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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ILHA DO AMOR / Nora Roberts
ILHA DO AMOR / Nora Roberts

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ILHA DO AMOR

 

Não gostava de assumir riscos. Sempre se assegurava de pisar em chão firme antes de dar o seguinte passo. Era parte de sua personalidade, ao menos, assim tinha sido durante quase dez anos. treinou-se para ser prática, cautelosa. Megan Ou'Riley era uma mulher que, pelas noites, sempre se assegurava de ter as portas fechadas com chave.

Para o vôo do Oklahoma a Maine, tinha preparado meticulosamente uma bolsa de mão para ela e para seu filho, e tinha encarregado que lhe enviassem o resto de seus pertences em um vôo de carga. Era uma tolice, dizia-se, perder tempo esperando na cinta de recolhimento de bagagens.

O traslado ao Este não respondia a um impulso. Levava seis meses pensando nisso. Era uma viagem prática e, ao mesmo tempo, com certa dose de aventura, tanto para ela como para o Kevin. A adaptação não podia ser muito difícil, pensou observando a seu filho, apoiado no guichê, dormitado. Tinham família em Bar Harbor e Kevin era presa da excitação desde que lhe disse que estava pensando em transladar-se a viver perto de seu tio e de seu meio irmãos. E primos, pensou. Havia quatro novos membros na família desde que esteve em Maine por primeira vez, fazia já alguns anos, para assistir à bodas de seu irmão com a Amanda Calhoun.

Observou dormir a seu filho, a seu pequeno. Embora já não era tão pequeno, tinha quase nove anos. Seria bom para ele formar parte de uma grande família. Os Calhoun eram generosos com seus afetos, graças a Deus.

Nunca esqueceria como Suzanna Calhoun Dumont, Bradford de segundas núpcias, tinha-a recebido no ano anterior. Tinha sido cálida e afetuosa, inclusive sabendo que Megan tinha sido amante de seu marido, Baxter Dumont, antes de seu matrimônio, e que lhe tinha dado um filho.

 

É obvio, quando se apaixonou pelo Baxter, Megan nem sequer conhecia a existência da Suzanna. Tinha dezessete anos e era ingênua e crédula, ansiosa por acreditar em promessas de amor eterno. Não, não sabia que Bax estava comprometido com a Suzanna Calhoun.

 

Quando nasceu seu filho, Baxter estava em sua lua de mel. Logo, nunca reconheceu ou viu o menino que Megan Ou'Riley lhe tinha dado.

 

Anos depois, quando o destino uniu ao irmão do Megan, Sloan, com a irmã da Suzanna, Amanda, a história saiu à luz.

 

Finalmente, graças às voltas e caprichos do destino, Megan e seu filho viveriam na casa onde Suzanna e suas irmãs tinham crescido. Kevin teria uma família: um meio irmão, uma meia irmã, primos e um montão de tias e tios, todos vivendo na mesma casa, e miúda casa.

 

-As Torres -murmurou Megan. A gloriosa e antiga estrutura de pedra a que Kevin ainda seguia chamando castelo.

 

perguntou-se como seria viver ali, trabalhar ali.

 

Tinha sido remoçada, e uma asa da mesma se utilizava como hotel, o Hotel St. James., uma idéia do Trenton St. James III, que se tinha casado com a menor das Calhoun, Catherine.

 

Os hotéis St. James eram conhecidos no mundo inteiro por sua qualidade e sua classe. A oferta de unir-se à empresa em qualidade de administradora geral, depois de muita reflexão, era muito tentadora para resistir a ela.

 

E morria por ver seu irmão, Sloan, ao resto da família e à própria casa.

 

dizia-se que era uma tolice está-lo, mas mesmo assim, estava nervosa. O traslado era um passo muito prático e muito lógico. Seu novo cargo, administradora geral, satisfazia suas ambições e, embora nunca tinha tido problemas de dinheiro, o salário, certamente, não era desprezível.

 

E o mais importante de tudo, poderia passar mais tempo com o Kevin.

 

Quando anunciaram a manobra de aproximação ao aeroporto, Megan se inclinou a um lado e acariciou a seu filho. Kevin abriu os olhos com gesto sonolento.

-Já chegamos?

 

-Quase. Ponha reto o respaldo do assento. Olhe, pode-se ver a baía.

 

-iremos montar em barco, verdade? -disse Kevin. De ter estado completamente acordado talvez teria pensado que era muito major para ficar a dar saltos no assento, mas acabava de despertar, de modo que saltou com excitação-. E quero ir ver baleias, e montar no navio do pai novo do Alex.

 

Ao Megan, a idéia de montar em navio lhe deu náuseas, mas sorriu.

 

-claro que sim.

 

-vamos viver no castelo? -disse Kevin olhando a sua mãe.

 

Era um menino precioso, de cabelo negro e encaracolado e pele dourada.

 

-Você dormirá no antigo antigo quarto do Alex.

 

-Há fantasmas -disse o menino, sonriendo. Faltavam-lhe alguns dentes.

 

-Isso dizem. Mas fantasmas bons.

 

-Pode que não todos sejam bons -disse Kevin, ao menos, isso esperava ele-. Alex diz que há muitos, e que algumas vezes gritam e se queixam. O ano passado um homem caiu da janela da torre e se rompeu todos os ossos.

 

Megan se estremeceu. Aquela história era verdade. As esmeraldas dos Calhoun, descobertas um ano antes, tinham dado lugar a mais de uma lenda e tinham ocasionado um roubo e um assassinato.

 

-Mas agora já não há perigo, Kevin, As Torres são seguras.

 

-Já.

 

Era um menino, e esperava que, ao menos, houvesse um pouco de perigo.

 

 

No aeroporto, outro menino não parava de imaginar aventuras. Dava-lhe a impressão de que levava horas esperando a seu irmão. Sua mãe lhe tirava da mão e ele tirava da mão a sua irmã Jenny, porque, sua mãe lhe dizia que era o major e tinha que cuidar dela.

 

Sua mãe, além disso, sustentava ao bebê em braços, a seu novo irmão. Alex estava impaciente.

 

-por que demoram tanto?

 

-Porque se demora muito em sair do avião e chegar até a porta.

 

-por que a chamam porta se não ser uma porta? -disse Jenny.

 

-Acredito que antes sim havia portas, assim que as seguem chamando assim.

 

Era a melhor explicação que ocorreu a Suzanna, depois de lutar durante meia hora com três meninos impaciente.

 

O bebê fez uma careta e sorriu.

 

-Olhe, mamãe! Olha-os! -exclamou Alex e saiu correndo para o Kevin.

 

Sua irmã Jenny foi detrás dele, e entre os dois atropelaram a uns quantos passageiros. Suzanna pôs gesto de desculpa e saudou o Megan com a mão.

 

-Olá! -disse Alex, que, seguindo as instruções de sua mãe, tomou a bagagem do Kevin-. Tenho que levar sua mala porque ides vir a nossa casa.

 

Incomodou-o ver que, embora sua mãe lhe dizia freqüentemente que estava muito alto para sua idade, Kevin fora ainda mais alto.

 

-Ainda tem o forte?

 

-Sim, na casa grande. E tenho um novo no endoideci. Nós vivemos no endoideci.

 

-Com papai -interveio Jenny-. Temos nomes novos e tudo. Pode arrumar tudo o que está quebrado e me tem feito minha casa.

 

-Tem cortinas rosas -disse Alex com um gesto de brincadeira.

 

Sabendo que havia perigo de discussão, Suzanna separou a seus filhos.

 

-Que tal a viagem? -disse, inclinou-se para beijar ao Kevin e logo beijou ao Megan.

 

-Muito bem, obrigado.

 

Megan seguia sem saber como responder ao amável afeto da Suzanna. Lhe deu vontade de gritar: «Deitei-me com seu marido, entende? Pode que então não fora seu marido ainda e que eu não soubesse que estava comprometido contigo, mas os fatos são os fatos». Mas, em vez disso, disse:

 

-Embora com algum atraso. Espero que não tenham tido que esperar muito.

 

-Horas -disse Alex.

 

-Meia hora -corrigiu-o Suzanna, rendo-. Não trazem mais bagagem?

 

-Mandei-o em um vôo de carga. por agora não há mais que isto -disse Megan dando uns golpecitos em sua bolsa de viagem e, incapaz de resisti-lo, teve que olhar ao bebê de brilhantes olhos que se agitava em braços da Suzanna. Era rosado e suave, com os olhos azuis escuros dos bebês e o cabelo, escasso, brilhante e negro, e esfregava um punho fechado contra o nariz.

 

-OH, que bonito é.

 

-Tem três semanas -disse Alex, dando-se importância-. Chama-se Christian.

 

-Era o nome de meu bisavô -disse Jenny-. E também temos primos novos. Bianca, Cordelia, embora a chamamos Delia, e Ethan.

 

-Todo mundo tem meninos -disse Alex com um gesto de auto-suficiência.

 

-É bonito -disse Kevin depois de um comprido exame do bebê-. Também é meu irmão?

 

-Claro -disse Suzanna, adiantando-se à resposta do Megan-. Temo-me que agora vais ter uma família muito grande.

 

Kevin a olhou com acanhamento e tocou a manta do bebê.

 

-Não me importa.

 

Suzanna olhou ao Megan sonriendo.

 

-Quer sustentá-lo? -disse-lhe, refiriéndose ao menino.

 

-eu adoraria -disse Megan e tomou ao Christian, enquanto Suzanna sustentava sua bolsa de viagem-. Meu deus, que fácil é esquecer quão preciosos são e quão bem cheiram. E você -disse olhando a Suzanna conforme abandonavam o terminal do aeroporto-, como tem tão bom aspecto se solo tiverem acontecido três semanas do parto?

 

-OH, obrigado, mas eu acredito que pareço um asco. Alex, não corra!

 

-Nem você, Kevin! Como se tomou Sloan o de ser pai? Quanto senti não poder vir quando Mandy deu a luz, mas estava vendendo a casa e preparando o traslado e me era impossível.

 

-Não se preocupe, é normal. Sloan é um pai estupendo. Tem-lhes feito uma habitação de jogos aos meninos, com balanços e móveis de plástico. Têm-na cheia de brinquedos. Delia e Bianca se passam as horas ali e, quando C. C. e Trent vêm à cidade, Ethan também está ali.

 

-É maravilhoso que cresçam juntos -disse Megan olhando ao Kevin, Alex e Jenny, pensando neles e nos outros meninos.

 

Suzanna a compreendia muito bem.

 

-Sim, assim é. Me alegro de que esteja aqui, Megan. É como ter outra irmã -disse e observou que Megan fechava os olhos, quase com pesadumbre, de modo que trocou de tema-. Que alívio que a partir de agora você leve a contabilidade.

 

-Estou desejando começar a trabalhar.

 

Suzanna se deteve junto a uma pequena caminhonete e a abriu.

 

-Dentro -disse aos meninos e pôs ao Christian, que seguia em braços do Megan, em seu assento-. Espero que siga dizendo o mesmo depois de revisar os livros, temo-me que Holt é um administrador desastroso, e Nathaniel...

 

-Ah, é verdade, Holt tem um companheiro. O que me disse Sloan, que é um velho amigo?

 

-Holt e Nathaniel cresceram juntos na ilha. Nathaniel voltou faz uns meses. Estava na marinha mercante. Bom, já está, carinho -disse Suzanna, beijou ao menino e olhou de esguelha ao resto, para assegurar-se de que se puseram o cinto de segurança. Fechou a porta lateral da caminhonete e se sentou ao volante.

 

-É todo um personagem -concluiu dirigindo-se ao Megan-. Te vai encantar.

 

O personagem estava terminando a comida, composta de frango frito, salada de batatas e bolo de limão. Com um suspiro de satisfação, levantou-se da mesa e dirigiu a sua anfitriã um olhar sedutor.

 

-O que tenho que fazer para que te case comigo?

 

A mulher riu e fez um gesto com a mão.

 

-É um brincalhão, Nate.

 

-Quem está brincando? -disse Nathaniel levantando-se e beijando à mulher na mão. Sempre cheirava a mulher: um aroma doce, sedutor, esplêndido. Sorriu e a beijou na boneca-. Sabe que estou louco por ti, Cody.

 

Cordelia Calhoun McPike voltou a rir e lhe deu uns golpecitos na bochecha.

 

-O que você gosta de é a comida que te preparo.

 

-Isso também -disse Nate, sonriendo.

 

Cordelia se separou dele e foi servir lhe um café. Era toda uma mulher, pensou Nate. Alta, com personalidade, encantadora. Nate se assombrava de que nenhum homem tivesse apanhado ainda à viúva McPike.

 

-Com quem tenho que competir esta semana?

 

-Agora que o hotel tornou a abrir, não tenho tempo para romances.

 

Cordelia estava satisfeita com a vida que levava. Todas suas queridas sobrinhas estavam felizmente casadas e, além disso, dirigia a cozinha do hotel St. James Towers. Deu ao Nathaniel café e, ao ver que se fixava em um bolo caseiro, cortou-lhe uma parte.

 

-Tenho lido o pensamento.

 

Cordelia suspirou. Não havia nada que a satisfizera mais que ver um homem desfrutando de sua comida.

 

A volta do Nathaniel Fury à cidade não lhe aconteceu desapercebida a ninguém, e menos a Coco. Como ia passar desapercebido um homem alto, moreno, arrumado e com uns olhos cinzas e de olhar profundo, que, além disso, possuía um considerável encanto?

 

Levava camiseta e jeans negros, que destacavam seu corpo atlético, de larguras ombros, braços musculosos e quadril estreito.

 

Logo, estava aquele aura de mistério e exotismo. Um exotismo que não se devia a seu aspecto, mas sim mas bem a uma questão de presença, adquirida nos anos que tinha passado no estrangeiro.

 

Se fosse vinte anos mais jovem.., pensou Coco. Embora solo fossem dez, corrigiu-se, mesando seu cabelo castanho.

 

Mas não o era, de modo que tinha dado ao Nathaniel o lugar em seu coração do filho que nunca tinha tido, e estava decidida a encontrar a mulher mais adequada para ele e a ajudá-lo a que fora feliz. Igual a tinha feito com suas preciosas sobrinhas.

 

Tinha a impressão de que tinha sido ela a que tinha facilitado pessoalmente os romances de suas meninas e confiava em fazer o mesmo pelo Nathaniel.

 

-Ontem à noite te fiz a carta astral -disse, e comprovou o guisado de pescado que preparava para o jantar.

 

-Ah, sim? -disse Nathaniel, tomando outro bocado de bolo. Deus, aquela mulher sabia cozinhar.

 

-Está entrando em uma nova fase de sua vida, Nate.

 

Tinha visto muito mundo para desprezar totalmente a astrologia, ou qualquer outra coisa. De modo que sorriu.

 

-Acredito que deste no branco, Coco. Quero montar um negócio e construir uma casa.

 

-Não, não, esta fase é mais pessoal -disse Cordelia, franzindo o cenho-. Tem que ver com Vênus.

 

Nathaniel sorriu.

 

-De modo que ao final te vais casar comigo.

 

Coco o assinalou com o dedo.

 

-antes de que acabe o verão -disse-, vais pedir lhe a alguém que se case contigo, mas a sério. Vejo-te te apaixonando duas vezes, embora não estou segura do que significa isso -disse Coco, e refletiu uns instantes-. Nada dizia que pudesse escolher, embora havia muitas interferências, e pode que algum perigo.

 

-Apaixonar-se por duas mulheres só pode trazer problemas -disse Nathaniel, que, por outro lado, estava contente de não ter, nenhuma relação naqueles momentos. As mulheres, simplesmente, sempre queriam que o homem com o que se relacionavam cumprisse com suas expectativas, mas ele, por sua parte, solo aspirava a satisfazer as suas-. Além disso, eu estou apaixonado por ti... -disse e se aproximou de Coco para beijá-la na bochecha.

 

O furacão se levantou sem aviso. A porta da cozinha se abriu de repente e três torvelinhos gritões se precipitaram por ela.

 

-Tia Coco! Já chegaram!

 

-OH, Meu deus -disse Coco, apoiando uma mão sobre seu coração-. Que susto, Alex, tiraste-me um ano de vida -disse, mas sorriu e olhou ao menino que entrou com o Alex-. É Kevin? cresceste muitíssimo! Não vai lhe dar um beijo a sua tia Coco?

 

-Sim, senhora -disse Kevin, aproximando-se dela com gesto inseguro. E se viu envolto pelo suave aroma de Coco, que o apertou contra seus suaves peitos e o tranqüilizou.

 

-Me alegro de que estejam aqui -disse Coco, com lágrimas nos olhos. Era muito sentimental-. Agora toda a família está reunida. Kevin, este é o senhor Fury. Nate, meu sobrinho neto.

 

Nathaniel conhecia a história, sabia que o crápula do Baxter Dumont tinha deixado grávida um pouco antes de casar-se com a Suzanna. O menino ficou olhando, estava nervoso, mas tinha aprumo. Nathaniel se deu conta de que sabia a história ou, ao menos, parte dela.

 

-Bem-vindo a Bar Harbour -disse estendendo a mão. Kevin a estreitou educadamente.

 

-Nate leva a loja de navios e de coisas com meu pai -disse Alex, a quem a expressão «meu pai» ainda lhe resultava muito nova-. Kevin quer ver baleias -disse ao Nathaniel-. Vem do Oklahoma e ali não há. Nem sequer têm água no Oklahoma.

 

-Alguma sim que temos -disse Kevin-. E temos jeans. Aqui não há jeans.

 

-Eu tenho um traje de vaqueiro -interveio Jenny.

 

-Não é de vaqueiro, é de vaqueira -corrigiu-a Alex-. Porque é uma menina.

 

-Não.

 

-Sim.

 

Jenny fez uma panela.

 

-Não.

 

-Bom, já vejo que por aqui tudo segue igual -disse Suzanna, aparecendo na porta naqueles instantes-. Olá, Nate, não esperava verte aqui.

-tive sorte -disse Nate, rodeando a Coco pelos ombros-. pude acontecer uma hora com minha mulher.

-Outra vez ligando com tia Coco? -disse Suzanna, mas se deu conta de que o olhar do Nate tinha trocado, e recordou que era quão mesma tinha a primeira vez que eles se viram. Um olhar incisivo, muito observadora. Tomou ao Megan do braço-. Megan Ou'Riley, Nathaniel Fury, o sócio do Holt... e a última conquista da tia Coco.

-Encantada -disse Megan.

Estava cansada, tinha que está-lo para que aquele olhar, firme e clara, comovesse-a tanto. Deixou de emprestar atenção ao Nate, talvez muito bruscamente para as regras de boa educação, e sorriu a Coco.

-Não trocaste nada.

-E isso que estou com o avental -disse Coco, abraçando-a com força-. vou preparar lhes algo, têm que estar cansados depois da viagem.

-um pouco.

 

-subimos a bagagem e deixada ao Christian no berço.

Enquanto Suzanna sentava aos meninos à mesa, sem deixar de conversar, Nathaniel se fixou no Megan Ou'Riley.

 

Agradável como a brisa do Atlântico, decidiu. Algo nervosa e esgotada, mas sem querer demonstrá-lo, pensou. A pele cor de pêssego e o cabelo comprido e loiro formavam uma atrativa combinação.

 

Nathaniel estava acostumado a preferir mulheres moréias e sedutoras, mas aquela mulher era algo especial. Tinha os olhos azuis, da cor do mar em calma ao entardecer, e a boca firme, embora se suavizava belamente quando sorria a seu filho.

 

Talvez excessivamente magra, pensou terminando o café. A comida de Coco a ajudaria nesse sentido. Ou, talvez, parecesse tão magra pela jaqueta e as calças de pinzas que levava.

 

Consciente de que Nathaniel a estava observando, Megan tratou de não perder o fio da conversação com Coco. Estava acostumada ao olhar dos homens quando era jovem e solteira, mas tinha acabado grávida pelo marido de outra mulher.

 

Sabia como reagiam muitos homens ao saber que era mãe e solteira, pensando que era uma mulher fácil, ligeira. Mas também sabia como lhes fazer trocar de opinião.

 

Sustentou o olhar do Nathaniel, com frieza, mas ele não apartou a sua, como faziam a maioria, mas sim continuou olhando-a sem piscar. Ela acabou por apertar os dentes.

 

«Bem,» pensou ele, «tem guelra.» Sorriu, levantou a taça de café em um brinde silencioso e olhou a Coco.

 

-Tenho que ir, tenho uma visita. Obrigado pela comida, Coco.

 

-Não se esqueça, o jantar é às oito. Com toda a família.

 

Nate olhou ao Megan.

 

-Não me perderei isso.

 

-Mais te vale -disse Coco, consultando o relógio e fechando os olhos-. Onde estará esse homem?

 

Outra vez chega tarde.

 

-O holandês?

 

-Quem se não? Mandei-lhe ao açougueiro faz duas horas.

 

Nathaniel se encolheu de ombros. Seu companheiro de navio e novo assistente de Las Torres se regia segundo seu próprio horário.

 

-Se o vir no mole, direi-lhe que venha.

-me dê um beijo de adeus -disse Jenny, encantada quando Nathaniel tomou em braços.

-É a vaqueira mais bonita da ilha -disse-lhe este ao ouvido.

Ao voltar para chão, Jenny olhou a seu irmão com um gesto de brincadeira.

-E você -disse Nathaniel ao Kevin-, vete pensando quando quer que te dê um passeio em barco -disse-. Encantado de conhecê-la, senhora Ou'Riley.

-Nate é marinheiro -disse Jenny, dando-se importância, uma vez que Nate tinha abandonado a habitação-. esteve em todo mundo e foi muitas coisas.

Megan não tinha a menor duvida.

 

Muitas coisas tinham trocado em Las Torres, embora as habitações da família, nas dois primeiras novelo, e Esta asa permaneciam igual. Trent St. James, junto com o irmão do Megan, Sloan, que era arquiteto, tinha concentrado seu tempo e seus esforços nas dez suítes da asa Oeste, o novo restaurante e a torre Oeste. Toda essa zona compreendia o hotel.

Depois de uma rápida visita, Megan se deu conta de que o esforço de remodelação e construção tinha merecido a pena.

O desenho do Sloan era acorde com a estrutura original, semelhante a uma fortaleza, conservando as estadias de altos tetos, escadas circulares e chaminés, que funcionavam perfeitamente. Além disso, tinha conservado os ventanales que davam acesso às terraços e balcões.

O vestíbulo era suntuoso, cheio de antiguidades e desenhado com multidão de acolhedores rincões que convidavam ao recolhimento dos hóspedes quando chovia ou fazia vento. A vista da baía e as colinas ou dos fabulosos jardins da Suzanna era espetacular.

Amanda, que, como diretora, acompanhou ao Megan na visita do hotel, disse-lhe que cada habitação era única, mobiliada com as antiguidades e obras de arte que ficaram depois de que a maioria se vendessem para financiar a reforma.

Algumas suítes tinham dois níveis conectados por uma escada art decó, outras tinham as paredes enteladas ou forradas de madeira. Também havia tapeçarias ou tapetes persas, e em todas as habitações flutuava a lenda das esmeraldas dos Calhoun e da mulher que as tinha levado.

As próprias jóias, descobertas depois de uma busca difícil e perigosa -alguns diziam que com a ajuda dos espíritos da Bianca Calhoun e Christian Bradford, o artista que a amou-, estavam expostas em uma urna de cristal no vestíbulo. Sobre a mesma, havia um retrato da Bianca, pintado pelo Bradford oitenta anos atrás.

-São preciosas -sussurrou Megan-. Assombrosas.

As esmeraldas, engastadas com diamantes, despediam um fulgor verde tão intenso que quase parecia que tivessem vida.

-Algumas vezes me paro e fico as olhando -admitiu Amanda-, e recordo o que custou as encontrar. Como tratou Bianca das utilizar para fugir com o Christian. Suponho que teria que me pôr triste, mas ao as ter aqui, sob seu retrato, parece-me que se cumpriu uma espécie de justiça.

-Assim é -disse Megan, apreciando o brilho das jóias, inclusive através do cristal da urna-. as ter aqui, não é um pouco arriscado?

-Holt se ocupa da segurança. Com um ex-polícia na família dá a impressão de que se cuidaram todos os detalhes. O cristal é a prova de balas -disse Amanda, dando uns golpecitos sobre a urna. E está conectado com um alarme -disse, e consultou o relógio, comprovando que tinha uns quinze minutos antes de voltar para seus deveres de direção-. Espero que você goste das habitações onde lhes pusemos. Ainda não acabamos que reformar a zona familiar.

-Estão muito bem -disse Megan. O certo era que a relaxava ver alguma greta no gesso, o lugar era assim menos intimidatorio-. Para o Kevin é um paraíso. Está fora jogando com o cachorrinho, com o Alex e Jenny.

-Sim, a verdade é que é para estar orgulhoso do Sadie, a cadela do Holt. Oito cachorrinhos!

-Como há dito Alex, todo mundo tem filhos nesta casa. A propósito, sua filha Delia é preciosa.

 

-Sim, verdade? -disse Amanda com orgulho maternal-. Não posso acreditar que tenha crescido tanto. Teria que ter estado aqui faz seis meses. Estávamos todas assim -disse fazendo um gesto para indicar a barriga torcida do embaraço-. Os homens não deixavam de pavonear-se. Fizeram apostas para ver quem dava a luz antes, se Lilah ou eu. Ganhou por dois dias -disse Amanda, que tinha apostado vinte dólares a que ela mesma dava a luz antes-. É a primeira vez que a vejo dar-se pressa para fazer algo.

 

-Bianca também está preciosa. Quando entrei em sua habitação estava chorando, reclamando atenção. A babá não sabia o que fazer.

 

-A senhora Billows pode contudo.

 

-Não estava pensando nos meninos, a não ser no Max -disse Megan sonriendo ao recordar ao pai da Bianca, que chegou correndo, abandonando sua nova novela na máquina de escrever para atender a sua filha, que não parava de chorar.

 

-É tão tenro.

 

-Quem é tenro? -disse Sloan, entrando na sala e dando um abraço a sua irmã.

 

-Você, não, Ou'Riley -murmurou Amanda, observando a cálida expressão do Sloan ao apertar a bochecha contra a do Megan.

 

-Está aqui! -exclamou Sloan, tomando-a em braços e levantando-a no ar-. Me alegro muito, Meg.

 

-Eu também -disse Megan, olhando-o com ternura-. Tudo bem, papaíto?

 

Sloan se pôs-se a rir e a deixou no chão.

 

-Já a viu? -perguntou.

 

Megan fingiu ignorância.

 

-A quem?

 

-A minha filha, a Delia.

 

-Ah, a Delia -disse Megan, encolhendo-se de ombros, sonriendo, logo beijou ao Sloan na boca-. Não só a vi, tive-a em braços, cheirei-a e decidi que vou mimá-la quanto possa. É preciosa, Sloan. Igual a Amanda.

 

-Sim, igual -disse Sloan, beijando a sua esposa-. Solo que herdou meu queixo.

 

-É o queixo dos Calhoun -disse Amanda.

 

-Não, é o queixo dos Ou'Riley. E falando dos Ou'Riley -prosseguiu Sloan-, onde está Kevin?

 

-Fora. Deveria ir buscá-lo, ainda não temos desfeito a bagagem.

 

-Vamos contigo -disse Sloan.

 

-Vê você, eu tenho que voltar para trabalho -disse Amanda, e como se alguém tivesse ouvido suas palavras, ouviu que soava o telefone de seu escritório-. Acabou-se o descanso. Vemo-nos no jantar, Megan disse, e beijou ao Sloan-. Você e eu nos vemos antes, Ou'Riley.

 

-Hum... -disse Sloan com um suspiro de satisfação e observou afastar-se a sua mulher-. eu adoro como caminha.

 

-A miras igual a faz um ano, nas bodas -disse Megan e tomou sua mão à medida que abandonavam o vestíbulo e se dirigiam a terraço-. É bonito

 

-Ela é... -disse Sloan, e procurou a palavra apropriada- ...é-o tudo. Eu gostaria que fosse tão feliz como eu, Megan.

 

-Sou feliz -disse Megan e a brisa balançou seus cabelos. Até eles chegou o som da risada dos meninos-. Ouvir os meninos me faz feliz. E estar aqui O.

 

Descenderam a uma terraço de um nível mais baixo e se dirigiram ao oeste.

 

-Tenho que admitir que estou um pouco nervosa. É um grande passo -disse, e viu seu filho jogar no alto de um forte, levantando os braços em sinal de vitória-. Mas é bom para o Kevin.

 

-E para ti?

 

-E para mim -disse Megan, apoiando-se em seu irmão-. vou sentir falta da mamãe e papai, mas dizem que com os dois aqui, têm o dobro de razões para nos visitar -disse apartando a franja da cara.

 

Kevin lutava, do interior do forte, por rechaçar o ataque do Alex e Jenny.

 

-Precisava conhecer resto da família, e eu... necessitava uma mudança -disse Megan, e olhou a seu irmão-. falei com a Amanda.

 

-E te há dito que até dentro de uma semana não pode começar a trabalhar.

 

-Algo assim.

 

-Na última reunião familiar decidimos que terei que te deixar uma semana para que te acomode antes de que comece.

 

-Não me faz falta uma semana. Sozinho...

 

-Sei, sei, mas as ordens são que tome uma semana livre.

 

-E quem dá as ordens aqui?

 

-Todo mundo -disse Sloan, sonriendo-. Assim é mais interessante.

 

Megan olhou por volta do mar com gesto pensativo. O céu estava claro como um cristal e a brisa era cálida. O verão estava perto. De ali, via-se o arquipélago de pequenas ilhas com nitidez.

 

Um mundo distinto, pensou, aos prados e as planícies de casa. Uma vida distinta, possivelmente, para ela e para seu filho.

 

Uma semana. Para relaxar-se, explorar, para ir de excursão com o Kevin. Sim, era tentador. Mas pouco responsável.

 

-Quero assumir minha responsabilidade quanto antes.

 

-Já o fará, me acredite -disse Sloan, e olhou por volta do mar para ouvir a sereia de uma embarcação-. Holt e Nate -disse Sloan, assinalando o navio de passageiros que sulcava a água frente a eles-. O Mariner. Leva aos turistas a ver baleias.

 

Naqueles momentos, os três meninos estavam no interior do forte. Quando a sereia soou pela segunda vez, proferiram uma exclamação de alegria.

 

-No jantar conhecerá o Nate -disse Sloan.

 

-Já o conheço.

 

-Enquanto comia com Coco?

 

-Sim.

 

-Encarna-lhe comer, é um comedor -disse Sloan com um sorriso-. O que te parece? Você gosta?

 

-Não muito -resmungou Megan-. Parece-me um pouco rude.

 

-Já acostumará a ele. É um mais da família.

 

Megan murmurou algo. Talvez fora certo, mas não formava parte da sua.

 

 

Por isso a Coco concernia, Niels Vão Home era um homem muito desagradável. Não aceitava críticas construtivas, nem a mais sutil das sugestões para melhorar. Ela tratava de ser cortês, posto que aquele homem era membro do pessoal de Las Torres e velho amigo do Nathaniel.

 

Mas era igual a uma China no sapato.

 

Em primeiro lugar, era muito corpulento. A cozinha do hotel estava primorosamente desenhada e bem organizada. Sloan e ela tinham trabalhado juntos no desenho, de modo que o produto final cumprisse com seus desejos. Adorava a grande cozinha, os fornos, as prateleiras de aço inoxidável e a lava-louça completamente silenciosa. adorava o aroma dos pratos cozinhados, o zumbido dos ventiladores, o brilho do chão de ladrilhos.

 

E ali estava Vão Home, ou O Holandês, como estavam acostumados a chamá-lo, igual a um elefante em uma cacharrería, com uns ombros tão largos como um carro e os braços cheios de tatuagens. negava-se a vestir o avental branco e preferia levar uma camisa arregaçada e uns jeans imundos, sujeitos à cintura com uma corda.

 

Levava o cabelo comprido, pacote em um acréscimo. Seu rosto era redondo e maior, normalmente carrancudo, por isso seus olhos verdes estavam rodeados de rugas. O nariz, que se tinha quebrado em várias disputas, pelo que parecia muito orgulhoso, tinha-a esmagada e torcida, e a pele escura e tão curtida como uma velha cadeira de montar.

 

Quanto a sua linguagem... Coco não se considerava uma dissimulada, mas, depois de tudo, era uma dama.

 

Apesar de tudo, aquele homem sabia cozinhar.

 

Enquanto O Holandês preparava os fornos, ela fiscalizava os menus. A especialidade daquela noite era o guisado de pescado ao estilo de Nova a Inglaterra e truta cheia à francesa. Tudo parecia em ordem.

 

-Senhor Vão Home -começou a dizer, com firmeza-. Deixo-o a cargo de tudo. Não acredito que tenhamos nenhum problema, mas se surgir algum, estou no comilão familiar.

 

O Holandês notou um mais dos duros olhares daquela mulher sobre suas costas. Estava muito elegante, disse-se, igual a se fosse à ópera. pôs-se um vestido de seda vermelho e um colar de pérolas.

 

-cozinhei para trezentos homens -disse-. Me posso arrumar isso com uns quantos turistas.

 

-Nossas hóspedes -disse Coco, apertando os dentes- talvez sejam mais exigentes que uma panda de marinheiros apanhados em um bote oxidado.

 

Um dos garçons entrou na cozinha naqueles instantes, levando uns pratos. O holandês se fixou em um deles, ao meio terminar. Torceu o gesto. Em seu navio, ninguém deixava os pratos pela metade.

 

-Não têm muita fome, né?

 

-Senhor Vão Home -disse Coco, soprando-. Tem que ficar na cozinha permanentemente. Não vou permitir que saia ao restaurante e volte a repreender a algum hóspede sobre seus hábitos de comida -disse, e se dirigiu a outro cozinheiro-. Ponha mais alinho nessa salada, por favor -concluiu, e partiu.

 

-Às vezes me dá vontade de me largar -resmungou O Holandês, e pensou que, de não ser pelo Nathaniel, não aceitaria ordens de uma mulher.

 

 

Nathaniel não compartilhava o desprezo de seu amigo pelas mulheres, ao contrário, as mulheres adorava, todas as mulheres. Gostava de seus olhares, seu aroma, sua voz, e estava muito satisfeito de sentar-se no comilão com seis das mulheres mais belas que tinha conhecido ao longo de sua vida.

 

As Calhoun eram fonte de constante deleite para ele. Suzanna, com seus tenros olhos; Lilah, com sua preguiçosa sexualidade; Amanda, prática e firme; C. C., com seu sorriso malicioso, por não mencionar a feminina elegância de Coco.

 

Elas constituíam o pequeno pedaço de céu ao que Nathaniel tinha acesso em Las Torres.

Quanto à sexta... Bebeu outro gole de uísque com água e observou ao Megan Ou'Riley. Dava-lhe a impressão de que devia ser uma mulher cheia de surpresas. Seus olhos não eram inferiores aos de nenhuma das Calhoun. Sua voz, com o lento deixe do Oklahoma, era atrativa. O único que lhe faltava era a singela calidez que emanava das outras.

Ainda não sabia se era o resultado de uma frieza inata ou simples acanhamento. Fora o que fosse, tinha causas profundas. Era difícil permanecer frio ou tímido em uma habitação cheia de gente risonha, bebem alegres e meninos revoltosos.

 

O, por sua parte, naqueles momentos tinha entre seus braços a uma de suas mulheres favoritas. Jenny saltava sobre seu regaço e lhe bombardeava com perguntas.

 

-vais casar te com tia Coco?

 

-Ela não quer.

 

-Pois eu sim -disse Jenny. Era uma aprendiz de rompe corações com um dente quebrado-. Podemos nos casar no jardim, como fizeram papai e mamãe. Logo pode dever viver conosco.

 

-É a melhor oferta que me têm feito em muito tempo -disse Nate, acariciando a bochecha da menina.

 

-Mas tem que esperar a que seja maior.

 

-Sabia decisão. Aos homens sempre terá que fazê-los esperar -interveio Lilah, que estava sentada no sofá, apoiada no braço de seu marido e sustentando a seu bebê-. Não te precipite, Jenny. O melhor é ir pouco a pouco.

 

-lhe faça caso -disse Amanda-. Lilah sempre foi pouco a pouco e lhe foi bem.

 

-Ainda não estou preparado para ceder a minha garota -disse Holt tomando ao Jenny-. E menos a um marinheiro de água doce.

 

-Perdoa, Bradford, mas posso pilotar melhor que você com os olhos fechados.

 

-Não -interveio Alex, para defender a honra da família-. Papai é melhor marinheiro que ninguém. Embora lhe disparassem -disse e abraçou a perna de seu pai-. Uma vez lhe deram um tiro. Uma bala lhe fez um buraco.

 

Holt sorriu olhando a seu amigo.

 

-Já vê, a ver quando tem seu clube de fãs -disse.

 

-lhe dispararam alguma vez? -perguntou- Alex ao Nate.

 

-Não posso dizer que sim -disse Nathaniel movendo o copo de uísque entre as mãos-. Mas havia um grego no Corfú que queria me fatiar a garganta.

 

Alex pôs os olhos como pratos. Kevin se incorporou no tapete.

 

-De verdade?

 

Alex procurou sinais de alguma ferida no pescoço do Nate. Sabia que Nathaniel tinha um dragão tatuado em um ombro, mas uma cicatriz era algo de muita mais categoria.

 

-Matou-o com uma adaga?

 

-Não -disse Nathaniel, e se fixou no olhar da Suspicacia e desaprovação do Megan-. Falhou e me deu no ombro, e O Holandês o tombou lhe dando um golpe com uma garrafa.

 

cada vez mais impressionado, Kevin se aproximou do Nate.

 

-Tem alguma cicatriz?

 

-Sim -disse Nate.

 

Amanda lhe impediu de tirá-la camisa de um tapa.

 

-Quieto! Ou todos os homens desta habitação vão começar a tirá-la camisa para mostrar suas feridas de guerra. Sloan está muito orgulhoso da que se fez com arame de espinheiro.

 

-É preciosa -assentiu Sloan-. Mas a do Meg é ainda melhor.

 

-te cale, Sloan.

 

-Né, um homem tem que presumir de sua irmã -disse Sloan rendo e lhe pôs um braço sobre os ombros-. Tinha doze anos, e era muito revoltosa. Tínhamos um semental com tão mau caráter como ela. Um dia Meg quis montá-lo, mas não andou mais de quinhentos metros antes de que o cavalo a desmontasse.

 

-Não me desmontou -disse Megan-. Soltaram-se as bridas.

 

-Isso diz ela -disse Sloan, sonriendo-. O fato é que o cavalo a atirou em uma alambrada de espinheiro. Caiu de culo, acredito que esteve dois meses sem sentar-se.

 

-Duas semanas -disse Megan.

 

-E miúda cicatriz se fez -disse Sloan, lhe dando uns tapinhas na perna.

 

-Não me importaria vê-la -murmurou Nathaniel. Suzanna o olhou com assombro.

 

-Acredito que vou levar ao Christian a dormir antes de jantar.

 

-Boa idéia -disse C. C., e tomou ao Ethan, que começava a remover-se, de braços do Trent-. Alguém tem fome?

 

-Por exemplo, eu -disse Lilah.

 

Megan observou como as mães se levavam a seus filhos ao piso de acima e sentiu certa inveja, o que a surpreendeu. Tinha graça, nem sequer tinha pensado em ter filhos até chegar ali e ver-se rodeada deles.

 

-Sinto chegar tarde -disse Coco, entrando naqueles momentos-. tivemos alguns problemas na cozinha.

 

Nathaniel se deu conta de seu olhar de frustração e conteve um sorriso.

 

-Tem problemas com O Holandês, carinho?

 

-Bom... -disse Coco. Não gostava de queixar-se-. Simplesmente, temos um ponto de vista distinto sobre algumas costure. OH, obrigado, Trent -disse aceitando o copo que lhe oferecia-. Mas, onde tenho a cabeça? esqueci os canapés.

 

-Vou por eles -disse Max, levantando do sofá e dirigindo-se à cozinha.

 

-Obrigado, querida. Agora... -disse tomando a mão do Megan e apertando-a afetuosamente-. Não tivemos tempo de falar. O que te parece o hotel?

 

-É maravilhoso, tal como dizia Sloan. Amanda me há dito que as dez suítes estão ocupadas.

 

-A temporada começou bem -disse Coco-. Faz apenas um ano estava se desesperada, com medo a que minhas meninas perdessem sua casa, embora as cartas me diziam que não havia nada que temer. Hei-te dito alguma vez que vi o Trent no tarot?

 

Tenho que lhe jogar isso a ti, e ver o que te proporciona o futuro.

 

-Bom...

 

-Ou quer que te leia a mão?

 

Megan suspirou com alívio quando Max chegou com uma bandeja para distrair a Coco.

 

-Não te interessa o futuro? -murmurou Nathaniel.

 

Megan levantou a vista, surpreendida ao vê-lo seu lado, sem que ela se deu conta de que se aproximou dela.

 

-Estou mais interessada no presente. Terá que ir pouco a pouco.

 

Nathaniel tomou sua mão, e lhe deu a volta, embora se dava conta de que estava tensa.

 

-Uma vez conheci uma anciã, nas costas da Irlanda. chamava-se Molly Duggin. Disse-me que tinha um dom para estas coisas -disse olhando-a aos olhos antes de lhe abrir a mão para observar a palma. Ao Megan deu um calafrio-. É teimosa, auto-suficiente, elegante.

 

Acariciou-lhe a palma com um dedo.

 

-Não acredito nessas coisas.

 

-Não tem por que. Também é tímida -disse Nate-. As paixões estão aí, mas reprimidas -disse e passou o polegar pelo monte de Vênus da palma da mão do Megan-, ou canalizadas. Você preferiria dizer que estão canalizadas, orientadas, que é uma mulher prática. Preferiria tomar as decisões com a cabeça, sem importar o que te diga seu coração -disse, e a olhou aos olhos-. Acerto?

 

Sim, acertava, disse-se Megan, e apartou a mão.

 

-Um jogo interessante, senhor Fury.

 

Nate a olhou com um sorriso, colocando as mãos nos bolsos.

 

-Verdade?

 

 

Às doze do dia seguinte, Megan tinha terminado com tudo o que tinha que fazer. Não pôde rechaçar o rogo do Kevin de passar o dia com os Bradford, embora sua partida a tinha deixado livre para fazer o que quisesse.

 

Mas não estava acostumada a ter tempo livre.

 

Uma expedição ao vestíbulo tinha abortado sua idéia de convencer a Amanda de que lhe deixasse estudar os livros de contabilidade. Amanda, como lhe disse a amável recepcionista, estava em algum lugar do hotel, solucionando um pequeno problema.

 

Coco tampouco era uma opção. Megan estava a ponto de entrar na cozinha quando ouviu ruído de cacharros e vozes iradas no interior da mesma.

 

Como Lilah tinha voltado para seu trabalho de naturalista no parque, e C. C. estava em sua loja de motores, na cidade, Megan estava completamente sozinha.

 

Em uma casa tão enorme como As Torres, sentia-se igual a se estivesse em uma ilha deserta.

 

Podia ler, disse-se, ou sentar-se a tomar o sol em uma das terraços a contemplar a vista. Podia baixar à primeiro andar das habitações da família e comprovar o progresso da remodelação. E incomodar ao Sloan e ao Trent, disse-se com um suspiro, enquanto fiscalizavam as obras.

 

Não podia incomodar ao Max, que estava escrevendo em seu estudo, trabalhando em seu livro. Tinha passado uma hora jogando com os meninos e tinha o bastante.

 

passeou-se por sua habitação, alisando a colcha da cama, de uma maravilhosa cama com dossel. O resto de sua bagagem tinha chegado aquela manhã e, tal como era, talvez muito eficiente, já o tinha desfeito. Tinha a roupa ordenada no armário de nogueira e na cômoda Chippendale.

 

Tinha posto as fotos de sua família sobre a mesa maca que havia junto à janela, ordenado os sapatos, os livros e guardado as jóias.

 

E se não encontrava algo que fazer, voltaria-se louca.

 

Com isso em mente, tomou a pastas e comprovou o conteúdo uma última vez antes de sair, ao carro que Sloan tinha posto ao seu dispor.

 

O automóvel ia muito bem, graças às habilidades mecânicas do C. C., e Megan se dirigiu ao povoado.

 

Desfrutava das águas azuis da baía e dos simpáticos grupos de turistas que passeavam pelas ruas, mas os brilhantes rótulos que via nas lojas não a convidavam a baixar para ir às compras.

 

Ela ia às compras solo por necessidade, não por prazer.

 

Uma vez, fazia muito tempo, tinha desfrutado de do prazer de olhar cristaleiras, da alegre satisfação de comprar por diversão. Desfrutava dos largos dias do verão, sem outra coisa que fazer que olhar acontecer as nuvens ou escutar ao vento.

 

Mas aquilo foi perder a inocência, para encontrar responsabilidades.

 

Viu um letreiro que indicava o mole de onde partiam as excursões em navio.

 

Havia um par de pequenas embarcações amarradas, mas não havia rastro do Mariner nem de seu navio gêmeo, o Island Queen.

 

Fez um gesto de contrariedade. Esperava encontrar ao Holt antes de que saísse ao mar. depois de tudo, também teria que levar a contabilidade daquele negócio.

 

Estacionou detrás de um esportivo conversível, com formosa linha e uma brilhante cor negra, que contrastava com a tapeçaria branca.

 

deteve-se um momento e se protegeu os olhos do reflexo da água com uma mão. Um veleiro saía à baía, cheia de embarcações com as velas desdobradas. Os moles estavam cheios de gente.

 

A beleza do lugar era inegável, além de que era muito distinto ao lugar no que tinha vivido até então. A brisa era fresca, transportando o aroma do mar e aromas de comida dos restaurantes próximos.

 

Ali poderia ser feliz, disse-se. Não só poderia, mas sim estava disposta a sê-lo.

 

Girou sobre seus talões e se encaminhou ao estabelecimento.

 

-Passe, está aberto -disseram-lhe depois de que batesse na porta.

 

Era Nathaniel. Tinha os pés apoiados em uma mesa de metal antiquada e falava por telefone. Levava uns jeans com um quebrado no joelho e manchados de algo que parecia azeite e tinha o cabelo revolto.

 

Levantou a mão e, com um gesto, indicou ao Megan que se aproximasse.

 

-O melhor é madeira de teca -dizia-. Tenho muita, posso terminar a coberta em dois dias. Não, o motor solo necessitava uma limpeza, ainda fica muita vida -disse, enquanto fumava um charuto puro-. Chamarei-te assim que esteja terminado.

 

Pendurou, apertando o charuto entre os dentes. Tinha graça, disse-se. Aquela manhã tinha pensado no Megan Ou'Riley e, em seus pensamentos, tinha o mesmo aspecto. Imaculada, fria e tranqüila.

 

-De visita pelo povoado?

 

-Estava procurando o Holt.

 

-saiu no Queen -disse Nathaniel, consultando o relógio-. Demorará hora e meia em voltar -disse, e sorriu-. Parece-me que estamos apanhados.

 

Megan combateu o impulso de dar meia volta e sair dali.

 

-Eu gostaria de ver os livros.

 

Nathaniel deu uma imersão ao charuto.

 

-Acreditava que estava de férias.

 

Megan recorreu a sua melhor defesa, o desdém.

 

-Há algum problema?

 

-Não me olhe -disse Nate, e abriu uma gaveta da mesa para tirar um livro negro-. Você é a perita. Sente-se, Meg.

 

-Obrigado -disse Megan, e se sentou em uma cadeira dobradiça em frente do Nate.

 

Tirou uns pequenos óculos da carteira e, depois de ficar as abriu o livro de contabilidade. Seu coração de contável deu um tombo de horror ao ver aquela massa relatório de cifras, com notas à margem e papéis adesivos.

 

-Aqui levam a contabilidade?

 

-Sim.

 

O aspecto do Megan, com os óculos e o coque, era encantador. Ao Nate se o fazia a boca água.

 

-Holt e eu nos alternamos para levá-la... Embora quando Suzanna o viu nos disse que fomos idiotas disse com um sorriso-. Em realidade, fizemo-lo para descarregar a de trabalho quando estava grávida.

 

-Mmm -resmungou Megan, folheando as páginas. Para ela, aquele estado de coisas não supunha ansiedade, a não ser um desafio-. E os arquivos?

 

-Ali -disse Nate, assinalando com o dedo um armário de metal que estava em um rincão. Em cima dele tinha uma maquete de um navio, cheia de graxa.

 

-Têm algo?

 

-A última vez que os olhei, sim.

 

Nate não podia evitá-lo, quanto mais eficiente era o comportamento do Megan lhe davam mais ganha de equilibrar-se sobre ela.

 

-Faturas?

 

-Claro.

 

-Recibos de gastos?

 

-É obvio -disse Nate, e de uma das gavetas da mesa tirou uma caixa de charutos-. Temos muitos recibos.

 

Megan abriu a caixa de charutos e suspirou.

 

-Assim levam seu negócio?

 

-Não, o negócio consiste em levar às pessoas de excursão ou em reparar seus navios, inclusive em construi-los -disse Nate, e se inclinou sobre a mesa, principalmente para apreciar melhor o suave e evanescente aroma do Megan-. Nunca gostei da papelada e Holt já teve que fazer bastante quando estava no exército - disse Nate, e sorriu. Nunca teria pensado que levasse óculos para ler, coque e blusas completamente fechadas, de modo que um homem podia entreter-se nas desabotoar-. Talvez por isso o contável que contratamos este ano acabou com um tic -disse destacando o olho direito-. ouvi que se foi a Jamaica a vender chapéus de palha.

 

Megan não pôde conter a risada.

 

-Eu sou feita de uma massa mais sólida, prometo-lhe isso.

 

-Nunca o duvidei -disse Nate, e se tornou para trás. A cadeira chiou-. Tem um sorriso muito bonito, Megan. Quando a usa.

 

Megan conhecia bem aquele tom, de ligeiro flerte, inconfundivelmente masculino. Suas defesas se elevaram como uma mola.

 

-Não me pagam para que sorria.

 

-Preferiria que fora grátis. Como chegaste a te fazer contável?

 

-Me dão bem os números -disse Megan, deixando o livro sobre a mesa e tirando uma calculadora da carteira.

 

-Não me parece razão suficiente.

 

-Também é uma profissão sólida, segura - disse concentrando-se nas cifras que marcava na calculadora.

 

-Porque os números só se somam de uma forma?

 

Ao Megan foi impossível ignorar o ligeiro tom zombador. Olhou-o, ajustando-as óculos.

 

-A contabilidade pode ser um trabalho no que intervém a lógica, senhor Fury, mas a lógica não elimina as surpresas.

 

-Já. Olhe, pode que os dois tenhamos entrado pela porta de serviço na família Calhoun, mas o fato é que aí estamos. Não te parece uma tolice que esteja tão distante comigo? Ou é que te comporta assim com todos os homens?

 

Ao Megan, a paciência, que estava convencida de ter em grandes quantidades, começava a acabar-se o

 

-Estou aqui para levar a contabilidade.

 

-Alguma vez te faz amigo da gente que te emprega? -disse Nate, apagando o charuto no cinzeiro-. Sabe? Me passa algo muito gracioso.

 

-Estou segura de que me vais dizer o que é.

 

-Exato. Posso conversar com uma mulher sem que me dê vontade de jogá-la ao chão e despi-la. É preciosa, Megan, e dá gosto te olhar, mas posso controlar meus instintos mais primitivos, sobre tudo, quando tudo os sinais dizem que me pare.

 

Megan se sentiu ridícula. Tinha sido grosseira, ou quase, do momento de conhecê-lo. Porque, tinha que admiti-lo, o modo de reagir a sua presença a fazia sentir-se incômoda. Mas, maldita seja, ele seguia olhando-a como se quisesse mordê-la.

 

-Sinto muito - disse. A desculpa era sincera-. Estou fazendo muitas mudanças em minha vida, assim não estive muito relaxada. E me olha de uma forma que me põe nervosa.

 

-Bom, me alegro de que seja sincera. Mas tenho que te dizer que tenho direito a olhar. Algo mais que isso, requer um convite, de um tipo ou de outro.

 

-Pois, se quiser, podemos começar desde o começo, embora não posso te dizer se estiver dispostas abrir minha porta -disse Megan com um sorriso-. E agora, Nathaniel, pode me dar os informe da declaração da renda?

 

-Sim, espera um momento -disse Nate, deslizando-se para trás sobre a cadeira. Megan ouviu um chiado e se sobressaltou, atirando os papéis ao chão-. Maldita seja, tinha-me esquecido de que estava aqui -disse Nate, agarrando um cachorrinho de cão negro-. Dorme muito, assim sempre termino por pisá-lo ou atropelá-lo com a cadeira -disse ao Megan, enquanto o animal lhe lambia a cara freneticamente-. Sempre que intento deixá-lo em casa, ladra até que acabo por ceder e o trago comigo.

 

-É muito bonito -disse Megan, acariciando ao cachorrinho-. Parece-se muito ao de Coco.

 

-É da mesma isca de peixe -disse Nate, e tendeu o animal ao Megan.

 

-OH, que bonito é. É precioso.

 

À medida que acariciava ao cão, suas defesas foram cedendo. Perdeu sua atitude fria e profissional e se converteu em uma mulher cheia de calidez feminina. Aquelas formosas mãos acariciando ao cachorrinho, seu tenro sorriso, o brilho dos olhos.

 

-Como se chama?

 

-Cão -disse Nate.

 

Megan o olhou aos olhos.

 

-Cão? Sem mais?

 

-lhe gosta. Né, Cão -para ouvir a voz de seu amo, Cão voltou a cabeça e ladrou-. Vê-o?

 

-Sim -disse Megan, e riu-. Não demonstra muita imaginação.

 

-Ao contrário. Quantos cães conhece que se chamem Cão?

 

-De acordo, de acordo.

 

Nate lhe atirou uma bola.

 

-Com isso se entretém -disse Nate e se levantou para ajudar ao Megan a recolher os papéis.

 

-Não tem pinta de que você goste dos cães -disse Megan.

 

-Pois eu adoro -disse voltando a colocar as faturas na caixa de charutos-. O fato é que estava acostumado a jogar com um dos avós de Cão em casa dos Bradford. Mas é difícil ter a um cão em um navio. Embora levava um pássaro.

 

-Um pássaro?

 

-Um louro que encontrei no Caribe faz cinco anos. Essa é outra razão pela que me trago para Cão aqui. Pássaro poderia comer-lhe.

 

-Pássaro? -disse Megan, mas a gargalhada se afogou em sua garganta ao levantar a vista. por que Nate estava sempre mais perto do que pensava? por que seus olhares eram para ela como carícias?

 

Nate se fixou na boca do Megan. O sorriso vacilante seguia ali. Havia algo muito atraente naquele ligeiro acanhamento, oculta em um pacote de autoconfiança. Seu olhar não era frio, mas sim cautelosa. Não era um convite, mas lhe parecia muito e, em qualquer caso, era muito tentadora.

 

Nate decidiu provar sorte e apartou uma mecha de cabelo da frente do Megan, que se levantou como impulsionada por uma mola.

 

-Sobressalta-te com facilidade, Megan -disse Nate, fechando a caixa de charutos e levantando-se-. Mas não posso dizer que eu não goste de ver que fico nervosa.

 

-É que não me põe nervosa -disse Megan, mas sem olhá-lo aos olhos. Nunca tinha sabido mentir-. vou levar me tudo isto, se não te importar. Quando me organizar, chamarei-te, ou ao Holt.

 

-Muito bem -disse Nate. Soou o telefone, mas não lhe emprestou atenção-. Já sabe onde nos encontrar.

 

-Quando puser tudo isto em ordem temos que falar de como terá que fazer as notas.

 

Sonriendo, Nate se sentou sobre a mesa.

 

-Você manda, neném.

 

Megan fechou a carteira.

 

-Não, manda você. E não me chame «neném» -disse, e partiu.

 

Atravessou o povo para dirigir-se às Torres. Ao chegar ao pé da rampa cheia de curvas que conduzia às Torres, separou-se da estrada-e se deteve.

 

Necessitava um momento de tranqüilidade antes de ver ninguém. Fechou os olhos e recostou a cabeça no reposacabezas. O interior de seu estômago se agitava, cheio de mariposas, com uma sensação que não podia sossegar tão solo com força de vontade.

 

Aquela debilidade a punha furiosa. Nathaniel Fury a punha furiosa. depois de tanto tempo, de tanto esforço, tão solo tinham bastado umas olhe-, dá para lhe recordar, com muita força, que não era mais que uma mulher.

 

Pior, muito pior. Estava segura de que Nate sabia o que estava fazendo e o muito que a afetava.

 

Já tinha sido vulnerável a um rosto atrativo e a palavras de flerte antes. A diferença dos que a queriam, negava-se a culpar a sua juventude e inexperiência de suas ações irrefletidas. Uma vez, tinha escutado a seu coração e tinha acreditado no amor eterno. Mas já não podia acreditar em nada. Deu-se conta de que não havia príncipes nem cabaças, nem castelos no ar. Solo ficava a realidade, uma realidade que uma mulher tinha que construir por si mesmo, e em que tinha que incluir a seu filho.

 

Não queria que lhe palpitasse o coração, nem queria ficar tensa. Não queria aquela cálida sensação no estômago, aquele oco que clamava por ser cheio. Não naqueles momentos. Nunca mais.

 

Tudo o que queria era ser uma boa mãe para o Kevin, lhe dar um lar, lhe dar felicidade. Queria lavrar um caminho na vida, ser forte, inteligente, auto-suficiente.

 

Deixou escapar um suspiro e sorriu. Também queria ser invulnerável.

 

Provavelmente não o conseguisse, mas ao menos seria sensata. Não voltaria a permitir que um homem tivesse o poder de alterar sua vida, e muito menos quando o único poder que parecia ter sobre ela era lhe pôr a pele de galinha.

 

Mais tranqüila e com maior confiança, arrancou. Tinha trabalho que fazer.

 

 

Tenha coração, Mandy - disse Megan, que se tinha topado com sua cunhada assim que voltou para As Torres-. Solo quero ver meu escritório para ir acostumando.

 

Amanda levantou a cabeça com desdém. Estava sentada em sua mesa, examinando uns papéis.

 

-É horrível quando todo mundo está ocupado e você não, verdade?

 

Megan deixou escapar um suspiro de esperança.

 

-Horrível.

 

-Sloan quer que tome um descanso - disse Amanda, e riu ao ver que Megan fechava os olhos com impaciência-. Mas, ele o que sabe?

 

Levantou-se e rodeou a mesa.

 

-Vêem, seu escritório está aqui ao lado -disse, e a acompanhou até outra porta de madeira lavrada-. Acredito que tem tudo o que necessita. Mas se nos esquecemos que algo, diga-me isso

 

Algumas mulheres sentem certa excitação ao entrar em umas lojas de departamentos. Outras para ouvir desarrolhar uma garrafa de champanha à luz de uma vela. Ao Megan, era a visão de um despacho bem ordenado e equipado o que lhe causava aquele tremor de excitação.

 

E ali tinha tudo o que podia desejar.

 

A mesa era esplêndida, de nogueira, encerada, com uma poltrona de couro claro. Sobre uma mesa auxiliar, tinha um telefone multilínea e um ordenador.

 

Lhe deu vontade de dar saltos de alegria.

 

Os móveis arquivos eram de madeira e ainda cheiravam a azeite de limão. Os atiradores, de cobre, brilhavam com a luz do sol que entrava através das grandes janelas. O tapete persa tinha uma cor rosada que fazia jogo com a tapeçaria das cadeiras. Havia estanterías cheias de arquivos e uma mesa auxiliar de madeira com uma cafeteira, fax e fotocopiadora.

 

O encanto do velho mundo e a moderna tecnologia reunidas para proporcionar a maior eficácia.

 

-Mandy, é perfeito.

 

-Sabia que te ia gostar - disse Amanda-. Não posso dizer que sinta me liberar da contabilidade. Há trabalho para ocupar toda a jornada. Tudo está agrupado por seções: ganhos, faturas de gastos, pagamentos a crédito, empréstimos, etcétera -disse, e abriu uma gaveta arquivo para demonstrar-lhe.

Megan, que era muito ordenada, sentiu uma grande satisfação ao ver as pastas organizadas por cores e ordem alfabética.

 

-Maravilhoso. E nada de caixas de charutos.

 

Amanda a olhou com vacilação, logo caiu na conta e riu.

 

-Já vejo que viu o sistema de arquivos do Holt.

 

Megan, que se sentia muito cômoda com a Amanda, deu uns golpecitos em sua carteira.

 

-Aqui está seu sistema de arquivos - disse, e, incapaz de resisti-lo por mais tempo, sentou-se em sua cadeira. Mas isto está muito melhor. Não sei como te dar as obrigado por deixar que me uma à equipe.

 

-Não seja tola, é da família. Além disso, pode que dentro de duas semanas, quando souber o caos que há aqui, não goste tanto me dar as obrigado. Não posso te dizer quantas interrupções... Disse Amanda, e se interrompeu para ouvir que a chamavam-. Vê-o?

 

Foi abrir a porta.

 

-Estou aqui, Ou'Riley.

 

Trent e Sloan irromperam na habitação talheres de pó.

 

-Acreditava que estavam atirando um tabique - disse-lhes Amanda.

 

-E isso fazíamos, além de nos levar uns móveis velhos para atirar. Olhe o que encontramos.

 

Amanda examinou o que lhe ensinavam.

 

-Um livro antigo. É maravilhoso, carinho. Agora, por que não seguem jogando às casitas?

 

-Não é um livro - disse Trent-. É o livro de contabilidade do Fergus do ano 1913.

 

-OH -exclamou Amanda, agarrando o livro.

 

Megan, presa da curiosidade, aproximou-se junto a eles.

 

-É importante?

 

-É do ano em que morreu Bianca -disse Sloan-.Conhece a história, verdade, Meg? A história de como se viu Bianca apanhada em um matrimônio interessado e sem amor. Logo conheceu o Christian Bradford e se apaixonou. Decidiu fugir com ele e levar-se aos meninos, mas Fergus se inteirou. Discutiram na Torre e caiu pela janela.

 

-E ele destruiu tudo o que lhe pertencia -disse Amanda com a voz tensa pela emoção-. Tudo... sua roupa, suas jóias, seus quadros. Tudo menos as esmeraldas, e só porque ela as tinha escondido. É o único que fica, e o retrato que lhe fez Bradford -disse-. Suponho que é uma ironia do destino que agora também tenhamos isto. Um livro onde ele anotou seus perdidas e lucros.

 

-Os márgenes estão cheios de notas -disse Trent-. Quase parece um jornal breve.

 

Amanda franziu o cenho e leu em voz alta:

 

A cozinha estava muito suja. Despedido-se do cozinheiro, muito brando com o pessoal. Compra de gêmeos de diamante. Mais vistosos que os do J. P. Getty. Levarei-os a ópera.

 

Depois de ler, deixou escapar um comprido suspiro.

 

-Demonstra a classe de homem que era, verdade?

 

-Neném, não lhe teria o trazido se chegar ou seja que ia incomodar te tanto.

 

Amanda negou com a cabeça.

 

-Não, a família quererá lê-lo -disse e deixou cair o braço-. Estava-lhe ensinando ao Megan seus novos domínios.

 

-Já o vejo - disse Sloan, franzindo o cenho-. E o que passa com os dias de descanso?

 

-Assim é como eu descanso - respondeu Megan-. Assim por que não vão e me deixam descansar? Disse com um sorriso.

 

-Excelente idéia - disse Amanda, lhe dando um beijo a seu marido e empurrando-o-. Comprido daqui.

 

Quando se afastavam, soou o telefone da Amanda.

 

-Se quiser algo, me chame - disse e se meteu em seu escritório.

 

Megan fechou a porta. esfregou-se as mãos de emoção ao aproximar-se de sua mesa para abrir a carteira. Ensinaria ao Nathaniel Fury o verdadeiro significado da palavra ordem.

 

 

Três horas mais tarde, viu-se interrompida pelo ruído de umas pegadas apressadas. antes de que abrissem a porta, soube que era Kevin.

 

-Olá, mamãe! -disse o menino precipitando-se para ela, e Megan lhe emprestou toda sua atenção-. Passamo-lo muito bem. Jogamos à guerra com o Fred e Sadie. E logo fomos ao jardim da Suzanna a regar.

 

Megan se fixou nas calças molhadas do Kevin.

 

-E de passagem lhes estivestes jogando água, não?

 

Kevin sorriu.

 

-Jogamos uma batalha de água e eu ganhei.

 

-Meu herói.

 

-comemos pizza, e amanhã Suzanna tem que arrumar o jardim, assim não podemos ir com ela, mas podemos ir ver baleias se quiser. Você sim quer, verdade? Disse ao Alex e ao Jenny que iríamos.

 

Megan observou os olhos de seu filho, escuros e brilhantes de emoção. Nunca o tinha visto tão feliz. Se naquele momento lhe tivesse pedido que fossem caçar leões a Kenya, teria acessado.

 

-claro que sim -disse lhe dando um forte abraço-. A que hora quer ir?

 

 

Às dez em ponto da manhã seguinte, Megan, e seu carregamento de meninos, estava no porto. Embora fazia um dia caloroso, tinha seguido o conselho da Suzanna levando jaquetas e boinas para a travessia. Também levava prismáticos, uma câmara e carretéis de sobra.

 

Embora tomou pastilhas para o enjôo, lhe revolveu o estômago com solo olhar o navio.

 

Parecia muito sólido, e era um consolo. A pintura branca brilhava sob o sol e também os corrimões. Ao subir a bordo, viu que havia um grande camarote fechado na primeira coberta. Para os mais cautelosos, disse-se. Tinha uma barra, máquinas de bebidas, cadeiras e bancos.

 

Era um lugar muito desejável, mas sabia que os meninos não quereriam nem pôr os pés perto dele.

 

-Temos que ir à cabine -disse Alex-. Este navio é nosso e do Nate.

 

-Papai diz que é do banco -disse Jenny, subindo pela escalerilla de metal. Levava o cabelo recolhido com uma cinta vermelha-. Mas o diz em brincadeira. O holandês diz que um marinheiro de verdade não vai passeio com turistas, mas Nate ri dele.

 

Megan sorriu. Ainda não conhecia famoso holandês.

 

-Estamos aqui -exclamou Alex, ao entrar na cabine-. E Kevin, também.

 

-Bem-vindos a bordo -disse Nathaniel, levantando a vista de uma carta marinha. fixou-se no Megan imediatamente.

 

-Acreditava que era Holt o que levava o navio.

 

-Está no Queen -disse Nate, sonriendo. Sustentava um charuto entre os dentes-. Não se preocupe, Meg, não vou afundar o navio.

 

Megan não o duvidava. De fato, com aquelas calças e suéter negras, a boina de marinho e o brilho em seu olhar, Nate tinha um aspecto muito, competente. Parecia um pirata a bordo de um mercante.

 

-comecei a revisar seus livros -disse.

 

-Me imaginava.

 

-Parecem uma confusão.

 

-Já. Kevin, vêem jogar uma olhada. vou ensinar te aonde vamos.

 

Kevin vacilou, apertando a mão de sua mãe durante alguns instantes mais. Mas o colorido das cartas foi muito para ele. Ao pouco tempo não parava de fazer perguntas.

 

-Quantas baleias vamos ver? E o que passa se chocarem contra o navio? vão jogar água pelo buraco? Como se conduz o navio?

 

Megan disse a seu filho que não incomodasse ao senhor Fury, mas Nathaniel respondia às perguntas com o Jenny sentada em seus joelhos e levando o dedo do Alex sobre a carta. Pirata ou não, pensou Megan, sabia como tratar aos meninos.

 

-Preparados para zarpar, capitão.

 

Nathaniel olhou ao marinheiro e assentiu.

 

-Um quarto a popa -disse e, sem soltar ao Jenny, aproximou-se do leme-. Desatraque o navio, blusa de marinheiro lhe disse, e guiou seus movimentos.

 

Ao Megan picou a curiosidade e se inclinou para diante para estudar os instrumentos: o medidor de profundidade, o sonar, a equipe de rádio. Aqueles instrumentos, e o resto da equipe, eram tão estranhos para ela como o painel de uma espaçonave. Ela era uma mulher das planícies.

 

À medida que o navio ia afastando do porto, lhe fez um nó no estômago.

 

Tratou de resistir o enjôo, repreendendo-se por senti-lo. Solo estava em sua mente, dizia-se com insistência. Era uma debilidade imaginária e estúpida a que podia vencer com força de vontade.

 

Além disso, tinha tomado pílulas antimareo, assim, não podia enjoar-se.

 

Os meninos exclamaram de alegria ao ver que o navio saía ao mar, sulcando a baía lentamente.

 

Alex, generoso, deixou ao Kevin tocar a buzina. Megan olhou pela janela da cabine, notando-se nas águas tranqüilas da Baía do Francês.

 

Era muito formoso, disse-se, e apenas se movia.

 

-Olhe a estribor e verá As Torres - disse-lhe Nathaniel.

 

-É verdade -anunciou Jenny-. Estribor é a direita e bombordo a esquerda.

 

-Proa é diante e popa detrás -disse Alex, por não ser menos.

 

Megan olhou para os escarpados, esforçando-se por não emprestar atenção a seu estômago.

 

-Kevin, olhe -disse agarrando-se ao corrimão-. Parece que sai das rochas.

 

Também parecia um castelo, disse-se enquanto o olhava, com seu filho a seu lado. As Torres se encarapitavam no céu, contra o céu claro e azul do verão, a mica das rochas, cinzas, despedia brilhos de luz. Nem sequer os andaimes, e os homens subidos neles, que do navio não eram mais que pequenas figuras, estorvavam a imagem de conto de fadas. Um conto de fadas, disse-se, com um lado escuro.

 

-Parece um castelo da costa irlandesa -disse Nathaniel a suas costas-, ou de uma colina de Escócia.

 

-Sim. Desde mar é ainda mais impressionante -disse Megan, e se estremeceu.

 

-Quer te pôr a jaqueta? -perguntou-lhe Nathaniel-. Quando sairmos ao mar, fará mais frio ainda.

 

-Não, não tenho frio. Só estava pensando. É difícil não pensar na história da Bianca quando olha As Torres.

 

-Sim, aparecia à janela e olhava ao mar, esperando ao Christian. E sonhava, sentindo-se culpado, porque era uma autêntica dama e conhecia seu dever, mas o dever não serve de nada quando tropeça com o amor.

 

Megan voltou a estremecer-se. Aquelas palavras a chegaram à alma. Tinha estado apaixonada uma vez e tinha descuidado seu dever, e perdido sua inocência.

 

-Pagou por isso -disse Megan e apartou o olhar, para distrair-se, fixou-se nas cartas de navegação, embora não sabia as interpretar.

 

-Levamos direção Norte nordeste -disse Nate, e, como tinha feito com o Alex, tomou a mão do Megan e a guiou sobre a carta-. Temos um dia claro, com boa visibilidade, mas há vento. vamos mover nos um pouco.

 

Estupendo, disse-se Megan, e tragou saliva.

 

-Se não vermos baleias, os meninos vão se levar um decepção.

 

-Não se preocupe, veremo-las.

 

Megan caiu por volta dele quando as tranqüilas águas da baía deixaram passo ao mar, mais encrespado. Nate a agarrou pelos ombros. O navio cabeceava, mas ele estava firme como uma rocha.

 

-Tem que separar os pés, distribuir o peso.

 

Megan não estava segura de que aquilo servisse de algo. Começava a enjoar-se. Não podia, disse-se, danificar o dia ao Kevin, nem humilhá-lo, enjoando-se.

 

-Demoramos uma hora em chegar, verdade? -disse com uma voz muito mais vacilante do que esperava.

 

-Sim.

 

Megan fez gesto de ir-se, mas acabou por apoiar-se contra ele.

 

Nate lhe deu a volta. Megan estava pálida, como a neve, com uma ligeira cor esverdeada sob a pele. Nate moveu a cabeça com preocupação.

 

-tomaste algo?

 

Megan não podia seguir fingindo, e não tinha a força para mostrar valor.

 

-Sim, mas me parece que não serviu que nada. Enjôo-me até em uma canoa.

 

-E te mete em uma viagem de três horas no Atlântico?

 

-Kevin queria vir...

 

Nate a agarrou pela cintura e a levou a um banco.

 

-Sente-se -ordenou-lhe.

 

Megan obedeceu, e ao ver que os meninos estavam distraídos olhando ao mar, agachou a cabeça e a pôs entre as pernas.

 

Três horas, pensou, ao cabo de três horas teriam que colocá-la em uma bolsa e jogá-la ao mar. O que lhe tinha feito pensar que um par de pílulas obteriam o milagre? Sentiu que lhe punham uma mão no ombro.

 

-O que? Já veio a ambulância?

 

-Ainda não, neném.

 

Era Nathaniel, que lhe pôs umas ataduras nas bonecas.

 

-O que é isto?

 

-Acupuntura -disse Nathaniel, e retorceu as ataduras até que Megan sentiu a pressão de algo metálico em um ponto da boneca.

 

teria posto-se a rir se não fora porque lhe dava vontade de chorar.

 

-Genial, faz-me falta uma maca e você me faz vodu.

 

-A acupuntura é uma ciência muito válida. E eu tampouco desprezaria o vodu. Eu vi alguns resultados impressionantes. Agora respira profundamente e fique aqui sentada -disse Nate e foi abrir uma janela para deixar que entrasse a brisa-. Tenho que voltar para a cabine.

 

Megan se apoiou na parede e deixou que a brisa lhe desse na cara. Ao outro lado da coberta os meninos jogavam, esperando encontrar ao Moby Dick depois da espuma de cada onda. Megan se fixou nas colinas, mas logo fechou os olhos.

 

Suspirou, depois começou a formular uma complicada fórmula trigonométrica. Extrañamente, quando deu com a solução, sentia-se muito melhor.

 

Provavelmente porque tinha os olhos fechados, disse-se. Mas não podia mantê-los fechados durante três horas, e menos quando estava ao cargo de três meninos.

 

Para provar, abriu um olho. O navio seguia balançando-se, mas ela seguia sentindo-se bem. Abriu o outro olho. Ao não ver os meninos sentiu pânico. ficou em pé, esquecendo o enjôo, e os viu na cabine, rodeando ao Nate.

 

Que bem, disse-se com desgosto, ela ali sentada, enjoada, enquanto Nathaniel, que tinha que pilotar o navio, cuidava dos meninos. ficou uma mão no estômago e avançou um passo.

 

Mas não lhe aconteceu nada.

 

Franzindo o cenho, avançou outro passo, e outro. sentia-se algo fraco, certamente, mas já não vacilava, nem sentia náuseas. atreveu-se a fazer a última prova, e olhou pela janela.

 

Sentiu um puxão, mas foi quase uma sensação agradável, como a de montar em um carrossel. Agachou a vista e se olhou as ataduras das bonecas com assombro.

 

Nathaniel a olhou por cima do ombro. Ao Megan havia tornado a cor.

 

-Melhor?

 

-Sim -disse Megan sonriendo-. Obrigado.

 

Pôs aos meninos as jaquetas e ela ficou a jaqueta. Sobre o Atlântico, o verão se desvanecia.

 

-A primeira vez que saí a navegar, vimo-nos metidos em uma tormenta. Passei as duas piores horas de minha vida aparecido no corrimão. Venha, toma o leme.

 

-O leme? Não.

 

-por que não?

 

-Venha, mamãe. É muito divertido.

 

Empurrada pelos três meninos, Megan se encontrou metida na cabine. Deu com as costas contra o peito do Nathaniel, que lhe agarrou as mãos.

 

Megan se estremeceu. O corpo do Nathaniel era forte como o aço e suas mãos seguras e firmes. Podia cheirar o mar, mas também o cheirava a ele. Não importava o muito que tratasse de concentrar-se na água que fluía interminavelmente a seu redor, Nate estava ali, justo ali, lhe acariciando a cabeça com o queixo.

 

-Não há nada como pilotar para não enjoar-se -comentou Nate.

 

Megan proferiu um som de assentimento. Imaginava o que seria sentir suas mãos sobre seu corpo. Se dava a volta para ficar frente a ele e inclinava a cabeça até alcançar o ângulo correto...

 

Desconcertada por aquele pensamento, voltou a fazer um cálculo matemático.

 

-Velocidade a um quarto -ordenou Nathaniel.

 

A mudança de velocidade fez perder o equilíbrio ao Megan. Ao tratar de recuperá-lo, Nathaniel lhe deu a volta, de modo que ficou frente a ele. Pelo sorriso do Nate, Megan se perguntou se sabia o que ela estava imaginando.

 

-Olhe essa lucecita na tela, Kevin -disse Nate, mas não deixava de olhar ao Megan, cativando-a com seu olhar profundo, com aqueles olhos azuis escuros, olhos de feiticeiro, pensou tristemente-. Sabe o que quer dizer? acrescentou, inclinando a cabeça, aproximando-a a do Megan-. Que há baleias.

 

-Onde? Onde, Nate? -disse o menino, e correu à janela.

 

-Segue olhando. Quando as virmos, paramos.

 

Ao deter-se, o navio se balançou com mais entusiasmo, ou era ela a que estava mais agitada?, perguntou-se Megan. Nathaniel falou pela megafonía do navio, fazendo um comentário a respeito das baleias que viam no mar. Megan tirou os prismáticos e a câmara da bolsa.

 

-Olhe! -exclamou Kevin, saltando sobre a coberta-. Mamãe, olhe!

 

Uma enorme baleia emergiu da água, elevando-se, suave e esplendidamente. A gente que estava em coberta rompeu em exclamações de admiração. Megan conteve o fôlego.

 

Havia uma sorte de magia em que um animal tão grande, tão magnífico, pudesse não só deslizar-se tão brandamente, a não ser existir.

 

O animal expulsou um jorro de água pelo, orifício superior, e foi igual a se um trovão ressonasse no céu.

 

A água salpicou o ar, pulverizando-se como gotas de diamante. Megan ficou olhando com um nó na garganta, esquecendo-se dos prismáticos e da câmara.

 

-Seu casal se aproxima -disse Nathaniel.

 

Megan despertou de sua abstração e tomou a câmara.

 

A outra baleia emergiu e as duas se deslizaram sobre a água, soprando.

 

Os meninos aplaudiram entusiasmados. Megan se pôs-se a rir e tomou em braços ao Jenny para que pudesse ver melhor. Os três meninos olharam por turno, e com impaciência, pelos prismáticos.

 

Megan se apoiou na janela, observando com tanto interesse como os pequenos, enquanto o navio seguia às baleias em sua travessia. Logo, as baleias deram um enorme bufido e se inundaram no mar com um golpe de seus enormes aletas. Na coberta inferior, a gente, embora salpicada de água, proferiu exclamações de entusiasmo.

 

Duas vezes mais, o Mariner procurou e encontrou mais exemplares, proporcionando aos passageiros o espetáculo de sua vida. Tempo depois, viraram e puseram proa ao porto. Megan olhou pela janela, esperando ver baleias uma vez mais.

 

-Bonito, verdade?

 

Megan olhou ao Nathaniel, brilhavam-lhe os olhos.

 

-Incrível. Não podia imaginá-lo. Tinha-o visto em televisão, mas é muito mais espetacular.

 

-Não há nada como vê-lo e fazê-lo você mesmo -diga-o Nate com uma careta-. Segue bem?

 

Megan riu e se olhou as bonecas.

 

-Outro pequeno milagre. Não teria apostado nem um céntimo.

 

-«Há mais costure no céu e na Terra, Horacio».

 

Um pirata citando Hamlet.

 

-Isso parece -murmurou Megan-. Olhe, As Torres -disse assinalando.

 

-Está aprendendo, neném.

 

Quando alcançaram a baía, Nathaniel deu as ordens para atracar.

 

-Quanto tempo leva navegando? -perguntou-lhe Megan.

 

-Toda minha vida. Fugi-me e me arrolei na marinha mercante aos dezoito anos.

 

-Fugiu-te? -disse Megan sonriendo-. Procurando aventuras?

 

-Procurando liberdade.

 

Nate atracou com tanta suavidade como se ficasse uma luva.

 

Megan se perguntava por que um menino partiria em busca de liberdade. E pensou em si mesmo à mesma idade, uma cria com um filho. Tinha entregue sua liberdade, mas, nove anos depois, não se arrependia disso. O preço de sua liberdade tinha sido seu filho.

 

-Podemos ir beber? -perguntou-lhe Kevin-. Temos sede.

 

-Claro, eu lhes levo.

 

-Podemos ir sozinhos -disse Alex com orgulho-. Eu tenho dinheiro. Queremos nos sentar abaixo e ver baixar às pessoas.

 

-Muito bem, mas fique dentro -disse Megan-. Desdobram suas asas muito logo.

 

-A seu filho ainda fica muito tempo para te deixar.

 

-Isso espero -disse Megan, e se calo a tempo de acrescentar: «é tudo o que tenho»-. foi um dia estupendo para ele, e para mim também. Obrigado.

 

-foi um prazer.

 

Estavam sozinhos na cabine, amarrados. Os passageiros começavam a desembarcar.

 

-Voltará.

 

-Não posso deixar sozinho ao Kevin. Vou buscá-los.

 

-Estão bem, não se preocupe -disse Nate, e se aproximou do Megan antes de que esta se evadisse-. Tranqüila, não fique nervosa.

 

-Não estou nervosa.

 

-Eu acredito que sim. Era uma delícia observar sua cara quando vimos a baleia. Sempre é uma delícia, mas quando te ri e o vento te revolve o cabelo, voltaria louco a qualquer homem.

 

Avançou outro passo. Megan retrocedeu até dar com a roda do leme. Talvez não tivesse direito, dizia-se Nate, mas pensaria nisso depois.

 

-Também eu gosto de seu olhar. Seu olhar, agora. É todo olhos. Tem os olhos mais bonitos que vi. E sua pele dourada, como o pêssego -disse Nate, lhe acariciando a bochecha.

 

-Não me afetam os flertes -disse Megan. Queria aparentar firmeza, não ficar sem fôlego.

 

-É sozinho a verdade -disse Nate, e inclinou a cabeça para beijá-la-. Se não querer que te beije, me diga que não.

 

Megan o teria feito, de ter sido capaz de falar. Mas Nate a beijou antes, e começou a acariciá-la. Mais tarde, Megan se diria que tinha tentado protestar, apartar-se, mas não era verdade.

 

Desfrutou daquele beijo, deixando-se levar, invadida pelo desejo. Era o primeiro beijo depois de muitos anos. Enredou os dedos nos cabelos do Nate, urgindo-o a que a beijasse mais e mais.

 

Nate esperava uma resposta fria, ou ao menos vacilante. Possivelmente tivesse visto um brilho de paixão em seus olhos, mas lhe parecia profundo, escondido, igual a um vulcão, que na superfície parece dormido.

 

Entretanto, nada o tinha preparado para aquele estalo de fogo.

 

Não pôde pensar em nada, logo solo pensou no Megan, em seu aroma, em seu tato, em seu sabor. Estreitou-a com força, sentindo com prazer cada curva de seu corpo, que Megan apertava sem rubor.

 

O aroma do oceano lhe fez imaginar que se encontravam em uma praia deserta, enquanto as ondas golpeavam na borda e se ouviam as gaivotas.

 

Megan sentia que se estava afundando e se agarrou a ele, procurando equilíbrio. via-se apanhada em um torvelinho de sensações e as ataduras que tinha nas bonecas não bastariam para que recuperasse o bem-estar, a calma.

 

Faria-lhe falta força de vontade, mas lhe bastou... a lembrança.

 

separou-se dele e teria cansado ao chão de não sustentá-la Nate.

 

-Não.

 

Nate, que estava sem fôlego, disse-se que mais tarde pensaria por que um só beijo o deixava sem respiração, igual a um murro.

 

-Terá que ser mais específica. Não a que?

 

-A isto, a algo relacionada com isto -replicou Megan, presa do pânico-. Não estava pensando.

 

-Eu tampouco. É um bom sinal não pensar quando lhe beijam.

 

-Não quero que me beije.

 

Nate se meteu as mãos nos bolsos. Era o mais seguro, decidiu. Megan voltava a pensar.

 

-Neném, parece-me que também foi tua coisa.

 

Não tinha sentido negar o evidente.

 

-É muito atrativo e respondi que um modo natural.

 

Nate sorriu.

 

-Neném, se beijar assim é natural para ti, vou morrer muito feliz.

 

-Não penso deixar que volte a ocorrer.

 

-Já, mas as boas intenções não sempre se cumprem -disse Nate.

 

Megan estava tensa. Nate se dava conta e pensava que a experiência com o Dumont devia lhe haver deixado muitas cicatrizes.

 

-te tranqüilize, Meg -disse mais amavelmente-. Não te vou forçar. Se quer ir devagar, iremos devagar.

 

A razoável proposta do Nate enfureceu ao Megan.

 

-Não vamos nem depressa nem devagar -disse.

 

-Temo-me que vou ter que te contradizer. Quando um homem e uma mulher se atraem tanto, é difícil evitar o desejo.

 

Megan sabia que tinha razão. Inclusive naqueles momentos, uma parte de lhe dizia que se deixasse levar.

 

-Não me interessa o desejo. Agora não quero ter uma relação e menos com um homem que nem sequer conheço.

 

-Pois então nos conheceremos melhor -respondeu Nate com um tom irritantemente razoável.

 

Megan apertou a mandíbula.

 

-Não quero uma relação. Sei o que deve ser um grande golpe para seu ego, mas terá que te acostumar. Agora, se me perdoar, vou pelos meninos.

 

Nate se apartou para a deixar passar e esperou a que chegasse à porta de cristal que levava a coberta de acima.

 

-Meg -disse. Era sozinho uma parte de seu ego a que o incitava a falar, o resto era pura determinação-. Quando fizer o amor contigo não pensará nele. Nem sequer recordará seu nome.

 

Megan se voltou para olhá-lo, com desprezo. Abandonou sua dignidade e partiu com uma portada.

 

 

Essa mulher vai acabar comigo -disse O Holandês. Estava na despensa, com uma garrafa de rum na mão-. Escuta bem o que te digo, moço.

 

Nathaniel estava sentado a seu lado, depravado, depois de desfrutar de um jantar com as Calhoun. A cozinha do hotel estava imaculada, depois do jantar, e Coco estava com a família. De outro modo, O Holandês não se teria atrevido com o rum.

 

-Não estará pensando em abandonar o navio, verdade, companheiro?

 

O Holandês rebufó. O fazia graça, como ia abandonar sozinho porque uma mulher subia às barbas?

 

-Fico -disse e, depois de um olhar à porta, serve rum para os dois-. Mas lhe advirto isso, moço, antes ou depois, essa mulher vai receber seu castigo. E vai dar quem eu me sei disse destacando o peito com o polegar.

 

Nathaniel bebeu um gole de rum. Chiaram-lhe os dentes e lhe queimou a garganta.

 

-Onde está a garrafa que te dei de presente?

 

-Usamo-la em um bolo. Este é bastante bom para beber.

 

-Sim, se quer ter uma úlcera -resmungou Nathaniel-. Bom, que problemas tem com Coco?

 

-Não é um problema, são dois -disse O Holandês, e franziu o cenho quando soou o telefone de serviço. Serviço de habitações, pensou fazendo uma careta, alguma vez tinha tido serviço de habitações em seus navios-. Sim, o que?

 

Nathaniel sorriu. A diplomacia não era o ponto forte do Holandês.

 

-Acreditará-se que não temos nada mais que fazer -disse O Holandês-. O levaremos quando estiver preparado -disse, e pendurou-. Champanha e bolo a estas horas. Recém casados. Não lhes vimos o cabelo em toda a semana.

 

-Onde está seu romantismo, Holandês?

 

-Isso lhe deixo isso a ti, moço -disse cortando um pedaço de bolo de chocolate com seus manazas-. Já vi como olhava à ruiva.

 

-É loira, embora com reflexos avermelhados -corrigiu-o Nathaniel, e se atreveu a beber outro gole-. É bonita, né?

 

-Como todas as que você gosta -disse O Holandês, e acompanhou as partes de bolo com mingau e morangos. Tem um menino, não?

 

-Sim -disse Nathaniel, o bolo tinha tão bom aspecto que gostou de uma parte-. Kevin, cabelo castanho, alto para sua idade, olhos grandes.

 

-Já o vi -disse O Holandês, que tinha uma debilidade pelos meninos que tratava de ocultar-. baixou com os outros dois safados a procurar doces.

 

Que, como Nathaniel sabia, os tinha dado com grande prazer, apesar de sua máscara de resmungão.

 

-Teve-o muito jovem, não?

 

Nathaniel franziu o cenho. Aquela frase parecia indicar o pensamento do Holandês, que Megan era a única responsável por seu embaraço.

 

-Aquele porco a enganou -disse.

 

-Sei, sei, ouvi algo. É difícil que me escape algo -disse O Holandês.

 

Não era difícil solicitar informação a respeito de Coco, se procurava nos sítios convenientes. Embora não o admitia, era algo que fazia diariamente. Chamou um garçom pelo intercomunicador.

 

-Prepara uma bandeja para a número três -disse-. Dois bolos e uma garrafa de champanha da casa, e não se esqueça dos guardanapos, maldita seja.

 

Uma vez servida a bandeja, apurou seu rum.

 

-Arrumado a que gosta de uma parte.

 

-Não diria que não.

 

-Nunca vi que rechace uma boa comida, ou uma mulher -disse O Holandês, e cortou uma parte de bolo, bastante maior que os anteriores.

 

-Não me vais pôr morangos?

 

-Come e cala. É muito magra, não? Como é que não está ligando com ela?

 

-Vou pouco a pouco -disse Nathaniel com a boca enche-. Estão todos no comilão, reunião familiar -disse Nate. levantou-se, serve-se uma taça de café e jogou nele o rum que ficava-. encontraram um livro antigo. E não é muito magra, é delicada.

 

-Sim, isso -disse O Holandês, e pensou em Coco, cheia de curvas-. Todas as mulheres são delicadas até que lhe põem um anel diante dos narizes.

 

 

Ninguém haveria dito que as mulheres reunidas no comilão eram delicadas, não quando tinha lugar uma das discussões que sacudiam o lar dos Calhoun de vez em quando.

 

-Eu digo que o queimemos -dizia C. C., cruzada de braços-. depois de tudo o que soubemos do Fergus pelo jornal da Bianca, não sei por que temos que guardar este livro.

 

-Não podemos queimá-lo -replicou Amanda-. É parte de nossa história.

 

-me dá más vibrações -disse Lilah olhando o livro, que estava no centro da mesa-, muito más.

 

-Pode ser -disse Max, sacudindo a cabeça-, mas não posso queimar um livro, nenhum livro.

 

-Não é literatura exatamente -resmungou C. C.

 

 

Trent deu umas palmadas no ombro a sua mulher.

 

-Podemos deixá-lo onde estava, ou pensar no que sugere Sloan.

 

-Acredito que poderíamos construir uma sala com objetos relacionados com a história de Las Torres -disse Sloan-. Acredito que seria bom não só para o hotel mas também para a família.

 

-Não sei -disse Suzanna, apertando os lábios e tratando de ser objetiva-. Não quero pôr este libero ao lado das coisas da Bianca ou de tia Colleen ou do tio Sejam.

 

-Foi um canalha, mas é parte da história -disse Holt-. Estou de acordo com o Sloan.

 

Aquela opinião, é obvio, despertou uma série de assentimentos, dissensões e outras sugestões. Quão único Megan podia fazer era permanecer sentada e observar com assombro.

 

Não tinha querido estar ali, mas tinha sido convocada sumariamente. As reuniões familiares dos Calhoun eram sagradas.

 

A discussão seguia e ela se fixou no objeto em questão. Quando Amanda o deixou em seu escritório, sucumbiu à tentação. Tirou-lhe o pó e o folheou, sem poder evitar fixar-se nas colunas repletas de números, em ocasionais enganos de aritmética. Do mesmo modo, fixou-se nas notas à margem e, depois de ler algumas, dava-se conta de que Fergus Calhoun era um homem frio, ambicioso e egoísta.

 

Mas não entendia por que um simples livro de contabilidade ocasionava tantos problemas. Sobre tudo, quando as últimas páginas estavam cheias de números, só números, sem nenhuma explicação.

 

estava-se dizendo, uma vez mais, que não devia intervir, quando foi branco de todas as olhadas.

 

-Você o que opina, Megan? -perguntou-lhe Coco.

 

-Perdão?

 

-Você o que pensa? Não há dito nada e, ao fim e ao cabo, sua opinião seria a mais qualificada.

 

-Por...?

 

-É um livro de contabilidade -assinalou Coco-. Você é contável.

 

A lógica daquela asseveração derrotou ao Megan.

 

-Não é meu assunto-disse, mas um coro de respostas lhe disse justamente o contrário-. Bom, eu... Suponho que seria uma lembrança interessante, e é muito interessante revisar um livro de contabilidade de faz tanto tempo. Ver os salários, calcular o valor em dólares atuais, obter a renda da família naquele ano.

 

-Claro! -disse Coco, aplaudindo-. Ontem à noite estive pensando em ti, Meg, enquanto me jogava as cartas. E me lembrei de que sua carta dizia que te veria imersa em um projeto, um projeto com números.

 

-Tia Coco -disse C. C. com paciência-, Megan é nosso contável.

 

-Já sei, carinho -disse Coco com um brilhante sorriso-. Assim, ao princípio, não pensei muito nisso. Mas seguia com a sensação de que se tratava de algo mais e estou segura de que o projeto vai proporcionar algo maravilhoso, algo que nos fará muito felizes a todos. Me alegro muito de que o faça.

 

-Que faça o que? -disse Megan, e olhou a seu irmão, que estava sonriendo.

 

-Estudar o livro do Fergus. Inclusive poderia arquivá-lo no ordenador, verdade? Sloan nos há dito que é muito lista.

 

-Poderia, mas...

 

O pranto de um menino, que chegava través de um alto-falante, interrompeu-a.

 

-É Bianca? -disse Max.

 

-Ethan -disseram C. C. e Lilah ao uníssono.

 

E a reunião concluiu.

 

 

O que tinha aceito fazer exatamente? De algum jeito, embora logo que havia dito uma palavra, tinha ficado a cargo do livro do Fergus. Mas, que remédio tinha, era um assunto de família.

 

Suspirou e saiu a terraço. Aspirou profundamente o ar cheio de aromas da noite. Ouvia o mar na distância. A brisa era fresca, ligeiramente úmida e salgada. As estrelas 'brilhavam no céu, a lua crescente.

 

Seu filho estava deitado, contente e seguro, rodeado de gente que o queria.

 

Estudar o livro do Fergus era um pequeno favor com o que podia começar a pagar todo o bem que lhe tinham feito.

 

Muito desvelada para ir-se dormir, descendeu pela terraço, entre os maciços de flores. fixou-se nas rosas e petunias, banhadas pela luz da lua. Sobre o tronco de uma árvore ressecada, subia uma glicinia, cujas pétalas, que cobriam o chão, caíram sobre seu cabelo ao sopro a brisa.

 

-«Ela não era mais que um delicado fantasma quando, por primeira vez, apareceu ante meus olhos».

 

Megan se sobressaltou, levando-a mão ao coração. Uma sombra se separou das outras sombras.

 

-Assustei-te? -disse Nathaniel, aproximando-se. Na escuridão brilhava a ponta de seu charuto aceso-. Normalmente, Wordsworth tem um efeito distinto.

 

-Não te tinha visto. Pensei que não havia ninguém.

 

-Estava passando o momento com O Holandês e uma garrafa de rum -disse Nate, saindo à luz da lua-. Gosta de queixar-se de Coco e prefere uma audiência pormenorizada -disse e deu uma imersão ao charuto. Seu rosto se ocultou depois de uma nuvem de fumaça, atrativo e misterioso-. Bonita noite.

 

-Sim... Bom, tenho que...

 

-Não faz falta que fuja. Tinha saído a passear -disse Nate e se agachou para cortar um peonía-. Está em sua melhor hora -disse oferecendo-lhe ao Megan.

 

Megan aceitou o casulo em silêncio.

 

-Estava admirando as flores -disse ao cabo de uns segundos-. A mim não me dão bem.

 

-Tem que pôr muito carinho, além de água e fertilizante.

 

Megan tinha o cabelo solto, e seguia com as calças e a jaqueta que se pôs para jantar. Que pena, pensou Nate, lhe teria gostado mais que estivesse em bata. Mas Megan Ou'Riley não era o tipo de mulher que se passeava de noite em bata à luz da lua.

 

E se tivesse vontades de fazê-lo, não o permitiria.

 

O único modo de combater aqueles penetrantes olhos cinzas, além de fugir como uma parva, era a conversação.

 

-Também sabe de jardinagem, além de navegar e citar aos clássicos?

 

-Entre outras coisas, eu adoro as flores -disse Nate, e tomou a mão do Megan, a que sustentava a peonía, levando-lhe ao nariz para aspirar o aroma da flor e da mulher.

 

Megan se viu apanhada, imersa em uma atmosfera cheia de enfeitiço. O perfume do jardim parecia rodeá-los, invadindo seus sentidos. O rosto do Nate estava talher de sombras. Ela se fixou em seus lábios, curvos e tentadores.

 

Pareciam completamente sozinhos, totalmente separados do mundo, das responsabilidades diurnas. Eram sozinho um homem e uma mulher, sob um céu estrelado e em um jardim iluminado pela lua, balançados pela música do mar distante.

 

Mas Megan tratou de romper aquele encanto.

 

-Surpreende-me que tenha tempo para a poesia e as flores.

 

-Sempre se encontra tempo para o que mais importa.

 

Nate também sentia a magia daquela noite. Em noites como aquela, tinha ouvido canções de sereias, ou rugidos de monstros desconhecidos. Nate acreditava na magia e, por isso, aquela noite tinha esperado que Megan saísse ao jardim e sabendo, de algum modo, que o faria.

 

-vamos passear -disse ao Megan sem lhe soltar a mão-. Não podemos desperdiçar uma noite como esta.

 

-Tenho que voltar -disse Megan.

 

-Logo.

 

De modo que Megan começou a passear com o Nate naquele jardim de conto de fadas, com uma flor na mão e o cabelo cheio de pétalas.

 

-Teria que... ir ver como está Kevin.

 

-Tem problemas de sonho?

 

-Não, mas...

 

-Pesadelos?

 

-Não.

 

-Bom, então -disse Nate, continuando o passeio pelo estreito caminho-. Quando um homem se aproxima de ti, sempre tem vontades de sair correndo?

 

-Não saí correndo. Já te hei dito que não quero uma relação.

 

-Tem graça, faz um momento, quando estava na terraço, parecia uma mulher preparada para começar uma relação.

 

Megan se deteve.

 

-Estava-me espiando?

 

-Mmm -disse Nathaniel, e apagou o charuto em um cinzeiro de areia-. Estava pensando que é uma pena que não tenha um alaúde.

 

Megan, ainda molesta, sentiu curiosidade.

 

-Um alaúde?

 

-Uma mulher só em uma terraço... Merece uma serenata.

 

Ao Megan deu vontade de rir.

 

-E você sabe tocar o alaúde.

 

-Não, mas quando te vi, pensei que eu gostaria -disse Nate e seguiu caminhando. A terraço iniciava o pendente por volta do mar-. Estava acostumado a passar por aqui navegando quando era pequeno, e ficava olhando As Torres. Eu gostava de imaginar que um dragão as protegia e que eu escalava o escarpado e lutava com ele.

 

-Kevin segue dizendo que é um castelo -murmurou Megan.

 

-Quando cresci e me fixei nas Calhoun, imaginava que quando matava ao dragão me recompensavam. Suponho que são fantasias normais aos dezesseis anos, será coisa dos hormônios.

 

Megan riu.

 

-Com qual sonhava?

 

-Com todas -disse Nate sonriendo e se sentou em um muro, sentando ao Megan a seu lado-. Sempre foram... algo especial. Holt sonhava com a Suzanna, embora nunca o admitiria. Como era meu amigo, tive que me esquecer dela. Isso deixava às outras três, mas antes tinha que conquistar ao dragão.

 

-Mas, alguma vez brigou com o dragão?

 

Uma sombra cruzou o rosto do Nate.

 

-Tive que brigar com outro. Suponho que se pode dizer que o deixei para mais tarde e me embarquei. Mas tive um breve e maravilhoso interlúdio com a encantada Lilah.

 

-Você e Lilah?

 

-Justo antes abandonei a ilha, mas havia me tornado louco. Eu acredito que estava praticando -disse Nate suspirando-. Era muito boa.

 

Megan imaginou sua relação, relaxada, distendida, perfeita.

 

-Que fácil é ver o que está pensando, Meg -disse Nate, sonriendo-. Não fomos Romeo e Julieta. Beijamo-nos umas quantas vezes e tratei de convencê-la, por todos os meios, de que fôssemos mais longe. Mas não quis. Tampouco me rompeu o coração. Bom, rachou-me isso um poquito.

 

-E ao Max não importa?

 

-por que ia importar lhe? casou-se com ela e são unha e carne.

 

Nate tinha razão. Todas as Calhoun tinham encontrado sua meia laranja.

 

-É curioso, tantas relações cruzadas.

 

-Diz-o por mim ou por ti?

 

Megan ficou tensa, porque de repente se deu conta do que significava estar ali junto ao Nate, que a rodeava pelos ombros.

 

-Que mais dá.

 

-Segue zangada? -disse Nate, estreitando o abraço-. Por isso ouvi sobre o Dumont, acredito que não merece a pena que pense nele. Não merece a pena estragar uma noite como esta removendo velhas feridas. por que não me conta como lhe convenceram para que aceite o livro de contabilidade do Fergus?

 

-Como te inteiraste que isso?

 

-Hão-me isso dito Holt e Suzanna.

 

Megan se tranqüilizou um pouco. Era agradável discutir com alguém próximo, mas que não pertencia à família.

 

-Não sei o que passou, quase não tenho aberto a boca.

 

-Seu primeiro engano.

 

Megan deixou escapar um bufido.

 

-Teria que ter gritado para que me ouvissem. Não sei por que dizem que é uma reunião silo único que fazem é discutir -disse, e franziu o cenho-. Então, deixam de discutir e você te dá conta de que lhe colocaram no alho. E se tráficos de dizer que não, todos se tornam sobre ti.

 

-Sei muito bem de que falas. Ainda não sei se me colocar em negócios com o Holt foi minha coisa. Surgiu a idéia, discutiu-se, votou-se e se passou. E ao dia seguinte, já estava assinando não sei que documentos.

 

Interessante, pensou Megan, estudando o perfil do Nate.

 

-Não me parece o tipo de pessoa que pode ver-se arrastada a fazer o que não quer.

 

-Eu diria o mesmo de ti.

 

Megan reflito um momento.

 

-Tem razão. O livro é fascinante, de todas formas, estou desejando me pôr com ele.

 

-Espero que não esteja pensando em ocupar nele todo seu tempo livre -disse Nate, brincando com os cabelos soltos do Megan-. Eu quero uma parte para mim.

 

Megan se separou um pouco.

 

-Hei-te dito que não quero.

 

-O que te passa é que está preocupada porque está interessada -disse Nate, tomando seu queixo e lhe girando a cabeça para que o olhasse-. Imagino que o terá acontecido muito mal, por isso te disse que posso esperar.

 

Megan o olhou com fúria.

 

-Não me diga como o passei ou o deixei que passar. Não te estou pedindo nem compreensão nem paciência.

 

-Está bem.

 

Nate a beijou sem mediar palavra, com desejo incontenible, sem poder ser fiel a sua intenção de ser paciente. E seus lábios eram exigentes, ansiosos, irresistíveis, Megan não pôde fazer nada para rechaçá-lo.

 

As brasas que tinham ardido em seu interior do primeiro beijo se converteram em chamas. Megan se odiou por sua própria debilidade, mas não podia evitá-lo e se deixou arrastar.

 

Tinha provado o que queria, disse-se Nathaniel beijando-a no pescoço, inundando-se em uma quebra de onda de desejo.

 

Mas aquele desejo tinha que esperar para ser satisfeito, porque Megan ainda não estava preparada.

 

-Agora me diga que não te importa, que não lhe afeta -murmurou Nate, furioso consigo mesmo por não tomar o que sabia que era dele-. Me diga que não queria que te tocasse.

 

-Não posso -exclamou Megan com desespero.

 

Queria que a tocasse, que lhe fizesse o amor, que a jogasse no chão e a amasse grosseiramente. E, desse modo, descarregar a de responsabilidade, e da sensação de vergonha que solo a acovardava.

 

-O desejo não basta -disse e empurrou ao Nate, ficando em pé-, nunca me bastará. Já desejei antes.

 

Estava tremendo e com os olhos cheios de lágrimas.

 

-Mas eu não sou Dumont -disse Nathaniel-, e você já não é uma menina de dezessete anos.

 

-Sei quem sou, mas não sei quem é você.

 

-Isso é uma evasiva. Sentimo-nos atraídos do primeiro momento.

 

Megan retrocedeu, porque sabia que era certo, e lhe dava medo.

 

-Está falando de química.

 

-Talvez esteja falando do destino -disse Nate com tranqüilidade, e se levantou-. Necessita tempo para pensar, e eu também. Acompanho a casa.

 

Megan o deteve com um gesto.

 

-Posso ir eu sozinha -disse e saiu correndo.

 

Nathaniel resmungou uma maldição. Voltou a sentar-se e acendeu outro charuto. Não tinha sentido voltar para casa, não poderia dormir.

 

 

À tarde seguinte, Megan levantou a vista de sua mesa para ouvir que chamavam a sua porta.

 

-Passe.

 

-Perdão pela interrupção.

 

Era Coco. Megan comprovou, surpreendida, que Coco se tingiu o cabelo. Levava-o castanho escuro. Aquela mulher devia tingir-se com tanta freqüência como se trocava de sapatos.

 

-Não comeste -disse Coco e entrou levando uma bandeja carregada de comida.

 

-Não tinha por que te haver incomodado -disse Megan consultando o relógio; ficou de pedra ao comprovar que eram mais das três-. Já tem bastante que fazer.

 

-Isto é parte de meu trabalho -disse Coco, servindo a comida. Jogou uma olhada à tela do ordenador, à calculadora e às faturas-. Meu deus, quantos números. Nunca me deram bem.

 

-Terá que tomar-lhe com calma -disse Megan-. Uma vez que sabe que um e a gente são dois, pode-se fazer algo.

 

Coco olhou a tela do ordenador com vacilação.

 

-Se você o disser, querida. Bom, aqui tem uns sandwiches e chá gelado.

 

Era uma tentação, sobre tudo porque não tinha tomado o café da manhã. Um resíduo de seu encontro com o Nathaniel.

 

-Obrigado, Coco. Sinto que por mim tenha interrompido seu trabalho.

 

-OH -exclamou Coco com um gesto da mão-. Não se preocupe por isso. Para ser franco, querida, tinha que sair dali, me afastar desse homem.

 

-Do holandês? -disse Megan sonriendo, depois de provar o primeiro sándwich-. Conheci-o esta manhã, ao baixar.

Coco começou a brincar com os colares dourados que adornavam seu pescoço.

 

-Espero que não haja dito nada ofensivo. É um pouco... brusco.

 

-Não -disse Megan, servindo dois copos de chá e lhe oferecendo um a Coco-. Solo me disse que tenho que comer mais porque estou muito magra. Pensei que me ia oferecer a omelete que estava fazendo, mas chegou um garçom e me escapei enquanto jogava a bronca ao pobre menino.

 

-Tem uma linguagem -disse Coco sentando-se e estirando a calça de seda- deplorável. E sempre me está contradizendo com as receitas. Considero-me uma mulher paciente e, se me permite dizê-lo, inteligente. Ambas as coisas me têm feito falta para criar a quatro meninas. Mas com esse homem não sei o que fazer.

 

-Suponho que poderia despedi-lo -disse Megan.

 

-Impossível. É como um pai para o Nathaniel, e os meninos estão encantados com ele, embora não posso compreender por que -disse Coco e sorriu-. E tenho que admitir que não lhe dão mal certos pratos singelos -disse mesándose os cabelos.

 

            Megan seguia pensando no que Coco lhe havia dito anteriormente.

 

-Suponho que o senhor Vão Home e Nathaniel se conhecem a muito tempo tempo.

 

-Faz mais de quinze anos. Estiveram juntos em todos os navios. Acredito que o senhor Vão Home tomou ao Nathaniel sob seu amparo. Isso é algo a seu favor, suponho. Deus sabe que o menino necessitava a alguém, depois de uma infância tão miserável.

 

-OH -exclamou Megan. Não gostava das intrigas, mas Coco necessitava pouco estímulo.

 

-Sua mãe morreu quando era muito pequeno, pobrecillo. Quanto a seu pai... -disse Coco com seriedade. Era pouco mais que uma besta. Eu o conheci muito pouco, mas no povo se falava muito dele. Nathaniel ia pescar com o Holt de vez em quando, e quando vinha por aqui, eu mesma podia ver seus cardeais.

 

-Pegava-lhe?

 

-Temo-me que sim.

 

-E ninguém fez nada para impedi-lo?

 

-Quando lhe perguntava, John Fury dizia que o menino se cansado ou que se brigou com outro menino. Nathaniel nunca lhe contradizia. É triste dizê-lo, mas naqueles tempos a gente não lhe dava tanta importância aos maus entendimentos. Ainda é assim, temo-me -disse Coco, derramando lágrimas, que se limpou com um guardanapo de papel-. Nathaniel partiu assim que teve idade. Seu pai morreu faz poucos anos. Nate mandou dinheiro para o enterro, mas não veio. Ninguém pode culpá-lo.

 

calou-se uns instantes e suspirou.

 

-Não queria te contar uma história tão triste, mas teve um final feliz. Nate se converteu em um bom homem. Quão único precisa é encontrar à mulher adequada. É muito bonito, não te parece?

 

-Sim -disse Megan com cautela. Seguia tratando de reconciliar ao menino maltratado com o homem seguro de si mesmo que conhecia.

 

-E também é honrado e romântico, com todas essas histórias que conta e esse ar de mistério. A mulher que fique com ele vai ter muita sorte.

 

Megan fez um gesto com os olhos. Tinha captado a mensagem.

 

-Não sei. Eu não o conheço tanto como você e tampouco penso nos homens nesse sentido.

 

-Tolices -disse Coco, que confiava cegamente em seus próprios julgamentos-. É jovem, bonita e inteligente. Um homem não vai acabar com essas qualidades, nem com sua independência. O homem apropriado sozinho as realça. E tenho a sensação de que muito em breve te dará conta disso, muito em breve. Agora... -disse dando ao Megan um beijo na bochecha-.., tenho que voltar para a cozinha antes de que esse homem faça algo horrível com meus canapés de salmão.

 

dirigiu-se à porta, mas, antes de sair, voltou-se.

 

-OH, querida, o que despistada sou. Vinha a te dizer um pouco do Kevin.

 

-Kevin? Não está jogando com o Alex e Jenny?

 

-Sim, mas não aqui -disse Coco sonriendo distraídamente, em um gesto que tinha praticado durante anos. É o dia livre do Nathaniel e se foi a comer. Que apetite tem, come como uma lima mas não engorda. Claro, que como sempre está ativo. Por isso tem esses músculos tão maravilhosos. Maravilhosos.

 

-Coco, onde está Kevin?

 

-OH, outra vez, que desorientação. Está com o Nate. Todos estão com ele.

 

Megan ficou de pé com um sobressalto.

 

-Com ele? Onde? No navio? -disse Megan, que imaginava perigosas tormentas a pesar do dia que fazia.

 

-Não, não, em sua casa. Está fazendo um navio ou algo e os meninos morriam por ir com ele. Faria-me um grande favor se for recolhê-los.

 

É obvio, pensava Megan, Coco pretendia que visse sua encantadora casa e o bem que se levava com os meninos.

 

-Suzanna não sabe que seus filhos não estão aqui, sabe? Mas não volta até as cinco, assim não há pressa.

 

-Mas...

 

-Sabe onde está a casa da Suzanna, verdade, carinho? a do Nathaniel está meio quilômetro mais à frente. É preciosa, não tem perda.

 

antes de que Megan pudesse protestar, Coco fechou a porta.

 

Bom trabalho, pensou Coco dirigindo-se para a cozinha.

 

 

Kevin não sabia qual gostava mais. A eleição era difícil entre o pequeno dragão que Nathaniel tinha tatuado por detrás do ombro esquerdo, ou a cicatriz que tinha por diante. A cicatriz era o resultado de uma ferida de faca, o que era algo fantástico, mas uma tatuagem, a tatuagem de um dragão, também era genial.

 

Nathaniel também tinha outra cicatriz, justo em cima da cintura, perto do quadril. Ante as insistentes pergunta do Alex, Nathaniel lhe disse que era pelo ataque de uma moréia que tinha sofrido ao sul do Pacífico.

 

Kevin se imaginou ao Nathaniel, armado unicamente com uma faca agarrada entre os dentes, lutando até a morte com uma criatura marinha tão grande como o monstro do Lago Ness.                   

 

Além disso, Nathaniel tinha um louro, de chamativas cores, que estava nada mais entra na casa, apoiado em um cabide de madeira, e que, de vez em quando, falava. A frase favorita do Kevin era: «Que lhe cortem a cabeça».

 

Para o Kevin, Nathaniel era o homem mais interessante que tinha conhecido nunca, um homem que tinha sulcado os sete mares, como Simbad, e com cicatrizes e histórias para prová-lo. E, além disso, gostava dos cães e tinha um pássaro que falava.

 

Kevin se aproximou dele enquanto Alex e Jenny jogavam no jardim com o cachorrinho, disparando-se raios laser com pistolas de brinquedo. Gostava mais estar ao lado do Nathaniel, observando como cravava umas pranchas.

 

-por que quer fazer uma terraço?

 

-Para poder me sentar a tomar o ar.

 

-Mas se já tem uma na parte de atrás.

 

-E ali penso deixá-la -respondeu Nathaniel, cravando outro prego.

 

Só levava umas calças jeans curtas e um lenço na cabeça. Brilhava-lhe a pele, bronzeada e perlada de suor-. Vê? Aqui vão as pranchas.

 

Kevin observou o marco sobre o que ficariam as pranchas, que rodeava o lateral da casa.

 

-Sim.

 

-Bom, pois terá que continuar até chegar à outro soalho.

 

Ao Kevin brilharam os olhos.

 

-Para que dê a volta à casa...

 

-Exato -disse Nathaniel, cravando outro prego-. Você gosta da ilha?

 

Nathaniel lhe perguntava igual a se fosse um adulto, de modo que Kevin olhou a seu redor para ver se, em vez da ele, dirigia-se a uma pessoa maior.

 

-Sim, eu gosto de muito. Eu gosto de viver no castelo e jogar com o Alex e Jenny.

 

-Também tinha amigos no Oklahoma, verdade?

 

-Claro. Meu melhor amigo é John Curtis Silverhorn. É meio comanche. Minha mãe diz que pode vir a nos visitar quando queira, e que podemos lhe escrever cartas. Eu já lhe tenho escrito e lhe contei o das baleias -disse Kevin, e sorriu com acanhamento-. É o que mais eu gosto.

 

-Já iremos ver as outro dia.

 

-De verdade? Quando?

 

Nathaniel deixou de martillear e olhou ao menino. Devia saber, depois de ver o Jenny e Alex, que quando os meninos crescem com amor, acreditam tudo o que lhes diz.

 

-Pode vir sempre que querer, sempre que sua mãe te deixe.

 

Sua recompensa a aquela oferta foi um brilhante sorriso.

 

-E poderei conduzir o navio outra vez?

 

-Claro -disse Nathaniel sonriendo e girou à boina de beisebol do menino-. Quer pôr algum prego?

 

-Sim!

 

-Toma -disse Nathaniel e se apartou para que o menino se ajoelhasse junto a ele-. Agarra assim o prego disse ajudando-o a guiar o martelo e a sustentar o prego.

 

-Né! -exclamou Alex, chegando do Planeta Zero-. Posso?

 

-Eu também -disse Jenny, pendurando-se das costas do Nathaniel.

 

-Suponho que já tenho equipe de trabalho -disse Nathaniel, calculando que aquela ajuda só lhe custaria o dobro de tempo do que pensava.

 

Uma hora mais tarde, Megan chegou ao lugar. A casa a surpreendeu. Era um encantado endoideci de dois novelo, com venezianas azuis e suportes de vasos cheios de flores nas janelas. A grama estava recém talhada e o cachorrinho brincava de correr de um lado a outro.

 

Mas o que mais a surpreendeu foi o próprio Nathaniel. ficou assombrada ao vê-lo meio nu. Tinha um corpo precioso e ela, depois de tudo, era humano. Mas o que mais a surpreendeu foi o que estava fazendo.

 

Estava inclinado sobre seu filho, em um soalho de madeira ao meio fazer. Tinha arranca-rabo a mão do Kevin e Jenny estava a seu lado, admirando o trabalho. Alex estava sobre uma tabela, mantendo o equilíbrio igual a se estivesse na corda frouxa.

 

-Olá, Megan! Olhe o que faço -disse-lhe este cruzando de um lado a outro da tabela.

 

-Muito bem -disse Megan.

 

-Estou na pista central, e sem rede.

 

-Mamãe, estamos fazendo um soalho -disse Kevin e, mordendo o lábio, cravou outra ponta-. Vê?

 

-Sim, muito bem -disse Megan, que teve que agachar-se para acariciar ao carinhoso cachorrinho, que lhe dava a bem-vinda.

 

-E logo vou eu -disse Jenny, olhando ao Nathaniel-. A que sim?

 

-claro que sim.

 

-Bom, capitão, adiante com esse prego.

 

Kevin, com uma careta de esforço, obteve que a ponta transpassasse a tabela.

 

-pus eu toda a tabela, mamãe -disse Kevin, olhando a sua mãe com orgulho-. Cada um fazemos uma tabela.           

 

-Vá, parece que estão fazendo um bom trabalho -disse Megan, olhando ao Nate-. E é difícil.

 

-Só faz falta emano firme e bom olho. Bom, moços, onde está a próxima tabela?                     

 

-Vamos! -disseram Alex e Kevin ao uníssono.            

 

Megan observou o processo. Nathaniel colocou a nova tabela em seu sítio, ajudando-se com um taco de madeira. Quando ficou satisfeito com a posição,         Jenny ficou diante dele.

 

Nate agarrou as mãos da menina e a ajudou com o martelo.

 

-Mantén o olho no branco -disse Nathaniel, enquanto com pequenos golpes introduzia o prego-. Tenho sede. Vós não, companheiros?

 

-Morro de sede -disse Alex ficando-as mãos no pescoço e pondo rouca a voz.

 

Nathaniel cravou a seguinte ponta.

 

-Há limonada na geladeira. Se alguém quer trazê-la

 

Quatro pares de olhos se voltaram para ela e Megan teve que ir pela limonada. Já que não ia trabalhar de carpintera, teria que fazer o de ajudante.     

 

-De acordo -disse e cruzou a parte terminada do soalho para ir à cozinha.          

 

Nathaniel não disse nada, limitou-se a esperar.         

 

Segundos depois, do interior da casa lhes chegou um uivo de lobo, seguido de um grito surdo. Nate sorriu, e ouviu a bem-vinda do louro: «Né, carinho, quer uma taça? Adiante, neném». Quando o louro ficou a entoar Não há nada como uma mulher, os meninos estalaram em gargalhadas.

 

Uns minutos depois, Megan saiu levando uma bandeja de bebidas. Deixou-a no soalho e olhou ao Nate.

 

-Bogart, canções e poesia. Miúdo pajarraco -disse.

 

-Gosta das mulheres bonitas -disse Nathaniel, bebendo meio copo de limonada de um gole-. Não o culpo.

 

-Tia Coco diz que Nate necessita uma mulher -disse Alex, limpando-a boca com o dorso da mão-. Não sei por que.

 

-Para dormir com ele -disse Jenny. Nathaniel e Megan ficaram de pedra-. Os majores se sentem muito solos de noite e têm que dormir com alguém. Igual a papai e mamãe. Eu tenho meu osito -disse-, assim não estou sozinha.

 

-Hora de descansar -disse Nate, contendo a risada com muita dificuldade-. Meninos, por que não levam a Cão a dar um passeio?

 

            A idéia encontrou geral aprovação e os meninos saíram correndo.           

 

-Como são os meninos -disse Nate-. Os majores se sentem sozinhos...

 

-Estou segura de que Jenny pode te emprestar seu osito -disse Megan apartando-se, como se queria estudar a casa-. É muito bonita, Nathaniel. É acolhedora.

 

-Esperava-te um desastre de casa, não? uma espécie de cabana.

 

Megan sorriu.

 

-Algo assim.

 

-Tenho que te dar as obrigado por passar o dia com o Kevin.

 

-Os três vão juntos a todas partes.

 

-Sim, é verdade.

 

-Eu gosto de sua companhia -disse Nate, sentando-se no soalho e cruzando as pernas-. O menino tem os mesmos olhos que você.

 

Megan deixou de sorrir.

 

-Não, os do Kevin são marrons -disse-, como os de seu pai.

 

-Não me refiro à cor, a não ser ao olhar. Quanto lhe contaste?

 

-Pois... -disse Megan, e adotou uma atitude defensiva-. Não vim a falar de minha vida contigo.

 

-E a que vieste?

 

-Pelos meninos e a revisar os livros contigo?

 

-Trouxeste-os? -disse Nate com um sorriso.

 

-Sim. examinei o primeiro trimestre. Seus gastos foram superiores aos ganhos, embora conseguiram efetivo com as reparações. Mas há uma fatura impagada pendente desde fevereiro disse Megan, e tirou de sua carteira, que tinha deixado junto ao soalho ao chegar, umas folhas cheias de cifras, impressas em ordenador-. Um tal senhor Jacques LaRue, mil e duzentos dólares.

 

-LaRue teve um ano terrível -disse Nathaniel, servindo-se mais limonada-. Holt e eu estivemos de acordo em lhe dar mais tempo.

 

-O negócio é seu, claro. O normal é pôr interesses a partir dos trinta dias da data de pagamento.

 

-O normal nesta ilha é manter um trato amistoso.

 

-Como querem -disse Megan, ajustando-as óculos-. Agora, como pode ver, ordenei os gastos em apartados distintos...

 

-Esse perfume é novo?

 

Megan o olhou.

 

-O que?

 

-Leva outro perfume, tem um pouco de jasmim. -Coco me deu de presente isso.

 

-Eu gosto -disse Nate, e se inclinou para diante-. Muito.

 

-Bom -disse Megan, esclarecendo-a garganta-. E aqui estão os ganhos. contabilizei os ganhos das entradas mensalmente. Dei-me conta de que os clientes do hotel têm desconto.

 

-Pareceu-nos justo e um bom negócio além disso. -Sim, é muito bom negócio. Oitenta por cento dos clientes do hotel fazem o passeio Y... Tem que te sentar tão perto?

 

-Sim. Jantamos juntos?

 

-Não.

 

-Tem medo de estar a sós comigo?

 

-Sim. Agora, como pode ver, em março seus ganhos começaram a subir...

 

-te traga para o menino.

 

-O que?

 

-Que venha Kevin. Levarei-lhes a um restaurante que conheço, a comer ostras -disse Nate-. Não posso dizer que alcancem o refinamento da comida de Coco, mas o sítio é muito pitoresco.

 

-Já veremos.

 

-Estraguem. Já vejo, é uma mãe autoritária.

 

Megan suspirou e se encolheu de ombros.

 

-De acordo. Ao Kevin adoraria.

 

-Bem -disse Nate, e se dispôs a cravar outra ponta-. Esta noite, então.

 

-Esta noite?

 

-por que esperar? Chama a Suzanna e lhe diga que lhe levamos aos meninos.

 

-Bom, por que não -disse Megan.

 

Nate lhe dava as costas e quão único ela podia fazer era fixar-se na tensão de seus músculos enquanto cravava a ponta. Ignorou seus temores e recordou que seu filho atuaria de carabina.

 

-Nunca comi ostras -disse.

 

-Pois chegou o momento.

 

 

Só o pitoresco caminho, cheio de curvas, merecia a pena a viagem. Cruzaram pueblecitos preciosos, enquanto o sol se ocultava e a brisa lhes agitava o cabelo. Cheirava a pescado, a flores e a mar.

 

O restaurante não era mais que um caramanchão de madeira desgastada pela umidade apoiado em pilote sobre o mar. A decoração consistia em conchas e redes de pesca.

 

Sobre as pequenas e rústicas mesas de madeira havia velas, postas sobre pequenas latas. O menu do dia estava escrito em uma piçarra que pendurava junto à porta da cozinha.

 

-De comer sozinho temos ostras -dizia-lhes a garçonete a uma atemorizada família-. De beber há cerveja, leite, chá gelado e refrescos. Há batatas fritas e salada de couve como acompanhamento, mas não temos gelado porque a máquina se danificou. O que vão tomar?

 

Ao ver o Nathaniel, a garçonete abandonou a seus clientes e se aproximou dele, saudando-o com um murro no peito.

 

-Onde te coloca, capitão?

 

-por aí, Julie. Mas hoje gostava de comer ostras.

 

-Pois este é o sítio adequado -disse a garçonete, corpulenta, de média idade e de pele curtida, e olhou ao Megan-. Encantada.

 

-Megan Ou'Riley e seu filho Kevin. Esta é Julie Peterson. Tem as melhores ostras da ilha do Mount Desert.

 

-A nova contável de Las Torres -disse Julie assentindo-. Bom, sentem-se. Agora mesmo lhes preparo o jantar -disse, e voltou com os outros clientes-. Já se decidiram ou só vão se sentar a tomar o ar?

 

-A comida é melhor que o serviço -disse Nathaniel-. Acaba de conhecer um dos monumentos da ilha, Kevin. A família da senhora Peterson leva uns cem anos pescando e cozinhando ostras.

 

-Uauh -exclamou Kevin olhando à garçonete, quem, aos olhos de um menino de nove anos, tinha idade suficiente para ter levado aquele negócio pessoalmente durante ao menos cem anos.

 

-Quando era pequeno, eu trabalhei aqui, limpando.

 

-Eu acreditava que tinha trabalhado para a família do Holt... -disse Megan, logo se amaldiçoou por falar muito-. Há-me isso dito Coco.

 

-Passei algum tempo com os Bradford.

 

-Conheceu bisavô do Holt? -disse Kevin-. É um dos fantasmas.

 

-Seguro. Estava acostumado a sentar-se no alpendre da casa onde Alex e Jenny vivem agora. Algumas vezes ia passeando até os escarpados. Procurando a Bianca.

 

-Lilah diz que agora também seguem passeando, mas eu não os vi -disse Kevin com decepção-. Você viu algum fantasma alguma vez?

 

-mais de uno-dijo Nathaniel, ignorando o pisão que Megan lhe deu por debaixo da mesa-. No Cornualles, entre os escarpados, onde a névoa se retorce como se estivesse viva, vi uma mulher de pé, olhando por volta do mar. Levava uma capa e chorava.

 

Kevin estava inclinado sobre a mesa, curioso e cativado.

 

-Aproximei-me dela, através da névoa, e ela se deu a volta. Era muito bonita e muito triste. «Perdido», disse-me. «O está perdido e eu também». Logo desapareceu, como a fumaça.

 

-De verdade? -perguntou Kevin.

 

-Chamavam-na a mulher do capitão, e a lenda diz que seu marido se afundou com seu navio no mar da Irlanda. Noite detrás noite, enquanto viveu, e muito tempo depois, aproximava-se dos escarpados e chorava por ele.

 

-Deveria escrever, como Max -murmurou Megan, surpreendida e molesta por sentir calafrios.

 

-OH, inventa cada história -interveio Julie, lhes servindo duas cervejas e um refresco-. Dava-me a lata me falando das viagens que ia fazer e dos sítios que ia conhecer. Bom, suponho que já os viu, não, capitão?

 

-Suponho que sim -disse Nathaniel, dando um gole de cerveja-. Mas nunca me esqueci que ti, carinho.

 

Julie se pôs-se a rir e deu ao Nate um murro no ombro.

 

-É um donjuán -disse e se foi.

 

Megan ficou olhando sua jarra de cerveja.

 

-Não nos perguntou o que queremos.

 

-Trará-nos o que ela queira. Porque lhe caio bem. Mas se não querer cerveja, posso lhe dizer que te traga outra coisa.

 

-Não, está bem. Suponho que conhece muita gente da ilha.

 

-A alguma, faz muito tempo que fui.

 

-Nate deu a volta ao mundo. Duas vezes -disse Kevin, bebendo seu refresco com uma pajita-. cruzou furacões e tufões e tudo.

 

-Tem que ter sido emocionante.

 

-Às vezes.

 

-O sente falta de?

 

            -naveguei no navio de outro durante quinze anos, agora tenho meu próprio navio. As coisas trocam -disse Nathaniel, apoiando o braço no respaldo da cadeira do lado-. Me alegro de que tenham vindo a viver aqui.

 

-Nós gostamos -disse Kevin-. O chefe de mamãe no Oklahoma era um idiota.

 

-Kevin.

 

-Dizia-o o avô. E não lhe caía bem.

 

Megan sorriu.

 

-O avô exagerava -disse-. Mas sim, nós gostamos de estar aqui.

 

-Tomem -disse Julie lhes servindo o jantar, e deixou três enormes pratos sobre a mesa cheios de ostras e um de batatas fritas.

 

-A esta garota faz falta comer -disse Julie-. E ao menino também. Não sabia que você gostasse de magras, capitão.

 

-Eu gosto de qualquer modo sempre que puder as conseguir -disse Nathaniel.

 

Julie voltou a rir a gargalhadas.

 

-Não vamos poder comer tanto -disse Megan.

 

Nathaniel já tinha começado.

 

-claro que sim. Então, ainda não começaste com o livro do Fergus?

 

-Não -disse Megan e deu o primeiro bocado. A pesar do lugar, a comida era deliciosa-. Antes quero conhecer a situação atual. Como a contabilidade das excursões era o que pior estava, comecei com ela. Mas fica o segundo trimestre e a contabilidade do hotel.

 

-Sua mãe é uma mulher muito prática, Kevin.

 

-Já sei. O avô diz que tem que sair mais.

 

-Kevin.

 

Nathaniel sorriu.

 

-De verdade? -disse-. Que mais diz seu avô?

 

-Que tem que viver um pouco -disse Kevin, atacando as batatas fritas com a determinação de um menino, que é muito jovem e não pode encerrar-se como uma monja.

 

-Seu avô é muito preparado.

 

-OH, sim. Sabe tudo. Tem azeite no sangue e pássaros na cabeça.

 

-É o que diz minha mãe -disse Megan-. Ela também sabe tudo. Mas me estava perguntando pelo livro do Fergus.

 

-Perguntava-me se também despertou sua curiosidade.

 

-Pois sim. pensei em lhe dedicar uma hora cada noite para estudá-lo.

 

-Não acredito que quando seu pai diz que tem que viver um pouco se refira a isso.

 

-Mas -disse Megan voltando para tema mais seguro do livro do Fergus-, algumas páginas estão em mal estado, mas, além de alguns enganos, as contas são exatas e detalhadas. Exceto nas duas últimas páginas, que solo têm cifras sem lógica.

 

-Não quadram?

 

-Parece que não, mas tenho que comprová-lo com detalhe.

 

-Algumas vezes te perde mais por olhar muito ao detalhe -disse Nathaniel, e piscou os olhos um olho a Julie quando esta trouxe outra ronda de bebidas-. Não me importaria lhe jogar uma olhada.

 

Megan franziu o cenho.

 

-por que?

 

-Por que eu gosto dos quebra-cabeças.

 

-Não acredito que seja um quebra-cabeças, mas se à família não importa, não tenho nenhuma objeção -disse Megan-. Bom, sinto muito, mas já não posso comer mais.

 

-Não importa -disse Nathaniel, trocando seu prato vazio com o do Megan-. Eu sim.

 

 

Para surpresa do Megan, assim foi. Não era uma surpresa que Kevin deixasse o prato limpo, estava crescendo e precisava comer, mas Nathaniel comeu prato e médio sem pestanejar.

 

-Sempre comeste assim? -perguntou-lhe Megan uma vez no carro.

 

-Não. Embora sempre quis. Quando era menino nunca me sentia cheio -provavelmente porque não havia bastante comida-. No mar, aprende a comer algo, e em grandes quantidades.

 

-Teria que pesar cem quilogramas.

 

-Alguma gente queima o que come -disse Nate, olhando ao Megan aos olhos-. Como você. Toda essa energia nervosa consome suas calorias.

 

-Não estou tão magra.

 

-Não, mas é o que eu pensava até que te abracei. É muito suave quando te aperta contra um homem.

 

Megan lhe indicou que se calasse e olhou para o assento traseiro.

 

-dormiu-se assim que arrancamos -disse Nathaniel. Efetivamente, Kevin estava jogado no assento, com a cabeça apoiada nos braços e dormindo-. Embora não sei que dano pode lhe fazer saber que um homem se interessa por sua mãe.

 

-É um menino -disse Megan-. Não quero que pense que sou...

 

-Humana?

 

-Não é teu assunto. É meu filho.

 

-Sim, e o educaste muito bem -disse Nathaniel.

 

Megan o olhou com cautela.

 

-Obrigado.

 

-Não me dê isso. É um fato. É difícil educar a um menino, e mais se estiver sozinha. Você o tem feito muito bem.

 

Era impossível zangar-se com ele, sobre tudo recordando o que Coco lhe tinha contado dele.

 

-Perdeu a sua mãe quando foi pequeno... Há-me isso dito Coco.

 

-Vejo que Coco há dito muitas coisas.

 

-Não pretendia fazer nada mau, já sabe como é, preocupa-se muito pela gente e quer vê-los...

 

-Alinhados de dois em dois? Sim, conheço-a. Trouxe-te aqui para mim.

 

-Que há... Isso é ridículo?

 

-Sim, quase tem umas datas previstas.

 

-É uma sorte que esteja avisado -disse Megan com indignação.

 

-Pois sim. Leva meses cantando seus louvores. E a verdade é que quase supera sua própria publicidade.

 

Megan o olhou e lhe fez um gesto de que se calasse. Seu sorriso, e a situação, transformaram sua indignação em alegria.

 

-Obrigado -disse, estirando as pernas, decidida a relaxar-se-. Odiaria te decepcionar. Hão-me dito que é misterioso, romântico e encantador.

 

 

-Quase supera sua própria publicidade -disse Megan.

 

-Neném... -replicou Nate, tomando sua mão e beijando-a-, posso ser muito melhor.

 

-Seguro que pode -disse Megan apartando a mão, querendo evitar o estremecimento que o beijo lhe causou-. Se não me caísse tão bem, estaria molesta, mas é tão amável.

 

-Tem um grande coração. Quando era pequeno, pensava que eu gostaria que fora minha mãe.

 

antes de poder resisti-lo, Megan lhe acariciou uma mão.

 

-Tem que ter sido muito duro perder a sua mãe sendo menino.

 

 

-Não importa, foi faz muito tempo -disse Nate, e fez uma pausa-. Lembro-me de quando via coco no povo, ou em Las Torres, era uma mulher esplêndida, parecia uma rainha, e nunca se sabia de que cor ia ter o cabelo à semana seguinte.

 

-Hoje o deixa castanho -disse Megan. Nate se não.

 

-A primeira mulher da que me apaixonei. Veio a casa um par de vezes, a lhe ler a cartilha a meu pai porque bebia muito. Suponho que pensava que se estivesse sóbrio não me pegaria -disse Nate, e olhou ao Megan aos olhos-. Suponho que também lhe há isso dito.

 

-Sim -disse Megan, e apartou o olhar-. Sinto muito, Nathaniel. Ódio que a gente fale de mim, por muito boas intenções que tenha. Parece-me algo muito íntimo.

 

-Eu não sou tão sensível. Todo mundo sabe como era meu pai -disse Nate, que recordava muito bem os olhares de compaixão, os comentários-. Então me incomodava, mas já não.

 

-As visitas de Coco... serviram de algo?

 

Nate guardou silêncio uns instantes, com a vista fixa na estrada.

 

-Meu pai lhe tinha medo, assim, quando se ia, pegava-me mais forte que nunca.

 

-meu deus.

 

-Mas não quero que saiba.

 

-Não -disse Megan, tragando saliva-, não lhe direi nada. Por isso foi, verdade? Para escapar dele.

 

-Era uma das razões -disse Nate e olhou ao Megan-. Se tivesse sabido que te comoveria tanto que me dessem uma torta de vez em quando, haveria-lhe isso dito antes.

 

-Não é para rir -disse Megan com raiva-. Não há desculpa para tratar assim a um menino.

 

-Né, que já o superei.

 

Megan ficou olhando.

 

-deixaste que odiá-lo?

 

-Não -disse Nate-. Mas deixei que lhe dar importância, e acredito que é o melhor.

 

Ao cabo de um momento, chegaram às Torres. Nate deteve o carro.

 

-Se alguém te fizer muito dano, um dano permanente, a melhor vingança é que te importe o menos possível.

 

Megan o olhou.

 

-Está falando do pai do Kevin, e não é o mesmo. Eu não era um menino indefeso.

 

-Depende de onde risque a linha -disse Nathaniel, e se desceu do carro-. Eu levarei ao Kevin.

 

-Não tem por que -disse Megan apressando-se a levar a seu filho, mas Nate o sustentava já em seus braços.

 

Permaneceram ali de pé uns momentos, nas últimas luzes do dia, com o menino, que apoiava a cabeça no ombro do Nathaniel, entre eles. Megan acariciou a seu filho.

 

-foi um dia muito comprido para ele.

 

-E para ti, Meg. Tem olheiras. Como certamente isso significa que ontem à noite dormiu tão pouco como eu, me alegro das ver.

 

Era duro, pensou Megan, muito duro, manter-se firme frente a quão corrente a empurrava para ele.

 

-Não estou preparada, Nathaniel.

 

-Algumas vezes se levanta um vento e nos leva. Não está preparado, mas, se tiver sorte, acaba por te deixar em um sítio muito melhor de que estava.

 

-Eu não gosto de depender da sorte.

 

-Não importa, a mim sim -disse Nate, e levou a menino para a casa.

 

 

-Não sei por que terá que armar tanto animação -resmungou O Holandês, preparando uma nata para seu bolo especial surpresa.

 

-Trenton St. James II é membro da família.

 

Coco estava muito agitada desde que aquela manhã ficasse a nata de pepinos, o que lhe fez atrasar todo seu horário.

 

-E presidente dos hotéis St. James -disse comprovando a temperatura do guisado de cordeiro-. E é a primeira vez que vem às Torres. É importante que tudo saia bem.

 

-Sim, um rico bastardo a ver os escravos que lhe estão fazendo mais rico.

 

-Senhor Vão Home! -exclamou Coco, que depois de seis meses, sabia que não devia surpreender-se pelo que dissesse aquele homem, mas...-. Conheço senhor St. James desde... bom, faz muitos anos. Pode lhe assegurar que é um homem de negócios com muito êxito e um grande trabalhador, não um explorador.

 

O Holandês deu um bufido e olhou a Coco. A verdade era que se pôs muito bonita. Levava um vestido de seda cinza brilhante e delicado, que deixava ao descoberto grande parte de suas pernas, que não estavam nada mal. Tinha as bochechas rosadas, mas não era pelo calor da cozinha.

 

-O que acontece? É seu noivo?

 

O rosa das bochechas se converteu em vermelho vivo.

 

-É obvio que não. Uma mulher de mi... experiência não tem noivos -disse Coco, e se olhou de esguelha na porta de vidro de um dos fornos-. Admiradores, possivelmente.

 

Admiradores! Ja!

 

-Hão-me dito que esteve casado quatro vezes e paga a suas ex-mulheres bastante dinheiro para equilibrar a dívida nacional. Quer ser a quinta?

 

Coco se levou a mão ao coração, não sabia o que dizer.

 

-É você... impossível, grosseiro.

 

-Né, que não me importa que queira pescar um peixe gordo.

 

Coco proferiu uma exclamação. Embora tinha temperamento, era, depois de tudo, uma mulher educada, mas não pôde evitar equilibrar-se sobre aquele homem com a intenção de lhe cravar as unhas.

 

-Não penso tolerar seus insultos!

 

-Não? E o que vai fazer a respeito?

 

Coco ficou nas pontas dos pés, até que ficaram nariz com nariz.

 

-Despedirei-o.

 

-Rompe-me o coração. Adiante, preciosa, deme a patada e a ver como se as acerta com o jantar de esta noite.

 

-Asseguro-lhe que sairemos adiante -disse Coco, o coração lhe palpitava com tanta força que pensava que ia saltar lhe do peito.

 

-E um corno -disse O Holandês. Odiava o perfume de Coco, porque se o fazia a boca água-. Quando cheguei aqui, quão único sabiam era ferver a água.

 

Coco não podia respirar.

 

-Esta cozinha não o necessita, senhor Vão Home. E eu tampouco. -Você sim me necessita e muito.            

 

Como tinha chegado a lhe pôr as mãos sobre os ombros? por que sentia seus seios apertando-se contra seu peito? Ao inferno contudo, terei que lhe dar seu castigo de uma vez por todas.

 

            Coco pôs os olhos como pratos quando O Holandês a beijou, de forma arrebatadora. Todo seu mundo, tão seguro, tremeu sob seus pés. Por isso, é obvio, solo por isso, jogou os braços ao pescoço.            

 

Daria-lhe uma bofetada, sem duvidá-lo.           

 

Mas logo.                             

 

Malditas mulheres, pensou O Holandês. Malditas fossem todas as mulheres. Sobre tudo as altas, cheias de curvas e com lábios que sabiam A... a cerejas. Sempre tinha tido debilidade pelas cerejas.

 

Separou-a de si, mas seguiu agarrando seus ombros.

 

-vamos deixar algo claro...

 

-Como se atreve A... -disse Coco ao mesmo tempo.

 

Os dois se separaram como meninos culpados quando a porta da cozinha se abriu.

 

Megan ficou de pedra, boquiaberta, na soleira. Não podia ter visto o que tinha visto. Coco estava comprovando o guisado e O Holandês fazendo uma nata. Não podiam estar... abraçados. Mas aos dois lhes tinham subido as cores.

 

-Perdão -disse-. Sinto...

 

-OH, Megan, querida -disse Coco, aturdida e retocando o penteado. Estava tremendo, de vergonha, disse-se-. O que posso fazer por ti?

 

-Só queria comprovar os gastos da cozinha contigo -disse Megan, que não deixava de olhar ao Holandês e a Coco. A tensão era tão forte que o ar se podia cortar com uma faca-. Mas se está ocupada, podemos fazê-lo depois.

 

-Tolices -disse Coco, limpando o suor das mãos no avental-. Solo um pouco frenéticos preparando a chegada do Trenton.

 

-Trenton? OH, tinha-me esquecido. Chega o pai do Trent -disse Megan, e começou a retroceder-. Então não é necessário que...

 

-Não, não -«OH, Deus», pensou Coco, «não me deixe»-. É a ocasião perfeita. Aqui tudo está sob controle. Vamos a seu escritório se quiser -disse tomando ao Megan do braço-. O senhor Vão Home pode ocupar-se de tudo.

 

Saíram ao corredor. Coco se agarrava ao Megan como a um salva-vidas em meio de uma tormenta.

 

-Detalhes, detalhe -dizia-. quanto mais te ocupa deles, mais aparecem.

 

-Coco, está bem?

 

-OH, é obvio -disse Coco, mas sustentou uma mão sobre seu coração-. Solo tive um pequeno contratempo com o senhor Vão Home, mas não passa nada. Como vão suas contas, querida? Espero que encontre tempo para te ocupar do livro do Fergus.

 

-Pois já hei...

 

-Não queremos que trabalhe muito -disse Coco. Dava-lhe voltas a cabeça, de modo que não escutava uma palavra do que lhe dizia Megan-. Queremos que te encontre a gosto nesta casa, que desfrute, que descanse. depois do agitado que foi o ano passado, todos queremos nos tranqüilizar e descansar. Não acredito que possamos suportar mais crise...

 

-Que não tenho reserva? É um escândalo!

 

Coco se deteve em seco, e o rosa de suas bochechas se transformou em branco ao escutar aquela voz irada.

 

-meu deus, não, não pode ser.

 

-Coco? -disse Megan apertando o braço de seu amiga. Estava tremendo, e se perguntou se poderia sustentá-la se se deprimia.

 

-Jovencito -disse a mesma voz, cada vez mais alto-. Sabe quem sou eu?

 

-A tia Colleen -sussurrou Coco, suspirou profundamente e se encaminhou, armada de valor, ao vestíbulo.

 

-Tia Colleen! -disse com um tom completamente distinto-. Que surpresa!

 

-Não me diga que te alegra de lombriga -disse Colleen, aceitando o beijo de sua sobrinha. Era uma anciã alta, magra e formidável. Levava um vestido de seda de cor crua e um colar de pérolas tão brancas como seus cabelos-. Já vejo que enchestes isto de estranhos. Teria sido melhor queimá-lo. lhe diga a este insolente que subida minhas malas.

 

-Claro -disse Coco, chamando um botões-. Na asa da família, segundo andar, primeira habitação à direita.

 

-E não lhe dê nenhum golpe às malas, jovem -disse Colleen, dando uns golpes no chão com sua fortificação dourado-. Quem é esta? -perguntou, refiriéndose ao Megan.

 

-lembra-se do Megan, tia Colleen, a irmã do Sloan? Conheceu-a nas bodas da Amanda.

 

-Sim, sim -disse a tia Colleen sem deixar de olhar ao Megan-. Tem um filho, não?

 

Em realidade, sabia tudo o que fazia falta saber respeito ao Kevin.

 

-Sim. Me alegro de vê-la, senhora Calhoun.

 

-Pois deve ser a única -disse a tia Colleen, e ignorando às duas, aproximou-se do retrato da Bianca e estudou as esmeraldas que brilhavam na urna. Suspirou, mas tão silenciosamente que ninguém a ouviu.

 

-Necessito um conhaque, Cordelia, antes de ver o que têm feito com este sítio.

 

-Claro. Agora mesmo vamos à asa da família. Megan, por favor, te una a nós.

 

Era impossível negar-se. Coco o suplicava com o olhar.

 

 

Momentos depois chegaram ao salão da família. Naquele lugar, o papel das paredes estava descolorido, quebrado em alguns sítios. Havia marcas no chão, em frente da chaminé, nos lugares onde tinha saltado alguma faísca.

 

-Vejo que aqui nada trocou -disse Colleen, sentada em uma cadeira como uma rainha.

 

-Concentramo-nos no hotel -disse Coco, servindo o conhaque. Estava nervosa e falava atropeladamente-. Agora que está terminado, começamos com a reforma da casa. tiramos duas habitações e construído uma habitação de jogos.

 

-Mmm.

 

A tia Colleen tinha ido, especificamente, a ver os meninos e, solo de modo acessório, a voltar louca a Coco.

 

-Onde estão todos? vim a ver minha família e só me encontro com estranhos.

 

-Já chegarão. Esta noite temos um jantar familiar, tia Colleen -disse Coco, esforçando-se por manter seu brilhante sorriso-. O pai do Trent veio para ficar conosco uns dias.

 

-É um playboy -resmungou tia Colleen-. Você -disse assinalando ao Megan-, é contável, não?

 

-Sim.

 

-Megan é uma maga com os números -disse Coco-. Alegramo-nos muito de que esteja aqui. E de que esteja Kevin, é obvio. É um menino encantador.

 

-Estou falando com a garota, Cordelia. Vete à cozinha a fazer suas coisas.

 

-Mas...

 

-Vete, vete.

 

Coco, dirigindo ao Megan um olhar de desculpa, partiu.

 

-O menino vai fazer nove anos, verdade?

 

-Sim, dentro de dois meses -disse Megan, preparando-se para algum comentário ácido sobre sua ascendência.

 

Colleen assentiu, dando golpecitos com os dedos nos braços da cadeira.

 

-leva-se muito bem com os meninos da Suzanna, verdade?

 

-Muito bem, não se separaram desde que chegamos -disse Megan, fazendo esforços por não gritar-. foi maravilhoso para ele, e para mim.

 

-Dumont te incomodou?

 

Megan piscou.

 

-Perdão?

 

-Não te faça a parva. Perguntei-te se esse descarado te incomodou.

 

Megan ficou rígida como um pau.

 

-Não. Não o vi nem ouvi falar dele desde que nasceu Kevin.

 

-Já ouvirá falar dele -disse Colleen, franzindo o cenho e inclinando-se para diante-. esteve fazendo perguntas.

 

Megan apertou a taça de conhaque.

 

-Como sabe?

 

-Porque aguço o ouvido quando se trata da família -disse Colleen, esperando alguma reação, que não se produziu-. Vieste-te a viver aqui, verdade? Seu filho foi aceito igual a se fosse irmão do Alex ou Jenny, ou do Christian.

 

Megan tinha um nó no estômago.

 

-Isso não tem nada que ver com ele.

 

-Não seja tola. Um homem como Dumont pensa que o mundo se move a seu redor. Está metido em política, filha, e em vista de como anda esse circo, umas palavras bem escolhidas por ti frente à imprensa... -disse Colleen com um sorriso-. Bom, seu caminho a Washington se converteria em uma costa muito levantada.

 

-Não tenho intenção de ir à imprensa, nem de expor ao Kevin à atenção pública.

 

-Uma decisão muito sábia -disse Colleen, dando outro gole de conhaque-. É uma pena, mas é uma decisão muito sábia. Se tentar algo, diga-me isso Eu gostaria de lombriga as com ele outra vez.

 

-me posso arrumar isso por mim mesma.

 

-Talvez -disse Colleen.

 

 

-E por que tenho que me pôr gravata? -disse Kevin, enquanto Megan tratava de lhe fazer o nó. Estava geada desde sua conversação com tia Colleen.

 

-Porque é um jantar especial e tem que estar muito bonito.

 

-As gravatas são uma tolice. Seguro que Alex não tem que ficar a

 

-Não sei o que vai ficar Alex -disse Megan, a quem lhe esgotava a paciência-, mas você tem que fazer o que te digo.

 

-Preferiria comer uma pizza.

 

-Pois não há pizza. Maldita seja, Kevin, estate quieto!

 

-Faz-me mal.

 

-Se não te movesse... -disse Megan e se tirou o cabelo da cara de um sopro-. Já está, está muito bonito.

 

-Pareço um menino tolo.

 

-Muito bem, parece um parvo. Agora te ponha os sapatos.

 

Kevin franziu o cenho.

 

-Eu não gosto destes sapatos. Quero levar minhas botas.

 

Megan, exasperada, ficou em cuclillas e olhou a seu filho aos olhos.

 

-Jovencito, vais pôr te esses sapatos e não me vais levantar a voz, ouviste-me?

 

Megan saiu da habitação do Kevin e se dirigiu à sua, que estava em frente. Tirou a escova de uma gaveta e começou a pentear-se. Tampouco ela queria baixar à maldito jantar. A aspirina que se tomou uma hora antes para acalmar a dor de cabeça não lhe tinha feito efeito. Mas tinha que exibir seu melhor sorriso e baixar para jantar, fingir que não estava preocupada com o que pudesse fazer Baxter Dumont.

 

Mas, talvez, Colleen estava equivocada, pensou. depois de tudo, tinham passado quase dez anos. por que ia Baxter a incomodá-la depois de tanto tempo?

 

Porque queria chegar a senador dos Estados Unidos. Fechou os olhos. Tinha-o lido no periódico. Baxter tinha começado sua campanha para o cargo e um filho ilegítimo, embora nunca reconhecido, não encaixava com a idéia de homem honesto que queria dar ao eleitorado.

 

-Mamãe.

 

Viu o reflexo do Kevin no espelho. pôs-se os sapatos e tinha a cabeça agachada. Megan se sentiu culpado.

 

-me diga.

 

-por que está zangada?

 

-Não estou zangada -disse Megan, e se sentou ao bordo da cama-. Solo me dói um pouco a cabeça. Ouça, está muito bonito -disse, lhe dando um beijo na frente-. vamos baixar. Seguro que Alex e Jenny chegaram já.

 

 

Efetivamente, tinham chegado. Alex estava tão aborrecido com sua gravata como Kevin com a sua. Mas a excitação era muito grande como para que aquela preocupação lhes durasse muito. Havia canapés que comer, meninos com os que jogar e aventuras que planejar.

 

Todo mundo, naturalmente, estava falando de uma vez.

 

O ruído da habitação era muito molesto para o Megan. Aceitou a taça de champanha que Trenton II lhe ofereceu e fez quanto pôde para fingir interesse ante seu intento de flerte. Era alto e muito arrumado, estava moreno e era encantador. E Megan se alegrou imensamente de que dedicasse suas cuidados a Coco.

 

-Fazem um bonito casal, verdade? -murmurou-lhe Nate ao ouvido.

 

-Fantástica -disse Megan, mastigando uma parte de queijo.

 

-Parece-me que não lhe está acontecendo isso muito bem.

 

-Não, estou bem -disse Megan, e trocou de tema-. Pode que esteja interessado em algo que acredito ter visto esta tarde.

 

-O que? -perguntou Nate.

 

Megan o conduziu a terraço.

 

-Coco e O Holandês.

 

-Outra vez discutindo? atiraram-se as caçarolas?

 

-Não exatamente -disse Megan respirando profundamente, com a esperança de que servisse para limpá-la um pouco. Estavam... pelo menos isso é o que me pareceu...

 

Nathaniel fez uma careta de assombro. Compreendia sem necessidade de mais palavras.

 

-É uma brincadeira.

 

-Não. Estavam nariz com nariz, o um em braços do outro -disse Megan, e sorriu-. Ante minha inesperada e inoportuna entrada, separaram-se como se estivessem planejando um assassinato. E os dois ficaram vermelhos como um tomate. Os dois.

 

-O Holandês vermelho como um tomate? -disse Nathaniel, tornando-se a rir-. Santo Deus.

 

-me parece muito tenro.

 

Nathaniel olhou ao interior. Viu coco rendo-se por algo que lhe dizia Trenton.

 

-Está fora de seu alcance. Romperá-lhe o coração.

 

-Que tolice -disse Megan, que seguia sem relaxar-se-. No amor não contam as diferenças sociais.

 

-O Holandês e Coco -disse Nate, pensativo. Eram duas das poucas pessoas no mundo a quem queria-. Está segura, neném?

 

-Não quero dizer nada -disse Megan-, exceto se sentem atraídos. E deixa de me chamar neném.

 

-Bom, bom -disse Nate, e olhou ao Megan-. O que te ocorre?

 

Megan tinha a mão na têmpora, e a esfregava.

 

-Nada.

 

Nate, agarrou-a pelos cotovelos e a pôs frente a sim, olhando-a aos olhos.

 

-Dor de cabeça, né? Dói-te muito?

 

-Não, é... Sim.

 

-Está muito tensa -disse Nate, e começou a lhe dar uma massagem nos ombros-. Duros como pedras.

 

-Não me...

 

-É puramente terapêutico -disse Nate, prosseguindo com a massagem-. Se obtivermos algum prazer disso, será puramente casual. Sempre tiveste dores de cabeça?

 

Os dedos do Nate eram fortes, masculinos, mágicos. Era impossível não relaxar-se.

 

-Não, não é normal.

 

-Muito estresse -disse Nate e lhe acariciou as têmporas com os polegares. Megan fechou os olhos com prazer-. Reprime-te muito, Meg, e seu corpo o paga. Date a volta, deixa que te faça uma massagem nos ombros.

 

-Não... -disse Megan, mas se interrompeu ao sentir os dedos do Nate.

 

-Tranqüila. Faz uma noite preciosa, verdade? Lua enche, luzem lis estrela. Alguma vez foste dar um passeio pelos escarpados à luz da lua?

 

-Não.

 

-Há flores silvestres que nascem nas gretas das rochas e se ouça romper as ondas contra os escarpados. É fácil imaginar aos fantasmas que tanto gostam ao Kevin. Alguma gente pensa que é um lugar solitário, mas não o é.

 

Sua voz e suas mãos eram muito sedutoras. Megan desejava acreditar que não havia nada que temer.

 

-Suzanna tem um quadro dos escarpados à luz da lua -disse Megan, tratando de concentrar-se na conversação.

 

-É do Christian Bradford, gostava de muito esse lugar. Mas não há nada como vê-lo em vivo. Podemos ir jantar.

 

-Não é esta a ocasião para tontear com a garota.

 

Era Colleen. Sua voz cortou o ar da tarde.

 

Embora Megan voltou a ficar tensa, Nate deixou as mãos onde estavam e sorriu.

 

-me parece uma ocasião perfeita, senhora Calhoun.

 

-Ja! Que descarado -disse Colleen, nada gostava mais que um arrumado descarado-. Sempre foi, lembro-me de quando brincava de correr pelo povo. Parece que o mar te converteu em um homem. Deixa de lhe dar larga, filha, não vai permitir que te escape. Se tiver sorte.

 

Nathaniel beijou ao Megan no cocuruto.

 

-É um pouco tímida.

 

-Bom, terá que superá-lo. Acredito que Cordelia vai dar o jantar. Quero que sente a meu lado, para falar de navios.

 

-Será um prazer.

 

-E lhe traga isso vivi em cruzeiros a metade de minha vida -disse Colleen-. Arrumado a que vi mais mar que você, moço.

 

-Não o duvido -disse Nathaniel, levando ao Megan pelos ombros e oferecendo o braço ao Colleen-. Com uma larga lista de corações quebrados em sua esteira.

 

Colleen riu.

 

-E que o diga.

 

O comilão estava cheio com os aromas da comida, as flores e a cera das velas. Uma vez que estiveram todos sentados, Trenton II se levantou para brindar.

 

-Eu gostaria de fazer um brinde -disse com uma voz tão elegante como seu traje de etiqueta-. Pela Cordelia, uma mulher de qualidades extraordinárias.

 

Chocaram as taças. De uma posição escondida, O Holandês grunhiu, deu meia volta e voltou para a cozinha.

 

-Trent -sussurrou-lhe C. C. a seu marido-. Sabe que te quero.

 

Trent sabia o que ia a seguir.

 

-Sim, sei.

 

-E adoro a seu pai.

 

-Mmm...

 

-Mas se puser os olhos em tia Coco, o vou matar.

 

-Já sei -disse Trent sonriendo, e começou a comer.

 

Ao outro extremo da mesa, ignorando aquela ameaça, Trent se dirigiu ao Colleen.

 

-O que lhe parece o hotel, senhora Calhoun?

 

-Eu não gosto dos hotéis, nunca os uso.

 

-Tia Colleen -disse Coco-, os hotéis St. James são famosos por seu luxo e bom gosto.

 

-Não posso suportá-los -disse Colleen tranqüilamente, e provou a sopa-. O que é isto?

 

-Sopa de ostras, tia Colleen.

 

-Faz-lhe falta sal -disse, e logo assinalou ao Kevin-. Não agache tanto a cabeça, moço. Quer que os ossos lhe cresçam torcidos?

 

-Não, senhora.

 

-O que quer ser de maior?

 

Kevin levantou a vista, e sentiu um grande alívio quando sua mãe apoiou uma mão sobre a sua.

 

-Marinheiro -disse-. conduzi o Mariner.

 

-Ja! -disse Colleen, agradada-. Me alegro por ti. Em minha família não quero a nenhum preguiçoso. te coma toda a sopa e pode que chegue a ser marinheiro.

 

 

-Segue igual a sempre -disse Lilah, sentada em uma cadeira de balanço enquanto dava de mamar a Bianca. O silêncio reinava na casa, que tinha as luzes apagadas. Estava no dormitório dos meninos. Megan estava a seu lado, parecia-lhe a melhor maneira de escapar do Nate.

 

-É... -disse Megan, procurando uma frase diplomática- toda uma dama.

 

-É uma velha suscetível -disse Lilah-. Mas a quero.

 

Amanda, desde outra cadeira de balanço, suspirou.

 

-Assim que se inteire da existência do livro do Fergus -disse-, não te vai deixar em paz.

 

-Te vai acossar -disse C. C., que embalava ao Ethan.

 

-Te vai perseguir -concluiu Suzanna, trocando os fraldas de seu filho.

 

-Sonha prometedor.

 

-Não se preocupe -disse Suzanna-. Estamos contigo.

 

-Estamos contigo -disse Lilah-, mas não te vai deixar em paz.

 

-Quanto ao livro -disse Megan-. Fiz cópias de algumas páginas porque pensei que poderiam lhes interessar. Fez muitas notas sobre negócios, assuntos pessoais, compras. Também faz inventário das jóias da Bianca, suponho que para o seguro.

 

-As esmeraldas? -disse Amanda-. E pensar nas horas que nos passamos folheando papéis, tratando de encontrar uma prova de que existiam.

 

-Também há outras peças, valoradas em centenas de milhares de dólares, de 1913.

 

-Vendeu-o quase tudo -murmurou C. C.-. encontramos os documentos de venda. desfez-se de tudo o que pertencia a Bianca.

 

-Ainda dói -disse Lilah-. Não o dinheiro, embora Deus sabe que o teríamos usado bem. O que me incomoda é ter perdido tudo o que lhe pertencia, e que não poderemos lhe legar a nossos filhos.

 

-Sinto muito.

 

-Não se preocupe -disse Amanda, levantando-se para deixar a Delia em seu berço-. Somos muito sentimentais. Suponho que todos nos sentimos muito perto da Bianca.

 

-Compreendo-te -disse Megan, embora lhe parecia estranho admiti-lo-. Eu também o sinto. Suponho que foi por ver referências a ela no livro e seu retrato no vestíbulo -disse, e sorriu, algo confusa-. Algumas vezes, de noite, dá a sensação de que está aqui.

 

-É obvio -disse Lilah-, porque está aqui.

 

-me perdoem, senhoras -disse Nathaniel, entrando na habitação. Parecia cômodo entre meninos e mães.

 

Lilah sorriu lentamente.

 

-Olá, bonito. O que te traz por aqui?

 

-vim a procurar a minha garota -disse e se aproximou do Megan, tomando-a do braço.

 

-Como que sua garota?

 

-ficamos para ir dar um passeio.

 

-Eu não hei dito que...

 

-Faz uma noite fantástica -disse Suzanna, embalando a seu filho.

 

-Tenho que levar ao Kevin à cama.

 

-Eu o levei já -disse Nathaniel levando-lhe -Agora vou -disse Suzanna, mas esperou a que Megan e Nate saíssem para dirigir-se a suas irmãs-. O que lhes parece?

 

-Que levaste ao Kevin à cama?

 

-ficou-se dormido em meus joelhos, assim que me pareceu o normal. Ah, Suzanna, Holt diz que podem ir quando quiser.

 

-Agora vou -disse Suzanna, mas esperou a que Megan e Nate saíssem para dirigir-se a suas irmãs-. O que lhes parece?

 

Amanda sorriu.

 

-Acredito que funciona à perfeição -disse.

 

-Estou de acordo -disse C. C. deixando ao Ethan em seu berço-. Acreditava que Lilah tinha perdido a cabeça quando lhe ocorreu unir a esses dois.

 

Lilah bocejou.

 

-Nunca me equivoco -disse e sorriu-. Arrumado a que podemos vê-los da janela.

 

-espiá-los? -disse Amanda-. Boa idéia.

 

Sua silhueta se recortava no jardim, iluminado pela luz da lua.

 

-Está complicando as coisas, Nathaniel.

 

-as simplificando -corrigiu Nate-. Não há nada mais singelo que um passeio à luz da lua.

 

-Mas você não espera que todo fique nisto.

 

-Não. Mas seguimos indo a seu ritmo, Meg -disse Nate, e se levou a mão do Megan aos lábios; Logo começaram a subir pela colina-. Preciso estar contigo. É um chateio, mas não posso evitá-lo, assim que me hei dito, por que não, em vez de lutar contra isso, deixar-se levar?

 

-Não sou uma mulher singela -disse Megan. Oxalá pudesse sê-lo, embora só fora por aquela noite-. Tenho lembranças, e rancores e inseguranças. Nem sequer me tinha dado conta de que estavam aí até que te conheci, mas não quero que voltem a me fazer danifico.

 

-Ninguém vai fazer te danifico -disse Nate, e lhe pôs um braço sobre os ombros-. Olhe que grande está a lua. Vê Vênus e a pequena estrela que o guia? E Orión, vê-o? -disse tomando a mão do Megan e riscando as estrelas como tinha esboçado a travessia sobre a carta marinha.

 

-Sim.

 

Megan observou suas mãos unidas, riscando caminhos nas estrelas enquanto a brisa subia desde mar e movia as flores que cresciam nas rochas.

 

Romântico, misterioso, havia dito Coco. E o era, e Megan se deu conta de que era muito mais sensível a aquelas qualidades do que ela tinha suspeitado.

 

Sentia seu quente e forte corpo contra ela. Seu sangue pulsava a toda velocidade.

 

sentia-se viva. O vento, o mar e o homem que tinha a seu lado, faziam-na sentir-se muito viva.

 

E talvez houvesse algo mais: os fantasmas dos Calhoun. As colinas pareciam convidar aos espíritos a caminhar enchendo o ar de um amor que duraria para sempre.

 

-Escuta -disse Nate com um murmúrio-. Fecha os olhos e escuta, e poderá ouvir como respiram as estrelas.

 

Megan obedeceu e escutou o sussurro do ar, e o de seu próprio coração.

 

-por que me faz sentir assim?

 

-Não tenho resposta. Não todo resolve com a lógica -disse Nate, e como precisava ver o rosto do Megan, fez que girasse a cabeça-. Que tal a dor de cabeça?

 

-Já não me dói, quase.

 

-Não, não abra os olhos -disse Nate e, brandamente, beijou-a nos olhos, e logo em todo o rosto-. Me beije você.

 

Como podia não fazê-lo, pensou Megan, quando a boca do Nate era tão tentadora? rendeu-se e se deixou levar por seu coração. Solo aquela noite, disse-se.

 

Aquela ligeira mudança quase desfez ao Nate. Megan tremia entre seus braços, suplicante, e seus beijos, vacilantes, excitavam-no. Custou-lhe toda sua força de vontade não atirar dela e estreitá-la entre seus braços.

 

Sabia que ela não resistiria. Possivelmente, desde o começo, sabia que o enfeitiço daquelas colinas se apoderaria deles, seduziria-os.., e lhe recordaria que devia cuidar dela.

 

-Desejo-te, Megan -disse, e a beijou no pescoço-. Desejo-te tanto que me dói.

 

-Sei. Oxalá... -disse Megan, apoiando a cabeça no ombro do Nate-. Não estou jogando, Nathaniel.

 

-Sei -disse Nate, acariciando o cabelo ao Megan-. Seria mais fácil se assim fora, porque eu conheço todas as regras. E como as romper -disse Nate suspirando, e a beijou-. Esses olhos teus o fazem muito difícil para ti -disse, e retrocedeu-. Acredito que será melhor que acompanhe a casa.

 

-Nathaniel -disse Megan, apoiando uma mão sobre o peito do Nate-. É o primeiro homem que me tem feito... com o que quis estar desde que nasceu Kevin.

 

Algo brilhou nos olhos do Nate, algo selvagem e perigoso.

 

-E crie que saber isso me põe isso mais fácil? -disse-. Megan, está-me matando -acrescentou a ponto de estalar.

 

-Não sei o que fazer -disse Megan com a respiração entrecortada-. Nunca passei por esta situação.

 

-Segue assim -disse Nate-, e vamos acabar na cama esta mesma noite.

 

Megan se estremeceu, mas se sentiu culpado.

 

-Só quero ser sincera.

 

-Pois tenta mentir, para que me seja mais fácil.

 

-Sei mentir, mas não me parece honesto não te dizer o que sinto.

 

Voltaram caminhando para As Torres e ouviram os gritos antes de chegar ao jardim.

 

-Coco -disse Megan.

 

-E O Holandês -disse Nathaniel, e apertando a mão do Megan, acelerou o passo.

 

-Isso é insultante e asqueroso -exclamava Coco, tinha os braços em jarras e olhava ao Holandês com orgulho.

 

O Holandês tinha os braços cruzados. Uns braços enormes sobre um corpo enorme.

 

-Velo que vi e hei dito o que hei dito.

 

-Eu não estava pega ao Trenton como uma... como uma...

 

-Como um marisco -disse O Holandês com desprezo-. Como um marisco à quilha de um iate.

 

-Estávamos dançando.

 

-Ja! Isso é o que você diz. Eu o chamaria de outra forma. Onde eu venho o chamam...

 

-Holandês! -exclamou Nathaniel.

 

-Tinha que fazer uma cena -disse Coco, mortificada, alisando-a saia do vestido.

 

-É você a que estava fazendo uma cena, com esse tipejo magricela. Mas claro, como é rico, há tonteado o que quiseste.

 

-Tonteado? -disse Coco, enfurecida-. Eu não hei tonteado em minha vida. Senhor, é você desprezível.

 

-Eu lhe ensinarei o que é ser desprezível, senhora.

 

-Calem de uma vez! -disse Nathaniel, interpondo-se entre eles.

 

-Holandês, que demônios te passa? Está bêbado?

 

-Um par de taças de rum nunca me têm feito nenhum dano -disse O Holandês, olhando ao Nathaniel com aborrecimento-. A culpa a tem ela. Não te meta nisto, moço, ainda tenho um par de coisas que dizer.

 

-Não, já terminaste -disse Nate.

 

-Não lhes metam nisto -disse Coco. Estava sufocada, mas sua atitude era digna como a de uma rainha-. Prefiro arrumar isto a sós com ele.

 

Megan lhe agarrou o braço com suavidade.

 

-Coco, não crie que deveria entrar?

 

-Não -disse Coco com tranqüilidade-. Agora, querida, parte. O senhor Vão Home e eu preferimos falar disto a sós.

 

-Mas...

 

-Nathaniel -disse Coco-, te leve ao Megan.

 

-Sim, senhora.

 

Nathaniel conduziu ao Megan às portas da terraço.

 

-Está seguro de que podemos deixá-los sozinhos?

 

-Quer te colocar em meio disso?

 

Megan voltou a olhar ao lugar onde acontecia a cena.

 

-Não, parece-me que não -disse.

 

-Bom, senhor Vão Home -disse Coco quando se assegurou de que voltavam a estar sozinhos-. Tem algo mais que dizer?

 

-Muitas coisas -disse O Holandês, preparando-se para a batalha-. Lhe diga a esse ricachón que não volte a te tocar.

 

-E se não querer?

 

O Holandês uivou como um lobo desafiando a seu casal, pensou Coco.

 

-Romperei-lhe os braços.

 

OH, Meu deus, disse-se Coco, OH, Meu deus.

 

-De verdade?

 

-me ponha a prova -disse O Holandês sacudindo a Coco, que se deixou estreitar entre seus braços.

 

Aquela vez, Coco estava preparada para o beijo e deixou que acontecesse. Quando se separaram, os dois estavam sem fôlego e assombrados.

 

Algumas vezes, disse-se Coco, era a mulher a que tinha que dar o primeiro passo. De modo que se umedeceu os lábios e tragou saliva.

 

-Minha habitação está no segundo andar.

 

-Sei muito bem onde está -disse O Holandês com meia sorriso-. A minha está mais perto -disse, e estreitou a Coco entre seus braços. Igual a um pirata a seu prisioneira, pensou Coco com prazer.

 

-É uma mulher preciosa, Coco.

 

Coco se levou a mão ao coração.

 

-OH, Niels!

 

 

Megan não estava acostumado a sonhar acordada. Anos de disciplina lhe tinham ensinado que solo podia sonhar enquanto dormia, não em manhãs chuvosas como aquela, com a névoa rodeando a casa e os cristais das janelas molhados. Tinha o ordenador aceso e o queixo apoiado na mão, enquanto não deixava de recordar, como em dias anteriores, um passeio à luz da lua, entre flores silvestres e com o rumor do mar de fundo.

 

Uma e outra vez, pensava naquela noite, mas tratava de recorrer à lógica. Não podia, e pensava que não devia, esquecer que a única relação amorosa de sua vida tinha sido uma ilusão, uma mentira que tinha servido para trair sua inocência, seus sentimentos e seu futuro. acreditou-se imune, até conhecer o Nathaniel.

 

O que devia fazer depois de que sua vida tivesse tomado um giro tão desesperado? depois de tudo, já não era uma menina que acreditasse em promessas ou que necessitasse palavras de fôlego. Sabia quais eram suas necessidades, mas podia as satisfazer sem ver-se ferida?

 

Quanto desejava que seu coração não se viu comprometido. Quanto desejava ser inteligente, chicoteada e experimentada, para ser capaz de manter uma relação exclusivamente física.

 

por que não podia bastar a atração e o afeto e o respeito? Seria uma equação tão singela. Dois adultos, mais desejo, compreensão e paixão igual a prazer mútuo.

 

Que pena que uma fração escondida desprezasse uma solução tão singela.

 

-Megan.

 

-Mmm -disse levantando a cabeça-. OH, não te tinha ouvido entrar.

 

Era Suzanna.

 

-Estava em outra parte -disse esta.

 

Megan tratou de ocultar seu embaraço movendo papéis daqui para lá.

 

-Suponho que sim. Será pela chuva.

 

-eu adoro -disse Suzanna-. E me passa quão mesmo a ti. Mas me temo que aos turistas não passa o mesmo.

 

-Ao Kevin a névoa encantou, até que lhe hei dito que por ela não podia ir aos escarpados.

 

-E os planos de assalto do Alex e Jenny ao Fort Ou'Riley foram pospostos. Estão na habitação do Kevin, defendendo o planeta dos alienígenas. É maravilhoso vê-los juntos.

 

-Sei, levam-se muito bem.

 

Suzanna sorriu.

 

-Que tal o trabalho? -perguntou.

 

-Vai bem. Amanda levou as contas muito ordenadamente, de modo que solo tenho que as passar a meu sistema contável e as arquivar no ordenador.

 

-É um grande alívio para ela que esteja aqui. Alguns dias tinha que fazer faturas enquanto falava por telefone ou dava de mamar a Delia.

 

Ante aquela imagem, Megan sorriu.

 

-Me imagino, é muito trabalhadora.

 

-E muito ordenada, o que mais odeia deste mundo é a desordem. Suponho que pode entendê-lo.

 

-Sim, entendo-o -disse Megan, jogando com um lápis entre os dedos-. Estava preocupada com ter que vir aqui e trazer para o Kevin. Além disso, temia que você, Suzanna, não me recebesse bem. Temia dizer algo que te fizesse sentir incômoda.

 

-Não é passado já todo aquilo, Megan?

 

-Para ti sim -disse Megan, deixando o lápis sobre a mesa-. Mas talvez seja um pouco mais duro quando se é a outra.

 

-Mas quem era a outra? Você ou eu?

 

Megan negou com a cabeça.

 

-Não posso dizer que eu gostaria de voltar atrás e trocar as coisas, porque se o fizesse, não teria ao Kevin -disse, e olhou a Suzanna aos olhos-. Sei que considera o Kevin como um irmão para seus filhos e que o quer.

 

-Sim, é verdade.

 

-Quero que saiba que eu também considero a seus filhos como minha família e os quero.

 

Suzanna pôs uma mão sobre a do Megan.

 

-Sei. Vinha, entre outras razões, a te pedir que deixasse que Kevin se viesse a casa. Alex e Jenny querem que o convidemos a comer.

 

-Parece-me bem.

 

-Outra coisa. Viu à tia Coco?

 

-Só um momento, justo depois do café da manhã. Porquê?

 

-Estava cantando?

 

-Pois a verdade é que sim -disse Megan-. Parece-me que ultimamente canta muito.

 

-Faz um momento também estava cantando, e se pôs seu melhor perfume -disse Suzanna, e se mordeu o lábio, incômoda-. Perguntava-me se o pai do Trent... voltou para Boston, assim pensei que não havia por que preocupar-se. É um homem encantador e o queremos muito, mas... casou-se quatro vezes e me parece que é um conquistador.

 

-Já me dei conta -disse Megan, e depois de um pequeno debate sobre a intimidade das pessoas, esclareceu-se garganta-. Mas acredito que Coco não... não olhe nessa direção.

 

-Não?

 

-O Holandês -disse Megan.

 

Suzanna ficou de pedra.

 

-Como?

 

-Acredito que O Holandés,y . ela...

 

-O Holandês? Nosso Holandês? Mas se sempre se está queixando dele e se mete com ele a menor oportunidade. Se se estão brigando continuamente Y... -disse, e se tampou a boca com a mão-. OH...

 

olharam-se aos olhos e logo puseram-se a rir.

 

Megan se disse que Suzanna era como uma irmã para ela e se sentia muito bem naquela conversação familiar. depois de lhe contar que tinha visto coco e ao Holandês abraçados na cozinha, contou-lhe a cena da terraço.

 

-Saltavam faíscas. Primeiro, pensei que foram se pegar, logo me dava conta de que se tratava mas bem de um ritual de emparelhamento.

 

-Um ritual de emparelhamento? Megan, crie que...?

 

-Suzanna, Coco não pára de cantar.

 

-É verdade -disse Suzanna, sopesou a idéia um momento e gostou-. Acredito que me vou deixar cair pela cozinha antes de ir, para comprovar como vai o ambiente.

 

-Já me contará o que vê.

 

-É obvio -disse Suzanna e, sonriendo, dirigiu-se para a porta-. Suponho que foi a lua.

 

-Talvez -murmurou Megan-. Sim, a lua.

 

Suzanna a olhou.

 

-Nathaniel é todo um homem.

 

-Acreditava que estávamos falando do Holandês.

 

-Estávamos falando de amor -disse Suzanna-. Até mais tarde.

 

Megan franziu o cenho. Tão evidente era?

 

Depois de passar o resto da manhã e a primeira parte da tarde revisando as contas do hotel, Megan se deu a pequena recompensa de estudar durante uma hora o livro do Fergus. Desfrutou somando os custos das contas originadas pelos gastos do estábulo, dos carros de cavalos: Foi uma revelação ver o que custava um baile em Las Torres em 1913 e, lendo as notas à margem, compreender os motivos do Fergus.

 

Tudo os convites aceitos. Ninguém se atreveu a decliná-la. B. encarregou flores e discutimos. É muito ostentoso. Hei-lhe dito que uma mulher nunca deve discutir com seu marido. Levará esmeraldas, não pérolas como ela queria. Quero que lhe ensine à sociedade meus gostos e meus interesses, e assim lhe recordo qual é seu lugar.

 

Seu lugar, pensou Megan sentindo lástima pela Bianca, teria estado junto ao Christian. Que triste era pensar que solo a morte os tinha unido.

 

Não queria deixar-se levar por aquela sensação de pena, de modo que passou a examinar as últimas páginas. Ali, os números não tinham sentido. Não havia notas de gastos, nem datas. O que eram aqueles números? Valores, ações, o número de lotes de mercadorias?

 

Talvez, merecia a pena fazer uma visita à biblioteca pública para ver se podia averiguar alguma informação sobre feitos acontecidos em 1913. De passagem, podia aproximar-se do porto para deixar a folha contável correspondente a abril e recolher mais recibos.

 

E, talvez, toparia-se com o Nathaniel.

 

Era um prazer conduzir sob a água. A lenta mas persistente chuva tinha à maioria dos turistas encerrados no interior de seus alojamentos ou desfrutando de atividades de interior. Alguns, entretanto, passeavam pelas ruas, olhando cristaleiras. O mar, na Baía do Francês, era de cor cinza, e os mastros dos navios enchiam o porto.

 

ouvia-se, de vez em quando, o som das sereias dos navios. As nuvens estavam muito baixas, e era como se a ilha inteira estivesse coberta por uma manta. sentiu-se tentada de seguir conduzindo, de seguir a sinuosa estrada que levava a Parque Nacional da Acadia ou a que bordeaba a costa.

 

por que não? Talvez o fizesse ao final do dia, uma vez finalizado o trabalho, e talvez convidasse ao Nathaniel a ir com ela.

 

Mas não viu seu carro no embarcadero. Era ridículo dizer-se que não lhe importava vê-lo ou não, pensou, porque lhe importava muito. Queria vê-lo, observar seu olhar profundo, fixa nela, o modo em que punha os lábios ao sorrir.

 

Talvez tivesse estacionado ao voltar a esquina. Saiu do carro e se dirigiu ao escritório, mas estava vazia.

 

levou-se uma grande decepção. Não se tinha dado conta do muito que lhe importava vê-lo até que não o viu. Então, da parte de atrás, ouviu o longínquo zumbido de uma rádio. Havia alguém na oficina, provavelmente fazendo reparações, já que o mar estava muito encrespado para navegar.

 

Não queria ir ver quem era, disse-se com firmeza. Tinha ido sozinho por motivos de negócios, de modo que deixou a folha contável sobre a lotada mesa do escritório. Mas, a um nível puramente prático, tinha que falar com o Holt, ou com o Nate, do segundo trimestre e dos projetos para no próximo ano.

 

Olhou a seu redor. Naquele lugar havia uma desordem que não podia compreender. Como se podia trabalhar, como podia um concentrar-se em semelhante confusão?

 

Lhe deu vontade de ficar a ordená-lo tudo, mas deu meia volta e se aproximou dos armários arquivos. Procuraria o que necessitava e, por curiosidade, iria à oficina.

 

Quando ouviu a porta aberta, deu meia volta, lista para sorrir, mas na porta havia um estranho.

 

-No que posso ajudá-lo?

 

O homem entrou e fechou a porta a suas costas.

 

-Olá, Megan.

 

Por um instante, o tempo se parou, logo retrocedeu, em câmara lenta, cinco, seis, dez anos atrás, a um tempo no que era jovem e ingênua, e acreditava no amor a primeira vista.

 

-Baxter -sussurrou.

 

Que estranho, disse-se, não havê-lo reconhecido a primeira vista. Logo que tinha trocado. Estava tão atrativo e elegante como a última vez que o viu. Era como um príncipe azul com a boca repleta de mentiras.

 

Baxter sorriu. Levava dias tratando de surpreendê-la só e só a frustração o tinha empurrado a aproximar-se dela naquele momento. Porque era um homem ao que o preocupava muito sua imagem, de modo que, antes de entrar, tinha comprovado que ali não havia ninguém mais.

 

-Está tão bonita como sempre -disse.

 

Megan estava pálida e ao Baxter gostava de saber que jogava com vantagem. Além disso, levava semanas planejando aquela reunião.

 

-Mas melhoraste com os anos. perdeste um certo ar infantil e é mais... elegante. Parabéns.

 

Quando se aproximou dela, Megan não se moveu, suas pernas não lhe respondiam. Nem sequer quando Baxter lhe acariciou a bochecha e logo lhe tocou no queixo, com um dedo, rememorando um hábito que Megan tinha conseguido esquecer.

 

-Sempre foste uma beleza, Megan, com essa inocência que a um homem dá vontade de corromper.

 

Megan se estremeceu e Baxter sorriu.

 

-O que faz aqui?

 

Megan só podia pensar no Kevin, e dava obrigado porque não estivesse ali.

 

-Tem graça. Eu ia perguntar te o mesmo. O que está fazendo aqui, Megan?

 

-Vivo aqui -disse Megan com vacilação-. Trabalho aqui.

 

-Cansada do Oklahoma, não? Queria uma mudança? -disse Baxter, e se inclinou para diante até que Megan deu com as costas contra o arquivo. Sabia que a chantagem não serviria com ela, de modo que recorreria à intimidação-. Toma como tolo? Não o faça, seria um grande engano.

 

Quando suas costas deu contra o arquivo, Megan, ao dar-se conta de que estava tremendo de medo, tranqüilizou-se e ficou tensa. Já não era uma menina, a não ser uma mulher, disse-se.

 

-por que estou aqui não é teu assunto.

 

-OH, claro que o é -disse Baxter com calma-. Eu prefiro que esteja no Oklahoma, Megan. Com seu trabalho, e sua família, e sua vida tranqüila. De verdade que o prefiro.

 

Seu olhar era frio, geada, pensou Megan com tristeza. Nunca até então o tinha parecido.

 

-O que você prefira não me importa, Baxter.

 

-Acreditava que não ia averiguar que te tinha transladado a viver com minha ex-mulher e sua família? Pensava que te tinha perdido de vista? O que me tinha esquecido de ti durante todos estes anos?

 

Megan tratou de apartar-se dele, mas Baxter lhe cortou o passo. Não tinha medo, mas sim sentia cada vez mais raiva.

 

-Nunca pensei nisso porque não me importa. E não, não sabia que não me tinha perdido de vista. por que ia ou seja o? Nem Kevin nem eu queremos nada de ti.

 

-esperaste muito tempo para vir -disse Baxter, esforçando-se por controlar a fúria que se apoderava dele. Tinha trabalhado muito para que um antigo engano o jogasse tudo por terra-. É muito lista, Megan, mais lista do que pensava.

 

-Não sei do que está falando.

 

-A sério quer que cria que não sabe nada de minha campanha eleitoral? Não penso tolerar seus patéticos intentos de vingança.

 

A voz do Baxter era cortante, afiada. Megan começava a sentir certo temor.

 

-Repito-te que não sei do que está falando. Minha vida não é teu assunto, Baxter, e a tua não me importa nada. Faz tempo deixou isso bastante claro, quando te negou a reconhecer que Kevin é seu filho.

 

-É esse o conto com o que vais sair? -disse Baxter. Queria manter a calma, mas cada vez estava mais furioso. A intimidação, disse-se, não bastaria-. vais recorrer à história da pobre garota inocente, seduzida, traída e abandonada?

 

-Não é um conto, é a verdade.

 

-Foi jovem, Megan, mas foi inocente? -disse Baxter, apertando os dentes-. Não o foi, é mais, estava-o desejando, ansiosa.

 

-Acreditei-te! Acreditei que me queria, que queria te casar comigo. E você te aproveitou. Nunca teve intenção de ter um futuro comigo, já estava comprometido. Eu não era mais que um capricho.

 

-Foi muito doce, Megan, muito, muito doce -disse Baxter, empurrando-a contra o arquivo.

 

-me tire as mãos de cima.

 

-Ainda, não. Escuta com atenção. Sei por que vieste a viver com as Calhoun. Primeiro haverá rumores, logo uma triste historia contada a algum jornalista compassivo. A velha dama me pressionou quando deixei a Suzanna -disse Baxter com odeio ao recordar ao Colleen-, mas eu sozinho queria o bem dos meninos, por isso deixei que Bradford os adotasse. Cedi generosamente meus direitos, para que os meninos pudessem crescer em uma família tradicional.

 

-Alguma vez lhe importaram, verdade? -disse Megan com voz grave-. Alex e Jenny nunca lhe importaram, como tampouco te importa Kevin.

 

-O assunto é que a velha não tenha que preocupar-se com ti. Assim, Megan, será melhor que me escute. As coisas não vão bem aqui, assim tem que voltar para o Oklahoma.

 

-Não vou a nenhuma parte -disse Megan, e deu um coice quando Baxter lhe apertou o braço.

 

-vais voltar para o Oklahoma e a levar a vida tranqüila que levava, sem entrevistas sentimentais com a imprensa. Se tráficos de me fazer danifico, de me complicar de algum modo, acabarei contigo. E quando tiver terminado, e me acredite, tenho dinheiro bastante para fazer que muitos homens declarem que foi uma fulana, quando tiver terminado, não será nada mais que uma zorra oportunista com um filho bastardo.

 

Megan se estremeceu, mas não pelas ameaças, o que não suportava era lhe ouvir o Baxter dizer que Kevin era um bastardo. E antes de que se desse conta, levantou a mão e deu ao Baxter uma bofetada.

 

-Não volte a chamar assim a meu filho nunca mais.

 

Baxter lhe devolveu a bofetada.

 

-Não me pressione, Megan -disse-. Não me pressione porque pode acabar muito mal. Você e o menino.

 

Enfurecida, como qualquer mãe protegendo a seu filho, Megan se equilibrou sobre ele. Os dois caíram ao chão, junto à parede.

 

-Segue tendo a mesma natureza apaixonada, por isso vejo -disse Baxter, atirando dela para si-. Lembrança bem como despertá-la.

 

Baxter tinha imobilizada ao Megan, sujeitando seus braços, de modo que esta se defendeu com uma dentada. Quando Baxter chio de dor, abriu-se a porta.

 

Nathaniel o levantou do chão como faria com um cão raivoso.

 

-Nathaniel -disse Megan.

 

O não a olhou, em vez disso, sujeitou ao Baxter contra a parede.

 

-Dumont, verdade? -disse com um tom tranqüilo mas aterrador-. ouvi que você gosta de maltratar às mulheres.

 

Baxter tratou de recuperar a compostura, mas seus pés não tocavam o chão.

 

-Quem demônios é você?

 

-Sim, suponho que tem direito ou seja meu nome, porque lhe vou arrancar o coração com as mãos -disse Nathaniel, e teve o prazer de ver que Baxter ficasse branco de medo-. Meu nome é Nathaniel Fury, não o vais esquecer, verdade?

 

Quando Baxter pôde falar, fez-o com um débil fio de voz.

 

-Estará no cárcere antes de que acabe o dia.

 

-Não acredito -disse Nate, e quando Megan quis adiantar-se, disse-lhe-: Fique aí.

 

-Nathaniel -disse Megan, tragando saliva-, não o mate.

 

-Não quer que o mate?

 

Megan abriu a boca e voltou a fechá-la. A resposta parecia desesperadamente importante, de modo que disse a verdade.

 

-Não.

 

Baxter quis gritar, mas Nathaniel o impediu de lhe pondo a mão na garganta.

 

-Tem sorte, Dumont. A dama não quer que lhe mate e não quero decepcioná-la. Já se ocupará de ti o destino -disse Nate, e tirou o Baxter do despacho, levando-o como se não fora mais que uma bolsa velha.

 

Megan correu para a porta. estremeceu-se de alivio ao ver o marido da Suzanna perto do mole.

 

-Holt! Faz algo.

 

Holt se limitou a encolher-se de ombros.

 

-Fury me mataria. Volta a entrar, está-te molhando.

 

-Mas, não irá matar o?

 

Holt refletiu um instante. Nathaniel, enquanto isso, atirava do Baxter pelo mole.

 

-Não acredito.

 

-Espero que não saiba nadar -disse Nathaniel, e jogou no Baxter à água. deu-se a volta, sem incomodar-se em ver se Baxter sabia nadar ou não.

 

-Vamos -disse ao chegar junto ao Megan.

 

-Mas...

 

Nathaniel a levantou em seus braços.

 

-Já basta de trabalho por hoje.

 

-De acordo -disse Holt, com as mãos metidas nos bolsos-. Até manhã.

 

-Nathaniel, não pode...

 

-te cale, Meg -disse Nate, e a levou até o carro.

 

Megan olhou para o mole. Não estava segura de se, ao ver o Baxter aparecendo pelo bordo do mole, sentiu alívio ou decepção.

 

 

Nathaniel necessitava um pouco de paz para tranqüilizar-se. Detestava seu forte temperamento, porque às vezes lhe dava vontade de solucionar as coisas a murros. Em circunstâncias normais era capaz de conter-se, mas solo saber do que era capaz o punha doente.

 

Não havia dúvida de que teria podido assassinar a aquele homem se Megan não o tivesse impedido.

 

esforçou-se, ao longo dos anos, por recorrer às palavras e não aos punhos para resolver suas disputas. Normalmente conseguia conter-se, mas às vezes era impossível.

 

Megan estava tremendo quando chegaram a casa do Nate. Não lhe ocorreu até aquele momento que se esqueceu de Cão. Mas pensou que Holt se ocuparia dele.

 

Nathaniel levou em braços ao Megan até seu dormitório, e a deixou em uma cadeira. Sem dizer uma palavra, foi revolver nas gavetas.

 

-te tire essa roupa -disse-lhe, lhe deixando uma sudadera e umas calças de moletom-. vou fazer te um chá.

 

-Nathaniel...

 

-Faz o que te digo! -gritou Nate, apertando os dentes.

 

Conseguiu conter-se, mas pensando em que, ao chegar à cozinha, daria um murro contra a parede. Entretanto, o que fez foi pôr a bule e ir procurar uma garrafa de conhaque. depois de considerá-lo um momento, deu um gole diretamente da garrafa. Não o acalmou muito, mas serve para lhe tirar o mau sabor da boca.

 

Quando ouviu assobiar a Pássaro e convidar ao Megan a Casbah, serve duas taças de chá.

 

Megan estava pálida e tinha expressão de desconcerto. A sudadera e as calças lhe estavam muito grandes. ficou no vão da porta, vacilante, consciente de sua cômica imagem.

 

-Sente-se e toma algo. Sentirá-se melhor.

 

-Estou bem, de verdade -disse Megan, mas se sentou, e tomou a taça com ambas as mãos. Com o primeiro gole franziu o cenho-. Acreditava que era chá.

 

-É chá. Mas lhe pus conhaque para que esteja mais rico -disse Nate, e se sentou frente a ela-. Tem-te feito mal?

 

Megan agachou a vista e pôde ver seu rosto refletido na mesa.

 

-Sim.

 

Disse-o com tranqüilidade, porque acreditava que estava tranqüila, até que Nathaniel pôs uma mão sobre a sua. Então soluçou e teve que agachar a cabeça e apoiá-la sobre a mesa, entre as mãos.

 

Chorava pelas esperanças e os sonhos perdidos, pela traição, os medos e a amargura. Nate não disse nada, tão solo esperou.

 

-Sinto muito -disse Megan ao cabo de um momento. sentia-se confortada pela fresca e agradável sensação da mesa contra a bochecha e a mão do Nathaniel sobre seu cabelo-. Tudo ocorreu muito depressa e não estava preparada -disse, mas um novo medo se apoderou dela-. Kevin! OH,

 

Deus, se Bax...

 

-Holt se ocupará dele. Dumont não se aproximará dele.

 

-Tem razão -disse Megan com um suspiro-. Holt se ocupará dele e da Suzanna e de outros. Além disso, Baxter só queria me assustar.

 

-E te assustou?

 

-Não. Tem-me feito mal, e me há posto furiosa, e doente quando me há meio doido. Mas não me assustou, não poderia.

 

-Boa garota.

 

Megan suspirou e sorriu fracamente.

 

-Mas ele sim está assustado -disse-. Por isso veio, porque depois de todos estes anos teme que tenha vindo a viver com os Calhoun.

 

-Assustado? Do que?

 

-Do passado, das conseqüências -disse Megan e voltou a suspirar. Esta vez, ao fazê-lo, cheirou a tabaco e a sal, o aroma do Nathaniel, um aroma reconfortante-. Acredita que nossa vinda forma parte de uma espécie de complô contra ele. Seguiu-me a pista todo este tempo. Não sabia.

 

-Não havia tornado a vê-lo até hoje?

 

-Não, nunca. Suponho que se sentia seguro quando estava no Oklahoma, sem nenhum contato com a Suzanna. Agora não só estamos em contato, mas sim vivemos na mesma casa... mas não parece entender que não tem nada que ver com ele.

 

Voltou a beber chá. Nathaniel não lhe perguntou nada, limitou-se a permanecer sentado a seu lado, sustentando sua mão. Talvez por isso, Megan se sentiu impulsionada a falar.

 

-Conheci-o em Nova Iorque. Eu tinha dezessete anos e era minha primeira viagem longe de minha casa. Foi durante as férias de inverno, fui com umas amigas. estiveste em Nova Iorque?

 

-Uma ou duas vezes.

 

-Nunca tinha visto nada igual. A gente, os edifícios... É uma cidade excitante, e não se parece com as cidades da Costa Oeste. Está cheio de colorido e de vida. eu adorei passear pela Quinta Avenida, tomar café em Greenwich Village... Parece uma tolice.

 

-Não, parece normal.

 

-Suponho que sim -disse Megan com um sorriso-. Tudo era normal e singelo... Logo... Conheci-o em uma festa, era tão bonito, e parecia tão romântico. O sonho de uma jovencita, com esse ar de mundo. Tinha a idade justa para parecer fascinante. Tinha estado na Europa... -interrompeu-se e fechou os olhos-. Que patético.

 

-Não tem por que me contar nada, Meg.

 

-Sei, mas quero fazê-lo -disse Megan, e voltou a abrir os olhos-. Se quer ouvi-lo.

 

-claro que sim -disse Nate, lhe apertando a mão-. Adiante, libra lhe disso.

 

-Disse-me as palavras adequadas -disse Megan-, fez os movimentos adequados. Mandou-me uma dúzia de rosas ao dia seguinte e me convidou para jantar.

 

deteve-se para escolher as palavras adequadamente e lhe enredou o dedo no cabelo. Era tão horrível, pensou, olhar ao passado.

 

-De modo que fui jantar. Havia velas e dançamos. Eu me sentia adulta. Acredito que solo é possível sentir-se assim quando tem dezessete anos. fomos ver museus, de compras, ao teatro. Disse-me que me queria e me comprou um anel. Tinha dois pequenos diamantes em forma de coração. Era muito romântico. O me pôs um na mão e eu pus outro a ele.

 

interrompeu-se um momento, esperou a que Nathaniel fizesse algum comentário. Quando não disse enchente, fez provisão de valor para continuar.

 

-Disse-me que iria ao Oklahoma e fizemos planos de futuro. Mas, é obvio, não foi. Chamou e disse que se atrasaria uns dias. Logo, de repente, deixou de responder a minhas chamadas. Logo soube que estava grávida e o chamei e lhe escrevi. Então me inteirei de que estava prometido, que tinha prometido muito tempo. Ao princípio não pude acreditá-lo, logo me voltei louca. Demorei tempo em me fazer à idéia. Minha família se comportou muito bem. Nunca o teria suportado sem seu apoio. Quando nasceu Kevin, dava-me conta de que não bastava me sentindo adulta, mas sim tinha que ser adulta. Mais tarde, tratei de me pôr em contato com o Bax uma vez mais. Acreditei que devia saber que tinha um filho e que Kevin tinha direito a ter algum tipo de relação com seu pai. Mas... Não tinha nenhum interesse, solo sentia ira e hostilidade. Comecei a compreender que o melhor era que não conhecesse o Kevin, e hoje sigo acreditando que assim é.

 

-Não lhes merece a nenhum dos dois.

 

-Não, não nos merece -disse Megan com um pequeno sorriso. Pela primeira vez em muito tempo se sentia poda, mas não vazia, a não ser livre-. Quero te agradecer que viesse em meu resgate.

 

-foi um prazer. Não voltará a te tocar -disse Nate, lhe beijando a mão-. Nem a ti nem ao Kevin. Confia em mim.

 

-Confio em ti -disse Megan. Palpitava-lhe o coração, mas o olhou aos olhos-. Quando me subia pelas escadas acreditava que... Bom, não acreditava que fosses fazer me um chá.

 

-Nem eu tampouco. Mas estava tremendo e sabia que não podia te tocar antes de que nos acalmássemos. Teria sido um desastre, para os dois.

 

Megan começava a excitar-se.

 

-Está tranqüilo agora?

 

-É um convite, Megan?

 

-Eu... -disse Megan. Sabia que Nate estava esperando a que ela assentira, mas sem seduzi-la, sem ilusões, sem falsas promessas-. Sim.

 

Quando Nate a levantou em braços, riu nervosamente. E lhe fez um nó na garganta quando Nate a olhou.

 

-Não pensará nele -disse Nathaniel-. Não pensará em nada exceto em nós.

 

 

Megan podia ouvir os batimentos do coração de seu coração, como contraponto ao som da chuva que golpeava os cristais das janelas. perguntou-se se Nathaniel também o ouvia e, silo ouvia, se saberia que ela sentia certo temor. Seus braços eram fortes e sua boca doce e firme.

 

Levou-a em braços pelas escadas como se pesasse tão pouco como uma pluma.

 

Faria algo mal, alguma tolice, não seria o que ele esperava, o que ela esperava de si mesmo. As dúvidas se apoderaram dela quando entraram na habitação, banhada de uma luz tênue e cheirando a glicinias.

 

Havia um vaso com as flores de cor púrpura, posto sobre uma velha cômoda de madeira. As janelas estavam entreabiertas e deixavam passo a uma fresca brisa. A cama tinha cabecero de ferro e um edredom de algodão.

 

Nate deixou ao Megan no chão, junto à cama, e ela se deu conta de sua debilidade, tremiam-lhe os joelhos. Mas seguiu olhando-o aos olhos e esperou a que ele fizesse o primeiro movimento.

 

-Está tremendo -disse Nathaniel com tranqüilidade e lhe acariciou a bochecha. Acreditava Megan que ele não se dava conta de seus temores? O que ela não podia, e não devia saber, era que seus temores despertavam os seus próprios.

 

-Não sei o que fazer -disse Megan, e fechou os olhos. Já estava, disse-se, já tinha cometido o primeiro engano. Mas, com decisão, tomou a cabeça do Nate entre as mãos e o beijou.

 

Nate se estremeceu, invadido por um fogo de desejo. Esticou os músculos como reação e conteve o desejo de jogá-la sobre a cama e lhe fazer o amor intensa e rapidamente. Em vez disso, seguiu lhe acariciando a cara, os ombros, as costas, até que Megan se acalmou.

 

-Nathaniel.

 

-Sabe o que quero, Meg?

 

-Sim... não.

 

Jogou os braços ao pescoço, mas ele tomou suas mãos e lhe beijou os dedos, um a um.

 

-Quero que esteja tranqüila, que desfrute -disse e lhe soltou as mãos-. Quero que te encha de mim disse, e começou a lhe tirar as forquilhas do cabelo, as deixando na mesinha-. Quero te ouvir dizer meu nome quando estiver dentro de ti.

 

Acariciou-lhe o cabelo, sonriendo de satisfação ao sentir sua sedosa suavidade.

 

-Quero que deixe te fazer todas as coisas com as que estive sonhando desde que te vi. Deixa que te ensine.

 

Beijou-a na boca, brandamente. Logo, com pequenos mordisquitos e lhe lambendo os lábios, obteve que os separasse. Pouco a pouco, o beijo se foi fazendo mais intenso, mais profundo, até que Megan apoiou as mãos nos quadris do Nathaniel e se deixou levar pelo prazer.

 

Nate sabia ligeiramente a conhaque e roçava a bochecha do Megan com sua barba de dois dias. Megan se sentia invadida por uma sensação de atordoamento agradável e intensa, e se deixava levar.

 

Nathaniel encheu seu rosto de beijos. Riscou a linha de sua mandíbula, lambeu-lhe o lóbulo da orelha e seguiu pelas bochechas e os olhos. Esperando, pacientemente, a dar o seguinte passo.

 

Por fim, retrocedeu, solo uns centímetros; tirou- a camisa ao Megan e a deixou no chão.

 

Megan viu uma chispada de desejo em seu olhar, logo seu olhar escurecido. Nate lhe aconteceu um dedo pelo pescoço e descendeu até chegar ao mamilo.

 

Megan conteve a respiração.

 

-É preciosa, Meg, e tão suave -disse Nate, e a beijou em um ombro, enquanto seguia acariciando-a, excitando-a-. Tão doce.

 

Temia que suas mãos fossem muito grandes, muito arrudas. Como resultado, suas carícias eram extremamente suaves. Descendeu pelos flancos e chegou à cintura, para lhe desabotoar as calças.

 

Logo, seguiu acariciando-a, até que Megan não pôde respirar sem gemer, inundada em um oceano de prazer.

 

Finalmente, Nate se despiu e Megan o olhou com atenção, intensamente.

 

Megan se disse que tinha chegado o momento, e lhe fez um nó na garganta. Nate ia fazer lhe o amor, para aliviar aquela maravilhosa dor que habitava em seu interior.

 

Doce e ofegante, beijou-o na boca e ele a estreitou entre seus braços. Logo a tendeu sobre a cama, tão docemente como se a tivesse tendido sobre um leito de rosas, e começou a beijá-la delicadamente, solo com os lábios, saboreando-a, como se fora um banquete dos mais deliciosos sabores. Logo a acariciou, como se fora descobrindo seu corpo pouco a pouco.

 

Nada poderia havê-la preparado. Embora tivesse tido cem amantes, nenhum poderia lhe haver dado mais, nem recebido mais. Estava perdida em muito sensações, conquistada pela ternura, perdida na suavidade.

 

Seu coração pulsava cada vez mais depressa, mas ela respirava com calma, profundamente. Sentiu que lhe roçava o mamilo com o cabelo, antes de tomá-lo com a boca. Gemeu de prazer e escutou o suspiro do Nate, enquanto a chupava.

 

E se afundou em águas cálidas e profundas.

 

E então, começou a formá-la tormenta, lenta e sutilmente. Quase não podia respirar, mas necessitava ar, porque se estava afogando. Seu corpo estava tenso e cheio de desejo, mas a cabeça lhe dava voltas.

 

-Nathaniel -disse agarrando-se a ele-. Não posso.

 

Mas ele a beijou na boca, tragando-se seus suspiros, saboreando-a. E Megan se relaxou. Justo então chegou a primeira quebra de onda de prazer.

 

Nate lhe estava acariciando o ventre, e ela se apertou contra aquela mão, invadida pela sensação. agarrou-se a seus ombros e o apertou com tal força que lhe cravou as unhas, e teve um orgasmo.  

 

-Megan, Deus -disse Nate.           

 

Dar prazer a uma mulher sempre tinha dado prazer a ele mesmo. Mas nunca daquele modo, nunca até aquele ponto. sentia-se rei e mendigo ao mesmo tempo.

 

Assombrada-a resposta do Megan o excitou até o limite do suportável. Era como se de seus nervos saltassem faíscas.

 

Queria lhe dar mais, tinha que lhe dar mais. Não podendo resisti-lo mais, deslizou-se nela, satisfeito de ouvir seu gemido de prazer, seu rápido estremecimento.     

 

Era tão pequena. Nate teve que recordar-se, uma vez mais, que era pequena e delicada e sua pele era suave e tenra. Que era inocente e quase como uma virgem. De modo que enquanto o sangue pulsava em sua cabeça, em seus pulmões, tomou docemente, com as mãos apoiadas na cama, por medo a fazê-la dano se a tocava.  

 

E seu corpo se contraiu e estalou. E então, pronunciou seu nome.

 

Voltou a beijá-la e a abraçou.

 

 

A chuva seguia golpeando contra a janela. Megan voltou para a realidade pouco a pouco. Estava tendida na cama, quieta, com uma mão enredada no cabelo do Nathaniel, que sorria.

 

Começou a cantarolar uma canção.

 

Nathaniel se apartou um pouco e se apoiou em um cotovelo.

 

-O que faz?

 

-Estou cantando.

 

Nate sorriu e a observou.

 

-Eu gosto de muito, neném.

 

-Você começa a me gostar da mim -disse Megan lhe acariciando o queixo com um dedo. Logo agachou o olhar-. esteve bem, verdade?

 

Nate sorriu e esperou a que Megan o olhasse para responder.

 

-Não esteve mal para começar.

 

Megan abriu a boca, e voltou a fechá-la com um pequeno gemido.

 

-Podia ser um pouco mais... amável.

 

-Você podia ser um pouco menos tola -disse Nate beijando-a na boca-. Fazer o amor não é um concurso. Nem fica nota.

 

-O que queria dizer era que... Não importa.

 

-O que queria dizer era que... -disse Nate, e pôs ao Megan em cima dele-. Em uma escala de um a dez...

 

-Curta, Nathaniel -disse Megan, apoiando a bochecha sobre o peito do Nate-. Ódio que me faça sentir ridícula.

 

-Eu, não -disse Nate, lhe acariciando as costas-. eu adoro te fazer sentir ridícula. eu adoro te fazer sentir.

 

Nathaniel esteve a ponto de acrescentar «te quero», mas Megan não o teria aceito. Inclusive lhe custava fazê-lo.

 

-Tem-me feito sentir. Tem-me feito sentir coisas que nunca havia sentido. Tinha tanto medo.

 

-Não quero que tenha medo de mim.

 

-Tinha medo de mim mesma -disse Megan-. De nós. Medo de deixar que ocorresse isto, mas me alegro de que tenha ocorrido.

 

Era mais fácil do que tinha pensado sorrir, beijá-lo, falar. Por um instante, deu-lhe a impressão de que Nate ficava tenso, mas lhe pareceu uma tolice e voltou a beijá-lo.

 

Nate estava surpreso. Como era possível que voltasse a desejá-la, tão rápida, tão desesperadamente? Mas, como podia resistir ao encanto daqueles lábios, doces e tentadores?

 

-Parece-me que vai ocorrer outra vez.

 

Megan sorriu e o beijou na boca. Logo, proferiu um gemido de deleite quando Nate a fez rodar para ficar em cima dela. Nate se deixou levar, beijando-a apaixonadamente, devorando-a, beijando sua boca, sua pele, lhe acariciando os cabelos, e apartando-os para beijá-la no pescoço.

 

Megan se queixou, gemeu, revolveu-se debaixo dele.

 

Nate se apartou e se tendeu de costas.

 

Confusa, Megan lhe tocou o braço, que ele apartou.

 

-Não -disse-. Necessito um momento.

 

Megan ficou de pedra.

 

-Sinto muito. Fiz algo mal?

 

-Não -disse Nate passando-a mão pela cara, e se sentou-. Não estou preparado. O que te parece se baixo e preparo algo de comer?

 

Só estava a uns centímetros do Megan, mas

 

pareciam quilômetros.

 

-Não, dá igual -disse com calma-. A verdade é que tenho que ir. Tenho que ir pelo Kevin.

 

-Kevin está bem.

 

-Mesmo assim -disse Megan mesándose o cabelo e, de repente, teve vontades de tampar-se, de ocultar sua nudez.

 

-Não me feche a porta -disse Nate, contendo uma perigosa paixão.

 

-Não fechei nenhuma porta. Eu acreditava que queria que ficasse. Mas como não quer...

 

-Claro que quero. Maldita seja, Megan -exclamou Nate, e não se surpreendeu quando Megan se sobressaltou-. Necessito um maldito minuto. Poderia te comer viva, desejo-te muito.

 

Megan se tampou os seios com um braço.

 

-Não te entendo.

 

-Claro que não me entende -disse Nate, e tratou de acalmar-se-. Estaremos bem, Meg, se esperas a que me tranqüilize.

 

-Do que está falando?

 

Presa da frustração, Nate tomou a mão do Megan e a pôs contra a sua, palma com palma.

 

-Tenho as mãos muito grandes, Megan. Herdadas de meu pai. Sei como as utilizar, mas também sei como fazer mal com elas.

 

Brilhavam-lhe os olhos, como o fio de uma espada. Deveria ter atemorizado ao Megan, mas a excitava.

 

-Tem medo -disse-. Medo de me fazer danifico.

 

-Não te farei mal -disse Nate, e apoiou a mão sobre a cama, apertando o punho.

 

-Não, não me fará mal -disse Megan, lhe acariciando o queixo.

 

Nate apertava a mandíbula.

 

-Deseja-me -disse e o beijou na boca-. Quer me tocar e quer que eu te toque.

 

Tomo sua mão e a pôs sobre um de seus seios, logo lhe acariciou o peito e sentiu o tremor de seus músculos.

 

-me faça o amor, Nathaniel -disse com os olhos entrecerrados, pô-lhe as mãos no pescoço e se apertou contra ele-. Me mostre o muito que me deseja.

 

Nate a beijou, concentrando-se no sabor de sua boca. Seria o bastante, disse-se, para satisfazê-la.

 

Mas Megan aprendia depressa. Quando Nate queria ser tenro, ela era intensa, quando queria ser suave, ela se deixava levar pelo desejo.

 

Finalmente, Nate a levantou e ficaram frente a frente, de joelhos, corpo a corpo, e a beijou apaixonadamente.

 

Megan respondia avidamente a cada uma de suas demandas, a cada desesperado gemido. Nate a acariciava por todo o corpo, posesivamente, tomando mais solo quando ela pedia mais. acabaram-se as águas tranqüilas e se deixavam levar por uma corrente de desejo.

 

Nate não podia deter-se, mas, além disso, esqueceu-se de qualquer tipo de controle. Megan era seu e ele queria o ter tudo dela. Com um pouco parecido a um gemido, percorreu-lhe o corpo com os lábios.

 

Megan se arqueou e Nate se agachou e a beijou no ventre e lhe lambeu o sexo. Megan não pôde reprimir os gemidos de prazer, que proferiu pronunciando o nome do Nathaniel.

 

Nate a penetrou, impulsivamente, gemendo, com os olhos fechados. Tomou as mãos do Megan e prosseguiram amando-se com as mãos entrelaçadas.

 

Megan recordaria o ritmo, e a liberdade selvagem de seu encontro. E recordaria a maravilhosa sensação de compartilhar um orgasmo ao mesmo tempo.

 

 

Devia haver ficado dormida, disse-se ao despertar, tombada de barriga para baixo na cama. Já não chovia e tinha cansado a noite. Quando lhe esclareceu mente, deu-se conta de um montão de pequenos dores e de uma sensação de atordoamento e satisfação.

 

Pensou em dá-la volta, mas lhe pareceu muito esforço. Em vez disso, estirou os braços, procurando o Nate, embora, em realidade, sabia que estava sozinha.

 

Então ouviu falar com pássaro.

 

-Você sim sabe assobiar, não, Steve?

 

Megan seguia sonriendo quando Nathaniel entrou na habitação.

 

-O que faz? Ver filmes antigos todo o tempo?

 

-É um fã do Bogart -disse Nate. Resultava-lhe estranho sustentar uma bandeja de comida diante de uma mulher nua que jazia sobre sua cama-. Tem uma bonita cicatriz, neném.

 

Megan estava muito contente para incomodar-se.

 

-Me ganhei. Você tem um bonito dragão.

 

-Tinha dezoito anos, tola, e mais de um par de cervejas. Mas suponho que eu também me ganhei isso.

 

-Fica bem. O que trouxeste?

 

-pensei que teria fome.

 

-Morro de fome -disse Megan, apoiando-se em ambos os cotovelos-. Cheira muito bem. Não sabia que soubesse cozinhar.

 

-Não sei. Tem-no feito O Holandês. Sempre me trago comida do hotel. Solo tenho que esquentá-la. Bom, há frango uso índio e veio.

 

Megan se lambeu e se incorporou para ver o conteúdo da bandeja.

 

-Tem uma pinta estupenda. Mas de verdade que preciso ir pelo Kevin.

 

-chamei a Suzanna -disse Nate, esperando que Megan ficasse para jantar, nua como estava-. A não ser que a você chame, Kevin pode ficar a dormir em sua casa.

 

-Bom, pois...

 

-Diz que está jogando aos videojuegos com o Alex e Jenny.

 

-E se eu chamar, aguarei-lhe a festa.

 

-Mais ou menos -disse Nate sentando-se na cama, e acariciou ao Megan com um dedo-. Bom, fica dormindo comigo?

 

-Nem sequer tenho escova de dentes.

 

-Posso te encontrar um -disse Nate partindo uma parte de frango e dando-lhe ao Megan.

 

-OH -exclamou ela-. Como lança.

 

-Sim -disse Nate, e se inclinou para beijá-la nos lábios. Logo lhe deu a beber vinho-. Melhor?

 

-Maravilhoso.

 

Nate deu uns golpecitos no copo de vinho e caíram umas gotitas sobre o ombro do Megan.

 

-OH, será melhor que o limpe -disse, e o fez com a ponta da língua-. O que tenho que fazer para te convencer de que fique?

 

Megan esqueceu a comida e se tornou em braços do Nate.

 

-Acaba de fazê-lo.

 

 

Pela manhã, esclareceu-se névoa. Nathaniel olhou ao Megan, que olhava pela janela, banhada pela luz do sol. inclinou-se e a beijou na base do pescoço.

 

Pareceu-lhe um gesto formoso e singelo que podia converter-se em um hábito.

 

-eu adoro como te arruma, neném.

 

-Como me arrumo? -disse Megan, olhando o reflexo do Nate no cristal da janela.

 

Levava o mesmo traje de jaqueta do dia anterior, que não tinha nenhuma ruga. Ia perfeitamente maquiada, graças ao pequena maleta de emergência que levava na bolsa. O único que lhe dava problemas era o cabelo, porque tinha perdido a metade das forquilhas.

 

-É igual a um pastelito na cristaleira de uma confeitaria.

 

-Um pastelito? -disse Megan, rendo-. Eu não sou um pastelito.

 

-eu adoro os doces -disse Nate, e para prová-lo mordeu ao Megan no lóbulo da orelha.

 

-Já me dei conta -disse Megan, apartando o de si-. Tenho que ir.

 

-Já. Eu, também. Imagino que não posso te convencer de que venha comigo.

 

-A ver baleias? -disse-. Posso te convencer de que você venha a mim despacho a fazer números?

 

Nate fez uma careta.

 

-Suponho que não. Que tal esta noite?

 

Megan imaginou a entrevista.

 

-Tenho que pensar no Kevin. Não posso me passar as noites aqui e que ele durma em outra parte.

 

-Já pensei nisso. Estava pensando que podia deixar as portas de seu balcão abertas.

 

-E vais subir subindo?

 

-Mais ou menos.

 

-Boa idéia -disse Megan renda-se-. Bom, leva-me a meu carro?

 

-Que remédio -disse Nate, tomando sua mão.

 

Quando baixavam as escadas, Nate lhe falou, embora odiava tirar o tema, tinha que dizer-lhe

 

-Megan, se tiver notícias do Dumont, se tratar de verte a ti ou de ver o Kevin, se chamar ou faz sinais de fumaça, se fizer algo, o que seja, quero que me diga isso.

 

Megan lhe apertou a mão.

 

-Duvido que o faça, depois de como o tratou. Mas não se preocupe, posso com ele.

 

-Que lhe cortem a cabeça -disse Pássaro, quando passaram a seu lado, mas Nathaniel não sorriu.

 

-Não é questão de que possa com ele -disse Nate, empurrando a porta-. Pode que não te dê conta de que o que passou ontem à noite me dá direito a te cuidar e a cuidar de seu filho, mas isso é o que penso e isso é o que farei. Assim vamos pôr o desta maneira, ou me promete que me avisará ou vou por ele agora mesmo.

 

Megan quis protestar, mas a imagem, muito vívida, do rosto do Nathaniel quando empurrou ao Baxter contra a parede a deteve.

 

-Sei que o faria -disse.

 

-Garanto-lhe isso.

 

-Eu gostaria de dizer que te agradeço que se preocupe por meu, mas não estou segura de que isso me alegre. Levo muito tempo cuidando do Kevin e de mim mesma.

 

-As coisas trocam.

 

-Sim -disse Megan, perguntando-se que pensamentos se escondiam depois dos olhos cinzas e tranqüilos do Nate-, mas me sinto mais cômoda quando trocam pouco a pouco.

 

-Faço todo o possível por ir a seu ritmo, Megan. Mas neste assunto te peço que me diga sim ou não.

 

Não se tratava sozinho dela, pensou Megan, também estava Kevin. E Nathaniel lhes estava oferecendo seu braço protetor. O orgulho não importava quando se tratava do bem-estar de seu filho.

 

Quando se sentaram no carro, olhou-o.

 

-Sempre lhe as acertas para te sair com a tua. Diz as coisas como se fossem inevitáveis.

 

-Normalmente o são -disse Nate, arrancou o carro e se dirigiram ao porto.

 

Um pequeno comitê os esperava. Holt e, para surpresa do Megan, seu irmão, Sloan.

 

-deixei aos meninos em Las Torres -disse-lhe Holt-. Com seu cão, Nate.

 

-Obrigado.

 

Megan acabava de sair do carro quando Sloan a agarrou pelos ombros e a olhou aos olhos.

 

-Está bem? por que demônios não me chamaste? Pô-te as mãos em cima?

 

-Estou bem, Sloan, estou bem -disse Megan, e, instintivamente, acariciou-lhe a bochecha e o beijou-. Não te chamei porque já tinha dois cavalheiros de branca armadura para me defender. E pode que ele me tenha posto as mãos em cima, mas eu lhe hei devolvido murros. Acredito que lhe rompi o lábio.

 

Sloan disse algo muito desagradável sobre o Dumont e abraçou a sua irmã.

 

-Teria que havê-lo matado faz anos, quando me contou isso tudo.

 

-Não diga isso -disse Megan, abraçando a seu irmão-. Já terminou tudo e quero que o esqueçamos e que Kevin não saiba nada disso. Agora, vamos, levo-te a casa.

 

-Tenho coisas que fazer -disse Sloan olhando ao Nathaniel fríamente, por cima do ombro do Megan. Vê você. Eu vou logo.

 

-De acordo -disse Megan, e o beijou outra vez-. Holt, obrigado por cuidar do Kevin.

 

-Não se preocupe.

 

Nathaniel se despediu do Megan com um comprido beijo. Holt olhou ao Sloan, que franzia o cenho, e teve que conter a risada.

 

-Até mais tarde, neném.

 

Megan se ruborizou, esclarecendo-a garganta.

 

-Sim, bom... Adeus.

 

Nathaniel se meteu as mãos nos bolsos e esperou a que Megan se partiu para dirigir-se ao Sloan.

 

-Suponho que quer falar comigo.

 

-Claro que quero falar contigo.

 

-Pois terá que ser no navio, tenho um tour pendente.

 

-Querem um árbitro? -disse Holt, e ganhou dois olhadas fulminantes-. Que pena, não me queria perder isso -Acredito que já o terá adivinhado -disse Nathaniel fríamente.

 

Consumindo-se, Sloan seguiu ao Nathaniel pelo mole e subiu atrás dele ao navio. Esperou a que desse as ordens para zarpar e, quando estavam na cabine do leme, Nathaniel olhou ao Sloan.

 

-Se forem ser mais de quinze minutos, está convidado a um passeio em navio.

 

-Tenho tempo de, sobra -disse Sloan, aproximando-se do Nate e separando as pernas como um pistoleiro-. Que diabos está fazendo com minha irmã?

 

-Acredito que já o terá adivinhado -disse Nathaniel fríamente.

 

Sloan apertou os dentes.

 

-Se crie que me vou ficar parado enquanto você liga com ela, equivoca-te. Quando se foi com o Dumont eu não estava presente, mas agora estou aqui.

 

-Eu não sou Dumont -disse Nathaniel, fazendo esforços por conter-se-. Se quer descarregar em mim o que lhe fez, está bem, eu tenho vontades de matar a alguém desde que vi esse bastardo em cima dela. Assim, se quer tomá-la comigo, adiante.

 

Embora o convite tentava ao Sloan, despertando um elementar instinto masculino, Sloan retrocedeu.

 

-O que quer dizer com isso de que estava em cima dela?

 

-O que acabo de dizer -disse Nate-, que a tinha no chão, e estava sentado em cima dela. Me deu vontade de matá-lo, mas não acredito que lhe tivesse gostado.

 

Sloan respirou profundamente, tranqüilizando-se.

 

-E o atirou à água.

 

-Bom, antes disso, dava-lhe alguns golpes. Pensei que talvez não soubesse nadar.

 

Mais tranqüilo, Sloan assentiu.

 

-Holt teve umas palavras com ele quando saiu da água. Já se tinham enfrentado em outras ocasiões. Não acredito que volte, se por acaso volta a encontrar-se com algum de nós -disse. Sabia que devia alegrar-se, mas o lamentava, porque também ele queria lhe pôr as mãos em cima-. Agradeço-te que a cuidasse, mas isso não impede que eu não goste que... É muito vulnerável e o aconteceu muito mal. Não quero que nenhum homem se aproveite disso.

 

-Dava-lhe chá e roupa seca -disse Nathaniel entre dentes-. E aí teria ficado a coisa se ela tivesse querido, mas quis ficar comigo.

 

-Não quero que volte a sofrer. Pode que quando a olhar veja uma mulher atrativa, mas é minha irmã.

 

-Estou apaixonado por sua irmã -disse Nathaniel, e girou a cabeça para ouvir a porta da cabine.

 

-Preparados, capitão.

 

-Pois vamos -disse apertando os dentes e iniciou a manobra para zarpar.

 

-Quer que tenha que lombriga as contigo? -disse Sloan.

 

-Está surdo ou o que? Estou apaixonado por ela, maldita seja.

 

-Bom, então... -disse Sloan e, desconcertado, sentou-se em um pequeno banco da cabine.

 

Queria esclarecer seus pensamentos. depois de tudo, Megan apenas o conhecia, embora não tinha por que importar, ele se tinha apaixonado pela Amanda assim que a viu. Se ele pudesse escolher um homem para sua irmã, teria sido alguém parecido ao Nathaniel Fury.

 

-O há dito? -perguntou-lhe Sloan, com um tom grandemente menos beligerante.

 

-Vete ao inferno.

 

-Não o há dito -disse Sloan-. E ela sente o mesmo por ti?

 

-Sentirá-o -disse Nathaniel, apertando os dentes-. Necessita tempo, isso é tudo.

 

-Isso há dito?

 

-Isso é o que eu digo -disse Nathaniel, mesándose os cabelos-. Olhe, Ou'Riley, me dê um murro nos narizes se quiser, já tive o bastante.

 

Sloan sorriu.

 

-Está louco por ela, né?

 

Nathaniel se limitou a grunhir, sem apartar a vista do mar.

 

-E o que passa com o Kevin? -disse Sloan, estudando o perfil do Nate-. Há homens que não quereriam fazer-se carrego do filho de outro.

 

-Kevin é o filho do Megan -disse Nate com um olhar penetrante-. E será meu filho.

 

Sloan guardou silêncio uns instantes antes de prosseguir.

 

-Então, quer o pacote completo.

 

-Exato -disse Nathaniel, acendendo um charuto-. Algum problema?

 

-Ao contrário -disse Sloan sonriendo e aceitou o charuto que lhe ofereceu Nate-. Mas não sei se para ti o será. Minha irmã é muito teimosa. Mas vendo que quase é um membro da família, eu adorarei ajudar.

 

Nathaniel franziu os lábios.

 

-Obrigado, mas prefiro fazê-lo sozinho.

 

-Como quer -disse Sloan, e se dispôs a desfrutar de do passeio.

 

 

-Seguro que está bem?

 

Megan acabava de entrar em Las Torres e se encontrou rodeada de preocupação.

 

-Estou bem, de verdade -disse.

 

Mas seus protestos não impediram que as Calhoun a levassem a cozinha e lhe oferecessem chá e simpatia.

 

-Parece-me que estão exagerando.

 

-Quando alguém se mete com algum de nós -disse C. C.-, mete-se com todos nós.

 

Megan olhou ao jardim. Os meninos jogavam alegremente.

 

-Agradeço-lhes isso, de verdade. Mas não acredito que haja nada pelo que nos preocupar.

 

-Claro que não -disse Colleen entrando na cozinha, observando a cena com seu ardiloso olhar-. O que estão fazendo aqui? Pondo nervosa à garota? Fora.

 

-Tia Colleen... -disse Coco.

 

-Fora, hei dito. Todos. E você volta para a cozinha com esse holandês grandote com o que aconteceste a noite.

 

-Mas...

 

-Vete. E você -disse tia Colleen, dirigindo seu gesto ameaçador a Amanda-. Tem que dirigir o hotel, não? Pois vete. E você -disse a uma preguiçosa Lilah-, vete a dormir a sesta.

 

-Sim -disse ela-, faz-me falta. Vamos, senhoras, jogam-nos.

 

Satisfeita, quando a porta se fechava, Colleen se sentou pesadamente em uma cadeira.

 

-me ponha uma taça de chá-disse ao Megan-. Bem quente.

 

Embora se levantou para obedecer, Megan não estava impressionada.

 

-Sempre é tão brusca para pedir as coisas, senhora Calhoun?

 

-Isso é pela velhice, e porque eu não gosto de perder o tempo -disse tia Colleen, e aceitou a taça de chá que lhe deu Megan. Um chá quente e forte, muito a seu gosto-. Agora, sente-se e escuta o que vou dizer te. E não me contradiga, jovencita.

 

-Tenho-lhe muito afeto a Coco -disse Megan-. E você a tem feito envergonhar-se.

 

-Coco envergonhada? Ja! Ela e esse urso tatuado levam dias deitando-se juntos. Quão único tenho feito é lhe dar um empurrãozinho para que se atreva a dizê-lo publicamente -disse e olhou ao Megan com cumplicidade-. É muito leal, verdade?

 

-Sim.

 

-Eu também o sou. Esta manhã tenho feito umas quantas chamadas, a amigos de Boston. Amigos com influências. Chist -disse ao Megan quando esta quis falar-. Eu detesto a política, mas às vezes é necessária para dançar com o diabo. Dumont tem que saber que qualquer contato contigo, ou com seu filho, será fatal para suas ambições. Não voltará a te incomodar.

 

Megan franziu os lábios. Até aquele momento, a ameaça do Baxter tinha pendido como uma espada do Damocles sobre sua cabeça, mas, depois das palavras do Colleen, desapareceu por completo.

 

-por que o tem feito?

 

-Odeio aos porcos, sobre tudo aos porcos que interferem na felicidade de minha família.

 

-Eu não sou sua família -disse Megan com suavidade.

 

-Ja! Isso te você crie. colocaste os narizes em território Calhoun, jovencita. É uma dos nossos, para sempre.

 

Ao Megan lhe encheram os olhos de lágrimas.

 

-Senhora Calhoun -disse Megan, mas tia Colleen a interrompeu com uns golpecitos de fortificação. Deu um coice e prosseguiu-: Tia Colleen, muito obrigado.

 

-De nada -disse Colleen, e pigarreou para esclarecê-la garganta. Logo elevou a voz-. Deixem de escutar detrás da porta! Já podem entrar!

 

A porta se abriu, e Coco foi primeira em entrar. aproximou-se do Colleen e lhe deu um beijo.

 

-Deixa de tolices -disse tia Colleen, apartando a suas sobrinhas-. Quero que a garota me conte como esse jovem tão arrumado atirou a esse porco à água.

 

Megan se pôs-se a rir, secando-os olhos.

 

-Antes lhe sacudiu.

 

-Ja! -disse Colleen, agitando o fortificação como sinal de apreciação-. Não economize detalhes.. Não economize detalhes.

 

 

  1. se está comportando extrañamente. Desde que voltamos para a ilha depois do verão, está distraída, sonha acordada. Chega tarde ao chá, esquece entrevistas. Intolerável. Molestos distúrbios no México. despedi da ajuda de câmara. pôs muito amido nas camisas.

 

Incrível, pensou Megan, lendo as notas do Fergus, que tinha uma caligrafia sinuosa, quase indecifrável. Podia falar de sua esposa, de uma guerra potencial ou do ajuda de câmara com o mesmo tom irritado. Que vida tão miserável deveu ter Bianca, que terrível deveu ser ver-se apanhada em seu matrimônio, controlada por um déspota e sem poder dirigir sua própria vida.

 

Mas pior tivesse sido, disse-se Megan, que Bianca o tivesse amado.

 

Como fazia freqüentemente nas horas tranqüilas que precediam ao sonho, Megan voltou a fixar-se nas páginas finais do livro, repletas de números e lamentou não ter podido ir à biblioteca ainda.

 

Embora, talvez, seria-lhe mais útil falar com a Amanda. Amanda saberia se Fergus tinha contas bancárias no estrangeiro ou depósitos em caixas de segurança.

 

perguntou-se se ali estaria a chave de tudo. Fergus teve casas em Maine e Nova Iorque, aqueles números podiam corresponder a caixas de segurança. Talvez fossem combinações.

 

Pareceu-lhe uma idéia muito atrativa, uma resposta lógica a um intrincado quebra-cabeças. Era algo que encaixava com a personalidade de um homem tão obcecado pelo dinheiro como Fergus Calhoun.

 

Não seria fantástico, disse-se, que encontrassem algum depósito em uma oxidada caixa de segurança? Levaria oitenta anos sem abrir-se e a chave se teria perdido. E o conteúdo? Rubis ou bônus negociáveis? Uma fotografia velha ou uma mecha de cabelo?

 

Fechou os olhos e riu de si mesmo.

 

-Não te deixe levar pela imaginação, Megan -murmurou-, pode te levar muito longe.

 

-O que?

 

Megan se sobressaltou como um coelho, e lhe caíram os óculos.

 

-Maldita seja, Nathaniel.

 

Nate sorria, enquanto fechava as portas da terraço a suas costas.

 

-Eu acreditava que te alegraria de lombriga.

 

-E me alegro, mas não sei por que tem que entrar sem avisar.

 

-Acabo de subir pelos balcões do hotel, como ia entrar, com uma banda de música? -disse Nathaniel, e se aproximou da cadeira onde estava sentada Megan, inclinando-se para beijá-la como um homem faminto-. Me alegro de que fale sozinha.

 

-Eu não falo sozinha.

 

-Acaba de fazê-lo, por isso decidi deixar de te olhar e entrar. Está muito bonita sentada a sua mesa, com o cabelo recolhido, os óculos e essa bata.

 

Megan desejou que sua bata se transformasse em uma sedutora camisola de seda, mas não tinha nenhum objeto atrativo com a que adornar-se.

 

-Pensei que já não foste vir. É muito tarde.

 

-Imaginei que haveria muitas perguntas sobre o de ontem e que quereria deitar ao Kevin. Não sabe o que passou, verdade?

 

-Não -disse Megan, comovida porque Nate lhe perguntasse pelo Kevin-. Os meninos não sabem e todos outros estiveram maravilhosos. É como pensar que está sozinho em plena batalha e, de repente, encontra-te rodeado por um círculo de escudos -disse, e sorriu, inclinando a cabeça a um lado-. O que está escondendo?

 

Nate escondia uma mão detrás das costas, que tirou, lhe mostrando ao Megan uma peonía, geme a daquela que já lhe tinha dado.

 

-Uma rosa sem espinhos -disse-lhe.

 

Megan o olhou, e tudo o que pôde pensar por um instante foi que aquele homem fascinante a desejava. Nate foi pôr a flor no vaso, para substituir a outra flor já murcha.

 

-Não a atire -disse-lhe Megan, sentindo-se um pouco parva.

 

-É sentimental, Meg? -disse Nate, e deixou os dois casulos no vaso-. Sinta-se aqui a trabalhar até tarde olhando a flor e pensando em mim?

 

-Poderia ser -disse Megan, observando o irresistível sorriso do Nate-. Sim, pensei em ti. Embora não sempre bem.

 

-Basta-me com que pense em mim -disse Nate, beijando-a na palma da mão-. Quase.

 

Atirou dela, sentou-se ele na cadeira, e logo a sentou em seus joelhos.

 

-Assim está muito melhor -disse.

 

Megan apoiou a cabeça em seu ombro.

 

-Todo mundo se está preparando para a celebração de Quatro de julho -disse perezosamente-. Coco e O Holandês discutem sobre receitas para molho andaime e os meninos estão decepcionados porque não lhes deixamos atirar foguetes.

 

-Acabarão por fazer dois molhos e lhe perguntar a todo mundo sua opinião -disse Nate, pensando em quão agradável era estar ali sentado, tranqüilamente, ao final de um comprido dia de trabalho-. E aos meninos adorarão os fogos que sempre organiza Trent.

 

Kevin não tinha falado de outra costure em toda a tarde, recordou Megan.

 

-ouvi que vai ser um espetáculo.

 

-Já verá. Você gosta dos foguetes?

 

-Quase tanto como aos meninos -disse Megan rendo, e se estreitou contra Nate-. Não posso acreditar que já estejamos em julho.

 

-Sim, parece mentira -disse Nate-. O que faz? Está com o livro do Fergus?

 

-Sim. Não sabia que tivesse amassado uma fortuna semelhante ou que tivesse tão pouca consideração pela gente. Olhe aqui -disse Megan assinalando a página com um dedo-. Escreve da Bianca como se fora uma posse. Comprovava as contas todos os dias, até o último céntimo. Há uma anotação em que o sustrae trinta e três céntimos do salário à cozinheira por discrepâncias com a compra de mantimentos.

 

-Há muita gente que no primeiro que pensa é no dinheiro -disse Nate, folheando o livro-. Eu não posso estar seguro de que não esteja sentada em cima de mim por minha conta bancária, que conhece até o último detalhe.

 

-Não tem um dólar.

 

-Algum tenho.

 

-Muito poucos, mas é normal nos primeiros anos de um negócio, e quando terá que acrescentar o gasto de equipamento, a hipoteca da casa, os seguros e as licenças mercantis...

 

-Deus, eu adoro quando fala assim -disse Nate fechando o livro e brincando com a orelha do Megan. me fale de balanços e de pagamentos trimestres. Os pagamentos trimestres me voltam louco.

 

-Então, alegrará-te saber que Holt e você não lhes dão a importância que têm aos impostos trimestres.

 

-O que quer dizer?

 

-Devem-lhe ao governo outros duzentos e trinta dólares, que terá que acrescentar ao próximo pagamento ou que, sabiamente, posso enviar em uma emenda de devolução.

 

-E por que temos que lhes pagar adiantado? -disse Nathaniel.

 

Megan lhe disse um beijo na frente.

 

-Porque, se não o fizer, o escritório de Fazenda te vai fazer a vida impossível.

 

-troquei que opinião. Eu não gosto que me fale como uma contável -disse Nate e colocou uma mão sob a bata do Megan-. Vamos à cama, vou dizer te o que eu gosto mais de ti.

 

 

Nada mais amanhecer, Nate descia pelos degraus do jardim, assobiando e com as mãos nos bolsos. O Holandês, em idêntica pose, descia pela escada oposta. Os dois ficaram de pedra quando se toparam frente a frente.

 

-O que faz aqui a estas horas? -disse O Holandês. -Eu posso te fazer a mesma pergunta.

 

-Vivo aqui, não te lembra?

 

Nathaniel inclinou a cabeça.

 

-Vive aí abaixo -disse assinalando a planta baixa. -saí a tomar o ar -disse O Holandês em um arrebatamento de inspiração.

 

-Eu também.

 

O Holandês olhou para o balcão do Megan. Nathaniel olhou ao de Coco. Os dois decidiram deixar as coisas como estavam.

 

-Bom, então, suponho que gostará de tomar o café da manhã.

 

Nathaniel se passou a língua pelos dentes.

 

-Pois a verdade é que sim.

 

-Vamos, ou quer ficar aqui toda a manhã? Aliviados com a solução, dirigiram-se juntos à cozinha, felizes pelo acordo.

 

 

Megan dormiu mais da conta. Saiu da habitação correndo a toda velocidade, grampeando-a blusa como podia. apareceu à habitação do Kevin, observou a cama feita e suspirou. Todo mundo estava acordado e levantado, disse-se.

 

dirigiu-se apressadamente a seu escritório, esquecendo-se de tomar o café da manhã com seu filho, perdendo-se assim um dos pequenos prazeres do dia.

 

-OH, querida -disse Coco quando Megan quase se chocou com ela no vestíbulo-. Ocorre algo?

 

-Não, sinto muito, solo chego tarde.

 

-Tinha uma entrevista?

 

-Não -disse Megan-. Quero dizer que chego tarde ao trabalho.

 

-OH, Meu deus, acabo de te deixar uma nota no despacho. Vê, vê, não quero te deter.

 

-Mas...

 

Coco se afastou, deixando ao Megan com a palavra na boca, de modo que esta se dirigiu a seu escritório.

 

 

Megan, querida, espero que tenha dormido bem. Tem café na sua cafeteira e te deixei uma cesta de madalenas. Não fique sem tomar o café da manhã. Kevin comeu como uma lima. Que bonito é ver um menino desfrutando de sua comida. Nate e ele voltarão para meio-dia. Não trabalhe muito.

 

Uma saudação, Coco

 

P D.: Os cartas dizem que tem que responder a dois importantes pergunta. Uma com seu coração, a outra com a cabeça. Não te parece interessante?

 

 

Megan deixou escapar um suspiro e estava relendo a nota, quando Amanda bateu na porta.

 

-Tem um minuto?

 

-Claro -disse Megan, e lhe deu a nota-. Pode interpretar isto por mim?

 

-Ah, uma das herméticas mensagens de tia Coco -disse Amanda, franzindo os lábios-. Bom, o do café e as madalenas é fácil...

 

-Isso o entendi -disse Megan, que já se serviu uma taça de café-. Quer?

 

-Não, obrigado, já me levou as minhas. «Kevin comeu como uma lima.» Posso dar fé disso. comeu três torradas, brigando com o Nathaniel pela última peça.

 

Megan provou o café.

 

-Nathaniel tomou o café da manhã aqui?

 

-Tomando o café da manhã e brincando com tia Coco, enquanto contava ao Kevin uma história sobre um polvo gigante. «Voltarão para meio-dia.» Bom, Nate se levou ao Kevin a ver as baleias outra vez. Não acredito que terei que dizer muito sobre isso -acrescentou Amanda com um sorriso-. E nos pareceu que não te importaria.

 

-Não, claro que não.

 

-E o das cartas desafia toda interpretação. É algo inerente à tia Coco -disse Amanda deixando a nota na mesa-. É um pouco misterioso, de todas formas. Têm-lhe feito algumas pergunta ultimamente?

 

-Não, nada de particular.

 

Amanda se referia ao que Sloan lhe tinha contado: o que sentia pelo Megan.

 

-Seguro?

 

-Né? Sim. Estava pensando no livro do Fergus, suponho que se pode considerar uma pergunta, pelo menos um enigma. Mas eu sim queria te perguntar algo.

 

-Adiante.

 

-Os números das últimas páginas. Já lhe mencionei isso antes -disse Megan, abrindo um arquivo e lhe dando uma cópia da lista de números a Amanda-. Perguntava-me se podiam ser números de caixas de segurança ou combinações de caixas fortes, ou referências a propriedades, valores, não sei -disse encolhendo-se de ombros-. Sei que é uma tolice lhes emprestar atenção.

 

-Não -disse Amanda-. Sei o que te passa. Eu também odeio a desordem, e que as coisas não encaixem. Examinamos a maioria dos papéis de 1913 que ficam procurando pistas sobre onde estava o colar, mas não recordo nada que possa ter que ver com essas cifras. Embora vá voltar a examiná-lo tudo.

 

-me deixe a mim -disse Megan-. É como se fora meu menino.

 

-Me alegro, porque tenho muito que fazer e, com as celebrações de amanhã, logo que tenho tempo de nada. Tudo o que há está no trastero que há debaixo da habitação da Bianca na torre. Está tudo arquivado em caixas, por ano e conteúdo, mas mesmo assim é um trabalho muito pesado.

 

-Me passado a vida fazendo trabalhos pesados.

 

-Pois então te vais sentir como peixe na água. Megan, ódio lhe pedir isso mas é o dia livre da babá, Sloan teve que ir-se e eu tenho uma entrevista no povo esta tarde. Posso trocá-la mas...

 

-Quer que cuide da menina?

 

-Sei que está ocupada...

 

-Mandy, acreditava que alguma vez me foste pedir isso -disse Megan com alegria-. Quando posso lhe pôr as mãos em cima?

 

 

Para o Kevin, aquele era o melhor verão de sua vida. Sentia falta da seus avós, aos cavalos e a seu melhor amigo, John Silverstone, mas tinha muitas coisas que fazer para estar realmente triste.

 

Jogava com o Alex e Jenny todos os dias, tinha seu próprio forte e vivia em um castelo. Montava em navio, subia pelas rochas e Coco e o senhor Holandês lhe davam algo de comer sempre que o pedia. Max lhe contava histórias maravilhosas, Sloan e Trent lhe deixavam ajudar nas obras de vez em quando e Holt o tinha levado no fora borda.

 

Todas suas tias jogavam com ele e, algumas vezes, se tinha muito, muito cuidado, deixavam-lhe um bebê.

 

Além disso estava Nathaniel, disse-se observando ao homem que ia sentado a seu lado, conduzindo o conversível, de volta às Torres. Kevin tinha decidido que Nathaniel sabia de tudo. Tinha músculos e uma tatuagem e quase sempre cheirava a mar.

 

Quando o recordava na cabine do navio, com os olhos entrecerrados para proteger do sol e suas grandes mãos no leme, não podia pensar em um herói maior que ele.

 

-Ao melhor... -disse.

 

Nathaniel o olhou.

 

-Ao melhor o que, companheiro?

 

-Talvez posso voltar a ir em navio contigo -disse Kevin-. A próxima vez te prometo que não pergunto tanto e que não me ponho no meio.

 

Tinha existido alguma vez, perguntou-se Nathaniel, um homem que não fora sensível à ternura de um menino?

 

-Pode vir comigo sempre que querer -disse baixando a viseira da boina de marinheiro que lhe tinha deixado ao Kevin-. E pode fazer todas as perguntas que queira.

 

-De verdade?

 

-De verdade.

 

-Obrigado!

 

detiveram-se na porta do imóvel.

 

-O vou dizer a mamãe. Vem?

 

-Sim -disse Nate.

 

-Vamos -disse Kevin, e saiu correndo.

 

E correndo entrou em casa.

 

-Mamãe, estou aqui!

 

-Vá, que menino tão calado -disse Megan levantando-se-. Deve ser meu filho Kevin.

 

Kevin se aproximou de sua mãe rendo e ficou nas pontas dos pés para ver o bebê que sustentava em seus braços.

 

-É Bianca?

 

-Delia.

 

Kevin se fixou na menina.

 

-E como as diferenças, se forem iguais?

 

-Olhos de mãe -murmurou Megan e beijou a seu filho-. Onde estiveste, marinheiro?

 

-Muito dentro do mar, duas vezes. Vimos nove baleias, e uma era como um bebê. E Nate me deixou tocar a buzina e conduzir. E havia um homem enjoado, mas eu não, porque eu tenho pernas de marinheiro. E Nate diz que posso ir com ele outra vez, posso?

 

-Bom, suponho que sim.

 

-Sabe? As baleias se casam para toda a vida e não são peixes de tudo, embora vivam no mar. São mamíferos, igual aos cães, e têm que respirar. Por isso saem e jogam água pelo nariz.

 

Nathaniel entrou em plena lição. E se deteve, observando. Megan estava olhando a seu filho, sonriendo, e sustentava um bebê entre os braços.

 

«Desejo-te,» pensou. O desejo percorreu seu corpo como um raio de sol, quente e brilhante. E pensou que além da aquela mulher, queria, como havia dito Sloan, todo o pacote. À mulher e a seu filho.

 

Megan o olhou e sorriu. Seu coração se parou. Quis falar, mas ao ver o olhar do Nathaniel lhe fez um nó na garganta. Retrocedeu um passo, mas Nathaniel se aproximou dela, acariciou-lhe a bochecha e a beijou nos lábios.

 

O menino rio com entusiasmo e Delia atirou do cabelo do Nathaniel, que tinha tão à mão.

 

-Olá, pequena -disse Nate, levantando o bebê no ar, e deixando que esperneasse. Logo a baixou e a sustentou em braços, e olhou ao Kevin-. Importa-te que lhe tenha dado um beijo a sua mãe?

 

Megan proferiu um som estrangulado. Kevin olhou ao chão.

 

-Não sei -disse.

 

-É muito bonita, verdade?

 

Kevin se encolheu de ombros.

 

-Sim, não sei -disse. Não sabia o que tinha que sentir. Muitos homens davam beijos a sua mãe: seu avô, seu tio Sloan, Holt, Trent e Max. Mas aquele beijo era distinto e ele sabia. Levantou a vista e voltou a agachá-la-. É seu noivo?

 

-Mais ou menos, você molesta?

 

Kevin, com uma estranha sensação no estômago, encolheu-se de ombros.

 

-Não sei.

 

Já que o menino não levantava a vista, Nathaniel ficou em cuclillas.

 

-Tem todo o tempo do mundo para pensá-lo, e logo me diz isso. Eu não vou a nenhuma parte.

 

-Vale -disse Kevin olhando a sua mãe, e ao Nathaniel de novo. Logo lhe disse ao ouvido-. lhe gosta?

 

Nathaniel conteve um sorriso e respondeu com solenidade a uma pergunta tão solene.

 

-Sim.

 

depois de um comprido suspiro, Kevin assentiu.

 

-Está bem, pode lhe dar um beijo se quiser.

 

-Obrigado -disse Nate e tendeu a mão ao Kevin. Aquele trato de homem a homem deixou ao Kevin cheio de orgulho.

 

-Obrigado por me levar hoje -disse Kevin tirando-a boina de capitão.

 

 

Nathaniel voltou a lhe pôr a boina.

 

-Fique a

 

O menino abriu muito os olhos.

 

-De verdade?

 

-Sim.

 

-Uauh, obrigado, obrigado, muito obrigado. Olhe, mamãe, é para mim. vou acostumar se a à tia Coco disse, e saiu correndo.

 

Megan olhou ao Nate franzindo o cenho.

 

-O que te perguntou?

 

-Coisas de homens. As mulheres não entendem destas coisas.

 

-De verdade? -disse Megan, e antes de que pudesse dizer nada, Nate lhe pôs as mãos na cintura e atirou dela.

 

-Agora tenho permissão para fazer isto -disse beijando-a, enquanto Delia se acomodava entre eles.

 

-Permissão de quem? -disse Megan quando conseguiu separar-se.

 

-De seus homens -disse Nate tomando a Delia e deixando-a no curral, onde a menina ficou a jogar com um osito de peluche-. Exceto de seu pai, mas como a ele não pude pedir-lhe -Não é assunto dele -disse Megan com aborrecimento.

 

-Meus homens? Refere ao Kevin e Sloan? -disse Megan, deixando cair em um sofá-. O há dito ao Sloan?

 

-íamos pegar nos, mas ao final não passou nada -disse Nate, e foi ao móvel bar para servir um uísque-. Ficamos como amigos.

 

-Suponho que a nenhum dos dois lhes ocorreu pensar que eu tinha algo que opinar no assunto.

 

-Não falamos do assunto. Estava molesto porque te tivesse ficado dormindo comigo.

 

-Não é assunto dele -disse Megan com aborrecimento.

 

-Pode que sim e pode que não, mas é água passada. Não te zangue.

 

-Não estou zangada, mas me incomoda que fale de nossa relação com minha família sem falar antes comigo -disse Megan. O que mais lhe incomodava era o olhar de adoração que tinha visto nos olhos do Kevin.

 

Mulheres, pensou Nathaniel, e deixou o uísque na mesa.

 

-Ou o explicava ao Sloan ou lhe dava um murro.

 

-Isso é uma tolice.

 

-Você não estava ali, carinho.

 

-Por isso. Eu não gosto que falem de mim, já o sofri muitos anos.

 

-Megan, se for começar outra vez com o Dumont, vais conseguir que me zangue.

 

-Não estou falando do Dumont, solo estou constatando um fato.

 

-E eu constatei outro. Hei-lhe dito a seu irmão que estou apaixonado por ti e já está.

 

-Teria que haver... -disse Megan, e se interrompeu. De repente, faltava-lhe o ar-. Há- dito ao Sloan que está apaixonado por mim?

 

-Sim. Agora vais dizer que tinha que lhe haver isso dito a ti antes.

 

-Eu... não sei o que vou dizer -disse Megan, mas estava feliz, muito feliz.

 

-o melhor que pode dizer é «eu também te quero» -disse Nate, e esperou-. Não pode?

 

-Nathaniel -disse Megan. «te acalme,» disse-se, «sei razoável, lógica»-. Vamos muito depressa. Faz umas semanas nem sequer te conhecia, não esperava o que ocorreu entre nós. E sigo desconcertada por isso. Sinto algo muito intenso por ti, se não, não poderia me haver deitado contigo.

 

Estava-o matando.

 

-Mas...

 

-O amor não é algo no que possa voltar a ser frívola. Não quero te fazer danifico nem sofrer eu, nem dar um passo que poderia fazer sofrer ao Kevin.

 

-E crie que o melhor é esperar, verdade? Não importa o que sinta com tal de que espere a que passe um período de tempo razoável. Para que possa estudar todos os dados, quadrar o balanço, e então, obterá a resposta correta.

 

Megan ficou rígida.

 

-Se o que quer dizer é que necessito tempo, então, sim, necessito tempo.

 

-Muito bem, tome seu tempo, mas acrescenta isto a sua equação -disse Nate, aproximou-se dela e a beijou apaixonadamente-. Sente exatamente quão mesmo eu.

 

Assim era, só que lhe dava medo.

 

-Essa não é a resposta.

 

-É a única resposta -disse Nate, brocando-a com o olhar-. Eu tampouco te buscava, Megan. Estava satisfeito com como foram as coisas, mas o trocaste tudo para mim. Assim vais ter que reajustar suas bonitas colunas e fazer sítio para mim. Porque te quero e vou ter te. Kevin e você me ides pertencer -disse, e a soltou-. Pensa nisso -disse, e partiu.

 

Idiota. Nathaniel continuava amaldiçoando-se quando estacionou no mole. Estava claro, tinha encontrado um modo novo de cortejar a uma mulher: gritar e lhe dar um ultimato. Claramente, o melhor modo de ganhar seu coração.

 

deu-se a volta para tirar cão, que ia no assento de atrás, e recebeu um afetuoso lametón.

 

-Quer que nos embebedemos? -perguntou a aquela bola de cabelo-. Não, tem razão, não é uma boa eleição.

 

Entrou no escritório, deixou a Cão e se perguntou o que podia fazer para não pensar.

 

Trabalhar, disse-se, era uma opção mais sábia que a garrafa.

 

Foi à garagem e esteve arrumando um motor, até que ouviu o familiar som de uma sereia. Devia ser Holt, com o último grupo do dia.

 

Seguia de um humor amargo, mas saiu ao mole para ajudar no atraque.

 

-As férias estão trazendo muitos turistas -comentou Holt, depois de amarrar o navio-. Hoje tivemos muito boa bilheteria.

 

-Já -disse Nathaniel, que se tinha fixado em quão passageiros abandonaram o navio-. Ódio as multidões.

 

Holt se surpreendeu.

 

-Pois tua foi a idéia de fazer tours especiais por em Quatro de julho.

 

-Faz-nos falta o dinheiro -disse Nathaniel, entrando na garagem-. Mas isso não significa que eu goste.

 

-O que te passa? Quem te chateou?

 

-Ninguém -disse Nathaniel, acendendo um charuto-. Eu não gosto de ficar em terra, isso é tudo.

 

Holt duvidava que fora certo, mas, tal como reagem os homens, encolheu-se de ombros e agarrou uma chave.

 

-Este motor está levando muito tempo.

 

-Posso ir quando queira -disse Nathaniel, mordendo o charuto-. Quão único tenho que fazer é fazer a mala e me arrolar em um cargueiro.

 

Holt suspirou.

 

-trata-se do Megan, não?

 

-Eu não lhe pedi que se metesse em minha vida, não?

 

-Bom...

 

-Eu estava aqui antes -disse Nathaniel. Sabia que era um argumento ridículo, mas não podia deixar de falar-. Essa mulher tem um ordenador na cabeça. Nem sequer é meu tipo, com esses trajecitos e a carteira. Quem há dito que eu me ia ficar aqui, a me atar de por vida? Desde que tinha dezoito anos, não vivi mais de um mês em nenhuma parte.

 

Holt fingiu trabalhar no motor.

 

-começaste um negócio, colocaste-te em uma hipoteca. E me parece que leva aqui seis meses.

 

-Isso não significa nada.

 

-insinuou Megan que quer casar-se?

 

-Não -disse Nathaniel dando uma larga imersão ao charuto-. Insinuei-o eu.

 

Ao Holt lhe caiu a chave ao chão.

 

-Espera um momento. A ver se o entendo. Está pensando em te casar e me vem com que quer te arrolar em um cargueiro porque não quer te atar?

 

-Eu não queria me atar, simplesmente ocorreu -disse Nathaniel fumando-. Maldita seja, Holt, sou um idiota.

 

-Tem graça quão idiotas somos com a mulheres, né? Brigaste-te com ela?

 

-Hei-lhe dito que a quero. Ela começou a briga -disse Nathaniel, e ficou a dar voltas, e a ponto esteve de atirar o banco de ferramentas de uma patada-. O que ocorreu com os dias em que as mulheres queriam casar-se, quando casar-se era sua meta, quando o único que queriam era caçar a um homem?

 

-Em que século estamos?

 

Que Nathaniel pudesse rir era um motivo de esperança.

 

-Acredita que vou muito depressa.

 

-Eu te aconselharia que fosse mais devagar, mas te conheço faz muito tempo.

 

Mais tranqüilo, Nathaniel agarrou uma chave, refletiu um instante, e voltou a deixá-la em seu sítio.

 

-Suzanna se livrou do Dumont, como o conseguiram?

 

-Chiei-lhe muito.

 

-Já o tentei.

 

-Lhe dei de presente flores. adora as flores.

 

-Também o tenho feito.

 

tentaste a súplica?

 

Nathaniel franziu o cenho.

 

-Pois não, e você?

 

Holt se interessou mais pelo motor.

 

-Estamos falando de ti. Demônios, Nate, lhe diga alguma dessas poesias que você gosta tanto, eu o que sei. Não sou muito bom nestas coisas.

 

-Tem a Suzanna.

 

-Já -disse Holt sonriendo-. Pois consegue a sua própria mulher. Nathaniel assentiu e atirou o charuto. -Isso intento.

 

O sol se pôs quando Nathaniel voltou para casa. Tinha engordurado um motor e reparado um casco, mas seguia de mau humor.

 

Recordou uma entrevista, do Horacio, a respeito de que a ira era uma loucura momentânea. Se não se encontrava o modo de dominar a loucura momentânea, acabava-se em uma habitação acolchoada. Uma imagem muito pouco agradável.

 

O único modo de sair dali, tal como ele o via, era enfrentar-se a ela. E ao Megan. E ia fazer ambas as coisas assim que limpasse a casa.

 

-Terá que tratar comigo, não? -disse a Cão, enquanto o animal saltava do assento traseiro-. Te faça um favor, Cão, e te afaste das garotas listas com mais cérebro que sentido comum.

 

Cão moveu a cauda e foi regar as novelo.

 

Nathaniel fechou o carro de uma portada e se dirigiu à casa.

 

-Fury?

 

deteve-se e olhou para a porta.

 

-Sim.

 

-Nathaniel Fury?

 

Viu o homem aproximar-se para ele. Um gorila com calças jeans. Tinha cara de bruto, andava com as pernas separadas e levava uma boina de beisebol imersão até as sobrancelhas.

 

Nathaniel o reconheceu. Tinha-o visto antes. Era especialista em criar problemas ali onde estivesse.

 

-Exato. O que posso fazer por você?

 

-Nada -disse o homem sonriendo-. Sou eu o que posso fazer algo por você.

 

Agarraram-no por detrás, lhe retorcendo os braços. Viu o primeiro golpe, mas não pôde fazer nada por esquivá-lo e recebeu um murro no estômago. Doeu-lhe muito e começou a ver dobro. O segundo murro lhe deu na mandíbula.

 

Gemeu e se inclinou para diante.

 

-Igual a uma menina. E se supunha que era duro -disse o que o agarrava. Com um rápido movimento, levantou a cabeça e lhe deu no nariz. Logo, apoiando-se naquele homem, levantou ambos os pés e golpeou ao gorila.

 

O homem a suas costas ficou a amaldiçoar, mas afrouxou os braços o suficiente para que Nathaniel se soltasse. Só teve uns segundos para julgar a seus oponentes.

 

Viu que os dois estavam tocados, alguém se queixava, sangrando pelo nariz, e o outro tratava de recuperar o fôlego. Nate golpeou ao que tinha detrás com o cotovelo e teve o momentâneo prazer de ouvir o choque do osso contra o osso.

 

Atacaram-no como cães.

 

brigou-se durante toda sua vida e sabia como não pensar na dor e seguir lutando. Saboreou seu próprio sangue e a cabeça lhe retumbou como o sino de uma igreja quando lhe deram um murro na mandíbula, logo lhe queimou o peito ao receber outro nas costelas.

 

Mas seguia movendo-se, embora o estavam rodeando. Evitou um murro no pescoço e o devolveu à mandíbula. Doeram-lhe os nódulos, mas era uma dor doce.

 

Viu o movimento pela extremidade do olho e reagiu. O golpe lhe deu no ombro e lhe respondeu com dois diretos ao pescoço. O homem acabou de joelhos no chão.

 

-Agora só estamos você e eu -disse Nathaniel limpando-a sangue da boca-. Venha, vamos.

 

Seu oponente, pensou um instante, tinha perdido vantagem numérica e Nathaniel era como um lobo ferido, que se defendia ensinando as mandíbulas. Tinha perdido a seu sócio, de modo que procurou uma saída.

 

Mas viu algo que lhe chamou a atenção.

 

Uma das pranchas que ainda não estavam cravadas ao soalho. Agarrou-a e sorriu, avançando e esgrimindo a tabela como se fora um taco de beisebol de beisebol. Nathaniel se agachou para evitar o golpe, mas a tabela o golpeou no ombro no movimento de volta.

 

equilibrou-se sobre seu atacante e acabaram entrando na casa de um empurrão.

 

-Fogo! Fogo! -gritou Pássaro, agitando as asas-. Todos a coberta!

 

A mesita se rompeu como se fora de papel sob o peso dos dois homens. Estavam encetados e tratavam de golpear-se. Os móveis do salão foram caindo um a um.

 

A mescla de suor, dor e sangue, viu-se enriquecida por algo mais. Medo. Quando Nathaniel o reconheceu, subiu-lhe a adrenalina, e usou aquela nova arma com tão pouca piedade como seus punhos.

 

Agarrou a seu oponente pelo pescoço e apertou até estar a ponto de afogá-lo.

 

-Quem te manda? -disse Nathaniel, apertando os dentes e agarrando ao homem pelo cabelo, apertando seu pescoço contra o chão.

 

-Ninguém.

 

Nathaniel lhe deu a volta e lhe dobrou o braço.

 

-Te vou romper o braço, logo te romperei o outro e logo te romperei as pernas. Quem te manda?

 

-Ninguém -disse, logo gritou quando Nathaniel lhe apertou nos rins com o joelho-. Não sei como se chama! Juro-o! disse, e voltou a gritar outra vez-. Um tio de Boston. Deu-nos quinhentos por lhe dar uma lição.

 

Nathaniel seguiu sujeitando-o.

 

-Como era?

 

-Alto, de cabelo castanho, com um traje caro -balbuciou o homem entre juramentos, incapaz de mover-se sem que aumentasse sua dor-. Está-me rompendo o braço.

 

-Segue falando e não te romperei nada mais.

 

-Cara bonita, como a de uma estrela de cinema. Disse que tínhamos que vir a lhe dar uma surra, que nos pagaria o dobro se acabava no hospital.

 

-Parece-me que te vais ficar sem prêmio -disse Nathaniel, soltou-lhe o braço e o levantou lhe apertando o pescoço-. Escuta o que vais fazer. vais voltar para Boston e vais dizer a seu amigo que sei quem é e onde encontrá-lo -disse, e empurrou ao homem contra a parede antes de tirar o de sua casa-. Lhe diga que não se incomode em procurar amparo, porque se dito que gosta de ir por ele, não me verá chegar. Inteiraste-te?

 

-Sim, sim.

 

-Agora agarra a seu sócio e começa a correr.

 

O outro seguia no chão, com as mãos no pescoço e fazendo caretas de dor.

 

Com a mão nas costelas, Nathaniel os observou sair correndo.

 

Então se queixou e, com grande dor, voltou a entrar em sua casa.

 

-Ainda não comecei contigo -disse Pássaro.

 

-foste que grande ajuda -resmungou Nathaniel. Necessitava gelo, um calmante e um gole de uísque.

 

Avançou um passo, deteve-se, e amaldiçoou quando começou a perder visão e lhe tremeram as pernas.

 

Cão apareceu por uma esquina e se aproximou dos pés do Nate.

 

-Só um minuto -disse Nate, e a habitação girou ante seus olhos-. OH, diabos -disse, e se deprimiu.

 

Cão lhe lambeu a cara, logo se sentou e esperou. Mas o aroma do sangue o pôs em alerta. Ao cabo de uns momentos, saiu correndo.

 

Nathaniel estava recuperando o conhecimento quando ouviu passos. Tratou de sentar-se. Notava cada um dos golpes que lhe tinham dado durante a briga. Sabia que se haviam tornado por ele, poderiam dançar claqué sobre sua cara sem nenhuma resistência por, sua parte.

 

-Homem a bordo -anunciou Pássaro.

 

Holt se deteve na porta e disse uma maldição entre dentes.

 

-Que demônios passou? -disse agachando-se junto ao Nathaniel e ajudando-o a levantar-se.

 

-Um par de tios -disse Nate, apoiando-se em seu amigo.

 

-Ladrões?

 

-Não. Só vieram a me dar um surra.

 

-Pois parece que têm feito um bom trabalho -disse Holt, e esperou a que Nathaniel recuperasse o fôlego. Disseram por que?

 

-Sim -disse Nate, moveu a mandíbula e viu as estrelas-. Pagaram-lhes. Cortesia do Dumont.

 

Holt voltou a amaldiçoar. Seu amigo parecia um asco, enfraquecido, arroxeado e cheio de sangue. E ele tinha chegado sozinho a tempo de limpar os restos.

 

-Viu-os bem?

 

-Sim. Dei-lhes uma boa e mandei a Boston para que dêem uma pequena mensagem ao Dumont.

 

-Deste-lhes uma boa e você está assim? -disse Holt, ajudando a seu amigo a chegar à porta.

 

Nathaniel só grunhiu.

 

-Teria que havê-lo imaginado -disse Holt, ligeiramente mais contente-. Bom, vamos ao hospital.

 

-Não -disse Nate, que não queria lhe dar ao Dumont aquela satisfação-. O filho de cadela lhes disse que lhes pagaria mais se eu acabava no hospital.

 

-Bom, então vamos ver um médico –disse Holt, entendendo a seu amigo.

 

-Não estou tão mal. Não me têm quebrado nada –disse tocando-as costelas-. Não, não acredito. Solo me faz falta gelo.           

 

-Bom, de acordo -disse Holt, que entendia a resistência do Nate a que o visse um médico-. Anda devagar, companheiro.     

 

-Não posso ir de outra forma.

 

Com um estalo dos dedos, Holt indicou a Cão que subisse ao carro.        

 

-Espera aqui um momento, vou chamar a Suzanna.

 

-lhe ponha comida a Pássaro.

 

Nathaniel se debateu entre a dor e a perda dos sentidos até que voltou Holt.

 

-Como é que vieste?

 

-Por seu cão -disse Holt, arrancou o carro e conduziu o mais devagar que pôde-. jogou a aprendiz do Lassie.

 

-Sério? -disse Nathaniel impressionado, e com grande esforço, jogou o braço para trás e acariciou a cabeça de Cão-. Bom menino.

 

-Leva-o no sangue.

 

-Aonde vamos?

 

-Às Torres, aonde se não.

 

Coco deu um chiado ao vê-lo, levando-as mãos à cara. Nathaniel se dirigiu à cozinha da família, apoiado no Holt.

 

-OH, meu pobrecito! O que passou? tiveste um acidente?

 

-Sim -disse Nathaniel-. Coco, dou-te tudo o que tenho, incluída minha alma imortal, por uma bolsa de gelo.

 

-meu deus!

 

Apartou ao Holt e tomou o rosto do Nathaniel entre as mãos. além de moretones e arranhões tinha um corte debaixo de um olho. O outro olho estava injetado de sangue e inchado. Coco não demorou muito em dar-se conta de que eram conseqüência de murros.

 

-Não se preocupe, carinho, nós lhe cuidaremos. Holt, vá a minha habitação, há um frasco de calmantes no estojo de primeiro socorros.

 

Nathaniel fechou os olhos, e ouviu o trajín de Coco pela cozinha. Um momento mais tarde se sobressaltou ao notar que lhe punham uma toalha molhada no corte do olho.

 

-Tranqüilo, tranqüilo, carinho -disse Coco-. Sei que dói, mas temos que limpá-lo para que não se infecte. vou pôr um pouco de iodo, assim sei valente.

 

Nate sorriu, e ao lhe fazê-lo doeu o lábio.

 

-Quero-te, Coco.

 

-Eu também te quero, carinho.

 

-vamos fugimos. Esta noite.

 

Coco lhe respondeu beijando-o no fronte com ternura.

 

-Não deveria brigar, Nate. Não resolve nada.

 

-Sei.

 

Megan, sem fôlego pela carreira, irrompeu naquele momento.

 

-Holt há dito que... OH, Meu deus.

 

Correu ao lado do Nate, tomou a mão e a apertou com força.

 

-Está muito mal. Terá que te levar a hospital.

 

-Passei-as piores.

 

-Holt há dito que dois homens lhe atacaram.

 

-Dois? -exclamou Coco-. Atacaram-lhe dois homens? -disse, e toda a doçura desapareceu de seus olhos, cujo olhar se endureceu como o aço-. Que porcos. Alguém deveria lhes ensinar o que é uma briga justa.

 

Apesar de seu lábio, Nate sorriu.

 

-Obrigado, carinho, mas já o tenho feito eu.

 

-Espero que lhes tenha dado uma surra -disse Coco, e seguiu curando-o-. Megan, querida, traz um bolsa de gelo.

 

Megan obedeceu. Estava rota em mil pedaços, por como tinha a cara e porque não a tinha cuidadoso.

 

-Toma -disse pondo a bolsa de gelo debaixo do olho, enquanto Coco lhe curava os nódulos ensangüentados.

 

-Eu posso sustentá-la, obrigado -disse Nate.

 

-Há anti-séptico no armário da esquerda, na segunda prateleira -disse Coco.

 

Megan, com vontades de soluçar, foi buscá-lo.

 

A porta voltou a abrir-se, para deixar entrar em uma multidão. O desconforto inicial do Nate ante as visitas se converteu em assombro ao escutar as expressões de indignação das Calhoun. riscavam-se e desprezavam planos de vingança, enquanto ele sofria as espetadas do iodo.

 

-lhe deixem ao menino um pouco de ar! -ordenou Colleen, apartando a suas sobrinhas e sobrinhos como uma rainha entrando em seu corte-. Deram-lhe uma boa, né?

 

-Sim, senhora.

 

-Dumont -murmurou Colleen, de modo que solo Nate a ouviu.

 

-Sim.

 

Colleen olhou a Coco.

 

-Parece-me que está em boas mãos. Eu tenho que ir chamar por telefone -disse sonriendo.

 

Ter contatos era muito útil, pensou, saindo da cozinha apoiada no fortificação. O próprio Dumont se pôs uma soga ao pescoço, e aquele passo em falso significava que sua carreira tinha chegado a um desagradável fim.

 

Ninguém se metia com a família do Colleen Calhoun.

 

Nathaniel a viu ir-se, logo se tomou o calmante que Coco lhe oferecia. Ao tragar lhe doeu o pescoço e o flanco.

 

-vamos tirar te a camisa -disse Coco, e atacou a camisa com umas tesouras de cozinha. fez-se o silêncio quando ficou exposto o arroxeado torso do Nate.

 

-OH, Deus, meu menino -disse Coco com lágrimas nos olhos.

 

-Não mime ao menino -disse O Holandês, que entrava com duas garrafas na mão. Assim que viu o Nate apertou a mandíbula com tanta força que lhe doeu, mas tratou de manter o tom tranqüilo de sua voz. Não é nenhum menino. Toma um gole disto, capitão.

 

-Acaba de tomar um calmante -disse Coco.

 

-Tome um gole.

 

Nathaniel fez uma careta ao sentir o uísque na boca, mas era o menor de muitos outros dores.

 

-Obrigado.

 

-Olhe como está -disse O Holandês-. Olhe que te deixar pegar assim, igual a um señorito de cidade com esponjas em vez de punhos.

 

-Eram dois -disse Nate.

 

-E? -disse o holandês, aplicando álcool aos moretones-. Está em tão má forma que já não pode com dois?

 

-Dei-lhes uma boa -disse Nathaniel, e provou a tocar um dente com a língua, doía, mas não o tinha perdido.

 

-Mais te vale -disse O Holandês-. Ladrões, não?

 

Nathaniel olhou ao Megan.

 

-Não.

 

-Tem as costelas arroxeadas -disse O Holandês sem emprestar atenção à resposta do Nate, e pressionou nas costelas-. Mas não estão rotas. perdeste o conhecimento?

 

-Talvez -disse Nate, admitindo-o a contra gosto-. Um minuto.

 

-Visão imprecisa?

 

-Não, doutor, agora não.

 

-Não te faça o preparado. Quantos? -disse o holandês sustentando dois dedos ante seus olhos.

 

-Oitenta e sete -disse Nate e quis beber outro gole de uísque.

 

Mas Coco lhe tirou a garrafa.

 

-Não beba nada mais, dei-te um calmante.

 

-As mulheres acreditam que sabem tudo -disse O Holandês, mas olhou a Coco com um sorriso, porque sabia que tinha razão-. Agora o que te faz falta é uma boa cama. Quer que te leve?

 

-Não -disse Nate, era uma humilhação sem a que podia passar-se, disse beijando a mão de Coco-. Obrigado, carinho. Se soubesse que você foste ser minha enfermeira, voltaria a fazê-lo -disse e olhou ao Holt-. Leva-me a casa?

 

-Nada disso -disse Coco-. Fica aqui, onde possamos te cuidar. Pode ter uma comoção, assim que fica aqui para que possamos te cuidar e te vigiar.

 

-Contos -grunhiu O Holandês, mas assentiu. Estava a suas costas e Nate não podia vê-lo.

 

-vou preparar a cama na habitação de convidados -disse Amanda-. C. C., por que não lhe prepara um banho quente a nosso herói? Lilah, traz gelo.

 

Nate não tinha energia para opor-se a nada, assim que ficou sentado.

 

Lilah lhe deu um beijo na boca.

 

-Vamos, menino duro.

 

Sloan ajudou a levantá-lo.

 

-Dois, né? Fortes?

 

-Gorilas, maiores que você.

 

Subiu as escadas, ajudado pelo Sloan e Max, com a sensação de que estava flutuando.

 

-vou tirar te as calças -disse Lilah, quando o sentaram na cama.

 

Nate ainda teve forças para lhe piscar os olhos um olho.

 

-Não sabia que você gostasse.

 

Max, o marido do Lilah, sorriu e se agachou para lhe tirar os sapatos. Sabia o que era ser curado e cuidado pelas Calhoun, e se figurava que quando Nathaniel tivesse passado o pior, daria-se conta de tinha aterrissado no Paraíso.

 

-Quer que te ajude a te colocar no banheiro? -disse Max.

 

-Posso sozinho, obrigado.

 

-me chame se tiver algum problema -disse Sloan, mantendo a porta aberta, esperando a que todos saíssem da habitação-. E, quando estiver melhor, quero ouvir toda a história.

 

Sozinho, Nathaniel se meteu na água como pôde. A primeira pontada de dor passou, transformando-se gradualmente em um pouco parecido ao prazer. Quando saiu, o pior pareceu ter passado.

 

Até que se olhou ao espelho.

 

Tinha um curativo debaixo do olho esquerdo, outro no maçã do rosto. O olho direito parecia um tomate podre, tinha o lábio inchado e uma ferida na mandíbula.

 

ficou uma toalha na cintura e voltou para a habitação, justo quando Megan entrava do corredor.

 

-Sinto muito -disse Megan franzindo os lábios, para não dizer qualquer tolice-. Amanda pensava que talvez te fizesse falta outro travesseiro ou mais toalhas.

 

-Obrigado -disse Nate aproximando-se da cama e tornando-se com um suspiro de alívio.

 

Megan deu obrigado por ter algo prático que fazer e ajudou ao Nate a arrumar os travesseiros e a abrir a cama.

 

-Se posso fazer algo por ti? Quer mais gelo? um pouco de sopa?

 

-Não, estou bem.

 

-Por favor, quero ajudar, preciso ajudar -disse Megan. Já não podia suportá-lo por mais tempo, e lhe pôs a mão na bochecha-. Têm-lhe feito mal. Sinto-o muito.

 

-Só são uns golpes.

 

-Não me diga isso, estou vendo o que lhe têm feito -disse Megan, contendo sua fúria e olhou ao Nate aos olhos-. Sei que está zangado comigo, mas me deixa que faça algo para te ajudar?

 

-Acredito que será melhor que se sente -disse Nate, e quando Megan se sentou, tomou a mão. Necessitava o contato físico tanto como ela-. estiveste chorando.

 

-um pouco -disse Megan, observando os nódulos feridos do Nate-. Hei-me sentido muito mal ao verte assim. deixaste que Coco te atendesse e nem sequer me olhaste -disse Megan, presa da emoção-. Não quero te perder, Nathaniel. É só que acabo de te encontrar e não quero cometer outro engano.

 

-E tudo tem que ver com ele, verdade?

 

-Não, não. Tem que ver comigo.

 

-Com o que te fez.

 

-Bom, sim -disse Megan, apoiando a mão do Nate em sua bochecha-. Por favor, não te afaste de mim. Ainda não tenho todas as respostas, mas sei que quando Holt disse que estava ferido, me parou o coração. Nunca tive tanto medo. Significa muito para mim, Nathaniel. Deixa que te cuide até que esteja melhor.

 

-Bom -disse Nate, lhe acariciando o cabelo-, pode que esta vez Dumont me tenha feito um favor.

 

-O que quer dizer?

 

Nate negou com a cabeça. Certamente o calmante começava a fazer efeito. Não queria dizer-lhe ao menos não ainda, mas lhe pareceu que tinha direito ou seja o.

 

-Dumont contratou a esses homens.

 

Megan ficou pálida.

 

-O que está dizendo? Baxter lhes pagou para que lhe dessem um surra?

 

-Para que me dessem uma lição, isso é tudo. Suponho que me tinha jurada isso desde que o atirei à água -disse Nate, moveu-se, e fez uma careta-. Mas podia ter contratado a um par de profissionais, esses dois eram aficionados.

 

-foi Baxter -disse Megan, e fechou os olhos-. Por minha culpa.

 

-E um corno. Nada disto foi tua culpa. É um porco, olhe o que fez a ti, a Suzanna e aos meninos, e nem sequer tem valor para brigar, tem que contratar a alguém. Além disso, eu lhes dava , nem sequer conseguiu o que se propunha.

 

-Crie que isso importa?

 

-A mim sim. Se quer fazer algo por mim, Megan, se de verdade quer fazer algo por mim, te esqueça dele de uma vez.

 

-É o pai do Kevin -sussurrou Megan-. Ponho-me doente só de pensá-lo.

 

-Não é ninguém. te jogue a meu lado.

 

Megan sabia que se estava esforçando para não cair dormido sob o efeito do calmante, e se tendeu. Tomou sua cabeça e a apoiou brandamente sobre seu seio.

 

-Dorme -disse-. Não pensemos em nada.

 

Nate suspirou e se deu conta de que dormia.

 

-Quero-te, Megan.

 

-Sei -disse Megan, e permaneceu acordada quando o dormia.

 

Nenhum dos dois viu o menino que olhava pela fresta da porta, com os olhos banhados em lágrimas.

 

Nathaniel despertou com um zumbido na cabeça e espetadas no maçã do rosto esquerdo. Com cada pulsado do coração lhe doíam as costelas, era um martilleo persistente que certamente duraria muito. Também notava uma dor surda no ombro.

 

sentou-se, por provar. Rígido como um cadáver, pensou com desgosto, tirou os pés da cama e se levantou. Foi à ducha e se meteu nela com dificuldade. Quão único o consolava era saber que seus dois visitantes inesperados estariam sofrendo mais que ele.

 

Inclusive a água da ducha lhe doeu, ao dar sobre os moretones. Apertou os dentes, e esperou a que a dor se convertesse em meras moléstias.

 

Encheu o lavabo de água geada. Tomou ar e colocou a cabeça, até que o frio lhe ocasionou um agradável atordoamento.

 

Voltou para dormitório. Havia roupa limpa em uma cadeira. vestiu-se como pôde, sem deixar de amaldiçoar. Estava pensando no café, uma aspirina e um prato cheio quando abriram a porta.

 

-Não deveste te levantar -disse Coco, entrando com uma bandeja-. Agora te tire essa camisa e volta para a cama.

 

-Carinho, levo toda minha vida esperando te ouvir dizer isso.

 

-Vá, vejo que está melhor -disse Coco renda-se e deixou a bandeja na mesinha, logo se alisou o cabelo.

 

Ao vê-la, Nate pensou que levava duas semanas sem trocar a cor de seus cabelos.

 

-um pouco.

 

-Pobrecito -disse Coco, lhe tocando com cuidado os moratones da cara. Aquela manhã seu aspecto era pior ainda, mas não teve o valor de dizê-lo-. Pelo menos, sente-se e come.

 

-Tem-me lido o pensamento -disse Nate, que estava desejando sentar-se-. Obrigado.

 

-É o menos que podia fazer -disse Coco, desdobrando o guardanapo. Nate pensou que a teria posto no pescoço de não havê-lo feito ele mesmo-. Megan me contou o que ocorreu. Que Baxter contratou a esses... a esses valentões. Estou pensando em ir a Boston e falar com esse homem.

 

A raiva de seu olhar deixou no Nate uma cálida sensação. Coco era como uma fera deusa celta.

 

-Neném, com ele não teria nem para começar -disse Nate, e tomou um bocado de ovos mexidos. Fechou os olhos ao experimentar o singelo prazer da comida quente e saborosa-. vamos esquecer o assunto, carinho.

 

-Esquecer o assunto? Não pode ser. Tem que chamar à polícia. É obvio, preferiria que fossem todos a lhe romper os narizes, mas, o mais correto é chamar à polícia e que se ocupem de tudo.

 

-Nada de polícia -disse Nate-. Dumont vai sofrer muito mais sem saber o que penso fazer nem quando o vou fazer.

 

-Bom, então... -disse Coco, refletiu e sorriu-. Sim, suponho que o vai passar mau.

 

-Sim. E colocar à polícia nisto não seria muito agradável nem para o Megan nem para o menino.

 

-Tem razão -disse Coco, e se alisou os cabelos-. Me alegro de que tenham a ti.

 

-Oxalá ela pensasse o mesmo.

 

-Já o pensa. Mas tem medo. Megan teve que acontecer muito, e você é um homem que confundiria a qualquer mulher.

 

-Isso crie, né?

 

-Sei. Dói-te muito, carinho? Pode tomar outro calmante.

 

-Uma aspirina é suficiente.

 

-Supunha-o -disse Coco, e tirou uma caixa de aspirinas do bolso do avental-. Toma as com o suco.

 

-Sim, senhora -obedeceu Nate, e seguiu comendo os ovos-. Viu ao Megan?

 

-Estava a ponto de amanhecer quando a pude convencer de que te deixasse e se fora a dormir.

 

Aquela informação lhe fez mas bem que a comida.

 

-Sim?

 

-Olhava-te de uma forma... -disse Coco, lhe dando uma palmada na mão-. Bom, uma mulher sabe destas coisas. Sobre tudo quando está apaixonada -disse, e se ruborizou-. Suponho que já saberá que Niels e eu... Estes dias foram maravilhosos. Meu matrimônio também foi maravilhoso, e tenho lembranças que conservarei toda minha vida, e nestes anos tive algumas relacione fantásticas, mas com o Niels... -disse Coco com um olhar sonhador-. Faz-me sentir jovem e vital, e quase delicada, e não só no sexo.

 

-Né, né, Coco -disse Nate, deixando a taça de café na bandeja-, não me interessa esse tema.

 

Coco sorriu. Adorava a aquele moço.

 

-Sei o muito que o quer.

 

-Pois... sim -disse Nate, que começava a sentir-se apanhado naquela cadeira-. Navegamos juntos durante muito tempo, e é...

 

-Como um pai para ti -disse Coco-. Sei. Solo queria que soubesse que o quero. vamos casar nos.

 

-O que? -disse Nate, boquiaberto-. Lhes ides casar? O Holandês e você?

 

-Sim -disse Coco, nervosa, porque não podia dizer se a expressão do Nate era de surpresa ou de horror-. Espero que não te importe.

 

-Que não me importe? -disse Nate, a quem lhe tinha ficado a mente em branco. Mas ao ver o olhar de ansiedade de Coco, foi recuperando. Nathaniel empurrou a mesinha e se levantou-. Imagine, uma mulher com classe como você apaixonando-se por esse velho rufião. Seguro que não te pôs nada na sopa?

 

Coco, aliviada, sorriu.

 

-Pois se for assim, eu gosto. Temos sua bênção?

 

Nate tomou suas mãos e as olhou.

 

-Sabe? Quase do momento que te conheci, me teria gostado que fosse minha mãe.

 

-OH, Nathaniel -disse Coco, e os olhos lhe encheram de lágrimas.

 

-Suponho que agora o será -disse Nate, e a beijou nas duas bochechas, e logo nos lábios-. Mais vale que te trate bem ou terá que as ver-se comigo.

 

-Sou muito feliz -disse Coco, e se tornou em braços do Nate soluçando-. Muito, muito feliz, Nate. Nem sequer o vi nas cartas, nem nas folhas de chá, simplesmente ocorreu.

 

-Assim são normalmente as melhores costure.

 

-Quero que seja feliz -disse Nate, e colocou a mão no bolso para lhe oferecer a Coco um lenço de papel-. Quero que cria no que tem com o Megan e que não o deixe escapar. Necessita-te, e Kevin também.

 

-Isso lhe hei dito eu -disse Nate com um pequeno sorriso e lhe secou as lágrimas a Coco-. Mas suponho que não estava preparada para escutá-lo.

 

-Segue dizendo-lhe disse Coco com firmeza-. Segue dizendo-lhe até que se convença -disse, e se Megan necessitava um pequeno empurrãozinho, ela estava disposta a dar-lhe Bom, tenho muitas coisas que fazer. Quero que descanse, para que possa ir ao lanche e os foguetes.

 

-Encontro-me bem.

 

-Sim, igual a se te tivesse atropelado um caminhão -disse Coco e lhe arrumou a cama, cavando os travesseiros-. Pode dormir outras duas horas ou pode te sentar na terraço a tomar o sol. Faz um dia maravilhoso e podemos pôr uma rede. Quando Megan desperte, direi-lhe que venha a te dar uma massagem.

 

-Isso sonha muito bem. vou tomar o sol -disse aproximando-se da terraço, mas ouviu uns passos apressados no vestíbulo.

 

Era Megan.

 

-Não encontro ao Kevin -disse-. Ninguém o viu em toda a manhã.

 

 

Estava branca como a neve, mas esforçando-se por manter a calma. A idéia de que seu filho se escapou era tão absurda que continuava dizendo-se que era um engano, uma brincadeira, talvez um sonho.

 

-Ninguém o viu -repetiu-. E lhe falta parte da roupa e o saco de dormir.

 

-Chama a Suzanna -disse Nathaniel-. Seguro que está com o Alex e com o Jenny.

 

-Não -disse Megan, negando com a cabeça. Sentia seu corpo igual a se fosse de cristal, como se fora a romper-se ao menor movimento-. Estão aqui. Estão todos aqui e não o viram. Eu estava dormindo e, quando me despertei, fui a sua habitação, como faço sempre. Não estava, mas pensei que estava no piso de abaixo, mas tampouco estava, e Alex o estava procurando. Então voltei para sua habitação, e quando vi que algumas de suas coisas... algumas de suas coisas...

 

-Bom, querida, não se preocupe -disse Coco, rodeando ao Megan pela cintura-. Seguro que está jogando a algum jogo. Nesta casa há muitos sítios onde esconder-se.

 

-Estava muito iludido com a festa de hoje. Solo falava disso.

 

-Encontraremo-lo -disse Nathaniel.

 

-É obvio -disse Coco-. vamos organizar uma equipe de busca, e ele vai se alegrar muito quando o encontrarmos.

 

Uma hora depois o buscavam por toda a casa. Megan procurava tranqüilizar-se e olhou em todos os rincões, começando pela torre e baixando habitação por habitação.

 

Tinha que estar ali, dizia-se. Encontrariam-no em qualquer momento. Mas lhe dava vontade de chiar de nervosismo continuamente e tinha que conter-se.

 

Estava jogando, seguro, foi-se a explorar, porque aquela casa adorava. Tinha mandado fotos a todos seus amigos e familiares do Oklahoma, para que todo mundo pudesse ver que vivia em um castelo.

 

Encontraria-o detrás da seguinte porta, repetia-se Megan como uma letanía.

 

topou-se com a Suzanna em um dos corredores e sentiu calafrios.

 

-Não me responde -disse fracamente-. Chamo-o e não me responde.

 

-A casa é muito grande -disse Suzanna, tomando as mãos do Megan-. Uma vez, quando fomos pequenos, jogamos esconderijo e demoramos três horas em encontrar ao Lilah. colocou-se em um armário e se ficou dormida.

 

-Suzanna. Faltam suas duas camisas favoritas e dois pares de esportivos. Duas boinas de beisebol, levou-se o dinheiro do cofre. Não está aqui, foi-se.

 

-Precisa te tranqüilizar.

 

-Não, preciso fazer algo. Chama à polícia. OH, Meu deus... -disse Megan, tampando-a cara com as mãos-. Poderia lhe haver acontecido algo. Solo é um menino. Nem sequer sei quanto tempo leva fora. Nem sequer sei... -disse Megan. Tinha medo-. Perguntaste ao Alex, ao Jenny? Ao melhor há dito algo. Ao melhor...

 

-Claro que lhes perguntei -disse Suzanna-. Kevin não lhes há dito nada.

 

-Aonde terá ido? por que? Terá voltado para o Oklahoma? -disse Megan, e lhe pareceu uma possibilidade esperanzadora-. Talvez está tratando de voltar para o Oklahoma. Talvez estava triste e só fingia que gostava de estar aqui.

 

-Gosta de muito viver aqui. Mas vamos comprovar o. Vêem, vamos.

 

-olhamos em todas partes -dizia O Holandês ao Nathaniel-, no armazém, na despensa, inclusive no congelador de carne. Trent e Sloan foram a olhar nas habitações que se estão reformando e Max e Holt estão procurando no jardim.

 

Tinha olhar de preocupação, mas sustentava uma taça de café sem que lhe tremessem as mãos.

 

-Eu acredito que se estivesse escondido e ouvisse que o chamamos, sairia.

 

-procuramos na casa duas vezes -disse Nathaniel, olhando pela janela-. Amanda e Lilah registraram o hotel de acima a abaixo. Não está aqui.

 

-Não tem sentido. Kevin está muito contente de estar aqui.

 

-Algo lhe tem feito fugir -disse Nate-. por que foge um menino? Porque tem medo, ou não é feliz ou lhe têm feito mal.

 

-A esse menino não acontece nada disso -disse O Holandês.

 

-Isso acredito eu -disse Nate, que aos nove anos aconteciam as três coisas, e não tinha notado os sintomas disso no Kevin. O tinha fugido algumas vezes, mas não tinha nenhum sítio onde ir.

 

Olhou para os escarpados.

 

-Tenho uma idéia -disse quase para si mesmo.

 

-O que?

 

-Tenho que comprová-lo.

 

Era como se uma força estranha o arrastasse para as colinas, embora o chão rochoso e acidentado acentuava a dor e a ascensão o obrigava a ofegar, com o que lhe doíam os pulmões. Com uma mão nas costelas, continuou.

 

Era um lugar que podia atrair a atenção de um menino. o tinha atraído e o seguia atraindo.

 

O sol estava em seu cenit, o mar tinha uma cor azul muito intensa e rompia contra as rochas. Era um lugar belo e perigoso. Pensou em um menino subindo pelo estreito atalho, perdendo pé, escorregando.

 

Mas estava seguro de que ao Kevin não tinha ocorrido nada, porque ele não o permitiria. deu-se a volta, para não olhar ao mar, e seguiu ascendendo, chamando o menino.

 

Um pássaro chamou sua atenção. Era uma gaivota, completamente branca, que voava com a graça de um bailarino. posou-se em uma rocha e grasnou musical, quase humano, quase feminino. Solo foi um segundo, mas Nate teria jurado que seus olhos eram verdes, verdes como esmeraldas, e que o olhava.

 

Remontou o vôo e descreveu pequenos giros, como se estivesse esperando-o.

 

Nathaniel a seguiu e descendeu pelas rochas, de novo para o escarpado, sem emprestar atenção a seu corpo dolorido. Deu-lhe a impressão de que havia um aroma de mulher, doce, suave e tranqüilizador, mas devia ser o aroma do mar.

 

A gaivota se afastou, subindo para reunir-se com seu casal, outra gaivota de um branco cegador. Por uns instantes voaram em círculo, grasnando, e se dirigiram por volta do mar.

 

Nathaniel ganhou o bordo do escarpado e viu um saliente na rocha, onde estava sentado o menino.

 

Seu primeiro impulso foi aproximar-se dele e abraçá-lo, mas o certo era que talvez ele fora a razão de que se escapou.

 

Em vez disso, sentou-se perto e falou com ele.

 

-Bonita vista daqui.

 

Kevin manteve a cara entre os joelhos.

 

-vou voltar para o Oklahoma -disse. Era um desafio-. Posso ir em ônibus.

 

-Sim, suponho que sim. É uma boa maneira de ver o país. Mas eu acreditava que você gostava de viver aqui.

 

Kevin se encolheu de ombros.

 

-Não está mau.

 

-Alguém te tratou mau, companheiro?

 

-Não.

 

-Brigaste-te com o Alex?

 

-Não, não é nada disso. Mas me tenho que ir ao Oklahoma. Ontem à noite era muito tarde, por isso subi aqui. Acredito que dormi -disse Kevin-. Não quero voltar contigo.

 

-Bom, sou mais forte que você e poderia te levar a força -disse Nate, acariciando o cabelo do menino-. Mas prefiro não fazê-lo. Além disso, quero compreender o que está sentindo.

 

Deixou que passasse um momento, olhando ao mar, escutando o vento, até que sentiu que Kevin se relaxava.

 

-Sua mãe está muito preocupada com ti. Todo mundo o está. Ao melhor, poderia voltar e lhes dizer adeus antes de ir.

 

-Ela não me deixaria ir.

 

-Quer-te muito.

 

-Eu não tinha que ter nascido -disse o menino com amargura. Eram umas palavras muito duras para um menino de nove anos.

 

-Isso é uma tolice. Suponho que tem direito a te zangar se quiser, mas não tem sentido pensar tolices.

 

Kevin o olhou. Tinha a cara suja e chorava. Nathaniel se comoveu.

 

-Se eu não tivesse nascido, as coisas teriam sido diferentes. Sempre finge que não importa, mas eu sei que sim.

 

-E você por que sabe?

 

-Já sou maior. E sei o que fez ele. Deixou-a grávida e se foi, e já não lhe importou. foi e se casou com a Suzanna e logo, abandonou-a a ela também. E ao Alex e Jenny. Por isso sou seu irmão.

 

Aquelas águas eram profundas e agitadas, pensou Nathaniel, e terei que navegar com cautela. O menino o olhava fixamente.

 

-É sua mãe a que tem que te explicar isso, Kevin.

 

-Disse-me que algumas vezes a gente não pode casar-se e estar juntos, embora tenham meninos. Mas ele não queria. Não me queria e o odeio.

 

-Não vou discutir contigo sobre isso -disse Nathaniel-, mas sua mãe te quer, e isso é mais importante. Se for, vai sofrer muito.

 

Kevin soluçou.

 

-Se eu me tivesse ido, poderia estar contigo. Você estaria com ela se não fora por mim.

 

-Não te entendo, Kevin.

 

-O... pegou-te -disse Kevin com dificuldade-. Ontem à noite o ouvi. Ouvi-te ti e a mamãe e disse que era por sua culpa, mas é por minha culpa. Porque é meu pai e o fez e agora você me odeia também e vai.

 

-Mas, bom... -disse Nathaniel com emoção, tomou ao menino pelos ombros e o sacudiu-. Assim que te foste porque eu tenho uns quantos moretones? É que tenho pinta de não poder cuidar de mim mesmo? Esses dois canalhas tiveram que ir-se a rastros.

 

-De verdade? -disse Kevin, esfregando-os olhos-. Mas...

 

-Mas nada. Você não tênias nada que ver com isso, e me dá vontade de te sacudir até que lhe caiam os dentes por nos preocupar tanto.

 

-É meu pai -disse Kevin-. Assim...

 

-Assim que nada. Meu pai era um bêbado que me pegava todos os dias. Você crie que sou igual a ele?

 

-Não -disse Kevin, chorando-. Mas eu acreditava que já não você gostaria e que já não queria ser meu pai, igual a Holt é o pai do Alex e Jenny.

 

Nathaniel estreitou ao menino em seus braços.

 

-Pois acreditava mau -disse beijando ao menino no cabelo-. Teria que te pendurar do pau maior, marinheiro.

 

-E isso o que é?

 

-Já lhe ensinarei isso -disse Nate, apertando-o com mais força-. Paraste-te a pensar que ao melhor eu quero que seja meu filho? Que quero que você e sua mãe sejam meus?

 

-De verdade? -disse Kevin, estreitando-se contra o peito do Nate.

 

-O que acreditava? Que te ia deixar escapar quando te estava ensinando a dirigir o leme?

 

-Não sei -disse Kevin, e apoiou a cabeça no ombro do Nate-. Tinha muito medo, mas veio o pássaro.

 

-O pássaro? -disse Nathaniel olhando a seu redor, mas as gaivotas já não estavam ali.

 

-E então já não tive medo. ficou toda a noite e, quando despertava, via-o. foi voando com o outro, mas então vieste. Mamãe está zangada comigo?

 

-Certamente.

 

Kevin suspirou longamente, e Nathaniel sorriu.

 

-Suponho que me coloquei em problemas -disse o menino.

 

-Bom, é hora de voltar.

 

Kevin recolheu suas coisas e deu a mão ao Nate.

 

-Dói-te? -perguntou-lhe.

 

-E que o diga.

 

-Logo posso ver suas feridas?

 

-Claro. Algumas são tremendas.

 

Ao Nathaniel doía todo o corpo no caminho de descida, mas a ascensão tinha merecido a pena. Tudo merecia a pena por ver o rosto de alegria do Megan.

 

-Kevin! -exclamou esta correndo para eles.

 

-Adiante -murmurou Nathaniel, dirigindo-se ao menino-, quer te abraçar a ti antes.

 

Kevin deixou as coisas no chão e correu para sua mãe.

 

-OH, Kevin -disse Megan ajoelhando-se e abraçando e beijando a seu filho, sem poder evitar as lágrimas.

 

-Onde estava? -perguntou- Trent ao Nate em voz baixa.

 

-Nos escarpados.

 

-Santo Deus -disse C. C.-. dormiu ali?

 

-Não sei, mas tive a intuição de que estava ali.

 

-Uma intuição? -disse Trent, intercambiando um olhar com sua esposa-. Me recorde que te conte como encontrei ao Fred quando era pequeno.

 

Max deu ao Nate uma palmada no ombro.

 

-vou chamar à polícia para lhes dizer que o encontramos.

 

-Terá fome -disse Coco, enxugando as lágrimas e apertando-se contra O Holandês-. vou preparar algo.

 

-Mas mulher, deixa que sua mãe se dele ocupe -disse O Holandês, dissimulando sua emoção com aquele comentário-. Mulheres, sempre têm que estar metendo-se em tudo.

 

-Vamos dentro -disse Suzanna, dirigindo-se a seus filhos.

 

-Mas eu quero lhe perguntar se tiver visto os fantasmas -disse Alex.

 

-Logo -disse Holt, carregando a seu filho sobre os ombros.

 

Com um suspiro, Megan acariciou o rosto de seu pequeno.

 

-Está bem? Não te tem feito nada?

 

-Não, estou bem.

 

-Não volte a fazer algo assim -disse Megan com firmeza. Nathaniel se surpreendeu da mudança de humor de sua mãe-. Nos tênias muito preocupados. Levamos horas te buscando e tivemos que chamar à polícia.

 

-Sinto muito -disse Kevin, e se sentiu mais culpado ao saber que tinham chamado à polícia.

 

-Não basta pedindo perdão, Kevin Michael Ou'Riley.

 

Kevin agachou o olhar. Quando sua mãe o chamava assim, era que havia muitos problemas.

 

-Não voltarei a fazê-lo, prometo-lhe isso.

 

-Esta vez não tem desculpa, aonde foi? Como vou confiar em ti? E agora... OH, tinha muito -medo, meu menino. Quero-te muito. Aonde foi?

 

-Não sei. A casa da avó.

 

-A casa da avó? -disse Megan, suspirando-. Você não gosta de viver aqui?

 

-Eu gosto de muito.

 

-E por que queria ir ?Zangaste-te comigo?

 

Kevin negou com a cabeça e agachou o olhar.

 

-Eu acreditava que Nate e você estavam zangados comigo porque lhe pegaram. Mas Nate diz que não é por minha culpa e que não está zangada. Diz que ele não importa. Não está zangada comigo, verdade?

 

Megan olhou ao Nate horrorizada, logo voltou a estreitar ao Kevin entre seus braços.

 

-OH, não, meu amor, claro que não -disse e olhou ao Kevin, tomando seu rosto entre as mãos-. Lembra-te de quando te disse que algumas vezes as pessoas não podem estar juntas? Pois algumas vezes, não é bom que estejam juntas. Isso é o que acontece... entre o Baxter e eu -não podia referir-se a ele como pai do menino.

 

-Mas foi um acidente -disse Kevin.

 

-OH, não -disse Megan, beijando-o nas bochechas-. Um acidente é algo que não quer que ocorra, mas você foi um presente. O melhor que me têm feito nunca. Bom, vamos lavar te -disse, e ficou de pé, tomando a mão de seu filho, e olhou ao Nathaniel-. Obrigado.

 

Com a facilidade de um menino, Kevin se esqueceu imediatamente de sua fuga e se meteu totalmente na festa de Quatro de Julho. Era, no momento, um herói, e impressionou a seus amigos com o relato de suas aventuras.

 

Estava toda a família reunida, cães incluídos, de modo que Sadie e Fred jogavam com seus cachorrinhos, brincando de correr pela grama. Os bebês estavam nos corralitos, em seus berços ou em braços de suas mães. Alguns clientes do hotel se aproximaram por ali, afastando-se da festa preparada no restaurante, levados pelo alegre som das risadas.

 

Nathaniel não pôde, como teria desejado, jogar beisebol. Uma queda teria sido desastrosa para ele. Em vez disso, designaram-no árbitro e teve o prazer de discutir com todos.

 

-Está cego? -disse-lhe C. C., atirando o taco de beisebol-. Um golpe no olho não é desculpa. A bola saiu por meio quilômetro.

 

Nathaniel mordeu o charuto.

 

-daqui foi boa, neném.

 

  1. C. se enfrentou a ele com os braços em jarras.

 

-Pois então, te troque de sítio.

 

-C. C., não discuta, está eliminada.

 

-Se não parecesse um asco... -disse C. C., logo riu-. Toca-te, Lilah.

 

-Já? -disse Lilah com um gesto preguiçoso. apartou-se a franja da cara e se dispôs a batear.

 

Desde sua posição, Megan olhou a sua segunda base.

 

-Lilah não corre nem que lhe ponhamos um foguete.

 

Suzanna suspirou e negou a cabeça.

 

-Não lhe faz falta. Você, olhe.

 

            Lilah, com uma mão no quadril, piscou os olhos o olho ao Nate e se dispôs a batear. Sloan lançou a bola com efeito. Lilah nem sequer se incomodou em tentar dá-la e bocejou.                           

 

-O que te passa? -perguntou-lhe Nathaniel.     

 

-Eu gosto de esperar um bom lançamento.                 

 

O segundo lançamento tampouco gostou. Deixou passar a bola e ganhou aplausos da equipe contrária.            

 

Saiu da base, estirou-se e olhou ao Sloan.      

 

-Está bem, campeão, lança outra vez -disse e se colocou em posição.    

 

O lançamento foi algo baixo, mas Lilah golpeou a bola e a enviou a uns cem metros, conseguindo uma carreira. Entre aplausos e vítores, deu-se a volta e deu o taco de beisebol ao Nate.      

 

-Sempre reconheço um bom lançamento –lhe disse.

 

Quando terminou a partida, seguiu a festa e Nathaniel se aproximou do Megan.                                   

 

-Joga muito bem, neném.

 

-No Oklahoma treinava à equipe do colégio do Kevin -disse Megan, olhando a seu filho-. Parece que já se esqueceu de tudo, verdade?  

 

-Sim. E você?

 

-Eu não, tenho o estômago cheio de mariposas -disse Megan, ficando uma mão no estômago e baixando a voz-. Não sabia que pensasse assim do Baxter.     

 

-Os meninos sempre têm secretos, inclusive para sua mãe.           

 

-Suponho que sim -disse Megan. Era um dia muito formoso para jogá-lo a perder com preocupações-. Não sei o que lhe há dito ali acima, mas para mim é muito importante que haja o trazido. E você significa muito para mim.

 

Nathaniel bebeu um gole de cerveja.

 

-Está preocupada com algo, Meg. por que não o diz?

 

-De acordo. Ontem, depois de que foi, estive pensando em como me sentiria se você não voltasse. Sei que haveria um oco em minha vida. Talvez, poderia enchê-lo outra vez; mas, em parte, porque algo me faltaria. Quando me perguntava o que me faltaria, sempre encontrava a mesma resposta.

 

-E qual era, Meg?

 

-Você, Nathaniel -disse beijando-o na bochecha-, você.

 

Mais tarde, quando tinha escurecido e a lua flutuava sobre a água, Megan observava os foguetes. O céu se enchia de cor. Cascatas de faíscas choviam do céu e caíam à água em uma celebração do dia da independência, e de um novo princípio na vida do Megan.

 

O desdobramento era assombroso e os meninos olhavam boquiabertos. As explosões retumbaram no ar até o final. A noite se encheu do brilho daquelas estrelas artificiais, que exploravam em cascatas de ouro, torre azuis ou espirais vermelhas. Até os fogos finais, que acabaram com uma traca.

 

Muito depois de ter terminado, com os meninos na cama e quando logo que ficava ninguém, Megan estava em sua habitação, em bata, escovando o cabelo. Sentia a excitação da antecipação.

 

Quando terminou de escovar-se, dirigiu-se à habitação do Nathaniel.

 

Nate estava sentado na terraço. Não havia flanco muito persuadi-lo para que ficasse outra noite. Estava cansado e dolorido, e o banho quente não o tinha aliviado tanto como esperava, mas mesmo assim estava feliz, porque estava esperando ao Megan.

 

E Megan apareceu na habitação.

 

Levava uma bata de seda azul escura, que caía sobre seu corpo deixando ver as formas de seu corpo. Seu cabelo despedia brilhos dourados e seus olhos eram escuros e misteriosos como safiras.

 

-pensei que te viria bem uma massagem -disse sonriendo-, e eu tenho muita experiência em relaxar músculos tensos. Ao menos, com os cavalos.

 

Nate quase tinha medo de respirar.

 

-De onde tiraste a bata?

 

-Emprestou-me isso Lilah, pensei que você gostaria mais que a minha -disse Megan, e ao não obter resposta, lhe fez um nó na garganta-. Se preferir que vá, entendo-o. Não esperava que estivesse bem para... Não temos que fazer o amor, Nate. Solo quero estar contigo.

 

-Não quero que vá.

 

Megan voltou a sorrir.

 

-por que não te põe de barriga para baixo? Começarei pelas costas. De verdade que me dá bem -disse Megan renda-se-. Os cavalos se voltavam loucos comigo.

 

Nate se aproximou da cama e lhe acariciou o cabelo.

 

-E lhes fazia massagens em bata de seda?

 

-Sempre -disse Megan-. Te jogue.

 

ficou linimento e se esfregou as mãos para esquentar as Palmas. Cuidadosamente, para não incomodá-lo com o movimento do colchão, ajoelhou-se sobre ele.

 

-Se te fizer mal, diga-me isso

 

Começou pelos ombros, evitando cuidadosamente os moretones. Tinha um corpo de guerreiro, pensou. Duro e compacto, e com as cicatrizes da batalha.

 

Nate fechou os olhos e se relaxou, abandonando-se ao prazer da massagem. Notava o roce da seda sobre sua pele e, por debaixo do aroma de linimento, estava o aroma sutil do perfume do Megan, outro bálsamo para seus sentidos.

 

Os dores começaram a desaparecer e se foram transformando em uma sensação mais intensa e primária.

 

-Melhor? -disse Megan ao terminar.

 

-Não. Está-me matando. Não lhe pares.

 

Megan riu brandamente e lhe tirou a toalha, para lhe massagear os rins.

 

-Estou aqui para que se sinta melhor, Nathaniel. Tem que te relaxar para que eu possa fazê-lo bem.

 

-Faz-o de maravilha -disse Nate com um gemido.

 

Megan o acariciava, apertava-o, beliscava-o, e logo o beijava.

 

-Tem um corpo precioso -disse Megan, que respirava pesadamente, à medida que acariciava e explorava o corpo do Nate-. eu adoro olhá-lo, e tocá-lo -dava ou, e subiu pelas costas, beijando-a, até chegar a lhe morder no lóbulo da orelha-. Date a volta -sussurrou.

 

Nate se deu a volta e Megan o beijou, mas quando Nate quis lhe acariciar os seios, apartou-se.

 

-Espera -disse Megan, e sem deixar de olhá-lo, pô-lhe as mãos sobre o peito-. Têm-lhe feito marca.

 

-Eu lhes fiz mais.

 

-Nathaniel, o guerreiro. Estate quieto -sussurrou Megan, e se inclinou para diante para beijar os moretones e arranhões de seu rosto-. Eu te tirarei a dor.

 

Ao Nate palpitava o coração. Megan sentia os batimentos do coração na palma de sua mão. À luz do abajur, os olhos do Nate eram escuros como a fumaça.

 

Continuou lhe massageando os ombros, os braços, as mãos; lhe beijando as mãos, as lambendo.

 

O ar era denso e doce, e Nate respirava cada vez com maior dificuldade. Nunca se havia sentido tão indefeso com nenhuma outra mulher.

 

-Megan, preciso te tocar.