Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


IRONIAS DO AMOR / Cathy Williams
IRONIAS DO AMOR / Cathy Williams

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

IRONIAS DO AMOR

 

O encantador bilionário grego Darius Drecos jurou ficar longe das mulheres... até encontrar Matilda Hayes, uma jovem estonteante, que deixa bem claro não querer nada com ele. Darius, porém, não é homem de desistir facil­mente e, com seu charme irresistível, provoca em Mattie uma atração intensa e poderosa, como ela jamais sentira em sua vida. Enquanto isto, Matilda encontra o emprego dos seus so­nhos, e, para sua surpresa, descobre que Darius é seu novo patrão, e também o pai de seu filho.

— Isso não é... não é uma espécie de conto de fadas.

— Por mais forte que seja o seu senso de dever, eu não pretendo me tornar vítima dele.

— Mas isso não diz respeito só a você. — Ele virou-se para encará-la. — E não estamos discutindo aqui se eu queria ser pai ou não. A realidade é que você está grávida do meu filho, e eu pretendo cuidar deste problema.

— Isso não é um problema — disse-lhe Mattie, apesar de uma parte pequena e traiçoeira dela implorar para ser cuidada. Foi a mesma parte dela que um dia dissera que ela podia lidar com um homem como Darius. Sábio seria evitar aquela tentação como quem evita uma praga.

— Um evento. Uma ocorrência. Um acontecimento. Chame como quiser, mas você não vai fugir de mim desta vez...

 

 

Darius Drecos não esperava gostar deste tipo de lugar. Ele sempre desprezou os executivos pretensiosos que, enquanto fingiam ter uma família feliz, freqüentavam casas noturnas onde se fica babando diante de garotas lindas, vestidas com trajes sumários. O tipo de lugar em que mulheres vendem a sua dignidade por gorjetas. O tipo de lugar em que ele estava.

Darius não conseguiu escapar do programa. Um cliente muito im­portante, seguido por uma trupe de dois contadores e três diretores, havia insistido.

Ao dizer que queria conhecer a noite de Londres, o cliente não estava se referindo a um dos restaurantes refinados de Knightsbridge, a uma volta por Picaddilly Circus ou a programação cultural num dos teatros de Drury Lane.

"Onde eu vou levar esses caras, droga?", perguntara Darius frus­trado à secretária. "Eu pareço um homem que vai a esse tipo de lugar? E cuidado com a resposta, lembre-se de que eu sou o patrão aqui." Darius sorriu para a secretária. "Eu não acho que você pode me dar uma dica? Você vai a lugares como esse?"

"Não acho que eles permitam a entrada de vovós ali, senhor Dre­cos", respondeu Gloria, 55 anos, de forma séria sem se deixar abater com a pergunta. "Eu vou me informar pelo escritório e ver se descu­bro algum lugar apropriado."

Ponto para Gloria por ter descoberto uma boate que, pelo menos, não tinha mulheres dançando sobre os balcões ou dentro de jaulas suspensas.

Ao olhar em volta com uma taça de champanhe na mão, Darius agora nem achava o lugar tão sórdido assim, apesar do figurino mi­núsculo das garçonetes. A iluminação fraca não ajudava, é verdade, mas a comida era aceitável. E daí se os drinques eram caros demais?

O negócio com aqueles clientes valia uma nota, e eles pareciam estar se divertindo.

Darius também não negaria que estava tendo prazer em admirar as esplêndidas garçonetes, às quais eram uma visão fantástica ao seu calejado coração.

Quando se tratava de namoro sério, Darius Drecos já apanhara o suficiente da vida. Suava frio somente por lembrar da ex-namorada, feliz ainda que não a visse e nem ouvisse nada sobre ela há seis meses.

Darius queria distância de todo o ritual que envolvia a conquista de uma mulher como, por exemplo, jantares românticos, teatros, ci­nemas, etc.

Puxou conversa novamente com o seu cliente. Em seguida, olhou de modo discreto o relógio.

Foi quando levantou de novo a cabeça que Darius a avistou. Ela estava em pé junto à mesa deles. Equilibrava com naturalidade a bandeja na altura da cintura e tinha o corpo levemente inclinado para a frente, a abordagem típica das garçonetes do lugar para exibirem através do decote as formas dos seios, cuja fartura parecia mais fruto da medicina do que da natureza. Sorriam de forma provocante e esti­mulavam os fregueses a consumirem champanhe. Certamente de­viam levar uma comissão para cada garrafa vendida.

Aquela dali repetia os mesmos gestos, mas Darius não a havia notado até aquele momento.

De onde ela veio? Ela seguramente não aparecera naquele canto da boate até então.

— Os cavalheiros gostariam de uma garrafa do nosso champanhe?

A pergunta na cabeça de Darius era outra: o que ela lhe ofereceria?

Darius surpreendeu-se consigo mesmo, pois desde Rosalind, a ex-namorada, ele vinha mantendo no dia-a-dia uma existência celibatária e com freqüência se desviava das muitas mulheres que passavam pelo seu caminho.

A garçonete reparou em cada homem na mesa e fixou os olhos em Darius, como se entendesse o que dizia o olhar persistente dele. Ela rapidamente virou o rosto e endireitou a postura.

— Mais uma garrafa?

— Por que não? — Difícil para ele tirar os olhos da garçonete loura. Ela não era apenas bonita. Ela era exótica, incomum. Tinha o queixo fino, um nariz reto e pequeno, olhos grandes, cabelos longos e lisos.

Darius voltou a relaxar na cadeira, posicionando-se melhor para observá-la. Ele agora se comportava como um daqueles executivos de meia-idade que desprezava.

Notou que a garçonete evitava olhar em sua direção, o que Darius achou um pouco irritante. Era ele afinal quem arcaria com o champanhe caro e que ela os convencera a consumir. Darius também estava acostumado a ser olhado pelas mulheres. Ele disse então, bem devagar:

— Mas esta é a última garrafa, meu amorzinho. O pessoal aqui começa a trabalhar amanhã bem cedo. — Um meio sorriso acompa­nhou o comentário.

Ele percebeu a arrogância na própria voz e franziu o rosto em auto-reprovação. A solidão, pensou Darius sarcástico, devia estar realmente afetando-o, já que ele se empenhava em atrair a atenção de uma garçonete.

No entanto, o tom arrogante funcionou. Com uma cara de simpatia forçada e frieza, ela recolheu as taças vazias da mesa, voltou-se para Darius e disse agressiva:

— Eu não sou o seu amorzinho. — Deu meia-volta e se afastou.

Como ele ousa?, pensou Mattie furiosa. Claro que ela já se depa­rara antes com outros executivos bêbados e inconvenientes, que pen­savam que podiam tratá-la como bem entendessem.

Ela aprendeu a ignorá-los na maioria das vezes. Era uma garçone­te, mesmo que o vestidinho apertado e os sapatos de salto alto indi­cassem o contrário. Além disso, não se permitiam intimidades entre fregueses e atendentes do lugar.

Os freqüentadores não costumavam ser tão cheios de si como aquele dali. Algo nele fez com que os cabelos da nuca se arrepiassem. Isso não poderia acontecer. Afinal de contas, trabalhava ali há quase sete meses, o suficiente para aprender a lidar com caras asquerosos como aquele.

Não que ele parecesse repugnante, era até bem bonito, mas se havia uma pessoa no mundo que deveria saber que boa aparência podia cobrir inúmeros defeitos, esse alguém era ela.

— O que foi, lindona? — perguntou Mike sorrindo, enquanto trocava as taças sujas que ela trouxera por limpas. Mattie sorriu de volta, sem muito ânimo.

— O de sempre.

— Ignore. Provavelmente ele tem uma pobre coitada de uma mu­lher e um bando de crianças esperando-o em casa.

— Olha, será que Jessie não pode servir aquela mesa? Eu estou sem estômago para esse tipo de cara. — Uma briga com Frankie antes de sair de casa e um trabalho do curso para entregar nos próximos dias não a ajudavam.

— Impossível — lamentou Mike. — O lugar está apinhado, e duas garotas faltaram. É por isso, inclusive, que você está servindo aquela mesa. O velho Harry está a ponto de explodir.

Ela voltou à linha de frente, tentando parecer natural. Harry exigia que as suas meninas se mostrassem animadas e dispostas, como se fosse divertido servir drinques para ricaços bêbados.

Entretanto, o dinheiro no fim do mês era ótimo, e disso ela não poderia se dar ao luxo de esquecer. Precisava do salário.

Quantos empregos noturnos pagavam a mesma grana? Não tinha condições de trabalhar de dia, pois estudava. Nas horas que restavam, quando restavam, dormia.

Ela pensou em Frankie. Logo, alguma coisa teria que ser feita em relação a ele. No entanto, como sempre acontecia quando pensava nele, decidia com tristeza adiar o assunto para outra hora.

O estranho dava a impressão de estar entretido com a conversa quando ela chegou à mesa dele e dos amigos. Mattie abriu com perí­cia o champanhe e encheu as taças, sem ser notada.

O tal homem, porém, a deixara perturbada. Enquanto servia outras mesas, Mattie reparava nele, observava como ele comandava a con­versa com os amigos. Era o centro das atenções.

A boate agora começava a esvaziar-se. Mais um pouco, e ela po­deria ir embora sem causar maiores estragos. Sair antes do fim era uma desvantagem financeira, já que perdia as valiosas gorjetas dos que chegavam de madrugada. Contudo, precisava dormir um pouco. Mattie era jovem, mas não de ferro. Diferentemente das colegas, não contava com horas de sono ininterrupto para se recuperar.

Espiou-os terminar o champanhe na esperança de que não haveria mais pedidos, mesmo que isso significasse menos dinheiro para ela. Respirou fundo e caminhou em direção a eles.

Todas as garotas quando contratadas passavam por um treinamen­to sobre como andar no salão. Aos 23 anos de idade, ela nem descon­fiara de que existiam diferentes maneiras de se caminhar. Para Mat­tie, sempre fora uma simples questão de colocar um pé na frente do outro. Ela, porém assimilou tão bem o novo estilo que agora, ao se dirigir à mesa daquele grupo de homens, suas passadas eram incons­cientemente provocativas, efeito acentuado pelo seu corpo esbelto.

Darius, relaxado, contemplou a aproximação da moça. Ela estava determinada a não encará-lo. Ele podia se dar conta disso pelo jeito com que a garçonete recolhia as taças. Ela tampouco desejava que eles pedissem uma nova garrafa, mesmo que tenha oferecido com a mesma voz sensual de antes.

— Agora, me diga: onde você quer que eu ponha isto?

Darius exibiu as notas entre os seus dedos longos, ouviu a risadinha maldosa do seu cliente.

Mattie mostrou a palma da mão.

— O costume não é colocar o dinheiro num lugar bem mais íntimo?

— Não. — Mattie deu um sorriso e pediu a Deus que Harry não estivesse por perto.

— Tudo bem. — Ele recuou e lhe entregou uma polpuda gorjeta. Mattie não esperava tal atitude. Afinal, ele era mais um típico freguês desagradável, o qual pensava que não havia nenhuma neces­sidade de se tratar uma garçonete de casa noturna com respeito.

Por um segundo, Mattie sentiu-se desorientada, mas logo agarrou o merecido dinheiro com os dedos e saiu dali. Partiu na direção do vestiário, onde ela poderia trocar o traje ridículo e os sapatos que machucavam os seus pés por confortáveis jeans e tênis.

— Harry — disse ela, já sem o uniforme de trabalho. Ele circulava pelo salão de cara amarrada para se assegurar de que os fregueses estavam satisfeitos. — Eu estou indo. — Mattie gostava de Harry. Caso contrário, não aturaria o trabalho por tanto tempo. Por trás do verniz de chefe mal-humorado, ele tinha afeto pelas garotas que tra­balhavam para ele e as tratava com consideração.

— Assim não dá, Mattie. Serão três garotas a menos. Por que você não fica e ganha um extra?

— E dormir menos ainda?

— Você deveria abandonar esse curso — resmungou ele. — Mar­keting. Onde isso vai levá-la? Você vai pegar o diploma da faculdade e acabar voltando para cá. Agora vá. Não é bom que os fregueses vejam uma das suas glamourosas garçonetes vestidas com jeans e tênis.

Mattie riu.

— Não, não seria bom que eles pensassem que eu não passo todo tempo com vestidinhos apertados e salto alto.

Devagar ela atravessou o aglomerado de homens rumo à saída.

Próximo à porta e já de paletó, Darius recebia os agradecimentos entusiasmados dos seus convidados pela noite de diversão. Ele quase não reconheceu a loura encasacada que cruzou o grupo em direção à rua.

Em circunstâncias normais, Darius não se entregaria ao impulso de segui-la para puxar uma conversa e mostrá-la que ele não era o que ela estava pensando. À noite na boate, no entanto, o levou a concluir que o mundo é cheio de mulheres, mulheres sem complicações, que podem desfrutar a idéia de uma relação curta, sem compromissos.

Que outro tipo de mulher trabalharia num lugar como aquele? Certamente não aquelas pretensiosas da alta sociedade, como a sua ex-namorada, que fizera com que ele perdesse a vontade de levar a sério qualquer relação.

Pelo menos foi disso que ele se convenceu ao se despedir dos convidados, de olho no vulto que se apressava pela rua escura, pres­tes a virar na próxima esquina.

Darius precisou ser veloz para não perdê-la, rápido o suficiente para que não lhe sobrasse muito tempo para pensar duas vezes no que fazia. Ele a alcançou quando ela se preparava para atravessar a rua. Esticou-se e a tocou de leve no braço.

Mattie se virou de forma brusca. Passava da meia-noite. As ruas estavam cheias de gente, mas também cheias de ladrões. Esta era a hora deles, quando na correria para pegar os táxis e os ônibus as pessoas tinham as carteiras à mostra, mal guardadas nas jaquetas, e já tinham bebido demais para conseguirem alcançar um bandido em fuga.

— Você! O que está fazendo aqui? Você está me seguindo?

Mattie somente o tinha visto sentado. Percebia agora o quão alto ele era. Tinha com certeza mais de 1,80 m. Bem mais alto do que ela, que media cerca de 1,70 m. De perto, a presença dele era muito mais poderosa. Debaixo do bem cortado paletó, Mattie presumiu que havia um corpo musculoso e perfeitamente torneado.

— Se eu contar isso para Harry, ele vai servir a sua cabeça no café-da-manhã! — Ela não podia imaginar alguém, mesmo os leões-de-chácara mais eficientes de Harry, capaz de servir a cabeça daquele homem no café. Obviamente, ele tinha a mesma opinião, pois a enca­rou com um olhar de quem não estava acreditando em nada do que ela falava.

— Eu recebo as gorjetas dos fregueses, meu senhor, e isso é tudo que nos é permitido aceitar! — Mattie lhe deu as costas, atravessou a rua e percebeu que ele ainda a seguia. Na outra calçada, ela virou-se novamente, com uma expressão de raiva: — Eu já conheço o seu tipo, e você me dá nojo!

— Meu tipo? — disse Darius espantado, e descobria que a sua instintiva habilidade para controlar conversas não estava funcionan­do com a loura irritada.

Darius a perseguiu porque alguma coisa nela mexera com ele. E muito. Queria pedir desculpas por ter se comportado de maneira grosseira e arrogante na boate, ao ter se insinuado para ela de um modo que, ele sabia, lhe provocara repulsa.

No entanto, o ataque dela estava passando dos limites, e a paciên­cia de Darius não costumava durar tanto.

— Meu tipo? — repetiu ele, no tom de voz que já obrigara muitos dos seus poderosos rivais nas discussões de negócios a tremerem assustados nas bases. Com ela, porém, o efeito era nulo.

— Sim, o seu tipo! — Surpreendentemente, Mattie notava que estava gostando de toda aquela explosão de raiva. O choque inicial em vê-lo, o medo de que ele a seguira por um propósito havia passa­do. Vulgar, convencido, arrogante e boçal o cara bem poderia ser, mas ela, sabia-se lá como, estava certa de que ele não a arrastaria para alguma ruela escura a fim de ali satisfazer os seus desejos sórdidos.

Mattie sentiu-se absolutamente livre para esbravejar com toda for­ça contra ele, e isso lhe fazia muito bem. Não gritava assim havia muito tempo, e foram vários os momentos em que deveria ter agido assim. Em vez de apenas aceitar o que ocorria na sua vida pessoal, em vez de se submeter aos piores abusos emocionais de Frankie King, ela deveria ter liberado a raiva reprimida e toda a desgraça com uns bons berros. A pessoa errada, mas a atitude certa.

— Cheios de dinheiro, mas tristes. Fracassados na vida, que se excitam ao olhar menininhas bonitas. Pode ter certeza, eu conheço o seu tipo. Vocês só querem uma fantasia para levar aos seus lares infelizes, habitados pelas suas mulheres e filhos mais infelizes ainda!

— O quê? — Darius não estava devidamente preparado para um duelo verbal com alguém que possuía uma língua que mais parecia um chicote de tão ferina. Ela o encarava furiosa. De cada milíme­tro do seu rosto fascinante brotava desdém. Ele começou a rir, a gargalhar, uma reação genuína. Mais indignada, a mulher retomou o caminho.

— Você não vai pegar o metrô a esta hora para casa, vai? — perguntou ele.

— Saia daqui, seu pervertido.

Ele a ultrapassou e obstruiu o caminho dela. A mulher tentou desviar por um lado e pelo outro, e percebeu que Darius não pretendia lhe dar passagem.

— Você está no meu caminho, se você não sair da frente neste instante eu vou gritar tão alto que todos os policiais num raio de 15 km vão correr para cá!

— Esta é mais uma ameaça na linha vou-chamar-o-meu-Harry?

— Saia do meu caminho. — Mattie notou que mal podia respirar com aquele homem, de rosto bem desenhado e expressão forte, para­do diante dela.

— Eu não aprecio muito ser chamado de pervertido.

— Eu pareço estar me importando com o que você aprecia ou deixa de apreciar? — Ela, contudo sentia-se desconcertada e com remorso por tê-lo insultado daquele modo.

— Então você classifica todo homem que aparece no seu local de trabalho como um pervertido?

— Eu quero ir para casa. Já é tarde, e não há nenhum motivo para eu perder o meu tempo com essa conversa. Agora, com licença.

— Por que você não pega um táxi para casa?

— Isso não é da sua conta. Se eu tivesse condições de andar de táxi para cima e para baixo, eu estaria trabalhando numa casa noturna?

— Nós não estamos falando de para cima e para baixo, mas do centro de Londres, de madrugada. O metrô não é o lugar mais seguro do mundo para se freqüentar a esta hora. — Pelo menos era o que ele imaginava, já que raramente pegava metrô. Tinha um motorista e quando não queria os serviços de George ele mesmo dirigia.

— E você é um especialista em metrô, não é mesmo? — retrucou Mattie, como se tivesse lido os pensamentos dele. — Qual foi a últi­ma vez que você usou o metrô? — desafiou ela.

Darius concluiu que era melhor se recompor, desistir e deixar a mulher em paz.

— Pois eu estava exatamente indo para o metrô quando fui chama­do de pervertido. — Ele não controlava as palavras que saíam da sua boca. Aquilo começava a perder o sentido.

— Você está mentindo.

— Quer dizer que agora eu sou um pervertido mentiroso?

Mattie o observou por mais alguns segundos e com um movimen­to rápido o driblou, retomando o trajeto para o metrô, cuja entrada já tinha as luzes apagadas.

Darius foi atrás.

Mas que diabos ele estava fazendo?, perguntou a si mesmo. O que importava se uma garçonete de boate ficara com uma impressão erra­da dele? Por que ligar tanto se ela mexia demais com ele? No alto dos seus 34 anos já deveria saber se mostrar superior a esse tipo de coisa.

— Bem, adeus. — disse Mattie assim que entraram na estação deserta.

Pela primeira vez ela o via em um ambiente iluminado. O que Mattie imaginara ser apenas um rosto bonito, não muito diferente do qual a esperava agora de boca aberta, sobre o sofá velho, com uma garrafa de uísque vazia do lado, se revelou muito mais do que isso.

Aquele homem, cujo nome ele nem mesmo se deu ao trabalho de anunciar, pois, claro, alguém tão importante e tão bêbado não se pres­taria a tal delicadeza, especialmente quando à caça de uma mulher para levar para a cama, estava acima da média. Ele era deslumbrante, iria para o topo do ranking de qualquer mulher.

Levemente moreno, cabelos curtos e pretos, olhos escuros como a noite, e um corpo que dava a impressão de ter sido talhado à perfeição.

— Para qual estação você vai?

— Para uma que não seja a sua — respondeu Mattie, agora calma­mente, enquanto enfiava as moedas na máquina de bilhetes.

— Como você sabe?

— Porque eu tenho olhos para ver. — Para comprovar o que dizia, deu uma boa olhada, de maneira insolente, no terno caro dele, nos sapatos de marca e no relógio de ouro.

— Eu a levo até a porta de casa — afirmou Darius. Havia algo na garota que o deixava preocupado pela segurança dela. Talvez a rebel­dia que ela demonstrara. — Você não precisa ter nenhum receio. Eu não vou tentar me aproveitar de você durante a viagem.

— Eu não preciso de escolta.

Olhos verdes. Os olhos verdes mais cristalinos que ele já vira. À meia-luz da boate só lhe deu uma amostra do rosto dela. Aqui revela­vam-se os olhos grandes, do formato de uma amêndoa, as sardas na região do nariz e a boca avantajada, sempre com os cantos para baixo, devido à constante expressão de desprezo que ela fazia questão de ostentar.

— Talvez haja alguns drogados e bêbados esperando para entrar no mesmo vagão que você.

— Fico sensibilizada por você se preocupar tanto com o meu bem-estar, mas realmente faço esta viagem quatro dias por semana. Portanto, não há razão para a sua apreensão, eu sei perfeitamente tomar conta de mim mesma. Provavelmente melhor do você pode tomar conta de si próprio.

— Você vai continuar fazendo o papel da garota irritada?

— Olha, é tarde — disse Mattie devagar, com dificuldade para manter os seus olhos fixos nos dele. — Eu não gostei de como você me olhava na boate, e eu não gostei de ser seguida. Estou sendo clara? Eu preciso dormir um pouco, caso contrário amanhã eu não vou con­seguir agüentar.

— Você não tem o dia inteiro para dormir?

Mattie sentiu-se corar. Ficou ruborizada como uma adolescente, quando na verdade ela tinha 23 anos e experiência para reagir a algu­mas situações com um pouco mais de jogo de cintura.

— Tenho coisas para fazer — murmurou ela. — Agora, se manda.

— Tudo bem, mas amanhã eu vou estar esperando por você na boate.

— Por quê?

Todo o episódio estava realmente a deixando confusa. Ela tornara-se perita, num curto espaço de tempo, em entender os homens que freqüentavam o seu local de trabalho. Eles eram normalmente de meia-idade, casados, mas não sérios o suficiente a ponto de não fica­rem abalados diante de uma garota com um vestidinho curto. Ho­mens inofensivos. Além deles, havia os grupos de yuppies, mais pe­rigosos, pois não tinham mulher e filhos para lhes torturarem a cons­ciência.

O homem na frente dela não se enquadrava em nenhuma das duas categorias.

Ele era do tipo que não precisava estar atrás de garçonetes em casas noturnas ou em qualquer outro lugar, pelo simples fato de que a mulher que ele quisesse se poria aos pés dele em um estalar de dedos.

— Porque eu não gosto de ser tachado de nada sem ao menos ter o direito de fazer a minha defesa. — O que remetia Darius à pergunta anterior de por que, em primeiro lugar, ele deveria se incomodar com isso. — Veja as coisas assim — argumentou ele, tentando aproveitar-se da hesitação dela. — Como você se sentiria se eu a insultasse, deduzindo que, pelo fato de trabalhar como garçonete em uma casa noturna, vestida com trajes sumários, você fosse...

— Uma prostituta barata? — interrompeu Mattie. — Uma mulher de vida fácil? Uma mulher sem virtudes? Uma fracassada que não tem nada melhor para fazer na vida do que ficar se matando por gorjetas numa boate? — Era isso que todos eles pensavam. Todos os homens que ficavam babando enquanto ela limpava as mesas e ofere­cia champanhe. Ela tinha a consciência da reputação que pudesse ter na cabeça daqueles homens, porém, ela sabia por que fazia o que fazia. Que importância tinha o que pensava um estranho sobre ela?

— É isso? — murmurou Darius. — Eu acho que talvez você quei­ra dar a sua versão para os fatos?

— Eu não tenho que dar nenhuma versão dos fatos para você, mas deixa eu só dizer a você que eu não sou uma transa fácil. — Muito pelo contrário, pensou. Um amante durante toda a sua vida. Frankie King, o cara que ela conhecera aos 16 anos. Com quem ela não tran­sava há... Há quantos meses agora?

Um grupo de adolescentes barulhentos, bêbados, mas distraídos demais com as suas próprias brincadeiras para representarem uma ameaça, esbarrou nos dois ao usar a máquina de bilhetes. Darius a segurou pelo braço e a tirou dali.

— Eu a levo para casa em um táxi.

— Oh, você está assustado com o fantástico transporte público britânico? — debochou Mattie.

— Por favor, deixe de tolices.

— Olha, eu prefiro me arriscar com os guris baderneiros a me confinar em um táxi com você.

— Então eu só a coloco em algum maldito táxi e pago ao motorista para levá-la aonde você mora!

— Ah, perdeu o entusiasmo pela minha companhia agora que sabe que eu não vou dormir com você.

— Vamos lá. — Darius nunca encontrara uma mulher tão descon­fiada e cínica, mas pelo menos ela tinha senso de humor! Será que era por isso que ele agora chamava um táxi para ela, em vez de simples­mente deixá-la tomar o primeiro metrô para casa?

— Você, meu senhor, é o mais arrogante dos mais arrogantes!

— Cuidado. Começo a me acostumar com o seu repertório de elogios.

— Duvido. — O táxi encostou na calçada. Mattie se deu por ven­cida e desistiu de se opor à insistência dele. — A menos que o destino se comporte de uma maneira insólita, esta é a última vez que nos vemos.

Darius não disse nada. Abriu a porta do táxi para ela, entregou ao motorista algum dinheiro e foi falar com ela, já sentada no banco do carro.

O corpo dele, grande e forte, mal cabia no vão deixado pela porta traseira aberta. Quando ele abaixou a cabeça para olhá-la, teve a im­pressão de que o brilho dela tomava todo o interior do veículo.

— Eu acho que não — disse ele, num tom de voz baixo e suave. Mattie perturbou-se com o arrepio de excitação que sentiu na espi­nha. — Afinal de contas, eu ainda tenho que me defender das suas acusações, não é mesmo?

— Eu peço desculpas — ela disse rapidamente. — Isso não basta?

— Eu a vejo amanhã.

— Eu nunca irei para a cama com você — protestou ela, agressiva. — Você faz uma idéia errada de mim!

— Na vida, aprendi que nunca é a palavra mais inconstante do dicionário. — Darius encerrou a conversa e bateu a porta do carro.

O que Darius não chegou a dizer era que nunca também era a palavra mais instigante do dicionário. Especialmente naquele contex­to, e especialmente para um homem como ele.

 

— Não sei por que você fica perdendo o seu tempo nessa porcaria.

Mattie olhou para Frankie. Ele estava do outro lado do quarto, jogado na poltrona, em frente à TV, com os pés largados sobre a mesinha de centro arrastada até ali. Ele a encarava de um modo que ela conhecia bem.

Exatamente por isso, Mattie o ignorou e voltou a atenção para os livros.

— Já disse, amor. Você não tem inteligência para fazer nada nes­sas empresas que têm por aí. Você abandonou a escola aos 16. Já se esqueceu?

Ele estava tomando cerveja. Melhor assim. Se fosse uísque os comentários seriam muito mais venenosos. Daqui a pouco ele sairia, pois afinal era sábado. Homens como ele não ficavam em casa num sábado à noite, quando todos os seus amigos estariam no bar da es­quina assistindo ao futebol no telão.

— Isso não significa que eu não possa estudar — afirmou Mattie sem levantar a voz, mesmo consciente de que não havia sentido dis­cutir o assunto mais uma vez.

— Claro que significa. Os todo-poderosos dessas companhias por aí não estão procurando uma garota como você, Mattie. Você pode ser bonita, mas não tem currículo. — Ele soltou uma risadinha cruel, e os dedos de Mattie apertaram a caneta. — Deixa pra lá, a que horas você vai trabalhar hoje?

— Por que o interesse? Você não estará aqui quando eu sair.

— É verdade. Por que você não vai pegar uma cervejinha pra gente?

— Você já vai beber o suficiente no bar, Frankie.

— Ah, não. Não me venha com mais um dos seus sermões. Você se tornou a senhora supercertinha desde que meteu na cabeça essa idéia de estudar marketing. Você deveria era ter se contentado com o empreguinho de secretária.

Frankie atingira o limite dela. Mattie fechou com raiva o livro que lia.

— Mas eu não podia, não é mesmo, Frankie? E nós dois sabemos porquê!

Ele levantou-se, ajeitou os cabelos com os dedos e seguiu para a cozinha com cara de bravo. Desta vez, porém, ela não o deixaria sem resposta.

Três noites atrás, Mattie sentiu imenso prazer em gritar com al­guém, e ela preparava-se para repetir a dose. Agora com a pessoa certa, e não com um estranho que atravessara o seu caminho. Um perfeito estranho que obviamente não voltou a dar as caras na casa noturna. Nas últimas noites, Mattie bem que o procurou na boate, para em seguida censurar-se de maneira árdua por ato tão insano.

— E então? — provocou Mattie junto à porta da cozinha.

Frankie abria outra cerveja e começava a beber da lata mesmo.

— Não vou ficar discutindo isso com você, Mattie. Por que você não volta para os seus livros e finge que vai chegar a algum lugar na vida?

— Não, eu quero discutir isso com você, Frankie. Eu já estou por aqui das suas ofensas, dos seus disparates, da sua falta de companhei­rismo e da sua falta de apoio. Eu não pude ficar no emprego de secre­tária porque o salário não era suficiente para sustentar nós dois!

Ela passara tempo demais cheia de reticências sobre aquele tema.

— Eu suponho que você esteja me culpando pelo acidente!

— Eu não o estou culpando por nada! Mas isso já faz dois anos! Já não é hora de acordar para o fato de que você nunca vai ser um jogador de futebol profissional?

— Quer saber de uma coisa? Eu não vou ficar aqui ouvindo isso! Tchau.

Frustrada, com lágrimas nos olhos, ela permaneceu de pé no vão da porta, bloqueando a passagem dele.

— Você precisa arrumar um emprego, Frankie.

Ele bateu a lata de cerveja na mesa, espirrando o líquido sobre o tampo do móvel.

— Um emprego num escritório, Mattie? Você acha que devo me vestir com um terno barato e ver por aí se alguém quer me contratar?

— Não precisa ser um emprego num escritório.

— Bem, então quem sabe um emprego como o seu?

— O meu emprego, por acaso, paga cinco vezes mais do que eu conseguia como secretária, e cem vezes mais do que eu ganhava no restaurante.

— E assim você pode ter tempo livre para estudar, como se você fosse um dia ter um trabalho numa empresa.

— Bom, eu não teria outra saída, não é mesmo? Pois você não demonstra a mínima intenção de colaborar com as despesas!

— Quer saber de uma coisa, Mattie? Se você acha isso, por que não vai embora?

— Talvez eu vá — afirmou ela. Mattie saiu dali e ouviu de longe as desculpas dele. Disse que precisava dela e bateu a porta ao sair de casa.

Os dois sabiam que o fim da relação chegara, e chegara há algum tempo. Seria duro, no entanto dizer adeus para a história, as lembran­ças da adolescência de ambos, quando a esperança não alcançava limites. Passados os anos, o único sentimento que mantinha o casal junto, pelo menos da parte dela, era pena.

Quando ocorreu o acidente ela sentira pena demais de Frankie. A piedade a impedia de dar o passo necessário de terminar com tudo. O namorado havia mudado, eles haviam mudado.

Frankie tornara-se embrutecido e amargurado por causa do seu destino. Até mesmo os espasmos de angústia quando ele se abria e estabelecia algum diálogo com ela rareavam. Um não conversava com o outro havia meses.

De certa maneira, a boate oferecia a Mattie o trabalho ideal. Para não falar na excelente remuneração, o emprego não lhe propiciava tempo para pensar nos seus problemas. Estava sempre ocupada ser­vindo às mesas e trocando piadas com as colegas sobre os fregueses.

Embora o bate-boca que tivera há pouco com Frankie não seria esquecido após uma noite de trabalho. Os dois atingiram um limite antes não alcançado.

Duas horas depois, Mattie já servia às suas mesas na boate, sem tirar a briga da cabeça, quando o avistou. O estranho sentado sozinho nos fundos do salão. O coração de Mattie deu um salto, uma palpitação de contentamento absurda que desaparecera tão rápido quanto viera.

Por quanto tempo ele estava sentado ali?

Agora que o descobrira, Mattie começou a se preocupar com cada movimento que ela executava. Até que finalmente não teve outra saída senão abordá-lo, mesmo que ele não estivesse sentado numa das mesas sob responsabilidade dela.

— O que você está fazendo aqui?

— Eu disse que eu voltaria — lembrou ele, no mesmo tom de voz suave e levemente irônico que lhe provocou um arrepio na espinha dias atrás. — Você sentiu a minha falta?

— Eu não fui clara o suficiente. Eu não estou à venda, ao contrário dos drinques e da comida.

— Por que a gente não sai daqui e vai a algum outro lugar mais civilizado para tomar um café? Eu conheço um café muito bom e que fica aberto 24 horas.

— Um café 24 horas aberto? Por favor. Onde seria isso? Em outro planeta?

— Num hotel adequado para um homem como eu. Não o homem pervertido que você me julga, mas alguém que trabalha muito e não tem horário certo para nada.

— Não acho que seja uma boa idéia.

— Você parece exausta.

As três palavras quebraram um pouco o gelo, pois a levaram a relembrar a briga com Frankie. Não havia um cantinho nela que não estivesse exausto com a vida. Como ele atentou a isso, se ninguém mais reparara?

— Há uma ou duas razões para eu nem cogitar sair com você — protestou Mattie, azeda. — Se você prefere não considerar as que dei a você, aqui vai mais uma: estou aqui há uma hora e meia somente, e isto aqui é o meu trabalho.

— Eu acabo de me lembrar que eu nem mesmo sei o seu nome. Como você se chama?

— Olha, preciso ir. Jackie vai subir pelas paredes se pensar que estou tentando roubar um cliente dela.

— Por que você trabalha num lugar como este?

— Eu já respondi isso. Agora, preciso ir, tchau.

— Eu encontro você na saída em meia hora. — Ele ficou de pé, terminou a bebida e a encarou. — Tudo bem?

— Eu não vou a lugar nenhum com você! Eu estou falando alguma língua que você não conheça?

— Eu vou resolver as coisas com o seu chefe.

Mattie deu uma risada seca e curta.

— Ah, vai? E como você pretende fazer isso? Vai botar uma arma na cabeça dele?

— Eu aprendi faz tempo que pela força não se consegue nada nessa vida. — Os olhos escuros dele se fixaram nos dela, e Darius experimentou de novo o impulso de excitação. O mesmo rompante que lhe vinha a cada vez que pensava nela, coisa que ele fez com regularidade assustadora nos últimos dias. Ela era um desafio, Darius admitiu, por isso havia tomado a decisão de voltar à casa noturna.

— Deixa comigo.

Deixa com ele! Bem, por que não? Ele não conhece Harry e obvia­mente não tem a menor idéia do quão rigorosos são os patrões em boates como aquela.

— Claro — comentou ela, em tom desafiador. — Se você conse­guir tal proeza, vou com você para o seu café. Mas como isso não vai acontecer, lhe dou apenas o meu boa-noite e informo que será inútil voltar aqui, porque da próxima vez eu não lhe dirigirei a palavra.

Foi um pouco perturbadora a sensação de arrependimento com a qual encerrou a conversa, mas, acima de tudo, Mattie era uma pessoa pragmática. A sua vida já tinha muitos problemas para ela embarcar em mais um na forma de um homem, provavelmente casado, pois um cara bonito e bem articulado como aquele não seria solteiro. Ele bus­cava uma aventura curta, sem compromissos, com uma garota bonitinha qualquer.

Ela se asseguraria de que não voltaria a olhar para ele.

O que Mattie nunca poderia imaginar era que Harry a chamaria, dez minutos depois.

— Eu o quê? — balbuciou Mattie, após Harry lhe dizer o que queria.

— Você pode tirar o resto da noite de folga.

— Eu cheguei agora, Harry.

— Jackie não vai se importar em cobrir a sua ausência. Ela está precisando recuperar o dinheiro de uns dias que faltou.

— Como ele conseguiu? Ele não fez... Ele não é... algum tipo de delinqüente perigoso. Ele não o ameaçou, não é mesmo? — Mattie se recordou dos seus comentários inconseqüentes, noites atrás, sobre cabeças no café-da-manhã.

— Ameaçar a mim? Harry Alfonso Roberto Sidwell? — Ele ficou na ponta dos pés por alguns segundos, ajeitou a lapela do paletó e lançou um olhar superior para ela. — Ninguém jamais ousou me ameaçar, Matilda Hayes, e não se esqueça disso jamais! Ele apenas me disse que queria falar com você e que esta parecia a única hora em que vocês podiam se encontrar. Então, me deu o seu cartão e disse que, se eu precisasse de algum conselho, era só telefonar.

— Conselho? Conselho sobre o quê?

— Ele trabalha com finanças, Mattie. É um homem poderoso. Até eu já ouvi falar dele.

— Você está me dando a noite de folga porque um cara qualquer pediu a você e entregou um cartão? E as minhas gorjetas, Harry?

— Eu cubro o dinheiro das gorjetas, Mattie. Dou o que você mais ou menos ganharia numa noite como a de hoje. Não diga que não sou justo.

— Eu não posso...

— Você merece uma noite de folga, Mattie. Nunca me deixa na mão. Você está me fazendo um favor, minha querida.

— Como assim, Harry?

— Estou pensando em expandir o negócio, Mattie. Posso precisar da ajuda dele mais cedo do que você pensa — completou Harry, maliciosamente.

Mattie notou que ficava sem opções.

— Você sabe o que ele está buscando, Harry. Muito obrigada!

— Você está segura com esse aí, Mattie. Eu não daria a você a folga, caso contrário. Ele é um profissional muito conhecido. Não faria nenhuma besteira, não se arriscaria num escândalo.

Mattie não gostava de se sentir manipulada, mesmo apreciando a idéia de ter uma noite só para ela. Nada de livros, boate ou Frankie.

Se ela chegasse à saída e descobrisse que o homem mudara de idéia, melhor ainda. Ela vagaria por ali em algum lugar onde pudesse sentar e organizar em paz os pensamentos. Voltar para a casa não era a melhor opção, apesar de Frankie ter saído. Aquelas quatro paredes já a sufocavam.

Mas lá estava o cara. Esperando. Como havia prometido. Alto, de beleza fora do comum, e a encarando com uma expressão que ela não podia decifrar. O fato a deixava ainda mais apreensiva. Apreensiva e de alguma maneira... acesa. Viva.

— Como você conseguiu tal façanha? — Foi a primeira coisa que ela lhe perguntou.

Parecia uma gata agressiva, pensou Darius. Uma gata agressiva que ele metera na cabeça que queria domar. Uma gata que pularia dois metros do chão se ele somente a tocasse, mesmo que fosse o mais inocente dos carinhos. Darius abriu e segurou a porta da boate para que ela passasse.

— Harry não disse? — indagou ele, furioso, mantendo a distância de segurança que ela demonstrava querer.

— Ele me disse que você deu a ele o seu cartão. Disse que você era uma pessoa importante do mundo financeiro. — Mattie o analisava, hostil. — Eu não me importo com quem você seja. Já disse as regras.

— Mas não sei o seu nome?

— Como?

— Eu sei as regras, mas não sei o seu nome.

— Matilda.

— Matilda. Você não parece uma Matilda — comentou ele irôni­co, e ela não levou na brincadeira.

— Não? Eu pareço com o quê? Alguma coisa mais fofinha? Uma Candy, quem sabe?

— Você está sempre na defensiva, Matilda?

— Mattie — resmungou ela. — Todos me chamam de Mattie. Eu odeio Matilda.

— Por quê?

Mattie deu de ombros, da mesma forma que sabia que ela odiara ter revelado o pormenor de natureza pessoal.

— Bem, Mattie — disse ele, esticando o braço para chamar o táxi. — Nós vamos ter que pegar um táxi juntos para irmos àquele hotel...

— Hotel? Não, não, não. — Ela recuou, e Darius impacientou-se.

— Eu disse hotel. Eu não disse quarto de hotel. Nós vamos a um hotel em Covent Garden, ao qual eu normalmente vou quando traba­lho até tarde. Há um bar no térreo, e eu garanto que o lugar vai estar cheio de gente. — Os olhos grandes verdes, entretanto se mantinham desconfiados, e Darius precisou controlar-se para não acariciá-la na tentativa de acalmá-la.

Ele mal podia acreditar que em plena madrugada se dispunha a esperar pacientemente que uma mulher lhe desse uma oportunidade para tocá-la.

— E então? Você vem comigo ou não? Se não, você pode estar certa de que nunca mais me verá de novo. Se você decidir vir, esque­ça as suas suspeitas e entre neste táxi comigo. Muito bem, decida.

Pela expressão de Mattie, Darius percebeu o embate que se passava dentro da cabeça dela. Seja lá qual fosse o resultado daquele con­luio interno, ele não iria atrás daquela mulher de novo. Comportava-se com ela de um jeito que não condizia com a sua personalidade e estava pronto para colocar ali um ponto final naquilo tudo.

— OK. — Mattie deu de ombros novamente e se aproximou do táxi. Ele se adiantou e fez questão de abrir-lhe a porta. Um gesto com o qual ela não estava acostumada, pois Frankie não era o tipo de cara que abria porta de carros para mulheres.

Apesar da gentileza, ela não vacilou em se sentar encolhida na ponta do banco traseiro, para manter a maior distância possível dele. Não se arrependeu do procedimento, porque mesmo assim, para o seu próprio assombro, percebeu-se sensível à presença dele.

— Eu não sei o seu nome — afirmou Mattie, após o táxi partir.

— Darius Drecos.

— Darius Drecos — repetiu Mattie, forçando a memória. — Você é alguém importante no mundo dos negócios, não é?

— Pode-se dizer que sim. — Ela não aparentava nenhum deslum­bramento com isso, e Darius cedeu à tentação infantil de exibir o seu cartaz. — Eu lido com finanças corporativas. Nós tratamos de fusões e aquisições. Eu também faço investimentos em propriedades. Com­pro para reformar e vender.

— Certo. — Ela virou-se para olhar a cidade através da janela do carro. Esta parte de Londres nunca estava escura. Luzes, painéis lu­minosos e a agitação familiar. Por alguma razão, Mattie achava mais fácil perder o olhar nas cenas da cidade do que encarar o homem a seu lado.

Ele era o primeiro cara com quem ela conversava de fato em muito tempo. Mattie ia às aulas durante o dia, mas não participava das festas e encontros dos colegas em bares. Falar com os clientes da boate nem pensar, e ela e Frankie não mais conversavam sobre qualquer coisa que valesse a pena.

— Você não mora em Londres? — Mattie relutante o olhou, e, por um instante de desatino, imaginou como ele seria por baixo do paletó caro e da camisa social.

— Por que você acha isso?

— Bem, se você morasse na cidade, por que iria para um hotel quando trabalha até mais tarde?

— Eu tenho um apartamento em Chelsea. Esse hotel oferece refei­ções tarde da noite, e às vezes vamos lá para finalizar um acordo enquanto comemos.

— Nós?

— Meu pessoal.

— Seu pessoal?

— Contadores, advogados, quem for preciso. De vez em quando, eu venho sozinho para comer e terminar o trabalho longe do barulho de telefones e fax. — Não seria inteligente acrescentar que ele com­prara e reformara o prédio onde funciona o hotel e, como previsto no contrato, possuía uma suíte de cobertura, que ele costumava usar quando simplesmente não queria se dar ao trabalho de pegar o carro e pedir que George o levasse dali de volta a Chelsea. A pequena extravagância a faria correr à procura de abrigo.

E Darius se dava conta de que a última coisa que desejava era que ela buscasse abrigo para se proteger dele.

— E a sua esposa? Ela aprecia os seus jantares em hotéis caros quan­do você trabalha até tarde com o seu pessoal? — Irrelevante para Mattie se ele era casado ou não. Não tinha nenhuma intenção em relação a ele. Logo, a curiosidade demonstrada surpreendia a si própria.

— Se fosse casado, eu não estaria aqui. — A frieza na voz dele fez com que ela quisesse retirar a pergunta. — Você não acha impossível trabalhar num lugar em que a sua opinião sobre os seus clientes seja tão ruim?

Ela foi poupada do desafio de encontrar uma resposta para o ques­tionamento, pois o táxi estacionava em frente a um edifício elegante, situado entre uma butique cara de roupas masculinas e uma loja de decoração.

Mattie pressentia, contudo que a pergunta se repetiria no primeiro momento em que eles estivessem a sós.

— Não é o tipo do lugar para uma garota de jeans — sussurrou ela, com uma risada nervosa, quando entraram no saguão do hotel. Cores sóbrias, uma ou duas pinturas abstratas nas paredes e plantas que pareciam colocadas ali para transmitir uma mensagem específica.

E ele não mentira. Havia pessoas mesmo no saguão. Pessoas re­quintadas, que aparentavam ter dinheiro e com pinta de artista.

Mattie fechou os punhos dentro dos bolsos da jaqueta e caminhou ao lado dele, que, com longas passadas, alcançou logo uma escada que os levou a um bar no piso inferior,

O que ela estava fazendo ali?, perguntou-se, tensa.

— As pessoas vêm para cá vestidas com o que bem entenderem — murmurou Darius. — Não precisa se sentir deslocada.

— Eu não estou me sentindo deslocada.

— Não? — Ele fez uma pausa para uma expressão de que não estava levando fé no que ela falava. Ela não resistiu e acabou sorrindo.

— Bem, um pouco.

Era o sorriso? Ele se interrogara. Alguma coisa no sorriso dela desmentia aquele ar de cinismo, revelava uma vulnerabilidade enor­me e dizia muito sobre a perspicácia, o humor e a inteligência guar­dados nela.

— Pegue uma mesa — propôs ele. — Vou pedir algo para bebermos. O que você prefere?

— Café, por favor. Descafeinado, se eles tiverem.

— Eles têm de tudo aqui.

Mattie sentou-se a uma das mesas circulares de granito polido. As cadeiras tinham um formato esquisito, muito confortável, apesar de não parecer. Como no saguão, havia muita gente no bar. Um mundo de pessoas da noite, exóticas e jovens, as quais bebiam e se divertiam.

— E então? — Ele colocou a xícara sobre a mesa e sentou-se. — Um pouco menos... agitada?

— Eu não estava agitada — disse Mattie, enfática. — Eu estava chateada porque você me manipulou para que saíssemos.

— Você poderia ter dito não e ido embora. Ninguém a forçou a entrar no táxi e vir para cá. E você não respondeu à minha pergunta. Por que trabalha num lugar em que os clientes provocam em você repugnância?

— Eles não me provocam repugnância. Alguns clientes são até bem legais. Ou pelo menos aparentam ser.

— Você apenas não gosta do tipo de homem que freqüenta esses lugares.

— Você gosta? — Mattie posava de indiferente, determinada a não deixar que ele notasse o quanto ela estava nervosa e balançada por ele.

— O engraçado é que temos a mesma opinião. Eu só fui lá naquele dia para atender a um pedido de um cliente.

— Ah, e você não estava aproveitando... dando uma olhada em volta?

— Na verdade, não. Isto é, até ver você.

A declaração sem meias palavras a pegou desprevenida e desper­tou todo o seu corpo. Ela não conseguia pensar em alguma coisa para dizer, e ele não demonstrava pressa para quebrar o silêncio e resgatá-la daquela situação.

— Eu... eu... Como eu disse, trabalho lá porque o dinheiro é muito bom... Eu...

Darius a analisava. Ela baixou os olhos e procurava se distrair com o café. Provavelmente, era uma mulher experiente, mas ela fazia com que ele se sentisse como um lobo grande e mau, e ele não gostava daquela sensação.

— Por que você não arruma um emprego diurno? — perguntou ele, permitindo a mudança de assunto, mesmo quando o que realmen­te queria saber é como ela trabalhava onde trabalhava e ainda sim se envergonhava com o galanteio de um homem.

— E por que você não é casado? — Mattie empinou o queixo e perguntou de forma direta.

— Eu deveria ser casado? — perguntou Darius. Confidencias pes­soais não constavam da sua pauta. Ele ficou desconcertado um pouco e tomou num só longo gole o que restava da sua bebida.

— Bem, você não é tão velho, você é... você é... — A iniciativa que ela reconquistara desapareceu assim que Mattie constatou o ca­minho que tomava. Listaria os atributos dele, ao mesmo tempo que aquele olhar ousado conspirava contra o muro de cinismo que ela erguera ao longo dos anos?

— Sou todo ouvidos — encorajou ele.

— Obviamente, rico.

— Mais alguma coisa?

— Sim. Arrogante, manipulador, com um ego gigantesco, maior do que um trator.

— Hmmm. Não me parece uma lista de qualidades apreciadas pelas mulheres.

Os olhos de ambos se encontraram, e Mattie foi a primeira a virar o rosto. Essa conversa tornava-se perigosa.

— Talvez por isso você não tenha encontrado uma esposa ainda — afirmou Mattie rapidamente. — Como você descobriu este lugar? — disse, mudando de assunto.

— Eu comprei este edifício, o reformei e o revendi. — Darius a observou digerir a informação enquanto fantasiava aquele rosto exó­tico e lindo a brilhar de paixão, aquele corpo despido, agitado pelo abraço de um amante. O abraço dele.

Darius engoliu a saliva e se ajeitou na cadeira.

— Parece muito importante. Como você conseguiu entrar nesse negócio? Deve custar uma fortuna fazer parte do mercado imobiliá­rio. Especialmente em Londres.

— Eu estudei economia na universidade — disse Darius. — Co­mecei com finanças antes de investir em propriedades.

— Você deve ter feito bastante dinheiro com finanças, nesse caso. De outra maneira, você não teria contado com capital suficiente para entrar no mercado imobiliário.

Darius a mirou por alguns segundos. Os olhos de suspeita dele se depararam com os dela, inocentes e arregalados.

— Eu sempre tive uma quantidade razoável de dinheiro à minha disposição.

Claro que ele teria. Era um homem nascido no meio do dinheiro. A riqueza cobria os seus ombros como uma capa invisível. Mattie desejava vê-lo dizer isso. Alto e claro, para que ela se lembrasse de mais uma razão pela qual deveria sair rapidamente daquele lugar, antes que o rosto sexy, a habilidade para ouvir e a conversa sedutora de Darius vencessem a cautela dela.

— E... o que fazem os seus pais? — perguntou Darius.

— Isso é realmente relevante?

— É para mim.

— Minha mãe é faxineira. Meu pai era carpinteiro do setor de embarcações, mas o número de pessoas que preferem coisas artesanais não é muito grande atualmente. Ele mora em Boumemouth. Ain­da faz algumas peças por conta própria, mas o seu emprego mesmo é o de supervisor numa fábrica de móveis. — Mattie se pôs de pé e sorriu educadamente.

Ela se ressentia pelo fato de que não o encontraria novamente, mas era assim que tinha que agir.

— Bem, obrigada pelo café. E por favor, posso pegar o meu táxi para casa. — Mattie não tinha ânimo para enfrentar o metrô naquele momento. Antes que ele pudesse dizer algo, ela já se apressava porta afora, subia a escada e cruzava o chique saguão, que parecia saído de uma revista de celebridades.

 

— Ah, não. Você não vai.

Mattie escutou a voz dele e as passadas velozes atrás dela. Não demorou para que Darius a agarrasse pelo braço e a virasse de frente para ele.

— Você não vai dizer tchau na minha cara e depois fugir.

— Eu não estou fugindo de nada. Estou indo para casa.

O coração dela batia a cem quilômetros por hora, chacoalhava como se estivesse numa montanha-russa desgovernada. A mão dele, tal qual um alicate, lhe apertava o braço, mas em vez de irritá-la a atordoava, despertava em Mattie justamente as sensações que ela ten­tava evitar.

— Você é um grosseiro.

— Não funcionou, Mattie. Você já me chamou de coisa pior. — Ele fez sinal para um táxi enquanto a mantinha presa pelo braço com a outra mão. — Onde você mora? Eu deixo você em casa. Nós pode­mos conversar no caminho.

— Não!

Deixá-la em casa? E se Frankie estivesse acordado? Improvável, mas era uma possibilidade a ser considerada. Pensar em Frankie confrontando-se com Darius Drecos fez o sangue dela gelar. Ela tinha consciência de quem sairia perdedor. Não seria o homem que abria agora a porta do táxi para ela entrar.

— Por que não? — perguntou Darius.

— Por que...

— Porque o quê?

— Por que... — Por que ela não queria que Frankie, caso acordado, a visse com Darius? A interpretasse mal? Ou era porque ela, refletiu incomodada, não queria que aquele homem descobrisse sobre a exis­tência de um namorado?

— Porque eu não revelo o meu endereço para estranhos, espe­cialmente quando esses estranhos são clientes da boate em que eu trabalho!

— Neste caso, por que não vamos para o meu apartamento?

Mattie quase deu uma gargalhada com o convite e procurou igno­rar que uma parte dela nem um pouco confiável vibrava ao imaginar tal possibilidade.

— Nem morta.

— O prédio tem uma recepção muito confortável. Nós podemos terminar a nossa conversa lá. — Ele indicou o endereço para o moto­rista do táxi, consciente de que ela o encarava nervosa por ter sido excluída do processo de decisão.

— Você realmente não tem vergonha. Como você ousa?

— Pare de fugir de mim — pediu ele, de forma arrastada e suave. — Eu sempre consigo o que eu quero, Mattie.

— E você me quer.

— E eu a quero.

Mattie sentia o corpo em chamas.

— Você quer uma garçonete bonita de uma boate. Você não me quer. Você nem me conhece.

— Você quer que a conheça. Isto é um pedido? — Darius manti­nha a voz arrastada.

— Isto é uma verdade declarada — rebateu Mattie. — Você pode ter passado a vida com mulheres correndo atrás de você, à sua esprei­ta, torcendo para serem a sortuda que colocaria uma aliança no seu dedo, mas, cara, por vir de onde venho eu conheço direitinho homens como você!

— Mas você nem me conhece.

Mattie resmungou, o resmungo de alguém cujo argumento impe­cável lhe fora devolvido com um golpe preciso. Ela decidiu não valo­rizar o comentário dele com uma resposta, mesmo porque não seria capaz de pensar em algo para contra-atacar.

Desagradava a ela o fato de estar sentada em um táxi, a caminho do apartamento dele, em sabe-se lá onde, apesar de voltar a experi­mentar o mesmo instinto de confiança que havia tido na presença dele fazia três noites. Uma certeza vinha, lá do fundo, de que aquele homem não mentia. Se ele dizia que haveria algum lugar na recepção onde os dois poderiam conversar, lá estaria o lugar.

O problema era que ela não queria falar.

Não, Mattie se corrigiu, sincera consigo mesma. O problema era justamente que ela ansiava desabafar, estava propensa a falar mais do que deveria.

Sentia que as suas emoções haviam entrado num compasso eterno de espera, espremidas contra uma represa, que começava a dar sinais de que não agüentaria a pressão.

Ela desejava falar, mas por que com ele? Darius já havia exposto qual era o seu interesse, e não era conhecê-la melhor. O objetivo dele era levá-la para cama.

— Se eu chegar lá e descobrir que a única coisa à nossa espera na recepção é um elevador para nos levar até o seu apartamento, esqueça. Eu vou sair imediatamente e pegar o primeiro táxi que encontrar.

— Combinado. — Ele a observava de perfil. O queixo empinado de teimosia, especulava se passava pela cabeça dela o quão sedutor era aquele silêncio de insubordinação.

Na hora em que o táxi estacionou em frente ao prédio, Darius seria quase capaz de apostar que ela mudara de idéia a respeito de entrar no edifício.

No entanto, tudo que ela disse ao motorista foi:

— O senhor se importaria em esperar alguns minutos aqui? Para o caso de precisar voltar de imediato para a minha casa?

— Sem problemas, querida.

— E então? Passou na inspeção? — indagou Darius, durante o primeiro minuto no interior do prédio. — A área de estar é ali, há um segurança permanente na recepção. O nome dele é Charlie, e estou seguro de que ele vai voar em seu socorro, se você decidir iniciar um escândalo.

— Muito engraçado.

— E então, você vai mandar o nosso motorista desaparecer, ou vai subir no táxi e fugir mais uma vez?

Foi ele ter insinuado que ela fugia que a convencera, disse depois a si mesma. A mulher deixara o saguão do edifício, instante em que Darius havia se remoído de inquietação diante da iminente partida, mas retornara quase que de imediato.

Darius mal acreditou na onda de alívio que o tomou.

De pé, os dois se encararam, um de cada lado do saguão amplo, de decoração cara. Curioso, Charlie virava os olhos de um lado para o outro, na tentativa de acompanhar a reação de ambos.

— Você gostaria de alguma coisa para beber?

— De onde? Não estou vendo muitas máquinas de bebida por aqui.                

— Não há máquinas automáticas — afirmou Darius, em posição de sentido, à espera dela. — Há uma cozinha atrás de você. Charlie tem todo o equipamento necessário para nos propiciar um café, um chá, o que você preferir.

— Café está ótimo.

— Fique à vontade, tire a jaqueta — propôs Darius. — Sente-se onde você preferir.

Ao contrário de muitos edifícios de apartamentos em Londres, o prédio de Darius destacava-se por ter sempre um porteiro-segurança na recepção e um saguão de entrada amplo. Grande o suficiente para acomodar a mesa grande de trabalho de Charlie, dois diferentes am­bientes para receber visitas e um número razoável de plantas.

Mattie ainda mantinha-se de pé cautelosa quando ele voltou com duas canecas de café e um prato de biscoitos, precariamente equili­brado sobre a boca de uma das xícaras.

— Muito bonito o lugar — comentou Mattie educadamente, sen­tando-se enfim. Em vez do sofá ao lado de Darius, ela optou pela cadeira em frente a ele.

Ali Darius estava em casa. Ele respirava poder e riqueza, e o ambiente em volta fora elaborado sob medida para os poderosos e ricos. O piso de mármore brilhava, os detalhes em metal do corrimão da escada bem lustrados, e os lustres no teto impressionavam pela solidez.

— Então — disse Mattie ao bebericar o café e esforçar-se para se manter blasé em relação ao lugar. — Você tem um apartamento aqui...

— Eu tenho...

Mattie podia perceber os olhos escuros dele fixados nela enquanto vagarosamente ela examinava em volta. Jeans, agasalho e tênis não se sentiam em casa num lugar como este, embora, justiça seja feita, Darius se mostrasse indiferente à indumentária dela.

Ela, não. Os trajes lembravam a Mattie — timidamente, é verdade — que o dever dela era apontar todas as diferenças entre os dois, tarefa que ela começara a executar no bar do hotel.

— Então... você fica em Londres o tempo todo.

— Eu moro em Londres, mas viajo muito.

— Ah, claro, para visitar os seus pais na Grécia, eu suponho.

— Entre outras coisas.

— Que outras coisas?

— Com freqüência trabalho. Nova York, Paris. Recentemente, o Oriente Médio.

— Isso para quê? Formar um império global? — Mattie riu, um pouco nervosa, e bebericou o café. — Tudo isso soa muito poder. O que você faz para relaxar? Vai a boates?

— Quando quero relaxar, eu quase sempre vou para Costwolds, pois tenho uma casa lá.

— Você tem uma casa em Costwolds. Um refúgio campestre.

— Pode-se dizer que sim. E agora? Você vai me atacar por todo esse luxo?

— Eu não estava atacando antes, se é isso o que você quer dizer.

— Não? O que você estava fazendo então?

— Estava rememorando por que você não tem nenhuma chance de me levar para a sua cama, não importa que a sua presunção diga que qualquer coisa que você queira, você consegue.

— Por que você não vem e senta aqui no sofá ao meu lado e me diz isso de novo?

O convite provocou um arrepio em Mattie como uma corrente elétrica a lhe atravessar o corpo, mas ela agüentou firme e sustentou a expressão de desdém.

— É assim que você trata as mulheres que costumam sair com você? — disparou Mattie.

— Não, eu acho que não.

— Eu sei disso. Pelo fato de trabalhar numa casa noturna, você crê que pode falar comigo como quiser e que eu, a coitadinha deslumbra­da, não terei outra saída a não ser cair a seus pés?

— Não, porque as mulheres com quem costumo sair já teriam tomado a decisão de sentar-se bem aqui perto de mim, se, obviamen­te, eu tivesse trazido alguma delas para cá, em primeiro lugar.

A mensagem nas entrelinhas daquela fala mansa atingiu Mattie como um tiro e lhe enrubesceu a face.

— Você estaria tão na defensiva assim se nós não tivéssemos nos conhecido em uma casa noturna? — perguntou Darius. — Se eu não soubesse o que você faz para sobreviver?

— Nós não teríamos nos conhecido de outra forma.

— Você não respondeu à minha pergunta.

— Eu não estou na defensiva — mentiu Mattie. — Eu sou realista. Nós somos de mundos diferentes. Olha como você está vestido, pelo amor de Deus! Eu apostaria a minha vida que o seu terno não estava pendurado em um cabide de uma loja de departamentos em Oxford Street.

— Essa linha de conversa não vai nos levar a lugar nenhum.

— Eu não quero ir a lugar nenhum com você!

— Então por que você está aqui?

Mattie voltou a corar.

— Porque eu fui manipulada por você — disse ela atrapalhada.

— Não seja ridícula. Agora você está fingindo ser a vítima das circunstâncias. É assim que você se sente em relação a estar aqui? Comigo? Em relação a você?

— Você não entende.

— Me explique.

— Eu quero ir para casa agora.

— Não, você não quer. Vamos para o meu apartamento. Lá é mais confortável do que aqui.

— Mais perigoso, você quer dizer.

— Você acha que sou perigoso?

— Cautela nunca é em excesso. Uma garota não peca por ser cautelosa demais.

— Você é?

— Eu não nasci ontem, senhor Drecos.

— Pare de me chamar assim. Meu nome é Darius. E você ainda não respondeu ao meu convite.

— Você já me disse quais são as suas intenções.

— Eu nunca me aproximei de uma mulher que não me quisesse próximo. Vamos subir.

— Eu vou ficar meia hora e depois ir embora. E dessa vez não quero que você volte ao meu trabalho para me ver! OK?

Ele não respondeu. Levantou-se à espera dela, proporcionando tempo para que Mattie analisasse o que fazia. Subir para o aparta­mento dele? Outro passo rumo à beira do abismo. Pelo menos era assim que ela via as coisas.

Mattie o acompanhou até o elevador e manteve os olhos fixos no painel de controle até a cabine vibrar e as portas se abrirem para um corredor acarpetado.

Ela sabia que o apartamento dele seria luxuoso, mas não havia se preparado para tanto.

Piso de madeira decorado com tapetes persas; uma superfície aberta e plana, que ampliava a noção de espaço e fazia com que os olhos se perdessem pela linda área composta com mobília baixa e minimalista, uma mesa de jantar cujo tampo de vidro era contornado por um friso grosso de madeira, e paredes brancas que exibiam pintu­ras grandes e intensas. A única coisa que separava a cozinha para onde agora os dois se dirigiam do espaço aberto era uma extensa bancada em semicírculo, com tampo de granito.

Mattie o examinava, checava o modo como ele dominava cada centímetro do ambiente. Ela experimentou um novo arrepio, um sinal de alarme por Darius ter conseguido trazê-la ao hábitat dele.

— Gostou? — indagou Darius, enquanto operava uma sofisticada cafeteira.

Ela passou a língua nos lábios nervosa, e sentou-se em um dos bancos altos de cromo e madeira, junto à bancada da cozinha.

— Quem não gostaria?

— Onde você mora? — Ele deslizou pela bancada uma caneca chinesa totalmente branca, baixa e de louça grossa e a entregou. De­pois, Darius se ajeitou em um banco, do outro lado do tampo de granito, de frente para ela.

— Informação confidencial, lamento. — Eles se apoiavam sobre a bancada, tomando um gole do café, quando os olhos de ambos se cruzaram.

Ela tinha um rosto que ele simplesmente gostava de olhar. Mattie também tinha uma mente com a qual ele realmente se sentia estimu­lado a argumentar e a contra-argumentar. Enfim, ela representava um desafio que ele não conseguiu resistiu em aceitar.

— Agora me pergunto por que não perguntei isto antes — comen­tou ele, entre goles de café, sem perdê-la de vista. — O que você faz quando não trabalha?

— Por quê?

— Porque normalmente esse é o tipo de coisa que as pessoas se perguntam durante uma conversa?

Mattie avaliou o questionamento buscando descobrir por que esse homem a desconcertava. No entanto, já que ela não o veria mais depois daquela noite, qual seria a razão para mentir sobre algo que ela não precisava esconder?

— Eu dou uma dormida, quando possível.

— Há quanto tempo você está lá?

— Sete, oito meses.

Cuidadosa ela o mantinha sob vigilância, como se estivesse prepa­rada para se defender, a qualquer momento, de um movimento súbito e mais audacioso dele. Mesmo assim, Mattie relaxara o suficiente para tirar a jaqueta e para arregaçar as mangas do moletom. O relógio dela era de plástico, com uma pulseira rosa.

 

Ela acertara quando dissera que os dois eram de mundos diferen­tes. De início, Rosalind não deixaria de usar o delicado Rolex de ouro.

Darius interrompeu as divagações e lembrou-se que aquilo não se tratava de um relacionamento, mas de um caso em seus primeiros passos. Ele não se encontrava disponível para relações sérias.

— E antes disso?

Mattie encolheu os ombros.

— Eu trabalhava num restaurante.

— Então você trabalha de noite e dorme de dia. Uma vida de vampiro.

— Eu não passo o dia inteiro na cama — contestou ela, de novo sem baixar a guarda. — Eu... Eu faço outras coisas também.

— Por exemplo?

— Eu gostaria que você parasse de fingir interesse pelas coisas que faço ou deixo de fazer.

— E gostaria que você parasse de pensar que pode me ler como um livro. Um romance erótico brega impresso com letras grandes. — Ele lançou um sorriso maroto, e, mais uma vez, ela se ficou embara­çada e acabou sorrindo de volta. — Agora me diga o que você faz durante o dia?

— Eu... Bem, na verdade, eu estou fazendo um curso neste mo­mento. — Mattie abaixou os olhos e se censurou. O que passou pela cabeça dela para que divulgasse uma informação tão pessoal?

Ela pensou em Frankie e percebeu incomodada que não se lembra­ra dele durante horas.

— Que curso?

— Marketing.

— Marketing?

— Isso mesmo! Marketing! — Mattie o encarou irritada, com as críticas ferinas de Frankie na cabeça. — Sim, deixei a escola quando tinha 16 anos! Sim, não sou exata­mente o que a maioria das pessoas consideraria um sucesso de mar­keting! Mas posso chegar lá! O fato de trabalhar à noite com pouca roupa numa boate não significa que não tenha um cérebro em bom estado, funcionando perfeitamente! Você pode pensar que sou mais uma tola, mas você está errado!

— Eu acho uma excelente idéia.

— O quê...?

— Eu disse que acho uma excelente idéia. Por que você deixou a escola aos 16?

— Eu... Todo mundo que conhecia estava fazendo isso... Parecia excitante naquela época... deixar a escola, tornar-se um adulto, ga­nhar dinheiro... — Enquanto contava, ela brincava com a asa da cane­ca e se distraía com a borra de café no fundo do recipiente.

— E isso foi... há quanto tempo?

— Sete anos. — Mattie estava pronta para protestar qualquer co­mentário cáustico sobre o seu fiasco escolar.

— E você nunca pensou antes em voltar a estudar?

— Não é tão fácil quanto você pensa!

— Com força de vontade tudo se consegue — murmurou Darius, notando como os seios dela repousavam graciosamente sobre a ban­cada. — E quando você termina o seu curso de marketing?

— Eu entrego o meu último trabalho na semana que vem.

— Então você vai deixar a boate e procurar um emprego?

— Então seguro o meu trabalho na boate porque preciso do di­nheiro e começo a rodar pelas agências de emprego. Às vezes, a supervisora do curso recomenda alguém para um trabalho, mas o aluno precisa ser muito bom. — Mattie ergueu o queixo e lembrou-se de retomar a expressão de contrariada. — Pronto, este é o resumo da minha vida. Agora acho que é hora de voltar para casa.

— Onde dormir se encaixa nisso tudo?

— Como?

— Dormir? Você deve ser adrenalina pura.

— Eu consigo tirar pelo menos seis horas de sono em cada 24 horas.

— Eu a deixo em casa, mas você pode passar a noite aqui. Eu tenho três quartos.

— Passar a noite? — Mattie olhou-o, incrédula. — Você ficou louco...?

A última coisa que queria era passar a noite naquele apartamento, mesmo que trancada num quarto, com uma cadeira travando a maça­neta só por via das dúvidas! Bastava a idéia de que ele estaria dormin­do sob o mesmo teto para garantir uma noite mal dormida. Por que... Por que...

Porque ele era perigoso, decretou. As coisas ficavam perigosas entre eles.

Agitada, Mattie tomou o rumo da porta. Darius se levantou rápido do banco e obstruiu a porta, posicionando-se frente a frente com ela.

— Não.

— Não o quê? — provocou Darius com voz suave. Ele não se conteve. Esticou o braço, tirou as mechas de cabelo que cobriam o rosto de Mattie e lá permaneceu com a mão, enlaçada pelos cabelos dela.

— Não faça o que você está fazendo — sussurrou Mattie vacilan­te, sem encontrar forças para se afastar dele.

— Eu não estou fazendo nada. Ainda.

Ela suspirou e tentou sem muito empenho recuar, mas o toque de Darius lhe impedia o raciocínio.

— Eu falei que iria só conversar, e já conversei.

— Talvez não seja o suficiente.

— Você prometeu...

— Mesmo? Eu não lembro? Eu nunca faço promessas que sei que não vou ser capaz de cumprir.

A mão dele se moveu para segurá-la pela nuca, e o polegar contor­nou o desenho da sua boca trêmula.

— Eu quero vê-la de novo — disse ele, com voz rouca. — E de novo. E de novo.

— Eu já disse, isso não faz sentido.

— Você me disse que nós viemos de mundos diferentes, e que você não está à venda pelo fato de trabalhar em uma boate. Bem, não estou interessado em comprar nenhuma mulher, e não estou nem aí para o mundo do qual você vem.

Darius girou, com um movimento fácil e leve, e tinha agora Mat­tie encostada na porta, encurralada. Darius apoiou-se na porta com uma das mãos espalmadas e enviou a outra em uma missão até então impensável.

Ele começou a percorrer com os dedos os contornos arredondados sob o agasalho dela.

Mattie mantinha as mãos pressionadas contra a porta convencida de que deveria fugir, mas desejando não se mexer, permitindo que o seu corpo, e não a cabeça, permanecesse no controle da situação.

Já fazia bastante tempo.

Mesmo antes de ela e Frankie terem cessado todas as formas de contato físico, Mattie não conseguia responder aos carinhos do namorado. O toque dele a deixava gelada, com vontade de se encolher e se esconder. Por muito tempo, Mattie atribuíra isso à própria exaus­tão, fruto da rotina confusa e das exigências no dia-a-dia. Mais tarde ela encarou a verdade: não sentia mais desejo por ele, e o desgosto se estendeu a todas as áreas da vida em comum.

— Por favor, Darius...

O nome dele escapou da sua boca como uma carícia. Mattie deve­ria tê-lo chamado de senhor Drecos. Isso estabeleceria alguma dis­tância entre os dois.

— Olha, Mattie. Eu sei que você pensa que a persegui apenas para levá-la para cama...

— E não?

— Eu quero você.

— Eu disse... — Mattie não podia reconhecer a própria voz. Fala­va de maneira trêmula e rouca.

— E você me quer. — O beijo dele, que se curvara para alcançá-la, foi leve e singelo como uma plumagem a roçar-lhe a boca, mas mes­mo assim estremeceu os joelhos e o coração de Mattie.

— É algum crime ceder à atração mútua?

Desta vez o beijo dele não foi singelo, e sim potente. Foi mais, muito mais do que potente, e o impacto nela proporcional. Darius lhe invadiu a boca com a língua e lhe explorou até que Mattie não pudes­se mais suportar a pressão que ela própria fazia contra a porta.

— Então é isso? — murmurou ele sem muita convicção. Darius recuara para que Mattie pudesse sentir a ausência do seu toque como um vazio súbito e enorme dentro dela.

— Você está me confundindo.

— Ótimo. Eu quero confundi-la como você me confunde. Eu que­ro que você fique arrepiada todas as vezes em que cruzar os seus pensamentos, e quero descontrolar cada nervo quando tocá-la.

Ele com as suas palavras fazia um amor virtual com ela, coisa que Mattie nunca experimentara antes. E não poderia ser diferente, já que tivera como único homem na vida Frankie, cujo ponto forte não era a retórica. A aparência, sim. O sangue irlandês tinha dado ao namorado a perfeição em cada traço, mas era só.

Mattie se defrontava agora com uma diferente espécie de homem e tinha consciência disso. Tanto que se empenhava para reorganizar os pensamentos.

Ela mal conseguia trazer à tona na mente a imagem de Frankie, tal a intensidade da emoção que lhe varria todo o interior!

A mão de Darius, aquela maldita mão, escorregou para baixo do agasalho dela e lhe acariciava a pele nua. Tocava apenas a barriga, rígida e de traços definidos, sem se aventurar acima, mas o suficiente para que Mattie abraçasse os próprios seios de surpresa e de satisfa­ção. Não, satisfação era uma palavra muito medíocre. De prazer.

— Então... você vai passar a noite aqui? Comigo? Na minha cama?

— Não... por favor... — Mattie se agarrava ao que restava de bom senso e coerência dentro dela. — Isso é... é ridículo. — A mão dele deslizava aos poucos para cima.

Darius supreendia-se com a própria paciência. Podia senti-la bam­ba, desejando-o, mas ele tinha que conter o impulso de pegá-la no colo e transportá-la até o quarto.

A mão dele estava a centímetros dos seios de Mattie. Seios lindos, bem desenhados, que ele queria tocar, chupar e reverenciar.

— Nós não temos nada em comum...

— Eu posso citar uma coisa comum entre nós, para falar a ver­dade...

— Vá brincar e se satisfazer com pessoas do seu tipo...

— Eu não tenho um tipo. Só os chatos têm um tipo.

— Bem, então vá brincar e se satisfazer com... com alguma outra pessoa! — O desentendimento cumpriu a sua função. Deu a Mattie tempo para respirar, em vez de apenas deixar-se levar e afogar pelos seus sentidos.

Deu-lhe tempo para recordar o homem que a esperava em casa e o despropósito da situação em que se metera.

Mattie se contorceu levemente, e a mão que se movimentava peri­gosamente sobre a sua barriga encontrou o que buscava.

Mattie literalmente deu um pulo quando os dedos longos e hábeis de Darius acharam o mamilo dela enrijecido e abriram caminho pelo sutiã de renda para acariciá-lo.

Mais um minuto, e ela poderia dizer adeus para qualquer resquício de autocontrole.

— Não! — Mattie pegou a mão de Darius e a retirou imediatamen­te dali, mas ele, agora com as duas mãos espalmadas sobre a porta, a mantinha cercada, presa.

— Nós dois somos adultos — afirmou ele de forma direta, determinado a transpor as defesas de Mattie. — Nós estamos nos sentindo atraídos um pelo outro, e não há por que negar isso.

— Tudo bem! Eu não vou negar! Mas mesmo assim nada vai acontecer!

— Por que diabos não?

— Porque eu moro com alguém. Porque eu tenho um namorado!

 

Agora que entregara o seu trabalho final, Mattie pressentia apreensi­va que a fase mais dura apenas começava.

Que passaria com folga, ela não tinha nenhuma dúvida. Dedicara-se com empenho ao curso desde o primeiro dia, apresentara quase todos os seus trabalhos dentro do prazo e se destacara na classe. To­davia, a coordenadora do curso, uma mulher ativa, sempre bem arrumada, não podia ter sido mais franca. Marketing era uma área compe­titiva, e, mesmo com as melhores notas do mundo, Mattie não tinha experiência profissional.

As duas agências de emprego que Mattie visitara na semana que tinha passado lhe disseram mais ou menos a mesma coisa, mas de uma forma um pouco mais atrativa.

Mattie se consolava com a idéia de que uma semana não era muito tempo quando se tratava de achar um trabalho.

De uma forma menos racional, também era um alívio que a ansie­dade da procura de um emprego lhe ajudasse a afastar dos pensamen­tos a distração perigosa chamada Darius Drecos e o precipício em que ela quase se jogara naquela noite.

Naquele momento pelo menos ela podia relaxar. Tinha uma noite de folga, sem a presença de Frankie em casa.

Ele tinha dedicado um silêncio raro ao tópico curso terminado, mas compensado a trégua por passar a maior parte do tempo longe de casa.

Passados dois dias ela perguntou sobre o seu paradeiro e Frankie respondeu com a sua típica agressividade.

Mattie tirou os sapatos e deixou que a paz da casa vazia a tomasse. Ponderou sobre ligar a TV, mas avaliou se realmente precisava se bombardear com os típicos programas de domingo à noite na televi­são e decidiu que não.

Mais fácil se esparramar na poltrona, de olhos fechados, e deixar a mente vagar.

Um pouco perturbador que os pensamentos vagassem muito mais por Darius Drecos do que por Frankie, mesmo que houvesse um milhão de coisas que ela precisava tratar no seu namoro, coisas que não podiam mais esperar.

O que Darius estava pensando sobre ela?

Mattie simplesmente fugiu do apartamento luxuoso. Levou na ca­beça o instante de surpresa gravado no rosto moreno dele, diante da revelação que ela fizera.

A imaginação de Mattie não parava de especular sobre a impres­são que ela deixara. A repulsa que Darius deveria ter sentido ao pen­sar que Mattie respondera ao seu charme, quando não se encontrava em situação para tal. Ela teria feito jus às piores expectativas dele, confirmado a suspeita de que não passava de uma garçonete de casa noturna que se fazia de difícil. Talvez ele até considerasse a possibi­lidade de que ela posara de moralista para tentar fisgá-lo.

A campainha tocou e interrompeu as especulações de Mattie.

Ela hesitou. Levou alguns segundos para registrar que não poderia ser Frankie, pois o namorado tinha uma chave da porta. Aliviada com a conclusão, ela levantou-se para atender.

O alívio durou exatamente os segundos que Mattie precisou para abrir a porta. Relaxada, escorada no vão de entrada, a pessoa que ela pensava que não iria ver de novo. Nunca mais.

— O que você está fazendo aqui? — A contrariedade deu o tom à pergunta, mas o coração dela traiçoeiro saltava ao vê-lo. Desta vez, vestido de modo casual e ainda mais bonito. Calça creme, gola social creme, surgindo de debaixo da suéter. As cores da vestimenta desta­cavam a pele morena, diferente das roupas escuras de trabalho. Mat­tie precisou se esforçar para não revelar o seu encantamento.

— Eu decidi fazer uma visitinha para avaliar o meu rival — res­pondeu Darius indo direto ao assunto, aproveitando-se da perplexi­dade dela para entrar sem ser convidado.

— Você o quê! Você está louco? Como você descobriu onde moro? Não, me deixe adivinhar. Harry contou!

Ele andou descontraído rumo à sala, examinou a escada estreita que havia no caminho e agora olhava em volta, interessado e sem nenhum constrangimento.

— Hmmm. Interessante composição de cores. De certa maneira, eu a associava com algo bem mais sóbrio, estiloso. — Finalmente, ele virou-se para encará-la. Como ela conseguia ficar tão atraente num short folgado e numa camiseta grande a ponto de esconder cada curva do seu corpo? — E então? Cadê o namorado?

O tom de voz dele era leve mas seus olhos, não. Mattie pôde deci­frar a mensagem no olhar de Darius. Ele vinha cobrar explicações sobre a falsidade dela, dizer o que pensava dela. Besteira aquele ne­gócio de checar o rival.

— Ele não está. E o nome dele é Frankie. Você não pode ficar aqui. Se Frankie chegar, ele vai...

— Ele vai... O quê?

— Olha, se você quer que peça desculpas por... por não ter dito antes, tudo bem. Me desculpa. Eu deveria ter contado a você desde o começo.

— E por que não o fez?

— Por que não fiz o quê? — reagiu Mattie. Na presença de Darius, a sala se tornava um cenário feio, bagunçado e mal conservado. Não era de admirar o comentário jocoso dele sobre a falta de estilo.

— Uma xícara de café seria ótimo. Sem leite e sem açúcar.

— Você não pode ficar aqui para uma xícara de café! Você nem deveria estar aqui! Isso não vai ficar barato para Harry! Dando o meu endereço de casa para qualquer um!

— Eu não sou qualquer um — replicou ele friamente. — Eu come­ço a suspeitar de que você está com medo desse seu namorado. — Certamente, ela não estava apaixonada pelo cara, pois não teria se mostrado tão atraída por ele, Darius, na última vez em que se encon­traram. Darius passara a última semana irritado consigo mesmo por ter sido passado para trás, furioso por não conseguir tirá-la da cabeça e, finalmente, concluindo sem piedade que era mais do que justifica­do ele se dedicar ao máximo para seduzi-la, uma vez que ela houvera lhe dado corda.

— Ele bate em você? — indagou ele, sem perdê-la de vista.

— Não seja ridículo! Claro que ele não me bate! Você acha que algum dia ficaria com um homem que levantasse a mão para mim?

— Então o que você está fazendo com ele, pois com certeza abso­luta você não o ama.

— E como você sabe isso? Após duas ou três conversas comigo, você se sente de súbito qualificado para tirar conclusões sobre a mi­nha vida pessoal?

— Responda rápido: o que você está fazendo aqui com um homem que você não ama, quando o que você preferiria era estar comigo?

— Você é um canalha arrogante! Você sabe disso, não sabe?

— Sei, mas eu gosto de ouvir você dizer.

Ela suspirou profundamente e desistiu.

— Eu preparo um café, e em seguida você vai embora. Estamos de acordo?

— Não, mas aceito o café, de qualquer modo.

Darius a seguiu de volta pelo pequeno corredor e dali para a cozi­nha. Mattie podia senti-lo atrás dela, o que provocava uma pane no seu sistema nervoso.

Ela se acostumara com aquela casa. Naquele momento, no entan­to, Mattie enxergava o ambiente com os olhos dele. Darius possivel­mente nunca estivera em uma moradia tão pequena e descuidada.

A cozinha não melhoraria muito a sua impressão.

Quando Frankie e ela se mudaram, Mattie se entusiasmou em fa­zer algo no lugar. Afinal de contas, eles não estavam mais alugando. A casa pertencera aos pais dele, uma ex-moradia do governo, que sofria da falta de reformas essenciais. A vida contudo a desanimou. Primeiro a depressão do namorado, depois que um câncer de pulmão matou a mãe. Ela deixou a casa, as lembranças, mas infelizmente nenhum irmão com quem pudesse dividir a dor da sua morte. Depois Frankie sofreu o acidente e caiu em decadência. Recentemente ela ficou sem tempo, equilibrando-se entre empregos e estudo.

Mattie tinha a cabeça empinada ao entrar na cozinha, ligar a cha­leira elétrica e apanhar duas canecas.

— Eu posso ver o que você está pensando. Não precisa deixar tão óbvio — disse ela, de braços cruzados para simular uma distância entre eles, dada as dimensões da cozinha.

— No que estou pensando?

— Você está pensando na casa miserável em que vivo. — A água na chaleira ferveu. Ela deu as costas a ele e começou a preparar o café, com as mãos trêmulas.

— Por que você não se muda? — Aquela era a pergunta. Se fosse um pouco sabida, Mattie desconfiaria de que ele não se referia à casa, mas ao homem com quem ela dividia o lugar.

Pensar no tal namorado já fazia Darius se roer de ciúme. Ciúme primitivo, monstruoso. Um sentimento que, se até então nunca tinha sucumbido na vida, agora o vinha desnorteando.

— Tente adivinhar. Por que no meu lugar você não mudaria? Aqui está o seu café. — Mattie sentou-se na cadeira de pinho, junto à pequena mesa. — Você pode sentar se quiser.

— Dinheiro? É por isso que você mora aqui?

— Não pagamos aluguel. A casa era dos pais de Frankie. O pai dele morreu quando ele tinha 12 anos, e a mãe deixou o imóvel ao falecer pouco tempo atrás.

Darius sentou-se e se pôs a observá-la. Ele desejava que ela lhe contasse tudo, falasse da casa, do que sentia pelo cara. Amor não era, pois aquele lar não transmitia amor. Nenhuma foto dos dois nas pare­des ou sobre os móveis. Nada que aparentasse ter sido comprado com esforço e afeto.

— Você entregou o seu último trabalho? — Ele surpreendeu Mattie com a mudança de assunto, permitindo que ela relaxasse um pouco.

— Na sexta-feira.

— Você não saiu para celebrar?

— Num domingo? — Não houve festa nenhuma. Ela foi trabalhar como de costume. Voltou para encontrar a casa sem ninguém, e Fran­kie só retornou na hora do almoço do dia seguinte.

— Você não me disse onde está o seu namorado?

— Ele foi... Ele saiu com alguns amigos. Está no bar da esquina, acho. — Mattie olhou para o lado com uma cara que entregava a história toda.

— Ele passa um monte de tempo no bar, não passa?

Mattie se aterrorizou com as lágrimas que lhe vinham aos olhos e trincou os dentes para interromper o trajeto delas. Não choraria. Ela parará de chorar há muito tempo e não daria àquele homem tal privi­légio.

— Você não entende. — Mattie respirou profundamente duas ou três vezes e levantou os olhos para Darius. A inesperada expressão de compreensão dele quase a fez ruir. — Para você, tudo está bem. Você não sabe o que é abrir os olhos de manhã com a certeza de que terá um dia de sacrifício. Às vezes, é mais fácil simplesmente desistir e seguir o caminho mais simples para lidar com as coisas. Quase sempre esse caminho é o que leva ao bar mais próximo.

Darius não disse nada. Ele continuou brincando com a caneca, sem tirar os olhos dela.

— Um monte de gente enfrenta uma vida de sacrifícios. Um mon­te de gente não nasce em berço de ouro. Mas a maioria não vira alcoólatra.

— Frankie não é um alcoólatra!

— Por que você o defende? Você trabalha numa casa noturna porque precisa do dinheiro. O que me leva a concluir que você preci­sa pagar as contas porque o seu namorado não trabalha.

Apesar de transtornada de raiva, Mattie não tinha como contestá-lo. Darius falara de forma implacável a pura verdade.

— Ele... Ele vai conseguir um.

— Entre uma ou outra visita ao bar com os amigos? — Darius deu gargalhada cruelmente, e notou o nervosismo dela. — Você tem cer­teza de que ele está com amigos?

— O que você quer dizer?

— Você sabe o que eu quero dizer?

Os dois se entreolharam por alguns segundos de tensão. Mattie ficou em pé e virou-se de costas para ele. Na pia uma pilha de pratos sujos. Ela começou a lavar a louça na esperança de que as suas mãos não estivessem tremendo a ponto de derrubar algo.

— Não há uma outra mulher.

— Você está certa disso?

— Por que você veio aqui? Para arrancar um pedido de perdão? Você não precisa fazer isso. Eu já pedi desculpas.

— Me veio à cabeça a idéia de que você e o seu namorado talvez estejam conspirando contra mim. Quem sabe o casal não deduziu que se você fosse capaz de me enrolar, seria apenas uma questão de tem­po para começar a tirar dinheiro de mim? — Darius não ventilara nenhuma hipótese como esta, mas queria jogar lenha na ira dela, forçá-la a cuspir a fúria e assim cuspir também os sentimentos, pois a imagem dela o havia atormentado durante toda a semana.

Mattie voltou-se para ele como se em estado de choque.

— Isso foi a coisa mais... mais... horrenda que você já me disse! Como você ousa?

Ela caminhou em direção a ele com o pano de prato em uma das mãos cega de raiva. Darius desejou puxá-la com força, colocá-la no colo e arrancar com um beijo aquela expressão da face dela.

— Eu sou um homem extremamente rico. Riqueza traz suspeita.

— Então lamento muito por você, lamento demais!

— Não seria a primeira vez que sou perseguido por uma merce­nária.

— Se eu me lembro bem, você é quem está perseguindo aqui! — Mattie estava de pé, de frente para ele sentado na cadeira, e curvava-se para confrontá-lo.

— É verdade, mas talvez você seja uma oportunista engenhosa que sabe aproveitar uma chance quando essa se apresenta...

— Você é... Você é...

— Alguém acostumado a ler os motivos atrás de cada ação...

— Eu não estou interessada no seu dinheiro estúpido! E nunca armaria um golpe com ninguém!

— Nem mesmo com o homem que você defende de modo tão eloqüente, nem mesmo com o homem que você ama?

— Eu não amo Frankie! Eu posso até morar com ele, mas não o amo.

Ele ouviu Mattie tomar fôlego, para que o cérebro dela processas­se o que ela acabara de admitir. Darius não podia estar mais satisfeito. Ele deu um meio sorriso e com as duas mãos segurou o rosto dela.

— E nunca acreditei, nem por um momento, que você fosse uma mercenária...

— Você me enganou. — Mattie se afastou dele e, em vez de irri­tar-se ainda mais, sentiu uma certa admiração pela inteligência com a qual ele a envolvera. Sentou-se de novo diante dele.

— Me diga por que você mora aqui com ele.

— Porque... Porque eu não tenho dinheiro para morar em outro lugar. Não. Não é por isso. Pelo menos, não é só por isso. — Ela o fitou daquela maneira desconfiada, com os olhos entreabertos, com a qual Darius já se acostumava.

— Então por que é? Me diga?

Mattie olhou para baixo, para as mãos que tinha apoiadas sobre a mesa. Espiou Darius de relance antes de começar a falar:

— Nós crescemos juntos. Quando éramos adolescentes, saíamos juntos. Frankie sempre foi o cara que as garotas paqueravam. Bonito, atlético... — Mattie sorriu, e Darius se segurou de raiva por esse homem, mesmo em retrospecto ser capaz de fazê-la a sorrir.

— Ele ia ser um jogador de futebol. Isso foi o que ele sempre quis. Ele jogaria por um time grande, faria fortuna e realizaria o seu sonho. Contudo, quando ele tinha 19 anos a mãe morreu, e Frankie ficou arrasado. — Mattie ainda não desviara o olhar dos seus próprios de­dos sobre a mesa. Sentia-se como se falasse consigo mesma, mas nunca poderia ignorar os olhos escuros e atentos a observá-la. — Nessa época, eu já pensava em deixá-lo. Eu avaliava que me tornara mais madura do que ele. Eu ainda gostava dele, mas... — Isso era uma coisa que ela nunca admitira, nem mesmo para si própria.

— Mas você não queria abandonar os próprios sonhos — comple­tou Darius, sem perturbar a atmosfera. Ele a viu concordar com a cabeça, num gesto lento.

— Eu não podia deixá-lo quando ele mais precisava de mim. Eu adiei o curso para o qual eu havia passado e continuei com o meu trabalho. Os pais dele compraram esta casa do governo anos atrás. Nós nos mudamos para cá. — Mattie soltou um longo suspiro. — Eu acho que vou tomar algo — cortou ela. — Você quer?

Darius balançou a cabeça negativamente. Mattie abriu a geladeira, fez uma careta e pegou uma cerveja.

— Eu normalmente não bebo isso — comentou ela, sentando-se de volta e abrindo a lata. — Mas... — Mattie deu de ombros e encheu a boca de cerveja, diretamente da lata. Enquanto bebia vigiava Da­rius, o que o levou a concluir que Mattie apenas encenava para ele. Mais uma pequena encenação para deixar claro que ela não era o tipo de mulher que bebericava a sua cerveja em um copo, ou que ela era o tipo de mulher que, sim, bebia cerveja.

Darius tinha que tirar chapéu para ela. Mulher como essa ele não havia ainda conhecido.

— Vocês se mudaram... — Darius deu a deixa delicadamente.

— Nós nos mudamos para cá. Durante um tempo funcionou. Mas um dia ele saiu para beber à noite e sofreu um acidente. Ele não estava dirigindo. Nada sério, não envolveu nenhum outro carro...

— O que aconteceu?

— O carro saiu da estrada, rodou, e a lateral do veículo bateu numa árvore. O problema é que... ele machucou uma das pernas. — Mattie tomara somente um gole e não queria realmente beber mais do que aquilo. Precisava somente do impulso. Além disso, ela abominava o hábito de beber cerveja direto da lata. — Não feriu muito, mas o bastante para terminar com as esperanças de ser um atleta profissional.

— Um golpe duro. — Darius não necessitava de mais explicações para deduzir o que ocorrera depois, mas ela não se esquivou e seguiu com a história, pensativa, no mesmo tom baixo de voz. A inevitável decadência, raiva e frustração dele, e a pena que a amarrava ao namo­rado.

— Como você vê, estou aqui por muitas razões e, não simples­mente pelo fato de que não tenho dinheiro para pagar um aluguel.

— Você pode aplicar o dinheiro que utiliza para sustentá-lo numa moradia só para você...

— E como ficaria Frankie?

Darius teve ímpetos de sacudi-la para que Mattie acordasse para a vida. Em vez disso, ele respondeu suavemente:

— Ele daria um jeito, eu imagino, porque ele teria que se virar. A necessidade de sobreviver sem a sua ajuda poderia ajudá-lo a se livrar da necessidade de afogar as mágoas na bebida.

Mattie ficou de pé, e Darius percebeu que as persianas dela de novo se abaixavam; ela se fechava. Ele era o milionário e ela, a garota esperta, formada nas ruas. Darius não tinha nenhuma dúvida de que Mattie cruzara antes com garotos endinheirados. Já deveria ter sido alvo de meia dúzia deles, pois era muito atraente, e desenvolvera um talento para ignorar abordagens, recolher-se.

— Eu o acompanho até a porta? — Ela esperou até que ele se levantasse. Em seguida, Mattie caminhou rumo à saída. Já na porta, deteve-se para que Darius lentamente terminasse o percurso pela casa. — Você conseguiu. Pode ir embora tranqüilo, ciente de que não corria o risco de ser seduzido a gastar os seus preciosos milhões com tipos como eu.

— Com tipos como você... — murmurou Darius, recostando-se na porta e curvando a cabeça para encará-la. — Eu posso ver por que o seu namorado acabou se refugiando numa bolha... ou seja lá em que ou em quem ele se refugia... mas por que você guarda tanto ressenti­mento?

— Eu não guardo tanto ressentimento.

— Claro que guarda, ressentimento do tamanho de um bonde.

— Porque eu não quero por livre e espontânea vontade ir para a cama com você?

— Porque você não desiste de me mostrar que as fronteiras entre nós são intransponíveis.

— Elas são. — Mattie podia ouvir o medo na sua voz e torceu para que ele não percebesse.

— E com esse Frankie? Vocês cresceram juntos, mas nem por isso o relacionamento deu certo.

— Ele precisa de mim.

Eu preciso de você, reagiu imediatamente o raciocínio de Darius. O pensamento provocou-lhe um estremecimento. Precisar? Necessi­dade nunca constara das relações dele com o sexo oposto. Desejo sim. Vontade, afeto, mas nunca necessidade, e, certamente, nunca amor como ele havia descoberto à própria custa.

— Você é a babá dele.

— Isto é mentira!

— Evidente que não. Ciscando em volta dele, relevando as falhas dele e abstendo-se de viver.

O dedo em riste acusador provocava nela mais do que dúvidas agora. Golpeava-lhe a consciência como um objeto cortante.

— Eu não estou deixando de viver! Eu acabei de terminar o meu curso!

— Para o qual, eu presumo, o seu amado Frankie lhe deu toda a ajuda e o apoio generosos de que você precisava. Confere? — A respos­ta estava escrita no rosa delicado que invadira as bochechas dela.

— Ele... Ele tem os seus próprios demônios para exorcizar — murmurou ela, baixando os olhos para evitar a conclusão fria dos dele.

Mattie gostaria que Darius saísse de frente da porta, pois assim ela a abriria e poria um fim naquele horrível destrinchar das suas intimidades. Darius, porém decerto não pretendia ceder terreno.

Até quando, Mattie perguntou-se.

— E você vai ficar com ele até que ele os exorcize? — perguntou Darius friamente. — Seja lá quanto tempo isso leve? É melhor você rezar para que nenhuma outra tragédia caia sobre ele, caso contrário você pode acabar envelhecendo na companhia de um homem que você esqueceu como amar. A comiseração não serve de base para nenhuma relação.

Mattie levantou os olhos pronta para a briga. Quem sabe o con­fronto não alivie o peso da verdade que Darius a obrigava a engolir, como se ele pudesse saber tudo sobre tudo.

— Ah, não? E o que é? Se você sabe tanto sobre relações, eu adoraria saber por que você está sozinho.

Touché, pensou Darius, com uma cara de desagrado. Enquanto a observava, imaginou como ela reagiria se ele se aproximasse e a envolvesse nos braços. Isso era o que tinha vontade de fazer. Isso e muito mais.

—Temos aqui um caso de eu-te-contei-a-minha-vida-agora-você-me-conta-a-sua!

— Pelo menos seria justo, uma vez que você dedicou a última hora pregando sobre os meus erros e problemas.

— E qual seria o meu incentivo para contar? — Evidentemente, Darius não tinha a menor intenção de enveredar por aí, mas a alterna­tiva a isso seria liberar a porta da casa por ele bloqueada, coisa que também não pensava em fazer.

— Jogo limpo?

— Conceito interessante.

Este não era o confronto que Mattie havia tramado. Tratava-se de um flerte ainda mais perigoso por estar subentendido. Cada nervo do corpo dela encontrava-se de prontidão, à espera da iniciativa de Da­rius. A agressiva garota eu-posso-tomar-conta-de-mim-mesma-muito-obrigada dava lugar a uma irreconhecível e insensata me-beija-agora, transformação que a deixava zonza.

— Eu tenho como regra não fazer confidencias aos outros. — O sorriso de escárnio de Darius a excitou e a contrariou ainda mais.

— Mesmo? — certificou-se Mattie, sem forças.

— Mesmo. As pessoas têm o hábito maldoso de guardar os segre­dos para usá-los contra você num encontro futuro.

— Não haverá nenhum encontro futuro, logo os seus segredos estarão seguros comigo.

— Você precisa me tentar um pouco mais.

— É? E o que você sugere que eu faça? — Pergunta idiota. Ele havia a conduzido direto para a emboscada. O que Darius queria que Mattie fizesse estava cristalino no olhar indolente dele. Pior ainda era que a mensagem ia ao encontro do rasgo quente de desejo dela. — Não. Eu já disse que não estou disponível...

A frase ficou em suspenso, pois a sua boca procurou a dela, e, ca­ramba, foi excelente. Mattie fez menção de empurrá-lo antes de gemer interiormente e retribuir o beijo com um tremendo entusiasmo.

As mãos dela ziguezaguearam pelas costas dele até a nuca; os dedos entre os cabelos pressionaram Darius contra ela, enquanto a boca respondia à língua intrometida de Darius.

As posições de ambos se alteraram. Darius se moveu da porta sem que a sua boca abandonasse a dela, para escorá-la contra a parede e ali confiná-la entre os braços. As mãos ansiavam percorrer cada canto dela, mas ele sabia que seria prudente domar os instintos naquele momento.

Darius contentou-se em senti-la derreter ao toque dele e em ouvir os gemidos curtos e suaves que o deixavam louco de desejo.

Quando eles finalmente se desgrudaram, os dois estampavam caras de atordoados.

— Me diga aquilo de novo? — exigiu Darius numa voz que derre­tia gelo. Ele brincava com o cabelo dela, prendia mechas atrás das orelhas e enrolava outras nos próprios dedos.

— Dizer o quê?

— Que você não está disponível para... ficadas? Era isso que você ia dizer?

— Você não é bom para mim — resmungou Mattie. — Eu sei que você acha que as fronteiras entre as pessoas não são instransponíveis, e talvez não sejam mesmo, mas do jeito que vejo as coisas seria a garçonete do magnata, e tudo entre nós pareceria sempre uma farsa.

Darius reprimiu o impulso de esbravejar contra tamanho contra-senso. Eles se desejavam. A linguagem dos corpos dizia tudo. Não era suficiente?

— Você não pode ficar aqui — afirmou ele, em vez de liberar a angústia. Tinha a voz vacilante de quem continha as emoções.

— Eu não posso deixá-lo. Agora, não.

— E enquanto isso abro mão do que nós temos...

— Nós não temos nada.

— Correção: do que nós poderíamos ter.

— Você aprendeu a nunca confidenciar, e aprendi a nunca especu­lar. — Enfim, Mattie recuperava o mínimo de autocontrole, mas a proximidade dele ainda sufocava. Ela se contorceu, e Darius imedia­tamente se afastou.

A expressão no rosto dele era pesada de desaprovação, e Mattie não pôde evitar que o olhar de Darius mais uma vez a excitasse. A realidade porém a cerrou de novo. Frankie. Emprego. Servir mesas em trajes sumários para ganhar a vida. E aquele homem, que não precisaria de mais de um minuto para conquistá-la e que era incom­patível com ela em todos os aspectos.

— Vá.

— Isto não é o fim.

Mattie fez o tradicional gesto evasivo com os ombros. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas nada saiu, pois ambos escutaram ao mesmo tempo o ruído da chave na porta. Mattie virou-se para a entrada, com Darius irrequieto a observá-la.

O que diabos ela estava pensando? Que Frankie nunca voltaria? Ela estava tão envolvida com Darius Drecos que se esqueceu por completo da realidade?

Aí chegava a realidade, Mattie afirmou a si mesma com rigor, e não se esqueça disso.

Cambaleante, Frankie entrou em casa com o tradicional olhar be­ligerante, adotado sempre quando bêbado e o comportamento ques­tionado por Mattie. Demorou um instante até que o namorado notasse um Darius de cabeça erguida e sem aparentar nenhum constrangi­mento com a situação. Aquilo modificou a expressão de Frankie. De bravo para estupefato em segundos.

— Quem é esse cara? — As palavras saíam com dificuldade, mas o cérebro de Frankie ainda operava.

Darius deu dois passos adiante, sem se preocupar em estender a mão para cumprimentá-lo. Tampouco teve a iniciativa de se apresentar.

— O meu substituto. Bom proveito — foi tudo o que ele disse para ela. Mattie mal olhou para Darius. Como ele pôde?

Partiu. Sem pressa. Por último, fitara com desprezo o inebriado Frankie.

 

— O que está acontecendo aqui, Mattie? — Frankie se mostrou confuso e vulnerável, e a piedade a inundou por dentro. Ela titubeava sobre quem odiar mais: Darius, por deixá-la naquela situação, ou ela, por permitir.

— Nós precisamos ter uma conversa, Frankie. Amanhã. Quando você estiver...

— Em condições mais apresentáveis? — Ele riu com amargura. — Melhor terminar logo com isso. — O namorado cambaleou até a sala e desabou sobre o sofá.

Mattie chegou a deduzir que ele dormira, mas Frankie coçou os olhos e a fitou.

— Você tem que ficar em pé aí na entrada como um sargento estúpido?

— Olha, Frankie... — Com alguns passos ela juntou-se a ele na sala. Sentou-se na poltrona e levantou as pernas para abraçar os joe­lhos. Buscava concentrar forças, já que a sua moral ficara lá embaixo.

— Há quanto tempo está rolando, Mattie? Um mês? Dois? Um ano? — Frankie cobriu o rosto com as duas mãos. Quando olhou de volta para ela, ele não aparentava raiva ou ciúme, e sim tristeza e arrependimento.

— Não tem nada rolando, Frankie. Você tem de acreditar em mim. Eu o encontrei há uma semana na boate. Bem, ele me encontrou, me seguiu, mas nada aconteceu. — Os beijos de Darius vieram à cabeça dela, os mesmos que a fizeram desmoronar. Ainda que não tivessem dormido juntos, na cabeça dela a traição havia sido cometida.

— Eu não a culpo, Mattie. — Desta vez havia uma espécie de autodesprezo no riso dele. — Olhe para mim. Você acha que não sei no que me transformei? Nada do homem que você pensou que fosse me tornar. Um fracassado, está escrito aqui na minha testa.

— Não. — Ela sentiu as lágrimas lhe alfinetarem os olhos e correu até o sofá onde ele estava jogado para abraçá-lo. Abraçou-o como uma mãe a consolar o filho machucado.

— Eu e você, Mattie, nós não estamos indo a lugar nenhum.

— Não diga isso, Frankie. Eu... Você sabe o quanto...

— Me amou um dia? Sei, sei que sim. — Ele segurou os braços dela. Pela primeira vez em muito, muito tempo, eles tinham um con­tato físico. Nenhum estímulo sexual os inspirava, apenas o afeto de anos de convívio.

— Eu ainda o amo, Frankie. Eu nunca o magoaria, nunca! E Darius não é ninguém. Nós não transamos.

— E eu nunca quis machucar você, amor, mas a gente está fazendo mal um para o outro. Não podemos negar. Eu ia ser alguém, mas veio o acidente, e tudo se perdeu. Eu, você, nós. Duas crianças brincando de casinha, isto é o que somos.

— Não diga isso. — As lágrimas hesitantes progrediram para um choro silencioso.

— Eu sei que você não tem um outro lugar para ficar, Mattie, e não vou botá-la pra fora. Nunca faria isso. Você pode ficar aqui pelo tempo quiser, mas...

Ela já havia refletido sobre tudo aquilo, reconhecia a verdade em cada palavra dita agora pelo namorado, mas sentia-se despedaçada em milhares de cacos. Para o bem ou para o mal, Frankie fora sempre a certeza da vida dela.

— Eu transformei a sua vida num inferno nos últimos meses, Mat­tie. Me odiei por fazer isso, mas simplesmente não podia evitar. Não chore, meu amor. Eu tenho um lenço aqui, em algum lugar. Não, não tenho. Use a minha camisa.

— Eu não deveria ter feito esse curso. Eu deveria ter ficado no meu emprego. Você estava certo.

— Você está falando besteira, e você sabe disso. — Frankie suspi­rou e a abraçou com mais força. — Eu estava com ciúme, só isso. Vendo você avançar, prosperar, e eu caindo na bebida. Mattie, nós éramos garotos quando nos conhecemos. Então tudo aquilo aconte­ceu, a gente cresceu, e...

— Não diga isso — sussurrou Mattie.

Ela sabia o que o namorado iria dizer. Mattie já havia dito o mes­mo para si.

— A gente não serve um para o outro, Mattie. Meu Deus, a gente não se toca há meses. Passou muito tempo desde que a gente não conseguia se descolar um do outro! Você se lembra? Quando éramos jovens?

— Eu não posso me separar de você, Frankie. Não depois de tudo que a gente já passou.

— Você precisa, Mattie. Não posso depender da sua boa vontade durante toda a minha vida. Amanhã, vou sair daqui por um tempo. Você fica com a casa por enquanto e prepara a sua mudança sem pressa.

— Para onde você vai? — Ela levantou o rosto de choro para olhar o namorado.

— Não se preocupe com isso. Eu tenho amigos.

A conversa com Frankie se repetiu nos seus ouvidos pelos dias que se seguiram. Mattie carregava as palavras dele como um peso invisível.

Um peso que não demorou muito a se desfazer.

De repente, como uma neblina, começou a se dissolver. E talvez tenha sido o otimismo de que ela poderia retomar a sua vida e contro­lar o seu destino que havia atraído a sorte grande.

Sorte grande na forma da possibilidade de um novo trabalho, não por intermédio de uma agência de empregos, mas via Josephine New­ton, a formidável coordenadora do curso. Ela chamara Mattie porque, segundo palavras da própria professora, tinha uma surpresa agradável para a aluna.

"Naturalmente, não é algo certo", advertia a professora, "mas uma entrevista é um passo vital." Ela combinava rigor e gentileza ao falar com a sua aluna mais esforçada. "E creio que você não terá problemas para impressionar qualquer patrão em potencial."

A sorte de Mattie era tão boa, que ela se beliscou para certificar-se de que não sonhava, de que não acordaria de volta para o mesmo impasse, para a situação deplorável em que vivia.

Frankie cumpriu a sua palavra e não a procurou. Telefonou algu­mas vezes e deu a impressão de estar muito mais feliz longe dela do que quando morava ali. Deu-lhe os parabéns, que soaram sinceros, pelo emprego em potencial.

Mattie esperava que ele aparecesse em algum momento para que os dois pudessem discutir a mudança dela. Quando dez dias depois de ter sido aceita pelo Grupo Devereux, ela ouviu o toque da campainha de casa, levantou-se com um salto, contente em saber que a conversa agora não doeria nem metade do último encontro com Frankie havia sofrido.

Mattie, por um momento, sofreu o abalo de se deparar com Darius do outro lado da porta. Passado o susto, aceitou tranqüila a presença dele. No fundo, sem saber como e por que, ela contava com a vinda dele e o esperava.

— Você vai me convidar para entrar, ou a gente precisa ficar se olhando aqui por mais alguns minutos?

Aquela voz blasé e suave! A mesma que lhe invadia os sonhos todas as noites, a mesma com a qual conversava em seus pensamen­tos, contando tudo o que se passava na vida dela.

— Perdão. — Mattie deu dois passos para trás. Em vez de seguir em direção à sala, Darius entrou e esperou que ela fechasse a porta.

— Você está... diferente — murmurou ele examinando-a. Parecia que anos se passaram desde a última vez que a vira. Darius havia se contido para não visitá-la antes. Seja lá o que tivesse saído do acerto de contas entre Mattie e Frankie, o resultado ainda estaria muito re­cente para que ela tolerasse vê-lo.

Darius não se dispusera a correr o risco de afugentá-la. Não após se convencer de que a teria, não importa as circunstâncias ou conse­qüências. E a teria de acordo com as regras dele, isto é, queria a livre concordância de Mattie, e não que a mulher se sujeitasse a ele pelo fato de o corpo dela, temporariamente, não obedecer à mente. Mattie tinha que se entregar por inteiro, sem nenhum drama de consciência.

Para isso ele precisara esperar.

— Diferente? — Mattie sorriu, um pouco nervosa. — Eu aparei o meu cabelo. — Você não gostou?, quis perguntar. — Os cabelos longos estavam OK para a boate, mas... Bem, na verdade, eu não trabalho mais lá... Minha última noite foi na semana passada.

Darius olhou para baixo por uma fração de segundo, antes de abrir um sorriso para ela.

— Eu suponho que um monte de coisas aconteceu com você. Por que não jantamos juntos para você me contar tudo?

O convite despertou todas as velhas dúvidas em relação a ele, mas de imediato elas foram dando lugar a uma sensação que Mattie não experimentara ainda na presença de Darius, um sentimento de auto-estima.

— Claro. Por que não? — Ela reparou no que vestia e deu uma risada. — Fast-food em algum lugar, ou devo me vestir de forma mais apresentável?

— Fast-food?

— Sim, você sabe do que eu estou falando. Pedaços de frango empanados, batatas fritas meio moles, talheres de plástico, letreiros lu­minosos, fila no caixa... — Darius fez uma cara de tão chocado com a possibilidade que Mattie se conteve para não gargalhar.

— Uma garrafa de Chablis, salmão, pommes frites...

— Em outras palavras, peixe com fritas.

— Mas com prato e talheres para gente grande. — Darius sorriu. — Conheço um lugar excelente para se comer frutos do mar. Você gosta de frutos do mar?

— Minha comida preferida. Eu vou mudar de roupa. Por que você não entra e me espera na sala? Frankie...

Darius observou o lamento cruzar o rosto dela e ansiou, aflito, que longe dos olhos significasse neste caso longe também do coração.

— Frankie não vai irromper porta adentro...

Ela vestiu-se com rapidez e cuidado. Nada sexy, nada que lem­brasse a garçonete que ela havia sido. Chique, a elegância que ela podia sustentar com o seu orçamento limitado.

Uma saia preta justa, mas que chegava até os joelhos, uma camise­ta de seda rosa, combinando com o casaquinho, sapatos pretos de salto baixo, comprados para o novo emprego, meia-calça preta, pois o verão se despedia e o vento frio voltara há poucas semanas.

Quando Mattie finalmente se pôs de frente ao espelho, seus olhos brilhavam, inquietos. Voltou à sala, sentindo-se como uma adoles­cente em seu primeiro encontro.

Darius não sentara. Perto da janela, tinha as mãos nos bolsos da calça. No momento que Mattie reapareceu, ele virou-se para vê-la chegar.

— Melhor? — perguntou Mattie nervosa. Muito nervosa! — Ou eu devo usar a minha tiara de diamantes?

— A tiara poderia ficar um pouquinho exagerada. — Meu Deus, ela estava deliciosa, pensou Darius. O cabelo mais curto combinou bem, lhe deu uma beleza mais refinada, ainda mais tentadora.

— Então — murmurou ele, logo após os dois entrarem no carro e partirem para Chiswick. — Não mais, Frankie?

— Não mais, Frankie.

— Feliz? — Ele gostaria de poder prestar atenção nela, monitorar-lhe as expressões para avaliar o que passava naquela cabeça. Precisa­va, contudo, se concentrar no volante. Ela representava uma distra­ção até para os motoristas mais cuidadosos.

— Sim e não.

— O que isso significa? — As mãos dele espremeram a direção, mas Darius manteve o tom de voz equilibrado.

— As coisas não andavam bem entre nós. Quero dizer, é bom que... que ambos tenhamos chegado à mesma conclusão, mas... ele foi parte da minha vida por muito tempo, eu preciso ainda me acostumar... — Mattie abria o coração. — Ele me deixou ficar na casa até que eu ache um lugar para ficar... e adivinha o quê?

— O quê?

— Me ofereceram um emprego e... — Ela fez uma pausa para fazer um suspense sobre o que contaria em seguida. — Como parte do contrato, eles me ofereceram um apartamento! Você acredita nis­so? Eu não pude. A empresa está liderando a campanha publicitária de um empreendimento enorme no sul de Londres. Apartamentos, academias, lojas, um montão de coisas! E, enquanto estiver envolvi­da com o marketing, a minha companhia tem o direito de alojar seus empregados em alguns apartamentos do empreendimento. Tudo aconteceu no momento certo. Não é fantástico?

— Fantástico. — Ele sentiu uma pontada de culpa, mas se conso­lou com o fato de que Mattie chegaria lá, de qualquer maneira. Ela era dedicada. Caso contrário, como terminaria o curso enfrentando tan­tos problemas? E ela era talentosa também. A melhor aluna da facul­dade desde que colocou pela primeira vez o pé na sala de aula.

— Você não parece muito feliz por mim. — E isso feria Mattie.

— Eu estou imensamente feliz por você — cortou Darius. — Como Frankie reagiu depois que fui embora?

— Não da maneira que esperei. Você me acha capaz de dar conta desse emprego, não acha?

— Se você é capaz de estudar de dia e trabalhar à noite, você está capacitada para ser a primeira-ministra do país.

— É, bem, acho que o fator experiência não conta a meu favor.

— O que você quis dizer com "não da maneira que esperei"?

— Ele não deu nenhum ataque de ciúmes, muito pelo contrário. Resignou-se. Na verdade, foi ele quem terminou tudo.

Melhor assim, pensou Darius. Desse modo, ela nunca vai ficar imaginando o que poderia ter sido. Ele a queria livre, livre para ele.

O restaurante apareceu diante deles, sem que Darius se desse con­ta de que eles haviam chegado. A fachada antiga e charmosa contras­tava com o interior do lugar. Ao entrarem, Darius pôde ouvir Mattie tomar fôlego para assimilar o ambiente luxuoso. Muito vidro na de­coração, muito cromo, e pessoas bonitas, que se achavam mais vir­tuosas quando comiam peixe em vez de carne vermelha.

— Não diga isso. — Darius curvou-se para adverti-la, e Mattie sentiu o sussurro quente junto à nuca.

— Não diga o quê?

— Que este não é o tipo de lugar que você costuma ir.

— Este não é o tipo de lugar que eu costumo ir — informou ela, como se cumprisse uma obrigação. No entanto, ninguém ali notaria. Para Mattie, foi como entrar no futuro brilhante que a esperava, um presente de Natal aguardando para ser desembrulhado.

Mattie teve a impressão de que Darius podia ler os seus pensamen­tos e se alegrava com a conclusão a que ela chegava. A conclusão de que as fronteiras entre as pessoas só existiam na cabeça dela.

A partir daí, eles passaram a ser paparicados, levados até a sua mesa, brindados com o cardápio, que mais lembrava um pergaminho, pois era necessário desenrolá-lo para lê-lo.

— Hmmm. Suflê de frutos do mar! — Mattie imitou grã-fino. — Salmão, grelhado, salpicado de molho de cogumelos selvagens! O meu favorito!

Darius recostou-se para assistir à satisfação dela. Ele ficaria ali para sempre.

Sob aquele olhar de ternura, ela sentiu-se de repente e de forma inesperada envergonhada. Aonde teria ido a mulher firme e hostil? Darius não mudou, ainda habitava um mundo diferente do dela, e Mattie ordenou a si mesma que melhor seria se ela não se esquecesse disso.

— Então — disse ele, devagar —, salmão grelhado, ao molho de cogumelos hoje. E amanhã?

— Você deve pensar que sou um pouco ridícula. Todo esse alarde apenas porque estou saindo para o mundo real. Bem, não exatamente real, mas...

— Você está agarrando as suas oportunidades. Não tem nada de ridículo nisso.

— Eu acho que as mulheres... com quem você se relaciona não têm esse tipo de dilema. — Mattie sorriu e ficou aliviada com a chegada do garçom para anotar os pedidos.

— Não — afirmou Darius. — A maioria delas se conforma em desperdiçar as oportunidades. É claro que encontrei mulheres no tra­balho que deram duro para construir suas carreiras. Porém, conheci mulheres cuja ambição na vida era casar com um homem rico.

— E qual delas você prefere? — indagou Mattie.

A resposta ficou em suspenso devido à chegada do prometido Chablis à mesa.

— Eu não classifico as mulheres que acho atraentes.

— Bem, você não respondeu. — disse Mattie contrariada. Darius riu da reação dela. — E não se esqueça que nós fizemos um acordo...

— Um acordo?

— Isso mesmo. — Mattie terminou a primeira taça de vinho, e Darius lhe serviu mais.

Mattie nunca fora uma amante do álcool. A primeira taça de vinho foi direto para a sua cabeça e, de modo prazeroso, diluiu o nervosismo.

— Eu lhe contei uma versão compacta da história da minha vida quando nos encontramos pela última vez. Isto é, quando você apare­ceu sem ser convidado na minha casa. E você me prometeu contar a sua também.

O garçom trouxera as entradas, mas Mattie quase não notou, ocu­pada que estava em se concentrar no homem diante dela.

Darius a examinava em meio a uma mordida no salmão defumado.

— Eu pensei que você já tinha o meu currículo. Pelo menos você insistiu em me qualificar todas as vezes que nos encontramos.

— Onde você cresceu?

— Grécia e Inglaterra. Grécia para as férias, Inglaterra para estu­dar. Entrei no colégio interno aos 11 anos.

— E como foi? — A escola foi um pesadelo para Mattie. A neces­sidade de se adequar ao que pensava e dizia a maioria dos colegas foi grande. Ler livros e estudar eram coisas que tinham de ser feitas escondidas da galera. Não que os seus pais não a encorajavam, mas ela encarava as aulas com a indiferença de quem já era o centro das atenções no mundo dos adolescentes. A garota mais bonita, que na­morava o cara mais cobiçado.

Mattie ouvia com inveja Darius contar as experiências dele na escola, ria das histórias dele com os colegas. Já naquela idade, ele sabia que da escola iria para a universidade e alcançaria os mais altos degraus na vida profissional.

Ela também contou a ele sobre os seus tempos de colégio. As garotas que fumavam atrás do abrigo para bicicletas. Os garotos que ficavam bêbados. As aulas matadas. Meninas grávidas, o que na épo­ca era um escândalo. Risadas e burburinho em apoio aos garotos baderneiros, admirados pelo desleixo em sala de aula e pelos comen­tários ridículos para irritar os professores. Nada de canivetes ou vio­lência de verdade. Não se chegava a esse ponto.

Entretida, Mattie surpreendeu-se ao perceber que eles haviam fi­nalizado a primeira garrafa de vinho e já bebiam da segunda.

Fazia tempo que ela não se sentia tão relaxada. Ela comeu o peixe e disse a Darius que a refeição não fora nem um pouco melhor do que o tradicional peixe frito com batata frita que ela comia numa lancho­nete em Shepherds Bush.

— E quando vou poder tirar a prova disso? — perguntou Darius.

— Ah, não. — Mattie sorriu, sedutora, e brincou: — O serviço vai cair se os grã-finos invadirem o lugar.

— Eu posso me vestir de forma mais relaxada — rebateu Darius, rindo da tirada, exagerando no tom solene. Se uma bomba atômica caísse ali, ele nem se daria conta, pois tudo o que podia ver na sua frente era aquela criatura de rosto alegre e vivido, mãos finas delica­das e expressivas.

— Eu aposto que você nunca se vestiu de um jeito largado na vida.

— Jeans? Camiseta amarrotada? Tênis? Eu consigo, sim. — Ele coçou o queixo, pensativo. — Mas é claro que eu precisaria fazer umas compras...

Darius sabia que a piada a divertiria, e ele queria ouvir a risada dela.

Ele pediu a conta com um gesto.

Mattie lamentava que a noite aproximava-se do fim.

— Eu posso pegar um táxi de volta para casa — afirmou ela, enquanto Darius assinava o comprovante do cartão de crédito.

— Isso tem um quê de déjà-vu — resmungou Darius, pondo-se de pé.

— Nós não podemos... — Não adiantava fingir que ela não tinha lido as intenções no olhar de Darius. Nem se enganar sobre o que a vontade dele excitara nela. Mas era já preocupante ela ter se divertido tanto no jantar, um passo perigoso para se viciar na companhia dele. Dormir com Darius seria perder todo o juízo que restara.

— Por que nós não podemos? — murmurou Darius.

Ele pôs a mão no cotovelo dela e a escoltou até a saída do restau­rante. Ao toque dele, Mattie esforçou-se para manter inteiro o seu bom senso, que se esfarelava em meio à excitação e ao medo de ser sugada pelos próprios instintos.

— Frankie e eu terminamos há pouco tempo — explicou Mattie, apelando para ele e para ela também. — Eu não estou disponível agora.

— Por que nós devemos lutar contra o que sentimos? Eu vou chamar um táxi para nós dois. Isso já passou dos limites.

— E o seu carro?

— Ele fica aqui. Eu mando o meu motorista pegá-lo.

— Está vendo por que nós não podemos nos envolver!

— Por que vou ter que deixar o meu carro aqui.

— Você está deliberadamente se fazendo de desentendido!

— E você está deliberadamente tentando encontrar desculpas. Por quê? — Darius inclinou-se para ficar frente a frente com ela. Mattie inspirou fundo o aroma limpo e masculino dele. — Por que você foge tanto? — O tom da pergunta de Darius misturava inconformismo e zombaria pelas idas e vindas dela.

— Eu não quero me envolver — reagiu Mattie, sem a mesma ênfase de protestos anteriores. O táxi pedido se aproximava.

— Sobre que tipo de envolvimento você está falando? Um homem pendurado nos seus ombros como um peso morto? Era isso que você tinha com ele, ou você se esqueceu? Acredite em mim, eu tampouco quero envolvimento.

O táxi parou, e Darius, pela janela do motorista, deu o seu endere­ço como destino. Em seguida, olhou para Mattie e abriu devagar um sorriso. A barriga dela gelou.

— Ser ou não ser...?

Mattie entrou no carro e deslizou no banco de trás para dar espaço para ele. Uma excitação quente e traiçoeira pulsava nas veias dela. Ela não sabia por que insistia em discutir. Cada argumento que apre­sentava, ele rebatia com uma resposta razoável.

— Você prefere morar com um homem pelo qual tem pena e se proibir de qualquer outra experiência? O hábito pode ser uma coisa destrutiva, Mattie.

— Frankie não... — Ah, sim, ele fez. O ex-namorado a exauriu, riu das suas aspirações, assistiu à batalha da namorada para ganhar dinhei­ro, enquanto bebia as economias, sem se dar ao trabalho de procurar um emprego. Ele foi egoísta, egoísta como uma criança. E foi provavel­mente por causa do lado infantil dele que ela o suportou.

Darius Drecos não era uma criança. Ele era cem por cento homem. Ele poderia magoá-la de uma maneira diferente, Mattie intuía.

— Pare de arrumar desculpas para esse homem — disse Darius. — Você pode conhecê-lo há muito tempo, mas isso não o impede de ter sido uma corda no seu pescoço.

— Você é tão frio e calculista — resmungou Mattie.

— Eu sou realista. Nós dois somos adultos e estamos atraídos um pelo outro. Mais: nenhum dos dois busca compromisso ou casamen­to. Ou não?

— Eu, definitivamente, não — respondeu Mattie brava. — Você não precisa ter medo de se enrolar com uma mulher que não tem absolutamente nada a ver com você.

— É assim que você vê as coisas. — Todo o autocontrole dele estava empenhado em evitar uma aproximação, um toque nela. Da­rius não conseguia se lembrar de quando quis tanto uma mulher como queria Mattie, ou de quando foi obrigado a conter tanto os seus ins­tintos. — Que não haveria nenhuma chance de eu querer uma relação séria com você por sermos de origens sociais diferentes?

Mattie balançou a cabeça de modo cínico.

— Não que isso faça alguma diferença para mim — disse ela. — Estou apenas tentando esclarecer as coisas.

— Você quer dizer que não ficaria magoada se esse fosse o caso?

No minuto em que ele fez a indagação, disparada com a costumei­ra precisão para atingi-la na região mais vulnerável, Mattie levantou a crista para se defender.

— Por que deveria? Eu venho apontando as nossas diferenças desde que nos conhecemos.

— E venho falando, desde que você começou com esse papo de que somos de mundos distintos, que a sua origem não faz nenhuma diferença para mim. — Darius balançou a cabeça com impaciência. — Talvez pelo fato de não ser inglês a minha cabeça não foi martela­da com toda essa baboseira sobre classes sociais. Não, não quero nenhum envolvimento, por que...

— Por que o quê?

Darius a observou em silêncio por alguns poucos segundos, antes de passar a mão pelos cabelos, tenso.

— Fale, vamos — pediu Mattie. — Você é muito bom em deixar sem respostas as perguntas que você não quer responder, e estou cansada disso.

— Você está... O quê...?

— Você não pode culpar uma garota por querer saber um pouqui­nho sobre o cara que está tentando levá-la para cama.

Darius soltou uma risada e a olhou com apreço, em vez de impa­ciência.

— Eu começo a pensar que você adotou o tipo eu-a-garota-pobre só para conduzir as coisas à sua maneira.

— Um namoro frustrado? — pressionou Mattie. — Alguma coita­da se envolveu mais do que devia com você e se transformou na corda do seu pescoço?

— Você me excita.

— Você está mudando de assunto. — Aquelas três palavras fize­ram com que Mattie ficasse totalmente ávida por aquele homem, pois o corpo não obedecia ao seu cérebro.

Darius a fitava, pensativo. Afastou-se para examiná-la melhor. Se havia alguma coisa que essa mulher não era, essa coisa era evasiva, e ele gostava disso.

— Seis meses atrás terminei com uma mulher chamada Rosalind. — E você é a primeira pessoa com quem converso sobre isso, Darius poderia ter acrescentado. — A gente saiu por quase um ano, e, no decorrer desse ano, ela se transformou de uma pessoa fácil e divertida para uma grudenta e possessiva.

— O que deve ter sido um golpe duro para um espírito livre como o seu — opinou Mattie. Na escuridão do carro Darius corou, atingido pela alfinetada.

— Será que foi de sarcasmo o tom de voz diferente deste comen­tário?

— Se você vestiu a carapuça... O que aconteceu então?

— Eu preciso entrar em detalhes?

— Precisa. — Ela estava adorando aquilo tudo. — Quem começa vai até o fim.

— Me poupe dos provérbios, por favor. — Darius apoiou o coto­velo na porta do carro e o queixo na mão. Matutava sobre o motivo pelo qual ele estava tão caído por aquela mulher.

— Me poupe das evasivas.

— Bom, se você quer saber, ela começou a telefonar para o meu escritório. Não apenas uma vez ou duas por dia, mas literalmente dúzias. No fim, tive que orientar a minha secretária a bloquear as ligações. Quando tentava conversar com ela a respeito, ela chorava, o famoso truque das mulheres.

— Ei! Das mulheres que você conhece.

— E você nunca derramou uma lágrima?

— Não como parte de chantagem emocional — respondeu Mattie, enojada.

— Bem, ela derramou. Depois ficou pior. Ela foi das lágrimas para a raiva. Enfim, disse a ela que a relação tinha acabado. Aí, ela começou a me seguir. Eu ia para casa à noite e encontrava o carro dela estacionado do lado de fora, e ela me esperando chegar. Um pesadelo.

Mattie escutava o relato quieta, contendo a revolta com tal com­portamento.

— O que você fez?

— Eu a enfrentei. Falei que se aquilo não acabasse eu procuraria a polícia, e os pais dela ficariam sabendo de tudo. Felizmente, isso funcionou, mas essa é a razão de eu, vamos dizer assim, estar um pouco cauteloso em relação a envolvimentos com o sexo frágil. Está vendo, os resumos de nossas vidas têm mais em comum do que você pensava.

O táxi parava em frente ao prédio dele. Mattie até se esquecera que andava de carro. Saiu do carro, esperou que Darius se juntasse a ela e lhe perguntou, cuidadosa, a caminho da portaria:

— E como você se sente, você sabe, em relação a ela?

— Como me sinto? — Desta vez não haveria conversas embaraço­sas na recepção. Ele a levava diretamente para o elevador, embora, por mais absurdo que pudesse soar, não tinha ainda certeza se acaba­ria com ela no seu colchão king-size.

— Sim, sentir. Você ainda a ama?

— Eu gostava dela no início.

— Eu estou falando de amor.

— Amor? — As portas do elevador se fecharam. Os espelhos nas laterais da cabine os refletiam. Darius pôde ver aqueles olhos verdes de franqueza observando cada ângulo dele, enquanto Mattie subia pelas paredes aguardando a resposta que ela, acabara de descobrir, não queria ouvir. Não queria imaginá-lo ressentido por ter se apaixo­nado por uma mulher que se revelou a mulher errada para ele. Ela preferia ficar com a opção de que Darius gostara da ex-namorada por que... por que...

Ela suspirou aliviada quando as portas se abriram, mas o alívio durou pouco, desbancada pelo coração acelerado. As batidas se tor­navam mais intensas à medida que ele encaixava a chave na fechadura e abria a porta de casa.

— Isso é passado, Mattie — murmurou Darius, afastando-se para lhe abrir caminho. — Isto aqui é o presente. Para nós dois. Você não acha?

 

Ele fazia com que tudo parecesse perfeito. Duas pessoas, ambas de­siludidas com as suas relações anteriores, sem que pudessem evitar a atração recíproca, mas cientes da inconveniência de se apaixonarem.

Gato escaldado tem medo de água fria, pensava Mattie agora. Ti­nha o raciocínio movido a provérbios.

Frankie e ela deveriam ter constituído o casal ideal. Evoluíram de amiguinhos de infância para namorados da adolescência. Tinham que terminar, logicamente, como adultos felizes e realizados, mas acaba­ram mais enrolados do que um novelo de lã.

E Darius nem precisava lhe revelar o que ela já havia deduzido por conta própria. Rosalind pertencia ao mesmo meio social que ele, e mesmo assim a relação ruiu sob o peso das incompatibilidades.

E aí estavam Darius e Mattie agora, sem almejar nada além do presente.

E meu Deus, como ela o queria, cada músculo do corpo dela o queria.

Mattie recusou a oferta de uma bebida. Encarou-o. Estremeceu e delirou diante do calor intenso da olhada dele.

— Não quer mesmo um drinque para criar coragem? — perguntou Darius, enfim, cedendo ao anseio de tocá-la. Acariciou o rosto de Mattie com suas mãos largas.

— Eu só preciso de álcool para fazer o que eu não quero fazer — respondeu Mattie. Ela espalmou as duas mãos no peito de Darius e começou a desabotoar a camisa dele com os dedos trêmulos. A cada botão fora da sua casa, Mattie contemplava um pouco mais do tórax bronzeado, firme, e dos ombros musculosos.

— Melhor você parar por aí — aconselhou Darius, com a voz rouca. — Ou não vai dar tempo de a gente chegar até o quarto.

Ele a pegou no colo e a levou para um dos quartos do apartamento, chutando a porta para abrir a passagem.

Gentilmente, Darius a acomodou na sua cama. Em silêncio, ele a observou deitada por uns poucos segundos, nos quais Mattie sentiu que o coração dela desacelerou. Darius, então, acendeu um dos aba­jures da cômoda que tomava uma parede inteira do aposento.

Mattie tinha vontade de se esticar na cama como um gato, para que o calor do olhar dele a aquecesse por inteiro. Ela se contorceu um pouco, suspirou e assistiu fascinada a Darius tirar a roupa.

A um desavisado, Mattie passaria a idéia de ser uma virgem mara­vilhada com as primeiras imagens do corpo masculino em toda a sua glória. Não que todos os corpos masculinos fossem gloriosos como o de Darius. Se é que havia um tão glorioso.

Ele livrou-se da camisa social e expôs os ombros largos, a barriga dura, de músculos definidos, mamilos planos e escuros. Lentamente, desafivelou o cinto. O olhar de Mattie seguia as mãos de Darius e se fixava agora no ponto onde ele abria o zíper da calça, a cintura perfei­ta dele.

— Prepare-se — afirmou Darius, sorrindo. — Quando eu acabar, vai ser a sua vez...

— Eu posso ter usado vestidinhos apertados em boates, mas strip-tease não é a minha especialidade. — Mattie ficou com a boca seca, ao acompanhar Darius deslizar os dedos por entre o elástico da cueca boxer. E então os lábios dela curvaram-se num sorriso malicioso, de pura satisfação, ao avistarem e constatarem o tamanho da masculinidade dele.

— Bem, vamos ter que aprimorar esse seu lado. — Darius debru­çou-se sobre Mattie e começou a despi-la, saboreando cada segundo da exposição gradual do corpo dela.

A pele de Mattie tinha textura de cetim. Primeiro, os ombros. Depois o resto, exceto o sutiã de renda que mal lhe escondia os seios. Um toque no fecho e pronto. Darius abriu o sutiã e gemeu ao libertar as duas elevações brancas, generosas, e ao revelar os botões de rosa, que ele sonhara acariciar.

Mattie permanecia deitada, sem se mover, trocando olhares com ele. Uma onda de desejo, de tão poderosa, a obrigou a fechar os olhos e a fez suspirar.

Ela queria que Darius a tocasse. Seus seios ansiavam pelo toque dele.

Em vez disso, ele terminou o que iniciara. Tirou toda a roupa dela até que Mattie ficasse inteiramente nua.

— Feliz? — perguntou ele, com uma voz trêmula. Deitou-se então sobre ela e, por alguns momentos, somente a olhou. Mais do que tudo, queria vê-la feliz, saber que Mattie se entregava a ele de corpo e alma, sem dúvidas, sem culpas.

— Feliz — reconheceu Mattie, tão trêmula quanto ele. Ela levan­tou os braços para colocar as mãos em volta da cabeça de Darius e trazê-lo para beijá-la. O beijo pareceu sem fim, devagar, estimulante. O beijo explorador, sem pressa, de um casal para o qual o tempo finalmente parará.

— Eu me sinto como uma adolescente. — Mattie sorriu, sem fôlego.

— Nós deveríamos ter nos encontrado quando você era uma.

— Ah, aos 16, eu estava encantada por Frankie. — Mattie espi­chou o pescoço para dar uma série de beijos rápidos na sua boca, movendo o corpo sinuosamente debaixo de Darius, adorando sentir seu membro duro contra ela.

— Porque você não tinha ainda me conhecido. — Darius moveu-se para baixo, trilhando com a língua o pescoço dela, descendo até o vão entre os seios. Mattie prendeu a respiração e curvou a espinha para facilitar o trabalho dele. Soltou um gemido longo de absoluto prazer, quando por fim Darius envolveu com a boca um dos mamilos dela e se pôs a sugá-lo, acariciá-lo com a língua.

Darius segurou as mãos inquietas de Mattie e as prendeu uma em cada lado dos seus corpos, enquanto continuava a brincar com os seios dela, provocá-los com a boca. Primeiro um, depois o outro, até que os dois mamilos latejassem.

Quando ela gritou, parecia a voz de uma outra pessoa, vinda de um outro lugar.

À mercê do ritual lento e cuidadoso de Darius, Mattie nunca expe­rimentara tamanha sensualidade. Ela tinha consciência de como se remexia embaixo dele. Queria mais. E queria agora.

No entanto, Darius seguia sem pressa.

Ele havia esperado por aquela mulher. Ao tocá-la, sentir o movi­mento dela, ouvi-la gemer por ele, Darius tinha a impressão de que a esperara por toda a vida. Não correria com as coisas agora, embora soubesse que bastaria Mattie tomar a iniciativa para que ele corresse o sério risco de não se segurar. Ele não era mais o mestre do amor. O amor o comandava agora.

Darius soltou as mãos de Mattie e moveu-se ainda mais para bai­xo, sentindo com a boca a carne tensa do ventre dela. Passou para o umbigo. O corpo de Mattie respondeu aos carinhos instintivamente, afastando as pernas para acomodar a língua dele.

Mattie buscou ar, sem fôlego, no momento em que as mãos de Darius gentilmente pressionaram o interior suave das suas coxas, permitindo a ele acesso irrestrito à feminilidade úmida dela.

A partir daí, a ponta da língua dele começou a jogar com aquele pequeno botão, para lá e para cá, até Mattie estar a ponto de gritar de maravilhosa agonia. Sempre que a levava até o limite, Darius retroce­dia, deixando a emoção dela vazar, para voltar a saboreá-la, a lambê-la, a enviando para outro planeta, um que Mattie nunca visitara antes.

Será que ele se sentia excitado de maneira tão selvagem e descon­trolada pelo fato de ter ele esperado por ela, e não vice-versa? Darius não saberia responder. Admirá-la deitada passiva na cama, nua e glo­riosa, o eletrizava tanto, que ele havia sido momentaneamente priva­do de pensamentos.

E agora, enfim, sentindo o movimento dela sob ele...

Darius afastou-se um pouco e girou com ela para que agora fosse a vez de Mattie estar por cima. Os seios, tentadores, se bateram no ar sobre o rosto dele, e Darius capturou um dos mamilos com a boca. Sugou-o com força, mesmo já tendo a mulher colada no seu corpo. Mattie encaixara Darius nela de forma justa, aconchegante. Ela me­xia-se em um ritmo perfeito, dançando junto com ele.

Os corpos de ambos estavam sintonizados. Unidos como se fos­sem um só. Finalmente, os dois atingiram o clímax. Chegaram lá juntos.

Demorou até que o corpo agitado e trêmulo de Darius se restabe­lecesse do impacto do orgasmo. Mattie então se esparramou sobre ele com um pequeno suspiro. Minutos se passaram até que ela rolasse para se deitar ao lado dele. Com o cotovelo sobre o colchão, Mattie apoiou o rosto na mão para observá-lo de cima.

Ela poderia contemplá-lo ali para sempre. Darius virou-se, e eles se examinaram. Delicadamente, ele tirou o cabelo que cobria o rosto dela e a trouxe de volta para cima dele. Posicionou a cabeça de Mattie debaixo do seu queixo e beijou os cabelos finos e louros.

— Eu acho que devo começar a pensar em voltar para casa — disse Mattie, após um tempo. Ela traçara pequenos círculos imaginá­rios com o dedo no peito dele e se divertia naquele momento em percorrer o contorno de um dos mamilos de Darius.

— Por quê?

— Por que é lá freqüentemente que eu passo as noites.

— Freqüentemente?

— Satisfazer as nossas vontades, você quer dizer. — Em vez de ligar o motor, Darius enfiou a chave na ignição e se pôs a observá-la.

Ele poderia partir para o ataque neste momento e fazer amor com Mattie mais uma vez. Neste exato instante, neste exato lugar, como um adolescente aflito, sem a privacidade de um quarto para abrigar-se. Ela o excitava. Não apenas pelo corpo, mas também pela maneira como o olhava, uma olhada contemplativa.

Não, era mais do que isso, era a maneira como ela agia. Direta, engraçada, discreta, com um raciocínio ágil, nunca visto por Darius antes.

— Ah, é? — Mattie riu. — Então você está pensando nas nossas vontades! Bem, talvez numa outra vez. Agora eu acho que você deve­ria se mexer. Não quero que você vá dormir muito tarde por minha causa. Os donos de impérios precisam de um sono tranqüilo.

Darius ligou o carro e deixou o estacionamento. Ele não se impor­taria em tirar um dia de folga, se a contrapartida fosse passar o tempo inteiro na cama com ela.

— Pro seu governo, eu só preciso de umas poucas horas de sono para funcionar bem. Eu geralmente durmo pouco. Você vai fazer alguma coisa amanhã?

— Amanhã? — Ela se virou para a paisagem na janela e franziu a testa. — Eu preciso comprar umas roupas decentes para trabalhar e devo tentar me encontrar com Frankie, para combinar quando ele vai voltar para debaixo do próprio teto. Eu não faço a menor idéia de onde ele esteja, mas aposto que dormindo no chão da casa de alguém. — A voz de Mattie suavizou-se. — Ele tem sido fantástico durante todo esse tempo de separação.

As mãos de Darius espremeram o volante.

— Que herói — murmurou ele sarcástico, e Mattie o olhou de cara feia.

Se Mattie não tivesse a cabeça bem no lugar, ela poderia até detec­tar uma ponta de ciúme no comentário quase inaudível.

A idéia de um Darius ciumento, porém, provocaria gargalhadas, principalmente se a razão para tal sentimento fosse ela, uma mulher com quem ele mantinha uma relação adulta, sem compromissos, se é que o que eles tinham poderia ser chamado de uma relação.

— Eu por acaso penso que é heróico, sim, me deixar morar na própria casa, quando a gente não está mais junto. Você teria feito o mesmo?

— Eu não lido com hipóteses.

— Ah, me parece que a sua imaginação deixou você na mão. — Apesar da ofensiva, Mattie não encontrava nela disposição para um confronto com Darius. Os olhos de ambos se cruzaram por um segun­do, e a sintonia entre os dois provocou em Mattie um arrepio, que a amedrontou.

— Disso eu nunca fui acusado antes.

O tom de voz de Darius levou Mattie a suspeitar que ele se referia à imaginação dele na cama e ela não queria pensar nele entre lençóis com outra mulher.

— Bem, se você gasta as suas noites com bonequinhas de papel...

Darius riu, estendeu o braço e espalmou a mão sobre a coxa dela.

Mattie se excitou.

— Dirigir com uma das mãos não é seguro — disse ela, um pouco ofegante.

— Que pena. — Ele tirou a mão, deixando a perna dela fria e carente. — Há sempre a possibilidade de remediarmos a situação quando chegarmos à sua casa...

Mattie dividia-se entre a tentação de se entregar mais uma vez a ele e a voz da consciência que lhe dizia que não, que ela deveria se preservar, e isso significava traçar e explicitar os limites. Mattie ba­lançou a cabeça negativamente e com firmeza para ele.

— Então quando vou vê-la de novo? — Darius estacionava em frente à porta da casa dela. — Se você está ocupada amanhã, então eu pego você na sexta-feira, às 19h30. A gente pode jantar em algum lugar.

Mattie abriu a porta do carro, prevendo que ele a acompanharia até a entrada de casa. Ele assim procedeu. Mas Darius não poderia de jeito nenhum entrar na casa. Não quando parecia que bastaria ele se aproximar um pouco para ela perder o controle sobre si mesma.

— Não sei — despistou ela.

Não sei? Que diabos aquela mulher queria dizer com aquilo! Da­rius tomou a frente dela e obstruiu a porta da casa com os braços cruzados. Logo ele! O homem que abominava qualquer pessoa pos­sessiva! Ele que nunca, em toda a vida, mostrou o menor sinal de tal inconveniente emoção! Flagrava-se agora submisso, exigindo saber cada passo que ela planejava.

— Eu começo no emprego na segunda-feira — afirmou Mattie. — Você se importaria em sair da frente? Eu não posso entrar em casa se você ficar aí.

— Até aí estou entendendo. O que não compreendo é o que isso tem a ver com o fato de não poder ver você. — Autocontrole, Darius repetia para si. Ele era o mestre do autocontrole. Pelo menos assim ele pensava. Não se sentia tão controlado neste momento e permane­ceu, convicto, no mesmo lugar.

— Eu tenho um monte de coisas para fazer antes de começar no trabalho. Frankie vai querer voltar para casa o quanto antes. Logo, vou ter que me mudar no fim de semana. Eu vou ver a gerente de Recursos Humanos na sexta de manhã para assinar o que tiver para ser assinado.

— Você disse que o seu novo apartamento é... onde exatamente?

Mattie levantou as sobrancelhas, desconfiada, mas deu a ele o endereço.

— Tudo bem. — Ele desimpediu o caminho até a porta da casa e a olhou ainda um pouco contrariado. — Você pode precisar de uma ajuda com a mudança... Eu posso arrumar um caminhão ou uma ca­minhonete de qualquer tamanho.

Desta vez, Mattie riu com vontade.

— Eu não acho que isso tudo vai ser necessário. Os meus perten­ces cabem no banco de trás de um carro esporte. — Antes que Mattie pudesse esboçar qualquer reação, Darius segurou uma das suas mãos, a virou e a beijou na palma. Em seguida, beijou Mattie na boca.

Como ele a fazia tão... tão feliz! Será que por ter agüentado tanto tempo uma relação falida com Frankie ela agora se lambuzava com esse pouquinho de atenção?

— Sábado — murmurou Darius, descolando-se dela, mas próximo o suficiente para que Mattie sentisse o hálito quente dele. — Nove horas em ponto. Eu estarei aqui para ajudá-la com a mudança.

— Não seja ridículo. Eu sou totalmente...

— Eu sei. Totalmente capaz de fazer isso sozinha. Por que você não aceita uma ajudazinha pelo menos uma vez, quando essa ajuda é oferecida com a melhor das boas intenções?

O problema era saber qual era a intenção.

Obviamente, ela deveria ter batido o pé e recusado calmamente. Ele acabaria sendo mais um impedimento do que uma ajuda. No entanto, não foi assim que Mattie agiu. Como resultado, Darius teve a chance de se mostrar extremamente pontual, chegando à casa dela no sábado na hora marcada, a bordo de uma Ferrari prata rebaixada, que caía como uma luva nele.

De queixo caído, Mattie o viu descer do carro. Fechou a boca, pois não queria dar a impressão de ser uma daquelas que se impressiona­vam com carros. Estava disposta a lhe dizer isso, tão logo ela abrisse a porta de casa para ele.

— Cheguei — anunciou-se, rindo. — E vim vestido para a oca­sião.

Mattie espantou-se ao vê-lo de perto em jeans desbotado, tênis e um agasalho verde-escuro. Ela aprovou. Nele, o tradicional jeans desbotado ganhava um charme novo.

— E também trouxe o carro esporte solicitado. — Darius estalou um beijo na ponta do nariz dela.

— O que passou pela sua cabeça para achar que as minhas coisas caberiam num carro esporte! — Mattie riu e mostrou com o braço a pilha de coisas pacientemente trazidas escada abaixo.

Darius passeou pela casa, examinando a coleção de pertences dela, com uma expressão de quem aceitara a brincadeira.

— E quem disse que acreditei na historinha da mulher com pouca bagagem? O meu motorista está estacionado lá fora com um muito mais sensato Range Rover. Podemos segui-lo na Ferrari.

Mattie titubeou, mas cedeu. Por que se incomodar com aquilo? Darius estava certo ao opinar que ela precisava aprender a ignorar o orgulho e aceitar ajuda. E era uma grande ajuda tê-lo ali para auxiliar na mudança. Frankie se ofereceu, mas Mattie achou importante não aceitar. Mudar-se da casa dele representava o início de uma nova vida. Frankie não insistiu. Na verdade, aparentou alívio e disse algo sobre arrumar as próprias coisas, mas não entrou em detalhes.

Mattie sorriu:

— Tudo bem.

— Você vai e espera no carro. Eu e George vamos levar as coisas para a caminhonete. Há algo que você queira levar com você?

— Apenas a minha mochila. — Ela afastou-se, enquanto Darius media com os olhos tudo que teria de ser transportado. Mattie tentou conter o prazer de passar para ele o controle das ações. Receber cui­dados, em vez de cuidar de alguém o tempo inteiro, representava uma mudança enorme.

Obediente, ela foi para a Ferrari e observou Darius e o motorista descarregaram a bagagem no jipe 4x4. Depois, seguiram devagar, devido ao tráfego intenso no centro de Londres, rumo ao novo lar.

O empreendimento seria o maior no gênero, e a campanha publi­citária orgulhosamente anunciava as vantagens de morar ao sul do rio Tâmisa. O projeto englobava suítes privadas, escritórios, um andar inteiro de academias de ginástica, vários salões de beleza, espaços para conferência, estacionamento no subsolo e uma sala de cinema para uso exclusivo dos residentes. Tudo isso construído em volta de uma área central aberta e gramada.

Mattie descrevia tudo em detalhes, até perceber que ela conduzia um monólogo, e não uma conversa.

— Você não precisava vir e me ajudar — disse ela, colocando o orgulho de volta no lugar.

— Eu sei. — Darius sabia exatamente no que Mattie estava pen­sando. Entusiasmada, ela detalhara a grande oportunidade que tinha, só para esbarrar no muro de silêncio dele.

Mais cedo ou mais tarde, Darius teria que lhe contar. Ele se con­traía de preocupação diante desta perspectiva. Não era a hora ainda de falar. Esperaria ela se sentir segura no emprego, capaz de aceitar a verdade com moderação, talvez com bom humor.

Darius não dava corda para que Mattie prolongasse a conversa. Como alternativa, ele puxava papo sobre as atualidades de Londres, perguntava-lhe sobre os colegas do antigo trabalho na boate, se ela sentia falta de alguém, se mantinha contato com o pessoal. Em alguns minutos, a tensão evaporava do corpo dele.

Eles já podiam avistar do carro o empreendimento, de modernida­de suntuosa e irreverente, dominando o horizonte.

Darius passou com a Ferrari por um arco direto para a área central, contornada com vagas para os carros dos visitantes.

— Qual é o apartamento? — indagou ele, admirando o edifício com satisfação profissional. — Certo. Você sobe, e eu e George a seguimos com as coisas.

Mattie ainda fazia, extasiada, o reconhecimento dos seus novos domínios, quando a última mala surrada bateu contra o piso do apar­tamento.

— Não é fantástico? — Ela caminhou até a janela para contemplar a vista incrível da cidade: rio, pontes, carros e pessoas aglomerados como brinquedos em movimento.

— Onde você vai dormir, meu Deus?

Mattie reagiu com uma cara de perplexa, como se Darius estivesse fora de si.

— No chão, é claro. Como você vê, não há um só móvel, e eu não tinha nenhum para trazer comigo.

— No chão? — A expressão de Darius transbordava de increduli­dade.

— Num saco de dormir. — Mattie reformulou a resposta. — Ve­lho, mas ainda útil. E trouxe um travesseiro. Não há por que ficar parado aí como se estivesse atuando num filme de terror. Você pode achar a idéia de um saco de dormir inconcebível, mas eu, não.

— Quem sabe ao se ajeitar nele você não descubra que o chão é mais duro do que você pensa? — Não havia nem passado pela cabeça de Darius que o apartamento não era mobiliado. Ele deveria ter insis­tido que Mattie morasse com ele até que eles pudessem equipar a casa com pelo menos os utensílios mais rudimentares. Imediatamente, ele se questionou. Que diabos estava pensando? Morar com ele? Ele quase riu em alto e bom som do absurdo da hipótese que brotou do nada nas suas idéias.

— Eu conheço sacos de dormir, Darius. — Mattie, de braços cru­zados, recostava-se no parapeito da impressionante janela de três fa­ces, que avançava para além da parede. — Eu já acampei diversas vezes, coisa que acredito você nunca fez. — Por mais que estivessem próximos, era difícil acomodar as diferenças entre dois. A cada con­traste banal que surgia, Mattie se dava conta de quão diferentes eram os dois.

— Nós vamos ter que arrumar alguns móveis para você — reagiu Darius. — Ninguém pode esperar que você viva assim. Por que você não trouxe mais algumas coisas da casa? — perguntou ele.

— Porque elas não me pertenciam. Porque eu poderia ter sido acusada de roubo.

— E ele nunca ofereceu nada a você? Apesar do fato de você ter passado anos pagando as contas? Nós podemos ir à Harrods e com­prar algumas coisas. Umas cadeiras, uma mesa, um tel...

— Espere aí! — Será que ele pensava que poderia de certa forma comprá-la? Desejo sexual era uma coisa. Equipar a casa para ela estava fora de questão. A conversa invadia um mundo totalmente diferente do qual eles haviam concordado em dividir. Mattie ficou zonza ao especular como seria receber presentes por amor, com a força que poderia ter tal gesto. Ela piscou os olhos uma ou duas vezes para recobrar-se.

— Você não vai comprar nada para mim. Se quiser alguma coisa, eu vou economizar para comprar.

— Pelo amor de Deus, Mattie. Eu posso...

— Esqueça. Eu não aceitarei nada de você, não vou viver com a idéia de que você de alguma maneira conseguiu me comprar.

Ficou mais do que claro para Darius o brilho de determinação nos olhos dela, e ele recuou. Preferiu não pensar no caos que a sua própria criação poderia resultar. Não. Organizaria a situação quando chegas­se o momento propício, pois nunca tivera problemas em consertar qualquer coisa antes.

— Tudo bem — concordou ele, mais sensual. — Um almoço pas­saria no seu teste de orgulho?

Mattie exibiu um meio sorriso, involuntário.

— Seguida por uma festinha para dois no novo apartamento?

Como ela resistiria? Mattie havia sido tão forte quando o conhece­ra. Tinha consciência de que ele era um homem de um planeta dife­rente. Quando Darius desenvolveu o talento para vencer a resistência dela? E quanto tempo levaria, Mattie se perguntava, alarmada, para que ela perdesse toda a imunidade a ele?

 

— E absolutamente fantástico. Encontrar possíveis clientes. Traba­lhar em conjunto com o pessoal de propaganda para tornar os aparta­mentos irresistíveis. E falei da idéia de transformar parte do espaço coberto anexo ao jardim em um restaurante?

Não, não havia falado. Darius afastou a cadeira, sorrindo para ela com a satisfação de um criador diante da sua criatura. A nova Mattie era empolgada, autoconfiante. Ficava na defensiva somente uma vez ou outra, quando ele, por exemplo, insistia que ela passasse a noite em Chelsea, em vez de voltar para o novo apartamento. Lá, após três semanas, Mattie conseguira pelo menos colocar uma cama, uma ge­ladeira bem pequena e um jogo de mesa e cadeiras de pinho.

— Você não está prestando atenção numa só palavra do que eu estou dizendo — resmungou ela. Mattie levava os pratos e os talheres da mesa para a pia. O casal agora comia no apartamento dele de forma mais freqüente. O que, depois de um mês, ainda correspondia a só três noites por semana, noites pelas quais ela esperava ansiosa.

— Eu estava pensando que a gente poderia ir para o interior ama­nhã. Passar um fim de semana no campo. Eu preciso dar uma olhada na minha casa lá, me certificar de que tudo esteja bem. — Darius espreguiçou-se e, discretamente, a examinou com o canto dos olhos. Como ele gostava de observá-la! Pensou em desabotoar a blusa dela, para deliciar-se dos seus seios, liberá-los da renda que os oprimia. Desfez da cabeça a fantasia, para se deparar com ela, cara de brava, encostada na pia.

— Não há nenhuma necessidade de me olhar desta maneira — reagiu Darius, irritado. — É apenas uma sugestão. Sair de Londres por um fim de semana, respirar um pouco de ar puro. — Ele enfim levantou-se da cadeira e foi ao lugar onde ela permanecia em silên­cio, pensativa.

— Por que pensar tanto sobre um simples convite? — Darius não escondeu a frustração.

— Não sei se seria uma boa idéia.

— Por que não seria? — exigiu Darius. — Quando foi a última vez que você saiu de Londres?

— Não é esse o problema, Darius. — Mattie não tinha muita cer­teza sobre qual seria o problema, mas sabia que havia um. Ele adora­va conduzir as coisas da sua própria maneira e contava com métodos variados e eficientes para assim proceder.

— E então? Quando foi a última vez?

Aí estava uma das táticas dele, Mattie reconhecia. Darius ignorava objeções e seguia com uma linha de questionamentos até conquistar o que queria.

— Eu não lembro agora. — Mattie suspirou. — Vá e sente-se. Eu não consigo pensar direito com você me pressionando assim.

— Ótimo, não quero que você pense direito quando está comigo.

— Você está agindo como uma criança mimada.

— O quê...? — Darius manteve a boca aberta de indignação. Uma criança mimada? Nunca fora alvo de tal acusação.

— O fato de você querer alguma coisa não significa que automati­camente ela vá acontecer. — Mattie precisava se impor, ou acabaria se afogando nessa chamada relação-sem-compromissos, combinada para não durar mais do que uns poucos meses, se isso.

Darius deixara tudo perfeitamente claro desde o início, e não era necessário ser um prêmio Nobel para concluir que ele teria a cons­ciência tranqüila quando as coisas inevitavelmente terminarem.

Os dois nunca planejaram nada com conseqüências para o futuro. Eles se encontravam, desfrutavam um da companhia do outro e mar­cavam uma saída para os dias seguintes, no máximo. Qualquer coisa, além disso, ultrapassava os limites da relação.

Mattie falava com regularidade sozinha que a preocupação de Da­rius com o presente era o de que ela precisava. Ela via como um sopro de ar renovado a oportunidade de trabalhar com coisas interessantes, de viver um dia de cada vez.

— Nós precisamos conversar a respeito — resmungou Darius, saindo dali e espalhando-se indignado no sofá.

— Eu tenho muito que fazer e não posso viajar no fim de semana — disse Mattie, sentando-se no braço do sofá.

— O quê?

— Eu quero dar uma olhada em TVs. Comprar uma portátil.

— Você não precisa comprar uma televisão — rebateu Darius. — Há duas neste apartamento. Quando você quiser ver algo na TV, basta vir aqui.

— Agora, você está sendo ridículo.

— Você pode simplesmente pegar uma das minhas. Isso, pegue emprestada uma das minhas TVs. — Para Darius, a idéia de ir à casa de campo sem ela perdia todo o encanto. Longe de representar a possibilidade de um fim de semana em agradável solidão, como nor­malmente era o caso, a hipótese oferecia o prognóstico de um isola­mento não desejado.

E ele realmente tinha que ir até a propriedade para ver como tudo estava. Sylvia, a caseira, lhe telefonara dois dias atrás e informara que havia uma infiltração grave no térreo. O encanador fora chama­do, mas existiam problemas do seguro para resolver. O piso de ma­deira ficara arruinado, e o aquecedor precisava ser trocado.

— Eu imaginei que você gostasse de ir para lá sozinho, por conta própria.

— Eu falei isso?

— Sim. Você me disse que a casa de campo era o único lugar onde você podia escapar do ritmo insano e relaxar com um livro.

Darius corou, embaraçado.

— Eu queria somente que você também tivesse um tempo livre — explicou. Ele voltou à carga. — Você não pode me acusar de não me preocupar com você.

O coração de Mattie pareceu parar no meio de uma batida. Isso foi o mais perto que Darius chegou de sugerir que o que ela pensava, dizia e fazia o afetava de alguma maneira. Mattie se repreendeu por se emocionar com um comentário repentino e inconseqüente e orde­nou que a mente recobrasse a razão.

— Tudo bem. Eu não vou acusá-lo.

Por algum motivo e sem justificativa, Darius se sentiu ofendido pela réplica rápida dela.

— Lembre-me de nunca mais sugerir para você algo tão complica­do quanto umas férias — ironizou ele. — Você poderia entrar em coma só de pensar isso.

— Férias? — balbuciou ela, incapaz de abafar a surpresa.

— Isso. Uma coisa que as pessoas normalmente fazem, principal­mente quando querem passar um tempo juntas. — Darius tinha cons­ciência de que deveria retroceder, enquanto mantinha vantagem, mas, sem saber explicar por que, ele queria ir adiante.

— Eu sei o que são férias. — Mattie riu, não dando a mínima para aquela discussão.

— Você teve várias férias, não?

— Você sabe que não.

— Ah, sim, esqueci que você trabalhava e estudava para pagar as contas, enquanto o seu namorado preguiçoso a criticava e bebia todo o dinheiro que sobrava.

Mattie preferiu ignorar os comentários sobre Frankie. O ex-namorado, definitivamente parte do seu passado, insistia em reaparecer no seu presente nas formas e momentos mais inesperados.

— Eu costumava ir à Cornualha quando criança — confidenciou ela, um tanto melancólica. — E você tirou férias com Rosalind? — provocou.

— Nunca me passou pela cabeça — respondeu Darius, sincero. Poderia até acrescentar que tirar férias sozinho com uma mulher re­presentaria uma experiência inédita para ele. As suas férias tradicio­nalmente se resumiam em visitar a família na Grécia. Darius tinha muito trabalho para se dar ao luxo de se isolar em algum lugar remoto e exótico.

Como havia dito a Mattie, os fins de semana no campo eram o seu único refúgio.

— Por que não?

— Para começar, não teria condições de me afastar do escritório por muito tempo. Além disso, não tinha a mínima vontade de viajar com ela.

Darius mudou de assunto com uma voz sensual e persuasiva:

— Eu não gosto que você fique sentada na outra ponta do sofá quando conversa comigo. Vem cá. — Darius bateu duas vezes na almofada ao lado dele. Mattie atendeu prontamente. Apoiou as costas no peito de Darius e encaixou a cabeça na curva entre o pescoço e o ombro dele.

O abraço, o jeito que Darius a abrigava no seu colo, tinha algo de possessivo e aconchegante. Ela queria ronronar com um prazer felino.

— Um homem como você não deveria nunca planejar férias com uma mulher — afirmou Mattie, um pouco deprimida.

— E por quê?

— Porque quando a ocasião das férias chegasse haveria uma boa chance de que você já estivesse cansado da mulher em questão.

— O que me leva de volta ao assunto do fim de semana no campo. Eu posso garantir que até amanhã não terei me cansado de você. — Darius abria devagar os botões perolados da blusa de Mattie.

Ela sentiu uma onda de calor brotar dentro dela. Roçou o seu corpo no dele.

— Diga que você vai comigo amanhã — sussurrou Darius no ouvi­do dela.

Mattie envolveu o pescoço dele com os braços, projetando os seios com o movimento.

Ele gemeu e demorou para abrir o último e teimoso botão. Quase o arrancou de angústia. Em seguida, desabotoou por trás o sutiã de Mattie e moveu a peça, arrastando a mão pelo abdômen dela.

Mattie não disse nada sobre o fim de semana. Quando Darius a tocava assim, ela não era capaz de ordenar as idéias. Ele massageava os seus seios com aquelas mãos enormes. Mattie observava o movi­mento dos dedos firmes e fortes dele a brincar com ela. Darius se recompôs no sofá para abrir o botão e o zíper da calça preta dela, e Mattie, além das idéias, perdeu o fôlego.

As pernas de Mattie instintivamente se abriram. Com ele, ela não tinha inibições. Mattie fechou os olhos quando os dedos que antes acariciavam os seus seios penetraram por dentro da calcinha, desli­zando até a fresta úmida que latejava ansiosa pelo toque dele.

Darius interrompeu o movimento, e ela quase gemeu de decepção.

— Mattie, olhe para mim.

Meio grogue, ela se virou para ele.

— Eu quero que você venha comigo neste fim de semana, e não posso entender por que você reluta em aceitar o meu convite.

— Nós nunca dormimos juntos.

— Nunca dormimos juntos? Meu Deus, mulher, o que a gente vem fazendo há semanas?

— Eu quero dizer que nós nunca passamos uma noite inteira jun­tos. Dormir num dia e acordar no outro na mesma cama.

— Não que não tenha tentado.

— Eu não acho que seja uma boa idéia.

— Você não pode fazer comunicados como esse sem o ônus de uma explicação. — Esta era uma relação baseada em liberdade e atração mútua, mas ele se mostrava sempre decidido a convencer Mattie de ultrapassar os limites antes estipulados. Por quê? Darius não tinha a menor idéia. Só podia atribuir isso a algum até então desconhecido rasgo de teimosia.

Claro, ele odiava mulheres possessivas, mas era necessário que Mattie o tratasse com desprendimento tão resignado, despreocupado e entusiasmado?

— Você está com medo de passar uma noite comigo? — pergun­tou Darius, deixando vermelho o rosto dela.

— Eu deveria? Você se transforma em lobisomem à meia-noite?

— Confie em mim. É uma casa de campo aprazível. Muito quieta.

— Bem, eu estava planejando trabalhar um pouquinho amanhã de manhã antes de sair em busca da minha televisão...

— Trabalhar? — Darius fez uma pausa. — Você não está levando o seu compromisso com o trabalho um pouquinho longe demais?

— Você é que é a máquina de trabalhar aqui, se não estou enga­nada.

— É diferente — resmungou ele.

— Por quê? Porque você é muito mais poderoso e importante do que eu? — Mattie o olhou e se enterneceu ao encontrá-lo levemente corado. — Tente não esquecer de que tudo isso é novidade para mim — insistiu ela. — Eu quero fazer diferença. E não vou viajar até o fim do mundo para chegar ao trabalho! É uma questão de minutos ir do meu apartamento até o salão de conferências que a gente está usando no térreo!

— Olha — interrompeu Darius, bruscamente. — Há algo que eu acho que tenho que dizer...

— Mas pretendo trabalhar somente por uma hora, não muito mais do que isso. Eu falei para Liz que poderia dar uma passada lá e termi­nar alguns orçamentos de outdoors em Charing Cross...

Um fim de semana faria tanto estrago? Deixá-lo todas as noites em que eles se encontravam já consistia em sacrifício o bastante. Era crime ela se dar ao luxo de tirar uma folga?

— É sobre o seu emprego...

— Eu sei que exige muito, mas gosto dele. — Mattie abriu um sorriso. — Eu vou com você. Me dê uma hora e meia para fazer o que preciso e venha me apanhar.

Ela concordara, enfim, mas isso não resolvia o dilema maior de Darius. O que ele precisava contar a Mattie não foi dito. Darius riu de volta para ela. No final dos dois dias no campo, ele revelaria tudo.

— Satisfeito? — Mattie sorria, sedutora. De repente, ela passou a se sentir livre, feliz diante da perspectiva de passar um fim de semana sem obrigações e com ele.

 

Na manhã seguinte, ela quase desejou não ter assumido compro­misso em trabalhar. Mattie jogou na mala peças íntimas, uma muda de roupas e uma camisola, que provavelmente seria dispensável, e desceu para o térreo.

Ela entrou no salão de conferências sem fazer barulho, aproveitan­do o silêncio incomum no ambiente de trabalho, preparou uma xícara de café e se dirigiu à sala de Liz, delimitada por divisórias.

Não muito longe dali, no escritório improvisado num dos quartos do seu apartamento, Darius Drecos não conseguia se concentrar nos números à sua frente na tela do computador.

A atenção dele se desviava dos últimos relatórios do seu contador-chefe para a mulher que estaria aguardando-o no apartamento dela em 45 minutos.

Darius passou a caminhar nervoso pela casa. A sensação era a mesma de um garoto prestes a sair pela primeira vez com uma meni­na. Desde que iniciou a relação com Mattie, ele sempre se sentia como um garoto no primeiro encontro. Naturalmente, a aura de novidade não duraria muito mais. Quando sentimentos como aquele duravam?

Darius passou os dedos longos nos cabelos escuros e olhou com o pensamento longe a vista da janela.

A sua consciência ficaria muito mais leve, se ele não soubesse o que Mattie estava fazendo naquele momento. Mattie dava provas de dedicação e talento no trabalho, o que ele já sabia, e percebeu instin­tivamente durante os primeiros contatos com ela. Infelizmente, o fato também o deixava numa situação incômoda e indicava que a conver­sa que precisava ter com Mattie não poderia mais ser adiada.

Darius arrefeceu a mente ao checar o relógio pela oitava vez em poucos minutos e se dar conta que já era hora de partir para apanhá-la. Ele calculara inclusive o tempo que perderia nos engarrafamentos que esperava encontrar.

No caminho, Darius se pôs a imaginar qual seria a reação dela à sua casa de campo. A propriedade era muito charmosa, nada de exa­geros ou ostentações. Mattie não tinha razão para estar sempre em guarda contra ele, daquele jeito pit bull: mãos na cintura, faces ver­melhas, recitando de cor a ladainha sobre as diferenças entre os dois.

Embora... Ele sorriu, e a idéia fixa de conversar com ela sobre o emprego foi se apagando na sua cabeça. Embora os comentários pers­picazes e ferinos fossem parte do charme dela. Para dar a partida no fim de semana, ele poderia mostrar a Mattie a jacuzzi, no jardim da casa. Apresentá-la aos prazeres da água borbulhante e aquecida...

Tal expectativa acabou gerando em Darius uma leve irritação, quando, ao chegar pontualmente ao apartamento dela, ele verificou, após tocar repetidas vezes a campainha, que Mattie não estava em casa.

Obviamente, o prognóstico de um fim de semana a dois não des­pertara nela a mesma ansiedade.

Darius tampouco sabia onde exatamente no edifício ela trabalha­va, e nem havia ninguém por perto para perguntar.

A busca levou uns vinte minutos, tempo em que a sua irritação aumentou. Mattie tinha a cara enfiada nas drogas das planilhas de orçamento, ele deduzia, esquecendo-se das inúmeras vezes em que perdera a noção do tempo por causa do trabalho.

A porta do escritório estava entreaberta, e Darius a empurrou e entrou no recinto em um movimento contínuo. Mattie não se encon­trava na mesa em frente ao computador.

Ela debruçava-se sobre uma das janelas que davam para o jardim central e parecia, inclusive, que esperava por ele.

— Eu disse a você que horas chegaria, Mattie. O que diabos você ainda está fazendo aqui? — Com passos firmes e rápidos, Darius caminhou na direção dela e, nervoso, sentou-se numa das mesas. — Você está sendo remunerada por essas horas extras voluntárias? Eu sei que você quer causar boa impressão, mas alguns patrões são muito abusados e tiram proveito de funcionários super entusiasmados.

— Como você?

— O quê? — Darius estava tão tomado pela própria irritação que só agora reparava na expressão no rosto de Mattie.

— Como você. — Mattie saiu da janela e andou com firmeza até a mesa dela. Sentou-se na cadeira preta giratória, de maneira que pu­desse encará-lo. Ela entrelaçou os dedos das mãos sobre a mesa e rezou para que ele não se aproximasse. Mattie não queria que tivesse início aquela disputa patética entre o corpo e a mente dela.

— Do que você está falando, Mattie? — Ele passou os dedos pelos cabelos, já adotando cautela. — Briga não é a melhor maneira para iniciar o fim de semana que a gente tinha combinado passar juntos. Você já terminou, ou ainda há uma ou duas planilhas perdidas que você queira finalizar? — Darius deixou escapar o toque de sarcasmo.

A ironia não provocou nela o sorriso alegre de costume. Pelo contrá­rio, somente acirrou o olhar de desprezo.

— Na verdade terminei as planilhas há um bom tempo. E você não acreditaria no quão interessante foi o trabalho.

— O que está acontecendo aqui, Mattie? Você se importaria em me contar, ou nós vamos ficar falando em códigos?

— Desde que comecei aqui, me envolvi bastante com o lado finan­ceiro da coisa. Tenho lidado com os números sobre o potencial de negócios.

— E você parece bem feliz por ter recebido mais responsabilida­des. Se isso exige a manhã de sábado do fim de semana que nós planejamos viajar juntos, quem sou eu para reclamar?

— Mas eu fiz uma descoberta muito interessante nesta manhã, enquanto procurava uns papéis que precisava no arquivo de Liz.

— Ah, é? E que descoberta foi essa?

— A sua ligação com esse grupo de pessoas que foi contratado para fazer o marketing do empreendimento. — Mattie examinou cuidadosamente a face dele. Buscava algum sinal, por menor que fosse, que indicasse que ela estava equivocada. Nenhum sinal. Mat­tie presenciou, sim, Darius corar, constrangido. Ela havia acertado na mosca.

Ele a manipulara da pior maneira possível. O emprego, com o apartamento a tiracolo, era resultado de uma manobra de Darius.

E ela sabia por que ele fizera isso. Darius a queria desde o momen­to em que pôs os olhos nela. Com a sua tradicional arrogância, tomou as medidas necessárias para possuir o que desejava. Nada melhor para se livrar da inconveniência chamada Frankie do que arrumar um emprego para ela, com um apartamento incluído no pacote. Darius queria vê-la longe daquele marco perigoso, no qual ela insistia em se agarrar. Para isso, lhe arranjou um trabalho que a elevaria à categoria de mulher de negócios, capaz de sacudir dos ombros o peso morto do namorado.

Mattie sentiu que lágrimas a ameaçavam e trincou os dentes para contê-las.

— Eu encontrei uma carta sua no fundo do arquivo cumprimen­tando Bob Hodge por adquirir o prédio, pedindo que ele o mantivesse informado sobre o que faria com o lugar. — Mattie podia ouvir o interior dela implorando pela negação que não veio.

— E então o que você fez, Darius? — sussurrou ela. — Pediu um favor? Pediu a ele que abrisse um lugarzinho para mim numa equipe competente e qualificada? Eu, uma imbecil incapaz de conseguir um emprego por conta própria? Como você pôde? Como você pôde ma­nipular a minha vida dessa maneira?

— Eu não manipulei a sua vida, Mattie. Não!

— Ah, está certo! Você uma vez me disse que sempre conquistava o que queria. Você não estava agora apenas garantindo a tradição? Mesmo sendo a tática escolhida uma das mais honestas? — Frustra­ção e raiva impregnavam a voz dela. Darius fez menção de se aproxi­mar, e Mattie afastou-se imediatamente em rejeição.

— Tudo bem. Talvez não tenha agido corretamente. Talvez deves­se ter dito para você desde o início que poderia arrumar este emprego para você, mas eu pergunto: Você daria ouvidos? Ou você botaria o seu bloco na rua contra mim e negaria a si mesma a oportunidade apenas por ser cabeça-dura?

— Isso não tem nada a ver!

— Você não respondeu à minha pergunta?

— Eu quero conquistar as coisas pelo meu esforço. Eu não pedi e não precisava da sua ajuda!

— Você está agindo como se eu tivesse cometido um crime contra o seu orgulho, Mattie. E quantas oportunidades a gente perde na vida por causa do orgulho?

— Pare de tentar distorcer as coisas para que você possa parecer o santo dessa história. — Amedrontava Mattie o quanto ela torcia para que Darius tivesse sucesso. — Você me manipulou. Este é o centro da questão.

Darius deu um murro na mesa, derrubando um porta-canetas e espalhando o conteúdo. Mattie o olhou, fascinada e calada.

— Esse não é o centro da questão, droga! — Desta vez, a cara de indiferença e frieza dela não foi suficiente para detê-lo, e Darius percorreu a distância entre eles em poucos e furiosos segundos. — Eu posso não ter sido franco como deveria...

— O eufemismo do ano! — interrompeu Mattie. Ela voltou para a cadeira para evitar que a presença imponente dele a engolisse por completo.

— Se estava tentando manipulá-la, por que não falei para você a respeito do emprego? — perguntou Darius. — Eu não teria me aproveitado da primeira chance para fazer você sentir que me devia algo? Droga, eu não fiz isso, fiz?

— Bem, você poderia estar guardando essa informação como um trunfo — reagiu Mattie. — A carta que você puxaria da manga se ou quando necessário! Um jeitinho! Você é muito bom nisso, não é, Darius? Igualzinho à nossa primeira saída, quando você deu um jeiti­nho com Harry! Você acha que todo mundo pode dançar conforme a sua música, e isso é... Isso é abominável.

Deu-se um silêncio, o ambiente continuou carregado, e abrupta­mente Darius se afastou rumo à mesma janela em que Mattie parecia esperá-lo quando ele chegou.

— Eu tentei contar...

— Quando? — exigiu Mattie, elevando o tom de voz. Ela girou na cadeira para vê-lo.

— Ontem. Eu falei que precisava falar com você, mas a gente foi adiando, e decidi contar depois deste fim de semana.

É verdade, ela se lembrava, sim, de que ele havia iniciado uma conversa nessa linha, mas a última coisa em que Mattie pretendia pensar agora. Deixar-se levar foi o seu grande erro desde o primeiro instante.

— Eu não acredito em você, Darius — disse ela, com frieza. — Você me queria, e você tomou as medidas necessárias para possuir-me. Você nunca perdeu um só momento para pensar nos meus senti­mentos, porque você não sabe o que significa sensibilidade. — A voz de Mattie tornava-se amarga. — A nossa relação se resume a isso: desejo, luxúria, sexo. Nunca houve espaço para sentimento.

— Isso é o que você buscava também. Ou você convenientemente já se esqueceu?

Não, ela não havia se esquecido. No entanto, Mattie cometera o erro básico de não honrar no seu íntimo o acordo que eles haviam acertado. O acordo de que era tudo um acordo. Duas pessoas, ambas sem querer maiores envolvimentos, cedendo a seus instintos e con­cordando que a relação não passaria disso. Foi uma porcaria de acor­do, Mattie dava-se conta agora, pois em algum momento do processo ela se expôs ao risco fatal de gostar dele, de se apaixonar por ele.

A conclusão era terrível. Mattie cerrou os olhos, por poucos se­gundos, em desespero. Quando ela voltou a abri-los, havia uma nova firmeza, uma resignação neles.

— Não temos mais nada para conversar, Darius. — Mattie espal­mou uma das mãos no tampo da escrivaninha e levantou-se, deixando a mesa de trabalho como uma barreira entre ambos. — Eu não gostei do que você fez. Eu não posso respeitar ninguém que age dessa ma­neira. Esta relação, ou seja lá o que isso for, não vai dar em lugar nenhum, e agora estou pondo um fim nela. — Mattie virou-se para uma das janelas, dando-lhe as costas. Espinha reta, ombros curvados para trás. O coração dela pedia que visse Darius pela última vez, mas a cabeça dela rejeitou tal desejo.

Mattie percebeu a hesitação de Darius. Ouviu os passos dele até a porta. Ele fez uma pequena pausa, e então estava tudo acabado. Da­rius se fora.

 

Gloria foi para casa. Darius lhe dera a tarde de folga, um rasgo de compaixão em meio à atual má vontade dele. A coitada tinha sofrido com o mau humor do chefe nos últimos 15 dias, tomando todos os cuidados para não aborrecê-lo.

Darius gostava da sua secretária. No entanto, não conseguia se controlar. Não conseguia tirar Mattie da cabeça, o modo como ela terminara o relacionamento dos dois. De um só golpe, Mattie o havia transformado em uma espécie de monstro oportunista e interesseiro, que usou de todas as armas ao seu dispor para levá-la para cama.

Darius reproduzira a última conversa deles tantas vezes na sua cabeça que já estava a ponto de enlouquecer.

Não tantas vezes, porém, quanto o número de ocasiões em que se debruçara pensativo na janela do seu escritório, ignorando as chama­das telefônicas e os e-mails no computador e avaliando se valia a pena procurá-la.

Ali estava Darius de novo. Na janela, às 18h30, quando deveria aproveitar o período de relativa calma para checar a pilha de correspon­dências à sua espera. Escorado na janela, franzia a testa e se amaldiçoa­va por ter se deixado envolver daquela maneira, por ter permitido que ela se apossasse do seu coração. O coração que Darius considerava anestesiado após as supostamente assimiladas lições do passado.

Praguejando para si mesmo, Darius passou a andar de lá para cá em seu escritório, como um tigre preso na jaula.

E se ele for vê-la? Qual o problema? Uma nova discussão, com os mesmos resultados, mas desta vez diante de uma platéia de colegas de trabalho dela. Darius não poderia encurralá-la no apartamento, pois Mattie se mudara. Para onde, ele não tinha idéia. Provavelmente voltou para o ex. Tal hipótese o levava a xingar o destino.

O seu grande erro foi telefonar para Liz Harry, a chefe dela, e casualmente puxar assunto sobre o desempenho de Mattie. Aí Darius descobriu que ela havia se mudado de lá.

O telefonema ocorrera cinco dias antes. Cinco dias péssimos, tem­po mais do que necessário para Darius perceber que, se não vê-la equivalia a uma morte lenta e dolorosa, imaginá-la nos braços de Frankie era ainda pior. Cinco pesadelos de noites nas quais fora for­çado a reconhecer que o que havia se iniciado como um flerte casual terminara como uma relação muito mais do que séria, que ele, idiota, jogara no lixo.

Darius vestia o paletó que retirara do cabideiro, quando o telefone tocou.

Ele deixou o aparelho soar, ponderando se ainda lhe restava hu­mor para mais uma conversa supérflua com algum cliente. Decidiu que não podia prejudicar o trabalho por causa dos problemas na sua vida pessoal.

Do outro lado da linha, tensa a esperar, Mattie não tinha a menor noção do drama que Darius atravessava. A única coisa da qual ela tinha noção neste momento era o ritmo acelerado do seu próprio coração, o nervosismo que a fazia transpirar pela expectativa de ouvir a voz dele.

O telefone tocou várias vezes, e ela quase deixou o celular cair ao escutar finalmente o alô seco e apressado dele. Deduziu que possivel­mente Darius estava para ir embora e ficou cismada. Para onde ele iria?

— Alô, Darius. Sou eu, Mattie. — Sentimentos agitados, voz supercontrolada.

Diante da frieza da voz dela, todas as lamentações de Darius pelo papel que ele teve para o fim da relação desapareceram como fuma­ça. Voltava a raiva irracional de ter sido dispensado, dispensado, por alguém que dele recebeu o maior dos favores: uma carreira profissional.

Ele deveria informá-la com poucas frases curtas que não tinha mais nada a tratar com ela. O orgulho de Darius assim exigia.

— Pois não? — Sua voz saiu igualmente fria.

— Você estava de saída? — indagou Mattie. Aquilo não iria aca­bar bem. Ela não chegaria a lugar nenhum, se não colocasse a cabeça no lugar.

— Sim. O que você quer?

— A gente precisa conversar.

— É mesmo? — Ele tinha o olhar perdido no horizonte do lado de fora da janela. Sentiu um impulso de excitação ao ouvir a proposta dela. A emoção com a perspectiva de encontrá-la ainda era maior pelo fato de ter partido dela o convite. — Sobre o quê? Mais do que mesmo? Ou você caiu em si e notou, enfim, que não cometi nenhum crime?

— Aonde você vai esta noite? Alguma coisa que você possa can­celar? Eu preferiria ver você o quanto antes. — Mattie largou as palavras de uma vez só e manteve a respiração presa ao esperar a resposta dele.

— Eu acho que posso cancelar o meu... compromisso. — Que compromisso? O único compromisso que tinha era um encontro com a garrafa de uísque e com a televisão. — Eu posso ir ao seu aparta­mento...

— Eu me mudei.

Darius simulou surpresa. Mattie teria um dia inteiro de festa se soubesse que ele se dera ao trabalho de ligar para Liz para saber a respeito dela.

— Se mudou? Para onde? Não, me deixa adivinhar, para o fracas­sado daquele seu namorado. De volta ao já conhecido, mesmo que isso seja ruim para a sua saúde.

Mattie não se conteve.

— E você acha que você é bom para a minha saúde, Darius? Abrindo caminho com mentiras e trapaças para... a minha cama. — Para o meu coração, quase lhe escapou.

— É sobre isso que precisamos conversar, Mattie? Para você me atirar mais acusações? — E se fosse sobre isso? Bem, ele ainda assim quereria vê-la, Darius reconhecera, contrariado.

— Não — respondeu Mattie, arrependida por ter se impacientado. Não era ocasião para aquilo, ela não deixaria que ele a desviasse do destino traçado.

Mattie tivera tempo para reavaliar o que Darius fizera e, mesmo assim, continuava furiosa com ele. No entanto, havia também um reconhecimento incômodo de que Darius a ajudara. Uma ajuda que ela recusaria sem pestanejar se ele a oferecesse abertamente.

O emprego era perfeito. Mattie nunca encontraria um lugar ideal como aquele sem o auxílio dele. E, goste ela disso ou não, fazia sentido o argumento de Darius de que, se quisesse realmente manipu­lá-la, ele teria balançado a cenoura no ar, à mostra, para o coelho saltar e pegar.

— E então... Você ainda não disse. — Aborrecia-o bater nesta mesma tecla, mas, droga, ele precisava saber.

— Ainda não disse o quê?

— Onde você está morando agora, já que você saiu do aparta­mento?

— Eu não voltei para a casa de Frankie — disse Mattie, relutante­mente. — Eu achei um lugar perto de Wimbledon. É pequeno e não é na melhor área do bairro, mas dá para viver. O aluguel é muito mais barato do que nos bairros centrais.

Os ombros de Darius relaxaram de alívio.

— Onde você está? — perguntou ele, disposto a se mostrar gene­roso, agora que o pior cenário imaginado acabara de ser descartado.

— Naquele bistrô a duas quadras do seu escritório.

— Você quer dizer que foi para este bistrô na expectativa que eu pudesse encontrá-la já? — perguntou Darius, surpreso.

— Me parece um lugar como outro qualquer. — Mattie olhou em volta. Havia uma quantidade razoável de pessoas no bistrô, todas elegantes em suas roupas de trabalho. Não era o tipo de lugar para o qual se saía do escritório para se embebedar. — Eu peguei uma mesa nos fundos. Você pode vir?

— Eu estarei aí em dez minutos.

E o mundo repentinamente parecia um lugar maravilhoso para se viver, cheio de luzes, cores e... possibilidades. Darius vestiu o paletó e chegou quase a assobiar no elevador até o térreo. O carro dele estava no subsolo, mas não havia necessidade de dirigir para um bistrô a poucos minutos de caminhada.

Mattie estava lá. Esperando por ele! É verdade que ela soara um pouco fria ao telefone, mas poderia ter sido algum problema na linha. O fato agora era que Mattie telefonou para ele e queria vê-lo. E ele se empenharia ao máximo para resolver cada mal-entendido entre os dois, porque não podia mais imaginar a sua vida sem ela.

Darius fez o percurso do trabalho ao bistrô em tempo recorde.

Lá estava ela, como prometera, sentada a uma mesa dos fundos, formal, em um vestido cinza-escuro e uma jaqueta preta. Durante alguns segundos, Darius aproveitou para observá-la. Pensativa, ela tinha os olhos voltados para a taça de vinho à sua frente. Contornava a borda da taça com um dos dedos.

Neste exato momento, Mattie olhou para a frente, e os olhos de ambos se encontraram. Darius caminhou na direção dela muito mais cauteloso do que mandava o seu coração.

— Você foi rápido. — Mattie sorriu, tensa e misteriosa.

— Eu disse dez minutos.

— Eu pensei que você gastaria algum tempo entrando em contato com quem esperava, cancelando o seu compromisso.

A moderação e a formalidade que ele não queria ver nela. Ainda de pé, Darius olhou para o balcão onde eram servidas bebidas e para Mattie de novo.

— Vou pegar alguma coisa para beber. O que você quer? O que você está bebendo?

— Só uma água mineral, por favor.

— Comida? Vou pedir o cardápio! — Conversavam como estra­nhos. Não era o que ele desejava, mas Darius a deixaria sem pressa chegar até onde ela queria. A intenção dela só poderia ser um reata­mento. O que mais a levaria a procurá-lo?

— Pode pedir para mim o peixe que estiver no cardápio.

Darius assim o fez e retornou à mesa com o seu drinque, a água dela e confuso demais para processar os próprios pensamentos.

— Então, como vai você? — perguntou ele, com extrema edu­cação.

— No trabalho, tudo ótimo. — Mattie esforçava-se para manter o controle sobre a situação. Vê-lo era muito pior do que ouvi-lo, o que já tinha sido péssimo.

— Por que você saiu do apartamento?

— Você sabe por quê.

— Me surpreende, neste caso, que você não tenha aberto mão do emprego para longe também.

— Olha, vamos deixar uma coisa clara. Seja lá o que tenha moti­vado a fazer isso, eu amo o que estou fazendo.

— Então, no fim das contas, não sou tão monstruoso assim?

— Eu não quero falar sobre isso.

— Então sobre o que você quer falar? — Darius começava a per­der a paciência em meio a tantas formalidades.

— O que você tem feito nessas últimas semanas? — Mattie mudou de assunto de um modo um pouco brusco. Sentia-se ferida e em pâni­co. Com receio do que Darius vá pensar daqui a uma hora, quando ela já tiver dito a ele o que tinha para falar.

— Trabalhando muito. — Darius terminara o seu drinque e, no momento que a comida estava sendo servida, pediu mais um.

— E jogando muito também?

— Você pode definir o que você quer dizer com jogando muito?

— Nada. Esqueça.

— Não, não estou saindo com uma mulher por noite, se é isso que você está insinuando. Você acha que sou uma espécie de mulherengo impiedoso, que tão logo uma mulher vá embora, já estou ligando para outra? — A conversa não estava indo pelo caminho que o antes oti­mista Darius imaginara.

— Eu não quero discutir com você. — Mattie baixou os olhos e perguntou a si mesma por que estava ali. Não, ela sabia por que o havia procurado. Brincava com a comida no prato e, quando final­mente levou uma garfada à boca, sentiu um gosto de papelão.

— E o que exatamente você quer? Vamos direto ao assunto.

— Você teria me ligado se eu não tivesse entrado em contato com você? — Mattie tinha que perguntar. Uma outra pergunta que evita­va, mas algo a induzia a esclarecer.

— Você expressou claramente a sua vontade na última vez em que nos encontramos. — Darius cruzou o garfo e a faca. O que ele neces­sitava mesmo era de uma outra dose de uísque. — Eu era o Lobo Mal que consegui cercar a Chapeuzinho Vermelho. Mesmo tendo assegu­rado que ela atravessasse sem problemas a floresta e tendo abrigado da chuva num chalezinho de primeira classe, eu era o lobo mal e grande porque deveria ter contado para ela o que estava fazendo. Deveria ter dado a ela a oportunidade de jogar a oferta de volta na minha cara. Inferno, se você acha que eu vou dar satisfações sobre o que eu faria se você não tivesse ligado, sente-se, porque você vai esperar para sempre. — Orgulho. Orgulho teimoso de volta ao seu lugar devido. A verdade cruel é que, sim, ele telefonaria para ela. Inventaria uma desculpa esfarrapada, mas entraria em contato com Mattie, simplesmente porque ele necessitaria falar com ela.

— Tudo bem.

A aceitação curta e grossa de todo aquele discurso apenas alimen­tou a raiva de Darius.

— O que você esperava que eu dissesse? — pressionou Darius, irritado com a passividade dela e com o fato de ter esquecido em algum lugar o seu célebre autocontrole.

— Nada. A verdade. Que foi exatamente o que você acabou de me dizer. — Mattie pegou o seu copo d'água, notou que a sua mão tremia e imediatamente recolocou-o na mesa.

— Fico contente que a gente esteja se entendendo — disse ele. — Assim, nós podemos discutir o que eu tenho para dizer como adultos.

— Discutir... o quê?

— Eu estou grávida.

O silêncio foi ensurdecedor. Pareceu durar, durar, durar por horas. Se o assunto não fosse tão sério, Mattie quem sabe riria ao ver aquele homem perigosamente bonito, para quem as palavras nunca falta­vam, totalmente emudecido.

E para ser sincera, ela imaginava que ele viesse a ter exatamente essa reação, desde que ela própria recebera a notícia, horas antes.

— Como é que é? — As quatro palavras caíram como pedras em água parada.

Mattie empenhou-se em mirá-lo calmamente nos olhos. A calma possível naquelas circunstâncias.

— Você me ouviu. Eu estou grávida.

— Você me chamou aqui para contar isso? — Darius empurrou o prato para o lado a fim de se apoiar na mesa e aproximar-se dela,

— Você preferiria que eu nem o procurasse? — devolveu Mattie. — Acredite, essa possibilidade passou pela minha cabeça, mas como tenho alguma moral...

— Me poupe de sermões, Mattie...

— Eu estou contando isso porque acho que você tem o direito de saber que você gerou uma criança. Eu peço as mais sinceras descul­pas se você preferia não saber de nada!

— O que quero dizer é por que você me trouxe aqui para me dar esta notícia? Para este lugar? Como vamos discutir um assunto como este aqui, cercado de pessoas e barulho? — Darius olhou em volta, irrequieto.

— Eu pensei que a gente teria um papo rápido...

— Um papo rápido!

— E depois, já com tempo para assimilar tudo isso, você poderia me encontrar para a gente discutir as coisas... com mais detalhes. Eu não sei se é isso que você quer... — Os olhos dela se esquivaram dos dele.

— O que você acha que eu quero?

— Olha, Darius, eu sei que é um pouco chocante...

— Um pouco chocante. E você uma vez me chamou de mestre do eufemismo!

— Foi um choque para mim também.

Em meio à agitação, a afirmação de Mattie fizera Darius parar e pensar um pouco. É claro que fora um choque também para ela. Mat­tie apenas iniciava sua trajetória profissional. A notícia da gravidez devia ter caído como uma bomba na vida dela.

Os poderes de recuperação de Mattie, entretanto, não perdiam para ninguém, Darius pensou, um pouco ácido. Certamente ela não se assemelhava a uma mulher em estado de choque. Estava calma, fria, comedida. As marcas registradas de uma mulher que quer deixar cla­ro que não sente um pingo de emoção pelo que está contando.

— Olha, vou pegar uma outra bebida. Você quer alguma coisa? — ofereceu Darius. Ele buscava se acalmar um pouco, ditar um mínimo de ordem as suas idéias e sentimentos.

Mattie acenou não com a cabeça e o viu caminhar até o balcão e lá esperar, inquieto, dando tapinhas na bancada.

Ela tomara a medida certa ao propor o encontro num lugar públi­co. Uma decisão um pouco covarde, mas sábia, porque pelo menos Darius não poderia ceder à óbvia tentação de esbravejar e insultá-la. Não faria um escândalo com tantas pessoas em volta dele. Seria for­çado a discutir o assunto como um adulto, e ela precisava que ele assim procedesse. Se Darius lhe dirigisse uma só palavra enviesada, ela não agüentaria o baque. Por baixo dos gestos e do rosto calmo, as emoções dela estavam a ponto de explodir.

Darius poderia até mesmo acusá-la de engravidar de forma propo­sitada para arrancar algum tipo de compromisso dele. E a palavra compromisso era um palavrão para ele.

— Tudo aconteceu na nossa primeira vez, a única em que a gente não se protegeu. Nós estávamos tão excitados que não colocamos a camisinha. — Mattie deu prosseguimento ao tema no instante em que Darius se sentava de volta à mesa. Ela mantinha-se formal, como se estivesse discutindo um negócio.

— Eu sei.

— E eu não estava acostumada com camisinha. Até então, só tinha transado com Frankie. Eu sempre tomei pílula. Resolvi parar há uns seis meses, já que eu e Frankie... nos últimos tempos... Bem, resolvi parar, dar um tempo para o meu corpo...

— Entendo.

— Olha, lamento muito tudo isso. — Mattie teve um súbito mal-estar, como se o que vivenciava ali não fosse real. — Eu sei que você está pensando que isso vai virar a sua vida de cabeça para baixo, mas não vai.

— E como você sabe isso?

Você não está nem aí, não é mesmo?, ela queria gritar.

— Nada vai mudar entre a gente. Eu só acho que é correto que você saiba, mas é uma formalidade...

— Uma formalidade! — Darius socou a mesa.

— Shhhh!

— Não me mande ficar quieto, Mattie! Você escolheu este lugar ridículo para me contar uma coisa dessas, agora agüente se por acaso eu não ficar cochichando em segredinho!

— Gritos não vão nos levar a lugar nenhum.

— E o que você propõe que a gente faça? Que lugar é este que você tem em mente?

— Talvez a gente não devesse mesmo ter se encontrado aqui — sussurrou Mattie, mordendo os lábios. Várias pessoas olharam para eles quando Darius esmurrou a mesa, e ela podia notar as orelhas antenadas diante da possibilidade de um show de baixaria ao vivo.

— Você escolhe o lugar!

— Você pode baixar o tom de voz?

— Eu grito tão alto quanto eu quiser! — De propósito, Darius aumentou ainda mais o volume e foi premiado com o silêncio súbito das mesas em volta. Como ousava ela pensar que poderia carregar o bebê dele na barriga e reduzir o seu papel de pai a uma mera formali­dade?

Mattie estava pálida e tensa, e Darius, num impulso, levantou-se, ajudou Mattie a se pôr de pé e a abraçou até que ela aparentasse uma pequena melhora.

— Vamos sair daqui — disse ele, decidido. — Isto não é lugar para discutir um assunto como este, e você sabe disso. Vamos para o meu apartamento. Está a dez minutos daqui, e lá teremos alguma privacidade.

— De jeito nenhum! — A idéia de estar a sós com ele naquele apartamento, o lugar onde eles tiveram tantos bons momentos juntos, onde o amor dela se enraizou e cresceu sem que ela nem se desse conta, a colocou em pânico. — Já que é assim, podemos ir para o... meu apartamento, mas não há nada que possamos conversar lá que nós não possamos falar aqui.

— Ótimo.

Ela não descreveria assim o tempo em que os dois passaram em silêncio total no banco de trás de um táxi a caminho de Wimblendon. Horrível era mais de acordo. E se sentia encurralada, miserável e na expectativa do impossível quando nem sozinha com Darius estava, imagine que experiência teria só com ele na diminuta sala do seu apartamento?

Os minutos mais pareceram décadas até o táxi estacionar em fren­te à desgastada casa vitoriana convertida em apartamentos.

— Você mora aqui? — indagou Darius de forma quase cruel. — Você saiu daquele apartamento para morar aqui?

— É barato, é o que posso pagar. — respondeu Mattie sem demo­ra, abrindo a porta da frente.

— Você tem consciência — disse Darius, dentro do apartamento, assim que Mattie acabara de fechar a porta — que é inaceitável o fato de você morar aqui. — Ele se pôs no meio da sala e reparou em volta com um olhar de desdém.

— Pois eu acho muito confortável.

— Um conjugado com uma cama que também é sofá, um banheiro onde só cabe uma anoréxica e uma cozinha... — Darius examinou a cozinha com a mesma cara de desaprovação. — Uma cozinha grande o suficiente para uma mesa com duas cadeiras.

Mattie sentiu que iria chorar, deu-lhe as costas rapidamente, mas não com a velocidade necessária.

Os braços de Darius em volta dela foram como um santuário, um refúgio, e ela recebeu de frente o calor dele, como quem se abrigava com um cobertor.

— Agora não se trata mais só de você. — As palavras de Darius mergulhavam nos cabelos dela. — Você está carregando o meu bebê, e não vou deixá-la enfrentar esta gravidez sozinha, num cortiço desses.

— Você não vai deixar? — Mattie se livrou do abraço traiçoeiro, e afastou-se em direção à janela. — Eu não o procurei para que você pudesse... pudesse me manipular... de novo!

— Eu não estou nem aí para como você chama isso, Mattie, mas me escute. Me escute com muita atenção... — Darius falava baixo, e a voz viajava da sua boca até os ouvidos dela como uma flecha. — Você não vai dar à luz o meu bebê num lugar como este. Você não vai ficar descendo e subindo escadas durante a gravidez, arriscando-se à toa. Você pode não gostar, me chamar de arrogante, mas não vou deixar.

Mattie estava boquiaberta.

— Ma... Mas por quê? — gaguejou ela. — Isso não é... não é uma espécie de conto de fadas. Você interpretou mal as minhas intenções em contar sobre a gravidez! Eu sei que você nunca quis ser pai. E por mais forte que seja o seu senso de dever, não pretendo me tornar vítima dele.

— Mas isso não diz respeito só a você. — Ele virou-se para enca­rá-la. — E não estamos discutindo aqui se eu queria ser pai ou não. A realidade é que você está grávida do meu filho, e pretendo cuidar desta situação.

— Isso não é uma situação — disse Mattie, apesar de uma parte pequena e traiçoeira dela implorar para ser cuidada, amparada. Foi a mesma parte que um dia lhe dissera que ela podia lidar com um homem como Darius. Sábio seria evitar aquela tentação como quem evita uma praga.

— Um evento. Uma ocorrência. Um acontecimento. Chame como quiser, mas você não vai fugir de mim desta vez.

A respiração de Mattie diminuiu o ritmo, as batidas do seu coração pareceram ter desacelerado também.

— Nós vamos nos casar.

 

Mattie deu uma risada. Caminhara em direção à surrada cama de solteiro, improvisada como sofá com o acréscimo de três almofadas e um pano colorido, e ali espalhou-se com as pernas esticadas.

— Casar? Não seja ridículo. Nós não estamos mais na Idade Mé­dia. No caso de você não ter entrado ainda no século XXI. Hoje em dia mulheres engravidam e têm os seus bebês de forma eficiente e autônoma.

— Ótimo para elas. — Darius reagiu com indiferença. — Feliz­mente a vida delas não tem nada a ver comigo. — Ele previa que Mattie protestasse, mas estava mais do que preparado para ouvir as objeções dela. Ela casaria, sim, e a idéia estava longe de desagradá-lo. O destino lhe concedera uma oportunidade, e ele não pretendia desperdiçá-la.

Mattie apertou uma almofada contra o peito. Casamento sem amor. Apenas mais um negócio proposto por ele, igual ao primeiro, que ela foi uma idiota ao aceitar. Por mais moderna que pudesse ser, não aceitaria tomar parte em uma união sem amor. Isso significaria dias, anos de amargura, de espera silenciosa pelo impossível. Iria se tornar um peso amarrado aos pés de Darius, que ele suportaria sem reclamar pelo bem do filho.

— Olha, Darius... — Mattie controlou o tom de voz, na tentativa de ser persuasiva. — Nós dois sabemos por que a gente se envolveu, e nós dois sabemos quais eram as regras desse envolvimento. Sem compromissos, o que dizer de casamento. — Como ela queria ter descoberto antes o que agora sabia, que Darius era um homem capaz de subtrair a emoção de qualquer situação. Sem emoção, tudo era possível, até mesmo casar-se com uma mulher que não amava. Ele transaria com ela até enjoar e, então, discretamente, conduziria uma vida privada fora do casamento. O filho o manteria ligado ao lar.

— Isso era antes, agora o momento é outro.

— Eu simplesmente não posso me casar com você. Eu não poderia me casar com ninguém sem amor. Por que você acha que nunca me casei com Frankie? Lá no fundo eu sabia que nunca poderia me casar com ele, pois não havia ali o tipo de amor que fizesse um casamento funcionar.

Darius simulou um riso curto e zombeteiro.

— E que tipo de amor é esse, Mattie? O que leva uma cereja vermelha no topo?

— Você é tão cínico! — rebateu Mattie. — É o tipo de amor que mantém os meus pais juntos! E os seus pais, também!

Darius deu de ombros.

— Eles pertencem a uma geração diferente, e não costumo fugir das minhas responsabilidades.

— Não estou pedindo que fuja de nada! — protestou Mattie, de­sesperada. — Quando o bebê nascer, você poderá visitá-lo quando quiser...

— Quando o bebê nascer, não haverá necessidade disso, porque vai estar morando comigo, sob o meu teto, como a minha mulher. Eu não vou ter um filho meu nascendo de forma ilegítima... — Darius levantou a mão para impedir que Mattie, abismada, voltasse a protes­tar. — Não perca tempo em me dizer que ilegitimidade é a regra nos dias de hoje. De onde venho, bebês nascem de um matrimônio.

— De um matrimônio feliz. — Disse Mattie com voz trêmula.

— Matrimônio feliz é um matrimônio que dá certo, e temos os ingredientes para que o matrimônio dê certo. Nós gostamos um do outro, a gente se entende muito bem na cama, vamos ter um filho, e, por último, sem o amor para embaralhar as coisas, a nossa relação tem ainda mais chances de sobreviver.

O último argumento, Darius sabia, era o mais importante para convencê-la. Frio e lógico. Nada de mencionar as noites em que ele se angustiara, quando a sua imaginação batia asas e se recusava a voltar à Terra. Lidaria com isso sozinho.

— E depois, quando... o entendimento na cama começar a min­guar?

Darius olhou para baixo por alguns instantes. Minguar? Esta mu­lher o fazia sentir vivo de forma sensacional. Ele seriamente não podia imaginar o dia em que não a desejaria na cama.

— Por que se preocupar com algo que ainda não aconteceu? — perguntou Darius. — Agora, para quem você contou sobre... isso? Para os seus pais? Amigos?

Mattie fez-se de indiferente. Os pais podem ter engolido a vida dela em pecado com Frankie, mas solteira e grávida de um homem que eles não conheciam e que não figuraria como parte integrante da vida dela dali por diante era uma coisa bem diferente.

— Você é a única pessoa que sabe, e começo a me arrepender de não ter ficado com a boca fechada.

— Eu não ficaria se fosse você. — disse Darius de forma severa.

— Não ficaria o quê?

— Pensando no que teria acontecido se não tivesse me contado. Cedo ou tarde, eu descobriria, e você iria desejar não ter nascido.

— Se é assim que pretende me convencer a casar...

— Pense a respeito, Mattie. Como acha que eu reagiria? Como qualquer homem normal reagiria?

— Um monte dos chamados homens normais respiraria aliviado por não ter recebido o fardo de criar uma criança vinda do nada!

— Não há sentido em ficar discutindo isso até a eternidade. Quan­do você pretende contar para os seus pais?

— Logo — disse Mattie, incomodada.

— E o que você acha que eles vão dizer de você morando aqui sozinha e grávida?

Não muito, Mattie especulou, com a pior das sensações. Certa­mente não aplaudirão de alegria. Mais provável que mostrassem a sua decepção pelo silêncio.

— E o que eles vão dizer quando descobrirem que o pai da criança propôs casamento e você recusou?

O quadro se tornaria ainda mais desastroso.

— E como eles descobririam isso?

— Eu contaria, naturalmente.

— Isso é chantagem emocional!

Darius absteve-se de informá-la que faria isso e muito mais para recolocá-la de volta na vida dele, o lugar ao qual Mattie pertencia. Nem mesmo o seu orgulho, que o alfinetava a cada vez que ele ima­ginava Mattie o afastando com um aceno após o sexo, era capaz de demovê-lo do desejo, da necessidade de tê-la de volta.

— Claro — continuou Darius, sem hesitar, sem alterar o tom de voz, como uma escavadeira a forçar o solo firme. — E isso não vai ser nada comparado ao que o nosso filho vai sentir daqui a alguns anos, quando ele ou ela entender que uma vida em família havia sido pos­sível, mas que a mãe teimosa...

Mattie ficou de queixo caído diante dos artifícios de Darius.

— Você não seria capaz — disse Mattie, quase sem voz.

— Eu seria, sim. Agora, vamos logo com isso.

Antes que Mattie pudesse se mover, Darius já estava junto à cô­moda, gavetas abertas, colocando as roupas sobre a cama. Para ser mais preciso, em cima dela.

O branco na cabeça de Mattie se desfez, e ela começou a recolher as próprias roupas amontoadas, ao mesmo tempo que exigia dele explicações.

Darius parou por um instante e olhou firme para Mattie.

— Vamos tirar você daqui, obviamente. Você vai vir comigo.

— Coloque essas roupas de volta nas gavetas! Agora!

— Você vai acordar os vizinhos se continuar gritando desse jeito. Onde estão as suas malas? — Darius não lhe dera tempo para respon­der. Checou embaixo do sofá, o único lugar em que elas poderiam estar, e, decidido, puxou-as e começou a forrá-las com as roupas. — O resto vai ter que esperar até amanhã. Eu venho com George buscar o que sobrou. Como você mudou para cá, por falar nisso? Quem ajudou-a?

— Você não pode fazer isso! Eu não vou me casar com você, Darius Drecos!

— Não me diga que ficou trazendo as coisas por etapas, por conta própria, no seu estado.

— No meu estado? Eu estou grávida, não estou doente!

— Bem, enquanto estiver comigo, você não vai ficar carregando nada pra lá e pra cá. Você precisa se poupar. — Darius alongou os músculos e partiu para a cozinha, com Mattie em seu encalço.

— Eu disse. Eu não...

— Ótimo. Você guardou umas caixas. Isso aqui está bom para começar. — Ele puxou uma das caixas de papelão de debaixo da mesa. — Sente-se. Eu vou empacotar logo umas coisas por aqui. Menos trabalho para amanhã.

Mattie sentou-se. As suas pernas estavam bambas. E como não ficariam?

— Você não pode simplesmente entrar aqui e tomar conta da mi­nha vida dessa maneira!

— Eu posso e estou. Esta é toda a comida que você tem neste lugar? — Darius olhou espantado dentro do armário da cozinha, praticamente vazio. Um vidro de café, açúcar, legumes e atum enlatados. — Você tem comido alguma coisa?

— Claro que sim! — O sentimento de culpa deixou-a na defensiva.

— Você nem tocou na comida nesta noite, eu percebi.

— Você vai me culpar? Eu estava me sentindo um pouco nervosa por ter de contar tudo!

— Você precisa, acima de tudo, dê supervisão para garantir que você coma direito. — Darius abriu a geladeira, quase tão vazia quan­to o armário.

— Supervisão? Isso está ficando absurdo. E, por favor, feche esta geladeira? O motor começa a falhar quando ela fica aberta por muito tempo!

Darius fechou a geladeira sem alarde, escorou-se nela e encarou Mattie com um olhar de censura.

— Isso diz tudo sobre este lugar, não é mesmo? O seu senhorio tem de ser denunciado. Por falar nisso, eu acho...

— Tudo bem! Eu volto para o apartamento. Tenho certeza de que Liz não se importará...

— Você vai comigo agora, e amanhã vamos às compras. Comprar as alianças. Depois, vamos cuidar da papelada. Você vai ligar para os seus pais, e eu vou ligar para os meus.

— Eu nem ainda contei para Frankie — sussurrou ela.

Mattie neste instante se sentiu muito frágil. Acomodou a cabeça entre os braços, sobre a mesa.

Desligou-se inclusive da presença de Darius, até ele tocá-la na cabeça. O gesto proporcionou a ela uma sensação de alívio. Ouviu-o então arrastar a outra cadeira e sentar-se ao seu lado.

— Que confusão — definiu Mattie, virando-se para olhá-lo, mas sem tirar a cabeça da mesa.

— Por que você está tão chateada por não ter contado a Frankie? — Mantenha a tranqüilidade, Darius ordenou-se, nada de ameaças. A simples menção do nome daquele fracassado era o suficiente para acender a raiva dentro dele. Num momento como este, a última pes­soa em quem ela deveria pensar era no ex-namorado.

— Nem havia pensado antes em contar para ele — admitiu Mattie.

Darius ficou tentado a abrir um sorriso. Controlou-se e continuou a acariciar os cabelos dela.

— E por que deveria? Sua mente deve estar um pouco fora do lugar. Estou surpreso que você consiga pensar de forma coerente.

— É, acho que sim. — Mattie levantou a cabeça. Os olhos grandes e verdes dela brilhavam ainda mais devido às lágrimas.

Um pensamento perturbador golpeou Darius com força. E se ago­ra que ela podia estabelecer uma comparação, Mattie deduzia que o que sentia por Frankie era mesmo amor? O amor genuíno, aquele amor que ela não sentia por ele, Darius? Ele tinha consciência de que poderia ser arrogante e, na verdade, egoísta. E se Mattie decidira que era preferível a atitude não-estou-nem-aí-com-a-vida do ex-namora­do ao monstro que não titubeou em manipular a vida dela para conse­guir o que queria? Não era assim que ela o via?

Darius trincou os dentes de dor e incerteza. Adicionou às duas sensações à já longa lista de sentimentos que transgrediam o autocontrole de ferro, a capacidade de concentração e o domínio completo sobre a própria vida, traços que ele considerava características da sua personalidade.

— Bem — Darius levantou-se, impaciente consigo mesmo. — Não faz sentido ficar perdendo tempo aqui. Vamos.

— Está bem. Eu vou com você, Darius, mas nada de alianças e nada de papelada.

— Vamos ver.

Mattie não embarcou em mais um bate-boca infrutífero com ele. Por agora, ela iria para o apartamento dele e se asseguraria que dor­miria no quarto de hóspedes. Amanhã, lhe diria o que tinha para dizer, imporia os seus limites, afirmaria as suas vontades, caso con­trário, acabaria fazendo exatamente o que ele queria. Este era o seu maior temor. Seria conduzida a isso não por crer que o casamento era a única ou a melhor opção, mas porque a idéia de passar o resto da vida com o homem que a amava era perigosamente sedutora.

A descoberta das manobras de Darius em relação ao emprego ha­via feito Mattie parar para pensar, e ela sabia que ou se agarrava ao que aprendera com o episódio, ou os riscos agora seriam maiores.

Somente ao deitar-se sozinha na cama, uma hora mais tarde, Mat­tie começou a sentir a pressão.

Ela conseguiu o que exigira, a solidão da cama do quarto de hós­pedes, mas isto estava longe de ter um sabor de vitória. Darius ce­deu à menor das reivindicações dela. E ainda assim, por quanto tempo? Ele não retornara ao tema casamento, mas Mattie não duvi­dava que na manhã seguinte a ofensiva seria retomada. Pelo menos, ele não tentara tocá-la, pois ela como sempre teria sucumbido aos seus braços.

A angústia lhe tirou boa parte do sono e aumentou quando, duran­te o resto do fim de semana, o assunto alianças, casamento e papelada não voltou à baila.

Eles passaram o sábado fazendo compras. Não em joalherias, mas em lojas de roupas femininas. Ela precisaria de trajes para gestantes, ele a assegurou. A dedicação dele até a sensibilizaria, se Mattie não estivesse tão ocupada em se proteger da perigosa rede com a qual Darius ameaçava envolvê-la.

Ele insistia em levá-la ao setor de alimentação da Harrods, deter­minado a checar se ela já poderia ter desejos de grávida. Mattie, relutante, acabou achando graça no esforço dele.

Toda a preocupação de Darius não era fingimento. Após o choque inicial, ele se surpreendia por se adaptar de maneira tão fácil à idéia de inserir uma criança em sua vida. Uma criança e uma esposa. Por­que Mattie seria dele. No entanto, concluíra que forçar a situação como fizera no apartamento dela não serviria a nenhum propósito.

Mattie era obstinada, e o erro dele foi pensar que ela docemente ouviria os seus argumentos e aceitaria a sua proposta. Equivocou-se pelo desespero em tê-la.

Para alguém que cresceu em uma realidade dura, que batalhou para vencer todas as adversidades, Mattie nutria uma visão romântica de amor e casamento. E essa visão não o incluía. Não ainda.

Darius passaria a maior parte da semana seguinte fora do país. O fato aliviou e ao mesmo tempo desapontou Mattie. Aliviou-se porque disporia de um tempo só para si para decidir como lidar com o pre­sente impasse. Desapontou-se porque, gostasse ela disso ou não, sen­tiria saudade dele.

— Eu quero voltar na quinta-feira e encontrá-la aqui... — disse Darius. Ficou claro o tom de alerta dele ao se despedir na segunda-feira pela manhã.

— Certamente, não vou voltar para o meu apartamento, já que você disse ao senhorio que ele não veria mais a cor do meu dinheiro e o ameaçou, insinuando que colocaria fiscais atrás do pobre homem, se ele não melhorasse o estado do edifício. — Vestida também para o trabalho, Mattie lutava contra o violento impulso de aproximar-se de Darius e beijar aqueles lábios que insistiram em ficar longe dela du­rante todo o fim de semana.

Darius deve ter lido os pensamentos de Mattie, porque ele deu um beijo delicado, beijo que evoluiu para um explosivo, faminto.

Com as pernas bambas, Mattie se agarrou à lapela do paletó de Darius, puxando-o ao encontro dela, para sentir a língua dele invadir cada centímetro possível da sua boca.

Mattie tremia como uma folha de árvore quando, finalmente, eles se desgrudaram. Ela podia admitir ou não, mas o seu corpo se recor­dava do dele e o desejava de volta.

Mattie afastou-se, e Darius ficou muito tentado a segurá-la, antes que ela tivesse tempo para recuar. Entretanto, Darius decidira dar um tempo. Na quinta-feira, ele voltaria e daria um basta nas hesitações dela. Mattie o desejava tanto quanto ele. Com o beijo, não restava dúvidas. É verdade que ela deixara claro que não o amava, mas, por carregar o filho dele, se casaria, sim.

Ele não mais permitiria que Mattie passasse as noites no quarto de hóspedes. Até quando iria aquela novela? Daria para ela todo o tempo do mundo para se adaptar à novidade, assumiria um papel de pai coadjuvante e depois veria chegar o dia em que Mattie arrumaria as malas para seguir com a vida que ele lhe permitira levar? Não. Casa­mento, cama de casal e uma vida a dois. Tudo poderia ser ajustado, uma vez que esses três pilares estivessem plantados.

Darius há semanas não sentia a satisfação que exibia ao sair para o trabalho. Mattie, que fechou a porta após a partida dele, não estava nada satisfeita. Pelo contrário, deixava-a furiosa o modo como ele, educadamente, sem remorsos ou maiores reflexões, baixava leis para as quais esperava completa obediência. Não podia continuar moran­do com Darius, porque ele acabaria passando um rolo compressor por cima dela. O amor de novo a faria de idiota.

Pela primeira vez desde que começou no emprego, Mattie se pe­gou distraída no trabalho. Era muito tarde para fugir? Darius a encon­traria aonde fosse, e a raiva dele não teria limites. De qualquer modo, ele era o pai do seu bebê, e ela nunca poderia fugir daquela obrigação moral com o filho. Mas deixaria o apartamento dele. Darius só volta­rá na quinta. Tempo mais do que suficiente para empacotar as suas coisas e ir embora. Não tinha como voltar para o apartamento em Wimbledon. Também não para o que Darius lhe arrumara, pois dali ele a tiraria facilmente. Só restou um lugar. A casa de Frankie.

Às 18h30, de banho tomado, trocada e com o pequeno telefone celular na mão, Mattie, mesmo sentindo-se culpada, ligou para Frankie. No momento em que ouviu a voz do ex-namorado do outro lado da linha, ela se convencera de que a última coisa que poderia fazer era voltar para a casa dele. Aquela casa, Frankie e tudo que eles compar­tilharam pertenciam agora a um outro mundo. Desde então, ela dera passos gigantescos, para o bem ou para o mal, e não tinha como voltar atrás.

Contudo, foi maravilhoso ouvir a voz de Frankie, especialmente por ela sentir-se tão frágil. Num impulso, ela o convidou para uma visita, decidida a contá-lo sobre a gravidez. Ele não seria capaz de dizê-la o que fazer. Não tentaria suavizar a situação incômoda. Fran­kie era acima de tudo uma pessoa prática em lidar com a vida. Sentia-se infeliz e então mergulhara na bebida. Eles não se entendiam mais, e ele então terminara tudo. As soluções do ex-namorado não eram as mais recomendáveis, mas a franqueza dele, a falta de papas na língua, a animaria.

Quando, quarenta minutos depois, Frankie chegou, Mattie parecia ver um estranho. Ele era mais baixo do que ela lembrava, e o rosto bonito que fizera o coração da menina de 16 anos acelerar não podia ser comparado à beleza agressiva de Darius.

Mattie piscou, sorriu e se encheu de afeto ao vê-lo. Hesitante, ele estendeu um buquê de flores para ela.

— Você parece ótima, Mattie. — Frankie sorriu e olhou em volta o apartamento luxuoso de Darius. — Este estilo fino de vida combina com você. Eu trouxe isto. — Ele entregou as flores para ela e, admi­rado, deu uma nova espiada no ambiente, enquanto ela pegava uma cerveja para servi-lo.

— Nada de álcool, querida.

— Você parou de beber!

Frankie a seguiu até a cozinha, pendurando a jaqueta jeans em uma das cadeiras no caminho.

— Tive que parar. Não poderia arrumar um emprego de outra maneira, depois que você fugiu e deixou todas as contas para pagar.

Mattie virou-se para Frankie e deu de cara com ele sorrindo.

— É, é isso mesmo. Consegui um emprego, você acredita? O ve­lho Bill do bar da esquina arrumou um trabalho para mim com um dos seus fornecedores, e agora não bebo mais, Mattie, eu vendo bebi­da. — Frankie sentara-se em um dos bancos altos em cromo junto à bancada. — Agora, só bebo nos fins de semana.

— Nada de álcool, um emprego... Você se importa de perguntar por que isso nunca passou pela sua cabeça quando eu ainda estava por perto? — Mattie se sentiu muito feliz por tê-lo procurado e também culpada por não ter feito isso há mais tempo. Na verdade, isso nem havia passado pela cabeça dela. Darius se apossou dos seus pensa­mentos, da sua vida, e não havia restado nada para mais ninguém.

Ela preparou um café, sentou-se diante dele na bancada e abriu o coração. Escancarou. Contou tudo. Ela precisava desabafar com al­guém e, por mais incrível que pareça, depois de todo o tempo em que eles ficaram sem diálogo, Frankie era a pessoa que a ouvia, fazendo os gestos e ruídos de quem acolhia e compreendia.

— E então? O que devo fazer? — indagou Mattie, dando-se conta que terminara a xícara de café e que precisava esticar as pernas. Ela levantou-se, pegou a garrafa de água na geladeira e olhou para Fran­kie, ansiosa.

— Case com o bacana. Eu não vejo problemas, mas você sempre foi muito obstinada, Mattie. Você mete uma coisa na cabeça e não consegue tirar.

— Eu devo ir embora. Eu sei que devo, Frankie.

— Por quê? Para onde você vai? Mattie deu de ombros e suspirou.

— Seja realista, Mattie, um homem como esse não vai deixar você viver num buraco enquanto tiver o bebê dele na barriga. O cara vai cuidar do que é dele!

— Este é o problema, Frankie. Ele não pode me comprar, e ele não me ama. Eu preciso sair dessa.

— Não, você não precisa. — Frankie deu um suspiro. — Você se lembra quando a gente era criança, Mattie? A gente ficava na rua como pequenos mendigos, sem modos, uniformes escolares usados. Por que escolher isso para o seu filho, quando você pode ter o melhor?

— Não exagera. Além disso, consegui um emprego...

— Por quanto tempo? — Frankie a encarou, pensativo, e depois baixou os olhos numa rara demonstração de constrangimento. — Você não pode bancar ainda uma casa decente pelo que você me disse. E, Mattie, eu adoraria ajudar, mas tenho um probleminha...

— Eu não estou pedindo sua ajuda. — Mas ele despertou a curio­sidade dela. — Probleminha...?

— O seu grã-fino não é o único cara que vai ser papai. — A expressão no rosto de Frankie era de culpa e felicidade. — Na verdade, Mattie, eu estava saindo com uma garota antes de a gente termi­nar. Ela se chama Shannon. Eu me odiei por tê-la traído, sei que não fui sincero com você, mas não podia simplesmente pedir a você que fosse embora. Perdão, Mattie. — Frankie soltou a respiração. — Ela está morando comigo, e acho que ela não vai gostar se eu oferecer um quarto para a minha ex.

A mente de Mattie reagiu com surpresa, indignação e alegria. A alegria sobressaiu, e ela sem pensar o abraçou, mais certa do que nunca de que o tipo de afeto que eles por tanto tempo dividiram não existia mais.

E os braços de Frankie responderam ao gesto dela no exato instante em que uma chave abriu a fechadura da porta da frente, e Darius entrou no apartamento.

 

— Que diabos está acontecendo aqui?

Mattie e Frankie foram um para cada lado, como amantes pegos em flagrante. Mais do que tudo apreensiva, ela não pôde deixar de sentir uma pontinha de alegria pela volta inesperada de Darius, ape­sar da expressão de ódio com que ele avançou em direção à bancada.

Frankie saltou do banco e com as mãos nos bolsos e cara de bravo. Mattie reconheceu a reação. O ex-namorado nunca levantara uma mão para ela, mas já tinha se envolvido em inúmeras confusões de bar para que Mattie soubesse quando ele se preparava para uma briga.

A consciência de que Frankie levaria a pior contra o homem enor­me que o mirava raivoso levou Mattie a se posicionar no meio dos dois.

— Nada está acontecendo aqui, Darius — disse Mattie, tentando demonstrar frieza. Ela nunca o tinha visto assim. Nervoso a ponto de matar alguém.

— Você é o tal de Frankie, não é? Bem, se você quiser continuar inteiro, sugiro que você se mande agora da minha casa, antes que eu jogue o que sobrar de você pela janela.

— Tente, meu chapa. — A voz de Frankie soou menos confiante do que as suas palavras. — Eu estava de saída quando você chegou.

— Você o chamou aqui? — Os olhos pretos e brilhantes de Darius focaram no rosto branco de Mattie. Ela balançou a cabeça positivamen­te. Frankie ainda dava uma impressão convincente de que não se deixa­ria enxotar por homem nenhum. — Saia daqui agora. E nem pense em voltar, porque você não vai ser convidado de novo. Não é, Mattie?

Ela se pegou de novo acenando a cabeça, concordando com Da­rius. Frankie partiu, e Darius, do outro lado da sala, tinha os olhos inflamados fixos nela. Era vez de Mattie cobrar explicações.

— Você tinha que agir como um marginal? — As palavras saíram de forma impulsiva da sua boca, e ele teve uma reação imediata. Em segundos, eles já estavam cara a cara.

— Ele devia agradecer por não lhe ter quebrado o pescoço! — esbravejou Darius. — No que diabos você estava pensando para chamar o seu ex-namorado aqui? Quando o gato vai embora os ratos saem para brincar?

Bombardeada com perguntas insultuosas, Mattie, perplexa, per­maneceu em silêncio. Terminada a munição, Darius desapareceu em direção ao quarto.

Ela o seguiu em passos acelerados e chegou ao quarto no momento em que ele com um movimento se livrava da camisa e se sentava na cama.

— Eu pensei que você não voltaria até quinta-feira — disse Mat­tie, impressionada com os músculos dos ombros dele.

— Desculpe por desapontá-la, querida.

— Eu sei o que você está pensando, Darius.

— Eu sei o que vi. — Ele desafivelou o cinto.

— É por causa disso que não podemos nos casar!

— Por causa disso o quê? Por que você não seria capaz de se afastar do seu ex-amante?

— Porque você é um machista arrogante!

— Eu não considero arrogante esperar que você convide ex-aman­tes para o meu apartamento!

— Eu precisava conversar com alguém.

— Você pode conversar comigo! — urrou Darius. Cada palavra que deixava a sua boca era equivocada. Ele sabia disso, mas não conseguia se controlar.

Darius se dirigia para o banheiro, quando parou, virou-se para ela e voltou à carga:

— Fala! Você não quer falar? Fala!

— Não com você neste estado. — Mattie gemeu baixinho e escon­deu o rosto com as mãos, mas não a tempo de Darius perceber que ela chorava. Deixá-la sozinha agora seria o fim. Ele tinha consciência disso tanto quanto sabia que o fim da relação significaria o fim dele também. Sem alternativas, respirou fundo e se aproximou na expec­tativa de que ela o afastaria.

Em vez disso, Mattie baixou a guarda, rendeu-se ao abraço e, com um suspiro de cansaço, escondeu a cabeça no peito nu de Darius. Ela pôde ouvir a emoção do coração dele e espalmou ali a mão para também senti-la.

— Eu não posso suportar a idéia de que você tenha qualquer coisa a ver com aquele homem. — Com os dedos entre os cabelos dela, Darius a apertava contra o seu peito.

— Você está com ciúme?

Darius forçou uma risada.

— Eu? Ciúme? De alguém como Frankie? Sim, estou.

O coração de Mattie disparou. Quanto custaria para um homem como Darius admitir tal fraqueza? Fraqueza para ele, pois ela não via assim. Ela se livrou do abraço para poder olhá-lo nos olhos.

— O que você está tentando me dizer, Darius?

— Nada. — Ele virou o rosto, ruborizado de vergonha.

— Ah, tudo bem. Eu tive uma esperança... — Mattie baixou a cabeça e sentou-se na cama.

— Esperança? De quê? — interrompeu Darius. — Você está di­zendo... — insistiu, até que Mattie o olhasse novamente.

— Eu não amo Frankie, caso você esteja com medo disso.

Darius deu um sorriso bobo. Olhava para ela, olhava para a pare­de.

— Claro que não ama — afirmou ele, tão metido que Mattie achou graça.

— Isso não significa que aceite seu comportamento, embora... acho que entenda. Eu não deveria tê-lo convidado. Foi um ato es­túpido.

— Ele não deveria ter vindo. — Ela não amava Frankie. Ele sen­tia-se como uma criança em uma loja de brinquedos. — Eu suponho que ele tenha ficado sentido quando você falou sobre o nosso filho.

— Pelo contrário. Ele também vai ser pai. — Mattie deitou-se na cama, com o olhar perdido no teto e a cabeça apoiada nas mãos. — Ele estava tendo uma outra relação nos últimos meses que passamos juntos.

— Que canalha! — Como um homem em sã consciência pode ter uma amante quando recebe a bênção de morar com uma mulher fabu­losa como aquela?

Agora Darius sentava na cama.

— E você ficou brava?

— Brava? Por que ele me traía? Eu gostaria que ele tivesse tido a coragem de me contar na ocasião, mas não fiquei brava.

— Você tem certeza?

Mattie se encostou nos travesseiros na cabeceira da cama, enco­lheu as pernas e o olhou com um sorriso.

Ela não agüentava mais aquele jogo. Poderia afugentá-lo, mas as­sumiria seus sentimentos em relação a ele, pois agora sabia que Darius sentia mais do que desejo. Ele gostava dela. Do contrário, jamais admitiria o ciúme. E gostar poderia evoluir para amar, não é?

— Tem uma coisa que quero dizer para você. — Mattie tinha a voz trêmula. Darius estava concentrado, pronto para ouvi-la.

— O quê? — sussurrou Darius.

— Quando a gente se conheceu... Quando você me abordou pela primeira vez... Não... Eu não estou dizendo o que quero dizer...

— Você não precisa dizer nada — disse Darius. — Apenas... Ape­nas case-se comigo. Depois, a gente conversa. — Rebaixar-se a esse nível. Que tipo de homem era ele? Ele deveria exigir o casamento, e não implorar daquele jeito.

— Está certo.

O silêncio assemelhava-se a uma corrente elétrica em volta deles. Antes que Darius pudesse quebrá-lo, Mattie levantou a mão. Ela res­pirou fundo.

— Não porque você acha que não tenho outra alternativa. Eu te­nho. Nós poderíamos ter uma criança, sem nos casarmos. Eu vou me casar com você por que...

— Por que...

— Porque em qualquer casamento, não importa o que você diga, tem de haver amor, e o amo. Em algum momento, você derrubou as minhas barreiras, e me apaixonei. Eu tenho por você amor suficiente que dê para nós dois, e, se vier a me decepcionar, tudo bem. Eu apenas não posso mais continuar lutando contra isso. — Ela enfim dissera. Fechou os olhos, suspirou e jogou a cabeça para trás.

Mattie notou que ele se aproximou, mas tinha muito receio para abrir os olhos e encará-lo.

— Eu compreenderei se você quiser reconsiderar o seu pedido de casamento, depois disso.

— Você pode... Você pode repetir o que você acabou de dizer?

— Eu entenderei se você mudar de opinião.

— Não, não esta parte. A outra parte.

Agora, Mattie abriu os olhos e viu a expressão de contentamento em seu rosto.

— Não é nada engraçado — afirmou ela, recusando-se a acreditar no que o coração lhe dizia. O coração dela não era confiável.

— Sim, é engraçado. É muito engraçado por que... — Ele ainda sorria como um bobo ao tocar sua bochecha apenas com um dedo. — Porque voltei com antecedência a fim de contar-lhe o mais rápido possível a mesma coisa.

Mattie duvidou de que escutara corretamente.

— Você me ama? Amor... Amor, mesmo? Ou apenas gosta muito?

— O sentimento que nunca tive por qualquer mulher que tenha passado pela minha vida. — Darius baixou a cabeça e a beijou, um beijo longo, lento, que parecia durar para sempre.

Ele então ajeitou-se na cama para ter uma visão completa de Mattie.

— Quando vi na boate, fervi. Nunca havia sentido um desejo tão forte por uma mulher. Quando você não me respondeu da maneira que esperava, alguma coisa me fez persegui-la.

— Meu pobre Darius. Sentir-se impelido a perseguir uma mulher. Deve ter sido um choque.

— Você está gostando disso, não está? — brincou Darius. — Você gosta do fato de estar totalmente sob o seu poder?

Mattie fez que sim com a cabeça e riu para ele.

— É uma via de duas mãos — murmurou ela.

— Eu sei disso. — Mattie não tinha nada por baixo do moletom de algodão. Darius retirou o agasalho dela e acariciou-lhe os seios, como se fosse o seu dono. — Sem sutiã. Ainda bem que não sabia disso quando a encontrei abraçada com o seu ex. Eu o jogaria pela janela.

— E ele não teria merecido isso. — Mattie envolveu seu pescoço com os braços e se empinou um pouco para sentir os seus mamilos contra o peito de Darius.

— Você disse a ele que me amava? Que ele não significava nada para você?

— Mais ou menos isso.

— Ótimo. — Com uma das mãos, ele começou a deixar a calça de malha de Mattie. Ela o auxiliou balançando as pernas.

— E você não ficou chateado por causa do bebê?

— Chateado? — Darius riu, divertindo-se pelo tanto que ela se equivocara. — Você estava grávida, e isso me dava a desculpa perfei­ta para fazê-la casar comigo.

— Eu nem suspeitei disso. Eu pensei que você estava apenas assu­mindo as suas responsabilidades e que seria um peso indesejado a despencar na sua vida.

— Bobinha.

Mattie não saberia precisar quando exatamente eles se despiram completamente. Ela percebeu, sim, quando os dois fizeram amor, um sentimento doce de completa felicidade, acompanhando o conhecido desejo intenso.

Depois, eles retomaram a conversa que haviam interrompido.

— Eu nunca tentei manipulá-la quando consegui o emprego para você — murmurou Darius. Tinha uma das mãos repousada, possessi­va, sobre os seios de Mattie, e a outra encaixada sob a cabeça dela. — Eu acho que já a amava, eu queria vê-la longe daquela casa, longe daquele cara. Contar sobre o que eu havia feito tornava-se cada vez mais difícil, à medida que ficava cada vez mais envolvido, mais de­pendente de você.

— Dependente? — Aquelas palavras eram música para os ouvidos de Mattie.

— Inteiramente dependente. De um homem que não suportava a idéia de uma mulher a se meter na sua vida, virei um frustrado porque a mulher para quem eu dissera que queria um relacionamento sem compromissos me tomou ao pé da letra. Eu a queria possessiva, por­que eu estava ficando mais e mais possessivo.

— Que bom — reagiu Mattie, extasiada. Ela escorregou a mão pela barriga de músculos definidos de Darius mais para baixo, onde a masculinidade dele dizia o quanto estavam atraídos um pelo outro.

Darius, a exemplo de Mattie, esticou o braço para senti-la e a acariciou até que ela começasse a tremer.

— Não tem problema para a gente fazer... fazer isso? Fazer amor não vai machucar o bebê, vai...?

— Eu acho que a gente pode fazer amor quantas vezes quiser. — A respiração de Mattie se acelerou em resposta aos dedos dele, e ela gemia em meio ao esforço para manter o fôlego. — Nosso lindo bebê vai nascer em uma casa cheia de amor. O que poderia ser melhor?

 

Alexander Darius Drecos nasceu mesmo em um ambiente de amor, e ele deve ter se dado conta disso, pois foi o mais feliz dos bebês. Cabelos e olhos escuros e brilhantes, ele era a imagem do pai orgu­lhoso. Aos oito meses, já engatinhava com energia pelo quarto.

O casamento do casal foi simples, sem pompas. Não foi necessário o tradicional esforço para quebrar o gelo entre os pais do noivo e da noiva, já que o bebê era assunto suficiente para que as famílias se integrassem, assim como o longamente planejado batizado na Gré­cia. Frankie e a sua namorada estiveram presentes, com o consenti­mento de Darius, assim como Harry e algumas meninas da boate com quem Mattie manteve contato. A casa de campo de Darius, onde agora o casal vive com o filho, é grande o bastante para alojar a mãe e o pai de Mattie, quando decidem visitá-los. A visita dos sogros dá a Darius a oportunidade de passar um excitante fim de semana a dois com a esposa no seu apartamento em Londres.

E era justamente ali onde agora eles estavam, esparramados no colchão king-size, saciados após uma longa sessão de sexo, que co­meçara às 18 horas, quando eles voltaram de um agitado dia de com­pras, e somente interrompida pela necessidade de degustar a comida tailandesa que o casal pedira a um restaurante que entregasse em casa.

Nesses ocasionais fins de semana a sós, Mattie se alegrava por ver Darius mais ansioso do que ela sobre como estaria Alexander sem eles. Neste instante, ele, com a testa franzida de preocupação, pensa­va nos riscos de um acidente por causa dos primeiros movimentos do filho. O bebê não respeitava nada quando saía em exploração.

Mattie concedeu um tempo para o discurso rabugento de pai superprotetor, antes de se encolher junto ao peito de Darius com um sorriso.

— E estou aqui — murmurou ela, contornando a boca dele com o dedo. — Eu pensava ser mulher o suficiente para distraí-lo das suas pequenas preocupações...

Darius agarrou o dedo dela com a boca, começou a sugá-lo e pre­senciou o rosto de Mattie corar de prazer.

— Você sabe do que você precisa, não sabe? — provocou ela.

— É claro que sei, minha bruxinha adorável...

— Uma outra criança... — Mattie esperou que Darius processasse a informação. Observava o rosto lindo dele, o rosto que um dia foi tão misterioso, e que agora revelava amor em cada traço.

— Você não está...

— Eu estou. Eu fiz o teste nesta manhã e estava aguardando a melhor hora para contar.

— Um outro bambino.

— Ou bambina. — Mattie riu, divertindo-se com a cara que ele fazia.

— Como a mama. — Ele sorriu, beijou-a na ponta do nariz e pela primeira vez se perguntou o que ele havia feito para alcançar uma felicidade tão perfeita como aquela...

 

                                                                                Cathy Williams  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

           Voltar à Página do Autor