anos e numerosos cursos mais tarde que obteria a primeira nomeação no estrangeiro, e mesmo assim apenas em Nairobi, Quênia.

 

            O cabo Meadows, dos Royal Marines, cumpriu o seu dever, naquela radiosa manhã de 16 de Julho. Prendeu a bandeira à corda e içou-a ao topo do mastro, onde começou a ondular à brisa da alvorada para comunicar ao mundo quem ocupava aquela área.

            O governo britânico comprara a atraente mansão do Cais Sofiskaya do anterior proprietário, um magnata do açúcar, pouco antes da revolução, converteram na embaixada e mantivera-se lá desde então, apesar das convulsões registradas à sua volta.

            José Stalin , último ditador que vivera nos apartamentos do Estado do Kremlin, costumava, assim que se levantava, todas as manhãs, afastar as cortinas e observar o pavilhão britânico ondulando do outro lado do rio, o que o irritava profundamente. Apesar de insistentes pressões para convencer os ingleses a mudar de pouso, a reação traduziu-se sempre por uma firme recusa.

            Ao longo dos anos, a mansão tornou-se pequena para alojar todos os departamentos exigidos pela missão em Moscou, pelo que houve necessidade de disseminar seções pela cidade. Mas, mau grado as repetidas ofertas para alojar todos num único recinto, Londres replicava polidamente que preferia permanecer no Cais Sofiskaya. E, como o edifício constituía território britânico soberano, permaneceu mesmo.

            Leónidas Zatsev continuava sentado na outra margem do rio, de onde viu desfraldar a bandeira aos primeiros clarões da alvorada que assomava  no topo das colinas a leste. O cenário evocou-lhe uma ocorrência distante.

            Quando tinha dezoito anos, fora recrutado pelo Exército Vermelho e, na sequência do usual treino básico mínimo, colocado na seção de tanques da Alemanha Oriental. Não passava de soldado raso, considerado incapaz de exercer sequer as funções de cabo pelos instrutores.

            Certo dia de 1955, numa marcha por estrada nas proximidades de Potsdam, vira-se separado da sua companhia numa densa floresta. Desorientado e amedrontado, vagueou por entre o arvoredo, até que se lhe deparou um carreiro arenoso, onde se deteve, colado ao chão, paralisado pelo medo. A uma dezena de metros do ponto em que se encontrava, havia um jipe aberto com quatro soldados, os quais tinham obviamente decidido fazer uma pausa, quando patrulhavam a área.

            Dois ainda se achavam no veículo, enquanto os outros, fora, de pé, fumavam cigarros, com uma cerveja na mão. Leónidas verificou que não eram russos. Tratava-se de estrangeiros, ocidentais, da Missão dos Aliados em Potsdam, constituída ao abrigo do Acordo das Quatro Potências de 1945, acerca do qual ele nada sabia. Só tinha a noção de que, porque lhe haviam dito, eram inimigos, empenhados em destruir o socialismo e, se pudessem, matá-lo.

            Quando o viram, pararam de conversar e arregalaram os olhos. Por fim, um deles proferiu:

            - Ena, pai! Que temos aqui? Um raio de um russo. Olá, Ivan!

            O Coelho não compreendeu uma única palavra. Tinha a espingarda-metralhadora a tiracolo, mas eles não pareciam intimidados. Era precisamente o contrário. Dois usavam boinas pretas, com distintivos metálicos reluzentes, e, em volta, algumas penas brancas e vermelhas. Embora não o soubesse, tinha na sua frente membros dos Royal Fusiliers.

            Um dos soldados de pé fora do jipe começou a aproximar-se lentamente, e Leonidas receou urinar-se. O homem também era jovem, de cabelo ruivo e faces sardentas. De súbito, sorriu-lhe e ofereceu uma garrafa.

            - Aqui tem uma cerveja, amigo.

            Leómidas sentiu o contato frio do vidro na mão, enquanto o soldado estrangeiro acenava encorajadoramente. O conteúdo devia estar envenenado, claro. Levou o gargalo da garrafa à boca e inclinou a cabeça para trás. O líquido quase glacial atingiu-lhe o fundo da garganta. A cerveja era forte, mais do que a russa, e saborosa, mas provocou-lhe tosse, o que fez o ruivo soltar uma risada.

            - Vá lá - urgiu. - Beba.

            Para Zaitsev, não passava de uma voz a produzir sons. Ante o seu assombro, o soldado estrangeiro deu meia volta e encaminhou-se devagar para o veículo. Nem sequer tinha medo dele. O Coelho estava armado, pertencia ao Exército Vermelho, e eles sorriam e trocavam comentários, aparentemente  divertidos.

            Conservava-se junto das árvores e, enquanto ingeria a cerveja perguntava-se o que pensaria o coronel Nikolayev, comandante da sua unidade, herói da guerra condecorado, apesar de ter somente trinta anos. Uma ocasião, detivera-se diante de Zaitsev na formatura e perguntara-lhe de onde era e o que fazia na vida civil. Ele não hesitara em lhe revelar a origem: um orfanato. O oficial dera-lhe uma palmada cordial nas costas e salientara que agora passara a ter um lar. Sim, ele adorava o coronel Nikolayev.

            Estava demasiado assustado para lhes atirar a garrafa da cerveja, além de que era muito saborosa, apesar de envenenada. Por conseguinte, terminou de a beber. Passados dez minutos, os dois soldados que se haviam apeado regressaram ao jipe, que, em seguida, se pôs em marcha, Tudo sem pressa, nem o menor receio dele. O ruivo voltou-se e acenou-lhe. Eram o inimigo e preparavam-se para invadir a Rússia, mas tratavam-no com cordialidade.

            Quando desapareceram, Leóniidas arremessou a garrafa vazia para longe e correu por entre o arvoredo, até que avistou um caminhão russo, que o conduziu ao aquartelamento, O sargento puniu-o com uma semana de serviço de faxina por ter se perdido, porém ele nunca falou a ninguém dos estrangeiros ou da cerveja.

            Antes do veículo deles desaparecer, conseguira ver que tinha uma espécie de insígnia regimental no lado direito e uma antena de rádio na retaguarda do tejadilho. Neste último, havia uma bandeira com cerca de trinta centímetros de lado, em que se achavam desenhadas três cruzes  uma vertical, vermelha e duas em diagonal, vermelhas e brancas. Tudo isto num fundo azul. Portanto, uma bandeira estranha, vermelha, branca e azul.

            Quarenta e quatro anos depois, ei-la de novo, ondulando sobre um edifício no outro lado do rio. O Coelho resolvera o seu problema. Reconhecia que não devia ter roubado o documento de Akopov, mas já não podia devolvê-lo. Talvez não dessem pela falta. Por conseguinte, o enrtregaria às pessoas da bandeira estranha que lhe haviam oferecido uma cerveja. Eles decerto saberiam que destino conviria dar-lhe.

            Levantou-se do banco e começou a seguir ao longo da margem do rio em direção à ponte de pedra, que atravessava o Moskva e comunicava com o cais Sofiskaya.

 

Nairobi,  1983

            Quando o garoto principiou a queixar-se de dor de cabeça e a ter alguma febre, a mãe supôs que se tratava de um mero resfriado de Verão. No entanto, ao anoitecer, passou a gemer que o desconforto aumentara e manteve os pais sem dormir até a manhã seguinte. Nessa altura, os vizinhos do recinto diplomático soviético, que também não tinham passado uma noite sossegada, porque as paredes eram pouco espessas e as janelas haviam ficado abertas devido ao calor, perguntarem o que se passava.

            Naquela manhã, a mãe levou o garoto de cinco anos ao médico. Nenhuma embaixada do bloco soviético tinha direito a um só para si, pelo que o partilhavam. Assim. O Dr. Svoboda pertencia à da Checoslováquia, mas cuidava de toda a comunidade comunista. Era profissional competente e consciencioso e bastaram-lhe alguns minutos para poder assegurar à mãe do garoto que este estava tendo um acesso de malária. Em seguida, administrou a dose apropriada de uma das variantes de Niviquine/Paludrine utilizada pela medicina russa naquela época e deixou vários comprimidos para serem tomados diariamente.

            Não se verificou a menor reação. A condição agravou-se nas quarenta e oito horas imediatas. A temperatura e os tremores aumentaram, e a criança gritava que a cabeça lhe estourava.

             O embaixador não hesitou em autorizar a visita ao Hospital-Geral de Nairobi e, como a mãe não falava inglês, o marido, subsecretário do Comércio, Nikolai llyich Turkin, acompanhou-a.

            O Dr. Winston Mói também era um médico excelente e provavelmente mais experiente do que o colega checo em doenças tropicais. Procedeu a um exame minucioso ao garoto e, por fim, endireitou-se com um sorriso e anunciou:

            - Plasmodium falciparum.

            O pai do enfermo enrugou a fronte, perplexo. O seu inglês era satisfatório, mas não àquele ponto.

            - Trata-se  de uma variante da malária acrescentou o médico, mas,   infelizmente, resistente a todas as drogas baseadas na cloroquina, como as prescritas pelo meu prezado colega, Dr. Svobodte.

            E tratou de administrar uma injeção intravenosa de um antibiótico de espectro largo, que pareceu atuar. A princípio. Uma semana mais tarde, quando o seu efeito cessou, a condição reapareceu. Entretanto, a mãe tornou-se virtualmente histérica e, denunciando todas as formas da medicina estrangeira, insistiu em regressar a Moscou com o filho, e o embaixador concordou.

            Uma vez chegados, o garoto deu entrada numa das clínicas exclusivas do KGB, o que se tornou possível porque o subsecretário do Comércio, Nikolai Turkin, era na realidade o major Turkin do Primeiro Diretorado Principal da famigerada organização.

            A clínica era excelente e dispunha de um bom departamento de medicina tropical, porque os agentes do KGB podem ser colocados em qualquer parte do mundo. Em virtude da natureza intratável do caso da criança, esta seguiu diretamente para os domínios do chefe, professor Glazunov, o qual leu atentamente os relatórios de Nairobi e determinou uma série de análises e rastreios de ultra-sons, então a última palavra da tecnologia, inacessível em quase todo o resto do país.

            Os resultados preocuparam-no profundamente, pois revelavam o desenvolvimento de vários abcessos internos, e, quando recebeu Mrs. Turkin no seu gabinete, exibia uma expressão grave.

            - Sei o que é... ou, pelo menos, julgo que sei... mas não se pode tratar com doses intensas de antibióticos, o seu garoto pode sobreviver um mês. Talvez um pouco mais. Lamento profundamente.

            A desolada mãe, lavada em lágrimas, foi acompanhada à saída, e um colaborador do médico explicou-lhe o que tinha sido apurado. Tratava-se de uma doença rara denominada melioidosis,  pouco vulgar na África, mas mais corrente no sueste asiático, identificada pelos americanos durante a guerra do Vietnã.

            Alguns pilotos de helicópteros dos Estados Unidos foram os primeiros a exibir sintomas de uma enfermidade nova e usualmente fatal. As investigações apuraram que as pás dos rotores, ao sobrevoarem arrozais, aspiravam, por assim dizer, uma espécie de vapor da água estagnada, que vários pilotos haviam inalado. O bacilo, resistente a todos os antibióticos conhecidos, encontrava-se na água. Os russos estavam a par disso, embora não divulgassem as suas descobertas na altura, ao passo que se comportavam como esponjas, quando se tratava de absorver conhecimento ocidental. O professor Glaznov recebia automaticamente todas as publicações da sua especialidade daquela proveniência.

            Numa longa conversa telefônica pontuada por soluços, Mr. Turkin comunicou ao marido que o filho não tardaria a morrer. De melioidosjs, designação de que ele tomou nota. Em seguida, procurou o seu superior hierárquico, o chefe de posto de KGB, coronel Kuliev, o qual se mostrou inabalável.

            - Recorrer aos americanos? Enlouqueceu, porventura?

            - Se os ianques identificaram o vírus, e há nada menos que sete anos, talvez descobrissem um antídoto.

            - Mas  não  lhes  podemos  perguntar  isso  protestou. Há a questão do prestígio nacional.

            - Há a questão é da vida do meu filho! - bradou o major.

            - Basta! Pode retirar-se.

            Consciente de que tinha a carreira em equilíbrio periclitante, decidiu procurar o embaixador. O diplomata não era um homem cruel, mas também não se deixou comover.

            - As intervenções entre o nosso Ministério dos Assuntos Estrangeiros   oficiais - lembrou ao  jovem  oficial. - A  propósito, o coronel Kuliev sabe que se encontra aqui?

            - Não, camarada embaixador.

            - Nesse caso, no interesse do meu futuro, não o informarei.  E você tão-pouco. Mas a resposta é negativa.

            - Se eu fizesse parte do Politburo...

            - Mas  não faz. É  um  oficial  recentemente  promovido  a major de trinta e dois anos, em serviço à pátria no meio do Quênia. Lastimo a situação do seu filho, mas não posso fazer nada.

            Enquanto descia a escada da embaixada, Nikolai Turkin refletia amargamente que o primeiro-secretário, Yuri Andropov, era mantido vivo diariamente graças a medicamentos vindos de Londres de avião. Por fim, foi embriagar-se.

 

            Não era fácil entrar na embaixada britânica. Imobilizado no passeio em frente, Zaisev contemplava a mansão de cor ocre e, o topo das colunas do pórtico que protegiam as gigantescas portas de madeira lavrada. Mas não descortinava qualquer maneira  de transpor a entrada.

            Ao longo da fachada, erguia-se uma parede de aço penetrada por duas portas laterais destinadas aos veículos  uma para entrar e a outra para sair. Também daquele metal, funcionavam eletricamente e achavam-se fechadas de modo eficiente.

            A direita, havia uma entrada para peões, com dois guichês gradeados. Ao nível do pavimento, dois russos da Polícia investigavam a identidade de quem pretendia entrar. O Coelho não fazia a menor tenção de se apresentar a esses. Mesmo depois daquele obstáculo, existia uma passagem e uma segunda porta gradeada. Entre ambas, situava-se a guarita da segurança da embaixada, municiada com dois guardas russos contratados pelos ingleses, cujas funções consistiam em perguntar a quem entrava o que pretendia e depois confirmar a natureza da pretensão no interior do edifício, com efeito, muitas pessoas ansiosas  por obter vistos de entrada na Grã-Bretanha tinham tentado introduzir-se no edifício por aí.

            Zaitsev encaminhou-se para os fundos, onde se situava a entrada para a seção dos vistos, numa rua estreita. Às sete da manhã, ainda faltavam três horas para abrir, mas já havia uma fila com uma centena de metros de comprimento. Era quase óbvio que a maioria permanecera ali toda a noite. Se se incorporasse  nela agora, isso representaria quase dois dias de espera, pelo que regressou ao lado da fachada. Desta vez, os homens da Polícia dirigiram-lhe um demorado olhar de desconfiança. Assustado, Leónidas afastou-se para uma distância prudente, resignado a aguardar que a embaixada iniciasse a atividade quotidiana e os diplomatas começassem a chegar.

            Os primeiros surgiram um pouco antes das dez horas. Faziam-se transportar em carros, que se detinham diante do portão de entrada, mas tudo indicava que eram esperados, pois abria-se quase imediatamente. Leónidas tentou aproximar-se de um, mas desistiu ao ver que todos tinham as janelas fechadas e os homens da Polícia conservavam os olhos bem abertos.

            Os passageiros dos veículos o julgariam um mero pedinte e não se preocupariam em abri-las. Em seguida, seria preso, a Polícia descobriria o que fizera e entraria em contato com Akopov.

            O Coelho não estava habituado a enfrentar problemas complexos. Achava-se intrigado, mas não abandonava a idéia que se lhe inculcara na mente. Queria apenas entregar o documento às pessoas da bandeira bizarra. Por conseguinte, continuou na expectativa ao longo da manhã quente.

 

Nairobi, 1983

            À semelhança de todos os diplomatas soviéticos, Nikolai Turkin tinha uma quantia limitada em moeda estrangeira, o que incluía a quenjana. O Ibis Grill, o Alan Bobbe’s Bistro e o Carnivore eram muito dispendiosos para a sua bolsa. Dirigiu-se, portanto, ao Thorn Tree Café ao ar livre, à entrada do New Stanley Hotel, na Kimathi Street, sentou-se a uma mesa no jardim perto da velha e frondosa acácia, pediu um vodka e uma cerveja para atenuar os efeitos da bebida alcoólica e imergiu em reflexões amarguradas.

            Trinta minutos mais tarde, um homem de idade aproximada à sua, que ingerira meia cerveja no bar, deslizou do banco alto e aproximou-se. Turkin ouviu uma voz proferir em inglês:

            - Anime-se, amigo. Talvez não chegue a acontecer.

            Ergueu os olhos e reconheceu vagamente o americano na sua frente. Era alguém da embaixada. Turkin trabalhava no Diretorado K do Primeiro Diretorado Principal, seção de contra-espionagem.

            As suas funções consistiam não só em vigiar todos os diplomatas soviéticos e proteger a seção local do KGB de qualquer penetração, mas também conservar os olhos bem abertos para a eventualidade de surgir um ocidental vulnerável susceptível de ser recrutado. Nessa qualidade, tinha plena liberdade para conviver com outros diplomatas, entre os quais ocidentais, prerrogativa negada a um russo “vulgar” seu colega.

            A CIA suspeitava das suas atividades, precisamente devido à sua liberdade de movimentos e de contatos, e abrira um processo com o seu nome. Mas não havia qualquer ponta suficientemente saliente para lhe pegar. O homem era um funcionário fiel do regime soviético.

            Por seu turno, Turkin desconfiava de que o americano devia pertencer à Central Intelligence Agency, mas tinham-lhe ensinado que todos os diplomatas daquele país faziam parte dela, uma ilusão agradável, mas um erro à luz da prudência.

            O americano sentou-se e estendeu a mão.

            - Jason Monk. É Nik Turkin, salvo erro? Vi-o no garden party dos britânicos da semana passada. Tem cara de quem acabam de nomear para um lugar na Gronelândia.

            O russo olhou-o em silêncio. Tinha uma guedelha de cabelo cor de trigo caída sobre a fronte e um sorriso cativante. O rosto não deixava transparecer a menor astúcia, pelo que talvez não pertencesse à CIA. Parecia o gênero de pessoa com quem se podia conversar e, em outra ocasião, Nikolai Turkin recordaria todos os anos de treino e se mostraria delicado, mas reservado. No entanto, aquele dia era diferente. Precisava se abrir com alguém. Assim, começou a falar e descreveu a situação em que a sua família se encontrava. Entretanto, o americano revelava-se interessado e compreensivo, e anotou o termo melioidosis num guardanapo de papel. Há muito que anoitecera, quando se separaram. O russo regressou ao recinto da embaixada e Monk ao seu apartamento, nas cercanias da Rua Harry Thoku.

           

            Célia Stone tinha vinte e seis anos e era esbelta, morena e atraente. Era igualmente ajudante do Adido de Imprensa na embaixada britânica em Moscou, sua primeira nomeação no estrangeiro desde que ingressara no ministério, dois anos atrás, depois de se formar em russo no Girton College de Cambridge.

            Naquele dia 16 de Julho, transpôs a larga porta da embaixada e voltou o olhar para o parque de estacionamento, onde deixara o seu pequeno, porém funcional Rover.

            Do interior do recinto da embaixada, podia ver o que estava vedado a Zaitsev, devido ao muro de aço. Deteve-se no topo dos cinco degraus que conduziam à área de estacionamento arborizada, em que havia também numerosos canteiros floridos. Olhando por cima do muro, avistava o imponente Kremlin, na outra margem do rio, com as cúpulas em forma de cebola das várias catedrais sobranceiras à parede de pedra vermelha que circundava a fortaleza. Sim, era uma vista admirável.

            De cada lado dela, a entrada elevada era precedida de duas rampas, que só o embaixador estava autorizado a utilizar com a sua viatura. Os mortais menos importantes arrumavam as suas em baixo e transpunham o resto da distância a pé. Uma ocasião, um jovem diplomata comprometera seriamente a sua carreira ao enveredar por uma delas no seu VW Beetle, num dia de chuva intensa, para o estacionar debaixo do pórtico. Minutos depois, chegava o embaixador, que encontrou o acesso bloqueado e teve de descer do Rolls-Royce e caminhar até à porta. No final, estava encharcado e de modo algum divertido.

            Por fim, ela desceu os degraus, acenou ao porteiro, subiu para o Rover vermelho e ligou o motor. Depois de transpor o portão de saída, rolou alguns metros no Cais Sofiskaya e cortou à esquerda, na direção da Ponte de Pedra, rumo ao encontro para almoçar com um repórter do Sevodnya. Não percebeu o homem idoso trajado modestamente que se arrastava freneticamente no seu encalço. Também não se dera conta de que o seu carro tinha sido o primeiro a abandonar a embaixada, naquela manhã.

            A Kammeny Host, ou Ponte de Pedra, é a mais antiga permanente que atravessa o rio. Em outros tempos, utilizavam-se pontões de barcaças, construídas na Primavera e desmontadas no Inverno, quando o gelo endurecia o suficiente para efetuar a travessia a pé.

            Devido à sua envergadura, não só abarca o rio como se prolonga sobre o Cais Sofiskaya. Para ter acesso a ela pela estrada, os condutores têm de virar de novo à esquerda durante trezentos metros, até que a ponte regressa ao nível do solo, proceder a uma mudança de direção de cento e oitenta graus e enveredar pelo declive. Um peão, porém, pode transpor os degraus diretamente do Cais para a plataforma superior. E foi o que o Coelho fez.

            Encontrava-se no pavimento da Ponte de Pedra, quando o Rover vermelho fez a sua aparição. Ato contínuo, agitou os braços, mas a mulher que o conduzia mostrou-se perplexa e prosseguiu em frente. Sem desanimar, Zaitsev reatou a correria, cada vez mais penosa. No entanto, tinha tomado nota da chapa de matrícula russa e viu que o veículo, no lado norte da ponte, se incorporava no pandemônio do tráfego da Praça Borovitsky.

            O destino de Célia Stone era o bar Rosy O’Grady, na Rua Znamenka. Este deslocado estabelecimento moscovita é na realidade irlandês e o oásis onde o embaixador da Irlanda pode se encontrar na Passagem do Ano, se consegue esquivar-se às enfadonhas comemorações do circuito diplomático. Como também serve almoços, Célia Stone escolhera-o para o encontro com o repórter russo.

            Descobriu um espaço para estacionar sem dificuldade, porque cada vez havia menos moscovitas que podiam conservar um carro ou comprar gasolina para o manter em atividade. Como sempre que um estrangeiro óbvio se aproximava do restaurante, os indigentes apressaram-se a interceptá-la para pedir dinheiro para comer.

            Na sua qualidade de diplomata ela fora elucidada no Ministério dos Assuntos Estrangeiros, em Londres, do que se lhe depararia, mas, apesar disso, o espectáculo nunca deixava de impressioná-la. Vira mendigos no metropolitano londrino e nos becos de Nova Iorque, pessoas que tinham descido gradualmente a escada da sociedade para se fixarem no degrau inferior. Mas preferiam essa situação, em vez de recorrerem às instituições de caridade, sempre prontas a ajudá-los.

            Em Moscou, porém, capital de um país que experimentava o início da verdadeira fome, os miseráveis que estendiam a mão para obter qualquer óbolo, tinham sido, não muito tempo atrás, agricultores, soldados, amanuenses e empregados de balcão. O fato recordava-lhe alguns documentários sobre o Terceiro Mundo.

            Vadirn, gigantesco porteiro do fíosy O’Grady, avistou-a a quase vinte metros de distância e acudiu pressuroso, ao mesmo tempo que afastava quase brutalmente vários russos como ele, para que não a incomodassem com pedidos de dinheiro e facilitar a entrada a alguém que contribuía para os lucros do restaurante onde trabalhava.

            Chocada com o espectáculo da humilhação dos pedintes provocada por um compatriota, Célia protestou vagamente, mas Vadirn limitou-se a estender o musculoso braço entre ela e as numerosas mãos ávidas, antes de impelir a porta de vaivém e facultar-lhe a entrada.

            O contraste era imediato, da rua poeirenta e famintos que a frequentavam com as conversas cordiais de cinquenta pessoas que se podiam permitir o luxo de carne ou peixe para o almoço. Como era uma jovem de coração terno, tinha sempre dificuldade em harmonizar a comida no seu prato com a fome que grassava lá fora, quando não almoçava ou jantava no apartamento. No entanto, o repórter russo que lhe acenava de uma mesa do canto não conhecia semelhantes problemas e acabou por escolher lagostins à Archangel.

            Zaitsev, que persistia nas suas intenções, esquadrinhou a Praça Borovitsky em busca do Rover vermelho, mas desaparecera. Espreitou em todas as ruas que partiam dela, à direita e à esquerda, sem resultado. Por fim, optou pelo bulevar principal no outro extremo da praça. Foi com surpresa e alegria que o descortinou a duzentos metros dali, perto do botequim.

            Indistinguível dos outros que aguardavam com a paciência resignada dos carenciados, Leónidas tomou posição perto do Rover, preparado para mais um período de espera.

 

Nairobi, 1983

            Havia dez anos que Jason Monk fora calouro na Universidade de Virgínia, e perdera o contato com muitos estudantes do seu convívio mais íntimo. Mas ainda se recordava bem de Norman Stein. A sua amizade fora particularmente sólida o jogador de rugbi de estatura mediana, porém possuidor de músculos rijos, provemiente da região das fazendas, e o filho sem características atléticas de um médico judeu de Fredericksburg. Foi um sentido de humor compartilhado e divertido que os tornou amigos. Se Monk possuía o talento dos idiomas, Stein era quase um gênio na faculdade de biologia.

            Formaram-se com classificação elevada um ano antes de Monk e ingressara diretamente na escola médica, mantendo-se em contato da maneira habitual, através de postais pelo Natal. Dois anos atrás, pouco antes da transferência para o Quênia, quando cruzava a sala de um restaurante em Washington, Monk vira o amigo dos tempos de estudante almoçar só e tinham podido conversar durante cerca de meia hora, até que o convidado do Dr. Stein aparecera, o que lhes permitiu evocar períodos agradáveis passados juntos, embora Monk fosse obrigado a mentir e explicar que trabalhava no Departamento de Estado.

            O amigo especializara-se em medicina tropical e mostrava-se encantado com a recente nomeação para a unidade de pesquisas do Hospital Militar Walter Reed. Uma vez no seu apartamento em Nairobi, Monk consultou a agenda de endereços e efetuou um telefonema. Uma voz rouca atendeu ao décimo toque da campainha.

            - Alô?...

            - Olá, Norman. É o Jason Monk.

            Uma pausa.

            - Estupendo! Onde está?

            - Em Nairobi.

            - Formidável. Nairobi. Claro. E que horas são aí?

            Monk elucidou-o:

            - Meio-dia.

            - Pois aqui são cinco do raio de uma manhã e acertei o alarme do despertador para as sete. Passei metade da noite de pé com o bebê. Estão  nascendo-lhe os dentes, imagine. Obrigado por não me deixar dormir, amigo.

            - Calma,  Norm. Gostaria que me dissesse uma coisa. Alguma vez ouviu falar de uma doença chamada melioidosis?

            Seguiu-se nova pausa, e a voz que reapareceu na linha perdera todos os vestígios de sons.

            - Por que pergunta?

            Monk expôs a situação, embora não aludisse a um diplomata russo. Referiu que o filho de cinco anos de um conhecido parecia condenado e, como ele ouvira falar vagamente que o Tio Sam tinha alguma experiência daquela enfermidade...

            - Me dê o seu número interrompeu Stein. Preciso fazer umas chamadas. Depois, torno a contactar contigo.

            Eram cinco horas da tarde, quando o telefone de Monk tocou.

            - Talvez haja uma remota esperança informou o epidemiologista. Trata-se  de  uma  fase  ainda  experimental, mas completamente revolucionária. Os testes efetuados até agora têm-se revelado satisfatórios. No entanto, os resultados ainda não foram apresentados à FDA* e muito menos aprovados. Aliás, as pesquisas estão longe de terminadas. Pode ter efeitos colaterais - advertiu. - Ainda não sabemos nada a esse respeito.

            - Quanto tempo podem tardar a declarar-se?

            - Não faço a menor idéia.

            - Enfim, se o menino morrer dentro de três semanas, não há nada a perder.

            Soltou um longo suspiro.

            - Não sei - proferiu, hesitante. - É contra todos os regulamentos.

            - Juro que ninguém saberá. Vá, Norm, em memória de todas as moças que te arranjei.

            Monk ouviu uma estrondosa gargalhada proveniente de Ohevy Chase, Maryland.

            - Se  alguma  vez  falar disso à Becky, eu o mato - prometeu o outro, e a ligação foi cortada.

            Quarenta e oito horas mais tarde, chegava à embaixada uma encomenda para Monk, através de uma empresa da especialidade internacional!. Continha uma espécie de garrafa-termica com gelo seco. A breve nota sem assinatura que a acompanhava explicava que, entre o gelo, havia dois frascos. Ele ligou à embaixada soviética e deixou um recado para o subsecretário Turkirt, na seção comercial: “Não se esqueça da cerveja que combinamos tomar juntos esta tarde, às seis horas”. Quando se inteirou, o coronel Kuliev perguntou ao destinatário:

            - Quem é esse Monk?

            - Um diplomata americano. Parece decepcionado com a política estrangeira dos Estados Unidos na África e eu procuro valer-me disso para torná-lo uma fonte de informação para nós.

            O oficial inclinou a cabeça num gesto de aprovação. Era uma maneira de proceder sempre útil, que rechearia favoravelmente o seu relatório periódico para Yazenevo.

            No Thorn Tree Café, Monk entregou a encomenda ao russo, o qual não conseguia dissimular a apreensão, na eventualidade de um colega ou simples conhecido assistir, pois o embrulho podia conter dinheiro.

            - Que é? - perguntou a meia-voz. Monk elucidou-o e acrescentou:

            - Talvez não de resultado, mas não se perde nada em tentar. É a única coisa de que dispomos para a doença.

            O russo estremeceu e o olhar adquiriu uma expressão glacial.

            - E que pretende em troca desta... oferta?  - inquiriu, afigurando-se óbvio que tinha de haver uma contrapartida.

*   Administração da Alimentação e Drogas. (N. do T.)

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration tem de aprovar todos os novos medicamentos antes de serem liberados ao público. O que o Dr. Stein descrevia era um antibiótico cefalosporino muito prematuro ainda ignorado em 1983, que seria mais tarde comercializado com a designação de Ceftazidime. No momento, chamavam-lhe apenas CZ-1. Atualmente é o tratamento corrente da meliodosis.

            - Não há encenação alguma. Desta vez, pelo menos. As pessoas como você e eu passam a vida representando. Mas agora não.

            Na realidade, Monk já tinha se certificado junto do Hospital-Geral de Nairobi, e o Dr. Winston Mói confirmara os fatos básicos. “É duro, mas vivemos num mundo cruel”, refletiu, depois de se explicar.

            Levantou-se da mesa. Segundo o regulamento, devia pressionar aquele homem para que lhe revelasse alguma coisa, algo de secreto. Sabia, porém, que a doença da criança não era mentira. Se tivesse de se comportar assim, mais valeria que fosse varredor de ruas no Bronx.

            - Leve isso, amigo. Oxalá produza o efeito desejado. É grátis.

            Começou a afastar-se, mas, a meio caminho da porta, uma voz chamou-o.

            - Fala russo, Mr. Monk?

            Este assentiu, com uma inclinação de cabeça.

            - Um pouco.

            - Bem me parecia. Então, compreende o spasibo.

           

            Célia Stone abandonou o Rosy O’Grady pouco depois das duas da tarde e aproximou-se do lado do volante do Rover, que dispunha de um sistema de fecho central. Assim, quando abriu a porta do condutor, aconteceu o mesmo à do passageiro. Acabava de colocar o cinto de segurança e ligar o motor, quando a segunda foi puxada para fora. Voltou-se, surpreendida, e deparou-se com um indivíduo de capote militar coçado, do peito do qual pendiam quatro medalhas, e barba por fazer. No momento em que abriu a boca, expôs três dentes de aço. Em seguida, largou uma pasta de cartolina no colo dela, que sabia o suficiente do idioma russo para mais tarde poder repetir o que o homem disse:

            - Entregue isto ao senhor embaixador, por favor. Pela cerveja.

            A visão do velho aterrorizou-a. Tratava-se claramente de um louco, porventura esquizofrênico. E essas pessoas costumavam ser perigosas. Lívida, conduziu o carro para a faixa de rodagem o mais velozmente possível, enquanto a porta se fechava devido à aceleração adquirida. A seguir, atirou a ridícula petição, ou o que quer que fosse, ao porta objetos do lado do lugar do passageiro e rolou em direção à embaixada.

 

            Foi pouco depois do meio-dia da mesma data, 16 de Julho, que Igor  Komarov,  sentado atrás  da  mesa do seu gabinete no primeiro piso perto do Bulevar Kiselny, entrou em contato com o seu principal adjunto pessoal através do intercomunicador.

            - Já teve oportunidade de ler o documento que lhe emprestei ontem?

            - Com certeza, Senhor Presidente. E achei-o particularmente brilhante, se me permite a expressão - replicou Akopov.

            Todo o pessoal empregava aquela fórmula de tratamento, por ser o presidente do comitê executivo da União das Forças Patrióticas. De qualquer modo, ninguém duvidava de que dentro de doze meses, continuariam a tratá-lo assim, mas por um motivo diferente.

            - Obrigado. Nesse caso, queira devolvê-lo.

            E a ligação foi cortada. Akopov levantou-se e aproximou-se do cofre embutido na parede. Conhecia o segredo de cor, pelo que fez rodar o botão as seis vezes necessárias. Quando a porta se abriu, espreitou para dentro, à procura da pasta de cartolina preta, e não a viu.

            Intrigado, esvaziou o cofre meticulosamente, ao mesmo tempo que sentia dominá-lo um misto crescente de pânico e incredulidade. Por fim, tentou acalmar-se e recomeçou a busca. Os processos que se amontoavam em torno dos seus joelhos foram examinados um a um e folha a folha. Todavia, o de capa preta não aparecia. A fronte principiou a cobrir-se de gotas de transpiração. Trabalhara ininterruptamente toda a manhã, convencido de que, antes de sair, na tarde anterior, guardara todos os documentos confidenciais, como fazia sempre, pois era uma criatura de hábitos.

            Depois do cofre, começou a esquadrinhar as gavetas da mesa. Nada. Inspeccionou o chão debaixo do móvel e a seguir todos os armários. Cerca da uma hora da tarde, bateu à porta do gabinete de Igor Komarov, foi admitido e confessou que não conseguia encontrá-lo.

            O candidato presidencial fitou-o, de olhos arregalados, durante um momento.

            O homem que a maior parte do mundo supunha que seria o próximo presidente da Rússia era uma personalidade altamente complexa, que, por trás da sua imagem pública, preferia manter a maioria do seu ego intensamente privado. Não podia constituir um contraste mais nítido com o seu predecessor, o destituído Zhirinovsky, ao qual agora chamava abertamente um mero palhaço.

            Komarov era um indivíduo alto e possante, de cabelo cinzento-aço cortado curto e rosto sempre perfeitamente escanhoado. Entre as suas características mais evidentes figuravam uma autêntica absorção pela limpeza pessoal e profunda aversão ao contacto físico. Ao contrário de grande parte dos políticos russos, de palmadas nas costas, um copo de vodka na mão e bonomia do gênero braço-em-torno-dos-ombros, insistia na indumentária formal e linguagem esmerada da sua entourage pessoal. Quase nunca vestia o uniforme dos Guardas Negros e envergava usualmente terno cinzento conservador e gravata.

            Após anos na política, só um número muito reduzido de pessoas podia se vangloriar de manter um contato mais próximo com ele, e ninguém se atrevia a considerar-se íntimo. Nikita Ivanovich Akopov havia dez anos que era seu secretário particular, porém as suas relações mantinham-se como as de um chefe e o seu servo incondicional.

            Ao invés de Yeltsin, que incluía os membros do seu pessoal na roda de amigos com os quais bebia e jogava tênis, Komarov permitia apenas a um homem  o coronel Anatoli Grishin, chefe da Segurança  que se lhe dirigisse pelo nome de batismo.

            Mas, à semelhança de todos os políticos bem sucedidos, podia assumir características camaleônicas, em caso de necessidade. Para a mídia, nas raras ocasiões em que se dignava recebê-los pessoalmente, mostrava-se um estadista de ar grave. Por outro lado, perante os seus partidários, transformava-se de uma maneira que provocava sempre a profunda admiração de Akopov. Surgia no estrado o orador, que enunciava todas as esperanças, temores e desejos, a par da revolta e intolerância dos seus apaniguados com um rigor inabalável. Diante deles, e só deles, interpretava o papel da jovialidade e convívio humano.

            Sob as duas personalidades, havia uma terceira, e essa intimidava Akopov. O próprio rumor da existência do terceiro homem debaixo do verniz bastava para manter todo o pessoal que o circundava em estado de alerta permanente.

            Somente duas vezes em dez anos, Nikita Akopov tivera ensejo de presenciar a fúria demoníaca que grassava no interior do homem descontrolado. Em outras dezenas de ocasiões, assistira à luta para abafar esse estado, como também acabara por acontecer nas duas excepções. Vira o indivíduo que o dominava e fascinava e ele venerava cegamente transformar-se num demônio furibundo

            Arremessara telefones, vasos e tinteiros ao trêmulo subordinado que o irritara e reduzira um oficial superior dos Guardas Negros a um autêntico farrapo Ao mesmo tempo, empregara a linguagem mais execrável que Akopov jamais escutara, destruíra mobiliário e tivera de ser dominado, não sem notável dificuldade, antes que abrisse a cabeça de uma trêmula vítima com uma régua de aço. Por conseguinte, sabia determinar os sinais de alerta que precediam essas situações. O rosto de Komarov tornou-se mortalmente pálido e as maneiras mais formais e corteses, porém despontou um pequeno círculo vermelho em cada malar.

            - Está me dizendo que perdeu o documento, Nikita Ivanovich?

            - Não o perdi propriamente, Senhor Presidente. Parece que se extraviou.

            - O  conteúdo é de uma natureza mais confidencial do que todo o resto que lhe passou pelas mãos até hoje. Você, que o leu, decerto compreende perfeitamente porquê.

            - Com certeza, Senhor Presidente.

            - Existem apenas três exemplares, Nikita, dois dos quais se encontram no   meu cofre. Somente um pequeno grupo daqueles que me são mais íntimos terá   ensejo de ver o documento. Fui eu próprio que o redigi e bati à máquina. Eu, Igor Komarov, datilografei todas as páginas, para não ter de confiá-las a um secretário. O assunto é confidencial a esse ponto.

            - Uma medida muito prudente, Senhor Presidente.

            - Porque o incluo...  incluía nesse grupo restrito, permiti que o lesse. E agora vem comunicar-me que o perdeu!

            - Garanto-lhe que se extraviou... temporariamente, Senhor Presidente.

            Komarov fitava o interlocutor com os olhos mesméricos capazes de obrigar céticos a colaborar com ele ou aterrorizar os hesitantes. Os círculos vermelhos nos malares aumentavam de intensidade no rosto pálido.

            - Quando o viu pela última vez?

            - Ontem à noite, Senhor Presidente. Fiquei no gabinete até mais tarde para poder ler sem interrupções. Retirei-me às oito.

            Inclinou a cabeça em silêncio. O relatório dos guardas da noite confirmaria ou desmentiria essas palavras.

            - Levou-o  consigo? Apesar das  minhas ordens, permitiu que o documento saísse do edifício?

            - Juro  que   não,  Senhor  Presidente.  Guardei-o  no cofre. Nunca deixaria material tão importante exposto à curiosidade de alguém, nem o levaria.

            - Não se encontra no cofre?

            Akopov tentou engolir, mas descobriu que não tinha saliva.

            - Quantas vezes teve de abri-lo, antes da minha chamada?

            - Nenhuma, Senhor Presidente.

            - Foi então a primeira. Estava trancado?

            - Sim, como sempre.

            - Tinha sido forçado?

            - Aparentemente não, Senhor Presidente.

            - Revistou o aposento?

            - De uma ponta à outra. Confesso que não compreendo o que pode ter acontecido.

            Komarov refletiu durante alguns minutos. Por trás da máscara inexpressiva, sentia um pânico crescente. Por último, ligou ao gabinete da segurança no piso térreo.

            - Sele o edifício. Não entra nem sai ninguém. Localize o coronel Grishin e diga-lhe que se apresente no meu gabinete. Imediatamente. Onde quer que se encontre e seja o que for que estiver fazendo. Quero-o aqui dentro do máximo de uma hora.

            Levantou o dedo da tecla do intercomunicador e concentrou-se de novo no apavorado secretário.

            - Volte para o seu  gabinete e não fale com ninguém. Aguarde lá até que contacte consigo.

           

            Como jovem moderna, inteligente e solteira que se considerava, Célia Stone decidira há muito que lhe assistia o direito de satisfazer os seus prazeres onde e com quem lhe agradasse. No momento, preferia os duros músculos juvenis de Hugo Gray, chegado de Londres cerca de dois meses atrás e seis depois dela. Era ajudante do Adido Cultural, posição hierárquica igual à de Célia, embora dois anos mais velho e também solteiro.

            Ambos possuíam pequenos, porém funcionais apartamentos, num bloco residencial atribuído ao pessoal da embaixada britânica nas imediações do Kutuzovsky Prospekt, um edifício em torno de um pátio útil para estacionar e com membros das Polícias russas junto da barreira à entrada. Mesmo na Rússia moderna, todos supunham que as entradas e saídas eram anotadas, mas pelo menos as viaturas estavam protegidas dos caprichos dos vândalos.

            Depois do almoço, ela regressou à embaixada do cais Safiskaya e redigiu o relatório sobre o encontro com o jornalista. A maior parte da conversa abordara a morte do presidente Cherkassov, no dia anterior, e o que poderia acontecer a seguir. Célia garantira-lhe que o povo inglês se interessava profundamente pelos eventos na Rússia, esperançosa em que ele acreditasse. Saberia, quando o artigo fosse publicado.

            Às cinco da tarde, dirigiu-se para o seu apartamento, para tomar banho e dedicar-se a um pouco de repouso, combinara jantar com Hugo Gray, às oito, após o que insistiria em que a acompanhasse a casa, e não esperava ter muitas oportunidades de dormir, durante o resto da noite.

           

            Às quatro da tarde, o coronel Anatoli Grishin convencera-se de que o documento não se encontrava no edifício, como comunicou a Igor Komarov, sentado no gabinete deste.

            Em quatro anos, os dois homens tinham-se tornado interdependentes. Em 1994, Grishin dera por concluída a sua carreira no Segundo Diretorado Principal do KGB, com a patente de coronel e profundamente desiludido. Após o termo formal do domínio comunista, em 1991, o antigo KGB convertera-se, na sua opinião, num sepulcro incaracterístico. Já antes disso, em Setembro do mesmo ano, Mikhail Gorbachev abalara o maior aparelho do mundo e distribuíra os seus vários ramos por diferentes comandos.

            O da contra-espionagem no exterior, Primeiro Diretorado Principal, permanecera no antigo quartel-general em Yazenevo, para além da estrada circular, mas com a nova designação de Serviço de Contra-Espionagem no Estrangeiro, ou SVR, o que, mesmo assim, já não era nada de satisfatório.

            Mas, ainda pior, a divisão de Grishin, Segundo Diretorado Principal, até aí responsável por toda a segurança interna, denúncia de espiões e supressão dos dissidentes, fora castrada, batizada FSB e obrigada a reduzir os seus poderes a uma paródia do que outrora tinha sido.

            Grishin encarara tudo isto com desdém. O povo russo necessitava de disciplina firme e ocasionalmente brutal e era o Segundo DP que a proporcionava. Suportou as reformas durante três anos, esperançoso em chegar a major-general, e acabou por apresentar a demissão. Um ano mais tarde, foi contratado como chefe da segurança pessoal por Igor Komarov, então apenas um membro do Politburo do antigo Partido Democrático Liberal.

            Os dois homens haviam atingido a proeminência e poder juntos, e ainda havia mais, muito mais, para conquistar, no seu horizonte. Ao longo dos anos, Grishin criara para Komarov a sua totalmente leal brigada de proteção próxima, denominada Guardas Negros, atualmente composta de seis mil jovens treinados com eficiência que ele comandava.

            Em seu apoio, havia a Liga dos Jovens Combatentes  vinte mil, ao todo, ala de adolescentes da UFP, imbuídos da ideologia apropriada e fanaticamente leais, também sob as suas ordens.

            O mais humilde indivíduo da rua podia dirigir-se a Komarov de uma maneira familiar, mas isso faziia parte da camaradagem do “homem do povo” esperada na Rússia. À sua entourage privada, ele exigia formalidade, de que apenas um pequeno punhado de íntimos se achava excluído.

            - Tem certeza de que o documento já não se encontra no edifício?  perguntou Komarov.

            - Não me ocorre outra explicação para o seu desaparecimento, Igor Viktorovich. Em duas horas, revistamos todos os recantos. Não ficou um único centímetro quadrado por explorar. O exame às portas, janelas e terreno em volta revelou que não houve qualquer entrada forçada. Por outro lado, o perito dos fabricantes  de  cofres  acaba  de  concluir a  inspeção ao do gabinete de Akopov. Ou o abriu alguém conhecedor do segredo ou o documento nunca esteve lá dentro. O lixo de ontem foi passado a pente fino com idêntico resultado negativo. Os cães foram soltos às sete da tarde, como habitualmente. Ninguém entrou no edifício desde essa hora. Os guardas da noite renderam os colegas do turno de dia, às seis horas, e estes partiram dez minutos mais tarde. Akopov esteve no seu gabinete até às oito. Interrogado, o tratador dos cães jura que teve de lhes conter os ímpetos três vezes, ontem à noite, para permitir que sete funcionários retardatários pudessem partir nos seus carros, e Akopov foi o último. O livro de ocorrências confirma-o.

            - Por conseguinte?...  urgiu  Komarov.

            - Erro humano ou malícia. Os dois guardas da noite foram chamados do aquartelamento e espero-os a todo o momento Ficaram com o edifício por sua conta desde a saída de Akopov, às oito, até à chegada dos colegas do turno de dia, às seis da manhã. Depois, estes últimos conservaram-se sós até que apareceu o pessoal, por volta das oito. Um intervalo de duas horas. No entanto os guardas de dia garantem que, na sua primeira ronda, as portas dos gabinetes deste piso estavam trancadas. E todas as pessoas que trabalham neles confirmam-no, incluindo Akopov.

            - Qual é a sua teoria, Anatoli?

            - Ou Akopov levou o documento consigo, por mera casualidade ou intenção preconcebida, ou não o guardou no cofre e alguém se apoderou dele durante a noite. Não esqueçamos que o pessoal  noturno tem chaves mestras das portas dos gabinetes.

            - Nesse caso, concentramo-nos em Akopov?

            - É o primeiro suspeito, sem dúvida. O apartamento em que vive foi revistado Na sua presença. Nada. Admiti que o levara na pasta, que depois perdera. O caso aconteceu uma vez, no Ministério da Defesa, e fui incumbido das investigações. Apurou-se que não se tratava de espionagem, mas de negligência  criminosa  e  o  responsável  foi  enviado  para  um campo de trabalhos forçados. Ora, a pasta de Akopov é a que ele utiliza sempre, identificada por três pessoas.

            - Fez, portanto, deliberadamente?

            - É uma  possibilidade. Mas surge um  problema a esse respeito. Por que voltou, esta manhã, para ficar à espera que o descobrissem? Dispôs de doze horas para desaparecer da circulação. Talvez seja necessário... interrogá-lo mais profundamente. A fim de poder estabelecer a eliminação ou a confissão.

            - Está desde já autorizado a fazê-lo.

            - E depois disso?

            Igor Komarov moveu a cadeira rotativa para ficar voltado para a janela e entregou-se a cogitações por um momento, antes de declarar:

            - Era um excelente secretário pessoal. No entanto, depois disto, terei  de substitui-lo. O óbice consiste em que leu o documento, cujo conteúdo é   extremamente confidencial. Se continuar ao serviço num cargo menos importante, ou for afastado totalmente, talvez guarde ressentimento e até se sinta tentado a divulgar o que sabe. O que seria a todos os títulos lamentável. Extremamente lamentável...

            - Compreendo perfeitamente - assentiu o coronel Grishin. Naquele momento, chegaram os guardas do turno da noite e ele afastou-se para  interrogá-los.

            Às nove horas da noite, as suas instalações no quartel dos Guardas Negros, nos arrabaldes da cidade, tinham sido minuciosamente revistadas. Continham os artigos habituais, juntamente com algumas revistas pornográficas.

            Os dois homens foram interrogados separadamente em salas diferentes pelo próprio Grishin, cuja presença os impressionou, pois conheciam bem a sua reputação de torcionário.

            De vez em quando, dirigia-lhes obscenidades em tom ríspido, mas, para os dois apavorados homens, o pior aconteceu quando se sentou a curta distância e sussurrou os pormenores do que aguardava de quem lhe mentia. Cerca das oito horas, possuía uma imagem muito concreta do que sucedera durante o seu turno de serviço, na véspera. Soube assim que as rondas se tinham desenrolado a intervalos irregulares e de um modo assaz superficial e a maior parte do tempo fora passada diante do televisor, a fim de se inteirarem de detalhes sobre a morte do Presidente. E tomou conhecimento pela primeira vez da presença do empregado da limpeza.

            O homem tinha sido admitido às dez horas. Como habitualmente. Através da passagem subterrânea. Vinha só. Fora necessária a intervenção dos dois guardas para abrir as três portas, porque um conhecia o segredo da rua, o outro da interior e ambos da intermédia.

            Grishin inteirou-se de que eles o tinham visto começar a trabalhar no piso do topo. Como sempre. E de que se haviam afastado do televisor para abrir os gabinetes do piso intermédio, a vital suite executiva. Assim como de que um se mantivera à entrada, enquanto o homem procedia à limpeza do gabinete pessoal de Komarov, após o que voltara a trancar a porta, mas encontravam-se ambos em baixo na altura em que se ocupara do resto desse andar. Como sempre. Por conseguinte... o empregado de limpeza permanecera só, no gabinete de Akopov. E retirara-se mais cedo do que habitualmente, no meio da noite.

            Às nove, Akopov, extremamente pálido, era escoltado para o seu próprio carro, mas foi um dos Guardas Negros que se sentou ao volante, enquanto outro se instalava ao lado do acabrunhado secretário, no banco de trás. O veículo não seguiu, porém, para o apartamento deste último. Ao invés, rolou na direção de uma das saídas da cidade, rumo a um dos campos em que se alojavam os Jovens Combatentes.

            Àquela hora, o coronel Grishin terminara de ler o processo que continha os elementos sobre as circunstâncias da admissão de um certo Leónidas Zaitsev, de sessenta e três anos, empregado da limpeza. Havia um endereço particular, mas o homem decerto não voltaria lá. Devia apresentar-se ao serviço às dez.

            Não compareceu e, à meia-noite, Grishin e três Guardas Negros foram visitar a residência do velho.

 

            A essa hora, Célia Stone desprendeu-se dos braços do jovem amante com um sorriso de satisfação e estendeu a mão para o maço de cigarro. Fumava pouco, mas era um daqueles momentos em que lhe agradava. Entretanto, Hugo Gray, deitado de costas na cama dela, continuava a arquejar. Era um homem saudável que mantinha a forma física graças à prática de natação e squash, mas as duas últimas horas tinham-lhe absorvido uma percentagem elevada de energias.

            Não pela primeira vez perguntou-se por que razão Deus providenciara para que os apetites de uma mulher sexualmente faminta excedessem sempre as capacidades do parceiro. Afigurava-se lhe extremamente injusto.

            Na penumbra, Célia Stone chupou o cigarro demoradamente, sentiu a nicotina penetrar, debruçou-se sobre o amante e começou a desgrenhar-lhe os caracóis castanhos.

            - Por que cargas de água decidiu se tornar adido cultural? - perguntou, com uma ponta de sarcasmo. - Não distingue Turgenev de Lermontov.

            - Não é para isso que me pagam - grunhiu ele. - compete-me informar os russos da nossa cultura: Shakespeare, as irmãs Bronte e quejandos.

            - É por este motivo que está constantemente reunido com o chefe de posto?

            Soergueu-se com prontidão, puxou-a pelo braço e murmurou-lhe ao ouvido:

            - Cuidado com a língua. Pode haver microfones ocultos.

            Ela soltou uma exclamação abafada e foi fazer café, sem compreender a razão pela qual ele se mostrava tão alarmado com um comentário inofensivo. De qualquer modo, as suas atividades na embaixada não constituíam segredo para ninguém.

            De resto, Célia não se equivocava. No mês anterior, Hugo Gray fora o terceiro membro e o mais jovem, do posto de Moscou do Secret Intelligence Service. Outrora, a sua importância tinha sido muito maior, no auge da Guerra Fria. No entanto, os tempos mudam e as verbas diminuem. No seu atual estado de derrocada, a Rússia era considerada uma ameaça insignificante.

            E, detalhe mais relevante, noventa por cento das coisas que haviam sido secretas achavam-se agora abertamente disponíveis ou revestiam-se de um interesse mínimo. O próprio KGB tinha um gabinete de Imprensa e, do outro lado da cidade, na embaixada dos Estados Unidos, o pessoal da CIA não excedia o número dos componentes de uma equipe  de futebol.

            No entanto, Hugo Gray era jovem e ativo, convencido de que a maioria dos apartamentos dos diplomatas se encontrava sob escuta. O comunismo podia estar em situação periclitante, mas a paranóia sobre os russos continuava bem viva. No fundo, ele tinha razão, porém os agentes do campo oposto já se tinham inteirado das suas verdadeiras funções e encaravam-no sem preocupações.

           

            O bizarramente denominado Bulevar dos Entusiastas é sem dúvida a área mais decrépita, miserável e perigosa da cidade de Moscou. Num triunfo do planejamento comunista, situava-se a sotavento da fábrica de produtos químicos, possuidora de filtros como redes de ténis. O único entusiasmo jamais notado nos seus habitantes provinha daqueles que eram autorizados a mudar-se.

            Segundo os registros, Leónidas Zaitsev vivia com a filha, o motorista de pesados, marido desta e o respectivo filho num apartamento perto da artéria principal. Passavam trinta minutos da meia-noite, com a temperatura ainda notavelmente elevada, quando o Chalka preto, cujo condutor assomava à janela para ler os nomes nas enegrecidas placas, se imobilizou.

            O nome do genro era diferente, claro, e eles tiveram de interrogar o ensonado vizinho do térreo para se certificarem de que a família que procuravam vivia no quarto andar. Como não havia elevador, os quatro homens utilizaram a escada e bateram com insistência à porta necessitada urgentemente de pintura.

            A mulher que acudiu, também ensonada e de olhar congestionado, devia ter cerca de trinta e cinco anos, mas parecia uns dez anos mais velha. Grishin mostrou-se atenciosa, embora insistente. Os seus homens entraram sem vacilar e distribuíram-se para revistar o apartamento. Na realidade, não havia muito para revistar, pois era pequeno. Compunha-se apenas de dois quartos, com uma espécie de banheiro fétido e um canto separado por meio de uma cortina, onde funcionava a cozinha.

            A mulher estivera dormindo com o filho de seis anos na larga cama de um dos quartos. A criança acordara e principiou a choramingar, acabando por verter lágrimas abertamente e protestar, quando os homens a revolveram e espreitaram debaixo. Em seguida, os dois miseráveis armários de contraplacado foram devassados sem contemplações.

            No outro quarto, a filha de Zaitsev apontou desesperadamente para a cama de beliche junto de uma das paredes, em que o pai costumava dormir, e explicou que o marido se deslocara a Minsk, onde ainda se encontrava, dois dias atrás. E, chorando igualmente, referiu que o progenitor não regressara na manhã anterior. Estava preocupada, mas não comunicara o desaparecimento às autoridades, persuadida de que adormecera no banco de um jardim.

            Em dez minutos, os Guardas Negros estabeleceram que não havia ninguém escondido no apartamento, enquanto Grishin se convencia de que a mulher estava muito aterrorizada para mentir. Retiraram-se meia hora mais tarde.

            O coronel mandou o Chaika seguir para o campo onde Akopov se conservava detido e passou o resto da noite a interrogá-lo. Cerca da alvorada, o infortunado e soluçante homem admitiu que devia ter deixado o documento em cima da sua mesa. Nunca lhe ocorrera nada do gênero e não compreendia como pudera esquecer-se de guardá-lo no cofre. Por fim, suplicou clemência, e Grishin inclinou a cabeça e deu-lhe uma palmada tranquilizadora nas costas.

            Quando se retirou, comunicou a um colaborador:

            - Vai ser um dia de calor tórrido. O nosso amigo está aflito. Creio que um bom banho antes de amanhecer lhe fará bem...

            E regressou à cidade. Entretanto, ponderava que, se o importante documento ficara em cima da mesa, fora jogado fora inadvertidamente ou o empregado da limpeza levara-o. A primeira alternativa não se adaptava às circunstâncias, pois o material considerado inútil permanecia intacto durante vários dias, antes de ser incinerado. Ora, os papéis da véspera nessas condições haviam sido examinados, folha a folha, sem resultado. Portanto, tudo apontava para o homem. Mas para que quereria um indivíduo quase analfabeto o importante documento e que destino lhe dera? Só o próprio poderia explicar. E não deixaria de o fazer.

            Antes da hora normal do café da manhã dispusera dois mil dos seus homens, todos em traje civil, nas ruas de Moscou à procura de um velho de uniforme militar coçado. Não havia qualquer fotografia, mas a descrição era rigorosa, até ao detalhe dos dentes de aço.

            A tarefa, porém, não tinha nada de fácil, apesar do número elevado de agentes envolvidos na operação, pois abundavam os indivíduos em semelhantes condições dispersos pelas vielas e parques da cidade. Por conseguinte, percorriam a cidade, em mangas de camisa, devido ao calor, conscientes de que seria pouco saudável apresentarem-se ao coronel de mãos abanando.

 

Langley, Dezembro de 1983

            Jason Monk levantou-se da mesa, espreguiçou-se e decidiu dirigir-se ao refeitório. Regressado de Nairobi havia uma semana, tinham-lhe comunicado que a sua folha de serviços era satisfatória e, em alguns casos, excelente. A promoção começava a despontar no seu horizonte, e o chefe da Divisão de África estava encantado, mas custar-ia perdê-lo.

            Quando regressara à base, Monk vira-se inscrito no curso de língua espanhola, que começaria a frequentar após a pausa do Natal e Ano Novo. Seria o terceiro idioma estrangeiro em que se especializaria, o que lhe abriria o acesso à Divisão da América Latina.

            A América do Sul era um território enorme e importante, porque não só se situava dentro do “quintal” americano, segundo prescrevia a Doutrina Monroe, como constituía o alvo de eleição do bloco soviético para a insurreição, subversão e revolução comunista. Como resultado disso, o KGB desenvolvia uma larga operação a sul do Rio Grande, a qual a CIA estava decidida a decapitar. Nessa conformidade, para Monk, aos trinta e três anos, a América do Sul constituía um ambiente favorável à sua carreira.

            Movia a colher na xícara de café, quando percebeu alguém de pé junto da sua mesa.

            - Que estupendo bronzeado! - observou uma voz. Ergueu os olhos e reconheceu o homem que lhe sorria.

            Fez menção de se levantar, porém o outro indicou que se mantivesse sentado com um gesto, mais ou menos no estilo de um aristocrata condescendente perante um plebeu.

            Monk estava surpreso. Sabia que o homem era um dos membros-chave do Diretorado das Operações, pois alguém o apontara nos corredores, recentemente nomeado chefe do Ramo Soviético do Grupo de Contra-Espionagem da Divisão SE.

            O que o intrigava era o seu aspecto estranho. Apesar de serem ambos mais ou menos da mesma estatura  um metro e setenta e cinco, o outro, embora nove anos mais velho, parecia muito mais abalado. Monk reparou no cabelo gorduroso penteado para trás, o espesso bigode que cobria a seção superior da boca flácida e os olhos de míope.

            - Estive três anos no Quênia - esclareceu, para explicar o bronzeado.

            - E agora de regresso à invernosa Washington, hem?

            Entretanto, as suas antenas captavam vibrações pouco tranquilizadoras. Por trás dos olhos míopes, havia uma expressão divertida. “Sou mais esperto que você”, pareciam dizer. “Muito mais esperto”.

            - Sim, senhor.

            Monk viu estendida na sua direção uma mão enegrecida pela nicotina e ligeiramente trêmula, pormenor próprio de quem manifestava particular inclinação para as bebidas alcoólicas. Levantou-se e exibiu um sorriso que as moças do departamento de datilografia apelidavam de “Especial do Ruivo”.

            - E você deve ser?...respondeu o homem.

            - Monk. Jason  Monk.

            - Tenho muito prazer em conhecê-lo, Jason. Sou Aldrich Ames.

           

            Se o motor do carro de Hugo Gray tivesse pegado, naquela manhã, muitos homens que morreram posteriormente continuariam vivos e o mundo seguiria um curso diferente. Mas os solenóides do motor de arranque obedecem a uma lei própria. Depois de tentar freneticamente obter uma reação, ele correu atrás do Rover vermelho quando já se aproximava da barreira do enclave e bateu à janela, para que Célia Stone lhe desse carona.

            Normalmente, o pessoal da embaixada não trabalhava ao sábado e muito menos num tão quente que podia passar todo o fim-de-semana num lugar mais fresco do campo, mas a morte do Presidente produzira um súbito rebuliço de trabalho extraordinário, pelo que a sua presença era exigida.

            Hugo sentava-se ao lado dela, que imergiu no Kutuzovsky Prospekt e passou diante do Hotel Ucrânia, em direção ao Kremlin. Ele notou algo em contacto com os pés e inclinou-se para a frente, a fim de o recolher.

            - É o seu lance de oferta para o Izvestia, - perguntou.

            Célia olhou de través e reconheceu a pasta de cartolina.

            - Tencionava jogar isso fora, mas me esqueci. Um velho lunático  qualquer  atirou-o para  dentro. Confesso que me pregou um susto de respeito.

            - Mais uma petição, sem dúvida. Nunca param. Em geral, destinam-se a obter um visto, claro. - Levantou a capa e leu o título da primeira página. - Não, afinal é de político!

            - Ótimo. Sou uma criatura privilegiada e oferecem-me um plano magistral para salvar o mundo. Basta entregá-lo ao embaixador.

            - Foi o que o homem disse?

            - Foi. Isso, e obrigado pela cerveja.

            - Qual cerveja?

            - Sei lá! O cara não regulava bem, com certeza.

            Depois de ler o título, voltou mais algumas páginas e assumiu uma expressão grave.

            - É, de fato, político. Uma espécie de manifesto.

            - Se te interessa, pode ficar com ele.

            Deixaram os jardins Alexandrovsky para trás e cortaram à direita, no sentido da Ponte de Pedra.

           Gray tencionava ler mais algumas passagens do documento e a seguir largá-lo no cesto de papéis. No entanto, depois de se instalar atrás da mesa do seu gabinete, leu uma dezena, levantou-se e pediu ao chefe de posto um arguto escocês de sentido de humor cáustico  que o recebesse.

            Embora o gabinete deste último fosse inspecionado diariamente para tentar detectar algum dispositivo de escuta, as reuniões secretas desenrolavam-se sempre dentro da “ampola”, um compartimento especial circundado por uma coluna de ar entre duas paredes, que o tornava a prova de som. “Varrida” com regularidade por dentro e por fora, a ampola era considerada impossível de penetrar por quaisquer serviços secretos hostis. No entanto, Gray não estava suficientemente confiante da importância de que tinha nas mãos para sugerir que conversassem naquele lugar.

            - Que há de novo, rapaz?  perguntou o chefe.

            - Não sei se venho fazer-lhe perder tempo, Jock. É o mais certo e peço desde já que me perdoe. Mas aconteceu uma coisa estranha, ontem. Um velho atirou isto para dentro do carro da Célia Stone. Refiro-me àquela moça pertencente ao gabinete do adido de Imprensa. Talvez não seja nada de incomum...

            Gray interrompeu-se, enquanto o outro o olhava por cima dos óculos sem aros.

            - Atirou-o para dentro do carro? - repetiu, com brandura.

            - Pelo menos, foi o que ela disse. Abriu a porta, largou-o em cima do banco do passageiro, com o pedido de que o entregasse ao embaixador, e afastou-se.

            O chefe de posto estendeu a mão para a pasta de cartolina preta em cuja capa se viam duas dedadas de Gray.

            - Que tipo de homem?

            - Bem, trajado modestamente, com a barba por fazer. Parecia pouco mais que um vagabundo. Pregou-lhe um grande susto.

            - Uma petição, porventura?

            - Foi o que ela pensou, e tencionava jogá-lo fora. Mas deu-me carona, esta manhã, e tive oportunidade de ler parte durante o percurso. Parece um  documento mais político que outra coisa. A página do título tem o carimbo do logotipo da UFP e parece que foi redigido por Igor Komarov.

            - O futuro presidente... Curioso. Muito bem, deixe o resto a meu cargo.

            - Obrigado, Jock - agradeceu Gray, e levantou-se.

            O carácter íntimo dos nomes de batismo, mesmo entre funcionários de categorias distintas, é encorajado no seio do SIS britânico, com o intuito de incrementar a noção de camaradagem e reforçar a psicologia de nós-e-eles comum a todos os serviços dessa singular atividade. Somente o dirigente supremo merece o tratamento de “chefe” ou “senhor”.

            Gray preparava-se para abrir a porta, em cujo puxador já pousara a mão, quando o superior hierárquico o chamou.

            - Mais uma coisa, rapaz. Os apartamentos da era soviética tinham as paredes muito finas e não mudaram. O nosso terceiro secretário do Comércio apresenta os olhos vermelhos de falta de sono, esta manhã. Por sorte, a esposa encontra-se na Inglaterra. Na próxima vez, talvez você e a atraente Miss Stone não se importem de ser um pouco mais discretos.

            Hugo Gray tornou-se tão vermelho como os muros do Kremlin e retirou-se. O chefe de posto pousou o documento a um lado da mesa. Tinha a agenda particularmente sobrecarregada, e o embaixador queria falar-lhe às onze. Ora, sua excelência era um homem muito atarefado e decerto não desejava que o importunassem com objetos atirados para o interior dos carros do seu pessoal por vagabundos. Só naquela noite, em que ficou até mais tarde no seu gabinete, o mestre-espião leu aquilo a que mais tarde se chamou o Manifesto Negro.

 

Madrid, Agosto de 1984

            Antes de se transferir para um novo endereço, em Novembro de 1986, a embaixada da índia em Madrid situava-se no ornamental edifício do virar do século na Calle Velasquez, 93. No dia da Independência de 1984, o embaixador indiano promoveu, como era hábito, uma suntuosa recepção destinada aos principais membros do governo espanhol e ao corpo diplomático. A 15 de Agosto, como sempre.

            Devido ao calor intenso daquele mês e ao fato das entidades oficiais o escolherem normalmente para as suas férias, muitas figuras importantes achavam-se ausentes da capital e faziam-se representar por funcionários secundários.

            Do ponto de vista do embaixador, era lamentável, porém ninguém podia exigir que os indianos reescrevessem a História e alternassem a data da Independência. Os americanos fizeram-se representar pelo encarregado de negócios, acompanhado pelo subsecretário do Comércio, um certo Jason Monk. O chefe de posto da CIA na embaixada também se ausentara, pelo que este último, elevado ao segundo degrau de importância, o substituía. Fora um ano excelente para Monk. Completara o curso de seis meses de espanhol com uma ótima classificação e obtivera a promoção de GS-12 para GS-13.

            O rótulo de Government Schedule (GS)* poderia significar pouco ou nada para o pessoal do setor privado, porque constitui a escala de pagamento dos funcionários públicos do governo federal, mas no seio da CIA, indicava não só o salário, mas também a categoria, prestígio e progresso de uma carreira. Mais concretamente, numa movimentação de oficiais superiores, o diretor da CIA, William Casey, acabava de nomear um novo subdiretor (Operações) para substituir John Stein. O DDO** é o chefe de todo o braço da atividade secreta da agência e, por conseguinte, tem a seu cargo todos os agentes em campanha. O novo homem era o antigo recrutador de Monk, Carey Jordan.

            Finalmente, depois de concluir o curso de espanhol, Monk fora colocado, não na Divisão da América Latina, mas na da Europa Ocidental, onde só havia um país em que se falava aquele idioma  a própria Espanha. Isto não significava que fosse um território hostil, muito pelo contrário. No entanto, para um agente da CIA de trinta e quatro anos, solteiro, a trepidante capital espanhola batia, de longe, aos pontos, Tegucigalpa.

            Devido às boas relações existentes entre os Estados Unidos e o seu aliado espanhol, a maior parte da atividade da CIA não consistia em espiar o país, mas em colaborar com o órgão da contra-espionagem local e observar atentamente a vasta comunidade soviética e da Europa Oriental, infestadas de agentes hostis. Em apenas dois meses, Monk criara algumas boas amizades com a agência doméstica espanhola, muitos de cujos funcionários superiores datavam dos tempos de Franco e não morriam de amores pelo comunismo. Como tinham alguma dificuldade em pronunciar “Jason”, que, em castelhano, se converte em algo como “Xhasson”, haviam-no cognominado de “El Rúbio” e simpatizavam com ele. Na verdade, Monk exercia esse efeito nas pessoas.

*  Quadro do Governo. (N. do T.)

** Deputy Diretor Operation. (N. do T.)

 

            A recepção era acalorada e típica  grupos de pessoas circulavam com lentidão, ingerindo o champanhe do governo indiano, que aquecia segundos depois de se encontrar na taça, e conversando de pouco mais que banalidades. Monk, que considerava cumprida a sua missão no local como representante do Tio Sam, preparava-se para efetuar uma retirada estratégica, quando descortinou um rosto conhecido.

            Deslizando discretamente por entre a multidão, postou-se atrás do homem e aguardou que terminasse o diálogo com uma dama de sari.

            - Que aconteceu ao seu filho, meu amigo? - perguntou em russo.

            O outro estremeceu e voltou-se. Em seguida, exibiu um sorriso.

            - Restabeleceu-se - informou Nikolai Turkin. Atualmente, goza de perfeita saúde.

            - Ainda bem, e tudo  indica que a sua carreira também sobreviveu.

            Assentiu, com uma inclinação de cabeça. Aceitar um favor do inimigo constitui um delito grave e, se o fato fosse conhecido, ele não teria voltado a sair da URSS. No entanto, vira-se compelido a colocar-se à mercê do professor Glazunov. O velho cirurgião também tinha um filho e acreditava intimamente que o seu país devia colaborar com os melhores estabelecimentos de investigação do mundo em questões de natureza médica. Por conseguinte, decidiu não denunciar o jovem oficial e aceitou modestamente os elogios dos colegas pela notável descoberta.

            - Mas foi por pouco - acrescentou Turkin.

            - E se fôssemos jantar? - propôs Monk. Percebendo a hesitação do soviético, apressou-se a erguer as mãos e acrescentar: - Sem idéias preconcebidas. Prometo que não haverá engodo.

            O outro descontraiu-se. Ambos sabiam ao que o interlocutor se dedicava. O fato de Monk falar um russo tão perfeito indicava que não devia pertencer à seção comercial da embaixada dos Estados Unidos. Por seu turno, o americano sabia que Turkin ingressara no KGB, provavelmente na Linha KR, ramo da contra-espionagem, em virtude da liberdade em ser visto conversando com ocidentais.

            O termo “engodo” denunciava a situação, e a circunstância dos americanos poderem empregá-lo em tom jocoso revelava que era sugerida uma breve trégua na Guerra Fria. com efeito, um agente dos serviços secretos mencionava “engodo” ou “engodo frio”, quando propunha a alguém do campo contrário a troca de equipes.

            Três noites mais tarde, os dois homens dirigiram-se separadamente a uma pequena rua transversal na parte antiga de Madrid, chamada Calle de los Cuchilleros dos amoladores de facas. Mais ou menos a meio, havia uma porta pesada de madeira de acesso a degraus que conduziam a uma adega de arcadas de tijolos, antigo armazém de vinho que datava da Idade Média, onde agora, desde longa data se serviam iguarias tradicionais espanholas sob a designação de Sobrinos de Botin. As velhas arcadas formavam compartimentos, com uma mesa no centro, e Monk e o seu convidado tinham um por sua conta.

            A refeição foi excelente, e Monk pediu uma garrafa de Marquês de Riscai tinto. Evitaram propositadamente os assuntos profissionais e trocaram impressões sobre esposas e filhos, e o americano admitiu que ainda os não tinha e continuava solteiro. O pequeno Yuri frequentava o colégio, mas passava as férias grandes com os avós. Entretanto, o vinho esgotou-se e mandaram vir nova garrafa.

            A princípio, Monk não se deu conta de que, por trás da fachada de afabilidade, Turkin nutria uma revolta surda, não contra os Estados Unidos, mas contra o sistema que quase lhe matara o filho. A segunda garrafa de Marquês de Riscai estava quase vazia, quando perguntou subitamente:

            - Gosta de trabalhar para a CIA?

            “Trata-se de um engodo?”, refletiu Monk. “O cara pretende me recrutar?”

            - Não tenho razões de queixa - declarou com desprendimento, enquanto voltava a encher os copos, olhando a garrafa e não o russo.

            - Se tem problemas, eles o apoiam?

            - Com  certeza.  A mão que segurava a garrafa  mantinha-se  firme. - Os   meus superiores acodem sempre que o pessoal precisa de ajuda. Faz parte do código.

            - Deve ser estupendo trabalhar para pessoas que desfrutam de tanta liberdade.

            Por fim, pousou a garrafa e olhou o interlocutor. Prometera abster-se de lançar qualquer engodo, mas fora Turkin que o fizera... a si próprio.

            - Escute,  amigo.  O  sistema a  que  pertence vai  mudar. Muito em breve. Nós podíamos contribuir para acelerar a transição. Yuri será um homem livre.

            Andropov morrera, apesar dos medicamentos provenientes de Londres, e sucedera-lhe outro geriátrico, Konstantin Chernenko, que tinha de ser amparado para se deslocar de um lado para o outro. Falava-se, porém, de ventos novos que sopravam no Kremlin  um homem mais jovem chamado Gorbachev.

            Quando tomavam café, Turkin foi recrutado. Daí em diante, permaneceria colocado no coração do KGB, mas trabalharia para a CIA.

            Monk estava em maré de sorte, porque o seu superior, o chefe de posto, se ausentara de férias. Do contrário, teria de entregar Turkin a outros para que o industriassem. Assim, coube-lhe a tarefa de codificar a mensagem telegráfica ultra-secreta destinada a Langley para descrever o recrutamento.

 

            Houve, naturalmente, ceticismo geral. Um major da Linha KR pertencente ao setor mais confidencial do KGB representava uma presa especial. E, numa série de reuniões secretas em diferentes pontos de Madrid durante o resto do Verão, Monk inteirou-se de mais detalhes sobre o seu contemporâneo soviético.

            Nascido em Omsk, Sibéria Ocidental, em 1951, filho de um engenheiro da indústria militar, Turkin não pudera ingressar na universidade, como pretendia, aos dezoito anos, e alistara-se no exército, sendo colocado nos Guardas Fronteiriços, nominalmente sob o controle do KGB. Aí, foi “detectado” e enviado para o departamento de contra-espionagem no Liceu Dzerzhinsky, onde aprendeu inglês.

            Depois, juntamente com um pequeno grupo, foi transferido para o centro de espionagem no estrangeiro, o prestigioso Instituto Andropov. À semelhança de Monk, do outro lado do mundo, fora considerado apto para grandes vôos. Para quem não tinha experiência do KGB, nem dominava idiomas estrangeiros, havia cursos de dois e três anos, naquele estabelecimento. Turkin, que reunia ambas as condições, frequentou um curso de um ano. Quando o completou com distinção, foi autorizado a entrar para o Diretorado K do Primeiro Diretorado Principal  contra-espionagem no seio do braço da espionagem em geral. O chefe do “K” naqueles dias era o general mais jovem do KGB, Oieg Kalugin.

            Ainda apenas com vinte e sete anos, Turkin casou em 1978 e teve um filho no mesmo ano, Yuri. Em 1982, atribuíram-lhe a primeira colocação no estrangeiro, em Nairobi, e a tarefa inicial de penetrar o posto da CIA no Quênia e recrutar agentes aí ou em qualquer outro lugar do território queniano. A comissão de serviço foi interrompida prematuramente pela doença do filho.

            Entregou a sua primeira encomenda à CIA, em Outubro. Ciente de que fora instalado um sistema completo de comunicações secretas, Monk levou-a pessoalmente para Langley. Tratava-se de autêntica dinamite. Turkin destruiu quase toda a operação do KGB na Espanha. Para proteger a sua fonte, os americanos transmitiram aos espanhóis o que sabiam pouco a pouco, certificando-se de que os resultados por eles conseguidos nas diligências confidenciais contra os soviéticos parecessem fruto da sua própria iniciativa. Em cada caso, foi permitido ao KGB tomar conhecimento (através de Turkin) que o agente cometera um lapso inconcebível que conduzira à sua própria captura. Sem que suspeitasse de nada, Moscou perdeu toda a sua operação ibérica.

            Nos seus três anos em Madrid, Turkin ascendeu à categoria de sub residente, o que lhe facultava o acesso a quase tudo. Em 1987, foi mandado de volta a Moscou e, um ano mais tarde, tornava-se chefe de todo o Ramo K do Diretorado, mo seio do vasto apparat da Alemanha Oriental, até à retirada final após o colapso do Muro de Berlim e depois do comunismo e a reunificação com a Alemanha Federal, em 1990. Durante todo esse tempo, embora fornecesse centenas de mensagens e encomendas secretas através de receptáculos de cartas mortas*, espiões tem vários “contactos”, ou “controladores”, numa carreira de seis anos, porém o russo fez sempre finca-pé nisso, e Langley teve de ceder.

            Quando regressou a Langley, no Outono de 1986, Monk foi chamado ao gabinete de Gary Jordan.

            - Estive examinando o material e considero-o bom - disse o DDO.  Chegamos a admitir a possibilidade de se tratar de um duplo, mas os agentes espanhóis que ele aniquilou são de primeira linha. O seu homem merece inteira confiança. bom trabalho.

            Monk inclinou a cabeça em silêncio, satisfeito com o que ouvia.

            - Há só uma coisa prosseguiu o outro. Não estou metido nisto há meia dúzia de dias. O meu relatório sobre a estratégia de recrutamento é adequado, mas falta o esclarecimento de um detalhe. Por que concordou em trabalhar para nós?

            Monk revelou o que omitira no relatório: a doença do filho em Nairobi e o medicamento do Walter Reed.

            - Eu devia cortar antes - acabou Jordan por declarar, levantando-se e aproximando-se  da janela. A floresta de vidoeiros e faias que se estendia até o rio Potomac constituía uma massa compacta vermelha e dourada, com a folhagem na iminência de começar a cair. - Não conheço ninguém  na agência que o deixasse safar-se sem um favor em troca de remédio. Você se arriscou a não voltar a vê-lo. Teve muita sorte. Sabe o que Napoleão disse sobre os generais?

            - Não, senhor.

            - “É-me indiferente se são bons. Interessa-me mais que tenham sorte”. Você é algo bizarro, mas dispõe de uma dose satisfatória desse ingrediente. Sabe que vamos ter de transferir o seu homem para a Divisão SE?

            No topo final da CIA, havia sempre o Diretor. Logo abaixo dele, figuravam os dois diiretorados principais: Espionagem e Operações. O primeiro, chefiado pelo Subdiretor (Espionagem), ou DDI*, tinha a seu cargo a tarefa de coordenar e analisar a enorme massa de informação “em bruto” que chegava incessantemente, para extrair dela a polpa de espionagem que seguiria para a Casa Branca, Conselho de Segurança Nacional, Departamento de Estado, Pentágono etc.

            A compilação atual era efetuada pelas Operações, chefiadas pelo DOO. O respectivo Diretorado subdividia-se em divisões, em conformidade com um mapa global: América Latina, Médio Oriente, Sueste Asiático, e assim sucessivamente. Mas nos quarenta anos de Guerra Fria, de 1950 a 1990 e colapso do comunismo, a divisão-chave era a Européia do Leste Soviético, conhecida por Divisão SE.

            Os membros de outras divisões irritavam-se com frequência pelo fato de, mesmo que fossem eles que cultivassem e recrutassem um «bem» soviético valioso em Bogotá ou Djacarta, ser este transferido para o controle da Divisão SE, que passava a «manipulá-lo». Em obediência à lógica, um d’ia seria transferido de Bogotá ou Djacarta provavelmente de regresso à URSS.

            Como o principal inimigo era a União Soviética, a Divisão SE tornou-se a unidade principal do Diretorado das Operações. Embora Monk se tivesse formado em russo na faculdade e passado anos a consultar publicações soviéticas num recanto do arquivo, teve de prestar serviço na Divisão de África e sujeitar-se a uma comissão na Europa.

            - Sim, senhor - respondeu à pergunta do superior.

            - Quer acompanhá-lo?

            - Sem dúvida - assentiu, sem hesitar.

            - Muito bem. Já que foi você que o recrutou, passará a orientá-lo.

            Foi transferido para a Divisão SE passados menos de oito dias, com a incumbência de “dirigir” o major Nikolai llyioh Turkin, do KGB. Não voltou a Madrid para residir, mas visitou-a, encontrando-se com o russo discretamente em lugares próprios para piqueniques na Serra do Guadarrama, onde conversavam de milhares de coisas, enquanto Gorbachev assumia o poder e os programas simultâneos da perestroíka e glasnost começavam a atenuar o rigor das leis. Monk alegrava-se com a situação, porque, além de um “bem”, considerava Turkin um amigo.

            Já em 1984, a CIA começava a tornar-se, alguns diriam que já se tornara,  numa vasta e ruidosa burocracia, mais dedicada ao trabalho de expediente do que à recolha de elementos propriamente de espionagem. Monk odiava a burocracia e detestava o trabalho de  mesa,  convencido  de  que  aquilo  que  era escrito podia ser roubado ou copiado. No ultra-secreto coração da Divisão SE, encontravam-se os 301 processos que enumeravam os detalhes de todos os agentes soviéticos recrutados pelo Tio Sam. Naquele Outono, ele “se esqueceu” de anotar os elementos sobre o major Turkin, cujo nome de código era GT Lisandro.

 

            Jock MacDonald, chefe de posto do SIS britânico em Moscou, teve um jantar que não podia evitar, na noite de 17 de Julho. Regressou por momentos ao seu gabinete para depositar algumas notas que escrevera durante a refeição não considerava o apartamento em que vivia à prova de assaltos e a vista pousou por acaso numa pasta de cartolina preta. Abriu-a quase distraidamente e começou a ler. O texto estava escrito em russo, naturalmente, porém ele era bilíngue.

            Acabou por não ir para casa. Pouco depois da meia noite, telefonou à esposa para a tranquilizar e tornou a concentrar-se no conteúdo da pasta de cartolina preta. Eram cerca de quarenta páginas, divididas em vinte capítulos.

            Leu com particular atenção as passagens relativas ao restabelecimento do partido único e reativação da rede de campos de trabalhos forçados para os dissidentes e outros indesejáveis.

            Inteirou-se, com assombro crescente, da descrição da solução final para a comunidade judaica e, em particular, do tratamento destinado aos chechenos, sem esquecer todas as outras minorias raciais.

            Estudou a seção respeitante ao pacto de não-agressão com a Polónia para eliminar a fronteira ocidental e a reconquista de Belarus, os Estados do Báltico e as repúblicas da URSS a sul: Ucrânia, Georgia, Armênia e Modlova.

            Ingeriu os parágrafos concernentes ao restabelecimento do arsenal nuclear e vigilância atenta aos inimigos circundantes e assimilou com incredulidade as páginas que descreviam o destino da Igreja Ortodoxa Russa e todas as outras confissões religiosas.

            Segundo o manifesto, as ridicularizadas e humilhadas forças militares, agora recolhidas nos quartéis, seriam rearmadas e reequipadas, não como unidades de defesa, mas de reconquista. Os habitantes dos territórios recuperados trabalhariam como escravos para produzirem alimentação destinada aos amos russos. O controle sobre elas competiria às populações étnicas dos territórios exteriores, sob a égide de um governador imperial de Moscou. A disciplina nacional seria assegurada pelos Guardas Negros, cujos efetivos aumentariam para duzentos mil homens, os quais se ocupariam igualmente do tratamento especial dos indivíduos anti-sociais: liberais, jornalistas, sacerdotes, homossexuais e judeus.

            O documento também se propunha revelar a resposta a um enigma que já intrigava MacDonald e outros: a fonte dos fundos ilimitados da campanha da União das Forças Patrióticas.

            Na sequência de 1990, o mundo do crime da Rússia constituíra uma vasta manta de retalhos de bandos, que, nos primeiros tempos, se entregavam a implacáveis guerras entre si e deixavam dezenas de mortos abandonados nas ruas. A partir de 1995, fora iniciada uma política de unificação e, em 1999, todo o país, da fronteira ocidental até aos Montes Urais, constituía o feudo de quatro grandes organizações de criminosos, com realce para os do Dolgoruki, com base na capital. Se o documento descrevia a realidade, eram eles que financiavam a UFP, para obterem a devida compensação no futuro a eliminação de todos os bandos e supremacia do seu.

            Eram cinco horas da madrugada, quando, após a leitura pela quinta vez, Jock MacDonald fechou o Manifesto Negro. Em seguida, reclinou-se na cadeira e fixou o olhar no teto. Havia muito que deixara de fumar, mas agora tinha vontade de um cigarro. Por fim, levantou-se, guardou a pasta de cartolina preta no cofre e abandonou a embaixada. No passeio, aos primeiros clarões do dia, fixou o olhar no muro do Kremlin, do outro lado do rio, a cuja sombra um homem idoso de capote quase no fio se sentara, quarenta e oito horas antes, para contemplar a embaixada.

            Os mestres-espiões não costumam conceber-se para serem membros da Igreja, mas as aparências e as profissões podem revelar-se enganadoras. Nas Terras Altas da Escócia, existe uma longa tradição entre a aristocracia de aderência de devotos à fé católica romana. Foram os condes e barões que se juntaram aos homens do seu clã sob a bandeira do católico príncipe Carlos, em 1745, para serem varridos, um ano mais tarde, no campo de Culloden, pelo protestante hanoveriano d’uque da Cumberlândia, terceiro filho de Jorge II.

            O chefe de posto provinha do coração dessa tradição. O pai era um MacDonald de Fassifern, porém a mãe descendia da casa de Fraser de Lovat e educara-o em obediência à fé. Jock começou a caminhar. Nas proximidades da ponte seguinte, erguia-se o Bolshoi e, mais adiante, a Catedral de São Basílio Contornou o edifício de cúpula em forma de cebola, continuou em direção ao centro da cidade e, na Praça Nova, cortou à esquerda.

            Pouco depois, avistava as primeiras filas matinais de indivíduos andrajosos à entrada de uma cozinha econômica. Existia apenas uma a seguir ao largo onde outrora funcionara o Comitê Central do Partido Comunista da URSS.

            Havia várias organizações de caridade envolvidas no auxílio à Rússia, do mesmo modo que as Nações Unidas, a um nível mais oficial, e o Ocidente contribuíra generosamente, como no passado em relação aos orfanatos romenos e refugiados da Bosnia. Mas tratava-se de uma tarefa gigantesca, pois os necessitados não paravam de se transferir do campo para a capital, apesar de serem expulsos pelos homens das Polícias e não tardavam a reaparecer em outras áreas da cidade.

            Conservavam-se estoicamente na fila de espera, idosos e andrajosos, mulheres com bebês nos braços a classe dos camponeses imutável desde Potemkin, com a passividade e paciência habituaiis. Em fins de Julho, a temperatura era suficientemente elevada para que se mantivessem vivos. Mas quando chegasse o frio cortante da Rússia... o mês de Janeiro anterior fora mau, porém o próximo... John MacDonald meneou a cabeça ao considerar a perspectiva e prosseguiu em frente. O percurso conduziu-o à Praça Lubyanka, conhecida anteriormente por Praça Dzerzhinsky, onde, durante décadas se erguera a estátua de Iron Feliks, fundador da máquina de terror de Lenin, a Cheka. Ao fundo, situava-se o enorme bloco cinzento denominado simplesmente Centro de Moscou, quartel-general do KGB.

            Para além do velho edifício deste último, encontrava-se a famigerada prisão de Lubyanka, onde fora extraído um sem número de confissões e respectivas execuções. Logo a seguir, há duas ruas: Pequena Lubyanka e Grande Lubyanka. MacDonald optou pela primeira, onde, mais ou menos a meio, se localiza a igreja de São Luís, frequentada por grande parte da comunidade diplomática e alguns dos poucos católicos russos.

            Duzentos metros atrás dele e fora do seu campo visual devido à interposição do bloco do KGB, numerosos vagabundos dormiam à entrada da gigantesca loja de brinquedos Detkymir, ou Mundo das Crianças.

            Dois homens corpulentos, de calças de ganga e blusões de couro pretos, aproximaram-se e começaram a voltar os corpos adormecidos. Um destes usava o velho capote do Exército, com algumas medalhas obscuras suspensas do peito. Eles estremeceram e debruçaram-se sobre o vulto imóvel para acordá-lo.

            - Chama-se Zaitsev?  inquiriu um dos homens.

            O interpelado assentiu, com um movimento de cabeça. Ato contínuo o outro puxou um celular do bolso do blusão, apertou algumas teclas e falou. Cinco minutos mais tarde, um Moskvitch encostava ao passeio e os dois homens ergueram o vulto do chão e transferiram-no para a traseira do veículo, subindo também em seguida. O velho tentou dizer algo antes de entrar, mas surgiu o brilho de aço inoxidável diante da sua boca.

            O Moskvitch contornou a praça e enveredou pela rua da Pequena Lubyanka, passando diante do diplomata britânico que percorria o passeio.

            Este último entrou na igreja, seguiu até ao final da nave lateral e ajoelhou-se diante do altar. A seguir, ergueu os olhos para a figura do Cristo crucificado e rezou. As orações de uma pessoa são de uma natureza extremamente privada, mas as dele diziam: “Suplico-te que seja um documento falsificado, meu Deus. Do contrário, aguarda-nos uma calamidade indescritível”.

 

            Jock MacDonald regressou ao local de trabalho antes da chegada do pessoal. Não conseguira dormir, mas ninguém saberia. Como meticuloso que era em tudo, lavara-se e barbeara-se no banheiro do térreo e vestira a camisa de reserva que costumava conservar numa gaveta da mesa.

            O seu adjunto, Bruce “Gracie” Fields, fora acordado no seu apartamento, com a recomendação de que se apresentasse às nove horas. Hugo Gray, que desta vez dormira na sua própria cama, recebeu uma convocação similar. Às oito, MacDonald indicou aos homens da segurança ambos antigos NCO* do Exército  que preparassem a “ampola” para uma reunião às nove e quinze.

            - Ontem, veio parar em minhas mãos determinado documento - anunciou aos dois colegas, poucos minutos mais tarde. - Não há necessidade de lhes revelar a natureza do conteúdo. Basta mencionar que, se for uma falsificação ou mistificação, estamos perdendo tempo. Se for autêntico... o que ainda não sei...  pode tratar-se de  material  de gravidade transcendente. Importa-se de explicar os antecedentes ao Gracie, Hugo?

            Este último explicou o que sabia e Celia Stone lhe comunicara.

            - Num  mundo perfeito – respondeu MacDonald, empregando uma das suas expressões favoritas, que levaram os dois jovens a dissimular sorrisos, - eu gostaria de saber quem o velho era, as circunstâncias em que o material lhe foi parar às mãos e a razão pela qual escolheu esse carro para se desfazer dele. Conheceria Celia Stone? Saberia que se tratava de uma viatura da embaixada? Em caso afirmativo, por que nos preferiu? Para já, temos alguém que saiba desenhar?

            - Desenhar?  repetiu Fields.

            - Para criar uma imagem, um retrato.

            - Creio que uma das esposas dirige um curso de arte. Era ilustradora de livros para crianças, em Londres. Casou com um cara qualquer do Supremo Tribunal.

            - Certifique-se. Se for assim, ponha-se em contato com Celia Stone.  Entretanto, vou  conversar com ela. Mais duas coisas. O fulano pode tentar nos abordar de novo ou pairar nas redondezas do edifício. Vou pedir ao cabo Meadows e ao sargento Reynolds que vigiem a entrada principal. Se o avistarem, informarão um de vocês. Procurem convencê-lo a entrar, para tomar chá. Em  segundo lugar, talvez tente algum truque do gênero em outro lugar e seja preso.  Não conhecia  alguém na Polícia, Gracie?

            O interpelado assentiu, com um movimento de cabeça. Era o mais antigo dos três em Moscou e, quando chegara, herdara uma gama de fontes de baixo nível na cidade, a que depois acrescentara algumas de sua própria criação.

            - O inspetor Novikov. Trabalha na Brigada de Homicídios, na sede de Petrovka. Tem sido útil, ocasionalmente.

            - Dê-lhe um toque - recomendou MacDonald. Nada de alusões a documentos largados dentro de carros. Diga apenas que há um impertinente que aborda o nosso pessoal na rua para exigir uma entrevista com o embaixador, e gostaríamos que parasse de nos incomodar. Mostre-lhe o retrato, se o conseguirmos, mas volte a trazê-lo. Quando é o próximo encontro?

            - Não há nenhum marcado. Costumo telefonar-lhe de uma cabina.

            - Muito bem. Veja se nos pode ser útil. Tenho de me deslocar a Londres por alguns dias. Fique a olhar pela loja, Gracie.

           

            Celia Stone foi interceptada no átrio ao chegar e ficou algo surpreendida, quando lhe foi pedido que procurasse MacDonald, não no gabinete mas na sala de reuniões A, ignorava que era à prova de dispositivos de escuta.

            O chefe de posto mostrou-se muito atencioso e conversou com ela durante cerca de uma hora. Tomou nota de todos os pormenores e Célia aceitou a versão de que o velho assediara outros membros do pessoal com pedidos para que o embaixador o recebesse. Estava disposta a fornecer os elementos necessários para elaborar um retrato do homem? com certeza, tudo o que fosse necessário.

            Com a assistência de Hugo Gray, Celia passou o período do almoço com a esposa do funcionário superior do Supremo Tribunal, a qual, com os elementos fornecidos, efetuou uma reprodução a lápis e carvão do suposto vagabundo, com realce para os três dentes de aço. No final, Célia inclinou a cabeça e declarou:

            - É exatamente assim.

* Noncommissioned Officer, equivalente a cabo ou sargento. (N. do T.)

           

            À tarde, MacDonald indicou ao cabo Meadows que se munisse de uma arma de fogo e o conduzisse ao aeroporto Sheremetyevo. Embora duvidasse de que pretendessem interrogá-lo, não sabia se o legítimo proprietário do documento que levava na pasta tentaria recuperá-lo. Como precaução adicional, prendeu esta ao pulso com uma corrente metálica, que encobriu dentro da manga de um impermeável leve de Verão.

            De qualquer modo, quando o Jaguar abandonou o recinto da embaixada, tudo aquilo permanecia invisível. Reparou num Chaika estacionado na área do Cais Sofiskaya, mas não se pôs em marcha para segui-lo, pelo que não pensou mais nele. Na verdade, esse veículo aguardava que emergisse um pequeno Rover vermelho.

            No aeroporto, Meadows escoltou MacDonald até à barreira, onde o passaporte diplomático impedia todas as inspeções habituais. Depois de breve permanência na sala de embarque, embarcou no avião da British Airways com destino a Heathrow e, após uma descolagem, soltou um leve suspiro de alívio e pediu um gim com água tônica.

 

Washington, Abril de 1985

            Se o arcanjo Gabriel tivesse descido dos céus para perguntar ao presidente da equipe  do KGB na embaixada soviética qual dos membros da CIA gostaria de se converter em traidor e espião em favor da Rússia, o coronel Stanislav Androsov não hesitaria muito tempo. Responderia:

            - “Escolho o chefe do grupo de contra-espionagem colocado na Divisão Soviética do Diretorado de Operações”.

            Todas as agências de serviços secretos têm um ramo de contra-espionagem trabalhando com elas no seio do aparelho. A missão desses funcionários, que nem sempre os torna populares entre os colegas, consiste em investigar todos os outros. Trata-se de uma função que se divide em três alíneas.

            A Cl desempenha um papel fundamental no interrogatório dos desertores do “outro lado”, tentando simplesmente descobrir se é sincero ou uma implantação. Um falso desertor pode apresentar-se portador de material importamte, porém a sua tarefa primordial consiste em difundir desinformação  quer para convencer os novos chefes de que não têm um traidor no seu seio  quando têm mesmo ou de qualquer outro modo destinado a conduzi-los ao longo de um labirinto de becos sem saída. De uma “implantação” bem concebida, podem resultar anos de tempo e esforços perdidos.

            A contra-espionagem também investiga os elementos da oposição, os quais, embora não se transfiram pessoalmente, permitem que os contratem como espiões e são na realidade agentes-duplos. Agente duplo é aquele que se finge recrutados, apesar de continuar leal à sua equipe  de origem e a atuar sob as suas ordens. Fornece alguns grãos de informação autêntica para estabelecer a sua autenticidade, até que crava o verdadeiro «ferrão», que é inteiramente falso e pode provocar o caos entre as pessoas para as quais se supõe que trabalha.

            Finalmente, a Cl tem de providenciar para que o seu próprio lado não seja penetrado e albergue um traidor no seu regaço.

            Para conseguir estes objetivos, precisa de ter acesso total. Pode consultar os processos de todos os desertores e respectivos interrogatórios, que abarcam vários anos. Ou examinar as carreiras e recrutamento de todos os «bens» correntes ao serviço de uma agência instalada profundamente no coração do território do oponente e expostos a todos os perigos concebíveis de traição. E a Cl também pode exigir o processo pessoal de qualquer funcionário do seu próprio lado. Tudo em nome da verificação da lealdade e autenticidade.

            Devido à rigorosa compartimentação e ao princípio da «necessidade de saber», um funcionário dos serviços secretos que exerça o controle de uma ou duas operações pode trair operadores, mas, normalmente, nunca saberá em que trabalham os seus colegas. Somente a Cl tem acesso a todos. Era por essa razão que, se o arcanjo lhe tivesse feito a pergunta, o coronel Androsov teria escolhido o chefe da Cl da Divisão Soviética. com efeito, os funcionários da contra-espionagem têm de ser os mais leais dos leais.

            Em Julho de 1983, Aldrich Hazen Ames foi nomeado para dirigir o grupo da Cl relativo aos soviéticos da Divisão SE. Nessa qualidade, tinha acesso total aos seus dois sub-ramos: A Seção da URSS, responsável de todos os “bens” soviéticos ao serviço dos Estados Unidos, mas colocados no interior daquele país, e a Seção de Operações Externas, respeitante aos que atuavam fora dele.

            Em Abril de 1985, com dificuldades financeiras, entrou na embaixada soviética na 16th Street de Washington, pediu para ser recebido pelo coronel Androsov e ofereceu-se para espiar por conta da Rússia. Em troca de cinquenta mil dólares.

            Acompanhavam-no alguns elementos de peso. Revelou os nomes dos três russos que haviam abordado a CIA com propostas para trabalhar para ela. Alegaria mais tarde que os julgava agentes duplos e, por conseguinte, não mereciam confiança. Como quer que fosse, não se tornou a ouvir falar dos indivíduos em causa. Entregou igualmente uma lista do pessoal interno da CIA, com o seu próprio nome em realce, para provar que era quem afirmava. Por fim, retirou-se e passou pela segunda vez no espaço abarcado pelas duas câmaras do FBI que filmavam a entrada. As gravações nunca foram reproduzidas.

            Dois dias mais tarde, recebeu os cinquenta mil dólares. Foi apenas o começo. O traidor mais pernicioso da história da América, desde Benedict Arnold, inclusive, começara a trabalhar.

            Analistas posteriores se sentiriam intrigados com dois enigmas. O primeiro consistia em como semelhante incompetente e alcoólico funcionário podia ter ascendido àquela elevada posição de confiança. O segundo dizia respeito à circunstância de, depois de as hierarquias superiores saberem, já em Dezembro, que havia um traidor no seu seio, só ter sido desmascarado passados oito anos, período em que causou numerosos e profundos dissabores à CIA.

            A explicação deste último tem várias facetas. Incompetência, letargia e complacência no interior da agência, sorte do traidor, uma hábil campanha de desinformação promovida pelo GB para proteger a sua toupeira, mais letargia, excesso de escrúpulos e indolência em Langley, pistas falsas, mais sorte do traidor e, finalmente, a recordação de James Angleton.

            Este fora chefe da Cl na agência que acabara por se converter numa lenda e terminara dominado pela paranóia. Esse estranho homem, sem vida privada nem sentido de humor, persuadiu-se de que havia uma toupeira do KGB, com o nome de código de Sasha, no interior de Langley. Na perseguição fanática movida ao inexistente traidor, destruiu a carreira de agentes leais sucessivos, até que, por fim, colocou o Diretorado das Operações de rastos. Os que lhe sobreviveram, promovidos a cargos elevados em 1985, estavam desolados com a perspectiva de executar o que era inevitável: procurar a verdadeira toupeira com o maior rigor.

            Quanto ao primeiro enigma, a resposta pode dar-se em duas palavras: Ken Mulgrew.

            Nos vinte anos na agência antes de se tornar traidor, Ames exercera três comissões de serviço fora de Langley. Na Turquia, o seu chefe de posto considerou-o um desperdício absoluto de espaço o veterano Dewey Claridge detestou-o e odiou-o, desde o primeiro momento.

            Na delegação de Nova Iorque, teve uma aragem de sorte que lhe proporcionou dividendos. Embora o subsecretário-geral das Nações Unidas, Arkady Shevchenko, tivesse trabalhado para a CIA antes da chegada de Ames e a sua deserção final para os Estados Unidos, em Abril de 1978, fosse orientada por outro funcionário, ele “manipulou” o ucraniano no lapso de tempo intermédio. Entretanto, já era um alcoólico inveterado.

            A sua terceira comissão, no México, foi um fiasco. Estava permanentemente embriagado, insultava colegas e estrangeiros, caiu e foi ajudado pela Polícia local a regressar para casa, infringiu todas as normas operacionais imagináveis e não recrutou ninguém. Passava a maior parte do tempo bebendo com um russo, Igor Shurygin, chefe da contra-espionagem do KGB na embaixada soviética. Talvez fosse ele quem indicou o constantemente toldado americano como um “possível”.

            Em ambas as comissões no estrangeiro, os relatórios de serviço de Ames eram pavorosos. Num espectro de eficiência de 200 funcionários, ele figurava em 198. Normalmente, uma carreira de semelhante natureza nunca se aproximaria do topo da escala. No princípio dos anos oitenta, todos os hierarcas superiores  Carey Jordan, Dewey Claridge, Milton Bearden, Gus Hathaway e Paul Redmondo julgavam um artigo inútil. Mas não Ken Mulgrew, que se tornou seu amigo e protetor.

            Foi ele quem purificou os horríveis relatórios sobre as suas atividades, preparou o caminho e provocou as promoções. Como superior hierárquico de Ames, rejeitava as objeções e introduziu-o no grupo da Cl. Basicamente, eram companheiros de libações e, com a autocomiseração própria dos alcoólicos, concordavam que a agência era a todos os títulos injusta para ambos. Tratava-se de um erro de julgamento que em breve custaria muitas vidas.

           

            Leonidas Zaitsev, o Coelho, estava moribundo, embora não o soubesse. Tinha dores intensas, e isto não o ignorava.

            O coronel Grishin acreditava na dor. Tinha fé nela como meio de persuasão, exemplo para as testemunhas e forma de castigo. Zaitsev pecara, e as ordens de Grishin consistiam em que ele devia compreender perfeitamente o seu significado antes de morrer.

            O interrogatório prolongara-se por todo o dia e não houvera motivo para empregar a violência, porque o Coelho revelara tudo o que lhe fora perguntado. O coronel permanecera só com ele a maior parte do tempo, porque não queria que os guardas se inteirassem do que tinha sido roubado.

            Indicara-lhe, com notável afabilidade, que começasse pelo princípio, e ele obedecera. Tivera de repetir tudo várias vezes, até Grishin se convencer de que não fora omitido um único pormenor. Na realidade, não havia muito para revelar. Somente quando explicou por que o fizera, o coronel dominou a expressão de incredulidade com dificuldade.

            - Uma cerveja? A inglesa ofereceu-te uma cerveja?

            Por volta do meio dia, convenceu-se de que estava a par de tudo. Admitia que havia fortes possibilidades de que ao ver-se perante aquele espantalho, a jovem inglesa tratasse de se desfazer do documento, mas não podia ter certeza. Despachou uma viatura com quatro homens de confiança para vigiarem a embaixada e aguardarem que aparecesse o pequeno carro vermelho. Depois, o seguiriam e anotariam o endereço do seu destino.

            Pouco depois das três horas da tarde, Grishin transmitiu as últimas ordens aos guardas e retirou-se. Quando abandonava o recinto no seu veículo oficial, um minibus A-300 com o logotipo da British Airways na retaguarda rolava para o norte de Moscou, porém ele não se deu conta e ordenou ao motorista que o conduzisse à casa no Bulevar Kiselny.

            Eles eram quatro. Os joelhos do Coelho teriam se dobrado, mas dois seguravam-no com firmeza, cravando-lhe os dedos nos ombros. Quanto aos outros, um postou-se à frente e o colega atrás do prisioneiro. Atuavam com lentidão e socavam-no com eficiência.

            Os possantes punhos estavam munidos de pesadas soqueiras de aço. Os impactos esmagaram-lhe os rins, rasgaram o fígado e perfuraram o baço. Um pontapé inutilizou-lhe os testículos. O homem da frente “trabalhou” o abdomen meticulosamente e passou ao peito. Leonidas desmaiou duas vezes, mas a água fria de um balde fez-lhe recuperar os sentidos, e a dor reapareceu. As pernas deixaram de funcionar, pelo que os verdugos mantiveram o frágil corpo pousado nas pontas dos pés.

            Perto do fim, as costelas e o peito esquelético cederam e vergaram-se para dentro e duas cravaram-se profundamente nos pulmões. Uma substância morna, levemente salgada e viscosa, acudiu à garganta e impediu-o de respirar. O seu campo visual reduziu-se a um túnel e ele divisou uma estrada arborizada banhada pelo sol, em vez das paredes cinzentas que o rodeavam. Não conseguia ver quem falava, mas uma voz proferia em inflexão átona:

            - Vá, amigo, toma uma cerveja...

            Por último, a luz apagou-se para sempre.

 

Washington, Junho de 1985

            Quase dois meses exatos depois de receber o primeiro pagamento de cinquenta mil dólares, Aldrich Ames, numa única tarde, destruiu uma parte substancial da Divisão SE do Diretorado de Operações da CIA.

            Pouco antes da hora do almoço, depois de esquadrinhar os 301 processos de material ultra-secreto, transferiu três quilogramas e meio de documentos confidenciais e telegramas correntes para dois sacos de plástico de compras. com eles nas mãos, atravessou os labirínticos corredores em direção ao bloco de elevadores, desceu ao térreo e abriu a porta com seu cartão de identificação para abandonar o edifício, sem que qualquer guarda o interceptasse para perguntar o que continham os sacos. Em seguida, subiu para o seu carro, que se encontrava no vasto parque de estacionamento, e conduziu-o durante os vinte minutos que o separavam de Georgetown, elegante subúrbio de Washington, famoso pelos restaurantes de estilo europeu.

            Entrou no Chadwick’s, bar-restaurante na K Street, quase à beira da água, e encontrou-se com o contacto escolhido para ele pelo coronel Androsov, o qual, na sua qualidade de Residente do KGB, sabia que os olhos vigilantes do FBI não deixariam de vigiá-lo, se comparecesse pessoalmente. O contacto era um diplomata soviético “vulgar” chamado Chuvakhin.

            Ames entregou-lhe o que trouxera, sem sugerir sequer qualquer preço. Quando o recebesse, seria enorme, primeiro de muitos que o tornariam milionário. Os russos, normalmente forretas quando se tratava de dólares correntes, não voltaram a discutir preços daí em diante. Compreenderam que tinham descoberto um filão de ouro.

            Do Chadwick’s, os sacos de plástico seguiram para a embaixada e depois para a sede do Primeiro Diretorado Principal de Yasenevo, onde os analistas esfregaram os olhos de incredulidade.

            A proeza tornou Androsov uma estrela imediata e Ames o “bem” mais vital no firmamento. O comandante-geral do Primeiro Diretorado Principal, Vladimir Kryuchkov, inicialmente um bisbilhoteiro colocado no PDP pelo sempre desconfiado Andropov, mas depois transferido para vôos mais altos, ordenou sem demora a formação de um grupo ultra-secreto para se ocupar exclusivamente do material fornecido por Ames. Este foi batizado com o nome de código Kolokol, que significa Sino, e o pessoal passou a pertencer ao grupo Yolokol.

            Um oficial superior da CIA calculou posteriormente que quarenta e cinco operações anti-KGB, quase todo o menu da CIA, ruíram depois do Verão de 1985. Nenhum agente que figurava nos 301 processos roubados continuou a funcionar, após a Primavera de 1986.

            Nos sacos de compras, havia descrições de catorze, quase todo o conjunto de “bens” da Divisão SE na URSS. Os nomes verdadeiros não estavam incluídos, mas não era necessário. Qualquer detetive da Cl, informado da existência de uma toupeira no interior da sua própria rede de trabalho e de que o homem fora recrutado em Bogotá e depois industriado em Moscou, vislumbraria a situação sem dificuldade. Somente uma carreira se adaptava a essas colocações. O exame dos registros costumava bastar.

            Um dos catorze era na realidade um agente de longa data dos britânicos. Os americanos nunca souberam o seu nome, mas como Londres fornecera o seu material a Langley, a CIA conhecia a sua existência e pôde deduzir mais alguns pormenores. Tratava-se de um coronel do KGB recrutado na Dinamarca no princípio dos anos setenta e fora um “bem” dos ingleses durante doze. Apesar de já se achar sob suspeita, regressara a Moscou do seu posto de Residente na embaixada soviética em Londres para uma última visita. A traição de Ames limitou-se a confirmar as suspeitas russas do coronel Oleg Gordievsky.

            Outro dos catorze teve sorte ou foi esperto. Sergei Bohkan era agente dos serviços secretos militares soviéticos em Atenas e recebeu ordem inesperada para regressar a Moscou, sob o pretexto de que o filho tinha problemas nos exames da Academia Militar. Ora, ele sabia que o rapaz obtinha excelentes resultados nos estudos. Por conseguinte, “perdeu” o avião com destino ao seu país, entrou em contato com o posto da CIA na capital grega e foi levado de lá apressadamente.

            Os outros doze foram todos capturados, na própria URSS ou no estrangeiro. Estes últimos receberam convocações de diversas naturezas, todas falsas, e detidos à chegada. Interrogados intensamente, confessaram, sem uma única exceção. A alternativa consistia num interrogatório ainda mais “intenso”. Dois safaram-se com alguns anos de trabalhos forçados e residem atualmente na América. Os dez restantes foram torturados e executados.

           

            O primeiro ponto da escala de Jack MacDonald, quando desembarcou, no fim da tarde, em Heathrow, foi a sede do SIS, em Vauxhall Cross. Estava cansado, embora tivesse conseguido passar pelas brasas no avião, e a idéia de ir primeiro ao seu clube, a fim de tomar banho e mergulhar num sono reparador era tentadora. O apartamento que ocupava em Londres com a esposa, ainda em Moscou, não se achava disponível, porque fora alugado.

            Ansiava, porém, por guardar a pasta de cartolina preta em lugar seguro, antes de pensar em repousar. O carro oficial que o aguardava no aeroporto deixou-o à entrada do monstro de vidro verde na margem sul do Tamisa, onde o SIS se alojava desde que se mudara da velha e obscura Century House, sete anos atrás.

            Transpôs os sistemas de segurança, acompanhado do novato que fora buscá-lo em Heathrow e, por último, depositou o documento no cofre do chefe da Divisão da Rússia, que o acolheu com cordialidade, mas também alguma curiosidade.

            Uma  bebida,  sugeriu  Jeffrey  Marchbanks,  apontando para aquilo que parecia um arquivo, mas ambos sabiam que continha um bar portátil.

            - Boa idéia. Foi um dia longo e duro. Scotch.

            Abriu o móvel e contemplou o alcoólico repertório, MacDonald era escocês e preferia a mistela dos seus antepassados. Por conseguinte, verteu uma dose dupla de Macallan, sem gelo, e estendeu-a.

            - Sabia que você vinha, evidentemente, mas não o motivo. Conte lá.

            O outro descreveu a história desde o princípio. No final, Marchbanks observou:

            - Deve tratar-se de uma mistificação, sem dúvida. Em todo o caso, é das mais bizarras que ouvi até hoje. De quem?

            - Dos inimigos políticos de Komarov, certamente.

            - E não são poucos. Mas que maneira tão invulgar de apresentá-la!    Quase como se pedissem que jogassem o documento no lixo sem. Foi  por mero acaso que Hugo Gray o descobriu.

            - Bem, o passo seguinte consiste em ler. Já o fez, claro?

            - De ponta a ponta, ontem à noite. Como manifesto político, é...  desagradável.

            - Está em russo, certamente?

            - Exato.

            - Hum... Receio que as minhas noções do idioma não bastem. Precisamos da tradução.

            - Prefiro ser eu próprio a fazê-la - disse MacDonald. - Para o caso de não se tratar de uma mistificação. Compreenderá porquê, quando ler.

            - Muito bem, Jock. Sou todo ouvidos. Que pretende fazer?

            - Primeiro, ir ao clube, para tomar banho, barbear-me, jantar e dormir.  Voltarei lá pela meia-noite e trabalharei no assunto até à hora de abrir a loja. O procurarei então.

            Marctibanks assentiu, com uma inclinação de cabeça.

            - É conveniente que se sirva deste gabinete. Informarei a Segurança.

            Quando regressou, pouco antes das dez horas da manhã seguinte, encontrou MacDonald deitado no sofá, descalço, em mangas de camisa e nó da gravata desatado. A pasta de cartolina preta achava-se em cima da mesa, com um maço de folhas de papel de máquina ao lado.

            - Está tudo aí - informou, endireitando-se. - No idioma de Shakespeare. A propósito, o disquete continua na máquina, mas deve ser retirado e guardado em lugar seguro.

            Marchbank aquiesceu com um gesto, mandou vir café, pôs os óculos e iniciou a leitura. Uma loura esbelta e atraente, cujos pais decerto caçavam raposas, entrou com o café, sorriu e retirou-se.

            De súbito, Marchbanks parou de ler para exclamar:

            - O homem enlouqueceu, sem dúvida!

            - Concordo, se foi Komarov que escreveu isso. É potencialmente perigoso. Mas continue.

            Obedeceu. Quando terminou, encheu os pulmões de ar e expeliu-o com lentidão.

            - Tem de ser uma mistificação. Ninguém que pensasse isso com sinceridade o escreveria.

            - A menos que julgasse que só chegaria ao conhecimento de um número restrito de pessoas de extrema confiança.

            - Acha que foi roubado?

            - É uma possibilidade. Ou forjaram-no. Mas quem era o vagabundo e como se apoderou dele?

            Embrenhou-se em reflexões. Sabia que, se o Manifesto Negro tivesse sido forjado e constituísse uma mistificação, só provocaria dores de cabeça aos serviços, se o encarassem a sério. Por outro lado, se fosse autêntico, as dores de cabeça se intensificariam, se lhe minimizassem a importância.

            - Acho que vou informar disto o controlador e talvez o próprio chefe - acabou por declarar.

            O controlador do Hemisfério Oriental, David Brownlow, recebe-os ao meio-dia e o chefe convidou os três para almoçar na sua sala de jantar do último piso, com vista panorâmica do Tamisa e Ponte Vauxhall, à uma e quinze.

            Sir Henry Combs era quase sexagenário e cumpria o seu último ano como dirigente supremo do SIS. À semelhança dos seus predecessores desde Maurice Oldfield, ascendera ao cargo com períodos de serviço em todas as posições intermédias e aperfeiçoara a perícia e experiência durante a Guerra Fria, que terminara uma década atrás. Ao contrário da CIA, cujos diretores constituíam sempre nomeações políticas e nem sempre indivíduos talhados para essas funções, o SIS conseguira persuadir primeiros-ministros ao longo de trinta anos para escolher um dirigente experiente na matéria.

            E o sistema funcionara satisfatoriamente. Depois de 1985, três diretores sucessivos da Central Intelligence Agency admitiram que pouco lhes tinham revelado da gravidade do caso Ames, da qual se haviam inteirado em larga medida através dos jornais. Ora, Harry Combs contava com a confiança dos subordinados e conhecia todos os detalhes que necessitava saber. E eles estavam cientes da extensão dos seus conhecimentos.

            Leu o documento, enquanto saboreava o licor. Fê-lo rapidamente, mas abarcou todas as implicações.

            - Já deve estar farto de repetir as circunstâncias em que isto lhe foi parar às mãos, Jock, mas só mais uma vez.

            Escutou atentamente as palavras de MacDonald, fez-lhe duas ou três perguntas e inclinou a cabeça.

            - Qual é a sua opinião, Jeffrey?

            Em seguida, voltou-se para Brownlow, e ambos disseram mais ou menos a mesma coisa. Precisavam se inteirar da veracidade daquilo.

            - O que me intriga é o seguinte observou o controlador do Hemisfério Oriental. Se isto faz parte da verdadeira agenda política de Komarov, por que a reduziu a escrito? Todos sabemos  que  até  os  documentos  mais  ultra-secretos   podem ser roubados.

            Os olhos de expressão enganadoramente desinteressada de Sir Henry Coombs voltaram-se de novo para o chefe de posto de Moscou.

            - Ocorre-lhe alguma idéia, Jock? O interpelado encolheu os ombros.

            - Que motivo leva uma pessoa a escrever os seus pensamentos e planos  mais íntimos? Por que confessa o inconfessável às páginas do seu diário? Por que razão as corporações ou serviços importantes como os nossos armazenam material hipersensível? Talvez se destinasse a não passar de um memorando  muito confidencial  para o seu círculo íntimo, ou uma mera terapia para si próprio. Ou uma falsidade destinada a prejudicá-lo. Confesso que não sei.

            - Aí é que bate o ponto - volveu Sir Henry. - Não sabemos. No entanto, creio que, depois de o lermos, estamos de acordo em que precisamos saber. Há  inúmeras  interrogações. Por que cargas d’água o escreveram? Será realmente da autoria de Igor Komarov? É esta assustadora torrente de loucura que tenciona  pôr em prática se, como tudo indica, vier a pegar nas rédeas do poder? Em caso afirmativo, como foi roubado, por quem e por que o lançaram ao regaço, por assim dizer. Ou não passa de um monte de mentiras?

            Fez uma pausa, para mexer o açúcar no café com a colher, ao mesmo tempo que olhava o documento e a tradução com visível desagrado.

            - Lamento, Jock, mas temos de encontrar as respectivas respostas. Até lá, não posso informar as instâncias superiores. Volte para Moscou e sirva-se dos   meios habituais nestes casos. Desconheço quais são, mas sei que você não necessita de lições nesse capítulo.

            O chefe do SIS, como todos os seus predecessores, tinha duas tarefas. Uma era de natureza profissional: dirigir os melhores serviços secretos no interesse da nação da melhor maneira que pudesse. A outra política: manter boas relações com o Comitê dos Serviços Secretos Reunidos, os mandarins dos seus principais clientes, o Ministério dos Assuntos Estrangeiros, nem sempre fáceis de enfrentar, lutar pela obtenção de um orçamento suficiente e cultivar amizades entre os políticos que constituíam o governo. No fundo, tratava-se de uma tarefa multifacetada, imprópria para os espíritos fracos ou insensatos.

            A última coisa que lhe convinha era apresentar uma história rocambolesca de um vagabundo atirando para dentro do carro de uma jovem e inexperiente diplomata um documento agora cheio de impressões digitais que descrevia um programa de crueldade paranóica que podia ou não ser autêntico. Sabia perfeitamente que o queimariam vivo.

            - Regressarei esta tarde, chefe.

            - Também, não há assim tanta pressa, Jock. Vá a um espectáculo noturno e mantenha-se oito horas na cama. Siga para a terra dos cossacos no primeiro avião da manhã. - Consultou o relógio. - Vão desculpar-me, mas...

            Os três homens desfilaram em direção à saída. MacDonald não chegou a ir ao cinema, nem dormir oito horas. Havia uma mensagem no gabinete de Marchbanks, recém-chegada da seção de decodificação. O apartamento de Célia Stone fora virado do avesso. Quando chegara, depois de jantar, interrompera a sinistra tarefa de dois homens mascarados, que a atingiram com o pé de uma cadeira. Encontrava-se hospitalizada, mas livre de perigo.

            Marchands estendeu a tira de papel a MacDonald, que a leu.

            - Merda...  grunhiu.

 

Washington, Julho de 1985

            A informação, quando chegou, era oblíqua, como costuma acontecer no mundo da espionagem, em terceira mão e possivelmente uma fonte total de perda de tempo.

            Um voluntário americano, que trabalhava num programa de auxílio da UNICEF na pouco convidativa república marxista-leninista do Iémen do Sul, regressou a Nova Iorque em gozo de férias e jantou com um antigo companheiro de estudos que prestava serviço no FBI.

            Referindo-se ao enorme programa de auxílio soviético oferecido àquela república por Moscou, o funcionário das Nações Unidas descreveu um serão no bar do Rock Hotel de Adem, em que entabulara conversa com um major do exército russo.

            À semelhança de muitos compatriotas aí colocados, este último não falava virtualmente árabe, mas comunicava com os habitantes locais, cidadãos de uma antiga colônia britânica, em inglês. O americano, ciente da impopularidade dos Estados Unidos no Iémen do Sul, costumava intitular-se suíço. E procedeu do mesmo modo com o soviético.

            O homem, cada vez mais etilizado e fora do campo auditivo de qualquer compatriota, enveredou por uma violenta denúncia do governo do seu país, acusando-o de corrupção maciça, esbanjamento criminoso dos recursos e indiferente às necessidades do seu povo, nos esforços para ajudar o Terceiro Mundo. Uma vez liberto da revelação à mesa do jantar, o funcionário da UNICEF teria esquecido o que dissera, se o agente do FBI não mencionasse o assunto a um amigo da delegação da CIA em Nova Iorque.

            Depois de trocar impressões com o chefe, o membro da agência combinou um segundo jantar com o funcionário das Nações Unidas, durante o qual o vinho jorrou copiosamente. Para se tornar provocatório, o homem da CIA lamentou que os russos desenvolvessem esforços extraordinários para cimentar amizades com as nações do Terceiro Mundo, sobretudo do Oriente Medio.

            Ansioso por demonstrar os seus conhecimentos superiores na matéria, o outro alegou que não era bem assim, pois tinha motivos para afirmar que os soviéticos detestavam os árabes e se exasperavam com a sua incapacidade para dominar a tecnologia mais simples e tendência para danificar ou destruir tudo o que lhes entregavam para brincar.

            - O país de onde venho, por exemplo...exemplificou. No final do jantar, o agente da CIA tinha a imagem de um numeroso grupo de conselheiros militares, cujos membros estavam à beira do auge da frustração e não descortinavam o menor motivo para a sua presença na República do Iémen do Sul. E também recolheu a descrição de um major seriamente revoltado: alto, musculoso, de traços fisionômicos algo orientais. E um nome: Salomin.

            O relatório regressou a Langley e foi depositado em cima da mesa do chefe da Divisão SE, que discutiu o conteúdo com Carey Jordan.

            - Tanto pode não ser nada como uma coisa perigosa - disse o DDO a Jason Monk, três dias mais tarde. - Acha que pode dar um pulo ao Iémen do Sul para ter uma conversa com o major Salomin?

            Monk consultou demoradamente os peritos sobre o Médio Oriente e não tardou a compreender que o Iémen do Sul era um osso duro de roer. O governo local, (enamorado ardentemente por Moscou) detestava profundamente os Estados Unidos. Apesar disso, havia uma comunidade estrangeira surpreendentemente numerosa, além da russa.

            Embora tivessem abandonado o país na sua quase totalidade, em 1976, haviam regressado em força. Os agentes da Corça colaboravam na angariação de auxílio estrangeiro. De La Rue imprimia notas de banco e a Tootal construía uma fábrica têxtil. Por seu turno, a Massey Ferguson dirigia uma operação de tratores e a Costain uma fábrica de bolachas no subúrbio de Shaykh “Uthmán”, onde outrora os pára-quedistas britânicos estavam envolvidos numa nova fonte de abastecimento de água potável, enquanto a organização de caridade da mesma origem, “Salvemos as Crianças”, fornecia medicamentos, juntamente com a francesa denominada Médecins sans Frontières.

            Tudo isto fazia com que as Nações Unidas tivessem a seu cargo as operações: a FAO ajudava a agricultura, a UNICEF as crianças da rua e a WHO ocupava-se de projetos de saúde.

            Por muito bem que uma pessoa fale um idioma estrangeiro, é difícil fazer-se passar por súdito dessa nação e, inesperadamente, ter de enfrentar um cidadão autêntico de lá. Monk decidiu evitar fingir-se inglês, porque qualquer pessoa natural da Grã-Bretanha notaria a diferença em dois minutos. E o mesmo se aplicava à nacionalidade francesa.

            Mas os Estados Unidos eram o principal contribuinte financeiro das Nações Unidas e tinham influência, aberta e encoberta, em numerosas agências. Uma investigação rápida revelou-lhe que não havia qualquer espanhol na missão da Alimentação e Agricultura em Adem. Foi criada uma nova personagem e ficou discretamente assente que Monk seguiria para o Iémen do Sul em Outubro, munido de um visto para um mês, como inspetor visitante da sede da FAO em Roma, a fim de se inteirar dos progressos realizados. Segundo a documentação, se chamaria Estéban Martinez. Em Madrid, o ainda grato governo espanhol forneceu os elementos autenticados necessários.

           

            Jock MacDonald chegou muito tarde para visitar Célia Stone no hospital, mas compareceu lá na manhã seguinte, 20 de Julho. Ela estava coberta de ligaduras e ainda aturdida, mas em condições de falar. Regressara a casa à hora habitual e não percebera que alguém a seguisse, mas não possuía treino de poder elucidar a esse respeito.

            Depois de permanecer três horas no apartamento, saíra para jantar com uma amiga da embaixada canadense e voltara por volta das onze e meia. Os intrusos decerto a ouviram introduzir a chave na fechadura, porque imperava silêncio absoluto quando entrou. Acendeu a luz do vestíbulo e reparou que a porta da sala se encontrava aberta e o aposento às escuras, o que lhe pareceu estranho, pois deixara a luminária acesa. As janelas davam para o pátio central, e o clarão atrás dos cortinados indicaria que havia alguém em casa. Supôs, portanto, que a lâmpada se fundira.

            Quando assomou à entrada da sala, dois vultos emergiram da escuridão e caíram-lhe virtualmente em cima. Um brandiu um objeto impossível de identificar e atingiu-a na cabeça. Célia caiu desamparada, mas percebeu que eles saltavam por cima do seu corpo e corriam para a saída do apartamento. No momento imediato, perdeu os sentidos. Quando regressou ao mundo não sabia quanto tempo depois, arrastou-se até ao telefone e ligou a uma vizinha. A isto se resumia o que podia revelar.

            MacDonald visitou em seguida o apartamento. O embaixador protestara junto do Ministério dos Assuntos Estrangeiros, que se insurgira e queixara ao do Interior, após o que foi decidido ordenar ao gabinete da Promotoria de Moscou que enviasse ao local o seu melhor investigador. Seria apresentado um relatório circunstanciado o mais depressa possível. Na capital russa, isso equivalia a recomendar que não contivessem a respiração até que tal acontecesse.

            A mensagem que seguira para Londres continha uma imprecisão. Célia Stone não fora atingida com o pé de uma cadeira, mas com uma pequena estatueta de porcelana, que se fragmentara. Se fosse um objeto metálico, talvez não tivesse sobrevivido.

            Ainda havia detetives russos no apartamento, os quais não manifestaram a menor relutância em responder às perguntas do diplomata britânico. Os dois milicianos de guarda à barreira de acesso ao pátio não tinham admitido qualquer veículo com matrícula do país, pelo que os intrusos deviam ter chegado a pé. No entanto, eles juraram que ninguém passara por ali, e MacDonald refletiu que, de qualquer modo, não diriam outra coisa.

            Como a porta não fora forçada, decerto tinham recorrido a algum instrumento para manipular a fechadura, a menos que dispusessem de uma chave, o que parecia pouco provável. Decerto procuravam dinheiro, naqueles tempos difíceis. No entanto, ele admitia intimamente a possibilidade de ter sido obra dos Guardas Negros, mas achava mais provável que se tratava de um trabalho contratado relacionado com o submundo do crime.

            De volta à embaixada, acudiu-lhe uma idéia e telefonou ao gabinete da Promotoria, para solicitar que o detetive incumbido do caso se pusesse em contacto com ele. O inspetor Chernov procurou-o às três da tarde.

            - Talvez possa ajudar - disse MacDonald. O homem ergueu uma sobrancelha.

            - Ficaria muito grato.

            - Miss Stone, a vítima do assalto, sentia-se muito melhor, esta manhã.

            - Excelente.

            - A ponto que pôde fornecer uma descrição razoável de um dos agressores. Viu-o à luz do vestíbulo pouco antes de a atingir.

            - Segundo as declarações que prestou, não conseguiu ver qualquer dos dois - recordou Chernov.

            - A memória às vezes regressa gradualmente, em casos destes. Falou com ela ontem à tarde, inspetor?

            - Sim, por volta das quatro. Estava consciente.

            - Mas ainda aturdida, suponho. Esta manhã, tinha as idéias muito mais  claras. Ora, uma das nossas funcionárias pode considerar-se uma artista e, com a ajuda de Miss Stone, conseguiu criar uma espécie de retrato.

            MacDonald pousou na mesa, diante de Chernov, uma folha de papel com um rosto a lápis e carvão, e a expressão deste último iluminou-se.

            Isso nos será  extremamente útil. Vou pô-lo a circular na  Brigada  de  Anti-roubo. Um homem desta idade deve ter cadastro. E levantou-se para sair.

            MacDonald imitou-o.

            - Tive muito prazer em lhe ser útil.

            Os dois homens apertaram a mão e o detetive retirou-se.

            Durante o período do almoço, Célia Stone e a desenhista haviam sido informadas da nova versão e, embora não compreendessem o motivo, concordaram em confirmá-la, se o inspetor Chernov as procurasse. No entanto, não o fez.

            E as equipes da Brigada Anti-roubo, também não conseguiram identificar o rosto desenhado. Não obstante, afixaram o desenho nos quadros das diferentes esquadras.

 

Moscou, Julho de 1985

            Na sequência do excelente material fornecido por Aldrieh Ames, o KGB fez algo de muito extraordinário.

            Segundo uma regra inviolável existente no Grande Jogo, se uma agência adquire subitamente um “bem” inestimável alojado no coração do inimigo, deve ser protegido. Assim, quando esse “bem” denuncia uma horda de vira-casacas, a recém-elucidada agência trata de capturá-los, lenta e cautelosamente, criando um motivo aparentemente diferente em cada caso.

            Somente quando o “bem” se afastou do perigo e se encontra atrás das linhas de fogo, os agentes que traiu podem ser neutralizados imediatamente. Proceder de outro modo equivaleria a mandar publicar na primeira página do New York Times um anúncio do seguinte teor: “Prestem atenção! Acabamos de recrutar uma importante toupeira no seio da sua organização, e vejam o que nos ofereceu!”

            Como Ames ainda se encontrava bem no íntimo da CIA e poderia continuar a fornecer informações valiosas durante muitos anos, o Primeiro Diretorado Principal teria gostado de obedecer a essa regra e capturar os catorze vira-casacas lenta e meticulosamente. No entanto, foi obrigado a renunciar a semelhante intenção, apesar dos seus protestos quase lacrimosos, por Mikhail Gorbachev.

            Ao analisar o material proveniente de Washington, o Grupo Kolokol reconheceu que algumas das descrições eram imediatamente identificáveis, enquanto outras exigiriam esforços mais profundos para serem isoladas. Dos “imediatos”, alguns ainda estavam colocados no estrangeiro e necessitariam ser atraídos à base com a maior cautela, para que não transpirasse a mínima suspeita da convocação. O que poderia demorar meses.

            A segunda decisão tomada consistia em não envolver os seus rivais  os membros do Segundo Diretorado Principal. Acostumados a atuar no estrangeiro, não perceberam que estariam seriamente deslocados nas ruas de Moscou.

            Por fim, foi decidido que principiariam pelo agente “britânico”, coronel Oleg Gordievsky. Atualmente, estava sob suspeita, como resultado de anos de paciente trabalho detetivesco. A descrição de Ames de um oficial do KGB com a patente de coronel acabado de regressar a Moscou ajustava-se como uma luva e confirmava a sua culpabilidade, e o Primeiro Diretorado Principal mandou vigiá-lo, em regra uma especialidade do Segundo Diretorado. O resultado cifrou-se num fiasco.

            Gordievsky não era um imbecil e sabia que tinha os dias contados. Compreendia que não devia ter regressado à pátria, mas, ao invés, aceitado as ofertas urgentes dos seus amigos em Londres para ficar lá e desertar de fato como, doze anos atrás, o fizera em espírito.

            Havia uma forma de proceder que os britânicos lhe tinham indicado, uma maneira de dizer, mesmo sob vigilância: “Estou em apuros. Preciso de ajuda.” Utilizou-a, e a mensagem chegou ao seu destino. O SIS concebeu um plano para lhe acudir, mas precisava da colaboração da embaixada. Todavia, o embaixador britânico apoiado pelo Ministério dos Assuntos Estrangeiros, nem quis ouvir falar no assunto.

            O então chefe do SIS empregou a sua prerrogativa para solicitar e obter uma reunião secreta com a Primeira-Ministra, à qual expôs o problema.

            Curiosamente, Mrs. Thatcher recordava-se de Gordievsky. No ano anterior, Mikhail Gorbachev, antes de ser nomeado para a presidência, visitara Londres e impressionaram favoravelmente. Sentado ao lado dele como intérprete, encontrava-se um diplomata da embaixada soviética: Oleg Gordievsky. Embora então ela não fizesse a menor idéia que o coronel trabalhava para o Governo britânico, surpreendeu-a que a reprodução dos pensamentos privados de Gorbachev fosse tão rigorosamente exata, Gordievsky transmitira-os durante a noite.

            Agora, levantou-se da mesa, com um clarão intenso nos olhos azuis por vezes de uma candura infantil.

            - Com certeza que temos de livrá-lo de apuros - decidiu. - É um homem corajoso e dos nossos.

            Em menos de uma hora, o secretário dos Assuntos Estrangeiros e o embaixador foram ignorados. Na manhã de 19 de Julho, o portão da embaixada abriu-se, para dar passagem a vários carros, um após outro. Os vigilantes do KGB ficaram abismados e apressaram-se a segui-los, mas descobriram que tomavam rumos diferentes. Quando a área ficou desimpedida, emergiram dois Ford Transit idênticos, que ninguém seguiu. Um diminuiu a velocidade junto de Gordievsky, que se dedicava ao habitual jogging matinal, e uma voz indicou: “Suba, Oleg.” O coronel não hesitou em transpor a porta aberta convidativamente.

            Atrás dele, as duas “sombras” do Primeiro Diretorado Principal chamaram o motorista do seu carro de apoio, que os recolheu com prontidão.

            O “rapto” fora executado propositadamente perto de uma esquina, do outro lado da qual o furgão desapareceu. A seguir, entrou velozmente numa artéria transversal. O duplicado afastou-se do passeio e, quando os russos surgiram trataram de o seguir, convencidos que era o mesmo veículo. A perseguição prolongou-se por vários quilômetros. Por fim, foi alcançado e detido, mas só continha legumes para a embaixada. A Ford Transit que transportava Gordievsky encontrava-se em segurança.

            Aí, uma equipe  de mecânicos do Exército estivera trabalhando num longo Land Rover, para criar um estreito compartimento sob o eixo de transmissão. O russo foi acomodado o melhor possível no exíguo espaço e, dois dias depois, o veículo partia para a Finlândia. Foi interceptado e revistado no lado soviético da fronteira finlandesa, apesar do protocolo diplomático, sem que descobrissem nada de suspeito. Uma hora mais tarde, nas entranhas das florestas do país, o combalido e quase inteiriçado coronel russo era retirado da prisão temporária e conduzido a Helsínquia.

            A notícia transpirou alguns dias depois. O Ministro dos Assuntos Estrangeiros soviético protestou junto do embaixador britânico, o qual conservou a calma e replicou que não fazia a menor idéia do que referia.

            Transcorridos poucos meses, Gordievsky encontrava-se em Washington e revelava o que sabia à CIA. Entre os agentes que o interrogaram, sorrindo intimamente, achava-se Aldrich Ames. Que sabiam os russos sobre um traidor americano? Afortunadamente para ele, a resposta do coronel resumiu-se a “Nada”. Na realidade, ninguém sabia coisa alguma a esse respeito.

           

            Jeffrey Marchbanks julgava que talvez houvesse uma maneira de poder ajudar o seu colega em Moscou nas pesquisas para determinar a autenticidade  ou ausência dela  do Manifesto Negro.

            Um dos problemas de MacDonald consistia em que não dispunha de qualquer meio razoável de acesso a Igor Komarov, Assim, Marchbanks calculava que uma entrevista pessoal com o líder da União das Forças Patrióticas poderia fornecer-lhe algum indício sobre se o homem que se intitulava de direita conservadora e nacionalista ocultava sob esse verniz as ambições de um nazi implacável.

            E acreditava que conhecia alguém capaz de lhe conseguir a entrevista. No Inverno anterior, participava numa caçada aos faisões e, entre os convidados, encontrava-se o recentemente nomeado editor do principal jornal diário conservador da Grã-Bretanha. A 21 de Julho, Marchbanks telefonou-lhe, aludiu ao local em que se haviam conhecido e combinaram almoçar juntos no dia seguinte no seu clube, em St. James’s.

 

Moscou, Julho de 1985

            A fuga de Gordievsky suscitou profunda agitação em Moscou, que se concentrou, no último dia do mês, no gabinete do terceiro piso da sede do KGB, na Praça Dzerzhinsky, do presidente daquela organização.

            Era uma sala algo sombria que outrora servira de covil de alguns dos monstros mais sanguinários que o planeta jamais conheceu. Ocupara-o Yagoda, assim como Yezhov, para, em cumprimento de ordens de Stalin, inundar o solo da Rússia com o sangue de milhões de pessoas. Seguira-se Beria, o pedófilo psicopático, com Serov, Semichastny e o recentemente falecido Yuri Andropov, que se aguentou no cargo muito mais tempo que os restantes  quinze anos, de 1963 a 1978.

            Haviam sido assinadas ordens na secretária em forma de “T” que obrigaram homens a uivar sob o efeito de torturas, morrer de hipotermia nas regiões desérticas da Sibéria ou tombar num sombrio pátio, com balas de pistola alojadas no cérebro.

            O general Viktor Chebrikov já não dispunha de poderes dessa natureza. As coisas estavam mudando e as ordens de execução tinham de ser aprovadas pelo próprio presidente. Todavia, no caso dos traidores, ainda eram homologadas, e a reunião daquele dia tinha como objetivo a assinatura de outras.

            Imerso numa atitude defensiva perante a mesa do superior, encontrava-se o chefe do Primeiro Diretorado Principal, Vladimir Krychkov, cujos homens eram responsáveis de erros imperdoáveis. Em posição ofensiva, achava-se o dirigente do Segundo Diretorado Principal, o atarracado e largo de ombros, quase taurinos, general Vitali Boyarov, no momento enfurecido.

            - Foi tudo um desastre... razebaistvo! -  vociferou. Mesmo entre generais, a linguagem de caserna era muito corrente, prova de grosseria soldadesca e origens proletárias. O termo significa “fodido”.

            - Não voltará acontecendo - prometeu vagamente Kryuchkov.

            - Assentemos numa estrutura da qual não devemos nos desviar - sugeriu o superior. - No território soberano da URSS, os traidores serão presos e interrogados pelo Segundo Diretorado Principal. Se tornar a haver traidores identificados, é o que acontecerá. Entendido?

            - Haverá mais - murmurou Kryuchkov. - Treze.

            Seguiu-se um silêncio de vários segundos.

            - Pretende revelar-nos alguma coisa, Vladimir Aleksandrovicht? - perguntou   o  superior, com uma brandura pouco tranquilizadora.

            Foi então que o interpelado explicou o que tinha acontecido no Chadwick’s, em Washington, seis semanas atrás, e Boyarov assobiou em surdina.

            - Que está fazendo a esse respeito? - inquiriu Chebrikov.

            - Incumbi uma força especial de manipular o produto. Um a um, os seus membros estão apresentando as identidades de catorze  homens...  bem, agora  treze... que trabalham para a CIA. Todos russos. Alguns talvez tardem mais  tempo a ser identificados que outros.

            O general Chebrikov tomou as medidas necessárias naquele mesmo dia. O Grupo Kolokol de Yazenevo analisaria o produto. Era assunto para os serviços secretos do estrangeiro. Mas assim que um traidor fosse identificado, o nome seria comunicado à comissão Krysolov (caça-ratos), para detenção e interrogatório. O Segundo Diretorado Principal procederia à detenção e os agentes do Primeiro teriam de assistir às sessões de interrogatório, para indicarem o tipo de perguntas a fazer e as respostas que necessitavam.

            A detenção e alojamento seriam decididos pelo Segundo Diretorado Principal, e qualquer relutância em responder às perguntas ou confessar receberia o tratamento habitual.

            Em menos de uma semana, o general Chebrikov, impressionado com o êxito da sua agência, revelou tudo a Mikhail Gorbachev. A reação produzida surpreendeu-o. Longe de se mostrar encantado com o bom resultado de um dos maiores coup de espionagem contra os americanos, o novo presidente, nomeado em Março último, estava horrorizado com a extensão e nível da penetração da CIA, na sociedade soviética e, sobretudo, com os dois ramos dos serviços secretos: o KGB e a agência militar, ou GRU.

            Ignorando as súplicas do KGB para recorrer a medidas prudentes, ordenou que todos os agentes denunciados por Aldrich Ames fossem detidos imediatamente, ou o mais depressa possível.

            Em Yazenevo, o idoso general que dirigiu o Grupo Kolokol, antigo chefe do Diretorado de Ilegais, Yuri Drozdov, depreendeu que isso significava que Ames estava arrumado. com uma revoada de detenções tão numerosa dos seus agentes, Langley decerto concluiria que eles dispunham de uma toupeira, investigariam e a descobririam. Contudo, ante o seu profundo assombro, tal não aconteceu.

            Entretanto, o general Boyarov preparava a sua comissão caçadora de ratos, que interrogaria os traidores à medida que fossem identificados e presos. Para dirigir a equipe, queria alguém muito especial. O processo do indivíduo em causa achava-se em cima da sua mesa: um coronel de apenas quarenta anos, mas experiente, um interrogador que nunca falhava. Consultou as páginas mais uma vez.

            Nascido em 1945 em Molotov, anteriormente chamada Perm e agora de novo, desde que o sicário de Estalirve, Molotov, caíra em desgraça, em 1957, era filho de um militar condecorado que sobrevivera à guerra e regressara a casa para conceber um descendente.

            O pequeno Toyla cresceu sob rigorosa doutrinação oficial, na cinzenta cidade do norte. Os elementos compilados recordavam que o seu fanático pai detestava Khrushchev por criticar o herói Stalin, e o rapaz herdara e ampliara todas as atitudes do progenitor.

            Em 1963, fora recrutado aos dezoito anos e colocado nas tropas do Ministério do Interior, MVD, destinadas a proteger as prisões, campos de trabalho e centros de detenção e utilizadas como forças antimotim. O jovem soldado afeiçoara-se às suas funções como peixe na água.

            Nessas unidades, prevalecia o espírito da repressão e controle de massas. Toyla comportou-se tão satisfatoriamente que recebeu uma recompensa rara  transferência para o Instituto de Línguas Estrangeiras de Leningrado. Tratava-se da capa da academia de treino do KGB, conhecida na agência por Kormushka (manjedoura), porque fornecia constantemente carne para canhão às fileiras do exército. Os seus graduados distinguiam-se pela crueldade, dedicação e lealdade. O jovem tornou a salientar-se e foi de novo recompensado.

            Desta vez, foi a colocação no ramo do Moska Oblast (cidade e região) do Segundo Diretorado Principal, onde passou quatro anos e conquistou excelente reputação como investigador e interrogador implacável. Na verdade, de tal modo se especializou em interrogar, que escreveu um importante ensaio sobre a matéria, o qual lhe proporcionou a transferência para a sede nacional do Segundo Diretorado Principal.

            Desde então, não voltara a sair de Moscou, trabalhando sobretudo contra os odiados americanos e mandando vigiar a sua embaixada e seguir o pessoal diplomático. Nesse lapso de tempo, passou um ano no serviço de investigação, antes de regressar ao Segundo DP. Os seus superiores e instrutores não tinham perdido a oportunidade para anotar no seu processo o ódio apaixonado aos anglo-americanos, judeus, espiões e traidores, além de um inexplicável, embora aceitável, nível de sadismo nos interrogatórios a que procedia.

            O general Boyairok fechou a pasta de cartolina na sua frente e esboçou um sorriso. Era aquele o seu homem. Se queriam resultados rápidos, o coronel Anatoli Grishin reunia todos os requisitos necessários.

 

            Mais ou menos a meio da St. James Street, há um edifício cinzento anônimo, com uma porta azul e algumas plantas envasadas à entrada. Não exibe qualquer nome. Quem sabe o que é e onde se situa não tem dificuldade em o localizar; os outros são aqueles que não têm convite para entrar e passam ao largo. O Brook’s Club não faz propaganda da sua existência.

            Constitui, porém, o refúgio favorito dos funcionários de Whitehall, não longe dali. Foi naquele local que Jeffrey Marchbanks se encontrou com o editor do Daily Telegraph para almoçar, a 22 de Julho.

            Brian Worthing tinha quarenta e oito anos e havia vinte que exercia as funções de jornalista, quando, dois anos atrás, o proprietário canadense, Conrad Black, o arrancara do Times para preencher a vaga de editor. Os antecedentes profissionais de Worthing consistiam primordialmente em correspondente no estrangeiro e de guerra. Assim, cobrira a Guerra das Malvinas, a primeira a sério em que trabalhara, e, mais tarde, a do Golfo.

            Marchbanks reservara uma mesa pequena a um canto, suficientemente afastada das outras para eles poderem conversar sem serem escutados.

            - Julgo que referi, em Spurnal, que trabalhava no Ministério dos Assuntos Estrangeiros - começou ele, enquanto saboreavam o cocktail de camarão.

            - Acho que sim - admitiu Worthing.

            Na realidade, hesitara antes de aceitar o convite. O seu dia de trabalho prolongava-se sempre das dez da manhã até depois do pôr-do-Sol e, se consagrava duas horas ao almoço três, se contasse a viagem de ida e volta de Canary Wharf ao West End nos dois sentidos, esperava que valesse a pena.

            - Na verdade, trabalho em outro edifício mais abaixo no rio e na margem oposta - acrescentou Marchbanks.

            - Ah... - limitou-se o editor a articular, pois sabia tudo o que se passava em Vauxhall Cross, embora nunca tivesse entrado. Afinal, o almoço talvez produzisse alguns frutos.

            - A minha principal preocupação é a Rússia.

            - Não o invejo - declarou, levando o copo aos lábios. - Parece-me uma   espécie de visita ao inferno num cesto de mão.

            - Mais ou menos. Desde a morte de Cherkassov, a perspectiva imediata parece ser as próximas eleições presidenciais.

            Os dois homens conservaram-se silenciosos, enquanto a jovem empregada de mesa servia as costeletas de cordeiro e legumes, com uma garrafa de clarete da casa, na qual Marchbanks se apressou a pegar para encher os copos.

            - Uma conclusão indiscutível - observou Worthing.

            - É precisamente a nossa opinião. O recrudescimento do comunismo acentuou-se ao longo dos anos, e os  reformistas estão fulos. Parece  não  haver  nada que possa impedir Igor Komarov de assumir a presidência.

            - Isso será mau? No último artigo que li a seu respeito, pareceu-me que se   exprimia com alguma sensatez. Recuperação do valor da moeda, interromper a tendência para o caos, fazer a vida negra aos mafiosos... Coisas do gênero.

            Orgulhava-se de ser uma pessoa de linguagem direta e costumava exprimir-se em frases diretas, sem floreados.

            - Pois, parece uma perspectiva maravilhosa. Mas continua a ser um homem enigmático. Que pensa realmente fazer? Como, especificamente,  tenciona pô-lo em prática? Diz que detesta os créditos estrangeiros, mas como espera poder prescindir deles? E, mais importante, tentará pôr termo às dívidas do país pagando com rublos sem valor?

            - Não se atreveria. - Sabia que o Telegraph tinha um correspondente residente em Moscou, mas havia algum tempo que não lhe passava pelas mãos qualquer peça sobre Komarov.

            - Parece-lhe? - replicou MarChbanks. - Não sabemos. Alguns dos seus discursos são muito extremistas, embora nas conversas informais convença os interlocutores que não é um papão. Qual será a sua verdadeira personalidade?

            - Posso incumbir nosso enviado em Moscou de lhe solicitar uma entrevista.

            - Duvido que a concedesse. Creio que todos os correspondentes  residentes efetuam a mesma tentativa com regularidade. Ele só as dá muito raramente e manifesta aversão à Imprensa estrangeira.

            - Então, como consegue uma pessoa aproximar-se dele?

            - Tem um jovem conselheiro de publicidade cujas indicações escuta atentamente. Boris Kuznetsov. Um rapaz inteligente, educado numa importante   universidade dos Estados Unidos. Se existe um caminho de acesso, é ele. Sabemos que lê a Imprensa ocidental todos os dias e gosta em particular dos artigos do seu Jefferson.

            Mark Jefferson era um colaborador regular do Telegraph, com artigos de análise política, doméstica e estrangeira, excelente polemista e conservador ferrenho.

            - É uma idéia - concordou Worthing, após uma pausa.

            - Os correspondentes residentes em Moscou são aos montes - prosseguiu Marchbanks, entusiasmando-se. - Mas um articulista famoso interessado em traçar um retrato minucioso do futuro dirigente da nação talvez constitua o engodo ideal.

            O editor refletiu por um momento.

            - Ou publicar peças dessa natureza sobre os três candidatos acabou por  sugerir. Para manter uma espécie de equilíbrio.

            - Não  está  mal  pensado - concedeu  o outro, que intimamente discordava. - No entanto, Komarov é quem fascina o povo, de uma maneira ou de outra. Os rivais são zeros à esquerda. Vamos tomar o café lá em cima?

            - A idéia não é má - reconheceu Worthing, depois de se sentarem na sala do primeiro piso, diante do retrato dos Diletantes. - Devidamente impressionado com a sua preocupação acerca da nossa capacidade de circulação, que pretende que lhe pergunte?

            Marchbanks sorriu ante a franqueza do interlocutor.

            - De fato, gostaríamos de nos inteirar de algumas coisas para satisfazer o apetite dos nossos superiores. De preferência, que não figurassem no artigo. Eles sabem ler o Telegraph e fazem-no. Quais são as verdadeiras intenções do   homem? E quanto aos grupos étnicos minoritários? São dez milhões, e Komarov um russo supremacista. Como pretende levar a cabo o renascimento da glória da nação? Numa palavra, ele é uma máscara. Que há por trás dela? Existe uma agenda secreta?

            - Se existe, por que o revelaria a Jefferson? - argumentou Worthing.

            - Nunca se sabe. Há homens que se deixam arrastar pelo entusiasmo.

            - Como se contacta com esse Kuznetsov?

            - O  seu homem em Moscou deve sabê-lo. Suponho que uma carta  pessoal de Jefferson terá bom acolhimento.

            - Muito bem - acedeu, enquanto desciam a ampla escadaria em direção ao átrio. - Estou vislumbrando as manchetes de primeira página. É uma perspectiva aliciante. Se o homem tiver alguma coisa de importância para dizer. Tratarei de contactar com a nossa delegação em Moscou.

            - Se Jefferson obtiver a entrevista, gostaria de falar com ele depois.

            - Olhe que não se deixa levar com duas cantigas.

            - Serei suave como o azeite - prometeu Marchbanks.

            Separaram-se no passeio. O motorista de Worthing avistou-o e abandonou o espaço de estacionamento ilegal para o recolher. Quanto a Marchbanks, decidiu seguir a pé para digerir o excelente almoço.

 

Washington, Setembro de 1985

            Antes de começar a espiar, em 1984, Ames concorrera ao cargo de chefe do Ramo Soviético no importante posto da CIA em Roma. Em Setembro do ano seguinte, inteirou-se que o conseguira.

            O que o colocava perante um dilema. Ignorava então que o KGB o faria correr grande perigo, ainda que involuntariamente, ao mandar regressar à base com prontidão todos os homens que ele denunciara.

            O novo cargo em Roma o afastaria de Langley e do acesso aos 301 processos e do Ramo Soviético do grupo de contra-espionagem adstrito à Divisão SE. Por outro lado, a capital italiana era um lugar atraente para viver. Por fim, consultou os russos.

            A sua atitude foi de aprovação. De qualquer modo, tinham meses de investigações, detenções e interrogatórios à sua frente. Era tão abundante a colheita que Ames lhes facultara e, por razões de segurança, tão reduzido o Grupo Kolokol incumbido da análise desse material em Moscou, que a tarefa poderia durar anos.

            Para o lapso de tempo intermédio, ele proporcionara muito mais. Entre as suas remessas secundárias e terciárias ao diplomata soviético Chuvakhin, havia material sobre quase todos os agentes de relevo em Langley, o que permitia ao KGB identificá-los onde quer que se apresentassem.

            Além disso, os russos calculavam que, em Roma, um dos lugares-chaves da Divisão Européia, Ames teria acesso a todas as operações da CIA e colaborações com os seus aliados ao longo do Mediterrâneo, de Espanha à Grécia, área de interesse vital para Moscou.

            Finalmente, sabiam que podiam ter acesso muito mais fácil ao seu homem naquela cidade italiana do que em Washington, onde havia sempre o perigo de o FBI surpreender um dos seus encontros. Por conseguinte, incitaram-no a aceitar a nomeação.

            Assim, naquele mesmo Setembro, Ames matriculou-se num colégio de línguas para aprender italiano.

            Em Langley, o verdadeiro impacto da catástrofe na iminência de eclodir ainda não começara a desenhar-se. Dois ou três dos seus melhores agentes na Rússia tinham deixado de estabelecer contato, fato na verdade preocupante, porém não calamitoso.

            Entre os processos pessoais que Ames fornecera ao KGB, figurava o de um jovem acabado de transferir para a Divisão SE, para o qual ele chamava a atenção, por ser considerado uma estrela em rápida ascensão. Chamava-se Jason Monk.

            Havia anos que o velho Gennady ia apanhar cogumelos naquele bosque. Na aposentadoria, utilizava esse produto gratuito da Natureza como suplemento da sua pensão, quer vendendo-os crus aos melhores restaurantes de Moscou, quer secando-os para as poucas charcuterias que restavam.

           Há, todavia, a necessidade de quem os apanha se levantar cedo, de preferência antes da alvorada. Desenvolvem-se durante a noite e, quando surgem os primeiros clarões do dia, as ratazanas ou os esquilos devoram-nos ou, ainda pior, desaparecem nas sacolas de outros apanhadores de cogumelos.

            Na madrugada de 24 de Julho, Gennady, pegou a bicicleta e, com o seu cão, pedalou da pequena localidade em que vivia na direção de um bosque onde sabia que abundavam, com a esperança de encher a sacola antes do orvalho se evaporar.

            O bosque situava-se ao longo da auto-estrada de Mins, na qual rolavam os pesados caminhões, rumo à capital de Belarus. Em seguida, apoiou a bicicleta em uma árvore, com a sacola quase cheia e o Sol a despontar no horizonte, o cão começou a ganir em surdina e aproximou-se de um grupo de arbustos. Como o treinara para farejar cogumelos, Gennady depreendeu que localizara mais algum.

            À medida que se aproximava, acudiu-lhe às narinas um odor nauseabundo, que identificou sem hesitar. Notara-o numerosas vezes, anos atrás, na adolescência, do Vistula até Berlim, quando era militar.

            O corpo fora largado ali ou rastejara até ao local e morrera. Era de um homem quase esquelético, visivelmente maltratado. Os olhos tinham sido devorados pelas aves e gotas de orvalho acentuavam o brilho de três dentes de aço. Achava-se de tronco nu, mas havia um capote andrajoso amontoado nas cercanias. Gennady encheu os pulmões de ar e calculou que, pelo calor que fazia, devia haver vários dias que se encontrava ali.

            Ponderou a situação durante alguns momentos. Pertencia à geração dos que não ignoravam o dever cívico, mas tinha de se preocupar com os cogumelos, e ninguém podia fazer nada pelo pobre homem. A uma centena de metros de distância, rolavam os caminhões de Moscou para Minsk.

            Acabou de encher a sacola e regressou à aldeia na bicicleta. Uma vez chegado, colocou os cogumelos para secar ao sol e dirigiu-se ao pequeno e decrépito se/soviet  paços do concelho da localidade, onde havia um telefone.

            Marcou o 02 e atenderam do gabinete de controle central da Polícia.

            - Encontrei um corpo.

            - Nome? - inquiriu a voz.

            - Sei lá como o homem se chama!

            - Não é o dele, imbecil! O seu.

            - Quer que desligue? - retorquiu Gennady. Soou um suspiro de resignação na linha.

            - Não, não desligue. Diga-me o seu nome e de onde está falando.

            Obedeceu e o outro apressou-se a determinar o lugar no mapa. Situava-se no interior da Região da Cidade de Moscou (Oblast), no extremo ocidental, mas ainda dentro da jurisdição da capital.

            - Aguarde no selsoviet. Um agente irá procurá-lo. Gennady aguardou. Teve de se resignar a fazê-lo durante meia hora. Afinal, era um jovem inspetor uniformizado. Acompanhavam-no dois outros milicianos e faziam-se transportar no habitual veículo tipo jipe amarelo e azul Uzhgorod.

            - Foi você que encontrou o corpo? - perguntou o primeiro.

            - Fui - assentiu Gennady.

            - Bem, vamos vê-lo. Onde está?

            - No bosque.

            Sentia-se particularmente importante por viajar numa viatura da Polícia. Apearam-se onde ele indicou e avançaram em fila indiana por entre o arvoredo. O apanhador de cogumelos reconheceu o pinheiro ao qual apoiara a bicicleta e identificou as suas pegadas a partir daí. Não tardaram a notar o odor.

            - Está ali - indicou Gennady, apontando para o grupo de arbustos. Ocheiro é insuportável. Deve ter morrido há vários dias.

            Os três polícias aproximaram-se do corpo e examinaram-no visualmente.

            - Veja se há alguma coisa nos bolsos - ordenou o inspetor a um dos subordinados. Voltou-se para o outro. - E você, reviste o capote.

            Aquele a quem competia a tarefa menos agradável, apertou as narinas entre o polegar e o indicador e utilizou a mão livre para cumprir a ordem. Nada. Em seguida, servindo-se da pala do boné, voltou o corpo. Havia numerosas minhocas por baixo. Por fim, inspecionou os bolsos de trás e retrocedeu, meneando a cabeça, enquanto o colega largava o capote e fazia o mesmo.

            - Nada? - estranhou  o  inspetor. - Nem  a  cédula  de identidade?

            - Absolutamente  nada. Trocos, lenço, chaves, documentos...

            - Atropelamento, com fuga do condutor? - aventurou um dos polícias.

            Durante um momento, escutaram o ruído produzido pelos veículos na estrada.

            - A que distância estamos de lá? - perguntou o inspetor.

            - Uns cem metros - disse Gennady.

            - Os condutores que atropelam uma pessoa e fogem não a escondem a essa distância da estrada. De resto, bastariam dez metros, com tantas árvores. - O inspetor dirigiu-se a um dos seus homens. - Examine a faixa de rodagem em busca de uma bicicleta esmagada ou um carro sinistrado. O homem pode ter se arrastado até aqui. Depois, aguarde lá para indicar o local à ambulância.

            A seguir, serviu-se do telefone portátil para pedir um investigador, um fotógrafo e um médico. O que via não podia ser “causa natural”. Também solicitou uma ambulância, mas confirmou que a vida se extinguira. Um dos polícias afastou-se por entre as árvores em direção à estrada e os outros aguardaram, depois de se distanciarem suficientemente do foco do odor insuportável.

           

            O trio à paisana apresentou-se em primeiro lugar, num Uzhgorod sem qualquer insígnia. Os ocupantes estacionaram o veículo na beira da estrada e transpuseram o resto da distância a pé. O investigador saudou o inspetor com um movimento de cabeça e perguntou:

            - Que  temos?

            - Está ali. Chamei-os, porque não acredito que morreu de causas naturais.   Encontra-se muito maltratado e a cem metros da estrada.

            - Quem o descobriu?

            - Aquele apanhador de cogumelos.

            O detetive aproximou-se de Gennady.

            - Conte-me tudo. Desde o princípio.

            O fotógrafo “bateu” algumas chapas, após o que o médico aplicou uma máscara de gaze no rosto e procedeu a um exame rápido. Por último, endireitou-se e descalçou as luvas de borracha.

            - Aposto dez copeques contra uma garrafa de Moskovskaya como se trata de homicídio. O laboratório revelará mais detalhes, mas posso desde já adiantar que o espancaram brutalmente antes de morrer. Provavelmente, não foi aqui Parabéns, Volodya: tem o seu primeiro zhmunk do dia.

            Empregou o calão da Polícia e submundo do crime russos para cadáveres. Dois homens de bata branca, da ambulância, aproxiram-se com uma maca, na qual depositaram o corpo, depois de introduzi-lo num saco de plástico com fecho de correr.

            - Precisam mais de mim? - perguntou Geronady.

            - Receio que sim - declarou o detetive. - Tenho de mandar registrar as suas declarações, na esquadra.

            Os polícias conduziram o apanhador de cogumelos às suas instalações, a cinco quilômetros dali, na direção de Moscou. No entanto, o percurso do cadáver prosseguiu até ao centro da cidade, onde se encontrava o necrotério do Segundo Instituto Médico. Uma vez aí, introduziram-no num compartimento frigorífico. Os patologistas de medicina legal escasseavam e a quantidade de trabalho era excessiva para a sua capacidade de resposta.

 

Iémen, Outubro de 1985

            Jason Monk infiltrou-se no Iémen do Sul em meados de Outubro. Apesar de pequena e pobre, a República Popular tinha um aeroporto de primeira classe, antigamente base militar da Royal Air Force. Os grandes jatos podiam aterrar nas suas pistas e faziam-no com regularidade.

            O passaporte espanhol do agente americano, acompanhado dos documentos de viagem das Nações Unidas, despertou a curiosidade usual, embora desprovida de suspeitas, na Imigração, e, meia hora mais tarde, ele podia pegar o saco de lona e abandonar o edifício.

            Roma informara realmente o chefe do programa de Food and Agriculture Organization da chegada do senhor Martinez Llorca, mas indicara uma data de uma semana mais tarde. Como as autoridades iemenitas do aeroporto ignoravam o fato, não havia qualquer transporte à sua espera, pelo que ele subiu para um táxi e instalou-se no novo hotel francês, o Frontel, na língua de terra que liga o rochedo de Adem ao continente.

            Embora os documentos fossem perfeitos e não esperasse enfrentar qualquer espanhol autêntico, Monk sabia que a missão se revestia de perigo.

            A maior parte da espionagem é levada a cabo por agentes no seio de uma embaixada supostamente pertencentes ao pessoal diplomático. Assim, beneficiam da respectiva imunidade, se alguma coisa corre mal.

            Alguns são agentes “declarados”, o que significa que não ocultam a natureza das suas atividades, e a contra espionagem conhece e aceita a situação, embora a verdadeira missão seja tacitamente omitida. Um posto importante em território hostil tenta sempre manter alguns agentes “não declarados”, cujas funções de cobertura nas seções do Comércio, Cultura ou Imprensa permanecem inatacáveis. A razão é simples. Os agentes não declarados têm menos possibilidades de ser seguidos nas ruas e, por conseguinte, maior facilidade em dispor de liberdade de movimentos para recorrer aos receptáculos de cartas mortas ou comparecer a encontros secretos do que aqueles que estão sob vigilância constante.

            No entanto, um espião que atua fora da cobertura diplomática não pode beneficiar dos Acordos de Viena. Se um diplomata é denunciado, pode ser considerado persona non grata e expulso. O país a que pertence protesta a sua inocência e expulsa por seu turno diplomatas da outra nação. Terminada a dança do olho-por-olho, o jogo é reatado como anteriormente.

            Mas um espião desmascarado é um ilegal. Para ele, consoante a natureza do lugar onde foi surpreendido, a descoberta pode representar tortura implacável, um longo período num campo de trabalho ou uma morte solitária. As próprias pessoas que o enviaram para lá raramente podem lhe ajudar.

            Nas democracias, há um julgamento imparcial e prisão humanitária. Nas ditaduras, os direitos cívicos não existem. Algumas nem sequer sabem o que isso é. O Iémen do Sul era uma delas, e os Estados Unidos não tinham sequer uma embaixada no país, em 1985.

            Em Outubro, o calor ainda é intenso e sexta-feira o dia de descanso em que se não executa trabalho algum. “Que fará um agente russo saudável debaixo de uma torreira destas?”, perguntava-se Monk. Nadar era uma sugestão razoável.

            Por razões de segurança, a fonte original que jantara em Nova Iorque com o antigo companheiro de estudos do FBI não voltara a ser abordada. Na realidade, poderia ter fornecido uma melhor descrição do major Solomin e até ajudado a compor um retrato. Talvez pudesse mesmo ter regressado ao Iémen, numa posição para indicar o homem. Mas constava que era também um enfatuado e fanfarrão.

            A localização do russo não oferecia qualquer dificuldade. Havia-os por todos os lados e era-lhes evidentemente permitido que convivessem livremente com a comunidade da Europa Ocidental, ocorrência inaudita na sua própria pátria. Talvez fosse do calor ou da impossibilidade de manter o grupo de conselheiros militares soviéticos encerrado no seu recinto dia e noite.

            Dois hotéis o Rock e o novo Frontel dispunham de convidativas piscinas. Havia igualmente a extensa praia, com a rebentação espumante dava pelo nome de Abyan e era frequentada pelos expatriados de todas as nacionalidades que gostavam de efetuar algumas braçadas após o trabalho ou no seu dia de folga. Finalmente, funcionavam uns armazéns de artigos gerais estilo PX russo na cidade, onde as pessoas das outras nacionalidades estavam autorizadas a efetuar compras, pois a URSS precisava de moeda estrangeira.

            Tornou-se prontamente óbvio a Monk que quase todos os russos que via eram oficiais. Poucos falavam uma única palavra de árabe, e o número dos que dominavam o idioma inglês também não se podia considerar elevado. Os que tinham conhecimentos de qualquer dessas línguas decerto haviam frequentado uma escola especial, pelo que deviam ser oficiais ou desse nível. Os soldados rasos, ou mesmo cabos e sargentos, não possuíam semelhantes conhecimentos e, por conseguinte, achavam-se impossibilitados de comunicar com os iemenitas. Assim, exerciam apenas as funções de mecânicos ou cozinheiros. Os impedidos ou ordenanças eram, sem dúvida, recrutados localmente.

            Outra possibilidade consistia em que o americano das Nações Unidas encontrara o russo a beber sem companhia no bar do Rock. Os russos gostam de o fazer, mas, de modo geral, acompanhados, e aqueles que rodeavam a piscina do Frontel formavam sem dúvida um grupo impenetrável. Que motivo levaria Solomin a fazê-lo só? Um mero capricho, naquela noite, ou se trataria de um solitário que preferia a sua própria companhia?

            Havia aí uma possível pista. O americano dissera que se tratava de um homem alto e possante, de cabelo preto e olhos rasgados. Como um oriental, mas sem o nariz abaulado. Os peritos de línguas de Langley situavam o nome em algum lugar no extremo oriente soviético. Monk sabia que os russos eram irredutivelmente racistas, com aberta animosidade aos chomi, os “pretos”, qualquer pessoa que não fosse puramente russa. Talvez Solomin estivesse farto de ouvir comentários jocosos aos seus traços fisionômicos asiáticos.

            Decidiu visitar o armazém de artigos gerais, os oficiais russos viviam todos como solteiros, nas piscinas e nos bares depois de anoitecer. Foi no terceiro dia, quando passeava na praia Abyan de calção de banho e camisa, com uma toalha sobre os ombros, que avistou determinado homem que saía da água.

            Tinha perto de um metro e oitenta de altura, porte atlético e aparentava cerca de quarenta anos. O cabelo era preto como a asa de um corvo, mas não havia regiões particularmente peludas no corpo, exceto nas axilas, como revelou ao erguer o braço para sacudir a água da cabeça. Em seguida, percorreu parte do areal até onde deixara a toalha, sentou-se, voltado para o mar, pôs uns óculos escuros e pareceu imergir em reflexões.

            Monk despiu a camisa e dirigiu-se para a água como um banhista que se prepara para o primeiro contato da época com aquele elemento. Como havia muita gente, era natural que escolhesse um lugar a pouco mais de um metro do russo, depois de simular que decidira protelar o banho para mais tarde. Extraiu a carteira do bolso do calção e enrolou a camisa em volta. Depois, fez o mesmo com a toalha. Por fim, sacudiu os pés para descalçar as sandálias, e juntou tudo num monte e olhou em volta, apreensivo, até que se voltou para o russo

            - Desculpe. - Fez uma breve pausa, enquanto o outro o olhava. - Ainda fica mais um pouco? O interpelado assentiu, com uma inclinação de cabeça. - Importa-se de vigiar as minhas coisas?

            Novo movimento de cabeça, e o russo tornou a virar-se para o mar. Monk encaminhou-se para a água, na qual se manteve durante dez minutos. Quando regressou, gotejante, sorriu ao homem de cabelo preto.

            - Obrigado.

            O outro inclinou a cabeça pela terceira vez, enquanto ele começava a secar-se com a toalha e se sentava na areia.

            - A água está ótima. E é uma praia estupenda. Infelizmente, pertence àquela gente.

            O russo falou pela primeira vez, e em inglês.

            - Que gente?

            - Os árabes. Os iemenitas. Apesar de ter chegado há pouco tempo, já não posso com eles. É uma cambada de inúteis.

            O homem observava-o por trás dos óculos escuros, todavia Monk não conseguia detectar qualquer expressão através dos vidros. Deixou transcorrer dois minutos e continuou:

            - Tento ensiná-los a utilizar as ferramentas básicas e os tratores. Para   aumentarem a produção de alimentos. Mas receio que esteja perdendo meu tempo. Dão cabo de tudo o que lhes passa pelas mãos. Sim, desperdiço o meu tempo e o dinheiro das Nações Unidas.

            Entretanto, exprimia-se em inglês, mas com sotaque castelhano.

            - É inglês? - perguntou o russo.

            - Não, espanhol. Trabalho no programa da FAO. E você? Também está à serviço das Nações Unidas?

            - Não, sou da URSS.

            - Para você, isto deve ser muito mais quente que no seu país. No meu caso, é quase a mesma coisa. Estou ansioso por regressar para casa.

            - Eu também. Prefiro o frio.

            - Está aqui há muito tempo?

            - Dois anos. E ainda me falta um.

            Monk sorriu.

            - Espero raspar-me antes disso. É uma tarefa inglória. Bem, vou andando.  Diga-me uma coisa. Depois de dois anos disto, deve saber. Há algum lugar satisfatório onde se possa tomar uma bebida, depois do jantar. Um clube noturno, por exemplo?

            O russo soltou uma risada sardônica.

            - Não, nada de diskoteki. Em todo o caso, o bar do Rock Hotel é sossegado.

            - Obrigado. Me chamo Estéban. Estéban Martinez Llorca.

            Monk estendeu a mão e o outro hesitou antes de a apertar.

            - Pyotr - informou. - Ou Peter. Peter Solomin.

            Duas noites mais tarde, o major russo apareceu no bar do Rock Hotel. A antiga unidade hoteleira colonial acha-se virtualmente incrustada num rochedo, com degraus da rua até à pequena área da Recepção, no piso superior, e um bar com vista panorâmica do porto. Monk instalara-se numa mesa da janela e olhava o cenário distraidamente. Viu Solomin entrar pelo reflexo no vidro, mas aguardou que lhe servissem a bebida para se voltar.

            - Ah, tornamos a nos encontrar Peter! Quer me fazer companhia?

            E indicou o lugar à sua frente. O russo deixou transparecer uma leve hesitação antes de se sentar, após o que ergueu a cerveja.

            - Za vashe zdorovye.

            Monk imitou-o.

            - Pesetas, faena y amor. - Vendo Solomin enrugar a fronte, sorriu. - Dinheiro, trabalho e amor...  pela ordem que preferir.

            O outro sorriu pela primeira vez. Era um sorriso agradável.

            Conversaram de vários assuntos mais ou menos banais Entre outros, da impossibilidade de trabalhar com os iemenitas, da frustração de os ver destruir a maquinaria e executar uma tarefa em que não depositavam a menor fé. E, como costumam fazer as pessoas radicadas no estrangeiro por um período mais ou menos prolongado, referiram-se aos países de origem.

            Monk falou da sua Andaluzia, onde se podia praticar esqui na Sierra Nevada e nadar nas águas cálidas ao largo de Sotogrande no mesmo dia. Por seu turno, Solomin aludiu às densas florestas nevadas, onde ainda havia tigres siberianos e os caçadores podiam abater raposas, lobos e veados.

            Encontraram-se em quatro noites consecutivas e trocaram impressões com profunda cordialidade. No terceiro dia, Monk teve de se apresentar ao holandês que chefiava o programa da FAO e deixar-se conduzir numa digressão de inspeção. O posto de Roma da CIA obtivera a descrição pormenorizada desse programa na delegação daquela organização e Monk memorizara-a, o que impressionou favoravelmente o homem.

            Durante os serões e mais tarde, já à noite, elucidou-se mais pormenorizadamente sobre o major Pyotr Vasilyevich Solomin, e o que ouviu agradou-lhe.          Nascera em 1945 na língua do território soviético entre o noroeste da Manchuria e o mar, com a fronteira na Coreia do Norte a sul. Chamava-se Primorski Krai e a vila em que viera ao mundo Ussuriysk.

            O pai transferira-se do campo para a cidade, à procura de trabalho, mas criou o filho falando o idioma da sua tribo, o povo do Udegey. Como o levava consigo para as florestas, sempre que podia, o rapaz habituou-se a sentir uma profunda afinidade com os elementos da sua terra: arvoredo, montanhas, água e animais.

            No século XIX, antes da conquista final do Ugedey pelos russos, o escritor Arsenyev visitara o enclave e publicara um livro, ainda hoje famoso no país, sobre aquele povo, intitulado Tigres do Extremo Oriente.

            Ao contrário dos asiáticos baixos e atarracados do oeste e sul, os naturais do Edegey são altos e de feições aquilinas. Muitos séculos atrás, alguns dos seus antepassados mudaram-se para o norte, cruzaram o Estreito de Bering em direção ao Alasca de hoje e depois seguiram para sul, difundindo-se através do Canadá para se converterem nos Sioux e Cheyenne.

            Enquanto olhava o possante soldado siberiano na sua frente. Monk não tinha dificuldade em imaginar as expressões dos caçadores de búfalos mortos desde longa data dos rios Platte e Powder.

            Para o jovem Solomin, a alternativa consistia na fábrica ou o exército. Meteu-se no trem, rumo ao norte, e assentou praça em Khabarovsk. Todos os rapazes tinham de cumprir três anos de serviço militar e, no final do segundo, os melhores eram escolhidos para a promoção a sargento. Devido à perícia que revelou nas manobras, candidatou-se à escola de oficiais, pelo que, dois anos mais tarde, adquiria a patente de tenente.

            Aos trinta e três anos, tornava-se finalmente major. Entretanto, casara e tivera dois filhos. Singrou na vida sem proteção nem o recurso a influências, sobrevivendo às provocações racistas de churka, insulto que significa “toro” ou “duro como uma prancha”. Vira-se forçado várias vezes a utilizar os punhos para resolver situações mais dificeis.

            A missão no Iémen em 1983 constituiu o seu primeiro trabalho no estrangeiro. Sabia que quase todos os seus colegas gostavam dessa ocupação. Apesar das condições pouco atraentes do clima, as instalações eram espaçosas, muito diferentes das do seu país, pois a maioria alojava-se em antigos aquartelamentos britânicos, com alimentação abundante e excelente.

            Pyotr apreciava tudo isso, em particular os novos prazeres da cultura consumista do Ocidente. Havia, porém, algo que o amargurava e decepcionava quanto ao regime que servia. Monk pressentia-o, mas receava aventurar-se demais.

            Para que se achasse na atual posição, o russo devia ter percorrido o movimento da Juventude Comunista, o Komsomol, antes de se incorporar no Partido. Pior, se prestava serviço no estrangeiro com a patente de major, decerto fora introduzido no braço dos serviços secretos militares denominado GRU. Que havia, pois, de errado? Tornou-se óbvio na quinta noite de bebida e conversa juntos. A revolta íntima acudiu à superfície.

            Em 1982, um ano antes da nomeação no Iémen e com Andropov ainda na presidência, Solomin fora colocado no departamento da administração, Ministério da Defesa, em Moscou. Aí, despertara a atenção de um subsecretário, que lhe atribuíra uma tarefa confidencial. Utilizando dinheiro retirado da verba da defesa, construía uma sumtuosa dacha para seu próprio usufruto, perto do rio, em Peredelkino.

            Em desafio secreto às regras do Partido, lei soviética e moralidade básica, o subsecretário disponibilizou mais de uma centena de soldados para a obra, cuja vigilância se achava a cargo de Solomin. Assim, viu as unidades de cozinha pelas quais qualquer esposa de um militar daria o braço esquerdo para possuir, adquiridas na Finlândia com o dinheiro dos contribuintes, sistemas de alta-fidelidade japoneses instalados em todos os aposentos, um banheiro de sonho e um bar particularmente acolhedor. O fato levou-o a revoltar-se intimamente contra o Partido e o regime, e não era, nem pouco mais ou menos, o primeiro oficial soviético leal a insurgir-se com a corrupção que grassava na ditadura do seu país.

            Aprendeu inglês à noite e passou a escutar os serviços noticiosos da BBC e da Voz da América. Ambas as estações de rádio tinham programas em russo, mas ele queria inteirar-se de tudo diretamente. Soube assim que, ao contrário do que sempre lhe fora ensinado, o Ocidente não pretendia a guerra com a Rússia. E, se existia alguma coisa mais para o levar a transpor a barreira que ainda subsistia, foi o Iémen.

            - No meu país, as pessoas comprimem-se em minúsculos apartamentos, mas os nachalstvo vivem em mansões. Tratam-se como  príncipes  com o  nosso  dinheiro. A minha  mulher não consegue comprar um secador de cabelo ou um par de sapatos que dure mais de dois meses, enquanto se gastam milhares de milhões de rublos em missões no estrangeiro para impressionar... quem? Esta gente?

            - As coisas estão mudando - observou Monk, porém o siberiano abanou a cabeça.

            Gorbachev encontrava-se no poder desde Março, mas as reformas que involuntariamente e, em muitos casos, imprudentemente introduziu só começaram a fazer-se sentir em 1987. Além disso, havia dois anos que Solomin não visitava a pátria.

            - Parece apenas. Os merdas que detêm o poder... Garanto-lhe o seguinte, Estéban. Desde que me mudei para Moscou, assisti a esbanjamentos incríveis.

            - Mas talvez Gorbachev dê uma volta à situação. Não sou tão pessimista. O povo russo acabará por se libertar desta ditadura. Haverá eleições autênticas e não forjadas como as atuais. Já não falta muito...

            - Isso ainda vem longe. Aproxima-se muito devagar.

            Monk encheu os pulmões de ar. Um “engodo” a frio constitui uma manobra perigosa. Numa democracia ocidental, um funcionário soviético abordado com essas intenções pode queixar-se ao seu embaixador e originar um incidente diplomático. E, numa tirania obscura, conduzir a uma morte prolongada e solitária. De súbito, passou a exprimir-se em russo.

            - Você podia contribuir para a mudança, meu amigo. Juntos, trabalharíamos com eficiência nesse sentido. Da maneira que é da sua preferência.

            Solomin encarou-o de olhos arregalados durante uns trinta segundos, porém Monk sustentou o olhar sem pestanejar.

            Por fim, o russo, no seu próprio idioma, perguntou:

            - Quem diabo é você?

            - Creio que já sabe, Pyotr Vasilyevich. A questão consiste agora em saber se você me trairá, consciente do que me farão antes de morrer. E depois viver com esse peso na consciência.

            Continuou a fitar intensamente o interlocutor e acabou por declarar:

            - Não denunciaria nem o meu maior inimigo àquela gente. Mas você tem um arrojo incrível. O que propõe é uma loucura. Eu devia mandá-lo embora.

            - Talvez. E eu iria. Depressa, no meu interesse. No entanto, assistir a tudo sem mover uma palha não lhe parece também uma loucura?

            - Preciso de refletir - anunciou, levantando-se sem ter tocado na cerveja.

            - Amanhã à noite - indicou Monk, ainda em russo. - Aqui. Se vier só, conversaremos. Se o acompanharem guardas, serei um homem morto. Se não aparecer, partirei no primeiro avião.

            O major Solomin retirou-se sem mais uma palavra.

            Todas as normas de segurança, SOP*, aconselhavam Monk a abandonar o Iémen o mais rapidamente possível. Embora não tivesse sido rejeitado abertamente, também não triunfara nas suas intenções. Um homem com o espírito confuso pode mudar de idéia, e as celas da Polícia Secreta do Iémen eram pouco acolhedoras.

            Decorreram vinte e quatro horas e Solomin apareceu... só. Escoaram-se mais dois dias. Ocultos entre os seus artigos de uso essencial, Monk trouxera o material básico para uma embalagem de comunicações: tintas secretas, endereços seguros, frases inofensivas que continham significados codificados, etc.

            Quando os dois homens se separaram, o aperto de mão prolongou-se por vários segundos.

            - Felicidades, meu amigo - disse Monk.

            - Boa caçada, como se diz na minha terra - replicou o siberiano.

            No entanto, o americano continuou sentado, para não serem vistos saindo juntos do Rock Hotel. O seu novo recruta precisaria de um nome de código. No firmamento, as estrelas brilhavam com a intensidade surpreendente só vista nos trópicos.

            Entre elas, Monk localizou a constelação de Orion. Acabava de nascer o agente Orion.

 

            A 2 de Agosto, August Boris Kuzrtetsov recebeu uma carta pessoal do jornalista britânico Mark Jefferson. Exibia o timbre do Daily Telegraph de Londres e, embora chegasse por fax à delegação de Moscou, fora entregue por mão própria na sede do Partido da UFP.

            Jefferson realçava a sua admiração pela posição assumida por Igor Komarov contra o caos, corrupção e crime e a análise dos discursos do dirigente do Partido nos últimos meses. E acrescentava que, em virtude da morte do Presidente russo, a questão do futuro do maior país do mundo voltava a assumir particular importância. Tencionava visitar Moscou na primeira quinzena de Agosto e, naturalmente, decerto entrevistaria os candidatos à presidência do Centro e da Esquerda. Tratava-se, contudo, de uma mera formalidade.

            Era óbvio que o verdadeiro interesse do resto do mundo se focaria no vencedor antecipado da luta eleitoral, Igor Komarov. Por conseguinte, ele, Jefferson, ficaria extremamente grato a Kuznetsov se lhe recomendasse que o recebesse. Podia desde já prometer várias colunas da primeira página do Daily Telegraph, com difusão assegurada através da Europa e América do Norte.

            Embora Kuznetsov, cujo pai fora diplomata junto das Nações Unidas durante anos e aproveitara essa posição para que o filho se formasse em Cornwell, conhecesse os Estados Unidos melhor do que a Europa, já visitara Londres.

            Também não ignorava que a Imprensa americana se inclinava para a tendência liberal e se mostrara deliberadamente hostil para com o seu chefe nas ocasiões em que haviam sido concedidas entrevistas. A última ocorrera um ano atrás e as perguntas tinham-se revelado impertinentes, pelo que Komarov proibira ulteriores concessões do gênero aos órgãos da Informação dos Estados Unidos.

            Mas Londres era diferente. Dois dos jornais de maior circulação e as duas revistas nacionais revelavam-se indiscutivelmente conservadores, embora não tão entranhados na Direita como Igor Komarov, nas suas alocuções públicas.

            - Recomendo que se abra uma exceção no caso de Mark Jefferson, senhor presidente - sugeriu no dia seguinte, durante a sua reunião semanal.

            - Quem   é   esse   homem? - Quis   saber   Komarov,   que detestava todos os jornalistas, pois só faziam perguntas a que nem sempre estava disposto a responder.

            - Preparei um memorando a seu respeito - informou Kuznetsov, entregando-lhe  um pequeno maço de folhas. - Como verá, apoia a restauração da pena de morte por homicídio, no seu país, e manifesta vigorosa oposição à adesão da Grã-Bretanha à decadente União Européia. Além disso, é um conservador ferrenho. Na última vez que se referiu ao senhor, presidente afirmou que era o tipo de dirigente russo que Londres devia apoiar.

            O outro emitiu um grunhido e acabou por concordar. A sua resposta seguiu para a delegação de Moscou do Daily Telegraph por mensageiro especial, no mesmo dia. Indicava que Mr. Jefferson deveria apresentar-se para a entrevista a 9 de Agosto.

* Standart Operating Procedures.  (N.  do  T)

 

Iémen. Janeiro de 1986

            Solomin e Monk não podiam prever que a comissão de serviço do primeiro em Adem terminaria nove meses prematuramente. Mas, a 13 de Janeiro, eclodiu uma violenta guerra civil entre duas fações rivais no seio do Partido do Governo. E a luta atingiu uma tal intensidade que foi tomada a decisão de evacuar todos os súditos estrangeiros, incluindo os russos. A operação desenrolou-se durante seis dias, com início a 15 daquele mês. Assim, Pyotr Solomin encontrava-se entre aqueles que embarcaram.

            Como o aeroporto se achava sob fogo constante, o mar era a única via de evasão. Graças a uma casualidade afortunada, o iate real britânico Britannia acabava de surgir da parte sul do Mar Vermelho, com destino à Austrália, a fim de se ocupar dos preparativos para a visita da rainha Isabel.

            Na sequência de uma mensagem da embaixada britânica em Adem, o Almirantado, em Londres, foi alertado e consultou o secretário particular da soberana, o qual se apressou a procurá-la e ficou assente que o Britannia faria tudo ao seu alcance para facilitar a retirada.

            Dois dias mais tarde, o major Solomin, com um grupo de outros oficiais russos, abandonou o refúgio em direção à praia de Abyan, onde as lanchas do Britannia permaneciam vigilantes. Alguns marinheiros ajudaram-nos a embarcar e os fugitivos puderam instalar-se na sala de estar do iate britânico, entretanto preparada para acomodar os evacuados.

           Na sua primeira missão, o Britannia transportou 431 refugiados e, em subsequentes visitas à praia, recolheu um total de 1068 pessoas de cinquenta e cinco nações. Entre evacuações, rumava a Jibuti, no Corno de África, para desembarcar a carga humana por turnos. Solomin e os colegas seguiram de avião para Moscou, via Damasco.

            Ninguém sabia, porém, que se ele ainda acalentava alguma dúvida sobre a decisão que tomaria, o equilíbrio da balança foi alterado pelo contraste entre a camaradagem sincera dos ingleses, franceses e italianos com os marinheiros da Royal Navy e a tenebrosa paranóia da reserva absoluta imposta por Moscou.

            Toda a CIA sabia que um homem recrutado por um dos seus, três meses atrás, desaparecera nos confins da URSS. Agora, daria sinais de vida ou não. O futuro o revelaria.

            Ao longo daquele Inverno, o braço operacional da Divisão Soviética desintegrou-se literalmente peça a peça. Um a um, os “bens” russos que trabalhavam para a CIA no estrangeiro foram chamados sob uma variedade de pretextos plausíveis: a sua mãe adoeceu gravemente, os resultados do seu filho na faculdade são péssimos e precisa de “conselhos” do pai, vai reunir-se uma comissão de promoções, e assim sucessivamente. Pouco a pouco, todos tombaram na armadilha. À chegada, eram presos sem demora e conduzidos à nova base do coronel Grishin  uma ala inteira isolada do resto da sinistra fortaleza de Letortovo. Langley ignorava as detenções e apenas sabia que eles desapareciam gradualmente. Quanto aos colocados no interior da URSS, deixaram simplesmente de dar “sinais de vida” de rotina.

            Na União Soviética, não se podia pensar em telefonar a um homem no seu gabinete e convidá-lo para tomar café. Todas as linhas estavam sob escuta e todos os diplomatas eram vigiados. Os estrangeiros notavam-se à distância, apenas pela maneira de vestir. Nessa conformidade, os contatos eram extremamente delicados e, de um modo geral, raros.

            Quando se efetuavam, utilizavam-se os receptáculos de cartas mortas, ou “depósitos”. Aldrich Ames serviu-se deles até ao fim. O refúgio consiste simplesmente num pequeno receptáculo ou esconderijo em algum lugar, uma cadeira fora de uso, uma abertura dissimulada numa árvore, etc.

            O agente deposita uma carta ou pacote com um microfilme no local e alerta os patrões que o fez por meio de uma marca de giz numa parede ou poste de iluminação. A posição desse sinal significa: o depósito de tal lugar contém uma coisa para si. O condutor de um veículo de embaixada que circule na área, mesmo com um carro da contra-espionagem no seu encalço, pode descortinar o sinal sem parar.

            Mais tarde, um funcionário obscuro tenta libertar-se da vigilância e recolher a carta ou pacote, deixando possivelmente dinheiro no seu lugar, após o que inscreve por seu turno uma marca de aviso. O “bem” passa mais tarde por ali, verifica que o seu material foi recolhido e o aguarda algo em troca. Que irá buscar pela calada da noite.

            Um espião pode assim permanecer em contato com o chefe clandestino durante meses, ou mesmo anos, sem um encontro frente a frente.

            Se ele está fora da capital, onde os diplomatas não podem ir, ou mesmo na cidade, mas não existe qualquer lugar para depositar, o regulamento tácito indica que dará “sinais de vida” a intervalos regulares. Na capital, onde se deslocam sem restrições, podem ser mais marcas de giz, as quais, consoante a configuração e localização, significam; estou bem de saúde, mas não tenho nada para si. Ou: estou preocupado, porque creio que me vigiam.

            Quando a distância impede essas mensagens secretas, e, na URSS, as províncias sempre estiveram fora dos limites para os diplomatas dos Estados Unidos, pequenos anúncios nos principais jornais constituem o meio favorito para dar sinais de vida. “Boris tem um belo Labrador para vender. Telefonar para...” pode figurar inocentemente entre os outros. O essencial é o texto. Labrador pode significar “Estou bem”, enquanto “Cão-de-água” se refere, por exemplo, a “Estou em apuros”, “belo” a “Estarei em Moscou na próxima semana e abastecerei o refúgio habitual.”

            O essencial é que as mensagens de sinais de vida têm de acontecer. Quando se interrompem, pode haver algum problema grave. Talvez um ataque cardíaco ou um acidente na estrada, e o “bem” encontra-se hospitalizado. Se param definitivamente, o problema é de grande envergadura.

            Foi o que aconteceu durante o Outono e Inverno de 1985 para 1986. Pararam todas. Gordievsky transmitiu a sua comunicação desesperada “Estou em sérios apuros” e foi retirado da circulação pelos ingleses. Cheirou a esturro ao major Bokhan, em Atenas e recorreu aos Estados Unidos para o protegerem. Os outros doze vaporizaram-se, pura e simplesmente.

            Qualquer funcionário de controle individual de Langley ou no estrangeiro a contas com o desaparecimento do seu “bem” informa a base. Mas Carey Jordan e o chefe da Divisão SE tinham uma visão global da situação, conscientes que havia algo de gravemente errado.

            Ironicamente, foi o caráter estranho do que o KGB estava fazendo que salvou Ames. A CIA calculava que ninguém sonharia proceder a uma limpeza tão numerosa de agentes com semelhante rapidez, se o traidor ainda se encontrasse no coração de Langley. Assim, as altas esferas convenceram-se daquilo que queriam acreditar: eles, a elite das elites, não podiam albergar um traidor no seu seio. Não obstante, havia necessidade de proceder a uma vistoria, como aconteceu, mas em outro lugar.

            O primeiro suspeito foi Edward Lee Howard, herói de um antigo fiasco, agora instalado com segurança em Moscou. Fora um agente da CIA colocado na Divisão SE, que recebera instruções minuciosas para trabalhar na embaixada na capital russa, incluindo pormenores operacionais. Pouco antes de partir para lá, descobriu-se que tinha as finanças arruinadas e consumia drogas.

            Ignorando a regra de ouro de Maquiavel, a CIA despediu-o, mas deixou-o em liberdade. Durante dois anos. E não disse nada a ninguém. Entretanto, Howard sentava-se em bancos de jardins e pensava em partir para a Rússia. Por fim, a agência informou o FBI, que se enfureceu e passou a vigiar os movimentos do homem. Depois, foi a vez deste meter a pata na poça. Perdeu-o de vista, porém ele percebera que o seguiam. Em pouco mais de dois dias, Setembro de 1985, encontrava-se na embaixada soviética da Cidade do México, que o despachou para Moscou, através de Havana.

            As investigações revelaram que ele podia ter traído três dos agentes desaparecidos e talvez até seis. Na realidade, denunciou os três únicos cuja existência conhecia, mas já haviam sido desmascarados por Ames, em Junho anterior. O trio foi, portanto, traído duplamente.

            Outro indício proveio dos próprios russos. Desesperado por proteger a sua toupeira, o KGB montou uma vasta campanha de diversão e desinformação para fazer a CIA enveredar pelo caminho errado. E conseguiu-o. Uma fuga de informações aparentemente autêntica em Berlim Oriental “revelou” que alguns códigos tinham sido decifrados, com a intercepção de mensagens.

            Os códigos em causa eram utilizados por um importante transmissor secreto da CIA em Warrenton, Virgínia. Ato contínuo, esta localidade e o pessoal nela colocado foram passados a pente fino durante um ano. Sem o menor resultado ou a simples sugestão de uma penetração de código. Se tal tivesse acontecido, o KGB se inteiraria claramente de mais coisas, não tomara qualquer medida nesse sentido. Por conseguinte, os códigos permaneciam intactos.

            A terceira semente que o KGB plantou diligentemente consistiu em que se dedicara a uma brilhante ação detetivesca. O fato foi recebido com surpreendente complacência em Langley, onde um relatório sugeria que “todas as operações têm, no seu seio, as sementes da sua própria destruição”. Por outras palavras, catorze agentes tinham decidido subitamente comportar-se como imbecis.

            Alguns, em Langley, não se deixaram contagiar pela complacência. Um foi Carey Jordan e o outro Gus Hathway. A um nível inferior, foi Jason Monk, que se inteirou através do jornal de caserna dos problemas que flagelavam a sua divisão.

            Procedeu-se a uma inspeção dos 301 processos, onde se achavam armazenados todos os detalhes. O que se apurou era simplesmente horrível. Um total de 198 pessoas tinham acesso àquele material. Tratava-se de um número espantoso. Quem se encontrava no interior da URSS, com a vida em jogo, a última coisa que necessitava era saber que 198 desconhecidos absolutos podiam consultar o seu processo.

 

            O professor Kuzmin desinfetava-se na sala de autópsias do necrotério por baixo do Segundo Instituto de Medicina, enquanto se preparava com reduzido prazer, para proceder ao terceiro exame do gênero naquele dia.

            - Quem é o próximo? - perguntou ao ajudante,  enquanto secava as mãos e antebraços.

            - O número dezoito.

            - Pormenores?

            - Sexo masculino, branco, de meia-idade, perto da velhice. Causas da morte e identidade desconhecidas.

            Wuzmin emitiu um grunhido. “Para quê perder tempo?”, refletiu. Mais um farroupilha, um vagabundo, um frequentador de albergues noturnos, cujos fragmentos, quando ele terminasse o exame, talvez ajudassem os estudantes de Medicina da academia, três pisos acima, a compreender o que os maus-tratos prolongados conseguiam fazer aos órgãos humanos, e o esqueleto poderia ir parar a uma aula de anatomia.

            Moscou, como qualquer grande cidade, produzia a sua safra noturna, semanal e mensal de cadáveres, mas por sorte apenas uma minoria exigia a autópsia, caso contrário o professor e todos os colegas do setor de patologia legal não conseguiriam dar-lhes vasão.

            A maioria eram as causas naturais, aqueles que morriam em casa ou num hospital de velhice ou de qualquer de uma das centenas de causas terminais previsíveis. As enfermarias e os médicos podiam assinar as respectivas certidões de óbito.

            Seguiam-se as causas naturais imprevistas, usualmente ataques cardíacos fatais e, nessas circunstâncias, os hospitais aos quais os infortunados eram conduzidos podiam ocupar-se das formalidades burocráticas básicas e, em regra, extremamente básicas.

            Depois dessas, havia os acidentes domésticos, industriais e de viação. Moscou tinha mais duas categorias que haviam aumentado maciçamente ao longo dos anos: morrer congelado (no Inverno) e suicídios. Os números atingiam os milhares.

            Os corpos recuperados do rio, identificados ou não, dividiam-se em três categorias. Totalmente vestidos, sem álcool no organismo, suicídio; vestidos, profundamente ébrios, acidente; de calção de banho, afogados acidentalmente enquanto nadavam.

            Vinham a seguir os homicídios. Destinavam-se à Polícia, departamento de detetives, e finalmente ao professor Kuzmin. Até esses costumavam não passar de uma formalidade. A grande maioria, como em todas as cidades, eram os “domésticos”. Oitenta por cento aconteciam dentro de casa ou o autor era um membro da família. A Polícia costumava capturá-lo em poucas horas, e a autópsia limitava-se a confirmar o que já se sabia  Ivan esfaqueara a esposa  e ajudava os tribunais a chegar a um veredito rápido.

            Na alínea seguinte, figuravam as rixas em bares e as mortes provocadas entre membros de bandos  neste último caso, o grau de condenações obtidas pela Polícia não passava de uns modestos três por cento. No entanto, a causa não constituía problema uma bala no cérebro é uma bala no cérebro. Se os investigadores descobriam ou não o autor a negativa era o mais provável, não interessava minimamente ao professor.

            Em todos os exemplos referidos, vários milhares por ano, uma coisa era certa. As autoridades sabiam quem era o morto. Ocasionalmente, aparecia-lhes um João-Ninguém, como o cadáver número 158. Kuzmin colocou a máscara de gaze, flectiu os dedos dentro das luvas de borracha e aproximou-se com uma ponta de interesse, enquanto o ajudante afastava o lençol.

            “Curioso”, ponderou. “Interessante, mesmo”. O fedor que obrigaria um leigo a tentar dominar os vômitos deixou-o indiferente. Habituara-se desde longa data. De bisturi na mão, contornou a longa mesa, ao mesmo tempo que observava o corpo maltratado. Sim, muito curioso.

            A cabeça parecia intacta, à parte as órbitas vazias, mas era óbvio que se tratava de obra de pássaros. O homem permanecera abandonado no bosque junto da auto-estrada de Minsk cerca de seis dias. Abaixo da região pélvica, as pernas pareciam descoloradas, decerto devido à idade e putrefação, mas intactas.            Entre o tórax e os órgãos genitais, não havia praticamente um centímetro quadrado sem profundas escoriações.

            O professor pousou o bisturi e voltou o corpo sem vida. Nas costas, era a mesma coisa. Restituiu-o à posição anterior, tornou a pegar no bisturi e começou a cortar, ao mesmo tempo que proferia os habituais comentários para o gravador previamente ligado. Mais tarde, as palavras registradas o ajudariam a redigir o relatório destinado aos obtusos da Brigada de Homicídios, em Petrovska. Principiou com a data: 2 de agosto de 1999.

 

Washington, Fevereiro de 1986

            A meio do mês, ante a alegria de Jason Monk e a surpresa considerável dos seus superiores da Divisão SE, o major Pyotr Solomin estabeleceu contato. Escreveu uma carta.

            Sensatamente, não tentou contactar com qualquer ocidental em Moscou e muito menos da embaixada americana. Recorreu ao endereço que Monk lhe fornecera em Berlim Oriental.

            A divulgação desse endereço constituía, em si, um risco, mas calculado. Se se dirigisse ao KGB para trair a casa segura, teria de responder a algumas perguntas impossíveis. Os irrterrogadores compreenderiam que nunca o teriam indicado se ele não se tivesse prontificado a trabalhar para a CIA, o que ainda seria pior.

            Perguntariam por que não comunicara a abordagem imediatamente, logo após o primeiro contato, ao coronel que chefiava a delegação do GRU em Adem e permitira que o americano em causa desaparecesse. Ora, as interrogações de semelhante natureza eram irrespondíveis.

            Por conseguinte, Solomin ou guardava silêncio sobre todo o assunto ou se incorporava “na equipe”. A carta indicava a segunda alternativa.

            Na URSS, toda a correspondência endereçada ao estrangeiro ou proveniente de lá era interceptada e lida, o que também se aplicava às chamadas telefônicas, telegramas, fax e telex. No entanto, não se podia fazer o mesmo à interna, devido ao seu enorme volume, a menos que o remetente ou o destinatário estivesse sob suspeita. Isto era extensivo a todo o bloco soviético, o que incluía a Alemanha Oriental.

            O endereço em Berlim Oriental pertencia a um condutor do metropolitano que exercia as funções de carteiro para a CIA, o que lhe proporcionava uma remuneração substancial. As cartas que chegavam ao seu apartamento, num bloco pouco atraente do bairro Friedrichshain, eram sempre endereçadas a Franz Weber.

            Este último fora na verdade o antigo inquilino do local, mas já não pertencia ao número dos vivos. Se o condutor do metropolitano fosse interrogado, poderia jurar plausívelmente que já houvera duas cartas, não entendia uma única palavra do idioma russo e eram dirigidas a Weber. E como este morrera, ele as jogara fora. Estava, pois, inocente de qualquer suspeita.

            As cartas nunca tinham qualquer indicação do remetente e o texto podia considerar-se banal e fastidioso: “-Oxalá estas linhas o encontrem em boa saúde. As coisas aqui continuam correndo bem. Como vão os seus estudos na Rússia? Espero que voltemos a nos ver um dia. Saudades do amigo Ivan”.

            A própria Polícia secreta da Alemanha Oriental  Estase só poderia deduzir que Weber conhecera um russo numa reunião cultural qualquer e haviam travado relações amistosas. Tratava-se, aliás, de algo que o Governo encorajava.

            Mesmo que a Estase decifrasse a mensagem secreta traçada com tinta invisível nos intervalos das linhas, indicaria apenas que o extinto Weber fora na verdade um indivíduo suspeito, mas já não podia prestar contas a este mundo.

            Do lado de Moscou, a partir do momento em que a carta fora depositada num receptáculo, o remetente tornava-se impossível de determinar.

            Logo que recebia uma da Rússia, o condutor do metropolitano, Heinrich, fazia-a seguir para o Ocidente. A maneira como procedia poderá parecer insólita, porém, aconteciam coisas muito mais estranhas na dividida cidade de Berlim, durante a Guerra Fria. Na verdade, o método era tão simples, que ele nunca foi apanhado. A Guerra Fria terminou, a Alemanha foi reunificada e Heinrich aposentou-se para desfrutar uma velhice particularmente confortável.

            Antes de ser dividida pelo Muro, em 1961, para evitar que os alemães do setor oriental fugissem, Berlim dispunha de uma rede de metropolitano geral. Depois, foi dividida em duas, com a obstrução de muitos túneis entre o Leste e o Ocidente. Havia, contudo, um trecho em que a seção da Alemanha Oriental do sistema se convertia numa linha elevada e percorria uma pequena área do setor ocidental.

            Durante esse desvio para fora da parte oriental e regresso a ela, as portas e janelas tinham de permanecer seladas. Os passageiros podiam contemplar uma zona de Berlim Ocidental, mas não descer.

            Na cabina de condução, sem testemunhas, Heinrich baixava a janela e, em determinado momento, servindo-se de uma catapulta, disparava um projétil como uma pequena bola de golfe para uma antiga cratera de bomba. Conhecedor da situação, um homem de meia-idade passeava o seu cão no local e, quando o trem desaparecia ao longe, recolhia a bola e levava-a aos colegas do enorme posto da CIA em Berlim Ocidental. Desenroscadas as duas metades, surgia a carta em papel de correio aéreo que continha.

            Solomin tinha novidades para transmitir e eram todas boas. Após a repatriação, houvera um interrogatório intensivo e depois uma semana de licença, na sequência da qual ele se apresentara no Ministério da Defesa para nova nomeação. Enquanto aguardava, no átrio, fora reconhecido pelo subsecretário da Defesa para o qual construíra a dacha, três anos atrás. O homem dispunha agora de mais poderes e constituía um sério candidato ao cargo de ministro.

            Embora usasse o uniforme de coronel-general, com medalhas em quantidade e peso suficientes para afundar uma canhoneira, pertencia inteiramente ao apparat e ascendera através da escada política. Agradava-lhe ter um militar de combate austero da Sibéria na sua entourage. Estava encantado com a dacha, completada dentro do prazo estabelecido e o seu ajudante-de-campo acabava de se aposentar por motivos de saúde (consumo exagerado de vodka). Assim, promoveu Solomin a tenente-coronel e concedeu-lhe o lugar vago. Finalmente, este último não sem risco considerável, dava o seu endereço particular em Moscou e solicitava instruções. Se o KGB interceptasse e decifrasse a carta, tudo teria terminado para ele. Mas como não se podia aproximar da embaixada dos Estados Unidos, Langley precisava ser informado da maneira de o abordar. Se não eclodisse a guerra civil no Iémen, teria havido oportunidade e tempo de lhe fornecer um sistema de comunicação muito mais sofisticado.

            Dez dias mais tarde, recebeu o “último aviso” devido a uma violação das regras de trânsito. Remetiam a Divisão Central de Viação de Moscou e ninguém o interceptou. O aspecto do envelope e do impresso que continha estava tão bem falsificado, que Solomin quase pegou no telefone para protestar que não cometera qualquer infração. De súbito, porém, viu a areia que deslizava do interior da carta.

            Beijou a esposa quando saiu com os filhos para os levar ao colégio e, ao encontrar-se só, aplicou ao impresso o líquido contido num pequeno frasco que trouxera dissimuladamente de Adem. A mensagem era simples. No domingo seguinte, a meio da manhã, num café do Leninsky Prospekt.

            Iniciara a segunda xícara, quando viu passar perto uma figura anônima que vestia um pesado sobretudo para sair. Da manga ainda vazia, tombou um maço de cigarros russos, que Solomin cobriu prontamente com o seu jornal, enquanto o homem abandonava o café sem olhar para trás.

            O maço parecia cheio de cigarros, mas os vinte filtros eram um bloco, colados uns aos outros, sem nada para fumar por baixo. Na cavidade encontravam-se uma minúscula máquina fotográfica, dez rolos de películas para as primeiras impressões, uma folha de papel-arroz que referia três tipos de receptáculos de cartas mortas, com instruções para as descobrir e seis marcas de giz diferentes, com a sua localização, a fim de indicar quando os “depósitos” estavam vazios ou necessitavam ser utilizados. Assim como uma calorosa carta pessoal de Monk, que principiava: “Parece, pois, meu amigo caçador, que sempre vamos mudar o mundo”!...

            Um mês mais tarde, Orion procedeu à sua primeira remessa e recolheu mais rolos de películas. A sua informação provinha das profundezas do coração do complexo industrial de armamento soviético e podiia considerar-se inapreciável.

            O Professor Kuzmin reviu a transcrição das suas impressões sobre a autópsia do Cadáver 158 e acrescentou algumas anotações. Nem sequer pediria à sua sobrecarregada secretária que passasse o texto a limpo. Os cabeçudos da Brigada de Homicídios que o fizessem, se quisessem.

            Não tinha a menor dúvida que era para lá que o processo devia seguir. Tentava ser misericordioso com os detetives e, quando surgia alguma dúvida, recorria ao veredito de “morte acidental” ou “causas naturais” sempre que possível. Depois, os familiares podiam reclamar o corpo e, no caso de não se poder identificar, permanecia no necrotério durante o tempo estipulado pela lei. Ele alertava então o departamento de “pessoas desaparecidas”, e, se este não conseguia chegar a qualquer conclusão nesse sentido, era sepultado na vala comum, por cortesia do presidente da Câmara de Moscou, ou seguia para as aulas de anatomia.

            Mas o Cadáver 158 fora vítima de homicídio, e era impossível ignorar o fato. À parte nas ocasiões em que um transeunte era atropelado por um caminhão desenfreado, raramente se deparava uma destruição interna tão completa. Um único impacto, mesmo por um veículo pesado, não produziria efeitos tão devastadores. Talvez acontecesse, se fosse espezinhado por uma manada de búfalos, mas esses animais não abundavam nas ruas de Moscou e, de qualquer modo, também o atingiriam na cabeça e nas pernas. Ora, o Cadáver 158 fora agredido numerosas vezes com instrumentos metálicos no espaço entre o pescoço e os quadris, em ambos os lados.

            Quando terminou de redigir o relatório, o professor assinou-o, apôs a data  3 de Agosto e depositou-o na cesta do material a expedir.

            - Homicídio? - perguntou a secretária, com um sorriso.

            - Homicídio de um ser anônimo - confirmou Kuzmin. Ela endereçou o  envelope amarelado, introduziu-lhe o relatório e pousou-o a um lado. Quando saísse, ao fim da tarde, o entregaria ao porteiro que vivia num cubículo do térreo e, por seu turno, o confiaria ao condutor do furgão incumbido de distribuir os documentos aos seus diferentes destinos em Moscou.

            Entretanto, o Cadáver 158 jazia na escuridão gelada, sem os olhos e a maioria das entranhas.

 

Langley, Março de 1986

            Carey Jordan conservava-se de pé atrás da janela em contemplação da sua vista favorita. Aproximava-se o fim do mês e surgiam os primeiros sinais de verdura no bosque entre o edifício principal da CIA e o Rio Potomac. O brilho da água, sempre visível por entre os ramos sem folhas ao longo do Inverno, não tardaria a desaparecer. Ele adorava Washington, onde havia mais árvores, parques e jardins do que em qualquer outra das cidades dos Estados Un’idos que conhecia, e a Primavera era a sua estação do ano preferida.

            Pelo menos, tinha sido, porque a de 1986 se revelava um pesadelo. Sergei Bokhan, agente do GRU que a CIA controlava em Atenas, declarara durante os repetidos interrogatórios na América que estava convencido de que, se regressasse a Moscou, o aguardaria um pelotão de fuzilamento. Embora não tivesse provas disso, o pretexto que o seu superior hierárquico invocara para o mandar regressar à base, as notas baixas obtidas pelo filho na academia militar  não correspondiam à verdade. Por conseguinte, fora “queimado”. E como não cometera qualquer imprudência, acreditava que havia sido traído.

            Como Bokhan figurara entre os três primeiros que haviam experimentado problemas, a agência mostrara-se cética. Agora, dúvidas eram mais tênues. Cinco outros agentes dispersos pelo mundo tinham sido chamados misteriosamente a Moscou a meio da respectiva comissão, para se vaporizarem. E já eram seis. Sete, com o homem a cargo dos ingleses, Gordievsky. Mais cinco, colocados em território russo, também tinham desaparecido. Não existia uma única fonte importante, representativa de anos de trabalho árduo, paciência e astúcia, além de um avultado investimento de dólares dos contribuintes, ainda em atividade. Salvo duas exceções.

            Atrás de Jordan, Harry Gaunt, chefe da Divisão SE, principal melhor (ou pior) de momento a única vítima do vírus, permanecia sentado e imerso em reflexões. Era da mesma idade do DDO e haviam transposto os degraus da escala de promoções juntos, através de desgastantes anos em postos no estrangeiro, recrutando as suas fontes e participando no Grande Jogo contra o inimigo chamado KGB, e confiavam um no outro como irmãos.

            Residia aí o problema no seio da Divisão SE, todos confiavam nos colegas. Que remédio. Constituíam o núcleo íntimo, o clube mais exclusivo, a cunha cortante da guerra oculta. Não obstante, cada um albergava uma suspeita terrível. Howard, decifrador de códigos e hábil investigador do que se passava na Linha KR do KGB poderia explicar cinco, seis ou mesmo sete agentes desmascarados. Mas catorze? Todo o grupo? Apesar disso, não podia haver um traidor. Não devia haver. Na Divisão Européia do Leste Soviético, nunca.

            Soou uma pancada na porta e a atmosfera desanuviou-se particularmente. A história do último sucesso que restava preparava-se para entrar.

            - Sente-se, Jason - indicou o DDO. - Harry e eu queríamos apenas dizer-lhe “bom trabalho”. O seu homem, Orion, forneceu elementos realmente valiosos. Os rapazes da Análise têm um dia cheio. Achamos, pois, que o agente que o recrutou merece a classificação de GS-15.

            - Promoção, de GS-14 para 15, - e Monk mostrou-se devidamente grato.

            - Como vai o seu homem em Madrid, Lisandro?

            - Bem, senhor. Estabelece contato com regularidade. Não fornece material cósmico, mas é útil. A sua comissão de serviço está prestes a terminar. Regressa a Moscou em breve.

            - Não foi chamado prematuramente?

            - Não, senhor. Devia ter sido?

            - Não, de modo algum.

            - Posso falar francamente?

            - Com certeza.

            - Consta na Divisão que as coisas não nos têm corridobem, nos últimos seis meses.

            - Sim? - grunhiu Gaunt. - Bem, circulam sempre boatos.

            Até então, o maior impacto da catástrofe cingira-se aos dez homens da hierarquia superior da agência. Mas, embora as Operações dispusessem de seis mil funcionários, com cerca de um milhar na Divisão SE e apenas uma centena do nível de Monk, formavam uma aldeia e, nas aldeias os rumores circulam rapidamente. Este último encheu os pulmões de ar e declarou:

            - Fala-se   da   perda  de  agentes.  Ouvi   mencionar  o  seu número, que pode chegar a dez.

            - Você conhece as regras da necessidade-de-saber.

            - Sim, senhor.

            - Bom, talvez se nos tenham levantado alguns problemas.

- Acontece em todas as agências. Períodos de sorte e outros de azar. Que pretende dizer-nos?

            - Mesmo que o número chegue a dez, só há um lugar onde essa informação se reúne. Nos 301 processos.

            - Creio que sabemos como a agência funciona, amigo - advertiu Gaunt.

            - Então, como se explica que Orion e Lisandro continuem em liberdade?

            - Escute, Jason - proferiu o DDO, pacientemente. - Eu lhe disse em uma ocasião que o achava bizarro. Referia-me a irreverente, infrator de regulamentos. Mas com sorte. Sim, sofremos algumas baixas, mas não se esqueça que os seus dois “bens” também se encontravam entre os trezentos e um processos.

            - De modo algum.

            Um observador teria ouvido um amendoim cair no chão. Harry Gaunt parou de mover os dedos que seguravam o cachimbo, que nunca acendia dentro de casa e utilizava como um adereço de ator.

            - Não cheguei a arquivar os seus dados no Registro Central. Foi descuido de minha parte. Lamento.

            - Onde  estão  os  originais  dos  relatórios? - perguntou Gaunt. - Os que você redigiu e tratam sobre o recrutamento, lugares e datas dos encontros, etc.?

            - No meu cofre. De onde nunca saíram.

            - E o registro de todas as operações pendentes?

            - Na minha cabeça.

            Verificou-se nova pausa, ainda mais prolongada.

            - Obrigado, Jason - agradeceu o DDO, finalmente. - Voltaremos a falar com você.

            Duas semanas mais tarde, houve uma importante campanha de estratégia na cúpula do diretorado das Operações. Atuando apenas com dois analistas, Carey Jordan investigara a pente fino os 198 que, em teoria, haviam tido acesso aos 301 processos, quarenta e uma pessoas nos últimos doze meses. O nome de Aldrich Ames, na altura ainda no seu curso de italiano, figurava na pequena lista.

            Jordan, Gaunt, Gus Hathway e dois outros propuseram que, para eliminar todas as dúvidas, os quarenta e um fossem submetidos a uma profunda, ainda que penosa, investigação. O que implicaria um teste poligráfico “hostil” e o exame às finanças pessoais.

            O polígrafo era uma invenção americana, que suscitou animada controvérsia. Somente as investigações efetuadas no final dos anos oitenta e princípio dos noventa revelaram a escassa confiança que os seus resultados mereciam. Um mentiroso experiente podia ludibriá-lo, e a espionagem baseia-se no logro do inimigo.

            Por outro lado, os interrogadores precisavam ser instruídos minuciosamente, para fazerem as perguntas apropriadas, o que só podia acontecer se o interrogado tivesse sido investigado previamente. Ou seja, para determinar o mentiroso, necessitavam induzi-lo a pensar “Eles sabem tudo, meu Deus!” e fazer-lhes, portanto, acelerar as pulsações. Mas se esse mentiroso depreendia da natureza das perguntas que não sabiam nada, acalmava-se e não corria o risco de se denunciar. Era esta a diferença entre um teste amigável ou hostil com o polígrafo. A primeira versão constituía uma mera perda de papel de registro, se o interrogado possuía experiência na matéria.

            O DDO acreditava que a chave do inquérito residiria no exame das finanças. Mal sabia ele que Aldrich Ames, arruinado e desesperado após um divórcio agitado e novo casamento doze meses atrás, nadava atualmente em dinheiro, todo depositado desde Abril de 1985.

            À cabeça do grupo que se opunha, encontrava-se Ken Mulgrew, que evocou os estragos incríveis que James Angleton produzira com a investigação constante a agentes leais e salientou que a violação do sigilo bancário constituía uma invasão maciça à privacidade e uma negação dos direitos cívicos.

            Gaunt contra-atacou que, na época de Angleton nunca houvera uma perda súbita de uma dúzia de agentes no breve espaço de seis meses. A sua investigação baseara-se na paranóia em 1986. A CIA achava-se perante provas palpáveis que algo correra gravemente mal.

            Os falcões perderam a partida. Os direitos cívicos alcançaram a vitória. A investigação “dura” aos quarenta e um agentes foi vetada.

           

            O inspetor Pavel Volsky emitiu um suspiro de resignação ao ver depositar mais um processo em cima da mesa.

            - Um ano atrás, estava perfeitamente satisfeito com as funções de sargento na seção do Crime Organizado. Aí, ao menos, havia oportunidade de revistar os armazéns do submundo e confessar os lucros ilícitos, e um sargento esperto podia viver bem, quando alguns artigos de luxo apreendidos sofriam uma leve triagem antes de serem entregues ao Estado. Mas a esposa insistira em ter como companheiro legal um inspetor-detetive, pelo que, quando surgira o momento adequado, Volsky frequentou o respectivo curso e conquistou a promoção e a transferência para a Brigada de Homicídios.

            Não podia prever que lhe atribuiriam um cargo tão trabalhoso. Quando dirigia o olhar para a torrente de processos que abarcavam o seu campo visual, chegava a desejar encontrar-se de novo nas suas antigas instalações na Rua Shabolovka.

            O caso vertente, ocorrido a 4 de Agosto, era singular. O motivo não podia ser roubo. Um simples relance ao relatório sobre o Cenário da Descoberta da divisão ocidental indicou-lhe que o cadáver tinha sido encontrado por um apanhador de cogumelos no bosque que ladeava a auto-estrada de Minsk, pouco após os limites da cidade. A uma centena de metros da estrada, assim a hipótese de atropelamento e fuga devia ser posta de parte.

            A relação dos objetos pessoais encontrados era pouco animadora. A vítima usava sapatos de plástico, baratos, com vários cortes e saltos desgastados, luvas também pouco dispendiosas e sujas de terra, cuecas de qualidade e estado similares, calças pretas lustrosas e cinto de plástico também consumido pelo longo uso. E nada mais. Não havia qualquer indicação de uma camisa, gravata ou casaco. Apenas de um capote, que se achava nas proximidades, descrito como sendo do Exército, dos anos cinquenta e praticamente no fio.

            Havia um breve parágrafo ao fundo da página. Os bolsos estavam totalmente vazios. Tampouco existia qualquer relógio, anel ou outro artigo do gênero.

            Volsky observou a fotografia tirada no local. Alguém fechara piedosamente os olhos do homem. Rosto magro, por barbear, de cerca de sessenta e cinco anos, embora parecesse ter uma dezena mais. Macilento era o termo apropriado da expressão.

            “Pobre diabo”, refletiu. “Aposto que não foi liquidado por causa da sua conta bancária na Suíça”. Concentrou-se no relatório da autópsia, após vários parágrafos, apagou o cigarro no cinzeiro e mastigou uma imprecação.

            - Por que será que estes fulanos não escrevem em russo acessível a todos os intelectos? - perguntou à parede, não pela primeira vez.

            O texto só falava de “lacerações” e “contusões”. Se o patologista se referia a cortes e escoriações, por que não o diria abertamente?

            Intrigavam-no numerosos aspectos, depois de abrir mentalmente caminho por entre a terminologia técnica. Consultou o carimbo oficial do necrotério e marcou o número. Teve sorte, pois o professor Kuzmin encontrava-se no seu gabinete.

            - É o professor Kuzmin? - perguntou o inspetor.

            - O próprio. Quem fala?

            - Inspetor Volsky, da Brigada de Homicídios. Tenho o seu relatório na minha frente.

            - Parabéns.

            - Posso ser franco, professor?

            - Nos tempos que correm, é um privilégio.

            - Parte da linguagem  é um  pouco complexa para mim. Refere-se a fortes escoriações em cada antebraço. Pode determinar o que as provocou?

            - Como patologista, não, trata-se apenas de contusões graves. Mas, aqui  para nós, essas marcas foram produzidas por dedos humanos.

            - Alguém o terá segurado com violência?

            - Agarrado, meu caro inspetor. Foi agarrado por dois indivíduos vigorosos, enquanto o espancavam.

            - É, pois, tudo obra de seres humanos? Não intervieram máquinas?

            - Se a cabeça e pernas estivessem na mesma condição, eu diria que o tinham jogado de um helicóptero. E não de baixa altitude. Mas não foi o que aconteceu, porque qualquer impacto com o chão ou com um caminhão também afetaria a cabeça e as pernas. Em vez disso, foi espancado repetidamente entre o pescoço e os quadris, à frente e atrás, com objetos duros e pesados.

            - A causa da morte foi... asfixia?

            - Exato.

            - Desculpe: foi espancado barbaramente e morreu de asfixia?

            Kuzmin suspirou.

            - Todas as costelas foram fraturadas, sem uma única exceção. Algumas  em vários  pontos. Duas cravaram-se nos pulmões. Como resultado, o sangue pulmonar penetrou na traquéia e causou a asfixiia.

            - Está me dizendo que foi sufocado pelo sangue que afluiu à garganta?

            - É, de fato, o que tenho tentado fazê-lo compreender.

            - Desculpe, mas sou novo aqui.

            - E eu morro de fome aqui. É a hora do almoço. Passe muito bem, inspetor.

            Volsky tornou a ler o relatório. Portanto, o velhote fora espancado. Tudo apontava para ajuste de contas de bandos rivais. Mas os gangsters costumavam ser mais jovens. O homem decerto ofendera alguém do mundo dos mafiosos. Se não morresse de asfixia, decerto sucumbiria ao trauma.

            Que pretenderiam os assassinos? Informação? Ele decerto lhes revelaria tudo o que quisessem sem necessidade de levar as coisas tão longe. Castigo? Exemplo? Sadismo? Talvez uma mistura destes três ingredientes. Mas que teria na sua posse um velho que parecia um vagabundo tão cobiçado pelo chefe de uma quadrilha ou que fizera justificativo de semelhante punição?

            O inspetor reparou em mais uma coisa no capítulo de “Sinais Identificativos”, em que o professor escrevera: “Nenhum no corpo, mas dois incisivos e um canino frontais de aço inoxidável, aparentemente uma herança de um dentista militar inexperiente”. O que significava que o homem tinha três dentes de aço na parte da frente.

            A última observação do patologista recordou-lhe uma coisa. Era de fato a hora do almoço e ele combinara encontrar-se com um amigo, também pertencente à Brigada de Homicídios. Assim, levantou-se, transpôs a porta do gabinete, que trancou atrás de si, e abandonou o edifício.

 

Langley, Julho de 1986

            A carta do coronel Solomin suscitou um problema complexo. Procedera a três entregas em receptáculos de cartas mortas de Moscou, porém agora pretendia encontrar-se com o seu controlador, Jason Monk. E como não tinha possibilidade de se ausentar da URSS, teria de ser em território soviético.

            A primeira reação de qualquer agência que recebesse semelhante sugestão consentiria em suspeitar que o homem tinha sido apanhado e escrevia sob pressão. No entanto, Monk estava convencido que Solomin não era imprudente nem covarde. Havia uma palavra que, se ele estivesse sendo pressionado, evitaria empregar a todo o custo e outra que tentaria inserir na mensagem. Mesmo em situação difícil, provavelmente conseguiria satisfazer uma ou outra das condições. Ora, a carta de Moscou continha a que devia figurar nela e não a que seria insólita. Em suma, parecia autêntica.

            Há muito que Harry Gaunt concordara com Monk que Moscou, infestada de agentes e vigilantes do KGB, se tornara muito arriscada. com uma missão diplomática a curto prazo, o Ministério dos Assuntos Estrangeiros soviético desejaria que lhe fornecessem detalhes completos, que transmitiria ao Segundo Diretorado Principal. Mesmo disfarçado, Monk estaria sob vigilância durante todo o período em que permanecesse na cidade, pelo que um encontro com o ajudante-de-campo do subsecretário da Defesa resultaria impossível. De qualquer modo, Solomin não propunha isso.

            Comunicava que entraria de férias em fins de Setembro e obtivera uma concessão especial  um apartamento de vilegiaturas na estância de Gurzuf, no Mar Negro.

            Monk inteirou-se de pormenores sobre o local. Era uma aldeia na costa da Península da Criméia frequentada pelos militares, com um importante hospital do Ministério da Defesa, onde os oficiais feridos ou convalescentes se podiam recompor ao sol.

            Foram consultados dois antigos oficiais soviéticos residentes nos Estados Unidos, os quais declararam que, embora nunca tivessem estado em Gurzuf, conheciam a sua existência uma antiga e linda aldeia de pescadores onde Chekhov vivera e morrera, na sua moradia junto do mar, a cinquenta minutos de autocarro ou vinte e cinco de táxi de Ialta.

            Monk concentrou as pesquisas naquela cidade da Criméia. A URSS ainda era um país fechado em muitos aspectos, pelo que voar para a área numa viagem regular estava fora de questão. A via aérea consistiria um rumar a Moscou, fazer transbordo para Kiev e de novo para Odessa e alcançar finalmente Ialta. Não havia a menor chance de um turista estrangeiro efetuar o percurso, nem qualquer razão especial para que tivesse essa idéia em mente. Talvez fosse uma estância de veraneio soviética, mas um forasteiro solitário despertaria tanta atenção como um nariz inflamado. Por fim, examinou os trajetos por mar e acudiu-lhe uma possível solução.

            Sempre faminto de divisas estrangeiras, o governo soviético permitia que a Companhia de Navegação do Mar Negro promovesse cruzeiros no Mediterrâneo. Embora todas as tripulações fossem russas, com uns borrifos de agentes do KGB subentendia-se, de resto, os passageiros eram geralmente do Ocidente.

            Em virtude dos preços praticados para estes últimos, tratava-se, em superioridade esmagadora, de estudantes, acadêmicos e cidadãos de meia-idade. Havia três paquetes que efetuavam essas carreiras no Verão de 1986  o Litva, o Latvia e o Armênia. Era este que se ocupava dos cruzeiros em Setembro.

            Segundo o agente em Londres da Companhia de Navegação do Mar Negro, aquele navio partiria de Odessa, com destino ao porto grego de Pireu, quase vazio. Da Grécia, seguiria para oeste em direção a Barcelona e retrocederia por Marselha, Nápoles, Malta e Istambul, antes de rumar ao Mar Negro e Varna, na costa da Bulgária, para depois escalar Ialta e finalmente Odessa. O grosso dos passageiros ocidentais embarcaria em Barcelona, Marselha ou Nápoles.

            Em fins de Julho, com a colaboração dos Serviços de Segurança britânicos, foi efetuado um assalto muito hábil aos escritórios da companhia de navegação, sem que ficasse o menor indício da entrada ou da saída, para fotografar as reservas para o Armênia em Londres.

            O seu estudo revelou a marcação respeitante a um grupo de seis membros da Sociedade de Amizade Americana-Soviética, a qual foi investigada nos Estados Unidos. Parecia tratar-se de indivíduos de meia-idade, sinceros, ingênuos e dedicados à melhoria das relações entre os dois países. Além disso, viviam na região nordeste dos EUA ou nas suas proximidades.

            Em princípios de Agosto, o professor Normam Kelson, de Santo Antonio, Texas, ingressou na sociedade e requisitou literatura sobre ela. Através da sua leitura, “tomou conhecimento” da próxima expedição no Armênia, com embarque em Marselha, e solicitou que o admitissem como sétimo membro do grupo. A organização soviética Intourist não viu qualquer impedimento e a nova marcação foi confirmada.

            O verdadeiro Norman Kelson era um antigo arquivista da CIA que se aposentara e fixara em Santo Antonio, razoavelmente parecido com Jason Monk, apesar de quinze anos mais velho, diferença que seria corrigida com o cabelo pintado de grisalho e óculos escuros.

            Em meados de Agosto, Monk respondeu à carta de Solomin, para lhe anunciar que se encontraria à entrada do jardim botânico de Ialta. O local constitui um ponto de referência famoso, situado nos arredores da cidade, a um terço do caminho costeiro em direção a Gurzuf. Estaria lá ao meio-dia de 27 e 28 de Setembro.

           

            O inspetor Volsky chegou atrasado ao encontro para almoçar, por isso atravessou rapidamente os corredores do imponente edifício cinzento em Petrovka onde funcionava a sede da Polícia de Moscou. Como o amigo não se encontrava no seu gabinete, procurou-o na sala comum e avistou-o a conversar com um grupo de colegas.

            - Desculpe o atraso.

            - Não tem importância. Vamos.

            O salário não lhes permitia que comessem fora, porém a Polícia dispunha de uma cantina que praticava preços razoáveis através do sistema de senhas para refeições e a ementa costumava ser satisfatória.

            - Tomara que ainda encontremos uma mesa livre - acrescentou o amigo.

            - Diga-me uma coisa - solicitou Volsky, depois de se sentarem, cada um com uma dose de carne estufada e meio litro de cerveja na sua frente. - Na sala comum...

            - Que tem de especial?

            - Refiro-me  ao quadro de  notícias. Tem uma fotografia. Uma  espécie de  retrato a lápis de um cara de dentes estranhos. Qual é a história?

            - Ah, isso? - proferiu o inspetor Novikov. - Trata-se do nosso homem misterioso. Ao que parece, assaltaram o apartamento de uma funcionária da embaixada britânica. Dois caras. Não roubaram nada, mas revolveram tudo. Como os interrompeu, agrediram-na. Mas ficou com uma vaga idéia de um deles.

            - Quando foi?

            - Há cerca de duas semanas, talvez três. A embaixada queixou-se ao  Ministério dos Assuntos Estrangeiros, o qual pintou o diabo e se insurgiu perante o nosso Ministério do Interior, que incumbiu a Divisão Anti-roubo de encontrar o homem parcialmente identificado. Alguém traçou o retrato e... Conhece Chernov, Não? É o grande investigador daquele departamento, mas está numa situação crítica, porque ainda não conseguiu descobrir qualquer pista animadora. O desespero levou-o a visitar-nos e afixar um dos seus desenhos no quadro.

            - Não há mesmo nenhum indício?

            - Absolutamente nada. Chernov não faz a menor idéia da sua identidade ou paradeiro. Este estufado tem cada vez mais gordura e menos carne.

            - Não sei quem ele é, mas posso indicar onde se encontra - disse Volsky, calmamente.

            O outro imobilizou a mão que segurava o copo de cerveja a meio caminho dos lábios.

            - Sério?

            - Está numa gaveta frigorífica do necrotério da Segunda Escola Médica. O  seu processo chegou esta manhã. É um anônimo. Foi encontrado num bosque da estrada de Minsk, há cerca de uma semana. Espancado mortalmente. Sem qualquer elemento identificativo.

            - É melhor contatar com Chernov, que não te desamparará a loja tão cedo.

            Enquanto tragava o estufado que restava no prato, o inspetor Novikov entregava-se a profundas reflexões.

 

Roma, Agosto de 1986

            Aldrich Ames chegara à Cidade Eterna com a esposa para ocupar o novo cargo a 22 de Julho. Apesar dos oito meses na escola de línguas o seu italiano era aceitável, mas não bom. Ao contrário de Monk, não tinha ouvido para idiomas estrangeiros. Com a fortuna recuperada, podia viver a um nível muito mais elevado que anteriormente, mas ninguém no posto de Roma percebia a diferença, porque não lhe conhecera antes de Abril do ano precedente.

            O chefe do posto, Alan Wolfe, veterano da CIA, que prestara serviço no Paquistão, Jordânia, Iraque, Afeganistão e Londres, depressa chegou à conclusão, à semelhança de outros antes dele, que Ames constituía um desperdício de espaço. Se tivesse ciente das suas atividades arquivadas por chefes de estação na Turquia e México antes de serem “corrigidas” por Ken Mulgrew, se apressaria a protestar contra a nomeação do novo responsável da Seção Soviética.

            Não tardou a ser óbvio para todos que o homem era um alcoólatra e um funcionário improdutivo. Os russos não se preocuparam, porém, com isso. Apressaram-se a nomear um elo de ligação, um agente de baixo nível chamado Khrenkov, com o qual Ames poderia se encontrar sem despertar suspeitas, explicando aos colegas que procurava “desenvolver” o soviético como possível recruta. Assim, o fato justificava uma série de almoços extremamente prolongados e muito líquidos, após os quais o americano tinha dificuldade em localizar o local de trabalho.

            Como em Langley, começou a transferir montes de material confidencial para sacos de compras, com os quais abandonava a embaixada, para entregar a Khrenkov.

            Em Agosto, o seu verdadeiro controlador chegou de Moscou para conhecê-lo. No entanto, ao contrário de Androsov, em Washington, não se instalou em Roma, pois deslocava-se da URSS cada vez que havia necessidade de se encontrarem. Na capital italiana, havia muito menos problemas que nos Estados Unidos.

            Ames limitava-se a sair do local de trabalho para ir almoçar, em determinado café, na companhia de Khrenkov, sem tomar a mínima precaução. No entanto, menos abertamente, subiam depois para um furgão fechado que o russo conduzia à Villa Abamelek, residência do embaixador soviético. Aí. o controlador de Ames, Vlad, aguardava-o para conversar, o que faziam descontraidamente durante horas. Vlad era na realidade o coronel Vladimir Mechulayev, do Diretorado K, do Primeiro Diretorado Principal.

            - No primeiro encontro, Ames tencionava protestar contra a rapidez invulgar com que o KGB capturara os homens que ele denunciara, o que o colocava numa situação perigosa. Todavia, Vlad antecipou-se, pedindo desculpa pelo fato e explicando que Mikhail Gorbachev decidira que agissem assim. Em seguida, passou ao assunto que o levara a Roma.

            - Temos um problema, meu caro Rick - salientou. - O volume do material que nos fornece é enorme e de valor inestimável, com particular realce para as descrições e fotografias dos espiões que atuam no território da URSS.

            - Mas que há de errado nisso? - perguntou Ames, tentando abarcar a situação através dos vapores do álcool.

            - Não propriamente errado, mas intrigante - volveu Mechutayev, puxando uma fotografia, que pousou na mesinha de café. - Isto. Um tal Jason Monk. É ele, suponho?

            - Sem dúvida.

            - Nos relatórios, você qualifica a sua reputação da Divisão SE como de “uma estrela ascendente”. O que, segundo imaginamos, significa que controla   um, ou porventura dois “bens” dentro da União Soviética.

            - É o que consta na sede... ou constava, a última vez que me debrucei   sobre o assunto. Mas vocês decerto sabem quem são.

            - Reside aí precisamente o problema, prezado Rick. Todos os traidores que teve a gentileza de nos revelar foram identificados, presos e... interrogados. E   cada um foi... como direi?...

            O russo recordou-se dos homens trêmulos que enfrentara na sala de interrogatórios, depois de Grishin os ter “preparado”, psicológica e fisicamente, para colaborar.

            - Enfim, foram todos muito francos e cooperativos. Explicaram-nos quem eram os seus controladores, em alguns casos vários. Mas não havia qualquer Jason Monk entre eles. Nem um único. É claro que podem usar nomes falsos, como acontece com relativa frequência. Mas a fotografia, Rick, ninguém a reconheceu. Compreende agora o meu problema? Que agentes nossos controla esse Monk e onde estão?

            - Não sei. Confesso que não compreendo. Deviam figurar entre os 301  processos.

            - Nós tão pouco, porque não figuram.

            Antes da reunião terminar, Ames recebeu uma quantia avultada e uma lista de tarefas. Continuou em Roma durante três anos e traiu tudo o que pôde uma quantidade enorme de documentos secretos e ultra-secretos. Entre eles, figuravam mais quatro agentes, mas todos não-russos, súditos de países do bloco da Europa do Leste. No entanto, a missão primordial era clara e simples: no regresso a Washington, ou, na melhor das hipóteses, antes, averiguar quem Monk controlava na URSS

           

            Enquanto os inspetores-detetives Novikok e Volsky almoçavam tranquilamente na cantina do quartel-general da Polícia, a Duma celebrava uma sessão plenária.

            Fora necessário algum tempo para arrancar os deputados russos dos seus locais de veraneio, pois, devido à larga extensão do território, muitos necessitaram percorrer milhares de quilômetros para participar no debate constitucional. Não obstante, este prometia revestir-se de uma importância extraorninária, porque o tema a discutir era a alteração da Constituição.

 

            Após a morte prematura do presidente Cherkassov, o primeiro-ministro devia exercer essas funções interinamente, segundo o Artigo 59, e estipulou-se que o período de interregno duraria três meses.

            Com efeito, o primeiro-ministro Ivan Markov assumiu a presidência, mas, na sequência da consulta a vários peritos, ficara estabelecido que, como a Rússia tinha as novas eleições presidenciais marcadas para Junho do ano 2000, a celebração de outras em Outubro de 1999 poderia causar alguma confusão e mesmo o caos. Por conseguinte, a moção cingia-se a uma emenda que alongava a presidência interina mais três meses e antecipava as eleições do ano 2000 de Junho para Janeiro.

            O termo Duma deriva do verbo dumat, que significa pensar ou meditar; é, portanto, “um lugar para pensar”. Muitos observadores achavam-no mais um lugar para gritar do que para meditar com ponderação, e, naquele quente dia de Verão, justificava esta última descrição.

            O debate prolongou-se por todo o dia, elevando-se a tais níveis de paixão que o presidente passou grande parte do tempo tentando impor a ordem e, a certa altura, ameaçou suspender os trabalhos indefinidamente.

            Dois delegados mostravam-se tão agressivos que foram expulsos da sala, acompanhados de vigorosos impropérios, tudo captado pelas câmaras da televisão, até que se encontraram na rua. Uma vez aí, celebraram conferências de Imprensa improvisadas, que degeneraram em azeda troca de insultos e alguns confrontos físicos  pois acalentavam posições diametralmente opostas, finalmente interrompidos pela Polícia.

            Entretanto, na sala, cujo sistema de ar condicionado se avariou devido ao funcionamento intenso e prolongado exagerado e os delegados, empapados em transpiração, não paravam de praguejar e increpar-se, as posições definiam-se com clareza.

            A fascista União das Forças Patrióticas, em obediência às ordens de Igor Komarov, insistia em que as eleições presidenciais deviam se realizar em Outubro, três meses após a morte de Cherkassov, em conformidade com o Artigo 59. A sua tática era óbvia. A UFP desfrutava de tanta vantagem nas sondagens, que desejava ver o seu acesso ao poder supremo antecipado nove meses.

            Os neocomunistas da União Soviética e os reformistas da Aliança Democrática estavam, por uma vez, de acordo. Adiavam-se em situação trêmula nas sondagens e careciam de todo o tempo possível para se recompor e conquistar as boas graças dos eleitores. Por outras palavras, não estavam preparados para eleições antecipadas.

            O acutilante vaivém de intervenções arrastou-se até ao pôr-do-Sol, quando o presidente da assembléia, exausto e rouco, anunciou que já tinham sido ouvidas opiniões em número mais do que suficiente para se proceder à votação. A ala esquerda e os centristas pronunciaram-se em concordância para derrotar a ultra-direita, pelo que a moção foi aprovada. As eleições presidenciais do ano 2000 se realizariam a 16 de Janeiro e não em Junho.

            Em menos de uma hora, o resultado da votação foi transmitido a toda a nação pelo noticiário oficial da televisão. As embaixadas dispersas pela capital mantiveram intensa azáfama até muito mais tarde do que o habitual, e os telegramas codificados de embaixadores aos respectivos governos circularam até altas horas.

            Era pelo fato da embaixada britânica também acompanhar a movimentação geral que “Gracie” Fields continuava sentado à sua mesa, quando surgiu o telefonema do inspetor Novikov.

 

Ialta, Setembro de 1986

            Era um dia quente e não havia ar condicionado no táxi que deslizava ruidosamente na estrada marginal procedente de Ialta. O americano baixou o vidro da janela para que penetrasse o ar relativamente fresco que soprava do Mar Negro. Um pouco inclinado para o lado conseguia ver pelo espelho retrovisor acima da cabeça do motorista. Tudo indicava que não os seguia qualquer viatura do KGB.

            A longa viagem desde Marselha, via Nápoles, Malta e Istambul, fora cansativa, mas tolerável. Monk desempenhara o seu papel de uma maneira que não despertara a menor suspeita. De cabelo grisalho, óculos escuros e modos elaborados, não passava de mais um acadêmico incorporado num cruzeiro de férias.

            Os seus compatriotas a bordo tinham aceitado que partilhasse da sua sincera convicção que a única esperança de paz consistia em os povos dos Estados Unidos e da União Soviética passarem a conhecer-se melhor. Uma componente do grupo, professora solteirona de Connecticut, mostrava-se favoravelmente impressionada com o atencioso texano que lhe ajeitava a cadeira para se sentar e levava a mão ao chapéu de abas largas sempre que se cruzavam na coberta.

            Em Varna, Bulgaria, ele não desembarcara, alegando uma ligeira indisposição provocada pelo sol ardente. No entanto, em todos os outros portos de escala acompanhara os turistas de cinco nacionalidades ocidentais em visitas a ruínas, ruínas e mais ruínas.

            Em Ialta, pousou pela primeira vez os pés em solo russo. Preparado exaustivamente, tudo se desenrolou com maior facilidade do que imaginara. Antes de mais, se o Armênia era o único paquete de cruzeiros fundeado no porto, havia dezenas de cargueiros da URSS, cujas tripulações não tinham qualquer problema de deslocamento a terra.

            Encerrados a bordo desde Varna, os turistas desceram o portaló como um bando de aves, e os dois funcionários russos da imigração postados em baixo limitaram-se a examinar os passaportes superficialmente e inclinar a cabeça para que passassem. O professor Kelson atraiu a curiosidade devido à sua indumentária, mas tratava-se de olhares de aprovação e cordialidade.

            Em vez de tentar passar despercebido, Monk agiu de modo inverso. Usava camisa creme, com gravata tipo cordão em que se via um alfinete de prata, terno castanho-claro, chapéu de abas largas e botas de vaqueiro.

            - Está muito elegante - observou a professora. - Vem conosco ao topo da montanha, no funicular?

            - Não, minha senhora. Vou limitar-me a dar uma volta pela área do cais, e talvez me sente em algum lugar para tomar um café.

            Os guias da Intourist partiram em direções diferentes com os respectivos grupos e deixaram-no só. Ao invés do que dissera, ele abandonou o porto, passou diante do edifício do Terminal e imergiu na cidade. Algumas pessoas olhavam-no, mas a maioria sorria. Um garoto deteve-se, levou as mãos aos lados do corpo e simulou puxar repentinamente de dois revólveres. Monk exibiu uma expressão divertida e desgrenhou-lhe o cabelo.

            Inteirara-se que as distrações na Criméia variavam pouco. Os programas da televisão eram incaracterísticos como água de lavar a louça, pelo que o atrativo proeminente se limitava ao cinema. Os filmes favoritos, de longe, eram os westerns, permitidos pelo regime, e eis que surgia um vaqueiro de carne e osso. Até um agente da Polícia, ensonado devido ao calor, arregalou os olhos quando o americano levou dois dedos ao chapéu e sorriu, numa saudação. Após uma hora e um café numa esplanada, convenceu-se que não o seguiam, subiu para um táxi de uma fila de vários estacionados e indicou, o endereço do jardim botânico. Com o seu guia, mapa da cidade e russo hesitante, era tão obviamente um turista de um dos navios ancorados no porto, que o motorista inclinou a cabeça sem hesitar e pôs o veículo em marcha. De qualquer modo, milhares de estrangeiros visitavam os famosos jardins de Ialta.

            Monk desceu diante da entrada principal e pagou a corrida em rubles, a que juntou uma gorjeta de cinco dólares e um piscar de olho. O homem sorriu, inclinou a cabeça e partiu.

            Havia muita gente diante do torniquete, a maior parte crianças russas com os professores, em excursão de estudo. Monk incorporou-se na fila de espera e prestou atenção à aparição de homens de ternos lustrosos, mas não avistou nenhum. Por fim, pagou a entrada, transpôs a barreira e avistou uma barraca de sorvetes. Depois de comprar um enorme cone de baunilha, procurou um banco isolado vago, sentou-se e começou a lamber.

            Transcorridos alguns minutos, um homem sentou-se na extremidade oposta do banco e pôs-se a estudar um mapa dos vastos jardins. Devido a essa proteção, ninguém poderia ver os lábios moverem-se. Os de Monk também se movimentavam, mas não despertaria suspeitas a um eventual observador, porque lambia o sorvete.

            - Como está, meu amigo? - perguntou Pyotr Solomin.

            - O melhor possível, obrigado. Sobretudo agora que volto a vê-lo -  murmurou Monk. - Crê que o vigiam?

            - Não. Cheguei há mais de uma hora. A você tão-pouco.

            - A minha gente está muito satisfeita com você, Peter. Os detalhes que nos tem fornecido ajudarão a abreviar a Guerra Fria.

            - O que me interessa é derrubar os filhos da mãe. O gelado está derretendo. Jogue-o fora, que vou comprar dois.

            Lançou-o no cesto do lixo mais próximo, enquanto o siberiano se dirigia à barraca para adquirir dois. Quando regressou, sentou-se naturalmente mais perto do americano.

            - Tenho uma coisa para você. Filme. No meio da dobra do meu mapa, que vou deixar no banco.

            - Obrigado. Mas por que não transmite em Moscou? A minha gente estranha o fato.

            - Porque há mais, mas tem de ser de viva voz.

            Solomin começou a descrever o que estava a acontecer, naquele Verão de 1986, no seio do Politburo e do Ministério da Defesa, em Moscou. Ao mesmo tempo, Monk esforçava-se por manter uma expressão impassível, para não emitir um longo silvo de admiração. O russo falou durante cerca de meia hora.

            - Isso é exato, Peter? Está finalmente acontecendo?

            - Tão exato como estarmos aqui sentados. Ouvi o próprio ministro da Defesa confirmá-lo.

            - Muitas coisas se modificarão. Obrigado, velho caçador. Agora, temos de nos separar.

            Como se fossem simples desconhecidos que tinham trocado algumas palavras num local público, Monk estendeu a mão e Solomin arregalou os olhos de perplexidade.

            - Que é isso?

            - Tratava-se de um anel. O americano não costumava usá-los, mas condizia com a personalidade de um texano. Era de turquesa e prata, do gênero largamente divulgado no Texas e no Novo México. Num gesto quase dissimulado, Monk retirou-o do dedo e entregou-o ao siberiano.

            - Para mim? - estranhou este último.

            - Nunca pedira dinheiro, e Monk receava que se ofendesse se oferecesse. A avaliar pela expressão do interlocutor, o anel era algo mais do que uma recompensa  turquesa e prata no valor de cem dólares, extraídos dos montes do Novo México e manipulados por ourives Navajos*.

            Consciente que seria imprudente abraçarem-se em público, o americano começou a afastar-se. No entanto, após alguns passos, voltou-se. Pyotr Solomin introduzira o anel no dedo da mão esquerda e admirava-o. Foi a última imagem com que ficou do caçador do Leste.

            O Armênia fez escala por Odessa, onde largou a sua carga humana. Os funcionários da Alfândega examinaram todas as malas, mas apenas procuravam material impresso anti-soviético. Monk fora informado que nunca revistavam um turista estrangeiro, a menos que se achassem presentes agentes do KGB, e tinha de ser por um motivo muito especial.

            Ocultara o conjunto de minúsculas transparências entre duas camadas de fita adesiva coladas a uma nádega. Juntamente com os outros americanos, fechou a mala e foram todos canalizados pelo guia da Intourist através das formalidades em direção ao comboio para Moscou.

            No dia seguinte, na capital, Monk entregou a “encomenda” na embaixada, de onde seguiria para Langley na mala diplomática, e regressou de avião aos Estados Unidos, onde tinha de redigir um longo relatório.

 

            - Boa noite, embaixada britânica - proferiu a telefonista no Cais Sofiskaya.

            - És to? perguntou uma voz excitada, do outro lado do fio.

            - Dobriy vecher, angliyskoye posolvstvo-  repetiu a telefonista, em russo.

            - Queria falar para a bilheteira do Teatro Bolshoi.

            - Lamento, mas enganou-se no número - replicou, e cortou a ligação.

            Os funcionários de serviço no banco de monitores da central da FAPSI, agência de escuta eletrônica russa, ouviram o breve diálogo e registraram a hora do telefonema, sem, todavia, lhe prestarem atenção especial, pois as chamadas erradas eram frequentes.

            Na embaixada, a telefonista ignorou as luzes vermelhas intermitentes de duas outras recebidas naquele momento, consultou uma pequena agenda e marcou um número interno.

            - Mr. Fields?

            - O próprio.

            - É do PBX. Acabam de telefonar a perguntar se era da bilheteira do Teatro Bolshoi.

            - Está bem, obrigado.

            “Gracie” Fields ligou a Jock MacDonald. As extensões internas eram “varridas” com regularidade pelo homem do serviço de segurança e consideradas à prova de qualquer escuta indesejável.

            - O meu amigo do Finest de Moscou acaba de telefonar. Utilizou o código de emergência, e preciso lhe retribuir a chamada.

            - Entendido - disse o chefe de estação.

            - Informe-me do que houver.

            Fields consultou o relógio. Uma hora entre duas chamadas, e tinham-se escoado cinco minutos. Num telefone público, à entrada de um banco a dois quarteirões do edifício da Polícia, o inspetor Noikov também viu as horas e dicidiu tomar um café para preencher o lapso de tempo de cinquenta e cinco minutos. Depois, seguiria para outra cabina, situada a um quarteirão dali, e aguardaria.

            Fields abandonou a embaixada dez minutos mais tarde e conduziu o carro lentamente em direção ao Hotel Kosmos, no Prospekt Mira. Construído em 1979 e moderno segundo os padrões moscovitas, dispunha de uma fiada de cabinas públicas junto do átrio.

            Uma hora após a recepção do telefonema na embaixada, consultou uma agenda que extraiu do bolso do casaco e marcou um número. As chamadas entre cabinas públicas constituem um pesadelo para as organizações de contra-espionagem e são virtualmente impossíveis de localizar devido ao seu elevado número.

            - Bons?

            Novikov não se chamava Bons, mas Yevgeni, e, ao ouvir aquele nome, compreendeu que era Fields que falava.

            - Sim. Trata-se do desenho que me deu. Acho que devemos nos encontrar.

            - Muito bem. Podemos jantar juntos no Rossiya. Nenhum dos dois tencionava ir ao vasto Hotel Rossiya.

           A referência dizia respeito a um bar chamado Carrossel, mais ou menos a meio da Rua Tverskaya, suficientemente fresco e obscuro para ser discreto. O lapso de tempo era, mais uma vez, de uma hora.

            À semelhança de muitas embaixadas britânicas de maior âmbito, a legação de Moscou continha no seu pessoal um membro do serviço de segurança interno conhecido por MI5, organização irmã do SIS, denominado errada e popularmente, MI6. A missão do agente do MI5 não consistia em reunir informação sobre o país anfitrião, mas garantir a segurança da embaixada, das várias estações externas e do seu pessoal.

            Este último não se considerava prisioneiro e, em Moscou, durante o Verão, frequentava um atraente local de banhos nos arrabaldes da cidade, onde o rio Moskva descreve uma curva de um modo que expõe uma pequena praia arenosa, considerada pelo serviço diplomático um reduto favorito para piqueniques e nadar.

            Antes de ser promovido a inspetor e transferido para a Brigada de Homicídios, Yevgeni Novikov fora o responsável da segurança dessa região, inclusive da área de veraneio conhecida por Serebryaniy Bor, ou Bosque de Prata. Fora aí que conhecera o então agente do serviço de segurança britânico, o qual o apresentara ao recém-chegado “Gracíe” Fields, que cultivou o convívio com o jovem policial e acabou por sugerir que uma pequena quantia em moeda forte podia tornar a vida mais desafogada a um homem que apenas contava com o salário fixo numa época inflacionária. O inspetor Novikov tornou-se assim  uma fonte, de baixo nível, sem dúvida, mas ocasionalmente útil. Durante aquela   semana, o detetive do Departamento de Homicídios compensara todo o esforço.

            - Temos um cadáver - anunciou a Fields, depois de se sentarem na penumbra do Carrossel, diante de cervejas geladas. - Estou convencido que é o homem do desenho que me confiou. Velho, dentes de aço, etc... - E descreveu os eventos como os obtivera do colega Volsky sobre o João Ninguém.

            - Quase três semanas é muito tempo para estar morto, com este calor - observou o diplomata inglês. - A cara deve ter um aspecto horrível. Pode não ser o mesmo homem.

            - Havia apenas oito dias que se encontrava no bosque. Depois, foi encerrado numa câmara frigorífica. Deve estar reconhecível.

            - Preciso de uma fotografia, Boris. Pode obtê-la?

            - Não sei... Estão todas em poder de Volsky. Conhece um investigador chamado Chernov?

            - Sim, visitou a embaixada. Também lhe entreguei um dos desenhos.

            - Eu sei. Agora, circulam por toda a parte. De qualquer modo, ele vai voltar. Volsky deve tê-lo  informado. Disporá de uma fotografia do rosto do cadáver.

            - Mas para ele e não para nós. Pode ser difícil...

            - Tente, em todo o caso. - Fields fez uma breve pausa e acrescentou: - Como funcionário da Brigada de Homicídios, pode alegar que pretende mostrá-la   a alguns contatos de bandos. Arranje um pretexto plausível. Agora, trata-se de um assassinato. Aliás, é a sua missão: desvendar crimes de morte.

            - Decerto - admitiu o russo, com ar compungido, ao mesmo tempo que se perguntava se o interlocutor sabia que a taxa de homicídios esclarecidos se limitava a três por cento.

 

            - Conte com uma gratificação - informou Fields. - Quando o nosso pessoal é atacado, mostramo-nos generosos.

            - Está bem. Tentarei obter uma foto.

            Afinal, Nevikov não necessitou desenvolver esforços especiais. O processo do homem misterioso foi enviado ao Departamento de Homicídios sem que o solicitasse e, dois dias mais tarde, ele pôde apoderar-se de uma das várias fotografias do rosto tiradas no bosque junto da estrada de Minsk.

 

Langley, Novembro de 1986

            Carey Jordan estava excepcionalmente bem disposto. Esses estados de espírito eram de breve duração em fins de 1986, porque o escândalo dos contras iranianos ecoava nos corredores da diplomacia de Washington, e ele, mais do que qualquer outro, sabia até que ponto a CIA se envolvera no assunto.

            Mas acabava de ser chamado ao gabinete do diretor, William Casey, para receber os mais calorosos elogios. A causa da pouco vulgar benignidade do superior consistia na recepção que obtivera nas altas esferas a notícia trazida de Ialta por Jason Monk.

            No início dos anos oitenta, quando Yuri Andropov era presidente da URSS, o antigo chefe do KGB instituíra pessoalmente uma série de medidas altamente agressivas contra o Ocidente. Era a última tentativa desesperada do moribundo dirigente para fazer oscilar o poder da aliança da NATO por meio de intimidação.

            O âmago da questão consistia na disseminação, através dos países satélites soviéticos da Europa Oriental, de novos mísseis de médio alcance. com três bombas nucleares de alvos independentes em cada um, os SS-20 estavam apontados a todas as vilas e cidades da Europa do norte da Noruega até à Sicília.

            Na altura, Donald Reagan ocupava a Casa Branca e Margaret Thatcher o gabinete de Downing Street. Os dois líderes ocidentais decidiram que não se deixariam impressionar com ameaças e, por cada míssil apontado ao Ocidente, responderiam com outro.

            Os Pershing II e os Cruzeiros achavam-se presentes em toda a Grã-Bretanha e Europa Ocidental, apesar das constantes e ruidosas manifestações da Esquerda Européia, e Reagan e Thatcher mantinham as suas posições com firmeza. O programa americano da Guerra das Estrelas obrigou a URSS a recorrer a um sistema próprio antimísseis. Andropov morreu, Chernenko surgiu e afastou-se da cena e Gorbachev assumiu o poder, mas a colisão de vontades e do poder industrial prosseguiu.

            Mikhail Gorbachev tornara-se secretário-geral do partido em Março de 1985. Tratava-se de um dedicado comunista nascido e criado segundo essa linha. A diferença residia em que, ao contrário dos seus predecessores, era um pragmático e recusava aceitar as mentiras que eles haviam tragado. Insistiu em conhecer os fatos e números reais da indústria e economia soviéticas e, quando os assimilou, ficou traumatizado.

            Continuava convencido que a ruidosa carroça da economia comunista podia ser transformada num eficiente veículo de corrida com um pouco de apuramento de certos detalhes. Daí a perestroika, ou reestruturação.

            No Verão de 1986, nas entranhas do Kremlin e do Ministério da Defesa, começou a tornar-se claro que não funcionaria. O complexo industrial de armamento e o programa da sua aquisição absorviam sessenta por cento do programa doméstico bruto soviético, um número sem dúvida insuportável. O povo começava finalmente a insurgir-se com as dificuldades que passava.

            Nessa altura, procedeu-se a um exame profundo da situação para apurar durante quanto tempo a União Soviética conseguiria manter aquele ritmo. A imagem que o relatório apresentava não podia ser mais tenebrosa. Industrialmente, o Ocidente capitalista ultrapassava o dinossauro russo em todos os níveis. Fora esse documento que Solomin entregara, reproduzido em microfilme, num banco dos jardins de Ialta.

            A informação seguiu diretamente para a Casa Branca e cruzou o Atlântico para conhecimento de Mrs. Thatcher, que ficaram devidamente impressionadas. Bill Casey foi felicitado pelo Gabinete Oval e transmitiu os elogios a Carey Jordan, o qual mandou chamar Jason Monk, para que recebesse a merecida parte. No final da troca de impressões, abordou o tópico que mencionara em outra ocasião.

            - Tenho um problema bicudo com o raio dos seus processos, Jason. Não pode conservá-los no seu cofre. Se lhe acontecesse alguma coisa, não saberíamos como lidar com esses dois “bens”, Lisandro e Orion. Devem ser arquivados com os outros.

            Passara mais de um ano desde a primeira traição de Aldrich Ames e seis meses desde que o desastre dos agentes desaparecidos se tornara aparente. O culpado continuava em Roma. Tecnicamente, a caça às toupeiras continuava, mas a urgência extinguira-se.

            - Se não se partiu,  não se conserta - alegou  Monk. - Esses caras arriscam a vida. Conhecem-me e eu a eles. Confiamos uns nos outros. Deixemos as coisas assim.

            Jordan estava ciente do laço estreito que se podia forjar entre o “bem” e o respectivo manipulador. Tratava-se de uma relação ante a qual a agência franzia o sobrolho por duas razões. O segundo podia ser transferido para um posto diferente, ou aposentar-se ou morrer. Uma relação muito pessoal poderia significar que o “bem” situado em pleno coração da Rússia decidisse não trabalhar para um novo manipulador. Por outro lado, se lhe acontecesse alguma coisa, o representante da agência talvez ficasse muito deprimido para manter a sua utilidade. Numa carreira longa, um “bem” podia ter vários manipuladores. Por conseguinte, o elo de um para um de Monk com os seus dois agentes preocupava Jordan. Era... irregular.

            Além disso, Monk providenciava para que cada um dos seus “bens” no seio de Moscou (Turpin abandonara Madrid e regressara à procedência, produzindo material surpreendente do próprio coração do Diretor K do Primeiro DP) recebesse longas cartas pessoais dele, juntamente com as habituais listas de tarefas.

            Jordan acabou por aceitar uma solução de compromisso. Os processos que continham detalhes dos homens, onde e como haviam sido recrutados, como eram “municiados”, os seus diferentes locais de serviço tudo menos os seus nomes, mas suficiente para os identificar seriam transferidos para o cofre pessoal do DDO. Se alguém pretendesse consultá-los, teria de explicar o motivo a este último. Monk concordou, e a transferência foi efetuada.

 

            O inspetor Novikov tinha razão numa coisa. O investigador Chernov voltou de fato a visitar a embaixada. O fez na manhã seguinte de 5 de Agosto. Jock MacDonald pediu-lhe que fosse escoltado ao seu gabinete, onde se fez passar por adido da seção de Chancelaria.

            - Cremos que descobrimos o homem que assaltou o apartamento da sua colega.

            - Os meus parabéns, investigador.

            - Infelizmente, morreu.

            - Mas decerto tem uma fotografia?

            - Sim. Do corpo. Do rosto. E... - Chernov indicou um saco de lona que pousara a seu lado - ...o capote que ele provavelmente vestia.

            Depositou uma fotografia sobre a mesa do interlocutor. Apesar de algo sinistro, o semblante parecia-se muito com o do desenho a lápis.

            - Vou chamar Miss Stone, para que identifique o infortunado homem.

            Célia Stone fazia-se acompanhar de Fields, que se conservou presente. MacDonald preveniu-a da natureza do que veria, mas ficaria grato se exprimisse a sua opinião. Ela dirigiu um breve olhar à foto e pousou a mão na boca, horrorizada. Em seguida, Chernov extraiu o velho capote militar do saco e desdobrou-o. Célia olhou desesperadamente para MacDonald e assentiu com uma breve inclinação de cabeça.

            - É ele. É o homem que...

            - ...viu fugir do seu apartamento. Parece não restar qualquer dúvida a   esse respeito, investigador. - MacDonald fez uma  pausa, enquanto Célia Stone  se retirava, escoltada por Fields. - Permita-me que lhe diga, em nome do governo britânico, que executou um excelente trabalho. Talvez nunca venhamos a saber o nome do homem, mas agora já não interessa muito. O pobre diabo morreu. - Com um largo sorriso, acrescentou: - Garanto-lhe que o comando-geral da Polícia de Moscou receberá um relatório muito favorável a seu respeito.

            Chernov retirou-se visivelmente satisfeito e, quando regressou a Petrovska, transferiu o processo da seção de assaltos para a de homicídios. O fato de parecer haver um segundo assaltante envolvido era irrelevante. Sem uma descrição ou o testemunho do morto, a sua localização e identificação seriam mais improváveis que a aparição da agulha no proverbial palheiro.

            Pouco depois, MacDonald reuniu-se com Fields. O chefe da estação serviu-se de um café e perguntou:

            - Que pensa de tudo isto?

            - Segundo a minha fonte, o homem foi espancado até à morte. Ele tem um amigo na seção dos João Ninguém, que reparou no desenho afixado no quadro e estabeleceu a ligação. O relatório da autópsia refere que havia cerca de uma semana que o corpo se encontrava no bosque, quando foi descoberto.

            - Que foi?...

            Fields consultou as notas que escrevera imediatamente após a conversa no Bar Carrossel.

            - A 24 de Julho.

            - Por conseguinte, teria morrido a 17 ou 18. No dia seguinte àquele  em que arremessou o relatório para dentro do carro da Célia. O mesmo em que voei para Londres. Os rapazes não perdem tempo.

            - Quais rapazes?

            - Bem, tudo parece indicar que foi obra dos torcionários comandados pelo sanguinário Grishin.

            - O chefe da segurança pessoal de Komarov?

            - É uma das suas designações. Alguma vez consultou a sua ficha?

            - Não.

            - Faça-o, na primeira oportunidade. É um ex-interrogador do Segundo Diretorado Principal. Mau como as cobras.

            - Se foi espancamento e morte punitivos, quem seria o velho? ponderou Fields.

            - Provavelmente, o autor do roubo do relatório.

            - Como se explica que fosse parar às mãos de um velho andrajoso?

            - Só me ocorre a explicação de que era um obscuro empregado ao qual se deparou  uma oportunidade afortunada. Na realidade, azarenta. Palpita-me que o seu amigo policial vai ter de ganhar uma gratificação bem gorda...

 

Buenos Aires, Junho de 1987

            Foi um atilado agente da estação da CIA na capital argentina o primeiro a suspeitar que Valeri Yurievich Kruglov, da embaixada soviética, talvez tivesse um ponto vulnerável, e o chefe da estação americano consultou Langley.

            A Divisão da América Latina já dispunha de um processo a seu respeito que datava de uma anterior comissão de serviço de Kruglov, em meados dos anos setenta, na cidade do México. Sabia-se que era perito em assuntos relacionados com aquela região, com três dessas missões no seu passado de uma carreira de vinte anos ao serviço dos assuntos estrangeiros soviéticos. E, como se mostrava cordial e competente, o processo incluía detalhes minuciosos da sua carreira.

           Nascido em 1944, era filho de um diplomata, também especialista em assuntos da América Latina. Deveu-se à influência do pai o ingresso do rapaz no prestigioso Instituto de Relações Internacionais, MGIMO, onde aprendeu espanhol e inglês e permaneceu entre 1961 e 1966. A seguir, cumpriu duas comissões de serviço na Colômbia, ainda muito jovem, e no México, uma década mais tarde, antes de reaparecer como primeiro secretário, em Buenos Aires.

            A CIA estava convencida que não pertencia ao KGB e era um diplomata vulgar. Segundo os elementos apurados, tratava-se de um russo razoavelmente liberal, porventura pró-ocidental, e não do habitual Homo sovieticus da linha dura. O motivo do alerta no Verão de 1987 fora uma conversa com um funcionário oficial argentino, transmitida aos americanos, durante a qual Kruglov revelou que em breve regressaria a Moscou, para não voltar a deslocar-se ao estrangeiro, e o seu estilo de vida sofreria uma quebra pronunciada.

            Como o assunto dizia respeito a um russo, o alerta envolveu também a Divisão SE, e Harry Gaunt sugeriu que se lhe colocasse na frente um novo rosto. E propôs Jason Monk, que falava espanhol e russo, o que mereceu a concordância de Jordan.

            A tarefa revestia-se de grande simplicidade. A estada de Kruglov no estrangeiro terminaria dentro de um mês. Segundo as palavras de uma canção popular, tinha de ser agora ou nunca.

            Cinco anos após a Guerra das Malvinas, com a democracia restaurada na Argentina, Buenos Aires podia considerar-se uma capital tranquila, sendo fácil ao homem de negócios americano, acompanhado de uma jovem da embaixada dos Estados Unidos, entabular conversa com Kruglov numa recepção. Monk providenciou para que as relações se desenrolassem em clima cordial e sugeriu que jantassem juntos.

            O russo, que, como primeiro-secretário, dispunha de considerável liberdade de movimentos por parte do seu embaixador e do KGB, considerou interessante a idéia de uma refeição com alguém alheio ao circuito diplomático. Durante o jantar, Monk inspirou-se na história da vida da sua antiga professora de francês, Mrs. Brady. Assim, referiu que a mãe fora intérprete para o Exército Vermelho e, na sequência da queda de Berlim, conhecera e apaixonara-se por um jovem oficial soviético, com o qual, em desafio aberto a todos os regulamentos, se transferira para o Ocidente, onde haviam casado. Por conseguinte, no lar paterno, Monk habituara-se a falar inglês e russo com análoga fluência. A partir daquele momento, os dois homens passaram a conversar no segundo daqueles idiomas, ante o alívio de Kruglov, pois, embora o seu castelhano fosse excelente, exprimia-se em inglês com frequentes hesitações.

            O seu verdadeiro problema veio à baila transcorridos menos de duas semanas. com quarenta e três anos, divorciado, embora com dois filhos adolescentes, continuava a partilhar um apartamento com os pais. Se dispusesse de uma quantia próxima dos vinte mil dólares, poderia comprar uma pequena casa própria em Moscou. Ora Monk, que se deslocara à Argentina supostamente para adquirir mais alguns pôneis, teria o maior gosto em emprestar dinheiro ao seu novo amigo.

           O chefe de estação sugeriu que a entrega do empréstimo fosse fotografada, todavia Monk objectou.

            - A chantagem não daria certo. Ele aceitará a nossa proposta voluntariamente ou por nenhum outro método.

            Embora fosse menos graduado, verificou com satisfação que o COS* concordava em lhe conceder carta branca O “engodo” que Monk utilizou foi o da desaprovação dos belicistas espalhados pelo mundo. Salientou que Mikhail Gorbachev era muito popular nos Estados Unidos, revelação que agradou a Kruglov, embora não constituísse uma novidade para ele. com efeito, sentia particular inclinação para o presidente russo.

            Monk observou que Gorby procurava desmantelar a máquina de guerra e instaurar a paz e confiança entre os dois povos. O pior era que ainda havia partidários da Guerra Fria em ambos os lados, inclusive no coração do Ministério dos Assuntos Estrangeiros soviético, os quais se esforçavam por sabotar o processo. Seria, portanto, extremamente útil, se Kruglov pudesse informar o seu novo amigo o que na realidade se passava no setor dos serviços diplomáticos.

* Chief of station. (N. do T.)

            Para Monk, que desenvolvera uma paixão por aquele tipo de pesca, a operação assemelhava-se a puxar pelo anzol um atum que se resignara ao inevitável. Por fim, o russo recebeu os dólares que pretendia e uma embalagem de comunicações: pormenores de planos pessoais, a posição e o acesso deviam ser enviados em tinta secreta numa carta de aspecto inofensivo para uma caixa de correspondência “viva” em Berlim Oriental. O material de espionagem (documentos) seria fotografado e expedido para a CIA em Moscou, através de um dos dois “depósitos” existentes na cidade.

            Quando se separaram, abraçaram-se segundo o estilo russo.

            - Não se esqueça, Valeri - disse Monk. - Nós... os bons da fita...  estamos ganhando. Em breve, tudo isto terminará e teremos contribuído para a sua consumação. Se alguma vez precisar de mim, chame-me, que comparecerei imediatamente.

            Por último, Kruglov regressou a Moscou e o americano a Lang ley.

           

            - Fala Boris. Já a tenho.

            - O quê?

            - A fotografia que queria. O processo regressou à Brigada de Homicídios. A seção de Chernov foi desligada do assunto. Surripiei uma das melhores fotos do conjunto. Como os olhos estão fechados, o aspecto não se pode considerar muito repulsivo.

            - Ótimo, Boris. Dá-se a casualidade de eu ter um envelope com notas de quinhentas libras no bolso do casaco. No entanto, preciso que faça mais uma coisa. Depois, o envelope ficará volumoso. Conterá então mil libras inglesas.

            O inspetor Novikov respirou fundo, na cabina telefônica em que se encontrava. Não conseguia sequer fazer uma idéia aproximada de quantas centenas de milhões de rublos poderia adquirir com o conteúdo do envelope mencionado. De qualquer modo, muitos mais do que os correspondentes ao salário de um ano.

            - Continue.

            - Procure o responsável do pessoal da sede do Partido UFP e mostre-lhe a fotografia.

            - A sede do Partido quê?

            - Da União das Forças Patrióticas.

            - Que raio têm eles a ver com isto?

            - Não sei. É apenas uma idéia. Talvez alguém se recorde de ter visto o homem.

            - Porquê?

            - Não faço a menor idéia. Trata-se de uma mera possibilidade.

            - Que pretexto invoco?

            - É um detetive da Brigada de Homicídios que investiga um caso. De momento, segue uma pista. O homem pode ter sido visto rondando o local. Talvez tentasse forçar a entrada. Algum dos guardas o viu nas imediações? Coisas desse gênero.

            - Muito bem. Mas trata-se de gente importante. Se descobrirem as minhas verdadeiras intenções, a culpa é sua.

           - Por que haveriam de descobrir? Não passa de um modesto policial no exercício da sua profissão. O desesperado em causa foi visto nas proximidades   da casa de Komarov, perto do Bulevar Kiselny. Compete-lhe chamar-lhes a  atenção para o fato, apesar de ele ter morrido, pois podia fazer parte de um bando. Tranquilize-se,  que não corre qualquer perigo. Faça o que lhe indico e as mil libras serão suas.

            Yevgeni Novikov emitiu alguns breves grunhidos e cortou a ligação, refletindo que aqueles anglichanye eram loucos. No fundo, o homem limitara-se a assaltar um dos seus apartamentos. Mas as mil libras justificavam que se expusesse a alguns riscos.

 

Moscou, Outubro de 1987

            O coronel Anatoli Grishin sentia-se frustrado, no sentido que atingira o auge das suas possibilidades e não lhe restava mais nada para fazer.

            O interrogatório do último agente dos vários denunciados por Ames há muito que terminara, com as respectivas confissões espremidas até à última gota. Tinham sido doze os ocupantes das úmidas celas de Lefortovo, presentes sucessiva e individualmente aos interrogadores do Primeiro e Segundo Diretorados Principais ou conduzidos por ordem especial de Grishin, na eventualidade de surgir algum recalcitrante ou desmemoriado.

            Dois, contra a vontade do chefe dos torcionários, haviam sido condenados a longas penas de trabalhos forçados, em vez da morte, porque tinham trabalhado muito tempo para a CIA ou a sua informação produzira estragos relativamente modestos. Os restantes não conseguiram evitar a execução, com a clássica bala na nuca. Somente um conservou a vida, por insistência de Grishin o mais idoso de todos. O general Dmitri Polyakov trabalhara para a América durante vinte anos, antes de ser denunciado. Aposentara-se depois de regressar a Moscou, em 1980, pela última vez.

            Nunca aceitara dinheiro fizera-o por estar desgostoso com o regime soviético e coisas que fazia. E disse-o aos interrogadores. Empertigado na cadeira, revelou o que pensava deles e fizera ao longo de vinte anos, manifestando mais dignidade e coragem que todos os outros. Nunca suplicou. De resto, devido à idade avançada, nada do que tinha para dizer se revestia de valor corrente. Não conhecia quaisquer operações atuais e os nomes que conhecia resumiam-se aos dos manipuladores da CIA com os quais contactara, agora igualmente aposentados.

            No final, Grishin ficou odiando o velho general a tal ponto, que o manteve vivo para tratamento especial. Agora, o prisioneiro jazia sobre os seus próprios excrementos numa placa de ferro e chorava. De vez em quando, o interrogador espreitava para se certificar que se achava imerso no máximo desconforto. Seria apenas a 15 de Março de 1988 que, por insistência do próprio general Boyarov, abandonaria o mundo dos vivos.

            - A  questão  é  que,  meu  caro  colega - observou  este último a Grishin,   naquele mês, - não há nada para  fazer. A comissão de caça-ratos deve ser dissolvida.

            - Falta o outro homem, aquele que se fala no Primeiro Diretorado Principal, que se ocupa dos traidores daqui, mas não foi capturado.

            - Sim, o que ninguém consegue encontrar. Há muitas referências, mas nenhum dos traidores ouviu jamais mencionar o nome.

            - E se apanhamos os seus informantes?

            - Obrigamo-los  a expiar as suas faltas - disse Boyarov. - E se tal acontecer, se o homem de Yazenevo em Washington conseguir entregar-nos, você poderá  reunir de novo o seu pessoal e recomeçar tudo. E porventura mudarem de  nome, intitulando-se a comissão Minakh.

            Grishin não compreendeu a alusão, ao contrário do general, que soltou uma gargalhada estentórica. Manakh significa monge (monk), em russo.

           

            Se Pavel Volsky pensava que não voltaria a ser procurado pelo patologista do necrotério, enganava-se redondamente. O telefone tocou na mesma manhã em que o seu amigo Novikov conversava discretamente com um funcionário dos Serviços Secretos britânicos, a 7 de Agosto.

            - Fala Kuzmin - anunciou uma voz masculina, ante a perplexidade de Volsky. - O professor Kusmin, do Segundo Instituto de Medicina. Conversamos há dias sobre a minha autópsia de um João-Ninguém.

            - Ah, com certeza, professor! Em que posso servi-lo?

            - Eu é que talvez possa ser útil. Creio que tenho uma informação para você.

            - Agradeço antecipadamente, de que se trata?

            - A semana passada, foi pescado um corpo humano do Moskva, em Lytkarino.

            - Mas isso é da competência das autoridades locais e não nossa.

            - Seria, de fato, se um abelhudo qualquer de  lá  não chegasse à conclusão que o corpo em causa tinha estado imerso na água durante cerca de duas semanas... na verdade, não se equivocava... e, ao longo desse lapso de tempo,  a corrente arrastara-o desde Moscou. Por conseguinte, os filhos da mãe despacharam-no para cá, e acabo de proceder ao seu exame.

            Volsky refletiu por um breve momento. Duas semanas imerso na água, nos píncaros do Verão. O professor devia possuir um estômago resistente como uma betoneira.

            - Assassinado? - perguntou, por fim.

            - Pelo contrário. Vestia apenas cuecas. Tudo indica que quis tomar banho  devido ao calor, sofreu algum colapso e afogou-se.

            - Nesse caso, tratou-se de um acidente, o que é da alçada da Autoridade  Civil  protestou.  Eu  pertenço à  Brigada de Homicídios.

            - Escute, meu rapaz. Preste bem atenção. Em circunstâncias normais, não haveria qualquer identificação, mas aqueles idiotas de Lytkarino não repararam numa coisa, devido ao inchaço dos dedos. Uma aliança de casamento. De ouro maciço. Tirei-a, para o que tive de cortar o anelar. Na parte de dentro, há a seguinte inscrição: “N. I. Akopov, da Lídia.” Admirável, hem?

            - Muito, professor. Mas se não foi  homicídio...

            - Alguma vez teve de contactar com o Departamento de Desaparecidos?

            - Com certeza. Envia-me todas as semanas um conjunto de fotografias, para ver se consigo localizar alguém.

            - Um homem possuidor de uma pesada aliança de casamento devia ter família, que decerto participou o seu desaparecimento, se ausentara há três semanas. Lembrei-me que talvez beneficiasse com o seu gênio detetivesco marcando alguns pontos junto dos seus colegas do Departamento de Desaparecidos. Como não conheço lá ninguém, resolvi telefonar para você.

            O inspetor experimentou um estremecimento de satisfação. Estava sempre pedindo favores àquele departamento e chegara a vez de lhe fornecer informações valiosas e conquistar alguns louros. Assim, tomou nota dos pormenores e agradeceu ao professor e desligou.

            O seu contacto habitual no Departamento de Desaparecidos surgiu na linha passados dez minutos.

            - Vocês têm uma PD* chamada N. I. Akopov?

            O outro consultou os registros e informou:

            - Temos. Porquê?

            - Forneça-me os detalhes.

            - Dado como desaparecido a 17 de Julho. Não regressou do trabalho na noite anterior, nem em qualquer outro momento. A comunicação foi efetuada pela parenta mais próxima, Mrs. Akopov .

            - Mrs. Lídia Akopov?

            - Como diabo o sabe? Esteve aqui quatro vezes para pedir notícias. Onde ele está?

            - Numa gaveta frigorífica do necrotério da Segunda Escola de Medicina. Foi tomar banho e afogou-se. Pescaram-no do rio em Lytkarino, a semana passada

            - Caramba.  A velhota vai delirar de alegria. Por ver o mistério da sua  ausência  esclarecido, claro. Sabe quem ele é... era?

            - Não faço a menor idéia - garantiu Volsky.

            - Nada menos do que o secretário particular de Igor Komarov.

            - O político?

            - O nosso próximo presidente. Obrigado, Pavel. Fico devendo um favor.

            “Pode repeti-lo”, reflectiu, enquanto pousava o auscultador.

 

Ornara, Novembro de 1987

            Carey Jordan foi obrigado a apresentar a demissão naquele mês. Não por causa da fuga de Edward Lee Howard, nem ainda do assunto dos agentes desaparecidos, mas dos contras iranianos. Anos atrás, a ordem para ajudar os contras da Nicarágua nas suas tentativas para derrubar os Sandinistas marxistas proviera do topo do Gabinete Oval. O Diretor da CIA, Bill Casey, concordara em executá-la. No entanto, o Congresso opusera-se e votara desfavoravelmente a disponibilização da respectiva verba. Furiosos por terem sido contrariados, Casey e outros tentaram reunir a quantia necessária com a venda de armamento, sem aprovação superior, a Teeran.

* Pessoa Desaparecida. (N. do T)

            Quando tudo se tornou conhecido, ele sofreu um grave, embora oportuno enfarte, no seu gabinete em Langley, em Dezembro de 1986, jamais regressando ao trabalho e expirando em Maio do ano seguinte. O presidente Reagan nomeou para substitui-lo o politicamente correto William Webster, Diretor do FBI. Carey Jordan executara as ordens do seu presidente e do seu diretor e agora um sofria de amnésia e o outro morrera.

            Webster escolheu para novo subdiretor (OPS) um veterano aposentado, Richard Stolz, que abandonara a atividade seis anos atrás, pelo que estava limpo de qualquer envolvimento no assunto dos contras iranianos. E também desconhecia por completo a devastação ocorrida na Divisão SE, dois anos antes. E, enquanto procurava adaptar-se, os burocratas assumiram o poder a força. Três processos foram retirados do cofre do DDO e incorporados no material, ou no que restava dele, nos 301 ficheiros. Continham detalhes de agentes com os nomes de código de Lisandro, Orion e um mais recente, Delfos.

            Jason Monk ignorava tudo isto, pois encontrava-se de férias em Omana. Sempre em busca de novos locais para pescar, inteirara-se da existência de grandes cardumes de atum que frequentavam as proximidades da costa de Omana, ao largo da capital, Mascate, em Novembro e Dezembro.

            Por uma questão de cortesia, apresentara-se na minúscula estação da CIA de um único funcionário, no coração da Mascate Antiga, perto do palácio do sultão, sem esperar tornar a ver o colega depois da bebida que tomaram juntos.

            No terceiro dia, por ter se exposto muito tempo ao sol no mar, decidiu permanecer em terra e efetuar algumas compras. Costumava sair à noite com uma flamejante loura do Departamento de Estado, pelo que se dirigiu de táxi ao souk em Mina Qaboos para ver se encontrava algo para lhe oferecer entre os expositores de incenso, especiarias, tecidos, prata e antiguidades.

            Por fim, optou por uma cafeteira de prata antiga, que o dono da loja embrulhou e introduziu num saco de plástico.

            Em seguida, perdeu-se totalmente no labirinto de ruelas e pátios e acabou por emergir, não diante do mar, mas em algum lugar nas artérias do interior. Quando saía de um beco pouco mais largo que os seus ombros, viu-se num pequeno pátio com uma entrada estreita num dos lados e uma saída no outro. Naquele momento, cruzava-o um homem que parecia europeu.

            Atrás dele, moviam-se dois árabes, que, no momento em que desembocaram no pátio, puxaram de punhais curvos e, empunhando-os, ultrapassaram Monk e correram em direção ao seu alvo.

            O americano reagiu sem refletir. Servindo-se do saco de plástico que continha a cafeteira, atingiu um dos agressores na cabeça e o fez tombar pesadamente. O outro navalhista deteve-se, apanhado entre dois fogos, e avançou para Monk. Este viu a lâmina brilhar no espaço, colocou-se no interior do braço, desviou-se sob a arma, bloqueou-o e desferiu um violento soco no queixo do árabe.

            No entanto, este era rijo. Emitiu um grunhido e conservou o punhal na mão, mas optou pela fuga, enquanto o companheiro se levantava e o seguia, deixando o seu no chão.

            Entretanto, o europeu voltara-se e abarcara a situação sem pronunciar uma única palavra. Era óbvio que compreendia que teria sido morto, sem a intervenção do homem louro que se achava a três metros de distância. Monk viu um jovem magro de pele cor de azeitona e olhos negros, mas não um árabe local, além que usava camisa branca e terno escuro. Preparava-se para dizer algo, quando o outro inclinou levemente a cabeça num gesto de agradecimento e se afastou.

            Por fim, Monk agachou-se para recolher o punhal. Não se tratava de um kunja, além que não havia memória de assaltos ou agressões na via pública praticados por habitantes locais, mas de um gambiah iemenita. Ele julgou conhecer a origem dos navalhistas. Pertenciam à tribo Áudhali ou Aulaqui do interior do Iémen. Que fariam tão longe da costa de Omana e por que pretenderiam matar o jovem ocidental?

            Obedecendo a um palpite, dirigiu-se à embaixada e procurou o homem da CIA aí estacionado.

            - Tem, por acaso, uma galeria de criminosos célebres dos nossos amigos da embaixada soviética?

            Era do conhecimento geral que, desde o fiasco da guerra civil no Iémen, em Janeiro de 1986, a URSS se retirara totalmente, deixando o governo local pró-Moscou empobrecido e amargurado. Consumida pela cólera resultante da humilhação sofrida, Adem teve de recorrer ao Ocidente para obter créditos que lhe permitissem a sobrevivência. A partir de então, a vida de um russo no Iémen permanecia suspensa por um fio. No final de 1987, a URSS abrira uma embaixada no firmemente anticomunista Omana e namorava o sultão pró-britânico.

            - Não - respondeu o colega, - mas aposto que os ingleses têm.

            Os dois homens seguiram para o edifício da embaixada britânica, a poucas dezenas de metros de distância, após um telefonema prévio, e foram recebidos por um membro do SIS, que lhes estendeu a mão cordialmente.

            - Qual é o problema, amigo? - perguntou com curiosidade.

            - O problema - replicou Monk - consiste em que acabo de ver um homem no souk que julgo ser russo. Tratava-se de um mero detalhe, mas o indivíduo em causa usava o colarinho da camisa por cima da gola do casaco, como os russos costumavam fazer e os ocidentais evitavam.

            - Bem, lancemos uma olhada às fotos dos cadastrados - propôs o britânico.

            Conduziu os visitantes ao piso superior. A unidade do SIS funcionava no topo do edifício, em cuja sala ele abriu um cofre, do qual extraiu uma espécie de álbum, que começaram a folhear.

            O pessoal soviético recém-chegado achava-se representado por meio de instantâneos tirados no aeroporto, atravessando a rua ou na esplanada de um café. O jovem de olhos negros era o que figurava em último lugar, fotografado a dirigindo-se do avião para o terminal do aeroporto.

            - Os fulanos locais são muito úteis nestas coisas - explicou o agente do SIS. - Os russos têm de se anunciar previamente ao Ministério dos Assuntos Estrangeiros daqui, para serem acreditados, e nós obtemos os pormenores. Depois, quando chegam, somos informados e encontramo-nos preparados com uma teleobjetiva. É este?

            - É. Dispõe de detalhes?

            Consultou um maço de retângulos de cartolina.

            - Aqui está. A menos que se trate de um estendal de mentiras, é terceiro secretário, de vinte e oito anos de idade. Chama-se Umar Gumayev, nome que soa a tártaro.

            - Não - discordou Monk, pensativamente. - É checheno. E muçulmano.

            - Acha que pertence ao KGB?

            - Não tenho a menor dúvida a esse respeito.

            - Obrigado pela informação. Quer que se faça alguma coisa a seu respeito? Informar o governo, por exemplo?

            - Não. Todos precisamos ganhar a vida. É preferível saber de quem se trata. Se fosse expulso, enviariam um substituto.

            Quando abandonavam a embaixada britânica, o homem da CIA perguntou:

            - Como o descobriu?

            - Mero palpite - admitiu Monk.

            Mas não fora apenas isso. Gunayev tomava um suco de laranja no bar do Frontel, em Adem, um ano atrás, e ele não fora o único a reconhecê-lo, nesse dia. Os dois árabes haviam-no descoberto e decidido vingar-se do insulto ao seu país.

 

            Mark Jefferson chegou ao aeroporto de Sheremetyevo de Moscou no vôo da tarde de 8 de Agosto e era esperado pelo chefe da delegação do Daily Telegraph. O célebre articulista era baixo e elegante, de cabelo ruivo ralo e pequena barba pontiaguda. Segundo constava, a sua paciência tinha a mesma extensão do corpo e da barba.

            Apressou-se a declinar o convite para jantar com o colega e respectiva esposa e pediu que o conduzissem ao prestigioso Hotel Nacional, na Praça Manege. Uma vez aí, revelou ao colega que preferia entrevistar Komarov sem companhia e, se houvesse necessidade, alugaria uma limusine com motorista através dos bons ofícios da gerência do hotel.

            Em seguida, apresentou-se na recepção, e os detalhes foram registrados pelo próprio gerente, um sueco alto e atencioso, o qual lhe solicitou o passaporte, a fim de serem copiados os elementos indispensáveis para enviar ao Ministério do Turismo. Antes de partir de Londres, Jefferson instruíra a sua secretária para informar o Nacional sobre a sua identidade e grau de importância que merecia. Por fim, subiu ao quarto e marcou o número de telefone que Boris Kuznetsov lhe dera, na troca de faxes.

            - Seja bem-vindo a Moscou, Mr. Jefferson - proferiu o o russo em inglês impecável, com leve sotaque americano. - Mr. Komarov aguarda com ansiedade o momento da entrevista.

            Não era verdade, mas o jornalista acreditava. O encontro ficou marcado para as sete da tarde seguinte, porque o político russo estaria ausente da cidade todo o dia. Seria enviado um carro com motorista ao Nacional para o levar. Satisfeito com a natureza dos preparativos, Mark Jefferson jantou só no hotel e deitou-se.

            Na manhã seguinte, após um café da manhã de bacon e ovos, decidiu dar uma volta para desentorpecer as pernas e desanuviar o espírito.

            - Uma volta? - estranhou o gerente, com uma carranca de perplexidade.  - Onde tenciona ir?

            - A qualquer parte. Para respirar ar puro. Desenferrujar os músculos das pernas. Talvez vá até ao Kremlin.

            - Podemos ceder-lhe a nossa limusine - observou, com ansiedade crescente. - Sempre é mais confortável. E seguro.

            No entanto, Jefferson rejeitou a oferta. Desejava passear a pé, e era isso que faria. Por último, o gerente conseguiu convencê-lo a deixar no hotel o relógio e todo o dinheiro estrangeiro, levando, ao invés, um maço de notas de um milhão de rublos para os pedintes. Suficientes para satisfazer os mendigos, mas não para provocar um assalto. Com uma ponta de sorte.

            Quando regressou ao hotel, cerca de duas horas mais tarde, o jornalista britânico parecia algo intrigado.

            Visitara anteriormente Moscou por duas vezes uma durante o regime comunista e a segunda, oito anos atrás, quando Yeltsin se encontrava no poder  e em cada uma limitara as suas experiências ao táxi proveniente do aeroporto, um hotel de categoria e o circuito diplomático britânico. Assim, considerara Moscou uma cidade quase miserável e suja, mas não contara com o que observara naquela manhã.

            O seu aspecto era tão obviamente de forasteiro que, mesmo nos cais ribeirinhos e em torno dos jardins Alexandrovsky, fora assediado por indivíduos andrajosos que pareciam acampar em toda a parte. Em duas ocasiões, julgou ver bandos de jovens no seu encalço. Os únicos veículos que circulavam pareciam ser os militares, da Polícia ou limusines de pessoas ricas e privilegiadas.

            Quando saboreava uma bebida antes do almoço  decidira permanecer no hotel até que Kuznetsov fosse buscá-lo, encontrou-se só no bar, à exceção de um homem de negócios canadense, e acabaram por entabular conversa.

            - Há quanto tempo está na cidade? - perguntou o oriundo de Toronto.

            - Cheguei ontem à noite.

            - Vai  ficar muito tempo?

            - Regresso a Londres amanhã.

            - Que sorte a sua! Estou aqui há três semanas, tentando fazer negócio.   Posso  garantir-lhe que se trata de um meio sinistro.

            - Não conseguiu nada, - perguntou Jefferson.

            - Bem, tenho vários contratos assinados, instalei um escritório e disponho de sócios. Mas sabe o que aconteceu?

            O canadense procurou uma posição mais confortável no banco do balcão e explicou:

            - Cheguei aqui com todas as apresentações para os negociantes de  madeira que precisava... ou julgava precisar. Aluguei um escritório num novo  bloco de torres. Dois dias depois, bateram à porta e surgiu um cara janota de modos untuosos. “Bom dia, Mr. Wyatt. Sou o seu novo sócio”, anunciou.

            - Conhecia-o?

            - Via-o pela primeira vez. Intitulou-se representante da Mafia local. O negócio era muito simples. Ele e os seus acólitos absorviam cinquenta por cento de todas as operações. Em troca, adquiriam ou forjavam as licenças e documentos que eu necessitasse. Eliminavam a burocracia com um simples telefonema, providenciavam para que as entregas se efetuassem com pontualidade e resolviam todos os problemas laborais Tudo em troca de cinquenta por cento.

            - Mandou-o dar uma volta, claro.

            - Nem pensar. Aprendi a lição depressa. Chamam-lhe dispor de um teto. O que significa proteção. Sem um teto, uma pessoa não vai a parte alguma, a toda a velocidade. Sobretudo porque quem rejeita a proposta perde as pernas. Eles suprimem-nas.

            Jefferson fitou o interlocutor de olhos arregalados.

            - Tinha ouvido dizer que o crime campeava aqui, mas não a esse extremo.

            - Asseguro-lhe que excede as suas mais tenebrosas expectativas.

            Um dos fenômenos que mais surpreendera os observadores ocidentais da Rússia após a queda do comunismo fora a veloz propagação do submundo do crime, denominado, à falta de melhor expressão, Mafia russa. Os próprios nativos começavam a aludir à mafiya. Alguns estrangeiros pensavam que se tratava de uma nova entidade, nascida após a morte do comunismo, o que não passava de uma insensatez.

            Na realidade, existira um vasto submundo criminal na Rússia desde séculos. Ao contrário da Mafia siciliana, não dispunha de uma hierarquia unificada e nunca se exportara para o estrangeiro. Mas grassava sob a forma de uma irmandade crescente, com chefes de bandos regionais, membros leais até à morte e as tatuagens apropriadas para o provar.

            Stalin tentara destruí-la com o envio de milhares de participantes para os campos de escravidão. No entanto, o único resultado consistiu em que os zeki acabaram por dirigir virtualmente esses recintos, com a conivência dos guardas, que preferiam uma vida tranquila a terem as famílias localizadas e maltratadas. Em muitos casos, os vory v zakone  “ladrões por estatuto” ou equivalentes dos padrinhos da Mafia dirigiam as suas empresas no exterior das cabinas que ocupavam nos campos.

            Uma das ironias da Guerra Fria reside em que o comunismo talvez se tivesse desmoronado dez anos mais cedo, sem a existência do submundo do crime. Até os patrões do Partido acabaram por ter de celebrar pactos secretos com ele. O motivo era simples: tratava-se da única coisa na URSS que funcionava com algum grau de eficiência. Um gerente de fábrica, que produzisse uma mercadoria vital, podia ver a sua principal máquina-ferramenta imobilizar-se devido à avaria de uma única válvula. Se costumava proceder através dos canais burocráticos, tinha de aguardar seis a doze meses pela substituta, enquanto todo o material de laboratório permanecia imobilizado.

            Ou podia trocar duas palavras com o cunhado, o qual conhecia um homem que tinha determinados contactos. A válvula aparecia dentro de menos de uma semana. Mais tarde, o gerente da fábrica fechava os olhos ao desaparecimento de uma encomenda de chapa de aço, a qual seguia para outra unidade fabril cujo material ainda não chegara. Depois, os gerentes de ambas adulteravam os livros para provar que tinham cumprido as “normas”.

            Em qualquer sociedade onde uma combinação de burocracia esclerótica e incompetência levou à imobilização de todas as engrenagens, o mercado negro constitui o úmico lubrificante. A URSS funcionara com esse lubrificante ao longo da sua vida e dependia inteiramente dele nos últimos dez anos.

            A Mafia limitava-se a controlar o mercado negro. A única coisa que fez a partir de 1991 foi emergir do anonimato para prosperar e expandir-se. E expandiu-se, sem margem para dúvidas, movendo-se das áreas de escroqueria habituais  álcool, drogas, proteção e prostituição  para todas as facetas da vida.

            O que realmente impressionava era a rapidez e desumanidade com que a virtual tomada da economia se consumou. Três fatores permitiram que tal acontecesse. O primeiro foi a capacidade para a violência maciça e imediata que a Mafia russa demonstrava se a frustravam de algum modo; violência essa que faria a própria Cosa Nostra americana parecer insignificante. Qualquer pessoa, russa ou estrangeira, que se opusesse ao envolvimento mafioso na sua empresa recebia um aviso em geral, de espancamento, explosão ou fogo posto, pouco depois executado, medida que se tornava extensiva aos dirigentes de bancos importantes.

            O segundo fator consistia na incapacidade da Polícia, a qual, com escassez de fundos e de pessoal e desprovida de toda e qualquer experiência do crime organizado e violência que imperavam, não se mantinha à altura das circunstâncias. Quanto ao terceiro, residia na tradição pandêmica da corrupção russa. A inflação maciça subsequente a 1991, até que estabilizou por volta de 1995, contribuía para a gravidade da situação.

            Durante o comunismo, a taxa cambial mantinha-se em dois dólares americanos por cada rublo, um número ridículo e artificial em termos de valor e poder de compra, mas imposto no seio do país, cujo problema se cifrava não na falta de dinheiro, mas de produtos para comprar. A inflação sugava as economias e reduzia os empregados assalariados à pobreza.

            Quando o vencimento de um policial de rua vale menos do que as luvas que calça, torna-se difícil convencê-lo a não aceitar uma nota de banco em torno de uma carta de condução visivelmente falsa.

            Mas isso não passava de insignificâncias. A Mafia russa orientava o sistema até aos funcionários públicos superiores, recrutando quase toda a burocracia como sua aliada. E a burocracia domina tudo no país, Assim, as licenças, propriedades, concessões, privilégios, etc., podiam ser comprados do funcionário público responsável pela sua autorização, o que permitia que a Mafia criasse lucros astronômicos.

            Outra habilidade que impressionava os observadores era a rapidez com que passava da escroqueria convencional (cujo domínio nunca descurava) aos negócios legítimos. A Cosa Nostra americana necessitou de uma geração para compreender que as atividades legítimas, adquiridas com lucros de negócios escuros, serviam para aumentar os proventos e lavar dinheiro ilícito. Os russos conseguiram-no em cinco anos e, em 1995, possuíam ou controlavam quarenta por cento da economia nacional. Entretanto, haviam-se internacionalizado, com realce para as suas três especialidades de armas, drogas e desvio de fundos, apoiadas pela violência instantânea, com alvos em toda a Europa Ocidental e América do Norte.

            O pior foi que, por volta de 1998, exageraram. A avidez fez com que a economia da qual viviam ruísse. Em 1996, cinquenta mil milhões de riqueza, na sua maioria ouro, diamantes, metais preciosos, petróleo, gás natural e madeira, estavam sendo roubados e exportados ilegalmente. Os bens eram adquiridos com rublos quase sem valor, e mesmo assim a preços de saldos, aos burocratas que dirigiam os órgãos do Estado, e vendidos por dólares ao estrangeiro. Alguns destes eram reconvertidos numa chuva de rublos e recuperados para financiar mais subornos e crime. Os restantes destinavam-se a colocação fora do país.

            - O pior de tudo - disse Wyatt, com uma expressão sombria, depois de esvaziar o copo - é que a hemorragia se tornou excessiva. Entre si, os políticos corruptos, os ainda mais corruptos burocratas e os gangsters mataram a galinha dos ovos de ouro que os enriquecia. Leu a história da ascensão do Terceiro Reich?

            - Li, há muito tempo. Porquê?

            - Lembra-se da descrição dos últimos dias da República de Weimar? As filas de desempregados, o crime nas ruas, as poupanças de vidas inteiras reduzidas a zero, a afluência de pessoas à sopa dos pobres, as discussões acesas no Reichstag, enquanto o país mergulhava na bancarrota?...  Pois bem, é o que está acontecendo aqui. Bem, tenho de almoçar com uns “sócios”. Gostei de conversar consigo, Mr...

            - Jefferson.

            No entanto, o nome não pareceu ser do conhecimento do canadense. Tudo indicava que não lia o Daily Telegraph de Londres.

            “Interessante”, refletiu o jornalista britânico, quando ficou só. Segundo todos os elementos que recolhera nos arquivos do seu jornal, o homem que entrevistaria naquela tarde talvez fosse o apropriado para salvar a nação.

            O Chalks preto alongado apareceu no hotel às seis e meia, quando Jefferson já aguardava à entrada. Era invariavelmente pontual e esperava que os outros procedessem do mesmo modo para consigo. O veículo enveredou pelo Bulevar Kiselney, assaz movimentado, e cortou por uma artéria transversal um pouco antes da Estrada Circular do jardim. Quando se aproximava do portão de aço verde, o motorista ativou um botão de alerta num comunicador que extraiu do bolso do casaco.

            As objetivas no topo do muro captaram o carro que se aproximava e o guarda fixou o olhar no monitor em que se via o Chalks e a chapa de matrícula, cujo número correspondia ao que esperava, após o que o portão foi aberto. Em seguida, fechou-se atrás do veículo e o homem aproximou-se da janela, onde examinou o bilhete de identidade do motorista, desviou o olhar para o banco de trás e inclinou a cabeça.

            Boris Kuznetsov, alertado pelo ruído do portão, encontrava-se à entrada da casa para saudar o visitante, que conduziu a uma área de recepção no primeiro andar, uma sala adjacente ao gabinete de Komarov e do lado oposto ao outrora ocupado pelo extinto N. I. Akopov.

            Igor Komarov não permitia que se bebesse ou fumasse na sua presença, pormenor que Jefferson desconhecia e nunca saberia, porque não foi mencionado. Um russo abstemio constitui uma raridade num país em que a bebida representa quase uma indicação de virilidade.

            Decorridos cinco minutos, Komarov fez a sua aparição uma figura imponente de cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho, perto de um metro e oitenta de altura e olhos cor-de-avelã, que os seus admiradores consideravam mesméricos.

            Kruznetsov, que se sentara, juntamente com Jefferson, levantou-se com prontidão, imitado pelo jornalista, embora um pouco mais devagar. O primeiro procedeu às apresentações e os dois homens apertaram a mão. Komarov sentou-se antes dos outros numa poltrona estofada ligeiramente mais alta.

            Do bolso interior do casaco, Jefferson extraiu um minúsculo gravador e perguntou se podia utilizá-lo. Komarov assentiu com um movimento de cabeça, simultaneamente indicativo que se achava familiarizado com a incapacidade da maioria dos jornalistas ocidentais para recorrer à estenografia. Em seguida, Kuznetsov fez sinal a Jefferson para que iniciasse as perguntas.

            - Senhor presidente: a notícia mais palpitante do momento é a recente decisão da Duma de prolongar a presidência interina por três meses, mas antecipar as eleições do próximo ano para Janeiro. Como a encara, isso.

            O responsável das relações públicas procedeu à rápida tradução e escutou, enquanto o interpelado respondia em voz firme. Quando terminou, o intérprete voltou-se para Jefferson.

            - É óbvio que eu e a União das Forças Patrióticas ficamos desapontados  com a resolução, mas, como democratas, aceitamo-la. Decerto não constitui segredo para si que as coisas neste país, que adoro com fervor, não correm da melhor maneira. Durante muito tempo, um governo incompetente tolerou um alto nível de desregramento econômico, corrupção e crime. O povo sofre a um ritmo crescente. Quanto mais tempo esta situação se prolongar pior se tornará. Por conseguinte, a demora é de lamentar. Estou convencido que conquistaríamos a presidência em Outubro, mas o resultado não será diferente em Janeiro.

            Mark Jefferson era um entrevistador demasiado experiente para não perceber que a resposta tinha sido ensaiada, como que proferida por um político habituado a ouvir a mesma pergunta com insistência. Na Grã-Bretanha e na América, era costume os seus homólogos mostrarem-se mais descontraídos perante os representantes da Imprensa, alguns dos quais tratavam pelo nome de batismo. O jornalista londrino orgulhava-se de saber utilizar as palavras de um entrevistado e as suas próprias impressões para criar um artigo revestido de interesse, em vez de um estendal de lugares-comuns políticos. No entanto, o homem na sua frente parecia um autômato.

            A experiência ensinara-lhe que os políticos da Europa do Leste estavam acostumados a um maior grau de deferência da parte dos repórteres do que os britânicos ou americanos, mas a atual situação era diferente. O russo permanecia rígido e formal como um manequim de alfaiate.

            No momento da terceira pergunta, Jefferson compreendeu porquê: era inegável que Komarov detestava a mídia e todo o processo de uma entrevista. O londrino tentou uma abordagem informal, mas não se registrou o menor sinal de descontração no interlocutor. Um político que encarava a sua posição a sério não constituía um fato inédito, porém aquele homem podia considerar-se um fanático de auto-estima. As respostas continuavam a brotar como se correspondessem a deixas previamente estudadas.

            Jefferson dirigiu um olhar de perplexidade a Kuznetsov. O jovem responsável de relações públicas fora claramente educado na América, num meio sofisticado e descontraído, mas tratava Igor Komarov com devoção canina.

            Por fim, o jornalista efetuou uma nova tentativa.

            - Como sabe, na Rússia, a maior parte do poder real concentra-se no cargo da presidência, muito mais do que do presidente dos Estados Unidos ou do primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Se quisesse encarar os primeiros seis meses desse poder nas suas mãos, a que mudanças assistiria um observador objetivo? Por outras palavras, a que prioridades?

            A resposta surgiu mais uma vez através do canal político. Registrou-se a alusão de rotina para desmantelar o crime organizado, reformar uma pesada burocracia e restaurar a produção agrícola e a moeda. Ulteriores perguntas no sentido de precisar como essas intenções seriam levadas acabo, obtiveram lugares-comuns incaracterísticos. Nenhum político do Ocidente se esquivaria desse modo, mas era indiscutível que Kuznetsov esperava que Jefferson ficasse completamente satisfeito.

            Recordando-se das indicações que recebera do editor do jornal, este último perguntou a Komarov como pretendia levar a efeito o renascimento da grandeza da nação russa, e, pela primeira vez, obteve uma reação.

            Algo do que disse pareceu agitá-lo, como se acabasse de sofrer uma descarga elétrica. O homem fitou-o com intensidade, ao ponto de obrigá-lo a desviar a vista. Tanto ele como Kuznetsov não perceberam que o presidente da UFP empalidecera profundamente e tinha surgido um pequeno círculo vermelho em cada face. De súbito, sem mais uma palavra, levantou-se e abandonou a sala, transferindo-se para o seu gabinete, cuja porta fechou atrás de si. Jefferson olhou Kuznetsov com uma expressão interrogativa, e este último parecia igualmente intrigado, mas a presença de espírito acabou por prevalecer.

            - Creio que o presidente não demora. Deve ter lembrado de algum assunto urgente.

            Jefferson estendeu o braço e desligou o gravador que pousara numa cadeira a seu lado. Transcorridos três minutos e um breve telefonema, Komarov reapareceu, voltou a sentar-se e respondeu à pergunta num tom pausado, enquanto o jornalista tornava a proceder à ligação.

            Uma hora mais tarde, o russo indicou que a entrevista chegara ao fim. Pôs-se novamente de pé, inclinou a cabeça rigidamente e recolheu ao gabinete. Antes de transpor a porta, fez sinal a Kuznetsov para que o seguisse.

            Este reapareceu passados dois minutos, claramente embaraçado.

            - Temos um problema com o transporte - anunciou, enquanto escoltava Jefferson em direção ao átrio. - O carro que o trouxe foi requisitado com urgência, e todos os outros pertencem a membros do pessoal que trabalham até mais tarde. Importa-se de regressar ao hotel num táxi?

            - De modo algum - aquiesceu o jornalista, arrependido de não haver utilizado um meio de transporte próprio, que teria mandado esperar. - Se quiser ter a bondade de chamá-lo...

            - Infelizmente, os taxistas deixaram de atender a chamados pelo telefone - explicou o outro. - Mas vou indicar-lhe onde pode obter um.

            Acompanhou o cada vez mais perplexo Jefferson até ao portão, que foi aberto para que passassem. Uma vez na rua estreita, apontou para o Bulevar Kiselny, a uma centena de metros de distância.

            - Ali, consegue um livre rapidamente e, a esta hora, estará no hotel em menos de quinze minutos. Espero que compreenda a dificuldade em lhe poder ser útil. Tive muito prazer em conhecê-lo. Boa noite.

            E recolheu ao edifício de onde saíra. O britânico olhou em volta por um instante e começou a percorrer a artéria estreita em direção ao Bulevar, ao mesmo tempo que movia os dedos em torno do minúsculo gravador. Por fim, guardou-o no bolso interior do casaco, quando alcançava a entrada do Bulevar Kiselny, onde olhou para ambos os lados, à procura de um táxi inexistente, como previra. Por último, mastigando uma imprecação, voltou-se para a esquerda, na direção do centro de Moscou, e começou a caminhar, olhando de vez em quando por cima do ombro.

            Os dois homens de blusão de couro preto viram-no emergir da rua estreita e avançar para eles, um dos quais abriu a porta de trás do seu carro e saiu. Quando o inglês se encontrava a dez metros de distância, ambos levaram uma das mãos ao bolso interior e puxaram uma automática munida de silenciador. Não foi pronunciada uma única palavra e dispararam apenas duas balas, que atingiram Jefferson no peito.

            O impacto obrigou-o a deter-se e em seguida sentou-se simplesmente, no momento em que os joelhos cederam. A seguir, o tronco começou a inclinar-se, mas entretanto os dois assassinos tinham transposto o espaço que os separava. Um segurou-o para que não caísse por completo, enquanto o outro revistava rapidamente o casaco e retirava o gravador de um dos bolsos interiores e a carteira do outro.

            O carro rolou até junto deles, que subiram no momento em que se imobilizou. Depois de se afastar, uma transeunte aproximou-se, contemplou o corpo, supôs que se tratava de mais um ébrio antes de ver o sangue e começou a gritar. Ninguém se lembrou de anotar o número de matrícula do veículo. De qualquer modo, era falso.

 

            Alguém num restaurante, um pouco adiante na rua do homicídio, ouviu os gritos da mulher, espiou pela porta e apressou-se a marcar o 03 no telefone do estabelecimento para chamar uma ambulância.

            Os enfermeiros supuseram que se achavam fosse uma parada cardíaca, até que avistaram os orifícios das balas no peito do casaco e a larga mancha de sangue por baixo e telefonaram à Polícia, enquanto o veículo rolava velozmente a caminho do hospital mais próximo.

            Uma hora mais tarde, o inspetor Vasili Lopatin, da Brigada de Homicídios, contemplava pensativamente o corpo na mesa rolante da unidade de trauma do Hospital Botkin, enquanto o cirurgião de serviço descalçava as luvas de borracha.

            - Não tem a mínima chance - declarou este último. - Uma única bala, disparada à queima-roupa, atravessou-lhe o coração. Ainda está lá dentro, em algum lugar. Será recuperada durante a autópsia.

            Lopatin inclinou a cabeça distraidamente. Havia de lucrar muito com isso. Circulavam armas de fogo portáteis em Moscou em número suficiente para reequipar um exército, e as possibilidades de encontrar a que disparara aquela bala, para não falar do dono da mão que a empunhara, estavam virtualmente reduzidas a zero, como ele sabia, sem margem para qualquer dúvida. No Bulevar Kiselny, verificara que a mulher que aparentemente assistira ao crime desaparecera. Constara-lhe que vira dois assassinos e um carro. Sem qualquer descrição aproveitável.

            Na mesa rolante, a barba ruiva projectava-se agressivamente para cima, no corpo pálido coberto de sardas. A expressão do rosto era de vaga surpresa. Um ajudante cobria o cadáver com um lençol verde para evitar o clarão dos projetores nos olhos que, de resto, não podiam ver nada.

            O corpo estava agora totalmente despido. Em cima de uma mesa ao lado, achava-se depositado o vestuário e, numa espécie de prato em forma de rim, alguns objetos de natureza pessoal. O detetive aproximou-se, pegou o casaco e examinou a etiqueta no interior da gola, mas experimentou uma sensação de desalento ao verificar que era estrangeira.

            - Consegue ler isto? - perguntou ao cirurgião.

            Este aproximou-se por sua vez e observou os dizeres bordados no forro.

            - L-A-N-D-A-U - soletrou pausadamente e, - abaixo do nome do alfaiate  Bond Street.

            - E isto? - O inspetor indicou a camisa.

            - Marks   &  Spencer - leu o outro.  - É em Londres - acrescentou. - Creio que Bond Street também.

            Há mais de vinte vocábulos em russo para excrementos humanos, além de partes dos órgãos genitais masculinos e femininos, e Lopatin recapitulou-os todos mentalmente. Só lhe faltava aquilo: um turista britânico! Um assalto na via pública que dera errado, e tinha de ser a um turista britânico!

            Examinou os objetos pessoais, que eram poucos. Nenhuma moeda, claro, pois as russas há muito que tinham perdido o valor. Um lenço dobrado meticulosamente, uma pequena bolsa, um anel de sinete e um relógio. Depreendeu que os gritos da mulher tinham impedido os assaltantes de se apoderar dos dois últimos.

            Mas nada continha qualquer identificação. E, ainda pior, a carteira brilhava pela sua ausência. Tornou a concentrar-se no vestuário. Os sapatos tinham a palavra Church no interior e eram pretos e de cordões. As luvas, cinzentas, não continham qualquer marca, enquanto os dizeres Marks & Spencer estavam repetidos nas cuecas. A gravata, segundo o cirurgião, provinha de uma loja denominada Turnbull & Asser, na Jermyn Street, também em Londres, sem dúvida.

            Movido mais pelo desespero do que pela esperança, Lopatin tornou a pegar no casaco. Havia um pormenor que escapara ao ajudante. Um objecto rijo no bolso superior onde os homens costumam guardar os óculos. Extraiu-o e deparou-se com um retângulo de plástico perfurado.

            Era uma chave de quarto de hotel, do tipo utilizado em sistemas computadorizados. Como medida de segurança, não continha qualquer número  a fim de desencorajar eventuais ladrões de hotéis, mas exibia o logotipo do Nacional.

            - Onde há um telefone? - perguntou ao cirurgião.

            Se não fosse o mês de Agosto, Benny Svenson, gerente daquele hotel, se encontraria em casa. Mas os turistas abundavam e dois membros do pessoal estavam ausentes com resfriados de Verão. Assim, fazia horas extras, quando a telefonista ligou ao seu gabinete.

            - É a Polícia, Mr. Svenson.

            Ele apertou a tecla para estabelecer ligação à rede, e a voz de Lopatin surgiu na linha.

            - É o gerente?

            - O próprio, Svenson. Quem fala?

            - Inspetor Lopatin, da Brigada de Homicídios da Polícia de Moscou.

            O gerente estremeceu involuntariamente. O homem acabava de mencionar a Brigada de Homicídios!

            - Têm um turista britânico alojado aí? - acrescentou o inspetor.

            - Decerto. Vários, mesmo. Uma dúzia, pelo menos. Porquê?

            - Veja se reconhece esta descrição. Um metro e setenta de altura, baixo, cabelo e barba pontiaguda ruivos, terno escuro e gravata de listras horríveis.

            Svenson fechou os olhos e engoliu em seco. Só podia tratar-se de Mr. Jefferson! Vira-o poucas horas antes no átrio, à espera de um carro.

            - Por que pergunta?

            - Foi assaltado. Encontra-se no hospital de Botkin. Sabe onde é? Perto do Hipódromo.

            - Sim, com certeza. Mas mencionou a Brigada de Homicídios.

            - Lamento, mas morreu. Roubaram-lhe a carteira e todos os documentos de identificação. Apenas deixaram uma chave do quarto de plástico com o seu logotipo.

            - Sigo já para aí, inspetor.

            Benny Svenson continuou sentado à mesa durante alguns minutos, dominado por uma sensação de horror. Exercia aquela atividade havia mais de vinte anos e não tinha memória de um hóspede ser assassinado.

            O seu único passatempo era o bridge, e recordou-se que um dos parceiros habituais pertencia ao pessoal da embaixada britânica. Apressou-se a procurar o número de telefone da residência e marcou-o. Faltavam dez minutos para a meia-noite e o homem já se deitara, mas acordou por completo quando se inteirou da tenebrosa nova.

            - Valha-nos Deus, Benny! O célebre jornalista do Telegraph? Nem sabia que se encontrava em Moscou. Obrigado pela informação, em todo o caso.

            “Isto vai causar profunda agitação”, - reflectiu o diplomata, enquanto pousava o auscultador. Os súditos britânicos em apuros, vivos ou mortos, em território estrangeiro, diziam naturalmente respeito à seção consular, mas ele achava que devia comunicar o fato a alguém antes do dia seguinte. Por conseguinte, telefonou a Jock MacDonald.

 

Moscou, Junho de 1988

            Havia dez meses que Valeri Kruglov regressara a casa. Existia sempre o risco, no caso de um “bem” recrutado no estrangeiro, de ele mudar de idéias ao ver-se de novo no seu país e abster-se de efetuar qualquer contato, destruindo os códigos, tintas e documentos que lhe tinham sido fornecidos.

            A agência recrutadora nada podia fazer nesse sentido, à parte denunciar o indivíduo em causa, mas constituiria uma medida destituída de significado e cruel. Era necessário coragem para atuar contra uma tirania no seu seio, e alguns homens não a possuíam.

            À semelhança de todos em Langley, Monk nunca estabelecia comparações entre aqueles que trabalhavam contra o regime de Moscou e um traidor americano. Este último traía todo o povo seu compatriota e o governo eleito democraticamente. Se fosse desmascarado, receberia tratamento humano, um julgamento imparcial e o melhor advogado que pudesse obter.

            Ao contrário, um russo atuava contra um despotismo brutal que representava apenas dez por cento da nação e mantinha os restantes noventa por cento subjugados. Se fosse descoberto, sofreria torturas e, por fim, a morte sem julgamento, ou ingressaria num campo de trabalhos forçados.

            Mas Kruglov cumprira o prometido. Comunicara três vezes através dos esconderijos usuais, com documentos interessantes e de política de alto nível do seio do Ministério dos Assuntos Estrangeiros soviético. Editados apropriadamente para dissimular a fonte, permitiam que o Departamento de Estado conhecesse a posição negociadora da URSS ainda antes dos interessados se sentarem à mesa. Ao longo de 1987 e 1988, os países satélites da Europa Oriental caminhavam para a revolta aberta a Polônia tomara a iniciativa e a Roménia, Hungria e Checoslováquia seguiam-lhe as pisadas, pelo que se tornava vital saber como Moscou tencionava enfrentar o problema. O conhecimento do grau de fraqueza e desmoralização da União Soviética revestia-se de importância vital. Kruglov revelou-o.

            Mas, em Maio, o agente Delfos indicou que necessitava de um encontro. Tinha algo de valioso para transmitir e queria avistar-se com o seu amigo Jason. Harry Gaunt ficou apreensivo.

            - Aquilo em Ialta foi grave. Ninguém daqui conseguia dormir descansado. Você safou-se ileso, mas podia ter sido uma armadilha. Tal como agora. De acordo, os códigos indicam que ele faz jogo limpo. No entanto, pode ter sido descoberto, e dado com a língua nos dentes. E você sabe demais.

            - Há centenas de milhares de turistas dos Estados Unidos que visitam   Moscou.  Já não é como nos velhos  tempos. O KGB não pode vigiar todos. Se o disfarce é perfeito, trata-se de um homem entre cem mil. Só se fosse surpreendido em flagrante. De qualquer modo, o disfarce que utilizarei será excelente. Nunca deixo de ter  a  máxima  prudência.  Falo russo, mas finjo o contrário. Não passo de um atrapalhado e inofensivo americano munido de um guia turístico. Só largo esse disfarce se tenho certeza que não me vigiam. Confie em mim.

            A América possui uma vasta rede de fundações interessadas em arte de todo o tipo e descrição. Uma delas preparava um grupo de estudantes que visitaria Moscou para estudar, vários tendo como ponto culminante a escala pelo famoso Museu de Arte Oriental, na Rua Obukha, e Monk inscreveu-se como estudioso adulto.

            Todos os elementos e documentos do Dr. Philip Peters não só eram perfeitos como autênticos, quando o grupo de estudantes aterrou no aeroporto de Moscou, em meados de Junho. Entretanto, Kruglov fora devidamente prevenido.

            Esperava-os o obrigatório guia da Intourist, que os conduziu ao Hotel Rossiya, tão grande como Alcatraz, embora sem os seus confrontos. No terceiro dia, visitaram o Museu de Arte Oriental. Monk estudara os seus pormenores nos Estados Unidos. Entre os expositores, havia largos espaços abertos, onde ele julgava poder detectar um “bando da pesada” que seguisse Kruglov.

            Avistou o seu homem transcorridos vinte minutos. Continuou a seguir o guia e o russo passou a mover-se atrás dele. Monk convenceu-se que não havia qualquer “cauda”, quando começou a encaminhar-se para a cafeteria.

            O Museu de Arte Oriental dispunha de um desses estabelecimentos, que possuem inevitavelmente instalações sanitárias. Eles tomaram café separadamente, mas o americano piscou dissimuladamente o olho a Kruglov. Se este tivesse sido detido pelo KGB e torturado, haveria uma expressão peculiar no seu rosto. Medo. Desespero. Advertência. Em vez disso, os olhos do homem brilhavam de satisfação. Ou se tratava do maior agente duplo que o mundo jamais conhecera ou estava perfeitamente “limpo”. Por fim, Monk levantou-se e passou às instalações sanitárias. Após um compasso de espera, Kruglov seguiu-o, e aguardaram que o único ocupante lavasse as mãos e saísse para se abraçarem.

            - Como está, meu amigo?

            - Ótimo. Já tenho um apartamento próprio. É maravilhoso dispor de   privacidade. Os meus filhos podem me visitar e pernoitar comigo

            - Ninguém suspeitou de nada? Refiro-me ao dinheiro.

            - Não, porque permaneci muito tempo no estrangeiro. Hoje em dia, todos procuram tirar o melhor partido financeiro das  ausências  do  país. Os  diplomatas superiores  regressam com muitas coisas valiosas. Eu fui muito ingênuo.

            - Então, a situação está se modificando, e nós contribuímos para isso. A ditadura em breve ruirá e todos viverão em liberdade. Já não falta muito.

            Entraram alguns rapazes, que urinaram ruidosamente e saíram em seguida. Os dois homens lavaram as mãos até que se retiraram. De qualquer modo, Monk mantivera a água correndo. Tratava-se de um velho truque, mas, a menos que o microfone se encontrasse muito perto ou eles falassem muito alto, aquele ruído bastava para abafar a voz.

            Conversaram durante mais dez minutos, e Kruglov entregou o embrulho que trouxera. Documentos autênticos, cópias obtidas do gabinete do Ministro dos Assuntos Estrangeiros, Eduard Shevardnadze.

            Voltaram a abraçar-se e saíram separadamente. Monk tornou a incorporar-se no grupo, com o qual regressou de avião, dois dias mais tarde. Antes de partir, deixou o embrulho na estação da CIA na embaixada.

            Nos Estados Unidos, os documentos revelaram que a URSS reduzia quase todos os programas de auxílio aos países do Terceiro Mundo, entre os quais Cuba. A economia desmoronava-se e o fim estava à vista. O Terceiro Mundo não voltaria a ser utilizado como alavanca para fazer chantagem ao Ocidente. O Departamento de Estado adorou o que leu.

            Era a segunda visita de Monk à URSS numa missão “negra”. Quando regressou, inteirou-se que conquistara mais uma promoção. E também que Nikolai Turkin, agente Lisandro, fora transferido para Berlim Oriental como comandante da operação do Diretorado K no seio do complexo do KGB local. Tratava-se de uma posição de particular importância, a única que permitia o acesso a todos os agentes soviéticos colocados na Alemanha Oriental.

           

            O gerente do hotel e o chefe de estação britânico chegaram ao Hospital Botkin com um intervalo de escassos segundos e foram conduzidos a uma pequena enfermaria onde os aguardava o corpo do jornalista britânico e a presença do inspetor Lopatin. No momento das apresentações, MacDonald limitou-se a dizer:

            - Da embaixada.

            A primeira preocupação do inspetor consistia numa identificação positiva, o que não constituía problema, pois Svenson fizera-se acompanhar do passaporte de Jefferson, cuja fotografia se parecia perfeitamente com o titular. O gerente do hotel completou a formalidade com um relance ao rosto do cadáver.

            - Qual foi a causa da morte? - quis saber MacDonald.

            - Uma bala que lhe atravessou o coração - informou Lopatin.

            O diplomata examinou o casaco da vítima e referiu inocentemente:

            - Mas há aqui dois orifícios.

            Os três homens voltaram a inspeccioná-lo. com efeito, havia dois furos de balas. Lopatin dirigiu uma nova olhadela ao corpo, que só apresentava um no peito.

            - A outra bala deve ter parado na carteira - opinou, com um leve sorriso.  - Ao menos, os assaltantes não poderão utilizar os cartões de crédito.

            - Bem, tenho de voltar ao hotel - declarou Svenson, visivelmente abalado. -Se, ao menos, o homem tivesse aceitado a oferta da limusine...

            MacDonald acompanhou-o à saída, ao mesmo tempo que reconhecia:

            - Isto deve ser horrível para vocês. - Fez uma pausa, enquanto o sueco assentia, com uma leve inclinação de cabeça. - Tratemos, pois, de esclarecer tudo o mais rapidamente possível. Suponho que há uma esposa, em Londres. Para enviar-lhe os objetos de uso pessoal de Jefferson. Vocês talvez não se importem de os reunir e fazer a mala? Enviarei um carro, de manhã. Obrigado antecipadamente.

            Regressou à enfermaria e trocou algumas palavras com Lapotin.

            - Temos um pequeno problema, inspetor. A situação é pouco agradável. O homem era um jornalista famoso, pelo que haverá alguma publicidade em torno do assunto. O Telegraph tem uma delegação nesta cidade, que conferirá a devida publicidade à ocorrência. E a Imprensa estrangeira fará o mesmo. Por que  não  deixa  a  embaixada  ocupar-se  dessa  faceta  da questão? Suponho que os fatos são bem claros? Um assalto na via pública que deu errado. Os marginais decerto se dirigiram em russo e ele não os compreendeu. Julgando que pretendia resistir, balearam-mo. Sim, uma verdadeira tragédia.

            - De fato, sou da mesma opinião.

            - Tentará, pois, descobrir os assassinos, embora eu não lhe inveje a tarefa. Deixe a parte da repatriação do corpo ao cuidado dos meus colegas do consulado. Assim como a Imprensa britânica. De acordo?

            - Sim, parece-me o mais sensato.

            - Preciso apenas dos objetos pessoais. De qualquer modo, não têm a menor relação direta com o caso. A chave de tudo será a carteira, se porventura vier a aparecer. E os cartões de crédito, se alguém tentar utilizá-los, do que duvido muito.

            Lopatin fixou o olhar no prato em forma de rim, com o modesto conteúdo.

            - Tem de assinar um recibo - advertiu.

            - Com certeza. Prepare o impresso.

            O hospital forneceu um envelope, em que foram depositados um anel de sinete, um relógio de pulso de ouro, com correia de pele de crocodilo, um lenço meticulosamente dobrado e uma pequena bolsa. MacDonald assinou o recibo e levou os objetos para a embaixada.

            Nenhum dos dois homens sabia que os assassinos tinham cumprido as instruções, mas cometido dois erros inadvertidos. Fora-lhes recomendado que se apoderassem da carteira que continha todos os documentos de identificação, entre os quais o respectivo bilhete, e, sobretudo, do minúsculo gravador.

            Ignoravam que os ingleses não necessitam ser portadores do BI dentro da Grã-Bretanha e, nos deslocamentos ao estrangeiro, apenas se fazem acompanhar do passaporte, que muitas vezes deixam no hotel. Por outro lado, escapou-lhes a chave de plástico do quarto no bolso do peito do casaco. Os dois detalhes permitiram a identificação completa, duas horas após o crime.

            Quanto ao segundo acidente, não lhes competia a responsabilidade. Uma das duas balas não atingira de modo algum a carteira batera no gravador sobre o peito, no interior do casaco. Destruíra o sensível mecanismo e fragmentara a pequena cassette, que ficara impossibilitada de ser reproduzida.

           

            O inspetor Novikov marcara a entrevista com o diretor do pessoal na sede do partido UFP para as dez horas da manhã de 10 de Agosto. Estava um pouco nervoso e esperava ser tratado com altivez ou mesmo indiferença. Mr. Zhilin vestia um terno cinzento-escuro e exibia maneiras firmes, pontuadas por um bigode tipo escova de dentes e óculos sem aros. Infundia a impressão de um burocrata de uma época passada, como na realidade era.

            - O meu tempo é curto, inspetor. Queira, pois, expor sem delongas o motivo da sua presença aqui.

            - Com certeza. Investigo a morte de um homem que supomos ser um criminoso. Um ladrão. Uma das nossas testemunhas crê tê-lo visto rondando seu domicílio. Estou, naturalmente, receoso que tentasse introduzir-se no apartamento durante a noite.

            - Custa-me acreditar. - Zhilin exibiu um sorriso mordaz. - Vivemos tempos inseguros, pelo que as medidas de acesso ao edifício têm de ser muito rigorosas.

            - Alegra-me ouvi-lo. Alguma vez viu este homem? - Baixou os olhos para a fotografia que Novikov lhe mostrava e exclamou:

            - Mas é Zaitsev!

            - Quem?

            - Zaitsev, o velho empregado da limpeza. Chama-o de ladrão? Impossível.

            - Importa-se de me falar dele?

            - Não há nada de especial para dizer. Nós o admitimos há cerca de um  ano. Esteve na tropa até pouco antes. Parecia merecedor de confiança. Vinha todas as noites, de segunda a sábado, para limpar os gabinetes.

            - Mas não recentemente?

            - Não, deixou de aparecer repentinamente. Passadas duas noites, tive de admitir alguém para substitui-lo. Uma viúva de guerra. Uma mulher muito meticulosa, diga-se de passagem.

            - Quando foi que deixou de aparecer?

            Zhilin dirigiu-se a um armário e pegou uma ficha, em gestos destinados a infundir a impressão que as havia para tudo.

            - Vejamos... Veio como habitualmente na noite de 15 de Julho e fez a limpeza da forma usual, retirando-se perto da alvorada. Faltou na seguinte e não voltou a ser visto. A sua testemunha decerto o avistou saindo a horas mortas. Nada de anormal nisso. Não veio para assaltar as instalações, mas para as limpar.

            - Bem, isso explica tudo - assentiu Novikov.

            - Não é bem assim - retorquiu o outro. - Chamou-lhe de ladrão.

            - Duas noites depois de vir aqui pela última vez, esteve aparentemente envolvido na invasão de um apartamento do Prospekt  Kutuzovsky. A locatária   identificou-o. Uma semana mais tarde, foi encontrado morto.

            - Deplorável. Esta vaga crescente de crimes é uma autêntica vergonha. Vocês deviam tomar providências radicais para acabar com isso.

            O inspetor encolheu os ombros.

            - Fazemos o que podemos, mas eles são muitos e nós pouquíssimos. Embora desejemos cumprir a nossa missão, não recebemos o menor apoio das altas esferas.

            - Isso há de mudar, garanto-lhe. - Zhilm exibia um clarão messiânico no olhar. - Dentro de seis meses, Igor Komarov será o nosso presidente. Haverá,  então, reformas decisivas. Tem ouvido ou lido os seus discursos? A redução substancial da criminalidade constitui um dos seus alvos prioritários. Sim, é um grande homem. Espero podermos contar com o seu voto.

            - Certamente. Desculpe, mas tem por acaso o endereço do empregado da limpeza?

            Rabiscou-o num pedaço de papel, que entregou a Novikov.

            A filha de Zaitsev mostrava-se amargurada, porém resignada e, depois de contemplar a fotografia, inclinou a cabeça. Em seguida, olhou o pequeno divã ao longo da parede da saleta. Ao menos, haveria um pouco mais de espaço. O inspetor retirou-se, sem mais perguntas. Informaria Volsky do resultado das diligências, mas era evidente que não havia dinheiro para o funeral, naquela casa. Mais valia que a cidade de Moscou se ocupasse disso. Como naquele pequeno apartamento, o problema no necrotério consistia na falta de espaço.

            Assim, o colega podia arquivar o processo. Quanto ao Departamento de Homicídios, o assassínio de Zatsev iria fazer companhia aos outros 97 por cento insolúveis.

 

Langley, Setembro de 1988

            A lista dos membros da delegação soviética foi enviada à CIA pelo Departamento de Estado por mera rotina. Quando a conferência de Silicon Valley sobre física teórica foi promovida e mencionada a intenção de convidar a URSS para enviar uma delegação, encararam-se poucas hipóteses de aceitação.

            Mas, em fins de 1987, as reformas de Gorbachev começavam a surtir efeito e era discernível uma clara descontração na atitude oficial em Moscou. Por conseguinte, ante a surpresa dos organizadores do seminário, os russos concordaram em enviar um pequeno grupo de participantes.

            Os nomes e pormenores tinham de passar pela Imigração, a qual pediu ao Departamento de Estado que os investigasse. A URSS mostrara-se até então reservada sobre questões científicas, pelo que só era conhecido no Ocidente um pequeno punhado de nomes de estrelas soviéticas na matéria.

            Quando a relação chegou a Langley, seguiu para a Divisão SE e foi confiada a Monk, que estava afortunadamente disponível. Os seus dois agentes em Moscou contribuíam de modo satisfatório e o coronel Turkin encontrava-se em Berlim Oriental colaborando no desmantelamento das atividades do KGB na Alemanha Federal.

            Monk examinou a lista de nomes dos oito cientistas soviéticos que participariam na Conferência de Novembro na Califórnia e não descobriu qualquer elemento suspeito ou sequer duvidoso. Nenhum era do conhecimento da CIA e ainda menos tinha sido abordado ou recrutado.

            Devido aos seus instintos de perdigueiro no tocante a um problema, efetuou uma última tentativa. Embora as relações entre a CIA e a sua homóloga doméstica, a ala da contra-espionagem do FBI, tivessem sido sempre tensas e, por vezes, venenosas, sobretudo desde o caso Howard mais recente, decidiu consultá-la.

            Tratava-se de um tiro no escuro, por assim dizer, porém ele sabia que o Bureau dispunha de uma lista de súditos soviéticos muito mais completa, sobretudo daqueles a quem fora concedido asilo nos Estados Unidos. O tiro não dizia respeito à eventualidade de o FBI desejar colaborar, mas a saber se os russos permitiriam que um cientista com algum familiar na América abandonasse o país. Tudo se inclinava para a negativa, porque o KGB considerava os membros de família radicados nos Estados Unidos um importante ponto fraco na segurança.

            De entre os oito nomes da lista, dois figuravam igualmente nos registros de pretendentes de asilo do FBI. Um exame mais aprofundado indicou que um não passava de mera coincidência a família que residia em Baltimore não tinha absolutamente nada de comum com o cientista russo prestes a chegar.

            O outro podia considerar-se estranho. Uma judia russa que procurava asilo através da embaixada americana em Viena, quando se encontrava num campo de trânsito da Áustria dera à luz um rapaz, que registrara depois de novo, com um nome diferente, nos Estados Unidos.

            Yevgenia Rozina, agora de Nova Iorque, inscrevera o filho como sendo Ivanovich Blinov. Monk sabia que isso significava Ivan-Filho-de-Ivan. Tudo indicava que fora um produto fora do casamento. Resultante de uma união em território dos Estados Unidos, no campo de trânsito da Áustria, ou anteriormente? Um dos nomes da lista de cientistas soviéticos era o professor Dr. Ivan Yedokimovich Blinov. Um nome invulgar, que Monk nunca ouvira. Decidiu pois deslocar-se a Nova Iorque e procurar Mrs. Rozina.

           

            O inspetor Novikov resolveu transmitir a boa notícia ao colega Volsky diante de cervejas, depois do turno de serviço. A cantina foi de novo o local escolhido, pois a cerveja era aí mais barata.

            - Adivinha onde passei a manhã.

            - Na cama, com uma bailarina ninfomaníaca.

            - Isso também eu queria. Na sede da UFP.

            - Refere-se ao monte de estrume que eles têm na travessa do peixe?

            - Não, isso é só para vista. Komarov tem as suas verdadeiras instalações numa casa muito elegante perto do bulevar circular. Antes que me esqueça: as cervejas são por tua conta. Solucionei o seu caso, hoje.

            - Qual deles?

            - O do velhote encontrado no bosque junto da estrada de Minsk. Era o empregado da limpeza da sede da UFP, até que passou a dedicar-se ao roubo para ganhar mais uns cobres. Aqui estão os detalhes.

            Volsky passou os olhos pela folha datilografada que Novikov lhe estendeu e observou:

            - Têm havido uma maré de azar, na UFP.

            - Porquê?

            - O  secretário particular de Komarov afogou-se mês passado.

            - Suicídio?

            - Não, nada do gênero. Foi tomar banho no rio e não voltou à superfície.  Pescaram-no a semana  passada. Temos  um patologista muito arguto. Descobriu uma aliança de casamento com o nome no interior.

            - Quando acha esse patologista arguto que mergulhou na água?

            - Por volta de meados de Julho.

            Novikov refletiu por um momento. Quem devia pagar as cervejas era ele, pois recebera mil libras esterlinas do inglês.

 

Nova Iorque, Setembro de 1988

            Ela tinha cerca de quarenta anos, morena, cheia de energia e atraente. Ele aguardava no átrio do bloco de apartamentos, quando chegou com o filho que acabava de ir recolher à escola, um robusto garoto de oito anos.

            A expressão sorridente do rosto dela extinguiu-se, quando Monk se apresentou como sendo funcionário do Serviço de imigração. Para qualquer imigrante, mesmo com os documentos em perfeita ordem, o cargo basta para inspirar apreensão, se não medo. Por conseguinte, viu-se obrigada a deixá-lo entrar.

            Depois do filho se absorver nos trabalhos de casa, sentado à mesa da cozinha do pequeno, mas extremamente arrumado apartamento, conversaram na sala de estar, enquanto ela se colocava na defensiva e em guarda.

            No entanto, Monk não se parecia com os indivíduos bruscos e formais que enfrentara durante a luta para ser aceita nos Estados Unidos, cinco anos atrás. Tinha maneiras cativantes e um sorriso comunicativo, pelo que ela começou a descontrair-se.

            - Sabe o que acontece conosco, funcionários públicos, Mrs. Rozina. Processos, processos e mais processos. Quando se completam e encerram, o chefe fica satisfeito. Depois, que acontece?  Enchem-se de pó num arquivo. Por outro lado, se ficam pendentes, ele fica impaciente e envia um pequeno elo da engrenagem como eu para reunir os elementos que faltam.

            - Que deseja saber? Tenho os documentos em ordem. Exerço as funções de economista e tradutora. Pago impostos. Não custo nada aos Estados Unidos.

            - Sabemos de tudo isso, minha senhora. Não se suspeita da menor irregularidade nos seus documentos. É cidadã americana naturalizada. Tem tudo em conformidade com a lei. Acontece apenas que registrou o pequeno Ivan com um nome diferente. Porquê?

            - Dei-lhe o nome do pai.

            - Sem dúvida. Repare, estamos em 1988. O filho de um casal que não contraiu matrimônio não constitui qualquer problema para nós. Mas os processos têm de se completar. Pode revelar-me o nome do pai, por favor?

            - Ivan Yedokimovich Blinov.

            Bingo. O nome que figurava na lista. Dificilmente haveria dois iguais em toda a Rússia.

            - Amava-o muito, não é verdade?

            Assumiu uma expressão de nostalgia aos olhos dela, como quem contempla uma recordação remota.

            - Sim, muito - murmurou.

            - Fale-me dele.

            Entre os vários talentos de Jason Monk, contava-se a habilidade peculiar de persuadir as pessoas a confiar nele. Ao longo de duas horas, até que o garoto reapareceu com os trabalhos terminados, ela falou do pai do pequeno Ivan.

            Nascido em Leningrado em 1938, o seu pai era professor universitário de física e a mãe professora de matemática. Por verdadeiro milagre, ele sobreviveu às vagas de depurações estalinistas anteriores à guerra, mas morreu durante o bloqueio alemão, em 1942. A esposa, com Vanya, de cinco anos, nos braços, foi salva e abandonou a cidade dominada pela fome num comboio de caminhões que cruzou o gelo do Lago Ladoga, no Inverno daquele ano. Os fugitivos foram instalados numa pequena localidade nos Montes Urais, onde o rapaz cresceu, com a mãe devotada à idéia de que, um dia, seria tão brilhante como o pai.

            Aos dezoito anos, ele transferiu-se para Moscou, para procurar ingressar no estabelecimento técnico de ensino superior mais prestigioso da URSS - o Instituto Tecnológico de Física  e verificou com admiração que era admitido. Mau grado as suas circunstâncias humildes, o nome do pai, a dedicação da mãe, porventura o gene e sem dúvida os seus esforços pessoais fizeram o prato da balança inclinar-se para o lado que desejava. Por trás do seu modesto nome, o instituto era a forja dos mais sofisticados designers de armas nucleares.

            Seis anos mais tarde, ainda jovem, Blinov recebeu a oferta de um lugar numa cidade científica tão secreta, que o Ocidente só se inteirou da sua existência muito mais tarde. Arzamas-16 tornou-se, para o jovem prodígio, um lar privilegiado e uma prisão.

            As condições eram luxuosas, segundo os padrões soviéticos. Um pequeno apartamento, mas só para ele, melhores lojas que em qualquer outra parte do país, um salário elevado e facilidades de investigação ilimitadas achava-se tudo ao seu alcance. A única coisa que lhe faltava era o direito de partir.

            Uma vez por ano, havia a oportunidade de um período de férias num local aprovado, por uma fração do preço normal. Em seguida, tinha de voltar para o interior do recinto rodeado por arame farpado, com a correspondência interceptada, telefonemas escutados e amizades vigiadas.

            Antes de completar trinta anos de idade, conheceu Valya, jovem bibliotecária e professora de inglês com a qual casou, e que lhe ensinou o idioma, para que pudesse ler a data das publicações técnicas provenientes do estrangeiro nas versões originais. A princípio, foram felizes, mas, gradualmente, a união foi ensombrada por um óbice, desejavam desesperadamente um filho e não o podiam ter.

            No Outono de 1977, Ivan Blinov passava férias nas termas de Kislovodsk, no norte do Cáucaso, quando conheceu Zhenya Rozina. Como acontecia com frequência numa gaiola dourada, a esposa tivera de gozar as vilegiaturas num período diferente.

            Zhenya tinha vinte e nove anos, dez mais jovem do que ele, divorciada, natural de Minsk, também sem filhos, enérgica, irreverente, ouvinte constante das “vozes” (da América e da BBC) e leitora de revistas arrojadas como a Poland, impressa em Varsóvia e muito mais liberal e versátil do que as temíveis e dogmáticas publicações soviéticas.

            Concordaram em se corresponder, embora Blinov soubesse que as suas cartas seriam interceptadas, o que o levou a sugerir que escrevesse a um amigo em Arzamas-16, cujo correio não seria violado.

            Voltaram a encontrar-se de novo em 1978, por acordo mútuo, desta vez na estância de veraneio de Sochi, no Mar Negro. Entretanto, o matrimônio dele apenas persistia no nome. A amizade com Zhenya converteu-se num romance tórrido. Encontraram-se pela terceira e última vez em 1979, em Ialta, e reconheceram que continuavam apaixonados, não era um amor sem esperança.

            Blinov sentia que não podia pedir o divórcio. Se houvesse outro homem que a requestasse, a situação seria diferente. Mas tal não acontecia, e ela não era atraente. Todavia, fora uma esposa leal durante quinze anos e, se o amor morrera, devia-se a um dos imponderáveis da vida. Continuavam amigos e ele não a envergonharia com a separação oficial, sobretudo na pequena comunidade em que viviam.

            Zhenya não discordava, mas por outra razão. Revelou-lhe algo que até então guardara para si. Se casassem, comprometeria a carreira, pois era judia e já apresentara um requerimento no OVIR Departamento de Vistos e Autorizações, para emigrar para Israel. Beijaram-se, fizeram amor, separaram-se e nunca mais se tornaram a ver.

            - O resto é do seu conhecimento - concluiu ela.

            - O campo de trânsito na Áustria e o recurso à nossa enbaixada?

            - Exato.

            - E Ivan Ivanovich?

            - Seis  semanas  após  as  férias  em  Ialta,  descobri  que transportava o filho dele no ventre. Nasceu aqui e é cidadão dos Estados Unidos. Ao menos ele crescerá em liberdade.

            - Alguma vez se correspondeu com Blinov para lhe informar?

            - Para quê? - proferiu com amargura. - Continua casado. Vive numa prisão dourada, tão prisioneiro como qualquer zek nos campos. Que lucraria com isso? Recordaria-se  do passado. Obrigaria-o a ansiar pelo que não pode ter.

            - Falou a Ivan sobre o pai?

            - Sim. Disse-lhe que é um homem importante. E bondoso. Mas vive longe.

            - As coisas estão mudando - observou Monk, suavemente. - Hoje, não lhe seria difícil ir até Moscou. Tenho um amigo que se desloca à União Soviética com frequência. Um homem de negócios. Escreva a essa pessoa de Arzamas-16 cuja correspondência não é interceptada. Peça ao pai que se desloque a Moscou.

            - Para quê? Que lhe diria?

            - Ele deve saber da existência do filho. Deixe o garoto escrever-lhe. Providenciarei para que a carta chegue às mãos do destinatário.

            Antes de se deitar, o garoto escreveu em russo uma carta simples, porém enternecedora, que começava: “Querido papai...”

           

            “Gracie” Fields regressou à embaixada pouco antes do meio-dia, no dia 11, bateu à porta do gabinete de MacDonald e foi encontrá-lo imerso em sombrias cogitações.

            - Vamos para a ampola? - sugeriu este último, e o outro assentiu com um movimento de cabeça.

            Quando se achavam encerrados na sala de conferências “A”, Fields pousou na mesa a fotografia do rosto sem vida de um ancião.

            - Fazia parte do conjunto das tiradas no bosque, similar à levada à embaixada pelo investigador Chernov.

            - Avistou-se com o seu homem? - perguntou MacDonald.

            - Sim. Trata-se de material muito traumático. Era o empregado da limpeza da sede da UFP.

            - Empregado da limpeza?

            - Precisamente. Dos gabinetes. Como o Homem invisível de Chesterton*. Ia lá todas as noites, mas ninguém reparava nele. Chegava cerca das dez, de segunda a sábado, executava o seu trabalho e se retirava pouco antes da alvorada. Ganhava miseravelmente e vivia num bairro de lata. Mas há mais.

            Fields descreveu a história de N. l. Akopov, falecido secretário pessoal de Igor Komarov, que decidira tomar um desaconselhável e fatal banho no rio, a meio de Julho.           Por fim, MacDonald levantou-se e começou a percorrer o aposento em cadenciado vaivém.

            - Na nossa profissão, temos de confiar em fatos, fatos e apenas fatos  declarou.  Mas permitamo-nos uma pequena suposição. Akopov esqueceu-se do raio do documento em cima da mesa. O empregado da  limpeza viu-o, folheou-o,  não gostou do que leu e roubou-o. Acha que isto faz sentido?

            - Em  absoluto, Jock. O seu desaparecimento foi notado no dia seguinte e Akopov foi despedido, mas como o leu não podia continuar entre os vivos. Assim, foi tomar banho no rio, com dois rapazes robustos segurando-no para não voltar à superfície.

            - Operação provavelmente efetuada numa tina cheia de água, sendo lançado ao rio mais tarde. O empregado da limpeza não compareceu ao serviço e fez-se luz no espírito dos responsáveis. Ato contínuo, trataram de procurá-lo. Mas, entretanto, ele já largara o documento no carro de Célia Stone.

            - Porquê? Por que a escolheu para depositária?

            - Nunca descobriremos. Devia saber que ela trabalhava na embaixada. Disse qualquer coisa acerca de o entregar ao embaixador em troca da cerveja. Qual cerveja?

            - Acabaram por localizá-lo, torturaram-no e revelou tudo. Depois,  liquidaram-no e largaram-no no bosque. Como descobririam o apartamento da Célia?

            - Seguiram-lhe o carro, sem dúvida. Desde aqui. Ela não daria por nada. Inteiraram-se de onde vivia, subornaram os guardas do portão e revistaram-lhe o carro. Como não encontraram lá o documento, invadiram o apartamento. Até que Célia chegou e os surpreendeu.

            - Portanto,   Komarov  sabe  que o seu  precioso  relatório desapareceu  murmurou Fields. Assim como quem o roubou e onde o deixou. Mas desconhece se alguém lhe prestou atenção. Célia podia tê-lo jogado fora. Todos os maníacos da Rússia enviam petições aos altos e poderosos. Somos como folhas de Outono. Talvez ele ignore o efeito que produziu.

            - Agora, já deve saber - considerou MacDonald. Extraiu do bolso um   pequeno leitor de cassettes emprestado por uma das secretárias que gostava de ouvir música em surdina durante as horas de serviço. Em seguida, introduziu-lhe uma minúscula cassette.

            - Que é isso? - perguntou Fields.

            - A gravação da entrevista com Igor Komarov. Uma hora de cada lado.

            - Mas eu  supunha que os assassinos tinham se apoderado do gravador.

            - E fizeram-no. Conseguiram também atingi-lo com uma bala. Encontrei  fragmentos de plástico e metal no  fundo  do  bolso  interior  direito  do  casaco  de

* G. K Chesterton, poeta, crítico e romancista inglês, autor de vários livros, entre os quais O Homem que Era Quinta-Feira. (N. do T.)

Jefferson. Não foi a carteira que  atingiram,  mas  o gravador.  Por conseguinte,  a  cassette não se poderia reproduzir.

            - Nesse caso...

            - O  previdente  do jornalista  decerto  se  deteve  na   rua para extrair a valiosa entrevista e substituí-la por uma cassette virgem. Encontrava-se dentro de uma pequena bolsa, no bolso das calças. Creio que contém o motivo da sua morte. Escute.

            MacDonald ligou o gravador, e a voz de Jefferson inundou a sala.

            - Senhor presidente, em questões de política externa, particularmente as   respeitantes às relações com as outras repúblicas da URSS, como tenciona assegurar o renascimento da glória da nação russa?

            Registrou-se uma breve pausa, e Kuznetsov iniciou a tradução. No final, houve um silêncio ainda mais prolongado e o som de passos no chão. Verificou-se um estalido, e o gravador foi desligado.

            - Alguém se levantou e saiu  disse MacDonald.

            A máquina voltou a funcionar e reproduziu a voz de Komarov respondendo. Era impossível determinar o tempo que permanecera desligada. No entanto, pouco antes do estalido, ouviu-se Kuznetsov começar a dizer: “Estou certo que o senhor presidente não...”

            - Não estou compreendendo - confessou Fields.

            - É terrivelmente simples. Eu próprio traduzi o Manifesto Negro. Levou-me quase toda a noite. Fui eu que interpretei a passagem vozrozhdeniye vo slavu russkogo naroda por “renascimento da glória da nação russa”. Porque é esse o seu verdadeiro significado. Marchbanks leu-a e deve tê-la mencionado ao editor do Daily Telegraph, que a empregou diante de Jefferson. Este gostou da imagem e utilizou-a durante a entrevista com Komarov. O filho da mãe encontrou-se a escutar a sua própria expressão. E eu nunca a tinha ouvido referir antes.

            Ligou de novo o leitor de cassettes para tornar a reproduzir a passagem. Quando Jefferson terminou de falar, Kuznetsov traduziu em russo. Para “renascimento da glória”, empregou as palavras vozrozhdeniye vo slavu.

            - Santo  Deus!... - balbuciou. Komarov - decerto  supôs que Jefferson tinha lido todo o documento, e em russo, e concluiu que era um dos nossos empenhado em testá-lo. Terão sido eles que o mataram?

            - Não creio - disse MacDonald. - Inclino-me mais para a possibilidade que Grishin encomendou o crime aos seus contatos no submundo. Foi um trabalho muito rápido. Se dispusessem de mais tempo, o levariam para um lugar seguro e interrogavam-no a seu bel-prazer. Receberam ordens para o reduzir ao silêncio e apoderar-se da gravação.

            - Que você pretende fazer, depois disto?

            - Voltar a Londres. As luvas foram descalçadas. Sabemos tudo, e Komarov sabe que sabemos. O chefe disse que queria provas que não se tratava de uma falsificação. Já morreram três homens por causa do satânico documento. Não sei que outras provas precisa.

 

San José, Novembro de 1988

            Silicon Valley é realmente um vale, que se estende ao longo de uma linha entre as montanhas de Santa Cruz, a oeste, e a cordilheira Hamilton, a leste. Prolonga-se de Santa Clara a Menlo Park, que constituíam os seus limites, em 1988. A designação deve-se a uma surpreendente concentração de entre mil e duas mil indústrias e fundações de investigação, todas dedicadas à alta tecnologia.

            A conferência científica internacional de Novembro daquele ano realizava-se na principal cidade do vale, San José, outrora uma pequena vila de missionários e atualmente um vasto aglomerado de torres imponentes. Os oito membros da delegação soviética estavam alojados no San José Fairmont, e Jason Monk encontrava-se no átrio do hotel, quando eles chegaram.

            Os oito básicos eram escoltados por uma falange muito mais numerosa de vigilantes, alguns da embaixada soviética de Nova Iorque, um do consulado de São Francisco e quatro provenientes de Moscou. Monk sentava-se diante de uma xícara de chá gelado, com um exemplar do New Scientist a seu lado, procurava localizar as figuras relevantes, do ponto de vista dos serviços secretos. Eram cinco, ao todo, claramente protetores do KG B.

            Ele tivera previamente uma longa sessão com um importante físico nuclear do Laboratório Lawrence Livermore, o qual se mostrara extasiado com a oportunidade de conhecer finalmente o colega soviético, professor Blinov.

            - Convém não esquecer que o homem é um enigma - explicou. - Atingiu a proeminência nos últimos dez anos. Começamos a ouvir rumores a seu respeito no circuito científico mais ou menos nessa altura. Foi primeiramente uma estrela no interior da URSS, mas não o deixavam divulgar no estrangeiro nada do que escrevia. Sabemos que lhe concederam o Prêmio Lenin, além de uma série de outros galardões. Decerto recebeu numerosos, para falar no estrangeiro... só nós enviamos-lhe dois... mas tivemos de nos dirigir ao presídio da Academia das Ciências, o qual sempre nos desencorajou. Agora, porém, vamos tê-lo entre nós. Pronunciará conferências sobre a física de partículas avançadas, e não faltarei entre o público.

            “Nem eu”, refletiu Monk.

            Aguardou que o cientista terminasse a alocução. A assistência não lhe regateou aplausos. No auditório, Monk escutou outras intervenções, circulou durante os intervalos e chegou à conclusão que não ficaria menos elucidado se falassem todos em marciano, pois não entendia uma única palavra.

            No átrio do hotel, tornou-se uma presença familiar, com o eterno casaco de tweed, óculos suspensos de um cordão ao pescoço e maço de revistas hipertécnicas. Os próprios quatro agentes do KGB e um do GRU haviam renunciado a observá-lo.

            Na última noite antes da delegação soviética regressar ao seu país, Motik esperou que o professor Blinov recolhesse ao quarto para bater à porta.

            - Sim? - proferiu uma voz em inglês.

            - Serviço de quartos - replicou ele.

            A porta entreabriu-se até onde a corrente de segurança permitira e o professor Blinov espiou e viu um homem que segurava um recipiente oval cheio de fruta, encimada por uma fita cor-de-rosa.

            - Não pedi nada.

            - Eu sei. Sou o gerente da noite. Trago isto, com os cumprimentos da gerência.

            Apesar dos cinco dias de permanência nos Estados Unidos, o cientista ainda se surpreendia com a curiosa sociedade de consumo material ilimitado. As únicas coisas que reconhecia eram as conversas científicas e a apertada segurança. Mas uma oferta de fruta constituía uma novidade. No entanto, como não queria parecer descortês, soltou a corrente, gesto que o KGB lhe recomendara encarecida e ameaçadoramente que nunca fizesse. Aquela organização, melhor do que ninguém, estava familiarizada com o bater à porta à meia-noite.

            Monk entrou, depositou a fruta em cima de uma pequena mesa, voltou-se e fechou a porta. Ato contínuo, surgiu uma expressão de alarme nos olhos do professor Blinov.

            - Sei quem é. Saia já, ou chamo os meus compatriotas. - Monk sorriu e passou a exprimir-se em russo.

            - Faça-o quando quiser, professor. Mas primeiro quero mostrar-lhe uma coisa. Leia isto e depois toque à campainha

            Intrigado, o cientista pegou na carta do garoto e fixou o olhar na primeira linha.

            - Que estupidez é esta? - protestou. - Forçou a entrada e...

            - Conversemos durante cinco minutos. Em seguida, sairei. Discretamente. Sem espalhafato. Mas primeiro, escute-me, por favor.

            - Não pode dizer nada que me interesse escutar. Avisaram-me contra vocês e ..

            - Zhenya encontra-se em Nova Iorque.

            Interrompeu-se e conservou a boca aberta. com cinquenta anos, tinha cabelos grisalhos e parecia mais velho. Encurvava-se, precisava de óculos para ler e observava Monk por cima deles, até que se sentou lentamente na cama.

            - Zhenya. Aqui? Na América?

            - Depois das suas últimas férias juntos em Ialta, foi autorizada a partir para   Israel. Num campo de trânsito na Áustria, entrou em contato com a nossa embaixada, que lhe concedeu o visto para, em vez disso, vir para os Estados Unidos. Cerca de dois meses após a separação, descobriu que engravidara. E agora, leia a carta, por favor.

            O professor obedeceu e o fez devagar, com perplexidade crescente. Quando terminou, conservou as duas folhas de papel creme na mão e olhou a parede em frente pensativamente. Por fim, tirou os óculos e esfregou os olhos, nos quais despontaram duas lágrimas, que deslizaram pelas faces.

            - Tenho um filho - murmurou. - Tenho um filho, meu Deus...

            Monk extraiu uma fotografia do bolso e estendeu-lha. O garoto usava um boné de basebol no topo da cabeça e exibia um largo sorriso. Tinha o rosto sardento e um dente da frente partido.

            - Ivan! Ivanovich Blinov - explicou. - Nunca o viu, exceto numa velha fotografia, mas ama-o.

            - Tenho um filho - tornou a repetir o homem que podia fabricar bombas de hidrogênio.

            - Também tem uma esposa.

            Abanou a cabeça.

            - Valya morreu de cancro, o ano passado.

            Monk experimentou uma sensação de desalento. O homem era livre. Agora, quereria ficar nos Estados Unidos, o que não figurava nos planos.

            - Que pretende? perguntou o professor.

            - Queremos que, dentro de dois anos, aceite um convite para uma série de conferências no Ocidente, onde ficará. Nós o transportaremos para os Estados Unidos de avião, onde quer que se encontre. Terá uma existência regalada, por assim dizer. O cargo de docente superior numa universidade, uma casa espaçosa e confortável no bosque, dois carros... E Zhenya e Ivan a seu lado. Para sempre. Ambos o amam profundamente, e julgo que o afeto é retribuído.

            - Dois anos?

            - Sim, mais esse lapso de tempo em Arzamas-16. Mas precisamos saber tudo. Compreende?

            Assentiu com uma inclinação de cabeça. Antes de amanhecer, Monk obrigou-o a memorizar o endereço em Berlim Oriental e aceitar a lata de espuma de barbear, com algumas coisas no meio do conteúdo, o pequeno frasco de tinta invisível para a sua única carta. Não havia a menor possibilidade de penetrar Arzamas-16. Teria de realizar um encontro para a entrega e, um ano mais tarde, ocorreria a fuga, com tudo o que ele pudesse levar consigo.

            Enquanto descia ao átrio, Monk julgava ouvir uma voz tênue que lhe segredava: “ Você é um patife de marca maior. Devia tê-lo deixado ficar já”. E outra acusava-o: “Lembre-se que não é um agente de reunificação de famílias, mas um mero espião. É a única coisa que deve e sabe fazer”. Ao mesmo tempo, o verdadeiro Jason Monk jurava que, um dia, Ivan Yevdokimovich Blinov viveria nos Estados Unidos com a esposa e o filho e o Tio Sam o compensaria daqueles dois anos suplementares em que teria de suportar o cativeiro.

 

            A reunião efetuou-se, dois dias mais tarde, no gabinete de Sir Henry Coombs no último piso de Vauxhall Cross, denominado ironicamente Palácio da Luz e da Cultura. O nome tivera origem num antigo guerreiro há muito falecido Ronnie Bloom, um orientalista que, uma ocasião, descobrira um edifício assim designado em Beijing, o qual parecia conter muito pouca luz e escassa cultura e lhe recordara as suas próprias instalações na Century House.

            Estavam igualmente presentes os dois controladores dos hemisférios oriental e ocidental, Marchbanke, chefe da seção da Rússia, e MacDonald. Foi este último que começou por falar durante cerca de uma hora, interrompido frequentemente com perguntas pelos superiores.

            - Então, meus senhores? - perguntou finalmente o chefe. Cada um expôs as suas reações. A posição era unânime.

            Tinham de aceitar a presunção que o Manifesto Negro fora na verdade roubado e constituía o diagrama exato do que Komarov tencionava fazer quando subisse ao poder criar uma tirania de partido único para promover a agressão externa e o genocídio interno.

            - Registre por escrito tudo o que nos revelou, por favor, Jock. Até ao anoitecer, de preferência. O apresentarei depois às instâncias mais elevadas. E acho que devemos informar os nossos colegas em Langley. Ocupa-se disso, Sean?

            O controlador do Hemisfério Ocidental aquiesceu, com um movimento de cabeça, e o chefe levantou se.

            - Um assunto horrível a que se tem de ficar atento, naturalmente. Os políticos precisam nos dar luz verde para cortar as pernas desse homem.

            Mas não foi o que aconteceu. Ao invés, pouco antes do final de Agosto, Sir Henry Coombs foi convidado a visitar o funcionário público mais graduado do Ministério dos Assuntos Estrangeiros, na King Charles Street.

            Na sua qualidade de subsecretário permanente, Sir Reginald Parfitt, não só era colega do chefe do SIS, mas também um dos chamados Cinco Homens Judiciosos, o qual, com as suas figuras correspondentes no Tesouro, Defesa, gabinete do primeiro-minístro e Interior, oferecia o seu parecer ao chefe do governo em questões de importância capital.

            - A respeito do raio do documento que os seus rapazes trouxeram da Rússia, o mês passado... - começou Parfitt.

            - O Manifesto Negro.

            - Sim. Um título apropriado. A idéia foi sua, Henry?

            - Do meu chefe de estação em Moscou. Pareceu-me muito apropriado.

            - Sem dúvida. Negro não é o nome mais correto. Enfim, nós o partilhamos com os americanos, mas com mais ninguém. E foi mostrado ao nível mais elevado possível. O nosso amo e senhor referia-se ao secretário dos Assuntos   Estrangeiros britânico leu-o, antes de partir para os prazeres da Toscana, em férias. Assim como o secretário de Estado americano, desnecessário salientar que a indignação foi universal.

            - Vamos reagir, Reggie?

            - Reagir...  Bem, há um problema. Os governos reagem oficialmente aos seus homólogos e não a políticos da oposição estrangeiros. Do ponto de vista oficial, este documento - Parfitt tamborilou com o indicador na cópia do Ministério dos Assuntos Estrangeiros - do  manifesto  em  cima da  mesa  é  quase certo que não existe, apesar de ambos estarmos seguros do contrário. Oficialmente, não se encontra em nosso poder, uma vez que foi indubitavelmente roubado. Receio que, do ponto de vista oficial, repito, não haja nada que qualquer dos governos possa fazer.

            - Isso é oficialmente - murmurou Harry Coombs. - Mas o nosso governo, na sua sem dúvida infinita sabedoria, utiliza o meu serviço precisamente para poder atuar, se a oportunidade se apresenta, oficiosamente.

            - Sem dúvida, Henry, sem dúvida.

            - E decerto se refere a alguma forma de ação encoberta.

            Ante a alusão às duas últimas palavras, a expressão de Sir Reginald indicou que algum insensato abrira uma janela para permitir a entrada de um odor pestilento.

            - Não seria a primeira vez que se verificaria a desestabilização de um maníaco, Reggie. Com a maior discrição. É essa a  nossa maneira de  proceder, como sabe.

            - Mas raramente com êxito, Henry. E é aí que reside o problema. Todos os nossos mestres políticos de ambos os lados do Atlântico parecem dominados pela convicção de que, por encoberto que algo pareça estar agora, acaba por transpirar, mais tarde. Ante o seu profundo desconforto.

            - Os nossos amigos americanos têm a sua sucessão interminável de gates para lhes provocar insônia: Watergate, Irangate, Contragate... E os nossos conterrâneos recordam-se bem de todas aquelas inconfidências, seguidas  de comissões de inquéritos contundentes: acusações no Parlamento, armamento destinado ao Iraque, etc. Está acompanhando o meu raciocínio, Henry?

            - Quer dizer que não têm colhões?

            - Uma maneira rude, mas exata de caracterizar a situação. Você sempre teve um talento especial para colorir uma frase delicada. Não acredito que qualquer dos dois governos sonhe sequer em conceder auxílio econômico ou de qualquer outra natureza a esse homem, se ou quando tomar o poder. Quanto a uma medida ativa, a resposta é um rotundo “não”.

            O subsecretário permanente acompanhou o chefe à porta, e os seus olhos azuis brilhantes enfrentaram os do responsável pelos espiões sem o menor indício de humorismo.

            - E trata-se de um “NÃO” com maiúsculas, Henry.

            Enquanto a limusine o conduzia ao longo dos cais do sonolento rio Tamisa em direção a Vaxhall Cross, Sir Henry Coombs via-se forçado a aceitar a realidade da decisão intergovernamental. Outrora, um aperto de mão bastava, e a discrição era implícita e mantida. Na última década, com as inconfidências oficiais como uma das poucas indústrias em desenvolvimento, somente as assinaturas se consideravam garantias suficientes. E mesmo estas tinham o persistente hábito de reaparecer para martirizar os signatários. Ninguém, em Londres ou Washington, estava disposto a por o seu nome atribuivelmente a uma ordem aos seus serviços secretos, para tomar uma “medida ativa” destinada a impedir o percurso ascendente de Igor Viktorovich Komarov.

 

Vladimir, Julho de 1989

            O acadêmico americano Dr. Philip Peters já entrara na URSS uma vez, aparentemente para satisfazer a paixão inofensiva pelo estudo da arte oriental e antiguidades da Rússia antiga. Não acontecera nada, não fora arqueada uma única sobrancelha com desconfiança.

            Doze meses mais tarde, ainda afluíam mais turistas a Moscou, e o controle revelava-se cada vez mais superficial. A dúvida de Monk consistia em decidir se devia voltar a utilizar a capa do Dr. Peters. Por fim, resolveu fazê-lo.

            A carta do professor Blinov era bem clara. Reunira uma valiosa colheita que abarcava todas as perguntas científicas para as quais os Estados Unidos desejavam obter respostas, numa lista que fora preparada após longas e acaloradas discussões com os níveis mais elevados da academia americana ainda antes de Monk haver procurado o professor no seu quarto em Fairmont, e este levara-a consigo. Agora, achava-se preparado para a satisfazer. O problema consistia em que não lhe seria fácil alcançar Moscou. E despertaria suspeitas.

            Mas como Gorky era outra cidade repleta de instituições científicas e apenas a noventa minutos de trem de Arzamas-16, poderia dirigir-se para lá. Depois de alguns protestos pessoais, o KGB suprimiu a habitual “cauda” para o seguir sempre que abandonava a zona de pesquisas nucleares. De resto, estivera na Califórnia. Por que não em Gorky? Nesse aspecto, recebeu o apoio do comissário político. Sem vigilância, poderia tomar outro trem em direção à cidade das catedrais, Vladimir. Mas nada mais. Teria de estar em casa ao anoitecer. Escolheu o dia 19 de Julho e a galeria ocidental da catedral da Assunção, às doze horas como ponto de encontro.

            Monk estudou a cidade durante duas semanas. Era de origem medieval, famosa por duas magníficas catedrais. A Assunção, a maior, rica em trabalhos de Andrei Rublev, pintor do século XV, e a de São Dimitri, menor.

            O departamento de pesquisas de Langley não conseguiu descobrir qualquer grupo de turistas que visitasse sequer as proximidades de Vladimir na data conveniente. Fazê-lo isoladamente seria arriscado. Finalmente, deparou-se com um grupo de entusiastas da arquitetura eclesiástica da Rússia antiga que se dirigiria a Moscou em meados de Julho, com um deslocamento de trem ao fabuloso Mosteiro da Trindade-São Sérgio, em Zsgorsk, no dia 19. O Dr. Peters passou a ser mais um membro desses turistas.

            Com o cabelo grisalho desgrenhado e o guia colado ao nariz, visitou as admiráveis catedrais do Kremlin durante três dias. No final do terceiro, o cicerone da Intourist mandou-os estar no átrio do hotel às sete e meia da manhã seguinte, a fim de seguirem para Zagorsk.

            Às sete e quinze, o Dr. Peters enviou um bilhete comunicando que sofrera um violento desarranjo gástrico e preferia ficar de cama recompondo-se. Às oito, abandonou discretamente o Metropol, dirigiu-se à estação de Kazan e tomou o trem para Vladimir, onde desceu pouco antes das onze.

            Como esperava, em resultado das investigações a que procedera, lá havia muitos grupos de turistas, pois a cidade das catedrais não continha segredos de Estado e a vigilância aos forasteiros era quase inexistente. Monk comprou um guia e percorreu a catedral de São Dmitri. Às onze e cinquenta, transpôs os trezentos metros que o separavam da Assunção e, sem que o interceptassem, foi admirar as pinturas murais de Rublev, junto da galeria ocidental. De súbito, ouviu tossir discretamente atrás de si. “Se me seguiram, estou perdido”, reflectiu.

            - Olá,  professor. Como está? - murmurou calmamente, sem desviar os olhos das pinturas.

            - Estou bem, mas nervoso - respondeu Blinov. - A quem o diz!

            - Tenho uma coisa para você.

            - E eu uma para você. Uma longa carta de Zhenya. E outra de Ivan, com alguns desenhos que fez na escola. A propósito, parece que herdou os miolos do pai. O professor de matemática diz que está adiantado para a idade.

            Apesar de apreensivo, com a fronte perlada de gotas de transpiração, o professor sorriu de prazer.

            - Siga-me devagar - indicou Monk - e continue admirando as pinturas.

            Um grupo de turistas franceses afastou-se e eles ficaram sós. O americano entregou ao cientista várias cartas que trouxera da América e uma segunda lista preparada pelos físicos nucleares daí, que ele guardou no bolso do casaco. O que tinha para Monk era muito mais volumoso  um maço de documentos com mais de dois centímetros de espessura que copiara em Arzamas-16.

            Este último não ficou satisfeito com a idéia, mas não havia qualquer alternativa e dissimulou o material dentro da camisa. Em seguida, estendeu a mão ao russo e sorriu.

            - Coragem, Ivan Yevdokimovich, que falta pouco. Só mais um ano.

           Os dois homens separaram-se. Blinov regressou a Gorky e daí à gaiola dourada e Monk à estação, para tomar o trem para Moscou. Voltara a deitar-se, depois de depositar a encomenda na embaixada dos Estados Unidos, antes dos companheiros da excursão voltarem de Zagorsk. Todos se mostraram curiosos com o estado da indisposição que o afetara e garantiram-lhe que perdera um passeio excelente.

            A 20 de Julho, o grupo vôou de regresso a Nova Iorque, passando sobre o Pólo Norte. Na mesma noite, outro “jato” aterrou no aeroporto Kennedy, mas procedente de Roma. Transportava Aldrich Ames, que regressava após uma estada de três anos na Itália, para reatar a espionagem para o KGB em Langley. Entretanto, enriquecera com mais dois milhões de dólares.

            Antes de abandonar a capital italiana, memorizara e queimara uma lista de tarefas procedente de Moscou. Uma das principais consistia em descobrir mais agentes controlados pela CIA no interior da URSS, com particular incidência nos funcionários ou cientistas. A carta continha um pós-escrito: “Concentre-se no homem chamado Jason Monk”.

 

            Agosto não é um bom mês para os clubes de gentlemen de St Jame’s, Piccadilly e Pall Mall. É o mês das férias, em que a maioria do pessoal deseja ausentar-se com a família e grande parte dos sócios seguiu para a sua propriedade ou para o estrangeiro.

            Muitos fecham, e os seus membros que permanecem na capital por uma ou outra razão verificam que têm de se contentar com frequentar restaurantes a que não estão habituados. Todavia, no último dia de Agosto, o White’s reabria, e foi aí que Sir Henry Coombs decidiu almoçar com um homem quinze anos mais velho e um dos seus predecessores no cargo de chefe do Secret Intelligente Service.

            Com setenta e quatro anos de idade, havia quinze que Sir Nigel Irvine abandonara a atividade. Os primeiros dez desse período passara-os em “algo na City”, o que equivalia a dizer que, à semelhança de outros antes e depois, investira a sua experiência do mundo, os conhecimentos dos corredores do poder e a sua astúcia natural numa série de diretorias que lhe haviam permitido economizar algo para a velhice.

            Quatro anos antes daquele almoço, recolhera finalmente à sua residência perto de Swanage, na ilha de Purbeck, condado de Dorset, onde escrevia, lia e passeava na costa silvestre sobranceira ao Canal da Mancha e, de vez em quando, deslocava-se a Londres de trem para visitar velhos amigos. Esses mesmos amigos, e alguns muito mais jovens, reconheciam que ainda era enérgico e ativo, e os olhos azuis aguados encobriam um espírito aguçado como uma lâmina de barbear.

            Aqueles que o conheciam melhor sabiam que a cortesia antiquada que demonstrava para todos aqueles que encontrava dissimulava uma vontade de ferro que, em certos casos, podia se converter em crueldade total. Henry Coombs, apesar da diferença de idades, conhecia-o muito bem.

            Provinham ambos da tradição de especialistas da Rússia. Após a aposentadoria de Irvine, a chefia do SIS recaíra em dois orientalistas e um arabista sucessivamente antes de Henry Coombs assinalar o regresso a um dos que desgastaram os dentes na luta contra a Uniião Soviética. Quando a chefia coubera a Nigel Irvine, Coombs revelara-se um operador brilhante em Berlim, medindo forças com a rede do KGB na Alemanha Oriental e o próprio mestre-espião germânico Marcus Wolf.

            Irvin deixou a conversa permanecer no nível das banalidades, enquanto se encontravam no concorrido e ruidoso bar do piso térreo, mas não seria humano se não se perguntasse a razão pela qual o seu antigo protegido lhe pedira que efetuasse a viagem de trem desde Dorset, para suportar o calor sufocante de Londres num simples almoço. Somente quando se encontraram no primeiro piso, sentados a uma mesa junto de uma janela sobranceira a St Jame’s Street, Coombs resolveu mencionar o objetivo do convite.

            - Está acontecendo uma coisa na Rússia.

            - Várias, mesmo, e nenhuma delas boa, segundo o que os jornais revelam.

            Esboçou um sorriso, pois sabia que o seu antigo chefe dispunha de fontes de informação muito melhores que as da Imprensa.

            - Não aprofundarei o assunto - respondeu. - Pelo menos, aqui e agora. Apenas os contornos.

            - Com certeza - assentiu Irvine.

            Coombs forneceu-lhe uma resenha dos eventos nos últimos seis meses, em Moscou e Londres. Sobretudo em Londres.

            - Eles não tencionam tomar qualquer medida, e trata-se de uma decisão final acrescentou. Os acontecimentos seguirão o seu curso, por lamentáveis que venham a apresentar-se. Pelo  menos,  foi  assim  que o nosso prezado secretário dos Assuntos Estrangeiros me expôs a situação, há um par de dias.

            - Está exagerando os meus méritos e influência se pensa que posso fazer alguma coisa para incutir um pouco de dinamismo nos mandarins de King Charles Street. Estou velho e aposentado. Como diz o poeta, participei em todas as corridas e consumi todas as paixões.

            - Tenho dois documentos que gostaria que visse - insistiu Coombs. - Um é o relatório completo de tudo o que aconteceu, até onde pudemos discernir, desde o momento em que um velho estúpido se apoderou de um processo do gabinete do secretário particular de Komarov. Poderá verificar por si mesmo se concorda com a nossa decisão que o Manifesto Negro é autêntico.

            - E o outro?

            - O próprio manifesto.

            - Obrigado pela confiança. Que quer que faça com eles?

            - Leve-os para casa, leia-os e trace conclusões.

            Depois de consumirem o pudim de arroz com cobertura de geleia, Sir Henry Coombs pediu café e dois cálices de Porto.

            - Mesmo que concorde com tudo o que acaba de me dizer, que espera de mim?

            - Estava pensando... Bem, aquelas pessoas com as quais creio que se encontrará nos Estados Unidos na próxima semana...

            - Droga, Henry! Nem você devia saber disso.

            Encolheu os ombros com simulada indiferença, embora se congratulasse intimamente pelo fato de seu palpite haver funcionado. O Conselho se reuniria na verdade, e Irvine participaria nele.

            - Para recorrer a uma expressão comum, tenho espiões em toda a parte.

            - Nesse caso, alegra-me verificar que as coisas não mudaram muito desde os meus tempos - redarguiu Irvine. - Bem, suponhamos que me vou encontrar com alguém nos Estados Unidos. E daí?

            - Deixo a resposta a essa pergunta ao seu critério. Se achar que os documentos devem ser ignorados, queime-os. Por outro lado, se decidir que merecem a travessia do Atlântico, não hesite em levá-los. A escolha é sua.

            - Que intrigante, meu Deus!

           Coombs extraiu um envelope fechado da pasta e entregou-o ao interlocutor, que o guardou na sua. Mais tarde, separaram-se no átrio e Sir Nigel Irvine meteu-se num táxi em direção à estação, para tomar o trem de volta a Dorset.

 

Langley, Setembro de 1989

            Quando Aldrich Ames voltou para Washington, a sua carreira de nove anos de espionagem para o KGB ainda dispunha de quatro e meio para chegar ao fim.

            Forrado de dinheiro, iniciou a nova vida com a aquisição de uma casa de meio milhão de dólares e um Jaguar. Isto com um salário anual de cinquenta mil. Mas ninguém percebeu nada de estranho.

            Como dirigira a seção soviética na missão de Roma, e não obstante o fato da capital italiana estar englobada na Europa Ocidental, ele continuara a fazer parte da Divisão SE. Do ponto de vista do KGB, revestia-se de importância vital que permanecesse onde, com o acesso apropriado, pudesse voltar a consultar os 301 processos.

            Nesse aspecto, deparou-se com um problema importante. Milton Bearden também acabava de regressar a Langley, depois de orientar a guerra encoberta contra os soviéticos no Afeganistão.

            A primeira coisa que fez como novo chefe da Divisão SE foi tentar livrar-se de Ames, empreendimento em que, à semelhança de outros antes dele, viu os esforços frustrados.

            Ken Mulgrew, burocrata quintessencial, ascendera a um cargo que o colocava à testa do departamento do pessoal. Como tal, exercia particular influência nas colocações dos funcionários. Ele e Ames não tardaram a reatar a amizade alcoólica, com o segundo a poder permitir-se agora libações alimentadas pelo melhor no campo das bebidas. Foi Mulgrew que frustrou Bearden, mantendo o amigo na Divisão SE.

            Entretanto, a CIA computadorizada massas das suas fichas mais secretas, com o que confiara os segredos mais íntimos à ferramenta mais insegura jamais inventada. Em Roma, Ames empenhara-se em se educar ao ponto de não ser analfabeto em assuntos de computadores. Bastava-lhe ter acesso aos códigos para extrair elementos dos 301 processos sem se levantar da mesa. Não voltariam a ser necessários sacos de plástico cheios de material. E tão pouco tornaria a ter de preencher impressos e assiná-los para requisitar as fichas mais confidenciais.

            O primeiro cargo que Mulgrew conseguiu obter para o amigo foi o de chefe europeu do grupo de operações externas da Divisão Soviética. Estas, porém, só diziam respeito aos “bens” da URSS no exterior do país ou do bloco soviético, pelo que não incluíam Lisandro, o lutador, espartano, que se encontrava em Berlim Oriental à testa do Diretorado K do KGB, ou Orion, o caçador, no seio do Ministério da Defesa Soviético em Moscou. Delfos, o oráculo, achava-se nas esferas mais altas do Ministério dos Assuntos Estrangeiros russo, e o quarto, aquele que queria sobrevoar o Atlântico e tinha o nome de código Pégaso, permanecia numa unidade de investigação nuclear selada entre Moscou e os Montes Urais.

            Quando Ames se serviu prontamente da sua posição para proceder a investigações sobre Jason Monk, agora seu superior como GS-15, enquanto ele continuava em GS-14, não apurou nada de concludente. Não obstante, a ausência de referências ao colega em operações externas indicou-lhe uma coisa: quem Monk controlava encontrava-se no interior da URSS. Scuttlebutt e Mulgrew revelaram-lhe o resto.

            Circulava a convicção geral que Jason Monk era a melhor e última esperança da divisão. Constava igualmente que se tratava de um lobo solitário, que trabalhava à sua maneira, corria os riscos inevitáveis e há muito que teria sido relegado para segundo plano, se não se verificasse um pequeno detalhe: obtinha resultados numa organização que cada vez os conseguia em números menores.

            Por seu turno, Mulgrew não o via com bons olhos. Irritava-o a sua independência, a recusa de preencher impressos em triplicado e, sobretudo, a aparente imunidade às queixas de pessoas como ele próprio.

            Ames explorava esse ressentimento. Dos dois, era ele que aguentava melhor a bebida. Conseguia continuar a raciocinar com lucidez, apesar dos vapores do álcool, enquanto Mulgrew se tornava falador.

            Assim, a altas horas de uma noite de Setembro de 1989, quando o assunto acudiu mais uma vez ao espírito do solitário virginiano, Mulgrew proclamou que ouvira dizer que Monk controlava um agente que era “uma figura importante recrutada um par de anos atrás na Argentina”.

            Não havia qualquer identidade nem nome de código. No entanto, o KGB podia inteirar-se do resto. A figura em causa devia corresponder a um homem de nível de segundo secretário ou mais elevado. Para “um par de anos atrás”, estipularam um período entre dezoito meses a três anos.

            As diligências promovidas entre os diplomatas colocados em Buenos Aires proporcionaram uma lista de dezessete possibilidades. A informação de Ames que o homem não fora reconduzido no estrangeiro reduziu-a a zero.

            Ao contrário da CIA, a contra-espionagem do KGB não se prendia com escrúpulos excessivos e começou a procurar indícios de acesso repentino a dinheiro, um estilo de vida melhorado e até a compra de um pequeno apartamento...

           

            Fazia um tempo estupendo, naquele primeiro dia de Setembro, com uma brisa proveniente do Canal e nada entre os penhascos e a distante costa da Normandia, além das cristas das ondas.

            Sir Nigel percorria a passagem no topo entre Durlston Head e St Alban’s Head e absorvia o ar carregado de maresia. Era o seu passeio favorito desde longa data e constituía um tônico após os gabinetes saturados de fumo de tabaco ou uma noite examinando documentos confidenciais.

            Verificava que lhe desanuviava as idéias, concentrava o pensamento, varria o irrelevante e o deliberadamente enganador e realçava os contornos do núcleo essencial do problema.

            Passara a noite debruçado sobre os dois documentos recebidos de Henry Coombs e ficara chocado com o seu conteúdo. O trabalho desenvolvido desde que Célia Stone vira um indivíduo andrajoso atirar algo para dentro do seu carro merecia-lhe inteira aprovação. Ele próprio não teria procedido de outro modo.

            Recordava-se vagamente de Jock MacDonald, um jovem promissor que fazia recados na Century House. Tudo indicava que singrara pelo bom caminho. E Sir Nigel aceitava a sua conclusão: o Manifesto Negro não era falso nem o produto de uma brincadeira de mau gosto.

            Concentrou as reflexões no documento propriamente dito. Se o demagogo russo tencionava realmente executar aquele programa, aconteceria algo que o faria regressar a uma hedionda recordação da sua juventude.

            Tinha dezoito anos, em 1943, quando finalmente fora admitido no Exército Britânico e enviado para Itália. Ferido no assalto ao Monte Cassino, regressara à pátria inválido e, apesar dos seus esforços para reintegrar uma unidade de combate, tinha sido transferido para os serviços secretos militares.

            Fora com a patente de tenente, pouco depois de completar vinte anos, que cruzara o Reno com o Oitavo Exército e se deparara aquilo que ninguém da sua idade ou de qualquer outra devia jamais ver-se forçado a contemplar. Foi chamado por um abalado major de infantaria para observar algo que os seus homens haviam encontrado pelo caminho. O campo de concentração de Bergen-Belsen deixara pessoas mais velhas do que ele a contas com pesadelos que nunca se libertariam.

            Começou a percorrer a passagem para o interior em direção à aldeia de Acton, de onde seguiria para Langton Madravors. Que se deveria fazer? E com que esperanças de exercer algum efeito positivo? Queimar os documentos e ignorar o assunto por completo? Era uma solução tentadora, muito tentadora, mesmo. Ou levá-los consigo aos Estados Unidos e expor-se porventura ao ridículo dos patriarcas com os quais passaria uma semana? Uma opção intimidativa.

            Abriu o portão do jardim e atravessou a pequena área onde Penny cultivava frutas e vegetais no Verão. Ele sabia que Henry Coombs não voltaria a mencionar o assunto, não lhe perguntaria o que fizera, nem procuraria inteirar-se do eventual desenvolvimento do assunto. Na verdade, ninguém conheceria jamais a proveniência dos documentos. Com efeito, ninguém aludiria ao caso. Era uma atitude que fazia parte do código.

            A esposa chamou-o da janela da cozinha.

            - Até que enfim! O chá está na sala. Fui à aldeia e trouxe sonhos e geléia.

            - Ótimo. Adoro os sonhos.

            - Tenho obrigação de o saber.

            Cinco anos mais jovem, Penelope Irvine fora uma beldade deslumbrante, requestada por uma dezena de homens abastados. No entanto, por razões só dela conhecidas, escolhera o impecunioso funcionário dos serviços secretos que lhe lia poesia e ocultava por trás de uma fachada de modéstia um cérebro de computador.

            Houvera apenas um filho, há muito falecido nas Malvinas, em 1982, e eles esforçavam-se por recordá-lo o mínimo possível, exceto no aniversário e na data da morte.

            Ao longo de trinta anos no serviço secreto, ela esperara pacientemente pelo marido, enquanto ele dirigia os movimentos dos seus agentes no interior da URSS ou aguardava ao frio nas sombras do Muro de Berlim, que algum homem corajoso, embora assustado, acudisse ao posto de fiscalização para ingressar em Berlim Ocidental. Quando regressava para casa, o fogo estava sempre aceso e havia sonhos para o chá. Aos setenta e quatro anos, Sir Nigel ainda a achava linda e amava-a profundamente.

            - Vai  partir de novo - aventurou ela, vendo-o levar a xícara aos lábios pensativamente, com o olhar fixo nas chamas.

            - Penso que o devo fazer.

            - Por quanto tempo?

            - Bem, um par de dias em Londres para os preparativos e depois uma semana na América. A partir daí, não sei. Talvez não tenha de voltar a ausentar-me.

            - Entretanto, ficarei aqui. Há muito que fazer, no jardim. Telefona, quando puder?

            - Com   certeza. - Ele fez uma pausa e murmurou: - Aquilo não pode voltar a acontecer.

            - É claro que não. E agora, tomemos o chá sossegados.

 

Langley, Março de 1990

            Foi a estação da CIA em Moscou que deu o alarme em primeiro lugar. O agente Delfos cortara o contato. Desde Dezembro anterior, Jason Monk, sentado à mesa, lia os telegramas decodificados que não paravam de chegar. Primeiro, ficou preocupado, mas depois agitado.

            Se Kruglov se encontrava bem, estava infringindo todas as regras. Porquê, por duas vezes, a CIA radicada em Moscou fizera as marcas apropriadas para indicar que enchera um “depósito” com algo para Delfos, porém o alerta fora ignorado em ambas as ocasiões. Teria abandonado a cidade e sido transferido para o estrangeiro?

            Nessa eventualidade, devia ter enviado o necessário indício tranquilizador correspondente a “Estou bem”. As consultas às páginas de anúncios das habituais publicações resultaram infrutíferas.

            Em Março parecia que Delfos se encontrava completamente incapacitado por um ataque cardíaco, outra enfermidade qualquer ou um acidente. Ou pela morte. A menos que tivesse sido “apanhado”.

            Para Monk, com a sua mente desconfiada, havia uma dúvida sem resposta. Se o homem fora preso e interrogado, revelaria tudo. A resistência seria fútil e se limitaria a prolongar a tortura.

            Por conseguinte, indicaria os lugares dos receptáculos de cartas mortas e as marcas de giz que alertavam a CIA para a necessidade de ir recolher uma encomenda de informação.

            Nesse caso, como se explicava que o KGB não utilizasse essas marcas para surpreender um diplomata americano em flagrante? Seria a medida óbvia a tomar. Um trunfo para Moscou numa altura em que tanta falta lhe fazia, pois tudo o resto corria bem para os Estados Unidos.

            O império soviético na Europa Oriental desmoronava-se. A Romênia assassinara o ditador Ceaucescu, a Polônia libertara-se, a Checoslováquia e a Hungria achavam-se em revolta e o Muro de Berlim fora derrubado em Novembro. Surpreender um americano em flagrante delito de espionagem em Moscou contribuiria para atenuar a sequência de humilhações que o KGB estava sofrendo. Não obstante, não acontecia nada nesse sentido.

            Para Monk, isso significava uma de duas coisas. Ou o desaparecimento total de Kruglov era um acidente, que se explicaria mais tarde, ou o KGB estava protegendo uma fonte.

           

            Os Estados Unidos são um país rico em muitas coisas, não sendo das menos importantes as organizações não-governamentais, mais conhecidas pela sigla NGO*. São aos milhares e variam das destinadas a conceder subsídios para investigação em inúmeros tópicos às de financiamento de empresas. Existem também as que se consagram à caridade ou a mera propaganda de uma variedade de tendências ou à corrosão de outras.

            Só em Washington, existem 1200 NGO, enquanto Nova Iorque alberga mais um milhar. E todas dispõem de fundos abundantes e dois fatores comuns: admitem a sua existência e possuem uma sede em algum lugar. com uma excepção.

            Talvez devido ao seu reduzido e seleto grupo de sócios e invisibilidade total, o Conselho de Lincoln era, no Verão de 1999, provavelmente a mais influente de todas.

            Numa democracia, o poder equivale a influência. Somente numa ditadura o poder puro e simples para prender, sequestrar, torturar, julgar e condenar em segredo existe dentro da lei. Por conseguinte, o poder não eleito numa democracia pode influir no funcionamento da máquina eleita, o que se faz através da mobilização da opinião pública, campanhas na mídia, pressão nos corredores ou contribuições financeiras regulares. Todavia, na sua forma mais pura, essa influência pode consistir simplesmente em recomendações discretas aos que exercem cargos eleitos de uma fonte de experiência, integridade e sabedoria indiscutíveis. Dá-se-lhe o nome de “a palavra discreta”.

            O invisível Conselho de Lincoln, numa negação à sua própria existência, era um grupo auto-suficiente dedicado à contemplação de assuntos do momento, análise e discussão e um acordo final sobre uma resolução. Baseado na qualidade dos seus componentes e capacidade para obter acesso aos próprios pináculos do governo eleito, tinha porventura mais influência real do que qualquer outra NGO ou um punhado delas juntas.

            O seu carácter era anglo-americano e as origens radicavam-se no profundo sentido de aliança na adversidade que remonta à Primeira Guerra Mundial, embora o Conselho só iniciasse a sua existência no princípio dos anos oitenta, em resultado de um jantar num restrito clube de Washington, logo após a Guerra das Malvinas.

            A admissão de sócios só se efetuava por convite e era limitada àqueles que os outros membros consideravam possuidores de determinadas qualidades. Entre estas, figuravam uma longa experiência, probidade absoluta, sagacidade, discrição total e patriotismo comprovado. Além disto, os que exerciam um cargo público tinham de o abandonar, para que não pudesse surgir a questão de uma intercedência especial, enquanto os que pertenciam ao setor privado podiam permanecer ao leme das respectivas empresas. Embora nem todos eles fossem espectacularmente ricos, havia pelo menos dois destes últimos cujas fortunas pessoais se consideravam da ordem dos mil milhões de dólares.

            O setor privado abarcava a experiência no comércio, indústria, banca, finança e ciência, enquanto o público incluía competência política, diplomacia e funcionalismo público.

            No verão de 1999, havia seis membros britânicos, entre os quais uma mulher, e trinta e quatro americanos  cinco do sexo feminino.

            Em virtude da experiência do mundo que se esperava que incutissem nas discussões colegiais, tendiam a ser entre de meia-idade e idosos. Poucos tinham menos de sessenta anos de experiência da vida e o mais velho já atingira os oitenta e um.

            O nome do Conselho não fora inspirado no daquela cidade britânica, mas do maior presidente dos Estados Unidos, e o etos da organização podia encontrar-se nas suas palavras que “um governo do povo, pelo povo e para o povo não se varrerá da Terra”.

            Reunia-se uma vez por ano, por acordo alcançado através de conversas telefônicas de natureza inocente e num lugar de particular privacidade. Em cada caso, o anfitrião era um dos membros mais abastados, que nunca declinava a honra.

            No recanto a noroeste do Estado de Wyoming, há um vale conhecido simplesmente por Jackson Hole, em homenagem ao primeiro caçador furtivo que conseguiu sobreviver a um Inverno, naquela área. A norte da pequena estância de esqui de Jackson, a Rodovia 191 segue quase em linha reta até Moran Junction, passa diante do aeroporto e continua em direção a Yellowstone. Um pouco além do aeroporto, situa-se a aldeia de Moose, onde uma estrada secundária se desvia, a fim de permitir o acesso a Jenny Lake.

            A oeste deste último, nos contrafortes dos montes Tetons, há dois lagos: o Bradley, alimentado pela torrente do Garnet Canyon, e o Taggart, pelo Avalanche Canyon, os quais só são acessíveis aos montanhistas. Nas terras entre ambos, um financeiro radicado em Washington e chamado Saul Nathanson construíra um espaçoso rancho de férias.

            A sua localização garantia privacidade absoluta ao proprietário e respectivos convidados. com efeito, estendia-se de lago a lago em cada lado, com a montanha escarpada ao fundo.

            A 7 de Setembro, os primeiros convivas chegaram a Denver, Colorado, onde foram recebidos pelo Grumman particular de Nathanson e transportados ao aeroporto de Jackson. Longe do terminal, transferiram-se para o seu helicóptero, para cobrirem o trajecto de cinco minutos até ao rancho. Como o contingente britânico se sujeitara aos preceitos de entrada no país na Costa Oriental, não necessitou fazer escala por Denver e mudou de avião longe de olhares indiscretos.

            O rancho dispunha de vinte cabinas, cada uma com dois quartos e uma sala comum. As excelentes refeições eram servidas no largo pavilhão que constituía o ponto focal do complexo. A seguir, as mesas eram levantadas e preparadas para permitirem a realização de reuniões plenárias.

            O pessoal pertencia a Nathanson e era irrepreensivelmente discreto e preparado para o efeito. Como medida de precaução adicional, seguranças particulares que se faziam passar por campistas rodeavam o rancho no lado oposto à montanha para desencorajar algum eventual curioso.

            A conferência de 1999 do Conselho de Lincoln durou cinco dias e, no final, ninguém se inteirou que os convidados tinham chegado e, mais tarde, partido.

            Na primeira tarde, Sir Nigel Irvine desfez a mala, tomou banho de chuveiro, vestiu roupa mais informal e foi sentar-se no terraço da cabina que partilharia com um antigo secretário de Estado americano. Daquele posto de observação, avistava alguns dos outros convidados que desentorpeciam as pernas. Havia caminhos aprazíveis para passear entre renques de abetos, faiais e pinheiros, ou à beira dos lagos.

           Descortinou o antigo secretário dos Assuntos Estrangeiros britânico e ex-secretário-geral da NATO, Lorde Carrigton, que caminhava ao lado do banqueiro Charles Price, um dos embaixadores americanos mais populares e bem sucedidos jamais enviados ao Tribunal de St James. Irvine fora chefe do Serviço Secreto quando Peter Carrington se encontrava no Ministério dos Assuntos Estrangeiros e era, por conseguinte, seu superior hierárquico. Um pouco mais longe, o anfitrião, Saul Nathanson, sentava-se num banco ao sol com o banqueiro de investimentos americano e antigo procurador-geral, Elliot Richardson.

            A um lado, Lorde Armstong, outrora secretário do primeiro-ministro e chefe do Funcionalismo Público, batia à porta da cabina onde Lady Thatcher ainda desfazia as malas.

            Imobilizou-se mais um helicóptero na faixa de aterragem, para depositar o antigo presidente George Bush, esperado pelo ex-secretário de Estado, Henry Kissinger. Junto de uma das mesas perto do pavilhão central, uma jovem uniformizada pousava uma chaleira diante de mais um antigo embaixador, o britânico Sir Nicholas Henderson, ladeado pelo financeiro e banqueiro britânico Sir Evelyn de Rothschild.

            Nigel Irvine consultou o calendário para os cinco dias da conferência. Não estava agendado nada para aquela noite. Na manhã seguinte, o grupo se dividiria, como de costume, em três comissões: geopolítica, estratégica e econômica  que se reuniriam separadamente durante dois dias. O terceiro seria dedicado à divulgação dos resultados das suas deliberações e respectiva discussão. O quarto se destinaria a sessões plenárias. E, no quinto e último, os trabalhos obedeceriam ao tema de Medidas Futuras e Recomendações.

 

Viena, Junho de 1990

            Em Dezembro anterior, as funções de Ames nas operações externas da Divisão Soviética tinham sofrido novo abalo.

            Em seguida, recebeu a terceira incumbência desde que regressara de Roma, como chefe de seção das operações checas. Mas isso não lhe permitia o acesso aos códigos do computador para invadir o coração secreto dos 301 processos o que continha as descrições dos “bens” da CIA que atuavam no seio do bloco soviético.

            Decidiu protestar junto de Mulgrew, alegando que achava a medida injusta, pois dirigira outrora todo o departamento da contra-espionagem daquele setor. Além de mais, necessitava obter confirmação dos “bens” da CIA, que, embora russos, haviam trabalhado na Checoslováquia. Por fim, Mulgrew prometeu que tentaria ajudá-lo.

            Em Maio, forneceu ao amigo o código de acesso. A partir de então, da sua mesa na Seção Checa, Ames pôde devassar os arquivos até que chegou ao intitulado ”Bens” de Monk.

            Em Junho de 1990, deslocou-se de avião a Viena para mais um encontro com “Vlad”, aliás coronel Vladimir Mechulayev. Desde o seu regresso a Washington, fora considerado inseguro que se encontrasse com mais diplomatas soviéticos, devido ao perigo da vigilância do FBI. Daí a escolha de Viena para a reunião.

            Durante esta, embriagou-se a tal ponto que, embora combinassem novo encontro para Outubro, também em Viena, estabeleceu-se-lhe confusão no espírito e acudiu a Zurique.

            Em Junho, porém, manteve-se suficientemente sóbrio para arrecadar um maço substancial de notas de banco e deslumbrar Mechulayev, ao fornecer-lhe três descrições.

            Uma referia-se a um coronel do exército, provavelmente do GRU, agora colocado no Ministério da Defesa em Moscou, mas recrutado no Oriente Médio em fins de 1985. A segunda dizia respeito a um cientista que vivia numa cidade isolada de segurança máxima e iniciara o recrutamento na Califórnia. No terceiro caso, tratava-se de um coronel do KGB, recrutado fora da URSS, que figurava nos livros nos últimos seis anos, no momento no interior do bloco soviético, mas não em território nacional, e falava espanhol.

            Três dias mais tarde, de volta à sede do Primeiro Diretorado Principal, em Yaizenevo, Mechulayev iniciava a caçada.

           

            “Não ouvem a voz dela transportada pelo vento da noite, meus irmãos e irmãs? Não percebem a sua chamada? Porventura vocês, seus filhos, não ouvem a voz da nossa amada Mãe Rússia? Mas eu a escuto perfeitamente, meus amigos. Os seus suspiros chegam até mim através das florestas, os seus soluços ao longo das neves. ”Por que me fazem isto?”, pergunta. ”Será que ainda não fui traída suficientemente? Não sangrei bastante por vocês? O meu sofrimento não chega, para que procedam assim comigo? Por que me vendem como uma prostituta nas mãos de estrangeiros e desconhecidos, que me debicam o corpo flagelado como aves de rapina?”...

 

            A tela erguida ao fundo do vasto pavilhão que formava o principal centro de reuniões do rancho era o maior disponível. O projetor situava-se no lado oposto da sala.

            Quarenta pares de olhos estavam cravados na imagem do homem que se dirigia a um comício em Tkhovo, no início daquele Verão, enquanto a estentórica oratória russa se elevava e baixava, a voz do intérprete sobreposta na banda sonora em abafado contraponto.

            “Sim, meus irmãos, sim, minhas irmãs, nós a ouvimos. Os homens de Moscou, com os seus espessos casacos de peles e gorros, não se dão conta. Os estrangeiros e a escória de criminosos que lhe devoram o corpo tão pouco. Mas nós ouvimos bem a nossa mãe que nos chama no meio da sua dor, porque somos o povo da Terra Grandiosa”.

            O jovem realizador cinematográfico, Litvinov, executara um trabalho brilhante. Inserira no filme passagens de uma natureza patética comovente: uma jovem mãe loura, com o seu bebê nos braços, contemplando o pódio com uma expressão extática, um soldado desesperadamente bonito de rosto lacrimejante, um amargurado trabalhador da terra, com a foice pousada no ombro e o preço de labuta árdua de longos anos gravado nas faces.

            Ninguém podia saber que as cenas intermitentes tinham sido filmadas independentemente, com verdadeiros atores.

            Igor Komarov alterou a voz de quase um rugido para pouco mais que um murmúrio, mas os microfones captaram-no e fizeram-no ecoar por todo o estádio. “Não surgirá ninguém? Ninguém avançará para proclamar: Basta! não acontecerá! Um pouco mais de paciência, meus irmãos da Rússia, aguardem mais um pouco, filhas da rodina”…

            O tom voltou a aumentar de volume, percorrendo todas as escalas, de um sussurro até quase um grito.

            “Surjo eu, querida mãe! Sim, eu, Igor, teu filho, avanço para”...

            As palavras finais quase se perderam, pois a multidão irrompeu em uníssono na aclamação.

            “KOMAROV!  KOMAROV!”

            O projetor foi desligado e a imagem extinguiu-se. Seguiu-se uma pausa e um suspiro coletivo no instante imediato. Às luzes da sala acenderam-se e Nigel Irvine aproximou-se da cabeceira da longa mesa retangular de refeitório de pinho do Wyoming.

            - Julgo que todos compreenderam o que acabam de ver - proferiu em tom pausado. - Era Igor Viktorovich Komarov, líder da União das Forças Patrióticas, o partido que provavelmente ganhará as eleições de Janeiro e o colocará na presidência. Como observaram, é um orador de poder de persuasão excepcional  e possui indiscutivelmente um enorme carisma. Também não devem ignorar que, na Rússia, oitenta por cento do poder real está concentrado nas mãos do presidente. Desde a  época de Ieltsin, as suas limitações, como acontece nas nossas sociedades, foram abolidas. O presidente russo dos tempos atuais pode governar mais ou menos como lhe agrada e promulgar, por decreto, todas  as  leis que  desejar. O que pode incluir a restauração do Estado de partido único.

            - Atendendo à situação em que o país se encontra, seria uma  idéia assim tão má? - argumentou uma antiga embaixadora dos Estados Unidos junto das Nações Unidas.

            - Talvez não, minha senhora - concedeu Irvine. - Mas não convoquei a presente sessão para discutir o possível curso de eventos depois da eleição de Igor Komarov. Pretendo, ao invés, expor ao Conselho aquilo que penso ser a prova insofismável do rumo que os eventos tomarão. Trouxe de Inglaterra dois relatórios de que, aqui, no Wyoming, mandei tirar trinta e nove cópias.

            - De fato, estranhei que tivesse requisitado tanto papel - declarou Saul  Nathanson, com um sorriso malicioso.

            - Desculpe ter produzido um grande desgaste da sua fotocopiadora, Saul, mas não quis trazer quarenta reproduções de cada documento através do Atlântico. Não lhes peço que as leiam agora, mas que o façam mais tarde, a sós. Comecem pelo intitulado “Verificação” e depois debrucem-se sobre o Manifesto Negro. Finalmente, devo esclarecer que já morreram três homens por causa desse texto. Os dois documentos são tão ultraconfidenciais, que me vejo obrigado a pedir-lhes que os restituam para serem destruídos pelo fogo antes de eu abandonar este recinto.

            Toda a vontade de ironizar desaparecera, quando os membros do Conselho de Lincoln receberam as respectivas cópias e recolheram aos seus aposentos. Ante a perplexidade do pessoal incumbido de servir as refeições, não apareceu ninguém para jantar. Todos pediram que o levassem aos quartos.

 

Langley, Agosto de 1990

            As notícias provenientes das estações da CIA no interior do bloco soviético eram más, com tendência para se agravarem. Em Julho, tornara-se óbvio que acontecera alguma coisa a Orion, o caçador.

            Na semana anterior, não comparecera ao “roçar” de rotina, fato que acontecia pela primeira vez.

            Chama-se “roçar” a uma situação que em geral não compromete ninguém. Num momento dado, por acordo mútuo, um dos dois percorre uma rua, podendo ou não ser seguido. De repente, salta para fora do passeio e entra na porta de um café ou restaurante. Qualquer lugar concorrido serve. No instante anterior à entrada, o outro homem paga a conta, levanta-se e encaminha-se para a porta e, sem qualquer contato visual, roçam-se entre si. Uma mão introduz um embrulho de dimensões superiores a uma caixa de fósforos no bolso lateral do casaco do outro. Ambos prosseguem o seu caminho em sentidos opostos. Se existe uma “cauda”, quando os seguidores transpõem a porta não há nada para ver.

            À parte isto, o coronel Solomin deixara de visitar dois receptáculos de cartas mortas, apesar dos avisos das marcas de giz que havia lá algo para ele.

            A única inferência era que Orion se apagara ou fora apagado por alguém Por outro lado, o sinal vital de emergência não tinha sido ativado. O que quer que tivesse acontecido fora repentino, sem indicação prévia. Um ataque cardíaco, atropelamento ou prisão.

            De Berlim Ocidental proveio a informação que a carta mensal habitual destinada à casa segura na Alemanha Oriental não fora recebida por Pégaso. E também não aparecera nada na seção de anúncios da publicação russa.

            Devido à facilidade crescente do professor Blinov para viajar localmente dentro do território russo, Monk sugerira que enviasse todos os meses uma carta completamente inofensiva para um endereço postal seguro, em Berlim Oriental. Não necessitava sequer de conter mensagens secretas apenas a assinatura, Yuri. Podia depositá-la em qualquer receptáculo fora do recinto vedado a estranhos e nunca se poderia determinar a proveniência, se porventura fosse interceptada.

            Quando o Muro de Berlim ruiu, o velho ardil de “contrabandear” a carta para o Ocidente deixou de ser necessário. Além disso, Blinov fora aconselhado a comprar um par de terriers malhados, atitude que merecera a aprovação geral em Arzamas-16, pois que poderia haver de mais inofensivo para o acadêmico viúvo do que a criação de cães? Todos os meses podia, com perfeita justificativa, enviar um pequeno anúncio para publicação num semanário de Moscou, para informar que dispunha de cachorros para venda, recém-nascidos ou esperados em breve. Ora, esse anúncio deixara de aparecer.

            Entretanto, Monk achava-se dominado por apreensão crescente. Queixou-se aos altos níveis que algo estava errado, mas disseram-lhe que devia aguardar mais algum tempo antes de se alarmar. Tinha de ser paciente, pois o contato decerto acabaria por se restabelecer. Mas a paciência não constituía uma das suas virtudes, nessa situação. Começou a emitir memorandos no sentido que estava convencido da existência de uma fuga de informação em Langley.

            Os dois homens que teriam encarado a sério as suas preocupações haviam se aposentado: Carey Jordan e Gus Hathway. O novo regime, na sua maioria importado desde o Inverno de 1985, mostrava-se simplesmente enfastiado. Entretanto, outra parte da estrutura, a caçada oficial à toupeira, que datava da Primavera de 1986, prosseguia.

           

            - Custa-me acreditar - disse um antigo procurador-geral, quando a discussão plenária principiou, a seguir ao café da manhã.

            - O meu problema é que custa não acreditar - replicou o secretário de Estado, James Baker. - Isto é do conhecimento dos nossos governos, Nigel?

            - Exato.

            - E não pretendem fazer nada?

            Os restantes trinta e nove membros sentados em torno da mesa de reuniões fitavam de olhos arregalados o antigo mestre-espião, como se esperassem que lhes assegurasse que tudo aquilo não passava de um pesadelo que se dissiparia, de uma maneira ou de outra.

            - Segundo o parecer dos altos escalões, não há nada a fazer - explicou Irvine. - Metade do que se encontra no Manifesto Negro podia perfeitamente ter a aprovação de uma boa percentagem do povo russo. Não se supõe que o Ocidente o conhece. Komarov trataria de denunciá-lo como uma falsificação. O efeito poderia consistir em lhe reforçar a posição, - seguiu-se um pesado e ominoso silêncio.

            - Posso dizer uma coisa? - interpôs Saul Nathamson. - Não como anfitrião, mas como um membro vulgar do Conselho. - Fez uma breve pausa. - Há oito anos, eu tinha um filho, que morreu na Guerra do Golfo.

            Registrou-se uma série de inclinações de cabeça de sombria compreensão. Doze dos presentes tinham desempenhado papéis importantes na criação da coligação multinacional que participara na Guerra do Golfo. Na extremidade oposta da mesa, o general Colin Powell fitava o financeiro com intensidade. Em virtude da eminência do pai, ele recebera pessoalmente a notícia que o tenente Tim Nathanson, das Forças Aliadas, tombara durante as horas finais do combate.

            - Se houve algum conforto nessa perda - concedeu Nathanson, foi o de saber que ele morreu lutando contra algo de  horrivelmente  maligno. - Fez nova  pausa, em busca das palavras apropriadas. - Sou suficientemente idoso para acreditar no conceito do mal. E na noção que às vezes pode estar  personificado  em alguém. Ainda não tinha idade para combater na Segunda Guerra Mundial, pois completara oito anos quando terminou. Sei que alguns de vocês   participaram nela. Mas, evidentemente, elucidei-me de tudo mais tarde. Creio que Adolf Hitler era um indivíduo maligno, assim como aquilo que fez.

            Imperava um silêncio total. Os estadistas, políticos, industriais, banqueiros, financeiros, diplomatas e administradores estão habituados a enfrentar os aspectos práticos da vida e compreendiam que escutavam uma declaração profundamente pessoal. Saul Nathanson inclinou-se para a frente e pousou o indicador no Manifesto Negro.

            - Este documento é maligno, assim como o homem que o escreveu. Não estou nos vendo voltar-lhe as costas e permitir que tudo aquilo torne a acontecer.

            Nada alterou a quietude que imperava. Todos sabiam que “aquilo” significava um segundo Holocausto, não simplesmente contra os judeus da Rússia, mas também contra outras minorias étnicas Por fim, o silêncio foi cortado pela antiga primeira-ministra britânica.

            - Concordo. Não há tempo para hesitações.

            Três membros presentes levaram a mão à boca. A última vez que ela empregara aquela frase fora num apartamento em Aspen, Colorado, no dia subsequente ao da invasão do Kuwait por Sadam Hussein. George Bush, James Baker e Colin Powel também se encontravam lá. Aos setenta e três anos, Mrs. Thatcher ainda conseguia tornar as suas intenções perfeitamente claras.

            Ralph Brooke, diretor da gigantesca Intercontinental Telecommunications Corporation, conhecida em todos os mercados de câmbios do mundo por InTelCor, inclinou-se para a frente.

            - Muito bem. Que nós podemos fazer?

            - Diplomaticamente... informar todos os governos da NATO e incitá-los a protestar - sugeriu um antigo diplomata.

            - Nessa eventualidade, Komarov denunciaria o manifesto como uma grosseira falsificação e a maior parte da Rússia acreditaria - objetou outro. - Não existe nada de novo na xenofobia dos russos.

            James Baker inclinou-se igualmente para diante e voltou-se para o lado, para se dirigir a Nigel Irvine.

            - Foi você o portador do assustador documento. Que propõe?

            - Nada de radical. No entanto, ofereço uma variante, por assim dizer. Se o Conselho tiver de sancionar... não empreender, mas sancionar... uma iniciativa, deverá ser tão encoberta que, aconteça o que acontecer, nada poderá afetar qualquer das reputações presentes nesta sala.

            Trinta e nove membros do Conselho sabiam ao que se referia. Todos haviam participado ou assistido ao malogro de operações governamentais supostamente encobertas. Uma voz com sotaque alemão irrompeu de outro ponto da mesa, proferida por um antigo secretário de Estado americano.

            - Nigel pode empreender uma operação tão secreta?

            Duas outras vozes disseram “Sim” em uníssono.

            Quando fora chefe dos serviços secretos britânicos, ele servira sob as ordens de Margaret Thatcher e do seu secretário dos Assuntos Estrangeiros, Lorde Carrington.

            O Conselho de Lincoln nunca emitia resoluções formais escritas. Chegava a acordos, com base nos quais cada membro recorria à sua influência para levar à aplicação nos corredores do poder dos respectivos países.

            No caso do Manifesto Negro, o acordo consistiu simplesmente em delegar numa comissão menos numerosa o desejo dos membros que a comissão considerasse o que poderia ser mais aconselhável. O Conselho plenário não decidia sancionar nem condenar ou sequer tomar conhecimento do que se seguisse.

 

Moscou, Setembro de 1990

            O coronel Anatole Grishin sentava-se à sua mesa no gabinete da prisão de Lefortovo e contemplava os três documentos que acabava de receber. O seu espírito constituía uma torrente de emoções mistas. Acima de todas as outras, figurava o triunfo. Ao longo do Verão, o pessoal da contra-espionagem do Primeiro e Segundo Diretorados Principais entregara-lhe os três traidores em rápida sucessão.

            Primeiro, fora o diplomata Kruglow, descoberto graças a uma combinação do seu primeiro-secretário na embaixada de Buenos Aires e a aquisição de um apartamento no valor de vinte mil rublos, pouco após o seu regresso.

            Confessara tudo sem hesitações. Depois de seis semanas de interrogatórios, esgotara a reserva de revelações e tinha sido encerrado numa das celas dos subterrâneos, cuja temperatura, mesmo em pleno verão, raramente superava os zero graus. Agora, permanecia ali tremendo incessantemente, à espera do seu destino. Esse destino achava-se contido numa das folhas em cima da mesa do coronel.

            O professor de física nuclear fora detido em Julho. Havia poucos cientistas do seu gabarito que tivessem dado aulas na Califórnia. Na realidade, apenas quatro. A busca repentina ao apartamento de Blinov, em Arzamas-16, revelara um pequeno frasco de tinta invisível, dentro de um par de luvas enroladas na gaveta da cômoda. Também confessara tudo rapidamente, pois a simples presença de Grishin e respectivos verdugos bastara para lhe soltar a língua. Até indicara o endereço em Berlim Oriental para onde enviava as suas cartas secretas.

           O assalto a essa residência fora atribuído a um coronel do Diretorado do K, mas, lamentavelmente, o ocupante desaparecera, transferindo-se para o Setor Ocidental da cidade uma hora antes da indesejável visita.

            Por último, em fins de Julho, fora a vez do soldado siberiano, na sequência de vigilância intensa, que culminara com a invasão inesperada do seu domicílio.

            Pyotr Solomin comportara-se de forma diferente, resistindo à dor e exibindo esgares de desafio no meio da agonia atroz. Não obstante, Grishin não deixara de lhe quebrar a firmeza, como sempre acabava por acontecer. Conseguiu-o graças à ameaça de enviar a esposa e filhos para um dos campos do internamento mais rigorosos.

            Todos descreveram como haviam sido abordados pelo americano sorridente, ansioso por lhes escutar os problemas pessoais e apresentar propostas razoáveis, o que intensificou a fúria do coronel contra o indivíduo que agora sabia chamar-se Jason Monk.

            Nada menos que três vezes, não uma, mas três! O ousado filho da mãe introduzira-se calmamente na URSS, encontrara-se com os seus espiões e partira sem ser interceptado. Nas barbas do KGB!

            Quando os três traidores confessaram à equipe de interrogadores o volume total do que o sinistro americano os obrigara a revelar, os funcionários superiores do KGB empalideceram de chocada incredulidade.

            Grishin reuniu os três relatórios e pegou o telefone. O castigo final sempre lhe proporcionara um prazer especial.

            O general Vladimir Kryuchkov fora promovido de chefe do Primeiro Diretorado Principal a diretor-geral do KGB. Provinham dele as três sentenças de morte na mesa de Mikhail Gorbachev, para a assinatura final, após o que seguiram para a prisão de Lefortovo, com a indicação “cumprimento imediato”.

            O coronel concedeu aos condenados trinta minutos no pátio dos fundos, para que pudessem avaliar o que ia acontecer. Quando entrou, encontravam-se de joelhos na relva do recinto circundado por um muro elevado, onde o sol nunca chegava.

            O diplomata foi o primeiro. Parecia traumatizado e murmurava nyet, nyet, enquanto o primeiro-sargento lhe pousava o cano da Makarov de nove milímetros na nuca. A uma leve inclinação de cabeça de Grishin, apertou o gatilho. Registrou-se um clarão, um borrifo de sangue e fragmentos de osso, e Valeri Kruglov tombou pesadamente de bruços.

            O cientista, considerado ateu irredutível, rezava, pedindo ao Todo-Poderoso que lhe preservasse a alma. Parecia não se dar conta do que acabava de acontecer a dois metros dele, e caiu de bruços como o diplomata.

            Foi, por fim, a vez do coronel Pyotr Solomin, que fixava o olhar no céu, talvez revendo mentalmente e pela última vez, as florestas e cursos de água, ricos de caça e peixe, da sua terra-natal. Quando sentiu o contato frio do aço na nuca, ergueu a mão esquerda e apontou o dedo ao coronel Grishin.

            - Fogo! - ordenou este, e tudo terminou.

            Os corpos foram sepultados em sepulturas anônimas, naquela noite, nos bosques dos arrabaldes de Moscou. Mesmo na morte, não podia haver a mínima consideração. As famílias dos executados nunca disporiam de um local para depositar as suas flores.

            Quando regressou ao seu gabinete, Grishin viu que a luz vermelha do telefone piscava. Tratava-se de um colega que conhecia do grupo de investigação do Segundo Diretorado Principal.

            - Cremos que estamos prestes a localizar e deter o quarto - anunciou. - Faltam apenas dois, ambos da contra-espionagem e de Berlim Oriental. Nós os mantemos sob vigilância apertada. A oportunidade de apanhá-los na rede surgirá, mais cedo ou mais tarde. Quando tal acontecer, quer assistir?

            - Sem a menor dúvida - assentiu o coronel.

            O investigador e o interrogador sabiam que um membro empedernido da contra-espionagem seria o mais difícil de ceder. Depois de longos anos na Linha K, pressentiria a aproximação do perigo. Decerto não deixaria no seu apartamento indícios comprometedores do gênero de um frasco de tinta invisível.

            Outrora, era fácil. Um suspeito recebia prontamente voz de prisão e, após persistente e implacável interrogatório, confessava tudo ou conseguia convencer os algozes que estava completamente inocente. Em 1990, as autoridades insistiam em provas irrefutáveis, antes de o submeterem a torturas. Lisandro não deixaria vestígios inexplicáveis. Ao invés, teria de ser surpreendido em flagrante. A operação exigia sutileza e tempo.

            Além de mais, Berlim era uma cidade aberta. O setor oriental continuava a ser tecnicamente território soviético, mas o Muro desaparecera. Se fosse assustado, o culpado poderia abandonar a capoeira com a maior facilidade, em direção à segurança da zona ocidental. Depois, não haveria mais nada a fazer.

 

            A comissão do projeto limitava-se a cinco elementos. Havia o presidente do grupo geopolítico, o seu homólogo da comissão estratégica e o presidente do corpo econômico. Além de Saul Nathanson, a seu próprio pedido, e Nigel Irvine.

            - Antes de qualquer coisa, assentemos numa coisa - começou Ralph Brooke, da Comissão Econômica. - Há a intenção de assassinar esse Komarov?

            - Não.

            - Porquê?

            - Porque é uma coisa raramente conseguida e, de qualquer modo, a sua morte não resolveria o problema.

            Irvine, melhor do que qualquer outro dos presentes, recordava-se das várias tentativas da CIA, com todos os seus fundos e tecnologia, para “terminar” Fidel Castro. com charutos explosivos que ele recusava fumar, um terno de borracha de mergulhador impregnado de veneno que declinara usar e graxa para o calçado cujos vapores lhe corroeriam a barba, entre outros estratagemas gorados. A Central Intelligence Agency acabara por confiar a missão à Mafia, cujos esforços foram ainda mais cômicos. O carrasco especial da Cosa Nostra, John Roselli, concluiu a sua permanência entre os vivos com um par de botas de cimento, no fundo da baía da Florida, e Castro continuou a pronunciar discursos de sete horas, aliás também uma razão de peso para o eliminar.

            Charles de Gaulle sobrevivera a seis tentativas da OAS, a nata das unidades de combate francesas, o rei Hussein da Jordânia a muitas mais, e perdia-se a conta das que tinham visado Saddam Hussein e sido infrutíferas.

            - Por que não é possível, Nigel?

            - Eu não disse isso. Apenas extremamente difícil. O homem está muito  bem protegido. O comandante da sua guarda de proteção e da brigada de proteção não é tolo.

            - Mas, mesmo que desse certo, não daria certo, hem?

            - Exato. O homem se tornaria um mártir. Surgiria outro para substituí-lo e galvanizar o país. Provavelmente obedeceria ao mesmo programa, aceitaria a  herança do líder desaparecido.

            - Então, que propõe?

            - Todos os políticos estão sujeitos à desestabilização.

            Surgiram alguns breves sorrisos. Nos seus dias, o Departamento de Estado e a CIA tinham tentado desestabilizar vários dirigentes de esquerda estrangeiros.

            - Que seria necessário?

            - Uma verba.

            - Isso é o de menos - disse Saul Nathanson. - Indique um número.

            - Obrigado. Mais tarde.

            - E?...

            - Algum apoio técnico. Sobretudo comparável. E um homem.

            - Um homem que espécie?

            - Capaz de entrar na Rússia e fazer certas coisas. Um homem muito bom.

            - Isso é do seu departamento. Se... e digo “se” propositadamente... ele puder ser desacreditado, que acontece, Nigel?

            - Reside aí o principal problema. Komarov não é somente um charlatão, mas um indivíduo hábil, arrebatado e carismático. Compreende e corresponde aos instintos do povo russo. Trata-se de um ícone.

            - Um quê?

            - Ícone. Não uma pintura religiosa, mas um símbolo. Representa alguma coisa. Todas as nações precisam de uma pessoa ou símbolo que possam venerar, capaz de proporcionar a uma massa de indivíduos variados uma noção de identidade e, portanto, de unidade. Sem um símbolo unificador, os povos descambam  em ódios mortíferos, destruidores. A Rússia é vasta, com muitos grupos étnicos diferentes. O comunismo era brutal, mas permitia a unidade. Unidade por coerção. Acontecia o mesmo na Iugoslávia, e vimos o que aconteceu quando o baniram. Para alcançar a unidade de livre vontade, tem de haver um símbolo. Vocês têm a Velha Glória e nós a Coroa. No momento, Igor Komarov é o ícone deles, e só nós conhecemos as suas intenções.

            - Qual é então o plano do jogo?

            - À semelhança de todos os demagogos, explorará as suas esperanças, desejos, amores e ódios, mas, sobretudo, os seus temores. Só assim lhes conquistará o coração, com esses, conseguirá os votos e, graças a eles, o poder. Poderá então utilizá-lo para construir a máquina que concretizará os objetivos do Manifesto Negro.

            - Mas se for destruído regressará o caos. Talvez mesmo a guerra civil.

            - Provavelmente. A menos que possamos introduzir na equação um ícone melhor. Um que mereça a lealdade do povo russo.

            - Um  homem  dessa  natureza não existe. Nunca existiu.

            - Engana-se - contrapôs Nigel Irvine. - Uma ocasião, há muito tempo. Chamava-se Czar de Todas as Rússias.

 

Langley, Setembro de 1990

            O coronel Turkin, ou agente Lisandro, enviou uma mensagem urgente e pessoal a Jason Monk. Figurava num postal ilustrado que mostrava a esplanada do Café da Ópera, em Berlim Oriental. O texto era simples e inocente: “Espero tornar a vê-lo em breve. Saudades do José Maria”. Fora endereçada a uma caixa postal segura da CIA em Bona e o carimbo indicava que provinha de um receptáculo público em Berlim Ocidental.

            O pessoal da CIA em Bona não sabia quem o expedira apenas que se destinava a Jason Monk, o qual se encontrava em Langley, pelo que o fez seguir para lá. O fato de ter sido expedido de Berlim Ocidental não significava nada. Turkin limitara-se a introduzi-lo no receptáculo através da janela aberta de um carro com matrícula daquele setor, murmurara Bitte e afastara-se com prontidão. Quando a sua “cauda” dobrou a esquina, a manobra já se efetuara. O prestável berlinense tratara de dar o devido seguimento ao postal.

            As medidas arriscadas dessa natureza não são recomendadas, nas atividades da espionagem, mas já se viram coisas mais estranhas.

            O detalhe intrigante consistia na data inscrita na parte superior. Estava errada. Dizia “8 de Setembro”, e um alemão ou espanhol escreveria “8/9/90”, com o dia antecedendo o mês e depois o ano. Ora a que figurava no postal parecia apresentar-se segundo o estilo americano: “9/23/90”. Para Jason Monk, significava: “Temos de nos encontrar às nove da noite de 23 deste mês”. Devia ler-se da frente para trás. E a assinatura com um nome espanhol queria dizer: “É grave e urgente”.

            O lugar era óbvio: a esplanada do Café da Ópera, em Berlim Oriental.

            A reunificação final da cidade devia realizar-se a 3 de Outubro, juntamente com o da Alemanha. O mandato da URSS no Leste terminaria naquela data. A Polícia de Berlim Ocidental assumiria a vigilância geral. A operação do KGB teria de se reduzir a uma unidade muito menor no interior da embaixada soviética situada em Unter den Linden e a maior parte dos efetivos regressaria a Moscou. Existia a possibilidade de Turkin os acompanhar. Por conseguinte, se queria fugir, era o momento oportuno, mas tinha esposa e o filho naquela cidade, e o período escolar de Outono acabara de iniciar. Havia algo que pretendia dizer e queria fazê-lo pessoalmente, ao seu amigo, com urgência. No entanto, ao contrário dele, Monk estava ciente do desaparecimento de Delfos, Orionte e Pégaso. Assim, à medida que os dias se sucediam, a sua apreensão aguçava-se.

 

            Quando o penúltimo convidado se retirou, as cópias dos documentos, salvo as pessoais de Sir Nigel, foram queimadas, até que só restavam cinzas, prontamente dispersas ao vento.

            Irvine partiu com o anfitrião, ao qual ficou grato pela carona no Grumman de regresso a Washington. Do telefone seguro do avião, ligou para a área da capital e combinou almoçar com um velho amigo. Em seguida, descontraiu-se no confortável assento diante de Nathanson.

            - Bem sei que combinamos não fazer mais perguntas - disse este último, servindo dois cálices de Chardonnay, - mas posso aventurar uma de natureza pessoal?

            - Claro. Em todo o caso, não prometo responder.

            - Vou tentar, de qualquer modo. Você veio ao Wyoming esperando que o Conselho sancionasse algum tipo de ação?

            - Suponho que sim. Mas acho que todos exprimiram a situação melhor do que eu.

            - Estávamos chocados. Sinceramente. No entanto, havia sete judeus em redor da mesa. Porquê você?

            Nigel Irvine fixou o olhar pensativo nas nuvens que desfilavam abaixo do aparelho. Em algum lugar a seus pés, encontravam-se as vastas planícies de trigo, em pleno período da safra. Uma imensidão de alimento. Tornou a ver outro lugar distante e remoto no passado. Soldados de infantaria britânicos vomitando ao sol, os condutores de tratores com máscaras nos rostos para se protegerem do fedor, enquanto impeliam montes de cadáveres para covas enormes.

            - Não sei, ao certo. Passei por isso uma vez e não quero que se repita. Chame-me antiquado, se quiser.

            Nathanson soltou uma gargalhada.

            - Antiquado!  Muito bem, brindo a isso. Você mesmo irá à Rússia?

            - Não vejo como se pode evitá-lo.

            - Tenha cuidado, meu amigo.

            - Havia um ditado na tropa. Há agentes arrojados e agentes idosos, mas não agentes arrojados idosos. Sim, terei cuidado.

            Como ficava em Georgetown, o amigo propusera um pequeno e agradável restaurante de ambiente francês denominado La Chautnièeo, a pouco mais de uma centena de metros de As Quatro Estações.

            Irvine foi o primeiro a chegar e sentou-se num banco longo perto da entrada. O chefe do SIS fora durante mais tempo um executivo mais ativo do que o diretor da CIA e, quando se deslocava a Langley, costumavam acompanhá-lo os profissionais da contra-espionagem e os subdiretores das operações, com os quais sentia profunda empatia. Partilhavam um laço comum nem sempre possível com o representante político da Casa Branca.

            O táxi imobilizou-se, e um americano de cabelos brancos e idade similar desceu e pagou ao motorista. Irvine cruzou a estrada e tocou-lhe no ombro.

            - Há que tempos! Como está, Carey?

            O rosto de Carey Jordan alargou-se num sorriso.

            - Que diabo faz aqui, Nigel? E porquê o almoço?

            - Protesta?

            - De modo algum. Tenho muito prazer em voltar a vê-lo.

            - Então, explico-lhe lá dentro.

            Chegaram um pouco cedo, já que a multidão do almoço ainda não aparecera. O empregado perguntou se queriam ficar numa sala de fumantes ou não fumantes, e Jordan indicou a primeira alternativa. Irvine arqueou uma sobrancelha, porque nenhum dos dois fumava.

            Todavia, o companheiro sabia o que fazia. Na politicamente correta Georgetown, foram conduzidos a um reservado nos fundos, onde poderiam conversar sem ser ouvidos.

            O empregado apresentou-lhes os menus e uma lista de vinhos. Eles escolheram uma entrada e a seguir carne. Irvine lançou uma olhadela à relação das bebidas e descortinou um Bordeaux Beychevelle excelente. O homem esboçou um sorriso não era barato e havia muito tempo que se encontrava na casa. Reapareceu passados poucos minutos, mostrou o rótulo, obteve uma inclinação de cabeça de aprovação, extraiu a rolha e decantou.

            - Vamos lá então saber - disse Carey Jordan, quando ficaram a sós. - Que o traz a esta clareira da floresta? Saudades?

            - Não exatamente. Digamos antes um problema.

            - Tem alguma relação com os altos e poderosos que estiveram conferenciando no Wyoming?

            - Não deviam ter lhe concedido a aposentadoria.

            - Pois não. Qual é o problema?

            - Está acontecendo algo grave e perigoso na Rússia.

            - Olha que novidade!

            - Esta é diferente. E pior do que habitualmente. As agências oficiais dos nossos países foram prevenidas para não se intrometerem.

            - Porquê?

            - Timidez oficial, suponho.

            Carey fungou com simulado desdém.

            - Repito: Olha que novidade!

            - A semana passada chegou-se à conclusão que alguém devia ir lá espiar.

            - Alguém? Apesar da advertência?

            - É essa a idéia geral.

            - Então, por que me procurou? Desliguei-me disso. Já fazem doze anos.

            - Ainda fala com Langley?

            - Ninguém o faz.

            - Então, aí tem o motivo da sua escolha. Na verdade, preciso de um homem. Capaz de visitar a Rússia. Sem despertar a atenção.

            - Às ocultas?

            - Receio que sim.

            - Contra o FSB?

            Quando Gorbachev, pouco antes do seu afastamento, desmantelou o KGB, o Primeiro Diretorado Principal passou a chamar-se SVR, embora continuasse a funcionar na velha sede em Yazenevo, e o Segundo Diretorado Principal, que abarcava a segurança interna, adquiriu a designação de FSB.

            - Provavelmente ainda mais perigoso do que isso.

            Carey mordiscou o lábio inferior durante um momento, refletiu e abanou a cabeça.

            - Não, ele não iria. Nunca mais.

            - Quem?

            - O cara em que estava pensando. Já abandonou a dança, como eu. Era bom. Nervos de aço, muito esperto, movia-se como um peixe na água. Dispensaram-no há cinco anos.

            - Ainda está vivo?

            - Tanto quanto sei... Este vinho é estupendo. Não bebo desta qualidade com frequência.

            Irvine voltou a encher o copo do amigo.

            - Como se chama esse homem que não iria?

            - Monk. Jason Monk. Dominava o russo como um nativo. O melhor controlador de agentes que me passou pelas mãos.

            - Mesmo que não queira ir, fale-me dele.

            O antigo DOO atendeu ao pedido.

 

Berlim Oriental, Setembro de 1990

            Era um entardecer cálido de Outono e a esplanada estava superlotada. O coronel Turkin, de terno leve de tecido e corte alemães, não despertou a atenção, quando se sentou em uma pequena mesa junto do passeio, no momento exato em que um par de namorados adolescentes a abandonava.

            Quando o garçon acudiu para levar os copos usados, ele pediu um café, abriu um jornal alemão e começou a ler.

            Precisamente porque passara a sua carreira na contra-espionagem, com o seu ônus na vigilância, estava destinado a ser um perito na contra-vigilância. Por conseguinte, os agentes do KGB mantinham-se a uma distância prudente. Mas achavam-se presentes, um homem e uma mulher do outro lado da praça da Ópera, sentados num banco, jovens, despreocupados e cada um com auscultadores de um Walkman nos ouvidos.

            Ambos podiam se comunicar com dois carros estacionados perto da esquina, para transmitir as suas observações e receber instruções. Nesses veículos, encontrava-se a brigada de captura, pois a ordem de detenção fora finalmente promulgada.

            Dois últimos fragmentos de informação tinham feito desequilibrar os pratos da balança contra Turkin. Na sua descrição, Ames revelara que Lisandro fora recrutado no exterior da URSS e falava espanhol. Somente o idioma forneceu à Divisão de Investigação todo o material sobre a América Latina e a Espanha na sua pesquisa dos registros. O candidato alternativo, como fora provado recentemente, chegara, na sua primeira missão sul-americana no Equador, cinco anos antes. No entanto, Ames dissera que o recrutamento de Lisandro ocorrera seis anos atrás.

            A segunda pista, e decisiva, emergiu da idéia brilhante de examinar todos os telefonemas efetuados da sede do KGB em Berlim Oriental, na noite da visita frustrada ao apartamento da caixa postal da CIA, aquela em que o seu ocupante se ausentara uma hora antes.

            Os registros indicavam uma chamada efetuada de um telefone público do átrio para o número do apartamento em causa. O outro suspeito encontrava-se em Potsdam, naquela noite, e o chefe da batida abortada era o coronel Turkin.

            A detenção formal teria se consumado mais cedo, se não se verificasse a circunstância de se esperar um oficial de patente elevada proveniente de Moscou, o qual insistira em estar presente e escoltar pessoalmente o suspeito no regresso à URSS. No entanto, este último partira inesperadamente, a pé, e os vigilantes viram-se na contingência de o seguir.

            Um engraxate hispano-marroquino percorria o passeio e perguntava aos homens sentados na esplanada se necessitavam dos seus préstimos, mas recebia meneios de cabeça como resposta. Os habitantes de Berlim-Oriental não estavam habituados a ver engraxates itinerantes nos seus cafés e os do outro setor berlinense que se encontravam entre eles consideravam que muitos imigrantes do Terceiro Mundo infestavam a sua rica cidade.

            Por fim, o engraxate obteve uma resposta afirmativa, postou-se diante do cliente e começou a aplicar graxa num dos sapatos. Quando um empregado se aproximou para afastá-lo, o cliente, com notável sotaque alemão, observou:

            - Já que começou, deixe-o terminar.

            O outro encolheu os ombros e afastou-se.

            - Passou muito tempo, Kolya - murmurou o engraxate, em espanhol. - Como está?

            O russo inclinou-se para frente, para indicar onde queria uma camada de graxa mais espessa.

            - Não muito bem. Creio que há problemas.

            - Conte lá.

            - Há dois meses, tive de invadir um apartamento denunciado como sendo uma caixa postal  da CIA.  Consegui  fazer um telefonema antes e o homem pôde escapar. Como descobriram? Alguém terá dado com a língua nos dentes?

            - Possivelmente. Por que acha isso?

            - Há mais, e pior. Duas semanas atrás, pouco antes do meu postal, chegou um funcionário de Moscou pertencente à Análise. A esposa é da Alemanha  Oriental  e vieram visitar familiares  dela.  Houve  uma  festa,  ele  embebedou-se  e disse que tinha havido prisões em Moscou. Alguém do Ministério da Defesa e dos Assuntos Estrangeiros.

            Para Monk, a revelação equivaleu a um pontapé no rosto aplicado pelos sapatos que engraxava.

            - Alguém sentado à mesa com ele disse qualquer coisa parecida com “Vocês devem ter uma fonte excelente no campo inimigo”, o que o levou a piscar o olho, com uma expressão maliciosa.

            - Tem de sair daqui,  Kolya. Já, esta noite. Venha para o outro lado.

            - Não posso abandonar Ludmila e Yuri, que se encontram em Moscou.

            - Mande-os vir. Invente qualquer pretexto. Isto será território soviético durante mais dez dias. Depois, torna-se parte integrante da Alemanha Federal. A partir de então, eles não poderão deslocar-se aqui.

            - Tem razão. Dentro de dez dias, passaremos para o outro lado como uma família. Vocês cuidarão de nós.

            - Eu próprio me ocuparei do assunto. Não perca tempo. O russo entregou  um punhado de marcos da Alemanha Oriental ao hispano-marroquino, os quais podiam ser conservados durante dez dias e depois trocados por valiosos deutschmarks, o engraxate endireitou-se, agradeceu e afastou-se.

            Os dois vigilantes no outro lado da praça ouviram uma voz nos auscultadores:

            - Está tudo completo. Procedam à detenção.

            Os dois Tatras cinzentos checos dobraram a esquina de acesso à Praça da Ópera e rolaram ao longo do passeio em que se situava o café. Do primeiro, irromperam três homens, que afastaram dois transeuntes do seu caminho e agarraram um dos clientes sentados na esplanada. O segundo carro ejetou mais dois, que conservaram a porta de tras aberta e permaneceram de guarda.

            Soaram vários gritos de alarme dos clientes, no momento em que o homem de terno cinzento foi imobilizado e arrastado para o interior do segundo veículo, que se pôs em marcha, depois da porta se fechar ruidosamente. A brigada de assalto regressou ao primeiro Tatra, que seguiu no seu encalço. A operação durou apenas sete segundos.

            Na extremidade do quarteirão, Jason Monk, a uma centena de metros do local, assistiu a tudo com uma penosa sensação de impotência.

 

            - Que aconteceu depois de Berlim? - perguntou Sir Nigel Irvine.

            Vários comensais guardavam os cartões de crédito e abandonavam o restaurante para regressar ao trabalho ou a algum local de lazer. O inglês pegou a garrafa de Beychevelle, viu que estava vazia e fez sinal ao empregado para que a renovasse.

            - Pretende embriagar-me? - inquiriu Jordan, com um sorriso malicioso.

            - Que história! Receio que sejamos muito velhos e hediondos para beber como cavalheiros.

            - Também acho. De qualquer modo, raramente tenho oportunidade de saborear um Chateau Beychevelte, nos tempos que correm.

            O garçon apresentou a nova garrafa, obteve um gesto de assentimento de Sir Nigel, desrolhou-a e decantou.

            - A que vamos brindar? - perguntou Jordan. - Ao Grande Jogo? Ou talvez à Grande Confusão? - acrescentou, com amargura.

            - Não, aos bons velhos tempos. E à clareza. Creio que é aquilo que sinto mais falta e os jovens não têm. A clareza moral absoluta.

            - Sim, brindo a isso. Mas voltemos a Berlim. Monk regressou mais furioso do que um leão da montanha com o rabo em chamas. Eu já não estava presente, claro, mas continuava a me encontrar com caras como Milt Bearden. Por isso, inteirei-me do aspecto geral da situação. Monk percorria o edifício comunicando a todos os que o queriam ouvir que a Divisão Soviética albergava uma toupeira  numa posição elevada. O que, naturalmente, não correspondia ao que eles queriam escutar. “Ponha isso por escrito”, aconselharam-no, e foi o que fez. Redigiu um documento de arrepiar os cabelos em que acusava praticamente todos de incompetência inconsciente. Milt Bearden conseguiu finalmente correr com Ames da sua Divisão Soviética, mas o cara era como uma sanguessuga. Entretanto, o Diretor formara um novo centro de contra-espionagem, que continha o Grupo de Análise e, dentro deste, a seção da URSS. Esta última precisava de um antigo dirigente de diretorado de operações e, acredite ou não, Ames obteve o cargo, proposto por Mulgrew. Adivinhe a quem Monk teve de se dirigir com as suas reclamações. Ao próprio Aldrich Ames”.

            - Deve ter constituído um abalo para o sistema – admitiu Irvine, a meia-voz.

            - Dizem que o Diabo protege os seus. Do ponto de vista de Ames, era preferível que fosse ele a ocupar-se de Monk. Podia escamotear o relatório, e o fez. Foi mesmo mais longe. Contra-acusou-o  de levantar  suspeitas  destituídas  de bases. Onde estavam as provas do que afirmava? Acabou por se realizar um inquérito interno. Não para apurar a veracidade ou não da existência de uma toupeira, mas ao próprio Monk.

            - Uma espécie de conselho de guerra?

            - Mais ou menos. Eu teria intercedido em favor dele, mas não gozava de reputação boa, na ocasião. De qualquer modo, a batuta encontrava-se nas mãos   de Ken Mulgrew. A decisão final consistiu em que Monk tinha inventado o encontro em Berlim para reanimar uma carreira em declínio.

            - Muito conveniente.

            - Sim, muito. Mas entretanto o diretorado das operações estava cheio de  burocratas, além  de um punhado de velhos guerreiros que prestavam serviço já fora do prazo de validade, por assim dizer. No final de quarenta anos, tínhamos acabado por ganhar a Guerra Fria, e o império soviético desmoronava-se.

            - Que aconteceu a Monk?

            - Estiveram prestes a despedi-lo. Ao invés, humilharam-no, sepultando-o  num recanto obscuro dos arquivos ou algo do gênero.  Ele devia ter apresentado a demissão e  passado a gozar a aposentadoria. Mas foi sempre um filho da mãe tenaz. Aguentou a adversidade com pé firme, convencido de que, um dia, provaria que não se enganara. Apodreceu na nova ocupação durante três longos anos. E, por último, conseguiu.

            - Provar que tinha razão?

            - Com certeza. Mas era muito tarde.

 

Moscou, Janeiro de 1991

            O coronel Anatoli Grishin abandonou a sala de interrogatórios e recolheu ao seu gabinete dominado por fúria intensa.

            O grupo de oficiais que se ocupara de fazer perguntas estava convencido que fora obtido todo o necessário. Não haveria mais sessões da Comissão Monakh. Estava tudo gravado a história completa desde um garoto que adoecera em Nairobi, em 1983, para terminar no rapto na esplanada do Café Ópera, em Setembro passado.

            Os homens do Primeiro Diretorado Principal sabiam que Monk caíra em desgraça entre os seus e tinha a carreira destruída. Isso só podia significar que não havia em atividade outros agentes por ele recrutados. Tinham sido apenas quatro, e que quatro! Restava um vivo, mas por pouco tempo, segundo a convicção de Grishin.

            Por conseguinte, a Comissão Monakh concluíra os trabalhos e fora dissolvida. A situação devia considerar-se triunfal, porém a cólera do coronel devia-se a algo que surgira na última sessão.

            Cem metros. Cem miseráveis metros... O relatório da equipe de vigilância era bem claro. No seu último dia em liberdade, Nikolai Turkin não estabelecera qualquer contato com agentes inimigos. Passara na sede, jantara no refeitório, depois saíra inesperadamente e fora seguido até uma esplanada, onde tomara café e mandara engraxar os sapatos.

            Os dois vigilantes no outro lado da praça tinham visto o engraxate executar a sua tarefa e afastar-se. Segundos mais tarde, os veículos do KGB, com Grishin sentado ao lado do condutor do primeiro, dobrava a esquina. Naquele momento, ele encontrava-se apenas a uma centena de metros de Jason Monk em território de jurisdição soviética.

            Na sala de interrogatórios, os olhos de todos os membros da Comissão Monakh desviaram-se do detido para o coronel. Pareciam acusá-lo de ter deixado escapar a presa mais valiosa de todas.

            Haveria dor, naturalmente. Não para persuasão, mas para castigo, isso podia ele prometer. Em seguida, porém, fora desautorizado. O general Boyarov comunicara-lhe que o diretor do KGB queria uma execução rápida, receoso de que, numa época de mudanças constantes e rápidas, esse tipo de sentença fosse indeferido. Apresentaria a ordem ao presidente nesse mesmo dia e deveria ser cumprida na manhã seguinte.

            E os tempos estavam de fato mudando com rapidez impressionante. O seu serviço era acusado pela escória da Imprensa recentemente libertada de coação, mas ele sabia como enfrentá-la e vencê-la.

           O que, porém, ignorava era que, em Agosto, o seu próprio superior hierárquico, general Kryuchkov, chefiaria um golpe de Estado contra Gorbachev, o qual abortaria. Como represália, este último dividiria o KGB em vários fragmentos e a União Soviética ruiria em Dezembro.

            Enquanto Grishin se entregava a amargas reflexões no seu gabinete, naquele dia de Janeiro, o general Kryuchkov pousava a ordem de execução do antigo coronel Turkin, do KGB, na secretária do presidente. Gorbachev pegou a caneta, hesitou e voltou a colocá-la a um lado.

            Em Agosto anterior, Saddam Hussein invadira o Kuwait. Agora, jatos americanos destruíam a vida à superfície do Iraque. A invasão por terra estava iminente. Vários estadistas mundiais tentavam interceder, propondo-se como autores de paz internacionais. Era um papel tentador. Entre eles, figurava Mikhail Gorbachev.

            - Aceito o que este homem fez e que merece morrer - declarou.

            - É a lei - salientou Kryuchkov.

            - Sim, mas neste momento... creio que seria desaconselhável. - O  presidente tomou uma decisão e devolveu a ordem, sem a assinar. - Assiste-me o direito de exercer clemência, e faço-o. Sete anos de trabalhos forçados.

            O general retirou-se furioso. Aquele tipo de degeneração não podia continuar. Mais cedo ou mais tarde, ele e outros que pensavam do mesmo modo teriam de atuar.

            Para Grishin, a notícia constituiu o golpe de misericórdia de um dia para esquecer. A única coisa que podia fazer era providenciar que o campo de trabalho em que Turkin ingressasse fosse de uma natureza tão agreste que não conseguisse sobreviver.

            No princípio dos anos oitenta, os campos de presos políticos tinham sido transferidos da excessivamente acessível Moldávia mais para o norte, na região em torno de Perm, terra-natal de Grishin. Uma dezena deles acha