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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


INFINITO / Sherrilyn Kenyon
INFINITO / Sherrilyn Kenyon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

INFINITO

 

Aos catorze anos, Nick Gautier acha que sabe tudo sobre o mundo ao seu redor. Sabedoria das ruas, duro e experiente, seu sarcasmo ligeiro é lendário... até a noite em que seus melhores amigos tentam matá-lo. Salvo por um misterioso guerreiro lutando melhor que Chuck Norris, Nick é sugado para o reino dos Dark Hunters: matadores de vampiros imortais que arriscam tudo para salvar a humanidade.

Nick aprende rapidamente que o mundo humano é apenas um véu para algo muito maior e mais perigoso: um mundo onde o capitão do time de futebol é um lobisomem e a garota pela qual ele tem uma quedinha sai à noite para pregar estacas em mortos vivos.

Mas antes que Nick possa aprender as regras desse novo mundo, seus colegas começam a se transformando em zumbis devoradores de carne. E ele é o próximo no cardápio.

Como se começar o ensino médio não fosse suficiente difícil... agora Nick tem que esconder de sua mãe seus novos amigos, sua motosserra do diretor e ainda impedir os zumbis e o demônio Simi de comer cérebros - tudo isso sem acabar sendo preso ou suspenso. Como é que, de todo mundo, justo ele se tornou quem deveria fazer isso?

 

 

Livre arbítrio

Alguns o chamaram de o maior presente concedido à humanidade. É a nossa capacidade para controlar o que ocorre e exatamente como ocorre para nós. Somos os donos de nosso destino e ninguém pode impor sua vontade a não ser que nós assim permitamos.

Outros dizem que o livre arbítrio é um mito de merda. Que temos um destino predestinado e não importa o que façamos ou quão duro lutemos, que na vida acontecerá exatamente o que está destinado a acontecer. Não somos nada mais que peões para um poder superior, que nossos pobres cérebros humanos ainda não podem começar a entender ou compreender.

Meu melhor amigo, Acheron, uma vez me explicou assim. O destino é um trem comercial cujo rumo preestabelecido só o condutor conhece. Quando chegamos com o nosso carro à passagem de nível, podemos escolher nos deter e esperar que o trem passe longe, ou tratar de continuar diante dele e ganhar desse malvado.

Essa eleição é nosso livre arbítrio.

Se decidirmos nos apressar mais a frente, o carro no qual estamos poderia deter-se sobre os trilhos. Depois podemos escolher tentar e pôr o carro em marcha ou esperar a que o trem nos atropele. Ou podemos sair do carro para correr e lutar contra o destino do trem chocando-se contra nós e nos matar onde estamos. Se escolhermos correr, nosso pé poderia ficar preso nos trilhos ou poderíamos escorregar e cair.

Inclusive, poderíamos dizer a nós mesmos, "não há nenhuma maneira de que sejamos estúpidos o suficientemente para lutar contra o trem" e retrocedemos a esperar com segurança. Então, o que sabemos, um caminhão nos golpeia por trás, nos jogando diretamente sobre a rota do trem.

Se for nosso destino ser golpeados pelo trem, seremos golpeados pelo trem. A única coisa que podemos mudar é como o trem nos converte em um hambúrguer.

Eu pessoalmente, não acredito neste lixo. Meu ponto de vista, eu controlo meu destino e minha vida. Não, nada me controla.

Nunca.

Eu sou o que me converti pela interferência e segredos de uma criatura. Se as coisas tivessem sido feitas de outra maneira, minha vida teria tido outro enredo distinto. Não estaria onde estou hoje e teria tido uma vida de valor em lugar de viver o pesadelo em que ela se converteu.

Mas não, por ocultar seus segredos mais profundos, meu melhor amigo me traiu e me transformou na escuridão que cheguei a abraçar. Nossa fatalidade e destinos estavam entrelaçados por um louco acontecimento que ocorreu quando era um menino e amaldiçoo o dia que alguma vez chamei a Acheron Parthenopaeus de amigo.

Sou Nick Gautier.

E esta é minha vida e como as coisas deveriam ter sido…

 

— Eu sou um idiota socialmente desajustado.

— Nicholas Ambrosius Gautier! Preste atenção no seu linguajar!

Nick suspirou ante o tom agudo de sua mãe enquanto estava de pé na cozinha, olhando a brilhante camisa havaiana de cor laranja. A cor e o estilo já eram bastante ruins, o fato de que estivesse coberta com enormes trutas (ou eram salmões?) rosas, cinzas e brancos era inclusive pior.

Mamãe, eu não posso ir com isso para o colégio. É… — se deteve para pensar uma palavra verdadeiramente dura que não o levaria a ser castigado por toda a vida, — horrível... Se alguém me vir com isto, serei um pária, relegado ao canto dos perdedores na lanchonete.

Como sempre, ela bufou ante seu protesto.

— Oh, cale-se. Não há nada de errado com essa camisa. Wanda me disse, na loja da Boa Vontade, que veio de uma dessas enormes mansões de Garden District. Essa camisa pertencia ao filho de um homem muito honrado e já que estou te criando para ser…

Nick apertou os dentes.

— Prefiro ser um delinquente com quem ninguém se meta.

Ela deixou escapar um profundo suspiro ofendido enquanto parava de fritar o bacon.

— Ninguém vai se meter com você, Nicky. A escola tem uma política rígida para intimidação.

Sim, claro. Isso só valia no papel do contrato em que estava escrito. Sobretudo, tendo-se em conta que os valentões eram analfabetos e de qualquer maneira não poderiam lê-lo.

Por Deus! Por que ela não o escutava? Nem parecia que era ele que tinha que se meter na toca do leão todos os dias, que atravessar a brutalidade do campo minado do colegial. Honestamente, estava de cansado disso e não havia nada que pudesse fazer.

Ele era um idiota fracassado e ninguém do colégio jamais o deixava esquecer-se disso. Nem os professores, nem o diretor e muito menos os outros estudantes.

Por que não podia saltar essa etapa e evitar todo o pesadelo do colegial?

Porque sua mãe não permitiria. Só os valentões abandonavam o colégio e ela não tinha trabalhado tão duramente para criar outro elemento desses, era uma dura ladainha gravada permanentemente em sua mente. Ordenava-se exatamente em: “Ser um bom menino, Nicky. Graduar-se. Ir à Universidade. Conseguir um bom trabalho. Casar-se com uma boa garota. Ter um montão de netos e nunca esquecer um único dia de ir à igreja”. Sua mãe já tinha esboçado um mapa de todo seu futuro, sem permitir desvios nem paradas.

Mas no final do dia, ele amava sua mãe e apreciava tudo o que ela fazia por ele. Apesar do contínuo, “faça o que eu digo, Nicky. Não te escuto porque sei o que é melhor para você” que ouvia o tempo todo.

Ele não era estúpido nem bagunceiro. Ela não tinha ideia do que ele passava no colégio e cada vez que tentava explicar, ela se recuava a escutar. Era tão frustrante…

Argh, Porque eu não poderia ter gripe suína ou algo parecido? Só durante os próximos quatro anos, até poder me graduar e passar a uma vida que não inclua uma humilhação constante? Depois de tudo, a gripe tinha matado milhões de pessoas em 1918 e muitas outras durante as epidemias dos anos setenta e oitenta. Era pedir muito que outra doença mutante contagiosa o incapacitasse durante alguns anos? Talvez uma boa temporada de parvo virose[1]

Você não é um cachorro, Nick.

Certo, nenhum cachorro seria apanhado ou morto usando essa camisa.

Urinar sobre ela, aí seria outra história.

Suspirando, Nick baixou o olhar para a horripilante camisa que adoraria queimar.

Ok, tudo certo. Faria o que sempre fazia quando sua mãe o obrigava a parecer um idiota em chamas.

Guardaria para si mesmo.

Não quero usar isto. Faz-me parecer estúpido.

Levanta esse ânimo, Nick. Você pode fazer isso. Usou coisas muito piores.

Sim, claro. Bem. Deixe-os rir. Não poderia detê-los, de qualquer maneira. Se não fosse pela camisa, iam humilha-lo por alguma outra coisa. Os sapatos. O corte de cabelo. E se todo o resto fracassasse, zombariam de seu nome. Nick o pinto, ou Nick sem pinto. Não importava o que dissesse ou fizesse, zombavam por qualquer coisa. Algumas pessoas tinham os parafusos frouxos e não podiam viver a menos que fizessem outros sofrerem.

Como sempre dizia tia Menyara, ninguém pode fazer você se sentir inferior, a menos que você o permita.

O problema era que ele permitia muito mais do que desejava.

Sua mãe pôs na sua frente um prato azul lascado que tinha tirado do lado do fogão enferrujado.

— Sente-se, querido e coma um pouco. Eu li em uma revista que alguém deixou no clube que os meninos tiram as melhores notas nas provas do colégio e são melhores quando tomam o café da manhã. — Ela sorriu e segurou o pacote de bacon para ele ver — E olhe. Desta vez não passou da validade.

Ele riu de algo que realmente não era engraçado. Um dos caras que frequentava o clube de sua mãe era um açougueiro local que algumas vezes lhes dava carne quando estava perto de vencer a validade, já que de qualquer maneira ia jogá-la fora.

“Se a comermos logo, não nos fará adoecer”.

Outra ladainha que odiava.

Agarrando o bacon crocante, deu uma olhada ao redor da minúscula moradia que chamavam de lar. Esta era uma das quatro que tinham sido resgatadas de uma velha casa. Composta por três pequenos cômodos, a cozinha/sala de estar, o dormitório de sua mãe e um banheiro. Não era muito, mas era deles e sua mãe estava orgulhosa disso, de modo que ele tentava ficar também.

Na maioria dos dias.

Estremeceu enquanto olhava o canto onde sua mãe tinha pendurado uns lençóis azuis escuros para lhe fazer um quarto em seu último aniversário. Suas roupas estavam guardadas em uma velha cesta de lavanderia no chão colocada perto de seu colchão que estava coberto com lençóis do Star Wars que tinha desde os nove anos, outro presente de sua mãe que tinha conseguido em um brechó.

— Um dia, Mamãe. Vou comprar para nós uma casa realmente bonita.

Com coisas realmente boas em seu interior.

Ela sorriu, mas seus olhos diziam que não acreditava em nenhuma palavra do que ele dizia.

— Eu sei que você vai querido. Agora coma e vá para o colégio. Não quero que você se estrague como eu. — ela se deteve quando um olhar de dor cruzou seu rosto — Podes ver por ti mesmo o que o conseguirá.

A culpa o atravessou. Ele foi a razão de sua mãe ter abandonado o colégio. Logo que seus pais descobriram que estava grávida, tinham-lhe dado uma única escolha.

Entregar o bebê ou abandonar sua encantadora casa no Kenner, sua educação e sua família.

Por razões que ele ainda não entendia, ela tinha escolhido ficar com ele.

Isso era algo que Nick nunca se permitia esquecer. Mas um dia ele ia conseguir devolver-lhe tudo. Ela merecia e por ela, levaria essa camisa atroz.

Inclusive se o matassem…

E sorriria através da dor disso, até que Stone e sua turma lhe chutassem os dentes.

Tentando não pensar na surra que levaria quando chegasse, Nick comeu o bacon em silêncio. Possivelmente Stone não estaria no colégio. Poderia ter pegado malária, ou a praga, ou raiva, ou algo.

Sim, quem sabe o maldito monstro poderia ter contraído sífilis em suas partes mais privadas.

Esse pensamento realmente fez-lhe sorrir enquanto levava os ovos mexidos à boca e os tragava. Obrigou-se a não tremer ante o sabor. Mas era tudo o que podiam ter. Jogou uma olhada no relógio da parede e se levantou de repente.

— Tenho que ir ou vou chegar tarde.

Agarrou-lhe em um abraço de urso.  

Nick fez uma careta.

— Deixa de me assediar sexualmente, mamãe. Tenho que ir antes que seja tarde.

Deu-lhe uma palmada no bumbum antes de soltá-lo.

— Assediar-te sexualmente. Menino, você não tem ideia. — revolveu-lhe o cabelo quando ele se inclinou para recolher sua mochila.

Nick passou as correias por ambos os braços e golpeou a porta ao sair correndo. Lançou-se diretamente no ruinoso alpendre e correu a toda velocidade rua abaixo, passando por carros desfeitos e lixo, para onde estava a parada do ônibus.

— Por favor, não vá…

De qualquer forma, ele seria escolhido para outra leitura do estilo “Nick? O que vamos fazer contigo, pedaço de lixo branco?” do Senhor Peters. O velho odiava os alunos do seu gênero e o fato de Nick, um ranhoso, ter uma bolsa de estudos na sua privilegiada escola o enfurecia Peters seriamente. Nada lhe teria agradado mais que tê-lo expulsado a pontapé, de modo que Nick não pudesse “corromper” os meninos das boas famílias.

Nick franziu o lábio enquanto tentava não pensar na maneira em que essas decentes pessoas o olhavam como se não fosse nada. Mais da metade de seus pais eram clientes habituais do clube onde sua mãe trabalhava, mas se intitulavam decentes enquanto que ele e sua mamãe eram considerados lixo.

A hipocrisia disso não lhe caía bem. Mas era o que havia. Não podia mudar a forma de pensar de ninguém exceto a própria.

Nick abaixou a cabeça e correu a toda velocidade quando viu o ônibus escolar parado em seu estacionamento.

OH cara…

Ele acelerou e foi em uma corrida de morte. Golpeou a plataforma e saltou ao ônibus. Tinha-o pego bem a tempo.

Ofegando e suando com o úmido ar outonal de Nova Orleans, tirou a mochila com um encolhimento de ombros enquanto saudava o condutor.

— Bom dia, senhor Clemmons.

O velho homem afro americano sorriu-lhe. Ele era um dos condutores favoritos de Nick.

     —Bom dia, senhor Gautier. — Sempre pronunciavam errado o sobrenome de Nick. Diziam Go-chay, em lugar do correto Go-shay. A diferença é que no Go-chay tradicionalmente havia um “h” depois do “t”, e como a mãe de Nick dizia frequentemente, eram muito pobres para mais letras. Por não mencionar, que um dos parentes de sua mãe, Fernando Upton Gautier, tinha se baseado no pequeno povo no Mississipi que compartilhava seu nome e ambos se pronunciavam Go-shay —. Sua mãe lhe fez chegar tarde novamente?

— Como sempre. — Mergulhou a mão no bolso em busca do dinheiro e pagou rapidamente antes de se ir sentar. Ofegando e suando, inclinou-se para trás e respirou profundamente, agradecendo por não haver se atrasado.

Infelizmente, ainda suava quando chegou ao colégio.

Conforme-se, Nick. Ao menos chegaste a tempo. Isso é bom.

Agora era só esperar as brincadeiras começarem.

Ajeitou o cabelo, limpou o suor da frente do rosto e colocou a mochila sobre o ombro esquerdo.

Mantendo a cabeça erguida apesar das risadas e dos comentários a respeito de sua camisa, cruzou o pátio e atravessou as portas como se fosse o dono do lugar. Isso era o melhor que podia fazer.

— Ew! Asqueroso! Está gotejando de suor. É muito pobre para ter sua própria toalha? Gente pobre não toma banho?

— Olhe parece que foi pescar no Ponychartrain[2] e acabou tirando uma camisa pestilenta em vez de um peixe de verdade.

— Isso é porque ele não conseguiu distinguir. Aposto que inclusive a camisa brilha na escuridão.

— Sem falar que há um vagabundo nu em algum lugar desejando saber quem roubou a sua roupa enquanto dormia num banco. Ei, Há quanto tempo ele tem esses sapatos? Acredito que meu pai usava uns assim nos anos oitenta.

Nick fez se de surdo e focou-se no fato de que eles eram realmente estúpidos. Nenhum deles estaria ali se seus pais não tivessem pagado para isso. Ele era o menino da bolsa de estudos. Eles provavelmente sequer tinham feito o vestibular.

Era isso o que importava. Nick preferia ter cérebro a ter dinheiro. Embora, neste momento, um lançador de foguetes também seria bom. Não podia dizer isso em voz alta se quisesse evitar que a polícia atirasse nele, por ter ideias “inapropriadas”.

A bravura durou até que chegou ao lugar em que Stone e sua turma vadiavam.

Genial, simplesmente genial. Não podiam escolher outro para vigiar?

Stone Blakemoor era o tipo de idiota que dava má fama aos atletas. Nem todos eram dessa maneira e ele sabia. Nick tinha vários amigos que jogavam na equipe de futebol, nada menos que titulares, não na reserva, como Stone.

Era só quando pensar em um atleta arrogante cabeça dura, que Stone era o melhor exemplo. Definitivamente, era apropriado ao extremo o nome com o qual seus pais o tinham etiquetado. Sua mãe talvez soubesse já na gravidez que daria à luz um exímio imbecil.

Stone bufou quando Nick se deteve ao lado do grupo.

— Ouça, Gautier? Vi sua mãe nua na outra noite, meneando a bunda na cara do meu pai, para que ele colocasse um dólar na tanga dela. Ele a tocou também. Disse que ela tinha um par fantástico de…

Antes que pudesse pensar melhor, Nick bateu com a mochila na lateral da cabeça dele com toda força. E então partiu pra cima do Donkey Kong[3].

— Briga! — gritou alguém, enquanto Nick agarrava o pescoço de Stone e o golpeava.

Uma multidão se reuniu ao redor deles, fazendo coro - “briga, briga, briga!”

De algum jeito Stone escapou e golpeou com força o peito de Nick, deixando-o sem respiração. Demônios, ele era muito mais forte do que parecia. Golpeava como uma marreta.

Furioso, Nick começou a avançar para bater mais nele, só para encontrar-se repentinamente com um professor entre eles.

A senhora Pantall.

A presença da pequena figura acalmou Nick instantaneamente. Ele não golpearia uma pessoa inocente, e menos ainda uma mulher. Ela entrecerrou os olhos sobre ele e assinalou o final do corredor.

— Para o escritório, Gautier. Agora!

Amaldiçoando em voz baixa, Nick recolheu sua mochila do chão bege e olhou para Stone, ao qual tinha, ao menos, arrebentado o lábio. Isso é que era não se meter em problemas. Mas o que deveria fazer? Deixar o idiota insultar sua mãe?

Aborrecido, entrou no escritório e se sentou na cadeira da ponta, junto à porta do Diretor. Por que não havia um botão para desfazer sua vida?

— Desculpe-me?

Nick contemplou a mais suave, mais doce voz que alguma vez já tinha ouvido. O estômago lhe caiu ao chão. Vestida completamente de rosa, era linda, com um cabelo castanho sedoso e olhos verdes que virtualmente resplandeciam.

  1. Meu Deus.

Nick queria falar, mas a única coisa que podia fazer era tratar de não babar em cima dela. Estendeu-lhe a mão.

— Sou Nekoda Kennedy, mas a maioria me chama de Kody. Sou nova na escola e estou um pouco nervosa. Disseram-me que esperasse aqui, mas então houve uma briga e ninguém retornou e… Sinto muito, quando fico nervosa fico gaguejando.

— Nick. Nick Gautier.

Ele sobressaltou-se ao aperceber-se de quão estúpido soava e quão lento estava na conversa.

Ela começou a rir como um anjo. Uma beleza perfeita…

Estou louco por ela…

Dê-lhe um aperto, Nick. Dê-lhe um aperto...    

— Então, há quanto tempo você está aqui? — perguntou Kody.

Use a língua. Use-a. Finalmente, conseguiu dar uma resposta.

—Três anos.

—Você gosta daqui?

O olhar do Nick dirigiu-se a Stone e aos outros que entravam no escritório.

— Hoje não.

Ela abriu a boca para responder, mas Stone e seu bando a rodearam.

— Ei, neném. — Stone mostrou um sorriso de queijo — Carne nova?

Kody fez uma careta e evitou-os.

— Afastem-se de mim, seus animais. — Passou um olhar de repugnância pelo corpo do Stone e franziu os lábios — Não é um pouco grandinho para que sua mamãe escolha as suas roupas? Comprar roupas em lojas de crianças agrada-lhe? Estou certa de que alguns alunos do terceiro ano morreriam por saber quem te comprou essa feia camisa de marinheiro.

Nick deixou escapar uma risada. Sim realmente, realmente estava a gostar.

Ela parou junto de Nick, de costas contra a parede para poder manter um olho sobre Stone.

— Sinto muito que eles nos interrompessem.

Stone fez um som como se estivesse a ponto de vomitar.

— Por que está falando com o Rei dos Estúpidos e Fracassados? Quer falar de camisas feias? Olhe a que ele usa.

Nick se sobressaltou quando Kody examinou a manga de sua camisa.

— Eu gosto de um homem que corre riscos com a moda. É a marca de alguém que vive com seu próprio código. Um rebelde — jogou um olhar mordaz sobre Stone—. Um lobo solitário é muito mais sexy que um animal de carga que segue ordens e não pode ter uma opinião a menos que alguém a dê.

— Ooooooh — disseram em coro os amigos de Stone quando ela o venceu.

         Calem-se! — Stone lhes disse —, ninguém pediu a opinião de vocês.

—Nekoda? — Chamou a secretária —. Temos que acabar o seu horário.

Kody dedicou ao Nick um último sorriso.

— Estou no nono grau.

— Eu também.

Seu sorriso engrandeceu-se.

— Espero que tenhamos algumas aulas em comum. Prazer em conhecê-lo, Nick.

Ela assegurou-se de pisar no pé do Stone quando passou ao seu lado. Stone uivou e resmungou um insulto em voz baixa. Então ele e seus três amigos sentaram-se nas cadeiras que estavam em frente do Nick.

Vão apanhar por causa disso.

A senhora Pantall deixou-os entrar para falar com o senhor Peters.

Logo que ela saiu, Stone lançou uma bola de papel em Nick.

— De onde tirou essa camisa, Gautier? Da caridade ou a encontrou em um contentor? Nah, aposto que bateu num vagabundo por ela.

Nick negou-se a morder a isca desta vez. Além disso, ele podia confrontar os insultos que fossem dirigidos diretamente a ele. Eram os que lançavam contra sua mamãe os que o levavam a brigar.

E esta era a razão pela qual a maioria das escolas privadas tinha uniforme, mas Stone negava-se a usar um e como seu pai era o proprietário do colégio…

Nick tinha que se virar com as roupas que sua mãe pensava que eram respeitáveis. Por que pelo menos por uma vez não me escuta mãe? Só por uma vez…

— O que? É que não havia nenhuma mais elegante?

Nick se inclinou para frente…

No momento exato em que o diretor Peters saía e o viu.

Definitivamente a Sorte estava de férias hoje…

— Gautier — grunhiu ele —. Entra aqui. Agora!

Com um profundo suspiro, Nick levantou-se e entrou no escritório que conhecia tão bem como sua própria casa.

Peters permaneceu fora, não duvidava que ele estivesse falando com Stone enquanto ele se via obrigado a esperar. Sentou-se na cadeira da direita e esperou, contemplando as fotos da mulher de Peters e dos meninos. Tinham uma encantadora casa com pátio e em uma foto, suas filhas brincavam com um cachorrinho branco.

Nick ficou olhando. Como seria viver dessa maneira? Ele sempre tinha querido um cão, mas como mal podiam alimentar-se, um cachorrinho estava fora de discussão. Por não mencionar que seu senhorio morreria se tivesse um em um de seus cômodos de aluguel, embora um cão não pudesse fazer muito estrago, numa moradia já em ruínas.

Depois de alguns minutos, Peters entrou e foi sentar-se em sua cadeira. Sem uma palavra, levantou o telefone.

Nick entrou em pânico.

— O que o senhor está fazendo?

— Vou chamar a sua mãe.

O terror o rasgou.

— Por favor, senhor Peters, não faça isso. Ela teve que dar um turno dobrado no trabalho ontem á noite e esta noite também. Só dormiu umas quatro horas hoje e não quero que ela se preocupe por nada — por não mencionar, que faria mingau da pele dele por isso.

Mesmo assim, ele marcou o número.

Nick apertou os dentes quando a raiva e o temor atravessaram todo o seu ser.

— Senhorita Gautier? — Podia alguém utilizar um tom mais detestável? E sempre tinha que sublinhar o fato de que sua mãe nunca se tinha casado? Isso sempre a envergonhava até a morte — Quero informar-lhe que Nick será expulso do colégio durante o resto da semana.

O estômago colou no chão. Sua mãe ia mata-lo quando chegasse a casa. Porque Peters não podia simplesmente dar-lhe um tiro e acabar com a sua miserável existência?

Peters olhou-o sem misericórdia.

— Não, ele brigou outra vez, e deixa-me doente pensar que ele pode vir aqui e atacar pessoas decentes cada vez que assim o queira sem razão aparente. Tem que aprender a controlar seu temperamento. Honestamente, estou tentado a chamar a polícia. Em minha opinião, ele deveria ser enviado a uma escola pública onde podem cuidar de meninos problemáticos iguais como ele. O hei dito antes e o digo de novo. Ele não pertence a este lugar.

Nick morria um pouco com cada palavra. Meninos como ele…

Ele isolou-se de modo que não tivesse que ouvir o resto das palavras de Peters de como ele carecia de valor. No coração ele conhecia a verdade. Quão último precisava era de alguém dando voz a isso. Depois de uns minutos, Peters desligou o telefone.

Nick lhe dedicou um áspero olhar.

— Eu não comecei.

Peters franziu os lábios.

— Isso não é o que os outros dizem. A quem se supõe que tenho que acreditar Gautier? A um valentão como você ou a quatro honrados estudantes?

Supunha-se que ele deveria acreditar no único que dissesse a verdade, o qual resultava ser o valentão.

— Insultou a minha mãe.

— Essa não é desculpa para a violência.

Isso lhe desceu pela coluna igual a um triturador de papel. O porco fanfarrão. Nick não podia permitir que ficasse sem resposta.

— Seriamente? Bom você sabe, senhor Peters, ontem à noite vi a sua mãe nua e para ser uma anciã, tem realmente encantadoras…

— Como se atreve! — Gritou, ficando em pé para agarrar Nick pela camisa — Você pequeno estúpido…

— Pensava que havia dito que insultar a sua mãe não era desculpa para a violência.

Peters tremeu enquanto a raiva lhe salpicava a pele. Seu apertão fez-se mais intenso e uma veia lhe palpitou na têmpora.

— Minha mãe não é uma stripper da Rua Bourbon. É uma boa mulher temerosa a Deus. — Apartou Nick dele —. Recolha suas coisas e parta.

Temerosa a Deus, já? O estranho era que Nick e sua mãe iam à missa todo domingo e ao menos duas vezes por semana e a única vez que tinha visto Peters ou a sua mãe fora nos natais.

Claro…

Hipócrita até a medula. Desprezava as pessoas como Peters.

Nick agarrou a mochila do chão e partiu. Havia um guarda de segurança esperando-o fora do escritório para escoltá-lo até o seu armário.

Como um criminoso.

Possivelmente devesse acostumar-se a isso. Alguns costumes levam-se no sangue. Ao menos não me algemou.

Ainda.

Mantendo a cabeça baixa, tentou não olhar para ninguém quando os outros estudantes riram de maneira contida e sussurraram sobre ele.

— Isso é o que acontece quando se provém do lixo.

— Espero que não o deixem retornar.

— Fê-lo por merecer.

Nick apertou os dentes com raiva enquanto se aproximava de seu armário e alcançava a fechadura de combinação.

Brynna Addams estava retirando seus livros, duas portas mais a frente. Alta com o cabelo castanho escuro era muito bonita e uma das poucas pessoas que estavam com o Stone e sua gente que Nick podia suportar.

Ela se deteve para o olhar com o cenho franzido que só se aprofundou quando viu o guarda com ele.

— O que aconteceu, Nick?

— Me expulsaram. — Fez uma pausa antes de tragar seu orgulho. Outra vez — Posso pedir-te um favor?

Ela não vacilou.

— Claro.

— Poderia conseguir-me as lições para eu não me atrasar?

— Com certeza. Quer que as envie por e-mail?

Estupidamente, pensara que não poderia sentir-se pior.

— Não tenho computador em casa.

Suas bochechas se avermelharam.

— Sinto muito. Hum. Onde quer que as entregue?

Nick agradeceu o fato de ela ser legal, diferente das pessoas com quem andava.

— Passarei por sua casa depois do colégio e os pegarei.

Ela escreveu o seu endereço enquanto ele recolhia todos os seus livros.

— Estarei em casa por volta das quatro.

— Obrigado, Brynna. Realmente aprecio o favor. — Afundou o papel no bolso, então permitiu que o segurança o escoltasse para fora do campus.

Ele adoecia só de pensar que teria que enfrentar a mãe, voltando para casa, do lado do gueto e temia cada passo que dava, pois se aproximava mais à porta.

No interior de sua desmantelada casa, a mãe estava á sua espera com o rosto cansado. Vestida com uma puída bata rosa, olhava-o tão cansada e afetada como não tinha visto nunca. Ele deixou cair à mochila ao chão.

— Devia estar dormindo, mamãe.

Seus olhos o atravessaram com rapidez e fez que se sentisse inclusive pior do que o tinha feito Peters.

— Como posso dormir quando meu filho foi expulso do colégio por brigar? Você de todas as pessoas sabe quão duro é para mim te manter ali, o que tenho que fazer para pagar os livros e a comida. Por que é tão estúpido para jogá-lo pelo muro à primeira oportunidade? No que estava pensando?

Nick não disse nada porque a verdade a mataria e não queria fazê-la sentir-se tão mal como ele quando não havia nada que ela pudesse fazer a respeito.

Eu sou o homem da família. Era o encarregado de cuidar dela. Isso era tudo o que sabia.

“Cuide bem de sua mãe, menino, ou responderá ante mim. Fale só uma besteira e te cortarei a língua. Faça-a chorar e te matarei eu mesmo”. Seu pai não era bom para nada, exceto que cumpria as ameaças. Todas elas. E como já tinha assassinado a doze pessoas, Nick supunha que não pensaria duas vezes em matá-lo já que o homem não lhe tinha nenhum afeto.

Assim manteve sua raiva encerrada e negou-se a dizer fosse o que fosse.

— Não ponha essa cara. Estou farta desse olhar em sua cara. Diga-me porque atacou esse menino, agora!

Nick apertou os dentes com força.

— Me responda Nick, ou então te juro que te baterei.

Teve que deter-se mesmo, de pôr os olhos em branco ante tão absurda ameaça. Inclusive em seu quatorze anos, ele era uma cabeça mais alto que sua pequena mãe e pesava dezoito quilos a mais que ela.

— Ele riu de mim.

— E por isso comprometeste todo seu futuro? Em que estava pensando? Riu de ti. E o que? Acredite, essa não é a pior coisa que pode te acontecer. Tem que crescer, Nicky e deixar de atuar igual a um bebê. Só porque alguém ri de ti não é razão para brigar. Acaso é?

Não. Tragava os ataques contra ele o tempo todo. O que não aguentava eram os ataques contra sua mamãe. E não o faria.

— Sinto muito.

Ela elevou a mão.

— Nem sequer vá por aí. Não o sente. Posso vê-lo em seus olhos. Estou tão decepcionada contigo. Pensei que te tinha ensinado melhor, mas aparentemente está decidido a converter-se num criminoso igual ao seu pai, apesar de tudo o que tenho feito para te manter no caminho certo. Agora fique no seu quarto até que me acalme. Pode ficar ali durante o resto do dia.

— Tenho que trabalhar esta tarde. A senhora Liza necessita que a ajude a mover sua mercadoria no armazém.

Ela grunhiu.

— Bem. Pode ir, mas depois venha direto para casa. Ouviu? Não te quero perdendo tempo com alguns desses ociosos aos que chama amigos.

— Sim, mãe. — Nick se dirigiu ao seu “quarto” e amarrotou os lençóis. Doente e cansado de tudo, sentou-se sobre o colchão e inclinou a cabeça contra a parede onde viu os fragmentos do teto que haviam se descolorido e descascado.

E então ouviu…

O som das lágrimas de sua mãe chegando através da parede de seu dormitório. Deus, como odiava esse som.

— Sinto muito, mamãe — sussurrou, desejando ter matado Stone quando pôde.

Um dia… um dia ia sair desse buraco. Inclusive se tivesse que matar alguém para fazê-lo.

    

Eram nove horas quando Nick deixou o armazém da Liza. Ele tinha recolhido já as lições com Brynna na enorme mansão que era sua casa a caminho do trabalho. Logo tinha trabalhado cinco horas para poder economizar dinheiro para o fundo da universidade. Claro, que ao ritmo que ia, teria cinquenta anos antes que pudesse ir. Mas algo era melhor que nada.

Liza fechou com chave a porta de sua loja enquanto ele se mantinha atrás para protegê-la de qualquer um que pudesse estar olhando.

— Boa noite, Nicky. Obrigada por toda sua ajuda.

— Boa noite, Liza.

Esperou até que ela estivesse a salvo no carro e a caminho de casa, antes de se dirigir pela Rua Royal para a praça. A parada de ônibus mais próxima passava detrás do Jackson Brewery. Mas à medida que se aproximava da praça, quis ver sua mãe e lhe pedir desculpas por conseguir que o expulsassem.

Ela disse que fosse diretamente para casa…

Sim, mas ele a tinha feito chorar e odiava cada vez que o fazia. Além disso, no quarto ele estaria realmente só essa noite. Não tinham televisão nem nenhuma outra coisa para fazer. E ele já tinha lido Hammer’s Slammers[4], inclusive poderia recita-lo.

Talvez se ele se desculpasse, ela o deixaria passar o tempo no clube.

Assim em vez de virar para a direita, foi para a esquerda e dirigiu-se ao clube na Rua Bourbon. Os débeis sons de música jazz e zydeco[5] saindo de lojas e restaurantes o tranquilizou. Fechando os olhos enquanto caminhava, inalou o doce aroma da canela e o gumbo[6], enquanto passava pelo Café Pontalba. O estômago grunhiu. Como não tinha estado na escola, o seu almoço consistiu em ovos em pó e toucinho, e ainda tinha que jantar… que seriam esses asquerosos ovos outra vez.

Não querendo pensar nisso, caminhou pelo estreito beco até a porta traseira do clube e chamou.

John Chartier, um dos gorilas que cuidavam das bailarinas abriu-lhe a porta com um cenho feroz, até que viu Nick. Um amplo sorriso estendeu-se por seu rosto.

— Ouça, amigo. Vieste ver a tua mamãe?

— Sim. Ainda está no palco?

— Não, ela ainda tem alguns minutos. — afastou-se, para deixar Nick passar pelo corredor escuro para o camarim.

Deteve-se na porta da sala onde as bailarinas se vestiam e descansavam entre as atuações e chamou. Tiffany abriu. Absolutamente impressionante, era alta e loira… e estava vestida com uma tanga e um top de encaixe.

Apesar de ele ter sido criado ao redor de mulheres vestidas dessa maneira e estava acostumado a isso, o rosto ficou com uma cor vermelha brilhante e manteve o olhar no chão.

Era como ver sua irmã nua. Tiffany se pôs a rir, lhe cavando o queixo com a mão.

— Cherise? É o seu Nicky. — Apertou-lhe o queixo com carinho — É tão doce a maneira como evita olhar-nos. Sabia que era você quando chamou. Ninguém é tão agradável, tudo o que posso dizer é que sua mamãe está educando-te corretamente.

Nick murmurou um agradecimento ao passar junto a ela e dirigir-se ao lugar da sua mãe. Manteve o olhar para baixo até que teve a certeza de que a sua mãe estava coberta com seu penhoar rosa.

Mas quando ele viu o furioso olhar refletido no espelho estilhaçado onde ela estava se maquiando, o estômago lhe caiu ao chão. Não havia perdão em sua cara esta noite.

— Acreditei haver dito a você que fosse direto para casa.

— Queria te dizer outra vez que o sinto.

Ela deixou o aplicador do rímel.

— Não, não o vais faz. Está tratando que te diga que já não tem que cumprir com o castigo. Não vou fazer isso, Nicholas Ambrosius Gautier. E sua insignificante desculpa não muda o fato de que deverias ter melhor discernimento. Tens que aprender a pensar antes de agir. Esse seu gênio vai te meter em problemas graves algum dia. Igual como aconteceu com seu pai. Agora vá para casa, pense no que fez e no quão errado foi.

— Mas mamãe…

— Nada de “mas mamãe”. Vai!

— Cherise! — Gritou o controlador, fazendo-lhe saber que era hora de sair para o palco.

Ela ficou em pé.

— Falo sério, Nick. Vai para casa.

Nick deu a volta e deixou o clube, sentindo-se pior do que tinha estado quando tinha deixado Liza. Por que sua mãe não acreditava nele?

Por que não podia ver que não estava tratando de brincar com ela?

Dava no mesmo… estava cansado de tratar de convencer o mundo, e especialmente a sua mãe, que ele não carecia de valor.

Na rua, desceu do Bourbon para o Canal, onde poderia tomar o ônibus mais próximo. Odiava quando sua mãe o tratava como um criminoso. Ele não era seu pai, nunca seria como esse homem.

Bem, nunca vou proteger sua honra outra vez. Deixarei que a insultem e riam dela. Por que deveria me incomodar se quando faço o certo se zanga tanto comigo?

Zangado, doído e aborrecido, ouviu que alguém chamava seu nome.

Detendo-se, viu Tyree, Alan e Mike do outro lado da rua, apoiados contra uma loja de turismo. Fizeram-lhe um sinal.

Nick cruzou a rua para golpear ligeiramente o punho contra o deles.

— O que aconteceu?

Tyree inclinou a cabeça em sinal de saudação silenciosa.

—Suspenso. E você?

—Vou para casa.

Tyree deu uma palmada no pescoço da camisa laranja de Nick.

— Menino, o que é isto? É uma merda horrível.

Nick apartou-lhe a mão de uma palmada.

—Roupa. O que é essa merda que você está usando e que parece tão antiquada?

Tyree soprou e se pavoneou.

— Esta é minha roupa de Romeo. Faz com que todas as mulheres me achem delicioso.

Nick riu.

— Delicioso? Louco você quer dizer. Elas não querem um Romeo horroroso.

Todos riram.

Mike ficou sério.

— Olha, temos um trabalho esta noite e poderíamos necessitar uma quarta pessoa. Quer entrar? Poderia ter um par de centenas para você.

Nick abriu os olhos ante a quantidade. Isso era muito dinheiro. Tyree, Mike e Alan eram estelionatários. Embora sua mãe tivesse um ataque se soubesse, ele já os tinha ajudado uma ou duas vezes quando tinham extorquido uns turistas.

— Bilhar, pôquer ou jogo de dados?

Alan e Tyree trocaram um olhar divertido.

— Isto não é mais do que um trabalho de vigilância. Pelo menos para você. Temos o grande chefe do Storyville que nos paga para sacudir alguns morosos. Só levará alguns minutos.

Nick franziu o cenho.

— Eu não sei nada disso.

Tyree estalou a língua.

— Vamos, Nick. Não temos muito tempo e realmente necessitamos de alguém que vigiar a rua. Cinco minutos e terá mais dinheiro do que trabalhando um mês para a velha.

Nick olhou para o clube de sua mãe. Normalmente, ele dir-lhes-ia para esquecerem, mas agora mesmo…

Se todo mundo fosse me chamar de delinquente sem valor, bem poderia sê-lo.

Porque o viver corretamente, não estava dando seus frutos.

— Tem certeza que será feito em cinco minutos?

Tyree assentiu com a cabeça.

— É obvio. Entrar, sair e terminamos.

Então poderia estar em casa e sua mamãe não saberia de nada. Por uma vez, agradava-lhe a ideia de furtar e ela nunca saberia.

— Bem. Estou dentro.

— Bem.

Nick olhou para Alan, que tinha dezenove anos.

— Meninos, podem me levar depois a casa?

— Para você, garoto? O que seja.

Assentindo com a cabeça, Nick os seguiu à parte mais sórdida do North Rampart. Tyree se deteve na rua, bloqueando um beco.

— Você fica aqui e vigia. Avise-nos se vir alguém.

Nick assentiu com a cabeça.

Eles se desvaneceram nas sombras enquanto ele ficou ali, esperando. Depois de uns minutos, um casal de idosos passou por ele e o cumprimentou na calçada. Por sua vestimenta e conduta, poderia dizer que eram simples turistas dando um passeio tardio pelo desgastado caminho.

— Olá — lhe disse a mulher, sorrindo.

— Olá — respondeu-lhe Nick devolvendo o sorriso. Mas seu sorriso morreu um instante depois, quando Alan saltou das sombras para agarrar à mulher enquanto Tyree sujeitava ao homem contra uma parede.

Nick ficou atônito.

— O que está fazendo?

— Cale-se! — Grunhiu Alan, tirando uma pistola — Está bem, vovô. Passe o seu dinheiro ou atiro bem no meio dos seus olhos.

Nick sentiu que a cor lhe desaparecia do rosto. Isto não podia estar acontecendo. Estavam atacando a dois turistas?

E eu estou ajudando…

Durante um minuto não pôde respirar enquanto via a mulher chorando e o homem lhes rogava que não fizessem mal a ela.

Antes de dar-se conta do que estava fazendo, agarrou a mão de Alan que empunhava a arma e a separou de um golpe.

— Corram! — gritou para o casal.

Eles o fizeram.

Tyree partiu atrás deles, mas Nick lhe derrubou no chão.

Alan agarrou-o pelo pescoço da camisa e o jogou para trás.

— Cara, o que está fazendo?

Nick o empurrou.

— Não posso deixar você assaltar as pessoas. Esse não foi o trato.

— Estúpido… — Alan o golpeou na cara com a pistola.

A dor se instalou na cabeça de Nick enquanto saboreava o sangue.

— Vai pagar por isso, Gautier.

Os três caíram sobre ele tão rápidos e furiosos que nem sequer pôde fugir da briga.

Um minuto estava em pé e no seguinte, estava no chão com os braços ao redor da cabeça para se proteger da pistola com a que Alan o estava golpeando. Eles o pisotearam e golpearam até que perdeu toda a sensibilidade nas pernas e em um braço.

Alan deu um passo para trás e lhe apontou a arma.

— Faça as suas orações, Gautier. Está a ponto de se converter em uma estatística.

 

Nick desejou lançar-se contra ele, tão gravemente podia sentir o gosto. Não vou morrer assim. Não baleado em uma sarjeta por gente que se supõe sejam meus amigos. Meninos que conheci e com os quais brinquei toda minha vida. Não o farei.

Entretanto, aqui estou.

Desamparado. Débil.

Derrotado.

Não só tinha as papilas gustativas empapadas de sangue, mas sentia como se afogasse nele. A mente lhe ardia em desejos de lutar até que lhe pedissem misericórdia, quis levantar-se e lhes fazer tragar os dentes, mas o corpo se negou a cooperar. Nada estava escutando-o. Diabos, nem sequer podia evitar que o golpeassem.

Não podia fazer nada absolutamente, olhou com ódio para Alan e esperou que só esse olhar atormentasse o rato para o resto da eternidade.

Alan ria enquanto apertava o gatilho.

Contendo a respiração, Nick esperou o som que terminaria com sua vida.

Da escuridão, uma mancha se adiantou no mesmo instante em que Alan disparava a arma. Em um momento, Tyree, Alan, e Mike estavam rindo de sua dor enquanto o insultavam, no segundo seguinte, voavam pelo ar e golpeavam o chão perto dele o suficientemente forte como para quebrar-lhe os ossos.

Nick congelou enquanto tratava de averiguar onde tinha recebido o disparo, mas seu corpo doía tanto que não poderia dizê-lo.

Talvez não tenha acertado em mim...

Estendido na rua captou um brilho de cabelo loiro e roupa negra enquanto alguém atacava a seus ex-amigos.

Alan deu um grito e a pistola caiu no chão junto dele.

O homem loiro estalou a língua.

— Que vergonha, é muito jovem para matar. Mas em dois anos, se te pegar fazendo esta merda de novo, não vai viver tempo suficiente para reconsiderá-lo.

Com uma mão, lançou Alan à rua como um boneco de pano.

Com um redemoinho de cor negra e um brilho de prata, o homem virou-se para enfrentar Nick. Não sabia por que, mas o tipo lhe recordava mais a um corretor da bolsa, rico, que a alguém capaz de derrubar bandidos de ruas. E não era velho. Possivelmente no fim dos vinte.

Possivelmente.

Nick logo que pode tomar fôlego quando o homem se aproximou com a caminhada de um predador perverso. Estava todo vestido de negro. Um casaco de couro caía sobre o corpo que era letal. Mas foi o brilho de prata no par de botas negras o que lhe chamou a atenção.

Uma delas tinha uma faca que se sobressaía da ponteira. Uma faca que se retraiu enquanto se aproximava. O homem ajoelhou-se de testa enrugada e com o cenho franzido.

     — Eles fizeram um estrago em você, menino. Pode se levantar?

Nick lhe deu um tapa quando o homem estendeu a mão para lhe tocar. Não necessitava a ajuda de ninguém. Em especial, de um estranho. Tratou de empurrar-se com os pés, então, tudo ficou negro.

    

Kyrian Hunter apenas se apercebeu do menino fraco vestido com uma espantosa camisa havaiana laranja antes de descer a rua. Essa camisa horrível tinha lhe salvado a vida. Tão brilhante que virtualmente resplandecia, tinha lhe atraído o olhar quando vinha caminhando pela rua e tinha o alertado sobre a briga.

Pelo que tinha visto, o menino era um pequeno brigão resistente. Concederia lhe isso. O menino poderia receber uma terrível surra sem pedir clemência. Não havia muitos adultos que pudessem ter sofrido o que ele sofreu sem chorar.

Só isso já o tinha feito respeitar o menino.

Olhou para os outros vândalos correndo rua abaixo o mais rápido que podiam. O antigo guerreiro predador dentro dele queria caçá-los e matá-los pelo que tinham feito.

Mas o homem que tinha dentro dele sabia que este, tinha posto sua vida no meio para salvar ao casal de idosos, não viveria se o fizesse. Os covardes por desgraça podiam esperar para receber um golpe em suas bundas.

Inclinou a cara do menino para poder ver o estrago. O cabelo castanho e curto estava impregnado de sangue, e um corte amplo que provavelmente deixaria uma cicatriz se sobressaía por cima da sobrancelha esquerda. O nariz estava quebrado e pelo que se via a mandíbula poderia estar também. Se não estivesse quebrada, tinham-na golpeado bem. O sangue saía de enxurrada do ombro no qual tinha recebido o disparo.

Pobre garoto.

Pegando-o, Kyrian o levou até seu carro de modo que pudesse levá-lo ao hospital antes que sangrasse mais e morresse.

    

Kyrian passeava pela sala de espera, onde várias dúzias de pessoas se sentavam em diferentes estados de agitação e enfermidade. Fazia quase duas horas desde que tinha entregado o adolescente ao pessoal e ainda não tinha notícias sobre o garoto que tinha encontrado.

Estaria vivo ainda?

Comprovando seu relógio, grunhiu. Realmente não tinha tempo para ficar aqui e esperar...

Tinha assuntos importantes para atender e, com sorte, mais vidas que salvar antes do amanhecer.

— O que está fazendo aqui, General?

Ficou imóvel ante a voz grave, e densamente acentuada. Desde que Acheron era um imortal onipotente de onze mil anos de idade, era a última pessoa que Kyrian tinha esperado encontrar em um hospital. Não era como se o homem pudesse quebrar um osso ou adoecer.

Voltou-se lentamente para encontrar Acheron junto à entrada. Com os dois metros e sete centímetros, o cabelo verde escuro, vestido todo de negro como um gótico, completando com uma jaqueta de couro cravejada, era um espetáculo impressionante e que faziam com que tragassem de medo todos os o vissem. Mas não era só sua altura, que fazia as pessoas deterem-se. Era a aura letal de vou-bater-em-seu-traseiro-tão-forte-que-os-teus-ancestrais-vão-ouvir.

Qualquer um que se aproximasse dele podia sentir o poder sobrenatural que emanava pelos poros deste ser peculiar...

Ser...

— O que está fazendo você aqui? — perguntou Kyrian.

Com os olhos completamente protegidos por um par de escuros óculos de sol apesar de que era quase meia-noite, Acheron mostrou um sorriso meio de lado que o incomodava.

— Eu te perguntei primeiro.

Se tivesse sido alguém diferente e não Acheron que tivesse feito esse comentário, Kyrian lhe mostraria uma dose mais alta de caráter. Mas o caráter não trabalhava sobre Acheron. Simplesmente incomodava, o que nunca era uma boa coisa.

— Encontrei a um garoto na rua recebendo uma boa surra no traseiro. Não sei quem é, mas não quero deixá-lo aqui sem um adulto para vigiá-lo. Foi gravemente ferido na briga e não tem a idade suficiente para ficar sozinho.

Acheron inclinou a cabeça como se estivesse escutando vozes que só ele podia ouvir.

Kyrian odiava cada vez que ele fazia isso. Era horripilante pensar que tudo era sussurrado ao antigo ser. Mais que nada, era horripilante pensar tudo o que esse homem sabia sobre ele, coisas que Kyrian nunca havia lhe dito…

— Seu nome é Gautier. Nick Gautier. É um garoto de quatorze anos de idade, estudante da escola secundária St. Richard's School do Chartres, vive no Lower Ninth Ave Claiborne.

Kyrian estava impressionado.

— Conhece-o?

Não havia nenhum indício de emoção no Acheron.

— Nunca o tinha visto antes.

— Entretanto, sabe seu nome?

Esse sorriso arrogante voltou a irritar Kyrian.

— Sei muitas coisas, General. — Acheron elevou a mão e uma peça de papel apareceu do nada entre seus dedos. Ele o sujeitou — Sua mãe é uma bailarina exótica chamada Cherise Gautier. Pode contatar ela aqui. Mas tenha muito cuidado. Ela tem uma língua afiada quando se trata de seu filho e se pensar que você o machucou ou fez algo de ruim ao garoto... virá por seu sangue.

Kyrian tomou o papel de sua mão.

— Eu gostaria de te perguntar sobre esses seus truques mentais Jedi, mas sei que não vai responder.

Acheron meteu as mãos nos bolsos da gasta jaqueta que tinha duas correntes envoltas ao redor do ombro.

— Sem comentários, mas vou dizer-te isto. — Fez uma pausa antes de falar outra vez — Nick não é Jason. É uma época e um lugar diferente, General. Não deixe que o passado arruíne seu futuro.

— O que quer dizer, OH grande Yoda?

Acheron não deu mais detalhes.

— Cuide do menino. Farei sua ronda esta noite. Poderia praticar tiro.

— Obrigado pela compreensão.

Depois de tudo, Acheron era seu chefe e poderia facilmente ter brigado com ele por não cumprir com seus deveres.

Acheron inclinou a cabeça para ele e abriu caminho para fora do hospital através das portas que conduziam ao estacionamento. E com ele foi embora a sensação de grande poder no ar.

Sim, Acheron era um temível filho de puta. Mas Kyrian não estava exatamente incomodado com isso. Acheron tinha o treinado e tinha sido aluno de um professor, sobre tudo quando se tratava de matar coisas que não deveriam estar vivendo em primeiro lugar.

Jogando uma olhada no número que tinha na mão, tirou o telefone e ligou para a mãe de Nick.

  

Nick gemeu enquanto piscava para abrir o...

Olho.

Uh, gah, o que estava acontecendo?

Sua cabeça estava dolorida e tinha algo sobre o olho que lhe impedia de abri-lo.

Por favor, não me diga que perdi um olho. Sua mãe ia ficar girando em torno dele. Esse era o seu maior medo.

Não brinque com esse “espaço em branco”, Nick. Você poderia perder um olho. Era seu discurso favorito sem falar que ela ia matá-lo por ele ser agora um ciclope.

Deus, eu nunca vou conseguir uma namorada. As mulheres não saíam com aberrações.

— Cuidado garoto.

Nick se deteve ao dar-se conta de que estava em um quarto de hospital. Tentou sentar-se, mas alguém lhe deteve. Sua angústia aumentou ao reconhecer o homem loiro da briga.

— Onde estou?

— No Hospital.

— Sério? Tá brincando? E eu que pensava que estava no McDonald's. — Nick se deslumbrou ante a estúpida resposta — Não posso ficar aqui, não posso pagar.

O homem ignorou seu sarcasmo, mantendo o rosto completamente impassível.

— Não se preocupe com o preço. Eu me encarrego disso.

Sim, claro.

— Não aceitamos caridade.

Nick fez uma careta quando a dor lhe atravessou o crânio e se deu conta que tinha o braço em uma tipoia.

Não se atreva a quebrar um osso, Nicky. Não posso me pagar nenhum atendimento médico nem nada do tipo. Faça o que fizer não se machuque.

Nick se sentiu mal por tudo o que tinha acontecido.

— Minha mãe vai me matar.

— Duvido.

Se o desconhecido soubesse...

— Sim, bom, eu não. Acontece que conheço essa mulher desde o dia em que nasci e ela vai me bater até sangrar.

Levantou a vista para o estranho que lhe tinha salvado a vida.

Ele era enorme. Provavelmente tinha ao redor de um e noventa e cinco, com o cabelo loiro e curto, estava todo vestido de negro. Um negro caro. Calça bacana, botas Ferragamo e, a menos que Nick estivesse errado em sua conjetura, a camisa abotoada era de seda com os punhos e o pescoço de pele, não essas coisas falsas que vendiam nas lojas onde ele e sua mãe compravam roupa. Quanto a seu casaco, o couro era tão suave, que nem sequer fazia aquele som rangente do couro.

Este cara estava definitivamente bem vestido.

— Por que não posso mover o braço? — Nick estava começando a sentir pânico.

— Recebeu um tiro.

— Onde?

— No ombro.

Antes que Nick pudesse dizer outra palavra, escutou o grito angustiado de sua mãe. Do lado onde tinha a vista bloqueada, ela apareceu e envolveu seus braços ao redor dele.

— OH, Meu Deus, meu bebê. Você está bem? — Gritou quando viu as ataduras na cabeça e sobre o olho — O que fizeram com você? Por que não estava em casa, como eu pedi? Maldição Nicky, por que não me escuta? Só por uma vez em sua vida!

— Não foi culpa dele.

Sua mãe lhe soltou imediatamente. Voltou-se para o desconhecido, que ainda estava no quarto.

— Quem é você e por que está aqui?

Ele tendeu a mão.

— Kyrian Hunter. Eu sou a pessoa que ligou para você.

Ele estreitou a mão de sua mãe. Houve um contraste marcante entre o desfiado casaco de lã de segunda, botas de vinil branco, e a saia de poliéster vermelha com lentejoulas que sua mãe usava, Nick sabia que esse era um dos trajes de dança. Sua pequena mãe era uma bela mulher, mas a maquiagem forte e exagerada a fazia aparentar muito mais do que seus vinte e oito anos e ele odiava quando ela usava o cabelo loiro para os shows. Fazia com que ela parecesse vulgar e sua mamãe era justamente o oposto.

— Obrigada por isso, senhor Hunter. Novamente, onde você o encontrou?

Nick entrou em pânico. Se Kyrian dissesse onde ele estava quando tinha recebido o tiro, ela atiraria outra vez nele só por causa disso.

— Ele estava no bairro, tratando de proteger a um casal de idosos de ser assaltado. Eles escaparam e os bandidos que haviam tentado assaltar o casal estavam lhe golpeando, quando os vi, os detive

As lágrimas brilharam nos olhos da sua mãe.

— Você salvou o meu bebê?

Kyrian assentiu com a cabeça. Ela soluçou ainda mais forte.

Nick se sentia como uma merda total. Era uma boa coisa que seu pai não estivesse aqui. Ele teria lhe cortado à garganta por inquietar sua mãe desse modo.

— Não chore mãe. Lamento que eles tenham atirado em mim, deveria ter feito o que me disse e ir a casa... sinto muito.

Ela secou as bochechas, onde a maquiagem estava agora marcada pelas lágrimas.

— Você não fez nada errado, filho. É um herói. Um herói maravilhoso e não poderia estar mais orgulhosa de você.

Nick fez uma careta ante a mentira. Não era um herói. Era um valentão... igual ao seu maldito pai.

Encontrou o olhar fixo de Kyrian e algo em seus olhos o fez acreditar que na realidade Kyrian poderia saber da verdade. Se o fizesse não o desmascararia, o que só o fez sentir-se pior.

Sua mãe deixou escapar um suspiro.

— O doutor me disse que teria que ficar aqui por uns dias, possivelmente uma semana ou mais. Não sei como vamos pagar.

— Não se preocupe com isso. Eu cuido da conta.

Ela entrecerrou os olhos sobre Kyrian.

— Não posso deixar que faça isso.

— Está tudo bem. É o mínimo que posso fazer por ele. Não há muitos garotos de sua idade que receberiam uma bala para manter um estranho a salvo.

De qualquer maneira ficou na dúvida.

Kyrian lhe ofereceu um sorriso amável e muito reservado.

— Tenho dinheiro, senhora Gautier. — Wow, diferente do Peters, ele não zombava de seu título. Na realidade o disse como se a respeitasse — E ninguém o gasta. Confie em mim, você não está tomando um centavo que minha família ou eu vamos sentir falta.

Ela mordeu o lábio.

— Isso é muito amável de sua parte. Sobre tudo, depois de tudo o que já fez ao trazê-lo para cá. —Tomou a mão sã do Nick na sua e a apertou — Não posso lhe agradecer o suficiente por salvar o meu bebê, senhor Hunter. Nicky é tudo o que tenho neste mundo. Morreria se algo lhe acontecesse.

Algo escuro passou fugazmente através dos olhos de Kyrian, o que lembrou a Nick um fantasma atormentando. As palavras de sua mãe tinham trazido alguma dor do passado. Kyrian tirou sua carteira e a abriu.

— Este é meu número. — Deu a sua mãe um pequeno cartão —. Se necessitar de algo, não duvide em me chamar, a qualquer hora, do dia ou da noite. Não durmo muito, assim não se preocupe se vai me incomodar.

Ela tratou de devolver-lhe, mas Kyrian não o permitiu.

— Olhe — disse com firmeza — Sei que não me conhece ou confia em mim absolutamente. Não lhe culpo. Mas há gente no mundo que pode dar sem pedir nada em troca. Eu sou um deles.

Ela negou com a cabeça.

— Eu sei o quanto custam coisas assim. Não posso pegar essa quantidade de dinheiro de você nem de ninguém. Nunca.

O olhar castanho escuro de Kyrian foi para o Nick.

— Então o deixe trabalhar para mim.

Nick balbuciou indignado.

— Desculpe?

Eles não prestaram atenção.

— Não seja ridículo — disse sua mamãe — Teria que trabalhar para sempre para conseguir lhe devolver esse dinheiro.

Uh, sim... E a ultima coisa que Nick queria era ser contratado como aprendiz para saldar a conta do medico.

Kyrian devolveu a carteira a seu bolso.

— Então o que é que quer fazer? Que o hospital lhe jogue na rua antes de ter ficado bom por completo? Com feridas assim, poderia adquirir uma gangrena e perder uma extremidade ou morrer.

A desesperança brilhava em seus olhos azuis e essa visão chutou Nick diretamente no estômago.

— Senhora Gautier... — Um tic apareceu na mandíbula de Kyrian — Eu sei que não poderia dizê-lo me olhando, mas tive uma vida difícil. Perdi todos os que alguma vez foram importantes para mim e sei o que é a ser chutado fortemente quando está por baixo. Você tem um grande menino aí. Merece uma oportunidade. Que trabalhe para mim, meio período, depois da escola durante um ano, e diremos que estamos em paz.

Ela olhou para Nick, que não se vendeu a essa ideia.

— Fazendo o que?

— Lavando meu carro. Anotando recados.

Sua mãe franziu o cenho.

— Que tipo de recados?

— Sim — interveio Nick —. Não sou babá ou levo os cães para passear.

Kyrian rodou os olhos.

— Não tenho filhos ou cão — voltou a olhar para a mãe de Nick — Teria que fazer a feira, fazer um pouco de limpeza. Pode trabalhar com meu jardineiro podando a grama ou ajudar a minha governanta a limpar o exterior das janelas. Nada perigoso ou ilegal.

Isso não soava tão mal, mas Nick já tinha um trabalho que gostava na maioria dos dias.

— O que vai acontecer com a senhora Liza, mamãe? Quem vai lhe ajudar em sua loja?

Kyrian franziu o cenho.

— Liza Dunnigan?

— Você a conhece? — perguntou Nick surpreso.

Outro sorriso muito reservado irrompeu em seu rosto.

— Sim. Conhecemo-nos faz muito tempo, e acredito que ela entenderia se você for trabalhar para mim durante um tempo.

A mão de sua mãe se esticou sobre a sua.

— Não sei... o que acha, Nicky?

Nick olhou o seu braço na tipoia. Na realidade não havia outra forma que pudessem pagar essa fatura. E se Kyrian pagava, sua mãe não teria que sofrer...

— Contanto que ele não seja um pervertido e Liza não se importe, suponho que posso trabalhar para ele.

Kyrian se pôs a rir.

— Não sou um pervertido.

— Melhor que não, porque irei embora se o for.

Kyrian assentiu com a cabeça.

— Então, está arrumado?

A indecisão se produziu no olhar de sua mãe antes que ela afirmasse com a cabeça.

— Obrigada.

— Não há problema. Agora bem, se me dão licença, tenho uma entrevista que me aguarda.

Nick franziu o cenho.

— Tão tarde? — perguntou sua mamãe com receio.

Kyrian assentiu com a cabeça.

— Tenho muitos negócios internacionais que me obrigam a trabalhar até tarde da noite. Como hei dito, eu não durmo muito. — E com isso, foi.

Agora que estavam sozinhos, sua mãe lhe dedicou plena atenção.

— O que acha disso, realmente?

— Acredito que estou realmente feliz por não estar morto, por você não está zangada comigo por conseguir que atirassem em mim e terminar no hospital, acumulando dividas que não podemos nos permitir.

Seus lábios tremiam.

— Bebê, como eu ia estar zangada contigo por algo assim? Só desejaria conseguir dinheiro suficiente para que não tivesse que trabalhar também. Se tivesse estado em casa…

— Não, mamãe, por favor.

A culpa estava lhe matando.

Ela levantou a sua mão até seus lábios e lhe beijou os nódulos com ferimentos.

— Muito bem, querido. Precisa descansar. Não se preocupe ou pense em nada mais que em melhorar.

Tirou-se do bolso uma liga negra para o cabelo e amarrou o cabelo em um cômodo rabo-de-cavalo. Nick sorriu, sabendo que ela o fazia por ele, para que ele não se envergonhasse de seu cabelo loiro comprido. Logo se dirigiu ao banheiro para poder limpar a maquiagem e tirar o brilho falso dos cílios. Era muito mais bonita sem toda essa gosma na cara, ele não entendia por que a faziam usar.

Uma vez que ela se via de novo como sua mãe, deslizou-se na cama junto a ele e lhe abraçou. Normalmente, estaria rechaçando-a porque sentiria como se ela estivesse lhe afogando. Mas esta noite, enquanto doía e doía, alegrou saber que ela estava por perto lhe abraçando.

Sempre tinha sido apenas eles dois no mundo. Uma Equipe Fabulosa. Assim era como ela os tinha chamado desde que ele podia lembrar. Juntos poderiam passar por tudo.

Apartou-lhe o cabelo da têmpora e lhe deu um ligeiro beijo ali.

— Você é meu rapazinho, Nickyboo[7]. E eu sou tão grata por ter você. Você é a única coisa certa que eu fiz em toda minha vida e se algo acontecesse a você, teriam que cavar duas tumbas, pois eu não poderia viver um só dia sem meu bebê ao meu lado.

Suas palavras quase conseguiram fazer com que os seus olhos lacrimejassem, mas era muito duro para isso. Nada podia lhe fazer chorar. Nada.

— Amo você, mamãe.

— Amo muito você, bebê. Agora vá dormir. Precisa melhorar logo, assim posso bater em você por ter se machucado.

Sorrindo por sua ameaça vazia, Nick fechou os olhos, mas não podia dormir. Sua mente não deixava de repassar o olhar no rosto do Alan quando tinha apertado o gatilho. O canalha tinha tentado mata-lo...

E embora fosse a última coisa que fizesse, ia vingar se. Como seu papai diria: Nosso sangue não foge. Às vezes queremos fazê-lo. Às vezes devemos. Mas nós nunca fugimos de nada nem de ninguém.

A próxima vez que se encontrasse com o Alan e sua “turma” iriam sentir a ira de Nick Gautier…

 

Nick aprendeu uma nova lição sobre miséria enquanto jazia na cama, sozinho, no hospital durante vários dias, aborrecido de pensar. Sua mãe ficou com ele tanto quanto pode, assim como Menyara, mas não podiam estar sempre presentes. Kyrian se atinha a lhe visitar somente à noite e durante o dia o faziam algumas das bailarinas do clube de sua mãe. Entretanto, passava a maior parte do tempo sozinho.

A parte mais aterradora?

A escola estava começando a lhe parecer uma coisa boa. Estremeceu de repulsa ante este horrível pensamento.

— Olá… um, Nick, não?

Abriu os olhos para encontrar-se de frente, entre todas as pessoas, a Nekoda em pé na soleira da porta. Com o cabelo preso em um grosso rabo de cavalo, vestida com um uniforme de voluntária, entrou no quarto.

O calor lhe picou nas bochechas enquanto ela olhava seu desastroso estado. Nick clareou a garganta.

— Sim, sou eu, mas eu gosto de pensar que tinha melhor aspecto quando nos conhecemos. Porque justo agora, estou monopolizando todo o feio.

Ela riu.

— Não se ofenda, mas sim, você estava um pouco melhor. Mas tenho que te dizer que realmente você está se saindo muito bem com esse capacete brilhante que usa agora mesmo. Não é coisa fácil ter boa pinta. — Lhe piscou um olho.

Só podia imaginar o quão mal se via. Sua cabeça ainda estava enfaixada, seu olho exposto machucado e inchado. Tinha um ombro em uma tipoia para mantê-lo quieto e o outro conectado aos monitores e a uma intravenosa. Levava uma bata de hospital salpicada do “oh-tão-masculinas” coisas floreadas por toda parte. Gah, neste momento, preferiria estar de novo com sua camisa havaiana laranja.

Tudo o que necessitava para parecer um imbecil maior era babar. O que poderia fazer se ela continuasse falando com ele.

Ela se deteve ao lado da cama e olhou por cima de todos os monitores que soavam e cantarolavam.

— Então o que aconteceu com você?

— Atiraram em mim.

Suas sobrancelhas se arquearam muito.

— No olho? Por isso está coberto?

— Não. Fui golpeado por um punho, um pé, e provavelmente umas poucas coisas mais. Tenho um montão de pontos sobre o olho. O doutor disse que o curativo é assim, mas posso tirar amanhã. Estou seguro que estarei melhor então. — A voz estava carregada de sarcasmo — Atiraram no meu ombro.

— OH — disse calma enquanto franzia o cenho para a tipoia — Doeu?

Queria dizer que não, duh, mas o sentido comum lhe conteve a língua antes de insultá-la. Apesar de sentir que ainda doía, incorporou-se em uma postura forçada.

— Nah. Levei como um homem.

Ela sacudiu a cabeça para ele e não fez nenhum comentário sobre a bravata.

— Então por que lhe dispararam? Uma de suas piadas foi ruim?

Nick não estava seguro de como responder a isso. Não queria tomar crédito por algo que na realidade não tinha feito, como salvar às pessoas a que tinha ajudado a pôr em perigo. Assim que se decidiu por uma verdade menor.

— Lugar errado. Hora realmente errada

— Viu quem atirou em você?

— Não — ele mentiu. Ele nem havia dito a policia e por varias vezes chegou a lamentar que ele não houvesse dito em varias ocasiões. Regra número um da rua: os traficantes não vivem muito tempo. Além disso, tinha a intenção de acertar as contas por si mesmo e a ultima coisa que queria era que Alan e seu grupo estivessem protegidos atrás dos muros da prisão quando ele fosse atrás deles.

Isto ia ser entre “amigos”.

— Como dizem nos filmes e espetáculos, tudo aconteceu tão rápido…

Ela se mostrou inquieta por ele.

— Bom, sinto que tenham atirado em você. Isso explica o porquê de não ter te visto na escola.

Animou-se ao ouvir isso. Tinha estado lhe procurando? Homem, por essa notícia, receberia uma bala em qualquer dia. Era tudo o que podia fazer para não esboçar um sorriso tolo.

Ela se aproximou mais.

— Mas me alegro de que esteja vivo e bem.

— Sim, eu também. Teria impedido realmente meus planos futuros se tivesse morrido… — Lançou o que esperava fosse um sorriso encantador e então mudou de tema — Assim trabalha aqui?

— Voluntária. Duas vezes por semana — corrigiu —Me disseram que coisas como esta são levadas em conta ao se inscrever para a universidade.

Uau, ela já estava preocupada com isso? Isso o fez sentir como um folgadão.

— Só estamos no nono grau.

Ela encolheu os ombros.

— Sim, mas cada ano a partir de agora até a graduação importa e tudo o que fazemos afeta em onde podemos entrar. Assim estou tratando de marcar a diferença.

— Gah, falas como minha mãe.

— Sinto muito. — Enrugou o nariz da forma mais adorável. Ele não sabia por que, mas aquilo fez seu estômago se esticar e o calor subiu-lhe ás bochechas, se seguia com isso, poderia ser alugado como farol de transito.

— Assim posso te conseguir algo para beber? — perguntou— Sorvete? Tenho revistas e livros em meu carro se você desejar algo para ler.

— Mataria por um Nintendo.

Ela pôs-se a rir.

— Não tenho um Nintendo no carro. Sinto muito.

— Tem um pouco de mangá?

— Mangá? — Franziu o cenho—. O que é isso?

Merda. Era muito esperar que ela compartilhasse alguns de seus interesses pouco usuais.

— Gibis japoneses. Sou viciado neles.

— Não, sinto-o de novo. Tenho alguns do Batman e Homem-Aranha se estiver interessado.

— Isso seria genial. — Eram muito mais curtos que os mangás, mas ao menos passaria um par de minutos enquanto os lia — Tem um pouco de ficção científica ou fantasia?

— Temos um par de livros da Dune[8].

— Agora definitivamente você poderia me vender.

Ela sorriu.

— Volto num instante.

Nick a olhou enquanto ela saía do quarto com uma sacudida de quadris que deveria ser ilegal e em alguns estados provavelmente o era. Era realmente formosa. Não sabia como era seu cabelo, mas realmente lhe dava vontade de tocá-lo. Parecia tão suave e liso. Provavelmente cheirasse bem também.

Igual a sua pele.

Em que está pensando? Está tão fora de seu alcance…

As garotas como ela não saíam com perdedores idiotas que assaltavam turistas. Era do tipo que saía com esportistas e se casavam com advogados, cirurgiões e essas coisas.

Só podia imaginar o tipo de infância que ela tinha tido com babás e tutores e festas de aniversário com presentes envoltos em papel de presentes brilhantes decoradas à mão. Seus pais provavelmente dariam as costas e morreriam se soubessem que tinha estado sequer falando com uma imundície como ele.

— Aqui está — voltou e entregou uma pilha de livros e gibis.

Nick sorriu.

— Deus te abençoe.

— Sempre. — deu um passo apartando-se da cama —. Bom, é melhor que vá. Ainda tenho que fazer minhas rondas e visitar outros pacientes. Prometi à senhora O'Malley que jogaria rumm[9]y com ela hoje.

Uau, isso era realmente doce.

— Certo. Muito obrigado por vir e pelos livros.

Ela inclinou a cabeça.

— Tome cuidado.

— Você também.

Então ela tinha ido. Nick suspirou enquanto lhe entrava a depressão. Odiava estar aqui, mas mais que nada odiava não ser digno de nunca ter uma namorada como Nekoda. Poderia divertir-se e fingir tudo o que quisesse. Não mudaria nada. Ela ainda voltaria para seu lar, sua bela casa, e ele se arrastaria de novo à sarjeta na qual tinha nascido.

Tratando de não pensar em coisas que não podia mudar, abriu um livro e começou a ler.

Nick suspirou e se moveu, então despertou sobressaltado ao sentir como se estivesse caindo da cama. Piscou abrindo os olhos para encontrar-se ainda no hospital, sozinho.

Gah, isto é uma porcaria. Desejando ter dormido mais de duas horas, estirou-se até a bandeja para agarrar outro livro e congelou. Havia uma pequena caixa que não tinha estado ali antes.

Franziu o cenho, alcançando-a, e logo a abriu. Dentro havia um Nintendo rosa e uma pequena nota.

 

Sinto pela cor. O rosa é a minha preferida. Mas eu espero que isto possa evitar deixar-te louco para que não tenhas que matar a alguém. Imagino que posso ficar sem ele um par de dias se mantiver a sua sanidade mental.

Melhore logo,

Kody.

 

Ficou olhando a nota enquanto uma onda de emoção lhe afligia. Era a coisa mais agradável que alguém tinha feito para ele. A caixa estava cheia de jogos, dos clássicos de estratégia aos de ação.

Que coisa tão incrivelmente legal que ela fizesse isso por ele. Realmente lhe comoveu.

Agarrando-a, sustentou o console na mão. Por alguma razão, o fazia sentir estranhamente perto dela. Os consolas são pessoais. Uma extensão de si mesmo. Da cor até os adesivos… Tudo vinha de dentro e era algo que mantinha perto de si. Algo que vigiava e protegia.

E tinha lhe emprestado a sua.

Não era muita gente que o faria. Especialmente não alguém tão linda como Kody. A garota estava louca.

Talvez gostasse dele.

Esse pensamento fez com que o sangue corresse como fogo pelas veias. Poderia ser possível?

É perigosa para ti. Evite-a.

Franziu o cenho ante a profunda voz que lhe atemorizou a cabeça. Soava quase demoníaca. Que demônios?

— Estou a ficar louco de aborrecimento. — só um lunático quereria evitar a uma garota tão agradável e bonita como Kody.

 

— Agarrou-o?

Nekoda se esticou quando sentiu o ar que a rodeava se agitar. O poder era evidente e era um com o que estava intimamente familiarizada.

Sraosha. Seu guia e mentor.

Nekoda fechou a porta do armazém para evitar que ninguém mais no hospital entrasse inocentemente e visse a forma de Sraosha. Alto e elegante, era tão formoso que era difícil o olhar de frente. Seus poderes eram tão grandes que se manifestavam como uma aura em constante movimento que iluminava sua pele com um brilho amarelo brilhante. Seu cabelo comprido e loiro lhe fluía ao redor dos ombros enquanto fixava seu olhar nela… um olhar que não tinha olhos. Só uma cavidade cheia de fumaça negra que era tão espantoso como peculiar.

— Deixei com ele — sussurrou ela. Nick não tinha nem ideia que seu Nintendo lhe permitia manter um olho sobre ele enquanto estivesse ao seu redor.

Sraosha assentiu.

— O que pensa deste?

Era mais jovem que os outros Malachai com os que ela tinha lutado. Mais inocente. Ainda doce.

Não deixe que te seduza.

Isso era a última coisa que tinha que deixar acontecer.

— Parece… —Tinha que escolher cuidadosamente as palavras —. Diferente.

— Crê que ele é o eleito?

— Não sei. — No começo dos tempos, tinham rastreado ao Malachai certo. O que poderia voltar-se contra as forças escuras que lhe tinham engendrado e lutar com eles contra A Fonte para poder liberar a seus irmãos.

Mas até agora, tinham perdido a cada Malachai que tinham tentado salvar. A escuridão dentro de cada um era mais do que podiam resistir. E quem poderia lhes culpar?

Toda sua estirpe tinha nascido para causar dor. Nascido para exercer os mais escuros poderes imagináveis. Assim como Nekoda tinha nascido para a luz.

Nick ainda era um menino que não tinha nem ideia do que é que era. Mas ela sabia exatamente a classe de violência para a que tinha sido criado.

E lhe aterrava.

— Menyara jura que podemos salva-lo.

Sraosha se burlou.

— Está muito envolvida com este. Está cega e não vê o que ele é de verdade.

Talvez fosse isso, mas Nekoda não tinha esse apego por ele.

— Não tenha medo. Não estou cega. Seu encanto não me enfeitiça.

— Assegure-se de não ser mais uma vitima dele. Lembre-se, é só um dos muitos poderes que possui. Poderes que funcionam em todos os mortais e imortais por igual. Como já viu, o mal já começou a lhe tentar e só se agravará à medida que o tempo passar.

Nekoda tragou enquanto lembrava o sucesso com que lhe atiraram e machucaram.

— Saiu antes de lhes machucar.

— Desta vez. Mas esse ato só deriva da violência contra outro que desatou a seu Mago Cimerio. Os poderes escuros se unem agora para treiná-lo. Não pode senti-lo?

Sim. Estava impregnado em tudo por aqui e lhe enviava um calafrio selvagem pela coluna. Havia dez lições que ensinavam a cada Malachai. Cada uma delas lhe faria mais forte.

Mais corrupto.

O transformariam em um instrumento do mal que iria atrás dela e de sua gente e semearia a miséria absoluta sobre todos os que entrassem em contato com ele.

A primeira lição era a nigromancia. Mas não só a comunicação com a morte. Reanimação e controle.

Não importava o muito que Nekoda tentasse, não podia ver Nick chegando a ser como os outros. Certamente não abraçaria esse frio poder.

Cometeu um engano ao pensar assim antes.

Fez uma careta ao recordar seu pai e quão equivocada tinha estado então. Se tivesse lhe golpeado quando o disseram, teria salvado inumeráveis vidas.

Era a luz em seu interior que queria acreditar na bondade dos outros. Inclusive no Malachai. Tinha mostrado misericórdia ao Malachai mais velho e lhe tinha cuspido na cara e abraçado seu próprio estigma do mal.

Não importava o que fosse não voltaria a ser tão estúpida.

— Não tema, Sraosha. Aprendi com o meu engano. Desta vez, não falharei. Se não puder lhe converter, o matarei.

— Melhor lembrar-se disso. Porque este é inclusive mais forte que seu pai e agora está sendo adotado e treinado pelos Dark-Hunters. Se não puder lhe converter, ele será o que finalmente destrua a todos nós.

E ela seria a culpada da morte de toda a humanidade.

 

— Seja bem-vindo ao lar, Nicky!

Nick abriu os olhos para encontrar-se em sua sala de merda com sua tia Menyara parada na frente dele, sustentando um bolo de chocolate comprado em loja com as mesmas palavras felizes escritas nele as que ela acaba de pronunciar. Ficou aturdido pela pequena multidão ao redor dela que gritavam as palavras para ele.

Droga!

Pequena como sua mãe, Menyara tinha a pele suave cor de café chocolate que resplandecia na oscilante luz de vela. Suas mechas frisadas estavam agarradas atrás de seu belo rosto com um longo cachecol amarelo que tinha enrolado ao redor de sua cabeça que se arrastava abaixo de suas costas, justo além de seu cabelo. O amarelo estava refletido em sua blusa camponesa que se metia em uma saia laranja brilhante que caía até o final de seus tornozelos.

Finos braceletes de prata delineavam a ambos os braços e tilintaram enquanto ela inclinava o bolo para que ele visse sua bela escritura à mão.

— É o seu favorito, cher. Alegra-nos tanto de que esteja em casa.

Nick se ruborizou enquanto seu olhar foi dela ao resto das dançarinas que trabalhavam com sua mãe que tinham chegado para sua festa. Ainda John e Greg, dois dos tira bêbados do clube, estavam aqui.

Batiam palmas e lhe sorriam, pondo-o extremamente incômodo com a atenção enquanto o felicitavam por ser um herói.

Engraçado, que ele se sentisse mais como uma fraude.

Menyara baixou o bolo no mostrador para ele.

— Vamos, chérie, sopra as velas antes que arruínem seu belo bolo.

Sempre gostou do sotaque da Menyara cada vez que falava. Uma sacerdotisa vodu e parteira, tia Mennie, como ele a chamava, era também sua madrinha e a melhor amiga de sua mãe.

Ela o havia trazido para este mundo e havia sido sua mãe inclusive depois que seus pais a colocaram para fora.

Quando ele era muito jovem para ir ao clube com sua mãe, tinha sido Mennie quem cuidava dele. Só por isso, ele faria qualquer coisa no mundo por ela.

— Obrigado, todo mundo, — ele resmungou enquanto ia ao bolo e apagava de um sopro as velas.

Sua mãe estava atrás dele com sua mão em seu ombro são.

— Todos nós estamos tão orgulhosos de ti, querido.

— Isso é verdade. — Greg, um homem enorme como um urso com uma enorme cicatriz e a pele cheia de cicatrizes de varíola, deu um passo adiante para lhe entregar uma caixa —. Fizemos uma coleta para ti no clube. Espero que você goste.

Sua bondade o tocou. Sentiu-se mais como um aniversário que uma volta ao lar do hospital.

Abrindo de um puxão a caixa, encontrou um jogo do Brigão - Guia das ruas e uma camiseta dizendo isso: Nick Gautier o super-herói do dia.

Nick não teve o coração para lhes dizer que não tinha um videogame para rodar esse jogo aqui. Mais do que não poderia lhes dizer que não tinha sido um herói. Só tinha estado tentando fazer algo correto do que ele tinha deixado ir terrivelmente mal.

— Obrigado, a todos. De verdade, eu adorei, na realidade o aprecio.

Tiffany deu um passo ao redor de Greg e tirou um envelope da caixa.

— Esqueceu isto.

Nick deu a caixa a sua mãe antes de aceitar o envelope, mas devido a seu braço esquerdo que ainda estava em uma tipoia, não o podia abrir.

— Aqui, menino. — Menyara o tomou e o abriu por ele.

Ele ficou boquiaberto enquanto via cinco notas de vinte dólares em sua mão.

— Para que é isto?

Tiffany sorriu.

— Seu fundo da universidade. Sabemos que não é muito, mas cobrirá a maioria dos dias de trabalho que perdeu enquanto estava no hospital.

Ele olhou para a sua mãe, que sorria de gratidão. Mas ele não se sentiu agradecido. Sentiu-se estranho a respeito disso, especialmente sabendo quão duro todos eles trabalhavam para isso.

— Não posso aceitar isto.

John bufou.

— Toma-o. Não me faça ter que chutar seu rabo e te pôr de volta no hospital, bola de ranho. Somente agradece e não o gaste em drogas ou mulheres porque eu sei o que eu teria feito com isso na sua idade e estamos todos te criando para ser melhor que isso.

Nick não soube o que dizer.

— Obrigado, amigos. Em realidade o aprecio.

Então alguém aumentou o som para tocar a musica "Walk to way" do Aerosmith e a festa começou, embora fosse difícil mover-se em seu pequeno condomínio. Não obstante, as bailarinas estavam acostumadas a estar paradas na passarela magra no clube assim fizeram o que faziam melhor e puseram sua cara tão vermelha com seus movimentos de dança que ele estava seguro que resplandecia igual a néon.

Nick levou o dinheiro até o frasco que mantinham debaixo da pia e guardou as cinco notas de vinte dentro, enquanto sua mãe e Menyara cortavam o bolo e repartiam fatias para todo mundo.

— Está tudo bem, Menino?

Ele assentiu com a cabeça enquanto Menyara lhe dava seu bolo e um garfo de plástico.

— Somente cansado.

Havia algo em seu olhar que lhe fez se perguntar se ela podia ler sua mente. Foi arrepiante.

— Sua mamãe me disse que trabalhará para um homem chamado Kyrian Hunter. É assim?

— Sim. Pagarei a dívida pelas contas do hospital.

— Então quero que se cuide, Nicholas. Este homem, ele é...

Quando ela não terminou a frase, ele a terminou por ela.

— Malvado?

Ela riu e passou sua mão através de seu cabelo.

— Não, não malvado. Mas trabalhar para ele te mudará, acredito. Espero que para melhor. Só queria dizer que deveria ter muito cuidado com o que aprender com os outros e com quem deixar entrar em sua vida.

Seu tom sem emoção parou. Mennie sabia coisas, montões de coisas, antes que acontecessem. Sua clarividência era inigualável.

— Esses são seus malvados poderes psíquicos falando outra vez?

—Talvez, ou apenas são meus malvados costumes superprotetores. — Ela o beijou na testa —. É um bom menino para mim, Nicholas. Sempre.

— Sim, bom. — Ele não tinha a intenção de ser um mau, a última vez que o tinha sido, isso não tinha funcionado bem para ele. Como seu ombro que estava ardendo e tinha meses de terapia dolorosa por diante para conseguir que seu braço funcionasse bem outra vez.

Acredite, eu acabarei com isto. A próxima vez que ele visse o Alan e seu grupo seriam eles os que iriam mancar.

Porque vou pôr meu pé tão forte em seus traseiros que eles vão arrotar sapatos de pele.

Ou no caso, os sapatos baratos de Nick, o material feito pelo homem, fosse o que fosse.

Ele franziu o cenho enquanto ela se afastava para unir-se a sua mãe e a Tiffany. Houve algo frio no ar que o fez ter cócegas seu pescoço.

Descartando-o, comeu seu bolo e então se uniu aos outros, que ainda estavam ouvindo velhas canções dos anos setenta. Ora, poderíamos mudar, por favor, a música até a década correta? O que acontece às pessoas mais velhas e sua música?

Bom, ao menos não era disco.

A festa não durou muito tempo, devido a sua mãe temer em cansá-lo muito. Um por um saiu até que ficaram simplesmente Nick, sua mãe, e Mennie.

Ante a urgência de sua mãe, Nick se encaminhou para sua cama enquanto elas faziam a limpeza. Ele estava quase adormecendo quando a sua mãe o perturbou.

— Está em condições de voltar para a escola amanhã?

Dificilmente. Realmente gostaria de algumas décadas mais antes que ele tivesse que retornar e enfrentar aos idiotas mutantes...

Mas não disse isso a ela. Homem acorde e encare isso Nick.

— Suponho que sim.

— Bom, mas se não estiver de humor para isso, me avise. Ainda está convalescendo e não quero que faça nada que o estresse.

Sim, mas ele já estava tão atrasado que não tinha a certeza se haveria uma pá grande o suficiente para cavar seu caminho para fora e voltar a seu trabalho anterior. Mais alguns dias e ele teria que repetir o ano.

Só se me matarem primeiro.

Ela alisou o seu cabelo para trás de sua fronte antes de tocar sua testa procurando sinais de febre.

— O senhor Hunter disse que teria um carro esperando para te apanhar depois das aulas e te levar para sua casa. Ele me prometeu que era simplesmente uma introdução para ti e que não te faria fazer nada muito intenso. Está de acordo?

Ele voltou a dar sua resposta padrão.

— Suponho que sim.

Ela pôs os olhos em branco.

— Bem então. Deixarei você descansar. Avise-me se necessitar de algo. OH, e tivemos que pôr essas flores que seus amigos Bubba e Marcos lhe enviaram no hospital no alpendre da frente. Realmente não se encaixavam na casa. Eles exageraram um pouco.

Essa foi uma forma de dizê-lo. Bubba virtualmente tinha lhe enviado uma árvore, com uma nota.

O hospital tirou minhas coisas do quarto e só deixariam a menos que eu fosse o único que estivesse sendo atendido lá.

Sinto não estarmos ali, cara. Que melhore logo. Lembrar na próxima vez...

Dobre o golpe.

Bubba e Mark.

 

Nick observou enquanto ela saía e logo fechou a "porta".

Esfregando o olho machucado, ignorou sua conversa com a Menyara até que ouviu seu nome mencionado.

— Crê que esta confusão impedirá seu crescimento, Mennie?

Menyara riu.

— Não, chérie. Seu menino vai ser um bom homem, alto um dia. Prometo-lhe isso.

— Não sei. Meu papai era terrivelmente pequeno. Apenas um metro sessenta de estatura. Sei que Nick é mais alto que isso agora, mas me assusta como a morte que ele vá deixar de crescer e seja um duende como eu.

— Isso é porque é mignon, menina. Supõe-se que sejam pequenas. Seria estranho se não fosse. Mas Adarian é um homem bonito e alto e seu filho vai se parecer com ele. Confie em mim.

Essas palavras fizeram com que o sangue do Nick corresse frio.

Adarian Malachai era seu pai e era um monstro. A mera menção de seu nome conjurava uma imagem de um gigante, gigantesca besta de homem trespassado na prisão, cheio de tatuagens pesadas. Nick nunca tinha visto o homem quando não tinha estado grunhindo para todo mundo a seu redor e empurrando às pessoas que ficavam perto dele, isso incluía a mãe do Nick.

Feroz, amargo, e grosseiro, seu pai era uma peça estranha e ele se alegrava que sua mãe não tivesse se casado com ele e tivesse dado a Nick seu sobrenome. Embora seus avós Gautier não quisessem ter nada que ver com eles, ainda preferia ter seu nome ao do Adarian.

Malachai. Droga, nem sequer gostava da maneira como soava. Ora.

Nick elevou sua voz para que o ouvissem.

— Preferiria ser pequeno, gordo, e feio a me parecer com esse homem.

Sua mãe suspirou.

— Esse homem é seu pai e se supõe que você esteja dormido, jovem. Não escutando às escondidas nossa conversa privada.

O que esperava ela quando tudo o que os separava era uma magra manta azul?

— E se supõe que você não fale de mim onde possa te ouvir. Sempre me disse que isso é grosseiro.

Riram.

— Vá dormir Nick.

     Vá dormir Nick, ele pronunciou, burlando-se da ordem, era mais fácil falar do que fazer. Sobre tudo, quando seus analgésicos tinham perdido o efeito e seu ombro estava latejando como fogo outra vez. Mas não quis tomar mais. Isso o fazia sentir-se muito sonolento e doente. Preferia a dor antes que ser um zumbi.

Além disso, se atuasse como um zumbi, Bubba poderia confundi-lo com uma alucinação e poderia atirar nele.

Regra número Um, cara: atira primeiro e pergunta depois.

Regra número Dois: Dobre o golpe só por garantia. Melhor estar a salvo, que lamentá-lo.

Nick sorriu às leis de Bubba até que contemplou o teto baixo manchado e se perguntou exatamente quão miserável estaria amanhã na escola.

Pestanejando de volta à agonia, tirou o Nintendo de Nekoda de seu bolso dianteiro. Não soube por que, mas só tocá-lo o fez sentir-se melhor. Como se tivesse alguém no mundo cuidando dele.

Quão estúpido era isso?

Ligou-o e manteve o som baixo. Sua mãe não tinha ideia que tinha isto. Ela provavelmente enlouqueceria se soubesse e ele realmente não podia jogar com apenas uma mão, de qualquer maneira. Ainda, gostava do pensamento de tê-lo. O fazia sentir-se especial. Como se estivesse conectado a alguém não relacionado com ele.

Como se uma garota de verdade pudesse gostar dele, mais que simplesmente como um amigo.

Queria ter coragem de pedir a ela que saísse com ele para comer um lanche depois das aulas. Mas até agora não tinha podido fazer mais do que lhe agradecer por visitá-lo enquanto tinha estado no hospital... o que ela tinha feito cada vez que havia uma mudança.

Ele tinha esperado com antecipação todas e cada um dessas visitas como um mendigo faminto conseguindo sua única comida do dia.

Era complicado homem, conseguir a coragem para pedir a ela um pouco de atenção tão pessoal. Ele não queria ser repelido e tinha que melhorar muito antes de alcançar as estrelas... que era o que ela era. Uma estrela brilhante, perfeita que o fazia rir cada vez que se aproximava.

E ele era um perdedor. Não podia sair a menos que quisesse ser derrubado a tiros. Ele tinha sido arrasado o bastante por seus companheiros de classe, não estava a favor de dar a Kody a oportunidade de lhe bater nos dentes e dar-lhe pontapés. Visto assim, tinha tido a sorte de que ela ainda tivesse falado com ele no hospital. Sem dúvida amanhã ela seria como o resto dos meninos populares e ricos e simularia que ele era invisível.

Pondo os olhos em branco ante sua própria estupidez por sequer considerar o pensamento de convidá-la para sair, ele desligou o Nintendo e o colocou de novo em seu bolso. Amanhã tinha que confrontar o demônio principal e aos atrasados de sua escola. Para fazer isso, precisava descansar.

E talvez precisasse de um lança-chamas ou dois.

 

Nick estava terminando o bolo que estava comendode café da manhã quando um golpe na porta o sobressaltou. Como sua mãe e todos os seus amigos, exceto Menyara, trabalhavam até o amanhecer, ele não estava acostumado a visitas matutinas.

Sua mãe foi abrir a porta. Nesta vizinhança, ele esperava que fossem policiais querendo saber de algo que tivesse ocorrido enquanto dormiam.

A pessoa que estava ali o emocionou até o fundo de seu ser. Era Brynna Addams vestida com um belo vestido azul e suéter branco. Com seu cabelo escuro sujeito para trás de seu rosto com por um fino elástico cheio de encaixes sobre a fronte, ela reluzia como um anjo.

Um anjo que não correspondia ao estressante buraco que era sua casa.

— Olá, Senhora Gautier. Sou Brynna... a amiga do Nick da escola que esteve pegando as suas tarefas do colégio. Como hoje é o primeiro dia dele de volta a escola e tudo isso, meu irmão e eu quisemos lhe dar uma carona... se isso estiver bem para você?

Sua mãe abriu e fechou a boca como se estivesse tão aturdida por sua oferta como ele o estava. Dando a volta, ela se encontrou com seu olhar surpreendido.

— Conhece alguma Brynna?

O calor estalou através de seu rosto, em parte porque ele se envergonhou de sua casa opaca quando estava seguro de que Brynna nunca tinha visto nada tão desgastado em sua vida.

E em parte porque sua mãe tinha um olhar estranho na cara que ele realmente não entendeu enquanto ela estava pouco vestida em uma porta aberta.

— Hum, sim.

— Quer que eles lhe levem para a escola?

— Suponho que sim. — Sua resposta padrão sempre que ele estava em dúvida sobre algo.

Recolheu sua mochila, mas antes que pudesse pendurar sobre o ombro são Brynna a tirou dele.

— Deixe-me levá-la. Você está ainda convalescendo.

Nick pegou a mochila de volta.

— Não, obrigado. Não vou ter uma garota carregando minhas coisas. Não cairia bem. — E o faria parecer um mega adoentado.

Podia dizer que Brynna quis discutir, mas com uma inclinação de cabeça, ela deu um passo atrás e soltou sua bolsa remendada, mal feita e de segunda mão.

Sua mãe se moveu para sua frente para o olhar de cima a baixo o pescoço de sua “OH tão adorável” camisa havaiana azul que ele estava usando... ao menos esta não estava tão malditamente resplandecente na escuridão.

— Que tenha um bom dia, querido.

Sim... Ela só deveria ter dito enquanto ele saia. Algo para diminuir sua virilidade.

Sem uma palavra, lhe deu um abraço rápido devido a sua dignidade, que já tinha sido derrotada, então seguiu Brynna para fora, onde seu irmão os esperava em um negro Lexus SUV novo.

Ele deixou escapar um assobio baixo de apreciação. Seria um passeio obscenamente agradável.

— Sabe, um carro como esse nesta vizinhança... as pessoas vão pensar que vocês são vendedores de drogas.

Brynna riu enquanto abria a porta do assento da frente e deu um passo atrás. Nick ignorou seu convite para sentar-se na frente e abriu a porta traseira.

— Não quer sentar no assento da frente?

Subiu no assento traseiro e fechou a porta antes de responder.

—Sem intenção de ofender, não conheço seu irmão e não quero que ninguém pense algo estranho sobre nós. Nem sequer estou seguro de por que vocês estão aqui. Como soube onde vivo?

Brynna colocou o cinto de segurança, junto a seu irmão.

— Kyrian nos disse isso. Era ele quem pegava as suas tarefas enquanto estava no hospital para que não se atrase muito.

Ele congelou.

— Fez o que?

— Kyrian Hunter? — disse ela —. Seu novo chefe? Ele é um velho amigo de nossa família e você nos verá ao seu redor de vez em quando. Ele perguntou se podíamos te levar para a escola e cuidar de você, assim, aqui estamos. Este é meu irmão Tad, a propósito. Tad diga olá ao Nick.

—Olá. —Tad se separou da sarjeta.

Nick terminou de colocar seu cinto de segurança enquanto olhava de um lado a outro entre Brynna, que estava voltada para trás em seu assento para olhar para ele, e a seu irmão, que os ignorou enquanto conduzia no tráfego matutino. Dang, Tad e ela se pareciam muito.

Ele era somente mais alto e mais peludo.

Os olhos da Brynna faiscaram com afeto, mas apesar disso, ela não era nem de longe tão espetacular para ele como era Kody.

Brynna era bonita. Kody era cintilante.

— Realmente vai gostar de te trabalhar para o Kyrian. Ele é um grande amigo.

— Se você diz.

Ela sorriu.

— Como está seu ombro? Está emocionado de retornar à escola? Sua fisioterapia é realmente intensa? Conseguiu terminar todas as tarefas que te deixei? As de matemática foram realmente difíceis, mas se necessitar de um explicador, podemos arrumar um para ti até que consigas acompanhar o resto da turma.

Nick se sentiu assaltado por sua enxurrada de perguntas disparadas rapidamente e os comentários. Nem sequer lhe deu uma oportunidade de responder, só lhe deu chance quando terminou de falar.

— Sempre é tão faladora de manhã?

Tad estalou de risada.

Brynna deu uma tapa no braço do seu irmão, sua cara vermelha.

— Para com isso.

Tad sorriu abertamente.

— É bom saber que não sou o único que se incomoda com sua atitude alegre de manhã. Disse que era demais para que um homem o suportasse.

Nick sentiu suas próprias bochechas esquentarem outra vez. Não tinha tido a intenção de ofendê-la.

— Não estou aborrecido contigo, Brynna. — ele na verdade gostou muito —. É só que não estou acostumado a que as pessoas como você, falem comigo com tanto interesse. É uma espécie de atenção que me põe fora de mim. Tenho a impressão de que me movi gradualmente para uma realidade alternativa ou algo assim. Continua assim e vou começar a procurar caminhonetes do Racoon City ou algo.

Brynna franziu o cenho.

— Racoon o que?

Tad bufou.

— É do jogo Resident Evil, tola. — Ele olhou Nick através do espelho retrovisor —. Tem que perdoá-la, Nick. Ela não joga muito. Somente conversa incessantemente no telefone com todas suas amigas egocêntricas e vazias.

Ela deslizou um olhar ofendido para seu irmão.

Nick mentalmente se reprovou. Por que lhe disse isso? Sou tão idiota. Aqui sentado no mais bonito carro que alguma vez tivesse visto indo para escola com uma das garotas mais bonitas de sua classe... uma que era realmente decente... e ele a tinha ofendido.

Nunca vou ter uma namorada. Sou muito estúpido em primeiro lugar.

E se isso não fosse o suficientemente mau, Tad se deteve no caminho junto a uma formosa casa e tocou a buzina.

Três segundos mais tarde, a porta principal se abriu e Casey Woods chegou correndo em seu traje de líder de torcida completamente negro e dourado que abraçava cada curva de seu corpo... e para uma garota de quatorze anos, tinha um montão de curvas — diferente do resto de suas companheiras de classe. Seu cabelo comprido escuro ondulado estava penteado para trás de seu rosto com um laço negro e dourado.

Um sorriso brilhante curvou os lábios dela enquanto ela corria para eles.

OH, merda. . .

Ela era a melhor amiga da Brynna e, até que ele tinha conhecido a Kody, a única garota na escola pela que venderia sua alma por tê-la como sua namorada.

Infelizmente, Casey não sabia nem sequer que ele existia.

Algo o trouxe brutalmente à realidade quando ela abriu a porta do carro e fez uma pausa franzindo o cenho em sua cara bela.

Brynna não perdeu um batimento do coração.

— Bom dia, Case. Conhece o Nick?

Casey voltou à cabeça para olhá-lo do canto de seus olhos como se tratasse de recordar.

— Deveria?

Sim, por que deveria me conhecer? Só temos quatro aulas juntos... E ele se sentava diretamente na frente dela em duas delas.

Também posso ser invisível.

Nick captou o olhar de Tad rolando seus olhos no espelho retrovisor.

— Vamos nos atrasar, Case. Entra ou dá um passo atrás em seu pátio e fecha a porta.

O tom hostil de Tad lhe pegou despreparado. Que pílula mágica tomou Tad para ser imune a sua aparência?

Olhando para ele, Casey tirou sua mochila Prada e a lançou na caminhonete antes de subir e se sentou junto a Nick.

Por que não me sentei na frente com Tad? Por que, Senhor, por quê?

Casey franziu o cenho para Brynna.

— Assim, ele é como um estudante novo ou algo do tipo? Fala inglês?

Brynna deslizou um olhar desconcertado para o Nick.

— Nick esteve indo à escola conosco nos últimos três anos.

— OH... bom, estou em todas as aulas adiantadas.

Nick conteve um bufo ante seu comentário malcriado.

O que sou eu? Uma edição especial?

Não obstante, no momento, tinha a impressão de que este era o pequeno ônibus do inferno e que ele tinha um assento reservado nele.

Brynna abriu a boca para dizer algo diferente, mas Nick sustentou em alto sua mão para impedir-lhe de corrigir as conclusões equivocadas de Casey a respeito dele antes que Casey o fizesse se sentir mais sem valor.

— Assim, Tad, como vão os Saints?

Tad riu ante de sua mudança de tema.

— Sabe, Gautier, na verdade eu poderia gostar de você.

— Sim, esse sou eu. Kudzu[10] Gautier.

Casey não entendeu, mas Brynna sim. Obviamente a bela perseverante líder deve ter invadido a área de Brynna e deve ter assumido o controle.

— O que é kudzu? —Casey perguntou.

Tad a ignorou.

— O que...

Nick olhou pela janela para ver uma fila de carros de polícia na escola enquanto diminuíam a velocidade. Havia duas ambulâncias e até um caminhão de bombeiros. O que está acontecendo?

Tad sacudiu a cabeça.

— Não estou seguro...

O rosto de Casey se iluminou.

— Isso significa que não vai haver aula? OH, obrigado meu Deus, não terminei minha lição de estudos sociais.

A polícia não lhes deixou estacionar no estacionamento da escola. Em lugar disso, assinalaram a rua abaixo e longe da multidão.

Tad se aproximou do Royal e estacionou fora do Fifi Mahoney.

—Tenho que saber o que está acontecendo.

Nick estava de acordo. Deixando sua mochila na caminhonete, aproximou-se da escola com Tad e as garotas.

Muitos dos estudantes circulavam em grupos enquanto os repórteres lhes faziam perguntas. Brynna e Casey se separaram para unir-se a seus amigos.

Nick seguiu Tad enquanto ele se dirigia para a senhora Pantall, que estava com outros três professores.

— Ouça, Senhora P— chamou Tad —, o que está acontecendo?

Ela deixou sair um suspiro lento antes de responder.

— Não acreditará nisto... Brian Murrey tentou comer o Scott Morgan.

Os olhos de Nick se dilataram ante a inesperada explicação. Tinha escutado bem?

Tad ficou de boca aberta.

— O que?

Ela assentiu enquanto gesticulava para a entrada da escola.

— Estavam no refeitório antes do sino tocar, agindo completamente normal, quando de repente Brian o atacou sem razão. Começou a morder seu braço e arrancar sua pele como um cão raivoso com um bife. Nunca vi nada igual em minha vida. Foi tão bruto.

Tad lançou um olhar com os olhos muito abertos a Nick.

— Scott está bem?

Em perfeita sincronização à pergunta, Scott saiu da escola em uma maca com dois paramédicos vigiando-o.

Nick se distanciou deles para poder escutar às escondidas algumas outras conversas, incluindo a de uma repórter que falava em seu telefone celular. Tinha que haver mais nesta história do que Pantall estava dizendo a Tad.

— Estou te dizendo, Bob, algo está acontecendo. Devido aos ataques de ontem à noite e agora isto... Quantas cidades têm seis ataques canibais em doze horas?

Bom, era a “Grande Fácil” [11] onde todos tinham uma atitude indolente sobre a maioria das coisas. Mas até os neorleaneses mais valentes usualmente estabeleciam uma linha limite em comer carne humana.

Na maioria dos dias, de qualquer maneira.

Não obstante, o Halloween estava chegando. Se não fosse pelos policiais, poderia pensar que era uma brincadeira.

— Estão interrogando o menino agora. Parece fora de si. Como se seu cérebro fosse sacudido ou algo assim. Mas deveria ter visto o braço da vítima. Ele o rasgou até o osso e seus companheiros de classe disseram que ele comeu toda a carne como se estivesse faminto. Crê que poderia estar um pouco relacionado ao vodu?

Yeah, cada vez que acontecia algo fora do normal, à culpa era dos góticos ou das comunidades vodus... porque as pessoas normais nunca poderiam estar loucas. Talvez devesse recordar a repórter que o infame assassino em série e canibal Jeffrey Dahmer não tinha sido um devoto do vodu tampouco e Brian, até este acontecimento, tinha sido um atleta normal como o resto da equipe. Um pouco mais estúpido que a maioria, mas era um menino normal.

Até que tentou comer o Scott…

Nick se afastou dela, foi para perto da ambulância onde levaram o Scott. Havia uma bandagem branca sobre seu braço que estava vermelho à medida que mais sangre se filtrava através dele.

Scott soluçava.

— Tudo o que fiz foi tentar pegar seu leite. Ele podia ter dito que não. Não tinha que comer o braço... Meu Deus, eu nunca poderei voltar a lançar uma bola. Vou perder minha bolsa de estudos. Nunca conseguiremos ganhar o campeonato estadual agora. Terry não pode atirar para a posição agachado. Homem, a temporada já está acabando. Por quê? Por que ele fez isto?

Essa parecia ser a pergunta...

— Ouça, garoto! Leva o seu traseiro para trás da barricada.

Nick saudou com a cabeça o oficial antes de obedecer.

— Ei Nick! — Frank McDaniel chegou correndo a ele —. Sabe o que aconteceu? Brian comeu o Scott. O quão fabuloso é isso? Homem desejaria ter visto isso. Isso é o que consigo por chegar tarde à escola. Perco todas as coisas boas que acontecem.

Jason riu de acordo.

— Só espero que o que colocaram nele não seja contagioso. Não quero que ninguém se aproxime e trate de roer a minha carne ou vá atrás de mais alguém. Merda. Minha mãe é vegetariana. Colocou-me de castigo sem sair por seis meses no verão passado quando comi um hambúrguer no McDonald. Pode imaginar por quanto tempo teria me castigado por comer uma pessoa?

Frank enviou um olhar faminto sobre o grupo onde Brynna e Casey estavam juntos.

— OH homem, se for contagioso, espero que Casey Woods o tenha e venha para mim. Se for morrer, não há melhor maneira que ser comido pela líder das claques.

Jason ergueu a mão e lhe deu mais cinco.

— É isso ai. Adoraria ter isso também. Definitivamente quero ser seu brinquedo mastigável.

Nick ignorou os seus amigos enquanto ele avistava o seu companheiro de laboratório Madaug St. James, que parecia resmungar para si mesmo enquanto parava ao lado da ambulância. Um estereótipo quase nerd, Madaug usava uma camiseta negra de jogador por baixo da camisa azul de botões que tinha deixada aberta.

Seu cabelo loiro deslavado era curto e tinha grandes olhos azuis que estavam sempre atrás de óculos com finas alças.

Embora Nick soubesse que o nome era pronunciado "Mahdug," ele, como a maioria das pessoas em sua classe, usualmente pronunciava "Mad Dog". Mas isso sempre irritava o Madaug e agora mesmo ele se via o suficientemente agitado.

— Ouça, amigo. Está bem?

Madaug se congelou ante sua pergunta.

— Bem, sim. É terrível, não é?

— Epicamente horripilante.

Madaug assentiu com a cabeça.

— Não posso acreditar. Só não posso acreditar.

Tampouco Nick.

— Bom, suponho que o seu lado brilhante não tem que se preocupar por Scott ou Brian chatearem você hoje na aula de educação física, verdade? — Na última vez que Nick tinha estado na escola, Brian havia usado o short do Madaug e então tinha forçado Madaug a usá-lo depois que ele os tinha suado todo.

Grotesco e sujo.

Madaug não respondeu a sua pergunta enquanto ele continuava nervoso. Fora da multidão, uma voz forte, repentinamente afogou as demais.

— Estou dizendo pessoal, é um ataque de zumbis. Z - U - M - B - I. Zumbi. Abram os olhos, gente, antes que seja muito tarde e eles comam alguém mais. Qualquer um de vocês pode ser o próximo no cardápio do Apocalipse Zumbi. Prestem atenção ás minhas palavras e consigam uma boa provisão de munições! Tenho uma carga nova chegando hoje!

Nick conhecia essa voz. Só que não estava acostumado a ouvi-la tão cedo no dia.

Big Bubba Burdette, o dono da loja Triplo B. Há, e Bubba não tinha ardido em chamas por levantar-se tão cedo de manhã. Quem sabe? Ele teria jurado que o homem era meio vampiro.

Sobressaindo-se por mais de um metro oitenta, Bubba era uma mistura interessante de caipira e gótico. O caso em questão, usava uma camisa da morte ao Amanhecer com uma camisa vermelha de flanela posta em cima dela. Suas calças baggy foram complementadas por um bonito par de Doc Martens preto que estavam decorados com caveiras vermelhas. Com o cabelo curto negro e uma barba fechada, Bubba era aterrador para se contemplar. Mas no momento no qual ele abria a boca e esse acento sulino saía, ele se via menos como uma ameaça e mais como um fofo urso panda gigante.

Ao menos sempre que não o interrompesse vendo a Oprah a tarde. Bubba dizia que alguém o suficientemente estúpido para fazer isso merecia ser estripado.

E esse acento espesso fazia à maioria das pessoas subestimar um homem cujo quociente intelectual era fora de série. De fato, Bubba tinha se graduado com as honras mais altas de sua classe do Instituto Tecnológico de Massachusetts com graus em informática e robótica. Agora, ele possuía o Triplo B... uma loja de armas de fogo e computadores onde podia contratar o Bubba para rastrear qualquer coisa no mundo, legal ou não, e se isso não funcionava, ele te mataria simplesmente para te tirar do teu sofrimento.

Os repórteres deixaram Bubba enquanto tentavam entrevistar outros estudantes.

Bubba cuspiu um pouco de seu tabaco de mascar sobre o pavimento.

— É isso, trogloditas, ignorem o único que sabe o que está acontecendo. O único que sabe como salvar suas vidas gangrenosas, insignificantes. Retornem a seus comas induzidos pela mídia onde creem em todo lixo dito pelos políticos ambiciosos que os controlam com mentiras mal concebidas e distrações enfocadas ao consumidor.

— Não são essas distrações enfocadas ao consumidor que mantém o seu negócio, Bubba? — perguntou Nick enquanto se aproximava dele.

Bubba estreitou seus olhos cor de cafés em Nick com desgosto.

— Não me falte com o respeito, Nick. Não sou uma pessoa matutina e poderia descontar meu mau humor em você.

— Sim, sei. Assim o que está fazendo acordado a esta hora, de qualquer maneira?

— Não dormi. Recebi uma ligação de Fingerman, de madrugada, dizendo ter visto uns trinta zumbis a solta e que precisava de reforços. Assim, agarrei minha arma e fomos caçá-los — As pessoas normais poderiam achar essa conversa estranha, mas todas as conversas com Bubba eram estranhas, e caçar zumbis era simplesmente outro serviço que ele oferecia em sua loja.

— Mark comeu?

— Não, a pequena galinha ficou dormindo no caminho de volta à loja. Ficou encolhido no assento dianteiro como uma garotinha. Não sei que vou fazer com ele.

Nick abriu a boca para fazer outro comentário quando se deu conta de que as conversas se detiveram. O cabelo na parte posterior de seu pescoço se arrepiou. Voltando a cabeça, viu o Brian sendo tirado para fora da escola com algemas.

Exceto pelo sangue arruinando sua jaqueta de letterman, ele se via normal. Completamente. Totalmente. Normal. Sim, sua pele estava um pouco pálida e seus olhos fundos como se não tivesse dormido bem. Mas, além disso, ninguém poderia dizer que ele tinha tentado comer o seu melhor amigo.

Brian desacelerou enquanto se aproximava do capitão da equipe. Seus olhares se travaram de tal maneira que pareciam se comunicar sem falar.

Os policiais o empurraram para frente.

Brian conservou seu olhar fixo no capitão até que foi metido à força no carro da polícia.

Nick olhou para Bubba.

—Sou só eu ou isso foi estranho?

Bubba lhe dirigiu um olhar zombador.

— Teve alguma parte deste dia que não tenha sido estranho, menino?

Bom ponto.

— Assim o que pensa que causou isto? — Nick perguntou.

Bubba se arranhou a cabeça.

— É o que estou tratando descobrir. Os ataques zumbis normais...

Isso fez Nick se perguntar o que qualificaria como um ataque anormal.

— São feitos por pessoas mortas que voltam de suas tumbas. Estão sob o controle de seus amos e atacam humanos para provar sangue. Mas isto... o menino não estava morto ainda. Tem pouco sentido para mim.

— Talvez alguém tenha batizado seus Wheaties[12]?

Bubba negou com a cabeça.

— Bom, há alguns produtos químicos que podem dar a um humano, sintomas como os de um zumbi. Mas nenhum deles faz uma pessoa comer a outro. Talvez seja uma prova de bioterrorismo levada a cabo pelo governo. Não beba água de mariscos ou de frutos do mar até que faça algumas prova.

Nick sorriu abertamente.

— Normalmente não bebo meus frutos do mar, Bubba, a não ser...

— Não te faça de bobo comigo, Gautier. Ainda tenho armas carregadas de ontem à noite.

Nick abriu a boca para falar, mas um grito histérico o silenciou.

— OH Meu Deus! O treinador acaba de comer o senhor Peters! Alguém ajude! Ajuda!

A polícia estava entrando correndo na escola enquanto a secretária saiu precipitadamente, gritando desvairadamente e arrancando o cabelo.

Nick gelou enquanto essas palavras sobre o Peters penetravam em seu cérebro. Por um lado ele estava horrorizado por que o homem tinha sido comido. Por outra lado estava estranhamente feliz. O porco beato o merecia.

Nick, isso está mal.

Ele ouviu a voz de sua mãe em sua cabeça. Sim, talvez estivesse, mas ainda não podia evitar pensar que era uma espécie de divina devolução pela divida.

A polícia fez a multidão retroceder enquanto os repórteres se apressavam para a escola, tentando conseguir fotos e filmagens.

Repentinamente, o vice-diretor estava do lado de fora com um megafone.

— As aulas estão suspensas durante o dia. Estudantes vão para casa. Ligaremos mais tarde com mais informações. Por favor... dispersem-se e saiam. Qualquer estudante encontrado no campus será suspenso. Agora vão para casa e não retornem aqui hoje.

— E com sorte amanhã também, — um dos estudantes gritou.

Bubba cuspiu mais tabaco.

— É bom ser você hoje, né?

— Sim, tal como não ser comido pela equipe de futebol... Posso ir para a sua loja e investigar um pouco sobre isto?

Bubba assentiu com a cabeça.

— Pode, mas abre a loja por mim e cuida dela enquanto apanho algum zumbi.

Isso soou bem para Nick.

— Deixe-me pegar a mochila e vou diretamente para lá. — Ele deixou Bubba para encontrar-se com Tad, que estava com um grupo numeroso de estudantes do último ano.

Entretidos em sua discussão, nenhum deles lhe viu.

— Eu já disse isso, precisamos notificar à câmara de vereadores e aos Dark Hunters. Isto tem Daimon escrito por todos os lados.

— Não à luz do dia, eles não o fazem. Os Daimons não podem atacar até que caia o sol e você sabe. Torrar-se-iam se dessem um passo fora agora mesmo.

— Mas houve mais ataques ontem à noite e isto está se estendendo. Se os Daimons estiverem relacionados. Estão fazendo algo. Lembre-se de minhas palavras.

Um de estudantes pôs os olhos em branco.

— Um Daimon não pode converter um humano. Essa é a primeira lição que nós aprendemos.

— Então o que acha que é? Tem que estar relacionado com eles. Não há mais nada que pudesse ser.

Tad entrecerrou os olhos para seu amigo Alex Peltier, que tinha guardado silêncio todo o tempo.

— Pode morder um Were-Hunter, convertendo os humanos em were bestas?

— O que é um Were-Hunter? — Nick perguntou antes que pudesse se deter.

Olharam para ele e fecharam a boca imediatamente.

Russell Jordan, que tinha estado falando mais, franziu os lábios como se Nick lhe desgostasse.

— O que está fazendo aqui, Camping para Reboque?

Tad se esclareceu voz.

— Ele trabalha para o Kyrian agora. Seja agradável, Russ, ou Kyrian não estará feliz. —Ele olhou para Nick —. O que posso fazer por ti?

—Queria tirar minha mochila de sua caminhonete.

— Não me demoro, — disse Tad a seus amigos antes de se ter afastado com Nick.

Nick franziu o cenho enquanto ia atrás do Tad.

— Assim o que é um Were-Hunter?

— É um... termo de um jogador. Alguém que caça animais.

Isso não tinha nenhum sentido e esse era um termo que ele nunca tinha escutado antes.

— Se isso for simplesmente um jogo, por que perguntou se poderiam converter a um humano?

Tad não respondeu. Em lugar disso, conduziu Nick a sua caminhonete, tirou sua mochila, e então o deixou ali para observar enquanto Tad voltava com seus amigos.

Obrigado por todas as respostas. Tad ia ser um grande pai um dia.

Mas enquanto isso

— Algo estranho está acontecendo aqui.

Algo que a metade das pessoas em sua escola parecia saber. E ainda que fosse a ultima coisa que fizesse, ia averiguar que segredo era este.

Ainda que isso o matasse.

Sobre tudo, ia investigar uma pequena maneira de proteger-se, porque ele não tinha a mínima intenção de perder essa matéria pequena do cérebro que tinha.

Nova Orleans definitivamente estava se tornando estranha e Nick não concordava em ser acrescentado ao cardápio de ninguém.

Exceto talvez de Nekoda, quem estranhamente faltava na multidão...

Alguém a tinha agarrado ontem à noite e a teve em seu cardápio?

 

Nick deixou sair um suspiro de frustração enquanto teclava uma nova busca. Essa merda de ter só um braço era para os pássaros, exceto eles não seriam capazes de voar melhor do que ele podia escrever. E provavelmente se estatelariam contra uma parede e acabariam com uma contusão cerebral... o que provavelmente doeria muito.

Grunhindo ante seus crescentes pensamentos provocados pelo TDAH[13], tratou de concentrar-se no que estava fazendo.

Procurando informação de ataques de zumbis.

Estou louco... Já que não havia adultos por perto, deveria estar procurando sites de garotas quentes, não isso. Vaiou quando soletrou “zmubies químcios”.

Gah, como se viravam as pessoas que tinham só uma mão? Seguiu cometendo erros por toda parte, e procurar pelo teclado estava começando a lhe tirar a paciência.

E, o que era pior, os efeitos da medicação para a dor se evaporaram de seu sistema e já que o colégio tinha uma estrita política antidrogas, nas que se incluíam o Tylenol ou o Advil, não havia trazido nada por medo de ser revistado no escritório do Peters. E se por acaso a dor não fosse suficientemente ruim, não podia achar nada na rede sobre doenças que fizessem com que as pessoas gostassem de comer carne humana. Bom, não a menos que fossem homens lobo. Demônios comilões de carne humana. Parasitas demoníacos…

Sim, certo. Como se essas coisas fossem possíveis fora das telas dos cinemas... morria de vontade de fazer a Bubba algumas perguntas sobre suas teorias, mas o homem tinha sido explícito.

“Me acorde, menino e lhe dou um tiro aí onde está”.

Isso, com a maioria dos colegas, teria sido considerado uma ameaça vã. Mas quando a pessoa que te ameaça dorme com mais armas que um acampamento de treinamento terrorista e tem o caráter de um assassino psicopata, era sábio acreditar que realmente o faria e iria rir enquanto te abria um buraco.

Como Bubba estava acostumada dizer: “Tenho uma escopeta e uma escavadora, e ninguém procura um cadáver sob uma fossa”.

O que fazia com que Nick se perguntasse quantos dos inimigos de Bubba tinham suas caras nas caixas de leite.

Mas isso era outra história...

O sino sobre a porta soou. Suspirando com irritação, Nick deixou o computador para o balcão e receber a quem quer que seja que estivesse ali.

Freou-se em seco, com os olhos saindo-se das órbitas.

Nossa Senhora...

Cada hormônio masculino de seu corpo se inflamou quando viu a que devia ser a garota mais sexy de New Orleans. Alguns anos mais velha do que ele, era impressionante.

As boas notícias eram que ela o distraiu completamente da dor.

Vestida com uma calça justa negra de couro e um top vermelho sem mangas, usava um colar e braceletes de couro negro com tachinhas de pregos. E um grande cinto de couro negro cravejado que se envolvia ao redor de sua estreita cintura quatro vezes. Uma enorme cruz de prata coberta com imitação de diamantes pendurava no cinto, golpeando contra sua coxa enquanto caminhava com um passo sedutor que ele estava seguro que tinha causado ataques cardíacos entre uns quantos homens mais velhos por sobrecarga hormonal. Seu cabelo negro era mais curto atrás que na frente. E pela opacidade da cor, imaginou que o tingia. Seus olhos estavam rodeados por um espesso delineador negro, lhes outorgando um aspecto definitivamente felino. Como seus olhos, seus lábios eram negro azeviche.

Normalmente as mulheres góticas não lhe atraíam, mas esta...

Sim. Ela era gos-to-sa. E o melhor de tudo era que se ele se envolvesse com ela e acabasse com essa marca de batom no pescoço, sua mamãe pensaria que se tratava de graxa. Algo que definitivamente lhe manteria afastado do castigo.

Tenha vergonha, Nick. Está enganando a Kody.

Bom, não realmente, porque eles não tinham nada. Não podia estar enganando. Tecnicamente. Apesar de se sentir dessa maneira.

Essa era uma coisa estranha. Estou sozinho e nem sequer reclamo. Merda, isso era uma bagunça.

Passeou até o mostrador, inclinando-se sobre ele até quase fazer com que seus peitos se derramassem sobre o cristal, e olhou para a habitação onde ele tinha estado.

— Onde está Bubba?

— Dormindo. No que te posso ajudar?

Fez seu melhor intento de manter os olhos em seu rosto e não onde de verdade, realmente queria olhar. Isso lhe faria ganhar uma boa bofetada, e já que ela levava anéis de pregos...

Poderia doer de verdade.

Ela fez estalar o chiclete que estava mastigando enquanto olhava divertida para ele uma vez mais.

— E o Mark?

— Também dorme.

Ela se endireitou.

— É o novo ajudante?

— Só faço o turno da manhã. Tiveram uma noite muito longa.

— Aposto que sim — jogou a mochila para trás, colocou-a no chão junto aos pés, e a abriu.

Nick ficou nas pontas dos pés para poder ter uma melhor vista de seu bem formado traseiro enquanto ela rebuscava em sua mochila.

Merda estava muito bem.

Não me importaria sair com uma mulher mais velha...

Pensa em Kody. Pensa em Kody...

Depois de uns segundos ela ficou em pé com o que pareciam ser estacas de aço em sua mão.

— Necessito que Bubba afie estas belezinhas e lhe diga que necessito uma nova remessa de shurikens[14]. Logo que possa. Ou antes.

Os olhos do Nick se abriram como pratos quando se deu conta de que havia sangue em uma das estacas.

— Poderia te fazer uma pergunta?

— Não se quer viver para comer seu almoço. Sou Tabitha Devereaux, e você?

Genial, outra grande Cajun como ele.

— Nick Gautier.

— Prazer em conhecê-lo, Nick. Diga a Bubba que voltarei ao anoitecer para recolhê-las e é bom que estejam bem afiadas. Não quero que nenhum vampiro sobreviva a meus ataques para ir atrás de mim outra vez. Entendido?

Cara... por que todas as mulheres atraentes estavam completamente loucas?

— Sim, senhora.

Ela recolheu sua mochila e a pendurou em um ombro antes de inclinar o quadril em uma pose mortal que lhe drenou tudo o sangue do cérebro.

— A que colégio vai?

— Ao Saint Richard.

— O colégio onde o treinador comeu o diretor? Isso é legal. Eu gostaria que tivéssemos algo assim no Saint Mary. Infelizmente, sou a coisa mais assustadora dali —. Ela piscou um olho para ele — Tenha um bom dia, guri.

Esperando que não lhe estivesse caindo à baba, olhou-a sair à rua, onde uma moto Nighthawk negra esperava. Passando uma perna sobre ela, pôs o motor em marcha e logo saiu acelerando.

OH, cara...

Nick não voltou a respirar até que ela se foi.

Uf... essa tinha sido a experiência mais incrível de sua vida.

Olhe Bubba, tenho que te pagar para trabalhar aqui. Porque se mulheres como essa vem aqui com frequência, inclusive embora fossem loucas da cabeça, definitivamente quereria um trabalho. Esqueça Liza e sua loja, que normalmente era frequentada por meninas pequenas e suas mães. Queria um trabalho em que visse mulheres quentes até que morresse de envenenamento por testosterona.

Deixando sair um assobio de apreciação, tirou as estacas do mostrador e se perguntou quem ou o que tinha sangrado por elas. Com os amigos de Bubba, não havia maneira de saber.

As colocou em um dos contêineres de plástico que Bubba utilizava para artigos recebidos e deixou uma nota com seu nome e as instruções que lhe tinha dado.

Quando voltava para o escritório, a porta soou outra vez.

Dando meia volta para o mostrador, tratou de não frustrar-se com a interrupção.

Era Madaug, do colégio.

— Hey, cara, o que acontece?

Madaug também se reclinou sobre o mostrador e olhar para a habitação de trás, só que não foi tão legal como quando Tabitha o tinha feito. O que era provavelmente algo bom do ponto de vista do Nick.

— Bubba está por aí?

— Nah, está dormindo lá em cima. Posso te ajudar em algo?

— Não, acredito que não.

Nick se deu conta do fato de que Madaug estava realmente distraído e inquieto. Como se algo grave lhe rondasse pela mente.

— Escutaste algo sobre o que aconteceu na escola?

— O que... não, não exatamente. Bom, possivelmente. Algo assim. Olhe, realmente preciso falar com Bubba quando ele acordar. É muito importante.

Nick ajeitou com cuidado o braço ferido.

— Sim, certo. Quer deixar seu número para que ele te ligue?

Madaug alcançou o bloco de papel e a caneta junto à máquina registradora. Rabiscou seu número nele e o estendeu a Nick.

— Por favor, não se esqueça. É muito importante.

— Considere feito.

Madaug duvidou antes de lhe dar o papel e retrocedeu. Jogou um último olhar pensativo ao escritório, e logo se foi.

Ok, o menino estava inclusive mais louco que Tabitha. Muitas inalações da jarra de formol na classe de biologia. Seu cérebro devia estar estragado. Isso ou Stone e seu grupo tinham lhe golpeado contra os armários muitas vezes e lhe tinham provocado uma grave lesão na cabeça.

Ou o que quer que fosse...

Nick guardou a nota no bolso e se dirigiu de volta ao escritório.

Logo que tinha chegado, a campainha da porta soou outra vez.

— Filho de...

Agora o que? Grunhiu baixo entre dentes antes de dirigir-se de novo ao mostrador para ver quem necessitava a Bubba esta vez. Não era de se estranhar que Bubba fosse tão irritável. Se isso era uma amostra de um dia típico de Bubba, explicava muito sobre o seu jeito rude. Nick parou ao ver três membros de sua equipe de futebol passeando pela loja como se estivessem procurando algo. Não sabia seus nomes, mas reconhecia suas caras. Eram os segundos quarterback como Stone, e eram inclusive mais agressivos com os “nerds”. O tipo de valentões aos que Nick dedicava todo seu tempo para evitá-los e do tipo que prendiam ao pobre Madaug nos armários e logo riam disso.

Mas o estranho é que estavam farejando o ar como cães atrás de uma presa. Era epicamente horripilante.

— Posso ajudar, meninos? — Perguntou Nick.

O menino mais alto, um com cabelo castanho e um sorriso que devia ter sido utilizado para vender aparelhos ortodônticos, adiantou-se. Sua jaqueta tinha o nome Biff11 nela.

Nick mordeu a língua para evitar zombar dele com isso.

Seus pais deviam tê-lo odiado de verdade. Estou aqui para ajudar Bubba, não para que uns idiotas me chutem o traseiro.

Biff deu um passo à frente.

— Menino nerd? Onde ele?

Certo... uma lástima que não pudessem formar nenhuma oração completa. Vê o que acontece quando se abusa dos esteroides? Os tipos deveriam ter lido a etiqueta de advertência. Primeiro se encolhia o pênis e logo vinha à deterioração da estrutura das frases. O passo seguinte pelo que sabia, era que estavam escalando o alto do Empire State Building[15], esmagando aviões com seus descomunais punhos.

É obvio estaria ali com uma loira realmente linda, assim inclusive ser um estranho monstruoso tinha sua recompensa…

Mas isso não acontecia nem aqui nem ali.

— Procura o Bubba ou o Mark — perguntou Nick.

O ajuste de nerd, definitivamente, um ou outro, pois ambos eram reis de computadores, filmes B, videogames e da ciência.

— Menino nerd!

Agarrou Nick pela camiseta e lhe arrastou pelo mostrador para lhe pôr em pé de frente a ele.

Amaldiçoando quando a dor se disparou pelo braço ferido, Nick lhe golpeou com força na cara, mas ele não pareceu sequer notar.

— Coloque-me no chão, animal. Ou juro...

O esportista afundou o nariz no pescoço do Nick e inalou. Nick enrugou a cara com desagrado.

— O que você é? Um pervertido? Tire suas sujas mãos de mim.

Golpeou-o com força na virilha.

Biff se dobrou sobre si mesmo.

— Cheira como o menino nerd. Agarrem-no!

Eles avançaram, lambendo os lábios. OH, merda! Eles também eram zumbis.

Nick pulou sobre o balcão e correu para o quarto dos fundos, onde Bubba mantinha um machado... só por acaso. Bubba nunca disse que onde era o lugar, mas parecia uma boa chance de pegá-lo. Já para não falar que era a única arma na loja que Nick poderia usar com uma mão.

     Brandiu-a para o primeiro musculoso o alcançou, que se chamava Jimmy segundo sua jaqueta.

— Cara... se afaste porque vou fazer picadinho de você. E com vontade.

Jimmy duvidou.

Sentindo-se orgulhoso por mantê-lo a raia com tanta facilidade, Nick se pavoneou.

— Sim. Isso. Não querem nenhum pedaço de mim. Sou mau, ah...

Sua fanfarronada acabou quando lhe atacaram em massa.

Merda...

Levantando o machado, balançou-a para o primeiro tipo que chegou a ele. O machado aterrissou em uma vitrine, fazendo-a pedacinhos. Pedaços de cristal voaram sobre eles enquanto Nick a liberava para dar outro golpe. Mas antes que pudesse pô-la em ângulo, Biff lhe mordeu no braço são.

Gritou de agonia, e logo deu uma cabeçada no esportista. Utilizou o extremo do machado para empurrar Biff para seus amigos. Logo se girou em um arco e elevou o braço para dar outro golpe.

— Que diabos está acontecendo aqui?

Bubba arrebatou o machado das mãos do Nick. Posicionou-a para Nick como se fosse usá-la nele.

— Menino, perdeu o bendito juízo? Destruindo a minha loja. Fazendo minhas coisas em pedaços... Tem sorte de que não esteja batendo em você com o machado.

Nick fez um gesto para os esportistas.

— Bubba, são zumbis! — Levantou o braço para que Bubba visse o sangue — E estão tentando me comer!

Bubba amaldiçoou.

— Bom, por que não disse isso antes?

Biff afundou os dentes na mão de Bubba, o que equivalia a meter a cabeça em um ninho de serpentes cascavel.

Bubba deu um murro tão forte no esportista, que Nick jurou que ele sentiu o golpe.

Biff se estatelou para trás enquanto os outros dois abriam a boca para lhes vaiar.

— Zumbis loucos! — Bubba devolveu o machado à mão do Nick e logo agarrou uma escopeta da parede.

Colocou um cartucho na antecâmara e apontou para a cabeça do esportista mais próximo a ele.

Os olhos do tipo se arregalaram quando se deu conta de que Bubba lhe ia mandar de uma patada a sua próxima vida. Chiando, todos eles deram a volta e se foram correndo da loja com uma velocidade desumana e um andar anormal.

Era algo como os zumbis tirado de Resident Evil com chimpanzés zumbis.

Bubba correu para a porta para poder lhes disparar melhor. Antes que pudesse pensar melhor, Nick agarrou a escopeta justo quando Bubba disparava. O canhão girou amplamente e em lugar de alcançar os esportistas, o disparo abriu um enorme buraco justo através dos olhos da foto da mãe de Bubba que estava pendurada perto da máquina registradora.

Nick olhou fixamente o buraco absolutamente aterrorizado. Ah, Deus. Estou morto.

Bubba queria muito bem a sua mãe.

E lhe tinha disparado justo entre os olhos...

O reflexo da ira de Satã na cara da Bubba lhe provocou náuseas.

— Bubba... sinto muito.

Encurralou Nick como um leão caçando sua comida.

— Não o sente nem a metade do que vais senti-lo. Fez-me disparar na minha mãe. Menino, no que estava pensando? Que demônios está errado contigo?

Nick teve que deixar de retroceder quando ficou de costas contra a parede sem nenhum lugar mais aonde ir. Levantou a mão para frear Bubba e que ele não o sacrificasse.

— Não podia deixar que os matasse.

— E por que não?

— Primeiro, é ilegal... Olá? Crê que a polícia vai acreditar nisso de que era um ataque de zumbis? Não acredito. E segundo, são meus companheiros de classe. Uns companheiros asquerosos, mas ainda assim. Já tenho suficientes problemas para fazer frente ao colégio. Estou muito seguro de que matar a três membros da equipe de futebol da escola quando se aproxima um campeonato arruinaria minha reputação para sempre.

Bubba soprou.

— E o que? Por acaso não se deu conta, menino, seus companheiros de classe estão zumbificados. Se não tivesse descido como fiz, estariam te arrancando as vísceras e comendo-lhe Assim deveria estar me agradecendo e não me fazendo atirar na cabeça da minha mãe.

Nick tragou o pânico quando se deu conta de que Bubba não estava lhe estrangulando. Ainda...

— Sei. Mas... não estavam mortos. Como podem ser zumbis se não estavam mortos para começar? Não é esse é primeiro passo?

Bubba duvidou.

— Bom, isso tecnicamente nos expõe a um dilema... Mas só no sentido tradicional da palavra.

— A que te refere?

Bubba se arranhou a barba do queixo.

— Estamos assumindo que seu bokor os ressuscitou...

— Seu o que? — Nick odiava quando Bubba usava uma de suas palavras raras.

— Maldição, menino, é que não lhe ensinam nada de útil nessa tua escola? Bokor. A pessoa que cria e controla a um zumbi. Debaixo de que pedra você anda se escondendo que não sabe disso?

Algumas pessoas provavelmente chamariam a essa pedra de “realidade”, mas Nick apreciava sua vida o suficiente para guardar o sarcasmo. Era difícil... mas depois de atirar na mãe de Bubba, necessitava de qualquer vantagem.

Bubba pôs os olhos em branco antes de continuar com a explicação.

— Na maioria das vezes os bokors utilizam cadáveres, mas não têm por que fazê-lo. Houve muitos estudos de zumbis criados por indução química que não estavam mortos a princípio.

Possivelmente estivesse certo. Mas Nick não acreditava.

— Certo, mas e se for como em Resident Evil é o Vírus Mãe o que vem atrás de nós? É o que acontece? Não é?

Nick olhou a marca da dentada enquanto a realidade se afundava e o pânico lhe superava. O vírus sempre tinha começado com uma dentada... Zumbi Zero. O primeiro marcado começava o Apocalipse.

E ele era o primeiro.

— Homem, primeiro atiraram em mim, e agora vou me converter em um maldito zumbi. Neste ritmo, não viverei o suficiente para ter minha primeira entrevista de emprego ou me tirar a habilitação para dirigir. Ah, gah! Cheguei tão longe para morrer como um prosaico virgem. Bubba, não pode deixar que eu morra... só faltam dezessete meses e três dias até meu décimo sexto aniversário!

Bubba lhe deu um golpe na cabeça.

— Amadureça, menino, e para já com essa merda de Hollywood. Ser zumbi não é contagioso. Vive em N'awlins 13, Nick e eu venho lutando contra eles durante décadas. A única maneira de te converter em zumbi é que te converta em um bokor — Bubba se deteve como se lhe tivesse ocorrido outra ideia—. Com as dentadas de demônios... é outra história. Mas esses que vieram não eram demônios. Eram zumbis. Simples e sinceramente. Assim deixa de besteira antes que eu te arrebente.

Nick suspirou com força para acalmar seu acelerado coração.

— Está seguro de que não vou me transformar em um?

Não podia acreditar que estivesse perguntando isso. Tinha que ser a conversação mais estranha de toda sua vida, o qual, tendo em conta a normal raridade da Menyara, dizia muito.

— Estou seguro. Acredite, conheço meus zumbis.

Nick se burlou. Sou eu, ou é como dizer que conheço meus elfos e minhas fadas? Se não fosse pelo facto de que Bubba poderia lhe matar, haveria dito em voz alta.

— Ainda acredito que deveria desinfetar as dentadas. Só no caso de ser algum tipo de arma bioquímica desenhada pelo exército.

— Desinfetar o que? Estou perdido?

Nick se girou para ver Mark entrando na loja. Bocejando e espreguiçando-se, se uniu a eles na porta que levava ao apartamento do piso de acima de Bubba, onde tinha estado dormindo no sofá.

Nick suspirou de agitação.

— Vê o que se perde por dormir? Zumbis nos atacaram e nos morderam. Eu digo que são contagiosos. Esta manhã só um dos meninos de meu colégio o tinha. Agora, fui atacado por mais três. Está se estendendo e vai infectar a todos. Precisamos fazer algo antes que contagie a todas as mulheres bonitas e nos deixe com apenas um ao outro. Chama a Guarda Nacional ou a CEC ou algo.

Bubba lhe olhou franzindo o cenho.

— A CBC? É aí onde aparecem as novidades de anime?

Nick girou os olhos.

— Não. Esse lugar onde se tratam as enfermidades e põem em quarentena às pessoas que são contagiosas.

— Bubba, Nick se refere ao Centro de Controle de Enfermidades “CCE” de Atlanta.

Bubba fez um som de desgosto que saiu do fundo da garganta. Mark, que logo que era uma cabeça mais alto que Nick, estava ainda vestido com o traje de camuflagem para caçar zumbis. Musgo espanhol se sobressaía de todos os sítios onde os tinha embutido em sua roupa para poder se disfarçar. Sua cara estava pintada com pintura de camuflagem e levava lentes de contato amarelas que tinham um bordo vermelho ao redor.

Olhos de zumbi.

Também para camuflar-se.

Mas isso não era o pior. Quando parou perto de Nick, despedia um aroma tão asqueroso que lhe deixou sem fôlego.

Nick tampou o nariz para evitar ficar doente.

— O que é esse aroma?

Era como o vômito de gato por volta de três dias, misturado com aspargos podres.

Mark franziu o cenho como se estivesse louco só por perguntar.

— Urina de pato. Evita que os zumbis pensem que sou humano.

Nick soprou.

— Sim, bom. Também evita que eu pense que está com juízo.

— Desista, Mark. O menino não sabe nada de sobrevivência. De fato acabava de me impedir que atirasse em uns zumbis que estavam na loja tratando de comer-lhe

Mark deu em Nick um golpe na parte de trás da cabeça.

— Está bem da cabeça, guri?

—Ow! — Nick esfregou a nuca, onde seguiam lhe golpeando. Se não parassem, ia acabar com danos cerebrais — E não. Estava evitando que Bubba cometesse um delito. Sem ofender, mas isso de “é um zumbi, Sua Senhoria, não me eletrocute” não é uma desculpa viável. Acredite em mim, eu sei. Meu pai está cumprindo há três anos a prisão perpétua por assassinato, e dizia: “um montão de zumbis de merda que estavam tratando de me matar e se eu não os tivesse matado, Sua Senhoria, eles teriam tomado a cidade e lhes teriam escravizado a todos vós, mesquinhos e patéticos humanos”. A corte realmente não compreendeu essa desculpa. Nem sequer deixaram meu pai alegar insanidade por isso. Assim acredite, “era necessário matar os zumbis” não é legítima defesa.

Mark sacudiu a cabeça com um aborrecimento supremo.

— Bom, pois deveria sê-lo.

— Hey, Bubba? Está aqui ou está morto?

Nick se encolheu para ouvir os recém-chegados.

Bubba estendeu a arma para Mark e sussurrou:

— É o oficial Davis. Não digam nada.

Esclarecendo a garganta, encaminhou-se para o mostrador da parte dianteira como se nada tivesse acontecido.

Nick escondeu a arma atrás de uma cortina, assombrado pelo quão bem podia atuar Bubba. Deslizou o olhar para Mark, que finalmente estava tirando o traje de camuflagem. Sete anos mais velho que Nick, tinha um matagal de cabelo castanho claro e brilhantes olhos verdes. Seus traços seriam atraentes se não fosse por sua mandíbula quadrada. Também tinha um rastro de barba de três dias na cara, o que o fazia parecer mais velho. Mas era sua constituição que Nick invejava. Não importava o quanto malhasse, não conseguia o tipo de definição muscular que Mark tinha inclusive sem tentá-lo.

Era tão injusto.

— Posso ver a ferida da dentada? — perguntou Mark.

— Posso lavar antes?

Mark o olhou fixamente.

Suspirando, Nick estendeu o braço para que Mark pudesse inspecioná-lo.

Soltou um assobio baixo quando ele tocou a agressiva dentada, que ainda lhe palpitava.

— Sim, deveríamos desinfetar isto.

Nick se encolheu.

— Isto me converterá em um zumbi, verdade?

— Não sei, mas a boca humana é a parte mais infestada de germes do corpo. Você poderia pegar o parvo vírus, a raiva ou algo assim.

Nick franziu o cenho ante essa resposta tão inesperada.

— O parvo vírus não é uma doença de cães?

— Sim, mas quem sabe o que acontece no seu colégio, guri. Poderia haver homens lobos soltos e isso, meu amigo, é definitivamente contagioso.

Nick apartou o braço de um puxão.

— Não vou me converter em um homem lobo, Mark.

— Vá em frente e negue, mas digo-lhe, eu os vi no pântano. Muitas noites. Uma manada inteira deles que se converteram em humanos. Caminhando à luz do dia, poderiam estar do seu lado e você não saberia.

Nick precisou de todo seu autocontrole para não despreza-lo por todo esse montão de merda de cavalo. Não estava certo do que era mais patético, o fato de que Mark estivesse o suficientemente cômodo com ele para falar disso ou que seu amigo na realidade acreditasse nisso.

Optando pelo segundo, deixou que Mark o levasse ao banheiro, onde Bubba tinha álcool e água oxigenada.

Enquanto Mark limpava e enfaixava a ferida, Nick apertou os dentes aguentando a dor do agudo álcool.

— Cara, eu pareço um imbecil com os dois braços enfaixados.

— Nah, homem, são feridas de guerra. As garotas adoram cicatrizes. Significa que é um homem corajoso capaz de protegê-las.

Nick elevou uma sobrancelha de incredulidade.

— Então, como é que Bubba e você não têm namorada?

—Não quero o drama de ter uma. Depois que a última me queimou a roupa, minha coleção do Jack Daniel's Black e tratasse de me decapitar com meu CD, decidi que tomaria um descanso durante um tempo. Quanto a Bubba... será melhor que não fale sobre isso. Digamos que não acredito que queira voltar a passar por isso.

Nick queria um esclarecimento.

— Passar pelo que?

— Não é de sua incumbência — disse Bubba quando se uniu a eles. Cravou o olhar no Mark — Deveria aprender a ficar calado, de vez em quando.

— Sim, bom, sempre digo que o matrimônio é bom para os outros, mas lembre-se que isso só leva a uma coisa.

— Muitos momentos de festa sem roupa? —disse Nick sorrindo.

— Nah, guri. Pensão alimentícia.

Mark retrocedeu para deixar o álcool.

Wow. Ambos eram raios de sol que atravessavam a nuvem mais escura...

do inferno.

Nick se voltou para Bubba.

— Então o que disse a polícia?

— Que se qualquer outro vizinho se queixar de um disparo aqui, tirariam minha licença do negócio e me colocariam na cadeia. Bando de bisbilhoteiros.

Nick franziu o cenho.

— Não se diz intrometido?

Bubba lhe olhou com ironia.

— Viu à senhora Thomas na porta do lado? É a bruxa mais feia do planeta. Juro que é uma Górgona.

— Uma o que? — perguntou Nick franzindo o cenho.

Bubba soprou.

— Tira a cabeça de seus animes e lê um pouco de mitologia Grega. Górgonas... eram três divindades gregas irmãs, sendo uma delas medusa, que só de olhar para ela podia converter um homem em pedra.

— Ahh... em minha escola deveria ser minha professora de inglês, a senhora Richard. É uma pedante, tão resmungona, que juraria que acredita que colocaram esse nome no colégio em homenagem a ela.

Bubba não disse nada enquanto começava a recolher os vidros do mostrador feito pedaços.

— Assim, para que estavam aqui os zumbis, afinal?

— Disseram que estavam atrás...

A voz de Nick se foi apagando quando compreendeu tudo.

Madaug enlouquecido.

Menino nerd...

Pelas babas do profeta. Olhou para Bubba.

—Madaug St. James. Conhece-o?

—O pequeno inadaptado que me recorda muito ao Mark?

—Hey! — disse Mark indignado.

Bubba lhe ignorou.

— O que aconteceu com ele?

— Disse que era muito importante que falasse contigo. Acabava de sair quando os esportistas chegaram, atrás dele.

Mark lançou um olhar de lado para Bubba.

— Crê que tem algo que ver com isto?

Nick tirou o número do bolso.

— Não sei. Mas começo a pensar que é um bom começo.

E quanto mais o pensava, mais certeza tinha.

Madaug tinha que estar por trás disto. Não havia nada mais que fizesse sentido. E se Nick estivesse certo, se converteria em um zumbi por sua culpa, nesse caso cabeças iam rolar.

Montões delas e Madaug era o primeiro da lista. Não é que tivesse uma lista, porque isso faria com que o expulsassem do colégio e provavelmente o prendessem. Mas se essa hipotética lista existisse, sem que isso significasse que já existia ou fosse fazê-la no futuro, Madaug era definitivamente o objetivo número um.

 

Eles tentaram durante várias horas entrar em contato com Madaug, mas ele não atendia no número que tinha deixado.

Troca de figuras…

Nick assistiu Mark pendurar o telefone de novo antes que lhe respondessem.

— Estou lhe dizendo, Fingerman, os esportistas o comeram. Puderam cheirá-lo nos poucos minutos que esteve aqui e estavam decididos a apanhá-lo. Acredito que o pegaram e fizeram um banquete com ele.

Mark sorriu com afetação.

— Os zumbis têm os sentidos entorpecidos, Nick. Não são cães de caça ou homens lobo. Se você não se mexer eles passam na sua frente sem verte. Acredite em mim, na escala de monstros apavorantes, eles se qualificam bem como a “merda em minhas calças”, porque estão abaixo de mim. Qualquer dia, pegarei um zumbi como um vampiro ou um homem lobo.

— O que tem que a urina de pato? — recordou-lhe Nick.

— Eu estava suando em um pântano e o vento levou meu cheiro. Isso é diferente. Seus sentidos estão entorpecidos, não inexistentes. — Nick começou a discutir seu ponto, mas em realidade… que um zumbi pudesse ou não te cheirar era a coisa mais ridícula no planeta sobre a que brigar? Os homens lobo não eram reais e tampouco estava de todo convencido com o tema dos zumbis. Algo estava acontecendo com os esportistas, sem dúvida, mas não acreditava no sobrenatural. Nunca o tinha feito. Eram crendices inventadas por mães para assustar aos filhos, e por Hollywood para ganhar dinheiro. Os verdadeiros monstros neste mundo, as pessoas como seu pai, eram reais e completamente humanos. O que os fazia perigosos.

Não os via vir até que fosse muito tarde.

Bubba, que os tinha estado ignorando, levantou-se de seu tamborete detendo-se na frente dos dois. Apontou o relógio sobre a porta.

— São quatro em ponto, meninos. Vou subir para ver a Oprah. A menos que a loja se incendeie ou estejamos sob uma invasão maciça de zumbis, não existo durante a próxima hora. — Deu um passo, logo se deteve —. Pensei melhor, nem sequer me incomodem se forem zumbis, vou me ocupar deles depois. Hoje é o episódio especial de como fazer a paz com pessoas que lhe enfurecem. E eu, definitivamente, preciso encontrar meu Zen.

Mark bufou.

— Seu Zen é um tema divertido, Bubba. Abraça sua violência interior.

— Bem, então. Minha violência interior diz “lhes cortarei a garganta se me incomodarem antes que a Oprah termine”, assim se virem.

Nick riu até que se deu conta da hora.

— Ah, homem, tenho que correr.

Mark franziu o cenho.

— Por quê?

— Supunha-se que meu novo chefe me pegaria depois da escola. — O que queria dizer que já estava trinta e cinco minutos atrasado e se esqueceu disso —. Ah, cara… espero que não seja despedido em meu primeiro dia.

Bubba vacilou.

— Quer que te escreva uma desculpa? — Nick negou com a cabeça.

— Não. Melhor eu correr. Vemos-nos depois. Avisem-me assim que encontrarem o Madaug. — Agarrando a mochila do chão, golpeou a porta saindo a toda velocidade.

Felizmente, estava acostumado a correr atrás do ônibus, e sua escola estava apenas a cinco quadras. Algo que fez em tempo recorde.

Ainda havia a faixa da polícia limitando o pátio dianteiro da escola e dois oficiais estavam ali para reforçá-lo. Observaram-no atentamente como se esperassem que ele os atacasse ou algo.

Ignorando-os, Nick desacelerou o passo e ao mesmo tempo estudava os carros que estavam ali alinhados no lado oposto da rua. Tinha pessoas Só um tinha gente dento, e não era Kyrian.

Estou despedido…

Merda.

Minha mãe vai me matar. Mais que isso, certamente ele teria que pagar a conta do hospital, com a última verificação da conta tinha somado mais que seus primeiros dois anos de matrícula da universidade juntos, de seu próprio bolso.

Por que Alan não podia ter disparado na sua cabeça e terminar com tudo isso? Fui amaldiçoado em meu nascimento. Não podia tomar uma pausa sobre nada? Aborrecido, saíu pendurando a cabeça e se dirigiu de novo à loja de Bubba.

— Nick Gautier?

Girou-se para a voz desconhecida, para encontrar o homem que tinha visto sentado dentro do BMW negro, agora saindo deste. Estava provavelmente na metade dos trinta. Com o cabelo loiro escuro e extremamente elegante (em outras palavras gastava o dinheiro sério), recordava a Nick a alguém, mas não podia se lembrar de quem.

— Não te conheço.

O homem sorriu.

— Não, não conhece. Meu filho, Kyl Poitiers — gah, disse esse nome como um verdadeiro desagradável de sangue azul: Pua-tiiaa —, é um de seus companheiros de classe. Kyrian me pediu que te pegasse depois do colégio e te levasse a sua casa. Assim aqui estou.

Sim, certo…

— Como sei se algo disso é verdade? — Unicamente pelo facto de que sim se parecia ao Kyl, razão pela qual lhe parecia familiar. Isso ainda não fazia dele uma pessoa segura ou amistosa.

— Não confia em mim? —perguntou o senhor Poitiers.

— Não confio em ninguém. Minha mãe não criou nenhum idiota. Não me coloco dentro de carros com pessoas que não conheço. Nunca. Poderia ser um pervertido ou um psicótico ou algo assim. Sem ofender.

O senhor Poitiers riu.

— Não se preocupe. Vou dizer que… — tirou a carteira —. Vou te dar cinquenta dólares para um táxi e te escreverei o endereço do Kyrian. Ver-te-ei em sua casa.

Nick vacilou. A oferta não fazia nada para aliviar suas suspeitas.

— Como sei que me está enviando a sua casa e não a de outra pessoa? Pelo que sei essa é a direção a que leva a todas suas vítimas.

— Deus, eu espero que meu filho tenha uma inteligência para guia de ruas como você. — Tirou um telefone celular e marcou um número. Depois de uns segundos, falou — Hey, Kyrian. Sinto te incomodar. Estou aqui com o menino, mas ele não subirá no carro comigo. É inclusive mais desconfiado do que me disse que seria. — Aproximou o telefone de Nick.

Nick estreitou os olhos para o homem ao pôr o telefone no ouvido.

— Sim?

— Olá, Nick. Phil não te machucará. Sobe no carro e estará aqui em uns poucos minutos.

Uh-hu. Nick ainda não acreditava. A voz era familiar, mas…

— Como sei que você é o senhor Hunter?

— Porque sou a única pessoa, além de você, que sabe que estava ajudando a seus amigos a roubar esses turistas quando mudou de ideia e os salvou.

O estômago do Nick caiu no chão ante essas palavras. Não lhe havia dito nenhuma palavra disso nem a uma alma. Nem sequer a sua mãe. Esse era um segredo que se supunha que devia ficar entre ele e Deus e ninguém mais.

— Como soube isso?

— Estive ali mais tempo de que suspeitava e vi tudo. Agora sobe no carro.

Nick pendurou o telefone e o entregou ao senhor Poitiers.

— Está bem, acredito em você. — Também lhe estendeu a mão com o dinheiro. Phil se recusou a tomá-lo

— Fique com ele.

Nick negou com a cabeça.

— Realmente não posso aceita-lo.

— Claro que pode. Só considera-o uma recompensa por ser um menino preparado.

Desacostumado a que as pessoas não estivessem zangadas com ele, Nick ainda estava resistente a aceitar o dinheiro.

— Não está zangado comigo?

— Por se proteger? Não. Digo ao Kyl todo o tempo que se comporte como você fez. Dá-me orgulho ver um menino com cérebro. Agora entra.

Nick vacilou. Que estranho que alguém como Phil não o menosprezasse. Sentia-se realmente estranho.

Subiu no carro e se acomodou. Phil arrancou e logo baixou o rádio assim poderia falar.

— Deveria ter trazido o Kyl comigo para tranquilizar sua mente.

— Não teria tranquilizado. Minha mãe diz que os pervertidos usam a outros meninos para enganar suas vítimas. — Sem mencionar que Kyl não pertencia exatamente ao seu círculo de amigos. Era um arrogante que o incomodava quase tanto como Stone.

Mas devia dizer que seu pai parecia o suficiente decente apesar de seu perfeito discurso. O fazia perguntar-se de onde saía a forma de ser do Kyl.

Não disseram nada mais enquanto Phil circulava pelo tráfico. Não tomou muito tempo a chegar à casa de Kyrian, que estava na parte baixa do Garden District. Esta era a área mais cobiçada, onde as mansões eram da época da guerra civil, erguiam se uma atrás de outra como monstruosas bestas de uma era passada de gentileza e boas maneiras que a maioria das pessoas de hoje em dia carecia.

Nick e sua mãe algumas vezes vinham caminhando ao longo deste caminho…, muito provavelmente devido a que a autora preferida de sua mãe vivia aqui e ela queria lhe jogar uma olhada sempre que podia.

Seu queixo se afrouxou ao aproximar-se de uma porta que se abriu deixando ver o que devia ser a maior casa que já tinha visto alguma vez. Era uma enorme casa em estilo grego com colunas dóricas sustentando o que parecia ser um alpendre sem fim, de cima abaixo.

Phil conduziu ao redor da entrada circular até que chegou aos degraus da frente.

— Chegamos. — Mas não desligou o motor.

Nick franziu o cenho.

— Não vai ficar?

— Minhas ordens eram que te trouxesse até a porta. Missão cumprida.

Estranho, mas está bem…

Nick não tinha ideia de por que estava tão intimidado, mas algo a respeito da casa parecia misterioso e proibido. Não era que não soubesse que Kyrian tinha dinheiro, mas saber algo e ver uma prova tão óbvia era duas coisas diferentes.

Como seria no mundo ter esta classe de riqueza?

De facto, não podia imaginar-se a não ter que contar moedas para comer no McDonald´s.

Reunindo coragem, saiu do carro, agarrou a mochila, e subiu as escadas que davam na porta principal. Feita de mogno e vidro gravado, que recordava a taças de cristal esculpido, parecia um pouco tirado de um filme. Elevou a mão para tocar a campainha, mas a porta se abriu, mostrando a uma pequena mulher hispana que o olhava como um guardião saudando um novo presidiário. Vestida com uma camiseta de cor coral e jeans, tinha o cabelo escuro penteado em um puxado coque.

— Nick? — Soou mais como “Neek”, o que era uma versão muito mais linda que o normal alongamento das vocais a que estava acostumado.

— Sim, senhora.

Ela retrocedeu para lhe deixar entrar.

— O senhor Kyrian está te esperando em seu escritório. — Alargou a mão para tomar sua mochila.

Nick se separou dela.

— Não confia mim? — O tom soava ofendido.

— Não queria ofendê-la, senhora, mas nem sequer sei seu nome.

O rosto dela se voltou completamente estoico.

— Sou Rosa e cuido da casa do senhor Kyrian por ele. Agora, quer que eu guarde a mochila enquanto está aqui?

Sentiu-se idiota por não a deixar fazê-lo. Simplesmente não estava nele deixar que qualquer um tomasse algo seu sem lutar, sem importar quão pouco valioso fosse. Era por essa mesma razão que não tinha querido que Brynna a tocasse antes.

— Suponho. — A desprendeu com um encolhimento de ombros.

Ela gemeu ao tempo que lhe entregava todo o peso.

— Meu Deus, é mais forte do que parece. Como carrega isto sem ficar cansado?

Nick se encolheu de ombros.

— É o que tenho que levar para a escola.

Assinalou à escada de mogno que se curvava por volta do segundo piso.

— Terceira porta à direita. Não precisa chamar. Vai ouvir você se aproximar.

Sim, está bem, isso era horripilante também.

Nick se dirigiu para cima, tomando seu tempo para esquadrinhar cada polegada do impecável palácio. O corrimão tinha, eles tinham certeza, medalhões de ouro no centro dos escuros corrimões de ferro e o chão polido era do tipo realmente caro, talvez mármore ou laje ou… o que fosse. Parte dele queria fugir…

Não pertenço para nada aqui.

Sentia-se como uma fraude ou indigno. Até que se precaveu do que na realidade o fazia sentir tão incomodo.

Não entrava luz do sol…

Cada janela na casa estava coberta com persianas e pesadas cortinas. Cada uma. Nem sequer um feixe de luz entrava. Quão estranho isso era? Sua mãe estava sempre lhe gritando por gastar eletricidade durante o dia.

Deixa de falsificar a luz do sol, moço. Apaga as luzes. Tem alguma ideia de quanto dinheiro está gastando?

Sacudindo sua cabeça, alcançou a porta que Rosa tinha mencionado e a abriu.

Kyrian estava sentado frente a um computador com um telefone lhe cobrindo um ouvido.

— Talon, ouço o que está dizendo. Simplesmente não estou te escutando. Olhe, o menino está aqui. Falo com você depois. — Pendurou o telefone e tirou o auricular antes de pô-lo sobre a mesa.

— Talon? —Perguntou Nick.

Kyrian sorriu sem mostrar seus dentes, outro hábito peculiar que Nick tinha notado a respeito dele, inclusive quando tinha vindo ao hospital.

— Um amigo que estou seguro que eventualmente conhecerá. — Inclinou a cabeça para a tipoia de Nick —. Como se está sentindo?

— Irritável. Os remédios para a dor acabaram e dói como uma mãe.

Kyrian ignorou o tom cortante e quase obsceno.

— Escutei que hoje teve alguns problemas em sua escola.

— Não tive nenhum problema devido a que não me deixaram ir ao campus. Foi um grande dia se me perguntar.

Kyrian pôs os olhos em branco, mas não fez nenhum comentário sobre o tom irritado do Nick.

— Ligou para a sua mãe?

— Não. Por quê?

—Não crê que ela poderia ter escutado algo sobre os ataques na escola e estar preocupada?

— Não vejo como.

— Nick… Ela é sua mãe. Vai estar preocupada. Honestamente, não tem nenhuma ideia de quanto seus pais lhe amam até que algo te ocorre, logo é muito tarde. — Havia uma nota na voz do Kyrian que Nick não pôde definir. Algo como uma dor enterrada por uma lembrança amarga que ainda o incomodava…

Mas isso não importava. Nick não estava sendo estúpido ou desrespeitoso.

— Sei que estaria preocupada se soubesse a respeito disso, mas sei que não ouviu nada. Não temos TV ou algo assim. Droga, nem sequer temos um telefone. Tem que ligar para a Menyara e ela pega as mensagens para nós.

O atordoamento no rosto do Kyrian acendeu seu temperamento.

— Não necessitamos sua pena — grunhiu Nick —. Nós nos viramos bem sem ela e sem as outras coisas também. Não se necessita de lixo eletrônico para viver. Sabe, a gente viveu por milhares de anos sem ela. Há uma grande diferença entre as coisas que alguém quer e as que elas necessitam.

Kyrian sustentou as mãos em alto em gesto de rendição.

— Se acalme Nick. Não sinto pena de você. Nem sequer tinha nada disso quando era um menino, acredite, sei como estavam acostumados a viver as pessoas.

Nick percorreu com o olhar o mobiliário custoso que contradizia suas palavras.

— Percorreu um longo caminho, huh?

— De algum jeito…

— E outro?

Kyrian se encolheu de ombros.

— Deixe-me dizer-lhe desta maneira… o dinheiro não resolve seus problemas. Simplesmente traz outros novos a sua porta.

— O que significa?

— Significa que espero que nunca conheça as traições que conheci. Meu pai uma vez me disse que nenhum amigo meu jamais seria leal devido ao que tinha e ao que era.

O pai do Nick lhe havia dito basicamente a mesma coisa. Não confie em ninguém a suas costas, porque o que todas as pessoas faziam era trair. E elas usualmente riam enquanto o faziam.

Mas ele não desejava soar tão cínico.

— Tinha razão?

— Para nada. Havia um só amigo que tive que foi leal. Mas quando morreu, deixou-me com outros que fizeram mais que provar que meu pai era um homem sábio. Sei que é duro escutá-lo na sua idade. Os deuses sabem que eu nunca o fiz, mas…

— Os deuses?

Kyrian riu, de novo sem mostrar os dentes.

—Tem que me perdoar. Sou um pouco excêntrico algumas vezes.

— É por isso que todas as janelas estão fechadas?

Kyrian arqueou uma sobrancelha.

— É observador. Impressionante. A maioria das pessoas não se dá conta.

— Sim, bem, poucas coisas me escapam. Tendo a observar silenciosamente das sombras. Aprende-se muito mais dessa maneira.

— Terei isso em mente. — Kyrian rodeou a mesa e alcançou o telefone —. Vamos, envie uma mensagem a sua mãe. Deve ter escutado o que houve na sua escola, não quero que se preocupe.

Nick franziu o cenho.

— Ha, com essa classe sobre consideração, seus pais devem realmente amá-lo. —Mr. Goody Two Shoes[16].

Kyrian vacilou antes de responder.

— Meus pais morreram faz muito tempo. E sabe qual é a parte mais triste? Ainda estranho cada dia. Passei toda minha juventude lutando com meu pai sobre coisas pequenas e maldição se não venderia minha alma para vê-lo uma vez mais e lhe dizer que lamento as últimas palavras que lhe disse. Palavras das quais nunca pude me retratar e que nunca deveria ter dito. Assim liga para a sua mãe. Não importa que tipo de relação tenha com seus pais, juro-te que sentirá saudades quando já não estiverem aqui.

Nick não estava tão seguro disso. Logo que conheceu seu pai. Sua mãe, entretanto, era outro tema, nunca a machucaria intencionalmente. Discando o número de Tia Mennie, pôs o telefone no ouvido.

— Olá? — o acento crioulo de Mennie era mais forte do normal.

— Ei, Tia Men, sou eu Nick. Pode…

— Garoto? Onde estiveste? Sua pobre mamãe se há posto doente de preocupação por ti. Não dormiu nem teve um minuto de paz desde esta manhã quando ouviu o que houve na sua escola. Que vergonha que a preocupe desta maneira. Fomos à escola e lhe buscar, não encontramos um rastro de ti em nenhuma parte. Ninguém lá falava mais nada a não ser que estava tudo bem e tranquilo. Que vergonha, moço! Que vergonha!

Nick se sentiu como a forma mais baixa de saliva de cão ao mesmo tempo em que sua mãe tomava o telefone. Não era que Menyara o exortasse por algo. Usualmente deixava a tarefa para a sua mãe. Isso mais que nada lhe dizia quão preocupada tinha estado sua mãe.

— Bebê Boo? —Essas palavras agitaram seus intestinos. Era seu apelido de infância que raras vezes ela usava —. Está bem?

— Sim, Mamãe. Estou bem. Realmente lamento não haver ligado. E eu simplesmente não acreditei que tinha ouvido sobre isso.

— Está bem, Boo. Só estou contente de que esteja bem. É tão bom ouvir sua voz. A polícia não me dizia nada a respeito das vítimas. Disseram que não tinham notificado às famílias, assim estava esperando que eles viessem a minha porta e… — Ela se desmanchou em soluços.

Nick se encolheu até sentir-se doente.

— Não tinha a intenção de te assustar, Mamãe.

— Está bem. Está tudo bem. Está a salvo e isso é tudo o que importa para mim. Onde está?

Olhou ao Kyrian, que lhe estava dirigindo um olhar de “lhe disse isso”.

— Estou na casa do senhor Hunter agora. Estava na loja do Bubba, ajudando-o esta manhã já que cancelaram as aulas. Disse que me pagaria o dobro por isso.

— Mas a salvo?

— Sim, estou a salvo.

— OH, graças a Deus.

Kyrian tomou o telefone de sua mão.

— Senhora Gautier? Sou Kyrian. Queria que soubesse que alimentarei o Nick e o terá em casa por volta das sete, se isso estiver bem para você. — Realizou uma pausa para escutá-la —. Sim, senhora. Cuidarei muito bem dele e não deixarei que nada lhe ocorra. Prometo. — Pendurou o telefone.

Nick franziu o cenho.

— Por que a chama de “senhora” quando ela é mais jovem que você?

— É um indicador de respeito.

Isso não o entendia, mas estava agradecido por isso.

— Não foram muitas pessoas que mostraram a minha mãe o respeito que ela merece. Realmente aprecio isso que fez.

Kyrian guardou o telefone no bolso.

— Aprendi faz muito tempo a não julgar às pessoas pela aparência ou pelas roupas que vestem. Só porque uma casa seja agradável e brilhante em sua fachada não significa que não esteja podre por dentro. Sua mãe é uma boa mulher com um bom coração e me contenta ver que é o bastante amadurecido para apreciar isso dela.

Nick encontrou um novo grande respeito para ele.

— Sabe? Acredito que posso trabalhar para você.

Kyrian lhe dirigiu um sorriso de lábios tensos.

— Alegra-me ouvi-lo. Agora, deveria te mostrar o lugar?

Agradava-lhe a maneira formal em que algumas vezes falava Kyrian. Ia e vinha do típico modismo guia de ruas até expressões do velho mundo que eram pronunciadas com um acento que Nick não podia localizar.

— Deveria, de facto.

Kyrian esfregou seus olhos ante o mau acento inglês de Nick.

— Seus deveres serão durante o dia. Nada muito extenuante, e se algo agrava seu braço, até que se cure, não o faça. Quão último precisa é retroceder em sua terapia.

Nick o seguiu até as escadas.

— Por que está fazendo isto, de qualquer modo? Sabe no que estava metido naquela noite e, entretanto me permite ingressar aqui, ao redor de todos os seus pertences? Não tem medo de que lhe roube algo?

Kyrian se volteou nas escadas para lhe dirigir um duro olhar.

— Não há nada que possa roubar que não possa ser reposto. As coisas significam pouco para mim. — aproximou-se um passo de Nick —. E por que te estou ajudando… acredito em ti, Nick. Lembra-me a um menino que uma vez conheci. Teimoso até o ponto de que ninguém podia suportá-lo. Não escutava e tinha um imenso complexo de inferioridade, devido à vontade de mostrar ao mundo quão duro era, que não necessitava a ninguém que o ajudasse na vida, ou que fizesse nada por ele. Tudo tinha que ser aprendido por sua própria mão… da maneira mais difícil.

— O que aconteceu com ele?

— Rebeldemente, uniu-se ao exército contra os desejos de seu pai e conheceu um homem que mudou a sua vida. Pela razão que fosse, esse homem tinha paciência. E onde outros houvessem justificadamente matado o arrogante jovem por sua atitude, seu oficial comandante viu potencial nele. Mudou a vida desse moço e quero pagar essa dívida em ti.

Tomou a Nick um segundo em dar-se conta do que exatamente estava dizendo.

— Você é o menino?

Kyrian inclinou a cabeça.

— E este tipo que mudou sua vida?

Descendo o olhar ao anel de sua mão que descansava no brilhante corrimão.

— Um homem chamado Julian.

Nick se estremeceu ante tão desagradável nome.

— Não é Julian um nome de garota?

Uma das comissuras da boca de Kyrian se curvou em um sardônico sorriso.

— Confia em mim, Nick. Era o mais forte FDP que tenha conhecido no campo de batalha. Ninguém nunca o derrotou em uma briga. Fazia com que Jackie Chan e Chuck Norris se vissem como mulherzinhas.

— É assim como aprendeu a lutar da forma em que o fez quando me salvou?

— Sim.

Nick tinha que lhe dar o crédito. Kyrian podia defender-se sozinho. Era algo que ele queria poder fazer.

— Poderia me ensinar algo disso?

— Quando seu braço estiver melhor. Por agora, prometi a sua mamãe que não esgotaria sua força.

Nick grunhiu.

— Sim, mas…

— Nada de mas. Agora é só uma introdução. Quero que conheça do que se trata. Rosa é seu supervisor direto. O que quer que ela lhe diga faça. Dado que usualmente trabalho de noite, será com ela que vai tratar na maior parte do tempo quando estiver aqui. — Girou de novo e desceu as escadas.

Nick baixou dando saltos por detrás dele.

— Assim, quanta gente trabalha para você?

— Só Rosa e George, o jardineiro… E agora você.

— E quanto ao senhor Poitiers?

— É um amigo. Tenho muitos amigos que fazem favores por mim de vez em quando.

Nick podia respeitar isso.

— Deve ser agradável ser rei.

Um rastro de tristeza cintilou através do rosto do Kyrian antes que o escondesse.

— Por que não te mostro primeiro seu escritório?

Esse anúncio deixou Nick estupefato.

—Tenho um escritório?

— Sim. — Kyrian o conduziu a uma habitação fora da cozinha que era maior que todo o condomínio do Nick. Prateleiras de livros decoravam as paredes. E havia dois escritórios e organizadores sobre eles, junto com agradáveis cadeiras de escritório de couro negro. Era uma impressionante distribuição.

— Rosa tem o escritório maior. O teu está ali.

Nick se aproximou dele com o queixo caído ao tempo que passava sua mão pela superfície. Feito de custosa madeira de cerejeira era antigo e formoso. Mas foi o enorme monitor sobre a mesa o que realmente o fez sorrir.

— Tenho meu próprio computador?

— Sim, e pode fazer a tarefa nela se o necessitar. Está conectada online assim…

Os olhos do Nick se abriram de par em par.

— Está online e tudo?

— Sim. Haverá momentos em que necessitarei que obtenha informação ou ordens outras coisas online por mim.

— De verdade?

— De verdade.

Nick não sabia o que dizer. Isto era mais do que jamais havia imaginado. Quando Kyrian lhe tinha devotado o trabalho, acreditou que se tratava de passear com o cão, limpar banheiros, ou algo igual de merda. Nunca em seus sonhos mais selvagens tinha pensado que teria seu próprio escritório ou computador.

De fato, Rosa já tinha posto sua mochila ali. O fazia sentir como um adulto com um verdadeiro trabalho de escritório.

Sobre tudo, o fazia sentir respeitável.

Elevando a cabeça em alto, encontrou o olhar do Kyrian.

— Então, quanto dinheiro estarei ganhando?

— Considerando que só trabalhará meia jornada, começará ganhando mil à semana.

Nick quase se afogou ante o valor. Mil o que? Lira? Iene? Carvalhos?

— Perdão?

— Isso é prévio aos impostos, claro. E temos bônus por desempenho no trabalho, assim pode incrementar isso se necessitar mais. Acredito em recompensar o trabalho duro e…

Nick sustentou sua mão em alto para que se detivesse ali.

— Volta um pouco para me assegurar que ouvi o que disse. Mil à semana?

— Sim.

— Mil dólares americanos à semana?

— Sim.

— Não dinheiro de Monopólio ou algo assim.

Kyrian lhe dirigiu um olhar irritado.

— Não, Nick. Dinheiro de verdade em efetivo, e terá seu próprio cartão de crédito também.

Nick não podia acreditar. Ainda estava aturdido ante a quantidade, já não lhe importava todo o resto.

— E não tenho que fazer nada ilegal ou pervertido?

— Só tem que cuidar de sua linguagem, especialmente com Rosa.

Bem, maldição. Isso o fazia perguntar uma única coisa…

— Quanto paga a ela para trabalhar a tempo integral?

Kyrian riu.

— Muito mais do que estarei pagando a ti, mas não o suficiente por tolerar sua inteligente boca. Assim se quer manter este trabalho, tem que lhe mostrar respeito.

— Não se preocupe. Não amaldiçoo diante de mulheres. — Mas essa regra não se aplicava a homens ou na realidade a ninguém que tratasse de incomodá-lo.

Como fora, Nick tinha uma preocupação maior.

— Hum, quanto deduzirá disto para as contas do hospital?

— Você mantém as notas altas, vigia sua atitude, e te apresente a trabalhar na hora por seis meses e me esquecerei delas.

Se algo soa muito bom para ser verdade, provavelmente o seja. E embora fosse jovem, não tinha nascido ontem.

— Não sei a respeito disso. Minha mãe diz que não aceitamos caridade das pessoas. Pagamos a nossa própria maneira.

— Nick… — a voz do Kyrian era tirante —. Olhe ao redor. Não vou sentir saudades do dinheiro. Você estava se dirigindo pelo mau caminho na rua, quando, por qual fora a razão, fez o movimento correto. Ninguém obrigou você. Você escolheu fazer isso. Meu objetivo é te manter no caminho correto. E sei que as pessoas desesperadas fazem coisas desesperadas, assim este trabalho te ajudará a eliminar algo dessa tentação. É um bom menino e merece uma pausa, estou seguro de que a vida não te deu muito.

Era verdade. A vida o tinha incomodado bastante a ele e a sua mãe do momento em que tinha nascido.

— Sim, mas isso é um montão de dinheiro para ser pago a um menino para fazer basicamente nada.

— Você não estaria fazendo nada. Será parte de um vital pessoal de respaldo no qual confio para fazer meu trabalho. Sem mencionar, manter suas notas altas e isso não é nada comparado com o que poderá fazer comigo quando for adulto.

Ainda, Nick estava cético.

— E não tenho que me despir?

— OH, Deus, não. Por favor, mantenha suas roupas postas. Nem Rosa, nem eu precisamos ficar cegos. Entretanto, há uma piscina na parte posterior, que é livre para usar quando quiser. De qualquer forma, sempre te utilize trajes de banho quando a utilizar. Quão último preciso é que meus vizinhos comecem a queixar-se ou que George renuncie. —Kyrian se moveu para uma pequena caixa sobre o escritório de Nick e a recolheu para entregar-lhe. — De passagem, isto é para ti.

— O que é?

— Um telefone celular assim eu poderei entrar em contato contigo quando te necessitar.

Nick não podia acreditá-lo.

— Impossível.

— Parte dos privilégios do trabalho. Mas não abuse de seus minutos ou mensagens de texto. Se eu receber uma fatura de dez mil dólares em um mês e te estrangularei. —Kyrian o ligou e o entregou —. Está já conectado e o número está no cartão. Se assegure de que sua mãe o tenha também. Programei meu número no marcado automático sob o número dois. Só pressionar.

Nick estava afligido pela generosidade. Não sabia o que dizer.

— Isto é simplesmente tão genial. Obrigado.

— De nada. — O telefone do Kyrian soou. Tirou-o de seu bolso e revisou a identificação antes de responder.

— Não, estive ocupado por um tempo. Por quê? — Ele franziu o cenho ao tempo que escutava.

Nick jogava com seu próprio telefone. Homem, esta coisa era realmente surpreendente.

— O que quer dizer com que houve mais ataques?

Isso captou a atenção do Nick. Estava Kyrian falando do tema zumbi?

— Sim. Irei logo que possa e manterei meus olhos abertos, e tremo ao dizer isto, as coisas fora do ordinário para nós. — Escutou por alguns minutos antes de pendurar o telefone.

— Algo vai mal? — perguntou Nick.

Kyrian não respondeu exatamente à pergunta.

—Há alguém em sua escola com uma tocha para moer jogadores de futebol?

Alguma vez tinha ido o homem à escola superior?

— Depende do jogador de futebol. Por quê?

— Houve dois ataques mais.

Nick estava estupefato.

— Todos eles foram cometidos contra jogadores de futebol. Quantos moços há na equipe, de qualquer modo?

Nick teve que parar para pensar.

— Não estou exatamente seguro visto que não jogo mais. Provavelmente em volta de cinquenta no total, contando às LI e LS.

—LI e LS?

Estava surpreso de que Kyrian não soubesse do que estava falando.

—Liga Inferior e Liga Superior.

—Ah… por que já não joga?

Nick encolheu os ombros, ao tempo que isso lhe trazia uma lembrança no qual não queria pensar. Tinha sido realmente bom nesse jogo, mas isso não o salvou.

— Obtive que me tirassem na primeira semana em que entrei na equipe por brigar quando Stone escondeu meus sapatos. Em caso de que não o tenha notado, não sou uma pessoa sociável.

Kyrian riu.

— Notei-o. Olhe, preciso fazer umas chamadas mais. Passeia por aqui e se acostume. Não se canse muito. Se necessitar algo para comer ou beber, vá à cozinha. Sinta-se como em casa.

Nick esperou até que Kyrian se retirasse antes de tratar de ligar para Madaug de novo desse seu novo celular.

Ainda nenhuma resposta.

Suspirando, tinha um mau pressentimento sobre isto. Se o que Kyrian havia dito era certo, tinham reduzido a um quarto da equipe.

Não haverá nenhuma competição final para nós este ano.

Estúpida preocupação dado tudo o que estava ocorrendo, mas era a primeira coisa que surgiu em sua mente.

O que não podia compreender era o que o tinha começado. Sim, os esportistas se metiam com certas pessoas e agora estavam se tornando zumbis, só ficariam piores. Agora iam meter-se com todos.

Como podiam deter isto?

Irritado pela falta de detalhes, voltou a dirigir-se à cozinha, onde Rosa estava fazendo algo que cheirava incrivelmente bem.

Lambendo-os lábios, foi investigar a panela enquanto Rosa picava camarões e cebolas na tábua de corte.

— O que está preparando?

— Gumbo.

Nick elevou as sobrancelhas ante um prato que tinha comido a maior parte de sua vida, mas este não se via para nada como o de sua mãe.

—Huh… assim se vê o gumbo de gente rica.

— O que quer dizer?

— Não tem sobras nele e lhe está pondo carne real e não partes de toucinho ou animais mortos na estrada.

Rosa riu.

— Tenho a certeza de que nunca comeste animais que morreram na estrada.

Não apostaria nisso. Sua mãe poderia havê-lo negado, mas alguma das carnes que havia trazido para casa… estava seguro de que tinha saído da rua. Possivelmente inclusive recolhida de debaixo das rodas.

Rosa lhe entregou uma colher.

— Sinta-se livre para prová-lo.

— De verdade? Obrigado. — Inundou a colher e a apartou para que se esfriasse antes de tomar um bocado. Homem estava inclusive melhor do que cheirava. Seu estomago grunhiu tão alto que soou como um monstro a ponto de aparecer.

Rosa se voltou para olhá-lo fixamente.

— Sinto muito. Não almocei. — Bubba não lhe tinha dado permissão de tomar dinheiro da caixa para isso, e dado que os almoços escolares vinham com sua matrícula, não tinha dinheiro para comprar o almoço em algum outro lugar.

A Rosa lhe afrouxou a mandíbula.

— Por que não disse algo a respeito de que estava faminto? — Empurrou-o até a ilha onde dois altos tamboretes estavam localizados —. Sente-se e te farei um sanduiche.

— Posso esperar até o jantar. Estou acostumado.

— Ninguém passa fome em minha casa, pequeno. Você sente-se só ali enquanto lhe faço isso.

Isto estava seriamente assustando-o. Ninguém nunca tinha sido tão agradável com ele. Tinha ido parar na Dimensão Desconhecida ou algo assim?

Vou morrer. Tinha que ser um presságio de morte. Sim, me vou converter em um sem-noção-porque-empresto-o-corpo a um demônio de corpo putrefato comilão de carne. Suas partes do corpo, especialmente as realmente importantes, foram cair como nesse filme que tinha visto…

E tudo devido a que tinha ajudado a um casal de idosos a escapar de seus amigos.

Deixa de ser estúpido.

Mas não era estúpido. Era um facto. Algo estava mal com o mundo. Tinha estado avançando de lado e nada era como devia ser.

Estava condenado. Nenhum “sim”, “yes”, ou “o que seja”. Ia morrer.

E assim que teve esse pensamento, ouviu algo arranhando a porta traseira. Havia um grunhido baixo e o tamborilar de uma criatura bastante grande. Malvado e gutural, o som recordou a um cão abandonando a um gato. Devia ser um Rottweiler ou algo assim.

Franziu o cenho para Rosa, que tinha congelado para olhar à porta traseira também.

—Que tipo de cão Kyrian tem?

Ela negou com a cabeça.

—Nenhum.

—Então o que…? — Suas palavras terminaram no mesmo tempo que a porta traseira saía voando e dois membros de sua equipe entravam correndo para atacá-lo.

 

Em um movimento que não tinha usado desde que era um running back[17], Nick foi para a esquerda, deu um giro fechado, e os passou pelo flanco, deixando que se estatelassem contra a parede. Segurou Rosa e a empurrou para a segurança, ao tempo que olhava ao redor procurando uma arma.

Rosa agarrou a navalha com a mão direita antes que ele pudesse fazê-lo. A mandíbula dele se afrouxou ao tempo que ela pegava a faca de picar na mão esquerda e sustentava ambos, como toda uma profissional ao enfrentar a seus intrusos.

Nick estava horrorizado.

— Rosa?

— Fique atrás de mim, Nick. Não fui sempre uma dona de casa e não é qualquer filho da puta o suficiente burro para vir aqui e nos atacar, merece morrer no chão, sacrificado como um porco.

Os zumbis atacaram.

Rosa apanhou o primeiro com uma navalhada no braço. Ele não fez muito salvo grunhir. Pelo contrário, empurrou as costas dela e foi atrás de Nick, quem agarrou uma das frigideiras da cozinha.

Tanto para o jantar.

Arrojou a comida quente sobre o rosto do jogador de futebol. Esta vez, o esportista zumbi gritou e se cambaleou para trás. Nick o golpeou com a frigideira, logo, deu a volta para ajudar Rosa a lutar contra o outro. Apenas os alcançou, antes que o que tinha banhado, o agarrasse por trás. O zumbi número um o encerrou em um agarre que parecia como de aço.

Nick soltou um grunhido ao tempo que seu ombro ferido foi empurrado.

— Não o fará! — Golpeando o zumbi na cabeça ao atirar para trás a sua, soltou-se.

Dois segundos depois, algo muito brilhante que o cegou, apareceu na cozinha.

Nick protegeu seus olhos ao tempo que ouvia os zumbis gritarem de agonia. Quando baixou sua mão e pôde finalmente ver de novo, retrocedeu estupefato.

Os zumbis tinham desaparecido e em seu lugar estava o que deveria ser o homem mais alto do mundo que tivesse visto alguma vez.

Sua boca caiu aberta em um, completamente frio, atordoamento.

— Está bem, Rosa? — o homem perguntou em um fluido espanhol.

— Sim, Acheron. Obrigada.

A porta detrás do Acheron se fechou de repente sem que ninguém ou algo a tocasse. Acheron se moveu para ele com o letal passo de um feroz predador. Com comprido cabelo negro e mechas verdes, usava um par de óculos de sol opaco que evitava que Nick pudesse ver seus olhos. Vestido de negro com uma caveira vampiro, das que brilha na escuridão, em sua camiseta. Tinha uma negra mochila sobre um dos ombros. Uma mochila, com um símbolo anárquico grafitado nela.

— Prazer em conhecê-lo. Nick.

Ele se esticou ante o estranho acento de Acheron. Nunca tinha ouvido algo assim em toda sua vida.

— Como sabe meu nome?

— Sei muitas coisas.

Sim… e essa ideia seriamente o horrorizava. Era o tipo, um perseguidor?

Nick olhou ao redor da habitação. Não havia nem rastro dos atacantes.

— O que aconteceu com os esportistas?

—Meu demônio os comeu — disse Acheron, com o tom tão inexpressivo que Nick poderia quase acreditar.

— Claaaaaro —assentiu Nick com a cabeça em um ato de descarado sarcasmo —. E suponho que Big Bad Wolf[18] virá atrás de ti para terminar o trabalho? Ou será o Homem de pão de Gengibre?

Acheron lhe dirigiu um sorriso inclinado.

— Kyrian tinha razão, é um arrogante… — lhe dirigiu um olhar a Rosa antes de emendar o que tinha começado a dizer — ...moço —. Tirou seu telefone celular, que era ridiculamente pequeno em sua enorme mão, e ligou para alguém.

Nick franziu o cenho para Rosa, quem tinha se dirigido para a pia para limpar o sangue de suas navalha e faca como se nada fora do comum tivesse acontecido. Por que estava, repentinamente, ouvindo a canção da Família Adams soando em sua cabeça?

Que classe de bizarra casa lunática era esta?

—Sou o único espantado pelo que acaba de ocorrer? Vocês dois estão atuando muito… muito… normal a respeito disso. Refiro-me a que isto… é definitivamente, não é um dia típico.

Acheron bufou.

— Depende da vizinhança… — Ele fez uma pausa para falar no seu telefone—. Ei, Kyrian, possivelmente queira terminar essa ducha e descer ate aqui. Sua casa acaba de ser invadida por zumbis enquanto Rosa e seu moço lutavam contra eles. Só PTI[19].

Bom, só isso explicava o porquê Kyrian não tinha ouvido a comoção, vindo abaixo a investigar.

Desligando o telefone, Acheron se aproximou de Rosa e lhe sussurrou em espanhol. Nick não estava seguro de como o entendeu, dado que ele pessoalmente não falava espanhol, mas o fez.

— Esquece tudo o que ocorreu. A comida se derramou no chão por acidente e nada fora do habitual aconteceu. Nenhum ataque. Simplesmente outro dia…

Ele olhou para Nick, que retrocedeu com severa apreensão do que este estranho ia fazer a ele. Quando Acheron elevou a mão, Nick se girou para a porta principal.

Sai daqui. Agora!

Essa foi uma louca voz demoníaca em sua cabeça, mas não a questionou. Simplesmente, correu como enlouquecido.

Rodeando as escadas, escorregou até deter-se quando Acheron apareceu, diretamente em frente a ele, do nada. Só que desta vez, Nick não viu o Acheron no corpo de um homem jovem.

Ele viu…

A alguém com presas, pele azul, lábios negros e chifres. A imagem apareceu em um flash e logo desapareceu. Como uma louca alucinação.

O que havia nesse gumbo?

É sobrenatural.

Não acredito nisso. Entretanto, Como podia negar o que estava vendo? Isto não era normal. Isto não era induzido por químicos, zumbis assassinos… Não havia razão lógica para que Acheron tivesse aparecido em frente a ele e o tenha visto assim. Igual a como se fechou a porta de repente quando entrou na cozinha, ou o resplendor de luz.

Era impossível.

Completamente impossível.

Já não estava certo no que podia acreditar, Nick tragou em seco.

— O que é?

Acheron se encolheu de ombros.

— Estou completamente perplexo. Recorda tudo o que ocorreu. — Era uma afirmação de um facto e não uma pergunta… como se Acheron estivesse dentro de sua cabeça.

—Sim, homem. Não é como se fosse esquecer os perseguidores zumbis assassinos e o pessoal psicótico da cozinha. Que classe de demonstração fenomenal é esta?

Acheron soltou uma malvada risada.

— Não tem ideia, Nick. Mas minha pergunta é... por que estão os zumbis atrás de ti?

— OH, infernos não, homem. A pergunta é... por que tem chifres em sua cabeça e lábios negros?

O sorriso do Acheron se desvaneceu.

— O que?

— Vi-te faz um minuto quando cintilou aqui. Tinha chifres e pele azul. O que é?

Acheron devolveu essa pergunta com uma das suas.

— Que classe de estranhos vegetais você esteve comendo? A Meta[20] é igual à morte e as inalações podem te matar, menino. Deveria te manter afastado deles antes que destruam os últimos três neurônios que ficam.

Sim, claro.

— Estou espantado… não és humano. Sei que você não é humano.

Esse irritante sorriso voltou para rosto do Acheron.

— Muito poucas pessoas o são.

— Ha, Ha. Vi-te, homem. O que fez aos zumbis quando chegou e com Rosa… Sei que não és humano. Vai me matar devido ao que sei?

Acheron realizou uma pausa para avaliar suas opções. Nick Gautier era muito mais do que parecia. Aos quatorze, a mente do Nick deveria ter sido facilmente apagada por seus poderes, como a de Rosa. Não que agradasse ao Acheron usar esses poderes em ninguém. Como regra, rara vez o fazia, mas havia momentos em que as circunstâncias o demandavam.

Zumbis assassinos explorando em uma cozinha eram um desses.

E até que alguém fosse maior não desenvolvia a habilidade para bloquear esse particular talento dele. E inclusive então, só a mais firme das vontades podia enfrentar-se a seus poderes.

Pensando nisso, nenhum humano mortal nunca tinha podido enfrentar a seus poderes. Só os deuses e um punhado de demônios puderam lutar ou encerrá-lo contra sua vontade.

Mais que isso, de algum jeito, de certa forma, Nick tinha vislumbrado sua verdadeira forma de deus.

Como?

Mata-o e termina com isso.

Essa era provavelmente a coisa mais lógica para fazer. Mas Kyrian, pelas razões errôneas que fossem, tinha seu coração posto em salvar o garoto. Fechando seus olhos, usou seus poderes para ver o futuro… e ver o que ocorreria se assassinasse Nick.

Não havia nada ali.

Simplesmente um espaço vácuo de nada.

Merda…

Duas semanas antes, quando Nick tinha sido ferido, tinha visto a vida inteira do menino do começo até o final tão claro como um céu do verão. Agora nem sequer podia vislumbrar o que é que Nick tinha guardado em seu bolso frontal.

Isto não é nada bom.

Porque isso significava só uma coisa — o garoto ia, significativamente, impactar em sua vida de alguma forma e os Destinos tinham cegado Acheron para evitar que interferisse nas eleições de Nick.

Odeio quando isso acontece. Era por isso que não deixava que ninguém se aproximasse. Por isso não tinha verdadeiros amigos mais que sua companheira demônio.

Este pequeno canalha frente a ele estava destinado a alterar seu futuro. Com razão, não podia usar seus poderes.

Suspirando, Acheron abriu seus olhos. Não havia necessidade de lutar contra o destino. Tinha aprendido faz séculos, simplesmente, quão inútil era tentá-lo. Poderia igual abraçar o inevitável e me apresentar. Porque cada vez que alguém tinha tratado de alterar seu futuro, as coisas se tornaram pior. Muito pior.

— Sou Acheron Parthenopaeus.

Nick bufou.

— Maldição, e eu que pensei que meu nome não prestava. Seus pais deviam realmente odiar sua pele.

Se ele soubesse…

— Me chame de Ash. É mais fácil e leva muito menos tempo.

Nick lhe ofereceu sua mão sã.

— Nick Gautier. Agora, me diga de novo. O que é?

—Ele, é o melhor amigo que fará ou seu último inimigo.

Nick elevou o olhar para ver Kyrian descendo pelas escadas.

— OH, já entendo — disse ele sarcasticamente —. Porque me mataria se o deixo zangado. Ha, ha, ha.

Kyrian pôs seus olhos em branco.

Acheron soltou um comprido e sofrido fôlego.

— Não vou dizer nenhuma palavra, General. Disse-te que o menino ia trazer mais problemas do que vale. Até agora, tinha razão.

Nick se aproximou do Acheron e disse em voz baixa.

— Sabe Kyrian a respeito de…? Já sabe? Sua particular raridade?

— Sim, de fato. Rosa, nem tanto. Assim vamos manter isso oculto a seu redor.

—Captei.

Kyrian se deteve junto ao Acheron.

— Suponho que Nick viu algo incomum?

— Não muito incomum — disse Nick—. Se viver em um fodido vídeo game.

Acheron negou com sua cabeça.

— Dirigiu-o bem, a maior parte.

Nick se mofou.

—Ash está omitindo a parte aonde enlouqueci e corri como uma garota. Sabia que sua ama de chaves pode dirigir uma faca como uma lutadora de rua e não vacila em estripar gente com ela?

— Bom, essa foi uma infeliz mudança de tema? — comentou Acheron ao Kyrian.

Kyrian riu.

— Sim, Nick. Sei tudo sobre seus talentos no manejo de facas. É por isso que a contratei. E se fosse você, eu manteria isso em mente se alguma vez sentisse a necessidade de falar besteira. Ela não leva bem.

— Não se preocupe. Esse desejo… totalmente dominado. — Nick colocou as mãos nos bolsos, ao tempo que digeria tudo o que tinha ocorrido nos últimos minutos —. Assim tem um ama de chaves psicótica com algumas sérias habilidades ninjas com a faca e, o que seria Acheron para ti?

Houve um repentino desconforto entre eles, tão tenso que penetrou no ar ao redor deles.

— Ahhh — disse Nick, ao mesmo tempo em que percebia o que eles não conseguiam explicar. Como o velho ditado, os opostos se atraem —. Vocês são amigos “especiais”.

Kyrian franziu o cenho.

— O que quer dizer?

Acheron lhe dirigiu um olhar irritado ao Kyrian.

—Ele pensa que somos um casal.

Kyrian se separou do Acheron.

—Não. Não. Não. Definitivamente não. Não é que Acheron não seja um homem atraente, não é que alguma vez notasse que fora ou não atraente, mas os homens não são meu tipo.

Nick olhou de um para o outro. Na superfície, não tinham nada em comum salvo que ambos eram uns irritáveis.

— Então... Como é que se conhecem? Porque além do tema do dinheiro, Kyrian parece realmente normal e Ash… realmente não.

Acheron arqueou uma sobrancelha.

— Está me dizendo que não tem amigos excêntricos?

— Uh, não como você. Meus amigos simplesmente fazem coisas estranhas, como comer gelatina com sorvete e conseguir que os jogassem da Kroger[21] por comer amostras. Eles não são de maneira nenhuma tão estranhos como você.

Acheron bufou.

— Tenho que discordar. Não me afogo em urina de pato ou procuro homens lobo no pântano, diferente de algumas pessoas que conhece.

—Sim, bom, assim Bubba e Mark caminharam pelo vale do caminho para o Planeta Não Sei. Mas eles não fazem essa horripilante limpeza de mente ou fechar portas sem as tocar.

— Como sabe que o vento não a fechou? —perguntou Acheron.

— Esse seria o mesmo vento que de algum jeito te fez voar através da casa para que aterrissasse na minha frente?

— Poderia ser. Força de furacão. Em Nova Orleans, depois de tudo. Acontece.

Nick dirigiu ao Acheron um gracioso olhar.

— Sem ofender, mas não sou Dorothy e não vi nenhuma casa sobre uma mulher com meias e saias. Mas, se você crê em tudo isso, tenho uma casa sobre uma colina, no pântano, para te vender. De passagem, como sabe de Bubba e Mark?

Ash ficou realmente calado.

O rosto do Kyrian estava completamente estoico.

— O que? —perguntou Nick.

Ash esclareceu sua garganta antes de responder.

— Aborreço-me algumas vezes. Infinito poder… lunáticos locais. Há simplesmente momentos em que realmente precisa jogar com a cabeça de alguém e Mark é um objetivo tão fácil. Ele quer ver, e umas poucas sombras bem colocadas bastam para fazê-lo feliz, e a mim, entretido.

— Homem, está muito mal — Mas Nick podia quase entendê-lo—. E os zumbis? Plantou-os também?

—Não. Estou tão desconcertado como você. De facto, vim aqui para lhe avisar — se virou para o Kyrian —, a respeito deles. Acredita-o ou não, não sei quantos estão infectados. Mas parece que a maioria é adolescente, e a escola de Nick é o núcleo de tudo. Parece como se assim fosse.

Kyrian se via tão confuso como Nick se sentia.

— Como pode não sabê-lo, com seus poderes?

—Tão difícil como é acreditá-lo, mais inclusive para mim, há coisas que não posso decifrar. Esta seria uma delas. Alguém mais os está defendendo — provavelmente a entidade de fora que os criou. E não sei quem é, o bokor parece centrar-se no pessoal da escola e estudantes nerds.

Nick quadrou os ombros.

— Por que me olha quando diz a palavra nerd?

Ash apontou à horrenda camisa havaiana azul do Nick.

— As pessoas normais não se vestem assim.

Nick passou sua mão sobre ao frente de sua camisa e deu uma segura inclinação de sua cabeça.

— Ei, tenho um bom estilo. E sou um tipo agradável com quem falar. Por que está usando óculos de sol, quando está escuro aqui dentro, homem?

Ash lhe dirigiu um sorriso presumido

— Porque não importa aonde vá, o sol sempre brilha sobre mim.

Nick não estava achando nada divertido.

— Nick?

Ele se virou ante a voz de Rosa.

— Sim, senhora?

— Havia me dito que não comeu?

— Sim, senhora.

— Então vem aqui e come algo, antes que fique esgotado —. Ela se deteve ao entrar pela porta da cozinha e ver o Ash —. Acheron? Quando chegou?

Ash indicou a porta, sobre seu ombro, com o polegar.

— Vim pela porta da frente, faz uns minutos.

O arqueado da sobrancelha de Rosa se incrementou.

— Estranho. Não ouvi soar a campainha.

Ash sorriu.

— Conhece-me, Rosa. Silencioso como um fantasma.

Um calafrio desceu pela coluna de Nick ante o que Rosa estava dizendo, por sua falta de memória ou por estar à volta de Ash. Deveria provavelmente estar fugindo pela porta, mas havia algo, a respeito de Acheron, que na realidade lhe agradava. E enquanto o homem se via como se pudesse varrer o chão, como Rambo, Nick sentia um parentesco com ele. Quase como se fossem irmãos perdidos faz tempo. Era tão estranho e, entretanto…

Se Mantenha afastado dele. Ash é malvado até os ossos. Irá te destruir. Nick sacudiu sua cabeça ante a profunda voz que fazia eco em seus ouvidos.

Por um segundo, sentiu como se estivesse ficando louco.

— Vem, Nick? — perguntou-lhe Rosa.

— Sim, senhora. — Sua resposta usual para a maioria das mulheres, dado que a sua mãe na realidade não lhe agradava a palavra “não”. Obedientemente foi atrás de Rosa e a comida que estava ansiando.

    

     Acheron observou enquanto Nick se dirigia à cozinha. Não sabia por que, mas seus instintos lhe diziam que Nick era de algum jeito, a chave do que estava acontecendo. Era como se uma presença estivesse ali. Uma que ele não podia ver, ouvir, ou tocar.

Só podia senti-la como uma sombra oculta. Malévola e fria, sentiu um arrepio descendo por sua coluna. Era puro ódio, mas não podia dizer para quem estava se dirigindo.

Ele.

Ou Nick.

Kyrian baixou sua voz para que assim, nem Rosa nem Nick pudessem ouvi-lo.

—O que, não está me dizendo?

—Alguma vez tiveste um desses pressentimentos que não pode ignorar?

—Cada maldita noite.

Ash soltou uma pequena risada.

— Ainda planeja estabelecer o Nick como seu escudeiro?

— Ainda não é grande o suficiente. Mas quando for esse é meu plano. Por quê? Há algo a respeito dele que deveria saber?

Ash sentiu a tatuagem em seus bíceps mover-se para seu cotovelo. A ardente sensação era a forma do Simi para fazê-lo saber que estava ansiosa para sair de seu corpo e tomar a forma humana, ou possivelmente tinha indigestão por comer zumbis tão rapidamente.

Esfregando sua mão sobre seu demônio, deteve-a no momento.

— Parece um bom menino.

— Mas?

Mas há algo a respeito dele que não é de todo…

Certo.

Se só pudesse pôr o dedo sobre isso. Não queria preocupar Kyrian quando não houvesse razão, encolheu os ombros.

— Não tenho nada que acrescentar. Só que não deixe que os zumbis lhe comam quando está patrulhando esta noite. Seria um maldito desperdício de um bom Dark Hunter.

Kyrian flexionou o pé, fazendo aparecer uma das facas da ponta da bota.

— Acredito que posso com eles.

Ash não estava tão seguro. Kyrian sempre tinha um momento difícil com qualquer um por baixo da idade de consentimento. Não que ele mesmo fosse sangue-frio.

Simi era outra questão. Ela tinha comido os zumbis na cozinha antes que ele tivesse tido a oportunidade de alcançá-la. Era o que tinha cegado Nick e Rosa. Seu pequeno demônio tinha uma mente própria e quando cheirava delícias não humanas, que proclamava não estar em sua lista de comidas proibidas, não havia forma de detê-la.

Logo teria que deixá-la sair ou ela ia se arrastar por todo o seu corpo até o ver fazendo o baile de São Vitus[22].

— O sol está se pondo. Quer que eu leve Nick para casa por ti?

Kyrian assentiu.

— Obrigado. Enquanto isso me reunirei com Talon no Quartel e veremos se podemos dirigir este lançamento de zumbis.

— Boa sorte.

— Digo o mesmo. — Kyrian se dirigiu à porta que conduzia à garagem.

Ash esperou até que esteve seguro de que Kyrian se foi antes de entrar na cozinha. Deteve-se para ver Nick brincar com Rosa. Havia algo extremamente carismático nele. Como uma aura que esquentava as pessoas e que os fazia escutá-lo.

Alguns poderiam chamá-lo de glamour — um poder com o que certas criaturas tinham nascido e outras o tinham aprendido depois na vida, era mais que encanto. Mais que uma boa personalidade.

Ash tinha uma habilidade similar, só que empurrava às pessoas para ele, mas por uma razão inteiramente diferente. Uma que o fazia estar em guarda contra as pessoas constantemente para que não perdessem o controle de si mesmos.

O engraçado era que, Nick parecia imune a isso também. E por isso, Ash estava extremamente agradecido. Muito poucas pessoas não reagiam à maldição que sua tia lhe tinha dado no momento de seu nascimento. De fato, podia contar com os dedos de uma mão a quantidade de pessoas ao longo dos séculos que tinham sido imunes.

Há algo que não está bem com este menino.

Está sendo paranoico.

Estava?

Foste humano uma vez, também, sem conhecimento de seu verdadeiro nascimento ou destino. Outra maldição que lhe tinham dado, por sua família. Até seu vigésimo primeiro aniversário, não tinha tido nem ideia de que ele era um deus. Nenhuma ideia de que sua verdadeira mãe tinha sido uma Deusa Atlante da Destruição.

E quando seus poderes foram liberados, quase destruiu o mundo inteiro e tinha levado a humanidade à Idade de Pedra.

E se esse inocente menino, comendo o gumbo que Ash tinha restabelecido, era uma criatura como ele?

Está sendo estúpido.

Estava? Quando Ash havia sido humano nem sequer outros deuses foram capazes de detectar sua verdadeira natureza. Artemisa mesmo parou junto a ele e o tinha proclamado humano.

Estreitou seu olhar no moço. Os zumbis tinham estado aqui pelo Nick e só pelo Nick. Estava seguro disso. Não havia outra razão para que eles atacassem.

A única pergunta era por que…

 

Nick congelou em frente ao brilhante carro negro de Ash... Não, não era um carro. Era um alucinante Porsche 911 Turvo! Falando de batidas. Seu coração começou a bombear como um trem de mercadorias ante a perspectiva de conduzi-lo.

— Como pode ter um carro como este?

Ash lhe lançou um olhar de “duh”.

— Bom, escrevi um cheque com um valor enorme e então ocorreu a mais alucinante das coisas... O vendedor me deu as chaves e me deixou levar isso para casa. Foi como magia.

Nick lhe olhou furioso.

— Apenas eu posso ser sarcástico.

— Confia em mim, Nick. Tenho muito mais anos de prática nisto do que você. Agora pula para dentro.

—Pular? Tio perdeu a cabeça? Não posso tocar nisto. Poderia lhe deixar um arranhão ou algo.

— OH, que horror. Suponho que terei que trocar a peça por uma de sucata e conseguir uma nova se acontecer. Por certo, não respire sobre a tapeçaria ou terei que te estripar.

Ash subiu no carro sem perder tempo.

Inclusive se Ash estivesse brincando, Nick duvidou. Só tinha visto carros assim em pôsteres e na internet. O preço que marcava era mais dinheiro que o que sua mãe fazia em...

Quinze anos.

Pelo menos.

Havia pessoas que viviam em casas que custavam menos. Ele vivia em uma casa que provavelmente custava menos do que os aros desta coisa. Nossa, como seria possuir algo tão fino?

— Nick, entra. Não tenho a noite toda.

Mordendo o lábio, Nick tirou a sua camisa para não desmerecer a pintura negra com uma impressão de seu pé. Ash já tinha posto sua mochila no piso. Homem, esse sim era um belo carro. Com cuidado de não deixar um rastro do pé no interior de cor marrom, subiu e fechou a porta.

— É um camelo?

— Não — Ash deixou sair uma risada curta — Sou um mediador.

— Um o quê?

Ash pôs em marcha o motor, com a chave do lado esquerdo do volante. Quão estranho era isso?

— Organizo as pessoas.

— Que classe de gente?

— Gente como você. Cabeças duras. Teimosos. Irritantes e bocões.

Colocou uma marcha e pisou a fundo.

Nick agarrou a manivela da porta e se segurou como se sua vida dependesse disso, enquanto Ash atravessava o tráfego em velocidade supersônica.

— Relaxe, menino. Não vou bater este carro.

Nick não estava tão seguro sobre isso.

— Você gosta de conduzir rápido, verdade? Por certo, quantas multas lhe puseram?

Ash não respondeu. Provavelmente foi o melhor já que Nick não queria acabar como um adorno na capota do veículo de alguém mais. Quão último precisava era distrair Ash enquanto conduzia a essa velocidade endiabrada.

Ou tratar de fazê-lo, de algum jeito.

Nick se encolheu quando Ash abriu passo entre dois carros enormes.

— Gah, seus pais sabem como conduz? E onde conseguiu sua carteira, de toda maneira? O Especial da Luz Azul em Kmart[23]?

Ash riu.

— Quem diz que tenho carteira?

Nick deixou escapar um gemido de alarme.

— Relaxe, Nick. Recorda, tenho poderes do Jedi malvado. Nada vai nos tocar.

Trocou de marcha e saíram disparados como uma bala.

— Acredito que eu me veja melhor com os zumbis. Paraaaaaaaaaaa...

Poderia jurar que o carro realmente se elevava para evitar ser tirado da estrada ao se chocar com outro carro.

Se... certamente eram poderes do Jedi malvado.

Olhou para o Ash, que conduzia na escura noite ainda com os óculos de sol posto.

— Como conseguiu esses poderes?

— Foi um presente por meu Vigésimo Primeiro aniversário.

— É tão velho?

Nick teria jurado que não era maior de dezoito ou dezenove anos.

Ash riu outra vez.

— Sou algo mais velho que isso.

— Assim, o que fez por esse presente? Vender sua alma ou algo?

O humor abandonou sua cara.

— Algo assim.

Isto estava ficando bom. Nick teria matado por ter os poderes que Ash tinha.

— A quem a vendeu? Ao diabo?

Agora, com qualquer outro, essa teria sido uma pergunta estúpida, mas já que Nick tinha visto o que Ash podia fazer, soube que tinha que ter tirado de algum lugar, e não do Wal-Mart da cidade.

Ash fez uma pausa antes de responder à pergunta do Nick. Não gostava de falar ou sequer pensar sobre seu passado por muitas razões. Mas que ele pertencia a alguém, era algo não muito secreto, já que a maioria das pessoas que conhecia tinham vendido suas almas à única pessoa que podia lhe controlar a ele.

— Sou propriedade de uma deusa, Nick.

— Qual?

— Artemisa. Ouviste algo sobre ela?

Nick arranhou a orelha.

— A deusa grega da lua, não?

— A lua está associada a ela, mas Selene é a verdadeira deusa da lua. Artemisa é a deusa da caça.

— E o que caça?

— Na maioria dos dias, a mim — disse Ash baixo. Esclarecendo a garganta, falou mais alto —. Está basicamente retirada. A maioria dos deuses antigos só é real quando são venerados por fiéis.

— A maioria?

Se, alguns, como Acheron, não necessitavam fiéis para recarregar seus poderes. Eles eram os realmente perigosos porque seus poderes nunca diminuíam. E infelizmente, Artemisa podia e se aproveitou de seus poderes quando lhe convinha. Mas felizmente para o mundo, não lhe importava utilizá-los exceto, contra o mesmo Acheron.

Quando não o esclareceu, Nick fez outra pergunta.

— É um dos fracos?

— Nunca disse que era um deus.

Mas de algum jeito Nick parecia haver sentido que era. Outra coisa que o fazia diferente de qualquer outro.

Nick se calou enquanto digeria os comentários de Ash. Este não havia dito, mas havia algo sobre ele tão realista que quase podia senti-lo na medula de seus ossos. Se não era um deus antigo, era algo...

Que se equiparava a isso.

— Bom, já sabe, não tem que me contar o que é Ash.

—Só pensa em mim como um capitalista imortal e irá bem.

Nick arqueou uma sobrancelha quando se centrou em uma palavra em particular.

— Imortal?

— Sim.

— Assim, quão velho é? Realmente? — Devia ser muito antigo — Duzentos, trezentos anos?

Ash lhe dedicou um sorriso irritado.

— Sobre onze mil.

Nick abriu a boca com incredulidade. Não era possível. Ele não podia acreditar que fosse certo.

— Merda!

— Vigia sua língua, menino.

— Certo. De maneira nenhuma. Nem sequer existia gente nessa época. Está brincando comigo.

Ash negou com a cabeça.

— Posso lhe assegurar isso, existíamos. Inclusive me tratava de você a você com alguns deles.

Nick permaneceu imóvel enquanto o assimilava e tratava de imaginar o mundo do qual Ash poderia vir. Como teria sido a gente desde então?

Era só que Ash estava cheio de merda?

— Não está brincando, não? — Perguntou Nick.

— Mortalmente sério.

Ainda não podia acreditá-lo. Podia a gente realmente ser imortal? Tinha visto filmes e lido livros, mas...

— Como? É um vampiro ou algo? O que é o que te faz imortal?

— Um DNA realmente bom.

Nick rodou os olhos. As respostas evasivas de Ash começavam a lhe irritar. Queria uma resposta e a queria agora.

— OH, vamos. Tenho que saber quem faz o vodu que você faz. Mais que tudo, quero saber como me tornar imortal... bom, não a minha idade, porque isso seria um asco. Mas dentro de uns anos, quando estiver terminado a escola seria meu melhor momento —sorriu para Ash —. Torne-me imortal.

Ash não estava encantado.

— Olhe, Nick. Eu não gosto de falar de meus poderes e não são muitas pessoas que sabem o que posso fazer. Estou te confiando um segredo e espero que o mantenha. Se não puder... — deixou cair a cabeça como se estivesse olhando sobre o bordo de seus óculos de sol —. Bom, estou seguro de que sua mãe sentirá falta de você.

— Nem a metade do que eu sentiria falta dela, se me matar — piscou os olhos como uma garota e se inclinou para o ombro do Ash —. Por favor, não me faça mal, Ash. Por favor. Não quero morrer sendo virgem. Ao menos deixe jogar um pó antes que me mate... o que, de acordo com o que diz minha mãe, não posso fazer antes de me casar, e isso não posso fazer antes de terminar a universidade. Assim terá que esperar uns bons dez anos antes de acabar comigo. Trato feito?

Ash lhe empurrou de volta a seu lado do carro.

— Não está bem, verdade?

— Sim, sei. Foram todas essas lascas de tinta que comi quando criança. Estavam boas, mas eram cromossomicamente prejudiciais.

Ash deixou sair um suspiro audível enquanto se obrigava a não rir pelas palhaçadas de Nick. Estava começando a gostar do pirralho mais do que deveria. Havia algo com ele, que era infeccioso.

— Dez anos, huh?

— Sim, poderá me matar quando tiver vinte e quatro, sempre que já não seja virgem, mas nem um dia antes disso.

— De acordo. Trato feito... sempre que poder manter a boca fechada.

— Boca fechada com pregos, senhor.

— Mas quando tiver vinte e quatro... —Ash deixou que sua voz se desvanecesse pouco a pouco.

— Sou todo teu, querido.

Ash negou com a cabeça.

— Não te intimido nem um pouco, verdade?

— Bom, quando me perseguiu pela casa do Kyrian, molhei um pouco minhas calças. Acredito que no final, não sou um nivelador. Minha mãe estaria decepcionada depois de tudo o que teve que acontecer para me ensinar a utilizar o penico. Mas uma vez que me deixa viver... comete um grande engano... agora sei que pensa que sou muito macaco e adorável para me matar.

Era realmente difícil agitar-se com alguém com esse senso de humor. E com toda sinceridade, era agradável estar com uma pessoa que não tratava de provar-se a si mesmo, molhar-se ou tomar partido. Tinha passado muito tempo da última vez que alguém, que sabia que não era humano, tratava-lhe como um.

— É bonito e adorável, mas nunca se esqueça, guri, que sou um carnívoro de um tempo e um lugar onde tínhamos que matar e esfolar nossa comida para poder comer.

Os olhos do Nick se abriram como se tratasse de imaginar Ash vestido como um cavernícola gótico com uma tanga negra tachada perseguindo tigres dentes de sabre e matando-os com uma lança. Tinha tigres dentes de sabre naquela época? Tinha tanga ou caçavam nus? Merda, seus professores tinham razão. Esse lixo corriqueiro podia ser útil.

Mas esse não era o ponto dessa conversação. Nem o ponto que Ash estava contando.

— Você gosta de assustar as pessoas, verdade?

— Tanto como você gosta de lhes incomodar e pela mesma razão.

Fazer isso evitava que as pessoas se aproximassem muito. Nick o fazia para que outros não pudessem zombar dele ou para que, quando o fizessem, não doesse tanto.

Do que estava Ash tratando de se proteger? Era definitivamente algo sobre o que pensar.

Ash se deteve na curva frente à casa do Nick, que parecia ainda mais em ruínas depois de estar no bairro do Kyrian.

Para crédito de Ash, não reagiu de maneira nenhuma ante a desmantelada casa.

Nick assobiou por baixo quando viu duas pessoas na rua pararem e olhar para o carro.

— Homem, meus vizinhos devem estar flutuando. Primeiro um Lexus vem me pegar e agora me deixam em um Porsche. É um milagre que não estejam chamando as autoridades de Nova Orleans para denunciar atividades suspeitas.

Ash se esquivou enquanto apagava o motor.

—Acredito que os AOP têm coisas mais importantes para se preocuparem esta noite do que sobre os carros que vão a sua casa.

Nick franziu o cenho ante a palavra que não entendia.

— Os AOP?

— Agentes da ordem pública.

—Ah... um anagrama.

—Acrônimo — corrigiu Ash.

Mas esta vez, quando falou, seu acento era muito marcado com a primeira parte da palavra saindo do mais profundo da garganta... como um grunhido. Era um som realmente genial.

— Espera... diz essa palavra outra vez.

— Acrônimo.

E puf, Ash agora soava como qualquer outro da rua.

— É incrível que possa te desfazer de seu sotaque. Como o faz?

— Muita prática. Agora se não se importa, preciso te colocar para fora para poder voltar para meus assuntos.

— O que são?

— Mediar com pessoas... coisa que, agora mesmo, é você. Fora, Nick.

Nick abriu a porta e saiu do carro. Ash agarrou sua mochila e lhe seguiu pela curta e desmantelada passarela que estava coberta de erva e cheia de calhaus.

Sem mencionar um montão de baratas que se dispersavam a seu passo. Algumas delas corriam sob a planta que Bubba lhe tinha enviado.

Tratando de não pensar nas baratas, Nick logo que atravessava a porta de sua casa quando sua mãe a abriu de repente e o atraiu a um forte abraço.

—Braço! Braço! Braço! — Disse rapidamente quando lhe fez mal.

Soltou lhe imediatamente.

— Sinto muito, querido. Estava tão assustada que, quando te vi... poderia te deixar o traseiro azul a açoites, menino. Não se atreva jamais a me preocupar assim outra vez. Ouviu-me?

Nick esfregou a mão contra o braço ferido, que ainda lhe doía pelo abraço.

     —Sabe? Ouvi que têm medicação para essas mudanças de humor drásticas, MA. Possivelmente consideraria a possibilidade de tomar alguns?

Ela se esquivou dele.

— Não se atreva a te pôr palhaço comigo depois do que me tem feito passar hoje. Tem sorte de não estar de castigo pela vida toda por esta estupidez. Se estivesse em qualquer outro lugar que não fosse seu trabalho, estaria.

Girou para a porta para fechá-la e congelou quando viu Acheron no alpendre. Sua cara empalideceu quando advertiu seu tamanho.

— Está tudo bem, mãe. É um amigo do Senhor Hunter que me trouxe para casa.

Acheron levantou a mochila do Nick para que ela a visse.

— Só estava carregando isto por ele, Senhora Gautier. Perdão se a assustei.

Sua mãe sorriu como se percebendo que estava embevecida.

— Está bem. Eu só...

Ash sorriu.

— Sim, sei. É o problema da altura e as roupas. Tendo a aterrorizar muita gente.

Sem mencionar essa aura letal que crepitava no ar a seu redor. Mas Nick começava a acostumar-se a isso.

— Trabalha também para o Senhor Hunter? — Perguntou sua mãe.

Ash deixou sua mochila no chão.

— Não, senhora. Só somos velhos amigos.

Ela sorriu.

— Não parece o suficientemente velho para ter velhos amigos.

Nick soprou ao ver que ela tinha assumido o mesmo que ele.

— Confia em mim, mãe, é muito mais velho do que parece.

— Bom, obrigada por trazer meu bebê para casa. Agradeço-lhe isso.

— Não há problema — Acheron se girou para o Nick — Mantém seu nariz longe de problemas, menino. Vemo-nos por aí.

— Obrigado, Ash.

Inclinou a cabeça antes de ir-se.

Sua mãe fechou a porta com fecho e afastou a mochila de Nick da soleira para não tropeçar com ela.

— É um pouco peculiar, verdade?

— Não sabe nem a metade.

— Assim, como foi em seu primeiro dia com o Senhor Hunter?

— Tudo bem.

Além dos zumbis, a loucura de Rosa e Acheron, mas não havia necessidade de aterrorizá-la completamente. Só um deles precisava assustar-se no momento.

— Bem. Agora será melhor que me prepare para trabalhar.

Dirigiu-se ao seu quarto. Nick atirou dela para pará-la.

— Não creio.

— A que te refere?

— Refiro-me, a que quero que se demita esta noite.

Suspirando, retorceu o braço para soltar-se de seu agarre.

— Deixa de besteira, Nick. Sabe que não posso me retirar. Necessitamos do dinheiro.

—Não, mãe, de verdade. O senhor Hunter vai me pagar quatro mil, ao mês para trabalhar para ele.

Sua mandíbula caiu enquanto seus olhos se estreitavam com raiva.

— Fazendo o que?

— Recados, como ele disse.

— OH não, não, não. Não vou aceitar nada disso. Ninguém paga essa quantidade de dinheiro por pegar recados legais. Quero que renuncie amanhã na primeira hora.

— Não, mãe. É tudo legal. Prometo-o.

Ela ainda se negava a acreditar.

— Não, por essa quantidade de dinheiro não é. Por que classe de idiota me toma? Não nasci ontem. Eu...

— Mamãe, escuta. Por favor. Ele é mais rico do que jamais tenha visto antes. Ash me contou que Kyrian pensa que ainda não me paga o suficiente. O tipo não tem ideia do muito que me está pagando. De verdade.

— Ninguém está tão rico para soltar quarenta e oito mil dólares, Nick, só para pegar recados.

Um dia atrás, teria estado de acordo com ela. Mas depois de hoje... por alguma razão acreditava no Kyrian e em suas intenções.

— Sim, está-o. Confia em mim. Vi a casa e nunca viu algo como aquilo. Assim, pode sair da boate. Ganharei o suficiente trabalhando a meia jornada para que não tenha nada mais que fazer, que ficar em casa.

Justo como sempre tinham sonhado.

Sua mãe duvidou.

— Não sei.

— Por favor, mãe. Confia em mim.

Seus rasgos se suavizaram quando lhe acariciou a bochecha com a mão.

— Vou dizer o que faremos. Trabalhará para ele um par de semanas e depois de que tenha seu primeiro cheque, já veremos, de acordo?

Nick franziu o lábio quando se deu conta de sua tática. Estava o calando e não estava escutando nenhuma só palavra do que lhe dizia.

— Por que não acredita em mim?

— Acredito que o subestima.

— Não o faço.

Tirou-lhe o cabelo da cara.

— Já veremos, Nick. Já veremos.

Deus, odiava esse tom que usava. Era muito condescendente e o que realmente estava dizendo era que ele não tinha nem ideia do que estava dizendo. Não era estúpido.

O que fosse. Estava muito aborrecido para seguir discutindo, quanto era obviamente inútil.

Ela foi se vestir.

— Deixei ovos e queijo no forno, se por acaso tem fome.

Nick se encolheu com suas palavras. Deveria haver pensando em lhe trazer um pouco do gumbo de Rosa. Não deveria haver-se esquecido dela.

Na próxima vez...

— Estou cheio se por acaso quiser mais. A governanta do Kyrian me deu de comer faz uma hora ou assim.

— Estava bom? — disse ela, da sua habitação.

— Sim.

Ela colocou a cabeça pela porta.

— Melhor que minha comida?

Tinha começado a dizer que sim, o que era verdade, mas o instinto de sobrevivência apareceu. Tinha cometido o engano de dizer que Menyara fazia melhores bolachas uma vez e sua mamãe não o tinha tomado bem.

— Não. Ninguém pode se igualar a seu gumbo.

Piscou-lhe o olho antes de fechar a porta. Nick suspirou com alivio por ter passado sobre o campo de minas sem que lhe chutassem o traseiro. Não passava muito frequentemente essas provas. Estou melhorando nisto de tratar com mulheres. Hoje sua mãe. Amanhã uma namorada de verdade... Como Kody.

Deveria ligar para ela? Já que não a tinha visto no colégio, ainda tinha seu Nintendo no bolso. Sabe que não tem seu número. OH, sim. Isso era um problema. Era a primeira coisa que tinha que arrumar amanhã quando fosse ao colégio. E, desta vez, não fugiria. Realmente lhe pediria para ir tomar café com ele. Nick se dirigiu ao balcão e agarrou seu desgastado exemplar do Hammer's Slammers, e foi ler em seu quarto. Não tinha feito mais que abrir a página por onde o tinha deixado a noite anterior quando sua mãe retirou o lençol.

— Vou indo. Quer algo antes que vá?

— Estou bem.

— Certo. Mennie disse que viria mais tarde para te dar uma olhada. Voltarei pouco depois de que amanheça.

Nick baixou o livro enquanto pensava que ela teria que tomar a estrada para ir ao trabalho e voltar quanto mais zumbis podia estar nas ruas. Sua mãe logo seria um aperitivo para eles.

— Importa-te se for contigo ao trabalho hoje?

— Precisa descansar.

— Sim, mas com toda esta loucura de m... — parou antes de dizer algo pelo que ela lhe jogasse em cima — ...movimento passando, sentiria-me melhor se não fosse por aí sozinha.

Um leve sorriso se estendeu em seu belo rosto.

— Vai ser meu protetor?

— Esse é meu trabalho, não?

— De acordo. Agarra uma jaqueta e direi a Mennie.

Nick fez como lhe ordenou. Não lhe deixava ir ao clube muito frequentemente em dias de aula, mas realmente sentia o que acabava de dizer. Não gostava que sua mãe estivesse sozinha lá fora. Nova Orleans podia ser perigosa em suas melhores noites, e já que ela era tudo o que tinha...

Protegeria-a com cada sopro de vida de seu corpo.

Quando teve a jaqueta sobre seu braço machucado e alcançou a entrada, Mennie já estava lá fora com ela.

— Por que não leva meu carro, chèrie?

Sua mãe duvidou.

— Sabe que eu não gosto de ser responsável pelas propriedades de outros. Além disso, é muito difícil e caro estacionar no Bairro Francês. E Bourbon Street está fechada para o tráfico.

— Então estaciona no Royal. Por favor, Cherise, ia me sentir melhor se não estivessem os chutando as ruas, às tantas da madrugada, os dois sozinhos. Pensa no pobre Nicky.

Sua mãe o olhou, antes de assentir.

Menyara lhe estendeu as chaves e logo beijou o Nick na bochecha.

— Cuida de sua mãe.

— Sempre.

Sua mãe lhe sorriu.

— Deixarei-te as chaves no mostrador para que possa as recolher pela manhã.

— Parece-me bem.

Sua mamãe girou e se dirigiu abaixo das escadas onde o Taurus de cor azul escura esperava junto a seu desmantelado Jugo vermelho que necessitava reparações que não se podiam permitir agora mesmo. Nick entrou primeiro. Era estranho estar no carro de Mennie sem ela. Normalmente só entravam nele quando se aproximava um furacão e precisavam evacuar a zona, e seu carro estava quebrado.

Ou quando Nick necessitava que lhe dessem pontos.

Sem querer pensar nisso, colocou o cinto enquanto sua mãe punha em marcha o carro.

Revolveu-lhe o cabelo.

— Sabe? Já que tenho o carro, pode ficar em casa.

—Não. Ainda tem que caminhar desde o Royal ao Bourbon.

Ela negou com a cabeça.

— Meu pequeno e bravo bulldog.

— Sou maior que você.

— Mas eu sou mais má.

Sempre dizia isso, mas não era verdade. Sua mãe era a pessoa mais amável que jamais tinha conhecido. Era uma das razões pelas quais era tão protetor com ela. De muitas maneiras, ainda era uma mulher de olhar inocente que só via o bem nas pessoas.

E impossível de acreditar, mas inclusive defendeu a seu pai quando não havia nada absolutamente nada, de bom, que dizer sobre esse homem. Era o diabo personificado.

Fechando os olhos, escutou a gravação de zydeco soando na rádio do carro. Isso e Elvis eram as músicas favoritas de sua mãe. Zydeco, dizia, porque falava de suas raízes Cajun. Elvis porque lhe recordava quando era uma menina pequena e jogava com suas primas e sua irmã. Ao parecer estavam acostumados a brincarem juntas para imitar o Elvis. E esse pensamento lhe fez fazer uma careta quando a canção de Molho Nixon — Elvis is Everywhere — começou a ressonar em sua cabeça... tinha levado dias para conseguir que isso deixasse de lhe torturar.

E não tinha sentido que tratassem de imitar ao Elvis porque todas eram garotas, mas a última coisa que queria era impor prudência em algo, especialmente depois do dia que tinha tido.

Alcançaram a Royal Street e estacionaram a duas quadras do clube. Nick saiu e escaneou a rua onde havia turistas passeando, alguns parando para jogar uma olhada nos antiquários e as joalherias que se alinhavam na rua. Estavam apenas a umas quadras da loja da Liza. Deveria estar fechando agora mesmo e fazendo caixa, para fazer o ingresso.

Acompanhou a sua mãe ao clube, e logo duvidou na porta traseira quando ela chamou para que a deixassem entrar.

— Importa-te se for ver a Senhorita Liza?

O olhou com suspeita.

— De verdade é isso o que vais fazer?

— Prometo. Eu não gosto que ela vá levar o dinheiro sozinha no banco.

Sua mãe lhe beijou na bochecha.

— Não sei como criei um filho tão bom. Vai, mas não demore muito.

— Não demorarei — inclinou a cabeça para o John, quando ele deixou passar a sua mãe, e logo desfez seus passos de volta ao Royal Street em direção à loja de bonecas.

Tal e como tinha pensado, Liza estava no mostrador guardando a máquina de cartões de crédito. Olhou para cima e lhe sorriu quando chamou à janela.

Cruzando a loja, aproximou-se da porta para deixá-lo entrar.

— Bom que surpresa. O que faz aqui, querido?

— Vim ao trabalho com minha mãe e só queria ver se necessitava que te acompanhasse ao banco.

Ela olhou a porta atrás dele.

— Que amável de sua parte e sim, eu adoraria ter companhia. Já estou quase acabando. Quer um chá ou algo, enquanto termino?

— Tem bolachas?

— Sempre.

Nick a rodeou para ir à parte traseira onde, normalmente, guardava suas bolachas recém-assadas. OH sim, isso era ao que se referia...

Não sabia o que punha nelas, mas se desfaziam em sua boca e lhe deixavam com vontades de comer seu peso em bolachas.

— Por certo — disse enquanto agarrava um punhado —, obrigado por me enviar algumas ao hospital. Fez com que o dia fosse perfeito.

— Não se merecem Senhor Gautier. Foste já a ver o Kyrian?

— Estive lá antes? — Saiu da habitação para ir com ela depois do mostrador — Conheci seu amigo chamado Ash Pathen... algo que não posso pronunciar.

Ela ficou completamente imóvel.

Nick se perguntou o que significava isso.

— Você também lhe conhece?

— Conheço-lhe — colocou os recibos no sobre azul que utilizava para fazer os depósitos bancários.

— Alguma ideia do que significa seu sobrenome?

— Com o major dos respeitos — lhe piscou um olho—. É Pahr-thin-oh-pay-us. Ack-né-rum Pahr-thin-oh-pay-us.

— Sim, senhora, isso é uma palavra. Não acredito que queira saber como se pronuncia. Pode imaginar tratando de aprender isso na creche? E eu pensava que Gautier era difícil. Tinha quase dez anos quando deixei de pôr uma “s-h” nele.

Ela riu.

Nick tinha acabado a última de suas bolachas, quando ela alcançou sua jaqueta. Encolhendo-a, foi programar o alarme enquanto ele esperava junto à porta. Logo que começou a apitar, fez-lhe sair e jogou o fechamento.

Liza rodeou com os braços, seu braço bom.

— Sabe? Sentia falta destes passeios contigo. Há alguma possibilidade de que te sequestre quando estiver com o Kyrian?

— Tem que falar com ele, sobre isso. Já que pagou o hospital, sou seu de algum jeito.

— Estou certa de que pagamento melhor, também.

— Um pouquinho. Mas não me faz bolachas com pedacinhos de chocolate.

Rindo, pararam no BANCO 24 HORAS e ela fez o deposito. Nick a escoltou de volta ao seu carro e se despediu enquanto subia e lhe deixava na rua frente a sua loja. Estava a ponto de dirigir-se de novo ao clube quando ouviu um ruído estranho saindo do beco que havia entre a loja da Liza e a seguinte.

Parecia um cão.

Não, era o mesmo som que tinha ouvido fora da casa do Kyrian, fazia um momento. O som de zumbis, lhe caçando.

Um vento gelado soprou contra sua pele e podia jurar que o céu se obscureceu.

Todas as luzes da rua se apagaram ao tempo que muitos alarmes de carros se apagavam.

— Mas, o que...?

Algo saiu do beco tão rápido que nem sequer pôde identificá-lo, quando investiu contra ele e lhe atirou de costas.

 

Golpeou-o com força no peito e o derrubou. Rodando, ficou em pé, preparado para lutar, apesar de que o ombro lhe pulsava novamente.

Maldição, alguma vez deixaria de doer?

Fez-lhe um nó no estômago ao reconhecer Stone. Em um primeiro momento pensou que Stone era um zumbi, mas ao lhe olhar, compreendeu que realmente estava...

Tão normal como Stone poderia estar. O que em realidade não dizia muito.

— O que está fazendo? — Nick forçou a si mesmo a deter-se e não deixar voar o insulto particularmente desagradável que lhe picava na língua. Mas não daria a Stone a satisfação de lhe fazer saber como isto lhe tinha abalado.

Stone se pôs a rir, empurrando Nick para trás.

— Estas assustado garotinha?

De acordo, luvas fora.

— É um idiota épico. — Stone lhe agarrou em um apertão tão feroz que não parecia humano.

— Vou te fazer tragar essas palavras, Gautier. Junto com seus dentes.

Nick tratou de liberar-se. Stone incrementou a pressão sobre o pescoço até que a visão começou a embotar-se e os ouvidos a zumbir.

Que tipo do Vulcão, arte kung fu da morte estava usando? Nick era como um cachorrinho que alguém tinha agarrado pelo cangote. Seu corpo terminou por ficar lasso, e não podia fazer outra coisa que se pendurar nas garras do Stone.

Era muito vergonhoso e lhe incomodou seriamente.

— Deixa-o ir, Stone. Agora. — O agarre de Stone se esticou quando Caleb Malphas saiu das sombras. O quarterback e estrela da equipe de futebol de sua escola, Caleb tinha todo o poder e a popularidade que Stone ansiava.

E por sorte nada da estupidez ou a crueldade do Stone. Stone empurrou Nick para longe.

— Estava me divertindo com ele.

Caleb penteou seu cabelo escuro para trás, apartando-o do rosto, mostrando simplesmente quão perfeito eram realmente seus traços enquanto olhava Stone com malícia.

— Sério? Bom, por que não vai antes que decidida passar um bom momento contigo?

Stone estreitou o olhar.

— Não estamos na escola, Malphas. Não sou a mesma pessoa aqui, que sou quando estou lá.

Caleb invadiu seu espaço pessoal. Ficou tão perto, que seus narizes quase se tocavam.

— Eu tampouco o sou, Blakemoor. Confia em mim, o animal em ti não é rival para meu demônio interior. Agora saia daqui antes que te demonstre o que posso fazer contigo sem as proteções do futebol para amortecer meus golpes.

Torcendo o lábio, Stone piscou e deu um passo atrás. Pousou um olhar desdenhoso sobre Nick lhe prometendo um novo Round na próxima vez que Caleb não estivesse ali para interferir.

— De todos os modos, não é digno de conseguir que me rebente os nódulos.

Com um último fulgor mal-humorado, colocou as mãos nos bolsos e cruzou a rua.

Nick olhou o vândalo.

— É melhor se alegrar que eu esteja com o braço em uma tipoia. Do contrário, faltar-lhe-iam alguns dentes... cara de bunda.

— É esse o melhor insulto que pode fazer?

Nick voltou sua fúria para o Caleb.

— Quer prová-lo?

Caleb se se pôs a rir.

— Eu gosto de seu espírito, Gautier. É uma pena que não esteja em minha equipe ainda.

Nick franziu o cenho ao notar que Caleb falava de algo distinto ao futebol.

— O que está fazendo aqui?

— Estava no caminho a Triplo B. É quase hora da aula de Mark e Bubba, Defesa e Execução de Zumbis. É a coisa mais entretida desde essa vez que Stone se prendeu fogo na classe de química.

Nick riu ao recordar. Stone tinha tentado impressionar Casey, quando derramou um copo cheio de algo muito inflamável que tinha estourado e lhe queimou a manga. Infelizmente, a senhora Wilkins tinha sido rápida com o extintor e tudo o que Stone tinha perdido eram suas sobrancelhas e um pouco de dignidade.

A metade da classe tinha estado rogando por um Freddy Krueger para Stone, mas a sorte não tinha estado de seu lado e ele tinha sobrevivido para seguir sendo um autêntico pesadelo para todos eles.

— Quer vir conosco? — perguntou Caleb.

Apesar do divertido que soava, vacilou.

— Supõe-se que devo retornar para o trabalho de minha mãe. — Porque decididamente lhe mataria se não o fazia.

— E as Receitas “Mata Zombies” do senhor Bubba? Vamos, Nick, sabe que tem que ver isto. É imprescindível ver entretenimento a uma escala infinita de épica imponente. —Caleb tirou o telefone e entregou a ele —, liga e pergunte se pode ir.

Nick não estava tão seguro disto. Caleb não tinha sido exatamente amigável com ele estes últimos anos. De fato, basicamente lhe tinha ignorado.

Por que se preocupa se ele ia ou não? A menos que se tratasse de uma sacanagem como quando o belo menino pediu a Carrie White para ir ao baile de graduação só para que pudessem sujá-la com sangue e rir dela.

Sim, pareceria uma idiota com um vestido de ornamento. Pior ainda, não tinha os poderes psíquicos para lhes devolver o ataque.

Caleb franziu o cenho.

— O que está esperando?

Que um relâmpago lhe golpeasse, porque sejamos sinceros, era muito mais provável que isso acontecesse do que o menino mais popular da escola lhe convidasse a ver um infame Bubisodio[24].

— Por que é tão legal comigo?

Um sorriso malicioso curvou os lábios de Caleb.

— O inimigo de meu inimigo é meu amigo.

— Quem é seu inimigo?

Caleb encolheu os ombros.

— Não acreditaria em mim se lhe dissesse isso... e sei o que está pensando. Como pode um tipo tão popular como eu ter inimigos ou problemas, verdade?

Sim, basicamente.

— Não tive notícias, de que tenha sido estampando contra as bilheteiras de ninguém ultimamente.

— Isso é porque não está ao meu redor todo o tempo. Confia em mim. A vida não é fácil para ninguém. Todo mundo tem cicatrizes que lhe dá medo mostrar e a todos nos batem a cabeça contra o habitual armário de vez em quando por alguém maior e pior.

Claaaro. Estava mais que seguro que a ideia do Caleb de um mau dia não era um páreo para ele.

— O que? Seus pais não lhe permitem sair a conduzir o novo carro de sua mãe ou esqueceu-se de dizer à criada que arrumasse seu quarto?

Caleb não respondeu a seu sarcasmo.

— Vai ligar para a sua mãe ou não? Não vou suar a gota gorda, de qualquer maneira só estou tratando de ser amistoso.

Juro que se me empaparem com sangue de porco, depois irei atrás de ti com uma tocha. Tomando o telefone da mão do Caleb, Nick marcou o número do clube.

Tiffany respondeu no sexto toque.

— Hey Tiff! Nick. Minha mãe está perto?

— Claro, docinho, espera.

Enquanto que Nick esperava a que sua mãe atendesse ao telefone, Caleb foi olhar uma das cristaleiras. Ainda não estava seguro de por que Caleb estava disposto a fazer isto. Embora conhecesse Caleb, nunca tinham saído juntos. Caleb tinha chegado à escola não muito depois que Nick o tivesse feito, Caleb realmente não lhe tinha dirigido a palavra exceto em contadas ocasiões. Para lhe dizer que movesse seu traseiro vândalo para que Caleb pudesse chegar ao seu armário.

Um solitário extremo, apesar de ser popular e jogar na equipe de futebol, Caleb ignorava a maioria das pessoas. Ninguém sabia muito dele. Nunca falava de sua vida no lar ou seus pais. Se alguma vez alguém fizesse uma pergunta sobre isso, mudava de tema. Mas era óbvio por sua roupa e a que seus pais usavam que tinham mais dinheiro que a maioria, e os rumores em torno da escola diziam que seu pai era um dos homens mais ricos da cidade.

É obvio, os rumores também alegavam que Caleb era um ex-sentenciado que havia aprendido a jogar futebol juvenil. Um dos rumores chegou a afirmar que tinha matado a seu pai e logo vendido seu fígado no mercado negro.

Dado o que Caleb havia dito há um momento, Nick imaginava como devia ser sua casa. Por que outra coisa um homem com sua aparência, dinheiro e popularidade estaria vagando pelas ruas a caminho de ver dois loucos dar lições sobre a luta contra criaturas inexistentes? Então outra vez... depois de tudo o que tinha ocorrido hoje, os zumbis não eram tão fictícios, afinal.

— Nick? Está bem? — perguntou sua mãe quando atendeu ao telefone.

— Estou bem. Só estou a um par de quadras de distância. Deixei a Liza e me encontrei com um amigo da escola na rua…

— Olá, senhora Gautier — disse Caleb sobre o telefone.

Nick lhe ignorou.

— É Caleb Malphas. Queria saber se poderia ir com ele à loja da Bubba e assistir a uma de suas aulas.

— OH Senhor, O que é o que ensina esta noite?

— Sobrevivência Zumbi.

Sua mãe deixou escapar um suspiro de cansaço.

— Vai haver dinamite outra vez?

— Duvido-o. A ATF[25] foi bastante estrita depois do último incidente. Em qualquer momento podem aparecer as autoridades, pelo que o general Bubba leva com calma durante um tempo.

— E quanto tempo vai durar? — perguntou ela.

Olhou para Caleb.

—Quanto tempo levará?

Caleb esboçou um sorriso malicioso.

— Supõe-se que é uma hora, mas o normal é que Bubba ou Mark tenham uma lesão séria aos trinta minutos e temos que parar e correr ao hospital. Às vezes voltam se podem entrar e sair da sala de emergências o suficientemente rápido ou as queimaduras não são muito graves, a maioria das vezes se termina antes do tempo. Entretanto eu diria uma hora, o motivo é que nós precisamos ter em conta o tempo que se demora a deixar de rir com tanta força para poder caminhar de novo. — O triste era que Caleb não brincava.

— Por volta de uma hora, mamãe.

— E não estará sozinho?

— Não, mãe. Caleb está comigo e ele é um tipo grande.

— Que idade tem?

Nick apertou os dentes em sinal de frustração. Por que tinha que jogar a este jogo com ela todo o tempo quando era só questão de um simples sim ou não? Demônios, sua mãe deveria ter sido advogada.

— Quantos anos você tem?

Caleb se deteve como se tivesse que pensar nisso.

— Quinze.

— Quinze — repetiu Nick no telefone.

— O que fazem seus pais para ganhar a vida?

Esta vez, seu temperamento saltou e falou antes de conseguir conter-se.

— O que importa isso?

— É importante para mim e se quer ir, quero uma resposta.

Nick rodou os olhos ante a resposta que crispava até seu último nervo.

— O que fazem seus pais?

Havia um estranho olhar no rosto do Caleb. Quando falou, seu tom era completamente estoico.

— Meu pai é um agente da bolsa e minha mãe é sua eterna e absolutamente disposta concubina que lhe vendeu a alma para comprar o equivalente de um Ferrari.

Nick deixou escapar um comprido suspiro. Caleb definitivamente tinha uma habilidade especial com as palavras.

— Seu pai é um corretor da bolsa.

— Sua mãe?

— Ela é dona-de-casa.

Sua mãe vacilou antes de continuar lhe interrogando.

— É um bom menino?

— Não, mamãe, é o Satanás em pessoa. Para falar a verdade assim que terminarmos, vamos nos embebedar e nos tatuar, depois encontraremos uma hospedaria barata e vamos passar um bom momento com seu fundo fiduciário.

Caleb se pôs a rir. Sua mãe, entretanto, não compartilhava esse senso de humor.

— Não use esse tom comigo, Nick Gautier. Proibir-te-ei de sair de casa até que esteja velho e cinza. Agora responde a minha pergunta.

Ela alguma vez apreciaria seu sarcasmo?

Ao dar-se conta de que tinha que comportar-se bem, Nick mudou a atitude no tom.

— Sim, é um bom menino. Nunca se colocou em problemas na escola e está no quadro de honra. É o capitão da equipe de futebol. Todo um Psicopata assassino em série que esconde os corpos no refrigerador cada vez que seus pais saem da cidade.

Bom... ele tinha tratado de eliminar todo o sarcasmo. Coisa que, para ele, era uma tarefa impossível. Caleb voltou a rir, logo se inclinou para falar a fim de que a mãe do Nick lhe ouvisse.

— Também como bebês para tomar o café da manhã e torturo animais pequenos para me divertir. Entretanto meu terapeuta diz que estou fazendo verdadeiros progressos.

Sua mãe respondeu com uma nota aguda.

— Meninos não se façam de engraçadinhos comigo.

Nick sorriu para Caleb.

— Mamãe, nós sentimos muito, não pudemos resistir.

Ela falou com seu chefe e logo voltou com o Nick.

— Muito bem. Pode ir, mas te quero aqui em uma hora.

— Sim, mãe. Estarei ali.

— Amo você, bebê.

Nick sentiu que o rosto lhe punha vermelho brilhante enquanto se afastava de Caleb.

— Eu também te amo - disse em voz baixa. Logo pendurou o telefone e o devolveu ao Caleb —. Não quero te ouvir dizer nenhuma merda sobre isso.

Caleb levantou as mãos.

— Não se preocupe. Quisera eu ter uma mãe a quem pudesse amar. A minha é uma má besta psicótica que lamenta cada fôlego que tomo. Além disso, não lhe fez ruídos de beijos a ela. Do que terá que esquivar-se?

Desta vez. E foi só porque Caleb estava ali que não o fez.

Caleb meteu o telefone no bolso e abriu o caminho para a loja de Bubba.

Enquanto caminhavam, os pensamentos do Nick voltaram para o Stone e à raridade de sua reunião.

— O que você acha que Stone estava fazendo atrás da loja da Liza?

Não era próprio dele, estar fora sozinho. Sua marcada covardia pelo general necessita de audiência para levar algo a cabo.

Caleb assinalou com o queixo em direção à lua cheia.

— Provavelmente andava perambulando por aí com seus camaradas e encontrou alguns contentores com lixo para farejar.

— Serio?

— É lua cheia, Nick. Estou seguro de que o animal no Stone o dominou. Provavelmente estava tratando de que a televisão o transportasse para alguma parte e devido a sua curta idade, falhou o salto. Acredito que aterrissou detrás da loja de bonecas da Liza porque ela estava convocando aos deuses a primeira hora de esta noite e seus poderes lhe chamaram ou algo assim. Inclusive poderiam ter interferido entre si.

Nick soprou ante sua inútil resposta.

— Ah, ha, não vais começar com todo esse lixo do homem lobo também, verdade?

— Você não crê neles?

—Eu só acredito em zumbis e só porque os vi hoje. O resto... caca total[26].

Caleb negou com a cabeça.

— Vive em Nova Orleans e é católico, por não mencionar que tem amigos como Bubba e Mark, entretanto não acredita em demônios, homens lobo, ou vampiros?

—Os únicos vampiros que vi são os góticos tratando de obter uma visão da casa da Anne Frise, que bebem refrescos de morango e dizem que é sangue.

— É um céptico.

E Nick sentiu um montão de orgulho por isso também. Não gostava da ideia de ninguém impondo nada sobre ele. É melhor ser um cínico que ser uma vítima.

— Suponho que você não o é.

— Eu acredito em tudo.

— Por quê?

— Vamos, Nick, nunca estiveste caminhando alguma vez pela rua e sentiu a mão de um roce malvado descendo por sua coluna vertebral? Sabe um formigamento. Essa sensação de que algo não está bem, mas não sabe o que é. Isso é um demônio ao seu lado, moço. Ele te avalia, joga contigo.

Nick não acreditava em uma palavra do que ele estava tratando de lhe vender.

— Está tentando me confundir.

— Estou tentando de te preparar para o mundo real.

— O mundo real é conseguir um bom trabalho, pagar as contas e manter o nariz limpo. — Manter-se fora do corredor da morte.

Caleb lhe deu um fixo olhar.

— Wow. Você comungou totalmente com essa besteira de “status quo”.

— Não é status quo. É a verdade.

— O que você disser. — Caleb subiu à calçada, quando chegaram ao Triplo B. Ele se adiantou e abriu a porta para que Nick entrasse primeiro.

— A loja está fechada. Não há aulas para… — a voz de Mark se interrompeu quando saiu da habitação de trás e lhes viu —. OH são vocês meninos. Vamos entrem.

Nick franziu o cenho ante a estranha boas-vindas.

— O que está acontecendo?

Mark não respondeu ao passar junto a eles e se dirigiu à porta pela que tinham entrado, fechou-a e logo girou o sinal de fechado.

— Não vais acreditar nisto. — Fez um gesto para que o seguissem.

Yupi. Não podia esperar. Cada vez que Mark pronunciava essas palavras, sempre era por algo extravagante.

Mas no instante que entrou na parte traseira, Nick se deteve brevemente. Bubba e Madaug estavam sentados diante do mostrador, OH, que pedaço de merda. Como podia Madaug estar aqui depois de não atender ao telefone o dia todo? Nick queria lhe estrangular.

Os óculos do Madaug estavam ligeiramente torcidos sobre seu nariz, tirou o cabelo curto enquanto lia o código na tela.

— Como chegou até aqui? — perguntou Nick a Mark.

Mark lhe ofereceu um olhar zombador.

— Caminhando.

Nick riu dele.

— Sério. Depois de tudo o que fizemos para lhe localizar hoje, quando retornou?

— Faz um par de horas. — Mark estava na frente a Nick e Caleb.

Alheio a eles, Madaug apontava a uma linha do código.

— Olhe Bubba. Isso é do que estava falando. Este algoritmo foi desenhado para reprimir subliminarmente sua casca cingulada anterior enquanto que este estimula a casca orbital frontal e a amídala, elevando assim seus níveis de serotonina.

Nick franziu o cenho para Caleb, que, felizmente, parecia tão confundido como ele se sentia.

Bubba e Mark, entretanto, pareciam ter fluidez na algometria que o deixou desconcertado.

— Sim — Bubba arranhou a barba do queixo —. Mas eu não vejo como aconteceu o controle do hipotálamo.

— Realmente não o fez. Só o sistema nervoso somático se vê afetado com um pequeno subproduto do elevado estresse no hipotálamo, que deve ter inibido seu comportamento agressivo. O que não posso entender é como perdi o controle. O que perdi, Bubba?

Nick se esclareceu garganta.

— Posso te dizer o que me falta. Uma pista. Do que estão falando?

Mark lhe deu um olhar de nojo ao Nick.

— Zumbi Hunter.

Nick teve que morder a língua para não responder com: Não, óbvio.

— E exatamente como seria isso diferente de todas as outras discussões que os meninos tiveram?

Mark deixou escapar um fôlego ofendido.

— Não matando zumbis, Nick, jogando com eles.

Madaug se voltou para o Nick para responder.

— Eu inventei um vídeo jogo chamado Zumbi Hunter. Isso é no que estamos trabalhando.

Nick sorriu.

— OH, isso está bem. Posso jogar?

— Não! — gritaram Mark, Bubba, e Madaug de uma vez.

Bubba tomou um gole de seu refresco.

— Confie em nós, Nick. Este é um jogo que você não quer jogar.

— Por quê?

Madaug cravou um olhar perfurador nele.

— Porque qualquer um que joga este jogo é convertido em um zumbi.

OH claro... Nick não acreditou nem por um instante.

— Puro lixo.

— Não, homem, é verdade. — Bubba indicou o Madaug com a lata na mão — Você amiguinho é bastante brilhante.

Sim, brilhante em conseguir ser embutido contra as bilheterias...

Nick não podia entender como Madaug podia ser o suficientemente brilhante para encontrar a maneira de programar um jogo, mas não para voar no radar da gente que queria abusar dele.

Madaug ajustou os óculos sobre o nariz.

— Aprendi que uma sequência específica de luz e som na realidade pode alterar as ondas cerebrais e as anular. Olha, o cérebro é como um computador e se pode passar por cima de certos programas, pode hackear e mudar a unidade do disco rígido de alguém.

Nick tinha que lhe dar crédito, soava impressionante.

— Como aprendeu isso?

— Minha mãe é uma neurocirurgiã do Tulane e meu pai é neurologista de investigação criminal. Têm conversações muito aborrecidas na mesa e me obrigam a lhes escutar enquanto eu como, minha mãe cozinha muito mal. Meu pai está fazendo um estudo neste momento sobre a forma de inibir a conduta violenta, que é o que me deu a ideia para o jogo. Tomei suas notas, fiz algumas investigações independentes, e logo Bubba me ensinou a programação básica para construir os níveis para o jogo que alterasse seu patrão cerebral.

Caleb golpeou o Nick no ombro bom.

— Vê o muito que pode aprender quando escuta a seus pais?

Nick se burlou.

— Isso não é algo que meus pais falariam. — Mas se alguém quisesse algum dia aprender a dançar em uma barra ou estripar um ser humano, Nick seria o único a quem dirigir-se.

Isso, entretanto, era outro assunto e não de todo útil esta noite... Por outra parte, o estripamento poderia ser útil se mais zumbis viessem atrás dele.

— Então, quem tem o jogo? — Perguntou Nick ao Madaug.

— Dava uma cópia a Brian porque sempre estava se metendo comigo. Queria ver se podia reprogramar e anular o impulso cada vez que sentia a necessidade de implicar comigo. Em lugar de obter prazer, a intimidação aumentaria seu medo, e lhe faria se afastar. Esse era o plano.

Bubba tomou outro gole.

— Ele foi o coelhinho da índia do Madaug.

Madaug parecia doente por esse comentário.

— Sim, e agora não posso encontrar o jogo. Não sei quem o tem, mas ao que parece, outras pessoas estiveram jogando, é por isso que temos zumbis aparecendo por todo o lugar.

Bubba soltou um resmungo.

— Sim, dois e três de uma vez, porque Deus proíbe que se faça com os meninos o que fazíamos nos velhos dias e jogar em um quarto por nós mesmos. Que classe de cretinos está criando hoje em dia? Cretinos com amigos que jogam videogames juntos. Onde se viu algo semelhante? É o final dos dias, digo-lhes isso.

Nick estava confuso por seu arrebatamento.

— Mas, Bubba. Você e Mark não são amigos?

— Ah, infernos não. Mark não é meu amigo, é meu empregado.

Mark se esticou.

— Prefiro companheiro. Tentei uma vez com o título de Padawan[27], mas Bubba começou a dizer que os mentores são sempre assassinados nos livros e filmes, que estaria condenado e ia morrer uma vez que me ensinasse tudo o que precisava saber a respeito de matar zumbis.

— Então por que permite ser seu companheiro? Não é o mesmo? — perguntou Nick.

Mark se pôs a rir.

— Uh, não. Nos filmes, os companheiros são os que morrem.

Nick não discutiria sobre essa lógica confusa.

Bubba lhe ignorou enquanto ele seguia falando.

— E como Madaug tinha programado para que Brian se afastasse, pensamos que a programação está ao reverso e isto faz o contrário, que o procurem. Assim temos que refazer o código para lhes devolver à normalidade.

Isso soava bem, mas Nick só tinha um problema com essa teoria.

— Então por que me estão perseguindo?

Bubba e Madaug olharam para ele assombrados.

— O que?

— Faz umas horas, dois deles, localizaram-me no trabalho — explicou Nick — Quase me apanham.

Bubba negou com a cabeça.

— Isso não é possível. A programação só funciona em torno de Madaug e seu DNA.

Nick levantou o braço são para lhes mostrar a vendagem onde tinha sido mordido. Uma vez mais.

— Possível ou não, trataram de me converter em um Nick McNugget[28].

Bubba lhe agarrou por braço, tirou a vendagem e estudou as duas feridas.

— Bom, não é tão interessante.

Nick estava horrorizado por sua indiferença. Poderia ter sido divertido se tivesse acontecido a Stone e não a ele. Mas agora mesmo, ele não tinha exatamente o melhor senso de humor a respeito de ser um brinquedo mastigável para zumbis.

— Não sou seu experimento de ciências, Bubba. Não quero ser interessante e definitivamente não quero ser um petisco para os zumbis.

Bubba olhou Madaug.

— Por que foram atrás de comer o Nick?

Madaug encolheu os ombros.

— Não sei por que estão querendo comer alguém. O programa foi feito para acalmá-los e deixá-los passivos. Não agressivos.

— Falha épica, amigo — disse Nick.

Madaug voltou a olhar seu código antes de responder a Nick.

— Pelo que observei hoje, quando a programação começa atacam a quem estiver ao redor. Mas não os vi seguir a ninguém exceto a mim e ainda não compreendo por que estão me espreitando e não tremendo de medo.

Caleb cruzou os braços sobre o peito.

— Você os transformou converteu em zumbis, Madaug. Eles estão atrás de seu cérebro.

Nick riu.

— Eu diria que é porque todos eles são esportistas estúpidos, mas isso poderia te ofender.

— Sim, e então eu teria que quebrar seu outro braço.

Bubba deixou sua bebida.

— Não me obriguem a separar vocês. Minha paciência está acabando com os meninos hoje. — Indicou-lhes os armários destroçados de antes —. Ainda quero ter o prazer de ver a minha loja reparada.

— Eu sou o bode expiatório. — Nick assinalou ao Madaug — Vá reclamar com o garoto rico que começou.

Antes que Madaug pudesse defender-se, houve um forte golpe contra a porta, seguido pelos sons de alguém gemendo enquanto tratava de entrar.

Mark apoiou a cabeça contra a parede como se estivesse em agonia.

— Por favor, deixa que seja Tabitha nos pregando uma brincadeira.

Bubba pegou o machado cravado na parede.

— Cuida do idiota — disse a Mark —. Vou comprovar.

Mark gemeu ainda mais forte.

— Por favor, não deixe que seja outro policial. Anseio pelo dinheiro da fiança. — Olhou para Nick —. Espera um minuto... Eu poderia te vender no Ebay e provocar uma matança.

Nick lhe mostrou o braço quebrado.

— Não em minha condição atual. Teria que vender o Caleb ou Madaug. Estou seguro que há alguém disposto a comprar dois meninos brancos em perfeito estado. — inclinou-se para diante para olhar além de Mark, que por sorte tirou o aroma de urina de pato de cima, para ver quem estava na porta.

Com o machado inclinado sobre o ombro, Bubba abriu e um grupo de góticos se pulverizou pela loja. Estavam muito entusiasmados falando ao mesmo tempo até o ponto que Nick não podia entender a nenhum deles.

O último soltou um assobio tão penetrante, que ecoou. Quando se voltou para ele, Nick reconheceu Tabitha embelezada com calças tão ajustadas que tinha a certeza de que era ilegal em alguns estados, provavelmente.

Olhou Bubba.

— Precisamos de suprimentos, B. lotes e lotes de suprimentos.

Bubba franziu o cenho.

— Por quê? O que está acontecendo?

— Quem soltou os zumbis? — Perguntou um dos meninos.

— Sim, e não se movem lentamente — acrescentou outro.

— São velozes como super zumbis mutantes.

O mais alto dos meninos destacou o olho inchado e vermelho.

— Eles se parecem com uma equipe de futebol rival com a qual eu juro que joguei há umas semanas atrás. Foi assim que consegui esse olho roxo. Tentando evitar que Thabita cometesse um assassinato.

Madaug passou por Nick, com a boca aberta.

— Eric? É você?

O garoto com o olho roxo virou-se com o cenho franzido. Seu cabelo negro estava penteado para destacar toda a cabeça, como Rob Smith do The Cure. Usava ainda mais maquiagem do que Tabitha, que incluía o batom preto, delineador preto e blush. Inclusive tinha as unhas pintadas de negro. Uma cor que lhe envolvia dos pés a cabeça.

— O que meu irmão está fazendo aqui?

— Parabéns Eric! — Bubba lhe deu uma palmada nas costas com tanta força que ele cambaleou —. Seu irmão é o que nos trouxe os zumbis.

A cara do Eric era uma máscara de incredulidade.

— Tem que estar brincando, Madaug? — A seguir Eric se voltou para seu irmão — O que ele… o que tem feito? Mamãe e papai vão lhe colocar de castigo por toda a vida.

— Já sei — disse Madaug melancolicamente — Estou tratando de desfazê-lo. Mas... — Sacudiu a cabeça como se tivesse tido um pensamento e queria desterrá-lo —. Não importa. É um inútil. Você não passou em um teste de ciências desde o quarto grau.

Eric empurrou Madaug para trás.

— Não comece monstrinho. Eu não posso acreditar que compartilhamos genes em comum. Poderia jurar que mamãe e papai encontraram você em uma área de serviço.

— Eles lhe encontraram no esgoto, seu gorila.

Tabitha os separou.

— Alto, vocês os dois. Guardem sua energia para matar o que é importante. Os mortos vivos.

Bubba descansou a parte superior do machado contra o chão.

— Espera um minuto, não posso acreditar que vou dizer isto... mas já que o que estamos tratando é com meninos inocentes que se meteram com o Madaug e um punhado de adultos realmente estúpidos que deveriam ter uma vida fora dos videogames, e deve ter em consideração que isto vem de um viciado no jogo, não podemos matá-los. —Posou um duro olhar sobre Tabitha —. Eles não são mortos vivos, Tabby. Eles estão vivos, imbecis respirando e temos que lhes salvar.

Tabitha suspirou com desgosto.

— Prefiro estacá-los e deixar que Deus os julgue.

— E eu preferiria não ir para a prisão para o resto de minha vida — disse Eric com severidade — Não se ofenda, mas sei o que fazem aos tipos com bom aspecto na prisão e eu sou muito lindo para que resistam.

Mark soltou um bufo.

— Pah[29], relaxe. Seu maior problema é com o batom preto e o cabelo comprido que vai fazê-los com que confundam você com uma mulher. Duvido muito que lhe prendam com os homens, vestido desse jeito. Mas vão lhe mandar para junto das prostitutas. Hey... sabe, a prisão não seria tão mal para ti.

— Acrescentar candidatos — espetou Bubba—, concedam-me atenção durante um minuto? Temos que sair e encontrá-los antes que comam a qualquer outra pessoa. Trazê-los aqui para que possam ser tratados e desfazer o que Madaug fez.

Eric franziu os lábios.

— Onde vamos colocá-los? Na banheira?

Bubba fulminou Eric com o olhar antes de ir à parede, empurrar para baixo uma das armas, e mostrar uma oculta...

Cela, uma que estava completamente acolchoada e com reforços de aço e correntes que estavam penduradas do teto. Nick nunca tinha visto algo assim em sua vida. Tabitha pôs-se a rir.

— OH, Meu Deus, Bubba tem uma masmorra sexual!

Bubba estreitou seu olhar nela.

— É muito jovem para saber dessas coisas.

— Está brincando? Minha tia é a proprietária da caixa da Pandora no Bourbon Street. Dado o aspecto das “correntes”, acredito que as comprou ali.

Bubba emitiu um profundo e grave som enquanto olhava para Eric.

— Pode amordaçá-la?

— Como acha que consegui o olho roxo? E para sua informação, não se deve golpear uma garota. Ela pode ser de uma família mandona de estrogênios, mas alguém a treinou bem.

Mark arqueou uma sobrancelha.

— Para mim parece que seu lápis de olho escorreu. Está seguro que foi uma garota que te bateu?

Bubba assobiou.

— E perdemos o enfoque de novo, gente. Juro que é como cuidar de gatos. Durante os seguintes cinco minutos quero que todos vocês enterrem o sarcasmo e mantenham o foco. Sei que estou pedindo um milagre, mas isto é caso de vida ou morte. Está bem?

— Certo — disseram ao uníssono.

Bubba assentiu com a cabeça a todos eles.

— Temos que proteger a cidade. Quero todos vocês por aí patrulhando em busca de zumbis. Quando os encontrarem…

— Estacamo-los!! — Tabitha tirou uma de suas pontas de aço para ilustrar suas palavras.

Bubba tirou-as.

— Não. Faz com que lhe persigam de novo até aqui, onde Mark e eu estaremos esperando para lhes apanhar. Todo mundo entendeu? Sem assassinatos. Sem derramamento de sangue.

Tabitha pôs os olhos em branco.

— Que desperdício de uma boa noite!

Madaug olhou horrorizado para seu irmão mais velho.

— Mamãe e Papai sabem que está saindo com uma homicida louca?

— Não, e se você disser, vou acertar os seus dedos com o teclado.

Um tic começou na mandíbula do Madaug as bochechas ficaram da cor de um vermelho brilhante.

— Mamãe disse que se alguma vez você voltar a fazer isso, rasparia a sua cabeça enquanto dorme.

— Meninos — gritou Bubba —. Há criaturas perigosas por aí. Vamos atrás deles.

Madaug deu um passo para a porta.

Bubba o segurou e lhe obrigou a voltar para dentro do escritório.

— Você não, nós precisamos que fique aqui e continue trabalhando em uma solução.

Caleb olhou para Nick.

— Está preparado para isto?

Nick olhou seu relógio.

— Só durante os próximos quarenta e cinco minutos. Depois de retorno a terra.

— Vamos, Cinderela. Vamos começar antes que se transforme em uma abobora.

Caleb lhe arrastou da loja a rua abaixo, para a escola secundária, o qual tinha sentido já que lá era onde tudo tinha começado.

E meu maior medo esta manhã era chegar atrasado...

Quem diria que acabaria tendo medo de que lhe arrancassem o cérebro e o devorassem?

Pergunto-me se devo começar a ir à escola com uma serra elétrica?

Isso não constava em sua lista de arma…

Enquanto caminhavam, seus pensamentos foram para Madaug e sua família.

— Não crê que é estranho que o irmão do Madaug não vai à escola conosco?

Caleb meteu as mãos nos bolsos traseiros.

— É provável que seja muito burro para entrar.

—Você acha?

— A genética nem sempre assegura o intelecto. Acredite. Eu venho de uma longa linha de gente realmente estúpida. Assusta-me tomar banho nessa piscina de genes. Entretanto, aqui estou, um inferno muito mais inteligente do que eles são.

Nick não queria nem pensar em sua piscina genética por temor à infecção que poderia conter. Vivia com o terror constante de que um dia um interruptor lhe ascendesse na cabeça e lhe convertesse em um monstro como seu pai. Cada vez que tentou falar sobre isso com sua mãe sobre ele, lhe disse que era ridículo. E, entretanto não podia evitar a sensação de que havia algo dentro dele que morria por sair. Algo sinistro, frio e sem sentimentos.

— Tem irmãos? — Perguntou ao Caleb, tratando de distrair a si mesmo dessa linha de pensamento.

— Não consanguíneos. Realmente outros não contam. Você tem?

— Não.

Caleb assentiu com a cabeça.

— Assim, o que faz seu pai, Nick?

— Eu não falo sobre meu pai. — Com ninguém. Bubba e Mark eram os dois únicos que sabiam que seu pai era um criminoso. Ao resto do mundo, nunca lhe disse nada — Ele não é parte de nossa vida e quero que siga sendo assim.

— Entendo. Tampouco os meus têm nada que ver com a minha.

— Por que não?

— Não acreditaria se lhe dissesse. Mas não passa nada. Não me mata, só requer uns poucos séculos de terapia.

— Sim, e geralmente uma grande quantidade de Tylenol.

Caleb pôs-se a rir.

— Ouça, se nos separarmos, poderemos cobrir mais terreno. Quer patrulhar até a catedral?

— Certo.

— Muito bem. Vemo-nos lá.

     Nick se dirigiu pela rua lateral que lhe conectava com o Borbón, onde se amontoavam as pessoas que poderiam ser as próximas vítimas. Como saber a diferença entre um zumbi e um turista bêbado?

Isso seria uma provocação. Mas se fosse um zumbi em busca de material, é aonde iria de cabeça. E como tinha notado, eles se misturariam perfeitamente ali.

Enquanto caminhava pela rua, notou que o zumbido das luzes estava ficando mais forte. Diminuiu a marcha quando chego até a mansão Lalaurie o lugar mais enfeitiçado e malvado de toda Nova Orleans. Se existia tal coisa como uma boca do inferno, esse era o lugar. Desde que era menino, fazia com que os seus cabelos levantassem.

Esta noite parecia normal.

Um vento repentino bateu pela rua, lhe agitando o cabelo e lhe provocando um calafrio no pescoço enquanto um corvo enorme voava sobre sua cabeça para aterrissar no balcão de ferro forjado de onde parecia lhe olhar fixamente.

Sei que pareço louco, mas juro que o pássaro me está olhando.

     Inclinou a cabeça. Sim, é o mais misterioso que vi em minha vida. Igual ao próprio edifício.

     Nessa casa, dezenas de pessoas tinham sido brutalmente torturadas e assassinadas, de maneira que sua mãe nem sequer quereria falar. Cada família que havia possuído a mansão dos Lalauries tinha informado que viram e escutaram os fantasmas dos que tinham perdido a vida pela psicótica crueldade de Delphine Lalaurie. Algo que tinha sido tão atroz que seu próprio cozinheiro tinha acendido o fogo da cozinha e se suicidado para escapar da louca.

     Inclusive os bombeiros com experiência que estavam acostumados a tratar com sangue e morte, tinham vomitado quando descobriram as vítimas mutiladas que Delphine tinha deixado atrás.

— Me ajude...

Nick deu a volta, tentando ver quem tinha falado. Soava como a voz de um menino.

— Tenho tanto medo. Por que não posso ver? Há alguém aí?

— Estou aqui — disse Nick — Onde está?

Ressonou uma risada imaterial. A luz em cima dele estalou.

Amaldiçoando, Nick saltou para trás quando os cristais choveram sobre ele. Viu a sombra de uma garotinha na lateral da casa.

— Me ajude a encontrar a minha mãe. Por favor. —Transpassou uma porta que estava entreaberta, na pequena abóbada que conduzia ao jardim interior.

— Espera! — Nick fechou a distância entre eles, querendo ajudá-la. Estendeu a mão para detê-la.

A mão transpassou seu corpo.

—O que?

De repente, deu a volta e seu estomago se encolheu. Sua cara estava cheia de cicatrizes, seus grandes olhos não eram nada mais que uma sombra misteriosa.

Descobrindo um conjunto de presas, atacou.

 

Nick cambaleou enquanto a menina “pequena” cresceu mais de metro oitenta de altura. Elevando-se por cima dele, agarrou-o pela camisa com as mãos convertidas em garras e riu em sua cara.

— Deveria ter feito o que seus amigos queriam Gautier, ajudar a roubar e matar aquele casal. Cometeste um grande erro ao ser amável. Sempre e quando deixar que sua bondade te enfraqueça, poderemos nos alimentar de ti. — moveu-se para lhe morder o pescoço.

Chutou-a de volta e correu para a rua.

Justo quando alcançava a rua, três criaturas mais apareceram para lhe bloquear o caminho. Pareciam homens, mas um brilho frio dançava nas conchas onde deveriam estar os olhos. A temperatura do pátio caiu instantaneamente vinte graus lhe deixando tremendo. Pior ainda, estes recém-chegados cheiravam como algo que saía da parte traseira das mulas que atiravam dos carros pelo Bairro.

Ugh, será que nunca tomaram banho?

O que estava mais a frente estalou a língua para ele, mostrando um conjunto de presas afiadas e dentados.

— De verdade crê que pode escapar de nós?

Sim, acreditava-…

Nick deu um passo atrás e procurou uma forma passar por eles. Bloqueavam completamente a rua. Não havia uma forma de chegar a ela sem entrar em contato com eles. E atrás dele estava o pátio fechado.

Merda…

— O que querem? — perguntou Nick, tratando de pensar em uma terceira opção.

A garota lhe agarrou pelas costas.

— Queremos te matar.

Afundou os dentes no pescoço.

Vaiando, Nick lhe estampou o braço bom no tórax. Liberou-se o suficiente como para que pudesse girar saindo de seus braços e se afastar dela.

Os outros três foram para cima dele.

Onde há um machado quando preciso dele?

Melhor ainda, um lançador de mísseis.

O corvo se equilibrou aterrissando sobre seu ombro lesado. No momento que suas garras lhe tocaram, algo como eletricidade atravessou o corpo. Era tão intenso e doloroso que o deixou sem fôlego. Durante trinta segundos, tudo pareceu deter-se. O vento, os atacantes, o pássaro.

O coração.

Quando o mundo voltou para a normalidade, voltou com uma rajada que bateu contra ele tão forte, que ofegou. Seus sentidos eram mais agudos do que nunca tinham sido antes, deu-se conta de que já não tinha o braço lesado.

Luta. A voz em sua cabeça soava demoníaca.

     De algum lugar profundo em seu interior, Nick sentiu um poder elevar-se e irradiar através de todo seu corpo. O pássaro voltou a se lançar para o balcão para observar enquanto as coisas o atacavam.

Inclusive, embora ele soubesse que eles se moviam a uma velocidade humanamente rápida, viu-os como se fossem em câmera lenta. Era como se estivesse possuído por algo mais.

O primeiro golpeou.

Nick esquivou o golpe e o devolveu com um dos seus. A criatura cambaleou. Girou-se para agarrar o seguinte com uma cabeçada.

O terceiro gritou de raiva enquanto corria para as costas de Nick. Este deu a volta e o lançou à rua antes de lhe dar um murro no peito.

A fêmea lhe chutou contra a parede.

Nick deu a volta e bloqueou o golpe que lhe enviava à garganta. Como uma cena saída dos filmes, lhe deu murros repetidamente e ele respondeu a cada golpe.

Quando foi que aprendi kung fu?

E sua mãe dizia que todos esses filmes do Jackie Chan tinham sido um desperdício. Aparentemente, tinha aprendido por osmose, porque não havia outra maneira de que soubesse isto.

Sentia-se como se pudesse conquistar o mundo.

Que alguém me atire um nunchaku[30].

Voltando a chutá-la, agarrou a outra das criaturas e a jogou contra a primeira. Em questão de segundos, estavam no chão e ele estava sobre eles sem nem sequer respirar com dificuldade em uma perfeita posição sotobiraki jigo hontai dachi.

Toma isso, Chuck Norris!

O pássaro grasnou como aprovando antes de voar na noite.

Nick se endireitou. O ombro não lhe doía nada. Mais que isso, controlava-o totalmente, o qual era algo que seu medico e seu fisioterapeuta havia dito que levaria meses a voltar a ter.

O que está acontecendo? Pensaria que isso é um sonho, a não ser pelo fato de que sabia que estava acordado.

As criaturas se evaporaram em uma fina névoa que se dispersou nas sombras enquanto a temperatura voltava para a normalidade.

De repente, havia um homem frente a ele. Um que parecia assombrosamente com seu pai exceto que este tinha uma estranha marca de um arco e flecha duplo no rosto. Vestido de negro usava um casaco comprido de couro que lhe chegava até os tornozelos. Com o cabelo da mesma cor que os de Nick, só que mais longo, media um metro noventa e cinco e tinha uma barba de cabrito perfeitamente recortada. E enquanto que os olhos de Nick eram azuis, os seus eram tão negros como sua roupa.

Nick se preparou para brigar.

— Quem é você?

— Relaxe, Nicky. Só sou um amigo que está aqui para te ajudar.

—Como é isso?

O homem elevou a mão e uma bola de luz apareceu em sua palma onde dançou e piscou na escuridão. Seu rosto severo fechou a mão e a luz desapareceu.

— Não tem nem ideia de quão importante é. Quantos poderes e criaturas brigam por ti. Mas confia em mim, o único que realmente se preocupa com você, além de sua mãe, sou eu.

Nick não estava tão seguro disso.

— E você é?

— Seu tio Ambrose.

Sim, claro.

— Não tenho um tio.

— É obvio que sim, Nick. Inclusive o chamam como a mim.

Negou com a cabeça. Chamava-se assim por seu pai e seu avô, ao menos isso é o que sempre haviam lhe dito.

— Minha mãe nunca te mencionou.

— Porque sou da parte de seu pai e ela realmente não me conhece. Mas isso não importa. Meu objetivo é evitar que cometas alguns enganos realmente ruins.

— Como o que? Falar contigo?

Ambrose riu.

— O mundo não é o que vê moço. Há um véu sobre tudo e lhe cega da maneira em que cega à maioria das pessoas. — Apartou o cabelo dos olhos de Nick e no momento que o fez, uma sacudida lhe atravessou —. Isso é perspicácia. A capacidade de ver o que está oculto. Meu presente para ti, apesar de que já tiveste uma prova dele. Agora é mais agudo e confiável. Não quero que ninguém te engane de novo.

Nick se cambaleou para trás ao ver, não ao Ambrose como um homem, mas sim como…

Algo mais.

Sua pele estava salpicada de negro e vermelho. Seus olhos brilhavam de cor amarela. Ambrose não era humano e isso lhe aterrou.

— O que é?

— Seu amigo. Sempre. Sou o único no qual sempre será capaz de confiar.

Besteira. A única pessoa em que podia confiar plenamente era nele mesmo. As palavras eram fáceis e as ações frequentemente letais. Nick não era tão burro para pensar, por um minuto, que o tipo estava a esse nível.

— Amigo, não te conheço e não vou confiar em ti.

— Conhece-me muito melhor do que pensa. Olhe em seu interior e saberá que estou dizendo a verdade.

Nick olhou e o que viu lhe gelou o sangue. Negou-se a acreditar.

Incapaz de suportar pôs-se a correr, mas não pôde. Era como se um poder invisível o deixasse preso.

— Se não confia em mim. Não te culpo. Mas aprenderá a escutar com o tempo. Desbloqueei seus poderes antes do tempo, para sua proteção.

Ambrose devia ter batido com a cabeça. Não havia outra explicação.

— Que poderes? Está drogado? — perguntou-lhe Nick.

Um perverso sorriso lhe curvou os lábios, lhe mostrando um conjunto de presas.

— Não. Mas deve manter o que vou te ensinar em segredo. Que ninguém, especialmente Acheron, saiba.

— Como sabe do Acheron?

— OH… não é o momento para que entenda isso ainda. Mas minha manipulação não está isenta de problemas. Esses mortents que lhe atacaram faz um momento só são alguns desses subprodutos. Mas não se preocupe. Terá a habilidade para lutar e ficará cada vez mais forte cada vez que lhe ataquem. Não te deixarei indefeso nisto.

— Olhe — o interrompeu Nick —. Não sei o que estiveste cheirando… — tratou de apartar-se, mas Ambrose lhe deteve.

— Estou do seu lado, Nick. Não tem muitos amigos, e menos ainda nos que possa confiar.

— Como Nekoda? — Não sabia o porquê seu nome lhe apareceu na cabeça. Mas o fez, junto com uma imagem de seu rosto sorridente.

Todo um poema era o olhar de emoção na cara de Ambrose.

— Nekoda?

Sim, não era tão preparado como pensava e isso deu a Nick uma nova confiança em que Ambrose até poderia estar mentindo.

— Não a conhece?

Ambrose inclinou a cabeça como se estivesse tratando de escutar o cosmos.

— Como pode conhecer alguém que eu não conheça?

— Fácil. Provavelmente já que não te conheço absolutamente.

Negou com a cabeça.

— Algo não está bem… Isto não é possível. — Desapareceu do nada.

Nick olhou ao redor, girando em um pequeno círculo. Não havia rastro de nada.

Perdi a cabeça.

Talvez, mas o braço seguia funcionando e sem dor.

Então tão fácil como tinha vindo a ele, o poder se evaporou. Fluiu dele e lhe deixou cada parte do corpo dolorido. A dor no ombro lhe pôs de joelhos. Onda detrás onda de agonia caíram sobre ele até que lhe embotaram a visão.

Num minuto estava em pé. No seguinte, a rua se elevou até lhe golpear. E a última coisa que ouviu foi uma profunda voz feminina.

Pertence-nos, Nick Gautier. E assumirá seu lugar ou lhe veremos morto…

 

O corvo deixou o Nick e voou para o céu, logo se desvaneceu quando foi convocado fora de Nova Orleans. Ao reaparecer, não foi no bairro onde preferia alimentar-se. Foi a quilômetros de distância, voando perto de um arame de espinheiro.

E devido a que era convocado ali tão frequentemente, a ave estava tão familiarizada com a prisão de Angola como qualquer dos reclusos.

Zumbiu passando a torre dos guardas, dirigiu-se ao Centro de Recepção, o edifício onde os reclusos condenados à morte estavam alojados. Diminuiu enquanto se aproximava da janela correta.

Realmente não quero fazer isto.

Mas não tinha escolha. Quando era convocado, tinha que obedecer. Essas eram as regras e qualquer vacilo só terminaria mal para ele.

Um minuto estava empoleirado no parapeito da janela, no seguinte uma mão apareceu do nada para lhe agarrar pela garganta e arrastá-lo para dentro.

Caleb se manifestou em forma humana enquanto olhava a um dos demônios mais poderosos que já existiu. Mal puro e absoluto Adarian Malachai era incapaz de ter qualquer ato de bondade ou misericórdia.

Sem uma palavra, empurrou a cabeça de Caleb contra uma parede. Logo o elevou e o sustentou pelo cabelo.

— O que pensa que está fazendo? — grunhiu no ouvido esquerdo de Caleb.

Caleb fez uma careta ao saborear o sangue que se derramava desde seu nariz. Sabia que não devia lutar. Só faria com que Adarian ficasse mais cruel e pioraria a surra.

— Treinar o Nick como ordenou.

Ele apertou o seu agarre sobre o cabelo de Caleb.

— Com mortents? Está louco? Poderia ter sido assassinado! Por que não evitou que lhe atacassem?

Essas palavras o surpreenderam a mais níveis dos que podia contar. Por que Adarian se preocuparia por algum mucoso que comprava um lugar no cemitério?

— Não sabia que o tinha deslocado para eles, mas como se apresentaram, pensei que seria uma oportunidade perfeita para que começasse a aprender a lutar. Estive ali todo o tempo, olhando. Nunca esteve em um perigo real. Além disso, se ele morrer, você vive. Que mal há nisso?

— É tão estúpido — lhe soltou.

Caleb se voltou e lhe empurrou enquanto tomava sua forma verdadeira. Sabia que não devia, mas não estava nele não devolver a briga. E no final do dia, era um demônio e nunca tragava a merda de outros sem vomitar veneno por sua vez.

— Retire isso Malachai. Você não é tão poderoso como pensa.

Adarian riu.

— E sou seu amo. Assim nem sequer trate de me intimidar. Escolhi meus dentes de ossos de demônios mais fortes e maiores que você.

Provavelmente isso fosse certo. Mas não mudava o fato de que Caleb daria algo para ter o poder de destruir Adarian. Como me converti em escravo deste… Não havia uma palavra o suficientemente horrível para descrevê-lo.

Infelizmente, Caleb sabia exatamente o que o tinha levado ali e o odiava tanto como odiava Adarian.

— Fiz exatamente o que pediu. Observei a seu filho choramingas nestes últimos anos sem interferir em nada do que tem feito.

— Deveria te feito amizade com ele antes de agora.

Caleb ficou surpreso por essas palavras.

— Disse-me que não o fizesse.

Adarian o agarrou pela garganta. Seus olhos brilhavam de um vermelho intenso, mortal.

— E agora estou dizendo que lhe proteja com sua vida. Há um novo poder ali. Um que não posso discernir, mas que lhe segue e quero que lhe mantenha a salvo. Assim me ajude, se algo acontecer com meu filho, irei atrás de ti, e quando terminar, desejará poder te arrastar de volta ao buraco de barro onde te encontrei.

Caleb sentiu que seus dentes se afiavam e cresciam em resposta a essa ameaça.

— Dirijo legiões.

— E eu dirijo a ti. Nunca esqueça isso.

Se só pudesse.

— Um dia vou me libertar de ti, Malachai.

— E até que o faça, fará exatamente o que te ordeno. Agora, protege a meu menino e sua mãe. Não deixe que nada aconteça a eles. Compreende?

— Entendo. Mas... Como vou treiná-lo se não posso atacá-lo?

Os lábios de Adarian se curvaram em um sorriso sardônico.

— É esperto. Encontre uma maneira. E lembre, estou na prisão porque eu escolhi. Posso deixá-la e ir atrás de você em qualquer momento que queira.

Era verdade. Adarian vivia ali devido a que se alimentava da crueldade e maldade dos outros. Esta prisão era como viver em uma fábrica de Energizer[31] no que a ele concernia. Mantinha-lhe super forte e capaz de desviar algo que viesse por ele.

Exceto por seu filho. A presença de Nick poderia lhe debilitar imediatamente. O pirralho não tinha nem ideia que, evitando a seu pai, estava permitindo que os poderes do Adarian permanecessem a plena capacidade, o que punha o resto deles em uma grande desvantagem.

Adarian o atraiu para mais perto.

— Melhor não me trair, Malphas. Não nisto.

Caleb poderia lhe acusar de amar o menino, mas o conhecia melhor. Isto não era sobre amor. Era sobre poder. Se Adarian pudesse manter Nick vivo e afastado dele, poderia reconstruir seu exército através deste e não haveria nenhum poder sobre a terra ou mais à frente que pudesse detê-lo.

Nenhum.

Além de Nick, o único que era capaz de derrubar o exército, Malachai estava agora encarcerado e mantido tão fraco como um gatinho doente. Enquanto os poderes do Adarian cresciam, os de Jared se deterioravam sob o cuidado de uma viciosa guarda que não tinha nem ideia de quão importante era seu prisioneiro.

O equilíbrio de poder estava mudando, igual o que tinha acontecido nos dias prévios à história. Então, a mais sangrenta de todas as batalhas tinha rugido. Um dos mais ferozes soldados, Caleb, tinha sobrevivido com muita dificuldade e a lembrança lhe queimava em seu interior. A luta com o pai de Adarian custou-lhe tudo.

Agora era o servo de seu filho.

A vida realmente é uma merda.

— Obedecerei… amo —. Esse título se alojava profundamente em seu peito.

Adarian sorriu.

— Bom menino. E lembre, meu filho deve ser malvado até a medula dos ossos. Tem que sê-lo. Não importa o que custe. Ouve-me?

— E se a única maneira de deixá-lo malvado for matar a mãe?

Adarian voltou a agarrar sua garganta.

— Touca num só cabelo de sua cabeça… permite que alguém mais o faça, e te farei pagar em formas que não pode imaginar em seus mais selvagens pesadelos. Cherise é minha e ninguém mais porá nunca uma mão sobre ela.

Era uma ordem que Caleb não podia entender. Uma vez mais, poderia atribui-lo ao amor, mas não havia maneira em que um Malachai pudesse amar nada exceto a si mesmo e sua busca de poder.

Fazendo uma profunda reverência, afastou-se do Adarian.

Caleb teve que obrigar-se a não zombar enquanto voltava a retomar sua forma de corvo e voava através da parede. Mas uma vez que se perdeu de vista, usou suas garras para zombar do senhor demoníaco.

Proteger o menino, meu traseiro.

Que ironia, realmente. O destino do mundo inteiro, da humanidade e demonkyn estava nas mãos de um garoto de quatorze anos de idade que não tinha nem ideia dos poderes com que tinha nascido.

Um garoto de quatorze anos de idade cujo maior temor estava conectado por uma mãe que nem sequer seria um bocado decente para Caleb e seus amigos. Que perda de poder.

E eu sou o idiota que tem que protegê-lo.

Não só dos demônios, mas também dos homens lobo como Stone, e outros que tinham uma inclinação natural a agarrar o Nick, devido a que podiam sentir que não era de tudo humano.

Caleb deixou escapar um suspiro cansado. Alguma vez cessariam suas indignidades?

 

— Olá? Senhor Menino, Pessoa Humana? Pode ouvir a Simi? Ou está morto? Oi?

Nick despertou com alguém lhe abrindo um buraco na parte superior de seu braço com a ponta de um dedo.

— Ai! Quer deixar de me furar? — Abriu os olhos para encontrar a umas das moças mais bonitas que tinha visto inclinada sobre ele.

Dang...

Ensina-me a ser grosseiro antes de saber quem me está agredindo. Porque a garota estava b-e-m e estava mais que disposta a ser sua vítima em qualquer momento que ela queria invadir seu espaço pessoal, embora não fosse mais que com a ponta do dedo.

Seu comprido cabelo negro pendurava em acréscimos e estava enfeitado de vermelho sangue. Levava uma gargantilha de couro tachada que fazia jogo com o espartilho de couro negro que vestia. Provavelmente tinha entre dezessete ou dezoito, possuía um par de olhos vermelhos (deviam ser algumas dessas estranhas lentes de contato) que estavam marcados por delineador de olhos negro. Seus lábios também eram de um vermelho brilhante, como suas unhas. E suas feições eram absolutamente perfeitas. Vestida com uma saia muito curta de cor negra e vermelha, usava meias púrpuras e um par de brilhantes Doc Martens vermelhos acentuadas com um motivo rosa e uma caveira.

Ela inclinou a cabeça em um gesto que recordava a um pássaro, enquanto lhe olhava com consternação.

— Por que estas dormindo no chão aqui fora, Senhor Menino Humano? A Simi não acredita que isto seja uma coisa segura de fazer. Tampouco cômoda. Alguém poderia pensar que está morto e te roubar algo ou poderiam te matar. Talvez não se acreditassem que já esteja morto, mas de novo, a gente faz coisas estranhas todo o tempo, como matar a gente morta apesar de que já estão mortos. É exagerado ou simplesmente tolo? Não importa. Assim provavelmente deveria te levantar logo e não dormir aqui. Perdeu sua cama? Ou é uma dessas pessoas especiais que não têm uma cama, mas dormem ao ar livre em seu lugar? Alguns podem ser realmente agradáveis. Alguns inclusive lhe oferecem bebidas a Simi, mas akri diz que não posso tomar nada porque me dá indigestão. Não como faz a borracha, a não ser pior. É o que diz akri. —Tinha uma estranha voz musical que era íntima e adorável.

Mas o fazia entendê-la um pouco difícil, especialmente com a dor que cabeça que tinha.

— O que? — Perguntou Nick.

Ela deixou escapar um comprido suspiro de sofrimento.

— É um desses humanos que não pode seguir a Simi falando. Está bem. Isto é por que a Simi não se molesta em falar como a maioria dos humanos, não se ofenda, todos são estranhos. Alguns de vocês inclusive são estúpidos. Realmente estúpidos. Como cotos estúpidos. É a falta de chifres, digo eu. Olhe, só as criaturas muito inteligentes têm chifres… exceto para as muu muu vacas, elas não são brilhantes. Mas akri diz que sempre há uma exceção para cada regra. Assim que elas poderiam ser a exceção para a dos chifres. Mas sabem realmente bem pelo que a Simi as perdoará por reduzir sua curva de sino de intelecto superior sobre todas as outras subespécies sem chifres.

Ela entrecerrou os olhos olhando sua cabeça.

— Hmmm, tenho certeza que estaria realmente lindo com chifres. Não é que não seja lindo agora, mas é um pouco jovem. Só tem o que? Quatro anos humanos? OH espera, isso está mau, verdade? Noventa?

Falava a sério?

— Quatorze.

— OH. — ficou a ponta do dedo nos lábios, enquanto considerava algo. — Não tinha imaginado isso. Entretanto, é jovem. Assim pode a Simi te ajudar a encontrar um lugar para dormir que não seja perigoso? Meu akri pode ajudar se o necessita. Sempre o faz.

Nick sacudiu a cabeça.

— Quem é? — De que planeta é? Obviamente ao Planeta Loucura faltava-lhe um residente local de longo prazo.

Estendeu-lhe sua mão coberta de rendas.

— Sou a Simi, e quem é você, Senhor Menino Humano?

Estreitou-lhe a mão cuidadosamente em caso de que sua loucura fosse contagiosa.

— Nick.

Apartando-se, ela agarrou o bordo de sua tipoia.

—Tem uma ferida, verdade? Tinha isto antes de ir dormir na rua?

— Uh, sim. — Nick se levantou e Simi ficou em pé ao seu lado.

Dang ela era alta. Ao menos um metro oitenta. É obvio algo disso estava aumentado pelas botas de plataforma.

Franzindo o cenho, ela se inclinou adiante e lhe tocou o pescoço.

— Está sangrando, Senhor Nick. Supõe-se que deva fazer isso?

Nick lhe apartou a mão para poder sentir o corte ali. Tratou de recordar o que tinha lhe acontecido, mas por sua vida que não o recordava. A última coisa que recordava era deixar Caleb e dirigir-se ao Bourbon.

— É mau?

— A Simi não sugeriria estar perto de nenhum Daimon com isso porque poderiam estar famintos e poderia lhes parecer muito tentador drenar seu sangue e fazer um festim com sua alma, mas não jorra nem nada. Acredito que viverá. — deteve-se de novo como se estivesse pensando nisso —. Sim, está bem. A gente só morre quando jorra e não para. Entretanto, se não viver e cair morto por isso, pode comer a Simi? Akri diz que a Simi não pode comer gente viva, mas nunca diz nada sobre a gente recém-morta. Talvez por isso não me deixe perto de mortos frescos. Mas…

— O que está falando? — Interrompeu-a Nick —. É real?

Piscou inocentemente.

— O que quer dizer? — Mordendo o lábio, olhou-se a mão —. A Simi não se está ficando invisível de novo, verdade? Oooh, isso seria ruim. Prometi a Akri que não faria mais isso em lugares públicos. Mas às vezes a Simi não pode evitar. Algo assim como pôr molho andaime nas saladas. Só é obrigatório porque tens que matar o sabor da asquerosa carne de coelho.

Nick se separou dela. Estava louca com L maiúsculo. Não ficava nenhuma mulher em Nova Orleans de menos de vinte anos que não tivesse perdido a razão?

Kody...

Sim, definitivamente necessitava um pouco da Kody agora mesmo.

Esclareceu a garganta enquanto olhava a Simi.

— Não, não te está voltando invisível e estou seguro que chegarei tarde, assim é melhor ir…

Ficou de frente a ele para deter sua marcha.

— Ouviste esse som?

— Que som?

— Zumbis! Vêm por nós. Wheee! Yum!

    

Ian St. James estava sozinho no quarto de seu irmão maior Madaug. Não se supunha que tivesse que estar ali. Nunca. Sob pena de grave mutilação e muitos gritos de seus pais. Mas Madaug sempre tinha os melhores jogos, que se negava a compartilhar com seu irmão pequeno.

O grande cabeça de bagre.

O que ele não sabe não cansará meu braço… Sim, Madaug tinha saído pela porta fazia horas e não parecia que retornaria em curto prazo. O que dava a Ian um montão de tempo para entrar no computador Madaug e jogar à última criação de seu irmão: Pokemon Death Trap Fever. Seu irmão tinha tomado a todos os personagens do Pokemon e os tinha fundido com os de Mortal Kombat. Como Charizard, agora cuspindo ácido e podendo lhes romper a coluna aos outros personagens enquanto ria deles. Era uma briga a morte com um banho de sangue que faria deprimir-se a sua mãe se alguma vez soubesse.

Mas o que ela não sabia não reprimiria Ian.

Sorrindo ligou-o, depois se encolheu ante o pestilento fundo de tela de Madaug que raiava o hentai… outra coisa pela qual sua mãe morreria. A garota de desenhos animados tinha tão pouca roupa que bem poderia estar nua. E a maneira que tinha a perna levantada chutando… emudeceu.

Ew!

— Simplesmente não o entendo. — Ian pôs sua mão para bloquear a vista da menina enquanto entrava no menu para encontrar os jogos. Seu irmão lhe dizia que os conseguiria em uns anos, junto com o cabelo em lugares estranhos e o aroma corporal. Honestamente, Ian gostava de ter dez anos e não tinha desejos de crescer e cheirar, especialmente se significava cheirar como Madaug.

Estremeceu ante a ideia enquanto lia através dos jogos. Deteve-se quando um em particular lhe chamou a atenção.

— Zumbi Hunter?

Madaug não tinha lhe falado deste. Ooooh, soava bem. Deu um click duplo sobre ele, esperando que carregasse. Esfregando-as mãos, riu, sabendo que estava escapando com algo que realmente enfureceria seu irmão, se Madaug se inteirasse disso.

E Ian adorava escapar com coisas com as que se supunha que não devia estar.

De repente, ouviu um som fora da porta.

Ian saltou, aterrorizado de que fosse Madaug chegando para lhe descobrir em seu quarto em seu computador. Estou morto. Estou morto. Estou morto. Seu irmão lhe bateria até que gritasse como uma menina.

Desligando o computador, saiu disparado da mesa. Com o coração golpeando fortemente, foi à porta e a abriu.

Não era Madaug.

Era um tipo alto e aterrador que nunca tinha visto antes. Seus olhos estavam injetados em sangue e inchados enquanto olhava para baixo e viu Ian.

— Cérebros — grunhiu.

Ian pôs os olhos em branco. Por associação devia ser jogador de futebol. O que acontecia com adolescentes que pensavam que uma coisa tão estúpida poderia intimidar aos meninos grandes?

— Não sou um bebê. Não pode me assustar com isso. — Elevou o queixo desafiante.

Até que o tio o agarrou e lhe mordeu no ombro.

Gritando, Ian fez o que sua mãe sempre lhe dizia que fizesse se qualquer garoto, não um de seus irmãos, agarrava-lhe. Pegou-lhe nas bolas tão forte como pôde.

O zumbi cambaleou para trás, mas ainda estava na porta, bloqueando sua via de fuga.

O pânico cresceu enquanto os lábios de Ian tremiam. Sinto-o por estar em seu quarto, Madaug. Nunca voltarei a entrar a menos que você me diga isso. Juro…

Isso seria, sempre que o zumbi não comesse seus miolos.

Ian correu do escritório do Madaug, procurando uma arma. Dang, o geek[32] de seu irmão nem sequer tinha um troféu com o que golpear o zumbi na cabeça. Tudo o que tinha era um sanduiche de presunto pela metade, um boneco cabeçudo de Ioda, uma lata vazia de Dr. Pepper, umas batatas fritas, uma caixa de pizza de dois dias gordurenta, um montão de CDs, e um estojo de óculos. Tudo isso não lhe servia para nada.

Pensa, Ian, pensa…

O zumbi lhe agarrou de novo.

Ian agarrou quão único pôde alcançar.

Um lápis.

Não era só para fazer os deveres… Eram bons para todo tipo de coisas. Fazer resert no seu Nintendo, desfazer os nós em seus sapatos, tirar a porcaria debaixo das unhas, pintar na parede…

E apunhalar zumbis.

— Iiiiyaaa! — gritou enquanto apunhalava o zumbi no braço tão forte como pôde.

O zumbi gritou.

Como uma lebre assustada, Ian se agachou entre suas pernas e correu pelas escadas.

— Mamãe! — gritou enquanto se revolvia em busca de segurança. Felizmente, estava acostumado a correr por sua vida por causa de seus dois irmãos maiores, cujos maus gênios e mentalidade matar-o-irmão-pequeno faziam parecer com que o zumbi parecesse com uma menina.

— Mamãe! — Gritou uma vez mais, enquanto entrava na cozinha e rodeava o balcão central onde ela estava em pé, fazendo o jantar —. Ajuda! Um zumbi está me perseguindo!

Ela deixou escapar um suspiro frustrado quando ele a agarrou pela cintura.

— Que diabos está acontecendo, Boo?

Ian tratou de explicar, mas antes que pudesse conseguir dizer mais que um punhado de palavras, o zumbi estava na cozinha, o olhando.

O lápis ainda estava se sobressaindo de seu antebraço enquanto grunhia.

A mãe de Ian franziu o cenho ao adolescente.

— Danny? O que está fazendo aqui? Como entrou na casa? Não ouvi a porta.

— Está tratando de comer nossos miolos, mamãe.

Ela estalou a língua para ele.

— Ian, não seja ridículo. Danny vai à igreja conosco. Não o conhece?

— Não. — Recordaria se tivesse visto alguma vez a um zumbi na igreja. O arrastar-se e gemer tendia a destacar.

Sua mãe se voltou para o Danny.

— Está aqui por uma doação? Ouvi que seu grupo juvenil estava…

Danny agarrou à mamãe do Ian e a mordeu na cabeça.

Ela gritou.

— Não faça mal a minha mãe! — Ian correu para ele com todo seu peso, lhe levando uns passos para trás e causando que deixasse ir a sua mamãe. Ian se agarrou forte à perna do Danny e lhe mordeu até saborear o sangue.

Ninguém ataca a minha mãe!

Danny chorava como um bebê enquanto a mãe do Ian agarrava a bandeja onde tinha estado fazendo bolachas.

Golpeou várias vezes a cabeça do Danny com a bandeja, lhe obrigando a afastar-se deles.

— Fique atrás de mim, Ian.

Por uma vez, Ian fez o que lhe disse.

Ela retrocedeu afastando-se de Danny, para a porta principal.

Ian se estava se sentindo muito bem com sua fuga até que se deu a volta.

Havia mais zumbis no alpendre dianteiro e todos pareciam famintos…

 

 

O coração do Caleb deu um tombo enquanto voava como um corvo e via o Nick e alguma garota desconhecida completamente rodeados por zumbis enquanto tratavam de lutar contra eles.

O Malachai vai me matar…

De sua posição vantajosa, parecia que os zumbis estavam conseguindo ser os melhores. Nick estava coberto de sangue de diversas feridas de dentadas enquanto a garota parecia estar fazendo um melhor trabalho mantendo-os separados dela.      

Convocando seus poderes, Caleb enviou uma onda mental aos zumbis para dispersá-los.

Não escutaram. Em todo caso, os fez mais agressivos contra Nick.

— Que merda?

Como um demônio, um dos primeiros poderes aprendidos era ser capaz de controlar aos mortos. Era uma lição que se supunha que Nick devia estar aprendendo agora.

Mas os poderes do Caleb eram inúteis contra os zumbis.

Como poderia ser isso? Não tinha sentido. Não, que isso tivesse que ter sentido para chateá-lo completamente.

E então se deu conta de por que não podia controlá-los.

Não estavam mortos. Estes zumbis tinham sido feitos quando estavam vivos. Os vivos podiam ser possuídos ou influenciados, mas não podia controlá-los sem sua cooperação.

Grunhindo de frustração, Caleb voou para a rua, às sombras, onde tomou forma humana. O demônio nele queria esmagar aos zumbis ao esquecimento. Mas isso poderia fazer arrebentar sua tela e já tinha aprendido do modo difícil fazia três anos que seus poderes não funcionavam com o Nick.

Se expuser seus poderes e Nick os via, não haveria maneira de desfazê-lo. Estaria fodido e Nick nunca voltaria a confiar nele de novo. É obvio, poderia tentar o método torpe e inexato da perda de cor golpeando o Nick na cabeça…

Poderia funcionar.

Ou poderia lhe dar uma comoção cerebral.

Pior ainda, poderia matá-lo.

E posto que a sobrevivência de Caleb girava em torno dele… melhor não correr o risco.

Assim em lugar disso, correu para o beco para ajudá-los, então parou em seco quando se deu conta de que a garota com a que Nick estava não era uma garota depois de tudo. Era um demônio, também.

Um demônio Caronte, para ser precisos.

OH Dusseldorf, isto se complicava. Protegeu seus poderes imediatamente. O problema com o Caronte era porque eram muito territoriais e não toleravam a outros demônios em seus domínios. Nunca. Para eles, se não foi um Caronte, foi lixo, e todo lixo deve ser comido. Literalmente. Lentamente e com gosto, ou, mais frequentemente que não, com molho andaime.

Desde que os Carontes eram um dos mais poderosos no ramos de demônios, servia-lhe melhor ficar fora de seu radar.

E menu.

Mas por que estava com o Nick e não estava lhe atacando, não tinha nem ideia. Os Carontes normalmente não se associavam com ninguém a menos que, como tinha famoso anteriormente, estivessem no cardápio.

— Nick! — Gritou Caleb quando um dos zumbis foi pelo pescoço do Nick — atrás de você!

Nick se voltou para ouvir o grito de Caleb para ver Brett Guidry, um de seus companheiros de classe, vindo por suas costas. Agradecido de que Caleb tivesse retornado, assinalou Brett com o queixo.

— Temos que colocar a estes tios na loja do Bubba. Alguém tem uma pista de como fazê-lo?

Simi lhe olhou.

— Têm que estar respirando?

— Sim — disseram Nick e Caleb ao uníssono.

— Bom, ora. — Simi fez uma panela —. Isso só tira toda a diversão disso —. Deixou escapar um suspiro dramático.

Nick estava afligido pela hercúlea tarefa. Como três estudantes de escola secundária colocavam a uma dúzia de zumbis no armazém do Bubba sem ser comidos?

Por que não fiquei em casa?

Olhe o lado bom…

O problema era que não via um lado bom.

Sei que deveria haver me dedicado a assoar o nariz e não esses que você dispara de seu nariz ou os outros que não queria pensar enquanto estava lutando. Porque encarando, ambos desses poderiam ser inúteis justo agora. Melhor assoar o nariz onde desfazer ao Exército das Trevas com uma serra elétrica em todos os Deadites[33] e enviá-los ao esquecimento.

Ou ao menos jogá-los fora de sua vista.

Os zumbis se fecharam. Nick se preparou para mais uma luta mano-a-mano (literalmente, em seu caso).

De repente, Simi agarrou-o e a Caleb pelas mãos e correu com eles para a esquina. Vacilou sob o letreiro da rua.

— Onde está o Bubba?

Nick assinalou baixando a rua para a loja.

— Ok. — Simi lhes soltou as mãos—. Vão meninos corram para dentro e eu os levarei justo atrás de vós.

Nick sacudiu a cabeça enquanto todas as lições que sua mãe tinha lhe ensinado rugiram em primeiro plano.

— Isso não está bem. Não vou deixar uma garota ser comida por loucos.

Caleb olhou por cima de seu ombro para onde os zumbis se aproximavam rapidamente.

— Amigo, estamos aqui discutindo e vamos morrer. — Agarrou Nick e puxou ele —. Deixa-a ser a isca. Precisamos abrir as portas.

Nick teria lutado também, mas o agarre de Caleb era muito feroz, não lhe deixando nenhuma opção exceto o seguir ou perder seu outro braço.

Só tinham corrido meia quadra antes que dois zumbis mais saíssem da escuridão para atacá-los.

Nick amaldiçoou enquanto se detinha em seco e chutava ao primeiro de volta ao beco.

— Quantos destes há?

Caleb sacudiu a cabeça.

— Estou começando a me perguntar se Madaug não deu permissão para publicar o jogo na Sony ou algo. De onde saíram todos? É a clonagem da granja Raccoon City? O que está acontecendo aqui?

Nick deu um passo para trás para evitar ser mordido.

— Estamos a ponto de conseguir que nos chutem o traseiro. Isso é o que está passando. — Deu uma patada de tesoura no zumbi mais próximo. Então olhou para ver a Simi levando a outros mais perto —. Estou começando a me sentir como Jim Bowie[34] no Álamo.

Caleb golpeou o zumbi frente a ele para trás.

— Sim, mas não vamos morrer.

Eu gostaria de poder estar tão seguro disso. Porque agora mesmo, as coisas não se viam bem para ele e se fosse um homem de apostas, estaria apostando nos zumbis.

Mesmo assim, Nick afastou seu medo e seu pânico e se manteve movendo-se para a loja, conduzindo os zumbis atrás dele enquanto continuava rechaçando-os. Gah, se um mais deles lhe tocasse o ombro ferido, ia esquecer a proibição de lhes matar e se converteria em um porco selvagem, com serra elétrica ou não.

— Realmente eu não gosto de ser a cenoura pendente.

—Melhor que ser o pato morto. — Caleb golpeou o zumbi mais próximo.

Tinha um bom ponto com isso.

Nick foi o primeiro em alcançar a loja. Abriu a porta e chamou Bubba, Madaug e Mark.

— Temos um grupo vindo. Poderiam querer limpar esta habitação e estar preparados para encerrá-los com força.

Mas levá-los a loja era bastante difícil. Na loja…

Onde estavam os X-Men quando realmente os necessitava?

Nick agarrou o porrete eléctrico que Bubba tinha pendurando na parede atrás do mostrador… outra vez para esses momentos “no caso de”. Estava começando não só a compreender a paranoia de Bubba, mas também a estar agradecido por ela.

Bubba tinha razão. Nunca sabia quando essas coisas podiam ser úteis. Pagaria por ter um porrete eléctrico e um machado na mão. A necessidade de um lançador de foguetes e detonadores ficava por ver-se.

Pelo menos o porrete faria mais fácil encurralá-los. Mas no momento em que Nick tocou com o porrete ao zumbi mais próximo, Brett, deu-se conta de que Mark e Bubba faziam algumas modificações sérias à voltagem. Não era o típico porrete eléctrico que apartava às pessoas. Esta tinha a intenção de aturdir e paralisar fortemente. A sacudida foi tão forte, que conduziu o zumbi ao chão como se a arma tivesse de um milhão de volts.

— Que dem…? — Nick olhou assombrado para Bubba, que sorriu em toda sua desavergonhada glória.

— Os vizinhos não se queixam quando eletrocuto as pessoas, só quando atiro.

Mark estava de acordo.

— Mas o inconveniente é que é uma dor para tirá-los da loja, e se os deixar aqui, quando podem se mover de novo, no geral estão bastante zangados e em busca de sangue.

Madaug, Caleb e Simi continuavam batendo aos zumbis para a cela de contenção.

Nick pegou com o porrete a outro zumbi que ia atrás de Simi. Na realidade foi bastante divertido. Tinha os deixado meio doidos com o porrete. Gritavam e então caíam no chão como peixes moribundos. Fez-lhe perguntar o que teria passado se tivessem estado húmidos, mas não era o suficientemente sádico para pôr a prova sua curiosidade. Para sorte deles.

Eletrocutou a outro que ia atacar sua cabeça e enviou o zumbi ao chão agitando-se. Um cara poderia acostumar-se a isto, sobretudo se não fosse para a cadeia por isso.        .

Parara no momento em que Nick aturdiu o último zumbi e Bubba e Mark estavam arrastando á primeira habitação, fizeram um descobrimento “eletrizante”.

Quando a voltagem se dissipava, os zumbis voltavam para a normalidade.

— Tire as mãos de cima de mim! — Brett grunhiu enquanto empurrava Bubba para trás — Meu pai é advogado e vou mandar você para cadeia por contato ofensivo.

Bubba arqueou uma sobrancelha.

— Poderia querer isso realmente, menino. Porque se for ser mandado para a cadeia por te tocar ofensivamente, vou fazer com que valha a pena. Pense nisso.

O rosto de Brett empalideceu. Olhou a seu redor na loja como se estivesse despertando de um pesadelo.

— Como cheguei aqui?

Nick apontou o porrete para ele, não confiando ainda que ele estava totalmente normal. Tinha visto esse filme muitas vezes onde os idiotas pensavam que tinham superado o monstro com o que queiram que os possuíssem, só para voltar as costas ao monstro e que os matasse no instante em que baixassem o guarda. De maneira nenhuma. Não estava a ponto de converter-se em bolachinhas para zumbis inteligentes.

— Estava tratando de comer meus miolos, psicopata.

Brett lhe olhou assombrado.

— O que?

Caleb assentiu com a cabeça.

— É verdade, amigo. Foi atrás da garganta do Gautier, e pela minha também.

Madaug tomou o porrete do Nick para que pudesse examinar as marca de dentes no extremo da mesma.

— Uau, Nick. Encontraste a solução. Assim é como vamos arrumar isso.

— Eletrocussão? — Nick tratou de nos sorrir ao pensar a sério em eletrocutar Stone.

Madaug assentiu com a cabeça.

— A tensão atua sobre o sistema nervoso central… Estou pensando que funciona como uma ascensão de tensão que faz que a programação se derrube e essencialmente reinicie o original que existia antes de jogar o meu jogo. Investe tudo. Nick! É um puto genial.

Nick descansava o porrete sobre seu ombro bom.

— Bom alguém esbofeteia meu traseiro e me dá uma medalha de herói.

Simi deu um passo adiante e lhe pegou na nádega direita.

— Hey! — Exalou Nick, esfregando-as nádegas ofendido.

Ela piscou inocentemente.

—Você que disse. Ou teria preferido que um dos homens te golpeasse o traseiro em meu lugar?

Nick estava horrorizado pela mera sugestão.

— Se alguém tocasse nessa parte minha, preferiria com muito gosto que fosse você ao invés de um deles. — Ou melhor ainda, Kody.

— Nós também - disseram rapidamente os meninos.

Enquanto estavam ali, um por um os zumbis voltaram em si. Todos eles estavam desorientados e desconcertados pelo que lhes tinha acontecido.

E nenhum dos doze meninos lembrava ter jogado o jogo do Madaug.

Nenhum deles.

Nick franziu o cenho para Madaug.

— Você acha que quando os eletrocutei, provoquei algum tipo de perda de memoria? —O que realmente lhe preocupava desde que tinha um lapso de memoria a respeito de como tinha conseguido estar no pátio da mansão Lalauree. Tinha sido um zumbi e não sabia?

Por favor, não deixe que tenha comido nenhum cérebro.

Era o único que podia fazer que os ovos polvilhados da mãe saíssem bem.

Madaug arranhou o queixo enquanto pensava nisso.

— Não sei. Necessitamos um caso de estudo.

Bubba se deteve e se voltou para ele.

— Um caso de estudo como?

— Temos que agarrar ao Brian, eletrocutá-lo, e ver — disse Madaug —. É a única maneira de sabê-lo a ciência certa já que é o único que conheço que sei de facto que se tornou de facto um zumbi depois de jogar meu jogo.

Não era um dos que iria interpor sempre a lógica a tudo, riu Nick nervosamente.

— Sabe que está na cadeia, verdade? E que a polícia tende a estar um pouco perturbada ante as pessoas que aparecem ali com porretes elétricos e armas atordoantes. Só estou dizendo.

Simi saltava para cima e para baixo.

— Poderíamos conseguir que a polícia nos disparasse!

Mark se mofou.

— Que sorte, teria disparado com armas reais e matado. Então não aprenderíamos nada.

Como isso era o pior temor que tinham no momento…

Sim.

Madaug não retrocedeu.

— Temos que tirá-lo ou entrar nós mesmos e lhe eletrocutar. Do contrário não saberemos realmente se isto funciona. Poderia ser temporário e voltar de novo para ser zumbi. Pensa nisso.

Nick estava pensando nisso. Estava pensado em passar o resto de sua vida na cadeia, sempre e quando sua mãe não o matasse primeiro.

— Imagino que nenhum de vocês ex-zumbis gostaria de ir à cela de contenção até que resolvamos isto?

Brett lhe agarrou pela camisa.

— Não tenho ideia de que jogo você e seu amigo geek estão jogando, Gautier. Mas se ponha em meu caminho enquanto saio e limparei as minhas botas com suas bolas.

Nick se encolheu involuntariamente ante uma ameaça que foi por suas costas como um triturador.

Antes de dar-se conta do que estava passando, Simi tinha pegado a mão de Brett e apertava com tanta força que Nick escutou os ossos fraturar-se.

Brett lançou um grito.

Simi lhe sustentou a mão na sua, sem lhe dar trégua.

— Nick é um amigo da Simi. Ameaça-o e fará a Simi realmente infeliz a querer comer sua cabeça. Confia em mim, não é algo no que queira pensar. Agora solta ou a Simi dirá a akri que não sabe que aconteceu com você e a sua forma mastigada. Não é que eu goste de mentir, mas há exceções em cada regra. E você está a ponto de ser uma. — Empurrou-lhe de novo para a habitação — Agora entrem aí e fiquem em silêncio.

Por suas caras, era óbvio que nenhum deles queria obedecer. Mas nenhum deles tinha uma coluna vertebral para fazer frente à Simi.

Bubba sorriu.

— Eu gosto de sua amiga, Nick. Não fala com rodeios, verdade?

— Na realidade não. — Mas então algumas das palavras que não esmiuçou realmente não tinham sentido, e quem demônios era este akri que ela seguia falando? Devia ser algum perigoso filho de puta que a encurralou.

Mark fechou a porta oculta e fechou a parede para que ninguém que entrasse na loja pudesse ver seus novos prisioneiros.

Caleb franziu o cenho.

— E se começarem a pedir ajuda?

— Não lhes fará nenhum bem — disse Bubba — Está isolada do som e feita com metal suficiente para que não tenham cobertura em seus celulares. Estarão ali até que lhes deixemos sair.

Mark deixou escapar uma risada nervosa.

— Então não terá que os matar de fome até a morte.

Nick o olhou fixamente.

— Mark, há muitas, muitas razões pelas que não quero ser assassinado fazendo nada que não seja matar de fome a reféns ex-zumbis. — Olhou ao Madaug — Ou ir para a cadeia. Não posso insistir o suficiente que não quero ir á prisão e o muito em que não quero morrer.

Mas tinha um mau pressentimento que estava a ponto de dirigir-se a um desses ambientes ou ao outro.

 

— Nick? — Mark chamou através da porta no momento em que Nick saía da ducha — É sua mãe ao telefone e ela está mais quente que Angelina Jolie recostada com um biquíni no Equador, coberta de lodo… Não é que eu esteja dizendo que sua mãe esteja boa de ver, não é que não esteja, mas nunca fantasio com sua mãe porque isso estaria fazendo mal a um homem — não é que sua mãe não mereça ser uma fantasia, mas… —. Ah, inferno, tudo isso soava melhor em minha cabeça. O que quero dizer, é que ela está zangada. Atende só o telefone antes que esquente meus ouvidos ainda mais.

Nick se deteve. Essa foi uma pérola interessante e lhe fez perguntar-se a respeito dos sonhos de Mark. Espera, não importa. Conhecendo o Mark, aquelas tinham que ser aterradoras. Merda, tinha sorte que a garota dos sonhos do Mark não fosse uma zumbi.

Abriu a porta só o suficiente para agarrar o telefone de Mark antes de colocá-lo na orelha e se preparou para confrontar a fúria dela.

— Hey, Mãe.

— O que está fazendo? — Sim, estava totalmente zangada com ele. Esse tom quente podia derreter as geleiras polares. Estava gritando tão alto que apartou o telefone oito centímetros da orelha e ainda assim a ouvia perfeitamente — Moço, onde está? Tem alguma ideia de que horas são? Será tão castigado quando te vir, que para sua informação, é melhor que seja logo, como agora mesmo. Se não entrar pela porta, o que não está fazendo, vai perder o pelo. Entende? Nick? Está me escutando? O que tem que dizer? Huh, jovenzinho?

Ele honestamente não sabia o que dizer que não a pusesse o dobro de zangada, o que não era seu objetivo agora mesmo. O nome do jogo era… sobrevivência.

Valorizo minha liberdade, mas vejo uma severa restrição adiante. Que mal que não tivesse advogados dispostos a representar meninos contra seus pais.

— Que pergunta quer que responda primeiro?

— Não te faça de engraçadinho comigo, Nicholas Gautier. Estou muito zangada contigo para suportar.

Tinha que reprimir seu próprio temperamento. Se tivesse aprendido algo na vida, era que sua mãe não reagia bem ao conflito direto. Um agradável e contrito Nicky era frequentemente um que evitava ser castigado inclusive quando merecia.

— Sinto muito, mamãe. Não estou me fazendo de engraçadinho. — Estava tratando de fazer que ela parasse de gritar com ele —. Sujei-me de… — se deteve antes de dizer “sangue”. Isso a agitaria mais inclusive —,… de algo pegajoso durante a aula. — Uma pequena mentira, mas o que não soubesse não lhe provocaria um ataque do coração e a ele uma restrição que lhe duraria até que fosse calvo e de meia idade — Eu, um, queria tomar uma ducha na casa do Bubba antes de voltar e encher o clube com essa coisa pegajosa, o que poderia te colocar em problemas. — Sem mencionar que a visão de suas roupas a teria aterrorizado até fazê-la chamar à polícia, e a última coisa que Bubba precisava era outro depósito em seu histórico —. Deveria ter ligado e tê-la deixado saber primeiro. Realmente o sinto. Suponho que passei mais tempo na ducha do que pretendia. Sabe que Bubba tem uma dessas coisas de vapor que baixa do teto? Deveria ver seu banheiro, mãe. É a coisa mais surpreendente e genial que já vi.

Ela se negou a lhe deixar distrai-la.

— Está bem?

— Sim, mãe. — Uma pequena amostra de respeito sempre fazia que as coisas se suavizassem.

Ela suspirou.

— Então, suponho que não há estrago. Mas, sim, assustou-me, Nick. Só quero que saiba.

— Sinto muito, mãe. De passagem, Bubba disse que me acompanharia ao clube.

— Isso é extremamente agradável de sua parte. — A voz dela havia finalmente voltado para a normalidade e não ao tom de quero-seu-traseiro-sobre-um-prato, que tinha tido alguns minutos antes—. Diga-lhe que o agradeço.

— O farei. Está bem se nos detivermos para comer algo, também?

Seu tom se voltou agudo de novo, como se o estivesse acusando de algo.

— Acreditei que tinha comido na casa do senhor Hunter.

— Fiz isso. Mas tenho fome outra vez.

— OH. — Foi de zangada a calma tão rápido que lhe fez perguntar-se se era a Ferrari das mães. Sua velocidade máxima tinha que ser de 65 nano segundos. Talvez menos — Deve estar crescendo de novo. Quer pegar um pouco de dinheiro?

— Nah, o senhor Hunter me deu algo antes.

— Por quê? — Bum! Seu aborrecimento retornou. Garantido que estava tingido com algo que ele acreditava que poderia ser medo ou suspeita, mas o tom principal era definitivamente aborrecimento.

— Dinheiro para o táxi no caso de que o necessitasse para ir ao trabalho ou para casa. Não quer que tome o bonde depois do anoitecer porque me disse que não quer que me ponha em perigo. — O que, combinado ao que lhe tinha dado o senhor Poitiers, estava perto de uns cem dólares. Se eles seguissem assim, ele poderia, na verdade, começar a fazer algum progresso em seu fundo sempre-patético para a universidade.

— Não sei o que penso a respeito disso, Nick.

O que é o que tinha que pensar? De seu ponto de vista, se eles estavam dispostos a lhe dar dinheiro e ele não tinha que fazer nada por isso, estava mais que disposto a agarrá-lo.

— Bom, enquanto resolve, posso comer?

Ela fez um som de irritação.

— Juro que é o menino mais insolente do planeta. Sim, Nicky, coma algo e te verei em uma hora ou irei eu mesma lhe buscar. Entendeu? E será um jovenzinho muito arrependido se o fizer.

— Sim, mãe.

— Amo-te, bebê. — Deve ser alguma forma mutante de Transtorno Bipolar. Não havia outra explicação para as arrepiantes mudanças de humor.

— Eu também te amo, Mamãe, e na realidade sinto haver te preocupado.

— Está tudo bem. É o que faz melhor, de todos os modos. Lembre-se de comer vegetais e não contam nem as batatas fritas nem o Ketchup.

— Sim, mãe. — Nick pendurou o telefone e vestiu com os jeans e uma camiseta da banda Triplo B “big balls and brains[35]” que Bubba tinha lhe emprestado. A melhor parte era o logotipo de Bubba nas costas que compreendia uma foto de Bubba sustentando uma escopeta sobre seu ombro enquanto se inclinava sobre um enorme computador que tinha fumaça saindo da parte superior e uns quantos buracos de balas no monitor. Lia-se:

 

Problemas com o Computador?

Marque 1-888-CA-Bubba

Se não puder me fazer encargo de seus problemas de uma maneira…

Encarrego-me deles de uma forma ou de outra.

 

E em uma pequena impressão por debaixo dessa, lia-se:

 

Atendemos toda classe de pragas por você. Zumbis, roedores e vampiros. Se você tiver uma peste, nós temos um padre. Só nos chame agora. Acreditaremos em você.

 

Sim, Bubba realmente não estava bem da cabeça, mas Nick amava os comerciais que ele e Mark filmavam para a loja. Eram hilariantes. E sempre terminavam com esse slogan. “CA´Bubba”.

A questão triste era que ele sabia de fato que Bubba tinha usado os computadores de umas poucas pessoas como objeto de prática e ele não queriam pensar no Mark e na urina de pato anti-zumbi.

Sacudindo a cabeça, secou-se o cabelo e desceu pelas escadas onde Bubba, Mark, Simi, Caleb e Madaug estavam discutindo sobre a grande fuga da prisão.

Eles vão conseguir fazer com que me prendam e minha mãe me matará por isso.

Simi assinalou o esquema que Bubba tinha desenhado de cor do que ela gostava de chamar os numerosos “desafortunados encarceramentos” que tinha tido nos calabouços do distrito.

— Veja, agora a Simi pode fazer estalar isso e…

— Isso poderia matá-los, Simi — recalcou Nick.

Olhou para ele inocentemente.

— Seu propósito?

Nick estava muito estupefato para responder a sua honesta pergunta.

Assim Madaug a respondeu por ele.

— Necessitamos do Brian com vida para interrogá-lo.

— Bom argumento. — Simi cruzou os braços sobre o peito e pôs cara de má—. Vocês tiraram toda a diversão disto então. Estão seguros que não conhecem meu akri?

Eles a ignoraram.

Caleb se reclinou na cadeira para estudá-los.

— Não pode um advogado entrar para o ver?

Bubba assentiu ao tempo que estudava o diagrama.

— Bom, sim, mas um advogado não vai nos ajudar.

Caleb sorriu.

— Depende do advogado.

Bubba levantou o olhar até ele com o cenho franzido.

— O que quer dizer?

Os olhos do Caleb cintilaram como os de um demônio olhando a maldade.

— Sei de um que me deve um favor.

— Você conhece um advogado? — A voz de Bubba era cheia de descrença.

Caleb se passou as mãos ao longo da camiseta.

— Hey, debaixo destas… bom, elas são basicamente roupas de merda. — Nick franziu o cenho ante a eleição de palavras. Só Caleb consideraria sua camiseta e jeans de marca como de merda — Mas debaixo delas pulsa o coração de alguém que conhece às pessoas corretas e dispostas a, algumas vezes, fazer o incorreto pelo preço correto.

Bubba não estava de todo seguro disso e tampouco Nick estava.

— Sim, mas precisamos fazer isto antes que alguém mais morra. Temos que saber se isto é viável.

Caleb pegou o celular.

— Pode ser arrumado. Confiem em mim.

Nick não estava mais seguro disso do que Bubba estava. Por não mencionar, que realmente havia um fator importante ainda não tratado.

— Quanto vai custar isto?

Caleb sustentou a mão em alto.

— Olá. É Malphas ligando para falar com o Virgil Ward. Ele está? — Dirigiu-lhes um amplo sorriso de autossatisfação ao tempo que aguardava.

Nick podia ouvir o tom de uma voz profunda na linha, mas não chegava a distinguir as palavras.

— Ei, Virg. Passou muito tempo. — Caleb riu ante algo que Virgil deve haver dito — Não, não é nada como isso. Mas bem temos uma situação em que temos que conseguir “entrar” na prisão, não sair.

Ele fez uma pausa para escutar de novo.

— Sim, estou sabendo. Estúpido é meu segundo nome, já sabe. Estou bastante seguro de que foi o que me pôs isso. Então, pode ajudar a um irmão? — Pôs os olhos em branco — Não, não pode ter minha alma. Nem sequer a tenho. Sim, sei que é um advogado chupa-sangue, mas vai ter que te conformar com dinheiro como o resto dos mundanos.

Nick franziu o cenho para Mark, Bubba e Madaug, que se via tão desconcertado como ele se sentia. Caleb era definitivamente um indivíduo estranho.

— É realmente isso o que quer como pagamento? — ofereceu outro sorriso para eles — Feito. Pode nos encontrar fora da cadeia em uns vinte minutos? Sim, nos veremos então. Obrigado, amigo, e sim, sou bem consciente do facto de que lhe devo isso. —Pendurando o telefone, lhes piscou um olho — Vamos nocautear um zumbi.

Nick não podia acreditar que Caleb o tivesse obtido tão rápido.

— Estou impressionado.

— Não esteja. Um de nós vai ter que alimentar com sangue o advogado vampiro e não posso ser eu.

Nick pôs os olhos em branco ante o humor valente do Caleb.

— Por quê? Tem medo de uma pequena mordida?

Caleb riu.

— Sou anêmico.

— E eu sou católico. Isso me tira de circulação?

Caleb lhe negou com a cabeça o Nick.

— A Simi tem um pouco de molho andaime em sua mochila. Parece-se com sangue se a mirar da maneira correta. E não se coagula entre seus dentes como o sangue ou te dá cheirosos arrotos, sem mencionar que sabe muito melhor, também. Especialmente, em comparação com ao tipo A. Bleh! Preferiria comer meus sapatos. Mas esse sangue com sabor Ou… yum! — endireitou-se e sustentou um dedo no alto em um gesto que estranhamente lhe recordou ao Smokey the Bear[36] —. E se lembrem, meninos, três de quatro demônios preferem o molho andaime em lugar da hemoglobina.

— Claaaaro. — Bubba se separou dela, o que dizia algo. Quando Bubba se repudiava, sabia que foi o exemplo de raridade — Seguindo essa ideia… suponho que deveríamos nos colocar na caminhonete.

Agarrando as chaves e o porrete elétrico, Bubba os conduziu para fora para sua gigante Armada verde escuro, a que ele dizia que tinha comprado porque era uma das poucas coisas o suficiente grande para transportar toda sua equipe para matar zumbis.

E era genial a grande porta traseira do veículo.

Nick lhe dirigiu um olhar de dúvida ao porrete elétrico antes de subir na parte traseira da caminhonete enquanto os outros se amontoavam dentro.

— Assim, por curiosidade… alguma ideia de como vamos introduzir um porrete de noventa e dois centímetros na cadeia?

Caleb se acomodou dentro.

— É por isso que necessitamos do Virgil. Ele pode ajudar se acontecer algo.

— Acredita muito nele, certo?

Caleb encolheu os ombros.

— Conheço-o faz um tempo, o vi fazer coisas que poriam os pelos do peito em pé.

— Sim, como o que?

Caleb se negou a dar detalhes.

Bubba subiu e conduziu até á cadeia do distrito de Orleans. Nick ficou quieto ao tempo que velhas lembranças surgiram das vezes em que tinha visitado seu pai – não aqui, mas na prisão, o que era basicamente a mesma coisa.

“Mantém a esse estúpido longe de mim, Cherise. Nem sequer quero olhar seu horrível rosto. Não lhe traga nunca mais a ver-me”.

Eu também te amo, Papai.

Nick ainda não tinha ideia de como sua formosa e tenra mãe se enganchou com o tal monstro. Não tinha nenhum sentido. Contou-lhe uma vez que gostava dos meninos maus. Mas havia uma diferença entre um homem como ele, que tinha atitude, e um homem como seu pai, que tinha dano cerebral.

Por que as mulheres e as garotas achavam os psicopatas tão desejáveis? Inclusive na escola, eram os malvados estúpidos como Stone quem obtinha todas as garotas enquanto os moços agradáveis, como ele, permaneciam sozinho, obtinham que lhes mostrassem o dedo do meio quando as convidava a sair. Nunca o tinha entendido.

É óbvio, em seu caso e a insistência de sua mãe em que ele usasse essas asquerosas camisetas não ajudava.

Absolutamente.

Ele simplesmente esperava que, com seu DNA parente com o assassino psicopata, nunca terminasse dentro da prisão. Essa era a única promessa que lhe tinha feito a sua mãe que nunca queria quebrar.

Bubba reduziu e estacionou debaixo de uma luz.

— Agora o que? — perguntou ao Caleb.

— Esperamos o Virgil.

— Como saberá que carro é o nosso? — perguntou Mark.

Antes que Caleb pudesse responder, alguém golpeou no guichê junto à Bubba. Bubba se sobressaltou do susto.

— Que merda?

Caleb inclinou a cabeça para o…

Nick franziu o cenho ao tempo que centrava o olhar em seu amigo.

Virgil não se via para nada como tinha esperado. Um pouco mais de um metro e oitenta e três de altura, não podia ter mais do que dezesseis ou dezessete anos. Inclusive embora tivesse posto um traje e se arrumado como um advogado via-se como um adolescente que vai a um funeral.

Certamente não era um advogado…

Ou sim?

E ao tempo que Nick lhe observava, algo estranho ocorreu. Virgil repentinamente se viu maior. Como se estivesse terminado a apuração. Nick olhou ao redor na caminhonete, mas ninguém mais pareceu notá-lo.

Caleb abriu a porta e saiu para falar com ele.

— Ei, Virg.

Virgil os esquadrinhou enquanto eles ficavam dentro do carro. Havia um insidioso ar nele… mas isso simplesmente podia ser a malvada característica de advogado.

— O que, exatamente, necessitam que eu faça?

Caleb olhou ao Nick antes de responder.

— Sabe do menino que tratou de comer a seus companheiros de classe esta manhã no St. Richard?

— Sim?

— Necessitamos que o aturda com um porrete elétrico e que nos conte o que acontece.

Mantendo os lábios fechados, Virgil riu, até que se precaveu de que Caleb não estava brincando. Deteve-se instantaneamente.

— Por quê?

— Acreditam ter a cura para sua programação zumbi.

O rosto do Virgil passou por uma miríade de emoções.

Assombro, desconcerto e finalmente, uma expressão que dizia que ele acreditava que todos eles eram uns macacos dentro de sua jaula.

— Estão loucos, certo?

— Não, seriamente. O menino que programou o jogo que o converteu em um zumbi está no carro. — Caleb apontou o Madaug, quem saudou com um gesto ao Virgil.

Virgil franziu o cenho para Caleb.

— Foi um programa que lhe converteu? Não magia?

— Nop, não magia.

— Que droga. Há um montão de pessoas ali fora que teriam matado por uma poção. Poderia ter ficado rico.

Caleb encolheu os ombros.

— Eles terão que encontrar outra maneira de fazer zumbis viventes. Enquanto isso nós queremos nos assegurar que os que reconvertemos em humanos verdadeiramente tiveram contato direto com o jogo. O único que o menino sabe que o jogou é o que está preso agora mesmo. Temos que nos assegurar de que isto funciona. — Passou-lhe o porrete elétrico ao Virgil — Cuidado, não te toque com ela. Não é de baixa voltagem como se supõe que é. Bubba a modificou para que na realidade solte mais de um milhão de volts.

— Está bem — disse Virgil lentamente — Deixem me assegurar de ter captado tudo corretamente… O plano ganhador do prêmio da inteligência que todos vocês cerebrozinhos elaboraram é que eu leve um porrete ilegal e modificado para dentro da cadeia do distrito, passar entre gente armada com pistolas que estão treinados para matar, encontre um menino que está esperando para ser julgado por uma intenção de assassinato, e lhe aturda até ele voltar para a normalidade. Algo mais?

— Nop. Isso é tudo.

Virgil deixou sair um lento suspiro ao tempo que contemplava o porrete com um olhar dúbio.

— Você seriamente me deve isso.

— Sei.

Sem outra palavra, Virgil se dirigiu para frente do edifício.

Nick estava morrendo por ver este milagre de perto e em pessoa.

— Ei, Bubba? Pode destravar a porta? Necessito uma parada de descanso.

— Seguro.

Nick se deslizou do SUV e se encaminhou para o edifício para observar. Dentro, havia policiais por todos os lados. Obviamente. Certo? Mas o que mais lhe chamou a atenção foram os detectores de metais. Não havia forma de que Virgil fosse conseguir passar sem que lhe disparassem.

Isto vai ser interessante.

Nick se pôs em posição quando Virgil entrou como se fosse o dono do lugar. Vários oficiais lhe saudaram e atuaram como se eles não tivessem visto o porrete. De fato, Virgil a passou pela cinta escaneadora antes de caminhar através do scanner vertical — todo o tempo conversando com os oficiais.

Ele estava dando um passo fora quando o porrete saiu. Um dos oficiais tomou e o entregou a Virgil.

— Não esqueça seu guarda-chuva, Sr. Ward.

— Obrigado, Cabal. Sei que se supõe que não vai chover, mas acredito em estar sempre preparado.

— Tem razão. Especialmente aqui em Nova Orleans. Nunca se sabe quando um aguaceiro vai cair. Como sempre digo. Você não gosta do clima? Espera um minuto.

Rindo, Virgil tomou o porrete e se dirigiu para o corredor.

Nick estava estupefato ao tempo que Virgil desaparecia de sua vista sem que ninguém lhe dissesse nada sobre a arma.

Sabe que se eu fizesse isso, me jogariam no chão e atirariam na minha cabeça, além disso.

Aturdido pelo que acabava de ver, Nick retornou ao SUV onde os outros estavam aguardando.

Bubba arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi rápido.

Nick se acomodou no assento.

— Sobre tudo queria ver se Virgil passava pela segurança.

Caleb se via presumido, mas não disse nada.

— E? — perguntou Mark.

— Não me perguntem como, mas o fez. Eles nem sequer a viram. Foi como se o porrete fosse invisível ou algo assim.

Bubba franziu o cenho.

— Como?

Simi soltou um irritado bufo.

— Ele é um vampiro, demônio, humano. Jesus, nenhum notou?

Mark se mofou.

— A maioria dos advogados é. Nunca conheci um que não fosse um chupa-sangue ou chupa-alma. É obvio, em meu caso, todos eles são chupa-dinheiro.

O telefone de Caleb começou a soar. Agarrou-o e respondeu.

— Sim? — Escutou por um segundo, logo disse — Espera. Vou colocar no viva- voz — O ativou — Agora repete o que acaba de dizer.

— Que infernos há neste porrete? Quase lançou o moço através da parede.

Caleb bufou.

— Não essa parte, Virgil. Continue.

— Está bem, eletrifiquei-o e agora está chiando como uma garota, chamando a sua mãe. Diz que não tem nenhuma ideia de como chegou aqui. Perguntei-lhe a respeito de golpear um menino e não tem ideia do que estou falando. O melhor de tudo, já não está tratando de me comer o cérebro, o que tem que estar faltando em mim para que tenha mimado nisto. Assim para responder a seu experimento, acredito que funciona.

Bubba se via cético.

— Podemos confiar no relatório?

— Sabe que posso te ouvir, certo? — O tom do Virgil foi irritado.

— Sim — disse lentamente — e repito, podemos confiar em ti?

— Bom, dado que não tenho um cão nesta luta, sim. Por que mentiria? Não é que não esteja além da ética. Acredito completamente em que qualquer mentira me liberará. Mas neste caso, estou sendo honesto. O menino agora está limpo. Escutem-no por vocês mesmos…

— Quero ir a casa. Onde estou? Não entendo o que aconteceu…

Caleb desativou o viva-voz.

— Obrigado, Virgil. Entregarei o pagamento mais tarde. — Realizou uma pausa, logo olhou o Mark e Bubba — Vocês necessitam do porrete de volta?

— Absolutamente — disse Mark — Temos algumas pessoas às que aturdir.

Caleb assentiu, logo falou com telefone.

— Se não te importar, por favor, nos traga isso de volta.

Virgil apareceu antes que pudesse pendurar o telefone.

Esta vez, Nick foi o que se sobressaltou ao tempo que Bubba saía do SUV para pegar o porrete.

     Virgil contemplou Nick atentamente ao tempo que lhe estudava pelo guichê da caminhonete.

— Não te conheço?

Nick negou com a cabeça enquanto que um calafrio lhe descia pelo corpo fazendo com que a pele se arrepiasse. Virgil definitivamente não era o que parecia.

— Não acredito.

Caleb esclareceu garganta.

Virgil lhe olhou fixamente e algo estranho ocorreu entre eles. Quando voltou a prestar atenção de novo a Nick, sua aparência era reservada e fria.

— Prazer em conhecê-lo, Nick.

— Como sabe meu nome?

Virgil não respondeu.

— Melhor voltar. Tenho uma audiência noturna em uma hora e não quero perder isso Meu primeiro caso é longo: Um tipo golpeou a outro na rua Bourbon com um cachorro quente antes de tratar de matar a sua vítima afogando-a em um atoleiro.

Ele literalmente se desvaneceu.

Bubba se girou no assento para olhar fixamente Caleb.

— Que amigo interessante tem.

— Não tem nem ideia.

Mark arranhou a orelha.

— Temos que contar a Tabitha e sua equipe como lutar contra eles.

Madaug tirou seu telefone e pressionou a discagem automática para seu irmão.

— Estou cuidando disso.

Bubba arrancou saindo do estacionamento e se dirigiu de novo para a loja.

— Bem, temos a metade da equação. Sabemos que podemos voltar a transformá-los em humanos de novo. Mas a pergunta é: como é que tantos estão pondo suas mãos sobre o jogo?

Mark sacudiu a cabeça.

— Alguém mais tem que estar disseminando-o.

Nick franziu o cenho ante a palavra não familiar.

— Dis…o que?

— Disseminando-o — repetiu Mark —. Quer dizer distribuindo.

— Então, por que não disse isso?

Mark olhou para Bubba.

— Me recorde que lhe consiga um calendário de palavra-do-dia. — Logo surpreendeu Nick com um olhar envergonhado sobre a parte posterior do assento — Precisa ampliar seu vocabulário, menino. Não pode ir por aí deixando que a gente pense que é estúpido. Expanda seus horizontes. Além disso, é divertido chamar às pessoas por nomes que têm que procurar para dar-se conta que foram insultados.

Bubba riu.

— Sim, isso é um dois em um. Sai-te com a tua e logo eles estão o dobro de zangados quando se aperceberem de quão mal realmente os insultou. Especialmente se o confundem por uma adulação quando o diz e lhe dão obrigado por isso.

— E — disse Caleb —, esses insultos evitam ser castigado por sua mãe.

— Sabem todos eles têm pontos muito valiosos.

— E o melhor de tudo, ajudar-te-á com seus exames de ingresso à universidade - disse Madaug ao tempo que pendurava o telefone, só ele pensaria nisso. Olhou o Mark —. Eric e o pessoal do zoológico estão dirigindo-se para a loja para suprimentos. Vocês têm porretes suficientes para eles?

Bubba vaiou como se Madaug o tivesse insultado.

— Claro idiota. Que classe de pergunta é essa para fazer a alguém que possui a maior loja de armas na cidade? É obvio que tenho suficientes. Tenho suficientes Tasers para iluminar toda a cidade de New York e Boston simplesmente por diversão.

Bem, porque Nick tinha o pressentimento de que poderiam necessitá-los.

Ambrósio aferrou a atirou ao Chão a prateleira e os Livros Antigos esparramando o que havia cuidadosamente arrumado através dos séculos ou de todo o seu desktop no chão escuro. Tinha provavelmente destruído umas quantas, mas neste ponto, não lhe importava realmente. Percorreu-lhe com uma raiva ou o poder de mil sois, tão forte e poderoso que podia senti-lo.

— Por que não o detenho? — Disse rapidamente. Porque com todos os poderes que dominava e controlava, não poderia impedir um simples garoto de quatorze anos idiota? Não importava o que fizesse, os acontecimentos continuavam se desenvolvendo na certa.

Ele sentiu uma mão calma e suave em sua bochecha, sobre o seu arco e flecha, marca que ela tinha lhe dado um tempo tão longo que você não deveria ter memória dela. No entanto, sempre profundamente enraizadas na mente. Mais bonita do que qualquer outra, Ártemis, deusa da caça, envergonha todas as mulheres. Seus longos cabelos vermelhos chegavam ao seu quadril, o que foi acentuado pela túnica branca grega que ela usava.

— Shhh... Você não deveria ficar tão frio.

Sua fúria triplicou.

— A Palavra e frenesi — corrigiu. Devido às diferenças entre o Inglês e o seu grego antigo, constantemente arruinava a forma dela se expressar.

— O que está fazendo aqui, Ártemis? — Perguntou.

— Estou tentando te acalmar, amor. Você não deveria fazer isso a si mesmo. Doí-me ver você frenético assim.

E o poder negro dentro dele queria atingi-lo e tornar a fazê-lo implorar por misericórdia. Era um poder completamente autor e foi sendo cada vez mais difícil de combater. Logo, não haveria maneira de fazê-lo. Consumindo-nos e tornando-se como seu pai. A máquina de matar irracional desprovido de qualquer compaixão e humanidade. Uma máquina que iria acabar com tudo.

Matando todos.

Ambrósio olhou para a parede, onde ele se via como uma criança. Nick Gautier não tinha ideia de que as pequenas decisões aleatórias que ele estava tomando agora o estavam transformando da mesma forma que viria a ser a besta que Ambrósio havia se tornado.

Eu tenho que me salvar.

Mais do que isso, eu tive que salvar aqueles que ele amava. Antes que fosse tarde demais.

Mas como?

Deus, como eu pude ser tão estúpido, mesmo com catorze anos? Foi difícil olhar para trás e ver os rostos de seus amigos e entes queridos, especialmente desde que eu sabia o que iria acontecer com eles se não alterasse a história. Doeu tão fundo que só era quase o suficiente para enlouquecer.

Como o detenho?

Ambrósio se voltou para Ártemis. Eu odiava. Ela como Acheron, tinha desempenhado um importante papel ao se tornar o Malachai.

Não, Nick, você fez isso sozinho.

Mas era muito fácil culpá-los. Eles haviam feito isso muito fácil para ele tomar as decisões erradas. Decisões estas que agora tentava desfazer antes que ele perdesse a capacidade de se importar.

Suspirando de frustração, ele encontrou o olhar de Ártemis. O olhar da mulher que tinha trazido a morte e tinha lançado os seus poderes. Poderes que agora ele estava tentando liberar mais cedo em sua vida. Se eu tivesse uma criança que poderia ter salvado aqueles que foram mais importantes para ele.

Poderia ter salvado a sua mãe...

Nick ficou chocado ao forçar a memória para sair e retornar ao pensamento de algo que ele tinha dito antes.

— Quem é Nekoda?

Ártemis deu-lhe um olhar em branco.

— Nunca ouvi falar dele.

— Ela, Artie. É uma menina.

Uma de suas sobrancelhas perfeitas disparou o ciúme, enquanto seus olhos verdes escureciam.

— Que tipo de garota?

— Eu não sei. Nick conhece.

— Você é Nick. — O tom ficou irado.

— Exatamente. Como eu não sei quem ela é? — Como poderia não tê-la visto em retrospecto? Por alguma razão, ela era uma fantasia completa para ele. Independentemente de quanto se usasse, não conseguia encontrar esse pedaço de seu passado. Até mesmo os alterados, ele ainda devia ser capaz de se aproximar dela.

Mas não podia.

— Por quê?

Ártemis encolheu os ombros.

— Você se esqueceu dela. Acontece. ... Uma vez que você fosse humano.

Mas ele não era humano agora. Agora era o tipo de criatura que ele tinha e Tabitha, uma vez caçado e morto como um animal raivoso. Mais do que isso, ele estava com fome.

Faminto.

Ártemis estava em risco de estar aqui com ele. Toda vez que ele alimentado com seu sangue, tornou-se mais forte e mais letal. Foi ficando mais difícil e mais difícil de matar não absorve seus poderes e divindade.

Mais difícil para não destruir tudo e todos.

Eu não farei.

— Sim, você vai. Ao mesmo tempo. Você não pode mudar quem você é. Lute o quanto quiser. Finalmente, você é quem você nasceu para ser e nada vai mudar isso.

Mas ele se recusou a acreditar.

Foram observados na própria parede era mais jovem, viajando inocentemente na parte traseira do SUV de Bubba para um destino que tinha sido escrito com sangue no seu coração. Vamos lá, Nick, não nos decepcione. Seja forte garoto

Esperto.

Mais do que tudo, eu precisava que ele não cometesse os mesmos erros. Algumas coisas, como conhecer a Simi quando jovem, já foi alterado.

Mas outras...

Ele rangeu os dentes, enquanto ele via o seu futuro tão claramente quanto ele viu seu passado.

Karnarsas, a batalha final, onde ele iria comandar o exército de seu pai, estava chegando. E quando o fizesse, se ele não mudasse o passado, destruiria o povo que ele amava.

A todos eles.

 

Nick desceu do SUV na frente à loja de Bubba e olhou a hora no celular. Uuu, ele estava encrencado. Demorou muito para ser só um lanche....

— Ei! Caras? Preciso ir para o clube da minha mãe antes que seja posto de castigo. — De novo.

Mark, que estava em pé na calçada, jogou a cabeça para cima em um gesto que lembrava um veado assustado.

— Ei! Bub? Cheirou isso?

O que? Tinha alguma coisa solta no carro?

Nick estava a ponto de culpar o Caleb quando Bubba congelou. Dois batimentos depois ele jogou as chaves para Nick.

— Meninos, entrem na loja. Agora!

Ele ia perguntar o que estava acontecendo quando viu algo que o deixou atônito.

Zumbis.     

Não eram como seus companheiros de classe convertidos. Estes eram de verdade. Carne podre. Aroma ruim. Membros faltando. Olhos supurando de algo gelatinoso…

Zumbis.

E se dirigiam para eles a uma velocidade que um puma invejaria. Madaug soltou um chiado ao mesmo tempo em que corria para a porta. Nick e Caleb o seguiram enquanto Bubba e Mark tiravam dois tacos de beisebol de debaixo dos assentos do SUV em um ato que estranhamente recordou a Mary Poppins e sua mala de coisas extraordinárias.

Simi saiu do SUV e atuou como se os zumbis já estivessem ido embora até que Bubba segurou um dos seus braços.

— Entra com os meninos, Simi.

Ela lhe pôs cara de má. Nick podia ver que ela queria discutir, mas com um brusco assentimento, correu para dentro.

Bubba amaldiçoou.

— Me diga de novo por que guardo o lança-chamas em cima da loja? — perguntou ao Mark.

Mark pousou o taco de beisebol sobre o ombro.

— Estou bastante seguro de que a polícia teve algo que ver com isso.

Bubba foi ao encontro do primeiro zumbi para atingi-lo na cabeça com o taco de beisebol.

— Bem, na próxima vez que disser algo tão estúpido, lembre-me que é melhor estar na prisão do que morto.

— Se apresse Nick! — Madaug se chocou contra ele ao mesmo tempo em que Nick colocava as chaves na fechadura.

Nick chiou os dentes. Era difícil fazer isto com uma só mão.

— Estou tentando. Maldição, Bubba. Quantas chaves têm neste chaveiro, de qualquer forma? — Já tinha tentado com uma dúzia e nenhuma funcionou. Só ficavam dez mais para testar.

— É a que tem a peça de borracha verde ao redor. — Bubba golpeou a cabeça do zumbi mais próximo a ele — Peça. — segundo golpe — Borracha. — terceiro golpe — Verde.

Caleb lhe tirou as chaves da mão para ele poder abrir a porta.

— Eles estão abrindo caminho, Nick. Devemos nos apressar.

— Sabia que devia ter colocado a urina de pato! — disse Mark bruscamente. — Isso vai me ensinar a me banhar quando sei que é melhor não fazê-lo.

Nick podia sentir o putrefato fôlego dos zumbis sobre o pescoço quando finalmente abriu a porta e caiu dentro da loja. Simi correu para dentro, Madaug começou a entrar, logo gritou quando um dos zumbis lhe agarrou e lhe arrastou para a rua.

Caleb teve que obrigar-se a não expor seus poderes e usá-los para lutar contra os zumbis e deixar os outros dois entrassem na loja. Podia sentir o fedor e a magia negra. Impregnava inclusive o ar que ele estava respirando. Quem quer que estivesse controlando os zumbis, era uma força a ter em conta.

Uma força antiga.

Não tão antigo como ele, mas ainda assim alguém acostumado com seus poderes, que os conhecia intimamente.

Ele já o tinha combatido antes. Desta vez, o bokor tinha reforçad­­o a sua força. E devido a estes zumbis não terem força viva ou vontade por si mesmos, eram muito mais perigosos do que os que tinham sido os estudantes.

A diferença era que eles já não tinham vida. Não persistia compaixão ou razão. Eram almas malvadas convocadas dentro dos corpos dos mortos.

Esta era a magia mais negra. A classe com a qual nem sequer ele enfrentava. Só um verdadeiro espírito escuro como o Malachai podia convocar um exército deste tamanho e controlá-lo.

Estas eram máquinas assassinas sem consciência.

Quase como os Caronte, embora Caleb tivesse que dar crédito a Simi. A diferença dos outros de sua espécie era que ele tinha conhecido no passado, ela estava mantendo sua aparência humana e não se desfazendo dela para comer os zumbis. Alguém a tinha treinado bem.

Fazendo um grunhido, ele golpeou o zumbi que segurava o Madaug. O crânio do zumbi se quebrou, deixando sua mandíbula pendurando por um tendão ao tempo que alguma coisa asquerosa fria e verde colava na sua mão. Parecia um muco de dois dias de antiguidade.

— OH, que nojo! — Caleb limpou a mão contra a camiseta — Ranho de zumbi.

— Hum — disse Simi — Pergunto-me se combina bem com frango? O que acha?

Caleb franziu o cenho.

— Acredito que nunca vou voltar a comer salada de abacate de novo enquanto viver.

Ignorando eles, Nick golpeou o outro zumbi até que foi capaz, com a ajuda de Simi, de arrastar Madaug para dentro da loja.

— Ei! — soltou Caleb ao tempo que se precavia de que Nick estava quase lhe deixando fora da loja com os atacantes. Empurrou até abrir a porta e lhe olhou fixamente.

— Nenhum homem é deixado para trás.

Nick se mofou.

— Isto não é o exército, cara. É salve-se quem puder. Fique atrás. E conseguirá com que lhe comam.

— Me lembrarei disso na próxima vez que seja você o que ficar lá fora e eu o que esteja dentro da loja.

Nick lhe dirigiu um malévolo sorriso.

— Sim, mas então as regras mudarão. — Fechou a porta ao mesmo tempo em que outro zumbi tratava de abri-la — OH, não.

— O que?

— Você deixou as chaves do lado de fora.

Caleb grunhiu ante sua estupidez, logo ajudou Nick a sustentar a porta fechada ao tempo que mais zumbis a forçavam.

— Que tipo de idiota não tem uma dessas fechaduras que se fecham girando um botão na porta?

Nick lhe dirigiu um olhar irritado.

— Bubba. Porque tudo o que tem que fazer é romper a trava e logo girar o botão e entrar na loja. Conhece o código de Bubba: Sempre use chaves. — Que era o motivo para que tivesse tantas chaves no chaveiro.

Caleb sentiu os músculos fraquejando ao sustentar a porta fortemente enquanto os zumbis tentavam abri-la.

— Juro, Nick, deveria jogar você para eles. Depois de tudo, não tenho que me livrar dos zumbis. Só tenho que me livrar de ti.

— É frio, amigo.

Talvez, mas se os zumbis conseguissem entrar na loja, ele ia jogar o molho da Simi sobre eles, já que os humanos estavam fodidos.

— Afastem-se — disse Madaug.

Nick olhou por cima do ombro para ver Madaug com um lança-foguetes. OH, impossível. Onde demônios ele tinha encontrado isso?

Estava carregado?

Que pergunta estúpida. Estava na loja do Bubba. É obvio que estava carregado e funcionava. E provavelmente foi modificado para que destruísse metade da cidade onde fosse disparado.

Nick abriu os olhos de par em par.

— Isso não é o que acredito que é, certo?

Madaug encolheu os ombros.

— Não sei, mas acredito que é melhor se afastar.

Eles apenas se moveram quando Madaug disparou nos zumbis que estavam fora. O foguete explorou na porta, enviando vidros e partes de zumbis por todos os lados. Ranho verde e vermelho voou na noite.

Simi sonhadoramente lambeu os lábios como se morresse por prová-los.

Nick ficou boquiaberto ao ver que mais zumbis se dirigiam para eles.

— Homem, por ser um gênio isso foi realmente estúpido. Agora não temos porta e, posso estar errado, mas parece que estão se multiplicando.

Eles ouviram os convertidos em zumbis que tinham trancado previamente na sala escondida, pedindo a gritos a liberação, através do monitor de vigilância que Bubba tinha conectado antes para assegurar-se que eles estavam bem. Bom, alguns estavam. Outros estavam chamando suas mães.

Enquanto isso, Bubba e Mark estavam lá fora gritando em toda sua glória enquanto lutavam contra os mortos vivos. Nick correu à parte traseira para procurar um machado.

Realmente preciso que meu braço volte a funcionar de novo. Ou ainda melhor, um implante genético no lugar de um braço fosse uma moto serra como Ash em o Exército da Escuridão. Agora poderia definitivamente usá-lo.

Logo depois, ia se contentar com ambos os braços funcionando.

Um arrepiou lhe percorreu enquanto uma imagem cintilou na sua mente por estar sendo atacado por…

Não era um corvo, mas o corvo tinha estado ali, observando como um aterrador guardião. E o braço de Nick tinha estado inteiro e funcionando… As imagens estavam no fundo da mente, mas não podia focalizar-se em nenhuma delas em particular. Foram vislumbres tão rápidos que desapareceram tão rápido como apareceram.

Tinha sido um sonho?

Mas a lembrança parecia tão real.

— Santa merda! — gritou Bubba.

Correndo para Madaug e Caleb, Nick olhou para ver Bubba aturdindo os zumbis com o porrete antes de golpeá-los com o taco de beisebol. O homem estava tendo muita diversão enquanto Nick ainda estava preocupado se iria morrer.

Os zumbis se aproximavam.

Nick tragou o medo e empurrou a Simi para trás dele para protegê-la.

— Por que nenhum vizinho se queixou sobre isto? Onde estão os policiais quando precisamos deles?

Caleb bufou.

— Provavelmente comendo donuts[37]. Como diz o velho ditado, quando os segundos contam, a polícia só está há minutos.

E isto parecia com um campo de matança, enquanto o pânico tomava conta de Nick. Bubba e Mark estavam conduzindo os zumbis para trás como ninjas, mas mesmo assim, o crescente número de zumbis ia atingi-los cedo ou tarde.

Aterrorizado, Nick observou como mais deles vinham das sombras. Estes pareciam ser criados e enviados…

Não para sequestrar. Estes estavam aqui para matar...

Nick evitou que Simi lhe rodeasse para unir-se a batalha. Podia ser alta, mas não seria páreo para os zumbis, quem continuava chegando enquanto Madaug tratava de voltar a carregar o lança-foguetes.

Não estaria satisfeito até que todos eles voassem.

Nick viu um brilho prateado. Assustado de que se tratasse de reforços dos mortos vivos, chutou um zumbi, logo se deteve quando reconheceu o que estava lá fora na noite.

Ash e Kyrian.

Enquanto eles se uniam à luta, percebeu outra coisa. Eles eram os que realmente brigavam como ninjas. Ash com um pau e Kyrian com uma espada. Era incrível. Enquanto que Bubba e Mark eram ferozes, os movimentos do Kyrian eram tão ágeis, que eram como um violento balé enquanto girava e cortava um zumbi ao meio e voltava a girar para agarrar outro.

Nick ficou esperando que Ash utilizasse seus poderes, mas por alguma razão não o fez. Simplesmente usou seu pau para golpear e desviar os zumbis. Logo recordou o que Ash havia dito. Sem dúvida estava tratando de permanecer incógnito enquanto houvesse testemunhas ao redor.

Embora isso não tivesse sentido já que Ash podia apagar a mente de qualquer um. Podia ser simplesmente que ele estivesse desfrutando da luta como Bubba e Mark?

Entre eles, Bubba e Mark, os zumbis não tinham oportunidade. Em poucos minutos, eram corpos viscosos verde pulverizados por toda a rua.

Kyrian olhou para Ash.

— Que droga eles não se desintegrarem em pó, não? Devo dizer que prefiro muito mais os monstros que logo se limpam a si mesmos.

Ash soltou uma gargalhada.

Bubba e Mark examinaram os danos.

— Me pergunto por que ninguém chamou à polícia pelo lança-foguetes. Deus sabe que meus vizinhos geralmente informam se atiro em um poço no quintal.

Ash posou a ponta do pau sobre o chão.

— Boa pergunta.

Kyrian pressionou um botão na espada e esta se compactou até o punho. Deslizou-a dentro do bolso.

— Tenho uma melhor. Como vamos limpar este desastre?

Nick soltou um bufo.

— Nah, a minha é inclusive melhor. Como faço para esconder uma moto serra na biblioteca da minha escola?

Todos eles lhe olharam fixamente.

Nick assinalou com um gesto aos zumbis que jaziam em partes sobre a rua.

— Acredito que eles não vão parar, e embora a escola tenha uma estrita política de nenhuma arma, não acredito que os talheres de plástico da lanchonete vão fazer muito para combatê-los. Necessito de proteção, homem. Falo sério. — Seu olhar se dirigiu a Madaug, que ainda estava sustentando o lança-foguetes —- Está bem, talvez não precise. Mas ainda assim…

Mark limpou o suor da testa.

— É como um fodido apocalipse zumbi. Sempre soube que teria um em minha vida. Todo mundo, salvo Bubba, me disseram que eu estava louco. Bom, vejam… quem está louco agora?

Nick teve que morder a língua para evitar dizer a Mark que ainda estava louco.

Caleb ignorou o Nick enquanto sentia algo peculiar no ar. Seu olhar foi para os recém-chegados. Não os conhecia, mas podia sentir seus poderes.

Como ele e Simi, eles tampouco eram humanos.

Se não soubesse melhor, juraria que o mais alto era um deus, e no momento em que ele girou a cabeça para Caleb, esteve certo disso.

O outro…

Ele era um guerreiro, um servo da deusa Ártemis. Um da longa linha de antigos protetores que tinham vendido sua alma para manter a humanidade a salvo de criaturas como ele.

Oh sim, em qualquer outro momento e ambos se lançariam atrás dele como duas mulheres depois do último vestido de uma liquidação de vestidos de novos.

— Ei — disse Nick, olhando ao seu redor — Onde está Simi? Alguém viu aonde ela foi?

Antes que qualquer um pudesse responder, outra onda de zumbis apareceu na escuridão. Estes eram inclusive mais velozes e horripilantes.

Ash olhou para Bubba.

— Tire todos daqui.

— E ir para aonde?

— Para minha casa — disse Kyrian —. Está na First Avenue. Nick sabe o caminho. Estará alguém lá que os deixe entrar.

Ao correr para o SUV, Nick viu Simi saindo da loja. Uniu-se a eles e se acomodou no assento junto a ele.

— Onde você foi?

— Eu lhe diria isso, mas logo teria que te comer e dado que a Simi gosta de Nick, não quer te machucar — Sorriu.

Está bem…

Madaug discou em seu telefone enquanto que todos colocavam o cinto de segurança.

— Não consigo falar com o Erick. Não acreditam que algo tenha lhe acontecido, não?

— Estará bem — assegurou-lhe Bubba — Tabitha pode ser uma jovem ali fora — a frigideira disse à chaleira, se afaste antes que me suje. Suponho que todos são estranhos — Mas ela é boa em uma briga. Podem suportar algo como zumbis. Vampiros também.

— Oh, espera! — Nick se petrificou ao lembrar-se de sua mãe — Supunha-se que devia estar no clube de minha mãe. Disse que se não estivesse lá a estas horas, viria me buscar.

— E converter-se em um refém de zumbi — disse Mark —. Já vi isso antes. Varias vezes. A bem intencionada e desventurada mulher sai para salvar seu filho. Apanhada e comida.

Bubba soltou um resmungo.

— Nos filmes, Mark.

— Sim, bom, algumas vezes ocorre na vida real também, e isto é definitivamente um momento para acontecer, porque isso seria simplesmente nossa sorte. Se eles a pegarem nós morreremos tratando de salvá-la devido a que ela fez algo estúpido.

Bubba girou o SUV.

— Vamos procurá-la. Porque Mark tem razão.

Nick verificou a hora.

— Ainda restam quatro horas de trabalho.

Mark sustentou a pistola no alto.

— Está bem. Nos a pegaremos de uma maneira ou de outra.

Nick estava horrorizado ante a mera sugestão de apontar uma pistola para a sua mãe.

— Não pode atirar na minha mãe, Mark! Está louco?

— Não vou atirar. Relaxe. Só vou tranquilizá-la um pouco.

Antes que Nick pudesse protestar, Bubba tinha estacionado o SUV.

— Mark. Você e os meninos fiquem aqui.

Nick negou com a cabeça.

— É minha mãe, vou com você.

Bubba ia protestar, logo pensou melhor.

— Não temos tempo a perder. Vamos.

Nick lhe conduziu à porta traseira do clube e bateu até que John respondeu.

O gorila sacudiu a cabeça.

— Menino, sua mãe vai te matar.

— Onde ela está?

— Salão verde.

Nick conduziu Bubba com o passar do estreito corredor até que alcançou o vestuário. Golpeou a porta e esperou.

Sua mãe abriu. Tinha o cabelo amarrado, usava uma grande quantidade de maquiagem e ia vestida com um penhoar. O gesto em sua cara fez com que o estômago lhe dirigisse ao sul.

— O que tem a dizer em seu favor, Nick Gautier?

— Que fui atacado por zumbis?

Ela pôs os olhos em branco.

— Não me dê essa ridícula história?

— Não, mãe. Juro. De verdade!

Mas ela não estava perto de acreditar.

— Não sabe que horas são?

— Obviamente hora de que seja castigado de novo. — Deixou sair um profundo suspiro. Alguns dias não valiam a pena ser honesto.

Ela estreitou o olhar sobre ele.

— Isso mesmo. Vou lhe colocar de castigo até que seus netos estejam velhos.

Bubba deu um passo para frente, interrompendo-a.

— Uh, senhora? Realmente temos uma situação e necessitamos que venha conosco.

Ela franziu o cenho enquanto olhava Bubba como se estivesse louco.

— Não posso ir. Tenho outra atuação em poucos minutos.

— Com todo o respeito merecido, senhora, os zumbis não se importam e não esperarão.

— OH santo céu, Bubba. Poderia deixar de encher a cabeça do meu filho com todo esse lixo? Já o tem totalmente convencido de tudo, com exceção da fada dos dentes e estou esperando que chegue lá em casa com asas, me dizendo que inclusive são reais. — Segurou o braço bom de Nick. — Entre aqui e sente-se na esquina até que diga quantas restrições vou te dar.

— Mas mamãe…

— Não me diga “mas mamãe”.

Nick olhou para Bubba enquanto uma onda de impotência lhe consumia. Por que teria acreditado por um minuto que sua mãe lhe escutaria? Não era como se ela fizesse disso um hábito.

Bubba encolheu os ombros e antes que Nick pudesse lhe deter, golpeou-a.

— Bubba!

Sua mãe soltou um grito agudo antes de cambalear-se para trás.

Bubba a recolheu em seus braços ao tempo que ela se deprimia.

— Maldição, Nick, sua mãe é uma coisinha pequena. Estranho. Quando ela está acordada, se esquece de que não pesa nada absolutamente.

— É porque ela é uma fera.

Tinha a visto fazer frente a seu pai, que podia diminuir uma montanha em pedregulhos, sem nunca piscar ou retirar-se.

— Ela vai nos matar. Você sabe, certo?

Bubba lhe ignorou enquanto a carregava para a entrada.

John lhes franziu o cenho quando passaram por ele.

— O que está ocorrendo?

— Ela desmaiou — disseram ele e Bubba simultaneamente.

— Estamos levando ela ao medico — mentiu Nick ao passar roçando John. Odiava ter que dizer isso, mas John nunca acreditaria na verdade e provavelmente faria com que a despedissem.

— O chefe não vai gostar disto. Nem um pouco.

Nick encolheu os ombros.

— Não se pode evitar que ela adoecesse. Acontece. — Correu para frente para abrir a porta do carro para que Bubba pudesse pôr sua mãe dentro tão rápido quanto possível.

Colocou o cinto de segurança nela antes de tomar assento a seu lado, enquanto Bubba se sentava no banco da frente.

Simi franziu o cenho.

— Ela escolheu um bom momento para tirar um cochilo. Estava realmente cansada?

Antes que Nick pudesse responder, o telefone de Bubba começou a soar.

Bubba arrancou antes de responder.

— Alôoo? — Uma escura nuvem desceu sobre suas feições como se algo ruim tivesse acontecido.

O estômago de Nick se esticou até o ponto que esperava que lhe formasse um diamante dentro. O que estava acontecendo agora?

Humph, não podiam tomar uma pausa esta noite?

Ao menos minha mãe está a salvo.

Bubba olhou pelo espelho retrovisor o Madaug, que estava visivelmente pálido.

— O que? — perguntou Madaug, o tom de voz emanando o mesmo terror que Nick sentia — O que aconteceu?

— Sim — continuou Bubba, ignorando a pergunta de Madaug — Direi. Há algo que possamos fazer? — Fez uma pausa enquanto escutava, e todos eles esperaram contendo o fôlego — Te verei lá — E desligou.

Nick se inclinou para frente no assento.

— O que aconteceu?

Bubba suspirou antes de responder.

— Temos outra emergência.

Genial, simplesmente genial. Neste passo, eles realmente deveriam estar vendendo tickets para pagar para ver.

— Era Eric, Madaug — disse Bubba.

Madaug tragou ao mesmo tempo em que o medo obscurecia seus olhos azuis.

— Foram atacados pelos zumbis?

— Sim, mas lutaram contra eles fazendo com que retrocedessem.

Madaug soltou um audível som de alívio.

— Então por que te vê tão alterado?

— Eric foi a sua casa e a porta de entrada estava completamente aberta.

Nick ofegou alarmado.

As feições de Madaug se tornaram pedra enquanto seu rosto ficava branco.

— E?

— Ele disse que era realmente uma cena horripilante.

Lágrimas se reuniram nos olhos de Madaug ao olhar os rostos que lhe rodeavam.

— Minha mãe e Ian?

— Não há rastro deles. Mas Eric disse que chamaria à polícia agora mesmo para denunciá-lo.

O estômago de Nick se esticou ao ver a agonia nos olhos de Madaug.

— Amigo, sinto tanto.

Madaug não pareceu lhe escutar ao posar a cabeça sobre as mãos.

— É tudo minha culpa. Tudo isto. OH Deus… Só queria que eles deixassem de se meter comigo. Isso é tudo o que eu queria. Não tinha intenção que ninguém saísse ferido. Não tinha. Agora minha mãe e meu irmão desapareceram… provavelmente comidos. O que foi que eu fiz? O que tenho feito?

Nick não podia imaginar quanto devia doer saber que ele podia ter causado a morte de alguém que amava. Certamente não havia dor pior no mundo.

A agonia de Madaug lhe rasgou e sufocou. Desejava saber o que dizer, mas as palavras não vinham.

Simi se sentou na frente e deu umas palmadas nas costas de Madaug.

— Sinto muito, pequeno humano. A Simi perdeu a sua mãe também quando ela era pequena, mas talvez sua mãe esteja bem. Ela poderia estar procurando por ti.

Madaug se girou e a abraçou.

Os olhos da Simi se abriram de par em par antes de lhe responder o abraço.

— Está bem. Você vai ver. Justo quando crê que nada vai melhorar, sempre melhora. Confia em mim. Meu akri diz que a tragédia e a adversidade são as pedras com que afiamos nossas espadas, assim poderemos lutar novas batalhas. Este é um obstáculo e em breve estará de volta à luta. Já verá.

Madaug assentiu, mas enquanto se afastava da Simi, Nick viu as lágrimas que estava tentando esconder. Elevou os óculos e limpou os olhos.

— Preciso ir a minha casa.

Bubba assentiu enquanto se dirigia para este caminho.

Estiveram calados durante todo o tempo que lhes levou chegar ao tranquilo bairro de classe alta que Madaug morava. Por fora, tudo parecia calmo e pacífico.

Só outra noite.

Mas não havia nada de normal a respeito de nada disto. O olhar de Nick foi de forma inconsciente para sua mãe. Ia estar tão zangada com ele quando despertasse. Mas era melhor isso do que lhe acontecesse algo como a mãe de Madaug e fosse separada dele. Ele mataria qualquer que tocasse em sua mãe, e essa não era uma ameaça vazia. Sabia que o tinha em seu interior.

Depois de tudo, ele era filho de seu pai.

Ao aproximar-se da casa de Madaug, a polícia estava por todos os lados. Luzes cintilavam através da escuridão como focos de luz que iluminavam toda a rua. Faixa amarela restringia a entrada do pátio, igual às barricadas da polícia que tinham sido colocadas para manter as pessoas afastadas enquanto eles investigavam a desordem.

Caleb soltou um baixo suspiro ao deixar o SUV.

— Alguém mais está cansando de ver policiais?

Nick não fez nenhum comentário, mas não podia concordar melhor.

— Simi? Se importaria de ficar no carro e manter um olho em minha mãe?

— Pode deixar.

Tabitha saiu a seu encontro quando eles ficaram depois da linha policial. Com o rosto lúgubre, atraiu Madaug para ela.

— Sinto muito, pequeno.

— Onde está Eric? — perguntou Madaug.

— Está lá dentro com seu pai.

Madaug a soltou para ir encontrá-los.

Bubba olhou para Tabitha.

— O que aconteceu?

Ela passou uma mão pelo cabelo enquanto olhava os policiais que realizavam interrogatórios ao redor.

— Houve uma verdadeira luta brutal na casa. O quarto de Madaug foi revirado e a cozinha esta toda coberta de sangue. A polícia acredita que alguém entrou e assassinou sua mãe e o Ian. Solicitaram cães de busca para começar a procurar os corpos.

Nick deu um coice ante o que ela descrevia ao mesmo tempo em que uma onda de dor lhe alagava. Por um momento, ele acreditou que poderia estar doente.

— Como o está reagindo o Eric? — perguntou Bubba.

Tabitha tragou.

— Está realmente puto com isto. Continua dizendo que deveria ter estado aqui para lhes proteger. — Suspiro de novo. — E o Madaug?

Mark sacudiu a cabeça.

— Esteve realmente tranquilo. Horripilante e aterradoramente tranquilo. Como Eric, culpa a si mesmo. Continua dizendo que se não tivesse criado o jogo, nada disto teria acontecido.

Nick encontrou o olhar de Caleb.

— Sente-se tão mal como eu por eles?

Caleb assentiu.

— Simplesmente não posso entender. De onde vêm todos estes zumbis? Se apenas Madaug tinha o único jogo… certamente todos eles não provêm disso.

Nick arranhou a parte de atrás do pescoço.

— Como Bubba disse antes, alguém deve ter uma cópia.

— Sim, mas não parece que se ampliam um pouco rápido demais?

— O que quer dizer?

Caleb estreitou os olhos sobre os policiais.

— Acredito que há algo mais em jogo aqui. Algo não se encaixa em tudo isto.

Nick lhe dirigiu um sardônico olhar.

— Refere-se a algo além dos zumbis mortos que tentaram nos comer há pouco?

— Isso mesmo, Nick. Isto não é só um jogo que saiu errado. Sinto o cheiro de maldade. Verdadeira maldade.

Nick ia fazer um comentário sarcástico ante o tom e as palavras melodramáticas, mas pensou melhor. Embora ele ainda acreditasse que Caleb estava louco, nisto ele poderia, Deus o proibisse, ter razão.

Havia algo terrivelmente mau aqui. Inclusive ele podia senti-lo.

Desejando poder ajudar Madaug e Eric, dirigiu um olhar à multidão de curiosos que tinham vindo ver o que estava acontecendo. Um homem alto vestido de negro estava parado afastado deles lhe chamou a atenção.

Reconheceu-lhe em um instante e esse reconhecimento lhe golpeou como um punho no estômago.

Ambrose.

Nick contemplou como os detalhes da luz dos carros da polícia iluminavam seu sinistro rosto. Provocavam sombras ao longo de suas bochechas, fazendo com que seus olhos se vissem desumanos. E eu pensei que meu pai era malvado…

Adarian não tinha nada do Ambrose.

Com esse pensamento veio um mau pressentimento de que Ambrose poderia estar por trás disto. Querendo chegar ao fundo da questão, Nick começou a aproximar-se dele.

Ambrose deu a volta e seu olhar se encontrou com o do Nick. Nesse só pulsado, Nick poderia jurar que os olhos do homem se voltaram de um profundo vermelho sangue que brilhava na escuridão. Um segundo Ambrose estava lhe olhando fixamente como se pudesse lhe assassinar e no seguinte…

Tinha desaparecido.

Nick se deteve enquanto olhava ao redor do pátio. Ninguém parecia ter notado o homem que agora faltava.

— Que demônios?

Caleb apareceu atrás dele.

— O que esta acontecendo?

— Viu… — O que supunha que devia dizer? Viu meu louco tio, Jason Voorhees[38]? Crê que ele poderia assassinar a mãe e o irmão de alguém?

— Se vi o que?

Nick negou com a cabeça.

— Não importa. Devo ter visto uma sombra.

Caleb franziu o cenho.

— Você está bem? Parece um pouco pálido.

Nick já não estava seguro. Repentinamente, sentiu-se enjoado e estranho. Por um segundo, acreditou que poderia estar doente até que sentiu uma mão suave sobre o ombro. Girando a cabeça, viu Nekoda atrás dele. Seu pálido rosto era bonito e ela era o melhor que tinha visto em todo o dia.

— O que está fazendo aqui, Nick?

Nunca tinha estado mais feliz de ver alguém em sua vida. Antes que pudesse pensar melhor, deu a volta e a abraçou forte.

Nekoda congelou ante o inesperado contato. Nunca em sua vida alguém havia a tocado assim. Nunca a tinham recebido como se estivessem felizes de vê-la. Uma onda de uma estranha emoção lhe atravessou o corpo inteiro.

O que era?

E não era apenas emoção, era a sensação do braço dele ao seu redor. De seu fôlego caindo contra a bochecha e o quente aroma de seu cabelo. Fazia com que o corpo inteiro lhe zumbisse e lhe gerava o inesperado desejo de enterrar a mão em seu suave cabelo. Mais que tudo, enviava-lhe uma onda de calafrios sobre ela.

— Nick?

Nick não podia responder enquanto deixava que o calor do corpo dela reconfortasse suas emoções. Quão estranho que em uma noite de caos, ela parecesse lhe acalmar.

— Sinto muito — sussurrou, antes de soltá-la e apartar-se. — Não tinha a intenção de te agarrar. É só que foi uma verdadeira, verdadeira noite ruim e estou contente de ver um rosto amigo.

Nekoda tremia enquanto ele colocava a mão sobre sua bochecha. Ele é meu inimigo. Uma criatura que ela tinha jurado matar. Mas olhando dentro desses olhos azuis, ela não via um monstro.

Ela via…

Algo que a assustava e a aturdia até a medula. Não o deixe te encantar. Não é real. São seus poderes. Nada mais.

É malvado até o centro de sua alma.

Mas sua compulsão parecia como se estivesse vindo dele. Sentia-se como se estivesse vindo de seu interior. Como se alguma parte dela simplesmente queria estar perto a ele.

Quão peculiar.

Incapaz de suportar, ela apartou a mão dele do rosto e pôs bastante distancia entre eles para poder pensar claramente.

— Não respondeu minha pergunta.

Ele fez um gesto por cima de seu ombro, para a casa.

— Trouxemos Madaug para casa. E você? O que está fazendo por aqui?

— Moro perto — mentiu. Tinha sido convocada aqui por uma onda violenta de magia. Era como os poderes de Nick com esteroides. Se não soubesse melhor, diria que era ele em toda sua força, mas ele ainda era fraco.

Ainda era humano.

E o que ela sentiu tinha estado amadurecido e preparado para tomar vidas.

— Vi a polícia e decidi investigar — disse.

— Não deveria estar aqui fora. É perigoso.

Franziu o cenho.

— O que quer dizer?

Nick olhou por cima do ombro para onde Caleb estava lhes observando com um estranho olhar em seu rosto.

— Há coisas aqui fora… — Não diga zumbi, idiota. Ela vai pensasse que é louco. — É apenas uma cena macabra. Lua cheia e tal. Deveria ir para casa onde estará segura.

— Está… — entrecerrou os olhos como se estivesse procurando uma palavra — tentando me proteger?

Oh, ele conhecia esse tom. Era perigoso.

— Não estou sendo um macho chauvinista. Sei que uma mulher é tão capaz de cuidar de si mesma como um homem, mas há coisas… estou seguro que seus pais estão preocupados com você e…

— Está tentando me proteger. — Um amplo sorriso curvou os lábios dela e uma coisa estranha aconteceu ao estômago dele. — Isso é tão doce.

Em lugar de lhe esbofetear, ela na realidade lhe beijou na bochecha.

O corpo inteiro de Nick explodiu no momento em que seus lábios lhe tocaram o rosto. Agora se sentia como se estivesse em perigo.

Pela primeira vez em sua vida, não se importou em ser chamado de doce. Não significava que ia acompanhado de um beijo. É obvio, nos lábios teria sido imensamente melhor que na bochecha, mas enquanto ela não estivesse lhe esbofeteando ou lhe insultando, não ia discutir sobre a localização do beijo.

Quando ela se afastou, os olhos brilhavam sob a tênue luz.

— Obrigado por se preocupar.

— O prazer é meu. — Idiota. Que coisa estúpida para dizer.

Mas ela não pareceu notar.

— Está bem. Melhor ir. Se cuide.

— Você também.

Não se moveu enquanto ela se retirava, e tomou um segundo para saborear a essência dela que persistia ao seu redor. Cheirava bem igual a toda mulher. E tudo o que ele desejava fazer era segui-la ate em casa.

Caleb estalou os dedos na frente do seu rosto.

— Amigo, ela não é o que parece.

Girou a cabeça para Caleb.

— Do que está falando?

— Precisa se manter afastado dela, Nick. Confie em mim. As garotas não são nada mais que problemas.

Sim, mas era a única classe de problemas que queria se lançar e desfrutar até que estivesse farto.

Entretanto, não ia admitir nada disso para Caleb, para que ele não voltasse para o jardim de infância e começasse a dizer que Nick estava apaixonado por ela. OH, isso era humilhante.

— Ela é boa.

Os olhos de Caleb cintilaram com profunda sinceridade.

— Não, não é. Precisa me escutar, cara. Essa mulher é a sua morte.

Nick bufou ante o tom sinistro no estilo Vincent Price de Caleb.

— É um idiota. — dirigiu-se para o carro onde estava sua mãe.

Mas no momento que o alcançava, uma imagem indesejada lhe cruzou a cabeça. Era Nekoda…

Só que não era a garota que ele conhecia que o fazia rir e quem lhe beijou na bochecha. Ela era completamente diferente. Vestida com armadura, via-se como um antigo guerreiro, completado com um capacete e um escudo.

E uma espada que levava diretamente para o coração dele.

 

Madaug estava sozinho em seu quarto, recolhendo algumas coisas do desastre e chorando ao dar-se conta de como tinha arruinado tudo, não se supunha que fosse assim, como pôde tentar se proteger acabar saindo tão mal? Como? Como?

Tinha arruinado acidentalmente tantas vidas…

Sou tão inútil. Brian estava indo para a prisão... companheiros de classe tinham morrido, o braço de Scott estaria permanentemente desfigurado, e agora sua mãe e seu irmão provavelmente também estavam mortos, devorados pelas mesmas coisas que ele tinha criado. Deveria me jogar sob um ônibus. Nem sequer sou digno do preço de uma bala.

De repente, ouviu um sussurro.

Ao princípio, pensou que poderia ser a polícia na porta com seu pai outra vez. Mas não.

Parecia estar em seus ouvidos, como se viesse de sua própria mente. Levantou a cabeça e tratou de localizar a fonte, mas não viu nada mais que as luzes intermitentes da polícia no exterior através das frestas de suas persianas fechadas.

Madaug… se encheu de pânico, a voz de sua mãe era diferente. Indiscutível.

— Mamãe?

Ela não respondeu.

Grande. Estou alucinando. Agora perdi até minha prudência.

Uma ligeira névoa apareceu fora da janela de seu quarto. Mergulhou e logo formou uma imagem magra que se filtrou acima de sua porta. Em câmera lenta, arrastou-se ao longo de seu escritório como uma larva horripilante até que se reuniu em um grupo. Girando e dançando, solidificou-se em uma mulher pequena, velha e horrorosa que lhe aponto com um dedo acusatório.

— Está matando sua mãe e seu irmão.

Uma imagem deles gritando apareceu ao lado do fantasma em miniatura. Madaug pôs as mãos sobre suas orelhas.

— Se cale! Não lhes faça mal!

A velha bruxa se aproximou mais dele e a imagem de sua mãe e de seu irmão se desvaneceram.

— Quer salvá-los?

Que classe de pergunta estúpida era essa?

— É obvio que sim.

— Então tem que vir para mim.

Ele duvidou.

— Está no meu quarto. Já estou contigo.

Ela era completamente estúpida?

— Aqui não, imbecil. Necessito que venha ate mim.

O que supunha que devia fazer? Adivinhar entre os milhões de lugares diferentes na maior área de Nova Orleans?

— Onde está?

— No cemitério St. Louis.

Oh sim, claro. Não tinha o cérebro tão arruinado para pensar que seria tão fácil conseguir sua mãe de volta. Se fosse ate ali, não teria nenhuma influência e a velha fantasma poderia fazer o que quisesse com ele e com sua mãe.

Inclusive com o Ian.

— Vai me matar se eu fizer isso.

A pequena mulher se pôs a rir malvadamente.

— Vou matá-los se não o fizer.

Madaug queria golpear a mesa com sua mão e esmagá-la como uma barata. Mas sabia que só seria pior se o fizesse. Ela não era real. Só uma imagem fantasmagórica sem forma ou corpo real.

— Por que faz isto comigo?

— Você interferiu em coisas que não devia Não sabia que quando se manipula a vontade humana, coisas terríveis acontecem?

— Não estava tentando machucar ninguém. Essa nunca foi minha intenção. Só queria que me deixassem em paz.

A mulher encolheu os ombros.

— As intenções não importam. É pelo resultado final que somos julgados. O mal em nome do bem segue sendo o mal. E quando dança com o diabo raras vezes pode escolher a melodia.

— O que supõe que significa isso?

— Significa que a contagem regressiva de suas vidas está acelerando e quanto mais tempo demorar, maior será a probabilidade de morrer.

— Não os faça mal. Já vou.

— Será melhor que esteja sozinho, mon petit, e traga seu jogo Zumbi Hunter ou do contrário. ... você tem trinta minutos para chegar até aqui.

Ela se desvaneceu em um nada.

Madaug mordeu o lábio quando abriu a persiana para ver seu jardim infestado de policiais. Como ia chegar ao cemitério. Sem ser visto ou seguido?

Não havia maneira de que chegasse caminhando com tão pouco tempo. O que ia fazer?

Suando, desceu a escada de serviço que levava a cozinha. Ficou paralisado ao ver seu irmão e a tropa Bubba, Mark, Nick, e Simi.

— Deixarei o Mark aqui — disse Bubba a Eric. — Pode ajudar enquanto vou deixar Cherise e Nick na casa do Kyrian. Logo retornarei.

Eric assentiu com a cabeça.

— Tome cuidado.

— Tomarei.

Madaug deslizou pela porta traseira enquanto estavam de costas para ele e abriu caminho entre as sombras do abrigo onde seu pai guardava o cortador de grama. Também era onde estava a velha scooter de Eric. Tinha-a chamado de nerdmobile e agora era obrigado a monta-la.

Gah, que horror.

Mas pela vida de sua mãe, estava disposto a parecer com um total goober[39]. Abriu a porta com cuidado para que não chiasse e chamasse a atenção sobre ele, então deslizou no interior do pequeno abrigo de madeira. Tão silenciosamente como pôde, dirigiu-se à moto e abriu a tampa da gasolina. Tal e como o suspeitava, sem gasolina.

Maldito seja!!! Eric Não pode fazer nada certo?

Tudo bem. Tem um QI de 160. Pode pensar em algo.

Obrigou-se a se acalmar para poder pensar nas suas opções. Seu olhar dançava ao redor do quarto escuro, e uma ideia se formou. Agarrando as tesouras de podar, cortou uma parte da mangueira para fazer um sifão, e logo apurou o cortador de grama e verteu a gasolina na moto. Logo que a gasolina subiu, agarrou as chaves do gancho da parede, o capacete que estava cheio de teias de aranha, e empurrou a scooter para fora da casa. Seu coração pulsava com força

A cada passo que dava espera o momento que o capturassem. Mas por sorte, ninguém o viu. A polícia estava muito ocupada procurando rastros e digitais falando com as pessoas, e conversando para notar um menino rodando numa scooter vermelha brilhante através de seu pátio traseiro.

Na realidade, esse era um pensamento aterrador. Que inconsciente treinava aos peritos? Se não estivessem desatentos, estaria horrorizado. Depois, quando olhasse para trás a respeito disto, ficaria horrorizado. Mas neste momento, manteve seus pensamentos centrados em sua mãe e em seu irmão.

Com um suspiro de alívio, logo esteve a uma quadra de distância, subiu na moto e arrancou. Esta rugiu à vida e disparou rua abaixo a uma velocidade que um caminhão cisterna oxidado invejaria, mas pelo menos era mais rápido que caminhar.

E conseguiria chegar ao cemitério a tempo.

— Já vou, mamãe.

Não estava disposto a deixar que nada acontecesse a ela, ou a seu irmão. Ian poderia deixá-lo louco, mas Madaug era mais velho do que ele e era seu trabalho proteger Ian. Inclusive de zumbis comedores de cérebros.

 

Nick se deteve, quando uma comichão desceu por sua coluna vertebral, fazendo com que o cabelo na parte posterior de seu pescoço se arrepiasse.

Estava acontecendo algo...

Viu uma imagem em sua mente do Madaug luzindo realmente estúpido com um capacete vermelho dos Power Rangers na cabeça, enquanto fugia da casa conduzindo uma moto vermelha, não sabia de onde vinha, mas estava tão claro como Bubba em pé junto a ele.

— Acredito que Madaug está fazendo algo estúpido.

Bubba se burlou.

— E como isso seria diferente do normal?

— Alto! Polícia!

Nick olhou para onde havia dois oficiais com suas armas para fora. Sua mandíbula se afrouxou vendo sobre o que estavam enfocados.

Não era Madaug.

Eram mais zumbis.

Nick amaldiçoou.

A polícia não disparou até que o primeiro zumbi chegou a um policial e afundou seus dentes podres na cabeça do oficial.

Nick não podia respirar quando viu mais deles vindo. Oh! Meu Deus...

Era um exército de mortos vivos e estavam se movendo em direção a eles como uma manada de feias hienas. Por que não tropeçam como em um filme do Romero[40]?

Não, tinham que ser atacados por super-zumbis. Deixa disso.

— Aí se vai à vizinhança — disse Caleb.

Nick lhe empurrou.

— Mark!!!

Bubba ficou no caminho para a casa, mas já era muito tarde. Mais zumbis chegavam por trás e desapareceram dentro da moradia onde estavam os outros. A casa estava agora completamente ocupada por seus inimigos, enquanto que os civis corriam gritando só para ser superados pelos zumbis.

Nick agarrou o braço de Bubba para impedir que ele fosse atrás do Mark.

— Temos que ir…

A cara da Bubba se converteu em pedra.

— Não se preocupe. Vi esse filme também. Você vai ajudar ao seu amigo e eles vão comê-lo em seu lugar. Mark é preparado, poderá escapar. Acredito nisso.

Simi saiu da caminhonete.

— A Simi o trará, pode estar seguro de que vou cuidar desses velhos zumbis repugnantes. — Tirou uma garrafa de molho de churrasco de sua bolsa em forma de caixão.

Nick não estava tão certo disso.

— Simi...

Mas ela já estava a meio caminho através do pátio, com o molho na mão e gritando impaciente de alegria.

Bubba empurrou Nick para o carro pelo braço.

— O Braço! Olhe o braço!

Nick gritou quando o agarre de Bubba enviou dor por todo o caminho através dele.

Caleb subiu ao seu lado, Bubba entrou, ligou o caminhão, e o impeliu de lado na rua. Nem sequer diminuiu quando este ia através de tantos zumbis quantos podiam golpear. Grunhiam e assobiavam quando tratavam de agarrar o caminhão para chegar a eles. Mas Bubba virava bruscamente mandando-os voar.

Nick se encolheu quando um bateu de cabeça contra uma árvore e explodiu da mesma maneira que um inseto multicolorido sobre um para-brisa.

— Estou tão contente que minha mãe não esteja acordada para ver isto. Esfolaria a todos.

— Maldição!! — Caleb respirava enquanto se arrastava sobre o assento na parte dianteira. — Quantos zumbis há?

Bubba desviou para golpear a outro… pelo menos Nick esperava que fosse um zumbi e não algum pobre pedestre inocente.

— Para você ter ideia há trezentos mortos ao ano em Nova Orleans. Enquanto que Mark e eu tiramos umas quantas dúzias com o passar dos anos... Isso resulta em muitos zumbis.

Nick franziu o cenho.

— Mas, como poderia um Bokor levantar muitos desses zumbis? Não chupam o suco deles para fora ou algo assim?

Bubba sacudiu a cabeça.

— Sim, e o sangue, a menos que tenham feito um pacto com alguém muito mais poderoso.

— Alguém como um deus? — Perguntou Caleb.

Bubba assentiu com a cabeça para Caleb.

— Sim. Alguém como um deus.

Nick vaiou quando a dor atravessou sua cabeça. Era tão intensa que fez com que seu nariz começasse a sangrar.

Bubba agarrou sua cabeça por toda parte.

— Está bem?

Nick não tinha nenhuma ideia quando segurou seu nariz.

— Sinto-me doente. Realmente doente.

— Vomite no assento traseiro, moço, e te farei lambê-lo. Juro-lhe isso. Ainda estou pagando as parcelas desta coisa e é duro conseguir tirar o aroma de vômito da tapeçaria.

Mas não era esse tipo de mal-estar. A cabeça do Nick estava girando com imagens que não podia entender. Viu o fogo e foi um flash incrível de raiva.

Era sua ou não.

Bubba olhou para Caleb.

— Não se está convertendo em um zumbi, né?

— Não, — disse Caleb, com o cenho franzido. — Mas está ficando verde. Tem uma bolsa ou algo em caso de que ele comece a vomitar?

Nick não fez caso.

— Temos que deixar a minha mãe em segurança e encontrar Madaug.

— O que? — Perguntaram-lhe ao mesmo tempo.

Nick capturou o olhar de Bubba no espelho retrovisor quando Bubba lhe devolveu o olhar.

— Algo mal está a ponto de acontecer.

— Menino, no caso de não ter prestado atenção no assunto, algo mal esteve acontecendo durante todo o dia.

Caleb se deu a volta no assento.

— Talvez devêssemos continuar, e encontrar primeiro Madaug.

— Não.

Nick olhou para sua mãe, que já estava mais quente que um ninho de vespas impetuoso contra uma casa.

— Cuidaremos de minha mãe primeiro, é minha prioridade número um. Tenho que me assegurar de que esteja a salvo.

— E depois o que? — Perguntou Caleb.

— Depois vamos acabar com o zumbi principal aaa... sss.

 

Nick estava com a cabeça encostada contra o vidro do carro vendo a estrada passar enquanto evitava ficar doente. O que estava errado com ele?

— Está lutando contra mim. Para e não se sentirá mal.

Olhou no carro para ver se alguém mais ouvia a voz em sua cabeça. Sua mãe estava ainda inconsciente. Bubba escutava o rádio enquanto Caleb cantava Iron Man baixinho.

E quando Nick olhou para Caleb, viu como a forma de seu amigo mudava ante seus olhos. Era como se pudesse ver sob a pele de Caleb e já não era humano. Era...

— Um daeva. Um demônio de classe média. Não são malvados por natureza. São soldados de um tempo e um lugar remotos. Protetores ou mensageiros dos deuses antigos. No caso de Caleb, era um temido general que ainda é capaz de invocar e comandar legiões de demônios. Para sua informação, Nick, nem todos os demônios são maus. Como a gente, eles são formas de vida complexas com personalidades e traços variáveis. Cheios de emoções complexas, algumas malévolas e outras boas. No caso de Caleb, ele é seu protetor. Morreria para te manter a salvo. Assim antes que o julgue por ter nascido em uma espécie que não pôde escolher igual a você, deveria saber que permaneceu nas sombras como um guarda-costas silencioso, mas que não dará um passo à frente até que você não necessite mais dele para se manter a salvo. De verdade crê que ele desfrutou estar no instituto contigo e os outros quando não tinha por quê?

Nick viu uma imagem de Caleb com asas, com seu chamejante e comprido cabelo laranja enquanto estava à frente de milhares de demônios, dirigindo-os à batalha. Sua pele era vermelha escura, tinha os olhos amarelos como os de uma serpente, e lutava com a força de um titã. Nick negou com a cabeça. Estou ficando louco.

— Não, está tomando consciência de quem é e do que é. De tudo o que te rodeia e que sempre esteve oculto... justo como te prometi que o faria.

Quem é? Perguntou Nick em silêncio.

— Ambrose... e também estou aqui para te proteger. Escute-me, Nick, e eu ensinarei tudo o que você necessita para lutar contra as criaturas que virão atrás de você. Os que arruinaram a sua vida. Você não tem a habilidade para vê-los e lutar contra eles.

Nick franziu o cenho. Não o entendo. Por que fugiu de mim em casa do Madaug?

— Não fugia de ti. Estava tratando de salvar o seu amigo antes que os mortents lhe fizessem mal. Mas, como você, não me escutou.

Sim, claro. Por que não acredito?

— É verdade, Nick. Lembra-se da menina no beco? A que te atacou?

Duh. Não é como se pudesse esquecer esse encontro ao estilo Wes Craven[41] logo.

Então, tinham-lhe feito algo que tinha esquecido. Mas agora recordava cada pequeno detalhe. Mas o que...?

— Disse-te que se chamavam mortents. Saem de seus buracos e, desta vez, reclamaram seu amigo Madaug e a sua família. Queriam utilizar seu jogo para controlar os vivos... porque os vivos ainda possuem suas almas e vontade, e os zumbis vivos são imunes as nossas palavras e a nossos poderes de manipulação. Não podemos controlá-los como fazemos com os que estão mortos. Se os mortents conseguirem o jogo do Madaug, poderão utilizá-lo para controlar a ti em particular, e poderão construir um exercito de vivos para atacar o mundo.

Por que eu? Não entendo por que está acontecendo isto e por que importa tanto que esses merdas me controlem. Nem sequer posso caminhar por aí sem que me atirem ao chão.

— Nick, você é a chave de um dos mais bárbaros e potentes poderes jamais criados. As batalhas por sua posse lhe deixarão cicatrizes de maneira que não ameaçará até que seja muito tarde. Se me escutar, posso te salvar.

Sou a chave? Tio realmente me confundiu com alguém mais.

— Não, não confundi. Eu, melhor que ninguém, sei exatamente quão poderoso é e o que pode fazer. E no fundo, você também sente esses poderes também. Gastaste a metade de toda sua vida negando-os. Disse Menyara ou um sexto sentido. Não é significado oculto. É seu direito de nascimento e tem que aceitá-lo ou perderá tudo o que mais ama.

E se não acreditar nesta merda?

Imagens de um buraco escuro e aterrador relampejaram em sua mente. Viu a si mesmo no futuro luzindo como Ambrose. Sozinho. Despojado de tudo.

Torturado.

E ainda mais, ele era desumano e cruel.

— Se eles o converterem em mal, serão recompensados e você será arruinado. E cada um dos que amas pagarão o preço. Todos.

Nick negou com a cabeça em um esforço por limpar as imagens horrorosas. O terror lhe afogou quando começou a temer ser um monstro como seu pai. Ou em converter-se na criatura que acabava de ver.

Não quero ser malvado.

— Não é tão fácil quanto parece. Não é tão fácil.

Claro que é. Minha mãe me diz a todas as horas que temos que decidir entre o bem e o mal. O que somos depende completamente de nós.

— E há coisas que nos levam a tomar decisões que estão além de nosso controle. Como sua mãe. Sabe o quanto ela odeia dançar e ainda assim ali está cada noite, inclusive trabalhando turno dobro para levar mais dinheiro a casa. Para você. E você ainda não foi traído, Nick. Não sabe o que se sente. O que fazer. As cicatrizes que ficarão nunca desaparecerão.

Não é verdade. Alan, Mike e Tyree me traíram, todos eles.

— E você quer o sangue deles por isso.

Quero me banhar nele.

— É a isso que me refiro exatamente. Esse é o mal que te está seduzindo. O poder maléfico que corre por suas veias te tentando a um destino traiçoeiro que te custará tudo o que mais ama e aprecia. Tem que deixar essa raiva ir antes que seja muito tarde. A vingança sempre se volta contra você e te consumirá até que não fique nada exceto um buraco vazio que não possa encher com nada.

Nick se arrepiou quando viu essa noite outra vez... o brilho nos olhos de Alan enquanto ele apertava o gatilho.

Atiraram em mim!

— E pagarão, mas não por sua mão. Confia em mim. O Carma tem seus próprios planos para eles e o que eles vão sofrer é mais doloroso do que jamais poderá sonhar.

Não sei nada sobre isso. Tenho uma imaginação fértil. E deixar isso passar é muito mais fácil dizer do que fazer.

Ambrose riu em seu ouvido.

— Acredite, eu sei.

De repente, Nick viu Ambrose no carro junto a ele. Translúcido, apareceu no outro lado de sua mãe, apoiando-se contra a porta do carro como se realmente fosse outro passageiro.

Com os olhos cheios de absoluto mistério, Ambrose se moveu e tocou a bochecha da mãe do Nick. Havia tanta angústia em sua cara e ternura em seu toque que fez com que o estômago de Nick se encolhesse. Ambrose a tocava como se ela fosse um fantasma que tivesse lhe açoitado durante séculos.

Mais que nada, tocava-a como se fosse indescritivelmente preciosa. Alguém a quem nunca tivesse pensado voltar a ver. Inclusive o lábio dele tremeu um pouco quando passou a mão pelo cabelo dela.

Você a quer, Nick lhe enviou seus pensamentos.

Ambrose assentiu, e logo procurou seu olhar para que Nick pudesse ver a sinceridade ardendo em seus olhos.

— Faria qualquer coisa para mantê-la a salvo. Qualquer coisa para te manter no caminho correto.

E foi então que Nick soube que podia confiar nele. Não havia maneira de fingir essa emoção tão profunda. Sentia cada palavra que havia dito. Inclusive embora lhe parecesse um pouco repulsivo que o irmão de seu pai amasse a sua mãe, acreditava que estava tratando de lhes ajudar.

O olhar do Ambrose lhe queimou.

— Confiará em mim, pequeno irmão?

Nisso acredito. Mas só enquanto não me traia.

Ambrose lhe dedicou um sorriso altivo.

— Sou a última pessoa que faria isso, Nick. Venderia minha alma e daria minha vida para evitar que te converta no que eu sou.

Nick assentiu.

Então, me diga o que preciso saber.

— Vai ter que aprender a controlar os zumbis.

Nick riu com força, o que fez com que Caleb saltasse espantado e em alerta e lhe cravasse o olhar.

— Sinto muito — disse Nick em voz alta. — Não pretendia te assustar.

Caleb soprou antes de relaxar.

— Precisa de algo mais que você para me assustar. Deveria ser algo muito divertido dentro de sua cabeça, Gautier. Mas lembre-se que o resto de nós não está aí contigo.

Sim, só Ambrose parecia ter esse poder.

Nick voltou sua atenção para Ambrose. As luzes dos carros brilharam através de sua cabeça, lhe fazendo brilhar na escuridão.

Caleb não pode te sentir?

— Só se eu permitir.

E, obviamente, não estava permitindo a ninguém mais a não ser Nick de lhe ver e ouvir nesse momento.

O que é? Perguntou-lhe.

— Somos — assinalou a ambos — os últimos de uma raça maldita. O que não é necessariamente algo ruim já que nossa natureza primitiva é fazer mal aos outros. Quando estão débeis e feridos, equilibramo-nos para matar. Mas espero que tenha o suficiente de sua mãe em ti para que aprenda a dobrar esses impulsos e aprenda a deixar essas coisas irem do modo que eu não pude.

Nick também o esperava.

Não quero parecer de maneira nenhuma ao Adarian.

Essa misteriosa tintura avermelhado voltou para os olhos de Ambrose, e não é que Nick necessitasse de um aviso de que a criatura que havia a seu lado não era humana.

— Ele tampouco o quer, e não é nem um pouco o idiota que pensa que é. Quando chegar o momento, entenderá melhor do que quereria. E juntos, se tivermos sorte, evitaremos que siga seus passos. Enquanto isso, eu tenho que te ensinar tudo o que sei tão rápido quanto posso.

Por que tanta pressa?

O laranja piscou em seus olhos vermelhos, como chamas dançantes.

— Meu tempo logo vai se acabar e não poderei... — sua voz se desvaneceu pouco a pouco.

Não poderá o que?

— Não me importarei com nada. Não me preocuparei com nada ou ninguém. Nem sequer com você.

Ambrose lhe sujeitou a mão e mostrou uma ornamentada adaga dourada em sua palma. A alça brilhava em um elaborado desenho que parecia um círculo de aves ancestrais fazendo espirais. E na cruz do punho havia um rubi de cor vermelha sangue que parecia irradiar calor. Nick o olhou franzindo o cenho.

O que é isto?

— O selo dos Malachai. Com essa adaga, não há nada que não possa matar. Deuses, demônios, zumbis... nomeia-os ou, melhor dizendo, apunhala-os e cairão ante ti.

Por que me está dando isso?

— Em parte para que não me tente, e para que possa arrumar isso com os zumbis que virão atrás de você esta noite — tomou as mãos de Nick e deixou sua palma sobre o centro da adaga. — Fecha os olhos e imagina que é do tamanho de um canivete.

Como é?

— Confia em mim, Nick.

Nick fez o que lhe dizia e no momento em que teve a imagem em sua mente, a adaga encolheu. Ofegando, abriu os olhos para ver que não era maior que seu dedo indicador.

Ambrose lhe estendeu a capa, que era de igual tamanho.

— Pode levá-la contigo onde quer que vá. Para fazê-la maior, só imagina o tamanho do que a quer. Pode ser uma espada, uma adaga ou uma faca.

Fala a sério?

Ele assentiu.

— Passará inclusive nos controles de segurança do aeroporto. Não há criatura ou máquina que possa chegar a detectá-la.

Como é possível?

A familiar tristeza voltou para o rosto de Ambrose.

— Vou te mostrar coisas que nunca acreditaria que fossem possíveis. Mostrarei-te um mundo que você nunca imaginou que existiria. E me arrependo por fazê-lo. Mas é algo que terá que fazer e será melhor que eu o mostre do que aprenda da maneira que eu tive que aprender.

Parecia óbvio por suas palavras e seu comportamento que tinha que se formou summa cum laude[42] na Escola do Grande Chute no Saco. E então quando Nick o via contemplar a sua mãe dormindo, não podia evitar perguntar uma coisa.

Quantos anos você tem?

Ambrose suspirou antes de responder.

— Vivi centenas de anos.

Nick ficou boquiaberto de assombro. Não parecia nem um pouco mais velho do que vinte e quatro anos. Era possível viver tanto?

Por outra parte, Ash o fazia. E com esse pensamento veio outro que morria por saber, inclusive embora no fundo de suas vísceras tivesse uma boa ideia de qual era a resposta.

E sobre meu pai? Quantos anos ele tem?

Porque, agora mesmo, Nick apostava que nem sequer andava pelos trinta que aparentava.

Ambrose tomou a mão de sua mãe na sua e a sustentou contra seu coração.

— É velho, muito mais velho que eu.

Tinha-o suspeitado, mas a verdade lhe golpeou como um tiro direto no intestino. Tratou de imaginar como seria viver durante séculos. Tinha que ser muito divertido.

E extremamente solitário.

Viverei durante tanto tempo?

— Com um pouco de sorte, espero que vivas esses anos com mais felicidade que eu.

O que significa isso?

— Significa que eu necessito que te centre. Se você quer salvar o Madaug, precisa me escutar ou os mortents comerão os dois como tortas para o café da manhã.

Estou escutando.

Ambrose amaldiçoou quando o carro freou.

— Estamos na casa do Kyrian. Isto terá que esperar.

Nick começou a perguntar ao que se referia, mas no momento em que olhou pela janela, entendeu. Havia um pequeno grupo de gente reunido frente na casa. Homens e mulheres, a metade deles levava tacos de beisebol e pentagramas. Armas interessantes que o fizera perguntar-se o que ele usava que ele não podia ver.

Nick olhou para Caleb.

— Uh, sou eu ou essa é a metade de nossa sala?

— Sim, imagino que é uma reunião ou, já que são nossos companheiros de classe, uma coleção de idiotas. Chama-os tansos, como gansos, mas com tolos.

Bubba se dirigiu à entrada, onde Tad estava dando ordens a outros.

Nick saiu primeiro enquanto Ambrose se materializava atrás dele. Tad lhes dava as costas enquanto falava com um grupo no qual se incluía Kyle e Alex Peltier, Stone, Casey e, por estranho que pareça, sem a Brynna.

— Já que só há quatro Dark Hunters na cidade esta noite, estão fazendo tudo o que podem combatendo os Daimons, que estão aproveitando os zumbis para reforçar-se e alimentar-se e os culpar das mortes.

Nick franziu o cenho para o Caleb enquanto Bubba ia à parte traseira pegar sua mãe.

— O que é um Daimon? — perguntou Nick a Ambrose.

— Realmente quer saber?

— Me ilumine.

Uma estranha luz piscou nos olhos do Ambrose.

— São vampiros chupadores de almas. Enquanto drenam os humanos de sangue, não se alimentam disso. Só se bebem o sangue para te matar e, uma vez que está morto e sua alma abandona seu corpo, sugam-na em seus corpos e vivem de sua essência.

Nick retrocedeu com incredulidade.

— Está brincando comigo.

Ambrose negou com a cabeça.

— Não, não estou, e um dia te relacionará de maneira muito íntima com muitos deles.

— Eu não gosto de seu tom, Ambrose.

Em sua maior parte, não gostava do que Ambrose estava insinuando.

— Você gostará inclusive menos, no dia que conheça um Daimon chamado Stryker. Mas essa é outra história — Ambrose assinalou o Tad com um gesto de queixo. — A ele, por outra parte, é bom o ter como amigo. Entretém-te enquanto outros se vão.

Nick franziu o cenho ao escutar o discurso de Ted enquanto Bubba levava a sua mãe para casa.

— Já que os Dark Hunters estão ocupados, Eric precisa de nós. Para aqueles que não o tenham escutado, para os que estejam se perguntando por que foram chamados, sua mãe e seus irmãos estão desaparecidos. Sequestrados, acreditam, pelo bokor. Eric não sabe onde estão — seu olhar foi para Stone e os Peltier. — Caras, precisamos de vocês para rastreá-los e encontrá-los.

Stone olhou com desprezo aos Peltiers.

— Eles não podem rastrear uma merda.

Alex se lançou para ele, mas Kyle lhe agarrou e lhe sujeitou para trás.

— Não quer matar o lobo, A. Têm sabor de galinha seca.

Stone ficou rígido de indignação.

— A quem está chamando galinha?

— Bock, bock — disse Alex com um sorriso zombador. — Se quem tem o bico é você...

Desta vez muitos outros ficaram entre eles enquanto Stone se lançava para cima do Alex.

Tad lhes grunhiu.

— Were-Hunters, calma. Não é o momento para que briguem. Nós precisamos de vocês.

Nick franziu o cenho. Aí estava essa palavra outra vez. E em lugar do que Tad havia dito, estava seguro que não era um termo de jogadores.

Russell deu a volta e os viu, ele e Caleb.

— Há quanto tempo os mundanos estão aqui?

Caleb se burlou.

— Não somos mundanos, dweeb. Temos mais direito a estar aqui que qualquer um de vocês.

Stone olhou com desprezo para Caleb.

— Aqui está fora de seu elemento, Malphas.

Caleb abriu sua mão. Tal e como tinha feito Ambrose no beco, manifestou uma bola de fogo. A jogou no Stone de tal maneira que aterrissou a seus pés e iluminou o corpo inteiro do Stone.

— Não me provoque Scooby-Doo[43]. Não sou um velho mascarado esperando que os mucosos entremetidos se frustrem.

Tad assentiu.

— E Gautier está trabalhando para o Kyrian agora. Não é como se não fosse descobrir o que somos cedo ou tarde.

— E o que são? — perguntou Nick.

Carl Samuel, um dos amigos de Tad que tinha o cabelo loiro e olhos azuis deu um passo à frente.

— Somos Escudeiros Multi Geracional.

— E o que isso significa? — Perguntou Nick. — Se exibem por aí com suas armaduras de chapa e espadas de plástico pretendendo ser cavalheiros?

Carl riu enquanto Russ insultava tanto a inteligência de Nick quanto de sua família.

Tad os ignorou e respondeu a pergunta.

— Somos humanos a serviço da deusa Ártemis que a ajudam a ela e a seus soldados a proteger à humanidade do mal que nos caça. St. Richard é nosso centro de treinamento em Nova Orleans para aqueles entre nós que viemos de uma longa linha de Escudeiros.

— Yeah — disse Carl. — Por isso a maioria de nós não o acolheu muito bem. Nós não gostamos de estar com mundanos que não sabem de nós. Sem querer ofender.

Sem querer ofender? A maioria deles se comportava como verdadeiros imbecis com ele.

Carl assinalou os Peltiers e o Stone.

— Eles são mudam de formas. A maioria da equipe de futebol é assim também — seu olhar se centrou no Caleb. — Não sabíamos nada sobre você nem de seus poderes.

Caleb encolheu os ombros.

— Nunca houve necessidade de que soubessem sobre mim, e nenhum de vocês acorda comigo, tampouco.

Stone soprou.

— Isso não funciona conosco.

— Oh sim, Scooby, funciona. Você e eu demos uma volta juntos mais de um dia. Sou a razão para que continue que os extraterrestres lhe abduziram.

Nick riu.

— Eu sabia, sempre gostei de você por um motivo.

Caleb se inclinou para frente, entre Nick e Ambrose, e disse em voz baixa:

— Por certo, chefe... não está tão oculto como pensa, e ouvi tudo o que disse ao menino no carro — olhou diretamente para Ambrose. — Bonito casaco, mas prefiro o traje negro que usou na última vez que nos vimos.

Ambrose fez um movimento o Vader que fez parecer como se algo tinha agarrado tivesse agarrado o Caleb com um agarre asfixiante.

— Não tente sua sorte, Malphas.

Caleb relaxou quando Ambrose se afastou.

— Sabe, Nick? Eu gosto mais de você do que este tanso.

Por alguma razão, Nick não estava seguro de que isso fora um elogio.

— De acordo — disse Tad, reclamando a atenção de todos outra vez. — Precisamos nos dividir em quatro grupos e ver o que encontramos.

Alex Peltier assinalou o Nick com o polegar.

— Eu vou com Bubba, Nick e sua tropa.

— De acordo. Se alguém encontrar algo, avise, e nos moveremos como um grupo. Não quero que ninguém faça atos heroicos. Não precisamos morrer esta noite.

Nick ainda não estava seguro do que estava acontecendo quando Alex se aproximou deles.

— Por que nos escolheu?

— Eu gosto de ajudar os novatos e a maioria do resto me põe os nervos. Se não tiver ninguém mais, Bubba e Mark sempre são bons para dar umas risadas.

O estômago do Nick se retorceu.

— Há, mas acredito que os zumbis comeram o Mark.

— O que? — Alex parecia estupefato.

— Sim — disse Caleb com tristeza. — Quando estávamos na casa do Madaug, os zumbis mortos atacaram e nem o vimos nem ouvimos nada dele após. Não tem boa pinta.

Alex parecia doente.

— É uma vergonha. Sempre eu gostei quando Mark bebia muito e jogava cartas com meus tios e Eros. Era muito divertido.

Nick assinalou a porta com o polegar.

— Vou dar uma olhada na minha mãe e em Bubba. Volto em seguida — deu um passo e logo parou e voltou sua atenção para o Alex. — De verdade que você muda de forma?

Alex assentiu.

— Conhece o clube Santuário no Ursulinas?

— Sim.

— É propriedade de minha família e a maioria de nós, mudamos de formas.

Nick negou com a cabeça.

— Vamos lá.

— Nah, é sério.

Nick soube que não estava brincando, mas era muito para acreditar.

— Então, no que te converte?

— Em um urso.

Nick riu quando finalmente entendeu uma das antigas tradições do Santuário.

— Será que as pessoas fazem luta livre com ursos para beber de graça?

— Nah. Esse é meu tio Quinn.

E com isso em mente, Nick saiu a procurar de sua mãe. Bubba estava no salão falando com Phil. Interrompeu-lhes só o suficiente para saber onde Bubba a tinha levado, e logo se dirigiu para o quarto de hospedes.

Entrando no dormitório, Nick se aproximou da enorme cama decorada com granada e ouro, e olhou para a sua mãe enquanto dormia. Parecia tão delicada contra os lençóis de cor de ouro escuro.

Proteja a sua mãe, garoto.

A voz de seu pai ressonou em suas orelhas, mas não precisava escutar o seu pai para saber suas obrigações. Era o homem da casa e era seu trabalho protegê-la.

Embora ela não quisesse.

E agora mesmo, tinham que ir evitar o apocalipse e, com sorte, salvar um amigo. Sem mencionar que a cidade estaria logo invadida de zumbis se não encontrassem os mortents e os levassem de volta para o seu buraco.

Nick agitou a cabeça ante a ironia. Justo ontem sua maior preocupação era pegar a aula de química depois que o tinham baleado. Agora era salvar o mundo.

Sou muito jovem para isto...

— Infelizmente, não é.

Deu a volta ante o som da voz de Ambrose.

— Onde foste?

— Conseguir isto — Ambrose lhe estendeu um velho livro de encadernação de couro que era só um pouco maior que um conto de capa fina.

Nick o abriu, e franziu o cenho quando não viu nada exceto páginas em branco.

— O que é? Um jornal?

— Um grimorio. Ao tempo que vá desbloqueando seus poderes, aparecerão encantamentos que lhe permitirão afiar cada vez mais suas habilidades. As páginas irão se acrescentando.

— Isso não é ir para trás? Não deveria ter primeiro as instruções?

Ambrose negou com a cabeça.

— Não funciona assim — assinalou o bolso do Nick. — Ainda tem a adaga que te dei?

— Sim.

— Tire-a e ponha sobre a primeira página.

Nick pôs o livro sobre o aparador já que só tinha um braço útil. Tirou a adaga e fez o que Ambrose disse. No momento em que o fez, uma peculiar escritura se escreveu sozinha sobre a página em tinta vermelho sangue. Quis perguntar a Ambrose o que dizia, mas quando o olhou, pôde entendê-lo.

Como podia ser?

 

O véu é leve para que possa observar

O que sob a árvore superficial escondeu

Com este olhar nunca lhe enganarão

Mas ainda assim se precavido e não te converta em seu utensílio.

 

Ambrose tomou a adaga de sua mão e a usou para cravar a ponta de seu dedo.

Nick amaldiçoou.

— O que está fazendo?

Ambrose não respondeu. Em lugar disso, deixou cair três gotas de sangue na página. Sussurrou “Drendanya eire coulet” enquanto caíam. Então as gotas de sangue se formaram redemoinhos e formaram um círculo antes de explorar e acrescentar mais palavras à página.

 

Esta noite a lua cheia está

E você sentirá a chamada do mal

Permanece forte e luta até o final.

Só mantendo a fé ganhará.

 

Ambrose lhe estendeu a adaga de volta.

— Cada vez que queira um conselho ou uma instrução, pode usar este conjuro. Quando chegar o momento, será capaz de utilizá-lo para fazer profecias e fazer predições sobre o futuro.

Nick ficou boquiaberto.

— De verdade?

Ambrose inclinou a cabeça.

— E com isto, tenho que ir.

Pareceu empalidecer um pouco, como se algo estivesse drenando seus poderes.

— Boa sorte, Nick.

— Obrigado.

Ambrose inclinou a cabeça antes de desvanecer-se.

Nick dedicou um último olhar a sua mãe e logo ao livro, antes de deslizá-lo no bolso traseiro. Firme como o aço pela determinação, deixou a habitação e se dirigiu para baixo, onde Phil e Bubba seguiam falando. Tinha ouvido o Phil dizendo antes que Kyrian lhe havia dito que fosse e cuidasse dele e de sua mãe. Para Nick não tinha sentido que Phil estivesse à completa disposição de Kyrian, mas não era seu assunto para questioná-lo. Se havia algo que sabia era que aos adultos não gostava de contar coisas aos garotos que não tinham por que contar.

Phil lhe sorriu.

— Não se preocupe Nick. Protegerei-a até que volte.

Bubba cravou o olhar no Phil com receio.

— Não sei se poderia fazer muito se alguém entrasse a força.

Um sorriso malicioso fez curvar os lábios de Phil.

— Não deixe que o traje te engane. Prometo que sou mais duro do que pareço.

Nick franziu o cenho quando viu a mais estranha das coisas... era uma tatuagem de teia de aranha na mão de Phil. Certo que fora muito tênue, mas não havia dúvida. Era completamente contra o traje luxuoso e o comportamento de classe alta do Phil.

— Isso é bonito. Fez isso quando jovem?

Phil cobriu a tatuagem com sua outra mão.

— Sim, isso.

— Nick? — Disse Bubba para chamar sua atenção. — Precisamos ir.

Agradeceu a Phil por cuidar de sua mãe antes de seguir Caleb, Alex e Bubba no SUV. Nick suspirou enquanto subia e tomava assento.

— Sou eu, ou esta foi a noite mais longa?

Bubba riu.

— Se fizesse o que eu faço, guri, seriam inclusive mais longas.

Nick se deu conta que havia uma grossa capa de tristeza ao redor de Bubba quando pôs em marcha o motor.

— Está preocupado com Mark?

Bubba se arrepiou como se a pergunta lhe ofendesse, mas Nick reconheceu a fanfarrice. Estava definitivamente molesto e preocupado.

— Por que deveria me preocupar com ele? É um duro filho da mãe. Nenhum zumbi poderá com ele. É melhor que isso.

Mas Nick podia ouvir a verdade nesse tom áspero. Duro ou não, só bastava um golpe para acabar com uma vida, e isso era o que todos tinham em mente quando saíram.

— Então Alex? — Perguntou Bubba. — Como vai rastreá-los?

Alex levantou um pequeno dispositivo portátil.

— GPS. — deu a volta em seu assento e piscou os olhos para Caleb e Nick.

A Bubba não era tão fácil lhe enganar.

— Como vais conseguir as coordenadas?

— Com o celular do Madaug.

— Ah, certo. Então só me diga onde tenho que ir.

Alex lhe dedicou um sorriso malicioso como se estivesse se refreando. Depois de um segundo, fechou os olhos e Nick poderia dizer que estava usando algum tipo de poder sobrenatural para procurar o Madaug e a sua família.

Enquanto fazia isso, Bubba ligou o rádio, que emitia um sinal de radiodifusão de emergência que sintonizava um locutor dizendo que o prefeito estava decretando um toque de recolher geral por um severo surto de gripe.

Caleb se burlou.

— Eu disse que ele ia colocar a culpa em uma doença.

Bubba girou à esquerda descendo por um Canal.

— Não querem que a gente entre em pânico. Por uma vez não posso lhes culpar. Quanto mais gente tiver na rua, mais vitima haverá no hospital.

A transmissão continuou.

— A polícia está aplicando o toque de recolher. Todos os residentes estão sendo chamados para permanecer em casa enquanto asseguram o Bairro Francês. Qualquer um que seja encontrado fora de casa será detido.

— Então ele atirará em todos os zumbis. — acrescentou Nick com uma gargalhada.

— Deveríamos dar meia volta? — perguntou Alex.

Bubba encolheu os ombros.

— Isso é o que o sentido comum diria. O que você acha?

Nick se reclinou no assento.

— Está muito longe de minha intenção deixar que meu sentido comum se intrometa com minha estupidez. Eu digo que sigamos adiante. Caleb?

Por um momento luziu um sorriso zombador.

— Quais são os registros de prisão de todas as formas? Alex, Nick e eu somos menores.

— Até o infinito, então.

Nick franziu o cenho ante as palavras de Bubba.

— O que significa isso?

— É algo que meu pai estava acostumado a me dizer quando eu era um menino. Para o infinito, significa que vai até o final.

Nick não entendeu.

— O infinito é interminável.

— Isso é correto, o que significa que seguirá adiante e adiante sem importar o que ocorrer ou os obstáculos que encontre. Por cima, por baixo, ao redor ou através. Sempre há um caminho. E se tiver que perseguir algo até o infinito, ponha suas melhores calças, calce suas botas de montanha e se coloque em marcha.

Nick abriu a boca para falar, mas antes que pudesse falar, algo bateu contra o SUV. Em um minuto estavam bem.

No seguinte, estavam girando fora de controle.

 

A cabeça de Nick bateu tão forte contra o vidro, que ele viu estrelas enquanto o utilitário rodava uma e outra vez, fora de controle. Parecia que nunca ia parar, e não o fez até que algo os empurrou contra o muro de concreto da ponte I-10. Chocaram-se tão forte, que ele se surpreendeu porque a caminhonete não se partiu no meio.

Gemendo, Nick viu Bubba inconsciente, preso entre o volante e o banco. Tinha uma ferida na testa e o sangue corria pelo rosto, caindo na camisa. Alex estava respirando como uma mulher em trabalho de parto enquanto tentava abrir sua porta. Estava coberto de sangue com um lábio partido e o olho inchado. Mas quem sofreu mais impacto foi Caleb, que tinha perdido sua aparência humana completamente.

Whoa, sua pele não era apenas sua vermelha, mas brilhava com uma luz tênue. E esses olhos de serpente com as pupilas em forma de diamante estavam na lista das horripilantes raridades.

Nick tentou se mover. Mas a dor o golpeou, fazendo difícil respirar enquanto Caleb tentava desabotoar o cinto de segurança. Parecia que uma de suas mãos tinha se quebrado. Mesmo assim, Caleb não deixou que isso o detivesse absolutamente.

— Alex? — disse Caleb, a voz ressonava com um profundo acento. — Estamos sob um ataque. Você pode sair?

Alex fez o som de um urso pardo zangado.

— Algo bloqueou meus poderes. Não posso me sentar, nem sequer tirar o cinto de segurança. Seus poderes funcionam?

— Não. Nem sequer posso manter minha forma humana.

De repente Nick cheirou o fedor acre de enxofre e da morte.

Caleb amaldiçoou enquanto começava a chutar a janela. Logo que o vidro quebrou, agarrou Nick e lhe empurrou pela abertura que tinha feito. Nick vaiou quando a dor estalou no ombro e braço pelo mau trato.

Droga! Isso dói.

Caleb saindo e lhe agarrou pelo braço bom. O arrastou atrás de si, Caleb estava falando em uma linguagem que Nick não podia compreender.

— Amigo, acredito, que não devemos nos mover até que os médicos cheguem aqui depois de um acidente assim. Acredito que quebrei algo. Podemos romper a coluna ou algo.

— Estas a ponto de romper muito mais que a coluna. — Caleb se voltou e olhou por cima de suas cabeças. Amaldiçoando, agarrou Nick e lhe empurrou dentro de um tubos de esgoto. — Não se mexa e respire apenas se for necessário.

Que tipo de comentário estúpido é esse?

Nick ia discutir até que viu o que preocupava tanto Caleb. Eram…

Macacos voadores[44]?

Meu Deus. Porque em vez de serem pequenas coisas lindas com trajes azuis e chapéus estranhos, as coisas atrás deles eram enormes e feias criaturas que lhe revolviam o estômago. Com as cabeças calvas, garras e pele como se fossem Shar-Pei[45], davam a “horrível” um novo significado. E cheiravam a ovos podres. Não, cheiravam a ovos polvilhados de quatro dias que tinham sido deixados mofando no sol de agosto.

Ou como os sapatos da Bubba…

Seu aroma era tão acre, que fez tudo o que pôde para não enjoar.

Caleb se voltou para lutar com eles. Equilibraram-se sobre ele como os pássaros do antigo filme do Hitchcock[46]. Nick nem sequer podia ver o contorno de seu corpo enquanto lhe derrubavam.

Apavorado, se esconde mais profundamente nos tubos, fora da vista. Tirando a espada, sussurrou uma oração pedindo por alguma intervenção divina séria.

O som das asas golpeou a noite como um estrondoso batimento do coração. O suor ensopava sua testa enquanto considerava as suas opções. Não podia ver quase nada na escuridão. Se saísse dali para correr, iriam vê-lo e lhe atacariam também.

Droga, o que devo fazer?

— Nick?

Ficou gelado enquanto ouvia a voz de sua mãe que parecia como se ela estivesse soluçando. É um truque. Não tinha nenhuma maneira ou jeito de que ela pudesse estar aqui. Nenhuma.

— Está me machucando, bebê. Ajude-me. Por favor!

Não é ela. Não é ela.

Mas, e se fosse?

E se não?

Pôs a mão sobre o celular, tentado ligar para ela e saber. Mas se fosse um truque, iram ouvi-lo.

O que devo fazer?

Segurou a espada com mais força enquanto ouvia algo se arrastando pelo chão lá fora. Parecia que estavam se aproximando. Baixou a vista para o rubi brilhante no punho da espada e vacilou. Esta era sua única arma. Se a perdesse, estaria completamente a sua mercê.

Não, espera…

Tinha algo mais que poderia ajudar. Ao menos esperava que o fizesse. Tirando o livro, agachou-se com ele e usou o celular para iluminá-lo e poder ver as páginas em branco. Repetindo o que Ambrose tinha lhe mostrado, furou seu dedo com a adaga e deixou que o sangue caísse sobre a página.

— O que são essas coisas que vão estão de mim? — exalou.

O sangue desenhou uma imagem deles que era até mais feia do que o que tinha visto. Então apareceram as palavras abaixo da imagem para explicar o que eram.

Demônios taahiki. Terceira subcultura com poderes limitados. São coletores enviados para recuperar objetos e criaturas para seus senhores. Neste caso… você.

— Como imobilizaram o Caleb e o Alex?

Em baixo da fotografia, apareceu outra imagem. Esta era um pequeno medalhão extremamente adornado. Uma vez mais, apareceram palavras.

Estrela do Ishtaryn. Kryptonita para demônios. Enfraquecerá e capturará a qualquer demonkyn com o que entrar em contato, o que inclui mestiços como você.

E tampouco é bom para os weres.

O livro tomava alguma atitude séria.

— Então o que devo fazer? — perguntou Nick.

O sangue se arrastou para a página oposta.

Quando tudo está dito e como parece,

A melhor coisa que pode fazer agora é correr.

“Correr” aparecia em forma grande com palavras irregulares. Nick fechou de repente o livro, o meteu no bolso, e fez exatamente o que dizia