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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Instinto do Amor / Nora Roberts
Instinto do Amor / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Instinto do Amor

 

Aos noventa anos, não há nada que o poderoso patriarca do clã MacGregor deseje mais do que ver as três netas mais velhas casadas e felizes. Para isso, escolheu a dedo três candidatos acima de qualquer suspeita para serem maridos perfeitos. Porém, Daniel terá de provar que sua habilidade para formar casais nunca passou de moda.

Afinal, Laura, Gwendolyn e Julia estão mais preocupadas com suas carreiras do que em dar continuidade ao clã... e casamento é a última coisa em que pensam! Ainda bem que Daniel possui alguns trunfos na manga...

Nestas três cativantes histórias. Nora Roberts, autora número um da lista de best sellers do The New York Times, nos apresenta à nova geração dos MacGregors, uma das famílias americanas mais famosas e populares de todos os tempos, fundada por um patriarca com infalível instinto para o amor e para o casamento.

 

Das Memórias Secretas de Daniel Duncan MacGregor

Quando um homem chega aos 90 anos, fica tentado a olhar para trás, a avaliar, a considerar seus triunfos e seus erros. Com freqüência, pode pensar: "E se eu tivesse feito deste modo em vez daquele?" Ou "Se eu pudesse voltar no tempo."

Bem, eu não tenho tempo para esse tipo de bobagem.

Eu olho para frente. Sempre fiz isso. Sou um escocês que viveu a maior parte da vida fora da terra natal. A América é meu lar. Construí minha família e criei meus filhos aqui. Vi meus netos crescerem. Pelos últimos sessenta anos, amei apenas uma mulher, vivi com ela, admirei-a, trabalhei com ela. E trabalhei em volta dela, quando não havia outro jeito.

Minha Anna é o que tenho de mais precioso. Entre nós... bem, nós tivemos uma vida maravilhosa.

Sou um homem rico. Oh, não apenas em dólares e pro­priedades, mas em família. E a família vem em primeiro lugar. Isso é outra coisa que sempre foi e sempre será parte de minha vida. Minha Anna e eu tivemos três filhos. Dois rapazes e uma moça. Meu orgulho por eles é quase tão grande quanto meu amor.

Tenho que admitir, no entanto, que foi necessário, em certa ocasião, dar um empurrãozinho nessas três pessoas de personalidades fortes, para lembrá-los de suas responsabi­lidades para com o nome dos MacGregors. Sinto dizer que meus filhos eram um pouco lerdos nesse aspecto, e sua mãe ficava preocupada.

Então, com um pouco de ajuda, todos se casaram bem. Com isso, quero dizer que eles encontraram seus respectivos parceiros e essas uniões deram a Anna e a mim mais duas filhas e outro filho. Boa linhagem, sangue forte à altura dos MacGregors.

Agora, tenho onze netos, três deles MacGregors hono­rários, apesar de levarem o nome Campbell, Campbell, Deus nos ajude, mas são ótimas crianças, apesar disso. Todos eles têm sido a alegria de nossas vidas nos últimos anos, enquan­to Anna e eu os observamos crescer e se transformarem de bebês em adultos.

Tal como os pais, eles também são lerdos em seus deveres, quanto a entender a importância do casamento e da fa­mília. Isso preocupa a avó deles dia e noite. E eu não sou homem de ficar quieto a ouvir as lamúrias de minha mulher. Não, definitivamente, não sou esse tipo de homem. Portan­to, estudei o assunto com cuidado.

Minhas três netas mais velhas estão na idade de se casar. São mulheres fortes, inteligentes e lindas. Estão abrindo seu caminho no mundo com os próprios esforços. Essas coisas - assim Anna me ensinou - são tão importantes para a mu­lher quanto para o homem. Com Laura, Gwendolyn e Julia, tenho uma advogada, uma médica e uma mulher de negócios em minhas mãos. Brilhantes e amorosas são minhas netas! Portanto, os homens que escolherem para construir uma família terão que ser de fato extraordinários. Não vou per­mitir nada menos que isso.

Estou de olho nesse belo trio de rapazes. Todos descen­dem de sangue bom, linhagem forte. São homens bonitos também. Ah, eles não vão formar belos casais e dar-nos adoráveis bebês?

Um de cada vez, é o plano. É melhor nesses casos dar a cada um minha atenção total. Portanto, vou começar com Laura. Afinal, ela é a mais velha.

Se não conseguir que a jovem Laura esteja cheirando flores de laranjeira pelo Natal, meu nome não será mais Daniel MacGregor.

Uma vez que ela estiver arrumada, já tenho um rapaz em mente para minha querida Gwen. Julia talvez seja a mais difícil das três, mas estou cuidando disso.

Apenas um empurrãozinho é tudo que preciso dar a elas. Não sou intrometido. Apenas um avô preocupado no inver­no da vida. E pretendo que esse seja um inverno bem dura­douro. Verei meus bisnetos crescerem.

E como poderei fazer isso se aquelas moças não se ca­sarem e produzirem belos bebês, pergunto-lhes eu? Ah... Bem, vamos providenciar para que isso aconteça... Para que Anna não fique preocupada, é claro.

 

O telefone tocou sete vezes antes de alcançar o recanto recôndito de seu cérebro adormecido. No oitavo toque, ela conseguiu deslizar a mão para fora das cobertas. Bateu no alarme do despertador e no rosto alegre de Kermit, seu sapo de pelúcia, jogando-o ao chão. Era a terceira vez que o sapo morria naquele ano.

Seus dedos longos e sem adornos apalparam a superfície polida do criado-mudo e finalmente seguraram o telefone, levando-o para debaixo das cobertas com ela,

- Alô!

- O telefone tocou dez vezes.

Com a cabeça coberta, Laura MacGregor sobressaltou-se ante a acusação retumbante. Em seguida, bocejou.

- É mesmo?

- Dez vezes! Mais um toque e eu já estava pronto para chamar a polícia. Já a estava vendo na cama envolta em uma poça de sangue.

- Cama! - conseguiu dizer e espreguiçou-se no traves­seiro. - Dormindo... Boa noite...

- São quase 8h!

- Da noite?

- Da manhã. - Agora Daniel MacGregor conseguira identificar a voz e sabia qual de suas netas estava enterrada embaixo dos lençóis num horário em que ele considerava a metade do dia. - Já devia estar de pé e se divertindo, meni­na, em vez de ficar dormindo.

- Por quê?

Ele se exasperou. A vida está passando por você, Laura. Sua avó está preocupada. Na noite passada ela estava comentando que não tinha um minuto de sossego de tão preocupada que estava com a neta mais velha.

Anna não havia dito nada daquilo. No entanto, usar o nome da mulher para obrigar a família a fazer o que ele queria era um hábito antigo. Os MacGregors valorizavam as tradições.

- Está bem. Tudo. Vou voltar a dormir agora, vô.

- Levante-se, menina. Você não visita sua avó há sema­nas. Ela está definhando. Só porque acha que já é uma mulher adulta de 24 anos, não significa que deve esquecer sua velha avó.

MacGregor estremeceu e voltou o olhar em direção à porta para se certificar de que estava bem fechada. Se Anna o ouvis­se chamá-la de velha, poderia considerar-se escalpelado.

- Venha passar o fim de semana conosco - pediu ele. - Traga suas primas.

- Tenho uma petição para ler - murmurou ela e sua men­te começou mais uma vez a flutuar. - Mas irei em breve.

- Que seja bem breve. Nós não vamos viver para sempre, sabia?

- Ah, você vai!

- Ah. Eu te mandei um presente. Deve chegar esta manhã. Portanto, saia da cama e se arrume. Ponha um vestido.

- Está bem. Obrigada, vovô. Até logo.

Laura jogou o telefone no chão, enterrou a cabeça em­baixo do travesseiro e entregou-se outra vez ao sono acolhedor.

Vinte minutos mais tarde, ela foi bruscamente desperta­da com um safanão e um xingamento.

- Droga, Laura. Você fez isso de novo!

- O quê? - Ela sentou-se na cama, os olhos negros arre­galados e vidrados, o cabelo negro desgrenhado. - O quê?

- Deixou o telefone fora do gancho. - Julia MacGregor pôs as mãos na cintura. - Eu estava esperando uma ligação.

- Eu... ah... - A mente de Laura não conseguia se focar. Passou as mãos pelos cabelos como para clarear os pensa­mentos. Manhãs, definitivamente, não eram a melhor parte de seu dia. - Acho que o vovô ligou. Talvez. Não consigo me lembrar.

- Eu não ouvi o telefone. - Julia deu de ombros. - Acho que estava no chuveiro. Gwen já saiu para o hospital. O que o vovô queria? - Como Laura continuava com o olhar per­dido no tempo, Julia deu uma risada e sentou-se na beirada da cama. - Provavelmente o de sempre. "Sua avó está pre­ocupada com você."

- Acho que me lembro de ele ter dito algo do gênero. - Sorrindo, Laura voltou para debaixo das cobertas. - Se você tivesse saído rapidamente do chuveiro, teria atendido à chamada e então a vovó estaria preocupada com você.

- Ela já se preocupou comigo na semana passada. - Julia fitou seu relógio antigo de marcassita. - Tenho que correr para dar uma olhada naquela propriedade em Brookline.

- Outra? Você não acabou de comprar uma casa no mês passado?

- Foi há dois meses e está quase pronta para ser vendida. - Julia balançou a cabeleira cacheada cor de fogo. - Já está em tempo de iniciar um novo projeto.

- O que for melhor para você. Meu grande plano era dormir até o meio-dia e depois passar o resto da tarde lendo uma petição. - Laura virou de lado. - O que não é nada fácil nesta casa.

- Terá o lugar todo para você nas próximas horas. Gwen fará plantão duplo no hospital e não voltará antes das cinco.

- Não é minha noite de cozinhar.

- Vou trazer qualquer coisa.

- Pizza - disse Laura de imediato. Quatro queijos e azeitonas pretas.

- Nunca é cedo demais para você pensar no jantar - acu­sou Julia, alisando a jaqueta verde que vestia. - Vejo-a à noite - gritou já da porta. - E não deixe o telefone fora do gancho!

Laura estudou o teto, contemplando os reflexos da luz do sol e considerou a possibilidade de esconder mais uma vez a cabeça embaixo das cobertas. Poderia dormir pelo menos mais uma hora. Voltar a dormir nunca foi um problema para ela e esse talento a ajudou bastante na faculdade de direito.

Mas a idéia da pizza acirrou seu apetite. Quando havia uma opção entre dormir e comer, Laura encarava seu maior dilema. Assim sendo, jogou as cobertas de lado, pois a co­mida ganhou a batalha. Ela vestia uma camiseta branca e um short de seda azul.

Laura morava com as primas desde a época da faculdade e há dois anos dividiam a casa de Back Bay, em Boston. A idéia de pegar um robe nunca lhe ocorria A atraente casa à beira mar, uma das mais recentes reformas de Julia, e seu mais novo lar, era decorada com uma eclética mistura de gostos das três primas. O amor de Gwen por antigüidades, o gosto de Julia por arte moderna e a atração de Laura pelo kitsch.

Ela desceu a escada, deslizando os dedos pela superfície macia do corrimão. Deu uma olhada rápida pela janela de vidro da porta da frente, para se certificar de que se tratava realmente de uma bela e ensolarada manhã de outono e seguiu pelo corredor em direção à cozinha.

Apesar de cada uma das primas ter uma mente afiada, meticulosamente aplicada em sua área específica de atuação, nenhuma delas possuía qualquer talento em especial para aquele cômodo em particular. Mesmo assim, conseguiram transformá-lo em algo acolhedor, com as paredes de um amarelo suave contrastando com o azul profundo das ban­cadas e os armários com portas de vidro,

Laura sempre se sentira grata pelo fato de as três com­binarem tão bem. Gwen e Julia eram suas melhores amigas, além de suas primas. Juntamente com o resto do clã MacGregor, conforme Laura os considerava, a extensa gama de descendentes de Daniel e Anna constituía uma família uni­da, apesar de contrastante.

Ela relanceou o olhar pelo relógio azul em forma de gato na parede. Os olhos brilhantes de diamante e a cauda balan­çando ao ritmo das badaladas. Laura pensou nos pais e ima­ginou se eles estariam se divertindo em suas bem merecidas férias nas índias Ocidentais. Sem dúvida deveriam estar. Caine e Diana MacGregor formavam uma unidade sólida. Marido e mulher, pais e sócios no trabalho. Após vinte e cinco anos de casados, haviam criado dois filhos e construído uma das mais respeitáveis firmas de direito de Boston e tudo isso não diminuíra a devoção que nutriam um pelo outro.

Laura não conseguia conceber a quantidade de esforço que tudo isso requeria para dar certo. Para ela, pelo menos no momento, só existia o Direito. Correção, pensou, e riu para o refrigerador. No momento, só existia o desjejum.

Ela alcançou o walkman sobre a bancada e ajustou os fones de ouvido. Uma música suave com a refeição matinal, pensou, e acionou a fita.

Royce Cameron estacionou seu Jeep atrás de um peque­no carro conversível. O tipo de carro e cor, pensou ele, que gritava: "Polícia, ponha uma multa no meu pára-brisa, por favor!" Ele meneou a cabeça e então voltou o olhar para estudar a casa.

Era uma beleza! Mas já se esperava naquela área de Back Bay e ainda mais com a linhagem de seus proprietários. Boston era conhecida pelos Red Sox, Paul Revere e pelos MacGregors.

No entanto, ele não pensava no dinheiro ou em classe social, enquanto estudava a casa. Seus frios olhos azuis escrutinavam janelas e portas. Muito vidro havia sido utili­zado, concluiu ele, enquanto a brisa revigorante de outono balançava seu espesso cabelo castanho. Muito vidro signi­ficava muito acesso. Ele começou a descer o caminho de pedra circundado de flores e, em seguida, atravessou a relva impecável para verificar as portas que se abriam para um pequeno pátio.

Ele as testou e percebeu que estavam fechadas. Apesar de notar que bastaria um bom chute ou um empurrão e es­taria lá dentro. Seus olhos permaneciam frios, a boca for­mava uma linha dura em um rosto cheio de curvas e ângulos. Era o rosto que a mulher com quem um dia quase se casara chamara de criminoso. Não havia questionado o que aquilo significava, pois, na ocasião, tudo estava na mais perfeita ordem entre eles e não se importara muito.

Poderia significar um rosto frio e agora, certamente, era, enquanto calculava o acesso àquela casa maravilhosa, que naturalmente estaria repleta de antigüidades e jóias que as mulheres ricas de certas classes adoravam ostentar. Seus olhos eram de um azul pálido e frio que podia se tornar profundo e intenso inesperadamente. A boca formava uma linha firme que poderia curvar-se em charme ou retesar-se como gelo. Uma pequena cicatriz marcava o queixo forte, resultado de um contato abrupto com um anel de diamantes em um punho fechado. Sua estatura não passava de um metro e oitenta e tinha o corpo de um boxeador ou de um brigão.

E ele havia sido os dois.

Agora, enquanto a brisa emaranhava a onda de cabelos revoltos, ele concluiu que poderia entrar naquela casa sem o mínimo esforço, mesmo sem possuir a chave da porta.

Ele caminhou em volta e, em seguida, tocou várias vezes a campainha, enquanto olhava através da extravagante porta de vidro da entrada. Era bonita, pensou, com motivos florais em vidro fosco. E era tão segura quanto uma casca de ovo.

Mais uma vez, tocou a campainha com insistência, reti­rou a chave do bolso e entrou sem cerimônia.

O ambiente tinha um cheiro feminino. Aquele foi seu primeiro pensamento, enquanto caminhava pelo vestíbulo até chegar ao salão. Cítrico, óleos, flores e o odor sedutor de perfume no ar. A escada ficava à direita e a porta de uma acolhedora sala de visitas à esquerda.

Limpa como um berçário, pensou, com o aroma sensual de um bordel. Mulheres... Para Royce, elas eram uma caixa de surpresas.

O interior era de fato como imaginara. Uma bela mobília antiga, cores suaves, cortinas caras. E, ele pensou, ao notar o brilho dos brincos sobre uma mesa redonda, as bugigangas caras que alguma delas deixara de lado.

Ele retirou um pequeno gravador do bolso da calça jeans e começou a tomar algumas notas enquanto caminhava.

Uma tela enorme salpicada de cores extravagantes, que se destacava acima da cornija da lareira, chamou sua atenção. Aquele quadro parecia em dissonância com p ambiente. Uma explosão selvagem de cores e formas em um aposento tão calmo. Em vez de considerá-lo distoante, ele o achou atra­ente. Uma celebração à paixão e à vida.

Notou a assinatura no canto da obra, D.C. MacGregor, e deduziu que o artista talvez fosse um dos muitos primos. Naquele instante, ouviu alguém cantando.

Não. Com toda a honestidade, aquele som não poderia ser chamado de canto, pensou ele, colocando o gravador de volta no bolso e caminhando pelo corredor. Grito, berro, uivo, talvez ganido, fossem termos mais adequados para descrever tal massacre vocal de um dos sucessos românticos de Whitney Houston.

Mas aquilo significava que, afinal, não estava sozinho na casa. Caminhou pelo corredor em direção ao barulho e, quando entrou na cozinha arejada, seu rosto iluminou-se com um sorriso de puro deleite.

Ela era alta, pensou, e a maior parte do corpo era cons­tituída de pernas. Macias e douradas. Aquela visão com­pensava em muito a falta de talento vocal. E a forma como ela se movia, com a cabeça enfiada na geladeira e os qua­dris balançando, circulando, proporcionava um show tão sensual que nenhum homem, vivo ou morto, reclamaria de assistir.

O cabelo dela era negro como uma noite sem luar, liso como a chuva e caía até a cintura, que implorava para ser tocado pelas mãos de um homem.

Ela estava vestindo o pijama mais sexy que ele já tivera o prazer de observar. Se o rosto fizesse jus àquele corpo, iluminaria sua manhã.

- Desculpe-me. - Ele levantou uma sobrancelha quando, em vez de virar-se como seria esperado, ela continuou a cantar e a fuçar dentro da geladeira. - Olhe, moça, não é que eu não esteja gostando do show, mas você pode querer cobrar cachê e...

Os quadris redondos executaram dois movimentos brus­cos que o fizeram soltar um assovio. E então ela elevou a voz, alcançando uma nota que teria quebrado cristais e virou-se com uma coxa de galinha em uma das mãos e um refri­gerante na outra.

Ela soltou um berro e Royce levantou a mão, começan­do a explicar-se.

Com a música ainda martelando a mente, tudo o que Laura conseguiu ver foi um completo estranho com o cabe­lo desgrenhado pelo vento, calça jeans desbotada e um rosto que parecia capaz de fornecer combustível para infla­mar mil demônios.

Mirando a cabeça do homem, ela lançou uma lata de refrigerante. Ele conseguiu agarrá-la um segundo antes que se espatifasse entre seus olhos. Mas, em instantes, ela girou em direção à bancada. Quando se virou outra vez, segurava uma faca em uma das mãos e exibia um olhar que o avisava que não pensaria duas vezes para enterrá-la nele.

- Calma! - ele levantou ambas as mãos e tentou manter o tom de voz brando.

- Não se mova. Nem respire! - gritou ela, enquanto se esgueirava pela bancada em direção ao telefone. - Dê um passo à frente ou para trás e eu corto seu coração fora.

Royce concluiu que poderia desarmá-la em menos de vinte segundos, mas um dos dois, provavelmente ele, pre­cisaria levar alguns pontos em seguida.

- Não estou me movendo. Olhe, você não respondeu quando toquei a campainha. Eu estou aqui apenas para... -Foi nesse instante que ele notou os fones de ouvido. - Bem, isso explica tudo. - Muito lentamente, ele levou um dos dedos à orelha e deslizou-o pela cabeça até o outro lado. - Tire os fones.

Laura tinha consciência apenas da música e do sangue que corria rápido em suas veias.

- Eu disse para não se mover. Vou chamar a polícia.

- Está bem. - Royce tentou um sorriso. - Mas vai fazer papel de tola, pois estou apenas fazendo meu serviço. Cameron - Serviços de Segurança. Você não respondeu quan­do toquei a campainha. Acho que a Whitney estava cantan­do muito alto. - Ele a encarava bem dentro dos olhos. - Vou lhe mostrar minha identidade profissional.

- Use apenas dois dedos - ordenou ela. - E mova-se bem devagar.

Essa era exatamente sua intenção. Aqueles olhos negros exibiam mais beligerância e violência do que medo. Uma mulher que podia encarar um estranho sozinha, de faca em punho, sem tremer, não era para ser desafiada.

- Eu tinha uma reunião marcada às 9 horas para avaliar a casa e discutir os sistemas.

Ela abaixou o olhar para verificar a identificação que o estranho mostrava.

- Uma reunião com quem?

- Laura MacGregor.

Ela agarrou o telefone com a mão livre.

- Eu sou Laura MacGregor, cara, e não marquei nenhu­ma reunião com você.

- O sr. MacGregor marcou.

Ela hesitou.

- Qual sr. MacGregor?

Royce deu um sorriso.

- O sr. MacGregor. Daniel MacGregor. Eu teria que encontrar a neta dele, Laura, aqui, às 9 horas para projetar e instalar o melhor sistema de segurança jamais visto pelo homem para proteger suas meninas. - O sorriso tornou-se charmoso. - Sua avó está preocupada.

Laura largou o telefone, mas não a faca. Aquilo era bem plausível. O tipo de coisa que seu avô faria e diria.

- Quando ele o contratou?

- Semana passada. Tive que ir até a fortaleza dele em Hyannis Port para que ele pudesse me avaliar cara a cara. Que lugar impressionante! E que homem impressionante! Tomamos um copo de uísque e fumamos um charuto depois de fechar negócio.

- Não diga! E o que disse minha avó sobre isso?

- Sobre a negociação?

- Não. Sobre o charuto.

- Ela não estava lá quando concluímos o negócio. E como seu avô fechou a porta do escritório antes de retirar os cha­rutos de dentro de uma cópia falsa de Guerra e Paz, posso concluir que ela não aprova charutos.

Laura libertou o ar que estava retido nos pulmões e co­locou a faca outra vez no porta-talheres.

- Está bem, sr. Cameron, você passou no teste.

- Ele disse que você estaria me esperando, mas, ao que parece, não estava.

- Não. Não estava. Ele me ligou esta manhã e disse algo sobre um presente que estava me enviando, acho eu. - Ela deu de ombros. O cabelo seguindo seu movimento. Pegou a coxa de galinha que havia derrubado e jogou-a na cesta de lixo. - Como conseguiu entrar?

- Ele me deu a chave. - Royce retirou-a do bolso e de­positou-a na mão que Laura estendia. - Mas eu toquei a campainha antes de entrar. Várias vezes.

- Hum-hum...

Royce baixou o olhar para a lata de refrigerante.

- Você possui uma boa pontaria, srta. MacGregor. - Vol­tou a fitá-la. Os ossos do rosto dela pareciam capazes de cortar vidro, pensou. Uma boca talhada para sexo selvagem e olhos da cor de um pecaminoso chocolate negro. - E talvez o rosto mais incrível que já vi.

Ela não gostou da maneira como ele a encarava. Saboreando-a, pensou, com um olhar arrogante, rude e provocante.

- E você possui bons reflexos, sr. Cameron. Caso con­trário, estaria desfalecido no chão da cozinha com uma concussão.

- Poderia ter valido a pena - disse ele, com um sorriso que tentava ser apaziguador, mas que surtia o efeito contrá­rio, e entregou-lhe a lata de refrigerante.

- Vou me vestir e então poderemos discutir os sistemas de segurança.

- Não precisa se dar a esse trabalho por minha causa. Laura inclinou a cabeça e lançou-lhe um olhar que pre­tendia dizer "ponha-se no seu lugar".

- Preciso sim, pois, se continuar a olhar-me dessa ma­neira por mais dez segundos, você vai ter uma concussão de verdade. Não vou me demorar.

Assim dizendo, passou por ele como uma flecha. Royce virou-se enquanto ela passava, a fim de poder apreciar aquelas pernas fascinantes que a afastavam de seu ângulo de visão. E mais uma vez soltou um assovio.

De uma forma ou de outra, cogitou ele, com um longo suspiro de deleite, Laura MacGregor era um nocaute.

 

Nos escritórios de MacGregor & MacGregor, Laura encon­trava-se sentada atrás da grande mesa de carvalho, cercada de livros. Ficara enterrada na biblioteca a manhã inteira, determinada a encontrar algum precedente para os autos do processo que estava preparando.

Quando seus pais retornassem na semana seguinte, ela queria estar com o escritório impecável. Sua mãe se encar­regara do caso Massachusetts vs. Holloway e Laura fazia a pesquisa para ela. Porém, havia desenvolvido uma ligação emocional com aquele caso em particular.

Se ela cuidasse da papelada, do trabalho burocrático e juntasse as horas de pesquisa, talvez conseguisse uma ca­deira ao lado da mãe no tribunal. E, quem sabe, apenas quem sabe, teria permissão para interrogar uma testemunha.

Laura almejava o clima intenso do tribunal, o teatro do juiz e do júri. Ela entendia o valor da pesquisa, a necessida­de de planejar cada movimento e procurar prever cada eventualidade em um julgamento. Havia lido e estudado até seus olhos doerem, mas, por Deus, ganharia sua recompen­sa. E, talvez, seu primeiro caso.

Amanda Holloway matara o marido. Não havia qualquer disputa quanto ao testamento. Mas ser considerada culpa­da, segundo a lei, era outra história. A mulher havia sido massacrada física e emocionalmente por cinco anos. Cinco anos de suplício e tormento, pensou Laura. Era fácil dizer que ela poderia ter tentado escapar. Que deveria ter corri­do sem nunca olhar para trás. Na verdade, muitas vezes Laura se pegava pensando exatamente isso. Amanda Hollo­way, no entanto, não havia fugido. No fim das contas, ela sucumbira.

Certa noite, durante o calor escaldante do verão, após outra surra, outro estupro, ela pegara o revólver do marido e descarregara a arma contra ele, enquanto ele dormia.

O lamentável, pensou Laura com frieza, era que ela havia esperado mais de uma hora após o estupro. E aquilo carac­terizava premeditação. O fato de John Holloway ser policial, com uma ficha repleta de condecorações, também não aju­dava muito.

Alguns poderiam pensar que a justiça havia sido feita naquela noite, mas a lei tinha uma visão mais fria. E Laura estava determinada a lançar mão da lei para manter Amanda Holloway fora da prisão.

Royce, de fato, tinha adorado observá-la. Naquele mo­mento, ela não parecia a mulher que dançara de pijama, nem aquela que havia vestido um sóbrio suéter e discutido com ele os sistemas de alarme. Ela prendera o vasto cabelo negro em uma complicada trança que descia por suas costas. Usa­va brincos de contas douradas e um relógio simples de ouro no pulso, junto com um bracelete de diamantes em forma de raquete de tênis.

A blusa branca de seda que ela usava parecia ter sido talhada em seu corpo e um blazer azul estava pendurado sobre o espaldar da cadeira. A saía exalava um odor de couro, madeira polida e mulher.

Laura MacGregor tinha classe, exalava riqueza e era absolutamente inatingível, pensou Royce. A menos que al­gum homem tivesse tido a sorte de vê-la balançando os quadris usando um short de seda.

Ele inclinou-se sobre o batente da porta.

- Você parece uma advogada.

Laura levantou a cabeça. Ele não pôde deixar de admirar a rapidez com que ela recuperava a compostura. A surpresa não transparecera em seus olhos cor de chocolate mais de alguns segundos antes que eles se tornassem frios.

- Passei na prova da Ordem no verão passado. Portanto, sou uma advogada. Você precisa de uma?

- No momento não, mas se algum dia precisar pensarei em você. - O fato era que havia pensado nela a maior parte daquela semana.

O cabelo despenteado pelo vento, a pequena cicatriz intrigante, aqueles olhos diabólicos combinavam-se para torná-lo um homem difícil de não ser notado por uma mulher. Entretanto, como Laura não desejava pensar nele, queria-o longe dali.

- O escritório está fechado até o final do mês.

- A recepcionista me disse. Mas não estou aqui para contratá-la, nem a seus pais. - Ele caminhou para dentro da sala e encostou o quadril na imensa mesa. Seus movimentos faziam-na lembrar-se de um felino pronto para o ataque.

- O que veio fazer aqui?

- Tinha um trabalho na vizinhança e então pensei em vir dizer-lhe que vou instalar o sistema no sábado pela manhã.

- Ótimo. Tenho certeza de que meu avô ficará satisfeito.

- Ele está certo em tentar proteger aquilo que lhe é caro. Ele tem muito orgulho de você e de suas primas. Isso é perceptível no brilho dos olhos dele quando fala de vocês.

O olhar de Laura se tornou menos agressivo e seu corpo perdeu a postura defensiva rígida.

- Ele é o melhor homem do mundo. E um dos mais exasperantes. Se pudesse, nos manteria todas cativas no castelo em Hyannis.

- Boston pode ser uma cidade perigosa para uma mulher jovem e bela - disse Royce, em um tom de voz que imitava Daniel e fez os lábios de Laura se torcerem em um sorriso.

- Nada mau. Mais um pouco de intensidade e poderia se fazer passar por ele.

- Ele está certo. Vocês são três mulheres solteiras viven­do em uma casa enorme, repleta de objetos caros e merca­doria de fácil revenda. Uma de vocês é filha de um ex-pre­sidente dos Estados Unidos e todas são netas de um dos homens mais ricos do país. São bonitas. Tudo isso faz de vocês um alvo perfeito.

- Nós não somos tolas - replicou ela. - Não costumamos caminhar por ruelas escuras, abrir a porta para estranhos, nem pegar homens nos bares.

- Bem... isso é louvável.

Os ombros de Laura voltaram a ficar tensos.

- Meu avô está exagerando, mas, se instalar um compli­cado sistema de segurança o deixa mais tranqüilo, então mãos à obra.

- E você não acha que precisa de segurança.

- Eu acho que minhas primas e eu estamos perfeitamen­te seguras em nossa casa.

- Você acha que um homem entrar em sua cozinha en­quanto você dança apenas de lingerie é seguro?

- Você tinha a chave e eu não estava de lingerie.

- Eu poderia ter entrado do mesmo jeito sem chave. E o que era aquilo, senão uma lingerie?

- Pijama.

- Oh... está bem. Isso é diferente. - Royce exibiu um sorriso sarcástico, divertindo-se com o mau humor dela.

- Olhe, você pode instalar o maldito sistema e nós o usaremos. Agora, se me dá licença - Laura recuou para trás quando ele se inclinou sobre ela. - O que está fazendo?

Royce deu um longo suspiro.

- Apenas causando o impacto certo. Gosto do seu per­fume. - Os olhos dele brilhavam de divertimento. - Você ficou muito sobressaltada de repente.

- Não gosto de ser encurralada.

- Está bem. - Ele recuou. Apenas um leve movimento daquele corpo compacto não lhe deu espaço suficiente para respirar. - Quanto tempo pretende ficar soterrada aí? - Ele apontou para a pilha de livros.

- Até ter terminado.

- Então é melhor eu voltar lá pelas 7 horas e poderemos jantar.

- Não. - Laura disse aquilo com firmeza e ajeitou-se na cadeira, estudando o livro aberto à sua frente.

- Está envolvida?

- Claro!

- Não me referi ao trabalho, magrinha. Quero dizer, com um homem.

- Isso não é de sua conta.

- Mas poderia ser. Gosto de sua aparência, do seu chei­ro. Da forma como você fala e se move. Seria interessante descobrir se vou gostar da maneira que você... pensa. - Ele concluiu a frase ao mesmo tempo em que dois olhos aper­tados levantaram e se fixaram nele.

- Você quer saber o que estou pensando neste exato momento?

Royce sorriu. Em seguida, soltou uma gargalhada.

- Não. Mas, se mudar de idéia quanto ao jantar, tem meu telefone.

- Oh, claro, com certeza tenho seu telefone.

Royce começou a virar-se, ainda rindo, quando seu olhar captou a etiqueta do dossiê quase enterrado nos livros.

- Holloway - murmurou ele e em seguida voltou a olhar para Laura. - O homicídio?

- Sim.

- Eu conhecia John Holloway.

- Verdade? - Laura gostava da forma como ele ria. Qua­se charmoso o bastante para fazê-la reconsiderar o convite do jantar. De repente seu tom de voz tornou-se duro. - Você tem muitos amigos que abusam de mulheres?

- Não disse que éramos amigos. Disse que o conhecia. Ele foi policial e eu também.

Dessa vez, quando ele fez menção de afastar-se, Laura pôs a mão sobre a dele. Os olhos cor de chocolate estavam presos ao rosto másculo, perscrutadores e especulativos.

- Você trabalhava com ele?

- Não. Nós trabalhamos fora do distrito durante alguns meses. Eu fui transferido. Ele era um bom policial.

- Com certeza, ele era... - Laura fechou os olhos - Oh, isso é típico. Batia na mulher durante anos a fio, mas era considerado um bom policial. Use uniforme e tudo lhe será permitido.

- Não sou mais policial. - informou Royce. - E não sabia muito sobre a vida particular dele, nem estava interes­sado. Sei que fazia bem seu trabalho.

- Pois eu estou muito interessada em sua vida particular

- disse ela, enquanto o observava com atenção. Ele não tinha revelado muito, porém Laura tinha alguns palpites. - Você não gostava dele?

- Não.

- Por quê?

- Apenas gosto pessoal. Ele me fazia lembrar uma arma carregada e desengatilhada. A qualquer momento, poderia explodir.

- Você ainda possui contatos na polícia? Sabe de alguém que o conhecia? Sei que policiais odeiam falar com advo­gados, mas...

- Talvez porque os advogados ponham os bandidos outra vez nas ruas antes que os policiais tenham tido tempo de limpar a sujeira.

Laura deu um suspiro.

- Amanda Holloway não era criminosa. Apenas teve a má sorte de se casar com um.

- Pode ser, mas não posso ajudá-la. - Ele deu um passo atrás. - Estarei em sua casa entre 8h30 e 9 horas, no sábado.

- Deu mais um sorriso maroto. - Mesmo tendo vontade de vê-lo mais uma vez, sugiro que não use pijama. Você pode distrair minha equipe.

- E então, como é a aparência dele?

Do espelho sobre a pia do banheiro, o olhar de Laura afastou-se do reflexo dos cílios que pintava com rimei para a face da prima.

- Quem?

- Esse ex-policial, perito em segurança, que o vovô contratou para manter-nos afastadas dos criminosos nefastos de Boston. - Gwen inclinou-se sobre o ombro de Laura a fim de que suas cabeças ficassem bem juntas.

Ninguém diria que eram primas. Muito menos primas duas vezes, pois descendiam tanto do ramo dos MacGregors quanto dos Blade. Os cabelos de Gwen eram de um dourado acobreado e ela os mantinha bem curtos, como um rapaz. Ao contrário dos de Laura, que chegavam quase à cintura.

Gwen herdara da mãe a cor dos cabelos, louros com nuances ruivas, a pele sedosa e os olhos, que variavam de uma tonalidade clara de azul a violeta. Possuía uma constituição mignon, quase delicada. Uma combinação que passava a idéia errônea de fragilidade. Na verdade, ela podia, quando necessário, dar dois plantões seguidos no hospital, fazer uma hora de ginástica e ainda lhe sobrava energia. Ela era, pensou Laura, bonita, brilhante e mandona.

- Vai me dizer que não se lembra da aparência dele? - in­quiriu Gwen.

- Humm? Não. Não lembro. Estava pensando em outra coisa. Acho que é atraente.

- Detalhes, Laura. A verdade reside nos detalhes. - Gwen arqueou uma sobrancelha. - Cameron, não é mesmo? Um bom nome escocês.

- Isso agradaria o vovô.

- Sem dúvida. - Gwen passou a língua pelos dentes. - Ele é casado?

- Acho que não. - Laura continuou aplicando rimei nos cílios. - Ao menos, não usava aliança quando tentou me passar uma cantada.

- E quantos anos tem? Uns trinta?

- Por aí. - Laura encarou a prima através do espelho. - O que é isso? Um inquérito?

- Não. Estou apenas colhendo dados. Ele é solteiro, atraente, dirige o próprio negócio, está na casa dos trinta e se chama Cameron. Minha avaliação é que vovô o fisgou.

- Isso nós já sabemos. - Laura pousou o rimei e pegou o batom. - Vovô o contratou para instalar o sistema de se­gurança, o que ele fará hoje.

Gwen deu um longo suspiro e depois bateu de leve com os dedos na testa da prima.

- Alô! Você não costuma ser tão lenta. Estou falando de casamento.

- Casa... - Com uma risada nervosa, Laura largou o batom sobre a pia. - Não existe a mínima chance.

- Por que não? Vovô anda fazendo alarido há mais de um ano sobre como nenhuma das netas tem um pingo de senso de responsabilidade, que não pensam em casar e constituir família.

- E também não pára de falar em bebês agarrados à barra da calça dele. - Laura concluiu com desdém. - E daí? Volto a afirmar: não existe a menor possibilidade de o vovô ter escolhido Royce Cameron como um neto em potencial. Ele não se enquadra no tipo de homem que um avô super-protetor escolheria para a neta.

Gwen alisou a bancada de madeira.

- E por quê?

- Existe qualquer coisa de perigoso nele, que pode ser notada através dos olhos... Algo indomável.

- Humm. Cada coisa que você diz soa melhor que a outra.

- Para um amante, talvez. Imagino que ele deve ser fantás­tico na cama. - Laura começou a escovar os cabelos com vigor. - Duvido que seja isso que MacGregor tem em mente.

Gwen pegou distraída o tubo de batom.

- Pelo contrário. Acho que é justamente isso que ele tem em mente. O cara tem personalidade. - Ela continuou, num tom que imitava a voz do avô. - Tem fogo no sangue. Será capaz de gerar filhos e filhas fortes.

- Ridículo. - Laura, no entanto, sentiu uma náusea na altura do estômago. - Isso é absurdo. Ele não poderia... Ela não seria capaz...

- Não seria? - Gwen discordou. - E, por enquanto, eu diria que o plano dele está funcionando.

- O que quer dizer com isso?

- Quero dizer que hoje é sábado. São 8 horas da manhã c você, não apenas está de pé, como vestida, maquiada e...

Ela se inclinou em direção à prima e inspirou. - Usando seu melhor perfume!

- Eu estou... apenas...

- E tem uma blusa novinha sobre a cama - acrescentou Julia, entrando no banheiro. - Uma blusa vermelha de seda.

- Aha! Uma blusa vermelha de seda em um sábado de manhã para ficar em casa! - Gwen bateu de leve no ombro de Laura. - Meu diagnóstico, querida, é um caso grave de atração física.

- Eu não estou atraída por ele... Estava pensando em sair para fazer compras, só isso. Compras de Natal. Por isso estou de pé e arrumada.

- Você nunca faz compras no sábado de manhã - lembrou Julia. - Aliás, detesta fazer compras, o que eu acho muito triste. Além do mais, nunca começa a fazer as compras de Natal antes do meio de dezembro.

- Estou abrindo uma exceção. -Aborrecida, Laura afas­tou-se das duas e caminhou em direção ao quarto.

A blusa brilhava em cima da cama como um sinal de alerta vermelho. Laura fez uma careta. Em seguida, fechan­do a porta, decidiu vesti-la mesmo assim. Ela gostava de cores vibrantes, pensou, enquanto a retirava da cama. Gos­tava de seda. Por que não deveria usar a droga da blusa?

Praguejou baixinho enquanto a abotoava. É claro que não estava atraída por Royce Cameron. Ele estava longe de ser seu tipo. O homem era arrogante, rude e presunçoso. Além do mais, lembrou-se, ele a tinha flagrado em uma situação das mais ridículas.

E em quarto lugar, pensou enquanto vestia a calça cinza, não estava interessada em um relacionamento. Não que um homem como Royce pudesse estar interessado em algo tão civilizado quanto um relacionamento, mas ela própria que­ria desfrutar mais alguns anos de absoluta liberdade.

Um homem em geral, e um parceiro em particular, podia esperar.

Naquele instante, Laura ouviu o som da campainha. Calçou os sapatos com calma. Em seguida, para provar a si mesma que não estava interessada em se exibir para Royce ou para qualquer outro homem naquela manhã, deliberada-mente, afastou-se do espelho, antes de voar escada abaixo.

Ele estava no vestíbulo. Vestia uma jaqueta de couro e calça jeans surrada. O cabelo, para variar, estava desarru­mado. Naquele instante, ele falava com Gwen e Julia e sorria de algo que Julia dissera. Laura já se encontrava no meio da escada, quando ele ergueu a cabeça e aqueles olhos singulares de um azul intenso, sombreados por cílios espes­sos, encontraram os dela. Logo em seguida, um sorriso perigoso curvou os lábios másculos.

O coração de Laura deu um salto, alertando-a que, no fim das contas, ela provavelmente estava encrencada.

- Bom dia, magrinha - cumprimentou ele, após avaliá-la com atenção. - Bela blusa.

 

Royce não tinha o hábito de perseguir as mulheres. Prin­cipalmente, mulheres que davam sinais de não estar interes­sadas. Nem mesmo uma mulher que lançava sinais contra­ditórios. Quando conhecia alguém que o atraía, tudo o que linha a fazer era deixá-la ciente disso. Diretamente, sem rodeios, nem fingimentos. Ele achava que daí em diante cabia a ela tocar a bola.

Como Laura MacGregor, no entanto, não estava tocando a bola, nem mesmo dera sinal de ter percebido que ele a lançara em direção a ela, o mais correto a fazer seria esque­cê-la e cuidar de seu trabalho.

O problema era que não estava conseguindo fazer isso.

Já fazia três semanas que a conhecera e quatro dias des­de que a vira pela última vez. E ela não lhe saía da cabeça. Não apenas a sua figura naqueles trajes sexy dançando na cozinha, apesar de aquela imagem voltar-lhe à mente com irritante freqüência. Era o rosto que o assombrava, pensou Royce, a coragem que exibia, quando pegara a faca e o enfrentara. A inteligência e a determinação em seus olhos cor de chocolate quando falara de lei e justiça. O sorriso atrevido curvando aquela boca incrível e tentadora enquan­to descia as escadas no dia em que ele iniciara a instalação do sistema de segurança.

Era, foi forçado a admitir, o pacote completo.

Em seu minúsculo e apinhado escritório de Boylston, ele esfregava os olhos cansados e passava a mão pelos cabelos revoltos à procura de uma estratégia. Ela o estava mantendo acordado até tarde da noite e disperso no trabalho. O que precisava fazer era lançar mão de seu livro de endereços e encontrar uma mulher para passar uma noite. Alguém que não fosse complicada nem fizesse exigências.

Por que, diabos, ele não conseguia fazer isso, por que não queria achar alguém sem complicações e exigências?

Não se chamaria Royce Cameron se pegasse o telefone e ligasse para Laura. Já a convidara para sair e ela recusara. Tinha deixado claro que estaria disponível se ela mudasse de idéia. Ela não o fizera. Não bancava o bobo na frente de uma mulher desde os doze anos de idade, quando se apaixonou perdidamente pela irmã mais velha de um amigo, que na época tinha dezesseis anos e era uma deusa. Marsha Bartlett. Perseguira-a durante dois meses, seguindo-a como um cachorrinho e sofrerá durante todo o ano da sétima série no Colégio Saint Anne.

Marsha Bartlett nunca prestou atenção nele e casara-se com um cirurgião. E desde então, Royce nunca mais perse­guiu qualquer outra mulher.

- Cresça, Cameron - ordenou a si mesmo, voltando a fitar a tela do computador para analisar um sistema de se­gurança que deveria ser instalado em um edifício do sul de Boston.

Quando o telefone tocou, ele o ignorou até o quarto toque. Praguejando, atendeu-o. Era óbvio que a secretária deveria estar fora da mesa outra vez, passando pó no nariz.

- Segurança Cameron.

- E quem fala seria o sr. Cameron?

Royce reconheceu a voz de imediato. Não havia como confundir aquele sotaque escocês.

- Seria, sr. MacGregor?

- Ótimo. Justamente o homem que eu procurava. Você tomou conta de minhas netas?

- O sistema está instalado e operante. - E a conta, pensou ele, está no correio. - É o melhor que o dinheiro pode com­prar.

- Estou contando com isso, rapaz. Quero que minha esposa fique tranqüila. Ela se preocupa.

- O senhor me contou.

- E você testou o sistema pessoalmente?

- Do jeito que o senhor pediu. Qualquer tentativa de invasão ou de burlar o sistema envia um alarme diretamen­te à delegacia de polícia mais próxima e um sinal ao meu bip pessoal.

- Ótimo. Muito bom. Mas aquelas moças precisam usá-lo para ficarem protegidas. São jovens, você sabe, e ocupa­das com seus próprios interesses. Minha mulher se preocu­pa muito que elas possam esquecer de acionar o alarme.

- Sr. MacGregor, eu apenas posso garantir a eficácia do sistema quando ele estiver em uso.

- Exato. Exato. Foi isso mesmo que eu disse a Anna esta manhã. Que você já fez tudo que podia ser feito. Mas ela cismou e continua preocupada. Então, pensei, só para des­cansá-la, nós poderíamos realizar um teste. Se você passas­se por lá um dia desses. Ou melhor, hoje à noite seria uma ótima ocasião. Só para nos certificarmos de que não dá para entrar na casa.

- Espere aí. Deixe-me entender o que o senhor está pretendendo. Que eu tente arrombar a casa de suas netas?

- Bem, tente entender. Se conseguir entrar, então sabe­remos que precisamos fazer um ajuste melhor. E se não conseguir... bem, então minha mulher poderá dormir des­cansada. Ela está velha - acrescentou Daniel, em voz baixa, sem retirar o olhar da porta. - Eu me preocupo com a saúde dela. Além do mais, naturalmente, ficaremos satisfeitos em pagar-lhe por seu tempo e trabalho.

- O senhor faz idéia do tempo de prisão que um arrombador de casas pode pegar, sr. MacGregor?

Daniel soltou uma risada. Ele escolhera um homem raro para sua neta Laura.

- Ora, Royce, como ex-policial, estou certo de que sabe melhor do que eu. E saberá também como não se deixar prender. Na verdade, estou pretendendo também instalar um novo sistema de segurança aqui em casa. É uma casa enor­me. Quero o melhor. Dinheiro não será problema.

Royce inclinou-se no espaldar da cadeira, encarando o teto, pensativo.

- Está me subornando, sr. MacGregor?

- Na verdade, sim, sr. Cameron. Afinal, não é um jovem empreendedor?

- Na verdade, sim. E pode estar certo de que isso vai lhe custar bem caro.

- De que vale o dinheiro comparado à paz de espírito quanto a quem se ama?

Royce ficou um instante em silêncio.

- Eu já encontrei um monte de demônios e pessoas as­tutas na vida, mas o senhor poderia dar aula a todos eles.

A gargalhada de Daniel ecoou pela sala.

- Gosto de você, rapaz. Cameron, boa raça. Vamos com­binar de você vir aqui para modernizar meu sistema de se­gurança.

Aquele trabalho lhe renderia um bom dinheiro, calculou Royce, enquanto se esgueirava da luz do luar, embrenhando-se pelas sombras das árvores frondosas que circundavam a casa.

Ele ficou estudando as janelas no escuro. Era muito fácil para Royce pensar como um ladrão. Afinal, lidara com in­contáveis assaltos durante seus anos na polícia. Por esse mesmo motivo foi que decidiu enveredar pelo ramo da se­gurança. A maioria das pessoas não fazia idéia do quão vulneráveis se encontravam enquanto sonhavam em suas camas.

Royce se aproximou da casa como faria um ladrão, uti­lizando árvores e cercas para se esconder. Os jardins bem estruturados haviam sido projetados para impedir qualquer incursão de vizinhos xeretas e do tráfego da rua.

Se agisse como um ladrão esperto, o que Royce estava decidido a fazer, já teria tido tempo de estudar a casa, os acessos e o sistema de segurança. Estaria usando um uniforme caqui de trabalhador, carregando uma maleta e viria A luz do dia. E, assim, ninguém lhe dispensaria um segun­do olhar.

Em vez disso, lá estava ele, no meio da noite, atendendo ao "pedido" de um velho matreiro e superprotetor escocês.

O ladrão deveria saber que o alarme era dos bons. Claro, se tivesse algum conhecimento de eletrônica. Royce decidiu entrar no espírito da coisa e assumir que ele, como ladrão, tinha um certo grau de conhecimento de eletrônica. Empol­gado, resolveu pôr mãos à obra e desfazer o trabalho que ele próprio fizera.

Quinze minutos mais tarde, deu um passo atrás, coçando o queixo. Ele era bom demais, pensou. Não tão bom como ladrão, quanto era como perito em segurança. O sistema era quase infalível. Se ele mesmo não o tivesse projetado, jamais seria capaz de descobrir as armadilhas e duplos dispositivos de segurança para evitar sua desativação.

Mas como ele mesmo o projetara, poderia ter entrado na casa se quisesse, se trabalhasse mais uns dez minutos. Um ladrão, porém, teria que ser muito determinado, muito bem treinado e muito sortudo para chegar àquele estágio. O sr. MacGregor, pensou ele, poderia ficar sossegado.

Satisfeito, virou-se para sair, quando uma luz se acendeu. Laura MacGregor apareceu do outro lado da porta de vidro do vestíbulo. O cabelo negro caindo até a cintura. Usava uma camiseta amarela que lhe chegava à altura das coxas e carre­gava uma raquete de basebol Louisville Slugger na mão.

Royce observou os lábios carnudos se abrirem quando ela o reconheceu e os olhos dela lançaram fagulhas.

- Que diabos está fazendo aqui?

A voz de Laura foi abafada pelo vidro da porta, mas ele conseguiu captar sua agitação.

- Inspeção de rotina - gritou ele. - A pedido do cliente.

- Eu não pedi nenhuma inspeção de rotina.

- Seu avô pediu.

Ele observou aqueles olhos furiosos se estreitarem e notou suas mãos apertarem o cabo da raquete com força, como se a fosse lançar longe. Em seguida, ela girou nos calcanhares, dando-lhe a visão de suas pernas e pegou o telefone.

Royce cocou mais uma vez o queixo, seus dedos roçan­do distraidamente a cicatriz. Se Laura estivesse chamando a polícia, ele teria uma longa noite de explicações pela frente. Era verdade que tinha um monte de amigos na polí­cia para evitar o pior... mas sabia que esses mesmos amigos í seriam capazes de trancafiá-lo em uma cela só pelo diverti­mento da situação.

O preço da inspeção de rotina acabou de dobrar, pensou.

Momentos mais tarde, Laura recolocou o fone no gancho. Caminhou até o alarme, digitou o código e, depois, destran­cou a porta.

- São dois idiotas. Você e meu avô.

- Você ligou para o MacGregor.

- Claro. Ou acha que aceitaria a palavra de alguém que se encontra do lado de fora da minha porta, carregando ferramentas de ladrão? Eu deveria ter chamado a polícia - disse ela, batendo com a raquete na parede.

- Agradeço sua discrição - O sorriso dele se alargou. O bom humor brilhava em seus olhos como sol de verão. - Encare por este lado, sua avó agora poderá dormir sossegada.

- Minha avó sempre dorme sossegada. É ele. - Exaspe­rada, levantou os braços. O movimento fez a camiseta desli­zar perigosamente para cima. - O homem passa a noite acordado elucubrando maneiras de complicar nossas vidas: Seu objetivo é levar a família à loucura. Meu único consolo ó que seus tímpanos vão ficar doendo pelo resto da noite.

- Passou-lhe um sermão, hein? - Sorrindo, Royce tirou vantagem da situação e aproximou-se. - Se estivesse na cama como deveria, jamais descobriria que eu estive aqui. Mais dois minutos e eu já estaria longe. - Ele esticou uma das mãos para brincar com as pontas dos cabelos dela, que lhe caíam até os cotovelos como uma cortina negra. - Por que não está na cama?

- Estava com fome - murmurou ela.

- Eu também. - Ele se aproximou um pouco mais, conjeturando que o destino pusera aquela cadeira exatamente ali para não permitir que ela lhe escapasse. - O que temos aí? - disse, apontando para dentro.

O coração de Laura pulava no peito. Ela sentiu a cadeira pressionando suas costas. Ele parecia tão perigoso naquele momento! Os olhos quentes e o sorriso malévolo o tornavam quase letal. Seu aspecto era... tentador...

- Olhe aqui, cara...

- Parece que minha sina é encontrá-la de pijama. - Ele deixou o olhar percorrer lentamente o corpo esbelto, antes de colocar as mãos, uma de cada lado da cadeira. - Não acha um pouco demais esperar que eu simplesmente vire as costas e vá embora?

Laura enrubesceu e a veia de seu pescoço começou a palpitar.

- O que espero é que aceite um "não" como resposta.

- Verdade? - Assim dizendo, inclinou-se sobre ela. Não o bastante para que seus corpos se tocassem, mas o suficien­te para que sua respiração dançasse como uma pluma sobre os lábios dela. - Pois eu juraria que você esperava por isto.

Royce baixou a cabeça até que suas bocas ficassem sepa­radas apenas alguns milímetros e então estacou. Viu os olhos dela escurecerem e notou o longo suspiro que ela deu.

Então aguardou, enquanto o sangue pulsava nas veias, até ter certeza de que ambos sofriam com a expectativa.

- Beije-me, garota - ordenou e enterrou os lábios nos dela.

Laura não conseguiu se controlar. Naquele longo instan­te em que seus olhares se cruzaram e se prenderam, um desejo pungente invadiu-a como vinho quente. Quando suas bocas se encontraram, uma urgência a atacou como uma garra de veludo. E quando o beijo se aprofundou, um prazer arrebatador a iluminou como a luz do luar.

Ela gemeu, envolveu com os braços o pescoço másculo e correspondeu ao beijo com igual intensidade.

Não foi uma exploração gentil, nem uma carícia suave. Foi calor e fome. Paixão contra paixão, força contra força.

Ela possuía sabor ardente e textura macia, odores pro­vocantes que suscitavam suspiros suaves. Aquela boca carnuda era puro pecado e o estava levando rapidamente além dos limites da razão. As mãos másculas se embrenha­vam nos cabelos macios de Laura, puxando-lhe a cabeça para trás para que pudesse usufruir mais daquela boca erótica.

- Deixe-me possuí-la. -Ele afastou os lábios dos dela para deslizá-los pelo queixo macio até o pescoço pulsante.

- Eu... - A cabeça de Laura estava girando. Sua respira­ção saía arquejante. - Espere... por favor... espere.

- Por quê?

- Preciso pensar. - Ela pôs ambas as mãos nos ombros de Royce, afastando-o. - Eu não estava conseguindo pensar.

Os olhos azuis fixaram-se nos olhos cor de chocolate. O cabelo negro caía revolto sobre ambos. Royce deslizou as mãos pelas laterais do corpo feminino.

- Posso fazer com que nenhum de nós dois consiga pensar.

- Estou certa de que pode. - Laura tentou manter a distân­cia entre eles. Mas não era suficiente. - Volto em um minuto.

- Não vai mudar nada. Eu continuarei a desejá-la. E você continuará a me desejar.

- De qualquer modo me largue.

Foi difícil atender àquele pedido, mas ele retirou as mãos do corpo feminino e afastou-se.

- Esta distância é suficiente? Ou é melhor eu ir embora para que você possa fingir que nada aconteceu?

- Não preciso fingir coisa alguma. - Laura empertigou-se - Se eu não quisesse que isso acontecesse, não teria acontecido. Sou responsável por meus próprios atos, Royce.

- Muito justo. Então por que não estamos rolando neste lado gramado, terminando o que começamos?

- Isso é grosseiro.

- É honesto.

- Está bem. Não estamos rolando pela grama porque não faço sexo com homens que mal conheço.

Ele acatou com um gesto de cabeça e colocou as mãos nos bolsos. Não gostava de admitir que elas estavam trêmulas.

- Isso também é bastante justo. - Seus lábios se curvaram no notar a expressão de surpresa e, em seguida, de especu­lação no rosto de Laura. - Não esperava que eu fosse razo­ável, não é, magrinha?

- Na verdade, não. O que apenas vem a provar meu ponto. Eu não o conheço. - Ela cruzou os braços, mas não se afastou quando ele deu um passo à frente. Quando as mãos másculas deslizaram por seus braços até os ombros e des­ceram outra vez até os punhos.

- Royce Cameron - disse ele calmamente. - Trinta e um anos, solteiro, ex-policial, hoje dono do próprio negócio. Sem antecedentes criminais. Fiz alguns anos de faculdade, mas não era o que queria. Gosto de cachorros grandes e estúpidos, rock and roll alto, comida italiana e mulheres perigosas.

O divertimento perpassou pelos olhos de Laura.

- Isso é bastante informativo, mas não é suficiente.

- Acho que é um começo. Você quer saber mais?

Ela sabia que era impossível que ele não notasse o pulsar violento de seus pulsos.

- Aparentemente, sim.

- Amanhã à noite, às 7 horas. Vamos tentar comida italiana.

- Está bem. Vamos tentar comida italiana - Ela não se moveu. Manteve os olhos fixos nos dele quando Royce se inclinou e tomou-lhe o lábio inferior entre os dentes.

- De fato, gosto de sua boca. Poderia passar horas beijando-a.

Laura achou ter visto um lampejo de riso antes de ele se voltar e desaparecer na escuridão.

- Tranque-se, magrinha, e reative o sistema.

- Está bem. - Ela respirou fundo duas vezes. De súbito, ocorreu-lhe o pensamento de que o sistema de segurança acabara de ser quebrado.

Quatro

Gwen surgiu no banheiro vestindo apenas lingerie e com­pletamente maquiada.

- Acabo de rasgar meu último par de meias finas pretas. Sou uma mulher desesperada.

- As minhas vão ficar sobrando em você - gritou Laura do chuveiro. - Sou dez centímetros mais alta.

- Eu disse desesperada. Julia não tem meias pretas e eu não tenho tempo de sair para comprá-las. Greg deve estar chegando em quinze minutos.

Laura espiou pela abertura da cortina.

- Tem um encontro com o dr. Smarm?

- Não se trata exatamente de um encontro - respondeu Gwen num tom ríspido, pegando um par de meias na gave­ta do armário. - É um compromisso do hospital e ele será meu acompanhante.

- Ele é grotesco.

- Ele é o cirurgião-chefe dos residentes.

- Um chefe grotesco - corrigiu Laura, fechando o chu­veiro. - E tudo o que ele quer fazer é dar mais um corte com seu bisturi.

- Então ele vai ficar bastante decepcionado. - Gwen sentou-se na tampa do vaso sanitário e começou a calçar as meias.

- Por que não vai com Jim, o proctologista? Ele é um bom rapaz.

- Está comprometido. Conheceu uma professora de jardim de infância duas semanas atrás.

- Oh. - Segurando a toalha à altura dos seios, Laura saiu do box. - É melhor ir sozinha do que com Greg, o cirurgião.

- Coquetel e jantar na casa do dr. e da sra. Pritchet. Ela não gosta de mulheres desacompanhadas à mesa. - Gwen levantou-se, praguejando. - Droga! Esta meia parece um saco em mim.

- Eu avisei.

- Achei um par! - Julia entrou balançando um pacote de meias como se fosse uma bandeira. - Por isso minha gave­ta não fechava. Elas estavam caídas atrás dela.

- Graças a Deus! - Gwen agarrou as meias e sentou-se mais uma vez para fazer a troca.

- Você está toda arrumada - comentou Laura, notando o longo vestido de veludo que Julia usava.

- Vou ao Country Clube com Peter.

- Ah, o sempre disponível Peter. - Laura saiu do banhei­ro para inspecionar o próprio closet.

- Peter é legal, apenas é circunspecto demais - ponderou Julia, enquanto observava Laura indecisa entre um vestido vermelho de seda e outro azul de algodão. - Você parece ter um encontro excitante esta noite.

- Vamos apenas ouvir música.

- Vão dançar? Terceiro encontro em uma semana. - Ju­lia arqueou uma sobrancelha. - Acho melhor escolher o vermelho.

- Ele é um pouco...

- É muito - corrigiu Julia. - Muito tudo. Os olhos dele vão pular das órbitas.

Com ar de teimosia, Laura escolheu o vestido azul.

- Não estamos namorando. Estamos apenas saindo juntos. Naquele instante, Gwen saiu do banheiro.

- Bem, quando se cansar de sair com ele, pode passá-lo para mim?

- Ha, ha, ha.

- Este será o terceiro encontro - continuou Julia. - O primeiro é um teste. O segundo uma revisão. Mas o terceiro, bem, esse é o mais importante. É quando você passa de simples aventura para o namoro.

- Posso sair com ele? - insistiu Gwen, e caiu na garga­lhada ante a expressão zangada de Laura. - Ora, priminha, o que tem demais em estar interessada em um lindo, dispo­nível e intrigante espécime masculino? Veja como você tem

- Norte. - Em seguida, revirou os olhos, quando a campainha soou. - Deve ser o Greg. Julia, por favor, vá fazer um pou­co de sala para mim.

- Se ele me passar mais uma cantada, vou arrebentar a cara dele.

- Apenas cinco minutos - prometeu Gwen, apressando-se.

- Não sei como alguém ainda não deu uns bons socos nele - disse Julia. Depois, respirou fundo e plantou um sorriso no rosto. - Que tal isto? - perguntou à prima.

- Tente não deixar parecer uma careta - sugeriu Laura.

- Não consigo. Use o vestido vermelho - falou antes de sair do quarto para cumprir sua missão.

Laura acabou seguindo a sugestão das primas. Disse a si mesma que escolhera o vestido vermelho por ser mais ade­quado a uma noite no clube e não porque era sexy. E calça­ra os sapatos de saltos finos e altíssimos apenas porque o vestido pedia.

Aquele terceiro encontro não significava nada para ela, pensou, enquanto colocava argolas de ouro nas orelhas. Quem estava contando, afinal? Eles estavam apenas se en­contrando porque se divertiam na companhia um do outro c tinham muitos assuntos para conversar. Além disso, um fazia o outro rir.

E quando ele a beijava, seu cérebro quase explodia.

Laura pôs a mão no o estômago. Está bem, foi forçada a admitir, havia uma forte atração física. Royce, porém, não a havia pressionado a ir além daqueles beijos de tirar o fôlego.

Por que, diabos, ele não a estaria pressionando? A ma­neira como ele a deixava tremendo e lutando por ar quando se despediam a estava levando à loucura. E nem sequer uma vez ele tentara atraí-la para sua cama. Não, só naquela pri­meira vez.

Devia estar maluca, pensou Laura. Afinal, não fora ela quem dissera que precisava de tempo para conhecê-lo? Era exatamente o que Royce estava fazendo. Dando-lhe tempo e espaço. E, agora, ansiava que ele a agarrasse pelos cabelos e a levasse para uma caverna.

Ridícula.

Quando a campainha tocou, Laura balançou a cabeleira negra. Estamos apenas saindo juntos, repetiu pela milésima vez e disparou escada abaixo. Apenas nos conhecendo me­lhor. Apenas curtindo a companhia um do outro naquela noite. Colocou seu melhor sorriso no rosto e abriu a porta.

Ele estava incrível vestido de preto. A calça jeans e a jaqueta pretas realçavam seus olhos azuis.

- Chegou bem na hora. Vou apenas pegar minha...

- Espere... - Ele a puxou pelos punhos e a avaliou com um longo e lânguido olhar. Aquele vestido vermelho mol­dava o corpo esbelto como uma segunda pele, ressaltando os contornos das coxas, dos quadris e dos seios. Os lábios de Royce se curvaram lentamente. - ...só um minuto.

Com um puxão, ele a tomou nos braços e capturou-lhe a boca num beijo devorador. Laura soltou um gemido quando um calor intenso a envolveu. E, logo em seguida, ela estava livre, sem ar e tremendo.

- Para que foi isso?

- Para lhe agradecer pelo vestido que está quase usando. - O sorriso dele foi espontâneo. Era impossível não se sen­tir satisfeito com aquela visão esplendorosa. - Vai precisar de um casaco, magrinha. Está frio lá fora.

O clube estava quente e a música também. Laura já havia readquirido o equilíbrio após tomar um copo de vinho, sen­tada à pequena mesa de canto, com uma única vela no centro. Ela jamais poderia imaginar que Royce fosse o tipo de homem que parasse para ouvir blues.

Mas ele a surpreendia constantemente.

- Por que deixou a polícia? - Laura não pensou nas implicações da pergunta até que a fez. - É muito pessoal?

- Não. Acho que eu não me enquadrei na equipe. Não uni bom de política e perdi a paixão pelo trabalho que de­sempenhava nas ruas.

- E o que o fez perdê-la?

Os olhos azuis contornados por cílios pretos contemplando-a.

- Advogados.

Num gesto de autodefesa, Laura ergueu o queixo.

- Todo indivíduo tem direito de ser representado segun­do a lei.

- Tem razão. Essa é a lei. - Ele pegou o copo de club soda e mexeu o gelo com um dedo. - Mas isso não é justiça. Você Icm uma cliente, atualmente, que deve concordar comigo.

- É mesmo? E quem é essa cliente?

- Amanda Holloway.

- Pensei que não aprovava o que ela fez. .

- Não cabe a mim aprovar ou não. Eu não estava dentro da cabeça dela naquela noite. Mas, para mim, ela é mais um exemplo de um sistema falido.

- O julgamento dela começará em dez dias. Talvez você possa ajudar.

- Não há nada que eu possa lhe contar.

- É obvio que você não gostava dele.

- Eu também não gosto do cara que mora no apartamen­to em frente ao meu. E não existe nada que eu possa lhe contar sobre ele. Sua mãe conhece o trabalho dela, Laura, ou não teria chegado onde chegou.

- Não entendo como pode desistir de tudo em que deve acreditar. Você não teria entrado para a polícia se a sua in­tenção não fosse ajudar os outros.

- E alguns anos lá me mostraram que eu não estava fa­zendo a mínima diferença.

Laura detectou algo em seu tom de voz. Um discreto sinal de desapontamento, de desilusão.

- Mas era o que queria.

- Era. Agora estou ajudando do meu próprio jeito. Sem o envolvimento com a política e sem restrições. E sou melhor em eletrônica do que era caçando bandidos.

- Você gosta de ser seu próprio patrão.

- Está absolutamente certa.

- Não posso culpá-lo. - disse Laura com um suspiro. - Trabalhar para meus pais, bem, é um sonho. Eles são mara­vilhosos. Não acredito que me sairia melhor em uma grande firma, com todas as agendas e políticas. A bem da verdade, tudo gira em torno de horas pagas e grandes clientes. MacGregor e MacGregor tenta fazer a diferença.

- Estou surpreso por eles ainda não terem sido banidos da Ordem por excesso de ética.

Os olhos de Laura estreitaram-se.

- E tão fácil e tão banal acusar os advogados.

- E verdade. - Ele sorriu. - Por que resistir? Eu deveria dizer-lhe algo mais.

- O quê?

- Você é incrivelmente bonita.

Laura encostou-se no espaldar da cadeira.

- Está tentando mudar de assunto.

- É inteligente também. Se ficarmos aqui sentados fa­lando sobre leis, vamos acabar discutindo, pois nossos ân­gulos de visão são diferentes. Por que perder tempo?

- Eu gosto de discutir. É por isso que sou advogada.

- E eu gosto de dançar. - Royce pegou-a pela mão e levantou-a. - É por isso que estamos aqui.

Laura encarou-o espantada.

- Você dança?

- Bem, nunca realizei o sonho de me juntar ao Bolshoi - dis­se ele, enquanto a guiava pelo salão. - Mas dou para o gasto.

- Você faz mais o tipo boxeador do que... - As palavras morreram em sua garganta quando ele a rodopiou e, em seguida, a puxou para si até que seus corpos ficassem inti­mamente ligados. - Oh Deus!

- Vamos deixar o boxe para mais tarde.

Os saltos altos a faziam ficar cara a cara com ele, de forma que os olhos e as bocas ficassem nivelados. Ele a guiava com passos suaves e complicados. Laura não preci­sava pensar para acompanhá-lo. Nem poderia pensar, com seu coração ameaçando pular pela garganta, o sax gemendo c os olhos azuis fixos nos dela.

- Você é muito bom - conseguiu dizer.

- Dançar é a segunda melhor coisa que um homem pode fazer com uma bela mulher. Por que não fazê-lo direito?

Laura umedeceu os lábios.

- Você teve aulas de dança?

- Por insistência de minha mãe. O que contribuiu para que eu conseguisse agüentar cinco rounds de boxe. Na vi­zinhança onde cresci, se um homem fizesse aulas de dança, ou apanhava ou aprendia a usar os punhos.

- Essa é uma combinação singular. E que vizinhança foi essa?

- Sul de Boston.

- Oh! -A cabeça de Laura rodava, seu pulso acelerava. Então foi lá que cresceu. Seu pai...

Royce inclinou-a para trás.

- Você fala demais - murmurou e colou a boca à dela, puxando-a uma vez mais de encontro ao peito másculo. E continuou a beijá-la enquanto se movia com ela ao som envolvente da música. Então a mão de Royce deslizou sua­vemente por seus ombros até enlaçar-lhe o pescoço.

Laura sentiu o estômago apertar-se, os joelhos virarem geléia e murmurou o nome dele, duas vezes, contra a boca exigente.

- Você sabe quem eu sou? - Ele aguardou até que Laura abrisse os olhos. - Já me conhece agora, Laura?

Ela sabia exatamente as implicações daquela pergunta e entendeu que cada momento que passaram juntos havia sido uma dança, cujos passos levaram àquele desfecho.

- Acho que sim.

- Venha para casa comigo. - Ele a beijou mais uma vez, traçando os contornos dos lábios femininos com a língua até senti-los tremer. - Venha para a cama comigo.

Laura não se importava que a música tivesse parado, nem que o clube estivesse lotado e mergulhou naquele beijo.

- Minha casa fica mais perto.

- Como sabe?

- Eu pesquisei seu endereço. - Ela sorria enquanto se afastavam. - Só por via das dúvidas. Minhas primas estão fora esta noite. - Laura tomou-lhe a mão e entrelaçou os dedos nos dele. - Venha para casa comigo.

- Pensei que nunca fosse me pedir isso.

Royce beijou-a mais uma vez quando saíram para a brisa fria daquela noite de outono. E, no instante em que entraram no carro, lançaram-se nos braços um do outro com um furor incontrolável.

- Eu não tinha idéia do quanto estava apressada. - Lu­tando por ar, Laura atacou a boca máscula mais uma vez. - Dirija rápido.

- Diga-me o que está usando embaixo desse vestido. Laura deu uma risada.

- Perfume.

- Vou dirigir o mais rápido que puder. - Royce bateu a porta do carro, ao mesmo tempo em que passava a primeira marcha. - Controle-se e mantenha as mãos longe de mim. Quero viver para fazer amor com você.

Laura lutou com o cinto de segurança, enquanto ele largava em disparada pela rua. Obediente, manteve as mãos bem juntas no colo. Apesar de preferir utilizá-las para arran­car-lhe a camisa, tocá-lo e levá-lo à loucura. Não conhecia precedentes daquela luxúria selvagem dentro dela.

- Conte-me mais alguma coisa - disse ela. - Sobre sua família. Irmãos, irmãs.

Não tenho. - Ele acelerou o carro, atravessando um sinal amarelo.

- Seus pais ainda vivem na velha vizinhança?

- Minha mãe se mudou para a Flórida com seu segundo marido. Meu pai faleceu.

- Sinto muito.

- Ossos do ofício. Era assim que ele queria. Você não acha que essas pessoas deveriam ter algo melhor para fazer do que ficar circulando pela rua esta noite?

Laura soltou uma risada e pressionou seu coração acele­rado.

- Deus! Estou nervosa. Nunca fico nervosa. Só falta eu começar a gaguejar.

- Eu poderia dizer-lhe o que vou fazer com você no minuto em que retirar esse vestido.

- Royce, dirija mais rápido.

Ele virou a esquina e entrou na rua onde Laura morava. Naquele instante, seu bip começou a tocar. Praguejando, Royce retirou-o do bolso.

- Leia o sinal para mim, por favor.

- Está bem. É... é meu. É da minha casa.

O olhar dele tornou-se duro. Eleja podia ouvir o alarme soando. Estacionou o carro duas casas antes da casa de Laura.

- Fique aqui - ordenou ele. - E tranque as portas.

- Mas você não pode... A polícia vai...

- É meu sistema. - Royce bateu a porta do carro atrás de si e, evitando as luzes dos postes, esgueirou-se pela es­curidão.

Levou apenas dez segundos para Laura decidir segui-lo. Xingou os malditos saltos finos dos sapatos enquanto seguia pela calçada. Ao passar pelo flash de luz das janelas de sua casa, avistou dois vultos lutando.

Sem pensar duas vezes, correu em direção a eles, olhan­do em volta à procura de algo que pudesse ser usado como arma. Apavorada, respirou fundo e retirou do pé um dos sapatos.

Naquele momento, viu o brilho do cabelo louro contra a luz. Ouviu um impropério e um resmungo quando o punho de Royce atingiu um rosto familiar.

- Ian! Oh, meu Deus! Ian, você está bem? - Jogando o sapato ao chão, correu até onde o adversário de Royce se encontrava esparramado no chão.

- Misericórdia! O que me atingiu? Uma pedra? - Ian balançou a cabeça e cocou o queixo. - Que diabos está acontecendo aqui?

- Oh, querido, seu lábio está sangrando. Desculpe-me. Sinto muito. - Laura inclinou-se e beijou-o carinhosamente.

- Eu estou bem, obrigado - falou Royce atrás dela. O golpe do ciúme doía mais do que os nós de seus dedos. Ele franziu o cenho quando o casal no chão o encarou. - Pelo que pude observar, vocês se conhecem.

- Claro que nos conhecemos - disse Laura, acariciando o cabelo do rapaz. - Você acaba de bater no meu irmão.

- E que soco! - Ian ergueu a mão, acariciou o queixo e concluiu que não estava quebrado. - Eu nem notei quando ele se aproximou. É claro que se eu o tivesse visto, não teria conseguido me acertar desse jeito.

- Venha, deixe-me levá-lo para dentro. Vamos colocar um gelo aí.

- Pare de fazer drama, Laura. - Agora que seus ouvidos haviam parado de zunir, Ian deu uma olhada no homem que o atacara. Fez bem a seu ego notar a constituição compacta e os ombros largos do sujeito. Pelo menos, não tinha sido nocauteado por um janota qualquer, o que costumava ser o estilo dos namorados da irmã. - Ian MacGregor - disse ele, estendendo a mão.

- Royce Cameron - Royce apertou-lhe a mão estendida e ajudou-o a levantar-se. - Você recebeu outro aqui - apresentou-se, apontando para o canto do olho de Ian.

- Bem que eu senti. Eu estava desprevenido. Quer dizer, um cara está tentando entrar na casa da irmã e de repente soam alarmes, luzes começam a piscar...

- É o novo sistema de segurança - informou Royce. - Instalei-o há duas semanas.

- Bem... ele funciona. - Ian deu um sorriso em sinal de trégua. - Que tal uma cerveja?

Royce avaliou o homem e sorriu.

- Claro. Deixe-me desativar o alarme e dispensar os policiais.

- Você também deve ter trocado as fechaduras - disse Ian, enquanto caminhavam lado a lado.

Laura permaneceu parada no mesmo lugar, desequilibra­da por estar calçando apenas um sapato. Sua boca começou a abrir-se.

- Se isso não é típico dos homens! - resmungou, procu­rando seu outro sapato. - Socam a cara um do outro e depois se tornam amigos para sempre.

 

Suponho que não quer me contar o que estava fazendo tentando arrombar minha casa às 10h da noite de sábado.

Ian segurava uma garrafa de cerveja gelada contra a contusão do queixo e sorriu para a irmã.

- Eu não a estaria arrombando se você tivesse me dito que trocou a fechadura.

- Se contasse a alguém seus planos...

- Eu não tinha plano algum. Apenas decidi aparecer para o final de semana. - Ele deu um sorrio para Royce. - Facul­dade de Direito de Harvard. Primeiro ano. Um cara às vezes precisa de uma folga.

- Imagino que sim. - E como seus próprios planos para aquela noite tinham sofrido uma reviravolta, Royce decidiu que não teria escolha se não levar na esportiva. Mas dese­java ardentemente que Laura trocasse aquele vestido provo­cante por algo mais sóbrio.

- Onde estão as primas?

- Saíram.

- Tem alguma coisa para comer aqui? - Fez uma careta para Laura e um brilho maroto no olhar do irmão denunciou que ele sabia exatamente o que havia interrompido. E que não estava nem um pouco arrependido - Estou faminto.

- Quer comer? Faça você mesmo.

- Ela me adora - informou a Royce, enquanto se dirigia à geladeira. - Quer um sanduíche?

Royce trocou um longo olhar com Laura.

- Por que não?

- Sabe de uma coisa, mana, eu estava indo tomar uma cerveja com o vovô, mas senti uma vontade indescritível de vê-la - Lançou um sorriso sarcástico à irmã, começando a retirar alguns frios e pastas da geladeira.

- Oh, deixe-me cuidar disso. Você está fazendo uma bagunça. - Laura empurrou-o. Em seguida, suspirou, quando ele a agarrou pelos ombros e lhe deu um beijo na face

- Vá se sentar e tomar sua cerveja. Ele obedeceu e levantou ambas as pernas para escorar os pés na cadeira em frente. Aos 22 anos, cabelo louro, rosto marcante adornado com uma boca de poeta e olhos quase violeta, já estava a caminho de igualar e até mesmo ultrapassar a reputação que o pai deixara na Faculdade de Direito de Harvard. Nos estudos e com as mulheres.

- E aí, Royce, conte-me, como vão as coisas no ramo da segurança?

Não era propriamente uma pergunta, pensou Royce, era uma declaração. Ian MacGregor estava deixando bem claro que não tinha a mínima intenção de deixá-lo pôr as mãos na irmã até que estivesse satisfeito.

Muito justo, pensou Royce.

Notando que eles se entendiam, levantou sua garrafa de cerveja em direção ao irmão de Laura.

- Dá para ir vivendo.

Na semana seguinte, Laura enterrou sua frustração se­xual no trabalho. Ian praticamente se mudou para a casa das primas, passando cada tarde e cada noite em Back Bay com ela e, na manhã seguinte, dirigindo para Cambridge para assistir às aulas.

Era um cão de guarda firme e inabalável.

- Ele precisa de uma surra - murmurou ela.

- Quem, querida?

Laura ergueu os olhos dos arquivos. Sua mãe estava parada à soleira da porta, com uma sobrancelha arqueada. O cabelo de Diana Blade MacGregor era tão negro quanto o da filha e estava penteado em um coque, como uma con­cessão à aparência para ir ao tribunal, onde passara a manhã, Seus olhos eram escuros e gentis. A pele, dourada, graças à descendência Comanche. Seu bronzeado combinava com o terninho bem talhado que realçava a figura esbelta.

Perfeita era a palavra que sempre vinha à mente de Lauraquando pensava na mãe. Absolutamente perfeita. Mas, naque­le momento, não estava disposta a pensamentos familiares.

- Seu filho. Ele está me deixando louca.

- Ian? - Diana entrou na sala e lutou para tirar a expres­são de espanto do rosto. Ian tinha lhe contado que Laura estava mais do que interessada em um homem. - O que ele está fazendo?

- Está me rodeando e me sufocando. Ele tem a estranha idéia de que está me protegendo. Mas eu não quero ser protegida.

- Entendo. - Diana encostou-se à mesa de Laura e aca­riciou os cabelos da filha. - Será que isso teria algo a ver com Royce Cameron? ;

- Tem a ver comigo, que não preciso de um irmão mais novo interferindo em minha vida social. - Laura soltou um suspiro exasperado. - E sim, tem algo a ver com Royce.

- Eu gostaria de conhecê-lo Seu avô o tem em grande conta.

- Vovô? - Confusa, Laura jogou os cabelos para trás e franziu o cenho. - Ele mal o conhece. Ele contratou a em­presa de Royce. Isso é só.

- Acho que você deveria conhecer melhor os MacGregors. - Com uma risada, Diana balançou a cabeça. - Querida, Daniel MacGregor não teria posto ninguém em seu caminho, especialmente um homem atraente, a menos que soubesse tudo o que há para saber a respeito dele e mais alguma coisa. Em sua opinião, Royce Cameron vem de uma raça forte.

- É por causa da sua descendência escocesa.

- E você é sua neta mais velha. - Diana sorriu - Eu e seu pai a colocamos em uma situação delicada.

- Não vejo por que... Oh! - Ela estacou quando percebeu o movimento da porta. - Royce!

- Desculpe-me, a recepcionista disse que você não esta­va ocupada e que eu podia entrar.

- Não tem problema, eu... - Ela detestava enrubescer. E eslava chegando à conclusão que ele a fazia enrubescer pelo simples fato de existir. - Mãe, este é Royce Cameron.

- Muito prazer em conhecê-lo. - Diana estendeu-lhe a mão e se sentiu sendo avaliada por frios olhos azuis.

- Desculpe-me - Royce sorriu para ela. - Estava apenas imaginando qual será a aparência de Laura quando desabrochar. Ela deu muita sorte com sua descendência.

Lisonjeada, Diana murmurou:

- Obrigada. Meu marido costuma dizer que os Comanches usam bem os ossos. Estou certa de que você quer conversar com Laura. Espero encontrá-lo outra vez, sr. Ca­meron. Laura, vou ter uma palavrinha com Ian sobre a questão que estávamos discutindo.

- Obrigada.

- Sua mãe é... impressionante - murmurou Royce, quan­do Diana saiu, fechando a porta atrás de si. Depois voltou-se para Laura. - Comanche?

- Sim. Minha mãe é metade Comanche. - Levantou-se lentamente, quase em desafio. - E eu também.

- Devo concordar com seu pai. Você usa bem os ossos. Ele aproximou-se, contornando a mesa até ficar cara a cara com Laura. - Seu irmão está escondido no arquivo? Ela deu uma risada.

- Não neste momento.

- Bem... então. - Sem retirar os olhos dos dela, Royce deslizou os braços por sua cintura e puxou-a para si. Obser­vou os cílios negros vibrando, enquanto sua boca tocava a de Laura. - Preciso vê-la, Laura, sozinha.

- Eu sei. Eu quero... É que tudo está tão complicado agora, e... Beije-me outra vez. Beije-me.

Não tão paciente dessa vez. Não tão gentil. Laura pode sentir a impaciência, o desejo frustrado que encontrava eco dentro dela e a promessa de calor e a pressa.

- Eu devia tê-lo acertado com mais força. - As mãos de Royce deslizaram pelos quadris bem torneados para trazê-la para mais perto. - Vou procurá-lo e bater nele outra vez.

- Não. - Laura entrelaçou os dedos nos cabelos dele. - Deixe que eu faço isso.

- Diga à sua secretária que vai sair para almoçar.

- São 10 horas da manhã!

- Um almoço antecipado. - Royce beliscou-lhe o queixo. Depois, voltou a beijá-la. - Que vai durar o dia inteiro.

- Não posso. - Os lábios dele desceram pelo pescoço macio, fazendo sua pele vibrar. - Eu não deveria. - Em seguida, fizeram o caminho de volta até os lábios carnudos de Laura, fazendo-lhe o coração pular. - Está bem... deixe-me apenas...

- Laura, você tem o arquivo do... - Caine MacGregor estacou, ainda segurando a maçaneta da porta. E encarou, de testa franzida, o homem que devorava sua filhinha.

- Desculpe-me - disse ele. Frio o bastante para que ninguém deixasse de notar seu aborrecimento.

- Pai! - Laura clareou a garganta, libertando-se de Royce e praguejando contra o rubor de sua face. - Eu estava... nós estávamos...

- Estavam o quê, Laura? - Ignorando a filha, Caine mediu o estranho de cima a baixo. - E você seria...

- Royce Cameron. - Um lobo refinado, foi a impressão que teve daquele homem. Não acreditava que os cabelos grisalhos de suas têmporas afetassem o poder dos caninos. - E estava beijando sua filha.

- Tenho olhos na cara, Cameron - disse Caine, em um tom que teria feito até mesmo seu pai vibrar de orgulho. - Segurança, estou certo? Não deveria estar tornando a casa de alguém segu­ra, em vez de ficar beijando minha filha no meio da manhã.

Royce pôs ambas as mãos nos bolsos. Ele ainda não havia se barbeado. Não pretendia ver Laura naquela manhã. Mas saíra para fazer algumas compras e se descobriu para­do em frente ao prédio onde ela trabalhava. Não tinha certeza de como fora parar ali. Estava vestindo uma jaqueta de couro surrada e calça jeans desgastada em alguns pontos.

Fazia uma boa idéia da imagem que passava a um pai devotado naquele momento. Um rico e devotado pai, que usava Savile Row como seja nascesse com ele.

- Acabo de chegar de Hyannis Port. Passei os dois últi­mos dias lá projetando e discutindo a melhoria do sistema de segurança da casa de seu pai.

Os olhos de Caine estreitaram-se e soltaram faíscas.

- Não me diga! O velho tirano intrometido! - resmungou, indo direto ao âmago da questão. - Nesse caso, imagino que tenha interrompido seu trabalho lá. Não queremos prendê-lo.

- Pai! - Exasperada, Laura censurou-o. - Não há motivo para ser rude.

- Há sim - disse Royce. - Você se parece demais com sua mãe. Ele sabe que existem todos os motivos para ser rude.

- Disse bem, rapaz - concordou Caine.

- Eu voltarei - despediu-se Royce, caminhando em di­reção à porta e parando quando estava cara a cara com o pai de Laura. - E vou beijar sua filha outra vez, sr. MacGregor. O senhor terá que se acostumar com isso.

- Se vocês dois pensam que vão ficar aí parados discutin­do sobre mim como se eu fosse alguma espécie de troféu,...

- Já terminamos a discussão - interrompeu Royce, olhando-a por sobre o ombro, antes de sair porta afora. - Por ora.

- Arrogante filho-da-mãe. - Caine enterrou ambas as mãos nos bolsos da calça e sentiu um sorriso curvar-lhe os lábios. - Gostei dele.

- Oh, não diga? - A todo vapor, Laura saiu de trás da mesa e, quando estava perto o bastante, cutucou o peito do pai com os dedos. - Você o humilhou.

- Eu não fiz nada disso.

- Fez sim. Ficando aí parado com ares de... de...

- De pai - terminou ele e segurou o queixo da filha com uma das mãos. - Você acha que eu não sei o que ele tem em mente? As mãos dele estavam...

- Eu sei exatamente onde as mãos dele estavam - disparou Laura. - Estavam onde eu queria que estivessem. Não sou mais uma criança e não vou permitir que os homens de minha família me ponham em uma redoma para proteger; minha virtude. Esse assunto só diz respeito a mim e eu farei: o que achar melhor, com quem eu quiser.

- Não, se eu lhe der uma surra e a trancar em casa.

- Você nunca encostou a mão em mim! - protestou Laura.

- O que por certo foi um grande erro, que ainda pode ser corrigido, mocinha.

- Parem com isso. - Diana adentrou o escritório, fechando a porta com firmeza atrás de si. - Parem com essa gritaria. Suas vozes podem ser ouvidas no prédio inteiro.

- Pois que ouçam! gritaram Laura e Caine ao mesmo tempo.

- Reduzam o tom de voz ou vou multá-los por desacato ao tribunal. Sentem-se os dois.

- Foi ele o culpado dessa discussão - ela meneou a ca­beça, jogando-se na cadeira. - Ele me envergonhou na frente de Royce e foi rude. Foi entrando aqui como um...

- Pai - concluiu Caine, sentando-se também.

- Pai das cavernas! - vociferou Laura, e voltando-se para Diana. - Mãe, eu tenho 24 anos. Será que ele acha que nun­ca fui beijada antes?

- Pois acho bom que nunca tenha sido beijada desse jeito antes - resmungou Caine. - Diana, o homem estava com as mãos na...

- Chega! - Diana levantou as mãos e fechou os olhos, até ter certeza de que seu próprio gênio estava sob controle. - Laura, mesmo que tivesse 104 anos, não teria o direito de falar assim com seu pai. E Caine - continuou ela, assim que o semblante do marido começou a iluminar-se. - Laura é uma mulher adulta, responsável e pode beijar quem melhor lhe aprouver.

- Ora essa! - começou Caine.

- Não se atreva a gritar comigo - avisou-o Diana. - Se foi rude com Royce, vai pedir desculpas.

- Nem que a vaca...

- Eu cuidarei disso - disse Diana entre dentes, lançando um olhar cáustico ao marido. - Por ora, é mais importante que vocês dois se comportem. Afinal, aqui é um local de trabalho.

- Diga isso a ela - resmungou Caine, apontando para a filha. - Ela é que estava tratando de assuntos pessoais praticamente em cima da mesa.

- Nós não estávamos em cima da mesa – vociferou Laura. Apesar de que poderiam estar, pensou ela, e talvez estivessem se o pai tivesse entrado um minuto mais tarde.

- Royce apenas passou por aqui para ver se eu estava livre para almoçar com ele.

- Ah... - foi a resposta do pai. Latira bateu no braço da cadeira.

- Você parece o vovô falando.

- Oh, só faltava essa. - Ofendido, Caine levantou-se. -Sou atacado aos gritos por ter uma reação perfeitamente normal ao ver a filha ser engolida inteira por um estranho. Por outro lado, não faz objeção alguma ao fato de seu avô escolher o que ele considera um candidato adequado para continuar a linhagem MacGregor.

- Caine! - Foi a vez de Diana afundar-se em uma cadeira. O quê? O que quer dizer com isso? Sobre o que está falando?

- Está claro como água - disse Caine. - Você é a neta mais velha. Está na idade de se casar. Está na hora de come­çar a cumprir sua obrigação - continuou ele, imitando a voz do pai - e achar um marido adequado, constituir uma famí­lia, ter filhos...

Os lábios de Laura moveram-se por alguns segundos, antes que conseguisse falar. E então o único som que con­seguiu proferir foi um grito agudo.

- Viu? - Satisfeito de ter se feito entender, Caine torne a sentar-se.

- Ele o escolheu. - A irritação de Laura prendia-lhe, respiração na garganta. - Ele o mandou até mim. Ele o selecionou para que eu pudesse... pudesse procriar.

- Bem... - Caine fingiu examinar a bainha da calça. - Isso soa um pouco mais grosseiro do que ele pretendia.

- Vou matá-lo. Com minhas próprias mãos. - Caine refestelou-se na cadeira, satisfeito consigo mesmo.

- Qual deles?

- Meu avô. É melhor começar a tratar dos trâmites do funeral. - Laura pegou seu casaco e a maleta. - Vou tirar; resto do dia de folga. Tenho que ir até Hyannis.

- Laura...!

- Deixe-a ir. - Caine agarrou a mão de Diana, enquanto a filha zarpava porta fora. - Ele merece.

- Deus do céu! Como fui me meter com essa família?

- Você queria meu corpo - lembrou-a Caine. - Não conseguia manter as mãos afastadas de mim. - Ele beijou-lhe os dedos. - Ainda não consegue.

- Vou tentar com mais afinco.

- Diana - ele virou-lhe a mão para cima, roçando os lábios na palma da mão de uma forma que, ambos sabiam, a desarmava. - Eu só estava tomando conta de nossa menininha.

- Ela já está mais alta do que nós, Caine. Aconteceu tão depressa. - Diana baixou a cabeça à altura da dele. - É tão difícil encarar isso.

- Eu só não quero que ela se apresse a envolver-se com alguém... que foi escolhido para ela.

- Laura faz suas próprias escolhas - disse Diana calmamente. - Sempre fez. O que achou dele?

- Não sei. - Ele roçou os dedos da esposa no próprio rosto. - É difícil dizer. Eu estava com uma faixa vermelha nos olhos. - Ele deu um suspiro. - Gostei dele.

- Eu também.

- Isso não significa que ele pode... aqui no escritório, Diana. Pelo amor de Deus!

- Ah, você quer dizer que eles não podem fazer o mesmo que nos fizemos? - Ela revirou os olhos. - Vergonhoso.

- Aquilo foi diferente. - Caine franziu o cenho, enquanto Diana continuava com um sorriso maroto. - Está bem. Talvez mio tenha sido tão diferente. - Ele deslizou uma das mãos pelas pernas bem torneadas da mulher. - E então, você gostaria de experimentar a mesa? Ver se ela ainda funciona?

- Acho que já demos ao pessoal do escritório motivos de sobra para fofocar por hoje. - Ela aproximou-se até que seus lábios roçaram os do marido. - Vamos esperar até que Iodos tenham saído.

- Eu te amo, Diana. - Ele pôs uma das mãos na nuca da esposa, a fim de aprofundar o beijo. - Mil vezes mais do que a amava no dia em que entrou em minha vida.

- Temos sorte. Tudo o que desejo é que nossos filhos te­nham tanta sorte quanto nós. - Ela passou a mão pelos cabe­los do marido, adorando a forma como a prata começava a encobrir o ouro. - Caine, ela vai esfolar Daniel vivo.

- Eu sei. - Seu riso foi rápido e malévolo. - Sinto muito perder essa cena.

 

Não havia nada, pensou Daniel MacGregor, enquanto si refestelava em sua cadeira de couro maciço em seu escritório na torre de sua fortaleza particular, como um bom charuto.

E como sua mulher havia saído por algumas horas, ele podia fumar à vontade sem se preocupar em ser pego.

Ah, ela era a dona de seu coração. Isso era certo. Mas as mulheres não entendiam que os homens precisavam de uri bom charuto na mão, de rolá-lo entre os dedos, para ajudá-lo a pensar, a planejar.

O que o fazia lembrar-se de que tinha que subornar uma das crianças para contrabandear mais uma caixa. Seus cha­rutos já estavam quase no fim.

Satisfeito, sentindo-se o dono do castelo, reclinou-se para trás na cadeira de couro desgastado, sua favorita, e lançou uma baforada de fumaça ao teto. Sua vida estava do jeito que deveria ser, pensou, e ele já estava velho o suficiente para relaxar e aproveitá-la. Assim que seus netos estivessem; acomodados, felizes e cumprindo suas obrigações de perpetuar o sangue dos MacGregors, ficaria tranqüilo e poderia passar o resto de seus dias conforme estava fazendo naque­la manhã.

Com pensamentos felizes e um bom charuto cubano.

Seus planos para Laura estavam de vento em popa. Se os retalhos de informação que conseguiu obter das primas dela fossem corretos. E havia conseguido também mais alguns detalhes do próprio Royce Cameron.

- O rapaz se acha astuto - disse Daniel a si mesmo passou algum tempo soprando anéis de fumaça. - Mas não pode ser mais sagaz do que um MacGregor.

A bem da verdade, Royce não dissera muita coisa. Sim, ele havia encontrado Laura e suas primas. De fato, ela era uma moça atraente. Tinha concordado que era de admirar que algum homem esperto ainda não a tivesse conquistado.

Enfim, não dissera nada comprometedor, mas Daniel conseguira ler nas entrelinhas. Ele observara os olhos do rapaz.

Apaixonado, era assim que ele estava, pensou Daniel, com um riso maroto. Preso na flecha do cupido.

Ele decidiu que um casamento na primavera seria ade­quado, a menos que pudesse apressá-los para um casamen­to no inverno. Mas nada de perder tempo. Sentia falta de bebês andando pela casa.

Laura seria uma noiva maravilhosa, conjeturou ele. Ela se parecia com a mãe e Daniel exultara quando Caine final­mente conseguira levar Diana até o altar. Era verdade que o rapaz demorara duas vezes mais do que o necessário para fazê-lo, mas, no final, tudo deu certo.

Agora, a próxima geração precisava de um empurrão. Ele linha dado aos netos um pouco mais de tempo para se divertirem, mas já era hora de cutucar as netas mais velhas. Daniel se considerava bom nisso.

A visão de Laura, com o véu de casamento dos MacGregors e caminhando de braço dado com Caine, deixou os olhos do ancião marejados de lágrimas. Uma moça tão linda. Tão amorosa... um anjo de candura... MacGregor!

A voz ecoou pelo recinto e quase fez Daniel engolir o charuto. Ele tossiu para expelir a fumaça que inalou e agitava a mão no ar freneticamente. Com grande pesar, jogou o resto do charuto fora, enquanto o eco de seu nome reverberava pela casa.

- Eu sei que está aqui. Vim para matá-lo. Fazendo uma careta e movendo-se com surpreendente destreza para um homem que já passara dos noventa anos,

Daniel jogou as cinzas na cesta de lixo e guardou o cinzeiro na última gaveta da mesa, trancando-a. Em seguida, abriu a janela para dissipar a fumaça.

- Você! - Gloriosa em sua fúria, Laura se encontrava na soleira da porta, com o dedo indicador em riste. - Como si atreveu?

- Laurie, querida, que bela surpresa! - Daniel estava de pé em frente à janela aberta, que deixava a brisa gelada inundar o aposento. Um touro de homem, cujos cabelos ruivos já haviam se transformado em branco neve, cuja barba era espessa e lustrosa e cujo brilho do olhar jamais se apagou. E que, naquele momento, tremia em suas botas.

- Não me venha com essa história de Laurie, querida - Ela bateu com as duas mãos na mesa do avô. - Escolheu a dedo um garanhão para mim? O que acha que sou, uma égua reprodutora?

- Não sei do que está falando. Você veio dirigindo desde Boston - despistou, enquanto a mente fazia cálculos à velocidade da luz. — Vamos descer e tomar um chá.

- Você não será capaz de engolir o chá quando eu o estrangular. Realmente imaginou que eu cairia em seu joguinho?

- Que joguinho? Eu estava aqui sentado. - Ele apontou para a mesa e teve o cuidado de mantê-la entre ambos. - Mexendo em alguns papéis.

- Sou perfeitamente capaz de arranjar um homem quan­do quiser um.

- Claro que é, querida. Ora, com essa sua aparência devo ter que enxotá-los a pauladas. Quando você ainda não tinha nem dez minutos de vida e eu a segurei em minhas mãos, disse a seu pai: "Este é o bebê mais lindo que já nasceu em todo mundo." Foi há bastante tempo. - Ele deu um longo suspiro e passou o braço em volta da cadeira, como se ne­cessitasse de apoio. - Isso me faz sentir velho. Sou um homem velho, Laura.

- Não me venha com chantagem emocional. Você só é velho quando quer. Trapaceiro, manipulador.

Daniel piscou várias vezes e tentou com afinco empalidecer enquanto batia com uma das mãos no peito.

- Meu coração. Meu coração está palpitando!

Laura apenas franziu a testa.

Eu posso dar um jeito nisso e fazê-lo parar de vez.

- Talvez ele esteja se partindo. - Ele pendeu a cabeça para o lado. - Partindo-se porque a neta favorita está falando assim com o avô. Desrespeito - concluiu ele num tom de voz muito fraco. - Nada magoa mais um velho do que a língua afiada de sua neta favorita.

- Você tem sorte de eu ainda estar falando com você. E nem pense que vai se safar dessa bancando o bom velhinho. Você tem mais saúde que um cavalo e na atual conjuntura acho que tem menos bom senso do que o pobre animal.

Daniel levantou a cabeça e seus olhos brilhavam de irritação.

- Meça suas palavras, garota! Não vou aceitar isso. Nem mesmo de você.

- Nem eu vou aceitar o que está tentando fazer. Nem mesmo de você. Como pôde me envergonhar dessa maneira? Pelo amor de Deus, vovô, você o contratou para mim?

- Você precisava de segurança. - Sua voz não denotava fraqueza agora. Ela ecoava como um trovão. - Você e minhas outras meninas, vivendo sozinhas naquela cidade. Eu protejo aqueles que amo e não ia deixar sua avó morrendo de preocupação por causa disso. Isso é tudo - concluiu ele batendo com a mão na mesa.

- Se isso é tudo, então a questão seria outra. - Laura resolveu aplicar outra tática. Caminhou em volta da mesa e pôs as mãos na cintura. - Daniel Duncan MacGregor, você está sob juramento. Jura que tudo que diz é verdade, nada mais do que a verdade?

- Eu não minto, menina. Agora, se me der...

- Ainda não acabei com o meu interrogatório ao réu.

- Réu! Réu! - rugiu ele. - Não faz nem um ano que passou na prova da Ordem e já pensa que pode me interrogar?

- Sim. Sente-se, por favor. E responda às minhas per­guntas. Você contratou ou não Royce Cameron?

- Já disse que sim. A empresa dele tem uma boa reputação.

- E por esse serviço você lhe pagou uma remuneração.

- Mas é claro. Eu não esperaria que um bom homem de negócios realizasse seus serviços de graça.

- E você o incentivou ou não a... digamos assim... socializar com sua neta mais velha?

- Ora, isso não tem cabimento. Eu jamais...

- Devo lembrá-lo de que está sob juramento.

- Eu jamais disse algo parecido com socializar. Talvez tenha mencionado que minha neta mais velha era uma beldade solteira. - Com a fisionomia aborrecida, ele se sentou - Isso não é crime.

- Pois eu digo que o senhor me jogou para cima dele.

- Claro que não. - Daniel deu um sorriso maroto. - Eu o joguei em cima de você. E se não tivesse gostado dele estava livre para mandá-lo pastar, não é verdade?

- Bem... isso é...

- Mas você não o rejeitou, não foi, Laurie?

Ela franziu o cenho e rangeu os dentes.

- Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

- Oh, tem sim, do contrário não estaria aqui cuspindo fogo em cima de mim. Teria apenas dado uma boa risada e mandado o homem às favas. - Ele pegou-lhe a mão antes que ela a retirasse. - Ele está caidinho por você.

- Está nada.

- Claro que sim. Um homem pode perceber isso de outro homem. E ele esteve aqui dois dias inteiros.

Laura retirou a mão.

- Você o subornou.

Chegara a vez dele de também brincar de fazer interrogatório, pensou Daniel.

- Ele fez ou não fez um trabalho satisfatório em sua casa?

- Como posso saber? Eu não...

- Ele fez um excelente trabalho. Sua avó e eu agora podemos dormir descansados. Então, se eu tinha intenção de aprimorar o sistema de segurança de minha própria casa, por que não chamar alguém cuja reputação era positiva?

Como aquela discussão tomara aquele rumo?, imaginou Laura, enquanto passava os dedos nas têmporas. No início, tivera o controle da situação. E em algum ponto o perdera.

- Você sabe muito bem que tudo isso não passa de um estratagema.

- Mas claro que sim. A vida é um estratagema. - Daniel ofereceu um sorriso radiante à neta. - Royce Cameron é um homem atraente. Descende de uma boa linhagem. Montou

o próprio negócio. O avô dele era um bom homem.

Aquela afirmação contribuiu para distraí-la.

- Você conhecia o avô dele?

- De passagem apenas. Era um policial, com um forte senso de justiça e um bom estômago para o uísque. E sua avó era uma Fitzwilliam, linhagem forte. Ela, eu conheci um pouco melhor. - Suas sobrancelhas se ergueram. - Mas isso foi antes de eu conhecer sua avó. Então, quando eu estava procurando algumas empresas confiáveis da área de Boston, nas Páginas Amarelas, e vi o nome Royce Cameron, que por sinal era o mesmo nome do avô, e o nome me re­meteu à lembrança de fatos ocorridos alguns anos atrás, pensei, então, seria ele neto de Millie Fitzwilliam?

Desarmada, Laura fechou com força a janela antes que os dois congelassem ali dentro.

- E então resolveu descobrir.

- Para satisfazer minha curiosidade. Para conhecer o neto de velhos amigos. E se, quando descobri que ele era um homem forte e decente com uma boa cabeça para os negó­cios, resolvi dar-lhe uns serviços para fazer...

- Junto com sua neta mais velha.

- Como eu disse, eu o coloquei em seu caminho. Nin­guém colocou um revólver em sua cabeça para fazê-la ir dançar com ele.

Laura arregalou os olhos.

- Como sabe disso?

O sorriso de Daniel iluminou-se.

- Eu tenho minhas fontes, menina.

- Tenho vontade de estrangulá-lo.

- Dê-me um beijo, em vez disso. - Mais uma vez, pegou a mão da neta. - Senti tanto sua falta, Laurie.

- Hah.. hah... - disse ela e encheu o coração do avô de orgulho. - Você nunca sente falta de nada, seu velho intro­metido. - Mas ela atendeu ao pedido e beijou-o e, em seguida, viu-se sentada no colo do avô - Ele sabe que você o jogou no meu caminho?

- Ora essa, menina. Quem pensa que sou? Sou mais esperto do que isso. Mas, diga-me o que vai fazer com ele?

- Vou ter um tórrido caso de amor com ele.

- Laura!

O choque e o horror no tom de voz do ancião foram a paga pela vergonha que a fez passar.

- Cada um colhe aquilo que planta, vovô. E como você colocou um belo espécime de homem à minha disposição, vou usá-lo da forma que melhor me aprouver até me cansar dele.

Daniel a sacudiu com força.

- Ah, você está brincando comigo.

- Pode ser que sim. - Laura deu um sorriso enigmático. - E pode ser que não. Portanto, pense bem na próxima vez que tiver vontade de bancar o cupido para cima de mim, MacGregor.

- Ora, ora, Laurie... - Ele parou de falar bruscamente ao ouvir o a voz da mulher.

- Laura? Daniel, aquele carro lá fora é da Laura?

- Aqui em cima, vovó.

- Psiu... - Ele sacudiu-a. - Não a chame aqui em cima. Aquela mulher tem um nariz de cão farejador. Eu só dei uns traguinhos, droga!

- Eu vou descer, vovó. - Laura encarou o avô. - Fica me devendo uma, MacGregor. E se não se comportar, eu posso deixar escapar que vi alguns charutos cubanos escondidos na última gaveta de sua escrivaninha. O ancião empalideceu.

- Você não faria uma coisa dessas.

Laura manteve um sorriso enigmático no rosto enquanto caminhava até a porta.

- Não aposte nisso.

Mas como adorava o avô, apressou-se escada abaixo antes que a avó subisse. As duas mulheres selaram o encon­tro no meio da escada com um forte abraço.

- Oh, querida, por que não nos avisou que viria? Eu não teria saído.

Laura observou a montanha de sacolas de compras.

- Pelo que vejo, teve uma manhã bastante ocupada.

- Decidi que terei todas as compras de Natal feitas antes do feriado de Ação de Graças este ano. - Anna passou o braço pela cintura da neta e guiou-a até a sala de estar. - Ve­nha, vamos tomar um chá.

- Eu adoraria um chá, - Laura sentou-se, enquanto ob­servava a avó chamar a criada e dar-lhe as ordens.

Tão adorável, pensou Laura. Tão resoluta! Ela sempre pensava na avó como uma fortaleza. Uma mulher que per­seguira o sonho de praticar a medicina quando era inconcebível essa profissão para uma mulher.

Anna não só tinha transformado seu sonho em realidade, como também triunfara. Transformara-se em uma conceitu­adíssima cirurgia torácica da Costa Leste, enquanto criava sua família e construía sua casa.

- O que tem feito, vovó?

- Feito? Em que sentido? - perguntou Anna, acomodan­do os pés em uma almofada.

- Em todos os sentidos.

- Bem... Uma coisa de cada vez. Oh, eu juro que houve um tempo em que uma manhã de compras não me deixava tão fatigada. - Ela sorriu. - Estou tão satisfeita por você estar aqui. - Agora posso sentar-me e descansar um pouquinho.

Preocupada, Laura correu em direção à avó.

- Talvez deva se deitar um pouco. Não deveria ter se cansado tanto.

- Laura - Sua voz era serena e quente como sol de verão: - Meus pés estão doendo, só isso. Agora, sente-se e me conte, você dirigiu até aqui só para brigar com seu avô?

- Eu... - Laura respirou fundo. - Você sabe de tudo?

- Sei que ele anda metendo o nariz onde não é chamai do e esperava que você aparecesse por aqui semana passada. Royce Cameron deve ter causado um grande efeito para demorar tanto tempo para perceber o que estava aconte­cendo.

- Ele é incrivelmente lindo.

- Já tive oportunidade de constatar isso com meus pró­prios olhos.

- Acabei de dizer ao vovô que pretendo ter um tórrido caso de amor com ele.

- Oh! - Anna suspirou e moveu os dedos dos pés. - Acho que ele mereceu isso.

- Mas eu vou mesmo. - Laura imaginou quantas mulhe­res poderiam dizer a mesma coisa às suas avós. - Vou ter um caso com ele.

Anna não disse nada, grata pela criada ter entrado com a bandeja de chá. Aguardou até que ela as servisse e se re­tirasse.

- Não precisaria dizer-lhe para tomar cuidado. Você é uma moça inteligente e astuta. Mas, mesmo assim, lhe direi. Tenha cuidado.

- Eu terei. Por favor, não se preocupe. Eu estou... tremen­damente atraída por ele. Nunca me senti assim em relação a; outro homem. E gosto dele. Eu não achava que gostaria. Na: verdade, achava que isso jamais aconteceria, mas aconteceu.

- E, obviamente, ele sente o mesmo em relação a você.

- Acho que sim. - Laura bebericou um pouco de chá e colocou a xícara de lado. - Você sabe que homens não estavam em minha agenda... Existem tantas coisas que eu quero fazer e que não tenho tempo para esse tipo de complicação. Aí, o vovô o contrata. Pelo amor de Deus, vovó, pare de rir.

- Desculpe, querida. Eu não devia...

- Poderá ser engraçado daqui a dez ou vinte anos - res­mungou Laura. - Mas, neste momento, é humilhante. E então Ian decide que precisa bancar a babá e não me dá nem cinco minutos de paz. E qualquer um acharia que Royce se tornou seu melhor amigo desde que ele o acertou.

- Ian bateu em Royce?

- Foi o contrário, mas devido a um mal-entendido.

- Naturalmente - disse Anna, tranqüila, enquanto degustava seu chá.

- E aí papai irrompe em meu escritório esta manhã e cria um pandemônio só porque Royce estava me beijando.

- Oh, pobre Caine! - exclamou Anna. - Sua pequena criança.

- Eu não sou...

- Você sempre será seu bebê - interrompeu gentilmente a avó. - Suponho que tenham discutido.

- Gritamos um com o outro durante um tempo. Então, mamãe pôs panos quentes. Mas quando ele mencionou que o vovô... Bem, ele disse como o negócio todo havia começado. Não me restou outra alternativa se não vir aqui brigar com o vovô.

- Naturalmente. - Os MacGregors nunca falhavam em expor seus pontos de vista a todo volume, pensou Anna. - Mas suponho que acabaram fazendo as pazes.

- Ninguém consegue ficar zangada com o vovô por muito tempo. Ele não deixa.

- Ninguém sabe mais disso do que eu. E ninguém ama mais do que Daniel.

- Eu sei. - Laura mordeu o lábio. Ela quase dissera o que não se permitia dizer nem a si mesma. - Vovó... acho que eu poderia me apaixonar por Royce. Se eu permitisse a mim mesma.

- Laura - Anna estendeu o braço e pegou a mão da neta.

- O interessante de se apaixonar é que você não tem o mí­nimo controle sobre isso. Apenas acontece. Aí vem Daniel

- Ela apertou a mão de Laura, quando ouviu os passos do marido na escada. - Eu não contaria a última parte de nossa conversa a ele. Não ainda.

-Eu não lhe daria esse gostinho — disse ela a avó e pegou a xícara de chá na hora em que o avô entrou na sala.

- Bem, bem. - Ele deu um largo sorriso. - Duas beldades e ambas são minhas.

 

Laura não foi para casa. Dirigiu de volta a Boston e, no caminho, parou para jantar sozinha e dar a si mesma tempo pura pensar. Da forma como encarava a situação, tinha duas opções. Poderia ser teimosa, tentar dar uma lição ao avô e nunca mais ver Royce Cameron.

Essa idéia não fazia o sundae de chocolate que ela esta­va tomando deslizar agradavelmente pela garganta.

Por outro lado, poderia simplesmente permitir que seu relacionamento - isso se existisse de fato um relacionamen­to com Royce progredisse de forma natural, com o passar do tempo. Poderia considerar que essa interrupção no de­senrolar das coisas havia sido um sinal de alerta para dimi­nuir a marcha e avaliar aquela situação com maior cuidado, ou seja, olhar antes de pular.

Mas os MacGregors eram puladores e não observadores.

E essa era a razão pela qual, à lhl5 da manhã, ela se encontrava do lado de fora do apartamento de Royce, ba­tendo com o punho na porta. s

A porta do apartamento em frente se abriu o suficiente para que Laura divisasse um par de olhos vermelhos e arre­galados e tornou a fechar-se com estrondo.

Ela bateu outra vez, com mais força e xingando. E então viu uma estreita faixa de luz brilhando sob a porta. Inclinou a cabeça e deu um sorriso, certa de que Royce a estava ob­servando pelo olho mágico. Um instante depois, as fecha­duras foram destrancadas.

- O que aconteceu? - perguntou ele.

- Por que teria que acontecer alguma coisa? - Laura entrou. Feche a porta, Royce, você tem um vizinho curioso.

Ele obedeceu, encostou-se à porta e lutou para orientar-se. Laura parecia tão fresca e linda como estava às 10h da manhã em seu terninho e sapatos altos. Enquanto ele se sentia pior do que um mendigo na calça jeans rasgada que conseguira encontrar no chão e vestir às pressas.

Ele passou uma das mãos na face e sentiu a barba arranhando-lhe a palma. Em seguida, deslizou-a pelo cabelo emaranhado.

- É lh da manhã, ou eu dormi demais e nem senti? Laura consultou o relógio de pulso.

- São precisamente lhl7, para ser exata.

- Está bem. Vamos ser exatos. O que você está fazendo aqui?

Divertida, ela caminhou ao longo da sala de estar.

- Nunca vim ao seu apartamento. - Ela notou uma se­mana de poeira em cima dos móveis. Jornais empilhados no chão ao lado de um sofá desgastado. Uma excelente aqua­rela do porto de Boston na parede, um aparelho de som na estante e um tapete que desesperadamente pedia um aspirador de pó. - Agora sei por quê. - Laura levantou uma das sobrancelhas. - Você é um porco.

- Eu estava esperando... - Royce interrompeu o que ia dizer. Era lh da manhã, lembrou-se. - Sim, e daí?

- Apenas uma observação. Você tem algum vinho por aqui? Eu não bebi durante o jantar porque estava dirigindo.

- Sim... acho que tenho... - Ele estava tentando raciocinar, mas seu cérebro parecia um mingau. Quase nunca conseguia despertar totalmente alerta no meio do sono. - Você veio aqui para tomar um drinque?

- Tem algum problema? - Ela manteve o tom casual, o sorriso agradável no rosto e, julgando que a cozinha devia ficar à esquerda, caminhou naquela direção. - Você quer um pouco de vinho?

- Não. - Ele ficou parado a observá-la e passou a mão nos cabelos outra vez. - Não. Sirva-se à vontade.

- Vou me servir.

Ele obviamente costumava manter-se longe daquele aposento tanto quanto possível, pensou Laura. Estava limpo o bastante para evidenciar o pouco uso. Entretanto, encontrou uma garrafa de chardonnay na geladeira e, após uma rápida busca nos armários, encontrou um copo.

- Com certeza, aqui não há supérfluos.

- Eu não passo muito tempo aqui. - Ele encaminhou-se até a cozinha, observando-a verter o vinho.

- E imagino que todos os seus lucros são gastos em seu próprio negócio. O que seria sábio e frugal. Por acaso, é um homem sábio e frugal, Royce Cameron?

- Na verdade, não. Apenas não preciso de muitas coisas.

- Pois eu adoro muitas coisas. - Ela ergueu o copo em um brinde e bebeu. - Suponho que sou uma mulher cara. - Laura estudou-o por cima da borda do copo. Seus olhos estavam injetados. Parecia sonolento e sexy. A boca curvava-se em um mimo. A calça jeans estava desabotoada e abaixada à altura dos quadris estreitos. O peito estava desnudo e era bem defi­nido, com uma pequena cicatriz logo abaixo do ombro.

- Você conseguiu isso em seu serviço?

- Consegui o quê?

= A cicatriz. Ele olhou para baixo e deu de ombros.

- Sim. O que está acontecendo aqui, magrinha?

- Tenho uma pergunta a fazer-lhe.

- Está bem. Falso, verdadeiro ou múltipla escolha? Apenas sim ou não. - Laura fez um esforço para manter os olhos fixos nos dele. Aquele corpo compacto tinha o poder de distraí-la. - Você sabia que meu avô o contratou para garantir a continuidade da linhagem dos MacGregors? Hum?

- Apenas sim ou não, Royce. Não é tão complicado assim. Vou perguntar de outra forma. Você estava ciente quando aceitou o emprego de instalar o sistema de segurança em minha casa de que meu avô o escolheu porque você se enqua­dra nas exigências dele como um potencial parceiro para mim?

- Parceiro? O que quer dizer com isso? - O cérebro de Royce começava a clarear. - Você quer dizer... você só pode estar brincando.

- Acho que isso responde à minha pergunta. - Lauracomeçou a caminhar, mas a mão se fechou em seu braço como uma cobra.

- Você está dizendo que ele me comprou para você?

- Isso na melhor das hipóteses.

- Isso não tem cabimento.

- Assim é Daniel MacGregor. - Laura bateu de leve mão dele. - Alguns homens se sentiriam lisonjeados.

- E mesmo? - Os olhos azuis de Royce estavam apertados e flamejavam. - Não me diga!

Por entender e gostar de sua reação, Laura mais uma vez bateu de leve na mão dele...

- Você não fazia a mínima idéia das intenções dele? M avô não é exatamente um homem sutil. Ele acha que é, mas está longe de ser.

Royce retirou a mão, irritado.

- Eu tive a impressão, logo no início, de que ele esta tramando alguma coisa. Mas achei que você deveria ser terrivelmente feia.

Uma gargalhada ecoou no aposento.

- Oh, muito obrigada.

- Não. Espere. - Ele pressionou os olhos. Talvez estivesse sonhando. De qualquer forma, precisava clarear a mente - Ele mencionou o nome da neta mais velha várias vezes. Os adjetivos eram brilhante, esperta, linda, solteira. Eu achei que talvez você estivesse desesperada para... Bem desesperada. Então, quando a vi julguei tê-lo interpretado mal.

- Suponho que deva me sentir lisonjeada.

- O que está tentando me dizer é que ele armou tudo isso... !

- Meu avô quer me ver casada. E criando um monte de filhos. Ele acha que você seria um bom reprodutor.

- Que eu seria... - Royce levantou uma das mãos e deu um passo atrás. - Espere aí. Não estou no mercado para... procriar.

- Nem eu.

- O velho bastardo!

- Exatamente. Mas tenha cuidado. Nós, da família, podemos chamá-lo assim, mas não gostamos quando outros o fazem. - Laura pousou o copo. - Bem, achei que seria me­lhor esclarecer as coisas. Boa noite.

- Só um minuto. - Ele quase tropeçou para bloquear-lhe a passagem. - Veio aqui no meio da noite, jogou uma bom-ba em cima de mim e vai embora? Não senhora.

- Achei que gostaria de saber disso e também que eu fui falar com meu avô e acertar as coisas.

- Esta bem. Isso é um assunto de família. - Royce estendeu o braço e descansou a mão na maçaneta, como para mantê-la lá dentro. - E você deve saber que eu não dou a mínima para o que seu avô tem em mente. - Com a mão livre, ele agarrou-lhe os cabelos, inclinando-lhe a cabeça para trás. - Ele não está aqui agora. Seu pai também não, nem seu irmão ou suas primas. Laura sentiu o coração acelerar.

- Não. Ninguém está aqui, exceto você e eu.

- Então, por que não me conta o que tem em mente, Laura?

- Se eu tenho que lhe contar, você não tem nem um terço da inteligência que julguei que tivesse.

- Quero que você me diga, com todas as letras. Apenas um passo os separava. E Laura foi a primeira a dá-lo, fechando a distância entre eles.

- Quero que me leve para a cama. Quero que faça amor inimigo pelo resto da noite. Ficou bem claro?

- Claro como água. Royce passou um dos braços por baixo dos joelhos dela.

A respiração de Laura ficou suspensa nos pulmões enquan­to era alçada do chão. Antes que ela conseguisse enlaçá-lo pelo pescoço, sua boca foi capturada pela dele num beijo faminto. Com um suave murmúrio de prazer, ela aprofundou o beijo e chutou os sapatos para longe, enquanto era carregada em direção ao quarto de dormir.

O aposento estava envolto em sombras. Os lençóis emaranhados, e a cama rangeu sob o peso de ambos. Erguendo os braços, Laura puxou-o para mais perto é deixou o calor do beijo espalhar-se glorioso por todo o seu corpo.

Royce despiu a jaqueta que ela usava, enquanto mordiscava a pele exposta do pescoço. Ela era linda e estava ansiosa sob ele, arqueando o corpo a cada toque, sussurando a cada carícia. Ele queria saboreá-la, polegada por polegada, instante por instante. O desejo que sentia era tão violento que parecia não saciado há décadas.

Enquanto a boca carnuda e macia de Laura deslizava e misturava-se à dele, ele acariciava cada centímetro do corpo esbelto, torturando e ao mesmo tempo deleitando a ambos. Ele a ouviu gemer e sentiu-lhe o coração pulsar sob a palma de sua mão. Então, incapaz de suportar aquela doce tortura por mais tempo, arrancou-lhe a blusa. O sutiã deixava a mostra grande parte dos seios. Cetim contra seda. Com a boca, Royce explorou aquela maciez, regozijando-se com a mistura de texturas.

Laura quase gritou com a sensação dos lábios e da língua de Royce em sua carne. Mas ela queria mais, queria tudo então arqueou o corpo para oferecer-se por inteiro, enquanto deslizava as unhas pelas costas musculosas.

Tudo o que ele fazia, cada local que tocava, levava-sentir um anseio latejante. Laura não sabia que podia desejar tanto, que seu desejo poderia ser tão profundo, tão forte tão imediato. E quando sua boca foi mais uma vez capturada, não conseguiu evitar que lágrimas lhe rolassem pela face tamanha a intensidade da sensação.

Laura rolou junto com ele. Sentia o corpo fluido, energizado. A respiração saía entrecortada à medida que Royce lhe arrancava a saia. A boca tão faminta quanto a dele.

A pele de Laura era macia, quente, irresistível. Seu ca­belo, aquela cascata negra e gloriosamente brilhante, os envolvia enquanto travavam uma luta alucinada sobre a cama, tentando livrar-se das últimas barreiras. Macio aqui, firme ali, entregando-se, exigindo. Royce preenchia-se nela, tão inebriado que não notou o fato de que jamais desejou algo ou alguém com tamanha intensidade.

Quando ele a abraçou, ouviu um gemido baixo, longo e entrecortado. No lusco-fusco, observou os olhos de Laura, a princípio abertos e brilhantes se tornarem enevoados e semicerrados à medida que ele a transportava às alturas. Ela gritou seu nome e agarrou-lhe os cabelos. E, então, perdeu completamente o controle.

Laura não notou que, em algum momento, haviam rola­do para o chão, arrastando as cobertas junto com eles. O ar estava denso e pesado, pressionando-lhe os pulmões. As mãos de Royce eram ásperas e rápidas atritando contra a pele macia. Ela estendeu um dos braços como que para manter o equilíbrio. Foi quando sentiu algo se romper.

E então ele estava dentro dela, forçando-a mais uma vez a ultrapassar limites. Levando-a a um precipício onde não havia nada em que se agarrar exceto ele. Desvairada, enroscou as pernas em volta do corpo másculo, correspondendo a sua intensa velocidade e ansiando por mais, enquanto uma violenta tempestade a assolava.

Laura não conseguia ouvir mais nada, exceto o ruído do próprio sangue jorrando nas veias, não sentia nada além do prazer inigualável do corpo másculo golpeando o seu, não viu nada a não ser aqueles olhos azuis como as águas pro­fundas de um lago a observá-la.

E, naquele instante, como se pressentisse que ela precisava de uma última excitação, a boca máscula esmagou a dela, e juntos explodiram de prazer.

Royce conseguiu reunir força suficiente para girar para o lado, ficando deitado de costas no chão, com Laura colada a seu corpo ainda superaquecido. Então, julgou que morreria feliz se pudesse ficar naquela posição pelos próximos vinte anos.

- Nós estamos no chão? - A voz dela soou arrastada, abafada como se tivesse bebido uma garrafa inteira de vi em vez de um único copo.

- É verdade. Estou certo de que estamos no chão.

- Como viemos parar aqui?

- Não faço a mínima idéia. - Ele virou-se e estremeceu ao sentir uma pontada de dor. Quando conseguiu energia p levantar uma das mãos e passá-la pelo ombro notou uma pequena mancha de sangue. - Tem vidro quebrado no chão.

-Uh-huh.

- E agora tem caco de vidro em minhas costas.

- Oh. - Laura suspirou, esfregou o rosto contra o peito musculoso e em seguida sentou-se - Oh, será que alguma coisa se quebrou? Estamos nus. Vamos ficar todos cortados.

- Seja o que for que aconteça, ainda vou achar que vai a pena. - Com uma força que a fez piscar várias vezes, e a beliscou na cintura e então ergueu-a, fazendo-a sentar-se na cama. - Fique aí até que eu limpe esta bagunça.

- Acho que não devia... droga! - Laura cobriu os olhos com as mãos quando ele acendeu a luz. - Isso é vidro? Cuidado para não pisar em cima.

- Já pisei. - Ele soltou um palavrão que a fez rir.

- Desculpe-me - disse Laura imediatamente. - Nunca ouvi essas duas palavras juntas. Ela abriu um dos olhos ficou logo séria. - Royce você está sangrando.

- Em alguns lugares. Foi só um copo que se quebro Vou pegar uma vassoura.

- Vou cuidar de seus ferimentos - falou ela, com u sorriso sonhador enquanto o via sair pela porta. - Nossa, que corpo você tem!

Desconcertado, Royce parou, olhou para trás por sobre um dos ombros. Ela estava sentada em sua cama, bela, esguia e com o cabelo revolto.

- Digo o mesmo de você, magrinha - murmurou antes de sair.

Laura inclinou-se na cama e sacudia os cacos de vidro, quando ele voltou com uma vassoura e uma pá.

- Você vai ter que botar isto para lavar, pode ter vidro ainda.

- Jogue lá no canto que depois eu cuido disso. Laura levantou uma sobrancelha enquanto olhava em volta do quarto. Tinha uma cama, um guarda-roupa e uma cadeira. Ou pelo menos julgou que havia uma cadeira sob a pilha de roupa. Havia também um espelho que precisava ser substituído e uma mesa de canto com um computador e uma impressora.

- Todo o conforto de um lar! exclamou ela.

- Eu já lhe disse que não passo muito tempo aqui. - Ele jogou o copo quebrado na cesta de lixo. Em seguida deixou a vassoura e a pá encostadas à parede.

- Você costuma botar as roupas para lavar? - perguntou Laura.

- Não até que não tenha outra opção. Ela riu e bateu com a mão na cama a seu lado.

- Sente-se aqui. Deixe-me ver esse corte. - Quando ele obedeceu, Laura tocou-lhe o ombro com os lábios. - E só um arranhão.

- Se tivesse caído da cama do outro lado, agora você estaria beijando minha bunda.

Rindo, Laura repousou a cabeça nas costas dele.

- Seu pé está doendo?

- Foi um cortezinho de nada. Já tive piores. Laura virou-se e passou um dedo sobre a cicatriz no ombro dele.

- Como este aqui?

- Não esperei cobertura. Erro de cálculo. Não voltei a fazer isso.

E este aqui? - Ela tocou-lhe a cicatriz no queixo.

- Briga de bar. Eu estava bêbado demais para senti-lo e fui estúpido o bastante para provocá-lo. Também parei de cometer esse tipo de erro.

- Isso quer dizer que está aposentado, Royce? - Laura inclinou-se para frente para roçar os lábios no queixo qua­drado.

- Mais ou menos.

- Ainda bem que é só mais ou menos. - Encorajada pelo brilho de excitação nos olhos dele, Laura enlaçou-o pelo pescoço. - Detestaria que você fosse um cidadão totalmen­te correto.

- Não é isso que você é?

Laura riu e mordeu-lhe o lábio inferior.

- Mais ou menos.

- Eu diria que é mais do que menos, Laura MacGregor, descendente dos MacGregors de Boston. - Sua mão deslizou pela cintura delgada para acariciar-lhe um dos seios. - O que está fazendo na minha cama?

- Pode-se dizer que, neste exato momento, estou onde queria estar. - Ela estremeceu com a carícia. - Tenho o há­bito de perseguir aquilo que quero. Trata-se de uma pecu­liaridade da família. - Seus lábios viajaram pelo queixo dele. - E eu quero você. Quero você. Possua-me, Royce. - Laura roçou os lábios nos dele, destruindo qualquer esperança que ele pudesse ter de raciocinar com clareza. - Leve-me ao mesmo lugar para onde me levou agora há pouco.

Ele a abraçou com força contra o peito e atendeu ao pe­dido.

 

A neve assolava a Costa Leste e fazia as crianças brincarem com alegria. Ventos fortes vinham do Canadá trazendo um frio cortante. Motores estouravam, carros atolavam e as ruas viravam rinques de patinação.

Os mais corajosos e determinados lotavam os shoppings procurando presentes de Natal. Cartões natalinos chegavam pelo correio e cozinhas exalavam odores apetitosos.

Boston crepitava enquanto observava mais uma nevada.

Toda enrolada em camadas de roupa para defender-se do frio e munida com uma pá, Laura saiu para limpar o caminho que levava à garagem. O sol refletia-se no branco do solo fazendo os olhos piscarem, por isso, ela colocou também óculos escuros. A brisa fria fustigava-lhe as faces e queima­va-lhe o pescoço. E ela não poderia sentir-se mais feliz.

Por baixo do capuz da capa, usava headfones e a música inundava seus ouvidos. Canções natalinas, tão alegres quan­to seu humor Sua vida, pensou, enquanto retirava as primei­ras pás de neve, não poderia estar mais perfeita.

Ganhara seu primeiro caso na semana anterior. Uma pequena ação de danos à propriedade, de pequenas conse­qüências para o mundo jurídico, pensou. No entanto, ela enfrentara o juiz e apresentara seus argumentos. E ganhara. E tinha mais dois clientes novos que queriam fazer seus testamentos.

Estava apenas começando.

O Natal já estava a caminho e não se lembrava de estar mais animada com sua chegada. Adorava as luzes coloridas brilhando nas casas e as renas nos jardins. As árvores deco­radas por trás das janelas.

Encontrava-se até disposta a acotovelar-se com as mul­tidões para fazer as compras de Natal. Não importava que Julia e Gwen revirassem os olhos quando ela começava a cantarolar com os olhos sonhadores perdidos na janela. Até conseguia rir dos comentários das primas acusando-a de estar apaixonada.

Não estava apaixonada. Apenas se divertia com o gostinho de aventura de um romance com um homem excitante. Isso era inteiramente diferente. Se estivesse apaixonada, estaria preocupada. Sentaria perto do telefone, roendo as unhas e esperando que ele ligasse. Pensaria nele em todos os minutos do dia e planejaria todas as noites ao lado dele. Perderia o apetite, rolaria na cama e sofreria com alterações de humor.

Nada disso era verdade, decidiu, voltando ao trabalho. Bem... talvez pensasse bastante nele nas ocasiões mais inu­sitadas. Quase o tempo inteiro. Mas, definitivamente, não ficava sentada ao lado do telefone, não perdera o apetite e seu humor não poderia estar melhor.

Será que estava chateada por ele ter recusado o convite para passar o jantar de Ação de Graças em Hyannis Port? Claro que não. Sentiria a falta dele, mas não o pressionara nem criara um caso.

Portanto, Laura concluiu, enquanto jogava pás de neve por cima do ombro, não estava apaixonada.

Quando sentiu as mãos fortes em seus quadris, a pá saiu voando. Foi virada antes que pudesse soltar um gritinho estrangulado e, então, encontrou-se fitando um par de olhos azuis gelados. Notou que a cabeça e os ombros de Royce estavam cobertos de neve. E que sua boca se movia.

- O quê?

Ele meneou a cabeça e deu um longo suspiro. Em segui­da, retirou-lhe um dos fones do ouvido.

- Eu falei. "Que diabo está fazendo"?

- Retirando a neve do caminho.

Ele passou uma das mãos pelos cabelos para sacudir a neve.

- Isso eu notei.

- Eu o atingi com a última pá de neve? - Laura mordeu o lábio inferior com força e lutou para manter a voz firme.

- Sinto muito - Deu uma risada disfarçada de tosse quando o viu franzir a testa. - Eu não sabia que estava atrás de mim.

Ela desistiu. Envolveu o peito com os braços e caiu na gargalhada. - Sinto muito mesmo, mas você vive me espreitando.

- Se não estivesse com essa música tão alta nos ouvidos, seria capaz de ouvir o resto do mundo. E por que diabos está aqui fora limpando neve?

- Porque a neve está aqui e meu carro está dentro da garagem e tenho que ir para o escritório.

Ele retirou-lhe os óculos do nariz e colocou-os dentro do bolso do casaco dela.

- E acredito que não exista nas redondezas nenhum rapaz disposto a limpar a neve por uns trocados.

- Sou perfeitamente capaz de fazer isso. - Laura pôs as mãos nos quadris. - Se está sequer pensando em dizer algo insultuoso como "isso é trabalho para homem"...

Ela deixou escapar um som exasperado e abaixou-se para pegar a pá. Mas Royce pegou-a primeiro.

- Vá para dentro - ordenou ele. - E esquente-se. Eu cuidarei disso.

- Eu faço isso - Laura pegou a alça da pá, mas ele não a soltou. - É meu carro e este é o caminho de minha garagem.

- Não vou ficar aqui vendo-a limpar neve.

- Oh, e suponho que eu deveria ir para a cozinha e fazer-lhe um chocolate quente.

- Boa idéia. - Royce sabia exatamente o que estava fa­zendo. O que estava arriscando quando enterrou a pá na neve. - Pode acrescentar marshmallows. - Ele nem chegou a terminar a frase quando a primeira bola de neve explodiu atrás de sua cabeça. - Deixe a brincadeira para mais tarde, logo que eu terminar aqui.

- Não vou fazer chocolate nenhum!

- Café serve.

- Você não tem nada para fazer? Não trabalha?

- São apenas 7h30. Tenho tempo de sobra.

E precisava vê-la. Era simples assim. Tinha dito a si mesmo que era cedo demais para ir para o escritório. E, então, seu carro acabou em frente à casa dela. Permanecera alguns minutos sentado atrás do volante a observá-la. Pare­cia uma coluna de fogo contra a neve naquela capa vermelha com capuz.

Então, ficou algum tempo a olhá-la, a desejá-la. E aqui­lo o deixava preocupado.

O próximo míssil atingiu-o no pescoço. Royce ignorou-o e continuou trabalhando.

Das janelas do segundo andar, Julia e Gwen estudavam a cena com os narizes pressionados contra o vidro.

- Quanto tempo acha que vai demorar até que ele a agarre e a jogue no chão? - Gwen cogitou.

- Mais umas três bolas de neve.

- Concordo. Dez segundos até que ela seja jogada ao chão e receba um beijo de tirar o fôlego.

- Cinco segundos, no máximo - declarou Julia. - Ele trabalha rápido.

- E quanto tempo vai demorar até que ela descubra que está apaixonada?

- Oh, ótimo tiro, Laura! Essa deve ter doído e ele deve estar congelando com a neve escorrendo para dentro do colarinho. Eu diria que ela talvez descubra antes do Natal.

- Pois eu acho que ela já sabe. - Gwen deu um sorriso sábio. — Apenas é teimosa demais para admitir.

- E quanto a ele?

- Oh, ele está caidinho. Não vê o modo como a olha? Como está sempre com os olhos nela?

- Como se fosse continuar a olhá-la mesmo que Boston afundasse na baía? Sim.

Gwen deu um suspiro.

- E. Oh, lá vamos nós.

As duas primas saíram da janela quando Royce se virou c Laura deu um passo atrás.

- Vai ser um beijo e tanto - previu Julia.

Lá fora, Laura parou de jogar bolas quando o viu cami­nhar em sua direção.

- Quero essa pá.

- Quer a pá? Esta pá? - Ele a jogou para longe. Em se­guida, derrubou Laura no chão, certificando-se de deixar o próprio corpo embaixo dela para amortecer-lhe a queda.

- Idiota! - Ela estendeu um braço e pegou mais uma bola de neve. Mas antes que pudesse esfregá-la no rosto dele, Royce agarrou-lhe o braço. Laura perdeu o fôlego e estre­meceu quando a neve deslizou, fria e molhada, por seu pescoço. E então sua boca ficou ocupada demais para pro­ferir insultos.

Ele a estava beijando e substituindo o frio de seu corpo por um calor intenso, que derretia seus pensamentos e tira­va a força de seus membros. Tentou um protesto abafado e, depois, enlaçou-lhe o pescoço com os braços.

Espantou-se com o fato de que a neve embaixo deles não havia derretido em conseqüência do calor que seus corpos geravam.

- Se pensa que pode vencer-me dessa forma... - começou ela quando recuperou o fôlego.

- Já consegui. - Royce riu e beijou-a. Agora de leve. -Seu nariz está ficando vermelho.

- Que gentil de sua parte mencionar isso! - Dessa vez ela realmente esfregou neve no rosto dele. E então rindo, tentou desvencilhar-se dos braços dele, enquanto o ouvia praguejar. - Agora seu rosto todo está vermelho. E muito atraente.

Royce rolou pela neve com ela, enterrando-lhe o rosto na neve. E após três minutos de luta, ambos estavam enchar­cados, cobertos de neve e sem ar.

- Solte-me, seu bruto. - A voz de Laura saía entrecortada pelo riso.

- Primeiro idiota e agora bruto. - Ele pegou um punha­do de neve e moldou-o em uma das mãos.

Os olhos de Laura focaram-se na bola e em seguida fi­taram-no.

- Atreva-se e pagará caro por isso. Ele acariciou a bola.

- Ora, agora estou tremendo de medo! - Com ar brinca­lhão, ele esfregou-a pelo queixo dela, subindo pelas faces rosadas. Ela ficou inerte, com o queixo erguido esperando pelo pior.

O riso de Royce secou lentamente. A veia do pescoço de Laura começou a pulsar de maneira selvagem, enquanto o olhar másculo percorria-lhe a face e os dedos seguiam o mesmo caminho.

- Royce?

- Fique quieta por um momento - disse ele distraidamente, ainda deslizando o dedo pelo rosto dela. Então, baixou a cabeça e capturou-lhe mais uma vez os lábios carnudos. Laura não conseguiria falar, mesmo que sua vida dependesse disso.

Ele precisava acreditar que o que estava sentindo era porque Laura era linda. Porque tinha um rosto exótico e um corpo tentador. Mas de alguma forma sabia que não era apenas desejo. Entendia bastante de paixão, necessidade, fome. Mas aquilo era muito mais. Era tudo.

Seus lábios roçaram os dela de leve, como para testar seu sabor. E, então, demoraram-se a explorá-la.

Ele nunca a beijara daquela maneira. Ninguém jamais o fizera. Acostumara-se a notar o desejo dos homens por ela. Mas aquela ternura era algo novo e destruiu suas defesas.

A mão de Laura deslizou para o chão. Tudo o que ela era, tudo o que tinha convergia para ele, para eles, para o que criaram juntos.

Quando Royce a sentiu tremer, afastou-se imediatamente. Com mãos trêmulas, começou a sacudir a neve do cabelo dela.

- Você está gelada - proferiu com voz rouca. - Branca de neve.

- Royce...

- É melhor entrar e secar-se. - E ele precisava sair dali bem depressa, pensou, quase em pânico. Tinha que recupe­rar o equilíbrio. Ergueu-se de súbito, ajudando-a a levantar-se. - Você tem cabelos para cobrir o quarteirão inteiro e estão todos molhados. Vou terminar de limpar a neve.

O estômago de Laura estava dando nós e sua cabeça não conseguia parar de rodar.

- Está bem. - Ela queria entrar e ficar sentada até que pudesse sentir suas pernas outra vez. - Vou... ah... fazer um chocolate quente.

- Preciso fazer uma inspeção de rotina. - Royce passou por ela para pegar a pá. - O caminho está quase limpo, de qualquer forma. Tenho muitas coisas a fazer.

Não discutiriam sobre o que acabara de acontecer entre eles, pensou Laura. Em seguida, deu um longo suspiro. Melhor não falar sobre isso enquanto não entendesse exata­mente o que acontecera.

- Está bem. Mas pode entrar um pouco para secar-se.

- Estou bem. Vejo-a mais tarde.

- Mais tarde. - Laura entrou na garagem e jogou-se dentro do carro.

Estava sem fôlego quando entrou em casa e ocupou-se em tirar o casaco e desenrolar o cachecol. Colocou a capa e os fones de lado.

Estava muito calor, pensou, e retirou também o suéter. Depois, sentou-se para tirar as botas e as meias.

Ainda continuava sentindo calor. Seu corpo estava superaquecido. Sentia-se febril. Talvez estivesse ficando resfriada. Naquela época do ano, era comum. Por certo pegara algum vírus. Isso explicava o fato de seus músculos doerem e os membros tremerem.

Precisava tomar um remédio para espantar a gripe.

Então, levantou uma das mãos e, com os dedos, tocou os lábios que ainda pulsavam pelo impacto do beijo de Royce e ainda sentiam o gosto dele.

Fechando os olhos, descansou a cabeça nos joelhos e ad­mitiu o pior. Havia se apaixonado sem detectar os sintomas

Estava irremediavelmente apaixonada por Royce Cameron.

 

- Você se saiu muito bem no tribunal hoje. - Diana sorriu para a filha enquanto trabalhavam juntas na biblioteca.

- Obrigada. - Laura franziu a testa sem retirar os olhos da petição. Em seguida, fez uma anotação na margem do documento. - Adorei você ter me deixado conduzir o inter­rogatório.

- É um testemunho básico, mas ainda assim capcioso. E você o conduziu muito bem. O júri prestou atenção aos seus argumentos e, o que é mais importante, nossa cliente confia em você.

Laura sorriu.

- Amanda é sua cliente.

- Você tem ajudado muito neste caso. - Diana consultou a pilha de livros sobre a mesa. - Mas ainda temos um longo caminho pela frente.

- Está preocupada, mamãe?

- Um pouco - admitiu Diana. - Não gostaria que ela passasse um único dia na prisão, pois acredito que ela esta­va defendendo a própria vida. E, por falar nisso, também estou um pouco preocupada com você.

- Por quê? Estou ótima.

- É mesmo?

- Não poderia estar melhor. Estou fazendo exatamente o que sempre quis. Minha vida está rica e excitante. Faltam duas semanas para o Natal e pela primeira vez na vida já fiz a maioria das compras. O que poderia estar errado?

- Não mencionou Royce.

- Ele também está ótimo. - Laura baixou o olhar em direção aos papéis em cima da mesa. Estive com ele na noite passada. Saímos para jantar.

- E?

- E... foi ótimo. Adorei sair com ele. Na verdade, acho que devemos desacelerar um pouco as coisas. Nosso relacionamento estava muito apressado. E com os feriados caminho, todos estamos muito ocupados. É uma boa época para nos acalmar um pouco e avaliar a situação.

Laura deu um sorriso forçado.

- Você se parece tanto comigo! É quase assustador.

- O que quer dizer com isso?

- Querida, você não disse uma só palavra sobre seus sentimentos para com ele.

- Claro que disse. Disse que adoro vê-lo. Que gostamos da companhia um do outro. Royce é um homem muito interessante e complexo e eu... - Ela interrompeu a frase mediante o olhar inquisitivo da mãe. - E eu estou completamente apaixonada por ele. Isso não deveria acontecer Entrei nesse relacionamento de olhos bem abertos. Sou responsável por minhas reações, minhas emoções. Nosso caso deveria ter permanecido no âmbito físico. Uma relação entre duas pessoas que se gostam e se respeitam. - Laura esfregou os olhos. - Eu poderia matar o vovô por ter colocado nessa enrascada.

Diana cobriu a mão da filha com a sua.

- É tão terrível apaixonar-se por um homem excitante complexo de quem você gosta, a quem respeita e que curte?

- Sim. Quando se estabelece algumas regras no início.

- Foi o que você fez?

- Não em palavras. Foi um acordo tácito. Nenhum de nós está procurando amor, casamento ou família. Royce ficou tão chateado quanto eu quando soube do esquema do vovô. - Laura inspirou fundo. - Eu estou bem. Verdade. Apenas um pouco irritada comigo mesma. Mas posso lida com isso. É apenas uma questão de esfriar um pouco as coisas para que entrem em perspectiva.

- É uma questão de ser teimosa ou medrosa demais para arriscar seus sentimentos.

- Talvez. - Laura aceitou a possibilidade com um aceno de cabeça. - Mas não quero perdê-lo e era isso que aconte­ceria caso eu começasse a complicar as coisas. Prefiro manter o que tenho a vê-lo ir embora.

- Tem certeza de que ele faria isso? Não tenho certeza de nada. Mas decidi manter as coisas do jeito que estão, talvez com um pouco de distância. Quando tiver uma melhor perspectiva, começaremos do ponto de partida. Manter distância não será problema, com a quantidade de trabalho que tenho e os feriados... - Ela fez um esforço para alegrar a fisionomia. - Portanto, respon­dendo à pergunta inicial, estou perfeitamente bem.

De bom humor e com uma sacola embaixo do braço, Caine caminhava em direção ao escritório. Ele dera uma escapulida para pegar um colar que mandara fazer e que ele próprio havia desenhado para a mulher. Podia até visualizá-la abrindo o presente de Natal e ele mesmo retirando o colar de ouro e pedras preciosas da caixa e colocando-o em seu pescoço.

Ela ficaria feliz, pensou.

Quando avistou o homem observando a escada que le­vava ao escritório MacGregor e MacGregor, o humor de Caine obscureceu de pronto. Royce Cameron, o homem que estava brincando com sua filha.

- Cameron! Royce olhou ao redor e seu próprio humor, que já não era dos melhores, piorou. A droga dos MacGregors estava por toda parte.

- Sr. MacGregor!

- O escritório só abre às 9 horas - disse Caine friamente. - Laura está ajudando em um caso bastante complicado. Se pretende vê-la, é melhor esperar até o fim do dia.

- Não vim para ver Laura. Vim para ver sua mulher. Os olhos de Caine se tornaram duros e ameaçadores.

- Não me diga. E por acaso marcou horário?

- Não, mas acho que ela vai querer ver-me. Trata-se um assunto jurídico, sr. MacGregor, e não de uma questão pessoal.

- A agenda de Diana já está lotada. Mas eu tenho alguns minutos sobrando.

Pela primeira vez, Royce sorriu.

- Sr. MacGregor, se eu tivesse um problema legal, senhor seria o último advogado em Boston a quem procuraria. O senhor não iria querer nada além de ver-me trancafiado numa cela por no mínimo uns vinte anos, de preferência numa solitária.

- Nada disso, rapaz. Eu estava pensando em algo com trabalhos forçados em uma prisão de segurança máxima. - Mas como Caine gostava de homens com personalidade abriu a porta.

Seguiram juntos até a recepção, com suas antigüidades em madeira polida.

- Arquive isto na pasta "Natal", Mollie - disse Caine recepcionista.

- Oh, sr. MacGregor, é um colar, não é? Posso espiar?

- Só tome cuidado para que minha mulher não o veja.Depois, vá ver se ela tem um minuto para o sr. Cameron.

- E para já - Enquanto falava, a moça ia retirando caixa de veludo de dentro da sacola e abrindo a tampa. - Oh - Ela levou uma das mãos ao peito. - É o colar mais lindo que já vi. Ela vai adorar.

Distraído, Caine encostou o quadril na mesa e deu mais uma olhada no presente.

- Você acha?

- Qualquer mulher que achasse isto embaixo da árvore de Natal saberia que é adorada. Repare no brilho do sol sobre as pedras.

Frustrado, Royce observou o ex-Procurador Geral dos Estados Unidos rindo diante de uma jóia do modo como um menino riria em frente a um pote cheio de balas. E o que mais o chocava era tratar-se de um homem completamente apaixonado por uma mulher com a qual estivera casado durante um quarto de século.

Como aquilo poderia acontecer?, ponderou Royce. Qual a fórmula para aquele amor durar tanto? Como duas pesso­as conseguiriam viver juntas durante uma vida inteira e ainda se amar?

- Sem comentários, Cameron?

Royce sobressaltou-se e olhou para o colar. Era uma peça exótica, com pedras bastante coloridas brilhando contra o ouro maciço. Julgou que ficaria perfeito em Diana MacGregor. E, sem dúvida, em sua filha também.

Royce sentiu-se bastante ridículo.

- É magnífico. Mas eu não entendo muito de jóias.

- Mas as mulheres entendem - afirmou Caine, piscando para Mollie - Certo?

- Pode apostar que sim. - A moça colocou a bolsa na última gaveta do arquivo e girou a chave. - Vou interfonar para a sra. MacGregor, sr. Cameron. Sente-se, por favor.

- Ele pode vir comigo. Ligue para a minha sala se e quan­do Diana ficar livre, Mollie. - O sorriso tolo de Caine aumen­tou enquanto se voltava para Royce. - Está bem assim? .

- Claro. - Com deliberada arrogância, ele pôs ambas as mãos nos bolsos da calça jeans e seguiu Caine pela escada com um corrimão que brilhava mais do que a luz do sol.

O lugar cheirava a riqueza, foi tudo em que pensou. Odores sutis, tapetes felpudos, couro, polimento. Os lambris no hall pelo qual seguiam só podiam ser de mogno. Mas, acima de tudo, aquele local se parecia com um lar, mais do que um local de trabalho. Ficou impressionado como alguém poderia conseguir aquele efeito.

Caine entrou em sua sala e sentou-se atrás da mesa.

- Sente-se, por favor, Cameron. Bebe alguma coisa? Um café?

Royce escolheu uma cadeira de couro azul-marinho.

- Já deixei de ser policial há bastante tempo, mas ainda me lembro de como começa um interrogatório. E talvez e seja tão bom nisso quanto o senhor.

- Eu trabalhei com isso muito mais do que você. Vamos direto ao âmago da questão, se não se importa. Quais são a suas intenções com a minha filha?

- Não tenho nenhuma. Não tenho intenções, nem planos nem projetos.

- Você está saindo com ela há quase três meses.

- Isso é verdade. Imagino que ela já tenha namorado muitos outros homens.

Porém, aquele era o único homem com o qual Caine já se preocupara.

- A vida social de Laura não começou com você. Afinal, ela é uma beldade. Uma jovem linda e rica - acrescentou ele mantendo o olhar fixo nos olhos de Royce. O traço de insulto que viu neles o agradou bastante.

- Não acredito que queira seguir por esse caminho.

- Esse é um fato inegável.

- O senhor acha mesmo que me importo com a fortuna, dela? - O temperamento de Royce o fez levantar-se da ca­deira. -Acha que um homem poderia ficar com ela mais do que cinco minutos e pensar em outra coisa que não fosse ela própria? Não me interessa o que pensa de mim, mas acho que deveria pensar melhor sobre sua filha.

- Eu penso. - Mais relaxado, Caine refestelou-se na cadeira. - E agora acho que você também.

- Seu filho da mãe!

- Como bem disse, o que achamos um do outro não in­teressa. Eu amo minha filha e confio no julgamento dela na maioria das vezes. Sempre a considerei uma boa avaliadora de caráter. Ela vê algo em você e vou tentar aceitar isso. Mas não a machuque... - Ele inclinou-se para frente com os olhos faiscando. - Cause-lhe um instante de infelicidade e eu vou para cima de você com a fúria de Deus.

Quando o telefone tocou, Caine atendeu sem tirar os olhos de Royce.

- Sim, Mollie. Obrigado. - Ele pousou o fone no gancho c inclinou a cabeça. - Minha mulher espera para vê-lo. A sala dela fica logo em frente.

Como não confiava na própria língua, pois sabia que tudo o que saísse de sua boca naquele momento seria insultuoso e vil, Royce virou-se nos calcanhares e saiu.

- Autocontrole... - disse Caine e sentiu o primeiro traço de solidariedade pelo homem. - É uma qualidade admirável.

- Royce! - Diana abriu a porta ela mesma e seu sorriso contrastou com o do marido. - Que bom vê-lo! Entre e sente-se, por favor. Quer uma xícara de café?

- Não, não quero nada. - Ele repetiu entre dentes. -Não quero nada.

Furioso, pensou Diana. Relanceou o olhar para a sala em frente e controlou um suspiro.

- Está bem. Então, o que posso fazer por você?

- Nada. Não quero nada da senhora, tampouco, e nunca quis. Eu tenho informações que talvez a senhora pudesse utilizar no caso Holloway.

- Oh, por favor, sente-se.

- Não quero me sentar. Quero apenas acabar logo com isso e sair deste lugar. - Royce parou e forçou-se a inspirar fundo para se acalmar. - Desculpe-me.

- Não tem importância. Imagino que o pai de Laura tenha sido difícil.

- Não acho que devemos discutir sobre o pai de Laura ou sobre Laura, ou sobre qualquer pessoa que tenha o so­brenome MacGregor neste momento.

- Então, por que não falamos sobre Amanda Holloway?

- Eu não a conheço. Nunca a encontrei. Conheci o ma­rido dela superficialmente quando trabalhávamos no mesmo distrito policial.

- Você trabalhou diretamente com ele?

- Apenas uma vez. Atendemos a uma ocorrência juntos. Eu odeio isso - disse ele, sentando-se por fim. - Veja bem, policiais cobrem uns aos outros, porque, quando você sai por aquela porta, tem que saber que quem saiu com você está com você. Em qualquer situação.

Royce fez uma pausa e continuou.

- Recebemos uma denúncia. Briga doméstica. A pior de todas. O cara havia batido na mulher, as crianças estavam gritando. Eu prendi o cara. Holloway pegou a mulher. O rosto dela estava inchado e sangrava e ela gritava que não, iria agüentar mais aquilo do marido. Lembro-me de que ela gritava quando Holloway a segurou.

- Ele a machucou - continuou Royce após alguns segun­dos. - Eu mantinha o homem no chão, algemado, e ouvi a mulher soltar um grito. Vi quando Holloway virou-lhe um braço para trás. Foi uma sorte não ter quebrado o osso. E jogou-a de costas contra a parede. Eu lhe disse para ir com calma e ele respondeu algo como "A cadela está pedindo por isto". Que o marido tinha o direito de ensinar-lhe uma lição. E ele a esbofeteou, enquanto mantinha ambos os braços dela presos. Eu tive que deixar o marido no chão e retirar Holloway de perto da mulher.

Royce fez mais uma pausa, tentando concatenar os pen­samentos.

- Ele tinha reputação de um bom policial. Os homens gostavam dele. Holloway fazia um bom trabalho. Eu disse a mim mesmo que ele talvez não estivesse em seus melhores dias e que talvez tivesse perdido a calma por um momento. Mas não pude deixar de notar a maneira como ele encarava a mulher enquanto a esbofeteava. E no fundo sabia que, se, eu não estivesse lá, talvez tivesse feito coisa pior. Então, relatei o incidente ao tenente.

- Por acaso teria sido o tenente Masterson?

- Sim.

- Não existe menção ao incidente que acaba de descrever no relatório de Holloway.

- Porque o tenente me mandou esquecer o ocorrido. Holloway estava se defendendo de uma mulher histérica e violenta. Ele descartou o assunto e, algumas semanas mais adiante, eu fui transferido. Foi então que resolvi fazer umas investigações por conta própria. Nos seis meses que antecederam minha transferência, três chamadas para a emergência foram feitas da casa de Holloway. Briga doméstica. Os policiais atenderam às chamadas. Mas não foram feitas quei­xas e os relatórios foram arquivados.

- Eles cobrem as fileiras de corporação – respondeu Diana.

- Exatamente. E Holloway continuou a ser promovido e a bater na mulher sempre que sentia vontade.

- Você está disposto a testemunhar sobre o incidente que presenciou?

- Se for preciso. Isso não muda o fato de que ela o matou. Você vai pedir diminuição de pena e o que tenho a dizer não acrescenta muito aos relatórios médicos que dizem que ela sofreu constantes abusos ao longo dos anos.

- Mas comprova o caráter do homem, o desespero da mulher e a cumplicidade da polícia. Ela pediu ajuda várias vezes e ninguém a ajudou. Ela fez o que pôde para sobrevi­ver. Não existia ninguém para defendê-la.

- Existe você e a Laura.

- Sim. E, agora, você também. Por quê?

- Porque talvez isso possa fazer diferença e eu iria parar de pensar que podia ter feito alguma coisa. E porque é im­portante para Laura.

- E ela é importante para você.

- Eu... me importo com ela - disse Royce após um ins­tante. - Se precisar de mim, estou disponível. Agora, se me dá licença, tenho algumas coisas a fazer.

- Fiquei muito satisfeita que tenha vindo. - Diana esten­deu-lhe a mão. - De verdade.

Ela o observou partir e percebeu no mesmo instante a porta do outro lado do corredor se abrir.

- E então? - perguntou Caine.

- Ele apenas me deu alguma munição para a defesa do caso Holloway. - Diana encarou o marido. - E ele está apai­xonado por nossa filha. Assim como Laura está por ele.

- Diana, ela apenas... ela ainda é uma... - Ele inclinou-se contra a porta.

Entendendo perfeitamente, Diana atravessou o corredor e pegou o rosto do marido com as mãos.

- Ela sempre será nossa. Nada poderá mudar isso.

- Eu sei. Eu sei. - Caine suspirou fundo. - Mas ela pre­cisava escolher um rapaz que gostaria de chutar meu rabo daqui até o Canadá?

Diana riu e beijou o marido.

- E essa é uma das razões pelas quais gosta dele.

 

Dois dias antes do Natal, Laura subiu apressada a escada que levava ao escritório da Segurança Cameron. Como de costu­me, a secretária de Royce estava fora da mesa. Laura enca­minhou-se à sala dele e bateu de leve na porta. Como não obteve resposta, abriu-a e enfiou a cabeça para observar o interior.

- Tem um minuto para mim, sr. Cameron? - Laura viu que ele estava ao telefone, mas fez um sinal com a mão para que ela entrasse.

- Se tem certeza quanto a isso, posso começar logo no primeiro dia do ano. Não. - E depois, com uma expressão exasperada, prosseguiu. - Não, sr. MacGregor, não posso fazer isso. Obrigado, mas não - disse ele, esfregando a tes­ta. - Eu entendo, obrigado. Sim. Feliz Natal.

- Tinha que ser meu avô! - falou Laura quando Royce colocou o fone no gancho. - De todos os MacGregors, ele é o mais provável de causar tal reação.

- Ele finalmente escolheu o sistema de segurança que vai querer instalar. Pelo menos decidiu, por enquanto. Acho que o homem quer me deixar na corda bamba pelo resto da vida. - Royce olhou para ela e viu seu largo sorriso. - Por que está tão contente?

- Oh, por muitas coisas. Nós realmente demos um passo à frente no julgamento hoje. Seu testemunho de ontem fez uma enorme diferença.

- Ótimo.

- Eu sei que não foi um de seus melhores dias, mas ajudou bastante. E ouvi rumores de que o gabinete do pro­curador do estado vai começar a investigar Masterson. Amanda Holloway terá justiça. - Laura inclinou-se sobre a mesa e beijou-o. - Obrigada.

- Não fiz nada demais. Achei que a esta hora você já estaria a caminho de Hyannis.

- Estou indo para casa pegar as malas. Gostaria que você tivesse mudado de idéia e viesse comigo. Sabe que é bem-vin­do. - Ela arqueou uma sobrancelha. - E eu sei que meu avô vem insistindo há semanas para que você passe os feriados lá.

- Gostei do convite, mas não posso ir. Além disso, não sou do tipo que freqüenta reuniões familiares. Natal é para as crianças e as famílias.

Laura meneou a cabeça.

- Você nem armou uma árvore.

- Você me deu aquela árvore feiosa de cerâmica.

- Não é feiosa, talvez um pouco brega. É totalmente diferente. - Ela queria muito pedir-lhe mais uma vez. Achar as palavras certas para persuadi-lo a passar o Natal com ela, a fazer parte da vida dela. Porém, resolveu aceitar os termos dele. - Vou sentir sua falta.

- Vai estar cercada de pessoas. - Royce sorriu e levantou-se. - Hordas de MacGregors. O simples pensamento me deixa nervoso. Não terá tempo de sentir minha falta.

- Mas vou sentir assim mesmo. - Laura beijou-o de leve nos lábios, enquanto retirava uma caixa embrulhada com papel de presente do bolso e a entregou a ele.

- O que é isto?

- Um presente. A tradição manda. Quero que abra so­mente na manhã do dia de Natal.

- Olhe, eu não tenho...

- Royce, diga obrigado.

Apesar de se sentir o último dos homens, fez um esforço e sorriu.

- Obrigado.

- Agora diga: "Feliz Natal".

- Feliz Natal, magrinha.

- Vejo-o em alguns dias. - Laura saiu apressada, dizen­do a si mesma que era o sentimento de Natal que lhe deixa­va os olhos úmidos.

Royce sentou-se e continuou na mesma posição enquan­to o sol entrava por sua janela e até que a escuridão da noite chegasse.

Não podia mais evitar, pensou. Não podia continuar negando o que havia acontecido com ele. O que ele se tor­nara. Talvez aquilo tivesse acontecido no primeiro instante cm que a viu. Quando ela estava seminua preparada para jogá-lo para fora de sua casa com uma faca de cozinha.

Como um homem podia deixar de amar uma mulher daquelas?

Mas não importava o que sentisse por ela. Já não havia discutido consigo mesmo dias e dias sobre aquele assunto? Ela não tinha apenas vindo de um mundo diferente do dele, ela vivia nele. Era sobrinha de um presidente, neta de uma lenda financeira. Uma herdeira, como o pai que, aliás, o odiava, havia dito.

E, se aquilo tudo ainda não fosse suficiente, bastava notar que ela usava brincos de diamante, vivia em uma casa em Back Bay cheia de obras de arte e antigüidades e dirigia um carro esporte que deveria ter custado tanto quanto ele ganhava em um ano.

Fora aluna de Harvard, enquanto ele estudara em colégio público e nem ao menos havia concluído a graduação. Aqui­lo não poderia dar certo. Ele estava se iludindo, até pelo simples fato de imaginar uma coisa dessas.

Mas descobrira algo nas últimas semanas. Entendia agora o que punha aquele olhar de tolo no rosto de Caine todas as vezes que falava da mulher dele. Sabia agora o que fazia um homem sentir um amor que jamais teria fim.

Era tudo uma questão de achar a única mulher que po­deria fazer um estrago em seu coração.

Esqueça, ordenou a si mesmo. Esqueça-a e siga adiante.

Royce resolveu fechar tudo e ir para casa. O escritório parecia tão vazio e seu apartamento estaria mais vazio ainda. Por que esse fato nunca o tinha aborrecido antes? Sempre gostara do estilo lobo solitário. Gostava de entrar e sair quando bem quisesse. Agora o simples pensamento de dor­mir sozinho o deixava deprimido.

Esfregou as mãos nos olhos e imaginou quando se tor­nara um covarde. Com tanto medo de correr riscos. Afinal, ele correra atrás dela. Fora ele que tomara a iniciativa. E agora a estava perdendo porque tinha medo de que ela não; o quisesse tanto quanto ele a queria.

Aquilo era ridículo. Royce deixou as mãos tombarem ao: longo do corpo. Não ficaria sentado, entupindo-se de cerveja e sentindo pena de si mesmo. Ainda tinha algumas coisas a fazer.

Pegou o casaco que estava sobre a cadeira e saiu.

Royce estava certo em um aspecto. A casa de Hyannis estava apinhada de MacGregors. E os MacGregors faziam muito barulho. A música tocava na sala de visitas. Na sala de estar, a prima mais nova de Laura, Amélia Blade, tocava canções de Natal ao piano e juntava sua voz possante à voz de barítono de Daniel.

De algum lugar no segundo andar, vozes masculinas discutiam. Não importava o assunto, pensou Laura, qualquer que fosse seria dissecado até o fim. Em seguida, encontra­riam outro assunto para discutir.

Ela caminhou até o aposento que a família apelidara cari­nhosamente de sala do trono, em homenagem à enorme ca­deira na qual Daniel se sentava durante as reuniões de família. Lá, em frente à janela que se descortinava para as colinas, fora armada a árvore de Natal. Enorme e com todos os galhos repletos de ornamentos natalinos e luzes que piscavam. Ficaria acesa, dia e noite, até o dia de Reis. Embaixo dela, havia montanhas de presentes. À meia-noite, seguindo a tradição familiar, aconteceria um ritual de rasgos de papel, gargalhadas e amor. Acima de tudo, amor, pensou ela. Não importava o quanto brigassem, nem quan­to barulho ou confusão fizessem, aquela casa sempre estaria repleta de amor.

E como odiava pensar em Royce sozinho durante o Natal.

- Não sei como eles fazem isso - disse Caine atrás dela. Ele colocou ambas as mãos nos ombros da filha. - Todos anos conseguem achar a árvore perfeita. Desde que eu era garoto, sempre houve uma árvore de Natal bem ali. E sem­pre foi a árvore perfeita.

- Quando nós éramos pequenos e não podíamos ficar acordados até a meia-noite, costumávamos nos esconder na escadas e ficar esperando a chegada de Papai Noel da chaminé. - Laura recostou o corpo no do pai. - Não tenho nem uma lembrança triste desta casa e estava agora mesmo pensando em quanta sorte eu tenho. Eu o amo tanto! - Laura virou-se e colocou os braços em volta do pescoço do pai descansando a cabeça em seu ombro largo.

Foi o tom de sua voz que o fez levantar-lhe o queixo o acariciar seus cabelos quando viu as lágrimas aparecendo nos olhos da filha.

- O que é isso, menina? O que está errado?

- Nada. Apenas estou me sentindo tola e sentimental para a época. Não costumo ser tola e sentimental com freqüência. Você foi o primeiro homem na minha vida. E eu quero lhe dizer que nunca me decepcionou.

- Agora é você quem vai me fazer ficar tolo e sentimen­tal - resmungou Caine e apertou-a com mais força.

Ouviu-se um trovão de passos atrás deles, enquanto uma horda de pessoas descia a escada. Gritos, ameaças, insultos e risos.

- Ian e Julia começaram uma guerra de neve. - Laura deu um forte abraço no pai. - Outra boa tradição dos MacGregors.

- Quer participar?

- Claro. - Laura ergueu a cabeça e sorriu. - Nós somos capazes de abatê-los. Por que não vai na frente? Estarei Li em um minuto.

- Combinado. - Caine beijou a ponta do nariz da filhei Você também nunca me decepcionou, Laura. Tenho min­to orgulho de você.

- Sangue bom - disse ela com um sorriso. - Linhagem forte!

Ela sorria vendo o pai sair, pronto para desafiar o ex-presidente dos Estados Unidos para uma guerra de neve. Em seguida, sentou-se no braço da cadeira do avô. Em um minu­to, iria juntar-se a eles, mas primeiro precisava de um mo­mento a sós.

Faria um pedido diante da árvore de Natal, como sempre fizera quando era criança. No entanto, agora seria um dese­jo de mulher. A esperança de que algum dia, durante algum Natal coberto de neve, o homem que amava estivesse ali naquela sala com ela.

- Laura?

Sua cabeça virou de repente e por um instante julgou que estava sonhando. Depois, um sorriso radiante surgiu em seus lábios.

- Royce! Você mudou de idéia? Isso é maravilhoso! - Cor­reu até a porta e pegou-lhe uma das mãos. - Nossa! Suas mãos estão congelando. Onde estão as luvas? Venha cá, deixe-me tirar esse casaco e poderá esquentar-se perto da lareira.

- Preciso falar com você.

- Claro. - Ela continuou sorrindo, mas seus olhos se tornaram tristes. A casa não estava menos lotada de gente quanto estivera minutos atrás, mas agora reinava um silêncio absoluto. - Minha família... - começou ela.

- Não quero ser apresentado a meio milhão de MacGregors, pelo menos não antes de falar com você.

- Muito justo. - Laura ergueu a cabeça e viu vários rostos interessados. - Todos para fora - disse ela, fechando a porta e levando-o consigo para a sala do trono. - Não se preocupe, você já conhece grande parte deles, e conhecerá o restante nos próximos dias.

- Não sei se vou ficar.

- Oh, mas...

- Talvez você não queira que eu fique quando tiver ter­minado de falar.

Alguma coisa lhe apertou o estômago, porém Laura ig­norou o fato.

- Bem, pelo menos tire o casaco e deixe-me servir-lhe alguma bebida. Brandy está bom?

- Claro. Está ótimo. Qualquer coisa. - Royce retirou o casaco enquanto a observava encaminhar-se até o bar. - Isso é que eu chamo de árvore de Natal!

- Bem, não é uma árvore de cerâmica para ficar em cima de uma mesa. - Laura caminhou até ele e entregou-lhe a bebida. - Estou feliz que tenha vindo. Isso é o que vamos ver. Laura julgou que seria melhor sentar-se e, sem pensar, escolheu a cadeira de Daniel.

Aquela cadeira deveria fazê-la parecer uma anã, pensou Royce. No entanto, ela parecia uma rainha preparada para dar uma sentença. Mas ele não se chamaria Royce Cameron se deixasse sua cabeça numa bandeja sem, pelo menos, uma boa briga.

- Se alguma coisa o aflige - disse ela com cuidado - fale.

- Sim. É fácil para você dizer isso. - Ele começou a caminhar pela sala e colocou o cálice de brandy sobre a cornija da lareira. - Fui eu quem teve que dirigir até aqui e entrar em território inimigo.

Laura teve que rir.

- Território inimigo? Seu pai me odeia.

- Oh, Royce, não é verdade. Ele apenas...

- Não tem importância. - Ele continuou caminhando. - E por que não deveria me odiar? Não estudei em Harvard, não tenho uma casa na cidade, sou um ex-policial tentando iniciar um negócio próprio e estou dormindo com a filha dele. Em seu lugar, já teria providenciado alguém para me matar.

- Meu pai não é um esnobe.

- Não precisa ser. Os fatos estão aí à vista de todos. É essa a realidade. E, mesmo que você deixe tudo isso de lado, não foi esse o trato.

- Que trato?

Royce balançou a cabeça, sem parar de caminhar. Em seguida, parou e encarou-a.

- Eu quero... eu tenho que... eu preciso de um minuto - Caminhou até uma das janelas. Lá fora, pelo menos uma dúzia de pessoas jogava bolas de neve umas nas outras. - não entendo nada sobre este tipo de família - murmurou ele quase para si mesmo. - O meu negócio está começando. É o que estou fazendo. - Royce virou-se, mas decidiu que seria mais fácil se continuasse caminhando. -Não ligo mínima para o seu dinheiro. Não me interessa se você tem cinco dólares ou cinco milhões.

Laura estava perplexa. As palavras em si mesmas era bastante enigmáticas. Mas ele parecia infeliz, zangado e, p incrível que pudesse parecer, nervoso.

- Eu nunca pensei que estivesse interessado em me dinheiro.

- Então você sabe - resmungou ele, meneando a cabeça.

- Posso me sustentar. Fiz isso a vida toda. Você está acostumada a ter mais e isso não é problema para mim. Você deve continuar tendo o que sempre teve.

- Ótimo. Fico contente que pense dessa forma, pois certamente pretendo que seja assim. - Laura levantou-se. - Royce, gostaria que fosse direto ao ponto.

- Estou tentando. - Os olhos dele soltavam faíscas pe­rigosas. - Estou tentando. Acha que é fácil para mim? Nunca planejei isso. Nunca quis isso. - Royce caminhou até ela. A fúria saltando-lhe dos olhos. - Quero que entenda bem o que estou dizendo, magrinha. Eu nunca quis isso.

- Quis o quê?

- Não ser capaz de passar um único dia sem você em minha cabeça. Estender a mão para alcançá-la à noite, quan­do você nem mesmo está lá. Precisar ouvir sua voz, apenas para ouvi-la. Apaixonar-me por você.

- Apaixonar-se por mim? - repetiu ela, e afundou mais uma vez na cadeira. - Você está apaixonado por mim?

- Agora me escutou. Estou completamente apaixonado por você. Eu sei que sente alguma coisa por mim ou não me teria deixado tocá-la. Talvez tenha começado apenas como uma química, mas é muito mais... e se me der uma chance...

- Royce...

 -Droga, Laura, vai me ouvir ou não? - Ele teve que se afastar para retomar o controle. Sentia-se como se estivesse uns dez metros acima do solo e caminhando em uma corda bamba. - Nós damos certo juntos e sei que posso fazê-la feliz. – Ele fez uma pausa. - Seu avô está do meu lado.

O calor que aquecia o coração de Laura esfriou num instante.

- Esse não é um bom argumento.

- Mas vou usá-lo assim mesmo. Ele acha que sou bom o suficiente para você e que não sou trapaceiro. E eu amo você. Amo tudo o que lhe diz respeito. E estou até disposto a tentar viver com sua família. Isso deveria bastar para qualquer um. Royce colocou a mão no bolso da calça e retirou de lá uma caixa pequena. - Tome - disse ele e entregou-a a Laura.

Ela pegou-a, sacudiu-a e então, retendo o ar nos pulmões, abriu-a. Seu coração acelerou ao ver o lindo rubi brilhando contra o anel de ouro.

- Achei que um diamante seria muito previsível para você - murmurou ele. - Para nós.

- Isto é um pedido de casamento, Royce? - Estava feliz por sua voz ter saído sem gaguejar enquanto o coração es­tava em algum lugar da estratosfera.

- É um anel, não é?

- Sim. Isso mesmo. E um lindo anel. - Ela ergueu o olhar da jóia e encarou-o bem dentro dos olhos.

- O quê? Não é suficiente?

- Tolinho. Estou esperando.

- Você está esperando? Eu é que estou esperando. Laura suspirou.

- Está bem. Vamos tentar desta maneira. Eu não planejei isto. Eu não queria isto. Não foi esse o trato. Mas estou apaixonada por você.

Royce havia aberto a boca, pronto para argumentar. -Hum?

- Escute o que estou dizendo. - Satisfeita, inclinou-se para trás na cadeira e estendeu uma das mãos. - Você é um homem extraordinariamente atraente. Tem seu próprio ne­gócio e, apesar de, às vezes, não dar valor a si mesmo, possui um ego exacerbado e um ótimo cérebro. - Fez uma pausa e continuou. - E descende de uma linhagem forte. Acredito... se formos usar essa sua frase idiota, que você é bom o bastante para mim.

- Você está apaixonada por mim? - foi tudo que Royce conseguiu proferir.

Laura imaginou se alguma vez, na longa vida que estava planejando para ambos, ela o teria em tamanha desvantagem.

- Sim. Estou desesperadamente apaixonada por você, Royce. E fui bastante corajosa e estóica aceitando o fato de você não me amar. Mas desde que você me ama, agora é diferente. E, se tivesse o bom senso de me pedir para casar com você em vez de jogar uma caixa com um anel em minha mão, eu teria dito sim.

Royce continuava a encará-la, mas seu cérebro era uma folha em branco. E seu coração... seu coração estava perdido.

- Eu tinha preparado ótimos argumentos para convencê-la...

- Quer que eu os ouça agora?

- Não. - Ele inspirou profundamente. - Não vou me ajoelhar a seus pés.

- Espero que não. - Laura levantou-se e entregou-lhe a caixa. - Tente outra vez.

Não foi difícil dizer, pensou Royce, quando o coração se encontra cheio de palavras.

- Eu a amo, Laura - Ele tocou-lhe os cabelos na altura da têmpora, mantendo os olhos fixos nos dela. -Amo você. Quero uma vida inteira com você. Quero construir uma família com você. Quero passar as próximas sessenta manhãs de Natal com você. Quer se casar comigo?

- Oh, isso foi muito bom! - Pela primeira vez, sua visão ficou turva. - Quero meu anel e quero que você me beije. Então tudo ficará perfeito.

- Diga sim primeiro.

- Sim. Mil vezes sim. - Jogou-se nos braços fortes de Royce e prendeu sua boca à dele. Foi mais do que perfeito.

- Estou tão feliz de tê-lo encontrado quando nem o estava procurando! - Deixou a primeira lágrima rolar pela face, enquanto ele colocava o anel em seu dedo. - Tinha feito um desejo um minuto antes de você chegar e aqui está você.

- Aqui estamos nós - murmurou ele. A porta da frente bateu. Alguém gritou enquanto se ouvia um estrondo de passos no corredor. - Cercados!

- Eles também vão amar você. - Laura deu uma risada e passou-lhe a mão pela face. - Eu o amo e Daniel MacGregor está do seu lado. - Seus olhos brilhavam enquanto se inclinava sobre ele. - Vamos contar a ele. Normalmente eu iria querer vê-lo sofrer um pouco, mas é Natal. Ele vai ado­rar o presente de saber que estava certo.


Das Memórias Secretas de Daniel Duncan MacGregor

A família de um homem é seu bem mais precioso. É também sua mais solene responsabilidade. Nunca me eximo de mi­nhas responsabilidades e cuido muito bem do que é meu.

Assisti ao casamento de minha neta mais velha. Que noiva linda! Ardente, luminosa em seu vestido longo, usan­do o véu que pertenceu à bisavó sobre os brilhantes cabelos negros.

Nossa Laura formava uma imagem tão linda, que tive de segurar minha Anna bem perto de mim e confortá-la. Às vezes ela se torna sentimental.

Foi, para mim, um momento de grande júbilo e satisfação pessoal. Oh, eu observei o olhar de meu filho Caine brilhar - o pai orgulhoso - enquanto levava Laura até o altar e a entregava ao homem que se tomaria seu marido. O homem que eu escolhi pessoalmente. Mas vamos manter segredo sobre isso.

Os jovens tendem a ficar aborrecidos com o que julgam, de modo errado, ser intromissão.

E, nesse perfeito dia de primavera, eu pude observar o sorriso de Caine e ri comigo mesmo, enquanto ele trocava tapinhas nas costas de seu novo genro. Até sequei uma lá­grima de meus olhos quando Ian, como irmão da noiva, fez um brinde aos noivos.

Oh, foi um dia feliz para o clã MacGregor!

Meu trabalho estava concluído. Laura e Royce serão felizes e espero que estejam providenciando uns belos bebês para a avó deles embalar sobre os joelhos. Anna está ansio­sa por um bisneto.

Agora posso voltar minha atenção à doce Gwen.

Linda como uma princesa a minha Gwen, orgulhosa e de natureza séria e coração romântico. E que cérebro! Deus a abençoe, a criança é mais brilhante que o sol. Mas, ela se parece com a avó e não vê que precisa de um homem a seu lado e filhos para lhe dar alegria.

Portanto, é meu dever providenciar para que ela encontre o homem certo. Um homem de substância. Já o escolhi para cia. Linhagem boa e sólida. Ele possui um bom cérebro e um bom coração. Eu não iria querer nada menos que isso para Gwen e não me chamaria Daniel MacGregor se a dei­xasse escolher alguém que não a merecesse.

Isso vai levar um pouco de tempo, mas eu ainda tenho tempo. Um homem que já viveu tanto quanto eu sabe tudo sobre escolher os momentos oportunos. Posso ser paciente. Vai demorar alguns meses para que eu funde as estruturas. Sou um homem que aprecia a importância de uma fundação boa e só­lida, quando se pretende construir algo que vai durar.

Aposto que minha Gwen estará planejando seu casamen­to pela época do Natal. E não vou querer agradecimentos por isso. Não, agradecimentos não são necessários. Eu cui­do do que é meu.

Mas não precisaria cuidar deles se eles cuidassem de si mesmos.

 

- No três. Um, dois três! - Gwen e a equipe da sala de emergência removeram o homem de 90 quilos da maça para a mesa. Bem treinados, agiam em sincronia, com movimentos precisos e discretos à medida em que ela proferia as ordens.

- Entube-o, srta. Clipper - Gwen sabia que a quartanista de medicina era esperta e possuía mãos ágeis. Ainda assim, observava atentamente elas trabalharem, enquanto a enfer­meira especializada em traumatismos cranianos estancava o sangue e rasgava o jeans do homem inconsciente.

Gwen avaliava o paciente, armazenando na mente os sinais vitais que observava e emitia ordens aos demais, enquanto as próprias mãos trabalhavam velozes.

- Motocicletas - murmurou ela. - Olá, morte.

- Pelo menos ele estava usando um capacete - observou Audrey Clipper, deixando escapar um suspiro quando o tubo deslizou pela traquéia. - Entubado.

- Seria melhor se tivesse usando uma armadura no cor­po inteiro. Vamos fazer gasometria e toxicologia. Pelo cheiro, parece que ele estava festejando. Gwen ajustou os óculos protetores e continuou trabalhando na perna.

Tinha de ser rápida, mas as mãos e a mente se mantinham frias e firmes. A ferida funda na perna se estendia do torno­zelo ao joelho, expondo o osso partido. Era seu trabalho estabilizar o paciente, deixando-o apto para o procedimento cirúrgico com rapidez e eficiência. E vivo.

Da sala contígua, uma mulher continuava a gritar e so­luçar, chamando indefinidamente por Johnny num tom de voz capaz de perfurar os tímpanos.

- Este é o Johnny? - indagou Gwen, lançando um olhar de soslaio ao vidro que separava as duas salas de emergência.

- John Petreski, 22 anos - informou uma das mais anti­gas da equipe.

- Muito bem, vamos fazer com que ele seja capaz de dan­çar no seu próximo aniversário. Lynn, ligue para o Centro Ci­rúrgico e comunique o que estamos enviando para eles. Fyne, assuma aqui enquanto verifico a histérica da sala dois.

Gwen disparou pela porta que conectava as duas salas, retirando o avental e as luvas.

- O que temos aqui? - indagou rispidamente, enquanto pegava um novo paramento protetor.

- Contusões e lacerações. Estamos aguardando o raio X. Deslocamento da omoplata. - O residente tinha de elevar a voz para suplantar os gritos histéricos.

- Qual o nome dela?

- Tina Bell.

- Tina - repetiu Gwen, inclinando-se sobre a paciente, de modo que sua face dominasse a visão da mulher. - Tem de se acalmar. Deixe-nos ajudá-la.

- Johnny. Johnny está morto.

- Não, não está. - Gwen não retraiu a mão, quando a paciente a tomou na suas, apertando-a até lhe doer os ossos, mas desejou fazê-lo. - Vai ser submetido a uma cirurgia, listamos cuidando dele.

- Ele está ferido. Muito ferido.

- Sim, e nós vamos cuidar dele. Tem de me ajudar ago­ra. Quanto ele bebeu?

- Apenas algumas cervejas. -As lágrimas turvavam os olhos de Tina e misturavam-se à fuligem da rua e ao suor da face afogueada. - Johnny!

- Algumas? Temos de saber ao certo para podermos tratá-lo.

- Não sei. Talvez seis ou sete. Quem estava contando?

- Drogas? Vamos, Tina.

- Dividimos alguns cigarros de maconha. Poucos. Johnny!

Através do painel de vidro, Branson Maguire observava o que lhe parecia um bale. Movimentos, trabalho em equipe trajes e luzes. E a mais cintilante, pensou, era a loura delicada no hediondo uniforme verde-ervilha e jaleco descartável.

Não conseguia visualizar os olhos. Os largos óculos protetores os encobriam, bem como metade da face delicada. Ainda assim, sabia qual era a aparência da ágil mulher. A dra. Gwendolyn Blade, pródiga herdeira, filha de um jogador de origem comanche e de outra pródiga herdeira. Uma MacGregor.

Vira a foto de Gwen nos jornais, tablóides e televisão, durante os anos de campanha presidencial do tio e durante os oito anos em que ele ocupara a mais importante casa do país. Também vira à face delicada estampada numa fotogra­fia, junto com outras fisionomias na compacta mesa do avô, Daniel MacGregor, o construtor de impérios.

Embora Branson se considerasse um observador perspi­caz, não esperava que ela fosse tão... magra, concluiu. De­veria estar trajando fios de seda e concedendo desejos como uma fada e não aprisionada num uniforme manchado de sangue, lutando para salvar vidas.

Ela se movia como uma bailarina, refletiu. Os gestos, repletos de uma graciosidade ímpar, denotavam eficiência. Os cabelos, de um tom entre o ruivo e o louro sob as luzes fortes, eram curtos como os de um rapaz e a franja pontuda se espalhava pela testa. Por estilo, imaginou, ou praticidade? Aquela seria uma interessante descoberta. Permaneceu onde estava, com as mãos enfiadas confortavelmente nos bolsos da calça de algodão, observando-a como tudo mais à sua volta. Aquela era de suas maiores habilidades. Observar atentamente. Não se importava em esperar pelo que viesse a seguir.

Gwen percebeu a presença dele. A face por trás do vidro. Cabelos negros que chegavam na altura do colarinho do suéter azul-marinho. Olhos frios e acinzentados, que rara­mente pareciam piscar e lábios que quase nunca se curvavam em um sorriso.

Um homem que se bastava por si só, mas ela não tinha tempo para devaneios, ou para lhe devotar mais do que um pensamento passageiro.

Mas, quando Gwen estabilizou ambos os pacientes e os viu passar pela porta a caminho do tratamento adequado, ele ainda estava lá. Teve de se deter quando Brason bloqueou-lhe a passagem.

- Dra. Blade? Gwendolyn Blade.

A sombra de um sorriso perpassou a expressão impassí­vel. Apenas um curvar dos cantos dos lábios a fez concluir que estava errada. Aqueles olhos não eram frios, mas som­brios e cálidos, como o tom de voz.

- Sim. Posso ajudá-lo?

- Essa é a intenção. Sou Branson Maguire.

Gwen aceitou a mão que lhe foi estendida num gesto automático, mas ele não a soltou.

- Sim?

- Ai! - O sorriso era ao mesmo tempo charmoso e auto-depreciativo. - Feriu meu ego. Acho que não tem muito tempo para ler.

Ela estava cansada e ansiava por cinco minutos para descansar e repor as energias com uma xícara de café. E acima de tudo, queria sua mão de volta.

- Desculpe-me, sr. Maguire. Eu não... - Mas enquanto desvencilhava a mão conseguiu se lembrar do nome. - Oh, sim. Detetive Matt Scully, de Boston P.D. Li seus livros. Criou um personagem interessante.

- Scully está fazendo um bom trabalho para mim.

- Estou certa disso. Porém, no momento não disponho de tempo para discutir personagens populares. Portanto se me...

- Eles são cor de lavanda.

- Como?

- Seus olhos. - Ele fixava o olhar em seu rosto de uma forma que em outro homem pareceria rude. Mas nele aparentava um gesto natural. - Estava imaginando se não seria apenas um truque do reflexo da luz. Mas eles não são azuis. São cor de lavanda.

Um arrepio de irritação perpassou-lhe a nuca.

- Estão descritos como azuis na minha carteira de motorista. Agora, como disse, estou um tanto atarefada.

- Seu plantão não termina às 2 horas? São quase 3 horas.

Num gesto instintivo, Gwen retraiu-se. Uma defesa automática de quem, por história familiar, vivera a maio parte da vida sob os holofotes.

- Como pode saber sobre meu horário?

Não apenas gelo, pensou Branson, impressionado. Mas uma geleira imensa. Aquela fada parecia ter garras afiadas.

- Ah, devo deduzir que não estava me esperando?

- Não. Deveria? - Volveu o olhar quando a maca de Tina passou.

- Doutora! Doutora! Quero ver Johnny. Tenho de vê-lo.

- Com licença - dizendo isso, Gwen virou as costas e se afastou.

Branson não pôde deixar de perceber a voz fria tornar-se cálida e macia de imediato. A jovem que estava sendo removida na maca, anuía e soluçava ao mesmo tempo.

- Comportamento delicado, doutora - elogiou Branson quando ela se aproximou outra vez.

- Estava dizendo que eu o deveria estar esperando esta manhã?

- Seu avô disse-me que acertaria tudo.

- Acertaria tudo? - Gwen sentia-se cansada. Fechou os olhos por instantes. - Preciso de um café - murmurou. - Acompanhe-me.

Com um giro no jaleco que trajava, virou-se e marchou ao longo do corredor. Dobrou à esquerda, disparou por uma porta e entrou em um saguão. Branson deslizou o olhar ao redor, observando o ambiente. Registrando na mente as cores melan­cólicas, as cadeiras baratas, as fechaduras grosseiras, o baru­lhento e antigo refrigerador, o aroma de café envelhecido que não conseguia mascarar o cheiro latente do hospital.

- Aconchegante.

- Quer café? Claro. Preto.

Gwen retirou o bule do aquecedor e encheu duas xícaras. E, por conhecer o sabor do café de baixa qualidade de que dispunham, adicionou um torrão de açúcar ao dela.

Branson aceitou a xícara que ela lhe oferecia e fez uma careta.

- É bom que eu esteja em um hospital. Fazem lavagem estomacal, não?

- É uma de minhas maiores especialidades. Preciso sentar um pouco. - E assim o fez, cruzando as pernas e tentando mover os pés dentro dos sapatos baixos e práticos.

- Bem, sr. Maguire. Bran.

Desculpe-me pelo inconveniente. Meu avô é... bem, de é o que é.

- É o homem mais incrível que jamais conheci.

Gwen não pôde deixar de sorrir ante tal afirmação e aquilo lhe aqueceu o olhar, enquanto ele tomava assento no sofá puído ao lado dela.

- Sim. Meu avô é um homem incrível. Mas é também centrado em seus meios, métodos e objetivos. Estou certa de que é agradável, e como disse, admiro seu trabalho, mas não estou interessada.

- Hum-hum - fez Branson, arriscando outro gole no café. - Em quê, exatamente?

- Em encontros - disparou ela, deslizando os dedos longos pelos cabelos. - Vovô acha que não dou a devida atenção à minha vida social, mas está enganado. Dou a importância que acho que merece. Encontros não constam nela atualmente.

- Oh? - Intrigado, Branson ergueu a sobrancelha e recostou-se no braço do sofá. As sombras escuras sob osolhos quase combinavam com a fascinante cor da íris, e afazia parecer tão delicada e atraente quanto uma fibra devidro. - Por quê?

- Porque estou no meu segundo ano de residência de cirurgia e tenho outras prioridades. Além disso - acrescentou com um estalido de língua. - Não namoro homens que meu avô tenha selecionado para mim. E você não me parece o tipo que precisa que um senhor de noventa e um anos esco­lha suas namoradas.

- Talvez deva tomar isso como um elogio - declarou Branson passados alguns instantes. - Portanto, obrigado. -Em seguida, sorriu. Um reflexo de humor que lhe provocava covinhas nos cantos da boca. - Não estava planejando convidá-la para sair, mas agora terei de fazê-lo. Apenas para confortar meu ego.

- Você não... - Gwen suspirou, tentando manter a calma. O cérebro parecia estar cedendo ao cansaço, concluiu. O plantão dobrado a esgotara. - Então o que faz aqui?

- Pesquisa. - O homem atraente exibiu um sorriso char­moso. - Ao menos este é o objetivo. Estou começando a es­crever um livro... e necessito de informações médicas e hospitalares. Algo como os bastidores e a atmosfera da área de saúde. Cores, termos técnicos, ritmo de trabalho, esse tipo de coisa. Daniel disse-me que poderia me ajudar, deixando-me circular pelo ambiente hospitalar por algumas semanas, ob­servá-la trabalhar e incomodá-la com perguntas.

- Compreendo - falou Gwen, deixando a cabeça repousar sobre o encosto do sofá e fechando os olhos. - Isso é emba­raçoso.

- Acho ótimo. Então, que tal? Quando sairá comigo para saborear um café decente, fazer sexo, casar, ter três filhos, comprar uma casa imensa e um cachorro grande?

Gwen descerrou as pálpebras e esboçou um sorriso.

- Não, obrigada.

- Muito bem, não quer tomar café. Sou flexível. Mas fuço questão do sexo antes do casamento.

O sorriso da médica se alargou e ela deixou escapar um suspiro cansado.

- Está tentando fazer com que me sinta melhor ou ainda mais ridícula?

- Os dois. - Branson pousou a xícara. Não valia a pena destruir a mucosa do estômago com aquele tipo de cafeína, É uma mulher muito bonita, Gwendolyn. Estou lhe dizen­do isso, pois se eu vier a assediá-la, não quero que pense que estou tentando ganhar pontos com seu avô.

Gwen continuou a sorrir, mas tão afiada quanto um bisturi.

- Os homens que tentam me assediar acabam precisando do tratamento médico. Estou lhe dizendo isso, caso precise renovar seu plano de saúde.

- Ok. E quanto à ajuda para minha pesquisa? Minha proposta é observar a sala de emergência durante algumas semanas, mantendo-me, é claro fora da linha de ação dos profissionais. Farei perguntas quando for conveniente para você e a equipe. Pesquisarei com você alguns ângulos que espero utilizar. Estará livre para rejeitá-los ou sugerir ajustes para que soe mais real.

Tudo o que Gwen desejava era um travesseiro, um co­bertor e uma sala escura e silenciosa.

- Está livre para observar. Mesmo que eu objete, pode ir a instâncias maiores, o que aliás, já fez. Meus avós têm grande influência neste hospital.

- Se não quiser cooperar, posso recorrer a outro hospital. Há muitos em Boston.

- Estou sendo rude. Sinto-me cansada. - Ergueu as mãos-e massageou as têmporas, tentando melhorar o humor Aquele homem não tinha culpa de tê-la procurado no final de um plantão particularmente infernal. - Não terei proble­mas em ajudá-lo com a pesquisa... conquanto que não atra­palhe meu trabalho ou o de ninguém na sala de emergência.

- Responderei às suas perguntas quando tiver tempo e instruirei os demais da equipe para colaborarem também... quando estiverem disponíveis.

- Fico grato. E se, depois que tiver concluído, convidá-la para jantar ou lhe comprar uma pequena lembrança para mostrar minha gratidão, precisarei de cuidados médicos?

- Tentarei me controlar. Estarei no turno da noite pela próximas três semanas.

- Sem problemas. Gosto da noite. Está exausta - murmurou, assaltado pela vontade de puxá-la para si, para que ela descansasse a cabeça em seu colo e dormisse.

- Quer uma carona para casa?

- Estou de carro.

Branson inclinou a cabeça.

- A quantas pessoas já atendeu na emergência por terem dormido atrás do volante?

- Bem pensado. Dormirei aqui.

- Fique à vontade. - Ele se ergueu, baixando o olhar para fitá-la. Os olhos cor de lavanda estavam pesados, quase se fechando. As sombras delicadas sob eles pareciam ter se aprofundado.

- Tente dormir por pelo menos oito horas, doutora. Voltarei amanhã - dizendo isso, encaminhou-se à porta, mas logo estacou, voltando-se para encará-la. - Mais uma coisa... Tenho cobertura total no meu plano de saúde.

Branson adentrou o hall, percebendo que, pelo menos naquela noite, a saía de emergência estava calma às 3 horas, da manhã. Continuou caminhando, arquivando na mente ai posição da mesa da recepção, o número de computadores e o som do próprio solado contra os ladrilhos do piso.

O vento de novembro fustigou-lhe o rosto quando saiu para a rua. Os cabelos lhe resvalavam os olhos, enquanto retirava a chave do carro do bolso.

Mais um ponto, dra. Dish, refletiu. Um homem seria um idiota se não a assediasse. E o filho de Meg Maguire não era um tolo.

Sentou no banco já ajustado para acomodar as pernas compridas em seu Triumph conversível clássico. Girou a chave na ignição e sorriu com o roncar do carro. Era o tipo de homem que amava um motor potente.

E, a despeito da aparência de fada, percebeu que Gwendolyn Blade era um motor potente.

Deslizou um CD no compartimento apropriado, e a me­lodia de Verdi ecoou no interior do veículo. Durante o per­curso, começou a conspirar de uma forma que faria Daniel MacGregor ficar orgulhoso.

 

Já passava das 10 horas da manhã quando Gwen destrancou a porta da casa em Back Bay. Uma chuva fina e gelada fazendo-a correr para o interior da residência para se aquecer.

Não se importou em chamar alguém. Sabia que a primaJulia estaria fora, negociando algum imóvel. E a terceira moradora da casa, Laura MacGregor, mudara-se meses antes quando casara com Royce Cameron.

Ainda sentia falta da prima. As três moravam juntas anos, além de terem crescido sempre unidas. A tríade mudara-se do campus da faculdade para uma das primei casas que Julia adquiriu, quando começou seu negócio.

Saber que Laura se encontrava plenamente feliz e realizada lhe bastava, mas ainda se surpreendia lançando olhar para a escada curva, além do vestíbulo, na esperança de Ia descendo apressada.

Dobrou a capa sobre o pilar do corrimão. Tinha a tarde inteira livre, concluiu, e havia dúzias de coisas às quais poderia se dedicar. Incluindo um banho quente e demorado com direito à espuma, decidiu. Mas antes comeria alguma coisa. Encaminhou-se à cozinha, esfregando a nuca dolorida, resultado das quatro horas que dormira no sofá do sagüi em vez de descansar nas camas portáteis da sala de descanso médico.

Pediria a um dos fisioterapeutas que lhe fizesse uma massagem completa nos ombros e pescoço antes de inicio do próximo plantão.

Sentiu o cheiro das rosas antes de visualizá-las. Parecia haver três dúzias delas, pálidas como a neve. Os talos longos comprimidos num maravilhoso vaso de cristal.

Deveria ser de um dos pretendentes de Julia, presumi permitindo-se inspirar a fragrância suave e suspirando em seguida sobre os botões de rosas. O coração romântico linha uma queda por aquele tipo de flor e por gestos extra­vagantes.

Encaminhou-se ao refrigerador sem esperança de encon­trar algo apetitoso. Desde que Laura se mudara, as sobras eram invariavelmente escassas. Costumavam dizer que Julia nunca comia, Laura sempre comia e Gwen comia apenas o que colocavam à sua frente.

Sem muito entusiasmo, retirou um iogurte do refrigera­dor e examinou a data de validade. Bem, o que era uma semana quando se tratava de leite coalhado, pensou, reti­rando o invólucro de alumínio. Fechou a porta da geladeira e pegou o bilhete que estava pregado nela para ler enquanto comia.

Gwen, quantas flores! Que outros segredos está escon­dendo de mim? Interrogo você mais tarde. Há duas mensa­gens para você na secretária eletrônica. Vovô. Não me pergunte. E um homem de voz sexy chamado Bran. O homem das flores? Humm! Estarei de volta às 6 horas da tarde. Talvez. Jules.

Franzindo a testa, Gwen releu o bilhete e, em seguida, voltou o olhar às flores. Observou o pequeno envelope que se encontrava entre os talos. Retirou o plástico que o prendia, deu de ombros e abriu o envelope.

Parecem fazer o seu estilo.

Com meus agradecimentos antecipados pela ajuda.

Bran

- Oh! - Não pôde suprimir a vertiginosa vibração, en­quanto observava as rosas. - Minhas - murmurou, e inclinando-se sobre o buquê, inspirou profundamente. Em se­guida, retraiu-se dando um passo atrás. Três dúzias de rosas brancas de talo longo em novembro era, sem dúvida, um exagero. Um magnífico exagero, entretanto...

Teria de ser mais direta em desencorajá-lo. Vovô, refletiu, o que está pretendendo e o que fez?

Girou para acionar a secretária eletrônica que piscava com os recados e não pôde deixar de conter o riso quando voz de trovão de Daniel encheu o ambiente.

- Detesto essas parafernálias eletrônicas. Ninguém fala com ninguém, apenas tagarela com uma máquina. Por que nunca estão em casa? Gwen, tenho um jovem amigo que está precisando de ajuda. E um escritor, e dos bons. Mas é um irlandês, portanto, o que se podia esperar? Sabe bem matar pessoas a torto e a direito e depois perseguir assassinos malucos. Pode dar uma pequena ajuda, não, querida? Apenas um favor para seu avô. É um bom rapaz. A mãe dele cursou a faculdade com a sua, portanto não é um completo estranho. Julia conversei com seu pai. Ele me disse que está comprando outra casa. Essaé a minha garota! É muito sacrifício telefonar para sua avó de vez em quando? Ela fica preocupada.

Gwen soltou uma gargalhada, passando os dedos pelos cabelos. Uma mensagem típica de Daniel MacGregor, pen­sou, bradava a pleno pulmão. Mas parecia bastante inocen­te. O filho de uma amiga de sua mãe. Muito bem. Parecia não haver conluio ou armação de nenhum tipo por trás da­quilo. Apenas um favor e fácil de ser concedido.

Satisfeita, pegou o pote do iogurte outra vez, retirou uma colher do armário e apertou o botão da secretária eletrônica, para ouvir a mensagem de Branson.

- Gwendolyn. - Ela estacou com a colher próxima aos lábios. Havia algo no jeito como aquele homem pronuncia­va seu nome, pensou. Utilizando de forma romântica toda a extensão dele em vez do rápido e prático, Gwen. - É Bran­son Maguire. Espero que tenha conseguido dormir. E que goste de rosas brancas. Estive pensando, se estivesse dispo­nível, gostaria que me reservasse uma hora durante o dia de hoje. Poderia convidá-la para almoçar ou jantar, mas não quero provocá-la outra vez. Gostaria apenas de conversar algumas coisas com você. Se for possível, telefone-me. Estou planejando passar o dia em casa. Senão, nos encon­tramos à noite.

Gwen não se deu ao trabalho de anotar o número. Tinha certeza de que se recordaria. Pensativa, levou uma colherada do iogurte à boca. Era um pedido razoável, supôs. Não havia nada de galanteador no conteúdo ou no tom de voz. Rindo de si mesma, ingeriu outra colherada. Que papel tolo, analisando cada nuance. Fora exatamente aquela atitude que lhe causara o embaraço da noite anterior.

O homem era um profissional, assim como ela. Por certo podia lhe conceder uma hora... se não por outra razão, ao menos como uma forma de se desculpar com ele e com o avô por ser tão desconfiada.

Pegou o fone e discou o número. Ele respondeu ao ter­ceiro toque.

- Maguire.

- Oi, aqui é Gwen Blade. Obrigada pelas rosas. São lindas.

- Ótimo. Serviram?

- Como?

- Para acalmá-la a ponto de me conceder uma hora?

- Não, mas a mensagem que recebi de meu avô, sim. Não sabia que nossas mães foram amigas de faculdade.

- Apenas por alguns semestres, que eu saiba. A minha escolheu ser designer de interiores e a sua, ao que parece, uma variedade de coisas. Mamãe me disse que Serena Ma­cGregor se mostrava interessada em tudo.

- E permanece assim. Posso encontrá-lo às 2 horas da tarde. Acho melhor que seja no centro da cidade. Tenho algumas compras a fazer.

Duas horas, repetiu Branson para si mesmo. Depois do almoço e antes do jantar. Uma mulher esperta.

- Para mim está ótimo. Que tal me encontrar no Boston Harbor Hotel? Costumam servir um excelente chá.

- Eu sei - disse Gwen, volvendo o olhar ao iogurte e pensando nas iguarias maravilhosas às quais ele se referia. o estômago negligenciado roncou.

- Está bem. Às 2 horas no saguão principal.

Gwen foi pontual. Um hábito que a prima Julia conside­rava irritante. Tomara um banho de espuma demorado, que fez maravilhas à tensão muscular da nuca. Depois se dedi­cara a folhear uma cópia de Die a Fine Death de Branson Maguire. Já o havia lido antes, mas queria se familiarizar com o estilo do escritor antes de ir a seu encontro.

Teria se inteirado com o mesmo interesse do histórico de um paciente antes de tratá-lo ou mesmo na personalidade de um amigo antes de presenteá-lo. Era uma mulher complexa e meticulosa, que se graduara em medicina anos antes da idade padrão e, no momento, era a mais nova residente de cirurgia a servir à equipe do Boston Memorial.

Trabalhara duro para chegar aonde estava e sabia que merecera o posto por esforço próprio. Não menosprezava as vantagens com que crescera. Sua família era amorosa, incentivadora e generosa. Apoiaram-na em todas as decisões que tomara ao longo do caminho. Sabia também que a ri­queza, do tipo que os MacGregors possuíam, amortecia os impactos da estrada.

Mas fora o amor pela medicina, o mistério, a arte e a ciência que lhe selaram o destino.

Vagueou pelo saguão do hotel, apreciando a magnificên­cia do lugar, a graciosidade do teto ornamentado, os imensos vasos repletos com grandes flores exóticas, o mármore e o dourado.

Ela aparentava, pensou Branson, quando saiu do elevador e a avistou, a filha universitária de um homem abastado em passeio no centro da cidade. Trajava jaqueta e calça cinza e um sobretudo preto dobrado sobre o braço. Usava poucas e clássicas jóias, observou o escritor. Um broche na lapela que por certo herdara e pequenas argolas de ouro nas orelhas. O relógio fino possuía correia de couro preta.

Parecia vivaz, revigorada e sem nenhum traço da fragi­lidade que aparentava na noite anterior.

- E pontual - afirmou ele, caminhando em direção a Gwen.

- Sim. Um hábito irritante.

- Gosto de mulheres pontuais - dizendo isso, Branson a tomou pelo braço e a guiou em direção ao hall dos elevadores.

- A perda de tempo deveria ser reservada apenas para o divertimento. - Ele utilizou uma chave pequena para acessar o andar e voltou-se sorrindo, quando a porta se fechou. - Está com uma aparência ótima. Eu diria que conseguiu descansar.

Branson trajava um pulôver macio azul-marinho com as mangas arregaçadas até os cotovelos por sobre uma calça jeans. Os tênis de boa qualidade pareciam não ter percorri­do sequer uma milha.

- Obrigada. Sim, consegui. Aonde estamos indo?

- Para minha suíte.

Os olhos cor de lavanda escureceram e os cílios baixaram.

- Oh?

Branson não pôde conter o riso.

- Gwendolyn, não deveria ser tão confiante e ingênua. As pessoas podem querer tirar vantagem disso. Relaxe - acrescentou antes que ela pudesse responder. - Pedi chá. Será servido na sala de estar. É bastante convencional e mais conveniente para que eu possa tomar notas sem interrupções cios solícitos garçons. Nenhuma intenção escusa.

- Está bem. Estou mesmo faminta. Pensei que morasse em Boston.

- E moro. - Branson lhe tomou o braço outra vez para ajudá-la a sair do elevador. - Aqui. A imprensa considera uma excentricidade um escritor viver em um hotel. Mas, na realidade, trata-se de um apartamento de alta classe, com serviço de quarto e com um rápido rodízio de inquilinos. Tem um lindo sorriso. Por que o está oferecendo a mim?

- Meus pais também moravam em um hotel até pouco depois de Mac, meu irmão mais velho, nascer. E de vez em quando ainda o fazem. Meus dois irmãos moram em hotéis durante o ano todo e minha irmã mais nova, Amélia, também moraria se pudesse arcar com as despesas. Portanto, não acho nem um pouco excêntrico.

- Certo. Havia esquecido dos cassinos em Vegas, Atlantic City, New Orleans e Europa. Sua família me custou algum dinheiro... indiretamente.

- Não há nada que nos divirta mais. - Gwen esperou até que ele destrancasse a porta dupla para adentrar na espaçosa e ricamente mobiliada sala de estar. Notou o pequeno laptop no qual estava acoplado um amplo monitor que se encontrava no canto oposto da extensa mesa de nogueira. Ao lado jaziam pilhas de livros, jornais e algumas xícaras de café.

- Eu diria que este é um lugar calmo e conveniente para trabalhar.

- Serve por enquanto. Por vezes tenho ímpetos de comprar uma casa, cortar grama, pintar venezianas. Mas depoispassa. Acho que um dia esse desejo virá para ficar.

- Se acontecer, deveria consultar minha prima Julia. É uma perita em imóveis.

- Ah, a primeira filha, Jules.

Gwen inclinou a cabeça para o lado.

- Sim, a imprensa a rotulou assim, quando meu tio era presidente. Ela achava divertido. Mesmo aos sete anos Julia possuía um senso apurado de ridículo.

- Deve ter sido difícil crescer na Casa Branca. Vejamos, o irmão dela, D.C., é artista. E ainda tem as primas advogadas. Uma delas teve um casamento esplêndido na última primavera.

- Isso mesmo. Estamos aqui para discutir minha família ou seu livro?

- Estava apenas conversando um pouco. - Arisca, pensou ele. - Daniel gosta de jactar-se. Ouvi-o falar tanto sobre filhos e netos que sinto como se os conhecesse. Seu avô tem muito orgulho de vocês.

- Eu sei. - Os olhos cor de lavanda se suavizaram outra vez. - Tenho tendência a ser defensiva quando se trata de minha família. Outro hábito.

- Um tanto atraente. Deve ser o chá - declarou Branson quando ouviu o som da campainha. - Fique à vontade.

Gwen decidiu que o mais eficiente local para se acomodar seria a mesa da sala de jantar, do lado oposto do laptop.

Sorriu para o garçom do serviço de quarto, ouviu Branson brincar com ele a respeito de um jogo de futebol e, em seguida, observou uma nota dobrada passar de maneira discreta da mão do hóspede para a do criado.

- Como um homem pode viver nesta cidade grande e ser fã do Dallas Cowboys está além de minha compreensão - afirmou Branson, erguendo uma garrafa do balde de gelo.

- Champanhe?

- Não.

- Perguntei apenas para me certificar. - Recolocou o recipiente no lugar. - Deixaremos o champanhe para outra ocasião. - Fez um gesto em direção aos pratos com sanduíches, bolinhos e doces. - Disse que estava faminta.

- E você que queria discutir seu livro comigo - disparou Gwen, pegando o bule de chá e servindo duas xícaras.

- Sim. O que planejei - começou ele, dispondo em um prato uma de cada iguaria. - Foi uma médica psicopata.

- Que amável!

- Ela é. Uma beldade. Uma mulher?

Sim. Acho que não é comum boas médicas psicopatas hoje em dia. O que pretendo é algo na linha Jekyll e Hyde, com um misto de viúva negra e Lizzie Borden. - Mordeu um dos sanduíches. - Você é perfeita.

- Sou?

- Sim. Tem a aparência... não apenas a beleza, quero dizer o ar de fragilidade, os ossos delicados, a graça e a eficiência. Havia pensado em construir a personagem alta, luxuriosa e mortal - continuou, fitando-a com um brilho intenso no olhar. - Mas agora percebi que o contraste é melhor. Não podia obter protótipo melhor.

Gwen decidiu por se mostrar divertida em vez de insultada.

- Para uma psicopata?

- Sim - afirmou Branson, votando-lhe um sorriso lumi­noso. - Importa-se?

- Acho que me sinto lisonjeada por mais estranho que possa parecer. Então sua vilã é uma médica, que cura com uma das mãos e mata com a outra.

- Isso mesmo. Você é rápida. - Branson escorregou um pouco para frente. Os dedos batendo ociosos na borda do pra­to. - Ela tem o controle absoluto. Sabe exatamente o que está fazendo. E gosta disso. O poder de curar e a excitação de des­truir. É óbvio que se trata de uma insana, mas em um nível diferente. Portanto, se a fizesse uma cirurgia, como seria sua vida? Seria mais velha que você. Não quero complicar a situ­ação, mostrando-a como um gênio acima de todos.

- Não sou um gênio. Apenas uma estudante aplicada.

- Gwendolyn, cursou a escola de medicina de Harvard anos antes de ter idade suficiente para ingerir bebida alcoólica na maioria dos estados. É um gênio. Viva com isso. - Ele pegou outro sanduíche, enquanto Gwen piscava várias vezes, sem saber o que dizer. - Então, quanta pressão terá de suportar para se firmar como uma cirurgia? Ainda é um território essencialmente masculino, certo? Além disso, há o complexo de Deus, a arrogância e o ego exacerbado que vem do fato de ter as mãos dentro do corpo humano.

- Arrogância e ego exacerbado? - repetiu Gwen.

- Você os tem. Percebi enquanto a observava trabalhar com aqueles jovens ontem. Dava ordens com a certeza de que seria obedecida... de imediato. - A cena passou como um filme pela mente de Branson outra vez. - Se deslocava de uma sala a outra, monopolizando a atenção dos presentes. Não percebe, porque está acostumada a isso. Espera que seja dessa forma. Quero que seja assim com minha personagem. A expectativa do absoluto respeito e obediência. A autoconfiança. Enquanto por outro lado, ela ferve de raiva e frustração. Você também tem esses sentimentos, Gwendolyn?

Santo Deus, aquele homem era um trator.

- Neste momento ou em geral?

Ele lhe voltou um sorriso.

- Gosto muito de sua voz. Tem classe e é naturalmente sexy. De qualquer modo, o que estou procurando é mostrar do ponto de vista feminino o que se tem de fazer para se firmar no campo de trabalho. Como lidar com o sutil ou evidente assédio sexual e progredir na profissão. Veja, acho que ela se dedica a mutilar homens porque os acha inferio­res, irritantes, obstrutivos e odiosos.

E lá estava o sorriso divertido de Gwen outra vez.

- Estou começando a gostar dela.

- Ótimo, esse é o objetivo. Quero que o leitor também se afeiçoe, mesmo enquanto a despreza. - Enquanto falava, Branson enchia o prato de Gwen mais uma vez. - Ela é brilhante, ambiciosa e não apologética. Alguns homens com os quais a personagem sai no início são vis, o que a faz mais simpática. Depois ela toma gosto por aquilo. É quando a personagem ultrapassa o limite. E as exigências, a pressão, o estresse constante dos assuntos de vida ou morte... acho que isso tudo é que por fim quebra a conexão que ela possui com a própria humanidade.

Gwen resolveu que era mais produtivo ficar entretida e intrigada do que irritada. Selecionou um sanduíche de agrião da pilha que Branson pusera em seu prato.

- Bem, a pressão é ultrajante. Um número considerável de bons médicos desiste por não conseguir suportar o trabalho no hospital, as horas desgastantes e burocracia miserável, Emergências, cortes no orçamento, interrupção da vida pes­soal. Sua personagem não terá muito tempo para diversão a não ser que seja muito flexível. Suponho que ela faça parte da equipe de um hospital de grande porte de Boston.

- Exatamente. - Ele pegou um caderno e começou a lazer anotações. - Quantas horas ela terá de trabalhar na semana?

- Oh, de quarenta a um milhão.

Branson sorriu e colocou uma bomba de chocolate no prato dela, onde antes estivera o sanduíche.

- Continue.

A hora combinada se transformou em noventa minutos até que Gwen se lembrasse de consultar o relógio.

- Estou atrasada. Tenho de ir se quiser terminar minha compras de Natal antes de me apresentar no plantão.

- Terminar? Estamos em novembro.

- Sou uma antecipada obsessiva - afirmou ela, erguendo se e pegando a capa.

- Vou com você.

- Fazer compras?

Branson já havia se levantado e a ajudou a colocar a capa antes que tivesse tempo de fazê-lo sozinha. Daquela forma, se ele roçasse a mão nos cabelos louros e revirasse os olhos de prazer por sobre a cabeça de Gwen, ela nunca tomaria conhecimento. - Tenho bom gosto para escolher presentes. E assim podemos trocar idéias por mais algum tempo e depois irei para o hospital com você.

- Outro antecipado obsessivo.

- Acertou. Amo meu trabalho. - Branson pegou a própria capa e a puxou pelo braço. - Estive pensando em fazê-la se apaixonar por Scully. Juntos podiam fazer excelente sexo, complicar suas vidas e destruir o coração um do outro. - Esta­cou, detendo-se a observar a face delicada por alguns instantes para se divertir com o momento. - Acha que ele faz o tipo dela?

Gwen ergueu a cabeça. Percebera o sentido duplo da observação de Branson, embora colocada de maneira inteligente.

- Tosco, valentão e cínico com uma queda por poesia?Talvez a agrade... e ela indubitavelmente se divertirá tentando matá-lo.

- Foi isso que pensei. - Sem lhe dar tempo para reação, deslizou a mão pelo braço delgado até a mão, entrelaçou os dedos nos dela e a guiou pela porta de saída.

 

- Então, quando vou conhecê-lo? Gwen cortava o papel de embrulho com a precisão de uma cirurgia e sequer se deu ao trabalho de erguer o olhar.

- Quem?

Julia pegou uma fita prateada das pilhas separadas por cores que a prima dispusera sobre a mesa da sala.

- O homem que é bom para você. - Por instantes, con­siderou a possibilidade de embrulhar os próprios presentes, mas estavam apenas no domingo após o dia de Ação de Graças e sentia-se bastante preguiçosa.

- Bom para mim - repetiu Gwen, enquanto depositava a caixa com a blusa sobre o papel e com habilidade dobrava as bordas e as puxava para cima para sobrepô-las de forma milimétrica.

- O homem das flores. - Julia bocejou e tomou um gole do café.

- Branson? - Após colocar a fita, Gwen começou a dobrar a primeira extremidade do papel. - Quer conhecê-lo?

- Bem, tem se encontrado com ele por quase três sema­nas e sequer consegui pousar os olhos nele.

- Não tenho me encontrado com ele - retrucou a prima, virando a caixa para dobrar a outra extremidade. - Estou apenas ajudando-o em uma pesquisa.

Julia se recostou no assento da cadeira. Adorava Gwen. A inata meticulosidade de hábitos e mente, a generosidade que possuía, o humor tranqüilo, a inabalável lealdade... e a divertida falta de consciência de si mesma.

- Ele é muito atraente.

- Humm.

- Não foi uma pergunta. Vi a foto dele na quarta capa de um de seus livros e assisti a algumas entrevistas que ele concedeu para programas matutinos. É muito atraente.

- Não vou discordar. - Depois de alguma indecisão, Gwen optou pelo laço vermelho e começou a calcular o comprimento da fita.

- Quer dizer que não tem interesse pessoal nele, do tipo homem-mulher?

- Não pensei sobre isso.

- Gwen.

Com um suspiro de impaciência, a médica pousou a fita na mesa.

- Não estou interessada em me interessar. E você está soando como o MacGregor.

Julia sorriu. Os olhos negros brilhando de satisfação.

- É um elogio ou um insulto?

- Sabe muito bem que o maior desejo do vovô é ver-nos todas casadas e gerando dúzias de filhos. Ele pensou que foi astuto no jantar de Ação de Graças, fazendo todas aquelas perguntas sobre os rapazes com quem estaríamos saindo. Rapazes! - Revirou os olhos e irrompeu em uma gargalha­da. - Ele nunca vai mudar.

- Quem desejaria que mudasse? Mas vovô foi um pouco mais específico com você. "Ah, Gwennie querida, como vão as coisas com o nosso jovem amigo escritor? Um bom rapaz aquele Branson. Cérebro brilhante. E os irlandeses sabem valorizar a família". - Julia repetiu a fala de Daniel.

Gwen meneou a cabeça e, com esmero, prendeu o laço sobre a caixa.

- É obviamente fã de Branson.

- Vovô armou isso para você.

- Não. A princípio também pensei assim, mas depois percebi que julguei mal a situação. É inofensiva.

Julia entreabriu os lábios para falar, mas em seguida os selou com um estalido de língua.

- Está bem, se é por esse ângulo que quer ver. Ele iria espremê-la contra a parede se Laura e Royce não fizessem o anúncio da gravidez. A partir daquele momento, vovô se manteve ocupado tentando conter as lágrimas, fazendo brindes, batendo nas costas de Royce e comemorando min­to para se preocupar com outros arranjos.

Gwen pegou uma fita vermelha grossa e deixou escapai um profundo suspiro.

- Vamos ser tias. Laura parece tão feliz, não?

- Sim. - Um tanto emocionada, Julia fungou. - E pensai que um ano atrás estava tentando convencer a si mesma, e a nós, que não estava nem um pouco interessada em rela­cionamentos. Assim como você está fazendo agora.

- Pelo amor de Deus...

- Campainha - Julia se ergueu num salto. - Termine de trabalhar nesse paciente, doutora. Eu atenderei.

A prima não tinha a menor noção do que estava aconte­cendo, pensou Julia enquanto caminhava em direção a porta. Aquela mulher podia cortar, abrir, examinar pessoa de manhã à noite, diagnosticar uma infinidade de doenças, condições e traumas, porém não sabia quando estava envol­vida em um relacionamento.

Abriu a porta e avistou a outra metade do relacionamen­to segurando uma caixa de doces branca e lustrosa.

- Rosquinhas ou tarteletes?

- Ambas.

- Muito bem, pode entrar. Branson adentrou a casa, estudando com interesse a moça curvilínea de cabelos ruivos revoltos, olhos castanhos e pele macia e alva como uma cobertura de chantilly. Ela trajava um robe atoalhado com listras grossas e chinelos felpudos.

- Branson Maguire, prazer em conhecê-la.

Julia sorriu e estendeu a mão que brilhava com vários anéis.

- Eu o reconheci. Julia MacGregor, prazer em conhecê-lo O escritor segurou a mão fina.

- Eu a reconheci.

- Não é engraçado? Já estou gostando de você. Qualquer homem que bata à porta às 11 horas de um domingo com uma caixa de doces no mesmo instante se toma meu amigo.

- O que acha de creme bávaro com cobertura de choco­late?

- Meu melhor amigo - dizendo isso, tomou-lhe a caixa das mãos. - Tire sua capa e fique à vontade. Acho que pos­so providenciar um café para acompanhar estas delicias.

- Esse era o plano. Pensei se a dra. Dish não estava... - Estacou e sorriu. - Ops! Um lapso.

- Dra. Dish? - Os olhos de Julia brilharam divertidos. - Gostei. E já que me trouxe um milhão de calorias, este será nosso segredo.

- Agradeço-lhe. - Branson pousou a capa no pilar do corrimão. - Ela está ou teremos de comer tudo sozinhos?

- Está operando na sala de jantar. Por aqui.

- Bela casa - comentou ele enquanto cruzavam o corredor.

- E minha favorita, por isso vivemos aqui.

- Isso mesmo. Gosta de comprar casas.

- Comprar, vender, restaurar e reconstruir. E você gosta de contar histórias.

- Sim. - Passaram por uma sala na qual haviam sofás aconchegantes e uma pequena lareira. Um grande vaso pregueado nas beiradas em cores azul e verde fortes chamou-lhe atenção, fazendo-o parar para ver mais de perto.

- Uma peça de minha mãe.

- Fabulosa. Por certo ela terá um lugar interessante na história, não acha? Brilhante como artista e dinâmica como primeira dama.

- Gosto mesmo de você.

- Fiz uma resenha sobre seu pai quando estava no ensi­no médio. - Branson lhe voltou um sorriso luminoso. - Ti­rei a nota máxima.

- O ex-presidente Alan MacGregor sempre foi um de­fensor da educação. Ficará muito contente. - E por se sentir da mesma forma, Julia tomou-lhe a mão e o guiou em dire­ção à sala de jantar.

- Veja quem chegou carregado de presentes - anunciou, animada.

Gwen ergueu a cabeça. A tesoura que segurava em uma das mãos se fechou com um estalido.

- Oh. - O frio que sentiu no estômago a surpreendeu, bem como a urgência em ajeitar os cabelos. - Olá, Branson.

- Branson trouxe doces, então decidi que estou apaixo­nada por ele. Vou preparar um café, e colocar isso em um prato. Não o deixe ir embora, Gwen. Acho que vou querê-lo por perto - dizendo isso, piscou para o escritor e saiu, car­regando a caixa de doces para a cozinha.

- Na verdade, acho que talvez me apaixone por ela tam­bém. - Sem esperar por convite, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Gwen.

- Bem, vocês são rápidos.

Teria percebido um traço tênue de irritação em sua voz?, imaginou Branson. Assim esperava.

- Não acredita em amor à primeira vista, doutora?

- Não - mentiu Gwen. Acreditava em toda a sorte de coisas tolas quando se tratava de assuntos do coração. - Por que trouxe doces?

- Não os como se alguém não me der. - Distraído, pegou uma fita azul e se pôs a estudá-la. - É uma forma humilde de agradecimento pelo tempo que está me dispensando.

- Muito gentil. - Quando Branson pousou a fita na pilha de cor dourada, ela automaticamente a removeu e colocou no lugar certo. - Mas é desnecessário. Não tem sido sacrifício algum.

Branson torceu os lábios. Num gesto deliberado, pegou uma fita vermelha.

- Sacrifício ou não, trata-se de seu tempo, e tem sido de grande ajuda. - Colocou a fita na pilha de cor verde.

- O livro está caminhando bem? - inquiriu ela, mudan­do a fita de lugar.

- Sim. - Branson sorriu quando Julia adentrou a saiu com uma bandeja contendo um bule de café, xícaras c um prato repleto de doces. - Ele sinalizou para a prima de Gwen com um erguer de sobrancelhas e moveu a fita prata par pilha de cor vermelha. - Parece-me delicioso.

Julia conteve o riso quando a prima num gesto meticuloso devolveu a fita à pilha certa.

- É você que está dizendo. Espero que não se importe, mas separei minha parte para comer lá em cima. Tenho alguns telefonemas a dar. Venha quando sentir vontade, Bran. E traga chocolate da próxima vez.

Fez um gesto afirmativo com o polegar por trás de Gwen e disparou pela escada.

- Posso ajudá-la com os embrulhos?

- Não. Tenho toda uma logística para fazê-los.

- É mesmo? - Branson serviu-se do café e dispôs um rosquinha no prato. - Tem açúcar?

- Vou pegar. Espere um segundo. - A atenção de Gwen estava focada na dobradura exata das extremidades do papel,

- Como foi seu dia de Ação de Graças?

- Barulhento, confuso e voraz, porém maravilhoso. E seu?

- A mesma coisa. - Ele observou o polegar delgado deslizar sobre o papel, formando uma dobra com tanta per feição quanto uma navalha e se descobriu achando adorável a exacerbada atenção da médica aos detalhes. - Desculpe-me, Gwendolyn, mas tenho de fazer isso.

Em seguida, Branson envolveu-lhe a nuca com uma dá mãos e tomou-lhe os lábios num beijo impetuoso. Gwen não tentou se esquivar, tampouco tensionou o corpo, mas ele percebeu a surpresa. Decidindo usar aquilo em vantagem própria, envolveu com a outra mão o queixo delicado e deslizou-a pela orelha até se enterrar na massa de cabelos dourados.

Os lábios macios tinham sabor refrescante, pensou Bran­son, como as primeiras brisas da primavera. Havia imaginado, durante três semanas, como seria beijá-la, e naquele momento perguntava a si mesmo por que esperara tanto quando ela era tão... perfeita.

Inebriado, induziu os lábios tentadores a se abrirem ainda mais, aprofundando o beijo. O som que lhe emergiu da garganta era de puro êxtase.

Tinha de impedir que aquilo continuasse, pensou Gwen. Imediatamente. Oh, Deus! Sentia-se tonta, quente e indefesa. Sua pressão sangüínea por certo estaria... A pulsação devia... E então sentiu os dentes alvos mordiscarem-lhe o lábio inferior e esqueceu o mundo a seu redor.

- Doce - murmurou Branson, perdendo-se no contato cá-lido e macio. - Doce e maravilhosa Gwendolyn. – A mão firme deslizou um pouco para baixo de modo a acariciar-lhe o pes­coço. O toque suave a fez estremecer. - O que temos aqui?

- Espere. - Gwen colocou a mão sobre o peito musculoso, surpreendendo-se com o fato de o coração de Branson bater tão forte quanto o dela. - Espere um pouco.

- Não quero - dizendo isso, ele aprofundou o beijo sem lhe deixar espaço para reação.

Ansiava por sentá-la em seu colo e mover os lábios através do pescoço esguio e assim por diante até chegar aos os pés delicados.

- Eu disse para esperar - Gwen conseguiu desvencilhar-se, lutando por ar, compostura e racionalidade. - Temos um acordo.

- Está envolvida com alguém?

- Não. Essa não é a questão. Branson apenas ergueu o sobrolho.

- Tem algum problema com escritores de livros de mis­tério de origem irlandesa?

Gwen passou as mãos pelos cabelos, deixando-os espi­gados como um girassol.

- Não seja ridículo.

- Considera o beijo um hábito pouco saudável? Ela lhe lançou um olhar desconfiado.

- Está caçoando de mim?

- Talvez de nós dois. E como considerarei sua resposta um não, devo confessar que beijar você pode se tornar um hábito.

- Traçou o contorno dos lábios macios com a ponta do de enquanto os impassíveis olhos cinza deslizavam pela face delicada. - Estou começando a sentir algo por você.

- Algo?

- Não sei como definir ainda, mas estou trabalhando p isso. Ou talvez devesse chamar de condição. A qual e relacionada. - Os dedos longos traçaram o contorno queixo de Gwen. - Talvez pudesse me ajudar a explorar isso.

- Os olhos de Branson encontraram os dela, repletos curiosidade. - Está nervosa. -A conclusão lhe veio com misto de surpresa e prazer. - Podia jurar que não possuía u nervo em seu corpo pelas situações que a vi enfrentar n últimas semanas. Nunca vacila, hesita ou fraqueja. Mas está nervosa neste exato momento porque eu a estou tocando, isso, Gwendolyn, é extremamente excitante.

- Chega! - Ela se ergueu num impulso, arrastando cadeira para trás. - Pare com isso. Não estou nervosa. Ap nas não quero prosseguir com isso.

- Agora está mentindo. - Branson riu quando percebeu os olhos cor de lavanda escurecerem de indignação. – O beijo mexeu com você, e não posso culpá-la. Mas a questão é uma mulher se derreter em meus braços como você fez alegar indiferença, não soa verdadeiro.

- Não disse que sou indiferente - corrigiu Gwen em um tom frio que o fez sorrir.

- Está certa, não o disse. O erro foi meu. - Ele lhe tomou a mão, ignorando-lhe as tentativas de se desvencilhar. A boca que há pouco a seduzira, naquele momento sorria, arrogante - Não se preocupe, não vou beijá-la de novo até... bem, até...

- Branson, estou ocupada.

- Gwendolyn, sou persistente. E quero você. Não pode ser a primeira vez que ouve isso.

Era a primeira vez que ouvia a frase ser pronunciada com um sorriso presunçoso e exacerbada autoconfiança. Detestava o fato de aquela combinação a excitar tanto.

- Se quer que eu continue a ajudá-lo, terá de entender as condições e restrições.

- Não. Não gosto de condições e restrições.

- Você é arrogante e insuportável...

- Está temerosa de que eu a seduza - declarou Branson. Porque agora sabemos que posso. Vamos apenas refrear isso por um tempo.

A frieza do tom de voz de Gwen se transformou em geleira.

- Se está pensando que sou uma mulher fácil, não pode estar mais enganado.

- Não estou pensando nada disso. Acho-a uma mulher Incrível, forte e destemida. A cada dia a admiro mais. Está se rebaixando se pensa que a única razão pela qual a quero e porque tem olhos lindos e um corpo magnífico.

- Eu... - Ela ergueu as mãos e tornou a abaixá-las. - Conseguiu me confundir.

- É um começo. Por que não pensa sobre isso por algum tempo, já que é exatamente o que você vai fazer de qualquer forma? Vejo-a no hospital mais tarde.

Permitindo-se relaxar outra vez, Gwen anuiu.

- Está bem. Branson tomou a face delicada nas mãos e lhe deu um beijo rápido nos lábios.

- Acho que terei de me contentar com isso até lá - afir­mou ele, antes de desaparecer pela porta da sala.

 

Gwen voltou a trabalhar no plantão diurno na primeira semana de dezembro. Ao longo dos anos, aprendera a ajustar o relógio biológico às exigências do trabalho. Quando era hora de dormir, dormia profundamente. E quando precisava despertar, despertava com rapidez.

Desde que decidira seguir os passos profissionais da área cirurgia, não permitia que nada a distraísse. Sendo assim a família e o trabalho eram o foco de sua vida. Tudo o mais era secundário.

Incluindo os homens.

Até mesmo, disse a si mesma, Branson Maguire.

Ele se ausentou por três dias. Gwen presumiu que, por certo, o escritor já havia coletado informações suficientes de que sua ajuda não seria mais necessária. E concluíra que se desinteresse por um relacionamento por fim penetrara naquela cabeça dura.

Estava determinada a não se sentir desapontada.

Com extremo cuidado, continuou a suturar um corte de oito centímetros na panturrilha de um paciente que tivera um desagradável encontro com uma árvore.

- Eu estava descendo a colina - relatava ele, procurando manter o olhar longe do local esterilizado e da agulha, - Pensei em levar o trenó para um teste de corrida antes que meus filhos o vissem. - Fez uma careta de dor pela espetada na pele. -Acho que estou um pouco velho para andar de trenó.

- Tem apenas de prestar atenção no caminho.

Quando a porta se abriu e Branson adentrou, o coração de Gwen pareceu dar uma volta de trezentos e sessenta graus. Porém, ela conseguiu completar o próximo ponto da sutura sem tremer.

- Não tem permissão para entrar aqui - informou em tom calmo.

- Não ficarei em seu caminho. - Aproximou-se para ver a ferida mais de perto. - Oh! - disse com um sorriso amigável.

- Sangra feito uma veia aberta - afirmou o paciente.

- Fique parado, sr. Renekke. Estamos quase acabando.

- Desculpe. - E dirigindo-se a Branson. - Parece-me familiar.

- Sempre me dizem isso - retrucou o escritor, puxando uma cadeira de metal e sentando-se. - Conte-me como aca­bou sendo atendido pela mais bela cirurgiã de Boston?

- Ah... - Renekee fitou a médica de soslaio, percebendo que ela continuava focada em seu trabalho. - Era um emba­te entre mim, um trenó e uma árvore. Eu perdi.

- Está um dia propício para andar de trenó. E se perdeu para a árvore não podia estar em melhores mãos dos que as da dra. Blade. Diga-me, como já a conhece há alguns minu­tos, o que acha que devo fazer para convencê-la a jantar comigo esta noite?

- Bem, eu...

- Branson, saia. - Gwen não corou, mas sentia o embaraço na boca do estômago.

- Apenas um jantar agradável e sossegado - continuou ele ignorando o pedido da médica. - Ela costuma esquecer de comer, portanto estou apenas cuidando de sua saúde.

- Isso poderia funcionar - concordou Renekee, divertin­do-se com a situação.

- Exatamente. Vinho... com moderação, claro. Luz de velas... serenidade para os olhos. Uma refeição relaxante depois de um dia cansativo de trabalho. É apenas uma forma de cuidar de você.

- Não me faça chamar o segurança, Branson. Sr. Re­nekee, vou cobrir o ferimento agora. Terá de mantê-lo seco. Vou lhe passar uma receita e terá de voltar dentro de sete a dez dias para retirar os pontos.

- Ela tem ótimas mãos, não? - comentou o escritor. - Vou lhe dizer uma coisa, se precisasse tomar pontos, não deixaria que mais ninguém além da dra. Blade o fizesse. Estava pensando naquele restaurante francês... Eles têm umas sobremesas flambadas divinas. Acha que ela gostaria de lá?

- Minha esposa por certo adoraria.

- Tenho certeza de que é uma mulher bastante refinada. Que tal doutora?

- Acabou, sr. Renekee - anunciou Gwen, sentando-se na cadeira giratória e a rolando até a mesa. De lá, retirou um papel impresso com instruções de como cuidar de uma sutura. - Se fosse o senhor, ficaria longe de trenós por um tempo.

- Sim, obrigado - agradeceu o paciente, pegando o papel e sorrindo. - Acho que deve lhe dar uma chance - declarou enquanto se retirava.

- Não vou permitir que me distraia ou a meus pacientes enquanto trabalho. - Furiosa, Gwen retirou as luvas e o jaleco quando ficaram a sós. - Não tem permissão para entrar em salas de exame ou procedimento a não ser que seja o paciente Não admito que me assedie enquanto estou trabalhando.

Branson não conseguia conter o riso. A voz soava corri o sotaque gelado da Nova Inglaterra.

- Tenho culpa se não consigo tirá-la da cabeça?

Gwen emitiu um som estrangulado da garganta e atirou as luvas na lata de lixo.

- Está precisando de tratamento ou de exames?

- Querida, se quer bancar a doutora... - Estacou antes de lançar mão das mais variadas respostas que lhe vieram à mente. - Está bem, vou lhe dizer a verdade. Estive absorto no trabalho nos dois últimos dias, mas quando fazia uma pausa para tomar ar, você era a primeira coisa em que eu pensava. Acho que há uma razão para isso e gostaria de levá-la para jantar.

- Tenho planos para esta noite.

- Flexíveis ou inflexíveis?

- Um inflexível evento de levantamento de fundos para o hospital.

- Vou com você.

- Tenho companhia.

- Companhia - repetiu Branson, em dúvida entre rir do termo ou rosnar contra a idéia de ela sair com outro homem.

- Soa tedioso.

- Greg é um amigo, companheiro e muito charmoso. - É a definição perfeita do termo "tedioso", admitiu para si mesma. - Agora, se me der licença, tenho de trabalhar.

- Que tal tomarmos o café-da-manhã juntos?

Gwen teve de fechar os olhos.

- Branson...

- Acha mesmo que vou desistir porque um cara chama­do Greg vai acompanhá-la a um evento para levantar fundos para o hospital?

Ela decidiu por outra estratégia, lançando-lhe um sorriso desafiador.

- Talvez eu queira tomar o café-da-manhã com Greg.

Algo o atingiu direto ao coração. Agora está tentando me enlouquecer. Tudo bem, es­queça o café-da-manhã. A que horas é o seu descanso?

- Por que quer saber?

- Podemos ir para o meu hotel e fazermos sexo para que eu possa tirá-la de meu sistema. Está me deixando louco.

Gwen surpreendeu a ambos, gargalhando.

- Tome dois Prozac e me chame pela manhã. Agora vá embora - dizendo isso, ela se encaminhou à porta.

- Quer dizer acordá-la pela manhã?

Gwen lhe lançou um olhar fulminante por sobre o ombro e deixou a porta de vaivém resvalar-lhe o rosto.

Muito bem, Gwendolyn, pensou ele, enquanto girava nos calcanhares para partir. Teria de jogar sujo e utilizar armas pesadas para conquistá-la. E sabia por onde começar.

Uma neve fraca e úmida caía em Hyannis Port, cobrindo as árvores altas e centenárias que embelezavam o gramado molhado do castelo que MacGregor havia construído.

Branson amava aquela casa, com suas pedras lustrosas, janelas elegantes e torres fantásticas. Sempre imaginara como poderia descrevê-la em um livro. Que tipo de assas­sinato ou esquartejamento traria o desiludido Scully para, aquele lugar?, refletiu. Ou, assim como seu criador, teria sido uma mulher que o atraíra até ali?

Uma mulher, admitiu Branson, que se encontrava im­pregnada em sua pele, mente e começando a se insinuar em; seu coração.

Sempre julgara que, se um dia se apaixonasse por uma; mulher, teria de ser numa explosão de afinidade, convicção, paixão, luxúria e loucura. Mas aquele sentimento era como um vôo suave da simples atração a um território desconhecido.

Um mistério, pensou enquanto subia os degraus da escada larga que levava à ampla porta de entrada, onde estava incrustada a imponente juba do leão MacGregor. Não con­seguia resistir a um mistério. Ansiava por desvendá-lo, camada por camada, até chegar ao âmago.

Se estivesse de fato se apaixonando por Gwen, tinha de se certificar, analisar bem os fatos tanto como as emoções. E, para tanto, precisava de uma pequena colaboração.

Não o surpreendeu o fato de Anna vir atender à porta, ou, de parecer amável e bem humorada. Os olhos acolhedoras, e as mãos finas esticadas em sua direção.

- Branson, que maravilha! Daniel ficará feliz em vê-lo.

- Esperava que ele não estivesse aqui, para que eu a .-convencesse a deixá-lo e fugir comigo para Barcelona.

Ela soltou uma gargalhada divertida e o beijou na face.

- Tire as mãos de minha esposa, seu cão irlandês! - Exi­bindo um sorriso luminoso, Daniel MacGregor, corpulento e espalhafatoso, descia a escada. - Barcelona, não é? Acha que sou surdo e cego? Vir até aqui para flertar com minha mulher nas minhas barbas?

- Você me pegou. Bem, é um homem melhor do que eu, MacGregor, para segurar essa mulher extraordinária do seu lado durante tanto tempo.

- Ah! - Orgulhoso, Daniel o envolveu num abraço ca­loroso, com uma energia, pensou Branson, enquanto o ar lhe fugia dos pulmões, que o mantinha vivaz por mais de no­venta anos. - Essa sua lábia o salvou outra vez. Entre e sente-se, vou providenciar algo para bebermos.

- Chá - aparteou Anna com firmeza, fitando o marido diretamente nos olhos.

Daniel revirou os olhos azuis brilhantes.

- Anna, o rapaz veio dirigindo de Boston até aqui num dia gélido e nevado. Por certo preferirá uísque.

- Mas se contentará com chá, assim como você. Leve-o pura a sala de visitas. Estarei lá em um minuto.

- Vou lhe dizer uma coisa, um homem não pode tomar uma dose de uísque em sua própria casa antes do sol se pôr e deve se considerar com sorte se conseguir mais que dois dedos com essa mulher por perto. - Caminhava com o bra­ço sobre os ombros de Branson, guiando-o em direção à sala de visitas, onde o fogo crepitava na lareira e antigüidades e artes preenchiam as paredes.

- Chá está ótimo - acalmou-o o escritor. - Quero que estejamos ambos com a mente clara para o assunto que vim discutir.

- O dia em que um copo de uísque embotar minha mente, ou a de um bom irlandês, será o fim dos tempos - dizen­do isso, Daniel acomodou-se em uma poltrona, esticando as pernas longas e cocando a barba branca.

- Disse que pretende discutir um assunto?

Foi o brilho nos faiscantes olhos azuis que o delatou.

- Levei algum tempo para perceber que Gwendolyn estava certa em sua intuição inicial.

- Gwen? - Todo inocente, Daniel cruzou as mãos fortes. Ah, isso mesmo, ela o está ajudando com seu livro. E como está se saindo?

- A história ou a ajuda?

- Ambos.

- A história está indo muito bem, e ela tem sido de grande ajuda.

- Ótimo. Uma menina inteligente, minha Gwennie, diamante reluzente. Puxou à avó... uma mulher pela qual parece sentir mais do que afeição.

- Seu velho intrometido - murmurou Branson. - Passei no hospital, meu caro. Gwen é a pessoa de que está precisando - repetiu as palavras que MacGregor lhe dissera.

Daniel exibiu um sorriso largo. Nunca considerara Branson Maguire um homem vagaroso. Se o fosse, não o teria escolhido para a neta.

- E não estava certo? Branson recostou-se ao respaldar da cadeira.

- O que pensa que ela acharia de seu plano? Supõe que sua neta ficaria agradecida por me jogar a seus pés?

- Diria que depende de você.

- O que você fez, Daniel? - Anna adentrou, segurando a bandeja de chá e lançando um olhar exasperado ao marido.

- Absolutamente nada.

- Empurrou-me para sua neta - informou Branson, erguendo-se para ajudá-la com a bandeja. - Gwendolyn.

- Daniel! - A esposa ergueu o queixo. - Já não discutimos exaustivamente esse assunto? Não concordamos que seria melhor que não interferisse na vida das meninas?

- Garantir que minha neta conheça um rapaz fino como, nosso Branson aqui não é interferir. É interesse, é...

- Intrometer-se - completou o escritor, enquanto servia Anna de uma xícara de chá. - E eu gosto disso.

- Não é intromissão... - Daniel deteve-se. Os olhos se dilataram sagazes. - Viu? Ele aprova o que fiz. E por que não deveria? Uma linda jovem como nossa Gwen. Inteli­gente, elegante, amável e de boa linhagem.

- Não precisa descrever as virtudes de sua neta - esclareceu Branson em tom seco, servindo uma xícara para Daniel. - E espero que resista à tentação de listar para ela as que considera minhas e acabe estragando tudo antes que tenha começado.

- Tenha começado - repetiu MacGregor, batendo com o pulso no braço da cadeira. - Já dispôs de quase um mês. Está se arrastando!

- Daniel! - admoestou-o Anna em tom sereno. Após passar uma vida toda ao lado daquele homem, havia acumu­lado uma montanha de paciência. - Deixe-o em paz.

- Se o fizer, ele a conquistará no próximo século.

- É por isso que estou aqui.

- Viu? - Daniel bateu com o punho outra vez, desta vez em sinal de triunfo. - O que quis dizer?

- Sua neta não está cooperando.

- Cooperando - repetiu Daniel, revirando os olhos. - E por que não a envolve com seu charme em um clima romântico? Quer que eu descreva o que um homem tem de fazer para cortejar uma mulher?

Branson se mexeu no assento.

- Cortejar talvez seja o termo errado.

- Oh, sim? - Os olhos azuis se tornaram afiados e mortais. E que termo tem em mente em relação à minha neta?

-Nenhum exatamente - replicou o escritor, erguendo uma das mãos num gesto de paz. - Sinto-me muito atraído por ela. - Que diabos!, pensou ele, afinal estava entre amigos. Estou meio que apaixonado por sua neta.

- E por que meio?

Desta vez, Anna limitou-se a sorrir.

- Oh, ele nunca está satisfeito!

- E de que serve meio?

- É o suficiente para mim até me certificar de que sou correspondido. Nunca parti meu coração antes - afirmou Branson. - E espero permanecer assim. Acho que você não chegaria onde está se não fosse um perito na arte da nego­ciação, ou capaz de entender as pessoas, julgar-lhes as fra­quezas e as forças. Sei que ama sua família. Portanto, tem de considerar os prós e contras antes de decidir se sou ade­quado para Gwendolyn.

- Aqui está um homem esperto, Anna. É de admirar que eu o estime tanto?i

- Não se anime muito - preveniu-o Branson. -Eu ainda não decidi se sou o homem certo para ela. Mas - acrescentou antes que Daniel explodisse. - Estou muito interessado em explorar as possibilidades. E já que conhece muito bem Gwendolyn...

- Ele a chama de Gwendolyn - observou Daniel, um tanto emocionado. - Viu, Anna, que romantismo?

- Cale-se, Daniel - murmurou a esposa.

- Você a conhece desde que nasceu - continuou o escri­tor. - E eu apenas há algumas semanas. Portanto, que tal fornecer-me algumas informações e sugestões?

- Ela gosta de honestidade - informou Anna, alternando um olhar significativo entre os dois.

- Não estou planejando ser desonesto. - Uma covinha se formou nos cantos dos lábios de Branson quando ele sorriu. - Apenas tirar vantagem de uma situação já estabe­lecida.

- Aquela menina tem de ser arrebatada - opinou Daniel. - Sempre foi afeita a contos de fada.

- O que ela precisa é ser auto-suficiente - corrigiu Anna. - Gwen sempre se orgulhou de sua força e independência.

- O que minha neta necessita é luz do luar, rosas e de ser cortejada.

- Precisa de integridade, companheirismo e respeito. Branson deixou escapar um suspiro exasperado.

- Bem, não estão sendo de grande ajuda - declarou, meneando a cabeça, confuso, enquanto o casal irrompia em uma gargalhada uníssona. - Perdi alguma piada?

- Você não é tão ladino quanto seu pai, nem seu pai tanto quanto seu avô - afirmou Daniel, tomando a mão da esposa.

- Portanto, perdeu mesmo. Eu lhe disse que Gwen puxou a avó e é verdade. As coisas que afirmei que minha neta necessita são verdadeiras. Da mesma forma que a amável Anna Whitfield precisava delas há sessenta anos vindas de um desajeitado escocês que se apaixonou loucamente no instante em que a viu trajando um vestido rosa no baile de verão do Donahues.

- E eu que pensei que precisasse me esforçar - murmu­rou a esposa. - Que havia conseguido extrair o que precisa­va dele. E muito mais. Seja você mesmo, Branson e deixe que minha neta seja o que é. É assim que tudo começa.

 

Gwen, profundamente agradecida por ter insistido em dirigir seu próprio carro, estacionou à meia-noite na vaga que lhe era reservada. Se, em toda sua vida, tivesse passado noite mais entediante, teria entrado em coma.

Não reclamava do baile para levantar fundos para o hospital, tampouco de Greg, mas a combinação dos dois numa noite interminável equivaleria a uma pós-graduação em tédio.

E, se o cirurgião tivesse deslizado a mão por sua perna sob a mesa mais uma vez, teria acabado a noite precisando ele mesmo de uma cirurgia.

Por certo Branson teria sussurrado comentários debocha­dos sobre os pomposos discursos, fazendo-a lutar para não gargalhar ou perder a compostura.

O escritor teria muito a dizer sobre o frango à Kiev frio e emborrachado que ela fingira comer.

Provavelmente teriam dançado em vez de discutir cirur­gia a laser durante uma hora e meia antes de ela ter inven­tado uma desculpa e partido.

Por que estaria pensando em Branson? Meneou a cabeça e desceu do carro. Não queria estar com ele também. Tudo o que desejava era ter ficado em casa, aninhada em frente à lareira, sorvendo um bom conhaque e lendo um livro. Já que era muito tarde para isso, iria se contentar com uma cama quente e uma boa noite de sono.

Havia quase alcançado a porta, quando avistou a peque­na árvore plantada em um vaso postada sob a luz da sacada. Perplexa, agachou-se e observou a pequena ave presa a um dos galhos do qual pendiam fios de seda dourados.

Como o cartão que se encontrava atado à árvore estava endereçado a ela, abriu-o de pronto.

Considere esse o primeiro dia de Natal. Bran.

Ele lhe enviara um perdiz pousado em uma pereira, pensou Gwen, pressionando o cartão contra os seios e sus­pirando profundamente. Que gentil e amável! Deslizou um dedo por sobre uma das pêras lustrosas e deixou-a balançar, sorrindo encantada com a ave roliça e colorida.

E percebeu, com uma rapidez que a fez afundar na escada ao lado da pequena árvore, que estava em sérios apuros.

 

Gwen saiu da sala de cirurgia três, esfregando os dedos dormentes. O procedimento cirúrgico fora longo e compli­cado, mas ficara satisfeita por lhe terem permitido entrar como assistente do primeiro cirurgião. Passara as últimas dez horas de pé e, se tivesse sorte, poderia fechar o plantão dentro em pouco e partir do hospital em grande estilo.

Avistou Branson aguardando no corredor e decidiu que as chances de sair em grande estilo haviam aumentado.

- Disseram-me que a encontraria aqui, juntando os pe­daços de um paciente.

- Assistindo à cirurgia - corrigiu ela. Mas, em resumo, foi isso mesmo. Um homem de 36 anos que havia sido muito negligente com uma serra elétrica.

- Oh!

- Acho que ele ficará com o braço - declarou Gwen girando o pescoço, enquanto acionava o botão do elevador.

- Dr. Merit é o melhor do estado. Não conheço ninguém que faria o que ele fez lá dentro. A perda maciça de sangue e o trauma, os danos aos músculos e nervos, tudo controlado com maestria. E o paciente não era o melhor candidato a uma cirurgia tão extensa... Obesidade mórbida. Mas por certo será capaz de manejar outra serra elétrica para cortar a árvore de Natal em dezembro do ano que vem.

- Já tem a sua?

- Nossa árvore? - indagou Gwen, adentrando a sala de emergência, aliviada por o local se encontrar calmo. - Este fim de semana. - Lançou um olhar rápido à prancheta e constatou que seu nome não constava na escala. - Vou ver se arranjo um café.

- Seu plantão terminou, não?

- Em dez minutos. - Ela irrompeu na sala de estar, encaminhando-se direto à cafeteira. - Não esperava encontra-lo aqui hoje.

- Tive de resolver algumas coisas - informou Branson retirando uma caixa do bolso. - Esta é uma delas.

Ainda segurando o bule de café em uma das mãos, Gwen observou a caixa prateada e redonda.

- Branson, tem de parar com isso.

- Por quê?

- Não pode continuar me dando presentes.

- Por quê? - indagou ele outra vez, voltando-lhe sorriso charmoso. - Gostou dos outros. Além do mais, faze parte de uma coleção.

A pereira, pensou ela, o gracioso broche com duas tartarugas marinhas, o trio de aves de porcelana e os quatro pássaros de plástico que gorjeiam quando bate o vento. Amara todos eles.

- Quando a coleção atingir nove dançarinas, ficará em apuros.

- Tenho planos para isso. Vamos, abra.

Branson lhe tomou o bule das mãos, e ofereceu-lhe caixa, em seguida, serviu duas xícaras de café. Ela estava encantada e ambos sabiam disso. Ouviu-a deixar escapar um suspiro extasiado quando abriu a caixa e deparou com corrente com cinco anéis entrelaçados.

- Como conseguiu isso?

- Paciência, determinação e persistência. - Branson pousou as xícaras. - Deixe-me colocá-lo. - Tomou-lhe colar das mãos e o deslizou por sobre a cabeça de Gwenobservando-o refletir sobre o jaleco verde que ela trajava, - Perfeito.

Ela deslizou os dedos pela corrente.

- Não devia aceitá-lo.

- Claro que deve. Você o quer.

- E lógico que sim - concordou Gwen em tom exaspe­rado. - É gracioso e charmoso.

Aquilo não fazia sentido. Quase não se conheciam. Não o havia encorajado. Branson não era o próximo passo que planejara em sua vida.

- Por que está fazendo isso?

- Porque ainda sinto aquela coisa em relação a você. - Ele se inclinou, roçando os lábios aos dela e adorando o misto de confusão e aborrecimento nos olhos cor de lavanda. - E parece que está aumentando. Por que não veste algo menos intimidador e saímos? - inquiriu, deslizando os braços em volta da cintura delgada. - Por que não tentamos aquele juntar à luz de velas?

- Não estou vestida de maneira adequada.

- Está linda, graciosa e perfeita. - Podia sentir a tênue hesitação dando lugar à capitulação. - Quero estar com você, Gwendolyn. Fazer amor com você. Não me lembro de ter desejado algo tão veementemente e já desejei muitas coisas.

Ela se sentiu escorregar para o beijo, de encontro àquele homem envolvente, antes que pudesse reagir.

- Sequer tive tempo de raciocinar desde que entrou em minha vida.

- Pois não o faça - retrucou Branson com ferocidade e impaciência. - Relaxe e venha comigo. - Os lábios quentes e sensuais arrebataram os dela, de forma possessiva e exi­gente, não deixando margem a protestos. A excitação a engolfou à medida que ele a puxava de encontro ao corpo. - Pelo amor de Deus, Gwendolyn, deixe-me tocá-la.

- Eu quero... - As mãos delicadas seguravam o rosto másculo. Os dedos enfiados nos cabelos louro-escuros. -Você. Não estou bancando a recatada nem fazendo tipo. - Ela se afastou o suficiente para fitá-lo nos olhos. Era vital ser honesta e lógica. - Nunca desejei alguém a ponto de deixar que me tocasse.

Levou algum tempo para que Branson separasse a mente do turbilhão de sensações que lhe agitava o corpo. Um momento para esfriar a cabeça e discernir o que acabei ouvir.

Intocada. Inocente. Era uma princesa de conto de fadas afinal.

Num gesto instintivo, abrandou a força com que a segurava.

- Não sabe o quanto isso significa para mim. Não quero machucá-la.

- Não estou com medo disso. - Gwen deu um passo atrás deslizando as mãos pelos cabelos. - Sou uma médica, - Os olhos cor de lavanda se estreitaram quando ele deu um sorriso maroto. - Está rindo de quê?

- Alguns ângulos da questão têm a ver com anatomia dra. Dish, mas nada a ver com medicina.

- Doutora o quê?

- Você me ouviu. - Deus! Como sentia prazer em chocá-la. - E, acredite, não pensará como uma médica quando estivermos fazendo amor.

- Ainda não disse que o faria - disparou Gwen. O sorriso presunçoso e o ego extremamente masculino a irritavam o suficiente para fazê-la recobrar o equilíbrio. - E se continuar achando minha inexperiência nesse campo tão divertida...

- Não acho engraçado e sim erótico. Extremamente sensual. O que me faz querer trocar o jantar por uma ceia bem mais tarde. Quero passar um bom tempo lhe fornecendo... - Branson esticou a mão, fechou-a sobre a corrente com a qual acabara de presentear Gwen e puxou-a para si. - A experiência necessária nessa área.

- Não me decidi ainda - começou ela, sentindo-se aliviada quando o bip em sua cintura soou. - Com licença - disse, dando um passo atrás e pegando o bip para ler o código Girando nos calcanhares, disparou pela porta à procura do chefe dos residentes de plantão.

- Que bom, Blade, vejo que ainda não saiu! Temos uma emergência. Um menino de doze anos baleado no peito e abdome. Hora prevista para a chegada: dois minutos.

Branson a observou se transformar ante seus olhos. De uma excitada e irritada mulher em uma fria e determinada profissional. Ela se movia com rapidez em direção às pesadas portas duplas, enquanto o som da sirene ecoou no silêncio.

Os paramédicos adentraram com o menino em uma maca, com Gwen correndo ao lado deles, ouvindo as in­formações gritadas sobre os sinais vitais e tratamento que lhe fora dispensado. Vestiu as luvas e o jaleco enquanto uma enfermeira colocava-lhe os óculos de proteção. Em segundos as mãos delicadas encontravam-se cobertas de sangue.

O garoto trajava uma jaqueta com o logotipo dos Bruins e tênis pretos, notou Branson. Um casal irrompeu na sala, por trás da maça, ambos chorando, gritando súplicas e fazendo perguntas.

- Não podem ficar aqui - disparou Gwen, enquanto entubava a criança. - Temos de ajudá-lo agora, Wallace ordenou, referindo-se a um assistente. - Dê-me seis unidades de sangue O negativo. Ele precisa de transfusão sangüínea urgente.

- Ele ficará bem, não é? - A mulher lutava para se desvencilhar do assistente que a encaminhava para a porta. - Ele estava voltando da visita de um amigo, estava a caminho de casa. Meu bebê. Scotty...

O odor de pesar e terror impregnava o ar, sobrepujando e do sangue.

- Scotty está em boas mãos agora - acalmava-a Wallace, guiando os pais para fora da sala de emergência. - A dra. Blade é a melhor que temos. Deixem-na fazer seu trabalho. As mãos delicadas se movimentavam com rapidez, enquanto a mente se mantinha centrada. Um jato de sangue saltou a atingindo nos seios.

- Temos um foco hemorrágico. Pinça. - Pressão sangüínea caindo. Estou perdendo o pulso. Gwen ordenou drogas intravenosas, testes, tipo e cruza-mento sangüíneo da vítima. As palavras proferidas com precisão cruzavam o ar, enquanto as mãos ágeis aplicava os primeiros socorros. Mas, em seu íntimo, à luz da lógica sabia que seria inútil.

- Irrigue isso, não consigo enxergar que diabos... Achei o foco hemorrágico. Alguém vá buscar as radiografias. Quero saber quantas balas há dentro dele. Vamos, Scotty, fique comigo.

Gwen lutou o quanto pôde pela vida do menino. Gotas de suor escorriam-lhe pela nuca. Os olhos determinados brilhavam como os de um guerreiro. Sabia que, algumas vezes, a morte podia ser derrotada, ou ao menos burlada.

Tanto estrago em um corpo tão pequeno! Mas não permitiria pensar naquilo. Tinha de se manter focada em cada etapa, necessidade e resposta.

O tempo passava apressado à medida que a equipe paramentada entrava e saída da sala.

Quando o menino teve a primeira parada cardíaca, ela não alterou o ritmo.

- Vamos desfibrilar, agora! - Agarrou o desfibrilador pediátrico e esperou pelo som, aplicando-o ao peito do garoto. O corpo estremeceu, mas o coração não respondeu - Outra vez. Vamos, droga, vamos! - Com o segundo choque o monitor registrou a freqüência cardíaca.

- Ritmo sinoatrial lento.

- Aplique uma dose de epinefrina. - Era apenas ela e o paciente na mente de Gwen, desafiando o inevitável. - Agüente um pouco mais. A sala de cirurgia já está prepara da para ele?

- De sobreaviso.

- Pressão sangüínea caindo. Sem pulso.

Gwen praguejou e se adiantou, inclinando-se sobre o paciente.

- Rápido, coloquem o reanimador! - ordenou, enquanto iniciava a ressuscitação cardiopulmonar. - Nós o estamos perdendo.

Os cabelos do menino eram negros e cacheados. A face se assemelhava a de um anjo adormecido. Gwen forçou-se a não notar, não pensar, apenas agir.

- Preciso de mais duas unidades de sangue. Vamos, movam-se, vamos levá-lo lá para cima.

Eles empurraram a maça através da porta com Gwen ainda encarapitada nela, trabalhando no peito do menino. Mesmo quando os pais se aproximaram, tentando alcançar a maca, ela não desviou os olhos do paciente.

A última visão de Branson foi a firme determinação nos olhos de Gwen antes de as portas do elevador se fecharem.

E, quando voltaram a abrir, duas horas mais tarde, avistou os olhos daquela mulher extraordinária de novo. Traziam a morte do menino estampada neles.

- Gwendolyn...

Ela apenas meneou a cabeça em negativa. Passou por ele em direção à mesa do saguão. De maneira deliberada, pegou o prontuário, completou as anotações e deixou o plantão. Sem dizer nada, entrou na sala de descanso e dirigiu-se a sou armário.

- Sinto muito - disse Branson atrás dela.

- Isso acontece. Já estava morto quando o trouxeram. Quando a bala transpassou-lhe o coração. - Retirou o jaleco e retirou do armário um blazer de lã. - Não devia ter espe­rado. Estou muito cansada para socializar esta noite. Vou para casa.

- Eu a levo.

- Estou com meu carro - retrucou, pegando a capa e a bolsa.

- Não a deixarei sozinha quando sei que está transtor­nada.

- Não estou transtornada. Não é o primeiro paciente que perco e não será o último. - Vestiu a capa e retirou do bolso um par de luvas. - Fizemos tudo o que estava a nosso alcan­ce. - Os dedos delicados estavam tensos ao abrir a porta.

Branson esperou até que saíssem do hospital.

- Vou levá-la para casa.

- Deixe-me sozinha. - Retirou a mão de Branson de ser braço. A pressão que sentia no peito era quase insuportável - Sou perfeitamente capaz de dirigir. Não o quero, tampouco preciso de você. Eu não... - Assustada com a própria reação, pressionou os dedos contra os olhos. - Desculpe-me. Não, por favor. - Meneou a cabeça em negativa antes que ele a tocasse. - Preciso caminhar.

Branson enfiou as mãos nos bolsos.

- Então, caminhemos.

 

A brisa era fresca. A neve, um redemoinho de flocos brancos, em silêncio, caminharam em direção ao rio com o ruído constante do tráfego a acompanhá-los. As luzes das ruas brilhavam assim como os adornos natalinos. Em uma das esquinas, um Papai Noel de rua brandia seu sino emitindo um som monótono à medida que os pedestres passavam.

Natal, pensou Gwen, era um tempo em que as crianças sorriam para a família, para os mistérios e alegrias da data. Mas para o destino, se alguém acreditava nele, um dia ou uma estação era exatamente igual a outro.

- Não podemos guardar isso dentro de nós - manifestou-se Gwen afinal. Sentia as mãos frias e tensas. Porém, optou por enfiá-las nos bolsos da capa em vez de vestir as luvas.

- Se o fizermos, perdemos o ponto de referência, e come­çamos a duvidar de nós mesmos, nossos instintos e habili­dades. E, da próxima vez, com o próximo paciente, não conseguiríamos permanecer focados. Não podemos deixar que nos afete tanto. Sei disso.

- Mas, se não deixar que isso a aflija sequer um pouco, perderá sua humanidade, aquilo que a fará se importar o su­ficiente para lutar da próxima vez, com o próximo paciente.

- É uma linha tênue entre um limite e outro - murmurou Gwen. - Não importa o quanto queira se manter nela. Em algum momento, penderá para um lado ou para o outro. - Es­tacou, observando a água.

Amava aquele lugar, aquela cidade, com o tráfego inten­so, as encantadoras e antigas construções e o gracioso curso das águas. Gostava da história e da dignidade da metrópole. Mas, naquele momento, não conseguia encontrar consolo nela. Ela fazia parte de um mundo que podia ser muito frio e cruel com os indefesos.

- Não queria perdê-lo. Em meu íntimo, sabia que iria, no minuto em que constatei o estrago. Mas algumas vezes você consegue um milagre. E outras não.

Fechou os olhos, agradecida por Branson permanecer em silêncio. Pelo fato de ele entender que precisava apenas desabafar.

- Posso agüentar isso. Fui treinada para fazê-lo. As horas estressantes de trabalho, a pressão, a burocracia, a papelada, os pacientes rudes, os viciados e os pervertidos. Posso suportar as vidas desperdiçadas. No nosso cotidiano vemos tantas que quase não as notamos. E então, de repente... - A voz lhe falhou, enquanto esfregava os olhos. - Ele tinha apenas doze anos.

E então Branson se manifestou, dizendo a única coisa cabível.

- Fez tudo o que pôde por aquele garoto.

- Não parece importante quando não é suficiente.

- Sabe que é - retrucou ele, girando-a para que o enca­rasse. Não podia pensar em nada que não fosse aquela mulher quando percebeu uma lágrima rolar dos olhos cor de lavanda. - Quantas vidas salvou hoje, ou esta semana, ou ainda este ano?

- Sinto, quando vejo uma pessoa com dor ou em perigo de morte, que posso salvá-la na maioria das vezes... ou ao menos ajudá-la a melhorar.

- E você o faz - afirmou Branson em tom suave. - A qualquer preço, é exatamente o que faz.

- É o que preciso fazer. E sei que algumas vezes, não importa o que façamos, ou o quanto a equipe se empenhe, perdemos. Isso é o lógico, o real, mas ainda assim uma parte de mim não aceita essa realidade. Tudo em que consi­go pensar é que, nesta manhã, aquele menino acordou, tomou o desjejum. Talvez tenha corrido para pegar o ônibus da escola e devaneado na sala de aula. E, em seguida, porque estava na rua errada, no momento errado, teve a vida ceifa­da. Tudo o que aquela criança iria fazer ficará incompleto.

Gwen girou nos calcanhares e voltou a andar.

- Ele era meu paciente, tive de dar a notícia. Temos de aceitar o mo­mento em que não há mais nada a fazer. Olhamos para o relógio e anotamos a hora. E então está tudo acabado. Tive de chamar os pais e comunicar-lhes o falecimento.

- Gwendolyn, o que você faz requer coragem. É mila­grosa! - declarou Branson, tomando-lhe as mãos nas suas e esfregando-as para aquecê-las. - O que sente é bravio e miraculoso. - Levou as mãos delicadas aos lábios. - E tira meu fôlego.

Com um suspiro profundo, Gwen deixou-se ser abraça­da e pousou a cabeça no peito firme.

- Desculpe-me pelo modo como o tratei no hospital.

- Psiu! - fez Branson, roçando os lábios nos cabelos macios.

Ali, pensou Gwen, havia consolo. Um homem em quem se apoiar. Necessitando daquele conforto, ergueu a cabeça e encontrou os lábios quentes e macios. O calor que ele lhe proporcionava abrandava a dor, e aparava as ásperas arestas do sofrimento.

- Branson. - Tentou sorrir, enquanto ele lhe enxugava as lágrimas com os polegares. - Se me quiser, estou pronta para ir com você.

Ele sentiu os músculos do estômago se contraírem. A mão que mantinha no queixo delicado não se encontrava parada, e, com esforço, escorregou-a até alcançar-lhe o ombro.

- Claro que a quero. Mas não posso pedir que fique comigo agora.

- Mas... - Gwen fechou os olhos quando ele pressionou os lábios contra sua testa.

- Você me inspira a seguir certas regras. Está trêmula e vulnerável. Seria fácil convencer-me de que a estaria con­fortando, desviando sua mente dos problemas.

- E seria verdade?

- Mas estaria também tirando vantagem do momento. Não faria isso com você. - Não se sentia capaz de agir daquela maneira com ela, refletiu, pois queria mais do que um simples momento com Gwen.

- Não consigo entendê-lo. Pensei que iria preferir levar vantagem.

- Não dessa forma. Nossa primeira vez juntos não acontecerá porque está infeliz, ou sentindo-se agradecida pelo fato de eu a ter escutado. Quando a tocar, se me permitir terá a ver com um momento só nosso.

- Está sendo cuidadoso porque eu nunca estive com outro homem antes...

- Estou sendo cauteloso por se tratar de você. É importante para mim, Gwendolyn. - Roçou os lábios nos dela outra vez. - Muito. É por isso que me certificarei de que jantará, depois a levarei para casa e, se necessário, irei co­locá-la na cama para ter certeza de que dormirá.

Gwen exibiu um sorriso genuíno.

- Não preciso de babá, Branson.

- Eu sei. É isso que faz o fato de cuidar de você tão atraente. Esta noite não terá escolha. Está gelada - acres­centou ele, deslizando o braço por sobre os ombros delgados e a guiando de volta ao hospital.

- Aprecio sua preocupação, mas estou bem agora. Além disso, meu carro...

- Precisa comer.

- Não estou com fome.

- Mas irá se alimentar - afirmou Branson em tom calmo, avistando o pequeno restaurante que ficava localizado no quarteirão do hospital. - Aqui mesmo temos o que precisa­mos. Comida americana simples e substancial.

- O serviço é deficiente e a qualidade da comida duvi­dosa.

- Ótimo. Isso adicionará uma pitada de aventura à nossa refeição. - Gwen notou que os cabelos louros tinham um brilho dourado em contraste com a noite, enquanto ele a guiava através da porta. - Dra. Blade, acho que estamos prestes a ter nosso primeiro encontro.

Gwen ergueu o olhar para fitá-lo, enquanto ele segurava a pesada porta de vidro para que passasse. O calor do local e os aromas impregnados no ar a atingiram de pronto. Balões nata­linos espalhafatosos pendiam do teto e o ambiente a agradou.

- Sim, por que não?

O burburinho de vozes no bar quase a impedia de ouvir o que Branson dizia ao maitre, mas percebeu uma nota deslizar das mãos do escritor para as do empregado. E den­tro de instantes estavam sentados no salão de jantar.

- Este não é o tipo do lugar em que se deva subornar o maitre - afirmou Gwen, enquanto deslizava a cadeira de couro envelhecido para trás.

- Funcionou, não? - As covinhas se pronunciaram com o sorriso. - Você estava precisando sentar. E o mais distan­te possível do barulho.

- É um popular bar de solteiros - informou ela, recostando a cabeça ao espaldar da cadeira. - Muitos dos funcio­nários do hospital vêm aqui para paquerar ou procurar um pouco de ação. - Gwen riu quando ele arqueou as sobran­celhas. - Eu não. Não costumo vir aqui, pois não tenho tempo nem energia para isso.

- Não iria ferir meus sentimentos caso se dispusesse a isso esta noite. - Tomou-lhe a mão nas suas com firmeza e ergueu o olhar para a garçonete que se aproximava. - Pedi­remos a bebida e a comida agora - informou Branson, or­denando o vinho de sua preferência e os pratos, enquanto a funcionária anotava apressada. - Um filé ao ponto - repetiu ele. - E traga por favor uma garrafa de água mineral para a mesa. Desculpe, como se chama mesmo?

- Crystal - murmurou a garçonete, com a testa franzida enquanto anotava o pedido.

- Crystal, gostaríamos que se trouxesse uma cesta de pãezinhos quando trouxer as bebidas. A dama teve um dia difícil e está cansada. Deve saber como é enfrentar esses dias.

O sorriso que Branson lhe voltou aliviou as rugas da lesta da garçonete, suavizando-lhe a expressão.

- Sem dúvida. Pode deixar comigo.

Gwen esperou até que a garçonete se afastasse, e deixou escapar um longo suspiro.

- Branson, você fez o pedido sem me consultar?

- Não farei disso um hábito - garantiu ele, com suavi­dade. - Seu cérebro está cansado para tomar decisões hoje. Precisa relaxar, comer um bom filé e de tempo para repor as energias. Estou apenas providenciando isso. E, para pro­var que não sou um ditador, na próxima vez que jantarmos juntos será você a fazer o pedido.

- E mesmo? - Gwen exibiu um sorriso meigo. - O que-acha de pâncreas de vitela?

Branson fez uma careta.

- Podia passar a vida toda sem comer vísceras.

- Lembre-se disso da próxima vez que decidir o cardápio por mim.

- Está bem. Quando vai ser sua próxima folga?

- Terei meio sábado livre e todo o domingo.

- Sairá comigo sábado à noite? Pode escolher a hora e oi lugar.

Gwen arqueou as sobrancelhas.

- As bodas de Fígaro está em cartaz no Conservatório. O que acha de ópera?

- Adoro.

- Verdade?

- É gratificante surpreendê-la de vez em quando. - Branson sorriu para a garçonete. - Obrigado, Crystal. - Pego; um pão da cesta, partiu-o em dois e passou manteiga. Em seguida, entregou uma das metades a Gwen. - Aprecio Mozart em particular. Irei buscá-la às 19 horas. Jantaremos mais tarde, se lhe agradar.

- Suponho que sim.

- Ótimo. E dessa vez ficará comigo. Faremos amor, dormirá comigo e tomaremos o desjejum no fim da manhã de domingo, se lhe aprouver.

Gwen engoliu o pão com dificuldade, ajudando com um gole da água mineral que Branson lhe servira.

- Sim - conseguiu falar por fim. - Suponho que sim.

- Deixe-me ver - ordenou Julia no momento em que Gwen pôs os pés dentro de casa. - Oh, gostaria de ter ido fazer compras com você. Laura! Nossa prima voltou cheia de bolsas.

- Laura está aqui?

- Atacando a geladeira, claro. - Julia pegou uma das bolsas e correu em direção à sala de visitas. - Alega que Royce arrastou-a para um shopping para comprar enxoval para o bebê e está exausta.

- O que eles compraram?

- Nada ainda. Apenas visitaram as lojas. Adoraria ver Royce babando sobre os berços.

- Ficamos em dúvida entre três - informou Laura, en­trando na sala com uma tigela de espaguete nas mãos. - Mas estamos discordando quanto aos carrinhos.

Gwen deixou-se afundar em uma cadeira em frente à ampla e decorada árvore de Natal, encolhendo as pernas.

- Não me parece nem um pouco exausta - afirmou em tom acusatório. Ao contrário, pensou, a prima parecia mais disposta e saudável do que nunca. Os olhos negros brilhavam e a pele dourada reluzia.

- Não estou, mas Royce estava aventando a possibilida­de de procurarmos eletrodomésticos e, alegando cansaço, escapei.

- Bem, eu estou de fato exausta - afirmou Gwen, esfregan­do o peito de um dos pés. Inspirando profundamente, sentiu o aroma de pinho, canela e de toros de macieira queimados. A fragrância de sua casa. - Foi demais correr quase todo o shop­ping à procura de um vestido novo. Não precisava de um.

- Como lhe disse, precisava sim - insistiu Julia, vascu­lhando a sacola que trazia nas mãos. - Um encontro especial requer um vestido especial.

- Não está nessa sacola.

- Oh? - Julia estalou a língua quando afastou o papel fino e tirou de lá uma cinta liga de renda rosa. - Depende do ponto de vista.

- Minhas meias-calças vivem escorregando - explicou Gwen. - Achei que seria mais prático se... - E, então, irrom­peu em uma gargalhada. - Está bem. Minha intenção foi deixá-lo nocauteado.

- Acredite, quando ele tiver uma visão de você nisso, já estará nocauteado. - Em seguida, Julia tirou da saca o sutiã que compunha o conjunto. Um minúsculo botão de rosa for­mava o fecho frontal. - Oh, querida, você vai destruí-lo.

Laura pousou a tigela de macarrão e pousou um braço sobre o espaldar da cadeira de Gwen.

- É o homem de sua vida?

- Espero que sim.

- E difícil resistir a um homem que lhe presenteia com sete cisnes de cristal.

- Ele estará aqui em algumas horas - começou Julia. - Por que não fica e dá uma boa olhada nele?

- Gostaria, mas tenho um encontro quente e eletrizante com meu marido. Vamos, Gwen, mostre-nos o vestido.

- Está bem, mas lembrem-se, passei horas procurando. Portanto, sejam gentis nas críticas. - Em seguida, retirou a caixa da sacola, ergueu-a e a abriu para revelar o traje longo de veludo rosa.

- E lindo - murmurou Julia.

- Não acha que é demais, quando combinado com as jóias que estarei usando no pescoço e punhos? - indagou Gwen, indecisa.

- Acho que ficará perfeito em você - opinou Laura, deslizando a ponta dos dedos pelo tecido macio. - Clássico e elegante.

- Não é extremamente sexy. Tentei achar algo mais... menos, acho... mas sempre voltava a este.

- É muito sexy - discordou Julia. - Gola rulê, mangas compridas e justas, a saia plissada envolvendo seu corpo até o tornozelo. Aguçará a imaginação de Branson para saber o quem tem por baixo. E quando descobrir... Bem, sabe como fazer uma ressuscitação cardiorrespiratória. Portanto, ele sobreviverá.

- Está nervosa? - inquiriu Laura.

- Não - Gwen sorriu, dobrando o vestido com cuidado e o envolvendo no papel outra vez. - É o momento certo com o homem certo... parece muito adequado. Agora vou subir e me permitir um banho de espuma demorado e depois me dedicar à maquiagem e ao cabelo. - Juntou as sacolas e saiu apressada da sala.

- Esse homem é confiável? - indagou Laura quando se viu a sós com Julia.

- Estou lhe dizendo, o olhar dele pega fogo quando a vê. E Branson foi o único homem a colocar essa expressão sonhadora no rosto de nossa prima.

- Sim, é bom vê-la assim sonhadora. - Sentindo-se in-dolente e feliz, Laura se espreguiçou. - Onde vovô o encon­trou?

- Relações familiares antigas. Mas Gwen sequer descon­fia que Daniel manipulou esse encontro.

Com uma risada divertida, Laura pegou a tigela de ma­carrão outra vez.

- Boba. Ele sempre faz isso. Sabe de uma coisa, se Gwen acabar tendo um compromisso sério com esse homem que vovô arranjou para ela, o sr. MacGregor dirigirá as baterias a você.

- Estou à frente dele. - Julia sorriu, presunçosa, e diver­tida pegou um Papai Noel de corda que se parecia com o verdadeiro MacGregor. Torceu-lhe o punho e o boneco emitiu o ho-ho-ho característico. - Aquele que se prepara não é pego desprevenido, meu camarada - disse ela ao bo­neco.

Laura resfolegou ante a presunção da prima.

- Vai acreditando nisso.

Precisamente às 19h, Gwen desceu a escada. Sentia-se serena e relaxada. Os diamantes que os pais lhe haviam dado. quando se graduou em Medicina reluziam nas orelhas e lhedavam segurança. A roupa íntima que usava a fazia sentir-se feminina, misteriosa e maravilhada.

Pousou o agasalho sobre o pilar do corrimão no momen­to exato em que a campainha tocou.

E o estado de calma em que se encontrava sofreu um: solavanco, quando abriu a porta para encontrar Branson em um smoking, com um buquê de rosas nos braços.

- Oh, que gentil!

- Espere. - Continuou parado onde estava a observá-la.

- Está perfeita, Gwen, deixou-me sem ar.

- Então não vou lhe dizer o quanto me empenhei para isso.

- Ela sorriu e pegou o buquê de rosas. - Quero colocá-las em um vaso antes de sairmos. Não se importa de esperar?

- Não. - Tomou-lhe a mão, e sem despregar os olhos dela, levou-a aos lábios. - Não me importo.

 

A sala de estar da suíte de hotel de Branson se encontrava repleta de botões de rosas brancas começando a desabrochar e velas brancas suavizando o ambiente com suas luzes bruxuleantes e essência. Uma pequena mesa fora colocada sob a janela, onde as cortinas estavam escancaradas, permitindo que a cidade se insinuasse por trás do vidro. Prataria e cristais reluziam contra o linho branco.

O coração de Gwen pareceu saltar no peito.

- Você tem duendes aqui? - murmurou.

- Apenas os eficientes funcionários do hotel - informou Branson, retirando-lhe o agasalho. - Telefonei logo que deixa­mos o teatro para que eles tivessem tempo de arrumar tudo.

- Teve muito trabalho para planejar isso tudo?

- Não. Montar cenários é algo que me dá prazer. - Co­locou o agasalho de lado e tomou-lhe a mão, levando os lábios à palma. - Fiz isso pensando em nós. Claro que es­colhi o cardápio sem consultá-la.

- Acho que posso perdoá-lo desta vez.

- Pratos frios. Portanto, não teremos com que nos preo­cupar. Está com fome, ou prefere que tomemos o champanhe por enquanto?

- Champanhe me parece perfeito.

- Perfeição é tudo o que quero para esta noite - dizendo isso, retirou um único botão de rosa da mesa e lhe entregou antes de erguer a garrafa de champanhe do balde de gelo de prata. - A primeira vez que a vi, pensei em um balé, eficien­temente coreografado.

Gwen inclinou a cabeça para o lado, sorrindo quando a rolha estourou.

- Bailarinos são mais vigorosos do que muitos pen­sam.

- Os melhores são fortes, delicados e incansáveis. Você também me faz lembrar de fadas e histórias de princesas. - Entregou-lhe a taça de champanhe. - Que também são mais fortes e resilientes do que se pensa. Ainda assim, é difícil não desejar resgatar e acarinhar a princesa.

- Para que me resgataria, Branson?

- Para uma noite fora da realidade. - Ele tocou a taça na dela, fazendo um brinde. - Aos contos de fada e finais felizes!

- Está bem. - Gwen sorveu um gole da bebida, permi­tindo que as bolhas brincassem em sua língua. - Mas isso é a realidade, e não preciso nem quero ser resgatada dela. Não precisa me seduzir, Branson. Estou aqui porque quero. De­sejo você.

- Seduzi-la, Gwendolyn, é o meu maior prazer. - Ele tocou o queixo delicado e tomou-lhe os lábios num beijo suave.

Gwen não se sentia nervosa. Ainda. Mas ele queria que ficasse. Ansiava por observar aqueles olhos extraordinários se tornarem escuros de nervoso e desejo. Iria destruir-lhe a praticidade, camada por camada até atingir o romantismo que se ocultava em seu interior.

Era a Gwen romântica a quem queria despertar e dar prazer. E acarinhar.

Quando a encontrasse, iria lhe dar tudo o que era e pos­suía.

- Tome. - Bran retirou um morango de uma tigela e passou-o no chocolate branco. - Prove.

Gwen entreabriu os lábios e recebeu o fruto com a co­bertura, deixando que a mistura das texturas e sabores per­manecessem em sua língua.

- Maravilhoso.

- Coma mais.

Branson repetiu o gesto várias vezes, dando-lhe beijos suaves nos lábios entre um oferecimento e outro. E percebeu o primeiro tremor perpassar o corpo feminino.

- Tudo o que tem a fazer é me dizer do que gosta. Quan­do quiser mais, ou desejar menos. - Ainda lhe tocando apenas a face, ele aprofundou o beijo, de modo lento e pro­vocativo. - Quando estiver pronta para receber tudo.

- Não sou frágil - afirmou ela. Porém, a voz soou tre­mida. Aquele homem a estava guiando para onde nunca estivera e os primeiros passos eram vertiginosos. - Não precisa se preocupar.

- Não frágil, talvez, mas preciosa por certo. - Tomou a taça dos dedos firmes de Gwen e pousou-a de lado. Os olhos azuis a fitavam escuros e intensos. - E minha esta noite.

O coração de Gwen deu um salto dentro do peito quando ele a ergueu nos braços. Talvez fosse tolo, mas a imagem que lhe plasmou na mente foi a de um cavaleiro, com arma­dura prateada brilhando sob os raios do sol, a ajudando a montar em seu cavalo. Curvou os lábios em um sorriso, enquanto os pressionava contra o pescoço largo.

- Está me dominando - murmurou Gwen.

- É o que quero e preciso. - A cama estava desfeita. As pétalas de rosas espalhadas sobre ela fizeram o coração de Gwen derreter-se. Velas queimavam, emitindo uma luz suave. - O tempo não existe agora - declarou Branson, colocando-a de pé ao lado da cama. - Tampouco o mundo, a não ser o nosso. Ninguém além de nós dois. Apenas você, Gwendolyn, e eu.

Gwen acreditava naquele homem. O universo que criara para ela era a única realidade de que precisava e desejava naquela noite. Ergueu os braços, deslizando-os em torno do pescoço largo e deixando-se engolfar por aquela sensação. Por ele.

A boca macia e sensual era impaciente, persuasiva e pos­sessiva em um momento e provocadora em outro. Gwen osci­lou, tonta pelo assalto impetuoso e o aroma das velas e rosas.

Toque-me, pensou ela.

Como se lhe lesse os pensamentos, as mãos másculas deslizaram pelos contornos do corpo feminino, escorregan­do pelo veludo e traçando as curvas sinuosas.

Mais, pediu Gwen mentalmente. Muito mais.

A boca firme e experiente desceu pelo pescoço delicado, aninhando-se com suavidade no ponto onde o colar o circundava. E de maneira vagarosa, centímetro por centímetro. Branson desceu o zíper do vestido, expondo a primeira amostra de pele.

Seda sob o veludo, pensou ele. E já aquecida. Não lhe custava nenhum esforço demorar-se naquela tarefa. O desejo que sentia por aquela mulher era proporcional à necessidade. de satisfazê-la. Girou-a até que a boca pudesse saborear a linha graciosa do dorso do pescoço sedutor e o declive dos ombros delicados. Quando o braço esguio se ergueu, envolvendo-o, Branson sentiu o sangue pulsar apressado nas veias. Porém, os lábios permaneceram pacientes e as mãos, gentis,

Gwen estremeceu, arqueando o corpo para frente, quando as mãos masculinas lhe envolveram os seios. O polegar firme lhes traçando os contornos generosos. Os gemidos de ambos se mesclaram ao mesmo tempo em que Branson deslizava o vestido pelos ombros delgados e o deixava cair até repousar sobre os pés de Gwen.

- Oh, Deus! - Ele não espera descobrir tão inebriante fantasia por baixo da veste elegante. Havia se preparado para o corpo magnífico que tanto desejava, para o impacto do desejo. Mas a seda rosa rendada com laço frontal fez os dedos firmes tensionarem quando a girou para que o encarasse outra vez.

O repentino ímpeto de luxúria brilhando nos olhos escu­recidos de desejo fez o coração de Gwen dar um giro de 360 graus no peito. Observou o olhar predador viajar por seu corpo, o que parecia lhe atear fogo à pele e lhe fazer a ca­beça girar.

- Quis... surpreendê-lo - conseguiu balbuciar para, em seguida, dar um passo instintivo atrás quando os olhos in­tensos pousaram nos dela. Havia algo de selvagem neles.

Ela era um misto de branco e rosa, como algo deliciosamente proibido por detrás de uma fina camada de vidro.

Branson ansiava por destruir aquela barreira e arrebatar, saquear e devorar o que havia do outro lado. Recorrendo a toda a força de vontade que possuía, ele sufocou a onda avassaladora de desejo primitivo e deslizou apenas as pontas dos dedos sobre a protuberância logo acima da renda tosa.

- Você me deixa zonza. - Como aquele homem podia locá-la de maneira tão gentil e fitá-la com fúria selvagem? As mãos delicadas tremiam enquanto tentavam afrouxar o nó da gravata e, desajeitadas, tentavam desatar as abotoaduras. - Quero vê-lo.

Branson podia perceber o nervosismo expresso em pe­quenos reflexos de medo nos olhos cor de lavanda. Percebê-lo, bem como o tremor das mãos delicadas, o fez sucumbir de vez à paixão.

- Olhe para mim - murmurou ele, quando Gwen retirou-lhe a camisa. - Quero ver seus olhos enquanto a toco. Per­ceber o que está sentindo quando minhas mãos estão em você. Assim. - Deslizou-as sobre a pele exposta por baixo das meias diáfanas. Os olhos de Gwen se dilataram e o ar ficou preso em sua garganta quando ele desabotoou o fecho frontal de seu sutiã.

- Está trêmula. Eu a desejo tanto - murmurou Branson, enquanto libertava o outro fecho. - E acima de tudo, quero que se entregue.

Branson a deitou na cama, cobrindo o corpo feminino de curvas perfeitas com o dele. Os lábios quentes e macios comprimiram os de Gwen, fazendo com que se erguesse dentro dela uma onda de desejos perigosos e urgentes. Em seguida, o beijo impetuoso se abrandou, deixando-a tonta. Se os primeiros passos no mundo que Branson criara para ela foram vertiginosos, aquilo era puro entorpecimento.

A boca experiente traçou um caminho de fogo, descendo ao longo do corpo feminino arquejante, enquanto as mãos firmes subiam, acariciando a pele que a língua deixara úmida. Labaredas de fogo pareciam consumi-la. O prazer sobrepondo-se à dor, quando Branson se apossou dos seios firmes, desvencilhando-a do sutiã.

E então as labaredas se transformaram em fogo brando.

Nunca ninguém a havia tocado daquela forma. Tampou­co lhe incitado sensações tão conflitantes e subjugadoras. As pétalas de rosas se aderiam à pele de Gwen. Beijos doces e românticos a inebriavam. A luz das velas tremulava contrai suas pálpebras, suave e idílica. Branson lhe murmurava palavras doces e promessas românticas com a voz rouca dodesejo. Mas, ainda assim, as mãos gentis conseguiam elevar sua pulsação a um nível quase insuportável e o suave roçar dos lábios cálidos contra os dela lhe roubava o ar.

Branson queria lhe dar tudo o que possuía. E tomar o que ela tivesse a lhe oferecer. Rolou as meias finas ao longo das pernas esguias, extasiando-se quando a respiração de Gwen se tornou pesada e os movimentos impacientes.

Quando ela o tocou, com as mãos elegantes e competentes, os dedos delicados flexionando-se contra a pele em brasa, Branson teve de beijá-la outra vez ou corria o risco de fenecer de desejo.

Gwen gemeu ao contato com o corpo másculo. Era aquilo que desejava. A intimidade dos corpos colados e as mentes em sintonia. Abandonando o nervosismo inicial, sorriu contraindo os lábios macios, tomando o rosto masculino nas mãos.

O prazer era inebriante e suave e Gwen deixou-se agasalhar por ele.

Branson a percebeu flutuar. Os gemidos lânguidos que emitia eram mais uma fonte de excitação para ele. Com movimentos deliberadamente lentos, a guiou às alturas, até que, os gemidos se transformassem em arquejos e os olhos cor de lavanda se dilatassem em êxtase. Sob o dele, o corpo feminino se contorcia guiado pelo instinto e ansiando por mais.

Uma sensação levando à outra. Gwen sacudiu a cabeça; vigorosamente como a negar o que lhe ia no íntimo. Os olhos predadores mantinham-se fixados em sua face. Intensos e concentrados em cada centelha de emoção que a perpassava. E as mãos... oh, aquelas mãos eram impiedosas!

Um calor intenso a engolfou como uma bola de fogo. A respiração presa na garganta. O prazer de repente se tornara afiado, feroz e infinitamente excitante. Ouviu o som do próprio gemido, crescendo dentro dela e tornando mais es­pesso o ar pesado.

Foi catapultada a um cume e arremessada de volta ao solo.

- Branson...

- Outra vez. - Ele não queria que Gwen recobrasse o fôlego, tampouco clareasse a mente. Observando-a, inebria­do por aquela mulher, impeliu-a de encontro à próxima onda. E, quando percebeu que ela estava pronta, que haveria mais prazer do que dor, possuiu-a.

Ele se encontrava dentro dela, preenchendo-a. Mover-se com ele parecia tão natural quanto respirar. Gwen entregou-se sem reservas. Rendeu-se ao êxtase. Quando a boca quente e macia arrebatou a sua outra vez, correspondeu com avidez. Quando as mãos másculas fecharam-se sobre as dela, apertou-as com força para selar a união.

Lentamente, com suavidade, prolongando ao máximo, saboreando ambos se encontravam acasalados e unidos. Nos olhos de Branson, via refletido o próprio êxtase e seu cora­ção encheu-se de satisfação no momento em que ambos atingiram o prazer juntos.

Branson pressionou os lábios contra o pescoço delicado e concluiu que nunca havia feito amor antes. Descobrira-se tão inocente quanto ela, pois até então desconhecia o que era estar apaixonado pela parceira.

Aquilo era tudo.

- Gwendolyn. Linda, poderosa e ultrajantemente sexy Gwendolyn.

Ela sentiu a felicidade borbulhar dentro de si.

- Branson - retrucou no mesmo tom sonolento. - Lindo, poderoso e ultrajantemente sexy Branson.

Ele ergueu a cabeça. Os olhos cor de lavanda se encon­travam pesados e escuros, a pele alva e macia brilhava e os lábios sensuais discretamente curvados.

- Vou ter muito trabalho para convencê-la a levantar dessa cama.

- Iremos a algum lugar?

- Não muito longe. - Branson traçou com a ponta dos dedos o contorno da face delicada. - Há uma jacuzzi no cômodo ao lado.

- É mesmo?

- Estava pensando em levá-la até lá. O que acha de um banho quente de espuma, uma taça de champanhe gelado e um homem que está pronto para fazer amor com você outra vez?

- Excelente, mas espere! - Tomou a face masculina nas mãos, e uniu os lábios aos dele. O beijo era cálido e profun­do. - Sempre imaginei como seria a primeira vez. Como me sentiria depois de me entregar a um homem. Mas nada do que esperei, ou qualquer expectativa tola que construí era tão maravilhosa quanto a realidade.

Arrebatado pela emoção, Branson enrugou a testa.

- Não sei o que dizer agora.

- Diga-me que a noite não acabou.

- Devo preveni-la de que está apenas começando. - Di­ria a ela, quando chegasse a hora, que desejava uma eterni­dade de noites com ela. Mas se o fizesse naquele momento, pensou, a Gwen romântica se esforçaria em acreditar, mas a prática, duvidaria.

Quando revelasse que a amava, não queria deixar margem para dúvidas.

Se confessasse enquanto ela se encontrava ainda com­placente e relaxada pelo ato de amor, a Gwen romântica talvez lhe desse a resposta que desejava ouvir. Mas, em seguida, a mulher prática retrocederia, analisaria e decidiria que fora arrebatada pelo afã do momento.

Quando Gwen declarasse que o amava, não queria ter dúvidas.

- No que está pensando? - inquiriu ela.

Branson esforçou-se a voltar para aquele momento e sorriu.

- Em que teria de fazer para persuadi-la a colocar essa... surpresa que estava usando.

- Agora?

- Não. - Ele roçou um dedo sobre os lábios macios. - De­pois do banho. Podia vestir apenas isso enquanto comemos os pratos frios.

Gwen riu suavemente.

- Quer que eu use uma cinta liga enquanto janto? Branson se inclinou para lhe mordiscar o lábio.

- Oh, sim.

Ela considerou por instantes, recordando o modo como Branson a fitara quando descobriu o que trajava por baixo do vestido.

- Bem, vou lhe dar a chance de me convencer a usar a lingerie, durante o banho.

- Devo avisá-la de que sou bom em esportes na água. Gwen soltou uma gargalhada.

- Estou contando com isso.

 

Gwen acordou sentindo-se sensual, como se deslizando sobre camadas de seda reluzente. O suspiro que deixou es­capar era baixo e indulgente à medida que se revirava na cama e, em seguida, amuado quando se descobriu sozinha.

Queria que ele estivesse ali, a seu lado, para que pudes­se tocar seu corpo firme e quente e fazer amor outra vez, se é que podiam sobreviver a mais uma sessão de sexo arden­te e delirante.

Ainda não havia aberto os olhos. Era tão inebriante ape­nas flutuar e sonhar! Sentir seu organismo voltar à vida outra vez!

Não tinha noção do quanto o corpo podia ser tão miraculo­so. Nenhum dos estudos, treino ou prática da medicina haviam lhe ensinado as reações maravilhosas que o organismo humano possuía aos estímulos sensoriais. Nada a preparara para o que era capaz... ser provido dos apropriados... incentivos.

Esfregou a mão pela superfície dos lençóis, encontrando-os frios e imaginou há quanto tempo Branson teria se levan­tado. E quando retornaria.

Ele lhe havia prometido trazer o café-da-manhã na cama, lembrou. E pretendia cobrar tal promessa. Relutante, descerrou as pálpebras e piscou várias vezes para focar o relógio. Bem, talvez fosse um tanto tarde para o desjejum, pensou. Mas era a hora perfeita para um café-da-manhã reforçado.

Erguendo-se, encontrou um robe do hotel, de tecido atoalhado macio, pendurado na porta do toalete. Vestiu-o e partiu em busca de Branson.

Encontrou-o trabalhando em frente ao laptop postado sobre a mesa da sala de estar. A testa enrugada pela concentração. Os olhos pareciam um tanto irritados. Estranho, pensou Gwen. Sempre o imaginara escrevendo sem um mínimo de esforço. As palavras simplesmente fluindo-lhe à mente. Tudo o que aquele homem fazia parecia tão natural. Mas, naquele momento, tinha a aparência de uma pessoa que lutava contra algo e não estava satisfeito com os resultados.

Passou as mãos pelos cabelos para arrumá-los, sentindo os primeiros tremores de excitamento perpassar-lhe o corpo, lira excitante, refletiu, observá-lo trabalhar e pensar sem saber que estava sendo apreciado. Parte daquele sentimento se devia ao fato de ele estar usando apenas uma calça de moletom preta. E para sua surpresa, flagrou-se imaginando como seria fácil se ver livre dela.

De repente, Branson ergueu a cabeça. E a fitou com olhar penetrante. Em seguida os olhos cinza clarearam e aquece­ram enquanto ele exibia um sorriso luminoso.

- Bom dia. Não quis acordá-la.

- Estou atrapalhando seu trabalho.

- Não está como eu queria mesmo. Esteve, por um tempo. Quando Branson lhe estendeu a mão, ela atravessou a sala, entrelaçando os dedos nos dele. - Acordei cedo - informou o escritor, beijando-lhe os dedos um por um. - Achei que seria melhor que descansasse mais um pouco.

- Acho que nunca me senti tão relaxada em minha vida. - Gwen soltou uma risada quando ele a puxou, fazendo-a deitar-se em seu colo. - Ou mais descansada - acrescentou, inclinando os lábios para beijá-lo.

- Não a deixei dormir muito.

- E eu adorei.

Branson encontrou o ponto suave logo abaixo da curva tio pescoço delicado e o mordiscou.

- Podemos voltar para a cama e pedir o café-da-manhã.

- Hummrn... É o suficiente para o momento. - Ela estre­meceu quando as mãos másculas deslizaram por dentro do robe e encontraram a pele macia. - E isso é ainda melhor.

 

Era quase meio-dia quando Gwen pôde raciocinar outra vez. Estavam esparramados no chão da sala de estar e sua cabeça encontrava-se apoiada no peito musculoso. Branson sorriu quando ela lhe tomou o pulso.

- Medindo minha pulsação, doutora? Rindo de si mesma, Gwen retirou a mão.

- Acho que sim. Ainda está acelerada.

Branson pressionou os dedos contra a pulsação do pes­coço macio.

- E a sua também. - Ele se sentou, levando-a consigo.

- Se não se alimentar, não seremos capazes sequer de nos aninharmos na cama.

- Gosto do chão. - Gwen pegou o robe que atirara para o lado, estudando-o enquanto ele se erguia. - Como médica, devo admitir que está em excelente forma. Como mulher - continuou, enquanto Branson a puxava para cima. - Sou obrigada a dizer que tem um belo bumbum.

- Obrigado pelos dois pontos de vista.

- Eu o estava observando enquanto trabalhava pela ma­nhã quando acordei e notei que estava com expressão séria e preocupada.

- Algumas partes da história não passam de amolação.

- Quais partes? - Virou-se, tentando visualizar a tela do computador que Branson deixara ligado, quando ela lhe; desviara a atenção. - Posso lê-las?

- Não. - Com um gesto brusco, o escritor se inclinou acionando alguns botões, desligou o computador.

- Foi bem claro - afirmou Gwen, franzindo a testa. - E rude.

- Sim. Gostaria que eu me esgueirasse por sobre se ombro, emitindo opiniões quando remover a próxima vesícula biliar?

Ela se encontrava muito próxima de discutir, o que a fazia corar.

- Quem disse que eu iria dar opiniões?

- Claro que iria. Não conseguiria resistir. O problema querida, é que, enquanto poucos se acham capazes de executar uma cirurgia cerebral, muitos se julgam aptos a escrever. Apenas uma questão de tempo e oportunidade. - Deu um beijo suave nos lábios macios. - Ninguém lê meus livros antes de estarem escritos, com exceção de meu editor. Con­sigo conservar mais amigos dessa forma.

- Bem, se isso o faz sentir melindrado por...

- Sim. O que vai querer para o café-da-manhã?

Gwen deu de ombros.

- Qualquer coisa. Já me contou de que se trata a história - relembrou-o Gwen.

- Não. Eu lhe expliquei o conflito básico e lhe dei uma visão geral do personagem principal. - Sabia que não deveria rir, mas não pôde evitar. - Vai amuar? Fica muito atraente.

- Não estou amuada. - Os olhos cor de lavanda se tor­naram escuros e taciturnos. - Nunca o faço.

- Ninguém me preveniu sobre isso - murmurou Branson. Gwendolyn não gosta de ser contrariada. Faz beicinho.

- Não faço! Vai pedir o café-da-manhã ou devo fazê-lo?

- Ficaria feliz se o fizesse. - Encontrara uma nova face-la para apreciar naquela mulher. Satisfeito, ordenou o dobro da comida que seriam capazes de comer. - Irá se sentir melhor quando tomar o desjejum.

- Estou muito bem - retrucou ela entre dentes.

- E acho que tenho algo que pode suavizar sua ira.

- Não estou irada - afirmou Gwen. - Portanto, não pre­ciso de nada disso.

- Mesmo assim. - Branson desapareceu pela porta e retornou com uma caixa dourada atada com um laço de fita vermelho.

Ela deixou escapar um suspiro.

- Não sou uma criança que precisa ter a raiva aplacada com prendas. E, se estivesse irritada, um presente não mo­dificaria meu humor.

- Este talvez sim. - O escritor exibiu um sorriso char­moso. - E não descobrirá até que o abra.

Não queria ser apaziguada, mas não conseguiu resistir à curiosidade. Aquele seria o oitavo dia, pelos estranhos e imprevisíveis cálculos de Branson. A caixa era mais pesada do que esperava, portanto, sentou-se à mesa e pôs-se a brin­car com a fita.

- É muito pequeno para oito vacas leiteiras - comentou Gwen.

- Talvez eu tenha mudado o tema. - A vaga angústia estampada nos olhos cor de lavanda o inebriavam. - Abra e descubra.

Gwen puxou a fita e abriu a tampa.

O pote era deslumbrante. O interior de um azul intenso e brilhante. Em volta, pelo lado de fora, oito graciosas don­zelas sentadas em caçambas, ordenhando felizes vacas malhadas. Não precisou ler a assinatura no fundo para saber quem era o artista.

- Tia Shelby - murmurou ela. - Como conseguiu isso?

- Implorei. Na verdade, roguei a Julia e ela usou sua influência junto à mãe. Sua prima me disse que a ex-primei­ra dama achou o pedido divertido.

- Sem dúvida. Amei - afirmou em tom suave, enquanto sentia o coração se enlevar. O que aquele homem estava fazendo com ela?, imaginou. Como conseguia fazer com que sentisse tantas emoções diferentes em tão curto espaço de tempo? - Acho que não conseguirá superar este.

- Ainda tenho um ou dois ases na manga.

- Ainda falta uma semana para o Natal - lembrou Gwen, para, em seguida, num impulso, atirar-se nos braços dele. - Não sei o que está se passando comigo. Tudo está acontecendo tão rápido! Não consigo acompanhar.

- Então agarre-se em mim. Para onde quer que estejamos indo, chegaremos juntos.

- Preciso achar meu equilíbrio. Está sempre me tirando do prumo. - Grudou-se ao peito másculo. - É como se sempre soubesse o que estou pensando ou sentindo, mesmo antes de eu agir. É enervante. - Deixou escapar um suspiro! exasperado e descansou a cabeça sobre o ombro largo.

Não sabia por que as palavras que Branson dissera há pouco brincavam em sua mente naquele momento. O moti­vo pelo qual soavam em seus ouvidos como um alarme. Mas os olhos que mantivera fechados até então, se abriram.

- O que quis dizer com ninguém o preveniu?

- O quê?

Gwen afastou a cabeça devagar, até que não estivessem mais se tocando e estudou a expressão do rosto masculino.

- Com quem andou conversando sobre mim?

- Não estou entendendo. Deve ser o desjejum. -Agra­decido pela interrupção, Branson se encaminhou à porta.

Ela se manteve serena, enquanto o garçom punha a mesa. Aproveitou a pausa para pensar, retroceder nos fatos e tirar algumas conclusões lógicas.

- Você me estudou, não Branson? - perguntou no mo­mento em que ficaram a sós outra vez. - Um protótipo, como disse uma vez.

- Claro que sim. - Ele serviu o café com cuidado. - No nível profissional. Concordamos com isso desde o início.

- Não estamos em um nível profissional aqui.

- Uma coisa nada tem a ver com a outra. - Um flash de irritação perpassou-lhe o olhar. - Acha que estou me utili­zando do que aconteceu entre nós para compor meu livro? É disso que está me acusando?

- Não o estou acusando, apenas perguntando.

- Pois a resposta é não. - Os olhos cinza se estreitaram. Mas ao que parece não está acreditando.

- E que parece estranho que me conheça tão bem. Como se tivesse traçado meu perfil como faz com uma persona­gem.

- Fiz isso em relação à sua profissão, seu foco e seu tipo. Misturei em Audrey, a estudante de medicina loura, sua ambição e competitividade e a linguagem corporal da enfermeira-chefe da sala de emergência. Foi isso que fiz. Não estava tomando notas para o livro quando Daniel e Anna me falaram de você.

A onda de vergonha que começara a assolar Gwen retro­cedeu.

- Falaram o quê de mim?

Branson desejou ter cortado a língua antes de ter dito aquilo. A irritação sempre sobrepujava o controle, lembrou a si mesmo.

- Coisas corriqueiras. A comida está esfriando.

- Fez-lhes perguntas sobre mim?

- E o que há de errado nisso? - indagou ele. O tom frio na voz de Gwen o deixou irritado. Sabia que estava encurra­lado. - Estava interessado em você e curioso a seu respeito.

- Quando?

- Logo depois que nos conhecemos. Pelo amor de Deus! Seus avós não revelaram nenhum segredo de Estado - afir­mou Branson, impaciente. - Você poderia ter feito o mesmo. Daniel ficaria exultante em lhe informar de todos os detalhes. Acho que ele sabe tudo sobre mim ou eu não conseguiria chegar sequer a uma milha de você.

Gwen ergueu uma das mãos, suspirando profundamente.

- Meu avô planejou isso tudo, não foi? Ele sempre o faz. E você sabia de tudo.

- Não. Até pouco depois de conhecê-la, não tinha noção do que Daniel estava tramando. Até que fui visitá-lo. Mas que diferença isso faz?

- Não me agrada ser manipulada, manobrada e enga­nada.

- Não a enganei, Gwendolyn.

Ela meneou a cabeça em negativa.

- E quanto a manipulada e manobrada?

- Não. A situação pode ter sido, mas você não. A frus­tração escurecia os olhos cinza e afiava-lhe o tom de voz. - Sentia-me atraído por você. Acha que deveria me afastar porque Daniel MacGregor decidiu que eu era o homem certo para a neta?

Um misto de humilhação e raiva travava uma guerra no íntimo de Gwen.

- Ele não deveria ter interferido e você tinha a obrigação de me contar tudo quando descobriu.

- Tudo o que seu avô fez foi planejar nosso encontro. Se não tivesse existido nada, teria pesquisado para meu livro, dedicado um agradecimento à dra. Blade nas páginas iniciais e terminaria por aí.

Gwen continuava a menear a cabeça, enquanto se enca­minhava à mesa de café. Teria de pensar sobre o assunto quando estivesse mais calma, decidiu.

- Não sei como ainda consegue defendê-lo. Ele o mani­pulou tanto quanto a mim.

- Sou agradecido a seu avô. Se não tivesse planejado esse encontro, jamais a conheceria. E não teria me apaixo­nado por você.

Gwen pareceu paralisar, limitando-se a fitá-lo nos olhos quando Branson pousou as mãos sobre seus ombros.

- Eu a amo, Gwendolyn. Como isso veio a acontecer não importa. Você é tudo o que sempre esperei sem ter noção de que esperava.

- Está indo muito rápido - balbuciou Gwen, sentindo um frio no estômago, enquanto dava um passo atrás. - Fomos guiados para dentro desse relacionamento e não tivemos tempo de pensar.

- Tenho certeza de meus sentimentos.

- Mas eu não - replicou Gwen em tom de desespero. Acabei de descobrir o que estava se passando nos bastidores. Preciso de tempo para pensar. Isso precisa acalmar. Preci­samos ir mais de vagar.

- Não acredita em mim. - Perceber a dúvida nos olhos cor de lavanda o feria de morte. - Tem noção de como me ofende vê-la parada na minha frente, duvidando de meus sentimentos? Embrulhá-los e ofertá-los a você como mais um presente e vê-la devolvê-los?

- Não é o que estou fazendo. - Apavorada, Gwen esfregou a mão sobre o peito, sentindo o coração bater como um tambor. - Estou apenas dizendo que precisamos de tempo. Ambos.

- Nenhuma quantidade de tempo irá mudar o fato de eu a amar. E como ainda está impactada pela revelação, devo acres­centar que quero me casar e formar uma família com você.

A voz máscula não soava amável. Não foi o tom irado que a fez empalidecer, mas sim as próprias palavras.

- Casar. Deus do céu, Branson! Não podemos simples­mente...

- Por que seu avô começou tudo isso?

- Claro que não. Por que sequer tivemos tempo...

- Por que dormiu comigo?

- Eu... - Gwen sentia a cabeça girar. Ergueu a mão para tocá-la, surpresa por encontrá-la ainda sobre os ombros. - Por que desejamos um ao outro.

- Só isso? Apenas desejo e sexo?

- Sabe que foi muito mais que isso.

- Como, se não me diz?

Gwen deu outro passo atrás, lutando para se manter calma.

- É mais hábil com as palavras do que eu. Sabe como usá-las e está me pressionando com elas, quando preciso de tempo para pensar.

Sem argumentos ante a veracidade da afirmação, Branson limitou-se a anuir com um gesto de cabeça.

- Está bem. Mas não posso voltar atrás no que disse ou mudar o que sinto. Uma hora, um ano ou a vida toda. Sem­pre a amarei. Terá de se acostumar a escutar isso.

Gwen não estava certa se poderia. Não quando seu co­ração pulsava na garganta cada vez que Branson se decla­rava.

- Se pudéssemos dar um passo de cada vez...

Numa abrupta mudança de humor, ele exibiu um sorriso luminoso.

- Está bem, mas já está muitos passos atrás. - Inclinou-se e lhe deu um beijo suave nos lábios, embora sentisse o estômago contraído e o coração sangrando. - Tente me al­cançar.

 

Gwen entrou vacilante em casa. Perdera a hora do jantar e trabalhara quase três horas além de seu turno. Queria acre­ditar que seu mau humor se devia ao excesso de trabalho, e não ao fato de Branson não ter aparecido no hospital nos dois últimos dias.

Se estivesse aborrecido com ela, não havia nada que pudesse fazer. Havia repetido aquilo um milhão de vezes a si mesma, desde que deixara o hotel no domingo. Estava certa de que tomara a atitude correta. A única coerente. Ser consciente, ir mais devagar e analisar as coisas.

Resistira à vontade de telefonar para o avô para repreen­dê-lo por suas maquinações. O que lhe custara muita força de vontade.

Além disso, estaria em Hyannis Port na noite de Natal. Seria mais gratificante enfrentá-lo cara a cara.

Aliviada por estar protegida do frio penetrante, retirou as luvas, o cachecol e o agasalho de lã.

- Julia? Jules? Está em casa? - Suspirou exasperada quando ninguém respondeu. Ela e a prima quase não sé encontravam devido aos compromissos de ambas.

Precisava conversar com alguém, admitiu, enquanto se agachava para retirar as botas. Necessitava de um ouvido para escutar seu desabafo, alguém que lhe dissesse que sua raiva tinha justificativa, que tinha razão em ser cautelosa, retroceder e analisar a situação para a qual fora ardilosamen­te conduzida.

- Um homem de noventa e um anos bancando a casa­menteiro - murmurou, enquanto se encaminhava à cozinha. - E um de trinta anos caindo como um pato. Isso é calculis­ta, insultante e inaceitável. Alguém tem de fazê-los entender que a vida não é um jogo!

Sentindo-se justificada em sua conduta, escancarou a porta da cozinha para encontrar uma grande caixa branca pousada sobre a mesa. Sentiu o coração saltar pela boca.

- Oh, Branson! - Deteve-se a tempo de suspirar, sonhadora. Não se deixaria suavizar por um presente tolo.

Dando as costas à caixa, encaminhou-se ao refrigerador. O recado de Julia estava rabiscado em vermelho.

Acho que posso adivinhar quem lhe mandou a caixa. Pelos meus cálculos, trata-se das dançarinas. Deve me agradecer pelo fato de não tê-la aberto para dar uma olhada. Estou morta de curiosidade, mas vou chegar em casa muito tarde. Graças a Deus, dentro de dois dias estaremos partindo ao encontro do tumulto que é nossa família no Natal. Jules.

Ps: Bran é um em um milhão.

Gwen leu o pós-escrito e enfiou as mãos nos bolsos da calça.

- Droga, Jules! Tinha de estar do meu lado. Bem, não vou abrir a caixa. Isso tem que ter um fim. Depois do Natal, ambos teremos mais tempo para pensar.

Decidiu que precisava mais de vinho do que de comida e retirou uma taça do armário. Porém, deteve-se ali, com a peça de cristal na mão, a fitar a caixa.

- Não vou abrir - repetiu. - Se vamos colocar as coisas em um nível racional e sensato, então eu... tenho de parar de falar sozinha! - concluiu, esfregando a mão no rosto. - Ou vou acabar num hospício!

Retirou uma garrafa de vinho do armário e se serviu de uma taça. Podia jurar que a caixa às suas costas chamava seu nome. Depois do primeiro gole do vinho, percebeu que não precisava de outro. Tudo o que tinha a fazer era subir e vestir algo confortável...

- Está bem, está bem, vou abrir. - Girou nos calcanhares, praguejando contra a caixa, enquanto puxava a fita verde e vermelha. - Não fará diferença, afinal - murmurou. - Não ficarei encantada ou vacilarei. - Abriu a tampa e colocou-a de lado. - Não ficarei... Oh!

Pousadas sobre o papel de tecido encontravam-se caixas de música. Uma bailarina, uma dançarina no gelo, uma beldade sulista, uma dançarina de charleston, uma jovem irlandesa, uma mocinha escocesa, uma cigana tocando um pandeiro, uma dama com vestido ornamentado em posição de minueto e uma espanhola de olhar ardente.

Nove dançarinas esperando que ela lhes desse corda. Não pôde evitar retirá-las da caixa uma por uma, admirar cada uma delas e dispô-las sobre a mesa. Desistindo, Gwen lhes deu corda e afastou-se para observá-las, rindo como uma criança.

Valsas, charlestons e dança escocesa se misturavam num burburinho irreconhecível, enquanto as nove dançarinas rodopiavam em parafuso.

Não percebeu as lágrimas até que as mãos lhe cobrissem a face.

- Oh, isso tem de parar. Como posso pensar quando ele continua confundindo minha mente? - A medida que os tons musicais feneciam, secou a face úmida. - Isso tem de ter um lira - repetiu, desta vez com mais firmeza, disparando em seguida pela porta da cozinha.

Branson permitiu que a cena fluísse da mente para os dedos e deles para a tela do computador. O inflexível detetive Scully estava prestes a ser devorado pelas chamas do desejo que ardia entre ele e a dra. Miranda Kates. A objeti­vidade costumeira seria esquecida por um tempo, a carreira comprometida e o coração abatido antes que terminasse a missão.

Seria bom para ele, pensou Branson. Aquilo iria huma­nizá-lo. Scully sempre estivera no controle nas três histórias anteriores. Daquela vez se apaixonaria, e profundamente. E, para seu azar, por uma fria assassina.

Sofreria, refletiu Branson, divertido. E iria se tornar um homem melhor depois disso.

Parou de digitar e pressionou os dedos contra os olhos cansados. Quem quer que tivesse dito que sofrer construir o caráter devia ser fuzilado em um paredão, concluiu.

Quem precisava de caráter?, imaginou. O que necessitava era de Gwendolyn.

Agira mal, não havia dúvida. Sentindo necessidade de se movimentar, levantou-se da mesa e vagueou pela suíte de hotel que transformara em seu lar. Deveria ter lhe contado sobre o plano do avô no minuto em que tomara conhecimento dele. Naquela época, teriam rido daquilo e esquecido.

Mas não lhe parecera importante ou necessário. Tampou com uma boa estratégia, admitiu. Não quisera arriscar perde-la antes de ter tempo de conquistá-la.

Em seguida, mergulhara de cabeça naquele relaciona mento e quase esquecera de como tudo havia começado.

E, por fim, acabara por destruir tudo, concluiu desgostoso. Sabia que Gwen não estava preparada para ouvi-la dizer que a amava. Mas, danação, ele estava! Aquilo não contava? Seria aquela mulher tão teimosa e cabeçuda a ponto de permitir que um fato pequeno e insignificante como aquele a impedisse de corresponder a seu amor?

Enfiando as mãos nos bolsos, caminhou em direção da janela. Afinal, o que pretendia com uma mulher daquelas?

Observou a cidade que se descortinava à sua frente, brilho das luzes refletindo na neve e nas ruas. O reluzir da água escura do porto. Boston estava imersa no espírito do natal, pensou. Familiares e amigos confraternizavam, em meio ao frio e ao vento.

E ele se encontrava sozinho porque a mulher que amava não admitia que o desejava também.

Poderia ter comprado uma terceira passagem e acompanhado os pais no cruzeiro que lhes dera de presente de Natal. Seria possível trabalhar no navio e aproveitar a excelente viagem marítima pelas ilhas gregas.

Aquilo possibilitaria a Gwen o tempo e a distância de que precisava.

Praguejou ao ouvir a batida à porta. Ainda não pedira o jantar e o último bule de café que lhe haviam mandado não estava precisando de reposição. Quem quer que fosse poderia ir para o inferno, pensou dirigindo-se à entrada da suíte. Ob­servou pelo olho mágico, avistou Gwen e fechou os olhos.

Ótimo, pensou. Perfeito. Não se barbeava há dois dias e estava com a aparência de um urso que estivera hibernado. A médica poderia escolher uma melhor para hora para fazer uma visita. Levou alguns instantes para se compor, deslizando os dedos pelos cabelos desgrenhados e abriu a porta.

- Atendimento em domicílio, doutora? - disse, sem se­quer conseguir sorrir.

- Parece estar precisando. Está com uma aparência exausta. Eu o acordei? Cheguei em má hora?

- Não me acordou - replicou Branson, dando um passo atrás, inclinando a cabeça para o lado quando ela hesitou.

- Não vai entrar?

- Claro. - Os olhos cor de lavanda se dilataram ante a desordem na elegante sala de estar. Xícaras, copos e bules se encontravam espalhados por todos os lados. A mesa de jantar estava repleta de livros, papéis e mais xícaras.

- Dispensei a arrumadeira por alguns dias - informou ele, reparando na bagunça pela primeira vez. - Acho que é melhor permitir que ela volte. Tenho café, podemos lavar uma xícara.

- Não, obrigada. - A expressão de Gwen tornou-se pre­ocupada. - Parece exaurido.

- Não tenho dormido - declarou ele, gesticulando em direção ao computador. - Nem feito qualquer outra coisa.

- Quer dizer exercícios, alimentação e ar fresco. - A médica dentro dela se manifestou. - Branson, assim vai adoecer. Sinto muito se o livro não vai indo bem, mas...

- Não está indo bem. Está indo maravilhosamente bem. Estou apenas deslizando na onda.

- Oh, então é o que acontece quando não tem problemas com a história!

- Se não estivesse fluindo bem, teria tentado convencer a mim mesmo de que preciso caminhar, cortar os cabelos ou mesmo aprender a falar japonês. Tem certeza de que não quer café? - indagou, enquanto se encaminhava para o bule.

- Sim. E você deveria pedir o jantar.

- Eu o farei, doutora. - Seu organismo já estava mesmo intoxicado, refletiu. Que mal faria mais um pouco de cafeína? - Parece um tanto cansada também.

- Tivemos de atender à maioria das vítimas do acidente com o ônibus esta tarde.

- Que acidente?

Gwen piscou várias vezes.

- O de Longfellow Bridge. Estradas cobertas de neve, trinta e cinco pessoas feridas. Esteve em todos os meios de comunicação hoje.

- As notícias não foram parte de meu pequeno mundo hoje. - Ele a estudou por sobre a borda da xícara. Gwen parecia algo pálida, notou, porém, segura de si, como sempre. E sequer tirara a capa. Por que não se senta? Vou pedir algo para comermos.

- Não para mim. Não posso demorar. Dobrarei o plantão amanhã para compensar os três dias de folga que tirarei no feriado.

- A sempre conscienciosa dra. Blade. Percebendo o sorriso divertido de Branson, ela relaxou.

- Quero lhe agradecer pelas caixas de música. São graciosas e inesperadas. Pensei que estivesse aborrecido comigo.

- É mesmo?

- Sei que estava e fico feliz que não esteja mais. Agora que os ânimos se acalmaram, espero que possamos conversar sobre isso... depois do feriado, quando tudo parece voltar ao normal.

- Queremos ser calmos - afirmou Branson em tom suave. - E racionais.

- Sim - concordou Gwen, sentindo uma onda de alívio enquanto caminhava em direção a ele, tomando-lhe a mão em seguida. - Estarei de volta no dia vinte e sete. Se estiver livre...

- Oh, estarei. Colocarei meus pais num avião para Ate­nas amanhã.

- Sua família está deixando a cidade?

- Sempre quiseram visitar a Grécia. Por isso, os estou enviando em um cruzeiro.

- Que amável! Mas não deve ficar sozinho no Natal. Sabe que seria bem vindo a Hyannis. Meus avós adorariam recebê-lo.

Ele a fitou por um longo tempo, fazendo o coração de Gwen disparar.

- Parece não ter noção das coisas, não é? - murmurou Branson. - Acha que tudo pode voltar ao normal em um piscar de olhos.

- Não. Apenas pensei que já que não está aborrecido...

- Estou aborrecido. - Ele não elevou o tom de voz ou sequer se alterou. Tampouco a ameaçou de alguma injuria. O que só servia para confundi-la ainda mais. Crescera em uma família que expressava cada emoção a todos os pulmões.

- As coisas têm de ser soletradas para você? Se eu gritasse, revirasse a mesa, quebrasse algum objeto, então poderia concluir que estou zangado. Pois muito bem, não funciono dessa maneira. Minhas ações e sentimentos não são sempre tão transparentes. Tampouco lógicos.

- Está bem. - Gwen estava mais amedrontada e estupe­fata com o frio controle do que estaria ante um ato de vio­lência. - Ainda está aborrecido, então, é óbvio que precisa­mos conversar.

- Você me magoou.

A afirmação clara e direta fez com que os olhos de Gwen se enchessem de lágrimas e o coração se partisse ao meio.

- Oh, Branson, desculpe-me. Não tive a intenção. Que­ria...

- Isso a deixa chocada. - Ele fechou os olhos e virou de costas para ela, furioso consigo mesmo por ter admitido aquilo. - Não preciso de compaixão, simpatia ou complexo de culpa. - Girou para encará-la e a violência contida nos olhos cinza contrastava completamente com a absoluta calma na voz. - Queria que dissesse que me amava, porque é verdade. Se eu não tivesse consciência disso, se não con­seguisse perceber em seus olhos, quando a toquei, teria me afastado. Acha que aprecio humilhar-me dessa maneira?

- Não. Por favor, vamos sentar e conversar com calma.

- Não acha que eu já disse tudo? Eu a amo. Quero que se case comigo, e que juntos construamos uma família. Que parte não entendeu?

- Entender e aceitar nem sempre são a mesma coisa. -Será que Branson não percebia que ela precisava decidir com lucidez o que era certo, sensato e necessário para am­bos? - Talvez acredite que me ama, e talvez eu... - Meneou a cabeça, e girou nos calcanhares. - Vim aqui esta noite para lhe dizer que não quero ser pressionada.

Com um movimento rápido, Branson a tomou nos braços e arrebatou-lhe os lábios num beijo profundo. As palavras racionais lhe morreram na garganta e coração pareceu se liqüefazer.

- Diga-me o que sente agora - ordenou ele contra seus lábios.

- Neste instante.

- Está pedindo demais, não consigo pensar desse jeito. Por favor, não faça isso.

Branson sabia que poderia tê-la, que ela cederia. E que aquilo não o levaria a nada. Pensando assim, afastou-se.

- É melhor ir embora. Não estou me sentindo inclinado à racionalidade.

Gwen anuiu, ordenando às pernas trêmulas que a levas­sem até a porta. E lá, com a mão na maçaneta, sentiu-se envergonhada por não ter sido honesta, por ter lhe dado menos do que ele havia pedido.

- Você me fez perder o prumo, Branson - afirmou ela em tom calmo. - Sinto que perdi o controle. Não sei por que agi desse jeito e preciso decidir o que isso significa para mim. - Abriu a porta, mas se voltou para encará-lo. Os olhos de ambos se encontraram. - Preciso decidir o que farei a respeito do fato de amar você.

Em seguida, desapareceu pela porta. Branson já estava a meio caminho da saída, quando se deteve. Ela não o escutaria naquele momento, disse a si mesmo, lutando para acalmar a própria pulsação. Certamente lutaria com todas as forças se ele tentasse explorar a vantagem que Gwen acabara de lhe dar.

Já cometera muitos erros. Não precisava de mais um.

Com um movimento lento, levou a mão ao coração. A dor havia passado. O pulsar doloroso e melancólico. A mé­dica o havia curado, pensou com um meio sorriso. Teria de pensar rápido num modo de recompensá-la.

Pediria o jantar, uma lauta refeição, um banquete. Deus, estava faminto! Precisava de um banho, barbear-se e dar uma longa caminhada.

E depois voltar ao trabalho. Faltavam apenas alguns dias para o Natal.

- Ela me ama! - declarou para, em seguida, soltar uma gargalhada.

Disse que perdeu o prumo, doutora?, pensou ele. Acredite. Ainda não viu nada!

 

Daniel MacGregor fez uma carranca zangada e deixou escapar um suspiro exasperado.

- Muito bem, o que há de errado com o rapaz? - Quis saber.

- Nada - retrucou Gwen, tentando se controlar. A médi­ca procurou chegar a Hyannis cedo e confrontar o introme­tido avô antes que o resto da família pudesse distraí-la. - Essa não é a questão.

- E qual é? Gostaria de saber. Vou lhe dizer onde está o problema - continuou ele, erguendo um dedo antes que a neta pudesse responder. - Conheceu um bom rapaz e de boa família. Com uma mente brilhante, fino e que possuiu um coração forte e generoso. Se ele a cortejou, o que tem contra isso?

- Se me cortejou - repetiu Gwen, em tom calmo. - E porque você nos atirou um ao outro sob falsos pretextos.

- Falsos pretextos. - Foi a vez de MacGregor repetir, revirando os olhos. -Não é verdade que ele queria pesquisar para o livro que está escrevendo?

- Sim, mas...

- E você não é uma médica com algum conhecimento nesse campo?

-Vovô...

- E se são jovens, saudáveis e solteiros, que mal há em terem se conhecido? Se o rapaz não lhe agradou, livre-se dele.

- Ele não é um trapo - sibilou Gwen entre dentes.

- Então gosta dele, não, Gwennie?

Ela teve de fechar os olhos, imaginando como fora capaz de achar que chegaria a algum lugar com MacGregor.

- Meus sentimentos em relação a Branson não têm nada a ver com o que está em pauta aqui.

- Têm tudo a ver - vociferou o avô. - Ele a pediu em casamento?

- Não vou discutir isso.

- Ele o fez - concluiu Daniel, triunfante, batendo com o punho no braço da cadeira. - Sabia que o jovem Branson Maguire era um camarada esperto. Um homem de gosto e caráter.

- E por isso o escolheu para mim?

- Exatamente. Eu... - Daniel deteve-se, assoviando entre os dentes. A neta acabara de pegá-lo em contradição. - Veja bem, Gwennie, sua avó sempre se preocupou que vivesse sozinha naquela cidade.

- Não vivo sozinha.

- E que encontrasse o tipo de homem errado. Aquele dr. Gilbert, por exemplo.

- O nome dele é Greg - corrigiu Gwen, enfadada. - E é um homem muito bom.

- Mas não é Bran Maguire, é? Admita.

Os lábios de Gwen se contorceram, forçando-a a pressioná-los em uma linha tênue.

- Talvez eu prefira tipos sensatos e sérios.

- Rá! Nem por um decreto, uma neta minha iria preferir um cachorro vira-latas a um com pedigree. George seria enfadonho em menos de um ano.

- Greg. E não vou deixar que mude de assunto. Interfe­riu tanto em minha vida como na de Branson. Se pensa que qualquer um de nós irá agradecê-lo...

Gwen girou nos calcanhares quando ouviu a porta da frente bater e vozes ecoarem no corredor.

- É minha Rena. - Agradecido pela interrupção, Daniel ergueu o corpanzil da cadeira. - Rena! - gritou. - Sua filha está aqui.

- Gwen? - Ainda sacudindo a neve das mechas de cabe­los macios e dourados, Serena MacGregor Blade entrou na sala. Os olhos, brilhantes. A face, amável como sempre, exultava de prazer. - Chegou cedo! -Rindo, abriu os braços para receber a filha. - Oh, que saudade!

Gwen atirou-se nos braços da mãe com tanto desespero que fez Serena franzir a testa e estreitar o olhar para o pai.

- O que você está aprontando? - perguntou a Daniel.

- Apenas tendo uma agradável conversa com minha neta. - Ninguém do conhecimento de MacGregor era capaz de lhe cortar os rompantes tão hábil e rapidamente quanto a filha. Admirava-a por aquilo e se sentiu aliviado quando Justin Blade entrou no aposento.

- Pai! - Gwen girou para abraçá-lo apertado. Ele era alto e extraordinariamente belo. Os cabelos negros e espessos estavam mareados de branco e os olhos verdes afiados como gemas preciosas. Eles fitaram a esposa por sobre a cabeça da filha e então, ambos voltaram o olhar a Daniel.

- O que estamos precisando é de boa comida e bebida. -Pensando rápido, o avô optou por retroceder. - Vou providen­ciar. O resto da família chegará a qualquer momento. Não sei o que sua mãe está tramando, Rena - disse, enquanto se en­caminhava para a porta. - Sempre agitada e preocupada.

- Ele não muda nunca - comentou Justin, rindo. - Gra­ças a Deus. - Em seguida, ergueu o queixo da filha. - Olá, belezinha - murmurou. Aquelas foram as exatas palavras, que ele dissera quando a tomou nos braços pela primeira vez na maternidade.

- Estou tão feliz por vê-los. Onde estão Mac, Duncan e Mell?

- Mac está vindo de avião de Las Vegas. Chegará dentro1 de algumas horas. Duncan e Mell estão vindo de carro de Atlantic City. Estavam provavelmente uma hora atrás de nós.

- Quer que os ajude a levar a bagagem lá para cima?

- Temos tempo para isso - Serena guiou a filha até o sofá e forçou-a a se sentar. - Você e Branson Maguire estão muito zangados com seu avô?

Gwen deixou escapar um longo suspiro, enquanto o pai sentava a seu lado.

- Deveria saber que a notícia já havia se espalhado pela família.

- É sempre assim. A rota foi de Julia para Shelby e dela para seu pai. Que problema Daniel MacGregor lhe criou?

- Tomou a situação desconfortável - murmurou Gwen. Justin passou as mãos pelos cabelos.

- Se não está interessada nesse Maguire, não há pro­blema.

- Estou interessada.

As mãos do pai paralisaram na nuca.

- Entendo. Interessada em que sentido?

- Justin! - Com uma gargalhada, Serena meneou a ca­beça. - Como ele é? - perguntou à filha. - Conte-nos sobre esse homem.

- É um escritor. Suponho que já saibam disso.

- E dos bons - admitiu Justin.

- Não o vejo desde que era bebê! - Suspirou Serena, meditando sobre a passagem do tempo. - Eu e a mãe dele perdemos contato. É uma pena. Vou telefonar para ela qual­quer dia desses.

- Eleja esteve no cassino de Vegas. - Justin pegou um cigarro fino. - Mac o conhece vagamente.

- É mesmo? Bem, é interessante como as coisas funcionam. Serena sorriu para a filha. - Mas não nos disse como ele é.

- É charmoso e gentil. Muito intenso em relação ao trabalho dele. Gosta de comida francesa e óperas italianas. Tem um lindo sorriso e penetrantes olhos cinza.

- Está apaixonada por esse homem - afirmou Serena com olhar excitado, enquanto buscava a mão do marido. -Ela o ama.

- Talvez. - Por demais agitada para permanecer sentada, Gwen ergueu-se. - Como posso saber? Nunca me senti assim antes. Como posso ter certeza? Ele quer casar comigo. In­siste nisso, como se fosse algo que está predestinado a acontecer mais cedo ou mais tarde. Portanto, por que não imediatamente? E o vovô tramou tudo isso.

Prevendo que teria de lidar com as mesmas emoções conflitantes que um dia enfrentara, Justin pousou a mão da esposa no colo.

- Ele fez isso antes, com excelentes resultados.

- Então devo entrar no esquema?

- Claro que não. - O pai levantou, colocando as mãos nos ombros de Gwen. - Tem sua própria mente e coração. Siga-os.

- Eles me dizem coisas contraditórias. Tudo está acon­tecendo muito rápido. Ser arrancada do próprio prumo é muito bonito em romances, mas na vida real é assustador. Como posso casar com ele? - indagou, voltando-se para a mãe. - Como saberei se dará certo? Que serei capaz de lidar com todas as exigências e responsabilidades advindas do casamento? Minha carreira, um marido, filhos... Como posso saber se me sairei bem como você e vovó?

- Não saberá. Terá de decidir se está disposta a enfrentá-lo todos os dias pelo resto de sua vida. Querida, sempre alcançou com êxito tudo que se dispôs a tentar. Talvez isso seja um problema para você agora. - Serena indicou o lugar a seu lado no sofá. - Sempre foi uma criança séria. Não por falta de senso de humor, mas por ser responsável e objetiva.

- Eu o magoei - murmurou Gwen. - E temo que se não for cautelosa, acabarei por feri-lo outra vez.

- Casando com ele.

- Sim, e fracassando no casamento.

- Então deve pensar o tempo que for preciso. Mas deixe-me sugerir uma situação hipotética... falando em termos de medicina. Tem uma mente fria de médica. Se tivesse uma paciente, forte e sadia, e existissem duas escolhas para ela. Em uma, poderia continuar exatamente como sempre foi. Alegre, bem sucedida e feliz. Nada teria de mudar para sua paciente. Mas a outra escolha, envolveria um certo risco, um ajuste no estilo de vida. Se ela optasse por essa escolha, aceitasse o desafio, poderia ganhar muito com isso. Não uma vida mais longa, porém mais rica. Não um corpo mais saudável, mas um coração mais pleno. Qual dos dois prognósticos desejaria para ela?

- E muito esperta - murmurou Gwen.

- Os MacGregors o são. - Serena se inclinou para beijar a filha. - Não posso lhe dizer que escolha fazer. Terá de optar sozinha. Tampouco lhe direi se deve seguir o coração ou a mente, pois, no fim, se for a coisa certa, seguirá os dois.

- Está certa. Tenho de decidir. E assim o farei. - Gwen ergueu-se outra vez. -Amo vocês dois. Vou dar uma caminhada e pensar um pouco antes que a horda de descendentes MacGregor não permita que eu escute minhas próprias reflexões.

Justin esperou até que estivesse a sós com a esposa e cami­nhou em sua direção. Tomando-lhe as mãos, ele a ergueu.

- Há duas coisas que preciso fazer.

- Quais são?

- Contrabandear os cigarros de minha mala para o quarto de Daniel e agradecer-lhe pela filha dele, que é a mulher mais incrível que jamais conheci. E depois... - Inclinou a cabeça para roçar os lábios nos da esposa. - Tenho que levar a filha dele, minha mulher e mãe de meus filhos, lá para cima e fazer amor com ela.

Serena envolveu-lhe o pescoço com os braços.

- Por que a filha dele, sua mulher e mãe de seus filhos, não sobe e espera por você?

Justin a beijou outra vez, demorando-se o mais que pôde.

- Sim, por que não?

Gwen mal conseguiu conciliar o sono. Eram quase 3 horas da manhã quando todos se recolheram. Permanecera deitada lá, fitando o teto e esperando que a resposta certa lhe viesse à mente. Mas tudo que conseguira foi visualizar o rosto de Branson.

E ansiar por ele.

Logo que o dia amanheceu, conseguiu cochilar, mas até o sono leve estava repleto de sonhos. Viu-o no corredor do hos­pital, os olhos cinza focados nela, enquanto lhe revelava quem era e o que queria. Depois, sorrindo, aquele charmoso e efême­ro sorriso quando a acompanhou ao shopping para as compras de Natal. Confortando-a quando perdera o paciente. Tirando-lhe o ar num beijo arrebatador na porta da frente da suíte de hotel. Carregando-a para cama repleta de pétalas de rosas.

E aquele sombrio e desesperado olhar quando confessou que a amava.

E, então, o sonho tornou-se menos recordação e mais desejo. Viu a si mesma retribuindo o sorriso de Branson e estendendo as mãos. Aceitando, doando, abraçando.

Gaitas de fole tocavam quando ele a ergueu e a montou em um cavalo branco e brilhante. Não se sentia desampara­da e sim poderosa. O riso misturado ao dele, enquanto ca­valgavam ao som estrondoso das gaitas.

Ela se espreguiçou, sorrindo com o sonho, o romance e retidão dele. Estava murmurando o nome de Branson quan­do acordou.

Ainda podia escutar as gaitas de fole.

Levantou-se, esfregando os olhos. Gaitas de fole, pensou confusa. Bocejou, sorriu e jogou as pernas para fora da cama. Vovô, pensou, por certo preparara algo especial para a manhã de Natal. Primeiras horas da manhã de Natal, corrigiu, con­sultando o relógio.

Eram quase 8h.

Cambaleou em direção ao robe, no momento em que a porta de seu quarto se escancarou.

Os cabelos de Julia se encontravam em total desalinho, os pés descalços e o olhos dilatados.

- Olhe pela janela. Não acreditará se não vir com os próprios olhos.

- Eu ouvi - afirmou Gwen, escutando vozes no corredor. Portas se abriam e fechavam, e passos se ouviam por todos os lugares. - E acho que todo mundo também. O que vovô fez?

- Não foi o vovô. - Decidindo-se a apressar a prima, Julia segurou o braço de Gwen e a puxou até à janela. - É Bran.

Atordoada, Gwendolyn olhou para fora. Lá, postados na ampla rampa, estavam dez homens corpulentos em saiotes escoceses, saltitando uma dança escocesa.

- Dez lordes saltitantes - conseguiu dizer.

- E ainda melhor - disse Julia, sorrindo como uma crian­ça. - Há onze flautistas tocando, e doze percussionistas. Eu diria que isso fecha com chave de ouro. Seu verdadeiro amor não esqueceu de nada.

- Ele... - Baixou o olhar e visualizou Branson. O escri­tor se encontrava parado em meio à agitação. Os cabelos esvoaçavam ao vento. - Fez tudo isso para mim.

 - É louco - declarou Julia. - Apaixonado e surpreen­dente.

- Sim, ele é. - Rindo, Gwen pressionou uma das mãos contra a boca. Seu verdadeiro amor, pensou, não conhecia limites. E aquilo não era maravilhoso? - Branson me ama. De verdade. Não é um engano, nem cedo demais para isso. Tampouco uma paixão efêmera. É perfeito. E ele é maravi­lhoso.

- Então o que ainda faz aqui, quando ele está lá embaixo?

- Estou indo. - Gwen calçou um par de botas, e, com o robe esvoaçando, desceu correndo a escada. A família já havia se adiantado, vestindo botas e casacos ou aparecendo à porta trajando apenas seus robes. Avistou os avós próximos à en­trada da casa. Anna abotoava devagar o casaco de Daniel.

- Não preciso disso.

- Precisa sim, o vento está frio. Não quero que pegue um resinado. Os flautistas não vão a lugar algum.

- E que músicos de qualidade são! - exclamou o avô, vendo a neta correr pela escada. De pronto lhe dirigiu um sorriso presunçoso. - Bem, esse é um homem de verdade.

- Sim - replicou Gwen, tomando-lhe a face barbuda nas mãos e depositando nela um beijo longo e terno. - Mas não vou lhe agradecer até daqui a uma semana. - Dizendo isso, disparou pela porta para o frio do inverno e dirigiu-se à fa­mília. De lá, obteve uma visão melhor.

- Façam silêncio - ordenou. - Não consigo ouvir. - Mas foi como se estivesse falando com o vento.

Porém, aquilo não importava. Podiam falar e gritar o quanto quisessem. Não os ouvia. Escutava apenas as flautas e os tambores, enquanto Branson caminhava em sua dire­ção.

Não notou que todos ficaram em silêncio. Tampouco as lágrimas que lhe rolavam pela face. Tudo o que conseguia avistar era o rosto de Branson, que trazia o coração refletido nos olhos.

- Feliz Natal, Gwendolyn.

- Branson...

- Eu a amo - declarou ele, erguendo a mão para limpar as lágrimas que inundavam a face delicada. - É tudo o que desejo. Admiro sua força, honestidade, compaixão e lógica. Preciso de você em minha vida. Prometo a você, neste mo­mento, diante das pessoas mais importantes de sua vida, que nunca a farei sofrer.

- Isso é que é um homem! - vociferou Daniel, com a voz embargada. - Eu lhe disse, esse é um verdadeiro homem!

Quando Branson sorriu, Gwen sentiu a mãe tomar-lhe a mão e apertá-la. Em apoio, aprovação e amor. E, em segui­da, Serena a soltou.

- Não são todos os doze dias de Natal - assegurou-lhe Branson. - Mas é um começo. Então... Aceitar-me-á, Gwen­dolyn?

O coração de Gwen batia descompassado à medida que ela dava um passo à frente, postando-se entre ele e a família. Em seguida, tomou-lhe as mãos.

- Disse que não aceitaria ser pressionada.

- Oh, dê uma chance ao rapaz, Gwen!

Ignorando o pedido da irmã mais nova, continuou a fitar Branson nos olhos.

- E não serei. Não posso resistir a ser amada e corresponder. Portanto, vou lhe responder diante das pessoas mais importantes de minha vida. Sim, eu o aceito, Branson.

- Beije a moça - ordenou Daniel.

Branson lançou um olhar por sobre a cabeça de Gwen para encontrar os olhos aguçados de MacGregor.

- Acho que posso cuidar disso sozinho daqui por diante. E beijou a moça.

 

Das Memórias Secretas de Daniel Duncan MacGregor

Tenho o prazer de dizer que minha escolha do jovem Bran­son foi melhor do que esperava. Ele é um irlandês inteligente. Estamos orgulhosos de tê-lo como parte de nossa família.

Observei seu rosto enquanto Gwen caminhava em dire­ção ao altar em seu vestido de princesa com o véu herdado. Havia amor para uma vida inteira e mais.

Anna e eu, de mãos dadas, os observamos dizer os votos. A vida é um círculo e amor é o que a enfeita. Na­quela igreja, com a luz do sol formando um arco-íris atra­vés dos vitrais, minha Gwen e seu Branson iniciaram seu círculo dentro daqueles círculos formados por todas as gerações anteriores.

Não reivindico nenhum crédito, pois isso causaria toda sorte de problemas. Quero apenas desfrutar disso.

Então, outra primavera se inicia. Nossa Gwen está co­meçando sua nova vida. Nossa Laura está redonda e saudá­vel com o bebê que carrega no ventre. Julia, agora, se mantém tão ocupada quanto uma colônia de formigas. Aque­la é durona. Saiu ao avô.

Ela é minha jóia e, portanto, delineei minha estratégia mesmo enquanto cuidava das primas dela. Essa vai ser um osso duro de roer. Ah, mas não existe osso duro o bastante para Daniel Duncan MacGregor.

Estou planejando recrutar uma ajudazinha neste caso. Estou de olho nesse rapaz há anos - e Julia também, apesar de preferir sofrer as torturas do inferno a admitir isso. Moça teimosa. Deus a abençoe!

Ambos são perfeitos um para o outro. Um par de cabeças duras que rosnam e se mordem em qualquer oportunidade.

Eles vão produzir adoráveis e fortes bebês para mim, minha Anna, quero dizer. A pobre mulher é louca por crianças.

Anna já embalou o véu de casamento dos MacGregors Eu não quero contar-lhe, por enquanto, que ela terá de pendurá-lo outra vez antes que passe um ano.

Dou minha palavra de honra.

 

Não restava nenhuma dúvida na mente de Julia, mas, afinal, raramente se sentia indecisa. Estava decidido, aquela parede teria que ser derrubada. Ela caminhou da minúscula sala de estar até a também minúscula biblioteca. E, quando a pare­de não existisse mais, teria ali, em vez de dois pequenos ambientes, uma generosa e arejada sala. Decidida, meneou a cabeça com firmeza e continuou a excursão. Seus olhos observavam e avaliavam os detalhes. Todos os vitrais teriam que ser substituídos e os adornos e molduras precisariam ser retirados da madeira original. Fosse quem fosse que a pintou de azul deveria ser enforcado.

Já gravara o suficiente no minigravador que carregava consigo. Sempre fazia anotações daquela maneira e seus comentários eram invariavelmente expressivos. Julia MacGregor não tinha apenas sentimentos fortes, acreditava fir­memente em expressá-los. Já havia concluído e etiquetado duas fitas na casa de Beacon Hill, casa que decidira que seria sua. Faria do lugar um espaço só seu. Todos os detalhes, desde a cor das paredes do toucador do primeiro andar, se­riam decididos e supervisionados por ela.

O empreiteiro e seus subordinados teriam que ser papa­ricados ou intimidados e se sentia capaz de fazer ambas as coisas para conseguir exatamente o que pretendia. Jamais se satisfazia com pouco.

Nunca se considerara uma moça mimada. Sempre bata­lhava pelo que queria. Planejava e executava. E poderia, se necessário, fixar uma divisória de gesso, martelar pregos e aplicar uma camada de reboco nas janelas. Mas preferia contratar peritos e profissionais e pagar-lhes bem para exe­cutarem o serviço.

Sabia que devia acatar conselhos, em particular quando estes estavam de acordo com seu ponto de vista. E, ao iniciar um projeto, jamais o abandonava.

Julia aprendera o valor do planejamento, do trabalho c da conclusão, com os pais. Alan MacGregor cumprira dois mandatos como presidente, tendo Shelby Campbell Mac­Gregor a seu lado como uma primeira dama que fazia bem mais do que bancar a anfitriã nas festas e cumprimentar dignitários.

As mulheres do clã MacGregor não eram e jamais haviam sido reflexos de seus maridos. Uma mulher MacGregor tinha personalidade própria. E com Julia não era diferente.

Ela subiu os degraus da escada circular bem devagar. Era uma mulher com a pele rosada e cabelos ruivos cacheados. Os olhos, cor de chocolate, buscavam atentos qualquer de­talhe ou imperfeição que pudesse ter passado despercebido até o momento. Sua boca era carnuda e se movimentava com freqüência. As mãos finas e longas quase nunca paravam. O corpo curvilíneo era abastecido com uma energia interna que parecia não ter fim.

Os que a amavam consideravam-na uma mulher bonita e forte que habitualmente expressava opiniões fortes, mas mesmo os que não gostavam dela reconheciam seus atrativos sem igual.

Certa vez, um de seus namorados a chamara de "Rainha Guerreira". E, embora não tivesse significado um elogio na ocasião, o termo fora bem adequado. Era vigorosa, auto-suficiente e sensual.

E implacável.

Batendo com o dedo em um ponto sutil do queixo, Julia estudou o quarto que vinha usando durante o último mês. A encantadora lareira Adam precisaria voltar a funcionar. O fato de ter sido desativada era outro ponto contra os proprietários anteriores, na opinião de Julia.

Já podia se imaginar enrolada em sua maravilhosa cama-trenó de madeira. Travesseiros amontoados a seu redor, um bule de chá de jasmim, um bom livro e o crepitar do fogo na lareira.

Estavam no início de agosto e o verão ainda estava bem quente em Boston, mas a imagem a atraiu. Então, decidiu que a tornaria uma realidade na época de Ação de Graças.

A casa brilharia esplendorosamente no Natal, e ela abri­ria as portas com uma enorme festa de reveillon.

Brindaria o Ano Novo ao som dos sinos, Julia pensou e sorriu.

Nesse instante, a campainha tocou. Devia ser o sr. Murdoch, imaginou. O homem nunca se atrasava. Havia quase seis anos contratava a firma dele para a realização dos seus trabalhos de construção. Aquela não era a primeira proprie­dade que adquirira, que restaurara, ou a primeira em que vivera. Imóveis eram a sua paixão. E a sua habilidade de negociar fluía naturalmente, estava no sangue.

O avô de pobre se transformara em um milionário graças à habilidade de uma mente astuta, olhos afiados e um cora­ção de jogador. De todos os seus filhos e netos, Julia era quem lhe seguia as pegadas mais de perto.

Ela se apressou escada abaixo, ansiosa para começar a discutir sobre planos e orçamentos com o astuto escocês. Fora o próprio Daniel MacGregor que lhe recomendara a empresa de Michael Murdoch alguns anos antes, e Julia sentia-se eternamente grata ao avô por isso. Era como se tivesse en­contrado uma alma gêmea naquele trabalhador de olhos azuis brilhantes e mãos extraordinariamente capazes.

Estava sorrindo quando abriu a porta. Mas logo seu sorriso esmaeceu dando lugar a uma carranca.

Não era Michael Murdoch, mas o filho. Julia considera­va Cullum Murdoch a única mancha na excelente relação que mantinha com a empreiteira.

- Onde está seu pai? - exigiu ela.

- Não está se sentindo bem. - Cullum não desperdiçava sorrisos com mulheres que o irritavam. Seus frios olhos verdes e a boca bem esculpida permaneceram sérios. - Eu o estou substituindo.

- Ele está doente? - A preocupação foi imediata e sin­cera e ela estendeu-lhe a mão. - O que há de errado com Michael? Ele foi ao médico?

- Não é nada sério, apenas um resfriado de final de verão. Mas o deixou um pouco debilitado. - Os olhos dela pareciam preocupados, seu afeto pelo pai dele era quase palpável. - Só precisa ficar na cama e repousar durante alguns dias.

- Oh! - Ambos permaneceram onde estavam, um de cada lado da soleira da porta, com o sol da manhã sobre suas cabeças. Julia libertou a mão dele e ponderou. Não gostaria de trabalhar com Cullum, mas também não queria atrasar o projeto.

Ele a contemplou por alguns instantes e um par de so­brancelhas escuras se ergueu sobre os olhos verdes.

- Posso dar andamento ao serviço se você concordar, MacGregor.

Julia o estudou com uma carranca. Homens extremamen­te bonitos raramente a irritavam. E Cullum, com sua face angulosa e bem esculpida, por certo era bastante bonito. Além disso, ainda havia a beleza daqueles cabelos castanho-dourados, o sorriso breve e torto, não que ele costumasse dispensar-lhe algum, e o corpo alto e esguio que se ajustava tão bem em um jeans.

Mas ele a irritava. E com muita freqüência. Suas perso­nalidades se chocavam e colidiam como espadas afiadas em um campo de batalha.

Aborrecido ou não, pensou ela, o homem era bom no que fazia. E seria apenas uma substituição temporária.

- Certo, Murdoch, vamos pôr mãos à obra.

Ele pisou sobre as largas lajotas com nervuras cor-de-rosa do foyer, deu uma olhada na extensa escadaria e verificou o reboco decorado do teto abobadado.

- Como estão as fundações?

- Sólidas como uma rocha.

- Vou conferir.

Pronto, pensou ela, rangendo os dentes. Era por isso. O homem constantemente questionava o julgamento dela, discutia suas opiniões e zombava de seus gostos. Julia respirou fundo.

- Fiz algumas anotações - disse ela, pegando o minigravador no bolso das calças de marinheiro que usava.

- Sim, as famosas fitas da MacGregor. - O tom assumiu uma indiscutível nota de sarcasmo, enquanto ele as pegava e as colocava no bolso de trás da calça jeans.

- É mais eficiente do que fazer anotações em papel. E dessa forma meus planos e esboços não podem ser mal interpretados.

- Sim, a senhorita é quem manda.

- A casa é minha - rebateu ela. Ele a fitou com um olhar insípido.

- Quem disse que não era? - Cullum passou por ela, entrando na pequena sala de estar e, imediatamente, pensou que quem havia pintado a madeira devia ter sido assassina­do impiedosamente. - Confortável.

- Claustrofóbica - corrigiu ela. - Quero derrubar a pa­rede da direita. O cômodo contíguo também é apertado. Dois espaços desperdiçados, em minha opinião.

Ela tinha razão, pensou Cullum. Mas ele sentia um irresistível desejo de contrariá-la.

- Casas velhas e tradicionais não gostam de mudanças estruturais.

- A parede sai.

Com passadas largas e vagarosas, Cullum caminhou pela sala examinando-a de cima a baixo.

- Provavelmente este maravilhoso assoalho de pinho ficará danificado.

- Se isso acontecer, terá que consertá-lo. - Ela se movimentou pelo cômodo ainda vazio, seus passos provocavam um eco. - Quero que a moldura fique em madeira natural há alguns reparos secundários, como bem pode notar. Apesar da lareira precisa ser argamassada, mas o consolo está e excelente forma. E aqui em cima... - Julia passou para o outro cômodo, esperando que ele a seguisse. -Aporta do pátio é muito pequena. Quero a abertura mais larga e um átrio insta­lado. Madeira de nogueira, vidro chanfrado e adornos de metal.

Cullum visualizou os resultados na mente e os aprovou, mas encolheu os ombros.

- Isso significa que teremos que cortar os tijolos.

- Estou ciente disso, Murdoch.

- Vai onerar o serviço.

Ela o fitou com um ar irônico no olhar.

- Discutiremos o orçamento depois do trabalho iniciado. Mas continuando... Naturalmente, todas as paredes precisa­rão ser repintadas ou receber uma nova camada de papel de parede e a lareira aqui... - Ela ergueu a cabeça, avaliando a linha e a distância da lareira no outro cômodo. - Vou querer este consolo substituído por um semelhante ao outro. E o cano da chaminé desobstruído. Precisa ser aberto. E vidros térmicos em todas as janelas, é claro.

- Lógico.

Ignorando o sorriso malicioso nos lábios de Cullum, ela esbarrou nele e continuou. Se fosse com o pai dele, ela teria pedido algumas opiniões e discutido as estratégias. Teriam; rido de algo engraçado ou naquele momento estariam ambos ajoelhados examinando a modelagem do piso.

Não faria nenhuma dessas coisas com o filho.

A voz de Julia era tão rígida quanto a sua espinha, pensou Cullum, implorando a Deus que ela deixasse de cheirar tão bem. Aquele perfume tinha o poder de distraí-lo. Sentia-se inebriado pela fragrância de deusa-guerreira sempre que se encontrava a alguns passos dela.

Cullum fez o possível para se manter a distância.

Sempre a considerara uma mulher fria, mandona e arrogante. Qualquer coisa, menos o seu tipo. O fato de ocasionalmente desejar saber como seria beijá-la, em sua opinião, era apenas um reflexo, nada mais.

Ambos caminharam pelo primeiro andar, cômodo após cômodo. Era uma casa grande, meditou ele. Mas, afinal, jamais ouvira dizer que Julia MacGregor desperdiçava di­nheiro comprando porcarias. A mulher tinha um olho clíni­co para construções. Isso era forçado a admitir. E também respeitava o fato de que, do que quer que fosse que com­prasse, ela cuidava muito bem.

Mas ela nunca se calava e o tratava como se ele não ti­vesse cérebro, explicando-lhe e delineando-lhe todos os pontos e mudanças.

Substituição dos ladrilhos do toucador. Sim, sim. Metais novos para a pia de pedestal. Será que aquela criatura pen­sava que ele não era capaz de perceber que a torneira atual estava enferrujada e feia?

Os dois passaram quase uma hora na cozinha. Lá, Julia quis uma completa revisão do projeto. Tudo seria construído ao redor de dois pontos: o velho forno de tijolos, que ela queria que voltasse a funcionar, e a bancada de madeira que ocupava toda uma parede.

Cullum ficou satisfeito ao repudiar algumas das idéias dela, tachando-as de antifuncionais, e se sentiu mais satisfeito ainda por substituir os planos de Julia pelos seus.

- Você tem bastante espaço aqui - disse ele em pé no centro da cozinha, sobre o brilhante piso de linóleo. - Por que deseja desperdiçá-lo?

- Isso não é...

- É um plano estúpido colocar o fogão e o refrigerador assim tão distantes. Precisa haver circulação, um padrão de movimento. Estética e conveniência. É óbvio que você não cozinha.

Julia inclinou a cabeça para um lado.

- E em seu pequeno mundo por certo as mulheres costumam preparar fumegantes refeições à noite para seus. homens que chegam cansados do trabalho.

- Em meu pequeno mundo as pessoas que cozinham comem melhor. Você pode colocar sua pia lá sob as janelas duplas. O balcão ficaria por aqui. Podemos colocá-lo em forma de arco, propiciando uma agradável aparência de fluidez. - Os gestos dele eram vivos, econômicos. Gestos de um homem acostumado a mandar e ser obedecido. - A lavadora de louça fica aqui, o fogão lá, o refrigerador lá. Mantenha a despensa sob a escada dos fundos. Livre-se desta porta horrorosa. Agora, se eu fosse você...

- Mas não é...

- ...colocaria outra bancada aqui, tipo um balcão de apoio. Seria bastante útil e quebraria um pouco o espaço. Então, transformaria esta varanda em anexo da sala, derru­bando esta parede.

Ela ergueu uma sobrancelha.

- Pensei que casas velhas e tradicionais não gostassem de mudanças estruturais.

Boa observação, pensou ele, mas encolheu os ombros.

- É tarde para isso. Se pretende derrubar uma, pode derrubar duas. Retiram-se as telas, colocam-se nas janelas e então usamos aquela parte do L como uma área de descan­so. Eu poderia projetar um banco para pôr sob as janelas.

Oh, ficaria lindo, pensou Julia.

- Vi um velho e maravilhoso banco de igreja semana passada.

- Ótimo! Do modo como a varanda se encontra agora, não tem nenhuma utilidade. Só serve para atravancar o es­paço. Então, você poderia trazer aqueles vasos de planta para dentro e acrescentar um pouco de luz ao ambiente.

Julia gostou da idéia.

- Bem, vou considerar a possibilidade.

- Certo e você deve se desfazer do revestimento do piso.

- Mas ele está novíssimo!

- Aposto que embaixo desse revestimento existem óti­mas tábuas de pinho.

- Ninguém seria tão estúpido.

Cullum tirou um canivete de bolso, sacudiu a lâmina. Os olhos verdes flamejando com um brilho de desafio.

- Aposta?

Ela oscilou entre querer que ele estivesse certo e odian­do a idéia de estar errada.

- Certo, raspe um dos cantos. Mas, se estiver errado, terá que fazer um desconto de cinco por cento no total do orça­mento.

- E, se eu estiver certo, você fará a cozinha do meu modo.

Julia assentiu com a cabeça.

- Negócio fechado.

Ele caminhou até um canto próximo à porta dos fundos e ajoelhou-se. Não demorou mais que dois minutos.

- Você vai ficar muito contente.

- Apenas um piso falso, hein? - Com um ar presunçoso, ela caminhou até o local e olhou para baixo. - Oh! - Ajoelhando-se, Julia se emocionou ao ver as tábuas de pinho. - Que idiotas! Raspe mais um pouco.

- Por certo deve estar arranhado e manchado. - Cullum retirou um pouco mais do linóleo. - Então, eles optaram pelo caminho mais fácil, recobrindo-o.

Era como encontrar um tesouro enterrado, pensou Julia e teve que se conter para não continuar retirando a cobertu­ra com as mãos nuas.

Eles estavam lado a lado agora, quadril de encontro a qua­dril, ombro de encontro a ombro. A nuvem macia de cachos avermelhados roçou a face de Cullum. O perfume agradável o atraiu e, sem pensar, ele virou a cabeça para inalá-lo.

Julia sentiu o coração acelerar e o estômago contrair-se. Então, se endireitou tão depressa, que quase bateu com a cabeça no nariz dele.

- O que está-fazendo?

- Nada. - Mas que diabos estava acontecendo com ele?, foi tudo que Cullum conseguiu pensar. Estava ficando com­pletamente louco?

- Você estava me cheirando!

- Ora essa! Eu estava respirando. É algo que costumo lazer com freqüência durante o dia.

O fato de sentir o pulso agitado, a boca seca e a pele quen­te, a enfureceu

- Bem, então não faça isso perto de mim - retrucou, erguendo-se depressa. - Vamos subir para o segundo andar e esquecer isso.

- Certo. - Ele fechou o canivete e o recolocou no bolso, porque se sentia tentado a enfiá-lo no próprio peito como castigo para o lapso momentâneo. - E não se preocupe, MacGregor, tentarei controlar minha respiração.

- Idiota - Julia murmurou baixinho ao mesmo tempo em que cruzavam a sala. Mas não tinha certeza a qual dos dois ela se referia.

 

Daniel MacGregor imaginou-se pitando um charuto. Recostado na pesada cadeira de couro, no espaçoso escritó­rio de sua suntuosa casa, soprou os rolos de fumaça imagi­nários para o teto, enquanto escutava seu bom e velho amigo Michael Murdoch ao telefone.

- Então o menino mordeu a isca.

- Sim, de fato - confirmou-lhe Michael. - Tossi um pouco e apertei o nariz quando o chamei. - Michael exem­plificou, fazendo a voz soar sufocante e ofegante. - Você terá que cuidar de Julia hoje, eu lhe disse. Não estou me sentindo bem. Ele não gostou muito - continuou Michael, agora falando com clareza. - Mas é um bom rapaz e gosta de honrar os compromissos da firma.

- O seu Cullum é mesmo um ótimo rapaz. - Daniel sorriu fitando o teto, trocou o telefone de lado. Conhecia Michael Murdoch havia quinze anos e o respeitava como profissional e como pessoa. Preocupara-se com o pobre homem quando ele perdera a esposa uma década antes. E, desde essa época, se tornaram grandes amigos.

- Então é um trabalho grande - continuou Daniel. - Levará mais ou menos alguns meses e isso os manterá se esbarrando um contra o outro durante um bom tempo.

- Ficarei doente por uma ou duas semanas, isso me dará a chance de pôr a minha leitura em dia. Então, ficarei com falta de apetite por mais uma ou duas semanas mais. A essa altura, Cullum já deve estar bem integrado no projeto. Poderei convencê-lo a concluí-lo. Ele vai concordar de qualquer maneira.

- Não entendo por que esse rapaz ainda não fez nenhuma tentativa de se aproximar de Julia. Eles já se conhecem há alguns anos. São duas pessoas fortes, saudáveis e atraentes. - Daniel meneou a cabeça tristemente, acariciando a barba branca e macia. - Conto com você, Michael, as crianças hoje em dia precisam ser conduzidas pela mão ou não fazem nada por si mesmas.

- Existe uma chama entre eles, Daniel. Você e eu estamos apenas avivando-a. Está na hora do meu Cullum se estabe­lecer na vida e encontrar a felicidade.

- Concordo. - Para enfatizar, Daniel bateu com o punho sobre a escrivaninha. - E Julia precisa fazer o mesmo. Por­que a menina já está com vinte e cinco anos. Pelo que está esperando? - Ele sorriu, reclinando-se outra vez. - Eles nos darão lindos bebês, Michael.

 

Felizmente alheia ao fato de sua vida estar sendo planejada, Julia sentou-se no centro da cama, concentrando-se nos mostruários. Papéis de parede, tintas, azulejos. Havia mon­tanhas de catálogos de dobradiças, maçanetas e metais para banheiro e cozinha. Ela anotou as possibilidades e registrou suas escolhas finais.

Tinha gasto duas semanas com reuniões, negociações e discussões com Cullum para finalizar o projeto, os prazos finais e o cálculo dos custos.

Não tivera outra opção senão aceitá-lo como empreitei­ro chefe. Quando passou no escritório dos Murdoch e viu como Michael Murdoch parecia desgastado e abatido, aba­lara todas as suas reclamações.

Até que ele recuperasse as energias, ficaria sentado atrás daquela escrivaninha. Não queria ser responsável por fazê-lo se sentir obrigado a se arrastar até o local para supervi­sionar as obras.

Deslizando as pernas da esquerda para a direita, procurou uma posição mais confortável. Gastara a manhã com a transferência de uma propriedade que ela vendera. Ainda precisava mudar a saia azul e a jaqueta que usara para o compromisso.

Distraída, Julia tamborilou os dedos sobre uma amostra de papel de parede floral. Tinha uma fraqueza por pedras coloridas e um trio delas cintilava em seus dedos. Outras, em suas orelhas e pulso.

No minuto em que pisara em seu quarto, retirara os grampos dos cabelos que agora lhe caíam de modo selvagem por sobre os ombros. Ela cantarolou com os lábios fechados, desfrutando o barulho de serras e martelos que vinham do primeiro piso.

Homens trabalhando, pensou. Que música maravilhosa!

Cullum ficou aliviado por ela não ter percebido sua pre­sença quando ele parou na entrada da porta. Julia teria visto a língua dele deslizar para fora da boca e chegar ao chão.

Meu Deus, a mulher tinha umas pernas! Um par de per­nas compridas que a minissaia pouco cobria. Parecia mais uma deusa do que uma mulher de negócios. O tipo que fazia um homem esquecer que tinha um discurso inteligente e um temperamento afiado.

Quando ela, distraída, esfregou uma das mãos na parte superior da coxa, Cullum revirou os olhos para o teto, implorando clemência. Então, respirou duas vezes lenta e profundamente, a fim de manter o controle.

- Pode me dar um minuto, MacGregor?

- Hum? - Rosas selvagens em um fundo azul ou as listras suaves e lustrosas tradicionais? Rosas, decidiu. Por que ser tão sutil?

- MacGregor? Jules? - Ele deu alguns passos à frente, estalou os dedos sob o nariz dela e teve o prazer de vê-la arregalar os olhos em choque.

- O quê? - Surpresa foi o que fez seu coração acelerar, falou Julia a si mesma.

- Sua parede já foi derrubada. Achei que poderia querer ver.

- Oh. Certamente. Só um minuto. - Odiava ser pega distraída, sem tempo para engatar todos os controles. - Já vou descer.

Um homem seria louco de se afastar daquele maravilhoso par de pernas quando podia se demorar mais alguns instantes, meditou Cullum. Com esse pensamento, sento na cama e se divertiu quando a viu estreitar os olhos.

- Não está sendo muito precipitada?

- Eu estava a ponto de dizer o mesmo - disse meticulosa.

- Não vai precisar de papéis de parede por algum tempo.

- Gosto de planejar com antecedência.

Ele se curvou para frente, estudou as listras que ela havia rejeitado.

- Enfadonhas. - Seus olhos viajaram pelas pernas dela. É a única coisa que você não é.

- Vejamos... Isso foi um elogio ou insulto? - Ela resis­tiu à vontade de puxar a saia para baixo. Mas não lhe daria aquele gostinho. - Insulto - decidiu. - Suma da minha frente!

- Por que está vestida desse jeito? - Ele tocou a lapela dela, sabendo que levaria um tapa na mão. E Julia não o desapontou.

- Tive um compromisso pela manhã. A propriedade da Court Street.

- Oh, sim, lugar agradável, mas também muito no centro da cidade. - Ele abriu os mostruários de tintas e considerou as escolhas dela. - Este é o tipo de tom que deve usar neste quarto. Verde-escuro. É rico e tranqüilo.

Julia concordava.

- Entende de decoração de interiores, Murdoch?

- Depois de passar tanto tempo reformando casas, aca­bamos adquirindo idéias para os trabalhos. - Os olhos, tão ricos, profundos e verdes quanto a amostra de tinta, se pren­deram aos dela. - E quando se despende tempo, esforço e criatividade restaurando uma casa e os donos estragam tudo com cores e mobílias inadequadas, ficamos furiosos.

Droga, concordou ela outra vez. Aquilo estava se tornan­do perigoso.

- Como está seu pai?

- Recuperando-se. - Mas uma sombra de preocupação cruzou os olhos de Cullum. - Nunca o vi ficar tanto tempo com um resinado. Ele disse que foi ao médico. O doutor lhe deu uma receita e ordens para repousar durante mais uma ou duas semanas.

- Bastante sensato. - Como entendia muito de amor e pre­ocupação com a família, Julia pousou uma mão sobre o joelho de Cullum. - Ele vai ficar bem. É um homem resistente.

- Ele vive dizendo que está ficando velho. Droga, e só tem 60 anos.

- Michael está apenas sentindo pena de si mesmo. Faço o mesmo quando eu estou doente. - Ela deu-lhe um aperta reconfortante no joelho. - Não se preocupe.

- Ele perguntou por você e pelo projeto. - Julia o presenteou com um belo sorriso, o que era raro. Cullum se descobriu com vontade de prolongá-lo. - Fez alguns comentários, dizendo que viria até aqui para assumir a direção dos serviços, mas não está se sentindo capaz.

- Não vamos aborrecê-lo com isso. Estou certa de que podemos restaurar a casa juntos, sem que um de nós encer­re o outro atrás de uma parede no porão.

- Podemos tentar. - Cullum deslizou um dedo sobre a panturrilha de Julia, viu os olhos dela se alargarem e curvou os lábios num sorriso.

- Mantenha suas mãos afastadas, demolidor.

- A sua está no meu joelho - observou ele, batendo-lhe de leve na mão.

Irritada, ela a afastou depressa.

- Isso é o que dá tentar ser agradável. Saia da minha cama.

- Não estou deitado na sua cama - replicou ele - Estou apenas sentado sobre ela. E, para falar a verdade, até agora isso não havia me ocorrido. Você acaba de me mostrar um mundo novo e cheio de possibilidades.

- Murdoch, o dia em que você deitar em minha cama será o dia em que construirão bonecos de neve no inferno.

Cullum não soube o que o fez agir daquela maneira, se ego ou desejo. Talvez fosse uma mistura de ambos. Mas se inclinou até suas faces ficarem bem próximas, o olhar preso um no outro e as bocas a milímetros de distância.

- Quer apostar?

Julia ouviu o sangue rugir como um oceano no alto de sua cabeça e seu orgulho estremeceu pelo fato de, mesmo por uma fração de segundos, ter se sentido excitada. Tentada.

- Ao contrário de você, não faço apostas sobre sexo. E ao contrário de você, não posso considerar a hipótese de ficar na horizontal com alguém que mal posso tolerar quan­do estamos na vertical.

Cullum se sentiu satisfeito apenas por ter visto aquela chama rápida de interesse nos olhos femininos. Dando de ombros, ergueu-se da cama.

- Gosto de suas pernas, MacGregor. Elas são definitiva­mente top de linha.

Ele se afastou, deixando-a jurando que cobriria cada centímetro do seu corpo toda vez que aquele homem esti­vesse por perto.

- E, então, ele tentou apostar comigo que eu dormiria com ele.

Dois dias depois, Julia ainda estava furiosa com aquilo. Caminhava pelo quarto, enquanto sua prima Laura acalantava o filho de três meses no colo.

- Ele está apenas tentando irritá-la. Satisfeita pelo pe­queno Daniel estar alimentado, seco e dormindo, Laura resolveu colocá-lo no berço portátil que Julia já havia mon­tado perto da janela. - Ele sabe como é fácil.

- Não me irrito com facilidade - corrigiu Julia. - Exce­to com Cullum Murdoch.

- Exatamente. Apenas o ignore, Julia. Você disse que ele está fazendo um excelente trabalho. Considere os fins, ig­nore os meios.

- Tem razão. Você tem toda razão. - Julia fechou os olhos, ordenado-se a ficar calma. O som do trabalho em curso fora amortecido pela porta do quarto fechada. Agora, procurava mantê-la fechada o tempo todo. - Faz de conta que ele não existe. Pronto. - Ela abriu os olhos novamente e sorriu. - Foi. Eu o enviei no trem da pestilência para o limbo.

- Ótimo. - Laura mordeu o lábio e olhou para o filho que dormia pacificamente. - Tem certeza de que pode fazer isso? Ficarei umas duas horas. Três no máximo, mas...

- Claro que posso. E estou louca para tê-lo só para mim. - Julia roçou a ponta dos dedos nos cabelos escuros e macios de Daniel. - Ele está tão bonito, Laura, e bem crescido.

- Eu sei. Detesto ficar longe dele nem que seja por um minuto. Sei que preciso resolver a questão da babá. Mas c tão difícil! Não tinha idéia de que seria tão trabalhoso.

- Você é uma mamãe maravilhosa e Royce um excelen­te pai.

- Daniel ajuda. Ele é o melhor bebê do mundo. - A prima suspirou e estremeceu. - Certo, certo, ele ficará bem com a tia Jules. Eu trouxe tudo o que ele precisará. Não deve acordar com fome, mas há leite de peito em uma mamadeira se for necessário. Provavelmente, vai dormir até quase a hora de eu voltar. Deixei fraldas, o ursinho, o telefone do Palácio da Justiça... - Laura se esforçou para não roer as unhas. - ...duas mudas de roupa e os números do meu bip e o do Royce. Você sabe que ele gosta de ser embalado quando...

- Laura. - Ela teve que rir. - Prometo que não vou ven­dê-lo aos ciganos enquanto estiver fora.

- Estou obcecada. - Laura esboçou um sorriso. - Vou parar com isso. Agradeço sua boa vontade em cuidar dele para mim esta manhã.

- Será um prazer. Não tenho nenhum compromisso, logo, Daniel e eu faremos companhia um ao outro até você voltar.

Passaram-se outros dez minutos, mas Julia, por fim, conseguiu colocar Laura porta afora. Então, esfregando as mãos, caminhou até o berço.

- Enfim sós, meu anjo. Espero que não durma a manhã toda.

Duas horas mais tarde, Julia lamentou aquelas palavras amargamente. O anjo estava gritando como uma gralha. Tentara lhe dar a mamadeira, o urso, embalá-lo, caminhar, cantar. Nada funcionava. A pequena e adorável face conti­nuava vermelha e furiosa, enquanto a criança exercitava seus pulmões a todo volume.

- O que está fazendo? Batendo no menino?

Com Daniel no colo, ela girou nos calcanhares e rosnou para Cullum quando a porta se abriu.

- Sim, é um dos meus passatempos favoritos, especial­mente quando eles são pequenos e indefesos bebês. Vá embora! Vamos, querido, fique quietinho.

- Ele não está molhado?

- Não, ele não está molhado! Pareço alguma idiota? - Com a mão direita, Julia afastou os cabelos dos olhos. - Ele não quer a mamadeira, não quer ser embalado e já andei o equivalente daqui até Oklahoma, mas não ajudou.

- Vejamos... - Cullum revirou os olhos quando ela afastou o pequeno Daniel para longe dele, em uma atitude defensiva.

- Ora, Jules, não deixo um bebê cair a pelo menos dois meses.

- Venha cá, garotão. - Ele retirou a criança dos braços exaus­tos de Julia. - Qual é o problema, companheirinho?

Julia piscou várias vezes perante a cena inusitada. Um homem alto, com cabelos castanho-dourados desalinhados, um cinto de ferramentas caindo-lhe pelos quadris estreitos, uma camisa de trabalho desbotada com as mangas enroladas até os cotovelos dos braços bem constituídos e um pequeno bebê no colo.

- Talvez sejam dentes.

- Como sabe?

- Porque tenho três sobrinhas, graças à minha irmã, e todas elas têm dentes. Sua prima trouxe algo para ele mas­tigar?

- Laura trouxe tudo. Vou olhar.

Enquanto Julia procurava, Cullum ofereceu a Daniel a junta do seu dedo. De imediato, o bebê começou a roer.

- Se as suas gengivas estivessem inchadas desse jeito... - disse ele - ...você estaria chorando, também.

- Achei! - Extenuada, ela ofereceu um anel de dentição azul à criança. Quando Cullum colocou o objeto na boca de Daniel, o choro cessou. Com a face molhada pelo pranto, o pequeno menino emitia apenas um fraco soluço.

- Está melhor agora, não é? - murmurou Cullum, desli­zando a ponta dos dedos através da bochecha rosada. Seus olhos profundamente verdes exibiam um brilho caloroso, ao mesmo tempo em que ele sorria para o bebê. - Deus, como é bonitinho!

- Gosta de bebês?

- E como não gostar? - Ele jogou o bebê para alto, fa­zendo o coração de Julia quase parar. Daniel murmurou o começo de um risinho. - Você tem que distrair o pensamen­to dele das gengivas - disse Cullum, conseguindo arrancar risadinhas da criança. - Quer ir lá embaixo ver os sujeitos trabalhando, campeão?

- Você não pode descer com ele. O pó e o barulho podem ser prejudiciais.

Ainda sorrindo para o menino, Cullum meneou a cabeça.

- Mulheres! Sempre preocupadas com o pó. Ele vai gos­tar. Bebês gostam de movimento e som. Isso os estimula. Ele empoleirou o bebê no quadril. - Depois vamos até à cozinha almoçar. Uma cerveja e um sanduíche de almôndegas.

Julia não pretendia sorrir, mas não resistiu. Os dois a fitaram, o bebê com os olhos arregalados e o homem com os olhos frios.

- Está bem, talvez só por alguns minutos. Mas ele não pode manejar a serra elétrica.

- Garoto danado. - Cullum estalou um beijo no topo da cabeça de Daniel.

- Você vem, ou confia em mim sozinho com ele?

- Confio em você, mas vou assim mesmo. - Ela pren­deu um babador no peito do menino. - Ele baba muito - ex­plicou.

- O que é um pouco de saliva entre homens de verdade?

- Cullum, eu... - Julia hesitou, sem perceber a expressão de surpresa no rosto dele. Jamais o chamara pelo primeiro nome. - Gostaria de lhe agradecer. Estava a ponto de arran­car meus cabelos.

- E que belos cabelos! - disse ele varrendo-os com o olhar. - Seria uma pena. Venha - chamou, oferecendo-lhe a mão. - Vamos ver o que a criança acha dos trabalhos.

Antes que ela pudesse pensar, sua mão estava na dele. E, então, lhe pareceu um gesto muito rude afastá-la.

- Está fazendo um excelente progresso. Acha que pode­remos começar a suíte principal na semana que vem?

- Esse é o plano. - O barulho aumentou à medida que desciam os degraus.

- Vou retirar a mobília durante o fim de semana e guar­dá-la no quarto sob o corredor.

- Nós faremos isso. O rapaz que assenta os azulejos quase terminou o toalete feminino aqui embaixo. Sei que não era prioridade, mas ele estava disponível e, como você gostou do trabalho dele, quis contratá-lo, antes que ele começasse outro serviço.

- Ótimo. Irei dar uma olhada.

- Já decidiu sobre a cor e o material para as bancadas da cozinha?

- Sim, ontem mesmo. A fita com as anotações está lá em cima.

- Eu podia apostar que sim. O que escolheu?

- Ardósia azul, azulejos quatro polegadas, gesso azul-marinho.

- Nada mal. - Ficará formidável.

- Cullum. - Um dos carpinteiros veio até a sala de estar expandida. - Quer dar uma olhada nisto antes de pregar­mos?

- Sim, já vou.

- Agora, deixe-me segurá-lo - pediu Julia. Seus braços se roçaram ao passarem o bebê de um colo para o outro. - Vá em frente, ficaremos assistindo a uma distância segura.

Cullum deu um pequeno piparote no nariz de Daniel,

- Não se esqueça da cerveja e das almôndegas, camarada! - dizendo isso, se afastou.

- Bem, isso foi inusitado, não é? - murmurou ela, posicionando a criança para descansar contra seu ombro - Quem imaginaria que um homem tão impertinente poderia ser tão doce com um bebê?

Batendo de leve nas costinhas de Daniel, ela se dirigiu à entrada. A parede havia sido derrubada, a sala parecia mais ampla e cheia de luz. E cheia de homens, barulho e ferra­mentas.

Nada a agradava mais do que contemplar as etapas de uma obra. Entrar em uma casa perfeita, que não precisasse de reparos ou uma boa reforma não a agradava. Era muito mais gratificante olhar um espaço e ponderar as mudanças que poderiam ser feitas para melhorá-lo. Colocar mãos à obra e assistir ao passo a passo dessas mudanças Sendo realizado.

Panos velhos recobrindo o chão, cavaletes segurando as tábuas prontas para serem cortadas, segundo o tamanho especifico. Os pedreiros ajoelhados no piso da lareira, aper­feiçoando a argamassa das pedras.

Cullum estava parado junto à nova abertura, conversan­do com dois homens. Tinha as mãos nos bolsos da parte de trás da calça como se discutissem a posição da arcada que ligava as salas.

Ele deu uma risada, um som másculo que reverberou pelo recinto.

Másculo, pensou Julia sentindo uma rápida emoção. Era o modo mais perfeito de descrevê-lo. Sua mão era dura, ás­pera, com calos e cheirava a serragem e suor. Os músculos dos braços eram esguios, mas bem definidos devido ao uso.

E o modo como o jeans se ajustava àqueles quadris es­treitos era... simplesmente delicioso.

- Oh, meu Deus! - ela deixou escapar. O que estava fazendo? Reparando no modo como o jeans dele lhe ficava bem? E o fato de ele possuir um anel dourado circundando as pupilas no centro daquelas íris profundamente verdes também não lhe dizia respeito. Não estava nem um pouco interessada em Cullum como homem. Ele era apenas um trabalhador que ela contratara para executar um serviço.

Nesse instante, ele se virou, curvou os lábios num sorri­so oblíquo e piscou para o bebê.

O coração de Julia acelerou dentro do peito.

Então, ela agradeceu a Deus por não ter aceitado aquela aposta.

 

O dia de Julia começara com uma palestra matutina na Associação de Mulheres de Negócios de Boston. Certa vez fora convidada como conferencista em um foro de Ciências Políticas em Harvard. Naquela noite, seria a oradora do jantar em uma convenção de bens imobiliários.

Não se importava em fazer discursos. Afinal, era apenas falar e emitir opiniões. Sempre se considerara boa em ambas as coisas. Os oito anos que passara como primeira filha lhe proporcionaram intenso treinamento no trato com pessoas, multidões e mídia.

Aceitava tais eventos várias vezes ao ano e tentava agru­pá-los em um ou dois dias.

Tinha a agenda lotada, mas, no finalzinho da tarde, en­contrava-se pesquisando as lojas de antiguidades à caça de maçanetas. Não ficara satisfeita com as ferragens atualmen­te disponíveis no mercado. Seu novo plano era procurar variedades. Todas as portas da casa teriam um look diferen­te e sem igual até o término da obra.

Embalou algumas peças de metal, madeira, vidro e acrílico. Entre elas, puxadores e maçanetas com formas e texturas ma­ravilhosas. Quando terminou, já contava com mais de três dúzias de remates de porta diferentes em uma caixa e alguns já estavam rotulados com o local exato onde seriam colocados.

No caminho para casa, passaria pela Murdoch & Sons. Sabia como Michael Murdoch gostava de um bom papo. E poderia entretê-lo, ver com seus próprios olhos como ele estava se sentindo e deixar as ferragens lá. Tudo isso em uma curta visita.

Quando chegou às proximidades do aristocrático bairro de Beacon Hill, dirigiu através do centro industrial, por entre casas, edifícios baixos e enormes caminhões. Usava a buzina e acenava ao passar por pessoas conhecidas. Então, parou em frente à Murdoch e ficou contente ao ver que a velha picape Chevy de Michael se encontrava no pequeno estacionamento ao lado da firma.

Suspendeu a caixa, reclamando um pouco do peso. Ain­da estava usando o terninho que vestira para o evento públi­co, o que deu aos homens do recinto a oportunidade de emitir os assovios obrigatórios. Julia levava na esportiva. Conhecia a maioria dos operários pelo nome, já trabalhara com muitos deles antes.

A recepção era pequena e confortavelmente informada. Comandando a antiga escrivaninha de metal, havia uma mulher que usava um lápis nos cabelos, uma camiseta com o logotipo da Murdoch & Sons e que exibia um sorriso li­geiramente afetado nos lábios.

- Julia, do jeito que está vestida, nem parece que estamos em um dia fresco e ensolarado.

- Oi, Meg. Muito trabalho?

Revirando os olhos, Meg atendeu o insistente telefone.

- Murdoch & Sons, um momento por favor. - A mulher deixou escapar um pequeno suspiro enquanto apertava o botão de espera. - O negócio está indo bem. O que significa que até sonho com a campainha do telefone. Posso ajudá-la?

- Trouxe algumas coisas e gostaria de mostrá-las a seu chefe. - Julia exibiu a caixa. - Ele está livre?

- Para você? Está brincando? Vá até os fundos.

- Obrigada. Como ele está passando?

- Ainda se movimentando com certa dificuldade, mas logo estará bom.

Vê-la o fará recuperar-se mais depressa. Vou informar, para dizer a ele que você está a caminho.

- Ótimo. Não vou cansá-lo muito - prometeu Julia tro­cando a caixa de lado novamente e se dirigindo ao curto corredor que conduzia aos escritórios.

Ficou surpresa ao encontrar a porta de Michael fechada. Portas abertas faziam parte do estilo dos Murdoch. Preocupada, conseguiu livrar uma das mãos e bateu. A preocupação se transformou em aflição quando a porta se abriu.

Michael estava corado, aparentando estar um pouco frio e úmido. Afinal, tivera que se apressar quando Meg interfonou. O cachorro-quente que havia pedido às escondidas e estava a ponto de desfrutá-lo fora empurrado para dentro de uma gaveta do arquivo, juntamente com uma garrafa de refrigerante. O joguinho eletrônico que pedira emprestado à neta, bem como uma generosa fatia de bolo de chocolate, também haviam sido escondidos.

Tais coisas não combinavam com a imagem de um homem velho e doente, pensou.

- Julia. - Não precisou fazer sua voz soar ofegante e fraca. Os nervos fizeram isso por ele. - Fico feliz que tenha vindo me ver.

- Sr. Murdoch. - Imediatamente preocupada, Julia pou­sou a caixa na escrivaninha e o segurou pelas mãos. Parecia febril e trêmulo. - Deveria estar em casa e na cama.

- Oh, estou bem. Muito bem. - Ele acrescentou com uma tosse rápida e ofegante que julgou providencial. - Estou melhorando, querida. Antigamente, essa estúpida congestão peitoral não teria me deixado assim.

- Pensei que fosse uma congestão nasal.

Oh, inferno, pensou Michael.

- Já passou para o meu tórax. Bem, vamos sentar. - Ju­lia segurou-o pelo braço e o conduziu até uma cadeira. Por um momento, teve a impressão de sentir o cheiro de cebolas, mas dispersou tal pensamento.

- Mas conte-me. Como o meu garoto está se saindo? - fa­lou Michael após suspirar profundamente.

Julia tinha algumas queixas, principalmente sobre o fato de Cullum ainda continuar a questionar-lhe todas as escolhas e exigências. Mas em vez disso, sorriu.

- O projeto está de vento em popa. É claro que eu pre­feria que você estivesse à frente das obras, moço bonito.

Michael riu e apertou a mão dela. Um homem não podia desejar uma nora mais perfeita, nem sendo escolhida a dedo, concluiu. E é claro que tinha sido.

- Cullum é um ótimo profissional.

- Bem, por certo, foi treinado pelo melhor dos mestres. Michael sorriu ao ouvir o elogio.

- Você vai virar minha cabeça. Agora, diga-me, o que tem aí dentro dessa caixa?

- Tesouros. Oh, estou tão animada, sr. Murdoch! Estive caçando maçanetas.

- Bem, vamos dar uma olhada. - Michael aproximou-se com os olhos iluminados.

Durante vinte minutos, ambos se divertiram com os brinquedinhos novos, especulando sobre a idade e a história das peças e discutindo as escolhas das portas que os remates adornariam. Julia alegremente trocou as etiquetas de algumas e acrescentou outras.

- A porta do meu quarto é feita de um maravilhoso carvalho antigo. Uma das poucas peças originais que resta­ram na propriedade, depois que aqueles camponeses que moraram lá por último se foram. Você viu como eles pinta­ram as molduras?

- Um crime, um pecado. - Michael acenou com a cabe­ça tristemente.

- Cullum lhe contou que eles puseram linóleo sobre o piso de pinho original da cozinha? - O simples pensamento sobre o assunto a deixou irritada. - Estava péssimo, é claro, mas vai ficar ótimo. Deslumbrante. - Ela acenou uma das mãos. - E, por falar nisso, não acha que esta maçaneta de vidro com entalhe vertical vai ficar perfeita na porta do quarto de dormir?

- Sem dúvida!

Julia curvou os lábios num sorriso.

- Adoro combinar as coisas com alguém que concorda comigo. Oh, Deus, olhe as horas. Tenho que ir para casa trocar de roupa.

- Vai sair hoje à noite? - Uma leve sondada não fazia mal algum, pensou Michael. - Tem um namorado novo?

- Nenhum namorado novo, mas tenho um jantar às sete e meia.

- Por que não deixa as maçanetas aqui e eu entrego a caixa a Cullum? Ele cuidará disso para você.

- Ótimo! Mal posso esperar para vê-las nas portas. - Ela se curvou para beijar-lhe a face. - E você cuide-se, sr. Murdoch. Eu o quero dançando na minha festa de fim de ano.

- Estarei lá.

Michael sentou-se enquanto ela saía e sorriu. Algo co­meçou a se delinear em sua mente. Cauteloso, ergueu-se e fechou a porta. Em seguida, se dirigiu ao arquivo e retirou o jantar da gaveta. Comeria enquanto combinava com Daniel MacGregor os detalhes do seu mais recente plano.

- Maldição de mulher exigente, impaciente e irritante - murmurou Cullum, enquanto alinhava uma maçaneta de vidro na porta. Julia fora inteligente de ir falar com o pai dele primeiro, porque, se em vez disso, o tivesse procurado, a teria feito enxergar a realidade.

Que diabos ela estava pensando? Planejar uma festa, com a casa daquele jeito?

Até que seria engraçado, ver a multidão de amigos dela vagando ao redor dos plásticos de proteção contra tinta, comendo canapés e fazendo comentários sobre o reboco inacabado dos tetos.

E ela queria que as malditas maçanetas estivessem no lugar.

Nunca se importara de ter que trabalhar até tarde. Tam­pouco de ter que fazer trabalhos de perfuração após o horário de expediente, mas não gostava de se sentir pressionado.

Não tivera outra escolha senão concordar em pegar a caixa, vir até a casa de Julia enquanto ela estava fora e colocar as maçanetas. Não com o pai, aparentando estar tão debilitado, lhe pedindo que agradasse um de suas melhores clientes.

Se estiver muito ocupado, posso ir até lá e cuidar disso pessoalmente, filho.

- Claro - sibilou Cullum entre dentes. - Como se eu fosse mandá-lo para cá, trabalhar às nove horas da noite para piorar do resfriado.

Já eram quase 11 horas e ele já tinha o serviço quase concluído. Seu mau humor aumentava a cada porta que checava. Não importava que achasse o fato de Julia adquirir maçanetas antigas para a casa uma excelente idéia. Seus métodos é que o irritavam.

Julia MacGregor era uma mulher mimada, arrogante e egocêntrica, pensou ele outra vez. Mas afinal, sempre pen­sara assim. Fora estúpido em imaginar que talvez pudesse haver algo mais naquela cabeça. O modo como ela segura­ra o bebê, como sorria com seus funcionários ou trazia caixas de rosquinha e garrafas de café para lhes oferecer o enganaram. Ela aprendera, também rapidamente, seus no­mes, e sempre encontrava tempo para elogiá-los.

Mas tratava-se apenas de politicagem, concluiu.

Nesse instante, ele ouviu a porta da frente se abrir e sorriu. Então, a moça festeira estava de volta ao lar. Espe­rava que ela tivesse se divertido, porque agora ouviria o que Cullum Murdoch pensava dela.

Mal havia alcançado o topo dos degraus quando ouviu o som de vozes no foyer. Julia estava acompanhada de um homem. Aquilo o fez curvar os lábios num sorriso zombeteiro. Trazendo um dos amiguinhos para casa, supôs. Então, se moveu para frente com cautela de modo a não ser visto.

- Tod, estou realmente cansada. Tive um dia longo.

- Não vai me mandar embora sem ao menos uma bebida. Julia suspirou e tentou não ser aborrecida. Saíra com Tod algumas vezes durante seis meses. E tinha vergonha de admitir que suas principais qualidades eram parecer mara­vilhoso em trajes formais e ter a capacidade de se manter bem-humorado até mesmo na mais enfadonha das reuniões de negócios.

Só por esse fato, Julia se sentiu na obrigação de lhe ofe­recer uma bebida.

- Certo. - Ela retirou o xale, revelando o sedoso e bri­lhante vestido de noite preto por baixo. - O que gostaria de beber?

- Na realidade, eu gostaria... - Tod se moveu devagar, deslizou os braços ao redor da cintura dela e beijou-a, antes que ela pudesse deixar clara sua falta de interesse.

Julia não protestou e tampouco correspondeu. Já havia descoberto, para sua decepção, que beijar Tod não fazia sua pulsação acelerar. Era até agradável, mas ler um bom livro também era.

- Ouça, já lhe disse que estou cansada...

- Então, vou despertá-la um pouco. - Tod acariciou-lhe as costas, onde duas tiras finas de tecido se cruzavam sobre a carne. - Tenho pensado muito em você, Julia, querida.

- Sinto muito. É que...

A irritação e alguns sinos de alarme amortecidos tomaram conta do cérebro de Julia. O abraço e a boca de Tod se tor­naram duros e exigentes. Ela ergueu os braços para repeli-lo e, então, sentiu a palma das mãos dele apertando-lhe as nádegas. Irritada, ela o empurrou.

- Não.

- Julia. - Ainda sorrindo, o rapaz começou a brincar com as alças do vestido dela. - Vamos parar de joguinhos.

Ela rangeu os dentes quando as pontas dos dedos de Tod deslizaram ao longo de um dos seus seios.

- Que parte você não entendeu? Ele parou de sorrir.

- Olhe, você tem me enrolado ao longo de todos esses meses. Fui paciente, mas agora estou cansado de esperar.

Os olhos dela se estreitaram e flamejaram.

- Oh, bem, nesse caso, devo me deitar e permitir que faça o que está com vontade. Como fui ridícula de pensar que o sexo pudesse fazer duas pessoas ficarem interessadas uma na outra.

- Você sabe muito bem que está interessada. Não vai me dizer que usou este vestido hoje à noite para impressionai um grupo de corretores de imóveis.

Aquilo bastou. Julia se virou, caminhou até a porta e a abriu.

- Não, não foi para impressioná-los. Usei porque gosto dele. E, pelo que sei, as mulheres são livres para se vestir do jeito que quiserem. Agora, eu o aconselho a partir, antes que eu faça o que realmente estou com vontade de fazer, que é lhe dar um murro na cara.

- Você é mesmo uma cadela fria e insensível - murmu­rou Tod ao passar por ela.

Julia bateu a porta e fechou os olhos ao mesmo tempo em que ofegou.

- Que petulante!

- E eu que pensei que ele fosse um sujeito legal.

Os olhos dela se arregalaram e a raiva que sentia só aumen­tou com o embaraço ao ver Cullum descendo os degraus.

- Que diabos está fazendo na minha casa?

- O meu trabalho. - Quando percebeu que ainda tinha o punho fechado, o punho que pretendia desferir na cara de Tod, caso o sujeito não a soltasse, relaxou-o. Julia havia controlado a situação como uma campeã, pensou ele. Ago­ra que podia ver o quanto estava trêmula, admirava ainda mais o seu estilo. - Esse vestido mata um - disse ele, espe­rando acalmá-la.

A espinha de Julia enrijeceu.

- Vá para o inferno!

- Ei. - Cullum pousou uma das mãos no braço dela, antes que ela pudesse escapar. A preocupação aprofundou o tom de sua voz e a cor de seus olhos. - Desculpe pela brin­cadeira. Sente-se, Jules. Você está tremendo.

- Estou furiosa.

- Não se culpe. Ele foi um idiota, mas você controlou tudo muito bem.

A humilhação se aliou à raiva.

- Você gosta de uma confusão, não é, Murdoch?

- Olhe, sinto muito por ter sido a platéia nesse pequeno show, mas a culpa foi sua.

- Oh, é mesmo? - Julia não precisava se esforçar muito para transferir toda a raiva que sentia de Tod para Cullum. Ela espetou um dedo no tórax dele, rijo o bastante para fazê-lo se desequilibrar para trás. - E suponho que pense que qualquer mulher que se arrume um pouco mais esteja pro­curando por isso. No minuto em que ela coloca perfume, está realmente dizendo "Possua-me, homem selvagem".

- Não estou falando sobre a droga do vestido, estou fa­lando sobre as malditas maçanetas.

- Maçanetas? - Quase perdendo a paciência, Julia des­lizou os dedos por entre os cabelos. - Qual de nós dois está perdendo o juízo? Eu ou você?

- Foi você quem quis que eu colocasse as maçanetas esta noite. - Os olhos dele exibiam um brilho de raiva. - Você é que veio das compras e foi se lamentar com meu pai sobre uma festa ridícula que pretende dar. Acha que gosto de ficar trabalhando até quase meia-noite?

Julia pressionou as têmporas com os dedos, nem um pouco surpresa pela dor de cabeça que se instalara lá. Então, baixou as mãos outra vez.

- Espere. Fui ver seu pai hoje à tarde. Queria saber como ele estava passando. Eu tinha comprado algumas antiguidades e levei as maçanetas para que pudéssemos escolhê-las e rotulá-las, juntos.

- E aí conseguiu convencê-lo a adiantar os trabalhos para poder dar a sua festinha.

- Que festinha? - Ela ergueu as mãos. - Não vou dar festa nenhuma. Como posso dar uma festa com a casa nesta bagunça? Não sei do que... - Julia deu alguns passos lentos e fechou os olhos. - Oh, já sei. Olhe, preciso de uma aspirina.

Sem esperar para ver se ele a seguia, dirigiu-se à cozinha, proporcionando a Cullum a enlouquecedora visão de suas costas nuas e quadris esbeltos. O vestido matava um... Cer­to, pensou, ressentido. Pois ele o estava matando.

Julia achou um vidro de aspirinas no armário, encheu um copo com água e engoliu três comprimidos.

- Certo, houve um engano. Levei as maçanetas e disse algo sobre mal poder esperar para ver como ficariam nas portas. Mas não quis dizer que não podia esperar. Você sabe o que eu quero dizer.

Carranqueando, Cullum acenou com a cabeça.

- Entendi.

- E mencionei uma festa. Estou planejando inaugurar a casa com uma festa. Mas não até a véspera do ano-novo. Não especifiquei uma data. Apenas disse que queria vê-lo bom na minha festa. Ele deve ter confundido tudo.

Não era do feitio de seu pai confundir detalhes. Entre­tanto, Cullum era forçado a admitir que havia um mês o pai não parecia o mesmo.

- Certo, já entendi. Mal-entendidos, é só.

- Sinto muito por tê-lo feito vir até aqui hoje à noite.

- Até que não deu tanto trabalho assim. Coloquei algu­mas maçanetas no lugar. Quer dar uma olhada?

Ela esboçou um sorriso.

- Claro!

- Que tal aquela lá? - Cullum apontou o dedo polegar em direção à porta da cozinha e teve que rir ao ouvir um pequeno suspiro de prazer escapar dos lábios dela.

- Oh, está perfeito! Eu sabia que as maçanetas esmalta­das tinham sido feitas para esta porta. - Julia se aproximou para admirar a pintura delicada dos sininhos azuis em um fundo branco esmaltado. - Amo esses pequenos detalhes. Isso é o que faz uma casa especial.

- Sim, tenho que admitir que funciona. - Cullum se curvou para estudar a maçaneta mais de perto e ela se endireitou. De repente, ambos ficaram face a face, olhos nos olhos. Próximos o bastante para Julia ver o fascinante anel dourado ao redor daquelas íris verdes e sentir o sangue correr mais rápido nas veias.

Seu coração disparou.

- Eu... queria lhe agradecer por ter feito o serviço.

O perfume feminino estava confundindo o cérebro de Cullum.

- Como já lhe disse, não deu tanto trabalho assim. - Céus, como desejava aquela boca e o resto também, pensou ele. Então, tentou se recordar de como ficara enojado com epi­sódio de Tod. Mas aquela boca parecia tão macia, tão gene­rosa, tão tentadora! - É melhor eu ir embora.

- Sim. - Julia tinha a garganta quente e seca com o de­sejo. O que estava havendo de errado com ela? A pressão aumentava em seu tórax. Ambos continuavam de pé, sem encostar um no outro, mas ela não conseguia fazer com que o ar lhe chegasse aos pulmões.

- Vou levá-lo até a porta.

- Conheço o caminho.

- Está bem.

Os dois se moveram abruptamente e, de alguma manei­ra, seus lábios se encontraram e suas bocas se enroscaram. Uma onda de calor os atingiu, espalhando-se como um fogo selvagem, enquanto seus dentes e línguas se tocavam. O físico rijo e másculo de Cullum pressionou as curvas luxu­riantes de Julia contra a porta. Ela arqueou o corpo para frente, desejando que o contato entre eles se tornasse ainda mais íntimo.

As mãos fortes e ávidas de Cullum cariciaram-lhe as laterais dos seios até senti-los excitados.

Julia estava ocupada afagando os fios dourados daqueles cabelos maravilhosos.

- Isso é loucura... - murmurou ela com a respiração acelerada e ofegante.

- Insano - concordou ele deslizando a língua ao longo do pescoço delicado, desesperado para sentir o gosto daquela pele macia. Julia tinha o cheiro da chama quente do pe­cado, pensou.

- Cullum, não podemos fazer isso.

- Eu sei...

Ela enrascou os dedos nos cabelos dele ao mesmo tempo em que o puxava de encontro à boca a fim de fundir seus lábios uma vez mais. Beijaram-se com avidez até ambos ofegarem e se afastarem.

- Isto não está acontecendo e não pode dar certo. - Julia precisou se segurar na porta ou simplesmente cairia no chão completamente sem forças.

- De modo algum pode dar certo. - Cullum desejava, de modo selvagem, tocar aquele corpo feminino sob a maciez da seda preta.

- Isto é apenas um lapso temporário.

- Certo. - Ele recuou um passo, mas não conseguia tirar os olhos da face de Julia. -- Eu a quero, Jules, quero de ver­dade.

- Oh, inferno! - Ela levou a mão ao peito, onde seu coração batia acelerado. - Precisamos pensar em outra coi­sa. Qualquer outra coisa. - Céus, por que não conseguia respirar?, perguntou-se - Ouça, nós nem mesmo gostamos um do outro, Cullum.

- Isso não está me preocupando no momento. Mas, sim, é verdade. - Julia tinha a face corada, os olhos enevoados. E, ele percebeu com choque e embaraço, que seus joelhos estavam trêmulos. - Se fizermos o que estamos pensando em fazer agora mesmo, de fato amanhã estaremos nos odian­do. É claro que me sinto na obrigação de realçar que ainda temos algum tempo até amanhã de manhã.

Julia ficou grata por ainda poder sorrir.

- É melhor pararmos. Deve ter sido a tensão, os hormô­nios ou seja lá o que for - Sem deixar de fitá-lo, ela se afastou da porta, dando-lhe espaço para sobreviver. - Pro­vavelmente vai passar.

- Podemos esperar. - Cullum começou a abrir a porta. Deus sabia que ele precisava de ar e espaço. - E se não passar, Julia?

- Não sei.

Ele a estudou por mais um momento, desejando saber se havia possibilidade de ela estar tão confusa e excitada quan­to ele.

- Nem eu - decidiu Cullum afastando-se rapidamente.

Vinte e Quatro

Julia arrumou dúzias de coisas para se manter ocupada e afastada de Cullum durante as semanas seguintes. O outono havia se instalado na Nova Inglaterra com seu excepcional estilo. As árvores exibiam uma exuberante coloração aver­melhada e, quando atingiam o apogeu, a brisa adquiria uma temperatura que anunciava a chegada do inverno

Ela procurava propriedades, fazia ofertas. Passava no escritório do primo, visitava Laura, a tia e o tio e almoçava com amigos. Fazia compras, vasculhando as lojas em busca de presentes de Natal e artigos para bebês. Sua prima Gwen estava grávida de três meses. O enorme são bernardo de pelúcia era a desculpa perfeita para passar pela casa que ela, Gwen e Laura haviam compartilhado.

Ao chegar, encontrou Gwen em casa, concentrada nos livros de receitas.

- O que está fazendo?

A prima sorriu meio sem jeito e deslizou a mão nervosa pelos cabelos ruivos com reflexos dourados.

- Acho que está na hora de eu aprender a cozinhar. Pelo menos a fazer um ou dois pratos básicos.

- Dra. Blade... Oops! Dra. Maguire. - Julia se sentou à mesa. - Por quê?

- Bem, terei três meses de licença-maternidade. Vou ficar em casa. Devo... - ela gesticulou vagamente - ...fazer as tarefas domésticas.

- Branson se importa se você sabe preparar um bolo de carne?

- Não, claro que não. Mas eu me importo. É a coisa mais estranha. - Gwen deslizou uma das mãos pelo ventre um pouco estufado. - Suponho que faça parte de todo o processo da gestação. Em todo caso, sou uma cirurgiã, uma dentista, por certo, posso calcular a fórmula básica para, diga­mos... fazer um bolo de carne e obter um produto comestível. - Descansando os cotovelos sobre a mesa, ela apoiou o queixo nas mãos e sorriu para o enorme cachorro. - Gosto do seu novo animal de estimação.

- Eu também. Achei que minha sobrinha ou sobrinho adoraria tomar conta dele.

- Oh, que meigo, Julia! Eu lhe disse que estamos plane­jando fazer um tema animal no quarto do bebê?

- Não menos que dez ou quinze vezes. Não há neces­sidade de perguntar como está se sentindo. Você parece ótima.

- Nunca estive mais feliz em toda minha vida e tive uma vida muito feliz.

- O trabalho no hospital não é muito cansativo?

- É o que eu quero. O que me abastece e me satisfaz. Quer um pouco de café? Estou evitando a cafeína, mas...

- Não, não quero nada.

- E você? Como estão as obras da casa?

- De vento em popa. Meu quarto já ficou pronto. Ficou fabuloso! Ainda temos bastante serviço pela frente, mas está fluindo bem. Agora, os homens estão trabalhando na cozi­nha.

Gwen inclinou a cabeça, estudando a face de Julia.

- O que é?

- O que é o quê?

- O que está escondendo? Tem algo aborrecendo você, posso ver.

- Não é nada. - Julia afastou-se da mesa e começou a caminhar. - É bobagem.

- Não, se a estiver aborrecendo. - Na verdade, não estou aborrecida. Estou apenas sur­presa. - Afinal, isso que a trouxera ali, admitiu Julia a si mesma, sentando-se outra vez na cadeira. - Você conhece Cullum Murdoch?

- Sim, claro. É o filho de um velho amigo do vovô Trabalha com construção. A firma dele fez alguns serviços aqui quando compramos a casa.

- Certo. Bem, ele agora é o empreiteiro-chefe do meu projeto. Nunca me dei muito bem com ele. Incompatibili­dade de gênios, suponho.

- Então por que o contratou?

- E uma longa história e não é essa a questão. - Julia fez um gesto com os dedos descartando o assunto. - Há duas semanas atrás estávamos sozinhos em casa, já era tarde, e... .

- Oh! - Gwen mordiscou os lábios. - Entendi.

- Não, não entendeu. - Julia exalou um pesado suspiro. - Foi apenas uma atração animalesca que não levamos a cabo. Ambos concordamos que seria um terrível engano.

- Porque você não quis ir em frente.

- Por isso e porque temos um relacionamento profissio­nal. Adoro o pai dele. É mais um motivo. Se eu e Cullum acabássemos na cama para dar vazão a toda excitação que sentíamos, não sei como eu enfrentaria o sr. Murdoch de­pois.

- Pelo que me recordo, o sr. Murdoch é um homem sensato que adora o filho. Não posso imaginá-lo chocado por vocês dois se sentirem atraídos um pelo outro.

- Achar uma pessoa atraente não é uma licença para dividir os lençóis com ela. - Julia exalou um suspiro. - Gwen, eu de fato queria dividir os lençóis com Cullum.

- Ele é um homem decente?

- Decente? Bem, sim, suponho.

- É bem-humorado, inteligente e bondoso?

- Ele é... - Julia se recordou do modo como ele segura­ra o pequeno Daniel. - Sim. Mas, vira e mexe, estamos batendo cabeças. Ele é muito arrogante e teimoso.

- Oh... - Gwen não se esforçou para disfarçar o riso. - É claro. E você é tão flexível e compreensiva!

- Comparada a ele, sou mesmo - disse Julia na defensiva e então riu de si mesma. - Certo, isso talvez seja a raiz do problema. Ambos nos conhecemos e não temos nenhuma dificuldade em querer fazer valer nossas opiniões sobre as dos outros. Ele pode ter razão vez ou outra. Mas na maioria das vezes estou certa. - Ela se curvou para frente. - Sabe, ele tem aquelas mãos incríveis: grandes, ásperas e realmen­te fortes. Não consigo parar de pensar nelas.

- E gostaria que elas estivessem presas aos braços de um homem mais cordato.

Julia começou a concordar e então argumentou consigo mesma.

- Não estou tão certa. Eu teria dito isso um mês atrás. Agora estou começando a achar« abrasividade atraente. Sensual. Acho que preciso sumir por alguns dias, é isso.

- Bem, não lhe fará mal algum. Mas nunca conheci al­guém mais segura de si como você. Ou mais disposta a se arriscar para correr atrás do que quer. Se acabar querendo ficar com Cullum, eu a aconselharia a tomar cuidado, se proteger e confiar em si mesma.

- Bom conselho. - Julia afastou os cabelos da face. Acho que é uma boa ocasião para eu ir visitar meus pais em Wa­shington por alguns dias. Um pouco de distância será bom. E, de qualquer maneira, estou interessada em algumas pro­priedades por lá e gostaria de conferi-las.

- Mande um beijo para os meus tios e... - Um sorriso cínico curvou os lábios de Gwen. - ...mantenha-me infor­mada sobre o projeto Murdoch.

Era um bom modo de pensar sobre aquilo, pensou Julia enquanto estacionava em frente à sua casa. O projeto Mur­doch. Era uma perita em projetos. Avaliava ângulos, lucros, perdas, esforços e tempo.

Era exatamente o que ia fazer, disse a si mesma em pen­samento. Avaliaria os ângulos, calcularia o que poderia ganhar ou perder e o efeito que Cullum Murdoch causaria em sua vida.

E faria isso a uma distância agradável e segura.

Ela entrou, fez um aceno amigável para alguns dos tra­balhadores e subiu as escadas a fim de arrumar as malas.

Seria bom fazer aquela surpresa aos pais e ficar lá por alguns dias. Havia quase um ano não passava um tempo com eles. No Natal, estariam, na maior parte do tempo, com os parentes ou, para ser exata, com toda a família. Seria mais uma algazarra do que uma visita.

Batendo o pé no chão, ela contemplou o guarda-roupa. Adorava aquele closet, o espaço e a organização. Parecia-lhe muito mais prático agora do que quando era um simples vestiário. Selecionou algumas roupas casuais, jaquetas es­portivas, calças compridas, um vestido de jantar básico e as estava levando para a cama, onde havia uma mala aberta, quando Cullum entrou.

Ele ergueu uma sobrancelha.

- Vai a algum lugar?

- Parece que sim. Acho que não o ouvi bater.

- Você esqueceu de fechar a porta dessa vez.

- Oh! - Ela pôs as roupas sobre a cama e caminhou de volta ao closet.

Cullum jamais imaginara que uma única mulher pudesse ter tantas roupas. E sapatos... Mas ela não tinha apenas dois pés? Contudo, já havia expressado sua opinião sobre aquele assunto umas duas vezes e seria perda de tempo repeti-la.

- Para onde vai?

Dessa vez foi Julia que ergueu uma sobrancelha.

- Viajar.

- Por quanto tempo?

Ela esbarrou nele ao levar os suéteres e as blusas para a cama.

- Desculpe-me, mas por que pensa que isso é da sua conta?

- Porque estamos no meio de uma restauração impor­tante. Não quero que volte e se queixe por algo não ter saí­do como você queria.

- Eu não me queixo. - Como podia estar atraída por alguém tão irritante?, ela desejou saber enquanto se dirigia a sua cômoda Duncan Phyfe para pegar algumas lingeries.

- Onde poderá ser localizada?

- Ligarei regularmente.

- Ouça, MacGregor - Cullum teve que se controlar, recuando um passo. Não sabia por que a visão de Julia em­balando as roupas o deixava em pânico. Tinha desejado se ver livre dela por semanas. - Os armários da cozinha che­garão na próxima semana. Se não estiver aqui para aprovar a entrega...

- Até lá já estarei de volta. - Sem o mínimo embaraço, ela dobrou sutiãs e calcinhas e uma camisola de seda. - Já que você tem que saber, estou indo para Washington duran­te alguns dias.

- Algo errado com seus pais?

Ela amoleceu. Não havia como negar a nota de preocu­pação sincera na voz dele.

- Não, eles estão bem. Nem sabem que estou indo visi­tá-los.

- Então por que não pode esperar até que a cozinha fique pronta? É a parte mais importante do projeto. Com certeza, vai querer dar opiniões.

- Você tem as minhas fitas. Deixei bem claro o que quero que seja feito. E se não se lembra, a maioria das idéias da reforma da cozinha foi sua.

- É justamente por isso que não quero levar a culpa caso você mude de idéia.

- Uma vez tomada uma decisão não costumo mudar de idéia. - Ela colocou uma bolsa de seda na mala. - Saia do meu pé, Murdoch. Tenho o direito de ir e vir como bem me convier.

Cullum sentiu a repreensão no ar, agora tão familiar. Então, se virou lentamente, dirigiu-se à porta e a fechou.

- O que está fazendo?

- Assegurando um pouco de privacidade. - Ele a estudou por alguns instantes. Objetivamente, disse a si mesmo. Ela estava corada de raiva. Por que aquele olhar ficava-lhe tão bem e por que o fazia ficar tonto, não sabia explicar. Mas era um fato. Julia tinha as mãos nos quadris, como que pronta para uma batalha. Anéis bem coloridos brilhavam em seus dedos. Os cabelos estavam soltos, caindo-lhe sobre os ombros de uma jaqueta verde escura que lhe acentuava o torso curvilíneo.

Ela sempre usava roupas macias, meditou Cullum. O tipo que deixava um homem louco, querendo tocar o que se encontrava por baixo delas. E pronto, já estava desejando despi-la, admitiu.

- Por acaso essa viagem improvisada será um modo de fugir do que aconteceu entre nós algumas semanas atrás?

Julia inclinou a cabeça e sua voz soou fria.

- Não sei a que está se referindo.

- O que quase acabamos fazendo no chão da cozinha?

- Aquilo foi um deslize - respondeu ela, odiando-se por desejar que tivesse acontecido. Só assim aquela tensão em suas entranhas teria se dissipado.

- Fizemos um acordo.

- Sim. Mas é por isso?

- Fizemos um acordo - repetiu obstinada, surpresa con­sigo mesma por recuar um passo quando ele se aproximou. - Fique longe de mim.

Pela primeira vez em semanas, Cullum sentiu seus lábios se curvarem facilmente num sorriso.

- Por quê? Está nervosa?

- Não quero que me toque.

- Quem disse que eu ia tocá-la? Estou apenas fazendo uma pergunta. Uma coisa de que nunca fui capaz de acusá-la foi falta de honestidade. Você sempre fala o que pensa, então estou perguntando. Para você foi apenas um deslize?

- Não sei - respondeu Julia quase gritando, então girou nos calcanhares e começou a jogar as roupas na mala. - Aqui­lo não deveria ter acontecido. Não estou fugindo de nada. Quero apenas um pouco de distância, ver meus pais, ficar longe de você antes que façamos algo estúpido.

- Certo, está sendo honesta. Então, agirei da mesma forma. Não me importo de ficar longe de você por algum tempo. Vê-la todos os dias é difícil.

As mãos dela se acalmaram e alisaram o tecido enruga­do de uma blusa cuidadosamente.

- É?

- Sim. Mais difícil do que imaginei que seria. Às vezes me pego pensando como seria se tivéssemos outro daqueles deslizes.

Como nunca fora covarde ou mentirosa, Julia se virou de frente e o encarou. Cullum tinha uma face tão máscula, pensou ela. Todos os ângulos e planos realçados por aquela boca firme e olhos atraentes.

- Acho que também andei imaginando a mesma coisa. - Seus lábios se curvaram num sorriso. - O que está acon­tecendo conosco?

- Quem me dera saber. - Dessa vez, quando ele caminhou em sua direção, ela ficou onde estava. - Ainda não quer que eu a toque?

Julia deixou escapar um suspiro irregular.

- Bem, estamos no meio do dia, que mal isso poderia causar?

- Descubramos - com essas palavras, Cullum deslizou as mãos pelo tecido macio da jaqueta dela e então desceu até a linha da cintura, puxando-a de modo a promover um contato estreito entre seus corpos. - Vamos ficar de olhos bem abertos desta vez, Jules.

Embora ele não quisesse dizer aquilo literalmente, seus olhares se prenderam enquanto suas bocas se encontravam.

Julia notou que os olhos dele escureceram e se viu captura­da naquele verde profundo. Experimentalmente, mudou o ângulo do beijo. Seus lábios se tocaram, se testaram, hesi­taram e, a cada segundo que passava, o coração dela batia mais descompassado.

Cullum sentiu uma pontada forte na pélvis. O gosto de Julia despertou-lhe os sentidos, provocando-lhe uma cadeia de reações no corpo. Ele brincou com os lábios dela, sem pressa, apesar do sangue latejar-lhe nas têmporas. Aos pou­cos, notou que Julia tinha os olhos enevoados e os cílios trêmulos e ele engoliu o suspiro de prazer que escapou dos lábios femininos.

- Preciso tocá-la. - Ao mesmo tempo em que proferiu tais palavras, Cullum deslizou as mãos, apoderando-se dos seios dela. Nesse momento, percebeu que jamais sentira algo mais erótico do que o modo como os mamilos dela se enri­jeceram de encontro às palmas de suas mãos.

Um gemido estrangulado, uma inundação de desejo. A cabeça de Julia pendeu para trás num gesto de rendição que fez ambos cambalearem.

- Você tem... Oh, Cullum... Você tem aquelas mãos!

Mãos que agora lhe tocavam a carne nua. Sua blusa es­tava desabotoada, os fechos do sutiã abertos. Com o coração de Julia batendo de encontro às palmas de suas mãos, Cullum esqueceu dos homens que trabalhavam no andar de baixo, do trabalho que precisava ser feito e das conseqüências do ato que desejava tão desesperadamente fazer.

- Agora. - Ele a beijou no pescoço e na boca. - Agora mesmo.

- Sim... Não. - Pânico, excitação e desejo, misturavam-se dentro dela.

- Espere! O que estamos fazendo? - Trêmula, Julia se afastou e abotoou a blusa. - Não podemos fazer isso aqui, assim. Simplesmente não podemos.

Cullum imaginou um balde de água fria espirrando-lhe na face, a água fria de uma cachoeira caindo sobre sua cabeça, qualquer coisa que o ajudasse a esfriar. O melhor que conseguiu fazer foi enfiar as mãos nos bolsos, antes que elas começassem a rasgar as roupas de Julia.

- Certo - proferiu tão calmo quanto possível. - Mas, Jules, você tem de admitir que isso é mais do que um deslize.

- Tenho que ficar longe de você. - Julia apertou a blusa com mais força. Sob o tecido, seus mamilos ainda formiga­vam. - Precisamos dar um tempo, então decidiremos se isso vai acontecer.

- Acho que já descobrimos a resposta para essa pergun­ta - disse Cullum num tom seco.

- Certo, vai acontecer. Então, temos que pensar em como vamos lidar com isso. Vamos para nossos respectivos cantos, por alguns dias. Você terá tempo para pensar sobre o assun­to e eu farei o mesmo. Quando eu voltar, podemos...

- Negociar as condições? - concluiu ele.

- De certo modo. Temos que ter uma base para saber como lidaremos com isso... depois.

Julia estava sendo sensata, mas aquilo o aborreceu so­bremaneira.

- Certo, MacGregor, pense pelo seu lado e eu pensarei pelo meu. Quando você voltar teremos um encontro para conversar sobre isso.

- Não há motivo para ficar irritado.

Cullum a encarou. Lá estava ela, com os cabelos desali­nhados, a blusa desfeita, os lábios intumescidos pelo beijo que haviam trocado e achando que ele não deveria ficar ir­ritado por ela ter transformado o relacionamento deles em uma transação empresarial.

- Tenha uma boa viagem, MacGregor.

- Cullum... - Julia suspirou quando o viu parar junto à porta e lançar-lhe um olhar gélido. - Tenho uma relação profissional e pessoal com seu pai e com você. Para mim, é muito importante não comprometê-las.

Ele não pôde pensar em nada para responder, apenas assentiu com a cabeça e saiu.

Sozinha, Julia sentou-se na extremidade da cama e es­perou que seu corpo recuperasse o controle. A menos que estivesse muito enganada, o projeto Murdoch tinha sofrido uma grande reviravolta e podia muito bem já estar irreme­diavelmente comprometido.

 

Julia amava a elegante casa de Georgetown. Nascera lá c, depois de morar oito anos em outro endereço de Washington, voltara e passara os últimos anos da adolescência nos arejados quartos de tetos altos da mansão.

Não tinha nenhuma queixa sobre o tempo em que podia brincar no Rose Garden ou entreter os primos em seu teatrinho particular. Seus pais, contra todas as probabilidades, haviam feito daquela mansão na Pensilvânia uma casa para os filhos. Ela tivera a oportunidade de viajar o mundo todo e fora ensinada a ter senso de responsabilidade para com os vizinhos, onde quer que vivessem, na porta ao lado ou do outro lado do oceano.

Ainda podia lembrar o calor do rubor de orgulho que lhe corava as faces toda vez que via o pai sentado à escrivaninha do Escritório Oval ou quando assistia à mãe levantar uma platéia, recebendo calorosos aplausos, após um de seus milhares de discursos sobre direitos humanos.

Tolerara a onipresença do Serviço Secreto, algo que havia se tornado sufocante, particularmente durante a ado­lescência. Tinha aceitado as restrições, a impossibilidade de apenas sair para fazer compras com as amigas ou ir comer uma pizza em qualquer restaurante local. Os pais sempre se esforçaram para que ela e o irmão levassem uma vida normal. Mas Julia tinha ciência de sua magnificência. E isso tinha um preço.

Lembrou-se do dia em que eles voltaram a morar na casa de sua infância. Como a mãe os abraçara e sorrindo dissera que todos sairiam para comer pizza e assistir a um filme.

Aquela fora uma das noites mais doces de sua vida.

Agora, se encontrava parada na calçada enquanto o táxi que a trouxera se afastava. A casa ainda a atraía, ainda aparentava ser bastante confortável. Julia sabia que comprava e vendia casas, tentando resgatar aquele tempo de conforto e repassá-lo aos outros.

O amor precisava de uma casa para abrigá-lo e ela havia sido tão afortunada na sua.

Suspendeu a bolsa, caminhou alguns passos sobre o piso de tijolos e, então, a pousou no passeio estreito. As flores naquela época do ano eram escassas e já não possuíam o brilho habitual devido à proximidade do inverno. Dentro de pouco mais de um mês, a casa cintilaria com luzes coloridas, uma guirlanda pendurada na imensa porta da frente e um pinheiro abarrotado de enfeites confeccionados pela família que resplandeceria pela graciosa janela da frente.

Recordações como aquelas eram bem-vindas.

Ela bateu, usando a aldrava de bronze dos MacGregors para golpear a porta. O leão coroado a fitava tão ferozmen­te que a fez pensar no avô.

Quando a porta abriu, Julia sorriu para a pequena e asseada mulher que se encontrava de pé na entrada.

- Boxy, você não muda?

- Senhorita Julia! - Elizabeth Boxlieter abriu os braços curtos e a envolveu em um abraço apertado. Boxy servira os MacGregors exercendo múltiplas funções por um perío­do de quinze anos.

Tinha o cargo de assistente administrativa da sra. MacGregor durante a época em que viveram na Casa Branca. Mas, na verdade, a mulher gerenciava. Gerenciava tudo.

Boxy se afastou e, embora o prazer brilhasse em seus olhos, abanou um dedo com repreensão.

- Não avisou que estava vindo, não nos mandou sequer um telegrama. E se estivéssemos viajando?

- Eu teria entrado e ficaria muito chateada comigo mes­ma. - Com um riso nos lábios, Julia abaixou e estalou um beijo na face de Boxy. - Eu queria fazer uma surpresa a todos vocês. Meus pais estão em casa, não estilo?

- Como sempre. - Boxy fechou a porta da frente. - O sr. Alan acaba de voltar de Camp David. Eles não o deixam em paz, juro. Estão sempre lhe pedindo para negociar isso, dar conselhos sobre aquilo.

- Bem, alguém tem que zelar pela segurança do mundo, não é mesmo?

- Ele já fez mais do que a parte dele. O pobre coitado devia ter direito a umas férias. Sair para pescar durante um mês.

- Papai não pesca.

- Que diferença faz isso? Ele está no escritório atenden­do a uma chamada internacional e sua mãe está lá atrás na oficina.

- Vou interromper a mamãe primeiro - decidiu Julia. -Então nós duas iremos interromper o papai. Não leve essa mala para cima, Boxy - disse caminhando ao longo do corredor. - Eu mesma a levarei daqui a alguns minutos.

Boxy resmungou algo sobre a bagagem atravancando o foyer. E, levantando a mala, subiu os degraus da escada que levava ao andar superior.

O local de trabalho de Shelby MacGregor era uma cozinha de verão convertida, que oferecia espaço para sua roda de oleiro, o forno, a mesa de trabalho e materiais. Ao longo da administração do marido, ela continuara a trabalhar com seu artesanato, tanto para satisfazer sua necessidade criativa quan­to como uma declaração do direito de ter uma carreira.

Naquele momento, a ex-primeira dama se encontrava empoleirada em um tamborete em frente à roda de oleiro mode­lando um pote. Tinha as mãos sujas de barro até os pulsos e os antebraços empoeirados. Os cabelos ruivos escuros presos no alto da cabeça e uma expressão concentrada no olhar.

Uma música suave soava ao fundo. Julia apoiou-se no batente e aguardou, observando o barro se mover sob as mãos hábeis da mãe. Uma massa disforme transformando-se em um elegante recipiente.

- Nada mal - murmurou Shelby, girando a cabeça e rela­xando o pescoço ao mesmo tempo em que parava a roda.

- Ficou bonito. Aliás, sempre ficam.

- Julia! - exclamou a mãe e já ia se dirigir à filha para abraçá-la, mas parou. - Oh, estou uma bagunça - disse com um sorriso, contendo as mãos sujas de barro. - Beije-me aqui. - Julia pressionou os lábios e estalou um beijo na face da mãe. - Que surpresa!

- Boa, espero.

- Maravilhosa! Vou me lavar para poder abraçá-la. Já foi ver seu pai? - perguntou Shelby apressando-se até a pia para retirar o barro das mãos e dos braços.

- Não. Boxy disse que ele estava ao telefone, então vim vê-la primeiro.

- Bem, ele precisa mesmo dar uma parada. Vamos subir as duas e surpreendê-lo. - Shelby secou-se depressa, virou-se e envolveu a filha nos braços. - Oh, senti tanto a sua falta. Conte-me todas as novidades. Como estão suas primas? E o pequeno Daniel? As obras da casa? Quanto tempo pode ficar? Está com fome? Responda uma ou todas as perguntas anteriores na ordem que desejar.

Rindo, Julia subiu os degraus da escada dos fundos de braços dados com a mãe.

- Vejamos... Minhas primas estão ótimas. Laura parece uma Madonna com o pequeno Daniel e Gwen está entusiasmadíssima com a gravidez. Comi algo parecido com comida no avião e só posso ficar dois dias. A casa... vai muito bem.

Shelby notou a hesitação da filha ao proferir as últimas palavras e decidiu sondar a causa. Caminhando em direção ao escritório do marido, deu uma batidinha na porta, antes de abrir.

Alan MacGregor encontrava-se sentado atrás da escrivani­nha. Seus cabelos exibiam um rico tom prateado e a luz do sul que penetrava através da janela os fazia reluzir. Como sempre, Julia achou o pai o homem mais bonito do mundo o percebeu aquelas linhas de preocupação ao redor dos olhos se transformarem em linhas de alegria quando ele a filou.

Com o fone ainda no ouvido, Alan ergueu-se e estendeu a mão.

- Vou considerar o assunto. Sim, pode ter certeza. - Pas­sando o braço ao redor da filha, trouxe-a para junto de si. - Sinto muito, senador, voltarei a ligar mais tarde. Aconteceu algo imprevisto aqui. Sim, não se preocupe. - Por fim, des­ligou e se virou para Julia. - Algo irresistível! - murmurou, beijando-lhe o topo da cabeça.

Uma hora depois, Julia estava esticada na frente da larei­ra da sala de estar, tomando um gole de um excelente vinho branco e relaxada como não se sentia há semanas. Seus ins­tintos de vir para a casa dos pais estavam certos, pensou.

- Isto é maravilhoso! - Ela descansou a cabeça no braço da cadeira do pai, quase ronronando quando ele afagou-lhe os cabelos. - Boxy está ficando louca? Onde já se viu can­celar suas obrigações de hoje à noite?

- Era apenas um jantar - disse Shelby. - Aliás, bem te­dioso por sinal.

- Adorei a oportunidade de poder ficar em casa. - Ela cruzou os pés nus. O relance rápido que enviou a Alan era um sinal. Captando o significado, o marido acariciou os cabelos da filha mais uma vez.

- Está se acostumando a viver sozinha?

- Sinto falta delas - admitiu Julia. - Laura, Gwen e eu formamos um trio por muito tempo. Ainda as visito o tempo todo.

- Mas não é a mesma coisa - concluiu Alan.

- Não, não é. Em alguns aspectos é melhor. Elas estão tão felizes, que dá gosto de ver.

- Você está feliz?

- Sim. - Ela ergueu a cabeça de forma a poder sorrir para o pai. - Sim. Adoro minha casa, as obras que estou fazendo. Agora mesmo estou me divertindo tremendamente vendo a casa tomar forma.

Pronto, era a brecha que precisava, pensou Shelby.

- Mal posso esperar para vê-la. - Ela sorriu para o ma­rido enquanto a conversa fluía suavemente. - Em que pé estão as obras?

- Meu quarto está concluído. Era uma prioridade para mim. É claro que tive que bater cabeça com Murdoch sobre as cores da pintura e dos papéis de parede, mas sou eu quem assina o cheque.

- Exatamente - concordou Shelby, notando que a filha não o chamara de "sr. Murdoch", mas apenas Murdoch. Isso significava que era o filho. - Está tendo problemas com seu empreiteiro?

- Um pouco. Estou trabalhando com Cullum Murdoch nesse projeto. O pai dele não está muito bem de saúde^

- Michael? - Preocupado, Alan endireitou-se na cadeira. —O que há de errado com ele?

- Pegou um terrível resfriado de final de verão que o deixou de molho por alguns dias. Está melhorando, mas o filho já havia assumido o projeto, então... - Julia encolheu os ombros. - Ele está fazendo um excelente trabalho. Mas quer que as coisas sejam do jeito dele... e eu quero que sejam do meu. Simples, não? - Julia sorveu o último gole de vinho e respirou fundo. - Estou pensando em me envolver com ele.

- Oh! - exclamou Shelby, sentindo uma pequena e rápida pontada sob o coração. Instintivamente, esfregou uma mão no local da dor. - Mas se vocês não se entendem...

- Por um lado. - Deixando escapar um pequeno suspiro, Julia esticou as pernas. - Por outro, parecemos nos entender como dois gângsteres.

- O aspecto físico não é tudo, filha - interpôs Shelby, lutando para conter o pânico, enquanto Alan exibia um sorriso afetuoso nos lábios e um ar divertido no olhar.

- Parece que sua mãe está se lembrando de uma outra jovem adorável que tentou se convencer de que não podia dar certo com um homem em um determinado aspecto. - Os olhos escuros chamejaram quando ele sorriu. - Então, eu a seduzi.

- Alan! - Pega entre o riso e a preocupação, Shelby sacudiu a cabeça. - Estamos falando da nossa filhinha e acho que nenhum de nós dois gostaria de vê-la seduzida por um Murdoch.

- Soa mais como a MacGregor do que o MacGregor - Alan murmurou à filha, e percebeu a luz da guerreira que ele amava brilhar nos olhos da esposa. - Eu diria que isso depende do Murdoch - continuou. - E de Julia. Você é uma mulher inteligente, filha. Sabe o que é certo e errado e o que é melhor para si própria.

- O que me pareceu certo, no momento, foi me afastar dele por um tempo e vir conversar com vocês. Não se pre­ocupe comigo, mãe. - Julia pôs a mão no joelho de Shelby. - Não se trata de sedução. Se eu me envolver com Murdoch, será de olhos bem abertos.

Os três conversaram por mais algum tempo e, quando Julia subiu para desfazer a mala e se trocar, Shelby se virou para o marido.

- Alan, isto é sério.

- Humm. - Ele se ergueu para completar o copo da es­posa.

- Não use esse "humm" diplomático comigo. - Ela fez uma carranca sobre a beirada do copo. - Não sou tão ingênua a ponto de acreditar que Julia ainda não tenha se envolvido com um homem antes. Mas nenhum deles foi importante o suficiente para preocupá-la ou fazê-la vir nos procurar para falar sobre o assunto.

Sentando no braço da cadeira, Alan deslizou um dedo ao longo da testa da esposa.

- Está preocupada que ela esteja apaixonada ou apenas atraída por ele?

- Ambos. - Shelby suspirou. Minha filhinha, pensou ela. Meu bebê. Não tivera tempo suficiente para se preparar. - Acho que seria sábio se nos inteirássemos mais um pouco acerca desse rapaz.

- Meu pai conhece os Murdoch há muitos anos. - Os lábios de Alan se contraíram enquanto ele levava o copo à boca. - Acho que ele vai ficar muito contente com essa novidade.

Bastou apenas alguns segundos para a perspicácia de Shelby aflorar. Ela pousou uma das mãos sobre o braço do marido.

- Não acha que ele pode estar por trás de tudo isso?

- Não. - Alan se curvou, beijou os lábios contraídos da esposa até amolecê-los e acrescentou: - Tenho absoluta certeza de que está.

 

Cullum tomou um gole de cerveja enquanto a jukebox entoava uma melosa canção de amor. Mas não fora sempre assim?, desejou saber. Nada durava para sempre, se durasse, não seria ele. Quase todas as suas relações se deterioravam, fosse pelo tempo ou pela simples monotonia.

As construções não eram muito diferentes das pessoas, meditou. E algumas exigiam uma cara manutenção.

Julia MacGregor definitivamente era desse tipo.

Aqueles dois dias tinham sido providenciais para recuar, esfriar um pouco a cabeça e colocar as idéias no lugar. En­volver-se com Julia custaria caro e, particularmente, era um sujeito bastante cuidadoso quando se tratava de investimen­tos amorosos.

A mulher desejava negociar sexo. Pelo amor de Deus! Delinear contingências e cláusulas, com a cama como mesa de barganha. Bem, para o inferno com aquilo, decidiu, levando o gargalo da garrafa aos lábios. Sempre fora de opinião que se um homem e uma mulher fossem solteiros, saudáveis e dese­jassem um ao outro, as negociações já estariam concluídas.

Então, ela que fosse arrumar outro para negociar.

Por certo arrumaria mesmo, pensou ele, com os lábios retorcidos numa carranca. Uma mulher daquelas não teria dificuldades em encontrar um sócio para tais "transações".

Mas o que estava querendo dizer com “uma mulher da­quelas", Cullum desejou saber, sem dar ouvidos ao próprio suspiro. Analisada ponto a ponto, ela nem era tão bonita assim. Mas, de alguma maneira, o conjunto era de deixar qualquer homem com água na boca.

Julia tinha ciência disso e tirava vantagem do fato. Bem, mas aquilo não funcionaria com ele. A impulsividade ficara para trás e agora voltara ao seu juízo normal.

Um de seus homens se dirigiu ao balcão do bar e ordenou uma bebida, dando um tapinha amigável nas costas dele.

- Como está indo, chefe?

Sua resposta foi apenas um grunhido. Não sabia por que se deixara convencer pela equipe a ir até o bar tomar uma cerveja depois do horário de trabalho. Não estava com humor para socializar. Mas também não estava com vontade de ir para casa. O fato era, que parecia não estar com humor para fazer coisa alguma.

- Estou certo de que a senhorita MacGregor volta logo. - O carpinteiro empurrou a aba do boné de beisebol que usava e sorriu. - Os rapazes estão sentindo falta de vê-la passear pela casa, especialmente quando ela está usando uma daquelas minissaias... Vou lhe contar, aquela mulher tem umas pernas de tirar o fôlego. Sem se dar conta da névoa vermelha que começou a embaçar a visão do chefe, o homem se apoiou no balcão para tomar um gole da bebida.

- E cheira tão bem que dá vontade de...

Enquanto ouvia, Cullum pousou a cerveja com cuidado ao sentir de repente uma imensa vontade de quebrar a garrafa na extremidade do balcão e arremessá-la no carpinteiro. Teve certeza de haver decidido sabiamente ao interrompê-lo. .

- Concentre-se em seu trabalho, Jamison, e deixe as pernas da cliente em paz.

- Mas que inferno... - começou o rapaz, mas, ao notar o brilho afiado nos os olhos de Cullum, clareou a garganta e falou: - Está certo, chefe, vamos mudar de assunto.

Sem dizer nada, Cullum lançou algumas notas sobre o balcão e se ergueu. Antes que pudesse causar algum dano a algum membro de sua equipe, caminhou em direção à por­ta e saiu.

Jamison exalou um suspiro, riu e chamou outro compa­nheiro.

- Ei, Jo, parece que o chefe está de olho na mocinha MacGregor. O homem de imediato se aproximou e soltou-se no assento recentemente desocupado para discutir a nova informação.

Cullum teria ficado furioso se soubesse que sua equipe de trabalho passara uma hora rindo e fofocando sobre ele e Julia. Teria ficado mortificado se soubesse que aqueles risos e fofocas haviam se espalhado como fogo entre os operários. Antes do meio-dia do dia seguinte, não havia um homem ou uma mulher trabalhando na casa que não soubesse o que estava acontecendo com o chefe e a cliente.

A bolsa de apostas foi inevitável.

Cullum entrou na hora em que uma nota de vinte dólares era passada de um dos homens para o outro. Mas a Murdoch & Sons não costumava contratar obtusos.

- Obrigado pelo empréstimo, Mike - disfarçou um deles, embolsando o dinheiro com um leve sorriso. - Devolvo-lhe no dia do pagamento. Ei, chefe, estamos quase prontos para pôr as bordas de madeira aqui em cima.

- Então, mãos à obra.

A sala de jantar seria o ambiente mais formal da casa. Os lambris, as bordas de madeira elaboradamente esculpi­das, o trio de janelas altas e elegantes e o bonito teto de­corado mereciam o melhor. Esperava que Julia não a mobiliasse com toques muitos femininos. O recinto exigia peças grandes, cadeiras com espaldares altos, uma mesa antiga e pesada. Havia uma pequena sala de estar nos fun­dos do andar superior onde ela poderia usar uma decoração mais delicada.

- Talvez ela queira colocar amores-perfeitos na parede - murmurou ele e, após conferir a primeira fieira de borda de madeira, dirigiu-se à cozinha.

Lá, os trabalhos haviam progredido bastante. Atento aos detalhes, Cullum não percebeu os olhares astutos e sorrisos especulativos que lhe eram dirigidos. O linóleo teria que ser retirado e o piso de pinho protegido com panos velhos. Fazer o novo acabamento seria um dos últimos passos. Para que os armários fossem colocados em seus devidos lugares, ás paredes deveriam ser pintadas antes. Fora forçado a apro­var o amarelo que Julia escolhera. Era um tom aconchegan­te, quente e combinava com a madeira. Uma das paredes havia sido derrubada, transformando a varanda lateral em uma parte do ambiente.

Naquele momento, as janelas estavam sendo instaladas. Ia ficar muito bom, pensou, enquanto combinava os detalhes com os homens e considerava o espaço. Seu projeto estava tomando forma. Tais coisas sempre o faziam sentir uma pontada de satisfação. Mas, dessa vez, sentiu algo mais profundo, mais luminoso. Só podia se dever ao fato de achar aquela casa tão especial, convenceu a si mesmo. É claro que não tinha nada a ver com a dona.

Mas, ainda assim, imaginou-se entrando naquela cozinha de manhã cedo. Nos parapeitos das janelas, cultivaria uma espécie de horta em vasos inundada pelo sol. Gostava de colher suas próprias ervas quando cozinhava. Então, viu-se moendo grãos frescos para fazer um café sobre a bancada que estava construindo. O recinto estava inundado com o cheirinho de alecrim, café e das flores sobre a velha mesa de carvalho na área de descanso.

Beberia a primeira xícara e colocaria a segunda sobre a mesinha de ferro forjado em um dos cantos.

Quando Julia acordasse, amarrotada e sensual, a luz do sol já estaria se infiltrando pelo quarto. Ela lhe daria um sorriso, se apoiaria nele e esfregaria a face de encontro à sua, roubando-lhe o gostinho de café.

Cullum estava tão envolvido com a cena que, quando Julia entrou, amarrotada e sensual da viagem, ele bocejou.

- O quê? Onde?

- Quem, por quê? - concluiu ela com um sorriso nos lábios. - Deve ter sido uma viagem e tanto, Murdoch. - Co­locando as mãos nos bolsos do blazer doe casimira, ela ins­pecionou o ambiente. - Nossa! Que progresso. Terei que passar a me ausentar com mais freqüência. Você tinha razão. Está fabuloso! Eu sabia que este tom de tinta ficaria ótimo. E, oh, as janelas estão ficando maravilhosas! Tenho que lhe dar os parabéns. Já vi as portas laterais do terraço. Estão simplesmente perfeitas!

Cullum só podia agradecer ao fato de ela não parar de falar. Naquele momento, precisava mais do que um minuto para recuperar o equilíbrio. Tinha decidido esquecê-la, não é mesmo? Então, por que lutava desesperadamente contra o desejo de tomá-a nos braços naquele exato segundo e beijá-la até deixá-la tonta?

Ele a encarava como se ela tivesse surgido através da parede, pensou Julia, sentindo o pulso acelerar. Tinha pon­derado bastante sobre a relação dos dois enquanto estivera em Georgetown. Todas as exigências e detalhes, todas as exigências e regras haviam sido cuidadosamente delineadas em sua mente.

E agora não conseguia se lembrar de nenhuma.

- Acho que vou... - Gaguejar, se você continuar me olhando dessa maneira, pensou ela. - Ah, levar minhas coisas lá para cima e depois dar uma circulada pela casa para ver como estão indo os trabalhos. Os armários chegaram?

- Chegarão depois de amanhã.

- Muito bem. Mal posso esperar para vê-los. Vou... - Ela acenou com uma das mãos vagamente. - ...subir agora.

Julia se virou e se afastou apressada. Então, conteve um suspiro quando ele a alcançou, segurou-a pelo braço e ca­minhou a seu lado.

- Eu a ajudarei a levar as malas para cima. Precisamos finalizar alguns detalhes no quarto de hóspedes.

Não agora, pensou ela. Definitivamente não agora, quan­do não se sentia capaz de concatenar os pensamentos.

- Não quero interromper seu trabalho. E tenho algumas chamadas a fazer, e...

- Não se demore muito. - Cullum ergueu as sobrancelhas ao fitar a pilha de bagagem ao pé da escada. - Céus! Você só ficou fora três dias.

- Eu sabia que iria fazer compras, então levei algumas bolsas extras. - Julia ergueu uma sacola para manter as mãos ocupadas. - Já estou bem adiantada com os presentes de Natal.

- Bom para você. - Ele começou a erguer as outras duas bolsas, sacudiu a cabeça e distribuiu o peso da bagagem na parte de trás das costas. - Onde quer que as coloque, Mamãe Noel?

- No meu quarto. Tenho que organizar tudo antes de embrulhar. Como está o seu pai?

- Bem melhor, suponho. - Confuso, ele olhou para bai­xo onde meia dúzia de trabalhadores o observava subir a escada com Julia. - O que foi? Terminaram o serviço en­quanto eu não estava olhando, rapazes? - Aquilo dispersou os homens. Cullum encolheu os ombros e riu ao mesmo tempo em que subia os degraus. - Eles têm que se lembrar de manter as janelas abertas enquanto aplicam a cola. O cheiro os deve estar deixando meio idiotas.

- Deixe-as sobre a cama - disse Julia ao chegarem ao quarto. Desse modo, a cama ficaria ocupada para evitar qualquer tipo de tentação da parte de ambos. - Estou real­mente ansiosa para ver...

A frase terminou de encontro à boca de Cullum. Ele a havia enlaçado pela cintura e a puxado de encontro ao cor­po. Com uma das mãos, segurou-lhe os cabelos e capturou-lhe os lábios num beijo selvagem, não lhe dando tempo sequer de respirar.

Bem, mas respirar não parecia tão importante assim, pensou Julia. A bolsa que segurava escorregou-lhe das mãos, caindo no chão com um baque.

- Precisamos conversar sobre isso - ela conseguiu ad­ministrar.

- Cale-se, Jules.

- Está bem... - Com um gemido submisso, Julia correu as mãos pelas costas dele acariciando-as até alcançar-lhe os ombros fortes que ofereciam suporte e se amoldou ao corpo másculo. Nesse instante, algo a espetou no quadril e nas coxas.

- Maldição! O cinto de ferramentas - murmurou Cullum, abrindo o fecho e retirando o utensílio. - Sinto muito.

- Tudo bem. - Com a mão vacilante, Julia esfregou o local afetado - Temos pouquíssimo tempo. Ouça, não sei se você teve tempo para pensar, mas eu pensei bastante sobre nós dois. Precisamos discutir o assunto.

- Eu a quero. Essa é a minha contribuição na discussão.

Com um sorriso meio trêmulo, ela contornou a beirada da cama até deixá-la entre eles.

- Tenho um pouco mais a acrescentar do que isso.

- Que surpresa! Vamos terminar os serviços às quatro e meia. Voltarei às seis. Se quiser, posso trazer o jantar.

- O jantar. - Sensato, decidiu ela. - Talvez devêssemos sair.

O brilho ardente nos olhos verdes de Cullum atingiu os dela.

- Fica para uma outra ocasião, Jules. Não estou com a mínima vontade de ficar lendo cardápios, fazer pedidos a garçons ou ouvir conversa fiada esta noite.

Ela assentiu devagar com a cabeça.

- Então comeremos aqui mesmo. Mas vamos conversar.

Ele sorriu. Um sorriso lento e sensual que a fez sentir um arrepio na espinha.

- Quer apostar?

- Estou falando sério, Murdoch.

- Eu também, MacGregor. Seis horas - repetiu ele, antes de se dirigir à porta.

- Seis e meia - lembrou-o Julia. Era arbitrário, ela sabia, mas precisava dizer algo.

Entendendo-a perfeitamente, Cullum sacudiu a cabeça.

- Está certo. - Então, erguendo uma sobrancelha, ele perguntou: - Você vem?

- Onde?

- Até o quarto de hóspedes, lembra?

- Oh! - Agitada, ela escovou os cabelos desalinhados. - Pensei que tivesse dito aquilo por causa dos homens.

- Não. Venha, vamos dar uma olhada. O esboço foi inspecionado e aprovado.

Julia se esforçou para passar de amante em potencial a cliente. O fato de ele parecer muito mais integrado no pro­jeto do que ela a aborreceu.

- Certo. Então, eu gostaria de dar uma olhada no restan­te dos trabalhos, se estiver com tempo.

Cullum segurou a porta aberta para que ela saísse.

- Estou à sua inteira disposição. Pelo menos, até as 16h30.

Os olhos dela se estreitaram enquanto passava por ele.

- Por que isso soa como uma ameaça, Murdoch? Um sorriso suave curvou os lábios másculos.

- Não sei dizer. Mas é um fato, MacGregor.

Às 16h45, Julia viu o último caminhão, o de Cullum natu­ralmente, partir. Tinha menos de duas horas, pensou, mas até lá estaria preparada. Dessa vez, ele não lhe confundiria as emoções, antes que ela pudesse falar. Discutiriam a situação racionalmente. Negociariam as condições de ambos os lados.

Quando o romance terminasse, o que, sem dúvida, aconte­ceria, ambos iriam separar-se com o mínimo de espalhafato e dor. Eram parecidos demais para se darem bem, pensou. E a chama da luxúria que estavam experienciando era forte e quente demais para se manter acesa por muito tempo.

Não queria sair machucada no final e não queria feri-lo, também. Logo, era melhor fixarem regras e segui-las. Des­frutariam da companhia um do outro enquanto durasse.

Julia afastou-se da janela, desejando saber por que se sentira tão deprimida de repente. Talvez fosse porque con­vivera tão de perto com Laura e Gwen ambas as primas haviam se apaixonado tão rápido, sem parar para pensar, planejar ou se preocupar com regras.

Mas o que estava acontecendo entre ela e Cullum não era amor. Era apenas química. Lembrava-se bem daquela ciência em particular para saber que experiências voláteis podiam explodir se não fossem cuidadosamente planejadas e executadas.

E não queria terminar chamuscada.

Ainda assim, não via nenhuma razão para não deixá-lo louco. Tinha quase duas horas, meditou. Tempo mais que suficiente para uma amante preparar o ritual que antecede o amor.

Quando tivesse concluído o sujeito durão, Cullum Murdoch, estaria em suas mãos.

 

Julia se derreteria como uma manteiga. Cuidaria para que isso acontecesse.

Embora ficasse tentado a usar sua própria chave para irritá-la, Cullum bateu à porta às 18h30. Tinha vestido um suéter azul-marinho e calça jeans. Desse modo, não lhe daria a chance de pensar que ele estava dando muita im­portância àquela noite. Se ela soubesse o quanto ele estava nervoso e ansioso, isso a deixaria em vantagem.

Gostava do fato de Julia lançar mão de seu poder de sedução e a respeitava ainda mais por isso. Mas não estava disposto a deixá-la levar vantagem com ele.

Trocou a bolsa que trazia de um braço para o outro e já estava reconsiderando a possibilidade de usar a chave, quan­do Julia abriu a porta.

Ela também não parecia ter exagerado muito no visual, o que não justificava o fato de seu pulso acelerar daquela maneira. Ela deixara os cabelos soltos, enrolando nas pontas de modo selva­gem, do jeito que ele mais gostava. Caíam-lhe sobre os ombros de um suéter preto, que lhe delineava as curvas com uma preci­são de dar água na boca. Na cintura usava um tipo de cinto prateado com uma fivela grande e seus pés estavam descalços.

Parecia uma espécie de boêmia da alta sociedade, com aqueles olhos cor de chocolate orlados por cílios espessos e a boca generosa sem batom.

- Você é pontual. - Os lábios sem pintura se encurvaram lentamente. - Gosto dessa qualidade em um homem.

- Você tem classe - Cullum sorriu com a mesma frieza. - Gosto dessa qualidade em uma mulher.

- Não somos afortunados? Entre. - Ela fechou a porta atrás dele e ordenou a si mesma que ignorasse a agitação no estômago. - Então, o que trouxe para o jantar?

- Frango empanado com batatas fritas. - Um brilho apreciativo iluminou os olhos de Julia, o que o fez sorrir em resposta. - E um maravilhoso Bordeaux branco para incre­mentar em vez de aniquilar o gostinho daqueles famosos temperos secretos.

- Quem diria que temos gostos semelhantes na comida? Vamos levar isso lá para cima. - Ela inclinou a cabeça antes que ele pudesse reparar no rubor que lhe tingiu a face. - No momento, o meu quarto é o único lugar da casa com o am­biente propício para um jantar. A menos que prefira se sentar em um balde de argamassa e comer sobre um cavalete de madeira.

- No seu quarto está ótimo.

- Vá subindo, que eu vou ver se consigo encontrar duas taças de vinho.

- Tudo de que precisamos está aqui. - Ele bateu de leve na bolsa. - Plástico e papel. Não há necessidade de sujar louça enquanto a cozinha estiver em reforma.

- Excelente idéia! - Muito bem pensado, percebeu ela enquanto se virava para começar a subir. - O trabalho está progredindo sem sobressaltos.

- É só fazer um bom planejamento. E ter um pouco de sorte.

- Estou de olho em um edifício no centro da cidade com seis apartamentos de dois quartos muito bons. Com um pouco de sorte e muito planejamento... - Ela parou ao che­garem à porta do quarto e olhou para ele. - Você e seu pai estariam interessados em pegar o serviço?

- Se não precisar começar as obras antes do início do ano.

- Ainda nem o comprei, logo terá bastante tempo pela frente.

Ela havia acendido a lareira, para aquecer e criar um clima de sedução no ambiente. As chamas crepitavam atrás de uma tela de metal adornado. Ó consolo da lareira estava abarrotado com castiçais de tamanhos variados e outros materiais. Mas as velas ainda não haviam sido acesas.

Apenas uma larga coluna de cera branca no centro de uma pequena mesa iluminava a área de descanso.

- Muito agradável. - O quarto cheirava a sedução, assim como ela. Cullum pousou a bolsa vermelha e branca sobre a mesa, desejando saber se aquele seria o plano de Julia. Seduzi-lo, antes que ele pudesse tomar a iniciativa. Ia ser uma noite interessante. Retirando o vinho da sacola, abriu a garrafa com um saca-rolhas, sem deixar de fitá-la. - Já que estamos sendo sociáveis, vou lhe dizer que está fazendo um tremendo trabalho nesta casa. Você se move rapidamente, mas não é afobada. Escolhe muito bem as peças que compra. O ambiente está ficando requintado, mas sem perder o ar de aconchego. Nem todo mundo é capaz de tal feito.

Ela tentou não ficar boquiaberta. Aquilo era um elogio elaborado para lisonjear uma mulher como ela. Um elogio que tocava a mente, o ego e o coração ao mesmo tempo.

- Obrigada, isso significa muito para mim. Cresci em um ambiente requintado, mas muito aconchegante.

- Você cresceu na Casa Branca - ele a lembrou, ofere­cendo-lhe um copo de plástico cheio de vinho.

- É verdade, mas estava me referindo à nossa casa em Georgetown. Embora meus pais tenham feito o possível para fazer da Casa Branca um lar. i

- Devia se sentir como se estivesse vivendo em um aquário.

- Às vezes. Em geral, era surpreendentemente confortá­vel e íntimo. Se eu vivesse lá outra vez, faria tudo para proporcionar o mesmo à minha família.

As sobrancelhas dele se ergueram.

- Está pensando em se casar com algum futuro presi­dente?

- Não, estou pensando em me candidatar à presidente no futuro.

Julia esperava que ele se entalasse com o vinho, risse ou fizesse algum comentário sarcástico. Mas, em vez disso, os olhos verdes de Cullum se estreitaram com uma expressão especulativa. Ele assentiu com a cabeça. - Se fizer metade do que o seu pai fez, será uma excelente chefe de Estado.

- Você me surpreendeu novamente.

- Por quê? Acha que sou algum homem das cavernas?

- Confesso que algumas vezes achei. - Julia sentou-se e abriu a bolsa para cheirar. - Estou pronta se você também estiver... - Dessa vez ele curvou os lábios num sorriso ma­roto. - Para comer e conversar depois - especificou Julia num tom suave.

- Não me importo em conversar durante o jantar. Eles dividiram a galinha e as batatas fritas nos pratos de papel. Cullum estremeceu ao vê-la salpicar uma boa quan­tidade de sal sobre a comida.

- Já sei... - disse ela sorrindo. - Faz mal. Gwen fechava os olhos para não ver quando comíamos juntas. - Ela deu uma boa mordida na coxa de frango e suspirou com prazer. - Mas é tão bom! As coisas que parecem fazer mal geralmente são... Cullum, acha que poderíamos fazer mal um ao outro?

- Pode ser. A vida é um jogo arriscado.

- Concordo. Gosto de jogar, mas sempre pondero as van­tagens, as opções e sempre sei o quanto posso dispor para perder e continuar confortável antes de começar a jogar. En­tão, devo lhe dizer que estamos nos sentindo atraídos um pelo o outro por alguma razão possivelmente insana e adversa.

Cullum sorveu um gole do vinho, apreciando-a tanto quanto apreciava o gosto agradável e seco.

- Concordo.

- No que se refere a mim, não costumo me envolver com uma pessoa apenas porque me sinto atraída por ela. Tem que existir algo mais. Respeito mútuo, entendimento e afeto. Também prefiro começar um relacionamento com o acordo prévio de que, se as coisas não derem certo, ambas as partes aceitarão o fato ê cada qual seguirá o seu caminho. E a re­lação tem que ser monogâmica enquanto durar. Se qualquer uma das partes se sentir insatisfeita, a relação termina. Sem danos ou prejuízos.

Um brilho divertido iluminou o sorriso de Cullum.

- Então, se eu ou você tivermos vontade de variar um pouco, o contrato será anulado.

- Exatamente. E sem ressentimentos. Isso acaba com a tentação de mentir e enganar. Não tolero isso em nenhum setor da minha vida e por certo não vou tolerar na cama.

- Eu não minto. - Dessa vez, um brilho de indignação surgiu nos olhos verdes. - E não engano.

- Eu não disse que você fazia isso - ela devolveu num tom uniforme. - Mas as pessoas costumam fazer e a descul­pa mais freqüente para esse tipo de comportamento é "pou­par os sentimentos do outro". Não preciso e não quero que meus sentimentos sejam poupados.

- Ótimo. A primeira vez que eu quiser tentar a sorte com outra mulher, eu a aviso. - Deliberadamente, ele esfregou os dedos num guardanapo de papel. - E a primeira vez que você decidir tentar a sorte com outro sujeito... Bem, terei que quebrar a cara dele.

O fato do seu pulso acelerar de prazer enfureceu Julia.

- Esse é exatamente o tipo de atitude que não funciona.

- Funciona comigo. Entendi tudo até aqui, Jules. Você quer respeito. Respeito sua mente e sua integridade. Também já a conheço o suficiente. Sei que está acostumada a agir à sua própria maneira. Gosta de dirigir o espetáculo. É boa nisso. E na maioria das vezes gosto disso em você. Essa é a sua base. Agora deixe-me acrescentar alguns ornamentos. - Ele encheu os copos mais uma vez e se sentou novamen­te. - Se quer fazer transações e contratos, tente com alguém como aquele Tod que trouxe aqui na outra noite. Não estornou tratando de negócios e nenhum de nós dois podo planejar nossas ações durante o tempo em que ficarmos juntos. Sen­timos desejo um pelo outro. Talvez depois desta noite percamos esse sentimento, mas nada se podo fazer.

- E se um perder e o outro não?

- Azar do outro. - Ele se ergueu e a puxou pela mão. Vamos descobrir.

Ela não havia terminado. Não ainda, mas Cullum já a estava fazendo perder o controle. A boca firme e possessiva não lhe deu outra escolha senão abrir os lábios com um gemido do mais puro prazer.

Julia queria acender as velas e conduzi-lo lentamente, deixá-lo louco até que ele concordasse com tudo o que ela propusera. Mas o desejo pulsava dentro dela, primitivo e selvagem.

A sedução de ambas as partes teria que esperar.

Com movimentos lentos, ela introduziu as mãos por baixo do suéter dele, explorando a robustez daquelas costas largas. A rigidez dos músculos a excitou e a fascinou ao mesmo tempo. Seus braços se moveram com agilidade para livrá-lo da peça, tirando-o por sobre a cabeça e jogando-o descuidadamente de lado. A necessidade de tocá-lo era desesperadora.

- Adoro o seu corpo - murmurou.

Cullum deslizou os ombros do suéter dela para baixo e beijou-a no pescoço.

- Também adoro o seu. - Comum movimento sensual, ele desatou a fivela que mantinha o cinto dela fechado, deixando-o cair no chão. Suas mãos vaguearam sobre o tecido liso, depois sobre a carne, num roçar áspero de calos contra a pele macia. Suas bocas se encontraram novamente, quentes e úmidas, uma confusão de línguas, dentes e gemidos roucos.

Julia prendeu o fôlego quando ele a ergueu nos braços. Por um instante, se sentiu totalmente desamparada, domi­nada e conquistada. Um arrepio de prazer percorreu-lhe o corpo. Cullum a colocou sobre o grosso edredom e, sem parar de fitá-la, começou a despi-la. Um tremor rápido a pegou de surpresa. Tinha se preparado para ele, sabia que a noite terminaria daquele jeito. Mas o que não imaginara, o que jamais poderia ter imaginado, é que um longo e intenso olhar daqueles olhos verdes pudesse desatar os nós do seu controle tão depressa.

Com um murmúrio sôfrego, se contorceu, entrelaçando braços e pernas ao redor dele.

Julia era tão erótica, tão sedutora, tão perigosa quanto uma sereia. Cullum sentiu o sangue correr mais rápido nas veias. O doce sabor feminino o impregnava como uma dro­ga. Estava perdido, não podia se conter. Ela já havia conse­guido fazê-lo romper a tênue conexão com o mundo civili­zado.

Cravando os dedos nos quadris delicados, o que certa­mente deixaria marcas, esmagou-lhe a boca num beijo im­petuoso até fazê-la gemer de prazer. A seguir, segurando-lhe os cabelos sedosos, puxou-os para trás e beijou-a no pesco­ço, ardente e voraz.

A pele de Julia estava úmida de calor quando as mãos e a boca de Cullum tocaram-lhe os seios. O ar parecia denso, difícil de respirar e cada inalada fazia o seu cérebro rodopiar. Era como se tivesse chamas dentro de si, aquecendo-lhe o corpo além do limite suportável. Tão desesperada quanto ele por tocar, provar e sentir, rolou com ele sobre a cama.

Suas pernas se enrascaram enquanto ela o ajudava a se livrar da calça jeans. Cada segundo era uma deliciosa tortu­ra, todo movimento uma emoção selvagem.

Cullum sentiu os próprios músculos tremerem quando sua pele roçou a dela. Jamais desejara algo ou alguém do modo como a desejava. Todos os centímetros daquele corpo, todas as curvas, todos os tremores, todos os gemidos. O desejo o consumia como dedos comprimindo-lhe a gargan­ta, o coração e os quadris.

Ele a penetrou com um movimento firme, sentindo a carne úmida ao seu redor como um punho cerrado e quente. Quando Julia gemeu, sentimentos como triunfo, impetuosidade e ternura se misturaram dentro dele. Então, aquelas pernas longas e flexíveis o envolveram.

Julia pressionou as mãos na colcha ao sentir o primeiro espasmo do violento orgasmo que se seguiu. A deliciosa pressão dentro de si aumentava e diminuía, forçando-a a soluçar alto. Sem se dar conta, cravou as unhas nas costas dele, arqueou o corpo e se entregou às sensações.

Cullum lutou contra a névoa que lhe toldava a visão. Queria vê-la, tinha que vê-la, enquanto seus corpos se contorciam de prazer. Julia tinha a face corada e umedecida, os olhos fechados, os lábios trêmulos e os cabelos pareciam uma confusão selvagem cor de fogo sobre as roupas de cama amarrotadas.

Algo dentro dele clamava por liberdade, algo mais com­plexo e mais exigente do que simples desejo. Ele tentou se conter e prolongar a sensação.

Mas foi o nome dela que lhe escapou dos lábios quando a inundou com a seiva da sua paixão.

Os dois ficaram em silêncio. Julia desejou saber se suas cordas vocais haviam sido chamuscadas, pelo calor que ambos geraram juntos. Jamais sentira algo parecido. Algo tão poderoso e vulnerável, tão feminino. Estava contente por poder pegar no sono daquela maneira, nua, deitada na cama, com o corpo unido ao de Cullum, que a pressionava pesa­damente sobre o colchão.

Quando ele se moveu, ela suspirou e desejou saber se aquele era o único som que seria capaz de emitir pelas pró­ximas décadas.

Julia parecia satisfeita, pensou Cullum, enquanto erguia a cabeça para estudar-lhe a face. À medida que sua mente cla­reava, ficou preocupado que a tivesse ferido. Sabia que tinha mãos grandes e ásperas e, embora, duvidasse que fosse con­siderado um amante gentil, nunca se sentira tão desenfreado na vida. Receava ter beirado as raias da brutalidade.

Mas a julgar pela expressão de gata contente na face de Julia, um pedido de desculpas não lhe pareceu conveniente. Ficou grato por isso.

Odiava ter que se desculpar.

Nesse instante, os olhos dela se abriram e encontraram os dele. Os lábios sensuais se curvaram num sorriso largo.

- Mmmm... - murmurou ela.

- Digo o mesmo - O fato de querer, ou melhor, necessi­tar correr um dedo ao longo do queixo de Julia o surpreendeu. A pele lhe parecia macia, apesar da arrogância do contorno. Cedendo ante ao desejo, Cullum baixou a cabeça e roçou os lábios no queixo dela.

O gesto fez o coração de Julia disparar. Assustada, ela disse a si mesma que era uma reação tola, até mesmo peri­gosa. Seu coração teria que se manter a uma distância segu­ra. Apesar do calor do corpo, ela estremeceu.

- Está com frio? - Ele queria abraçá-la e mantê-la aque­cida. Queria mantê-la junto dele. E aquele pensamento es­tranho lhe causou um desconforto no estômago.

O calafrio nada tinha a ver com frio, mas Julia o usou como desculpa.

- Um pouco. - Não pôde evitar erguer a mão e deslizá-la pelos cabelos desalinhados de Cullum. -Acho que preci­samos colocar mais lenha na lareira.

- Vou buscar. - Ele se curvou, pretendendo beijá-la li­geira e casualmente, mas se demorou mais do que o previs­to e ambos começaram a se acariciar.

A chama do desejo se avivou mais a vez, depressa demais para qualquer um dos dois ter tempo de construir uma de­fesa. Juntos, estenderam as mãos, puxaram o edredom para cima deles e se entregaram à paixão.

 

Julia decidiu que novembro era o mês mais interessante do ano. Por ser de transição, com um ar esfumaçado e estimulante. O vento soprava frio anunciando o inverno, com todas as aven­turas e surpresas que acompanhavam os feriados da estação.

Era triste vê-lo chegar ao fim. Nunca tivera um mês mais fascinante ou excitante.

Acreditava que ela e Cullum estivessem sendo bem discretos.

Procuravam manter uma distância profissional durante a jornada de trabalho. A maior parte do tempo, reconheceu Julia, repassando na mente o sumário e tórrido encontro que tiveram na despensa recém-reformada. E, era obrigada a admitir, por culpa sua. Algo no modo como ele se encontra­va de pé no interior daquela área limpa e acolhedora, com o cinto de ferramentas caindo-lhe pelos quadris e a pele cheirando a serragem, fritara-lhe os circuitos o suficiente para ela empurrá-lo contra a porta e atacá-lo.

Não que ele mostrasse algum tipo de resistência.

A verdade era que sentiam uma enorme dificuldade de manter as mãos afastadas um do outro. O fato de terem que fazer isso durante oito horas por dia, cinco dias por semana, fazia com que seus encontros após o horário de serviço se tornassem ainda mais ardentes.

Seu quarto e a despensa não eram os únicos cômodos que ambos haviam desfrutado. Julia relembrou como tinham acabado rolando ao redor dos panos que protegiam o piso no interior da biblioteca inacabada, rindo tal qual mergulhões e lutando com botões e zíperes.

Pareciam longe de se cansar um do outro.

- Você está mesmo com uma aparência feliz... - comen­tou Laura. Ela e Gwen tinham reservado a primeira tarde de sábado de dezembro para ajudá-la a decorar a árvore de Natal. Embora cada uma tivesse sua própria casa agora, nenhuma delas esquecera dos anos que viveram juntas, ou o laço que haviam formado.

- E por que não deveria estar? - Julia procurou o local ideal para pendurar um enfeite de madeira, um Papai Noel montado em seu trenó sob uma lua crescente. -A casa está quase pronta e ficando exatamente como eu queria.

Agora, com as mãos nos quadris ela se virou para estudar a sala de estar concluída. O espaço fluía com a luz do sol que se esparramava pelo piso de pinho altamente polido. Um fogo aconchegante crepitava na lareira de pedra. As molduras de madeira escuras e brilhantes, curvavam-se suavemente sobre as portas e janelas. O revestimento de alvenaria ficara formidável.

Nem lembrava mais aqueles dois escuros e pequenos cô­modos. No lugar havia agora um enorme e airoso espaço, onde ela colocara suas peças de mobília favoritas. O sofá com en­costo curvo e assentos bordados era perfeito para um cochilo do meio-dia. Duas aquarelas originais do irmão estavam pen­duradas na parede sobre uma mesa de canto, onde repousava uma peça da mãe, um prato largo pintado em tons pastel.

Um berço de boneca antigo abrigava revistas. Dois pés de fícus flanqueavam a arcada que unia os cômodos. Todas as peças, todos os detalhes, tinham seu toque pessoal.

- Ficou uma sala maravilhosa! - exclamou Gwen.

- Eu sabia que ficaria, más o resultado foi ainda melhor do que imaginei. Tenho que agradecer a Cullum por ter me sugerido uma arcada larga em vez de um espaço completamente aberto. Deu uma certa personalidade ao ambiente,

Gwen e Laura trocaram olhares nas costas dela, apontando uma para outra, sacudindo as cabeça, revirando os olhos. Laura encolheu os ombros concordando.

- Então... - disse ela escolhendo um sino prateado minúsculo para por em um dos galhos. ...suponho que fique pronta dentro de umas duas semanas.

- Acho que sim. De acordo com o fluxograma de Cullum, estamos quase concluindo os trabalhos.

- É isso que vocês dois fazem... Estudam fluxogramas na cama?

- Às vezes, mas... - Piscando várias vezes, Julia voltou atrás. - O quê?

- Ora, pelo amor de Deus! É óbvio que vocês dois estão envolvidos. - Gwen caminhou até um bule de porcelana sobre um sorridente elefante e se serviu de um pouco mais de chocolate quente. - É isso?

Com um leve sorriso, Laura pendurou o anjo de pano na árvore.

- Toda vez que a visitamos, temos que voltar correndo para os braços de nossos maridos. O ar aqui anda crepitante. Certo, estamos curiosas. - Ela se virou. - Mas também preocupadas. Sempre conversamos sobre esse tipo de coisa, mas com Cullum você está mantendo um silêncio atípico.

- Não sei o que dizer. Suponho que tenhamos descoberto que a maior parte do antagonismo que havia entre nós era apenas tensão sexual. Quando começamos a trabalhar juntos... - Julia encolheu os ombros. - ...apenas aconteceu.- Seus lábios se abriram num sorriso quando ela encarou as duas primas. - É maravilhoso! Ele é maravilhoso! Eu não fazia a mínima idéia de que podíamos nos dar tão bem juntos. E não é só na cama. Fomos para o litoral no fim de semana passado fazer um piquenique na praia. Estava frio, congelante. - Ela riu. - Foi o máximo! Cullum adora procurar antigüidades. Dá para acredi­tar em uma coisa dessas? Ele consegue cada peça maravilhosa e pechincha como um campeão. Vejam. - Dirigindo-se às prateleiras suspensas, Julia pegou algo. - Ele conseguiu isto para mim algumas semanas atrás. O negociante praticamente a deixou de graça quando Murdoch terminou de falar.

As sobrancelhas de Gwen se reuniram enquanto estuda­va a peça de metal e o mecanismo que a prendia a um qua­drado de madeira velha.

- O que é isto?

- Uma velha chave de telégrafo. - Julia virou o objeto para mostrá-la, sem se dar conta de que seu coração se espe­lhava em seus olhos. --Amo essas coisas! Não imaginei que Cullum tivesse reparado. E ele também faz um macarrão incrível. Quem podia imaginar que alguém como ele sabia cozinhar? Ele está me ajudando a escolher as coisas para o quarto de recreação que estou fazendo para o pequeno Daniel e todos os outros sobrinhos ou sobrinhas que virão. Estamos procurando máquinas de pinball antigas. Ele é bom com esses mecanismos e acha que será divertido recuperar uma. E eu... - Julia sentiu dificuldade de respirar e foi obrigada a pressio­nar uma das mãos sobre o coração. - Oh, Deus. Oh, não! -Com as pernas trêmulas deixou-se afundar em uma cadeira e encarou as primas, horrorizada. - O que foi que eu fiz?

- Pelo jeito, caiu do salto.

Gwen tomou outra xícara de chocolate e a ofereceu a Julia.

- Acalme-se e respire fundo.

- Esse não era o plano, não era a idéia inicial. Não foi esse o acordo - concluiu, projetando a voz uma oitava acima do normal.

- Deixe-me ser a primeira a lhe dizer, você não pode planejar essas coisas.

- Mas eu nem gosto dele. - Julia fechou os olhos en­quanto Gwen sorria - Bem, eu não gostava... Pensei que não gostasse.

- Se isso ajuda, acho que vocês dois foram feito» um para o outro.

- Não, não ajuda. - Ela segurou a xícara com ambas as mãos e sorveu um longo gole. - Não ajuda em nada. O que vou fazer? - Cullum ficaria furioso ou histérico se soubesse.

Laura sentou-se no braço da cadeira,

- Diga-me, um homem que cozinha macarrão para você, que lhe compra presentes estranhos e deseja reformar uma máquina de pinball para lhe agradar, é insano a ponto de agir dessa maneira?

- Não, não é. Você acha? Não. - Aborrecida consigo mesma, Julia se ergueu. - Oh, como isto pôde acontecer comigo? Dez minutos atrás eu estava nas nuvens. Ele che­gará dentro de algumas horas para reparar um abajur déco que achamos ontem à noite.

- Ele conserta abajures! - disse Gwen com um suspiro.

- Que doce!

- Não é doce, é impossível. Não quero me apaixonar por ele.

- Por quê? - Laura inclinou a cabeça.

- Porque é... Porque ele é...

- Vejo que a testemunha está tendo dificuldades para responder a pergunta - disse Laura num tom sóbrio. - Dei­xe-me reformular a... - Oh, droga - acrescentou ao ouvir o som de um bebê alvoroçado soar através da babá eletrônica.

- O tribunal entrará em breve recesso, mas logo estaremos de volta.

- Julia... - começou Gwen enquanto Laura subia a esca­da apressada. - Gostaria de lhe dizer algo.

- Vá em frente.

- Você nunca aparentou mais felicidade do que quando estava falando sobre Cullum e do tempo que passam juntos. E já presenciei o suficiente para perceber o modo como ele a olha. Não creio que esteja mais apaixonada por ele do que ele está por você.

- Se isso é verdade... - Julia respirou três vezes, fundo e cautelosamente. - Poderia dar certo. Não acha?

- Nunca a vi desistir de algo que deseja. Sei que é assus­tador. Às vezes, o que sinto por Branson e agora pelo bebê... - murmurou tocando o ventre proeminente. - ...é tão inten­so, que ainda me assusta. Mas eu não ia querer que fosse diferente.

- Então, preciso convencê-lo de que ele está loucamen­te apaixonado por mim.

- Eu diria que você tem de persuadi-lo a admitir isso. O modo você já sabe.

- Em voz alta. - Ela quase riu novamente, quando Lau­ra entrou com Daniel nos braços. - Não posso imaginar Murdoch dizendo isso em voz alta. - Mordendo o lábio inferior, Julia ponderou. - A menos que eu lhe pregue uma peça.

- A velha Julia de sempre - comentou Laura, sentando na cadeira de balanço e desabotoando a blusa para amamentar o bebê.

- Eu não quis dizer pregar uma peça, exatamente. É mais como... arrancar isso dele.

Julia estava pronta para Cullum. Ao abrir a porta, pre­senteou-o com um sorriso fervoroso. A seguir, deslizou os braços e o enlaçou pelo pescoço, pressionando-lhe um lon­go e profundo beijo nos lábios.

- Estou feliz em vê-la - disse ele, empurrando-a para dentro e fechando a porta com um chute para manter o frio e a neve do lado de fora. - O que deu em você, MacGregor?

- Estou feliz. - Julia correu a ponta da língua ao longo do queixo dele. - Cheia de afeto para dar. Que humor é esse, Murdoch?

- Estou admirado.

- Não viu nada ainda. - Ela relaxou o abraço e sorriu. -Preparei o jantar.

- Isso não é perigoso?

- Pois saiba que sou uma cozinheira muito competente. - Quase, ela emendou em silêncio. - O que acha de carne de porco recheada e purê de batata?

- Muito bom.

- Ótimo! - Julia envolveu-o pelo braço o com estrelas nos olhos, caminhou com ele até a cozinha.

Tinha a mesa posta com pratos coloridos e velas. Uma música baixa soava através dos alto-falantes ocultos e dentro de um balde antigo cheio de gelo havia uma garrafa de champanhe resfriando.

Confuso, Cullum meneou a cabeça.

- O que estamos celebrando?

- Nada. Trata-se apenas de uma refeição caseira, ao es­tilo MacGregor.

Por que não abre a garrafa agora? O jantar será servido daqui a aproximadamente vinte minutos.

- Que cheirinho maravilhoso... - Ele se ocupou com a garrafa, desejando saber que diabos Julia estava pretenden­do. Se aquilo não fosse uma jogada de uma mulher que pretendia algo, ficaria surpreso. - Está querendo que eu reerga uma parede que derrubei? Mudou de idéia quanto à cor do piso no quarto de hóspedes?

- Não. Apenas tive vontade de cozinhar. Deve ser a proximidade dos feriados. Oh, eu deveria ter-lhe mostrado! Armamos a árvore de Natal hoje.

- Eu vi pela janela quando estava estacionando o carro. Parece bonita.

- Podemos comer a sobremesa na sala de estar e apreciá-la um pouco, que tal?

Agora cauteloso, Cullum serviu o champanhe em duas taças altas.

- Você fez sobremesa?

- Bolinhos folhados de nata. - Uma velha receita da família. - Julia pegou a taça e sorriu. - Levei um bocado de tempo preparando-os.

Três horas, pensou, suprimindo um suspiro. Nas primei­ras duas tentativas, os bolinhos tinham queimado e ido parar no lixo. - Então, como foi o seu dia?

- Produtivo. Quase terminei os trenzinhos de madeira que estou construindo para as minhas sobrinhas.

- Eu adoraria vê-los. Poderia ajudá-lo com a pintura. Não sou nenhuma Shelby MacGregor, mas não sou ruim com os pincéis.

- Claro. - Cullum a fitou. - Isso seria ótimo!

- Bem, vou inspecionar a carne e preparar a salada.

- Vou ajudá-la.

- Não, a produção é minha. Apenas sente-se e relaxe.

Quando Julia colocou um avental, ele decidiu que sentar seria uma excelente idéia. Que diabos estava havendo com aquela mulher?, desejou saber.

Ela era inteligente, solícita, tudo menos servil. Mas es­tava usando um avental.

Aquela não era a sua Julia.

Sua Julia? Cullum ingeriu um longo gole de champanhe enquanto as implicações daquele pensamento explodiam em sua mente. Desde quando a considerava sua?

Desde... sempre, percebeu. Desde sempre. Durante anos disfarçara seu interesse sob a máscara do sarcasmo e do mau humor. Mas seu desejo por Julia estava lá, profundamente enterrado, crescendo e criando raízes. Agora que haviam se tornado amantes, era impossível negar que estava apaixo­nado por ela.

E, mesmo se conseguisse desenrolar a língua e proferir tais palavras, seria posto pela porta afora antes de completar a frase.

Bem, dane-se, pensou, enquanto Julia continuava atarefada e tagarelando na cozinha, estava apaixonado e pronto. Cuidaria para fazê-la apaixonar-se por ele também. E ela seria a primeira a admitir isso.

Pôs de lado o copo, ergueu-se e foi até a cozinha. Abraçando-a por trás, enlaçou-a pela cintura e roçou os lábios no pescoço delicado.

- Está mais cheirosa do que o jantar. Os joelhos de Julia bambearam.

- É mesmo?

- Estou ficando mais interessado em saboreá-la... e ser saboreado. - Ele se curvou, alcançou o fogão e diminuiu temperatura do forno e dos queimadores.

Julia estava sorrindo quando ele a virou, Mas o sorriso enfraqueceu e seus nervos se agitaram quando os olhos verdes a fitaram como se a estivessem absorvendo

- O que é?

- As vezes... — disse Cullum num tom lento, como se aquela nova compreensão sobre o amor o inundasse - ...você é tão linda... E esta é uma dessas vezes.

Ele nunca lhe dissera que ela era bonita, nunca a tocara com aquela suavidade e a beijara tão devagar, tão profunda­mente e com tanta concentração. Todas as emoções dentro dela nadaram e chegaram à superfície, iluminando-lhe o coração e os olhos.

- Cullum...

- Por que estamos sempre com pressa? - murmurou ele de encontro à sua boca. Por que não se detinham a saborear um ao outro para sempre?

- Não sei. - Mas Julia sabia que queria que ele continu­asse a beijá-la e a tocá-la daquela maneira.

- Não vamos nos apressar desta vez. - Ele a puxou para si. - E veremos o que acontece.

 

Algo estava errado com Julia, concluiu Cullum. Ela não estava agindo normalmente e isso já vinha acontecendo há dias. A mulher sorria o tempo todo, perguntava a opinião dele e lhe pedia conselhos sobre tudo, desde a gradação do abajur a apetrechos para a lareira. E não estava sendo sar­cástica ou divergente.

Tinha até assado um bolo.

Sabia que estava perdido quando se forçara a comer dois pedaços. O que quer que ela tivesse usado para o glacê assemelhava-se a cola de carpinteiro. Já estava co­meçando a imaginar se alguma espécie de alienígena havia se apossado do corpo dela.

Não lhe restara outra alternativa senão cooperar, meditou, parado em frente a Murdoch & Sons após o horário de expedien­te. O que mais poderia fazer? Como um homem podia discutir com uma mulher que concordava com tudo que ele dizia?

Sentia falta de suas discussões.

Cullum avistou a picape do pai ainda estacionada ao lado da entrada. Como todo o pessoal já tinha ido embora, teriam a chance de conversar sobre os trabalhos e analisar os horá­rios dos feriados. Então, decidiu tomar uma ducha rápida antes de ir à casa de Julia para outra sessão de refeição ca­seira.

Que Deus o ajudasse!

Assim que conseguisse persuadi-la a confessar que o amava, anunciaria que iriam se casar. Tinha tudo cronometrado. Ficaria por cima. Colocaria um anel no dedo dela e a arrastaria para o altar, antes que Julia tivesse a chance de saber que ele havia planejado tudo.

No minuto em que estivessem casados, acharia um modo diplomático de bani-la da cozinha pelos próximos cinqüenta anos.

Enquanto isso, arriscar-se a ter uma pequena intoxicação gastrointestinal não era um preço tão alto a pagar. Não quan­do Julia era o prêmio. E que prêmio, pensou enquanto descia da caminhonete açoitado por um vento gelado. Levara quase cinco anos para compreender que ela era a única mulher no mundo que ele queria, mas agora reconhecia esse fato.

Nada, nem mesmo a ameaça da canja de galinha surpre­sa de Julia, o impediria de fazê-la sua esposa.

Um golpe de inspiração o atingiu quando ele destrancou a porta da loja. Ligaria para ela, decidiu. Iria lhe dizer que fizera reservas para um jantar de comemoração pré-Natal, já que, em breve, ela estaria partindo para Hyannis a fim de passar o feriado com a família.

Graças ao humor que Julia vinha tendo nos últimos dias, não teria muito problema em mudar os planos no último momento.

Satisfeito, entrou no interior da loja. Diria ao pai que teria que fazer algumas ligações antes de discutirem os negócios.

Enquanto caminhava ao longo do curto corredor, Cullum ouviu o estrondo da risada de Michael. Isso o fez sorrir. Há meses vinha se preocupando com a saúde do velho. Mas, nos últimos dias, Michael Murdoch vinha exibindo uma considerável melhora. O velho brilho nos olhos voltara e seus passos se mostravam firmes outra vez. Ainda mantinha repouso, mas estava se recuperando.

Começou a caminhar em direção à porta do escritório do pai, apenas para avisá-lo de sua chegada. Então, ouviu o que Michael dizia e estacou mortificado.

- Estou lhe dizendo, Daniel. Cullum vai pedi-la em ca­samento antes do fim do ano. Nenhum plano poderia ter dado mais certo. - No chão, ao lado da escrivaninha, Mi­chael continuou sua série de abdominais, enquanto a voz de Daniel soava através do viva-voz.

- O que esses dois estão esperando? - exigiu Daniel. -Afinal já estão juntos há quase três meses.

- Bem, Deus sabe que ambos são mais lentos que duas tartarugas mancas, mas estamos chegando lá. Afinados como gaitas, Michael trocou de braço para fazer outros vinte ab­dominais. - Minhas fontes me disseram que ela está cozi­nhando para ele.

- Julia? Cozinhando? Deus tenha piedade, Michael. Não me diga que o rapaz tem comido.

Quase sem fôlego, Michael riu novamente.

- Sim, tem. E como comi um pedaço do bolo que ela assou para ele, posso lhe garantir que um homem que con­segue engolir mais de uma bocada do que ela faz na cozinha só pode estar muito apaixonado.

- Ah, que belo casal eles formam! Foram feitos um para o outro. Embora não nos agradeçam por tê-los feito descobrir isso, vamos lhes proporcionar um grande um casamento, Michael.

- Ora se vamos, Daniel. E será um grande alívio para mim ter recuperado completamente a saúde.

- Mas tome cuidado para não recuperá-la cedo demais. Se os dois empacarem, pode precisar ter uma recaída. Julia virá para o feriado de Natal. Se ela ainda não estiver usando o anel de noivado, terei que dar um pequeno empurrãozinho final.

- E eu ficarei atento a esse empurrãozinho.

- Feliz Natal para você, Michael.

- Igualmente, Daniel. Michael ergueu-se ligeiramente e abriu a fivela que lhe prendia os alteres aos pés. O sorriso iluminado congelou e o rubor saudável que lhe coloria o rosto desapareceu. O filho estava de pé junto à entrada, com um brilho afiado no olhar e a boca curvada numa carranca.

- Cullum! - Sua voz soou normal e não fingiu que seus membros estavam fracos. - Eu, ah... não o ouvi entrar. Há quanto tempo está parado aí?

- Tempo suficiente. - Fúria e humilhação se misturavam no peito de Cullum, até ele não poder separar uma da outra - Você não estava doente.

- Doente? Claro que estava doente – disse Michael ponderando desesperadamente. – Gripe – administrou ofegante, afundando na cadeira atrás da escrivaninha. - Estou me sentindo bem melhor. Bem melhor mesmo. O médico disse que exercícios podiam...

- Ora, poupe-me dessa conversa fiada - rosnou Cullum caminhando devagar até a escrivaninha. - Está tão forte e saudável quanto um touro. Você mentiu para mim. - Ele bateu com as palmas da mão no tampo da mesa e se apoiou. - Fiquei terrivelmente preocupado com a sua saúde. Os homens se juntaram para lhe enviar uma cesta de frutas.

- Foi muita consideração da parte deles. Fiquei muito grato. As frutas...

- Já lhe disse para me poupar dessa conversa.

Os olhos de Michael se estreitaram. Ele se ergueu a fim de encarar o filho nos olhos.

- Cuidado com o tom com que se refere a mim, Cullum Murdoch. Eu ainda sou seu pai.

- É isso que o salva de eu o erguer e jogá-lo pela janela. Você e Daniel MacGregor arquitetaram um plano para me unir à Julia. Os dois pensaram que, se trabalhássemos juntos e batêssemos cabeça com freqüência, perceberíamos que fomos feitos um para o outro e nos apaixonaríamos.

Michael contraiu a mandíbula.

- Isso resume bem as coisas. E deu certo, não é? Então qual é o problema?

- Qual é... - Cullum foi obrigado a recuar um passo e se virar. Nunca na vida considerara a possibilidade de dar um soco no próprio pai. - Eu gostaria de pegar vocês dois e bater suas cabeças uma contra a outra.

- Você está de olho em Julia MacGregor há anos. Não adianta negar.

- Isso era problema meu - murmurou Cullum.

- E ela também não era indiferente a você. O que eu e Daniel fizemos foi dar um empurrão na direção certa.

- Sua direção. Pensa que vou lhe agradecer por isso?

- Bem, acho que deveria. - Tentar aplacar a raiva do filho era bobagem, pensou Michael. Discutir no mesmo tom daria mais certo - Até um bobo cego montado em um cavalo per­ceberia que vocês dois estão apaixonados. Ela o faz feliz e você a faz feliz. E quer saiba ou não, já que é o homem mais teimoso que já vi na vida, os dois já construíram uma casa juntos.

- A casa é dela.

- Sim é. E sua da mesma maneira. Seu coração está nela. Cullum não pôde contestar. Mas aquela não era a questão.

- Julia e eu fizemos um acordo antes de iniciarmos nosso relacionamento. - Não importava que ele não tivesse aceita­do as condições dela, ou que as considerasse ridículas. Agora teria que usá-las. - A relação não é permanente. Não é per­manente - repetiu entre dentes quando seu pai bufou. - E se pensa que vou pedi-la em casamento, está muito enganado.

- Você está apaixonado por ela, não está?

Cullum abriu a boca para negar, mas enfiou as mãos nos bolsos e ficou em silêncio.

- Pronto, já respondeu, já que não consegue mover a língua para falar sobre isso. Seu tolo. - Suspirando, Micha­el sentou-se outra vez. - Ela é uma mulher brilhante e ado­rável. É páreo para você em força de vontade. É inteligente, bem-humorada e descende de uma excelente família.

- Então, case-se com ela. Michael apenas sorriu.

- Se eu fosse vinte anos mais jovem, meu rapaz, eu u roubaria bem debaixo do seu nariz. E se não andar ligeiro, outro fará isso.

- Ela não está saindo com ninguém.

- Claro que não - disse Michael num tom suave. - Por que estaria, se está apaixonada por você?

Derrotado, Cullum tirou as mãos dos bolsos e esfregou os olhos.

- Isso não leva a lugar algum. Você e o velho MacGregor decidem brincar de teatro de marionetes, mexem os fios e esperam que eu e Jules dancemos. Vou lhe dizer uma coisa - continuou, deixando os braços caírem ao longo do corpo - Se ela descobrir que vocês dois armaram isso tudo, vai me expulsar da vida dela.

- Mas você não vai contar nada, não é? - perguntou Michael com um sorriso vitorioso nos lábios.

- Não, não vou contar. Mas de agora em diante vocês dois ficam fora disso. - Cullum apontou um dedo para o pai.

- Completamente fora, entendeu? Julia e eu nos viramos do nosso modo. Se e quando decidirmos nos casar, será porque nós dois decidimos, não porque meu pai e o avô dela acham que é a coisa mais certa a fazer.

- Claro, a decisão será sua. - O sorriso de Michael nun­ca vacilava. - Oh, o rapaz estava no laço e nem mesmo sabia, pensou. - É a decisão mais importante que um homem toma na vida. Sua felicidade é o que importa para mim, mais do que qualquer outra coisa no mundo, filho.

Cullum se sentiu fraquejar.

- Olhe, sei que suas intenções são as melhores, mas...

- As melhores - repetiu o pai, abrindo uma gaveta da escrivaninha. - Gostaria de lhe dar uma coisa. Se decidir que Julia é a mulher que você quer para construir uma família, espero que lhe dê isto. - Michael abriu uma caixinha branca acetinada. - Era da sua mãe. - Uma avalanche de sentimentos e recordações o inundou ao passá-la às mãos do filho. - Não pude comprar um diamante quando pedi a ela que passasse o resto da vida a meu lado. É um topázio. Ela sempre o com­parou a um pequeno raio de sol e não quis substituí-lo mais tarde, quando o dinheiro começou a entrar.

- Pai...

- Não o estou pressionando. Sempre quis dizer isso quando chegasse a hora certa. Sua mãe queria que eu o passasse adiante. Ela teria adorado a sua Julia, filho.

- Sim... ela teria - impotente ante a tal gesto, Cullum pegou a caixa e a colocou no bolso.

O que teria acontecido? Julia tirou a mala do armário. Precisava embalar seus pertences para a viagem a Hyannis e de algo que a fizesse parar de pensar em Cullum e seu estranho comportamento.

Ele insistira em saírem todas as noites durante uma se­mana. Levava-a para jantar, dançar, iam ao teatro e a festas. Sabia muito bem que ele preferia ficar em casa, mas, de repente, Cullum se transformara em um animal social. Aqui­lo a estava deixando louca: compreender e ter que se ajustar àquelas mudanças de humor.

Com um pequeno suspiro, Julia dobrou os suéteres e os colocou na mala. Não saiba, até quando poderia manter aquela rotina de mulher agradável. O único benefício real era que não precisava ficar zanzando pela cozinha. Arte culinária definitivamente não era o seu forte. Mas, para seu azar, Cullum adorava a comida dela.

Por certo o homem devia ter um estômago de ferro, pensou. Ela mal conseguia provar seus próprios preparados, mas ele sempre esvaziava o prato.

Devia ter havido algum erro de cálculo da sua parte. Agora, ele ia esperar que ela cozinhasse com alguma regu­laridade. Detestava se ver em meio a receitas culinárias quase tanto quanto o amava.

O amor a estava transformando em uma tola, percebeu Julia.

E ele estava sendo tão amável, tão terno! Aquele novo modo de fazerem amor a deixava com as pernas bambas e lhe arrui­nava a capacidade de raciocínio. Ansiava por ouvi-lo dizer aquelas palavras. Toda vez em que ele a tomava nos braços, achava que seria o momento que ele diria que a amava.

Mas isso nunca acontecia.

Não diria primeiro, decidiu, jogando as roupas na mala. Não podia. Já fizera dúzias de concessões, já lhe dera mui­tas oportunidades para que falasse. Pelo menos naquele ponto precisava se manter firme.

E onde diabos ele se enfiara? Fez uma carranca ao conferir o relógio, lançando mais roupas na mala. Cullum sabia que ela partiria naquele dia, que aquela era a última chance de se verem antes do Natal. Tinha que pegar a estrada dentro da uma hora se quisesse chegar em casa dos avós antes de anoitecer.

Mas o que estava fazendo?, perguntou-se. Perdendo tempo como uma idiota apaixonada. Mais uma vez, subme­tendo os próprios planos para ajustá-los aos dele.

Ia parar com aquilo. Com um aceno decisivo, fechou a mala. Estar apaixonada não significava ser um capacho. Partiria no horário certo, dando seqüência ao que planejara. E, se Cullum Murdoch não gostasse, problema dele.

Levando a mala para o carro, começou a laboriosa tare­fa de arrastar as bolsas de compras carregadas com presen­tes. Quando Cullum estacionou a caminhonete atrás do carro dela, o humor de Julia não estava repleto da alegria que a proximidade do feriado proporcionava.

Tampouco o dele. Um problema de trabalho no centro da cidade o mantivera ocupado a maior parte da manhã. E ainda precisava voltar para concluir o serviço até a noite, a despeito do fato de ser véspera de Natal.

O trânsito estava horrível, até mesmo para uma cidade como Boston, e ele recebera uma multa por excesso de ve­locidade. Tudo porque estava apressado para ver Julia

E agora ela estava partindo.

Cullum fez o possível para manter o controle, lembrando a si mesmo de que era Natal, que aquela era a mulher que ele amava e que lhe confessaria isso tão logo ela tivesse o bom senso de lhe confessar primeiro.

- Estou com uma pressa louca - disse ele, pegando uma das bolsas para colocá-la junto às outras no assento traseiro do carro.

- Eu também.

- O trânsito está uma loucura. Vai ter que correr um bocado se quiser chegar na hora.

- Obrigada pelo boletim - falou Julia num tom suave. - Mas eu me viro.

Claro que, se você tivesse chegado antes, a essa hora eu já estaria na estrada.

- Tive um chamado urgente. - Cullum lutou para manter a voz moderada, mas não foi capaz de esconder o brilho de irritação no olhar. - Tem mais bolsas?

- Sim. - Ela se virou, entrou na casa, fervendo de raiva. E, fervendo de raiva, ele a seguiu. - Estas são as três últimas.

- Não acha que é um pouco de exagero?

- Gosto de dar presentes. - Julia pegou uma caixa soli­tária debaixo da árvore de Natal e a colocou na mão dele.

- Aqui está o seu.

Fitando-a, Cullum enfiou a caixa no bolso de modo a poder carregar o restante das bolsas.

- Qual é o seu problema, MacGregor?

- Se ainda não percebeu, certamente não vou lhe falar.

- Julia se virou e deixou a casa na frente dele.

- Olhe, não dirigi pela cidade nesse trânsito miserável só para receber uma multa e chegar aqui e ser tratado dessa maneira.

- Não tenho culpa se resolveu dirigir como um irresponsá­vel e recebeu uma multa, mas isso explica seu mau humor.

- Meu mau humor? Você estava rosnando para mim antes mesmo de eu descer da caminhonete.

Julia ergueu o queixo.

- Não tenho tempo para discussões. Já me atrasou o suficiente.

- Muito bem, madame. - Cullum tirou do bolso uma caixa elegante com um laço de fita. - Aqui está o seu presente. Até breve. - Ele caminhou em direção à caminhonete, praguejando. Então, voltou, tomou-a nos braços com impetuosidade e esmagou-lhe os lábios num beijo - Feliz Natal! - vociferou, afastando-se em seguida,

- Igualmente! - gritou Julia, entrando no carro e batendo a porta com força.

Então, ela o esperou partir, antes de permitir que uma avalanche de pesadas lágrimas escorresse de seus olhos.

 

Estava tudo terminado. Tudo terminado. Seu engano, con­cluiu Julia, foi se iludir, achando que estava apaixonada e que o amor poderia fazê-la ajustar-se às necessidades e aos desejos de Cullum.

Por esse motivo, passara as últimas duas semanas andan­do pé ante pé sobre cascas de ovos e colecionando receitas.

Isso era mortificante.

Graças a Deus voltara ao juízo normal. Era uma mulher independente, que tomava as próprias decisões, vivia a própria vida e traçava as próprias metas. Quando falasse com Cullum novamente, explicaria calma e claramente que o relaciona­mento deles não a interessava mais e ponto final.

Mas nunca se sentira tão deprimida em toda a vida.

Fizera o possível para exibir uma fisionomia alegre para a família. E, quando falhava vez ou outra, sempre apresen­tava um leque de variadas desculpas. Estava com uma pe­quena dor de cabeça ou distraída ou com algum negócio importante em mente.

Não que acreditasse, nem por um momento sequer, que os tivesse enganado. Mas não teve outro jeito e agora estava em casa novamente, na sua casa. As luzes da árvore de Na­tal piscavam tão brilhantes e coloridas que lhe feriam os olhos. Mesmo assim, recusava-se a desviá-los. Cullum Murdoch não arruinaria seus feriados.

Havia os detalhes finais da festa para mantê-la ocupada. No instante em que tudo estivesse sob controle, entraria em contato com ele. Por certo faria isso antes do fim do ano.

Adeus ano velho, feliz ano novo, disse a si mesma, olhan­do para o telefone mais uma vez.

Por que ele não ligava?

Sem perceber, Julia ergueu uma das mãos para tocar o colar antigo que usava no pescoço. O presente de Natal que Cullum lhe dera era um adorável colar em forma de laço de pérolas minúsculas, rubis e citrinos. Ao vê-lo, ficara surpre­sa, lembrando-se de que vira aquela jóia em uma das lojas onde costumava comprar.

Se não estivesse em uma época em que precisava comprar tantos presentes, o teria arrematado para si. Embora não lhe tivesse dispensado mais que um olhar de relance, Cullum havia notado, lembrado e o comprado para presenteá-la.

Aquilo a fez sentir vontade de chorar novamente.

Repelindo a depressão, sentou-se atrás da escrivaninha móvel a fim de revisar a lista da festa. O serviço de bufê fora contratado, o cardápio aprovado, as flores e a música esco­lhidas.

Não havia mais nada a fazer, percebeu Julia, sentindo os olhos umedecerem. Furiosa consigo mesma, empurrou a escrivaninha para longe. Tinha que sair de casa. Ir a algum lugar, qualquer lugar.

Cullum discutia consigo mesmo enquanto dirigia a ca­minho da casa de Julia. Estava se comportando como um cachorrinho que levava um pontapé e voltava para receber outro. Odiava-se por isso. Ela poderia ter lhe ligado quando retornara de Boston. Afinal, tinha lhe dado dois dias para tal, não é?

Fora ela quem partira em viagem, então era ela quem deveria ter lhe telefonado ao chegar.

Pretendia lhe dizer aquilo com poucas palavras. Então anunciaria que algumas mudanças deveriam ser feitas. Ou as coisas voltavam a ser como um mês atrás ou ela podia esquecê-lo.

Ao estacionar na frente da casa de Julia e perceber que o carro dela não estava lá, ficou profundamente decepcionada. Até mesmo a raiva, que ele podia tentar controlar, não era nada comparada ao desejo de vê-la, de falar com ela e tocá-la.

- Típico - murmurou Cullum, fazendo uma carranca em direção às luzes alegres da árvore de Natal que piscavam através da graciosa janela. - Ela consegue me fazer sofrer mesmo sem estar perto.

Arrasado, enfiou a mão no bolso, tirou o velho relógio de bolso de ouro escovado que ela lhe dera de Natal. Como Julia podia conhecê-lo tão bem a ponto de presenteá-lo com algo tão perfeito e não saber que o estava magoando?

O que ia fazer?

Cullum fechou os olhos e reclinou a cabeça no encosto do assento. Não podia viver sem aquela mulher. Pensou que pudesse. Passara vários dias tentando se convencer disso. Mas, ao chegar ali e ver a casa em que haviam trabalhado juntos, vazia, sem ela, percebeu que não era possível.

Não queria Julia fora da sua vida.

Ele havia sido vencido no final das contas.

- Então o que acha? Está tudo ótimo, não é? - Julia exa­gerava no batom, quase não dando à avó a oportunidade de falar. - Estou tão feliz por você e o vovô terem vindo mais cedo. Não tem mais nada para fazer, mas mesmo assim estou um pouco nervosa. É a minha primeira festa nesta casa.

- Julia...

- E de fato quero que tudo saia perfeito. Como estou? Estou bem?

Anna estudou a neta calmamente. Julia havia escolhido um minivestido de veludo verde com mangas longas e co­lado ao corpo. Tinha os cabelos presos num coque leve, de onde escapavam estrategicamente algumas mechas. E seus olhos, pensou a avó, possuíam um brilho exagerado.

- Está adorável, querida. Por que não nos sentamos?

- Não posso. Preciso ir conferir o serviço de bufê. As pessoas logo começarão a chegar...

- Julia. - Com seu modo suave e indiscutível, Anna segurou a mão de Julia. - Sente-se e me conte o que a está incomodando.

- Não sei. - Julia ofegou antes que pudesse controlar a res­piração. - Não sei o que fazer, o que sentir, não sei... Está tudo muito confuso na minha cabeça. Estou apaixonada por Cullum Murdoch e não consigo continuar nosso relacionamento.

- Estou vendo. -Anna a conduziu até a sala de estar. - Por que não consegue continuar o relacionamento?

- Ele não me ama. Acho que nem gosta mais de mim. Arruinei tudo e não sei como. Eu tentei... Parei de contrariá-lo, mesmo quando ele estava errado. Até cozinhei para ele, mas não deu certo e acabamos brigando. Ele foi embora. Eu fui embora. Não sei... Ele nem mesmo me ligou desde que cheguei.

- Você ligou para ele?

- Não. Não vou ligar para ele até que ele me ligue. Foi ele quem se atrasou e ainda chegou de mau humor. Droga. - Julia deu algumas pancadinhas de leve sob os olhos. - Es­tou arruinando meu rimei.

- Depois você repara isso. Está me dizendo que teve uma briga com Cullum e ainda não o procurou para fazerem as pazes.

- Não. - Julia soluçou. - Nós sempre brigamos, gostá­vamos de implicar um com o outro. - Sentindo-se tola, ela deixou escapar um longo suspiro. - Então, percebi que es­tava apaixonada por ele. Não pretendia estar, mas estava. Logo, pensei que, se eu tentasse ser um pouco menos... eu. Se tentasse ser mais agradável, se cozinhasse alguns pratos para ele, Cullum se apaixonaria por mim, se declararia e eu faria o mesmo. E isso soa tão tolo que mal posso acreditar que está saindo da minha boca.

- Nem eu. Mas a paixão geralmente destrói 08 neurônios, Tentar ser uma pessoa diferente foi um grande erro.

- Provavelmente. É que eu queria tanto que ele me amasse! Pensei que pudéssemos contornar as diferenças quando chegássemos a esse ponto. Mas ele não me ama. E eu também não o quero. Ele é arrogante, contraditório e mandão.

Paciente, Anna abriu sua bolsa de noite e retirou um lenço para enxugar as lágrimas que escorriam pela face de Julia.

- Claro que ele é. Caso contrário, teria passado por cima dele, e você menospreza homens que a deixam fazer isso. Quer um que resista, que a enfrente.

- Pensei que eu pudesse fazer isso tudo acontecer. Mas não se pode fazer os sentimentos acontecerem, assim como não se pode fazê-los parar. Eles apenas surgem.

- Então aprendeu uma boa lição. Vai confessar os seus sentimentos ao Cullum?

- Para ele zombar de mim?

- Acha, de fato, que ele faria isso?

- Talvez não, mas poderia sentir pena de mim. O que seria pior. - Julia meneou a cabeça e se ergueu. - Eu ficarei bem. Acho que preciso esquecer tudo isso. Sinto muito por ficar choramingando.

- Querida, desde o dia em que nasceu, jamais a vi cho­ramingar.

- E não começarei agora. - Determinada, Julia se dirigiu ao espelho para retocar a maquiagem. - Quero que esta festa seja especial. E o começo da minha casa nova, de um novo ano e de uma vida nova.

- Onde estão as minhas meninas? - perguntou Daniel num tom elevado ao mesmo tempo em que entrava na sala equili­brando uma bandeja com três taças repletas de champanhe. - Lá estão elas e mais bonitas do que deveriam estar. Vamos brindar a elas. Ele pousou a bandeja e então seu sorriso largo enfraqueceu ao avistar a face chorosa da neta. - O que há de errado, minha menina? O que é está havendo aqui?

- Nada. Estava me sentindo um pouco triste. - Julia enxugou o rosto cuidadosamente. - Homens. Por que não podem ser todos como você, vovô?

- O que o rapaz fez? - exigiu Daniel. - Porque, se ele fez algo que a fez chorar, vai ter que se ver comigo.

Julia começou a rir, entretanto um estranho pensamento começou a circular em seu cérebro.

- Que rapaz?

- O Murdoch, é claro. - Lágrimas femininas sempre o terrificavam. Daniel atravessou a sala, gesticulando com os braços. - Ele é um bom rapaz, não comete erros, mas não quero que ele a faça infeliz. Diga o que foi que ele fez que eu consertarei as coisas.

Lentamente, Julia se virou do espelho.

- Quantas vezes fez isso antes?

- Fazer minha menina chorar quando ela deveria estar se sentindo nas nuvens. Vou ter uma conversa com Cullum Murdoch, ora se vou. E quando terminar... - Ele se calou de repente ao perceber o brilho sagaz nos olhos de Julia. - O que disse?

- Como soube que eu estava chorando por Cullum?

- Bem, você disse. - Não tinha dito? Um pouco perdido, Daniel olhou para a esposa em busca de apoio, mas só en­controu um olhar duro como uma rocha. - Não vamos mais falar sobre esse assunto - emendou depressa. - Vamos fazer um brinde.

- Como você pôde estar por trás de tudo isso? - Julia desejou saber. - Não estava aqui, não planejou comprar a casa para mim ou contratá-lo para trabalhar nela.

- É verdade. - Agarrando-se a qualquer coisa, Daniel pegou um copo e o ofereceu à neta. Seus olhos azuis tinham um brilho suave e inocente. - Vamos fazer um brinde à sua nova e bela casa. O rapaz fez um trabalho de respeito.

- Mas eu havia contratado o sr. Murdoch - murmurou Julia, - Você é muito amigo de Michael Murdoch, não é, vovô?

- Conheço-o há anos. Descende de uma excelente família. - Julia respirou fundo, pronta para se enfurecer. Ainda ativo no alto de seus 91 anos, Daniel deu salto para trás quando a aldrava de metal bateu contra a porta da frente

- Convidados chegando. Não se preocupe, eu os receberei. Anna, ajude a menina a refazer a maquiagem. Toma rei conta de tudo - dizendo isso Daniel abandonou o campo enquanto ainda tinha a cabeça.

- Não sei como o vovô conseguiu isso - começou Julia.

- Mas ele conseguiu.

- Concordo com você. - Anna disfarçou o sorriso indulgente que queria lhe curvar os lábios. - Mas não há como detê-lo.

Não tinha importância, disse Julia a si mesma. O que quer que o avô tivesse planejado não tinha dado certo. Ela e Cullum se incumbiram de arruinar. A obras haviam termi­nado e eles também.

O som de música, vozes e risadas se misturavam pelos cômodos. A família e os amigos espalhados pela casa, exa­tamente como ela planejara, exatamente como desejara vê-los. O fogo crepitando na lareira e as luzes piscando.

- A casa ficou linda! - disse Shelby deslizando um bra­ço ao redor do ombro da filha. - Está perfeita para você.

- Sim, é verdade. Mas a estou colocando à venda na próxima semana.

- O quê?

- Não é um lugar para se viver sozinha. - Seu olhar varreu a espaçosa sala de visitas, o acabamento fino, o brilho da madeira. - Há muito de Cullum aqui.

- Querida, não se precipite.

- Não estou me precipitando. É necessário. Ficarei bem.

- Julia apoiou a cabeça de encontro à da mãe. - Sempre fico. Acho que vou para Washington por algum tempo. Preciso me mudar.

- Sabe que seu pai e eu adoraríamos tê-la por perto, mas...

- Não se preocupe comigo. Vou pensar muito bem antes de fazer qualquer coisa. Agora me diga, quem é a mulher que está rondando D.C.?

- Seu irmão a conheceu no Maine. Ela é poetisa. Cita poesias de Elizabeth Barrett Browning incessantemente. Sempre fui apaixonada por Browning.

Com um riso, Julia sorveu um gole de champanhe.

- Ela é daquelas irritantes?

- Oh, demais. Acredite. Se por um minuto eu imaginar que o namoro dos dois é sério, eu... -As palavras morreram na boca de Shelby e seu coração se iluminou consideravel­mente. - Julia, você tem outro convidado.

- Oh? Quem? - Ela se virou e viu Cullum entrando na sala.

Ele trajava um terno e a maldita gravata parecia estran­gulá-lo. Mas lhe pareceu certo se vestir a caráter. Afinal, não se podia vir a uma festa de reveillon usando roupas de flanela e brim.

E a festa era elegante, sedas e veludos, jóias reluzentes, comida requintada e vinho em taças de cristal. Julia tinha combinado tudo, exatamente do modo como deveria ser, decidiu. Ele teria feito o mesmo.

Nesse momento, avistou-a e seu coração acelerou. Sabia que ela seria capaz de fazer o mesmo com pizza e cerveja.

Julia fixou um sorriso nos lábios e assumindo a máscara de anfitriã, caminhou até ele para cumprimentá-lo.

- Fico feliz que tenha vindo. O que quer beber? Cullum a ouviu se referir a ele como se fosse um conhe­cido qualquer em vez de seu namorado.

- Uma cerveja?

- Certo. - Ela sinalizou a um garçom. - O sr. Murdoch vai querer uma cerveja. Acho que já conhece quase todos, mas ficarei feliz em apresentá-lo aos convidados.

- Posso fazer isso sozinho.

- Sem dúvida. Como foi o seu Natal?

- Bem. E o seu?

- Maravilhoso! Tivemos uma nevasca leve e agradável na véspera do Natal.

- Nós tivemos granizo.

- Ah...

Cullum pegou a cerveja que o garçom lhe trouxe, agra­deceu e tomou um gole. A seguir, notou que Julia estava usando o colar que ele lhe dera de encontro à pele cremosa exposta pelo decote do vestido.

- Ficou bem em você.

- O quê? Oh! - Julia se amaldiçoou por ceder ante o desejo tão sentimental de usar o presente dele. - Sim, foi feito para ser usado com este vestido. É adorável, Cullum. Obrigada por ter se lembrado de comprá-lo. E espero que tenha gostado do seu relógio.

O relógio estava pendurado no bolso dele.

- Funciona muito bem. Obrigado.

- Seja bem-vindo. Bem, experimente o bufê, bem como os canapés que estão circulando ao redor. Agora, se me der licença...

Nesse instante, a mão dele a segurou pelo pulso.

- Onde diabos está querendo chegar falando comigo dessa maneira?

- Não faço a mínima idéia do que está querendo dizer.

- Não fale nesse tom esnobe, MacGregor. Isso não com­bina com você.

- É melhor largar o meu braço, Murdoch.

- Não vou largar coisa nenhuma. Quero respostas. Es­perei que você me procurasse, mas já que não o fez, vim aqui para exigi-las.

- Ah, quer respostas, é? - O calor da raiva estava come­çando embaçar-lhe a visão. - Você estava esperado por res­postas. Certo, que tal esta aqui. - Erguendo a mão, ela pegou o copo de cerveja dele e o derramou sobre o seu terno.

Julia arrependeu-se de imediato. Tinha sido uma atitude tola e infantil. Ainda mais que se encontravam em público. De re­pente, percebeu que vários dos convidados que conversavam ao redor pararam e os fitaram. E percebeu também, pelo brilho afiado nos olhos de Cullum, que não podia recuar.

- Agora que já tem sua resposta, pode partir.

Julia pretendia se virar, caminhar com dignidade e rir do incidente. Poderia até vir a se lamentar mais tarde, mas, por ora, tinha que manter a pose.

Ela gritou quando Cullum a ergueu e a colocou sobre o ombro. Xingou-o de todos os nomes de que se lembrou enquanto ele a carregava pela escada acima.

No andar inferior, Daniel deslizou um braço ao redor dos ombros de Michael Murdoch, num gesto amigável. Então, suspirou e enxugou uma lágrima dos olhos.

- Eles nos darão belos bebês, Michael. Brindemos a isso! - Com um sorrisinho nos lábios, Daniel observou a net