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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


INDISCRETA / Candace Camp
INDISCRETA / Candace Camp

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Ela estava perdida.

Camilla suspeitava disso há algum tempo e, agora, ao empurrar a cortina para o lado e mirar a noite, teve certeza. Sua carruagem estava coberta pela neblina. Parecia estar no meio de uma nuvem. Não tinha a menor idéia de sua localização. A carruagem poderia estar a dez metros da casa de seu avô ou na ponta de um penhasco.

— Que que eu faço, moça? — perguntou o cocheiro do alto do veículo.

— Vamos esperar um pouco. — Seria tolice insistir nessa neblina tão densa. Não dava para imaginar onde iriam parar. — Deixe-me pensar.

com um suspiro, deixou a cortina cair e recostou-se no assento acolchoado. Fora tudo culpa dela, ela sabia. Se ao menos não estivesse tão mergulhada nos pensamentos, tão imersa em seus problemas, talvez tivesse percebido a névoa se adensando ou notado que o cocheiro contratado, sem conhecer o terreno local, havia tomado um caminho errado. Na verdade, ela deveria ter parado no vilarejo e contratado um mensageiro local para mostrar o caminho ao cocheiro. Em vez disso, ficara se torturando em busca de um meio de se livrar de seu dilema, tão concentrada na armadilha que havia imposto a si mesma com sua mentira — por que vovô contara para tia Beryl? que não tinha prestado a menor atenção, ao rumo tomado pelo cocheiro. Bem, agora teria de pagar por sua desatenção.

 

 

 

 

 

 

Camilla abriu a porta da carruagem e olhou para fora. Não conseguia nem ver as cabeças dos cavalos com clareza. Olhou para a estrada. Podia enxergá-la o suficiente para dar-se conta de que não era maior do que uma trilha no urzal; certamente não era a estrada que levava a Chevington Park; Deus sabe para onde o cocheiro londrino os havia levado.

Enrolando seu manto em torno de si e amarrando-o no pescoço, desceu com leveza. O cocheiro olhou ao redor e, em seguida, para ela.

— Mas o que a senhorita está fazendo? — moveu-se como se fosse descer. —Ainda nem baixei os degraus.

Camilla acenou de volta.

— Tudo bem. Não precisa se incomodar. Já desci. Vou dar uma olhada ao redor.

O cocheiro pareceu preocupado:

— Olhe, moça, é melhor não andar muito. Não dá pra ver um palmo na frente do nariz, com esse tempo.

E acrescentou, com amargor:

— Maldito lugar: Dorset. Camilla sorriu para si, mas se abstraiu de lhe perguntar se Londres também não tinha nevoeiro. Em vez disso, perguntou:

— O senhor tem uma lanterna? Seria útil.

— Tenho, senhorita. — O homem inclinou-se e deu-lhe a lanterna, ainda em dúvida. Obviamente, na sua experiência, jovens de fino trato não saíam por aí na neblina, com ou sem lanterna.

Camilla ignorou-o e dirigiu-se aos cavalos, segurando a lanterna de modo a ampliar seu alcance. A luz mal penetrava] a neblina, mas iluminava o chão debaixo de seus pés, possibilitando que ela visse a estreita marca deixada pelas rodas da carruagem. O cavalo da frente, à direita, girou os olhos, preocupado com sua aproximação, mas ela falou com ele num tom tranqüilizador, acariciando-lhe o pescoço e acaltnando-o com facilidade. Virou-se para o cocheiro:

— O melhor a fazer, na minha opinião, é eu andar ao lado dos cavalos, guiando-os. Assim, teremos certeza de que não sairemos da estrada ou cairemos em um buraco. Vejo bem o chão à minha frente por vários metros.

O cocheiro pareceu tão horrorizado quanto se ela tivesse sugerido despir-se e sair correndo gritando pela noite.

— Moça! Ahn, a senhorita não pode fazer isso.

— Por que não? É a coisa mais sensata a fazer.

— Não é apropriado. Eu guio eles. — Começou a colocar as rédeas de lado, mas a voz de Camilla fez com que parasse.

— Bobagem! Quem pararia os cavalos se, por acaso, decidissem disparar? Eu lhe asseguro: não tenho habilidade com as rédeas. Sou, entretanto, perfeitamente capaz de caminhar e olhar o chão à minha frente. Além disso, vivi aqui quase toda a minha vida. Não tem lógica o senhor conduzir os cavalos.

— Mas, moça... não seria apropriado...

— Ah, deixemos isso de lado. O apropriado não vai nos ajudar a sair dessa situação, vai?

Deu as costas para ele, dando por encerrada a conversa e se colocou à frente dos cavalos. Deslizou a mão por baixo da correia de uma das rédeas e começou a andar, segurando a lanterna no alto com a outra mão. Os cavalos puseram-se a andar obedientemente a seu lado.

A trilha estava um pouco enlameada, havia chovido algumas horas antes e Camilla manteve-se na grama ao lado da trilha sulcada para evitar que seus sapatos se enchessem de lama. Entretanto, a umidade da grama orvalhada logo adentrou os calçados. A neblina começou a se elevar um pouco, revelando um trecho de tojo ou um arbusto de sarça aqui e ali, mas, ao mesmo tempo, começou a garoar. Suspirando, Camilla puxou o capuz do manto para proteger a face dos pingos frios e constantes.

A garoa, ela logo reparou, transformava-se em chuva. Seus pés deslizavam na grama úmida, mas quando pisava na trilha, a lama lisa não era nem um pouco melhor. Ainda por cima, a chuva começava a penetrar em seu leve manto. Pensou em pegar o guarda-chuva na carruagem mas não conseguia imaginar como poderia carregá-lo junto com a lanterna e ainda segurar a cabeça do cavalo. Sua única alternativa era esperar a chuva parar, mas não lhe agradava a idéia de ficar presa ali nem um minuto a mais do que o necessário. Seguiu em frente, agradecendo o fato de a neblina estar, pelo menos, desaparecendo, reduzida a um punhado de manchas.

Então, à sua esquerda, viu uma movimentação e deu um pulo, espantada, deixando escapar um gritinho de surpresa. Ergueu a lanterna e mirou a escuridão da noite. Era um homem em pé ao lado de uma pequena árvore, quase escondido pelos galhos.

— Cavalheiro! — exclamou, largando a cabeça do cavalo e caminhando decidida na sua direção — cavalheiro, o senhor pode me ajudar? Estamos perdidos, e...

O homem se atirou em sua direção, franzindo furiosamente as sobrancelhas, o rosto pálido na escuridão. Havia uma: pistola de cano longo em sua mão.

— Shh! Você quer nos matar a todos?

Naquele instante, a lanterna explodiu em sua mão, a explosão acompanhada de um estouro. Os cavalos relincharam e se agitaram, nervosos. A lanterna, arrebentada, caiu no chão e apagou-se, mergulhando-a numa completa escuridão. Camilla gritou e correu de volta para a carruagem.

Mas antes que pudesse dar um passo, o homem lançou-se no espaço que os separava e chocou-se contra ela com todo o seu peso, levando ambos ao chão. Camilla bateu firme na terra, a respiração presa. O estranho estava esparramado em cima dela, com seu peso prendendo-a no chão. Camilla lutava para se desvencilhar dele e tentava respirar.

—- Pare de se debater, droga! — resmungou o homem, fixando-a no chão. — Estão atirando na gente. Garota idiota, você quer morrer?

Só então percebeu o que tinha sido aquele estouro e por que a lanterna tinha se estilhaçado. Alguém tinha atirado nela! Percebeu também que tinha ouvido mais estouros quando o homem a jogou no chão. Camilla ficou lívida com o choque.

Havia gritos ao longe, mas não mais estampidos. Perto deles, os cavalos, perturbados com os tiros, relinchavam e se movimentavam para cima e para baixo, sacudindo as cabeças. O cocheiro, praguejando, lutava para controlá-los.

O estranho ergueu a cabeça e olhou para trás deles. Camilla encarou-o. Seu rosto era duro e moreno, com ângulos bem definidos, ossos salientes e sobrancelhas negras e oblíquas. Ele parecia, pensou ela, bastante perigoso e, instintivamente, ela teve certeza que era ele o alvo dos tiros.

— Mas que droga! Acho que estão vindo atrás de nós.

— O quê? — ela disse, em voz alta e aguda. — O que está acontecendo?

Ele balançou a cabeça e se agachou. Antes que ela pudesse entender o que estava prestes a fazer, ele agarrou seus braços com mãos de aço e a colocou de pé, levantando-se com ela.

— Corra! — ordenou e, ao mesmo tempo, correu para a carruagem, arrastando-a consigo.

— Solte-me! — Camilla tentava se livrar dele, mas ele era muito forte.

Mais dois tiros foram ouvidos atrás deles e Camilla escutou algo batendo na lateral da carruagem. Seu companheiro abriu a porta do veículo e jogou-a dentro dele. Camilla gritou novamente ao se chocar contra o chão. A carruagem deu um solavanco e partiu, o cocheiro aparentemente sem condições de segurar por mais tempo os cavalos assustados.

O estranho segurava firmemente a porta. Ela pensou que ele fosse querer entrar também, mas então, para sua surpresa, ele agarrou alguma coisa no teto da carruagem e utilizou a porta como um degrau para subir no topo do veículo.

—- Cuidado! — gritou ela para o condutor, e ouviu o grito de surpresa do homem e o som de uma luta, depois o baque de um corpo, sem dúvida do pobre cocheiro, caindo no assento.

A carruagem rapidamente ganhou velocidade, os cavalos em pânico e com o bocal entre os dentes, O veículo sacudia e balançava ao longo do caminho precário. Camilla agarrou o assento, com medo de deslizar porta afora com o balanço da carruagem.

Mais tiros foram ouvidos e ela percebeu que estavam indo exatamente na direção dos homens que atiravam neles. Ela viu, num relance, sombras escuras que se transformavam em homens e pôneis. De repente, um homem grande surgiu da escuridão, agarrando a porta e jogando os pés para dentro da carruagem. Camilla deu um grito agudo e correu para longe dele. Ao fazer isso, sua mão pousou no guarda-chuva que estava no chão.

Ela pegou o objeto e bateu com toda a força no homem, atingindo-o na canela. O homem urrou de dor e recebeu um duro golpe no estômago com a ponta do guarda-chuva. Deixou escapar outro grito de dor, e seus dedos soltaram a porta. Em seguida, caiu da carruagem.

Camilla sentou-se, pegando a correia na parede para se equilibrar. com a outra mão, segurava o guarda-chuva, de prontidão, de olho em possíveis intrusos. Seguiam adiante a toda velocidade, a porta da carruagem batendo de um lado e de outro, o veículo sacudindo loucamente na trilha sulcada. Camilla tinha certeza de que capotariam a qualquer momento. Chovia muito naquela hora e a água entrava pela porta aberta.

Depois de um certo tempo, ela percebeu que diminuíam a velocidade para um ritmo mais calmo e, após alguns instantes, deslizou no assento e agarrou a porta que batia desgovernada, fechando-a firmemente. Olhou com repulsa para a poça d’água que se formara no chão, mas não havia muito o que pudesse fazer a respeito. Podia, entretanto, remover seu manto encharcado, cuja parte de trás, descobrira, estava completamente manchada de lama de quando o estranho a havia jogado no chão.

O estranho. Seus olhos se estreitaram à medida que dirigia seus pensamentos para aquele homem. Quem era ele e o que estava fazendo na parte deserta do litoral de Dorset? Nada de bom, com certeza. Aqueles homens estavam atirando nele e, agora que ela pensava no assunto, era óbvio que estava se escondendo atrás daquela árvore, sem dúvida à espera de alguém. Não por acaso olhara para ela com tamanha fúria quando o chamou; ela sinalizara sua presença para os outros homens, dando a eles a chance de se proteger. Imaginou se ele era um bandido de estrada, ou somente um rufião procurando atacar um de seus inimigos.

É claro, refletia ela, pelo lugar onde estavam, talvez tivesse a ver com ”os cavalheiros” — o nome, pronunciado apenas em voz baixa, dado aos homens envolvidos na antiga profissão do contrabando. Todos sabiam disso e, verdade seja dita, muitos cidadãos locais de alta reputação, até mesmo entre magistrados e juizes, sabidamente faziam vista grossa para o comércio ilegal. Na verdade, muitos deles recebiam uma quantidade regular de conhaque francês na porta dos fundos de suas casas, aos primeiros raios de sol após uma noite sem lua. Havia aqueles que, por odiarem as leis alfandegárias, consideravam que ”os cavalheiros” tinham plenos direitos de burlar a lei. A população das áreas costeiras distantes era famosa por discordar da intrusão do governo central no que eles consideravam seu negócio. No século anterior, os contrabandistas tinham tanto poder que houve até intensas batalhas entre a gangue de Hawkridge e os soldados. Apesar de essa era sem-lei ter passado, o negócio do contrabando prosseguiu, principalmente agora, com as desejadas mercadorias francesas impedidas de entrar na Inglaterra por causa da guerra.

Camilla voltou seu pensamento para o homem, lembrando-se de seu rosto ao surgir abruptamente na escuridão, os ângulos duros de sua face e a boca rude, os olhos escuros abaixo das negras sobrancelhas levantadas, as roupas escuras e grosseiras. Sim, decidira, ele tinha toda a aparência de um contrabandista em disputa com seus companheiros, ou um bandido de estrada tentando roubar um viajante, ou simplesmente um rufião procurando se vingar de alguém. O que quer que ele fosse, ela tinha certeza de que não estava emsegurança. Ela o havia visto onde ele não queria ser visto, e havia sido a causa não intencional de os outros homens terem atirado nele e o terem perseguido. Ele havia ficado furioso com ela anteriormente e com certeza ainda estava. Essa árdua viagem na carruagem talvez não fosse nada comparada ao que poderia acontecer quando o veículo parasse.

E isso está acontecendo exatamente agora. Camilla podia sentir a carruagem parando. Em pouco tempo, ela sabia, o veículo balançaria e pararia, e ele saltaria e viria abrir a porta. Puxaria ela para fora e — bem, ela não tinha certeza do que ele faria, mas podia imaginá-lo fazendo qualquer coisai desde espancá-la até estrangulá-la, incluindo a pilhagem sobre a qual as senhoras idosas sempre alertavam em voz baixa as garotas suficientemente ousadas para saírem desacompanhadas.

Camilla segurou o guarda-chuva com firmeza. Já havia funcionado muito bem como arma. Talvez, se o pegasse de surpresa, pudesse incapacitá-lo ao ponto de escapar.

Quando a carruagem parou, ela se agachou ao lado da porta e esperou, ouvindo a pulsação de seu sangue, todos os; nervos distendidos, atenta a sua aproximação. Ouviu o baque quando ele desceu e o ruído das botas sobre os seixos quando alcançou a porta. O trinco girou e a porta abriu-se para o lado de fora.

— Você está...

Camilla ergueu-se com um grito, lançando-se para fora da carruagem. Bateu com o guarda-chuva com toda a força no rosto do homem e o cabo felizmente se quebrou contra sua face. O guarda-chuva partiu-se em dois, e o homem cambaleou praguejando em alto e bom som, com as mãos no rosto.

Camilla desceu correndo, gritando a plenos pulmões. Sabia que, provavelmente, estava distante demais para alguém escutá-la, mas tinha de tentar, assim como tinha de correr. Ergueu as saias e disparou pela estrada enlameada à frente da carruagem. Nem reparou na chuva nem na lama que grudava nos sapatos.

Ele correu atrás dela em um segundo. Podia ouvi-lo logo atrás de si, mas embora corresse tão rápido que pensou que o coração fosse explodir, ele a alcançou. As mãos dele agarraram um de seus braços como se fosse uma tira de ferro, fazendo com que parasse de correr.

— Pare com essa algazarra! Droga, mulher, o que há de errado com você? Vai colocar toda a população do campo em nosso encalço.

Camilla parou de gritar, mas apenas por falta de ar. Inspirou fundo, girou rapidamente e golpeou-o com os dois punhos.

Atingiu apenas o peito, mas seu braço doeu bastante. O homem deixou escapar algumas ofensas e agarrou seu pulso, mas Camilla se contorcia e lutava, tentando acertar o homem com chutes e socos.

— Que inferno, mulher, quer parar com isso? Está maluca? Estavam ambos totalmente encharcados pela chuva, mas

nenhum dos dois reparou enquanto se engalfinhavam na escuridão. O homem era muito maior e mais alto que Camilla e era óbvio que venceria a briga, mas ela lutava por sua vida, e lutava violentamente, dispensando diversos socos e golpes na tentativa de evitar que o homem a dominasse. Ele conseguiu envolvê-la com um braço e levantá-la do chão, mas Camilla se contorceu e atacou seu rosto com as unhas. Ele recuou ao sentir os dedos da moça quase enterrados em seu rosto, por muito pouco não atingindo os olhos, perdeu o equilíbrio e cambaleou para trás.

Os dois se espatifaram no chão, mas a queda foi aliviada pela lama. O homem recebeu o impacto do golpe e, involuntariamente, aliviou a pressão sobre ela. Camilla aproveitou a oportunidade para se livrar dele, mas antes que pudesse ficar de pé, ele já havia segurado seu braço, forçando-a a parar, o que fez com que ela caísse de cara na lama. Ela se levantou respingando lama e enraivecida, atacando-o prontamente. Ele agarrou seus braços, tentando prendê-los ao lado do corpo, mas ela estava escorregadia devido à chuva e à lama, impossibilitando-o de segurá-la com força. Rolaram pelo chãoenlameado, engalfinhados.

Camilla lutava e se contorcia, tentando se soltar, e ele tentava envolvê-la com os braços de modo a manter os dela junto ao corpo. Em meio à luta, ela sentiu, em determinado momento, a mão dele deslizar por seu seio. Respirou fundo ao contato íntimo, que ao mesmo tempo a surpreendeu e aterrorizou, tanto pelo calor repentino e estranho que tomou conta de seu corpo como pela desfaçatez do contato.

Ele também pareceu surpreso com o toque e gelou por uminstante. Ela aproveitou a oportunidade para tentar se levantar, mas ele agarrou seu braço para fazê-la parar. O material encharcado do vestido rasgou-se, deixando a manga na mão dele. Ela saiu em disparada, e ele em seu encalço. Caíram na lama novamente, o peso dele afundando-a na imundície macia. Ele agarrou seus pulsos, puxando-os por sobre a cabeça dela, e sentou-se, apoiando-se nos braços dela para mantê-la no chão. As pernas dele se encaixaram firmemente nas dela, imobilizando-a embaixo dele.

O homem olhou para ela ofegante, seu peito subindo e descendo rapidamente. Ele estava encharcado e lambuzado de lama, sua camisa escura e grosseira estava ligeiramente aberta na frente, pois alguns botões haviam sido arrancados na luta. A pele nua aparecia pela fresta, lustrosa, bronzeada e úmida. O cabelo estava grudado na cabeça. Havia um corte na altura do maxilar, proveniente do golpe com o guardachuva. Seus olhos brilhavam furiosamente.

A garganta de Camilla ficou seca. O homem parecia primitivo e furioso, muito masculino e muito nervoso. Camilla estava bastante consciente da natureza sugestiva da posição em que se encontravam, do peso dele sobre suas pernas. Tinha consciência, também, de uma estranha sensação no âmago do seu ser, uma estranha mistura de fúria e excitação e uma outra emoção indefinível que ela não saberia nomear. Os olhos dele baixaram em sua direção, parando no corpete úmido que apertava seus seios, e ela sentiu a resposta do corpo dele.

— Solte-me!

— Não até obter algumas respostas! Quem diabos é você, e o que está fazendo aqui?

— O que estou fazendo aqui? — ela arfava, ultrajada. -— Tenho todo o direito de andar por aqui. É você que obviamente não está com boas intenções, esgueirando-se pelo campo no escuro, com pessoas atirando em você. Solte-me agora mesmo ou terá muito mais problemas do que já tem.

— Você não está exatamente numa posição de dar ordens — lembrou ele, e um leve sorriso apareceu em seus lábios.

Sua boca era ampla, com um generoso lábio inferior. Ele poderia ter um sorriso atraente, mas seu rosto frio, marcadamente sardônico, destruía qualquer traço de charme. O fato de ele se divertir à sua custa enfureceu Camilla, que investiu contra ele com toda a força, tentando se libertar. Ele era pesado e forte demais para ela, é claro, e seus esforços mal chegavam a deslocá-lo, mas o brilho em seus olhos ficou perigosamente mais intenso, lembrando Camilla, com um arrepio na espinha, da impotência e da intimidade de sua posição.

Para esconder seu temor, franziu o lábio com desdém.

— É óbvio que você é um patife — disse friamente. — Sugiro que se abstenha de se tornar um criminoso também.

As sobrancelhas dele se arquearam, dando a seu visual soturno uma aparência ainda mais demoníaca.

— Muito bem, madame. Mas não preciso lembrar-lhe de que, sem testemunhas, é muito difícil condenar alguém.

Fez uma pausa, deixando que as palavras ameaçadoras fizessem efeito, depois riu com frieza e disse:

— Além disso, não sei de crime algum cometido esta noi te. Não é crime tomar uma carruagem para salvar uma moça de uma gangue que a atacava.

— Você sabe tanto quanto eu que aqueles homens não tinham nenhum interesse em mim. — Camilla rebateu. — Era em você que estavam atirando.

A boca dele se contorceu, com ferocidade.

— Talvez, mas com certeza não estariam, se você não tivesse aparecido de maneira tão atabalhoada, berrando e balançando uma lanterna.

— Como poderia saber que você estava envolvido em as- ] suntos secretos? Eu ia pedir sua ajuda em vão, obviamente, mas eu ainda não sabia nada a seu respeito, como sei agora. Não sabia que estava lidando com um ladrão.

— Eu não sou ladrão — disse ele, triturando as palavras.

— Há! — Camilla olhou para ele com sarcasmo. — Então, o que estava fazendo lá, escondido numa noite de nevoeiro?

— Isso não é da sua conta, e se você não fosse tão bisbilhoteira, não estaríamos nessa confusão.

— Eu já devia saber que você é do tipo que põe a culpa nos outros. Como se eu fosse responsável por seus cúmplices ou seus inimigos ou quem quer que fossem aquelas pessoas!

— Meu Deus, você tem uma língua de cobra. — De súbito, ele se levantou, puxando-a consigo. — Mas não tenho a menor intenção de ficar aqui disputando com você quem él mais esperto. Aqueles homens podem aparecer a qualquer momento.

Apertou seu braço com força e começou a levá-la para a carruagem. Camilla fincou pé.

— Espere aí! Não vou a lugar nenhum com você.

— Acho que você estaria bem melhor em Edgecombe do que na escuridão do campo com vários homens armados à sua volta.

— Eu não falei que ia ficar aqui! O que quis dizer foi que você não vai a lugar nenhum na minha carruagem.

Ele olhou para ela por um bom tempo, depois soltou seu braço e recuou.

— Está certo. Você tem razão. É sua carruagem e não tenho nenhum direito a ela. Sendo assim, vou deixá-la. Tenha um bom dia, madame.

Virou-se e começou a se afastar. Estupefata, Camilla olhou na sua direção. Lembrou-se que seu cocheiro estava inconsciente — oh, meu Deus, terá ele, ainda por cima, matado o pobre homem? — e, apesar de conseguir conduzir um cabriolé, estava bem além de suas possibilidades conduzir uma carruagem com quatro cavalos. Não apenas isso, mas ainda havia um bando de homens armados que talvez estivessem perseguindo sua carruagem.

— Espere! — gritou ela e, como o estranho não parou, deu uma pequena corrida atrás dele. — Pare! Por favor!

Ele se voltou para ela, as sobrancelhas levantadas, inquisitórias:

— Sim?

— Não vá. Eu... eu não posso conduzir a carruagem até Edgecombe.

— Uhm. Parece, então, que você tem um problema com a sua carruagem Tenha uma boa noite.

— Oh, não seja tão duro! Estou dizendo que pode ir comigo até Edgecombe.

— Quer dizer que está me concedendo a honra de trabalhar para você? — perguntou, sarcástico. — Quanta gentileza sua. Mas acho que recusarei o convite. Sabe, acho que seria melhor Caminhar. Um homem no meio do nevoeiro é menos visível que uma carruagem vistosa.

— Cavalos são mais rápidos.

Ele deu de ombros e virou-se para continuar seu caminho.

— Pare! Você não pode me deixar aqui! Um cavalheiro não deixaria uma dama em tamanha dificuldade.

— Bem, como você sem dúvida pôde perceber, eu não sou tão cavalheiro assim e, francamente, ainda estou para ver algo que a faça lembrar uma dama.

Camilla encarou-o.

— Tudo bem. Conseguiu satisfazer sua necessidade de me insultar? Agora, vamos. Nós dois sabemos que seria absurdo você ir a pé quando há uma carruagem bem aqui. Não gostamos um do outro, mas certamente podemos fazer uma troca: sua habilidade em conduzir os cavalos pelo uso de minha carruagem.

Ele não disse nada; apenas voltou e subiu na carruagem. Camilla rapidamente entrou no veículo e eles retomaram o caminho, desta vez numa velocidade mais apropriada à estrada sulcada. Rápido o suficiente para Camilla chacoalhar e sacudir no assento, o que a fez ter uma leve suspeita de que o terrível homem agia assim simplesmente para perturbá-la.

Seu desconforto era maximizado pelo estado de seu cabelo e de suas roupas. Naquela manhã, estava elegantemente trajando um vestido de musselina enfeitado com ramos e de; cano curto de pelica verde e seu cabelo estava preso no alto da cabeça, de onde caía um feixe de cachos. Agora, seus sapatos estavam uma lama só, empapados de barro por dentro e por fora, e seu vestido e cabelo não se encontravam em melhor situação. Ela estava molhada até as roupas de baixo. Seus cachos também estavam grossos de lama e ela também sentia a lama secando em sua pele.

Como explicaria seu estado ao chegar em Park? Lágrimas se acumularam em seus olhos. Como se já não tivesse problemas suficientes, ainda havia o vovô e as terríveis mentiras que ela havia contado... Ter de chegar parecendo uma maltrapilha era o oposto de tudo que necessitava.

Piscou os olhos e livrou-se impiedosamente das lágrimas. Recusava-se a chorar por isso. Se não por qualquer outro; motivo, as lágrimas deixariam rastros em suas bochechas sujas, tornando óbvio o fato de ter chorado. E sem dúvida ele pensaria que ela estivera chorando por causa dele. Fez uma careta ao perceber que seus pensamentos tinham se voltado para o detestável homem que a havia praticamente raptado.

Ele era impolido, reles e totalmente irritante. Tratara-a de modo repreensível. Um homem educado não a teria agarrado com tanta força ou a jogado no chão daquela maneira. Ela se lembrava do jeito atrevido com o qual seus olhos se demoraram em seus seios, revelados pelo tecido fino e molhado do vestido. Enrubesceu, mesmo sentada sozinha na escuridão da carruagem, só de pensar no modo como as pernas dele prenderam as suas, do quão intimamente o corpo dele estivera grudado nela e no movimento indecoroso que o corpo dele fizera ao olhar para ela. Fora uma sensação tão estranha quase animadora, ainda que fosse, ao mesmo tempo, completamente imprópria e enfurecedora.

Mudou de posição no assento, puxando o vestido encharcado. Estava se sentindo cada vez mais desconfortável. A lama continuava a secar em seu corpo e as roupas colavam em sua pele. Pior de tudo, seus trajes estavam muito frios, o que a fazia tremer ininterruptamente. Queria enrolar o manto em volta de si para se aquecer um pouco, mas ele estava repleto de lama. Ainda assim, não agüentava mais ficar ali sentindo calafrios. Fitava o manto, indecisa, quando percebeu que a carruagem estava passando por cima de paralelepípedos. Conteve uma crise de choro, abriu a cortina e olhou para fora, percebendo que acabavam de entrar na aldeia.

Em alguns instantes, entraram no pátio do Blue Boar. Camilla deixou escapar um suspiro de alívio. Embora tenha tentado não pensar no assunto, teve medo de o estranho não levá-la realmente para a aldeia, mas, ao perceber o perigo que significaria ela ser capaz de identificá-lo, abandoná-la em alguma estrada deserta e escura... ou coisa pior.

Agora, com um grito, escancarou a porta da carruagem antes mesmo da completa parada e saltou.

— Garoto, cuide dos cavalos — falou para o cavalariço, que se aproximava do veículo — e cuide do meu cocheiro também. Sinto que teremos de chamar um médico.

O cavalariço parou subitamente, e olhou para ela com os olhos esbugalhados, mas Camilla não notou. Já estava correndo para a porta da frente, com a idéia fixa de entrar em segurança, antes que o estranho em cima da carruagem pudesse alcançá-la.

Assim que pisou no salão, toda a conversa cessou de pronto, e todos se viraram para olhar para ela. Camilla parou consternada por ser o foco de tantos pares de olhos. Em seu alívio de chegar ao Blue Boar, esqueceu-se da aparência, mas agora todos aqueles rostos estupefatos lembravam-na de como ela estava. Sua mão alcançou seus anéis cobertos de lama, e ela olhou para seu vestido molhado, colado ao corpo de forma absolutamente inadequada, uma das mangas completamente arrancada. Uma onda de intenso rubor subiu por seu rosto até os cabelos.

O estalajadeiro, um homem gordo e rude, saiu do balcão e foi em sua direção. Camilla o avistou e foi varrida por uma sensação de alívio.

— Saltings! Como estou feliz em vê-lo!

Ela deu um ou dois passos à frente e parou ao ouvi-lo,

— Olhe aqui, senhorita, o que você acha que está fazendo? Entrando aqui assim! Esta estalagem é de respeito, e não tem lugar aqui pra...

— Saltings! — exclamou Camilla, abalada. — Não está me reconhecendo? — Lágrimas de humilhação brotaram en seus olhos. Era só o que faltava, o rigorosamente péssimo! fim de um rigorosamente péssimo dia — Saltings, que a conhecia desde que nascera, confundi-la com uma reles meretriz. Ele ia realmente expulsá-la?

O homem parou e encarou-a.

— Eu a conheço?

— Sou eu! Camilla Ferrand! — Lágrimas inundaram seus olhos. Não conseguia mais evitá-las, e elas jorraram, fazendo uma trilha pela mancha de lama em sua face.

— Senhorita Ferrand! — repetiu ele, a boca aberta. — Deus do céu, o que aconteceu? O que a senhorita está fazendo aqui, assim?!

Ele se aproximou dela, pegou com delicadeza em seu braço e conduziu-a até a salinha privada da estalagem e parou.

Oh, não, tem um cavalheiro lá. — Deu uma outra olhada em Camilla ao seu lado, enlameada, desgrenhada e lutando para segurar as lágrimas, e depois no resto dos clientes, todos observando avidamente.

Bem — disse, com um suspiro, não tem problema. Não dá pra você ficar aqui fora, disso não tenho dúvida.

Deu uma pancada na porta da sala privada e abriu-a quando uma voz de homem respondeu lá de dentro.

— com licença, senhor — disse Saltings, entrando apressadamente com Camilla na sala. — Sinto perturbá-lo, mas temos um probleminha aqui. Há uma dama aqui e, bem, não seria certo deixá-la ali fora com os clientes comuns, senhor.

Camilla olhou a sala, lutando para conter as lágrimas. O cavalheiro sentado ao lado da lareira — e era tão óbvio que se tratava de um cavalheiro quanto era óbvio que o estranho no urzal era um rufião levantou-se, as sobrancelhas erguidas com o espanto. Estava impecavelmente vestido, desde a prega do simples e elegante lenço branco de pescoço até as pontas das lustrosas botas hessenas. Seu cabelo estava penteado segundo o estilo igualmente básico, mas na moda, chamado Brutus.

O homem deu uma rápida olhada no estado enlameado de Camilla e disse:

— Precisamente, Saltings. Você tem razão. A moça deve ficar na salinha de jantar privada. O único problema é que estou esperando uma visita... Ah, aí está ele. E devo dizer que parece bastante provável que tenha compartilhado as aventuras dessa jovem.

Camilla virou-se ao ouvir suas palavras.

— Você! — exclamou, com ódio.

Ali, na porta, encontrava-se seu torturador.

O olhar do homem para Camilla deixou poucas dúvidas de que compartilhava dos sentimentos dela. Ela se empertigou encorajada pela irritação dele. Foi reconfortante ver que pelo menos, ele estava tão imundo, molhado e enlameado quanto ela.

— Que diabos está fazendo aqui? — perguntou asperámente o homem. — Será que jamais me livrarei de você?

— Eu poderia dizer o mesmo de você.

— Vejo que os dois já se conhecem — disse o cavalheiro ao lado da lareira, sua voz leve e suave, como se estivessem todos numa recepção em Londres.

O estranho da carruagem resmungou e entrou na sala. Camilla disse, friamente:

— Acho que não fomos adequadamente apresentados.;

— Ah, Benedict — suspirou o cavalheiro. — Sinto que cada vez lhe faltam mais as boas maneiras. — Foi na direção de Camilla. — Permita-me corrigir seu descuido. Eu, cara senhorita, sou Jermyn Sedgewick. E este é, ah, Benedict uhm...

— Como vai, Sr. Sedgewick? Encantada de conhecê-lo — respondeu Camilla formalmente, tentando ignorar o absurdo do cumprimento educado em contraste com o estado encardido de sua vestimenta. Deu um olhar de relance para o outro homem. — Sinto muito não poder dizer a mesma coisa sobre conhecer o Sr. Benedict.

Sr. Sedgewick abriu a boca para falar, mas desistiu. Lançou um sorriso forçado para Benedict.

— Vejo que causou uma ótima impressão, como sempre. A única resposta de Benedict foi um ruído semelhante a um grunhido. Afastou-se de ambos, aproximando-se do fogo com as mãos abertas, como se fosse tocá-lo. Sr. Sedgewick tratou de ignorá-lo enquanto se dirigia ao estalajadeiro:

— Bem, Saltings, acho que o que precisamos aqui é de um ponche quente de rum. Pode nos trazer uma poncheira? Eu faço a mistura.

— É claro, senhor.

Saltings deixou a sala relutante. Camilla sabia que ele gostaria de ouvir os detalhes do que havia acontecido a ela e a Benedict.

Sedgewick virou-se para Camilla:

— Então, senhorita...?

— Perdoe-me. O senhor foi tão gentil e eu nem mesmo lhe disse meu nome. Sou Camilla Ferrand.

— Senhorita Ferrand. É um prazer conhecê-la, mesmo em circunstâncias tão deploráveis. Por favor, aproxime-se do fogo para se aquecer um pouco. Estou certo que deve estar deveras enregelada. — Ele a guiou em direção à lareira e à poltrona ao lado.

Camilla afundou na poltrona, satisfeita com sua maciez e com a sensação reconfortante do fogo. Inclinou-se para frente, absorvendo o calor. Benedict olhou para ela e sua boca contorceu-se num esgar. Retirou-se para o outro lado da lareira, dando-lhe as costas e plantando os cotovelos no consolo. Sedgewick olhava para um e para outro, mas não fez nenhum comentário. O silêncio prolongava-se de modo desconfortável.

Finalmente, ouviu-se uma batida à porta e Saltings entrou afobado, seguido pelo garoto do balcão, carregando a melhor poncheira de prata da estalagem e uma bandeja cheia de ingredientes

Depositaram tudo na mesinha de apoio, e Saltings zanzou de um lado paro outro até Benedict apontar-lhe a porta de saída, dispensando-os.

— Agora sim — disse Sedgewick, avançando na direção da poncheira. — Isso vai colocá-la nos eixos, Srta. Ferrand. Normalmente, é claro, não é o que ofereço a uma jovem como você, mas tendo em vista o frio da noite e as dificuldades por que passou, acho que é exatamente disso que necesita para se recompor.

Ele começou a misturar a bebida com maestria, adicionando rum, açúcar e limão até decidir que o drinque quente] estava no ponto certo. Ofereceu uma taça de prata com a bebida fervente para Camilla, que tomou-a agradecida. Jamais havia tomado uma bebida tão forte quanto aquela, pois, como o Sr. Sedgewick havia dito, aquela não era uma bebida adequada para mulheres. Entretanto, Camilla não se considerava uma escrava da tradição e estava muito feliz por ter a oportunidade de experimentar um pouco do tipo de bebida, que os homens consumiam. Tinha um gosto levemente desagradável que acompanhava a doçura do drinque, mas, no geral, não era nem tão forte nem tão ruim como imaginara, e estava milagrosamente quente. O líquido desceu por sua garganta, aquecendo todo o caminho, e explodiu violentamente em seu estômago. Terminou a taça e decidiu que já se sentia; melhor.

— Estava excelente, Sr. Sedgewick, obrigada — disse ela, e ele encheu novamente todas as taças.

— Agora, Srta. Ferrand, diga-me como conheceu o Sr. uhm, Benedict.

Camilla lançou um olhar tempestuoso na direção daquele indivíduo.

— Ele me raptou.

— Deus meu — disse Benedict, insensível, virando as costas para o fogo para aquecê-las. — Tudo aquilo de novo não.

Quase fui morta — acrescentou Camilla, cruzando os braços e fuzilando Benedict com o olhar.

— Benedict! — Sr. Sedgewick encarou o outro homem, perplexo. — O que deu em você?

Ela está exagerando. Não foi nada. - Balançou a mão, fazendo pouco caso. — Atiraram em nós.

Atiraram? — repetiu Sedgewick, incrédulo. — Você chama isso de nada?

Benedict deu de ombros.

Ninguém se feriu. Eles estavam a alguma distância e, de qualquer maneira, acho que não conseguiriam acertar coisa alguma.

— Ninguém se feriu! — gritou Camilla, soltando o rosto das mãos. — E o meu cocheiro? Acho que você o matou!

Benedict revirou os olhos.

— Eu dei uns socos nele — explicou pacientemente para o Sr. Sedgewick, e acrescentou, para Camilla: — O motivo de ele ficar desacordado por tanto tempo foi a garrafa que bebeu a noite inteira. Ele estava bêbado. Não era por acaso que você estava perdida.

— Perdida? Minha pequena, você teve um dia horroroso.

Lágrimas apareceram nos olhos de Camilla, ao pensar em quão horroroso seu dia havia realmente sido, mesmo antes de o Sr. Benedict surgir e começar a atormentá-la.

— O senhor não faz idéia. — Sua voz ficou rouca e ela silenciou, tentando conter as lágrimas. — Eu acho... acho que este é o pior dia da minha vida!

E de repente, surpreendendo inclusive a si mesma, explodiu em choro.

Sedgewick olhou para Camilla, demonstrando todo o horror de um cavalheiro ao se confrontar com uma mulher em prantos.

— Cara senhorita, por favor... estou certo de que não pode ter sido tão ruim assim.

— Foi sim! — Camilla chorava, cobrindo o rosto com as mãos. — O senhor nem imagina. É horrível, horrível de mais! — As lágrimas escorriam por seu rosto.

— Bem, não é uma tragédia — disse Benedict, brutalmente. — Tenho certeza que você já se perdeu antes e ainda vai se perder outras vezes. Em momento algum estivemos realmente em perigo. Eu te disse.

— Oh! — Camilla queria gritar para ele que ela não era tão desmiolada ao ponto de cair em prantos porque sua carruagem se perdera, mas não conseguia deter a onda de lágrimas para responder a ele. Normalmente, já estaria pronta para desabar no chão em completa humilhação por estar se comportando dessa forma na frente de dois estranhos especialmente quando um deles era detestável e rude como Sr. Benedict. Entretanto, naquela noite ela estava exausta tensa demais para se preocupar com isso.

— Não devia ter dado ponche de rum a ela — disse Benedict para Sedgewick. — Ela está bêbada.

Sedgewick lançou-lhe um olhar impaciente.

— Não diga tolice. Benedict deu de ombros.

— Não é tolice. Ela já está alta.

— Eu não estou alta! — disparou Camilla, erguendo a cabeça e encarando-o, sua irritação com a grosseria dele já beirando o acesso de fúria. com raiva, pôs-se a enxugar as lágrimas que lhe molhavam as bochechas. — Estou apenas cansada e... transtornada. Está tudo... tudo arruinado!

enedict ergueu uma das sobrancelhas.

— Uma festa cancelada? Um amado casando-se com outra?!

Camilla levantou-se de pronto, com os punhos cerrados deixando escapar um profundo grito de raiva:

— Como ousa? Como ousa banalizar minha... minha... Eu odeio você! Meu avô está morrendo!

Explodiu novamente em lágrimas e jogou-se de volta na cadeira. Sedgewick lançou um olhar de reprovação a Benedict.

Este, por sua vez, surpreendentemente demonstrou a fineza de se mostrar constrangido.

Sinto muito — disse, com formalidade. — Não podia imaginar...

Cara jovem — começou Sedgewick, que foi em sua direção, tomou uma de suas mãos e acariciou-a. — Sinto muito. Se houver algo que eu possa fazer...

— Não há nada que ninguém possa fazer — disse Camilla, quando sua torrente de choro cessou. Limpou as lágrimas do rosto, mais uma vez dispersando a crosta de lama, e respirou com dificuldade. — Ele está velho e seu corpo está fraco. Ele teve um ataque de apoplexia vários meses atrás e, desde então, não sai mais do quarto. Seu médico... — ela engoliu em seco. — Seu médico disse que não tinha muito tempo de vida, mas ele tem resistido. — Olhou-os com um sorriso triste e lágrimas nos olhos. — Ele sempre foi o homem mais teimoso do mundo.

— Tenho certeza que ele teve uma vida longa e intensa — disse Sedgewick, reconfortando-a.

— Teve sim. E eu... eu quase acelerei sua morte. É que... Oh, eu fiz a maior confusão do mundo.

Engoliu as lágrimas e se levantou, olhos suplicantes para Sedgewick.

— Sinceramente, não era isso que eu queria. Fiz tudo com a melhor das intenções, mas agora... bem, agora tenho de lhe contar a verdade. Tudo. E estou com muito medo que isso possa matá-lo.

O homem franziu o cenho.

— Estou certo que não deve ser tão sério.

— É. Eu... menti para ele.

Ao ouvir essas palavras, Benedict deixou escapar um ruído de desagrado e disse, com sarcasmo mortífero:

— Naturalmente.

Camilla voltou-se para ele, indignada.

— Foi com a melhor das intenções!

— É o que sempre dizem — retrucou ele. — Nos enganam e depois fingem que é para o nosso próprio bem.

— Quieto, Benedict. Não ligue para ele, Srta. Ferrand Nosso Benedict possui uma visão distorcida da condição humana.

Benedict fez uma careta, mas não respondeu. Camilla voltou-se para o Sr. Sedgewick, ignorando o outro homem:,,

— Eu fiz com as melhores intenções — reiterou. — Eu estava tentando lhe dar algum conforto, melhorar os últimos dias dele. Mas nunca imaginei que ele contaria para tia Beryl!

— Bem, é claro que não — concordou Sedgewick, conciso, porém solidário.

— Mas nunca mais fui ver o vovô, desde o primeiro colapso, e tudo porque não consigo encarar tia Beryl. Ela vai fazer todo tipo de pergunta difícil, sabe? E vai querer saber onde ele está. Seria impossível. E agora Lydia está lá, e « claro que não vai suportar o fardo das mentiras. Não que eu não possa mentir para tia Beryl; Lydia é capaz de mentir da maneira mais extravagante, sempre parecendo inteiramente inocente. — Seu tom indicava uma triste inveja das ditas habilidades de Lydia. — O problema é que ela se deixa levar pelas mentiras e acaba dizendo tantas coisas que se enrola toda. Por isso, tive de aparecer. E preciso contar a verdade para eles.

— O que você está dizendo não faz o menor sentido - disse Benedict rudemente.

— Benedict...

— Não, ele tem razão. Está uma confusão só. — Camilla colocou uma das mãos sobre a cabeça e suspirou. Olhou para Sedgewick por um instante e meneou ligeiramente a cabeça como se tivesse chegado a alguma decisão. — Posso confiar em você, não posso? Quero dizer, você não diria nada para mais ninguém, diria?

— É claro que não! — O homem pareceu ofendido pelo fato de ela questionar sua integridade a tal ponto. — Mas não precisa me contar, se isso a incomoda.

Não, sinto que preciso contar para alguém ou vou explodir. Tenho pensado nisso o dia inteiro, no caminho para cá O dia inteiro... verdade seja dita, há semanas que praticamente não penso em nada mais. Não sei o que fazer, como saír desse emaranhado que criei.

Tem minha palavra de honra — afirmou Sedgewick

solenemente — de que qualquer coisa que disser não sairá desta sala. Fique à vontade para nos contar.

Camilla lançou um olhar apreensivo para Benedict, que fez uma careta e resmungou:

— Confie em mim, Srta. Ferrand, não contarei seus segredos de adolescente Londres a fora.

Imediatamente, Sedgewick colocou:

— Eu garanto Benedict. Ele não dirá nada. Agora, diga-me, que problema é esse com o qual a senhorita tanto se digladia?

Camilla hesitou, olhando para a poncheira.

— O senhor acha... posso beber um pouco mais desse ponche? É tão reconfortante.

— Claro. — Sedgewick educadamente pegou a taça dela e serviu um pouco mais da forte bebida, enchendo também a taça de Benedict e a sua.

— Você vai acabar embebedando a moça—alertou-o Benedict secamente, ao pegar sua taça e beber.

— Não diga bobagens, eu nunca, oh, nunca, fiquei bêbada em toda a minha vida.

— Quieto, Benedict. Agora, Srta. Ferrand, por favor, prossiga.

Ela deu um gole no drinque, respirou fundo e começou:

— Bem, como eu disse, vovô teve um ataque de apoplexia, e o médico o colocou de cama e disse que ele não tinha muito tempo de vida. Obviamente, me dirigi para Chevington Park assim que soube.

— Chevington Park? — repetiu Sedgewick, surpreso. — Você quer dizer... seu avô é...

— O Conde de Chevington — disse Camilla. Ela estava olhando para a taça em suas mãos e, portanto, não percebeu o discreto olhar que seu benfeitor lançou na direção de Benedict. — Sim. Minha mãe era sua filha.

”Meus pais morreram quando eu era criança. Fui criada por meus avós e por tia Lydia, quero dizer, Lady Marbridg, Ela era casada com meu tio, o herdeiro do conde, mas ele morreu quando o filho deles, Anthony, era apenas uma criança. Foi muito gentil da parte dela também me adotar. Todos nós morávamos em Park com meus avós. Acho que é por isso que sou tão ligada a meu avô. Minha avó faleceu alguns anos atrás. Vim ver meu avô assim que soube que ficara doente. O médico disse que deveríamos ter muito cuidado para não perturbá-lo, porque isso prejudicaria sua saúde, talvez até o levasse a um outro ataque. Mas não pude evitar que ele se preocupasse comigo. Ele estava muito ansioso, sabem, porque não sou casada. Ele ficava dizendo que eu precisava de um marido para cuidar de mim, o que é, realmente, a coisa mais absurda, porque sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma.

Benedict fez um ruído abafado, e Camilla virou-se para mirá-lo duramente. Ele lhe devolveu um olhar suave e fez um gesto para que continuasse.

— Como eu estava dizendo, ele estava muito atormentado. Vovô é bastante antiquado, e está convencido que tenho de me casar.

Sedgewick limpou a garganta, de maneira reprovadora.

— Bem, é isso que normalmente se espera das jovens.

— É, mas não sou do tipo normal. Não pretendo me casar.

— Certamente.

— Sim. O casamento é uma instituição inventada em benefício do homem, e vejo poucas vantagens para uma mulher no casamento.

— Como?

— Bem, é verdade. Os homens, depois que se casam, continuam livres para fazer o que bem entendem, senhores dos lares enquanto suas esposas não têm liberdade alguma. Espera-se que elas obedeçam seus maridos e criem herdeiros e mantenham a casa em ordem. E nada mais. Não possuem nenhum direito e nenhuma liberdade. Sedgewick sorriu levemente.

Por favor, Srta. Ferrand, você está exagerando.

Estou? — Ela se empertigou, olhando para ele com os olhos apertados. — A propriedade de uma mulher passa a ser do marido assim que se casam. Na verdade, ela é considerada sua propriedade, uma escrava. Ele tem o direito de puni-la, de restringir seus movimentos, até de espancá-la, se desejar. Ela não pode votar.

— Votar? Deus meu, você quer votar?

— Não entendo por que não. Mas esse não é o ponto. A questão é: querendo ou não, eu não posso. Tive uma excelente educação e meus conhecimentos, acho que posso afirmar sem medo, não são poucos. Mesmo assim, o cara mais idiota do mundo tem o direito de votar, simplesmente porque é homem e tem posses, e eu não.

— Deus nos ajude — comentou Benedict secamente. — Uma intelectual.

Camilla lançou-lhe um olhar que teria destruído uma pessoa menos firme.

— Não consigo ver o que pode ser tão repreensível numa mulher culta e pensante. Sem dúvida você é do tipo que pensa que as mulheres deveriam se restringir a seu tricô, e não devem falar a menos que lhes seja dirigida a palavra, ou que não possam ter outro pensamento na cabeça que não seja do universo dos vestidos e dos penteados.

— Não, Srta. Ferrand. Para ser sincero, já tive a minha cota de mulheres sem nada na cabeça. — Ele se curvou ligeiramente para ela, um leve sorriso no rosto, que transmitia a clara impressão de que a incluía entre elas.

Sedgewick voltou a conversa para o tema inicial:

— Então é por isso que a senhorita não se casou?

— Exato. Não vejo motivo para dar a um homem o controle sobre mim e minhas posses. Sou uma pessoa de posse de seus direitos e permanecerei assim enquanto não me cansar. Portanto, tenho 25 anos e sou uma velha encalhada apesar de estar muito feliz nesta condição, isso tem preocupado meu avô há anos. Após ele adoecer, passou a lhe torturar ainda mais. Ele vivia me dizendo que não suportava a idéia de morrer e me deixar desprotegida. E, por mais que eu lhe dissesse o quanto estava bem, que tinha a propriedade que meus pais haviam me deixado e que podia viver com independência, ele não parava de se atormentar com o assunto. Ele me disse que a vida que eu estava levando não era natural, vivendo sozinha, mesmo tendo uma companhia perfeitamente respeitável. Mas ele queria que eu tivesse filhos e um homem que cuidasse de mim, e todas as coisas que ele dizia que eram corretas e naturais para uma mulher.

Fez uma pausa, suspirou e confessou:

— Então eu disse a ele que estava noiva.

Benedict deixou escapar uma risada.

— Oh, isso é fantástico! A defensora dos direitos da mulher fingindo que agarrou um marido.

— Eu queria que ele parasse de se preocupar! — devolveu Camilla. — Obviamente, você jamais pensaria em tentar aliviar alguém de sua dor ou preocupação.

— Quaisquer que sejam as suas razões — ele disse suavemente —, ainda é uma mentira.

— Belas palavras para um ladrão! — Camilla retrucou calorosamente. — Ou contrabandista ou o que quer que seja. Você não hesita em roubar carruagens e seqüestrar pessoas! ou desacordar um homem ou jogar uma inocente no meio de um tiroteio, mas é claro que você acha imperdoável contar uma mentirinha para aliviar as preocupações de um moribundo!

— Benedict... — Sedgewick fuzilou-o com o olhar. —Não preste atenção ao que ele diz, Srta. Ferrand. Benedict não tem serventia alguma para nós, pobres mortais, e nossos

pequenos problemas. É perfeitamente compreensível que tenha contado essa história para seu avô, para que ele pudesse morrer mais tranqüilo.

— Obrigada. — Camilla sorriu para ele, agradecida, e deu outro gole no drinque. Já não tinha mais aquela sensação de fogo ao chegar no estômago; proporcionava apenas um prazeroso arrebatamento, elevando um pouco seu ânimo. Já se sentia melhor, pensou, e percebeu que a confissão era algo realmente bom para a alma.

— O senhor é um cavalheiro bastante compreensivo — disse a Sedgewick com um sorriso caloroso. — Estou muito feliz por ter lhe contado. O senhor sabe, não era minha intenção mentir para o vovô, mas parecia uma coisa bem singela, para deixá-lo feliz. Ele estava tão doente que nem me fez muitas perguntas sobre o homem ou como nos conhecemos. — Ela sorriu ligeiramente. — Ele nem mesmo me repreendeu por ter ficado noiva sem que o homem viesse antes lhe pedir a minha mão. Ele estava bastante feliz com o fato e, depois disso, descansou mais tranqüilo. Então, começou a melhorar um pouco, e logo passou a se sentir bem melhor. Antes que pudéssemos perceber, já estava xingando seu valete e querendo se levantar e descer e tocar um sino na cabeça do médico por não liberá-lo. Quanto melhor ficava, mais me perguntava pelo meu noivo, e a situação ficava cada vez mais estranha. É claro que tive de inventar tudo e me senti péssima por mentir para ele. Me arrependi por ter-lhe contado, mas não podia dizer que havia inventado a história toda. Tinha medo de perturbá-lo ao ponto de ter outro ataque de apoplexia. Finalmente, não consegui mais suportar e voltei para Bath. E comecei a receber cartas dele, perguntando por meu noivo, querendo saber quando o levaria a Chevington Park para apresentá-lo. Desde então, tenho tentado achar um meio de sair dessa enrascada.

— Diga apenas que o sujeito mudou de idéia — sugeriu Benedict, duramente. — Isso coloca um ponto final na história. É bastante plausível. Se sua aventura esta noite serviu para alguma coisa, foi para dar a qualquer homem uma boa razão para abandonar o noivado.

Camilla voltou-se para ele:

— Você tem coragem de me culpar pelo que aconteceu esta noite? De qualquer maneira, meu noivo não é o tipo de homem que ”muda de idéia”, como você colocou de maneira tão vulgar.

Ele deixou escapar uma gargalhada.

— Isso é ótimo. Já que seu noivo só existe na sua imaginação, imagino que ele possa fazer qualquer coisa que você desejar..

— Eu quis dizer que o tipo de homem que contei para meu avô que ele é jamais faria algo tão pouco cavalheiresco. Você não entende isso, sem dúvida, mas a maioria dos cavalheiros possui um código de honra.

— Ah, é claro, isso está um pouco fora do meu alcance, senhorita — respondeu ele, adotando um sotaque exagerado e puxando um topete imaginário como um fazendeiro bronco. — Não estou muito acostumado com a nobreza, eu acho.

— Cale a boca, Benedict -— disse Sedgewick suavemente. — Obviamente ela não podia dizer para o avô que um dos dois havia terminado o noivado porque o velho cavalheiro não deve ser perturbado.

—É exatamente isso — Camilla concordou, satisfeita por ele ter compreendido. — Vovô ainda está mal de saúde e o médico diz para não perturbá-lo. Diz que é um milagre ele ainda não ter morrido. Então eu fico distraindo ele sobre quando o Sr. Lassiter e eu iremos a Chevington.

— Sr. Lassiter? — perguntou Benedict.

— Meu noivo.

— Ah, sim, é claro.

— Quer fazer o favor de deixá-la continuar a história. Benedict? Ainda não ouvi nada sobre tia Beryl. É isso que estou esperando.:

— Ela! — disse Camilla, com bastante desagrado, franzindo os lábios. — Ela decidiu que vovô necessitava de serto cuidado para melhorar, então se mudou para Chevington park com as filhas e tudo. Tia Lydia diz que ela apenas tirou vantagem do fato de vovô estar doente demais para expulsála. Bem, ele não pode, é claro, já que ela veio em missão de caridade. Mas tenho certeza que ela tem deixado ele louco. E isso deixou a governanta em uma situação desagradável, como se ela não pudesse tomar conta da casa a menos que alguém da família estivesse de olho nela. Mas isso não tem a menor importância. O fato é que vovô contou para tia Beryl que eu estava noiva. Jamais imaginei que ele fizesse isso. Na verdade, quando lhe contei a mentira, não esperava que ele estivesse vivo alguns dias depois.

— Entendo. E o fato de tia Beryl saber de tudo dá um contorno completamente diferente a toda a história, suponho.

— Ah, claro. — Camilla balançou a cabeça com tristeza e tomou outro gole do drinque. Apesar da horrível situação em que se encontrava, começava a se sentir bastante leve. — Tia Beryl é a pior parte da família. Tem duas filhas absolutamente insípidas, para quem está sempre tentando arranjar casamento, e tem sido uma fonte de grande prazer para ela o fato de eu não ter me casado antes das duas. Entretanto, está sempre temerosa de eu ainda me amarrar antes que ela possa jogar a sua cria sobre alguns pobres e desavisados homens.

— Você não contou para ela sobre sua posição filosófica contra o matrimônio? — indagou Benedict, os lábios se contorcendo num jeito divertido, que Camilla achou bastante irritante.

— É claro que sim, mas ela não acredita em mim. Acha que simplesmente estou dando desculpas por ser uma donzela encalhada e que eu não perderia a oportunidade de me casar, assim como as filhas dela.

— Um equívoco compreensível, considerando o fato de que você está fingindo um noivado.

Camilla ignorou com frieza a interrupção de Benedict, dirigindo-se apenas a Sedgewick:

— Tia Beryl não acreditou nisso. Quero dizer, que eu estava noiva. Aparentemente, ela e vovô tiveram um grande desentendimento sobre o assunto. Lydia soube de tudo quan do foi para Chevington Park. O médico ficou tão aborrecido que disse para tia Beryl não tocar de novo no assunto com vovô. Mas Lydia me escreveu dizendo que os dois ficam se atacando sobre o assunto. Tia Beryl faz colocações agressivas sobre o fato de eu não ter trazido meu noivo para conhecê-los. Lydia diz que vovô me defende. — Lágrimas surgiram em seus olhos ao pensar na lealdade do avô. — Oh! Estou tão arrasada! Menti para ele e não suporto imaginar o que vai pensar de mim quando souber da verdade. Porque ele vai saber. Lydia me escreveu dizendo que preciso ir. Vovô não pára de perguntar por mim. Ela tem razão. Preciso ir. Tenho de estar com vovô. Temo que não vai demorar muito até ele...

Ela interrompeu, a garganta obstruída pelas lágrimas. Sedgewick aproximou-se e pegou em sua mão.

— Calma, querida. Camilla sorriu para ele, os olhos cheios de lágrimas.

— Você é muito gentil. Nada disso é problema seu, e você tem sido absolutamente gentil em me escutar.

— Mas o que você vai fazer? — ele perguntou.

— Preciso contar a verdade para eles. — Ela suspirou. Lydia acha que podemos evitar as perguntas e as farpas de tia Beryl, mas não vejo como. Estou certa de que ela me fará todo tipo de pergunta sobre meu noivo, que não terei como responder. Coisas que eu deveria saber. Vai querer saber a que família ele pertence e qual é a relação dele com esta ou aquela pessoa. Eu seria pega em uma mentira e isso seria ainda pior do que contar para todo mundo que não estou noiva. E que tipo de desculpa posso dar para ele não ter vindo comigo? Quero dizer, é uma crise familiar e ele não me deixaria fazer essa viagem sozinha. Mas acho que não conseguirei confessar que inventei tudo e ter tia Beryl olhando para mim com aquele jeito dela, superior e cheio de pena. E vovô... e se isso perturbá-lo de tal forma que o leve à morte? É simplesmente horrível demais para imaginar.

Ela se levantou abruptamente, depositando a taça na mesa com um estrondo, e começou a andar nervosamente pela sala.

— Se pelo menos eu pudesse pensar em uma maneira de sair dessa! Venho quebrando minha cabeça há dias. Por todo o caminho desde Londres, não consegui pensar em mais nada. Mas não achei solução nenhuma... nenhuma!

Houve um longo momento de silêncio, então Sedgewick disse calmamente:

— E se eu tivesse uma solução?

Camilla e Benedict voltaram-se para ele com igual assombro.

— Que diabo... — começou Benedict.

— O quê? — perguntou Camilla, com uma esperança surgindo em seu rosto, indo na direção dele com ansiedade. — Está falando sério? Você realmente pensou em uma saída para a minha situação?

— Talvez. Se estiver disposta a se arriscar.

— Eu faria qualquer coisa! É só me dizer o que é!

— O que você precisa fazer é chegar em Chevington Park, hoje à noite, com um noivo.

— O quê? — Camilla franziu o cenho, confusa. O sujeito, por acaso, não havia entendido nada do que ela falara? — Como eu poderia...? Quem...?

Sedgewick sorriu e apontou com a cabeça o outro homem na sala.

— Benedict será seu noivo.

Camilla olhou para Sedgewick, embasbacada.

Do outro lado da sala, Benedict expressou os temores da moça de modo mais eficaz.

— Pelo amor de Deus, Jermyn, você ficou maluco?

— Nem um pouco. Se pensarem a respeito, verão que é a solução perfeita.

— Eu vejo que é uma perfeita insanidade — retrucou Benedict. — Se você pensa que vou ficar noivo dessa... dessa...

Camilla voltou-se para olhar para ele, os olhos brilhando perigosamente.

— Dessa o quê, Sr. Benedict?

— Vamos lá, Benedict, você normalmente não é tão lento — Sedgewick disse a ele. — É claro que não quero dizer noivo de fato. Estou falando em fingir. Você vai para Chevington Park hoje à noite com a Srta. Ferrand. De manhã, conhecerá seus parentes, conversará com seu avô e coisa e tal. Ficará alguns dias, depois dirá que tem de voltar para a cidade, e volta. O conde ficará tranqüilo e feliz, a tia monstruosa ficará desmoralizada e você... bem, você passará alguns dias em Chevington Park, que imagino ser uma elegante casa de campo.

Benedict estreitou os olhos e começou a falar, depois cerrou os lábios. Deu as costas, resmungando:

Você é tão tolo quanto ela. Isso é impossível.

— Por quê? Você é bem capaz de representar o papel de um cavalheiro, não é?

Os olhos cinza de Sedgewick cintilaram.

.— Um pouquinho grosseiro, talvez, mas alguns lordes também o são.

- Oh, eu não preciso de um lorde — intrometeu-se Camilla - Um cavalheiro puro e simples já é suficiente.

Benedict voltou-se para ela:

— Não me diga que você está realmente levando a sério um plano tão imbecil!

Camilla não tinha a intenção de concordar com o plano do Sr. Sedgewick. Entretanto, o tom sarcástico de Benedict a fez decidir que pelo menos valia a pena pensar a respeito. Levantou o queixo e lançou um olhar penetrante e desafiador para Benedict.

— Por que não? Resolveria meus problemas. E, apesar de seus modos grosseiros, você de fato fala como um cavalheiro. Talvez consigamos enganar a todos por alguns dias, desde que você evite conversar com eles o máximo possível. Eu lhe pagarei por isso, é claro. Não seria esta uma maneira melhor de ganhar dinheiro do que roubar? E resolverá minha questão. Deixará vovô feliz e, depois, mais tarde, posso simplesmente fingir que cheguei à conclusão que não combinávamos. Ou ainda melhor — seu rosto se iluminou —, direi que você morreu! Seria perfeito.

— Pra você, talvez.

— Bem, apenas no que concerne a minha família, é claro.

— Seria um pouco estranho, não acha, se eles por acaso me reencontrassem daqui a alguns meses?

— Não diga tolices! Por que o encontrariam?

— Eu poderia dar de cara com um deles na rua, em Londres. Sou livre para andar em Londres, apesar da minha falta de cavalheirismo.

— Ah. Bem, nesse caso, acho que terei de ficar com a história do fim do noivado. — Ela suspirou. — Pena. A história da morte teria sido muito mais dramática.

— Você tem razão — concordou Sedgewick, com a expressão desapontada, apesar de seus olhos cintilarem de alegria. — Entretanto, acho que teremos de nos contentar com um plano mais simples.

— Daria para vocês gentilmente pararem com essa conversa sem sentido? — explodiu Benedict. — Eu não vou fingir ser seu noivo. Não posso acreditar que isso sequer passe pela sua cabeça. Está claro que você está bêbada.

— Eu não estou! — Era verdade, Camilla admitia para si mesma, que estava se sentindo confortável e entusiasmada, e que sua mente estava ligeiramente, bem... confusa, mas estava apenas relaxada pela bebida. Não estava com o raciocínio alterado. — Eu tenho a mente suficientemente aberta para reconhecer o valor da idéia do Sr. Sedgewick. Cairia como uma luva para nós dois. Você é simplesmente teimoso demais para concordar com qualquer coisa que outra pessoa diga.

— Estou feliz que alguém aprecie meu esforço — disse Sedgewick, levemente, pegando sua caixa de rapé e usando sua habilidade para abri-la com uma das mãos.

— Uma pitada, meu caro Benedict?

O outro homem soltou um rosnado ininteligível.

— Obviamente, sou a única pessoa nesta sala a manter a razão. — Dirigiu-se com pressa para a porta, abriu-a e virou-se: — Não me importa o que vocês dois lunáticos estão aprontando, porque eu não vou participar! — com essa crítica final, foi embora, batendo a porta atrás de si..

Sedgewick e Camilla pararam por um instante, olhando para a porta, depois se encararam. Sedgewick lançou-lhe um olhar prolongado e reflexivo, depois perguntou, calmamente

— Você está disposta a fazer isso?

Camilla fitou-o de volta, os olhos arregalados. Estava? Esse plano, sem dúvida, chocaria inteiramente uma mulher convencional como sua tia. Entretanto, Camilla sempre se orgulhara de não ser convencional. Era independente e suficientemente destemida para enfrentar qualquer situação. É claro. era bizarro que um estranho como o Sr. Sedgewick estivesse tão empenhado em ajudá-la em seu problema, mas somente porque um homem se desviou de seu caminho para ser gentil não significava que ela devia rejeitar sua ajuda. O pior aspecto do plano era ter de estar na companhia de um homem tão rude e intolerável como o Sr. Benedict por vários dias. Entretanto, ela era muito competente e racional, e tinha certeza de que seria capaz de administrar não só a situação como também ele. O destino havia jogado esta oportunidade em seu colo e ela seria tola se não tirasse vantagem disso.

Sim — respondeu firmemente. — Estou disposta.

Sedgewick deu-lhe um rápido sorriso.

Então vou falar com Benedict. Enquanto isso, pode

usar este recinto para, bem... se refrescar.

Camilla quase deu uma risada com a impropriedade das educadas palavras que ouvira para descrever a desanimadora tarefa que tinha pela frente. Estava totalmente emporcalhada de lama e não podia imaginar como e se conseguiria tirar tudo aquilo de seu cabelo e de sua pele sem tomar um banho completo.

— Direi à camareira para trazer um jarro e uma bacia. Tenho certeza que você tem uma muda de roupa na sua carruagem.

Quando Camilla concordou, ele completou:

— vou mandar meu criado pegar suas malas, para que possa vestir roupas limpas.

— Obrigada.

— Não há de quê.

Ele foi na direção da porta, mas hesitou:

— Talvez você queira se aquecer com mais uma taça de rum.

Benedict não foi além do banco em frente à estalagem; sentou-se ali e acendeu um charuto. Não tinha dúvida de que Sedgewick o seguiria em poucos instantes. Apesar das maneiras de Jermyn, ele era como um cão com um osso quando punha algo em sua mente, e Benedict tinha certeza que ele não desistiria facilmente de sua última idéia. Ele mal havia acendido seu charuto quando Jermyn” a giu de dentro da estalagem e foi até o banco. Sedgewick parou por um momento, olhando para ele. Benedict soltou uma nuvem de fumaça, propositadamente ignorando o outro homem.

— Bem? — Jermyn perguntou, por fim. — Teria a bondade de explicar por que está recusando essa oportunidade de ouro?

Benedict ergueu a cabeça para olhá-lo.

— Oportunidade de ouro? Para quê? Fazer uma confusão maior ainda? Desperdiçar nosso precioso tempo? Nossavida? Acho que você ficou maluco.

— Pelo menos, não sou cego. Ou é definitivo? Você desistiu?

Aquele comentário fez com que Benedict se levantasse

— Homem nenhum, nem mesmo você, pode me acusar de desistir.

— Ah, pare com isso, Rawdon — seu amigo retrucou —, eu sei melhor que ninguém como é improvável você desistir, Quando todo o mundo já tinha dado você como perdido lá na Península, eu fui o único que tinha certeza que você encontraria seu caminho de volta. E traria seus companheiros também, mesmo tendo levado duas balas na perna. Afinal, fui eu que tive de sofrer até o maldito fim de cada aventura medonha que você sonhou na infância. Entretanto, não consigo entender por que não quer fazer isso.

Benedict revirou os olhos na direção dele.

— Você está perturbado, Jer. Qualquer um pode ver que é completamente impossível. Fingir estar noivo daquela... daquela atrevida? Não duraria um dia. Agarraríamos o pescoço um do outro em meia hora. Ninguém acreditaria que estivéssemos querendo nos casar.

por que não? Ela é uma mulher atraente... embaixo daquela lama, quero dizer.

Como pode saber? Que inferno, não é o fato de ela seratraente. Admito que ela tem um rosto agradável.

o outro homem deu um gemido:

- Agradável? Você não viu aqueles olhos? Azuis e reluzentes...

E uma aparência aceitável.

Olhe, sei que não mudou tanto assim. Não importa o

que Annabeth fez com você, com certeza você ainda é capaz de apreciar um maldito corpo bonito. — Oh, está bem. Sim, ela tem um corpo deveras deleitável — A voz de Benedict tornou-se levemente áspera quando se lembrou de como era a sensação daquele corpo deslizando por suas mãos, os rápidos momentos em que seus dedos passaram por sobre os seios maduros, enquanto lutavam. — E, sem dúvida, ela tem a pele de um anjo por baixo de toda aquela lama. Mas isso está fora de questão. A aparência dela não é o problema. É a personalidade. Estamos brigando desde o momento em que nos conhecemos.

— Você acha que não existem casais assim? Sua vida militar deve ter sido muito isolada.

— É claro que vi casais que vivem brigando. Mas certamente não eram assim no início do casamento.

— Bobagem. Alguns casais simplesmente adoram brigar. Lembra-se de Capston? Ele e a baronesa não conseguiam passar um dia sem uma desavença, mas ele era louco por ela.

— Capston era louco. Ponto. Sedgewick deu de ombros.

— E daí? Aquela gente não te conhece. Como saberiam que você também não é louco? Além disso, existem outras razões que levam as pessoas a se casar, você sabe, além da compatibilidade. Descendência, riqueza, títulos...

Parou abruptamente, lançando um olhar culpado na direção de Benedict. — Sinto muito. Eu não...

— Sim — retrucou Benedict, secamente. — Sei bem que existem pessoas que se casam por riqueza e títulos. E é exatamente por causa da minha experiência, Jermyn, que não quero me envolver nessa história. Você acha que eu poderia confiar minha segurança e a de todos os nossos agentes a uma mulher?

Sedgewick suspirou. É

— Nem todas as mulheres são como Annabeth. Nem todas venderiam suas almas ou seus corpos por um título.

— Ah, Annabeth não rompeu nosso noivado simplesmente porque eu perdi meu título. Também teve a propriedade — Ele sorriu impiedosamente. — E eu sei que nem todas as mulheres são como ela. Existem aquelas cujo preço é bem menor... e, sem dúvida, algumas que procurariam algo muito maior. Mas não depositarei minha confiança numa mulher novamente, muito menos entregarei meus segredos e minha vida em suas mãos. Menos ainda a um diabrete como aquela

— Mas não há necessidade de tudo isso! Essa é a beleza do negócio. Ela não precisa saber de nada sobre nós. Ou sobre nosso pequeno projeto. Ela precisa de um noivo por motivos pessoais. Está muito ocupada preocupando-se com seu problema para imaginar o que você está fazendo ou por quê está disposto a fazer isso por ela.

Benedict bufou.

— Ela não imaginaria por que eu estaria disposto. Ela acha que faço qualquer coisa por dinheiro.

— Você não se esforçou nem um pouco para dar à garota uma boa impressão sobre você. E tudo isso nos traz vantagens. Por achar que você é um canalha, ela não questionará o fato de você se apresentar como um noivo contratado. Jamais sonhará que é um espião no meio de sua família. Você não precisa confiar nela. Ela será tão enganada quanto os outros.

Benedict olhou para seu amigo de infância. A delicada boa aparência e os modos impecáveis de Jermyn sempre esconderam um cérebro ativo e maquinador. Normalmente, era ele que inventava os truques que utilizavam quando garotos, apesar de normalmente a culpa recair sobre o moreno e voluntarioso Benedict enquanto o louro e angelical Jermyn era perdoado por seguir seu amigo travesso. Benedict sempre achou que, se a guerra contra Napoleão não tivesse acontecido, dando a Jermyn uma chance de usar suas habilidades imaginativas e tortuosas na tarefa de vencer o inimigo, Sedgewick teria acabado em Newgate e, sem dúvida, teria engabelado Bendict, de alguma forma, para lhe fazer companhia.

— E você não vê nada de errado em enganar uma jovem inocente dessa maneira? Plantando um espião em sua casa e envolvendo-a num ninho de víboras de traição e assassinato?

Jermyn recuou, uma das mãos em direção ao peito, num gesto dramático.

— Benedict... você acha que eu faria algum mal a essa jovem? Acho que você não merece minha amizade.

— Às vezes acho que seria melhor assim — retrucou bruscamente. — E não me venha com esse ar inocente pra cima de mim. Acho que você faria qualquer coisa necessária para descobrir o que aconteceu com nossos agentes e para evitar que nosso ”pequeno projeto” seja destruído.

— E você não? — Jermyn ergueu a sobrancelha, insensível. — Meu caro amigo, trabalhei muito e com afinco para mandar aqueles homens pra França e o trabalho deles é crucial para nosso governo. Informação não tem preço. É o que decide as guerras. Neste exato momento, estamos totalmente sem informação.

Durante os últimos quatro anos, enquanto Benedict estava com o exército na Península, combatendo diretamente as forças de Napoleão, Jermyn estava no Ministério dos Negócios Exteriores, combatendo os franceses secretamente. Ele havia implantado uma rede de espiões dentro da França, num projeto chamado Gideon, plantando homens, ingleses e refugiados franceses, que o mantinham informado sobre o inimigo. Boatos, documentos roubados, o humor da população, condições financeiras e políticas, notícias dos movimentos e do moral da tropa, de suprimentos e problemas — tudo vinha afunilado da França para o escritório de Jermyn. Nos últimos meses, desde que Benedict foi forçado a deixar o exército por conta de ferimentos sofridos no campo de batalha, juntou-se a seu amigo nesse conflito obscuro e desesperado.

Benedict sabia que o trabalho deles não tinha preço e apesar de se aborrecer por ter sido relegado a um papel passivo e de espera nos escritórios do governo, ele se dedicava inteiramente, como de hábito, ao projeto. E, como Jermyn sabia exatamente o quão catastrófico era o perigo que naquele momento ameaçava a equipe de espiões e, por tabela, a própria Inglaterra, já que a destruição da rede Gideon na França criaria um imenso buraco em todo o esforço de guerrilha. O exército e o governo estariam, mais uma vez, sem à informação de que tão desesperadamente necessitavam. Pior, sempre havia a possibilidade de os próprios franceses estarem mandando espiões ou sabotadores pelos mesmos canais que Jermyn, através da rede Gideon, havia criado.

— Você tem razão — Jermyn continuou, implacável. — Eu faria quase qualquer coisa para manter aquela rede de agentes na França intacta e secreta, para evitar que fossem caçados e mortos. São meus homens que estão lá, Benedict, e é minha responsabilidade mantê-los a salvo, assim como era sua responsabilidade trazer de volta seus companheiros em segurança. Você não deixou que suas feridas o impedissem e, sinto muito, mas não posso permitir que a possibilidade de um pequeno risco para uma mulher me impeça.

Ele parou e suspirou.

— Sei que isso soa insensível. Mas o que você acha que deveríamos fazer? Desperdiçar essa oportunidade? Benedict, essa é uma oportunidade de ouro. Você terá acesso a Chevington Park. Será aceito como um deles, como um membro da família. Eles vão conversar com você.

— Sim, mas parece pouquíssimo provável que alguém da família do conde esteja ligado ao contrabando.

Quando Jermyn criou a rede de espiões, o contrabando parecia a maneira lógica de trazer mensagens e pessoas para dentro e para fora da Inglaterra. Como o comércio com a França estava legalmente suspenso, apenas o comércio ilegal de conhaque francês e tabaco dos Estados Unidos oferecia uma oportunidade de entrar e sair da França. Os contrabandistas operavam há séculos com sucesso absoluto, e era apenas necessário pagá-los para que trouxessem algumas cartas ou mesmo carga humana. Richard Winslow, um dos amigos e companheiros de trabalho de Jermyn, era o contato deles com os contrabandistas que operavam na área de Edgecombe. Infelizmente, para evitar que as notícias sobre a operação vazassem do já visado Ministério dos Negócios Interiores, apenas Winslow sabia quem era seu contato entre os contrabandistas.

A falha no esquema ficara óbvia algumas semanas antes, entretanto, quando Winslow morrera, aparentemente por suas próprias mãos, levando para o túmulo o segredo dos contrabandistas. Tanto Jermyn quanto Benedict ficaram muito impressionados com o fato de o sério e dedicado Winslow ter se matado, colocando em risco a rede de espiões, mas não haviam suspeitado de nada até uma semana depois, quando o mensageiro que esperavam da França não apareceu. Eles não sabiam quem contatar em Edgecombe, portanto, podiam apenas esperar e se preocupar à medida que as semanas passavam sem notícia dele.

Cada vez mais desconfiados, voltaram a investigar a morte de Winslow. Numa inspeção mais minuciosa, perceberam que o bilhete de suicídio não combinava exatamente com a letra de Winslow, apesar de ser uma cópia muito boa. Em vista disso, algumas inconsistências sobre sua morte, que eles haviam deixado passar antes, agora se agigantavam, e eles ficaram convencidos de que Winslow fora assassinado e não vitimado por sua própria melancolia.

Continuaram sem receber mensagens da França e ficaram ainda mais convencidos de que os mensageiros estavam sendo mortos, da mesma forma que Winslow. Havia um traidor trabalhando contra a rede. Seus temores foram intensificados por uma mensagem de um conhecido espião francês que tinha sido interceptada a caminho da França. Uma curta linha na mensagem transmitia o seguinte: ” Temos um homem a postos em Edgecombe e pegaremos eles um por um.” Estava claro que Gideon corria perigo.

Infelizmente, ainda não sabiam a identidade do agente francês que trabalhava em Edgecombe. O francês que havia mandado as mensagens fugiu antes de ser preso e seu paradeiro era desconhecido. Ademais, eles nem mesmo sabiam como chegar a seu amigo contrabandista para alertá-lo sobre o perigo. Apenas Winslow mandava mensagens ou indicava aos agentes aonde ir. Apenas Winslow sabia a identidade do homem com quem tinha contato.

Esta foi a razão que os levou a Edgecombe há cerca de uma semana: coletar informações sobre os contrabandistas e tentar descobrir não somente a quem deveriam contatar mas também o que tinha acontecido com seu agente e quem estava tentando sabotar Gideon. Infelizmente, durante o período em que estiveram lá, descobriram quase nada. Jermyn tentou se misturar aos moradores da aldeia, mas nenhum deles falava sobre os contrabandistas. Por mais que os moradores seguissem a lei, os contrabandistas eram, apesar de tudo, gente deles, e eles os protegiam. Benedict, por outro lado, mantivera uma aparência neutra, vagando pelo campo e pela costa atrás de sinais dos contrabandistas ou de seu contrabando, investigando cavernas e trilhas e passando cada noite da semana à espera deles nos lugares mais prováveis. Descobrira tão pouco quanto Jermyn.

— Provavelmente ninguém na família de Chevington é contrabandista, isso é verdade — Sedgewick admitiu. — Entretanto, já discutimos a possibilidade de o assassino de Winslow ser alguém que pelo menos o conhecia, talvez um outro ” cavalheiro”.

Essa suspeita havia surgido pelo fato de que o assassinato acontecera no gabinete de Winslow, tarde da noite. As portas e janelas da casa estavam trancadas, nenhuma havia sido forçada e não havia o menor sinal de luta. Os serviçais não haviam ouvido nada exceto o tiro e não haviam recebido ninguém na casa naquela noite. Lorde Winslow, na verdade, só chegara em casa tarde da noite e ninguém tinha certeza de quando ele tinha entrado em casa, já que dissera aos serviçais para não esperá-lo.

Sedgewick e Benedict presumiram que o assassino deve ter entrado na casa com Winslow ou ter sido recebido por ele. Seria provável, portanto, que o assassino fosse alguém que ele conhecia, ou pelo menos alguém que se parecesse suficientemente com um cavalheiro ao ponto de Winslow não ter suspeitas sobre deixá-lo entrar na casa.

— Sim, eu sei — suspirou Benedict. Eles haviam discutido esse ponto muitas vezes desde a morte do homem. — Ainda assim... o Conde de Chevington?

— Poderia ser alguém ligado à família, ou alguém que entraria em contato com eles. A vida social de Edgecombe deve girar em torno do conde. Qualquer um que tenha pretensão à vida cavalheiresca deve visitá-los. Além disso, se você estiver noivo da neta do conde, terá livre acesso a todos, não apenas à nobreza e à família. Os serviçais falarão com você, os aldeões. Você fatalmente descobrirá alguma coisa sobre os contrabandistas.

— Você não pode ter certeza disso. — Benedict suspirou. — Jamais encontrei pessoas que falassem tão pouco quanto eles.

— Não até que o aceitem como um deles — Sedgewick comentou. — O conde é respeitado e amado pelas pessoas daqui. Percebi isso. Eles são tremendamente leais aos Chevingtons. Olhe, eu apostaria com você como aquela jovem mulher lá dentro descobriria com poucas perguntas, escolhidas a dedo, o que você e eu temos tentado, sem sucesso, por mais de uma semana. Ao olhar soturno de seu companheiro, balançou a mão, tranqüilizando-o. — Não, não se preocupe, não estou sugerindo que peça a ajuda dela para fazer as perguntas. Estou apenas dizendo que, se você se apresentar como o noivo dela, eles lhe responderão também. Não prontamente, talvez, mas muito mais rápida e facilmente do que responderam a mim até agora.

— Isso não seria difícil, já que você e eu não descobrimos praticamente nada. Do contrário, eu não teria ficado naquele maldito urzal novamente esta noite. E os teria encontrado esta noite também — estourou ele, irritado —-, se não fosse por aquela detestável garota! Eles estavam bem ali. Atiraram em mim.

— Confie em mim. Assim que você refletir sobre isso com calma, verá que seu encontro com a Srta. Ferrand foi um presente dos céus.

Seu companheiro riu, com desdém.

— Isso é um absurdo. Dessa vez, seu plano simplesmente não dará certo.

— Por que não? Por enquanto, você é o único obstáculo.

— Bem, pra começar, e se uma dessas pessoas me reconhecer? Quero dizer, circulamos nos mesmos meios. Posso tê-los visto em festas. E se um deles disser: ”Oi, Rawdon”, quando meu nome falso deveria ser Sr. Emerson, ou qualquer outro que ela tenha inventado?

— Lassiter, acho eu. É muito pouco provável. Você esteve fora do país por quatro anos e não era Lorde Rawdon quando saiu; ainda era simplesmente Benedict Wincross, com outro herdeiro entre você e o título. Você voltou há apenas alguns meses e sabe tão bem quanto eu que você nunca vai a festas. Além disso, esse pessoal está aqui no campo há alguns meses. A Srta. Ferrand disse isso. Eles não teriam encontrado você em lugar nenhum de Londres. E mesmo que alguém perceba quem você é, invente uma história sobre um noivado secreto. Noivados secretos são sempre úteis.

— Especialmente para aqueles que não têm de participar deles — disse Benedict, com amargura. — Já que o fato de ter todo o plano destruído por alguém que me reconheça não o perturba, o que você acha de estarmos depositando nossa confiança nessa guria sobre a qual não sabemos nada? Não há uma chance em mil de que ela não vai, de uma forma ou de outra, entregar o jogo.

— Ela tem todas as razões para não fazer isso. Ela quer, tanto quanto ou mais do que nós, que sua família acredite que você é o noivo dela. Ela fará o máximo para manter essa ilusão.

Benedict fez uma careta.

— Mesmo com a melhor das boas vontades, ela ainda pode cometer um erro.

— Ela parece uma garota bem inteligente. Também não lhe falta coragem. Não consigo vê-la entregando o jogo por medo ou timidez.

— Não. — Até Benedict foi obrigado a dar um sorriso relutante. — Há poucas chances disso. Ainda assim, duvido que ela esteja acostumada a tanta mentira.

— O quê? — Seu amigo olhou para ele com uma consternação cômica. — Esse é Benedict Wincross falando? O homem que jurou para mim, quatro anos atrás, que toda mulher está imersa em traição?

Benedict teve a elegância de corar:

— Desde o berço elas são ensinadas a mentir e você sabe bem disso. Garanto que até mesmo Bettina, a melhor das mulheres, dá umas voltas em você, de vez em quando.

Sedgewick deu um risinho, nem um pouco perturbado com a descrição de sua mulher.

— É claro que sim. O fato é queprefiro seguir os passos da sua irmã, você sabe.

— É o exagero da mentira que duvido que ela consiga manter. Falsos sorrisos e umas poucas mentirinhas são bem diferentes de sustentar por dias uma ficção perante todos os parentes. Além do mais, essa mulher parece mais — direta, talvez? — do que a maioria.

— Talvez. Mas ainda assim eu a acho esperta, e salvar-me das garras de uma tia maligna é uma motivação das mais louváveis.

— Talvez ela seja capaz desse tipo de mentira, mas cos diabos posso agir de maneira romântica com uma mulher cujas palavras são todas destinadas a me enfurecer? Não consegui ficar com essa mulher por dois minutos sem desejar torcer seu pescoço.

— Apenas olhe para ela da maneira como olhava para Annabeth — Jermyn retrucou, insensível. — Pelo amor de Deus, Benedict, essa encenação é vital para a existência de nossa rede. Você não pode deixar que todo aquele grupo de homens, todos os nossos esforços, sejam destruídos apenas porque não gosta de uma mulher.

— Droga, isso não é simplesmente um capricho meu!- Essa história inventada não vai funcionar!

— E se não funcionar? Não descobrimos nada até agora, e nossa rede inteira está seriamente ameaçada de destruição. Sem falar no fato de que temos, obviamente, um inimigo muito inteligente entre nós, que poderia estar trazendo mais inimigos através do canal que criamos. Como pode ser pior você ser descoberto como um impostor? O que deixaríamos de saber? Que outros danos poderiam ocorrer a nossa rede? Que outros perigos poderiam acometer nosso país?

Benedict fitou-o de volta por um bom tempo, sensibilizado pelo argumento. Depois disse, com uma voz truculenta:

— Não quero perder meu tempo enquanto poderia estar procurando os contrabandistas.

— Ambos sabemos que essa maneira de procurar por eles será mais rápida e mais fácil. — Sedgewick fez uma pausa, depois ergueu uma sobrancelha. — Ou será que eu estou errado... Talvez você esteja relutando não porque não goste da moça... mas porque goste demais dela? É por isso que ela o provoca tanto? É por isso que está tão determinado a evitar a companhia dela? Porque ela o faz sentir coisas que você pensava que estavam mortas havia muito tempo?

— Não seja idiota — disse Benedict secamente, lançando o charuto na estrada e esmagando-o brutalmente. — Que inferno! Está bem, eu participo. Mas, por Deus, Jermyn, é bom você ter razão sobre isso. Por que se não, será o fim de Gideon.

Ele se virou sem mais palavras e caminhou na direção da estalagem.

Ainda estimulada pelo efeito da bebida quente e pela simpatia de Sedgewick, Camilla pôs-se a realizar a hercúlea tarefa de ajeitar sua aparência. Poderia bem imaginar o que suas duas tias diriam, se a vissem assim.

Assim que a camareira trouxe a bacia e a jarra com água, além de alguns panos e toalhas, ela se despiu das roupas imundas e esfregou a lama com um pano molhado. Quando conseguiu se livrar de quase toda a sujeira, vestiu roupas de baixo limpas, retiradas da mala. Ao se vestir, pensou na inevitável fofoca que surgiria entre os serviçais da estalagem. Sem dúvida, amanhã toda a aldeia já estaria falando sobre como Lady Camilla tinha chegado aqui na noite passada parecendo uma delinqüente, coberta de lama e com um estranho a tiracolo.

Seria realmente bem melhor, imaginou, se aquele sujeito asqueroso que era Benedict aceitasse fingir ser seu noivo. Pelo menos, isso explicaria sua presença na carruagem. Se ela contasse a história verdadeira, tia Lydia ficaria quase histérica com o perigo a que ficara exposta e tia Beryl acharia uma oportunidade maravilhosa para fazer um sermão sobre seus modos ridículos e descuidados e sobre o perigo que tal comportamento poderia acarretar. Isso já era suficiente para fazê-la desejar que o Sr. Sedgewick conseguisse convencer Benedict.

É claro que seria horrível ter de fingir por vários dias que estava apaixonada por ele e disposta a se casar — na verdade, era desanimador até mesmo pensar que teria de ficar em sua presença por tanto tempo. Tinha certeza de que teriam muita dificuldade em evitar as mais acerbas discussões a cada minuto. O Sr. Benedict era, afinal, o homem mais irritante que havia conhecido até aquele momento.

Ninguém esperaria que demonstrassem afeto ou carinho, é claro; esse não era o tipo de comportamento esperado de pessoas de sua posição. Mesmo casais comprometidos eram normalmente controlados e ficavam a uma distância casta um do outro. Não seguravam as mãos em público ou se beijavam como Camilla havia visto a arrumadeira Lizzie e o filho do açougueiro fazerem. Não; se havia uma troca de beijos ou abraços, isso era normalmente feito em segredo.

Entretanto, deveriam ficar juntos grande parte do tempo, e seria estranho se não fizessem pelo menos algumas caminhadas tranqüilas sozinhos. Ela se lembrava do tipo de olhar caloroso que era trocado entre sua amiga Henrietta e seu noivo, Malcolm. Havia algo nos olhos de Malcolm, quando olhava para sua futura esposa, que até hoje, quando ela pensava nisso, a fazia enrubescer levemente. Ele não era direto, mas olhando para ele, ninguém teria dúvida sobre seus sentimentos por Henrietta. Até mesmo Camilla, reconhecida oponente do casamento, tinha dado alguns suspiros desejosos em relação àqueles.

Era aquele tipo de sinal — os sussurros com os rostos colados, os suspiros, os olhares que atravessavam ambientes cheios de pessoas — que deixava claro para todo o mundo que um casal estava apaixonado, e um casal de noivos que não demonstrasse esse tipo de comportamento pareceria muito estranho.

Ainda assim, enquanto os dois sustentassem que estavam noivos, quem ousaria discordar? Poderiam ser rotulados de frios, e alguém desconfiado como sua tia poderia suspeitar, mas a simples audácia de fingir que estavam noivos seria suficiente, pensava ela, para convencer até mesmo aquela mulher de que estavam falando a verdade.

O plano de Sedgewick fazia sentido... de uma maneira exótica. Assim que ele o convencesse a desistir de sua teimosa recusa, Benedict certamente enxergaria as vantagens de ser pago por nada mais difícil do que viver em uma casa simpática e fingir não detestá-la por alguns dias. E, certamente, ela poderia suportar a presença de Benedict pelo mesmo tempo, sabendo que isso aliviaria a mente de seu avô... sem falar que desbancaria completamente tia Beryl.

com uma imagem tão prazerosa na cabeça, chamou a camareira, e as duas tentaram retirar a lama de seu cabelo. Não era uma coisa fácil de se fazer naquela sala, com apenas uma bacia e uma jarra d’água. Camilla curvou-se sobre a bacia enquanto a camareira jogava lenta e cuidadosamente a água sobre seu cabelo. Precisou de quatro jarras d’água e muitas idas e vindas de bacia até a limpeza terminar. Camilla nem mesmo se preocupou em usar um sabonete. Tomaria um bom banho de imersão assim que chegasse em casa. No momento, só precisava parecer limpa. Pelo menos, agora podia-se ver que seu cabelo era preto. Torceu o cabelo assim que ele perdeu a aparência enlameada e ajoelhou-se em frente à lareira para pentear os cachos enquanto a camareira saiu para se livrar uma última vez da água suja.

Não pensou em nada quando, alguns minutos depois, a porta se abriu novamente, pois imaginou que seria a camareira, que entrara e saíra da sala diversas vezes para ajudar Camilla em sua toalete. Entretanto, quando ouviu o ruído de botas no chão de madeira, virou-se com um grito surdo.

Benedict entrara na sala e imediatamente virou-se na direção dela ao ouvir o barulho. Gelaram, por um instante, olhando um para o outro. Camilla vestia apenas sua camiseta e anágua, pois não queria molhar sua roupa enquanto lavava e penteava o cabelo. Seu cabelo úmido parecia uma nuvem escura sobre seus ombros e suas costas, e seus olhos eram como imensos lagos escuros. Sua pele estava aquecida pelo brilho dourado do fogo. Seus seios se avolumavam na parte superior da camiseta, e o algodão branco rendado arrematava as esferas inteiras. Sua imagem era arrebatadora, enroscada em frente à lareira, as curvas maduras vestidas numa brancura casta, o cabelo solto como o de uma criança, espresso e luxuriante, convidativo ao toque. Ela parecia, ao mesmo tempo, inocente e sensual, uma mulher que despertava desejos.

Um rubor subiu pelo pescoço de Camilla em direção ao rosto, e ela levou as mãos aos ombros, cobrindo seus inebriantes seios.

— Senhor!

Ele deu um passo para trás, um pouco abruptamente, como se estivesse saindo de um transe hipnótico.

— Mil perdões, Srta. Ferrand. — Curvou-se com esmero e depois acrescentou com grande ironia: — Que sorte que estamos noivos porque se não sua reputação estaria em frangalhos.

— Então... você concordou?

— Sim, concordei com o plano de Sedgewick, Deus me proteja.

Virou-se e andou em direção à porta, de onde olhou de novo para ela.

— Vou para o quarto de Sedgewick. Ele espera me talhar para ser um cavalheiro. É melhor trancar essa porta, se não quiser mais nenhuma visita inesperada.

Assim que ele saiu, Camilla correu para a porta e girou a pesada chave, como ele sugerira. Voltou para a sala e pressionou as bochechas quentes com as mãos, para refrescá-las. Pensou no jeito como os olhos escuros do homem a fitaram, a maneira como percorreram rapidamente seu corpo, e tremeu, sentindo novamente aquele estranho tremor no fundo do abdômen. Por um instante, titubeou, imaginando se deveria mudar de idéia em relação ao acordo. Havia algo naquele homem que lhe parecia perigoso.

Mas logo ajeitou os ombros e atravessou a sala, atrás do vestido que ficara na cadeira. Vestiu-o e fechou a pequena fileira de botões na frente. Não permitiria que aquele rufião a amedrontasse ao ponto de fazê-la desistir de sua idéia. Fingiria que ia se casar com ele, e desempenharia tão bem seu papel que ninguém suspeitaria da verdade.

Amarrou seu cabelo ainda úmido com um nó na base da cabeça e o prendeu com força. Depois, colocou suas luvas e amarrou um chapéu de palha na cabeça. Ele esconderia seu cabelo molhado, e o manto na carruagem cobriria os vincos no vestido, ocasionados pela mala. Isso já dava conta, ainda mais sob a fraca luz das velas. Como já era muito tarde, esperava que tia Beryl não estivesse acordada para vê-la entrar em casa.

Dirigiu-se à porta da sala e abriu-a. O salão público já estava vazio, exceto pelo Sr. Sedgewick, que se virou e sorriu para ela.

— Ah, esplêndido, Srta. Ferrand. — Ele se aproximou para pegar sua mão e levá-la aos lábios. — Está ainda mais encantadora do que eu imaginava. Está claro para qualquer um, menos para o dragão da sua tia, que, se você permanece solteira, é por sua exclusiva vontade.

— Que cumprimento mais simpático. — Ela lhe fez uma pequena reverência.

— Nada menos do que a verdade. — Seu olhar passou por ela e parou na escadaria à frente. — Aí está seu noivo. E parece mais convincente, devo dizer.

Camilla virou-se na direção da escada. Foi tudo o que pôde fazer para evitar que sua boca se escancarasse. Não mais se via aquele sujeito estúpido, enlameado e com roupas grosseiras, de algumas horas atrás. No seu lugar, surgia agora um cavalheiro da cabeça aos pés. Tinha, obviamente, tomado um banho e se barbeado. Suas madeixas escuras, ainda úmidas, haviam sido implacavelmente penteadas. Acabara de se barbear, e sua gravata estava engomada e branca como a neve, com um caimento simples porém elegante. Apesar de as calças e o paletó serem pretos e seu colete ser conservador e escuro, eram inegavelmente caros e bem cortados, e suas botas pareciam espelhos, de tão bem engraxadas.

— Sr. Sedgewick — Camilla respirou fundo. — O que o senhor conseguiu? Mas, certamente, não quer perder suas roupas.

Sedgewick lançou um olhar na direção de Benedict, os olhos cintilando, e disse:

— Não seria de outra forma, cara senhorita. Estou feliz em fazê-lo.

— Devo concordar — colocou Benedict, com amargura, efetivamente aniquilando qualquer esperança de que ele pudesse ter mudado por causa das roupas. — Considerando que eu...

Sedgewick interrompeu-o:

— Sim, eu sei, você as ganhou. Foi o que me disse, mais cedo.

Voltou-se para Camilla:

— Acha que ele serve, Srta. Ferrand?

— Sim. Embora eu não tenha dado a ninguém uma pista de que meu noivo tem uma personalidade tão parecida com a de um urso.

— Ah, bem, isso é algo que realmente se deve esconder.

— Vamos — grunhiu Benedict. — O homem já trouxe minha valise. Sua valise, quero dizer, Sedgewick.

Voltou-se para Camilla, as mãos esticadas.

— O dinheiro?

— O quê?

— Não fizemos um acordo?

— Oh! Bem... — ela lançou um olhar desamparado na direção do Sr. Sedgewick. — Quanto devo pagar a ele?

— Não estou certo. — Franziu o cenho para Benedict. — Quanto você normalmente ganha por esse tipo de serviço?

— Jamais fiz algo parecido — pensou Benedict, por um momento. — Eu diria umas cem pratas.

— Cem libras! — exclamou Camilla.

— Benedict! Por favor!

Benedict ergueu uma sobrancelha, divertindo-se.

— Um homem tem de viver, não?

— Mas isso é mais do que um criado ganharia em... em anos! —protestou Camilla.

— Ah, mas você não poderia levar um criado para conhecer sua família, poderia?

— São apenas alguns dias de trabalho.

— Não é o tempo, na verdade, é? Trata-se de manter nosso segredinho. Faço por 50 libras, nem um centavo a menos.

— Oh, está bem. Tenho dinheiro na minha bolsa, dentro da carruagem. Mas não tenho tudo isso. O resto do meu dinheiro está na minha mala...

Sua voz quase sumiu ao pensar que ficaria sozinha com aquele homem no escuro da noite. O que o impediria de lhe dar uma pancada na cabeça e levar todo o seu dinheiro? Certamente não o cocheiro, a quem ele já havia deixado inconsciente naquela mesma noite.

Seu rosto deve ter revelado seus pensamentos, pois Benedict deu um sorrisinho malicioso. O Sr. Sedgewick interrompeu apressadamente:

— Não se preocupe, ele não ousaria pegar seu dinheiro e fugir. Lembre-se que estarei vendo vocês dois partirem e, se alguma coisa acontecer com você, ele será imediatamente caçado.

— É claro. Obrigada. — Camilla sorriu para Sedgewick, que sorriu graciosamente de volta, virando-se em seguida para repreender Benedict.

Sedgewick acompanhou-os até a saída da estalagem. O estalajadeiro também correu para vê-los partir.

— Aqui está, senhorita. Substituí aquele seu cocheiro idiota e também estou mandando um garoto com uma lanterna, para iluminar o caminho. Nem você nem seu homem precisam se preocupar com nada.

Ele se inclinou para a frente, sorrindo, e sussurrou:

— Seu avô ficará feliz de você se casar, senhorita, não tem dúvida. Sujeito bem robusto ele, se é que me permite. Estávamos imaginando por que ele e o outro zanzavam pra cima e pra baixo por aí, mas agora sei que ele estava apenas esperando sua chegada.

— Obrigada, Saltings. — Camilla sentiu uma pontinha de culpa. Odiava enganar as pessoas e começava a perceber que essa era apenas a primeira de muitas mentiras que viriam na história que inventara para seu avô.

Sedgewick ajudou-a a subir na carruagem e Benedict subiu em seguida, sentando-se à sua frente. Sedgewick fechou a porta da carruagem e, com um grito agudo do condutor e uma sacudida nas rédeas, partiram.

Camilla olhou para o estranho à sua frente e pensou em que havia se metido.

Camilla pegou sua bolsa, enfiou a mão dentro dela e achou um maço de notas que havia posto lá. Contou cuidadosamente 25 notas de uma libra e entregou-as a Benedict.

— Bem, obrigado, senhorita — disse ele, mais uma vez utilizando um sotaque de baixa classe social e puxando o topete como um camponês.

— É apenas metade do dinheiro — disse Camilla, rispidamente, recusando-se a deixar que ele a irritasse. — Você vai receber a outra metade quando tiver terminado seu trabalho.

— Está com medo que eu fuja assim que chegarmos lá? — perguntou ele com sua voz normal e seu sorriso sarcástico nos lábios. — Acho que seria bastante constrangedor.

Camilla ignorou suas palavras.

— O que você é? Um ator, um trapaceiro? — perguntou ela.

— Você me surpreende. A neta de um conde conhecendo jargão dos jogos de azar?

— Já ouvi falar de trapaceiros e vigaristas e dos covis de jogos que atraem os inocentes. Eles usam supostos cavalheios que se expressam bem para seduzir os jovens a entrar, não é mesmo?

— É o que dizem por aí.

— Você não é um deles?

Ele balançou a cabeça.

— Achei que tínhamos definido que eu era um ladrão comum.

— Não me recordo de termos definido o que quer que seja sobre você — respondeu ela, friamente. — A única coisa de que estou certa é que não confio em você.

— Sem dúvida você é uma mulher sábia. Mais uma vez, seus olhos escuros brilharam de contentamento.

— Mas um homem confiável jamais serviria a seus propósitos, não acha?

Camilla olhou para ele, estupefata com as palavras. Ele tinha razão. Um homem escrupulosamente honesto jamais aceitaria participar de uma charada como essa. O que não lhe caía bem, ela percebeu, já que estava empenhada na mesma mentira que ele, até mesmo pior, pois era a sua própria família que estava enganando.

Desviou o olhar dele, a dúvida acometendo-a pela primeira vez. O conforto que o rum lhe trouxera desaparecera gradualmente e havia um pequeno e insistente latejar na base de seu crânio, que anunciava o começo de uma dor de cabeça. Teria ela ficado realmente embriagada, como esse homem afirmara antes? Tomara ela uma decisão tola, sob o efeito da bebida, da qual se arrependeria na manhã seguinte?

Lançou um olhar de esguelha para ele, imaginando o que estava fazendo ao levar um ladrão diretamente para a casa de sua família. Estava sendo simplesmente fraca, ao enganar seu avô daquela maneira? Estava fazendo tudo isso meramente por orgulho? Dúvidas a assaltavam.

— O que foi? — perguntou ele, a voz macia e aveludada. — Arrependida, senhorita? Imaginando se seu plano é menos do que honroso? Ou será que tem dúvidas sobre deixar um ladrão ter acesso aos tesouros de Chevington Park? Talvez devesse ter pensado nisso mais cedo, antes de convidar a víbora para seu colo, coloquemos dessa forma.

— Não seja tolo — disse Camilla, audaciosa, controlando o tremor de sua voz. — Nem você seria tão idiota ao ponto de roubar alguma coisa, sabendo que seria óbvio quem o teria feito. Sabendo que eu poderia identificá-lo.

— Como quem? Sr. Lassiter, não é?

Seus olhos voaram na direção dos dele, perplexos.

— É isso aí — continuou ele. — Você nem mesmo sabe meu nome, sabe?

— Mas... não é Benedict?

— É... meu primeiro nome.

— Seu primeiro nome! Achei que o Sr. Sedgewick tinha dito que era seu último nome. Qual é seu sobrenome, então?

— Lassiter. Que outro?

Ela apenas olhou para ele, os olhos esbugalhados, momentaneamente desprovida de palavras.

De repente, surpreendendo-a ainda mais, ele foi em sua direção e a agarrou, puxando-a para seu colo. Passou um braço em volta de seus ombros, o outro em volta de sua cintura, prendendo seus braços junto ao corpo com eficiência.

— O que você... Pare! Solte-me imediatamente!

— Você parece ter esquecido uma outra coisinha, na pressa de enganar sua família. Um noivo, você sabe, tem algumas expectativas.

Ele se inclinou e seus lábios grudaram nos dela. Eram duros, quase a machucavam, e pressionavam seus lábios macios com uma força insistente. Camilla arfou, surpresa, e ele aproveitou a oportunidade para deslizar sua língua para dentro, deixando-a ainda mais espantada. Ela não havia sido beijada mais do que uma ou duas vezes, e somente por janotas extremamente galantes, dominados por um momento de ardor. Mas jamais havia sentido algo assim. A boca dele parecia se alimentar da sua, faminta e urgente, exigindo que ela se entregasse a ele.

Tão repentinamente quanto havia começado, ele parou, ergueu a cabeça e fitou Camilla por um bom tempo. O rosto dele estava vermelho, o peito subindo e descendo rápidamente os olhos escuros cintilando. Camilla olhou de volta hipnotizada, por um momento impedida de falar. Pensou por um instante, que ele ia beijá-la de novo, mas ele abruptamente a recolocou em seu lugar, no banco à sua frente.

— Lembre-se disso — disse ele, soturno — na próxima vez em que decidir fingir que um homem será seu marido.

Uma raiva intensa inundou Camilla, eliminando a surpresa, assim como a lufada de medo que tivera momentos antes.

— Como ousa!

— Eu ouso qualquer coisa — retrucou ele, sem se alterar. — Você acha que ligo se você é uma lady, ou se sua família é respeitável? Você não sabe nada a meu respeito, menos ainda sobre meu caráter. Você foi tola em concordar com isso.

— Então talvez eu deva encerrar tudo aqui mesmo! — As bochechas de Camilla estavam em fogo. — Por que não paramos e você volta a pé para a estalagem?

— Ah, não, senhorita, fizemos um trato, e pretendo ir até o mais amargo fim. Você está planejando abandoná-lo?

Camilla esticou-se, orgulhosa.

— Eu nunca volto atrás em minha palavra. Mas não fique pensando que pode exigir qualquer direito de noivo. Estou lhe pagando uma boa soma de dinheiro e, se isso não é o suficiente para você, então eu sugiro que vá embora agora mesmo. Porque não conseguirá nada mais. — Seu olhar duro poderia derreter uma barra de ferro.

Suas palavras pareceram diverti-lo mais do que qualquer coisa, pois ele apenas sorriu levemente e murmurou:

— Você não se assusta facilmente, não é?

— Era isso que estava tentando fazer? Me assustar? — Ela olhou para ele, perplexa. — com que propósito?

— É melhor não entrar cego em algumas situações.

— Então você estava me testando? — Sua boca se contorceu, exasperada. — Bem, posso lhe garantir, Sr.... seja lá qual for o seu nome... que, se há um lado fraco nesse plano, não sou eu.

Lançou-lhe um olhar incisivo. Ele retornou o olhar, mas sem expressão, e depois de um momento ela se empertigou em sua maneira mais formal e poderosa e disse:

— Acho que seria melhor se, em vez de ficarmos participando de disputas juvenis, nos empenhássemos em dar um tom de realidade à nossa história. Então, seu sobrenome é Lassiter, como você disse. Acho que poderíamos usar seu próprio nome, Benedict, como prenome. Assim, se eu me enganar e pronunciá-lo, não parecerá tão estranho. Sempre falei de você como Sr. Lassiter em minhas cartas para casa, então eles não sabem seu primeiro nome. Ele concordou.

— Diga-me, onde eu moro? Como passo meu tempo?

— Você mora em Bath. Seus pais possuem uma pequena propriedade em Cotswolds. Você é um cavalheiro desocupado e escreve.

— Eu o quê? — Seu semblante expressou dor. — Espero

que não esteja falando de poesia.

— Oh, não. Você é um cavalheiro bastante culto. Tem interesse por história antiga, especialmente romana. Escreveu vários artigos e está preparando um livro.

— Deus meu, quer dizer que esperam que eu converse sobre tudo isso?

— Oh, não — assegurou ela, aérea. — Vovô geralmente não gosta de assuntos acadêmicos. Apenas achei que esse parecia um assunto admirável para alguém se interessar.

Ele fez uma careta e continuou:

— Tudo bem. Agora, o que mais devo saber sobre esse modelo de perfeição?

— Você é um homem muito gentil e de boas maneiras — é aí” que vai ter de trabalhar o seu papel. O Sr. Lassiter jamais sonharia em agredir um cocheiro ou se engalfinhar no chão com uma pobre mulher indefesa.

— Parece uma figura entediante, na minha opinião.

— Não é. Ele é um cavalheiro de alto nível.

— Bem, sua descrição me faz pensar por que uma mulher ia querer se casar com ele.

— Você obviamente não entende nada de mulheres.

— É o que dizem por aí.

— O Sr. Lassiter respeita as mulheres e acredita que elas são tão inteligentes e capazes quanto os homens.

Benedict lançou-lhe um olhar sarcástico.

— Não acha que está exagerando? Não acha que ele está perfeito demais para ser plausível — inteligente, cavalheiresco, e prefere uma mulher intelectual?

— Não. Eu não teria concordado em me casar com ele, se não fosse assim. Ele será perfeitamente plausível se você agir de maneira plausível.

— Talvez você esteja superestimando minhas habilidades de ator.

— Você está superestimando a minha paciência. Agora, pode, por favor, prestar atenção e fazer o seu trabalho?

— Farei humildemente o meu melhor — prometeu, sarcástico. — Peço-lhe que continue. Fale-me de minhas excelentes qualidades.

Passaram os minutos restantes da viagem conversando sobre o fictício Sr. Lassiter, enquanto Camilla tentava se lembrar de tudo que havia escrito para seu avô sobre o homem.

Finalmente, assim que atravessaram os portões de Chevington Park, ocorreu a Benedict perguntar:

— Eu me pareço com ele?

Um estranho olhar surgiu no rosto de Camilla.

— O quê?

— Eu me pareço com esse camarada fisicamente? com certeza você deve tê-lo descrito.

— Bem... eu certamente não o descrevi com a sua aparência — admitiu Camilla. — Ele não deveria ser tão grande e tão... forte. Mas não tenho certeza se disse algo sobre o tamanho dele para o vovô. Devo ter dito que tinha uma estatura média.

Ela olhou para ele cheia de dúvidas. Os mais de metro e oitenta de Benedict jamais poderiam ser chamados de estatura média. Mas pelo menos não havia mencionado se seus ombros eram largos ou se suas longas pernas preenchiam suas calças com perfeição. Ela tentava se lembrar exatamente como havia descrito seu noivo imaginário, mas tinha alguma dificuldade. Não havia, de fato, pensado tanto em sua aparência, apenas em suas características e, além disso, o homem de verdade, sentado à sua frente, não parava de se intrometer na imagem que ela estava tentando mentalizar. Ele tinha o hábito irritante, ela começava a descobrir, de dominar qualquer cena na qual estivesse inserido.

— Eu disse que o cabelo dele era castanho — disse Camilla, olhando para os cachos pretos, curtos e espessos de Benedict. — Está suficientemente parecido. Entretanto, acho que disse que seus olhos eram cinza. — Não havia nenhuma possibilidade de alguém confundir os cintilantes olhos escuros daquele homem com cinza. — Bem, ele provavelmente não se lembrará, de qualquer maneira.

— Esperemos.

Naquele instante, a carruagem parou em frente à casa. Camilla empurrou a porta antes que o garoto da lanterna pudesse aparecer para abri-la e desceu. Benedict seguiu-a. Camilla fitou a antiga e venerável casa, uma afeição terna no rosto. Benedict acompanhou seu olhar. Era uma casa magnífica, construída na forma da letra E, e o branco de suas pedras naturais davam a ela uma vivacidade que era realçada pelas luzes que brilhavam ao lado das enormes portas de entrada e saíam pelas janelas.

— Ah, meu Deus. — Camilla percebeu, surpresa, a multidão de luzes. Esperava que sua família tivesse desistido de esperá-la e ido para a cama, para que ela e Benedict não tivessem de enfrentá-los naquele momento. Obviamente, não seria assim.

Para piorar a situação, as portas duplas de entrada estavam escancaradas e seguras por dois lacaios uniformizados, e um homem gordo, todo vestido de preto, desceu correndo os largos degraus de pedra da escada em direção a eles, um sorriso rasgado de orelha a orelha.

— Srta. Camilla! — gritou ele. — Que maravilha vê-la.

— Purdle! — Camilla disparou e deu-lhe um abraço. — Não deveria ter ficado acordado.

— Até parece que eu conseguiria ir para a cama sem saber onde a senhorita estava, e ainda deixá-la ser recebida pelos lacaios. — O homem radiante parecia ofendido.

— Não — concordou Camilla. — Não conseguiria. — Virou-se na direção de Benedict. — Querido? Venha aqui. Quero lhe apresentar Purdle. Ele é o mordomo, e administra a vida de todos nós há anos. Purdle, este é o Sr. Lassiter. Ele...

— Eu sei, eu sei! — deu um sorriso escancarado para o companheiro de Camilla. — A viscondessa nos contou tudo sobre ele. Parabéns, senhor. Muitas felicidades, senhorita. É maravilhoso. E devo dizer que o conde está muito feliz. A notícia o pegou ainda acordado. Ele mal pode esperar para vê-la também, embora eu tenha certeza que isso não é surpresa nenhuma para a senhorita. Queria ficar acordado para recebê-la pessoalmente, mas a bebida que o médico deu para ele o pôs imediatamente para dormir após a ceia. O médico disse que era excitação demais para ele. Obviamente, o conde ficará furioso de manhã, quando acordar e descobrir que perdeu sua chegada.

Benedict olhava com fascinação para o mordomo enquanto este os carregava degraus acima, para dentro da casa, falando sem parar. Jamais havia visto um mordomo como aquele, radiante e tagarela. É claro, lembrou a si mesmo, ele já deveria saber que nada e ninguém ligado àquela garota poderia ser normal.

— Parece que todos os outros ainda estão acordados — disse Camilla, um pouco na dúvida, enquanto Purdle os conduzia pelo amplo saguão.

— Ah, sim, toda a família — concordou ele, sem perceber a decepção no rosto de Camilla. — Bem, exceto o jovem amo, é claro.

— Anthony? — Camilla pronunciou o nome de seu primo que, aos dezoito anos, era o herdeiro do velho conde e a pessoa mais próxima dela em toda a família. Quando seus pais morreram, a mãe dele, Lydia, criou Camilla, e os dois cresceram como irmãos.

— Sim. Ele se recolheu cedo esta noite.

— Anthony? — repetiu Camilla, sem acreditar. Seu primo era extremamente ativo, e sempre se metia em uma ou outra travessura. Seria a última pessoa que ela imaginaria que fosse para a cama antes de todos os outros, especialmente quando ela estava para chegar. — Ele está doente?

— Ah, não, senhorita. Ele está bem. Tem se recolhido mais cedo nos últimos meses. Desde que... uhm, a Sra. Elliot chegou.

— Ah.

Agora estava claro. Anthony odiava tia Beryl, talvez mais do que ela própria. Ela sempre aproveitava cada oportunidade para fazer sermões sobre suas obrigações como o futuro conde e para opinar sobre o fato de que seu marido era o segundo filho e que, por isso, Anthony herdaria no lugar de seus filhos que eram, por comprometimento, muito mais merecedores da honra e da posição do que Anthony.

— Pois é. Sem dúvida a senhorita o verá o quanto antes.

— Sim. com toda a certeza. — Ela tinha certeza que Anthony não estava dormindo; daria um jeito de ir até seu quarto assim que os outros estivessem em seus aposentos.

— Aqui estamos.

Purdle parou diante de um par de portas abertas, que davam para a sala de visitas azul, uma sala grande e formal que raramente era utilizada por seu avô. Camilla tinha certeza de que era por ordem de Lady Elliot que ela estava sendo usada agora. Apesar de Lydia ser hierarquicamente superior, por ser viúva do visconde e mãe do futuro conde, Camilla não tinha dúvida de que ela havia deixado tia Beryl tomar as rédeas da casa. Lydia intimidava-se com a língua venenosa da outra e, além disso, não gostava de administrar nada mesmo. Tia Beryl, por outro lado, vivia para dar ordens.

Purdle pisou na sala, dirigindo-se a tia Lydia:

— Minha senhora, a Srta. Camilla chegou.

Deu um passo para o lado para lhes dar passagem. Camilla inspirou profundamente e olhou para o rosto de Benedict. Ele sorriu para ela, transformando as duras linhas de seu rosto em beleza e surpreendendo-a tanto que, por um instante, ela mal pôde se mover. Percebeu que ele estava assumindo uma expressão amorosa para a charada deles. Tentou ajustar seu rosto com o mesmo tipo de olhar e prendeu sua mão na curva do braço dele.

Entraram na sala e pararam abruptamente. Parecia que a sala estava cheia de gente e todos os olhos estavam neles. Por um instante, as faces viraram um borrão irreconhecível. Todos na sala congelaram onde estavam, encarando Camilla e Benedict.

Depois, a multidão de rostos se transformou em várias pessoas diferentes. As duas jovens mulheres eram as filhas de tia Beryl, Amanda e Kitty. Tinham cabelos louros arduamente encaracolados e olhos de cor incerta, que pareciam prontos a saltar de suas cabeças. Kitty era gordinha, e Amanda era magra como um palito, mas ambas eram incessantemente fofoqueiras e riam de tudo. Camilla normalmente ficava entediada demais se passasse mais do que cinco minutos com elas. Tia Beryl, com os mesmos olhos esbugalhados e o cabelo louro, embora já estivesse ficando grisalho, de suas filhas, estava sentada em uma das poltronas largas perto do fogo, um xale em volta dos ombros para espantar o frio ao qual o amplo decote de seu vestido de noite a expunha.

A outra senhora idosa — apesar de que era necessário um segundo olhar, mais longo, para perceber que ela não pertencia à mesma geração das filhas de tia Beryl — era tia Lydia. Ela possuía uma pele clara, sobre a qual muito cuidado e muitos ungüentos foram desperdiçados, e seu corpo era delgado ao ponto de se duvidar que havia tido um filho. com seu ticianesco cabelo ruivo e seus vividos olhos azuis, ela ainda era uma das belezas reinantes de Londres e quem não a conhecia não imaginava que pudesse ter um filho de dezoito anos. Ela fitava Camilla e Benedict como se jamais a tivesse visto antes.

Essas eram as quatro mulheres que Camilla esperava encontrar em Chevington Park, apesar de ter esperança de que tia Beryl e suas filhas já estivessem recolhidas quando chegasse. Ela não esperava encontrar os três homens: seu primo Bertram, o filho mais velho de tia Beryl e um dos principais janotas de Londres, e dois jovens que ela jamais havia visto na vida.

— Tia Lydia — disse Camilla, sorrindo e indo em direção a ela com os braços abertos.

— Minha querida — murmurou Lydia, levantando-se e abraçando graciosamente sua sobrinha, enquanto observava Benedict com um olhar peculiar.

— Camilla. — Tia Beryl ergueu-se imponente, mas não estendeu os braços para um abraço similar.

Camilla fez-lhe uma mesura educada, trocando cumprimentos com sua tia e suas primas. Seu olhar tremeluziu curiosamente na direção dos dois estranhos, mas apressou-se, agora ansiosa para falar de sua mentira. Virou-se para Benedict, estendendo-lhe a mão. Para seu alívio, ele se aproximou com entusiasmo. Ela percebeu, espantada, que ele parecia um cavalheiro da cabeça aos pés... e bem bonito também. Amanda e Kitty fitavam-no com a boca aberta.

Camilla respirou fundo para apresentar Benedict, mas antes que pudesse falar, tia Lydia lançou um de seus radiantes sorrisos para Benedict e passou por Camilla, dizendo animadamente:

— Não, você não precisa nos contar, Camilla. Sabemos que este deve ser seu marido.

As palavras de sua tia seguiu-se um completo silêncio. Camilla olhou embasbacada para Lydia. Os olhos sagazes de tia Beryl pulavam do rosto estupefato de Camilla para o de Benedict.

— Como vai, Sr, Lassiter? — continuou Lydia, como se não tivesse dito nada de extraordinário. — Sou a viscondessa Marbridge, tia de Camilla.

Benedict recuperou-se rapidamente, sorrindo para a viscondessa e fazendo-lhe uma bela mesura.

— Como vai, minha senhora? É um prazer conhecê-la. Virou-se para Camilla com um olhar de pura fúria. Ele estava certo de que ela o havia enganado e, por alguma estranha razão, o havia conduzido para essa situação. Lydia também olhou para Camilla.

— Oh, querida — disse ela, fazendo um belo beicinho. — Espero não ter estragado completamente sua surpresa.

— Oh, não, claro que não — respondeu Camilla, debilmente.

Lydia atravessou a sala na direção deles. Benedict, sorrindo ternamente para Camilla, colocou a mão em volta de sua cintura e a apertou de maneira muito pouco amorosa. Inclinou-se para perto de seu ouvido e sussurrou:

— Que diabo você pensa que está fazendo? Seja qual for a armadilha em que está pensando me jogar, não vai funcionar.

Camilla não conseguia controlar a irritação que pulsava dentro dela.

— Não faço a menor idéia do que está acontecendo — sussurrou de volta, mostrando os dentes e esperando que aquilo parecesse um sorriso. — Não sei nada sobre isso.

Os olhos de Benedict indicavam que ele gostaria de aprofundar a questão, mas naquele momento tia Lydia já estava ao lado deles. Pegou as mãos de Camilla nas suas, apertando-as de maneira significativa.

— Sei que você queria que eu mantivesse a notícia em segredo, mas fiquei tão eufórica quando recebi sua carta que não pude resistir e contei a todos a novidade. Por favor, diga que me perdoa.

— Sim. Certamente.

Camilla já havia recuperado seu equilíbrio e sua razão o suficiente para saber que não tinha outra alternativa a não ser concordar com as afirmações absurdas de sua tia.

— Tão inesperado — afirmou tia Beryl, e Camilla podia sentir seus olhos perfurando-a.

Ela se obrigou a encarar o olhar da outra tia, esperando parecer adequadamente calma e controlada.

— Não foi? Lydia prosseguiu:

— Estou certa de que está muito cansada da viagem. Olhando de soslaio para Camilla, inclinou-se para perto dela e sussurrou:

— Minha querida, isso no seu pescoço é lama? Camilla levou uma das mãos ao pescoço.

— É, estou muito cansada — concordou ela, se agarrando à oportunidade de sair daquela sala e ficar a sós com sua tia.

”Meu... nosso cocheiro se perdeu.

— Que horror. Vá para seu quarto e descanse.

Lydia pegou o braço dela, levando-a para a porta, mas a voz de tia Beryl a fez parar.

— Por favor, Lydia, por favor — disse tia Beryl num tom jovial. — Não vamos permitir que você nos roube Camilla dessa maneira. Vamos, garotas? Estamos ansiosas para ouvir todos os detalhes do casamento. Não é sempre que algo tão... inesperado acontece. E temos de lhe apresentar o Sr. Oglesby e o Sr. Thorne.

— O quê? Quem? — perguntou Lydia, vagamente, depois virou-se para os dois jovens que Camilla não havia reconhecido.

— Ah, sim, é claro.

Ela conduziu Camilla e Benedict até o consolo da lareira, onde estavam o primo Bertram e os dois jovens.

Camilla seguiu-a, relutante. Não tinha nenhuma intenção de se envolver em uma educada conversa fiada com estranhos. Tudo o que queria era ficar a sós com sua tia cabeça de vento e descobrir por que havia inventado essa história absurda.

Mas tia Lydia apressou-se a dizer:

— Camilla, Sr. Lassiter, este é Edmund Thorne, um, ah, amigo meu de Londres. Ele tem sido bastante gentil em estar conosco nas últimas semanas.

Sr. Thorne era um jovem atarracado com uma gravata engomada tão alta que parecia quase sufocá-lo. Seu cabelo castanho estava arrumado em cachos tão aparentemente desalinhados, que Camilla suspeitou que ele havia gasto um bom tempo para fazê-lo ficar assim.

Ele se inclinou profundamente sobre sua mão, dizendo:

— Bela Diana, porque Afrodite, você sabe, não pode ser outra que a viscondessa.

— Como?

— Mas não. — Elevou uma das mãos com dramaticidade, como a interromper algo. Levou a outra mão à testa. — Ah, sim, entendo. Mas é claro, a bela Perséfone. Sinto a musa em mim. E Lady Marbridge é Deméter, tão cheia de alegria ao ver sua filha de novo, finalmente... Embora, é claro, ninguém acredite que a viscondessa tenha idade suficiente para ser sua mãe. Talvez uma irmã.

Ao lado de Camilla, Benedict fez um ruído estranho e reprimido, que ele transformou em uma tosse. Primo Bertram ergueu seu monóculo e examinou o Sr. Thorne.

— De fato, Sr. Thorne — disse Bertram, secamente. — Elas dificilmente seriam Deméter e Perséfone, não acha?

— Mas foi um pensamento simpático, Sr. Thorne — assegurou-lhe Lydia gentilmente. Virando-se para Camilla e Benedict, acrescentou:

— O Sr. Thorne é um poeta.

— Ah, isso sem dúvida explica tudo — disse Benedict.

— Permita-me apresentá-los ao Sr. Terence Oglesby — disse Bertram, claramente se desviando do entediante assunto Edmund Thorne.

Primo Bertram era um janota, estava claro. Desde seu cabelo, penteado num estilo conhecido como ” varrido pelo vento”, até as botas ornadas com borlas, que alguns boatos indicavam que eram polidas com uma mistura especial de champanhe e graxa, ele era a própria imagem do homem da alta moda. Apesar de não se entregar aos estilos mais excessivos, tais como enormes flores na lapela ou paletós com fartos enchimentos nos ombros e tão apertados na cintura ao ponto de a silhueta parecer mais a de uma vespa que a de um homem, era óbvio que ele considerava suas roupas uma obra de arte. Levou quase duas horas para se vestir naquela manhã, pois sempre experimentava pelo menos dez gravatas novas antes de encontrar uma de seu agrado, e o tamanho dos paletós era tão diminuto que precisava não só do valete, mas também do mordomo para ajudá-lo a entrar neles. Na verdade, comentava-se que um de seus paletós precisava ser cortado por seu valete, nas costas, para que pudesse tirá-lo, e costurado de volta quando o vestia.

Seu companheiro estava vestido da mesma maneira refinada. Entretanto, Terence Oglesby obviamente não necessitava de finos apetrechos para se fazer notar. Era simplesmente o homem mais bonito que Camilla jamais havia visto. Tudo nele era dourado — sua pele, seu cabelo, até mesmo os pálidos olhos castanhos — e seu corpo, de ombros largos e cintura fina, não precisava ser realçado por suas roupas. Ele sorriu para Camilla e estendeu-lhe a mão, e Camilla teve poucas dúvidas de que ele tinha livre acesso às mais importantes residências de Londres.

— Está aqui há muito tempo? — perguntou Camilla, educadamente.

Oglesby apenas sorriu e virou-se para o primo Bertram, que respondeu:

— Oh, algumas semanas. Londres tem estado terrivelmente chata, cheia de mães famintas empurrando suas filhas na Feira de Casamento. Por isso, Terence e eu decidimos vir para o campo por um tempo.

Sabendo que Bertram vivia para ser visto e fazia sucesso na sociedade londrina, Camilla teve sérias dúvidas sobre a veracidade da explicação. A verdade mais provável era que seu pai, um notório pão-duro, tivesse cortado sua mesada depois que mergulhou fundo demais no jogo ou contraiu muitas dívidas com agiotas.

Identificando com precisão a especulação nos olhos de Camilla, Bertram deu-lhe uma piscadela, como a confirmar suas suspeitas.

— Agora, pare de monopolizar sua prima, Bertie — censurou tia Beryl alegremente, a boca esticada em uma careta que ela usava como sorriso. — Camilla, venha cá. E traga o Sr. Lassiter. Queremos ouvir todos os detalhes do casamento. Não é, garotas?

Camilla hesitou, o coração a mil. Havia um lampejo nos olhos da tia que indicava a Camilla que a mulher não acreditava em seu casamento. Ela podia entender por quê. Sabia que sua expressão, na hora em que Lydia chamou Benedict de seu marido, deve ter sido a de alguém que levou um tapa na cara. O que Lydia tinha aprontado? Agora tia Beryl faria várias perguntas a ela sobre os detalhes de um casamento do qual ela não sabia nada a respeito, e Camilla não podia imaginar como conseguiria inventá-los sem tropeçar.

Para sua surpresa e alívio, Benedict alcançou-lhe com um braço imperial, interrompendo-a:

— Não, querida. Sinto que devo exercer meu dever de marido e não permitir que prossiga com essa agradável fofoca com seus primos esta noite. Você está cansada demais.

Camilla virou-se para ele, embasbacada. Ele falara num tom de alguém acostumado a dar ordens, e havia, em seu rosto, uma aparência arrogante que não deixava dúvidas. Parecia que ele vinha de várias gerações de condes, muito mais do que ela. Ele se virou para tia Beryl com uma expressão de altivez e leve condescendência, que era precisamente a atitude que a impressionaria e a subjugaria, não importa o quanto isso talvez a fizesse se encrespar de tanta indignação.

— Sra. Elliot, ficarei ansioso para conversar com a senhora amanhã. Mas agora devo insistir que precisamos nos recolher. A pobre Camilla teve um dia bastante cansativo — as exigências da viagem, a senhora sabe — e seu corpo é bem mais delicado do que ela nos faz acreditar. Sem dúvida ela ficaria esgotada por satisfazer sua curiosidade, se a deixássemos escolher. Felizmente, ela agora tem um marido para cuidar dela. E devo insistir para que se recolha.

Sorriu benevolamente para Camilla, que o olhou de volta de um modo que deveria tê-lo ferido. Ao contrário, só gerou uma pequena luz de satisfação em seus olhos escuros. Ela gostaria de lhe dizer o que deveria fazer com seus ” direitos de marido” e sua conversa de ”corpo delicado”, mas naquele momento era melhor, para ela, ser levada para bem longe de tia Beryl.

Então sorriu para ele com uma doçura enjoativa e pestanejou, amorosa.

— Tudo o que você disser, querido.

Ela foi recompensada pela expressão bestificada que estampava o rosto de sua tia Beryl — e também pela contração involuntária dos lábios de Benedict que indicava que ele queria rir de suas palhaçadas. Ele também tinha lábios muito bonitos, pensou, firmes e bem definidos, com uma leve insinuação de plenitude sensual no lábio inferior. Percebeu que estava olhando para ele por um tempo mais longo que o necessário, e apenas seu olhar zombeteiro trouxe-a de volta à razão e a fez dar as costas.

— É claro — disse tia Beryl. — É compreensível. Coloquei vocês no seu antigo quarto, Camilla querida. Estou certa de que conhece o caminho.

Camilla enrijeceu.

— No mesmo quarto?

Parou ao perceber o quão idiotas suas palavras soavam. É claro que marido e mulher ficam no mesmo quarto. Olhou para Lydia, à espera de salvação, mas sua tia ficou muda, os olhos esbugalhados de pânico.

— Uhm, quero dizer... achei que teríamos dois quartos. Um ligado ao outro. — Enrubesceu.

— Recém-casados? — disse tia Beryl, e deu um risinho abafado, levando a mão à boca. — Mas, querida, que estranho. — Seus olhos estavam ávidos de curiosidade.

O rubor de Camilla aumentou.

— Uhn, bem... é. Quero dizer, não é tão incomum. Existem... bem... — gaguejou e parou, lançando um olhar desesperado para Benedict.

Benedict assumiu calmamente.

— O que minha mulher está tentando dizer é que existem circunstâncias especiais. Incomuns, mas que se resolvem bem melhor com dois quartos.

Seguiu-se uma longa pausa e ele continuou: —Em poucas palavras, Camilla ronca, o que me dificulta profundamente o sono.

Camilla deixou escapar um ruído abafado, e Benedict virou-se para ela, meigo:

— Não é, querida?

Ouviu-se um riso contido vindo da direção de Kitty e Amanda, e o primo Bertram pareceu subitamente acometido de uma tosse. Camilla pensou, com grande prazer, na possibilidade de dar uns tapas na orelha de Benedict. Não havia nada que pudesse fazer ou dizer. Ela pediu que ele dissesse algo para tirá-la da horrível situação; não teria como negar suas palavras agora.

— Meu Deus. — Tia Beryl olhava para Camilla e para Benedict, e Camilla podia ver um raio de triunfo em seu rosto quando ela continuou: —- Mas, querida, conseguir quartos separados, neste momento, é um pouco difícil. com tantos hóspedes aqui, há pouco espaço disponível. Para dar a vocês dois quartos ligados ou mesmo adjacentes, teríamos de abrir a ala oeste, e você sabe o quanto seu avô detesta isso. E talvez nem dê para fazer isso esta noite. Todos os serviçais já se recolheram.

Camilla cerrou os dentes. Não havia como insistir, em face do que tia Beryl havia dito. Estava claro que não acreditava naquela história de casamento — e não era nenhuma surpresa. Era uma mentira em cima da outra e cada uma mais absurda que a anterior. Pensou em desistir e contar a verdade, admitindo para sua tia que tudo era mentira. Seria mais fácil do que tentar manter essa charada. Mas então pensou na felicidade de seu avô quando lhe disse que estava noiva e em como ele reagiria quando descobrisse que tudo não passava de um conjunto de mentiras. Ficaria tão desapontado com ela que seria difícil suportar, mas o pior era que sua raiva e seu sofrimento poderiam levá-lo a um novo ataque.

Engoliu as palavras que estavam para sair de sua boca. Refez um sorriso e disse:

— É claro. Não é tão importante. Benedict às vezes exagera, não é mesmo, querido?

Desejando boa-noite a todos, Camilla colocou sua mão no braço de Benedict, e os dois deixaram a sala.

— O que diabos está acontecendo aqui? — grunhiu Benedict assim que ficaram a salvo dos ouvidos da sala de estar.

— Não sei — gemeu Camilla. — Obviamente, tia Lydia deve ter contado a eles que eu tinha me casado com o Sr. Lassiter, mas não consigo imaginar por quê. O que vou fazer?

— Bem, no momento, nada, exceto tentar agir normalmente. Sua tia Beryl já está muito desconfiada. Sua tentativa de conseguir dois quartos não ajudou muito.

— O que esperava que eu fizesse? — inflamou-se Camilla. — Não podemos dormir no mesmo quarto!

— Não? Então o que podemos fazer? Quer voltar para lá e contar para a Sra. Elliot que inventou tudo? Que não sou seu marido? Que você jamais teve nem mesmo um noivo? Que mentiu para seu avô? E para ela? Que sua outra tia também mentiu para todo mundo? Quer que ela saia correndo para despejar todas essas novidades no seu avô?

— Que trapalhada horrível eu fiz!

— Você tem de fazer o melhor possível, agora — disse ele, sem nenhuma simpatia. — No momento, acho que isso significa agir como minha amada esposinha. Mais tarde decidiremos como lidar com o resto.

Segurou com força em seu braço e conduziu-a pelo saguão, em direção às escadas.

— Onde fica seu quarto? Lá em cima?

Camilla concordou, começando a se irritar com a atitude despótica dele.

— Espere um pouco. O que pensa que está fazendo? Você não está no comando.

— Nem você, obviamente — retrucou ele, inexoravelmente levando-a escada acima. — Quanto à pergunta sobre o que estou fazendo, estou indo para seu quarto, onde poderemos fechar a porta e discutir o assunto sem nos preocuparmos se os criados e parentes nos ouvirão.

Camilla fez uma careta. Não tinha como argumentar com a ponderação dele, mas a forma como se colocava no comando a exasperava.

— Camilla! Shhh!

Os dois se viraram e viram Lydia aos pés da escada, seguindo-os. Ela acenou para Camilla parar e correu ao encontro deles.

— Oh, minha querida — chorava suavemente ao se aproximar de Camilla, com as mãos juntas, em súplica. — Meu amorzinho, algum dia você vai me perdoar? Sinto muito, muito mesmo.

Seus grandes olhos azuis estavam brilhando com as lágrimas e seu rosto avermelhado revelava sua agitação. Camilla tomou suas mãos e apertou-as.

— É claro que vou perdoá-la. Por qualquer coisa. Você sabe disso.

Outras pessoas, como tia Beryl, chamavam Lydia de ”frívola”, e Camilla às vezes lamentava os modos vagos e casuais de sua tia, mas não havia ninguém com um coração mais afetuoso, e Camilla a amava com ternura.

— Obrigada. Você não sabe como isso me alivia. Estava preocupada que você fosse me odiar.

— Eu jamais poderia odiá-la. — Camilla pegou o braço dela e conduziu-a em direção ao seu quarto, e Benedict seguiu as duas. — Mas não entendo o que está acontecendo. Por que você disse que ele era meu marido?

Alcançaram a porta do quarto de Camilla e entraram. Um discreto fogo ardia na lareira e uma lamparina a óleo estava acesa, dando ao quarto um singelo brilho dourado.

— Foi terrivelmente ruim da minha parte. — Lydia prendia o lábio inferior entre os dentes, parecendo mortificada e absurdamente jovial. Tinha apenas 37 anos e havia mantido a boa aparência ao longo dos anos. — Se ao menos eu tivesse pensado a respeito, teria percebido que isso poderia causar problemas. Mas eu simplesmente não podia mais agüentar! Você sabe como é Beryl.

— Bem, eu não sei — interrompeu Benedict, bruscamente. — Minha boa senhora, do que a senhora está falando? — Bem, o motivo pelo qual eu disse que você era marido de Camilla. Foi por causa de Beryl. Ela estava me levando à loucura... Todas aquelas alfinetadas astuciosas e insinuações! Ela estava convencida desde o início que nada fazia sentido! mas realmente não sei como ela podia saber. Suas cartas pareciam tão convincentes que, às vezes, até eu pensava que você de fato estava noiva. Mas ela fazia comentários com aquela voz insinuante dela... Você sabe do que estou falando. Tãol absolutamente irritante. Seu tio Varian costumava dizer que sempre que ela começava a falar daquele jeito sua intenção era arrancar-lhe a boca à força.

— Sim, tia — disse Camilla, tentando reconduzi-la ao assunto —, mas o que aconteceu desta vez?

— Ela não parava de perguntar por que você era tão misteriosa com relação a seus planos de casamento. Disse que não soava natural uma futura noiva não falar sobre as novidades de seu enxoval e de seu vestido. Bem, isso é verdade, mas posso muito bem entender por que não passava por sua cabeça, querida, colocar nas cartas coisas como essas, já que você não tem interesse nenhum em se casar. Eu deveria ter pensado nisso, porque era exatamente assim que eu estava quando Varian e eu ficamos noivos; sempre falando sobre o vestido e sobre as flores e...

— Sra. Elliot... — lembrou-lhe secamente Benedict.

— Oh, bem, um dia ela disse, naquele modo tolo e galhofeiro dela, que não tem nada de brincadeira... Você sabe do que estou falando. De qualquer maneira, ela disse, bem na frente do conde — tenho certeza que foi de propósito — que ela achava que você não tinha nenhuma intenção de se casar porque não havia marcado uma data. Ela não chegou a dizer que você havia inventado tudo — embora eu esteja certa de que era isso que desejava dizer — porque ela sabe que o conde jamais a ouviria dizer uma palavra sequer contra você. É por isso que sempre esconde suas afirmações naquele modo pseudobrincalhão dela. Mas disse, com um falso risinho abafado, que achava que você estava ficando com medo e lembrou a ele como você sempre fora contra o casamento. ”Tão pouco natural para uma garota daquela idade.” — Lydia imitava com perfeição as vogais prolongadas e o tom nasal de sua cunhada, até mesmo acrescentando a maneira de tia Beryl erguer o queixo e golpear a garganta.

Camilla foi obrigada a rir.

— Você, é claro, decidiu contar a ela que eu já estava casada.

— Não foi minha intenção. Mas ela estava olhando para mim daquele jeito, você sabe, e eu abri a boca e de alguma forma saiu tudo. Contei para ela que tinha recebido uma carta em que você dizia que havia se casado com o Sr. Lassiter duas semanas atrás.

Camilla deixou escapar um gemido baixinho.

— Sinto muito, Camilla, mas depois que eu falei, o que poderia fazer? Não achei que fosse tão ruim. Não parecia ser pior para você fingir que estava casada do que fingir que estava noiva... E foi tão agradável ver Beryl sentada ali com a boca abrindo e fechando. — Ela fez uma pausa, e então acrescentou, ligeiramente arrependida: — Nunca sonhei que você realmente traria um homem. Pensei que fosse chegar sozinha, com alguma desculpa sobre o motivo de o Sr. Lassiter não ter vindo. E já que apenas falaríamos sobre ele, que diferença faria se ele era seu noivo ou seu marido?

— É claro — concordou Benedict. — Um mero detalhe. Lydia sorriu para ele, satisfeita com sua compreensão, e

disse:

— Exatamente. Estou tão feliz de ouvi-lo dizer isso. — Virou-se para Camilla: — Onde o encontrou? Não entendo como fez para aparecer com ele.

— Eu paguei a ele — disse Camilla, secamente. Os olhos de Lydia quase saltaram das órbitas.

— Quer dizer que se pode comprar um marido?

— Na verdade, ela comprou apenas um noivo — intrometeu-se Benedict. — Agora que eu sou marido, talvez devesse cobrar um pouco mais. O que acha, Camilla?

— Acho que não é uma boa hora para piadinhas. — Voltou-se para sua tia. — Não quis dizer que comprei um marido, tia Lydia. Quis dizer que estou pagando a ele para fingir ser meu marido.

— Que estranho — disse Lydia, pensativa.

— Mas isso não importa agora. O que importa é que tia Beryl acha que somos casados e nos colocou no mesmo quarto!

Lydia gemeu.

— Isso é terrível. Sua reputação será arruinada! O que podemos fazer? Oh, maldita língua, a minha!

— Tudo bem, Lydia. Não se preocupe. Vamos dar um jeito de resolver isso.

Lydia ainda continuava aflita.

— Mas, Camilla, não vai dar. Você não pode... quero dizer... se alguém descobrir...

— Não, por favor, minha senhora — disse Benedict, de repente, aparecendo e tomando a mão de Lydia. — Não se incomode. Camilla, você está levando essa comédia longe demais.

Ele sorriu na direção dos olhos de Lydia, exalando um charme que Camilla ainda não havia testemunhado.

— Lady Marbridge, a senhora deve perdoar Camilla. Ela está implicando com a senhora porque está um pouco aborrecida por ter roubado a idéia dela.

Lydia enrugou a testa, parecendo confusa.

— Do que está falando? — fuzilou Camilla. — Roubado minha idéia?

— Sim, querida. Veja, minha senhora, Camilla estava querendo fazer uma surpresa. Ela achou que seria uma excelente piada, depois de todo esse fingimento sobre o noivado, se ela chegasse aqui já casada. Só posso imaginar que a senhora deve ter um sexto sentido por ter pensado nisso. O fato é que Camilla e eu somos realmente casados.

Camilla ficou pasma, momentaneamente sem voz. O rosto de Lydia, por outro lado, após um instante de confusão, se iluminou.

— Mas que maravilha! Correu na direção de Camilla.

— Minha querida, isso é perfeito! Tudo está ótimo. Não tenho mais com o que me preocupar. Que alívio! E sua reputação está salva. Essa é a melhor notícia que eu poderia receber.

Em vista da alegria de Lydia, Camilla achou que não poderia fazer nada a não ser lhe dar um sorriso débil.

— É,não é?

— Vocês acham que realmente posso ter sentido isso? Não me lembro de ter acontecido antes — se bem que, agora que estou pensando a respeito, houve aquela vez em que Ãnthony tinha pegado uma gripe e, mesmo estando em Londres, tive certeza absoluta de que havia algo errado com ele. A carta seguinte da Sra. Blakely dizia que ele estivera doente, e foi quase exatamente quando fiquei preocupada com ele.

— Sim, eu me lembro, mas não acho...

— Mas agora... — continuou Lydia, sua mente retornando ao divertido tópico do casamento de sua sobrinha. — Quando foi e por que não me contaram?

— Bem, tia—disse Benedict, suavemente.—Espero que possa chamá-la assim agora, pois tenho a sensação de conhecê-la, de tanto ouvir Camilla falar da senhora e com tanto carinho, mas será que poderíamos guardar as perguntas para amanhã? Camilla ficará muito feliz de se sentar com a senhora e contar toda a história.

— Tenho certeza que é terrivelmente romântica — arriscou-se Lydia.

— É, com certeza. Muito romântica. Mas Camilla está esgotada. Foi uma viagem longa e cansativa, na realidade.

— É claro. Não direi mais nenhuma palavra. — Lydia lançou um olhar brincalhão para sua sobrinha. — Mas não vou conseguir pregar o olho esta noite, só de imaginar, sua espertinha. — Abraçou Camilla e deu-lhe um beijo na bochecha. — Até amanhã, queridinha. Boa noite, Sr... — Lydia fez uma pausa, franzindo o cenho. — Mas certamente o senhor não é o Sr. Lassiter.

— Não. Mas, por enquanto, seria melhor fingir que sou.

— Sim, é claro. — Ainda radiante, Lydia acenou para eles e saiu.

Assim que a porta se fechou atrás dela, Camilla voou na direção de Benedict.

— Em nome de Deus, o que pensa que está fazendo? Está louco?

— Não. Pra falar a verdade, estou tentando trazer um pouco de ordem para essa situação louca. Você vai ter de inventar uma história para sua tia. Estou certo de que pode pensar em alguma que seja adequadamente romântica. E suponho que terá de me matar agora. Não se abandona um casamento.

— É o que você pensa! Você prefere! Acha que pode me dizer o que fazer? Ou mudar meus planos? Minha história? Sr... Benedict.

Usar seu primeiro nome não lhe deu nem um pouco da autoridade que ela queria. Entretanto, achou quase impossível chamá-lo pelo falso sobrenome que havia lhe dado.

— Acho que está esquecendo que é meu empregado.

— Como poderia esquecer? — respondeu ele, secamente. — Você me lembra disso constantemente.

— Bem, você certamente não age como se soubesse disso. Sou eu que vou tomar as decisões sobre o que vamos fazer, não você. O plano é meu, afinal.

— Bem, pra falar a verdade, é de Sedgewick. Você e eu, tal qual me lembro bem, apenas bebemos o ponche e escutamos.

Camilla enrubesceu e tentou se lembrar de quantas taças de ponche havia tomado. Três? Quatro? Tomar apenas uma já era pouco condizente com o comportamento de uma dama. Quanto mais pensava a respeito, mais ficava inclinada a acreditar que estava sob a influência da bebida quando concordou com esse plano. Não era de surpreender que chamassem aquilo de rum do diabo.

— Sim, o plano é do Sr. Sedgewick, é claro, mas era minha história, para começo de conversa, e fui eu que o contratei. Isso significa que deve seguir minhas ordens, e não me dizer o que fazer.

— Se você acha que vou deixar uma garotinha insignificante governar a minha vida, está lamentavelmente enganada — retrucou Benedict, deixando de lado seu jeito implicante. Pegou o queixo dela e a olhou fundo nos olhos, dizendo numa voz fria: — Você pode estar me pagando e pode ser a sua história que estamos representando aqui, mas eu estou participando, goste você ou não, e enquanto estiver, pretendo ter certeza de que tudo estará caminhando o mais tranqüila e corretamente possível. Você e sua tia obviamente já criaram um conjunto de mentiras que todos, inclusive a Sra. Elliot, poderiam perceber. Estou certo de que a única pessoa que está convencida da verdade dessa história é seu pobre e doente avô, que sem dúvida escolhe ser enganado.

Camilla tentou respirar fundo, mas ele pôs as mãos em sua boca.

— Não. Ouça-me. Se você tem algum juízo, algo que eu duvido seriamente que sua tia Lydia possua, pôde ver que a Sra. Elliot não acreditou na sua história. As garotas parecem bobas, e devem ser mesmo. Ainda não decidi sobre o janota e os outros dois homens, apesar de não conseguir acreditar que alguém possa ser tão tolo quanto aquele poeta aparenta ser. O importante é que sua tia não acredita em você. E, a menos que eu esteja redondamente enganado, nada poderia deixá-la mais satisfeita do que provar para seu avô que você está mentindo. Então, é nossa tarefa garantir que ela não consiga fazer isso.

— Claro. É isso que pretendo fazer. Foi por isso que o contratei. Mas isso não tem nada a ver com você, de repente, agir como se estivesse no comando.

Benedict deu um suspiro exasperado.

— Não pretendo fazer parte de uma operação malfeita. Se vamos realizá-la, que seja bem-feita.

— Está dizendo que eu não consigo fazer direito? — perguntou Camilla, friamente.

Ele ignorou seu tom e disse, com bom senso:

— Não, não é que você não consiga. Mas até agora você não fez. Espero que você seja capaz, porque se não, estamos perdidos.

Camilla estava tão cheia de fúria que não conseguia falar. Benedict continuou, como se nada estivesse acontecendo:

— Não podemos continuar com esse negócio de você e sua tia dizerem a primeira mentira que passa por suas cabeças. Temos de ter uma história e nos manter nela. Isso é a regra número um. — Levantou uma das mãos e começou a enumerar os tópicos.

— Concordo. Mas isso não significa que é você que vai inventar a história. E por que contou para tia Lydia aquela mentirada sobre estarmos casados? Não precisamos enganála. Ela já sabia a verdade. É apenas mais uma mentira.

— Não. Significa uma oportunidade a menos de nos atrapalharmos. Se ela sabe a verdade, provavelmente vai escorregar e dizer algo para a Sra. Elliot que revele que não estamos casados. Se ela achar que realmente estamos casados, não dirá nada. É simples assim. E diga pra ela parar definitivamente de dizer mentiras por conta própria. E que, se ela disser, você vai negar o que ela disse, e ela parecerá absolutamente ridícula.

— Não posso dizer isso para tia Lydia! Ela é como se fosse minha mãe! Ajudou a me criar depois que meus pais morreram, mesmo sendo recém-casada na época, com um bebê para criar.

— Estou certo que ela é uma pessoa maravilhosa. — Ele retrucou, de maneira desinteressada. — E também desmiolada.

— Você nem a conhece!

— Não é preciso conhecê-la. É óbvio. Só uma idiota teria contado para a Sra. Elliot que você tinha se casado sabendo que sequer estava noiva.

— Achei bem inteligente da parte dela nos dar aquele toque na sala de estar.

— Teria sido mais inteligente interceptar você antes de chegar à sala e contar toda a história. Assim você não pareceria um peixe fora d’água quando ela me chamou de seu marido.

— Você é o homem mais mal-educado que conheci em toda a minha vida.

— Sem dúvida. Mas isso não tem nada a ver com o que estamos falando.

— Certamente tem. Não quero que tia Lydia pense que realmente me casei com alguém tão grosseiro como você.

— Diga a ela que tenho muito dinheiro. Isso sempre compensa a grosseria. Além disso, pense como será agradável quando puder contar para todo mundo que eu morri.

— Talvez pudéssemos arranjar um acidente amanhã. — Camilla disse, de maneira incisiva.

Um leve sorriso passou pelo rosto dele, surpreendendo-a.

— Pelo menos você tem senso de humor. Isso ajudará. — Fez uma pausa. — Bem, você está disposta a fazer essas coisas? Dizer para Lydia ficar calada e não contar nada sobre mim e sobre nossa charada?

— Mas o que vou dizer a ela? Por que eu não teria contado sobre você antes? E por que eu teria inventado tudo aquilo sobre um noivo se eu estava planejando me casar com você?

— Não sei. Você é a criativa. Talvez tenha sido repentino. Ou diga que tinha de manter nosso amor em segredo por alguma razão. Achávamos que nosso romance não teria futuro ou qualquer coisa assim. Diga que eu estava comprometido com outra pessoa.

— E escondi meus sentimentos até mesmo de tia Lydia. É. Acho que pode dar certo. Poderia dizer que foi por isso que sempre me recusei a casar, que eu não queria mais ninguém se não pudesse ter você. Mas sua noiva morreu e você ficou livre.

— Que fascinação mórbida é essa que você tem por matar as pessoas? Diga apenas que a pobre garota percebeu o quanto eu era grosseiro.

Camilla fez uma careta.

— Já lhe disse que não posso ter um marido grosseiro.! Você simplesmente terá de fingir que é agradável. De qualquer maneira, tenho uma idéia bem melhor. Direi que você perdeu sua fortuna e ela, a garota com a qual estava comprometido, livrou-se de você porque ficou pobre. — Fez uma pausa. — Por que está me olhando desse jeito?

— Que jeito? — A voz dele diminuiu.

— Não sei. Você parecia meio... estranho.

— Estava impressionado por sua capacidade de embelezar qualquer história com um melodrama.

— Bem, isso deixa a história mais interessante. Quero dizer, ela decidir que você não serviria é tão... comum.

— O comum é mais verossímil — disse ele. — Sem falar que é mais fácil. Por que não fica com as mentiras mais simples? Diga para Lydia que estávamos apaixonados, mas eu estava prometido a outra pessoa, e essa garota fictícia rompeu comigo e fiquei livre para casar. Por causa do seu avô, decidimos nos casar imediatamente, sabendo o quanto isso o agradaria.

— Tudo bem.

Camilla suspirou e deu-lhe as costas. Pela primeira vez desde que haviam entrado no quarto, ela olhou à volta — a luz suave, a decoração íntima... a cama grande que dominava o quarto. Ela engoliu em seco. Passaria a noite sozinha naquele quarto com um homem estranho. Não apenas isso, todos na casa, inclusive tia Lydia, pensavam que ele era seu marido.

Camilla lançou um olhar nervoso para Benedict.

— Não se preocupe — disse ele secamente, interpretando seu olhar. — Sua reputação não será maculada se conseguirmos convencer a todos que somos casados. Não há nada errado em dormir com o marido, e depois que você ” se livrar” de mim, será apenas uma viúva e ninguém nunca saberá.

— Exceto eu. E você.

Ele a fitou por um instante e disse:

— Está sugerindo que posso tirar vantagem da situação?

— Foi o que me ocorreu. — Ela o encarou, resoluta.

— Não se preocupe — ele disse a ela, sem rodeios. — Jamais peguei uma mulher à força e não pretendo começar agora. Menos ainda com você.

Camilla respirou fundo em resposta ao insulto, seus olhos fuzilando os dele. Ele deu um risinho, a sobrancelha erguida de maneira questionadora.

— O que é? Achou que eu ficaria babando em seu corpinho puro o tempo todo que estivéssemos aqui? Bem, sinto desiludi-la, mas não vou. Prefiro mulheres com mais experiência. Virgens recatadas não fazem o meu tipo.

— Entendo — disse Camilla, rispidamente. — Prefere mulheres que se vendem?

— Todas as mulheres se vendem. Só varia o preço. Pessoalmente, prefiro uma prostituta honesta ao tipo de mocinha angelical que provoca e seduz um homem, mas mantém as pernas trancadas até que ele se disponha a colocar um anel no seu dedo e seus bens na sua carteira.

Camilla olhou para ele, impressionada.

— Odeio pensar em como você adquiriu essa visão das mulheres.

Ele deu um risinho sem graça.

— Por experiência. Camilla virou-se. Foi para a janela e abriu as cortinas, fitando o jardim banhado pelo luar.

— Como consegue fazer isso? — ela perguntou lentamente. — Como consegue fingir estar casado, tendo essa visão das mulheres?

Ele ficou em silêncio por um instante, depois disse:

— Por dinheiro. Lembra-se?

— Não perguntei por que concordou. Perguntei como é possível você agir como um marido, se pensa assim?

Ele a olhou nos olhos e houve um longo silêncio.

— Eu me lembro. — Sua voz ficou rouca, e ele pigarreou. — Me lembro de como fui tolo.

Algo na voz dele gerou um sentimento de compreensão em Camilla.

— Você deve tê-la amado muito.

— Não havia nada ali para amar. — Seu rosto e seu tom de voz estavam frios e duros como vidro. — Acho que estamos fugindo do assunto. Nosso problema é convencer sua tia Beryl que somos casados. Para isso, devemos dormir juntos neste quarto. Ela não vai acreditar que você arriscaria tamanho escândalo se não fosse casada comigo. Eu lhe dou minha palavra que não a seduzirei nem a forçarei a nada.

O rosto de Camilla ficou vermelho ao ouvir suas palavras indelicadas.

— Mas o que você, quero dizer, onde vai dormir? Ele deu uma olhada no quarto e apontou uma porta.

— O que há ali dentro?

— É o vestíbulo. — O rosto de Camilla se iluminou. — Ah, é bem grande. Eu me lembro que, quando fiquei doente, a enfermeira trazia um catre e dormia ali, para me atender se eu precisasse.

— Tem um lá dentro agora? — Abriu a porta e entrou, inspecionando o lugar.

— Não. Um dos lacaios trazia. Não sei de onde vinha... do sótão, talvez. Posso pedir para trazerem um.

— Não. Muito espalhafatoso. Não devemos dar a tia Beryl nenhum motivo para duvidar do casamento. Talvez, depois de um certo tempo, possamos ter uma ”briga de namorados” e você possa me expulsar para a caminha.

Voltou para o quarto e sentou-se no pequeno sofá na parede oposta.

— Por enquanto, acho que este é o melhor lugar para eu dormir.

Camilla teve dúvidas.

— É muito pequeno pra você. Não seria confortável. Ele levantou uma sobrancelha para ela.

— Talvez você queira dormir lá. Não? Acho que não. Só quero um travesseiro e um cobertor e estarei bem. Acredite, já dormi em lugares bem piores.

— Está bem.

Camilla foi buscar o travesseiro, mas ele agarrou seu pulso quando ela se virou.

— Espere. Isso não é tudo.

— O que quer dizer?

—- Que ainda não terminamos nossa conversa.

— Por que não?

— Dormirmos juntos nesse quarto não é suficiente para convencermos a todos de que somos casados. Quando estava falando comigo, ainda agora, você não me olhou nos olhos. Não sorriu. Tratou-me como um estranho, não como uma esposa trata seu marido.

Ela arregalou os olhos.

— Não percebi...

— Eu sei. É exatamente isso que vai atrapalhar você. Não importa o que sinta por mim, se me odeia ou despreza, vai ter de olhar para mim como se fosse o homem que você ama.

— Eu... não sei exatamente como é isso — o rubor subia-lhe pelo rosto.

Ele parecia descrente.

— Está me dizendo que nunca se apaixonou? Ou pelo menos achou que estava apaixonada?

— Achei, por suas palavras anteriores, que você jamais acreditaria que uma mulher fosse capaz de amar. — Camilla lembrou a ele, cinicamente.

— Eu sempre me perguntei isso. — Ele se permitiu um pequeno sorriso. — Sem dúvida eu falei de maneira muito precipitada. Existem mulheres que amam, eu sei. — Pensou em Bettina e em como ela olhava para Jermyn. — Eu tenho uma irmã, e quando seu marido entra na sala, seu rosto brilha como se o sol estivesse retornando a sua vida. — Sua voz estava baixa e um pouco melancólica. — Ela sorri para ele com um olhar como se... não tenho certeza, mas como se não houvesse mais ninguém na sala. Numa festa, os dois sempre ficam juntos, como se não suportassem ficar separados.

Suas palavras comoveram Camilla. Ela pensava em amar um homem assim, em sentir como se cada fibra de seu ser fosse se juntar a ele.

— Como ele olha para ela?

— Como se pudesse absorvê-la.

— É assim que quer que eu olhe para você?

Camilla olhou bem para o rosto dele, um pouco suavizado agora, e misteriosamente bonito. Imaginou como seria olhar para ele como se o amasse, vê-lo retornar o olhar. Ela se sentia estranha e sem ar só de pensar na idéia,

Benedict não respondeu nada por um instante. As palavras dela lhe causaram um anseio estranho e penetrante, uma espiral de desejo tão forte quanto se ela o houvesse tocado. Seus olhos azuis eram imensos e escuros à meia-luz. Ele se lembrou da sensação de sua carne macia embaixo dele enquanto rolavam na lama naquela noite, a insinuação sexual ao imobilizá-la e prendê-la embaixo de si. Refletiu sobre dormir no sofá a uma pequena distância da cama dela.

Benedict engoliu em seco e deu um passo para trás, dizendo asperamente:

— É. O máximo que conseguir. Somos supostamente íntimos. Presume-se que temos sentimentos profundos um pelo outro. Será totalmente falso se nossos olhos raramente se encontrarem ou se fugirmos um do outro.

— Sim. É claro. Entendo. Eu... vou me empenhar em olhar para você daquele jeito.

Ela baixou o tom, envergonhada, olhando para todos os lugares menos para ele.

Mas Benedict não notou, pois havia se virado e dado uns passos, como se estivesse imerso em pensamentos.

— Também devemos passar um bom tempo juntos. Recém-casados estão sempre juntos. — Não havia pensado nisso quando concordou com o disfarce. Certamente limitaria seus movimentos. Mas daria um jeito nisso. A coisa mais importante era fazer o casamento parecer real; se todos achassem que era falso, suspeitariam dele e ele teria dificuldade em descobrir qualquer coisa.

— Tudo bem.

Camilla não gostava da idéia de ficar ao lado de Benedict o tempo todo, mas entendia a lógica das palavras. Ele estava certo em dizer que não seria um escândalo eles dormirem juntos se todos pensassem que eram casados. Conseqüentemente, agora era muito mais imperativo que não dessem chance a ninguém de suspeitar que não eram casados. Tinham de encenar tudo muito bem.

— Podemos caminhar juntos. Você pode me mostrar a praia.

Camilla concordou.

— Podemos cavalgar pela propriedade.

Ele fez uma pausa, batendo com o indicador nos lábios, pensativo.

— O que mais? — Levantou a cabeça rapidamente. — Ah, sim. Uma aliança.

— Uma aliança?

Camilla respirou fundo ao perceber do que ele estava falando e olhou para o chamativo dedo sem aliança em sua mão esquerda.

— Oh, meu Deus, eu não tinha pensado nisso.

— Pensei a respeito da falta de uma aliança de noivado, mas esperava que pudéssemos, de alguma maneira, passar sem essa. Mas você tem de ter uma aliança de casamento.

— É claro. — Ela pensou por um momento. — Tenho anéis, mas tia Beryl provavelmente conhece todos eles e nenhum é realmente apropriado para uma aliança de casamento.

Benedict suspirou e enfiou as mãos nos bolsos, sacudindo a corrente do relógio. Depois de um instante, deslizou um pequeno anel e prendeu novamente a corrente. Deu um passo adiante, segurando o anel na palma da mão.

— Aqui está. É melhor usar isso.

Os olhos de Camilla se arregalaram. Era um anel de ouro maravilhosamente trabalhado, com um rubi vermelho-sangue. Ela se aproximou e o pegou entre os dedos, examinando-o de perto.

— Mas... é lindo!

Benedict ergueu uma sobrancelha.

— Espero que não tenha pensado que eu era um ladrão de mau gosto.

— Oh. — O prazer de Camilla na beleza do anel arrefeceu. — Você o roubou.

— Pode contar uma história romântica sobre ele. Diga que pertenceu a minha amada avó e que, por isso, dei a você pelo casamento.

Camilla concordou, os olhos começando a brilhar enquanto deslizava, o anel no dedo. Benedict murmurou:

— Pelo amor de Deus, não complique tanto as coisas. E... — ele acrescentou, franzindo as sobrancelhas — o que quer que faça, não ouse perdê-lo.

— Não o perderei. Prometo.

Camilla levantou a mão, admirando o acabamento do anel. Era realmente belo. Seria bem fácil tecer uma história romântica em torno dele. Ela preferia não saber que o anel não pertencia a ele.

Ouviram-se uma batida à porta e se assustaram. Camilla olhou para Benedict e mandou o visitante entrar. A porta abriu e revelou uma jovem que usava o vestido cinza liso e o avental branco engomado das criadas.

— Sou Millie, senhorita, quero dizer, madame, sou uma das criadas do andar de cima.

— Sim, é claro, Millie. Você é uma das irmãs de Rose, não é?

A garota enrubesceu de prazer ao ser reconhecida. A Sra. Elliot jamais aprendera seu nome, apesar de estar lá há vários meses.

— Sim, senh... madame, sou. A Sra. Blakely disse para eu ser sua dama de companhia.

— Muito gentil da parte dela — murmurou Camilla, mas um arrepio gelado desceu-lhe pela espinha ao ouvir as palavras da garota. Millie estava ali para ajudá-la a se despir e vestir sua roupa de dormir. Era um serviço ao qual estava acostumada e do qual necessitava, pois seus corpetes normalmente eram apertados e tinham uma longa fileira de botões nas costas. Millie não acharia estranho despir Camilla na presença de seu marido. Mas ela não poderia vestir sua roupa de dormir na frente de um homem! Não poderia permitir que ele a visse em suas roupas de baixo.

Camilla olhou para Benedict. O vislumbre divertido em seus olhos demonstrou que ele estava bem a par de seu apuro. Ela sabia que nenhuma ajuda viria dali. Sem dúvida ele acharia bem engraçado vê-la humilhada.

— Eu, bem...

Camilla olhava a sua volta, tentando encontrar uma desculpa. Pensou em se trocar no vestíbulo, mas pareceria bizarro. Tinham acabado de concordar em montar uma convincente encenação de casamento e se esconder para trocar de roupas certamente estragaria tudo.

— Por que não desfaz meu penteado primeiro? — sugeriu Camilla e dirigiu-se obstinadamente para a penteadeira. Sentou-se em frente ao espelho e Millie, obediente, começou a soltar seu cabelo. A mente de Camilla disparou em busca de uma saída para seu apuro.

Benedict ficara no sofá em que escolhera dormir, observando-a preguiçosamente. Camilla mantinha as mãos entrelaçadas no colo. Talvez se mandasse a moça buscar um copo de leite morno na cozinha, pudesse conversar com Benedict e convencê-lo a deixar o quarto enquanto ela terminava de se despir.

Lançou um rápido olhar de esguelha para ele, que observava Millie escovar seu cabelo com um olhar tão acolhedor que seu estômago pulsou de modo estranho. Por que estava olhando para ela daquela forma? O que significava? Seus olhos a deixaram irrequieta, pois já não pareciam se divertir. É claro, ele tinha dito que deveriam se olhar de maneira diferente, como se estivessem apaixonados. Era isso que ele estava fazendo. Entretanto, isso a deixava nervosa e queria que ele parasse.

Millie terminou de escovar seus cabelos. As mãos da criada foram para os botões de cima do vestido de Camilla. Ela tentou dizer algo para impedi-la, mas sua boca ficou subitamente seca e apenas um estranho ruído, escapou.

— Minha querida — Benedict levantou-se graciosamente do sofá e se aproximou da penteadeira. — com licença, mas vou fumar um charuto lá fora antes de irmos para a cama. — Sorriu carinhosamente para ela. — Sei o quanto você odeia o cheiro.

Camilla mirou-o, estupefata.

— Obrigada.

Ele se abaixou pegou sua mão e levou-a aos lábios. O toque de seus lábios em sua pele provocou-lhe um arrepio intenso.

— Tudo por você, minha querida. Você sabe disso.

Ele saiu, e Camilla quase desmaiou de alívio. Olhou para a criada, com medo que ela tivesse percebido sua reação à partida de seu suposto marido. Mas Millie não prestava a menor atenção nela. Suas mãos haviam se distanciado do vestido de Camilla e seus olhos estavam fixos, sonhadores, na porta pela qual Benedict havia saído. Deu um longo suspiro.

— Oh, madame, que homem bonito ele é. E tão educado...

— Sim, obrigada, Millie.

Millie voltou aos botões do vestido, mas sua língua solta não parou:

— Todos os criados estão muito felizes por você, Srta. Camilla. Não falam de outra coisa desde que a viscondessa contou para a Sra. Elliot. E esta noite, quando entrou com ele, dá pra imaginar, ficaram todos muito excitados. Um cavalheiro tão fino.

Camilla contorceu-se um pouco por dentro sentindo-se culpada. Não queria que todos estivessem tão excitados com seu suposto casamento. Isso a fazia se sentir infeliz. Pela primeira vez, ocorreu a ela quantos sentimentos ela receberia quando seu falso marido ”morresse”. O pensamento a fez se sentir pior ainda.

Ela se despiu rapidamente, com medo de que Benedict voltasse no pior momento, apesar de ter tido tempo para um rápido banho para se livrar dos últimos vestígios de lama. Quando Millie pareceu disposta a se estender na conversa, ela praticamente a expulsou porta afora. Millie sorriu, compreensiva em relação a seu comportamento, e Camilla percebeu, com um rubor, que Millie achava que ela estava ansiosa pela volta de Benedict.

Fechou a porta atrás da garota e reduziu ao mínimo a luz da lamparina a óleo que ficava na cabeceira. Pulou para a cama. Queria estar deitada ou pelo menos fingir que estava dormindo quando Benedict chegasse.

Precisou esperar muito, na verdade. Ela se agitava e se virava e cerrava os olhos diversas vezes, mas o sono não vinha, apenas tédio e uma crescente curiosidade sobre onde estaria e o que estaria fazendo Benedict. Já estava imaginando se não tinha se apavorado com todo o plano e decidido escalar o muro do jardim quando, finalmente, ouviu o rangido de botas no hall e a porta do quarto se abriu calmamente. Fechou imediatamente os olhos e observou, através das pestanas, Benedict entrar no quarto e bater a porta suavemente atrás de si.

Ele olhou para ela e cruzou o quarto quase furtivamente. Ocorreu a Camilla que talvez tivesse deliberadamente esperado até achar que ela estava dormindo e só então voltado ao quarto. Imaginou se ele havia feito isso para ser atencioso ou simplesmente porque não queria ter de conversar com ela novamente. Suspeitava que havia sido pelo segundo motivo. Carregava uma única vela consigo, que depositou na mesinha ao lado do sofá. Tirou o paletó e dobrou-o, colocando-o cuidadosamente nas costas de uma cadeira. Camilla ficou sem ar ao perceber que ele estava para se despir.

Ela cerrou os olhos ao pensar nisso. Mas não pôde resistir a abri-los um pouquinho de novo. Ocorreu-lhe que estava violando sua privacidade como ele não havia violado a dela, mas dispensou o pensamento. Ele não ia tirar toda a roupa, disse a si mesma. Certamente não deitaria pelado no sofá. Nem ela conseguia imaginá-lo se despindo e vestindo uma camisola como a de seu avô. Mas, se por acaso o fizesse, ela fecharia os olhos.

Benedict removeu as abotoaduras e deixou-as de lado, depois enrolou as mangas, revelando braços musculosos e bronzeados. Sentou-se no sofá e começou a tirar as botas... um gesto tão masculino e, ao mesmo tempo, tão íntimo que despertou uma estranha sensação no fundo do abdômen de Camilla. Suas mãos eram grandes e seus dedos eram longos e maleáveis. Camilla lembrou-se de sua força em seus braços e da forma como deslizaram por seu corpo enquanto brigavam na lama, tocando-a em lugares onde nenhum homem jamais havia tocado — e não totalmente por acidente, na sua opinião. Seus músculos se moviam abaixo da pele dos braços ao arrancar as botas.

A boca de Camilla ficou seca como areia. Já sem as botas, ele agora despia as meias e sacudia os pés com gosto, recostando-se no sofá com um suspiro. Seus dedos começaram a trabalhar no laço da gravata e, depois de um momento, retirou a longa tira de tecido branco e colocou-a no chão. Seu colete foi retirado de modo mais cuidadoso e colocado junto ao paletó. Levantou-se e começou a desabotoar a camisa.

Camilla sabia que deveria parar de olhar agora, mas não conseguia fechar os olhos. Eles estavam fixados no tórax dele no momento em que a camisa se abria, botão após botão, revelando uma faixa de carne que levava diretamente à calça. Ele retirou a camisa de cima dos ombros e a depositou na cadeira. Os olhos de Camilla viajavam por ele, desde os ossudos afloramentos de seus ombros, passando pela extensão de seu tórax, suavemente recheado de músculos, até a estreita cintura. Camilla jamais havia visto um tórax masculino despido, e não pôde controlar sua curiosidade ao ponto de desviar o olhar ou fechar os olhos. Ela fitava os círculos escuros dos bicos de seu peito plano e masculino e os cabelos escuros e encaracolados que cresciam em forma de V ao longo do tórax, estreitando-se até ficar uma linha fina ao se aproximar do estômago. Uma linha escura fazia uma curva ao longo de suas costelas direitas; ela achou que talvez fosse uma cicatriz.

Benedict virou-se e caminhou na direção da lareira, e Camilla estudou-lhe as costas. Os músculos eram bem definidos nos ombros e nas costas, curvando-se em direção ao contorno ossudo da coluna. Camilla sentiu um curioso desejo de tocar suas costas, sentir o contraste do osso duro com os músculos lisos abaixo da pele.

Ele se agachou perto do fogo e mexeu o carvão com o atiçador, levantando uma grande quantidade de fagulhas e fazendo o carvão ficar vermelho. Estava ligeiramente virado para Camilla, e ela podia ver o fogo brincando no rosto e no peito dele, iluminando sua pele com um brilho dourado. Ela juntou as pernas uma na outra com força, percebendo um calor incomum entre elas.

Quando conseguiu ajustar o fogo ao seu gosto, Benedict ergueu-se e se virou, indo na direção da cama de Camilla.

Por pouco ela não conseguia evitar um grito sufocado e cerrou os olhos. Estava tensa, à espera da aproximação de seus passos suaves. Ele estava quase lá, podia sentir sua presença, mas não ousava abrir os olhos. Ficou em pé ao lado da cama por um bom tempo. O coração dela disparou. O que ele estava fazendo? O que ia fazer? Ele se inclinou para a frente e foi tudo o que Camilla pôde fazer para evitar fugir dele.

Ele se esticou na direção dela. Ela podia sentir o calor de seu corpo, sentir seu volume. Sentiu um nó na garganta; mal podia respirar.

Ele pegou o travesseiro no outro lado da cama e voltou a ficar em pé. com o travesseiro debaixo do braço, puxou um cobertor da cama e foi na direção do sofá. Os músculos retesados de Camilla relaxaram.

Ele se voltou para olhá-la e sussurrou um gracejo:

— Então, Srta. Camilla, viu o suficiente para se satisfazer?

Ele sabia que ela estava acordada e que o estava observando!

Os olhos dela se abriram. Ele estava a meio metro de sua cama, os olhos brilhando de contentamento, um sorriso curvando seus lábios. Um calor subiu por seu rosto e ela ficou feliz pela pouca luz do quarto, que escondia quase tudo. Naquele momento, ela o odiou. Pegou a coisa mais próxima, um travesseiro e, com um grito ininteligível, arremessou nele. Ele riu, curvando-se e levantando um braço para desviar o macio míssil. Apagou a lâmpada a óleo ao lado da cama, virou-se e voltou para seu sofá, ainda rindo consigo mesmo.

Apagou a vela e o quarto mergulhou na escuridão. Camilla estava deitada no escuro, ainda transpirando humilhação e tendo pensamentos furiosos sobre ele. Foi ainda pior quando, alguns minutos depois, ouviu o som vagaroso e contínuo da respiração dele e percebeu que havia adormecido, enquanto ela continuava bem acordada e completamente humilhada.

Ela se agitava e se virava, tentando achar uma posição confortável, mas parecia impossível. Ainda estava acordada, algum tempo depois, quando a porta se abriu discretamente e um homem se arrastou para dentro do quarto.

Por um momento, o medo paralisou Camilla. O homem foi na direção de sua cama, sua vela jogou luz sobre seu rosto e ela o reconheceu. Ela começou a falar, mas no mesmo instante Benedict levantou-se de sua cama postiça num movimento suave, com uma pistola na mão.

— Pare aí — gritou.

O outro homem deu um pulo, sobressaltado.

— Ah! Droga! — deixou escapar uma coleção de pragas. — Você me deu o maior susto. Me queimei com a cera da vela. — Ele olhou para Benedict. — Quem diabos é você, afinal, e o que está fazendo aqui?

— Faço a mesma pergunta — retrucou Benedict. — Quem é você e o que está fazendo no quarto de minha mulher?

— Sua mulher! — despejou o outro, olhando fixamente para ele.

— Ei, shh! — disse Camilla a todos, pulando da cama e atravessando o quarto na direção do jovem.

— Anthony!

— Milla! — escancarou um sorriso e abriu os braços, pegando-a no ar. Ele a ergueu e a abraçou com força.

Benedict, examinando-os com irritação, abaixou a pistola e esperou.

O jovem devolveu Camilla ao chão com um último aperto, dizendo:

— Cuidado, vai tocar fogo no cabelo. Deus nos salve, em que tipo de jogo você está agora?

Camilla deu uma risadinha.

— Feche a porta e entre que vou te contar. — Ela se virou enquanto ele se dirigia à porta para fechá-la. — Oh, Benedict, abaixe essa arma. Não é nenhum ladrão, é apenas meu primo, Anthony.

Benedict abaixou a arma, mas continuou a olhar com desaprovação para Anthony.

— O que ele está fazendo se esgueirando para dentro de seu quarto a esta hora da noite, afinal?

— Quem é esse homem? — opôs-se Anthony, indignado.

— E o que, em nome de tudo o que é sagrado, ele está fazendo no seu quarto, Camilla?

— Bem... — disse Camilla, um olhar malicioso no rosto.

— Na verdade, ele é meu marido.

— O quê?

Camilla riu da expressão chocada do rapaz.

— vou lhe contar tudo. Prometo. Mas, primeiro venha cá e deixe-me olhar para você. Eu juro, você cresceu pelo menos oito centímetros desde a última vez em que o vi.

Ela acendeu a lâmpada, erguendo-a e colocando Anthony no círculo da luz. O brilho revelou um homem jovem e desengonçado, já da altura de um adulto, mas com a magreza da juventude. Seu rosto de queixo quadrado era bonito, seus olhos de um azul pálido, e seu cabelo uma fina nuvem de cachos louros. Teria uma aparência angelical não fosse o olhar malicioso que de vez em quando aparecia em seu rosto e os músculos que desabrochavam em seus braços e ombros.

— Fiquei desapontada quando chegamos e Purdle disse que você havia se recolhido — disse Camilla, sorrindo. — Tive certeza que estava doente.

Anthony grunhiu:

— Não suporto ficar perto de tia Beryl depois do jantar, contando fofoquinhas simpáticas e ouvindo Katty e Amanda assassinarem Mozart. É ainda pior agora que mamãe chegou com aquele cachorrinho do Thome a tiracolo, sempre declamando poemas para os olhos dela e coisa e tal. Acredite: ele escreveu uma ode para a testa dela outro dia. A testa! Agora, eu te pergunto... o que alguém pode dizer sobre uma testa? E depois tem o primo Bertram, com todo aquele ar, e aquele sujeito calado com ele. É suficiente para levar uma pessoa direto à loucura. — Ele parecia melindrado, pensando nas muitas afrontas que tinha de suportar. — Mas, espere, você não vai me desviar do assunto assim. Estávamos falando dele.

E fez uma careta na direção de Benedict.

— Ela lhe disse — Benedict disse suavemente. — Sou o marido dela.

— Não pode ser.

— Por que não?

— Ela nunca disse uma palavra a seu respeito.

— Bem, Lady Marbridge não lhe contou que Camilla agora é casada?

— Isso é apenas uma das tolices dela — protestou Anthony. — Não é verdade.

— Pare de implicar com ele — Camilla disse a Benedict, depois virou-se para Anthony. — É claro que não é verdade. Benedict está apenas fingindo que é meu marido.

Anthony fitou-a, assombrado. Benedict deixou escapar um rosnado.

— Camilla, pensei que havíamos acertado...

— Mas era para não dizer nada para tia Lydia. Anthony é diferente. Garanto que ele pode guardar um segredo. Já guardou centenas de segredos meus ao longo dos anos. E ele conta mentiras de primeira.

— Que recomendação — disse Benedict, secamente.

— Mas é assim. Ele sempre contou mentiras com a cara mais limpa.

— Sim — o nobre jovem concordou —, era sempre você que botava tudo a perder.

— Não é verdade! — protestou Camilla. Anthony ergueu uma sobrancelha.

— Ah, não? E aquela vez em que arrastamos o porco escada acima pra...

— Oh! — Camilla arregalou os olhos e levou as mãos à boca. — Como ousa empurrar essa pra cima de mim? Foi você que insistiu em fazer isso e depois não conseguimos fazê-lo descer!

— Como eu poderia saber que ele ia empacar? Benedict interrompeu-os.

— Crianças, por favor... poderíamos voltar para o assunto em questão? Gostaria de saber se o Sr... bem...

— Oh, sinto muito. Anthony, este é o Sr. ahm, Lassiter. Benedict, este é o meu primo, o Visconde Marbridge, filho de tia Lydia.

— Entendo. — Benedict curvou-se levemente para o jovem. — Lorde Marbridge, encantado em conhecê-lo.

Anthony curvou-se também, seu rosto ainda demonstrando suspeita.

— Sim, bem, tudo certo, mas eu sei que seu nome não é Lassiter. Ele é o sujeito que Camilla inventou.

— Sim, e eu sou ele. Um produto da imaginação de Camilla.

— Ele está fingindo ser meu marido — Camilla explicou.

— E ele vai ficar aqui? — A voz de Anthony se alterou devido ao choque. — Um homem que não é seu marido vai dormir no seu quarto? Deus meu, Camilla, o que pensa que está fazendo? Sua reputação ficará arruinada.

— Eu lhe disse — Benedict falou, cansado, lançando um olhar exasperado para Camilla. — Você vai acabar com nós dois se insistir em contar para todo o mundo o que realmente estamos fazendo.

Camilla ficou um pouco surpresa com a consternação de seu primo complacente. No geral, Anthony era o mais aventureiro dos jovens, sempre às voltas com alguma traquinagem.

— Nunca pensei que você, justamente você, tentaria colocar um obstáculo no meu esquema. Depois de todas as coisas que fez...

— Isso é diferente.

— Sim. É uma aventura minha, e não sua.

Camilla cruzou os braços e elevou o queixo, agressiva.

— Não é isso, e você sabe — Anthony protestou. — De qualquer modo, eu nunca trouxe uma garota para o meu quarto.

— Não há nada de errado nisso, e ninguém saberá que ele não é meu marido a menos que você fique de tagarelíce por aí.

— Você sabe que eu jamais a deduraria — Anthony parecia indignado com esta mácula sobre sua honra. — Mas... — Olhou para Benedict, que estava observando o diálogo com interesse. — Ora bolas! Camilla, isso é muito peculiar e não consigo deixar de pensar que está se metendo em encrenca.

— Sinto muito, mas a Srta. Ferrand já está metida em encrenca — salientou Benedict. — Não consegue sair dela desde o momento em que começou a tramar todas essas mentiras. Deixe-me lembrá-lo, Lorde Marbridge, que toda a casa sabe que eu e Camilla entramos neste quarto como marido e mulher. Agora é muito tarde para desistir de nosso acordo. Sua reputação ficaria em pandarecos. A única forma de salvá-la é convencer a todos de que estamos casados.

— Já disse que não ia contar e não vou. Palavra de um Elliot. Só que... bem, queria que tivesse falado comigo sobre isso antes, Milla. Só isso.

— Provavelmente eu teria, se tivesse tido tempo. Mas não tive.

— Falando da reputação da Srta. Ferrand — interpôs Benedict. — Você tem o hábito de visitar o quarto dela no meio da noite?

Anthony arregalou os olhos.

— Você quer dizer... Não está sugerindo que eu... Deus do céu, homem, isso não significa nada. Camilla e eu nos conhecemos desde sempre. Ninguém pensaria nada de errado a respeito disso.

— Desconfio que existem algumas moças bem na moda que diriam que um conhecimento antigo não é desculpa para tal intimidade.

O rosto de Anthony ficou vermelho de raiva, e ele foi na direção de Benedict, com os punhos cerrados. Camilla pegou seu braço e fuzilou Benedict com o olhar.

— Você tem sempre de ser tão desagradável com todos? Ela se virou na direção da porta, puxando com força o braço do primo.

— Venha, Anthony. Vamos para outro lugar.

— Vão fofocar no corredor? Isso vai ser bem esclarecedor para sua família.

— Ninguém está acordado até essa hora, exceto nós — assegurou Camilla. — De qualquer maneira, não vamos conversar no corredor. Vamos pro quarto das crianças. É onde sempre tramamos nossas estratégias, não é, Anthony?

Anthony não respondeu, mas foi com ela sem protestar, apesar de parar na porta para lançar um olhar ameaçador na direção de Benedict. Infelizmente, Benedict estava de costas, calmamente refazendo sua cama no sofá, e não viu.

O quarto das crianças ficava no terceiro andar e era uma grande sala onde as crianças estudavam e brincavam e tinham camas para elas. Não era tão alto quanto a maioria dos quartos dos criados, no quarto andar, mas ainda era distante dos quartos maiores dos adultos.

Anthony havia escolhido permanecer lá, mesmo depois de ter crescido, em vez de se mudar para o segundo andar, para um quarto mais apropriado a sua idade e situação na vida. Todos sabiam que tia Beryl não gostava de subir escadas, e os primos dele raramente se aventurariam aos domínios da infância lá em cima. Até mesmo o avô deles, antes de adoecer, e tia Lydia preferiam receber Anthony em seus próprios quartos ou em alguma sala no térreo. O quarto dele era simples, quase austero, mas Anthony quase não reparava a ausência de luxo e considerava isso um sacrifício que valia a pena.

Camilla seguiu seu primo pelas escadas dos fundos até a grande sala de estudos. Deu uma olhada carinhosa em volta, enquanto Anthony usava sua vela para acender uma lamparina a óleo e iluminar a sala. Ela havia crescido naquela casa, e o quarto das crianças estava muito presente em suas memórias. Ainda havia o baú de brinquedos e as estantes com os livros favoritos dela e de Anthony, assim como uma mesa de soldadinhos de chumbo preparados para a batalha, mas Anthony agora usava a sala para seus estudos, então também havia uma mesa e cadeiras de tamanho adulto. Foi lá que os primos se sentaram.

— Como está o vovô? — perguntou Camilla, sabendo que Anthony seria o único a lhe dar uma resposta inteiramente direta e real.

Ele deu de ombros.

— Melhor, acho. Ele ficou excitado o dia inteiro, esperando você chegar.

— Sinto muito ter chegado atrasada. Meu cocheiro errou o caminho. Tivemos de voltar para a estalagem e conseguir um outro cocheiro e um garoto para nos guiar.

— Ele estava certo de que você traria um marido. Como ele sabia?

Camilla balançou a cabeça.

— Acho que ele tinha esperança, só isso. Eu não tinha dito que traria Benedict. Céus, eu nem sabia disso até hoje à noite. Vim aqui preparada para confessar toda a minha mentira idiota. Nem sabia que tia Lydia tinha transformado meu noivo em marido.

Anthony fez uma careta.

— Eu disse para mamãe que não deveria ter dito isso. Mas já era tarde demais. — Ele franziu o cenho. — Não gostei dessa história desde o início. Quero dizer, é uma coisa muito difícil de se manter. Imaginei que você estivesse quase se afundando nela.

Camilla cruzou os dedos.

— Até agora não.

Anthony fez uma careta ainda mais soturna.

— Você está mais atolada que nunca. Como aquele sujeito entrou na história? Quem é ele? E não me responda Sr. Lassiter, porque sei que isso é uma mentira deslavada.

— Não. É claro que não é o Sr. Lassiter. O nome dele é Benedict. — Não conseguia admitir que não sabia o sobrenome do homem. — Eu o conheci hoje à noite.

— Hoje! Ela assentiu.

—- Quando me perdi. Anthony rosnou:

— Camilla! E você diz que sou impulsivo! O que deu em você para fingir que ele era seu marido?

— Eu apenas o contratei para ser meu noivo. Só quando cheguei aqui é que descobri que tia Lydia o havia promovido a marido. Não o teria contratado se soubesse disso. Mas, depois que cheguei aqui com ele e tia Lydia o chamou de meu marido, o que eu podia fazer? Não poderia envergonhá-la na frente de tia Beryl e do primo Bertram e de todos os outros, dizendo que ela estava mentindo.

— Não, é claro que não. — Anthony compreendeu muito bem os motivos de Camilla. Ele já havia lidado o suficiente com sua volátil e desmiolada mãe. — Mas como o conheceu? Por que decidiu contratá-lo para representar seu noivo? Nunca ouvi falar de algo assim.

— Sinceramente, não inventei tudo. Foi idéia do Sr. Sedgewick.

— Quem?

— O outro homem na estalagem.

Ela começou a relatar toda a história do encontro com Benedict e Sedgewick, começando com o primeiro confronto que tiveram no urzal enevoado e prosseguindo com o acordo na sala privada do Blue Boar. Teve o cuidado de ocultar alguns detalhes que ela sabia que apenas inflamariam o instinto protetor e companheiro de Anthony. Ainda assim, a história foi pontuada pelas exclamações de descrença e consternação dele.

Quando chegou ao final da história, Anthony deixou escapar um rugido e colocou a cabeça entre os braços, sobre a mesa.

— Camilla! Como pôde sequer cogitar isso? Quanto mais concordar! Essa foi a coisa mais temerária que ouvi até hoje! Como espera sair dessa?

— Combinamos hoje. Amanhã estaremos mais bem preparados. Já discutimos tudo, sabe. Podemos cavalgar em volta da propriedade. Isso nos livrará das garras de tia Beryl, além de simular que queremos estar na companhia um do outro. E poderemos inventar todos os detalhes da história. Onde está o seu alardeado espírito de aventura? Sairemos dessa, se você nos ajudar.

— É claro que vou ajudar. Só que... não confio naquele tipo, Milla. Você não conhece porcaria — desculpe-me — coisa nenhuma desse homem. De onde ele é, o que faz na vida. Nada. Parece muito precário pra mim.

— O quê?

— Tudo. Esses dois homens, conhecer ele no nevoeiro, o amigo dele estar na estalagem. Como sabe que a coisa toda não foi planejada?

— Planejada! Como poderiam ter planejado eu me perder e encontrá-lo, ou contar a eles a mentira que inventei?

— Bem, talvez não tenha sido planejado — ele concordou. — Mas, por que eles estavam lá, é isso que quero saber. Por que um cavalheiro estaria à toa na estalagem em Edgecombe, eu gostaria de saber. Por que está associado a esse sujeito? E o que esse Sedgewick ganha se você fingir estar casada com Benedict?

— Ele fez isso por gentileza, não para tirar proveito.

— Certo, mas ninguém viaja pelo campo à procura de pessoas perdidas pra ajudar, viaja?

— Não, acho que não.

— Quero dizer que, se eu tivesse encontrado uma pirralha com uma história como a sua, talvez sentisse pena, mas não teria me candidatado a ser seu noivo. — Ele suspirou, fitando a parede oposta, pensativo. — Também não consigo imaginar por que você concordou com isso. Você devia estar bêbada. Eles lhe deram aquele ponche de rum para entontecer seu pensamento e você dizer sim.

— Eu não estava bêbada! — retrucou Camilla, ignorando suas próprias dúvidas anteriores sobre a questão. — Não posso acreditar que você, que saiu de uma aventura imprudente pra outra durante toda a sua vida, esteja me chamando a atenção por fazer algo impulsivo.

Anthony deu-lhe um sorriso irreprimível.

— Você não soube? Fiquei bem sério... nada além de estudos e livros, agora.

As suspeitas de Camilla despertaram imediatamente.

— Em que está metido, seu danadinho? Ele assumiu um ar ofendido.

— Nada! Como pode pensar isso de mim?

— Eu conheço você — cortou Camilla.

Anthony detestava as restrições de morar em Chevington Park sob os olhares controladores de seu tutor e dos muitos e antigos criados da família. O avô deles não havia permitido que ele fosse à escola, declarando que poderia aprender muito mais lá com o tutor, mas tanto Camilla quanto Anthony sabiam que o motivo real era muito mais simples: ele ainda não conseguia ficar sem seu neto. Porque amava seu avô e porque a saúde do velho não andava bem há alguns anos, Anthony aceitou o decreto da melhor forma possível. Mas Camilla sabia o quanto os mimos e paparicos de todos os membros da família cansavam Anthony e o quão freqüentemente isso o levava a esconder os rastros e a se envolver em alguma traquinagem ou aventura. Já havia bastante tempo desde a última vez que ouvira tia Lydia se lamentar de algum problema com Anthony, o que fazia Camilla suspeitar que ele estava muito perto de se envolver em algo, se é que já não havia.

— Não precisa se preocupar comigo — disse Anthony. — De qualquer maneira, você só está tentando me desviar do assunto. Estávamos discutindo as suas travessuras, não as minhas.

— Não fiz nenhuma travessura.

— Ha, ha! Como você chama passar a perna em todo o mundo sobre aquele cara que está no seu quarto? Sabe o que eu acho? — Continuou a falar, sem esperar por uma resposta. — Que ele é um ladrão. Ele e o amigo. Os dois. É por isso que estavam tão ansiosos para representar seu noivo. Queria entrar em Chevington Park e olhar todos os bens.

— Oh, Anthony, que disparate! Se tivesse conhecido o Sr. Sedgewick, teria percebido. Ele é um cavalheiro, com toda a certeza.

Anthony bufou.

— Ou, pelo menos, conseguiu te enganar que era. Você mesma disse que pensou que Benedict fosse um salteador, a princípio. O que ele estava fazendo lá, se não estivesse procurando carruagens para assaltar?

— Não sei. Mas não tentou levar nada meu.

— Você não está usando nenhuma jóia. É óbvio que você é uma jovem viajando, sem dúvida visitando um parente, não é alguém que carregaria uma grande quantidade de dinheiro.

Camilla ergueu o queixo, bastante desgostosa com sua descrição dela.

— Eu tinha dinheiro em minha bolsa.

—Ele não teria como saber só de olhar. Ele não sabe que você é uma mulher que tem suas próprias idéias e sua própria fortuna.

Anthony deu um sorrisinho e Camilla revirou os olhos com a provocação dele.

— Ele estava observando outras pessoas.

O sorrisinho de Anthony sumiu de seu rosto, e ele disse cautelosamente:

— Outras pessoas? Quem?

— Não sei. Mas atiraram em nós. Benedict ficou muito irritado comigo porque eu estava segurando uma lanterna. Acho que foi isso que fez eles perceberem que ele estava lá. Devia estar se escondendo no escuro, espionando-os.

O primo dela ficou em silêncio por um instante, depois disse:

— Por que ele estaria se escondendo assim na noite se não fosse para fazer algo errado?

— Não faço idéia. Não sei o que nenhum deles estava fazendo, embora tenha me ocorrido que ou ele ou eles fossem contrabandistas. Você sabe, ficar ao ar livre assim tão tarde da noite e sem lanterna.

Anthony anuiu.

— Você tem razão. Mas por que ele estaria observando os outros? Talvez pensasse que pudesse roubá-los, mas eles não tinham dinheiro, somente conhaque e coisa e tal. — Empertigou-se, iluminado por uma idéia. — A menos que ele seja do departamento de impostos.

— O quê? Acha que ele estava tentando pegar os contrabandistas no ato?

— Por que não? Estão sempre atrás deles. Tentando plantar espiões e pegá-los trazendo as mercadorias.

— Mas, se ele estava fazendo isso, por que ele concordaria em vir aqui e fingir ser meu noivo? Seria uma perda de tempo.

— Não necessariamente.

— Mas os contrabandistas não moram aqui!

— É claro que não. Mas estamos perto do litoral. Teria um lugar para ficar, uma razão para estar aqui, onde poderia vigiá-los melhor.

— Não sei. Talvez você esteja certo.

Camilla conseguia imaginar Benedict muito mais como um ladrão do que como úm fiscal do departamento de impôstos

Eles eram burocratas, homens que mexem com números para sobreviver, não tipos musculosos que podiam conduzir uma carruagem com uma das mãos ou desacordar um cocheiro forte com um único golpe. Também não conseguia ver Benedict respeitando autoridades o suficiente para trabalhar para o governo. Ele, obviamente, não tinha a menor noção de como obedecer ordens.

— Você tem de admitir, foi bastante peculiar o jeito como ele apontou aquela arma para mim. Quero dizer, ele estava ali dormindo quando entrei — e nem cheguei fazendo barulho. Eu estava quieto. E ele se levantou num instante com a arma na mão. Um homem comum não age assim.

Camilla concordou. Ela também havia ficado surpresa até mesmo com o fato de Benedict possuir uma pistola, quanto mais com sua ação imediata.

— Você está certo. Benedict está longe de ser um homem comum. — Ela suspirou. — Mas, apesar do quanto você odeie essa idéia, ele está nisso comigo. Não posso confessar pra tia Beryl agora.

— Não mesmo! — Anthony parecia chocado. — Ela correria para contar tudo pro conde, não importa o quanto ele esteja doente. Ela não se importaria se ele tivesse outro ataque de apoplexia por causa disso. Ela acha que, se conseguir deixar vovô com raiva de você, ele deixará dinheiro para a descendência dela e não para você.

— É por isso que ela tem tanta certeza de que não estou realmente noiva? Quero dizer, casada?

— É. Ela pensa que inventou isso tudo pro vovô deixar mais dinheiro pra você. — Balançou a cabeça, desgostoso. — Visão estúpida. Não faz nenhum sentido. Se vovô pensar que você está casada e encaminhada na vida, é mais provável que te deixe menos dinheiro do que se pensar que está solteira e sozinha no mundo.

— De qualquer modo, ele está deixando quase tudo para você. Todos sabem disso.

— E não pense que tia Beryl não cozinha isso em fogo baixo. Entretanto, até mesmo ela percebe que não há nada que possa fazer sobre o legado. Ainda assim, ela adoraria colocar as mãos no dinheiro que não está vinculado.

— Sim, mas já o ouvi dizer inúmeras vezes que vai deixar grande parte desse dinheiro com a terra porque você vai necessitar dele para manter a propriedade em ordem.

Anthony concordou.

— Tenho certeza que ele vai deixar uma parte para todos os netos, mas a parte maior vai ficar com a propriedade. Ainda assim... não há como argumentar com tia Beryl quando ela está rosnando. Então você tem razão, temos de impedi-la de descobrir a verdade sobre seu Benedict. Mesmo assim, não gosto de você ter de ficar ao lado dele. Principalmente no mesmo quarto. — Fez uma careta. — É loucura! O que vai impedi-lo de se aproveitar de você?

— Já discutimos isso. Ele me assegurou que, de qualquer maneira, não sou o tipo de mulher que o atrai.

— O quê? O que diabo está dizendo! O homem é muito atrevido. Estou pensando em lhe dar uma boa surra.

Olhando para a silhueta delgada e jovem de seu primo, Camilla duvidou que Anthony tivesse alguma chance de conseguir surrar Benedict. Entretanto, foi suficientemente habilidosa para não mencionar isso, dizendo apenas:

— Não acho que isso ajudaria nosso disfarce, Anthony. Benedict tem razão, se quisermos convencer tia Beryl de que estamos casados, temos de ficar no mesmo quarto. Não há outra alternativa. Não podemos levantar suspeitas, e isso inclui você atacar Benedict ou fazer qualquer outra coisa que não faria se ele realmente fosse meu marido. E precisamos convencê-la. Do contrário, não só vovô descobrirá, como também minha reputação ficará em frangalhos.

— Eu sei — concordou Anthony, relutante. — Mas pretendo ficar de olho nesse sujeito. Se ele der ao menos um passo fora da linha...

— Não vai dar.

Felizmente, Anthony havia crescido aceitando a autoridade de Camilla, que era vários anos mais velha que ele, e não protestou mais. A conversa mudou para o avô e sua condição e o que estava acontecendo em Chevington Park. Pelo relato de Anthony, absolutamente nada acontecia há meses, e nem todas as perguntas dela conseguiram extrair algo mais do que um jantar terrivelmente chato algumas semanas antes, na mansão de seu primo Harold. A ausência de reclamações por parte do primo deixaram Camilla inquieta. Era pouco comum que Anthony tolerasse tanto tédio, e ela não estava certa de que estava contando toda a verdade ou se realmente estava suportando a chatice e agora estava chegando ao ponto de estourar. Ela havia dito mais de uma vez ao avô que ele estava abusando da sorte ao manter Anthony tão preso em casa, com apenas seus estudos para se ocupar. Um tutor sedentário não era uma companhia adequada para um garoto de dezoito anos, cheio de vida.

Finalmente, desistiu de extrair qualquer informação de Anthony e despediu-se. De volta ao quarto, encontrou Benedict adormecido e, dessa vez, ele não se levantou de imediato com uma arma na mão. Camilla dirigiu-se para a cama, esperando outro ataque de insônia, mas, para sua surpresa, adormeceu profunda e quase instantaneamente.

Não acordou até a manhã seguinte, quando Benedict pulou para a cama, deitando ao seu lado.

O pulo foi um mergulho suave por sobre a forma adormecida de Camilla, e uma aterrissagem na cama ao lado dela. Ele mal roçou nela, mas o movimento despertou-a instantaneamente.

— O que... — começou ela, furiosamente, mas Benedict envolveu-a nos braços e a apertou contra seu peito, cortando as palavras.

— Shh! — sussurrou ele na orelha dela. — A criada. Nesse instante, Camilla registrou ter ouvido uma leve pancada na porta, e agora a porta rangia ao ser aberta. Camilla ficou quieta nos braços de Benedict, os olhos cerrados, enquanto Millie entrava no quarto na ponta dos pés e colocava uma bandeja na pequena mesa ao lado da cama. Camilla tentava respirar normalmente, como se estivesse dormindo, apesar de todos os nervos de seu corpo estarem vivos e pulsando. Tinha uma percepção aguda do tórax nu de Benedict contra seu rosto, os pêlos encaracolados fazendo cócegas na sua pele. Jamais havia visto o peito nu de um homem até a noite passada, quanto mais senti-lo pressionado contra seu corpo. Os braços dele eram como ferro em volta dela, segurando-a firmemente com medo que fizesse um movimento que os denunciasse. O odor masculino preenchia suas narinas; seu calor penetrava em seu corpo.

— Srta. Camilla, uhm, Sra. Lassiter — sussurrou Millie. Como Camilla não acordava, a criada aproximou-se da cama. — Madame, por favor, acorde.

Benedict abriu os olhos, os braços soltando Camilla. Ela aproveitou a deixa para se mexer e também ” acordar”.

— O que diabos você quer? — perguntou Benedict, áspero.

— Sinto muito, senhor, muito mesmo. — Millie parecia deploravelmente humilde. — É que o conde acordou e pede para vê-los. Ele está muito ansioso para ver o senhor e a Srta. Camilla, quero dizer, a madame.

— Oh.

Camilla agora entendia a audácia da criada em acordálos. Ela conhecia seu avô e suas ordens não toleravam argumentações.

— Vovô mandou você nos acordar e nos levar para seu quarto.

— Sim, madame. — O alívio inundou o rosto liso da garota com a pronta compreensão de Camilla. — É isso. Eu trouxe chá e torradas.

Camilla anuiu.

— Está tudo bem, Millie. Não ficamos zangados com você.

— Não ficamos? — perguntou Benedict, com amargura. Camilla queria lançar-lhe um olhar igualmente amargo,

mas, em vez disso, sorriu para ele com imensa doçura, dizendo:

— Querido, eu já lhe disse como meu avô é. A culpa não é da Millie. Tenho certeza que ele ordenou que nos acordasse.

Para sua surpresa, Benedict sorriu de volta, os olhos escuros resplandecendo de afeição. Ele se inclinou e a beijou levemente nos lábios.

— É claro, meu amor. Seu sorriso pode adoçar até a minha amargura. Perdoe-me.

—- É claro. — Tentou agir como se estivesse acostumada com aquele olhar amoroso, com aqueles lábios quentes e firmes tocando os seus. Respirou fundo.

— Devo passar um vestido para a senhora, madame? — Millie perguntou, dirigindo-se para o vestíbulo. — Eu apenas os pendurei, ontem à noite. Não os passei ainda.

— Sim. Uhm... o de musselina enfeitada com ramos está bom.

Millie fez uma rápida mesura e sumiu no grande vestíbulo. Surgiu um minuto depois com o vestido escolhido e saiu, prometendo voltar ”rápido como piscar de olhos”.

Quando a porta se fechou atrás dela, Camilla respirou aliviada.

— Céus! Como percebeu que ela estava entrando?

— Tenho o sono leve. Eu a ouvi fazendo barulho com a bandeja no corredor, colocando-a no chão para que pudesse bater na porta, e percebi o que estava para acontecer. Desculpe-me se a assustei.

Ele se sentou na cama, jogando a colcha para o lado. Camilla percebeu que ele estava sentado em cima de sua colcha. Tinha trazido o cobertor consigo ao pular na cama, abrindo-o apressadamente sobre eles. Ela olhou para a cama ao seu lado e viu que também havia trazido seu travesseiro. Um homem muito eficiente, mesmo numa emergência.

— Seu avô é tão assustador assim, ao ponto de todos tremerem com uma ordem dele? — perguntou, procurando suas roupas nas gavetas, onde a criada as havia guardado depois de tirar da mala na noite anterior. — Até mesmo nos acordar e nos expulsar da cama?

— Ele pode ser bastante irascível. Está acostumado a fazer tudo do jeito dele, sabe? Ele assumiu o condado com apenas 22 anos. Isso foi há quase 60 anos, então é quase como se tivesse estado no comando por toda a vida. Além disso, pertence a uma época mais autocrática. Ele é muito ultrapassado em seus hábitos.

— Entendo. Então, suponho que seja melhor não deixarmos o velhinho esperando, não é?

Pegou uma camisa branca e limpa e abotoou. Depois começou a desabotoar o calção, e Camilla percebeu que ele pretendia tirá-lo e vestir o limpo ali mesmo, na frente dela. com um arquejo, ela pulou da cama e se escondeu no vestíbulo. Enquanto estava lá, tirou a camisola e colocou a camisa e a única anágua que poderia usar com as modernas saias justas que estavam na moda.

Millie encontrou-a no vestíbulo quando retornou com o vestido de Camilla, e se achou estranho ela estar matando tempo ali, sua pressa era tanta que não falou nada a respeito.

Quando voltou do vestíbulo, Camilla encontrou Benedict totalmente vestido, até mesmo a gravata com um laço perfeito. Esperava por ela, sentado no sofá em que dormira e parecendo, ao mesmo tempo, entediado e aristocrático. Parecia tanto com a imagem do cavalheiro refinado e levemente insolente que tantos jovens na moda tentavam alcançar que Camilla teve de conter um sorriso.

Ele se ergueu quando ela entrou no quarto e fez-lhe uma mesura.

— Como você está linda, minha querida, como sempre.

Mesmo sabendo que o cumprimento era apenas parte da imagem que estava tentando criar, Camilla não pôde conter a onda de prazer que a acometeu. Era sempre bom ouvir um elogio, pensou ela. Não tinha nada a ver com o fato de ter sido Benedict quem lhe fez o elogio.

Sentou-se em frente à penteadeira, e Millie rapidamente penteou seus cabelos e os juntou num simples nó grego acima da cabeça, cacheando com os dedos alguns fios de cabelo em torno do rosto de Camilla, formando cachos suaves e pendentes. com isso, ficou pronta e puseram-se a descer o amplo corredor em direção ao quarto do conde, sua mão formalmente em cima do braço de Benedict.

A cada passo, o embrulho no estômago de Camilla ficava maior e mais apertado. Ela odiava o fato de mentir para seu avô, mesmo que fosse para deixá-lo mais feliz. Desejava jamais ter iniciado a estúpida lorota.

Pararam em frente à porta do quarto do conde, e Benedict olhou para ela.

— Nervosa?

Fez que sim com a cabeça. Para sua surpresa, ele colocou a mão sobre a dela, que estava pousada em seu braço. Era um gesto reconfortante e a última coisa que ela esperaria desse homem.

— Não fique — falou ele, em voz baixa. — Estarei lá para ajudar. E, lembre-se, não explique demais. A vida real é cheia de contradições e erros. Só as mentiras são perfeitas e uniformes.

Ela assentiu e deu-lhe um pequeno sorriso. Ele bateu levemente à porta.

Instantes depois, a porta se abriu com um rangido e revelou um homem curvado que parecia mais velho que o tempo. Era calvo, exceto por uma réstia de cabelo branco que contornava sua cabeça à altura das orelhas e sua pele era um amontoado de linhas. Mas seus olhos brilhavam de inteligência e, quando avistou Camilla, abriu um enorme sorriso.

— Srta. Camilla! Devo dizer, Sra. Lassiter. Entrem, entrem — disse ele com a voz alta e afastou-se, segurando a porta aberta para eles. — Você é um alívio para olhos cansados. O conde ficará tão feliz em vê-la.

— Olá, Jenkins — disse Camilla, sorrindo para o homem, radiante, elevando também a voz. — É bom ver você. Parece muito bem.

— Obrigado, madame. É bondade sua dizer isso. Minha artrite tem incomodado um pouco, mas não o suficiente para reclamar.

Ele reclamou do incômodo por todo o caminho até a cama com um dossel ao lado da janela. Como seus passos eram lentos e arrastados e o quarto era grande, tiveram o privilégio de escutar uma descrição bastante longa e detalhada da condição de suas inúmeras juntas.

Um senhor idoso estava sentado na imensa cama, uma coberta verde escura de veludo em seu colo. Apesar de estar na cama, estava vestido com uma diáfana camisa branca, uma gravata rígida abaixo do queixo e um pesado penhoar de seda verde, com dragões chineses bordados na parte superior. Seu cabelo, ao contrário do de seu velho valete, era uma espessa massa branca, com um penteado mais longo do que permitia a moda atual, e preso em um rabo-de-cavalo à moda antiga. Estava bem barbeado, e sua pele era rosada. Tinha olhos azuis, mais claros que os do neto e, apesar de estarem cobertos pela idade, seu olhar era intenso. Havia um característico movimento para baixo em um lado da boca e, quando ele falava ou sorria, aquele lado do rosto não se movia tanto quanto o outro, um sinal, pensou Benedict, do recente ataque apoplético do homem.

— Meu lorde — anunciou Jenkins em tom estentóreo —, a Srta. Camilla está aqui para vê-lo.

— Sim, posso ver isso, seu velho tolo — rosnou o conde. — Pare de gritar. Eu não sou surdo.

— Muito bem, meu lorde.

O valete parecia não se importar com a censura do outro homem. Na verdade, Benedict pensou se o velhote havia mesmo ouvido tudo.

O conde dispensou o serviçal, e Jenkins iniciou seu lento e arrastado retorno a uma cadeira num canto oposto do quarto. O conde estendeu a mão na direção de Camilla, e ela rapidamente deu a volta na cama e a tomou, inclinando-se para beijar sua face.

— Como está, vovô? Continua rosnando para todo mundo, pelo visto.

Ele resmungou, mas segurou-lhe a mão, indicando que sentasse na cama ao seu lado.

— Estou melhor do que esses idiotas imaginam, eu garanto. É claro que rosno para eles, senão eles estariam todos convencidos de que estou com um pé na cova.

— Você? Nunca!

Os olhos do velho brilharam, e ele se ergueu para apalparlhe a bochecha.

— Você sempre foi insolente. Eu gosto disso. Nunca suportei os tipos frágeis e submissos. Sua mãe era assim. Mal podia acreditar que fosse minha filha. Sorte Ferrand tê-la encontrado. Ela era tão quieta que jamais pensei que alguém fosse aparecer para agarrá-la.

— Vovô! Você está falando de minha mãe! Ele deu de ombros.

— Eu sei. Ela era minha filha. Não significa que eu não possa falar a verdade sobre ela. Pelo menos ela sorria. Isso é mais do que eu posso dizer daquela maldita Beryl. Não sei que diabos ela está fazendo aqui. Nunca a suportei.

— Ela veio porque você estava doente. — Camilla salientou.

— Bem, aí está... exatamente por isso não deveria ter vindo. Se você não gosta de alguém quando está bem, como vai suportá-lo quando está doente? Eu lhe pergunto. Parece algo abominável para mim. Sem dúvida ela pensou que eu estaria doente demais para expulsá-la. — Fez uma careta. — Ou talvez esteja tentando apressar minha morte, do jeito que me deixa sem comida.

— Sem comida! Ele anuiu.

— Mandou a cozinheira me dar mingau. Disse que eu não deveria comer tanta carne vermelha. Me deixa a pão e água, praticamente. Disse a Purdle e Jenkins para não me trazerem mais bebida alcoólica, exceto um pouco de vinho no jantar. Agora eu pergunto: aquela maluca não está tentando me matar? Maldita mulher.

— Não posso imaginar nenhum dos criados obedecendo a ela contra a sua vontade.

Camilla sabia o quanto a governanta se melindrava com a interferência de sua tia e também sabia o quanto toda a criadagem era leal a seu avô.

— Ela convenceu todo o mundo de que vou morrer se me deixarem comer o que quero ou se eu tomar um cálice de conhaque depois do jantar. Seu rosto ficou vermelho de raiva. — O maldito médico disse para eles seguirem as ordens dela. Eu disse a ele o que pensava disso. Expulsei-o e disse para nunca mais voltar. Mas ele continua aparecendo por aqui. Maldito sanguessuga.

Uma risadinha afetuosa apareceu no rosto de Camilla.

— Ele é o único médico em Edgecombe. Você tem de vêlo.

— É o que todos me dizem. Mas é ele que me mantém doente, eu lhe digo. Não me deixa sair da cama e descer as escadas, a menos que os lacaios me carreguem e me coloquem em uma cadeira. Me sinto um completo idiota, eu lhe digo.

Abandonando o tópico do médico, o velho girou a cabeça e franziu as sobrancelhas espessas para Benedict.

— Esse é ele? — rosnou. — Venha cá, rapaz, para que eu possa vê-lo.

Apontou para o lado da cama onde Camilla estava sentada e onde a janela deixava entrar o cálido brilho da manhã. Benedict ficou em pé ao lado da cama, obediente, e executou uma educada mesura para o velho cavalheiro. Não foi uma mesura elegante, como a que fizeram Sedgewick e o primo de Camilla, Bertram, mas ela sabia que seu avô acharia muito afetado alguém que fizesse tal cumprimento, uma ”figura de baralho”, diria ele.

— Vovô, esse é Benedict Lassiter. Benedict Lassiter, esse é meu avô, o conde de Chevington.

— bom dia, senhor — disse Benedict. — Fico contente de vê-lo com boa saúde.

— Bem, o que tem a dizer a seu favor, jovem? — o conde exigiu, rispidamente. — O que significa sumir com nossa garota sem me pedir sua mão?

— Oh, vovô... — Camilla gemeu. — Você sabe que não acredito nesses costumes antiquados.

Tanto o conde quanto Benedict ignoraram o comentário. Benedict olhou bem nos olhos do velho e disse:

— Foi errado da minha parte, senhor, e devo pedir que me perdoe. — Sorriu, e as linhas rígidas de seu rosto se elevaram e mudaram. — Mas, o senhor sabe, eu não podia esperar, não

por uma mulher como Camilla. Estou certo de que o senhor compreende. Confiei que o senhor não me julgaria mal, apesar da minha impaciência, e me deixaria provar meu valor para o senhor após o casamento.

— Uhn. Discurso muito bonito, devo dizer.

Camilla, olhando embasbacada para Benedict, teve de concordar. Foi direto, ainda que respeitoso para com o conde, e indicava sutilmente uma forte afeição por Camilla. Apesar das palavras desdenhosas do conde, ela sabia que ele aprovara o que Benedict havia dito e imaginava como Benedict poderia ter adivinhado que esse era o jeito de lidar com o avô. Talvez porque ambos sejam semelhantes.

O pensamento a sobressaltou, e ela imediatamente o descartou. O velho conde não tinha nada a ver com esse homem que fingia ser seu marido. Seu avô era um homem de fortes princípios, alguém que jamais fugiria de seu dever, um nobre no verdadeiro sentido da palavra. Podia ser autocrático e antiquado, mas Camilla sabia que não havia ninguém em quem pudesse confiar mais, ninguém a quem estaria mais propensa a levar um problema ou, pelo menos, fora assim até ele ficar doente. Como ela podia ao menos pensar em compará-lo a esse homem que talvez fosse um ladrão, e certamente era alguém disposto a abandonar a própria identidade para ganhar algum dinheiro, e que, agora mesmo, estava calmamente mentindo para o conde? Que absurdo!

Era algo na expressão dos rostos deles, pensou, ao olhálos. Era isso que a fazia imaginar que eram, de alguma forma, semelhantes. Benedict era alto, uma presença impositiva, assim como seu avô, e tinha aquele jeito arrogante de olhar, como se esperasse que todos fossem obedecer às suas ordens. com seu avô, isso era produto de anos de educação e treinamento, de ser visto com a reverência e o respeito que eram proporcionados ao Conde de Chevington. Ela imaginava como Benedict havia adquirido isso. Ele era tão bom ator assim? Começou a imaginar se ele realmente era de classe baixa, como havia pensado. Talvez seja um filho ilegítimo, ela supôs, ou quem sabe até mesmo um homem de boa família que caiu em desgraça, ou de uma família distinta, mas empobrecida. Parecia que ele certamente havia sido criado num meio aristocrático, para ser capaz de imitar a aparência, a postura e as atitudes tão facilmente.

Ela se lembrou das suspeitas de Anthony. Um filho sem dinheiro de uma boa família poderia facilmente virar um burocrata, como um fiscal do departamento de impostos. Ou poderia ir para o exército, ela supôs. Afinal, o exército estava sempre tentando caçar os contrabandistas e acabar com a atividade deles. Estaria Anthony com razão, e haveria um motivo mais profundo para seu interesse em fingir ser seu marido? Ela ficaria de olho, decidiu.

— Você acha que algumas palavras bonitas me farão lhe dar minha bênção? — continuou o conde, beligerante.

— Eu não havia pensado nisso. Francamente, senhor, não me importa se o senhor dá ou não a sua bênção ao nosso casamento. Entretanto, por consideração a Camilla, espero que o senhor nos dê. Ela ficará bem mais feliz.

— Pare de ser tão fingido, vovô — Camilla interrompeu. — Nós dois sabemos que você está contente de eu ter me casado. Não tem sentido tentar intimidar Benedict.

— Mmm... — O conde olhou para ele, por um instante, sem piscar, depois disse, meio mal-humorado: — Acho que devo lhe dar as boas-vindas à família.

— Obrigado, senhor.

— Você joga xadrez? — perguntou o conde, esperançoso.

— Oh, vovô... não. Não vai fazer Benedict jogar xadrez com o senhor, vai?

— Não seria nenhum sofrimento — disse Benedict, rapidamente. — Para falar a verdade, se o senhor quiser, eu adoraria uma partida de xadrez.

Chevington deixou escapar uma risada de prazer.

— Jenkins! Pegue o jogo de xadrez. Sr. Lassiter, pegue uma cadeira. — Ele se endireitou na cama e esfregou as mãos. — Maravilha. Não jogo xadrez desde não sei quando.

Ninguém aqui joga comigo. Bem, exceto Anthony, mas ele é muito agitado. Me deixa louco, sempre pulando e correndo enquanto tento pensar. O resto pensa que terei outro ataque se jogar. Não que algum deles seja bom.-Prefiro jogar com uma criança do que com Lydia. E Beryl é ainda pior, sempre proseando sobre uma ou outra coisa.

Camilla olhava para ambos, preocupada.

— Vovô, tem certeza que pode?

Ela não tinha medo que um jogo de xadrez fosse excitar tanto o avô ao ponto de ter um ataque de apoplexia, mas não gostava da idéia dele passar tanto tempo assim com Benedict. Havia muito mais possibilidades de uma escorregadela.

— Pelo amor de Deus, garota, não seja tola como todos os outros. Não vou estourar um vaso sangüíneo com um jogo de xadrez. Por que você não dá uma saída e visita a sua tia? Lydia está muito ansiosa para ver você.

— Uhm... bem, pensei que talvez pudesse ficar e assistir.

Camilla apreciava menos ainda a idéia de o velho ficar trancado sozinho com Benedict. Seu avô era um homem esperto, não importando a idade ou a debilidade atual. Ela o havia visto enganar diversas pessoas que pensaram que sua sagacidade já não estava afiada por causa da doença.

— Não amole — o velho ordenou peremptoriamente. — Ficaremos bem. Prometo não interrogar o sujeito. Muito. — Piscou para Benedict.

Jenkins trouxe o tabuleiro e o colocou na cama, e Benedict começou a arrumar as peças. Camilla permaneceu ao seu lado, tentando pensar num motivo para ficar. Benedict olhou para ela e sorriu.

— Ficarei bem, querida. Você se entediària, se ficasse. Estou certo de que você e a viscondessa têm muito o que conversar.

Camilla lembrou-se que havia prometido contar a tia Lydia, esta manhã, tudo sobre seu suposto casamento com Benedict. Sentiu menos vontade ainda de sair. No entanto, com Benedict e seu avô a empurrando praticamente porta afora, ela não podia ficar ali. com um suspiro, inclinou-se e beijou seu avô no rosto, prometendo voltar a visitá-lo naquela tarde. Quando ela saiu do quarto, Benedict virou-se para o conde.

— Agora, suponho, é o momento em que devo lhe contar sobre minhas finanças e que tipo de subsídio estou dando a Camilla.

O conde balançou a mão, dispensando o tópico.

— Você pode tomar conta dela?

— Posso.

— E vai esbanjar o dinheiro dela?

— O dinheiro é dela e deve permanecer assim, para fazer o que bem entende. — Benedict respondeu sinceramente. — Nem tenho idéia do quanto ela possui.

O velho parecia surpreso, mas apenas balançou a cabeça.

— Todas essas idéias modernas... Bem, ela é auto-suficiente, sempre foi. Claro, o velho Marlin vai cuidar dela, direito e com jeito. Ele é meu agente há anos, e o pai dele antes. — Fez uma pausa, estudando Benedict. — Você aposta? Bebe? Corre atrás de outras mulheres?

— Não. Nem aposto, nem bebo em excesso, nem sou libertino.

Benedict tentou reprimir sua indignação em relação às perguntas. Era, afinal, direito do velho se intrometer nos seus negócios, já que estava casado com sua neta.

O velho cacarejou:

— Não gosta de ser questionado, não é? Bem, nem eu gostaria, se estivesse no seu lugar. Mas não estou, e meu único interesse é minha neta. Não vou perguntar se você a ama. Conceito bobo. No meu tempo, as pessoas não saíam por aí discursando sobre o amor, menos ainda quando dizia respeito a casamento. As pessoas se casavam por família e propriedade e, se tivessem sorte, gostavam um pouco da esposa. Bem, não importa se você a ama agora ou não. Se bem conheço minha garota, você vai amá-la, logo, logo.

Benedict não conseguia imaginar nada para dizer em resposta.

— Bem, vamos ao jogo — prosseguiu o conde, impaciente, como se tivesse sido Benedict o responsável pela demora em jogarem, e acenou para o tabuleiro.

Começaram o jogo. Benedict gostou mais do que havia imaginado. O velho mantinha muito da sua sagacidade, e venceu a primeira partida. Benedict devolveu, vencendo a segunda.

— Temos de jogar de novo — disse o conde, recostando-se nos travesseiros e rindo. — Você é a única pessoa aqui com quem vale a pena jogar.

Benedict curvou a cabeça em reconhecimento e começou a levantar. Chevington acenou-lhe que voltasse a se sentar.

— Não. Sente-se. Tem outra coisa que quero dizer a você. — Olhou ao redor do quarto. — Jenkins?

— Sim, meu lorde? — Benedict havia esquecido o velho serviçal, mas ele reapareceu para recolher o tabuleiro.

— Leve isso embora e encontre algo para fazer — ordenou Chevington.

Jenkins franziu o cenho.

— Mas, meu lorde... — Ele olhava de um para o outro sem parar. — O senhor quer dormir? Devo acompanhar o Sr. Lassiter até a porta?

— Não, maldição! Não tenho intenção de dormir. Faço isso o tempo todo. E o Sr. Lassiter pode sair sozinho, estou certo. Quero conversar com ele... a sós.

— É claro, meu lorde — disse Jenkins, gélido, retirando-se tão empertigado quanto podia. Cambaleou com o tabuleiro e foi-se. Chevington observou-o colocar o tabuleiro de volta na estante e dirigir-se à porta, voltando-se para uma última olhada antes de ir embora e fechá-la.

O conde expirou num suspiro ruidoso.

— vou ouvir sermões sobre isso por uma semana, estou certo. Pior que uma esposa. — Balançou a cabeça. — Ah, bem, não tem jeito. — Voltou-se para Benedict e analisou-o por um instante. — Preciso conversar com você.

— Sim, senhor? — Benedict empertigou-se, alertado por algo no tom de voz do homem.

— Primeiro... — o velho apontou um dedo longo e ossudo para ele e olhou-o fixamente — você consegue guardar um segredo?

— É claro.

— Até mesmo de Camilla?

— Bem, sim, se necessário.

— Ótimo. Então abra aquela janela.

Benedict ficou contente em fazê-lo. O quarto estava excessivamente abafado, e ele tinha se sentido sufocado a maior parte do tempo que estivera lá. Abriu a janela, deixando entrar um sopro suave de ar primaveril. Voltou para a cama, mas o velho indicou-lhe o guarda-roupa de mogno que ficava do outro lado da janela.

— Abra a segunda gaveta — instruiu Chevington — e mexa atrás, embaixo das roupas.

Benedict fez como indicado e sua mão pousou sobre uma pequena caixa. Ele a pegou e levou para a cama. Chevington, sorrindo, abriu-a e revelou vários charutos acondicionados dentro dela. O conde deu um longo suspiro de prazer e pegou um dos charutos. Deslizou-o entre os dedos e passou-o pelo nariz, sentindo o aroma.

— Ah... nada como um bom charuto para ajudar um homem a pensar... ou falar, ou qualquer coisa. — Ofereceu a caixa a Benedict. — Quer um?

— Obrigado. — Benedict adiantou-se e pegou um, enquanto o conde pegava uma pequena tesoura na mesa ao lado da cama.

— Então, não vai ralhar comigo por fumar um charuto? — perguntou o conde, enquanto procediam ao ritual de cortar e acender os charutos.

— Não, senhor. Acho que é uma decisão sua.

— bom pra você. Eles ficam choramingando se eu apenas menciono um charuto ou um cálice de conhaque. Mas eu pergunto: qual é a vantagem de continuar vivendo se tem de ser assim?

— Tem razão. — Benedict pensou como seria viver engaiolado num quarto, sem um único vício para iluminar seu tempo. Foi o suficiente para fazê-lo estremecer.

Sentaram-se juntos por alguns instantes, num silêncio camarada, fumando. Depois de um tempo, Chevington disse, casualmente:

— Militar, não é?

Benedict fitou-o, ligeiramente surpreso.

— Bem, sim, para falar a verdade, fui. Cavalaria Ligeira. Servi na Península até alguns meses atrás.

O velho balançou a cabeça com um jeito sábio.

— Achei que você tinha a postura. Por que largou?

— Uma bala na coxa. — Não mencionou os outros dois ferimentos menores. — Pior foi a infecção... não pude voltar imediatamente para o meu regimento. Me deixou de cama por semanas. Pedi dispensa. Também tinha... alguns problemas pessoais para resolver.

— Então foi assim que Camilla conheceu você, convalescendo em Bath?

Benedict anuiu. Ele falara sobre seu passado real, mas podia ver que se misturava muito bem com a história de Camilla.

— Difícil continuar doente com ela por perto. Chevington deu uma baforada no charuto, pensativo. Finalmente, disse:

— Acho que você é exatamente o homem de que preciso.

— Verdade, senhor? — Benedict se perguntava aonde essa conversa ia chegar.

— Sim. Normalmente, é claro, eu cuidaria disso. Mas me deixaram deitado aqui e não tenho como. As coisas estão escapando do meu controle.

— Sua propriedade, senhor? Acho que o senhor deveria falar com seu herdeiro.

— Não. Não é a propriedade. O agente da fazenda é um bom homem, e ele me mantém informado. Marlin também. Não me preocupo com investimentos e coisas assim. E Anthony é só um garoto. Não posso esperar que ele cuide disso. Além do mais, parece que ele está... bem, vou deixar você descobrir sozinho. Veja, este é o problema: eu não sei o suficiente. Não sei nada.

— Sobre o quê?

— Sobre o que está acontecendo aqui. — Franziu o cenho, frustrado. — Não sei o que é, mas há algo errado. Algo bem desequilibrado. E estou com medo do que vai acontecer.

A pulsação de Benedict se acelerou, apesar de ter tido cuidado para não demonstrar nenhuma excitação.

— Não estou bem certo do que o senhor quer dizer. O que o faz pensar que algo está errado?

— Eu ouço coisas. Não posso sair por aí e ver, mas tenho vários amigos que me visitam. E Jenkins e Purdle me mantêm informado sobre o que está acontecendo em Park.

— O que está acontecendo?

O velho, franziu os lábios, lutando para achar as palavras.

— Tem algo no ar, uma agitação. Qualquer coisa diferente. Tem a ver, acho, com a morte de Nat Crowder.

— Nat Crowder? — Benedict perguntou, confuso. — Quem é ele?

— Um morador da área. Um tipo correto, bom provedor. O tipo de homem com quem se podia tratar. Era marceneiro, não dos melhores. Mas era um contrabandista do cacete. Morreu faz pouco tempo, e desde então... bem, algo estranho está acontecendo. — O conde olhou para Benedict. — Talvez você não entenda de contrabando. Pessoas de fora normalmente não entendem. Pensam que os caras são um bando de criminosos. Bem, acho que são, de uma certa forma, mas não são pessoas ruins. Não todos. Os moradores daqui pensam diferente. É algo que existe aqui há anos... gerações, na verdade. Os Crowders são contrabandistas, acho eu, desde o bisavô de Nat. Mas, para as pessoas daqui, é uma profissão considerada honesta. Afinal, eles fazem mal a quem? Se os malditos impostos não fossem tão altos, ninguém faria contrabando.

Era um argumento antigo e comum, Benedict sabia. No passado, os impostos sobre o chá e o tabaco eram tão altos que um cidadão comum não podia adquiri-los, a não ser que fossem contrabandeados. Ele sabia que as pessoas falavam do contrabandista Sam como falavam do padeiro Sam ou do alfaiate Sam. Até mesmo o pastor de sua igreja tinha comprado chá contrabandeado e não achava nada de errado nisso. Bem, os colonos já até se revoltaram por serem forçados a pagar os impostos do chá.

— Mas há uma diferença, o senhor não acha, se falamos de contrabandear bebida da França quando estamos em guerra com eles? — argumentou Benedict. — É uma traição ao seu país.

Assim que pronunciou as palavras, sentiu-se hipócrita. Afinal, ele e Jermyn fizeram uso dos mesmos contrabandistas para Gideon.

O velho bufou, obviamente gostando de uma boa discussão.

— Como se alguém fosse dispensar seu conhaque porque Boney está em pé de guerra. Além disso, os contrabandistas agem dos dois lados. Estamos enfiando algodão inglês na França apesar do embargo do imperador às mercadorias inglesas e eles não param de pedir mais. Não há nada de errado em impedir Bonaparte de tentar destruir o comércio inglês, não acha?

Benedict sorriu.

— Isso é praticamente indiscutível.

— Claro. Tudo funciona. De qualquer modo, o que estou dizendo é que o contrabando é aceito por aqui. Ninguém gosta de ver o governo chegar e dizer o que devemos fazer. Não apreciamos interferência de forasteiros.

— Mas eu sou um forasteiro. E o senhor está me pedindo que interfira, não está?

Chevington sacudiu a cabeça.

— Você não é um forasteiro se fizer parte de minha família, como faz agora. Principalmente se eu divulgar que o aprovei, que você está agindo sob a minha égide, por assim dizer.

— O senhor parece ser um homem poderoso. Ele deu de ombros.

— Sou um Chevington, de Chevington Park — disse, de maneira simples. — Nós cuidamos do povo. Eu cuido.

— Ainda não sei o que o senhor quer que eu faça.

— Descubra o que está acontecendo. Fale com as pessoas. Fale com Purdle, pergunte no vilarejo.

Benedict concordou.

— Esse Nat Crowder... — Benedict tentava manter a voz casual. Por dentro, seu coração disparava. Não havia ouvido nada sobre isso no vilarejo. Mas um contrabandista morto pode ter um grande significado. — Como ele morreu?

— Ninguém sabe. Foi encontrado aos pés de um penhasco numa manhã dessas, com o pescoço quebrado. Ele conhecia aqueles penhascos como a palma da mão.

— Mmm. Parece suspeito. O senhor acha que alguém o matou?

O conde deu de ombros.

— Aqueles penhascos são traiçoeiros, e uma queda pode acontecer a qualquer momento. Quem pode dizer o que aconteceu? Mas me deixa inquieto. Dizem que a morte de Nat deixou os contrabandistas sem liderança. Mas mesmo assim continuam operando. Acho que eles têm um novo líder.

— Quem?

— Não sei. Não ouvi nenhum nome. Não tenho nenhuma informação sobre ele. Acho que é temido. Também acho que apenas uns poucos sabem quem ele é.

— Normalmente é assim?

— Não. Como eu disse, é praticamente uma instituição local. Os contrabandistas são todos daqui, e eles falam. Todos falam. Normalmente, é de conhecimento de todos quem está envolvido com contrabando, até mesmo quem é o líder. Como foi com Nat Crowder.

Benedict balançou a cabeça, pensativo.

— Diga-me, por que o senhor quer saber? O que pretende fazer com as respostas se eu as achar?

— Já lhe disse. Os Chevingtons sempre cuidaram de Edgecombe. Considero isso minha responsabilidade.

Benedict analisou o velho. Estava certo de que o conde sentia-se responsável pela população local, que ele, sem dúvida, considerava ”seu povo”. Era uma sensação que ele próprio tinha na área de Lincolnshire, onde ficava a propriedade campestre dos Rawdon. Seu tio e seu avô tinham mantido a crença de modo muito mais forte. Ainda assim, não pôde deixar de pensar que havia algo mais por trás da preocupação de Chevington. Parecia ser um problema que o perturbava demais. O que realmente importava para ele se havia uma luta pelo poder entre os contrabandistas, ou mesmo um novo líder?

Entretanto, Chevington nada mais disse, apenas olhou para ele. Finalmente, Benedict concordou:

— Tudo bem. vou ver o que posso descobrir para o senhor.

Terminaram os charutos, e Benedict jogou-os fora, lançando as pontas e as cinzas no mato abaixo. Depois recolocou os charutos no esconderijo e fechou a janela.

— Volte — ordenou o conde, um brilho nos olhos. — Vamos jogar outra partida.

— Voltarei.

Benedict saiu do quarto e, não vendo ninguém além do ofendido Jenkins esperando, dirigiu-se aos salões no andar de baixo. Encontrou Camilla numa sala de estar menor e mais confortável que a sala de visitas formal, na qual havia conhecido sua família na noite anterior. Ela olhou para ele e sorriu, e novamente percebeu, ali na luz do dia, o quanto ela era bonita. Sua pele era cremosa e rosada, fresca como o orvalho, e quando ela sorria, seu rosto se iluminava. Os olhos dele fitaram seus seios, enfatizados pela cintura alta do vestido, seus cimos leitosos encobertos pela simples renda franzida. Não era difícil, ele percebeu, parecer um recém-casado. A primeira coisa que sentiu ao vê-la foi uma imediata onda de desejo.

— Ah, você está aí, minha querida—disse ele, sufocando a sensação e se aproximando para beijar sua mão. Virou-se para sua companhia. — Viscondessa.

— bom dia, Sr. Lassiter—respondeu Lydia, com doçura. — Camilla acabou de me contar sobre o casamento de vocês. Que história mais comovente.

Ele tinha certeza de que tinha sido. Imaginava qual seria a história. Lançou um olhar para Camilla, esperando ajuda, mas ela apenas sorriu.

— Entendo — respondeu ele, finalmente. Resposta que era, ao mesmo tempo completamente verídica, e suficientemente vaga, esperava ele, para qualquer situação.

— Sim. Sua pobre mãe, que tristeza.

— Sim.

Ele se sentou no sofá ao lado de Camilla e sorriu para sua tia de uma maneira que esperava fosse, ao mesmo tempo, prazerosa e triste, já que apenas imaginava que tragédia Camilla julgara propícia de lhe infligir.

— Mas devo dizer que foi louvável da sua parte ficar ao lado dela o tempo todo.

— Obrigado. Era o mínimo que eu poderia fazer.

— É claro que não. — Lydia sorriu para ele. — Eu disse a Camilla que já podia ter me contado toda a história há muito tempo. Mas, também eu sei como vocês jovens são. E, é claro, com seu tio malvado, posso entender por que você não confia em parentes.

— Mmm... — murmurou ele, completamente confuso. Inclinou-se no sofá, como se fosse levantar. — Minha senhora, se nos der licença, eu gostaria de pedir a Camilla para me mostrar os jardins.

— É claro. As flores ainda não brotaram totalmente, mas estou certa de que apreciará de qualquer maneira, com Camilla ao seu lado.

— com certeza.

Levantou-se, oferecendo o braço a Camilla, e ela se ergueu graciosamente para pegá-lo. Um brilho em seus olhos o avisou de que ela estava se divertindo com a confusão dele. Não importa o quão bela era, também era chata, lembrou a si mesmo.

Assim que chegaram à porta, o primo janota de Camilla languidamente adentrou a sala.

— Ah, querida prima. E Sr. Lassiter — falou ele, arrastando as palavras. — Meu Deus, todos parecem ter acordado antes de mim. Dizem que é o ar do campo, tão refrescante. Pessoalmente, é raro eu dormir bem no campo. Todo aquele barulho, vocês sabem, corujas piando, galos cantando... Há uma quantidade tão grande de pássaros aqui.

— Tenho certeza que deve ser bastante penoso para você, primo Bertram—disse Camilla, simpática. — Conte tudo isso a tia Lydia. Benedict e eu vamos dar um passeio no jardim.

— Ah, sim, exercício. Isso é outra coisa cansativa do campo. Parece que as pessoas ficam perambulando o tempo todo. Bem, não vou atrapalhar a diversão bucólica de vocês. — Ele foi na direção de Lydia, depois parou, estudando-os, o dedo indicador ao lado da boca. — Sabe, Sr. Lassiter, continuo tendo a estranha impressão de que o conheço. Já nos encontramos antes?

— Duvido — cortou Camilla, rapidamente. — Benedict vive em Bath.

— A vida inteira? — a expressão de Bertram indicava descrença de que alguém realmente pudesse viver em Bath por tanto tempo.

— Sim — respondeu Camilla.

— Não — replicou Benedict, ao mesmo tempo.

Benedict pôs sua mão livre sobre a de Camilla e a apertou, sorrindo para ela.

— Bem, querida, eu não vivi sempre em Bath. Teve também a, ah, propriedade da família.

— Sim, querida — acrescentou Lydia. — Ele deve ter morado com o tio.

— Vocês têm razão. Foi bobagem minha.

— É claro — continuou Benedict. — Minha vida só começou mesmo em Bath, onde a conheci.

Ele ouviu Lydia deixar escapar um suave e trêmulo suspiro às suas costas. Primo Bertram, por outro lado, parecia debilmente doente. com um educado cumprimento com a cabeça, Benedict levou Camilla para fora da sala antes que primo Bertram começasse a ponderar a idéia de que o havia visto antes.

— Você o conhece? — sussurrou Camilla ao guiá-lo da casa até a porta que levaria aos jardins.

Benedict negou.

— Não o reconheci. Suponho que ele possa ter me visto antes.

— Primo Bertram age como um idiota, mas, na verdade, é muito esperto. Se ele o conhece mesmo, com certeza vai se lembrar. Você nunca trabalhou para ele, trabalhou?

Benedict balançou a cabeça negativamente.

— Ou roubou algo dele?

— Por que você insiste em acreditar que sou um ladrão? — perguntou Benedict, exasperado.

— Não sei. Talvez por você ter roubado minha carruagem.

— Eu não roubei. Apenas conduzi.

— Sem minha permissão.

Ele deu de ombros a esse pequeno detalhe. —Posso tê-lo conhecido quando era mais jovem. Não me lembro dele. Estive fora do país nos últimos anos, então... Camilla inspirou, os olhos inquietos.

— Você quer dizer que teve de deixar o país?

Ele franziu o cenho.

— Sua opinião a meu respeito é gratificante. Não, eu não tive de deixar o país. Eu estava no exército. Como contei para seu avô. Então, seja qual for a história ”comovente” que você inventou pra mim, é melhor encaixar isso.

— Oh, querido, isso está ficando complicado. Bem, se o assunto surgir, digo pra tia Lydia que você se alistou depois que pensou que eu não o amava mais. Por que está olhando pra mim assim?

Camilla afastou-se dele, inquieta.

— Assim como?

— Como se fosse agarrar meu pescoço e apertar.

— Não seja tola. Estava apenas imaginando o que a levou a dizer isso.

— Bem, eu tinha de inventar alguma explicação para o nosso casamento ter sido tão rápido e para tia Lydia jamais ter ouvido falar de você.

Ele suspirou, abrindo a porta para ela, e os dois saíram.

— Tudo bem. Conte-me que tipo de passado triste você me arrumou. com certeza, fiz papel de bobo nele.

— Não, embora tenha sido enganado, é claro.

— É claro.

— Assim como eu. — Seguiram pelo caminho de cascalho que dava no austero jardim de flores. — Contei pra tia Lydia que nos conhecemos em Bath muitos anos atrás, quando estive lá com os Barringtons. São uns primos de meu pai que tia Lydia nunca encontra, porque são chatos demais. Eu sabia que seriam perfeitos, pois Lydia jamais checaria a história, e eu tinha 17 anos nessa época, que é uma idade perfeita para se apaixonar louca e perdidamente, não acha?

— Ideal — respondeu ele, secamente.

— Também acho. De qualquer maneira, nos conhecemos lá e nos apaixonamos. Mas você não podia pedir minha mão, entende, porque tinha de ficar com sua mãe, que sofria de tuberculose.

— Deus meu.

— Eu era muito jovem, de qualquer modo. Por isso, concordamos em esperar. Mas, em nossos corações, sentíamos como se estivéssemos comprometidos. Aí o seu tio...

— Ah, o tio malvado.

— Sim. Ele não queria que você se casasse comigo, então interceptava nossas cartas e as escondia de nós. Passamos a acreditar que o amor havia acabado, já que nunca recebíamos nenhuma carta e, é claro, fiquei com o coração partido. Recusei-me a casar porque nenhum outro homem se encaixava nos meus padrões.

Benedict deu uma risadinha.

— Como poderiam? Camilla reagiu ao gracejo:

— Só que, sem que eu soubesse, você também não se casou, ainda carregando as chamas da paixão por mim em seu coração.

— Eu era tão idiota que, durante todo esse tempo, nunca pensei em ir a Londres e me certificar com você? Para perguntar por que havia parado de me escrever e se não me amava mais?

— É claro que não. Você não poderia, obviamente, pois isso teria arruinado toda a minha história.

— Então não sou somente cego de amor, mas também um idiota?

— Não! Você foi muito nobre. Sabia que sua fortuna não era tão grande e não possuía título, então sentiu que não era verdadeiramente digno de mim, embora, é claro, nada disso importasse pra mim.

— Ah, cada vez melhora mais. Tolo, agarrado à saia da mãe e agora sem um tostão e de origem humilde também.

— Não, humilde não. Nunca disse isso. Nem sem dinheiro também. Tia Lydia não teria realmente aprovado nosso casamento se nossas situações fossem tão discrepantes. Ela é romântica, mas tem algum senso prático:

— Estou aliviado. Diga-me, se estávamos nessa indefinição, sem nos falarmos e sem nos vermos, como foi que nos casamos?

— Oh, porque me mudei para Bath no ano passado. Entenda, quando eu fiz 24 anos, sabia que já estava velha e, se não casasse, seria considerada uma solteirona. E, com minha herança, poderia viver sozinha, com uma companheira, é claro. Então, contratei uma companheira, uma aparentada da irmã do meu pai.

— Não uma Barrington entediante.

— Oh, não. Elas, infelizmente, são parentes de sangue. Drucilla é muito mais simpática e apenas minha parente através do marido de minha tia. Fomos morar numa casinha aconchegante em Bath.

— Essa parte da história, acredito eu, é verdade?

— É.

— Estou surpreso que seu avô tenha deixado você fazer isso.

— Ele não gostou, posso garantir. Mas sou uma mulher adulta, e foi tudo absolutamente respeitável. E como eu estava morando em Londres com tia Lydia, naquela época, ele não pôde me impedir. Ele me escrevia cartas, é claro, ameaçando aparecer em pessoa e me trazer para cá, mas tia Lydia e eu conseguimos apascentá-lo nas cartas, de maneira que não foi. E claro que continuou a escrever, me dizendo que eu era uma influência terrível sobre Anthony, que estava querendo ir morar comigo, para me proteger. Como se fosse respeitável meu primo e eu morarmos juntos sem nenhum parente mais velho! Não fosse por isso, eu teria implorado a vovô que o deixasse, pois ele sente um tédio imenso aqui. Me preocupo com ele.

— Eu me preocupo com você. Não acho que tenha conhecido uma mulher como você em toda a minha vida.

— Provavelmente não. — Camilla concordou, ponderada.

— Acho que você não reconheceria a verdade se desse de cara com ela a caminho de Newcastle. Já contou tantas mentiras desde que a conheci que não tenho nem idéia de como as mantém em ordem.

— Está ficando difícil — admitiu Camilla. — Mas foi você quem quis que eu contasse outra mentira pra tia Lydia sobre nosso casamento. Eu pretendia dizer a verdade pra ela.

— E essa maneira que você inventou de viver sozinha, como se fosse uma viúva, ou algo parecido! Você não é velha aos 25 anos, minha querida, e mesmo que fosse, não deveria morar sozinha, tendo apenas uma companheira contratada. Poderiam pensar que você não tem parentes, em vez dos que tem, bem amáveis.

— Mas parentes amáveis podem ser os piores. Podem fazer uma pessoa se sentir simplesmente sufocada, sabe.

— Não. Sinto muito, mas não sei. Você sabe que só tenho um tio malvado.

Uma pequena risada escapou de seus lábios.

— Você realmente tem um tio?

— Tive. Mas está morto. E quando estava vivo, era um sujeito bacana, que jamais interferiria na minha vida amorosa.

Benedict parou, forçando Camilla a parar com ele. Colocando suas mãos nos braços dela, ele a virou para encará-lo e sorriu para ela como se estivessem tendo uma conversa comum. Não, não era bem isso. Ele estava olhando para ela como se... como se estivesse faminto.

— Não saia — disse ele, tranqüilo, mas sem deixar de olhá-la daquela forma estranha e enervante. — Sua tia Beryl está na sacada nos observando. Não! Não olhe. Continue olhando pra mim.

— Por quê?

— E sorria pra mim, como se eu tivesse dito que você é bonita.

Ela não pôde deixar de amolecer e sorrir com aquelas palavras.

— bom. Assim mesmo. Agora... vamos encenar um showzinho pra sua tia.

— Pra convencê-la de que somos casados?

— Garota esperta. Sim. Então, por favor, não se afaste nem me esbofeteie.

Seu rosto se abaixou na direção do dela. Camilla sentiu a respiração acelerar. Sabia que ele ia beijá-la, mas ainda assim perguntou:

— Porquê?

— vou beijá-la. — Seus lábios se aproximaram levemente dos dela, macios como as asas de um rouxinol. — Como se estivesse deitado no meio de suas pernas.

Ela arfou com suas palavras, e a boca dele cobriu a dela.

Os lábios dele estavam mais suaves que na noite anterior, no sofá, mas ainda firmes e insistentes. Movimentavam-se nela, escavando mais fundo, pressionando e abrindo seus lábios. Ele colocou a língua para fora, provocando os lábios dela, e deslizou para dentro da boca, movendo-se com maciez de veludo em torno da língua dela. Os braços dele a envolveram com força, apertando-a contra seu corpo. Camilla tremia, feliz pelo apoio, mas ainda mais desconcertada pela sensação daquele corpo rígido contra o seu. Os dedos dela agarravam inconscientemente seu paletó, grudando-se a ele no turbilhão de sensações que a envolvia.

Finalmente, ele ergueu a cabeça e olhou para ela. Camilla, ciente de uma profunda pulsação na barriga, esperava que não a largasse naquele instante, pois temia cair. Ofegante, ela perguntou:

— Isso é suficiente, você acha, pra convencê-la?

Um sorriso sensual surgiu em seus lábios, e ele respondeu vigorosamente:

— Não, acho que ela deveria ver pelo menos mais um. Ele se inclinou mais uma vez na direção dela, e desta vez

Camilla foi encontrá-lo na ponta dos pés. Ele deixou escapar um leve gemido por essa demonstração de avidez e empurrou novamente os lábios, esfomeado. Beijou-a profunda e inteiramente, como se fosse ingeri-la, mas Camilla, um pouco surpresa, não estava nem um pouco amedrontada por sua fome, apenas estimulada de uma forma deliciosa. Todos os nervos de seu corpo estavam, de repente, vivos e crepitando, e um calor surgiu, devagar, em seu abdome. Jamais havia sentido algo parecido, nem mesmo imaginado que tais sensações existissem. Seus braços envolveram o pescoço dele, e ela o beijou de volta, sua língua se acoplando à dele.

As mãos de Benedict moviam-se por suas costas, cobrindo suas costelas e puxando-a para si. Camilla percebeu algo duro contra ela, empurrando com urgência. Ele a ergueu, quase tirando-a do chão, esfregando o abdome dela contra si. Ela sentiu uma intensa umidade entre as pernas, espessa e quente, e havia uma dor profunda e pulsante ali. Ela percebeu, com assombro, que o que queria era senti-lo lá. Ficou inundada de calor ao pensar nisso, envergonhada e excitada ao mesmo tempo. Imaginava se ele sabia o que ela estava sentindo e pensando. Seria humilhante se ele percebesse que exercia tanto poder sobre ela, e ainda assim... ele exalava tanta necessidade que ela sentia um tremor nos braços dele. Dessa forma, descobriu que tinha o mesmo poder sobre ele.

Ele abandonou a boca e começou a dar beijinhos quentes e ávidos no pescoço dela. Camilla tremia com a sensação deliciosa, pendendo a cabeça e oferecendo seu pescoço branco e suave para ele. Ele fez um ruído ininteligível, e sua mão deslizou pelo corpo dela em busca dos seios. Um calor feroz brotou nela com o toque tão íntimo, e ela se aproximou dele inconscientemente. Ele murmurou alguma coisa na pele dela, a respiração quente dele a excitando. Camilla deu um suspiro suave, derretendo-se enquanto as mãos dele acariciavam seus seios. Sua boca desceu, em busca do topo pulsante dos seios. A mão de Camilla deslizou para o cabelo dele. O calor a envolvia, e ela não conseguia raciocinar. Sentia-se como se estivesse desaparecendo, escorregando num turbilhão vermelho-fogo de desejo, e não tinha a menor idéia de onde ia parar.

— Camilla! Onde está você? — Uma voz masculina surgiu retumbando pelo jardim, trazendo Camilla e Benedict de volta à dura realidade.

Camilla arfou, retesando-se. A cabeça de Benedict ergueu-se, os olhos escuros cintilando.

— vou matá-lo — ele rosnou. — Quem diabos pode ser?

— Primo Harold — disse Camilla com um gemido, afastando-se e recompondo seu vestido.

— Que inferno! Quantos primos você tem?

— Muitos. Só falta mais um dos Elliots, mas ele está no. exército, então não deveremos vê-lo.

— com nossa sorte, seu regimento virá para a cidade amanhã.

Benedict afastou-se, passando os dedos pelo cabelo num gesto impaciente.

— Alôôô! — ressurgiu a voz retumbante, e agora um homem alto aproximou-se da sebe. Estava formalmente vestido de preto e usava um chapéu com a aba para baixo. Em volta do pescoço via-se uma fita clerical branca.

— Deus do céu! Seu primo é padre? Camilla anuiu.

— Vovô deu-lhe o benefício eclesiástico de Edgecombe.

Ela levantou uma das mãos e acenou para o primo, forçando um sorriso.

Benedict inspirou fundo e expirou devagar, endireitando a lapela do paletó. Voltou-se para ela, o rosto sob controle, e lançou-lhe um olhar avaliador. Deu um passo à frente e, com um ar de proprietário, refez o laço que adornava seu pescoço, que se soltara durante o abraço acalorado. Os olhos dele, por um instante, brilharam com a excitação anterior, e sua boca amoleceu sensualmente. O olhar foi para os seios, os bicos ainda duros do estímulo. Depois de ajeitar o laço, ele passou os nós dos dedos por sobre um dos bicos.

Camilla inspirou profundamente. Ele a olhou de volta. Os lábios dela estavam rosados e levemente inchados, e só de olhá-los sentia uma faísca de desejo pelas entranhas.

— Não dá pra esconder que você foi total e completamente beijada.

— Benedict!

Não havia tempo de dizer mais nada, pois o vigário de Edgecombe já tinha chegado. Ele retirou o chapéu, executando uma mesura honrosa, mas um pouco formal.

— Querida prima!

Ele se aproximou, ignorando Benedict, e pegou as mãos de Camilla.

— Olá, primo Harold. — Camilla tentava, em vão, afastar suas mãos. — É tão bom vê-lo. Gostaria de lhe apresentar meu marido, Sr. Benedict Lassiter.

Harold pareceu chocado e, para alívio de Camilla, soltou suas mãos como se elas o queimassem.

— Seu o quê? — virou-se para Benedict.

— Marido — completou Benedict, prestativo. — Como vai?

— Mas... eu pensei...

— Sua mãe não lhe contou? — perguntou Camilla.

— Bem, sim, ela disse alguma coisa a respeito, mas, francamente, pensei que fosse mais uma das invencionices de tia Lydia.

— Oh, não. Benedict é bem real — garantiu Camilla.

— Isso é tão... surpreendente. — Ele olhava para Camilla, dizendo, sinceramente: — Sabe que sempre alimentei a esperança...

— Ah, primo Harold. — Camilla sorriu, vitoriosa. — Não tente me fazer acreditar que todos aqueles agrados que me fazia eram sérios. Bem, todos sabiam que você estava sendo apenas galante. Nós dois jamais combinaríamos. Sou frívola demais.

— Apenas porque ainda é muito jovem. Estou convencido de que, com o tempo, você se endireitaria e... — Seus olhos fitaram seus seios e desviaram. Ele limpou a garganta.

— Bem, se tornaria uma esposa respeitável e uma mãe carinhosa.

— Certamente ela será — Benedict intrometeu-se, possessivo, pegando a mão de Camilla e levando-a ao seu braço. Seus olhos duros penetraram nos do outro homem. — Por que não retornamos à casa, onde poderemos ter uma reunião mais confortável?

— Oh, sim — concordou Camilla, rapidamente, e começaram a voltar para a casa. Estava um pouco surpresa com o óbvio antagonismo de Benedict em relação ao outro homem.

— Tenho certeza que todos os outros também querem vê-lo. Na verdade, estou bastante surpresa que tia Beryl tenha deixado você escapar da companhia dela tão cedo.

— Ela não sabia que eu estava aqui. Assim que Purdle me disse que você estava no jardim, corri para vê-la. — Deu uma pausa, meditativo. — Teria sido mais apropriado da minha parte, sem dúvida, ter ido primeiro visitar minha mãe. Entretanto, já que está morando aqui há alguns meses, nós nos vemos várias vezes por semana, e não acho que seja um desrespeito a ela ver você antes.

— Não, é claro que não — Camilla concordou, pois o rosto sóbrio do primo estava ainda mais severo que nunca. — Sei que sua mãe diria que você é o filho mais zeloso dela.

— Já que Graeme está sempre fora com o regimento e Bertram só pensa em si mesmo, não vejo isso como uma grande recomendação.

Retornaram à sala de estar, onde primo Bertram e Lydia ainda estavam, agora acompanhados de Anthony.

— Olá — anunciou Camilla, alegremente. — Vejam quem encontramos no jardim!

Ela não conseguiu definir qual dos presentes os olhou com mais horror. Anthony deu uma rápida olhada em volta, como se procurasse escapar, e Lydia lançou um olhar reprovador para Camilla. Primo Bertram apenas suspirou, resignado.

— Olá, irmão querido — disse ele, lânguido, levantando-se para fazer uma mesura elegante. — Então temos o prazer de sua companhia novamente. Não havia notado que estávamos tão perto da hora do almoço.

Camilla precisou pressionar os lábios para não gargalhar. Harold era bastante conhecido por aparecer na hora das refeições, apesar de nem todos estarem certos se isso era devido à sua parcimônia ou à qualidade da comida de sua governanta.

Os olhos de Harold se estreitaram com o comentário do irmão, mas ele respondeu com delicadeza:

— Já é tão tarde? Não percebi a hora. Estou fora desde cedo, visitando os doentes da paróquia.

— É claro.

Harold cumprimentou Anthony, conseguindo irritá-lo ao bater efusivamente em seus ombros e chamá-lo de ”filho”. Harold decidira que, já que o pai verdadeiro de Anthony havia morrido, era seu dever agir como um pai para ele, dando-lhe freqüentes conselhos e ainda mais freqüentes sermões sobre seus modos horrorosos.

— Como estão os estudos? — perguntou Harold, sentando-se ao lado de Anthony.

— Bem.

— Terei de fazer algumas perguntas mais tarde para me certificar—disse Harold, de maneira empolada e jocosa, balançando o dedo para ele. com mais seriedade, virou-se para Lydia e disse: — Sabe, não estou inteiramente convencido de que o Sr. Forbes seja o tutor adequado para Anthony. Na última vez em que conversei com Anthony, me pareceu que seu grego estava lamentavelmente deixando a desejar.

— Deixando a desejar o quê? — perguntou Lydia, com doçura.

— O Sr. Forbes é um excelente tutor — disse Anthony, com agressividade, apesar de que sua opinião sobre o mencionado Forbes era de que não passava de um ”velho chato” ou uma ”peruca enfadonha”.

Harold cutucou a mão de Lydia de modo avuncular, apesar de ser, na verdade, muito mais jovem que ela.

— Minha querida viscondessa, sei que acha confuso o tópico dos estudos de Anthony, mas deve entender que é da mais alta importância para o futuro do garoto. Como Anthony vai poder assumir seu lugar entre seus pares com uma educação rural? Já pensei várias vezes que ele deveria ser educado em Eton, como todos nós.

Anthony calou a boca, parecendo frustrado. Pela primeira vez, a opinião de Harold coincidiu com a sua, e ele não podia discutir, apesar da dor de não fazê-lo.

— Talvez eu deva discutir isso com o conde...

— Não! — exclamaram Lydia e Camilla quase ao mesmo tempo.

— Vai fazê-lo ter outro ataque de apoplexia se começar a discutir com ele, primo Harold — disse Camilla, brutalmente. — Você sabe que ele não suporta que fique lhe dizendo o que fazer.

— Camilla, você está enganada. Eu jamais pensaria em dizer a um homem tão idoso e respeitado quanto meu avô o que fazer. Seria uma enorme impertinência.

— Você tem razão nisso — disse Anthony.

— Entretanto, tenho certeza de que o conde não se oporia a ouvir um argumento sensato concernente à educação do futuro conde.

— Então você não conhece o vovô. Ele sorriu para Camilla, indulgente.

— Querida Camilla, devo divergir de você nesse ponto. Você se esquece que estou neste benefício eclesiástico há alguns anos e tenho visitado nosso avô com freqüência. Eu o conheço muito bem, para falar a verdade. Acho que posso dizer com certeza que o conde preza meus conselhos com relação a Anthony.

Camilla podia ver, pela expressão do rosto vermelho de Anthony, que ele estava perto de não conseguir manter a boca fechada. Ela procurou algo para desviar Harold do curso atual da conversa.

Para sua surpresa — e alívio — Benedict falou:

— Estou certo de que o conde preza seus conselhos. Ele é um homem bem sensato.

— Sim, é claro — concordou Harold, acrescentando uma advertência: — Embora seja um pouco descuidado sobre certas virtudes.

— É mesmo? Bem, devo admitir que, quando estivemos conversando hoje cedo, ele me pareceu um pouco tolerante com a prática de contrabando.

— Contrabando! — exclamou Anthony. — Por que diab... quero dizer, por que cargas d’água vocês estavam conversando sobre contrabando?

Benedict deu de ombros.

— A conversa simplesmente seguiu esse rumo. Não consigo me lembrar por quê. Estávamos, é claro, lamentando a prática.

— Tenho certeza que vovô jamais diria algo tão covarde — contestou Anthony, afogueado.

Benedict levantou preguiçosamente as sobrancelhas.

— Mas, certamente, contrabando é ilegal.

— É claro. — Primo Harold franziu os lábios em desaprovação e lançou um olhar carrancudo na direção de Anthony.

— Mas muitas pessoas, incluindo algumas que deveriam servir de exemplo para seus inferiores, são muito permissivas... Poderíamos até dizer que são incentivadoras de tais atividades.

— Quer dizer que os moradores locais incentivam o contrabando?

Harold deu de ombros de maneira expressiva.

— É bem sabido por aqui que muitas caixas de conhaque são deixadas em certas casas em certas noites.

— Por favor, Harold — falou primo Bertram, erguendo o monóculo pendurado no colete por uma fita e focando-o em seu irmão. — Pare de ser tão certinho. Estamos falando de bebida, não de assassinato.

— Essa é exatamente a atitude a que me refiro — disse Harold, severo. — O jovem Anthony é ainda pior. Tia Lydia, o garoto realmente precisa ser mais controlado.

— Não por você! — Anthony levantou-se, depois se acalmou, desgostoso, com o olhar dominador de Camilla.

— Poderia-se pensar — continuou Harold — que, com a morte de Nat Crowder, todos perceberiam que o resultado do pecado é a morte. Mas parece que ninguém se arrependeu de suas ações, ou sequer pensou nelas.

— Nat Crowder? — perguntou Benedict, inocente.

— Sim. Um sujeito local, encontrado morto algumas semanas atrás. Dizem que era um dos contrabandistas, talvez até o chefe. O tipo de fim que acontece com pessoas como essa.

— Pessoas como essa? — Anthony ficou com os lábios brancos de tanta raiva. — Nat era um bom homem. Pelo menos não era um fariseu que fica pra cima e pra baixo batendo no peito em público.

— Ele era um criminoso — retrucou Harold, secamente.

— Esse homem foi assassinado? — interveio Benedict.

— Por ser um contrabandista?

155

— Foi encontrado ao pé de um penhasco com o pescoço quebrado — disse Anthony. — Não significa que foi assassinado.

— Mas torna provável — colocou primo Bertram. — Ninguém por aqui conhecia os penhascos tão bem quanto Nat.

— Você o conheceu? — perguntou Benedict.

— Oh, sim, quando éramos garotos. Tínhamos praticamente a mesma idade. Brincávamos sempre juntos quando eu estava aqui de visita. Não se lembra, Harold?

— É claro que me lembro. Só porque brincávamos de cabra-cega juntos não quer dizer que eu aprove o que Nat se tornou.

— Me dá um desassossego ele ter morrido assim — disse primo Bertram, reflexivo. — Quero dizer, bem, nos faz pensar, não?

— Deveria fazer você pensar sobre o que está fazendo da sua vida — disse Harold a seu irmão, soturno.

Bertram ergueu as sobrancelhas num espanto dissimulado.

— Assim, irmão, vão pensar que você me desaprova. Harold bufou.

— Mas e Nat Crowder? — perguntou Camilla, tentando desviá-los do conflito que parecia estar brotando de todos os lados. De fato, primo Harold conseguia causar atrito em todos. — Por que foi assassinado? O que isso teve a ver com contrabando?

— Nada — disse Anthony, amargo. — Foi causado por outra coisa bem diversa, provavelmente.

— Talvez tenha sido uma luta por poder — sugeriu Benedict.

— Outra pessoa tentando assumir o circuito dos contrabandistas? Faz sentido — concordou Camilla.

— Então quem é o novo chefe dos contrabandistas? — perguntou Bertram. — Isso talvez nos indique quem é o assassino.

— Ninguém sabe — respondeu Harold, dando de ombros.

— Mas todos aparentemente sabiam que esse Crowder era o chefe — apontou Benedict.

— Sim. Mas não ouvi falar que ninguém tenha tomado o lugar dele.

— Quem contaria algo assim ao vigário da aldeia? — perguntou Bertram, desdenhoso.

— Você ficaria surpreso com a quantidade de boatos que chegam à porta da igreja. Meu rebanho sempre traz seus problemas para mim.

Bertram revirou os olhos.

— Harold, querido! — Tia Beryl adentrou a sala, segurando as mãos do filho mais novo. Camilla sabia, há muito, que Harold era o filho favorito de sua tia; eles eram, de certo modo, muito semelhantes em suas maneiras hipócritas e mandonas. — Só agora soube que estava aqui. Por que não mandou um recado diretamente pra mim?

— Cara madame, espero que me perdoe por lhe dizer que a notícia da chegada de minha querida prima desviou todos os outros pensamentos de minha cabeça. Fui de imediato saudá-la.

— Garoto levado — disse ela com um olhar maroto, primeiro para ele e depois para Camilla. — Mas eu sei como vocês jovens são. Sempre mais interessados em si mesmos do que em encontrar a pobre e velha mãe.

Ela sorriu maliciosamente e balançou o indicador para Camilla, como se ela estivesse envolvida em alguma brincadeira juvenil.

Camilla olhou de volta para ela, espantada. Embora tia Beryl tenha sempre reprovado Camilla, ela alimentava a esperança de Harold persuadi-la a se casar com ele. Camilla possuía, afinal, uma herançazinha respeitável. Mas Camilla mal podia acreditar que a mulher realmente parecia continuar a estimular um romance entre ela e Harold. Será que ela não acreditava que o casamento era real, mesmo depois daquela cena no jardim ?

-O que— E mesmo? — perguntou Benedict, friamente. — O que exatamente a senhora quer dizer, madame?

Camilla voltou-se para ele. A voz de Benedict parecia gélida, e seu rosto poderia servir de modelo para um aristocrata arrogante. Até mesmo tia Beryl pareceu perdida em face de sua reprovação.

Ela olhou para ele por um instante, depois continuou, de modo atrapalhado:

— Bem, ah, é... eu estava apenas implicando um pouco com Harold. Ele e Camilla são ligados desde a infância.

As sobrancelhas de Camilla se elevaram com esse imenso exagero. Primo Bertram suspirou e começou a girar seu monóculo, olhando para Benedict.

— É mesmo? — Benedict arrastava as palavras. — É estranho que Camilla jamais tenha mencionado isso para mim.

Tia Beryl e Harold pareceram ofendidos pela afirmação, e Camilla apressou-se a dizer, apaziguadora:

— Bem, Benedict, você sabe que lhe falei de todos os meus parentes.

— Falou? — Benedict respondeu, de maneira entediada. — Acho que me esqueci.

O rosto de tia Beryl endureceu, e Camilla podia ver, pela forma como olhava para Benedict, que ela começava a detestá-lo tanto quanto detestava a sobrinha. Camilla esperava que ela não dissesse nada, pois Benedict parecia estar de mau humor e temia que ele pudesse censurar sua tia.

Naquele momento, entretanto, o Sr. Thorne apareceu, quebrando o clima do ambiente. Suas mãos estavam juntas nas costas e a testa enrugada. Anthony, que assistia ao início de confronto entre Benedict e tia Beryl com interesse, deu um gemido à chegada dele. Thorne olhou em volta, surpreso, como se não soubesse onde estava. Então seus olhos encontraram Lydia, e ele sorriu de modo arrebatador.

— Ah, querida Diana — exclamou ele, indo em sua direção e curvando-se até sua mão. — Estive compondo um verso esta manhã. Você é minha inspiração. Que sorte tê-la encontrado.

— Compôs? — Lydia respondeu, de modo vago. — Não é simpático?

Anthony levantou-se, parecendo irritado além do suportável.

— vou estudar no quarto.

Lydia olhou para ele, aturdida. Harold demonstrou aprovação.

— bom garoto! Fico feliz em perceber que minhas palavras surtiram algum efeito em você.

Camilla precisou conter o riso ao ver a frustração no rosto de Anthony. Sabia que ele preferia ficar na sala a fazer Harold pensar que seus conselhos tinham tido alguma influência sobre ele.

— Eu avisei ao tutor que retornaria — disse Anthony, indelicadamente. Olhou para Camilla e perguntou: — Milla, não quer vir também? O Sr. Forbes está ansioso pra ver você.

Camilla não demonstrou sua surpresa por Forbes ter feito algum comentário a seu respeito. Ao contrário, levantou-se, contente por ter uma desculpa para deixar sua tia e seu primo.

— Benedict, querido... — Ela ignorou Anthony, que estava de costas para todos e piscando loucamente para ela. — Gostaria de conhecer o tutor de Anthony?

Ela estava lhe oferecendo uma escapada da ridícula conversa do primo Harold e também das ardilosas perguntas de tia Beryl, então esperava que Benedict agarrasse a oportunidade. Em vez disso, ele sorriu e disse:

— Obrigado, Camilla, mas por que não vai sozinha? Eu adoraria prolongar a conversa com seu primo Harold.

— É claro. — Procurou não parecer estar tão embasbacada quanto estava.

Enquanto ela e Anthony deixavam a sala, ouviu primo Bertram dizer para seu irmão:

— O Sr. Lassiter não lhe parece familiar, Harry? Eu passei toda a manhã tentando me lembrar onde foi que nos encontramos. Que escola freqüentou, Sr. Lassiter?

Camilla sorriu consigo mesma, pensando que era bemfeito, por ele ter ficado.

— Não acredito que o convidou a nos acompanhar! — Sussurrou Anthony, assim que ficaram fora do alcance dos ouvidos da sala.—Não viu que eu estava piscando pra você?

— Claro que vi. Você parecia um bobão.

— Bobão uma ova. Não queria ele conosco.

— Sei que não gosta de Benedict, Anthony, mas não consigo entender o motivo. Você nem mesmo o conhece.

— Você gosta dele?

A pergunta a pegou de surpresa.

— É claro que não — balançou a cabeça e repetiu: — é claro que não. Fiquei preocupada com o que tia Beryl poderia levá-lo a dizer. Essa é a única razão pela qual eu queria que ele viesse conosco. Não consigo entender por que ele não aproveitou a oportunidade para sair.

— Porque queria conseguir mais informações deles. Você não reparou?

— Não. Do que está falando? Que tipo de informação ele poderia conseguir de tia Beryl ou tia Lydia?

— Fofoca, só isso. E primo Harold é a principal fonte, não minha mãe ou tia Beryl. Não ouviu Benedict perguntando pelos contrabandistas?

— Ouvi.

— Então? Não percebe? Isso prova que ele é um fiscal, como eu disse ontem à noite. Assim que levantou o assunto do contrabando eu tive certeza.

— Foi ele quem levantou o assunto? — perguntou Camilla ao chegarem à escadaria e começarem a subir. — Pensei que tivesse sido primo Harold.

— Oh, primo Harold não deixaria de discursar sobre isso, é claro, naquela maneira estúpida dele. Mas foi o seu Sr. Lassiter que dirigiu a conversa pra isso em primeiro lugar. E agora vai espremer deles toda informação que puder. Graças a Deus, Harold é um idiota pretensioso. Vai agir como se soubesse tudo, mas não sabe nada do assunto. Mesmo que quisesse, não conseguiria dar mais informações erradas para o homem.

Camilla olhou para seu primo, desconcertada.

— O que tudo isso importa? Por que se preocupa com o fato de ele descobrir alguma coisa? Pessoalmente, eu preferia que ele fosse um fiscal a um ladrão, que era sua outra suposição. Se for funcionário da alfândega, pelo menos não corremos risco.

Anthony fitou-a rapidamente. Camilla parou, percebendo algo.

— Espere! — Ela se aproximou e pegou o braço de Anthony. — Anthony! Você...

Ela olhou em volta, depois o carregou para o quarto. Depois de trancar a porta com firmeza, virou-se para ele, as mãos na cintura. Anthony inquietou-se, olhando para todos os lugares, menos para ela.

— Anthony Lionel Fitzwilliam Elliot! — disse ela, com firmeza, mantendo a voz num sussurro, como se pudessem ser ouvidos mesmo dentro do quarto. — Você está envolvido com os contrabandistas?

Ele endireitou o queixo, ainda sem a encarar, o que já era resposta suficiente.

— Anthony! Não posso acreditar nisso vindo de você! E sua mãe? E o vovô? Se ele descobrir isso, vai morrer!

— Não é tão ruim assim. Vovô não os condena. Na verdade, ele compra deles — respondeu, emburrado, cruzando os braços.

— Não seja tolo. Comprar conhaque, ou mesmo simpatizar com os contrabandistas, é muito diferente de participar ativamente de contrabando! E se você for pego? Nem vovô poderá salvá-lo. Não se for pego em flagrante e levado pra prisão. Pense na sua família, Anthony. Pense na vergonha. O futuro Conde de Chevington, pego contrabandeando!

— Não serei pego. Sou cuidadoso.

— Oh, Anthony, você nunca acha que vai ser pego.

— Normalmente não sou.

— Basta uma vez. Será o seu fim. A ruína de todos nós. Ela se afastou e começou a andar.

— Por quê? Por que faz isso? Não pode ser por dinheiro.

— Claro que não. Só fiz de brincadeira, uma noite dessas. Jem estava fazendo, e me contou como era.

— Jem Crowder?

Anthony anuiu, e Camilla soltou um gemido.

— Eu devia saber. Vocês dois sempre fizeram travessuras juntos.

— Estavam precisando de uma ajuda. Aí eu disse, claro, eu vou, e fui. E, oh, Camilla, foi tão divertido! — Seu rosto bonito resplandeceu, mostrando o quanto era um garoto, apesar do tamanho. — Perguntei se poderia fazer de novo, e você conhece Nat, ele sempre foi um amigo pra todas as horas, e deixou. Desde então, tenho feito.

Camilla pôs as mãos no rosto.

— Anthony, Anthony...

— Por favor, Milla — disse ele, persuasivo, indo na direção dela e pegando seus pulsos, retirando suas mãos do rosto para poder olhá-la nos olhos. — Não sou o único que se meteu em encrencas. Quem foique se meteu numa encenação de casamento? Você deixa a língua solta e agora está numa encrenca só. Se alguém descobrir, ficará completamente arruinada. Assim como eu.

Camilla corou. Não podia negar suas palavras. Estava tão encrencada quanto ele, por ter se metido em tal apuro.

— Tem razão — ela admitiu. — Me meti numa encrenca, e será muito difícil sair dessa. Mas, pelo menos, se for pega, não serei enforcada por isso. Se você for pego...

— Não serei. Você sabe que os ”cavalheiros” — deu o apelido local dos contrabandistas — não têm sido pegos.

— Não recentemente. Mas, no passado, vários já foram. E você sabe o que aconteceu com eles. Eu não suportaria se algo acontecesse com você! Toda a família estaria arruinada. Sua mãe não poderia voltar à sociedade. E vovô...

— Eu sei. Eu sei — disse ele, triste, encolhendo os ombros. — Oh, Milla, sei que não devia ter feito isso. Mas foi tão divertido, tão excitante, e Chevington Park é tão entediante.

Camilla suspirou.

— Sei que está entediado. Eu disse pro vovô que ele deveria, pelo menos, mandá-lo pra escola. Entendo que não quisesse mandá-lo pro exército. Você é o herdeiro, afinal, e depois da morte de seu pai, ele ficou morrendo de medo de perder você também. Mas seria bem melhor pra você em Eton, onde ficaria com outros garotos, não passando todo o seu tempo aqui, entediado e solitário, e deixando Jem Crowder convencê-lo a fazer certas coisas.

— Não culpe Jem. Ele é um ótimo sujeito.

— Um ótimo sujeito que provavelmente terminará enforcado — Camilla retrucou. — Anthony, você com certeza percebe que deve parar. Não? Não pode continuar com isso.

— Eu sei. vou parar. vou falar pro Jem e... quando acharem alguém pra me substituir, eu paro.

Camilla suspirou. Entendeu que deveria ficar satisfeita com essa promessa, apesar de preferir que ele abandonasse tudo imediatamente, limpo, e não esperasse um substituto.

— Anthony... — ela perguntou, depois de um momento. — Sabe alguma coisa sobre a morte de Nat? Foi por causa do contrabando?

Ele franziu o cenho e balançou a cabeça.

— Não. Não conheço ninguém que saiba o que ou por que aconteceu. Nem Jem sabe coisa alguma. Nat simplesmente apareceu morto numa dessas manhãs.

— Existe um novo líder? Acha que ele pode ter matado Nat?

— Não sei. Jamais o vi. Todos usam máscaras ou lenços no rosto. Assim ninguém pode dedurar os outros se for pego. É claro, alguns eu conheço pela voz ou pelo feitio do corpo, mas há vários que não reconheço. E não faço perguntas. Não é recomendável. — Fez uma pausa, depois continuou: — Deve haver alguém fazendo os planos e dando ordens. Tudo agora está mais organizado do que quando Nat estava vivo. Mas nunca ouço alguém dizer quem deveria fazer o quê ou onde e quando vamos fazer. Apenas espero as ordens de Jem, e acho que funciona assim com a maioria dos homens. Um conta pro outro que conta pro outro. O negócio é que...

— O quê?

— Eles começaram a falar sobre um juramento de sangue. Você sabe, fazer um juramento de não deixar a organização e não traí-la. Realizar uma cerimônia e se comprometer com isso.

— Você acha que é o novo líder que prega isso? Ele assentiu.

— Um dos homens começou a falar disso, mas sei que não foi idéia dele. É muito burro. Muitos pensam que é uma boa idéia. Para garantir a lealdade.

— O que aconteceria se você abandonasse a organização?

Ele desviou o olhar.

— Eles falam de jurar até a morte. Camilla ficou pálida.

— Quer dizer que o matariam se você saísse? Ele fez que sim com a cabeça.

— Mas ainda não juramos nada. E, de qualquer modo, nenhum deles sabe quem sou, exceto Jem, e ele jamais contaria.

— Oh, Anthony, pense! — exclamou Camilla. — Se você pode reconhecer alguns homens pela voz ou pelo tamanho ou tipo físico, não acha que pode ser facilmente reconhecido por eles? Quem mais, entre eles, possui mãos de aristocrata? Duvido que tenha calos nas palmas das mãos.

Ela pegou as mãos dele e virou-as.

— Olhe. E o seu modo de falar? Quem mais, entre eles, fala como você?

— Não sou otário, Camilla. Uso luvas, e mudo a minha maneira de falar. Imito Jem. Você sabe que consigo imitar sotaques. Já me ouviu. Uso roupas emprestadas de Jem. Eles não me conhecem.

Ela o fitou longamente.

— Existem coisas que não se pode disfarçar. Seu porte, por exemplo. Tenho certeza que vocês dois estão sempre juntos. Todo o mundo sabe que os dois são amigos desde a infância. Talvez você use as camisas de Jem, mas ele é muito baixo para você usar as calças dele. Acha que algum deles possui calças desse corte e tecido? Deve haver um ou dois deles que vai conseguir juntar os fatos, não importa o que faça pra esconder.

Anthony parecia um pouco perplexo e cocava o queixo, meditativo.

— Não pensei nisso. Talvez tenha razão. Mas são todos leais a mim. Jamais me entregariam.

— Graças a Deus. Mas não é uma situação das mais agradáveis.

Ele suspirou.

— É, eu sei. Você está certa. vou sair. Prometo. — Parecia um pouco melancólico. — Mas foi muito divertido, Milla.

— Acredito. — Ela sorriu para ele. — vou falar com vovô e tentar convencê-lo de que você precisa passar uns tempos fora.

— Quem sabe uma viagem pra Londres! — Os olhos de Anthony brilharam com a idéia. — Seria fantástico!

— É, seria.

Anthony hesitou, subitamente sério de novo.

— Você não vai contar pro Lassiter, vai?

— Não. — Camilla percebeu um curioso desejo de confidenciar o caso a Benedict. Entretanto, se houvesse uma chance de Anthony estar certo e seu ”marido” ser um fiscal, ele seria a última pessoa a quem poderia contar sobre a escapulida de Anthony. — Você tem razão. Temos de ser muito, mas muito cuidadosos em manter esse segredo.

— Manter que segredo? — perguntou uma voz masculina vinda da porta.

Camilla arfou e rodopiou. Na entrada do quarto estava Benedict, fitando-os, questionador.

Camilla olhou para Benedict. Há quanto tempo ele estaria ali? Quanto teria ouvido?

— O quê? — perguntou ela, tentando ganhar tempo enquanto sua mente fervilhava.

— O que é que precisam manter em segredo?

— Ah, isso. — Camilla deu um risinho.—Nada, pra falar a verdade, apenas... algo que Ãnthony não quer que tia Lydia saiba. Ele quer... hmm, comprar um cavalo.

— Sim, é isso—Anthony se antecipou.—Mamãe se preocupa... você sabe como são as mães. Ela tem medo de o cavalo ser muito selvagem. — Acrescentou, com uma voz realisticamente aborrecida: — Ela me trata como uma criança.

— Bem, Anthony querido, ela está apenas preocupada com você. É o filho único dela, afinal.

— Gostaria de não ser — retrucou ele, com a voz sentida. Benedict olhava de um para o outro. Camilla imaginava se ele acreditara. Ficara tão aturdida ao vê-lo que reagira mal, ela sabia. Mas pelo menos Anthony tinha sido convincente; ela esperava que fosse o suficiente para Benedict acreditar na história. Se ao menos soubesse o quanto da conversa ele havia escutado! Se era realmente um fiscal, como Anthony supunha, seria desastroso ele ter ouvido toda ou até mesmo uma boa parte do que tinham dito.

— Estou surpresa em vê-lo aqui — Camilla disse alegremente. — Pensei que tivesse ficado conversando com primo Harold. — Teria ele dito isso apenas para se esconder e espioná-los ? Estava cada vez mais desconfiada dele.

— Sim. Conversamos. Mas está na hora do almoço, e decidi vir chamá-la. É que, bem, o vigário e o Sr. Thorne começaram a falar de poesia.

Camilla riu da expressão de dor no rosto de Benedict.

— Entendo.

— com certeza! — Anthony deixou de lado sua desconfiança para com Benedict num acesso de camaradagem. — Esse tal de Thorne é um chato.

— Não sei por que tia Lydia o convidou.

— Ela não convidou. Mamãe pode ser frívola, mas não é nenhuma idiota. Disse que o sujeito simplesmente apareceu na frente da casa dela quando ela estava de saída e insistiu em acompanhá-la até Chevington Park. Está no pé dela há meses, declarando seu amor eterno e todas essas bobagens. — Anthony fez uma careta. — Disse que não podia permitir que fizesse essa longa viagem sem alguém para protegê-la. Como se Batters, que a conduz por toda a parte há quinze anos, e George não bastassem. Sem falar na criada e no condutor da segunda carruagem com a bagagem. Ela tentou dissuadi-lo, mas ele insistiu até finalmente concordar. Quando chegaram, ela não pôde deixar de convidá-lo para uma estada. Não seria educado. Como poderia adivinhar que o sanguessuga ficaria um mês aqui?

— Um mês! Ele está aqui há tanto tempo? — perguntou Camilla, estupefata.

— Está. Mamãe tentou fazê-lo perceber que não precisava ficar todo esse tempo, mas ele simplesmente disse pra ela que não poderia deixá-la encarar sozinha essa ”tragédia familiar”

— É incrível você não tê-lo expulsado.

— Eu o expulsaria — Anthony parecia cruel. — Mas mamãe tem o coração mole. Pensa que talvez ele tenha pouco dinheiro, que quis acompanhá-la pra escapar dos credores. Aí reluta em expulsá-lo. Diz que já esteve na mesma situação algumas vezes, quando sua mesada acabava. Não sei. Talvez ela espere que leve tia Beryl embora. Se levasse, até eu concordaria com sua permanência.

— Seu primo e o amigo dele também estão aqui há tanto tempo? — perguntou Benedict. — A casa parece incrivelmente cheia.

— Cheia demais — concordou Anthony, soturno. — Aqueles dois estão aqui há mais tempo ainda que Thorne, embora, graças a Deus, nenhum dos dois seja tão bobo. Primo Bertram não é dos piores. Pelo menos não é tão enfadonho quanto o primo Harold e a tia Beryl. Mas aquele outro, Oglesby... é estranho.

— E? Como assim?

Anthony, que não costumava pensar no que falava, enrugou a testa.

— Não tenho certeza. Há algo estranho nele. Além das roupas, quero dizer. Não suporto colete rosa num homem, e você? Prima Kitty e prima Amanda, é claro, pensam que é a coisa mais bonita do mundo, e as duas têm flertado com ele como loucas. — Um pequeno sorriso passou por seu rosto. — É claro que ele fica entediado com elas, o que indica que não é tão desprovido de bom senso. — Ele deu de ombros. — De repente, é apenas quieto. Raramente o ouço falar. Mas, sei lá, ele parece meio... deslocado.

— Deslocado? — Foi Camilla que fez a pergunta agora, sua curiosidade despertada pela resposta de Anthony.

— Não consigo explicar, Milla. Passe um tempinho com ele e vai ver o que quero dizer.

Benedict não disse mais nada, decidindo que havia feito tantas perguntas quanto podia, sem levantar as suspeitas de Anthony ou Camilla. Ele ainda imaginava sobre o que aqueles dois estavam conversando quando abriu a porta. A explicação de Camilla foi fraca, pensou, e tinha aquele sinal de pânico nos olhos quando se virou e deu de cara com ele. Ela havia dito especificamente que deveriam esconder algo dele, e ficara obviamente temerosa de ele ter ouvido a conversa. Adoraria ter aberto a porta alguns instantes antes.

Achou difícil acreditar que a pessoa que estava procurando pudesse ser Camilla ou Anthony, que, afinal, seria conde após a morte de seu avô. Talvez um jovem turbulento e aventureiro fosse suficientemente tolo para arriscar tudo isso pela excitação do contrabando, mas sua juventude o impedia de ser o arquiteto por trás da destruição de Gideon. Camilla, por sua vez, apesar das estranhas atitudes, era uma lady. Além do mais, acabara de chegar a Chevington Park após vários meses fora. O mistério deles, seja lá o que for, é provavelmente bastante inócuo, um segredo de família, ou a localização de algo valioso que não querem que seja conhecida por um forasteiro. Ainda assim, Benedict teria se sentido melhor se soubesse do que se tratava.

Não havia necessidade, entretanto, de apressar as coisas. Ele tinha de fingir que acreditava neles.

— Bem, imagino que o almoço esteja pronto. Vamos, minha querida? — Ofereceu o braço a Camilla.

— Obrigada. Você vem, Anthony? Anthony reagiu de mau humor.

— com Thorne e primo Harold e toda aquela gente lá? Acho que não. A Sra. Blakely vai mandar meu almoço por um dos lacaios.

com essas palavras, deixou-os a caminho da escada que dava para o quarto das crianças. Benedict observou-o partir, dizendo casualmente:

— Seu primo não tem um quarto neste andar?

Era estranho um membro da família, principalmente o futuro conde, não ficar no mesmo andar que os outros, nos quartos mais agradáveis.

— Não. Ele dorme em seu antigo quarto, no andar de cima.

Camilla pegou seu braço, e começaram a caminhar na direção da escada.

-— Você quer dizer, no quarto das crianças? Aquilo pareceu ainda mais bizarro. Que garoto de dezoito anos poderia querer ficar nos quartos destinados às crianças?

— Exato. É mais fácil, diz ele. Ele e o tutor podem utilizar a sala de estudos, e ele gosta do quarto antigo. Eu, pessoalmente, acho que é apenas porque assim é mais fácil evitar os adultos. Não tem mais ninguém lá em cima, então ele pode fazer o que quiser.

Benedict suspeitou que Camilla acertara na mosca em sua suposição. A tentação de ser deixado em paz com seus próprios estratagemas seduziria qualquer garoto adolescente; cairia como uma luva para alguém inclinado a travessuras. Ele imaginou a vista que as janelas dos quartos das crianças no terceiro andar teriam. Pensou que poderia ser um local excelente para enxergar sinais indicando que havia um barco para ser descarregado naquela noite.

— Talvez eu devesse visitar Anthony um pouquinho — sugeriu ele, casualmente. — Conhecê-lo melhor. Poderia diminuir seus temores para comigo. Talvez pudéssemos cavalgarjuntos.

Camilla fitou-o, surpresa.

— Bem, parece bastante cortês. Seria simpático se você pudesse tranqüilizá-lo de que não está ”tirando vantagem” de mim. Ele acha que, por ser como um irmão para mim, deveria me proteger.

— Alguém deveria. — Benedict concordou.

— Como?

Ele olhou para os olhos faiscantes. As palavras saíram sem que ele pensasse. Obviamente atiçaram sua ira.

— Bem, é verdade. Se você fosse minha, eu não permitiria que zanzasse pelo mato à noite sozinha.

— Que bom que não sou ”sua”, nesse caso, não é? Essa atitude é exatamente o motivo de eu ter decidido jamais me casar. Como se uma mulher pudesse ser sua propriedade, uma escrava para você dar ordens, alguém sem vontade ou sem cérebro.

Um singelo sorriso apareceu no rosto dele.

— Acho que ninguém jamais poderá acusá-la de algo parecido. Entretanto, não foi exatamente isso que eu quis dizer. Quis dizer ”minha” como se relacionada a mim, dependente de mim. Sei que a última coisa que se pode esperar de uma mulher é lealdade ou obediência.

— Duas coisas bem diferentes, senhor — Camilla salientou mordazmente. — Obediência é o que alguém espera de um filho ou de um criado. Lealdade é algo livremente dado por um adulto pensante e autônomo.

— Bem, nenhuma das duas é uma virtude que eu tenha encontrado em uma mulher.

-— Então escolheu mal suas companheiras.

— Obviamente — ele concordou, soturno.

— Este é o problema da maioria dos homens... escolhem uma mulher mais pela beleza do que pelas qualidades importantes, como inteligência, coragem e lealdade.

Ele pensou na beleza pálida de Annabeth, e no coração venal que ela tão bem escondeu. Mas não resistiu a desafiar Camilla.

— Eu diria que a beleza é uma das principais qualidades que se busca numa mulher.

— Aí está. Vê? — Camilla parou e colocou as mãos na cintura, exasperada. — Isso é um homem. Um rostinho bonito vai proporcionar uma conversa inteligente à mesa do jantar ou um discurso ponderado ao lado da lareira? É claro que não. Ele faz com que um temperamento rabugento seja fácil de suportar ou torna uma mente chata menos insuportável?

— Bem, seria mais prazeroso olhar para sua companheira por toda a vida.

— Há! — a voz de Camilla era um desdém só. — Se ela for apenas um rostinho bonito, em alguns meses você nem vai estar mais lá pra vê-la. Terá sido levado à loucura pelo tédio e passará todo o tempo no clube.

Benedict não pôde deixar de rir, pensando em um dos seus amigos, que tivera uma experiência idêntica. Enamorado de uma beldade branca e loura, casou-se com ela, e descobriu, assim que ficaram sozinhos, sem criados amigos e família em volta, que a pobre garota não sabia conversar e tinha pouca inteligência. Tinha o mesmo sorriso de covinhas e expressão doce que o enfeitiçaram, mas, quando conversavam, não havia nada a dizer. Ele foi levado, de fato, a passar a maior parte do tempo no clube com seus amigos.

— Está vendo? Você conhece casamentos assim, não?

— Conheço — ele admitiu.

— Então admita que o que estou dizendo é correto. Se um homem escolhe a mulher por sua mente ou por sua conversa, terá muito mais chances de ser feliz.

— A paixão não tem papel nenhum? ; Camilla olhou-o, subitamente se sentindo como se estivesse pisando em terreno incerto. Sua resposta normal, no passado, teria sido uma desdenhosa rejeição de um apetite tão rasteiro quanto a paixão como motivo para o casamento. Entretanto, lembrando-se de como se sentira de manhã, quando Benedict a beijara, não poderia ser tão zombeteira.

Seus olhos se dirigiram involuntariamente para os lábios dele, e ele sorriu para ela de modo tão sagaz que Camilla sentiu vontade de esbofeteá-lo.

— Acho isso uma base inconsistente — disse ela, pedante — para uma vida de dedicação.

— Inconsistente? — algo se agitou nas profundezas escuras dos olhos de Benedict no momento em que ele se aproximou e enroscou um dos delicados cachos que emolduravam o rosto de Camilla em seus dedos. — Eu diria que a paixão é uma coisa muito forte. Camilla não conseguiu imaginar uma resposta. Na verdade, mal conseguia respirar.

— Atingiu-me como um soco esta manhã — continuou ele, num tom macio e amigável.

Camilla inspirou, trêmula. Ele ia beijá-la de novo, pensou, e percebeu, surpresa, o quanto desejava que ele o fizesse.

O pensamento tirou-a do transe, aparentemente, e ela recuou abruptamente.

— É melhor irmos, ou nos atrasaremos.

Ela girou e correu novamente na direção da escada. com um risinho suave que a estremeceu, Benedict a alcançou e disse:

— É claro, madame. A seu dispor.

Camilla ficou surpresa — e, disse ela para si mesma, aliviada — por Benedict não ter feito nenhuma investida nela nos dois dias que se seguiram. Não aparecia no quarto na hora em que ela estava se trocando ou tomando banho; na verdade, só aparecia quando ela já estava dormindo. Nem passou muito tempo com ela em nenhum outro lugar. Quando ela perguntava onde ele estivera, respondia vagamente.

Mas Anthony foi rápido em dar sua opinião:

— Bisbilhotando! É isso que está fazendo — ele explodiu, com raiva. — Olhando aqui e ali, falando com todo o mundo. Eu o vi por toda a casa. Deus, talvez ele tenha explorado até a ala oeste. O homem não está com boas intenções, estou lhe dizendo.

— Oh, você parece um velho afetado cheio de suspeitas. Entretanto, Camilla tinha de admitir que também estava bastante curiosa sobre aonde Benedict ia e o que estava fazendo.

— Bem, por que outro motivo ele teria conversado com todos os criados? — argumentou Anthony. — Fui ao hall dos serviçais ontem à noite tentar arrumar um lanchinho com a cozinheira e ouvi um deles dizendo que ele estava no quarto de Purdle, conversando.

— Ele estava conversando com Purdle? — As sobrancelhas de Camilla se ergueram. — Mas, Anthony, Purdle jamais diria alguma coisa. Além disso, o que ele sabe?

— Nada em particular. Mas ele me espiona. Ele e Jenkins. Os dois — disse Anthony, amargo.

— Ah, por favor, Anthony...

— Espionam. Pro vovô. Ah, eles não fazem por mal. Mas às vezes é o suficiente pra me enlouquecer. Tenho de sair de fininho da casa quando não quero um dos dois me fazendo perguntas.

— Mesmo assim, Purdle não revelaria assuntos de família para um estranho.

— Bem, eles não pensam que ele é um estranho, não é? Acham que é seu marido.

— Ainda assim, isso não é suficiente para fazer Purdle falar alguma coisa que possa prejudicá-lo.

— Nunca se sabe. Eles sempre dizem que é pro meu próprio bem. Que se preocupam comigo. É suficiente pra fazer um sujeito preferir ser órfão.

— Você não está falando sério. Mas eu entendo, de verdade. Todo esse ”cuidado” pode fazer uma pessoa se sentir sufocada.

— Exatamente. Sabia que entenderia. — Anthony sorriu para ela, mas continuou a andar, agitado. — Não dá pra você fazer nada a respeito dele?

— De quem? Benedict?

— É.

— O que está sugerindo? Que eu me livre dele?

— É o que eu gostaria de fazer. Mas sei que não posso. Apenas o observe, mantenha-o à vista. Ele é casado com; você. Não dá pra vocês fazerem programas juntos?

— Tudo bem, tudo bem. vou tentar.

Na manhã seguinte, Camilla vestiu sua roupa de montaria assim que acordou e foi atrás de Benedict. Encontrou-o tomando café-da-manhã com Oglesby. Se estava tentando arrancar alguma informação de Oglesby, pensou Camilla, com um sorriso, era porque estava tendo dificuldades. Ela havia tentado conversar com o homem após o jantar na noite anterior, e ele quase não disse uma palavra.

— Camilla!

Benedict levantou-se com um sorriso e deu-lhe um beijo na bochecha. Camilla não teve certeza se ele estava fazendo uma encenação para Oglesby, que também havia se levantado educadamente à sua chegada, embora mais vagaroso que Benedict, ou se estava genuinamente feliz por vê-la.

Ela inspirou o odor indefinível de sua colônia e replicou, trêmula:

— Benedict.

Ele a sentou ao seu lado, puxando a cadeira para ela. Ela cumprimentou o outro homem à mesa:

— bom dia, Sr. Oglesby.

— Sra. Lassiter — ele respondeu, um pouco formal. — Como está se sentindo esta manhã?

— Muito bem, senhor.

Ela percebeu, um pouco surpresa, que a verdade era a seguinte: encontrava-se numa situação absurda, que arruinaria sua reputação se fosse descoberta, e ainda assim, estava com um excelente humor.

Benedict, todo solícito, encheu seu prato com comida do longo aparador, enquanto Camilla tentava, ainda sem sucesso, conversar com o Sr. Oglesby. Ele só falava em resposta a alguma pergunta e, mesmo assim, quase sempre em monossílabos, não de maneira grosseira, porém desconfortável. Camilla ainda não decidira se ele era muito tímido ou muito chato.

— Acho o ar do campo muito refrescante — disse Benedict, juntando-se a Camilla em seu esforço de conversa. — Uma mudança prazerosa da cidade. O senhor é da cidade, Sr. Oglesby?

— Sou sim — Sr. Oglesby mexeu-se um pouco na cadeira.

— Londres?

— Sim.

— É claro que há pouco do entusiasmo de Londres aqui — continuou Benedict.

— Sim, pouco.

— Nós moramos em Bath — disse Camilla.

— Mas já morei em Londres — disse Benedict. — Talvez tenhamos algum conhecido em comum.

— Acho... acho pouco provável.

— Em que parte de Londres o senhor mora? Oglesby pareceu ainda mais desconfortável.

— Mm, bem... perto da Praça St. James.

— Então o senhor deve morar perto do primo Bertram. Foi assim que o conheceu?

Ele a encarou por um instante, então disse, apressado:

— Foi, foi sim. Por acaso nos conhecemos andando na rua um dia desses. Na St. James, na verdade. — Oglesby levantou-se e sorriu, formal. — com licença, mas tenho de ir agora.

Camilla olhou para o prato dele, onde permanecia metade da comida. Ele acompanhou o olhar dela e enrubesceu.

— Eu, bem... sinto que não estava tão faminto quanto imaginava. Se me dão licença...

Fez uma mesura na direção deles e saiu. Camilla o observou partir, depois virou-se para Benedict.

— Estranho.

— O quê, minha querida?

— O Sr. Oglesby. Não lhe pareceu terrivelmente nervoso? O que acha que pode ter sido?

— Não sei. Talvez sejamos um casal imponente. Camilla fez uma careta.

— Bobagem. Estávamos apenas tentando conversar.

— Talvez ele achasse que estava sendo interrogado.

— O que mais se pode fazer a ele além de perguntas? Ele não diz nada a não ser uma resposta direta a uma pergunta, e de preferência com uma única palavra.

— Talvez ele se sinta... hmm, intimidado. — Intimidado? Mas por quê?

— Algumas pessoas são aterrorizadas por coisas que não desconcertam a neta de um conde.

— O que quer dizer?

— Essa casa. — Ele apontou o final da longa mesa, em cujo centro encontrava-se uma imensa fruteira de prata, depois o pesado aparador de mogno repleto de pratos de prata, e o serviçal uniformizado em pé, pronto para encher o copo ou a taça de alguém ou servir alguma coisa de algum dos pratos quentes. — Nem todo o mundo está acostumado a viver numa propriedade campestre, nem a conversar, durante o café-da-manhã, com a família do conde.

— Você parece não se importar! — disse Camilla, mordaz.

Ele sorriu levemente.

— Não. Mas superei minhas inibições muito tempo atrás. É mais fácil salafrários, você sabe, ficarem à vontade com qualquer pessoa.

Havia algo no brilho de seus olhos escuros que fazia Camilla imaginar novamente se não estava errada sobre sua origem humilde. O tempo todo em que estivera lá, não houve lapso em seu discurso, nem erro de conduta. Suas maneiras não tinham a elegância do Sr. Sedgewick ou de seu primo Bertram, era verdade, mas possuíam o ar de alguém que agia como queria, mas não porque não concordasse com aquilo. Ele não tinha nenhuma das bizarrices que eram tão aparentes em Oglesby.

— Purdle me disse que ele não é ” exatamente um cavalheiro” — disse ela, deixando de lado, por enquanto, o problema das qualificações de Benedict.

— O quê? Por quê? Camilla deu de ombros.

— Não estou certa. Isso foi tudo o que ele disse. Purdle estava com aquele jeito que tem ao falar de certas pessoas — aquelas que não se encaixam em sua visão do que é correto ou educado. Ele é terrivelmente esnobe.

Ocorreu-lhe que Purdle não havia feito nenhum comentário desse tipo sobre Benedict. É claro, ele pensava que Benedict era seu marido, mas Purdle normalmente tinha seu jeito de fazer com que suas opiniões sutilmente viessem à tona.

— Geralmente acho que um mordomo ou um valete são bem melhores que os aristocratas para separar a ”nobreza” da ralé.

— Bem, parece bastante estranho que Bertram o tenha trazido pra cá. Primo Bertram é muito esnobe. Está sempre cercado do melhor — suas roupas, sua mobília, suas posses.

— Seu primo Bertram deve ser muito rico, então.

— Na verdade, acho que não. Ele é herdeiro do pai, é claro, mas não de vovô. Anthony herdará tudo de vovô. Tio William é suficientemente rico, acho eu, mas não acredito que ele dê uma generosa mesada a primo Bertram. Suspeito que primo Bertram esteja aqui fugindo dos credores, como o Sr. Thorne.

— É um homem esperto, seu primo.

— É. Nem parece que é irmão de Graeme ou de Harold, pois nenhum dos dois possui um intelecto aproveitável.

— Graeme Elliot? — perguntou Benedict, surpreso. — Ele é seu primo?

— Bem, é. — Camilla olhou para ele, sem entender. — Você o conhece?

— Não. Não. É claro que não. Só que... fiquei espantado com a existência de mais outro primo.

— Eu lhe falei dele ontem. é tenente dos hussardos.

— Ah, sim, o sujeito do exército. )

— Esses são apenas os meus primos Elliot, na verdade. Tenho outra leva inteira do lado do meu pai. Estes são os que você já conhece.

— O quê? Os que eu... oh! — Lembrou-se da presença do criado uniformizado no aparador. — Oh, sim. Aqueles com quem você viajava quando nos conhecemos. — Sorriu, os olhos brilhando de contentamento, e pegou a mão dela. — Diga-me, meu amor, você se lembra desses dias com carinho, como eu?

— com certeza me lembro com tanta alegria quanto você. Ele sorriu largamente.

— Fico feliz de nossa estima ser mútua.

Camilla revirou os olhos e retirou a mão.

— Pensei em cavalgarmos hoje. Eu poderia lhe mostrar os arredores de Chevington Park. O que você acha?

— Adoraria — respondeu, honestamente. Seria uma oportunidade perfeita para ele investigar a área. Havia explorado a casa e o terreno a pé no dia anterior, mas queria se mover mais ainda. — Pensei em pedir ao seu primo Anthony que me levasse para um passeio esta manhã, mas sei que ele saiu muito cedo e ainda não voltou.

— Tenho certeza que Anthony adoraria cavalgar com você outra hora, principalmente se quiser ver as cavernas de calcário ao longo do litoral.

— Cavernas? Você tem alguma aqui na propriedade?

— Estão por toda a parte, algumas grandes, outras pequenas. É claro que Lydia e vovô proibiram taxativamente que Anthony e eu entrássemos nelas.

— O que, sem dúvida, garantiu que vocês as explorassem. Camilla soltou um risinho.

— Sim. Infelizmente, não há nada de muito excitante nelas. Anthony e eu sempre esperávamos encontrar tesouros, mas jamais achamos nada. Ele diz que há formações interessantes bem no fundo de algumas delas, mas nunca entrei tanto.

— Parece um passeio imperdível.

Terminaram a refeição, e Benedict foi mudar de roupa. Depois saíram para explorar a propriedade. O cavalariço chefe, após analisar Benedict, ofereceu-lhe um cavalo castrado, a última aquisição de seu avô para os estábulos, um animal que ele jamais pôde cavalgar antes de ficar doente. Camilla quase protestou, insegura sobre as habilidades eqüestres de Benedict. Mas quando o viu montar o cavalo, engoliu as palavras. Ele cavalgava como alguém nascido para a sela, controlando facilmente o animal com suas coxas musculosas e um toque muito delicado nas rédeas.

Cavalgaram até os penhascos na orla, onde amarraram os cavalos e ficaram admirando a vista.

— O que é aquilo? — perguntou Benedict, surpreso, apontando um pequeno outeiro surgindo do mar.

A maior parte da pequena ilha era coberta pelas ruínas de uma antiga construção. Algumas paredes ainda estavam de pé, assim como os restos de um torreão, mas as pedras, em sua maioria, estavam empilhadas pelo chão.

— Aquela é a Ilha da Fortaleza. As ruínas são o que resta da fortaleza original. Foi a casa dos condes de Chevington por muitos e muitos anos e um baluarte à época, creio eu. A água a protegia, é claro, e também havia os altos e sólidos muros, com seis torres, e dentro deles, a fortaleza. Mas foi abandonada há muito tempo. Acabou se tornando pouco sociável e conveniente com o tempo. Usaram quase todas as ) pedras dos muros para construir Chevington Park. O que restou foi devastado alguns anos depois por um incêndio, iniciado, pelo que sei, pelo pai de meu avô, quando jovem. Como você pode ver, sempre fomos inclinados a nos meter em encrencas. - Ele riu da piada, mas voltou a atenção para as ruínas.

— Parece bem segura, mas pouco prática. Como chegavam lá? Quero dizer, é muito pequeno para ter tido uma aldeia ou para agricultura e criação de animais.

— Ah, essa é a beleza do negócio. — Camilla respondeu com um leve sorriso. — É uma ilha apenas quando a maré está alta. Quando a maré está baixa, há uma faixa de terra que vai da praia até a ilha. É, na verdade, uma península com um formato estranho. Quando a maré sobe, a passagem fica coberta. — Bem conveniente.

— É. Dá pra chegar lá de barco a qualquer hora. Anthony e eu remávamos freqüentemente até lá. Mas é mais fácil se defender de barcos. Mesmo com a maré baixa, só havia aquela ponte estreita de terra pela qual os inimigos podiam cavalgar. Jamais foi invadida.

— Quando foi abandonada?

— Iniciaram Chevington Park durante o reinado de Elizabeth e concluíram quando Jaime era rei. As vantagens da fortaleza deixaram de ser essenciais e eles se cansaram da inconveniência. Além disso, imagino que deve ter sido um lugar úmido e ventoso demais para se morar. E os Chevingtons prosperaram bastante durante o reinado dos Tudors. Puderam construir uma residência maior e mais luxuosa.

— Eu gostaria de visitá-la. — Ocorreu-lhe que as ruínas da fortaleza poderiam ser um excelente local para os contrabandistas guardarem suas mercadorias. — Parece interessante.

— E é — respondeu Camilla alegremente. — Às vezes, quando a maré está baixa, podemos ir à pé. Não é longe, e andar é a forma mais fácil. Gostaria de ver uma das cavernas?

— Certamente.

— Estamos bem perto de uma. Anthony seria um guia melhor, mas vou me esforçar.

— Garanto que será suficiente.

— Bajulador.

Camilla desmontou, dizendo:

— Temos de conduzi-los até a praia. A trilha é estreita. Benedict desmontou também, e caminharam pela trilha íngreme até a praia. Ao final, pararam, observando o gigantesco oceano de outro lado da estreita faixa de areia. Camilla fitou seu companheiro. Ele olhava a água, pensativo.

— Quem era ela? — perguntou Camilla, surpreendendo até a si mesma com sua ousadia.

— Quem? — Benedict olhou para ela, interrogativo, pois seu traiçoeiro primeiro amor era a coisa mais distante de sua cabeça naquele instante.

— A garota que o machucou tanto. Que lhe deu essa visão tão pessimista das mulheres.

— Oh. — Benedict deu de ombros. — Seu nome era Annabeth.

Tentava, mas não conseguia se lembrar de seu rosto com clareza. As madeixas escuras e os maliciosos olhos azuis de Camilla se impunham sobre qualquer visão da beleza pálida de Annabeth.

— O que aconteceu?

Ele tentou se livrar da pergunta com uma réplica fria; era o que fazia sempre que alguém era impertinente demais para perguntar. Jamais contara a ninguém toda a história, nem para sua irmã ou para Sedgewick, embora suspeitasse que os dois haviam juntado os vários pedaços. Mas, estranhamente, os muros não apareceram dessa vez, como das outras, e ele percebeu de imediato que não se importava de contar para Camilla.

— Meu tio — o que de fato tenho — era velho. Ele e sua mulher não tinham filhos e, apesar de ela ser mais jovem que ele, era considerada muito velha para procriar. Eu era o herdeiro de meu tio. Então, surpreendentemente, sua mulher ficou grávida. É claro que, devido à sua idade, ninguém esperava que desse à luz sem complicações. Conheci Annabeth pouco depois de saber da gravidez de minha tia, e ficamos noivos alguns meses depois. Annabeth insistiu para que mantivéssemos segredo. Não entendi por quê, mas estava feliz e bobo demais para me importar. Para o espanto de todos, a gravidez de minha tia prosseguiu normalmente e a criança nasceu saudável. Então Annabeth me disse que não podia se casar comigo. Quando insisti em saber a razão, disse que era porque eu não seria mais o herdeiro de meu tio, já que agora ele tinha um filho próprio.

Camilla inspirou com força.

— Ela o dispensou porque você não pegaria a fortuna? Ele concordou.

— Precisamente. É claro que percebi na hora por que ela quis manter nosso noivado em segredo. Acho que ela não sabia, quando nos conhecemos, que minha tia estava grávida. Aí, quando descobriu, já havia gasto muito tempo no projeto pra simplesmente me descartar, e ficou torcendo pra minha tia perder a criança. Assim apostou dos dois lados. Esperou pra ver o resultado da gravidez. Se minha tia tivesse abortado ou o bebê tivesse nascido morto, Annabeth teria tornado público nosso noivado. Mas quando minha tia teve o herdeiro, Annabeth rompeu o noivado sem constrangimentos, já que ninguém sabia nada a respeito.

Impulsivamente, Camilla encaixou seu braço no dele, recostando-se, com carinho.

— Sinto muito.

Um estranho tremor acometeu Benedict com o gesto afetuoso. Ele se virou parcialmente, e ela naturalmente se jogou nele, abraçando-o. Ele a manteve bem junto de si por um momento, impressionado pela ótima sensação e por perceber que a memória de Annabeth já não lhe doía quase nada. Quando ela se afastou, instantes depois, ele não quis abrir os braços e liberá-la.

— Quero dizer — disse Camilla, afastando-se e olhando para ele —, sinto muito por você ter sofrido tanto. Mas não por ela ter terminado o noivado. Sabe, você teve sorte. Deveria ficar contente.

— Deveria? — ele ergueu as sobrancelhas.

— Bem, sim. Imagine se ainda fosse o herdeiro de seu tio, e ela tivesse tornado público o noivado. Você teria se casado com ela, e não teria descoberto sua verdadeira face até estar amarrado a ela pro resto da vida. Isso teria sido muito pior do que ter o coração partido, não acha? Viver com uma mulher tão fria e mentirosa?

Benedict teve de rir. Ele odiara a memória de Annabeth por anos, revivera o tempo que passaram juntos e a amaldiçoara pela dor que sentira no coração. Mas jamais, em todo esse tempo, olhara o problema por esse ângulo. Camilla conseguiu mudar tudo em sua cabeça.

— Você está certa, absolutamente certa. Sou um homem de sorte.

Camilla observou o rosto dele se iluminar de contentamento, e ela gostou da aparência. Ficou feliz de tê-lo feito sorrir.

— Você deveria rir mais. —vou me empenhar nisso.

Cavalgaram pela praia até a entrada da caverna. Amarraram os cavalos no arbusto rasteiro e entraram. Benedict teve de se abaixar para passar pela entrada, mas lá dentro o teto se elevava vários metros acima de sua cabeça. Iluminada apenas pela luz do sol que vinha da entrada, a caverna era obscura, e não conseguiam enxergar a parede de trás.

— É muito escuro aqui dentro — comentou Camilla. — Não devemos ir além. Se vier com Anthony, terão de trazer lanternas. Dá um alcance maior.

Ela se voltou para ele e viu que ele olhava para ela, não para o ambiente. — O que é? Por que está olhando pra mim desse jeito?

— Que jeito?

A voz dele surgiu baixa e rouca. Desde o abraço impulsivo na praia, não conseguia parar de pensar em tê-la nos braços de novo. Queria sentir novamente aquele corpo macio contra o seu. Queria saborear sua boca como da outra vez. Deu um passo adiante.

Camilla prendeu a respiração. Havia algo no tom de voz dele, no olhar, que fazia seus joelhos fraquejarem.

— Não estou certa. Como se estivesse... — esfomeado — ah, pensando em... — Em quê? Deu mais um passo adiante, os olhos ainda fixos nela.

Olhou-a de cima a baixo, tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele, mesmo sem tocá-la.

— Eu... não estou certa. Camilla mal podia falar, ou mesmo pensar. Sentiu-se presa, encurralada pela chama em seus olhos.

— Eu estava pensando em você. — Ergueu a mão e acariciou seu rosto vagarosamente. — Em como é bonita.

— Na verdade, senhor — disse ela, com um risinho ofegante, tentando, sem sucesso, restabelecer o tom formal da conversa —, acho que está muito escuro aqui para ver alguma coisa.

Ele sorriu, sem pressa.

— Posso ver que é bela com ou sem luz. Você me faz perder a concentração, Camilla.

Ela poderia ter retrucado que ele a fazia se sentir da mesma forma, mas não conseguia encontrar as palavras ou a energia para falar. Podia apenas olhá-lo enquanto se aproximava e pegava em seus braços. Ele a puxou para mais perto. Camilla foi, sem resistir. O olhar de Benedict passou para sua boca, depois mais abaixo ainda, no inchaço macio dos seios por baixo da roupa de montaria. Lembrou-se da sensação das tenras protuberâncias em seus dedos outro dia no jardim, o sabor de seus lábios, e queria experimentar tudo de novo.

Sabia que estava se comportando como um tolo. Estavam numa caverna que seria um perfeito esconderijo para os contrabandistas e, em vez de prestar atenção nisso, não tirava os olhos dela. Pior, seus pensamentos pareciam também estar ali. Tinha sido assim toda a manhã — na verdade, desde o abraço no jardim. Durante todo o tempo que passou conversando com os serviçais ou dando uma olhada em volta da casa e do terreno, sua cabeça não parava de substituir contrabandistas por beijos e olhos azuis e um corpo tão macio quanto sua língua era afiada.

Além do mais, o que ele estava pensando era impossível. Camilla não era o tipo de mulher que podia ter e depois abandonar, não vendia seu corpo, nem era uma esposa insatisfeita ou uma viúva solitária interessada num caso, o único tipo de mulher com quem estivera nos últimos anos. Não, era uma garota solteira de boa família, virgem, sem dúvida, e, apesar do fato de ter se metido nessa situação comprometedora, ele não podia, em sã consciência, tirar vantagem disso. Dormir com ela seria assumir um compromisso, algo que havia jurado nunca mais ser tão tolo ao ponto de repetir.

Mas naquele momento, tinha dificuldade em se lembrar dessas promessas. Havia algo tão arrebatador na brancura de seu pescoço... e aquele cacho escuro perdido colado ao rosto... a maciez dos braços em suas mãos. Percebeu que seus dedos, inconscientemente, estavam acariciando aqueles braços.

Disse para si mesmo que deveria parar, sair da caverna e ir atrás do cavalo. Ficar ali era insano... perigoso.

— Dane-se — murmurou, e aproximou-se.

Camilla deu um passo trôpego para trás, mas bateu na parede da caverna e parou. Ele se aproximou mais ainda e colocou as mãos, contra a parede, deixando a cabeça dela entre elas. Ansiava por curvar-se em sua direção e pressionar sua carne subitamente rígida e pulsante contra a maciez dela. Um último resquício de bom senso o impediu.

— Você exerce um efeito curioso sobre mim — murmurou ele, pegando o cacho perdido entre os dedos e afagando-o carinhosamente. A sensação sedosa enviava jatos de calor para seu abdômen.

— É mesmo?

A voz de Camilla surgiu alta e sem fôlego. Tudo em que conseguia pensar era no quanto ele estava perto e em como gostaria de seguir com seu dedo a curva sensual do lábio inferior dele.

Num impulso, ela se aproximou e passou o dedo ao longo do lábio. Era liso e cálido, e a sensação a estremeceu de cima a baixo. Os olhos de Benedict escureceram, e ele se curvou na direção dela até sua cabeça quase encostar na dela. Ela podia ver a paixão em seus olhos, e isso a excitou.

Ele colocou os lábios onde estava o cacho, colado ao pescoço. Gentilmente se aninhou na pele dela, e um calafrio a percorreu. Sua respiração estava presa na garganta, e ela estava ciente apenas do calor do corpo dele tão perto do dela, o formigamento na pele onde os lábios a tocavam, o estranho florescer de calor entre as pernas. A mão dele subiu e agarrou seu seio. O polegar achou e acariciou o bico por cima do corpete. O pequenino ponto alongou-se ao toque, crescido e duro, e seu outro seio ansiou pela mesma sensação. Como se soubesse, a mão dele deslizou, encontrou o outro seio e começou a massageá-lo gentilmente.

Sua boca explorava o pescoço dela por inteiro, provocando e acariciando, dando pequenas mordiscadas com o dente e, a cada nova sensação o fogo entre as pernas de Camilla aumentava. Ela afastou um pouco as pernas, esperando melhorar o calor. Sentindo seu movimento, Benedict deslizou o joelho por entre os dela, abrindo-os ainda mais. Então, para sua surpresa, colocou as mãos em sua cintura, levantou-a e sentou-a em sua coxa.

Camilla arfou com o choque de prazer que a invadiu. Ele a embalou carinhosamente sobre as pernas duras como ferro. Sentiu como se as nádegas estivessem em chamas. Choramingou, inconscientemente movendo a cintura em sintonia com as mãos dele, e uma intensa umidade a inundava entre as pernas. Benedict deixou escapar um ruído baixinho de satisfação, pressionando-a ainda mais forte contra si. Ergueu a cabeça e selou sua boca com a dele, línguas e lábios num ardor quase selvagem.

Ele preenchia os sentidos dela. Ela não conseguia pensar, mal podia respirar, embalada que estava por sensações deliciosas. Não conseguia conter pequenos ruídos anímalescos de paixão, mas Benedict os engolia com seus beijos. Seus lábios penetraram fundo nos dela enquanto suas pernas pressionavam a fonte de seu desejo. Camilla pensou que fosse desmaiar, mas seus braços não o soltavam, puxando-o com mais força para si. Não era suficiente, ela sabia; desejava algo mais e com ardor. A porta de sua feminilidade doía e pulsava.

Suas bocas se desgrudaram, e a cabeça dela se recostou na fresca parede de pedra. Seu peito arfava pesadamente. Ele desabotooü os poucos botões do corpete, retirando-o, assim como a camisa, e expondo uma adorável esfera branca. Benedict gemeu e curvou-se para pegá-la com a boca. Sugou o seio, ao mesmo tempo diminuindo e aumentando a dor de Camilla. Ela cravava seus dedos nos cabelos dele, murmurando ”por favor, por favor” sem parar, numa cadência sensual, embora nem mesmo soubesse o que estava pedindo.

A sensação crescia entre suas pernas, tão prazerosa que quase doía. Ansiava por algo, sentia-se como se estivesse correndo atrás disso, ainda que permanecesse loucamente fora de alcance. Ela se esfregava freneticamente nas pernas dele, sem poder controlar os pequenos gemidos e palpitações que escapavam de sua boca. Sentia-se como se estivesse perdendo o controle de algo que só podia imaginar.

Fora da caverna, um dos cavalos relinchou, seguido de um murmúrio indefinido de um homem. O som invadiu a bruma do desejo deles. Camilla ficou rígida. Benedict grunhiu e afastou-se, lutando para retomar o controle. Lá fora, ouviu-se um riso de homem e o ranger de uma bota.

Benedict agarrou a mão de Camilla e levou-a mais para dentro da caverna. Escolheram um caminho, além do qual só havia uma escuridão impenetrável. Tiveram de parar. Camilla recostou-se de volta na parede, ainda aturdida pela intensidade das emoções experimentadas.

Benedict olhou-a. Ela não havia sequer endireitado a roupa, seu corpete ainda estava pendurado no ombro, encimando seu seio branco e nu e empurrando-o atrevidamente para cima. Mesmo na pouca luz da caverna, podia ver que o bico estava vermelho e inchado por causa dos beijos, fulgurante e úmido, acenando para ele. Benedict respirou fundo, reprimindo o desejo que reaparecia.

Novamente ouviu-se uma voz masculina, com tanto eco que Benedict percebeu que estava dentro da caverna.

— Deve ter alguém aqui — disse o homem, a voz recheada de desapontamento. — Os cavalos devem pertencer a alguém.

Havia um brilho de luz amarela além da curva na parede, e Benedict deduziu que o homem e seu parceiro haviam trazido uma lanterna.

— Sem dúvida. Talvez seja Camilla. O cavalariço disse que ela e o marido saíram a cavalo esta manhã. — Gritou: — Camilla! Você está aqui?

Camilla suspirou.

— Primo Bertram — sussurrou. — Vamos ter de sair e falar com eles.

Benedict assentiu, desejando que o primo de Camilla estivesse no inferno. Aproximou-se e endireitou seu vestido, os dedos encostando carinhosamente nos seios ao cobri-los. Não havia nada que desejasse mais do que permanecer ali. Parecia a mais cruel das torturas ter de voltar a uma aparência de ordem e encarar o primo afetado de Camilla.

Virou-se, arfando profundamente, quando Camilla respondeu:

— Bertram? É você?

Ela passou a mão no cabelo e apertou as palmas das mãos nas bochechas quentes, rezando para que não ficasse tão óbvio o que estiveram fazendo. Colou um sorriso de boas-vindas no rosto e foi na direção da saída. Deu um risinho forçado ao ver seu primo e o amigo, Oglesby.

— Oh, nossa, vocês com certeza vão nos achar uns tolos — disse ela, andando em direção ao primo. Benedict a seguia, com um sorriso soturno. — Quando ouvimos vozes, pensamos que pudessem ser os contrabandistas ou coisa que o valha, nos escondemos no fundo da caverna.

Benedict lançou-lhe um olhar desconfiado ao ouvir suas palavras, mas não disse nada.

— Contrabandistas! — exclamou Bertram, levando a mão ao coração, teatral. — Oh, nossa. Bem, isso jamais passou pela nossa cabeça, não é?

O taciturno Sr. Oglesby não fez nada além de balançar a cabeça.

— Vejo que trouxeram uma lanterna — continuou Camilla. Estava tão nervosa que parecia não poder parar de conversar. E se primo Bertram adivinhasse o que estavam fazendo? A pouca luz da caverna era suficiente para esconder a cor de suas bochechas e o estado do cabelo e das roupas? E se um dos botões estivesse ainda desabotoado ou a saia da roupa de montaria estivesse levantada? Não ousou checar nada, embora seus dedos tocassem para fazê-lo. Não parou de falar, esperando que a conversa distraísse a atenção dos outros homens. — Não fomos precavidos. Decidimos explorar a caverna de uma hora pra outra. Vocês, obviamente, planejaram sua expedição.

Bertram olhou com espanto para ela, mas apenas disse:

— Sim. O Sr. Oglesby havia demonstrado interesse nas cavernas da área, então me encarreguei de mostrá-las a ele.

— E trouxeram almoço também. — Camilla olhou a cesta de vime e o cobertor nas mãos de Oglesby. — Que delícia!

Bertram sorriu, formal, e o outro homem parecia ter achado algo de grande interesse na parede da caverna.

— Pensamos que talvez gastássemos muito tempo explorando a caverna, então pedimos à cozinheira para embrulhar um lanche. Gostariam de dividir conosco, talvez? Tenho certeza que há o suficiente para todos.

— Se bem conheço a cozinheira, posso jurar que há — concordou Camilla, alegremente. — Mas nem sonharíamos em nos intrometer no passeio de vocês, não é Benedict? Além do mais, não estou vestida prá expedições.

Benedict concordou, movendo a cabeça e sorrindo enquanto a levava para fora da caverna, contornando os dois. Camilla curvou-se sobre o penhasco, aliviada.

— Oh, meu Deus, devemos parecer idiotas.

Um risinho reapareceu em seu rosto, e ela imediatamente bateu com a mão na boca. Mas a tensão nervosa que havia sentido transformava-se rapidamente em uma risada ao pensar no absurdo da situação.

— Oh, com que caras devíamos estar! — gritou suavemente, e começou a rir de novo.

Benedict agarrou seu braço e rapidamente a conduziu até os cavalos.

— Shhh! Eles vão ouvir.

— Não posso evitar — sussurrou de volta, lutando para conter a gargalhada. — Eles sem dúvida também estão rindo de nós! Quando penso em como estavam nossas caras quando chegamos naquela curva! Primo Bertram é muito refinado pra deixar escapar algo, mas com certeza deve ter pensado que estávamos loucos.

— Imagino que seu primo Bertram tenha experiência suficiente pra ter uma boa idéia do que estava acontecendo — retrucou Benedict, secamente.

As bochechas de Camilla inflamaram-se novamente, de vergonha, e ela levou as mãos ao rosto, como se tentasse escondê-las.

— Não sei como vou poder encará-lo novamente!

— Bem, nós somos casados — salientou ele ao colocá-la em cima do cavalo e começarem a cavalgar. — Não há nada de errado em recém-casados trocarem alguns beijos longe dos parentes.

— Exceto pelo fato de que não somos realmente casados. Continua sendo embaraçoso saber que ele está imaginando o que estávamos fazendo, ou pior.

Ela estava ciente, de repente, como jamais estivera antes, do movimento do cavalo embaixo dela. Seu medo e seu constrangimento diante da chegada do primo Bertram a fizeram esquecer isso momentaneamente, mas a ardência entre suas pernas ainda não havia se dissipado inteiramente, e começava a surgir de novo enquanto cavalgava. Procurou desesperadamente dizer algo que desviasse sua mente de seu corpo.

— Você viu a cara do pobre Oglesby? Tentava olhar para todos os lados exceto pra nós. Teria ficado com pena dele se não estivesse tão ocupada sentindo pena de mim mesma. Ele sem dúvida pensa que a família de Bertram é uma turma escandalosa.

— Sim, eu diria que ele ficou constrangido, embora um semblante rijo pareça ser a expressão normal do homem.

Camilla riu.

— Você tem razão. Sei que não deveria ser tão indelicada mas o Sr. Oglesby parece um tipo de amigo chato demais pro primo Bertram. Ele é uma pessoa tão sociável. Necessita de companhia, e uma anfitriã sempre pode contar com ele pra animar uma festa. Não posso imaginar como fez amizade com um tipo tão calado quanto esse Oglesby.

— Talvez lhe dê mais oportunidade de falar. Camilla deu de ombros.

— Bem, Oglesby não é o tipo de amigo que Bertram normalmente tem. Já conheci alguns deles, e são geralmente pessoas bobas e espalhafatosas, mais preocupadas com o corte do colete do que com qualquer outra coisa, e também não param de falar de futilidades.

— Interessante.

Ele permaneceu em silêncio por mais alguns minutos, enquanto cavalgavam de volta para casa. Então perguntou, casualmente:

— Bertram se interessa por cavernas?

— Bertram? — Camilla riu. — Pouco provável. Amarrotaria sua roupa, sabe? Não me recordo de ter ouvido falar que ele entrava em cavernas. Mesmo quando éramos crianças, tinha pouco interesse por isso. Não, tenho certeza que a ida deles foi idéia de Oglesby. E ainda levar uma cesta de piquenique! Devem estar planejando ficar um bom tempo lá.

— Hmm, hmm.

— Lugar estranho para um piquenique — continuou Camilla. — Quero dizer, é úmido e frio, e nenhum lugar pra sentar além de pedras.

— Não parece muito convidativo.

— Só imagino uma razão para ir lá. Benedict olhou-a, intrigado.

— É mesmo? E qual seria? Camilla deu um sorriso endiabrado.

— Bem, fugir de tia Beryl, é claro.

— É claro. Deveria ter pensado nisso.

Ele sorriu de volta, e ela mais uma vez foi acometida por uma onda de puro desejo. Como esse homem pode fazê-la se sentir assim? Nenhum outro homem jamais teve esse efeito sobre ela. Esta tarde, na caverna, quando ele a beijou e a acariciou, foi a experiência mais excitante e mais emocionante que tinha vivido até hoje e, de alguma maneira, ela tinha certeza, pelo andar da carruagem, que algo a esperava, algo devastador... se ao menos pudesse compreender.

Ela imaginava se essa sensação não era o que sentia falta ao recusar o casamento. Talvez outras mulheres experimentassem isso rotineiramente. Tia Lydia? Tia Beryl? Sua mente vacilava diante da idéia. Não conseguia imaginar sua rígida tia envolvida em arroubos de paixão, qualquer que fosse o estímulo.

Camilla lançou outro olhar de esguelha para Benedict. Talvez fosse simplesmente ele. Não uma coisa rotineira que qualquer mulher sentisse com qualquer homem, mas o que uma mulher sentia com aquele homem específico. Olhou para as mãos dele nas rédeas. Estavam sem luvas; não sabia o que tinha acontecido com suas finas luvas de couro. Teriam ficado no chão da caverna durante aqueles momentos loucos e maravilhosos? Olhou para seus dedos longos e maleáveis, para as costas de suas mãos, levemente salpicadas de pêlos escuros. As mãos dele eram delgadas, ainda que fortes, e seguravam o cavalo com firmeza e competência. Ela se lembrou daquelas mesmas mãos sobre seu corpo, acariciando seus seios, com competência também e, oh, tão carinhosas. Só de pensar nisso, sentiu os bicos dos seios se inflamarem e endurecerem de desejo.

Seus olhos se dirigiram para seus ombros largos e depois deslizaram para suas costas retas. Foram para as coxas atadas ao cavalo, musculosas e esticadas. Camilla engoliu em seco e desviou o olhar. Estava fazendo papel de boba, disse para si mesma. Não deixaria, em hipótese alguma, que ele percebesse o efeito que tinha sobre ela.

Quando chegaram ao estábulo e o cavalariço apareceu correndo para pegar os cavalos, Benedict inclinou-se e desculpou-se, dizendo que queria dar uma volta pela propriedade antes do chá. Camilla concordou prontamente. Havia algo nela que necessitava desesperadamente ficar com ele, mas ao mesmo tempo, queria muito ficar sozinha para analisar seus sentimentos. Então virou-se e correu para a casa, subindo para seu quarto.

Trancou a porta e jogou-se de cara na cama. Seus pensamentos eram uma desordem só; estava acometida de uma inóspita mistura de sensações. A pulsação entre suas pernas permanecia. Inconscientemente, sua mão desceu pelo corpo e deslizou por entre as coxas. Pressionou a carne latejante, fechando os olhos enquanto lembrava como tinha sido a sensação de ter a coxa dele ali, encostando-se nela, ao mesmo tempo aliviando e intensificando a dor. Sua mão parecia não substituí-lo à altura.

Camilla gemeu e rolou na cama. O que estava acontecendo com ela? Jamais havia tido sensações tão intensas e íntimas antes. Pulou da cama e chamou Millie. Tinha de fazer algo; se ficasse ali pensando e lembrando por muito tempo, com certeza ficaria louca. Quando a criada entrou, mandou preparar-lhe um banho. Tomou banho, lavou os cabelos, secando-os e penteando-os na frente da lareira. Quando terminou, já estava se congratulando por ter retomado o controle sobre suas turbulentas emoções. Vestiu-se da maneira mais formal possível e mandou Millie fazer-lhe um simples coque no cabelo.

Satisfeita por não ter mais nada da mulher tempestuosa que havia chegado da excursão, foi visitar seu avô.

— Meu Deus, garota, o que aconteceu com você? — foram as primeiras palavras do avô assim que ela entrou no quarto. — Parece uma freira.

Camilla revirou os olhos.

— Oh, vovô...

Ele fez sinal para que se sentasse na cama ao seu lado e tomou sua mão. Analisou seu rosto por um momento e ficou satisfeito. Finalmente disse:

— Bem, você pode ter botado na cabeça que tinha de se vestir como uma velha solteirona toda encolhida, mas posso ver direitinho que não é assim que se sente.

Camilla o olhou sem compreender.

— O que quer dizer? Ele riu.

— Não seja tímida comigo, mocinha. É óbvio que esse seu jovem colocou um brilho em seus olhos.

— Oh! — Camilla enrubesceu. — Vovô, não diga isso!

— Qualquer um pode ver que existe uma centelha entre vocês dois. Nem todos os casais possuem isso. Não me surpreende que tenham se casado tão rápido.

Camilla ficou constrangida, desejando que seu avô encerrasse o assunto. Mas, naturalmente, o velho era teimoso.

— Eu gosto dele. Você fez uma boa escolha, Milla.

— Obrigada, vovô.

— Ele veio me ver hoje de manhã. Ele lhe disse?

— Não. — Camilla sentiu-se um pouco inquieta.

— É. Tivemos uma ótima conversa outro dia, e ele apareceu pra me ver mais algumas vezes.

— Sobre o que conversaram?

— Oh, coisas. Nada que possa lhe preocupar. Confio no seu rapaz.

— Confia nele? Vovô, não entendo. — As sobrancelhas de Camilla se uniram. — Por que o senhor precisaria confiar nele? E o que confiou a ele?

— Bem... — bateu em sua mão de maneira tranqüilizadora. — Ele está apenas fazendo um negocinho pra mim. Nada pra você se preocupar. É pra isso que tem um marido.

Camilla ficou irritada.

— Não preciso de um marido para cuidar de meus negócios. Foi sobre isso que conversou com ele? Meus negócios? Meus fundos?

— Não fique tão irritada, garota. Não conversamos sobre isso. Falar com ele sobre o seu dinheiro é da alçada do Marlin.

— Ninguém precisa falar com ele sobre isso! — retrucou Camilla, encolerizada. — O dinheiro é meu e não interessa a... — Parou, percebendo o erro. É claro que seu marido saberia da sua situação financeira. Sendo casados, seu dinheiro teria passado a ser dele. Era uma das muitas coisas erradas na instituição do casamento e pela qual sentia enorme desprezo. — Ao... senhor ou a qualquer outra pessoa — finalizou ela, tentando salvar sua afirmação da melhor forma possível. — Eu contei a Benedict sobre minhas finanças. Ele concordou que eu mesma deveria continuar a cuidar delas, junto com Marlin, é claro.

A boca de seu avô ficou escancarada.

— Que tolice é essa?

— Ele é um marido bem moderno, vovô. Ele... acredita que meu dinheiro deveria continuar sendo meu, e eu... deveria deixá-lo para nossos filhos mais novos, algum dia. Ele tem muitos bens.

— Ah, sim. Essa é uma escolha sábia, com toda a certeza. Entretanto, não sei se seria bom você cuidar de suas finanças. Sua avó jamais conseguiu manter em ordem sua mesada para roupas, quanto mais investimentos.

— Bem, eu não sou a vovó. Ela era muito boa com ervas e tal, em curar as pessoas. Eu sou boa nisso. Ela não precisava investir seus fundos, mas tenho feito isso com Marlin há vários anos.

Seu avô franziu as sobrancelhas. Ela própria administrar seus fundos era uma fonte de aborrecimentos entre eles desde o dia em que fez 21 anos, e ela suspeitava que o conde ficara muito decepcionado com o fato de suas finanças não só não terem diminuído sob sua direção, mas terem obtido, na verdade, um lucro substancial. Finalmente, ele disse:

— Bem, se foi assim que escolheram, acho que não é da minha conta.

Camilla mal pôde evitar a surpresa. Jamais esperaria ouvir algo parecido de seu avô, que sempre achou que era, não somente seu direito, mas também seu dever, se meter em sua vida. Ela percebeu, com certa tristeza, que essa mudança de atitude não era devido a ela ou a algum reconhecimento da parte dele de que era capaz de tomar decisões corretas, mas somente porque ele gostava do homem que estava fingindo ser seu marido. Se ele soubesse o que o homem realmente era!

Mas, por outro lado, o que ele era? Percebeu que sabia tão pouco dele quanto seu avô. E o que era esse negócio que o conde havia confiado a ele? Camilla sabia que, se Benedict traísse o conde ou se aproveitasse dele de alguma forma, seria culpa dela.

Assim que deixou o quarto do avô, disparou pelo corredor até seu quarto, na esperança de encontrar Benedict sozinho. Estava decidida a falar com ele. Abriu a porta e entrou, depois parou abruptamente.

Benedict realmente estava no quarto. Estava sentado na banheira no centro do quarto, água até o peito. Camilla fitouo. Sentiu como se o estômago tivesse caído sobre seus pés. Abriu e fechou a boca, sem emitir som algum. Finalmente, deu um gritinho e virou-se, as mãos no rosto.

— Sinto muito, eu não... sabia...

—É seu quarto — disse ele, sensato. Ela o ouviu se levantar da banheira. — De qualquer maneira, estava quase terminando.

— vou sair. — Foi uma prova do quanto sua mente estava lenta, percebeu, o fato de não ter saído imediatamente.

— Não há necessidade — ele respondeu calmamente. — Não levarei nem um minuto para me secar. — Depois de alguns instantes, ele continuou: — Tudo bem, pode se virar agora.

Ela assim o fez, devagar, sem saber se conseguiria encará-lo depois do constrangedor encontro. Esqueceu o constrangimento quando percebeu que ele estava vestido apenas com suas calças. Seus poderosos tórax e ombros ainda estavam despidos, a pele retesada brilhando sobre os músculos.

— Ah... — Camilla limpou a garganta, tentando reunir seus pensamentos esparsos. Benedict virou-se e pegou a camisa. Camilla flagrou-se observando o movimento dos músculos em suas costas.

Benedict voltou-se para ela e ergueu as sobrancelhas, inquiridor.

— Você queria me dizer alguma coisa?

Ele estava gostando daquilo, percebeu Camilla, irritada. Ele não ficou nem um pouco aturdido e também não pensou na paixão que sentiram naquela tarde. Encaixou o queixo.

— Sobre o que você e vovô conversaram?

— O que quer dizer? Quando? Conversamos sobre várias coisas. Você, é claro. Como sua própria fraqueza o irrita, a influência que os Elliots têm nessa parte do país.

Ele baixou o tom, olhando para ela como se esperasse ter satisfeito sua solicitação peculiar.

— Estou falando desse ”negócio” que ele fez com você. Moveu-se para mais perto dele. O aroma de limpeza do

sabonete grudara na pele dele, distraindo-a. Virou-se para o outro lado, tentando se concentrar.

— Que negócio é esse?

— Negócio? Minha querida, como eu poderia ter algum negócio com seu avô? Jamais estive com ele até ontem.

— Ele me disse que você estava cuidando de um negócio para ele. E não me chame de ”minha querida”. Não precisa fingir afeição aqui. Ninguém está ouvindo.

Ele pareceu surpreso.

— Não percebi que estava fingindo. — Um sorriso sarcástico apareceu em seus lábios. — Me acostumei tanto a vê-la como minha amada esposa que tenho uma certa dificuldade em abandonar a encenação.

Camilla cerrou os dentes.

— Não diga tolices. Quero saber o que vovô lhe disse, Pediu que fizesse algo pra ele? Se você se aproveitar da confiança dele, juro que vou...

— Vai o quê?

— Não sei. Mas vou fazer com que pague, prometo.

— Eu não me aproveitaria de seu avô. — Sentiu uma nesga de culpa ao perceber que havia feito exatamente isso, ao usar a permissão do velho para falar com os serviçais, para seus próprios objetivos de descobrir o que havia acontecido com seus agentes. — Gosto do velho cavalheiro. É o último de uma era que está acabando.

— Ele acredita que você é meu marido. Só por isso lhe confiou informações. Se tem um pingo de decência, não usará seus conhecimentos para feri-lo de alguma forma.

— Não tenho interesse em ferir seu avô. Afinal, o que pensa que vou fazer?

— Não faço idéia. Não sei o que ele lhe disse.

— Se o conde não lhe contou, então entendo que não sabia—disse Benedict, calmamente. — Eu dificilmente trairia sua confiança revelando tudo a você.

— Está me dizendo que ele confiou mais em você, um completo estranho, do que em mim. — Ela não conseguia esconder o tremor, parte fúria, parte dor, que atravessava sua voz.

Benedict deu um passo inconsciente na direção dela, sua mão se aproximando como a acalmá-la.

— Não, não pense assim. Camilla, ele a ama muito.

— Não estamos falando de amor, e sim de confiança. Confidência.

— Não é que ele não confie em você. Simplesmente não quer sobrecarregá-la com isso. Ele acha que um homem...

— Cuidaria melhor disso — finalizou Camilla, amargamente. — Sim, eu sei. Ele acha que não sou capaz nem mesmo de administrar minha própria vida melhor que um homem estranho. É por isso que estava tão ansioso que eu me casasse. Acha que preciso de um protetor.

— De alguém que cuide de você — Benedict complementou. — Não de um protetor.

— Qual é a diferença?

— Bem, eu... você nunca sente a necessidade da ajuda de alguém? Você é tão auto-suficiente?

— Ajuda, sim — respondeu Camilla, formalmente. — Mas não alguém que pense por mim e aja por mim.

Benedict sorriu levemente.

— Acho que teria de ser um homem bem corajoso ou bem tolo para tentar fazer isso.

Os olhos dela flamejaram.

— Você tem razão nisso, pelo menos. Mas essa tolice parece ser uma característica muito comum nos homens. Como Harold... sempre me dizendo como eu deveria me comportar ou o que deveria dizer. Teve até a audácia de pensar que me casaria com ele!

— Seu primo Harold é um tolo. Você não está dizendo que todos os homens são como ele, espero.

— Não. Mas sempre que começam a se aproximar de mim, me fazendo elogios, me comparando a uma rosa...

Ele riu.

— Isso, pelo menos, é uma comparação adequada. Bela, mas cheia de espinhos.

— Ha! A semelhança é maior ainda: querem me podar e me enfiar num vaso escolhido por eles.

— Você deveria conhecer minha casa. Não há rosas em vasos. Estão todas crescendo incontrolavelmente do lado de fora. Selvagens... pois é assim que gosto delas.

Camilla ergueu a cabeça. A voz dele estava baixa e suave, e suas palavras a excitaram. Ele a encarava de um modo que a excitava ainda mais.

— O que... o que quer dizer?

— Quero dizer que não pode julgar todos os homens por um único critério.

Pôs as mãos sobre os braços de Camilla e os levantou. Os joelhos dela se dissolveram, e todas as sensações ardentes que havia enterrado de maneira tão determinada voltaram à tona novamente, envolvendo-a.

Ela se afastou.

— Não.

Os olhos dele se incendiaram, e ele foi atrás dela, mas parou.

— Você tem razão. Sinto muito. Vamos nos vestir para o jantar.

Camilla não havia conseguido as respostas que desejava, mas não insistiria. Sabia que tinha tido sorte em escapar tão facilmente dele agora; Benedict sabia ser muito mais determinado e persuasivo.

Ela se virou e foi para o vestíbulo para escolher a roupa que usaria naquela noite. Estranhamente, percebeu que não se sentia com sorte, mas... desapontada. Obviamente, Benedict não tinha sido tão afetado quanto ela pelo incidente na caverna.

Camilla olhou para seus vestidos de noite e escolheu um de seda azul bem vivo, que combinava com seus olhos. O decote era mais baixo que o da maioria dos outros vestidos, mas era perfeito para seu estado de espírito naquele momento. Na verdade, decidiu que não usaria o cachecol de renda com ele, como normalmente fazia. E o penteado teria de ser mudado. Chamou a criada e começou a se arrumar.

Quando ficou pronta, Benedict já se encontrava no hall à sua espera, encostado à parede com um ar de enorme paciência. Quando Camilla abriu a porta e saiu, ficou satisfeita em ver que ele se empertigou imediatamente, os olhos escuros com um brilho malicioso. Seu olhar esquadrinhou a frente de seu vestido, e percebeu que as mãos dele ficaram rígidas. Camilla sentiu-se, de alguma forma, vingada. Saudando-o com um sorriso, ela o pegou pelo braço.

O jantar foi surpreendentemente tedioso naquela noite. Camilla teve dificuldade em se concentrar na conversa, que foi dominada por sua tia Beryl, e não ajudou em nada o fato de que toda hora que fitava Benedict do outro lado da mesa, ele a estava observando. A comida foi seguida por uma frustrante hora na sala de música. Os homens misericordiosamente ficaram ausentes nos primeiros minutos, saboreando um charuto e um conhaque na sala de leitura. Mas logo se juntaram às mulheres, e Camilla descobriu que, se podia haver algo pior do que ter de ouvir as filhas de tia Beryl tocando insípidas peças para piano, era ter de ouvi-las sob o olhar fixo de Benedict.

Ela se sentia excitada só de perceber os olhos de Benedict passeando por seus cabelos e lábios e seios e pernas. Tinha medo de estar enrubescendo na frente de todos. Camilla pegou o leque para refrescar o rosto em chamas e tentou ignorar as perguntas que pairavam em sua cabeça: O que aconteceria no quarto deles à noite? Tentaria seduzi-la? E se tentasse, como ela reagiria?

Quando finalmente tia Beryl ergueu seu leque para esconder um bocejo e anunciou que estava se recolhendo, Camilla levantou-se com entusiasmo, dizendo que também estava muito cansada. Tia Lydia lançou-lhe um estranho olhar, pois normalmente a saída de tia Beryl era o sinal para se abrir o jogo ou iniciar conversas mais interessantes. Mas ela sorriu, compreensiva, enrubescendo, e Camilla sentiu seu próprio rosto ficando vermelho. Olhou para Benedict, que também havia se levantado para lhe oferecer o braço. Ele sorriu para ela de maneira que demonstrava não um contentamento, mas uma satisfação sensual, e quando pousou a mão no braço dele, ele colocou sua outra mão sobre a dela.

Seguiram tia Beryl e suas filhas na escada, calados. Quando chegaram ao quarto, encontraram a criada esperando por eles. Camilla jogou seu lenço e suas luvas na penteadeira, olhando para Benedict com o canto dos olhos. Estava em pé ao lado da cama, olhando-a fixamente, a expressão inexpugnável Millie aproximou-se e começou a desabotoar os milhares de pequenos botões nas costas do vestido de Camilla. Os dois lados do corpete se desataram, expondo a extensão alva e macia das costas dela.

Benedict fez um ruído abafado. Camilla fitou-o. Ele estava em pé com uma das mãos envolvendo o suporte da cama, todo o corpo rígido e os olhos flamejando. De repente, virou-se, como se estivesse empurrando o próprio corpo para longe da cama, e saiu do quarto.

Camilla virou-se. Disse para si mesma que era melhor assim. Benedict fizera a coisa certa. Mas suas palavras não conseguiam livrá-la do desapontamento que a preenchia.

Benedict correu pelo comprido corredor, afastando-se do quarto de Camilla. Pensou que enlouqueceria a qualquer momènto. Havia dito para si mesmo que poderia ficar aquela noite com Camilla sem fazer amor com ela, mas no último minuto teve de fugir. Quando a criada desabotoou as costas do vestido e os lados caíram, revelando a suave curva de sua coluna, ele acordou. Percebeu que tinha de sair ou a agarraria como um animal.

Chegou às escadas e parou, segurando o corrimão e tentando decidir o que faria. Mas não parava de pensar em Camilla. Lembrou-se daquela tarde, quando se afastara dela, e como ela o olhara — o rosto vermelho de paixão, os lábios macios e inchados, ligeiramente abertos pelo choque, e aquele delicioso seio branco exposto, encimado e levantado pelo decote do corpete, o bico úmido e rosado por seus beijos, apontando avidamente para ele.

Só de pensar naquilo, quase gemia. Sua virilidade estava rígida como uma tábua, e sua pele estava como se tivesse sido despida e banhada em óleo fervente. Não havia nada que quisesse mais naquele instante do que voltar direto para o quarto.

Mas isso, ele sabia, seria loucura. Não podia desonrar uma mulher sob sua proteção. Colocaria em risco sua missão, violaria seus princípios e constituiria centenas de outros pecados -— nenhum dos quais conseguia se lembrar naquele momento por causa do abominável zumbido do sangue em suas têmporas. Por que o aroma dela tinha de ser tão delicioso e o sabor tão doce, como as frutas mais maduras e suculentas?

Ele se torturara ao longo de todo o jantar com as mais terríveis fantasias sexuais. Imaginou jogar Camilla na longa mesa, na frente de todos, rasgar suas roupas e depois se refestelar como havia feito com seus seios anteriormente. Havia delirado que ela escorregaria por debaixo da mesa e engatinharia até ele, desabotoaria suas calças, acariciaria e brincaria com sua virilidade até que ficasse inteiramente tesa, tremendo de desejo, e depois a colocaria na boca e o faria atingir o clímax. Havia pensado em sentá-la no colo e fazê-la cavalgá-lo, ou jogá-la no chão, levantar sua saia e penetrá-la ali mesmo. Havia imaginado possuí-la em todas as peças do mobiliário da sala de jantar e, mais tarde, na sala de música, e em todas as posições possíveis. Em virtude disso, tivera uma noite altamente desconfortável.

A gota d’água tinha sido ficar parado, preso ao chão, enquanto a criada começou a despi-la. Sabia que não agüentaria mais aquela tortura sem se render ao desejo. Foi por isso que decidiu se ocupar de alguma coisa até Camilla estar na segurança da cama e dormindo, e assim esperava conseguir desviar sua mente desses pensamentos atormentadores.

Respirou fundo. Depois de mais alguns minutos, sentindo-se mais calmo, dirigiu-se para o quarto do conde. Não era tarde; ele e Camilla haviam se recolhido cedo, junto com tia Beryl, portanto tinha esperança de o valete do conde ainda estar acordado. Ainda não havia conversado com Jenkins; sabia, lamentavelmente, que o velho serviçal adiava o encontro porque não simpatizava com ele, já que sempre era dispensado quando ele aparecia.

Bem, tinha de ser feito, e agora supunha ser uma boa hora.

Uma batidinha à porta trouxe Jenkins. O velho franziu o cenho ao colocar a cabeça na fresta da porta entreaberta e sussurrou:

— O conde está dormindo, senhor, e não pode ser pertur- bado.

— Entendo. Mas é com você que quero falar.

— Ah, entendo. Jenkins hesitou, e Benedict teve certeza de que ele gostaria de recusar, mas os anos de treinamento prevaleceram. Foi buscar uma vela e saiu pela porta, sinalizando para Benedict segui-lo. Conduziu-o pelo hall até a porta seguinte, que abriu, e os dois entraram.

Era um quarto bem pequeno, com apenas uma estreita cama, uma cadeira e uma pequena cômoda. Benedict supôs que o lugar havia sido anteriormente um vestíbulo por causa da porta lateral que dava para o que deveria ser o quarto do conde. Meticulosamente educado, Jenkins ofereceu a Benedict a cadeira e sentou-se na borda da cama. Seu rosto não demonstrava nada, mas a rigidez da postura tornava óbvio que preferia estar em outro lugar.

Benedict sorriu.

— O conde o estima muito.

Jenkins fez um leve cumprimento com a cabeça.

— Obrigado, senhor.

— Tenho certeza que foi por isso que me pediu para falar com você. Ele lhe contou?

— Sim, ele me pediu que falasse livremente com o senhor.

— O conde parece bastante preocupado com essa organização contrabandista. Eu lhe disse que faria o possível para ajudá-lo.

Jenkins lutou por um momento para manter sua firme desconfiança, mas a estima por seu patrão o superou, e ele se aproximou, parecendo preocupado.

— Ele tem estado um tanto perturbado com isso, senhor,! há várias semanas. Preocupa-se constantemente, e o médico diz que não é bom pra ele. Mas nada que eu diga o tranqüiliza. Ele... confia no senhor. Me disse que a Srta. Camilla escolheu bem. O senhor pode ajudá-lo? Fará alguma coisa a esse respeito?

— Farei tudo o que puder — Benedict prometeu imediatamente. — Mas, no momento, ainda estou tateando no escuro. Conversei com vários serviçais, inclusive Purdle. A coisa mais importante que descobri é que parece que existe um novo líder na organização, mas ninguém sabe quem é. Acha que isso é verdade?

Benedict não podia dizer se ninguém realmente sabia ou se estavam apenas se recusando a falar com um forasteiro, apesar das instruções do conde.

— Acho que é verdade. Não ouvi indícios de que alguém saiba quem é. Há um ou dois homens que parecem ser seus capangas, mais próximos dele que os outros. Um deles dá ordens freqüentemente. Mas as ordens têm de vir de outra pessoa. Ele é burro demais para agir por conta própria.

— Você conhece esse homem? Jenkins deu de ombros.

— Conheço, mas duvido muito que mesmo ele tenha visto quem é o homem. Só um otário deixaria esse sujeito saber quem ele é, e o novo líder não é nenhum otário.

— Eu poderia falar com ele, de qualquer forma. Quem é esse homem?

O valete hesitou um instante, depois deu de ombros.

— Se o conde diz que épra confiar no senhor, então confiarei. Seu nome é Evans. É um tipo bêbado que mora na aldeia. Sua mulher morreu há muito tempo, dizem que ela teve sorte. Mas não vai conseguir muito dele, acho eu.

— O que mais você sabe sobre o novo homem? Alguns disseram que ele fala como alguém daqui.

Jenkins fez uma careta.

— Ou pelo menos tenta copiar o sotaque.

— Está dizendo que ele não é daqui?

— Não sei. Estou dizendo que ouvi dizer que ele tenta falar como um local. Mas às vezes seu sotaque escorrega ou ele usa uma palavra difícil. Em resumo, algumas pessoas dizem que ele é da ” nobreza”.

Benedict empertigou-se, o coração subitamente disparado. Era o que ele e Sedgewick achavam... que o homem que procuravam podia ser de classe alta, alguém que Richard Winslow prontamente convidaria a entrar em sua casa, até mesmo em seu santuário, seu estúdio.

— Um cavalheiro? Tem certeza? — perguntou cuidadosamente, tentando não demonstrar sua excitação.

— Não — Jenkins admitiu. — Certeza, não. Estou apenas dizendo que existe uma suspeita.

—Mais alguma coisa além das escorregadelas no discurso?

— Bem, ouvi dizer que um homem viu sua mão de relance uma vez, e parecia a mão de um cavalheiro, branca e sem calos.

Benedict recostou-se, olhando para o homem.

— Como sabe tantas coisas? Nem Purdle me falou disso.

Jenkins retornou o olhar sem hesitar.

— Purdle é um bom homem, Sr. Lassiter, mas não é daqui. Veio trabalhar para o conde há uns 30 anos. É de Sussex, acredito eu. Minha família, por outro lado, vive aqui há tantos anos quanto os Chevingtons ou talvez mais. — Seus olhos azuis brilhavam. — Tenho contatos que talvez Purdle não tenha.

— Entendo. — Ser um forasteiro, pelo visto, era um estigma muito difícil de superar entre essa gente. — Então talvez você possa me dizer isso também. Por que o conde está tão contrariado? Tão preocupado?

A expressão de Jenkins não revelava nada.

— Como, senhor? Sinto muito, mas não entendo o que quer dizer.

— Acho que entende, e acho também que sabe o porquê. O conde me pareceu estranhamente perturbado com esses distúrbios locais, mais do que uma pessoa na posição dele deveria estar, acho eu.

— O conde é um excelente patrão, senhor. Ele se interessa em saber o que acontece com seu povo.

— Mas isso não causa o tipo de ansiedade que vi em seus olhos. Acho que tanto você quanto Purdle sabem, mas Purdle não me contaria. Entretanto, espero que sua consideração pelo conde seja maior do que sua imediata lealdade para com seu empregador. Preciso saber de tudo para ajudá-lo.

Jenkins suspirou e desviou o olhar. Parecia ter tomado alguma decisão, pois voltou-se para Benedict e disse:

—- O senhor tem razão. Ele está bastante preocupado, senhor. É... bem, é o Mestre Anthony. O conde acha que ele se juntou aos contrabandistas.

Benedict, que estivera quase em pé, tentando conseguir arrancar a resposta do velho, agora se sentou e suspirou.

-— Era o que eu temia.

—- Não há nada de errado com o rapaz — Jenkins assegurou a ele, honestamente. — É um sujeito maravilhoso, cheio de vida e alegria. Sempre foi. Só que, bem... às vezes, ele não pensa. Foi um pouco mimado, talvez, e fica entediado aqui. O conde não tolera a idéia de ele partir, sabe?

—- Seria melhor do que deixar que afunde a família com sua vilania.

Jenkins estremeceu com as palavras, mas disse apenas:

—- Sim, tentei convencer o conde a deixá-lo ir pra Oxford agora que completou dezoito anos, mas ele não me ouve. E quanto ao exército, que é o que o Mestre Anthony quer fazer... bem, não dá nem pra suportar a idéia.

— Por que acha que ele está envolvido com a organização de contrabandistas?

— Purdle e eu já o vimos saindo furtivamente pela noite. Não é a primeira vez que faz isso, de qualquer jeito, mas tem sido muito freqüente ultimamente. Sempre que o vemos saindo à noite, na manhã seguinte nossa entrega de conhaque está na porta.

Benedict suspirou.

— Todos aqui fecham os olhos para o contrabando. Não é de admirar que o garoto tenha ficado interessado.

— Talvez, senhor, mas para um Elliot — nada menos que o futuro conde — estar envolvido nisso...! Bem, partiria o coração do conde se algo acontecesse com aquele garoto. Seria pior que o escândalo. E Deus sabe que o escândalo em si já seria bastante ruim.

— Sim, bem, temos de garantir que não haja escândalo algum. — Parou e depois prosseguiu, com cuidado: — Anthony é um sujeito esperto e ousado. Poderia transformar sua frustrada aspiração pelo exército em algum outro tipo de campanha. Será que ele poderia ser o líder dos contrabandistas?

— Não! — O rosto de Jenkins ficou vermelho de raiva. — Nunca! O senhor não conhece o Mestre Anthony como eu, ou não diria isso. Uma coisa é fazer contrabando de brincadeira. Mas ele jamais mataria alguém.

— Soldados matam. Você disse que ele deseja muito se tornar um soldado.

— Sob ordens. Por seu país. Aí, sim, o sujeito pode matar, acho eu. E faria isso para proteger sua família ou, é claro, qualquer pessoa inocente que esteja sendo ameaçada. Mas ele tem um bom coração. Jamais mataria alguém por dinheiro. Principalmente Nat Crowder. Nat era irmão de Jem Crowder, e Jem e o Mestre Anthony são amigos desde muito pequenos. Seria o mesmo que matar alguém da própria família dele. Pior, na verdade, do que matar o pastor, de quem ele não gosta. — Jenkins parou abruptamente, parecendo constrangido. — Oh, perdoe-me senhor, não deveria ter dito isso.

— Perfeitamente compreensível. Já estive com o reverendo Harold Elliot, sabe?

— Sim, senhor.

— Bem, obrigado, Jenkins. — Benedict levantou-se.

— Qualquer coisa que ajude a aliviar a mente do conde, senhor. Se não se importa que eu pergunte... o senhor contou isso para a Srta. Camilla?

— Não. O conde me pediu para guardar segredo.

— Ah, muito bem, senhor. — Jenkins pareceu aliviado. — Eu esperava por isso. Temo que a senhorita Camilla fique muito preocupada se souber das escapulidas do jovem mestre.

Benedict desconfiava que, ao contrário de não saber nada sobre elas, a Srta. Camilla estava enfiada nelas até o pescoço, pela maneira como havia visto os dois sussurrando como conspiradores. Entretanto, não disse nada que desiludisse o velho serviçal, apenas se despediu e voltou para seus aposentos.

O quarto estava silencioso quando entrou. Uma lamparina sobre a mesa iluminava precariamente o quarto. com a fraca luz dourada, pôde ver a silhueta de Camilla adormecida na cama, bem como seu sofá, um cobertor e um travesseiro sobre ele.

Caminhou até o sofá e começou a se despir, olhando de vez em quando para a forma deitada de Camilla. Estava deitada de lado, longe dele, e tudo o que conseguia enxergar era a nuvem de cabelos escuros por sobre a coberta. Imaginou se ela estava realmente dormindo. Pensou no belo par de olhos azuis e na forma como seus lábios se submetiam docemente aos dele.

Alguns dias atrás, o casamento fingido parecia nada além do que um aborrecimento, e dormirem no mesmo quarto era uma perfeita gozação com ela por ter inventado essa história.

Naquela noite, dormir a metros da cama dela não parecia nem um pouco engraçado.

Reclamando mentalmente, deitou-se no sofá e se enrolou no cobertor. Ajustou o travesseiro embaixo da cabeça e fechou os olhos. Mas o sono não vinha. Não parava de imaginar como seria ir até a cama dela e puxar as cobertas, para vê-la deitada ali, de camisola. Seria branca, ele sabia, e podia imaginá-la enrolada em suas pernas, expondo as panturrilhas e as coxas bem torneadas. Veria os círculos escuros dos mamilos por baixo do leve tecido, a protuberância macia dos seios e da cintura. Pensou em acompanhar os traços do seu rosto com o dedo, em tocá-la na testa, nas bochechas e nos lábios, em trilhar seus dedos ao longo da aveludada maciez do pescoço.

Benedict virou a cabeça no travesseiro para sufocar um gemido. Estava, de repente, tão avassaladoramente excitado que parecia que ia explodir, mas não conseguia deixar de pensar nela. Em se ajoelhar ao lado da cama e colocar os seios na boca, com tecido e tudo, e sugá-los lentamente. Quando saísse de perto, o tecido úmido talvez grudasse no botão rosado e duro, convidando-o a voltar. Pensou em deslizar a mão por seu corpo até o ápice das pernas, escorregando por entre elas e acariciá-la até que ficasse quente e molhada de prazer. Poderia ouvi-la gemer, senti-la se esfregando em sua mão, querendo mais.

Isso era loucura! Afundou-se no travesseiro e abraçou o corpo, tentando se controlar. Assim ficou, deitado, totalmente acordado, recusando-se a sucumbir aos desejos, ao longo de grande parte da aparentemente interminável noite.

Não conseguiu dormir até que a pálida luz da madrugada começou a aparecer nas bordas das cortinas. Então, no momento em que finalmente conseguiu mergulhar na escuridão, o chiado da porta o despertou completamente.

Benedict virou-se, a mão escorregando para a bota ao lado do sofá, e para a faca dentro dela. Fingiu ainda cochilar.

O homem passou por ele, e Benedict relaxou, reconhecendo a silhueta delgada de Anthony, o primo de Camilla. Começou a se sentar para comentar sobre as impróprias horas de visita do jovem, mas conteve-se. A forma mais sábia, ele sabia, seria observar e descobrir exatamente o que teria trazido o jovem visconde até ali àquela hora da manhã.

Anthony inclinou-se na cama e sacudiu o ombro de Camilla. Ela acordou com um gritinho baixo, e Anthony rapidamente tapou sua boca com a mão.

— Shhh... Camilla, sou eu.

Camilla reconheceu a voz de Anthony e, piscando para acordar, conseguiu enxergar seu rosto na luz fraca. Empurrou a mão dele, irritada.

— Em nome de Deus, o que está fazendo?

— Acordando você — respondeu ele, sensato, no mesmo sussurro. — Levante-se. Preciso de você..

— Por quê?

Ele balançou a cabeça e olhou por sobre o ombro para o sofá onde dormia Benedict. Camilla seguiu seu olhar e entendeu. Ele tinha medo de Benedict acordar, e não queria que soubesse por que Anthony estava ali. Ela demonstrou compreender e deslizou silenciosamente da cama. Enfiou os pés nos chinelos e vestiu o pesado penhoar, o tempo todo mantendo um olho cuidadoso na forma adormecida no sofá. Saiu do quarto com Anthony em seu calcanhar.

No hall, foi até a longa e estreita mesa onde Anthony havia deixado sua vela e virou-se para olhar para ele.

— Tudo bem. Agora, o que está acontecendo?

— Shh — ele a advertiu. — Você vai acordar todo o mundo.

— Oh. Do mesmo jeito que você me acordou? Ele sorriu, envergonhado.

— Está bem. Sinto muito. Se não fosse uma emergência, não teria feito isso, Milla.

— E não é sempre uma emergência?

— Não. Estou falando sério. A vida de um homem está em jogo aqui.

— O quê?

Camilla empertigou-se, deixando toda a implicância de lado. Seus olhos voaram instintivamente para a porta de seu quarto.

— Não, não ele — disse Anthony, impaciente, pegando a vela com uma das mãos e levando Camilla com a outra. Saíram correndo pelo corredor.

— Então quem? — perguntou Camilla enquanto corria ao lado dele.

— Não sei.

— Anthony, não está sendo claro. Você está bêbado?

— Não! — respondeu ele, indignado, esquecendo a necessidade de silêncio. — Não bebo nada desde o copo de vinho que tomei no jantar passado... quando, devo dizer, você e o Sr. Lassiter estavam agindo de maneira muito peculiar.

— Não seja bobo. — Camilla agradeceu pelo fato de a pouca luz do corredor esconder seu rubor.

— Não fui eu que fui bobo. Vocês dois não pararam de se admirar a noite toda. E não pense que fui o único que viu. Mamãe falou sobre isso um tempão depois que vocês saíram. Até aquele insignificante do Thorne notou. Não parava de tagarelar sobre o desabrochar do amor.

— Oh, não. É mesmo? — Camilla reprimiu uma gargalhada.

Anthony lançou-lhe um olhar amargo.

— Você não acharia tão divertido se tivesse de suportar a poesia dele.

— Sinto muito. Pobre Anthony. Você tem toda a razão. com certeza eu teria ficado entediada até a alma.

Ele concordou. Já haviam atingido o topo da escada, e Anthony parou para pegar uma pequena pasta. Camilla reconheceu imediatamente a bolsa de tecido gasto. Pertencera originalmente à sua avó e, por anos, guardou as ataduras e ungüentos necessários para as emergências domésticas. Camilla olhou para ela com apreensão.

— O que vai fazer com isso?

— Já disse, a vida de um homem está em perigo. Agora, dá pra parar de fazer perguntas e vir comigo?

Suas palavras assustaram Camilla, e ela o seguiu escada abaixo. Deixaram a casa pela porta do solário e correram pelo jardim. O horizonte, a leste, estava amanhecendo, tornando o céu todo cinza e iluminando suficientemente o caminho deles ao longo da via que dava na praia. Atravessaram a trilha do íngreme penhasco da forma mais rápida que podiam e, quando alcançaram a areia, Anthony a conduziu num passo rápido pela longa restinga que levava até a Ilha da Fortaleza.

— Rápido. A maré está subindo — disse Anthony quando começaram a atravessar a estreita faixa de terra.

Camilla pôde confirmar o fato. Havia um caminho de terra com menos de meio metro entre os dois lados do oceano e, enquanto caminhavam, a água começava a envolvê-la.

— Ficaremos ilhados no outro lado! — protestou Camilla, seguindo-o e observando seu passo para não escorregar e cair na água. A água dos dois lados ficava cada vez mais profunda ao avançarem na faixa de terra, e ela não tinha a menor intenção de mergulhar no gélido oceano àquela hora da madrugada.

— Não seja tola — respondeu Anthony, num tom de irmão. — Deixei meu barco aqui mais cedo. Só voltei com você a pé porque seria mais rápido.

As maciças ruínas da fortaleza ficavam mais nítidas com o amanhecer. Os primeiros raios de sol arrebatavam os muros a leste, deixando-os com a mesma cor cálida das pedras da atual casa de Chevington Park. Mas nada podia disfarçar a desolação dos muros derrubados ou as marcas pretas deixadas pelo fogo.

Atrás deles, a água começava a encobrir a parte central mais baixa da ponte de terra. Alcançaram a ilha, escalaram os degraus de pedra até em cima e correram na direção das ruínas. Não olharam para trás. Portanto não viram a figura em pé no penhasco do outro lado, uma das mãos sombreando o rosto, observando-os.

Uma sensação de frustração acometeu Benedict. Ele precisou parar para se vestir antes de seguir Camilla e Anthony, o que fez com que perdesse um tempo precioso. Além disso, o fato de ter de seguir um pouco fora da rota o fez perdê-los de vista por alguns minutos. Quando alcançou o topo do penhasco, eles já tinham ultrapassado quase todo o caminho de terra que dava na Ilha da Fortaleza.

Seguiu a trilha da praia num ritmo imprudente, tropeçando uma vez e quase caindo. Correu pela areia até a ponte que leva à ilha, mas depois de poucos metros percebeu que era impossível.

Parou, sem fôlego. Praguejando baixinho, voltou para a praia. Ficou parado um bom tempo, observando o estreito caminho da água até a ilha. Camilla e seu primo tinham desaparecido nas ruínas da fortaleza. Ele imaginava o que os teria obrigado a sair correndo por aí feito loucos na madrugada. Seria uma excursão planejada? Ou uma emergência? Tinha a dolorosa sensação de que o velho Jenkins estava certo, e que o jovem Anthony estava envolvido com contrabando. Mas, aparentemente, Camilla também estava envolvida.

Seu coração batia vigorosamente no peito, fazendo-o se sentir ligeiramente mal. Era absurdo Camilla participar da organização contrabandista. Ainda assim, estava aprendendo rapidamente que Camilla era uma criatura generosa que faria quase tudo para ajudar aqueles que amava. E não ligava para os riscos. O que quer que fizesse, fazia com todo o coração. Se seu amado primo precisava dela...

Benedict torceu os lábios... O quanto ela realmente amava o primo ? O que faria por ele ? Era com contrabando que estavam envolvidos? Ou algo mais... algo pior? Um turbilhão de sensações preocupantes se apoderou dele. Virou-se e voltou para casa.

Anthony conduziu Camilla através da grande sala, a céu aberto, que fora o grande saguão da fortaleza. As paredes internas haviam desabado, apenas pilhas de entulho sobre as quais tiveram de passar, e apenas uma das paredes externas permanecia completamente intacta. Caminharam ao longo da área verde e em torno de outra pilha de entulho. Estavam abrigados do vento pelos vestígios da parede externa, enquanto seguiam para o que fora a cozinha da fortaleza, apesar de pouco sobrar agora, exceto a enorme lareira. Naquele momento, Camilla já tinha uma boa idéia de aonde estavam indo, confirmada quando Anthony a conduziu diretamente para as ruínas da parede de trás da cozinha. Contornaram uma grande pilha de blocos de pedra e se abaixaram atrás dela. Havia um arbusto se espalhando por ali, e Anthony empurrava os galhos para o lado. Agachou-se e rastejou por baixo e por trás do arbusto. Camilla observou-o, exasperada, com as mãos na cintura.

—Anthony! Não vou rastejar pelo porão. Estou velha demais para isso. O que há lá embaixo? Por que não pode simplesmente me contar o que é?

— Não, você tem de ver com seus próprios olhos. — Anthony voltou-se para ela, empurrando os galhos para o lado para que ela pudesse entrar.

Camilla inclinou-se, olhando a porta quadrada de madeira no chão no meio do mato. A madeira estava velha e desgastada, mas ainda grossa e robusta. Um anel de ferro foi colocado nela de um lado, e Anthony agarrou-o com a mão e deu um puxão. A porta se abriu, mas não facilmente, as dobradiças de metal enferrujado guinchando.

Camilla havia achado a porta quando criança, brincando nas ruínas, e mais tarde mostrou a Anthony. Mais de uma vez brincaram de assustar um ao outro descendo às profundezas escuras para explorá-las com uma lanterna. A porta havia sido posta no chão de pedra da cozinha. Embora muitas das pedras tenham sido escavadas e colocadas ao longo da água para pavimentar o caminho até Chevington Park, e grama tenha crescido por sobre grande parte do que antes tinha sido o chão, a porta que dava para o porão foi mantida, suas bordas escondidas pela grama. Camilla e Anthony tinham cortado a grama muitos anos atrás, quando brincavam ali, mas Camilla imaginava que a grama houvesse se regenerado. Ao contrário, a grama tinha sido cuidadosamente cortada e empilhada. Camilla lançou um olhar suspeito para Anthony.

— Anthony! Você tem usado o porão para guardar o conhaque contrabandeado?

— Não! Juro que jamais mostraria esse lugar para alguém de fora da família. Não contei pra ninguém sobre o porão ou sobre a porta. Mas parece um excelente lugar para se esconder... Bem, você vai ver.

Ele já estava descendo o buraco, procurando a escada com os pés. Desceu as escadas rapidamente.

— Espere. — Sua voz chegava abafada. — Eu tenho luz aqui.

Depois de um instante, uma luz surgiu abaixo da porta. Camilla olhou para dentro do buraco. Anthony estava no fundo, segurando uma lanterna com uma das mãos e olhando para ela. Ao seu lado estava uma escada de madeira robusta, obviamente não mais a relíquia comida pelos vermes na qual os dois se aventuravam quando crianças.

Camilla suspirou. Sabia que uma mulher da sua idade deveria se comportar com mais dignidade. Mas não podia resistir ao canto da sereia daquela escuridão misteriosa lá embaixo. Levantou e enrolou na cintura sua camisola e seu penhoar, prendendo-os firmemente com o cinto do penhoar. com as pernas desobstruídas até os joelhos, rastejou buraco adentro, procurando, com o pé, o primeiro degrau da escada.

O caminho para baixo não era tão longo quanto se lembrava, e logo estava no chão ao lado do primo. Anthony deu um risinho adolescente e ergueu a lanterna, dando a ela uma visão melhor do espaço. Estavam no porão do térreo onde os cozinheiros estocavam os alimentos. Estava vazio agora, exceto por alguns barris apodrecidos.

Anthony seguiu pela passagem baixa na parede, e Camilla o seguiu, lembrando-se de como costumavam explorar o buraco, desenrolando um carretei de linha atrás deles, como Teseu no labirinto, para que pudessem achar o caminho de volta. Havia um emaranhado de outras salas partindo dali, algumas grandes, outras pequenas. Anthony sempre afirmou que, se procurassem bem, encontrariam os calabouços onde os prisioneiros eram mantidos na Idade Média. Nunca os acharam, mas, naquela época, a coragem deles nunca durou o suficiente para ir muito longe.

Camilla imaginava se Anthony havia explorado mais detidamente os porões ao longo dos últimos anos. Parecia algo que ele certamente faria.

— Não me diga que encontrou suas masmorras e suas câmaras de tortura — disse ela, provocando-o ao cruzarem uma longa e estreita sala de teto rebaixado.

— Não — confessou Anthony com um sorrisinho. — Mas. tentei. Acho que nossos antepassados estavam mais interessados em estocar coisas do que em manter prisioneiros.

— Que turma chata.

— É mesmo.

— Anthony... pra onde estamos indo?

— Só um instante. Estamos quase lá. Eu não poderia ir muito longe.

— O que quer dizer?

Entrou em outra sala e virou à direita. Uma outra porta, ainda mais baixa, abriu uma outra sala. Diferentemente dos outros porões, aquela sala não estava escura. Uma ínfima luz dourada a iluminava. Camilla piscou, surpresa. Por que Anthony deixara uma vela ali dentro?

Anthony dobrou-se quase ao meio e atravessou a porta, seguido de Camilla. Ao passar pela porta, pôde ver, num relance, toda a pequena sala. Arfou e levantou-se rapidamente, batendo com as costas no vão da porta.

— Anthony!

Um homem estava deitado no chão à frente deles, ocupando metade do espaço da sala. Estava deitado de costas sobre um cobertor estendido no chão, com um outro cobertor por cima, embora cobrisse somente suas pernas. Um casaco enrolado servia de travesseiro. Estava vestido com roupas grosseiras e escuras. Tinha estatura mediana, pele clara e cabelos encaracolados levemente castanhos. Sua pele estava corada, e havia gotas de umidade na testa e no lábio superior. Os olhos estavam fechados, e ele estava parado, com o peito arfando em busca de ar.

Camilla fitou-o. Embora Anthony tivesse dito que a vida de um homem estava em perigo, ela achou que não passava de exagero. Não havia se preparado para encontrar um homem nos porões, menos ainda alguém obviamente muito doente.

— Anthony, quem é ele? O que está fazendo aqui?

— Não sei quem é. Está aqui porque eu o trouxe. Parecia o lugar mais seguro. Eu o achei na praia, sabe, e não tive coragem de levá-lo pra casa. Aqui era o único lugar perto onde poderia se abrigar.

Camilla avançou e se ajoelhou ao lado do homem. Não era especialista em assuntos médicos, mas ao longo dos anos os pequenos cortes, arranhões e doenças que ocorreram em Chevington Park eram normalmente resolvidos por ela. Lydia nunca teve temperamento para tratar de doenças, e já que os empregados estavam acostumados a procurar a patroa para tratamento, desde os tempos de sua avó, Camilla se encarregou disso após sua morte.

Ela pegou no pulso do homem. A pulsação estava agitada, e sua pele estava ardendo.

— Esse homem está com febre alta, Anthony. Precisa levá-lo a um médico.

— Não. Ainda não. Por favor, Camilla, não pode tentar fazer algo? Vovó sempre disse que você era boa nisso.

— com resfriados, febres leves e tal. O que aconteceu! com ele? Por que esse curativo aqui no ombro?

— Não é o único — disse Anthony, soturno. Desabotoou a camisa do homem, revelando outro curativo em volta das costelas. Levantou a manga da camisa do estranho e mostrou uma outra longa faixa sobre o braço. Camilla reparou vários outros arranhões vermelhos nos braços e mãos, sem curativos.

— Anthony... o que aconteceu com ele?

— Não sei. Eu não estava lá. — Olhou para ela e viu a preocupação em seu rosto. — Não, não pense que estou envolvido nisso. Eu apenas o encontrei outro dia, deitado na praia e sangrando. Me parece que foi esfaqueado. Todos esses arranhões e tudo o mais. O do peito é longo e sem profundidade, como se alguém tivesse tentado enfiar uma faca nele, mas tivesse acertado o osso.

— Por favor. — Camilla engoliu a biles que lhe subiu à garganta com a descrição de Anthony.

— Oh, desculpe. Às vezes me esqueço que você é mulher.

— Bem... obrigada — ela fuzilou-o com o olhar.

— Sabe do que estou falando. Você sempre foi uma verdadeira parceira. — Ele se abaixou do outro lado do homem. — Eu o achei perto de Point, onde existem todas aquelas pedras. Sabe onde é?

Camilla anuiu.

— Estava escondido nas pedras. Só o notei porque Bum- per estava comigo e foi farejando até lá. Fui ver o que estava interessando tanto a ele, e lá estava o sujeito. Estava inconsciente, deitado lá com uma pistola ao lado. Eu a peguei e vi que tinha cheiro de pólvora, então ele obviamente tinha atirado. E também tinha sido esfaqueado. Joguei um pouco de água nele, e ele finalmente despertou.

— Então não esteve assim o tempo todo? Esteve consciente por algum tempo?

— Sim. Não tinha febre quando o encontrei. Tinha somente desmaiado por ter perdido muito sangue. Quando me viu, ficou assustado, mas logo o assegurei que só queria ajudar. Ele viu que eu não lhe queria mal. Me contou que tinha sido atacado. Alguém que estava escondido atrás das pedras pulou em cima dele. Falou que brigaram e que conseguiu sacar sua arma. O sujeito fugiu. Ele atirou nele, mas acha que não acertou. Dei uma olhada em torno, mas não vi nenhuma trilha de sangue, então acho que ele tem razão.

— Anthony! Você fala dessas coisas de modo tão tranqüilo. Seu primo mais novo deu de ombros, e Camilla percebeu,

de repente, que não era mais um garoto. De algum modo, quando ela piscou, ele se tornou um homem, com o corpo de um homem e um rosto que havia visto algo da vida. Ela percebeu, novamente, como seu avô era tolo de mantê-lo preso ali em Chevington Park.

— Bem, já vi alguns cortes antes, e uma vez o primo de Jem... bem, esqueça isso. O negócio é o seguinte: tive de fazer alguma coisa pra ajudar o sujeito. A princípio, não sabia pra onde levá-lo, mas me lembrei da fortaleza e dos porões, e pensei que dariam um excelente esconderijo.

— Não entendo por que não o levou a um médico. Ou pra casa. Nem tia Beryl daria as costas a um homem ferido. E as autoridades deveriam saber que ele foi atacado. Poderiam procurar o homem que tentou matá-lo. Você devia ter ido falar com o juiz. Na verdade, devíamos ir agora falar com ele.

— John Hammersmith? — Anthony deu uma gargalhada breve e insolente. — Você realmente acha que ele seria capaz de lidar com um assassino zanzando livre por aí? Sabe que ele sempre corria pro vovô quando tinha um problema sério. E nunca teve de lidar com algo como uma tentativa de assassinato. Bem, a coisa mais importante que aconteceu aqui foi Boly Baker roubar a galinha da Sra. Runford.

Camilla suspirou. Sabia que aquilo era verdade. O Sr. Hammersmith era um fraco, e ela mesma não depositaria sua vida nas mãos dele.

— Não, acho que você está certo.

— Eu estava com medo que o assassino descobrisse que ele ainda está vivo e em algum lugar por aqui e aparecesse pra terminar o serviço. Seria melhor se o mantivesse em segredo até ele melhorar.

— Mas e... e se ele morrer? — Camilla perguntou, baixinho.

— Eu... não sei. Acho que aí teremos de contar pra alguém. O juiz, acho. Mas ele não vai morrer, Milla. Você não vai deixar.

— Você tem uma admirável fé em mim. Por que não me trouxe aqui assim que o achou?

— Por um motivo. Sabia que você ia fazer uma enorme confusão, como agora. Além disso, na hora, ele não estava com febre. Conseguiu até andar grande parte do caminho até aqui sem ajuda. Achei que se eu fizesse uns curativos nas feridas e o deixasse descansar, ele ficaria bom. Mas acho que o esforço de vir até aqui foi demais pra ele. Eu deveria ter voltado e arranjado um cavalo, mas não quis deixá-lo. Pensei que o assassino poderia decidir voltar à luz do dia e matá-lo. Mas ele perdeu os sentidos antes que eu conseguisse levá-lo até a ponte de terra, então tive de carregá-lo nas costas. Ele acordou uma vez quando eu o estava ajudando, mas estava, obviamente, se sentindo muito mal. Aí, quando reapareci, ele estava com essa febre. Acho que pegou uma infecção. Quando cheguei aqui esta manhã, percebi que teria que pedir sua ajuda.

Camilla olhou o homem ferido, cheia de dúvidas.

— vou tentar. Mas não tenho certeza se posso fazer algo por ele.

Ela abriu a bolsa de suprimentos e deu uma olhada. Pegou um frasco contendo um líquido marrom escuro.

— Você tem um pouco d’água?

Como resposta, Anthony pegou um jarro no canto da sala e abriu uma caixa para retirar um copo. Camilla colocou um pouco de água no copo, e adicionou um pouco do líquido marrom do frasco e mexeu.

— Tudo bem. Agora temos de fazê-lo engolir isso. Você vai ter de me ajudar.

Anthony ficou atrás do homem e ergueu sua cabeça e seus ombros, apoiando-o nele. Camilla encostou o copo na boca do estranho e virou-o, dizendo:

— Beba.

O homem obedeceu. Camilla não estava certa se ele respondia ao comando dela ou simplesmente reagia ao copo em seus lábios. Entretanto, fez uma careta para a mistura amarga e afastou a cabeça.

— Ele tem de beber isso — Camilla disse a Anthony. — É pra febre. Vai ajudar a baixar.

— O que é isso? — Anthony olhou para o copo. — Parece horrível.

— Um preparado de camomila e algumas outras ervas. Era uma das receitas de vovó, e eu fiz um pouco pra Sra. Horton na última vez em que estive aqui. Ela disse que funcionou maravilhosamente bem.

— Tudo bem. vou segurar a cabeça dele. Você entorna. Não foi uma tarefa fácil, mas depois de várias tentativas e com uma boa parte do líquido derramando pela camisa do homem — conseguiram entornar a maior parte do líquido em sua garganta. Camilla fez uma pomada de ervas e água. Retirou os curativos e viu duas feridas vermelhas e franzidas. com o máximo de delicadeza, passou a pomada nelas e recolocou os curativos.

Enquanto trabalhava, conversava com Anthony:

— Ele disse algo mais?

— Muito pouco. Não fiquei aqui o tempo todo, é claro. Você sabe como Purdle e Jenkins são desconfiados. Estão sempre me vigiando, certos de que aprontarei alguma traquinagem. E tia Beryl é quase a mesma coisa, querendo uma explicação a cada vez que não apareço pra jantar. Além disso, acho que o assassino pode estar às escondidas por aí, à espreita, e notaria se eu passasse muito tempo aqui. Portanto, depois que fiz os curativos, deixei uma jarra de água e um pouco de pão e queijo que tinha trazido de Park. Não o vi até a manhã seguinte. Ele estava acordado, mas estava se sentindo muito mal, e eu não quis pressioná-lo. Parecia cauteloso em responder às minhas perguntas. Dava pra perceber que não confiava inteiramente em mim.

— Depois de você salvar sua vida? Anthony deu de ombros.

— Ele tem direito de desconfiar. Afinal, alguém o tocaiou. Ele não sabe, mas eu o salvei apenas por motivos particulares. Perguntei a ele qual era seu nome, mas ele disse que era melhor se eu não soubesse.

Camilla balançava a cabeça enquanto aplicava cuidadosamente a pomada de ervas sobre as feridas.

— Isso é muito misterioso. Anthony, não posso deixar de pensar que está metido em algo que não deveria. Gostaria de ter alguém a quem recorrer.

Anthony concordou.

— Eu também. Pensei em contar pro vovô, mas ele está muito doente. Eu não contaria nada praquele bobalhão do ; primo Harold. E primo Bertram provavelmente diria apenas: ”Oh, meu Deus”, e criticaria o fato de os curativos atrapalharem a linha da camisa.

Camilla sorriu.

— É verdade. E se...

— Não! Não vou contar nada disso pro tal de Benedict — explodiu Anthony. — Ele não é confiável. Nem mesmo sabemos seu sobrenome.

— Mas, se for realmente um fiscal, como você disse, pode conhecer alguma autoridade, talvez, alguém que pudesse fazer alguma coisa sobre isso.

— É mais provável que nos entregasse a todos. Pelo que sei, foi ele que esfaqueou esse homem.

— Anthony! Como pode dizer uma coisa dessa!

— Fácil. Não sabemos nada sobre ele. Talvez seja por isso que estava se esgueirando na noite em que o conheceu. Estava esperando pra emboscar o homem. Você apenas deu a ele um lugar melhor de onde recomeçar, abrindo nossa casa pra ele.

— Benedict não é um assassino.

— Como você sabe?

— Eu sei e pronto. Pensar nisso é absurdo. Por que um fiscal da alfândega sairia por aí esfaqueando pessoas?

— Não sei. Talvez ele não seja fiscal. Talvez seja um contrabandista. Talvez seja o novo líder da organização dos contrabandistas. Talvez tenha matado Nat Crowder também.

— Essa é a coisa mais imbecil que já ouvi na minha vida! — retrucou Camilla, com os olhos brilhando. —- Benedict não é contrabandista nem assassino! Não vou permitir que diga essas coisas sobre ele.

— Se fosse realmente seu marido seria diferente. Nossa... é melhor que ele não seja mesmo contrabandista ou assassino, porque senão, você estaria de fato na sarjeta. E se fosse preso por assassinato, com todo o mundo pensando que ele é seu marido?

— Bem, não pensarão, porque ele não será preso. Ele não é um assassino.

— Não vou correr o risco de entregar o homem pra ele.

— Mas, se for um fiscal da alfândega, ele...

— Camilla! Você não enxerga? Acho que este cara é contrabandista.

— O quê? — Camilla olhou para o paciente e depois para Anthony. — Mas nunca o vi antes. Ele não é das redondezas.

— Não. Mas eu o vi uma noite dessas, quando estava ajudando a descarregar o barco.

— O quê? Como sabe que era ele?

— Ele tem um anel.

— O quê?

Anthony pegou o casaco grosseiro do homem e enfiou a mão no bolso, retirando um cordão amarrado em forma de colar. Um anel de ouro masculino pendia de uma das pontas.

— Oh, meu Deus. — Camilla se aproximou e pegou o anel com uma das mãos, trazendo-o para perto de si. O formato era o de uma serpente engolindo o próprio rabo. Pedacinhos de esmeralda brilhavam no lugar dos olhos. — Parece caro.

— Eu também não diria que ele é um camponês.

— Ele estava usando isso?

— Não na mão. Deve ter percebido o quanto o destacaria em relação aos outros. Mas uma vez, quando se inclinou para pegar um barril, o anel soltou-se de seu peito e eu pude vê-lo. Ele rapidamente o escondeu de volta. É claro que não deu pra ver o formato, mas quando encontrei esse homem com um anel num cordão em volta do pescoço, tive certeza que só podia ser ele.

— Mas por que estava com os contrabandistas? Ele não é daqui. E portava esse anel caro...

— Pode ser um cavalheiro contrabandista.

— Dois no mesmo lugar? — retrucou Camilla, sarcástica. — Acho improvável.

Anthony continuou, um pouco relutante:

— Eu... bem, ele estava no barco quando chegaram à praia. Acho que veio com o conhaque.

— Veio com o quê? Você quer dizer da França? Ele assentiu.

— Quando voltei ontem à noite, ele estava com febre. Estava dormindo, mas balbuciava no sono. Ele disse, bem, não sei o que era, mas acho que falou em francês.

Camilla sentiu como se lhe retirassem o ar. Agachou-se, fitando o primo.

—Ele é francês? Você está dizendo que este homem é um espião?

— Não sei — respondeu Anthony, com tristeza. — Mal pude acreditar quando ouvi. Quando falou comigo, não tinha sotaque francês. Mas tenho certeza que foi francês que ele falou quando dormia.

— Então você tem de denunciá-lo!

— Mas e se ele não for um espião? E se eu estiver errado, e ele for... belga? E deve haver ingleses que falam francês.

— Falam, claro. Eu mesma falo. Mas não balbucio em francês enquanto durmo. Esse é o tipo de coisa que se faz na língua nativa.

— Mesmo que ele seja francês, não significa que seja um espião — continuou Anthony, teimoso.

— O que mais ele seria? Estamos em guerra com eles.

— Talvez estivesse fugindo da França. Ou seja inimigo de Bonaparte, ou talvez Bonaparte tenha tentado prendê-lo, digamos, e teve de fugir. Isso explicaria estar com os contrabandistas. Ele os pagou pra trazê-lo com a carga.

— Ele poderia tê-los pago da mesma forma se fosse um espião. Isso não prova nada. Anthony, isso é horrível. — Olhou de volta para o homem. — Não podemos deixá-lo ficar livre por aí na Inglaterra, não importa quanta pena tenhamos dele.

— Não acho que ele vai ficar andando por aí em nenhum lugar, pelo menos não em pouco tempo.

O paciente parecia inegavelmente desamparado naquele momento. Camilla hesitava. Parecia desumano entregá-lo às autoridades no estado em que se encontrava, fraco e doente. Se o entregassem, quem quer que seja que tentou matá-lo antes saberia exatamente onde estaria e poderia tentar novamente. E Anthony estava certo ao dizer que o juiz não daria ajuda e muito menos proteção ao homem. Oh, ela queria tanto pedir um conselho a Benedict! Não parou para se perguntar por que deveria confiar tanto na opinião de um homem que conhecia há apenas alguns dias.

— Não há, inclusive, nenhum motivo para prenderem ele — salientou Anthony. — Tudo o que sabemos que aconteceu foi ser atacado. Então, talvez nem o coloquem na cadeia. Ainda continuaríamos cuidando dele em casa, provavelmente, só que todos saberiam.

Anthony podia ver que fazia progresso, então prosseguiu, bajulador:

— Por favor, Milla. Vamos só ver o que acontece, como ele fica. Nesse exato momento, nem podemos ter certeza se vai sobreviver pra ser denunciado. E pode ser que, se ele se recuperar da febre, nos conte tudo sobre si e como chegou aqui. Deve haver uma explicação para o fato de ele falar francês.

—Tudo bem. —Camilla suspirou e levantou-se. Tinha terminado de refazer os curativos do homem. — Já fiz tudo que podia por ele. Essa pomada deve ajudar as feridas. Ele vai ter de tomar essa bebida para febre periodicamente, de qualquer jeito. Pode tomar conta dele? Não posso perder o dia inteiro, ou todos vão desconfiar. Principalmente Benedict.

Anthony anuiu.

— Sim. vou levá-la de barco para a terra firme e depois vou voltar e ficar com ele por hoje. Só vou trancar a porta do meu quarto e falar que estou doente. Você vai voltar mais tarde, com a maré baixa?

Sim. vou dar uma escapada esta tarde para ver como ele está. — Ela suspirou, lançando um último olhar para o homem. — Promete que vai ficar armado enquanto estiver com ele?

Seu primo revirou os olhos.

Francamente, Camilla! O homem está tão fraco que mal pode erguer a mão. O que acha que ele pode fazer comigo?

— Não sei. Só sei que ele é provavelmente francês, talvez um espião, e que ninguém sabe que está aqui exceto você e eu. É uma situação perigosa. Se não tiver o bom senso de ter cuidado, eu terei de...

— Tudo bem, tudo bem... — Anthony, de brincadeira, tapou sua boca, rindo. — Prometo que estarei sempre armado perto dele. E vou vigiá-lo como um falcão. Também não pretendo deixar um espião francês solto pelo país. Agora, vamos. — Abraçou-a e conduziu-a até a porta. — É melhor você ir pra casa.

Assim que chegaram em casa, Camilla correu para seu quarto, enquanto Anthony passou pela cozinha e pelo quarto em busca de suprimentos para seu dia na fortaleza. Camilla ficou desapontada de não achar Benedict no quarto, pois esperava conseguir voltar para a cama sem que ele notasse.

Em vez disso, vestiu-se e desceu para a sala de jantar. Detestava ter de mentir para Benedict, e queria encerrar aquela história o mais rápido possível. Parou na entrada, olhou para dentro, e ficou aliviada de ver que ele estava tomando o caféda-manhã sozinho. Forçando um sorriso, adentrou a sala.

— bom dia, Benedict.

Ele se virou ao ouvir as palavras e levantou-se, as sobrancelhas rigorosamente erguidas.

— Onde diabos você esteve? Estava começando a me preocupar.

Suas palavras a pegaram de surpresa. Estava preparada para a curiosidade, mas não para a preocupação.

— Não precisava, eu estava com Anthony. Deu um olhar significativo para ela.

— Ah, me alivia bastante a mente. Camilla deu um risinho.

— Anthony me protege muito.

— Tenho certeza. — Benedict puxou uma cadeira para Camilla de maneira pouco gentil e acenou para que se sentasse. — Onde esteve?

— Saímos cedinho pra uma caminhada pela propriedade Fazemos isso sempre. — Camilla não conseguia encará-lo enquanto contava a mentira, e ficou contente com a distração do serviçal trazendo-lhe um prato de comida do aparador.

— Sem me contar? Atitude educada para uma esposa, não acha? — perguntou suavemente.

Camilla fitou-o, perplexa. Aproximou-se e sussurrou:

— Mas não sou de fato sua esposa, não é? Por um momento, ele pareceu confuso, mas então, também se aproximou e sussurrou de volta:

— Concordamos em fazer tudo parecer real. Senão, você pode cometer um deslize.

—Eu posso! — retrucou Camilla. — Você, jamais, é claro,

Ele levantou uma sobrancelha para ela, sentou-se e voltou a comer. Por alguns instantes, a sala ficou imersa num silêncio pesado.

A tranqüilidade forçada estava começando a pesar nos nervos de Camilla quando Benedict se aproximou novamente e sussurrou:

— Não acha que seu penhoar é um traje um pouco, digamos, informal demais para um passeio na propriedade?

Camilla olhou para ele surpresa e encontrou seu olhar suave. Sentiu seu rosto enrubescer.

— Como sabe que...

— Eu estava olhando pela janela — procurando você — e a vi voltando com Anthony — ele explicou.

Camilla lutava para não demonstrar sua culpa. Tentou se lembrar de como era exatamente a vista de seu quarto. Ele não conseguia ver até o oceano, então não deve ter visto ela e Anthony atracando o barco.

— Bem, uhm, sabe, algo aconteceu. Por isso Anthony veio me buscar. Precisava de ajuda. — Teve um ataque de inspiração. — Ajuda médica.

— Um médico talvez fosse uma opção melhor que você.

— Oh, não. Era a velha Nan Gandy. A viúva de um dos inquilinos de vovô. Ela vive numa pequena chácara do outro lado da floresta. Estava doente e não queria ir ao médico de jeito nenhum. Nem mesmo se Anthony o levasse. Tem medo de médicos e está convencida de que têm mais chances de matá-la do que de curá-la. Nunca confiou em ninguém para lhe dar remédios, exceto na vovó. Ela era bem conhecida na área, sabe, como curandeira. Sabia um bocado sobre ervas, e sempre cuidou dos serviçais e dos inquilinos. A velha Nan acredita que herdei seu dom, embora, na verdade, eu tenha herdado somente sua bolsa de remédios e suas receitas.

— Entendo. Então Anthony a estava visitando de madrugada, descobriu que ela estava doente e veio pegar você?

— Oh, não. — Ele tinha de descobrir imediatamente o furo na história. — O sobrinho-neto de Nan veio me pegar. Ele só, bem... encontrou Anthony, por acaso. Anthony, sabe, tinha saído pra um passeio matinal. Ele gosta disso. E disse pra ele que me levaria até a chácara.

— Você deve ser bastante dedicada aos inquilinos, ao ponto de saberem que podem retirá-la da cama de madrugada para cuidar deles.

— Normalmente não fariam isso, é claro, mas ela estava muito doente. com febre. Estava desatinada. Eles estavam bem assustados.

— Ah, o tempo era crucial.

Camilla assentiu. Ocorreu-lhe, assim que disse isso, que sua história havia chegado a uma posição insustentável. Se a família tinha vindo às pressas em plena madrugada em busca de sua ajuda, a coisa mais natural teria sido cavalgar até a chácara de Nan, e não caminhar. Imaginou se Benedict perceberia a contradição. Ele não disse nada, mas seu olhar si- lencioso e firme a deixou nervosa.

— Nós andamos — disse ela — porque realmente não é tão longe e... a floresta é densa demais. Não seria muito mais rápido a cavalo, ainda mais com o tempo que perderíamos tendo de acordar os cavalariços e selar o cavalo e tudo o mais.

— É claro.

Camilla percebeu que estava falando demais. Teria sido melhor não dizer nada do que tentar explicar algo que nem mesmo havia sido perguntado. Normalmente ela era melhor do que isso quando se tratava de inventar histórias. Mas achou extremamente difícil olhar para Benedict e mentir.

Desejou, com uma súbita e intensa agonia, que pudesse lhe contar a verdade. Sentia-se confusa e ambígua, e tinha muito medo de Anthony ter perdido a cabeça nessa aventura, Assim como Anthony, também queria proteger o homem ferido, impedir que seu suposto assassino o encontrasse, mas, por outro lado, tinha medo de estarem ajudando e se tornan- do cúmplices de um inimigo da Inglaterra. Além disso, também havia perigo no homem que o atacara. E se estivesse à procura dele! E se descobrisse onde o estavam escondendo e o atacasse de novo? Pensou em Anthony sentado sozinho com aquele homem nas ruínas e sentiu um aperto no peito.

Seus sentimentos devem ter se estampado no rosto, pois Benedict disse, de repente:

— O que foi? Qual é o problema? Ela olhou para ele, surpresa de ver preocupação em seus olhos. Queria muito lhe contar suas angústias, depositar todo o fardo em seus ombros largos e deixar que ele lidasse com Anthony, o estranho ferido e o homem que havia tentado matá-lo. A idéia de descansar a cabeça em seu peito e descarregar toda a história pareceu bastante atraente. Podia quase sentir seus braços envolvendo-a, podia quase ouvir sua voz profunda dizendo para não se preocupar, que ele cuidaria de tudo.

Camilla suspirou. Não podia fazer isso. Acreditava, cada vez mais, que Anthony estava certo, que Benedict era um fiscal da alfândega. Estava claro que não era o ladrãozinho que aCreditara que fosse, a princípio. Seu discurso, suas maneiras, suas atitudes eram as de um cavalheiro — sem falar na história de sua noiva e da rejeição quando ele foi desbancado por um novo herdeiro. Ele não havia recebido a herança, é claro, mas isso mostrava que ele era um membro da família com bens suficientes de que dispor. Então por que o filho de um cavalheiro, mesmo desprovido de riqueza, toleraria ouvi-la dizer que ele era um ladrão, ou participaria de sua charada? Talvez a necessidade de dinheiro o tenha deixado tão desesperado... ou talvez estivesse engajado em algum empreendimento secreto, tal como caçar contrabandistas.

Seu problema, ela disse para si mesma, era que havia começado a acreditar em sua própria história. Às vezes, encontrava-se pensando que Benedict era, de fato, seu marido. Isso a fez acreditar, erroneamente, que podia confiar nele, contar com ele. Não ousava fazê-lo. Não podia depositar o destino do estranho, menos ainda o de seu próprio primo, nas mãos dele. Se o deixasse saber do segredo de Anthony, ele acabaria descobrindo sobre o contrabando também, e aí toda a família estaria em sérios apuros. Não podia deixar isso acontecer simplesmente por fraqueza.

Então, quando ele a olhou com preocupação e perguntou qual era o problema, Camilla endireitou os ombros e forçou um sorriso.

— Não é nada — disse alegremente. — Nada mesmo.

Ela estava mentindo. Benedict franziu o cenho enquanto mandava o cavalo seguir adiante. O animal respondeu à sua perícia, assim como à raiva que o acometia, e disparou estrada afora.

Teria sido óbvio que Camilla estava mentindo para ele mesmo que não a tivesse avistado indo na direção da Ilha da Fortaleza com seu primo. Não conseguia encará-lo, e sua voz estava rápida e nervosa. Explicações que ele sequer havia solicitado saltavam de sua boca. Estava mentindo sobre onde estivera e por quê. E estava mentindo quando dissera que não havia nada de errado. Por quê? Por que não confiava nele ?

Desejou pressioná-la sobre o assunto, mas algum resquício de bom senso o impediu. Não podia parecer muito interessado em Anthony ou no que estava acontecendo em Chevington Park. Ela achava que ele era uma parte desinteressada, um estranho a tudo o que acontecia. Não podia arriscar que ela desconfiasse dele, parecendo preocupado demais ou descrente demais em sua história.

Entretanto, ficou irritado por ela não lhe pedir ajuda — pior ainda, por olhá-lo como alguém para quem devesse mentir. Tinha certeza de poder ajudá-la, se ao menos lhe contasse qual era o problema. Benedict não considerou o fato de ela não fazer a menor idéia de quem ele realmente era ou quanta influência e poder possuía. A questão era: ela não lhe pediu ajuda.

Ficou de péssimo humor a manhã toda, desde o instante em que a viu se esgueirando para a ilha com o primo.

Benedict preferia explorar a Ilha da Fortaleza, ver se achava o que havia atraído Camilla e Anthony para lá. Entretanto, já tinha o compromisso de encontrar Sedgewick. Os dois combinaram o encontro antes de ele ir para Chevington Park com Camilla, para que Sedgewick pudesse ficar informado do que quer que Benedict descobrisse em Park. Não poderia ser facilmente cancelado.

Quando alcançou a clareira onde combinaram de se encontrar, seu amigo já estava lá, sentado numa pedra, à sua espera. Enquanto Benedict desmontava e amarrava seu cavalo a uma árvore, Sedgewick aproximou-se da clareira, sorrindo para ele.

Saudou Benedict com um caloroso ” Olá”.

Benedict resmungou uma resposta ininteligível.

Sedgewick ergueu um pouco as sobrancelhas, mas continuou.

— A encenação ainda está de pé?

— Está.

Benedict imaginou se Sedgewick ouvira na aldeia que ele estava supostamente casado com Camilla. Sabendo como as fofocas correm nas cidades pequenas, suspeitava que já era de conhecimento geral em Edgecombe que a Srta. Ferrand estava casada com ele, não apenas noiva. Mas não tinha certeza se Sedgewick, sendo um forasteiro, teria ouvido tais notícias. Desejou que não.

Apenas Jermyn saberia com certeza que o casamento era uma farsa e que, por isso, a honra de Camilla estava despedaçada. Obviamente, Jermyn não é o tipo que espalha tais notícias; não havia ninguém em quem Benedict confiasse mais. Mesmo assim, desejou que ninguém soubesse o quão intensamente em risco estava a reputação dela.

Suas esperanças foram imediatamente destroçadas, todavia, quando Sedgewick continuou:

— Que história é essa que ando ouvindo? A mocinha de Park tem um marido!

Benedict revirou os olhos.

— Sim. é uma enorme confusão. A mocinha em questão tem uma tia desmiolada que decidiu embelezar a história original da Srta. Ferrand, contando pra todo o mundo que Camilla havia se casado. Portanto, sou o marido fictício.

— Extraordinário. Mas tenho certeza que vocês conseguiram dar um jeito.

— Até agora, mas só se passaram alguns dias. — Benedict ficou um pouco surpreso ao se conscientizar do fato. Parecia que vivia com Camilla há séculos. — Se a mentira for descoberta, a Srta. Ferrand estará em apuros. E tudo por causa do seu esqueminha — levantou as sobrancelhas para Sedgewick.

— Não olhe pra mim com essa cara. Como poderia saber que o noivo tinha sido promovido a marido?

— Não poderia. Mas deveria saber que sempre existe alguma coisa que não dá certo nesses planos loucos.

— Nem sempre. Tivemos sucesso em alguns, você e eu.

Benedict sorriu levemente às palavras do amigo.

— Acho que sim.

— Você parece cansado. — Havia preocupação na voz do amigo. — O simulacro o está desgastando tanto assim?

— Você também ficaria cansado se tivesse ficado acordado metade da noite e depois passado a madrugada perseguindo...

Benedict parou, percebendo, com surpresa, que não queria contar para Sedgewick sobre sua perseguição a Camilla e seu primo naquela manhã. Jermyn provavelmente tiraria uma conclusão errada, por não conhecer Camilla e Anthony como ele. Por mais tolos que fossem, Benedict estava certo de que não poderiam estar envolvidos em algo mais grave do que contrabando. Não quis revelar o passeio suspeito à Ilha da Fortaleza até que tivesse certeza de poder manter suas reputações intactas. Ocorreu-lhe que começava a pensar como um marido, não um estranho, mas enxotou o pensamento. Qualquer cavalheiro faria isso, pensou consigo mesmo.

Sedgewick olhou para ele, confuso.

— Perseguindo o quê?

— Ah, nada. Pensei que tivesse uma pista, mas não era nada. Apenas uma das brincadeiras dos primos de Camilla.

— Então por que ficou acordado metade da noite? Procurando contrabandistas?

Benedict percebeu que queria menos ainda discutir o que o mantivera acordado.

— É o maldito sofá em que durmo.

— Sofá! Quer dizer que nem ao menos lhe deram uma cama?

— Fiquei no quarto de Camilla. Eu lhe disse, eles pensam que somos casados. Tenho de dormir em um sofá no quarto, e se contar isso pra mais alguém, juro que...

Sedgewick afastou-se, erguendo as mãos e fingindo estar com medo.

—Eu lhe asseguro. Não falarei com ninguém. O que o faz ] pensar que eu falaria?

— Oh, sei que não falaria. Só que essa droga é uma encrenca enorme. Me sinto responsável pela moça, mesmo sendo tão boba ao ponto de deixar que você a envolvesse nessa bagunça.

— Na verdade, Benedict...

— E o casamento não é a pior parte — continuou Benedict, tomando fôlego enquanto rememorava seus sofrimentos. — A maldita casa está cheia de gente — tias e primos e visitantes. Nem passou pela minha cabeça ter de encenar pra tanta gente. Um dos caras insiste que me conhece.

— O quê? Quem?

— O primo de Camilla, Bertram.

— Bertram Elliot? Um janota?

— De primeira ordem.

— Eu o conheço. Um completo joão-ninguém. — Sedgewick desprezou-o. — Não lhe trará problemas. Ele se preocupa mais com o corte do terno do que com assuntos de estado.

— Mas é muito interessado em fofoca, eu garanto, e em posição social. E se o sujeito se lembrar quem sou?

— Tem razão. Se ele tiver de se lembrar de algo, será a aparência de alguém, ou seu alfaiate, ou em que festa o conheceu.

— Não me recordo de tê-lo visto antes. Mas estarei perdido se ele se lembrar de mim. — Pensou, de repente, em como Camilla reagiria se seu primo, sem mais nem menos, anunciasse que Benedict era Lorde Rawdon. Suspeitava que não seria agradável se ela descobrisse que ele a enganara esse tempo todo.—Bertram também tem um amigo, um tipo bem quieto. Os serviçais dizem que ele ”não é um cavalheiro”.

— É mesmo? — Sedgewick empertigou-se. — Os serviçais sempre sabem. Julgam melhor que um duque. Por que acha que alguém que ” não é um cavalheiro” anda pelo campo com Elliot?

Benedict deu de ombros.

— Não sei. Talvez seja apenas um parasita, e Bertram não perceba que não é da nobreza. Talvez Bertram não ligue porque o sujeito seja bem divertido, mas não creio. Oglesby nunca abre a boca, ao passo que Bertram fala o tempo todo. Ontem me encurralou no corredor por dez minutos perguntando minha opinião sobre seu colete. Uma coisinha listrada bem asquerosa.

— Nossa... — Sedgewick tremeu só em pensar. — Quem mais está lá?

— Mais primos. Duas garotas, irmãs de Bertram. O vis- conde de Marbridge, herdeiro do conde, é o primo Anthony. E um poeta que parece que grudou nas saias da viscondessa. Ela também está lá; é a cabeça de vento que inventou a história do ” marido”. E, é claro, a mãe de Bertram.

— A temível tia Beryl?

— A própria. Tem ainda o próprio Chevington, que pode estar na cama, mas continua mais esperto que a maioria dos homens. O tutor do visconde. Não o encontrei ainda, mas garanto que é ocupado demais tentando manter Anthony estudando pra poder tramar a destruição de Gideon. Pior de todos, um pároco aparece com uma certa freqüência. Um irmão de Bertram chamado Harold, cujo avô lhe deu a paróquia local, um tédio só. Felizmente, foi bem incisivo ao falar dos contrabandistas. Infelizmente, estava mais preocupado com a imoralidade da prática do que com os detalhes. Devo dizer que ninguém em Park parece ter o perfil de um espião.

— Dificilmente poderíamos contar com a sorte de encontrar nosso homem bem na casa do conde. — Sedgewick parou, depois cutucou: — E então? Descobriu algo útil?

— Estou lá há poucos dias — protestou Benedict. Mais uma vez, mal podia acreditar quão pouco tempo tinha se passado. Parecia muito mais, principalmente durante as longas noites em que ficava acordado pensando em Camilla deitada na cama ao lado. Aquelas horas foram intermináveis.

— Entendo. Mas você sabe que temos pouco tempo. Temos de descobrir quem está fazendo isso com nossa organização!

— Não precisa me lembrar — rosnou Benedict. — Tudo bem. Conversei com o conde. Ele me disse que está preocupado com o que está acontecendo na área. Está especialmente preocupado com a morte de Nat Crowder. — Resumidamente, explicou quem tinha sido Nat Crowder e como havia morrido.

— É claro. Maneira fácil de prosperar numa organização contrabandista. Livrar-se do líder e tomar o poder. Isso explica muita coisa. Deve ter sido com Nat Crowder que Lorde Winslow estava trabalhando.

— com Winslow e Nat mortos, não restaria mais ninguém que conhecesse a organização de espiões. Os moradores locais são contrabandistas pura e simplesmente. — Benedict esperou um instante e acrescentou: — Lorde Chevington me pediu pra investigar.

Os olhos de Sedgewick se arregalaram.

— Não está falando sério. O velho conde em pessoa lhe confiou essa tarefa?

Benedict concordou.

— Sim. Ficou bem mais fácil interrogar os serviçais. Os moradores locais também. vou pra cidade conversar com alguns deles quando sair daqui.

— Mas isso é perfeito. Devemos agradecer a Deus pela Srta. Ferrand. Jamais poderia ter pensado em um esquema melhor.

— É ótimo pra nós, mas e pra eles? Sinto-me pior que um porco por me aproveitar do conde dessa forma. Ele confia em mim. Acredita em mim. E eu o estou usando.

Sedgewick franziu o cenho, parecendo confuso.

— Ele não sofrerá nada. Você não vai prejudicá-lo. Está simplesmente fazendo o que lhe pediu, o que queria que fosse feito.

Benedict pensou em Anthony, e na suspeita de Jenkins de que o garoto estava metido com os contrabandistas. Duvidava que Sedgewick pensasse que estava prejudicando Chevington tão pouco se soubesse que sua investigação poderia instaurar um escândalo envolvendo o herdeiro do condado.

— O boato é que o homem que procuramos é um ”cavalheiro” — disse Benedict, abruptamente.

— O quê? — Sedgewick aprumou-se, seus olhos pálidos subitamente intensos. — Está falando sério? Mas isso se encaixa perfeitamente nas nossas suspeitas anteriores de que Winslow foi morto por um conhecido. Por que pensam que é um cavalheiro?

— Dizem que é culto e fala bem. Aparentemente, fala sempre de modo grosseiro, mas alguns pensam que é falso. Foi o que ouvi do valete.

— Então teríamos de retirar o amigo de Bertram da lista, já que os serviçais acham que ele não é um cavalheiro.

Benedict deu de ombros.

— Ou talvez signifique apenas que eles reconhecem que ambos os papéis são falsos. Talvez o homem verdadeiro não seja nem Oglesby nem um contrabandista rude, mas um meio termo, alguém que saiba como representar ambos os papéis, embora não seja convincente em nenhum dos dois.

— Um ator, talvez. Ou um instrutor de dança, um tutor, algo do tipo.

— Ou um trapaceiro.

— Exato. Winslow poderia ter voltado para casa com alguém assim vindo de um antro de jogo. Ele gostava de jogar. Poderia ter pensado que seu parceiro fosse um cavalheiro, alguém que seria bem-vindo em sua casa, principalmente se estivesse um pouco bêbado.

Benedict suspirou.

— Mas não passam de suposições. Não sei nada substancial.

— Nenhum sinal de atividade na praia? Benedict balançou a cabeça.

— Ainda não faz muito tempo desde o último carregamento. Tenho de esperar mais.

Pensou na perspectiva de partilhar um quarto com Camilla por vários dias ainda, talvez semanas, e a idéia quase o fez gemer. Tinha certeza que não agüentaria tanto tempo.

— Droga! — Jermyn começou a andar, o cenho franzido. — Não podemos gastar tanto tempo aqui. Preciso ir para Londres. E não podemos abandonar nossa rede. Precisamos informá-los se há um espião francês infiltrado entre os contrabandistas. Não podemos permitir que mais ninguém seja morto.

— Eu sei. Talvez eu deva encerrar a encenação. Talvez já tenha conseguido o que posso aqui. Poderia fingir que fui chamado em Bath. Já fiquei aqui tempo suficiente pra satisfazer os propósitos de Camilla.

Enquanto pronunciava as palavras, Benedict sabia que não queria ir embora. Por mais insuportável que fosse dormir no mesmo quarto que Camilla, a idéia de não vê-la mais o deixou doente, como se tivesse sido golpeado no estômago. Além do mais, não podia simplesmente abandoná-la no meio do apuro em que seu primo patife a havia envolvido. Tinha de destrinchar o mistério e tirar Anthony da organização contrabandista, se era nisso que ele estava realmente envolvido.

— Não. Vamos continuar por mais alguns dias. Temos de descobrir o que está acontecendo.

— Por que não volta para Londres? — Benedict virou-se para o amigo. — Você é muito mais necessário ao governo do que eu. Pode dar continuidade à investigação sobre quem matou Winslow lá. E — acrescentou, ao ver que Sedgewick abria a boca para protestar — pode me ajudar descobrindo informações sobre as pessoas que estão visitando Chevington Park. Se a pessoa que procuramos está lá, deve haver alguma fofoquinha que possa ajudar. Que, digamos, um deles esteja bastante necessitado de dinheiro, ou cuja mãe é francesa, ou tem uma amante que talvez o esteja chantageando. Qualquer coisa que indique a possibilidade de estar se vendendo ao inimigo.

— Sim, é claro. — Sedgewick concordou efusivamente. — É uma excelente idéia. — Procurou nos bolsos até encontrar um pedaço de lápis e um papel dobrado em que pudesse escrever. — Então, quais são os nomes? Terence Oglesby, você disse?

— Sim.

Lentamente, Benedict listou os nomes de todos que estavam na casa, até mesmo tia Beryl e suas duas filhas risonhas.

— Muito bom — disse Sedgewick, dobrando o papel e guardando-o no bolso. — Então, vou pagar minha conta na taberna e seguir para Londres esta tarde. Deus, tem sido horrível ficar sentado sem fazer nada. — Virou-se e estendeu a mão para Benedict. — Avisarei assim que retornar. Enquanto isso, cuide-se. Não quero que nada aconteça a você.

— vou tomar cuidado — prometeu Benedict. Não acrescentou que estava menos preocupado em ser descoberto pela figura obscura que estavam tentando desmascarar do que em sobreviver mais alguns dias dormindo no quarto de Camilla sem enlouquecer.

Benedict passou o resto do dia conversando com diversas pessoas na cidade; pessoas que Purdle e Jenkins lhe haviam assegurado serem confiáveis, incluindo o dono da taberna, que o saudou com um amplo sorriso e quis saber por que Benedict não havia dito que era o marido da jovem senhorita quando lá estivera anteriormente.

Embora os aldeões estivessem dispostos a se abrir com ele, agora que tinha a bênção do velho conde, continuavam de pouca serventia. Todos juravam não saber nada sobre o novo líder dos contrabandistas, além do boato de que era educado.

Também foi ver Evans, que Jenkins apontara como o capanga do novo líder dos contrabandistas. Ele era, como dissera Jenkins, um tipo bêbado e bastante idiota. Apesar de ainda ser de tarde, já fedia a álcool. Benedict casualmente lhe fez as mesmas perguntas que fizera aos outros aldeões, mas no lugar das boas maneiras dos outros, esse homem permaneceu reservado e silencioso, com os braços cruzados e encarando Benedict, impassível, com seus olhos miúdos de suíno. Apenas ele, entre todos os habitantes da aldeia, não demonstrou simpatia pelo conde, e se recusou a responder a qualquer pergunta de Benedict, sempre dizendo que ”não sabia de nada”.

Benedict voltou para casa sentindo-se exausto e derrotado. Conseguira poucas informações na aldeia. Parecia não estar chegando a lugar algum em sua busca pelo agente francês. E Camilla estava envolvida em algum ardil qualquer do qual ele, provavelmente, teria de resgatá-la, sem que ficasse nem um pouco grata por isso.

Benedict deixou escapar um suspiro e mexeu-se um pouco na sela. Escurecera. Desconfiava que chegaria tarde demais para o jantar em Chevington Park. Quem sabe tomasse um longo banho e depois tirasse uma soneca na cama de Camilla. Quase não dormira na noite anterior, e sua coluna parecia permanentemente torcida pelas seguidas noites no sofá.

Ficou satisfeito por não encontrar ninguém no quarto de Camilla, quando entrou. Aparentemente, ela já descera para o jantar. Aproveitou a solidão com um longo e quente banho. Finalmente, saiu da banheira, o corpo ainda esfumaçado pela água quente, e se secou. Após se empanturrar com um robusto lanche frio que a cozinheira mandara a seu pedido, caiu na cama de Camilla e adormeceu instantaneamente.

Foi assim que Camilla o encontrou mais tarde, quando voltou ao quarto. Depois do chá naquela tarde, atravessara a ponte de terra até a Ilha da Fortaleza levando consigo algumas coisas que furtara da bandeja do chá para Anthony. Acontecera um incidente constrangedor, quando Bertram olhou para ela no exato momento em que colocava um pedaço de bolo em seu espaçoso bolso. Lançou-lhe um olhar bizarro, mas felizmente não disse nada.

O estado de saúde de seu paciente tinha mudado pouco. Refez os curativos e lhe deu outra dose do remédio, depois correu de volta para casa, com medo de ter passado tempo demais na ilha e de Benedict questioná-la por isso. Tinha, de fato, perdido o jantar, mas pelo menos Benedict não ficaria imaginando o motivo. Parou dentro do quarto, fitando o físico de Benedict, esparramado na cama. Seu coração se acelerou.

Fechou a porta com delicadeza e foi em direção à cama na ponta dos pés. Parou ao lado da cama e ficou olhando para ele. Estava deitado de costas, braços e pernas escancarados, como um bebê confiante. Seu cabelo ainda estava molhado, e ele tinha a aparência suave e úmida de quem acabou de tomar banho. Seu odor se misturava ao do sabonete e ao leve aroma de lavanda que sempre ficava nos lençóis.

Adormecido e indefeso, parecia ainda mais atraente. Os lábios bem delineados estavam levemente afastados; as longas e escuras pestanas colavam-se às bochechas, dando-lhe uma aparência vulnerável. Os olhos de Camilla viajaram do rosto para o pescoço, observando a pulsação na cavidade, seguindo pelo afloramento da ossuda clavícula até o amplo par de ombros. O lençol estava abaixo do tórax, revelando apenas os ombros nus.

Camilla aproximou-se, ouvindo sua respiração uniforme, observando seu rosto em busca de sinais de consciência. Sem conseguir conter a curiosidade, enfiou o dedo por debaixo do lençol e puxou-o para baixo, expondo a vasta extensão de seu tórax.

Olhou para os pêlos escuros e encaracolados que salpicavam seu peito, descendo em forma de V até o umbigo, para os mamilos rosados e para o firme feixe de carne musculosa ao longo das costelas. Era, pensou ela, um perfeito espécime masculino.

Sua mão, aparentemente por vontade própria, foi na direção dele. Mas ela a puxou rapidamente, prendendo-a atrás dela. Parou por um momento, observando sua respiração uniforme. Os olhos foram mais para baixo, onde a brancura do lençol e da coberta contrastava com a carne nua e bronzeada. As roupas de cama esticavam-se ao longo do abdômen abaixo do umbigo, pousando na protuberância aparente da pélvis. O poço do umbigo estava exposto, assim como a fina faixa de cabelo abaixo.

Imaginou que ele talvez estivesse nu embaixo do lençol. Afinal, não havia sinal de roupa até a cintura. Não era decente um homem dormir assim, disse para si mesma. Não se surpreendia com os pensamentos estranhos e proibidos que lhe invadiam a cabeça.

E não podia evitar a curiosidade, pensou Camilla. Ele nunca saberia; estava dormindo profundamente. É claro que ela sabia que essa não era a questão. A coisa mais importante era a privacidade, e agir como uma mulher respeitável e decente.

Ela se aproximou ainda mais. Seu rosto queimava de ver- gonha, mas não conseguia evitar que sua mão fosse cada vez mais para perto dele, até que, finalmente, a ponta dos dedos tocou as cobertas. com o mais delicado dos toques, mal ousando respirar, abaixou as cobertas, descobrindo o corpo nú até as poderosas coxas.

O fogo em seu rosto aumentou. Olhava, hipnotizada, sem poder desviar os olhos. Fitava seu abdômen rígido, as declividades e as curvas dos músculos, dos ossos e da pele. Olhava para a densa musculatura das coxas, macia abaixo da pele áspera e peluda. Mas, principalmente, fitava o que estava entre suas pernas: o ninho de pêlos densos e negros, e o órgão masculino no meio, grosso e pesado. Então era essa a aparência de um homem?

Camilla conteve a respiração. Jamais imaginou que fosse assim. Embora nunca admitisse, sabia que já pensara no assunto várias vezes. Não sabia o que esperava exatamente, mas a realidade era diferente... e muito mais poderosa. Enquanto observava, ele fez um ruído durante o sono e se virou na cama. Os olhos dela se fixaram na suave linha da cintura e das coxas, na curva das nádegas. Sem pensar, esticou o braço e levou os dedos até a macia faixa de pele. Os dedos tremeram; estava espantada com o calor do corpo dele, e com o choque de prazer que subiu por seu braço ao tocá-lo.

Sabia que deveria retirar a mão, mas não conseguia. Espalmou as nádegas, inebriada pela textura diferente. Seria ele todo tão diferente, tão prazeroso ao toque?

Camilla levou a mão até a lateral do corpo, ignorando as batidas do coração e os frenéticos avisos de seu cérebro. Só um pouquinho, disse para si mesma. Só mais esse toque. Levou a mão acima, explorando a maciez da lateral, depois os rígidos sulcos das costelas. A pele do peito já não era tão macia, mas polvilhada de pêlos, a firmeza do músculo por baixo. Seu polegar deslizou por sobre o pequeno mamilo e, para sua surpresa, a carícia o enrijeceu.

Parou, olhando o botão rosado, lembrando-se de como seu próprio mamilo endurecera em resposta a Benedict outro dia. Carinhosamente circulou o botão de carne com o polegar, adorando a resposta. Não percebia o leve sorriso sensual em seu próprio rosto.

— Mova a mão mais pra baixo e nós dois sorriremos — sua voz penetrante despedaçou os pensamentos de Camilla.

Ela arfou e retirou a mão, olhando para Benedict. Ele a observava, os olhos escuros flamejando com um brilho pecaminoso. O rosto de Camilla foi inundado pelo rubor da humilhação, e, com um grito estrangulado, ela correu para a porta.

Num instante, ele se levantou da cama e foi atrás dela. Alcançou-a antes que chegasse à porta, abraçando-a por trás.

— Não. Não saia. Deus meu, você não pode ir embora depois disso!

Camilla gemeu e cobriu o rosto com as mãos. Sabia que jamais superaria aquilo. Não conseguiria nem mesmo encará-lo novamente. Já fizera coisas embaraçosas na vida, mas nada desse tipo.

— Deixe-me ir! — gritou ela, numa voz baixa e contida, tentando se livrar do abraço.

— Shh. — Ele enterrou o rosto em seu cabelo, beijando-a. — Está tudo bem. Não vá. Não me deixe.

A respiração dele estava acelerada, e havia um tremor em sua voz baixa. Beijou seu pescoço, e a mão começou a acariciar a barriga dela. Camilla arrepiou-se, incapaz de esconder que estava adorando. Até mesmo o som da respiração dele a excitava. Mal podia acreditar que conseguia se sentir assim no auge da humilhação, e o fato de responder de modo tão excitado e tão selvagem parecia embaraçá-la ainda mais.

— Não me importo com o que fez — disse-lhe Benedict, tão perto que ela conseguia sentir o ribombar de sua voz no peito enquanto ele falava. Podia imaginar seu sorriso presunçoso enquanto prosseguia: — Acredite em mim, eu gostei.

Camilla deixou escapar um gemido baixo e livrou-se dele. Correu de volta para a cama e se jogou, mantendo-se em posição fetal e ignorando-o. Ele a seguiu. Sentiu a cama absorver o peso dele, e ele pôs uma das mãos em suas costas, acariciando delicadamente para cima e para baixo a linha da coluna.

— Shh... não leve isso tão a sério.

Ele se esticou ao lado dela, apoiado no cotovelo, deixando a voz baixa e a mão confortadora operarem sua mágica.

Sua mão foi na direção dos quadris, acariciando seu volume arredondado. Percorreu o traseiro, passando pela cintura e depois de volta, ao longo da curva e na coxa. Sem parar, ele a acariciava enquanto murmurava sons reconfortantes e sem significado. Movia-se para cima e para baixo, deslizando a mão pela barriga e espalmando o seio. Camilla percebeu que, em algum momento da carícia dele, ela relaxara, abandonando a posição desprotegida em que se encontrava, permitindo que sua mão tivesse livre acesso à parte da frente de seu corpo.

O calor da pele dele atravessava o tecido do vestido; seus dedos endureciam a carne macia de seus seios. Ele apertava e acariciava, excitando seus mamilos até enrijecerem. Sua mão moveu-se até o decote e deslizou para dentro do vestido, abaixando o tecido e espalmando a órbita nua do seio.

Camilla arfava, deliciada com o contato da pele áspera dele com seu delicado botão. Ele circulava a protuberância granulada de carne, depois beliscava delicadamente com os dedos puxando-a. Camilla não conseguiu reprimir um gemido pela nova e deliciosa sensação. Deslizou seu outro braço em volta dela, pegando os dois seios com as mãos e brincando com eles, mexendo nos mamilos até endurecerem, pressionando-os atrevidamente com a ponta dos dedos.

Retirou as mãos, e ela arfou pela falta, mas antes que pudesse protestar, elas já deslizavam por baixo da saia. Os dedos subiram pela parte de trás das coxas e espalmaram os macios montículos das nádegas. Apertou a carne macia, e Camilla, inconscientemente, mexeu a cintura, pedindo mais. Ele respondeu deslizando uma das mãos por entre suas coxas. Apesar de ainda estar protegida pela roupa de baixo, ele pôde sentir seu corpo em chamas e a umidade convidativa.

Camilla gemeu, envergonhada pela intensa umidade que o saudava, mas não conseguia deixar de se esfregar na mão dele. Seus lábios inferiores estavam imensos e inchados, e ela estava literalmente clamando por sentir seu toque em sua carne nua.

— Por favor — sussurrou ela, se esfregando nos dedos dele. — Não devemos. Temos de parar. — Mas sabia que não conseguiria parar, que se ele se retirasse agora, ela com toda a certeza gritaria e imploraria para que voltasse. — Não posso...

— Não se preocupe. — Ele se curvou sobre ela, sussurrando em seu ouvido e provocando-lhe deliciosos arrepios com sua respiração. — Não vou machucá-la. Só vou lhe dar prazer.

Camilla respirou fundo. Não sabia o que ele queria dizer. Mas não conseguia mais protestar.

— Agora, vire-se. — Ele interrompeu as deliciosas intervenções e puxou o braço dela, deitando-a de costas. — Quero ver você. — Começou a desabotoar sua roupa, abrindo o vestido de cima a baixo.

Camilla ficou quieta, deixando-o cuidar de sua roupa, enquanto seus olhos viajavam pelo corpo dele. Superara a vergonha, inebriada pela sensação das mãos dele em seu corpo. Fitou seu corpo musculoso e o órgão que agora estava imenso e pulsante entre suas pernas, bem maior do que antes, e

pôde sentir seu rosto se incendiar novamente, desta vez de desejo.

Ele a despiu, trabalhando com cuidado e competência, parando aqui e ali para acariciar sua cintura, sua coxa ou abdômen, ou para beijar o botão rosado e duro do mamilo. Finalmente, deixou-a nua. Olhou para ela por um bom tempo, os olhos analisando cada centímetro de seu corpo, enquanto Camilla ficava cada vez mais quente e faminta por seus toques, até quase explodir.

Colocou as mãos sobre os seios e começou a acariciá-la. Movia-se vagarosamente, com segurança, sem pressa, deslizando os dedos na pele sensível. Demorou-se na maciez dos seios e abdômen e explorou as duras bordas da cintura. Circulou o umbigo com o indicador, de modo provocante, depois seguiu devagar para o tufo de pêlos entre suas pernas. A respiração de Camilla parecia um soluço, e ela apertou o lençol, arqueando-se involuntariamente para recebê-lo.

Seu dedo penetrou nas dobras macias e escorregadias, abrindo-as e explorando-as. Enquanto isso, olhava para seu rosto, observando a paixão inundar seu semblante, emba- ciando seus olhos e afrouxando seus lábios. Camilla arfava e arrastava os calcanhares, seu corpo retesado como uma corda de arco. Estava totalmente molhada, tremendo de desejo. ] Algo quente e faminto se enroscava em seu abdômen. Pensou que jamais sentiria algo tão prazeroso.

Mas então ele se inclinou e tocou a língua em seu mamilo e ela percebeu que estava errada. Quente e úmida, sua língual ia e vinha ao longo do pequeno botão, estimulando-o amorosamente. A cada carícia, o nó em seu abdômen apertava ainda mais. Ele pôs o mamilo na cavidade cálida e molhada de : sua boca e começou a sugar. Camilla deixou escapar um gemido sobressaltado. Cada sugada se refletia no úmido centro pulsante de seu desejo, onde seus dedos ainda trabalhavam sem parar.

Ela se contorcia embaixo dele, ansiando por se livrar do delicioso tormento. A boca dele seguiu para baixo. A língua circulou o umbigo. Camilla afundou os calcanhares na cama, esticando o corpo em direção a ele. Benedict ergueu a cabeça e olhou para o corpo sensual e trepidante. Seus olhos foram lentamente na direção do rosto enrubescido. Observou-a detalhadamente enquanto seu polegar encontrou a pequenina protuberância dura na base de sua paixão e delicadamente a acariciou. Camilla gemeu, chocada e surpresa com esse prazer novo e muito mais intenso. Seu corpo tremia, capturado no limiar de algo que jamais havia sonhado.

Benedict sorriu, e seu polegar pressionou com mais força. Camilla gritava ao rolar pelo precipício. Sacudia-se em torno dele, as pernas se debatendo enquanto uma onda de prazer se espalhava por seu peito e seu pescoço.

Finalmente, com um suave suspiro, Camilla relaxou. Olhou para ele e sorriu timidamente, em meio à mais completa satisfação de sua vida.

— Oh, Benedict...

Ele retirou lentamente sua mão, passando-a pelas coxas macias. Camilla olhou para ele e viu sua pulsante e enrijecida virilidade.

— Oh! — Olhou de volta para ele com ansiedade. — Mas, Benedict, você não está... Não vai...?

Ele sorriu.

— Sim, estou, e vou. — Fez um grande esforço para simplesmente se inclinar e beijar seus lábios. — Mas não se preocupe. Está tudo bem. Prometi não desonrá-la, e não vou. Esse prazer foi exclusivamente seu.

— Sim, mas...

— Shhh. — Ele balançou a cabeça. — vou ficar bem. Ele se inclinou e a beijou novamente, desta vez deixando

um pouco de sua paixão represada à mostra, mas depois de um longo instante, retirou-se.

— Agora, feche os olhos e durma.

— Você vai ficar aqui comigo? Ele assentiu com a cabeça.

— Sim, vou ficar aqui.

Camilla sorriu, um pouco perdida, ainda envolta no confortável casulo de seu prazer, e fechou os olhos, obediente.

Benedict engoliu em seco e virou-se, lutando para manter o controle. Quase se descontrolou com as perguntas inocentes dela. Só podia estar louco, pensou, para fazer o que fizera. Pagaria por isso o resto da noite. Deveria ter escapado,! deixado o quarto, mas não pôde resistir à tentação. Mas, pelo menos, tivera força suficiente para não possuí-la. Em alguns momentos, chegou a duvidar que suportaria.

Deitou-se e fechou os olhos, tapando-os com o braço. Respirou fundo, lentamente, depois mais uma vez, até se acalmar definitivamente.

Pensou em Camilla e na situação em que se encontravam. Pensou em sua honra e na dela, e no velho no quarto ao fim do corredor. Pensou no primo tolo e na lealdade dela, na paixão que o assolara nos últimos dias e em como ela se dissolvera em prazer sob suas carícias. Demorou muito para dormir.

Camilla enfiava preguiçosamente a agulha no tecido, bem esticado pelo arco do bordado, sua cabeça ligeiramente ligada na leve tagarelice de sua tia. Estivera imersa em sonhos durante toda a manhã. Acordou cedo, sentindo-se gloriosamente feliz e renovada. Ficara um pouco deitada, observando Benedict dormir e imaginando se algum dia voltaria a sentir o que havia sentido na noite anterior. Só de pensar nisso, seus nervos começavam a crepitar.

Rapidamente se levantou e se vestiu. A última coisa que queria era que Benedict acordasse e a visse devaneando por ele. Ficara um pouco chateada por ele ter mantido seus desejos e emoções o tempo todo sob controle enquanto destruía completamente o controle dela. Embora ela tivesse sido uma participante muito interessada nessa perda de controle.

A maré já subira, então não foi até a ilha. Em vez disso, foi tomar café-da-manhã e depois se dirigiu para a sala menos formal. com os pensamentos ainda na noite anterior e com nada melhor para fazer, pegou uma fronha parcialmente bordada. Em pouco tempo, Lydia apareceu. Já que tinha muito o que conversar sobre a corte de Benedict, desde que Camilla chegara a Park, o encontro sobrecarregou demasiadamente a capacidade imaginativa de Camilla.

Felizmente, o Sr. Thorne chegara e distraíra sua tia, dizendo:

— Ah, se ao menos eu pudesse pintar seu retrato agora, madame. Uma verdadeira Arachne.

— Mas ela tecia, não? Muito mais do que costurava — perguntou Camilla, inocentemente. — E, se bem me lembro, acabou como uma aranha.

— Uma aranha! — exclamou Lydia. — Sr. Thorne, acho que prefiro não ser comparada a uma aranha.

O jovem pareceu contrariado.

— Quis dizer a mulher antes que a deusa ciumenta a transformasse, é claro. Prefiro cortar minha língua a ofendê-la.

— Bem, não vejo como isso ajudaria — protestou levemente Lydia, e Camilla precisou cerrar os dentes para não dar uma gargalhada pela expressão ofendida do admirador.

Camilla voltou às divagações enquanto o Sr. Thorne e Lydia continuaram a conversar, principalmente sobre conhecidos em comum e uma temporada londrina sobre a qual Camilla sabia muito pouco.

Então Benedict adentrou a sala e, de repente, todos os nervos no corpo de Camilla acordaram. Não sabia como percebera que ele estava lá. Não tinha, como de hábito, feito quase nenhum barulho, e ela estivera olhando para o bordado. Mas, de alguma forma, sentiu a presença dele, elevou os olhos e o viu em pé na entrada, observando-a.

O rubor imediatamente tomou seu rosto.

— B… bom dia, Benedict.

— Minha querida. Ele entrou na sala, cumprimentando educadamente Lydia e seu pretendente, e sentou-se ao lado de Camilla no sofá. — Como está nesta manhã? Espero que tenha dormido bem.

O rubor de Camilla intensificou-se.

— Eu... Uhm, muito bem. Quero dizer, foi bom. Gostei... — Parecia que tudo o que dizia a jogava no lodo do duplo sentido, então parou.

Ele sorriu, e os olhos de Camilla foram atraídos para a curva de seus lábios. Tinha um lindo sorriso, pensou ela, mas bem melhor do que o sorriso era sentir seus lábios nela. Lembrou-se deles em seu corpo, amando seus seios, e todos os outros pensamentos fugiram de sua mente.

— Acho que hoje seria um dia perfeito para fazermos um piquenique na velha fortaleza — continuou ele.

— O quê? — Camilla olhou para ele, seus olhos mais arregalados e surpresos que os de uma lebre.

— Ilha da Fortaleza — explicou Benedict. — Você disse que a exploraríamos um dia desses, e pensei que hoje seria perfeito. Podemos levar uma cesta de piquenique conosco.

— Uhm... — Por que havia tido essa idéia? Parecia que tinha uma sinistra percepção do que ela menos gostaria de fazer. — Mas a maré está alta — protestou ela, pouco convincente.

— Podemos pegar um barco, não? Posso remar, já que é tão perto.

— Oh, sim! — exclamou Lydia, deliciada. — Parece uma ótima idéia. Tão romântico.

— Comer nas ruínas? — opôs-se Camilla, em dúvida. — Já estive lá muitas vezes — falou para Benedict — e não é nada realmente notável.

— Oh, mas pense no passado — argumentou o Sr. Thorne, obviamente horrorizado por ela não apreciar os encantos góticos da fortaleza. — Os feitos heróicos e os malévolos. Calabouços e belas donzelas em perigo.

— Acho que era bem mais ventoso do que excitante morar lá — apontou Camilla, pragmática. — Acho que não havia muitos calabouços ou donzelas em perigo, a propósito.

— Não seja tão prática—disse Benedict, lisonjeiro — Eu nunca estive lá, então parece muito interessante.

Camilla percebeu que, se protestasse ainda mais, todos ficariam desconfiados, então forçou um sorriso e disse:

— Sim, acho que podemos ir.

Seu paciente, lembrou-se ela, estava escondido embaixo do solo. Não haveria razão para pensar que Benedict pudesse vê-lo. Não havia, é claro, entrada para os porões. Se ele os encontrasse, talvez se interessasse por explorá-los. Mas esperava poder dissuadi-lo, poder convencê-lo que os antigos porões eram perigosos.

Mandou um recado para a cozinheira, para que preparasse uma cesta de piquenique, e subiu para colocar um vestido mais apropriado para escaladas em rochas e ruínas. Carregando a cesta de comida, caminharam até a doca de Park, onde Camilla ficou aliviada de ver o pequeno barco de Anthony atracado. Pegaram o barco a remo e seguiram pelas águas tranqüilas até a ilha.

Camilla zelosamente conduziu Benedict até as ruínas e mostrou-lhe onde ficavam o grande corredor e as outras salas. Benedict, para seu desespero, parecia disposto a meter o nariz em cada canto e fresta. Lutando para manter um sorriso no rosto, ela satisfazia os caprichos dele, levando-o a todas as pilhas de destroços. Quando estavam na área da antiga cozinha, perto da porta que dava para os porões, foi cuidadosa em manter seus olhos longe do mato descuidado que escondia a porta quadrada de madeira no chão, e foi igualmente cuidadosa em não parecer nervosa ou ansiosa para ir embora.

Quanto mais percorriam os espaços, mais Camilla imaginava se Benedict suspeitava de algo. Ficara bastante desconfiado sobre onde ela estivera na manhã anterior. Será que a tinha visto indo ou chegando da ilha? Ou tinha seguido Anthony até aqui? Se realmente era um fiscal da alfândega, comoAnthony imaginava, talvez pensasse que os contrabandistas operassem nas ruínas. Supôs que isso seria uma hipótese mais do que plausível. Decidiu tentar demovê-lo dessa idéia.

— Sabe — disse ela ao retomar até o local gramado e en- solarado que tinham escolhido para lanchar. — Os moradores locais morrem de medo das ruínas. — Ela o olhava atentamente para medir sua reação.

Nada além de um leve interesse em seu rosto, ao responder:

— É mesmo? Por quê?

— Há uma lenda local que diz que são mal-assombradas. Suponho que tenha começado porque é um local com uma aparência bastante desolada hoje, embora a maioria das pedras tenham sido removidas para construir a nova casa, não por causa de nenhuma verdadeira destruição.

— Parece um local perfeito para fantasmas. Espalhou um cobertor para se sentarem, e Camilla começou a desempacotar a cesta.

— Acho que é por isso que acreditam que eles estão aqui.

— Que tipo de fantasma?

— Todo tipo. Alguns dizem que há uma mulher cujo filho morreu, e ela anda pela galeria, que não existe mais, e aperta as mãos e se queixa. E há uma mulher de branco — não há sempre uma assim? Luzes misteriosas. Não sei o que mais. Nada disso é verdade. Quero dizer, sempre vivemos aqui perto e nunca vimos nada. Mas os aldeões morrem de medo

Camilla deu um olhar de esguelha para ele. Não conseguia dizer, pela expressão dele, se suas palavras o haviam impressionado.

A cozinheira se superara com aquele lanche, talvez levada pela idéia da fuga romântica dos recém-casados, assim como tia Lydia. Depois de comer, sentaram e conversaram, olhando os penhascos por sobre a água e, mais além, Chevington Park. Ao se sentarem, Benedict a envolveu com o braço. Camilla não pôde evitar um leve suspiro de puro prazer e recostou-se nele. Como era agradável sentar assim com ele. Lágrimas inesperadas apareceram em seus olhos. Imaginava como algo tão bom e doce pudesse ser igualmente doloroso.

A sensação boa vinha do prazer, da felicidade de estar com ele, de tê-lo perto, carinhoso. A dor, ela sabia, vinha do fato de amá-lo.

Era algo que não queria admitir, nem para si mesma, mas crescia há dias dentro dela. Como era irônico ter se apaixonado por esse homem que representava o papel de seu marido. Seria ele um ator tão bom? Ou seria Benedict, um homem cujo sobrenome ela nem mesmo sabia, o único homem do mundo para ela? Depois de todos esses anos, tinha ela encontrado dessa forma tão bizarra o homem para quem daria finalmente seu coração?

Era absurdo. Desejava, de todo o coração, que não fosse assim. Mas soube, assim que o pensamento surgiu em sua cabeça, que era verdade — não, mesmo antes disso. Foi quando a abraçou e encostou a cabeça na dela que ela percebeu que era exatamente isso que queria.

Benedict pegou em seu queixo e a beijou. Foi suave, cálido e doce, e Camilla desejou que não acabasse nunca. Enquanto se beijavam, a doçura virou desejo, e eles se agarraram, fortemente abraçados. Delicadamente, ele a empurrou para o cobertor, cobrindo-a com seu corpo. A pele dele estava esturricando; todo o fogo contido da noite anterior ressurgira.

Uma brisa acariciou os corpos e despenteou os cabelos. Beijavam-se sem parar. A mão dele percorria o corpo dela, retirando sua roupa de maneira ardente, e Camilla tocava seu tórax, ainda um pouco tímida. A aceleração da respiração dele ao toque inocente dela a incentivou a levar a mão ao peitoral, às costas e aos braços dele, explorando o contraste entre osso e músculo por baixo do fino tecido da camisa. Ela se lembrou da aparência dele, sem roupa, na noite anterior, e de como a pele nua respondia aos seus dedos. Deslizou a mão para dentro da camisa dele na altura do pescoço, e ele tremeu, sua boca devorando a dela.

A boca dele deixou a dela e iniciou uma jornada pelo pescoço até o decote, deixando um rastro de calor. Camilla enfiou os dedos no cabelo dele, acariciando-o. O cabelo dela se sacudia loucamente em volta de seu rosto.

— Eu quero você — murmurou Benedict ao pé do ouvido dela. — Deus, acho que não vou conseguir suportar outra noite daquelas. — Começou a beijá-la até o queixo.

— Não precisa.

— O quê? — Ele parou, apoiando-se no cotovelo, e olhou para ela, seus olhos negros incendiados.

— Quero dizer, acho também que não suporto — respondeu ela, um pouco surpresa com sua própria ousadia. Mas sabia, com a mesma certeza de que o amava, que essa era sua única chance no amor. Logo tudo estaria terminado. Ele partiria, e ela ficaria sozinha. Pelo menos, pensou ela, poderia guardar algumas lembranças. — Também quero você. Quero fazer amor com você.

Ele engoliu em seco. O vento despenteava seu cabelo.

— Você não sabe o que está dizendo. Sua reputação... Seu futuro... E se você engravidar?

— Tudo isso é problema meu, não é? — perguntou ela abruptamente. — Minha reputação já está arruinada, não importa o que aconteça, se descobrirem que não somos realmente casados. E planejamos desde o início que meu futuro seria como viúva. Quanto à criança, viúvas têm filhos.

— Sim. Mas é mais difícil do que você imagina. Essa charada não poderá ser desfeita assim tão facilmente.

— Nem é tão difícil como você diz — cortou ela e sorriu. — Até nisso você precisa discordar de mim, Benedict?

Como resposta, ele se inclinou e a beijou. Quando finalmente ergueu a cabeça, disse, com a voz áspera:

— Este não é nem o momento nem o local adequado. com um movimento ágil, levantou-se e puxou Camilla.

— Vamos embora.

Pela primeira vez desde que se sentaram para comer, deram uma boa olhada em volta. O vento que sentiram quando se deitaram no chão trouxe uma massa de nuvens cinzentas por trás das ruínas, na direção do mar. Enquanto observavam, as nuvens aumentavam assustadoramente, e o céu escurecia.

— Oh, não. Uma tempestade — gemeu Camilla. — Eu deveria ter ficado atenta.

— O mar ainda está tranqüilo. com certeza vamos conseguir. A praia não é muito longe daqui.

Camilla olhou apreensiva para a tempestade que se formava. Sabia como as tempestades começavam rapidamente no litoral. Mas ele estava certo; ainda estava longe.

Empacotaram tudo rapidamente, dobraram o cobertor e correram para a praia rochosa onde haviam deixado o barco. Jogaram a cesta, entraram no barco, e Benedict começou a remar. Camilla desejou poder ajudá-lo. Por ter crescido à beira-mar, aprendera a remar desde criança e ainda conseguia, mas se manejasse um dos remos, sua força menor desequilibraria o barco e provavelmente os atrasaria mais do que deixar Benedict remando sozinho.

Os ventos deixaram o mar encapelado, e as ondas batiam no barco de vez em quando, formando uma poça d’água que logo chegou aos pés de Camilla. Surpreendida pela súbita umidade, ela olhou para baixo. Para seu espanto, havia uma imensa poça no chão do barco. Abriu a cesta e procurou algo para baldear a água. Encontrou um vaso, jogou o conteúdo no oceano e começou a baldear.

Mas o chão do barco continuava a encher, muito mais rápido que o que ela conseguia retirar. Percebeu, horrorizada, que tanta água não poderia ser proveniente das ondas transbordando.

— Benedict! — Olhou para ele com olhos arregalados de medo. — O barco está vazando.

— Estou vendo — respondeu ele, tenso. — Barco bem ruim, diria eu. — Virou-se e olhou por cima dos ombros para a praia atrás. Estavam quase no meio do caminho entre a ilha e a praia.

Tentou desesperadamente continuar remando, enquanto Camilla se livrava da água, mas estavam afundando muito. O barco balançava nas ondas, movendo-se muito mais lentamente do que antes. A tempestade estava se aproximando deles. Uma onda os atingiu com força, encharcando-os e, de repente, o barco começou a afundar, e eles caíram no mar.

A cabeça de Camilla afundou, e ela voltou à tona alvoroçada. Ela boiava, olhando ao redor em busca de Benedict, dando um pequeno grito de alívio quando avistou sua cabeça na superfície alguns metros à frente. Rapidamente se livrou dos sapatos. Felizmente, seguindo a moda, ela usava um vestido estreito com poucas anáguas por baixo, mas assim mesmo arrancou-as fora, ciente de que o material encharcado poderia facilmente afundá-la.

Benedict moveu-se através das ondas instáveis até ela, abraçando-a. Ela balançou a cabeça e gritou, mais alto do que o ruído do vento e do mar:

— Estou bem! Eu sei nadar! Não precisa me ajudar!

Ele anuiu, e foram na direção da praia. Camilla era uma ótima nadadora e já havia nadado essa distância antes, mas nunca com ondas tão fortes. Os ventos haviam elevado muito as ondas, formando muralhas de água que a submergiam vez por outra. A corrente submarina a arrastava, afundando e tirando-a do curso. Numa das vezes, submergiu numa enorme onda e achou que não conseguiria retornar. Lutou, aterrorizada, e finalmente voltou à tona, tossindo e se debatendo. Benedict nadou em sua direção e a abraçou com força, mantendo-a à tona e batendo as pernas até que ela retomasse o fôlego.

Outra onda se formou, mas essa, milagrosamente, bateu atrás deles, erguendo-os. Camilla viu que estavam bem mais perto do litoral, mas ainda um pouco distante da praia que haviam escolhido. A visão da terra renovou suas forças, e seguiram. As ondas agora pareciam levá-los, arremessando-os na direção do litoral, mas isso significava não apenas uma ajuda, mas um novo perigo, pois estavam sendo lançados diretamente nas pedras pontudas perto da entrada da caverna. Nadaram desesperadamente contra a corrente e em direção à praia.

O céu relampejava, iluminando o dia escurecido, e tiveram a mais bela visão do dia: um grupo de serviçais de Chevington avançando sobre as ondas, carregando uma corda. com força renovada, nadaram na direção deles. A figura da frente era Anthony, com água até a cintura. Ele girou a corda acima da cabeça e arremessou. Caiu na água a alguns metros deles. Enrolou-a e jogou outra vez.

Desta vez, Benedict agarrou-a, enrolando-a firmemente em volta do braço e apertando com a mão. Seu outro braço segurava Camilla com a mesma firmeza, e procuraram somente se manter à tona enquanto os serviçais os arrastavam para a praia.

Cobertores foram providenciados para eles, e Anthony tentou pegar Camilla para levá-la para casa. Todavia, Benedict rapidamente se adiantou e segurou seu braço.

— Eu levo ela. Anthony o encarou.

— Mas você deve estar exausto.

— Não estou tão cansado ao ponto de não poder cuidar de minha mulher.

O jovem ergueu as sobrancelhas, mas se afastou, dando de ombros, deixando Benedict carregar Camilla em seus braços. Camilla estava extremamente cansada e apenas descansou a cabeça em seu ombro com um leve suspiro, entregando-se ao simples prazer de estar a salvo.

Ele a carregou para dentro da casa e subiu com ela até o quarto, já aquecido pela lareira. Depositou-a ao lado da banheira, que sua criada deixara pronta com água quente. Benedict dispensou Millie e ajudou Camilla a retirar suas roupas ensopadas. Ela pisou na banheira, deixando escapar um suave gemido e afundou na abençoada água morna. Benedict rapidamente se despiu e entrou na banheira atrás dela.

Ela não questionou sua presença. Apenas cedeu um pouco de espaço e se recostou em seu peito. Ele a abraçou por trás e encostou o rosto na cabeça dela. Ficaram assim por um longo tempo, enroscados e abraçados na calidez da água.

— Pensei que fosse perdê-la — murmurou Benedict. Camilla emitiu um leve ruído em concordância.

— Fiquei tremendamente assustado — continuou ele, pressionando os lábios em seu cabelo. — Sabe no que eu pensava sem parar? Que ia morrer sem ter feito amor com você. Percebi como estava sendo idiota.

Seus lábios se moviam ao lado da cabeça dela, beijando-lhe a orelha. Colocou delicadamente o lóbulo da orelha entre seus lábios e mordiscou, causando pequenos tremores em Camilla. Ela se sentia cansada e sonhadora, mas também viva e acesa, de repente.

— Não pretendo cometer o mesmo erro novamente — disse ele, vigorosamente, beijando seu pescoço.

Ele deslizava as mãos para frente e para trás pelos braços molhados dela. Acariciava seus ombros e suas costas, e passava a palma das mãos pelo busto, abaixo do pescoço. A pele dela parecia seda em seus dedos. Suas mãos desceram, espalmando os seios por inteiro.

Benedict murmurou qualquer coisa, mas as palavras foram abafadas pela pele de Camilla, e ela não conseguiu entender o que ele disse. Não importava, todavia. Estava perdida num mundo de sensações, flutuando vagamente no puro prazer que as mãos e os lábios dele lhe proporcionavam. Os dedos circulavam os mamilos, deixando-os rígidos e saciados. Uma leve palpitação teve início entre suas pernas, dolorosa e persistente. Pensou no prazer cataclísmico que ele lhe dera na noite anterior e ficou sem ar.

Ele pegou seus seios, parecendo sentir o peso, e delicadamente os apertou. Suas mãos desceram para a planície do abdômen e, finalmente, penetraram entre suas pernas. Ele acariciava suas coxas, cintura e abdômen, mas sempre voltava ao cerne pulsante entre suas pernas. A respiração de Camilla ficou desigual e ela se derreteu em seus braços, delirando com o toque daqueles dedos experientes.

Quando pensou que explodiria, como da outra vez, Benedict, surpreendentemente, retirou as mãos. Pegou em seu braço e a virou para si. Ela percebeu, instintivamente, o que ele queria, e virou-se inteiramente, encarando-o, erguendo-se para beijá-lo.

Seus lábios se grudaram, no início com delicadeza, e depois com crescente excitação. As línguas lutavam e se entrelaçavam, atiçando o fogo da paixão. O ar estava fresco em seus corpos úmidos, expostos acima da água, mas nem repararam, em virtude do calor que os envolvia. Beijavam-se de modo faminto, sem parar, num esforço conjunto. Ele a abraçava com tanta força que ela mal podia respirar, e ainda parecia pouco. Camilla queria mais. A pulsação entre suas pernas tomava conta dela. Queria envolvê-lo com as pernas; queria senti-lo dentro de si. Um lamento de puro desejo saiu de sua garganta.

Benedict levantou-se, como se reanimado pelo som, e puxou-a consigo. Saiu da banheira, pegou uma toalha e cobriu Camilla. Os olhos dela não abandonavam o corpo dele, examinando cada centímetro de grandeza musculosa. Era tão poderosamente másculo que até assustava. Sua virilidade se destacava de seu corpo, enorme e pronta, pulsando de desejo, e mesmo imaginando que era grande demais, que jamais caberia, o desejo floresceu entre suas pernas, deixando-a ansiosa para senti-lo ali.

Ele a ergueu da banheira e a colocou sobre o tapete em frente à lareira, se encarregando de enxugá-la e, com os movimentos de suas mãos, excitá-la ainda mais.

— Benedict... — sussurrou ela, as mãos indo na direção do tórax dele.

— O quê? — Ele ficou parado, a voz rouca.

Ela respondeu apenas com os dedos, deslizando-os no peito dele, ainda molhado. Ele ficou inerte com o toque, apenas se contorcendo de vez em quando ou respirando fundo quando ela tocava algum ponto particularmente sensível. Embora sua pele ainda estivesse molhada, não sentia frio. Seu corpo parecia uma fornalha, rugindo com o calor de sua paixão.

Os dedos de Camilla traçaram as bordas da costela e circularam os pequenos mamilos masculinos, deliciando-se à medida que endureciam ao toque. Desceu até a pele mais fina do abdômen e acariciou os duros ossos da cintura, movendo-se timidamente na direção da evidência pulsante de seu desejo. No último minuto, entretanto, perdeu a coragem, e suas mãos foram para as nádegas. Mas isso também era obviamente prazeroso, pois ele deixou escapar um pequeno gemido de contentamento.

Camilla olhava para seu rosto enquanto suas mãos deslizavam por suas nádegas e pela parte de trás da coxa. Os olhos dele estavam fechados, e a pele parecia muito esticada sobre os ossos. Parecia um homem no limite da dor... exceto pela curva sensual dos lábios, que identificava o grandioso prazer que o acometia.

Experimentalmente, Camilla apertou as nádegas dele, e foi recompensada por um gemido involuntário. Os olhos dele se abriram, iluminados por chamas escuras. Ela apertava e acariciava, as mãos se movendo sem parar no traseiro dele.

— Toque-me — ordenou ele, secamente.

Camilla sabia o que ele queria. Também era o que queria, mas hesitava em fazê-lo. Seus dedos trilharam a estreita cintura, roçando a parte de cima da coxa. Parou por um instante, depois espalmou cautelosamente sua virilidade. Seu membro saltou ao toque, e ela arfou, depois soltando um risinho nervoso.

Hesitante, ela alisou a haste, intrigada pela pele sedosa que revestia a dureza masculina. com uma primorosa delicadeza, o acariciou. Ouviu-se um estranho gemido em sua garganta, e ele a puxou com firmeza para si. Sua boca devorou a dela, faminta e insistente, sua língua invadindo a boca de Camila. Ela sentia sua haste pulsando contra seu corpo, os rígidos ossos do peito amassando seus seios. As mãos dele desceram pelo corpo dela, apertando seu traseiro da mesma forma que havia feito com ele, e ela ficou um pouco surpresa pelo choque de pura lascívia que a arrebatou.

Camilla ficou na ponta dos pés, grudando-se a ele. Umidade jorrava do meio de suas pernas. Sentiu-se selvagem e desesperada. Queria escalá-lo, engoli-lo, possuí-lo inteiramente. A necessidade dele era igualmente desesperadora. Ela podia sentir os tremores no corpo dele, retesado como uma corda no arco.

Benedict puxou-a para o tapete em frente à lareira. O brilho do fogo refletia-se na pele dela enquanto Benedict se deitava ao seu lado, começando a amá-la com a boca. Beijava cada mamilo, depois os provocava com a língua, acariciando-os e envolvendo-os. Os pequenos botões de carne respondiam avidamente, endurecendo ante o toque. Camilla arqueou as costas, os seios à espera dele, e ele respondeu espalmando e abocanhando um deles. Sugava lenta e profundamente, a mão acariciando e apertando delicadamente o seio.

A respiração de Camilla estremeceu, e ela enterrou as mãos no tapete. A cada sugada no seio, sentia uma pulsação profunda e visceral no útero. Juntou as pernas uma na outra, tentando aliviar a palpitação dolorosa, mas Benedict deslizou sua mão por entre elas, separando-as, e começou a acariciar as pegajosas e intumescidas dobras de carne. Camilla grunhiu, bombardeada pelo duplo prazer. Os dedos excitavam e acariciavam a suprema maciez da carne elevando seu desejo às alturas.

A boca moveu-se para o outro mamilo e, para sua surpresa, ele a penetrou com um dedo. Ela gemeu, mexendo os quadris no ritmo das carícias, mas justamente quando começava a sentir como se estivesse à beira do precipício sobre o qual caíra da última vez, ele retirou o dedo de dentro dela e colocou a mão entre suas pernas. Camilla contorceu-se e foi na direção da mão dele, implorando que continuasse, mas ele apenas passou a mão levemente, enquanto seus lábios abandonavam os seios e viajavam na direção do abdômen.

A respiração dela parecia um soluço, agora, e ela empurrava a mão dele em vão. Mas ele não acelerava, apenas continuava a amá-la com a boca, até que ela pensou que enlouqueceria de desejo. Então ele deslizou a mão para suas nádegas, erguendo-a um pouco e se encaixou entre as pernas dela. A haste dava estocadas insistentes na entrada de sua feminilidade.

— Por favor — murmurou ela. — Por favor, eu quero você... dentro de mim.

As palavras dela quase o descontrolaram. Parou por um instante, lutando para restabelecer o controle sobre si. Então guiou sua virilidade para dentro dela. Os olhos de Camilla se escancararam. Por um momento, achou que não fosse funcionar; então sentiu uma rápida dor e foi penetrada. Camilla respirou fundo, seus dedos enterrados nos braços de Benedict. Jamais havia sentido algo parecido antes, uma deliciosa sensação de ser esticada e preenchida, inteiramente preenchida. Contorceu-se um pouco, abrindo mais as pernas, enquanto ele a penetrava fundo.

Ele começou a se mexer dentro dela, e ela percebeu que o que sentira antes não era nada comparado ao prazer que experimentava agora. Ele a penetrava num ritmo lento, aumentando a paixão dela até que Camilla imaginou que talvez gritasse pela mistura de frustração e prazer. Começou a se movimentar mais e mais rapidamente bombeando com firmeza, e a coisa selvagem, doce e obscura que a arrebatara na noite anterior tomou conta dela novamente.

Ela gritou em meio aos sucessivos espasmos. Segurou firme em Benedict, que se exauria em cima dela, seu grito seco abafado em seu pescoço.

Camilla queria rir e chorar, tudo ao mesmo tempo e intensamente. Queria perguntar um milhão de coisas a Benedict, mas seus pensamentos não paravam de zunir em sua cabeça impedindo-a de formular uma pergunta coerente. Mais do que tudo, queria dizer ”eu te amo”. Mas manteve sua boca lacrada. Não era tão tola ao ponto de pensar que ele gostaria de ouvir isso.

Benedict retirou-se delicadamente dos braços de Camilla. Tinham adormecido abraçados em frente à lareira, mas o fogo se apagara e o ar esfriara. Ajoelhou-se, pegou Camilla e levou-a até a cama, onde a depositou carinhosamente e a cobriu. Ela suspirou e sorriu no sono, enroscando-se na cama, mas não acordou. Ele ficou parado por um momento, observando-a, e afastou uma madeixa perdida da sua testa. Imaginou por que demorara tanto tempo para perceber que a amava.

Deixara que aquela bruxa da Annabeth o tornasse amargo com as mulheres. Mas qualquer um com meio cérebro entenderia, pensou ele, que Camilla não tinha nada a ver com Annabeth. Tinha sido teimoso e cego, e foi preciso a tempestade e quase tê-la perdido para acordá-lo. Bem, pelo menos agora estava bem claro para ele o que deveria fazer. Tinha de tirar o idiota do primo dela de seja lá qual enrascada em que se metera e resolver o problema que o trouxera para cá. Depois teria de consertar toda a história para que nenhum escândalo pudesse atingir Camilla por causa da pequena charada em que estiveram envolvidos nas últimas semanas. Mas, antes de mais nada, ele sabia que precisava visitar o conde.

com um suspiro, Benedict deixou de contemplar Camilla e foi até o guarda-roupa. Vestiu-se com rápida eficiência, deu um beijo rápido na testa de Camilla e saiu.

Jenkins abriu a porta do quarto do conde e deixou Benedict entrar, anunciando-o para Chevington. O velho olhou para ele e sorriu.

— Bem, aí está você. Nem um pouco exaurido, tenho certeza, depois daquela experiência.

— Não, senhor. Acho que Camilla ficou somente exausta. Eu a deixei na cama, dormindo.

Chevington assentiu com a cabeça, dispensando peremptoriamente seu criado. Jenkins retirou-se calmamente do quarto. O conde pediu para Benedict se aproximar.

— Agora, diga-me o que aconteceu. Eles não me contam nada, não querem que eu tenha outro ataque. Isso é muito chato, garanto. Só me disseram que a tempestade pegou vocês, mas que estavam bem. O que aconteceu realmente? Como conseguiram ser apanhados numa tempestade?

— Estávamos fazendo um piquenique na Ilha da Fortaleza. Não reparamos que uma tempestade estava se formando até que fosse tarde demais. Culpa minha, sem dúvida. Não estou acostumado com tempestades costeiras. Cresci em Lincolnshire, sabe? — Hesitou, pensando o quanto poderia contar ao conde. Não queria assustar o velho. Embora achasse o homem muito mais capaz de resolver problemas do que a grande maioria pensava, ainda assim não tinha certeza de que a história toda não seria um pouco demais para ele.

Chevington franziu o cenho.

— Há algo mais. O que é? Fale logo, homem. Não se preocupe em me levar a outra apoplexia. Estou me sentindo bem melhor nos últimos dias. Bem, levanto e caminho pelo quarto sempre que consigo me livrar daquele chato do Jenkins. E aí, o que aconteceu?

— Acho que poderíamos ter chegado antes da tempestade se o barco não tivesse começado a fazer água. Certamente não teríamos soçobrado e quase afundado.

— Quase afundado! — gritou, com um olhar penetrante. — Maldição! Sabia que estavam me escondendo algo. ”Está tudo bem.” Estou vendo.

— Bem, conseguimos chegar até a praia sem ferimentos. O problema é que... o barco foi sabotado.

-— Sabotado. Como? O que quer dizer? Quem faria isso?

— Não sei, senhor. É o que espero descobrir. Quanto ao ”como”, acho que fizeram um buraco nele. Barcos normalmente não aparecem com buracos redondos e perfeitos.

— É claro que não.

— Acho que a pessoa fez o buraco e o fechou novamente, colocando um pedaço redondo de madeira do tamanho do buraco e colando com alguma coisa doce, provavelmente melaço, mel ou açúcar, algo que dissolveria na água. Não tenho certeza de como calculou o tempo exato. Talvez nem tenha calculado. Talvez não se importasse se morreríamos na ida ou na volta.

Chevington fitou-o, estupefato.

— Não posso acreditar.

— É bem verdade. Não contei para Camilla. Não quis assustá-la. Imagino que ela pense que o barco simplesmente furou.

O conde tinha suas dúvidas. Afinal, Camilla fora criada no litoral e conhecia o suficiente sobre barcos para não ser enganada por um buraco produzido. Todavia, não seria ele que estragaria as ilusões de um homem em relação a sua esposa. Benedict logo conheceria Camilla.

— Mas, por quê? — perguntou Clevington, chegando à pergunta que mais o preocupava. — Por que alguém poderia querer fazer mal a você e Camilla? Acha que tem ligação com o contrabando?

Benedict suspirou. Estava achando mais difícil do que imaginara detalhar o real motivo de estar ali. Não queria perder o respeito do velho.

— Pode ser, pelo menos em parte — amenizou ele.

— Descobriu alguma coisa sobre Anthony?—continuou o velho, ansioso. —Ele está envolvido com os contrabandistas?

— Não estou certo. Não encontrei nenhuma prova concreta disso, só um monte de indícios por parte dos criados, e da população local. Entretanto, está definitivamente envolvido em alguma coisa estranha. Ele e Camilla se esgueiraram até a Ilha da Fortaleza outro dia. Foi por isso que insisti para irmos até lá hoje de manhã.

— Ilha da Fortaleza? — repetiu o velho, espantado.—Do que está falando? Por que se esgueirariam até lá?

— Não faço a menor idéia, senhor. Mas foram para lá antes de o sol nascer, e da maneira mais secreta. Quando perguntei a Camilla onde estivera, ela mentiu para mim. Contou-me que estivera visitando uma senhora chamada Nan, que estava doente.

— Mentiu, é? — Chevington pareceu pouco surpreso por esse fato. — Bem, nesse caso, ouso dizer que deve estar aprontando alguma. Droga, espero que Anthony não a tenha envolvido em alguma das suas confusões. Entretanto, não imagino o que os dois poderiam estar fazendo lá. Não há nada além de ruínas lá. E por que às escondidas? Têm liberdade para ir quando quiserem.

— Suponho que não quisessem que alguém soubesse que estiveram lá. O que me faz pensar que estão escondendo alguma coisa lá. — Fez uma pausa, depois continuou: — Se ele estivesse envolvido com o contrabando, senhor, será que não poderiam estar utilizando as ruínas para esconder a mercadoria?

Chevington deu de ombros.

— Acho que sim. Mas você teria descoberto isso hoje, acho eu. Tudo é visível lá, nada está escondido. Eu diria que as cavernas seriam um local bem melhor que as ruínas. — Parou, pensou um pouco e prosseguiu: — Bem, tem os porões.

— Porões, senhor? — A pulsação de Benedict acelerou.

— É. A casa antiga tinha porões para armazenamento. Bem grandes. Durante a Idade Média, costumavam estocar enormes barris de comida e cerveja, sem falar nas armas. De acordo com a lenda, havia masmorras, mas sempre duvidei.

— Como se chega aos porões?

— Não estou certo. Eu mesmo nunca fui lá. Tenho a impressão que o teto desmoronou em cima deles. — O velho suspirou. — Mas, se existe alguém que poderia descobrir o caminho para lá, com certeza seriam aqueles dois. Estavam sempre metidos em encrencas. Deixavam a babá e a gover- nanta enlouquecidas, devo dizer. — Fez uma pausa, parecendo perturbado. — Quer dizer que ele levou Camilla pro negócio, hein? Maldito moleque!

— Creia-me, senhor, vou fazer tudo que for possível para me certificar que ela não esteja envolvida em tudo isso.

Chevington resfolegou.

— É óbvio que não está casado com ela há muito tempo. Sempre fez tudo do jeito dela, e vai fazer tudo para aquele bandidinho. Benedict franziu o cenho.

— Estou ciente disso, senhor. Mas assim que eu descobrir no que estão metidos, ela não terá escolha.

— vou falar com Anthony — disse o conde, sobrecarregado. — vou fazê-lo confessar. vou convencê-lo a parar. Tenho sido muito displicente. Não quis enxergar. — Ele sacudiu a cabeça. — Talvez tenha dado muita liberdade ao garoto. É isso que aquela insuportável da Beryl tem me dito há anos.

— Não sei se é isso, senhor.

— Não acha? — Chevington sacudiu a cabeça, olhando interessado para ele. — Diga-me o que acha.

— Acho que é tédio, senhor. Anthony é um garoto vivo e, bem, ele acha a vida aqui um pouco chata. Deixe-me tentar fazer alguma coisa. Se eu conseguir tirá-lo dessa confusão sem manchar a reputação dos Chevingtons, o senhor estaria disposto a afrouxar as rédeas do garoto?

— Afrouxar as rédeas? O que quer dizer? Nunca fui duro com aquele garoto.

— Não. Mas o manteve perto, com certeza por amor. Ele é um jovem espirituoso. Necessita de um escape. Dizem que quer ir para o exército. Coisas piores poderiam acontecer com um garoto como ele. Aprenderia a ser disciplinado, e teria uma oportunidade de usar toda aquela energia em uma boa causa.

O velho empalideceu um pouco.

— Não posso arriscar. Ele é o herdeiro.

— Outros herdeiros já estiveram no exército. Eu mesmo. As sobrancelhas do velho se elevaram:

— Ninguém me disse que você tinha um título.

— Não revelei a ninguém de propósito. Esse é o outro assunto que vim tratar com o senhor. Mas, primeiro, prometa-me que ao menos pensará na possibilidade de deixar Anthony partir. Por mais tempo que uma viagem rápida, digo. Se o senhor não aceita o exército, então pense em mandá-lo para Oxford. Ou... -— Benedict lançou-lhe um olhar resignado — deixe-o vir conosco para Londres.

— Londres? Pensei que morassem em Bath.

— Não no futuro. Deixe que ele fique durante a estação, talvez. Adquirir um refinamento urbano. Garantirei que não se meta em encrencas nem sairá com vigaristas.

— Tudo bem. vou pensar nisso. Nunca foi minha intenção reprimir o garoto.

— Eu sei, senhor. Foi tudo feito com amor.

Benedict calou-se. Lançou um olhar para o conde, que o olhava com interesse crescente.

— E então, homem? — Chevington perguntou com óbvia curiosidade. — Você disse que tinha algo mais a me contar. O que é? Diga.

Benedict respirou fundo. Esperava não ferir o velho. Mas precisava consertar a situação. Não podia continuar inventando mentiras enquanto ele e Camilla se afundavam cada vez mais nelas.

— O negócio é o seguinte — começou ele, depois parou e limpou a garganta. Chevington olhou-o, impaciente. — Eu não fui, bem... não fui totalmente sincero com o senhor. Camilla e eu, bem... meu nome não é Lassiter, e não sou casado com sua neta — concluiu com rapidez.

Por um longo momento, ficaram em silêncio. Chevington apenas olhou para Benedict, tão espantado com o pronunciamento que nem conseguiu ficar com raiva.

— Como? : Benedict repetiu as palavras, e depois, da maneira mais rápida e concisa que conseguiu, descreveu os acontecimentos da noite em que conheceu Camilla, como ela contou para ele e Sedgewick sobre o apuro em que se encontrava, e como se ofereceu para representar o papel do marido.

Quando Benedict terminou, o rosto do velho estava rubro.

— Bem, isso parece exatamente uma idéia de Camilla. Ela sempre foi de bolar esses esquemas desmiolados, assim como Anthony. Mas, quem diabos é você?

— Sou Lorde Rawdon.

— Rawdon! Ha, ha! É melhor inventar uma melhor, meu jovem. Conheço Lorde Rawdon, e ele já é velho, quase da minha idade. Seu nome é Sylvester, e jogamos cartas juntos muitas vezes.

— Não duvido. Meu tio sempre foi de jogar. Felizmente para a família, venceu mais do que perdeu.

— Seu tio?

— Sim. Meu pai era seu irmão mais jovem. Ninguém pensava que faria herdeiros, mas, exceto por Sylvester, os Wincrosses eram um grupo de pessoas que viviam muito pouco.

— Mas... pensei que Sylvester tinha um filho.

— Tinha. — Um leve sorriso surgiu no rosto de Benedict. — O senhor acha que vai me enrolar? Garanto que sei do que estou falando. Quando meu tio estava na meia-idade, minha tia, apenas alguns anos mais nova do que ele, concebeu um herdeiro, para a surpresa de todos. Enquanto eu estava na guerra, a criança sucumbiu a uma febre torácica e morreu. Então, quando Sylvester morreu no ano passado, eu herdei o baronato.

Chevington fitou-o por um longo tempo, sem piscar.

— Talvez você possa me explicar por que um lorde concordaria em se fingir de marido da minha neta.

— Sei que parece absurdo.

— Não mais que o resto da história, suponho. — Chevington cruzou os braços, esperando.

— Tenho um motivo. Estou aqui para apanhar um traidor. Seja lá o que o velho esperava, certamente não era isso.

Encarou Benedict.

— Um traidor? De que diabos está falando?

Benedict procedeu à explicação sobre a rede Gideon e os recentes problemas, incluindo a morte de Winslow, que os mandara para Edgecombe. O velho conde ouvia atentamente e, quando Benedict parou, ele se recostou, suspirando:

— Está tentando me dizer que Anthony também está metido com traição? Porque não acredito.

— Não. Tenho sérias dúvidas de que Anthony esteja de alguma forma envolvido. Entretanto, alguém entre os contrabandistas deve estar. As suspeitas recaem sobre o novo líder. Devo admitir para o senhor que espero usar Anthony para encontrá-lo. Pretendo tirar seu neto limpo. Não posso, afinal, deixar que o primo de minha esposa vá para o cadafalso.

— Mas Camilla não é sua esposa.

— Planejo me casar com ela quando tudo isso tiver terminado.

— Gostaria muito de ver como vai conseguir casar com uma mulher que todos pensam que já é sua esposa.

Benedict sorriu.

— Tenho um plano.

— Sem dúvida. Já vi que você é o par perfeito pra Camilla. — Ergueu a mão para interromper a fala de Benedict. — Não. Nem quero ouvir o que é. Acho que estou ficando velho demais para essas bobagens. — Fez uma pausa. — Camilla sabe disso tudo?

— Não, senhor. Pensa que concordei em ajudá-la porque me ofereceu dinheiro. Ela achava que eu era um ladrão.

Um projeto de sorriso surgiu no canto da boca do conde.

— O que o faz pensar que ela concordará com o plano?

— Acredito que possa convencê-la.

— Acredita mesmo? — O velho sorriu. — Aceitaria apostar?

Benedict, que tinha suas próprias dúvidas, ficou irritado com a descrença patente do outro homem.

— Ela vai ter de concordar, ou sua reputação estará arruinada — cortou ele.

— Eu não usaria esse argumento, se fosse você. Camilla não aceita imposições facilmente. Nem, diria eu, um marido que só está oferecendo salvar sua reputação.

— Mas não estou! — disparou Benedict. — Eu a amo.

— Ama? Então sugiro que faça o que sempre fiz com a avó dela.

— E o que é?

— Implore.

Camilla acordou e se alongou sensualmente, bem consciente do próprio corpo. Olhou para Benedict. Ainda estava dormindo, de bruços. Ela se aproximou e delicadamente acariciou seu cabelo. Ele a acordara na noite passada quando foi para a cama, e fizeram amor novamente. Fora ainda mais maravilhoso que da primeira vez, se é que era possível. Uma pequena dor a incomodou quando pensou no futuro, mas rapidamente espantou o pensamento. Haveria tempo suficiente para isso mais tarde, quando ocorresse o triste momento da partida de Benedict.

Não estava arrependida do que fizera, nem alimentava ilusões. Amava Benedict, e quis vivenciar aquele amor de todas as formas. Mas não esperava que ele correspondesse ao amor. Benedict estava aqui por motivos próprios e, assim que tivesse conseguido seu objetivo, iria embora. Camilla dizia para si mesma que estava resignada com esse fato, e se recusava a deixar que arrependimentos sobre o que aconteceria no futuro estragassem seu presente.

Acariciando seu cabelo, pensou em permanecer na cama e acordar Benedict com beijos por todo o corpo. Seria uma deliciosa maneira de começar o dia.

Mas o dever a chamava. Abandonara seu paciente, e precisava ir até a ilha ver seu progresso. Não estava certa se Anthony conseguira voltar à ilha, por causa da tempestade. Estava duplamente preocupada com a segurança do homem, pois, além da febre, ainda havia o perigo do perseguidor.

Teria rido se soubesse que Benedict esperava que ela não tivesse notado que o barco havia sido sabotado. Tinha percebido imediatamente que alguém havia feito um buraco nele para afundá-los. Não tinha a menor idéia de quem teria feito isso, mas tivera a sensação apreensiva de que deveria ter alguma coisa a ver com o homem que ela e Anthony estavam escondendo na ilha. Saberia o suposto assassino que ela estava ajudando o homem ? Teria ele descoberto que o homem estava na ilha? Não entendia a conexão entre afundá-los e matar o estranho, mas parecia muita coincidência pensar que haveria dois assassinos diferentes tentando matar duas pessoas diferentes. O que quer que estivesse acontecendo, sabia que precisava ver se seu paciente estava bem.

Deslizou para fora da cama, lavou-se e vestiu-se sem fazer muito barulho e saiu do quarto. Dirigiu-se rapidamente para a cozinha, onde arrumou um pouco de comida com a cozinheira e seguiu para a ilha. Levou mais tempo que o normal para chegar às ruínas, pois parou várias vezes para dar uma olhada em torno, inquieta com a possibilidade de o assassino estar se escondendo e observando seus movimentos. A última coisa que desejava era levá-lo diretamente até o homem que queria matar. Em um determinado momento, pensou ter ouvido algo atrás de si, mas quando se virou, não viu nada de diferente. Dizendo para si mesma que estava perdendo o controle sobre seus nervos, aumentou o passo na faixa de terra que dava na fortaleza.

Depois de uma última, longa e cuidadosa olhada em volta, desceu para os porões. Pegou a vela que levara, acendeu-a e foi na direção da porta da sala onde estava o paciente. De repente, a porta se abriu e ela deu um salto, quase deixando cair a vela, com o susto.

Anthony estava parado na porta.

Deixou escapar um ruidoso suspiro de alívio.

— Anthony! Quase me matou de susto! Como é que você aparece assim, de repente?

— Ouvi você chegando — respondeu ele, alegremente, ignorando a zanga. — Camilla, aconteceu uma coisa fantástica: nosso homem está acordado!

— O quê?

— É. A febre passou — revelou a ela. — Vim aqui ontem à noite e vi que a febre tinha diminuído. Ele despertou e falou. Não disse muita coisa, apenas perguntou onde estava e quem era eu, essas coisas, e depois dormiu de novo. Mas, com toda a certeza, melhorou bastante.

Camilla aproximou-se para sussurrar:

— Descobriu algo sobre ele?

— Não. Muito pouco. Não quis pressioná-lo por causa da fraqueza. Mas tenho certeza que, quando acordar hoje de manhã, vai se sentir mais disposto a falar.

Seguiram para a pequena câmara subterrânea onde estava o homem. Camilla atravessou a sala para olhar para ele. Estava deitado de lado, enrolado no cobertor como um casulo, e um braço apoiava a cabeça. Notou com satisfação que sua cor estava bem melhor naquela manhã e sua respiração não parecia mais forçada.

Pareceu sentir que ela o observava, pois seus olhos se abriram, e ele se sentou rapidamente, encolhendo-se de dor. Encarou-a por um momento, depois relaxou, dizendo:

— Oh, você deve ser a dama gentil de quem meu amigo aqui falou.

— Você parece bem melhor hoje.

— Obrigado. É totalmente devido a seu cuidado, imagino. — Começou uma pequena luta para se levantar, mas ela o dissuadiu.

— Deixe as cortesias de lado. Não há necessidade de gastar suas energias. — Depositou no chão a caixa que trouxera e começou a mexer dentro. — Aqui. Trouxe um pouco de chá quente e um pouco de mingau fortificante.

Anthony inclinou-se, olhou para o pote na caixa e fez uma careta.

— Urgh!

— Shh! Mingau vai ser ótimo para nosso paciente. Ele precisa de alguma coisa quente e substanciosa para fazer a força voltar.

— Parece delicioso — replicou o outro homem, sorrindo para ela. — Francamente, do jeito que meu estômago está agora, eu comeria qualquer coisa.

Camilla sorriu de volta. Era um jovem de boa aparência, pensou ela, mesmo com a barba desalinhada que crescera durante sua doença e o cabelo totalmente despenteado. Como se lesse seus pensamentos, ele passou a mão no cabelo e deu um sorriso em forma de desculpa para Camilla.

— Perdão. Devo estar parecendo um mendigo.

— Tolice. Parece um homem que está muito doente há vários dias — corrigiu secamente Camilla, enchendo uma tigela com mingau. — Aqui está. Tem força suficiente para segurar ou quer que o ajude?

Seu rosto enrubesceu um pouco, e ele disse rapidamente:

— Obrigado. Acho que ainda não estou tão mal assim. Mas ela reparou que a mão dele tremia um pouco sob o peso da tigela. Ainda não estava totalmente bem. Deu somente umas colheradas. A cor em seu rosto melhorou, e ele sorriu para Camilla.

— Obrigado. Sinto-me bem melhor agora.

Anthony ignorou sua restrição ao mingau o suficiente para comer uma tigela cheia. Quando o visitante terminou de tomar o chá e de comer a última parte que conseguia do mingau, encostou-se na parede e fechou os olhos.

Camilla temeu que voltasse a dormir, então falou rapidamente:

— Bem! Agora que está se sentindo melhor, há algumas coisas que realmente precisamos conversar.

Os olhos dele se abriram e ele olhou para ela — um pouco desconfiado, pensou Camilla.

— Por exemplo, seu nome — continuou Camilla. — Não fazemos idéia de quem você é.

— Eu sei. E você é uma mulher encantadora e gentil em ajudar um estranho assim.

Havia algo ligeiramente estrangeiro na inflexão das palavras, pensou Camilla — ou era somente sua imaginação?

— Obrigada. Mas não estou atrás de elogios. Gostaria apenas de saber seu nome.

Ele hesitou por um momento, e disse:

— James. James Woollery.

— Entendo. — Ela ficou pensando se ele não havia feito o elogio para ganhar tempo e inventar um nome. — O que aconteceu para ficar nessas condições?

— Camilla... — interveio Anthony. — Talvez ainda não esteja suficientemente bem para tantas perguntas. De qualquer maneira, já contei pra você o que aconteceu.

— Eu gostaria de ouvir da boca dele.

— Não. Está tudo bem, Anthony — assegurou Woollery. — Compreendo a curiosidade dela. Só gostaria de poder ser mais útil. Fui atacado, mas não sei por quem ou por quê. Estava escondido nas pedras da praia, à minha espera, e quando passei, ele pulou em cima de mim com uma faca. Lutamos.

Não estou muito certo do que aconteceu. Fui esfaqueado e perdi sangue, mas consegui sacar a pistola e ele fugiu. Atirei nele, mas acho que não o atingi.

— Não tem idéia de quem seja?

Ele balançou a cabeça em discordância.

— Usava um lenço em torno da boca, e um capuz escondia parte de seu rosto. Não pude ver nada além dos olhos, e estava bem escuro. com certeza, não o reconheci. Acho até que não o distinguiria se o visse novamente.

— Ele era alto, baixo?

— Alto. Mais alto que eu. E forte.

—- Ele roubou alguma coisa de você?

— Não. — Ele mudou de posição, desviando, pela primeira vez, o olhar do dela. — Acho que era o que queria fazer, depois de me matar, mas não foi tão longe.

Camilla assentiu, imaginando se teria sido apenas coincidência ele desviar o olhar justamente naquele instante.

— Parece bizarro. Por que simplesmente não mandar você ficar quieto e entregar tudo? Parece exagerado matar um desconhecido para roubá-lo, não acha?

O homem deu de ombros.

— Não sei o que ele estava pensando.

— Sr. Woollery, de onde o senhor é? Ele ergueu as sobrancelhas.

— Bem, sou de Dorset. Estava indo pra casa.

— Vindo da França? — perguntou Camilla, friamente. Woollery gelou.

— O que quer dizer?

— Que sei que você estava entre os contrabandistas. Que desembarcou outro dia com um carregamento de conhaque.

— Sinto muito — disse ele, sorrindo educadamente. — Mas está enganada.

— Estou? — Camilla olhou para ele com franqueza. — Sr. Woollery, estou certa de que pode avaliar minha posição. Meu primo e eu o ajudamos porque sentimos pena de você, da mesma forma que sentiríamos por qualquer pessoa tão ferida. Porém, sabemos que veio com os contrabandistas. A organização de vocês foi vista, e isso não é o tipo de coisa que se esquece facilmente.

A mão dele foi instintivamente para o cordão no pescoço, mas não disse nada.

— Você estava, no mínimo, participando da atividade de contrabando. Mas também parece que veio da França. Você falou francês em meio ao delírio.

— Falei? — Ele pareceu surpreso e, estranhamente, um pouco feliz.

— Sim, falou.

— Isso não é difícil de explicar. Veja, minha mãe era refugiada. O francês é minha língua nativa quase tanto quanto inglês.

— Pode ser, mas isso ainda não explica o que estava fazendo naquela noite, ajudando um bando de contrabandistas, Não explica como chegou aqui ou por quê.

O homem passou a mão trêmula na testa.

— Sei o quanto tudo isso parece bizarro. Mas juro que sou tão inglês quanto vocês e amo meu país, assim como vocês. Não sei a identidade do homem que me atacou e não sei por que me atacou. Quanto ao resto, bem... sinto muito, mas simplesmente não tenho permissão para contar.

— Não tem permissão! — exclamou Camilla.

— O que isso significa? — perguntou Anthony, pela primeira vez. — Woollery, esse não é um bom momento para ter escrúpulos. Sua vida pode estar em risco. Ou a nossa, por sinal. Você tem de nos contar. O que está acontecendo?

— Sim — ecoou uma voz profunda da entrada da sala. — Eu também gostaria de saber isso. O que está acontecendo?

— Benedict! — Camilla deu um grito de espanto e foi na direção da porta, se colocando automaticamente entre o homem deitado no chão e o homem parado na porta. Agora sim, o caldo tinha entornado. — O que está fazendo aqui?

— Acho que essa é a minha pergunta — replicou Benedict, calmamente, ao entrar na sala. — Eu a segui, minha querida. Estava bastante interessado no que a levava a correr até a fortaleza abandonada. Desculpe-me por chegar tão tarde, mas custei a encontrar a porta do porão. Eu estava muito atrás de você para ver onde ela ficava, entende?

— Você... quer dizer que sabia? O tempo todo?

— Sabia que você e Anthony estavam se esgueirando até aqui. O motivo, não tinha certeza. Esperei que confiasse em mim, mas como não confiou, resolvi da minha maneira.

Anthony foi para o lado de Camilla e encarou Benedict, carrancudo:

— Não foi culpa dela. Foi toda minha. Ela apenas me ajudou quando eu disse o que tinha feito.

— Nisso eu acredito — respondeu Benedict, secamente. — Agora, se os dois gentilmente se afastarem e me deixarem ver quem é que estão insistentemente escondendo...

Benedict adiantou-se, depois parou de súbito.

— Deus meu.

Camilla virou-se. O paciente estava olhando para Benedict da mesma maneira que Benedict olhava para ele.

— James Woollery...

— M...Major! — Woollery levantou-se de pronto. — Lorde Rawdon!

— Quem? — Camilla fitava Woollery, sua voz ecoando em seus ouvidos.

Woollery balançou, curvando os joelhos, e Benedict pulou para agarrá-lo.

— Aqui, Anthony! Ajude-me a deitá-lo. Camilla, pegue um pouco d’água.

Os dois correram para fazer o que ele mandava. Anthony e Benedict ajudaram Woollery a se sentar e o encostaram na parede. Camilla pegou a moringa com água e voltou rapidamente. Benedict batia levemente no rosto de Woollery.

— Você o conhece? — perguntou Camilla, surpresa.

— Conheço. — Benedict pôs um pouco d’água na palma da mão e borrifou no rosto do jovem.—James. James. Acorde. Sou eu, Rawdon.

— Mas como? — perguntou Anthony, confuso. — Sabe o que aconteceu com ele?

— Não. Vocês também não? — Olhou em volta. — Não estão mantendo ele prisioneiro?

— Prisioneiro! Não! — Anthony pareceu ofendido. — Estávamos escondendo ele! Eu o trouxe até aqui para cuidar de suas feridas e para impedir que o homem que o atacou o encontrasse. Que idéia!

— Esse é exatamente o tipo de idéia que ele teria — disse Camilla, com amargura. Ficava cada vez mais claro para ela que Benedict a estivera enganando intensamente o tempo todo. — Lorde Rawdon obviamente não confia em ninguém.

Benedict lançou-lhe um olhar penetrante, mas antes que pudesse falar, os olhos de Woollery se abriram. Deu uma olhada vaga ao redor, por um momento, depois focou em Benedict.

— Lorde Rawdon! — repetiu, em tom de reverência. — O que o senhor está fazendo aqui? Como descobriu?

— Até agora descobri bem pouco. O que aconteceu com você, tenente Woollery? Por que está nesse estado?

— Alguém me atacou. Assim que desci do barco. Ajudei a descarregar e comecei a caminhar. Estava indo para aquela aldeia.

— Edgecombe? Woollery concordou.

— Sim. Planejava alugar um cavalo lá. Mas alguém me atacou. Não sei quem. Estava escuro, e o rosto estava coberto, exceto os olhos. Dei um jeito de espantá-lo, e então, na manhã seguinte, esse gentil jovem me encontrou. — Apontou Anthony com a cabeça. — Não sei o que teria feito sem ele. Ele salvou minha vida. Quase me carregou até este esconderijo e fez curativos.

— Não sabíamos quem tinha atacado ele — explicou Anthony. — Fiquei com medo que tentasse novamente. O único local onde imaginei que pudesse escondê-lo era aqui. Mas ele ficou com febre. Estava muito fraco. Foi por isso que trouxe Camilla. Sabia que ela teria melhores condições de medicá-lo. E veja, as poções acabaram com a febre. — Ele olhava radiante para Camilla, como um pai orgulhoso.

Camilla pensou em bater no primo por seu entusiasmo. Sentia-se inteiramente usada. Ignorou Anthony, virando-se para Benedict e perguntando num tom frio:

— Quem é você, afinal? O que está fazendo aqui? E que direito tem de nos fazer quaisquer dessas perguntas?

— Você não o conhece? — perguntou Woollery, perdido. ; — É Lorde Rawdon — disse ele, como se todo o mundo conhecesse o nome. — Foi meu major na campanha da Península. Na época, major Wincross, antes do título.

— Major Wincross? — Anthony franziu o cenho concentrando-se. — Já ouvi esse nome antes. — De repente, pareceu elétrico. — Mas esse... Você é o homem de quem Graeme sempre falava! — Olhou para Benedict de maneira quase reverente. — Oh, senhor, não posso dizer o quanto estou honrado em conhecê-lo.

— Conhecê-lo? Você já o conhece há dias — disse Camilla, irritada. — Está falando do primo Graeme? O irmão de Harold e Bertram?

— Sim, é claro. Quem mais poderia falar do herói de San Luis?

— Herói do quê? Benedict resmungou: !

— Por favor, não vamos entrar nesse assunto antigo. Mas Woollery estava entusiasmado.

— Sim, sim, esse é Lorde Rawdon. Quem é esse Graeme de quem falam? Ele está no exército?

— Está. Nos hussardos. Graeme Elliot. Não parava de falar sobre como esse tal de Wincross e seus homens ficaram presos atrás da linha do inimigo, mas de alguma forma, o major conseguiu evitar a captura e voltar para nossa própria linha e...

— Sinto muito, cavalheiros — disse Camilla, acidamente —, por interromper toda essa bonomia militar, mas poderíamos, por favor, retornar ao assunto em questão, saber quem são esses dois homens e o que estão fazendo aqui em Edgecombe?

Anthony parecia totalmente exasperado.

— Eles acabaram de dizer quem são. Esse é James Woollery, era soldado, Milla, um tenente, não um espião inimigo. E esse é Lorde Rawdon, o homem que...

— Sim, sim, já entendi, o herói de San-seja-lá-o-que-for. O que quero dizer é: o que eles têm a ver com a organização contrabandista? E por que o tenente Woollery falava francês quando estava inconsciente? E por que Benedict estava aqui, fingindo...

Benedict interrompeu suavemente, sorrindo com carinho para Camilla.

— Você descobrirá que Lady Rawdon é uma mulher que quer respostas.

— Quem? — perguntou Anthony.

Woollery movia os olhos de Camilla para Rawdon e viceversa, perdido.

— Senhor, podemos contar pra ela?

— É claro. — Benedict afastou as dúvidas do soldado. — Você está falando com minha mulher. Camilla é a nova Lady Rawdon.

Camilla foi na direção de Benedict, os olhos faiscando.

— O que você disse? Ficou louco?

— Minha querida — disse para Camilla, sorrindo e tranqüilizando-a, e pegando sua mão e apertando —, não precisamos mentir para Woollery. Pode admitir que sabe minha identidade verdadeira. O tenente é um dos meus homens. Eu esperava que você tivesse me dito o que estava fazendo aqui. Eu poderia ter esclarecido tudo mais rapidamente.

Woollery olhou para Camilla, como a se desculpar.

— Sinto muito, minha senhora, tê-la deixado preocupada. Como lhe disse, minha mãe era francesa, e estive na França por um bom tempo, fingindo ser um francês, e, bem, ainda devo estar pensando na língua... Às vezes é um pouco difícil alternar entre as duas línguas.

— Vê, Milla? — Anthony virou-se para Camilla com um sorriso presunçoso. — Falei pra você que não significava necessariamente que era um espião.

— Ah, mas ele era—disse Benedict. — Só que espionava eles para a Inglaterra. Winslow, Sedgewick e eu montamos a rede algum tempo atrás. Winslow tinha um tipo de acordo com os contrabandistas para trazer nossos homens e nossas informações para a Inglaterra.

— Então era por isso que você estava descarregando o conhaque! — exclamou Anthony, olhando para Woollery.

— Foi pego, hein? — perguntou Benedict. — Deve ter sido descuidado.

— Foi aquele anel que você usava no pescoço — explicou Anthony. — Vi que não podia ser um contrabandista comum.

— Eu disse pra você que aquele anel ia lhe trazer problemas algum dia.

— Mas, senhor, era o meu amuleto da sorte. Não tinha como abandoná-lo. Uso ele desde criança!

— Não deu sorte dessa vez — disse Benedict, secamente. Houve um momento de silêncio quando o pensamento de todos se voltou para as feridas do jovem.

— Mas o que o senhor está fazendo aqui? — perguntou finalmente Woollery. — Pensei que fosse porque eu tinha sumido.

— Vim por que alguns outros também desapareceram. Alguém está tentando destruir nossa rede. Nunca mais tivemos notícias de Keswick, que deveria ter retornado três semanas atrás, e nenhuma informação de ninguém, de dentro ou de fora da França. Está um silêncio de morte. — Suspirou. — No caso de Keswick, sinto que é literal.

— Quer dizer... que ele está morto? — Woollery engoliu em seco.

Benedict concordou.

— Pela minha experiência, acho que sim. Apenas sua reação rápida e a ajuda de Anthony evitaram que você seguisse o mesmo destino.

— Isso é terrível. — O jovem ficou mais pálido ainda, e fechou os olhos por um instante.

— É sim. Sedgewick e eu decidimos que tínhamos de vir aqui e descobrir o que estava acontecendo.

— Então é por isso que você estava tão... — começou Camilla.

— Tão ansioso para vir pra cá? — interrompeu Benedict, os olhos intensamente grudados nos dela. — Sim, minha querida. Além de querer conhecer meus novos parentes, eu tinha um motivo oculto. E, é claro, agora você pode compreender porque tivemos de fingir que meu sobrenome não era Rawdon.

Camilla olhou para ele. Por que insistia em dizer na frente do jovem que eram casados? Já era suficientemente ruim que sua família pensasse que era casada com ele, agora que se transformara num lorde e num herói de guerra. Mas, de alguma forma, conseguiria engabelá-los. Mas contar para outras pessoas que eram casados, pessoas que o conheciam como Rawdon, era simplesmente desastroso.

— Já descobriu quem está despedaçando a rede? — perguntou Woollery.

— O homem que matou Nat Crowder! — exclamou Anthony, subitamente. — Então era por isso que você estava fazendo tantas perguntas sobre esse assunto! Pensei que fosse um fiscal da alfândega.

Woollery deu uma gargalhada, e Rawdon sorriu.

— Um fiscal da alfândega. Não me surpreende que desconfiasse tanto de mim. Da mesma forma que eu desconfiava que estivesse levando minha mulher para o esquema de contrabando.

Anthony ficou aterrorizado.

— Senhor! Eu jamais envolveria Camilla no contrabando! Seria perigoso demais.

— Perigoso demais para você também — salientou Benedict, bruscamente, — Seu avô está loucamente preocupado com você, e Camilla também, eu garanto.

— Mas... como ele sabe? -— Anthony arregalou os olhos.

— Milla! Você não contou...

— Não. Não contei pro vovô que você era um criminoso

— retrucou Camilla. — Acha que quero matá-lo? — Virou-se para Benedict, acusativa. — Você contou?

— Não. Eu juro. — Benedict ergueu as mãos, como em rendição. — Não me ataque. O conde já sabia. Parece que já era de conhecimento público. Você acha que Chevington, com todos os seus amigos, não teria sido informado? Ele me pediu para ajudá-lo, para descobrir se a fofoca era realmente verdadeira e se seu neto estava mesmo a ponto de macular o nome da família, sendo preso e enforcado como um criminoso.

O rosto de Anthony ficou rubro.

— Senhor! Não é... Bem, não foi bem assim.

— Não? Como foi? Você não estava trazendo mercadorias contrabandeadas?

— Bem, sim, é claro que estava.

— E se os soldados ou os fiscais o pegassem, acha que eles o soltariam apenas com uma palmada porque você é o futuro Conde de Chevington?

— Eu... — Anthony ficou ainda mais desconcertado.

— É claro que foi isso que você pensou, se é que pensou em algo. Bem, eu lhe digo que, se tivesse sido pego, teria sido enforcado com todos os outros ou, quem sabe, já que é nobre, talvez reduzissem a pena para deportação. Em qualquer dos casos, sua família seria alvo de um escândalo. E se fosse enforcado, sabe, seu primo Bertram seria o novo Conde de Chevington. Posso imaginar como seu avô ficaria satisfeito com isso. Se tivesse escapado de outro ataque de apoplexia, é claro.

— Benedict! Já basta! — gritou Camilla, olhando a expressão devastada de Anthony. — Acho que Anthony percebeu o que fez.

— Será? Agora, talvez. Mas acho que antes ele via tudo como uma brincadeira sem conseqüências. E você, minha querida, certamente não fez nada para dissuadi-lo.

— Não culpe Camilla, senhor — interrompeu Anthony honrosamente. — Foi tudo idéia minha. Ela nem sabia de nada até chegar aqui, e me fez prometer que largaria o negócio. E vou. Direi ao Jem que não posso acompanhar os homens da próxima vez.

— Não, não largará — disse Benedict. — Pelo menos ainda não.

Anthony fitava-o.

— Como? Pensei que o senhor...

— Sim. Quero que largue. Mais ainda: insisto nisso. Falei com seu avô sobre deixá-lo um pouco mais livre. Ele concordou em pensar sobre mandá-lo para Oxford, embora eu já saiba que não se interessa muito pelos estudos.

— Oh, eu me interessaria, senhor, se isso significasse sair de Edgecombe.

— Acho que seria a melhor coisa para você — concordou Benedict. — Mas antes disso, precisa encontrar os contrabandistas uma última vez. E levará um ajudante extra com você.

— Não entendo.

— Você ficou maluco? — gritou Camilla. — Acabou de convencê-lo a abandonar a coisa!

— Ah, mas dessa vez ele não será um contrabandista de fato. Estará trabalhando para seu país. Vai me levar junto.

— Você vai encontrar o líder! — exclamou Anthony, os olhos flamejando. — Que aventura fantástica. Nós dois vamos capturá-lo.

Um leve sorriso surgiu no rosto de Benedict com o entusiasmo do garoto.

— Algo assim.

— Pode contar comigo, senhor. Não se arrependerá.

— Espero que não — avisou Benedict, asperamente. — Terá de obedecer minhas ordens ao pé da letra, Anthony. Nada de ficar inventando travessuras.

— Não, senhor, não vou. Farei exatamente como o senhor mandar.

— Também vou ajudar, senhor — falou Woollery.

— É claro. Se estiver se sentindo melhor.

— Benedict! Você deve estar brincando! — Camilla estava horrorizada. — Isso é ainda pior do que Anthony ser contrabandista

Pelo menos os outros homens, sem dúvida, cuidavam dele, o protegiam.

— Não protegiam! — protestou Anthony.

— Cresça, Anthony. Eles certamente o protegiam. Todos temiam bastante a ira do vovô se alguma coisa acontecesse a você. Mas isso... isso é terrivelmente perigoso. Estará lidando com pessoas que mataram outras; Nat Crowder, por exemplo, e provavelmente esse tal de Keswick sobre o qual falava Benedict. Ele obviamente fez o possível para acabar com o tenente Woollery também. Bem, agora estou entendendo tudo, foi ele que fez o buraco no nosso barco também!

Benedict fitou Camilla intensamente. Devia ter imaginado que ela perceberia que o barco tinha sido sabotado. Um relutante sorriso de admiração apareceu em seu rosto.

— Ele é perigoso — continuou Camilla, inflexível. — Se o encurralarem, tenho certeza que não hesitará em matá-los.

— Ah, não seja tão pessimista, Milla. — Anthony tentava afastar os medos da prima. — Não vai acontecer nada comigo.

— Não tenha tanta certeza—disse Benedict. — Não quero que vá com esse tipo de atitude ou poderá nos matar a todos. Esse homem é perigoso, e devemos nos precaver.

— Sim, senhor.

Benedict voltou-se para Camilla.

— Mas uma coisa que você não sabe sobre mim, minha querida, é que também sou um homem perigoso. Tenha certeza de que cuidarei de Anthony.

— Oh! — Camilla soltou um gemido de frustração. — Você pensa que é invencível.

— Não inteiramente — disse ele, sorrindo. — Mas já saí de grandes encrencas. Sei cuidar de mim e de meus homens. Eles sempre voltaram bem.

Camilla preferia protestar, mas sabia que não tinha sentido. Uma vez que os homens tomavam uma decisão, principalmente sobre algo perigoso e imprudente, ninguém os convencia do contrário.

— Então suponho que eu deva ir com vocês — disse ela, calmamente.

— O quê? — a palavra saiu como um coro da boca dos três homens, mas apenas Woollery pareceu surpreso.

— De jeito nenhum — decretou Benedict, franzindo o cenho. — Eu a proíbo.

— Você o quê? — a voz de Camilla estava perigosamente sedosa.

Anthony gemeu, ciente de que aquelas palavras eram como uma bandeira vermelha desfraldada na frente de sua prima. Rapidamente interpôs:

— Seja razoável, Milla. Não dá pra você ir. Seria reconhecida num minuto. Ninguém a confundiria com um homem.

— Não sou muito mais baixa que Jem Crowder — protestou Camilla.

— Talvez não, mas seu formato é bem diferente. Camilla enrubesceu um pouco com as palavras indelicadas do primo, mas disse corajosamente:

— Tolice. Em roupas grosseiras de trabalhador, não será possível ver minha forma.

— Tem o seu jeito de andar — apontou Benedict, percebendo que Anthony seguia pelo caminho certo. — Seu modo de andar, até mesmo o balanço da cabeça, é caracteristicamente feminino. E não me diga que pode erguer um barril de conhaque como um homem.

— E isso aí — concordou enfaticamente Anthony. — Assim que tentasse levantar um objeto pesado, seu disfarce cairia por terra. E nós todos estaríamos condenados.

Camilla não gostava de desistir, mas percebia a sabedoria das palavras dos homens. Decidiu tentar um outro método:

— Mas como vão se disfarçar de contrabandistas? Não acham que vão notar se Anthony aparecer com um ou mais extras?

Anthony assentiu com a cabeça, pesaroso.

— Ela tem razão nisso. Não sei como vamos resolver isso.

Benedict pensou um pouco.

— E se... alguns dos contrabandistas regulares ficassem doentes e não pudessem comparecer, justamente na noite da remessa? O grupo não ia necessitar de substitutos, e rápido?

— Acho que sim.

— Você sabe quem são os contrabandistas, não? Pelo menos alguns deles?

— Sei.

— Existe alguma família que contribui com muitos homens?

Anthony consentiu.

— Os Matsons. Três deles. Dois irmãos e o filho de um deles. Vivem todos juntos numa casa. Mas como vai fazer pra ficarem doentes?

— Algumas ervas fazem milagre, não fazem, minha querida?— Benedict olhou para Camilla.

Ela fez uma careta amarga.

— Não sei. Não tenho o hábito de envenenar pessoas.

— Eles não ficariam seriamente doentes — argumentou Benedict. — Vamos colocar um pouco na comida deles de noite, e eles ficarão doentes do estômago durante um tempo suficiente para os contrabandistas se darem conta de que ficarão sem mão-de-obra disponível. Quando você ficar sabendo disso — apontou para Anthony —, dirá que tem um jardineiro ou cavalariço ou coisa que o valha em Park que adoraria ganhar um dinheiro extra sem fazer perguntas.

— Posso fazer isso — concordou Anthony.

— Vocês ficaram todos loucos — disse Camilla. — Vão acabar mortos.

— Tem alguma outra sugestão? — desafiou Benedict, com tranqüilidade. — Uma outra maneira de encurralar o homem que está entregando o país ao inimigo? Ou talvez ache que deveríamos deixá-lo continuar a agir assim?

— Não, é claro que não. — Camilla fitou-o, um pouco contrariada. Estava quase sem saída. Não podia, é claro, permitir que o traidor trabalhasse à vontade, mas também não podia imaginar outra forma de capturá-lo. — Estou apenas dizendo que é perigoso.

— Minha querida... um pouco de perigo é o tempero da vida.

— É, e eu sabia, desde o começo, que você gosta de tempero — retrucou Camilla, amargamente.

Woollery e Anthony olharam para ela sem entender. Apenas Benedict poderia adivinhar o motivo de seu mauhumor, e não podia dizer nada para remediá-lo na frente dos outros. Amaldiçoou sua falta de sorte. Não era assim que planejara que ela ficasse sabendo de sua verdadeira identidade. Percebia agora como conduzia a coisa toda de maneira teimosa. Deveria ter percebido que Camilla não estava envolvida com traição ou em contrabando, nem mesmo para ajudar seu primo. Deveria ter revelado quem era e o que procurava. Assim teria tido a ajuda dela o tempo todo. Ela lhe teria contado sobre seu misterioso paciente. Tudo teria sido mais fácil, e ela não estaria tão agitada agora.

— Bem — continuou Camilla, sem afobação —, tenho mais o que fazer. vou deixar vocês planejarem sua expedição.

Virou-se e saiu da sala.

— Camilla! Espere! — Benedict começou a correr atrás dela, mas Anthony segurou seu braço.

— Eu a deixaria sozinha um pouco, se fosse você — disse Anthony. — Ela arrancará sua cabeça se tentasse falar com ela agora. Eu sei. Já tentei isso várias vezes. — Deu um sorriso pesaroso. — Está zangada por não poder ir conosco no negócio do contrabando. Mas ela vai aceitar, você vai ver. Sempre foi correta. E também não vai contar pra ninguém.

— Não, tenho certeza que não — concordou Benedict, olhando na direção dela com indecisão. Suspeitava que Anthony estivesse certo e que, se tentasse falar com ela agora, acabariam numa furiosa discussão. Poderiam dizer coisas que não queriam, e ele terminaria numa posição ainda pior do que a que se encontrava agora. Suspirou. — Você tem razão. Falarei com ela mais tarde. — No quarto, onde poderia amolecê-la com beijos e carícias.

Camilla disparou para fora da ilha pela trilha até a praia, ignorando a água que estava a apenas alguns centímetros de seus pés. Uma sensação de ira se apoderou tão violentamente dela que quase se sentiu mal. Lorde Rawdon, pois sim! Não parou para analisar suas emoções. Só sabia que se sentia totalmente traída e desolada. Sua vida estava arruinada, e Benedict era a causa.

Quando chegou em casa, não foi tomar o café-da-manhã. Sentia-se muito mal. Foi para o quarto e chamou a criada. Foi lá que Benedict a encontrou, dando ordens a dois lacaios e à criada, quando chegou, uma hora depois.

Ele parou e olhou pro catre no canto do quarto, sobre o qual a criada arrumava os lençóis, com pressa. Os lacaios, em pé de cada lado do catre, evitavam encará-lo. Benedict olhou para todos e depois para Camilla, que o olhava friamente, com os braços cruzados. Voltou-se para os serviçais:

— Fora. — Sua voz dura e o movimento autoritário da cabeça foram suficientes para que os serviçais saíssem correndo quarto afora. A criada cautelosamente fechou a porta atrás de si.

— O que é isso? — perguntou Benedict apontando para a cama improvisada.

— Isso é um catre. com certeza já viu um antes. Imagino que já tenha até dormido em um, no exército.

— Pare de bancar a idiota. Sabe o que quero dizer. Por que isso está aqui?

— Me parece óbvio. Quanto a bancar a idiota, é o papel que me cabe. Afinal, não foi por isso que me escolheu para essa charada?

— Se você se lembra—disse Benedict com os dentes cerrados —, foi você que me escolheu, não o contrário. — Ele percebeu que, ao longo dos últimos dias, esquecera-se do quanto a garota era irritante.

— É claro. Isso faz com que a culpa seja toda minha, então.

— Não é culpa de ninguém. — Ele lutava para manter um tom racional, embora nem soubesse direito sobre o que estavam falando. — Simplesmente aconteceu, e precisamos tirar o melhor disso.

— É o que estou fazendo. Temos pensado esse tempo todo numa maneira de arranjar uma cama pra você. Consegui. Deve se lembrar que até conversamos sobre termos uma rusga e você ter de dormir em um catre no vestíbulo. Bem, já tem tempo suficiente. Uma briga parece mais do que plausível, e bem fácil de encenar, não acha? Então mandei os homens trazerem o catre do sótão. Tentei colocá-lo no vestíbulo, mas pareceu terrivelmente apertado e escuro. Achei aí bem melhor.

Benedict aproximou-se, os olhos ameaçadores.

— Pare com isso! Sabe muito bem que não preciso de lugar nenhum pra dormir. Meu lugar é na sua cama.

Camilla olhou-o e respondeu simplesmente:

— Não. Não é.

— Droga, Camilla, pare de agir assim!

— Assim como? Como alguém que foi enganada? Alguém para quem você mentiu e enrolou? Como uma mulher que você seduziu e traiu?

— Não fiz nada disso! — gritou ele. — Bem, quero dizer, sim, acho que a seduzi. Eu deveria ter esperado. Teria, se tivesse sido mais forte. Mas, droga, Camilla, sou de carne e osso. Tive de suportar tanta coisa. Ficar tão perto de você o tempo todo, vendo você, sentindo seu cheiro, dormindo a alguns metros de você. Fiquei louco.

Havia uma urgência tão crua na voz dele que provocou um calor no abdômen de Camilla. Ela se virou, aturdida.

— Está bem, eu admito — disse numa voz abafada. — Você comportou-se como um cavalheiro a maior parte do tempo, e também tive minha parcela de culpa ontem. Mas — ela se agitava, os olhos flamejando, a voz triturando as palavras — por que mentiu pra mim?

— Não menti pra você.

— Você nunca me contou a verdade!

— Meu Deus, Camilla, o que esperava que eu fizesse? Eu estava procurando um traidor. Vim pra cá sem conhecer ninguém, só sabendo que era aqui que tudo tinha acontecido. Não podia contar pra ninguém o que estava realmente fazendo.

—Eu não sabia nada sobre você — disse Camilla.—Mas confiei em você o suficiente para trazê-lo para dentro da minha casa e apresentá-lo a minha família como meu noivo. Deixei até você dormir em meu quarto, na certeza de que não ] se aproveitaria disso.

— Essa é uma outra questão totalmente diferente. Não estou falando de confiança pessoal. Se eu errasse, meu país é que sofreria.

— Você acreditava que eu pudesse ser uma traidora? — perguntou Camilla, a voz gélida.

— Não, é claro que não. Jamais pensei que você fosse a pessoa que eu procurava.

— Só por eu ser mulher, e você não acha que uma mulher seja capaz de tal tarefa.

— Não! Não é por isso. Tinha certeza que não seria capaz de trair seu país. Mas não podia correr o risco de você contar para alguém sobre mim. Não podia arriscar que a informação vazasse pra ele.

— Então, apenas não me julgou capaz de manter um segredo. Entendo.

—Está me dizendo que não teria contado pra Anthony? Você disse rapidinho pra ele que não éramos realmente casados.

— Pelo amor de Deus, ele já sabia. Sabia que a história que eu contara pro vovô era uma fraude. E não é tão ingênuo quanto tia Lydia. Não teria acreditado que eu realmente tivesse conhecido e me casado com um homem ao mesmo tempo em que tia Lydia contava essa história pra todo o mundo. Ou talvez tenha pensado que Anthony era o traidor?

— Ele poderia ser. Não pensei que fosse Anthony, mas era um assunto muito importante para deixar meus sentimentos interferirem. Acha que gostei de enganar você? Ou de mentir pára seu avô? Ou qualquer das outras coisas que tive de fazer?

— Tais como me levar para a cama? Isso era parte do esquema? Quem sabe uma forma de garantir minha lealdade caso eu descobrisse sua verdadeira identidade? Bem, deixe-me dizer, Lorde Rawdon, que não funcionou.

Benedict retraiu-se como se tivesse sido golpeado, e seu rosto ficou vermelho de ira.

— Dane-se toda essa droga! Deus sabe que não sou tolo o suficiente pra pensar que você seria mais leal a mim do que a seu primo, ou a um estranho que encontra febril e sangrando nas ruínas. Você certamente escondeu muito bem de mim os segredos deles dois! E juro que não houve cálculo algum quando fiz amor com você. Nunca houve nada além de desejo cego e irracional.

Camilla empalideceu. Por um momento longo, nada além de silêncio preencheu o quarto. Até que ela disse, a voz um pouco trêmula:

— Obrigada por me explicar seus motivos. Suponho que devo ser grata pelo fato de que, embora não houvesse sentimentos maiores envolvidos no ato amoroso, pelo menos nada foi planejado.

Benedict grunhiu.

— Não foi isso que eu quis dizer. Meu Deus, acha que eu me casaria com você apenas por desejo?

Camilla fitou-o.

— Casar? Do que está falando? Ninguém falou nada de casamento.

— Eu falei. Não reparou que eu disse pro jovem Woollery que você era Lady Rawdon?

— Sim, mas eu... não consegui entender por que fez isso: Não pode se casar comigo. Quero dizer... o escândalo! — Ocorreu a Camilla num piscar de olhos o porquê de ter ficado tão furiosa com a mentira de Benedict. Apaixonara-se por ele e, no fundo, no fundo, acalentava o sonho de realmente se casarem, apesar do conseqüente escândalo. Teria sido possível com um homem comum, mas não com um nobre. Ela certamente ficaria horrorizada se Anthony se envolvesse com uma mulher cujo nome estivesse tão manchado quanto o dela ficaria assim que o falso casamento fosse descoberto. — Sua família jamais permitiria.

— Minha família não tem nada a ver com isso. Sou o único a decidir se me caso ou não.

— Mas não pode ter uma esposa cujo nome está maculado, como o meu certamente ficará quando tudo isso terminar.

— Seu nome não ficará maculado. É disso que estou falando. Se nosso casamento for verdadeiro, não haverá escândalo.

— Oh. — Camilla olhou para ele. — Não dará certo. Toda a minha família pensa que seu nome é Lassiter e que já sou sua esposa. Aí, de repente, você diz que é Lorde Rawdon, e que vamos nos casar? E eles ainda vão ficar sabendo que dormimos juntos, sem o benefício do casamento por dias, semanas, antes de nos casarmos. Se acha que tia Beryl não falará disso, está redondamente enganado. E primo Bertram! Não me surpreende que o achasse familiar. Sem dúvida cruzou com você em Londres. Será uma fofoca maravilhosa pra ele, e não há nada que Bertram ame mais. Não, é impossível.

— Não é. Conheço um clérigo que nos casaria e manteria tudo em segredo. Salvei a vida de seu filho na guerra. Ele jamais me questionaria se eu dissesse pra todo o mundo que nos casamos duas ou três semanas atrás. Não acredito que alguém chegaria ao ponto de consultar os registros de uma paróquia rural para saber se as datas estão corretas.

— Mas e quanto a seu nome? Todos suspeitarão que há algo errado quando tia Beryl contar para eles que dissemos que você se chamava Lassiter!

Benedict deu um sorriso presunçoso.

— Não depois que explicarmos a sua família que eu me disfarçava porque estava caçando um traidor. Quando tudo estiver terminado, Jermym e eu explicaremos a eles como tudo foi feito pelo país e pelo rei. Nos casamos em sigilo, e viemos com essa história sobre quem eu era porque não podíamos deixar o traidor suspeitar de minha verdadeira identidade ou ele ficaria sabendo por que eu estava aqui. Prometo que, quando Jermyn terminar de falar, sua tia Beryl estará convencida de que ajudou na captura de um inimigo e de que sabia o tempo todo quem eu realmente era, mas manteve segredo para salvar a Inglaterra. Vê? Sua família não vai ficar espalhando nada, e se espalharem, farão como fizemos com eles, como se estivéssemos casados o tempo todo.

Camilla desviou o olhar. Benedict oferecia-lhe exatamente o que ela queria, mas mesmo assim continuava fria. Queria se casar com ela pelas razões erradas. Não havia palavras de amor em seus lábios, apenas racionalidade e propriedade. Não a amava, mas sentira um desejo arrebatador por ela, e porque deixara seu desejo ultrapassar seu bom senso. Agora, por ser um cavalheiro, precisava se casar com ela. Assim que o tenente, que o conhecia como Lorde Rawdon, apareceu em cena, percebeu que deveria se casar com ela para evitar o escândalo.

— Entendo.

Caminhou até a janela e fitou o vazio. Jamais imaginou que pudesse sentir tanta dor. Lágrimas surgiram em seu rosto, e ela engoliu em seco.

— Não.

Benedict olhou para ela.

— Como?

— Eu disse ”não”. Não vou me casar com você.

— O quê?

As entranhas de Benedict viraram gelo. Durante todo o seu planejamento, não lhe ocorrera que Camilla pudesse recusar o casamento. Imaginara que sua resposta apaixonada fornecera a ele tudo o que precisava saber sobre seus sentimentos, assim como seu jeito de fazer amor expressara seu amor por ela.

— Você está tão zangada com minha mentira?

— Não estou zangada. — Camilla orgulhou-se de como conseguiu manter o nível da voz, apesar da agonia. — Eu disse pra você, assim que nos conhecemos, que não pretendia me casar nunca.

Benedict explodiu.

— Que diabo! Não é hora para esses intelectualismos tolos! Pelo amor de Deus, Camilla, pense na sua família. Pense em seu próprio futuro! Não percebe o que esse escândalo fará com todos vocês? Você está absolutamente certa sobre a fofoca que vai circular por toda Londres assim que seu primo e sua tia retornarem. Mesmo que sua tia tenha o bom senso de perceber como a fofoca vai afetar o futuro de suas próprias filhas, não acredito que consiga esconder de seus amigos íntimos as melhores partes. E quando isso acontecer, todos na cidade saberão. Sua reputação ficará arruinada.

— Então viverei reclusa o resto da minha vida. Recolhida em Park. Posso viver sem os círculos sociais, e a vida rural será perfeita pra mim.

— Estou contente em ouvir que gosta da vida no campo, porque eu também prefiro, e assim que não for mais necessário em Londres, pretendo passar a maior parte do tempo na minha propriedade. Como minha esposa, você também estará lá.

Camilla inquietou-se, os olhos flamejando. Benedict a enfureceu tanto que a fez se esquecer de sua própria desolação e arrependimento por um instante.

— Não vou! Você tem dificuldade em compreender?

— Não. Aparentemente sou muito mais compreensivo que você. Mas, certamente, até você poderá entender isso. Você vai se casar comigo. É seu único destino, e não ligo a mínima se deseja ou não. Vai se casar comigo.

Com essas palavras, deu meia volta, abriu a porta violentamente e disparou para fora do quarto. Camilla deixou escapar um grito de frustração e correu atrás dele para bater a porta. Bem, pensou ela, ao atravessar o quarto e se jogar na cama, pelo menos ninguém na casa deixaria de acreditar que os recém-casados tiveram uma discussão. E teve um ataque de choro.

Se os gritos e batidas de porta não foram capazes de despertar os habitantes da casa para a rusga dos ”recém-casados”, eles logo perceberam tudo pelo comportamento de Benedict e Camilla nos dias subseqüentes. Não se aproximavam um do outro, falando raramente e somente quando necessário, Era do conhecimento dos serviçais que dormiam em camas separadas, igualmente amarrotadas e bagunçadas por sonecas aparentemente intermitentes, e só um tolo não teria percebido a conduta gélida e distante de Camilla ou o ar de fúria controlada de Benedict.

Camilla passava a maior parte do tempo conversando de modo espirituoso com sua tia Lydia ou seu primo Bertram, ou trancada no quarto, refúgio do qual sempre retornava com os olhos vermelhos. Benedict, por outro lado, passava a maior parte do tempo em diversos empreendimentos masculinos, principalmente cavalgando ou jogando cartas, com Anthony ou com o outro jovem, James Woollery, que tinham trazido para casa e instalado em um dos quartos de criança.

Camilla ficara bastante surpresa quando Anthony e Benedict trouxeram Woollery para casa, dizendo que era amigo de Anthony e explicando que precisava ficar na cama durante os primeiros dias por ter caído do cavalo vindo para Chevington Park. Pareceu-lhe uma imprudência.

— Não temem que o assassino tente matá-lo novamente? — perguntou ela a Anthony, puxando-o para um canto após a ceia. — Me parece que vocês o estão transformando num alvo óbvio.

— Talvez.

— O quê? Como pode ser tão indiferente?

— É parte do plano que Benedict esquematizou. — O rosto do jovem brilhava de entusiasmo, como brilhou agora, sempre que o assunto era Benedict. Camilla teve de se conter para não bater nele. — James é a isca com a qual pegaremos o assassino. Esperamos que ele tente se esgueirar numa noite dessas para matá-lo, e estaremos esperando para capturá-lo.

— É pra lá que Benedict sai de fininho no meio da noite?

— É. Nos revezamos na vigilância.

— E suponho que o pobre tenente Woollery foi tolo o suficiente para concordar com esse plano.

— É claro. Achou uma idéia maravilhosa, e eu também. Realmente não dá pra entender, Camilla, por que está tão dura com Benedict. Desde que descobrimos que não há nada de errado com ele, você tem agido de maneira cada vez mais estranha.

— Você faria o mesmo, se tivesse descoberto que alguém em quem confiava se aproveitou de você.

— Você está exagerando um pouquinho, não? — replicou Anthony, com uma honestidade brutal. — Nunca confiou nele. Pensava que era um ladrão até eu convencer você que era um fiscal da alfândega. Sempre o olhamos com suspeita.

— Mas eu não suspeitava que fosse um lorde ou um herói de guerra.

— O que você diz não faz sentido. — Anthony a olhava, confuso. — Honestamente, Camilla, você está irreconhecível.

Camilla sabia que estava. Percebera que uma boa parte do que dizia ultimamente era amargo, e passava a maior parte do tempo ou chorando ou fingindo estar bem mais feliz do que estava. Sentia falta de conversar com Benedict e de estar com ele; e principalmente sentia falta de fazer amor com ele. Permanecia acordada metade da noite, ao que parece, agitando-se e movendo-se e pensando nas mãos de Benedict em seu corpo. Parecia bizarro que a ausência da paixão que compartilharam tão pouco produzisse um buraco tão imenso em sua vida.

— Não entendo por que não se casa com ele — Anthony continuou, falando baixo.

Camilla apertou os olhos na direção dele.

— Ele disse isso pra você?

— Me disse que a pediu. Bem, não estaria tão infeliz se tivesse aceitado, estaria?

— Não estou infeliz.

— Não sou ingênuo assim, você sabe — retrucou Anthony.— Se você está feliz, não quero vê-la infeliz. Até mesmo vovô sabe que há algo errado. Ele me perguntou ontem o que era. Ele gosta de Benedict, sabe.

— Sei bem disso. Toda a minha família o ama.

— Honestamente, Milla, o que mais ele poderia fazer? Não foi culpa dele, você sabe, minha mãe ter contado aquela história boba de que estavam casados. Nem foi ele que quis fingir que era seu noivo. Mas quando você ficou cara-a-cara com uma reputação arruinada por causa de tudo aquilo, ele chegou e se ofereceu para ajudar, o que me parece uma atitude de cavalheiro.

— Mas olha só que visão tipicamente masculina!

— Bem, eu sou homem — ele argumentou, sensato. — Mas não sou o único aqui que diria que ele fez a coisa certa. Mamãe e tia Beryl também, se soubessem.

— Oh, sim, ele fez a coisa certa — respondeu Camilla, com irritação na voz. Olhou exasperada para seu amado primo. Como poderia fazê-lo entender que não queria o dever de Benedict, mas seu amor? Suspirou. — Não dá pra entender? Não quero um homem porque meus erros nos colocaram numa posição comprometedora. Seria punição, não casamento, e me recuso a fazer isso. O que você acharia se estivesse na posição de Benedict, se tivesse se oferecido para ajudar uma garota, mesmo com motivos pessoais superiores, e acabasse tendo de casar com ela para salvar a reputação dela?

Anthony pareceu surpreso com o pensamento.

— Não ia gostar nem um pouco.

— Vê? Como posso mantê-lo nisso? Ele foi elegante em se oferecer, mas não posso ser tão fria e calculista ao ponto de aceitar. Principalmente depois de ouvir o tenente falar que Benedict era considerado um partidão, mas sempre se recusava a se casar.

— Eu diria que deve ser duro pra ele — concordou Anthony, pouco diplomático. —Mas Milla, você tem de aceitar. Do contrário, sua reputação ficará arruinada. Pense só no que tia Beryl dirá.

Camilla soltou um leve gemido.

— Por favor, não me lembre.

Houve uma pausa. Finalmente, Anthony disse:

— Quer dizer que não vai mudar de idéia?

— Não. Acho que não. Anthony suspirou.

— E dizem que sou eu que não penso!

Camilla recolheu-se cedo. Passara a odiar as noites, ficar deitada acordada e pensando em Benedict, imaginando n