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ILHA DO MEDO / Dennis Lehane
ILHA DO MEDO / Dennis Lehane

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ILHA DO MEDO

 

                   Dos diários do doutor Lester Sheehan

                   3 de maio de 1993

Faz muitos anos que não vejo a ilha. Da última vez, eu a vi do barco de um amigo que se aventurou no anteporto; avistei-a ao longe, para além do porto interior, envolta numa bruma estival, mancha de tinta no céu, deixada por alguma mão descuidada.

Faz mais de duas décadas que não ponho o pé lá, mas Emily diz (às vezes brincando, às vezes não) que não sabe ao certo se saí mesmo de lá. Certa vez ela me disse que o tempo, para mim, não passa de uma série de marca-livros que uso para saltar para a frente e para trás no texto de minha vida, voltando repetidas vezes aos acontecimentos que fizeram de mim, aos olhos dos colegas mais perspicazes, um caso clássico de melancolia.

Emily deve ter razão. Ela quase sempre tem razão.

Logo vou perdê-la também. É uma questão de meses, como nos disse o doutor Axelrod na quinta-feira passada. Faça essa viagem, ele aconselhou. Essa de que você sempre fala. Vá a Florença e a Roma, a Veneza na primavera. Porque você também não está com um aspecto muito bom, Lester.

Acho que não estou mesmo. Ando perdendo minhas coisas, principalmente meus óculos. As chaves do carro. Entro em lojas e não me lembro do que queria comprar, vou ao teatro e na saída não me lembro de nada do que vi. Se o tempo para mim é mesmo uma série de marca-livros, então sinto-me como se alguém tivesse sacudido o livro, fazendo cair no chão pedacinhos de papel amarelado, tirinhas de caixas de fósforos e pazinhas de mexer café, tendo o cuidado de alisar as folhas amarfanhadas.

Por isso quero registrar essas coisas por escrito. Não para mudar o texto de modo a me apresentar de forma mais favorável. Não, não. Ele nunca aceitaria uma coisa dessas. À sua maneira, detestava mentiras mais que qualquer outra pessoa. Quero apenas preservar o texto, tirá-lo do lugar onde se encontra (o qual, verdade seja dita, está começando a ficar úmido e a gotejar) e colocá-lo nestas páginas.

O hospital Ashecliffe ficava na planície central, a noroeste da ilha. E tinha um aspecto inocente, permitam-me dizer. Não parecia um hospital. Para falar a verdade, lembrava mais um internato. O diretor morava bem na frente do edifício principal, numa casa vitoriana de telhado com mansarda, e o médico-chefe se instalara no minicastelo em estilo Tudor, imponente e sombrio, outrora destinado ao comandante da União responsável pelo litoral nordeste. Do lado interno do muro ficavam os alojamentos dos funcionários — os médicos estavam instalados em pitorescas cabanas de madeira; os guardas e as enfermeiras, em três compridos dormitórios de blocos de concreto. O parque compunha-se de gramados e de sebes esculpidas, de grandes carvalhos umbrosos, pinheiros-da-escócia, bordos podados com esmero, macieiras cujos frutos, em fins de outono, caíam em cima do muro ou rolavam na grama. E bem no centro, flanqueado por dois edifícios gêmeos de tijolos vermelhos em estilo colonial, ficava o hospital, uma construção ampla que combinava pedras cinzentas à elegância do granito. Para além dele havia escarpas rochosas, mangues e um extenso vale onde florescera uma fazenda coletiva cujo declínio se iniciou nos anos seguintes à Independência dos Estados Unidos. As árvores plantadas sobreviveram — pessegueiros, pereiras, arônias —, mas já não davam frutos, e à noite os ventos varriam o vale uivan-do e gemendo como gatos.

E também havia o forte, evidentemente, que lá se erguera bem antes da chegada do staff do hospital, e continua lá, dominando o rochedo meridional. E mais adiante um farol, abandonado antes da Guerra de Secessão, pois tornara-se obsoleto desde a construção do potente Boston Light.

Visto do mar, o lugar não parecia grande coisa. Pode--se imaginar a forma como Teddy Daniels o viu naquela calma manhã de setembro de 1954. Uma planície de arbustos surgindo bem no meio do anteporto. Mal se podia chamar aquilo de ilha; parecia mais um esboço. Para que serviria, ele deve ter se perguntado. Para quê?

Os ratos eram os animais mais numerosos de nossa fauna. Arrastavam-se por entre o mato, enfileiravam-se à noite ao longo da costa, escalavam penosamente as rochas úmidas. Alguns eram do tamanho de um linguado. Nos anos que se seguiram àqueles quatro dias estranhos do fim do verão de 1954, tomei o hábito de observá-los de uma fen-da na colina sobranceira ao litoral norte. Fiquei fascinado com o fato de alguns deles tentarem nadar até a ilha Paddock — pouco mais que uma rocha numa porção de areia, submersa vinte e duas horas por dia. Quando, na maré mais baixa, ela aflorava por uma ou duas horas, aqueles ratos, cujo número nunca ultrapassava uma dezena, esforçavam-se para nadar até lá, embora sempre fossem trazidos de volta à costa pela força das correntes.

Eu disse sempre, mas não é verdade. Certa vez um deles conseguiu chegar até lá. Uma vez. Numa noite de lua cheia, em outubro de 1956. Avistei seu vulto negro, sinuoso como o de uma serpente, deslocando-se rápido na areia.

Ou pelo menos tive essa impressão. Emily, que conheci na ilha, haveria de dizer:

"Lester, você não pode tê-lo visto. É longe demais".

Ela tem razão.

Não obstante, sei que o vi. Uma serpente gorda arras-tando-se na areia, uma areia perolada que a maré já começava a cobrir novamente, engolindo a ilha Paddock e, imagino, também o rato, porque não o vi nadar de volta.

Mas naquele momento em que o observava se deslocar em velocidade pela praia (e vi mesmo, que se dane a distância), pensei em Teddy. Pensei em Teddy e em sua pobre finada mulher, Dolores Chanal, e naquela dupla aterrorizan-te, Rachel Solando e Andrew Laeddis, no caos que semearam na existência de todos nós. Imagino que, se Teddy estivesse ao meu lado, também teria visto o rato. Teria sim.

E vou lhe dizer mais uma coisa:

Sabe o que Teddy faria?

Teria batido palmas.

 

                   PRIMEIRO DIA - RACHEL

 

O pai de Teddy Daniels fora pescador. Perdera o barco para o banco em 1931, quando Teddy tinha onze anos, e passou o resto da vida prestando serviço em barcos alheios, quando havia trabalho neles, e trabalhando como estivador, quando as atividades nos barcos escasseavam; ao voltar para casa, aí pelas dez da manhã, passava longas horas sentado numa poltrona, fitando as próprias mãos, falando consigo mesmo de vez em quando, de olhos arregalados, o olhar sombrio.

Levara Teddy para as ilhas quando este ainda era menino, pequeno demais para ajudar no trabalho do barco. Só o que conseguia fazer era desembaraçar as linhas e desen-ganchar os anzóis. Chegou a se cortar algumas vezes, e o sangue salpicou-lhe os dedos e sujou-lhe as mãos.

Partiram antes do amanhecer. Quando o sol apareceu — uma luz fria cor de marfim erguendo-se na linha do horizonte —, as ilhas foram surgindo em meio à escuridão que se dissipava, pegadas umas às outras como se tivessem sido surpreendidas cometendo alguma falta.

Alinhadas na praia de uma delas, Teddy vislumbrou pequenas cabanas em tons pastel; em outra, uma propriedade rural em ruínas. Seu pai apontou a prisão na ilha Deer e o majestoso forte na ilha Georges. Na Thompson, as árvores imponentes, cheias de pássaros — e o canto destes lhe soou como lufadas de granizo ou de estilhaços de vidro.

Para além de todas as outras, via-se aquela que era chamada de Shutter. Parecia alguma coisa jogada no mar por marinheiros de algum galeão espanhol. Naquela época, na primavera de 1928, a ilha estava entregue à própria sorte, invadida pelo caos de sua própria vegetação; o forte que avultava no ponto mais alto sufocava sob o mato, totalmente coberto por vastas extensões de musgo.

"Por que é chamada de Shutter?", perguntou Teddy.

O pai deu de ombros. "Você e essas suas perguntas. Sempre perguntas."

"Sim, mas por quê?"

"Tem lugares que são assim, inventam um nome, e ele pega. Com certeza, dado por piratas."

"Piratas?", perguntou Teddy, a quem a palavra soara agradavelmente. Ele podia imaginá-los — todos fortes, com tapa-olhos, botas grandes e espadas brilhantes.

"Era ali que se escondiam nos velhos tempos", disse o pai, "e que escondiam o ouro."

Teddy imaginava baús cheios de ouro, com moedas derramando-se pelas bordas.

Mais tarde o garoto se sentiu mal, vomitou várias vezes, violentamente, debruçado à borda do barco do pai, lançando jorros escuros no mar.

O pai ficou surpreso, pois Teddy só começou a vomitar horas depois de iniciada a viagem, quando as águas do oceano estavam tranqüilas e brilhantes. O pai disse: "Tudo bem. É a primeira vez que você vem. Não precisa se envergonhar".

Teddy balançou a cabeça, limpou a boca com o pano que o pai lhe passou.

O pai disse: "Às vezes o barco joga, e você só sente o balanço quando ele começa a embrulhar seu estômago".

Teddy balançou a cabeça novamente, incapaz de dizer ao pai que não fora o balanço que lhe embrulhara o estômago.

Fora toda aquela água. Estendendo-se em toda a volta, como se não restasse mais nada no mundo. Como se pudesse engolir o céu, pensou Teddy. Até aquele momento, não se tinha dado conta de que estavam tão isolados.

Ele levantou os olhos vermelhos e lacrimejantes para o pai, que lhe disse: "Isso logo passa". Teddy tentou sorrir.

Seu pai partiu num baleeiro de Boston no verão de 1938 e nunca mais voltou. Na primavera seguinte, destroços do navio apareceram na praia Nantasket, na aldeia de Hull, onde Teddy crescera. Um pedaço da quilha, um foga-reiro com o nome do capitão gravado na base, latas de sopa de batata e de tomate, e, estragadas e amassadas, algumas armadilhas para apanhar lagostas.

As cerimônias fúnebres dos quatro pescadores tiveram lugar na igreja de Santa Tereza, cujos fundos davam para aquele mesmo mar que devorara tantos de seus paroquianos. De pé ao lado da mãe, Teddy ouviu as homenagens prestadas ao capitão, ao segundo e ao terceiro homem da tripulação, um velho lobo do mar chamado Gil Restak, que se tornara o terror dos bares de Hull desde que voltara da Grande Guerra com um pé quebrado e a cabeça cheia de imagens horrendas. Com a morte, porém, disse um dos donos de bar agredido por ele, tudo é perdoado.

O dono do barco, Nikos Costa, confessou que não conhecia muito bem o pai de Teddy e que o tinha contratado de última hora, porque um membro da tripulação quebrara a perna ao cair de um caminhão. De qualquer modo, o capitão do navio tinha falado muito bem dele, dizendo que era conhecido de todos e fazia bem o trabalho. E que maior elogio se poderia fazer a uma pessoa?

Ali na igreja, Teddy lembrou-se daquela expedição no barco do pai, porque ela nunca mais se repetira. O pai vivia dizendo que iria levá-lo novamente, mas Teddy percebeu que ele dizia isso só para ajudar o filho a manter um pouco do orgulho. O pai nunca comentou nada do que se passara na ocasião, mas naquele dia, no mar, trocaram um olhar esquisito, quando já voltavam para casa, no momento em que atravessavam a fileira de ilhas, com a ilha Shutter atrás deles, a Thompson ainda à frente, a silhueta da cidade tão nítida e próxima deles que se tinha a impressão de poder levantar um dos edifícios segurando-o pela parte de cima.

"É o mar", dissera o pai afagando as costas de Teddy, os dois recostados na popa do barco. "Tem homens que o dominam e homens que são dominados por ele." E olhara para Teddy de uma forma que o garoto entendera o tipo de homem que certamente viria a ser.

Ao irem para lá em 1954, tomaram o ferryboat da cidade e passaram por uma série de pequenas ilhas esquecidas — Thompson e Spectacle, Grape e Bumpkin, Rainford e Long —, que se mantinham à superfície em tufos rijos, constituídos de areia, árvores nodosas e formações rochosas brancas como osso. Excetuando as viagens com suprimentos feitas às terças-feiras e aos sábados, o ferryboat não tinha horários regulares, e sua despensa estava desprovida de tudo; ali só havia a folha de metal que cobria o piso e os dois bancos de metal fixados sob a janela. Os bancos eram aparafusados, em ambas as extremidades, ao piso e a dois grossos postes, dos quais pendiam grilhões, que jaziam no chão, amontoados feito espaguete.

Naquele dia, porém, o ferryboat não estava transportando pacientes para o asilo, apenas Teddy e seu novo parceiro, Chuck Aule, alguns sacos de lona com correspondência e caixas de medicamentos.

Teddy começou a viagem ajoelhado junto ao vaso sanitário, enquanto o motor do barco bufava e estalejava; e suas narinas se enchiam do odor oleoso da gasolina e do mar no final do verão. Nada saía do corpo dele, exceto fiozinhos de água, mas ainda assim a garganta parecia apertada, o estômago pressionava a base do esôfago, e o ar à sua frente constelava-se de partículas que piscavam como olhos.

O último espasmo liberou uma bolha de oxigênio que, ao irromper na boca, parecia trazer consigo uma parte do peito. Teddy sentou-se no chão de metal, limpou o rosto com o lenço, pensando que aquela não era uma boa maneira de começar uma parceria.

Imaginava Chuck, de volta a casa, contando à esposa — se é que era casado, Teddy pouco sabia dele — sobre seu primeiro encontro com o lendário Teddy Daniels. "Querida, o cara gostou tanto de mim que vomitou."

Desde a viagem que fizera quando menino, Teddy não gostava de se aventurar na água, não sentia o menor prazer em ficar longe da terra firme, nem em perder de vista a terra ou as coisas que se pode alcançar e pegar sem que as mãos nelas se abismem. Por mais que se diga que não há problema — pois é isso o que é necessário dizer quando se precisa atravessar certa extensão de água —, a verdade é que há sim. Mesmo na guerra, ele temia menos tomar as praias de assalto que atravessar os poucos metros entre o barco e a costa, com as pernas arrastando-se penosamente nas profundezas, criaturas estranhas serpenteando por cima das botas.

Apesar de tudo, preferia permanecer no convés, afrontando o oceano ao ar livre, a ficar ali embaixo com ânsias de vômito, com essa sensação de calor nauseante.

Ao ter certeza de que a indisposição passara, de que o estômago se aquietara e de que a cabeça parará de girar, lavou as mãos e o rosto, examinou a própria aparência num espelhinho fixado acima da pia, cujo estanho fora praticamente todo corroído pelo sal marinho, restando do espelho apenas uma pequena nuvem no centro, na qual Teddy mal conseguia ver sua imagem, a imagem de um homem relativamente jovem, de cabelo cortado à escovi-nha. O rosto, porém, trazia a marca da guerra e dos anos subsequentes, e nos olhos — que um dia Dolores dissera que exprimiam uma "tristeza canina" — podia-se ler a dupla fascinação que a perseguição e a violência exerciam sobre esse homem.

Sou jovem demais para ter uma expressão tão dura, pensou Teddy.                    

Ajustou o cinturão de forma que a arma se apoiasse no quadril, tirou o chapéu de cima da caixa de descarga, colocou-o na cabeça, ajeitou a aba de forma a pender levemente para a direita e apertou o nó da gravata. Era uma daquelas gravatas floridas, de cores vivas, já fora de moda havia um ano, mas ele ainda a usava porque fora presente dela. No dia do seu aniversário, ele estava sentado na sala, quando ela deslizara a gravata na frente dos olhos dele. E apertara os lábios contra seu pomo de adão. Uma mão cálida no seu rosto. O cheiro de laranja na língua. Ela sentando no seu colo, tirando-lhe a gravata. Ele de olhos fechados, só para sentir o cheiro dela. Para imaginá-la. Para recriá-la na mente e conservá-la ali.

Teddy ainda conseguia fazer isso — fechar os olhos e vê-la. Mas ultimamente algumas manchas brancas embaçavam partes da imagem — o lobo de uma orelha, os cílios, os contornos da cabeleira. Ainda não dava para obscurecer a imagem por completo, mas Teddy temia que o tempo a fosse tomando dele, que triturasse pouco a pouco as imagens em sua mente, terminando por aniquilar todas.

"Sinto falta de você", ele disse e atravessou a despen-sa, dirigindo-se para a coberta da proa.

Lá fora o tempo continuava quente, o céu estava limpo, mas a água tinha manchas escuras cor de ferrugem sobre um fundo cinza-claro uniforme, dando a impressão de que, nas suas profundezas, escondia uma massa cada vez mais sombria e ameaçadora.

Chuck tomou um gole da sua garrafinha, apontou o gargalo na direção de Teddy, erguendo uma sobrancelha. Teddy balançou a cabeça, e Chuck recolocou-a no bolso do paletó, ajeitou as abas do sobretudo em volta dos quadris e contemplou o mar.

"Você está bem?", perguntou Chuck. "Está pálido."

Teddy deu de ombros em sinal de indiferença. "Estou ótimo."

"Mesmo?"

Teddy fez que sim com a cabeça. "Estou só me adaptando ao balanço do mar."

Ficaram em silêncio por um instante, o mar ondulando à volta deles, marchetado de bolsões negros e lustrosos como veludo.

"Você sabia que aquilo já foi um campo para prisioneiros de guerra?", disse Teddy.

"A ilha?", perguntou Chuck.

Teddy confirmou com um gesto de cabeça. "Na época da Guerra de Secessão, construíram lá um forte e um quartel."

"E para que serve o forte hoje em dia?"

Teddy deu de ombros. "Não sei dizer. Há muitos fortes por essas ilhas. Durante a guerra, a maioria servia de alvo para exercícios de artilharia. Poucos ficaram de pé."

"E o hospital?"

"Pelo que sei, foi instalado em antigos alojamentos militares."

Chuck disse: "Vai ser como se voltássemos ao serviço militar, não?".

"Espero que não", disse Teddy virando para a amura-da. "Então, conte alguma coisa, Chuck."

Chuck sorriu. Era um pouco mais troncudo e baixo que Teddy — teria mais ou menos um metro e setenta e cinco de altura —, de cabelos encaracolados pretos, curtos, pele azeitonada, mãos delicadas que pareciam não combinar muito com o seu tipo físico, como se as tivesse tomado de empréstimo enquanto as suas não voltavam do conserto. A face esquerda tinha uma pequena cicatriz em forma de foice, na qual muitas vezes Chuck batia de leve com o polegar.

"Sempre começo pela cicatriz", ele disse. "Mais cedo ou mais tarde as pessoas terminam por perguntar sobre ela."

"O.k."

"Não se trata de ferimento de guerra", disse Chuck. "Minha namorada acha que eu deveria dizer que é um ferimento de guerra sim, para encerrar orassunto, mas..." Deu de ombros. "Mas isso aconteceu quando eu estava brincando de guerra. Ainda era criança. Eu e outro garoto brincávamos de estilingue, atirávamos um contra o outro. A pedra dele não me acertou. Felizmente, não é?" Ele balançou a cabeça. "Mas a pedra bateu numa árvore, e um pedaço da casca voou e acertou o meu rosto. Daí a cicatriz."

"Quando brincava de guerra."

"Sim, brincando de guerra."

"Você veio transferido do Oregon?"

"De Seattle. Cheguei na semana passada."

Teddy esperou, mas Chuck não deu maiores explicações.

Teddy falou: "Por quanto tempo você foi xerife lá?".

"Quatro anos."

"Então você sabe como o nosso mundo é pequeno."

"Claro. Você quer saber o porquê da transferência." Chuck balançou a cabeça, como se acabasse de tomar uma decisão. "E se eu dissesse que estava cansado de tanta chuva?"

Teddy, que tinha as mãos apoiadas na amurada, virou as palmas para cima. "Se você diz..."

"Mas este é um mundo pequeno, como você disse. Todo mundo conhece todo mundo no serviço. E, sendo assim, sempre aparece um... como é mesmo que eles chamam? Bochicho."

"Esse é o termo certo."

"Foi você quem prendeu Breck, não foi?"

Teddy confirmou com um gesto de cabeça.

"Como soube para onde ele iria? Cinqüenta caras foram procurá-lo em Cleveland. Você foi para o Maine."

"Certa vez ele passou o verão lá com a família, quando era criança. O que ele fazia com as vítimas é o que se faz com cavalos. Conversei com uma tia dele. Ela me disse que a única vez que o vira feliz foi quando estava num ha-ras próximo ao chalé que sua família alugara no Maine. Então fui para lá."

"Você deu cinco tiros nele", disse Chuck olhando a espuma lá embaixo.

"E teria dado mais cinco", disse Teddy. "Mas os cinco primeiros bastaram."

Chuck balançou a cabeça e cuspiu por sobre a amu-rada. "Minha namorada é japonesa. Bem, nasceu aqui, mas sabe como é... Cresceu num campo para nipo-americanos. Ainda há muita tensão por aquelas bandas — Portland, Seattle, Tacoma. Ninguém gosta de me ver com ela."

"Por isso o transferiram."

Chuck fez que sim, cuspiu novamente, acompanhou a queda da saliva nas espumas buliçosas da proa.

"Falam que vai ser das grandes", ele disse.

Teddy tirou os cotovelos da amurada e endireitou o corpo. O rosto dele estava úmido, os lábios salgados. Surpreendeu-se com o fato de o mar tê-lo alcançado, pois não se lembrava de ter sentido borrifos no rosto.

Bateu as mãos nos bolsos do sobretudo, procurando seus Chesterfields. "Quem fala isso? Das grandes o quê?"

"Eles, os jornais", disse Chuck. "A tempestade. Uma grande tempestade, é o que dizem. Tremenda." Levantou o braço para o céu claro, claro como as espumas da proa. Mas ao longe, na direção sul, uma fina faixa de nuvens violetas, semelhantes a flocos de algodão, expandia-se pouco a pouco como manchas de tinta.

Teddy farejou o ar. "Você se lembra da guerra, não se lembra, Chuck?"

Pela forma como Chuck riu, Teddy começou a achar que já estavam entrando em sintonia, aprendendo a trocar alfinetadas amigáveis.

"Um pouquinho", disse Chuck. "Principalmente dos escombros. Montes de escombros. As pessoas desprezam os escombros, mas afirmo que têm a sua importância. Têm uma beleza. No fundo, tudo está nos olhos de quem observa."

"Você fala como uma personagem de romance barato", disse Teddy. "Já lhe disseram isso?"

"Já aconteceu", disse Chuck com um de seus pequenos sorrisos, dessa vez fitando o mar; ele se espreguiçou.

Teddy bateu as mãos nos bolsos da calça, vasculhou os bolsos internos do paletó. "Você se lembra do quanto as manobras dependiam dos boletins meteorológicos?"

Chuck passou as costas da mão na barba nascente do queixo. "Lembro."

"Você se lembra da porcentagem de acerto das previsões?"

Chuck franziu o cenho, dando a entender a Teddy que estava dispensando a devida consideração ao assunto. Então estalou os lábios e disse: "Eu diria que acertavam em uns trinta por cento dos casos".

"Na melhor das hipóteses."

Chuck concordou com um gesto de cabeça. "Na melhor das hipóteses."

"E cá estamos nós de volta ao mundo..."

"Não apenas de volta", disse Chuck, "mas refestelados, eu diria."

Teddy reprimiu um riso, começando a gostar muito daquele cara. Refestelados. Meu Deus.

"Pois é, refestelados", concordou Teddy. "Por que deveríamos acreditar mais nos boletins meteorológicos agora do que naquela época?"

"Bem", disse Chuck no momento em que a ponta rom-buda de um pequeno triângulo se elevava acima da linha do horizonte, "não sei bem se posso medir minha confiança em termos de mais ou menos. Quer um cigarro?"

Teddy parou no meio de uma segunda rodada de apal-padelas nos bolsos, levantou os olhos e surpreendeu Chuck observando-o, com um sorriso irônico distendendo-lhe o rosto, logo abaixo da cicatriz.

"Eu tinha cigarros quando embarquei", disse Teddy.

Chuck olhou para trás por sobre o ombro. "Funcionários públicos... roubam sem que a gente note." Chuck sacudiu seu maço de Lucky Strike para tirar um cigarro, passou-o a Teddy, acendeu-o para o colega com seu Zippo de cobre, e por um instante o cheiro do combustível dominou o do ar marinho e chegou ao fundo da garganta de Teddy. Chuck fechou o isqueiro, abriu-o em seguida com um rápido movimento de punho e acendeu o seu.

Teddy soprou a fumaça e a ponta do triângulo da ilha desapareceu por um instante na nuvem de fumaça.

"Na Europa", disse Chuck, "quando um boletim meteorológico definia se você iria saltar de paraquedas ou se iria para a cabeça de ponte, havia muito mais em jogo, não é?"

"É verdade."

"Mas, de volta ao lar, que mal pode haver em uma crença um tanto arbitrária? Foi só isso o que quis dizer, chefe."

A ilha agora lhes mostrava mais que uma simples ponta triangular, exibindo pouco a pouco as seções inferiores acima da superfície plana do mar; ao mesmo tempo, surgiam as cores, como por obra da mão de um pintor — um ver-de-claro onde a vegetação crescia intocada, uma língua de terra marrom do litoral, o ocre desbotado da prumada de um rochedo no extremo norte. E, na parte mais alta, à medida que o barco avançava cortando as águas, começaram a divisar os contornos retangulares dos edifícios.

"É uma pena", disse Chuck.

"O quê?"

"O preço do progresso." Colocando um pé sobre o cabo de reboque, apoiou o corpo contra a amurada ao lado de Teddy; e os dois ficaram vendo a ilha materializar-se diante deles. "Com os avanços — e sempre há avanços, não se engane, todos os dias — alcançados nos tratamentos da saúde mental, não vão existir mais espaços como este. Daqui a uns vinte anos vão classificá-lo como bárbaro. Um desastroso subproduto da velha influência vitoriana. O que então, felizmente, será coisa do passado. Integração, eles dirão. Integração será a palavra de ordem. Sejam bem-vindos ao seio de nossa comunidade. Vamos confortá-lo. Vamos reconstruí-lo. Somos verdadeiros generais Marshall. Somos uma nova sociedade, e não há lugar para exclusão. Não haverá ilhas de Elba."

Os edifícios tinham desaparecido novamente por trás das árvores, mas Teddy conseguia divisar a forma imprecisa de uma torre cônica, e depois os ângulos nítidos, salientes, que supôs serem do antigo forte.

"Mas abrimos mão de nosso passado para garantir o futuro?", disse Chuck atirando, com um piparote, o cigarro na espuma. "Eis a questão. O que você perde quando varre o chão, Teddy? Migalhas que de outro modo atrairiam formigas. Mas o que dizer do brinco que ela perdeu? Também foi parar no lixo?"

Teddy disse: "Quem é ela? De onde você a tirou, Chuck?".

"Há sempre uma ela, não é?"

Teddy percebeu uma variação no ruído do motor atrás deles, sentiu um leve sacudir sob os pés. Agora que o barco dava a volta para abordar a ilha pelo lado oeste, podia ver melhor o forte no alto das falésias do lado oeste. Já não havia mais canhões, mas as torres eram bem visíveis. Por trás do forte as colinas ondulavam, e Teddy disse para si mesmo que os muros, ainda que fosse impossível observá-los do lugar em que se encontrava, provavelmente se erguiam em algum ponto naquela direção, e que o hospital Ashecliffe se localizava para além das escarpas rochosas, a cavaleiro da costa ocidental.

"Você tem uma garota, Teddy? É casado?", disse Chuck.

"Era", disse Teddy, lembrando-se de Dolores, de um olhar que ela lhe dera certa vez durante a lua de mel, voltando a cabeça, o queixo quase tocando o ombro nu, os músculos movendo-se sob a pele próximo à coluna vertebral. "Ela morreu."

Chuck afastou-se da amurada, o pescoço avermelhan-do-se. "Meu Deus."

"Tudo bem", disse Teddy.

"Não, não." Chuck levantou a mão na altura do peito de Teddy. "É... acho que já me disseram isso. Não sei como pude esquecer. Há alguns anos, não foi?"

Teddy confirmou com um gesto de cabeça.

"Meu Deus, Teddy. Estou me sentindo um idiota. Desculpe-me."

Mais uma vez Teddy a viu, de costas para ele, andando no corredor do apartamento em direção à cozinha, usando uma velha blusa de uniforme, cantarolando — e sentiu-se invadido por uma lassidão bastante familiar. Teria preferido fazer qualquer outra coisa — até mesmo nadar naquelas águas — a falar de Dolores, do fato de ela ter vivido nesta terra por trinta e um anos, deixando de repente de existir. Simplesmente isso. Estava lá quando ele saíra para o trabalho. E desaparecera durante a tarde.

Mas pareceu-lhe que essa história era como a cicatriz de Chuck. O tipo de mistério que devia ser esclarecido logo de cara, para se poder ir em frente, do contrário ficaria sempre pairando entre eles. Como. Onde. Por quê.

Dolores morrera havia dois anos, mas revivia à noite, nos sonhos dele. E às vezes, no alvorecer, Teddy passava minutos a fio pensando que ela estava na cozinha ou tomando café na sacada do apartamento em Buttonwood. Era uma cruel ilusão armada por sua mente, claro, mas havia muito tempo que Teddy se conformara com a lógica desse acontecimento — afinal de contas, acordar era como nascer. A gente emerge sem história. Depois, entre um piscar de olhos e um bocejo, reorganiza o passado, dispondo os fragmentos em ordem cronológica, reunindo forças para enfrentar o presente.

O mais cruel, porém, era a maneira como todo o tipo de coisa disparatada, sem relação aparente com o drama, tinha a capacidade de despertar lembranças de sua mulher, as quais se incrustavam no cérebro como fósforos acesos. Teddy não conseguia prever o que haveria de ser — um saleiro, o andar de uma desconhecida numa rua cheia de gente, uma garrafa de Coca-Cola, uma mancha de batom num espelho, uma pequena almofada.

Mas, de todos os elementos capazes de desencadear o processo, nada era menos lógico, em termos de associação, ou mais pungente em seus efeitos, que a água: jorrando da torneira, caindo do céu, empoçada nas calçadas ou, como agora, estendendo-se por quilômetros e quilômetros, em todas as direções.

Disse a Chuck: "Houve um incêndio em nosso prédio. Eu estava no trabalho. Morreram quatro pessoas. Ela era uma das quatro. Foi morta pela fumaça, Chuck, não pelo fogo. Não sentiu dores. Será que sentiu medo? Talvez. Mas dor, não. Isso é importante".

Chuck tomou outro gole da garrafinha e a ofereceu novamente a Teddy.

Teddy balançou a cabeça. "Parei de beber. Depois do incêndio. Ela se preocupava com isso, sabe? Dizia que nós, soldados e policiais, bebemos demais. Então..." Ao perceber que Chuck, ao seu lado, estava cada vez mais embaraçado, disse: "A gente aprende a segurar uma barra como essa, Chuck. Não há alternativa. Como toda aquela merda que você viu na guerra, lembra?".

Chuck balançou a cabeça, apertando os olhos por um momento; subitamente pareceu distante, por força das recordações.

"É preciso aprender", disse Teddy com voz branda.

"Claro", disse Chuck por fim, com o rosto ainda afogueado.

Como por ilusão de ótica, o desembarcadouro surgiu de repente à frente, partindo da areia e avançando mar adentro, parecendo, àquela distância, um tablete de goma de mascar, imaterial e cinzento.

Teddy sentia-se desidratado, por ter expelido aquele líquido no toalete, e um pouco cansado pelos últimos minutos de conversa; por mais que tivesse aprendido a suportar o fardo da lembrança, vez por outra fraquejava um pouco. Sentiu dor no lado esquerdo da cabeça, bem atrás do olho, como se este sofresse a pressão de um cabo de colher. Ainda era cedo para dizer se se tratava de mero efeito da desidratação, o início de uma dor de cabeça comum, ou se era o primeiro sinal de algo pior — as enxaquecas que o atormentavam desde a adolescência, muitas vezes tão fortes que lhe tiravam a visão de um olho temporariamente, transformando a luz numa saraivada de pregos quentes. Graças a Deus, a dor só o paralisara uma vez, durante um dia e meio. As enxaquecas, pelo menos as suas, nunca apareciam em períodos de grande pressão ou de sobrecarga de trabalho, só depois que as coisas se acalmavam, depois que as granadas paravam de cair, depois de cessado o ataque. E era então nos campos de treinamento, na caserna ou, a partir do final da guerra, em quartos de hotel à beira das rodovias, ou enquanto dirigia em autoestradas pelo interior do país, que elas atacavam de forma mais dolorosa. O truque para evitá-las, ele bem havia descoberto, era se manter ocupado e concentrado. Elas não o atingiam enquanto ele se mantivesse em ação.

Teddy disse a Chuck: "Ouviu muitos comentários sobre este lugar?".

"Trata-se de um hospital psiquiátrico, é só o que sei."

"Para alienados criminosos", disse Teddy.

"Bem, não estaríamos aqui se não o fossem", respondeu Chuck.

Teddy surpreendeu-o novamente esboçando aquele risinho seco. "Nunca se sabe, Chuck. Você não me parece uma pessoa cem por cento estável."

"Bem, se é assim, quem sabe seja conveniente eu pagar um adiantamento e fazer uma reserva, pelo menos garanto um bom lugar para mim."

"Não é má idéia", disse Teddy.

Com os motores desligados por um instante, o barco virava a estibordo, levado pela corrente. Novamente acionaram os motores, e Teddy e Chuck logo se viram face ao mar aberto, enquanto o barco recuava em direção ao embarcadouro.

"Até onde sei", disse Teddy, "eles se especializaram em tratamentos radicais."

"Tratamentos de emergência?", disse Chuck.

"Não", disse Teddy. "Tratamentos radicais. Há uma diferença."                                                                        

"Difícil de perceber, nos dias de hoje."

"Às vezes é mesmo", concordou Teddy.

"E a mulher que fugiu?"

Teddy disse: "Pouco sei sobre o caso. Ela escapou na noite passada. Tenho seu nome em meu bloco de anotações. Acho que vão nos dar todos os pormenores do caso quando chegarmos".

Chuck contemplou a imensa extensão de água à sua volta. "Para onde será que ela vai? Será que vai para casa a nado?"

Teddy deu de ombros. "Ao que parece, os pacientes do hospital estão sujeitos a todo tipo de alucinações."

"São esquizofrênicos?"

"Acho que sim. De qualquer modo, não vamos encontrar aqui os mongoloides que costumamos cruzar na rua. Ou algum sujeito que tenha medo das rachaduras das calçadas, ou que durma demais. Pelo que pude concluir do relatório, todos os que estão aqui são malucos mesmo."

Chuck disse: "Mas quantos você acha que estão fingindo? Sempre me perguntei isso. Você se lembra de todos aqueles caras da Oitava Seção, desmobilizados ou reformados, considerados inaptos para o trabalho ou para o combate? Quantos acha que estavam realmente doidos?"

"Servi com um sujeito nas Ardenas..."

"Você esteve lá?"

Teddy confirmou com um gesto de cabeça. "O sujeito um dia acordou falando de trás pra frente."

"As palavras ou as frases?"

"As frases", disse Teddy. "Ele dizia: 'Sargento, aqui por demais sangue tem hoje'. Certa vez, no final da tarde, nós o encontramos numa trincheira, batendo com uma pedra na própria cabeça. Só isso. Batendo sem parar. Ficamos tão chocados que levamos algum tempo até percebermos que ele arrancara os próprios olhos."

"Você está brincando..."

Teddy fez que não com a cabeça. "Ouvi falar de um sujeito que alguns anos depois cruzou com um cego num hospital de veteranos em San Diego. Provavelmente era ele; continuava falando de trás pra frente e sofria de uma paralisia cuja causa nenhum médico conseguia descobrir; passava o dia numa cadeira de rodas perto da janela, falando o tempo todo de colheitas: ele precisava fazer a colheita. O problema é que o cara cresceu no Brooklyn."

"Bem, se um sujeito do Brooklyn pensa que é agricultor, só pode ser um caso para a Oitava Seção."

"De fato, é bastante sintomático."


 

McPherson, o diretor-adjunto, foi recebê-los no embar-cadouro. Era bastante jovem para o cargo que ocupava, tinha cabelos loiros um pouco mais compridos que o normal e se movia com uma graça displicente, que Teddy associava ao jeito dos texanos ou de homens que conviveram com cavalos durante o crescimento.

Estava acompanhado de serventes, em sua maioria negros; alguns brancos, de cara mortiça, davam a impressão de terem passado fome quando bebês, o que explicaria aquele ar mirrado e enfezado.

Os serventes trajavam camisas e calças brancas, moviam-se em bloco e mal olharam para Teddy e Chuck. Mal olharam para qualquer coisa, simplesmente foram do embarcadouro ao ferryboat, onde ficaram esperando que tirassem a carga.

Quando foi solicitado, Teddy e Chuck mostraram os distintivos. McPherson examinou-os demoradamente, piscando os olhos, comparando as fotos com os rostos.

"Acho que nunca tinha visto um distintivo de xerife antes", ele disse.

"E agora viu dois", disse Chuck. "Um grande dia."

McPherson respondeu com um sorriso frouxo e jogou o distintivo para Chuck.

A praia dava a impressão de ter sido fustigada pelo mar nas últimas noites; estava coberta de conchas e de pedaços de madeira trazidos pela maré, havia carcaças de moluscos e peixes mortos já meio comidos pelos animais necrófagos da região, fossem eles quais fossem. Teddy também viu detritos, sem dúvida trazidos pelo vento do porto interior — latas e maços de papel encharcados, uma placa de carro que fora parar junto às árvores, com os números desbotados pela luz do sol. Em sua maioria, as árvores eram pinheiros e bordos mirrados. Teddy avistou por entre os troncos alguns edifícios no alto de um aclive.

Dolores, que adorava tomar banho de sol, com certeza gostaria daquele lugar, mas Teddy apenas se ressentia do sopro constante do vento do mar — como a adverti-lo de que poderia, quando quisesse, avançar sobre ele e arrastá-lo para as profundezas.

Os serventes voltaram do embarcadouro levando a correspondência e as caixas com material hospitalar e as colocaram em carrinhos de mão. McPherson assinou o recibo sobre uma prancheta, devolveu-o a um dos guardas da embarcação, que informou: "Bem, agora podemos partir".

McPherson piscou à luz do sol.

"Essa tempestade...", disse o piloto, "Deus sabe no que vai dar."

McPherson balançou a cabeça.

"Avisaremos a vocês quando precisarmos voltar", disse Teddy.

O guarda balançou a cabeça. "Cuidado com essa tempestade...", disse novamente.

"Sim, claro", disse Chuck. "Vamos ter cuidado."

McPherson conduziu-os por um aclive suave entre o arvoredo. Depois de passarem pelas árvores, caminharam numa estrada pavimentada, que se encurvava num sorriso, e Teddy viu uma casa à esquerda e outra à direita. A da esquerda era mais modesta: em estilo vitoriano, de telhado com mansarda, madeiramento pintado de preto, janelas pequenas que pareciam sentinelas. A da direita, em estilo Tudor, dominava, como um castelo, a pequena elevação em que se erguia.

Continuaram a andar, subindo uma ladeira muito íngreme, coberta de gramíneas, e chegaram então a um relevo mais ameno e verdejante, que se aplainava no alto. Ali a grama era mais baixa e confinava com o gramado tradicional, que se estendia por centenas de metros, até ser interrompido por um muro de tijolos cor de laranja, que parecia acompanhar todo o contorno da ilha. Alcançando cerca de três metros de altura, era encimado por um único fio elétrico, e a visão daquele fio solitário impressionou Teddy, sem que ele entendesse por quê. Sentiu uma súbita piedade pelas pessoas do outro lado do muro, que bem sabiam o significado do fio e percebiam o quanto o mundo queria vê-las confinadas. Teddy viu vários homens em uniformes azul-escuros, do lado de fora do muro, de cabeças abaixadas, examinando o chão.

Chuck disse: "Guardas penitenciários num hospital de saúde mental. Isso é bastante esquisito, se me permite dizer, senhor McPherson".

"Este é um hospital psiquiátrico de segurança máxima", disse McPherson. "Somos regidos por um duplo estatuto: o do Departamento de Saúde Mental de Massachu-setts e o do Departamento de Prisões Federais."

"Entendo", disse Chuck. "Mas nem por isso deixo de me perguntar: vocês têm muito o que conversar à mesa do jantar?"

McPherson sorriu e fez um leve movimento de cabeça.

Teddy avistou um homem de cabelos pretos que usava o mesmo uniforme dos outros guardas, só que o dele tinha dragonas amarelas, gola alta e distintivo dourado. Era o único a andar de cabeça levantada, com uma das mãos às costas, enquanto, a passos largos, avançava entre os homens, e seu andar lembrou a Teddy alguns coronéis que conhecera na guerra, para os quais o comando não era apenas um fardo necessário imposto pelo Exército, mas sim por Deus. Com um livro negro apertado contra o peito, acenou com a cabeça para o pequeno grupo; depois, com os cabelos pretos levantados pela brisa, foi descendo a ladeira por onde tinham chegado.

"O diretor", disse McPherson. "Mais tarde faremos as apresentações."

Teddy balançou a cabeça, perguntando-se por que não se fazia isso agora, e o diretor desapareceu do outro lado do aclive.

Um dos serventes usou uma chave para abrir o portão no meio do muro. O portão se escancarou, os serventes entraram empurrando os carrinhos de mão, e dois guardas se aproximaram de McPherson, postando-se um à sua esquerda, outro à sua direita.

McPherson empertigou bem o corpo, assumindo uma postura absolutamente formal, e disse: "Agora eu gostaria de lhes apresentar a situação, em linhas gerais".

"Pois não."

"Vocês terão direito a todos os serviços que pudermos prestar e a toda colaboração que estiver ao nosso alcance. Durante sua permanência aqui, por mais breve que seja, os senhores obedecerão ao regulamento. Estamos entendidos?"

Teddy assentiu com um movimento de cabeça, e Chuck disse: "Plenamente".

McPherson fixou o olhar em um ponto acima das cabeças. "Com certeza o doutor Cawley vai lhes explicar os pontos mais específicos, mas gostaria de chamar a atenção para o seguinte: é proibido fazer contato com os pacientes deste hospital, a menos que seja monitorado. Entenderam?"

Teddy quase disse "sim, senhor", como se estivesse de volta ao treinamento militar, mas se conteve e disse apenas "sim".

"O pavilhão A deste hospital é o edifício atrás de mim, à minha direita. É o pavilhão masculino. O feminino é o pavilhão B, à minha esquerda. O pavilhão C fica depois daquelas escarpas, atrás deste complexo e do alojamento dos funcionários, nas instalações do antigo forte Walton. O acesso ao pavilhão C é proibido, a menos que se tenha uma ordem por escrito e se conte com a presença física do diretor e do doutor Cawley, entendido?"

Novos movimentos de cabeça.

McPherson ergueu a mão volumosa, como se fizesse uma prece ao sol. "Em virtude dos poderes de que estou investido, solicito que me entreguem suas armas de fogo."

Chuck olhou para Teddy. Teddy negou com um movimento de cabeça.

Teddy disse: "Senhor McPherson, somos xerifes federais, legitimamente constituídos. Nessa qualidade, somos obrigados a portar nossas armas de fogo, quaisquer que sejam as circunstâncias".

A voz de McPherson açoitou o ar como um cabo de aço. "O artigo trezentos e noventa e um do Código Federal de Penitenciárias e Hospitais para Doentes Perigosos determina que a obrigatoriedade de portar uma arma, imposta a um policial, admite uma exceção: quando há ordem em contrário da parte do superior imediato ou de pessoas encarregadas da gestão e proteção de instituições carcerárias ou psiquiátricas. Xerifes, aqui os senhores se incluem nessa exceção. Não lhes será permitido passar estes portões portando armas de fogo."

Teddy olhou para Chuck. Chuck inclinou a cabeça à mão estendida de McPherson e deu de ombros.

Teddy falou: "Solicitamos que esta situação de exceção fique registrada oficialmente".

McPherson disse: "Guarda, por favor, queira proceder ao registro da suspensão do uso de armas referente aos xerifes Daniels e Aule".

"A suspensão está registrada, senhor."

"Senhores", disse McPherson.

O guarda à direita de McPherson abriu uma bolsinha de couro e este estendeu a mão novamente.

Teddy puxou uma das abas do sobretudo para trás e tirou o revólver do coldre. Com um rápido movimento do punho, abriu o cilindro e colocou o revólver na mão de McPherson. McPherson entregou-o ao guarda, o guarda colocou na bolsinha de couro, e McPherson estendeu a mão novamente.

Chuck foi um pouco mais lento com sua arma, atrapalhou-se com a correia do coldre, mas McPherson não se mostrou impaciente, simplesmente ficou esperando até que Chuck, sem muito jeito, colocasse a arma na mão dele.

McPherson passou a arma ao guarda, o guarda colocou-a na bolsinha e passou pelo portão.

"As armas ficarão guardadas na sala ao lado da do diretor", disse McPherson em voz suave, com as palavras far-falhando como folhas, "situada no edifício principal no meio do parque. Os senhores as terão de volta no dia em que forem embora." Seu sorriso de caubói displicente voltou. "Bem, em matéria de assuntos oficiais, acho que por enquanto basta. Não sei quanto a vocês, mas, da minha parte, fico contente de ter terminado. O que acham de irmos encontrar o doutor Cawley?"

Ele se voltou e, seguido pelos demais, passou pelo portão, que se fechou atrás deles.

Dentro da área circundada pelo muro, o gramado estendia-se de ambos os lados do caminho principal, pavimentado com tijolos iguais aos do muro. Jardineiros acorrentados pelos tornozelos cuidavam da grama, das árvores, dos canteiros de flores e até de um renque de roseiras plantadas ao longo das paredes externas do hospital. Estavam ladeados de serventes, e Teddy viu outros pacientes, de pés amarrados, vagando por ali com um estranho andar de pato. Eram muitos homens e umas poucas mulheres.

"Quando os primeiros médicos chegaram", disse McPherson, "isto aqui era só mato e capim. Vocês vão ver as fotografias. Mas agora..."

À direita e à esquerda do hospital erguiam-se duas casas idênticas, em estilo colonial — com os remates das janelas e das portas pintados de um branco brilhante, janelas com grades, vidraças amareladas pelo sal e pela maresia. O hospital era cor de carvão, com os tijolos amaciados pela maresia. E, do alto de seus cinco andares, as janelas da água-furtada pareciam contemplar os recém-chegados.

McPherson disse: "Foi construído para servir de quartel-general do batalhão, pouco antes da Guerra de Secessão. Ao que parece, pretendiam fazer disto aqui uma base de treinamento. Então, à aproximação da guerra, concentraram todos os esforços na construção do forte, e mais tarde o transformaram num campo de prisioneiros".

Nesse instante, Teddy viu a torre que avistara do barco. O topo apontava acima do renque de árvores na extremidade da ilha.

"Que torre é aquela?"

"Um antigo farol", disse McPherson. "Foi desativado desde o começo do século xix. O exército da União postou sentinelas lá, pelo menos foi o que me disseram, mas agora é uma unidade de tratamento."

"Para os pacientes do hospital?"

Ele balançou a cabeça. "De esgotos. Não dá para acreditar no que vai parar nessa água. Do barco ela parece bonita, mas os detritos carregados por praticamente todos os rios deste estado passam pelo porto interior, depois pelo anteporto, e terminam por chegar a nós."

"Fascinante", comentou Chuck. Ele acendeu um cigarro, depois tirou-o dos lábios para conter um pequeno bocejo, piscando os olhos por causa da luz do sol.

"Depois do muro, naquela direção", disse McPherson apontando para o pavilhão B, "fica o antigo alojamento do comandante. Provavelmente vocês o viram ainda há pouco, enquanto subiam. A construção custou uma fortuna na época, e o comandante foi destituído de suas funções quando o Tio Sam recebeu a conta. Vocês vão conhecer o local."

"Quem mora lá agora?", perguntou Teddy.

"O doutor Cawley", disse McPherson. "Nada disso existiria se não fosse o doutor Cawley. E o diretor. Eles criaram aqui algo sem igual."

Deram a volta pelos fundos do complexo, encontraram mais jardineiros acorrentados e serventes, muitos dos quais capinavam a terra escura junto ao muro de trás; entre eles, de cabelos amarelados, em tufos, quase calva no alto da cabeça, havia uma mulher de meia-idade, que, olhando para Teddy quando ele passou, levou um dedo aos lábios. Teddy notou uma cicatriz que cruzava o pescoço dela, verme-lho-escura e grossa como um bastãozinho de alcaçuz. A mulher sorriu, com o dedo ainda colado aos lábios, depois balançou a cabeça devagar, sem tirar os olhos dele.

"Cawley é uma verdadeira lenda em seu campo de trabalho", dizia McPherson enquanto davam a volta, dirigindo-se à entrada do hospital. "Primeiro aluno da classe tanto em Johns Hopkins quanto em Harvard, publicou seu primeiro artigo sobre patologias alucinatórias aos vinte anos de idade. Por várias vezes foi consultado pela Scotland Yard, pelo mi5 e pelo oss."[1]

"Por quê?", disse Teddy.

"Como por quê?"

Teddy balançou a cabeça. A pergunta não lhe parecia descabida.

"Bem...", principiou McPherson, sem saber o que dizer.

"Você pode começar pelo oss", disse Teddy. "Por que consultariam um psiquiatra?"

"Assuntos militares", disse McPherson.

"Certo", disse Teddy devagar. "Mas de que tipo?"

"Os casos classificados como top secret", disse McPherson. "Pelo menos é o que suponho."

"Como podem ser tão confidenciais", disse Chuck, cujo olhar perplexo cruzou com o de Teddy, "se estamos falando sobre eles?"

McPherson parou na frente do hospital, com um pé apoiado no primeiro degrau da escadaria de entrada, parecendo completamente aturdido. Lançou um olhar rápido à curva do muro cor de laranja e falou: "Bem, acho que vocês podem perguntar ao próprio. A essa altura provavelmente a reunião dele terminou".

Subiram as escadas e atravessaram o saguão de mármore, cujo teto formava uma cúpula acima deles.

À sua aproximação, uma grade se abriu ruidosamente, e entraram numa grande antessala onde havia dois funcionários, um à direita, o outro à esquerda, atrás de escrivaninhas, de frente um para o outro. Diante dos recém-chegados, para além de uma segunda grade, estendia-se um longo corredor. Teddy e Chuck tiveram de tirar novamente os distintivos e mostrá-los ao funcionário em serviço próximo à escada, que fez as verificações de praxe, enquanto McPherson escrevia o nome dos três num registro. Atrás do funcionário havia um cubículo gradeado, ocupado por um homem trajando um uniforme semelhante ao do diretor. Vários molhos de chaves pendiam da parede atrás dele.

Eles subiram para o primeiro andar, entraram num corredor com cheiro de cera. Sob os pés, o assoalho de carvalho brilhava à luz branca que entrava por uma grande janela situada no fundo do corredor.

"É muita segurança", comentou Teddy.

"Tomamos todas as precauções", disse McPherson.

Chuck disse: "Para grande reconhecimento do público, senhor McPherson. Não tenho dúvidas".

"Precisam levar em consideração o fato...", disse McPherson voltando a atenção para Teddy, enquanto passavam por várias salas, todas de porta fechada, com os nomes dos médicos inscritos em plaquinhas prateadas, "... de que não existe nos Estados Unidos nenhum estabelecimento que se compare a este aqui. Só tratamos de pacientes com problemas gravíssimos. Aceitamos os pacientes que nenlium outro estabelecimento tem condições de tratar."

"Gryce está aqui, não é?", disse Teddy.

McPherson confirmou com um gesto de cabeça. "Vincent Gryce, sim. Ele está no pavilhão C."

Chuck disse a Teddy: "Gryce é aquele que...?".

Teddy fez que sim. "Matou todos os parentes e em seguida escalpou-os para fazer chapéus."

Chuck balançava a cabeça depressa. "E foi passear no centro da cidade com eles, não foi?"

"É o que saiu nos jornais."

Pararam diante de uma porta dupla. Numa placa de metal fixada no meio da porta da direita, lia-se

  1. j. cawley,

MÉDICO-CHEFE.

McPherson voltou-se para eles, com a mão apoiada na maçaneta, o olhar carregado de uma intensidade inexplicável.

Ele disse: "Numa época menos esclarecida, um paciente como Gryce teria sido condenado à morte. Mas aqui pode-se estudá-lo, definir a patologia, talvez isolar no cérebro a anormalidade responsável pelo desvio radical dos padrões aceitáveis de comportamento. Se conseguirem fazer isso, talvez um dia esse tipo de desvio possa ser totalmente extirpado da sociedade".

Mão imobilizada na maçaneta, ele parecia esperar uma resposta.

"É bom sonhar", disse Chuck. "Você não acha?"


 

O dr. Cawley era muito magro, quase esquelético. Não chegava a se parecer com os sacos de ossos e cartilagens que Teddy vira em Dachau, na Alemanha, mas com certeza estava precisando de umas boas refeições. Seus olhinhos pretos, muito fundos, emanavam uma atmosfera sombria que parecia se espalhar por todo o rosto. Cawley tinha a pele crivada de cicatrizes de acne, e as faces tão escaveiradas que pareciam chupadas de dentro do corpo. Os lábios e o nariz eram tão finos como tudo o mais; e o queixo, exageradamente recuado, parecia não existir. O pouco que restara dos cabelos era preto como os olhos e as olheiras.

Não obstante, o dr. Cawley tinha um sorriso explosivo, animado, que transbordava uma confiança capaz de iluminar a íris — com esse sorriso ele os brindou naquele momento, enquanto dava a volta à escrivaninha para ir, de mão estendida, cumprimentá-los.

"Xerife Daniels e xerife Aule", ele disse. "Alegra-me que tenham conseguido vir tão prontamente."

Sua mão, seca e lisa como a de uma estátua, apertou a de Teddy com tanta força que este sentiu a pressão subir pelo antebraço. De olhos brilhantes, Cawley o fitou por um instante, como a dizer: "Não esperava por isso, não é?", e voltou-se em seguida para Chuck.

Ele apertou a mão de Chuck com um "Prazer em conhecê-lo". O sorriso lhe sumiu dos lábios, e ele disse a McPherson: "Bom, já fez a sua parte. Muito obrigado".

"De nada", falou McPherson. "Foi um prazer, senhores", disse dirigindo-se aos recém-chegados, e saiu da sala.

O sorriso de Cawley voltou, numa versão mais pegajosa, que lembrou a Teddy a película que se forma na sopa quando esfria.

"Esse McPherson é um bom homem. Tem um grande entusiasmo."

"Entusiasmo por...", disse Teddy sentando-se numa cadeira em frente da escrivaninha.

Cawley exibiu o sorriso novamente, com os lábios re-puxando para um dos lados do rosto, fixando-se em seguida por um instante. "Pode repetir?"

"Ele tem entusiasmo", disse Teddy, "mas para fazer o quê?"

Cawley sentou-se atrás da escrivaninha de teca e abriu os braços. "Entusiasmo pelo trabalho. Pelo ideal de conseguir uma harmonia moral entre a lei, a ordem e a assistência hospitalar. Um século atrás, e até menos, em alguns casos, o que se pensava de pacientes como os daqui era que, na melhor das hipóteses, deveriam ser acorrentados e relegados ao lixo e à própria imundície. Eram espancados regularmente, como se isso pudesse livrá-los da psicose. Costumávamos demonizá-los. Nós os torturávamos. Submetíamos todos ao suplício da roda, por assim dizer. Enfiávamos parafusos no cérebro deles. E às vezes até os afogávamos."

"E agora?", disse Chuck.

"Agora nós os tratamos. Moralmente. Tentamos acabar com a doença, curá-los. E, caso não tenhamos sucesso, pelo menos lhes damos um pouco de paz."

"E as vítimas deles?", disse Teddy.

Cawley ergueu as sobrancelhas, esperando que Teddy se explicasse melhor.

"Trata-se de criminosos violentos, não é?", disse Teddy.

Cawley fez que sim. "Na verdade, extremamente violentos."

"Isso quer dizer que fizeram muito mal a outras pessoas", disse Teddy. "Em muitos casos, chegaram a matar."

"Oh, em sua maioria."

"Então, que sentido tem oferecer-lhes paz, depois do que fizeram às vítimas?"

Cawley falou: "Acontece que minha função é tratar deles, não das vítimas. Não posso ajudar as vítimas. Todas as atividades humanas têm as suas limitações. As minhas são essas. Só posso me preocupar com meus pacientes". Sorriu e acrescentou: "O senador lhes expôs a situação?".

Teddy e Chuck se entreolharam.

Teddy disse: "Não tivemos contato com nenhum senador, doutor. Quem nos confiou essa missão foi o Departamento de Polícia Federal".

Cawley colocou os cotovelos no forro verde de sua escrivaninha, cruzou as mãos, apoiou o queixo nelas e fitou--os por cima dos aros dos óculos.

"Desculpem-me, falha nossa. O que disseram a vocês exatamente?"

"Sabemos que uma prisioneira desapareceu." Teddy colocou um bloco de anotações na coxa e passou as páginas. "Certa Rachel Solando."

"Uma paciente", corrigiu Cawley com um sorriso gla-cial.

"Paciente", disse Teddy. "Desculpe-me. Disseram-nos que ela fugiu no curso das últimas vinte e quatro horas."

Cawley assentiu com um movimento quase imperceptível do queixo e das mãos. "Na noite passada. Em algum momento entre as dez horas e a meia-noite."

"E ainda não foi encontrada", disse Chuck.

"Correto, xerife..." Ele levantou a mão como a se desculpar.

"Aule", disse Chuck.

O rosto de Cawley se contraiu sobre as mãos, e Teddy viu gotas de água tamborilando na vidraça atrás dele. Não saberia dizer se era chuva ou água do mar.

"E o seu primeiro nome é Charles?", disse Cawley.

"Sim", disse Chuck.

"Então vou chamá-lo de Charles", disse Cawley, "pois, para mim, soa melhor que Aule."

"Acho que é uma questão de sorte."

"Como assim?"

"Não escolhemos nossos nomes e sobrenomes", disse Chuck. "Por isso é bom quando alguém gosta de pelo menos um deles."

"Quem escolheu o seu?", perguntou Cawley.

"Meus pais."

"E o seu sobrenome?"

Chuck deu de ombros. "Quem poderia responder a uma pergunta dessas? Teríamos de recuar umas vinte gerações."

"Ou uma."

"Como?", disse Chuck inclinando o corpo para a frente.

"Você é grego", disse Cawley, "ou armênio. Qual dos dois?"

"Armênio."

"Quer dizer então que no começo Aule era..."

"Anasmajian."

Cawley dirigiu o olhar para Teddy. "E você?"

"Daniels?", disse Teddy. "Irlandês de dez gerações." Deu um risinho a Cawley. "Sim, doutor, consigo remontar às origens do meu sobrenome."

"E seu primeiro nome? É Theodore?"

"Edward."

Cawley endireitou a cabeça e inclinou a cadeira para trás, tirando as mãos do queixo. Começou a bater com uma espátula na borda da mesa, produzindo um som delicado e persistente como o da neve no telhado.

"Minha mulher", ele disse, "chama-se Margaret, mas ninguém a chama assim a não ser eu. Alguns velhos amigos a chamam de Margo, o que tem lá a sua razão de ser, mas todos os demais a chamam de Peggy. Nunca entendi o porquê disso."

"Como assim?"

"Como chegar a Peggy, a partir de Margaret. No entanto, isso é bastante comum. Tampouco entendo como se chega a Teddy, partindo-se de Edward. Não há p em Margaret nem t em Edward."

Teddy deu de ombros. "Qual é seu primeiro nome?"

"John."

"Alguém o chama de Jack?"

Ele balançou a cabeça. "A maioria das pessoas me chama de doutor."

A água continuava a bater contra a vidraça, e Cawley, com os olhos brilhantes e distantes, parecia repassar a conversa em sua mente, quando Chuck perguntou: "A senho-rita Solando é considerada perigosa?".

"Todos os nossos pacientes revelaram-se propensos à violência", disse Cawley. "É por isso que estão aqui. Tanto os homens como as mulheres. O marido de Solando morreu na guerra. Ela afogou seus três filhos no lago que havia próximo a sua casa. Um por um, ela os manteve com a cabeça dentro da água até se afogarem. Levou-os para casa, sentou-os à mesa da cozinha e começou a fazer a refeição, quando então chegou um vizinho."

"Ela matou o vizinho?", perguntou Chuck.

Cawley arqueou as sobrancelhas e soltou um pequeno suspiro. "Não, convidou-o a se sentar e a almoçar com eles. O vizinho evidentemente recusou o convite e chamou a polícia. Até hoje ela pensa que as crianças estão vivas, esperando por ela. Isso talvez explique por que procurou fugir."

"Queria voltar para casa", disse Teddy.

Cawley fez que sim.

"E onde aconteceu isso?", perguntou Chuck.

"Numa cidadezinha de Berkshires, a pouco mais de duzentos quilômetros daqui", respondeu Cawley, com um movimento de cabeça em direção à janela às suas costas. "Qualquer um que nade naquela direção só chega a terra firme ao cabo de uns vinte quilômetros. Se for na direção norte, só em Newfoundland."

"E fizeram uma busca em toda a ilha?", disse Teddy.

"Sim."

"Uma busca cuidadosa?"

Antes de responder, Cawley passou a mão num cavalo de prata que havia num canto da escrivaninha. "O diretor e seus homens, mais um grupo de serventes, passaram a noite e boa parte da manhã vasculhando toda a ilha e cada edifício do estabelecimento, e nem sinal dela. E o mais estranho é que não sabemos como Rachel conseguiu sair do quarto. Estava fechado por fora, e a única janela do local tem grades. Não há o menor sinal de que as fechaduras tenham sido forçadas." Cawley desviou os olhos do cavalo e olhou para Teddy e Chuck. "Tem-se a impressão de que ela evaporou e passou através das paredes."

Teddy escreveu "evaporou" em seu bloco de anotações. "E tem certeza de que ela estava mesmo no quarto quando as luzes se apagaram?"

"Tenho."

"Por quê?"

Cawley afastou a mão do cavalo e apertou o botão do interfone. "Enfermeira Marino?"

"Sim, doutor."

"Por favor, peça ao senhor Ganton que venha até aqui."

"É pra já, doutor."

Numa mesinha próxima à janela havia uma jarra de água e quatro copos. Cawley aproximou-se dela e encheu três copos. Colocou um diante de Teddy, outro diante de Chuck e voltou ao seu lugar na escrivaninha levando o seu.

Teddy disse: "Teria uma aspirina?".

Cawley lhe deu um pequeno sorriso. "Acho que vai dar para achar alguma", disse ele pondo-se a mexer na gaveta da escrivaninha, de onde tirou um frasco da Bayer. "Duas ou três?"

"Três seria ótimo." Teddy sentiu que a região por trás do olho começava a latejar.

Cawley passou as aspirinas a Teddy por cima da escrivaninha, e este as enfiou na boca, engolindo-as em seguida com a água.

"Costuma sentir dores de cabeça, xerife?"

Teddy respondeu: "Costumo enjoar no mar, infelizmente".

Cawley balançou a cabeça.

"Ah, provavelmente está desidratado."

Teddy fez que sim. Cawley abriu uma caixa de nogueira com cigarros e ofereceu-os a Teddy e Chuck. Teddy pegou um. Chuck balançou a cabeça e tirou do bolso o próprio maço, os três acenderam os cigarros ao mesmo tempo, e Cawley abriu a janela atrás de si.

Ele se sentou novamente e passou-lhes uma fotografia por cima da escrivaninha — uma mulher jovem, bonita, de rosto marcado por olheiras negras como seus cabelos. Os olhos eram grandes demais, como se estivessem sendo pressionados por trás. O que quer que tenha visto para além das lentes da câmara, para além do fotógrafo, para além de qualquer coisa em nosso mundo conhecido, com certeza não era nada agradável de se ver.

Havia algo embaraçosamente familiar naquele rosto, e ocorreu a Teddy uma associação: lembrou-se de um rapaz, preso num campo de concentração, que recusava a comida que lhe davam. O jovem deixou-se ficar sentado numa mureta, manteve aquela mesma expressão de assombro até as pálpebras se fecharem definitivamente, e então seu cadáver foi jogado entre os outros empilhados na estação.

Chuck deu um pequeno assobio. "Meu Deus."

Cawley deu uma tragada. "Espantou-se com a beleza notável da mulher ou com a evidente loucura?"

"Com as duas coisas", disse Chuck.

Que olhos, pensou Teddy. Mesmo parados no tempo, urravam. Davam vontade de entrar na foto e dizer: "Não, não, não. Está tudo bem, tudo bem. Sssh". Davam vontade de embalar a mulher até os tremores cessarem, de lhe dizer que tudo se resolveria.

A porta se abriu e por ela entrou um negro alto, de cabelos grisalhos, usando o uniforme branco dos funcionários do hospital.

"Senhor Ganton", disse Cawley. "Estes são os senhores de que lhe falei, os xerifes Aule e Daniels."

Teddy e Chuck levantaram-se e apertaram a mão de Ganton. Teddy percebeu que o homem sentia medo, como se tivesse receio de apertar a mão de policiais, talvez porque tivesse aprontado alguma no continente.

"O senhor Ganton trabalha conosco há dezessete anos. É o chefe dos serventes. Foi ele quem levou Rachel ao quarto na noite passada, não é mesmo, senhor Ganton?"

Ganton cruzou os tornozelos, colocou as mãos sobre os joelhos, inclinou-se um pouco para a frente, com os olhos fitos nos sapatos. "Havia terapia de grupo às nove horas. Então..."

Cawley disse: "É a terapia de grupo dirigida pelo doutor Sheehan e pela enfermeira Marino".

Ganton certificou-se de que Cawley tinha terminado sua frase, e só então recomeçou a falar. "Então. Eles estavam na terapia, e a sessão acabou por volta das dez. Levei a senhorita Rachel ao quarto. Ela entrou e fechei a porta por fora. Fazemos checagens a cada duas horas depois do apagar das luzes. Voltei lá à meia-noite. Olhei para dentro do quarto, e a cama estava vazia. Achei que ela poderia estar no chão. Muitas vezes acontece de os pacientes dormirem no chão. Eu abri..."

Cawley interferiu novamente: "Usando suas chaves, senhor Ganton?".

Ganton balançou a cabeça olhando para Cawley e voltou a fitar os próprios joelhos. "Sim, usei minhas chaves porque a porta estava trancada. Entrei e percebi que a senhorita Rachel tinha sumido. Fechei a porta e verifiquei a janela e as grades. Estavam em ordem." Ele deu de ombros. "Chamei o diretor." Levantou os olhos para Cawley, que lhe dirigiu um pequeno sorriso complacente.

"Alguma pergunta, senhores?"

Chuck negou com um movimento de cabeça.

Teddy levantou os olhos do bloco de anotações. "O senhor disse que entrou no quarto e percebeu que ela não estava lá. Isso implicava o quê?"

"Como?"

Teddy perguntou: "O quarto tem um closet? Há espaço sob a cama onde ela pudesse se esconder?".

"Sim, para as duas perguntas."

"E você checou esses lugares?"

"Sim, senhor."

"Ainda com a porta aberta?"

"Ahn?"

"Você disse que entrou no quarto, olhou em volta e não achou a paciente. Só então fechou a porta atrás de você."

"Não, eu... bem..."

Teddy esperou e tragou mais uma vez o cigarro que Cawley lhe dera. Era suave, mais saboroso que seus Ches-terfields, e tinha também um cheiro diferente, quase doce.

"Não levei mais de cinco segundos, senhor", disse Ganton. "O closet não tem porta. Verifiquei se ela não estava lá, olhei debaixo da cama e fechei a porta. Não havia lugar onde ela pudesse se esconder. O quarto é pequeno."

"E se estivesse colada à parede, à direita ou à esquerda da porta?"

"Não", disse Ganton balançando a cabeça, e pela primeira vez Teddy percebeu a raiva do outro, uma espécie de rancor por trás dos olhos abaixados e dos "sim, senhor" e "não, senhor."

"É improvável", disse Cawley, dirigindo-se a Teddy. "Entendo seu argumento, xerife, mas, quando examinar o quarto, vai perceber que dificilmente Ganton deixaria de ver a paciente, se ela realmente estivesse entre aquelas quatro paredes."

"É verdade", disse Ganton, agora encarando Teddy abertamente, e este notou que o homem tinha um tremendo orgulho de sua ética no trabalho, orgulho que o xerife ousara insultar com suas perguntas.

"Obrigado, senhor Ganton", disse Cawley. "Por enquanto é só."

Ganton se levantou, fixou o olhar em Teddy por mais alguns segundos, falou "obrigado, doutor" e saiu da sala.

Ficaram em silêncio por um minuto, terminando de fumar os cigarros e esmagando-os no cinzeiro, e então Chuck disse: "Acho que poderíamos ver o quarto agora, doutor".

"Claro", disse Cawley saindo de trás da escrivaninha, segurando um molho de chaves do tamanho de uma calota de carro. "Sigam-me."

 

O quarto era minúsculo. A porta, que abria para dentro e para a direita, era de aço, de gonzos tão azeitados que a faziam bater com força contra a parede da direita. À esquerda havia dois palmos de parede e um pequeno closet de madeira, com cabides de plástico em que estavam pendurados alguns camisolões e calças com cordões por dentro do cós.

"Lá se vai a minha teoria", reconheceu Teddy.

Cawley fez que sim. "Não há espaço onde ela pudesse se esconder de alguém que estivesse na porta."

"Bem, há o teto", disse Chuck. Os três olharam para cima, e até Cawley conseguiu sorrir.

Cawley fechou a porta atrás deles, e Teddy teve imediatamente a sensação de estar emparedado. Podiam chamar aquilo de quarto, mas na verdade era uma cela. A janela acima da cama tinha grades. Havia uma pequena cômoda junto à parede da direita, e o chão e as paredes eram de cimento branco, material característico de hospitais psiquiátricos. Com os três dentro do quarto, mal havia espaço para se mexerem sem esbarrarem uns nos outros.

"Quem mais teria acesso ao quarto?", perguntou Teddy.

"Àquela hora da noite? Pouquíssimos teriam motivos para estar no pavilhão."

"Claro", disse Teddy. "Mas quem?"

"Os serventes, evidentemente."

"Os médicos também?", perguntou Chuck.

"Bem, as enfermeiras", disse Cawley.

"Os médicos não têm as chaves desse quarto?", perguntou Teddy.

"Têm sim", disse Cawley num tom um tanto aborrecido. "Mas às dez da noite já teriam ido embora, não estariam mais aqui."

"E devolvem as chaves antes de saírem?"

"Devolvem."

"E há um registro disso?", perguntou Teddy.

"Não entendi."

Chuck disse: "O que queremos saber é se é preciso fazer um registro por escrito da entrada e da saída das chaves".

"Claro."

"Gostaríamos de ver o registro da noite passada", disse Teddy.

"Sim, sim, claro."

"Provavelmente fica guardado no cubículo com grades que vimos no térreo", disse Chuck. "Aquele que tem um guarda e muitas chaves penduradas na parede, não é?"

Cawley confirmou com um rápido gesto de cabeça.

"E precisamos ter acesso às fichas do pessoal que trabalha no hospital: da equipe médica, dos serventes, dos guardas."

Cawley olhou para Teddy como se este de repente estivesse envolto numa nuvem de moscas. "Por quê?"

"Uma mulher desaparece de um quarto fechado, doutor? Ela desaparece numa ilha minúscula, e ninguém a encontra? No mínimo preciso considerar a possibilidade de que alguém a ajudou."

"Bem, vou pensar", disse Cawley.

"Vai pensar?"

"Sim, xerife. Será necessário que eu converse com o diretor e com outras pessoas da equipe médica. Vamos considerar o seu pedido baseando-nos..."

"Doutor", disse Teddy. "Não se trata de um pedido. Estamos aqui por ordem do governo. Este lugar é uma instituição federal de onde uma prisioneira perigosa..."

"Paciente."

"Uma paciente perigosa", disse Teddy, tentando manter o tom neutro, "fugiu. Se por acaso se recusar a colaborar com dois xerifes federais na busca dessa paciente, doutor, infelizmente estará... o que mesmo, Chuck?"

"Estará obstruindo a justiça, doutor."

Cawley olhou para Chuck como se até então estivesse esperando o pior de Teddy, mas nada do outro.

"Pois bem", disse num tom neutro. "Só posso dizer que vou fazer o possível para atender ao seu pedido."

Teddy e Chuck se entreolharam e continuaram a examinar o quarto vazio. Com certeza Cawley não estava acostumado a que insistissem em lhe fazer perguntas, ainda mais depois de se mostrar aborrecido com elas, por isso deram-lhe um tempo para que recuperasse o fôlego.

Teddy examinou o minúsculo closet, onde observou três camisolões, brancos, dois pares de sapatos brancos. "Quantos pares de sapatos os pacientes recebem?"

"Dois."

"Ela saiu do quarto descalça?"

"Sim." Cawley ajeitou a gravata sob o jaleco e apontou para uma grande folha de papel que estava sobre a cama. "Achamos isso detrás da cômoda. Não sabemos o que significa. Esperamos que alguém possa nos explicar."

Teddy pegou o papel, olhou o verso e notou que se tratava de um teste de acuidade visual, com letras que iam ficando cada vez menores, formando uma pirâmide. Virou o papel novamente e passou-o a Chuck:

 

               A LEI DOS 4

               SOU 47

               ELES ERAM 80

               +VOCE E 3

               SOMOS 4

               MAS

               QUEM É 67?

 

Teddy ficou perturbado só de segurar o papel. As bordas lhe davam comichão nos dedos.

"Não entendo porra nenhuma."

Cawley veio para junto deles. "Nossa conclusão também foi essa."

"Somos três", disse Teddy.

Chuck examinou o papel. "Ahn?"

"Bem que poderíamos ser esses três", disse Teddy. "Nós três aqui, neste quarto."

Chuck balançou a cabeça. "Como ela poderia prever isso?"

Teddy deu de ombros. "É impossível."

"Sim."

Cawley disse: "É sim, mas Rachel é muito engenhosa em seus jogos. Suas alucinações — principalmente as que lhe permitem imaginar que os filhos ainda estão vivos — são de arquitetura muito delicada e extremamente complexa. Para sustentar a estrutura, ela se vale de uma narrativa bem elaborada e totalmente fictícia".

Virando a cabeça devagar, Chuck olhou para Cawley. "Eu precisaria de um diploma para entender alguma coisa disso, doutor."

Cawley deu um risinho. "Pense nas mentiras que contava aos seus pais quando era criança. Pense em como eram elaboradas. Em vez de explicar de forma simples por que havia faltado à escola ou se esquecera de fazer as tarefas, você enfeitava, dava explicações fantásticas, não é?"

Chuck pensou um pouco e balançou a cabeça.

"Sem dúvida. Os criminosos fazem o mesmo", disse Teddy.

"Exatamente. A idéia é confundir. Aturdir os interlocutores até conseguir fazer que acreditem, mais por cansaço que por respeito à verdade. Agora considere que essas mentiras sejam contadas para si mesmo. É isso o que Rachel faz. Em quatro anos de internação, ela nunca admitiu estar num hospital psiquiátrico. Em sua mente, ela ainda se encontrava em sua casa, em Berkshires, e nós não passávamos de entregadores de mercadorias, de leiteiros e carteiros que estavam de passagem. Não importa qual fosse a realidade, ela usava uma extraordinária força de vontade para fortalecer suas ilusões."

"Mas como é possível que a verdade nunca venha à tona?", disse Teddy. "Quer dizer, a mulher está num hospital psiquiátrico. Como é possível que, de vez em quando, não perceba isso?"

"Ah", disse Cawley. "Agora nos aproximamos da beleza assustadora da estrutura paranoide plenamente desenvolvida. Se os senhores acreditassem, xerifes, ser os únicos detentores da verdade, então provavelmente todos os outros estariam mentindo. E se todos estivessem mentindo..."

"Qualquer verdade que dissessem", disse Chuck, "provavelmente seria mentira."

Cawley dobrou o polegar e apontou o indicador para ele, como se fosse um revólver. "Está começando a entender, xerife."

"E isso de algum modo se manifesta nesses números?"

"Forçosamente. É provável que eles representem alguma coisa. No caso de Rachel, nenhum pensamento era ocioso ou secundário. Ela tinha de evitar que a estrutura em seu cérebro desmontasse, e para isso era preciso pensar o tempo todo." Batendo a mão na folha do teste de acuidade visual, Cawley acrescentou: "Isto é a estrutura transcrita para o papel. Vai nos revelar para onde ela foi".

Por um instante, Teddy teve a impressão de que aqueles números adquiriam algum sentido, tornavam-se mais claros. Eram principalmente os dois primeiros números — o quarenta e sete e o oitenta — que se agitavam em seu cérebro, como ao se tentar lembrar da melodia de uma canção enquanto se ouve pelo rádio uma música completamente diferente. O quarenta e sete era o sinal mais transparente. Estava bem diante dele. Era tão simples. Era...

E então todas as conexões lógicas desmoronaram, e Teddy sentiu a mente esvaziar-se. As conexões lógicas lhe escaparam, e ele recolocou a folha na cama.

"Loucura", disse Chuck.

"Como assim?", disse Cawley.

"Foi aonde ela chegou", disse Chuck. "Em minha opinião."

"Bem, sem dúvida", disse Cawley. "Acho que podemos considerar isso como ponto pacífico."


 

Ficaram parados na frente do quarto. O corredor se dividia perto da escada que havia no centro. A porta do quarto de Rachel ficava a meio caminho, à esquerda dos degraus, do lado direito do corredor.

"É o único caminho para sair deste andar?", perguntou Teddy.

Cawley fez que sim.

"Não se pode subir ao telhado?", perguntou Chuck.

Cawley balançou a cabeça. "A única maneira de subir é pela escada de incêndio, que fica no lado sul do edifício. Ali há um portão, que está sempre fechado. Os funcionários têm as chaves, mas os pacientes não, é claro. Para chegar ao telhado, seria preciso descer as escadas, sair do edifício, usar uma chave e subir."

"Mas fizeram uma busca no telhado?"

Mais um movimento de cabeça. "E em todos os quartos do pavilhão. Imediatamente. Logo que fomos informados do desaparecimento da paciente."

Teddy apontou um servente que estava sentado a uma pequena mesa de jogo em frente à escada. "Tem sempre alguém ali, vinte e quatro horas por dia?"

"Tem."

"Quer dizer então que havia alguém ali ontem à noite?"

"Sim. Aliás, era o senhor Ganton."

Dirigiram-se à escada, e Chuck disse, erguendo as sobrancelhas e olhando para Teddy: "Quer dizer então...".

"... então...", Teddy repetiu.

"... que a senhorita Solando sai de seu quarto fechado à chave, desce estes degraus." Desceram os degraus, e Chuck apontou o polegar para um servente que os esperava no patamar da escada do primeiro andar. "Passa despercebida por outro servente aqui, não se sabe como, quem sabe se torna invisível ou coisa parecida, desce o próximo lance de escada e sai para o..."

Quando chegaram aos últimos degraus, deram de cara com uma grande sala aberta, com vários sofás encostados à parede, uma grande mesa no centro com cadeiras do-bráveis, fartamente iluminada por janelões.

"Nossa sala de convivência", disse Cawley. "É onde a maioria dos pacientes fica à noite, antes do apagar das luzes. A terapia de ontem à noite foi feita aqui. Após aquele pórtico fica a sala das enfermeiras. Depois que os pacientes vão dormir, os serventes se reúnem aqui. É o momento em que devem limpar o chão, lavar as janelas e tudo o mais; entretanto, na maioria das vezes, nós os surpreendemos jogando cartas."

"E na noite passada?"

"Segundo os funcionários que estavam de plantão, o jogo de cartas estava animadíssimo. Havia sete homens ao pé da escada jogando pôquer."

Chuck pôs as mãos nos quadris e expirou pela boca, demoradamente. "Pelo visto ela se torna invisível de novo e entra à direita ou à esquerda."

"Seguindo à direita, entraria no refeitório, passaria pela cozinha e encontraria uma porta com grades, munida de um alarme que fica ligado a partir das nove horas da noite, depois que o pessoal da cozinha vai embora. À esquerda fica a sala das enfermeiras e a sala de descanso do staff. Não há nenhuma porta que dê para o lado de fora. As únicas saídas são a porta que fica no fundo da sala de convivência e a do fundo do corredor, atrás da escada. Ontem à noite, como sempre, os homens encarregados de vigiá-las estavam a postos." Cawley consultou o relógio. "Senhores, agora tenho uma reunião. Se tiverem mais alguma pergunta, por favor, sintam-se à vontade para procurar qualquer funcionário ou o senhor McPherson. Por enquanto, é ele quem está no comando das buscas. Terão todas as informações de que precisarem, xerifes. O staff janta exatamente às seis horas, no refeitório que fica sob o dormitório dos serventes. Depois disso, vamos nos reunir aqui na sala de convivência, e então, xerifes, poderão fazer perguntas a todos os que estavam de serviço à hora da ocorrência da noite passada."

Cawley correu para a porta de entrada, e Teddy e Chuck o viram se afastar, dobrar à esquerda e desaparecer.

Teddy disse: "Existe algum elemento nessa história que se oponha à hipótese de cumplicidade de alguém do próprio hospital?".

"Gosto muito de minha hipótese da invisibilidade. Ela poderia ter a poção mágica numa garrafa. Está me entendendo? Então poderia muito bem estar nos olhando neste mesmo instante, Teddy." Chuck deu uma olhadela por sobre o ombro, depois olhou novamente para Teddy. "Dá o que pensar, não?"

 

À tarde juntaram-se ao grupo que fazia as buscas e penetraram a ilha, enquanto a brisa ficava cada vez mais forte e quente. Boa parte da ilha era coberta de vegetação, e em muitos lugares erguiam-se verdadeiras barreiras de mata fechada e vastas extensões de grama alta, às quais se misturavam os brotos dos carvalhos seculares e as trepadeiras cobertas de espinhos. Em geral, não se podia avançar nem mesmo usando os facões que alguns guardas traziam. Rachel Solando não tinha um facão, e, mesmo que tivesse, a ilha a repeliria para a costa, como parecia ser de sua natureza.

Teddy teve a impressão de que aquela busca era absolutamente inócua. Pelo visto, só ele e Chuck empenhavam-se na empreitada. De olhos baixos, passo vacilante, os homens vagavam na orla da mata ao longo da costa. A certa altura contornaram um aglomerado de pedras negras e se viram no alto de um penhasco que descia abruptamente para o mar. À esquerda deles, para além de uma mistura desordenada de musgos, espinheiros e arbustos com bagas vermelhas, havia uma pequena clareira que descia suavemente em direção a algumas colinas. Estas se elevavam de forma regular, cada uma maior que a precedente, até chegarem a um penhasco denteado. Teddy viu profundos entalhes nos flancos das colinas e aberturas oblongas na parede do penhasco.

"Cavernas?", ele perguntou a McPherson.

McPherson fez que sim. "Ali tem algumas."

"Vocês procuraram nelas?"

McPherson soltou um suspiro e protegeu um fósforo com a mão para acender o cigarro em meio à ventania. "Ela tinha dois pares de sapatos, xerife. Os dois ficaram no quarto. Como poderia ter passado por onde passamos, por cima de pedras e rochedos e ainda escalar o penhasco?"

Teddy apontou para a colina menor, do outro lado da clareira. "E se ela foi pelo caminho mais longo, subindo pelo lado oeste?"

McPherson colocou o dedo ao lado do de Teddy. "Está vendo aquela parte mais baixa da clareira? Há uma área pantanosa na direção apontada pelo seu dedo. O pé daquelas colinas é coberto de toxicodendros, carvalhos, su-magre, umas mil plantas diferentes, todas com espinhos do tamanho do meu pau."

"Isso quer dizer que são pequenos ou grandes?" Essa pergunta quem fez foi Chuck, alguns passos adiante deles, olhando por cima do ombro.

McPherson sorriu. "Digamos que fica no meio-termo."

Chuck balançou a cabeça.

"Sabem o que quero que entendam, senhores? Só o que ela poderia fazer era acompanhar a linha da costa. E não importa a direção que tomasse, a certa altura não teria mais areia por onde andar." Apontou para um rochedo. "Terminaria por topar com um desses."

 

Uma hora depois, do outro lado da ilha, descobriram uma cerca. Atrás dela ficava o velho forte e o farol. Este, como Teddy notou, tinha sua própria cerca, cujo portão era vigiado por dois guardas, de rifles levantados à altura do peito.

"Unidade de tratamento?", ele perguntou.

McPherson fez que sim.

Teddy olhou para Chuck. Chuck arqueou as sobrancelhas.

"Unidade de tratamento?", repetiu Teddy.

 

Ninguém se aproximou da mesa deles na hora do jantar. Ficaram sozinhos, molhados pelos borrifos soprados pela brisa morna. Lá fora, a ilha começava a se agitar na escuridão, a brisa dando lugar ao vento.

"Um quarto trancado", disse Chuck.

"Descalça", disse Teddy.

"Passou por três postos de controle."

"E por uma sala cheia de serventes."

"Descalça", repetiu Chuck.

Teddy cutucou a comida, uma espécie de picadinho, feito com carne dura e fibrosa. "Passou por um muro encimado por um fio elétrico."

"Ou por um portão vigiado."

"Para defrontar com tudo isso."

A ventania fustigava o edifício, as trevas.

"Descalça."

"E ninguém a vê."

Chuck mastigou a comida, tomou um gole de café. "Quando se morre nesta ilha — de vez em quando acontece, não? — onde os corpos vão parar?"

"São enterrados."

Chuck fez que sim. "Você viu algum cemitério hoje?"

Teddy balançou a cabeça. "Está em algum lugar, com certeza cercado."

"Como a usina de tratamento. Com certeza." Chuck empurrou a bandeja e recostou-se na cadeira. "Com quem vamos conversar em seguida?"

"Com os funcionários."

"Você acha que vão querer colaborar?"

"Você não?"

Chuck sorriu, acendeu um cigarro sem tirar os olhos de Teddy, o sorriso dando lugar a uma leve risada, a fumaça saindo da boca no mesmo ritmo.

 

Teddy estava de pé, no meio da sala, com as mãos apoiadas no encosto de uma cadeira de metal; os funcionários formavam um círculo à sua volta. Chuck, com as mãos nos bolsos, estava encostado numa coluna ao lado dele.

"Imagino que todos sabem por que estamos aqui", principiou Teddy. "Houve uma fuga na noite passada. Até onde sei, a paciente sumiu. Não há nenhum indício de que ela tenha saído deste hospital sem ter recebido a ajuda de alguém. O diretor-adjunto concorda, não é?"

"Concordo. Eu diria que, por enquanto, essa é uma hipótese razoável."

Teddy estava prestes a retomar a palavra quando Caw-ley, sentado numa cadeira ao lado da enfermeira, disse: "Os senhores poderiam se apresentar? Alguns dos meus funcionários ainda não os conhecem".

Teddy endireitou o corpo, dando toda a medida de sua altura. "Sou o xerife Edward Daniels. Este é meu parceiro, o xerife Charles Aule."

Chuck fez um ligeiro aceno ao grupo, e enfiou a mão no bolso novamente.

Teddy disse: "Senhor diretor-adjunto, o senhor e seus homens procederam a uma busca rigorosa aqui, não foi?".

"Evidentemente."

"E encontraram alguma coisa?"

McPherson esticou-se na cadeira. "Não achamos nenhuma pista de mulher em fuga. Nenhum pedaço de roupa rasgada, nenhuma pegada, nenhum trecho de mato com marcas da passagem de uma pessoa. A maré estava alta na noite passada; e a corrente, muito forte. Sair desta ilha a nado era impossível."

"Mas ela pode ter tentado." Foi o comentário de Kerry Marino, uma mulher esguia, de cabelos ruivos, que se apressou em soltá-los logo ao entrar na sala, tirando a pre-silha na altura da nuca, para desfazer o coque no alto da cabeça. Com a touca no colo, ela alisava os cabelos num gesto indolente, e todos os homens presentes lhe lançavam olhares furtivos, tanto o gesto evocava a lassidão de quem vai para a cama.

McPherson: "Como?".

Marino parou de alisar os cabelos, descansando a mão no colo.

"Quem nos garante que ela não tentou sair da ilha a nado e acabou se afogando?"

"A essa altura o corpo já teria vindo dar na praia", disse Cawley levando a mão à boca para esconder um bocejo. "Com uma maré daquelas..."

Marino levantou a mão como a dizer "Ah, desculpem rapazes" e falou: "Foi só uma possibilidade que eu quis levantar".

"E fez muito bem", disse Cawley. "Xerife, faça as suas perguntas, por favor. Tivemos um dia muito cansativo."

Teddy olhou para Chuck, que inclinou a cabeça ligeiramente na direção do colega. Uma mulher, com uma história de violência, desaparecida, escondida em algum canto da ilha, e todo mundo só pensava em ir dormir.

Teddy disse: "O senhor Ganton já nos disse que foi ao quarto da senhorita Solando à meia-noite e percebeu que ela sumira. Nem as grades da janela nem as fechaduras tinham sido forçadas. Senhor Ganton, entre as dez horas e a meia-noite houve algum momento em que o senhor deixou de vigiar o corredor do primeiro andar?".

Várias cabeças se voltaram para Ganton, e Teddy ficou intrigado ao ver uma expressão divertida em alguns rostos, como se ele fosse um professor primário fazendo uma pergunta ao aluno mais esperto da classe.

Ganton falou para os próprios sapatos. "Meus olhos só se desgrudaram do corredor quando entrei no quarto da senhorita Rachel e constatei que ela tinha sumido."

"Isso teria durado uns trinta segundos."

"Eu diria uns quinze", disse voltando os olhos para Teddy. "O quarto é muito pequeno."

"E fora isso?"

"Fora isso, todos estavam trancados às dez horas. Ela foi a última a entrar no quarto. Sentei-me na minha cadeira junto à escada, e não vi ninguém durante aquelas duas horas."

"E não deixou o seu posto nenhuma vez?"

"Não, senhor."

"Nem para tomar um café ou algo assim?"

Ganton negou com um gesto de cabeça.

"Muito bem, pessoal", disse Chuck afastando-se da coluna. "Vou fazer uma suposição muito ousada, certo? Sem querer de forma alguma desrespeitar o senhor Ganton, suponhamos que a senhorita Solando tenha conseguido escapar rastejando pelo teto ou algo assim."

Ouviram-se risinhos.

"Então ela segue pela escada do primeiro andar. Por quem ela teria de passar?"

Um servente ruivo, de pele branca como leite, levantou a mão.

"E como é seu nome?", perguntou Teddy.

"Glen. Glen Miga."

"Certo, Glen. Você ficou em seu posto durante toda a noite?"

"Bem... sim."

Teddy disse: "Glen".

"Sim?" Ele levantou os olhos da cutícula que estava cutucando.

"Fale a verdade."

Glen lançou um olhar a Chuck e olhou novamente para Teddy. "Sim, fiquei."

"Ora, vamos, Glen", insistiu Teddy.

Glen sustentou o olhar de Teddy; arregalando os olhos, falou: "Fui ao banheiro".

Cawley inclinou-se para a frente e perguntou: "Quem ficou no seu lugar nesse meio-tempo?".

"Foi só uma mijadinha", disse Glen. "Quer dizer, desculpe, um xixizinho."

"Quanto tempo você levou?"

Glen deu de ombros. "Um minuto, no máximo."

"Um minuto. Tem certeza?"

"Não sou nenhum camelo."

"Claro."

"Foi entrar e sair."

"Você violou as regras", disse Cawley. "Meu Deus."

"Eu sei, senhor. Eu..."

"Isso aconteceu a que horas?", perguntou Teddy.

"Às onze e meia, mais ou menos." O medo que Glen sentia de Cawley transformava-se em raiva de Teddy. Mais alguma pergunta, e se criaria um clima de hostilidade.

"Obrigado, Glen", disse Teddy passando a palavra a Chuck com um gesto de cabeça.

"Às onze e meia mais ou menos", disse Chuck, "o jogo de pôquer ainda estava a todo vapor?"

Várias cabeças se voltaram umas para as outras, concentrando-se em seguida em Chuck. Então um negro balançou a cabeça afirmativamente, seguido pelos demais serventes.

"Àquela altura, quem ainda estava jogando?"

Quatro negros e um branco levantaram as mãos.

Chuck dirigiu-se diretamente ao que parecia ser o líder, o primeiro a levantar a mão. Um sujeito meio gordo, com a cabeça raspada brilhando à luz da lâmpada.

"Qual é o seu nome?"

"Trey, senhor. Trey Washington."

"Trey, onde você e seus amigos estavam sentados?"

Trey apontou para o chão. "Bem ali. No meio da sala. De frente para a escada. Assim a gente podia vigiar a porta da frente e a porta de trás."

Chuck aproximou-se dele, esticou o pescoço para olhar a porta da frente e a de trás. "É uma boa posição", ele disse.

Trey abaixou a voz. "Nossa preocupação não era com os pacientes, mas com os médicos e algumas enfermeiras que não gostam de nós. A gente não deveria estar jogando cartas. Se alguém se aproximasse, a gente levantaria correndo para pegar o esfregão."

Chuck sorriu. "Aposto como você é muito rápido."

"Você já viu um raio em agosto?"

"Já."

"Aquilo é devagar se comparado a mim, quando corro pra pegar o esfregão."

Aquela tirada descontraiu o grupo: a enfermeira Mari-no não pôde conter um sorriso, e Teddy notou que alguns negros se cutucavam, na maior farra. Percebeu que, durante toda a permanência deles, Chuck faria o papel de policial simpático. Tinha jeito para lidar com as pessoas, não importava de que classe fossem, independentemente da cor e mesmo da linguagem. Teddy se perguntava como a porra do departamento de polícia de Seattle pudera abrir mão daquele sujeito, com ou sem namorada japonesa.

Teddy, por sua vez, era do tipo macho alfa, o macho dominante. Quando os demais homens aceitavam esse fato, como eram obrigados a fazer durante a guerra, tudo corria às mil maravilhas. Antes disso, porém, as tensões eram inevitáveis.

"Tudo bem, tudo bem", disse Chuck levantando a mão para acabar com as risadas, ele próprio mal contendo o riso. "Quer dizer então, Trey, que vocês estavam todos ao pé da escada, jogando cartas. Quando notaram que havia algo errado?"

"Quando Ike — quer dizer, o senhor Ganton — começou a gritar: 'Chamem o diretor. Houve uma fuga!'."

"E a que horas foi isso?"

"À meia-noite, dois minutos e trinta e nove segundos."

Chuck arqueou as sobrancelhas. "Você é um relógio?"

"Não, senhor, mas aprendi a olhar o relógio ao primeiro sinal de que algo está errado. A gente nunca sabe: qualquer coisa pode ser o que se chama de 'ocorrência', e nesse caso é preciso preencher um fo, quer dizer, um formulário de ocorrência. A primeira pergunta do formulário é quando a ocorrência teve início. Depois que a gente faz um monte de fos, passa a olhar o relógio automaticamente, ao primeiro sinal de que há algo de anormal."

Vários serventes confirmaram com um gesto de cabeça, uns poucos falaram "é mesmo" ou "é verdade", como se estivessem numa igreja, participando de um culto.

Chuck lançou um olhar a Teddy, como a perguntar: o que acha disso?

"Então à meia-noite e dois minutos...", disse Chuck.

"... e trinta e nove segundos."

Teddy dirigiu-se a Ganton: "Esses dois minutos depois da meia-noite significam que você verificou alguns quartos antes de chegar ao da senhorita Solando, não é?".

Ganton fez que sim. "Ela é a quinta do corredor."

"Quando o diretor chegou ao local?", perguntou Teddy.

Trey falou: "Hicksville — um dos guardas — foi o primeiro a chegar à porta do quarto. Acho que ele estava trabalhando no portão. Chegou à meia-noite, seis minutos e vinte e dois segundos. O diretor chegou seis minutos depois, acompanhado de seis homens".

Teddy voltou-se para a enfermeira Marino. "Você ouviu todo o rebuliço e..."

"Fechei a sala das enfermeiras e me dirigi à sala de convivência, aonde cheguei no momento em que Hicksville entrava pela porta da frente." Ela deu de ombros, acendeu um cigarro; e muitos outros funcionários, como se vissem naquele gesto um sinal, acenderam os seus.

"E ninguém podia ter entrado na sala das enfermeiras sem que você notasse?"

Ela apoiou o queixo na palma da mão e olhou-o através das espirais de fumaça. "Sem que eu notasse? Mas alguém entraria ali a fim de ir para onde? Para a sala de hidroterapia? Lá dentro a gente fica presa num cubo de cimento, com um monte de banheiras e algumas bacias."

"Fez-se uma busca na sala?"

"Sim, xerife", disse McPherson, agora num tom cansado.

"Enfermeira Marino", disse Teddy, "você participou da terapia de grupo ontem à noite?"

"Participei."

"Aconteceu alguma coisa anormal na sessão?"

"O que você chamaria de anormal?"

"Como assim?"

"Isto aqui é um hospital psiquiátrico, xerife. Para doentes criminosos. Nossa rotina aqui não tem nada de 'normal'."

Teddy balançou a cabeça e lhe dirigiu um sorriso embaraçado. "Vou explicar melhor. Aconteceu alguma coisa na sessão de ontem mais marcante que o...?"

"Normal?", ela disse.

Isso provocou um sorriso em Cawley e alguns risos entre os funcionários.

Teddy confirmou com um gesto de cabeça.

Marino pensou um pouco, enquanto a cinza do cigarro ia ficando branca e se curvando. Ela observou a cinza, deixou-a cair no cinzeiro e levantou a cabeça. "Não. Lamento."

"E a senhorita Solando falou ontem à noite?"

"Sim, umas poucas vezes."

"Sobre o quê?"

Marino lançou um olhar a Cawley.

Ele disse: "Neste momento, no interesse da investigação, o caráter confidencial das informações está suspenso".

Ela aquiesceu, mas Teddy percebeu que aquela idéia não lhe agradava muito.

"Discutíamos como controlar a raiva. Ultimamente tivemos vários casos de comportamento instável."

"De que tipo?"

"Pacientes gritando uns com os outros, brigando, esse tipo de comportamento. Nada excepcional, mas houve uma multiplicação dos casos nas últimas semanas, provavelmente por causa da onda de calor. Então, na noite passada, discutimos as formas adequadas e inadequadas de demonstrar a angústia e a insatisfação."

"A senhorita Solando teve alguma explosão de raiva recentemente?"

"Rachel? Não. Rachel só ficava agitada quando chovia. Aquela foi sua contribuição ao grupo na noite passada. 'Estou ouvindo a chuva. Estou ouvindo a chuva. Não está aqui, mas está vindo. Como é que vamos fazer com a comida?'"

"A comida?"

Marino esmagou a ponta do cigarro. "Rachel detestava a comida daqui. Reclamava o tempo todo."

"Com ou sem razão?", perguntou Teddy.

Marino se conteve antes que seu meio sorriso se alargasse. Abaixou os olhos. "Pode-se dizer que ela teria lá suas razões. Mas aqui não qualificamos as razões como boas ou más, do ponto de vista moral."

Teddy balançou a cabeça. "A sessão da noite passada foi dirigida pelo doutor Sheehan, eu acho. Ele se encontra nesta sala?"

Ninguém respondeu. Vários homens apagaram os cigarros nos cinzeiros instalados nos suportes entre as cadeiras.

Por fim, Cawley se pronunciou: "O doutor Sheehan partiu hoje de manhã no ferryboat. No mesmo que trouxe os senhores para cá".

"Por quê?"

"Fazia muito tempo que as férias dele estavam programadas."

"Mas precisamos conversar com ele."

Cawley disse: "Temos suas anotações referentes à terapia de grupo. Estão todas comigo. Ele deixou o edifício principal às dez horas da noite de ontem e recolheu-se ao alojamento. De manhã, partiu. Suas férias estavam mais do que vencidas, e ele as tinha planejado fazia muito tempo também. Não vimos nenhuma razão para retê-lo aqui".

Teddy se virou para McPherson.

"O senhor autorizou?"

McPherson fez que sim.

"Ninguém deveria ser autorizado a sair", disse Teddy. "Uma paciente fugiu. Como o senhor permitiu que uma pessoa saísse nessas circunstâncias?"

McPherson disse: "Apuramos o que ele fez durante a noite. Refletimos sobre o caso e não vimos nenhum motivo para impedi-lo de partir".

"Ele é um médico", disse Cawley.

"Meu Deus", disse Teddy baixinho. Nunca tinha visto tal violação dos procedimentos habituais de um estabelecimento carcerário, e todo mundo estava reagindo como se aquilo não tivesse a mínima importância.

"Para onde ele foi?"

"Como?"

"Nessas férias", disse Teddy, "para onde foi?"

Cawley olhou para o teto, tentando lembrar-se. "Acho que para Nova York. Para a cidade. A família dele é de lá. Moram na Park Avenue."

"Preciso do telefone dele", disse Teddy.

"Não sei em que isso..."

"Doutor", disse Teddy, "preciso do telefone dele."

"Vamos lhe dar o número, xerife", disse Cawley com os olhos no teto. "Mais alguma coisa?"

"Com certeza", disse Teddy.

Cawley abaixou a cabeça para encarar Teddy.

"Preciso de um telefone", disse Teddy.

 

O telefone da sala das enfermeiras deu apenas um silvo agudo. Havia mais quatro aparelhos no pavilhão, protegidos por uma cabine de vidro, e estes, uma vez abertas as cabines, limitaram-se aos mesmos silvos.

Teddy e o doutor Cawley dirigiram-se à mesa telefônica central, no térreo do edifício principal do hospital. O operador, com vários fones pretos em volta do pescoço, levantou os olhos quando entraram.

"Estamos sem comunicação, senhor", ele disse. "Até o rádio está fora do ar."

"Mas lá fora o tempo não está tão ruim assim", disse Cawley.

O operador deu de ombros. "Vou continuar tentando. Mas o problema não é o tempo que está fazendo aqui, e sim do outro lado."

"Continue tentando", disse Cawley. "Quando voltar a funcionar, mande me avisar. Este homem precisa fazer uma ligação muito importante."

O operador balançou a cabeça, voltou-se para a mesa e recolocou o fone no ouvido.

Lá fora, o ar parecia prender o fôlego.

"O que farão se vocês não entrarem em contato com a central?", perguntou Cawley.

"O pessoal do comando?", disse Teddy. "Eles vão registrar o fato no relatório da noite. Em geral só começam a se preocupar depois de vinte e quatro horas."

Cawley balançou a cabeça. "Talvez a essa altura o problema já esteja resolvido."

"Resolvido?", disse Teddy. "Mal começou."

Cawley deu de ombros e começou a andar em direção à porta. "Vou ficar em casa bebericando e quem sabe fumando um charuto. Se você e o seu parceiro quiserem aparecer aí pelas nove..."

"Oh", fez Teddy. "Poderemos então conversar?"

Cawley parou, voltou-se e olhou para ele. As árvores lá de fora, mergulhadas na escuridão, começaram a balançar e a sussurrar.

"Não temos feito outra coisa, xerife."

Chuck e Teddy foram andando na escuridão, sentindo a tempestade formar-se à sua volta, como se o mundo estivesse grávido, inflando.

"Isso não tem sentido", disse Teddy.

"É verdade."

"Um troço nojento a mais não poder."

"Se fosse batista, eu diria 'Amém, irmão'."

"Irmão?"

"É como dizem lá. Passei um ano no Mississippi."

"É mesmo?"

"Amém, irmão."

Teddy filou outro cigarro de Chuck e o acendeu.

Chuck disse: "Conseguiu falar com o comando?".

Teddy fez que não. "Cawley disse que as comunicações estão interrompidas." Levantou a mão. "Por causa da tempestade."

Chuck cuspiu fragmentos de fumo agarrados na língua. "Tempestade? Onde?"

Teddy disse: "Bem, dá para sentir que ela se aproxima". Levantou os olhos para o céu escuro. "Seja como for, não vejo como ela pode paralisar a central de comunicação."

"Central de comunicação", disse Chuck. "Você sai do Exército e ainda fica esperando a carta de desmobilização?"

"Mesa telefônica", disse Teddy agitando o cigarro no ar. "Chame como quiser. E o rádio também."

"A porra do rádio?", disse Chuck arregalando os olhos. "O rádio, chefe?"

Teddy confirmou com um gesto de cabeça. "Que fria. Estamos presos numa ilha procurando uma mulher que fugiu de um quarto trancado à chave..."

"Passou por quatro postos de controle."

"E por uma sala cheia de serventes jogando pôquer."

"Escalou um muro de uns três metros de altura."

"Com um fio elétrico sobre ele."

"Nadou uns dezoito quilômetros..."

"... contra uma corrente impetuosa..."

"... até a costa. Impetuosa. Gosto dessa palavra. E ainda por cima gelada. A que temperatura estaria a água? Uns onze graus?"

"Catorze, no máximo. Mas à noite..."

"Volta para os onze graus", disse Chuck balançando a cabeça. "Francamente, Teddy, tem algo nessa história..."

"E ainda por cima o doutor Sheehan desaparece", disse Teddy.

Chuck disse: "Também achou estranho, não é? Eu não sabia o que você tinha achado. Chefe, parece que você não deu a prensa que o sacana do Cawley merecia".

Teddy riu. O eco de sua risada, carregado pelo vento da noite, perdeu-se em meio ao ruído longínquo da arrebentação, como se nunca tivesse existido, como se a ilha, o mar e o sal despojassem as pessoas de tudo e...

"... e se estivermos servindo de fachada?", disse Chuck.

"O quê?"

"E se nosso papel aqui for servir de fachada?", disse Chuck. "E se nos chamaram aqui para conseguir certa credibilidade?"

"Seja mais claro, Watson."

Chuck sorriu novamente. "Certo, chefe, tente acompanhar."

"Vou tentar, vou tentar."

"Suponhamos que certo médico tenha se apaixonado por certa paciente."

"A senhorita Solando."

"Você viu a foto."

"Ela é atraente."

"Atraente? Teddy, ela é daquelas gostosonas de calendário de oficina mecânica. Então ela seduz nosso homem, o tal Sheehan... Está entendendo?"

Teddy jogou o cigarro contra o vento, ficou olhando a brasa se avivar, esfacelar-se e finalmente desaparecer atrás deles. "Aí Sheehan é fisgado, e acha que não pode viver sem ela."

"A palavra-chave é viver. Como um casal livre, no mundo real."

"Aí eles se mandam. Vão embora da ilha."

"Quem sabe neste mesmo instante estejam em algum show de Fats Domino."

Teddy parou no final dos alojamentos dos funcionários, diante do muro cor de laranja. "Mas por que não chamaram os federais?"

"Bem, chamaram", disse Chuck. "Pro forma. Em caso de fuga de um lugar como este, são obrigados a avisar as autoridades, então nos chamaram. Mas se a idéia deles é proteger alguém do staff, estamos aqui apenas para corroborar sua versão dos fatos — para mostrar que fizeram tudo conforme o figurino."

"Certo", disse Teddy. "Mas por que proteger Sheehan?"

Chuck dobrou o joelho, apoiou a sola do sapato no muro, enquanto acendia um cigarro. "Não sei. Ainda não pensei sobre isso."

"Se Sheehan a tirou daqui, precisou molhar a mão de algumas pessoas."

"Inevitavelmente."

"De muita gente."

"Ao menos de alguns serventes. E de um ou dois guardas."

"E de alguém do ferryboat. Talvez de mais de uma pessoa."

"A menos que não tenham ido embora pelo ferryboat. Pode ser que o cara tenha um barco."

Teddy pensou um pouco. "O cara é de família rica. Da Park Avenue, segundo Cawley."

"Então a hipótese faz sentido. Ele tem o seu próprio barco."

Teddy olhou para o alto do muro, observou o fio elétrico lá em cima. O ar se inflava em volta deles como uma bolha contra uma vidraça.

"Essa hipótese explica algumas coisas, mas levanta outras tantas questões", disse Teddy depois de um instante.

"Como assim?"

"Qual a razão daqueles códigos no quarto de Rachel Solando?"

"Bem, ela é louca, não é?"

"Mas que razão teriam para nos mostrar? Quer dizer, se se trata de acobertar o crime, por que não facilitar as coisas, para que possamos assinar os relatórios e ir embora para casa? Poderiam dizer: 'O vigia caiu no sono'. Ou 'A trava da janela enferrujou, e não percebemos'."

Chuck apertou uma das mãos contra o muro. "Talvez estivessem se sentindo sozinhos. Todos eles. Precisavam de um pouco de companhia, de gente vinda do continente."

"Claro. E inventaram uma história para nos trazer para cá? Para ter sobre o que conversar? Conta outra."

Chuck se voltou para observar o hospital. "Brincadeiras à parte..."

Teddy também se voltou, e os dois ficaram de frente para o edifício. "Sim..."

"Tudo isso está começando a me deixar nervoso, Teddy."


 

"Chamam isto aqui de Grande Salão", disse Cawley, que os conduzia através do vestíbulo revestido de tacos, em direção a duas portas de carvalho com maçanetas de cobre do tamanho de abacaxis. "Estou falando sério. Minha mulher encontrou no sótão algumas cartas escritas pelo primeiro proprietário, o coronel Spivey. Nelas o militar descreve com vagar o grande salão que estava construindo."

Cawley puxou num gesto brusco um dos abacaxis e escancarou a porta.

Chuck assobiou baixinho. O apartamento de Teddy e Dolores em Buttonwood causara inveja aos amigos por causa do tamanho. Era dividido por um corredor central, grande como um campo de futebol, e ainda assim, no salão de Cawley, cabiam dois apartamentos iguais ao deles.

O piso era de mármore, coberto aqui e ali por escuros tapetes orientais. A lareira era mais alta que a maioria dos homens. Só as cortinas — três metros de veludo roxo-escu-ro por janela, e ali havia nove janelas ao todo — provavelmente haviam custado mais do que Teddy ganhava num ano. Talvez em dois. Em um dos cantos da sala, um pouco acima da mesa de bilhar, havia três retratos a óleo. O de um homem com o uniforme azul das tropas federais, o de uma mulher num vestido branco com babados, e um terceiro mostrando um casal, com um cachorro aos seus pés e a mesma lareira gigantesca atrás deles.

"É o coronel?", perguntou Teddy.

Cawley seguiu o olhar dele, e confirmou com um gesto de cabeça. "Ele foi afastado do comando pouco depois que esses quadros ficaram prontos. Nós os encontramos no porão, assim como a mesa de bilhar, os tapetes, a maioria das cadeiras. Você precisava ver o porão, xerife. Lá dentro cabe o estádio do Polo Grounds."

Ao sentirem um cheiro de fumo de cachimbo, Teddy e Chuck se voltaram ao mesmo tempo, dando-se conta de que havia outro homem na sala. Estava sentado de costas para eles numa bergère, de frente para a lareira, com um dos pés apoiado no joelho oposto, segurando um livro aberto, do qual só um canto era visível para eles.

Cawley conduziu-os até a lareira, indicando com um gesto o círculo de cadeiras em frente ao fogo, enquanto se dirigia a um bar. "Qual o veneno de sua preferência, senhores?"

Chuck disse: "Uísque de centeio, se você tiver".

"Acho que dá para arranjar um pouco. E o xerife Daniels?"

"Soda, água e um pouco de gelo."

O desconhecido levantou os olhos. "O senhor não bebe, xerife?"

Teddy olhou para o sujeito. Uma cabecinha ruiva em-poleirada feito uma cereja num corpo troncudo. Dava a impressão geral de extrema delicadeza, e Teddy imaginou que ele passava um tempão no banheiro toda manhã, enchen-do-se de talco e de óleos aromáticos.

"E o senhor, quem é?", falou Teddy.

"Meu colega", disse Cawley. "O doutor Jeremiah Naeh-ring."

O homem piscou os olhos à guisa de saudação, mas, como não estendeu a mão, os policiais também se abstiveram de fazê-lo.

"Fiquei curioso", disse Naehring enquanto Teddy e Chuck se sentavam em duas cadeiras à esquerda dele.

"Ótimo", disse Teddy.

"Por que não bebe álcool? Na sua profissão não é comum as pessoas entornarem?"

Cawley lhe passou o drinque. Teddy levantou-se, dirigiu-se às estantes à direita da lareira. "É bastante comum", disse. "E na sua?"

"Como?"

"Sempre ouvi dizer que em sua profissão há muitos beberrões", disse Teddy.

"Não que eu tenha notado."

"Não observou direito, hein?"

"Acho que não estou entendendo."

"O que é isso em seu copo? Chá gelado?"

Ainda diante das estantes, Teddy se voltou, viu Naehring olhar para o próprio copo, com um sorriso sinuoso feito um bicho-da-seda nos lábios moles. "Excelente, xerife. O seu mecanismo de defesa é notável. Aposto como é muito bom em interrogatórios."

Teddy balançou a cabeça, notando que Cawley não tinha muitos livros de medicina, pelo menos naquela sala. Havia apenas umas poucas obras ali. Eram em sua maioria romances, havia alguns volumes fininhos, que Teddy presumiu se tratar de poesia, e muitas prateleiras com livros de história e biografias.

"Não é?", insistiu Naehring.

"Sou um xerife federal. Eu os prendo. Só isso. Na maioria das vezes, são outras pessoas que os questionam."

"Falei em 'interrogar', você falou em 'questionar'. Pois é, xerife, sua notável capacidade de defesa é surpreendente." Naehring bateu várias vezes no fundo do copo de uísque, como para aplaudi-lo. "Os homens da violência me fascinam."

"Homens de quê?", disse Teddy, e foi andando devagar até a cadeira de Naehring, abaixou os olhos para o ho-menzinho, fazendo tilintar os cubos de gelo no copo.

Naehring inclinou a cabeça para trás e tomou um gole de uísque. "Violência."

"Você é muito afoito em seus julgamentos, doutor", interveio Chuck, lançando a Naehring um olhar irritado, que surpreendeu Teddy.

"Não é julgamento. De jeito nenhum."

Teddy agitou o copo novamente, bebeu e viu algo se mexer próximo ao olho esquerdo de Naehring. "Tenho de concordar com o meu parceiro", disse sentando-se na cadeira.

"Nããão", fez Naehring esticando uma sílaba em três. "Disse que são homens da violência. Não estou dizendo que são homens violentos."

Teddy lhe dirigiu um sorriso largo. "Explique-nos isso, doutor."

Cawley, que estava atrás deles, colocou um disco na vitrola, e, ao rangido da agulha, sucederam-se chiados e estalidos que lembraram a Teddy os ruídos dos telefones que tentara usar. Então esses ruídos foram substituídos por uma harmonia de cordas e piano. Uma peça clássica, era só o que Teddy saberia dizer. Uma melodia prussiana. Aquilo lhe lembrava os cafés da Europa e uma coleção de discos que vira no escritório de um subcomandante em Dachau, os mesmos discos que serviram de música de fundo quando esse homem se matou com um tiro na boca. Ainda estava vivo quando Teddy e quatro soldados entraram na sala. A garganta gorgolejava, e ele não conseguia alcançar o revólver, que estava caído no chão. A música suave rastejava pela sala como um bando de aranhas. Levou mais uns vinte minutos para morrer, e dois soldados perguntaram a der Kommandant se estava doendo, enquanto se punham a saquear a sala. Teddy tirou do colo do homem uma fotografia emoldurada em que se viam sua esposa e dois meninos, e o moribundo lhe lançou um olhar de súplica. Teddy se afastou, ora contemplando a fotografia, ora o moribundo, até que o sujeito morreu. E, durante todo o tempo, aquela música, aquelas notas lancinantes.

"Brahms?", perguntou Chuck.

"Mahler", respondeu Cawley sentando-se ao lado de Naehring.

"Pediu esclarecimentos, xerife?", disse Naehring.

Teddy apoiou os cotovelos nos joelhos e abriu as mãos.

"Desde o tempo do pátio da escola", principiou Naeh-ring, "eu diria que nenhum dos dois tentou se esquivar de um confronto físico. Não estou dizendo que sentiam prazer nisso, apenas que não lhes passava pela cabeça a idéia de evitar o conflito. Estou certo?"

Teddy olhou para Chuck. Chuck dirigiu-lhe um pequeno sorriso, ligeiramente embaraçado.

Chuck disse: "Não fui criado para fugir, doutor".

"Ah, sim... criado. E por quem você foi criado?"

"Por ursos", disse Teddy.

Os olhos de Cawley brilharam, e ele fez um leve movimento com a cabeça, em sinal de aprovação.

Mas Naehring parecia não gostar muito de humor. Ajeitou a calça na altura do joelho. "Acredita em Deus, xerife?"

Teddy riu.

Naehring inclinou-se para a frente.

"Você está falando sério?", perguntou Teddy.

Naehring ficou esperando a resposta.

"Já viu um campo de extermínio, doutor?"

Naehring negou com um gesto de cabeça.

"Não?", disse Teddy inclinando-se para a frente. "Seu inglês é muito bom, quase perfeito. Mas suas consoantes ainda são um pouquinho duras."

"A imigração legal é crime, xerife?"

Teddy sorriu e balançou a cabeça.

"Então voltemos a falar de Deus, se não se importa."

"Se o senhor algum dia vir um campo de extermínio, doutor, procure-me novamente para falar de sentimentos em relação a Deus."

A aquiescência de Naehring foi dada com um lento fechar e abrir de pálpebras, e então ele voltou os olhos para Chuck.

"E você?"

"Nunca vi campos de extermínio."

"Acredita em Deus?"

Chuck deu de ombros. "Faz muito tempo que não penso de forma alguma sobre o assunto."

"Desde que seu pai morreu, não é?"

Foi a vez de Chuck se inclinar para a frente, fitando os olhos claros do homenzinho diante dele.

"Seu pai morreu, não é? E o seu também, xerife Daniels? Na verdade, aposto como os dois perderam a figura masculina dominante de casa antes dos quinze anos de idade."

"Cinco de ouros", disse Teddy.

"Como?", disse ele avançando o corpo ainda mais.

"Esse é o seu truque de salão?", disse Teddy. "Você vai me dizer que carta estou segurando. Ou, não... espere: você vai cortar uma enfermeira pelo meio, tirar um coelho da cabeça do doutor Cawley."

"Não se trata de truques de salão."

Teddy, que estava com vontade de arrancar aquela cabeça de cereja dos ombros nodosos, atacou: "Que tal este: você ensina uma mulher a atravessar paredes, levitar acima de um edifício cheio de serventes e guardas, e cruzar o mar flutuando".

Chuck disse: "Esse truque é bom".

Naehring se permitiu mais um lento piscar de olhos, que lembrou a Teddy um gato doméstico depois de bem alimentado.

"Mais uma vez, os seus mecanismos de defesa se revelam..."

"Ih... lá vem você novamente."

"... extraordinários. Mas para o assunto em pauta..."

"O assunto em pauta", disse Teddy, "é que este hospital apresentou uma gravíssima falha no seu sistema de segurança. Uma mulher desapareceu, e ninguém a está procurando..."

"Nós a estamos procurando."

"Pra valer?"

Naehring recostou-se, lançou a Cawley um olhar que fez Teddy se perguntar quem é que mandava ali.

Cawley surpreendeu o olhar de Teddy e corou levemente. "O doutor Naehring, entre outras funções, faz a ligação entre esta unidade e o conselho de supervisão. Solicitei a presença dele aqui esta noite em atenção ao pedido que vocês nos fizeram."

"E que pedido foi esse?"

Naehring reacendeu o cachimbo riscando um fósforo e protegendo a chama com a mão em concha. "Não vamos lhes entregar os arquivos pessoais de nossa equipe médica."

"Queremos o de Sheehan", disse Teddy.

"O de ninguém."

"Em suma, você está querendo travar as nossas rodas."

"Não conheço essa expressão."

"Então trate de viajar mais."

"Xerife, continue a investigação, e ajudaremos o quanto pudermos, mas..."

"Não."

"Como?", disse Cawley inclinando-se para a frente. Àquela altura os quatro estavam curvados para a frente, com o pescoço espichado.

"Não", repetiu Teddy. "A investigação acabou. Vamos voltar para a cidade no primeiro barco. Vamos fazer nossos relatórios, e o caso vai ser transferido, podem ter certeza, para os rapazes de Hoover. [2] Mas estamos fora do caso."

O cachimbo de Naehring ficou imóvel na sua mão. Cawley tomou um gole do seu drinque. A música de Mahler continuava. Ouvia-se o tique-taque de um relógio, vindo de algum lugar da sala. Lá fora, a chuva recrudesceu.

Cawley colocou o copo vazio na mesinha ao lado da cadeira.

"Como quiser, xerife."

Chovia a cântaros quando saíram da casa de Cawley; a chuva martelava o telhado de ardósia, o pátio de tijolos e o capô do carro preto que os esperava. Teddy via grandes gotas cortando a escuridão em oblíquas cortinas de prata. O carro estava a poucos passos do vestíbulo, mas ainda assim ficaram encharcados. McPherson materializou-se na frente do carro, instalou-se atrás do volante e, salpicando de água o painel, ligou o Packard.

"Linda noite", disse elevando a voz acima do ruído dos limpadores de pára-brisa e do martelar da chuva.

Teddy olhou pela janela de trás e enxergou as figuras indistintas de Cawley e de Naehring no vestíbulo, obser-vando-os partir.

"O negócio está feio", disse McPherson no momento em que um galho fino, arrancado do tronco de alguma árvore, passou pela frente do pára-brisa.

"Há quanto tempo você trabalha aqui, McPherson?", perguntou Chuck.

"Há quatro anos."

"Houve alguma fuga antes?"

"Não."

"E alguma escapadela? Sabe como é, uma pessoa some por uma hora ou duas."

McPherson balançou a cabeça. "Nem isso. Para tentar fugir daqui, o sujeito precisa estar... bem, louco. Para onde ele pode ir?"

"E o doutor Sheehan? Você o conhece?"

"Claro."

"Há quanto tempo ele está aqui?"

"Acho que chegou um ano antes de mim."

"Está aqui há cinco anos, então."

"Acho que é isso."

"Ele trabalhou por muito tempo com a senhorita Solando?"

"Não que eu saiba. O primeiro terapeuta dela foi o doutor Cawley."

"É normal o chefe da equipe médica ser o primeiro terapeuta de um paciente?"

McPherson disse: "Bem...".

Enquanto esperavam a resposta, os limpadores de para-brisa continuavam a matraquear, e as árvores sombrias inclinavam-se na direção deles.

"Isso depende", disse McPherson, acenando para o guarda quando o Packard passou pelo portão principal. "O doutor Cawley age dessa maneira no caso de vários pacientes, do pavilhão C, evidentemente. E ele cuida também de uns poucos casos de outros pavilhões."

"Ele cuida de quem, além da senhorita Solando?"

McPherson estacionou o carro na frente do dormitório masculino. "Não se importam se eu não sair do carro para abrir a porta, não é? Vocês precisam dormir um pouco. Tenho certeza de que o doutor Cawley vai responder às suas perguntas amanhã de manhã."

"McPherson", disse Teddy enquanto abria a porta.

McPherson voltou a cabeça para ele.

"Você não é muito bom nisso", disse Teddy.

"Bom em quê?"

Teddy lhe deu um sorriso frio e saiu para a chuva.

Os xerifes estavam instalados no mesmo quarto que Trey Washington e outro servente, chamado Bibby Luce. O quarto era bastante amplo, havia ali dois beliches e uma pequena área, na qual Trey e Bibby jogavam cartas quando Teddy e Chuck chegaram. Os xerifes secaram os cabelos com as toalhas brancas deixadas para eles na cama de cima do beiiche, em seguida puxaram algumas cadeiras e entraram no jogo.

Trey e Bibby apostavam moedinhas, mas aceitavam cigarros se alguém ficasse sem moedas. Teddy começou com uma bela mão de sete cartas, ganhou quatro dólares e dezoito cigarros com um flush de paus; embolsou os cigarros e passou a usar uma estratégia mais cautelosa.

Mas Chuck revelou-se o melhor jogador, animado e impassível ao mesmo tempo; juntou um monte de moedas, de cigarros e até de notas, e no final lançou um olhar à pilha como se não soubesse de que forma aquilo fora parar ali.

Trey disse: "Você tem olhos de raios X, xerife?".

"Acho que é sorte."

"Mentira. Se um filho da puta tem tanta sorte, é porque está metido com bruxaria."

Chuck disse: "Talvez algum filho da puta não devesse ficar puxando a ponta da orelha".

"Ahn?"

"Você fica puxando a ponta da orelha, Washington. Toda vez que tem menos que um full hand." Ele apontou para Bibby. "E aquele filho da puta..."

Os três caíram na gargalhada.

"Ele... ele — não, espere um pouco —, ele... fica olhando pra todo lado feito um esquilo e observa as reações de cada pessoa ao blefar. Em compensação, quando está com uma mão boa, fica tranquilão, concentrado."

Trey soltou uma sonora gargalhada e bateu a mão na mesa. "E o xerife Daniels? Como é que ele se trai?"

Chuck abriu um sorriso largo. "E vou dedar meu parceiro? Não, não e não."

"Ooooh!", fez Bibby apontando para os dois por cima da mesa.

"Não posso fazer isso."

"Tô entendendo, tô entendendo", disse Trey. coisa de branco."

Chuck fechou a cara e fixou os olhos em Trey até o ar da sala ficar irrespirável.

O pomo de adão estremeceu na garganta de Trey, e ele começou a levantar a mão para se desculpar, e Chuck disse. "Mas claro. O que mais poderia ser?" E abriu um riso do tamanho de um bonde.

"Seu sacana!", exclamou Trey dando um tapa nos dedos de Chuck.

"Seu sacana!", gritou Bibby.

"Sacana", disse Chuck, e os três davam risadinhas feito meninas.

Teddy tentou acompanhá-los, mas achou que não conseguiria: um homem branco querendo dar uma de sangue--bom. Com Chuck, porém, a coisa corria leve.

"E então, como foi que me traí?", Teddy perguntou a Chuck quando se deitaram para dormir. Do outro lado do quarto, Trey e Bibby disputavam para ver quem roncava mais, e a chuva amainara na última meia hora, como se estivesse tomando fôlego, esperando reforços.

"No jogo de cartas?", perguntou Chuck, que estava na cama de baixo. "Esqueça."

"Não, quero saber."

"Até então você pensava que era muito bom, não é? Reconheça."

"Não me achava ruim."

"Mas você não é."

"Você me venceu."

"Ganhei alguns dólares."

"Seu pai era jogador, não é?"

"Meu pai era um sacana."

"Oh, desculpe."

"Você não tem culpa. E o seu?"

"Meu pai?"

"Não, seu tio. Claro que me refiro ao seu pai."

Teddy tentou imaginá-lo na escuridão, mas conseguiu evocar apenas as mãos, cobertas de cicatrizes.

"Era um estranho", disse Teddy. "Para todo mundo. Até para minha mãe. Diabo, eu me pergunto se ele próprio sabia quem era. Ele e seu barco. Quando perdeu o barco, simplesmente se abandonou."

Chuck ficou calado por um instante, e Teddy pensou que ele tinha dormido. De repente Teddy viu seu pai, de corpo inteiro, sentado na cadeira em que costumava ficar quando estava de folga, esmagado pelo peso das paredes, do teto, das salas.

"Ei, chefe."

"Ainda está acordado?"

"Vamos embora mesmo?"

"Sim, você está surpreso?"

"Não quero criticar, mas não sei..."

"O quê?"

"Nunca abandonei nada."

Teddy ficou calado por um instante, depois falou: "Não ouvimos uma palavra de verdade. Não temos nenhum meio de chegar a ela, nenhuma pista a seguir, nada que nos permita fazer essa gente falar".

"Eu sei, eu sei", disse Chuck. "Concordo com o princípio."

"Mas...?"

"Mas nunca desisti de nada antes, só isso."

"Rachel Solando não fugiu descalça de um quarto trancado a chave sem ser ajudada. Sem a cumplicidade de muita gente. Sem a cumplicidade de todo o hospital. A experiência me ensinou que não se pode romper as barreiras de toda uma sociedade que não quer ouvir o que você tem a dizer. Além disso, somos só dois caras. Na melhor das hipóteses... a ameaça funcionou, e a esta hora Cawley está em sua mansão, refletindo, reconsiderando sua estratégia. Talvez amanhã de manhã..."

"Quer dizer que você estava blefando."

"Eu não disse isso."

"Acabo de jogar cartas com você, chefe."

Calaram-se, e Teddy ficou ouvindo o marulho por algum tempo.

"Você crispa os lábios", disse Chuck, a voz começando a se embargar por causa do sono.

"O quê?"

"Quando está com uma boa mão. Você faz isso só por um segundo, mas nunca deixa de fazer."

"Oh."

"Boa noite, chefe."

"Boa noite."

 

Ela avança pelo corredor em sua direção.

Dolores, com os olhos brilhando de raiva. Em algum lugar do apartamento, talvez na cozinha, Bing Crosby canta "East side of heaven". Ela diz: "Por Deus, Teddy, por Deus", trazendo uma garrafa de jts Brown na mão. Uma garrafa vazia. E Teddy se dá conta de que ela descobriu um dos seus esconderijos.

"De vez em quando você ainda fica sóbrio? Responda: você consegue ficar sóbrio?"

Mas Teddy não consegue. Não consegue falar. Nem sabe muito bem onde está o seu corpo. Ele a vê, Dolores continua avançando na sua direção no corredor, mas ele não vê o próprio corpo, não consegue senti-lo. Há um espelho no fim do corredor, atrás de Dolores, mas não reflete a imagem de Teddy.

Ela dobra à esquerda, entra na sala de estar, e as suas costas estão chamuscadas, ainda queimando um pouco. A garrafa sumiu da mão dela, e dos seus cabelos saem pequenas volutas de fumaça.

Dolores para perto da janela. "Olhe. Ficam tão bonitos assim. Parecem flutuar."

Teddy está ao seu lado, à janela. Dolores não está mais queimada, está encharcada, e ele agora vê a si mesmo, vê a própria mão pousando no ombro dela, os dedos cobrin-do-lhe a clavícula, e ela volta a cabeça e beija-lhe os dedos levemente.

"O que você fez?", ele lhe pergunta, sem saber ao certo por quê.

"Veja-os, lá."

"Querida, por que você está toda molhada?", ele diz, sem se espantar, porém, por não obter resposta.

O que ele vê da janela não é o que esperava. Não é a vista do apartamento de Buttonwood, mas de um lugar onde estiveram em certa ocasião, um chalé. Na superfície da lagoa, um pouco adiante, flutuam pequenos toros de madeira, e Teddy nota como são lisos, girando quase im-perceptivelmente, a água agitando-se à luz do luar, que a salpica de brilhos argênteos.

"Que belo mirante", ela diz. "Tão branco! Ainda se sente o cheiro de tinta fresca."

"Sim, aqui é bonito."

"Então", diz Dolores.

"Matei muita gente na guerra."

"É por isso que você bebe."

"Talvez."

"Ela está aqui."

"Rachel?"

Dolores faz que sim. "Ela não saiu da ilha. Você quase percebeu isso."

"A Lei dos Quatro."

"É um código."

"Sim, mas o que significa?"

"Ela está aqui. Vocês não podem ir embora."

Ele a enlaça pelas costas, encosta a cabeça no pescoço dela. "Não vou embora. Amo você. Amo muito."

Começa a escorrer um líquido do ventre de Dolores, que se escoa por entre as mãos dele.

"Não passo de ossos numa caixa, Teddy."

"Não é verdade."

"É sim. Você precisa acordar."

"Você está aqui."

"Não, não estou. Você precisa encarar isso. Ela está aqui. Você está aqui. Ele também está aqui. Conte as camas. Ele está aqui."

"Quem?"

"Laeddis."

O nome se insinua na sua carne, abre caminho até os ossos.

"Não."

"Sim." Ela inclina a cabeça para trás e olha para ele. "Você sempre soube disso."

"Não."

"Sim. Você não pode ir embora."

"Você está sempre tensa." Ele lhe massageia os ombros, Dolores solta um gemido de surpresa que o faz ter uma ereção.

"Não estou mais tensa", ela diz. "Estou em casa."

"Isto aqui não é a nossa casa", ele diz.

"Claro que é. É a minha casa. Ela está aqui. Ele está aqui."

"Laeddis."

"Laeddis", ela diz. E em seguida: "Preciso ir".

"Não", diz aos prantos. "Fique."

"Oh, meu Deus", ela se encosta nele. "Deixe-me ir. Deixe-me ir."

"Por favor, não vá." As lágrimas dele caem sobre o corpo de Dolores e se misturam ao líquido que brota do ventre dela. "Preciso que você fique mais um pouquinho. Um pouquinho. Por favor."

Ela deixa escapar uma pequena bolha de som — um misto de suspiro e gemido, marcado por uma angústia que a torna ao mesmo tempo bela e pungente — e beija-lhe os nós dos dedos.

"Está bem. Aperte-me forte. O mais forte que puder."

Ele abraça a esposa. Longamente.

Às cinco da manhã, a chuva desaba copiosamente sobre o mundo. Teddy desceu da cama superior do beliche e tirou o bloco de anotações do casaco. Sentou-se à mesa onde haviam jogado pôquer e abriu o bloco na página onde transcrevera a Lei dos Quatro, de, Rachel Solando.

Os roncos de Trey e Bibby continuavam a rivalizar com o barulho da chuva. Chuck dormia placidamente, de bruços, com um dos punhos bem próximo ao ouvido, como se lhe contasse segredos.

Teddy abaixou o olhar para a página. Era muito simples, uma vez que se compreendesse como deveria ser lido. Na verdade, um código um tanto pueril. Nem por isso deixava de ser um código, porém, e Teddy só terminou de decifrá-lo às seis horas. Levantou os olhos, viu Chuck con-templando-o da cama de baixo, com o queixo apoiado no punho.

"Vamos embora, chefe?"

Teddy balançou a cabeça.

"Ninguém sai com uma merda de tempo desses", disse Trey descendo da cama, abrindo a persiana e descortinando uma paisagem cor de pérola, mergulhada na chuva. "Por enquanto, não."

De repente o seu sonho começou a se desvanecer, o perfume dela dissipou-se com o abrir das cortinas, com a tosse seca de Bibby e o sonoro e demorado bocejo de Trey ao se espreguiçar.

Teddy se perguntou — e não pela primeira vez — se chegara o dia em que a sua perda se fazia insuportável. Se pudesse recuar no tempo até a manhã do incêndio, substituir o corpo dela pelo seu, ele o faria. Não havia dúvida. Nunca houve. Mas, com o passar dos anos, a saudade, em vez de diminuir, aumentava, e a perda tornava-se uma ferida sempre aberta, que não parava de supurar.

Eu a tomei nos braços, queria dizer a Chuck, a Trey e a Bibby. Tomei-a nos braços enquanto Bing Crosby cantava no rádio da cozinha; senti o cheiro dela, o cheiro do apartamento de Buttonwood e do lago onde passamos nossas férias, e os lábios dela roçaram os meus dedos.

Eu a tomei nos braços. Este mundo não pode me proporcionar isso. Só pode me fazer lembrar daquilo que não tenho, que nunca haverei de ter e que há muito me faz falta.

Deveríamos poder envelhecer juntos, Dolores. Ter filhos. Fazer caminhadas sob velhas árvores. Eu queria acompanhar o lento surgir das rugas no seu rosto, saber quando cada uma delas apareceu. Queria que morrêssemos juntos.

Eu não queria isso. Isso não.

Eu a tomei nos braços — desejava dizer —, e, se soubesse que, para abraçá-la novamente, bastaria morrer, levaria a pistola à cabeça o mais rápido possível.

Chuck o fitava, esperando.

Teddy disse: "Decifrei o código de Rachel".

"Oh", fez Chuck. "Só isso?"

 

                   SEGUNDO DIA - LAEDDIS

Cawley os encontrou no saguão do pavilhão B. Com as roupas e o rosto molhados, dava a impressão de ter passado a noite no banco de um ponto de ônibus.

Chuck disse: "O macete, doutor, é a gente dormir assim que deita".

Cawley enxugou o rosto com um lenço. "Ah, o mace-te é esse, xerife? Sabia que estava esquecendo alguma coisa. Dormir, não é? Certo." Subiram a escadaria amarelada e cumprimentaram com um movimento de cabeça o servente postado no primeiro patamar.

"E como está o doutor Naehring esta manhã?", perguntou Teddy.

Cawley ergueu e abaixou as sobrancelhas num gesto cansado. "Peço desculpas por ele. Jeremiah é um gênio, mas bem que poderia ser mais delicado. Ele pretende escrever um livro sobre a cultura do guerreiro viril ao longo da história. Está sempre trazendo o assunto à baila, sempre tentando enquadrar as pessoas em modelos preconcebidos. Mais uma vez, desculpem-me."

"Vocês costumam fazer isso?"

"Isso o quê, xerife?"

"Ficar bebericando e sondando as pessoas?"

"Deformação profissional, acho. Quantos psiquiatras são necessários para rosquear uma lâmpada num bocal?"

"Não sei. Quantos?"

"Oito."

"Por quê?"

"Oh, você pergunta muito."

Teddy olhou para Cawley, e os dois desandaram a rir.

"Um médico de cabeça com senso de humor", disse Chuck. "Quem diria?"

"Sabem em que pé se encontram os estudos sobre a saúde mental hoje em dia, senhores?"

"Não faço idéia", disse Teddy.

"Em pé de guerra", disse Cawley, abafando um bocejo com um lenço molhado. "Guerra ideológica, filosófica e até psicológica."

"Os senhores são médicos", disse Chuck. "Os senhores deveriam brincar direitinho, partilhar os brinquedos."

Cawley sorria ao passarem pelo servente do segundo patamar. De algum lugar mais abaixo, um paciente soltou um grito, cujo eco subiu até eles. Era um grito plangente, e Teddy percebeu toda a impotência que ele exprimia, a certeza de que nunca obteria a satisfação de um desejo.

"A velha escola", disse Cawley, "defende a prática de eletrochoques, lobotomias parciais e hidroterapia no caso dos pacientes mais dóceis. É o que chamam de psicocirur-gia. A nova escola morre de amores pela psicofarmacologia. Dizem que é o futuro. Talvez seja mesmo. Não sei."

Parou um pouco, com a mão no corrimão, a meio caminho entre o segundo e o terceiro andares. A impressão de esgotamento que ele dava era tão grande que Teddy sentiu como se houvesse um quarto corpo com eles, no poço da escada.

"Em que consiste a psicofarmacologia?", perguntou Chuck.

Cawley disse: "Acabaram de aprovar uma droga — o nome dela é lítio — que acalma os pacientes psicóticos. Ou os amansa, como diriam alguns. Amarrar pacientes logo se tornará uma prática ultrapassada. Correntes, algemas também. E até mesmo as grades, como dizem os otimistas. A velha escola afirma, evidentemente, que nada pode substituir a psicocirurgia, mas a nova escola é mais forte, e, acho eu, não faltará dinheiro para apoiá-la".

"E esse dinheiro viria de onde?"

"Da indústria farmacêutica, claro. Comprem ações dessas empresas, senhores, e logo poderão ir morar nas suas próprias ilhas. Novas escolas, velhas escolas. Meu Deus, às vezes disparo a falar."

"A que escola o senhor pertence?", perguntou Teddy em tom brando.

"Acredite ou não, xerife, defendo a terapia verbal, que supõe uma grande aptidão para as relações interpessoais. Acredito que, se o terapeuta trata o paciente com respeito, se ouve o que ele está tentando ,lhe dizer, consegue chegar até ele."

Outro grito. A mesma mulher, Teddy tinha certeza. O grito pairou entre eles, e pareceu incomodar Cawley.

"E os pacientes daqui?", disse Teddy.

Cawley sorriu. "Bem, sim, muitos desses pacientes precisam ser medicados, e alguns precisam ser amarrados. Reconheço. Mas é uma faca de dois gumes. Depois que se joga veneno no poço, que se pode fazer para retirá-lo?"

"Nada", disse Teddy.

Cawley balançou a cabeça, concordando. "Isso mesmo. O que deveria ser o último recurso, pouco a pouco se torna o procedimento habitual. E noto que estou misturando as minhas metáforas. Aquela história do sono...", acrescentou dirigindo-se a Chuck. "Está certo. Vou tentar da próxima vez."

"Ouvi dizer que é um santo remédio", disse Chuck, enquanto venciam o último lanço de escada.

No quarto de Rachel, Cawley sentou-se pesadamente à beira da cama, e Chuck se encostou à porta. Chuck disse: "Ei, quantos surrealistas são necessários para rosquear uma lâmpada?".

Cawley olhou para ele. "Não sei. Quantos?"

"Peixe", disse Chuck soltando uma sonora gargalhada.

"Um dia você vai crescer, xerife", disse Cawley. "Não acha?"

"Tenho cá as minhas dúvidas."

Teddy segurou a folha de papel na frente do corpo e bateu nela para chamar a atenção. "Olhem de novo."

 

         A LEI DOS 4

         SOU 47

         ELES ERAM 80

         +VOCÊ É 3

         SOMOS 4

         MAS

         QUEM É 67?

 

Cerca de um minuto depois, Cawley disse: "Estou muito cansado, xerife. Para mim, isso aí não passa de mera charada. Desculpe-me".

Teddy olhou para Chuck. Chuck balançou a cabeça.

Teddy disse: "Foi o sinal de adição que chamou a minha atenção e me fez insistir na tentativa de decifrar o código. Olhem para a linha embaixo de 'Eles eram oitenta'. Espera-se que a gente acrescente as duas linhas. Quanto dá?".

"Cento e vinte e sete."

"Um, dois e sete", disse Teddy. "Certo. Agora a gente acrescenta três. Mas separadamente. Ela quer que consideremos os algarismos isoladamente. Então a gente tem: um mais dois, mais sete, mais três. Quanto dá?"

"Treze", disse Cawley erguendo-se um pouco na cama.

Teddy fez que sim. "O número treze tem algum significado especial para Rachel Solando? Ela nasceu num dia treze? Casou num dia treze? Matou os filhos num dia treze?"

"Vou providenciar para que verifiquem isso", disse Cawley. "Mas o número treze sempre tem um significado especial para os esquizofrênicos."

"Por quê?"

Ele deu de ombros. "Muitas pessoas também pensam assim. Esse número, acreditam, indica má sorte. A maioria dos esquizofrênicos vive em estado de medo permanente — é o traço comum a eles. Por isso quase todos são profundamente supersticiosos. O número treze se encaixa nesse contexto."

"Quer dizer que isso faz sentido", disse Teddy. "Olhem o próximo número. Quatro. Somando um mais três, temos quatro. Mas, se juntamos o algarismo um ao algarismo três, o que temos?"

"Treze", disse Cawley desencostando da parede para ver melhor o papel.

"E o último número", disse Cawley, "é sessenta e sete. Seis mais sete é igual a treze."

Teddy balançou a cabeça. "Não deveria chamar Lei dos Quatro, e sim Lei dos Treze. Há treze letras no nome Rachel Solando."

Teddy ficou observando os dois contarem mentalmente. Cawley disse: "Vá em frente".

"Uma vez que se entenda isso, basta seguir as muitas migalhas de pão que Rachel espalhou. O código obedece ao mais elementar princípio de correspondência entre números e letras. Um corresponde a A. Dois corresponde a B. Estão entendendo?

Cawley fez que sim; e Chuck também, alguns segundos depois.

"A primeira letra do nome dela é R.. O número correspondente é dezoito. A letra A é um. A C é três. H é oito. O E é cinco. A letra L é doze. Dezoito, um, três, oito, cinco e doze. Somem tudo isso, rapazes. O que é que vai dar?"

"Meu Deus", disse Cawley devagar.

"Quarenta e sete", disse Chuck, de olhos esbugalha-dos, fitando a folha de papel no peito de Teddy.

"O que explica o 'eu'", disse Cawley. "O quarenta e sete é o nome dela. Certo, entendi. Mas e o 'eles'?"

"Seu último nome", disse Teddy. "É deles."

"De quem?"

"Da família do marido e dos seus ancestrais. Não é o dela, de nascimento. Ou então se refere aos filhos dela.


Seja como for, não importam os porquês. É seu último nome. Solando. Se somamos os números que correspondem às letras desse nome, podem acreditar, o resultado é oitenta."

Cawley levantou-se da cama e se aproximou de Teddy para observar melhor a folha de papel no peito do xerife. Chuck fez o mesmo.

Alguns instantes depois, Chuck levantou os olhos do papel e olhou para Teddy. "Quem diabos você é afinal? Um Einstein?"

"Já havia decifrado algum código antes, xerife?", disse Cawley, sem tirar os olhos da folha de papel. "Na guerra?"

"Não."

"Então como você...?", disse Chuck.

Os braços de Teddy não agüentavam mais segurar o papel. Ele o colocou em cima da cama.

"Não sei. Faço muitas palavras cruzadas. Gosto de charadas." E deu de ombros.

Cawley disse: "Mas, na Europa, você trabalhava no Serviço de Inteligência, certo?".

Teddy fez que não com a cabeça. "Estava no Exército regular. Entretanto, o senhor, doutor, trabalhava no oss."

"Não, dei apenas consultoria", disse Cawley.

"Que tipo de consultoria?"

Cawley lhe dirigiu aquele sorriso esquivo, que desapareceu imediatamente. "Do tipo altamente confidencial."

"Mas este código", disse Teddy, "é simples demais."

"Simples", disse Chuck. "Você o explicou, e a minha cabeça ainda está doendo."

"E qual é a sua opinião, doutor?"

Cawley deu de ombros. "Que posso lhe dizer, xerife? Eu trabalhava na decifração de códigos."

Cawley inclinou a cabeça, coçou o queixo, voltando a se concentrar no código. Chuck lançou a Teddy um olhar cheio de pontos de interrogação.

Cawley disse: "Quer dizer então que esclarecemos — bem, você esclareceu, xerife — o mistério do quarenta e sete e do oitenta. Agora sabemos que todas as pistas giram em torno do número treze. E quanto ao três?".

"Também aqui", disse Teddy, "refere-se a nós, o que faz de Rachel uma vidente..."

"Pouco provável."

"Ou então se refere aos filhos dela."

"Acho que é isso mesmo."

"Se somamos Rachel aos três..."

"Chegamos à linha seguinte", disse Cawley. '"Somos quatro'."

"Então, quem é sessenta e sete?"

Cawley o encarou. "Essa é uma pergunta retórica?"

Teddy fez que não com a cabeça.

Cawley deslizou o dedo pelo lado direito do papel. "Operando com esses números não se chega a sessenta e sete?"

"Negativo."

Cawley passou a mão no alto da cabeça e endireitou o corpo. "E não lhe passou pela cabeça nenhuma hipótese quanto a isso, xerife?"

Teddy respondeu: "Foi a única parte que não consegui decifrar. Mas provavelmente se refere a algo que desconheço, o que me faz supor que se trata de algo específico desta ilha. E o doutor, o que pensa?".

"Eu o quê?"

"Tem alguma hipótese?"

"Nenhuma. Não teria passado da primeira linha."

"Já disse isso. Está cansado e tudo o mais."

"Muito cansado, xerife." Disse isso com os olhos fitos no rosto de Teddy, depois foi até a janela, contemplou a chuva escorrendo pela vidraça. Lá fora, ela formava uma cortina tão densa que escondia a paisagem. "O senhor disse ontem à noite que ia embora."

"No primeiro barco", disse Teddy, continuando a blefar.

"Hoje não vai ter nenhum. Tenho quase certeza."

"Vou amanhã, então. Ou depois de amanhã", disse

Teddy. "Ainda acha que ela está em algum lugar aí fora? Debaixo dessa tempestade?"

"Não", disse Cawley. "Não acho."

"Onde estaria, então?"

Ele soltou um suspiro. "Não sei, xerife. Não é a minha especialidade."

Teddy pegou a folha de papel da cama. "Isto aqui é uma chave. A chave para a decifração de mensagens futuras. Eu apostaria um salário como é."

"E se for?"

"Então ela não está tentando fugir, doutor. Ela nos trouxe para cá. A mim e a Chuck. Acho que há outras mensagens como esta."

"Não neste quarto", disse Cawley.

"Não. Mas talvez neste edifício. Ou talvez na ilha."

Cawley inspirou profundamente pelas narinas, apoiou a mão no peitoril da janela. Observando-o naquele estado, parecendo um morto-vivo, Teddy se perguntou o que o impedira de dormir na noite anterior.

"Ela os trouxe para cá?", disse Cawley. "Para quê?"

"Cabe a você nos dizer."

Cawley fechou os olhos e ficou calado por tanto tempo que Teddy se perguntou se ele adormecera.

Cawley reabriu os olhos e olhou para os dois homens. "Tive um dia cheio. Tive reuniões com os funcionários, discussão de orçamento com os supervisores, definição dos procedimentos de emergência no caso de sermos atingidos pela tempestade. Com certeza, xerifes, gostarão de saber que providenciei para que conversem com todos os pacientes que faziam terapia de grupo na noite em que a senhora Solando desapareceu. As entrevistas provavelmente começarão dentro de quinze minutos. Senhores, aprecio a sua presença aqui, podem acreditar. E estou fazendo o possível para ajudá-los, ainda que possa não parecer."

"Então nos empreste o arquivo pessoal do doutor Shee-han."

"Não posso fazer isso. De modo algum", disse Cawley - encostando a cabeça na parede. "Xerife, ordenei ao operador que continuasse tentando ligar para ele. Mas não conseguimos falar com ninguém até agora. Paciência, senhores. É só o que peço. Vamos descobrir onde está Rachel ou o que aconteceu com ela." Olhou para o relógio de pulso. "Estou atrasado. Há mais alguma coisa urgente ou podemos continuar mais tarde?"

 

Os xerifes se deixaram ficar numa tenda na frente do hospital, com a chuva cruzando o campo de visão deles em grossas cordas d'água.

"Você acha que ele sabe o que são os sessenta e sete?", disse Chuck.

"Sim."

"Cawley decifrou o código antes de você?"

"Acho que ele era do oss. Penso que desenvolveu algumas habilidades nesse campo."

Chuck enxugou o rosto, sacudiu as mãos. "Quantos pacientes acha que eles têm aqui?"

"Não muitos", disse Teddy.

"Também acho."

"Seriam quantos? Umas vinte mulheres e uns trinta caras?"

"Um número pequeno."

"Pois é."

"De qualquer forma, não chegam a sessenta e sete."

Teddy se voltou e olhou para ele. "A menos que..."

"Pois é", disse Chuck, "a menos que..."

E os dois voltaram os olhos para as árvores e, para além delas, observaram o cimo do forte — sólido sob a borrasca —, baço e indistinto como um esboço a carvão numa sala enfumaçada.

Teddy lembrou-se do que Dolores lhe dissera no sonho: Conte as camas.

"Quantas pessoas você acha que estão instaladas lá?"

"Não sei", disse Chuck. "Temos de perguntar ao nosso solícito doutor."

"Ah, sim, dá a impressão de que está louco para ajudar, não é?"

"Chefe?"

"Sim?"

"Já viu na sua vida tal desperdício de espaço da União?"

"Como assim?"

"Cinqüenta pacientes nesses dois pavilhões. Quantos internos você acha que os edifícios comportam? Mais uns duzentos?"

"No mínimo."

"E o número de funcionários por paciente? Seriam uns dois para cada interno. Já tinha visto uma coisa dessas?"

"Reconheço que não."

Contemplaram a paisagem, afogada em chuva.

"Que merda de lugar é este?", disse Chuck.

 

As entrevistas foram feitas no refeitório. Chuck e Ted-dy ficaram sentados a uma mesa no fundo da sala, com dois serventes a uma pequena distância deles. Trey Washington encaminhava os pacientes até os dois policiais e os levava embora ao fim da conversa.

O primeiro paciente era uma ruína humana mal barbeada, cheia de tiques e de piscar de olhos. Dobrado sobre si mesmo como um límulo, cocando os braços, recusava-se a encará-los.

Teddy deu uma olhada na primeira página do dossiê fornecido por Cawley: exíguas anotações que este fizera de memória, em vez das fichas dos pacientes. O sujeito era o primeiro da lista, o seu nome era Ken Gage, e estava ali porque atacara um estranho no corredor de uma mercearia, batera na cabeça da vítima com uma lata de ervilhas, repetindo o tempo todo em voz baixa: "Pare de ler as minhas cartas".

"E aí, Ken", disse Chuck. "Como vão as coisas?"

"Peguei uma gripe. Peguei uma gripe nos pés."

"Sinto muito."

"Quando ando, doem", disse Ken coçando em volta de uma ferida no braço, a princípio com cuidado, como se quisesse definir-lhe os contornos.

"Você estava na terapia de grupo anteontem à noite?"

"Os meus pés estão gripados e, quando ando, doem."

"Você quer umas meias?", arriscou Teddy. Notou que os dois serventes olhavam para eles, com risinhos de deboche.

"Sim, quero umas meias, quero umas meias." Ken disse isso sussurrando, de cabeça baixa, balançando o corpo levemente.

"Bem, logo a gente arruma meias pra você. Agora a gente só quer saber se você estava..."

"Estou com tanto frio. Meus pés estão frios e doem quando ando."

Teddy olhou para Chuck. Chuck sorriu para os serventes quando os risinhos abafados chegaram até a mesa.

"Ken", disse Chuck. "Ken, você quer olhar para mim?"

Ken manteve a cabeça baixa, balançando o corpo um pouco mais. A unha rompeu a casca da ferida, e um fiozi-nho de sangue escorreu por entre os pelos do braço.

"Ken?"

"Não consigo andar. Desse jeito não dá, desse jeito não dá. Está tão frio, frio, frio."

"Vamos, Ken, olhe para mim."

De repente, ele bateu os punhos na mesa.

Os dois serventes se levantaram, e Ken disse: "Não deveria doer tanto. Não deveria. Mas querem que doa. Mandam ar frio para todo lado. Enchem os meus joelhos com ele".

Os serventes aproximaram-se da mesa e olharam para Ken e Chuck. O branco falou: "Já terminaram com este ou querem ouvir mais sobre os pés dele?".

"Os meus pés estão frios."

O servente negro ergueu uma sobrancelha. "Tudo bem, Kenny, Vamos levá-lo à hidro para você se esquentar."

O branco disse: "Estou aqui há cinco anos. A conversa é sempre a mesma".

"Sempre?", perguntou Teddy.

"Doem quando ando."

"Sempre", disse o servente.

"Doem quando ando, porque puseram frio nos meus pés..."

 

O paciente seguinte, Peter Breene, de vinte e seis anos, era louro, atarracado, e não parava de estalar os dedos e de roer as unhas.

"Por que você está aqui, Peter?"

Peter olhou para Teddy e Chuck por sobre a mesa, com olhos que pareciam estar sempre úmidos. "Fico o tempo todo com medo."

"Medo de quê?"

"De coisas."

"Tudo bem."

Peter apoiou o tornozelo esquerdo no joelho direito, agarrou-o com a mão e inclinou-se para a frente. "Parece absurdo, mas tenho medo de relógios. Do tique-taque. Aquilo entra na cabeça da gente. Tenho pavor de ratos."

"Eu também", disse Chuck.

"É mesmo?", disse Peter com um brilho nos olhos.

"E como! Guincham feito uns desgraçados. Molho as calças só de ver um."

"Então não se arrisque a ir do outro lado do muro à noite", disse Peter. "Tem rato pra todo lado."

"É bom saber. Obrigado."

"E de lápis", disse Peter. "O grafite, sabe? Raspando no papel. Tenho medo de você."

"De mim?"

"Não", disse Peter, apontando o queixo para Teddy. "Dele."

"Por quê?", perguntou Teddy.

Peter deu de ombros. "Você é alto. Com esse cabelo rente, tem cara de mau. É capaz de lutar. Os seus dedos têm cicatrizes. O meu pai era assim. Só que sem as cicatrizes. As mãos dele eram macias. Mas tinha cara de mau. Os meus irmãos também. E batiam em mim."

"Não vou bater em você", disse Teddy.

"Mas poderia, não percebe? Você tem força. Eu, não. E isso me torna vulnerável. E ser vulnerável me deixa apavorado."

"E o que faz quando se apavora?"

Peter segurou o tornozelo e ficou balançando para a frente e para trás, com a franja derramando-se sobre a testa. "Ela era bonita. Eu não tinha a menor intenção. Mas me assustou com aqueles peitos grandes, com aquele jeito de andar até a nossa casa todos os dias. Olhava para mim como... Sabe aquele jeito que a gente olha uma criança? Ela olhava para mim desse jeito. E tinha a minha idade. Bom, certo, talvez fosse um pouco mais velha, mas, de qualquer forma, estava na casa dos vinte. E tinha muita experiência sexual. Dava pra ver nos olhos dela. Gostava de ficar nua. Já chupara muito. E me perguntou se eu podia lhe dar um copo d'água. Estava sozinha na cozinha comigo, já pensou? Como se aquilo não tivesse nenhuma importância."

Teddy inclinou o papel com as anotações de modo que Chuck pudesse vê-las:

 

O paciente atacou a enfermeira do pai com um copo quebrado. Vítima gravemente ferida, desfigurada para o resto da vida. O paciente não assume a responsabilidade pelo ato.

 

"Tudo porque ela me assustou", disse Peter. "Queria que eu pusesse o meu negócio para fora, para poder rir dele. Para me dizer que eu nunca poderia sair com uma mulher, nem ter filhos, nem ser homem. Se não fosse essa história, podem ver na minha cara: eu não seria capaz de matar uma mosca. Não sou disso. Mas quando me metem medo... Ah, a mente."

"O que é que tem a mente?", disse Chuck, sereno.

"Já pensou na mente?"

"Na sua mente?"

"Não, genericamente", ele disse. "Na minha mente, na sua, na de qualquer um. Ela funciona como uma máquina. É o que é. Uma máquina muito complicada e delicada. E com todas aquelas peças, engrenagens, parafusos e gonzos. E a gente nem sabe para que serve metade delas. Mas basta uma dessas peças sair do lugar... uma só... Já pensou nisso?"

"Nos últimos tempos, não."

"Mas deveria. É exatamente como um carro. Sem diferença. Uma engrenagem emperra, um parafuso quebra, e tudo se descontrola. A gente consegue continuar vivendo normalmente sabendo disso?" Tocou na própria têmpora. "Está tudo preso aqui dentro, não há como entrar aí, e a gente não tem o menor controle disso. Mas ela controla você, não é? E se, um belo dia, ela resolve parar de funcionar?" Inclinou-se para a frente, tornando visíveis os tendões do pescoço. "Bom, aí você está fodido e mal pago, não é?"

"É um ponto de vista interessante", disse Chuck.

Peter recostou-se na cadeira, subitamente indiferente. "É isso o que mais me assusta."

Teddy, cujas enxaquecas lhe davam uma idéia do que é perder o controle da própria mente, poderia concordar em termos gerais com Peter, mas o que queria mesmo era agarrar o desgraçado pelo pescoço, empurrá-lo contra um dos fornos do fundo do refeitório e interrogá-lo a respeito da pobre enfermeira dilacerada por ele.

Você pelo menos lembra o nome dela, Pete? De que você acha que ela tinha medo? De você. É isso. Tentando trabalhar honestamente, ganhar o dia. Talvez tivesse filhos, marido. Talvez estivessem tentando economizar para sustentar um dos filhos na universidade, dar-lhe uma vida melhor. Talvez a mulher tivesse esse sonho modesto.

Mas não, um sacana dum filhinho de papai decidiu que ela não poderia alimentar esse sonho. Desculpe-me, mas não. Nada de vida normal pra você, minha cara. Nunca mais.

Teddy olhou para Peter Breene à sua frente e teve vontade de socá-lo na cara com muita força, de maneira que os médicos, depois, não pudessem encontrar todos os ossos do nariz. Esmurrá-lo tão forte que o barulho do impacto ressoasse para sempre nos ouvidos de Peter.

Em vez disso, guardou a ficha dele e disse: "Você estava na terapia de grupo anteontem à noite, com Rachel Solando, certo?".

"Sim, claro que estava, senhor."

"Você a viu subir para o quarto?"

"Não. Os homens foram embora antes. Ela ainda estava sentada com Bridget Kearns, Leonora Grant e a enfermeira."

"A enfermeira?"

Peter fez que sim. "A ruiva. Às vezes gosto dela. Parece uma pessoa autêntica. Mas outras vezes, sabe?"

"Não", disse Teddy mantendo o mesmo tom calmo de Chuck. "Não sei."

"Bem, você a viu, certo?"

"Claro. Como é mesmo o nome dela?"

"Ela não precisa de nome", disse Peter. "Uma mulher como aquela não precisa de nome. Piranha. É o seu nome."

"Mas, Peter", disse Chuck. "Acho que você disse que gostava dela."

"Quando eu disse isso?"

"Ainda há pouco."

"Hum... Ela é menos que nada. Uma coisa à toa."

"Deixe-me perguntar-lhe outra coisa."

"Piranha, piranha, piranha."

"Peter?"

Peter olhou para Teddy.

"Posso lhe fazer uma pergunta?"

"Mas claro."

"Aconteceu algo anormal na terapia daquela noite? Rachel falou ou fez algo diferente?"

"Ela não falou nada. É um camundongo. Simplesmente ficou lá sentada. Matou os próprios filhos, sabe? Três. Dá para acreditar? Que tipo de gente é capaz de fazer uma coisa dessas? Neste mundo tem uma puta duma gente doente, senhores, se me permitem dizer."

"As pessoas têm problemas", disse Chuck. "Algumas mais que outras. São doentes, como você disse. Precisam de ajuda."

"Precisam de gás", disse Peter.

"Como?"

"De gás", disse Peter a Teddy. "É preciso meter gás nos retardados. Nos assassinos. Matou os próprios filhos? Gás na rameira."

Os três ficaram em silêncio. Peter estava radiante como se tivesse lhes mostrado o mundo sob uma nova luz. Depois de um instante, bateu na mesa e se levantou.

"Prazer em conhecê-los, senhores policiais. Agora preciso ir."

Teddy rabiscava com o lápis a capa do dossiê à frente dele. Peter ficou parado, olhando para o xerife.

"Peter", disse Teddy.

"Sim?"

"Eu..."

"Você pode parar com isso?"

Devagar, com longos traços indolentes, Teddy traçou as iniciais do seu nome na cartolina. "Eu estava me perguntando se..."

"Por favor, você poderia...?"

Teddy levantou os olhos, com o lápis ainda em movimento. "O quê?"

"... parar com isso?"

"O quê?" Teddy olhou para ele, depois para o dossiê. Levantou o lápis, arqueando uma sobrancelha.

"Sim. Por favor. Isso."

Teddy deixou cair o lápis na cartolina. "Melhor assim?"

"Obrigado."

"Peter, você conhece um paciente chamado Andrew Laeddis?"

"Não."

"Não? Não tem ninguém aqui com esse nome?"

Peter deu de ombros. "Não no pavilhão A. Talvez no C. Não nos misturamos com eles. São completamente pirados."

"Bem, obrigado, Peter", disse Teddy pegando a caneta e voltando a rabiscar.

 

Depois de Peter Breene, conversaram com Leonora Grant. Ela estava convencida de que era Mary Pickford, de que Chuck era Douglas Fairbanks e de que Teddy era Charlie Chaplin. Achava que o refeitório era um escritório em Sunset Boulevard e que estavam lá para discutir uma eventual oferta pública de ações da United Artists. Leonora ficou o tempo todo acariciando as costas da mão de Chuck e perguntando quem iria redigir as minutas.

No final da conversa, foi preciso que os serventes puxassem a mão dela do punho de Chuck, enquanto a moça gritava "Adieu mon chéri. Adieu".

Quando chegou ao meio do refeitório, ela se soltou dos serventes, precipitou-se em direção aos policiais e agarrou a mão de Chuck.

Leonora disse: "Não se esqueça de dar comida ao gato".

"Pode deixar", ele disse sem pestanejar.

Em seguida os xerifes conversaram com Arthur Too-mey, que insistiu em ser chamado por eles de Joe. Joe passara a sessão de terapia daquela noite dormindo. Conforme tiveram oportunidade de constatar, Joe era narcoléptico. Adormeceu em presença deles por duas vezes — e, ao que parecia, esse era o segundo episódio do dia.

Àquela altura, Teddy começava a se sentir seriamente afetado pelo lugar. A cabeça dele coçava, e, embora sentisse simpatia por todos os pacientes, à exceção de Breene, não parava de se perguntar como uma pessoa suportava trabalhar ali.

Trey voltou então com o seu passo tranqüilo, dessa vez acompanhado de uma mulher baixa, de cabelos loiros e feições delicadas. Os olhos dela tinham um brilho límpido e lúcido. Não a lucidez dos insanos, mas a lucidez comum de uma mulher inteligente, num mundo que estava muito próximo da estupidez. Ela lhes deu um sorriso tímido e fez um pequeno aceno ao sentar-se.

Teddy consultou as anotações de Cawley: Bridget Kearns.

"Nunca vou sair daqui", ela disse depois de alguns minutos. Fumava apenas metade dos cigarros, e logo os apagava. Tinha voz doce, mas bastante segura. Havia dez anos matara o marido com um machado.

"De qualquer modo, acho que não seria conveniente sair", ela disse.

"Por quê?", disse Chuck. "Isto é, desculpe-me por lhe dizer isso, senhorita Kearns..."

"Senhora."

"Senhora Kearns. Desculpe-me, mas você me parece... bem, normal."

Ela se recostou na cadeira, tão à vontade quanto todos os pacientes antes dela, e deu um risinho. "Também acho. Mas não era quando cheguei aqui. Oh, meu Deus. Ainda bem que não tiraram fotos. Fui diagnosticada como maníaco-depressiva, e não tenho dúvidas quanto a isso. Tenho os meus dias de tristeza. Acho que todo mundo tem. A diferença é que a maioria não mata o marido com um machado. Disseram-me que eu tinha conflitos profundos e mal resolvidos com o meu pai, e também concordo com isso. Acho que, se saísse daqui, não iria matar mais ninguém, mas nunca se sabe." Ela apontou o cigarro para eles. "Acho que, se um homem bate em você, trepa com qualquer mulher que aparece na frente, e ninguém faz nada, matá-lo com um machado não é uma reação tão surpreendente."

Seu olhar cruzou com o de Teddy. Alguma coisa na pupila da mulher — uma espécie de malícia infantil, matizada de timidez — fê-lo rir.

"O que foi?", ela disse, rindo também.

"Talvez você não deva sair mesmo", ele disse.

"Só fala isso porque é homem."

"Você está coberta de razão."

"Bem, não o censuro por isso."

Era um alívio sorrir depois da conversa com Peter Breene, e Teddy se perguntou se aquilo não era também um pequeno flerte. Com uma doente mental. Que matara o marido a machadadas. Veja aonde cheguei, Dolores. Mas ele não se sentiu muito incomodado com aquilo: era como se, depois de dois longos anos de luto, tivesse direito a uma troca inofensiva como aquela.

"O que eu iria fazer se saísse daqui?", disse Bridget. "Não sei mais o que se passa no mundo. Ouço falar em bombas. Bombas que podem reduzir uma cidade a cinzas. E aparelhos de televisão? É assim que se chamam, não é? Andam falando que cada pavilhão vai ter um, e então poderemos ver jogos nessa espécie de caixa. Não sei se gosto dessa idéia. Vozes vindo de uma caixa. Ficar de frente para uma caixa. Já vejo rostos demais, ouço vozes demais todos os dias. Não preciso de mais barulho."

"Você pode nos falar de Rachel Solando?", perguntou Chuck.

Bridget hesitou. Na verdade Teddy notou que os olhos dela se moviam devagar, como se ela estivesse procurando na mente a ficha certa. Teddy rabiscou rapidamente a palavra mentiras no bloco de anotações, cobrindo a palavra com a mão para que Bridget não visse.

Ela passou a falar com mais cuidado, como se estivesse repetindo uma história decorada.

"Rachel é uma pessoa gentil. Bastante voltada para si mesma. Fala muito sobre a chuva, mas em geral se mantém calada. Acha que seus filhos ainda estão vivos. Acredita que mora ainda em Berkshires, e que somos os seus vizinhos, carteiros, entregadores, leiteiros. É difícil a gente se aproximar dela."

Bridget falava de cabeça baixa e, ao terminar, não foi capaz de encarar Teddy. Os seus olhos desviaram-se do rosto dele para o tampo da mesa, para o cinzeiro, e ela acendeu outro cigarro.

Teddy pensou no que ela acabara de dizer, notou que a descrição das alucinações de Rachel fora feita quase nos mesmos termos usados por Cawley no dia anterior.

"Há quanto tempo ela está aqui?"

"Ahn?"

"Rachel. Há quanto tempo está no pavilhão B, com você?"

"Há uns três anos, acho. Perdi a noção do tempo. Isso é muito fácil, num lugar como este."

"E onde ela estava antes de vir para cá?", perguntou Teddy.

"No pavilhão C. Parece-me que foi transferida."

"Mas você não tem certeza."

"Não, eu... Pois é, a gente perde um pouco a noção."

"Claro. Aconteceu algo anormal da última vez que a viu?"

"Não."

"Foi na terapia de grupo?"

"O quê?"

"A última vez que a viu", disse Teddy, "foi na sessão de terapia de grupo, anteontem à noite?"

"Foi sim." Ela balançou a cabeça várias vezes e raspou a ponta do cigarro no cinzeiro para tirar a cinza. "Na terapia de grupo."

"E vocês todos foram para os quartos na mesma hora?"

"Sim, com o senhor Ganton."

"Como o doutor Sheehan estava naquela noite?"

Ela levantou os olhos, e Teddy viu que estava embaraçada, talvez aterrorizada. "Não entendo o que quer dizer."

"O doutor Sheehan estava presente naquela noite?"

Ela olhou para Chuck, depois novamente para Teddy, pressionando o lábio inferior contra os dentes. "Sim, estava lá."

"Como ele é?"

"O doutor Sheehan?"

Teddy fez que sim.

"Ele é legal. É gentil. Bonito."

"Bonito?"

"Sim. Ele... é um colírio para os olhos, como dizia minha mãe."

"Ele já flertou com você?"

"Não."

"Nunca tentou?"

"Não. Não, não, não. O doutor Sheehan é um bom médico."

"E naquela noite?"

"Naquela noite?" Ela pensou um pouco. "Não aconteceu nada de anormal naquela noite. Conversamos sobre... como controlar a raiva? E Rachel reclamou da chuva. O doutor Sheehan foi embora pouco antes de o grupo se separar, e Ganton nos levou aos nossos quartos, fomos para a cama e só."

Teddy escreveu "recebeu instruções" sob a palavra mentiras e fechou o dossiê.

"Só isso?"

"Sim. E na manhã seguinte Rachel tinha sumido."

"Na manhã seguinte?"

"Sim. Acordei e ouvi dizer que ela fugira."

"E naquela noite? Por volta da meia-noite... você ouviu, não é?"

"Ouvi o quê?", disse ela esmagando o cigarro e abanando com a mão para afastar a fumaça que subia do cinzeiro.

"A gritaria. Quando descobriram que ela tinha sumido."

"Não, eu..."

"Houve gritos, berros, guardas correndo para todo lado, sirenes tocando."

"Achei que fosse um sonho."

"Um sonho?"

Bridget se apressou em confirmar a idéia com um gesto de cabeça. "Claro. Um pesadelo." Olhou para Chuck. "Pode me dar um copo d'água?"

"Claro." Chuck levantou-se, olhou em volta e viu um monte de copos no fundo do refeitório, junto ao dispenser de aço.

Um dos serventes fez menção de se levantar. "Xerife?"

"Só vou pegar um pouco de água. Está tudo bem."

Chuck foi até a máquina, escolheu um copo e levou alguns segundos olhando os bicos, tentando descobrir qual deles servia leite e qual servia água.

Quando levantou o bico, um grosso puxador que parecia uma pata de metal, Bridget Kearns pegou o bloco de anotações de Teddy e a caneta. Olhou nos olhos dele, virou a folha para chegar a uma página em branco, escreveu alguma coisa nele, fechou-o e empurrou-o, com a caneta, de volta para Teddy.

Teddy lançou-lhe um olhar perplexo, mas ela abaixou os olhos e passou a mão distraidamente no maço de cigarros.

Chuck trouxe o copo d'água e se sentou. Sob os olhares dos dois, Bridget bebeu metade do copo e disse: "Obrigada. Vocês têm mais alguma pergunta? Estou meio cansada".

"Conheceu algum paciente chamado Andrew Laed-dis?", perguntou Teddy.

O rosto dela ficou impassível. Absolutamente impassível. Como transformado em alabastro. As mãos abertas pesavam sobre a mesa como se Bridget não pudesse retirá-las do lugar, sob pena de flutuar em direção ao teto.

Teddy não saberia dizer por quê, mas seria capaz de jurar que ela estava prestes a chorar.

"Não", disse. "Nunca ouvi falar nele."

 

"Você acha que ela recebeu instruções?", disse Chuck.

"Você não?"

"É verdade, pareceu um pouco forçado."

Estavam na passagem coberta entre o Ashecliffe e o pavilhão B, indiferentes à chuva e à sensação de umidade que lhes penetrava a pele.

"Um pouco? Em alguns casos, ela empregou as mesmas palavras que Cawley. Quando perguntamos sobre o que se discutiu na terapia, ela fez uma pausa e disse como controlar a raiva?'. Como se não tivesse muita certeza. Como se estivesse prestando um exame oral, depois de passar a noite estudando."

"E o que significa isso?"

"Sei lá", disse Teddy. "Perguntas, é só o que tenho. A cada meia hora, aparecem mais umas trinta."

"É verdade", disse Chuck. "Ei, aqui há mais uma pergunta para você: quem é Andrew Laeddis?"

"Você não deixou passar essa, hein?", disse Teddy acendendo um dos cigarros que ganhara no pôquer.

"Você perguntou dele a todos os pacientes que entrevistamos."

"Não perguntei nem a Ken nem a Leonora Grant."

"Teddy, mas esses nem ao menos sabem em que planeta estão."

"É verdade."

"Sou seu parceiro, chefe."

Teddy encostou-se na parede de pedra, e Chuck fez o mesmo. Teddy voltou a cabeça e olhou para Chuck.

"Acabamos de nos conhecer", ele disse.

"Ah, quer dizer que não confia em mim."

"Confio em você, Chuck. Sério. Mas infringi o regulamento. Pedi para trabalhar neste caso. No momento em que a informação chegou ao bureau central."

"E daí?"

"Daí que os meus motivos não são imparciais."

Chuck balançou a cabeça, acendeu um cigarro e ficou pensando por um instante. "Minha namorada — Julie Taketomi — é tão americana quanto eu. Não fala uma palavra de japonês. Ora, ela faz parte da terceira geração de imigrantes neste país. Mas eles a meteram num campo de internamento e então..." Ele balançou a cabeça, jogou o cigarro na chuva, levantou a camisa e mostrou a pele acima do quadril direito. "Dê só uma olhada, Teddy. Veja a minha outra cicatriz."

Teddy olhou. Era comprida, escura, grossa como o po-legar dele.

"Também não é herança da guerra. Esta ganhei trabalhando para os xerifes. Arrombei uma porta em Tacoma. O sujeito que procurávamos me cortou com uma espada. Dá para acreditar? Uma porra duma espada. Passei três semanas no hospital enquanto costuravam os meus intestinos. Tudo isso para os U.S. Marshals Service, Teddy. Pela minha pátria. E aí me tiram da minha terra natal porque me apaixonei por uma americana de pele e de olhos orientais?" Abaixou a camisa. "Quero que se fodam."

"Ouvindo-o falar assim", disse Teddy, "eu seria capaz de jurar que você a ama de verdade."

"Morro por ela", disse Chuck. "Sem pesar e sem me lamentar."

Teddy balançou a cabeça. Não conhecia um sentimento mais puro.

"Não deixe que isso acabe, garoto."

"Não vou deixar, Teddy. Pode acreditar. Mas você precisa me contar por que estamos aqui. Quem diabos é An-drew Laeddis?"

Teddy deixou cair a ponta do cigarro no piso de pedra e a esmagou com o sapato.

Dolores, ele pensou, preciso contar a Chuck. Sozinho não vou conseguir.

Talvez seja este o momento, Dolores, a última chance de expiar todos os meus pecados — a bebedeira, as vezes que a deixei sozinha por muito tempo, as vezes em que não a apoiei, que machuquei o seu coração —, de compensar todo o sofrimento que causei a você.

Quero tomar a atitude correta, querida. Quero expiar as minhas faltas. Você, mais que ninguém, haveria de entender.

"Andrew Laeddis", Teddy principiou, mas as palavras ficaram presas na garganta ressecada. Ele engoliu em seco, conseguiu umedecer um pouco a boca, e tentou novamente...

"Andrew Laeddis", disse, "era o zelador do prédio em que eu morava com a minha mulher."

"Certo."

"E era incendiário."

Chuck assimilou a informação, observando o rosto de Teddy.

"Então..."

"Andrew Laeddis", disse Teddy, "acendeu o fósforo que provocou o incêndio..."

"Puta que o pariu."

"... que matou a minha mulher."


 

Teddy andou até o extremo da galeria, pôs a cabeça para fora da área coberta a fim de molhar o rosto e os cabelos. Via sua mulher nas gotas de chuva. Mas a imagem se estilhaçava quando as gotas chegavam ao chão.

Ela não queria que ele fosse trabalhar naquela manhã. Tornara-se inexplicavelmente impressionável no último ano da sua vida, sujeita a uma insônia que a deixava trêmula e confusa. Dolores lhe fizera cócegas quando o despertador tocou, insinuando-lhe que fechassem as venezianas para impedir a entrada da luz e que nunca mais saíssem da cama. Ao abraçá-lo, apertou-o com força, demoradamente, e Teddy sentiu os ossos do braço dela pressionando-lhe o pescoço.

Quando estava tomando banho, ela foi até ele, que estava com muita pressa, atrasado e, como tantas vezes naquela época, de ressaca. A cabeça de Teddy pesava, dolorida e latejante. Sentiu o corpo da mulher como se fosse lixa, quando ela se encostou nele. As gotas de água do chuveiro lhe pareceram duras feito balas.

"Fique", ela disse. "Só hoje. Que diferença pode fazer?"

Teddy tentou sorrir enquanto a afastava delicadamente do caminho, estendendo a mão para pegar o sabonete. "Querida, não posso."

"Por que não?" Ela passou a mão entre as pernas dele. "Aqui. Passe-me o sabonete. Vou lavá-lo para você." A mão dela roçava os seus testículos, e ela lhe mordia o peito de leve.

Ele teve o cuidado de não empurrá-la. Segurou-a pelos ombros o mais delicadamente possível, levantou-a, colocando-a um ou dois passos mais adiante. "Vamos", ele disse. "Tenho mesmo de ir."

Dolores riu um pouco mais, tentou se encostar nele novamente, mas Teddy percebeu que os olhos dela endureciam, cheios de um desejo desesperado. De ser feliz. De não ficar sozinha. De voltar aos bons velhos tempos — antes de ele começar a trabalhar demais e a beber demais, antes daquela manhã em que ela acordara e achara o mundo luminoso demais, barulhento demais, frio demais.

"Está bem, está bem." Ela inclinou o corpo para trás, para que ele pudesse ver-lhe o rosto. A água caía nos ombros dele, envolvendo o corpo dela numa nuvem de vapor. "Vou entrar num acordo com você. Não precisa ficar o dia inteiro, querido. O dia inteiro não: só uma hora. Atrase-se só por uma hora."

"Eu já estou..."

"Uma hora", disse ela, acariciando-o novamente, agora com a mão cheia de espuma. "Uma hora, e você pode ir embora. Quero sentir você dentro de mim." E se pôs nas pontas dos pés para beijá-lo.

Teddy lhe deu um beijinho nos lábios e disse: "Querida, não posso". E virou o rosto para a ducha.

"Vão convocá-lo novamente?", ela disse.

"Ahn?"

"Para lutar."

"Naquele país de merda? Querida, a guerra terá acabado antes que eu amarre o cadarço das botas."

"Não sei", ela disse. "Nem ao menos sei por que estamos nessa guerra. O que quero dizer..."

"Estamos nela porque as armas do Exército Popular Revolucionário, da Coréia do Norte, vêm de algum lugar, querida. Vêm de Stalin. É preciso mostrarmos que aprendemos a lição de Munique, a de que deveríamos ter detido Hitler naquela ocasião. Então, vamos deter Stalin e Mao. Agora. Na Coréia."

"Você iria?"

"Se me convocassem? Eu seria obrigado a ir. Mas não farão isso, querida."

"Como é que você sabe?"

Teddy estava passando xampu no cabelo.

"Você nunca se perguntou por que os comunistas nos odeiam tanto?", ela disse. "Por que não nos deixam em paz? O mundo vai explodir e nem ao menos sei por quê."

"Não vai explodir."

"Vai sim. A gente lê os jornais e..."

"Então pare de ler jornais."

Quando Teddy enxaguava o cabelo, ela encostou o rosto nas costas dele e o abraçou. "Lembro-me da primeira vez em que o vi, no Grove. Você estava de uniforme."

Teddy odiava quando ela fazia aquilo. Rua das recordações. Dolores não conseguia se adaptar ao presente, ao que eram agora, e traçava caminhos tortuosos rumo ao passado, para se reconfortar.

"Você estava tão bonito. E Linda Cox disse: 'Eu o vi primeiro'. Sabe o que respondi?"

"Estou atrasado, querida."

"Por que eu diria isso? Não, eu disse: 'Você pode tê-lo visto primeiro, Linda, mas vou vê-lo por último'. Quando o observou de perto, Linda achou que você parecia mau, mas retruquei: 'Reparou nos olhos dele, querida? Não há nada de ruim neles'."

Teddy fechou o chuveiro, voltou-se e notou que o corpo dela estava salpicado de espuma.

"Você quer que eu abra a torneira novamente?"

Dolores fez que não.

Ele enrolou uma toalha na altura dos quadris, começou a se barbear na pia. Encostada à parede, Dolores o observava, enquanto a espuma secava, deixando marcas brancas na pele dela.

"Por que você não se enxuga?", disse Teddy. "Por que não põe um roupão?"

"Agora já se foi", ela disse.

"Não, não se foi. Parece que há sanguessugas brancas por todo o seu corpo."

"Não estou falando do sabão", ela disse.

"De quê, então?"

"Do Cocoanut Grove Night Club. Foi totalmente destruído pelas chamas, enquanto você estava fora."

"Eu sei, querida, me contaram."

"Quando você estava longe", ela cantarolou com voz branda, tentando aliviar a tensão entre eles. "Lá longe..."

Dolores sempre tivera uma linda voz. Na noite em que ele voltara da guerra, deram-se ao luxo de reservar um quarto no Parker House. Depois de fazerem amor, ele continuou na cama e, pela primeira vez, ouviu-a cantar "Buffalo girls" no banheiro, enquanto o vapor escapava por baixo da porta.

"Ei", ela disse.

"Sim?" Pelo espelho, via o lado esquerdo do corpo da mulher. Quase toda a espuma secara na pele dela, e aquilo o incomodava. Não conseguia atinar por que, mas aquilo lhe parecia uma espécie de transgressão.

"Você tem outra pessoa?"

"O quê?"

"Você tem?"

"De que diabos você está falando? Eu trabalho, Dolores."

"Passo a mão no seu pau no..."

"Não diga essa palavra, pelo amor de Deus."

"... chuveiro, e ele nem endurece?"

"Dolores", disse voltando-se para ela. "Você estava falando sobre bombas. Sobre o fim do mundo."

Ela deu de ombros, como se aquilo não tivesse nada a ver com o que acabara de falar. Com o pé apoiado na parede às suas costas, passou a mão entre as coxas para tirar as gotas de água. "Você não trepa mais comigo."

"Dolores, estou falando sério — não fale desse jeito nesta casa."

"Então você deve estar trepando com ela."

"Não estou trepando com ninguém. E você quer parar de falar essa palavra?"

"Que palavra?" Ela pôs a mão nos seus negros pelos pubianos. "Trepar?"

"Sim", ele disse levantando uma das mãos e voltando a se barbear com a outra.

"Quer dizer que é palavrão?"

"Você sabe que é." Ele passou a navalha embaixo do queixo, ouviu a lâmina raspando os pelos sob a espuma.

"Então qual é a palavra que se deve usar?"

"Ahn?" Mergulhou a navalha na água e sacudiu-a.

"Como devo falar sobre o meu corpo sem fazer você cerrar os punhos?"

"Não cerrei os punhos."

"Cerrou sim."

Ele terminou de barbear sob o queixo, limpou a navalha numa toalhinha e começou a se barbear na altura da costeleta esquerda. "Não, querida, não fiz isso", disse cruzando o olhar com o de Dolores, através do espelho.

"Como devo chamá-la?", disse Dolores, passando uma das mãos nos cabelos e a outra nos pelos pubianos. "Quer dizer, você pode lambê-la, pode beijá-la, pode fodê-la. Pode até ver um bebê sair dela, mas não pode falar o nome?"

"Dolores."

"Boceta", ela disse.

A navalha penetrou tão fundo a pele de Teddy, que ele supôs ter atingido a mandíbula. A dor o fez arregalar os olhos e se propagou como uma corrente elétrica por todo o lado esquerdo do rosto. A espuma entrou no corte, ele sentiu a cabeça explodir. O sangue tingiu a espuma branca do rosto, e começou a gotejar na água da pia.

Dolores lhe trouxe uma toalha, mas ele a empurrou e sugou o ar entre os dentes, sentindo a dor penetrando-lhe os olhos, queimando-lhe o cérebro, enquanto o sangue escorria na pia, e ele tinha vontade de chorar. Não por causa da dor. Não por causa da ressaca. Mas porque não sabia o que estava acontecendo com a esposa, a primeira moça com quem dançara no Cocoanut Grove. Teddy não sabia em que ela estava se transformando ou em que o mundo estava se transformando, com todos aqueles flagelos: guerrinhas sujas, rancores violentos e espiões em Washington, em Hollywood, máscaras de gás em estabelecimentos escolares, abrigos antinucleares subterrâneos. E, de certa forma, tudo tinha a ver com tudo: a sua mulher, este mundo, o seu alcoolismo, a guerra em que ele lutara por acreditar honestamente que ela iria acabar com tudo isso...

Ele sangrava na pia, e Dolores disse: "Desculpe-me, desculpe-me, desculpe-me". Teddy pegou a toalha da segunda vez que ela a ofereceu, mas sem conseguir tocar na sua esposa, sem conseguir olhar para ela. Ele ouvia as lágrimas na voz dela, sabia que os olhos e as faces de Dolores estavam cheios de lágrimas, e odiava esse lugar horroroso em que o mundo tinha se transformado.

 

Segundo os jornais, a última coisa que ele disse à mulher foi que a amava.

Pura mentira.

O que de fato lhe dissera?

Estendendo a mão para a maçaneta da porta, com uma terceira toalha apertada contra o queixo, percebendo que os olhos dela buscavam o rosto dele, dissera:

"Pelo amor de Deus, Dolores, você precisa pôr os pés no chão. Você tem responsabilidades. Procure pensar nisso de vez em quando, está bem? E ponha a porra dessa cabeça no lugar."

Essas foram as últimas palavras que a esposa ouviu dele. Ele fechou a porta, desceu as escadas, parou no último degrau e pensou em voltar. Pensou em subir as escadas, entrar no apartamento e tentar ajeitar as coisas. Ou pelo menos torná-las mais amenas.

Mais amenas. Seria muito bom.

A mulher com a cicatriz no pescoço gingava na direção deles, com tornozelos e punhos presos em correntes, além de um servente de cada lado.

"O que ela fez?", perguntou Chuck.

"Esta aqui?", disse o servente. "Esta aqui é a velha Maggie. Maggie Tortinha, como a gente a chama. Está indo para a hidro, só isso. Mas com ela a gente não pode facilitar."

Maggie parou na frente deles, e os serventes tentaram, sem muito empenho, fazê-la continuar andando, mas ela lhes deu umas cotoveladas e plantou os pés no piso de pedra. Um dos serventes revirou os olhos e soltou um suspiro.

"Escute só. Agora ela vai começar a fazer um sermão."

Maggie os encarou, com a cabeça inclinada para a direita e movendo-se como uma tartaruga que fareja o ar fora da carapaça.

"Sou o caminho", disse. "Sou a luz. E não vou assar essas tortas desgraçadas para vocês. Não vou mesmo, estão entendendo?"

"Claro", disse Chuck.

"Como não?", disse Teddy. "Nada de tortas."

"Vocês vieram para cá. Vão ficar aqui." Maggie farejou o ar. "É o seu futuro e o seu passado, e ele gira em círculos como a Lua em volta da Terra."

"Sim, senhora."

Ela inclinou o corpo e os cheirou. Primeiro Teddy, depois Chuck.

"Guardam segredos aqui. Isso é o que alimenta este inferno."

"Bem, isso e as tortas", disse Chuck.

Ela lhes sorriu, e, por um instante, foi como se um espírito lúcido se apossasse do corpo de Maggie, fazendo as pupilas dela brilharem.

"Ria", disse a Chuck. "É bom para a alma. Ria."

"Certo", disse Chuck. "Vou me lembrar disso, senhora."

Ela tocou o nariz dele com um dedo encurvado. "Quero me lembrar de você assim — rindo."

E então Maggie se voltou e começou a andar. Os serventes a acompanharam, e os três avançaram pela passagem e entraram no hospital por uma porta lateral.

"Moça engraçada", disse Chuck.

"Do tipo que a gente leva para apresentar à mãe."

"E aí ela mata a mãe e esconde o cadáver num cômodo dos fundos da casa, mas ainda assim..." Chuck acendeu um cigarro. "Voltando a Laeddis."

"Matou a minha mulher."

"Você já disse isso. Como?"

"Era um incendiário."

"Já disse isso também."

"Era o zelador de nosso prédio. Desentendeu-se com o proprietário. O proprietário o demitiu. Na época, sabíamos apenas que o incêndio fora provocado. Alguém o ateara. Laeddis estava numa lista de suspeitos, mas só foi encontrado depois de algum tempo. E àquela altura já tinha forjado um álibi. Diabo, eu nem tinha bem certeza de que fora ele."

"O que o fez mudar de opinião?"

"Um ano atrás, abri o jornal e lá estava ele. Tinha tocado fogo na escola em que trabalhava. A mesma história: voltou para lá depois de ser demitido, tocou fogo no porão e deu um jeito na caldeira para que explodisse. Exatamente o mesmo método. Não havia nenhuma criança na escola, mas a diretora estava lá, trabalhando depois do expediente. Ela morreu. Laeddis enfrentou um julgamento, alegou que ouvia vozes, coisas do tipo, e foi enviado para Shattuck. Mas algo aconteceu lá — não sei bem o quê —, e o transferiram para cá há seis meses."

"Mas ninguém o viu por aqui."

"Ninguém dos pavilhões A ou B."

"O que indica que pode estar no C."

"Sim."

"Ou morto."

"Possivelmente. Mais uma razão para tentar descobrir onde fica o cemitério."

"Mas vamos supor que ele não esteja morto."

"Certo..."

"Se o encontrar, Teddy, o que vai fazer?"

"Não sei."

"Não minta pra mim, chefe."

Duas enfermeiras vinham na sua direção, com os saltos estalando no chão, andando bem rente à parede para não se molharem.

"Puxa, como vocês estão molhados", disse uma delas.

"Será que todo o meu corpo está molhado?", disse Chuck. A que estava mais perto da parede, uma jovem baixinha de cabelos pretos e curtos, se pôs a rir.

Depois de passarem por eles, a enfermeira de cabelos pretos olhou-os por cima do ombro. "Vocês xerifes costumam flertar assim?"

"Depende", disse Chuck.

"Depende de quê?"

"Da qualidade do pessoal."

Elas ficaram imóveis por um instante, o tempo que levaram para entender a brincadeira, e a de cabelos pretos escondeu o rosto no ombro da outra. As duas caíram na gargalhada e se dirigiram à porta do hospital.

Puxa vida, como Teddy invejava Chuck! A convicção com que ele falava. A facilidade com que flertava. A tendência, própria dos recrutas, de fazer jogos de palavras rápidos e sem sentido. Mas invejava-lhe principalmente a leveza e espontaneidade do charme e da simpatia.

Simpatia nunca fora o forte de Teddy. Depois da guerra, ficara ainda pior. Segundo Dolores, tratava-se de um caso perdido.

A simpatia é o luxo dos que ainda acreditam na verdade essencial das coisas. Na pureza e nas cerquinhas brancas em torno das casas de família.

"Sabe", disse a Chuck, "na manhã do último dia ela me falou sobre o incêndio do Cocoanut Grove."

"É mesmo?"

"Foi lá que nos conhecemos. No Grove. Ela dividia um quarto com uma jovem rica, e eu pude entrar porque estavam dando descontos aos militares. Dancei com ela a noite toda. Até foxtrote."

Chuck afastou um pouco a cabeça da parede e olhou para o rosto do outro. "Você dançando foxtrote? Estou tentando imaginar a cena, mas..."

"Ei, seu tonto", disse Teddy. "Precisava vê-la naquela noite! Você sairia pulando pra todo lado feito um coelho, se ela mandasse."

"Quer dizer que a conheceu no Cocoanut Grove."

Teddy fez que sim com a cabeça. "E aí ele se incendiou quando eu estava... na Itália, eu acho... Sim, naquela ocasião estava na Itália, e ela provavelmente achou que aquilo tinha algum significado. Dolores tinha pavor de fogo."

"E ela morreu num incêndio", murmurou Chuck.

"É o cúmulo, não?" Teddy se esforçou para afastar a imagem dela naquela manhã: com um pé apoiado contra a parede do banheiro, o corpo nu, salpicado de espuma branca e ressecada.

"Teddy?"

Teddy olhou para ele.

Chuck abriu bem as mãos. "Estou com você nessa história. Seja lá como for. Você quer encontrar Laeddis e matá--lo? Para mim, não tem tempo ruim."

"Não tem tempo ruim...", disse Teddy sorrindo. "Fazia tempo que não ouvia isso."

"Sabe de uma coisa, chefe? Preciso saber direito o que nos espera. Estou falando sério. Se a gente der bobeira, vai terminar diante da Comissão Kefauver, acusado de comunista ou coisa do tipo. Todo mundo está de olho hoje em dia. De olho em todos nós. Somos vigiados. A cada minuto, o mundo fica menor." Chuck afastou da testa uma me-cha de cabelos rebeldes. "Tenho a impressão de que você conhece este lugar e está me escondendo um monte de coisas. Tenho a impressão de que veio para cá a fim de detonar."

Teddy levou a mão ao peito. "Estou falando sério, chefe." Teddy disse: "Estamos molhados". "E daí?"

"Aí é que está: você se importa de se encharcar ainda mais?"

 

Passaram pelo portão e andaram em direção à orla. A chuva escondia a paisagem com uma cortina branca. Ondas da altura de uma casa investiam contra os rochedos. Elas se erguiam em direção ao céu e se abatiam para dar lugar às outras.

"Não quero matá-lo", gritou Teddy em meio ao fragor das ondas.

"Não?"

"Não."

"Não sei se dá para acreditar em você."

Teddy deu de ombros.

"Se tivesse acontecido com a minha mulher", disse Chuck, "eu o mataria duas vezes."

"Estou cansado de matar", disse Teddy. "Perdi a conta de quantos matei durante a guerra. Não sei como isso é possível, Chuck. Mas foi o que aconteceu."

"Mas estamos falando da sua mulher, Teddy."

Agora tinham diante de si uma negra formação rochosa, que avançava da praia em direção às árvores. Eles a escalaram e começaram a avançar mata adentro.

"Escute", disse Teddy ao chegarem a um terreno elevado, com árvores altas que os protegia um pouco da chuva. "Para mim o trabalho ainda vem em primeiro lugar. Vamos descobrir que fim levou Rachel Solando. Se toparmos com Laeddis, ótimo. Vou lhe dizer que sei que matou a minha mulher. Vou dizer a ele. Vou lhe dizer que estarei esperando no continente quando ele for solto. E que não vai ter sossego enquanto eu estiver vivo."

"Só isso?", disse Chuck.

"Só isso."

Chuck enxugou os olhos na manga do casaco, afastou o cabelo da testa. "Não engulo essa. Não mesmo."

O olhar de Teddy voltou-se para o lado sul do círculo de árvores, na direção do cimo do Ashecliffe, das suas águas-furtadas vigilantes.

"Você não desconfia que Cawley sabe a verdadeira razão por que estamos aqui?"

"Minha verdadeira razão é saber de Rachel Solando."

"Porra, Teddy, se o sujeito que matou a sua mulher está recluso aqui em Ashecliffe..."

"Ele não foi condenado por isso. Não há nada que permita estabelecer uma relação entre mim e ele. Absolutamente nada."

Chuck sentou-se numa pedra que se elevava do solo, abaixando a cabeça para se proteger da chuva. "E quanto ao cemitério? Já que estamos aqui, por que não aproveitamos para ver se o encontramos? Se virmos uma lápide com o nome Laeddis, metade do problema estará resolvido."

Teddy contemplou novamente a massa escura formada pelo círculo de árvores. "Ótimo."

Chuck se levantou. "A propósito, o que é que ela lhe contou?"

"Quem?"

"A paciente", disse Chuck estalando os dedos. "Brid-get. Ela me mandou buscar água e disse algo a você. Eu reparei."

"Ela não disse."

"Não disse? Mentira, sei que ela..."

"Escreveu", disse Teddy, batendo nos bolsos do casaco, procurando o bloco de anotações.

Finalmente ele o encontrou no bolso interno da capa militar e começou a folheá-lo.

Chuck se pôs a assobiar e a pisotear a terra macia a passo de ganso.

Quando encontrou a página, Teddy disse: "Basta, Adolf!".

Chuck aproximou-se dele. "Achou?"

Teddy fez que sim, virou o bloco de modo que Chuck pudesse ver a página, e a única palavra que lá estava escrita, num rabisco pouco legível que a chuva começava a borrar, era: fuja.

 

Encontraram as pedras a cerca de oitocentos metros da costa, enquanto o céu, carregado de nuvens cor de ar-dósia, escurecia depressa. Haviam escalado várias escarpas encharcadas, cheias de gramíneas moles e escorregadias, e, de tanto tropeçarem e escorregarem, estavam ambos cobertos de lama.

À frente deles, mais abaixo, havia uma vasta extensão de terra, plana como a face inferior da massa de nuvens, quase totalmente nua, exceto por um ou outro arbusto, pelas grossas folhas carregadas para lá pela tempestade e por um grande número de pedrinhas que, a princípio, Teddy imaginou terem sido levadas com as folhas. Ao descer, ele parou a meio caminho para melhor examiná-las.

Formavam pequenas pilhas compactas, distantes umas das outras uns quinze centímetros. Teddy pôs a mão no ombro de Chuck e apontou para elas.

"Quantas pilhas você acha que tem ali?"

Chuck disse: "O quê?".

"Aquelas pedras, está vendo?"

"Sim."

"Formam algumas pilhas. Quantas pilhas são?"

Chuck olhou para o outro como se um raio tivesse caído na sua cabeça. "São apenas pedras."

"Estou falando sério."

Depois de lançar ao parceiro o mesmo olhar de censura, Chuck voltou a atenção para o campo à sua frente. Um minuto depois disse: "Contei dez pilhas".

"Eu também."

A lama cedeu sob o pé de Chuck, que escorregou, estendendo instintivamente um braço para trás; Teddy o segurou até ele recuperar o equilíbrio.

"Vamos continuar a descer?", perguntou Chuck fazendo uma careta de contrariedade.

Desceram com muita dificuldade. Teddy aproximou--se das pilhas de pedras e viu que formavam duas fileiras paralelas. Algumas pilhas eram bem menores. Umas poucas tinham apenas três ou quatro pedras, enquanto outras tinham mais de dez, talvez até vinte.

Teddy, que ia andando entre as fileiras, parou de repente, olhou para Chuck e disse: "Contamos errado".

"Como?"

"Está vendo ali, entre aquelas duas pilhas?" Teddy esperou que o outro se aproximasse e apontou: "Tem uma pedra bem ali. Ela forma uma pilha de uma pedra só".

"Não, provavelmente o vento a tirou de uma das pilhas."

"Ela está equidistante dos outros montinhos. Quinze centímetros à esquerda deste, quinze centímetros à direita daquele. E o mesmo acontece na outra fileira: temos duas pedras isoladas."

"E daí?"

"Daí que temos treze montinhos de pedras, Chuck."

"Você pensa que ela as deixou aqui. É isso o que você pensa."

"Acho que alguém fez isso."

"Mais uma mensagem cifrada."

Teddy se agachou ao lado das pedras. Cobriu a cabeça com a capa militar, puxando as abas dela para a frente do corpo a fim de proteger da chuva o bloco de anotações. Foi andando de lado feito um caranguejo, parando em cada montinho para contar o número de pedras e anotá-los um a um. Quando terminou, tinha anotado treze números:

 

         18 –1 - 4 – 9 – 5 – 4 – 23 – 1 – 12 – 4 – 19 – 14 – 5  

 

"Talvez seja a combinação", disse Chuck, "do maior cadeado do mundo."

Teddy fechou o bloco de anotações e enfiou-o no bolso. "Boa essa."

"Obrigado, obrigado", disse Chuck. "Vou dar dois shows por noite em Catskills. Você vai querer ver?"

Teddy ajeitou novamente a capa no corpo e se levantou. A chuva recrudesceu, e o vento começou a uivar.

Andaram em direção ao norte, tendo à esquerda as fa-lésias e Ashecliffe em algum lugar à direita, disfarçado pela chuva e pelo vento. Na meia hora seguinte, a tempestade piorou ainda mais, e passaram a andar ombro a ombro para poderem ouvir a fala um do outro, o que os fazia cambalear feito bêbados.

"Cawley perguntou se você era do Serviço de Inteligência do Exército. Você mentiu para ele?"

"Sim e não", disse Teddy. "Fui desmobilizado depois de servir o Exército regular."

"Como você entrou no Exército?"

"Depois do serviço militar, fui enviado para trabalhar nas transmissões pelo rádio."

"E depois?"

"Fiz um curso intensivo na Escola Militar e, aí sim, passei para o Serviço de Inteligência."

"O que o fez voltar ao Exército regular?"

"Dei uma bola fora." Teddy teve de gritar por causa do vento. "Não consegui decifrar um código. As coordenadas do inimigo."

"E qual foi a conseqüência disso?"

Teddy teve a impressão de ouvir um barulho que chegava através do rádio. Gritos, estática, lamentos, estática, o matraquear de metralhadoras seguido de mais gritos, mais lamentos e mais estática. E, em meio a esse pandemônio, a voz de um rapaz dizendo: "Você sabe onde foi parar o resto de mim?".

"Cerca de meio batalhão", gritou Teddy em meio ao vendaval, "foi servido num platô feito bolo de carne."

Por alguns instantes ouviram apenas o uivar do vento. Depois Chuck gritou: "Desculpe-me. Que horror!".

Chegaram ao alto de uma colina, e o vento que soprava quase os arrancou de lá. Teddy agarrou o braço de Chuck. E se lançaram para a frente, de cabeças baixas; andaram por algum tempo assim, de corpo curvado para a frente, e a princípio nem chegaram a ver as lápides. Avançavam penosamente, a chuva entrando-lhes pelos olhos, e então Teddy bateu contra um bloco de ardósia inclinado para trás. Uma rajada de vento derrubou-o no chão, e lá ele ficou tombado, mostrando a inscrição.

 

                   JACOB PLUGH

                   CONTRAMESTRE

                   1832 – 1858

 

Uma árvore se quebrou à sua esquerda, com um fragor que lembrava o de um machado fendendo um telhado de zinco. Chuck exclamou "Meu Deus!", e pedaços da árvore, colhidos pelo vento, passaram voando diante dos olhos dele.

Entraram no cemitério protegendo o rosto com os braços, envoltos num turbilhão de lama, de folhas e de galhos quebrados que praticamente os cegava; caíram várias vezes. Teddy avistou à frente uma massa escura, levantou o braço nessa direção, mas os gritos dele foram levados pelo vento, e uma massa sólida passou tão perto da cabeça deles que a sentiram roçar-lhes os cabelos. Os dois homens dispararam a correr, com as pernas batidas pelo vendaval, os joelhos fustigados por torrões arrancados da terra pelo vento.

Um mausoléu. A porta era de aço, já desprendendo-se dos gonzos, e a erva daninha brotava dos alicerces. Quando Teddy puxou a porta, uma rajada de vento lançou-o para a esquerda com ela, e ele caiu no chão. A porta se desprendeu dos gonzos de baixo com grande fragor, e o vento a lançou contra a parede. Teddy se estatelou na lama, conseguiu se levantar, mas o vento bateu contra os ombros dele, que caiu acertando um dos joelhos no chão. Viu a garganta negra da porta diante de si, reuniu forças, mergulhou na lama e se arrastou para dentro.

"Você já viu uma coisa como essa?", disse Chuck enquanto os dois, postados no vão da porta, observavam a agitação da ilha sob a tempestade. O vento carregava uma torrente de detritos e de folhas, galhos de árvores e pedras, além da chuva onipresente, que guinchava feito uma furiosa vara de porcos revolvendo a terra.

"Nunca", disse Teddy, e os dois recuaram para dentro do túmulo.

Chuck descobriu uma caixa de fósforos ainda secos no bolso do casaco, acendeu três ao mesmo tempo, tentando protegê-los do vento com o corpo. Os xerifes notaram então que, na laje central, não havia caixão nem cadáver, talvez tivessem sido roubados ou transferidos para outro lugar nos anos subsequentes ao sepultamento. Havia um banco de pedra cavado na parede fronteira à laje central, e os homens se dirigiram a ele quando os fósforos se apagaram. Sentaram-se. O vento continuava a entrar pela abertura, batendo a porta contra a parede.

"Tem certa beleza, não?", disse Chuck. "A natureza enlouquecida, a cor do céu... Viu como a lápide desabou no chão?"

"Eu tinha esbarrado nela, mas... puxa, foi impressionante."

"Uau", fez Chuck enquanto torcia a barra das calças, formando poças de água sob os pés; depois sacudiu a camisa encharcada. "Acho que deveríamos ter ficado mais perto do nosso alojamento. Talvez a gente seja obrigada a dar um tempo aqui até a chuva melhorar."

Teddy balançou a cabeça. "Não entendo muito de furacões, mas tenho a impressão de que está apenas começando."

"Se esse vento mudar de direção, as pedras do cemitério virão todas para cima de nós."

"Ainda prefiro ficar aqui a ficar lá fora."

"Certo, mas nos refugiarmos numa colina durante um furacão... acha que foi inteligente de nossa parte?"

"Não muito."

"Foi tão repentino. Num segundo estava chovendo pesado, no segundo seguinte estávamos como Dorothy, sendo carregados para Oz."

"No caso dela foi um tornado."

"O quê?"

"No Kansas."

"Ah."

O uivo do vento se tornava cada vez mais agudo, e Teddy sentia o vento fustigando a parede de pedra às suas costas, martelando-a fortemente como punhos, provocando pequenos abalos que se propagavam pelo corpo dele.

"Está só começando", ele repetiu.

"Como acha que aqueles malucos todos estão reagindo a isso?"

"Devem estar respondendo com uivos."

Ficaram em silêncio por um instante, e cada um deles acendeu um cigarro. Teddy lembrou-se do episódio no barco do pai, em que percebera o quanto a natureza era indiferente para com ele e muito mais forte — então imaginou o vento como um ser com cabeça de falcão, bico recurvo, mergulhando em direção ao mausoléu e soltando gritos raivosos. Um monstro furioso que transformava vagas em torres, reduzia casas a palitos de fósforos, capaz de apanhar um homem como ele com as garras e jogá-lo na China.

"Eu estava no Norte da África em 1942", disse Chuck. "Enfrentei algumas tempestades de areia. Nem se comparam a isto aqui. Mas o fato é que a gente esquece. Quem sabe tenham sido tão terríveis quanto isto."

"Consigo segurar esta barra", disse Teddy. "Quer dizer, eu não iria enfrentar o tempo aí fora, ficar zanzando por aí, mas o frio é muito pior. Nas Ardenas, meu Deus, o hálito da gente congelava imediatamente. Até hoje sinto frio nos ossos. Os dedos, de tão gelados, pareciam estar queimando. Consegue imaginar algo assim?"

"No Norte da África o problema era o calor. Os caras não se agüentavam e caíam feito moscas. De repente. Alguns sofriam infartos. Atirei em um cara e a pele do sujeito estava tão mole por causa do calor que ele se virou para ver a bala saindo do outro lado do corpo." Chuck bateu com um dedo no banco. "Ele olhou a bala sair do corpo", disse baixinho. "Juro por Deus."

"Foi o único cara que você matou?"

"Praticamente, sim. E você?"

"Comigo foi o contrário. Matei um monte, e a maioria deles eu vi morrer." Teddy inclinou a cabeça para trás, encostou-a na parede e fitou o teto. "Se algum dia tivesse um filho, não sei se o deixaria ir para a guerra. Mesmo para uma guerra inevitável. Não sei se é razoável exigir esse sacrifício de alguém."

"Qual?"

"Matar."

Chuck levantou um dos joelhos até o peito. "Os meus pais, a minha namorada, alguns amigos meus que não passaram no exame físico — todos me perguntam, sabe?"

"Sei."

"Como é que foi? É isso o que querem saber. E a gente tem vontade de dizer: 'Não sei como foi. Aconteceu com outra pessoa. Fiquei só olhando do alto ou de outro lugar'." Chuck estendeu as mãos. "Não consigo achar uma explicação melhor. Não lhe parece um troço estúpido?"

Teddy disse: "Em Dachau, os ss se renderam a nós. Eram quinhentos. Havia repórteres por lá, mas eles tinham visto também os cadáveres empilhados na estação de trem. Sentiam o mesmo cheiro que estávamos sentindo. Olhavam para nós, esperando que fizéssemos exatamente o que fizemos. E não desejávamos outra coisa. Então executamos um por um os filhos da puta daqueles boches. Nós os desarmamos, encostamos todos contra a parede e os executamos. Metralhamos mais de trezentos homens de uma só vez. Depois, caminhando entre eles, enfiamos uma bala na cabeça dos que ainda respiravam. Um crime de guerra pra ninguém botar defeito, certo? Mas, Chuck, aquilo era o mínimo que devíamos fazer. Os filhos da puta dos repórteres batiam palmas. Os prisioneiros do campo ficaram tão contentes que começaram a chorar. Aí entregamos alguns soldados alemães à fúria desses homens, que os fizeram em pedaços. No fim daquele dia, tínhamos tirado quinhentas almas da face da terra. Os sujeitos foram assassinados por nós. Não se tratava de legítima defesa nem de razões militares. Era assassinato puro e simples. E, no entanto, não sentimos a mais leve sombra de remorso. Mereciam muito mais do que aquilo. Então, ótimo... mas como se pode conviver com uma lembrança dessas? Como contar à sua mulher, aos seus pais, aos seus filhos que você fez aquilo? Você executou gente desarmada? Matou garotos? Garotos com armas e uniformes, mas garotos. Responda a isso. Você nunca poderá explicar a eles. Nunca entenderão. Você o fez por um motivo justo. Mas ainda assim o que fez foi errado. E nunca vai conseguir se livrar dessa mancha".

Depois de algum tempo, Chuck falou: "Mas pelo menos foi por um motivo justo. Já viu um daqueles pobres coitados que voltaram da Coréia? Até hoje não sabem o que foram fazer lá. Ao menos detivemos Adolf. Salvamos milhões de vidas, certo? Realizamos alguma coisa, Teddy".

"Sim, realizamos!", reconheceu Teddy. "Às vezes isso basta."

"É preciso que seja assim, certo?"

Uma árvore inteira passou voando na frente da porta, com a copa para baixo, as raízes erguidas no ar como chifres.

"Você viu aquilo?"

"Vi. A árvore vai acordar no meio do mar e dizer: 'Espere um pouco. Tem algo errado'."

'"Eu deveria estar lá.'"

'"Esperei anos para que a colina ficasse do meu gosto.'"

Riram baixinho na escuridão e ficaram observando a ilha em fúria à frente deles, como num sonho febril.

"Bom, o que sabe sobre esta ilha, chefe?"

Teddy deu de ombros. "Sei alguma coisa. Não é muito, mas o bastante para me assustar."

"Que ótimo. Você está assustado. E o que uma pessoa normal deveria sentir então?"

Teddy sorriu. "O mais profundo horror?"

"Certo. Considere-me então aterrorizado."

"Isto aqui é considerado um estabelecimento experimental. Já lhe disse: de terapia radical. É financiado parcialmente pela Commonwealth,[3] parcialmente pela Administração Geral das Penitenciárias Federais, mas principalmente pelos fundos criados em 1951 pela Huac."[4]

"Oh", fez Chuck. "Terrível. Lutar contra os comunas a partir de uma ilha ao largo do porto de Boston. Pode me dizer como se faz uma coisa dessas?"

"Fazem experimentos com a mente. É o que suponho. Anotam as observações e as passam aos velhos companheiros de Cawley, que talvez trabalhem para a cia. Não sei. Já ouviu falar em fenciclidina?"

Chuck negou com um gesto de cabeça.

"lsd? Mescalina?"

"Negativo, negativo."

"São alucinógenos", disse Teddy. "Drogas que provocam alucinações."

"Certo."

"Mesmo em doses mínimas, essas drogas levam pessoas absolutamente normais — você ou eu — a terem visões."

"Podem ver árvores de ponta-cabeça passando diante da porta?"

"Ah, aí é que está o problema. Se ambos a vimos, não se trata de alucinação. As alucinações são diferentes para cada pessoa. O que você diria se agora mesmo abaixasse os olhos e visse os seus braços transformados em cobras, erguendo-se no ar e escancarando a boca para devorar sua cabeça?"

"Pensaria que estava tendo um dia de cão."

"E se as gotas de chuva se transformassem em chamas? E se uma moita se transformasse num tigre prestes a atacá-lo?"

"Eu me sentiria pior ainda. Iria pensar que não deveria ter saído da cama. Mas espere aí... Está me dizendo que uma droga poderia fazer uma pessoa achar que uma merda dessa está acontecendo de verdade?"

"Não é que poderia fazer. Faz. Se a droga for aplicada na dose certa, a pessoa começa a ter alucinações."

"Que drogas terríveis!"

"Sim, são terríveis. Os efeitos de muitas dessas drogas são semelhantes aos sintomas que se verificam em pacientes com esquizofrenia grave. Aquele sujeito... como é mesmo o nome dele? Ken. Ele pensa que pegou gripe nos pés. Está convicto disso. Leonora Grant não via você. Via Douglas Fairbanks."

"E não se esqueça de Charlie Chaplin, meu caro."

"Eu até faria uma imitação, mas não sei como é a voz dele."

"Ei, chefe, nada mal. Você pode abrir o meu show em Catskills."

"Há casos documentados de esquizofrênicos que lace-raram o próprio rosto por acharem que as próprias mãos os atacavam, que se tratava de animais selvagens ou algo assim. Vêem coisas que não existem, ouvem vozes que ninguém mais ouve, jogam-se de edifícios sem pestanejar, porque acham que estão pegando fogo — e assim por diante. Os alucinógenos provocam alucinações semelhantes."

Chuck apontou para Teddy. "De repente você começou a falar com uma erudição muito maior que a habitual."

Teddy respondeu: "O que posso lhe dizer? Fiz a lição de casa. Chuck, o que aconteceria se você desse alucinógenos a pessoas com um grau extremo de esquizofrenia?".

"Ninguém faria isso."

"Eles fazem, e dentro da lei. Só seres humanos sofrem de esquizofrenia. Ratos, coelhos e vacas não sofrem desse mal. Então em quem vão aplicar as drogas para testá-las?"

"Em seres humanos."

"Muito bem, você vai ganhar um charuto."

"Um charuto de verdade, certo?"

Teddy disse: "Se você quiser".

Chuck levantou-se, apoiou as mãos na laje central e ficou contemplando a borrasca. "Quer dizer que estão dando aos esquizofrênicos drogas que exacerbam a esquizofrenia?"

"A um dos grupos de controle."

"E ao outro grupo?"

"São pessoas sem esquizofrenia às quais se administram alucinógenos para observar como o cérebro reage."

"Conversa."

"Isso não é nenhum segredo, velho. Vá a um congresso de psiquiatria um dia desses. Eu fui."

"Mas você disse que isso é legal."

"É legal", disse Teddy. "As pesquisas sobre eugenia também eram."

"Mas, se são legais, não podemos fazer nada contra elas."

Teddy se inclinou em direção à laje. "Certo. Por enquanto, não estou pretendendo prender ninguém. Fui enviado para esta ilha para coletar informações. Só isso."

"Espere um pouco... você foi enviado? Puxa, Teddy, até onde a porra dessa história vai nos levar?"

Teddy soltou um suspiro e voltou-se para o companheiro. "Longe."

"Vamos voltar ao começo", disse Chuck levantando a mão. "Como você se meteu nessa história toda?"

"Tudo começou com Laeddis. Há um ano", disse Teddy. "Fui a Shattuck com o pretexto de interrogá-lo. Inventei que um dos comparsas dele estava sendo procurado pelos federais e que talvez Laeddis pudesse ajudar a descobrir o paradeiro desse homem. O problema é que Laeddis não se encontrava lá. Fora transferido para Ashecliffe. Liguei para cá, mas disseram que não havia registro da sua entrada."

"E aí?"

"Isso me deixou intrigado. Telefonei para alguns hospitais psiquiátricos da cidade, e, embora todos saibam da existência de Ashecliffe, ninguém quer falar sobre este lugar. Conversei com o diretor do hospital Renton, para doentes perigosos. Eu o tinha encontrado algumas vezes, e falei: 'Bobby, qual é o problema? É um hospital que é uma prisão, igual ao seu', mas ele balançou a cabeça. 'Teddy', respondeu. 'É algo completamente diferente. Altamente confidencial. Top secret. Não vá para aquelas bandas.'"

"Mas você não desistiu", disse Chuck. "E me meteu nessa história."

"Isso não estava nos planos", disse Teddy. "O meu superior imediato me disse que eu precisaria levar um parceiro, então escolhi um parceiro."

"Quer dizer que você só estava esperando um pretexto para vir pra cá?"

"Mais ou menos isso", disse Teddy. "E não tinha certeza de que algum dia eu conseguiria essa oportunidade. Quer dizer, mesmo que um paciente escapasse, eu poderia não estar na cidade na ocasião. E outra pessoa poderia assumir o caso. Ou então... diabos... um milhão de 'e se...'. Tive a maior sorte."

"Sorte o cacete!"

"O quê?"

"Não se trata de sorte, chefe. A sorte não funciona assim. O mundo não funciona assim. Você pensa que foi indicado para esta investigação por mero acaso?"

"Claro. Parece meio maluco, mas..."

"Quando ligou para Ashecliffe e perguntou de Laeddis, você se identificou?"

"Claro."

"Bem, então..."

"Chuck, isso já faz um ano."

"E daí? Você acha que não há um registro desse tipo de coisa? Principalmente no caso de um paciente do qual afirmam nada saber?"

"Já lhe disse, faz um ano."

"Puxa, Teddy." Chuck abaixou a voz, apoiou as mãos espalmadas na laje e respirou fundo. "Digamos que estejam fazendo alguma coisa errada por aqui. E se já estivessem de olho em você mesmo antes de você pôr os pés nesta ilha? E se o atraíram para cá?"

"Bobagem."

"Bobagem? Onde está Rachel Solando? Onde está o mínimo vestígio de que ela algum dia existiu? Tudo o que nos mostraram foi a foto de uma mulher qualquer e um dossiê que pode muito bem ser forjado."

"Mas, Chuck, mesmo que a tenham inventado, mesmo que tenham forjado toda essa história, não podiam ter previsto que eu seria encarregado do caso."

"Você andou investigando, Teddy. Andou fazendo perguntas sobre este hospital. Instalaram uma cerca eletrificada em volta de uma unidade de tratamento. Há um guarda dentro de um forte. São mantidos menos de cem pacientes num estabelecimento que poderia comportar trezentos. Este lugar é assustador, Teddy. Ninguém dos outros hospitais quer falar sobre ele, e isso para você não significa nada? O chefe da equipe médica tem ligação com o oss, o dinheiro provém de um fundo ilegal criado pelo Huac. Tudo aqui parece proclamar 'operação governamental'. E você se surpreende com a possibilidade de que, em vez de eles estarem na sua mira, você é que está na deles?"

"Quantas vezes vou precisar repetir, Chuck: como poderiam saber que eu seria encarregado do caso Rachel Solando?"

"Você é estúpido?"

Teddy endireitou o corpo, e lançou a Chuck um olhar duro.

Chuck levantou a mão. "Desculpe, desculpe. Estou nervoso, certo?"

"Certo."

"O que estou querendo dizer, chefe, é que sabiam que você estava procurando um pretexto qualquer para entrar aqui. O assassino da sua mulher está aqui. Bastava inventarem que um paciente fugiu. E estava claro para eles que você conseguiria chegar aqui, ainda que fosse preciso recorrer ao salto com vara."

De repente, a porta se soltou da única dobradiça. Violentamente arremessada contra o batente, bateu com força e elevou-se no ar, voou por sobre o cemitério e desapareceu no céu.

Os xerifes ficaram olhando o vão da porta, e então Chuck disse: "Nós dois presenciamos isso, certo?".

"Estão usando seres humanos como cobaias", disse Teddy. "Isso não o preocupa?"

"Isso me assusta, Teddy. Mas como sabe disso? Você disse que o enviaram para colher informações. Quem o enviou?"

"Da primeira vez que falamos com Cawley, você o ouviu falar no senador?"

"Ouvi."

"É o senador Hurly, democrata, de New Hampshire. Ele preside uma subcomissão de estudos sobre financiamento para a área da saúde mental. Esse senador analisou as somas de dinheiro destinadas a este lugar, e não gostou nada do que descobriu. De minha parte, conheci um sujeito chamado George Noyce, que já passou por aqui. Esteve internado no pavilhão C. Fazia duas semanas que saíra da ilha quando entrou num bar em Attleboro e começou a esfaquear os clientes. Que ele não conhecia. Na cadeia, desandou a falar de dragões no pavilhão C. O advogado dele quer alegar insanidade. Se existe alguém que pode alegar insanidade, esse alguém é Noyce. É totalmente pirado. Mas dispensou o advogado, procurou o juiz, confessou-se culpado e pediu que o mandassem para uma prisão, para qualquer uma, mas não para um hospital. Depois de um ano na cadeia, a sua mente começou a se recuperar, e finalmente ele se pôs a contar histórias sobre Ashecliffe. Histórias que parecem malucas, mas o senador acredita que talvez não sejam tão malucas como todo mundo pensa."

Chuck sentou-se na laje, acendeu um cigarro, deu algumas tragadas enquanto olhava o companheiro.

"Mas como o senador conheceu você, e o que vocês fizeram para descobrir esse tal de Noyce?"

Por um instante, Teddy teve a impressão de ver luzes descrevendo arcos em meio à tormenta que continuava lá fora.

"Na verdade tudo aconteceu na ordem inversa. Noyce me descobriu, e procurei o senador. Foi Bobby Farris, diretor do Renton, quem ligou para mim certa manhã e perguntou se ainda estava interessado em Ashecliffe. Eu disse que sim, e ele falou do presidiário de Dedham que estava fazendo o maior estardalhaço com histórias sobre Ashecliffe. Então fui a Dedham algumas vezes, para conversar com Noyce. Ele diz que, certo ano, quando ainda estava na faculdade, ficou um pouco tenso à época das provas. Gritou com um professor, quebrou a vidraça de uma janela do dormitório com um soco e foi obrigado a conversar com alguém do departamento de psiquiatria. Sem perceber como aconteceu, concordou em participar de um teste para ganhar alguns trocados. Um ano depois abandonou a faculdade, esquizofrênico de carteirinha, tresvariando pelas ruas, tendo visões, o diabo."

"Quer dizer que esse é o caso do sujeito que a princípio é normal..."

Teddy notou novamente as luzes brilhando na escuridão, aproximou-se da porta e olhou para fora. Seriam relâmpagos? Bem poderiam ser, pensou, mas até então ele não tinha visto nenhum.

"Normalíssimo. Talvez tivesse problemas... como é que dizem aqui? Problemas para 'controlar a raiva', mas era perfeitamente normal em tudo o mais. Um ano depois, enlouqueceu. Certo dia viu um sujeito na Park Square e pensou que fosse o professor que o aconselhara a procurar o departamento de psiquiatria. Pra encurtar a história, isso bastou: Noyce quase acabou com a raça do sujeito. Foi enviado para Ashecliffe. Pavilhão A. Mas não ficou lá por muito tempo. Àquela altura tinha se transformado num cara violento e foi transferido para o pavilhão C. Eles o entupiram de alucinógenos e ficaram só observando o que acontecia quando os dragões avançavam para devorá-lo, e o cara enlouqueceu. Ficou um pouco mais louco do que esperavam, acho, porque no fim, para acalmá-lo, fizeram uma cirurgia."

"Uma cirurgia?", disse Chuck.

Teddy confirmou com um gesto de cabeça. "Uma lo-botomia transorbital. Essa é engraçada, Chuck. Bombardeiam o sujeito com eletrochoques, traspassam os olhos dele com uma espécie de furador de gelo, veja só. Não estou brincando. Nada de anestesia. Remexem no cérebro, extraem algumas fibras nervosas e pronto, está acabado. A maior moleza."

Chuck disse: "O Código de Nuremberg proíbe...".

"... a realização de experimentos com cobaias humanas no estrito interesse da ciência, eu sei. Achei que poderíamos invocar o Código de Nuremberg, e o senador também. Negativo. A experimentação é permitida quando tem como objetivo curar um paciente. Assim, enquanto um médico puder dizer: 'Ei, estamos apenas tentando ajudar esse infeliz, vendo se estas drogas podem induzir à esquizofrenia e se aquelas podem eliminá-la', ele está rigorosamente dentro da lei."

"Espere um pouco, espere um pouco", disse Chuck. "Você disse que esse tal de Noyce sofreu uma... trans..."

"Uma lobotomia transorbital."

"Mas o objetivo dela, por mais medieval que seja, é acalmar a pessoa. Então como é que depois disso ele atacou um sujeito na Park Square?"

"Obviamente, a cirurgia não deu certo."

"É comum acontecer isso?"

Teddy viu as luzes novamente, e dessa vez teve certeza de ouvir o ronco de um motor erguendo-se em meio à tormenta.

"Xerifes!", a voz estava enfraquecida pelo vento, mas ambos a ouviram.

Chuck ergueu as pernas sobre o pavimento e saltou, então ajudou Teddy a chegar à entrada. Conseguiram ver os faróis dianteiros do outro lado do cemitério e ouviram um grito vindo do megafone e um berro de resposta. Então:

"Xerifes! Se vocês estão aí, dêem algum sinal para nós. Aqui é o diretor-adjunto McPherson. Xerifes!"

Teddy disse: "O que acha disso? Eles nos encontraram".

"Isto aqui é uma ilha, chefe. Sempre nos encontrarão."

Teddy cruzou o olhar com o de Chuck e balançou a cabeça. Pela primeira vez desde que se conheceram, viu uma expressão de medo nos olhos de Chuck, que tentava se controlar pressionando a mandíbula.

"Vai dar tudo certo, parceiro."

"Xerifes! Vocês estão aí?"

"Não sei, não", disse Chuck.

"Eu sei", disse Teddy, embora não soubesse. "Vai por mim. Vamos sair desta merda de lugar, Chuck. Pode ter certeza."

Os dois seguiram em direção ao cemitério. O vento fustigava os corpos como toda uma linha de atacantes, mas os xerifes conseguiram se manter de pé e, ombro a ombro, de braços dados, avançaram cambaleantes em direção à luz.

 

"Puta que o pariu, vocês estão loucos?"

Era McPherson gritando em meio à ventania, enquanto o jipe avançava sacolejando por um arremedo de estrada, que contornava o lado oeste do cemitério.

Sentado no banco do passageiro, McPherson voltava a cabeça e fixava os olhos injetados nos dois policiais, e todo o seu charme de rapaz texano parecia ter sido carregado pela tempestade. O motorista não tinha sido apresentado a eles. Era um rapaz de rosto fino e queixo pontudo, foi só o que Teddy pôde ver sob o capuz da capa de chuva. Mas dirigia o jipe como um profissional, avançando por entre moitas e destroços espalhados pela tempestade como se não existissem.

"O que era uma tempestade tropical transformou-se num furacão. A esta altura os ventos já devem estar a uns cento e sessenta quilômetros por hora. À meia-noite, provavelmente atingirão os duzentos e cinqüenta. E vocês resolvem passear por aí?"

"Como soube disso?", perguntou Teddy.

"Pelo radioamador, xerife. E logo ficaremos sem esse recurso também."

"Sem dúvida", disse Teddy.

"Poderíamos estar reforçando as defesas do edifício, mas, em vez disso, estávamos procurando por vocês." Ele bateu com a mão no encosto do banco, encerrando a conversa.

O jipe saltou uma elevação do terreno; por um instante Teddy vislumbrou apenas o céu, e não sentiu nada sob os pneus. Por fim os pneus encontraram novamente terra firme, o motorista fez uma curva fechada em descida abrupta, e Teddy viu o mar coalhado de turbilhões brancos que se expandiam como cogumelos atômicos.

O jipe continuou avançando por entre uma sucessão de colinas e terminou desembocando num pequeno bosque. Agarrados aos bancos, Teddy e Chuck sacolejavam na traseira do veículo. De repente as árvores tinham ficado para trás, e eles se viram perto dos fundos da mansão de Cawley, atravessando um trecho de terreno coberto de palha e de agulhas de pinheiro, para finalmente chegarem à estrada de acesso, quando então o chofer aumentou a velocidade e avançou em direção ao portão principal.

"Estamos levando vocês para conversarem com o doutor Cawley", disse McPherson, voltando a cabeça para encará-los. "Ele está ansioso para conversar com os dois."

"E eu que pensava que minha mãe tinha ficado em Seattle", comentou Chuck.

 

Depois de tomarem banho no pavimento abaixo do dormitório dos funcionários, deram-lhes roupas do armário dos serventes. As que estavam molhadas foram enviadas à lavanderia do hospital. Chuck penteou os cabelos no banheiro, contemplou a camisa e a calça brancas e comentou-. "Gostaria de ver a nossa carta de vinhos, cavalheiro? Esta noite sugerimos filé Wellington. Está excelente".

Trey Washington enfiou a cabeça no banheiro. Parecia conter um sorriso quando elogiou os novos trajes dos xerifes, ao que acrescentou: "Vou levá-los ao doutor Cawley".

"Estamos muito encrencados?"

"Acho que um pouco."

 

"Senhores", disse Cawley quando entraram na sala. "É um prazer revê-los."

Com os olhos brilhantes, ele parecia estar de excelente humor. Teddy e Chuck deixaram Trey à porta e entraram numa sala de reuniões no último andar do hospital. A sala estava cheia de médicos, alguns de jaleco, outros trajando terno, sentados em volta de uma comprida mesa de teca. Em frente das suas cadeiras, havia lâmpadas com abajures verdes e cinzeiros pretos transbordantes de pontas de cigarro e de charuto. Naehring, sentado à cabeceira, era o único que fumava cachimbo.

"Doutores, estes são Daniels e Aule, os xerifes sobre os quais conversamos."

"Onde estão as suas roupas?", perguntou um deles.

"Boa pergunta", disse Cawley, num tom de quem estava se divertindo a valer, ou pelo menos foi essa a impressão que deu a Teddy.

"Estávamos lá fora, na tempestade", disse Teddy.

"Enfrentando um tempo desses?", disse o médico apontando para as janelas altas. Cobertas de fitas adesivas, pareciam respirar docemente, como a soprar de leve na sala. A chuva tamborilava nas vidraças, e todo o edifício rangia sob a pressão do vento.

"Pois é", disse Chuck.

"Queiram sentar-se, senhores", disse Naehring. "Estamos terminando."

Os xerifes se sentaram na extremidade da mesa.

"John", disse Naehring a Cawley, "precisamos de um consenso nessa questão."

"Você sabe a minha opinião."

"E acho que todos a respeitamos, mas, se os neurolépticos são capazes de provocar o necessário equilíbrio dos níveis de serotonina, então não temos escolha. Precisamos continuar a pesquisa. Essa primeira paciente a ser testada, essa... ahn... Doris Walsh satisfaz a todos os critérios. Não sei qual é o problema."

"O que me preocupa é o preço a pagar."

"Muito menor que o de uma cirurgia, e você sabe disso."

"Estou me referindo aos riscos de causar danos no gânglio basal e no córtex cerebral. Os primeiros estudos, realizados na Europa, demonstraram que há risco de se iniciarem disfunções neurológicas semelhantes às provocadas pelas encefalites e pelos derrames cerebrais."

Com um gesto, Naehring rejeitou as objeções. "Os que estiverem a favor da petição do doutor Brotigan, por favor, levantem as mãos."

Teddy observou todas as mãos se levantarem, exceto a de Cawley e uma outra.

"Bem, parece-me que há um consenso", disse Naehring. "Vamos pedir ao conselho administrativo que financie as pesquisas do doutor Brotigan."

Um homem jovem, provavelmente Brotigan, fez um movimento de cabeça para um e para outro extremo da mesa, em sinal de agradecimento. De maxila quadrada, faces lisas, tratava-se do americano típico. Teddy achou que era o tipo do sujeito que precisa ser vigiado, pois parecia por demais seguro de ser a concretização plena dos mais loucos sonhos dos pais.

"Bem, então", disse Naehring fechando o manual à sua frente e voltando o olhar para Teddy e Chuck, na ponta da mesa, "como vão as coisas, xerifes?"

Cawley levantou-se da cadeira e se aproximou do apa-rador para colocar café na sua xícara. "Corre o boato de que os dois foram encontrados num mausoléu."

Houve vários risinhos à mesa, os médicos levaram a mão à boca para disfarçar.

"E existe melhor lugar para se proteger de um furacão?", disse Chuck.

Cawley disse: "Aqui. De preferência no porão".

"Ouvimos dizer que os ventos vão atingir a velocidade de duzentos e quarenta quilômetros por hora."

De costa para os interlocutores, Cawley confirmou com um gesto de cabeça. "Esta manhã, em Newport, Rhode Is-land, trinta por cento das residências desabaram."

Chuck disse: "Mas não a dos Vanderbilt, espero".

Cawley sentou-se. "Provincetown e Truro foram atingidas esta tarde. Ninguém sabe a extensão dos prejuízos porque as estradas estão bloqueadas e as comunicações também. Mas parece que o furacão está vindo em nossa direção."

"É o pior cataclismo a atingir a costa leste nos últimos trinta anos", disse um dos médicos.

"O ar fica saturado de eletricidade estática", disse Caw-ley. "Por isso a mesa telefônica pifou ontem à noite e os rádios estão funcionando precariamente. Eu me pergunto o que vai sobrar se o furacão nos atingir em cheio ."

"Por isso", disse Naehring, "insisto em tomar medidas de contenção em relação a todos os pacientes da Zona Azul."

"Zona Azul?", disse Teddy.

"O pavilhão C", disse Cawley. "Os pacientes considerados um perigo para si mesmos, para esta instituição e para o público em geral." Voltou-se para Naehring. "Não podemos fazer isso. Se esse estabelecimento for inundado, eles morrerão afogados. Você sabe disso."

"Seria preciso um bocado de água."

"Estamos em pleno oceano. Logo seremos atingidos por ventos à velocidade de duzentos e quarenta quilômetros por hora. Nessas condições é bem possível que haja 'um bocado de água'. Vamos dobrar a quantidade de guardas para vigiar permanentemente os pacientes. Sem exceção. Mas não podemos amarrá-los nas camas. Pelo amor de Deus, já estão presos em celas. Seria excessivo."

"É uma aposta, John." Esse comentário partiu de um homem de meia-idade, de cabelos castanhos, que estava no meio da mesa. Ele fora o único, além de Cawley, a se abster de votar na proposta que estava sendo discutida quando Teddy e Chuck entraram na sala. Com os olhos fixos no tampo da mesa, não parava de colocar para dentro e para fora a ponta da sua caneta esferográfica; mesmo assim, pelo tom de voz dele, Teddy percebeu que era amigo de Cawley. "É realmente uma aposta. Vamos dizer que falte energia elétrica."

"Podemos contar com um gerador em caso de emergência."

"E se ele falhar também? As celas vão se abrir."

"Isto aqui é uma ilha", disse Cawley. "Para onde se pode ir? Não podem pegar um barco, correr para Boston e causar uma devastação. Se estiverem manietados e este prédio for inundado, senhores, todos morrerão. São vinte e quatro seres humanos. Se, Deus nos livre, acontecer alguma coisa no hospital? Aos outros quarenta e dois pacientes? Por Deus, conseguiriam conviver com um peso desses na consciência? Eu não."

Cawley olhou para os dois lados da mesa, e de repente Teddy percebeu nele uma capacidade de compaixão que não notara antes. Não sabia por que Cawley havia permitido que eles assistissem àquela reunião, mas começava a achar que o homem não tinha muitos amigos nessa sala.

"Doutor", disse Teddy, "não quero interromper..."

"De modo algum, xerife. Fomos nós que o trouxemos aqui."

Teddy quase disse: "Está falando sério?".

"Quando conversamos esta manhã sobre o código de Rachel Solando..."

"Todo mundo sabe do que o xerife está falando?"

"Da Lei dos Quatro", disse Brotigan com um sorriso que Teddy teria prazer em apagar com uma chave inglesa. "Adoro isso."

"Quem é sessenta e sete?', disse Naehring. "Não é isso?"

Teddy aquiesceu e recostou-se na cadeira, esperando.

Mas, em todos os olhares que se voltaram para ele, havia apenas perplexidade.

"Não estão vendo? Francamente!", disse Teddy.

"Vendo o quê, xerife?", falou o amigo de Cawley. Teddy lançou um olhar ao jaleco dele e descobriu que o seu nome era Miller.

"Há sessenta e seis pacientes aqui."

Todos olharam para ele como, num aniversário, crianças esperam o novo truque do mágico.

"Quarenta e dois pacientes nos pavilhões A e B. Vinte e quatro no pavilhão C. A soma dá sessenta e seis."

Teddy pôde perceber que alguns começavam a entender, mas a maioria ainda estava perplexa.

"Sessenta e seis pacientes", disse Teddy. "Isso parece indicar que a resposta a 'Quem é sessenta e sete?' é que aqui há um sexagésimo sétimo paciente."

Silêncio. Vários médicos trocaram olhares por cima da mesa.

"Não estou entendendo", disse Naehring finalmente.

"Não está entendendo o quê? Rachel Solando sugere que há um sexagésimo sétimo paciente."

"Mas não há", disse Cawley, com as mãos imóveis à sua frente, na mesa. "É uma grande idéia, xerife, e com certeza decifraria o código, se correspondesse à verdade. Mas dois mais dois nunca são cinco, mesmo que a gente queira. Como só existem sessenta e seis pacientes na ilha, a questão referente ao sexagésimo sétimo paciente não tem sentido. Entende o que quero dizer?"

"Não", disse Teddy, esforçando-se para controlar o tom de voz. "Discordo totalmente nesse ponto."

Antes de responder, Cawley deu a impressão de estar escolhendo as palavras com todo o cuidado, optando pelas mais simples. "Se, digamos, esse furacão não estivesse vindo na nossa direção, teríamos recebido mais dois pacientes esta manhã, e teríamos um total de sessenta e oito. Se, Deus nos livre, um paciente tivesse morrido à noite, durante o sono, teríamos um total de sessenta e cinco. O total pode mudar de um dia para o outro, de uma semana para a outra, de acordo com as circunstâncias."

"Mas", disse Teddy, "na noite em que a senhorita Solando escreveu a mensagem..."

"Havia sessenta e seis, contando com ela. Isso eu lhe garanto, xerife. Mas ainda falta um, não é? Xerife, está tentando achar pelo em ovo."

"Mas era isso o que ela queria dizer."

"Imagino que sim. Mas a senhorita Solando estava enganada. Não há um sexagésimo sétimo paciente aqui."

"Permitiria que eu e meu parceiro examinássemos os prontuários dos pacientes?"

Isso provocou uma rodada de caras feias e olhares ofendidos em toda a mesa.

"De jeito nenhum", disse Naehring.

"Sinto muito, xerife, mas não podemos permitir isso."

Teddy abaixou a cabeça por um instante e lançou um olhar às próprias roupas, consciente do ridículo da calça e da camisa branca que usava. Parecia um vendedor de picolé. E com a mesma autoridade. Talvez devesse servir bolas de sorvete aos presentes, para tentar conseguir persuadi-los.

"Não podemos ter acesso aos arquivos do staff. Não podemos ter acesso aos prontuários dos pacientes. Como os senhores acham que podemos descobrir a paciente desaparecida?"

Naehring recostou-se na cadeira e inclinou a cabeça para o lado.

O braço de Cawley estacou no ar, deixando um cigarro a meio caminho dos lábios.

Muitos médicos cochicharam entre si.

Teddy olhou para Chuck.

Chuck sussurrou: "Não me olhe desse jeito. Estou desconcertado".

Cawley disse: "O diretor não lhes contou?".

"Ainda não falamos com o diretor. Foi McPherson quem nos resgatou."

"Oh", disse Cawley. "Meu Deus."

"O quê?"

Cawley passeou os olhos arregalados à sua volta, encarando os colegas.

"O quê?", repetiu Teddy.

Cawley soprou ruidosamente e olhou para os xerifes.

"Nós a encontramos."

"Vocês o que?"

Cawley balançou a cabeça e deu uma tragada no cigarro. "Rachel Solando. Nós a encontramos esta tarde. Ela está aqui, senhores. Do outro lado daquela porta, no fundo do corredor."

Teddy e Chuck voltaram a cabeça maquinalmente e olharam para a porta.

"Agora podem ficar descansados, xerifes. A investigação acabou."

 

Cawley e Naehring os acompanharam ao longo de um corredor de ladrilhos em preto e branco, atravessaram uma série de portas duplas e entraram no principal pavilhão do hospital. Passaram em seguida pela sala das enfermeiras, à esquerda, dobraram à direita e entraram num salão iluminado por compridas lâmpadas fluorescentes e dividido em boxes marcados por cortinas que pendiam de ganchos em forma de U. E lá estava ela, sentada numa cama, usando uma bata verde-clara cuja barra ficava pouco acima dos joelhos, com os cabelos negros recém-lava-dos e penteados para trás.

"Rachel", disse Cawley. "Viemos aqui com uns amigos. Espero que você não se incomode."

Ela alisou a barra da bata sob as coxas e olhou para Teddy e Chuck com o ar esperançoso de uma criança.

Não havia a menor marca de fuga no seu corpo.

Sua pele tinha a cor de arenito. O rosto, os braços e as pernas estavam imaculados. Os pés estavam nus, e sua pele não tinha nenhum arranhão, nenhum sinal de lesões provocadas por galhos, espinhos ou pedras.

"Em que posso ajudá-lo?", perguntou ela a Teddy.

"Senhorita Solando, viemos aqui para..."

"Vender alguma coisa?"

"Como?"

"Espero que não tenham vindo aqui para vender alguma coisa. Não quero ser grosseira, mas o meu marido é quem decide esses assuntos."

"Não, senhora. Não estamos aqui para vender nada."

"Ótimo, então. Em que posso ajudá-lo?"

"Pode me dizer onde estava ontem?"

"Estava aqui. Em casa." Voltou-se para Cawley. "Quem são esses homens?"

Cawley disse: "São da polícia, Rachel".

"Aconteceu alguma coisa com Jim?"

"Não", disse Cawley. "Não, não. Jim está bem."

"São as crianças, então?" Olhou em volta. "Elas estão brincando no jardim. Não fizeram nada de errado, fizeram?"

Teddy disse: "Não, senhorita Solando, não. Não há nenhum problema com os seus filhos. O seu marido está bem". Trocou um olhar com Cawley, e este balançou a cabeça em sinal de aprovação. "Nós apenas... hum... ouvimos dizer que havia um subversivo por aqui ontem. Foi visto na sua rua, distribuindo panfletos comunistas."

"Oh, Deus, não. Para as crianças?"

"Até onde sei, não."

"Mas neste bairro? Na nossa rua?"

Teddy disse: "Temo que sim, minha senhora. Espero que possa nos dizer por onde andou ontem, para sabermos se por acaso passou pelo cavalheiro em questão".

"Você está me acusando de ser comunista?" Ela levantou o corpo dos travesseiros, agarrando o lençol com as mãos crispadas.

Cawley lançou um olhar a Teddy como se dissesse: "Você entrou na enrascada, agora trate de sair".

"Comunista? A senhora? Quem seria louco de pensar uma coisa dessas? A senhora é tão americana quanto Betty Grable. Só um cego não veria isso."

Ela tirou uma das mãos do lençol e friccionou o joelho. "Mas não me pareço com Betty Grable."

"Só no seu patriotismo. Não, eu diria que a senhora se parece mais com Teresa Wright. Qual foi mesmo o filme que ela fez com Joseph Cotton, há uns dez, doze anos?"

"A sombra de uma dúvida. Ouvi falar desse", ela respondeu com um sorriso ao mesmo tempo gracioso e sensual. "Jim lutou nessa guerra. Ao voltar para casa, disse que o mundo então estava livre porque os americanos lutaram para isso e o mundo inteiro percebeu que o estilo de vida americano era o único válido."

"Amém", disse Teddy. "Também lutei nessa guerra."

"Você conheceu o meu Jim?"

"Acho que não, senhora. Mas tenho certeza de que é um homem decente. Ele era do Exército?"

"Não, era fuzileiro naval."

"Semper fi..."[5] disse Teddy. "Senhorita Solando, é importante saber tudo o que esse subversivo fez ontem. É bem possível que não o tenha visto. O sujeito é meio furtivo. Por isso precisamos saber o que a senhorita fez ontem para confrontar com o que sabemos e verificar se cruzou com o sujeito sem saber."

"Como navios no meio da noite?"

"Exatamente. Você entende, não é?"

"Ah, sim." Ela se sentou na cama, dobrou as pernas sob o corpo, e Teddy sentiu um arrepio no baixo-ventre.

"Se é assim, pode me dizer o que fez ontem?", ele disse.

"Bom, vamos ver. Preparei o café da manhã para Jim e para as crianças, embrulhei o almoço de Jim, que foi trabalhar; mandei as crianças para a escola e resolvi ir nadar no lago."

"Costuma fazer isso?"

"Não", disse Rachel inclinando-se para a frente e rindo, como se ele tivesse feito a pergunta para flertar com ela. "Eu simplesmente... não sei, estava querendo flanar um pouco. Já teve essa sensação? Vontade de vagabundear?"

"Claro."

"Bem, era isso o que estava sentindo. Então tirei toda a roupa e fiquei nadando no lago até sentir as pernas como toros de madeira, muito pesadas. Aí saí da água, enxuguei-me, vesti as roupas novamente e fiz uma longa caminhada à beira do lago. Pulei algumas pedras, construí vários castelinhos de areia. Bem pequenos."

"Lembra quantos?", perguntou Teddy, sentindo que Cawley o estava observando.

Ela pensou um pouco, com os olhos voltados para o teto. "Sim."

"Quantos?"

"Treze."

"São muitos."

"Alguns eram bem pequenos", disse. "Do tamanho de uma xícara."

"E o que fez depois?"

"Fiquei pensando em você", ela disse.

Teddy viu Naehring lançar um olhar a Cawley, do outro lado da cama. Teddy cruzou o olhar com o de Naehring, e este levantou as mãos, tão surpreso quanto todos os demais.

"Por que em mim?"

O sorriso dela expôs duas fileiras de dentes brancos, entre as quais emergia a pontinha da língua avermelhada. "Porque você é o meu Jim, seu bobo. Você é o meu soldado." Ela se pôs de joelhos na cama, estendeu o braço, segurou a mão de Teddy entre as suas, acariciando-a. "Tão áspera. Amo os seus calos. Gosto de senti-los contra a minha pele. Sinto falta de você, Jim. Você nunca está em casa."

"Trabalho muito", disse Teddy.

"Sente-se", disse ela puxando-lhe o braço.

Cawley encorajou-o com um olhar, e Teddy deixou-se puxar para a cama, sentando-se ao lado dela. A expressão de espanto que ele vira na fotografia desaparecera, pelo menos temporariamente, e era impossível, assim, tão de perto, não perceber quão bonita ela era. Rachel dava uma impressão de fluidez — os grandes olhos escuros brilhavam em um olhar claro como água, os seus movimentos eram de tal languidez que ela parecia nadar no ar, as cur vas suaves dos lábios e do queixo lembravam um fruto sumarento.

"Você trabalha demais", disse ela aproximando os dedos do pescoço de Teddy como para alisar-lhe o nó da gravata.

"Preciso trazer pra casa o pão das crianças", disse Teddy.

"Oh, estamos bem", disse ela, e Teddy sentiu o hálito de Rachel no pescoço. "Temos o suficiente."

"Por agora", disse Teddy. "Mas é preciso pensar no futuro."

"Nunca penso nisso. Lembra o que papai costumava dizer?"

"Esqueci."

Ela acariciou-lhe os cabelos das têmporas. '"O futuro é uma coisa que a gente compra a crédito', dizia. 'Prefiro pagar à vista.'" Ela deu um risinho, aproximou o corpo do de Teddy, que sentiu os seios dela roçarem os seus ombros por trás. "Não, meu querido, precisamos viver o dia de hoje. O aqui e agora."

Essa era uma expressão que Dolores também usava. E os lábios e cabelos da senhora Solando eram a tal ponto parecidos com os dela que, se o rosto de Rachel se aproximasse um pouco mais, ele poderia confundi-la com a sua mulher, pois ambas tinham a mesma sensualidade vibrante — e Teddy nunca soube ao certo, sobretudo depois de anos de convivência, se a sua esposa tinha consciência desse poder.

Ele tentou lembrar do que deveria perguntar a ela. Sabia que era preciso trazê-la de volta ao que interessava. Fazê-la falar sobre o dia anterior, isto é, sobre o que fizera depois de andar pela beira do lago e de construir castelos.

"O que você fez depois do passeio no lago?", ele disse.

"Você sabe o que fiz."

"Não."

"Oh, você quer me ouvir contar, não é?"

Ela se inclinou de forma que o seu rosto ficou um pouco abaixo do dele, com os olhos negros fitando os de Teddy. Ele sentiu o hálito de Rachel insinuar-se entre os lábios.

"Você não se lembra?"

"Não."

"Mentiroso."

"Estou falando sério."

"Não está. Se você esqueceu isso, James Solando, pode esperar complicações."

"Então me conte", sussurrou Teddy.

"Você só quer me ouvir contar."

"Só quero ouvir você contar."

Ela passou a mão pela maçã do rosto de Teddy, deslizou-a pelo queixo, e, quando recomeçou a falar, a voz estava mais rouca:

"Voltei para casa ainda molhada, e você me enxugou com a língua."

Teddy colocou as mãos no rosto dela para que Rachel não aproximasse ainda mais o seu rosto do dele. Os dedos de Teddy deslizaram pelas têmporas de Rachel, os polega-res roçaram mechas de cabelo ainda úmidas, e ele a fitou nos olhos.

"Conte-me o que mais você fez ontem", ele sussurrou, e viu os olhos límpidos dela se toldarem. Aquilo era medo, não havia dúvida. Gotas de suor surgiram no lábio superior e entre as sobrancelhas. Ele sentia os tremores no corpo da mulher.

Rachel escrutou-lhe o rosto, e os olhos dela foram se arregalando e começaram a se agitar de um lado para o outro nas órbitas.

"Enterrei você", ela disse.

"Não, pois estou aqui."

"Enterrei você. Num caixão vazio porque o seu corpo explodiu sobre o Atlântico Norte. Enterrei suas placas de identificação, porque foi só isso o que acharam. O seu corpo, o seu lindo corpo, foi queimado e comido pelos tubarões."

"Rachel", disse Cawley.

"Feito carne", ela disse.

"Não", disse Teddy.

"Como carne queimada, passada do ponto."

"Não, não fui eu."

"Mataram Jim. O meu Jim morreu. Então quem é você, ora essa?"

Ela se soltou das mãos dele e engatinhou pela cama até a parede; depois se voltou a fim de olhar para ele.

"Quem diabos é essa figura?" Apontou para Teddy e cuspiu nele.

Teddy se sentia paralisado. Só tinha olhos para a mulher, para a raiva que lhe enchia os olhos como uma vaga.

"Você queria foder comigo, marujo? É isso? Enfiar o seu pau dentro de mim enquanto os meus filhos brincam no jardim? Era isso o que pretendia? Fora daqui! Está me ouvindo? Dê o fora daqui..."

Ela se lançou sobre ele, com uma das mãos na cabeça, e Teddy pulou da cama. Dois serventes correram, passaram por trás dele com grossas correias enfiadas nos ombros. Agarraram Rachel pelos braços e a obrigaram a deitar na cama.

Teddy sentia tremores no corpo, o suor escorrendo dos poros, e ouvia a voz de Rachel ressoando por todo o pavilhão:

"Seu estuprador! Desgraçado e cruel estuprador! O meu marido vai voltar e cortar a sua garganta, está ouvindo? Vai cortar a porra dessa cabeça, e vamos beber o seu sangue! Vamos tomar banho nele, desgraçado, filho da puta!"

Um servente sentou-se no peito dela enquanto o outro agarrava-lhe os tornozelos com a mãozorra; passaram as correias pelas fendas abertas nas grades da cama, passaram-nas sobre o peito e os tornozelos de Rachel, depois pelas fendas do outro lado, esticaram-nas bem e prenderam-nas com fivelas, que fizeram um barulho seco ao se fecharem. Finalmente, os homens recuaram.

"Rachel", disse Cawley num tom suave, paternal.

"Vocês todos são estupradores desgraçados. Onde estão os meus bebês? Onde estão os meus bebês? Devolvam os meus bebês, bando de filhos da puta doentes! Devolvam os meus bebês!"

Ela soltou um grito que varou a espinha de Teddy como uma bala, depois levantou o corpo do colchão com tanta força que as correias rangeram. Cawley comentou: "Mais tarde viremos vê-la, Rachel".

Ela cuspiu nele, e Teddy ouviu o barulho da saliva caindo no chão. Rachel gritou novamente, e havia sangue em um dos lábios; com certeza ela o mordera, pensou. Cawley fez um sinal para que os outros o seguissem. Quando Teddy se voltou pela última vez, viu Rachel olhando para ele, fitando-o nos olhos e tentando levantar os ombros do colchão, os tendões do pescoço saltados, os lábios com uma mistura de sangue e saliva. Ela gritava como se todos os mortos do século estivessem pulando a janela e se aproximando da cama.

 

Havia um bar no escritório de Cawley. O médico se dirigiu para lá assim que entrou na sala; dobrou à direita, e Teddy o perdeu de vista por um instante, como se Cawley tivesse desaparecido por trás de uma cortina de gaze branca. Teddy pensou:

Não, agora não. Agora não, pelo amor de Deus.

"Onde vocês a encontraram?", disse Teddy.

"Na praia, perto do farol. Jogando pedras no mar."

Cawley retornou ao campo de visão do xerife, mas só porque Teddy virou a cabeça para a esquerda, enquanto o outro continuava à direita. Quando girou mais um pouco a cabeça, a cortina de gaze cobriu primeiro a estante embutida na parede, depois a janela. Teddy esfregou o olho direito, esperando estar enganado apesar de tudo, mas o gesto de nada adiantou, e então ele o sentiu do lado esquerdo da cabeça: um canyon cheio de lava incandescente atravessou o seu crânio logo abaixo da risca do cabelo. Supôs que se tratava do efeito dos gritos de Rachel, do barulho terrível, mas era mais que isso, e a dor irrompia como se um monte de punhais penetrasse lentamente o crânio. Teddy recuou e levou a mão à têmpora.

"Xerife?" Ele levantou os olhos e viu Cawley do outro lado da escrivaninha, uma forma indistinta à sua esquerda.

"Sim?", Teddy conseguiu finalmente dizer.

"Você está com uma palidez mortal."

"Está se sentindo bem, chefe?", disse Chuck, que acabara de aparecer ao seu lado.

"Estou bem", disse Teddy. Quando Cawley recolocou o copo de uísque sobre a escrivaninha, o barulho soou aos ouvidos de Teddy como um tiro.

"Sente-se", disse Cawley.

"Estou bem", disse Teddy, mas as palavras traçaram um caminho de fogo entre o cérebro e a língua.

Os ossos de Cawley estalaram como madeira queimando, e ele se debruçou sobre a escrivaninha, na frente de Teddy. "Enxaqueca?"

Teddy tentou ver o borrão à sua frente. Queria responder à pergunta com um gesto de cabeça, mas a experiência lhe ensinara que nunca se movimenta a cabeça nesses casos. "Sim", disse finalmente.

"Dá pra notar, pela forma como você esfrega a têmpora."

"Oh."

"Costuma ter enxaquecas?"

"Uma meia dúzia..." A boca de Teddy secou, e ele levou alguns segundos para conseguir umedecer um pouco a língua. "... de vezes por ano."

"Até que tem sorte", disse Cawley, "pelo menos em um aspecto."

"Como assim?"

"Muita gente que sofre de enxaquecas tem essas crises mais ou menos uma vez por semana." O seu corpo fez novamente um barulho de madeira queimando ao dar a volta à mesa, e Teddy ouviu-o abrir um armário.

"O que está sentindo?", perguntou a Teddy. "Perda parcial da visão, boca seca, cabeça em fogo?"

"Isso mesmo."

"Faz muitos anos que estudamos o cérebro, e ninguém até hoje tem idéia da causa da enxaqueca. Dá pra acreditar nisso? Sabemos que normalmente ela ataca o lobo parietal e provoca um espessamento do sangue. Em si mesmo, o fenômeno mal se pode perceber, mas, tratando-se de um órgão delicado e pequeno como o cérebro, o efeito se torna explosivo. Apesar de todos os estudos feitos ao longo dos anos, não sabemos mais sobre a causa da enxaqueca, ou sobre os seus efeitos a longo prazo, do que sabemos sobre uma simples gripe."

Cawley lhe passou um copo d'água e colocou duas pílulas amarelas na mão de Teddy. "Essas devem dar conta do recado. Vão deixar você derrubado por uma hora ou duas, mas, quando se levantar, vai estar bem. Vai se sentir como novo."

Teddy abaixou os olhos para as pílulas amarelas e para o copo d'água, que segurava sem muita firmeza.

Olhou para Cawley, tentando concentrar-se com o olho são, porque o homem estava banhado numa luz extremamente branca e crua, que parecia se irradiar dos seus ombros e braços.

Faça o que fizer, Teddy ouviu uma voz em sua cabeça...

Dedos com unhas afiadas dilaceravam o lado esquerdo do seu crânio, para em seguida lhe enfiar um punhado de percevejos. Teddy assobiou e sugou o ar por entre os dentes cerrados.

"Meu Deus, chefe."

"Ele vai melhorar, xerife."

A voz soou novamente: Faça o que fizer, Teddy...

Alguém enfiou uma barra de metal no meio dos percevejos, Teddy apertou as costas da mão contra o olho são. As lágrimas começaram a brotar, e ele sentiu náuseas.

... mas não tome essas pílulas.

A náusea aumentou e deslocou-se em direção ao quadril direito, ao mesmo tempo que chamas vinham lamber as bordas da fissura na sua cabeça. Se as coisas piorassem, pensou Teddy, acabaria mordendo a própria língua.

Não engula as porras dessas pílulas, a voz gritava, percorrendo o canyon em brasa, agitando uma bandeira, reunindo as tropas.

Teddy abaixou a cabeça e vomitou no assoalho.

"Chefe, chefe. Você está bem?"

"Ora, ora", disse Cawley. "A coisa é séria."

Teddy levantou a cabeça.

Não...

As faces estavam banhadas em lágrimas.

... tome...

Alguém havia enfiado uma lâmina no canyon.

... essas...

A lâmina começou um lento movimento de vaivém.

... pílulas.

Teddy cerrou os dentes quando o estômago se contraiu mais uma vez. Tentou se concentrar no copo na sua mão, notou algo estranho no polegar e entendeu que a enxaqueca estava pregando peças na sua percepção.

nãotomeessaspílulas.

A lâmina continuou a atacar as dobras róseas do cérebro dele, e Teddy precisou se conter para não gritar, enquanto os urros de Rachel rivalizavam em intensidade com o bramido do fogo na sua cabeça. Ele a reviu quando ela o olhara nos olhos, e teve a sensação de que o hálito dela roçava-lhe os lábios enquanto tomava seu rosto entre as mãos, acariciando-lhe as têmporas com os polegares — e aquela desgraçada lâmina não parava de ir e vir...

nãotomeasporrasdessaspílulas.

... e ele levou a mão à boca, mandou as pílulas para o fundo da garganta e tomou um gole d'água para fazê-las descer pelo esôfago, depois esvaziou o copo.

"Ainda vai me agradecer, xerife", disse Cawley.

Chuck reapareceu ao lado de Teddy, passou-lhe um lenço, com o qual Teddy enxugou a testa, depois a boca, jogando-o em seguida no chão.

Cawley disse: "Ajude-me, xerife".

Levantaram Teddy da cadeira e giraram o corpo dele de forma a ficar de frente para uma porta preta.

"Não conte a ninguém", disse Cawley, "mas essa porta dá para uma sala onde tiro uma soneca de vez em quando. Bem, certo, uma vez por dia. Vamos colocá-lo aí, xerife, e você vai dormir até ficar bom. Daqui a duas horas vai estar novinho em folha."

Teddy viu as próprias mãos pendentes dos ombros. Aquilo era engraçado — as mãos balançando daquele jeito, na altura do esterno. E ambos os polegares eram vistos com a mesma distorção, por causa da ilusão de ótica. Que diabo era aquilo? Desejou poder se coçar, mas então Cawley estava abrindo a porta, e Teddy deu uma última olhada nas manchas pretas nos polegares.

Manchas pretas.

Cera de sapato, pensou enquanto o levavam para dentro do quarto escuro.

Como diabos essa cera veio parar nos meus polegares?

 

Foram os piores sonhos da sua vida.

Começaram com Teddy andando pelas ruas de Hull, ruas que ele palmilhara inúmeras vezes desde criança até a idade adulta. Ele passou pelo prédio da velha escola, pela porta da velha mercearia onde outrora comprava chicletes e milk-shakes, pela casa dos Dickerson, de Pakaski, dos Murray, dos Boyd, dos Vernon e dos Constantine. Sem encontrar vivalma. Não havia ninguém em lugar nenhum. A cidade inteira estava vazia. Num silêncio mortal. Teddy não ouvia nem o barulho do mar ali próximo, ainda que em Hull se pudesse ouvi-lo em toda parte.

Era terrível ver a cidade totalmente deserta. Ele se sentou no quebra-mar da Ocean Avenue, com os olhos voltados para a praia; entretanto, por mais que esperasse, não aparecia ninguém. Estão todos mortos, pensou, há muito tempo mortos, desaparecidos. Teddy era um fantasma, que voltara depois de muitos séculos àquela cidade-fantasma. Ela não existia mais. Ele também não. Nada mais existia.

Em seguida viu-se num imenso saguão de mármore, cheio de gente, com macas, bolsas de sangue, e logo ele se sentiu bem. Fosse lá o que fosse aquilo, não estava só. Três crianças — dois meninos e uma menina — passaram por ele. Os três usavam jaleco, e a garota estava com medo. Ela agarrou com força as mãos dos irmãos e disse: "Ela está aqui. Está aqui. Vai nos achar".

Andrew Laeddis inclinou-se em direção a Teddy e acendeu-lhe o cigarro. "Ei, nada de ressentimentos, meu velho."

Laeddis era um triste espécime da raça humana — o corpo dele parecia uma corda retorcida, tinha cabeça comprida, seu queixo saliente era duas vezes maior que um de tamanho normal, seus dentes pareciam deformados, havia tufos de cabelos loiros num crânio rosado, cheio de crostas —, mas Teddy se alegrou ao vê-lo. Laeddis era a única pessoa que conhecia naquela sala.

"Dê uma garrafa para mim", disse Laeddis, "que lhe dou um papelote." Piscou o olho para Teddy, bateu nas costas dele e se transformou em Chuck, e essa mudança parecia perfeitamente natural.

"Precisamos ir embora", disse Chuck. "O tempo urge, meu amigo."

Teddy disse: "Minha cidade está deserta. Todo mundo sumiu".

E se pôs a correr porque lá ia Rachel Solando, aos berros, atravessando em velocidade o salão de baile, brandindo uma faca. Antes que ele conseguisse alcançá-la, ela agarrou os três filhos, e a faca subia e descia, subia e descia, enquanto Teddy olhava paralisado, estranhamente fascinado, ciente de que àquela altura nada poderia fazer, pois as crianças estavam mortas.

Rachel levantou os olhos para ele. Com o rosto e o pescoço salpicados de sangue, ela disse: "Ajude-me".

Teddy falou: "O quê? Isso pode me trazer problemas".

Rachel disse: "Ajude-me e serei Dolores. Serei a sua mulher. Ela vai voltar para você".

Então Teddy respondeu "claro", e a ajudou. Deram um jeito de pegar as três crianças ao mesmo tempo, passaram pela porta de trás, desceram até o lago e as levaram para a água. Com toda a delicadeza, colocaram as crianças na água, e elas afundaram. Um dos meninos emergiu, agitando uma das mãos, e Rachel disse: "Tudo bem, ele não sabe nadar".

Permaneceram à beira do lago, olhando o menino afundar. Rachel passou o braço na cintura de Teddy e disse: "Você será o meu Jim. Serei a sua Dolores. Vamos ter outros bebês".

Essa parecia uma solução bastante razoável, e Teddy se perguntou por que não pensara nela antes.

Seguiu-a de volta a Ashecliffe. Encontraram-se com Chuck, e os três avançaram por um longo corredor, que se estendia por mais de um quilômetro e meio. Teddy disse a Chuck: "Ela está me levando para Dolores. Vou para casa, meu velho".

"Que ótimo!", disse Chuck. "Fico feliz. Nunca vou sair desta ilha."

"Não?"

"Não, mas tudo bem, chefe. Pode crer. O meu lugar é aqui. Aqui é o meu lar."

Teddy disse: "O meu lar é Rachel".

"Você quer dizer Dolores."

"Certo, certo. O que eu disse?"

"Você disse Rachel."

"Oh, desculpe. Você acha mesmo que o seu lugar é aqui?"

Chuck fez que sim. "Nunca saí daqui. Nunca vou sair. Quer dizer, olhe para as minhas mãos, chefe."

Teddy as olhou. As mãos lhe pareceram normais, e ele disse isso a Chuck.

Chuck balançou a cabeça. "Não combinam comigo. Às vezes os dedos se transformam em camundongos."

"Bem, então fico feliz que você esteja em casa."

"Obrigado, chefe." Chuck deu um tapinha nas costas do parceiro e se transformou em Cawley. Rachel agora estava bem adiante deles, então Teddy apressou o passo.

Cawley disse: "Xerife, não pode amar uma mulher que matou os próprios filhos".

"Posso, sim", disse Teddy apressando ainda mais o passo. "Você não entende."

"O quê?" Cawley não estava movendo as pernas, mas ainda assim acompanhava Teddy, deslizando. "O que eu não entendo?"

"Não consigo ficar sozinho, encarar a solidão na porra deste mundo. Preciso dela. Ela é a minha Dolores."

"Ela é Rachel."

"Sei disso. Mas fizemos um trato. Ela será a minha Dolores. Serei o seu Jim. É um bom acordo."

"Oh oh", fez Cawley.

As três crianças correram pelo corredor em direção a eles. Estavam encharcadas e gritando feito loucas.

"Que tipo de mãe é capaz de fazer uma coisa dessas?", disse Cawley.

Teddy ficou olhando as crianças correrem sem sair do lugar. Já tinham passado por ele e por Cawley, mas então algo mudara porque começaram a correr sem sair do lugar.

"Matar os próprios filhos?", disse Cawley.

"Ela não tinha essa intenção", disse Teddy. "Estava com medo, só isso."

"Assim como eu?", disse Cawley, que já não era mais Cawley, e sim Peter Breene. "Ela fica com medo, mata os filhos e tudo bem?"

"Não. Quer dizer, sim. Não gosto de você, Peter."

"E daí?"

Teddy encostou o revólver na têmpora de Peter.

"Sabe quantas pessoas executei?", disse Teddy, enquanto lágrimas escorriam-lhe pelas faces.

"Não atire", disse Peter. "Por favor."

Teddy puxou o gatilho, viu a bala sair do outro lado da cabeça de Breene. As crianças, que tinham presenciado tudo, agora gritavam feito loucas. Peter Breene disse "Dane-se!", encostou-se na parede, apoiando a mão na entrada do orifício. "E ainda por cima na frente das crianças?"

Então a ouviram. Um grito veio da escuridão à sua frente. O grito dela. Ela estava vindo. Estava em algum lugar ali no escuro, correndo à toda na direção deles. A menininha gemeu: "Ajude-nos".

"Não sou o seu pai. Não sou daqui."

"Vou chamar você de papai."

"Ótimo", disse Teddy soltando um suspiro e segurando a mão dela.

Acompanhados pelos dois meninos, andaram pelo alto das falésias que dominavam a costa da ilha Shutter, depois vagaram pelo cemitério. Teddy encontrou pão, creme de amendoim e geleia, fez sanduíches para eles no mausoléu, e a menina ficou felicíssima, sentada no seu colo, comendo o sanduíche. Teddy levou-a para o cemitério e apontou-lhe a lápide do pai dele, a da mãe e a dele mesmo:

 

         EDWARD DANIELS

         UM MAU MARINHEIRO

         1920 – 1957

 

"Por que você é um mau marinheiro?", perguntou a menina.

"Não gosto de água."

"Também não gosto de água. Então temos algo em comum, somos amigos."

"Acho que sim."

"Você já está morto. Você tem uma... como é mesmo o nome?"

"Uma lápide."

"Sim."

"Então acho que estou morto mesmo. Não havia ninguém na minha cidade."

"Também estou morta."

"Eu sei. Sinto muito."

"Você não a impediu."

"O que eu poderia fazer? Quando a alcancei, ela já tinha... sabe..."

"Oh, não."

"O que é?"

"Lá vem ela de novo."

E lá estava Rachel, entrando no cemitério, passando pela lápide em que Teddy tropeçara durante a tempestade.

Vinha sem a menor pressa. Estava tão linda, com os cabelos molhados e gotejantes, e havia trocado a faca por um machado de cabo comprido, que arrastava atrás de si. "Teddy, por favor. São meus."

"Eu sei. Mas não posso dá-los a você."

"Agora vai ser diferente."

"Como assim?"

"Agora estou bem. Sei das minhas responsabilidades. Estou com a cabeça no lugar."

Teddy se pôs a chorar: "Amo tanto você".

"Também amo você, querido. De verdade." Ela aproximou-se dele e deu-lhe um beijo, um beijo de verdade, se-gurando-lhe o rosto com as mãos e roçando a língua na dele, deixando um gemido surdo subir da sua garganta e se perder na boca de Teddy. Abraçou-o mais e mais, e, quanto mais o abraçava, mais ele a amava.

"Agora me dê a menina", ela disse.

Teddy fez o que Rachel lhe pediu, e ela tomou a garota num braço, segurou o machado com a outra mão e disse: "Volto logo, está bem?".

"Claro", disse Teddy.

Ele acenou para a menina, sabendo que ela não iria entender. Mas era para o bem dela. Teddy sabia disso. Precisamos tomar decisões difíceis quando somos adultos, decisões que as crianças certamente não entendem. Mesmo assim nós as tomamos. E Teddy continuou acenando, ainda que a garota não respondesse, enquanto a mãe a carregava em direção ao mausoléu. A menina mantinha os olhos fixos em Teddy, com o olhar vazio de toda esperança, conformada com este mundo de sacrifícios, com a boca ainda suja de creme de amendoim e geleia.

 

"Meu Deus!", exclamou Teddy erguendo o corpo, com o rosto banhado em lágrimas, sentindo que havia lutado para acordar, para tirar o cérebro daquele pesadelo e fazê-lo voltar à consciência. Mas continuava a sentir o sonho, bem próximo dele, esperando-o, de portas abertas. Bastava fechar olhos, encostar a cabeça no travesseiro... e ele estaria de volta.

"Como se sente, xerife?"

Teddy piscou os olhos várias vezes na escuridão. "Quem está aí?"

Cawley acendeu uma pequena lâmpada ao lado da sua cadeira, num canto do quarto. "Desculpe-me, não queria assustá-lo."

Teddy sentou-se na cama. "Por quanto tempo fiquei aqui?"

Cawley lhe deu um sorriso à guisa de desculpas. "As pílulas eram um pouco mais fortes do que pensei. Dormiu por quatro horas, xerife."

"Merda", disse Teddy esfregando os olhos com as costas das mãos.

"Teve pesadelos, xerife. Pesadelos terríveis, pelo visto."

"Estou num hospital psiquiátrico situado numa ilha assolada por um furacão", disse Teddy.

"Touché", disse Cawley. "Quando cheguei aqui, levei um mês para conseguir uma boa noite de sono. Quem é Dolores?"

"O quê?", disse Teddy balançando as pernas à beira da cama.

"Ficou repetindo esse nome, xerife."

"Minha boca está seca."

Sem se levantar da cadeira, Cawley voltou-se para a mesa ao lado, pegou um copo de água e passou-o a Teddy. "Acho que é um efeito colateral das pílulas. Tome."

Teddy pegou o copo e entornou o conteúdo em poucas goladas.

"Como está a cabeça?"

Teddy lembrou-se de como fora parar naquele quarto e demorou um pouco para avaliar a própria situação. A visão estava clara. Os percevejos da cabeça tinham sumido. Ele estava meio enjoado, mas nada muito grave. Sentia um pouco de dor no lado direito da cabeça, como se tivesse um ferimento de uns três dias.

"Estou bem", disse. "Aquelas pílulas eram de arrasar."

"A gente procura agradar. E quem é Dolores?"

"A minha mulher", disse Teddy. "Ela morreu. Sim, doutor, ainda estou tentando me conformar à situação. A resposta o satisfaz?"

"Claro, xerife. E lamento a sua perda. Ela morreu de repente?"

Teddy olhou para ele e caiu na risada.

"O quê?"

"Não estou a fim de ser psicanalisado, doutor."

Cawley cruzou as pernas na altura dos tornozelos e acendeu um cigarro. "Não estou querendo foder com a sua cabeça, xerife. Acredite ou não. Mas aconteceu algo hoje naquele quarto em que Rachel estava. Não foi bem com ela que aconteceu. E eu estaria faltando com o meu dever de terapeuta se não me perguntasse que tipo de fantasmas você carrega."

"O que aconteceu naquele quarto?", disse Teddy. "Eu estava desempenhando o papel que ela esperava de mim."

Cawley deu um risinho. "Conhece-te a ti mesmo, xerife. Por favor. Se tivéssemos deixado vocês sozinhos, vai dizer que encontraríamos os dois vestidos quando voltássemos?"

Teddy disse: "Sou um agente da lei, doutor. Seja lá o que você acha que viu ali, fique sabendo que não viu".

Cawley levantou a mão. "Ótimo. Se você diz..."

"Digo sim", falou Teddy.

Cawley recostou-se na cadeira, ficou olhando Teddy, continuando a fumar. Teddy ouvia a tempestade lá fora, sentia que ela pressionava as paredes, insinuando-se sob os vãos do telhado, enquanto Cawley permanecia calado e atento. Teddy finalmente falou:

"Ela morreu num incêndio. Não sabe a falta que Dolores me faz. Se eu estivesse debaixo d'água, não ansiaria mais por oxigênio do que anseio por ela." Ergueu as sobrancelhas e fitou Cawley. "Satisfeito?"

Cawley inclinou-se para a frente, deu um cigarro a Teddy e acendeu-o. "Certa vez me apaixonei por uma mulher na França", disse. "Não conte a minha esposa, certo?"

"Claro."

"Amei aquela mulher do jeito que a gente ama... bem, nada", disse, com uma ponta de surpresa na voz. "Não dá para comparar esse tipo de amor com nada, não é?"

Teddy balançou a cabeça.

"Esse tipo de sentimento é único", disse ele acompanhando a fumaça do cigarro, com os olhos bem longe daquele quarto, do outro lado do oceano.

"O que você estava fazendo na França?"

Cawley sorriu marotamente e, gracejando, sacudiu o dedo em direção a Teddy.

"Ah, já sei", disse Teddy.

"Bom, de qualquer forma, o fato é que, certa noite, essa mulher estava indo se encontrar comigo, acho que estava correndo. E chovia em Paris. Então ela escorregou. Só isso."

"Ela o quê?"

"Escorregou."

"E então?", disse Teddy sem entender.

"E então nada. Escorregou. Caiu, bateu a cabeça e morreu. Dá pra acreditar? Em plena guerra. Uma pessoa pode morrer de muitas maneiras. Ela escorregou."

Teddy pôde perceber a dor no rosto dele, mesmo depois de tantos anos. Viu o olhar estupefato, incrédulo, de quem nunca tinha se recuperado de ter sido o pivô de uma farsa monstruosa.

"Às vezes", disse Cawley calmamente, "passo três horas inteiras sem pensar nela. Às vezes passo semanas inteiras sem me lembrar do seu cheiro, do olhar com que ela me brindava ao saber que teríamos tempo de ficar juntos em determinada noite, do cabelo dela, do modo como brincava com ele quando estava lendo. Às vezes..." Cawley esmagou o cigarro. "Não sei para onde a alma foi — quem sabe se abriu uma passagem sob o corpo, por onde ela partiu ao morrer? Eu voltaria a Paris amanhã mesmo, se tivesse certeza de que a passagem iria reabrir, permitindo que eu fosse ao encontro dela."

Teddy disse: "Como era o nome dela?".

"Marie", disse Cawley, e dizer aquilo lhe tirou um peso.

Teddy deu outra tragada no cigarro e deixou a fumaça sair da boca devagar.

"Dolores agitava-se muito durante o sono", disse Teddy. "E a mão dela, sem brincadeira, batia no meu rosto sete vezes em cada dez desses movimentos. Na minha cara, no meu nariz. Plaft, tinha levado mais uma. Quando isso acontecia, eu empurrava a mão dela, sabe? Às vezes com certa brutalidade. Eu estava num belo sono e... plaft, acordava. Obrigado, querida. Às vezes, porém, deixava a mão dela onde estava. Só a beijava, cheirava... o que sei? Eu me impregnava dela. Sabe, doutor, venderia o mundo para poder sentir novamente aquela mão no rosto."

As paredes retumbavam, o vento abalava a noite.

Cawley observava Teddy do modo como a gente observa crianças brincando animadas na rua. "Sou muito bom no que faço, xerife. Reconheço que sou um egotista. Tenho um qi muito acima da média, e, desde criança, consigo ler o que se passa na mente das pessoas. Melhor do que ninguém. Sem querer ofender... mas já pensou que pode ter tendências suicidas?"

"Bom", disse Teddy. "Ainda bem que não está querendo me ofender, doutor."

"Mas já considerou essa possibilidade?"

"Já", disse Teddy. "Foi por isso que parei de beber, doutor."

"Porque sabe que..."

"... porque, se continuasse a beber, já teria mordido o cano do meu revólver."

Cawley balançou a cabeça, em sinal de aprovação. "Pelo menos não está enganando a si mesmo."

"Isso é verdade", disse Teddy, "pelo menos tentei me ajudar."

"Quando for embora, xerife", disse Cawley, "posso lhe indicar médicos muito bons. Podem ajudá-lo."

Teddy recusou a oferta com um gesto de cabeça. "Xerifes não consultam psiquiatras. Se eu consultasse um e a coisa vazasse, seria aposentado compulsoriamente."

"Certo, não vou insistir, mas, sabe de uma coisa, xerife?"

Teddy levantou os olhos.

"Se continuar desse jeito, não será mais uma questão de 'se', mas de 'quando'."

"Não sabe do que está falando, doutor."

"Sei sim. Especializei-me no trauma da perda e no sentimento de culpa de quem sobrevive. Notei como olhou nos olhos de Rachel Solando algumas horas atrás e vi um homem que deseja morrer. O seu superior no bureau federal me disse que você é o homem mais condecorado do departamento. Disse que voltou da guerra com o peito coberto de medalhas. É verdade?"

Teddy deu de ombros.

"Disse que lutou nas Ardenas e que fez parte das forças de libertação em Dachau."

Outro dar de ombros. '   "E depois disso tudo a sua mulher foi morta. Na sua opinião, xerife, quanto de violência um homem pode suportar antes de sucumbir?"

Teddy disse: "Não sei, doutor. Eu mesmo me pergunto isso".

Cawley inclinou-se para a frente e deu um tapinha no joelho de Teddy. "Antes de ir embora, deixe-me lhe passar as indicações dos médicos, está bem? Eu gostaria de saber que, daqui a cinco anos, você ainda estará no mundo dos vivos."

Teddy olhou para a mão no seu joelho e levantou os olhos para encarar Cawley.

"Eu também", murmurou.

 

Teddy encontrou Chuck no subsolo, sob o dormitório masculino, onde colocaram camas de campanha para todo mundo, enquanto se esperava o fim da tempestade. Para chegar lá, atravessara uma série de corredores subterrâneos que ligavam todos os edifícios do complexo. Conduzido por um servente chamado Ben, uma verdadeira montanha de carne branca e flácida, Teddy passara por quatro portões munidos de fechaduras, três postos de controle — e mesmo naquele labirinto subterrâneo era possível sentir que, lá em cima, o mundo estava em convulsão. Os corredores, compridos, cinzentos e mal iluminados, tinham semelhança perturbadora com os do sonho de Teddy. Não eram tão compridos, nem cheios de zonas escuras, mas tinham o mesmo cinza metálico e eram tão frios como os do sonho.

Teddy sentiu-se embaraçado ao ver Chuck. Nunca havia tido uma crise de enxaqueca tão forte em público, e envergonhou-se ao lembrar que vomitara no soalho. Sentira-se desamparado como um bebê que precisasse ser levantado da cadeira.

Mas, quando Chuck gritou "Ei, chefe!" do outro lado da sala, Teddy notou surpreso que era um alívio reencontrá-lo. Pedira para trabalhar sozinho nessa missão, mas isso lhe fora negado. Na ocasião, ficara irritado, mas agora, depois de dois dias naquele lugar, depois do mausoléu, do hálito de Rachel entre seus lábios, depois dos sonhos desgraçados, era obrigado a reconhecer que estava contente por não se encontrar sozinho nessa situação.

Quando apertaram as mãos, Teddy lembrou-se do que Chuck lhe dissera no sonho "Nunca vou sair desta ilha" — e teve uma sensação estranha, como se o espectro de um pardal lhe atravessasse o peito, batendo as asas.

"Como está se sentindo, chefe?", disse Chuck dando--lhe um tapinha no ombro.

Teddy lhe deu um sorriso encabulado. "Estou melhor. Um pouco abalado ainda, mas no geral estou bem."

Chuck afastou-se de dois serventes que estavam encostados numa coluna fumando. "Puta que o pariu", disse abaixando a voz. "Você me assustou, chefe. Pensei que estivesse tendo uma crise cardíaca, um ataque, um troço assim."

"Era só uma enxaqueca."

"Só?", disse Chuck abaixando a voz ainda mais, e os dois avançaram em direção à parede bege, do outro lado da sala, longe dos demais homens. "A princípio pensei que estava fingindo, sabe, como se tivesse algum plano para pegar os dossiês ou coisa assim."

"Eu queria ter essa esperteza."

Chuck fixou os olhos brilhantes nos de Teddy. "Mas aquilo me fez pensar."

"Mas você não..."

"Sim."

"O que você fez?"

"Disse a Cawley que ia ficar com você. E fiquei. Depois de algum tempo, ele foi chamado e saiu do escritório."

"E você aproveitou para procurar os dossiês?"

Chuck fez que sim.

"E o que achou?"

Chuck fez uma cara de desapontamento. "Bem, na verdade não achei grande coisa. Não consegui chegar aos arquivos. Os armários dele têm fechaduras de um tipo que eu nunca tinha visto antes. E olhe que já forcei um bocado de fechaduras. Poderia ter forçado aquelas, mas aí teria deixado vestígios, entende?"

Teddy balançou a cabeça em sinal de aprovação. "Agiu certo."

"Sim, bem..." Chuck cumprimentou com um gesto de cabeça um servente que passava, e Teddy teve a sensação surreal de que tinham sido transportados para um velho filme de Cagney: detentos cochichando no pátio, planejando a fuga. "Mas consegui abrir a escrivaninha dele."

"Você o quê?"

Chuck disse: "Uma loucura, não? Pode me dar uma re-guada mais tarde".

"Uma reguada? Vou lhe dar uma medalha."

"Medalha, não. Não achei nada que preste, chefe. Só a agenda dele. Mas repare que coisa estranha: os dias de ontem, hoje, amanhã e depois de amanhã estão assinalados com um traço preto."

"Por causa do furacão", disse Teddy. "Cawley soube que o furacão se aproximava."

Chuck balançou a cabeça. "Escreveu na diagonal nos espaços reservados aos quatro dias, entende? Como a gente escreve 'Férias em Cape Cod', sabe como é?"

"Sei", disse Teddy.

Trey Washington foi andando devagar na direção deles, com um charuto mata-ratos na boca, a cabeça e as roupas encharcadas de chuva. "Vocês estão aqui meio à parte, xerifes?"

"Pois é", disse Chuck.

"Estava lá fora?", disse Teddy.

"Ah, sim. A coisa tá feia, xerifes. Estávamos pondo sacos de areia em toda a volta do complexo, vedando todas as janelas com tábuas. Merda. Os caras nem conseguiam ficar de pé." Trey reacendeu o charuto com um Zippo e voltou-se para Teddy. "Você está bem, xerife? Andam dizendo por aí que teve uma espécie de ataque."

"Que espécie de ataque?"

"Ora, se eu fosse contar todas as versões, a gente ia passar a noite inteira nisso."

Teddy sorriu. "Tenho enxaquecas terríveis."

"Uma tia minha tinha enxaquecas horríveis. Trancava--se num quarto, apagava a luz, fechava as cortinas, passava vinte e quatro horas enfurnada."

"Sinto muito por ela."

Trey tirou uma baforada do charuto. "Bem, faz tempo que ela morreu, mas hoje à noite, nas minhas preces, vou transmitir a ela os seus sentimentos. Independentemente da enxaqueca, era uma mulher má. Batia em mim e no meu irmão com uma vara de nogueira. Às vezes sem nenhum motivo. Eu dizia: 'O que é que eu fiz, tia?'. Ela respondia: 'Não sei, mas aposto como você estava armando algo horrível'. O que é que se faz com uma mulher assim?"

Ele parecia estar esperando mesmo uma resposta, então Chuck disse: "O negócio é dar o fora".

"Eh, eh, eh", fez Trey, sem tirar o charuto da boca. "Tem toda razão", disse com um suspiro. "Vou me enxugar. Até mais."

"Até mais."

O salão começava a se encher de homens vindos da tempestade, sacudindo a água das capas de chuva pretas e dos chapéus de abas largas também pretos, tossindo, fumando, passando sem disfarçar, de mão em mão, garrafas de bebidas.

Teddy e Chuck encostaram-se na parede bege e voltaram a conversar em tom neutro.

"Quer dizer então que ele escreveu na agenda..."

"Pois é."

"Não escreveu 'Férias em Cape Cod'."

"Não."

"O que escreveu?"

"Paciente sessenta e sete."

"Só isso?"

"Só isso."

"Mas já é bastante, hein?"

"Ah, sim. Acho que sim."

Teddy não conseguia dormir. Ouvia os homens roncando e resfolegando, inspirando e expirando. A respiração de alguns tinha um leve assobio, e havia quem falasse enquanto dormia. Um deles falou: "Você deveria me contar. Só isso. Só dizer as palavras...". E um outro: "Tenho uma pipoca presa na garganta". Uns chutavam os lençóis, outros rolavam na cama, e alguns erguiam o corpo, socavam os travesseiros e se deixavam cair de novo no colchão. Depois de algum tempo, os vários ruídos foram se harmonizando num murmúrio agradável, que lembrava a Teddy um hino abafado.

O barulho externo também lhe chegava abafado, mas ainda assim Teddy ouvia a tempestade lá em cima assolando a terra, fazendo tremer as fundações. Chegou a lamentar a ausência de janelas na sala; se existissem, pelo menos poderia ver os relâmpagos, a estranha luminosidade que provavelmente havia no céu.

Pensou sobre o que Cawley lhe dissera.

Se continuar nessa batida, não será mais uma questão de "se", mas de "quando".

Tinha tendências suicidas?

Parecia-lhe que sim. Desde a morte de Dolores, não se passara um dia sem que ele pensasse em se juntar a ela, e às vezes o pensamento ia um pouco além disso. Às vezes Teddy achava que continuar a viver era um ato de covardia. Que sentido havia em comprar comida, encher o tanque do Chrysler, fazer a barba, calçar meias, entrar em mais uma fila, pegar uma gravata, passar uma camisa a ferro, lavar o rosto, pentear o cabelo, descontar um cheque, licenciar o carro, ler o jornal, dar uma mijada, comer — sozinho, sempre sozinho —, ir ao cinema, comprar um disco, pagar contas, novamente fazer a barba, lavar o rosto, dormir, acordar...

... se nada daquilo o fazia ficar mais perto dela?

Sabia que deveria seguir em frente. Tentar se recuperar. Virar a página. Seus poucos amigos e parentes tinham dito isso, e ele sabia que, se estivesse vendo as coisas de fora, se apressaria em dizer ao outro Teddy que deveria segurar a barra, levantar a cabeça e seguir em frente.

Mas, para agir desse modo, seria necessário dar um jeito de pôr Dolores numa prateleira, deixar que tomasse poeira para que a sua lembrança fosse se apagando. Até o dia em que ela seria muito mais uma figura de sonho que uma mulher de carne e osso, que realmente existira.

Dizem: Esqueça essa mulher, você precisa esquecê-la. Mas esquecê-la para quê? Para levar essa merda de vida? Como posso esquecê-la? Até agora não consegui. Por que então insistir nisso? Como poderia esquecê-la, é só o que quero saber. Quero abraçá-la novamente, sentir o seu cheiro, e quero também que você suma devagar, Dolores. Por favor, faça isso...

Teddy gostaria de não ter tomado aquelas pílulas. Estava acordado às três da manhã. Bem acordado e ouvindo a voz dela, a rouquidão, o leve sotaque de Boston, perceptível principalmente na omissão do erre no final das palavras, de forma que Dolores o amava num sussurrante forever and ever.[6] Ele sorriu na escuridão, ouvindo a voz dela, vendo os dentes, os cílios, os olhares lânguidos e voluptuosos dela nas manhãs de domingo.

Na noite em que a conhecera no Cocoanut Grove... A orquestra tocava uma música estridente, o ar mostrava-se argênteo por causa da fumaça, e todos estavam vestidos a caráter — marujos e soldados em impecáveis uniformes brancos, azuis ou cinzentos; paisanos com alegres gravatas floridas e paletós traspassados, com lenços triangulares apontando nos bolsos, chapéus de feltro novos em todas as mesas. Quanto às mulheres... estavam por toda parte. Dançavam mesmo a caminho dos toaletes. Dançavam de mesa em mesa, faziam piruetas ao acenderem os cigarros, abriam estojos de pó de arroz, rodopiavam até o bar, davam gargalhadas jogando a cabeça para trás, e os cabelos sedosos, brilhantes como cetim, refletiam a luz quando elas se movimentavam.

Teddy chegara acompanhado por Frankie Gordon, outro sargento do Serviço de Informação, e por alguns caras que deveriam embarcar dentro de uma semana, mas ele os deixou no mesmo instante em que a viu. Sem ao menos esperar que Frankie terminasse a frase, entrou na pista de dança, perdeu-a de vista por alguns instantes quando houve um empurra-empurra — os dançarinos afastavam-se de repente, abrindo espaço para um marinheiro e uma loira de vestido branco; o homem a fez rodar nas suas costas, depois a passou por cima da cabeça dele, agarrou-a no ar, colocando-a em seguida no chão, enquanto a multidão aplaudia freneticamente —, mas logo Teddy avistou novamente o vestido roxo de Dolores.

Era um vestido muito bonito, e a cor foi o primeiro detalhe que ele notou. Havia, porém, uma profusão de belos vestidos naquela noite, numerosos demais para contar, portanto não fora o vestido que lhe chamara a atenção, mas o modo como a jovem o usava. Nervosamente. Embaraçada. Tocando-o com certa apreensão. Ajeitando-o e tornando a ajeitá-lo. Verificando se as ombreiras estavam no lugar.

Era um vestido emprestado. Ou alugado. Ela nunca tinha usado um daquele antes. A roupa a assustava. E a assustava tanto que Dolores não sabia ao certo se a olhavam por admiração, por inveja ou por sentirem pena dela.

Notou que Teddy a observava no momento em que mexia na alça do sutiã. Ela abaixou os olhos, e um rubor lhe tingiu o pescoço. Quando levantou os olhos novamente, Teddy lhe sorriu pensando: também estou me sentindo estúpido nestes trajes. E desejou que ela pudesse ler os pensamentos dele. E talvez esse desejo tenha se realizado, porque ela sorriu para ele, um sorriso mais de gratidão que de flerte — e Teddy deixou Frankie Gordon falando das lojas de comidas de animais de Iowa ou algo assim, e, quando conseguiu romper o cerco dos dançarinos suados, descobriu que não tinha nada a dizer a ela. O que iria dizer? Lindo vestido? Posso lhe pagar uma bebida? Os seus olhos são lindos?

Ela disse: "Está perdido?".

Foi a vez dele de abaixar os olhos. Ela não era alta, mediria por volta de um metro e sessenta, incluindo os saltos. A beleza de Dolores era extraordinária. Não se tratava de uma beleza certinha, como a de muitas outras mulheres naquele salão, de nariz, cabelos e lábios perfeitos. Havia certo desalinho no seu rosto, os olhos talvez fossem separados demais, os lábios tão grandes que pareciam fora de lugar no rosto pequeno, queixo de contornos indefinidos.

"Um pouco", ele disse.

"Bem, o que está procurando?"

Ele respondeu num impulso: "Você".

Os olhos dela se arregalaram, e Teddy notou um pequeno defeito, uma mancha cor de bronze, na íris esquerda, e se sentiu invadir por uma vaga de terror, como se tivesse estragado tudo como um Romeu barato, cortês demais, muito cheio de si.

Você.

Como diabos ele se saíra com essa? Que diabos...

"Bem...", ela disse.

Ele teve vontade de sair correndo. Não suportava o olhar da jovem nem mais um segundo.

"... pelo menos não precisou andar muito."

Teddy sentiu um sorriso tolo se abrir no próprio rosto, e se viu refletido nos olhos dela. Um bobo. Um pateta. Um bobo alegre.

"Não, senhorita, acho que não."

"Meu Deus", disse ela, inclinando-se para trás para vê-lo melhor, com o copo de martíni apertado contra o peito.

"O que é?"

"Você está tão deslocado quanto eu, não é, soldado?"

Apoiado na janela do táxi em que ela entrara com a amiga Linda Cox — que agora se inclinava para dar o endereço ao motorista —, Teddy disse: "Dolores".

"Edward."

Ele caiu na risada.

"Por que você riu?"

Ele levantou a mão. "Por nada."

"Nada, não. Por quê?"

"Só a minha mãe me chama de Edward."

"Teddy, então."

Tinha adorado ouvi-la dizer essa palavra.

"Sim."

"Teddy", ela falou novamente, para se habituar.

"Ei. Qual é o seu sobrenome?", ele disse.

"Chanal."

Teddy arqueou uma sobrancelha.

Dolores disse: "Sei, não combina nem um pouco comigo. Soa muito pomposo".

"Posso ligar pra você?"

"Tem boa memória para números?"

Teddy sorriu. "Na verdade..."

"Winter Hill, meia-quatro-três-quatro-meia", ela disse.

Teddy ficou parado na calçada quando o táxi partiu, e a lembrança do rosto dela a poucos centímetros do seu — na janela do táxi, na pista de dança — por pouco não deu um curto-circuito no cérebro dele, apagando o número do telefone.

Ele pensou: quer dizer então que o amor é isso. Não havia a menor lógica naquilo: mal a conhecia. Mas isso não fazia diferença. Acabara de conhecer a mulher que, de certa forma, já conhecia antes de ter nascido. A encarnação de todos os sonhos que ele não ousara sonhar.

Dolores. Ela estava pensando nele naquele instante, sentada na escuridão do banco traseiro do táxi, embeben-do-se da sua lembrança da mesma forma que ele se impregnava da dela.

Dolores.

A encarnação de todos os desejos dele agora tinha um nome.

 

Teddy virou o corpo na cama de campanha, levou a mão ao chão, tateou em busca do bloco de anotações e de uma caixa de fósforos. Acendeu o primeiro fósforo raspan-do-o na unha do polegar e aproximou-o da página em que escrevera na tempestade. Acendeu quatro fósforos para conseguir associar as letras aos números.

 

     18—1—4—9—5—4—19—1—12—4—23—14—5

     R—A—D—I—E—D—S—A—L—D—W—N—E

 

Feito isso, porém, não lhe foi difícil decifrar o código. Mais dois fósforos, e Teddy estava contemplando o nome, enquanto a chama ia avançando no palito, em direção ao dedo dele:

Andrew Laeddis.

Sentindo o calor da chama nos dedos, olhou para Chuck, que dormia duas camas mais adiante, torcendo para que a carreira do seu colega não fosse prejudicada pelo que aconteceria em seguida. Em princípio, não. Teddy assumiria toda a responsabilidade. Chuck não deveria ter nenhum problema. Tinha aquela aura bem sua — acontecesse o que acontecesse, sempre saía incólume.

Teddy se voltou para a página, lançando-lhe um último olhar antes de o fósforo se apagar.

Hoje mesmo vou atrás de você, Andrew. Se não devo a vida a Dolores, devo-lhe pelo menos isso.

Vou encontrá-lo.

Vou matá-lo.

 

                   TERCEIRO DIA - O PACIENTE SESSENTA E SETE

As duas casas localizadas além dos muros — a do diretor e a de Cawley — tinham sofrido sérias avarias. Metade do telhado da casa de Cawley fora carregado pelo vento, e as telhas espalhavam-se por todo o terreno adjacente ao hospital, como se quisessem dar uma lição de humildade. Uma árvore entrara pela janela da sala de visitas da casa do diretor, atravessando a madeira compensada que fora colocada para proteção, e lá estava ela, com raiz e tudo, no meio da residência dele.

O parque, juncado de conchas e galhos de árvores, estava coberto por uma lâmina d'água de quatro centímetros de altura. As telhas da casa de Cawley, alguns ratos mortos, muitas maçãs empapadas — tudo isso estava coberto de areia. Os alicerces do hospital pareciam ter sido atacados a golpes de britadeira, e o pavilhão A perdera quatro janelas; várias placas de revestimento do telhado estavam curvadas para trás, parecendo coques de cabelo. Duas das cabanas dos funcionários tinham sido reduzidas a gravetos, e algumas tinham tombado de lado. Os dormitórios das enfermeiras e dos serventes tinham perdido várias janelas e em alguns pontos haviam sido danificados pela água. O pavilhão B fora poupado: estava intacto. Em toda a extensão da ilha, Teddy avistava árvores sem as copas, os troncos nus apontando para o céu como lanças.

O ar estava imóvel novamente, pesado e ameaçador. A chuva reduzira-se a um chuvisco constante e preguiçoso. As praias estavam cobertas de peixes mortos. Logo de manhã, quando os policiais saíram do edifício, um linguado solitário jazia na galeria, sufocado, agitando as nadadeiras, arfando, com os olhos inchados voltados para o mar.

Teddy e Chuck viram McPherson e um guarda levantando um jipe que tinha tombado de lado. Deram a partida, mas o motor só pegou na quinta tentativa; o jipe passou roncando pelos portões, e logo depois Teddy o viu subindo o aclive atrás do hospital, rumo ao pavilhão C.

Cawley andou até o parque, parou para pegar um fragmento do telhado da sua casa, olhou-o por um instante e jogou-o de volta à terra encharcada. Seu olhar passou duas vezes por Teddy e Chuck antes que ele os reconhecesse naqueles trajes brancos de serventes, com capas pretas e chapéus pretos de abas largas. Ele lhes dirigiu um sorriso irônico e parecia prestes a andar na direção dos xerifes, quando um médico, de estetoscópio ao pescoço, saiu correndo do hospital e precipitou-se na direção de Cawley.

"O número dois pifou. Não conseguimos fazê-lo funcionar. E temos aqueles dois pacientes em estado crítico. Podem morrer, John."

"Onde está Harry?"

"Harry está tentando consertá-lo, mas em vão. De que serve um gerador de emergência, se não funciona nas emergências?"

"Muito bem. Vamos lá."

Entraram no hospital, e Teddy disse: "O gerador de reserva quebrou?".

Chuck disse: "Pelo visto, quando há um furacão, esse tipo de imprevisto acontece".

"Está vendo alguma luz acesa?"

Chuck espiou pelas janelas. "Não."

"Acha que todo o sistema elétrico está danificado?"

"É bem possível", disse Chuck.

"Isso significa que as cercas eletrificadas..."

Uma maçã boiava perto do pé de Chuck. Ele a pegou, girou o braço para trás, levantou uma das pernas no ar e atirou o projétil contra o muro. "Ponto!", exclamou voltando--se para Teddy. "Sim, as cercas só poderiam estar sem corrente elétrica."

"Elas pifaram, assim como todo o sistema eletrônico de segurança. Portões. Portas."

Chuck exclamou: "Oh, Deus nos ajude". Pegou outra maçã, jogou-a por cima da própria cabeça e apanhou-a atrás das costas. "Você quer entrar naquele forte, não é?"

Teddy levantou o rosto para receber a chuva fina. "É o dia ideal para isso."

O diretor, acompanhado de três guardas, surgiu ao volante de um jipe, cujos pneus espadanavam a água para os lados. Viu Chuck e Teddy vagando pelo pátio e pareceu não gostar muito daquilo. Teddy supôs que ele, da mesma forma que Cawley, os tomava por serventes, e estava irritado por vê-los ociosos, sem rodo nem bomba de água nas mãos. Mas o diretor seguiu adiante, com a cabeça inclinada para a frente, preocupado com assuntos mais importantes. Teddy, que ainda não ouvira a voz desse homem, perguntava-se se era tão sombria quanto o cabelo ou tão clara quanto a pele dele.

"Então é melhor ir logo", disse Chuck. "Isso não vai durar para sempre."

Teddy começou a andar em direção ao portão.

Chuck o alcançou e disse: "Eu queria assobiar, mas minha boca está seca demais".

"Está com medo?", perguntou Teddy em tom despreocupado.

"Acho que a palavra certa é encagaçado, chefe." Atirou mais uma maçã em outra seção do muro.

O guarda postado no portão tinha uma carinha de menino e olhos cruéis. Disse: "Todos os serventes devem procurar o senhor Willis, na administração. Vocês fazem parte da equipe de limpeza".

Chuck e Teddy olharam para as calças e camisas brancas um do outro.

Chuck disse: "Eggs Benedict".[7]

Teddy confirmou com a cabeça. "Obrigado. Eu estava me perguntando sobre isso. E para o almoço?"

"Sanduíche de corned beef em fatias finas."

Teddy voltou-se para o guarda e mostrou-lhe o distintivo. "Nossas roupas ainda estão na lavanderia."

O guarda olhou para o distintivo de Teddy e voltou-se para Chuck, esperando que eJe também mostrasse o seu.

Chuck soltou um suspiro, tirou a carteira do bolso e abriu-a debaixo do nariz do guarda.

O guarda disse: "O que pretendem fazer fora dos muros do hospital? Já encontraram a paciente desaparecida".

Qualquer explicação, pensou Teddy, faria com que parecessem fracos, deixando-os nas mãos daquele merdi-nha. Teddy tivera dezenas de merdinhas como aquele em sua companhia na época da guerra. A maioria não voltara para casa, e Teddy muitas vezes se perguntava se alguém chorara a morte deles. É impossível comunicar-se com babacas desse tipo, é impossível ensinar-lhes alguma coisa. Mas é possível neutralizá-los quando se sabe que eles só respeitam a força.

Teddy marchou até o sujeito, encarou-o com um risi-nho no canto dos lábios, esperando até os olhares se cruzarem.

"Vamos dar um passeio", disse Teddy.

"Não têm autorização."

"Temos sim." Teddy aproximou-se mais, de forma que o sujeito foi forçado a levantar os olhos. Agora estava tão perto que lhe sentia o hálito. "Somos policiais federais, num estabelecimento federal. É como se o próprio Deus tivesse dado a autorização. Não devemos explicações a você. A gente pode dar um tiro no seu pinto, garoto, e nenhum tribunal do país tomará conhecimento do caso." Teddy aproximou-se mais alguns centímetros. "Portanto, abra a porra desse portão."

O rapaz esforçou-se para sustentar o olhar de Teddy, engoliu em seco, ensaiou um olhar duro.

Teddy disse: "Vou repetir: abra esse...".

"Certo."

"Não ouvi direito", disse Teddy.

"Sim, senhor."

Teddy ficou mais um instante encarando o rapaz. Finalmente, soltou o ar ruidosamente pelas narinas.

"Perfeito, menino. É isso aí."

"É isso aí", repetiu o rapaz maquinalmente, com o pomo de adão mais saltado que nunca.

Girou a chave na fechadura, puxou o portão, e Teddy passou por ele sem olhar para trás.

Dobraram à direita, andaram um pouco ao longo do muro, e então Chuck falou: "Legal o lance do 'é isso aí'".

"Também gostei", disse olhando para o outro.

"Você devia ser um pé no saco no Exército, não é?"

"Eu era sargento do batalhão, com um bando de meninos sob meu comando. Metade deles morreu sem nunca ter trepado. Você não ganha respeito alisando ninguém, só se impõe na base da porrada."

"Sim, sargento. É isso mesmo", disse Chuck batendo continência. "Ainda que esteja faltando luz, você está lembrando que vamos tentar entrar num forte, não?"

"Não tinha esquecido."

"Tem alguma idéia de como entrar?"

"Não."

"Acha que existe um fosso? Já seria alguma coisa."

"Talvez existam uns barris de óleo quente no alto das ameias."

"E arqueiros", disse Chuck. "Se tiverem arqueiros..."

"E nós sem as nossas cotas de malha."

Passaram por cima de uma árvore tombada, avançando no terreno escorregadio, juncado de folhas molhadas.

Através da vegetação castigada pelo furacão, viam o forte, suas grandes muralhas, as marcas dos pneus dos jipes que ficaram indo e voltando durante a manhã toda.

"O guarda tinha razão num ponto", disse Chuck.

"Como assim?"

"Agora que Rachel foi encontrada, nossa autoridade aqui — pelo menos nos termos em que ela nos foi conferida — praticamente não existe mais. Se nos descobrirem, chefe, não poderemos nos sair com uma explicação lógica."

O verde daquele mato destroçado fazia os olhos de Teddy latejarem. Ele se sentia exausto, um pouco tonto. Quatro horas de sono, induzido por drogas e cheio de pesadelos, fora o único descanso que tivera na noite anterior. A garoa batia em cima do chapéu dele, acumulava-se nas abas. O xerife sentia uma espécie de zumbido no cérebro, quase imperceptível, mas constante. Se o ferryboat viesse nesse dia — e ele duvidava que isso acontecesse —, uma parte dele desejava apenas tomar o barco e ir embora. Deixava a porra daquela ilha de uma vez por todas. Mas, sem nada para mostrar da viagem, fosse uma prova para o senador Hurly, fosse o atestado de óbito de Laeddis, aquela missão seria um completo fracasso. Não apenas continuaria a sonhar com o suicídio, mas ficaria com um peso a mais na consciência: o de nada ter feito para provocar alguma mudança.

Abriu o bloco de anotações. "Aquelas pedras que Rachel nos deixou ontem. Olhe aqui, decifrei o código", disse passando o bloco a Chuck.

Chuck aproximou o bloco de anotações do peito, prote-gendo-o com a mão. "Quer dizer que ele está aqui."

"Está sim."

"Acha que é o paciente sessenta e sete?"

"É o que suponho."

Teddy parou próximo a um afloramento no meio de um aclive cheio de lama. "Pode voltar, Chuck. Você não precisa se envolver nisso."

Chuck olhou para ele e bateu o bloco de notas na mão. "Somos xerifes, Teddy. E o que é que os xerifes costumam fazer?"

Teddy sorriu. "Forçamos as portas."

"Somos os primeiros", disse Chuck. "Somos os primeiros a fazer isso. Quando o tempo urge, não esperamos que os policiais da cidade, inchados de tanto comer bolinhos, venham nos oferecer reforços. A gente força a porra da porta."

"É isso mesmo."

"Então está tudo certo", disse Chuck devolvendo o bloco a Teddy. E continuaram avançando em direção ao forte.

 

Agora que estavam bem perto, faltando apenas transpor um renque de árvores e uma nesga de terra, Chuck resumiu o que Teddy estava pensando:

"Estamos fodidos."

Em alguns trechos, as grades que cercavam o forte, encimadas por arame farpado, tinham sido arrancadas pela tempestade. Algumas partes jaziam no chão, outras tinham sido lançadas contra as árvores, e o restante estava caindo, quase tudo inutilizado.

Mas guardas armados, muitos deles em jipes, patrulhavam os arredores. Uma turma de serventes recolhia os destroços em volta do forte, e outro grupo trabalhava num grosso tronco de árvore que caíra sobre o muro. Não havia fosso, o único acesso ao forte era uma portinha metálica vermelha, no meio da fachada. De rifles no ombro ou no peito, guardas vigiavam de cima das muralhas. As poucas janelas minúsculas, cavadas na pedra, eram munidas de grades. Não havia pacientes, acorrentados ou não, do lado de fora. Apenas guardas e serventes, em igual número.

Teddy viu dois guardas do telhado se afastarem bruscamente, e vários serventes se aproximarem da borda da muralha para gritar aos colegas que se afastassem. Depois levantaram metade de uma árvore arrastada por eles com dificuldade até a borda, puxando-a e empurrando-a até ganhar um equilíbrio estável. Então desapareceram, com certeza para empurrá-la por trás, fazendo-a avançar no vazio por pouco mais de meio metro. Finalmente ela se inclinou e, quando desabou rente ao muro, no chão, ouviram-se gritos entusiasmados de todos os lados. Os serventes voltaram para a borda das ameias, olharam para baixo, pois queriam admirar a obra feita por eles mesmos, e trocaram apertos de mão e tapinhas nos ombros.

"Deve haver alguma tubulação, certo?", disse Chuck. "Para levar a água ou o esgoto ao mar. A gente podia tentar passar por ele."

Teddy balançou a cabeça. "Por que, meu velho? Vamos simplesmente entrar pela porta."

"Oh, da mesma forma que Rachel saiu do pavilhão B? Entendi. A gente toma um pouco da poção mágica dela para ficar invisível. Boa idéia."

Notando que Chuck o olhava de cara feia, Teddy levou a mão à gola da capa de chuva. "Não estamos com uniforme de xerife, Chuck. Entende o que quero dizer?"

Chuck deu uma olhada nos serventes que trabalhavam em volta do forte e demorou o olhar em um deles, que acabara de sair pela porta de ferro com uma xícara de café na mão, cujo vapor se elevava em pequenas espirais em meio à garoa.

"Sim", disse. "Sim, meu velho."

 

Acenderam cigarros e caminharam em direção ao forte, conversando fiado.

A meio caminho, um guarda os fez parar, com o rifle enfiado displicentemente embaixo do braço, apontando para o chão.

Teddy disse: "Mandaram a gente vir aqui por causa de uma árvore no telhado ou coisa assim".

O guarda voltou a cabeça, olhando por sobre o ombro. "Não é mais necessário. Já cuidaram disso."

"Ótimo", disse Chuck. E começaram a dar meia-volta.

"Pra que essa pressa?", disse o guarda. "Trabalho aqui é o que não falta."

Voltaram-se.

Teddy disse: "Vocês já têm uns trinta caras trabalhando na muralha".

"Sim, bem, lá dentro está a maior confusão. Um furacão não derruba um prédio desses, mas consegue entrar nele, entendem?"

"Sim, claro", disse Teddy.

 

"Onde está a equipe de limpeza?", perguntou Chuck ao guarda encostado ao muro, perto da porta.

O homem indicou com o polegar o interior do forte, abriu a porta e deixou-os entrar no hall.

"Não quero parecer pessimista", disse Chuck, "mas foi fácil demais."

Teddy disse: "Pare de encucar. Às vezes a gente tem sorte".

A porta se fechou atrás deles.

"Sorte", disse Chuck com voz ligeiramente trêmula. "Bem, vamos dizer que é isso."

"É isso aí."

Logo de cara o que os atingiu foram os odores. O cheiro de um potente desinfetante industrial fazia o possível para disfarçar o fedor de vômito, de fezes, de suor e, mais que tudo, de urina.

Um barulho chegava até eles, vindo dos fundos do edifício e dos andares superiores: ruído surdo de gente correndo; gritos ecoavam naquelas grossas paredes, no ambiente saturado de umidade; guinchos bruscos feriam os ouvidos e paravam de repente; o rumor contínuo e difuso de muitas vozes diferentes, falando ao mesmo tempo.

Uma voz gritou: "Você não pode! Não pode fazer isso, porra! Está me ouvindo? Não pode. Fora daqui...". E as palavras se perderam em meio à confusão geral.

Em algum ponto acima deles, na curva de uma escadaria de pedra, um homem cantava "Um elefante incomoda muita gente". Acabava de falar do quinquagésimo oitavo elefante, e já entrava no quinquagésimo nono.

Havia duas grandes garrafas térmicas de café numa mesa de jogo, mais uma pilha de copos de papel e algumas garrafas de leite. Sentado à outra mesa, ao pé da escada, um guarda olhava para eles, sorrindo.

"É a primeira vez, hein?"

Teddy olhou para ele, enquanto novos ruídos se sucediam aos primeiros, como se aquele lugar fosse uma verdadeira orgia de sons, atacando os ouvidos por todos os lados.

"Sim, ouvi umas histórias, mas..."

"A gente se acostuma com isso", disse o guarda. "A gente se acostuma com qualquer coisa."

"Tem razão."

O guarda continuou: "Se não estão trabalhando no telhado, podem pendurar os casacos e os chapéus na sala aqui atrás".

"Disseram pra gente ir para o telhado", disse Teddy.

"Alguém pegou no pé de vocês?" O guarda apontou: "É só subir essas escadas. Quase todos os loucos estão amarrados nas camas, mas alguns estão soltos por aí. Se avistarem um, gritem, certo? Mas não tentem de jeito nenhum dominá-lo. Aqui não é o pavilhão A, certo? Esses filhos da puta matam vocês, entenderam?".

"Sim."

Começaram a subir os degraus, e o guarda disse: "Esperem um pouco".

Pararam, voltaram-se e olharam para o guarda.

Estava sorrindo, apontando para eles.

Esperaram.

"Ora, conheço vocês dois", disse com voz meio cantante.

Teddy ficou calado. Chuck também.

"Sim, conheço vocês", repetiu o guarda.

"É mesmo?", Teddy finalmente disse.

"Sim. São os caras obrigados a consertar o telhado debaixo dessa chuva desgraçada." Sorriu, apontou o dedo e bateu na mesa de jogo com a outra mão.

"Pois é. Somos nós", disse Chuck. "Ha, ha."

"Ha, ha", fez o guarda.

Teddy apontou para ele também e disse: "Você nos pegou, meu velho", voltando-se novamente para as escadas. "Sabe tudo sobre a gente."

A gargalhada do imbecil acompanhou-os escada acima.

No primeiro patamar, pararam. Estavam diante de um grande salão de teto arqueado de cobre batido, soalho escuro e polido feito um espelho. O salão era tão grande, notou Teddy, que, se jogasse uma bola de beisebol do patamar da escada ou, à maneira de Chuck, uma maçã, ela não chegaria do outro lado. Estava completamente vazio, e com a porta à frente entreaberta. Teddy sentiu camundon-gos correndo pelas costelas ao entrar ali, porque lhe lembrava a sala do sonho, aquela em que Laeddis lhe oferecia um drinque e na qual Rachel matava os filhos. Ainda que o salão não fosse o mesmo — o do sonho tinha janelas altas, grossas cortinas, mas com alguma claridade, piso de madeira e lustres pesados —, era muito semelhante.

Chuck bateu a mão no ombro dele, e Teddy sentiu gotas de suor esconendo-lhe pelo lado do pescoço.

"Repito", sussurrou Chuck com um sorriso sem graça. "Foi fácil demais. Onde está o guarda do portão? Por que o portão não está trancado?"

Teddy ainda via Rachel, de cabelos desgrenhados, soltando gritos agudos, correndo pelo salão com uma faca.

"Não faço idéia."

Chuck inclinou-se e sussurrou no ouvido dele: "Isso é uma armação, chefe".

Teddy começou a atravessar a sala. A cabeça doía porque ele não tinha dormido. Por causa da chuva. Dos gritos abafados e do tropel de passos acima dele. Os dois meninos e a menina deram-se as mãos olhando por sobre os ombros. E tremiam.

Novamente, o canto do paciente chegava até ele: "... sessenta e dois elefantes incomodam muita gente, sessenta e três elefantes incomodam, incomodam...".

Os garotos passaram num lampejo diante dos olhos dele, nadando no ar em movimento, e Teddy viu as pílulas amarelas que Cawley colocara em sua mão na noite anterior e sentiu o estômago embrulhar.

"... sessenta e oito elefantes incomodam muita gente, sessenta e nove elefantes incomodam, incomodam..."

"Precisamos voltar, Teddy. Precisamos sair daqui. Isso aqui não está me cheirando bem. Você está sentindo isso, e eu também."

Do outro lado do salão, um homem atravessou o vestíbulo de um salto.

Estava descalço, com o peito nu, vestia apenas uma calça de pijama branca. Podia-se perceber que a cabeça dele estava raspada, mas não se distinguiam outros traços, pois estava muito escuro.

Ele disse: "Olá!".

Teddy apressou o passo.

"Peguei! Agora é você que vai me pegar!", exclamou, sumindo em seguida.

Chuck alcançou Teddy. "Chefe, pelo amor de Deus."

Ele estava ali. Laeddis. Em algum lugar. Teddy sentia a presença dele.

Na extremidade do salão, deram com uma ampla plataforma de pedra; de um lado, os degraus mergulhavam na escuridão; do outro, subiam em direção aos gritos e ao vozerio, agora muito mais fortes, aos quais se mesclavam ruídos metálicos e tinido de correntes. Alguém gritou: "Bil-lings! Já deu, rapaz! Agora fique calmo. Não tem pra onde correr, está ouvindo?".

Teddy ouviu alguém ofegando ao seu lado. Virou a cabeça para a esquerda e descobriu que a cabeça raspada estava a poucos centímetros da sua.

"Agora é você que vai me pegar", disse o sujeito tocando no braço de Teddy com o indicador.

Teddy fitou o rosto luzidio do outro.

"Pois é, agora sou eu", disse Teddy.

"Claro", disse o outro. "Estou tão perto que, se você mexer a mão, serei eu novamente quem vai pegar, e, se eu mexer a minha, será a sua vez, e a gente pode continuar assim durante horas, ou mesmo o dia inteiro, trocando de vez o tempo todo, sem parar para almoçar, nem para jantar, sem parar nunca."

"E que graça teria isso?"

"Sabe o que tem lá?", disse o sujeito apontando com a cabeça em direção às escadas. "No mar?"

"Peixes", disse Teddy.

"Peixes", disse o sujeito balançando a cabeça. "Muito bem. Peixes. Um monte de peixes. Mas, sim, peixes, muito bem, peixes, sim, mas sabe o que mais? Submarinos. Isso mesmo. Submarinos soviéticos. A trezentos ou quatrocentos quilômetros da costa. Ouvimos dizer, sabe? Contaram pra nós. E a gente se acostumou com a idéia. E esquecemos. Quer dizer: 'Tudo bem, submarinos. Obrigado pela informação'. Agora fazem parte de nosso dia a dia. Sabemos que estão lá, mas nem pensamos mais nisso. Não é isso? Mas estão lá, armados com foguetes. Apontados para Nova York e Washington. Para Boston. E lã estão eles. Quietinhos. Isso não incomoda você?"

Teddy ouvia a respiração compassada de Chuck ao seu lado, esperando uma deixa.

Teddy disse: "Como você disse, resolvi não ficar pensando muito nisso".

"Humm", fez o sujeito, balançando a cabeça. O cara coçou a barba nascente no queixo. "Aqui a gente fica sabendo de cada coisa... Você não imaginava isso, não é? Mas é assim. Chega um cara novo, conta algumas coisas. Os guardas falam. Vocês, serventes, também falam. Ficamos por dentro do que acontece lá fora. Sobre os testes da bomba H, sobre os atóis. Sabe como funciona uma bomba de hidrogênio?"

"Com hidrogênio?", disse Teddy.

"Muito bem. Muito esperto. Sim, sim." O sujeito balançou a cabeça várias vezes. "Sim, com hidrogênio. Mas é muito diferente das outras. Você joga uma bomba, mesmo uma bomba atômica, e ela explode, certo? Claro que explode. Mas a de hidrogênio implode. Ela se volta para dentro, sofre uma série de reações internas e começa a se desintegrar. Mas esse processo cria massa e densidade. Você entende? A fúria dessa autodestruição cria um monstro totalmente novo, sacou? Sacou? Quanto maior a força das reações internas, maior a autodestruição e mais potente a bomba se torna. E aí... e aí... Bom, aí é terrível bruumm! ... Só um....bum, bang, crash. Aniquilando-se, ela se expande. Gera uma explosão de sua implosão, que é cem, mil, um milhão de vezes mais devastadora que qualquer bomba da história. Esse é o nosso legado. E não se esqueça disso." O sujeito deu vários tapinhas no braço de Teddy, tapinhas leves, como se estivesse tamborilando com os dedos. "Peguei. Agora é você. Dez vezes você. Iupii!"

Precipitou-se escada abaixo, e os xerifes ouviram-no gritar "Bruumm" até lá embaixo.

"... setenta e quatro elefantes incomodam muita gente! Setenta e cinco elefantes incomodam, incomodam, incomodam..."

Teddy olhou para Chuck. Com o rosto coberto de suor, Chuck expirou pela boca devagar.

"Você tem razão", disse Teddy. "Vamos embora daqui."

"Isso é que é falar."

Ouviu-se um grito que vinha do alto do poço da escada-.

"Socorro, alguém me ajude! Meu Deus!"

Teddy e Chuck olharam para cima e viram dois homens descendo as escadas feito balas de canhão. Um com o uniforme azul dos guardas, o outro com a roupa branca dos pacientes. Despencaram um sobre o outro na curva da escada, na altura em que o degrau é mais largo. O paciente conseguiu soltar uma das mãos, deu um soco na cara do guarda, logo abaixo do olho esquerdo, esfolando a pele. O guarda soltou um grito, jogando a cabeça para trás.

Teddy e Chuck correram escada acima. A mão do paciente desceu novamente, mas Chuck agarrou-a pelo punho.

O guarda passou a mão no olho, sujando-se de sangue até o queixo. Teddy ouvia a respiração ofegante dos quatro, o murmúrio distante da música dos elefantes, que estava em setenta e nove, a caminho de oitenta, e então viu o sujeito embaixo dele contrair os músculos, abrindo bem a boca. Teddy gritou "Cuidado, Chuck", e bateu com as costas da mão na testa do paciente, antes que este pudesse pregar uma dentada no punho de Chuck.

"Afaste-se dele", disse Teddy ao guarda. "Vamos, afaste-se."

O guarda desvencilhou-se das pernas do paciente e subiu dois degraus aos tropeções. Teddy pulou em cima do interno, apertando o ombro dele contra a pedra. Quando voltou a cabeça a fim de olhar para Chuck, o cassetete fendeu o ar com um silvo, descendo entre eles e quebrando o nariz do paciente.

Teddy sentiu o corpo do interno amolecer e Chuck exclamou: "Meu Deus!".

O guarda levantou o braço novamente, mas Teddy se voltou e interceptou o golpe com o cotovelo.

"Ei! Ei! Ele está nocauteado!", gritou para o guarda, cujo rosto estava banhado em sangue.

Mas o guarda, sentindo o cheiro do próprio sangue, brandia o cassetete, preparando-se para mais um golpe.

"Olhe para mim! Olhe para mim!", interveio Chuck.

Os olhos do guarda voltaram-se para o rosto de Chuck.

"Afaste-se, porra. Está me ouvindo? Afaste-se. Este paciente está dominado." Chuck soltou o punho do interno, cujo braço tombou mole sobre o peito, e se encostou à parede, sem tirar os olhos do guarda. "Você está me ouvindo?", disse baixinho.

O guarda fechou os olhos e abaixou o cassetete. Passou a aba da camisa no ferimento da maçã do rosto e examinou a mancha de sangue no tecido. "Ele partiu a minha cara."

Teddy se inclinou para examinar o ferimento. Já tinha visto coisas muito piores; o rapaz não ia morrer daquilo nem nada. Mas a situação estava feia. Não havia médico que remendasse aquilo sem deixar marcas.

Disse: "É um ferimento à toa. São só alguns pontinhos".

Do pavimento de cima vinha um ruído surdo de corpos e de móveis entrechocando-se.

"Está havendo uma rebelião?", perguntou Chuck.

O guarda respirou por algum tempo pela boca, até as cores lhe voltarem às faces. "É quase isso."

"Os internos assumiram o controle do asilo?", disse Chuck em tom despreocupado.

O homem demorou-se a olhar para Teddy, depois voltou-se para Chuck, então respondeu: "Ainda não".

Chuck tirou um lenço do bolso e passou-o ao rapaz.

O rapaz agradeceu com um gesto de cabeça e apertou o lenço contra o rosto.

Chuck levantou o punho do paciente novamente, e Teddy notou que seu colega tentava verficar o pulso do interno. Chuck largou o punho, abriu uma pálpebra do homem e olhou para Teddy: "Vai sobreviver".

"Vamos levantá-lo", disse Teddy.

Apoiaram os braços do paciente em seus ombros e seguiram o guarda escada acima. O interno não pesava muito, mas a escada era bastante longa; além disso, os pés do homem não paravam de bater nas arestas dos degraus. Ao chegarem ao alto da escada, o guarda se voltou, e então lhes pareceu mais velho, talvez um pouco mais inteligente.

"Vocês são os xerifes, não é?", disse.

"O quê?"

Ele balançou a cabeça. "Sim, não tenho dúvida. Vi vocês chegarem." Olhou para Chuck com um pequeno sorriso. "Reconheço-o por essa cicatriz no rosto."

Chuck soltou um suspiro.

"O que vieram fazer aqui?", perguntou o rapaz.

"Livrar a sua cara", disse Teddy.

O rapaz tirou o lenço do ferimento, examinou-o e recolocou-o no lugar.

"Sabe quem é esse cara que estão carregando?", disse. "Paul Vingis. De Virgínia Ocidental. Matou a mulher do irmão e mais duas filhas, quando o irmão estava servindo na Coréia. Manteve os corpos no porão, para se divertir de vez em quando, sabem? Enquanto os corpos apodreciam."

Teddy resistiu ao impulso de empurrar o braço de Vingis do ombro e deixá-lo despencar escada abaixo.

"A verdade", disse o rapaz, temperando a garganta, "a verdade é que ele ia acabar comigo." Seus olhares se cruzaram, e os policiais notaram que os dele estavam vermelhos.

"Qual é o seu nome?"

"Fred. Fred Baker."

Teddy apertou-lhe a mão. "Escute, Fred. Foi bom poder ajudar você."

O rapaz olhou para os próprios sapatos, que estavam manchados de sangue. "Mais uma vez: o que vocês estão fazendo aqui?"

"Viemos dar uma olhada", disse Teddy. "Só alguns minutos, depois vamos embora."

O rapaz tornou-se pensativo por um instante, e Teddy recordou os dois últimos anos de sua vida — a perda de Dolores, a busca incessante de Laeddis, a descoberta daquele lugar, seu encontro com George Noyce e as conversas sobre drogas e lobotomias experimentais, os contatos com o senador Hurly, a espera do momento certo de ir para a ilha, tal como esperara o momento certo de cruzar o Canal da Mancha a fim de desembarcar na Normandia —, tudo agora dependia do que aquele rapaz diria.

"Sabem de uma coisa", disse Fred, "já trabalhei em muito lugar barra-pesada. Cadeias, prisão de segurança máxima, outro hospital de pacientes criminosos..." Fitou a porta, e seus olhos se arregalaram como se fosse bocejar, só que a boca ficou fechada. "Pois é. Trabalhei um pouco por aí. Mas este lugar aqui...", acrescentou olhando demo-radamente, um após outro, os policiais. "Eles criaram as próprias regras."

Olhou para Teddy, e este tentou ler a resposta nos olhos do outro, mas encontrou apenas um olhar distante, apagado, velho demais para a idade.

"Alguns minutos?", disse o rapaz balançando a cabeça pensativo. "Tudo bem. Ninguém vai notar nessa bagunça toda. Vocês ficam seus poucos minutos e dão o fora, certo?"

"Certo", disse Chuck.

"Ei", disse o rapaz esboçando um sorriso enquanto avançava em direção à porta, "façam o possível para não morrerem nesses poucos minutos, certo? Gostaria de vê-los sãos e salvos."

Passaram pela porta e deram com uma ala de celas — um amplo espaço com paredes e piso de granito, que se estendia por todo o comprimento do forte, sob arcadas de três metros de largura e quatro de altura. Duas grandes janelas, uma em cada extremidade, eram a única fonte de luz; gotejava água do teto, e o chão estava cheio de poças. As celas, que se dispunham à direita e à esquerda, encontravam-se mergulhadas na escuridão.

Baker disse: "Nosso principal gerador pifou lá pelas quatro da manhã. As fechaduras das celas são controladas eletronicamente. Essa é uma das nossas inovações. Uma puta duma idéia, hein? Aí todas as celas se abriram às quatro da matina. Felizmente ainda é possível trancá-las manualmente, então conduzimos a maioria dos pacientes a suas celas e as fechamos, mas um deles tem uma chave universal. Ele escapa de nós a toda hora e dá um jeito de ir passando de uma cela para outra".

"Será que é o careca?", perguntou Teddy.

Baker lançou-lhe um olhar. "O careca? Sim. É um dos desaparecidos. Deve ser ele. O nome dele é Litchfield."

"Ele está brincando de pega-pega na escada por onde viemos. No andar de baixo."

Baker levou-os à terceira cela da direita e abriu-a. "Podem jogá-lo aí."

Levaram alguns segundos até enxergar a cama na escuridão. Baker acendeu uma lanterna, iluminou o interior da cela, e colocaram Vingis na cama. O paciente gemeu, e o sangue escorreu de suas narinas.

"Bem, preciso de reforços para pegar Litchfield", disse Baker. "É no porão que mantemos esses caras a quem não temos coragem de dar comida sem a presença de ao menos seis guardas. Se escaparem, isso aqui vai virar um verdadeiro forte Álamo."

"Primeiro é preciso procurar um médico", disse Chuck.

Baker descobriu um cantinho do lenço ainda limpo e pressionou-o no ferimento. "Não tenho tempo."

"Para ele", disse Chuck.

Baker lançou-lhe um olhar através das grades. "Certo. Tudo bem. Vou procurar um médico. E vocês vão ter de sair em tempo recorde, certo?"

"Certo. Traga um médico para o sujeito", disse Chuck, enquanto saíam da cela.

"Pode deixar", disse Baker fechando a porta da cela.

Ele saiu em disparada pela ala, desviou de três guardas que arrastavam um gigante barbudo para uma cela, e continuou a correr.

"O que você acha?", disse Teddy. No outro extremo da ala, viu um homem junto à janela, pendurado nas grades, e alguns guardas arrastando uma mangueira. Os olhos dele estavam começando a se acostumar à penumbra do ambiente, mas as celas continuavam mergulhadas na escuridão.

"Os arquivos devem estar em algum lugar por aqui", disse Chuck. "Ao menos para servirem de referências médicas básicas. Você vai atrás de Laeddis e eu dos dossiês?"

"Tem uma idéia de onde possam estar guardados?"

Chuck lançou um rápido olhar à porta. "A julgar pelo barulho, quanto mais subimos, menos perigoso é. Acho que a parte administrativa fica lá em cima."

"O.k. E onde e quando nos reencontramos?"

"Em quinze minutos?"

Os guardas ligaram a mangueira e lançaram um jato d'água contra o sujeito. O impacto arrancou-o das grades e jogou-o no chão.

Alguns homens aplaudiram das celas, outros gemeram. Eram gemidos tão sentidos e fundos que pareciam vir de um campo de batalha.

"Quinze minutos então. No saguão certo?"

"Certo."

Trocaram um aperto de mão. Teddy notou que a mão de Chuck estava úmida, e que ele tinha o lábio superior reluzente de suor.

"Todo cuidado é pouco, Teddy."

Um paciente disparou pela porta às costas deles e passou a toda velocidade. De pés descalços e sujos, ele corria como se estivesse treinando para uma luta de boxe — a passos largos e atirando socos contra um adversário imaginário.

"Vou ver o que posso fazer", disse Teddy com um sorriso.

"Tudo bem, então."

"Tudo bem."

Chuck dirigiu-se à porta, parou um pouco e olhou para trás. Teddy balançou a cabeça.

Quando Chuck abriu a porta, dois serventes entraram na ala, vindos das escadas. Chuck desapareceu na escada, e um dos serventes disse a Teddy: "Você viu a Grande Esperança Branca passar por aqui?".

Teddy voltou a cabeça para o paciente que, correndo sem sair do lugar, desfechava no ar uma série de golpes.

Teddy apontou para o homem, e os três correram na direção do interno.

"Foi lutador de boxe?", perguntou Teddy.

O servente à sua esquerda, um negro alto, já de certa idade, respondeu: "Ah, você está vindo da praia, hein? Dos pavilhões para turistas? Humm. Sim, bem... esse Willy acha que está treinando para uma luta contra Joe Louis, no Ma-dison Square. E o pior é que ele até que não é ruim".

Quando já se aproximavam do sujeito, Teddy viu os punhos do paciente lançando socos no ar.

"Acho que só nós três não vamos dar conta do recado."

O mais velho riu. "Um só basta. Sou o empresário dele, sabia?" E chamou: "Willy, está na hora da sua massagem, meu velho. Só falta uma hora para a luta".

"Não quero massagem nenhuma", disse Willy desferindo uma série de golpes rápidos.

"Não quero perder meu ganha-pão só por causa de uma câimbra, está ouvindo?", disse o servente.

"Só tive câimbra quando lutei contra Jersey Joe."

"Pois é. E você sabe no que deu."

Willy soltou os braços ao longo do corpo. "Tem razão."

"Vamos para a sala de treino, logo ali adiante", disse o servente levantando o braço, num gesto largo, indicando uma cela à sua esquerda.

"Mas não toque em mim. Não gosto que toquem em mim antes de uma luta. Você sabe muito bem disso."

"Claro que sei, matador", disse o outro abrindo a cela. "Agora venha."

Willy andou em direção à cela. "Está ouvindo? É uma multidão."

"A casa está cheia, meu velho. Cheia."

Teddy e o outro servente seguiram em frente. "Eu sou Al", disse o homem estendendo a mão morena a Teddy.

Teddy apertou-lhe a mão. "E eu sou Teddy, Al. Prazer em conhecê-lo."

"Por que está vestido assim, Teddy?"

Teddy olhou para a capa em que estava metido. "Sou da equipe encarregada de reparar o telhado, mas vi um paciente na escada e o persegui até aqui. Achei que talvez precisassem de uma mãozinha."

Um pacote de fezes caiu no chão, aos pés de Teddy, e ouviu-se um cacarejo vindo da escuridão de uma cela. Teddy seguiu em frente sem diminuir o passo.

Al disse: "É preciso se manter no meio o mais possível. Mesmo assim, pelo menos uma vez por semana se é atingido por todo o tipo de porcaria. Você está vendo o homem que estava procurando?".

Teddy balançou a cabeça. "Não, eu..."

"Ah, merda", disse Al.

"O que foi?"

"Acabo de avistar o meu."

O homem caminhava na direção deles, todo encharcado; atrás dele, os guardas largaram a mangueira e puseram--se em seu encalço. Era um sujeito baixinho, ruivo, com o rosto coberto de manchas negras que pareciam um enxame de abelhas, tinha olhos avermelhados, da cor dos cabelos. Desviou para a direita no último instante, visando uma saída que só ele via. Al estendeu os braços para agarrá-lo, mas o ruivo caiu de joelhos para evitá-los, rolou no chão e levantou-se num piscar de olhos.

Al correu em disparada atrás dele, os guardas passaram em velocidade por Teddy, com os cassetetes levantados acima das cabeças, tão encharcados como o homem que perseguiam.

Teddy já se preparava para se juntar aos outros na caçada, no mínimo por uma questão de instinto, mas então ouviu um sussurro:

"Laeddis."

Ficou parado no meio da sala, esperando ouvi-lo novamente. Nada. Os gemidos coletivos, momentaneamente suspensos pela perseguição do sujeito ruivo, elevavam-se novamente — uma espécie de zumbido, pontuado de vez em quando pelo chocalhar de urinóis.

Teddy lembrou-se novamente das pílulas amarelas. Se Cawley suspeitasse mesmo de que ele e Chuck estavam...

"Laed. Dis."

Teddy se voltou, ficando de frente para as três celas da direita. Elas estavam mergulhadas na escuridão. Sabendo que a pessoa que falara podia vê-lo, Teddy ficou à espera, perguntando-se se não seria o próprio Laeddis.

"Você deveria me salvar."

A voz vinha da cela do meio ou da esquerda. Não era a voz de Laeddis. Com certeza, não. Mas de qualquer modo ela lhe parecia familiar.

Vasculhando os bolsos, Teddy aproximou-se das grades da cela central. Encontrou uma caixa de fósforos, acendeu um deles e viu dentro da cela uma pequena pia e um homem de peito magro ajoelhado na cama, escrevendo na parede. O homem voltou a cabeça e olhou para Teddy. Não era Laeddis. Ele não o conhecia.

"Se você não se importa, prefiro trabalhar no escuro. Obrigado, muitíssimo obrigado."

Teddy afastou-se das grades, voltou-se para a esquerda, observando que toda a parede esquerda da cela estava coberta de inscrições. Não sobrava o menor espaço, milhares de linhas apertadas, precisas, com letras tão pequenas que era preciso encostar o rosto na parede para conseguir lê-las.

Aproximou-se da cela vizinha, o fósforo se apagou. A voz, agora bem próxima, soou: "Você mentiu".

A mão de Teddy tremia ao tentar riscar outro fósforo. O palito estalou e se quebrou.

"Disse que me tiraria deste lugar. Você prometeu."

Teddy tentou riscar mais um fósforo, mas o palito voou para dentro das grades sem ter sido aceso.

"Você mentiu."

O terceiro fósforo rangeu na lixa da caixa, a chama ergueu-se acima dos dedos, e ele aproximou-a das grades e olhou para dentro da cela. O homem, sentado na cama no canto esquerdo, estava de cabeça baixa, com o rosto apertado entre os joelhos, os braços enlaçando as panturrilhas. Era calvo no alto da cabeça, e os cabelos das têmporas eram grisalhos. Usava apenas um calção branco. Seus ossos tremiam, agitando-se sob a pele.

Teddy passou a língua nos lábios e no céu da boca, olhou por sobre a chama e disse: "Olá".

"Trouxeram-me de volta para cá. Dizem que sou deles."

"Não estou vendo o seu rosto."

"Dizem que agora estou em casa."

"Você pode levantar a cabeça?"

"Dizem que isto aqui é minha casa. Nunca vou sair daqui."

"Deixe-me ver o seu rosto."

"Por quê?"

"Deixe-me ver o seu rosto."

"Você não reconhece a minha voz? Depois do tanto que conversamos?"

"Levante a cabeça."

"Eu achava que essa coisa toda tinha ido além do estritamente profissional. Que, de certa forma, tínhamos ficado amigos. A propósito, o fósforo vai se apagar."

Teddy não conseguia tirar os olhos da cabeça pelada, dos membros sacudidos por tremores.

"Escute, meu velho..."

"Escutar o quê? Escutar o quê? O que você tem a me dizer? Mentiras, nada mais."

"Eu não..."

"Você é um mentiroso."

"Não, não sou. Levante a..."

A chama queimou-lhe a ponta do indicador e o lado do polegar, e Teddy soltou o palito.

A cela sumiu. Ele ouviu o ranger das molas da cama, o ruído áspero de tecido raspando na pedra, o estalar de ossos.

Teddy ouviu novamente o nome:

"Laeddis."

Agora vinha do lado direito da cela.

"Nunca se pensou em buscar a verdade."

Teddy tirou dois palitos de fósforos.

"Nunca."

Riscou o fósforo. A cama estava vazia. Teddy desviou a mão para a direita e o viu de pé a um canto, de costas para ele.

"Estou enganado?"

"Sobre o quê?", disse Teddy.

"Sobre a verdade."

"Sim."

"Não."

"Claro que se trata de buscar a verdade. Denunciar o..."

"Não, essa história tem a ver com você. E Laeddis. Nunca houve nada além disso. Eu era apenas um meio. Uma forma de chegar aos seus fins."

O homem se voltou e andou em direção a Teddy. O rosto dele estava literalmente desfigurado. Transformara-se em massa informe, inchada, de carnes arroxeadas, escuras e avermelhadas. O nariz estava quebrado, coberto com es-paradrapos em forma de xis.

"Meu Deus!", exclamou Teddy.

"Gostou do que viu?"

"Quem fez isso?"

"Você."

"Como diabos eu poderia ter feito..."

George Noyce colou o corpo nas grades. Seus lábios, inchados feito pneus de bicicleta, estavam escuros de tantas suturas. "Depois de tanta conversa. Depois de toda a porra dessa sua conversa, estou aqui novamente. Por sua causa."

Teddy lembrou-se da última vez que o vira, na sala de visitas da prisão. Mesmo com a palidez própria dos detentos, ele lhe parecera saudável, sacudido, livre de boa parte dos seus demônios. Até contara uma piada — algo sobre um italiano e um alemão entrando num bar em El Paso.

"Olhe para mim", disse George Noyce. "Não desvie o olhar. Você nunca quis denunciar o que se passa aqui."

"George", disse Teddy mantendo a voz baixa, calma. "Isso não é verdade."

"É sim."

"Não. O que você acha que fiquei planejando durante o último ano? O que está acontecendo aqui. Agora."

"Foda-se!"

Teddy sentiu o impacto daquele grito no próprio rosto.

"Foda-se!", gritou George novamente. "Você passou o último ano de sua vida planejando? Planejando matar. Só isso. Matar Laeddis. Essa é a porra do seu jogo. E veja aonde isso me trouxe. Para cá. De volta para este local. Não agüento ficar aqui. Não suporto esta casa de horrores, está ouvindo? Não agüento mais, não agüento mais."

"Escute, George. Como chegaram até você? Não se pode entrar numa cadeia e pegar um preso sem mais nem menos. É preciso mandados de transferência, consultas psiquiátricas. Dossiês, George. Documentos."

George riu, apertou o rosto entre as grades, levantando e abaixando as sobrancelhas. "Quer que lhe conte um segredo?"

Teddy avançou um passo.

George disse: "Esse é bom...".

"Conte-me", disse Teddy.

E George cuspiu no rosto do outro.

Teddy recuou, deixou cair a caixa de fósforos e limpou o catarro da testa com a manga da camisa.

No escuro, George disse: "Sabe qual é a especialidade do nosso querido doutor Cawley?".

Teddy passou a mão na testa e no nariz e sentiu que estavam secos. "Sentimento de culpa de quem sobrevive, traumas resultantes de perdas."

"Nãão." A palavra saiu da boca de George numa cas-quinada seca. "Violência. No macho das espécies, especificamente. Ele está fazendo uma pesquisa."

"Não. Quem está fazendo isso é Naehring."

"Não, é Cawley", disse George. "Tudo parte de Cawley. Recebe os pacientes mais violentos de todo o país. Por que você acha que há tão poucos pacientes aqui? E cá entre nós: acha mesmo que alguém vai se preocupar em examinar os documentos de transferência de alguém com antecedentes de violência e distúrbios psiquiátricos? Você acredita numa merda dessas?"

Teddy acendeu mais dois fósforos.

"Nunca mais vou sair daqui", disse Noyce. "É verdade que consegui sair uma vez. Mas duas não dá. Não dá mesmo."

Teddy disse: "Calma, calma. Como chegaram até você?".

"Eles sabiam, ora bolas! Não percebe? Sabiam de todos os seus planos. Isso é um jogo. Uma peça de teatro bem montada." Noyce fez um gesto circular com o braço. "Tudo isso foi armado para você."

Teddy sorriu. "Desencadearam um furacão só para mim, hein? Belo truque."

Noyce ficou calado.

"Explique isso", disse Teddy.

"Não dá."

"É o que eu imaginava. Vamos deixar de lado essa paranóia, certo?"

"Você trabalhou sozinho?", perguntou Noyce fitando-o por entre as grades.

"O quê?"

"Você sempre agiu sozinho desde que essa história toda começou?"

"O tempo todo", disse Teddy.

George ergueu uma sobrancelha. "Completamente só?"

"Bem, com meu parceiro."

"E quem é o seu parceiro?"

Teddy apontou com o polegar o corredor atrás dele. "O nome dele é Chuck. Ele..."

"Deixe-me adivinhar", disse Noyce. "Nunca tinha trabalhado com ele, não é?"

Teddy sentiu como se todo o edifício de repente pesasse sobre ele. Sentiu os braços gelarem. Por um instante não conseguiu falar, como se o cérebro tivesse perdido o comando da língua.

Então disse: "É um xerife de Seattle...".

"Nunca tinha trabalhado com ele, não é?"

Teddy disse: "Isso não interessa. Conheço os homens. Conheço esse cara e confio nele."

"Com base em quê?"

Não havia uma resposta simples para essa pergunta. Como uma pessoa pode saber em que instante a confiança em alguém começa a se formar? Em dado momento, ela não existia. No instante seguinte, lá está ela. Teddy encontrara homens na guerra aos quais confiaria sua vida no campo de batalha, mas não sua carteira depois de terminada a luta. Conhecera homens aos quais confiaria a guarda de sua carteira e de sua mulher, mas não que cobrissem sua retaguarda ou o acompanhassem na hora de arrombar uma porta.

Chuck poderia ter se recusado a acompanhá-lo. Poderia ter ficado no dormitório, tirado uma soneca enquanto os outros faziam o trabalho de limpeza, enquanto esperava o barco. Afinal de contas, a missão fora cumprida: Rachel Solando fora encontrada. Chuck não tinha nenhum motivo, nenhum interesse em acompanhar Teddy em sua caça a Laeddis, em seu projeto de provar que Ashecliffe era um verdadeiro acinte ao juramento de Hipócrates. E mesmo assim estava lá.

"Confio nele", repetiu Teddy. "É só o que posso lhe dizer."

O olhar de Noyce se toldou de tristeza. "Então eles já venceram."

Teddy sacudiu os palitos no ar e os jogou no chão. Abriu então a caixa de fósforos e pegou o único que restava. Sempre colado às grades, Noyce inspirou o ar ruidosamente.

"Por favor", sussurrou, e Teddy percebeu que o outro estava chorando. "Por favor."

"O quê?"

"Não me deixe morrer aqui."

"Você não vai morrer aqui."

"Vão me levar para o farol. Você sabe disso."

"Para o farol?"

"Vão retalhar meu cérebro."

Teddy riscou o fósforo e, à luz da chama, viu Noyce agarrado às grades, trêmulo, com lágrimas brotando dos olhos inchados e rolando pelas faces.

"Não vão..."

"Vá lá. Veja com os próprios olhos o que fazem por lá. E, se voltar vivo, você me conta tudo."

"Vou sim, George. E vou tirá-lo daqui."

Noyce abaixou a cabeça, apoiou o crânio nu nas grades, chorando em silêncio. Teddy se lembrou da última vez em que tinham se encontrado na sala de visitas da prisão, quando George lhe dissera: "Se algum dia voltar para aquele lugar, eu me mato", ao que Teddy respondera: "Isso não vai acontecer".

Mentira, claro.

Porque lá estava Noyce. Vencido, abatido, tremendo de medo.

"George, olhe para mim."

Noyce levantou a cabeça.

"Vou tirá-lo daqui. Segure um pouco a barra. Não faça nada irreparável, está ouvindo? Segure firme. Volto para buscá-lo."

George Noyce sorriu por entre as lágrimas abundantes e balançou a cabeça bem devagar. "Não pode matar Laeddis e ao mesmo tempo denunciar o que se passa aqui. Será preciso escolher. Você entende isso, não?"

"Onde ele está?"

"Diga se me entende."

"Sim, entendo. Onde ele está?"

"É preciso escolher."

"Não vou matar ninguém. Está ouvindo, George? Não vou."

Olhando Noyce através das grades, Teddy sentia que falava a verdade. Se o preço para levar aquela pobre ruína humana, aquela pobre vítima para casa, fosse abrir mão de sua vendeta, Teddy estava disposto a pagar. Não para sempre. Ele deixaria a vingança para outra oportunidade, esperando que Dolores compreendesse sua atitude.

"Não vou matar ninguém", ele repetiu.

"Mentiroso."

"Não."

"Ela morreu. Esqueça essa mulher."

Apertando o rosto molhado contra as grades, Noyce esboçou um meio sorriso e fitou em Teddy os olhos mansos e inchados.

De repente Teddy a sentiu em seu corpo, como uma força que lhe comprimia dolorosamente a garganta. Teddy parecia vê-la envolta na neblina do começo de julho, à luz do tom laranja-escuro que banha a cidade logo depois do pôr do sol, levantando a vista enquanto ele estacionava na frente de casa. As crianças jogavam beisebol no meio da rua, e as roupas postas ao sol para secar agitavam-se acima das cabeças. De queixo apoiado numa das mãos, com um cigarro na outra, bem perto da orelha, Dolores olhava para ele, e daquela vez Teddy lhe comprara flores, simplesmente porque ela era sua mulher, o amor de sua vida, olhando-o aproximar-se como se quisesse memorizar cada detalhe dele, de seu jeito de andar, de suas flores e daquele instante — e ele teve vontade de lhe perguntar que barulho faz o coração quando explode de felicidade, bastando a visão de um outro ser para ganhar uma plenitude que o alimento, o sangue, o ar nunca poderiam dar, quando se tem a impressão de ter vivido apenas para um instante, o qual, por alguma razão imponderável, é justamente aquele.

Esqueça essa mulher, dissera Noyce.

"Não consigo", disse Teddy. A voz lhe pareceu rouca, aguda, e ele sentiu o peito inflar sob a pressão dos gritos que se esforçava por reprimir.

Noyce recuou o corpo o mais que pôde, ainda agarrado às grades, e inclinou a cabeça, encostando a orelha no ombro.

"Então você nunca vai sair desta ilha."

Teddy ficou calado.

Noyce soltou um suspiro, como se as palavras que diria fossem desinteressantes a ponto de fazê-lo dormir em pé. "Foi transferido do pavilhão C. Se não está no pavilhão A, só pode estar lá."

Esperou a reação de Teddy.

"O farol", disse Teddy.

Noyce balançou a cabeça, e o último fósforo se apagou.

Teddy ficou por um minuto imóvel, sondando a treva, e então ouviu novamente o ranger das molas quando Noyce se deitou.

Quando ia embora, ouviu:

"Ei."

Teddy parou e esperou, de costas para as grades.

"Que Deus te ajude."

No percurso de volta, no pavilhão das celas, Teddy encontrou Al, que estava à sua espera. De pé, no centro do corredor de granito, lançou a Teddy um olhar preguiçoso. "Agarrou o sujeito?", perguntou Teddy.

Al veio para perto dele. "Claro. O sacana deu a maior canseira, mas aqui não se pode ir muito longe."

Avançaram pelo corredor, procurando se manter no centro, enquanto Teddy ouvia a voz de Noyce lhe perguntar se sempre atuara sozinho. Há quanto tempo — perguntava-se — Al o estava observando? Repassou os três dias em que estivera ali, tentando se lembrar de uma única ocasião em que ficara sozinho. Mesmo quando precisava ir ao banheiro, usava as dependências dos funcionários, e havia sempre um homem no banheiro vizinho ou esperando à porta.

Mas não, ele e Chuck andaram pela ilha várias vezes...

Ele e Chuck.

O que sabia exatamente sobre Chuck? Evocou o rosto do outro por um instante, viu-o no ferryboat, contemplando o mar...

Grande sujeito, desses de quem a gente gosta de cara, naturalmente comunicativo — em suma, o tipo de pessoa cuja companhia a gente só pode desejar. De Seattle. Recém-transferido. Um puta jogador de pôquer. Odiava o pai — e isso era o único aspecto que não combinava com o conjunto de sua personalidade. Havia ainda outro detalhe, algo soterrado no cérebro de Teddy, algo... O que poderia ser?

Certa falta de jeito. Era isso. Não... Chuck não tinha nada de desajeitado. Era a desenvoltura em pessoa. "Escorrega mais que vaselina", para usar uma expressão de que o pai de Teddy gostava. Não, o homem nada tinha de desajeitado. Será que não mesmo? Não teria havido um momento fugaz em que Chuck se mostrara um tanto desajeitado? Sim. Teddy tinha certeza de que tinha havido. Mas não se lembrava dos detalhes. Pelo menos nesse momento e lugar.

E, de todo modo, a idéia era ridícula. Confiava em Chuck. Afinal de contas, Chuck vasculhara a escrivaninha de Cawley.

Você o viu fazer isso?

Nesse mesmo instante, Chuck estava arriscando a carreira para conseguir o dossiê sobre Laeddis.

Como você sabe?

Chegaram à porta, e Al disse: "Volte para o poço da escada e suba os degraus: logo chegará ao telhado".

"Obrigado."

Teddy não abriu a porta imediatamente, pretendia saber por quanto tempo Al ficaria por ali.

Mas Al apenas balançou a cabeça e afastou-se pelo corredor de granito. E Teddy sentiu que não tinha se enganado. Claro que não o estavam vigiando. Até onde Al sabia, Teddy era apenas mais um servente. Noyce estava paranóico. O que era bastante compreensível — quem não estaria se estivesse no lugar dele? —, mas de todo modo ele se tornara paranóico.

Enquanto Al continuava se afastando, Teddy girou a maçaneta, abriu a porta, e não encontrou nem serventes nem guardas esperando-o no patamar da escada. Estava só. Completamente só. Ninguém o vigiava. Deixou que a porta batesse às costas e, quando se preparava para descer a escada, notou Chuck no lugar onde se lançaram sobre Baker e Vingis. Cigarro entre os dedos, Chuck tirava rápidas baforadas, olhando Teddy se aproximar. Enquanto este ainda descia as escadas, Chuck voltou-se e começou a andar a passo estugado.

"Achei que a gente ia se encontrar no saguão."

"Estão aqui", disse Chuck quando Teddy o alcançou, e os dois entraram no grande saguão.

"Quem?"

"O diretor e Cawley. Continue andando. Precisamos dar o fora."

"Eles o viram?"

"Não sei. Eu estava saindo da sala onde ficam os arquivos quando os avistei do outro lado do saguão. A cabeça de Cawley se voltou, e saí imediatamente pela porta que dá no poço da escada."

"Se foi assim, não devem ter notado."

Agora Chuck estava praticamente correndo. "Um servente metido numa capa, com chapéu de abas largas, que sai da sala do arquivo na ala administrativa? Oh, você tem razão, claro que estamos a salvo."

As luzes se acenderam acima deles, numa série de es-talidos que lembravam o som de ossos se quebrando sob a água. Descargas elétricas zumbiam no ar, sendo acolhidas por tal cacofonia de gritos, de assobios e gemidos que os dois homens tiveram a impressão de que o edifício se erguera à volta deles, pousando em seguida no chão. Soaram as sirenes de alarme, ressoando pelo piso e pelas paredes de pedra.

"Que bom, a luz voltou", disse Chuck entrando no poço do elevador.

Na escada, cruzaram com quatro guardas que subiam os degraus a toda velocidade, e precisaram se encostar na parede para deixá-los passar.

O guarda da mesa de jogo continuava no mesmo lugar, ao telefone, com o olhar um tanto vítreo; ele os viu descerem as escadas. Então seus olhos se animaram, e ele disse "Espere um segundinho" ao telefone. Em seguida, ergueu a voz dirigindo-se aos dois, no momento em que chegavam ao último degrau: "Ei, vocês, esperem um pouco".

Uma multidão vagueava no vestíbulo: serventes, guardas, dois pacientes algemados e enlameados. Teddy e Chuck correram na direção dessas pessoas, misturaram-se a elas e passaram ao lado de um homem que, afastando-se de uma mesinha de centro, por pouco não jogou sua xícara de café no peito de Chuck.

O guarda gritava: "Ei, vocês dois! Ei!".

Não retardaram o passo, e Teddy viu algumas pessoas olhando em volta, perguntando-se a quem o guarda se dirigia.

Mais alguns segundos e aquelas mesmas pessoas iriam cair em cima deles.

"Eu já disse: parem!"

Teddy bateu com a mão espalmada na porta, para abri-la.

Ela não se mexeu.

"Ei!"

Naquele instante, Teddy notou a maçaneta de metal, também em forma de abacaxi como a que vira na casa de Cawley. Ele a agarrou: estava molhada da água da chuva.

"Preciso falar com vocês!"

Teddy girou a maçaneta, abriu a porta e viu dois guardas subindo os degraus da entrada. Teddy deu meia-volta, segurou a porta aberta enquanto Chuck passava. O guarda da esquerda fez um gesto de cabeça em sinal de agradecimento, passou com o parceiro. Teddy soltou a porta e desceu os degraus acompanhado de Chuck.

Teddy viu à sua esquerda um grupo de serventes vestidos como eles, fumando e tomando café sob a fina garoa, alguns encostados na parede, todos gracejando ou soprando nuvens de fumaça no ar. Ele e Chuck foram na direção deles, esperando a qualquer momento ouvir a porta se abrir e mais um bocado de gritos.

"Achou Laeddis?", perguntou Chuck.

"Negativo. Mas encontrei Noyce."

"O quê?"

"Você ouviu muito bem."

Cumprimentaram os serventes com um gesto de cabeça. Depois de uma troca de sorrisos e de acenos de mão, Teddy pediu fogo a um dos homens. Em seguida, os xerifes continuaram avançando ao lado da parede — uma parede que parecia se estender por uns quinhentos metros —, esforçando-se para ignorar os chamados que talvez lhes fossem destinados e os fuzis apontando das ameias, quinze metros acima deles.

Chegaram ao final da parede, tomaram a esquerda e foram dar num campo encharcado. Observaram que nesse ponto as seções da cerca tinham sido recolocadas no lugar. Grupos de homens enchiam com cimento os buracos dos postes, e os xerifes viram que a cerca se estendia a perder de vista: por ali não havia saída.

Deram meia-volta, e Teddy compreendeu que a única maneira de sair era seguir em frente. Muitos olhos os notariam se tentassem evitar os guardas para tomar outra direção.

"Vamos encarar essa, não é, chefe?"

"Sim, vamos em frente."

Teddy tirou o chapéu, Chuck fez o mesmo, então tiraram as capas, colocando-as nos braços, e avançaram sob a garoa. O mesmo guarda os esperava, e Teddy disse a Chuck: "Não vamos nem diminuir a marcha".

"Combinado."

Ao se aproximar, Teddy tentou ler a expressão do rosto do sujeito. Este se mostrava impassível, talvez por tédio ou porque se preparasse para um novo enfrentamento.

Teddy fez um aceno ao passar, e o guarda disse: "Agora há caminhões".

Seguiram em frente. Voltando-se de costas e continuando a andar, Teddy perguntou ao guarda: "Caminhões?".

"Sim, para levar vocês embora. Se quiserem esperar... um deles partiu há cinco minutos. Logo estará de volta."

"Não, a gente prefere ir andando."

Um brilho fugaz iluminou o rosto do guarda. Talvez fosse imaginação de Teddy, talvez o guarda soubesse farejar uma mentira.

"Agora, cuidado." Teddy voltou as costas e, sempre acompanhado por Chuck, seguiu em direção às árvores, com a impressão de que o guarda os observava, de que todo o forte os observava. Talvez Cawley e o diretor estivessem nesse mesmo instante nos degraus da entrada, ou no telhado, observando-os.

Chegando às árvores sem que ninguém tivesse gritado ou disparado um tiro de advertência, desapareceram em meio aos grossos troncos e às folhas esfrangalhadas.

"Meu Deus", disse Chuck. "Meu Deus, meu Deus, meu Deus."

Teddy sentou-se numa pedra e, com o suor banhan-do-lhe o corpo e empapando-lhe a camisa e a calça brancas, sentiu-se eufórico. O coração ainda batia descompassado, os olhos ardiam, ele sentia comichões na parte de trás dos ombros e na nuca — mas tinha consciência de que, com exceção do amor, não havia sensação mais maravilhosa que aquela.

Tinham escapado.

Teddy olhou para Chuck e sustentou o olhar dele até os dois desandarem a rir.

"Quando virei à esquerda ainda há pouco e vi a cerca consertada", falou Chuck, "disse comigo mesmo: 'Puta que o pariu, estamos fritos'."

Teddy deitou-se na rocha, sentindo uma liberdade que só conhecera quando criança. Ficou contemplando o céu, que começava a aparecer por trás de nuvens escuras, sentindo o ar roçar a pele. Sentia o aroma de folhas, de terra e das cascas de árvores molhadas, ouvindo o leve tamborilar da garoa. Queria fechar os olhos e acordar do outro lado do porto, em Boston, na sua cama.

Quase cochilou, o que o lembrou do quão cansado estava. Levantou-se, tirou um cigarro do bolso da camisa, pegou o isqueiro de Chuck, pôs-se de joelhos e disse: "A partir de agora, precisamos considerar que vão saber de nossa xeretice. Se é que já não sabem".

Chuck confirmou com um gesto de cabeça. "Baker com certeza vai abrir o bico."

"O guarda da escada... acho que tinha sido avisado de nossa presença."

"Ou talvez quisesse apenas que assinássemos o registro de saída."

"Seja lá como for, vão se lembrar de nós."

A buzina de cerração do farol de Boston gemia do outro lado do mar. Aquele som, Teddy o ouvira durante todas as noites de sua infância em Hull. Era o som mais solitário que conhecia. Fazia a gente sentir vontade de se agarrar a alguma coisa, uma pessoa, um travesseiro, qualquer coisa.

"Noyce", disse Chuck.

"Sim."

"Ele está mesmo aqui?"

"Em carne e osso."

Chuck disse: "Pelo amor de Deus, Teddy! Como é possível?".

E Teddy lhe falou sobre Noyce: contou-lhe da surra que Noyce levara, da raiva que guardava dele, Teddy, do medo que sentia, do tremor que lhe sacudia o corpo, de suas lágrimas. Contou tudo a Chuck, exceto o que Noyce insinuara sobre Chuck. Enquanto ouvia Teddy contar o que acontecera, Chuck balançava a cabeça de vez em quando, olhando para Teddy como uma criança olha o monitor do acampamento junto à fogueira, enquanto a história de fantasma é contada.

E o que era aquilo tudo, começou a se perguntar Teddy, senão uma história de fantasma?

Quando Teddy terminou, Chuck disse: "Você acredita no que ele disse?".

"Acho que ele está aqui. Não tenho a menor dúvida."

"Ele pode ter sofrido novos descontroles nervosos. Quer dizer, de verdade. Tem antecedentes. Nesse caso, apresença dele aqui seria plenamente justificada. Ele se descontrola na prisão e os caras falam: 'Ei, esse sujeito esteve internado em Ashecliffe. Vamos mandá-lo de volta para lá'."

"É possível", disse Teddy. "Mas, na última vez que o vi, ele me pareceu estar muito bom da cabeça."

"E quando foi isso?"

"Há um mês."

"Muita coisa pode mudar em um mês."

"É verdade."

"E quanto ao farol?", disse Chuck. "Você acha que lá tem um monte de cientistas malucos implantando antenas no crânio de Laeddis, enquanto a gente conversa?"

"Não acho que iriam cercar de grades uma mera estação de tratamento de água."

"Certo", disse Chuck. "Mas essa história toda não lhe parece uma espécie de grand-guignol?"

Teddy franziu o cenho. "Não sei que diabos isso significa."

"Aterrorizante", disse Chuck. "Uma história de arrepiar."

"Ah, bom", disse Teddy. "Mas o que quer dizer esse grangui... o quê?"

"Grand-guignol", disse Chuck. "É uma palavra francesa, desculpe."

Teddy observou que Chuck tentava sorrir, provavelmente procurando um meio de mudar de assunto.

Teddy disse: "Você, que cresceu em Portland, provavelmente estudou um bocado de francês, não é?".

"Portland, não. Seattle."

"Certo", disse Teddy pondo a mão no peito. "Agora sou eu quem pede desculpas."

"Gosto de teatro, certo?", disse Chuck. "É um termo de teatro."

"Sabe que conheci um cara do departamento de Seattle?", disse Teddy.

"É mesmo?", disse Chuck um tanto perturbado.

"Sim. Certamente você também o conheceu."

"Provavelmente", disse Chuck. "Quer ver o que peguei do prontuário de Laeddis?"

"O nome dele era Joe. Joe..." Teddy estalou os dedos e olhou para Chuck. "Dá uma força aí... Está na ponta da língua. Joe... Joe..."

"Existe um monte de Joes", disse Chuck levando a mão ao bolso de trás.

"Pensei que fosse um departamento pequeno."

"Aqui está", disse Chuck tirando a mão do bolso de trás. Ela estava vazia.

Teddy viu o papelzinho dobrado, que escorregara da mão de Chuck, ligeiramente para fora do seu bolso.

"Joe Fairfield", disse Teddy, que estranhou a falta de jeito com que Chuck tirara a mão do bolso. "Você o conhece?"

Chuck levou a mão ao bolso novamente. "Não."

"Tenho certeza de que foi transferido para lá."

Chuck deu de ombros. "Não me lembro de ter ouvido esse nome."

"Ah, pode ter sido Portland. Devo ter confundido."

"É."

Por fim, Chuck pegou o papel, e de repente Teddy o reviu no dia em que os dois chegaram à ilha, quando o colega lutara contra a correia do coldre, antes de entregar a arma ao guarda. Normalmente, um xerife não teria problemas desse tipo. É o tipo de coisa que pode custar a própria vida durante uma missão.

Chuck finalmente tirou o papel do bolso. "É um formulário de admissão. De Laeddis. Só achei isso e a ficha médica. Nenhum registro de incidentes, nenhuma anotação referente às sessões, nenhuma foto. É estranho."

"Estranho mesmo", disse Teddy.

A mão de Chuck ainda estava estendida, o documento continuava dobrado entre os dedos.

"Fique com ele", disse Chuck.

"Não", disse Teddy. "Fique com ele."

"Você não quer dar uma olhada?"

"Olho mais tarde", disse Teddy.

Olhou para o parceiro. E deixou o silêncio se avolumar.

"O que é que há?", disse finalmente Chuck. "Você está me olhando de um jeito esquisito só porque não conheço esse tal de Joe não sei das quantas?"

"Não o estou olhando de um jeito esquisito, Chuck. Como lhe disse, costumo confundir Portland com Seattle."

"Certo. Então..."

"Vamos continuar andando", disse Teddy.

Teddy se levantou. Chuck continuou sentado por mais alguns segundos, olhando o pedaço de papel em suas mãos. Em seguida contemplou as árvores à sua volta, levantou a cabeça a fim de olhar para Teddy e a voltou em direção ao mar.

A buzina de cerração soou novamente.

Chuck se levantou e recolocou o papel no bolso de trás.

"Certo", disse. "Perfeito. Pode ir na frente."

Teddy se pôs a andar por entre as árvores, na direção leste.

"Para onde você está indo?", perguntou Chuck. "As-hecliffe fica na outra direção."

"Não vou para Ashecliffe", disse Teddy lançando-lhe um olhar por sobre o ombro.

Chuck pareceu contrariado, talvez até assustado. "Então para onde você está indo, Teddy?"

Teddy sorriu.

"Para o farol, Chuck."

 

"Onde estamos?", disse Chuck.

"Perdidos."

Ao saírem da mata, em vez de se encontrarem diante das grades em volta do farol, estavam muito mais ao norte. O furacão transformara a mata num igarapé, e os dois homens tinham sido obrigados a fazer uma série de desvios, por causa das muitas árvores tombadas ou inclinadas sobre o caminho. Teddy sabia que aquilo os desviava um pouco da trilha, mas, pelos seus cálculos, àquela altura provavelmente estavam perto do cemitério.

Mas dava perfeitamente para ver o farol. O terço superior do edifício avultava por trás de uma longa elevação no terreno, de um outro grupo de árvores e de uma faixa de vegetação verde e marrom. Logo adiante do campo em que se encontravam estendia-se um mangue e, mais além, rochedos negros denteados, formando uma barreira natural que obstruía a subida do aclive. Teddy logo viu que só lhes restava retomar o caminho da mata, na esperança de encontrarem o lugar onde tinham se enganado quanto à direção, para não precisarem voltar ao ponto de partida.

Disse isso a Chuck.

Servindo-se de um pau, Chuck tirava os carrapichos agarrados às pernas da calça. "Poderíamos também fazer o contorno e voltar pelo leste. Lembra-se de quando estávamos com McPherson ontem à noite? O motorista tomou uma espécie de estrada. O cemitério deve ser ali em cima. Damos a volta, então?"

"É melhor que enfrentar essa mata de novo."

"Ah, você não gostou da brincadeira, é?", disse Chuck passando a mão pela nuca. "Adoro mosquitos. Acho que há uns dois pontos no rosto que eles ainda não picaram."

Essa foi a primeira conversa que tiveram na última hora, e Teddy se deu conta de que ambos estavam tentando superar a tensão que surgira entre eles.

Mas Teddy mergulhou novamente num longo silêncio. Chuck começou a andar pela orla da mata, seguindo mais ou menos rumo ao noroeste; mais uma vez, a ilha os empurrava em direção à costa.

Enquanto avançavam pelo caminho íngreme, Teddy observava as costas de Chuck. Era seu parceiro, como dissera a Noyce. Dissera também que confiava nele. Mas por quê? Porque precisava confiar. Porque nenhum homem era capaz de enfrentar tal desafio sozinho.

Se desaparecesse, se nunca voltasse daquela ilha, o senador Hurly iria pôr a boca no trombone. Sem dúvida. Ele seria ouvido. Mas, na atual conjuntura política, a voz de um democrata de um pequeno estado da Nova Inglaterra, relativamente desconhecido, teria ampla repercussão?

Os xerifes eram solidários uns com os outros. Certamente enviariam homens para investigar. Mas o problema no caso era o tempo, pensou Teddy. Será que chegariam ali antes que Ashecliffe e seus médicos o mudassem radicalmente, transformando-o num novo Noyce? Ou, pior ainda, no sujeito que brincava de pega-pega?

Teddy esperava que sim, pois, quanto mais olhava para as costas de Chuck, mais tinha certeza de que estava sozinho naquela empreitada. Completamente sozinho.

 

"Mais pedras, chefe", disse Chuck. "Puta que o pariu."

Encontravam-se num promontório estreito, tendo à direita uma borda talhada a pique sobre o mar, e à esquerda, um pouco mais abaixo, um pequeno campo coberto de ur-zes. O vento soprava cada vez mais forte, o céu se tornava marrom-avermelhado, e o ar recendia a sal.

As pilhas de pedras distribuíam-se pelo campo de ur-zes. Oito delas alinhavam-se em três fileiras, protegidas de todos os lados por paredes que formavam uma concha natural.

Teddy perguntou: "E então, vamos ignorar as pedras?".

Chuck levantou a mão para o céu. "Daqui a umas duas horas o sol vai se pôr. Ainda não chegamos ao farol, se é que você ainda não notou. Não chegamos nem ao cemitério. Nem ao menos sabemos se podemos chegar lá, seguindo por aqui. E você quer descer lá embaixo para contar pedras."

"E se for uma mensagem em código..."

"E o que é que isso importa a essa altura? Temos a prova de que Laeddis está aqui. Você mesmo viu Noyce. O que devemos fazer é ir embora da ilha com essa informação, essa prova. E a missão estará cumprida."

Ele tinha razão, Teddy bem o sabia.

Mas só se ainda estivessem do mesmo lado.

E se não estivessem? E se Chuck quisesse evitar que ele decifrasse o código?

"Dez minutos para descer, dez minutos para voltar", disse Teddy.

Chuck sentou-se preguiçosamente na pedra escura e tirou um cigarro do bolso do casaco. "Tudo bem. Mas espero aqui."

"Como quiser."

Chuck protegeu o cigarro com as mãos para acendê--lo. "É isso aí."

Teddy viu a fumaça escapar por entre os dedos de Chuck e ser levada em direção ao mar.

"Até mais", disse Teddy.

"Cuidado para não quebrar o pescoço", disse Chuck, de costas para ele.

Teddy desceu em sete minutos, três menos do que calculara, porque a terra era fofa e arenosa, o que o fez escorregar várias vezes. Lamentou ter tomado apenas uma xícara de café pela manhã, porque agora o estômago estava roncando de fome, e a falta de açúcar no sangue, agravada pela falta de sono, provocava-lhe tonturas e manchas negras diante dos olhos.

Ele contou as pedras de cada montículo, anotando os números no bloco, acompanhados das letras correspondentes:

 

           E(5)-0(15)-E(5)-V(22)-E(5)-C(3)-L(12)-E(5)

 

Fechou o bloco de anotações, colocou-o no bolso da frente e começou a escalar o aclive arenoso, agarrando-se às partes mais salientes, arrancando tufos de grama quando escorregava e deslizava. Levou vinte e cinco minutos para subir. O céu, àquela altura, adquirira um tom brônzeo; sim, Chuck estava certo, independentemente do lado em que estivesse. O dia estava indo embora, aquilo era uma perda de tempo, fosse qual fosse a mensagem cifrada.

Agora com certeza não poderiam chegar ao farol. Sendo assim, o que fariam? Se Chuck estivesse trabalhando para eles, a ida de Teddy ao farol seria como um pássaro voando contra um espelho.

Teddy levantou a cabeça, avistou o alto da escarpa, a borda saliente do promontório e a cúpula brônzea do céu sobre toda a paisagem. Talvez esteja tudo acabado, Dolo-res, ele pensou. É só o que posso lhe oferecer por enquanto. Laeddis sobreviverá. Ashecliffe continuará a existir. Precisamos nos contentar em saber que iniciamos um processo — um processo que, futuramente, poderá levar à destruição de todo o sistema.

Teddy descobriu uma fenda no alto da escarpa, uma abertura estreita sob o promontório, erodida o suficiente para lhe permitir apoiar as costas na parede arenosa, apoiar as mãos na pedra plana um pouco acima, impulsionando em seguida o corpo de forma a passar o tórax, depois as pernas, através da fenda.

Deitado de lado no alto do promontório, ficou contemplando o mar, extremamente azul àquela hora, de uma vibração tão intensa quanto a da tarde que morria à sua volta. Deixou-se ficar ali deitado, com a brisa soprando-lhe no rosto, o mar estendendo-se infinitamente sob o céu cada vez mais escuro; e se sentiu incrivelmente pequeno, incrivelmente humano. Mas a sensação nada tinha de debi-litante. Pelo contrário, o sentimento o enchia de um estranho orgulho. Sentir-se parte daquele universo. Ele não passava de um grãozinho de poeira, é certo. Mas ainda assim era parte dele. E com vida.

Com uma das faces encostada na rocha lisa, lançou um olhar ao outro lado do promontório, e só então percebeu que Chuck não estava lá.


O corpo de Chuck, lambido pelas águas, jazia ao pé da falésia.

Agarrado à borda do promontório, Teddy deslizou as pernas para o vazio, procurando em seguida um apoio para os pés nas saliências dos rochedos negros, tentando sentir se agüentariam seu peso. Um pouco mais seguro, respirou aliviado — e nem se dera conta de que prendera a respiração —, passou os braços por cima da saliência da borda. De repente sentiu uma pedra se mexer e o tornozelo direito pender para a esquerda. Teddy se encostou à face do rochedo, apoiando nele o peso do corpo, e as pedras sob seus pés se mantiveram firmes.

Girou o corpo lentamente, abaixou-se até se sentir agarrado ao rochedo como um caranguejo e começou a descer. Não havia meio de descer mais rápido. Alguns blocos de pedra estavam bem presos ao rochedo, firmes como parafusos no casco de um navio de guerra. Outros eram sustentados apenas pelos blocos mais abaixo, e só dava para distinguir um tipo do outro ao tentar apoiar o pé neles.

Uns dez minutos mais tarde, Teddy avistou um dos Lucky Strike de Chuck, fumado até a metade. A ponta do cigarro estava negra e afilada como um lápis de carpinteiro.

O que o fizera cair? O vento estava forte, mas não a ponto de atirar um homem de cima de um rochedo.

Teddy pensou em Chuck, sozinho, fumando um cigarro nos últimos instantes de sua vida, pensou em todos os outros seres a que se ligara e que agora estavam mortos — enquanto ele precisava seguir em frente. Pensou em Dolores, claro. No pai, que jazia em algum ponto, no fundo daquele mesmo mar. E na mãe, morta quando ele tinha dezesseis anos. Em Tootie Vicelli, abatido na Sicília com um balaço na boca, dirigindo a Teddy um sorriso estranho, como se tivesse engolido algo cujo gosto o surpreendera, o sangue escorrendo pelo canto da boca. Em Martin Phelan, Jason Hill, naquele polonês enorme de Pittsburgh, ás da metralhadora — como era mesmo no nome dele? —, Yardak. Isso mesmo. Yardak Gilibiowski. E no rapaz loiro que os fizera morrer de rir na Bélgica... Levou um tiro na perna, o ferimento parecia não ter a menor gravidade, até começar a hemorragia... Sem falar de Frankie Gordon, evidentemente, que Teddy deixara no Cocoanut Grove naquela noite. Dois anos depois, Teddy apagou o cigarro no capacete dele, chamando-o de panaca, atirador de segunda categoria de Iowa, ao que Frankie respondeu: "Você xinga como nunca vi ninguém..." — e pisou numa mina. Teddy ainda tinha um estilhaço na panturrilha esquerda.

E agora Chuck.

Será que algum dia Teddy descobriria se tivera ou não razão em desconfiar dele? Se lhe deveria ter concedido pelo menos o benefício da dúvida? Chuck é que o tinha feito dar boas gargalhadas e que o ajudara a suportar a tremenda pressão dos três últimos dias. Chuck é que ainda nesse dia pedira eggs Benedict no café da manhã e sanduíche de corned beef em fatias finas.

Teddy levantou os olhos para a borda do promontó-rio. Pelos seus cálculos, encontrava-se no meio da descida, e o céu estava azul-escuro como o mar, escurecendo rapidamente.

O que teria jogado Chuck do alto do promontório?

Nenhuma causa natural.

A menos que tivesse deixado cair alguma coisa. A menos que tivesse tentado recuperá-la. A menos que, como Teddy fazia agora, tivesse tentado descer agarrando-se e apoiando-se em pedras que talvez não estivessem firmes.

Teddy parou para tomar fôlego, com o suor escorrendo no rosto. Com todo o cuidado, soltou uma das mãos do rochedo e enxugou-a na calça. Em seguida, recolocou essa mão no rochedo e repetiu a operação com a outra mão. Quando agarrou novamente uma saliência da pedra, viu o pedaço de papel perto dele.

Estava preso entre uma pedra e um feixe de raízes, balançando levemente na brisa marinha. Teddy soltou a mão de uma saliência escura, pegou-o entre os dedos e não precisou desdobrá-lo para saber o que era.

O formulário de admissão de Laeddis.

Colocou-o no bolso de trás, lembrando-se de como ficara preso no bolso de trás de Chuck, e então descobriu por que o outro descera até ali.

Para pegar aquele pedaço de papel.

Para ajudar a ele, Teddy.

 

Nos últimos seis metros da descida, o paredão da rocha se compunha de matacões, ovos gigantes cobertos de algas. Ao se aproximar deles, Teddy virou o corpo de forma a apoiar as mãos às costas e poder continuar a descida. Enquanto avançava em meio às pedras, viu ratos escondidos nas fendas.

Finalmente passou o último matacão e se encontrou à beira d'água. Tendo avistado o corpo de Chuck, aproximou-se dele e descobriu, para sua grande perplexidade, que aquilo não era de modo algum um corpo humano, era apenas um rochedo descorado pelos raios do sol, coberto pelas grossas e negras cordas das algas marinhas.

Obrigado... Teddy nem sabia a quem agradecer. Chuck não estava morto. Não era ele aquela rocha comprida e estreita coberta de algas.

Teddy pôs as mãos em concha, levantou a cabeça e gritou e tornou a gritar o nome de Chuck. Ouviu-o repercutir no rochedo, perder-se na brisa marinha, enquanto esperava ver o rosto de Chuck apontar na borda do pro-montório.

Talvez estivesse se preparando para descer em busca do colega. Talvez estivesse lá em cima naquele mesmo instante, preparando-se para enfrentar a muralha de pedra.

Teddy gritou até lhe doer a garganta.

Depois se calou e esperou que Chuck respondesse. Estava ficando escuro demais para poder ver o alto do pro-montório. Teddy ouviu o uivo do vento, o barulho dos ratos nas fendas dos matacões, o canto de uma gaivota, o marulho das águas. Alguns minutos depois, ouviu mais uma vez a buzina de cerração do farol de Boston.

Seus olhos se acostumaram à escuridão, e ele notou que estava sendo observado. Por dezenas de olhos. Os ratos tinham se postado sobre os matacões e o observavam sem medo. A noite, aquele território era deles. Não era de Teddy.

Mas o que Teddy temia era a água, não os ratos. Fo-dam-se esses filhos da puta nojentos. Bastava atirar contra eles para ver quantos o continuariam desafiando depois de alguns amiguinhos explodirem.

O problema é que Teddy estava sem o revólver, e eles tinham dobrado de número enquanto os olhava. As caudas longas batiam e tornavam a bater nas pedras. Com a água lambendo-lhe os tornozelos e todos aqueles olhos assesta-dos para o seu corpo, Teddy começou a sentir formiga-mento na espinha e comichões nos tornozelos.

Começou a andar devagar ao longo da costa e percebeu que havia centenas de ratos banhando-se ao luar, assim como focas gostam de tomar sol. Viu-os pularem das pedras para a areia, ocupando o lugar onde ele estivera um instante atrás, e olhou para a frente a fim de saber o que restava de praia nessa direção.

Não era muito. Uns dez metros adiante, erguia-se outra falésia, obstruindo completamente a passagem. A sua direita, no mar aberto, Teddy avistou uma ilha de cuja existência nem desconfiava. Ela jazia sob o luar como uma barra de sabão marrom, parecendo não estar muito firme no oceano. Em seu primeiro dia na ilha, contemplara o mar daquelas mesmas falésias, em companhia de McPherson. Não havia nenhuma ilha ali. Ele tinha certeza.

De onde diabos ela tinha surgido?

Agora Teddy os ouvia, alguns deles lutando entre si, mas quase todos raspavam as unhas ruidosamente nas rochas, guinchando uns para os outros, e Teddy sentiu as mesmas comichões dos tornozelos na parte interna das coxas e nos joelhos.

Olhou para a praia, e a areia tinha desaparecido sob as fileiras cerradas.

Levantou os olhos para o alto da falésia, aliviado de ver a lua quase cheia e as estrelas, brilhantes e inumeráveis. E então notou uma cor que fazia tão pouco sentido quanto a ilha que ele não vira dois dias antes.

A cor era laranja. À meia altura da falésia mais alta. Laranja vivo. Na face negra da falésia. No lusco-fusco.

Enquanto Teddy a contemplava, ela vacilou, diminuiu de intensidade e tornou a brilhar, como se palpitasse.

Como uma chama.

Uma caverna, pensou. Ou pelo menos uma fenda de bom tamanho. E havia alguém lá. Chuck. Só podia ser. Talvez ele tivesse tentado pegar o papel, descendo pela parede do promontório. Talvez tivesse se ferido e, em vez de continuar a descer, resolvera se deslocar numa trajetória paralela à da orla marinha.

Teddy tirou o chapéu de abas largas, foi até o mata-cão mais próximo. Meia dúzia de pares de olhos o observavam, e ele os espantou fazendo um largo gesto com o chapéu, e os pequenos corpos medonhos saltitaram, contorceram-se, abandonando finalmente a pedra, precipitan-do-se sobre a areia. Teddy subiu mais que depressa no alto da rocha, passou para a seguinte distribuindo pontapés, depois pulou para outra, percebendo que os ratos se tornavam cada vez menos numerosos, à medida que avançava. Nos últimos ovos gigantes de pedra, já não havia nenhum, e logo ele se pôs a escalar a face do rochedo, com as mãos ainda sangrando por causa da descida.

Esse era mais fácil de escalar. Era mais alto e mais largo que o primeiro, embora tivesse patamares e pedras mais salientes.

Sua escalada, porém, à luz do luar, levou uma hora e meia. Parecia-lhe que, em vez dos ratos, agora eram as estrelas que o observavam — e a imagem de Dolores se dissipava pouco a pouco. Ele não conseguia mais evocar o rosto dela, nem as mãos nem a boca, um pouco grande. Sentia que ela se afastava dele como nunca fizera desde a sua morte. Entendeu que essa mudança se devia à exaustão física, à falta de sono e de comida, mas o fato é que Dolores sumira. Sumira enquanto ele escalava o rochedo à luz da lua.

Entretanto Teddy a ouvia. Ainda que não pudesse evocar a imagem dela, podia ouvir a voz dela dentro de sua cabeça. Ela dizia: Continue, Teddy. Continue. Você tem o direito de viver.

As coisas se reduziam a isso? Depois de dois anos vivendo no fundo do poço, contemplando à noite o revólver na ponta da mesa, ao som de Tommy Dorsey e Duke Ellington, alimentando a certeza de que não poderia dar mais um passo naquela desgraça de existência, sentindo a ausência dela com tanta força que certo dia quebrara a ponta de um incisivo por rilhar os dentes violentamente, tentando suportar a dor de sua perda — depois de tudo isso, será que agora a iria esquecer?

Não foi apenas um sonho, Dolores. Sei disso. Mas, neste instante, sinto como se tudo não tivesse passado de um sonho.

Tanto melhor, Teddy. Tanto melhor. Deixe-me ir.

É isso o que você quer?

Sim, amor.

Vou tentar, está bem?

Certo.

A luz cor de laranja continuava tremeluzindo acima dele. Teddy chegava a sentir o calor, quase imperceptível, mas bem real. Pôs a mão no rebordo um pouco acima, viu um reflexo laranja brincar em seu punho, impulsionou o corpo para cima, apoiando-se nos cotovelos, e viu uma abertura entre paredes escarpadas, na qual a luz se refletia. Ele se pôs de pé. Sua cabeça por pouco não tocava o teto da caverna. Esta se encurvava para a direita. Teddy se deixou guiar pela luz que, como ele logo percebeu, vinha de uma pequena fogueira no fundo de um buraco cavado no chão. Uma mulher estava do outro lado da fogueira, com as mãos às costas. "Quem é você?", ela disse.

"Teddy Daniels."

A mulher tinha cabelos compridos e usava o uniforme dos pacientes: bata rosa-clara, calça com um cordão à cintura e pantufas.

"Esse é o seu nome", ela disse. "Mas quem é você?"

"Sou um policial."

Ela inclinou a cabeça, e Teddy viu algumas mechas grisalhas na cabeleira dela. "Você é o xerife."

Teddy confirmou com a cabeça. "Você pode tirar as mãos de detrás das costas?"

"Por quê?"

"Porque gostaria de saber o que você tem nelas."

"Por quê?

"Porque eu gostaria de saber se corro o risco de ser ferido."

A mulher esboçou um sorriso. "Acho que faz sentido."

"Que bom que você pensa assim."

Ela tirou as mãos de trás das costas. Trazia entre os dedos um comprido e fino bisturi cirúrgico. "Se você não se importar, vou continuar com ele."

Teddy levantou as mãos. "Por mim, tudo bem."

"Sabe quem eu sou?"

Teddy disse: "Uma paciente de Ashecliffe".

Inclinando novamente a cabeça, ela tocou de leve a bata. "Meu Deus. Como você descobriu?"

"Certo, certo. Ponto para você."

"Vocês xerifes são todos tão espertos?"

Teddy disse: "Faz um bom tempo que não como. Estou um pouco mais lerdo que de costume".

"Você tem dormido muito?"

"Como assim?"

"Desde que chegou à ilha, tem dormido muito?"

"Não muito bem, se é que isso significa alguma coisa."

"Significa sim." Ela levantou as pernas da calça, sentou-se no chão e fez um gesto convidando-o a fazer o mesmo.

Teddy sentou-se e contemplou-lhe o rosto por cima da fogueira.

"Você é Rachel Solando", ele disse. "A verdadeira."

Ela deu de ombros.

"Você matou seus filhos?", disse.

Ela mexeu numa acha de lenha com o bisturi. "Nunca tive filhos."

"Não?"

"Não. Nunca me casei. Com certeza você vai se espantar em saber que eu não era uma mera paciente do estabelecimento."

"Como você poderia ser mais que uma paciente?"

Rachel cutucou outra acha de lenha, que rolou fazendo ruído no meio do fogo, soltando uma nuvem de centelhas que se apagaram antes de chegarem ao teto.

"Eu fazia parte do corpo de funcionários", ela disse. "Desde o final da guerra."

"Você era enfermeira?"

Ela o olhou por cima da fogueira. "Era médica, xerife. A primeira médica da equipe no hospital Drummond, em Delaware. A primeira da equipe do Ashecliffe. Você está diante de uma verdadeira pioneira."

Ou diante de uma desequilibrada mental em pleno delírio, pensou Teddy.

De repente o olhar dele cruzou com o da desconhecida. Um olhar ao mesmo tempo doce, atento e perspicaz. Ela disse: "Você acha que sou louca".

"Não."

"O que mais poderia pensar de uma mulher que se esconde numa caverna?"

"Provavelmente há um motivo para isso."

Ela deu um sorriso sombrio e balançou a cabeça. "Não estou louca. Não mesmo. Evidentemente isso é o que todo louco diz. É o espírito kafkiano da coisa. Se uma pessoa não está louca, mas afirmaram que ela está, os protestos dela só confirmam o que disseram. Entende o que estou dizendo?"

"Um pouco", disse Teddy.

"Parece um silogismo. Digamos que o silogismo comece com esta premissa: 'Os loucos negam estar loucos', está entendendo?"

"Claro", disse Teddy.

"Certo, segunda premissa: 'Bob nega ser louco'. E aí vem a conclusão, a parte do logo. 'Logo, Bob é louco.' Rachel colocou o bisturi no chão, perto do joelho, e mexeu na fogueira com um pau. "Se você é considerado louco, todos os atos que, de outro modo, provariam que você não o é passam a ser vistos como ações de uma pessoa louca. Seus protestos veementes são classificados como negação. Os medos justificados são classificados como paranóia. Os instintos de sobrevivência são chamados de mecanismos de defesa. Não há saída. Trata-se, na verdade, de uma pena de morte. Se está aqui, não pode sair. Ninguém consegue sair do pavilhão C. Ninguém. Bem, está certo, alguns saíram. Pode acreditar, uns poucos conseguiram sair. Mas passaram pela cirurgia. No cérebro. Tchum! Através do olho. É uma prática médica bárbara, irracional. E eu lhes disse isso. Lutei contra eles. Escrevi cartas. E poderiam ter me transferido, sabe? Poderiam ter me demitido ou me feito tirar uma licença compulsória ou mesmo me enviado a uma universidade para dar aulas ou trabalhar em outro estado — mas nada disso lhes convinha. Não podiam me deixar sair, de modo algum. Não, não e não."

Ela se tornava cada vez mais agitada, batia na fogueira com o pau, falava mais com os próprios joelhos do que com Teddy.

"Você realmente era médica?", disse Teddy.

"Ah, sim. Eu era médica." Ela levantou os olhos dos joelhos e do pedaço de pau. "Na verdade, ainda sou. E fui da equipe médica daqui. Comecei a perguntar sobre os grandes carregamentos de Amytal Sodium e de alucinógenos à base de ópio. Comecei a perguntar — em voz alta, para o meu azar — sobre intervenções cirúrgicas que me pareciam por demais experimentais, digo isso para usar um eufemismo."

"O que é que eles pretendem?", disse Teddy.

Ela lhe deu um sorriso ao mesmo tempo crispado e torto. "Você não tem idéia?"

"Sei que estão infringindo o Código de Nuremberg."

"Infringindo? Simplesmente o ignoram."

"Sei também que estão adotando tratamentos radicais."

"Radicais, sim. Tratamentos, não. Não há nenhum tratamento em curso por aqui, xerife. Você sabe de onde vem a verba para este hospital?"

Teddy fez que sim. "Da Hualc."

"Para não falar do dinheiro que entra por vias ilícitas", ela disse. "Aqui entra muita grana. Agora pergunte a si mesmo: como a dor chega ao corpo?"

"Depende de onde é o ferimento."

"Não", disse ela balançando a cabeça com veemência. "Não tem nada a ver com a carne. Através de neurotrans-missores, o cérebro envia impulsos ao sistema nervoso. O cérebro controla a dor", disse. "Ele controla o medo. O sono. A empatia. A fome. Tudo o que associamos ao coração, à alma ou ao sistema nervoso, na verdade, é controlado pelo cérebro. Tudo."

"Certo..."

Os olhos dela brilharam à luz da fogueira. "E se o controlarmos?"

"O cérebro?"

Ela confirmou com um gesto de cabeça. "Recriar um homem para que não precise dormir nem sinta dor. Nem amor. Nem simpatia. Um homem que não pode ser interrogado porque sua memória foi esvaziada." Ela mexeu na fogueira e olhou para ele. "Estão criando mortos-vivos aqui, xerife. Mortos-vivos que depois ganharão o mundo para cumprir uma tarefa."

"Mas a possibilidade de fazer isso, esse tipo de conhecimento está..."

"Ainda muito longe de ser atingido", ela concordou. "Ah, sim. É um processo que leva décadas, xerife. Começaram pelo mesmo ponto que os soviéticos: pela lavagem cerebral. Experiências de privação. Experiências bem semelhantes às que os nazistas fizeram com os judeus, pois pretendiam estudar o efeito do frio e do calor extremos no organismo e, com os resultados da pesquisa, ajudar os soldados do Reich. Não percebe, xerife? Daqui a meio século, os especialistas irão olhar para trás e dizer — Rachel bateu o indicador no chão sujo — 'Foi aqui que tudo começou'. Os nazistas usaram judeus. Os soviéticos abusavam dos prisioneiros nos seus gulagui. Aqui na América testamos pacientes na ilha Shutter."

Teddy ficou calado. Não lhe ocorreu dizer nada.

Ela olhou novamente para o fogo. "Não podem deixá-lo sair, xerife. Sabe disso, não é?"

"Sou um xerife federal", disse Teddy. "Como vão me neutralizar?"

Isso a fez bater palmas e soltar um riso alegre. "Eu era uma psiquiatra conceituada, de uma família respeitada. Cheguei mesmo a achar que isso bastaria. Sinto informá-lo, mas eu estava enganada. Deixe-me perguntar-lhe: você teve traumas na sua vida?"

"Quem não teve?"

"Sim, claro. Mas não estamos falando de um modo genérico, sobre traumas em geral. Estamos falando sobre um caso particular, o seu. Você tem alguma fraqueza psicológica que possam explorar? Há algum episódio ou determinados episódios em seu passado que possam ser considerados fatores anunciadores de uma futura insanidade? Episódios que, quando o internarem aqui — e pode acreditar que o farão —, levarão seus colegas e amigos a dizerem: 'Claro. Ele pirou. Finalmente. E como não iria pirar? Foi a guerra que acabou com ele. E a perda da mãe — ou seja lá o que for...'. Hein?"

Teddy disse: "Todo mundo tem uma história assim".

"Bem, aí é que está, entende? Sim, a gente pode encontrar uma história assim na vida de qualquer pessoa, mas vão falar de você. Como está sua cabeça?"

"Minha cabeça?"

Ela mordiscou o lábio inferior e balançou a cabeça várias vezes. "Essa coisa em cima do seu pescoço, como está? Tem tido sonhos estranhos ultimamente?"

"Claro."

"Dores de cabeça?"

"Sou sujeito a enxaquecas."

"Oh, não."

"Sou sim."

"Você tomou alguma pílula desde que chegou aqui? Ainda que tenha sido uma aspirina?"

"Tomei."

"Está se sentindo meio esquisito? Como se não fosse cem por cento você mesmo? Oh, não é nada grave, você diz, estou só me sentindo um pouco devagar. Talvez seu cérebro não esteja fazendo conexões na velocidade normal. Mas aí você diz que não anda dormindo bem. Uma cama estranha, num lugar estranho, uma tempestade. Você diz isso para si mesmo, não é?"

Teddy confirmou com um gesto de cabeça.

"E você deve ter comido no refeitório. E tomou o café que lhe deram. Diga-me pelo menos que tem fumado seus próprios cigarros."

"Os do meu parceiro", disse Teddy.

"Não pegou nenhum de um médico ou de um servente?"

Teddy sentia os cigarros que ganhara no pôquer no bolso da camisa. Lembrou-se de ter fumado um cigarro de Cawley no dia em que chegaram. E que era muito mais doce do que todos os cigarros que fumara na vida.

A resposta dele estava estampada na cara.

"Os narcóticos neurolépticos levam em média três a quatro dias para começar sua ação no organismo. Durante esse tempo, a pessoa mal nota os efeitos. As vezes você tem contraturas, que podem ser atribuídas à enxaqueca, principalmente se o paciente tiver propensão a isso. Mas essas contraturas são raras. Normalmente, os únicos efeitos que se podem observar no paciente..."

"Pare de me chamar de paciente."

"... são sonhos cada vez mais vividos e por períodos mais longos, e muitas vezes começam a se emendar uns nos outros até parecerem um romance escrito por Picasso. O outro efeito observável é que o paciente se sente um pouco... confuso. Seus pensamentos tendem a lhe escapar. Mas, como ele não dorme bem, tem todos esses sonhos, sabe, pode-se entender por que se sente meio lento. Ah, não, xerife, eu não estava chamando você de paciente. Ainda não. Eu estava falando de forma genérica."

"Se daqui para a frente eu evitar toda comida, cigarros, café, pílulas — que danos já podem ter sido causados?"

Rachel afastou os cabelos do rosto e os enrodilhou na parte de trás da cabeça. "Receio que muitos."

"Digamos que precise ficar na ilha até amanhã. Digamos que as drogas tenham começado a fazer efeito. Como vou saber?"

"Os sinais mais óbvios são boca seca combinada, paradoxalmente, com tendência a babar e entorpecimento. E pequenos tremores. Começam na conexão entre o punho e a base do polegar, em geral se irradiam por esse dedo durante algum tempo e finalmente tomam as mãos."

Tomar.

Teddy disse: "O que mais?".

"Sensibilidade à luz, cefaleias unilaterais esquerdas, perturbações da fala. Você começa a gaguejar."

Teddy ouvia o marulho lá fora, a maré subindo, batendo contra os rochedos.

"O que acontece no farol?", ele perguntou.

Ela abraçou a si mesma, inclinando o corpo em direção à fogueira. "Cirurgias."

"Cirurgias? Mas podem fazer cirurgias no hospital."

"Cirurgia no cérebro."

Teddy disse: "Podem fazer isso lá também".

Ela fitou as chamas. "Cirurgias exploratórias. Não cirurgias do tipo 'Vamos abrir o crânio para tentar consertar tal coisa'. Não. São do tipo 'Vamos abrir o crânio e ver o que acontece quando a gente mexe em tal coisa'. São cirurgias ilegais, xerife. Aprendidas com os nazistas." Rachel lhe sorriu. "É lá que tentam construir os mortos-vivos."

"Quem é que está ciente desses procedimentos? Quero dizer, na ilha, quem sabe disso?"

"Sobre o farol?"

"Sim, sobre o farol."

"Todo mundo."

"Ora, vamos. Os serventes, as enfermeiras?"

Os olhares deles se cruzaram, e o de Rachel era firme e claro.

"Todo mundo", ela repetiu.

 

Teddy não se lembrava de ter adormecido, mas provavelmente dormira, já que ela o estava sacudindo.

Rachel disse: "Você precisa ir embora. Eles pensam que eu morri. Pensam que morri afogada. Se vierem procurá-lo, podem me achar. Sinto muito, mas você precisa ir embora".

Ele se levantou e passou a mão logo abaixo dos olhos.

"Há uma estrada", ela disse. "A leste desta falésia. Siga por ela até o ponto em que desce para oeste. Depois, caminhe por uma hora, você vai dar nos fundos da mansão do velho comandante."

"Você é Rachel Solando?", ele perguntou. "A que conheci era falsificada."

"Como sabe?"

Teddy lembrou dos polegares naquela noite. Fitava-os no momento em que o colocaram na cama. Quando acordou, estavam limpos. Graxa de sapato, pensou, mas aí se lembrou de ter tocado o rosto dela...

"O cabelo dela foi tingido. Há pouco tempo", ele disse.

"Você precisa ir." Ela o empurrou delicadamente em direção à abertura.

"E se eu precisar voltar?", ele disse.

"Não estarei mais aqui. Eu me desloco durante o dia. A cada noite, um lugar diferente."

"Mas eu poderia vir buscá-la, tirá-la daqui."

Com um sorriso triste, ela passou a mão nos cabelos das têmporas. "Você não ouviu uma palavra do que eu disse, não é?"

"Ouvi sim."

"Você não vai conseguir sair daqui. Agora é um dos nossos." Ela pressionou os dedos contra o ombro dele, empur-rando-o para a abertura.

Teddy parou na borda e se voltou. "Tenho um amigo. Ele estava comigo esta noite, mas nos perdemos um do outro. Você o viu?"

Ela lhe deu o mesmo sorriso triste.

"Xerife", ela disse. "Você não tem amigos."

 

Quando finalmente chegou aos fundos da casa de Cawley, Teddy mal conseguia andar.

Passou por detrás da casa, subiu a alameda em direção ao portão principal, com a impressão de que a distância quadruplicara ao longo do dia. De repente, um homem surgiu das sombras, aproximou-se dele e, tomando-o pelo braço, disse: "A gente estava se perguntando quando você iria aparecer".

O diretor.

A pele dele era branca como cera, lisa como se fosse laqueada, vagamente translúcida. Teddy notou que as unhas, que tinham a mesma cor branca da pele, eram excepcionalmente compridas — por pouco não se curvavam em gancho — e bem cuidadas. Mas os olhos eram o que havia de mais perturbador em sua pessoa. De um azul sedoso, pareciam estranhamente espantados. Os olhos de um bebê.

"Prazer em finalmente conhecê-lo, senhor diretor. Como vai?"

"Oh", fez o homem. "Estou em plena forma. E você?"

"Nunca estive tão bem."

O diretor agarrou-lhe o braço. "Que bom ouvir isso. Você foi dar um passeio?"

"Bem, agora que a paciente foi encontrada, pensei em dar uma volta pela ilha."

"Com certeza se divertiu um bocado."

"Bastante."

"Maravilha. Encontrou nossos aborígines?"

Teddy levou um minuto para entender o gracejo. Agora sua cabeça zumbia o tempo todo, e ele mal conseguia se sustentar nas pernas.

"Ah, os ratos", ele disse.

O diretor lhe deu um tapinha nas costas. "Sim, os ratos! Têm um ar estranhamente majestoso, não acha?"

Teddy encarou o homem e disse: "São apenas ratos".

"São nojentos, claro. Sim, eu entendo. Mas a forma como se apoiam no traseiro para nos observar, quando se encontram a uma distância segura, a forma como surgem ou desaparecem numa fenda, num piscar de olhos..." Ele levantou os olhos para contemplar as estrelas. "Bem, talvez majestoso não seja bem o termo. Que tal dizer que são úteis? São criaturas extremamente úteis."

Tinham chegado ao portão principal. O diretor, que continuava segurando o braço de Teddy, fê-lo girar de modo a ter à frente a casa de Cawley e, mais adiante, o mar.

"Você apreciou essa dádiva recente de Deus?"

Teddy olhou longamente o homem. Por trás daqueles olhos tão perfeitos havia um espírito doente, ele pensou. "Como? Não entendi."

"Uma dádiva de Deus", disse o diretor. Num gesto largo, o braço dele abarcava a terra devastada pelo furacão. "Sua violência. Quando desci as escadas em minha casa e vi a árvore na sala de estar, senti que aquilo era obra da mão divina. Não literalmente, é claro. Mas no sentido figurado. Deus ama a violência. Você entende isso, não é?"

"Não", disse Teddy. "Não entendo."

O diretor avançou alguns passos e se voltou para encarar Teddy. "Que outro motivo existe para tanta violência? Ela está em nós. Vem de nós. Faz parte de nossa natureza, mais do que respirar. Nós desencadeamos a guerra. Fazemos sacrifícios. Pilhamos, dilaceramos a carne de nossos irmãos. Semeamos nossos fétidos cadáveres em grandes campos. E por quê? Para mostrar a Ele que aprendemos com o Seu exemplo."

Teddy o viu acariciar a capa de um livrinho que apertava contra o ventre.

O diretor sorriu, e seus dentes eram amarelos.

"Deus nos dá terremotos, furacões, tornados. Ele nos dá montanhas que cospem fogo sobre nossas cabeças. Oceanos que engolem navios. Ele nos dá a natureza, e a natureza é um assassino sorridente. E nos dá as doenças para que, em nossa morte, acreditemos que Ele nos deu orifícios só para que sentíssemos nossa vida se escoar através deles. Deu-nos a lascívia, a raiva, a cupidez e nossos corações sujos para que pudéssemos espalhar a violência em Sua homenagem. Não existe ordem moral mais pura que essa tempestade que vimos há pouco tempo. Aliás, não existe nenhuma ordem moral. Tudo se resume apenas a isto: minha violência pode dominar a sua?"

Teddy disse: "Não estou bem certo, eu...".

"Será que pode?", disse o diretor, agora tão perto de Teddy que este lhe sentiu o hálito podre.

"Pode o quê?", disse Teddy.

"Minha violência pode dominar a sua?"

"Não sou violento", disse Teddy.

O diretor cuspiu no chão, perto dos seus pés. "Você é um homem de uma rara violência. Eu sei, porque também sou. Não se dê ao trabalho de negar sua sede de sangue, rapaz. Poupe-me disso. Se não existissem mais os mecanismos de controle social, e se eu representasse o único alimento possível, você não hesitaria em rachar o meu crânio para se banquetear com meu cérebro." Ele se inclinou para a frente. "Se eu metesse os dentes no seu olho agora mesmo, você conseguiria me deter antes que eu o arrancasse?"

Teddy viu um brilho de alegria nos olhos de bebê do diretor. Imaginou o coração daquele homem, negro e palpitante, por trás da parede do peito.

"Por que não tenta?", ele disse.

"Pegou o espírito da coisa", sussurrou o diretor.

Teddy firmou bem os pés no chão, sentindo o sangue latejando nos braços.

"Sim, sim", sussurrou o diretor. '"Meus grilhões e eu nos tornamos amigos.'"

"O quê?", disse Teddy dando-se conta de que sussurrava, o corpo dominado por um estranho formigamento.

"Isso é Byron", disse o diretor. "Você se lembra desse verso, não?"

Teddy sorriu enquanto o homem recuava um passo. "Você é mesmo uma figura, não é, diretor?"

O diretor deu um fino sorriso em resposta ao de Teddy.

"Pensa que está tudo bem."

"O quê?"

"Esse seu joguinho. Acredita que é relativamente inofensivo. Mas eu, não."

"Ah não?"

"Não." O diretor deixou cair o braço ao longo do corpo, avançou alguns passos, cruzou as mãos atrás das costas de forma a apertar o livro contra a base da espinha. Finalmente se voltou, abriu as pernas à maneira militar e olhou para Teddy. "Você disse que saiu para dar um passeio, mas não engulo essa. Conheço você, rapaz."

"Mal nos apresentamos."

O diretor balançou a cabeça. "Gente como nós se conhece há séculos. Sei tudo a seu respeito. E acho que você é um sujeito triste. Acho mesmo." Franziu os lábios e contemplou os próprios sapatos. "A tristeza é algo bom. É patética, num homem, mas boa porque o deixa indiferente. Mas acho também que você é perigoso."

"Cada um tem o direito de pensar o que quiser", disse Teddy.

O semblante do diretor se anuviou. "Não, não tem. Os homens são uns imbecis. Comem, bebem, soltam gases, fornicam e procriam — e isso é muito lamentável, porque o mundo seria muito melhor sem tanta gente nele. Retardados, pancadas, loucos e gente sem caráter — eis o que produzimos. É com isso que conspurcamos a Terra. Atualmente, no Sul, estão tentando pôr os negros na linha. Mas vou lhe dizer uma coisa. Passei um tempo no Sul, e todo mundo lá é negro, rapaz. Negros brancos, negros negros, mulheres negras. Há negros por toda parte, e eles não têm mais serventia que um cachorro de duas patas. Pelo menos o cachorro ainda pode farejar de vez em quando. Você é um negro, rapaz. Um fraco. Sinto isso."

Ele dissera aquilo com uma voz surpreendentemente leve, quase feminina.

"Bem", disse Teddy. "De qualquer forma, diretor, não vai mais precisar se preocupar comigo a partir de amanhã de manhã, não é?"

O diretor sorriu. "Não, rapaz."

"Vou estar longe de suas vistas e desta ilha."

O diretor avançou dois passos em direção a ele, o riso sumindo do rosto. Balançou a cabeça e fitou Teddy com o olhar de bebê.

"Você não vai a lugar nenhum, rapaz."

"Peço licença para discordar."

"Você pode pedir o que quiser." O diretor inclinou-se para a frente, farejou ar à esquerda do rosto de Teddy, depois à direita.

"Sentiu o cheiro de alguma coisa?", disse Teddy.

"Hum humm", fez o diretor recuando o corpo. "Estou sentindo o cheiro do medo, rapaz."

"Então por que não vai tomar um banho?", disse Teddy. "Para tirar essa merda do seu corpo."

Os dois ficaram calados por um instante, até que o diretor disse: "Lembre-se dos grilhões, negro. Eles são seus amigos. E saiba que não vejo a hora de termos nossa dança final. Ah, que bela carnificina vamos fazer".

Dito isso, o diretor se voltou e subiu a alameda em direção a sua casa.

O dormitório masculino estava deserto. Não se via vi-valma. Teddy subiu para o quarto, pendurou a capa no closet e procurou algum indício de que Chuck tivesse voltado para lá, mas não encontrou nenhum.

Pensou em se sentar na cama, mas sabia que, se o fizesse, iria desmaiar e só acordaria na manhã seguinte, por isso foi ao banheiro, jogou água fria no rosto e passou um pente molhado nos cabelos. Sentia como se os ossos estivessem ralados, tinha a sensação de que o sangue estava grosso feito milk-shake. Os olhos estavam fundos e avermelhados, a pele cinza. Jogou mais água fria no rosto, enxugou-o e saiu do edifício.

Ninguém.

O ar estava se aquecendo, ficando úmido, abafado, e os grilos e as cigarras ensaiavam um canto. Teddy começou a dar voltas, na esperança de que Chuck tivesse chegado antes dele e estivesse fazendo o mesmo, andando por ali tentando encontrá-lo.

O guarda estava no portão. Teddy via luzes no quarto, mas o lugar estava completamente deserto. Andou até o hospital, subiu as escadas, tentou abrir a porta, mas viu que estava fechada à chave. Ouviu o ranger dos gonzos às costas, voltou-se e viu o guarda empurrar o portão, indo ao encontro de um colega do outro lado. No silêncio que se seguiu, ouviu as solas dos próprios sapatos no cimento, no momento em que recuou, afastando-se da porta.

Sentou-se nos degraus por um instante. A teoria de Noyce estava furada. Agora, sem nenhuma dúvida, Teddy estava só, condenado a permanecer no recinto do hospital. Mas, até onde sabia, ninguém o vigiava.

Levantou-se, contornou o edifício e se encheu de alegria quando viu um servente sentado na varanda, fumando um cigarro.

Teddy aproximou-se do servente, um negro alto e magro, que levantou os olhos para o xerife. Teddy tirou um cigarro do bolso e disse: "Tem fogo?".

"Claro."

Teddy se inclinou enquanto o rapaz acendia o cigarro, e deu um sorriso à guisa de agradecimento, endireitando o corpo. Foi então que se lembrou do que a mulher dissera sobre os cigarros, e deixou a fumaça sair devagar da boca, sem tê-la tragado.

"Como estão as coisas esta noite?", ele perguntou.

"Tudo bem. E o senhor?"

"Estou bem. Onde estão todos?"

O rapaz apontou o polegar para o edifício às suas costas. "Estão aí. Em uma grande reunião. Não sei bem por quê."

"Todos os médicos e enfermeiras?"

O rapaz confirmou com um gesto de cabeça. "E também alguns pacientes. E quase todos os serventes. Precisei ficar aqui na porta porque o fecho não está muito bom. Mas os demais... estão todos lá."

Teddy fingiu dar mais uma tragada no cigarro, esperando que o rapaz não notasse nada de anormal. Ele se perguntava se deveria simplesmente subir as escadas, esperando que o servente o tomasse por mais um funcionário, quem sabe do pavilhão C.

Através da janela às costas do rapaz, viu o corredor se encher de gente que se dirigia à porta da frente.

Agradeceu o fogo ao servente, contornou novamente o edifício e deu com uma multidão de pessoas aglomeradas ali, conversando, acendendo cigarros. Viu a enfermeira Marino dizer algo a Trey Washington pondo-lhe a mão no ombro. Este jogou a cabeça para trás e riu.

Teddy se pôs a andar na direção deles, quando Cawley o chamou das escadas. "Xerife!"

Teddy voltou-se. Cawley desceu as escadas nessa direção, tocou no cotovelo do xerife e começou a andar em direção à parede.

"Onde esteve?", perguntou Cawley.

"Dando umas voltas. Olhando a ilha."

"É mesmo?"

"É."

"Achou algo interessante?"

"Ratos."

"Bem, a ilha está cheia deles."

"Como estão indo os trabalhos de recuperação do telhado?", disse Teddy.

Cawley deu um suspiro. "Minha casa está cheia de baldes aparando água. O sótão está em ruínas. O piso do quarto de hóspedes também. Minha mulher vai ter um ataque. O vestido de casamento estava no sótão."

"Onde está sua esposa?", perguntou Teddy.

"Em Boston", disse Cawley. "Temos um apartamento lá. Ela e os meninos queriam sair um pouco deste lugar, por isso tiraram uma semana de férias. Às vezes este lugar pesa."

"Estou aqui há três dias, doutor, e já está pesando."

Cawley balançou a cabeça, esboçando um sorriso. "Mas já está indo embora, xerife."

"Indo embora?"

"Indo para casa. Agora que Rachel foi encontrada. O ferryboat normalmente chega aqui por volta das onze da manhã. Ao meio-dia, xerife, provavelmente já estará em Boston."

"Mal vejo a hora."

"Entendo", disse Cawley passando a mão na cabeça. "Sem querer ofender, xerife, mas..."

"Lá vem novamente."

Cawley levantou a mão. "Não, não. Não vou dar nenhum palpite sobre seu estado emocional. Não. Só ia dizer que sua presença aqui causou muita agitação entre os pacientes. Você sabe como é... a polícia está por aqui. Muitos deles ficaram um pouco tensos."

"Sinto muito."

"Não é culpa sua. É mais o que representa, e não sua pessoa."

"Ah, então tudo bem."

Cawley encostou-se na parede, dobrou a perna e apoiou o pé na pedra. Nesse instante, com a camisa toda amarrotada e a gravata frouxa, parecia tão exausto quanto Teddy.

"Correu um boato hoje à tarde, no pavilhão C, de que havia um homem estranho com uniforme de servente na ala principal."

"É mesmo?"

Cawley olhou para ele. "Sim."

"Que coisa."

Cawley tirou um fiapinho solto da gravata e o atirou longe com um piparote. "Pelo visto o tal estranho tinha certa experiência em dominar homens perigosos."

"Não me diga."

"Ah, digo sim."

"O que mais disseram do tal estranho?"

"Bem", disse Cawley. Movendo os ombros para trás, ele tirou o jaleco e dobrou-o sobre o braço. "Está interessado no assunto?"

"Ora, nada como uma fofoca, um boato."

"Concordo. Parece que o tal estranho — não tenho como confirmar, evidentemente — teve uma longa conversa com um esquizofrênico paranoide chamado George Noyce."

"Humm", fez Teddy.

"Pois é."

"Quer dizer então que esse..."

"Noyce", disse Cawley.

"Noyce", repetiu Teddy. "Esse cara tem alucinações?"

"É completamente delirante", disse Cawley. "Inventa histórias e deixa todo mundo agitado..."

"Lá vem essa palavra de novo."

"Desculpe-me. Sim, bem, ele costuma irritar as pessoas à sua volta. Há duas semanas, deixou todo mundo tão irritado que um paciente lhe deu uma surra."

"Inimaginável."

Cawley deu de ombros. "Essas coisas acontecem."

"Mas que tipo de história? Que tipo de história ele inventa?"

Cawley fez um gesto vago. "Os delírios paranoides de sempre. O mundo inteiro está contra ele e coisas assim."

Cawley acendeu um cigarro e fitou Teddy, seus olhos iluminados pela chama. "Quer dizer que vai embora, xerife."

"Acho que sim."

"No primeiro barco."

Teddy lhe deu um sorriso gélido. "Desde que alguém nos acorde..."

Cawley lhe retribuiu o sorriso. "Acho que podemos cuidar disso."

"Ótimo."

"Ótimo", disse Cawley. "Quer um cigarro?"

Teddy levantou a mão. "Não, obrigado."

"Está tentando parar de fumar?"

"Tentando fumar menos."

"Faz muito bem, sem dúvida. Andei lendo em revistas científicas que o fumo provoca doenças terríveis."

"É mesmo?"

O outro fez que sim. "Uma delas é o câncer."

"Hoje em dia se morre de tantas causas diferentes."

"Concordo. Mas a cada dia surgem novos tratamentos."

"Acha mesmo?"

"Se não achasse não estaria nesta profissão", disse Cawley soprando uma nuvem de fumaça sobre sua cabeça.

Teddy disse: "Já tiveram aqui um paciente chamado Andrew Laeddis?".

Cawley ficou de queixo caído. "Nunca ouvi falar."

"Não?"

O outro deu de ombros. "Acha que eu deveria?"

Teddy balançou a cabeça. "Era um cara que conheci. Ele..."

"Como?"

"Como o quê?"

"Como o conheceu?"

"Eu o conheci na guerra", disse Teddy.

"Ah."

"De qualquer forma, ouvi falar que ficou meio pirado e foi mandado para cá."

Cawley deu uma longa tragada no cigarro. "Ouviu errado.

"Pelo visto, sim."

Cawley disse: "Ora, isso acontece. Ainda há pouco pensei que tinha dito 'nós', xerife".

"O quê?"

'"Nós"', disse Cawley. "Primeira pessoa do plural."

Teddy pôs a mão no próprio peito. "Referindo-me a mim mesmo?"

Cawley fez que sim. "Pensei tê-lo ouvido dizer 'Desde que alguém nos acorde'. Que nos acorde."

"Bem, falei, claro. A propósito, não o viu por ali?

Cawley olhou para Teddy e arqueou as sobrancelhas.

Teddy disse: "Responda, ele está aqui?".

Cawley sorriu e ficou olhando para Teddy.

"O que foi?", disse Teddy.

Cawley deu de ombros. "Só estou um pouco confuso."

"Confuso com o quê?"

"Com o que disse, xerife. É mais uma de suas gracinhas esquisitas?"

"Que gracinha?", disse Teddy. "Só quero saber se ele está aqui."

"Quem?", disse Cawley, num tom já meio impaciente.

"Chuck."

"Chuck?", disse Cawley devagar.

"Meu parceiro", disse Teddy. "Chuck."

Cawley afastou-se da parede, com o cigarro pendendo dos dedos. "Não há nenhum parceiro, xerife. Chegou aqui sozinho."

 

Teddy disse: "Espere um pouco...".

E de repente viu Cawley, que tinha se aproximado, observando-o atentamente.

Teddy interrompeu-se bruscamente, sentindo como se o ar daquela noite lhe pesasse nas pálpebras.

Cawley disse: "Fale um pouco mais sobre o seu parceiro".

O olhar curioso de Cawley era a coisa mais gélida que Teddy vira na vida. Inquisidor, inteligente, ferozmente brando. Era o olhar de um personagem de vaudeville, fingindo não conhecer o desfecho da história.

E nessa história Teddy interpretava o papel do gordo Hardy, contracenando com o magro Cawley. Um bufão de suspensórios frouxos e um barril à guisa de calça. O último a entender a piada.

"Xerife", disse Cawley dando mais um passinho à frente, um homem prestes a apanhar uma borboleta.

Se protestasse, se quisesse saber onde Chuck estava, e até se afirmasse que existia mesmo um Chuck, Teddy faria o jogo deles.

Teddy cruzou o olhar com o de Cawley, e notou a malícia que havia nele.

"Os loucos negam ser loucos", disse Teddy.

Mais um passo à frente. "O quê?"

"Bob nega ser louco."

Cawley cruzou os braços sobre o peito.

"Logo", disse Teddy, "Bob é louco."

Um sorriso iluminou o rosto de Cawley.

Teddy o enfrentou rindo também.

Permaneceram assim por um instante; enquanto a brisa noturna passeava com um leve murmúrio por entre as árvores que apontavam por trás do muro.

"Vou lhe dizer uma coisa", disse Cawley, de cabeça baixa, mexendo na grama com o bico do sapato. "Construí algo valoroso aqui. Mas, muitas vezes, o que tem valor é mal interpretado. Todo mundo quer resultados rápidos. As pessoas estão cansadas de ter medo, de se sentirem tristes, de se sentirem assoberbadas, estão cansadas de se sentirem cansadas. Querem voltar aos velhos bons tempos dos quais mal se lembram, mas que, paradoxalmente, desejam encontrar no futuro, a toque de caixa. A paciência e a tolerância são as primeiras vítimas do progresso. Isso não é novidade. Sempre foi assim." Cawley levantou a cabeça. "Assim sendo, por mais que eu tenha amigos poderosos, tenho igual número de inimigos poderosos. Gente que gostaria de tirar de mim o controle do que construí. Não posso consentir nisso sem lutar, está me entendendo?"

Teddy disse: "Ah, sim, entendo, doutor".

"Ótimo", disse Cawley descruzando os braços. "E quanto ao seu parceiro?"

"Que parceiro?", disse Teddy.

 

Quando Teddy entrou no quarto, Trey Washington estava deitado na cama, lendo um exemplar antigo da revista Life.

Teddy lançou um olhar ao beliche de Chuck. A cama estava tão bem arrumada que ninguém imaginaria ter sido usada duas noites antes.

O paletó, a camisa, a gravata e a calça de Teddy tinham voltado da lavanderia e estavam pendurados no clo-set, protegidos por uma capa de plástico. Teddy tirou o uniforme de servente e vestiu as próprias roupas, enquanto Trey continuava lendo a revista.

"Como está se sentindo esta noite, xerife?"

"Muito bem."

"Ótimo, ótimo."

Teddy notou que Trey não olhava para ele, mantendo os olhos na revista, passando e repassando as mesmas páginas.

Teddy transferiu o conteúdo dos bolsos para a roupa que acabara de vestir, colocando o formulário de admissão de Laeddis no bolso interno do casaco, com o bloco de anotações. Sentou-se no beliche de Chuck, de frente para Trey, deu o nó na gravata, amarrou os cadarços dos sapatos e se deixou ficar ali em silêncio.

Trey virou outra página da revista. "Amanhã vai ser um dia quente."

"É mesmo?"

"Quente pra cacete. Os pacientes não gostam de calor."

"Não?"

Trey balançou a cabeça e virou outra página. "Não, senhor. Ficam se coçando e tudo o mais. Além disso, amanhã teremos lua cheia. E as coisas pioram ainda mais. Era só o que faltava."

"Por que isso?"

"Por que isso o quê, xerife?"

"A lua cheia. Acha que ela vira a cabeça das pessoas?"

"Sei que é assim", disse Trey notando uma dobra numa das páginas e alisando-a com o indicador.

"Como é que é isso?"

"Bem, a lua exerce influência sobre as marés, certo?"

"Claro."

"Exerce um efeito magnético, ou algo assim, sobre a água."

"É verdade."

"Mais de cinqüenta por cento do cérebro humano", disse Trey, "é composto de água."

"Está brincando!"

"Não estou. Se a dona Lua é capaz de mexer com o oceano, imagine o que pode fazer com a cabeça das pessoas."

"Há quanto tempo está aqui, senhor Washington?"

Ele terminou de desamassar a dobra e virou a página. "Ah, já faz muito tempo. Desde que saí do Exército, em 1946."

"Esteve no Exército?"

"Estive. Entrei porque queria uma arma, e me deram uma panela. Lutei contra os alemães preparando gororo-bas."

"Essa guerra foi uma porcaria", disse Teddy.

"Sim, xerife. Se nos deixassem entrar na guerra antes, ela teria terminado em 1944."

"Não sou eu quem vai lhe contradizer."

"Já rodou meio mundo, hein, xerife?"

"É verdade."

"E o que achou?"

"Línguas diferentes, mas a mesma merda."

"É verdade."

"Sabe de que o diretor me chamou esta noite, senhor Washington?"

"De quê, xerife?"

"De negro."

Trey levantou os olhos da revista. "Ele o quê?"

Teddy confirmou com a cabeça. "Disse que há muito rebotalho no mundo: raças degeneradas, negros, retardados. Disse que para ele eu era um negro."

"E isso não o agradou, não é?", Trey deu um risinho cujo som morreu tão logo lhe saiu da boca. "Mas não sabe o que é ser negro."

"Sei disso, Trey. Mas esse cara é seu patrão."

"Não, não é meu patrão. Afinal de contas, trabalho para o hospital. O Diabo Branco trabalha na parte da prisão."

"Mas mesmo assim é seu patrão."

"Não, não é." Trey levantou o corpo, apoiando-se nos cotovelos. "Ouviu bem? Estamos entendidos sobre esse ponto, xerife?"

Teddy deu de ombros.

Trey levantou-se. "Está tentando me enlouquecer, xerife?"

Teddy negou com um gesto de cabeça.

"Então por que não acredita quando lhe digo que não trabalho para aquele filho da puta?"

Teddy deu de ombros novamente. "E se, numa emergência, ele começasse a lhe dar ordens? Ia obedecer feito um cachorrinho."

"Eu ia fazer o quê?"

"Ia obedecer feito um cachorrinho."

Trey passou a mão no queixo olhando para Teddy, com um riso de incredulidade nos lábios.

"Sem querer ofender", disse Teddy.

"Não, claro."

"Descobri que as pessoas desta ilha inventaram uma maneira de forjar a verdade. Pensam que basta repetir uma idéia muitas vezes para que se torne verdade."

"Não trabalho para esse homem."

"Olhe aí", disse Teddy apontando para ele. "Mais uma verdade típica desta ilha."

Trey parecia prestes a atacá-lo.

"Ouça", disse Teddy. "Fizeram uma reunião esta noite. E o doutor Cawley me disse que não tive nenhum parceiro. E, se eu lhe perguntar sobre isso, senhor Washington, vai me dizer a mesma coisa. Vai negar que se sentou ao lado dele, que jogou pôquer com ele, que brincou com ele. Vai negar ter ouvido dele que a única maneira de se livrar de sua tia má era dar o fora. Vai negar que ele dormiu aqui nesta cama, não é?"

Trey fitou o chão. "Não sei do que está falando, xerife."

"Oh, sei, sei. Nunca tive nenhum parceiro. A verdade agora é essa. Está decidido. Não tive nenhum parceiro, e ele não se encontra em nenhum lugar desta ilha, ferido. Ou morto. Ou trancado no pavilhão C ou no farol. Nunca tive nenhum parceiro. Pode repetir isso para mim, para que tudo fique bem claro? Nunca tive nenhum parceiro. Vamos lá, tente."

Trey levantou os olhos. "Nunca teve nenhum parceiro, xerife."

"E não trabalha para o diretor, senhor Washington", completou Teddy.

Trey levou as mãos aos joelhos, apertando-os com força. Olhou para Teddy, e este notou que aquilo o estava roendo por dentro. Seus olhos marejaram, e o queixo tremeu.

"Precisa sair daqui, xerife", ele sussurrou.

"Eu sei."

"Não", disse Trey balançando a cabeça repetidas vezes. "Não tem a menor idéia do que realmente se passa aqui dentro. Esqueça o que ouviu. Esqueça o que pensa que sabe. Vão pegá-lo. E não há como desfazer o que vai acontecer. Não tem como voltar."

"Diga-me", disse Teddy, mas Trey voltou a balançar a cabeça em sinal de recusa. "Diga-me o que acontece aqui."

"Não posso fazer isso. Não posso. Olhe para mim." Trey ergueu as sobrancelhas e arregalou os olhos. "Não posso fazer isso. Está sozinho nessa história, xerife. E, se eu fosse você, não contaria com nenhum ferry."

Teddy deu um risinho. "Não posso nem mesmo sair deste edifício, que dirá desta ilha. E mesmo que eu pudesse, meu parceiro está..."

"Esqueça o seu parceiro", disse Trey entre dentes. "Ele se foi, entendeu? Não vai voltar, cara. Você precisa dar o fora. Cuide de sua pele e esqueça o resto."

"Trey", disse Teddy, "estou preso aqui."

Trey levantou-se, foi até a janela, ficou contemplando a escuridão ou a própria imagem refletida na vidraça — Teddy não sabia bem ao certo.

"Não poderá voltar aqui. E não contará a ninguém o que eu vou lhe dizer."

Teddy ficou esperando.

Trey o olhou por sobre o ombro. "Estamos entendidos?"

"Sim", disse Teddy.

"O ferry vai chegar aqui às dez horas. Parte para Boston às onze em ponto. Se um homem embarcar clandestinamente naquele pau velho, terá chance de fazer a travessia. Caso contrário, precisará esperar mais dois ou três dias até que a traineira Betsy Ross se aproxime da costa sul e desça algumas coisas ao mar." Ele olhou para Teddy. "Coisas que é proibido ter aqui na ilha. Mas não pense que a traineira vai acostar. Não, senhor. Nosso homem precisará nadar até ela."

"Não posso passar três dias nesta ilha", disse Teddy. "Não conheço nada daqui, ao passo que os homens do diretor, sim. Eles vão me encontrar."

Trey ficou calado por um instante.

"Então vai ter de ser no ferry", disse finalmente.

"O ferry, então. Mas como vou sair daqui?"

"Merda", disse Trey. "Pode não acreditar, xerife, mas hoje é seu dia de sorte. A tempestade destruiu tudo, principalmente os sistemas elétricos. Agora quase todos os fios elétricos da muralha foram reparados. Quase todos."

Teddy disse: "Quais as partes ainda não consertadas?".

"O canto sul. Aquele trecho está sem eletricidade, bem no parte em que a muralha forma um ângulo de noventa graus. Em qualquer outro ponto, corre o risco de fritar feito um frango. Portanto, trate de ter cuidado, está ouvindo?"

"Sim."

Trey balançou a cabeça para a própria imagem na vidraça. "Sugiro que dê o fora. O tempo corre."

Teddy levantou-se. "Chuck", disse.

Trey fechou a cara. "Não existe nenhum Chuck, certo? Nunca houve. Se voltar para o mundo, poderá falar de Chuck o quanto quiser, mas aqui, não. Esse sujeito nunca existiu."

No momento em que Teddy contemplava o canto oeste da muralha, ocorreu-lhe que Trey poderia estar mentindo. Se ele segurasse firme aqueles fios, e não estivessem desligados, iriam encontrar só o corpo de manhã, ao pé do muro, preto feito um bife do mês anterior. Problema resolvido. Trey se tornaria o funcionário do ano e, quem sabe, ganharia uma medalha de ouro.

Olhou em volta até achar um galho comprido, voltou--se para uma seção do fio à direita do ângulo formado pela muralha, correu nessa direção, tomou impulso e pulou. Mal bateu no fio o galho pegou fogo, numa explosão de chamas. Ao pé do muro, Teddy olhou o galho em sua mão. As chamas tinham se apagado, mas a madeira continuava queimando.

Ele tentou mais uma vez, só que agora à esquerda do ângulo da muralha. Nada.

Deixou-se ficar no chão novamente, recuperando o fôlego, depois saltou mais uma vez para bater no fio. E de novo nada aconteceu.

Havia um poste de metal na junção entre as duas seções do muro. Teddy só conseguiu se agarrar a ele no terceiro salto. Segurou firme e subiu no muro. Seus ombros tocaram o fio, depois os joelhos, depois os braços. A cada vez, Teddy tinha a impressão de que tinha chegado a sua hora.

Mas não. Uma vez no alto do muro, só o que poderia fazer era pular para o outro lado.

Viu-se pisando nas folhas espalhadas pela tempestade e voltou os olhos para Ashecliffe.

Tinha ido para lá em busca da verdade, e não a descobrira. Fora atrás de Laeddis, e também não o encontrara. E no percurso perdera Chuck.

Teria tempo para lamentar tudo isso, quando voltasse para Boston. Aí poderia se sentir culpado, envergonhado. Poderia examinar as alternativas, conversar com o senador Hurly e conceber um plano de ataque. E então iria voltar. Depressa. Não tinha nenhuma dúvida quanto a isso. E, com um pouco de sorte, estaria munido de ultimações e mandados de busca. Faria a travessia num barco federal. E só então se permitiria uma fúria sagrada.

Agora, porém, ele se sentia apenas aliviado, vivo e do outro lado da muralha.

Aliviado. E assustado.

 

Levou uma hora e meia para voltar à caverna, mas a mulher já se fora. Da fogueira restavam apenas umas poucas brasas, junto às quais Teddy se acomodou, apesar do calor intempestivo e do crescente mormaço.

Teddy esperava por ela, contando que tivesse saído para pegar mais lenha. No fundo, porém, sabia que ela não ia voltar. Talvez imaginasse que ele fora pego e que estivesse contando ao diretor e a Cawley sobre seu esconderijo. Talvez — o que era esperar demais, mas Teddy se permitiu sonhar com essa possibilidade — Chuck a tivesse encontrado e os dois tivessem ido a um lugar que ela julgava mais seguro.

Quando o fogo se extinguiu, Teddy tirou o paletó, cobriu com ele o peito e os ombros, encostando a cabeça na parede de pedra. Como acontecera no início da noite anterior, a última imagem que viu antes de se entregar ao sono foi a dos polegares.

Eles começavam a se contrair.

 

                   QUARTO DIA - O MAU MARINHEIRO

Todos os mortos e considerados mortos estavam pegando os casacos.

Estavam na cozinha; e os casacos, pendurados em cabides. O pai de Teddy pegou o seu velho jaquetão, vestiu--o, ajeitou as mangas, ajudou Dolores a vestir o dela e disse a Teddy: "Sabe o que eu queria ganhar no Natal?".

"Não, papai."

"Uma gaita de foles."

E Teddy entendeu que ele queria dizer um saco de golfe e tacos.

"Como Ike?", perguntou Teddy.

"Isso mesmo", disse o pai, passando a Chuck o seu sobretudo.

Chuck o vestiu. Era um belo sobretudo. De caxemira do pré-guerra. A cicatriz de Chuck desaparecera, mas ele continuava com aquelas mãos delicadas, que pareciam ser de outra pessoa. Ele as ergueu na frente de Teddy, mexendo os dedos.

"Você foi embora com a médica?", disse Teddy.

Chuck negou com um gesto de cabeça. "Estou longe de ser uma pessoa supereducada. Participei da corrida."

"E ganhou?"

"Perdi feio."

"Sinto muito."

Chuck disse: "Dê um beijo de despedida na sua mulher. No rosto".

Teddy afastou a mãe e Tootie Vicelli, que sorria para ele com a boca cheia de sangue, beijou Dolores no rosto e perguntou: "Querida, por que você está toda molhada?".

"Estou seca feito um osso", disse ela ao pai de Teddy.

"Se eu tivesse metade da idade que tenho", disse o pai de Teddy, "eu me casaria com você, garota."

Estavam todos encharcados, até a mãe de Teddy, até Chuck. Os casacos gotejavam, molhando todo o chão.

Chuck lhe passou três achas de lenha e disse: "Para a fogueira".

"Obrigado", disse Teddy pegando as achas e esquecendo onde as colocara.

Dolores coçou a barriga e disse: "Os putos desses coelhos, para que diabos servem?".

Laeddis e Rachel Solando entraram no quarto. Estavam sem casaco. Estavam sem roupa nenhuma. Laeddis passou uma garrafa de uísque por cima da cabeça da mãe de Teddy, tomou Dolores nos braços. Teddy deveria sentir ciúmes, mas Rachel se ajoelhou na frente dele, abriu-lhe a braguilha e o tomou na boca. Chuck, o seu pai, Tootie Vicelli e a sua mãe deram um adeusinho. Laeddis e Dolores recuaram a passos trôpegos até o quarto, e Teddy os ouviu ofegar na cama, enquanto lutavam com as roupas, ofegando ruidosamente; e tudo lhe parecia perfeito, absolutamente maravilhoso. Ele ajudou Dolores, que estava à sua frente, a se levantar, enquanto Rachel e Laeddis trepavam feito loucos, e então beijou a sua mulher, colocou a mão no buraco da sua barriga. Ela disse: "Obrigada". Ele a penetrou por trás, empurrando as achas do balcão da cozinha, e viu o diretor e os seus homens tomando gola-das do uísque trazido por Laeddis. O diretor piscou para Teddy em sinal de aprovação ao modo como ele trepava, ergueu o corpo na sua direção, dizendo aos subordinados:

"Esse negro branco tem colhões! Se o virem, atirem de cara, estão ouvindo? Não precisam nem piscar. Se esse cara sair da ilha, estaremos todos fodidos."

Teddy tirou o paletó de cima do corpo e rastejou até a entrada da caverna.

O diretor e os seus homens estavam no alto do rochedo logo acima dele. O sol já se erguera no horizonte. Ouviam-se os guinchos das gaivotas.

Teddy consultou o relógio de pulso: oito da manhã.

"Não facilitem", continuou o diretor. "Esse homem se formou no combate, foi testado no combate, endureceu no combate. Ganhou muitas condecorações; entre elas, a Purple Heart e a Oak Leaf with Clusters. Matou dois homens na Sicília só com as mãos."

Essa informação estava na pasta com os dados pessoais de Teddy, este bem o sabia. Mas como a conseguiram?

"Maneja a faca como ninguém e é muito bom no corpo a corpo. Não se aproximem desse sujeito. Logo que puderem, abatam-no como a um cão de duas patas."

Teddy se pegou sorrindo, apesar da situação. Quantas vezes os homens do diretor já teriam ouvido comparações com cães de duas patas?

Três guardas desciam com a ajuda de cordas pelo rochedo menor, e Teddy se afastou da borda, vendo-os descer para a praia. Alguns minutos depois, subiram novamente, e Teddy ouviu um deles dizer: "Ele não está lá embaixo, senhor".

Por algum tempo, Teddy os ouviu vasculharem as cercanias do promontório e da estrada. Quando se fez silêncio, ele deixou passar mais uma hora antes de sair da caverna, para ter certeza de que ninguém tinha ficado lá em cima de atalaia, dando tempo para que o grupo de busca se distanciasse.

Eram nove e vinte quando o xerife chegou à estrada e começou a caminhar em direção oeste, tentando andar a passo estugado, mas sem deixar de ficar atento a qualquer movimento de homens à sua frente ou às suas costas.

Trey acertara na sua previsão do tempo. Estava quente como o diabo, e Teddy tirou o paletó e dobrou-o sobre o braço. Afrouxou o nó da gravata o bastante para tirá-la pela cabeça e colocou-a no bolso. A sua boca estava seca como uma pedra de sal, e os olhos coçavam por causa do suor.

De repente reviu a cena do sonho em que Chuck colocava o casaco, e essa imagem o perturbou mais do que a de Laeddis acariciando Dolores. Até o aparecimento de Rachel e Laeddis, todos os personagens do sonho eram pessoas mortas. Exceto Chuck. Mas ele tirara o casaco da mesma fileira de cabides, seguindo-os porta afora. Teddy abominou o significado daquilo. Se pegaram Chuck no pro-montório, provavelmente o arrastaram enquanto Teddy subia de volta. E quem quer que o tivesse agarrado deveria ser muito bom de serviço, porque Chuck nem ao menos soltara um grito.

Quão poderoso era preciso ser para dar sumiço não apenas em um, mas em dois xerifes dos Estados Unidos?

Sumamente poderoso.

E, se o que pretendiam fazer com Teddy era levá-lo à loucura, o plano para Chuck não seria o mesmo. Ninguém iria acreditar que dois xerifes endoidaram nos mesmos quatro dias. Portanto, Chuck precisaria morrer num acidente. Com certeza no furacão. Na verdade, se fossem realmente espertos — e era isso o que parecia —, relatariam a morte de Chuck como o acontecimento que teria provocado a loucura de Teddy.

Havia uma lógica irrefutável nessa idéia. Mas, se não conseguisse sair da ilha, pensou Teddy, o Comando Central nunca iria aceitar essa história, e mandaria outros xerifes para verificar tudo pessoalmente.

E o que iriam encontrar?

Teddy contemplou os próprios pulsos e polegares. Os tremores tinham aumentado. E, mesmo depois de uma noite de sono, o cérebro não estava muito desanuviado. Teddy se sentia confuso, com a língua pastosa. Se, à chegada dos outros xerifes, as drogas já o tivessem dominado, com certeza o encontrariam babando no roupão de banho e defecando onde quer que estivesse. E a versão dos fatos dada por Ashecliffe seria confirmada.

A sirene do ferryboat tocou no momento em que Teddy chegava ao alto de uma elevação. Vendo a embarcação fazer a manobra no porto e começar a recuar ramo ao píer, ele acelerou a marcha. Dez minutos depois, avistou os fundos da casa de Cawley através das árvores.

Quando saiu da estrada para entrar no bosque, ouviu os homens descarregando o ferryboat: o barulho surdo das caixas sendo jogadas no píer, o clangor metálico dos vagonetes, o ruído de passos nas pranchas de madeira. Ele alcançou o último renque de árvores, viu vários serventes na doca, dois pilotos do ferry encostados na amurada da popa e guardas — montes de guardas, com as coronhas dos fuzis apoiadas nos quadris, de corpos voltados para o bosque, com os olhos perscrutando as árvores e o terreno em frente do hospital.

Terminada a descarga, os serventes empurraram os seus vagonetes de volta à doca, mas os guardas permaneceram, e Teddy sabia que a única tarefa deles naquela manhã era garantir que o xerife não entrasse naquela embarcação.

Engatinhando por entre as árvores, chegou aos fundos da casa de Cawley. Ouviu o movimento de homens no pavimento superior da casa; um deles, de costas para Teddy, tinha subido no telhado fortemente inclinado. O xerife encontrou o carro no galpão, no lado oeste da casa. Um Buick Roadmaster, 1947. Lataria marrom, couro branco na parte interna. Polido e rebrilhando no dia seguinte ao de um furacão. Provavelmente era o xodó de Cawley.

Teddy abriu a porta do lado do motorista e sentiu o cheiro do couro, como se o carro estivesse novo. Abriu o porta-luvas, encontrou várias cartelinhas com fósforos e se apossou de todas elas.

Em seguida tirou a gravata do bolso, amarrou uma pe-drinha na ponta mais fina, desatarraxou a tampa do tanque de gasolina, colocou a gravata com a pedra dentro do tanque, só deixando de fora a parte mais larga da gravata, com motivos florais. Ela parecia estar pendurada no pescoço de um homem.

Teddy se lembrou de quando Dolores lhe dera essa gravata, passando-a diante dos seus olhos, sentando-se no seu colo.

"Desculpe-me, querida", sussurrou. "Gosto dela porque foi presente seu. Mas, para falar a verdade, é uma gravata feia pra burro."

Teddy levantou o rosto para o céu pedindo-lhe desculpas, depois acendeu um fósforo para incendiar toda a carteia, e ateou fogo na gravata.

Então correu feito um desesperado.

Quando Teddy estava a meio caminho do bosque, o carro explodiu. Ele ouviu os gritos dos homens e, olhando para trás, viu bolas de fogo subindo em direção ao céu. Seguiu-se uma série de explosões menores, semelhantes a fogos de artifício, e as janelas estouraram.

Ele chegou à orla do bosque, embolou o paletó e colocou-o sob umas pedras. Viu os guardas e o pessoal do ferryboat correndo em direção à casa de Cawley, e teve certeza de que, se precisasse fazer o que tinha pensado, essa era a hora. Não havia tempo para pensar, o que era bom, porque, se refletisse sobre o que ia fazer, nunca o faria.

Saiu do mato e se pôs a correr pela praia. Pouco antes de chegar à doca, onde seria visto por quem quer que estivesse correndo em direção ao barco, guinou bruscamente à esquerda e se jogou na água.

Ela estava gelada. Teddy esperava que o calor do dia a tivesse aquecido um pouco, mas o frio da água percorreu o seu corpo como uma corrente elétrica e lhe travou a respiração. Continuou, porém, avançando mar adentro, tentando não pensar no que poderia estar na água com ele — enguias, águas-vivas, caranguejos e, quem sabe, tubarões. Aquilo parecia ridículo, mas Teddy ouvira dizer que os tubarões atacam seres humanos a uma profundidade média de um metro, a profundidade em que ele se encontrava, com a água chegando-lhe à cintura e subindo pouco a pouco. De repente ouviu gritos na casa de Cawley. Ignorando o martelar do coração dentro do peito, Teddy mergulhou na água.

Viu a garota dos seus sonhos flutuando logo à frente, com os olhos abertos e resignados.

Ele balançou a cabeça e ela desapareceu; no seu lugar, ele avistou a quilha do ferryboat — uma espécie de larga faixa negra ondulando entre as ondas verdes. Teddy nadou até ela e agarrou-a com ambas as mãos, acompanhou-a em todo o seu comprimento, depois subiu à superfície lentamente, deixando emergir apenas a cabeça. Sentiu o sol acariciar-lhe o rosto, enquanto tomava fôlego, e tentou afastar de si a imagem de uma criatura que, atraída pela visão das pernas dele agitando-se nas profundezas, se aproximasse para dar uma cheirada...

A escada estava no lugar onde ele esperava que estivesse. Bem à frente. Teddy se pendurou na terceira barra. Agora ouvia os homens correndo de volta à doca, os passos pesados ressoando nas pranchas de madeira. E de repente soou a voz do diretor:

"Revistem o barco."

"Mas só fomos..."

"Você abandonou o seu posto e agora quer contestar as minhas ordens?"

"Não, senhor. Desculpe-me, senhor."

Sob o peso dos guardas que subiram a bordo, a escada mergulhou um pouco mais fundo, e Teddy os ouviu percorrendo a barca, abrindo portas, deslocando móveis.

Algo deslizou entre suas coxas feito uma espécie de mão, e Teddy cerrou os dentes, crispou os dedos na barra da escada, obrigando-se a esvaziar a mente de todo pensamento, porque não queria imaginar o que aquilo poderia ser. Finalmente "a coisa" se afastou, e ele soltou um suspiro de alívio.

"O meu carro. Ele acabou com o meu carro", dizia Cawley, descontrolado.

"Isso já foi longe demais, doutor", disse o diretor.

"Combinamos que cabe a mim a decisão final."

"Se esse homem sai da ilha..."

"Não vai sair da ilha."

"Tenho certeza de que você também não imaginava que ele fosse explodir o seu carro. Precisamos interromper essa operação agora para não aumentar as nossas perdas."

"Dei muito duro para jogar a toalha agora."

O diretor levantou a voz: "Se esse homem sair da ilha, seremos destruídos".

Cawley respondeu na mesma altura: "Ele não vai sair da merda desta ilha!".

Os dois ficaram calados por um minuto. Teddy sentia o peso deles deslocando-se na doca.

"Ótimo, doutor. Mas a barca vai ficar. Ela só vai sair da ilha quando esse sujeito for encontrado."

Teddy continuava agarrado à barra da escada, sentindo os pés queimando de tão gelados.

Cawley disse: "O pessoal de Boston vai pedir explicações sobre isto".

Teddy fechou a boca, antes que os dentes começassem a bater.

"Então dê as explicações. Mas a barca fica."

Algo cutucou por trás a perna esquerda de Teddy.

"Tudo bem, diretor."

Ao levar mais uma cutucada, Teddy escoiceou e ouviu o barulho da água ferir o ar como um tiro.

Passos na popa da barca.

"Ele não está aí, senhor. Vasculhamos tudo."

"Para onde foi então?", disse o diretor. "Alguém tem alguma idéia?"

"Merda!"

"O que é, doutor?"

"Deve ter ido para o farol."

"Essa idéia também me passou pela cabeça."

"Vou cuidar disso."

"Leve alguns homens com você."

"Disse que vou cuidar disso. Temos homens lá."

"Mas não bastam."

"Já disse que cuido disso."

Teddy ouviu os passos de Cawley afastando-se nas pranchas de madeira, ficando mais leves quando chegaram à areia.

"Esteja ou não no farol", disse o diretor aos seus homens, "essa barca não vai a lugar nenhum. Peçam ao piloto as chaves de contato e as passem para mim."

 

Teddy nadou durante a maior parte do trajeto.

Abandonou a barca, nadou em direção à praia até estar próximo do fundo arenoso o suficiente para poder avançar ajudando-se com as mãos, e finalmente levantou a cabeça da água e olhou para trás. Ele se distanciara algumas centenas de metros dos guardas, que agora formavam um círculo em volta do embarcadouro.

Mergulhou novamente e continuou a avançar na areia do fundo, sem ousar espadanar a água nadando, nem mesmo usando o nado cachorrinho. Chegou a uma curva da orla, contornou-a, arriscou-se indo até a praia e sentou-se ao sol para aquecer o corpo. Tentou em seguida continuar o caminho a pé, mas deparou com afloramentos rochosos que o obrigaram a voltar para a água. Resignado, amarrou os dois sapatos, pendurou-os ao pescoço, dispondo-se a nadar mais um bocado, imaginando os ossos do pai jazendo nas profundezas daquele mesmo oceano, assim como tubarões com grandes nadadeiras, caudas batendo contra a água, barracudas exibindo fileiras de dentes brancos. Ele sabia que se impunha aquela prova porque era preciso, porque o frio o entorpecera, porque agora não havia alternativa — sem contar que seria necessário repetir a dose dentro de dois ou três dias, quando a Betsy Ross largasse a carga próximo à ponta meridional da ilha. Ora, a única maneira de vencer o medo era enfrentá-lo, como aprendera durante a guerra, mas Teddy jurou a si mesmo que, se conseguisse sair dessa, nunca mais se aventuraria no mar. Sentia-se vigiado e apalpado por aquela massa líquida mais antiga que os deuses e ainda mais orgulhosa das suas inúmeras vítimas.

Teddy avistou o farol por volta das treze horas. Não dava para ter certeza do horário, pois deixara o relógio de pulso no bolso do terno, mas dava para deduzir pela posição do sol. Voltou a terra firme junto à escarpa rochosa sobre a qual se erguia a torre, deitou-se numa pedra e ficou tomando sol até o corpo parar de tremer e a pele perder a coloração arroxeada, voltando ao normal.

Se Chuck estivesse lá em cima, independentemente da condição em que se encontrasse, Teddy iria tirá-lo de lá. Vivo ou morto, não iria abandoná-lo.

Então é você quem vai morrer.

Era a voz de Dolores, e ele sabia que a mulher estava certa. Se fosse necessário esperar dois dias pela chegada da Betsy Ross, e se Chuck não estivesse absolutamente alerta, com pleno domínio de suas faculdades físicas e mentais, nunca conseguiriam escapar. Seriam caçados...

Teddy sorriu.

... como cachorros de duas patas.

Não posso deixá-lo, disse a Dolores. Não posso fazer isso. Se não o encontrar, é outra história. Mas ele é o meu parceiro.

Você mal teve tempo de conhecê-lo.

Mas ainda assim é o meu parceiro. Se estiver preso lá dentro, sendo maltratado, preciso tirá-lo de lá.

Mesmo correndo o risco de morrer?

Ainda assim.

Então torço para que ele não esteja lá.

Finalmente Teddy desceu da pedra, tomou uma trilha arenosa, coberta de conchas, que serpenteava por entre a grama, e ocorreu-lhe que Cawley se enganara tomando-o por um potencial suicida. No fundo, o que sentia era desejo de morrer. Durante anos não conseguira atinar com uma boa razão para continuar a viver. Mas também não conseguira encontrar uma razão para morrer. Tirar a vida com as próprias mãos? Mesmo nas noites de maior angústia, essa lhe parecia uma opção extremamente patética, embaraçosa, lamentável...

Mas...

O guarda surpreendeu-se tanto com a presença de Teddy quanto este com a dele. De braguilha ainda aberta, com o rifle pendurado às costas, a primeira reação do homem foi fechar a braguilha, e, quando mudou de idéia, Teddy já batera no seu rosto. O guarda agarrou o pescoço do xerife, enquanto este se abaixava e lhe dava um pontapé na parte de trás da coxa. O homem se desequilibrou e caiu para trás. Teddy lhe deu um pontapé no ouvido direito. Os olhos do sujeito se reviraram, a boca se abriu e o guarda ficou imóvel.

Teddy se debruçou sobre ele, tirou a alça do rifle do ombro e o rifle de sob o seu corpo. Constatou que o guarda ainda estava respirando. Bom, não matara o sujeito.

 

E agora tinha uma arma.

Teddy a usou para dominar um outro guarda, postado diante da cerca. Quando desarmou esse segundo guarda — na verdade, um garoto —, este lhe perguntou: "Vai me matar?".

"Claro que não, menino", disse Teddy batendo a coro-nha do rifle na têmpora do garoto.

 

Havia uma pequena barraca do outro lado da cerca. Teddy a examinou e encontrou apenas algumas revistas de mulher pelada, uma caneca de café frio, alguns uniformes pendurados num cabide atrás da porta.

Saiu da barraca, dirigiu-se ao farol, abriu a porta com o rifle e deu com uma área de cimento nu, úmido e frio, em que as paredes estavam cobertas de mofo e havia uma escada em espiral, feita da mesma pedra que as paredes.

Subiu por ela até o primeiro andar, tão vazio quanto o outro, e teve certeza de que ali havia um subsolo, um lugar amplo, que talvez estivesse ligado ao hospital por passagens subterrâneas, porque, até onde observara, aquilo não passava... bem... de um farol abandonado.

Teddy ouviu um rangido acima da cabeça, voltou à escada, subiu mais um lanço e deparou com uma pesada porta de ferro. Apertou o cano do rifle contra ela e notou que a porta cedeu um pouquinho.

Ouviu o rangido novamente, sentiu cheiro de fumaça de cigarro, ouviu o barulho do mar, sentindo ao mesmo tempo o sopro do vento. Se o diretor tivesse sido esperto o bastante para postar guardas de ambos os lados daquela porta, ele estava frito.

Corra, querido.

Não posso.

Por que não?

Porque tudo está em jogo aqui.

Tudo o quê?

Tudo.

Não entendo...

Tudo. Eu. Laeddis. Chuck. O pobre-diabo do Noyce. Tudo será decidido aqui. Ou tudo acaba agora. Ou acabo eu.

E as mãos dele, querido? As mãos de Chuck. Você não viu?

Não. O quê?

As mãos dele, Teddy. Parecem não ser dele.

Teddy entendeu o que ela queria dizer. Sabia que algum detalhe importante relacionado às mãos de Chuck lhe escapava, mas, no momento, não tinha tempo de refletir sobre isso.

Preciso passar por esta porta agora, querida.

Certo. Tenha cuidado.

Teddy se agachou do lado esquerdo da porta, encostou o cabo do rifle do lado esquerdo da caixa torácica, apoiou a mão no chão para garantir o equilíbrio e chutou a porta com o pé esquerdo. A porta se escancarou, Teddy caiu de joelhos e ajeitou o rifle no ombro, apontando-o para o homem à sua frente.

Cawley.

Sentado à mesa de trabalho, estava de costas para uma janelinha quadrada que dava para a imensidão azul e ar-gêntea do mar, cujo cheiro inundava a sala, enquanto o vento brincava nos cabelos dele.

Cawley não pareceu surpreso. Nem assustado. Bateu o cigarro na borda do cinzeiro à sua frente e disse a Teddy:

"Querido, por que você está todo molhado?"

 

As paredes atrás de Cawley estavam cobertas de lençóis cor-de-rosa, colados nos cantos com pedaços de fita adesiva. Na mesa à sua frente havia várias pastas, um rádio do Exército, o formulário de admissão de Laeddis, o bloco de anotações e o paletó de Teddy. Em cima de uma cadeira, a um canto, via-se um gravador de rolo ligado, encimado por um pequeno microfone voltado para o centro da sala. Logo à frente de Cawley, havia um caderno de anotações encadernado em couro preto. Cawley rabiscou algo nele e disse: "Sente-se".

"O que disse?"

"Disse 'sente-se'."

"E antes disso?"

"Sabe muito bem o que eu disse."

Teddy tirou o rifle do ombro, mantendo-o sempre apontado para Cawley, e entrou na sala.   .

Cawley voltou a rabiscar. "Está descarregado."

"O quê?"

"O rifle. Não tem nenhuma bala nele. Com toda a sua experiência com armas de fogo, como não notou isso?"

Sem dizer uma palavra, Teddy verificou a câmara. Estava vazia. Só para ter certeza, apontou para a parede à esquerda, apertou o gatilho, mas só ouviu o ruído seco do cão da arma.

"Deixe-o a um canto", disse Cawley.

Teddy largou o rifle no chão, puxou a cadeira de junto da mesa, mas não se sentou.

"O que há por trás dos lençóis?"

"Bom, vamos chegar lá. Sente-se. E relaxe. Tome isto", disse Cawley pegando uma grande toalha no chão e jogan-do-a para Teddy por cima da mesa. "Enxugue-se um pouco. Vai acabar se resfriando."

Teddy enxugou o cabelo, tirou a camisa, embolou-a e jogou-a num canto, enxugou o tórax e pegou o paletó da mesa.

"Posso?"

"Claro, claro."

Teddy vestiu o paletó e sentou-se na cadeira.

Cawley escreveu mais um pouco, a caneta arranhando o papel. "Machucou muito os guardas?"

"Não muito", disse Teddy.

Cawley balançou a cabeça, soltou a caneta, aproximou-se do rádio e acionou a manivela para ligá-lo. Levantou o receptor e o fone, acionou o botão com um piparo-te e falou ao microfone: "Sim, está aqui. Peça ao doutor Sheehan que examine os homens e depois diga-lhe para subir aqui".

Dito isso, desligou.

"Ah, o misterioso doutor Sheehan", comentou Teddy.

Cawley mexeu as sobrancelhas.

"Deixe-me adivinhar: ele chegou no ferry da manhã."

Cawley balançou a cabeça para os lados. "Ele nem saiu da ilha."

"Escondido à vista de todos", disse Teddy.

Cawley levantou as mãos e deu de ombros. "É um psiquiatra brilhante. Jovem, mas muito promissor. O plano foi nosso, dele e meu."

Teddy sentiu uma pequena pontada abaixo da orelha esquerda. "E como está indo o plano?"

Cawley levantou uma folha do caderno, deu uma olhada na página seguinte, e soltou-a. "Não muito bem. Eu esperava mais."

Quando ele encarou Teddy, este reviu no rosto daquele homem uma expressão que observara durante a reunião com os demais médicos, pouco antes da tempestade; o problema é que ela não combinava com a personalidade de Cawley, nem com aquela ilha, nem com o farol, nem com aquele jogo terrível que estavam jogando.

Era uma expressão de compaixão.

Se as circunstâncias fossem outras, ele seria capaz de jurar que se tratava disso.

Teddy desviou o olhar do rosto de Cawley, examinou a salinha, os lençóis nas paredes. "Então é assim?"

"É", confirmou Cawley. "Isto aqui é o farol. O Santo Graal. A grande verdade que estava buscando. Não é tudo o que queria e mais ainda?"

"Não vi o porão."

"Não existe porão. Isto aqui é um farol."

Teddy viu o seu bloco de anotações na mesa, entre ambos.

Cawley disse: "Sim, é o seu bloco de anotações. Nós o encontramos com o paletó, no bosque perto da minha casa. Você explodiu o meu carro".

Teddy deu de ombros. "Desculpe-me."

"Eu adorava aquele carro."

"Foi a impressão que tive."

"Ainda me lembro do dia em que o escolhi na concessionária, na primavera de 1947. Falei comigo mesmo: Bem, meu velho, que bom negócio. Você não vai precisar comprar carro nos próximos quinze anos, no mínimo." Soltou um suspiro. "Fiquei tão contente com a compra."

Teddy levantou as mãos. "Peço desculpas novamente."

Cawley balançou a cabeça. "Pensou realmente, ainda que por um instante, que o deixaríamos pegar aquela barca? Mesmo que tivesse explodido toda a ilha para se divertir, como isso o ajudaria?"

Teddy deu de ombros.

"Estava sozinho", disse Cawley, "e a única tarefa que todos tinham esta manhã era mantê-lo longe da barca. Francamente, não entendo o que pretendia."

Teddy disse: "Era a única maneira de sair. Precisava tentar".

Cawley o olhou um tanto perplexo, murmurou: "Puxa vida, como eu gostava daquele carro", e fitou o próprio regaço.

Teddy disse: "Tem um pouco de água?".

Cawley pareceu refletir sobre a pergunta por um instante, depois girou a cadeira e mostrou um jarro e dois copos no peitoril da janela às suas costas. Encheu os dois copos e passou um a Teddy, por cima da mesa.

O xerife tomou toda a água de um só gole.

"Boca seca, hein?", disse Cawley. "É como uma cocei-ra na língua que não para nunca, por mais água que beba?" Ele pôs o jarro na mesa, empurrou-o em direção a Teddy e ficou observando o xerife encher o copo novamente. "Tremor nas mãos. A coisa está ficando pior. E a enxaqueca?"

No mesmo instante, Teddy sentiu como se um ferro em brasa entrasse por trás do olho esquerdo, chegasse até a têmpora, subindo em seguida ao couro cabeludo e descendo até a mandíbula.

"Está melhor", disse.   "Vai piorar."

Teddy tomou mais um pouco de água. "Eu sei. A médica me preveniu."

Cawley recostou-se na cadeira, abriu um sorriso e bateu com a caneta no caderno. "E quem é essa, agora?"

"Não sei o nome, mas ela trabalhou aqui com você."

"Ah. E o que ela lhe disse exatamente?"

"Ela me disse que os neurolépticos levam quatro dias para atingir uma taxa eficaz na corrente sangüínea. Previu a boca seca, as dores de cabeça, os tremores."

"Mulher esperta."

"Pois é."

"Isso não é causado pelos neurolépticos."

"Não?"

"Não."

"Pelo quê, então?"

"Síndrome de abstinência", disse Cawley.

"Abstinência de quê?"

Cawley sorriu novamente, o seu olhar se tornou distante, e ele abriu o bloco de Teddy na última página escrita, e empurrou-o na direção de Teddy.

"Essa letra é sua, não é?"

Teddy lançou um olhar à página. "Sim."

"A última mensagem cifrada?"

"Se é a última, não sei, mas, de qualquer forma, é uma mensagem cifrada."

"Mas ainda não a decifrou."

"Ainda não tive oportunidade. Não sei se notou, mas as coisas ficaram um tanto movimentadas por aqui."

"Claro, claro", disse Cawley batendo a mão na página. "Não gostaria de decifrá-la agora?"

Teddy olhou para os oito números e letras:

 

         E(5)-0(15)-E(5)-V(22)-E(5)-C(3)-L(12)-E(5)

 

Teddy sentia o ferro em brasa atrás do olho.

"Não estou na minha melhor forma."

"Mas é simples", disse Cawley. "Oito letras."

"Vamos esperar que a minha cabeça pare de latejar."

"Ótimo."

"Abstinência de quê?", disse Teddy. "O que me deu, doutor?"

Cawley estalou os dedos, recostou-se na cadeira com um bocejo.

"Clorpromazina. Ela tem as suas desvantagens. Aliás, muitas. Não gosto muito dessa droga. Pretendia começar a lhe dar imipramina, antes da última série de incidentes, mas acho que agora não será preciso." Ele se inclinou para a frente. "Em geral, não sou muito fã da farmacologia, mas, no seu caso, não tenho dúvidas de que é necessário o uso de drogas."

"Imipramina?"

"Também é chamada de Tofranil."

Teddy sorriu. "E clorpro..."

"... mazina." Cawley balançou a cabeça. "Clorproma-zina. É isso o que está tomando agora. Ou melhor, o que está deixando de tomar. É o medicamento que lhe demos nos últimos dois anos."

"Nos últimos o quê?", disse Teddy.

"Dois anos."

Teddy deu uma risadinha. "Escute, sei que vocês são poderosos, mas não precisam inventar um poder que não têm."

"Não estou inventando nada."

"Quer dizer que estão me drogando há dois anos?"

"Prefiro o termo medicar."

"Vocês têm um sujeito trabalhando no bureau federal? Um cara com a função de drogar o meu café toda manhã? Ou quem sabe... espere, ele trabalhava na banca de jornal onde compro meu café a caminho do trabalho. Assim seria melhor. Quer dizer então que durante dois anos mantiveram alguém em Boston me drogando."

"Em Boston, não", disse Cawley calmamente. "Aqui."

"Aqui?"

Ele fez que sim. "Aqui. Está aqui há dois anos. Na condição de paciente desta instituição."

Agora Teddy ouvia a fúria da maré investindo contra a base da falésia. Cruzou as mãos para controlar os tremores, tentando ignorar a pulsação atrás do olho, cada vez mais quente e intensa.

"Sou um xerife federal", disse Teddy.

"Era", disse Cawley.

"Sou", disse Teddy. "Sou xerife e trabalho para o governo dos Estados Unidos. Saí de Boston numa segunda--feira de manhã, 22 de setembro de 1954."

"É mesmo?", disse Cawley. "Diga-me como chegou até o ferryboat. Foi dirigindo até lá? Onde estacionou?"

"Fui de metrô."

"O metrô não vai até lá."

"Depois peguei um ônibus."

"Por que não foi dirigindo?"

"O carro está na oficina."

"Ah. E qual a lembrança que tem do domingo? Pode me dizer o que fez? Pode me dizer francamente algo sobre o dia anterior àquele em que acordou no banheiro do ferryboat?"

Teddy podia. Bem, ele poderia fazer isso, mas o diabo do ferro em sua cabeça passava por detrás do olho e lhe penetrava os seios nasais.

Tudo bem. Lembre-se. Conte-lhe o que fez no domingo. Chegou em casa do trabalho. Foi para o apartamento em Buttonwood. Não, não. Não em Buttonwood. O de Buttonwood ficara reduzido a cinzas quando Laeddis o incendiara. Não, não. Onde você mora? Meu Deus. Era como se estivesse vendo... Certo, certo. O apartamento na... o apartamento na... Castlemont. É isso. Castlemont Ave-nue. Perto da água.

Tudo bem, tudo bem. Relaxe. Você voltou para casa na Castlemont, jantou, tomou um pouco de leite e foi dormir, certo? Certo.

Cawley disse: "O que me diz disso? Já deu uma olhada nisso?".

Ele empurrou o formulário de admissão de Laeddis na direção de Teddy.

"Não."

"Não?", ele disse e soltou um assobio. "Mas veio para cá atrás disto. Se levasse para o senador Hurly esse pedaço de papel — prova da existência de um sexagésimo sétimo paciente do qual afirmamos não ter registro —, poderia acabar com isto aqui."

"É verdade."

"Claro que é verdade. E mesmo assim não teve tempo, nas últimas vinte e quatro horas, de dar uma olhada nele?"

"Como eu lhe disse, as coisas estavam um pouco..."

"Agitadas. Sei. Entendo. Bem, dê uma olhada nele agora."

Teddy abaixou os olhos para o papel, viu o nome, a idade e data de internação de Laeddis. Sob a rubrica comentários, leu:

 

O paciente é muitíssimo inteligente e delirante. Sabe-se que tende a ser violento. Extremamente agitado. Não mostra nenhum remorso pelo crime, e nega-o de tal forma que parece não ter ocorrido. O paciente criou uma série de fantasias complexas que o impedem, até o momento, de enfrentar a verdade de seus atos.

 

Logo abaixo se lia: Dr. L. Sheehan.

Teddy disse: "Parece mais ou menos correto".

"Mais ou menos correto?"

Teddy confirmou com um gesto de cabeça.

"Em relação a quem?"

"A Laeddis."

Cawley levantou-se. Andou até a parede e puxou um dos lençóis, deixando-o cair no chão.

Na parede havia quatro nomes, escritos em letras de forma de quinze centímetros de altura:

 

         EDWARD DANIELS — ANDREW LAEDDIS

         RACHEL SOLANDO — DOLORES CHANAL

 

Teddy esperou, mas Cawley parecia também estar esperando, e os dois ficaram calados durante um minuto.

Finalmente Teddy disse: "Imagino que tenha algo a me dizer".

"Observe esses nomes."

"Estou vendo."

"Seu nome, o nome do sexagésimo sétimo paciente, o da paciente que fugiu e o de sua esposa."

"Hum hum. Não sou cego."

"Essa é a sua regra dos quatro", disse Cawley.

"Como assim?", disse Teddy esfregando a têmpora com força, tentando tirar o ferro lá de dentro.

"Bem, não é o bambambã na decifração de códigos? Então fale."

"Falar o quê?"

"O que os nomes de Edward Daniels e Andrew Laed-dis têm em comum?"

Por um instante Teddy contemplou o seu nome e o de Laeddis. "Ambos têm treze letras."

"Têm mesmo", disse Cawley. "Sim, têm. Mais alguma coisa?"

Teddy olhou e tornou a olhar. "Negativo."

"Ora, vamos", disse Cawley tirando o jaleco e colocando-o no encosto da cadeira.

Teddy tentou concentrar-se, mas estava se cansando daquele jogo de salão.

"Não precisa ter pressa."

De tanto olhar para elas, as letras lhe pareciam perder os contornos.

"Mais alguma coisa?", disse Cawley.

"Não, não estou vendo nada. Apenas treze letras."

Cawley bateu as costas da mão na inscrição da parede. "Vamos!"

Teddy balançou a cabeça, sentindo-se nauseado. As letras dançavam à sua frente.

"Concentre-se."

"Estou me concentrando."

"O que mais essas letras têm em comum?", disse Cawley.

"Eu não... São treze letras. Treze."

"O que mais?"

Teddy ficou olhando as letras até elas se desvanecerem. "Nada."

"Nada?"

"Nada", disse Teddy. "O que quer que eu diga? Não posso lhe dizer o que não sei. Não posso..."

Cawley exclamou: "São as mesmas letras!".

Teddy inclinou-se para a frente, tentou fazer as letras pararem de tremer. "O quê?"

"São as mesmas letras."

"Não."

"Os nomes formam anagramas uns dos outros."

Teddy repetiu: "Não".

"Não?", disse Cawley franzindo o cenho e passando a mão sobre a inscrição. "São exatamente as mesmas letras. Olhe para elas. Edward Daniels. Andrew Laeddis. As mesmas letras. Sei que é um apaixonado por códigos, que até pensou em trabalhar na decifração de códigos. Diga-me por que não vê as mesmas letras quando lê esses dois nomes."

"Não!", exclamou Teddy aplicando a palma das mãos sobre o olhos, tentando desanuviá-los ou bloquear a luz — ele não sabia ao certo.

"Esse não significa que não têm as mesmas letras ou que você não quer que tenham?"

"Não pode ser."

"Mas é. Abra os olhos. Olhe para elas."

Teddy abriu os olhos, mas continuou balançando a cabeça, de forma que as letras n&at