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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


JERUSALÉM / J. J. Benítez
JERUSALÉM / J. J. Benítez

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Operação Cavalo de Troia

Livro I / Primeira Parte

J E R U S A L É M

 

         Baseando-se em informações confidenciais, o prestigiado autor deste best-seller internacional revela dados novos e surpreendentes sobre a figura e a obra de Jesus de Nazaré.

         Tudo começa quando um militar e cientista norte-americano confiam ao autor deste livro uma série de documentos que comprovam uma experiência prodigiosa: uma viagem no tempo permitiu ao protagonista presenciar, há quase dois mil anos, os últimos dias de Jesus Cristo na Terra, desde a sua entrada em Jerusalém, até à sua prisão, julgamento, crucificação e ressurreição.

         Esta misteriosa e inacreditável experiência, batizada pela NASA como Operação Cavalo de Tróia teria sido realizada em Israel, no mais completo segredo e envolvendo sofisticada tecnologia de vanguarda. Trata-se de um relato objetivo e rigoroso, que impressiona, desde logo, pelos detalhes minuciosos dos acontecimentos desses dias, que tiveram uma importância decisiva na evolução da História da Humanidade.

         Operação Cavalo de Tróia é, assim, um livro onde se entrecruzam o passado e o presente, como se Já não existissem - ou, afinal, nunca tivessem existido - fronteiras entre a ficção e a realidade.

 

         Assinalado com uma estrela, o ponto de contato onde pousou o módulo, no cume do monte das Oliveiras. O círculo que aparece um pouco mais ao sul marca o ponto da encosta do monte onde foi instalado o acampamento de Jesus e seus discípulos, em Getsémani permaneci submerso na realização de Operação Cavalo de Tróia.

         Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas uma a uma, creio que o próprio mundo não poderia conter os livros que tinham de ser escritos.

  1. João, 21

 

                            WASHINGTON

         Pelo meu relógio eram três da tarde. Faltavam duas horas para que o Cemitério Nacional de Arlington fechasse as portas. Eu tinha gastado quase toda aquela segunda-feira, 12 de Outubro, em frente aos três túmulos dos soldados desconhecidos e à minúscula e perpétua chama alaranjada que d  vida à rústica laje cinzenta sob a qual repousam os despojos fúnebres do presidente John Fitzgerald Kennedy. Ainda que de tanto o ler Já o tivesse decorado, mais uma vez consultei o código que o Major me entregara.

         Pela enésima vez examinei o maciço sarcófago de mármore branco que se ergue na face leste do Anfiteatro Comemorativo e constitui o monumento inicial e que mais sobressai do Túmulo ao Soldado Desconhecido. Na face oeste esculpiram três figuras que simbolizam a Vitória, obtendo a Paz por meio da Coragem. Mas aquele painel não parecia estar relacionado com o meu código...

Lentamente, como mais um turista, contornei o cordão que encerra o reduzido átrio retangular e fui sentar-me em frente da face posterior do túmulo central, nos degraus de um pequeno anfiteatro. Exausto, reli quanto tinha anotado. Na minha frente, a cinco metros dos túmulos, um soldado de infantaria do Primeiro Batalhão da velha guarda, com sede em Fort Myer, passava para cima e para baixo, espingarda ao ombro, a exibir a escura farda de gala.

         Ainda que a corrente de segurança me separasse uns dez metros daquela parte do túmulo, a legenda gravada no mármore podia ler-se com facilidade: Aqui repousa gloriosamente um soldado dos Estados Unidos que só Deus conhece.

         Estará  ali a chave. Perguntei-me, com nervosismo. A solitária sentinela, esgalgada e fria como a baioneta que rematava o seu brilhante mosquetão, tinha parado. Depois de uma breve pausa, rodou, mudando a espingarda de ombro. Segundos depois percorria o mesmo caminho, parando em frente do túmulo. Ali repetiu a mudança de posição da espingarda e, rodando de novo, reiniciou o seu solene desfile.

         O meu amigo, um major norte-americano, referia-se ao soldado que está  de guarda, dia e noite, no cemitério dos heróis, em Washington. A sentinela que vela diante do túmulo te revelará  o ritual de Arlington, dizia a primeira frase da sua última carta...

 

                         MÉXICO D. F.

         Mas ser  justo que, antes de prosseguir com esta nova aventura, conte quando e em que circunstâncias conheci o Major e como me vi envolvido numa das investigações mais estranhas e fascinantes de quantas empreendi. No mês de Abril de 1980, e por outras razões que não vêm a propósito, encontrava-me no México (Distrito Federal). Havia poucos meses que tinha escrito o meu primeiro livro acerca das descobertas dos cientistas da NASA sobre o Santo Sudário, de Turim, e recordo que, numa das minhas intervenções na televisão asteca - concretamente, no prestigiado e popular programa informativo de Jacobo Zabludowsky -, eu tinha comentado alguns pormenores sobre as horríveis torturas a que fora submetido Jesus de Nazaré. Para minha surpresa e das pessoas da Televisão, naquela noite registrou-se uma torrente de chamadas vindas dos pontos mais distantes da república e até de Miami e da Califórnia.

         De regresso ao hotel, a telefonista do Presidente Chapultepec passou-me uma chamada que nunca esquecerei.

         - É o senhor J. J. Benítez?

         - Sou eu, diga...

         - O senhor é J. J Benítez?

         - Sim, sou eu... Quem fala?

         - Vi-o no programa do senhor Zabludowsky e teria grande honra se pudesse falar consigo.

         - Bom, pois fale - respondi quase mecanicamente, ao mesmo tempo em que me deixava cair em cima da cama. Naqueles primeiros instantes confundi o meu interlocutor com o típico curioso. E preparei-me para acabar com a conversa na primeira altura.

         - Como Já ter  adivinhado pelo sotaque, sou estrangeiro...Sinceramente, ao ouvi-lo, impressionou-me o seu interesse por Cristo.

         - Desculpe - interrompi-o, procurando saber com quem estava falando. - Como disse chamar-se?

         - Não, não lhe disse o meu nome. E se o senhor me permite, dada a minha condição de antigo piloto da força aérea norte-americana, preferia não lho dar pelo telefone.

         Aquilo me pôs em guarda. Refleti e procurei arrumar idéias.

         - Não sei qual é o seu plano de trabalho no México continuou, em tom muitíssimo afável -, mas talvez possa ser de grande interesse para si que nos encontremos. Que Ihe parece?

         - Não sei - hesitei. - Onde é que o senhor se encontra?

         - Estou lhe telefonando do estado de Tabasco. Tem alguma viagem prevista a esta região?

         - Francamente, não, mas...

         Mais uma vez me deixei guiar pela intuição. Um antigo piloto da USAF ? Podia ser interessante... A experiência como investigador tem-me ensinado a aceitar o risco. Que tinha eu a perder com aquela entrevista?

         - Pode esclarecer-me Já alguma coisa? - insinuei, sem reprimir a curiosidade.

         - Não... Acredite. Por telefone, não posso... Mas há mais, não desejo enganá-lo e desde Já lhe digo que nessa primeira conversa, se é que virá  a acontecer, provavelmente não obterá  grandes conclusões. No entanto, insisto em que nos encontremos...

         - Está  bem - interrompi, com alguma indelicadeza. - Aceito. Onde e quando nos vemos?

         - Pode vir a Villahermosa? Até sábado estarei aqui. Conhece a cidade?

         - Sim, conheço - respondi, um tanto contrariado.

         Se a memória não me falhava, em Julho de 1977, Raquel e eu tínhamos visitado a zona arqueológica de Palenque, no estado de Chiapas, e as colossais cabeças olmecas de Villahermosa. Porém, encontrava-me agora no Distrito Federal, a mil quilômetros da tórrida região tabasquenha.

         - Acha bem sexta-feira, dia dezoito?

         - Um momento. Deixe-me ver a agenda...

         A verdade é que eu Já sabia não haver compromisso algum para a referida sexta-feira. Mas o fato de ter de viajar até Tabasco, sem garantias nem referências sobre a pessoa com quem pretendia encontrar-me tinha-me irritado. E procurei rapidamente qualquer desculpa que me livrasse de tão disparatada viagem. Foram uns segundos tensos. Por um lado, o instinto jornalístico puxava-me para Villahermosa. Por outro, a sensatez começara a minar o meu frágil entusiasmo. Felizmente para mim, impôs-se o primeiro e aceitei.

         - Muito bem. Creio que há um avião que parte do México pela uma da manhã. Onde posso encontrá-lo?

         - Conhece o Parque de la Venta?

         O homem devia ter notado as minhas dúvidas e acrescentou:

         - O das cabeças olmecas...

         - Conheço, sim.

         - Estarei à sua espera junto do Grande Altar...

         - Mas como vou conhecê-lo?

         - Não se preocupe.

         Aquela certeza deixou-me fascinado.

         - O mais provável - concluiu - é que eu o reconheça primeiro.

         - Está  bem. Em todo o caso, levarei um livro na mão...

         - Como quiser.

         - Então... Até sexta-feira.

         - Ótimo. Muito obrigado por atender o meu pedido.

         - Tive muito prazer - menti. - Boa noite.

         Ao desligar o telefone, fui assaltado por um enxame de dúvidas. Porque fora eu aceitar tão rapidamente? Que certeza tinha de que aquele hipotético estrangeiro fosse um piloto reformado da USAF ? E se tudo aquilo fosse uma brincadeira? Ao mesmo tempo, alguma coisa me dizia que devia ir a Villahermosa.

O tom de voz daquele homem dava-me a convicção de estar tratando com uma pessoa sincera. Mas, que queria ele comunicar-me? Pensei, naturalmente, naquela enigmática informação. O mais lógico - dizia comigo mesmo, enquanto tentava inutilmente conciliar o sono - será  tratar-se de algum caso OVNI em que entraram os militares norte-americanos. Ou não? Porque se referiu ele ao meu interesse por Cristo? Que ter  a ver um militar veterano com semelhante assunto?

Para dizer a verdade, quanto mais pensava no caso mais estranho e irritante ele me parecia. Optei assim pela única solução prática: esquecer-me até sexta-feira, 18 de Abril.

 

                         TABASCO

         Às dez horas e quarenta e cinco minutos, apenas uma hora depois de levantar vôo do aeroporto Benito Juárez, da cidade do México, aterrava em Villahermosa. Ao pôr os pés na pista, um familiar formigueiro no estômago me anunciou o começo de uma nova aventura. Ali estava eu, debaixo de um sol tropical, com a inseparável bolsa preta das máquinas fotográficas no ombro e um exemplar do meu livro O Enviado na mão.

         Veremos o que o destino me reserva, pensei, enquanto atravessava a crestante pista em direção ao edifício do aeroporto. Aquela situação - para quê negá-lo - fascinava-me. Sempre gostei de brincar de detetive...

         Por isso, e desde o momento em que saí do avião da Companhia Mexicana de Aviação, fui fixando a minha atenção nas pessoas que esperavam no aeroporto. Estaria por lá  o misterioso interlocutor? Pelo timbre da sua voz, o meu anônimo amigo devia andar pelos cinqüenta anos. Talvez mais, dado ser um piloto aposentado.

         Agarrei o livro com a mão esquerda, fazendo que a capa ficasse bem à vista, e, vagarosamente, encaminhei-me para o serviço de câmbio. Se o norte-americano estava por ali tinha de me identificar. Troquei alguns dólares, e com a mesma calma dirigi-me para a porta de saída à procura de um táxi.

         Ninguém fez o menor movimento nem a mim se dirigiu em momento algum. Era evidente que o estrangeiro não se encontrava no aeroporto, ou pelo menos, não quisera dar sinal de vida. Poucos minutos depois, pelas onze e um quarto daquela sexta-feira, 18 de Abril de 1980, um empregado do Parque Museo de la Venta entregava-me o correspondente bilhete de entrada, bem como uma simples

mas bem documentada planta para localização das gigantescas esculturas olmecas.

         O parque parecia estar tranqüilo. Consultei o mapa e verifiquei que o Grande Altar - o nosso ponto de encontro - estava situado exatamente no centro daquele belo museu ao ar livre. O itinerário indicava um total de vinte e sete monumentos. Eu devia caminhar até ao número cinco. Se tudo corresse bem, era ali que deveria conhecer, finalmente, o meu informante.

         Sem perda de tempo, meti-me pelo estreito caminho, seguindo as pisadas de uns pés a vermelho que tinham sido pintadas pelos responsáveis do parque e constituíam uma simpática ajuda ao visitante. Uns metros à minha esquerda, descobri o monumento número um.

         Tratava-se de uma formidável cabeça de jaguar meio destruída, com um peso de trinta toneladas. Continuei a andar, metendo-me por um cerrado bosque. O coração começava a bater mais depressa.

         A uns oitenta passos, à direita do caminho, apareceram as esculturas de um macaco e de outro jaguar. Eram os monumentos números dois e três. Em frente ao jaguar a planta indicava a figura de um manatim, esculpido em serpentina. Era o número quatro. Avancei mais uns trinta metros e, ao deixar para trás um dos cotovelos do caminho, reconheci entre o arvoredo o monumento número quatro, outro pequeno jaguar, também esculpido no basalto. O seguinte era o Grande Altar Triunfal.

         Aqueles últimos metros até ao pequeno átrio onde se ergue o monumento número cinco foram singularmente intensos. Até àquele momento não encontrara sequer um turista. A minha única companhia eram os meus pensamentos, e aquela louca algaravia da multidão de pássaros multicores que esvoaçavam entre as copas dos grandes huayacãs, e cedros vermelhos.

         Ao entrar na clareira parei. O coração teve um sobressalto. O Grande Altar estava deserto. Por baixo da ara, num nicho central, uma figura nua e musculosa empunhava uma adaga na mão esquerda. Com a direita, a estátua agarrava uma coroa a que estava amarrado um prisioneiro.

         O furioso sol do meio-dia devolveu-me à realidade. Onde está  o maldito yankee?, balbuciei, indignado. Só a idéia de que tivesse zombado de mim me perturbava. Avancei desconcertado para o Grande Altar sentindo chiar debaixo das botas o cascalho branco.

         Talvez tenha chegado adiantado, pensei, numa débil tentativa para me tranqüilizar.

         De repente, avisado - suponho - pelo som dos meus passos no cascalho, um homem apareceu atrás da grande mole de pedra.

         Ambos permanecemos imóveis durante uns segundos, observando-nos. Nunca esquecerei aqueles instantes. Tinha na minha frente um indivíduo de considerável altura - talvez perto de um metro e oitenta – com o cabelo grisalho e vestindo casaco e calças brancas. Respirei, aliviado. Sem dúvida era aquele o meu anônimo interlocutor.

         - Bom dia - exclamou, ao mesmo tempo em que tirava os óculos escuros e sorria. - É o senhor J. J. Benítez?

         Confirmei e apertei-lhe a mão. Costumo dar grande importância a este gesto. Gosto daqueles que o fazem com força. Aquele aperto de mão foi sólido, como o dos amigos que se encontram passado muito tempo.

         - Agradeço-lhe que tenha vindo - comentou. - Creio que não se arrependerá por me ter conhecido.

         Nem nesta primeira entrevista nem nas que se seguiram durante vários meses, pude averiguar a idade exata daquele norte-americano.

         A julgar pelo seu aspecto - ossudo e com um rosto riscado pelas rugas - talvez andasse pelos sessenta anos. Os olhos claros, penetrantes, inspiraram-me confiança. Não sei a razão, mas, desde aquele primeiro encontro junto ao Grande Altar, no Museu de la Venta, se estabeleceu entre nós uma mútua corrente de confiança.

         - Conheço um restaurante onde podemos conversar. Tem fome?

         Não tinha apetite algum, mas aceitei. O que me consumia era a curiosidade. Uns minutos depois estávamos sentados num estabelecimento em penumbra, quase no final da Rua do Paralelo Dezoito. Durante o trajeto, nenhum de nós falou. Suponho que o meu novo amigo fez o mesmo que eu, tentar descobrir o outro até aos menores pormenores... Depois daquele cumprimento no museu das gigantescas cabeças negróides, a certeza de que me encontrava ante uma possível boa notícia ia ganhando terreno.

         - Diga - quebrei o silêncio, convidando o meu companheiro a que começasse a falar.

         - Em primeiro lugar, quero lembrar-lhe o que Já lhe disse por telefone. É possível que se sinta desiludido, no fim da nossa primeira conversa.

         - Porquê?

         - Quero ser muito sincero consigo. Mal o conheço. Não sei até onde pode chegar a sua honestidade...

         Deixei-o falar. O seu tom pausado e cordial tornava as coisas muito mais fáceis.

         - Para depositar nas suas mãos a informação que possuo, primeiro tem de me demonstrar que confia em mim. Por isso - peço-lhe que não fique alarmado - tenho de experimentar e ter certeza da sua firmeza de espírito e, principalmente, do seu interesse por Cristo.

         O americano levou à boca um sumo de laranja e continuou a perfurar-me com aquele olhar de falcão. Deve ter captado a minha confusão. Que tinha a ver a minha firmeza de espírito com Cristo ou, antes, com o meu interesse por Jesus?

         - Permita-me duas perguntas, senhor...

         - Se isso não o aborrece - respondeu, com um fugaz sorriso trate-me por Major. No momento, e por razões de segurança, não posso dizer-lhe o meu verdadeiro nome.

         Aquilo me desagradou. Mas aceitei. Que mais podia eu fazer, se queria realmente chegar ao fundo daquele enigmático assunto?

         - Está  bem, Major. Vamos por partes. Em primeiro lugar, o senhor disse ser um oficial da força aérea norte-americana que passou à reserva. Estou enganado?

         - Não, não está.

         - Bem. Segunda pergunta: que tem a ver o meu interesse por Cristo com essa informação que diz possuir?

         O criado pôs em cima da toalha vermelha várias travessas com postas de robalo e guisado de carne com pimenta, empadas de queijo e um imenso lombo à moda de Tampico.

         O Major calou-se. Tenho agora certeza de que foi para ele uma situação difícil. O meu amigo teve de lutar contra si mesmo para se conter.

         - Quando conhecer a natureza dessa informação – acentuou compreenderá as minhas precauções. Antes que isso aconteça, tenho de me convencer de que você, ou a pessoa escolhida será  capaz de lhe dar valor e, principalmente, que fará  bom uso dela.

         - Não consigo entender porque me escolheu...

         O Major deixou de me perscrutar e perguntou, por sua vez:

         - Acredita na casualidade?

         - Sinceramente, não.

         - Quando o vi e o ouvi na televisão, houve uma frase sua que me levou a telefonar-lhe. Teve a coragem de reconhecer publicamente que, agora, a partir das suas investigações sobre as descobertas dos cientistas da NASA, tinha descoberto Jesus de Nazaré. O senhor não parece envergonhar-se de Cristo...

         Sorri.

         - E por que razão o faria, se realmente acredito nEle?

         - Foi isso que transmitiu através do programa. E isso é, nem mais nem menos, o que eu procuro.

         Não pude conter-me e lancei-lhe à queima-roupa:

         - Desculpe. Pertence a alguma seita religiosa?

         O Major pareceu ficar desconcertado. Mas acabou por sorrir, revelando-me um novo dado.

         - Vivo só e isolado. Sou crente, e nem imagina até que ponto o sou... No entanto, sempre fugi a qualquer tipo de igreja ou grupo religioso. Pode ter certeza de que não se encontra na frente de um fanático...

         Pareceu-me notar um pouco de tristeza e de melancolia em algumas palavras suas. Hoje, ao recordá-lo, e consoante fui descobrindo o enigma do major norte-americano, não posso evitar uma arrepio de emoção e de profundo respeito por aquele homem.

         - Onde vive?

         - No Iucatan.

         - Posso perguntar-lhe porque vive só e isolado?

         Mas, antes que me respondesse, tentei encurralá-lo com uma segunda pergunta:

         - Tem alguma coisa a ver com essa informação que conhece?

         - A isso posso responder com um terminante sim,.

         De novo houve silêncio entre nós.

         - E que deseja que eu faça?

         O Major tirou de uma das algibeiras do casaco uma pequena e desbotada caderneta azul. Escreveu umas palavras e entregou-me a folha de papel. Tratava-se de um apartado dos correios na cidade de Chichén Itz , no mencionado estado do Iucatan.

         - Quero que continuemos em contato - respondeu, indicando-me a direção. - Pode escrever para esta caixa postal?

         - Naturalmente, mas...

         O homem pareceu adivinhar os meus pensamentos e continuou com uma firmeza que não dava lugar a dúvidas:

         - Tenho de provar a sua sinceridade. Suplico-lhe que não se aborreça. Só quero ter a certeza. Embora não o compreenda agora, eu sei que os meus dias estão contados. E tenho urgência em encontrar a pessoa que terá  de difundir essa informação...

         Aquela confissão deixou-me perplexo.        

         - Está  me dizendo que sabe que vai morrer?

         O Major baixou os olhos. E eu amaldiçoei a minha falta de tato.

         - Perdoe...

         - Não se desculpe - continuou o oficial, voltando ao seu tom alegre. - Morrer não é bom nem mau. Se o insinuei foi para que saiba que esse momento está próximo e que, por conseqüência, não está  lidando com um brincalhão ou um louco.

         - Como saberei se decidiu ou não que seja eu a pessoa adequada?

         - Acho que em breve nos voltaremos a ver, não se preocupe. Saberá, simplesmente.

         - Não posso esconder mais. Sabe que investigo o fenômeno OVNI...

         - Sei.

         - Pode ao menos me esclarecer se essa informação tem algo a ver com essas astronaves?

         - Tudo o que posso lhe dizer é que não.

         Aquilo acabou por me desorientar.

         Duas horas mais tarde, com o espírito assaltado por dúvidas, levantava vôo de Villahermosa, rumo à Cidade do México. Não podia então imaginar o que o destino me reservava.

 

                             IUCATÇO

         De regresso à Espanha, e durante alguns meses, o Major e eu trocamos uma série de cartas. Por aquela altura, as minhas atividades na investigação OVNI tinham Já atingido um volume e uma dimensão suficientemente notórios para tentar os diversos serviços de espionagem que atuam no meu país. Tinha então consciência - e ainda tenho agora - de que o meu telefone era vigiado e de que, em muitas alturas, dada a natureza de algumas indagações, os sutis agentes desses departamentos (civis e militares) de Informação tinham seguido muito de perto os meus passos e encontros. O que nunca souberam - pelo menos assim espero - é que, prevendo que a minha correspondência pudesse ser interceptada, eu tinha alugado uma determinada caixa postal nos correios, aproveitando para tal a cumplicidade de um bom amigo, que figurou sempre como o legítimo locador. Esta habilidade permitiu-me desviar do canal oficial aquelas cartas, documentos e informações em geral que pretendia isolar daquela curiosidade doentia.

         Naturalmente, pelo que poderia acontecer, e dada à antiga profissão e a nacionalidade do Major, sempre as suas cartas seguiram por essa via confidencial. Nem a minha mulher, Raquel soube da existência deste novo amigo nem dos meus sucessivos contatos com ele. Por outro lado, e ainda que as cartas do Major tivessem caído nas mãos dos serviços de espionagem, duvido muito que o seu conteúdo pudesse atrair-Ihes a atenção. Por mais que insistisse, nunca consegui que largasse uma única pista sobre a informação que dizia possuir.

         As suas amáveis palavras estavam sempre dirigidas para um mais intenso e extenso conhecimento da minha maneira de pensar, das minhas inquietações e, especialmente, dos meus passos e investigações em torno da Paixão e morte de Cristo. Recordo que uma das suas cartas foi dedicada inteiramente a interrogar-me sobre a última parte do meu livro O Enviado.

         Segundo parece, a minha hipotética entrevista com Jesus de Nazaré, que conclui a obra, causou-lhe especial impressão. E chegou o Outono de 1980. Em honra da verdade, as minhas esperanças de obter algum indício sobre o impenetrável segredo do Major tinham ido enfraquecendo. Houve momentos difíceis, em que as dúvidas me assaltaram com grande violência. Acho que o meu fraco entusiasmo teria acabado por se extinguir se não tivesse recebido aquela lacônica carta - quase telegráfica - em que o meu amigo me rogava que largasse tudo e voasse até à cidade de Mérida, no estado do Iucatan. Durante alguns dias - não o nego - debati-me numa angustiante inquietação. Que devia fazer? Teria o Major resolvido falar-me com clareza?

         Uma vez mais, estive tentado a lhe escrever e a pedir explicações.

         Mas alguma coisa me deteve. Tinha a intuição de que podia ser outra prova, talvez a definitiva. Tomei por fim a decisão de apanhar o avião para a América e iniciei uma infinidade de medidas para procurar cobrir, no todo ou em parte, o elevado custo da viagem. Contrariamente ao que muitos possam pensar, os meus recursos econômicos são sempre escassos e aquele súbito salto para o outro lado do Atlântico acabou por desequilibrá-los.

         Providencialmente, o meu amigo e editor José Manuel Lara aceitou a idéia de apresentar os meus últimos livros na América, e com esta desculpa aterrei em Bogotá.

         Aquele desvio, embora atrasasse uns dias o meu encontro com o Major, pareceu-me extremamente prudente. Não estava disposto a conceder a menor possibilidade aos serviços de espionagem, e assim o anunciei ao meu amigo, numa carta que me precedeu e em que, evidentemente, lhe indicava o dia e o vôo em que esperava aterrar em Mérida.

         Concluídas as minhas obrigações na Colômbia, arranjei maneira de cancelar os meus compromissos em Caracas, voando rigorosamente incógnito - via Belmon - até Iucatan.

         Ao passar pela alfândega, e antes de ter tempo para procurar o Major, esbarrei com um cartaz onde tinham escrito o meu primeiro nome. O escandaloso cartaz estava nas mãos de um homem rijo, de grande bigode preto e pele bronzeada. Ao apresentar-se, identificou-se como Laurêncio Rodarte, ao serviço do Major.

         - Ele não pôde vir esperá-lo - desculpou-se, enquanto teimava em me levar a mala. - Se não se importa, eu levo-o até junto dele.

         O meu instinto fez-me desconfiar. E, antes de sair do aeroporto, procurei averiguar que papel desempenhava aquele indivíduo e por que razão não viera o Major.

         Laurêncio deve ter percebido o meu receio e, largando a mala, resumiu:

         - O Major está  doente.

         - Onde está ?

         - Sinto muito, mas não tenho autorização para o dizer. Mandou-me que viesse esperá-lo e...

         - Olhe, Laurêncio - interrompi-o, procurando serenar os meus nervos -, nada tenho contra você. Mais, agradeço-Ihe que tenha vindo esperar-me, mas, se me disser onde está  o Major eu irei pelos meus próprios meios.

         O homem hesitou.

         - É que as minhas ordens...

         - Não se preocupe. Diga-me onde é que o Major me espera e irei ao seu encontro.

         O tom da minha voz era tão firme que Laurêncio acabou por encolher os ombros e perguntou de má  vontade:

         - Conhece Chichén Itz ?

         - Conheço.

         - O Major ordenou-me que o levasse até à cisterna sagrada.

         Laurêncio apontou para o meu relógio e acentuou:

         - Deve estar lá às quatro.

         E, dando meia volta, encaminhou-se para a saída. Consultei a hora local e verifiquei que dispunha de duas horas, o que mal chegava para ir até à cisterna sagrada dos Maias. Tinha visitado noutros momentos o recinto arqueológico da escondida povoação de Chichén Itz , a leste de Mérida, e em plena selva da península do Iucatan. Conhecia também as suas famosas cisternas - a sagrada e a profana -, situadas a curta distância da cidade e que, segundo os arqueólogos, foram utilizadas pelos antigos Maias como reservatórios naturais de  água. A cisterna sagrada era também um centro religioso, onde se praticavam sacrifícios humanos.

         Ao ver afastar-se o Toyota preto que Laurêncio guiava, descansei por um instante, procurando pôr as minhas idéias em ordem. Como era evidente, não tardei em me censurar por aquela seca e radical atitude para com o emissário do Major. Especialmente, na altura de lidar com os motoristas dos táxis, estacionados junto ao aeroporto...

         Depois de muito regatear, um dos motoristas aceitou levar-me por oitocentos e cinqüenta pesos. E pelas duas da tarde – sem ter comido nada e com a roupa encharcada em suor - o táxi meteu pela Estrada 180, em direção a Chichén.

         Tal como tinha prometido, o motorista do táxi percorreu os cento e vinte quilômetros que separavam Mérida de Chichén Itz  em pouco mais de hora e meia. Depois de uma vertiginosa ducha no hotel da Vila Arqueológica, encaminhei-me para o local escolhido pelo Major.

         As quatro em ponto, com passo ligeiro e o coração a sair-me pela boca, deixei atrás de mim a impressionante pirâmide de Kukulc na e a plataforma de Vênus, enfiando-me pela Via Sagrada, como é conhecida, que morre precisamente numa cisterna ou tanque de quase sessenta metros de diâmetro e quarenta de profundidade.

         Antes de chegar ao caminho para o poço sagrado, avistei duas pessoas sentadas junto de uma frondosa acácia com florzinhas rosadas. Ao ver-me uma delas levantou-se. Era Laurêncio. Caminhei mais devagar e enquanto me aproximava senti uma imensa e irreprimível vergonha. Mais uma vez me tinha enganado.

         Mas aquele sentimento desvaneceu-se ao ver a segunda pessoa.

         Fiquei atônito. Era o Major, mas com mais vinte anos do que aqueles que aparentava quando o conheci em Villahermosa. Continuou sentado na plataforma de pedra do velho altar dos sacrifícios, observando-me com uma mistura de incredulidade e de emoção. Lentamente, em silêncio, deixei escorregar a bolsa das máquinas fotográficas, ao mesmo tempo em que Laurêncio o ajudava a levantar-se. O Major estendeu então os seus compridos braços e, sem saber por que motivo, deixando-me arrastar pelo coração, abraçamo-nos.

         - Querido amigo... - murmurou o ancião . - Querido amigo!...

         Os seus olhos penetrantes, agora enterrados num rosto cadavérico, tinham-me umedecido. Algo de muito grave, efetivamente, minara a sua antiga e galharda figura. O seu corpo parecia curvado e reduzido a um molho de ossos, por baixo de uma pele ressequida e salpicada por pintas escuras de melanina. Uma barba branca e desleixada mais acentuava a sua decadência.

         Tentei esboçar uma desculpa, apertando a mão de Laurêncio, mas este, sem perder o sorriso, pediu-me que esquecesse o incidente do aeroporto.

         O Major, apoiando-se ao meu ombro, sugeriu-me que caminhássemos um pouco até ao prado que rodeia a pirâmide de Kukulc n.

         Com passo vacilante e uma infinidade de paragens pelo caminho, fomos aproximando-nos do castelo ou pirâmide da Serpente Emplumada.

         Assim, naquele primeiro dia em Chichén Itz , soube pela boca do próprio Major que o seu fim estava próximo e que, contrariamente ao que pudesse imaginar, a sua morte fixaria precisamente o começo do meu trabalho.

         Soube também que - tal como me insinuara noutras alturas – a sua doença era conseqüência de uma falha não prevista num projeto secreto levado a cabo uns anos atrás, quando ainda pertencia à força aérea norte-americana. Quando o interroguei sobre o referido projeto, suspeitando que poderia ter uma estreita relação com a informação que prometera dar-me, o Major pediu-me que continuasse a ser paciente e esperasse um pouco mais.

         Durante dois dias, a minha vida decorreu praticamente numa pequenina casa térrea, nos arredores de Chichén, muito próxima das grutas de Balankanchen, na estrada que segue em direção a Valhadolid maia.

         Ali, Laurêncio e sua mulher tratavam do meu amigo havia seis anos. Nem é preciso dizer que aproveitei aquela magnífica oportunidade para mergulhar, na medida do possível, no passado e na identidade do Major. No entanto, as minhas pesquisas entre as diversas autoridades policiais e as pessoas de Chichén não foram tão frutíferas como eu teria desejado. Por um mínimo de delicadeza para com o meu amigo e por ter começado a estimá-lo, pondo até de parte a prometida informação, optei por suspender as tímidas e dissimuladas averiguações.

         Sempre que me lançava naquele tipo de operação, um sentimento de repugnância fazia que eu próprio acabasse por me inibir. Era como se estivesse a

traí-lo.

         Decidi acabar com tais manobras, a mim mesmo prometendo que seria implacável, se desse o caso de a suposta informação secreta ficar por fim em meu poder.

         No entanto, e graças àquelas primeiras averiguações, confirmei como positivos alguns dos dados que o Major me facilitara sobre a sua pessoa: era, efetivamente, de nacionalidade norte-americana, o seu passaporte estava em dia e pertencera a USAF.

         Talvez o Major nunca o tenha sabido, mas, antes de regressar a Espanha, Já eu descobrira a sua verdadeira identidade, bem como outros pequenos pormenores sobre aquela límpida e aprazível vida no Iucatan.

         Tudo isto, como é lógico, me tranqüilizou e aumentou a minha curiosidade e interesse por aquela informação de que tanto me falara o Major.

         Antes de partir, ao anunciar-Ihe a minha intenção de voltar à Espanha, expus com toda a clareza a minha inquietação perante o seu mau estado de saúde e a não menos inquietante circunstância, pelo menos para mim, de não ter conseguido a mínima pista sobre o oculto segredo que dizia ter.

         O Major pediu a Laurêncio que lhe trouxesse um sobrescrito branco que estava em cima de uma prateleira do armário da saleta onde conversávamos. Com gesto grave, colocou-me nas mãos e comentou:

         - Aqui está a primeira parte. O restante chegará ao teu poder quando eu morrer...

         Examinei o sobrescrito com algum nervosismo.

         - Está  fechado - notei. - Posso abri-lo?

         - Te peço que o faça longe daqui... Talvez no avião.

         Enquanto o guardava entre as folhas do passaporte, o meu amigo adotou um tom mais descontraído:

         - Obrigado. Compreenda que a sua investigação começa agora.

         - A minha investigação... mas, de quê?

         O Major não respondeu às minhas perguntas.

         - Só te peço que continue a acreditar em mim e se empenhe com todo o teu coração em decifrar a chave que te conduzirá ao meu legado.

         - Continuo a não entender...

         - Não importa. Agora, antes de partir, prometa uma coisa...

         O Major pôs-se de pé e eu fiz o mesmo. Num extremo da casa, Laurêncio assistia à cena com o seu proverbial mutismo.

         - Prometa-me - anunciou-me o ancião , ao mesmo tempo em que erguia a mão direita - que, aconteça o que acontecer, nunca revelará a minha identidade...

         Apesar da minha crescente confusão, também levantei a mão direita e prometi, com a solenidade de que fui capaz.

         - Obrigado outra vez - murmurou o Major, enquanto se deixava cair lentamente na cadeira. - Que Deus te abençoe...

 

                         ESPANHA

         Foi aquela a segunda e última vez que vi o Major com vida. Ao regressar a Espanha, e enquanto o meu avião sobrevoava as crateras do Popocatepetl, peguei no misterioso sobrescrito que o norte-americano me dera. Apalpei-o lentamente e, com surpresa, apercebi-me de que continha qualquer coisa sólida e dura. A curiosidade, dificilmente contida, durante aqueles dias, transbordou e tratei de o abrir com todo o cuidado de que fui capaz. Ao olhar lá dentro, a decepção esteve a ponto de me provocar uma síncope. Estava vazio! Ou, melhor, quase vazio.

         No interior do sobrescrito, minuciosamente colada com fita adesiva transparente, havia uma chave. Arranquei-a, sem poder conter o meu desencanto, e passei-a de uma mão para outra, sem saber que pensar.

         Tentei tranqüilizar-me a mim próprio, iludindo-me com as idéias mais disparatadas. Porém, a verdade nua e fria continuava ali na minha frente - na forma de chave. Para cúmulo, aquela peça de uns escassos quatro centímetros de comprimento não apresentava um só sinal ou inscrição que permitisse identificá-la. Tinha sido usada, isso era evidente. Mas, onde?

         Durante horas, debati-me entre mil conjecturas, misturando o pouco que me adiantara o Major com um labirinto de especulações e fantasias minhas. O resultado final foi uma dor de cabeça muito incomodativa.

         Aqui tens a primeira entrega...

         Que mistério havia naquela frase? E, principalmente, em que poderia consistir o restante?

         ... O restante chegará quando eu morrer.

         A única coisa clara - ou medianamente clara - em toda aquela embrulhada era que a informação em questão (ou o que quer que fosse), de algum modo tinha de estar relacionada com aquela chave. Mas em quê?

         Era absolutamente necessário esperar, a não ser que quisesse enlouquecer. E foi o que fiz: esperar pacientemente. Durante a Primavera e o Verão de 1981, as cartas do Major foram cada vez mais espaçadas. Finalmente, pelo mês de Julho, e com natural alarme da minha parte, o fiel Laurêncio foi o encarregado de responder às minhas cartas.

         O Major, dizia-me, numa das últimas cartas, caiu num profundo estado de prostração. Mal consegue falar...

         Aquelas palavras anunciavam um rápido e fatal desenlace. Mentalmente, preparei-me para uma nova e última viagem a Iucatan. Mais que o meu inegável e forte interesse - chamemos-Ihe jornalístico - prevalecia, graças a Deus, um arraigado afeto por aquele ancião prematuro. Bem sabe Deus quanto teria desejado estar junto dele no momento da sua morte. Porém, o destino reservava-me outro papel nesta desconcertante história.

         Foi casualidade? Sinceramente, não sei que pensar...

         A verdade é que, naquele 7 de Setembro de 1981- data do meu aniversário -, me chegou às mãos uma nova carta proveniente de Chichén Itz . Em algumas frases lacônicas, Laurêncio anunciava-me o seguinte:

         - Assumo o doloroso dever de Ihe comunicar que o nosso comum irmão, o Major, faleceu no dia 28 de Agosto. Cumprindo as suas instruções, junto um sobrescrito que só o senhor dever  abrir...

         Embora a notícia não me apanhasse de surpresa, tenho de confessar que o desaparecimento do meu amigo me afundou durante alguns dias numa singular melancolia, comparável talvez com a tristeza que me provocou um ano depois o falecimento de outro querido mestre e amigo, Manuel Osuna.

         Naquela mesma tarde de 7 de Setembro em desânimo, guiei o meu automóvel até às escarpas de Punta Gales. E, ali, tendo na frente o azul e sereno Cantábrico, rezei pelo Major.

         Ali mesmo no meio da solidão , quebrei o lacre que protegia o sobrescrito e retirei o conteúdo. Curiosamente, ao invés do que eu próprio teria imaginado semanas atrás, naqueles instantes a minha alvoroçada curiosidade e desenfreado interesse em conhecer o mistério do Major passaram a segundo plano.

         Durante mais de duas horas, a tão esperada segunda entrega permaneceu quase esquecida no banco de trás do meu carro. Eu tivera uma verdadeira estima por aquele ancião.

         Mas, por fim, como disse, a minha curiosidade impôs-se. O sobrescrito continha duas grandes folhas de papel espesso e quadriculado. Reconheci imediatamente a letra pontiaguda do major. Uma das folhas era uma carta escrita de ambos os lados.

         Tinha data de Agosto de 1980!

         Aquilo significava - por pura dedução – que o Major tomara a decisão de me confiar o seu segredo pouco depois do meu primeiro encontro com ele, ocorrido em 18 de Abril de 1980.

         A carta, que vinha assinada com os seus nomes e apelidos, era na realidade uma última recomendação para que eu procurasse manter-me no caminho da honradez e do amor pelos meus semelhantes. No último parágrafo, e quase de passagem, o Major referia-se à famosa segunda entrega, explicando-me que para chegar à informação que tanto desejava, teria primeiro de decifrar a chave que juntava em folha à parte.

         Por último, e com um rude, mas evidente sublinhado, rogava-me que fizesse bom uso da referida informação.

         O meu desejo é que com ela possas levar um pouco mais de paz a quantos, como tu e como eu, estamos empenhados na procura da verdade.

         O segundo papel, igualmente manuscrito pelo Major, apresentava um total de cinco frases, em inglês, que à primeira vista pareciam absurdas e incongruentes.

         Eis a tradução:

         A sentinela que vela diante do túmulo te revelará o ritual de Arlington.

         Chave e ritual conduzem a Benjamim.

         Abre os olhos perante John Fitzgerald Kennedy.

         O irmão dorme em 44-W. A sombra da nespereira cobre-o pelo entardecer.

         Passado e futuro são o meu legado.

 

         Mais uma vez, o Major parecia divertir-se com aquele jogo. Mas se trataria de um jogo? Mil vezes me perguntei a razão de tantos rodeios e precauções. Se o meu amigo tinha morrido lógico seria que me facilitasse aquela informação difícil, sem necessidade de mais complicações.

         Mas as coisas eram como eram eu tinha como única escolha o desemaranhar daquela meada cada vez mais enredada. Como o leitor supor, passeio horas com os cinco sentidos concentrados naquelas frases.

         Estive tentado a chamar alguns dos meus amigos, em busca de auxílio.

         Mas contive-me. Me veria forçado a dar-lhes os antecedentes de tão longa e inacreditável história e, principalmente, conforme foi passando o tempo, longe de me desanimar, aceitei a questão como um desafio pessoal. E aqueles que me conhecem um pouco sabem que essa é uma das minhas fraquezas.

         De início, a única coisa clara é que a chave que o Major me dera tinha uma indubitável e estreita relação com a segunda frase. Aquela chave deveria conduzir-me, ou levar-me até Benjamim. Mas o que ou quem era Benjamim?

         Muitas e muitas vezes, durante quase três semanas, esmiucei frase por frase e palavra por palavra. Levei a cabo as mais disparatadas trocas e saltos nas frases, procurando um sentido mais lógico. Tudo inútil.

         À força de estudar o texto acabei por sabê-lo de cor.

         Naquele mês de Setembro, e parte do seguinte, vivi por e para aquela mensagem em cifra. Passava os dias a vaguear sem rumo, com o olhar perdido, praticamente alheio a quanto me rodeava. Foram os meus filhos e especialmente Raquel que padeceram com mais crueza as minhas aparentemente absurdas e inexplicáveis mudanças de humor, a melancolia constante e, até, uma injusta irascibilidade. Espero que, agora, ao lerem estas linhas, possam compreender-me e perdoar-me.

         Cheguei mesmo a consultar peritos serralheiros, que examinaram a misteriosa chave de todos os ângulos possíveis. O resultado era sempre idêntico: dentes habituais... tudo vulgar.

         Mas aquela situação - que começava chegando aos pouco desejáveis limites da obsessão - não podia continuar. E um belo dia fiz o balanço.

         Que tinha realmente nas mãos? A que conclusão chegara?

         Infelizmente, podiam limitar-se a duas pistas.

         1º- O Arlington era um cemitério norte-americano. Eu sabia que se tratava da célebre necrópole dos heróis de guerra naquela nação. Documentei-me quanto pude e comprovei, efetivamente, que no referido lugar existe um túmulo que guarda os despojos de um soldado desconhecido. Por pura lógica deduzi que o referido túmulo estaria guardado ou vigiado por alguma guarda de honra.

         Referir-se-ia o Major a essa sentinela?

         2º- Também no Cemitério Nacional de Arlington está  enterrado o presidente Kennedy. Mas porque teria de abrir os olhos diante de John Fitzgerald Kennedy?

         Eram estes os únicos pontos comuns que eu fora capaz de obter.

         A sentinela que vela diante do túmulo te revelar  o ritual de Arlington.

         Esta primeira frase tinha-me desorientado. Não era preciso ser muito esperto para compreender que uma das peças-chave tinha de residir na palavra ritual. E uma prova era o Major se encarregar de a repetir na segunda seqüência.

         Que ritual era esse? Por que razão tinha de ser a sentinela a me revelar? Será  que tinha de lhe perguntar? Mas, para ser assim, a quem teria de me dirigir?

Não havia volta a dar: o primeiro passo tinha de ser a solução do maldito ritual. Só assim poderia saber - era o que então pensava - que ou quem era Benjamim. Quanto às duas últimas frases da chave, sinceramente, delas prescindi por tempo indeterminado.

         Pouco me faltou para chamar o meu bom amigo Chencho Arias, por aquela altura diretor da Repartição de Informação Diplomática do Ministério dos Negócios Estrangeiros espanhol. Com toda a certeza, e mercê dos seus contatos com Washington, me teria desvendado parte do caminho. Mas pensei duas vezes e pus a idéia de lado.

         Apesar de tudo, teriam ficado mais quatro frases por esclarecer... Não havia outra solução: tinha de voltar aos Estados Unidos e enfrentar o problema pessoalmente.

 

                               WASHINGTON

         Pelas onze e cinqüenta de 11 de Outubro, um domingo, o vôo 903 da companhia norte-americana TWA descolava do aeroporto de Barajas, atingindo o seu nível de cruzeiro - 33 000 pés - em pouco mais de dezesseis minutos.

         A nossa seguinte escala- Nova Iorque - ficava a milhares de milhas. Havia tempo de sobra para planificar a estratégia a seguir, uma vez em Washington, bem como para saborear uma fria cerveja e trocar impressões com os colegas e amigos que ocupavam boa parte daquele avião.

         Era curioso. Simplesmente inacreditável...

         Naquela altura, enquanto eu moia a cabeça para resolver a enigmática chave do Major, outro acontecimento veio enredar ainda mais as coisas.

         Num esplêndido artigo, publicado no diário madrileno ABC, o escritor Torcuato Luca de Tena oferecia aos Espanhóis as primícias de fantásticas descobertas nos olhos da Virgem Guadalupe, na Cidade do México. Foi como uma bomba. Aquele novo isco, a dez mil quilômetros, precipitou a decisão de saltar novamente para o continente americano e justificava duplamente a minha viagem. No entanto, mais uma vez tive de fazer frente ao sempre prosaico, mas inevitável problema do dinheiro.

         O meu plano era claro: primeiro, Washington, depois, o México.

         Mas, desta vez a fortuna sorriu-me rapidamente. Ou não foi a fortuna? O caso é que, antes que as coisas se tornassem complicadas, um providencial telefonema de Madrid pôs-me ao corrente da iminente viagem de Suas Majestades, os Reis de Espanha, aos Estados Unidos. Eu tinha acompanhado o rei Juan Carlos e a rainha Sofia noutras visitas de Estado, e sabia que aquela era a oportunidade que não podia deixar fugir. Entre outras importantes razões, porque aquele tipo de viagem é sempre muito oportuno para a modesta economia dos profissionais do jornalismo.

         E foi assim que, naquele 11 de Outubro de 1981, e com mais cerca de trinta jornalistas espanhóis, um segundo avião da TWA - o vôo 407 me deixava no aeroporto nacional da capital federal dos Estados Unidos. Eram dezessete horas e cinqüenta e oito minutos (hora local de Washington).

         Apesar da minha crescente inquietação e do meu nervosismo, a tão desejada visita ao Cemitério Nacional de Arlington teve de ser adiada até ao dia seguinte, segunda-feira. Naquele mês de Outubro, a necrópole dos heróis americanos fechava as suas portas às cinco da tarde. E, desculpando-me com o cansaço da viagem, recusei o convite dos meus grandes amigos Jaime C, Gane Ferrari e Alberto Schommer para visitar a cidade, fechando-me no quarto 549 do Hotel Marriot, sede e quartel-general da imprensa espanhola. Eles, como era evidente, ignoravam os verdadeiros motivos da minha viagem. Até altas horas da madrugada continuei mergulhado no possível plano de ataque. Um plano, diga-se de passagem, que, como sempre, acabaria por sofrer grandes alterações. Mas vamos por partes. Pelas nove da manhã do dia seguinte, 12 de Outubro, com as minhas máquinas fotográficas ao ombro e um ar inocente de turista perdido, fui aos escritórios do Temporary Visitors Center, às portas do Cemitério Nacional de Arlington. Ali, uma amável funcionária - planta na mão - apontou-me o caminho mais curto para localizar o Túmulo do Soldado Desconhecido. Uma leve e fresca brisa vinda do rio Potomac começara a agitar os ramos dos  ramos e abetos que se alinham de ambos os lados da rua ou alameda de McClellan. Poucos minutos depois, e tremendo de emoção, avistei as praças de Weaton e Otis e, logo atrás, o túmulo a que, sem dúvida, se referia a mensagem do meu amigo, o Major.

         Ainda que o cemitério tivesse aberto as portas há uma hora, talvez nem tanto, um grande grupo de turistas distribuía-se Já ao longo da corrente que isola a pequena esplanada das grandes lajes cinzentas em que se encontra o enorme mausoléu de mármore branco, no qual repousam os restos mortais de um soldado norte-americano caído nos campos de batalha da Europa, e mais duas sepulturas - à direita e à esquerda da anterior -, em que foram enterrados outros dois soldados desconhecidos, mortos na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coréia, respectivamente. Lá estava a sentinela: a única, segundo me informaram no Centro de Visitantes, que está de guarda permanente em Arlington.

         A sentinela que vela diante do túmulo te revelar  o ritual ...

         Os meus primeiros minutos diante do túmulo foram uma indescritível mistura de atordoamento, confusão e absurda pressa para assimilar quanto me rodeava. E em metade daquele caos mental, a primeira frase do Major:

         (A sentinela que vela [...)].

         Depois de duas horas de observação, um pouco mais sereno, tirei um caderno e garatujei umas frenéticas notas de quanto fora capaz de perceber.

         A sentinela - ponto central das minhas indagações – era rendida de hora a hora. Era sessenta minutos... A verdade é que, à medida que ia escrevendo, muitas daquelas observações me pareciam ridículas. Mas não podia subestimar o mais ínfimo pormenor.

         Fiz também uma exaustiva descrição da sua indumentária: domam azul-escuro, quase preto, calças igualmente azuis (um pouco mais claras) Altura oito botões prateados, luvas brancas com uma faixa amarela na costura quepe preto, liso. Ao ombro, a espingarda, de baioneta ca a a...

         Observo, continuei anotando que a sentinela, ao chegar ao final do seu breve e marcial desfile diante dos túmulos, muda sempre a arma de ombro. Curiosamente, a espingarda nunca está  apontada para o mausoléu.

         Mas que tinha tudo aquilo a ver com o maldito ritual?

         O curto percurso do soldado diante dos túmulos decorria monótona e silenciosamente. Era evidente que a sentinela não podia falar.

         Como é fácil de compreender, não tive ilusões quanto à remota possibilidade de interrogá-la sobre o ritual de Arlington.

         Naquela primeira frase da sua obscura chave, o Major também não afirmava que o referido soldado pudesse transmitir-me, de viva voz, o citado ritual. A expressão te revelará  podia ser interpretada de muito diversas formas, embora quase desde o início afastasse a de um hipotético diálogo com o membro da velha guarda. O segredo tinha de estar noutro lado.

         Certamente, e considerando que um ritual é uma cerimônia, teria de concentrar as forças em quanto respeitasse ao referido rito.

         Um tanto aborrecido, e para não levantar suspeitas com a minha prolongada presença na praça leste do anfiteatro, procurei distribuir a manhã e parte da tarde entre o sempre concorrido recinto do Soldado Desconhecido e a l  ide do malogrado presidente Kennedy, situada ouço mais de trezentos metros, na encosta oriental da colina que, precisamente, os três túmulos dos soldados desconhecidos rematam.

         Abre os olhos perante John Fitzgerald Kennedy, rezava a terceira frase da mensagem. Mas, por mais que os abrisse, a minha mente continuou em branco.

         Somei, mesmo, os números das suas datas de nascimento e de morte (1917-1963), sem resultado algum. Por simples inércia, brinquei com a idade do residente, imaginando uma infinidade de cabalas tão absurdas quanto estéreis. Creio que a única coisa positiva daquelas longas horas em frente à sepultura de Kennedy, e às dos dois filhos que faleceram antes dele, foi o Padre Nosso que rezei em silêncio, como um modesto reconhecimento ao seu trabalho.

         Pelas três da tarde, faminto e meio derrotado, deixei-me cair nos belos e brancos degraus do minúsculo anfiteatro que se ergue na frente das três se ulturas. No meu caderno cheio de números, comentários mais ou menos certos e até desenhos das dez sentinelas que vira desfilar até aquele momento, Já só havia espaço para a desilusão.

         Acho que vou falhar, escrevi. Não sou suficientemente inteligente. Isso, depois de uma daquelas monótonas pausas. A sentinela número se passou a espingarda para o ombro contrário e recomeçou a ronda. Da forma mais tola, atraído, provavelmente, pelo brilho dos botins, comecei a contar cada uma das passadas ao mesmo tempo em que as fazia coincidir com um impropério, prêmio da minha provada incapacidade.

         Um... Três (idiota)... quatro (imbecil)... sete (estúpido)...vinte (mentecapto)... vinte e um (palerma).

         O soldado parou. Nova pausa. Rodou. Mudou a espingarda. Nova pausa. E prosseguiu no  burro... doze (calamidade)... vinte (passos... (bêbado)... paranóico)... vinte e um...

         Vinte e um? O último insulto foi substituído por um arrepio. Contei bem?

         A sentinela dera vinte e um passos. O meu desânimo desvaneceu-se.

         Pus-me de pé e voltei a contar. ... dezenove, vinte, vinte e um!

         Não me tinha enganado. Aquela nova pista fez ressuscitar o meu entusiasmo. Como pudera eu não notar aquilo antes?

         Avancei para a corrente de segurança e, relógio na mão, cronometrei o tempo que o soldado levava em cada deslocamento.

         Vinte e um segundos! Vinte e um passos e vinte e um segundos?

         Fiz novas medições e todas - absolutamente todas - davam o mesmo resultado. Que significava aquilo? Tratava-se de uma casualidade?

         Espicaçado no meu amor próprio, resolvi contar até o mais insignificante dos movimentos da sentinela.

         Foi então, ao contar o tempo gasto pelo soldado em cada uma das suas pausas, que o meu coração começou a bater mais depressa: vinte e um segundos! Não pode ser, disse de mim para comigo, tremendo de emoção com certeza estou cometendo um erro...

         Mas não. Como se fosse um autômato, a sentinela dava vinte e um passos em vinte e um segundos. Parava exatamente durante vinte e um segundos, rodando e mudando a arma de posição. A nova pausa, antes de continuar, durava outros vinte e um segundos, e assim sucessivamente.

         Anotei a minha, descoberta e reli a chave do Major com especial prazer.

         A sentinela que vela diante do túmulo te revelará  o ritual de Arlington.

         Não pode ser uma casualidade, repetia eu obsessivamente. Mas porquê vinte e um? Que significa o número vinte e um?

         Com o objetivo de me certificar, esperei pelas duas últimas rendições da guarda e repeti os cálculos. Os soldados números sete e oito comportaram-se exatamente do mesmo modo.

         Obcecado por aquele número, por pouco não fiquei fechado no cemitério. Com estranha alegria voltei a refugiar-me no hotel, afundando-me numa infinidade de especulações. Na manhã seguinte, e depois de uma noite praticamente em branco, juntei-me à comitiva de jornalistas. Embora os meus pensamentos continuassem presos ao Túmulo do Soldado Desconhecido e àquele misterioso número vinte e um, optei por aproveitar a oportunidade, que não se repetiria, de visitar o interior da Casa Branca e ver de perto o presidente Reagan, o general e secretário de Estado, Haig, e, como era evidente, os reis do meu país.

         Depois de passar por uma infinidade de controles e verificações, fiquei com os meus companheiros no impecável relvado que se alonga em frente à famosa Casa Branca.

         Pelas dez em ponto, e coincidindo com a chegada do rei Juan Carlos e a rainha Sofia, as baterias situadas a umas centenas de metros atroaram o espaço com as salvas da praxe. Alguém, nas minhas costas, fora contando os tiros de canhão e fez um comentário que nunca poderei agradecer devidamente:

         - Vinte, vinte e um!

         Virei-me como que movido por uma mola e perguntei:

         - Mas são vinte e um?

         O jornalista olhou-me muito sério e exclamou, como se tivesse na sua frente um estúpido ignorante:

         - É a saudação ritual... Vinte e uma salvas!

         De regresso ao Marriot, peguei no telefone, disposto a afastar as minhas dúvidas de uma vez por todas. Marquei o 6931174 e pedi para falar com Mister Wilton encarregado das Relações Públicas e Imprensa no Cemitério Nacional de Arlington.

         O homem deve ter ficado atônito ao escutar o meu problema.

         - Sou jornalista espanhol e desejava perguntar-lhe se o número vinte e um está  relacionado com algum ritual...

         - O senhor refere-se ao Túmulo do Soldado Desconhecido?

         - Sim.

         - Efetivamente - acentuou Mister Wilton -, o ritual de Arlington baseia-se precisamente nesse número. Como o senhor sabe, a saudação aos mais altos dignitários baseia-se no número vinte e um.

         - Desculpe a minha insistência, mas tem a certeza?

         - Naturalmente.

         Ao desligar o telefone, tive vontade de saltar e de gritar. Abri o meu caderno de notas e voltei a olhar a chave do Major.

         Se o ritual de Arlington é o número vinte e um, a segunda frase - chave e ritual conduzem a Benjamim - começava a ter certo sentido.

         Era claro que a minha chave e o número vinte e um mantinham estreita relação e que, se eu fosse capaz de descobrir quem ou o que era Benjamim, parte do mistério poderia ficar a descoberto.

         Mas por onde começar?

         Era verdade, aquela pequena chave tinha de abrir alguma coisa. Uma vivenda, talvez? As suas reduzidas dimensões no entanto, não me pareciam que encaixassem com as chaves que habitualmente são utilizadas nas casas norte-americanas.

         Afastei de momento aquela possibilidade e fixei-me noutras idéias mais lógicas.

         Teria o Major guardado a sua informação nalgum banco ou num apartado postal? Tratar-se-ia, pelo contrário, de um armário de depósito numa estação de caminhos-de-ferro?

         Só havia uma maneira para decifrar Benjamim: encher-me de paciência e passar - uma por uma - as listas telefônicas, os correios e os guias de caminhos-de-ferro de Washington.

         Se esta primeira exploração falhasse, haveria tempo para aprofundar noutras direções. Mas aquela laboriosa busca ia ficar subitamente suspensa por um telefonema. Apesar da minha intensa dedicação ao assunto do major norte-americano, eu não esquecera o tema das fascinantes descobertas dos cientistas da NASA nos olhos da Virgem Guadalupe. Assim que pisei a terra dos Estados Unidos, uma das minhas primeiras preocupações foi telefonar para o México e averiguar se o doutor Aste Tonsmann, um dos mais distintos peritos, se encontrava no Distrito Federal, ou se, como me tinham informado em Espanha, podia encontrar-se em Nova Iorque, onde trabalha como professor da Universidade de Cornell. Era vital para mim localizá-lo, para que não fizesse em vão uma viagem à República mexicana.

         Naquela mesma manhã de terça-feira, 13 de Outubro, pedi à telefonista do hotel que insistisse - pela terceira vez – e marcasse o número de telefone da residência do professor Tonsmann. E, pelo meio da tarde, como disse, o aviso da amável telefonista ia alterar todos os meus planos. Do outro lado do fio telefônico, a mulher de José Aste confirmaria que o cientista pensava em regressar ao México, partindo de Nova Iorque, na próxima quarta ou quinta-feira.

         Depois de algumas dúvidas, impôs-se o meu sentido prático e considerei que o mais oportuno era adiar as minhas investigações em Washington. Tonsmann era uma peça básica no meu segundo projeto e não podia desperdiçar a sua fugaz passagem pelo México. Depois, era eu a única pessoa que possuía a chave do segredo do Major, e isto me dava uma certa tranqüilidade. E antes de poder arrepender-me, fiz as malas e embarquei no vôo 905 da Easter Lines, rumo às cidades de Atlanta e México (D. F.).

         Naquela quarta-feira,14 de Outubro de 1981, ia começar para mim uma segunda aventura, que meses mais tarde ficaria refletida no meu décimo quarto livro: O Mistério da Virgem Guadalupe.

         É hábito acontecerem-me estas coisas...

         Durante horas tinha permanecido em frente ao túmulo do presidente Kennedy, incapaz de penetrar no segredo daquela terceira frase na chave do Major.

         Abre os olhos perante John Fitzgerald Kennedy.

         Pois bem, os meus olhos abriram-se a dez mil metros de altitude e quando me encontrava a milhares de quilômetros de Washington. Enquanto o avião se dirigia para a cidade de Atlanta, nossa primeira escala, tive a idéia de tentar introduzir o número vinte e um nas três últimas frases da mensagem. Devo ter perdido a cor, porque a bonita hospedeira da Easter, com ar de preocupação e apontando a chávena de café que oscilava junto da minha boca, comentou, ao mesmo tempo em que se inclinava por cima do encosto do meu lugar:

         - Não gostou do café?

         - Desculpe...

         - Perguntei se se sente bem...

         - Ah! - respondi, voltando à realidade -, sinto-me perfeitamente... A culpa é do número vinte e um...

         A hospedeira levantou os olhos e verificou o número do meu lugar.

         - Não, desculpe - antecipei-me eu, numa tentativa de evitar que aquele diálogo disparatado acabasse nalguma coisa pior -, é que, ultimamente, sonho com o número vinte e um...

         A moça esboçou um sorriso de cumplicidade e, pondo-me a mão no ombro, sentenciou:

         - Já experimentou jogar na loteria?

         E desapareceu no corredor, convencida – suponho de que o mundo está cheio de doidos. Por um instante, as compridas pernas da aeromoça conseguiram arrancar-me às minhas reflexões. Bebi o café e voltei a contar as letras que formam o nome do presidente norte-americano. Não havia dúvida: somavam vinte e um!

         Aquela segunda descoberta - e muito especialmente o fato de ambos apontarem para o número vinte e um - confirmou as minhas suspeitas iniciais. O Major devia ter guardado o seu segredo nalgum depósito ou recinto estreitamente ligado com a referida cifra e, obviamente, com a chave que me entregara em Chichén Itz . Considerei também a possibilidade de que Benjamim fosse algum familiar ou amigo do Major mas, nesse caso, que faziam em tudo aquilo o número e a chave.

         Durante a minha prolongada estada no México, estive tentado a fazer uma pausa nas investigações sobre a Virgem Guadalupe e voar até ao Iucatan para visitar Laurêncio. Mas os meus recursos econômicos estavam diminuindo tão alarmantemente que, muito contra vontade e porque, na verdade, queria terminar as minhas investigações em Washington, tive de resistir e adiar aquela visita a Chichén para outro momento.

         Um ano depois, em Dezembro de 1982 ao voltar ao México para a apresentação do meu livro O Mistério da Virgem Guadalupe, verifiquei com algum espanto que se me tivesse deslocado naquela altura até ao Iucatan a minha visita teria sido inútil: segundo me confirmaram as autoridades locais, Laurêncio e sua mulher tinham deixado a cidade de Chichén Itz  pouco depois do falecimento do Major. E, ainda que se não desistisse de os localizá-los, até este momento continuaria sem notícias do fiel companheiro do ex-oficial da força aérea norte-americana. Também não é preciso dizer que os meus primeiros passos daquele Inverno de 1982 foram encaminhados para a localização do túmulo do meu amigo. Ali, diante da modesta cruz de madeira, tive com o Major o meu último diálogo, agradecendo-lhe que tivesse posto nas minhas mãos o seu maior e mais precioso tesouro...

         Ao caminhar novamente por Washington a minha primeira preocupação não foi Benjamim. Sentado na cama do quarto do meu novo hotel - nessa altura muito mais modesto que o Marriot -, estendi em cima da colcha todo o meu capital. Depois de um rigoroso exame, as minhas reservas ascendiam a um total de setenta e cinco dólares e mil e quinhentas pesetas.

         Embora a tragédia parecesse inevitável, não me deixei abater pela crua realidade. Dispunha ainda dos cartões de crédito...

         Durante aqueles dias limitei a minha dieta a um pequeno-almoço o mais sólido possível e um copo de leite com um modesto sanduíche à hora de me deitar. A verdade é que, absorto nas pesquisas, e dado que também não sou homem de grandes apetites, aquilo não foi para mim excessivamente penoso. A minha grande obsessão, embora pareça mentira, foram os táxis. Isto, sim, minou - e de que maneira! - o meu exíguo pecúlio.

         Chave e ritual conduzem a Benjamim.

         Esta segunda frase no código cifrado do Major foi uma cruz que me atormentou durante quatro dias. Nesse tempo, tal como tinha previsto antes da minha partida de Washington, empenhei-me de corpo e alma na consulta de enciclopédias e de listas telefônicas da capital federal, assim como nas correspondentes visitas às estações de trem, central dos Correios e Aeroportos Dulles e National.

         Os serviços de depósito das estações foram riscados da minha lista, à vista da sensível diferença entre as chaves utilizadas nos referidos depósitos e a que estava em meu poder. Por outro lado, nos aeroportos não existiam os supostos armários, pelo que o meu interesse acabou por se fixar nos cofres particulares dos bancos e nas caixas postais.

         Estas duas últimas hipóteses pareciam mais lógicas, se quisesse guardar qualquer coisa de valor.

         E comecei pelos bancos. Folheei a longa lista de sedes e sucursais da cidade, não encontrando nem uma só pista que mencionasse ou referisse o nome Benjamim.

         Por outro lado, e segundo pude verificar pessoalmente, se o Major tivesse encerrado a sua informação num dos cofres de segurança de qualquer daqueles bancos, nem eu nem ninguém poderia ter acesso, por não dispor da correspondente documentação que o identificasse como legítimo proprietário ou locador da caixa. Nalguns casos mesmo, estas medidas de segurança viam-se reforçadas com a existência de uma segunda chave, na posse do responsável ou vigilante da casa-forte do banco. Não obstante, e para que nada ficasse por apurar, iniciei uma última e dupla investigação. Eu conhecia a identidade do Major, e comecei a servir-me de uma série de recursos e contatos - a nível da Embaixada

Espanhola e do próprio Pentágono -, a fim de esclarecer se o falecido militar norte-americano tinha algum parente em Washington.

         Aquilo, em todos os aspectos, foi a minha maior imprudência, a julgar pelo que sucederia dois dias depois...

         A segunda frente - a que, graças a Deus!, concedi maior dedicação - consistiu em obter os endereços das duas centrais e cinqüenta e oito estações de correios na cidade. Na U. S. Postal Service (Head Quarters), que é o cérebro central do serviço dos Correios de todo o país, um amável funcionário estendeu na minha frente a longa lista de estações postais de Washington D. C.

         Ao inclinar-me para estudar a citada relação, em busca de algum indício sobre o misterioso nome de Benjamim, os meus olhos não puderam passar da primeira estação. Tive um sobressalto. Na lista, via o seguinte:

         Box. Nos. - 1-999 - Benjamin Franklin. STa. (Washington D.C. 20044).

         Tomei nota daqueles elementos, sem poder evitar que a mão me tremesse numa mistura de emoção e nervosismo. Fumei um cigarro, para me acalmar. Tinha de estar absolutamente certo de que era aquela a tão desejada pista. E percorri as sessenta quadras com uma meticulosidade que eu próprio não consigo explicar.

         Com surpresa, descobri que o nome de Benjamin Franklin se repetia três vezes mais: nas estações catorze dezenove e trinta e três. Nos restantes serviços dos Correios de Washington, o nome Benjamin Franklin não figurava.

         Mas havia uma coisa que eu não conseguia compreender. Para quê quatro serviços de correio na Rua Benjamin Franklin? Na estação número catorze, o cabeçalho tinha os números 6100-6199. O da estação dezenove, os números 7100-7999 e o último, na estação trinta e três era precedido pela numeração 14001-14999. Dirigi-me novamente ao funcionário e pedi-lhe que me explicasse o significado daquela numeração. A resposta, clara e concisa, dissipou as minhas dúvidas:

         - São quatro estações, correspondentes a outros tantos P. Box, ou apartados dos correios. Na primeira da lista, como o senhor vê figuram os apartados compreendidos entre os números 1 e 999, inclusive ambos...

         Suponho que até àquele dia nunca o funcionário dos Correios tinha recebido um obrigado tão efusivo e feliz como o meu...

         Desci três a três os degraus da escadaria da gigantesca U. S. Postal Service e corri como um meteoro para o primeiro táxi que vi passar. Era meio-dia do 4 de Novembro de 1981.

         Enquanto me aproximava da Rua Benjamim Franklin, disposto a aproveitar aquela rajada de boa sorte, voltei à chave do Major. Começava agora a ver claramente. A minha chave e o ritual, quer dizer, o número vinte e um, conduzem a Benjamin.

         Casualmente, dos sessenta serviços dos Correios de Washington, só existe um na Rua Benjamin Franklin. E, curiosamente também, naquela estação, e só naquela, se encontrava o apartado número vinte e um. Se tivermos em conta que os sessenta serviços somavam em 1981 mais de vinte e quatro mil apartados, a que conclusão podia chegar?

         Mas, no meio do trajeto, a minha alegria caiu num poço. Tinha-me esquecido da chave no hotel! Neste caso, a minha franciscana prudência fizera-me dar um passo em falso. Vi as horas. Não tinha tempo de voltar ao hotel e ir depois à estação dos Correios. Mal-humorado, entrei nos serviços, disposto pelo menos a dar uma olhadela.

         Perguntei pela venda de selos e, com a desculpa de escrever alguns bilhetes-postais, vadiei durante pouco mais de quinze minutos pelas imensas e luminosas salas. No primeiro andar, numa parede de mármore negro, alinhavam-se centenas de pequenas portas metálicas, de uns doze centímetros de largo, com os seus correspondentes números.

         Estava ali o meu objetivo.

         Felizmente para mim, o movimento de pessoas era tal que o policial negro que vigiava aquele primeiro andar não reparou os meus movimentos. Antes de sair fiz uma breve inspeção às caixas, detendo-me uns segundos diante o número vinte e um. Por um momento tive a sensação de que era alvo de dezenas de olhares. O orifício da fechadura parecia corresponder - pelo seu reduzido tamanho

- ao de uma chave como a que eu guardava...

         Ao retomar ao hotel, percebi que os bilhetes-postais continuavam nas minhas mãos suadas. Nem Ana Benítez, nem meus pais, nem Alberto Schommer, nem Raquel, nem Castillo, nem Gloria de Larra chegando alguma vez a receber tais lembranças.

         Naquela tarde, num último esforço para me descontrair, fui ao Museu do Espaço, na Alameda de Jefferson. Apesar da iminente, e aparentemente simples, fase final da minha pesquisa, as dúvidas tinham aumentado. E se estivesse enganado? E se aquele apartado dos correios não fosse o que procurava com tanto empenho?

         A verdade é que estava chegando aos limites das minhas possibilidades. Aquelas - tinha a certeza - eram as minhas últimas horas nos Estados Unidos. Se não conseguisse resolver o dilema, teria de esquecer o assunto durante muito tempo. Sentado no hall do museu, inevitavelmente só e com uma angústia capaz de matar um cavalo, senti a falta de alguém com quem partilhar aqueles momentos de tensão. No centro da sala, uma comprida fila de turistas e curiosos aguardava pacientemente a sua vez para passar diante da urna em que se exibe um fragmento de rocha lunar, não maior que um cigarro. Um segundo troço, muito mais reduzido, fora incrustado junto da vitrina.

         E, como se fosse uma relíquia sagrada, cada visitante, ao passar em frente da urna, passava os dedos pela negra e desgastada pedra. Distraidamente, abri o meu caderno de notas e fui descrevendo o que observava. E, naturalmente, acabei por cair na chave do Major. Mas, desta vez, fixei-me no original, na versão inglesa.

         O meu péssimo costume de sublinhar, desenhar e fazer mil rabiscos nos livros ou apontamentos que manejo, ia sacudir-me daquela profunda tristeza.

         Na realidade, tudo começou como um jogo, como um simples e inconsciente alívio da tensão que suportava. Sei de muitas pessoas que, quando falam ao telefone, meditam ou, simplesmente, conversam, acompanham as suas palavras ou pensamentos com os mais absurdos desenhos, linhas, círculos, etc., traçados em qualquer folha de papel. Pois bem, como disse, naqueles instantes dediquei-me a enquadrar - sem ordem nem coerência - algumas das palavras de cada uma das cinco frases que formavam a mensagem cifrada.

         Quis a sorte - ou não era a sorte? - que eu fechasse em variados retângulos, entre outras, as primeiras palavras de cada uma das frases da chave. Com a continuação, insistindo naquele passatempo, distraí-me a atravessá-los com outras tantas linhas verticais.

         Ao ler de cima para baixo aquela aparente confusão, uma das absurdas construções deixou-me imóvel de espanto. As cinco primeiras palavras de cada frase lidas no sentido vertical, encerravam um significado.

         E que significado A chave abre o passado.

         O resto das frases assim obtidas, no entanto, não tinha sentido.

         Antes de dar por boa a nova pista, reli a mensagem, escrevendo e unindo as palavras de cima para baixo, da esquerda para a direita e até em diagonal. Mas foi inútil. As únicas que continham algo de coerente - por acaso - eram as cinco primeiras...

         Eis a mensagem no original inglês:

         The Guard who keeps the vigil in front of the Tomb will reveal the ritual of Arlington Cementery to you.

         KEY and ritual lead you to Benjamin

         OPEN your eyes before John Fitzgerald Kennedy

         THE brother lies to restáin 44-W. The shadow of the medlar tree covers him in the late afternoon.

         PAST and future are my legacy.

 

         Que tinha querido dizer o Major com esta sexta pista? Intuitivamente, liguei a nova frase com a última da mensagem: Passado e futuro são o meu legado. Que relação podia existir entre a chave, o passado e o futuro?

         Animado por aquela súbita descoberta, ainda que impotente reconheço - para desfazer tanto mistério, dispus-me a esperar pela luz da manhã daquela quinta-feira, que pressentia particularmente intensa...

         Ao levantar-me na quinta-feira, 5 de Novembro de 1981, em frente à estação dos Correios da Rua Benjamin Franklin, reparei que os joelhos se me vergavam. Na minha mão direita, apertada como numa armadilha, a pequena chave que o Major me entregara em Iucatan estava ligeiramente embaciada por um suor frio e incomodo. Inspirei profundamente e atravessei o umbral, dirigindo-me com passo resoluto para a parede onde brilhava o enxame de portinhas metálicas. Sem dúvida fora acertado esperar que o relógio desse as dez da manhã. Àquela altura, uma pequena multidão se movimentava nas várias dependências da estação. Ao colocar-me em frente ao apartado número vinte e um, um grande grupo de usuários – especialmente pessoas de idade - tratava de abrir os seus respectivos depósitos, indiferentes a quanto os rodeava.

         Passei a chave para a mão esquerda e, com um gesto mecânico enxuguei o suor da palma da mão direita contra o tecido das calças. Voltei a respirar o mais fundo possível e empunhei a pequena chave, levando-a tremulamente à fechadura. Mas os nervos traíram-me. Antes mesmo de verificar se entrava ou não no orifício, a chave fugiu-me por entre os dedos, caindo no polido ladrilhado branco. O tilintar da chave nos seus múltiplos ressaltos no pavimento fez-me empalidecer. Lancei-me como um autômato atrás da maldita chave, furioso contra mim mesmo por tanta falta de habilidade. Mas, quando me preparava para a apanhar, uma mão grande e segura chegou primeiro. Ao levantar os olhos um fio de fogo perfurou-me o estômago. O prestável indivíduo era um dos polícias de serviço na estação. Em silêncio, e com um sorriso aberto como único comentário, o guarda estendeu a mão e entregou-me a chave.

         Quis Deus que eu soubesse responder àquele gesto com outro sorriso de circunstância e que, sem sequer abrir a boca, desse meia volta em direção à caixa número vinte e um.

         Tremo agora, ao pensar no que poderia ocorrer se aquele representante da lei me tivesse feito alguma pergunta...

         Ainda assustado, tateei o orifício com a ponta da chave. O coração batia desesperadamente. Por favor, entra!... Entra!...,

         Docemente, como se me tivesse ouvido, a chave penetrou até ao fundo.

         Tive vontade de gritar. Tinha entrado! Na realidade, não era a minha mão direita que agarrava a chave. Era o meu coração, o meu cérebro, todo o meu ser...

         Antes de prosseguir, olhei cautelosamente à esquerda e à direita. Tudo parecia normal.

         Engoli saliva e tentei abrir. Por mais que puxasse, a portinha metálica não se movia. Senti como que outra onda de sangue a bater-me no estômago. Que estava a acontecer? A chave tinha entrado na ranhura... Por que razão não conseguia abrir o apartado?

         No meio de tanto nervosismo e agitação compreendi que estava a forçar a fechadura num só sentido: o esquerdo. Girei então para a direita e a portinha abriu-se com um leve rangido.

         Quisera que o tempo parasse! Depois de tantos sacrifícios, angústias e dores de cabeça, ali estava eu, às dez horas e quinze minutos de quinta-feira, 5 de Novembro de 1981, prestes a esclarecer o mistério do Major...

         Naqueles instantes, ainda que pareça incrível, antes de proceder à exploração do apartado, lamentei não dispor de uma máquina fotográfica.

         Porém um elementar sentido de prudência fez-me deixar o equipamento no hotel.

         Estendi a mão e tateei a superfície metálica da caixa. Naquela meia penumbra vislumbrei a presença de dois volumes. Estavam ao fundo do estreito nicho retangular. Pelo tato, identifiquei-os como qualquer coisa de semelhante a tubos ou cilindros. Tirei um e vi que se tratava de uma espécie de canudo de cartão de uns trinta centímetros de comprimento, perfeita e solidamente defendido por um invólucro de plástico ou de papel plastificado. Era muito leve. Não apresentava inscrição ou numeração, à exceção de um pequeno número (um l), desenhado a negro e à mão numa pequena etiqueta branca, colada ou aderente, por sua vez numa das faces do cilindro. Tudo isto, como disse, por baixo de um material plástico brilhante, cuidadosamente agarrado ao canudo.

         Apressei-me a tirar o segundo embrulho. Era outro cilindro, gêmeo do primeiro, mas com um 2 noutra das suas faces.

         Logo comecei a sentir uma estranha pressa. Tive a intensa sensação de ser observado. Porém, dominando o desejo de me voltar, introduzi a mão na caixa do apartado, fazendo uma terceira verificação. Os meus dedos esbarraram então num sobrescrito. Coloquei-o à entrada do nicho e, antes de o tirar, certifiquei-me de que a caixa estava vazia. Percorri mesmo as paredes superior e laterais. Uma vez convencido de que o Box número vinte e um ficara totalmente vazio, deitei mão àquele sobrescrito branco e, sem o examinar, tratei de fechar a caixa. Aparentando naturalidade, guardei a chave e encaminhei-me para a saída da estação.

         Por um momento, tive vontade de correr. Mas, fazendo das fraquezas força, parei a meio caminho. Peguei num dos últimos Ducados e aproveitei aquele falso motivo para me voltar. A verdade é que nada notei de suspeito. O intenso movimento de pessoas tinha diminuído ligeiramente, embora ainda se vissem pequenos grupos em frente das mesas de mármore, nos diferentes balcões e junto dos blocos de apartados. Um pouco mais tranqüilo e supondo que aquele pressentimento podia ser devido à minha excitação, saí e afastei-me da estação dos Correios.

         Quarenta e cinco minutos depois pendurava na maçaneta da porta do meu quarto um letreiro verde: Não incomodar. Coloquei os dois canudos em cima do vidro da mesinha que me servia de secretária e recuei dois passos. Tinha conseguido! Dava tudo por bem empregado: tempo, dinheiro, solidão ...

         Deixei-me cair no soalho e, como se tratasse de um filme, fui recordando os passos que dera naqueles meses.

         Mas, finalmente, a curiosidade impôs-se e abri o sobrescrito. Por fora não havia uma só palavra ou indicação. Mal retirei a folha de papel que continha, logo identifiquei a letra bicuda e agitada do Major.

         Estava datada de 7 de Abril de 1979, Washington D. C. Nela, simplesmente, informava que o seu irmão (...) na grande viagem falecera dois anos antes - em 1977 - e que obedecendo aos impulsos da sua consciência, naquele mesmo dia 7 de Abril de 1979 dava por concluído o diário da referida viagem...

         A breve mensagem terminava com as seguintes palavras:

         Só peço a Deus que o nosso sacrifício possa ser conhecido um dia e que leve a paz aos homens de boa vontade, da mesma forma que meu irmão (...) e eu tivemos a graça de a encontrar.

         Em baixo, na folha, o Major suplicava que a pessoa que tivesse acesso ao diário e à presente carta respeitasse o anonimato de ambos.

         Por esta razão suprimi a identidade da pessoa que o Major mencionou referindo-me a ela como irmão. Posso esclarecer – isso sim na realidade, não se trata de um irmão de sangue, mas sim de uma qualificação espiritual...

         A minha primeira reação ao ler o bilhete foi a de consultar a primeira mensagem. Aquela confissão do falecido oficial da USAF parecia estar contida plenamente na quarta e não menos misteriosa frase:

         O irmão dorme em 44-W. A sombra da nespereira cobre-o pelo anoitecer.

         De novo me lembrei do nome de Arlington...

         Sim, agora sim, pode ter sentido, disse para comigo.

         Agora começo a compreender...

         Tinha de visitar de novo o cemitério. Na realidade, tal como pude verificar ao ler o diário do Major, as duas últimas frases da sua mensagem cifrada não eram mais que uma confirmação - para a pessoa que chegasse até ao seu legado - da realidade física do seu companheiro na grande viagem e, obviamente, da natureza do referido diário.

         Em abono da verdade, depois de conhecer a inacreditável informação encerrada nos cilindros, não era vital a localização do falecido companheiro do meu amigo. Os que me conhecem um pouco sabem, no entanto, que gosto de aprofundar as minhas investigações e com tanto mais razão quanto - como naqueles momentos - me encontrava tão perto do final.

         Mas as surpresas não tinham acabado naquela inesquecível quinta-feira... Antes de proceder à solene abertura dos canudos de cartão, coloquei o sobrescrito junto dos cilindros e fotografei-os com gosto. A seguir, e depois de comprovar que o plástico protetor não oferecia a menor falha por onde começar o trabalho de abertura, peguei numa das minhas navalhas de barba e, delicadamente, separei o círculo que cobria uma das hastes do cilindro, precisamente a oposta à que apresentava a pequena etiqueta com o número 1.

         Nervosamente, tateei o cartão. Parecia muito sólido. Depois de um minucioso - quase me atreveria a chamar-lhe microscópico - exame, vi-me obrigado a cortá-lo pela circunferência. Uma hora depois, a tenaz tampa (de cinco milímetros de espessura e dez centímetros de diâmetro) saltava, por fim, deixando a descoberto o interior do tubo.

         Segundos depois, tinha na minha frente um maço de papéis, formando um rolo perfeito. Tinha sido introduzido numa capa de plástico transparente, hermeticamente fechada na parte superior. Tive de me valer de um corta-unhas para arrancar os dezessete grampos. Com uma excitação difícil de descrever, lancei uma primeira olhadela aos documentos e verifiquei que tinham sido datilografados a um espaço e naquilo que conhecemos por papel-bíblia. Cada folha (20cm x 3lcm +) tinha sido assinada e rubricada no canto inferior esquerdo pelo Major, num total de duzentas e cinqüenta. Era a mesma letra - e eu diria que

a mesma tinta - que figurava no rodapé da carta que eu retirara do apartado dos Correios número vinte e um, e que tinha acabado de abrir.

         O texto, em inglês, arrebatou-me a partir do momento em que nele pus os olhos. E creio que não teria podido afastar-me da sua leitura, se não fosse aquela inesperada chamada telefônica...

         Pelas treze horas, como disse, o telefone do meu quarto devolveu-me

à crua realidade.

         - Senhor Benítez...?

         - Sou eu... Diga.

         - Dois senhores perguntam pelo senhor... Estão aqui...

         - Dois senhores? - perguntei, por minha vez, desconcertado ante a súbita visita. - Quem são?

         - Um momento... - hesitou o empregado do hotel. - Não sei... Quem podia ter interesse em me ver? Além disso, pensei, com um estranho pressentimento, quem sabe que estou em Washington?

         - Um deles - anunciou-me o recepcionista, uns segundos depois diz ser do FBI.

         - Ah! - exclamei, num fio de voz. - Bom... vou descer agora mesmo... Fora tudo tão rápido e imprevisto que, mal acabei de pousar o auscultador, comecei a empalidecer. Não era Iógico nem normal que o FBI se interessasse por mim. Que teria acontecido? Em que nova embrulhada me tinha metido?

         De repente, lembrei-me. Dias atrás tinha cometido o erro de me interessar, junto da Embaixada espanhola e do Pentágono pelos possíveis familiares do Major. Enquanto guardava precipitadamente os cilindros e o sobrescrito, escondendo-os no fundo da bolsa das minhas máquinas fotográficas, um turbilhão de temores, hipóteses e contra-hipóteses me embaralharam mais ainda o cérebro.

         Com a chave do meu quarto na mão, e morto de medo, apresentei-me no hall.

         Dois homens corpulentos e muito bem vestidos levantaram-se das poltronas em frente da porta do elevador. Nem sequer tive oportunidade de me aproximar do balcão da recepção e perguntar pelos meus insólitos visitantes. Com um sorriso um tanto forçado, um deles saiu-me ao caminho, estendendo-me a mão.

         - Senhor Benítez?

         Ao apresentar-me, o que me tinha apertado a mão em primeiro lugar e parecia ter uma voz cantante, convidou-me a sentar-me junto deles.

         - Não se preocupe - anunciou com um evidente desejo de me tranqüilizar -, trata-se de uma simples formalidade...

         Também eu me esforcei por sorrir, ao mesmo tempo que lhes pedia que se identificassem.

         - Por telefone - acrescentei - disseram-me que um dos senhores é agente do FBI. Poderia ver as suas credenciais?

         Instantaneamente, e como se aquele meu simples pedido fizesse parte de um cerimonial igualmente rotineiro e habitual, ambos tiraram do bolso do casaco umas carteiras de plástico preto.

         Na primeira pertencente ao homem que logo me identificara, ao ver-me no hall - pude ler, em caracteres que se destacavam dos restantes, as palavras FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION. Aquilo, com efeito, correspondia à famosa sigla FBI, ou Serviço Federal de Investigação. Na segunda credencial - que não foi retirada da minha vista com tanta rapidez como a do agente do FBI - pude ler, o seguinte: DEPARTAMENTO DE ESTADO. SERVIÇO DE IMPRENSA, uma espécie de morada, 2201 STREET... (WASHINGTON D. C.) e um número que começava por (202)632...

         - Muito obrigado - respondi, ainda com mais medo, se isso fosse possível. - Os senhores façam favor de dizer...

         - Sabemos quem o senhor é e conhecemos igualmente a sua condição de jornalista espanhol - replicou o agente do FBI, ao mesmo tempo que abria uma pequena caderneta e recusava amavelmente um dos meus cigarros. Foi-nos comunicado que na passada terça-feira, pelas onze e quinze da manhã, o senhor se interessou pelos possíveis parentes do Major (...).

         Que tipos dos diabos!, pensei. Raio de serviço de informação!

         Pois bem - prosseguiu o agente, indicando-me as notas que se viam no seu bloco -, em primeiro lugar, queríamos averiguar se estes dados estão corretos.

         - Efetivamente. Estão...

         - Nesse caso, gostaríamos de saber qual o seu interesse pela família do Major (...).

         O meu cérebro, alertado por causa - disse eu - do medo, foi procurando as respostas com uma frieza que ainda me assusta.

         - Bom, isso é uma velha história. Conheci o Major numa das minhas viagens ao México e estabeleci com ele uma amizade sincera menti. Ao visitar novamente aquele país, soube que tinha falecido. Sem pestanejar agüentei o olhar desconcertante do policial. Talvez estivesse à espera de outra versão e, ao verificar que lhe dizia a verdade (pelo menos, parte da verdade),mostrou-se indeciso. Foi esse o seu primeiro erro.

         Antes que conseguisse formular nova pergunta, aproveitei aqueles segundos e tomei a iniciativa:

         - Os senhores devem também saber que sou investigador e escritor do fenômeno OVNI...

         O agente sorriu.

         - Em certa ocasião - continuei, improvisando -, o Major me deu a entender que conhecia determinada informação... relacionada com este tema. E me deu o nome de um colega, nos Estados Unidos, que me daria esses dados, se eu viesse a saber que o Major tinha morrido...

         O meu interlocutor, tal como eu desejava, mordeu o anzol.

         - Pode nos dizer o nome dessa pessoa?

         Fingi uma certa resistência e acrescentei:

         - A verdade é que não gostaria de prejudicar alguém...

         - Não se preocupe...

         - Está  bem. Não vejo inconveniente em lhes dar o nome dessa pessoa que procuro, desde que os senhores me deixem de lado e respondam a uma pergunta...

         Os dois personagens trocaram um olhar de cumplicidade e o funcionário do Departamento de Estado, que não abrira a boca até aquele momento, perguntou por sua vez:

         - De que se trata?

         - Poderiam os senhores dar-me uma pista sobre algum familiar do Major, ou desse amigo que procuro localizar?

         Antes que o seu colega tivesse tempo de responder, o agente do FBI interveio novamente:

         - Está  combinado. Diga-nos: como se chama essa pessoa que o senhor quer contatar?

         Ao tomar nota do nome e apelido do irmão de viagem do Major, vacilou e trocou de novo um olhar fugaz com aquele que o acompanhava. Foi o seu segundo erro.

         Aquela quase imperceptível hesitação acabou por me pôr alerta. Nesse instante - pela primeira vez - comecei a ter consciência de que me aventurara por um assunto extremamente perigoso. Aqueles indivíduos - isso saltava à vista - sabiam muito mais do que diziam.

         Porém, não era isso o pior. O que era dramático era eu ter em meu poder por um desses acasos do destino - uma informação que começava a queimar-me as mãos e pela qual os serviços de espionagem dos Estados Unidos seriam capazes de tudo.

         - E quanto a essa pista? - pressionei, com fingido ar de satisfação.

         O agente do FBI ficou em silêncio, e, depois de escrever qualquer coisa numa das fichas do seu caderno, arrancou-a e a meteu na minha mão.

         - É tudo o que podemos lhe dizer - resmungou, contrariado. Pensamos que seja um dos familiares do major (...).

         No papel pude ler o nome da cidade de Nova Iorque e dois apelidos. Simulei certa contrariedade.

         - Mas não podem dizer-me mais nada?

         Os dois indivíduos puseram-se de pé e, depois de me desejarem sorte, encaminharam-se para a saída. Sem o querer, aqueles gorilas tinham me oferecido o melhor dos pretextos para eu sair de Washington rapidamente.     Antes de voltar ao meu quarto, tive a idéia de olhar dissimuladamente à porta giratória do hotel e vi que os dois homens se metiam num carro azul-metálico, estacionado a vinte ou trinta metros do ponto onde me encontrava. Voltei

imediatamente ao hall, dirigindo-me para o elevador e sentindo o peso do olhar curioso do recepcionista. Antes de fechar a porta do meu quarto voltei a pendurar o letreiro Não Incomode e coloquei a corrente de segurança. Começaram então a tremer-me os joelhos e tive de me deixar cair em cima da cama. Suponho que a minha perturbação era devida em parte àquela – digamos delicada visita e, principalmente, ao que continha o primeiro cilindro. Não sei quanto tempo estive deitado na cama, com o olhar perdido na penumbra do meu quarto. Uma coisa, sim, era clara em toda aquela embrulhada; agora, mais do que nunca, teria de atuar sem dar nas vistas. Se o FBI tinha entrado no jogo era porque, logicamente, sabia da grande viagem que o Major e o seu irmão tinham realizado. Não era preciso ser  guia para perceber que os serviços da espionagem norte-americana não estavam dispostos a que aquela informação secreta passasse à imprensa. De momento, a sutil prudência do Major proporcionara-me certa vantagem. E estava disposto a utilizá-la, naturalmente.

         Se o FBI e o Departamento de Estado - que sabiam muito bem do falecimento dos dois veteranos da USAF -, continuavam a acreditar que eu apenas procurava localizar o amigo do Major, talvez a minha saída do país fosse mais fácil do que eu previra. Esta, em síntese foi a decisão mais importante que acabei por adotar ao meio-dia daquela quinta-feira 5 de Novembro de 1981: voltar a Espanha imediatamente... e com o meu tesouro como era evidente. Saltei da cama e preparei-me para pôr em prática a última fase do meu plano: a visita ao Cemitério Nacional de Arlington. Ainda que, repito, a confirmação da morte do companheiro e irmão do meu amigo não revestisse Já uma especial importância, no meu foro íntimo necessitava de encerrar aquele misterioso círculo que a chave constituía. Preparei as máquinas fotográficas e vi as horas.

         Eram duas da tarde. Ainda tinha três horas antes que a necrópole fechasse as suas portas ao público. Mas, quando me dispunha a sair do quarto, um elementar sentido de prudência levou-me a espreitar pela janela. Por um momento não reagi. Estacionado junto do passeio do hotel, no mesmo lugar em que o vira, continuava o carro azul-metálico dos agentes. Instintivamente, lancei-me para trás e fechei a janela. Não podia ser um acaso.

         Aquele era o carro do FBI. Evidentemente que eu tinha subestimado os agentes... Se me arriscasse a sair agora, refleti, procurando uma solução, que aconteceria?

         Podia ser discretamente seguido, uma hipótese nada improvável, ou, muito pior, a minha ausência podia ser aproveitada pelos dois homens para uma busca no quarto. Esta ótima idéia encheu-me de terror. Que podia eu fazer?

         Também não me resignava a ficar enclausurado entre aquelas quatro paredes...

         De repente, veio-me a mente a escada de salvação.

         Sim, disse para comigo, tentando animar-me, pode estar aí a solução. Liguei a televisão e, tentando não fazer barulho algum, abri lentamente a porta. O corredor estava deserto. Rapidamente, cheguei ao fundo, junto à saída de emergência. Ao contrário do que acontece na Espanha, os Norte-Americanos querem que estas portas permaneçam constantemente abertas. Ao olhar para fora, da plataforma metálica ou patamar que une a escada com o sexto andar, em que me encontrava, verifiquei que aquela saída dava diretamente para uma rua estreita e com pouco trânsito. Nas imediações não havia um único veículo.

         Aquilo me tranqüilizo. Dali a poucos minutos fechava novamente a porta do meu quarto e preparava-me para a fuga. O mais importante era não levantar suspeitas. E, assim, seguindo um metódico plano, telefonei para o saguão e solicitei um frugal almoço. A seguir, despi-me, enfiando-me no pijama. Marquei o número da recepção e, em tom lento e cansado, expliquei ao empregado de turno que estava muito cansado e deseja dormir. Por fim, e depois de insistir que não queria atender telefonema algum, pedi-lhe que me acordasse às seis e meia da tarde. Se, como suspeitava, os responsáveis do hotel tinham ordens para vigiar e comunicar as minhas entradas e saídas, esta podia ser uma boa cartada.

         Quinze minutos depois um criado batia à porta. Empurrou o carrinho com a comida e, depois de lhe meter na mão uma bela gorjeta, anunciei-lhe que não me incomodasse ao voltar para levar a pequena mesa rolante.

         - Eu mesmo a ponho no corredor quando acordar - disse eu.

         O homem pareceu concordar e desapareceu ao fundo do corredor, enquanto eu voltava a pendurar o letreiro Não incomodar. Vesti-me em segundos, mordisquei um dos pãezinhos e peguei na bolsa das máquinas fotográficas, em cujo fundo tinha guardado os cilindros de cartão e a carta do Major. No meu relógio faltava quinze para as três.

         Depois de me certificar de que a porta do meu quarto estava perfeitamente fechada, guardei a chave e, como um fantasma, percorri os escassos trinta passos que me separavam da escada de salvação. Ao fechá-la atrás de mim dediquei uns segundos a uma exaustiva exploração da rua e dos lances que tinha de descer.          Tudo calmo. Sem perder um minuto, desci as escadas de salvação, tentando não fazer barulho. Chegado ao último patamar, detive-me. Não me cabia o coração no peito... Olhei à volta e, depois de verificar que o caminho estava livre, prossegui a minha descida, com excessivo otimismo. E faço esta observação

porque, ao olhar para os últimos degraus, não parti a cabeça por pouco. Não contara com um pequeno-grande obstáculo: a escada de salvação acabava a considerável altura do chão.

         Debrucei-me e compreendi, angustiado, que, se queria continuar a fuga tinha de saltar aqueles dois ou três metros. (A verdade é que nunca soube, com certeza, a que distância me encontrava do passeio.) Tinha de atuar com rapidez: ou voltava ao sexto andar ou me atirava. A minha posição no final daquela escada de incêndio era francamente comprometedora.

         Qualquer transeunte que passasse naquele instante poderia me descobrir.

         Engoli saliva e encostei a bolsa à barriga, rodeando-a com ambos os braços. Depois, num ato inconsciente, saltei. Apesar da flexão de pernas, o choque foi respeitável. Na minha ânsia de proteger o equipamento fotográfico, inclinei-me em excesso e rolei com quanto peso tenho pelo duro cimento.

         Poucas vezes me pus de pé com tanta rapidez. A minha única preocupação - verdade seja dita - era que alguém pudesse ter-me visto saltar. Mas a sorte parecia estar ainda do meu lado. A viela continuava solitária. Limpei a samarra com duas palmadas e saí assobiando em direção ao cruzamento que se adivinhava ao fundo. Se tudo corresse como eu desejava, do outro lado do quarteirão e na direção oposta à que eu seguia, deveria estar ainda o carro do FBI.

         Vinte minutos depois - quando no meu relógio eram quase três e meia - um táxi deixava-me no Memorial Drive, mesmo às portas do cemitério. Ainda que na minha rápida ida até Arlington eu não tivesse notado - apesar de olhar para trás freqüentemente - que o temido carro azul me seguisse, nesta nova visita ao cemitério dos heróis norte-americanos evitei a entrada pela porta principal. Caminhei pela alameda de Schley e, passados cinco minutos, estava diante do balcão do Temporary Visitors Center.

         Sinceramente, enquanto explicava a uma das funcionárias que o meu objetivo era localizar o túmulo de um velho amigo, as minhas esperanças - à vista dos escassos dados que possuía - não eram muito sólidas. A mulher tomou nota do nome e apelidos, bem como o ano da possível morte (1977), e, sem mais perguntas, como se aquela consulta fosse mais uma entre tantas, fez meia volta e dirigiu-se a um monitor, colocado à esquerda da sala. Vi-a carregar em teclas e, poucos segundos depois, no visor do terminal do computador surgiram uns sinais e umas palavras de cor verde que não consegui decifrar. Logo a seguir, a funcionária pegou num dos pequenos mapas que eu Já conhecia e escreveu a vermelho o primeiro apelido e o nome do meu amigo e, na linha inferior, a negro e nos espaços destinados a grave (sepultura) e a seção, os números correspondentes a cada uma delas.

         - Conhece o Cemitério? - perguntou-me.

         - Não muito...

         - Bem, é fácil - acrescentou, em voz monótona. - Nós estamos aqui...

         Com o marcador vermelho assinalou o Temporary Visitors Center e no seu prolongamento traçou uma linha por cima das alamedas de LEnfant e de Lincoln. Com uma precisão que me deixou estupefato, marcou um ponto na quadra quarenta e três, concluindo:

         - Aqui encontrará  a lápide. Se for a pé são dez minutos...

         - Muito obrigado.

         É possível que a jovem interpretasse aquele agradecimento e o meu amplo sorriso como um sentimento lógico ao poder localizar tão rapidamente o que procurava. Mas os meus tiros iam noutra direção ... Enquanto caminhava para o ponto indicado na planta, a minha excitação aumentava. O fato do computador e Arlington ter respondido afirmativamente -mostrando que ali, efetivamente, tinha sido sepultado o irmão do Major -, fizera-me vibrar de emoção, esquecendo momentaneamente os passados dissabores.

         No cruzamento da alameda de LElephant com a alameda de Lincoln parei. Se as indicações da funcionária não estavam erradas, devia encontrar-me a pouco mais de trezentos metros da sepultura. Ao olhar novamente para o mapa reparei noutro pormenor que precipitou a minha alegria: as coordenadas 44 e W confluíam matematicamente naquela zona da quadra quarenta e três: isto esclarecia a primeira parte da quarta frase da mensagem do Major: O irmão dorme em 44-W.

         A pequena caminho asfaltada levou-me até um relvado em que se alinhavam centenas de lápides brancas, com apenas meio metro de altura. Consultei o número da sepultura e, depois de várias voltas pela relva bem tratada, o nome e o apelido do também oficial da USAF surgiram diante de mim como um milagre.

         Como nos outros túmulos de Arlington, havia uma pequena luz dentro de um círculo, gravada na parte superior da lápide. Por baixo, a identidade do falecido o seu posto, o exército a que pertencera e as datas do nascimento e da morte, respectivamente. E mais nada. Senti uma mistura de raiva e de tristeza. Aquele homem, tal como o meu velho amigo, o Major, fora enterrado sem uma só referência à fascinante missão que levara a cabo em vida. E o pior é que o seu próprio país - pelo menos os serviços de espionagem - estava empenhado em que a referida viagem continuasse a ser classificada como secreta e confidencial.

         No horizonte, esfumado entre o verde, o amarelo e o vermelho das  árvores do Cemitério Nacional, o branco monólito erigido à memória do primeiro presidente dos Estados Unidos apontava paradoxalmente o céu... Ajoelhei-me e jurei que lutaria até ao fim. Nada nem ninguém me deteria ante o compromisso de difundir o legado daqueles homens. Pelas quatro e meia, depois de fotografar a lápide, e quando me dispunha a retirar-me, uma sombra fez que me sobressaltasse. Parte da inscrição tinha começado a escurecer. Levantei os olhos e reparei numa pequena  árvore. Uma nespereira! (...A sombra da nespereira - recordei a última parte da quarta frase da mensagem do Major - Cobre-o pelo entardecer. Fiquei absorto, contemplando como a sombra daquela humilde companheira de solidão ia roubando a luz da pedra, segundo a segundo. Ao observar o relvado dei conta de que aquela era a única  árvore que crescia junto desta quadra da necrópole. Já não havia dúvida: a mensagem estava decifrada.

Apanhei algumas das nêsperas que tinham caído na relva e guardei-as na minha bolsa. Por último, cortei um pequeno ramo e coloquei-o junto da lápide.

         Pouco a pouco, com o sol descendo nas minhas costas fui me afastando daquele lugar. Não voltei à frágil nespereira de folhas verdes e pequeninas que acompanha o herói norte-americano, mas ambos sabemos que, naquela tarde, parte do meu coração ficou em Arlington.

         No traçado original do meu plano de fuga, não tinha previsto, nada que se parecesse, que o regresso fosse precisamente pela porta principal do hotel. Penso agora passado todo este tempo, que muito bem sabia eu que não tinha possibilidade de chegar à escada de salvação pela viela, e que, portanto, joguei tudo por tudo naquela desnecessária diligência no Cemitério Nacional de Arlington. Mas Já não podia voltar atrás. Sou um homem que aceita riscos e que, além disso, gosta de os correr.

         O crepúsculo tinha começado a diluir as cores da grande cidade quando o táxi parou em frente da porta giratória do meu hotel. Enquanto pagava a corrida respirei aliviado ao reconhecer na minha frente, a uma vintena de passos, o carro dos meus perseverantes guardas. Ou muito me enganava, ou eles julgavam-me dormindo que nem uma pedra. Depressa o ia comprovar... Saltei do táxi e atravessei o passeio, olhando de soslaio para a esquerda. Ainda que fosse por uma questão de segundos, pude notar como um dos agentes - o que continuava ao volante - se agitava, tocando com precipitação no ombro do seu companheiro, que estava lendo um jornal. Não sei o que aconteceu depois. Deslizei pelo hall e evitei o elevador.

         Graças ao céu, o recepcionista estava de costas e acho que não me viu desaparecer, subindo as escadas.

         Ofegando e amaldiçoando o tabaco, entrei no meu quarto justamente no momento em que tocava o telefone. Tentei recuperar o fôlego e deixei-o tocar duas vezes. Ao atender reconheci a voz do recepcionista!

         - O senhor desculpe - disse o empregado, num tom muito pouco convincente -, mas disse-me que o chamasse às cinco e meia ou às seis e meia...?

         Tive vontade de lhe torcer o pescoço, mas dissimulei, dando como certo que junto dele devia estar um dos agentes, se é que não estavam os dois...

         - Às seis e meia, por favor - respondi, em voz cortante.

         - O senhor desculpe... Foi um erro.

         Aceitei as desculpas e, por via de dúvidas, despi-me acabando por comer o esquecido almoço. Eram cinco e meia da tarde. Se o FBI engolisse a isca e considerasse que tudo tinha sido uma confusão, que eu não tinha saído do quarto, talvez aquelas últimas horas em Washington não fossem demasiado difíceis. Mas, e se não fosse assim?

         Tinha de tirar as dúvidas.

         E comecei a maquinar novo plano. Tinha de averiguar até que ponto acreditavam na minha palavra...

         A minha preocupação, como é fácil de adivinhar estava centrada nos documentos. Tinha de os pôr a salvo a todo o custo. Mas como? Levei mais de meia hora em reconhecimento e exploração de cada canto do quarto. No entanto, nenhum dos possíveis esconderijos me pareceu bastante seguro. Cheguei mesmo a desenroscar o chuveiro, considerando a possibilidade de enrolar e esconder parte do diário do Major no cano, que saía um pouco mais de trinta e cinco centímetros da parede da casa de banho. Graças a Deus, o instinto ou a intuição - ou ambos ao mesmo tempo - fizeram que temesse a sorte dos papéis e, finalmente, decidi-me pela solução mais simples... e arriscada. Abri cuidadosamente o segundo cilindro e retirei outro maço de folhas minuciosamente datilografadas, igualmente protegido por um envoltório de plástico transparente. Meti todos os rascunhos dentro da garrafa de vinho, que ficara meio vazia e, com a ajuda de várias tiras de papel adesivo, prendi ambos os maços de folhas ao peito e às costas.

         Depois, vesti-me cuidadosamente, tratando de encher os canudos de cartão com rolos de fotografias, sem uso.

         Guardei-os no fundo da bolsa das máquinas fotográficas e retirei as películas das duas máquinas, substituindo-as por outras, ainda virgens.

         O meu objetivo era sair do hotel bem à vista e deixar o campo livre aos tipos do FBI. Corria o gravíssimo risco de que eles, em vez de fazerem busca ao quarto, optassem por me seguir e revistar-me. Nesta segunda suposição, os documentos voariam em questão de minutos... Na previsão de que esta delicada circunstância chegasse a ser realidade, guardei os rolos de Tri-X e de diapositivos que obtivera da minha recente investigação no México, bem como as imagens de Arlington, nos bolsos da samarra e das calças. Em caso de busca, pensei, sempre é melhor que localizem primeiro as películas. Talvez fiquem satisfeitos e se esqueçam do resto...

         Não que aquele estratagema me convencesse, mas podia fazer outra coisa? Cortei as pontas das películas de uma dezena de rolos, ainda por fotografar, e coloquei-as em fila, em cima da minúscula secretária, simulando que se tratava do fruto do meu trabalho gráfico naqueles últimos dias. Pelas seis e um quarto peguei numa folha de papel, com o timbre do hotel, e escrevi em letra sem muito apuro:

         Sexta-feira (6-XI-81)... ligar para o Dr. Garzón às 13 horas (telefone 6525783).

         Rasguei a folha aos bocadinhos e deitei-os para o cesto de papéis, separando previamente um dos quadradinhos de papel em que podia ler-se: efone 6525. Deixei esta parte do escrito no assoalho do quarto, muito perto do cesto dos papéis, como se no gesto - ao deitar fora os papéis -, um deles tivesse caído fora do recipiente. Depois esvaziei um dos cinzeiros no cesto e tratei de desfazer a cama, enrugando minuciosamente os lençóis.

         Às seis e meia, tal como esperava, tocou o telefone. O empregado, num tom muito mais amável, lembrou-me a hora.

         - Muito obrigado - respondi, aproveitando a oportunidade para rematar o meu plano - Gostaria de ir ao cinema... sabe se por aqui perto há algum?

         - Há, sim, senhor... Que tipo de filme deseja ver?

         - Bom, Já que é tão amável, vá  o senhor mesmo vendo. Vou descer Já. Ao desligar, esfreguei as mãos. Apesar de tudo, aquilo era eletrizante... Por último, e antes de sair do quarto, envolvi cuidadosamente o meu caderno de notas em dois jornais, escondendo entre as páginas a carta que retirara da box número vinte e um. Certifiquei-me de que levava o passaporte, os bilhetes - ainda válidos – da minha viagem de regresso a Espanha, via Nova Iorque, e os meus últimos trinta dólares. Abrindo a porta, empurrei o carrinho do almoço para o corredor. Retirei o letreiro NÃO INCOMODAR e fechei a porta. Ao encaminhar-me para o elevador passei diante de uma bandeja - com alguns restos de comida que tinha sido colocada no assoalho, junto de um outro quarto. Logo me lembrei dos agrafos e, voltando atrás, peguei na minha garrafa de vinho, trocando-a sorrateiramente pela do outro hóspede.

         Uma vez no hall conversei sem pressa com o recepcionista que gentilmente - e a meu pedido - me acompanhou até à rua, indicando-me o caminho mais curto para o cinema. Fingi não ter entendido bem e o homem repetiu as suas indicações com todos os pormenores. Tanto ele como eu observávamos furtivamente o carro azul-metalizado, que continuava estacionado a curta distância. Aquela comédia, na realidade, fazia parte da segunda fase do meu plano. Desejava que ficasse perfeitamente estabelecido que, no decorrer das horas seguintes eu ia procurar distrair-me pacificamente a ver um filme. E, naturalmente, era vital que eles notassem...

         Com as mãos nos bolsos e o diário de bordo bem seguro debaixo do braço, camuflado entre as folhas do jornal, fui-me afastando com ar distraído, como quem se prepara para dar um agradável passeio. O peso das folhas - em especial as do peito- começava a incomodar-me.

         Duas ou três paragens, aparentemente casuais, diante de outros tantos estabelecimentos comerciais, foram mais que suficientes para verificar que os agentes não tinham saído do carro. Com passada igualmente displicente desapareci da Rua Dezessete à procura da movimentada Avenida Pensilvânia, onde, entre restaurantes galerias comerciais pubs e cinemas sempre é mais fácil passar despercebido. Comprei um bilhete e às sete e meia entrava numa das salas de projeção. Mas a minha intenção não era ver um filme. Quinze minutos depois, e perante a indiferença do porteiro, saí do cinema, dirigindo-me a uma cabina telefônica.

         Embora me encontrasse muito perto da Rua Catorze, achei que era muito mais prudente telefonar primeiro para os escritórios da agência Efe em Washington. Um dos jornalistas – velho amigo - ia desempenhar um papel decisivo nesta última parte do plano. Como era de esperar, o primeiro número estava sempre interrompido. Marquei o segundo

         - 3323120 - e, por fim, consegui falar com a redação.

         Não me vi forçado a dar-lhe demasiadas explicações. O companheiro e colega, cuja identidade não posso revelar, por razões óbvias, percebeu que me acontecia qualquer coisa fora do normal e aceitou me ver imediatamente.

         Cerca das oito e meia da noite voltei atrás, até McPherson Square, e, convencido de que ninguém me seguia, deslizei rapidamente para o vetusto elevador do National Press Building, na Rua Catorze da zona noroeste da cidade. O meu amigo esperava-me no departamento 969, sede da Agência Efe.

         Uma hora depois, com o mesmo ar despreocupado, empurrava a porta giratória do hotel. De bom grado, e sem fazer muitas perguntas, o jornalista tinha-me prometido o seu auxílio.

         Pelas dez da manhã do dia seguinte - tal como tínhamos combinado – se apresentaria no meu hotel...

         A minha intuição não falhou desta vez. Ao aproximar-me da porta principal descobri que o carro azul-metalizado tinha desaparecido. Ao pedir a minha chave na recepção, observei que os empregados eram outros. E, ainda que ultimamente em mim só houvesse desconfianças, compreendi que se tratava de novo turno. Dei ordem para que me acordassem às oito e meia de sexta-feira e, com um preocupante formigueiro no estômago, segui a caminho do sexto andar. Não podia tirar da cabeça a circunstância suspeita de o veículo do FBI não se encontrar em frente do hotel. Que teria acontecido naquelas três horas? Não precisei de muito tempo para o averiguar. Bastou-me fechar a porta do meu quarto e pôr os olhos na pequena secretária. Os rolos virgens que alinhara no tampo de vidro da mesa tinham desaparecido! Antes de entrar por uma rigorosa inspeção geral, abri a bolsa do material fotográfico, verificando, com alívio, que as minhas máquinas continuavam.

         No entanto, tal como supusera, também os rolos – meio utilizados -, que eu substituíra no último momento, tinham sido retirados (possivelmente rebobinados) das respectivas câmaras. O resto do equipamento estava intacto. Os canudos de cartão, onde eu guardara películas, não pareciam ter chamado a atenção dos intrusos. Continuavam no fundo da bolsa, cobertos pelas mini toalhas verdes que eu costumo pedir emprestadas nos hotéis onde me hospedo e que, seguindo o costume do meu mestre e compadre Fernando Múgica, utilizo para evitar os choques e o roçar entre câmaras e objetivas. Também as quatro ou cinco nêsperas que trouxera de Arlington não tinham sido subtraídas pelos agentes. Porque, por esta altura, e tal como pude confirmar minutos mais tarde, saltava aos olhos que o meu quarto sofrera uma busca do FBI. (Pelo menos uma vez na minha vida, tinha acertado em cheio.)

         Numa primeira observação pude deduzir que o resto dos meus haveres - mala, roupa, utensílios de higiene, etc. - continuava onde o deixara. Atuando com extremo cuidado o indivíduo ou indivíduos que tinham entrado no quarto tentaram não alterar a rígida ordem que sempre imponho à minha volta.

         Aqueles tipos procuravam informação - qualquer dado que pudesse estar relacionado com o Major ou o amigo que eu dizia procurar - e eu não tardaria em confirmá-lo.

         Um pouco mais tranqüilo depois daquele rápido inventário, fui direito ao cesto dos papéis, para onde deitara os pedacinhos de papel, bem como as beatas de um dos cinzeiros. Os papelinhos continuavam no fundo do recipiente, à exceção do que eu deixara cair intencionalmente no soalho. Este, num lamentável erro do agente, foi encontrado por mim no fundo do cesto, junto dos seus irmãos... conhecendo como conheço os serviços de espionagem, sabia que uma das coisas que sempre vêem são, precisamente, os cestos dos papéis. A armadilha dera resultado. O agente, depois de reconstruir a folha de papel que eu rabiscara, devolveu-a ao cesto procurando fazer que os vinte e oito pedaços caíssem todos no cubo de metal.

         Aquele desajeitado representante do FBI deixara, além disso, no vidro da secretária, outro sinal da sua passagem. Como o leitor ter  imaginado, o fato de despejar um dos cinzeiros no cesto dos papéis - e, mais concretamente, por cima dos papelinhos - não foi um gesto de asseio, embora possa ser essa a primeira impressão...

 

         Aquela manobra foi perfeitamente calculada. E, agora, ao examinar o vidro, em cima do qual, com toda a evidência, fora minuciosamente reconstruída a folha de papel, não tardei em detectar a pista do intruso. Ao juntar os pedacinhos de papel, o agente não se acautelou e uma porção de cinza mínima - mas suficiente para o que eu pretendia caíra em cima do vidro da mesa. Uma vez adivinhado o quebra-cabeças, o homem restituiu os restos ao seu devido lugar, sem ter a precaução de limpar a superfície sobre a qual trabalhara.

         Com a ajuda de uma minúscula lupa, Agfa Lupe 8 x, que sempre me acompanha e é de grande utilidade no exame de diapositivos, localizei imediatamente numerosas partículas branco-acinzentadas, que não eram mais que parte da cinza com que cobrira os papelinhos.

         Se os agentes - como era fácil supor - tinham tomado devida nota do que estava escrito na folha, havia uma grande probabilidade de que caíssem em nova armadilha...

         Antes de me deitar, e prevendo que o meu telefone estivesse sob escuta, marquei o número do Consulado espanhol disse à pessoa que me atendeu que era amigo do senhor Garzón, conselheiro de Informação e pedi para lhe transmitir que eu telefonaria no dia seguinte, às treze horas. Desta forma, e na mais que provável suposição de a minha conversa ter sido gravada, o FBI recebia assim a confirmação daquilo que, sem dúvida, lera no meu quarto.

         Deixei a mala praticamente feita e preparei-me para descansar. Mas ao ir lavar os dentes tive outra surpresa. Aqueles malditos agentes tinham furado - de lado a lado e em três sítios - a bisnaga da pasta dentrífica. O tubo de creme de barbear, tal como temia, estava igualmente furado. De que foram capazes e que mais surpresas me reservam estes gorilas?, interroguei-me, inquieto. Naquela noite, à cautela, pus a corrente de segurança e escorei a porta com a única cadeira do quarto. Como última precaução, decidi não descolar os documentos do peito e das costas. Contrariamente ao que imaginava, aquela incomoda carga não foi obstáculo a que o sono acabasse por me vencer. Tinha graça. Era a primeira vez que dormia com um alto segredo... no estômago. De acordo com o plano estabelecido na tarde anterior na sede da agência de notícias Efe, pelas dez em ponto da manhã de sexta-feira entreguei a chave do meu quarto na recepção, dirigindo-me em seguida para um dos táxis que esperavam à porta do hotel.

         Depois de tomar o pequeno-almoço no quarto, voltei a encher os tubos de cartão com parte da minha roupa suja - lenços e sapatos, fundamentalmente - fechando-os novamente e escrevendo em cada um deles o meu apelido, nomes, e direção na Biscaia.

         E ainda que o tempo em Washington D. C. estivesse fresco e com sol, vesti uma gabardina amarela-clara. Com as máquinas fotográficas ao ombro e os cilindros do Major nas mãos meti-me num táxi, pedindo ao motorista que me levasse ao Main Post Office, a central dos Correios da cidade. Se o FBI seguia os meus movimentos, aqueles canudos e o meu colega jornalista iam ajudar-me a pregar-lhes uma boa rasteira.

         Às dez e meia o motorista do táxi parava em frente dos Correios. Com a promessa de uma excelente gorjeta, pedi-lhe que esperasse uns minutos; apenas o tempo de pôr selos e registrar dois volumes. O homem concordou amavelmente e saí do táxi a tempo de ver um automóvel preto a ultrapassá-lo, indo estacionar cerca de cem metros mais à frente. Calculando que os ocupantes do carro muito tinham a ver com os que me tinham invadido e revistado o quarto na noite anterior, entrei na concorrida central. Graças a Deus, o meu amigo Já lá  estava à minha espera. A toda velocidade, e ante os olhos atônitos de uma mocinha que preenchia não sei que impressos na mesma mesa onde me encontrara com o repórter da Efe, despi a gabardina e passei-a ao meu colega. Escrevi a matrícula do táxi num dos formulários que se alinhavam nos cacifos e, ao entregar-lhe o papel, avisei-o - em castelhano - que tivesse cuidado com o automóvel preto. Cumprindo o plano previsto, o meu colega vestiu a gabardina, enquanto eu me misturava à multidão , caminhando para o balcão das encomendas postais. Se corresse tudo bem, dali a cinco minutos o jornalista ter-se-ia metido no táxi que esperava o meu regresso. Com a finalidade de tornar ainda mais difícil a sua identificação, pedira-lhe que trouxesse uma bolsa parecida com aquela que eu habitualmente trazia. Quando o funcionário dos Correios guardou os canudos de cartão, dirigi-me para a porta e, do limiar, verifiquei que o táxi e o automóvel preto tinham desaparecido.

         Sem perder um minuto, encaminhei-me para a boca do metro de Gallery Place. Dali, seguindo a linha Macpherson-Farragut West, reapareci na estação de Foggy Bottom. Eram onze e meia. Uma hora depois, outro táxi deixava-me no aeroporto nacional de Washington. Ou muito me enganava, ou os agentes do FBI estavam quase a enfiar um grande barrete... Pelas treze horas e vinte e cinco minutos daquela agitada manhã, o vôo 104 da companhia BN arrancava-me - por fim - da capital federal.

         Dificilmente posso descrever aquelas últimas quatro horas no aeroporto de Nova Iorque. Se o meu amigo não fosse capaz de enganar os teimosos agentes norte-americanos, a minha segurança e, o que era muito pior, o meu tesouro tinham corrido grave risco.

         As quatro em ponto da tarde, tal como tínhamos combinado, marquei o número de telefone da Efe em Washington. O meu cúmplice - a quem nunca poderei agradecer devidamente a sua audácia e cooperação - saudou-me com a contra-senha que só eu e ele conhecíamos:

         - De Santurce a Bilbau...?

         - Vou por toda a margem - respondi, com voz entrecortada pela emoção.          Aquilo significava, entre outras coisas, que o nosso plano dera resultado. Em poucas palavras, o meu colega pôs-me ao corrente do que acontecera, a partir do momento em que entrara no táxi. As minhas suspeitas eram fundamentadas: aquele automóvel preto, que estacionara a pequena distância da fachada principal da estação dos Correios, recomeçou a sua discreta perseguição. Os agentes, três, no total, não podiam imaginar que o meu amigo ocupara o meu lugar e que todo aquele enredo não tinha outro objetivo que não fosse permitir a minha fulminante saída do país.

         Obedecendo às indicações do novo passageiro, o condutor do táxi que viu aumentada a importância da corrida com uma súbita gorjeta de cinqüenta dólares (gorjeta que, segundo o meu colega, o deixou temporariamente mudo e surdo) -, ante o provável desespero dos homens do FBI, conduziu o seu veículo até ao Consulado espanhol, no N.o 2700 da Rua Quinze. Ali permaneceram ambos até à uma e meia. A essa hora, um vôo regular descolava de Washington, levando-me, como Já referi, à Cidade de Nova Iorque.

         Quando viram de novo surgir o táxi que tinham esperado pacientemente o assombro dos gorilas deve ter sido memorável, pois os passageiros Já eram outros. O meu amigo, que tinha largado a gabardina e a bolsa no Consulado, enfiou um gorro vermelho e pediu a um funcionário amigo que o acompanhasse.

         O FBI caiu novamente na armadilha e, acreditando que eu estava ainda na embaixada, continuou à espera. - É possível - comentou divertido o jornalista da Efe - que ainda lá  estejam...

         Às sete e quinze, com os documentos bem colados ao peito e às costas e - para quê negá-lo - quase à beira de um ataque de coração, o vôo 904 da TWA levava-me pelos ares, rumo a Espanha.

         No dia seguinte, sábado, uma vez confirmada a minha descida em Madrid-Barajas, o colega apresentou-se no hotel. levou a minha mala e pagou a conta. Tal como eu suspeitava, os canudos de cartão que eu tinha registrado em Washington nunca chegando ao seu legítimo destino...

         Como me enganava. As minhas angústias não terminaram com o resgate do diário do Major. Foi a partir da leitura daqueles documentos que o meu espírito se viu envolvido em toda a espécie de dúvidas... Durante dois anos, sempre no mais impenetrável dos silêncios, multipliquei-me em mil diligências para tentar confirmar a veracidade de quanto deixou escrito o falecido piloto da USAF. No entanto - apesar dos meus esforços - pouco consegui. A natureza do projeto é tão

fantástica que, mesmo que tenha sido realizado, a classificação muito secreto, tornou-o inacessível. Uma coisa a que os Soviéticos e Norte-Americanos - seja dito de passagem - nos têm habituado desde que se empenharam na sua louca corrida aos armamentos. Não é preciso ser um lince para compreender que, tanto na conquista do espaço como no desenvolvimento do potencial bélico, uns e outros ocultam boa parte da verdade e - o que é pior - não sentem o menor pudor em mentir... ou desmentir. Também não é de estranhar, portanto, que tenha caído uma cortina de ferro sobre o projeto que o Major descreve no seu legado. No presente trabalho levei a cabo a transcrição - o mais fiel possível - das primeiras trezentas e cinqüenta folhas do total de quinhentas que ambos os cilindros continham. Embora não vá desvendar, de momento, o conteúdo do resto do Projeto, posso antecipar - isso sim que corresponde a um denominador comum: uma grande viagem, tal como a define o próprio Major. Uma viagem que faria empalidecer Júlio Verne...

         Como é evidente, não sou ingênuo ao ponto de acreditar que, com o achado e posterior transferência destes documentos para fora dos Estados Unidos, tenham desaparecido os perigos. Pelo contrário. É precisamente agora, por motivo do seu salto para a luz pública, que os serviços de espionagem podem apertar o cerco em torno de um jornalista irresponsável. É um perigo que assumo, não sem certa preocupação... Mas, como homem prevenido vale por dois, depois de uma fria avaliação do assunto, também eu tomei algumas precauções. Uma delas – a mais importante, sem dúvida - foi depositar os originais do Projeto no cofre-forte de um banco, em nome do meu editor, José Manuel Lara. Caso eu fosse eliminado, aquela documentação seria publicada ipso fato.

         Naturalmente, assim que pisei terra de Espanha, uma das minhas primeiras preocupações - antes de pôr a bom recato ambas as documentações originais - foi fotocopiar em duplicado as quinhentas folhas que tinha trazido de Washington. Para evitar, o mais possível o risco de desaparecimento do diário, uma das reproduções foi guardada - juntamente com os documentos oficiais que me foram entregues em 1976 pelo então general-chefe do Estado-Maior, Filipe Galarzal – noutro cofre-forte, em nome de um velho e leal amigo, residente numa cidade costeira espanhola.

         Ao longo destes dois anos, e depois de conhecer o testamento do Major, levei a cabo numerosas consultas - especialmente a cientistas e médicos -, tentando esclarecer, pelo menos, a parte de ficção que ambas as viagens apresentam. Diga-se – em abono da verdade - que os primeiros se mostraram céticos quanto à possibilidade de materialização de semelhante projeto. Apesar disso, e antes de passar ao diário propriamente dito, quero deixar assente que a minha obrigação como jornalista começa e acaba, precisamente, com a obtenção e difusão da notícia. Ser  o leitor - e quem sabe se os homens do futuro, como aconteceu com Júlio Verne - quem dever  retirar as suas próprias conclusões e conceder ou retirar a sua confiança a quanto encontre nas próximas páginas. Em todo o caso - e com isto termino - se a grande viagem do Major foi apenas um sonho daquele homem estranho e atormentado, que Deus abençoe os sonhadores.

         Estas trezentas folhas fazem parte de doze investigações secretas da Força Aérea espanhola sobre outros tantos casos de OVNIs na Espanha. Foram publicados no livro OVNIs: Documentos Oficiais do Governo Espanhol.

 

                             O diário

         Hoje, 7 de Abril de 1977, ano da minha voluntária partida para a selva do Iucatan, uma vez conhecida a morte de meu irmão (...), e pelo quarto ano do nosso regresso da grande viagem, peço humildemente ao Todo-Poderoso que me conceda as forças e a vida necessárias para deixar escrito quanto sei e contemplei - pela infinita misericórdia de Deus – na Palestina.

         É meu desejo que este testemunho seja conhecido entre os homens de boa vontade - crentes ou não - que, como nós, caminham em busca da Verdade.

         Sei há mais de um ano - como também o soube meu irmão na grande viagem - que a minha morte está  próxima. Por isso, seguindo os seus reiterados pedidos e os sempre mais firmes impulsos da minha própria consciência, tratei de organizar as minhas notas, recordações e sensações. Espero que a pessoa ou pessoas que algum dia possam ter acesso a este humilde e sincero diário façam sua a minha vontade de permanecer, como meu irmão, no mais rigoroso anonimato. Não somos nós os protagonistas, mas sim ELE.

         Não é fácil para mim resumir aqueles anos anteriores ao definitivo lançamento da grande viagem. E, ainda que nunca tenha sido minha intenção desvendar os programas e projetos confidenciais do meu país, aos quais tive acesso dada a minha condição de militar e membro ativo - até 1974 – do OAR (Office of Aerospace Research)t entendo que antes de oferecer os frutos da nossa experiência em Israel devo falar dos seus antecedentes a quantos leiam este relatório de alguns fatos anteriores àquele histórico Janeiro de 1973.

         Devo igualmente avisar que, dada a natureza da descoberta efetuada pelos nossos cientistas e as dramáticas conseqüências que poderiam derivar de uma utilização errada ou premeditadamente negativa da mesma, os meus esclarecimentos prévios só terão um caráter puramente descritivo. Como antes mencionei, não é o meio o que importa, neste caso, mas sim os resultados que gostosamente houvemos por bem alcançar. Livro-me assim dos meus escrúpulos de consciência e confio em que algum dia - se a Humanidade recuperar o sentido da justiça e dos valores do espírito - sejam os responsáveis desta sublime descoberta os que a dêem a conhecer ao mundo na sua integridade.

         Foi na Primavera de 1964 que, confidencialmente e por pura casualidade, me chegou aos ouvidos a existência de um ambicioso e revolucionário projeto, sob os auspícios da AFOSI e da AFORS1 e na qual trabalhava, havia anos, uma numerosa equipe de peritos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

         Eu tinha sido selecionado em Outubro de 1963, com mais treze pilotos da USAF, para um dos projetos da NASA. Na minha qualidade de médico e engenheiro em Física Nuclear, e dado que continuava a pertencer à OAR, encomendaram-me um trabalho específico de supervisor do chamado VIAL, ou Veículo para a Investigação da Aterragem Lunar. Nessa Primavera de 1964, duas destas curiosas máquinas voadoras - com as quais se iniciaram os primeiros ensaios para as futuras alunagens do Projeto Apolo - chegaram por fim ao local a que eu fora destinado: o Centro de Investigação de Vôos da NASA, na Base de Edwards, da Força Aérea Norte-Americana, oitenta milhas a norte de Los Angeles.

Naquela paisagem desolada - em pleno coração do deserto de Mojave - permaneci até aos últimos dias de 1964, em que se concluíram, com êxito, as provas preliminares de vôo dos VIAL.

         Não preciso repetir que aquelas provas e outros projetos - em especial os da USAF - tinham sido qualificados como altamente secretos. A entrada no recinto da base e no das experiências, em especial era limitado ao pessoal credenciado para o efeito.

         Durante meses convivi com outros candidatos a astronautas, oficiais, cientistas e técnicos - todos eles de posse de nível de segurança ultra-secreto - chegando-me aos ouvidos um fantástico projeto: a Operação Swivel (Elo).

         Uma vez terminado o meu trabalho em Edwards, a NASA considerou que devia incorporar-me no Centro Marshall, de vôos espaciais. A minha verdadeira vocação foi sempre a investigação. Concretamente, o jovem mundo da teoria unificada das partículas elementares. No entanto, naquele mês de Dezembro de 1964 as minhas inquietações andavam por outros rumos. Os custos da NASA tinham começado a disparar e o Centro Marshall trabalhava dia e noite para encontrar novos sistemas ou fontes de energia, que tornassem mais baratas as dispendiosas baterias químicas dos projetos Explorer, Mercury e Gemini.

         Uma semana antes do Natal, e por razões de trabalho, tive de voar novamente para a Base de Edwards. Durante um dos almoços com o pessoal especializado, conheci o novo chefe do Projeto Swivel, o general (...), um homem sereno e de brilhante inteligência, que soube escutar pacientemente as minhas investigações e lamentos sobre a miopia mental de alguns altos cargos da NASA, que tinham repudiado mais de AFOSI e AFORS são as siglas do Air Force Office of Special Investigations (Organização de Investigações Espaciais da Força Aérea) e do Air Force Office of Scientific Research (Organização de Investigação Científica da Força Aérea), respectivamente. uma vez as sugestões apresentadas por mim sobre a necessidade de substituir as antiquadas baterias químicas por células de carburante ou por baterias atômicas.

         O general pareceu interessar-se por alguns dos pormenores das pilhas atômicas e eu - reconheço-o - abusei, saturando-o com uma chuva de dados e de informação em torno das excelências do plutônio 238, do cúrio 244 e do promécio 147...

         Antes de se levantar da mesa, o general fez-me uma única pergunta: Quer trabalhar comigo?

         Graças aos céus, a minha resposta foi um retumbante: Sim.

         Desta forma, em Janeiro de 1965 saía definitivamente da NASA, para entrar no módulo de experiências da USAF, no Mojave. Eu tinha conhecido boa parte dos cientistas e militares que se empenhavam naquele fantástico projeto, durante a minha anterior etapa na Base de Edwards. Isto facilitou as coisas e a minha definitiva integração na Operação Swivel foi rápida e total.

         Nos primeiros meses, o meu papel - de acordo com os desejos do general que me contratara e a quem de agora em diante tratarei pelo falso nome de Curtiss - fixou-se numa frenética investigação em volta de um sistema auxiliar de abastecimento de energia, mediante uma bateria atômica chamada SNAP-9A, que são as siglas de Systems for Nuclear Auxiliary Powersl.

         Por esta data, o projeto fora Já além das primeiras e obrigatórias fases da experimentação. Estas tinham realizado - sempre no mais férreo dos segredos - entre 1959 e 1963. Nunca soube - e também não me preocupei com isso excessivamente - qual ou quais tinham sido os promotores ou autores do sistema básico que permitira conceber tal aventura.

         Em algumas das minhas múltiplas conversas com o general Curtiss, este insinuou que - ainda que na equipe inicial tivessem participado alguns dos cientistas veteranos do Projeto Manhattan, que deu à luz a bomba atômica - a mudança de critérios em relação à natureza das indevidamente chamadas partículas elementares ou subatômicas vinha da Europa. Pelo que parecia, e através da CIA, a força aérea norte-americana tinha recebido - proveniente da Europa ocidental uma série de documentos em que se falava de uma brusca mudança de cento e oitenta graus na interpretação da física quântica.

         No essencial, Já que não é minha intenção, aqui e neste momento, alongar-me excessivamente em questões puramente técnicas, aquele “sistema básico” que dera impulso à operação consistia na descoberta de uma entidade elementar -generalizada no Cosmos - em que a ciência não reparara até àquele instante, e que foi e seria, no futuro, a pedra angular para uma melhor compreensão da formação da matéria e do próprio Universo.

         Esta entidade elementar - que foi batizada com o nome de swivel- pôs em evidência que todos os esforços da ciência para detectar e classificar novas partículas subatômicas não eram mais que uma estéril. Foram utilizados efetivamente. pela NASA e pela AEC para usos espaciais. Estas baterias de isótopos radioativos podem produzir várias centenas de watts de eletricidade durante períodos superiores a um ano.

         A razão - minuciosamente comprovada pelos homens da operação em que trabalhei - era tão simples quanto espetacular: um swivel tem a propriedade de alterar a posição ou orientação dos seus hipotéticos eixos, transformando-se, assim, num swivel diferente.

         A descoberta deixou perplexos os poucos iniciados, arrastando-os irremediavelmente para uma visão muito diferente do espaço, da configuração íntima da matéria e do tradicional conceito de tempo. O espaço, por exemplo, Já não podia ser considerado como um contínuo escalar em todas as direções. A descoberta do swivel lançava por terra as tradicionais abstrações do ponto, plano e reta. Estes não são os verdadeiros componentes do Universo. Cientistas como Gauss, Riemann, Bolyai e Lobatschewski tinham compreendido genialmente a possibilidade de ampliar os apertados critérios de Euclides, elaborando uma nova geometria para um espaço.

         Neste caso o auxílio da matemática evitava o grave escolho da percepção mental de um corpo de mais de três dimensões. Nós tínhamos imaginado um universo em que os  átomos, partículas, etc., formam as galáxias, sistemas solares, planetas, campos gravitacionais, magnéticos, etc. Mas a descoberta e posterior comprovação dos swivels deu-nos uma visão muito diferente do Cosmos: o Espaço não era mais que um conjunto associado de fatores angulares, integrado por cadeias e cadeias de swivels. Segundo este critério, poderíamos representar o cosmos não como uma reta mas como um enxame destas unidades elementares. Graças a estas bases os astrofísicos e matemáticos que tinham sido recrutados pelo general Curtiss para o Projeto Swivel foram verificando, com assombro, como no nosso universo conhecido se registram periodicamente uma série de curvaturas ou ondulações, que oferecem uma imagem geral muito diferente da que sempre tivemos.

         Mas não quero desviar-me do objetivo principal que me levou a escrever estas linhas. Em princípios de 1960, e como conseqüência de um mais intenso aprofundamento nos swivels, uma das equipes do Projeto materializou outra descoberta que, em minha opinião, será um marco histórico da Humanidade: mediante uma tecnologia que não posso sequer insinuar, aqueles hipotéticos eixos das unidades elementares foram invertidos na sua posição. O resultado encheu de espanto e alegria, ao

         Hoje, ainda, e dado que esta sensacional descoberta não foi dada a conhecer à comunidade científica do Mundo, numerosos investigadores e peritos em física quântica continuam a descobrir e a detectar uma infinidade de subpartículas (neutrinos mésons ,antiprótons, etc.) que só contribuem para obscurecer o intrincado campo da física. No dia em que os cientistas tenham acesso a esta informação, compreenderão que todas aquelas partículas elementares que constituem a matéria não são mais que diferentes cadeias de swivel, cada uma delas orientada de forma peculiar em relação às outras.

         Tanto os especialistas que trabalham nesta operação como eu próprio tivemos de alterar as nossas velhas concepções do espaço euclidiano, com a sua rede de pontos e retas, para assimilar que um swivel é formado por um feixe de eixos octogonais que não podem cortar-se entre si. Esta aparente contradição ficou explicada quando os nossos cientistas provaram que não se tratava de eixos,

propriamente ditos mas sim de ângulos. (Daí que tenha colocado entre aspas a palavra eixo, e me tenha referido a hipotéticos eixos.) A chave estava. portanto, em atribuir aos ângulos uma nova propriedade ou caráter: o dimensional. (Nota do Major.

         Ao mesmo tempo, todos os cientistas: o minúsculo protótipo com o qual se fizera a experiência desapareceu à vista dos investigadores. No entanto, o instrumental continuava a detectar a sua presença... A partir de então, todos os esforços se concentraram no aperfeiçoamento do referido processo de inversão dos swivels. Quando entrei no Projeto, o general explicou-me que, com um pouco de sorte, uns anos mais e estaríamos em condições de efetuar as mais sensacionais explorações... no tempo e no espaço.

         Pouco tempo depois compreendi o verdadeiro alcance das suas afirmações.

         Ao multiplicarmos os nossos conhecimentos sobre os swivels e dominarmos a técnica da inversão da matéria, apareceu diante da equipe uma fascinante realidade: mais além ou do outro lado das nossas limitadas percepções físicas existem outros universos (as palavras só servem para amordaçar a descrição destes conceitos) tão físicos e tangíveis como o que conhecemos (?). Em sucessivas experiências, os homens do general Curtiss chegaram à conclusão de que o nosso cosmos goza de uma infinidade de dimensões desconhecidas. (Matematicamente, foi possível a comprovação de dez.) Destas dez dimensões, três são perceptíveis para os nossos sentidos, e uma quarta - o tempo - chega até aos nossos órgãos sensoriais como uma espécie de fluir, num sentido único, e que poderíamos definir grosseiramente como flecha ou sentido orientado do tempo.

         Neste caudal de informações apareceu diante dos nossos olhos atônitos outra descoberta que modificar  um dia a perspectiva cósmica e que batizamos como o nosso cosmos gêmeo.

         Alongar-me-ei pouco sobre este nosso “cosmos” ou cosmos gêmeo. mas não resisto a revelar algumas das suas características básicas. Aquelas análises humilharam mais ainda, se é que era possível, a nossa soberba científica. Na realidade. não existe um só cosmos - como sempre tínhamos acreditado - mas sim um infinito número de pares de cosmos. A diferença fundamental detectada entre os elementos de um e de outro (os nossos, por exemplo), consiste em que as suas estruturas atômicas respectivas diferem no sinal da carga elétrica que os nossos cientistas chamaram, e continuam a chamar incorretamente, matéria e antimatéria. O nosso cosmos gêmeo, por exemplo, apresenta as seguintes diferenças:

         1) Nos seus átomos, a parte exterior é formada por elétrons positivos orbitais e o seu núcleo por antiprótons (prótons negativos).

         2) Nunca poderão entrar em contato os dois cosmos. Também não faz sentido pensar que possam sobrepor-se, Já que não os separam relações dimensionais,. (Não existem distâncias nem simultaneidade no tempo.)

         3) Ambos os cosmos possuem a mesma massa e o mesmo raio, correspondente a uma hiperesfera de curvatura negativa.

         4) Cada um deles goza de singularidades distintas; quer dizer, no nosso cosmos gêmeo não há o mesmo número de galáxias nem elas possuem a mesma estrutura que as nossas. Não há, portanto, outro planeta Terra gêmeo.

         5) Ambos os cosmos foram criados, simultaneamente, mas as suas flechas

do tempo não têm razão para estar orientadas no mesmo sentido. (Não podemos dizer, por conseqüência, que o referido cosmos coexiste com o nosso no tempo ou que existiu antes ou que existirá depois. Unicamente podemos afirmar que existe.)

Mas talvez o que mais impressionou a nossa equipe de investigadores fosse verificar que esse cosmos gêmeos exercem uma determinada influência sobre o nosso...

         A mim pessoalmente tal como ao general-chefe do projeto, o que acabou por nos cativar foi o novo conceito de tempo. Ao manipular os eixos dos swivels comprovou-se que estas unidades elementares não sofriam a ação do tempo. Elas eram o tempo.

         Longas e laboriosas investigações puseram em relevo, por exemplo, que aquilo a que chamamos intervalo infinitesimal de tempo não era mais do que uma diferença de orientação angular entre dois swivels intimamente ligados. Aquilo constituiu um autêntico cataclismo nos nossos conceitos do tempo.

         Não foi muito difícil detectar que - por um daqueles milagres da Natureza - os eixos do tempo de cada swivel se orientavam segundo uma direção comum... para cada um dos instantes que poderíamos definir como o agora. No instante seguinte e no seguinte se - e assim sucessivamente -, esses eixos imaginários variavam na sua posição, dando assim diferentes agora. E o mesmo agora a que chamamos passado, acontecia obviamente com os outros.

         Aquele potencial - simplesmente ao alcance da nossa tecnologia - fez-nos vibrar de emoção imaginando as mais esplêndidas possibilidades de viagens ao futuro.

         Provavelmente - porque isto ainda não foi demonstrado.(Nota do Major.)

         As verificações seguintes d g e asse € elhar-se a uma série de swivels cujos eixos estão orientados horizontalmente em relação aos raios vetores que implicam distâncias. De acordo com isto, descobrimos que pode - que um observador, no seu dar-se o caso - se a inversão dos eixos for a adequada novo marco de referência, considere como distância o que no antigo sistema referencial era avaliado como intervalo de tempo. É então fácil de compreender porque é que um evento ocorrido longe da Terra (por exemplo, num planeta do cúmulo globular M-13, situado a 22 500 anos-luz) nunca pode ser simultâneo com outro que se registre no nosso mundo. Isto nos deu a explicação do motivo por que um objeto que pudesse viajar à velocidade da luz encurtaria a sua distância no eixo de translação, até se reduzir a um par de swivels. Distância que, ainda que tenha para zero, não é nula, como afirma erradamente uma das transformações do matemático Lorentz. (Talvez possa referir-me noutro ponto deste relato ao que descobrimos quanto à velocidade limite da luz, ao inverter os eixos dos swivels e passar, portanto, a outros marcos dimensionais.)

         E Já que mencionei o processo de inversão dos eixos dos swivels, devo assinalar que, no inicio, muitas das tentativas de inversão da matéria falharam, precisamente por uma falta de precisão na referida operação. Por não se conseguir uma inversão absoluta, o corpo em referência – por exemplo, um átomo de molibdênio - sofria o conhecido fenômeno da conversão da massa em energia. (Ao desorientar no seio do átomo - um próton, por exemplo - obtínhamos um isótopo do Nióbi.) Que  dessa inversão foi absoluta, o próton parecia aniquilado, mas sem quebrar o princípio universal da conservação da massa e da energia. (Nota do Major.)

         Embora   fizesse uma ligeira alusão a esta transcendente descoberta. Procurarei indicar algumas das linhas básicas referentes à nova definição de intervalo de tempo.

         Os nossos cientistas entendem um intervalo de tempo T como uma sucessão de swivels, cujos ângulos diferem entre si em quantidades constantes. Quer dizer, consideremos, num swivel os quatro eixos (que não são mais extremidades por outro  ponto dimensional de referência), e que não existem são tão convencionais como um símbolo, embora sirvam ao matemático para fixar a posição do ângulo real. Se dentro desse marco ideal oscila o ângulo real, imaginemos agora um novo sistema referencial dos ângulos, cada um dos quais faz noventa graus com os quatro anteriores. Este novo marco de ação de um ângulo real e o anteriormente definido definem, respectivamente, espaço e tempo. Observemos que os eixos vetores, que definem espaço e tempo, possuem graus de liberdade distintos. O primeiro pode percorrer ângulos-espaço em três orientações diferentes, que correspondem às três dimensões típicas do espaço; o segundo está ,condenado a deslocar-se num só plano. Isto leva-nos a crer que dois swivels cujos ângulos difiram num ângulo tal que não exista no Universo outro swivel cujo ângulo esteja situado entre ambos definirão o mínimo intervalo de tempo. A este intervalo, repito, chamamos instante. (Nota do Major.)

         Como exprimi anteriormente. nem sequer posso sugerir a base técnica que conduz à mencionada inversão de todos e cada um dos eixos dos swivels, mas posso adiantar que o processo é instantâneo e que a contribuição de energia necessária para esta transformação física é muito considerável. Essa energia necessária, posta em jogo até ao instante em que todas as subpartículas sofrem a sua inversão, é restituída integralmente (sem perdas), transformando-se no novo marco tridimensional em forma de massa. As experiências prévias demonstraram que, imediatamente depois desse salto de marco tridimensional, o módulo se deslocava a velocidade superior, sem que a mudança brusca de velocidade (aceleração infinita) no instante da inversão fosse acusada pelo veículo. Este processo de viagem - como é fácil de adivinhar - torna inúteis os restantes esforços dos engenheiros e especialistas em foguetes espaciais, empenhados ainda em conseguir aparelhos cada vez mais sofisticados e potentes... mas sempre impelidos pela força bruta da combustão ou da fissão nuclear. (Talvez agora se comece a entender por que razão não posso nem devo alongar-me aos pormenores técnicos de tal descoberta...). Ao levar a cabo estes saltos, ou mudanças de marco tridimensionais, observamos com espanto que - no novo marco - velocidade limite ou velocidade da luz (299, 792, 45A0 > G 0,0012 quilômetros por segundo) se alterava notavelmente.

         Ao ponto de a única referência que pode refletir a alteração de eixos seria, precisamente, a medida de velocidade, ou constante C. Teremos assim uma família de valores: Co C CZ C3... C, que se alonga de Co = 0 (velocidade da luz nula) a Cn = infinito, cada uma representando um sistema referencial definido. (Nota do Major).

         A partir desse momento (1966), o Projeto subdividiu-se em três ambiciosos programas. Ainda que estreitamente vinculados, as três equipes trabalharam no aperfeiçoamento de outros tantos módulos que nos permitissem a exploração - no terreno - em três direções bem distintas: em primeiro lugar, com uma viagem a outro marco dimensional, dentro da nossa própria galáxia; em segundo lugar, e forçando os eixos do tempo dos swivels para a frente, transferir todo um laboratório incluindo os astronautas - para o nosso próprio futuro imediato; por último, e seguindo um processo contrário, situar outro módulo, ou laboratório, no passado da Terra.

         Eu fiquei ligado a este terceiro projeto - batizado como Cavalo de Tróia - e a ele e a quanto o rodeou até ser consumado, em Janeiro de 1973, me referirei nesta primeira parte do diário.

         De 1966 a 1969, o nosso módulo - batizado entre os membros da equipe como o berço, devido à sua semelhança com o referido móvel - passou por sucessivas modificações, até alcançar um volume suficientemente grande para dar lugar a dois tripulantes. A atenção do reduzido grupo de cientistas selecionados para a Operação Cavalo de Tróia fixou-se durante muitos meses na consecução de um sistema que permitisse uma total e segura manipulação dos eixos do tempo dos swivels de todo o berço, tanto manual como eletronicamente.

         Finalmente, e com a colaboração da Bell Aerosystems Co., de Niagara Falls - a mesma empresa que desenhou e construiu o ML, ou módulo lunar, para o Projeto Apolo – nos vimos com um laboratório de dez pés de altura, com quatro pontos de apoio extensíveis, de treze pés cada um e o peso total de três mil libras.

         Diferindo do módulo do primeiro projeto que citei – cuja operação foi batizada como Marco Pólo - o nosso não precisava de sistema de propulsão. A operação de inversão de todas as subpartículas atômicas do berço, incluindo o seu recinto geométrico, os seus ocupantes e a totalidade dos gases, fluidos, etc. que o integram, podia efetuar-se em seco; quer dizer, sem que o habitáculo e seus pés de sustentação tivessem de se mover do lugar escolhido. O nosso habitat de trabalho em todos aqueles anos (o coração salitroso do deserto de Mojave) reunia, além disso, outro requisito de grande importância para as primeiras e decisivas experiências da Operação Cavalo de Tróia. Os relatórios geológicos tranqüilizaram-nos muito ao garantirem-nos que aquela zona - apesar de se encontrar ao longo da placa tectônica norte-americana, de grande atividade telúrica - não tinha sofrido grandes mudanças desde finais do período jurássico, há mais de 135 milhões de anos, quando se deu a chamada perturbação nevadiana. Apesar de tudo, e como medida complementar, o berço foi munido de um equipamento auxiliar de propulsão, que consistia num motor gêmeo do VIAL, em que eu tinha trabalhado no ano de 1964. A General Electric proporcionou-nos um motor principal (de turbina a jato CF-200-2T), que foi montado verticalmente e permitiu um rápido e seguro movimento ascensional.

         Estas medidas de segurança, que foram muito pouco utilizadas, revestem, no entanto, grande importância. Uma das nossas obsessões enquanto se ia desenhando a primeira grande viagem do Projeto Cavalo de Tróia, era acertar com a geografia do terreno escolhido para o salto-atrás no tempo. Se os nossos dados técnicos estivessem errados, quanto ao que se referia à configuração física e geológica do ponto de contato, a inversão dos eixos do tempo dos swivels podia tornar-se catastrófica. O berço, por exemplo, pousado em pleno século XX numa planície, podia ficar desintegrado se aparecesse – por erro - no interior de uma montanha que, no passado, podia ter ocupado esse espaço que utilizávamos hoje como ponto de contato.

         Este não era mais que um motor a propulsão a jato JB, a que se acoplara uma ventoinha na popa, aumentado assim o seu arranque de velocidade zero de 2800 para 4200 libras. Foi montado num anel cardan e mantido giroscopicamente, apontando a direito, para baixo, mesmo no caso de possível inclinação do berço. Nas experiências prévias de aterragem, o seu arranque era regulado exatamente para cinco sextos do peso do módulo.

         A restante sexta parte do peso do habitáculo completo foi suportada por mais dois foguetes auxiliares ascensionais, reguláveis, de peróxido de hidrogênio, de quinhentas libras de arranque máximo cada um. Foram montados na estrutura principal do berço podendo inclinar-se com o veículo. Oito pequenos motores -foguete também impelidos por peróxido de hidrogênio - controlavam a posição do berço. Cada foguete de posição podia ser acionado por uma válvula selenoidal individual do tipo de intervalos. Como se tratasse de um pequeno avião, o piloto podia controlar a inclinação por meio do movimento proa-popa e o bamboleio direito-esquerda com uma alavanca. O berço, ia munido até de pedais, que proporcionavam o controle de guinada. Tanto a alavanca como os pedais foram ligados eletricamente às válvulas dos solenóides. (Nota do Major.)

         Portanto, depois de muitos e muitos cálculos e estudos, nós, os homens do general Curtiss, aceitamos de bom grado – salvo poucas exceções - que a fase de inversão devia ser provocada sempre no ar, em estado estacionário. Uma vez localizado, eletrônica e visualmente, o ponto de contato, o berço poderia aterrar com toda a comodidade e sem risco algum de choque ou de desintegração.

         As primeiras provas de vôo do berço, cujo equipamento de inversão de massa foi suprimido naquela altura por elementares razões de segurança, foram então levadas a cabo pelo piloto-chefe de investigações do Centro da NASA em Edwards, Joseph. Walker, Já falecido, e que nos anos 1964 e 1965 tomou parte em mais de vinte e quatro vôos experimentais do VIAL. Ele conhecia bem os sistemas de propulsão dos simuladores do módulo de aterragem lunar e o seu veredicto foi positivo: o berço - apesar do seu estranho aspecto respondia com docilidade.

         Em 1969, com uma centena de ensaios altamente satisfatórios a equipe fixou definitivamente em oitocentos pés a altitude ideal para proceder à inversão de massa. O tempo médio gasto na operação de arranque e estacionário, antes da fase de inversão, foi fixado em cinco minutos.

         No final do Outono de 1969, o general deu luz-verde e quatro daqueles singulares astronautas que formavam a primeira equipe de vôo ao passado, tiveram a fortuna de experimentar um máximo de seis retrocessos no tempo. Todos eles executados sempre aos pares e no estacionário estabelecido (oitocentos pés de altitude), em pleno deserto de Mojave.

         Ocupar-me agora destas fascinantes experiências levar-me-ia muito longe do meu verdadeiro propósito. Prescindirei, portanto, da sua descrição, porque, além disso, ficaram minuciosamente registradas noutros tantos relatórios, atualmente em poder do Air Force Office of Special Investigations e, infelizmente, da DIA (Defense Intelligence Agency).

         No entanto, anotarei, sim, que o delicado sistema de retrocesso e ajustamento dos eixos do tempo dos swivels, nas datas programadas pela equipe, demonstrou ser assombrosamente preciso, graças à revolucionária rede de computadores que servira, desde o começo, para a loca diversas unidades de memória periférica, de fita magnética, discos, tambores, varetas com banda helicoidal, etc. Todas elas são capazes de acumular, codificados magneticamente, um número muito limitado de bits, ainda que se fale sempre em números de milhões de dígitos. As bases técnicas, em contrapartida, dos computadores do Projeto Cavalo de Tróia - baseados no titânio - são diferentes. Sabemos que a camada eletrônica de um átomo pode excitar-se, atingindo os elétrons diversos níveis energéticos a que chamamos quânticos,. A passagem de um estado a outro faz-se libertando ou absorvendo energia quantificada que tem associada uma freqüência característica. Assim, um eletrôn de um átomo de titânio pode mudar de estado na camada libertando um fóton, mas no átomo de titânio, como noutros elementos químicos, os elétrons podem passar a vários estados, emitindo diversas freqüências.

         Denominamos este fenômeno como espectro de emissão característico deste elemento físico o que permite identificá-lo por avaliação espectroscópica. Pois bem, se conseguimos alterar, à vontade, o estado quântico desta camada eletrônica do titânio, podemos convertê-lo em portador, armazenador ou acumulador de uma mensagem elementar: um número. Se o átomo for capaz de alcançar, por exemplo, doze ou mais estados, cada um desses níveis simboliza ou codificar  um algarismo, do zero ao doze. Mas uma simples pastilha de titânio é constituída por bilhões de átomos. Nenhuma outra base macrofísica de memória se lhe pode comparar.

         De momento, não me é lícito explicar como conseguimos a excitação desses átomos de titânio... (Nota do Major.)

         Embora também não considere oportuno desvendar a natureza íntima deste formidável conjunto de computadores, posso, sim, esclarecer que, diferindo dos sistemas tradicionais de computadores, os utilizados na Operação Cavalo de Tróia não são integrados por circuitos eletrônicos. Quer dizer, por tubos de vácuo, componentes baseados no estado sólido, tais como transistores ou diodos sólidos. condutores e semicondutores, indutâncias, etc..., mas sim por órgãos integrados topologicamente em cristais estáveis chamados amplificadores nucléicos. A sua característica principal é que, neles, não se amplificam as tensões ou intensidades elétricas, como nos amplificadores comuns, mas sim a potência. Uma função energética de entrada injetada no amplificador nucléico é refletida à saída noutra função, analiticamente mais elevada. A libertação controlada de energias realiza-se a expensas da massa integrada no amplificador, e o fenômeno verifica-se, dimensionalmente, à escala molecular. No processo. intervêm os átomos suficientes para que a função possa ser considerada, macroscopicamente, como contínua.

         Quanto à estrutura básica destes supercomputadores – e também com caráter puramente descritivo - posso dizer o seguinte: os computadores digitais usados correntemente utilizam, geralmente, uma memória central de núcleos magnéticos de ferrite e realização dos swivels, e que foi incorporada ao sistema de inversão de massa.

         Como é natural. de pouco teria servido aquele gigantesco esforço se a nossa tecnologia não tivesse sido capaz de modificar os feixes dos swivels - e, concretamente, dos eixos do tempo - forçando-os a novos ângulos. A rede de computadores, por um complexo processo, chegou a afinar aquela deslocação dos eixos e, em definitivo, do módulo, com um erro de +- duas horas, nas datas desejadas.

         E chegou, por fim, o grande dia. O general Curtiss convocou-nos para uma reunião de urgência.

         Os homens da Operação Cavalo de Tróia - sempre sob o comando de Curtiss - apuraram-se em meia dezena de viagens qual delas a mais fascinante. No entanto, a lógica e um rigoroso sentido da ordem tornavam pouco recomendável pôr em marcha vários projetos ao mesmo tempo. Era preciso escolher uma primeira exploração, sem que por isso se atirasse para o esquecimento o resto das propostas.

         Depois de muitas horas de discussão, e por unanimidade, a cúpula de cientistas e especialistas - em sessão de urgência na Base de Edwards escolheu três momentos da história da Humanidade como possíveis e imediatos candidatos para uma eleição final. Foi a 10 de Março de 1971.

         Os três objetivos em questão foram os seguintes:

 

         1.o Março-Abril do ano 30 da nossa Era. Justamente, os últimos dias da Paixão e morte de Jesus de Nazaré.

         2.o O ano de 1478. Lugar: ilha da Madeira. Objetivo: tentar averiguar se Cristóvão Colombo pôde receber alguma informação confidencial, de um pré-descobridor da América, sobre a existência de novas terras, bem como sobre a rota a seguir para lá  chegar.

         3.o Março de 1861. Lugar: os próprios Estados Unidos da América do Norte. Objetivo: conhecer com exatidão os antecedentes da Guerra de Secessão e o pensamento do recém-eleito presidente Abraham Lincoln.

 

         Cada um dos projetos fora preparado exaustivamente, até aos seus mínimos pormenores. Eu vinha à cabeça, e defendi ferrenhamente a segunda das viagens. Através de numerosas leituras e contatos com peritos da Universidade de Yale, convencera-me de que Colombo não fora o primeiro descobridor das terras americanas, e aquela era uma magnífica oportunidade para conhecer a verdade. Mas, tanto a viagem à Guerra de Secessão como à ilha portuguesa da Madeira acabaram por ser postas de lado, em benefício da primeira: a transferência no tempo para o ano 30 da nossa Era. Apesar do natural desgosto dos defensores dos projetos eliminados, todos reconhecemos que o nível de riscos era, sensivelmente, inferior na grande viagem à Jerusalém de Cristo do que à Guerra da Secessão dos Estados Unidos ou ao século xv. No caso da exploração em tempos de Lincoln, os astronautas escolhidos podiam correr evidentes perigos físicos, e nem o general Curtiss nem os restantes componentes da Operação Cavalo de Tróia estavam dispostos a pôr em jogo a segurança dos seus homens.   Quanto à viagem que eu defendia, a falta de precisão na data, em que o pré-nauta pôde descer com a sua caravela à ilha da Madeira foi determinante. A nossa contribuição histórica, ainda que rigorosa, vinha com uma inevitável margem de erro.

         Tomando como referência - mais que provável - a data de 1478 para a fixação de Cristóvão Colombo na ilha da Madeira, onde sua sogra era dona de uma taberna, e de acordo com os testemunhos de Las Casas e da lenda taina, era muito possível que os misteriosos pré-descobridores da América tivessem visitado as ilhas das Caraíbas (especialmente, a espanhola) nos meses imediatamente anteriores à referida data. Talvez em 1476 ou 1477. Teria sido, portanto, nesse ano de 1478 que se dera o regresso dos involuntários descobridores, à Europa, com uma fortuita escala naquela ilha portuguesa. (Nota do Major.)

         Como um só homem, a partir daquela decisiva e final determinação, os sessenta e um membros da equipe Cavalo de Tróia – de exploração do passado - voltaram-se para o desafio que ia ser a primeira aventura oficial no tempo.

         Não vou negar que, naquelas semanas que se seguiram à minha escolha pelo general Curtiss para tripular o berço e descer no tempo de Jesus de Nazaré, o meu estado de ânimo se viu profundamente alterado.

         Apesar da inegável alegria que me provocou ser um dos dois primeiros exploradores de outro tempo, a responsabilidade de tão complexa operação esmagou-me e foram necessários muitos dias para me adaptar e aceitar serenamente o meu compromisso.

         Nunca soube com exatidão o motivo por que o chefe do Projeto Swivel me designou para aquela grande viagem. É muito possível que, na altura de avaliar conhecimentos e condições pessoais, outros camaradas devessem ter ocupado o meu lugar, por ampla margem de méritos.

         Curtiss, numa das múltiplas entrevistas que tive com ele por causa da minha nomeação, deixou-me vislumbrar que a natureza da exploração exigia, fundamentalmente, a presença de um homem cético em matéria religiosa.          Contrariamente a muitos membros da equipe, eu não militava em igreja ou movimento religioso algum, sendo evidente o meu caráter agnóstico. Pela minha rígida educação científica e militar, e ainda que sempre procurasse respeitar as crenças e inclinações religiosas dos outros, nunca eu sentira a menor necessidade de me refugiar ou procurar encorajamento em idéias transcendentes.

         Como estava longe de imaginar o que o destino me reservava! E tive de reconhecer, como o general, que, com efeito, a objetividade era uma das condições básicas para desempenhar aquela observação da história com um mínimo de rigor. O meu trabalho naquela transferência para o ano 30 – tal como o

do meu companheiro - exigia a aceitação e cumprimento de uma norma, que se convertera em regra de ouro para a totalidade da equipe do Projeto Cavalo de Tróia: os exploradores não podiam – por razão alguma, nem mesmo a da própria sobrevivência - alterar, trocar ou influir nos homens, grupos sociais ou circunstâncias que fossem o objetivo das nossas observações ou que, simplesmente, pudessem surgir no decurso das mesmas. Qualquer hesitação, na altura de assumir esta premissa principal, era motivo para uma fulminante expulsão do grupo de exploradores. Este fato inviolável pressupunha Já uma absoluta objetividade nos observadores. Não obstante, o general, numa atitude de sutil prudência, preferiu que a objetividade fosse reforçada por uma especial assepsia em matéria religiosa.

         Como é fácil de compreender, um meio tão poderoso como a manipulação dos eixos do tempo dos swivels poderia ser extremamente perigoso,se caísse nas mãos de indivíduos sem escrúpulos ou com uma visão fanática e partidária da história. Nas seis primeiras inversões de massa que foram praticadas com o caráter puramente experimental, no deserto de Mojave, pôde ser demonstrado que a passagem do módulo e dos pilotos para outras datas remotas não afetava a sua natureza física, nem sequer o psiquismo ou a memória dos tripulantes. Estes, enquanto durou o salto para trás , estiveram conscientes em todo o momento da sua própria identidade, lembrando com normalidade a que época pertenciam. Discutiu-se no grupo, a fundo, e com toda a honestidade, as gravíssimas repercussões que traria para uma pessoa ou para uma coletividade, a trágica circunstância de que alguém de uma época passada pudesse ser morto num combate, por exemplo, com alguns dos nossos exploradores. Se o princípio causa-efeito correspondia a uma realidade, os resultados históricos podiam ser funestos.

         Daí que a nossa missão - acima de tudo - só pudesse aspirar à observação e análise dos fatos, personagens ou épocas escolhidas. E não era pouco...

         Felizmente para o Projeto Cavalo de Tróia, as nossas relações com o Estado de Israel não podiam ser melhores, em especial a partir da Guerra dos Seis Dias. Era primordial para a execução da grande viagem que o berço pudesse ser transferido para a Palestina e colocado no ponto de contato escolhido. Tudo isto - para mais – sem levantar suspeitas. Mas pouco posso referir sobre estes passos, que caíram inteiramente nas costas do general Curtiss. Só no final, quando apenas faltavam dois meses para a contagem regressiva, os mais próximos do chefe do projeto souberam dos obstáculos surgidos, das duras condições impostas pelo Governo de Golda Meir e das falhadas, mas irritantes, tentativas da CIA para obter o controle da operação.

         Aqueles combates à sombra dos despachos e da burocracia estatal passaram despercebidos para mim e para o resto da equipe, empenhados na última fase dos preparativos da aventura. (Dou agora graças aos céus por esta ignorância...)

         No restante período de 1971, bem como na quase totalidade de 1972, o meu centro operacional modificou-se notavelmente. Durante aqueles dois anos, o meu tempo dividiu-se entre a aldeiazinha de Malula, a Universidade de Jerusalém e a Base de Edwards. A Operação Cavalo de Tróia abrangia duas fases perfeitamente claras e definidas.

         Uma, em que o módulo sofreria o Já conhecido processo de inversão de massa, forçando os eixos do tempo dos swivels até ao dia, mês e ano previamente estabelecidos. Neste primeiro passo, como é lógico, o meu camarada e eu permanecíamos a bordo até à entrada na data designada e definitiva colocação no ponto de contato.

         A segunda, sem dúvida a mais arriscada e atraente, obrigava ao abandono do berço, por um dos exploradores, que devia misturar-se com o povo judeu daqueles tempos, convertendo-se em testemunha de exceção dos últimos dias de vida de Jesus da Galiléia. Era esse o meu trabalho.

         Esta façanha - em que não quis pensar até que chegasse o momento final -obrigou-me, durante aqueles anos, a uma febril aprendizagem dos costumes, tradições mais importantes e línguas de uso comum entre os israelitas do ano 30.

         Dediquei boa parte daqueles vinte e um meses à dura aprendizagem da língua que Cristo falava: o aramaico ocidental ou galilaico. Seguindo os textos de Spitaler e do seu mestre na Universidade de Munique, Bergstrasser, não foi muito difícil localizar os três únicos cantos do Planeta onde ainda se fala o aramaico ocidental: a aldeia de Malula, no Antilíbano, e as pequenas populações, hoje totalmente muçulmanas, de Yubbadin e Baha, na Síria.

         E ainda que o  árabe acabasse por saltar as montanhas do Líbano, influenciando a linguagem dos três povos, a fonética e a morfologia continuam a ser, fundamentalmente, aramaicas. Uma oportuna documentação, que me fazia passar por antropólogo e investigador de línguas pela Universidade de Cornell, abriu-me todas as portas, podendo completar os meus estudos na Universidade de Jerusalém Como informação complementar. posso acrescentar que o acesso à aldeia de Malula - pelo menos nos anos de 1971 e de 1972 - se conseguia pela estrada de Damasco a Homs. Ao alcançar o quilometro cinqüenta, tem de se voltar a um desvio à esquerda. Depois de subir nove quilômetros de encosta, aparece diante dos olhos um mosteiro católico de frades basilianos. Junto daquele mosteiro encontra-se Malula, com os seus escassos mil habitantes. Toda a população era católica. A igreja está entregue a um sacerdote libanês que fala árabe. Nesta língua, precisamente, se dizia a liturgia, ainda que a linguagem do povo seja o aramaico ocidental, muito misturado Já com o árabe e outras palavras e expressões turcas, persas e européias. (Nota do Major.)

         Ali apurei os meus conhecimentos do aramaico galilaico, aprendido entre as pessoas simples do Antilíbano com outras fontes como o targum palestino e o aramaico literário de Qumrân, o nabateu e o palmirense.

         Por último, como complemento, a minha preparação viu-se enriquecida com noções básicas, mas suficientes, do grego e do hebreu mishnico, que também se falava na Palestina de Cristo.

         Percorri uma infinidade de vezes o que os católicos chamam os Santos Lugares, embora estivesse consciente de que aquele reconhecimento do terreno de pouco me ia servir na hora da verdade...

         Também não quis aprofundar excessivamente os textos bíblicos em que se narra a Paixão, Morte e Ressurreição do Salvador. Por razões óbvias, preferi enfrentar os fatos sem idéias preconcebidas e com espírito aberto. Se a minha obrigação era observar e transmitir a verdade do que aconteceu naqueles dias, o mais aconselhável era conservar aquela atitude isenta de preconceitos.

         Ao voltar à Base de Edwards, por finais de 1972, só via caras aborrecidas. Depressa soube - e a confirmação final chegou da boca do próprio Curtiss - que, apesar das negociações, ao mais alto nível, o Governo israelita não dava a sua autorização para a entrada no seu país do berço e do resto do sofisticado equipamento. Logicamente tinham direito a saber do que se tratava e o chefe do Projeto Cavalo de Tróia também não dera facilidades para resolver este aspecto da questão.

         O mais rigoroso sentido da segurança, no entanto, tornava inviável que o general pudesse avisar os Israelitas sobre a autêntica natureza da operação. Que podíamos fazer?

         Depois de um agitado Dezembro - em que, sinceramente, chegamos a temer pelo êxito da grande viagem - o Pentágono, seguindo as recomendações de Curtiss, planeou uma estratégia que persuadiu os Judeus. Desde 1959, tanto a União Soviética como o nosso país vinham desenvolvendo um programa secreto de satélites espiões, destinados a uma mútua observação de todo o tipo de instalações militares, industriais, agrícolas, urbanos, etc. Estes olhos volantes foram ganhando em penetração, especialmente a partir dos chamados satélites da terceira geração, em 1966. Numa quarta geração, o Pentágono com a colaboração de empresas especializadas em fotografia (a Eastman Kodak, a Itek Corporation e a Perkin Elmer) - conseguira colocar em órbita um novo modelo de satélite (a série Big Bird), cuja aparelhagem era capaz de fotografar, a cento e cinqüenta quilômetros de altitude, os títulos do jornal de um homem que estivesse sentado na Praça Vermelha em Moscovo. Apesar da grande reserva do National Reconaissance Office - um departamento especializado e responsável por este tipo de informações, com sede no próprio Pentágono - algumas das características do Big Bird acabaram por chegar ao conhecimento dos serviços de espionagem de outros países. Em numerosas ocasiões, o Governo de Golda Meir tinha exercido pressão para que a eficiente rede dos nossos satélites espiões lhe proporcionasse informação gráfica dos movimentos das tropas, instalação de rampas de mísseis, novas construções, etc... dos países árabes. Pois bem, aquela foi a nossa oportunidade.

         Havia aproximadamente ano e meio - desde começos de 1971que o Pentágono tinha começado a trabalhar num novo desenho de satélites Big Bird: o KHÁ11. Curtiss, com prévia autorização do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos, e depois de se encontrar pessoalmente com o presidente Nixon e o secretário de Estado Kissinger, voou novamente para Jerusalém. Desta vez, ofereceu ao primeiro-ministro, Golda Meir, e ao seu ministro da Guerra, o lendário moshe Dayan, uma explicação satisfatória: dentro do mais rigoroso dos segredos, os Estados Unidos desejavam colaborar com o país amigo - Israel - montando um laboratório de recepção de fotografias do seu Big Bird. Desta forma, os Israelitas podiam dispor de um rápido e fiel sistema de controle dos seus inimigos e o meu país de uma nova estratégica estação, que poupava tempo e boa parte da sempre embaraçosa manobra de recuperação das oito cápsulas expelidas que cada satélite levava e eram recuperadas, de quinze em quinze dias, nas cercanias do Hawai. De um ponto de vista puramente militar, a operação era, além disso, de grande interesse para os Estados Unidos, que podiam assim fotografar à sua vontade franjas tão instáveis (politicamente falando), como as das fronteiras da URSS com o Irã e o Afeganistão e outras zonas do Paquistão e do Golfo Pérsico, podendo receber centenas de negativos na nova estação própria (a israelita), três minutos depois de terem sobrevoado as referidas áreas.

         Graças a este sutil engano, o general Curtiss e parte da equipe do Projeto Cavalo de Tróia conseguiram aterrar em Telavive, nos primeiros dias de Janeiro de 1973. Para evitar suspeitas, e de mútuo acordo com o Mossad (serviço de espionagem de Israel), a USAF preparou um avião Jumbo em que tinham sido retirados os bancos, carregando nas suas cabinas dez toneladas de aparelhagem altamente secreta. Do falso jato de passageiros, camuflado, juntamente, com os distintivos da companhia israelita El Al, desceu um grande grupo de pessoas que pareciam ser pacíficos turistas norte-americanos. Foi a 5 de Janeiro.

         O que os sagazes agentes do serviço de espionagem israelita nunca souberam é que, misturado com o material para a estação de recepção das fotografias via satélite, viajava também o nosso berço...

         O plano de Curtiss era simples. Num minucioso estudo, elaborado em Washington pelo CIRVIS (Communication Instruction for Reporting Vital Intelligence Sightings), com a colaboração do Departamento Car - A série de satélites artificiais Big Bird, ou Grande Pássaro - e, em especial.

         O protótipo KHÁ11 -,pode voar a uma velocidade de 25000 quilômetros por hora, necessitando de um total de noventa minutos para dar uma volta completa ao Planeta.

         Como a Terra oscila ligeiramente neste espaço de tempo (22 graus e 30 minutos). o Big Bird sobrevoa, durante a volta seguinte, uma faixa diferente da Terra e volta à sua trajetória original ao cabo de vinte e quatro horas. Se o Pentágono descobre algo de interessante, o satélite pode modificar a sua órbita, aumentando o tempo de revolução durante uns minutos e fazendo-o descer a órbitas até cento e vinte quilômetros de altitude. Uma diferença de 1 grau e 30 minutos por exemplo, todos os dias, permite colar, de dez em dez dias, uma zona de conflito, sobrevoando todas as suas cidades e nas de interesse militar. Posteriormente, o Big Bird é empurrado para uma órbita superior. (Nota do Major.)

         Astutamente, o general Curtiss fizera coincidir a primeira das possibilidades de localização da estação receptora com o nosso ponto de contato para a grande viagem. Muito antes de o Governo de Golda Meir ter levantado obstáculos à marcha da nossa operação, os especialistas do Projeto Cavalo de Tróia tinham considerado que o monte das Oliveiras era a zona apropriada para a implantação do berço. A sua proximidade com a aldeia de Betânia e com Jerusalém tinham-no convertido no lugar estratégico para a descida. E ainda que os Israelitas mostrassem uma certa estranheza pela escolha daquela colina, como primeira das

três bases de experimentação, pareceram ficar convencidos perante as explicações dos norte-americanos. Israel via-se envolvido ainda em numerosas escaramuças com os seus vizinhos, os Egípcios e os Sírios. Se a instalação da estação receptora se tivesse iniciado no Sinai ou em Golan, os riscos de destruição pela aviação inimiga teriam sido muito altos.

         Era necessário ganhar tempo e - principalmente - treinar os israelitas no manejo dos equipamentos, com uma ampla margem de segurança e sem sobressaltos. Uma vez decidida a localização ideal, verificados os numerosos controles e instruídos os israelitas, o laboratório entraria na fase operativa, compartilhado sempre pelos dois países. Isto pressupunha, segundo todos os indícios, um prazo de tempo mais que suficiente para o nosso trabalho.

         Os israelitas, em suma, aceitaram com excelente submissão os conselhos dos norte-americanos e colaboraram estreitamente no transporte e guarda dos equipamentos.

         Desde meados de 1972 que os homens da Operação Cavalo de Tróia tinham chegado à conclusão que o ponto de contato devia ser a pequena praça onde se encontra a mesquita octogonal chamada da Ascensão do Senhor. O alto muro que rodeia a relíquia da época das Cruzadas era o baluarte perfeito para evitar os olhares curiosos. Curtiss, com o resto do grupo, previra até os mais insignificantes pormenores.

         A experiência foi marcada, sem falta, para o dia 30 de Janeiro de 1973.

         Era o momento perfeito, por várias razões: em primeiro lugar, porque a montagem dos equipamentos eletrônicos da estação receptora do Big Bird deveria iniciar-se entre 20 e 25 desse mesmo mês de Janeiro. Em segundo lugar, porque, nessas datas, a afluência de peregrinos aos Lugares Santos passaria por uma acentuada baixa. Por último, porque o grupo desejava honrar assim a memória de um dos maiores vultos da Humanidade: o Mahatma Gandhi.

         Justamente naquele 30 de Janeiro de 1973 se celebrava o vigésimo quinto aniversário da sua morte. Como era evidente, a razão principal era a primeira. Cavalo de Tróia precisava de uma semana para a montagem e verificação geral do berço. O general Curtiss, na altura de redigir o projeto de instalação do laboratório receptor de fotografias via satélite, impusera uma condição, que foi entendida e aceite por Golda Meir e pelo seu Gabinete: dado o caráter altamente secreto dos scanners óticos utilizados e de alguns elementos eletrônicos, a montagem da aparelhagem deveria ficar a cargo - única e exclusivamente - dos norte-americanos.

         A segurança e vigilância interna da estação enquanto durasse esta fase, seria missão intransmissível dos Estados Unidos. O Governo de Israel teria a seu cargo a proteção externa, podendo participar no projeto uma vez terminada a referida montagem. Este argumento não tinha outra justificativa que não fosse manter os israelitas afastados, permitindo-nos assim o completo desenvolvimento do nosso verdadeiro programa. O salto no tempo - programado como disse, para terça-feira, 30 de Janeiro - fora limitado a um total de onze dias. Cavalo de Tróia dispunha portanto, de um máximo de três semanas para preparar o berço, para a realização da aventura, propriamente dita, e para o não menos delicado regresso.

         Uns dias antes de o falso grupo de turistas norte-americanos partir dos Estados Unidos com destino a Telavive, moshe Dayan dera as ordens necessárias para que o seu serviço secreto preparasse uma operação de pequena envergadura, mas vital para a tomada de posse da mesquita da Ascensão. Era preciso que os nossos técnicos pudessem trabalhar no interior da praça, sem levantar suspeitas entre a população judaica e muito menos entre os muçulmanos, responsáveis pelo culto no tabernáculo octogonal que se ergue no centro do recinto.

         Naqueles dias, tanto a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), como os serviços secretos egípcios (o Mukhatarat el Kharbeiyah), em perfeita conexão com os agentes soviéticos que ainda operavam no Cairo tinham lançado uma intensa vaga terrorista em Israel. As cartas bombas estavam na moda e raro era o dia em que não se detectava ou não explodia um destes mortíferos artefatos em Jerusalém, Telavive ou no resto do país. (Justamente na véspera da nossa operação - 29 de Janeiro - foram recebidas em diferentes dependências e organismos da cidade de Jerusalém um total de nove destas cartas bombas.)

         O plano do eficientíssimo serviço secreto israelita (o Mossad) consumou-se na tarde de 1 de Janeiro. Dois jovens agentes, com todo o aspecto de turistas, esqueceram uma maleta suspeita junto das fortes paredes do tabernáculo da Ascensão. O próprio Mossad se encarregou de dar o alarme e, numa questão de minutos, a praça e o octógono foram desalojados, enquanto uma equipe de especialistas em desarmar explosivos se encarregava de inspecionar e fazer explodir, ali mesmo, o volume - bomba dos presumíveis terroristas. O acontecimento, dado a natureza do lugar e prévio acordo com os responsáveis da custódia dos Santos Lugares foi ocultado aos meios informativos.

         Tal como tinham previsto os israelitas de Dayan, a explosão nem danos causou nas paredes exteriores da mesquita. No entanto, numa rotineira mas obrigatória inspeção do resto do octógono, agentes doamosd - fazendo-se passar por arquitetos da Divisão de Sapadores do Exército - descobriram e mostraram aos guardas do local chapas ou radiografias dos alicerces da parede leste da mesquita, seriamente afetados pelo atentado. Aquilo deixou os muçulmanos confusos.

         Mas o Mossad previra tudo. Num gesto de boa vontade, e perante a desorientação dos árabes - o vice-presidente judeu, Ygal Allon, convocou os responsáveis da mesquita, informando-os que o Governo tomara a decisão de reparar os danos, como prova de boa fé. A iminente proximidade da Páscoa judaica e da Semana Santa católica justificou às mil maravilhas a insólita pressa do Governo de Golda Meir para cuidar dos reparos do monumento. Ninguém podia suspeitar que, por baixo daquela oportuna e aparente manobra política se escondia uma dupla intenção.

         A comédia foi simplesmente perfeita. Ainda que os alicerces da mesquita estivessem intactos, ninguém se atrevia a pôr em dúvida os relatórios dos supostos arquitetos. Quarenta e oito horas depois da explosão, uma divisão especial, constituída por arqueólogos e técnicos da Universidade de Jerusalém, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa da Cidade Santa e do Museu de Antiguidades de Aman, iniciou os trabalhos de escavação em volta do perímetro da pequena mesquita, perante o beneplácito dos árabes. Sinceramente, nunca soubemos como o serviço secreto israelita se arranjou para levar o referido grupo a tal trabalho de restauração. Em certos momentos, chegamos a suspeitar de que aqueles discretos e diligentes arqueólogos não eram mais que homens do Mossad.

         O fato é que, quando o general Curtiss e as pessoas do Projeto Cavalo de Tróia deram uma primeira volta de inspeção à praça da Ascensão,os operários tinham aberto valas junto da mesquita, montado dois grandes barracões, um de cada lado do octógono, e de acordo com as medidas previamente dadas por Curtiss ao exército de Dayan. Os setenta e um pés de diâmetro da praça , cercada por um muro de pedra de nove pés de altura, eram mais do que bastantes para os nossos objetivos e, naturalmente, para a instalação do laboratório receptor das fotografias.

         A partir de 7 de Janeiro, de forma escalonada e aproveitando as constantes entradas e saídas de material, os israelitas e os norte-americanos trataram de introduzir nos barracões a totalidade do material secreto.

         Uma semana depois, com o natural regozijo de Curtiss e da totalidade dos cientistas e militares que tinham tomado parte no transporte da aparelhagem, tudo estava preparado para a hipotética montagem da estação receptora do Big Bird.

         Aquilo significou um avanço de quase sete dias no programa. A partir de 15 de Janeiro, o chefe do Projeto Cavalo de Tróia comunicou às autoridades militares israelitas que os engenheiros norte-americanos se dispunham a iniciar os trabalhos de montagem do laboratório e que, por conseqüência e de acordo com o negociado, o acesso aos barracões era rigorosamente proibido à totalidade do pessoal não americano. Os israelitas retiraram-se para fora do recinto mantendo-se, no entanto, um corredor central por onde puderam circular os arqueólogos, cuja incumbência não devia ser suspensa por motivo algum. Se os árabes chegassem a perceber que aquelas obras de reparação da sua mesquita não passavam de uma capa para esconder objetivos puramente militares, o Cavalo de Tróia e a própria localização da estação receptora ter-se-iam visto em situação muito comprometedora. As equipes de restauração, continuaram, portanto, com a sua missão, junto das paredes do octógono, enquanto nós íamos retirando o material das suas embalagens, entregando-nos a uma frenética tarefa de montagem do berço.

         Porém, a alegria do general e, também, a nossa iam sofrer um súbito revés.

Os venenosos tentáculos da CIA - nunca soubemos como - tinham pressentido e detectado a operação conjunta israelo-norte-americana e a Defense Intelligence Agency (DIA) estava a pressionar para que Kissinger os pusesse ao corrente.

         As sucessivas negativas do secretário de Estado criaram tensões entre a CIA e os reduzidos círculos militares do Pentágono que estavam a par da missão. A situação tornou-se tão insustentável que o general Curtiss foi chamado a Washington, a fim de acalmar os ânimos e tentar encontrar uma solução. Entretanto, a equipe do Cavalo de Tróia continuou a sua tarefa, ainda que deprimida pela proximidade da sempre perigosa sombra da CIA. Neste caso, a manifesta habilidade de Curtiss não serviu de grande coisa. O diretor da Central Intelligence Agency (CIA), Richard Helms, não estava disposto a ceder. Ante a gravidade dos acontecimentos, e por sugestão de Kissinger o presidente Nixon aconselharia poucos dias depois que Helms se demitisse da direção da CIA. Com o fim de reforçar a confiança do Pentágono, a 4 de Janeiro era designado o íntimo colaborador de Curtiss general Alexander Haig, como segundo-diretor do Supremo Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos. Os jornais publicaram então que a demissão do diretor da CIA era devida a profundas diferenças de Helms com Kissinger em assuntos relacionados com a segurança do Estado. Não estavam errados, embora nunca soubessem as verdadeiras razões daquela drástica operação cirúrgica no topo da Central Intelligence Agency e do Supremo Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos.

         Uma vez passado o temporal, Curtiss regressou a Jerusalém, voltando a tomar parte nos últimos preparativos daquilo que - sem dúvida - ia ser uma das grandes aventuras da História da Humanidade.

         A 25 de Janeiro de 1973, o berço descansava Já no centro do barracão principal. Fora montado na sua totalidade, com exceção dos quatro pontos de apoio. Estes, por elementares razões de prudência, seriam montados só uma hora antes da decolagem. Um hábil dispositivo hidráulico permitia total abertura do telhado do improvisado hangar onde decorriam as nossas operações. Desta forma, e de acordo com o previsto, o lançamento do módulo na noite de 30 de Janeiro não teria motivos para apresentar especiais dificuldades.

         Suponho que quem leia este diário se perguntará  como um artefato com as características do nosso berço podia elevar-se por cima do monte das Oliveiras sem chamar a atenção da população e do Exército israelita. Muito antes de dar andamento a esta operação, o Projeto Swivel incorporara nos seus módulos - como condição básica para todas, ou quase todas, as missões futuras - um sistema de emissão permanente de radiação infravermelha. O berço, no caso de que trato, dispunha de uma espécie de membrana externa, que cobria todo o veículo, e cujas funções - entre outras que não posso especificar - eram as seguintes:

         1º) Dissimulação do módulo mediante um estudo ou almofada de radiação infravermelha (acima dos setecentos nanômetros). Esta fonte de luz infravermelha tornava invisível a totalidade do aparelho, podendo manobrar por cima de qualquer núcleo humano sem ser visto. Como antes dizia, este requisito era inteiramente imprescindível para as nossas observações, sem assim prejudicarem o ritmo natural dos indivíduos que pretendíamos estudar ou controlar.

         2º) Absorção - sem reflexo ou retorno - das ondas dessimétricas, utilizadas, fundamentalmente, nos radares. (No caso das telas militares israelitas, estes dispositivos de segurança foram previamente ajustados às ondas utilizadas por tais radares - 1347 e 2402 megahertz). Este processo simples anulava a possibilidade de localização eletrônica do módulo, enquanto era elevado a oitocentos pés, ponto ideal para a fase imediata de inversão de massa.

         3º) A membrana que reveste a blindagem exterior do berço (cuja espessura total é de 0 0329 metros) devia provocar uma incandescência artificial que eliminasse qualquer tipo de germe vivo e que sempre poderia aderir à sua superfície. Esta precaução evitava que tais germens fossem invertidos tridimensionalmente com a nave. Uma involuntária entrada de tais organismos noutro tempo ou noutro padrão tridimensional poderia provocar imprevisíveis conseqüências de caráter biológico.

         Quanto ao inevitável rugido do motor a jato J85, que tinha de nos colocar no estacionário Já mencionado, os cientistas conseguiram reduzi-lo a um silvo agudo, mediante o acoplamento de potentes silenciadores. Outra questão - impossível de

solucionar até àquele momento - era o trovão originado no instante da inversão de massa do berço. Felizmente para nós, aquele estampido podia ser atribuído a qualquer dos caças israelitas sobrevoando dia e noite o território, que, ao atravessarem a barreira do som, perturbavam as moléculas do ar, dando lugar aquilo que, em termos aeronáuticos, é conhecido como um bang sônico.

         Como acontecera com as seis experiências anteriores, no deserto de Mojave, o cada vez mais próximo lançamento do módulo modificou-nos o estado de ânimo. Curtiss tentou que o meu companheiro de viagem e eu nos afastássemos uns dois dias da mesquita da Ascensão. Porém, os nossos passos acabavam sempre por nos levar ao hangar.

        Como informação puramente descritiva, posso dizer que a referida membrana ou revestimento do berço possui propriedades de resistência estrutural muito especiais. Uma finíssima rede vascular, pelos condutos flui uma liga que pode se liquefazer, mantendo ativa a membrana. (Alguns dos seus elementos - para que se faça uma idéia - não ocupam volumes superiores a 0,07 milímetros cúbicos, sendo compostos, por sua vez, por microdispositivos à escala celular). Este revestimento poroso do berço, - de composição cerâmica - goza de um elevado ponto de fusão: 7260,64 graus centígrados, sendo o seu poder de emissão externa igualmente muito elevado. A sua condutibilidade, em contrapartida é muito baixa: 2,07113. 106 Cal/Cm/s/oC/. (Para esta membrana é muito importante que a ablação se mantenha dentro de uma margem de tolerância muito ampla.) Para isso utiliza-se um sistema de arrefecimento por transpiração, na base do lítio liquefeito. Além disso, foi munido com uma fina camada de platina coloidal, colocada a 0,0108 metros da superfície exterior. (Nota do Major).

 

         Três dias antes do início da grande viagem, o chefe de Cavalo de Tróia convocou-nos para uma última reunião, em que recapitulamos as linhas mestras da operação. Curtiss parecia ter a obsessão da nossa segurança. Ambos conhecíamos as respectivas obrigações, porém, a insistência do general inquietou-nos. Que poderia estar a esconder o diretor do Projeto Swivel? Meses depois daquela experiência, o meu irmão e eu tivemos oportunidade de conhecer o verdadeiro motivo da sua inquietação. A estratégia a seguir na descida ao tempo de Jesus de Nazaré fora meditada a fundo. Uma vez em terra, e depois de várias horas de verificação de comandos, o meu companheiro de módulo - a quem daqui em diante chamarei Eliseu - teria de permanecer, durante os onze dias de exploração, no comando do berço. Só em caso de grande emergência poderia abandonar a nave. O meu papel, como julgo ter Já insinuado exigia o desembarque em terra e a aproximação até ao Mestre da Galiléia, a quem deveria seguir e observar durante todo o tempo que me fosse possível.

         Com o fim de evitar uma provável tentação dos exploradores para reduzir o tempo estabelecido para a operação, o computador central do berço fora previamente programado – sem possibilidade alguma de prorrogação ou anulação do referido programa - para a decolagem automática e para o regresso dos eixos do tempo dos swivels às sete horas de 12 de Fevereiro de 1973. Nesses instantes, tudo estaria preparado, no recinto da mesquita da Ascensão, para o regresso do módulo e sua imediata desmontagem.

 

         Para um hipotético observador que se encontrasse a curta distância do nosso módulo - e supondo que tivessem sido desativados os sistemas infravermelhos de camuflagem – no instante da denominada inversão de massa, ele teria a sensação de que a nave fora aniquilada. Nada mais longe da realidade. Como Já afirmei antes, no instante em que todos os swivels correspondentes ao espaço limitado pela membrana mudam os eixos no padrão tridimensional em que está situado o observador, toda a massa integrada no referido espaço deixa de possuir existência física. Não que a referida massa seja aniquilada dado o substrato de tal massa será constituído pelos swivels. Dito de outra maneira: a massa deverá ser encarada como uma espécie de prega da trama dos swivels. Os

nossos cientistas interpretam este fenômeno como se a orientação desta depressão, ou prega das entidades constitutivas do espaço mudasse de sentido, de modo que os órgãos sensoriais ou os instrumentos físicos do observador não fossem capazes de captar tal mudança. Nesse instante – que podemos chamar T0 - o vazio no espaço é absoluto. Não existe uma única molécula gasosa, e como é natural, nenhuma partícula sólida ou líquida, nem sequer uma partícula subatômica (próton, neutrino, fóton, etc.) pode localizar-se probabilisticamente no referido espaço ou módulo. Dito por outras palavras: a flutuação de probabilidade é nula em T. No entanto, tal situação instável dura uma fração infinitesimal de tempo. O espaço vê-se invadido, consecutivamente, por quanta energéticos. (Quer dizer, propagam-se no seu seio campos eletromagnéticos e gravitacionais de diferentes freqüências.) Imediatamente, é atravessado por radiações iônicas e no final, produz-se uma implosão, ao precipitar-se o gás exterior no vácuo deixado pela estrutura desaparecida (Nota do Major).

 

         Enquanto durasse a aventura, os homens de Curtiss dariam por concluído, no segundo barracão, a montagem do laboratório receptor de fotografias do Grande Pássaro. Isto permitiria uma rápida evacuação do material do Cavalo de Tróia, bem como a entrada do pessoal israelita nos hangares.

         Antes de terminar aquela última sessão de trabalho, Curtiss comunicou-nos que - em conformidade com o Pentágono e, naturalmente, com Kissinger - vinte e quatro ou trinta e seis horas antes da descolagem a atenção mundial estaria centrada a milhares de milhas de Jerusalém, reforçando assim as medidas de segurança do nosso salto para o século I. Efetivamente, tal como o general anunciara, a 28 de Janeiro de 1973, e depois de intensos esforços feitos por ambas as partes, os Estados Unidos e o Vietnã assinavam, em Paris, o acordo definitivo que prometia pôr termo à trágica guerra...

         A 30 de Janeiro, Eliseu e eu pouco saímos do hangar. O dia, na sua quase totalidade, decorreu dentro do berço, verificando os equipamentos. O meu companheiro teve de se submeter a uma última e delicada operação: a inserção no reto de uma reduzida sonda, preparada para recolher as fezes. Estas, tratadas previamente com umas turbulentas correntes de  água a trinta e oito graus centígrados, seriam aspiradas durante os onze dias da sua permanência obrigatória no módulo por um dispositivo miniaturizado que lhe ficou acoplado às nádegas.

         Desta forma, as fezes são dissociadas nos seus elementos químicos básicos. Uma parte é gelificada e transmutada em oxigênio e hidrogênio, servindo assim para a obtenção sintética de água que é recuperada e devolvida ao ciclo urina-água, para ingestão. O resto dos elementos é convertido em lodo e expulso para o exterior em forma gasosa. No meu caso, este dispositivo para defecar não era aconselhável, Já que uma das normas básicas da conduta para os exploradores que tinham de trabalhar no exterior era a de transportar o equipamento mínimo imprescindível e sempre oculto da vista de possíveis exploradores.

         Tinha no entanto, de se levar aquilo a que, no calão de Cavalo de Tróia, chamávamos a pele de serpente. Mediante um processo de pulverização, o explorador cobria o corpo nu com uma série de diferentes aerossóis protetores, formando uma epiderme artificial e milimétrica, capaz de proteger zonas vitais, tanto de uma possível agressão mecânica como bacteriológica. Ainda que esta segunda pele pudesse aderir à totalidade do corpo, dada a indumentária que tinha de vestir, o chefe do Projeto considerou que a couraça – transparente e de extrema elasticidade - devia limitar-se a uma zona que ia dos órgãos genitais às áreas do pescoço, para proteção das artérias carótidas.

         Este eficientíssimo traje protetor - que um dia virá  a ser de grande utilidade aos nossos astronautas, mergulhadores, etc. - pode resistir, à maneira dos antiquados coletes à prova de bala, a impactos como o de um projétil (calibre 22 americano), a vinte pés de distância, sem que se interrompa o processo normal de

transpiração e evitando a infiltração através dos poros de agentes químicos ou biológicos.

         O Projeto Swivel tinha desenvolvido - em especial para os astronautas da fascinante Operação Marco Pólo – dispositivos que fariam empalidecer de inveja os técnicos da NASA. Eis alguns dos mais sugestivos: os olhos e a boca dos exploradores em outros padrões tridimensionais da nossa galáxia podem ser protegidos com um sistema absolutamente revolucionário. Os primeiros, por exemplo, são equipados com um sistema ótico - formado por lentes de gás - que, perfeitamente controladas por um computador, permitem a adaptação da visão tanto ao meio atmosférico adverso como ao vazio dos espaços siderais. Os ouvidos dos astronautas, por outro lado, podem levar incorporados estreitas cápsulas acústicas miniaturizadas, ativadas por um equipamento receptor de ondas gravitacionais.

         Estes dispositivos servem para transmitir breves mensagens entre os componentes de um grupo ou, como no nosso caso, para manter uma permanente comunicação durante os onze dias que a aventura ia durar. Graças a estas cabeças de fósforos - facilmente escondidas no interior do ouvido - tanto Eliseu como eu podíamos saber um do outro, sem necessidade de transportar incômodos aparelhos de rádio, que, por outro lado, destruiriam a rigorosa pureza da exploração.

         Quanto à alimentação, no caso de viagens de longa duração, os astronautas são dotados de um tubo que conduz, por uma extremidade, a um dispositivo especial colocado na região lombar e, pela outra, a um mecanismo extremamente frágil e preso ao lábio inferior. O tubo está preparado por dentro com uma rede de cílios mecânicos que impelem lentamente cápsulas que encerram diversos alimentos concentrados. Estas são de seção elíptica e são protegidas por uma delgadíssima película gelatinosa muito solúvel na saliva. A pálpebra do astronauta, aberta e fechada uma série de vezes, envia um sinal codificado ao equipamento da zona lombar e as cápsulas são impelidas para a boca.

         A outra conduta transporta um soro nutritivo, com diferentes concentrações reguladas. Finalmente cápsulas alojadas nas fossas nasais geram oxigênio e nitrogênio, partindo da transmutação do carbono puro. Além disso, o CO² é captado pelo mesmo dispositivo e dissociado nos seus elementos básicos: carbono e oxigênio e convertidos, o primeiro com libertação energética, que é utilizada no aquecimento da epiderme. Ainda que o nosso módulo estivesse preparado com estes equipamentos, na realidade quase não foram usados, com exceção da pele de serpente e do sistema de transmissão auditiva. O berço foi dotado com uma reserva especial de água e de alimentos, suficiente para ambos os expedicionários durante um período de tempo um pouco superior a catorze dias. Pelo que me dizia respeito, o problema do regime alimentar não envolvia excessivas complicações. No meu intenso treino durante os dois anos anteriores, aprendera os esquemas do regime alimentar dos judeus, bem como o dos gentios, que naqueles tempos conviviam com os povoadores da Judéia. Como estrangeiro - o meu aspecto e costumes tinham sido estabelecidos por Cavalo de Tróia como os de um comerciante grego de vinhos e de madeiras – sabia perfeitamente quais eram as minhas limitações neste sentido. No entanto, numa eventual emergência, existia sempre o recurso de um regresso ao módulo.

         Naquela inesquecível terça-feira, a minha única saída fora do hangar foi pelo entardecer. Sem saber a razão evitei o andaime dos arqueólogos que continuavam a trabalhar na restauração da mesquita e entrei no octógono. Era estranho. Ali, sozinho diante das três pequenas velas que iluminavam a pedra na qual - segundo a piedosa imaginação dos peregrinos católicos - ainda se vê a marca de um pé que se ergue, perguntei-me por que motivo Cavalo de Tróia escolhera precisamente a mesquita da Ascensão de Cristo aos céus como nosso ponto de partida para aquela outra ascensão...

         Em silêncio, Eliseu e eu abraçamos Curtiss e os outros companheiros. Não houve muitas palavras naquela despedida. Todos estávamos conscientes do momento histórico de que éramos protagonistas e dos obscuros perigos que nos podiam esperar do outro lado.

         - Até doze de Fevereiro... - murmurou o general, com alguma emoção nas suas palavras.

         - Sorte! - acrescentaram os homens do Cavalo de Tróia. E pelas vinte e três horas (T.M.G., hora de Greenwich), o berço começou a elevar-se para um firmamento iluminado pelas estrelas.

         Em trinta segundos atingimos o nível de oitocentos pés levando a cabo o estacionário do módulo. Todos os sistemas funcionavam segundo o plano previsto.

         Embora a nossa nave não fosse viajar no espaço - tal como aconteceria meses depois com os expedicionários do Projeto Marco Pólo, Eliseu e eu, seguindo as recomendações do chefe da Operação Swivel, tínhamos a missão de experimentar um dos fatos espaciais, especialmente desenhados para os processos de inversão de eixos dos swivels e para uma melhor resistência nas fortíssimas acelerações.

         A grande viagem ao ano 30 da nossa Era - como oportunamente referi - não pressupunha uma transferência física pelo espaço ou por outros padrões tridimensionais, tal como nós, humanos, concebemos habitualmente as viagens. No entanto, em expedições imediatamente posteriores à nossa - como foi o caso de Marco Pólo os astronautas viram-se submetidos à dinâmica destas fortíssimas acelerações chegando a alcançar, em alguns momentos, 254 metros por segundo, em cada segundo. E ainda que estes picos de gradientes, em função da velocidade durassem frações de segundo, tanto a nave como o grupo de pilotos tiveram de ser devidamente protegidos. Não vou entrar agora nos pormenores da referida aventura, porém, resumirei, sim, a título puramente descritivo, algumas das extraordinárias características dos fatos espaciais, experimentados pelo meu companheiro e por mim, que tinham sido desenhados e aperfeiçoados - em parte - pela Hamilton Standard Division da United Aircraft, em Windson Locks (Connecticut).

         Este fato consta de uma membrana extremamente complexa que rodeia perifericamente o corpo do astronauta, sem estabelecer contato mecânico algum com a pele do piloto. O espaço que medeia entre a superfície interna do fato espacial e a epiderme humana está rigorosamente controlado em função do grau de vasodilatação capilar da pele, assim como da sua transpiração. Deste modo, a temperatura corporal mantém o seu valor normal, permitindo ao viajante desenvolver a sua atividade física. Os componentes do meio interno são regulados em função da informação dada por detectores da atividade fisiológica dos aparelhos respiratório e circulatório, bem como da epiderme. Os equipamentos de controle fisiológico foram dotados de sondas que verificam quase todas as funções orgânicas, sem necessidade de introduzir dispositivos acessórios no interior dos tecidos orgânicos. Desde a atividade muscular e da avaliação dos níveis de glicose e  ácido láctico até ao controle da atividade neurocortical, que fornece dados precisos sobre o estado psíquico do indivíduo, bem como toda a gama de dinamismos biológicos, tudo é registrado e canalizado através de 2,16 106 túneis, ou redes, informativos. Um computador central compara-as com padrões Standard, ditando as respostas motoras correspondentes. Este fato está munido, no rosto do astronauta, de uma ampliação - em forma tronco-cônica - que permite uma visão natural ou artificial. A base do referido tronco, abarcável pelos olhos, segundo um ângulo de cento e trinta graus sexagesimais, encontra-se a uma distância de vinte e três centímetros. Trata-se, na realidade, de uma tela que permite a visão artificial, em casos concretos da viagem. Está munida, em toda a superfície, de cerca de 16.10 centros excitáveis, capazes de irradiar individualmente, e com diferentes níveis de intensidade, todo o espectro magnético, entre 3,9. 10 ciclos por segundo. A visão binocular consegue-se graças à disposição prismática de cada núcleo emissor. A excitação de faces opostas, de modo que qualquer dos olhos não tenha acesso à imagem ou mosaico do outro é conseguida por um método muito complexo. Uma sonda registra os campos elétricos gerados pelos músculos oculares de ambos os olhos (autênticos eletromiogramas) e o computador central do módulo conhece, assim, em cada instante, a orientação do eixo pupilar. Por outro lado, os prismas excitáveis que constituem a tela - de dimensões microscópicas - estão situados na superfície de uma camada de emulsão viscosa, que Ihes permite o livre movimento. Estes prismas estão controlados mecanicamente por meio de um campo magnético duplo, de modo que metade obedece a um componente horizontal do campo e os restantes à transversal. Assim, um e outro grupos orientam as suas faces independentemente, tal como duas persianas orientam as suas lâminas quando se puxa pelos cordéis que regulam o ângulo de entrada de luz. (Neste caso, os cordéis seriam ambos os campos magnéticos e o fator motor a resposta do computador central aos micromovimentos musculares do globo ocular.) A percepção binocular oferece imagens de relevo normal, de modo que o astronauta crê viver um mundo real longe do envoltório e da massa gelatinosa que o envolve em certos momentos da viagem. Em determinadas faces do vôo, e que a nave se vê obrigada a experimentar grandes variações em função da velocidade, o interior do módulo enche-se, previamente, de uma massa viscosa em estado de gel. Trata-se de um composto de baixo ponto de gelificação, em suspensão hidrossol. A sua coagulação nuns casos e regressão ulterior ao estado sol, coloidal efetua-se graças às características do dissolvente empregue, dado que, para uma temperatura limiar de 24,611 graus centígrados, passa a converter-se num eletrólito de elevada condutibilidade. As suas propriedades tixotrópicas são nulas, de forma que qualquer efeito dinâmico no seu seio - agitação, por exemplo - não provoca a sua transformação em sol. Entre outras funções, esta geléia viscosa atua como protetor ou amortecedor perante os elevados picos de aceleração que o módulo experimenta em determinadas ocasiões.

         Pelas vinte e três horas e três minutos, o computador central acionava eletronicamente o sistema de inversão axial das partículas subatômicas da totalidade do berço, bem como da camada limite da membrana exterior, empurrando os eixos do tempo dos swivels para ângulos equivalentes ao recuo desejado: 709137 dias. Por outras palavras, para 30 de Março do ano 30.

         Décimos de segundo depois da substituição do nosso antigo sistema referencial de três dimensões pelo novo tempo, e segundo nos explicaram os homens do Cavalo de Tróia, quando do nosso regresso, uma violentíssima explosão se ouviu no cimo do Monte das Oliveiras, com a conseqüente alegria dos nossos camaradas e o assombro dos israelitas.

         Depois daquele primeiro rastreio dos nossos arredores imediatos, o meu irmão de exploração e eu executamos a segunda fase do plano: uma nova inversão de massa, com o fim de polarizar os eixos dos swivels desaparecidas estas circunstâncias, a massa gelificada é conduzida, mediante um duplo efeito de modificação térmica e ionização controlada, ao estado de hidrossol. Sendo bombeada pelo exterior da cabina de comando (Nota do Major).

         Até à hora limite, que nos serviria de autêntico ponto de partida para uma posterior aterragem no cume do monte das Oliveiras. Pelas vinte e três horas e trinta e três minutos, o módulo recuou no tempo, aparecendo quinze horas antes. Ainda que a corrente do gerador atômico nos tivesse permitido a conservação da nave no estacionário até ao amanhecer do dia seguinte, 31 de Março, os objetivos da expedição recomendavam esta segunda inclinação dos eixos do tempo dos swivels até alcançar as oito horas e trinta e três minutos de 30 de Março do ano 30. Embora não deseje antecipar-me aos acontecimentos, as nossas fontes informativas prévias indicavam a sexta-feira, 31 de Março, como a data em que o Mestre da Galiléia entrou em Betânia, vindo da vizinha cidade de Jericó, situada a cerca de trinta e quatro quilômetros da citada povoação de Betânia, onde residia a família de Lázaro. Se tudo decorresse com normalidade, eu deveria estar ali com uma antecipação aproximada de vinte e quatro horas.

 

                           30 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA

         Foi talvez o instante de maior tensão. Eliseu e eu, metidos nos nossos fatos espaciais, sentimos como os nossos corações aceleravam o seu ritmo até ao limiar das cento e cinqüenta pulsações. No computador eram vinte e três horas, três minutos e vinte e dois segundos de quinta-feira, 30 de Março do ano 30. Tínhamos recuado um total de 17 019 289 horas.

         Pouco a pouco, recuperamos o controle da freqüência cardíaca, concentrando-nos na operação de manutenção do estacionário e na verificação geral dos sistemas. Nada parecia ter mudado. A fonte externa da luz infravermelha continuava a esconder-nos e os altímetros marcavam os primitivos valores: cota de oitocentos pés sobre o terreno e oscilação nula no módulo. Durante o processo infinitesimal de inversão de massa, a pilha nuclear SNAP-IOA continuara a alimentar o motor principal da turbina a jato CF200-2V. Portanto, a nossa posição no espaço não variara.

         Uma vez verificados os circuitos principais Eliseu e eu efetuamos um primeiro contato visual da zona. A oeste da nossa posição e a pouco mais de mil pés, avistamos um extenso núcleo luminoso. Apesar das muitas horas de treino, a emoção deixou-nos sem voz. Os radares confirmavam o perfil de uma povoação humana, com uma infinidade de construções de fraca estrutura e duas edificações de superior envergadura: uma, localizada no lado leste da cidade - muito mais volumosa -, e outra, a noroeste. Logo soubemos que se tratava do grande bloco do templo e da Torre Antonia e do palácio de Herodes, respectivamente. As nossas suposições - apesar da densa escuridão - estavam corretas: aquelas luzes amarelas e pestanejantes correspondiam à Cidade Santa de Jerusalém. A totalidade do núcleo urbano surgia encerrado na muralha. Um segundo muro de características muito semelhantes ao que constituía o perímetro da população dividia Jerusalém pelo seu terço norte, justamente desde a fachada oeste do templo à fachada norte do palácio de Herodes. A és-sueste do nosso módulo, igualmente se avistavam mais dois grupos de luzes mortiças, infinitamente menores que o primeiro e situados, praticamente, na encosta do monte sobre o qual nos encontrávamos estacionados, e que pensávamos ser o das Oliveiras. Os equipamentos de ondas de setecentos e quarenta milímetros de comprimento voltaram a emitir umas primeiras e confusas imagens destes núcleos humanos, não sendo possível confirmar - como suspeitávamos se se tratava das aldeias de Betânia e Betfagé.

         Como poderei descrever aquele amanhecer de 30 de Março sobre a vertical do monte das Oliveiras?

         O sol nascente apagara os archotes de Jerusalém, oferecendo aos nossos olhos atônitos um imenso cacho de casitas brancas e ocres, apertadas umas contra as outras e dirigidas em mil direções por sinuosas vielas. E, destacando-se daquele mosaico, uma formidável fortaleza retangular, levantada no lado oriental da cidade. Era o templo erigido por Herodes, o Grande, com imensas colunas limitando espaçosos pátios e  átrios. Tal como descrevera o historiador Flávio Josefo, uma brilhante cúpula - correspondente ao santuário - resplandecia, qual montanha coberta de neve.

         De norte a sul, junto da muralha oriental de Jerusalém avistamos o leito seco e estreito de um rio que identificamos como o Cédron. Para sueste, ligeiramente esfumado pela neblina, perdia-se no horizonte a depressão do mar Morto. A sua superfície azul espelhava-se timidamente, sobressaindo como um milagre nas ressequidas e cinzentas ondulações do deserto de Judá. Muito mais ao fundo, perdidos num verde-azul inverossímil, os contrafortes do Moab. Em alvoroço, Eliseu e eu descobrimos, junto do vértice sul das muralhas da Cidade Santa, o diminuto retângulo de águas castanhas que, segundo os nossos mapas, tinha de corresponder à piscina de Siloé. Naquela mesma direção, e a escassa distância dos muros, um declive morria no leito do Cédron. Naquelas paragens - conhecidas por terras estéreis de Hakeldama - iria dar-se o trágico final de Judas Iscariotes. E, por baixo do módulo, um promontório, que se alongava em paralelo com a grande muralha leste de Jerusalém. Tratava-se, efetivamente do monte das Oliveiras, coberto por olivais. As primeiras inspeções, mediante sistema de eco-sonda, confirmaram a abundância de terreno calcário num amplo raio em volta de Jerusalém. Os aparelhos de análise de vida vegetal - baseados num processo estereográfico muito semelhante aos raios X - ratificaram a presença de vegetação num cinturão aproximado de 16,650 quilômetros. Toda a franja norte e noroeste da cidade apresentava uma extraordinária abundância de jardins e plantações de  árvores frutíferas. A sul e sueste - especialmente no monte das Oliveiras - eram muito mais freqüentes os olivais, destacando-se, aqui e além, renques de vinhedos.

         Estes cresciam, principalmente, na colina ocidental do vale do Cédron e, mais exatamente, ao sul do terreiro do templo. Como pormenor curioso, direi que os nossos dispositivos detectaram, a sudoeste da cidade, um pequeno núcleo humano (soubemos logo que se tratava da aldeia de Erebinthon), à volta do qual cresciam amplas plantações de grão-de-bico.

         Um caminho poeirento rodeava o lado oriental do monte das Oliveiras, unindo as povoações de Betfagé e Betânia com Jerusalém. Os arredores destas aldeias viam-se igualmente cobertos por palmeiras, figueiras e sicômoros. Em metade daquele esplêndido vergel chamou-nos a atenção o leito seco do Cédron e, concretamente, um débil fio de água vermelha que brotava ao fundo da escarpa que começava logo abaixo das muralhas e a escassa distância do não menos célebre pináculo do templo. (Numa das minhas incursões pela Cidade Santa teria ocasião de descobrir o mistério daquele fio de água vermelha).

         Antes de proceder à descida definitiva no cimo do monte das Oliveiras, o meu companheiro e eu terminamos as medições topográficas. Alguns destes cálculos, sinceramente, ultrapassaram a nossa capacidade de assombro.

         As medidas do templo, por exemplo, eram portentosas. Aquele retângulo - que ocupava mais da quinta parte da superfície da cidade - surgia encerrado em robustas muralhas de cento e cinqüenta pés de altura. A sua fachada norte, conhecida como o Átrio dos Gentios, e em cuja extremidade mais ocidental se encontrava apoiada a Torre Antonia, media novecentos pés de comprimento. Em frente do monte das Oliveiras, a fachada leste do templo - toda de mármore branco - atinge os 1285,5 pés. A muralha ocidental era praticamente das mesmas dimensões que a anterior e, por último, o lado sul, que encerrava o recinto sagrado, e onde se distinguia do módulo duas amplas portas, chegava aos oitocentos pés de comprimento.

         Quanto ao templo de Herodes, propriamente dito - que se erguia no centro daquele grande retângulo - os equipamentos deram-nos 578,4 pés de comprimento por 417,6 pés de largura. A fortaleza ou Torre Antonia, residência do representante de César durante as festas mais importantes dos judeus, elevava-se numa cota de 2200 pés acima do nível do mar. Era outra soberba construção de 450 por 384 pés, ladeada nas suas quatro esquinas por outros tantos poderosos torreões de 105 pés de altura.

         A Oeste da cidade, na cota mais alta de Jerusalém (2280 pés), a família Herodes construíra a sua residência-fortaleza. O palácio e os jardins reais ocupavam uma faixa de terreno, junto à mencionada muralha mais ocidental da Cidade Santa, de novecentos por trezentos pés. A edificação sobressaía pelas suas altas torres, de cento e vinte, noventa e setenta e cinco pés respectivamente.

         A partir da ala norte do palácio de Herodes - tal como os nossos Porta Dupla e Porta Tripla. (N. do M.)

         Herodes chamou a estas torres: Hépica, Fasael e Mariamme, respectivamente. (N. do M.)

         Os radares tinham detectado na noite anterior - estendia-se outra muralha até metade, pouco mais ou menos, da fachada Oeste do templo, dividindo a cidade em dois setores. Finalmente, as dimensões de Jerusalém eram as seguintes: comprimento máximo (da Torre Antonia ao vértice sul), 3696 pés. Neste canto sul da cidade - junto à piscina de Siloé - detectamos a cota mais baixa do terreno: 1980 pés. A largura da Cidade Santa, contando a partir do muro exterior ocidental (correspondente ao palácio de Herodes) até ao pináculo do templo: 2667,6 pés. A inexpugnável muralha que defendia Jerusalém erguia-se a 225 pés sobre a superfície do vale. (O curso do Cédron oscilava entre os 1860 pés, na sua cota mais baixa, em frente de Hakeldama e do esporão formado pelas muralhas ao sul da povoação, e os 2040 pés, na sua passagem em frente do jardim de Getsémani, na falda ocidental do monte das Oliveiras.)

         O computador calculou o comprimento total da muralha exterior da cidade, registrando na tela 11378,1 pés. Por seu lado o muro que atravessa por entre as residências, dividindo Jerusalém em duas cidades perfeitamente diferenciadas – como teria oportunidade de comprovar pessoalmente -, tinha o comprimento aproximado de 1446,6 pés. Na nossa vertical, o monte das Oliveiras oferecia duas cotas máximas: 2220 pés em frente da piscina de Siloé; quer dizer, ao sul da cidade, e 2454 pés (elevação máxima) diante do templo. O jardim de Getsémani - localizado numa cota inferior a estas - encontrava-se a uma distância de 739,2 pés (em linha reta a partir do declive ao muro oriental do templo).

         Aquela cota máxima do monte das Oliveiras (2454 pés acima do nível do mar), situava-se cerca de cento e oitenta pés acima do templo. Isto, unido à localização pelos nossos equipamentos de uma pequena formação rochosa que despontava no referido cume, entre um mar de oliveiras, decidiu-nos a estabelecer o nosso ponto de contato sobre a reduzida clareira de dura pedra calcária.

         Pelas dez horas e quinze minutos, o módulo pousou - por fim - no cimo do monte das Oliveiras. Num primeiro apalpar, os quatro pés extensíveis do berço enterraram-se ligeiramente entre as pedras rochosas. Finalmente, a nave ficou estabilizada e procedemos à desativação do motor principal. Embora a descida não pudesse ser vista pelos habitantes de Jerusalém, ou dos seus arredores, um observador relativamente próximo do nosso ponto de contato teria podido descobrir um súbito remoinho de pó e de terra, provocado pelo choque dos gases contra o solo, na operação final de travagem do módulo.

         Felizmente, aquela poeirada desapareceu em pouco mais de sessenta segundos, bem como o agudo silvo do reator. Apesar de tudo, Eliseu e eu continuamos alerta durante quase meia hora, atentos a qualquer inesperada emissão de radiações infravermelhas, provenientes de seres humanos, que pudessem irromper no campo de segurança do nosso veículo, fixado para um raio de cento e cinqüenta pés. Qualquer indivíduo ou animal que penetrasse nessa faixa de terreno seria automaticamente assinalado nos painéis do módulo. No caso de um eventual ataque, o tripulante que permanecia no interior do berço estava autorizado a desencadear um dispositivo especial de defesa - localizado na

membrana exterior da fuselagem - que projetava a trinta pés da nave uma parede de ondas gravitacionais em forma de cúpula. Embora esta semi-esfera protetora não pudesse ser vista, o intruso ou intrusos que tentassem atravessá-la teriam a sensação de avançar contra um vento de furação. (Como Já referi, na altura devida, nenhum dos expedicionários podia provocar qualquer dano, e muito menos matar, os elementos que constituíam a rede social que observavam.)

         Pelas onze horas, depois de verificar a temperatura à superfície (11,6 graus centígrados), a umidade relativa (57 por cento), a direção e intensidade do vento (ligeira brisa de noroeste) e outros valores mais complexos - de caráter biológico -, iniciei os últimos preparativos da minha definitiva saída para o exterior.

         Enquanto Eliseu continuava vigilante à nossa roda despi-me, procedendo a uma minuciosa revisão do meu corpo. Tinha de me desembaraçar de qualquer objeto impróprio naquela época: relógio de pulso uma corrente com chapa de identidade, obrigatória nas Forças Armadas, e uma pequena aliança de ouro, que sempre usara no dedo mínimo esquerdo.

         A seguir, submeti-me à pulverização - mediante aspersão – do tronco, ventre, órgãos genitais, costas e base do pescoço e nuca, envolvendo-me, assim, na defesa obrigatória a que chamávamos pele de serpente. Como Já antes referi, esta segunda epiderme era uma fina película, cuja substância base era constituída por um composto de silício em dissolução coloidal num produto volátil. Este líquido, ao ser pulverizado sobre a pele, evapora rapidamente o diluente, ficando aquela coberta por uma delgada camada ou película opaca porosa, de caráter antieletrostático. A sua cor pode variar, segundo a missão, podendo ser utilizada, inclusivamente, como um código, quando se trabalha em grupo. No entanto, e com o fim de evitar possíveis e desagradáveis surpresas, preferi adaptar-me a uma epiderme absolutamente transparente... Cavalo de Tróia tinha estudado com idêntico escrúpulo o papel que eu deveria desempenhar durante aqueles onze dias. Dado ter de passar por um honrado comerciante estrangeiro - grego, por sinal -, os peritos tinham preparado um duplo jogo de vestuário: uma saia escura ou fraldelim (castanho-escuro); uma túnica simples cor de osso; um cíngulo, ou cinto trançado com cordas egípcias, que prendia a túnica, e um incomodo manto, ou roupão, susceptível de ser enrolado em volta do corpo ou suspenso dos ombros. A embaraçosa chlamys, que estive quase para perder em vários momentos da minha exploração, fora confeccionado à mão, tal como a túnica, com lã das montanhas da Judéia, e tingida com glasto até lhe dar uma discreta cor azul-celeste. Para a confecção das duas túnicas, os peritos tinham contratado os serviços de hábeis tecelões da Síria, herdeiros do antigo núcleo comercial de Palmira, que ainda manipulavam o linho de sequeiro.

         Na previsão de uma eventual avaria no dispositivo de transmissão auditiva - que levava no ouvido direito -, Curtiss ordenara que a chlamys dispusesse de uma fivela de cinco centímetros, com que pudesse prender o pallium ou manto no meu ombro esquerdo. Esta fivela de bronze encerrava um microtransmissor, capaz de emitir mensagens de curta duração, mediante impulsos eletromagnéticos de 0,0001385 segundo cada um. Desta forma, estava garantida uma eficaz e permanente ligação com a base.

         Quanto ao calçado, tinham sido desenhados dois pares de sandálias, com sola de esparto, entrançado nas montanhas turcas de Ancara. Cada exemplar foi perfurado manualmente, incrustando nos rebordos das solas pares de finas tiras de couro de vaca, devidamente curtidas. Cada cordão - de cinqüenta centímetros - permitia segurar o rústico calçado, com folga suficiente para o poder enrolar em quatro voltas na perna.

         Um mês antes do lançamento - com o fim de simplificar a minha limpeza diária durante a grande viagem - deixei crescer a barba de forma desordenada.

         Aquela roupagem e a minha barba crescida desencadearam o bom humor de Eliseu, vendo-me submetido durante aqueles últimos minutos no módulo a todo o tipo de brincadeiras e graças.

         Aqueles momentos de diversão foram altamente relaxantes, fazendo-nos esquecer momentaneamente onde estávamos e o que o destino me reservava. Seguindo um dos costumes populares na Palestina daqueles tempos, impregnei o cabelo com umas gotas de azeite vulgar. Desta forma, ficaram mais suaves e sedosos. Por fim, suspendi do cinto uma pequena bolsa de borracha impermeável em que Cavalo de Tróia depositara uma libra romana em pepitas de ouro. A evidente dificuldade para conseguir moedas de curso legal, das aceites em Jerusalém no ano 30, fora superada por aqueles gramas de ouro, extraídos especialmente dos antiqüíssimos filões de Tharsis, nos contrafortes da serra ibérica de Las Camorras. Segundo os nossos dados, não teria dificuldade em trocá-las por denários de prata e moedas mais baixas como o asse, o óbolo ou sestércios.

         Eliseu verificou mais uma vez os sistemas de transmissão, ampliando a banda inicial de recepção dos 10 500 a 15 000 pés.

         Embora pudesse ouvir Eliseu diretamente - sempre que ele achasse oportuno quando eu desejasse estabelecer a minha comunicação auditiva com o módulo era imprescindível que pressionasse com os dedos a parte externa do ouvido direito.

         Com o fim de evitar desconfianças ou possíveis más interpretações por parte dos habitantes de Jerusalém, Cavalo de Tróia tinha pensado que eu fingisse uma leve surdez no referido ouvido. Desta forma, e ainda que a comunicação com Eliseu tivesse de ser levada a efeito longe de testemunhas, o gesto de abertura do canal de transmissão sempre podia ser justificado. (N. do M.)

  1. Segundo os nossos estudos naquela época, o estático ou padrão-ouro greo (de 8,60 gramas) podia conservar uma relação ou equivalência de 1 a 30 com o denário de prata de uso legal em Jerusalém. Aquela pequena quantidade de ouro pressupunha cerca de 758 denários, dinheiro mais que suficiente para as minhas necessidades durante os onze dias de permanência na zona. se tivermos em conta, por exemplo, que o preço de um bom terreno andava à volta dos cento e vinte denários. (Cada denário de prata tinha vinte e quatro asses. Com um asse era possível comprar dois pássaros.)(N. do M.)

         Antes da aterragem, os aparelhos eletrônicos tinham medido a distância existente entre Betânia e a Cidade Santa - seguindo o percurso do caminho que rodeia o lado oriental do monte das Oliveiras - obtendo o resultado de 8325 pés. O palco onde tinha de atuar naqueles dias fora limitado justamente entre as duas povoações - Betânia e Jerusalém, com o pequeno povoado de Betfagé a curta distância da aldeia de Lázaro -, pelo que, provavelmente, a minha distância máxima em relação ao berço (que se encontrava num enclave eqüidistante de ambos os agregados urbanos) nunca deveria ser superior a mil pés. A margem estabelecida para a transmissão e recepção auditiva entre mim e Eliseu era, portanto, mais que suficiente.

         Pelas doze horas, depois de um comovido abraço, o meu companheiro acionou a pequena escada de descida e saltei em terra.

         A minha primeira preocupação ao caminhar naquela terra esbranquiçada pelo sol do meio-dia foi comprovar a minha posição no monte das Oliveiras. Ao dar uns passos em direção ao bosquezinho de oliveiras que se alongava para sul, apercebi-me daquele grande silêncio, apenas quebrado pelo zumbir das libélulas. Parei, e, depois de me orientar, estabeleci comunicação auditiva com Eliseu. A julgar pelo trajeto que percorrera desde aquele grupo de rochas amareladas nas quais pousara o módulo, devia encontrar-me a pouco mais de noventa pés de Eliseu. As palavras do irmão soaram claras e fortes aos meus ouvidos:

         - É muito possível que a razão desse silêncio – argumentou Eliseu - se deva à presença do berço... Apesar do painel de ocultação, alguns animais puderam detectar as emissões de ondas...

         Um pouco mais tranqüilo, continuei na minha pormenorizada localização de pontos de referência, vitais para um possível e precipitado regresso à nave. Ainda que o microtransmissor da fivela atuasse ao mesmo tempo como rádio-farol onidirecional (com sinais VHF de altíssima-frequência), tornando possível, desta forma, que um dos radares de bordo pudesse receber o meu eco ininterruptamente e num raio aproximado de cinqüenta milhas, eu não estava autorizado a levar um sistema de localização do invisível módulo. A natureza da missão tinha desaconselhado aos responsáveis do Cavalo de Tróia a inclusão no meu escasso equipamento de uma das balizas - de tipo manual -, que funcionam na freqüência de setenta e cinco megaciclos e que se tornaria utilíssima para o meu reencontro com o berço. Teria de me valer, em suma, do meu sentido de orientação, pelo menos até ao limite da zona de segurança da nave, a cento e cinqüenta pés da mesma. Uma vez dentro daquele círculo, Eliseu podia guiar-me, mediante o transmissor que eu tinha no ouvido.

         Graças a Deus, o ponto de contato encontrava-se numa das cotas máximas do monte das Oliveiras. Esta circunstância, unida à presença da reduzida clareira pedregosa, tornava relativamente cômoda a localização da base do nosso veículo, quer se subisse pela encosta oriental (que finda em Betânia) quer pela ocidental, que desemboca no despenhadeiro de Cédron.

         Fiz uma rápida revisão ao meu aspecto e com passos cautelosos meti-me pelo olival à minha direita, entre as ramadas de velhas oliveiras, avistava-se a cúpula dourada do templo e boa parte das muralhas de Jerusalém. Porém, apesar dos meus intensos desejos de me aproximar da encosta ocidental da montanha das azeitonas (como os Israelitas também chamavam ao monte das Oliveiras) e gozar aquele espetáculo inigualável que era a Cidade Santa, cingi-me ao plano previsto e iniciei a descida pela vertente sul, em busca do caminho que tínhamos avistado do ar e que me levaria até Betânia.

         De repente, ao inclinar-me para me esquivar de uma das frondosas ramadas, reparei, com algum sobressalto, como o meu calçado atraía a atenção, pois, tão novo e limpo, não podia ser o de um andarilho e inquieto comerciante estrangeiro. Sem ter qualquer dúvida, sentei-me numa das raízes de uma vetusta oliveira e, depois de lançar uma olhadela à minha volta, agarrei em várias mancheias daquela terra ocre e esponjosa, com ela esfregando o esparto e os atilhos.

         A inesperada paragem no caminho foi registrada no módulo e Eliseu interessou-se pela minha segurança.

         - Algum problema, Jasão?

         A partir da minha saída do berço, ia ser aquele o meu nome de guerra. O nome Jasão vinha do herói dos Tessálios e Beócios, comandante da famosa expedição dos Argonautas, cantada pelo poeta grego Apolônio de Rodes e pelo vate épico Valério Flaco. Eu aceitara tal nome, ainda que estivesse consciente de que nunca teria estofo de herói e que a minha missão no Cavalo de Tróia não era precisamente a procura do velo de ouro, a que tanto esforço dedicara o bom Jasão.

         Depois de explicar a Eliseu aquela momentânea contrariedade, recomecei a marcha, sempre atento ao meu possível primeiro encontro com os habitantes da zona.

         Quando caminhara Já um pouco mais de trezentos passos deixei para trás o olival. Na minha frente abria-se um prado, a que dois corpulentos cedros de quase quarenta metros de altura davam sombra.

         O coração bateu-me mais depressa no peito. Por baixo daquelas  árvores tinham sido armadas quatro grandes tendas. Durante uns segundos, não soube como reagir. Fiquei quieto. Indeciso. Debaixo das lonas escuras das tendas agitavam-se numerosos indivíduos. Pressionei no ouvido direito e Eliseu apareceu

imediatamente:

         - Que há? - perguntou o meu companheiro.

         - Primeiro contato humano à vista... Pelo que me parece, trata-se de mercadores... Vejo alguns rebanhos de ovelhas junto de várias tendas.

         Eliseu consultou a memória histórico-documental do computador central instalado no berço e transmitiu-me a informação que se lia na tela.

         - Papai Noel afirmativo. Segundo o Livro das Lamentações (R.2,5 versículo 2,2 (44.a 2) e o escrito rabínico Ta anit N, 8,69.Q 36 (IV/1,191) Já, nesse extremo da encosta do monte das Oliveiras, onde agora te encontras, instalava-se, tradicionalmente, um grupo de tendas, em que se vendia o necessário para os sacrifícios de purificação no Templo. Segundo estes dados, debaixo de um desses cedros deverá encontrar também um mercado de pombinhos para os sacrifícios.          Volume aproximado, ah... Quer dizer, umas quarenta arrobas ou seiscentos quilos de borrachas, se prefere... Papai Noel também menciona um texto de Josefo (Guerras dos Judeus, V 12,2/505), no qual se descreve uma muralha edificada por Tito, quando cercou Jerusalém. Esta muralha conduzia ao monte das Oliveiras e encerrava a colina até à rocha chamada do pombal. É muito provável que nas proximidades encontres pombais escavados na rocha...

         - Recebido. Obrigado... Vou ter com eles.

         - Um momento, Jasão - interveio novamente Eliseu. – Estas informações podem ser-te úteis... Papai Noel acrescenta que segundo o escrito rabínico Menahot (87.o), estes carneiros vinham do Moab os cordeiros, do Hébron, os vitelos de Saron e as pombas da Montanha Real ou Judéia. O gado vacum vem da planície costeira compreendida entre Jaffa e Lydda. Parte do gado para abate chega da Transjordânia (possivelmente, os carneiros). Idiomas dominantes entre estes mercadores: aramaico, sírio e talvez alguma coisa de grego...

         - O.K.

         - Sorte!

         Conforme me fui aproximando das tendas, assim a minha excitação aumentava. Aquela podia ser a minha primeira oportunidade, não só de estabelecer contato com os israelitas, como ainda de praticar o meu arameu galilaico ou grego.

         Ao passar entre as tendas, uma baforada indescritível - mistura de gado lanígero, fumo e azeite cozido - levou-me ao ponto de pensar ter seguido por mau caminho. Três das tendas tinham sido adaptadas a apriscos. Por baixo das barracas de lona enegrecida cheia de remendos, apinhavam-se uns cento e cinqüenta carneiros e borregos. Na quarta tenda alinhavam-se grandes talhas com azeite e farinha.

         Abrigados por ela, um grupo de homens, com amplas túnicas vermelhas, azuis e brancas faziam roda, sentados em cima dos seus mantos. A curta distância, fora da sombra da lona, várias mulheres - quase todas com grandes túnicas verdes - afadigavam-se em volta de uma fogueira. Junto delas, algumas crianças seminuas e de cabeça rapada ajudavam naquilo que pensei tratar-se do almoço comum. Uma panela de grandes dimensões fervia ao lume, presa por uma argola e assente em três pés de ferro, com tanta fuligem quanto a barriga da marmita. Algumas mocinhas, com o rosto coberto por um véu branco e diademas na testa, permaneciam ajoelhadas junto de umas pedras retangulares.

         Mecanicamente, cada moça tirava uma mancheia de trigo de um saco junto do grupo e colocava-a sobre a superfície de pedra, ligeiramente côncava. Depois, agarravam com ambas as mãos uma outra pedra estreita e punham-se a triturar o punhado de trigo. Uma das mulheres fazia passar a farinha por uma peneira com aro de madeira, depositando o resultado da moenda numa espécie de vaso de barro.

         Permaneci uns minutos absorto naquele espetáculo. O grupo tinha reparado Já em mim e, depois de trocarem algumas palavras que não cheguei a entender, um deles pôs-se de pé, encaminhando-se na minha direção.

         O mercador - possivelmente um dos mais velhos - apontou para os rebanhos e perguntou-me se desejava comprar algum cordeiro para a próxima Páscoa. Ao falar, o homem mostrou-me uma dentadura dizimada pela cárie.

         Sorri, e no mesmo aramaico popular em que me tinha interrogado expliquei-lhe que não, que era estrangeiro e que ia apenas de passagem para Betânia. Ao notar, tanto pela minha pronúncia como pelo meu vestuário, que, efetivamente, era um gentio, o hebreu lamentou-se por se ter levantado e, com uma careta de repugnância pela presença daquele impuro, deu meia volta e voltou para junto dos outros vendedores.

         Um elementar sentido de prudência me fez afastar dali, encosta abaixo, em busca do caminho desejado. Ao passar em frente do segundo cedro - aquele em que, tal como Já tinha vaticinado o computador, fora montada uma quinta tenda, por baixo da qual se amontoavam numerosas gaiolas com pombas - não diminuiu o passo. Embora tivesse recuperado a confiança em mim ao verificar que não tivera grande dificuldade para entender e ser entendido por aquele israelita, também não desejava desafiar a sorte.

         O sol continuava descendo para poente, diminuindo perigosamente o meu tempo naquela quinta-feira, 30 de Março. Tinha de me apressar, se queria chegar a tempo em Betânia. Pelas dezoito horas e vinte e dois minutos, o ocaso poria termo ao dia judaico. Nessa altura, Já eu deveria ter entrado em contato com a família de Lázaro.

         Apressei o passo e depressa me vi na comija de um pequeno terreno. Ali terminava a encosta do monte das Oliveiras. A meus pés, a cerca de cinco ou seis metros, apareceu o caminho que unia Jerusalém a Jericó, passando por Betânia. Da minha improvisada atalaia avistavam-se grupos de caminhantes que iam e vinham num e noutro sentidos.

         Eram, na sua maioria, peregrinos que iam à Cidade Santa ou que saíam do recinto murado, a caminho dos seus acampamentos. De ambos os lados da calçada poeirenta - perdendo-se no horizonte - estendia-se um aglomerado de tendas e barracas improvisadas.

         Desci até o caminho e comuniquei ao módulo a minha intenção de iniciar a marcha na direção leste, quer dizer, no sentido oposto a Jerusalém. Depressa verifiquei que aquelas pessoas eram, na sua quase totalidade, galileus chegados em sucessivas caravanas e que, de acordo com um ancestral costume, costumavam acampar deste lado da cidade. A festa da Páscoa, uma das mais solenes do ano, reunia em Jerusalém centenas de milhares de israelitas, provenientes das diferentes províncias e do estrangeiro. Naquele ano, além disso a solenidade era duplamente importante, por coincidir com um sábado.

         Segundo as Ieis hebraicas, todo o Israelita era obrigado ,a comparecer perante Deus no Templo, a não ser que seja surdo, idiota, menor, homem de órgãos tapados (sexo duvidoso) andrógino, mulher, escravo não alforriado, cego, entrevado, doente, velho ou não pudesse subir a pé até à montanha do Templo. A

escola de Shammay definia o menor como aquele que não pode (ainda) cavalgar os ombros de seu pai para subir a Jerusalém à montanha do Templo. (N. do M.)

 

         Em Jerusalém o alojamento devia ser muito difícil e os peregrinos acabavam por se acomodar nos arredores. Entre as tendas distingui dezenas de mulheres e de crianças, ocupadas em animadas conversas ou no arranjo dos seus frágeis pavilhões de peles e panos multicores. Apesar de não serem obrigadas a participar na festa, era evidente que as famílias judaicas acorriam na sua totalidade à Cidade Santa, e ali permaneciam durante os dias e noites anteriores aos sagrados ritos da oferenda e da ceia pascal.

         Enquanto caminhava entre aquela multidão alegre, variada e tagarela comecei a pensar como podia - como ia ser - a entrada triunfal de Jesus de Nazaré às primeiras horas da tarde de domingo, em Jerusalém...

         Com grande contentamento da minha parte, nenhum dos acampados que se cruzavam comigo mostravam o menor assombro ao ver-me. No entanto, a minha inquietação aumentou quando avistei ao fundo do caminho um grupo de cavaleiros, pertencentes à guarnição romana em Jerusalém, que certamente regressavam aos seus aquartelamentos na Fortaleza Antonia. Como precaução, sentei-me à beira do caminho, junto de uma das tendas. Instintivamente, levei a mão ao ouvido e, baixando o tom de voz, comuniquei a Eliseu a proximidade da patrulha.

         O meu irmão, depois de prévia consulta ao computador, proporcionou-me alguns dados sobre os soldados:

         - Pode tratar-se de uma pequena unidade - uma turma - formada por uns trinta e três cavaleiros. A legião com base em Cesareia dispõe de 5600 homens, dos quais cento e vinte pertencem à cavalaria.

         A presença de uma das quatro turmas em Jerusalém pode significar que Pôncio Pilatos se mudou Já para a sua residência na Torre Antonia, a fim de administrar a justiça na Páscoa... Atenção! - acrescentou Eliseu. - Papai Noel especifica que estes cavaleiros podem ser originários de terras germânicas. A sua origem social é muito baixa e o seu comportamento particularmente agressivo para com os Judeus. Cada uma destas unidades é comandada por três oficiais - decuriões - cabeças-de-fila.

         Papai Noel estava certa. Os cavaleiros avançaram a passo, afastando os descuidados com as afiadas bases de ferro dos seus pilum ou lanças. Contei no total trinta e três soldados, perfeitamente fardados com escuras cotas de malha, capacetes dourados e reluzentes, grevas, longas espadas no cinturão e escudos hexagonais, orlados com uma faixa metálica. Todos os cavaleiros traziam calças avermelhadas, muito justas e até o meio da perna.

         Marchavam em três fileiras, ocupando praticamente todo o caminho.

         Ao passarem por mim, vi, com surpresa, que, com exceção dos chefes ou decuriões, eram todos muito novos, talvez entre os dezoito e os trinta anos. Naturalmente, também não podia conceder demasiado crédito àquela impressão. No ano 30, a média de vida devia andar pelos quarenta anos...

         Fechava o grupo armado um átrio de soldados montados em cavalos tordilhos, em cujas garupas tinham sido amarrados feixes de azagaias, um pouco mais curtas que os pilum que levavam à direita e que, possivelmente, iriam além dos dois metros de comprimento.

         Apesar de ver com os meus próprios olhos, era muito difícil, naquelas primeiras horas, habituar-me à idéia de que recuara no tempo e que, à minha volta, estava de fato, a Palestina do imperador Tibério!

         Quando me preparava para me levantar e recomeçar a caminhada, senti a leve pressão de uma mão no ombro. Ao voltar a cara deparei com um menino moreno e profundos olhos pretos. Trazia vestida uma curta túnica de amplas mangas e cor indefinida. Na mão esquerda trazia uma escudela de madeira com água. Sem pronunciar uma só palavra, esboçou um sorriso e ofereceu-me o escuro recipiente. Molhei os lábios na água e devolvi-lhe o vaso, agradecendo-lhe o gesto.

         - De onde vens? - perguntei-lhe, acariciando-lhe o crânio rapado.

         O pequeno voltou-se para um pequeno grupo de homens e mulheres que repousavam dentro de uma tenda. Uma das mulheres - provavelmente a mãe - animou-o com um aceno de mão a que respondesse.

         - Somos de Magdala.

         - Isso é perto do lago, não é?

         O menino disse-me que sim com a cabeça.

         - Ouviste falar de Jesus, o Nazareno?

         Antes que o meu jovem amigo chegasse a responder, um dos homens

encaminhou-se para mim. Aparentava uns trinta e cinco ou quarenta anos e tinha uma abundante barba preta. Agarrou a criança pelos braços e perguntou-me:

         - Será que és adepto do tekton?

         Aquela palavra deixou-me confuso.

         - Perdoe-me - respondi-lhe. - Sou estrangeiro e não sei o significado dessa palavra.

         O homem soltou a criança e, cruzando os braços entre as pregas do manto, acrescentou:

         - Nós conhecemos seu pai como José, o carpinteiro e ferreiro. E assim chamamos também ao filho. Estive tentado a juntar-me àquela família de galileus e a atrasar a minha entrada em Betânia. Mas pensei duas vezes e compreendi que ninguém melhor que Lázaro e suas irmãs me podia falar do Mestre...

         Enquanto prosseguia o meu caminho, perguntei a Eliseu se podia obter informação sobre aquela nova definição de Jesus. Papai Noel foi muito conciso: O Galileu, efetivamente, recebia a designação de tekton - como carpinteiro, construtor ou ferreiro -, de acordo com a versão que sobre o referido termo fazia o escrito rabínico Shabbat, 31.  Também São Marcos alude a tekton em 6.3.

         É possível que tivesse andado um pouco mais de metade do caminho entre Jerusalém e Betânia quando deixei para trás o denso acampamento dos peregrinos israelitas. A partir dali, as tendas eram muito mais raras. Talvez estivesse enganado, mas quase seria capaz de jurar que no acesso à Cidade Santa se tinham instalado mais de um milhar de improvisados albergues. Isto podia significar - a uma média de seis ou sete pessoas por tenda - uns seis ou sete mil peregrinos.

         Naquele último quilômetro não observei, no entanto uma diminuição da intensa circulação de gente e de animais de carga. Grupos de judeus, com asnos e alguns camelos, continuavam a fluir num e noutro sentido, transportando molhos de lenha, pesados e pontiagudos cântaros ou tocando rebanhos de cabras.

         A vegetação, de ambos os lados do caminho, tornara-se mais florescente. À minha esquerda, a encosta oriental do monte das Oliveiras surgia fechada pelos olivais, cedros e alguns sicômoros. À minha direita, junto às palmeiras e figueiras, chamou-me a atenção uma série de cinamomos, com os seus incipientes cachos de flores violetas, extraordinariamente aromáticas.

         O fato de não poder levar relógio preocupava-me. Não se tornava fácil para mim averiguar em que momento do dia me encontrava. O sol lançara-se Já para ocidente porém ignorava quanto tempo decorrera desde que abandonara o berço. Por outro lado, desejava acostumar-me o mais cedo possível à minha nova situação, e isso obrigava-me a prescindir, quanto pudesse, da conexão auditiva com Eliseu.

         A julgar pelo caminho percorrido e pelas paragens, devia ser uma e meia da tarde quando, ao sair da única curva do caminho, avistei à esquerda um minúsculo grupo de casas. Ao fundo, e à direita, descobri também outra aldeia, maior do que a primeira, segundo me pareceu.

         Entusiasmado, acelerei o passo. Aquelas povoações tinham de ser Betfagé e Betânia, respectivamente. Conforme me ia aproximando da primeira povoação, assim o meu desencanto aumentava. Betfagé não era mais que um mísero amontoado de pequenas casas de um só piso. As paredes tinham sido levantadas com pedras - provavelmente basálticas - e os interstícios mal tapados com outras pedras e barro. A maioria dos telhados daquela meia-dúzia de moradas - à exceção de um ou dois terraços - tinham sido cobertos com ramos de  árvores, reforçadas com várias camadas de juncos e palha.

         Os arredores estavam cheios de figueiras e pequenos jardins, por onde cacarejavam galinhas em número incontável. As últimas e fortes chuva de Janeiro e Fevereiro tinham convertido as ruas num lamaçal.

         Desiludido, saí novamente do caminho, informando Eliseu da minha passagem pela mísera Betfagé e da minha iminente chegada a Betânia. A distância entre as duas aldeias não era superior a setecentos ou oitocentos metros.

         Em compensação, o local da residência de Lázaro e da sua família apresentava um aspecto muito mais sólido e esmerado. As casas, ainda que modestas, dispunham de terraços e as suas paredes - quase todas caiadas - tinham sido construídas com pedra lavrada.

         Ao entrar na aldeia, surpreendeu-me ver algumas das ruas cobertas por um pavimento feito à base de calhaus. Outras, no entanto, continuavam a ser estreitos caminhos, agora poeirentos e malcheirosos.

         O núcleo principal de Betânia estendia-se à direita do caminho que vai de Jerusalém a Jericó. Do outro lado do caminho, um grupo mais reduzido de casas apoiava-se na encosta do monte das Oliveiras. Algumas destas moradas encontravam-se praticamente encravadas na encosta da montanha. A animação na aldeia era considerável. Nas ruas, numerosos grupos de judeus andavam de um lado para outro, formando tertúlias às portas das casas ou à sombra dos alpendres de canas e ramadas, por onde trepava a hera ou que nuas e intermináveis parreiras cobriam.

         Não tardei em perceber que aquela agitação se tornara habitual em Betânia desde que o Mestre de Galiléia realizara o prodígio de ressuscitar de entre os mortos o seu amigo Lázaro. A notícia correra como rastilho de pólvora por todo o reino, chegando, mesmo, à vizinha Síria e às costas da Fenícia. Desde então, uma corrente interminável de simpatizantes, adeptos de Jesus ou amigos de Lázaro acorriam à casa do ressuscitado, apenas na ânsia de satisfazerem a sua curiosidade. Esta torrente de curiosos vira-se seriamente aumentada naqueles dias, devido à próxima celebração da Páscoa. O caminho entre Jerusalém e Betânia podia percorrer-se, com bom passo, em pouco mais de uma hora, e isso justificava aquela esgotante azáfama pelas ruas da localidade, até então tranqüila.

         Não foi muito difícil chegar a casa de Lázaro. Bastou juntar-me a um dos grupos de judeus que acabava de entrar em Betânia. Poucos minutos depois encontrava-me diante de uma casa situada nos arrabaldes do aglomerado principal da povoação. Na fachada muito bem caiada, abria-se uma porta com os lintéis e ombreiras trabalhados com pedras lavradas. Em frente da casa havia um pequeno jardim de cinco ou seis metros de comprimento por seis ou sete de largura. Nele, num banco de pedra e à sombra de uma frondosa figueira, estava sentado um homem.

         Vestia uma túnica com franjas verticais vermelhas e azuis e amplas mangas. Uns trinta homens o rodeavam. Alguns tinham-se sentado até a seus pés. Absortos, aqueles judeus escutavam e contemplavam o homem de corpo magro e cara picada pelas bexigas. Era Lázaro! Um estremecimento percorreu-me o corpo dos pés à cabeça. Tentei passar, mas era inútil. Ninguém estava disposto a ceder lugar.

         Lázaro convertera-se na atração máxima daqueles dias. Com voz cansada - como se repetisse o acontecimento pela milésima vez -, foi desfiando a sua aventura e respondendo a quantas perguntas lhe faziam.

         Olhando por cima das cabeças dos curiosos vi que se tratava de um homem relativamente jovem (possivelmente não tinha completado os quarenta anos), ainda que a palidez do rosto e umas acentuadas olheiras o envelhecessem consideravelmente.

         Poucos minutos depois, para meu desespero, Lázaro levantou-se, despedindo-se dos que ali estavam reunidos. Vi-o desaparecer na penumbra da casa, enquanto os hebreus se dispersavam, gesticulando e comentando quanto tinham visto e ouvido.

         E ali fiquei eu, pensativo e solitário, diante da pequena cerca de madeira que rodeava o jardim. Que devia fazer? Entrava na casa? Esperava? Mas o quê e para quê? Deixei-me cair na poeirenta praça que se abria diante da morada do amigo de Jesus e procurei cobrir-me com o manto. Começava a sentir o fresco do entardecer. Dei-me então conta de que nada tinha comido e que, a julgar pela posição do sol, devíamos estar naquilo a que os Israelitas chamavam a hora nona, quer dizer, as três da tarde.

         Nesse momento compreendi a razão por que Lázaro dera por terminada aquela animada tertúlia. Era o momento da refeição principal, aquela a que chamamos o jantar.

         Mas não me deixei arrastar pelo abatimento. Cavalo de Tróia tinha previsto que eu tentasse uma entrevista com Lázaro naquela quinta-feira e assim devia ser. Esperaria.

         Pensei em aproveitar aqueles minutos - enquanto a família restaurava forças - para comprar algumas provisões , mas logo desisti. Na minha precipitação para chegar a Betânia não tomara a precaução de entrar em Jerusalém e procurar trocar algumas das pepitas de ouro por moedas. Por outro lado, isso ter-me-ia atrasado consideravelmente. Para dizer a verdade, não era a fome o que me preocupava naqueles instantes. Os meus olhos, fitos na porta, estavam atentos ao possível aparecimento de algum membro da família de Lázaro.

         A intuição não me traiu. Não passara ainda meia hora quando, vindo da parte posterior da casa entrou no jardim uma mulher com o rosto coberto pelo véu tradicional. Era acompanhada por dois adolescentes. Sobre a cabeça da volumosa matrona balançava levemente um cântaro avermelhado. Ao ver-me deve ter ficado surpreendida. Eu sabia que as boas maneiras nas relações sociais judaicas não permitiam que um homem estivesse a sós com uma mulher, nem que estas sorrissem ou falassem com desconhecidos. Assim, vencendo a minha natural inclinação para a saudar ou pôr-me de pé, continuei em silêncio, deixando que passasse pela minha frente. A boa mulher desviou o olhar e apressou o passo perdendo-se num dos caminhos que desembocavam na praça .

         Suponho que deve ter notado qualquer coisa estranha na minha presença porque, minutos depois, um dos rapazes voltava em corrida, entrando em casa como um meteoro. Imediatamente, apareceram à entrada do jardim dois homens e o rapazinho, que, sem dúvida, os alertara quanto àquele estrangeiro que continuava sentado junto das brancas estacas da cerca.

         Pus-me de pé e esperei. Os homens, envoltos em grossos mantos cor de canela, aproximaram-se de mim.

         - Que procuras, irmão? - perguntou-me o que parecia ser o mais velho.

         O tom da voz dele tranquilizou-me. Havia uma grande suavidade no seu semblante.

         - Chamo-me Jasão e sou da Tessalónica. Estou aqui porque procuro o rabi da Galiléia...

         - Não está aqui.

         Fingi grande contrariedade e, olhando bem nos olhos do meu interlocutor, perguntei com veemência:

         - Onde posso encontrá-lo?

         - Para que o queres?

         - Sou estrangeiro, mas ouvi falar dele de Antioquia a Corfu. Percorri muitas léguas porque sou homem a quem não satisfazem os deuses romanos nem gregos e porque desejaria conhecer a nova doutrina do rabi a que chamam Jesus.

         - Porque o procuras aqui em frente da casa de Lázaro?

         - Desde a minha chegada às costas de Tiro que não ouvi falar de outra coisa que não fosse o último prodígio do rabi, dizem que devolveu à vida o seu amigo Lázaro, morto cinco dias antes...

         - Eram três dias aqueles que o meu senhor tinha de sepultado, - corrigiu-me o servo.

         - Logo, é verdade - acrescentei,mostrando grande alegria.

         Antes que pudesse intervir de novo, supliquei-lhe para ser recebido por Lázaro.

         - Talvez ele saiba onde posso encontrar o Mestre...

         Os homens trocaram entre si um rápido olhar.

         - Espere aqui - concluíram. - O amo ainda não está recomposto de todo...

         Concordei, enquanto os servos desapareciam no interior da casa.

         Ante a possibilidade iminente de uma primeira entrevista com Lázaro, aproveitei aqueles segundos em que estive sozinho para informar o módulo de quanto se passava.

         Devia ter causado boa impressão aos criados de Lázaro. Poucos minutos depois era convidado a entrar em casa. Atravessei o limiar com uma mistura de timidez e emoção. O que eu imaginara como a fachada da casa era, na realidade, a parede de um átrio ou pequeno pátio interior. A casa, pelo que pude observar, era muito mais extensa do que eu tinha imaginado. No centro deste átrio retangular, e a céu aberto, abria-se um tanque com cerca de três metros de lado.           O piso, coberto de ladrilhos vermelhos, parecia ser ligeiramente inclinado e com estrias, de forma a que as águas pluviais pudessem cair dos beirais dos edifícios situados à esquerda e à direita até ao recinto central. Ambas as construções tinham a mesma altura da parede da fachada: uns quatro metros, aproximadamente. Logo soube que a direita era, na realidade uma cavalariça e que a da esquerda estava destinada a armazém de alfaias agrícolas, arreios e relhas de arado.

         No fundo do pátio, a uns sete metros do portão por onde eu tinha entrado abria-se outra porta, quase em frente da principal. Ali me esperava o homem que tinha visto uma hora antes junto da figueira. Perto dele, três judeus todos eles envoltos até aos pés numa indumentária de cores vivas. Tal como observara em muitos peregrinos galileus, usavam uma faixa de pano enrolada em volta da cabeça, deixando cair uma das pontas sobre a orelha esquerda. Tinham todos uma barba cerrada, mas o bigode perfeitamente rapado. Lázaro, em contrapartida,

Mantinha a cabeça descoberta, com um cabelo liso, curto e prematuramente encanecido.

         Os servos convidaram-me a que me aproximasse do seu senhor. Ao chegar a esse ponto, pouco me faltou para lhes estender a mão. Lázaro e os que o acompanhavam permaneceram imóveis, examinando-me dos pés à cabeça. Foi um momento difícil. Mais tarde compreenderia que aquela frieza era justificada. Desde a sua ressurreição, os inimigos de Jesus - em especial os fariseus e outros membros destacados do Grande Sinédrio - vinham demonstrando uma preocupante hostilidade contra o vizinho de Betânia. Se o Nazareno, só por si, Já representava uma ameaça para os sacerdotes de Jerusalém, Lázaro - com o seu

Regresso à vida - agitara os ânimos, erigindo-se como prova de exceção do poder do Mestre. Era lógico, portanto, que a família desconfiasse de tudo e de todos.

         Aquela tensa situação se veria aliviada - felizmente para mim - quando os meus anfitriões notaram a dureza da minha pronúncia, que me denunciava como estrangeiro.

         - Procuravas-me? - interveio Lázaro, com gesto grave.

         - Venho de terras estranhas, em busca do rabi de Nazaré, de quem contam que é homem sábio e justo. Ao desembarcar soube que és seu amigo. Por isso estou aqui em busca da tua compreensão...

         Lázaro não respondeu. Com um gesto convidou-me a acompanhá-lo.

         E ao transpor aquela segunda porta encontrei-me num espaçoso pátio com colunas, igualmente aberto, mas quadrangular. Aquela, sem dúvida, era a parte principal da casa. Um total de catorze colunas de pedra de pouco mais de dois metros de altura sustentavam um segundo piso, todo ele construído de tijolo. A fachada inferior da casa (situada por baixo do pórtico) fora erguida com grandes pedras retangulares. Contei sete portas, todas elas de sólida madeira cor de cinza. No centro do pátio fora escavada uma segunda cisterna. Dos seus quatro vértices partiam outros tantos regos de pedra, por onde eram recolhidas as águas da chuva. A piscina estava praticamente cheia, com uma água de cor duvidosa. Quase metade do pátio se encontrava tapado com uma cobertura de canas entrelaçadas, onde se apoiavam os rebentos de duas parreiras trazidas pelo pai de Lázaro da distante Corinto, nas costas da Grécia.

         O fruto desta videira - de uma casta muito apreciada – tinha a particularidade de dar uvas sem sementes. Durante a minha passagem por Betânia tive a oportunidade de saber que Jesus de Nazaré sentia uma especial predileção pelos frutos daquelas parreiras.

         Lázaro e os seus amigos atravessaram o empedrado piso do pátio e dirigiram-se a uma das portas da esquerda. Ao passar por baixo do pórtico reparei em quatro mulheres, sentadas num dos bancos de pedra encostados a cada uma das quatro fachadas existentes por baixo do claustro. Todas elas vestiam compridas túnicas de cores claras - geralmente esverdeadas - com as cabeças cobertas por grandes lenços. No entanto, nenhuma escondia o rosto.

         Conservarei sempre uma grata e inesquecível recordação daquela sala retangular a que me levara o amigo de Jesus. Ali decorreriam alguns dos momentos mais agradáveis da minha incursão em Betânia... Tratava-se da sala familiar. Uma espécie de salão-casa de jantar, de uns oito metros de comprimento por quatro e meio de largura.

         Três janelas altas e estreitas, abertas na parede oposta à porta, mal deixavam entrar a claridade. Uma branca mesa de pinho presidia ao centro da quadra, cujo soalho fora rebocado com argamassa. Num dos cantos, uns troncos largavam fagulhas, alimentados pela forte tiragem da lareira. O fogão cumpria uma dupla tarefa. Por um lado, servir de aquecimento nos rudes meses de Inverno e, por outro permitir a preparação dos alimentos. Para tal, os proprietários tinham levantado a pequena distância da chaminé propriamente dita, um pequeno muro circular com aproximadamente trinta centímetros de altura, formado por quatro camadas em que alternavam o barro e o entulho.

         Dentro, entre as brasas, eram depositadas as panelas, bem como umas travessas convexas que serviam para cozer tortas feitas com massa sem fermento. Quando se desejava cozinhar sem a aplicação direta do fogo, as mulheres depositavam umas pedras lisas em cima do lume. Uma vez aquecidas, as brasas eram afastadas e o guisado era feito em cima das pedras.

         Em quase todas as paredes tinham sido dispostos armários e prateleiras de madeira, em que alinhavam vasos, travessas, terrinas e outras louças, na sua maioria de barro ou de bronze.

         Na parede oposta ao fogão, e enterradas no soalho, distinguiam-se duas grandes e barrigudas talhas, com uma tonalidade vermelho-acastanhada. Atingiam pouco mais de um metro de altura e, segundo me comentaria Marta, dias depois, eram destinadas ao consumo diário de trigo e de vinho. Uma delas, em especial, era tida em grande apreço por Lázaro e sua família. Tinha sido obtida muitos anos atrás, nas cercanias da cidade de Hébron, e pertencera - segundo o selo real que apresentava numa das suas quatro asas – aos vinhedos reais. Numa minuciosa inspeção posterior, pude corroborar que, efetivamente, a talha em questão apresentava uma gravação superior com as letras Imlk, que significava pertencente ao rei. A sua capacidade – sensivelmente inferior à da talha destinada ao trigo - era de dois batos israelitas. Mantinha-se sempre hermeticamente fechada com uma tampa de barro, segura, por sua vez, com faixas de pano.

         O teto do aposento, situado a dois metros, era atravessado por seis vigas de madeira, provavelmente de coníferas, muito abundantes nos arredores. Outras partes cobertas da casa, com exceção dos terraços, apresentavam uma construção menos sólida. A cavalariça e o armazém das alfaias do campo, por exemplo, tinham sido cobertas com materiais muito combustíveis: palha misturada com barro e cal. Este tipo de cobertura - segundo me explicou Lázaro - tinha um grande inconveniente. Sempre que chovia era necessário alisá-lo de novo, com o fim de consolidar o material da superfície e evitar as goteiras. Para isso valiam-se de pequenos rolos de pedra, com cerca de sessenta centímetros de comprimento.

         Lázaro e os restantes hebreus dispuseram-se em volta do crepitante fogão e sentaram-se em cima de algumas das peles de cabra que atapetavam o chão. Eu fiz o mesmo e preparei-me para o diálogo.

         Naquele momento, entrou na sala uma mulher. Trazia na mão esquerda uma frágil apara acesa. Sem dizer palavra, foi percorrendo as seis candeias de barro que estavam suspensas ao longo das brancas paredes e que continham azeite. Depois, pegou numa lanterna - também de argila - e introduziu a chama do improvisado archote pela boca do recipiente bojudo. Logo saltou uma chamazinha amarelenta. A mulher, com passada diligente, colocou aquela lanterna portátil na extremidade da mesa mais próxima do grupo. Depois, aproximou-se da lareira e atirou para as brasas os restos da apara e duas bolinhas de aspecto resinoso. As cápsulas de canafístula - um perfume empregue com freqüência entre os hebreus - lançaram como que uma exalação, invadindo o recinto um aroma suave e duradouro.

         De repente, quase sem crepúsculo, a escuridão encheu aquele histórico aposento.

         - Rogamos-te que desculpes o nosso receio - solicitou um dos amigos de Lázaro. - Desde que o sumo sacerdote José ben Caifás e muitos dos archiereis do Sinédrio concordaram em pôr termo à vida do Mestre, todas as nossas precauções são poucas...

         - Sabemos que os betusianos e esbirros de Ben Bebayz têm ordens para prender Jesus - afirmou outro dos participantes na reunião.A festa da Páscoa está perto e os nossos informantes garantem que os bastões e cacetes da guarda do Grande Sinédrio estarão dispostos a cair sobre o Rabi. Esperam apenas uma oportunidade.

         - Para quê? - intervim, aparentando vivos desejos de compreender. - O Mestre, segundo entendi, é homem de paz. Nunca fez mal a ninguém...

         Lázaro deve ter notado uma especial vibração na minha voz. Aquele foi o primeiro passo para a definitiva abertura do seu coração.

         - Tu és grego - respondeu o ressuscitado, dando-me a entender que eu ignorava muitas das circunstâncias que rodeavam o Rabi da Galiléia. - Não sei se conheces a profecia que afaga e contempla o nosso povo desde tempos remotos. Um dia, nascerá  em Israel um messias que tornará  os homens livres. Pois bem, a casta sacerdotal acredita e, fez o povo acreditar, que esse salvador terá  de ser, em primeiro lugar e principalmente, um sumo sacerdote.

         - O Messias terá  de ser membro do Grande Sinédrio?

         - É o que eles dizem. Os longos anos de domínio estrangeiro fortaleceram a esperança nesse messias, convertendo-o num chefe político que liberte Israel do jugo romano. Os sacerdotes sabem que o Mestre prega um outro tipo de libertação e por isso o consideram um impostor. Isto Já seria bastante para acabar com a vida de Jesus. Mas há mais...

         Lázaro continuava a observar-me com os olhos brilhantes de uma progressiva e incontrolável cólera.

         - Esses sepulcros caiados - como o Mestre lhes chamou não perdoam que Jesus os tenha ridicularizado publicamente. É a primeira vez em muitos anos que alguém os desmascara, minando a sua influência no povo simples. Jesus, com as suas palavras e os seus milagres, arrasta multidões e isto multiplica a sua inveja e rancor. Por isso juraram matá-lo...

         - Mas não o conseguirão - exclamou um outro hebreu.

         Interroguei Lázaro com o olhar. Que queriam dizer aquelas vigorosas palavras?

         O amigo amado de Jesus desviou a conversa.

         - Por favor, desculpa a nossa indelicadeza. A julgar pela poeira das tuas sandálias e pela fadiga do teu rosto, deves ter caminhado muito. Suplico-te - como irmão nosso - que aceites a minha hospitalidade...

         Aquela brusca reviravolta na conduta de Lázaro desconcertou-me, mas nada disse.

         O homem deixou a quadra, voltando poucos minutos depois na companhia de uma mulher.

         - Marta, minha irmã mais velha - explicou Lázaro, referindo-se à hebréia que o acompanhava -, te lavará os pés...

         O meu coração bateu com força. E, sem me aperceber do erro que estava cometendo, levantei-me. O resto do grupo continuou sentado. Era tarde de mais para emendar. Procurei serenar os meus nervos. Não podia negar-me às delicadezas do meu anfitrião. Teria sido considerado como um insulto ao arraigado sentido oriental da hospitalidade. Assim, colocando as minhas mãos nos ombros do ressuscitado, sorri-lhe, agradecendo a sua delicadeza o melhor que soube.

         Quase não tive tempo de reparar em Marta, a senhora, pois é este o significado do referido nome. Antes de o irmão ter acabado de falar, Já ela atravessara o limiar da sala, afastando-se no pátio de colunas.

         Lázaro pediu-me que me sentasse num dos pequenos e dispersos tamboretes de quatro pernas e assento de vime que rodeavam a mesa. Cinco minutos depois, novamente a figura de Marta se recortava na porta. Trazia nas mãos um vaso vazio e do antebraço esquerdo pendia um longo pano branco. Acompanhava-o um menino com uma jarra de bronze cheia de água.

         Como se se tratasse do hábito mais rotineiro, a irmã mais velha de Lázaro pousou a vasilha a meus pés, cingindo-se com o que hoje chamaríamos toalha. Apressei-me a desatar os atilhos de couro das minhas sandálias, enquanto a mulher despejava parte do conteúdo da jarra no vaso. Ao introduzir os pés no largo recipiente de barro experimentei uma agradável sensação. A água estava quente!

         - Obrigado... - murmurei. - Muito obrigado...

         Marta levantou o rosto e sorriu, deixando a descoberto um fio de ouro que servia para prender alguns dentes postiços.

         Aquele era outro sinal inequívoco de abastada posição da família.

         Enquanto a mulher procedia à lavagem dos meus doridos pés (as quatro voltas dos cordões tinham deixado outras tantas marcas avermelhadas na pele), procurei observá-la demoradamente. Sem dúvida, Marta era mais velha que Lázaro. Aparentava ter entre quarenta e cinco e cinqüenta anos. As mãos, fortes e calejadas, refletiam uma intensa e longa vida de trabalho. Era de uma estatura muito semelhante à de seu irmão - cerca de 1,60 m -, mais gorda e com um rosto redondo e queimado. Deduzi que o cabelo - coberto por um véu preto que lhe caía pelas costas - devia ser negro, tal como os olhos e as sobrancelhas.

         Uma vez terminada a lavagem, Marta envolveu-me os pés no lenço com que cingia a cintura e foi pressionando o suave tecido (provavelmente de algodão) até que ambas as extremidades ficassem completamente secas. Pegou nas sandálias e, ante a minha surpresa, entregou-as ao rapazinho. Fiquei em silêncio, imaginando que a boa mulher mandara limpá-las.

         Quando pensava que a operação tinha terminado, Marta rogou-me que arregaçasse as mangas da minha túnica. Obedeci e, com extrema delicadeza, agarrou-me as mãos, pondo-as por cima do vaso.

         Sobre elas verteu a água que restava na jarra, convidando-me a que as esfregasse energicamente. Por fim, secou-as, pondo de lado o vaso. Nesse instante, a senhora da casa - que continuava ajoelhada na minha frente - levou a mão a um fino cordão que lhe rodeava o pescoço, extraindo de entre os seios uma bolsinha de pano, de cor azeviche. Abriu-a, despejando o conteúdo na palma da mão esquerda. Tratava-se de um punhado de suaves e diminutos grânulos - em forma de lágrimas que cintilavam à luz das candeias. Marta esfregou aquela substância, de aspecto gomo-resinoso, em cada um dos meus pés. Depois, fez o mesmo com as mãos, devolvendo o aromático produto à bolsa.

         Não pude conter a minha curiosidade e perguntei-lhe o nome daquele perfume.

         - É mirra.

         Nos dias que se seguiram à minha saída do módulo, pude saber que muitas das mulheres israelitas - em especial as das classes média e alta - traziam por baixo da túnica, tal como Marta, aquelas bolsinhas de mirra. Aquilo proporcionava-lhes uma permanente e agradabilíssima fragrância. Tanto a mirra como o aloés, a erva do bálsamo e outras resinas aromáticas eram consumidas com grande profusão pelo povo judeu, que as utilizava não só para aromatizar os templos mas também na higiene pessoal, no lar e mesmo no leito.

         Marta e o menino abandonaram a quadra e eu, agradecido e aliviado, Nas minhas indagações durante aqueles dias na Palestina verifiquei que embora muitas destas plantas que serviam de base à fabricação de perfumes se cultivassem em solo israelita, a maioria provinha, originariamente, de outros países. O incenso, por exemplo, que se obtinha da bosvélia, peregrinara desde a Arábia e Somália. E o mesmo acontecera com a commiphora myrrha ou  árvore da mirra. O aloés, por seu lado, viera da ilha de Socotor , na embocadura do mar Vermelho.

         Quanto ao apreciado bálsamo, cuja erva é conhecida entre os botânicos como commiphora opobalsamum, segundo parece, em princípio, foi originária da Arábia. No entanto, como muito bem afirma Ezequiel (27,17), Judéia e Israel forneciam a Tiro perfumes, mel, azeite e bálsamo. A explicação estava num dos livros do historiador judeu romanizado, Flávio Josefo. As sementes da erva do bálsamo tinham chegado até à Palestina em tempos do rei Salomão e foram segundo Josefo, um dos muitos presentes da mítica rainha do Sabá  a Salomão. No dia seguinte, sexta-feira, 31 de Março, eu mesmo teria oportunidade de comprovar como Jesus entregava a Marta e a Maria uma preciosa oferta: ervas de

bálsamo, provenientes das férteis planícies de Jericó. O Papai Noel me confirmaria igualmente que, no ano 60, Tito Vespasiano ordenaria que fossem protegidas com uma guarda especial as plantações de bálsamo de Jericó. Mil anos mais tarde, os cruzados que entraram em Israel não encontraram rasto algum de tão valiosa planta. Os Turcos tinham talado grande parte das árvores, destruindo, também, os arbustos que eram cultivados nas proximidades do rio Jordão . (N. do M. )

         Naquela noite, no meu último contato com o módulo, Eliseu esclareceu-me o significado de archiereis. Tratava-se de um numeroso grupo de sacerdote-chefes que ocupavam cargos permanentes no Templo e que, em virtude do referido cargo, tinham voz no Sinédrio. Papai Noel trouxe documentação complementar (Atos dos Apóstolos, 4,5-6, e Antiguidades, de Josefo, XX 8,11/189 sgts.), na qual se especifica que o chefe supremo do Templo e tesoureiro eram membros do Sinédrio. O número mínimo deste grupo era de um (sumo sacerdote) mais um (chefe supremo do Templo) mais um (guardião do Templo, sacerdote) mais três (tesoureiros). Quer dizer, seis. A este número mínimo teriam de acrescentar-se os sumos sacerdotes cessantes e os sacerdotes guardiões e tesoureiros. O Sinédrio, portanto, era formado por setenta e um membros.

         O computador central do módulo confirmou o nome de Ben Belay como um dos chefes, do Templo, com o cargo concreto de esbirro (escrito rabínico Sheqalim, V, 1-2). Este personagem estava encarregue, entre outros misteres, de açoitar, por exemplo, os sacerdotes que tentavam fazer trapaças no sorteio das funções do culto. Outra das suas funções era a fabricação e colocação das mechas, que se confeccionavam com os calções e cinturões velhos dos sacerdotes. (N. do M.)

         Juntei-me ao grupo. Lázaro atiçava o fogo. Na minha mente fervilhavam tantas perguntas que nem soube por onde reatar a conversa. Desejava conhecer a doutrina e a personalidade do Mestre da Galiléia, mas também sentia uma aguda curiosidade por aquele exemplar único: um hebreu devolvido à vida, depois de morto e enterrado. Como também não podia desperdiçar aquela oportunidade, que não podia ser melhor - programada, além do mais, no esquema de trabalho do general Curtiss -, roguei ao meu amável anfitrião que me desfizesse algumas dúvidas em torno do conhecido milagre de Jesus. Na minha qualidade de médico, e apesar dos textos evangélicos e dos numerosos comentários que recolhera até àquele momento, era para mim muito difícil imaginar sequer que aquele homem tivesse sofrido o que hoje conhecemos por morte clínica e que, para cúmulo, vários dias depois do seu falecimento, outro homem o tivesse arrebatado ao sepulcro.

         - Que deseja saber? - respondeu Lázaro, sem deixar de trabalhar no fogão.

Mesmo com o perigo de parecer impertinente, coloquei a minha primeira dúvida com a astúcia suficiente para provocar a loquacidade dos que ali estavam reunidos.

         - Não podia acontecer que estivesses dormindo?

         Lázaro esqueceu a chaminé e, olhando-me com dureza, replicou:

         - É melhor que sejam eles a responder a essa pergunta...

         Os seus amigos ficaram em silêncio. Por um momento, cheguei a pensar que tinha forçado a situação. Mas, finalmente, um deles, em tom compreensivo, agarrou o fio da conversa.

         - É natural que duvides. Tu, como muitos outros, não estavas aqui quando, nos últimos dias de Fevereiro, o nosso irmão Lázaro adoeceu com grandes febres. Apesar dos cuidados de suas irmãs e das prescrições dos sangradores vindos de Jerusalém, o mal foi aumentando sempre. A sua fraqueza chegou a tal extremo que não era capaz de segurar nas mãos uma escudela de leite. Nem sequer o médico do templo, Ben Ajiat, pôde dar-lhe remédio. O Mestre não se encontrava na Judéia e a família, à vista de tão grave doença, tomou a decisão de enviar um mensageiro para lhe rogar que sarasse o seu amigo. Contudo, poucas horas depois da partida do cavaleiro, Lázaro morreu.

         Eliseu confirmaria horas depois que segundo uma das duas listas contidas no escrito rabínico Sheqalim V, 1-2, o nome de Ben Ajia correspondia, com efeito, a um dos chefes do Templo, com o cargo específico de médico. O computador deu a seguinte informação. Encarregado dos doentes do ventre. A alimentação dos sacerdotes era extraordinariamente abundante em carnes, não podendo beber senão água. Tudo isto originava freqüentes doenças gástricas. Papai Noel remetia-nos para uma mais completa informação, para o manuscrito de Erfurt, atualmente em Berlim. Dois dias depois ao assistir à desconcertante entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, tive oportunidade de comprovar como na chamada parte baixa da cidade, uma das profissões artesanais era precisamente a de médico. Os sangradores, a que os companheiros de Lázaro se referiam, encontravam-se concentrados numa das ruas - aliás, tal como os restantes umman ou artesãos - e ali desempenhavam o seu ofício, que ia da cirurgia à circuncisão, passando pela receita de ervas medicinais, extração de dentes e, até, o corte de cabelo e barba. (N. do M.)

         - Recordai-vos da data? - intervim.

         - Como esquecer o dia do falecimento de um amigo? O luto caiu nesta casa nas últimas horas da tarde de domingo, cinco de Março.

         - Isso significa - e interrompi novamente o meu interlocutor – que Lázaro Já tinha morrido quando o mensageiro encontrou Jesus...

         - Efetivamente. O Rabi encontrava-se então na cidade de Bethabara, em Pereiat, e, embora o emissário cavalgasse toda a noite, Jesus só recebeu a notícia no dia seguinte, segunda-feira.

         - Há qualquer coisa que não entendo. O mensageiro tinha ordem de rogar ao Mestre que acorresse a Betânia?

         - Não. As irmãs de Lázaro têm muita fé no Rabi, tanta que sabiam não ser necessária a sua presença. Elas estavam conscientes de que Jesus se encontrava pregando e que bastaria apenas uma palavra Sua para curar o irmão. Por isso, ao morrer Lázaro, pouco depois da partida do mensageiro, toda as pessoas compreendeu e aceitou que era demasiado tarde.

         O que se tornou incompreensível, mesmo para Marta e Maria - prosseguiu o meu narrador com voz triste, pela triste recordação daqueles momentos -, foi a resposta de Jesus ao emissário.

         Quando este regressou a Betânia na manhã de terça-feira, garantiu uma e outra vez ter ouvido dizer ao Rabi que aquela doença não conduzia à morte.

         Todos, como te disse, crentes ou não, ficamos desconcertados. Ninguém conseguia compreender por que razão Jesus, o grande amigo da família, não dava sinais de vida. Ao saberem da morte de Lázaro, muitos dos seus familiares e

Amigos das aldeias próximas, bem como de Jerusalém, puseram-se a caminho para acompanharem as irmãs em tão triste momento. Cumprida a primeira parte das normas do luto, o nosso amigo foi sepultado junto de seus pais, em túmulo familiar, no fim do jardim.

         - Um momento - intervim de novo -, Lázaro foi enterrado aqui, na sua própria casa?

         - Sim, no sepulcro dos seus maiores.

         Ainda que a minha pergunta pudesse parecer de pouco interesse, encerrava para mim um indiscutível valor. Segundo todos os textos bíblicos por mim consultados antes da Operação Cavalo de Tróia, o sepulcro de Lázaro fora localizado pelos comentaristas fora da aldeia e, concretamente, na encosta oriental do monte das Oliveiras. Na manhã seguinte, a irmã mais velha de Lázaro, a pedido meu, me conduziria, à gruta natural que se abria ao pé de um penhasco de dez metros de altura, a pouco mais de quatrocentos metros das traseiras da casa e ao fundo do frondoso jardim que a herdade formava. Aquela verificação desfez as minhas dúvidas, fortalecendo a minha primeira impressão sobre a desafogada situação econômica da família, que herdara de seus pais, amplas zonas de vinhedos e de olivais. O fato indiscutível de dispor até, de sepulcro familiar dentro do recinto de sua casa, falava, só por si, da riqueza dos irmãos.

         - Em que dia foi sepultado Lázaro? Na quinta-feira, nove de Março, pela manhã. Ao passarem os três dias estabelecidos pela lei, a família e amigos depositamos os restos mortais de Lázaro num dos leitos de pedra escavados na gruta e fechamos a abertura com a laje...

         Os que me esclareciam referiram-se depois à difícil situação que atravessavam as irmãs do falecido. Apesar dos numerosos amigos e parentes que tinham vindo consolá-las, Maria e a senhora encontravam-se mergulhadas numa dor profunda. Alguma coisa, no entanto, as diferenciava, enquanto Maria parecia ter perdido toda a esperança, Marta continuou aferrada à sua idéia, o Mestre tinha de aparecer, de um momento para o outro. E, embora não soubesse muito bem o que o Rabi podia fazer por aquela altura, com o irmão morto e amortalhado, a senhora viveu os quase quatro dias que se seguiram com o fervoroso desejo de ver aparecer Jesus. A sua fé no Mestre era tal que, naquela mesma manhã de quinta-feira, quando o túmulo foi fechado, pediu a uma vizinha de Betânia que se pusesse no alto de uma colina, a leste da aldeia, com o fim de vigiar o caminho que vai dar a Jericó e pelo qual teria de chegar o Rabi de Galiléia. Poucas horas depois, a jovem entrou na casa de Lázaro avisando Marta, em segredo, da iminente chegada de Cristo e dos seus discípulos.

         Pouco depois do meio-dia, a senhora foi ao encontro do Nazareno no alto da colina. Marta, ao ver Jesus, lançou-se a seus pés, exprimindo a sua mágoa, ao mesmo tempo que exclamava entre grandes gritos:

         - Mestre, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!

         Jesus inclinou-se então e depois de a levantar disse-lhe:

         - Tenha fé e teu irmão ressuscitará.

         E Marta, que não se atrevera a criticar a aparentemente incompreensível atuação do Mestre, respondeu:

         - Sei que ressuscitará na ressurreição do último dia mas agora acredito que nosso Pai Te dará quanto lhe peças.

         O Rabi pousou as mãos nos ombros da mulher e, olhando-a fixamente nos olhos, disse-lhe:

         - Eu sou a ressurreição e a vida!

         As lágrimas continuavam a correr pela face da irmã de Lázaro e Jesus prosseguiu:

         - Aquele que creia em Mim viverá, mesmo que tenha morrido. Em verdade te digo que quem viva acreditando em Mim, nunca morrerá  realmente. Marta, acreditas nisto?

         A mulher fez com a cabeça um aceno afirmativo e, depois de enxugar os olhos, acrescentou:

         - Sim, há muito tempo que acredito que és o Libertador, o Filho de Deus vivo... o que tem de vir a este mundo.

         Os companheiros de Lázaro continuaram o seu relato, expondo a estranheza do Mestre por não ver Maria junto de sua irmã. A senhora, que recuperara Já o seu comportamento habitual, explicou a Jesus o profundo e doloroso transe que Maria atravessava. E o Nazareno pediu-lhe que a fosse avisar.

         Marta entrou novamente em casa e, chamando sua irmã de parte, deu-lhe a notícia da chegada do Mestre.

         Os meus interlocutores deviam ter notado a estranheza que eu demonstrava perante esta atitude da irmã mais velha de Lázaro e, antecipando-se aos meus pensamentos, esclareceram:

         - Entre as numerosas pessoas que tinham acorrido a esta casa, contavam-se alguns inimigos de Jesus; Marta, procurando evitar qualquer incidente, considerou oportuno não falar em público da recente chegada a Betânia do Rabi. Mais ainda: a sua intenção foi permanecer em casa com os amigos e familiares, enquanto Maria corria à procura de Jesus.

         Mas a impetuosa saída da irmã mais nova alarmou os presentes, que a seguiram, pensando que Maria se dirigia ao túmulo do seu irmão. Quando Maria chegou junto do Mestre, igualmente se lançou a seus pés, exclamando:

         - Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!

         O grupo, ao ver Jesus com as duas irmãs, permaneceu a uma prudente distância. Naqueles momentos, enquanto o Rabi as consolava, muitos dos amigos e parentes recomeçaram as suas lamentações e gemidos.

         O Sol começara Já a cair para Oeste quando Jesus perguntou a Marta e a Maria:

         - Onde está?

         A senhora respondeu-lhe:

         - Vem e verás.

         E as irmãs conduziram-no para a herdade, atravessando o jardim. Quando estavam em frente do grande penhasco, Marta indicou-lhe a laje que encerrava o sepulcro familiar, enquanto Maria - em nova crise de lágrimas - se ajoelhava aos pés do Galileu, soluçando e enterrando o rosto na terra. Fez-se um grande silêncio, e os que estávamos perto do Rabi vimos como os Seus olhos se enchiam de lágrimas, que Lhe corriam pela face. Um dos amigos de Jesus, ao vê-lo chorar, exclamou:

         - Vede como lhe queria. Aquele que abriu os olhos aos cegos, não poderia

impedir que este homem morresse?

         Mas outros dos ali reunidos, implacáveis detratores do Mestre, aproveitaram aquela oportunidade para ridicularizar Jesus, dizendo:

         - Se tinha em tão alta estima este homem, porque não salvou o Seu amigo?

De que serve curar estranhos na Galiléia se não pode salvar os que ama?

         Jesus, no entanto, permaneceu em silêncio. Então, levantando Maria, estreitou-a entre os braços, aliviando a sua aflição.

         - Que hora era? - perguntei.

         - Faltava muito pouco para a nona. Naquele momento, o Rabi, dirigindo-se a alguns dos Seus discípulos, ordenou-lhes:

         - Levantai a pedra!

         Mas Marta, avançando para o Mestre, perguntou-Lhe:

         - Devemos mover a pedra de lado?

         Interroguei os amigos de Lázaro sobre o significado daquela pergunta da senhora. Sinceramente, não conseguia compreender. Que quisera ela dizer?

         - Marta, tal como os que ali estavam presentes explicaram-me – ela pensou que Jesus desejava ver Lázaro pela última vez. Ainda que todos acreditássemos na ressurreição dos mortos, ninguém (nem sequer Marta) imaginou quais eram, na verdade, as verdadeiras intenções do Rabi.

         Por isso, a senhora acreditou que seria suficiente retirar parcialmente a lousa. Desta forma, o Mestre teria podido inclinar-se para a sepultura e contemplar o cadáver do Seu amigo.

         A irmã mais velha de Lázaro, no entanto, tentou persuadir Jesus, dizendo-lhe:

         - Meu irmão morreu Já há quatro dias... a decomposição do corpo principiou...

         Os cinco homens que se preparavam para deslocar a pedra olharam Marta, sem saberem que fazer. Mas Jesus, que se colocara na frente deles, e num tom que não dava lugar a dúvidas, censurou a lógica insinuação da senhora.

         - Não lhes afirmei desde o princípio que esta doença não é mortal? Não vim cumprir a Minha promessa? E depois de vos ter visto, não disse que, se acreditásseis, veríeis a glória de Deus? Porque duvidais? De quanto tempo necessitais para crer e obedecer?

         Marta olhou fixamente para o Mestre e, num dos seus típicos impulsos, animou os apóstolos e vizinhos de Betânia, que se tinham oferecido para empurrar a pedra, a que abrissem a caverna. O pesado silêncio foi rasgado com o gemido da lousa circular ao roçar pela rocha e pelos entrecortados gritos de encorajamento que proferiam os voluntários, no seu esforço em afastar para o lado o pesado obstáculo. A quarta ou quinta tentativa, a boca do túmulo ficou a descoberto.

         O nosso Rabi levantou então os olhos para o azul daquele entardecer e exclamou, de forma a que todos pudéssemos ouvi-lo:

         - Pai... agradeço-te que tenhas ouvido a minha súplica. Sei que sempre Me escutas, mas, por causa dos que estão junto de Mim, falo contigo para que acreditem que Me enviaste ao Mundo e saibam que intervéns Comigo no ato que nos preparamos para realizar.

         E, logo a seguir, pondo o joelho esquerdo em terra e assomando-se à galeria que conduz à câmara funerária, gritou com força:

         - Lázaro!...

         - Aproxima-te de mim!

         O eco ressoou no interior da caverna, enquanto as quarenta ou cinqüenta pessoas que ali estavam sentiam um calafrio. Alguns mais próximos do Mestre meteram-se no túmulo e distinguiram, na penumbra do fosso, a forma de Lázaro, fortemente envolvido em faixas de linho branco e repousando no nicho inferior direito do sepulcro.

         Maria, assustada, abraçou-se a sua irmã. Nunca um silêncio foi tão dramático. Durante um breve espaço de tempo, todos suspendemos a respiração.

Embora muitos de nós tivéssemos sido testemunhas de outros prodígios do Rabi, a palpável e crua realidade daqueles quatro dias de enterramento fazia-nos duvidar.

         Que ia acontecer?

         Aquele insólito silêncio propagara-se até aos arredores. As primeiras e familiares andorinhas tinham desaparecido do céu e até o forte vento, tão próprio desta época, serenara inexplicavelmente.

         De repente, o Mestre deu um passo atrás. Pelas escadas que conduziam à boca da caverna apareceu um vulto. Maria lançou um grito dilacerante e caiu, desmaiada. Instintivamente, todos recuamos.

         Um homem coberto por um lençol lutava para sair. Mas as mãos e os pés estavam presos com as faixas e isto dificultava-lhe a marcha. Da surpresa passou-se ao terror e a maioria dos homens e mulheres fugiram pelo jardim, entre gritos e quedas.

         Era Lázaro!

         Com muita dificuldade, apoiando-se nos cotovelos e nas mãos, aquele vulto foi-se arrastando pelas úmidas escadas de pedra, até chegar aos últimos degraus. Aliás se deteve, ofegante, enquanto um suor frio nos escorria pelo rosto.

         Mas ninguém - nem sequer Marta - se atreveu a dar um único passo para o ressuscitado. dirigindo-se à senhora, Jesus compreendeu o nosso pânico, e ordenou que lhe tirassem as faixas e o deixassem andar.

         Com os olhos marejados de lágrimas, Marta aproximou-se valentemente, começando por desatar, primeiro, as faixas que lhe oprimiam os pulsos, e a seguir, sem esperar para lhe soltar as ataduras dos tornozelos, rasgou o lençol e deixou a descoberto o rosto de seu irmão. Tinha os olhos muito abertos e a face branca como a cal.

         Uma vez liberto, Lázaro saudou o Mestre e os Seus discípulos, interrogando sua irmã Marta sobre o significado daquelas roupas funerárias e por que motivo tinha acordado no jardim. Enquanto a senhora lhe falava da sua morte, enterro e ressurreição, Jesus deu meia volta e, com a sua habitual serenidade inclinou-se, levantando o corpo de Maria.

 

         A moça ainda não tinha recuperado os sentidos e o Mestre esquecendo-se por completo de Lázaro e de nós, levou-a nos braços até casa.

         Pouco depois, os três irmãos prostraram-se ante o Rabi, agradecendo-lhe quanto fizera. Mas Jesus, agarrando as mãos de Lázaro, levantou-o, dizendo:

         - Meu filho, o que te sucedeu também acontecerá  a todos aqueles que creiam no Evangelho, mas ressuscitarão sob forma mais gloriosa. Tu serás a testemunha viva da verdade que proclamei: Eu sou a ressurreição e a vida. Vamos agora tomar alimento para os nossos corpos físicos.

         - Isto é tudo que podemos dizer-te.

         Lázaro observava-me fixamente. Suponho que com menor curiosidade do que aquela que eu sentia por ele.

         - Se me permite - intervim, dirigindo-me ao ressuscitado -, gostaria de te fazer uma última pergunta.

         O amigo de Jesus acenou afirmativamente com a cabeça.

         - Que recordação tens daqueles dias em que conheceste a morte?

         - Nunca falei disso - respondeu Lázaro -, mas não é muito o que posso dizer-te.

         Aquela pergunta e a insinuação do dono da casa surpreenderam o grupo. Curiosamente, ninguém se tinha preocupado em averiguar o que Lázaro tinha visto ou sentido durante os quatro dias em que estivera morto.

         - Houve um momento - suponho que no instante da minha morte - em que a minha cabeça se encheu de um estranho ruído... Foi assim como o zumbido de um enxame de abelhas. Depois, não sei por quanto tempo, experimentei uma sensação desconhecida: era como se me precipitasse por um estreito e escuro corredor...

         - Quando voltei a abrir os olhos tudo era escuridão . Não sabia onde estava nem o que tinha acontecido. Senti frio nas costas. Apercebi-me então de que jazia num leito de pedra. Tentei pôr-me de pé mas vi que me encontrava amarrado e coberto por uma mortalha. Tentei gritar mas um pano enrolado na cabeça prendia-me fortemente o queixo. Imediatamente, compreendi que estava numa das cavidades subterrâneas que servem para enterrar os nossos mortos. No entanto contrariamente ao que possas crer, não senti medo. Pelo contrário. Uma grande paz se apoderou de mim e, lentamente como pude, fui-me arrastando para a coluna de luz que se avistava ao fundo da câmara. O resto Já conhecem.

         Não sei como pôde ocorrer-me mas, de repente, lembrei-me que no relato da ressurreição se tinha mencionado um lençol.

         Abusando da tua hospitalidade - expus-lhe -, gostaria de saber se ainda conservas as mortalhas?

         - Sim, ainda as tenho.

         - Poderia vê-las?

         Aquele meu inusitado interesse pela mortalha confundiu os presentes.

         Mas Lázaro acedeu, rogando a um dos amigos que a fosse buscar. Minutos depois, o hebreu punha nas minhas mãos um rolo de pano.

         Com o auxílio do próprio Lázaro, e a meu pedido, estendemos o lençol de linho em cima da mesa. Providencialmente, as irmãs tinham optado por guardar a mortalha e as faixas, tal como foram retiradas do corpo de Lázaro. E, ainda que a rigorosa lei judaica proibisse todo o contato com cadáveres ou com objetos que, tivessem permanecido junto de restos mortais de homens ou de animais, a singularidade do acontecimento - que quebrava todos os esquemas legais - e a vontade liberal destes seguidores da doutrina de Jesus tinham feito o possível para que as vestes fúnebres não fossem destruídas e a família as manejasse sem escrúpulos de consciência.

         Ao passar uma das candeias de azeite por cima do tecido pude observar um rasgão mesmo no centro do lençol; justamente na parte que devia cobrir a cabeça. Ao examinar atentamente o pano comprovei a existência de umas manchas castanhas causadas por misturas de ungüentos que tinham sido utilizadas no embalsamento.

         Como médico, prestei especial interesse à detecção de possíveis sinais ou marcas que pudessem denunciar o processo natural de putrefação. A julgar pelas informações dos meus amigos, Lázaro falecera vinte e cinco dias antes, pelo entardecer do domingo, 5 de Março. Apesar do isolamento da gruta sepulcral, da sua baixa temperatura e da possível ação retardadora dos óleos e dos aloés, a advertência de Marta a Jesus sobre o cheiro do cadáver era, sem dúvida, um sintoma claro de que seu irmão devia apresentar Já, pelo menos, a chamada mancha verde abdominal, primeiro sinal de decomposição. (Esta mancha costuma aparecer vinte e quatro dias depois do falecimento e Lázaro, no momento de abertura do túmulo, devia andar pelas noventa horas de morte.) No entanto, por mais que explorasse a mortalha, não pude encontrar vestígio algum de líquidos provenientes, por exemplo, da ruptura de bolhas na epiderme. O que notei, sim, ao cheirar algumas das áreas do tecido, foi um inconfundível odor sulfídrico, emanação muito própria da putrefação da matéria orgânica. Ainda que não se tratasse, obviamente, de uma prova definitiva, aquilo deu-me uma certa idéia sobre a possível causa da morte de Lázaro, provavelmente, um processo infeccioso, agudo e generalizado. (A título pessoal, e depois da grande viagem, interessei-me por todos os textos, apócrifos ou não, tradições, etc., em que se falasse da sorte que teve Lázaro nos anos seguintes. Os escassos dados que encontrei apontavam para o fato de o amigo de Jesus ter morrido pela segunda vez na idade de sessenta e quatro anos e, curiosamente, como conseqüência do mesmo mal que o levou à sepultura no ano 30. Mas estas informações, logicamente, não puderam ser comprovadas).

         O que me atraiu, sim, poderosamente a atenção foi verificar como o testemunho de Lázaro e dos seus amigos se encaixava plenamente na tradição judaica sobre a sua morte. Em geral, os Hebreus acreditavam em a gota de fel na ponta da espada do anjo da morte começava a agir no final do terceiro dia. Ao quarto, portanto, a decomposição do cadáver era Já um fato indiscutível. De acordo com a informação da família de Lázaro, o Mestre recebeu a notícia da grave doença do seu amigo quando este Já estava morto havia onze horas, quer dizer, na manhã de segunda-feira, 6 de Março, Jesus conhecia esta crença judaica sobre a morte, e, sabiamente, esperou até terça-feira para se pôr a caminho, chegando a Betânia quando os restos mortais de Lázaro estavam Já sem

vida há perto de noventa e seis horas. Tempo mais que suficiente para que todos os judeus que sabiam do falecimento não pudessem duvidar do prodígio que se preparava para consumar.

         Nas horas que se seguiram graças a estas e a outras informações, consegui entender, a sua verdadeira medida, por que razão a aristocracia sacerdotal judaica - encabeçada naqueles anos pela saga do ex-sumo sacerdote Anás - procurava a morte de Jesus de Nazaré. Poucas horas receberam ordem de procurar e capturar Jesus onde se encontrasse. Mas a iminente entrada de sábado (pelo entardecer de sexta-feira) salvaria o Nazareno. Ainda que toda a Jerusalém soubesse da presença de Jesus em Betânia, os levitas decidiram aguardar o domingo para executar a ordem de caça e captura. Os amigos do Mestre apressaram-se em comunicar-lhe a grave resolução, insistindo para que fugisse.

 

         (Durante o século I antes de Cristo e o I da nossa Era havia famílias sacerdotais descendentes do ramo saduceu legítimo. (O primeiro e o último dos sumos sacerdotes em funções entre os anos 37 a. C. e 70 d. C. foram de origem saduceia: o babilônio Anane( - dc 37 a 35 antes de Cristo e a partir de 34, pela segunda vez - e Pin Jás de Jabta, o Canteiro, que o foi de 67 a 70 depois de Cristo. Um terceiro sumo sacerdote legítimo ocupou este cargo no ano de 35 a. C.; tratava-se de Aristóbulo.) Os outros vinte e cinco sumo sacerdotes que preencheram estes cento e sete anos procediam, na sua totalidade, de famílias sacerdotais vulgares. Quase todas tinham a sua origem fora de Israel ou da província da Judéia, mas depressa formaram uma nova hierarquia, sumamente poderosa e influente. Destacaram-se especialmente quatro sagas ou clãs que lutaram encaniçadamente por ,colocar os seus homens no pontificado. Entre esses vinte e cinco sumos sacerdotes ilegítimos da época herodiana e romana, nada menos de vinte e dois pertenceriam a essas quatro famílias. Eram as sagas, de Boetos (com oito sumos sacerdotes no seu ativo). Anás (com mais oito), Phiabi (com três) e Kamithá(com mais três sumos sacerdotes). A mais poderosa pelos menos nos começos - foi a família dos Boetos. Era originária da Alexandria e o seu primeiro representante foi o sacerdote Simão. sogro de Herodes, o Grande

(22-5 a.C.). Da extrema dureza deste clã procedia a denominação de betusiano, ou boetusiano, de que Já me tinham falado os amigos de Lázaro. Mais tarde, a família de Anás conseguiu 3 depois da ressurreição de Lázaro, os chefes do Templo - e, naturalmente, o genro de Anás - souberam, minuciosamente, quanto acontecera no cemitério de Betânia. Enquanto a imensa maioria dos amigos do ressuscitado, que tinham sido testemunhas excepcionais do acontecimento dele se faziam arautos, apregoando aos quatro ventos o portentoso sinal do mestre da Galiléia, outros judeus – uma minoria, ainda que de mau coração - apressaram-se a informar a casta dos fariseus, que gozava então de grande primazia sobre os outros sacerdotes e levitas.

         É quase certo que se o milagre tivesse tido lugar noutro momento do ano judaico e não em vésperas da solene Páscoa - e com um protagonista menos abastado e prestigiado entre os dignitários de Jerusalém obra do Rabi talvez tivesse ido engrossar, a título de inventário, a Já longa lista de prodígios. Mas o Nazareno tinha retirado à morte - poder reservado unicamente ao Divino - Lázaro de Betânia. (Demasiado perto, demasiado espetacular e demasiado importante para ser esquecido ou condenado ao silêncio.)

         O fato adquiriu tais proporções que - segundo me contaram Lázaro e seus amigos -, Jerusalém sofreu uma comoção. A circunstância de entre os testemunhos da sua ressurreição se contarem alguns membros do Templo e distintos judeus, amigos da família de Lázaro, precipitou ainda mais os acontecimentos. E o Sinédrio, inquieto com a notícia, convocou uma assembléia urgente para uma hora depois do meio-dia de sexta-feira: O tema único podia resumir-se na seguinte frase:

         - Que faremos com o impostor?

         Ainda que a suprema assembléia de Israel tivesse discutido Já noutras alturas a possibilidade de deter e julgar Jesus de Nazaré, acusando-o de blasfemo e transgressor das leis religiosas, desta vez foi diferente. Um dos fariseus chegou a propor uma resolução para que se decretasse a imediata captura do Galileu e sua execução sem julgamento prévio.

         Isto provocou azedas discussões entre os setenta e um membros do Sinédrio, em especial entre alguns ancião sou representantes da nobreza laica (caso de José de Arimatéia) e os fariseus. Aqueles consideravam ilegal e abominável tal decisão.

         Depois de duas horas de discussão, e em vista do fraco êxito dos que pretendiam que o processo contra Jesus se desenrolasse sob a mais rigorosa ortodoxia, catorze membros da assembléia judaica levantaram-se, apresentando ali mesmo a sua demissão. Duas semanas depois, quando o Sinédrio aceitou estas demissões , o conselho exonerou dos seus cargos mais cinco destacados membros, com a acusação de refletirem sentimentos de amizade pelo Nazareno. Estas circunstâncias abriram caminho ao Sinédrio, que tomou a decisão quase unânime de prender e justiçar o Mestre.

         Lázaro e sua família não se enganavam ao crer que a sorte de Jesus estava lançada. O ódio do Sinédrio contra o Rabi era tal, que naquela mesma tarde de sexta-feira, 10 de Março, os guardas do Templo supremacia. Este manteve-se no cargo durante nove anos (de 6 a 15 d. C.). Depois sucederam-lhe os seus cinco filhos, seu genro Caifás (de 18 a 37 d. C., aproximadamente) e seu neto Matias (ano 65 d. C.). (IV. do M.)

 

         Mas Jesus não fez caso e continuou em Betfagé até à manhã de domingo 12 de Março. Depois de se despedir de Lázaro e de suas irmãs, o Rabi e o seu grupo partiram para o seu acampamento da cidade de Péla. Poucos dias depois da marcha do Mestre, o ludibriado Sinédrio centrou as suas iras no ressuscitado. Lázaro e sua família foram convocados a depor em Jerusalém e os sacerdotes tiveram de render-se à evidência do milagroso ato de Jesus. Neste sentido, o testemunho do médico do templo, Ben Ajua, que tinha assistido ao vizinho de Betânia durante a sua fulminante doença e comprovado com os próprios olhos o ritual do embalsamamento, foi decisivo. No entanto, o pérfido coração de Caifás e dos seus partidários ordenou que se registrasse nos arquivos do Sinédrio que aquele prodígio tinha a sua origem no maléfico poder do príncipe dos demônios, aliado do Rabi da Galiléia.

         Esta ressurreição - insisto -, longe de abrir a alma dos representantes religiosos do povo hebreu, envenenou ainda mais os seus sentimentos contra Jesus. O sumo sacerdote e os chefes do Templo encarregaram-se de convencer o

resto do tribunal de que, seguindo por aquele caminho, todo o povo de Jerusalém acabaria por acatar a doutrina do Galileu, podendo conduzir a nação a uma catástrofe. De certo modo, o Sinédrio tinha razão, Já que muitos hebreus - entre os quais figurava boa parte dos seus próprios discípulos - consideravam o Messias como um libertador político, um revolucionário, que expulsaria os Romanos de Israel.

         Foi precisamente numa daquelas reuniões do Sinédrio segundo me informou Nicodemo - que Caifás aludiu, pela primeira vez, ao antigo adágio judeu, repetido mais tarde, e que rezava:

         - Mais vale ver morrer um homem, que ver perecer uma comunidade.

         Mas os problemas da suprema assembléia de Israel não terminavam em Jesus. O Sinédrio ganhara perfeita consciência de que era mister eliminar também Lázaro. Que conseguiam prendendo e executando o Mestre, se continuava com vida o máximo expoente do Seu poder?

         A popularidade do ressuscitado alcançara tal grau que Caifás e os fariseus decretaram igualmente a eliminação de Lázaro.

         Apesar de ter solicitado vários esclarecimentos a Lázaro a suas irmãs e ao próprio grupo de Jesus sobre a cidade para onde fora o Mestre depois da ressurreição do Seu amigo, todos coincidiram em Péla. Isto desorientou-me, pois que, no texto evangélico de São João (11, 54-55) se fala de outra localidade: Efrém – a atual et-Taiybe -, situada a uns dezenove quilômetros em linha reta, a nordeste de Jerusalém.

         O deserto, propriamente dito, estendia-se entre a referida cidade e o rio Jordão . Esta zona montanhosa recebe hoje o nome de el-barriyeh, o deserto. A cidade de Péla ou Péla é citada por Flávio Josefo, na sua obra Guerra dos Judeus (livro III), como uma das povoações situadas ao norte da região da Pereia, na margem do Jordão , e relativamente próxima de Filadélfia (mais a leste), onde terminou por refugiar-se Lázaro, escapando à perseguição dos Judeus. (N. do M.)

         * O nome de Lázaro, para cúmulo. significa etimologicamente, Deus socorreu. Isto foi tomado entre muitos judeus como um novo sinal a favor de Jesus. (N. do M.)

         Os planos do Sinédrio acabaram por transpirar e o amigo de Jesus foi informado com todos os pormenores. Esta dramática situação mergulhara a família de Betânia numa permanente angústia. Começava agora a compreender a sua natural desconfiança quando, poucas horas antes, eu tinha solicitado falar com Lázaro...

         Talvez, em minha opinião, outro dos graves erros do Sinédrio fosse não prender primeiro o ressuscitado. Ao verificarem que Jesus tinha desaparecido, os sacerdotes esqueceram temporariamente Lázaro e deram ordens expressas a Yojanan ben Gudgeda, porteiro-chefe, como aos restantes levitas, ou guardas ao serviço do Templo, para que, caso fizesse ato de presença, o Nazareno fosse imediatamente capturado.

         Um dos comentários mais repetidos naqueles dias antes da celebração da Páscoa - e que eu tivera de escutar desde a minha chegada a Betânia - era, precisamente, se o Nazareno teria a coragem suficiente para ir a Jerusalém e celebrar, como todos os anos, os sagrados ritos. Este rumor popular desorientara os sacerdotes, até ao extremo de passarem o problema Lázaro a segundo plano.

         Assim decorreu o meu primeiro encontro com o amado amigo de Jesus, interrompido, finalmente, pela entrada de Marta na sala. Numa bandeja de madeira ofereceu-me um refresco, que novamente agradeci, com todo o meu coração. Depois do relato dos hebreus que me acompanhavam, a minha admiração pela senhora aumentara sensivelmente.

         E suponho que ela, com a sua grande intuição feminina, o devia ter notado. Ao entregar-me a comida, Marta baixou os olhos, corando.

         - Rogo-te, irmão Jasão - falou Lázaro -, que hajas por bem aceitar este humilde alimento. Sabemos que necessitas dele. E suplico-te igualmente que te consideres em tua casa. Esta noite, e de quantas precises, este ser  o teu teto...

         Tentei dissuadi-lo, mas foi inútil. Lázaro e os seus amigos tinham descoberto que - na verdade - a minha atitude era límpida e nobre.

         As emoções do dia tinham-me aberto o apetite e, ante a mirada compadecida dos meus novos amigos, não tardei em dar boa conta do trigo tostado, dos figos secos, das tâmaras, do mel e da tigela de leite de cabra que foram a minha ceia.

         Bem Já noite, o próprio Lázaro me guiou até uma das salas do andar de cima. Nela fora armado um catre dos chamados de tesoura, com uma cama de pano e cordas entrelaçadas. A armação da cama fora construída à base de dois alizares de madeira de pinho, cada um deles solidamente amarrado a duas pernas que se cruzavam em forma de aspa e que não se erguiam a mais de quarenta centímetros do solo.

         Como mobiliário, o reduzido quarto retangular (de 1,80 m por 2,50 metros) apresentava uma grande arca de sólida madeira de acácia (a mesma que deve ter servido para construir a lendária Arca da Aliança), de um metro de altura. Em cima, Marta colocara as minhas sandálias, muito bem lavadas, uma bacia, uma jarra de metal com água, um lenço e um pequeno ramo de alecrim, de fragrantes flores azuladas.

         Na cabeceira do leito, suspensa da parede branca e a curta distância do chão de tijolo vermelho, estava acesa uma singela candeia de azeite em forma de concha.

         Ao fechar a porta, e ficando sozinho, assomei à estreita fresta que fazia as vezes de janela e os meus olhos encheram-se de lágrimas, ao contemplar aquela legião de estrelas iguais à que costumava ver no deserto de Mojave. Depois de uma longa ligação com o módulo, caí extenuado no catre. Na realidade, a minha agitada exploração ainda mal começara.

 

                                 31 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA

         Durante a madrugada, fui despertado por um som rouco e monocórdio. Ao chegar à janela, verifiquei, surpreendido, que aquele som parecia sair de toda a aldeia. Não o consegui explicar. Depois de uma rápida lavagem, estabeleci contato com o berço, mas também Eliseu não me soube dar informação a esse respeito.

         Intrigado, desci as escadas de pedra que conduziam ao pátio central da herdade. Ao chegar às pilastras, aquele irritante ronronar aumentou. Notei que vinha da sala onde tinha permanecido boa parte da tarde anterior e para ali me encaminhei. O fogo da lareira erguia-se vigoroso de lenhos recentemente depositados no fundo da chaminé. Junto do muro circular do fogão, Marta e uma das servas procediam com ímpeto ao moer do trigo, sobre uma pedra muito parecida com as que eu vira na manhã anterior, na minha descida pela encosta sul do monte das Oliveiras. Diferindo daquelas, este triturador era negro e muito polido. Ao aproximar-me das mulheres e ao saudá-las verifiquei que se tratava de uma pedra basáltica de quase meio metro de comprimento e trinta centímetros de largura, muito gasta na parte superior, como conseqüência da diária e vigorosa fricção. Num instante, as minhas dúvidas se dissiparam. E, a partir daquele dia, aprendi a identificar o quotidiano despertar de Betânia e da própria Jerusalém com

aquele som obrigatório e generalizado em todas as casas - poderosas e humildes da moenda do trigo. Como me contaram os anciãos da aldeia de Lázaro, se algum dia se deixasse de ouvir o barulho da mó, convertendo o trigo em farinha, era por que a ruína e a desolação - como escrevera Jeremias tinham chegado a Israel.

         Naturalmente, não tinha sido eu o primeiro a levantar-me. Desde muito antes do amanhecer, as mulheres da casa afadigavam-se Já nas tarefas domésticas. Enquanto Marta se encarregava da compra do pão no forno comunal da aldeia, Maria e outras moças traziam água e acabavam de limpar a casa. Os homens, por seu lado, ultimavam os preparativos para o duro trabalho nos campos. O pai Lázaro – rico lavrador deixara a seus filhos terra suficiente para viverem sem dificuldades, permitindo folgadamente em cada colheita que os pobres pudessem recolher um dos cantos dos seus campos, tal como ordenavam os velhos preceitos.

         Quando entrei na sala de jantar, a diligente e incansável Marta preparava a farinha para cozer umas pequenas tortas sem levedura. Ao ver-me, levantou-se, pedindo que desculpasse o irmão. Lázaro tivera de acompanhar os seus trabalhadores até um dos campos próximos, onde se andava a trabalhar no que chamavam a semeadura tardia, quer dizer, na cultura de produtos como o milho, sésamo, lentilhas, melões, etc, e que, necessariamente, tinham de se plantar entre Janeiro e Março.

         Antes que eu pudesse reagir, Marta suplicou-me que me sentasse à mesa. Num abrir e fechar de olhos pôs diante de mim uma larga escudela de madeira na qual verteu leite quente. Sempre em silêncio, enquanto a sua companheira continuava a triturar o trigo, cortou várias fatias de uma fogaça de pão escuro, que, possivelmente, pesaria mais de três libras. Duas generosas porções de queijo e mel completaram o meu pequeno-almoço.

         Desde a terceira hora (as nove da manhã, aproximadamente) que grupos de peregrinos provenientes da Galiléia, de Pereia, velhos conhecidos da família, parentes de Jerusalém e muitos curiosos tinham chegado até às portas da casa de Lázaro. Como quase todos os dias, aqueles hebreus tinham aproveitado a sua forçada presença na Cidade Santa para se distraírem, vendo e ouvindo o ressuscitado. Ao vê-los sentados no jardim e invadindo, mesmo, o átrio e pátio central, senti uma certa raiva. Pois Lázaro não reparava que a maioria daqueles indivíduos só procurava um motivo para mexericos?

         Compreendi que o paciente amigo de Jesus preferira sair dali...

         Ao consultar Marta sobre o caminho que devia seguir para encontrar seu irmão, a senhora abandonou gentilmente os seus afazeres e rogou-me que a seguisse pelo espaçoso jardim situado nas traseiras da casa, e onde se alinhavam numerosas  árvores de fruto. Ainda não tínhamos andado trezentos passos quando, ao desembocar num pequeno terreiro, parei em sobressalto. Na minha frente erguia-se um enorme penhasco de calcário. Junto daquela mole acinzentada, salpicada nalgumas das suas gretas superiores pelos ninhos de barro das primeiras andorinhas, distingui uma pedra circular.

         Marta compreendeu o motivo da minha surpresa e, com um gesto de mão, convidou-me a aproximar-me do sepulcro familiar.

         Em silêncio, inspecionei a tampa da boca da caverna. Tratava-se de uma lousa perfeitamente lavrada, de um escasso metro de diâmetro e apenas trinta centímetros de grossura. Aquela pedra, muito semelhante às mós de um moinho, constituía o fecho de uma entrada, a julgar pelas dimensões, era bastante estreita. A parte da frente do penhasco, numa superfície de dois metros - a partir do solo - por mais três metros de largura fora esculpida à maneira de fachada e rebocada de branco.

         Eu sabia que retirar a lousa constituía uma falta de respeito pelos mortos. Assim, sem fazer comentário algum, esqueci aquele impulso que me levava a pedir à irmã de Lázaro que me permitisse deslocar a rocha. Por outro lado, o mais provável é que, ainda que Marta tivesse consentido, nem ela nem eu juntos teríamos sido capazes de mover aqueles trezentos ou quinhentos quilos que a tampa do sepulcro devia pesar.

         Minutos depois, saía do jardim, metendo por uma das caminhos que ia na direção Oeste e que, segundo a senhora, me levaria ao encontro de seu irmão. Aquelas horas da manhã a temperatura era ainda fresca, dez graus centígrados e um moderado vento de norte de dez nós, confirmaria Eliseu. Na noite anterior, o equipamento especial do berço à base de um feixe de luz laser - tinha detectado uma barreira de nuvens tormentosas (cumulonimbos) com cerca de trezentos quilômetros de extensão, que se levantava a três mil pés sobre o perfil da costa fenício-israelita.

         De momento, estas ameaçadoras nuvens de desenvolvimento vertical pareciam travadas no seu avanço para Jerusalém por uma corrente de ar frio proveniente de norte.

         Não ponha de parte, no entanto, anunciou-me o meu companheiro que possam alterar-se as condições e que em vinte e quatro ou quarenta e oito horas se registrem chuvas na nossa  área. Envolvi-me na chlamys e prossegui pelo caminho tortuoso, entre os campos ondulantes de cevada. Alguns camponeses tinham iniciado Já a ceifa. Os ceifeiros apanhavam os caules com a mão direita e com a outra cortavam-nos a pouca distância da base das espigas. As foices consistiam em pequenas folhas curvadas de ferro, solidamente fixadas com rebites a uma pega de madeira. A debulha fazia-se numa eira próxima do caminho. As mulheres carregavam as paveias, espalhando-as no chão.

         Depois, separavam o grão de palha, ou à mão ou com a ajuda dos bois.

         Neste último caso - o mais freqüente, segundo pude comprovar os animais pisavam a cevada. Depois, os homens passavam a debulhadora por cima, puxada pelos bois. As mais vulgares eram construídas com uma tábua lisa, em cuja face inferior tinham sido cravados pequenos pedaços de pederneira, outras eram simples rolos, também de madeira.

         Numa segunda operação, as mulheres afastavam a palha, amontoando o grão e guardando-o, finalmente, em sacas. Vários asnos e alguns carros se encarregavam do seu transporte até à aldeia, onde era despejado para grandes silos ou grandes vasilhas de barro, como as que tinha visto em casa de Lázaro.

         Não tardei a encontrar o ressuscitado e os seus trabalhadores. Lázaro alegrou-se ao ver-me, mas recusou logo a minha idéia de os ajudar nos trabalhos de semeadura. Encontrávamo-nos em plena batalha dialética quando alguns dos servidores nos chamaram a atenção. Vindo da aldeia aproximava-se um cavaleiro.

         Lázaro colocou a mão esquerda à maneira de viseira e observou atentamente. De repente, sem fazer o menor comentário, soltou o saco das sementes que lhe pendia do ombro e foi a correr direito à caminho. O cavaleiro chegou a trote junto do seu amigo e, desmontando, abraçou Lázaro. Um instante depois, voltou a montar, afastando-se na direção de Betânia. O ressuscitado fez sinais para que me aproximasse. Ao chegar junto dele o seu rosto parecia iluminado.

         - O Mestre vem - largou-me a novidade com uma incontrolada alegria. - Poderás enfim conhecê-lo... Vamos, temos muito que fazer.

         - Mas... onde está?... Já chegou? - comecei eu a perguntar-lhe, atabalhoadamente, enquanto o ia seguindo. Mas Lázaro não me respondeu.

         Antes que pudesse raciocinar, tinha-me ganho uma dianteira de meia centena de metros. Apesar da sua aparente fraqueza, corria como um gato selvagem.

         Ao entrar em casa, notei que a notícia agitara a família e os seus amigos. Marta, principalmente, corria de um lado para o outro, sorridente e nervosa. Ao ver-nos, abraçou-se a Lázaro, confirmando-lhe a boa nova:

         - Vem... Jesus vem!...

         O irmão tentou serená-la, perguntando-lhe alguns pormenores.

         - Dizem que está a uns dez estádios de Betânia acrescentou a senhora.

         Fiz um rápido cálculo mental. Aquilo significava que o Rabi se encontrava a uns 1860 metros da aldeia. Posso jurar que, apesar da minha intensa preparação, dos longos anos de treino e da minha condição de cético, a família de Lázaro conseguiu transmitir-me o seu nervosismo. Sem o poder evitar, um calafrio percorreu-me a coluna vertebral. Inexplicavelmente, a minha garganta ficara seca. Mas, num esforço para me acalmar, atribui-o à louca correria pelos campos (uma vez mais me enganava... )

         Seguindo os conselhos de Lázaro, permaneci em casa. A minha primeira intenção foi sair ao encontro do Nazareno, mas o ressuscitado sugeriu-me que era muito melhor esperá-lo ali.

         - Ele vem sempre a nossa casa... Além disso - insinuou -, a notícia Já terá chegado a Jerusalém, e, dentro em pouco, não se poder  andar pelas ruas de Betânia.

         - Então - comentei com preocupação -, o Mestre aceitou o desafio e passar  a Páscoa na Cidade Santa...

         O meu amigo não quis responder. No entanto, adivinhei no seu olhar uma sombra de preocupação. Eles pressentiam que aquela podia ser a última Páscoa de Jesus de Nazaré... Nem é preciso dizer que o sumo sacerdote e os seus sequazes podiam estar informados da presença do impostor na aldeia vizinha. E isso, como muito bem sabiam Lázaro e suas irmãs, era perigoso.

         Pouco depois da nona hora - talvez fossem as quatro ou quatro e meia da tarde -, a agitação entre as numerosas pessoas que se encontravam no pátio em claustro da casa aumentou subitamente.

         Marta e Maria precipitaram-se para o átrio e desapareceram entre os grupos de homens e mulheres que, praticamente, obstruíam a entrada principal. O meu coração bateu mais depressa. Ouvia-se lá fora um som de vozes, gritos e saudações. Sem saber a razão, senti medo. Recuei uns passos, ocultando-me atrás de uma das colunas da ala direita do pátio. As palmas das minhas mãos tinham começado a suar. Carreguei dissimuladamente na orelha e, em voz baixa, informei Eliseu da iminente chegada de Jesus.

         Poucos minutos depois, os criados, amigos e familiares de Lázaro foram-se afastando e um grande grupo de homens entrou no pátio. De repente, entre risadas, beijos, mantos multicores, os meus olhos ficaram presos num indivíduo que muito sobressaía dos outros... Aquele tinha de ser Jesus!

         A Sua extraordinária estatura - num primeiro instante calculei um pouco mais de um metro e oitenta - convertia-o, ao lado da quase totalidade dos que ali estavam reunidos, num gigante. Trazia um manto cor de tijolo, que lhe cingia o tórax, com as pontas enroladas em volta do pescoço e caindo sobre uns ombros largos e poderosos. Uma comprida túnica branca de amplas mangas cobria-o quase até aos artelhos. Não Lhe vi faixa ou cinturão algum. A envolver-lhe a testa, trazia um lenço branco, que lhe caía do lado direito do cabelo.

         Nem sequer no instante da inversão da massa do módulo, naquela noite de 30 de Janeiro de 1973, experimentei uma aceleração cardíaca como a que estava a suportar naqueles momentos.

         O Gigante caminhou devagar até ao centro do pátio. O seu braço direito apoiava-se no ombro de Lázaro. À sua volta, Marta e Maria gesticulavam e davam palmas, entre o alvoroço geral.

         Era, sem dúvida, um homem branco, de rosto comprido e estreito, próprio dos povos caucasianos. O cabelo liso e de um tom ligeiramente de caramelo, caía-lhe sobre os ombros. Pouco depois, ao soltar-se a faixa de pano que trazia enrolada na testa, e que quase todos os homens do grupo usavam, verifiquei que se penteava com risca ao meio.

         Usava bigode e uma fina barba, partida em duas, cor de ouro-velho, semelhante aos cabelos. O bigode, ainda que pronunciado, não chegava a esconder os lábios, relativamente finos. O nariz desconcertou-me.

         Era comprido e ligeiramente proeminente. Desde a sua entrada em casa, Jesus não tinha deixado de sorrir,mostrando uma dentadura branca e impecável, muito diferente da que apresentava a maioria dos Hebreus.

         O Mestre foi sentar-se à beira da piscina central, num dos tamboretes que alguém trouxera da casa de jantar. Os homens, mulheres e crianças juntaram-se à sua volta. Os raios de sol incidiram então no seu rosto e fiquei maravilhado. O contraste com aquelas caras endurecidas, semeadas de rugas e envelhecidas dos seus amigos e discípulos era simplesmente admirável. A sua pele parecia curtida e bronzeada.

         Timidamente, pus-me atrás de um pilar e espreitei. Jesus, a pouco mais de quatro ou cinco metros, levantou repentinamente o rosto e penetrou-me com o Seu olhar. Uma espécie de fogo me percorreu as entranhas. Ante a surpresa geral, o Rabi levantou-se, abrindo passagem entre as pessoas que tinham começado a sentar-se nos tijolos vermelhos do pavimento. Os joelhos começaram a tremer-me. Porém, Já não era possível escapar. Aquele Gigante estava na minha frente...

         Nunca esquecerei Aquele olhar. Os olhos do Galileu ligeiramente rasgados e de uma viva cor de mel - tinham uma virtude singular: pareciam concentrar toda a força do Cosmos. Mais do que observava, trespassava. Umas pestanas compridas e densas proporcionavam-lhe um especial atrativo. A testa, ampla, terminava numas sobrancelhas retas e bem separadas. Não pestanejou. A sua face, serena e francamente iluminada pelo sol, infundia um estranho respeito.

         Levantou os braços e, pousando uma das mãos compridas e macias nos meus ombros, sorriu, ao mesmo tempo que me piscava o olho. Um inesperado calor me inundou dos pés à cabeça. Tentei corresponder ao Seu gesto mas não pude. Estava confuso e aturdido, comovido...

         - Sê bem-vindo...

         Aquelas palavras, pronunciadas em grego, acabaram por me desarmar. Havia tal segurança e afeto na Sua voz que precisei de muito tempo para reagir.

         O Rabi voltou para junto da cisterna, enquanto os Seus amigos O contemplavam num mutismo total. Alguns dos discípulos quebraram por fim o silêncio e perguntaram ao ressuscitado quem eu era.

         Lázaro, com evidente satisfação, explicou-lhes que era seu convidado. Um

estrangeiro chegado expressamente de Tiro para conhecer Jesus. Eu permaneci imóvel - como que petrificado -, tentando pôr em ordem os meus pensamentos. Não pode ser, repetia para comigo uma e outra vez. É impossível que tenha adivinhado... Como pode ser?...

         Por mais voltas que desse, chegava sempre à mesma encruzilhada. Se ninguém Lhe falara de mim - porque haviam de o fazer? -, como podia saber quem era e porque estava ali? No pátio havia meia centena de pessoas. Muitas conhecia - isso era claro -, mas outras não. Era este o meu caso e, no entanto, encaminhara-se para mim...

         Nunca, nem sequer agora, quando escrevo estas memórias, tive a certeza, mas só um ser com um poder especial poderia ter atuado assim.

         Para que vou mentir. O resto da tarde foi para mim como um relâmpago que rasga os céus de oriente a ocidente. Quase não me apercebi de nada. Sei que Marta, tal como fizera comigo, lavou os pés do Nazareno e os esfregou com mirra. Lembro-me vagamente - entre saudações constantes - como Jesus saiu de casa, acompanhado por Lázaro e por numeroso grupo. Marta me informaria depois que as dependências da casa estavam completamente ocupadas pelos amigos e familiares chegados a Betânia e que - de comum acordo com Simão, um

ancião inseparável do Mestre e velho amigo da família – Jesus pernoitaria na casa deste antigo leproso.

         De início, muitos dos habitantes de Betânia e dos peregrinos chegados à aldeia discutiram entre si, acreditando que o Rabi entraria nessa mesma tarde de sexta-feira em Jerusalém, como desafio ao decreto de prisão que o Sinédrio promulgara. Mas enganavam-se. Jesus e a Suas pessoas prepararam-se para passar a noite em casa de Simão, bem como noutros lares de amigos e parentes da família de Lázaro. Todos – essa é a verdade - fizeram o possível para que o Mestre se sentisse feliz durante a sua passagem pela pequena povoação.

         Segundo Marta, Simão quisera receber condignamente Jesus, e anunciara um grande banquete para o dia seguinte, sábado. Isto significou um novo esforço em ambas as casas, Já que - de acordo com as rigorosas prescrições da Lei judaica - o dia sagrado para os Hebreus começava, precisamente, no crepúsculo do dia anterior.

         Durante o resto da jornada, o Mestre da Galiléia recebeu uma infinidade de amigos e visitantes, com todos conversando. Pelo anoitecer, Jesus regressou a casa de Lázaro e ali, na companhia dos seus íntimos e da família do ressuscitado, recompôs as forças,mostrando-se de um humor excelente.

         Lázaro pediu-me que os acompanhasse. Os homens tomaram lugar em volta da grande mesa retangular da casa-de-jantar e as mulheres - dirigidas por Marta - começaram a servir. Num primeiro momento, fiquei prudentemente junto da chaminé. Mas Lázaro insistiu e vi-me obrigado a partilhar com eles as abundantes iguarias: caça, feijões, legumes, frutos secos e vinho. Surpreendeu-me comprovar que em nenhuma das comidas se bebia água. Esta era substituída habitualmente pelo vinho.

         Antes de começar a tardia ceia, o Mestre e as catorze ou quinze pessoas que compartilhavam os alimentos puseram-se de pé, entoando um breve cântico. Fiz o mesmo, embora ficasse logicamente em silêncio. Ao terminar, Marta - numa das apressadas idas e vindas - explicou-me que aquele hino, intitulado Ouve, Israel, era na realidade uma oração. Surpreendeu-me ver como o Rabi, apesar das suas públicas e acentuadas diferenças com os doutores da Lei, respeitava os velhos costumes do Seu povo. Não sei se mencionei que o Mestre fizera gala, durante toda a tarde, de um contagioso sentido de humor, rindo e gracejando por qualquer coisa. Aquilo ia ser - pelo menos nos dias que antecederam sexta-feira, 6 de Abril - outro dos aspectos com que Ele me surpreendeu. Que longe estava daquela imagem grave, atormentada e distante que se deduz ao ler muitos dos livros do século XX!... Jesus de Nazaré era uma mistura de criança e de general; de ingênuo pastor e de consciencioso analista; de homem que vive o dia-a-dia e de prudente conselheiro. Mas, principalmente, notava-se que era feliz. Muito mais alegre e despreocupado que os seus discípulos e amigos, visivelmente assustados pelas ameaças do sumo sacerdote. A seguir, Jesus - que presidia à mesa, junto de Lázaro -tomou a Seu cargo uma fogaça de pão e, segundo o Seu costume, partiu-a e distribuiu pelos comensais.

         Mal tínhamos começado a comer quando, de repente, o Mestre se dirigiu a um dos homens do grupo. Ao tratá-lo pelo seu nome, o coração deu-me um baque. Era Judas Iscariotes!

         O discípulo levantou-se lentamente e, aproximando-se do Rabi, entregou-lhe qualquer coisa. Depois voltou ao seu lugar. Fiquei como que hipnotizado, contemplando aquele indivíduo fraco e esgrouviado, com um pouco mais de um metro e setenta de estatura e cabeça pequena. O nariz aquilino destacava-se numa pele pálida, quase macilenta, dando-lhe o clássico perfil de pássaro que eu estudara na classificação tipológica de Ernest Kretschmer. (O grande psiquiatra ter-se-ia sentido muito satisfeito ao saber que a sua definição do tipo lisossômico coincidia plenamente, neste caso, com o temperamento esquizotímico de Judas: sério, introvertido, reservado, pouco sociável e até tortuoso. A verdade é que, conforme fui conhecendo o caráter deste homem, me apercebi de que se tratava na realidade de um grande tímido, que não tivera oportunidade de desenvolver o seu imenso potencial afetivo.) O cabelo negro, fino e abundante contrastava com um rosto praticamente imberbe. Ao aproximar-se de Jesus notei que a sua túnica, em vez do simples cordão ou cinto, estava presa na cintura com um hagoraháou faixa escura, de onde retirara aquela pequena bolsa de couro. Segundo parecia, pelo que pude ir observando, a mencionada faixa servia, principalmente, para guardar dinheiro ou pequenos objetos, além das armas. Judas trazia uma pequena espada, presa na ilharga direita. Naqueles instantes, no entanto, não me apercebi de um fato singular: tal com Judas Iscariotes, outros discípulos também escondiam espadas por baixo dos seus mantos e hagorahs.

         O Rabi pediu às irmãs de Lázaro que se aproximassem dEle. Maria foi a primeira a deixar os afazeres a que estava entregue junto do fogão, colocando-se num dos cantos da mesa, perto do Galileu. Dali a pouco entrava Marta, enxugando as mãos no avental. A luz de uma das duas grandes candeias ou lanternas portáteis que tinham sido colocadas em cima da mesa punha em evidência o atraente perfil de Maria. Uma espessa cabeleira, negra e cuidadosamente penteada, caía-lhe pelas costas, quase até à cintura. Na testa, Maria, prendendo parte do cabelo, usava uma faixa azul-celeste que sobressaía na sua pele azeitonada. Tinha as feições pequenas e delicadas, próprias dos seus dezesseis ou dezessete anos. Nem uma só vez tinha conseguido falar com ela e, não obstante, os seus enormes olhos negros revelavam um coração singularmente sensível. Jesus pôs a bolsinha nas mãos de Maria e, dirigindo-se a ambas, pediu-lhes que aceitassem aquela pequena oferta. Enquanto Maria se ruborizava, Marta, invadida pela curiosidade, arrebatou o presente das mãos de sua irmã abrindo-o com rapidez. Do meu lugar mal consegui ver uns grânulos. Soube depois que se tratava de sementes de bálsamo, compradas pelo próprio Rabi na sua passagem por Jericó.

         Ante o regozijo geral, Maria - sempre em silêncio - aproximou-se de Jesus dando-lhe dois sonoros beijos na cara. Pouco a pouco, no entanto, o tom alegre e despreocupado da refeição foi decaindo, por obra e graça de alguns dos homens de Cristo. Saltava aos olhos que estavam seriamente preocupados com a direção que iam tomar os próximos passos do seu Mestre e que eles, não oferecia qualquer dúvida, ignoravam totalmente. Não tardou em vir à tona a questão da ordem de captura de Jesus por parte do sumo sacerdote, e as medidas que deviam ser adotadas para salvaguardar a segurança do Rabi, em primeiro lugar, e do grupo, ao mesmo tempo.

         Um dos mais fogosos e radicais era um discípulo de barba grisalha, bigode rapado, calvo, praticamente, e de olhos claros. A cabeça redonda destacava-se de um pescoço grosso. Aquele homem de cara toda enrugada - considerei que era um dos mais idosos (talvez andasse pelos quarenta ou quarenta e cinco anos) - não era partidário da entrada em Jerusalém. Temia, logicamente, pela vida do Rabi e procurou, por todos os meios ao seu alcance, convencer o grupo do perigo de tal ação.

 

         Simão Pedro pertencia também ao tipo pícnico, que Kretschmer cita: cara larga, branca e arredondada. O seu rosto, visto de frente, lembrava um escudo. A testa era ampla, conservando algum cabelo nas zonas temporais. No entanto, Pedro não apresentava uma excessiva obesidade. A sua caixa torácica, bem como ombros e braços, era forte e musculosa, própria de uma vida consagrada ao rude trabalho da pesca.

         No que realmente coincidia com a classificação de Kretschmer era no seu temperamento ciclotímico: aberto espontâneo, de amizade rápida e com grandes oscilações no seu estado de humor. Pela sua grande capacidade de sintonização afetiva era fácil de contagiar, tanto pela alegria como pela tristeza. E tive muitas probabilidades para o confirmar. Em suma, Pedro era muito sociável e bem aceito pelo resto do grupo. (N. do M.)

         Jesus assistiu impassível e sério a toda a discussão. Deixava falar uns e outros, sem pronunciar palavra. Até que, num momento mais tenso da controvérsia, o Mestre deixou ouvir a Sua voz grave. E, dirigindo-se ao apóstolo de olhos claros, sentenciou.

         - Pedro, ainda não entendeste que nenhum profeta é recebido pelo seu povo e nenhum médico cura aqueles que o conhecem?

         Depois, fixando aqueles olhos de falcão nos meus, acrescentou:

         - Se a carne foi feita por causa do espírito é uma maravilha. Se o espírito foi feito por causa do corpo, é a maravilha das maravilhas. Porém, Eu maravilho-Me com isto: como esta grande riqueza se instalou nesta pobreza?

         Um silêncio denso pairou na sala. E o Mestre, levantando-se, retirou-se para descansar. Naquela noite, e nas seguintes, os discípulos - temerosos de tudo e do leproso – montaram guarda, aos pares, às portas da casa de Simão, de todos

Tanto Judas Iscariotes como Pedro, seu irmão André Simão, conhecido pelo Zelota e os surpreendentes irmãos gêmeos Judas e Tiago de Alfeu iam armados com espadas curtas praticamente iguais aos gládius dos legionários romanos: Hispânicus, ou espada espanhola, como a definiu Políbio. Eram armas de sessenta a setenta centímetros de comprimento, de folha larga e duplo fio, com uma ponta que as tornava temíveis.

         Os discípulos de Jesus procuravam escondê-las por baixo dos mantos - geralmente na ilharga direita - e dentro de uma bainha de madeira. Jesus não ignorava que alguns dos Seus mais próximos adeptos traziam armas. No entanto, salvo no triste momento da Sua prisão, na noite de sexta-feira, na herdade de Getsémani, nunca as mencionou ou censurou.

 

                                     1 DE ABRIL, SÁBADO

         Diferindo dos restantes dias, aquele amanhecer de sábado não foi despertado pelo barulho da moenda do grão. A aldeia parecia adormecida, estranhamente silenciosa. Os Hebreus - amos, servos e mesmo os seus animais de carga – paralisavam praticamente a vida a partir daquilo que eles denominavam a vigília do sábado quer dizer, desde o crepúsculo de sexta-feira. A Lei proibia todos os trabalhos mais pesados as grandes deslocações, fazer amor, tirar água dos poços e até acender o lume... Aquelas pesadas normas de origem religiosa transtornam por completo o ritmo diário da vida social dos Judeus. E o que em princípio devia ser um motivo de alegria e repouso acabou por deformar-se, convertendo-se num emaranhado código de disposições, na sua maioria absurdas e ridículas.

         Lázaro e sua família seguindo o exemplo de Jesus, adotavam uma posição muito mais liberal.

         Naquela mesma tarde teria oportunidade para verificar os muitos desgostos e dores de cabeça que tinham em conseqüência da sincera observância da doutrina que o Rabi da Galiléia vinha pregando.

         Apesar de tudo, fiquei francamente surpreendido ao ver - desde as primeiras horas da manhã - um incessante movimento de gente que, proveniente de Jerusalém e do acampamento erguido junto das suas muralhas, pretendia saudar Lázaro e o homem que fora capaz de desafiar o grande Sinédrio. Segundo as minhas informações, um dos preceitos sabáticos especificava que o homem da casa devia dar três ordens quando começava a escurecer, quer dizer, na recolha do dízimo. Por último o chefe tinha de ter separado o dízimo. Haveis disposto o erub. A família devia ordenar que se preparasse a candeia.

         Pois bem, se a distância de Jerusalém a Betânia era de uns quinze estádios (quase três quilômetros), como é que aqueles judeus não respeitavam uma das normas mais severas de sábado: caminhar mais dos dois mil côvados fixados pela Lei?

         Lázaro, com um sorriso malicioso veio explicar-me que, também naqueles tempos, feita a lei, feita a fraude...

         Os Israelitas, para suavizarem esta disposição dos dois mil côvados tinham inventado o erub. Se uma pessoa, por exemplo, colocava na véspera de sábado (sexta-feira) alimentos para duas refeições. erubdenéra desse limite dos dois mil côvados, ou mil metros, aquilo considerado como uma residência temporária, podendo então caminhar mais dois mil côvados em qualquer direção.

         Isto explicava a presença em m ndo o e meu amigo e p habitantes de Podiam ter colo Jerusalém em Betânia, que s gcado um ou dois erub na caminho que une as três povoações; Jerusalém, Betfagé, e a aldeia em que me encontrava.

         A minha condição de estrangeiro e gentio proporcionou-me, por fim, uma oportunidade para ajudar a família que me acolhera debaixo do seu teto. Até à hora terceira (nove da manhã), e depois de vencer a resistência de Marta, ocupei-me do transporte da água, bem como de alimentar o fogo da chaleira e recolher os ovos da capoeira, e de limpar e pôr em funcionamento um engenhoso artefato a que chamavam antiki, e que não era mais que um aquecedor metálico, com um recipiente para as brasas. O descanso sabático proibia que dele se tirassem as cinzas e, naturalmente, voltar a enchê-lo. Aquele utensílio, munido de um tubo interior, em contato com o fogo, era de grande utilidade para aquecer água. Por não ser judeu, eu estava livre daquelas normas, e isto permitiu-me compensar, em parte, a gentileza e a hospitalidade dos meus amigos.

         Mas o meu coração ardia no desejo de ir ao encontro de Jesus. Marta, com o seu finíssimo instinto, sugeriu-me que largasse tudo e fosse à procura do Mestre. Pouco antes, numa das suas visitas à casa do seu vizinho, Simão, a pretexto da preparação do festim que os habitantes de Betfagé e Betânia queriam oferecer ao Rabi, tivera oportunidade de O ver no jardim.

         Quando me dispunha para sair de casa, a senhora recordou-me que também eu fora convidado e que, se assim o considerasse, ela mesma me levaria até ao lugar que me fora atribuído. Eu sabia muito bem que naquela ceia ia dar-se um acontecimento especial. O que eu não podia imaginar naquela altura, era a gravíssima repercussão que iria ter no Mestre...

         A casa de Simão, o homem mais rico e importante de Betânia desde a morte do pai de Lázaro, erguia-se a pouca distância e também no aglomerado oriental da povoação. A única diferença substancial com a casa do meu amigo era o frondoso jardim - com muitos ciprestes, alfarrobeiras e palmeiras -, perfeitamente rodeado por um muro de pedra de dois metros de altura. Em Jerusalém, com exceção dos roseirais, os jardins eram proibidos. Aquela norma, em compensação não era obrigatória para as restantes cidades. Simão fervoroso crente e adepto de Cristo, era, além disso, um apaixonado das plantas, passando boa parte da Já avançada velhice entre as suas rosas, gálbanos, luminosos e perfumados estoraques de flores brancas, estevas e os curiosos tragacantos, de cujos ramos e troncos flui uma apreciada goma esbranquiçada, altamente medicinal. Às portas da herdade amontoava-se uma silenciosa multidão , à espera de poder ver o Mestre. Como se se tratasse de um estadista do século XX, alguns discípulos de Jesus estavam a postos junto do portão, com as espadas escondidas pela faixa do manto, controlando entradas e saídas dos amigos, familiares e criados da casa: os únicos autorizados a transpor o limiar.

         Não tive o menor problema para passar pelos homens do Galileu. A minha amizade por Lázaro e o oportuno gesto de Jesus, saudando-me na tarde do dia anterior, tinham feito com que eu ganhasse as simpatias e a confiança dos apóstolos. Ao ver-me, um dos discípulos - Judas de Santiago, gêmeo do outro Alfeu - perguntou-me se procurava alguém em especial. Disse-lhe que procurava Jesus e ofereceu-se encantado, para me acompanhar. Ao passar a porta principal encontrei-me ante o cuidado e espaçoso jardim. Um caminho estreito, pavimentado com pedras brancas (calcário, sem dúvida), levou-nos diretamente ao terreiro, aberto mesmo ao pé da escadaria de mármore que dava acesso à casa.

         Não foi preciso que Judas me indicasse ao seu mestre. O gigante encontrava-se rodeado por uma dezena de crianças e brincava com elas!

         Aquele espetáculo fascinou-me de tal forma que, em silêncio, quase nas pontas dos pés, rodeei o pequeno terreiro, sentando-me nos primeiros degraus da escadaria. E ali fiquei, absorto, divertindo-me como os pequeninos. Jesus desembaraçara-se do manto. A sua esplêndida túnica branca aparecia desta vez cingida por um cordão . Entre a algaravia dos garotos, destacava-se por vezes o seu riso, límpido e aberto como aquela luminosa manhã. Na verdade, o que mais me comoveu foi verificar como aquele homem feito e forte - capaz de desafiar os sumos sacerdotes ou de ressuscitar os mortos -, saltava, corria ou rolava pelo chão, entregue por completo às exigências daquelas pessoas miúda.

         Algumas mulheres apareciam dissimuladamente no átrio, espreitando a cena e escapando depois entre risos mal contidos.

         Uma daquelas brincadeiras era especialmente curiosa. O Galileu punha-se de costas para o grupo de crianças e atirava um pauzinho para trás , de modo a cair o mais perto possível da criançada. Os rapazes disputavam a posse do pau até que um deles - geralmente o que mais saltava - o agarrava. Nesse instante, tanto Jesus como as crianças corriam em todas as direções enquanto o proprietário do testemunho se esforçava por perseguir e tocar com o pau em qualquer dos jogadores. Não era por acaso que todas as crianças queriam caçar o Rabi.

         Porém, este, longe de dar facilidades, punha-os loucos, esquivando-se e enganando-os entre as  árvores e os arbustos. Não sei quanto tempo durou aquilo. Talvez uma ou duas horas... Subitamente, assaltou-me um pressentimento. Ou muito me enganava ou iam ser aquelas as últimas brincadeiras de Jesus de Nazaré. De súbito, quando mais pungente era aquela inexplicável melancolia, o Mestre interrompeu o jogo. Retirou dos olhos a venda de pano com que brincava à cabra-cega e acariciou as crianças, dando por terminado o divertimento. Embora Jesus tivesse tido múltiplas oportunidades de me ver ali, sentado foi nesse momento que dirigiu o Seu olhar para mim. As crianças espalharam-se pelo jardim e o Mestre encaminhou-se para a escadaria. Quis levantar-me, porém, o Rabi estendeu a mão, indicando-me que não me movesse.

         Sentou-se a meu lado, com a respiração ainda agitada e a testa encharcada de suor.

         - Jasão amigo, que se passa contigo?

         Aquela descoberta voltou a mergulhar-me em confusão. O Mestre, sem sequer me olhar e sem esperar por uma resposta - que tipo de resposta lhe poderia dar? - continuou, num tom de cumplicidade que logo adivinhei. -... Estás aqui para dar testemunho e não deves desfalecer.

         - Então sabes quem sou...

         Jesus sorriu, e pondo-me o seu comprido braço nos ombros, apontou a porta do jardim, onde ainda os seus discípulos montavam guarda.

         - Passará muito tempo até que eles e as gerações vindouras compreendam quem sou e porque fui enviado por Meu Pai... Tu, por vires de onde vens, estás mais perto do que eles da Verdade.

         - Não compreendo, Mestre, por que razão os teus homens andam armados. Bem poucos acreditariam... no meu tempo.

         - Os que estão comigo - respondeu com um timbre de tristeza - não me entenderam.

         - Senhor, há tantas coisas de que desejaria falar-te!...

         - Ainda temos tempo. A cada dia o seu trabalho. Era irritante. Tanto tempo esperando por aquela oportunidade e agora, ali tão perto dEle, não sabia que dizer nem que perguntar... - Perguntaste-me antes o que se passava comigo - comentei, intrigado. - Como te apercebeste? - Levanta a pedra e lá  Me encontrarás. Corta a madeira e Eu estou lá . Onde há solidão , também Eu estou...

Sabes, toda a minha vida me senti só. Jesus replicou de modo fulminante:

         - Eu sou a luz que todos ilumina. HÁ muitos que estão junto da porta mas, em verdade te digo, que só os solitários entrarão na câmara nupcial.

         - Tranquiliza-me saber que também os que duvidam têm um canto no Teu coração.

         O gigante sorriu pela segunda vez. Porém, desta vez os seus olhos brilhavam como bronze polido.

         - O mundo não é digno daquele que a si mesmo se encontra... - Mil vezes para mim tenho feito a mesma pergunta: porque estamos aqui?

         - O mundo é uma ponte. Passai por ela, mas não vos instaleis nela.

         - Mas - insisti -, não respondeste à minha pergunta...

         - Sim, Jasão, respondi. Este mundo é como a antecâmara do Reino de Meu Pai. Prepara-te na antecâmara, a fim de que possas ser admitido na sala do banquete. Sê caminhante que não se detém!

         - Mas, Senhor, conheço muitos que se instalaram na sua sabedoria e dizem possuir a Verdade...

         - Diz-me uma coisa, Jasão. Onde cresce a semente?

         - Na terra.

         - Em verdade te digo que a verdadeira sabedoria só pode nascer no coração que chegou a ser como o pó... O sábio e o ancião que não hesitarem em perguntar a um menino de sete dias pelo lugar da Vida, viverão. Porque muitos primeiros serão últimos e virão a ser um só... - Se os que vos guiam vos dizem: Olhai, o Reino está no céu; então os pássaros do céu vos precederam. Se vos dizem que está no mar, então os peixes do mar vos precederam. Porém, eu digo-te que o Reino de Meu Pai está dentro e fora de vós. Quando vos conhecerdes sereis conhecidos e sabereis que sois os filhos do Pai vivente. Mas se não vos conhecerdes, estareis na pobreza e sereis a pobreza.

         O Rabi deve ter notado a minha confusão. E acrescentou:

         - Alguma vez escutaste o teu próprio coração?

         Concordei, sem saber onde queria chegar.

         - O segredo para possuir a Verdade está apenas em Meu Pai. E em verdade te digo que meu Pai sempre esteve no teu coração. Só tens de olhar para dentro... Bem-aventurado o que procura, embora morra acreditando que nunca encontrou. E ditoso aquele que, à força de procurar, encontra. Quando encontra, perturbar-se- . E, tendo-se perturbado, maravilhar-se-á e reinará  em tudo. - Senhor, eu olho à minha volta e maravilho-me e entristeço-me ao mesmo tempo...

         - Eu garanto-te, Jasão, que todo aquele que sabe ver o que tem diante dos olhos receberá  a revelação do oculto. Nada há ocultado que não venha a ser revelado.

         A minha timidez inicial foi-se dissipando. O calor e a cordialidade daquele Homem acabavam por destruir as muralhas mais inexpugnáveis. Mas a nossa conversa viu-se subitamente interrompida por alguns dos seus discípulos. A multidão que se apinhava às portas da casa de Simão exigia o Rabi e os homens do Nazareno sentiam-se impotentes para a conterem. Quando o Mestre se afastou, jurei para comigo que procuraria novas oportunidades de conversas com Ele e Lhe expor as minhas intermináveis dúvidas.

         Segui-o. A multidão que vira às portas do jardim da casa de Simão agitou-se ao ver o Mestre. Mas Jesus não passou do portão. Ali, ladeado pelos Seus discípulos, saudou os peregrinos. Porém estes, informados do milagre que fizera com Lázaro, não se contentaram em vê-Lo e começaram a pedir-Lhe um sinal. Eu não saía do meu assombro. A julgar pelos seus gritos, aqueles hebreus - galileus na sua maioria – não pretendiam escutar o Nazareno. O que realmente lhes interessava era assistir a outro prodígio...

         Jesus, com evidentes sinais de desilusão, levantou os braços e fez-se silêncio. Um silêncio de expectativa. E muitos dos ali apinhados começaram a sentar-se no chão, convencidos de que a sua longa caminhada não seria estéril e que depressa contemplariam outro espetáculo. Mas o Mestre, em tom enérgico, disse-lhes:

         - Néscios!... Eu apareci no meio do mundo e em carne fui visto por ele. E encontrei todos os homens ébrios, e entre eles não encontrei nenhum sedento... O meu espírito ficou dorido com os filhos dos homens, porque são cegos de coração e não vêem!

         E antes que algum dos presentes pudesse reagir deu meia volta, encaminhando-se com passo rápido para a mansão do Seu anfitrião. Sinceramente, alegrei-me. Aquela turba, sedenta de emoções e prodígios, não merecia outra coisa. Pouco a pouco, fui-me apercebendo de que as multidões muito pouco tinham assimilado da mensagem daquele Homem. Nem sequer os mais chegados - como verificaria no dia seguinte, pela entrada triunfal em Jerusalém - tinham distinguido, naquela altura do ensinamento de Cristo, de que reino falava o Mestre. Começava a compreender o verdadeiro alcance daquelas frases do Rabi, pronunciadas pouco antes, nas escadas: Os que estão comigo não me entenderam...

         Pelas três da tarde, na companhia de Lázaro e de suas irmãs, entrava pela primeira vez no pátio com arcadas da casa de Simão. O ancião ia recebendo no centro do recinto aquela larga meia centena de convidados. Todos - conhecidos ou não do dono da casa - eram saudados com o ósculo, ou beijo da paz.

         Imediatamente, os familiares e criados do antigo leproso acompanhavam os convidados até aos lugares que lhes eram atribuídos, em redor de uma mesa muito baixa e em forma de U. Diferindo do pátio da casa de Lázaro, o de Simão estava coberto na sua totalidade por um toldo ou lona, preso por cordas aos capitéis das colunas que rodeavam o formoso local.

         A cisterna central fora tapada com tábuas, de tal modo que no centro do U ficava um espaço mais que suficiente para a movimentação dos criados. Ao chegar em frente de Simão, Lázaro encarregou-se de me apresentar ao ancião.     Ao beijá-lo verifiquei como a sua face direita conservava ainda as profundas cicatrizes da sua doença. Parte do olho, e a zona correspondente do lábio superior estavam rasgadas e deformadas. A barba branca e abundante não conseguia ocultar a marca do temível mal. A mão esquerda ficara mutilada nas últimas falanges dos três dedos do meio.

         No entanto, o venerável ancião parecia ter esquecido aqueles anos difíceis e mostrava-se agora feliz e satisfeito, ostentando as melhores galas: uma túnica de linho, tingida de púrpura, e um manto de brilhante seda, com franjas azuis e escarlates.

         Quando Lázaro e eu fomos encaminhados para os nossos lugares à mesa, verifiquei com alívio que o ressuscitado ia ficar a meu lado. Instintivamente, olhei para Marta, que permanecia de pé junto das restantes mulheres, e me sorriu maliciosamente.

         Segundo o costume, tive de reclinar-me sobre a minha ilharga direita. Embora, habitualmente, os Judeus comessem sentados em cadeiras ou tamboretes, nos grandes momentos - e aquela era uma festa em que ambas as aldeias, Betânia e Betfagé, prestavam uma sincera homenagem ao Mestre - tinham adotado a tradição helenística de almoçar reclinados sobre cômodas almofadas e esteiras. A única exceção, neste caso, foi Jesus. Como convidado de honra, ocupava o centro do U, tendo sido preparado uma espécie de divã baixo, que mal sobressaía da mesa.

         Ainda que todos os convidados tivessem recebido na manhã de sexta-feira o respectivo convite com os nomes dos restantes comensais, de acordo com uma arraigada tradição, o dono da casa enviara naquela mesma manhã de sábado outros tantos mensageiros aos domicílios dos seus amigos, recordando-lhes o lugar e a hora do banquete. Respeitosamente, esquecendo mesmo a grande amizade que unia as duas famílias, Lázaro tinha esperado esta segunda e última comunicação do mensageiro. Só nesse momento saímos de casa. Ao subir as escadarias da casa de Simão atraiu-me a atenção uma tela branca, pendurada nas portas do átrio. Lázaro explicou-me que aquele pano dava a entender que ainda era tempo de entrar na ceia. O aviso só era retirado depois de ter sido servido o terceiro prato. Jesus e os Seus discípulos - os doze - estavam Já no pátio quando o meu amigo e eu fomos recebidos pelo anfitrião. Pelo que pude apreciar, o Rabi parecia ter esquecido o desagradável encontro com a multidão que Lhe pedira um milagre, e ria abertamente, demonstrando um humor invejável. Em contrapartida, os Seus homens, apesar de terem prescindido das espadas, não refletiam demasiada alegria. Senti-os nervosos e tensos. Em seguida, compreendi a razão. Entre os convidados encontravam-se quatro ou cinco sacerdotes de uma das comunidades de fariseus: mortais inimigos do Mestre. Às portas permaneciam alguns guardas do Templo - levitas, na sua maioria - que tinham acorrido a Betânia com a suspeitíssima missão de escoltar os altos dignitários do sacerdócio de Jerusalém.

         Lázaro comentou-me, em voz baixa, que havia algumas dúvidas quanto às verdadeiras finalidades daqueles fariseus. Era muito possível que - cumprindo ordens de Caifás -, naquele mesmo entardecer, uma vez passado o sábado, os homens do Sinédrio prendessem Jesus. Mas os separados ou os santos - como também eram conhecidos os fariseus - não fizeram gesto algum que pudesse alertar os adeptos de Cristo. Pelo contrário: embora em momento algum se aproximassem do grupo em que dialogava Jesus, depois de arregaçarem as amplas mangas das túnicas deixaram que as mulheres procedessem à obrigatória lavagem de mãos e pés, reclinando-se nos seus lugares com vivos sinais de satisfação. Suponho que a sua cordialidade podia obedecer aos magníficos alimentos que Já tinham começado a circular pela mesa. Os criados de Simão tinham disposto uma espécie de grandes tigelas de fina cerâmica (hoje conhecida como terra sigillata), compactas e de cuidada forma, fabricadas de barro vermelho e - segundo me disse Lázaro - provenientes de Itália. Ao levantar a minha tigela pude ver na sua base o selo do fabricante: um tal Camurius, conhecido oleiro de Arezzo.

(Decorei aquele nome e, na tarde de segunda-feira, quando, por fim, pude regressar ao módulo, Papai Noel confirmou que o citado artesão italiano vivera e trabalhara em tempos de Tibério e Cláudio, desde os anos 14 e 54 depois de Cristo.)

         Simão, seguindo os costumes, contratara um cozinheiro de Jerusalém. Curiosamente, se as coisas saíam mal e se todos se mostravam desgostosos com a ementa, o chefe de cozinha devia reparar a afronta, pagando do seu bolso os gastos, numa proporção que sempre dependia da categoria social do anfitrião e dos seus comensais. Não foi este o caso. A verdade é que tudo se passou de modo estranho. (Pelo menos para os Hebreus.)

         Depois do caldo, à base de verduras e ervas aromáticas, único prato em que se utilizou a colher, os convidados saborearam peixe cozido e cordeiro assado, habilmente condimentados à base de cebolas e alhos. servidos em bandejas de bronze e prata. O quarto ou quinto prato consistiu em frutos secos, especialmente passas de uva, tâmaras e mel silvestre. Tudo isto, naturalmente, generosamente regado - do princípio ao fim - com um vinho do Hébron, servido em altos copos de cristal primorosamente facetados. Nas costas de cada comensal fora colocada uma bacia de metal, com o fim de nela poderem lavar as mãos. (O costume judaico estabelecia que os alimentos deviam ser comidos com os dedos.)

         Ao chegar às sobremesas, o alvoroço geral aumentou sensivelmente. Alguns dos criados e músicos contratados por Simão começaram a tanger os seus instrumentos - fundamentalmente flautas e cítaras - e as mulheres, que tinham permanecido de pé ou sentadas num grupo à parte, dependentes dos convidados, uniram-se à música, batendo palmas por cima das cabeças e acompanhando o ritmo com o corpo.  

         Jesus - que tinha comido com grande apetite - bebeu o seu terceiro copo de vinho e sorriu ao grupo, em que se destacava Maria. A irmã mais nova de Lázaro, como as suas outras companheiras, tinha modificado a sua indumentária comum e vestia uma atraente túnica, tingida com a célebre púrpura de Tiro e Sídon. (As nossas informações apontavam para o fato de o célebre molusco das praias da Fenícia - o murex - ser a matéria-prima da qual se obtinha a púrpura. Este gastrópode segrega uma tinta que, em contato com o ar, fica vermelho-escura. Os Fenícios descobriram-no e souberam comercializá-lo.) Maria - tal como ordenavam as normas sabáticas - prescindira da sua habitual faixa na testa e deixava flutuar a negra e longa cabeleira.

         Naquele momento, enquanto os criados retiravam as bandejas, dava começo, na realidade, o que nós conhecemos por sobremesa. Os comensais, eufóricos pelos vapores do vinho, embrenhavam-se nas mais diversas e intermináveis polêmicas. Jesus e Simão, no centro da mesa, dialogavam sobre o mítico Josué e de como foram derrubadas as muralhas de Jericó. Os discípulos, por seu lado, permaneciam estranhamente sóbrios e calados, atentos apenas ao grupo dos fariseus, que não paravam de beber copo atrás de copo. Para minha surpresa, alguns dos comensais começaram a arrotar sem o menor pudor. Aquilo converteu-se de repente em algo de coletivo. Ninguém parecia dar excessiva importância ao fato, com exceção do anfitrião e de mim. Mas as razões de Simão - que correspondia a cada um dos grosseiros gestos com uma leve inclinação de cabeça - obedeciam a outra escala de valores. Aqueles arrotos vinham demonstrar publicamente a satisfação de cada um dos convidados pela esplêndida comida e tratamento que lhe fora dado.

         Naturalmente, tive de me esforçar por arrotar, agradecendo assim ao meu novo amigo a sua sabedoria e delicadeza gastronômicas. Depois de serem servidas as sobremesas, várias donzelas foram passando junto de cada um dos comensais, oferecendo umas minúsculas bolinhas ou cápsulas transparentes e branco-amareladas. Ante a minha dúvida, Lázaro animou-me a tirar uma ou duas daquelas lágrimas e a introduzi-las na boca.

         Tratava-se de uma espécie de goma de mascar, muito refrescante e aromática. Segundo o meu amigo, eram extraídas dos lentiscos, que existiam aos milhares por toda a Palestina. Para os Hebreus, aquelas bolinhas reforçavam os dentes e a garganta, proporcionando, além disso, um hálito mais fresco e agradável.

         Nos dias seguintes - e graças às lágrimas de lentisco que Lázaro me proporcionaria - a minha falta de limpeza dentária viu-se notavelmente aliviada. Mas, ainda que tudo parecesse decorrer dentro da mais sã e intensa alegria, não tardaria a rebentar o escândalo...

         Creio que todos, ou quase todos os presentes – distraídos com a música e a agradável tertúlia - tardaram uns minutos em reparar naquela donzela que, saída às escondidas do grupo das mulheres, se ajoelhara nas costas de Jesus.          Era Maria.

         Dentro de mim, uma como que chicotada me avisou. Estava prestes a assistir à cena da unção. Sem o poder evitar, pus-me de pé e ante a desorientação de Lázaro, insinuei-me por detrás da mesa, até me colocar num dos cantos do U, a poucos metros dos convidados de honra.

         Progressivamente, os comensais foram ficando em silêncio, atônitos perante o que estava acontecendo. A irmã mais nova, com o seu habitual mutismo, tinha aberto uma garrafa, de uns trinta centímetros de altura e de forma afunilada. Parecia feita de um material extremamente translúcido (soube depois que se tratava de alabastro oriental). E ante o olhar complacente de Jesus, a adolescente verteu boa parte do conteúdo no cabelo do Mestre. Um líquido cor de conhaque foi impregnando lenta e suavemente a cabeleira acastanhada do Rabi, enquanto um penetrante aroma foi enchendo o recinto. Maria fechou o recipiente e, depois de o colocar junto das pernas, foi espalhando o perfume entre os sedosos cabelos do Galileu. Aquela unção foi feita com tanta simplicidade e amor que os olhos do gigante se encheram de lágrimas.

         Uma vez concluída a operação, Maria voltou a abrir a jarra, despejando a essência de nardo sobre os pés nus do Mestre. Espalhou o líquido ao longo dos artelhos, calcanhares e dedos, proporcionando a Jesus suaves e prolongadas massagens até o líquido ficar perfeitamente espalhado. Por aquela altura da unção, alguns dos comensais tinham começado a murmurar entre si, lamentando aquele esbanjamento. Num dos extremos da mesa, alguns dos discípulos - entre os quais se destacava Judas Iscariotes, pelos seus exuberantes gestos e palavras em voz alta apoiavam com os seus comentários os convidados que se mostravam abertamente aborrecidos com a atitude da jovem.

         Nem Maria nem Jesus se perturbaram com aqueles sussurros.

         Pelo contrário: a belíssima irmã de Lázaro - que tinha adornado as unhas das mãos e dos pés com um pó vermelho-amarelado (2) - lançou a cabeça para trás , e passando as mãos pela nuca, inclinou-se para os pés do Rabi, lançando para a frente a sua espessa cabeleira. Depois, sem pressa, foi enxugando com o cabelo os pés do Mestre, até ficarem secos e brilhantes. Os comentários, infelizmente, tinham-se tornado azedos. Judas, com manifesta indignação, chegou junto de André - irmão de Pedro - perguntando-lhe de forma que todos puderam ouvir:

         - Porque não se vendeu este perfume e se entregou o dinheiro para alimentar os pobres?... Deves falar ao Mestre para que a repreenda por esta perda...

 

         * Naquela noite, uma vez em casa de Lázaro, Maria mostrou-me o recipiente: era, efetivamente, uma espécie de pequena jarra, belamente trabalhada, com uma capacidade superior a trezentos gramas. (Um pouco mais de uma tradicional garrafa de refrigerante.) Roguei-lhe que me permitisse molhar um pequeno lenço no que restava do perfume e, dali a poucos dias, na minha obrigatória entrada no módulo - com o fim de preparar a segunda fase da exploração - os sistemas de bordo analisaram a essência, confirmando a sua origem como uma planta herbácea, cultivada em jardins, da família das valerianáceas.

         Apresentava-se (hoje quase só é trabalhada como essência pura) em fragmentos de raiz, curtos, grossos, como o dedo mínimo e de cor cinzento-escuro. Terminam num molho de fibras avermelhadas, em forma de espiga. É de cheiro forte e agradável e de sabor amargo e aromático. Também é conhecido como nardo do Índico, do Ganges Estaquide e Espicanardo. A sua densidade era ligeiramente superior ao normal. (N. do M.)

         Os Israelitas fabricavam este cosmético com a casca e folhas do arbusto chamado junção (henna para os Árabes). (N. do M.)

 

         Maria, assustada com o aspecto que os acontecimentos tinham ganhado, tentou levantar-se, mas Jesus deteve-a. E, pondo a mão esquerda na cabeça da jovem, dirigiu-se a quem ali estava, com voz serena mas firme:

         - Deixai-a em paz, todos vós!...Porque a molestais por isto, se ela fez o que lhe saía do coração? A vós, que murmurais e dizeis que este ungüento devia ter sido vendido e o dinheiro dado aos pobres, deixai-Me dizer-vos que sempre tereis os pobres convosco para que possais assistir-lhes a qualquer momento que bem vos pareça...Porém, eu nem sempre estarei convosco. Em breve irei para junto do Meu Pai!

         Depois, assestando Aquele olhar - a que nem parecia escapar o ondular das chamas das candeias – nos olhos de Judas Iscariotes, continuou num timbre muito mais enérgico:

         - Esta mulher guardou muito tempo este ungüento para o Meu Corpo, no Seu enterro. E agora, que lhe pareceu bem fazer esta unção em antecipação à minha morte, não lhe deve ser negado tal desejo. Ao fazer isto, Maria a todos vós censurou, pois com este ato evidencia fé no que lhe disse sobre a Minha morte e a ascensão até Meu pai do céu. Esta mulher não deve ser condenada pelo que fez esta noite. Mas antes vos digo que nos tempos vindouros, onde quer que se pregue este evangelho por todo o Mundo, o que ela fez ficar  para Sua memória.

         Maria desapareceu do pátio e eu retirei-me para o meu lugar.

         Lázaro parecia triste. Tanto ele como Marta sabiam que sua irmã poupara durante muito tempo para comprar aquele caríssimo perfume. A família, contrariamente ao que tinha observado entre os próprios discípulos, tinha chegado ao fundo do problema e compreendia que aquela podia ser a última Páscoa de Jesus.

         Os murmúrios baixaram, mas alguns dos apóstolos continuaram a comentar o acontecido, movendo negativamente a cabeça, em sinal de desacordo com o Rabi. Judas Iscariotes caíra num impenetrável silêncio. Os seus olhos assustaram-me, exprimiam um ódio surdo e contido. Saltava à vista que tomara aquelas palavras de Jesus como uma censura pessoal e, sem dúvida alguma, se sentira ridicularizado diante dos outros. Em minha opinião, fora a partir daquele incidente que o traidor começou a tramar a sua vingança contra o Galileu. Duvido muito que Judas pensasse naquele momento em entregar o Mestre aos membros do Sinédrio. Não tinha sentido, Já que a própria guarda do Templo recebera ordens concretas para o prender. No entanto, o seu espírito vingativo viu assim aberto um caminho para tentar humilhar Cristo e obter satisfação.

         Estava Já próxima a vigília do domingo quando alguns dos fariseus, que tinham permanecido num prudente silêncio, se dirigiram a Jesus e, não falando da valiosa natureza do perfume, o recriminaram por ter consentido que aquela mulher

tivesse violado as sagradas leis do descanso sabático. Segundo consegui entender, uma das normas estabelecia que uma mulher não podia sair de casa com uma agulha que tivesse buraco (quer dizer, apta para coser), nem com um anel que tivesse sinete, nem com um gorro em forma de caracol, nem com um frasco de perfume. Se infringia este código era obrigada a pagar e oferecer sacrifício, como compensação do seu pecado.

         Jesus olhou divertido para os sacerdotes.

         - Dizei-me - perguntou-lhes -, de onde vindes?

         - De Jerusalém - afirmaram.

         - E como é possível que condeneis uma mulher que caminhou menos de um estádio, quando haveis percorrido mais de quinze?

         Recordei então que os Hebreus tinham uma manha para irem além dos dois mil côvados ou um quilômetro, que era o trajeto máximo permitido ao sábado. Jesus sabia que, embora o povo simples pusesse em prática o erub, os santos ou separados enalteciam publicamente a sua extrema pureza não hesitando, contudo, em infringir estas leis quando estava em jogo uma boa comezaina. Os fariseus agitaram-se, inquietos. Mas Cristo não estava disposto a dar-lhes quartel. A quase totalidade dos cinco mil membros das comunidades ou irmandades de fariseus de Israel era composta por comerciantes, artesãos ou camponeses, sem a sólida formação dos escribas e, baseados nas suas rigorosas normas de pureza e de pagamento do dízimo, tinham-se elevado em relação aos ammé ha-ares ou grande massa do povo de Israel. Esta presunção e dureza de coração era algo que o Rabi da Galiléia não suportava. E não tardou em dizê-lo nas suas caras, para regozijo de uns e nervosismo de outros; em especial dos Seus mais chegados, que temiam a ira dos que se autoproclamavam como partido do povo.

 

         * O conteúdo da pequena jarra representava cerca de trezentos gramas de essência de nardo índico. O seu valor andava à volta de trezentos denários. (Com duzentos se podia dar de comer a umas cinco mil pessoas.) (N. do M.)

 

         - Ai de vós, fariseus - lançou Jesus, corajosamente. – Sois como um cão deitado no estábulo dos bois, nem come ele nem deixa comer os bois.

         - Quem és tu - esgrimiram os representantes de Caifás com ar de suficiência -, para nos ensinares onde está a Verdade?

         - Para que viestes ao campo? - atacou o Nazareno. – Talvez para ver uma cana agitada pelo vento?... Para ver um homem de roupas delicadas? Os vossos reis e os vossos grandes personagens - vós próprios - cobris-vos de trajes de seda e de púrpura, porém Eu vos digo que não podereis conhecer a Verdade.

         - Vinte e quatro profetas falaram em Israel e nós seguimos o seu exemplo...

         Os convidados voltaram os seus rostos para Jesus. Mas o Galileu continuava imperturbável. O Seu domínio da situação crispara os ânimos dos fariseus.

         - Falais dos que estão mortos e escorraçais O que vive entre vós?

         - Diz-nos quem és para que acreditemos em ti - responderam.

         - Observais atentamente a superfície do céu e da terra e não haveis conhecido Aquele que está entre vós...

         E, virando o olhar para mim, acrescentou:

         - Não sabeis conhecer este tempo...

         Uma onda de sangue me subiu do ventre.

         Os fariseus optaram por se levantarem, renunciando àquela batalha dialética. Entre expressivos sinais de indignação, lavaram as mãos nas bacias. Mas Jesus não tinha terminado. E antes que tivessem abandonado o recinto, atirou-lhes:

         - Ai de vós, fariseus! Lavais a parte de fora da taça sem compreender que quem fez a parte de fora também fez a parte de dentro...

         Começava a tornar-se muito clara para mim a razão por que as castas dos sacerdotes, escribas e fariseus se tinham conspirado para prender e dar morte àquele homem.

         A tempestuosa cena culminou com a saída dos sacerdotes. Quando Já os convidados se despediam de Simão, Pedro aproximou-se do seu Mestre e, com ar conciliador, propôs-lhe que Maria fosse afastada do grupo, Já que as mulheres, comentou, não são dignas da Vida. O Nazareno deve ter ficado tão perplexo como eu. E, no mesmo tom, respondeu ao impulsivo discípulo:

         - Eu a guiarei para a fazer homem, para que ela se transforme também em espírito vivente semelhante a vós, homens. Porque toda a mulher que se faça homem entrará  no Reino dos Céus. Naquela noite, ao retirar-me para o meu quarto e ao estabelecer ligação com o módulo, Eliseu anunciou-me que a frente fria tinha penetrado Já pelo Oeste e que, muito provavelmente, a entrada de Jesus em Jerusalém - prevista para o dia seguinte, domingo - ver-se-ia ameaçada pela chuva.

 

                                   2 DE ABRIL, DOMINGO

         Naquela noite de sábado precisei de muito tempo para adormecer. Tinham sido demasiadas as emoções... Mas, principalmente, havia algo que me preocupava. Porque se manifestara Jesus daquela maneira sobre as mulheres?

         Depois de muito meditar, só pude chegar a uma conclusão: o Nazareno tinha consciência da deprimente situação social da mulher e propunha-se melhorá-la. Nos estudos que tinham precedido a Operação Cavalo de Tróia, eu tivera a oportunidade de verificar que, na quase totalidade do Oriente - e Israel não era exceção - o papel da mulher na vida pública e social era nulo. Porém, os textos e documentos que eu manipulara na minha preparação estavam muito distantes da realidade. Pelo pouco que observara, o desprezo dos homens pelas suas companheiras bradava aos céus. Quando a mulher judia, por exemplo, saía de casa - pouco importava para quê - tinha de levar a cara coberta por um toucado, que compreendia dois véus sobre a cabeça, um diadema na testa - com fitas pendentes até ao queixo - e uma rede de cordões e nós. Deste modo não se podiam ver os traços do rosto. Entre os Hebreus contava-se o sucedido com um sacerdote importante de Jerusalém que não chegou a conhecer a própria esposa, ao aplicar-lhe a sentença prescrita para a mulher suspeita de adultério. (Poucos dias depois teria a magnífica oportunidade de assistir a uma triste e fanática tradição que os Judeus denominavam as águas amargas, compreendendo um pouco melhor a revolucionária atitude de Jesus para com as hebréias.)

        A mulher que saísse do seu lar sem levar a cabeça coberta ofendia a tal ponto os bons costumes que o seu marido tinha direito e - segundo os doutores da lei - até o dever de a repudiar sem ser obrigado a pagar-lhe a soma estipulada em caso de divórcio. Pude verificar que, neste aspecto, havia mulheres tão rigorosas que nem em sua própria casa se descobriam. Foi este o caso de uma tal Qimjit que - segundo se conta - viu sete filhos chegarem a sumos sacerdotes, o que se considerou uma recompensa divina pela sua austeridade. Que caia sobre mim isto e aquilo, dizia a pudica, se as vigas da minha casa alguma vez me viram a cabeleira. Só no dia da boda, se a mulher era virgem e não viúva, aparecia no cortejo de cabeça descoberta.

         Nem é preciso dizer que as israelitas - especialmente as da cidade deviam passar despercebidas em público. Um dos escribas - Yosé ben Yojanan - tinha chegado dizendo, por volta de 150 antes de Cristo: Não fales muito com uma mulher. Isto é válido para a tua mulher, mas muito mais para a mulher do próximo. As regras da boa educação proibiam, mesmo, encontrar-se alguém a sós com uma hebréia, olhar para uma casada ou saudá-la. Era uma desonra para um aluno dos escribas falar com uma mulher na rua. Aquela rigidez chegava a tal extremo que a judia que falasse com toda as pessoas na rua ou ficasse à porta de sua casa podia ser repudiada, sem receber a paga estipulada no contrato matrimonial.

         A situação da mulher na casa não se via modificada, em relação a esta conduta pública. As filhas, por exemplo, deviam ceder sempre os primeiros lugares e - até a passagem nas portas - aos rapazes. A sua instrução limitava-se estritamente aos trabalhos domésticos, bem como o coser e o tecer. Cuidavam dos irmãos mais novos e, em relação ao pai, tinham a obrigação de o alimentar, de lhe dar de beber, de o vestir, de o tapar, de o tirar e de o meter na cama quando velho, de lhe lavar a cara, as mãos e os pés. Os seus direitos, no que se refere à herança, não eram os mesmos que os dos varões. Os filhos e os seus descendentes precediam as filhas. O poder paterno era extraordinariamente grande em relação às filhas menores antes da sua boda. Encontravam-se em poder dos pais. A sociedade judaica daquele tempo distinguia três categorias: a menor (até idade de doze anos e um dia), a jovem (entre os doze e os doze anos e meio), e a adulta (depois dos doze anos e meio). Até à idade dos doze anos e meio, o marido tinha todo o poder, a não ser que a jovem - ainda mais nova - estivesse Já prometida ou separada. Segundo este código social, as filhas não tinham direito a possuir absolutamente nada, nem o fruto do seu trabalho nem o que pudessem encontrar, por exemplo, na rua. Tudo era do pai. A filha - até à idade de doze anos e meio - não podia recusar um casamento imposto por seu pai.

         Chegou a dar-se o caso de serem casadas com homens disformes. O escrito rabínico Ketubot falava, até, de alguns pais tolos que chegaram a esquecer a quem tinham prometido as filhas. O pai podia vender a filha como escrava, desde que não tivesse completado ainda os doze anos. Os esponsais costumavam celebrar-se muito cedo. Um ano depois, geralmente, a filha celebrava a boda propriamente dita, passando então do poder do pai para o do marido. (E realmente não se sabia qual podia ser pior.) Depois do contrato de compra e venda, porque no fundo era isso a cerimônia de esponsais e matrimônio a mulher passava a viver na casa do esposo. Isto, geralmente, significava uma nova carga, além de enfrentar uma família que lhe era estranha e que quase sempre manifestava uma aberta hostilidade pela recém-chegada. Para dizer a verdade, a diferença entre a esposa e uma escrava ou uma concubina era dispor a primeira de um contrato matrimonial e a última não. A troco de poucos direitos, a esposa encontrava-se sobrecarregada de deveres: tinha de moer, coser, lavar, cozinhar, amamentar os filhos, fazer a cama do marido e, como compensação pelo seu sustento, fiar e tecer. Outros juntavam mesmo a estas obrigações as de lavar a cara, mãos e pés e preparar o copo do marido. O poder do marido e do pai chegava ao extremo de, em caso de perigo de morte, se ter de salvar primeiro o marido. Sendo permitida a poligamia, a esposa tinha de suportar a presença da ou das concubinas.

         Quanto ao divórcio, o direito estava única e exclusivamente da banda do marido. Isto dava lugar, logicamente, a constantes abusos. Naturalmente, do ponto de vista religioso, a mulher israelita também não estava equiparada ao homem. Via-se submetida a todas as prescrições da Tora e ao rigor das leis civis e penais - incluída a pena de morte - não tendo acesso, em contrapartida, a nenhum tipo de ensino religioso. Mais: uma sentença de R. Eliezer dizia que quem ensina a Tora (a lei) a sua filha, ensina-lhe a libertinagem. Este eminente doutor -que viveu até ao ano 90 depois de Cristo - dizia também: Mais vale queimar a Tora que transmiti-la às mulheres. Na casa, a mulher não era contada no número das pessoas convidadas - tal como tivera oportunidade de verificar no banquete oferecido por Simão, o Leproso - e também não tinha o direito de prestar testemunho num julgamento. Simplesmente, era considerada como mentirosa por natureza. Era muito significativo que o nascimento de um varão fosse motivo de alegria, e o de uma menina se visse acompanhada pela indiferença, mesmo pela tristeza. Os escritos rabínicos Qiddushin (82 b) e até o Nidda (31 b) afirmavam: Desgraçado daquele cujos filhos são meninas! Só conhecendo este deplorável quadro social em que tão mal vivia a mulher judia, alguém podia entender na sua justa medida a coragem de Jesus ao rodear-se de mulheres, conversar com elas e instruí-las e tratá-las como os homens. Fiquei muito surpreendido ao verificar que o Rabi da Galiléia não só tinha escolhido doze varões, como também procurara rodear-se de outro grupo de mulheres (cheguei a contar dez), que seguiam o Mestre para onde ele ia. Este fato, como outros que pouco a pouco iria descobrindo não fora incluído com clareza nos Evangelhos canônicos que conhecemos.

         Tal como me anunciara Eliseu na última ligação auditiva, aquela manhã de domingo, 2 de Abril, amanheceu enevoada. Uma chuva ligeira refrescou sensivelmente a temperatura, dando um brilho especial às campinas e perfumando Betânia com um agradável cheiro a terra molhada.

         Assim que me foi possível, fui a casa de Simão. O Mestre, madrugador, chamara os Seus homens e mulheres, com eles se reunindo no jardim. Ali, o Gigante - que apresentava um semblante mais sério que no dia anterior - deu-lhes instruções concretas, em relação à próxima celebração da Páscoa. Insistiu especialmente em que não levassem a cabo manifestação pública alguma enquanto permanecessem dentro da Cidade Santa e que, principalmente, não saíssem de junto dEle. Uma vez mais, os discípulos associaram aquelas medidas de precaução à ordem de captura ditada pelo Sinédrio. Jesus, como julgo ter mencionado, sabia que alguns dos Seus homens andavam permanentemente armados. No entanto, não fez alusão alguma às suas espadas. Quando Jesus Cristo começou a fazer uma recapitulação do que fora o Seu ministério, desde a Sua ordenação em Cafarnaum, até aquele dia, observei como Judas Iscariotes, sem prestar atenção, dedicava todos os seus cuidados à conferência da bolsa comum. Pouco depois, abandonou o grupo, entrando em casa. Naquela mesma manhã, muito de madrugada, David Zebedeu lhe entregara os fundos conseguidos

pela venda do acampamento instalado semanas antes na cidade de Péla, na margem oriental do Jordão , a umas quarenta milhas do mar Morto.

         A bolsa comum devia ser suficientemente importante para que Judas a confiasse naquela mesma manhã ao velho anfitrião. Segundo parecia, a iminente entrada de Jesus em Jerusalém não aconselhava que o administrador do grupo levasse consigo tanto dinheiro. Na realidade, era naquela data da Páscoa que os Israelitas eram obrigados por uma antiqüíssima lei a satisfazer aquilo a que chamava o segundo dízimo. Por outras palavras, uma vez postas de lado a importância da oferenda que se fazia no templo e o primeiro dízimo (1), cada hebreu tinha a obrigação de consumir ou gastar em Jerusalém - isto era imprescindível - o citado segundo dízimo, de acordo com as suas possibilidades econômicas. Se o judeu vivia longe da Cidade Santa podia converter o segundo dízimo em dinheiro e levá-lo para Jerusalém, onde tinha a obrigação de o gastar em alimentos e bebidas, precisamente durante a festa da Páscoa. (A Misn  dedica cinco capítulos ao que se pode e ao que não se pode fazer com o referido imposto.)

         Judas conhecia perfeitamente esta obrigação e, provavelmente, ao fazer o balanço dos fundos gerais, tinha separado Já o dinheiro que devia ser gasto em Jerusalém, na acepção de segundo dízimo. No entanto, o fato de o deixar nas mãos de Simão dava a entender que Jesus e os Seus homens tardariam ainda uns dias antes de ida a Jerusalém para celebrar a tradicional ceia pascal. Embora se tratasse apenas de uma presunção muito pessoal - que nunca tentei averiguar - é possível que Jesus tivesse Já trocado impressões com Judas, como responsável pelo dinheiro, marcando mesmo o dia para o referido rito.

 

         Uma vez que se punha de parte e se entregava ao sacerdote a oferenda (teruma gedola) que, segundo a disposição rabínica, devia ser, em média, cinqüenta avos da produção obtida no campo do restante tinha de pôr de lado um dízimo, que era destinado aos levitas (guardas do Templo), e que era chamado primeiro dízimo ou dos dízimo dos levitas. O Pentateuco refere-o em várias passagens: “Toda a décima parte da terra, tanto das sementes da terra como dos frutos da  árvores, é do Senhor, é coisa sagrada ao Senhor“. (Levítico, 27-30).

“E dou como herança aos filhos de Levi todos os dízimos pelo serviço que prestam, pelo serviço ao tabernáculo da reunião”. (Números, 18 21). A Misn  dedica mais cinco capítulos aos pormenores deste primeiro dízimo: Que frutos estão sujeitos ao dízimo, em que momento tem de fazer-se, em que casos podem comer-se frutos sem ter separado o dízimo e aplicação do dízimo em casos de replantio, venda, aproveitamento do subproduto e plantas livres da obrigação do pagamento do dízimo. (N. do M.)

 

         Ao visitar Jerusalém nos dias seguintes, pude perceber a grande importância que tinha para os residentes da Cidade Santa a presença daqueles milhares de peregrinos - chegados de todas as províncias e do estrangeiro - e, principalmente, o benefício econômico que para eles representava o fato de cada hebreu ter de gastar durante a Páscoa uma parte dos seus ganhos anuais. Um dinheiro que era sempre considerável, se tivermos em consideração que esse segundo dízimo era retirado dos ganhos globais das vendas do gado, dos pomares e dos vinhedos de quatro anos, além dos trabalhos artesanais. O Nazareno terminou o sua conversa prometendo-lhes que ainda lhes deixaria muitas instruções e lições... antes de voltar ao Pai. Porém os discípulos acabaram por não compreender o que ele dizia.

         No final, nenhum se atreveu a fazer uma só pergunta. Uma vez concluída a conferência, chamando de parte Lázaro, que me acompanhara a casa de Simão, Cristo recomendou-lhe que fizesse os preparativos necessários para deixar Betânia.

         Jesus, o ressuscitado e todos nós sabíamos que - depois do milagre - o Sinédrio discutira e chegara à conclusão de que Lázaro devia ser também eliminado. De que servia prender e executar o Galileu se ficava com vida o seu amigo, testemunha de exceção do milagroso acontecimento? Este pensamento – não destituído de lógica - levara os sacerdotes a planear uma ação paralela, que culminasse com a prisão de Lázaro.

         O meu amigo obedeceu e uns dias depois fugia para a povoação de Filadélfia, na zona mais oriental da fértil Pereia. Quando os guardas do Sinédrio vieram para o prender, só Maria, Marta e os seus criados estavam em casa. Na parte restante da manhã - até à uma e meia da tarde, altura em que se deu ordem de partida para Jerusalém -, o Rabi preferiu retirar-se para a zona mais frondosa do jardim de Simão. Na mesma noite, de regresso a Betânia, tive a coragem de lhe perguntar porque escolhera aquela maneira de entrar na cidade Santa. O Mestre, perfeito conhecedor das Escrituras, respondeu abertamente:

         - Assim era preciso, para que se cumprissem as profecias...

         Efetivamente, tanto no Gênese (29, 11) como em Zacarias (9,9) se diz que o Messias libertador de Jerusalém viria do monte das Oliveiras, montado num burrinho. Zacarias, concretamente, disse: Alegrai-vos muito, ó filha do Sião! Gritai, ó filha de Jerusalém!, Olhai, o vosso rei veio até vós. É justo e traz a salvação. Vem como o mais humilde, sentado num burrinho, a cria de um burro.

         Pela hora sexta (o meio-dia), depois de um frugal almoço, Jesus - que tinha recuperado o excelente bom humor do dia anterior - pediu a Pedro e a João que seguissem à frente até à povoação de Betfagé.

         - Quando chegardes à encruzilhada dos caminhos - disse-lhes encontrareis presa a cria de um asno. Soltai o burrinho e trazei-o.

         - Mas, Senhor - argumentou Pedro com razão -, e que devemos dizer ao dono?

         - Se alguém vos perguntar a razão por que o fazeis, dizei simplesmente: O Mestre tem necessidade dele.

         Pedro, muito habituado Já a estas situações desconcertantes, encolheu os

ombros e partiu para Betfagé. O jovem João - um rapaz silencioso, quase taciturno (deveria andar pelos dezesseis ou dezessete anos), magro como um caniço e de olhos pretos como o carvão - permaneceu ainda uns instantes contemplando o seu ídolo. No seu olhar adivinhava-se a surpresa e um certo temor. Que estava planejando o Mestre? De repente, reparou que Pedro Já se encaminhava para a saída e, dando um pulo, correu em perseguição do amigo.

         A essa altura, David Zebedeu - um dos mais ativos adeptos de Cristo -, sem nada dizer ao Mestre nem aos doze, tivera a genial idéia de se meter a caminho de Jerusalém e, na companhia de outros crentes, começou a avisar os peregrinos da iminente chegada de Jesus de Nazaré. Aquela iniciativa – como depois ficou demonstrado - ia contribuir decisivamente para a entrada triunfal do Mestre na Cidade Santa. Além das centenas de hebreus que, como todos os dias, tinham acorrido a Betânia, milhares de habitantes de Jerusalém e dos recém-chegados para a Páscoa tiveram conhecimento da presença daquele Galileu - que fazia milagres - e com coragem para fazer frente aos sumos sacerdotes. Não foi preciso esperar muito tempo. Pela uma e meia da tarde, Pedro e João reuniram-se à comitiva, que os esperava, Já fora da aldeia de Lázaro. Tal como o Mestre dissera, quando o voluntarioso Pedro chegou a Betfagé, lá estavam os animais: um asno e a sua cria. A verdade é que, conhecemos a povoação e a suas pessoas - todos fervorosos adeptos de Jesus - encontrar nas suas ruas os mencionados jumentos e convencer o dono a que emprestasse um deles ao Rabi não podia ser considerado como um ato milagroso. Aquela, pelo menos, foi a minha impressão. Se nalguma coisa Betânia e Betfagé se distinguiam das restantes povoações de Israel era precisamente naquilo: no profundo afeto e na férrea fé dos seus habitantes por Cristo. Lázaro confessou-me que estava convencido de que aquele milagre do Nazareno - possivelmente um dos mais extraordinários de quantos levou a cabo durante a sua vida pública - tivera por palco Betânia, não para que as pessoas das suas aldeias acreditassem, mas antes porque Já acreditavam. A teoria não era má. Cidades e povoações muito mais importantes - casos de Nazaré, Cafarnaum, Jerusalém, etc. - tinham repelido Jesus... O caso é que, segundo contou Pedro, quando este se dispunha a soltar o jumento, apareceu o dono. Ao perguntar-lhe porque fazia aquilo, o discípulo explicou-lhe para quem era e o hebreu, sem querer saber mais, respondeu:

         - Se o vosso mestre é Jesus de Galiléia, levai-lhe o burrinho. Ao ver o pequeno asno - de pêlo pardo, apenas com um metro de estatura e possivelmente da chamada raça silvestre (muito vulgar em África e no Oriente) -, quase todos os presentes fizeram a mesma pergunta. Para que precisaria o Mestre daquela dócil cria de asno? Jesus sempre trilharia os caminhos com a única ajuda das suas fortes pernas, que hoje seriam invejadas por muitos corredores de maratona...          Pouco depois, ao vê-lo caminhar entre a multidão que se apinhava no caminho e nas ruas de Jerusalém - no lombo do burrinho - comecei a suspeitar de quais podiam ser as verdadeiras razões que tinham impelido Jesus a procurar o auxílio daquele pequeno animal.

         O Mestre, sem mais demora, deu ordem de partida para Jerusalém. Os gêmeos, num gesto que Jesus agradeceu com um sorriso, estenderam os mantos por cima do burro, agarrando-o pelo cabresto enquanto aquele gigante montava escarranchado, o Nazareno agarrou a corda que fazia as vezes de rédeas e bateu levemente no asno com os joelhos, incitando-o a avançar. A considerável estatura do Rabi obrigava-o a dobrar as compridas pernas para trás , a fim de não arrastar os pés no pó do caminho. Com todo o meu respeito pelo Senhor, a Sua figura, cavalgando daquela maneira o jumento, era um espetáculo meio ridículo meio cômico. Pouco a pouco, fui-me apercebendo que aquele, precisamente, era um dos efeitos que o Mestre parecia pretender. A tradição - tanto oriental como romana - estabelecia que os reis e heróis entrassem também nas cidades montados em garbosos corcéis ou em engalanados carros. Algumas das profecias judaicas falavam, mesmo, de um rei - um messias - que entraria em Jerusalém como aguerrido libertador, sacudindo de Israel o jugo da dominação estrangeira.      Mas, que gênero de sentimento podia provocar no povo um homem de semelhante estatura, no lombo de um burrinho?

         Sem dúvida, uma das razões para entrar assim na Cidade Santa tinha de ser procurada numa idéia intencional de ridicularizar o poder puramente temporal. E Jesus ia consegui-lo...

         De início, tantos os homens do Seu grupo como as dez ou doze mulheres escolhidas por Jesus - e que se tinham unido à comitiva - ficaram desconcertados. Mas o Mestre era assim imprevisível, e eles amavam-No acima de tudo. E assim aceitaram o fato com resignação. O próprio Jesus, com as Suas constantes brincadeiras, contribuiu - não pouco – para desfazer os receios dos Seus fiéis adeptos. Eu próprio me vi surpreendido ao observar, como o Nazareno se ria da Sua própria sombra.

         Aquele ambiente festivo foi-se intensificando à medida que nos afastávamos de Betânia. Uma multidão que não se poderia calcular fora se juntando de ambos os lados do caminho, saudando, vitoriando e reconhecendo Cristo como o profeta da Galiléia. Os doze, que rodeavam estreitamente o Rabi (tanto Pedro, como Simão, o Zelota, Judas Iscariotes e mesmo o próprio André, tinham tomado precauções, e as suas espadas tinham voltado às faixas), estavam estupefatos. O seu medo inicial pela segurança do chefe e do resto do grupo foi-se dissipando à medida que avançávamos.

         Centenas - talvez milhares - de peregrinos de toda a Judéia, da Pereia e até da Galiléia pareciam ter-se tornado repentinamente loucos. Muitos homens se despojavam dos seus roupões e estendiam-nos no pó do caminho, sorrindo e mostrando-se encantados à passagem do burrinho. Como uma só pessoa, mulheres, crianças, velhos e adultos gritavam e repetiam sem cessar: Bendito o que vem em nome do divino!... Bendito seja o reino que vem do céu!...

         Tal como supunha, as pessoas não gritavam os conhecidos hosanna pela simples razão de que esta exclamação era um sinal ou pedido de auxílio, segundo a etimologia original da palavra judaica.

         Quero crer que aquele mesmo calafrio que me percorreu as costas e me fez tremer foi também experimentado pelos apóstolos quando, espontaneamente, muitos daqueles hebreus cortaram ramos de oliveiras, saudando o Mestre, lançando à Sua passagem as flores violetas dos cinamomos e queimando, mesmo,

os ramos desta  árvore, de modo que um fragrante aroma se espalhou pelo ambiente.

         Sinceramente, nenhum dos adeptos de Cristo podia esperar uma recepção como aquela. Onde estavam as ameaças e a ordem de captura do Sinédrio?

         Algumas mulheres erguiam os filhos, pondo-os nos braços do Nazareno, que os afagava sem cessar. O coração de Jesus, sem nenhum gênero de dúvidas, estava alegre. Mas, para minha surpresa, quando tudo fazia pensar que a comitiva seguiria pelo caminho habitual - aquele por onde fora, para me dirigir a Betânia -, Jesus e os doze viraram à direita, iniciando a subida da ladeira oriental do monte das Oliveiras. Eu não tinha reparado naquela íngreme e pedregosa caminho que, efetivamente, servia para encurtar caminho. Poucos metros depois, Jesus saltava agilmente do burrinho, continuando a pé a subida até ao cimo da montanha das Oliveiras.

         A chuva havia muito que tinha passado, embora o céu continuasse com umas negras e ameaçadoras nuvens. Enquanto o grupo se adelgaçava, caminhando praticamente em fila, um atrás do outro, por entre as plantações de oliveiras, senti um sobressalto no coração. Embora o módulo se encontrasse na cota mais alta do monte das Oliveiras e em cima de uns penhascos onde não tínhamos visto caminho alguma, havia sempre a possibilidade de os participantes naquela agitada manifestação de júbilo poderem penetrar na faixa de segurança do berço. Instintivamente, afastei-me do caminho e avisei Eliseu da aproximação da comitiva. Ao chegar ao cume, o Mestre parou. Respirei, aliviado, ao verificar que o ponto de contato do módulo se encontrava muito mais à direita e a uns trezentos pés do ponto onde tínhamos parado.

         Jerusalém, daquela posição privilegiada, aparecia em todo o seu esplendor. As torres da Fortaleza Antonia, do palácio de Herodes e, principalmente, a cúpula e as muralhas do Templo tinham-se tingido de amarelo com o entardecer, destacando-se de um mosaico de casas e vielas branco-acinzentadas. Um repentino silêncio pairou sobre a comitiva, apenas quebrado pelo rumor de pintalgados grupos de israelitas, que corriam, vindos das portas da Fonte e das Telhas - ao sul das muralhas -, avisados da chegada do Profeta.

 

         A inclusão dos familiares Hosanna ao filho de David!, que aparecem nos evangelhos canônicos, parece ser uma concessão posterior da Igreja primitiva, baseada no Salmo 118, 25, e que servia como profissão de fé. tal como indicou muito acertadamente Leonardo Boff. (N. do T.)

 

         Subitamente, o semblante de Cristo mudou. Daquele aberto e contagiante bom humor tinha passado a uma extrema gravidade. Os discípulos aperceberam-se disso, mas, simples como eram, não entendiam as razões do Rabi. Tudo estava saindo melhor do que teriam podido imaginar. O silêncio tornou-se definitivamente total, quase angustiante, quando os que ali se reuniam verificaram como Jesus de Nazaré, avançando até à crista da ladeira ocidental do monte das Oliveiras, começava a chorar. Foi um choro suave, sem estridência alguma. As lágrimas correram tranqüilamente pela face e pela barba do Nazareno. Eu senti um estremecimento e na minha garganta formou-se um nó  áspero. Com os braços descaídos ao longo da túnica, Cristo, sem poder evitar a sua comoção, e com a voz entrecortada, exclamou:

         - Ó Jerusalém, bastava que soubesses, mesmo tu, pelo menos neste teu dia, das coisas respeitantes à tua paz e que tão livremente poderias ter... Mas, agora, essas glórias estão prestes a ficar escondidas dos teus olhos... Tu preparas-te para repudiar o Filho da Paz e voltar as costas ao evangelho da salvação... Não tardam os dias em que os teus inimigos farão uma trincheira ao teu redor e te sitiarão por todos os lados. Destruir-te-ão completamente, a tal ponto que não ficará  pedra sobre pedra. E tudo isto acontecerá  porque não conhecias o tempo da tua divina visita... Preparas-te para repudiar a oferta de Deus e todos os homens te repudiarão. Obviamente, nenhum daqueles que escutaram aquelas frases podia ter sequer a intuição do trágico fim que o Rabi acabava de profetizar. Trinta e três anos mais tarde, de 66 a 70, o general romano Tito Flávio Vespasiano cairia primeiro sobre Israel com três legiões de elite e numerosas tropas auxiliares do Norte. Seu filho Tito terminaria a destruição do Templo e de boa parte de Jerusalém, no meio de um banho de sangue. Mais de oitenta mil homens, formando as legiões S.a, l0.a, 12.a e 15.d, reforçadas pela cavalaria, chegariam pouco antes da lua cheia da Primavera do ano 70 diante das muralhas da Cidade Santa. Em Agosto daquele mesmo ano, e depois de encarniçados combates, os romanos cravaram as suas insígnias no sagrado recinto dos Judeus. Em Setembro, tal como Jesus tinha avisado, não restava pedra sobre pedra da que fora a cidade umbigo do Mundo. Segundo os cálculos de Tácito, naquelas datas se tinham reunido em Jerusalém - com o fim de celebrar a tradicional Páscoa - à volta de seiscentos mil judeus. Pois bem, o historiador Flávio Josefo afirma que, durante o assédio, o número de prisioneiros - sem contar os crucificados e os que conseguiram fugir - se elevou a noventa e sete mil. E acrescenta que, no decorrer de três meses, só por uma das portas da cidade passaram cento e quinze mil cadáveres de israelitas. Os que sobreviveram foram vendidos como escravos e dispersos. As lágrimas e os lamentos do Nazareno estavam mais que justificados...

         O jovem João, um dos discípulos mais queridos de Jesus – sem dúvida pela sua inocência e generosidade - aproximou-se do Mestre e, com a alma comovida ofereceu-lhe, um lenço, dos que habitualmente se usavam para enxugar o suor do rosto e que era costume levar atado num dos braços. Cristo, sem pronunciar uma palavra mais, limpou as lágrimas e voltou a montar no jumento, iniciando assim a descida para a cidade.

         O rio de gente que tínhamos visto de cima subia Já a encosta, soando sempre mais alto os seus gritos de alegria. Jesus, fortemente escoltado pelos Seus homens, correspondia àquelas manifestações de afeto, avançando sempre com maior dificuldade. O gentio que saía em caudal pelas muralhas de Jerusalém não se contentava só em aclamá-lo de ambos os lados do caminho. Muitos, especialmente os meninos e os adolescentes, faziam remoinho em volta do burrico, obrigando os discípulos a abrir passagem aos empurrões e gritos. Era o delírio.

         O alvoroço entusiasmara de tal modo os hebreus da cidade e dos acampamentos montados à sua volta que, dali a pouco, quando a comitiva tentava passar por baixo do arco da Porta da Fonte, no vértice sul de Jerusalém, um grupo de fariseus e levitas - alertados pelo tumulto, e que, segundo os indícios, saía precipitadamente com a idéia de prender o impostor - fez a sua aparição entre a multidão. Os guardas do Templo, armados com espadas e maças, permaneceram na expectativa, esperando pela ordem dos sacerdotes. Mas o entusiasmo e o clamor daqueles milhares de judeus eram tais que tiveram de pensar com mais calma e, prudentemente, deixaram passar Jesus e os Seus adeptos. O Rabi, com uma invejável astúcia, evitara a Sua tumultuosa entrada pela zona norte-oriental de Jerusalém. Do cume do monte das Oliveiras, a entrada na Cidade Santa fora muito mais rápida, passando o leito seco do Cédron e penetrando pela chamada Porta Probática ou pela do Oriente, no lado oriental das muralhas. Aquela manobra, no entanto, tinha em si um perigo latente, passar muito perto da Fortaleza Antonia, sede e quartel-general das forças romanas de ocupação. Por outro lado, ao planejar a entrada triunfal pela zona mais meridional, Jesus via-se obrigado a passar por algumas das ruas mais populosas da parte baixa e velha da capital. Ainda que também nunca chegasse a perguntar-lhe, ao contemplar aquela imponente manifestação do povo judeu, feita a Jesus, tive a certeza de que o Mestre quis encaminhar os Seus passos para aquele setor de Jerusalém, precisamente com uma dupla intenção: permitir assim um mais prolongado e caloroso acolhimento que - de passagem - O protegeria e aos Seus homens contra a ordem de captura passada pelo Sinédrio. Aquela explosão foi tão sincera e clamorosa que, como Já mencionei, os sacerdotes não se atreveram a consumar a decisão tomada. Ao entrar nas ruas de Jerusalém, a multidão tornou-se tão expressiva que muitos jovens e mulheres, ao chegarem ao roseiral (único jardim permitido na Cidade Santa), arrancaram dezenas de flores, lançando-as à passagem de Cristo.

 

         * O nosso computador central, com base nos cálculos feitos na tlisn . tinha-nos prevenido quanto à afluência de judeus que poderíamos encontrar naqueles dias, na Páscoa, em Jerusalém. De acordo com as medidas dos diferentes Átrios do Templo, o Papai Noel fixara em cerca de dezoito mil os Israelitas que podiam ter acesso ao recinto sagrado, em três turnos, e que representava o sacrifício de outros tantos cordeiros pascais. Tendo em conta que cada vítima podia ser consumida por uma média aproximada de dez pessoas, isso significava um volume de uns cento e oitenta mil assistentes à festa. Destes, vinte mil eram habitantes da própria cidade de Jerusalém e talvez cinco ou dez mil mais estivessem acampados fora das muralhas. Em suma, os peregrinos chegados naqueles dias à Cidade Santa podiam andar à volta dos cem mil ou cento e vinte e cinco mil. Isto nos dá uma idéia bastante aproximada do que realmente constituiu a multidão à passagem de Jesus e dos seus discípulos, naquela tarde de domingo, 2 de Abril. (N. do L1).

 

         Aquele gesto enfureceu os perturbados espíritos dos fariseus e escribas que tinham vindo ao encontro do impostor e alguns - os mais audazes - abriram caminho a cotoveladas e empurrões, cortando a passagem ao Nazareno. Elevando as vozes por cima do tumulto, os sacerdotes gritaram a Jesus:

         - Mestre, deverias repreender os teus discípulos e exortá-los a que se portem com mais decoro!

         Mas o Rabi, sem perder a calma, respondeu-Ihes:

         - É conveniente que estes meninos acolham o Filho da Paz, que os sacerdotes principais repeliram. Seria inútil mandá-los calar... Se assim fizesse, no seu lugar poderiam falar as pedras da calçada.

         Os fariseus, desanimados e enraivecidos, deram meia volta e com a mesma violência se perderam na multidão , sem dúvida a caminho do Templo, onde - segundo pude verificar pouco depois - o Sinédrio celebrava um dos seus habituais conselhos. Estes sacerdotes informaram os seus colegas o que estava acontecendo nas ruas do bairro velho de Jerusalém. José de Arimatéia, membro deste Sinédrio e bom amigo de Jesus, relataria na manhã seguinte a André e aos outros apóstolos como os fariseus tinham entrado de rostos transtornados na sala das pedras talhadas - (lugar das sessões do Sinédrio) exclamando: Olhai, tudo o que fazemos é inútil! Fomos confundidos por esse Galileu. As pessoas ficaram loucas por ele... Se não determos esses ignorantes, toda as pessoas o seguirá!

         A triunfal comitiva prosseguiu a sua marcha pelas estreitas e íngremes vielas da cidade. As pessoas assomavam às janelas ou saudavam-No dos terraços e muitos - que, na realidade, viam o Nazareno pela primeira vez - perguntavam: Quem é este homem? A própria multidão e os discípulos se encarregavam de responder gritando: Este é o profeta da Galiléia! Jesus de Nazaré!

         Pelas três e meia ou quatro da tarde, chegamos à longa parede oeste do hipódromo. Uma vez ali, ao sul do grande recinto do Templo, Jesus desceu definitivamente do jumento, pedindo aos gêmeos Alfeu que regressassem a Betfagé e devolvessem o burrico ao dono. Atraídos pela incessante gritaria dos judeus, alguns dos membros do Sinédrio apareceram entre os altos arcos do aqueduto que unia o vértice sul-ocidental do Templo à zona alta da cidade, contemplando atônitos como a multidão solicitava, gritando, que Jesus falasse e fosse proclamado rei. No ânimo geral - incluindo os mais íntimos do Nazareno - flutuava a crença de que era ele o libertador esperado. Por um instante, deixei-me arrastar pela fantasia e imaginei o que poderia acontecer se o Rabi tivesse cedido aos incessantes pedidos do povo...

         Mas não eram essas - nem nada que se parecesse – as intenções do Galileu. Muito pelo contrário. Não se importando com as sugestões dos próprios discípulos, que lhe suplicavam que se dirigiu à multidão, Jesus de Nazaré, em silêncio e com o seu peculiar passo rápido, deixou-os, entrando no grande terreiro do Templo pela chamada Porta Dupla. Os apóstolos e as mulheres recordaram as ordens de Cristo de não se dirigirem publicamente aos Hebreus e, de cara fechada e mal humor, acompanharam o Mestre até ao interior do Templo, observando como parte dos que o tinham vindo aclamando se dispersava, enquanto outras centenas se decidiam, finalmente, por acompanhar o Mestre. Ao penetrar no grande terreiro que rodeava o santuário - e apesar de ter visto aquele formidável retângulo do ar -, fiquei impressionado pela magnificência da obra. Herodes jogara tudo por tudo na construção daquele Templo. Enormes blocos de pedra - meticulosamente esquadrejados e unidos (os maiores de 4,80 m x 3,90 m) - constituíam as fileiras inferiores dos olhares. O imenso Átrio dos Gentios, que rodeava totalmente o santuário propriamente dito, fora cercado por uma soberba colunata. Uma balaustrada isolava o Templo da zona destinada aos que não eram judeus (o mencionado Átrio dos Gentios). Por cima de duas das suas treze portas de acesso ao interior, e nas quais montavam guarda os levitas ou guardas, comandados pelos sete guardas permanentes, pude ler advertências - em grego - que, naturalmente, respeitei a todo o momento. Diziam textualmente: “Nenhum estrangeiro pode penetrar na cerca e muralha em torno do santuário. Todo aquele que for surpreendido violando esta ordem será  responsável pela pena de morte que daí lhe vier.”

         Realmente, os historiadores, como Josefo e Tácito, não tinham exagerado ao descreverem aquela maravilha. Ao entrar no gigantesco retângulo- fosse qual fosse o acesso que se utilizasse - ficava-se deslumbrado pelo luxo. Todas as portas - tanto a Probática como a Dourada ou os pórticos Duplo, Triplo e o Real - tinham sido cobertos por placas de ouro e de prata. (Só havia uma exceção, ainda que não me fosse possível verificá-la, pois que se encontrava mesmo no centro do Templo.Era a chamada Porta de Nicanor. Segundo Josefo e a Misn , todas as portas que ali havia eram douradas, exceto a Porta de Nicanor, pois nela acontecera um milagre, segundo outros, porque o seu bronze brilhava como ouro.)

         O arquivo contido no computador central do módulo afirmava - segundo o escrito rabínico Middot II, 3 - que a referida Porta de Nicanor, situada entre o Átrio das Mulheres e o dos Israelitas (todo ele no interior do Templo) era e bronze de Corinto. Segundo Josefo, nove portas do Templo, juntamente com dintóis e ombreiras, estavam completamente revestidas de ouro e de prata. Só uma era de bronze de Corinto, a qual superava muito as outras em valor. Ao incendiar as portas para conquistar o Templo, fundiu-se o revestimento e as chamas alcançaram, assim, as partes de madeira. Continuando a descrever esta suntuosidade, Flávio Josefo assegurava que o vestíbulo estava inteiramente forrado por placas de ouro de cem côvados quadrados e da grossura de um denário de ouro. Das vigas do vestíbulo pendiam correntes de ouro. Havia ali duas

mesas; uma de mármore e outra de ouro; ouro maciço. Por cima da entrada que dava para o vestíbulo e deste ao Santuário estendia-se uma parreira, também de ouro a qual crescia constantemente com as doações de ornamentos de ouro, que os sacerdotes se encarregavam de pendurar. Além disso, por cima desta entrada pendia àquelas horas do entardecer, com a luz solar incidindo obliquamente sobre Jerusalém, as agulhas que sobressaíam do telhado - inteiramente banhadas em ouro - reluziam e cintilavam -, dando ao conjunto um halo quase mágico e fascinante.

         O átrio dos Gentios - em especial toda a zona próxima das colunatas do chamado Pórtico Régio - apresentava um movimento fora do vulgar. Boa parte desta  área do grande retângulo do Templo encontrava-se cheia de barraquinhas, mesas e gaiolas com pombas. Tendo em conta que o referido terreiro media, na sua parte mais estreita (justamente ao pé da colunata do Pórtico Régio), 735 pés, é fácil fazer uma idéia do volume de postos de venda que, em três ou quatro filas, ali tinham sido montadas. Não cheguei a cont -las na sua totalidade, mas duvido muito que as bancadas dos vendedores fossem menos de trezentas ou quatrocentas.

         Na sua maioria tratava-se de intermediários, que negociavam com os animais que deviam ser sacrificados na Páscoa. ali se vendiam cordeiros, pombas e até bois. Em muitas das barracas, que não eram mais que simples tabuleiros de madeira montados sobre as próprias gaiolas ou, quando muito, munidos de pernas

ou suportes com dobradiças, se ofereciam e cantavam ao público muitos dos produtos necessários ao rito do sacrifício pascal: azeite, vinho, sal, ervas amargas, nozes, amêndoas tostadas e até marmelada. E em metade daquele mercado ao ar livre pude distinguir também uma comprida fileira de mesas dos chamados cambistas - gregos e fenícios, na sua maioria -, que se dedicam ao câmbio de moedas. A circunstância de muitos milhares de peregrinos serem judeus residentes no estrangeiro quase tornara obrigatória a presença de tais banqueiros. Ali vi moedas gregas (tetradracmas de prata, didracmas  ticos, dracmas, óbolos, calcos e leptons ou caldeirinhas de bronze), romanas (denários de prata, sestércios de latão, dispôndios, asses ou assarius, semis e quadrantes) e, naturalmente, todas as variantes da moeda judaica (denários, maas e pondios -todas elas de prata - e asses, musmis, kutruns e perutas, de bronze, entre outras). Além disso, estes cambistas ofereciam um importante serviço aos hebreus, Já que lhes proporcionavam o câmbio necessário para poderem satisfazer o tributo obrigatório ou contribuição ao tesouro do Templo. A sua presença no local, portanto, era tão antiga quanto um espelho de ouro, que refletia os raios do Sol nascente através da porta principal (que não tinha batentes). Fora uma doação da rainha Helena de Adiabena. No Santuário, que ficava atrás do vestíbulo. encontravam-se singulares obras de arte, que constituíram os troféus de Tito na sua entrada triunfal em Roma, o candelabro maciço de sete braços, de dois talentos de peso (cada talento equivalia a 34 quilos e 272 gramas) e a mesa maciça dos pães da oração, também de vários talentos de peso. Finalmente. o santasanctorum devia encontrar-se vazio e as suas paredes totalmente cobertas de ouro.

         Uma vez dentro do Átrio das Mulheres, o ouro resplandecia também por toda a parte. Havia candelabros de ouro, com quatro cálices nos vértices. As tesourarias do Templo estavam a abarrotar de objetos de prata e de ouro. Segundo Josefo, ao registrar-se a destruição do Templo pelos Romanos, a província da Síria viu-se inundada por uma gigantesca oferta de ouro. que trouxe como conseqüência a queda da libra de ouro. (N. do M.) tolerada. E dou previamente todos estes pormenores porque, no dia seguinte, segunda-feira - 3 de Abril - ia ser testemunho excepcional de um fato histórico - impropriamente designado por expulsão dos vendilhões do Templo por Jesus - que, a julgar pelo que pude ver, não tinha sido descrito corretamente pelos evangelistas. Enquanto o Mestre e os Seus discípulos passeavam por entre os postos de venda, contemplando os preparativos para a Páscoa, eu aproveitei para trocar algumas das minhas pepitas de ouro por moeda romana e hebraica, em partes iguais. No total, e depois de não pouco regatear com um daqueles malditos especuladores fenícios, obtive quatrocentos denários de prata e várias centenas de asses, ou moeda fraccionária, por quase metade da minha bolsa.

         Ao contemplar o Rabi da Galiléia, rodeado pelos Seus amigos, falando pacificamente com aquelas centenas de mercadores, assaltou-me uma inquietante dúvida: como podia mostrar-se Jesus tão tranqüilo e natural com aqueles cambistas e intermediários quando o Evangelho afirma que, numa das suas múltiplas visitas ao Templo, se lançou contra eles com um chicote, atirando pelos ares as mesas? A explicação - lógica e simples - chegaria, como disse, no dia seguinte...

         Pouco a pouco, a multidão que O tinha seguido até ao grande terreiro que rodeia o Santuário foi esquecendo o Nazareno, e o Mestre, na companhia dos Seus discípulos, entrou no Templo pelo Pórtico Corinto, perdendo-se lá  dentro. Eu não tive outro remédio senão esperar no Átrio dos Gentios. Esta circunstância ia impedir-me de estar presente no conhecido episódio da viúva, que, naqueles instantes, devia ir a um dos mealheiros onde os Judeus depositavam a sua contribuição para o Templo. Quando o grupo saiu, André falou-me da lição que Jesus acabava de lhes dar e que, no essencial, foi corretamente narrada pelos evangelistas. O que eu não sabia é que aqueles mealheiros, em número de treze, estavam estrategicamente situados numa sala que rodeava o Átrio das mulheres. (As hebréias não podiam sair daquele recinto e entrar-se nos pátios dos homens ou dos sacerdotes.) Eram recipientes em forma de trombeta - estreitos na boca e largos no fundo -, para os proteger dos ladrões. O terceiro mealheiro estava confiado a um tal Petajia, responsável pelos sacrifícios das aves e que controlava o dinheiro depositado no terceiro mealheiro. (Em vez de realizar a oferenda dos animais, o Judeu podia entregar o equivalente em dinheiro.) Pois bem, Petajia - cujo verdadeiro nome era Mardoqueu - recebera este apodo por causa da sua extraordinária facilidade como poliglota: conhecia setenta línguas! (A palavra pataj

significa abria; quer dizer, abria as palavras, ao interpretá-las.) Aquela alusão de André ia ser muitíssimo vantajosa para mim, uma vez que - dias depois - o tal Petajia ia jogar um importante papel numa das negações de Pedro...

         Enquanto esperava a saída do grupo do Santuário, sentei-me muito perto dos mercadores e pude assistir a um fenômeno que, segundo parece, era freqüente na compra e na venda. Muitos dos intermediários abusavam cruelmente dos hebreus mais humildes, chegando a vender-lhes uma rola por nove ou dez asses. (Se tivermos em conta que em Jerusalém, o preço normal destas aves era de um oitavo de denário ou três asses, os lucros destes usurários eram exagerados.)

         Contudo o mais irritante é que aquele negócio, isento de encargos, era propriedade da poderosa família de Anás, ex-sumo sacerdote. Isto, sim, explicava a tolerância do comércio de animais para o sacrifício naquele lugar, apesar da sua santidade. (Também aquela observação ia ser importante para compreender o que iria acontecer no dia seguinte.) Indignado com a atitude miserável dos intermediários, procurei distrair-me, fixando o maior número de pormenores de quanto tinha ao meu redor. Contei, até, o número de colunas do Pórtico Régio: 162 esbeltas colunas de estilo coríntio. As balaustradas tinham sido trabalhadas em pedra. Uma delas – de três côvados de altura (157,5 centímetros) - separava o átrio interior e o exterior, que nos era acessível, a nós, pagãos. Nalgumas zonas desta balaustrada exterior tinham sido também gravados os mesmos avisos que eu lera nalgumas das portas de acesso ao Templo. Os pórticos que rodeavam este imenso adro - cuidadosamente lajeado com pedras de diferentes cores - estavam cobertos com ornatos de madeira de cedro, trazida, possivelmente, dos bosques do Líbano.

         Quando vi aparecer os primeiros discípulos, um grupo de gregos que chegara naqueles dias a Jerusalém e que, naturalmente, tinha ouvido falar de Jesus, aproximou-se de Filipe e expôs-lhe o desejo de conhecer o Mestre. Jesus ainda não tinha saído do Templo e o discípulo foi consultar o apóstolo que, mesmo depois da ressurreição do Galileu, representaria a autoridade moral do grupo: André, o irmão de Pedro. Desde o primeiro momento que este pescador me tinha chamado a atenção, pela sua seriedade. Aparecia quase sempre silencioso, como que preocupado e distante. Talvez aquela introversão fosse devida à sua cultura rudimentar ou à sua acentuada timidez. Era um pouco mais magro que o irmão, de estatura semelhante (1,60m aproximadamente), cabeça pequena e cabelo fino e abundante, diferindo de Pedro, que sofria de uma extrema calvície. Aparecia sempre cuidadosamente barbeado. É de supor que fosse um pouco mais velho que Pedro, ainda que a calvície deste o fizesse parecer mais idoso. André escutou em silêncio a mensagem do seu companheiro e, depois de observar o grupo de gregos, regressou com Filipe ao interior do Santuário. Dali a pouco apareceu Jesus, que, com satisfação, conversou com aqueles gentios.

         Alguns dos gregos sabiam do misterioso anúncio do Rabi sobre a Sua morte e interrogaram-No sobre isso. Jesus respondeu-lhes:

         - Em verdade, em verdade vos digo que se o grão de trigo arrojado à terra não morre, fica só, mas, se morre, produz muito fruto... - Será  que é preciso morrer para viver? - perguntou um dos gentios, visivelmente intrigado com as palavras do Mestre.

         Quando interroguei André sobre o dinheiro que a viúva metera no mealheiro do Templo, este disse-me que lhe pareceu ver um total de dois lepta, ou quarto de asse. Por outras palavras, pura caldeirinha. (Uma ração diária de pão custava em Jerusalém um par de asses. O normal é que com um asse se pudessem comprar dois pássaros.) (N. do M.)

         - Quem ama a sua vida - respondeu-lhe Jesus - perde-a. Quem a odeia neste mundo, conserva-la-á  para a vida eterna.

         - E que nos acontecerá - perguntaram novamente os gregos - se Te seguirmos?

         - O que se aproxima de Mim, aproxima-se do fogo. Quem se afasta de Mim, afasta-se da vida.

         Um dos que ouviam interrompeu o Galileu, replicando-lhe que aquelas palavras eram semelhantes às de um velho aforismo grego, atribuído a Esopo: Quem está perto de Zeus, está perto do raio.

         - Diferindo de Zeus - comentou o Mestre -, Eu, sim, posso dar-vos o que olho algum viu, o que ouvido algum escutou, o que mão alguma tocou e o que nunca entrou no coração do homem. Se algum de vós quer servir-Me - concluiu -, que Me siga. Onde Eu estiver, estará  também o Meu servidor. Se alguém Me serve, Meu Pai o honrará...

         Mas os gregos não pareciam muito dispostos a porem-se às ordens do Rabi e acabaram por se afastar.

         Jesus, sem poder dissimular a Sua tristeza, comentou entre os seus discípulos:

         - Agora, a minha alma está perturbada... Que direi? Pai, livra-Me desta hora!... No entanto, Cristo pareceu arrepender-se imediatamente daqueles pensamentos em voz alta e acrescentou, de modo a que todos os Seus adeptos o pudessem ouvir:

         - Mas para isto vim Eu a esta hora...

         E, erguendo o rosto para o céu enevoado de Jerusalém, gritou:

         - Pai, glorifica o Teu nome!

         O que aconteceu imediatamente é algo que não saberia explicar com exatidão. Mal tinha o Mestre pronunciado aquelas comovedoras palavras, quando, na base ou no interior das nuvens que cobriam a cidade (e cuja altura média, segundo Eliseu me confirmou, era de, aproximadamente, seis mil pés) se deu uma espécie de relâmpago ou labareda. Se não fosse a voz forte e metálica que logo a seguir se ouviu, eu explicaria o fenômeno por uma possível descarga elétrica, tão vulgar neste tipo de nuvens tempestuosas. Mas, quase em uníssono com aquela chama, as centenas de pessoas que se encontravam no grande terreiro ouviram uma voz que, em aramaico, dizia:

         - Já glorifiquei e glorificarei de novo.

         A multidão , os discípulos e eu próprio ficamos aterrorizados. Por fim, as pessoas começaram a reagir e a maioria procurou tranqüilizar-se, afirmando que aquilo fora apenas um trovão. Mas todos, no íntimo dos corações, sabíamos que um trovão não fala...

         Os Hebreus voltaram a apinhar-se em volta do Mestre, que lhes anunciou:

         - Esta voz veio não por Mim, mas por vós. É agora o juízo deste mundo, agora vai ser expulso o príncipe deste mundo. E Eu, levantado da terra, atrairei a Mim todos os homens...

         Mas, tal como eu temia, aquela turba não entendeu uma única palavra. Os próprios discípulos se entreolhavam, como que dizendo:

         - Por que está falando?

         Alguns dos sacerdotes que tinham saído do santuário, ao escutarem aquela enigmática voz, replicaram-lhe que sabiam pela lei que o messias viveria sempre. Jesus, sem se perturbar, voltou-se para os recém-chegados e respondeu-lhes:

         - Apenas um pouco mais de tempo estará a luz entre vós. Caminhai enquanto tiverdes a luz e que não vos surpreenda a escuridão, o que caminha na escuridão não sabe para onde vai. Enquanto tiverdes luz, acreditai na luz, para que sejais filhos da luz...

         - Somos nós, os sacerdotes - atacaram os representantes do Templo, procurando ridicularizar Jesus -, que temos o poder de ensinar a luz e a verdade a estes...

         O Rabi, apontando a multidão com a mão direita, replicou:

         - Cegos!... Vedes o argueiro no olho do vosso irmão, mas não a trave no vosso. Quando tiverdes conseguido tirar a trave vereis com clareza e podereis tirar o argueiro dos olhos destes...

         Jesus atravessou então as muralhas do Templo, seguido pelos Seus mais chegados.

         A noite não tardaria a cair e o Mestre, tal como tinha por costume, atravessou o bairro velho de Jerusalém, em direção à Porta da Fonte, com o fim de descansar em Betânia.

         Durante a entrada triunfal do Nazareno na cidade, a multidão fora tal que, francamente, mal tive oportunidade para reparar nas ruas e construções. Agora, em compensação, era diferente. Ao deixar para trás os 195 metros de parede exterior do hipódromo, o grupo meteu-se pelas estreitas vielas - quase todas em declive - da cidade velha.

         Jerusalém dividia-se, então, em dois grandes núcleos: este setor por onde agora circulávamos (conhecido também como sug-ha-tajtôn ou Akra) e a zona alta ou sug-ha-elyon, localizada a noroeste. Ambas as cidades estavam separadas por uma depressão ou vale: o Tiroppeon. Aquela raiz – súg designava a natureza de ambos os lugares. Esta palavra significa bazar. E foi isto que pude ver neste e nas seguintes caminhadas por Jerusalém: uma infinidade de bazares, em que se vendia de tudo.

         Cada um dos setores da cidade era atravessado por ruas principais, adornadas com colunas: a grande rua do mercado, na zona alta. E a pequena rua do mercado, na cidade velha. Estas duas artérias comerciais estavam unidas por um enxame de ruas transversais, que constituíam um labirinto. Nesta rede de vielas - a maioria por empedrar e mergulhadas num cheiro pestilento, mistura de azeite queimado, comida velha e urinas atiradas para o centro das ruas - amontoavam-se milhares de casas, quase todas de um só piso e com as paredes escalavradas.

         Mas o grupo, sempre com Jesus na frente, evitou as vielas incômodas e escuras, dirigindo os seus passos por uma das calçadas mais largas da parte baixa de Jerusalém. Para minha surpresa, entramos, de repente, numa rua de quase oito metros de largura, perfeitamente calçada, que desembocava junto da piscina de Siloé.

         Os archotes e lanternas - estrategicamente colocadas nas paredes das casas - começavam Já a iluminar a noite da Cidade Santa. No entanto, e apesar das súbitas trevas, o trânsito de peões era constante.

         Esta corresponde à atual Rua el-Wad. (N. do IT. )

 

         Às portas dos edifícios daquela rua, de mais de duzentos metros de comprimento, observei numerosos artesãos, empenhados inteiramente nos seus trabalhos ou em intermináveis regateios com eventuais compradores. Naquela zona baixa ou velha tinham-se estabelecido as profissões mais nobres e consideradas de Jerusalém. Os pagãos, prosélitos e impuros, em contrapartida, tinham os seus domínios na parte alta. O fanatismo dos Judeus neste ponto chegara a tal extremo que, por exemplo, o escarro de um habitante da cidade alta era considerado como impuro; o que não acontecia com as expectorações dos residentes nesta zona da cidade.

         André explicou-me que, no fundo, tudo tivera raiz na instalação dos pisoeiros ou branqueadores de tecidos na referida  área alta. Estes apareciam entre as profissões desprezadas da comunidade israelita.

         Junto das mais variadas tendas ou janúyôt alinhavam-se sempre na rua - alfaiates, barbeiros, médicos ou sangradores, fabricantes de sandálias, carpinteiros, sapateiros, vendedores de lanternas e de utensílios de cozinha, artesãos do cobre e até fabricantes de vestidos de Tarso, sem esquecer os solicitados vendedores de perfumes e de ungüentos.

         Aquilo, em absoluto, constituía um espetáculo único, em que os pregões das mercadorias, gritos infantis, risos e o cheiro de frituras acabavam por envolver uma pessoa, cativando-a.

         Foi numa daquelas lojas ao ar livre que, subitamente, resolvi comprar um formoso frasco de essência de nardo. Sem esconder a sua estranheza, o bom André - que me servia de oportuno intermediário conseguiu um substancial abatimento, pagando um total de duzentos e cinqüenta denários pela jarra preciosa. O recipiente em questão fora primorosamente lavrado, pelo antiqüíssimo processo a que os Hebreus chamavam decantação de líquidos, de polimento circular. O revestimento e o brunido tinham reduzido a porosidade dos vasos, com um polimento tão brilhante que, à primeira vista, dava a impressão de um processo de vidrado.

         Alcançamos o Mestre e os restantes discípulos quando passavam por baixo da Porta da Fonte, no extremo meridional de Jerusalém.

         Eu sabia que a cidade, em especial naqueles dias antes da Páscoa, era um ninho de mendigos, mas, ao passar junto das muralhas, fiquei impressionado. Dezenas de leprosos se dispunham a passar ali a noite, envoltos nos seus mantos e farrapos, enquanto uma legião de coxos, aleijados, corcundas e cegos nos saíram ao caminho, suplicando-nos uma esmola.

         Se não fosse André, que me arrancou sem contemplações, o mais provável é que os meus restantes cento e cinqüenta denários tivessem ido parar às mãos daqueles supostos infelizes. E digo supostos porque - segundo o irmão de Pedro - a imensa maioria eram simuladores profissionais, que aproveitavam a festa para comover os corações dos forasteiros e dar-lhes o golpe...

         Creio que só me apercebi realmente da desilusão geral dos discípulos de Cristo quando tínhamos Já andado pouco mais de um quilômetro, em direção a Betânia. O Mestre, silencioso, ia na frente do grupo, puxando pelos dez com as suas características passadas.

         Nem um só abriu a boca em todo o trajeto. Aqueles galileus pareciam confusos, deprimidos e até mal-humorados. Não tardei a deduzir a razão. Depois da apoteótica e inesperada recepção prestada ao Mestre, os apóstolos não tinham compreendido por que razão Jesus não aproveitara aquela magnífica oportunidade para se proclamar rei e instalar, definitivamente, o seu reino na Judéia, estendendo-o depois às restantes províncias. Ao ver os seus rostos não era difícil imaginar quais fossem os seus pensamentos.

         André, preocupado com as sua responsabilidade como chefe do grupo ou talvez o que menos valorizava aquela explosão popular em torno do Mestre.

         A verdade é que, nos dias seguintes, alguns dos íntimos – em especial Pedro, Tiago, João e Simão, o Zelota - tiveram de fazer consideráveis esforços para assimilar tantas emoções...

         Simão Pedro foi, possivelmente, um dos mais afetados pela manifestação popular. E, mais que pelo acolhimento excitante, pelo fato incompreensível de o Mestre não se ter dirigido à multidão ou, pelo menos, ter permitido que o fizessem eles. Para Pedro, aquela fora uma magnífica oportunidade perdida.

         Enquanto caminhava para Betânia senti-o angustiado e triste. No entanto, a sua paixão por Cristo era tal que soube aceitar o estranho comportamento do Nazareno sem a menor censura ou sinal de desgosto.

         Os sentimentos de Tiago, o Zebedeu, eram muito parecidos com os de Simão Pedro. O seu medo inicial fora-se desvanecendo à medida que iam descendo pela encosta do monte das Oliveiras. À vista daquela multidão que aclamava o Mestre, concebera esperanças de poder e de influência. Mas tudo viera abaixo quando Jesus desceu do burrinho, perdendo-se no Templo. Como podia renunciar assim, tão perdulariamente, a uma oportunidade de ouro como aquela?

         Por seu lado, João Zebedeu fora o único a ter a percepção das intenções de Jesus. Recordava que, em certa altura, o Mestre lhes falara da profecia de Zacarias e, não sem dificuldade, associou aquela entrada triunfal com as verdadeiras intenções de Jesus. Aquilo salvou-o, em boa medida, da depressão geral que o traumatizante final provocou.

         Além disso a sua juventude e amor cego pelo Nazareno impediam-no, de suspeitar ou imaginar sequer que o Mestre se tivesse enganado... Filipe, o intendente e homem prático do grupo, tinha sofrido outro tipo de preocupação. Ao ver aquele rio humano pensou por um momento que Jesus podia pedir-lhe - como fizera noutras alturas – que lhes desse de comer. Por isso, ao vê-lo abandonar a procissão e passear tranqüilamente no recinto do templo, sentiu um alívio profundo.

         Quando aqueles temores desapareceram da sua mente, Filipe uniu-se aos sentimentos de Pedro, compartilhando o critério de que fora uma pena não ter Jesus aproveitado a ocasião para instalar definitivamente o reino. Naquela noite, afundado em dúvidas, para si perguntou muitas vezes que poderiam querer dizer todas aquelas coisas. Porém, a sua fé no Galileu era sólida e não tardou em esquecer as incertezas.

         Mateus, o homem cauteloso, ainda que de uma fidelidade extrema, ficou maravilhado com aquela explosão colorida em redor do Rabi. No entanto, o seu natural ceticismo sobrepôs-se e não tardaria em esquecer aquelas emoções da tarde de domingo. Só houve um momento em que Mateus estava prestes a perder a sua calma habitual.

         Aconteceu em plena explosão popular, quando um dos fariseus troçou publicamente de Jesus, dizendo:

         - Olhai todos, vede quem vem: o rei dos Judeus em cima de um asno.

         Estava quase a sair dos eixos e pouco faltou segundo me confessou dias depois - para que se atirasse ao sacerdote. Na manhã seguinte, como disse, Mateus superara a crise geral, mostrando-se tão alegre como sempre. Depois de tudo aquilo, sabia perder e encarar a vida com filosofia...

         Tomás, como Pedro, continuava aturdido. O seu profundo coração não conseguia encontrar razões para aquele festejo, absolutamente infantil em sua opinião: Nunca vira Jesus numa situação como aquela e isso desorientara-o. Por momentos, o prático e frio Tomás chegou a supor que todo aquele alvoroço só podia obedecer a um motivo: confundir os membros do Sinédrio, que - como toda as pessoas sabia -, tencionavam prender o Mestre. E não lhe faltava razão.

         Outro dos grandes confundidos por aquele acontecimento foi Simão, o Zelota. O seu sentido do patriotismo levara-o a conceber todo o gênero de sonhos em relação ao futuro político do seu país. Alimentava a idéia de libertar Israel do jugo romano e devolver ao povo a sua soberania. E Jesus, naturalmente, devia ocupar o trono derrubado de David.

         Ao assistir à entrada triunfal em Jerusalém, o seu coração tremeu de emoção e viu-se no comando das forças militares do novo reino. Ao descer o monte das Oliveiras imaginou, até, os sacerdotes a simpatizantes do Sinédrio executados ou desterrados. Foi, sem dar lugar a dúvidas, o apóstolo que gritou mais alto e animou constantemente a multidão . Por isso, ao cair da noite, era também o homem mais humilhado, silencioso e desiludido. Tristemente, não se recomporia daquele golpe, mesmo muito depois da ressurreição do Mestre.

         Com os gêmeos Alfeu não houve problema algum. Para eles, descuidados e brincalhões, foi um dia perfeito. Gozaram intensamente e recordaram aquela experiência como um dia em que mais perto estiveram do céu. A sua superficialidade evitou que neles germinasse a tristeza. Simplesmente, naquela tarde culminaram todas as suas aspirações.

         Quanto a Judas Iscariotes, nunca cheguei a saber com exatidão quais foram os seus verdadeiros sentimentos. Em alguns momentos pareceu-me notar no seu rosto sinais evidentes de desacordo e repulsa. É possível que tudo aquilo lhe parecesse infantil e ridículo. Como os Gregos e Romanos, considerava grotesco e desprezível todo aquele que consentisse em cavalgar num asno. Não creio enganar-me ao pensar que esteve quase para abandonar ali mesmo o grupo. Mas, possivelmente, deteve-o o fato de ser ele o administrador dos bens. Aquilo significava uma permanente possibilidade de dispor de dinheiro e Judas sentia uma especial inclinação pelo ouro.

         Talvez um dos momentos mais dramáticos para o vingativo Judas se desse pouco antes de chegar às muralhas de Jerusalém. De repente, um importante saduceu - amigo da família de Jesus - aproximou-se dele e, dando-lhe uma palmadinha nas costas, disse-lhe:

         - Qual a razão desse ar de desorientação, querido amigo? Anima-te e une-te a nós, enquanto aclamamos este Jesus de Nazaré, o rei dos Judeus, que entra pelas portas da cidade no lombo de um burro.

         A zombaria deve tê-lo ferido muito fundo. Judas não podia suportar aquele sentimento de vergonha e isso pode ter sido mais uma razão de peso para apressar o seu plano de vingança contra o Mestre. O apóstolo tinha tão enraizado o sentido do ridículo que ali mesmo se converteu num desertor.

         Salvo bem poucas exceções, os discípulos de Cristo demonstraram naquele histórico acontecimento - apesar dos seus três longos anos de aprendizagem e convivência com o Mestre - que não tinham entendido nada de nada.

         Compreendi e respeitei o duro silêncio de Jesus, na frente daqueles homens acabrunhados e perplexos. Encontrava-se a um passo da morte e ninguém parecia captar a sua mensagem...

 

                                 3 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA

         Segundo soube, foram muito poucos os discípulos que conseguiram conciliar o sono naquela noite de domingo para segunda-feira, 3 de Abril. À exceção dos gêmeos, os outros continuaram a ruminar os seus pensamentos. Era tal a sua perturbação que nem sequer estabeleceram os habituais turnos de guarda às portas da casa de Simão, onde se alojavam Jesus, Pedro e João.

         Ao despedirem-se, cada um foi em silêncio para o respectivo refúgio.

         Também o Rabi não abriu a boca. Como era natural, devia conhecer o estado de alma dos Seus amigos e, possivelmente, com o objetivo de evitar maiores tensões, preferiu jantar na casa de Lázaro.

         Apesar da hora tardia, Marta e Maria de novo se desvelaram conosco. Lavaram-nos as mãos e os pés e, na companhia de seu irmão, comemos um pouco de queijo e de fruta. Nem o Mestre nem eu tínhamos muito apetite. Durante um bom espaço de tempo Jesus esteve encerrado num mutismo hermético, com os olhos postos nas chamas ondulantes da chaminé.

         Antes que se retirasse para descansar pedi a Maria que aceitasse o frasco de essência de nardo que eu tinha comprado naquela mesma tarde na companhia de André. Resistiu muito, mas, por fim, aceitou-o.

         Aquele gesto pareceu animar o Mestre, que saiu do seu enigmático isolamento, unindo-se plenamente à tranqüila conversa em que eu e Lázaro estávamos.

         Durante a frugal refeição eu fora explicando ao ressuscitado e a suas irmãs o esplêndido acontecimento que tínhamos vivido poucas horas antes. Lázaro, contrariamente aos apóstolos, apercebeu-se imediatamente da transcendência do ato de Jesus. Sem esquecer a simbologia, aquela multidão não fizera mais que proteger o Rabi das garras do Sinédrio.

         Não me cansarei de repetir este aspecto da questão. Nos Evangelhos que eu tinha estudado, em momento algum se falava disso, e sinceramente, qualquer pessoa de bom senso e um mínimo de informação sobre o que estava acontecendo naquelas últimas semanas não poderia passar por alto que a referida manobra foi uma jogada magistral do Galileu. Como se diz no nosso tempo, matou dois coelhos de uma cajadada.

         Ao verificar que Jesus de Nazaré se oferecia com gosto para o diálogo, aproveitei o momento e perguntei qual era a sua opinião sobre aquela tarde.

         - Estive no meio das pessoas e a elas Me revelei na carne. A todos encontrei ébrios. Não encontrei um sedento. A Minha alma sofre pelos filhos dos homens, porque estão cegos no seu coração: não vêem que vieram vazios ao mundo e que tentam sair vazios do mundo. Agora estão ébrios. Quando vomitarem o vinho se arrependerão...

         - São palavras muito duras - disse-lhe. - Tão duras como as que pronunciaste no monte das Oliveiras, à vista de Jerusalém...

         - Talvez os homens pensem que vim trazer a paz ao mundo. Não sabem que estou aqui para lançar na terra divisão, fogo, espada e guerra... Pois haverá cinco numa casa, três contra dois e dois contra três; o pai contra o filho e o filho contra o pai. E eles estarão sós.

         - Muitos no meu mundo - acrescentei fazendo que as minhas palavras não fossem excessivamente estranhas para Lázaro poderiam associar essas Tuas frases sobre o fim de Jerusalém com o fim dos tempos. Que dizes a isso?

         - As gerações futuras compreenderão que a volta do Filho do Homem não se dará  pela mão do guerreiro. Esse dia será inesquecível: depois da grande tribulação - como não houve desde o princípio do mundo - o Meu estandarte será visto nos céus por todas as tribos da Terra. Será  essa a Minha verdadeira e definitiva volta: sobre as nuvens do céu, como o relâmpago que sai pelo Oriente e brilha até ao Ocidente...

         - O que será  a grande tribulação?

         - Podereis chamar-lhe um parto de toda a Humanidade...

         Jesus não parecia muito disposto a revelar-me pormenores.

         - Pelo menos, diz-nos quando acontecerá.

         - Desse dia e dessa hora, ninguém sabe. Nem os anjos nem o Filho. Só o Pai. Unicamente posso dizer-te que será tão inesperado que muitos serão apanhados no meio da sua cegueira e iniqüidade.

         - O meu mundo, aquele de onde venho - tentei pressioná-lo distingue-se precisamente pela confusão e pela justiça... - O teu mundo não é melhor nem pior que este. Só falta a ambos o princípio que rege o Universo: o Amor.

         - Dá-me, ao menos, um sinal para que saibamos quando Te revelarás aos homens pela segunda vez...

         - Quando vos desnudardes sem ter vergonha, quando pegardes nas vossas roupas e as pisardes com os pés como as crianças, então vereis o filho do Vivente e não o temereis.

         Felizmente, Lázaro continuava a identificar o meu mundo com a Grécia. Isso permitia-me continuar a fazer perguntas ao Mestre, com uma certa margem de amplitude.

         - Então - continuei -, o meu mundo está muito longe desse dia. Por lá os homens são inimigos dos homens e até do próprio Deus...

         Jesus não me deixou continuar.

         - Estais então enganados. Deus não tem inimigos.

         Aquela incisiva frase do Nazareno trouxe-me à memória muitas das crenças sobre um Deus justiceiro, que condena ao fogo do inferno os que morrem em pecado. E assim lho expus. Cristo sorriu, movendo a cabeça negativamente.

         - Os homens são hábeis manipuladores da Verdade. Um pai pode sentir-se aflito perante as loucuras de um filho, mas nunca condenaria os seus a um mal permanente. O inferno - tal como acreditam no teu mundo - significaria que uma parte da Criação tinha fugido das mãos do Pai... E posso garantir-te que isso é não conhecer o Pai.

         - Porque falaste então em certa altura do fogo eterno e do ranger de dentes?

         - Se falando por parábolas não me entendeis, como posso então ensinar-vos os mistérios do Reino? Em verdade, em verdade vos digo que aquele que aposta forte, e se engane, sentirá como rangem os seus dentes.

         - Será que a vida é uma aposta?

         - Tu o disseste, Jasão. Uma aposta pelo Amor. É o único bem em jogo desde que se nasce.

         Fiquei pensativo. Aquelas palavras eram novas para mim.

         - Que te preocupa? - perguntou Jesus.

         - Sendo assim, que podemos pensar dos que nunca amaram?

         - Não existe tal gente.

         - Que me dizes dos sanguinários, dos tiranos?...

         - Também eles, amam à sua maneira. Quando passaram para o outro lado apanharão um bom susto...

         - Não compreendo.

         - Verão que - ao deixarem este mundo - ninguém lhes perguntará pelos seus crimes, riquezas, poder ou beleza. Eles próprios e só eles se perceberão de que a única medida válida no outro lado é a do Amor. Se não amaste aqui, no teu tempo, só tu te sentirás responsável.

         - E que acontecerá  com os que não souberam amar?

         - Queres dizer, com os que não quiseram amar.

         Novamente me senti confuso.

         . Esses, amigo - prosseguiu o Rabi captando as minhas dúvidas -, serão os grandes enganados e, conseqüentemente, os últimos no Reino de meu Pai.

         - Então, o Teu Deus é um Deus de amor...

         Jesus pareceu aborrecer-se:

         - Tu és Deus!

         - Eu, Senhor?

         - Em verdade te digo que todos os nascidos levam o sinete da Divindade.

         - Mas não respondeste à minha pergunta. É Deus um Deus de amor?

         - Se não fosse assim, não seria Deus.

         - Nesse caso, devemos excluir da Sua mente qualquer tipo de castigo ou prêmio?

         - E a nossa própria injustiça que se manifesta contra nós próprios.

         - Começo a ter a intuição, Mestre, de que a tua missão é muito simples. Engano-me se Te disser que todo o Teu trabalho consiste em deixar uma mensagem?

         O Nazareno sorriu, satisfeito. Pôs-me a mão no ombro e replicou:

         - Não o podias resumir melhor...

         Lázaro, sem fazer o menor comentário, teve um aceno afirmativo de cabeça.

         - Tu sabes que o meu coração é duro - acrescentei. Poderias repetir-me essa mensagem?

         - Diz ao teu mundo que o Filho do Homem veio apenas para transmitir a vontade do Pai: que sois Seus filhos!

         - Isso Já sabemos...

         - Tens a certeza? Diz-me, que significa para ti ser filho de Deus?

         Senti-me outra vez confuso. Sinceramente, não tinha uma resposta válida. Nem sequer estava convicto da existência daquele Deus.

         - Eu te direi - interveio o Mestre com grande doçura. - Ter sido criado pelo Pai pressupõe a máxima manifestação de amor. A vós se deu por inteiro, sem nada pedir em troca. Eu recebi o encargo de vos vir recordar isso. É essa a minha mensagem.

         - Deixa-me pensar... Então, façamos o que fizermos, estamos condenados a ser felizes?

         - É questão de tempo. O necessário para que o mundo entenda e ponha em prática que o único meio para isso é o Amor.

         Tive de meditar muito bem a minha pergunta seguinte. Naqueles instantes a presença do ressuscitado podia representar um certo problema.

         - Se a tua presença no mundo obedece a uma razão tão elementar, como a de deixar uma mensagem para toda a humanidade, não achas que a tua igreja está a mais?

         - A minha igreja? - perguntou por sua vez Jesus que, em minha opinião, compreendera perfeitamente. - Eu não tive nem tenho a menor intenção de fundar uma igreja, tal como pareces entendê-la.

         Aquela resposta deixou-me estupefato.

         - Mas tu disseste que a palavra do Pai deveria ser espalhada até aos confins da Terra...

         - E em verdade te digo que assim será. Porém, isso não implica condicionar ou submeter a Minha mensagem à vontade do poder ou das leis humanas. Um homem não pode montar dois cavalos nem disparar dois arcos ao mesmo tempo. E não pode um criado servir dois amos. Porque honrar  um e ofender  o outro. Ninguém que beba um vinho velho deseja naquele momento beber um vinho novo. Não se trasfega vinho novo para odres velhos, para que não se rasguem, nem se trasfega vinho velho para odres novos para que não se estrague. Nem se cose um remendo velho num vestido novo porque se faria um rasgão. Do mesmo modo te digo: a minha mensagem só necessita de corações sinceros que a transmitam: não de palácios ou falsas dignidades e púrpuras que a cubram.

         - Tu sabes que não será assim...

         - Ai dos que interponham a sua permanência à Minha vontade!

         - E qual é a tua vontade?

         - Que os homens se amem como Eu os amei. Mais nada.

         - Tens razão - insinuei -, para isso não é preciso montar novas regras nem códigos nem chefias... No entanto, muitos dos homens do meu mundo desejariam fazer-te uma pergunta...

         - Vamos - animou-se o Galileu.

         - Poderíamos chegar a Deus sem passar pela igreja?

         O Rabi suspirou.

         - Será que precisas dessa igreja para entrares no teu coração?

         Uma confusão extrema me apertou a garganta. E Jesus percebeu.

         - Muito antes de existir a tribo de Levi, irmão Jasão, muito antes de o homem ser capaz de se erguer sobre si mesmo, o meu Pai tinha semeado a beleza e a sabedoria na Terra. Quem está primeiro, portanto, Deus ou essa igreja?

         - Muitos sacerdotes do meu mundo - repliquei -, consideram essa igreja como santa.

         - Santo é o meu Pai. Santos sereis vós no dia em que me ameis.

         - Então - e peço-Te que me perdoes pelo que vou dizer-te -, essa igreja está a mais...

         - O Amor não precisa de templos ou de religiões. Um homem retira o bem ou o mal do seu próprio coração. Um só mandamento vos dei e tu sabes qual é... No dia em que os meus discípulos dêem a saber a toda a humanidade que o Pai existe, a sua missão estará concluída.

         - É curioso, esse Pai parece não ter pressa.

         O Gigante fitou-me, condoído.

         - Em verdade te digo que Ele sabe que acabará triunfando. O homem sofre de cegueira mas Eu vim abrir-lhe os olhos. Outros seres descobriram Já que vive mais quem vive no Amor.

         - Que acontece então conosco? Porque não acabamos por encontrar essa paz?

         - Eu disse que vomitarei os lábios da minha boca, mas não procures aborrecer os teus irmãos pela moleza ou pela pressa. Deixa que cada espírito encontre o seu caminho. Ele próprio, no final, será seu juiz e defensor.

         - Então, tudo isso do juízo final...

         - Porque vos preocupa tanto o final, se nem sequer conheceis o princípio? Já te disse que no outro lado vos espera a surpresa...

         - Tenho a impressão de que Tu serias excessivamente liberal para as igrejas do meu mundo.

         - Deus como dizes, é tão liberal, que permite mesmo que te enganes. Ai daqueles que se arrogam o papel de salvadores, respondendo ao erro com o erro e à maldade com a maldade. Ai daqueles que monopolizem Deus!

         - Deus... Estás sempre a falar de Deus. Poderias explicar-me Quem ou O que é?

         O fogo daquele olhar voltou a trespassar-me. Duvido que exista parede, coração ou distância que não pudesse ser atingido por semelhante força.

         - Podes tu explicar a estes homens de hoje de onde vens e como? Pode o homem prender as cores entre as mãos? Pode uma criança guardar o oceano entre as pregas da sua túnica? Podem alterar os doutores da Lei o curso das estrelas? Quem tem o poder para devolver a fragrância à flor que foi pisada pelo boi? Não me peças que te fale de Deus, sente-o. Isso basta...

         - Vou bem se te disser que o sinto como uma... energia? Não me dava por vencido e Jesus sabia-o.

         - Vais por bom caminho.

         - E que existe por baixo dessa energia?

         - É que não há por cima nem por baixo - atalhou o Nazareno, indo ao encontro dos meus embrulhados pensamentos. - O Amor, quer dizer, o Pai. é Tudo.

         - Porque é tão importante o Amor?

         - É a vela do navio.

         - Permite-me que insista: que é o Amor?

         - Dar.

         - Dar? Mas o quê?

         - Dar. Desde um olhar até à tua vida.

         - Que podemos nós dar, os angustiados?

         - A angústia.

         - A quem?

         - À pessoa que te queira...

         - E se não tiver ninguém?

         O Mestre fez um gesto negativo.

         - Isso é impossível... Mesmo os que não te conhecem podem amar-te.

         - E que me dizes dos teus inimigos? Também deves amá-los?

         - Esses principalmente... Aquele que ama os que o amam, Já recebeu a sua recompensa.

         A conversa prolongar-se-ia ainda muito pela madrugada. Sei agora que o meu ceticismo em relação àquele Homem começara a quebrar-se...

         Quatro horas mais tarde, com a alvorada, Eliseu despertou-me. Na véspera, Mestre tinha dado ordens precisas aos Seus discípulos para partirem cedo para Jerusalém. Pelas sete (duas horas antes da terceira), apresentei-me em casa de Simão, o Leproso. Jesus e os doze encontravam-se reunidos no jardim. Desta vez, as indicações do Rabi foram muito mais concisas: nada de ostentações e manifestações em público. Os apóstolos, salvo os gêmeos Alfeu, não se tinham recomposto da experiência do dia anterior. Continuavam mudos, absortos. Com sinceridade, nenhum conhecia as intenções de Jesus e este, por seu lado, também não se mostrava excessivamente explícito. Ir à Cidade Santa naquela altura era uma caixa de surpresas. O Sinédrio continuava de emboscada e os íntimos do Galileu não sabiam o que o destino lhes podia reservar.

         Pelas oito da manhã, metemo-nos a caminho. Jesus, como sempre, ia na frente. Enquanto subíamos a encosta do monte das Oliveiras, procurei sondar os discípulos. Que diferente foi aquela caminhada! A alegria e entusiasmo do domingo anterior tinham-se transformado em temor, expectativa e confusão. Havia um pensamento comum naqueles homens: Que devia fazer: acompanharem o Mestre ou renunciarem e retirarem-se?

         Mas nenhum tinha a coragem suficiente para enfrentar Jesus e expor-lhe as suas inquietações. Por volta das nove, o grupo entrava em Jerusalém. A julgar pelo movimento dos peões, o núcleo de peregrinos aumentara consideravelmente. O Mestre, sem perda de tempo, encaminhou-se para o Templo. A proximidade da Páscoa mantinha o Átrio dos Gentios em plena ebulição. As bancas e barracas pareciam muito mais concorridas que na tarde de domingo. Centenas de judeus, de todas as classes sociais, esforçavam-se por comprar ou trocar as suas moedas, preparando-se assim para as oferendas obrigatórias, para o pagamento do tributo ao tesouro do santuário ou, simplesmente, escolhendo uma vítima sem mácula para a ceia pascal. Gradualmente, por causa dos abusos dos sacerdotes, as pessoas vulgar acabara por acorrer àqueles intermediários, ali comprando os seus cordeiros e aves. A astúcia e a avareza dos servidores do Templo tinham chegado a tais extremos que qualquer animal comprado fora daquele recinto podia ser recusado, por causas técnicas. Por outras palavras, os encarregados dos sacrifícios - que tinham a obrigação de examinar previamente cada uma das suas vítimas - podiam pôr de parte um anho ou um par de rolas, pelo simples fato de considerarem que a cor do animal não era a mais adequada. Isto representava a vergonha pública e, o que era pior, ter de comprar uma nova vítima. Indo pelo seguro, os Hebreus acorriam a este mercado, procurando, assim, animais de total garantia. Como Já afirmei anteriormente, esta manha era sempre acompanhada por um aumento de preço, que era tão desonesto quanto ruinoso para as famílias mais humildes. Para cúmulo, o imposto ou tributo que cada hebreu tinha de satisfazer fora fixado numa moeda comum: o siclo (uma moeda do tamanho de dez centavos, mas com uma espessura dupla). Um mês antes da Páscoa, os cambistas oficiais instalavam as suas mesas nas diferentes cidades da Palestina, proporcionando assim aos peregrinos o dinheiro necessário para tal mister. Nem é

preciso dizer que, em cada operação, estes banqueiros ficavam com uma comissão, que oscilava entre cinco e quinze por cento do valor do câmbio. Se a moeda objeto de troca era mais alta, estes usurários podiam ficar com uma dupla comissão. Finalmente, quando a festa era Já iminente, os cambistas dirigiam-se a Jerusalém, estabelecendo o seu quartel-general no Átrio dos Gentios.

         Este negócio dava grandes lucros aos verdadeiros proprietários do gado, das mesas de câmbio e da multidão de ingredientes e de utensílios que tinham de ser utilizados no sacrifício pascal. Estes proprietários não eram senão os sacerdotes e, muito especialmente os filhos de Anás.

         Jesus conhecia esta situação e também as pessoas do povo. Mas o poder e a tirania destes indivíduos era tal que ninguém ousava levantar a sua voz contra aquela profanação da Casa de Deus.

         Neste ambiente, entre gritos, discussões , regateios e o incessante ir e vir de centenas de hebreus, o Nazareno - tal como tinha por costume - dispôs-se, naquela manhã de segunda-feira, 3 de Abril, a dirigir a palavra aos numerosos crentes e adeptos que se iam juntando perto das lojas dos vendedores e cambistas O Mestre começou a Sua pregação mas, dali a pouco, a Sua poderosa voz viu-se abafada por dois incidentes que iam precipitar os acontecimentos. Numa das mesas de câmbio, muito próxima da escadaria onde se sentara o Rabi, um judeu de Alexandria começou a discutir acaloradamente com o responsável do câmbio. O peregrino, com razão, protestava pela abusiva comissão que o cambista pretendia cobrar-lhe. A coisa subiu de tom e foi-se apinhando gente à volta dos hebreus vociferantes.

         E, como não bastasse aquele tumulto, nesse momento o terreiro foi invadido por uma manada de bois - bem mais de uma centena que era levada pelo átrio, até aos currais situados na ala norte, junto da Porta Probática. Os animais, propriedade do Templo, estavam destinados a ser queimados nos próximos sacrifícios e, por conseqüência eram habitualmente encerrados em estábulos, anexos ao Átrio dos Gentios. Confrontado com aqueles mugidos e a cada vez mais exaltada conduta do cambista, do judeu e de quantos o apoiavam, Jesus optou por fazer uma pausa e esperar. A quinze ou vinte passos, os discípulos permaneciam afastados e em silêncio. Mas aquela situação violenta, longe de amainar, piorou. A densa multidão fazia que fosse quase impossível ao pastor manter domínio nos bois, que se tinham espalhado por entre as mesas. E aqui, enquanto o Nazareno esperava, impassível, um terceiro incidente veio provocar a faísca final. Entre os judeus que pretendiam ouvir Jesus encontrava-se um Galileu, velho amigo do Mestre (soube depois que se tinha encontrado com o Rabi durante a sua passagem por Iron). Este humilde lavrador tinha começado a ser maltratado por um grupo de peregrinos da Judéia. Entre empurrões e cotoveladas, aqueles orgulhosos indivíduos riam-se dele pela sua incredulidade.

         Quando o Gigante se apercebeu desta última cena, ante o assombro dos Seus discípulos e de quantos ali estavam presentes, soltou o manto e, deixando-o

cair na escada foi ao encontro do pastor, arrebatando-lhe o látego de cordas. Com uma segurança inaudita, o Galileu foi reunindo os bois tresmalhados, tirando-os do Templo entre os sonoros gritos secos e fortes chicotadas no ladrilhado do Átrio. Quando a multidão viu o Mestre guiar o gado ficou eletrizada. Porém, não se quedou por ali. Uma vez concluída a operação de limpeza, Jesus de Nazaré, em silêncio, abriu majestosamente passagem entre a multidão , encaminhando-se a grandes passadas e com o chicote na mão esquerda para os currais, situados no outro lado do Átrio dos Gentios, junto da Fortaleza Antonia.

         Aquilo era novo para mim e corri atrás dEle. Ao chegar aos estábulos, o Mestre - com uma firmeza que me deixou sem fala - foi abrindo um após outro, todos os portões, incitando os bois, machos, carneiros e cabritos a saírem dos seus recintos. Num instante, centenas de animais irromperam no átrio. E o Rabi, com a mesma decisão e destreza com que tirara do Templo a primeira manada, dirigiu aqueles assustados animais na direção das mesas dos cambistas e intermediários.

         Como era de prever os animais espantados provocaram o pânico dos hebreus que, na sua fuga desordenada para os pórticos de saída, derrubaram uma infinidade de barracas. Os bois, por seu lado, acabaram por espezinhar as mercadorias, derramando numerosos cântaros de azeite e de sal.

         A confusão foi aproveitada por um grande grupo de peregrinos, que se vingaram virando as poucas mesas que ainda estavam de pé. Em questão de minutos, aquele comércio fora literalmente varrido, com o conseqüente regozijo dos milhares de judeus que odiavam a profanação permanente. Quando apareceram os soldados romanos tudo estava tranqüilo e em silêncio.

         Jesus de Nazaré, que não tocara com o látego num só hebreu nem derrubara mesa alguma - de tal posso dar testemunho, pois estive muito perto do Mestre - voltou então para o alto da escadaria e, dirigindo-se à multidão , gritou:

         - Haveis sido testemunha neste dia do que está escrito nas Escrituras: A Minha casa será chamada uma casa de oração para todas as nações, porém, dela haveis feito um covil de ladrões.

         A minha surpresa chegou ao cúmulo quando, ainda o Rabi não concluíra as Suas palavras, um grupo de jovens judeus se destacou da multidão aplaudindo Jesus e cantando hinos de agradecimento pela audácia e coragem do Galileu.

         Este acontecimento, como se vê, nada tinha a ver com o que se conta nos Evangelhos e onde - seja dito de passagem - o Messias surge como um colérico, capaz de bater e de chicotear pessoas.

         Como Já mencionei, Jesus pregara muitas outras vezes naquele mesmo terreiro do Templo e nunca se comportara daquele modo. Conhecia perfeitamente

as trapaças e os roubos feitos diariamente no Átrio dos Gentios e, não obstante, nunca se manifestou violentamente contra tal situação. Se, na manhã daquela segunda-feira, provocou a debandada do gado foi, em minha opinião, como conseqüência de uma situação muito concreta e insustentável.

         Os que não poderiam faltar, obviamente, eram os responsáveis pelo Templo. Quando os sacerdotes tiveram conhecimento do incidente acorreram, pressurosos, ao local onde se encontrava Jesus, interrogando-o com severidade:

         - Não ouviste o que dizem os filhos dos levitas?

         Mas Jesus respondeu-lhes:

         - Nas bocas dos meninos e das crianças se aperfeiçoam os louvores.

         Os jovens intensificaram então os seus cânticos e aplausos, obrigando os fariseus a afastarem-se do local. A partir daquele momento, grupos de peregrinos colocavam-se junto das portas de acesso ao Templo, impedindo que pudesse restabelecer-se o câmbio de moedas e a venda normal dos intermediários. Os jovens não consentiram que fosse transportada uma única vasilha para o terreiro.

         Talvez o mais triste daquele acontecimento fosse a atitude dos doze. Durante a fogosa intervenção do Mestre, o grupo permaneceu encolhido num canto, sem levantar uma mão para ajudar ou proteger Jesus. Esta nova e surpreendente ação do Galileu lançara-os numa desorientação total.

         Mas se grande era a confusão dos discípulos de Cristo, a dos chefes do Templo, escribas e fariseus não era menor. Aquilo fora a gota de água que lhes esgotou a paciência. Aproveitando a ausência de José de Arimatéia, Nicodemo e outros amigos de Jesus, o Sinédrio convocou uma reunião de emergência, para análise da situação. Era preciso prender o impostor sem perda de tempo. Mas como e onde? Os escribas e os restantes sacerdotes viam que a multidão estava do lado do Galileu.

         Havia, além disso, outro fato que não podiam perder de vista, a presença do procurador romano Pôncio Pilatos em Jerusalém.

         Se a prisão de Jesus se materializasse à luz do dia e à vista dos milhares de peregrinos vindos de todos os cantos da Palestina e do estrangeiro, a captura podia dar lugar a uma revolta generalizada. Isso significaria, com toda a certeza, uma violenta repressão das forças romanas aquarteladas na Torre Antonia e no acampamento provisório, montado pelos soldados na zona noroeste da cidade, nas imediações das piscinas de Bézatha. Que podiam, então, fazer?

         Durante horas, os membros do Sinédrio discutiram quanto à maneira ideal de prender Jesus. Mas acabaram por não chegar a um acordo.

         A única solução válida foi criar cinco grupos de peritos especialmente escribas e fariseus -, que seguiram os passos do Galileu e tentaram confundi-lo e ridicularizá-lo em público, destruindo assim o Seu prestígio e influência entre as pessoas simples.

         Obedecendo a esta orientação, pelas duas da tarde, um destes grupos pôs-se a caminho do lugar onde Jesus fazia a Sua pregação. E, com o seu estilo característico - soberbo e autoritário -, perguntaram ao Mestre:

         - Com que autoridade fazes estas coisas? Quem Te deu tal autoridade?

         Eles sabiam que o Nazareno não tinha passado pelas obrigatórias escolas rabínicas e que, portanto, os Seus ensinamentos e até o título de rabi, que muitos lhe atribuíam, não eram corretos, segundo o rigoroso ponto de vista legal e jurídico.

         Mas Jesus - com aquela rapidez de reflexos que o caracterizava respondeu-lhes com outra interrogação:

         - Também me agradaria fazer-vos uma pergunta. Se me responderdes, eu vos direi igualmente com que autoridade faço estes trabalhos. Dizei-me: o batismo de João, de onde partiu? Conseguiu João esta autoridade pelo céu ou pelos homens?

         Os escribas e fariseus formaram círculo e começaram a deliberar em voz baixa, enquanto Jesus e a multidão esperavam em silêncio. Tinham pretendido encurralar o Galileu e eram eles que se viam agora numa situação embaraçosa. Por fim, voltando-se para Jesus, replicaram:

         - Em relação ao batismo de João, não podemos responder. Não sabemos...

         A razão daquela negativa era bem clara. Se afirmassem que fora do céu, Jesus poderia responder-lhes: Então porque não haveis acreditado nele? Além disso neste caso o Mesíre podia acrescentar que a Sua autoridade vinha de João. Se, pelo contrário, os escribas dissessem que fora dos homens, aquela multidão - que considerara João como um profeta poderia atacar os sacerdotes...

         A estratégia de Cristo, mais uma vez, fora brilhante e vencedora. E o Rabi, olhando-os fixamente, acrescentou:

         - Pois também eu não vos direi com que autoridade faço estas coisas. Os Hebreus soltaram ruidosas gargalhadas, ante a impotência dos mestres máximos de Israel vermelhos de ira e de vergonha.

         A grande diferença entre os escribas e o restante sacerdócio - fariseus, levitas, chefes do Templo, etc. - baseava-se no saber. Os escribas eram os depositários da ciência e da iniciação. Para chegar a fazer parte das chamadas corporações de escribas, o aspirante via-se obrigado a freqüentar numerosos estudos, que começavam nos seus anos de juventude. Quando o talmid ou aluno conseguia domar a matéria tradicional e o método da halaja (determinadas seções da literatura rabínica de argumento legal), até ao ponto de ser considerado como pessoa capacitada para tomar decisões pessoais em questões de legislação religiosa e de direito penal, então e só então, era designado como doutor não ordenado, ou talmid hakan.

         Depois, chegado aos quarenta anos - idade canônica para à ordenação - o aspirante a escriba podia entrar na corporação, como membro de pleno direito ou hakan. A partir desse momento, o novo escriba estava autorizado a conciliar por si mesmo as questões de legislação religiosa ou ritual, a ser juiz nos processos criminais e a tomar decisões nos juízes de caráter civil, fosse como membro de um tribunal de justiça ou, então, individualmente.

         Tinha direito a ser chamado rabi. As suas decisões tinham o poder de atar e desatar, para sempre os judeus do mundo inteiro. Nicodemo, por exemplo, amigo de Jesus, era um destes prestigiados escribas, a cuja passagem deviam levantar-se todos os filhos de Israel, com exceção de determinadas profissões artesanais. Porém, o que mais poder e influência lhes proporcionou entre os seus compatriotas foi o fato de serem portadores da ciência secreta,: a tradição esotérica. Um dos seus textos dizia: Não devem ser explicadas publicamente as leis sobre o incesto na frente de três ouvintes, nem a história da criação do mundo na frente de dois, nem a visão do carro de fogo na frente de um, a não ser que este seja prudente e de bom senso. A quem considere quatro coisas, mais lhe valera não ter vindo ao mundo a saber: (em primeiro lugar) o que está em cima (em segundo lugar) o que está em baixo (em terceiro lugar) o que era antes (em quarto lugar) o que ser  depois. (Escrito rabínico flagíga II,1 e 7).

         É fácil compreender a audácia de Jesus quando, em muitas das suas pregações públicas, se lançou contra os escribas, acusando-os de terem tomado para si as chaves da ciência, fechando aos homens o acesso ao reino de Deus. Nunca os escribas lhe perdoariam tal afirmação. (N. do M.)

         Jesus dirigiu então o olhar para os que tinham querido perdê-Lo e disse-lhes:

         - Uma vez que estais em dúvida sobre a missão de João e em inimizade com o ensinamento e os atos do Filho do Homem, prestai atenção enquanto vos conto uma parábola. Certo grande e respeitado agrário - começou o Galileu a sua história - tinha dois filhos.

         Desejando que o ajudassem na administração das suas terras, dirigiu-se a um deles e disse:

         - Filho, vem trabalhar hoje na minha vinha. E este filho, sem pensar respondeu a seu pai: Não quero ir. Mas logo se arrependeu e foi. Quando o pai encontrou o segundo filho disse-lhe: Filho, vem trabalhar na minha vinha. E este filho, hipócrita e desleal, respondeu:

         - Sim, pai, vou. Mas, quando o pai se afastou, não foi. Deixai que vos pergunte: qual destes filhos fez realmente a vontade de seu pai?

         Todos, como um só homem, responderam:

         - O primeiro filho.

         Jesus replicou então, olhando para os sacerdotes:

         - Pois assim Eu declaro que os taberneiros e prostitutas, embora pareçam recusar o apelo ao arrependimento, verão o erro do seu caminho e entrarão no reino de Deus antes de vós que tendes grandes pretensões de servir o Pai do Céu, mas que recusai os trabalhos do Pai. Não haveis sido vós, escribas e fariseus, os que acreditaram em João, mas os taberneiros e pecadores. Também não haveis acreditado nos Meus ensinamentos, mas as pessoas simples escuta com gosto as minhas palavras.

         Aquela segunda crítica pública obrigou os escribas e fariseus a dar meia volta entrando no santuário. E o Mestre continuou pregando em paz, fazendo as delícias da multidão .

         Por José de Arimatéia soubemos que a cólera dos sacerdotes chegara a tal paroxismo que pouco faltou para que os levitas cercassem Jesus naquela mesma manhã, procedendo à sua captura. Mas a entrada em jogo dos saduceus (1) - que constituíam maioria no Sinédrio - atrasou José, conhecido por Caifás, era saduceu). A sua teologia, era diferente da dos fariseus. Cingia-se rigorosamente ao texto da Tora, em especial no que se referia às prescrições relativas ao culto e ao sacerdócio. A sua oposição aos fariseus e a sua halak  ou tradição oral era completa e, até, furiosa. Dispunham, além disso, do seu próprio código penal, de uma severidade extrema. Como é evidente, houve muitos escribas que praticavam a doutrina saduceia. (N. do M.)

        

         Naqueles tempos, o Sinédrio encontrava-se, basicamente, dividido em dois grandes grupos: os fariseus e os saduceus. Estes últimos formavam um partido organizado, integrado, fundamentalmente, pela nobreza laica e sacerdotal, pelos anciões ou notáveis do povo e pelos sacerdotes-chefe. (O sumo sacerdote em funções naqueles dias, novamente os planos dos inimigos de Cristo. Esta casta sacerdotal aceitara pessimamente o desmantelamento dos cambistas e intermediários e, pela primeira vez, apoiou os planos dos fariseus e escribas para eliminar Jesus. Isto significou maioria absoluta na hora de decidir e condenar o Rabi da Galiléia. Entretanto, Jesus começara a contar uma segunda parábola – a do rico proprietário que chegou a enviar o próprio filho para convencer os trabalhadores rebeldes da sua vinha a que lhe pagassem a renda -, perguntando aos que assistiam que deveria fazer o dono da vinha com aqueles arrendatários malvados.

         - Destruir esses homens miseráveis - respondeu a multidão e arrendar o seu vinhedo a outros lavradores honestos, que lhe dêem os seus frutos em cada estação.

         Muitos dos presentes compreenderam o sentido da parábola de Jesus e exprimiram-se em voz alta!

         - Deus perdoe a quem continue fazendo coisas destas! Mas alguns fariseus não se davam por vencidos e voltaram ao local onde Jesus pregava. O Mestre, ao vê-los, disse-lhes:

         - Sabeis como vossos irmãos repudiaram os profetas e bem sabeis que estais resolvidos a repelir o Filho do Homem. - Depois de alguns instantes de silêncio, o Seu olhar tornou-se mais agudo e acrescentou:

         - Nunca lestes na Escritura sobre a pedra que os construtores recusaram e que, quando o povo a descobriu, dela fez a pedra angular?... Mais uma vez vos aviso. Se continuais repudiando o Evangelho, o reino de Deus será  levado para longe de vós e entregue a outras pessoas, desejosa de receber boas novas e de levar em frente os frutos do espírito. Eu digo-vos que existe um mistério nessa pedra: quem cai sobre ela, ainda que fique partido aos pedaços, salvar-se-á. Mas aquele sobre quem caia esta pedra angular, ser  moído até ficar em pó e as suas cinzas serão espalhadas aos quatro ventos.

         Nesta altura, os escribas e chefes nem sequer tentaram replicar. E o Mestre prosseguiu nos Seus ensinamentos, contando uma terceira parábola : a do festim das bodas.

         Quando terminou, Jesus pôs-se de pé e preparou-se para se despedir da multidão . Nesse instante, um dos crentes levantou a voz e interrogou o Rabi:

         - Mas, Mestre, como saberemos essas coisas? Que sinal nos darás para que saibamos que és Tu o Filho de Deus?

         Houve um novo e pesado silêncio. Mas quando os fariseus, muito atentos, consideravam que o impostor caíra na Sua própria armadilha, o Galileu - com voz sonora e apontando com o indicador esquerdo o próprio peito - afirmou:

         - Destruí este Templo e em três dias o erguerei.

         Deu Jesus por terminada a Sua pregação e, descendo a escadaria, convidou os discípulos a que o seguissem.

         A multidão começou a dispersar-se, trocando uma infinidade de comentários. Evidentemente - pelo que pude escutar – não tinham compreendido o verdadeiro significado daquela última e lapidar frase de Cristo.

         - Quase cinqüenta anos esteve este templo em construção - diziam uns aos outros -, e diz que o destruir  e o erguerá  em três dias? Como era natural, também os apóstolos não entenderam a intenção do Rabi. Só depois - muito depois da Sua ressurreição - se fez luz nos seus corações.

         Pelas quatro da tarde, o grupo saía novamente de Jerusalém, rumo a Betânia.

         Enquanto subíamos pela encosta ocidental do monte das Oliveiras, encurtando assim o caminho para a aldeia de Lázaro, Jesus deu instruções a André, Tomás e Filipe para que, a partir do dia seguinte, terça-feira, os discípulos preparassem um acampamento nas cercanias da Cidade Santa. Aquilo significava que o Nazareno tinha a intenção de instalar o seu local habitual de repouso - até àquele momento em Betânia - nos arrabaldes de Jerusalém. Mas, para quê? Que nos reservava o destino naqueles dois dias - terça e quarta-feira -, tão escassamente conhecidos, no que às atividades do Mestre se refere?

         A inesperada decisão de Jesus - que, logicamente, não estava prevista no nosso plano de trabalho, uma vez que os textos canônicos e apócrifos não mencionam este acampamento – ia precipitar o meu regresso ao módulo, fixado por Cavalo de Tróia para o entardecer de terça-feira, 4 de Abril. Poucas horas depois, precisamente pelo anoitecer da referida terça-feira, e à vista do que aconteceu, comecei a compreender a razão por que o Rabi de Galiléia dera aquela ordem...

         Pela segunda vez, enquanto caminhávamos para Betânia, tive oportunidade de verificar como a quase totalidade dos doze homens de confiança de Jesus não entendera a mensagem nem as intenções do Nazareno. Os seus comentários e, principalmente, os seus silêncios refletiam uma profunda confusão.

         A majestosa ação do seu Mestre ao longo daquela manhã de segunda-feira, arruinando o sacrílego comércio dos cambistas e intermediários do Templo, tinha-lhes devolvido as esperanças de um Jesus poderoso, capaz de instaurar um reino terreno e político em Israel. Porém, ao chegar a tarde, o repúdio dos sacerdotes judeus dos Seus ensinamentos de novo os fez cair na incerteza.   Aqueles homens pressentiam qualquer coisa. Apesar do seu escasso nível cultural, o permanente contato com a tensa realidade daqueles dias e as repetidas advertências de Jesus de Nazaré sobre o Seu fim próximo fazia-os ter a intuição de uma catástrofe. Estrangulados pelo medo e pelas dúvidas, os discípulos encaminharam-se para os seus respectivos locais de repouso, ainda que - conforme verifiquei na manhã seguinte - muito poucos fossem os que conseguiram dormir.

         E, naquela noite de segunda-feira, 3 de Abril do ano 30, depois de me despedir temporariamente de Lázaro e de sua família, abordei o berço, iniciando os preparativos da segunda fase da exploração. Sem dúvida a mais trágica e apaixonante de quantas algum homem tenha empreendido.

         A escuridão era total quando comecei a subir o monte das Oliveiras pelo lado oriental. Tinha Já avisado Eliseu do meu iminente regresso ao módulo, como conseqüência da alteração de planos do Mestre da Galiléia. Estive tentado a arranjar um archote, a fim de caminhar com maior segurança pela caminho que passava por entre os olivais. Mas um elementar sentido de prudência fez-me desistir.

         O eco do microtransmissor colocado na fivela do meu manto chegava nitidamente ao berço. Aquilo tranquilizou-me. Naquele momento, o meu objetivo era alcançar a cota superior do monte das Oliveiras, situada à direita da caminho. Uma vez localizada a clareira pedregosa onde estava pousado o módulo, Eliseu encarregar-se-ia de me guiar, mediante a ligação auditiva. Uma hora antes, quando regressávamos a Betânia, eu tinha ficado para trás, atando a um dos ramos de um zambujeiro - justamente no cimo do monte das Oliveiras - o pequeno lenço branco que me servia para enxugar o suor e que, como os Hebreus, sempre trazia atado no pulso esquerdo.

         Tal como esperava e, com o conseqüente alívio da minha parte, não cheguei a cruzar-me com nenhum caminhante. Ao distinguir o pano ondulando suavemente ao vento, apressei o passo. E, depois de o tirar da oliveira brava deixei o caminho, metendo-me por entre o mato na direção norte. À minha esquerda, avistavam-se as luzes amarelas e pestanejantes de Jerusalém, ao longe. Uma meia lua aparecia de quando em quando entre as compactas faixas de nuvens, facilitando consideravelmente a minha aproximação da nave. Poucos minutos depois, entrava na clareira, localizando o suave promontório pedregoso sobre o qual devia estar pousado o módulo. Eliseu, em ligação permanente, fora orientando os meus passos, corrigindo, através da tela do radar, alguns dos meus inevitáveis desvios de rumo. Ao penetrar na zona de segurança do módulo - a cerca de cento e cinqüenta pés do ponto de contato -, o meu companheiro anunciou-me que ia desligar parcialmente a barreira infravermelha, com o fim de tornar visíveis as bases de sustentação do berço, tornando assim mais fácil a minha entrada na nave.

         De repente, a meio da escuridão e como que cravados nas rochas, apareceram quatro largos tubos, apontando como fantasmas azulados para a imensidão dos céus.

         Simultaneamente, e com um suave resfolegar, o sistema hidráulico fez descer a pequena escada de alumínio. Sem perda de tempo introduzi-me no trem de aterragem do berço, subindo ao interior do módulo. Suponho que se alguém pudesse ver-me naquele momento, subindo por uma escadinha que, aparentemente, não dava para parte alguma, e desaparecendo progressivamente - primeiro a cabeça, ombros e braços e depois o resto do tronco, ventre, pernas, o susto teria sido considerável, acreditando talvez que estava presenciando uma visão divina... O meu encontro com Eliseu foi especialmente tenso e emotivo. Uma vez no berço, o meu companheiro voltou a levantar o painel sobre a base de sustentação e, depois de verificar que tudo continuava calmo em redor da nave, preparamo-nos para a revisão e execução da segunda fase da operação.

         A minha entrada no módulo foi registrada pelas vinte horas e cinco minutos. Isto significava que ainda dispunha de umas nove horas antes do meu regresso ao grupo de Jesus, previsto, segundo Cavalo de Tróia para as seis e trinta da manhã do dia seguinte, terça-feira, 4 de Abril.

         Depois de me lavar e mudar de roupa - o calçado, não - Eliseu entregou-me aquilo que, familiarmente, conhecíamos por a vara de Moisés: o único instrumento usado fora do berço e que ia desempenhar um papel fundamental na minha exploração seguinte, em especial a partir da prisão do Nazareno, na noite de quinta-feira, 6 de Abril. Obviamente, numa viagem daquela natureza, os homens do general Curtiss tinham previsto - pelo menos para as horas de máxima tensão - a filmagem dos principais acontecimentos: noite da chamada Quinta-feira Santa sexta-feira e domingo de Ressurreição.

         Além da citada filmagem, Cavalo de Tróia tinha especial interesse na seqüência exaustiva - minuto a minuto – das torturas que o Nazareno ia sofrer, bem como das Suas horas na Cruz. A seqüência de uma dupla fonte: por um lado, o meu testemunho pessoal e, por outro, sem dúvida mais importante, através de um sofisticado equipamento técnico, capaz de simultaneamente, filmar e analisar, de um ângulo estritamente médico.

         Como é natural, estas delicadas operações não podiam efetuar-se abertamente. Isso iria contra os princípios básicos do Projeto. Era inviável, portanto, que eu andasse com uma câmara de cinema ou com os complexos aparelhos de rastreio das funções vitais de Jesus de Nazaré. E como, naturalmente, também não era possível a implantação de fios ou dispositivos eletrônicos no corpo do Mestre da Galiléia que nos permitiriam um controle das suas funções orgânicas, tensão arterial ritmo cardíaco, etc., Cavalo de Tróia desenhou e fabricou um complexo sistema, minuciosamente camuflado no que chamávamos a vara de Moisés.

         Este engenho - que irei pormenorizando de forma progressiva consistia num simples cajado de madeira de pinheiro de um metro e oitenta de comprimento por três centímetros de diâmetro, com o correspondente remate superior, em forma de arco (1). Para o observador comum, alheio às nossas intenções, não deveria apresentar maior interesse que o de qualquer vara vulgar, como as usadas habitualmente pelos caminhantes e peregrinos. No seu interior, no entanto, fora colocado um delicadíssimo equipamento. A um metro e sessenta - contando sempre a partir da base do bastão - encontravam-se quatro canais de filmagem simultânea, com as objetivas distribuídas em cruz, de forma a poderem filmar, ao mesmo tempo, quanto sucedia nos trezentos e sessenta graus à nossa volta. As quatro bocas de filmagem – de quinze milímetros de diâmetro cada uma - tinham sido dissimuladas mediante um anel de três centímetros de largura, formado por um cristal semi-reflexo, de modo a que só permitisse a visão de dentro para fora. Esta espécie de braçadeira, primorosamente trabalhada pelos nossos técnicos, de modo a parecer uma simples faixa de tinta preta sobre a madeira branca, fora reforçada e adornada com duas filas de pregos de cobre, que a prendiam firmemente. Estes pregos de cabeça larga tinham sido trabalhados de acordo com as antiqüíssimas técnicas da indústria metalúrgica descobertas por Nelson Glueck no vale de Arab , ao sul do mar Morto, e em Esyón-Guéber, o lendário porto marítimo de Salomão, no mar Vermelho. Evitando possíveis problemas, os homens de Curtiss tinham seguido rigorosamente as normas de Misn  ou tradição oral judaica que, na sua Ordem Sexta - dedicada às prescrições entre purezas e impurezas -, especifica que um bastão pode ser suscetível de impureza se não for adornado com três filas de pregos. Um destes pregos, de cor esverdeada, mais intensa do que o restante, e ligeiramente separado da superfície do cajado, podia ser premido manualmente, iniciando-se, assim - de maneira automática -, a filmagem simultânea. Bastava uma nova pressão para que o prego voltasse à posição inicial, interrompendo-se a gravação.

 

         O remate do cajado ou vara de Moisés - em forma de asa encurvada - fora estudado meticulosamente pelo Projeto Cavalo de Tróia, na base de uma das minhas missões, em que tinha de desempenhar o papel de  guru ou adivinho. Estes astrólogos distinguiam-se, precisamente, pelo seu lituus: uma pequena vara com uma parte curva superior enroscada ou dobrada, em forma de asa curvada ou fraca espiral, tal como tínhamos observado num baixo-relevo famoso, existente no Museu de Florença, em Itália. O fato de ter escolhido, precisamente, a madeira de pinho para o fabrico da vara de Moisés teve uma justificativa puramente sentimental: desta madeira - reza a lenda - se fez precisamente o Cavalo de Tróia, que o exército helênico colocou em frente das portas de Tróia. (N. do M.)

 

         Também por altura da grande viagem, Cavalo de Tróia prescindiu das objetivas habitualmente usadas nas câmaras de filmagem, ajustando nas bocas de cinema um sistema revolucionário que, estou certo, se impor , um dia, na atual técnica fotográfica. Dada a extrema miniaturização dos sistemas, tornava-se muito difícil a mudança de objetivas nas câmaras, que permitiria a tomada de planos diferentes.

         Mediante uma técnica extremamente complexa, as lentes de vidro foram substituídas pelo que poderíamos chamar lentes gasosas, suscetíveis de se transformarem (sem necessidade de substituição de objetivas) em grande-angulares, teleobjetivas, lentes de aproximação, etc.

         Embora não pretenda alongar-me na legião de fatores técnicos que formavam o recentíssimo sistema das lentes gasosas, quero oferecer algumas das suas características mais gerais, consciente de que talvez possa servir de pista aos investigadores e profissionais do mundo da fotografia, Já que, como temo, este magnífico processo não seja dado a conhecer ao mundo imediatamente. A chave ou fundamento encontra-se no fenômeno de refração da luz. Todos sabem que, quando um raio de luz passa de um meio transparente a outro de diferente natureza ou densidade sofre uma mudança de direção. Toda a teoria ótica geométrica tende para a análise destas mudanças no caso de dióptricos, e lentes ou diferentes tipos de superfícies refletoras ou espelhos. Por outras palavras: os técnicos conseguem integrar a imagem visual de um objeto luminoso qualquer refratando os raios de luz por meio de um objeto de perfil estudado cuidadosamente, e composição química definida, a que chamam lente, embora de estrutura rígida. No entanto, o fenômeno de refração também é provocado num meio elástico, como é o caso de um gás. As lentes gasosas partem, em suma, deste princípio, que recorda em parte, o mecanismo fisiológico do olho, em que a lente, - o cristalino - não é rígida, mas elástica. Pois bem, as nossas câmaras substituíram estes meios - rígido (vidro) ou semi elástico (gelatina) - por um meio gasoso de refringência variável.

         Comentemos outro exemplo: num recipiente cheio de ar, aquecido na sua parte inferior e arrefecido na superior, as camadas inferiores serão menos densas que as superiores. Neste caso, e devido à dilatação térmica do gás, um raio de luz sofrer sucessivas refrações, curvando-se para cima. Se invertermos o processo, o raio se curvará  para baixo. Baseando-se nestes princípios, Cavalo de Tróia conseguiu um controle de temperaturas muito exato nos diversos pontos de uma massa sólida, líquida, gasosa ou de transição. Isto conseguiu-se emitindo dois feixes de ondas ultra-curtas, que esvaziaram o gradiente de temperatura num ponto concreto de uma massa de gás, quer dizer, obteve-se o aquecimento de uma pequena massa de gás nessa zona. Por este processo se pôde aquecer, por exemplo, a totalidade de um recipiente, deixando no interior uma massa de gás frio, que adota uma forma lenticular que, por sua vez, pode ser alterada, conseguindo-se uma alteração na sua espessura e forma ótica. A luz que atravessa essa massa, previamente trabalhada, de gás frio seguir  direções definidas, de acordo com as leis óticas universais. Esta foi a chave para substituir, definitivamente, as lentes tradicionais de vidro pelas de natureza gasosa. Estas lentes revolucionárias são criadas no interior de um cilindro transparente de paredes muito delgadas, cheio de gás nitrogênio. Uma série de radiadores de ultra-frequência (em número de mil e duzentos) distribuídos perifericamente, aquecem à vontade e a diferentes temperaturas os diversos pontos da massa gasosa, conseguindo-se assim o que pode ir de um simples menisco lenticular de luminosidade f:32 a um complexo sistema equivalente, por exemplo, a uma teleobjetiva ou uma grande-angular de cento e oitenta graus. Estas câmaras não dispõem de diafragma, para que a luminosidade da ótica varie à vontade. O filme, de selênio, carregado eletrostaticamente, registra uma imagem elétrica, que substitui a imagem química. Esta película é formada por cinco lâminas transparentes sobrepostas, cuja sensitometria está calculada para outras tantas imagens de diferentes comprimentos de onda. Além de uma segunda câmara de gás xénon, para um novo complicado tratamento ótico das imagens (criando, instantaneamente, uma espécie de prisma de reflexão), as nossas câmaras de lentes gasosas são alimentadas por um minúsculo computador nuclear, que constitui o cérebro do aparelho. Este microcomputador, munido também de memória de titânio, rege o funcionamento de todas as suas partes, programando os diversos tipos de sistemas óticos no cilindro de gás e tendo em conta todos os fatores físicos que intervêm, intensidade e brilho de imagem, distâncias focais, distância do objeto para a sua correspondente focagem, profundidade do campo, filtragem cromática, ângulo do campo visual, etc. (N. do M.)

         É possível que muitas pessoas se perguntem como se pode conseguir um microcomputador nuclear de dimensões tão reduzidas, que seja possível meter dentro de uma vara de pinheiro de trinta milímetros de diâmetro. Embora não esteja autorizado a descrevê-las inteiramente, tentarei esboçar algumas das suas características essenciais. Em geral, os dispositivos amplificadores de voltagem ou de intensidade dos computadores atuais estão baseados nas propriedades da emissão catódica no vácuo, controlada por um elétron auxiliar, ou nas características do estado sólido, como no caso dos diodos e transistores de germânio e de silício. Mas os referidos circuitos não amplificam a energia. Mais ainda, a potência de saída é sempre menor que a de entrada (rendimento menor que a unidade). Apenas amplificam a tensão à custa de energia gerada numa fonte energética auxiliar, pilha ou retificador de corrente alternada. Pelo contrário, os elementos dos computadores de Cavalo de Tróia (amplificadores nucléicos) têm características distintas. Em primeiro lugar, a base não é eletrônica - também não é de vácuo ou de estado sólido (cristal) - mas sim nucléica. Uma débil energia de entrada (nêutrons ou prótons unitários incidindo sobre uns quantos átomos) provoca, por fissão do núcleo, grande energia. O rendimento, portanto, é muito maior que a unidade. À saída do amplificador elementar obtemos esta energia, não elétrica mas sim térmica, embora, num processo posterior, o calor se transforme em energia elétrica. E sendo a base destes elementos puramente atômica - e entrando em jogo, não trilhões de átomos, mas umas quantas unidades -, o grau de miniaturização é extraordinário, conseguindo armazenar complexíssimos circuitos em volumes reduzidíssimos. (N. do M.)

 

        Este dispositivo de lentes gasosas ia ser de extrema utilidade. Ao longo das tensas e dramáticas quinta e sexta-feira, a substituição instantânea de uma grande-angular por uma teleobjetiva, por exemplo, me permitiria filmar pormenores de extrema importância, especialmente durante as horas que durou a crucificação. Embora prefira referir-me a isso mais adiante, o processo de filmagem encontrava-se intimamente ligado a outro sistema, de exploração médica, a emissão infravermelha, igualmente colocada na vara de Moisés, embora num mecanismo alojado na zona superior do cajado, a um metro e setenta da base. Tanto o equipamento de filmagem como o de infravermelhos eram apoiados pelo Já referido microcomputador nuclear, estrategicamente encerrado na base da vara. A sua complexidade era tal que, além das funções de controle automático das filmagens, acumulação de película (com capacidade para cento e cinqüenta horas de filmagem), regulação das emissões, recepção e processamento das ondas ultra-sônicas e radiação infravermelha, traduzindo-as por imagens e sons, alimentação dos geradores de ultra-frequência, etc., a sua memória de titânio (1) permitia-lhe, até, controlar, a cada instante, os movimentos de turbulência em cada um dos pontos das quatro câmaras gasosas de cinema, corrigindo-as e conseguindo uma perfeita estabilidade ótica.

 

                               4 DE ABRIL, TERÇA-FEIRA

         Na madrugada daquela terça-feira, 4 de Abril, pelas cinco horas e quarenta e dois minutos desci do módulo, iniciando o caminho de regresso a Betânia. O céu recuperara o seu formoso azul-celeste e a temperatura, ainda que ligeiramente mais baixa que nos dias anteriores, no momento de me despedir de Eliseu (o berço registrou onze graus centígrados), era suportável.

         Além de me permitir um breve mas profundo repouso e uma limpeza completa, aquele breve período no módulo servira para satisfazer um pequeno capricho, intensamente desejado durante os cinco primeiros dias de exploração, poder tomar o pequeno-almoço à maneira antiga (embora neste caso tão especial devesse talvez dizer-se à maneira futura...) tal como tinha por costume nos Estados Unidos. Assim, diante dos olhos divertidos do meu companheiro, eu mesmo preparei os ovos mexidos, o bacon, as torradas com manteiga e as generosas xícaras de café fumegante.

         E, com ânimo renovado, agarrei o meu novo e inseparável companheiro - a vara de Moisés -,guardando na bolsa de borracha um diminuto microfone, as lentes de contato, duas esmeraldas, uma corda colorida e a carta do suposto amigo da Tessalónica. Tudo isto, como iremos ver, de extrema importância para o desenvolvimento da minha missão...

         À medida que me aproximava de Betânia, seguindo o mesmo caminho que tomara na noite anterior para o meu regresso ao berço, uma crescente curiosidade se foi apossando de mim. Que me reservaria o destino naqueles dois dias - terça e

quarta-feira -, dos quais mal se fala nas crônicas evangélicas? Que faria Jesus de Nazaré durante as horas que antecederam a Sua prisão?

         Aquela inquietação fez-me apressar o passo. Quando me encontrava a uma pedrada do caminho que vai de Jerusalém a Jericó, e que atravessava Betânia, um cerrado matagal atraiu-me a atenção. Tratava-se de belos ramos de junco - da espécie sultão -, muito apreciados pelas mulheres judias. Eu sabia que as hebréias gostavam de adornar os cabelos com feixes destas aromáticas flores, extraindo também dos seus pequenos tubérculos ovóides (um pouco menores que avelãs) uma espécie de licor refrescante, de sabor muito semelhante à orchata.

         Contente com a minha descoberta, arranquei um ramo abundante e prossegui a marcha. Ao chegar à aldeia, o ruído familiar da moenda do grão pôs-me de sobreaviso: os habitantes de Betânia esforçavam-se nos seus afazeres e, provavelmente, o Mestre da Galiléia - consumado madrugador - teria iniciado Já o Seu dia. Não tinha tempo a perder.

         Ao entrar na casa de Lázaro, a família saudou-me com vivas manifestações de alegria, oferecendo-me o tradicional beijo na face. Marta, em especial, parecia muito mais nervosa e feliz que os outros pela minha nova visita. Porém, a sua perturbação atingiu o cúmulo quando, inesperadamente, lhe pus nas mãos o cacho de junças. Os seus profundos olhos negros afundaram-se nos meus. E logo, num dos seus peculiares impulsos, se afastou do grupo, em corrida, refugiando-se numa das casas do pátio central. Maria e Lázaro não puderam conter o riso. Mas os meus pensamentos estavam em Jesus e imediatamente interroguei Lázaro quanto ao paradeiro do Mestre. Aquele meu interesse pelo Galileu deve tê-lo enchido de satisfação e, atendendo o meu pedido, ofereceu-se para me acompanhar à casa de Simão, o Leproso.

         Pela posição do Sol deviam ser sete da manhã quando, depois de atravessar o jardim, me juntei ao grupo de discípulos que conversavam com o Rabi junto das escadarias onde eu tivera a minha primeira conversa com o Mestre.

Prudentemente, mantive-me afastado daquela grande reunião, observando que, além dos doze homens de confiança, assistia uma dezena de mulheres - eleitas igualmente por Jesus no princípio do seu magistério - bem como vinte ou vinte e cinco discípulos, todos eles muito amigos do Galileu, além do proprietário da casa, o velho Simão.

         Pelo tom da Sua voz, mais grave que o habitual, compreendi que aquela reunião tinha um sentido muito especial. Não me enganei. Jesus, ante os olhos atônitos dos Seus amigos, foi-lhes dizendo adeus. Naquele instante, apertei dissimuladamente o prego de cobre ativando a filmagem simultânea. Ninguém percebeu a manobra. No entanto, e acredito assim que o devo registrar em honra da verdade, no momento em que iniciei a gravação, o Gigante - que se encontrava de costas e conversando com o grupo de mulheres - virou subitamente a cabeça, lançando primeiro o olhar para mim e, logo a seguir, para a vara que eu empunhava com a mão direita. Uma onda de sangue me subiu ao rosto. Mas o Mestre, em questão de segundos, acabou por esboçar um largo sorriso, a que julgo ter correspondido, ainda que não esteja muito certo... Por um momento, julguei que tudo estava perdido. Os apóstolos e discípulos, atentos e cada um dos gestos do Mestre, associaram aquele olhar e o imediato sorriso à minha presença, não lhe concedendo mais transcendência que a de uma calorosa saudação a um gentio que demonstrava aberto e sincero interesse pela doutrina do Rabi. Depois, Jesus dirigiu-se aos seus doze discípulos, dedicando a cada um deles umas calorosas palavras de despedida.

         E começou por André, o verdadeiro responsável e chefe do grupo dos apóstolos. Num dos seus gestos favoritos, pôs as mãos nos ombros do irmão de Pedro dizendo-lhe:

         - Não desanimes com os acontecimentos que estão para se dar. Mantém a mão firme entre os teus irmãos e esforça-te para que não te vejam cair em desânimo.

         Depois, dirigindo-se a Pedro, exclamou:

         - Não ponhas a tua confiança no braço de carne nem nas armas de metal. Apoia-te nos alicerces espirituais das rochas eternas.

         Aquelas frases deixaram-me perplexo. Quase inconscientemente, associei as palavras de Jesus com as outras, postas pelo evangelista Mateus no capítulo dezesseis, onde, depois da confissão de Pedro sobre a origem divina do Mestre, Este afirma textualmente: Bem-aventurado és ó, Simão Barjonas... e Eu te digo a ti que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...

         Ao estudar os Evangelhos canônicos , durante a minha preparação para a Operação Cavalo de Tróia, tinha detectado um dado - repetido em diferentes passagens - que me causou certa confusão. Algumas frases do Nazareno, ou acontecimentos relacionados com o seu nascimento e vida pública, só eram recolhidos por um dos evangelistas enquanto os outros três não se davam por informados. Este era o caso do citado parágrafo de São Mateus que alimenta a crença entre os católicos de que Jesus de Nazaré quis fundar uma Igreja, tal como hoje a entendemos. E desde o primeiro momento nasceu em mim uma dúvida, como era possível que uma afirmação assim decisiva de Jesus não fosse igualmente registrada por Marcos, Lucas e João? Alguma vez o Mestre da Galiléia teria pronunciado aquelas palavras sobre Pedro e a Igreja? Seria esta confissão de Pedro uma deficiente informação parte da chamada do evangelista? Ou encontrava-me perante uma manipulação muito posterior à morte de Cristo, quando os ensinamentos do Rabi tinham começado a ser canalizados segundo a terrível legião própria que exigiam a justificação - da sua existência?

         Os acontecimentos que ia ter oportunidade de presenciar na tarde e na noite daquela mesma terça-feira, 4 de Abril confirmariam as minhas suspeitas sobre a péssima recepção, por parte dos apóstolos, e muitas das coisas que Jesus fez e que, principalmente, disse. E ainda que nunca eu negue a possibilidade de o Galileu ter pronunciado essas palavras sobre Pedro e a Sua Igreja ao escutar aquela despedida pessoal do Mestre a Pedro, no jardim de Simão, o Leproso, a minha dúvida sobre uma possível confusão de São Mateus aumentou consideravelmente.

         Pedro, ao escutar aquelas comovidas palavras - e num movimento reflexo que o traiu -, procurou ocultar com o roupão o punho da espada, que escondia entre a túnica e a faixa. Mas Jesus, simulando não ter visto, pôs-se na frente de Tiago, dizendo-lhe:

         - Não desfaleças com as aparências. Mantém-te firme na tua fé e depressa conhecerás a realidade daquilo em que crês.

         Passou a Nataniel e, no mesmo tom de doçura, afirmou:

         - Não julgues pelas aparências. Vive a tua fé quando tudo pareça desvanecer-se. Sê fiel à tua missão de embaixador do reino.

         Ao imperturbável Filipe - o homem prático do grupo - fez a sua despedida com estas palavras:

         - Não te intimides com os acontecimentos que se vão dar. Permanece tranqüilo, mesmo quando não possas ver o caminho. Sê leal ao teu voto de consagração.

         Em seguida, a Mateus, falou assim:

         - Não esqueças a graça que recebeste do reino. Não permitas que ninguém te roube na tua recompensa eterna. Assim como resististe às tuas inclinações de natureza mortal, deves permanecer resoluto.

         Quanto a Tomé, a sua despedida foi esta:

         - Não importa quão difícil possa ser, agora tens de caminhar pela fé e não pelos olhos. Não duvides que Eu possa terminar o trabalho que comecei.

         Aquelas palavras a Tomé - o grande cético – foram especialmente proféticas

         - Não consinteis que o que não compreendeis vos esmague - disse aos dois gêmeos. – Sede fiéis aos afetos dos vossos corações e não tenhais fé nos grandes homens ou na atitude volúvel das pessoas. Permanecei entre os vossos irmãos.

         Depois, na frente de Simão, o Zelota, o discípulo mais politizado, prosseguiu:

         - Desorientação te esmague, porém - Simão, pode acontecer que o teu espírito se erguerá  contra todos aqueles que venham contra ti. O que não soubeste aprender de Mim, o Meu Espírito te ensinará. Procura as verdadeiras realidades do espírito e deixa de te sentir atraído pelas sombras irreais e materiais.

         O penúltimo apóstolo era o jovem João. O Mestre, envolvendo as mãos dele nas suas, disse-lhe:

         - Sê suave. Ama mesmo os teus inimigos. Sê tolerante. E lembra-te que acreditei em ti...

         João, com lágrimas nos olhos, reteve as mãos de Jesus, ao mesmo tempo que exclamava num fio de voz:

         - Mas, Senhor, vais-te embora?

         A julgar pelas expressões dos seus rostos, tenho a certeza de que todos tinham feito a mesma pergunta. No entanto, os seus ânimos estavam tão magoados e confusos que nenhum, exceto o sincero e valente João, se atreveu a exprimi-la em voz alta. Por último, o Mestre aproximou-se do esgrouviado Judas Iscariotes. Desde o primeiro momento, a complexa e atormentada personalidade daquele homem me tinham atraído de forma especial. Na medida das minhas possibilidades, procurei não o perder de vista. E posso dizer que as motivações que o levaram a trair Jesus não foram - como se insinua nos Evangelhos - as do dinheiro. Para um homem como ele, a consideração dos outros e a glória pessoal estavam muito acima da avareza...

         - Judas - disse-lhe o Galileu -, amei-te e rezei para que ames os teus irmãos. Não te sintas cansado de fazer bem. Aviso-te para que tenhas cuidado com os escorregadios caminhos da adulação e com os dardos venenosos do ridículo.

         Jesus, evidentemente, conhecia muito bem o caráter do traidor.

         Quando acabou de se despedir, o Mestre, com uma certa sombra de tristeza no rosto, puxou Lázaro pelo braço e afastou-se do grupo, entrando no jardim. Só depois da sua morte, quando faltavam poucas horas para o meu regresso ao módulo, Marta me confessaria qual fora o tema daquela conversa privada entre Jesus de Nazaré e seu irmão. Jesus recuperou bem depressa o seu habitual bom humor. E depois de ordenar aos discípulos que levantassem naquela mesma manhã o acampamento no monte das Oliveiras, pediu a Pedro, André, João e Tiago que fossem com ele a Jerusalém.

         A minha escolha não oferecia dúvida e na companhia de um reduzido grupo de discípulos segui os passos daqueles cinco homens.

         Como Já era costume, o Nazareno, com uma invejável forma física, trepou a íngreme vertente oriental do monte das Oliveiras em pouco mais de meia hora. Quando, por fim, chegamos ao cimo, Jesus e os apóstolos - longe de pararem e descansarem - afastavam-se Já, colina abaixo, em direção ao leito seco do Cédron.

         Mas, contrariamente ao que eu imaginava, o Mestre não parecia ter excessiva pressa em entrar na Cidade Santa, e parou na encosta ocidental do monte das Oliveiras, num terreiro onde se apertavam dezenas de tendas, na sua maioria ocupadas por peregrinos da Galiléia bem como por comerciantes de lãs e vendedores de animais para os sacrifícios rituais.

         Pelo que me foi possível comprovar, algumas daquelas famílias conheciam há muito o Galileu e pediram-lhe que se sentasse junto delas. O Mestre aceitou com gosto, acariciando as crianças e mostrando-se encantado quando uma das hebréias lhe apresentou uma tigela de barro com leite de cabra recém-ordenhada, segundo disse. Logo outra mulher colocava em cima da esteira de palha em que o Rabi se sentara, uma bandeja de madeira com uma mancheia de tâmaras e uma espécie de torta branco-amarelada, que, segundo um dos meus companheiros de jornada, era conhecida por pão de figos.

 

Nota - Numa posterior ligação a Eliseu, o nosso computador central confirmou que os figos, juntamente com as tâmaras, proporcionavam ao povo judeu o maior índice de açúcar. Geralmente, eram postos para secar, sendo armazenados na forma de tortas. Este pão de figos era utilizado, inclusive, como fármaco para sarar úlceras. Papai Noel ampliou a minha informação, revelando que aquela torta de figos, que fora oferecida a Jesus, podia ser formada pela variedade chamada figo do sicômoro, muito freqüente na Palestina do século I.

         Este alimento, de baixíssima qualidade, sofria uma punção quando ainda se encontrava na  árvore. obtendo-se assim. Um amadurecimento mais rápido. (N. do M.)

 

         Sorridente, o Nazareno sacudiu com a mão esquerda as numerosas moscas que tentavam pousar no leite, pegando no recipiente com ambas as mãos, bebendo lentamente e com prazer.

         Pouco depois, tendo-se despedido dos seus anfitriões, fez mais duas visitas. Era a terceira hora (as nove da manhã) e o grupo continuou o seu caminho para Jerusalém. Foi então que Pedro e Tiago, que havia dias andavam em polêmica sobre os ensinamentos do Mestre quanto ao perdão dos pecados, resolveram tirar as dúvidas. E Pedro tomou a palavra:

         - Mestre, Tiago e eu não estamos de acordo sobre os teus ensinamentos quanto à redenção do pecado. Tiago afirma que tu ensinas que o Pai nos perdoa, mesmo antes de Lhe pedirmos. Eu defendo que o arrependimento e a confissão devem vir antes do perdão . Qual de nós tem razão?

         Um pouco surpreendido pela pergunta, Jesus parou em frente da muralha oriental do Templo e, fitando intensamente os quatro, respondeu:

         - Meus irmãos, errais nas vossas opiniões porque não entendeis a natureza das íntimas e amantes relações entre a criatura e o Criador, entre os homens e Deus. Não conseguis compreender a simpatia compreensiva que os pais sábios têm pelos filhos não amadurecidos e por vezes em erro. É, verdadeiramente duvidoso que um pai inteligente e amante se ponha alguma vez a perdoar um filho normal. Relações de compreensão, associadas com o amor, impedem, efetivamente, essas desavenças, que, mais tarde, precisam de reajuste e arrependimento do filho e perdão do pai. Digo-vos que uma parte de cada pai vive no filho. E o pai goza de prioridade e superioridade de compreensão em todos os assuntos relacionados com seu filho. O pai pode ver a imaturidade do filho por meio da sua própria maturidade, a experiência mais amadurecida do velho. Pois bem, com os filhos pequenos, o Pai celestial possui uma infinita e divina simpatia e compreensão amorosa. O perdão divino, portanto, é inevitável. É inerente e inalienável à infinita compreensão de Deus e ao Seu perfeito conhecimento de tudo o que respeita aos Juízos errados e escolhas enganosas do filho. A divina justiça é tão eternamente justa que inclui, inevitavelmente, o perdão compreensivo.

         Quando um homem sábio entende os impulsos íntimos dos seus semelhantes, o amará. E quando amas o teu irmão, Já lhe terás perdoado. Esta capacidade para compreender a natureza do homem e perdoar os seus aparentes equívocos é divina. Em verdade, em verdade vos digo que se sois pais sábios, esta deverá ser a forma com que ameis e compreendeis vossos filhos, com que lhes perdoareis até quando uma falta de compreensão momentânea vos tenha separado.

         O filho, sendo imaturo e falho de plena compreensão sobre a profunda relação pai-filho, terá, freqüentemente, uma idéia de separação quanto a seu pai. Porém, o verdadeiro pai nunca está consciente desta separação.

         O pecado é a experiência da consciência da criatura, não é parte da consciência de Deus.

         A vossa falta de capacidade e de desejo de perdoar aos vossos semelhantes é a medida da vossa imaturidade e a razão dos fracassos no momento de alcançar o amor. Conservais rancores e alimentais vinganças na razão direta da vossa ignorância sobre a natureza interna e os verdadeiros desejos de vossos filhos e próximos. O amor é o resultado da divina e íntima necessidade da vida. Baseia-se na compreensão, alimenta-se no serviço generoso e aperfeiçoa-se na sabedoria.

         Os quatro amigos de Jesus ficaram em silêncio. Possivelmente Tiago e João compreenderam parte das explicações do Mestre. Não os dois irmãos pescadores. Pedro, coçando nervosamente a calva bronzeada, seguiu os passos do Galileu, mergulhado numa infinidade de reflexões.

 

         Pelas nove e meia da manhã, Cristo e os Seus discípulos passaram por baixo da Porta Oriental, na muralha leste do Templo, encaminhando-se para as escadarias do Átrio dos Gentios, lugar habitual dos Seus discursos e ensinamentos. Os cambistas e vendedores de cordeiros e mais produtos próprios da Páscoa tinham voltado a instalar as suas mesas e barracas, aproveitando os primeiros alvores da madrugada. Tudo parecia tranqüilo. Nenhum daqueles intermediários fez o menor gesto de desaprovação ao ver entrar o Rabi da Galiléia e o reduzido grupo de adeptos. Jesus apercebeu-se perfeitamente de que aquele comércio sacrílego voltava a exercer-se. Mas, tal como acontecera noutras alturas, não lhe prestou grande atenção. Aquela atitude do Mestre confirmou a minha convicção de que o sucedido na manhã do dia anterior fora devido, fundamentalmente, a uma situação limite.

         Muitos habitantes de Jerusalém bem como peregrinos, que de dia para dia iam engrossando a população da Cidade Santa e arredores, esperavam Já, impacientes, o aparecimento do Rabi da Galiléia. A maior parte, movida por uma curiosidade doentia, dados os graves acontecimentos registrados na manhã de segunda-feira no adro do Templo e pela atuação do Sinédrio.

         Não era segredo para ninguém que Caifás e todo o grande conselho de justiça judeu tinham tomado a decisão de prender e executar Jesus. Mas, se atreveram a fazê-lo em público? O próprio Rabi, por intermédio dos anciãos e fariseus que tinham apresentado a sua demissão no Sinédrio, estava ao ciente destas intrigas e da negra ameaça suspensa sobre Ele. Por isso, muitos dos hebreus aplaudiam em segredo a coragem do Nazareno, que não manifestava temor ou nervosismo, apresentando-se e avançando serena e majestosamente entre os levitas ou guardas do Templo e, principalmente, à vista dos sacerdotes.

         Sem mais preâmbulos, e no meio daquela expectativa, Jesus começou as Suas palavras. Mas, mal tinha ainda começado quando um grupo de alunos das escolas de escribas, destacando-se da multidão , interrompeu o Mestre, perguntando-lhe:

         - Rabi, sabemos que és um professor, que estás certo, e sabemos que proclamas os caminhos da Verdade e que serves a Deus, pois não temes homem algum. Sabemos também que não Te importa quem sejam as pessoas. Senhor, somos apenas estudantes e gostaríamos de conhecer a verdade sobre um assunto que nos preocupa. É justo para nós dar tributo a César? Devemos ou não

devemos dar?

         Naquele instante, um dos serventes de Nicodemo – que professava havia algum tempo a doutrina de Jesus - fez um comentário em voz baixa, lembrando-nos que aquela impertinente interrupção fazia parte do plano estabelecido na fatídica reunião do Sinédrio do dia anterior. Os fariseus, escribas e saduceus, com efeito, tinham unido os seus votos para, em princípio, formarem grupos especializados, que procurassem ridicularizar e desprestigiar publicamente o Galileu.

         Aquele silêncio peculiar - próprio dos momentos de grande tensão - foi quebrado pelo Nazareno que, em tom irônico – como se conhecesse perfeitamente a falsa ignorância daqueles rapazes, entre os quais se encontrava uma especial representação dos herodianos perguntou.

         - Porque vindes assim provocar-Me?

         E, imediatamente, estendendo a mão esquerda para os estudantes, ordenou-lhes em voz firme:

         - Mostrai-me a moeda do tributo e eu vos responderei.

         O porta-voz dos alunos entregou-lhe um denário de prata (*) e o Mestre, depois de olhar para ambas as faces, recomeçou:

         - Que imagem e inscrição tem esta moeda?

         Os jovens entreolharam-se com estranheza e responderam, dando como certo que o Rabi conhecia perfeitamente a resposta:

         - A de César.

         - Então - respondeu Jesus, devolvendo-lhes a moeda -, dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus e a Mim o que é Meu...

         A multidão , maravilhada ante a astúcia e sagacidade de Jesus, rompeu em aplausos, enquanto os aspirantes a escribas e seus cúmplices, os herodianos, se retiravam, envergonhados.

         Instintivamente, enquanto Jesus contemplava aquele denário, tirei da bolsa uma moeda semelhante e examinei-a atentamente. Aquele grupo era partidário da dinastia de Herodes e, entre outras missões , cabia-lhe denunciar à autoridade romana qualquer movimento ou ataque - mesmo verbal - contra César.

 

         O denário de prata era uma moeda que corria legalmente naquele tempo. Segundo Papai Noel, equivalia a pouco menos do soldo de dois dias de um legionário romano. Nos tempos de César, o estipêndio anual de um soldado romano (legionário) era de cento e cinqüenta denários. Augusto lhe acrescentaria um reforço de soldo, atingindo os duzentos e vinte e cinco denários de prata ou três mil e seiscentos asses. Esta importância foi confirmada por Tácito em tempos de Tibério (Ann. 1, 17: denis in diem assibus animam et corpus aestimari). Os centuriões, por seu lado, recebiam dois mil e quinhentos denários/ano e os chamados primi ordines cinco mil (N. do M.)

 

         Numa das faces tinha a imagem de César, sentado de perfil numa cadeira. · à sua volta podia ser lida a seguinte inscrição: Pontif Maxim. Na outra face a efígie de Tibério coroada de louros, com outra legenda à volta: Ave Augustos Ti Caesar Divil.

         Aquela nova armadilha pública fora muito bem planejada. Todas as pessoas sabiam que o denário era o máximo tributo que a nação judaica tinha de pagar, inexoravelmente, a Roma, como sinal de submissão e vassalagem. Se o Mestre tivesse negado o tributo, os membros do Sinédrio teriam corrido imediatamente ao procurador romano, acusando Jesus de sedição. Se, pelo contrário, se tivesse mostrado partidário de acatar as ordens do Império, a maioria do povo judeu teria se sentido ferida no seu orgulho patriótico, com exceção dos saduceus, que tinham gosto em pagar o tributo.

         Foram estes últimos os que, poucos minutos depois deste incidente, e seguindo a estratégia preparada pelo Sinédrio, se encaminharam para Jesus - que tentava continuar com os seus ensinamentos - preparando-lhe uma segunda armadilha:

         - Mestre - disse-lhe o porta-voz do grupo -, Moisés disse que, se um homem casado morresse sem deixar filhos, seu irmão devia aceitar a esposa e lançar semente pelo irmão falecido. Aconteceu, então, este caso: certo homem, que tinha seis irmãos, morreu sem descendência. Seu irmão seguinte aceitou a esposa, mas também morreu cedo e sem filhos. E o mesmo fez o segundo irmão, que, igualmente, morreu sem prole. E assim até os seis irmãos terem aceitado a esposa e todos faleceram sem filhos. Então, depois de todos eles, também a esposa morreu. Eis o que Te queríamos perguntar: quando ressuscitarem, de quem será  a esposa?

         Ao escutar a dissertação do saduceu, alguns dos discípulos de Jesus moveram negativamente a cabeça, em sinal de desaprovação. Segundo me explicaram, as leis judaicas, nestes aspectos, havia muito que era letra morta para o povo. Além de que aquele caso tão concreto era muito difícil de se tornar realidade. Só algumas comunidades de fariseus - os mais puristas - continuavam a respeitar e a praticar o chamado matrimônio de levirato.

         O Rabi, embora sabendo a falta de sinceridade daqueles saduceus, transigiu em responder. E disse-lhes:

         - Errais todos ao fazer tais perguntas porque não conheceis as Escrituras nem o poder vivente de Deus. Sabeis que os filhos deste mundo podem casar-se e ser dados em matrimônio, mas não pareceis compreender que os que se tornam merecedores dos mundos vindouros através da ressurreição dos justos não se casam nem são dados em matrimônio. Os que experimentam a ressurreição de entre os mortos são mais como os anjos do céu e nunca morrem. Estes ressuscitados são eternamente filhos de Deus. São os filhos da luz. Mesmo vosso pai, Moisés, compreendeu isto. Ante a sarça ardente ouviu o Pai dizer: Sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. E assim, juntamente com Moisés, Eu declaro que Meu Pai não é o deus dos mortos, mas dos vivos. Nele, todos vós reproduzis e possuís a vossa existência mortal.

         Os saduceus retiraram-se em grande confusão, enquanto os seus seculares inimigos, os fariseus, respondiam gritando:

         - Verdade, verdade, verdade, Mestre! Respondeste bem àqueles incrédulos.

         Fiquei novamente surpreendido, tal como aquela multidão, pela sagacidade e reflexos mentais daquele gigante. Jesus conhecia a doutrina desta seita, que só aceitava como válidos os cinco textos chamados os Livros de Moisés. E recorreu precisamente a Moisés na Sua resposta, desarmando os saduceus.

         Mas, do meu ponto de vista, os fariseus que aplaudiram o Mestre também não entenderam a profundidade da mensagem do Nazareno, quando aludiu com voz vibrante aos que experimentam a ressurreição de entre os mortos. Os santos ou separados - como popularmente eram conhecidos os fariseus – acreditavam que, na ressurreição, os corpos se levantavam fisicamente. E Jesus, nas suas afirmações, não se referiu a este tipo de ressurreição...

         O Mestre parecia resignado a suspender temporariamente a sua pregação e esperou em silêncio uma nova pergunta. A verdade é que chegou pouco depois, dos lábios daquele mesmo grupo de fariseus que simulara tão calorosos elogios ao Rabi. Um deles, apresentando-se a Jesus, expôs um tema que novamente comoveu a multidão :

         - Mestre - disse -, sou advogado e gostaria de te perguntar qual é, em tua opinião, o maior mandamento. Sem conceder um segundo sequer à reflexão - e elevando mais ainda a sua poderosa voz - o Gigante respondeu:

         - Não existe mais que um mandamento e é ele o maior de todos. É este: Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, o Senhor é uno. E ama-lo-ás com todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua mente e com toda a tua força. Este é o primeiro e o grande mandamento. E o segundo é como este primeiro. Na realidade, sai diretamente dele é. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não existe mandamento maior do que estes, neles se baseiam toda a Lei e os profetas.

         Aquele homem de leis, comovido pela sabedoria da resposta de Jesus, inclinou e louvou abertamente o Rabi:

         - Verdadeiramente, Mestre, disseste bem. Deus, bendito seja! É uno e nada mais há senão Ele. Amá-lo com todo o coração, entendimento e força e amar o próximo como a si mesmo é o primeiro e o grande mandamento. Estamos de acordo em que este grande mandamento tem de ser considerado muito mais em conta que todas as oferendas e sacrifícios que se queimam.

         Ante semelhante resposta, o Nazareno sentiu-se satisfeito e sentenciou, ante o espanto dos fariseus:

         - Meu amigo, noto que não estás longe do reino de Deus...

         Jesus não se enganava. Naquela mesma noite, em segredo, aquele fariseu veio ao acampamento situado no jardim de Getsémani, sendo instruído por Jesus e pedindo para ser batizado. Aquela sucessão de fracassos dialéticos acabou por dissuadir os restantes grupos de escribas, saduceus e fariseus, que começaram a retirar-se dissimuladamente. Ao ver que não havia mais perguntas, o Galileu levantou-se e, antes de os venenosos sacerdotes desaparecerem, lançou-lhes esta questão:

         - Uma vez que não fazeis mais perguntas, gostaria Eu de vos fazer uma: Que pensais do Libertador? Quer dizer, de quem é filho. Os fariseus e seus sequazes ficaram como que eletrizados, enquanto um murmúrio percorria aquela zona do terreiro.

         Os membros do Templo deliberaram durante alguns minutos e, finalmente, um dos escribas, apontando um dos papiros que trazia atado ao braço direito e que continha a Lei respondeu:

         - O Messias é o filho de David.

         Mas o Nazareno não se contentou com esta resposta. Ele sabia que existia uma azeda polêmica sobre se era ou não o filho de David - mesmo entre os seus próprios adeptos - e reforçou:

         - Se o Libertador é na verdade o filho de David, como é que no salmo que atribuís a David ele próprio, falando com o espírito, disse: O Senhor disse ao meu senhor: senta-te à minha direita até que faça dos teus inimigos o escabelo dos teus pés. Se David lhe chama Senhor, como pode ser Seu filho?

         Os fariseus e responsáveis do Templo ficaram tão confusos que não se atreveram a responder.

 

         Pela hora quinta (as onze da manhã, aproximadamente), Jesus deu por concluída a sua estada no Templo e, dado ser tempo de almoçar, encaminhou-se com os discípulos para a Porta Tripla com o fim - segundo me comentou o próprio Pedro – de se dirigir a casa de José de Arimatéia, na cidade baixa. Ao descobrir que eu ficava para trás, disposto a não incomodar, na medida do possível, a intimidade do grupo, André voltou atrás e convidou-me a partilhar com eles a segunda refeição do dia. Entretanto, Jesus, e os outros tinham Já atravessado por entre as mesas dos cambistas e mercadores, desaparecendo na soberba Porta Sul do Templo.

         Estava quase aceitando, naturalmente, quando um tumulto proveniente do lado mais oriental do Santuário nos fez olhar para lá.

         Entre gritos desesperados, uma mulher estava praticamente sendo arrastada pelas escadarias de acesso ao Pórtico Coríntio. Uma patrulha da guarda do Templo (os levitas), possivelmente dos destacados para o Átrio das Mulheres, encaminhavam-se, através do terreiro onde nos encontrávamos, na direção do Pórtico de Salomão e, mais concretamente, para a Porta Oriental. Dois dos levitas desta guarda de dia agarravam a hebréia pelas axilas, enquanto um terceiro lhe pegava nos pés, agüentando com muita dificuldade os violentos chutes da moça. Atrás meio escondidos num enxame de curiosos, caminhavam um dos guardas de turno do Templo e vários sacerdotes.

         A multidão que se encontrava entre os lugares dos vencedores correu naquele instante para a patrulha, lançando gritos de adúltera... adúltera!, como se aquele acontecimento fosse algo vulgar e até festejado pela turba.

         Interroguei André com os olhos e o chefe do grupo com expressão grave, lamentou aquela sombria coincidência, resumindo o lamentável espetáculo com a seguinte frase:

         - São águas amargas.

 

         Recordei naquele instante que numa das minhas investigações nos textos bíblicos - em Números (5 11-31), Yavé especificava a atitude a ter com a mulher suspeita de adultério. Quando o marido acreditava que a esposa lhe era infiel levava-a ao sacerdote obrigando-a a confessar. Se se negava a reconhecer a sua culpa, a infeliz tinha de passar por uma prova (uma espécie de juízo de Deus) das águas amargas. O sacerdote preparava uma beberagem especial - composta, segundo reza a Bíblia, por terra do Tabernáculo e pela tinta com que escrevia o ritual das maldições, previamente diluída em água - e, entre cerimônias religiosas, dava a beber a referida poção à suspeita. A crença judaica ensinava que, se a mulher fosse realmente culpada, o misterioso líquido lhe atacava as entranhas, matando-a. Pelo contrário, se estivesse inocente, as águas amargas não alteravam o seu organismo (1).

         Diz assim o citado texto bíblico: Falou Yavé a Moisés, dizendo Fala aos filhos de Israel e diz-lhes: Se a mulher de um homem fornicar e lhe for infiel, dormindo com outro em concubinato de sêmen, sem que tenha podido vê-lo o marido nem haja testemunhas, por não ter sido encontrada no leito, e por se ter apoderado do marido o espírito dos ciúmes e ter ciúmes dela, tenha-se ela maculado na realidade ou não se tenha maculado, leva-la-á  ao sacerdote, e oferecerá por ela uma oblação da décima parte de um efa de farinha de cevada, sem derramar azeite sobre ela nem lhe pôr incenso por cima, porque é min Já de ciúmes, min Já de memória para trazer o pecado à memória. O sacerdote fará que se aproxime e se apresente ante Yavé, deitará  água santa numa vasilha de barro e apanhando um pouco de terra do solo do tabernáculo o lançará na água. Depois, o sacerdote, colocando a mulher diante de Yavé, lhe descobrirá  a cabeça e lhe colocará nas mãos a min Já de memória, a min Já dos ciúmes, tendo ele na mão   água amarga da maldição, e a conspiração  dizendo: Se ninguém dormiu contigo e se não erraste, contaminando-te e sendo infiel ao teu marido, indemne sejas à água amarga da maldição, mas se erraste e fornicaste e foste infiel a teu marido, contaminando-te e dormindo com outro [...]. Aqui o sacerdote a conspiração  com o juramento de execração, dizendo:

         - Faça-te Yavé maldição e execração no meio do teu povo, e sequem-se os teus músculos e inche o teu ventre entre esta água de maldição nas tuas entranhas para fazer com que o teu ventre inche e apodreçam os teus músculos. A mulher responder : Amem, amem. O sacerdote escreverá  estas maldições numa folha e as diluirá  na água amarga e fará  que a mulher beba a água amargada e a levará  ao altar, e pegará  a mão da mulher a min Já dos ciúmes e a agitará. 

         Pegando num punhado da oferenda da memória o queimará  no altar, fazendo depois que a mulher beba a água. Dar-lhe-á  a água a beber, e se ela se contaminou sendo infiel ao seu marido, a água da maldição nela entrará  com a sua amargura, e lhe inchará  o ventre, lhe secará os músculos e será  maldição no meio do povo. Se, pelo contrário, não se contaminou e é pura, ficará  ilesa e será  fecunda... Assim o marido ficará  livre de culpa e a mulher sobre si levará  o seu pecado. (N. do M.)

 

         Para uma mente racional, aquela prova deixava muito a desejar quanto à sua possível objetividade. Mas o que despertou a minha curiosidade foi a fórmula da poção. Que poderia conter? Estava perante uma oportunidade única e supliquei a André que me acompanhasse. Queria presenciar a execução da sentença e, se fosse possível, arranjar uma mostra da tinta utilizada para a fabricação das águas amargas. André não compreendeu bem o meu, aparente, doentio desejo e, contrariado, consentiu em conceder-me uns minutos. Passamos por baixo do arco de pedra da Porta Oriental, abrindo caminho pela multidão que Já rodeava a patrulha. Vários levitas tinham formado um círculo ou cordão de segurança de cerca de dez metros de diâmetro. No centro, a mulher, sempre segura pelos guardas do Templo, permanecia de pé, soluçando.

         Tinham-na vestido com uma túnica negra e fora despojada de todos os seus adornos.

         O meu companheiro explicou-me que aquela era a última fase de um processo que se tinha iniciado na manhã da passada segunda-feira. (Os juízes do Grande ou do Pequeno Sinédrio reuniam-se precisamente às segundas e quintas-feiras de cada semana, para despachar os assuntos pendentes.) Este caso de provável adultério fora levado ao Pequeno Sinédrio, formado por vinte e três juízes. A pedido do marido, a suspeita - uma jovem que não teria mais de vinte anos - fora conduzida naquela manhã de segunda-feira, 3 de Abril, perante o tribunal de Justiça e ali, interrogada e atemorizada com fórmulas como a seguinte:         - Minha filha, muito pecado traz o vinho, muito o riso, muito a juventude, muito os maus vizinhos; fá-lo (reconhece a verdade) em nome de Deus, que está escrito com santidade, para que não seja apagado pela água. Mas, julgando pelo que lhe estava acontecendo, a infeliz tinha-se declarado inocente e o Pequeno Sinédrio sentenciou que devia ser submetida à prova das águas amargas. Quando

interroguei André sobre a sorte daquela hebréia, no caso de se ter declarado culpada, o apóstolo deu-me a entender que não saberia o que podia ser pior. Se a mulher judia dissesse perante o tribunal sou impura, era obrigada a assinar a renúncia ao seu dote, procedendo-se então à consumação do libelo de divórcio.    Como bem afirmava André, nestas circunstâncias, a esposa ficava na mais absoluta miséria, tinha de abandonar o lar e os seus filhos, sendo desprezada para toda a vida. Aquelas leis estabeleciam o direito ao divórcio, única e exclusivamente por parte do homem. Isto prestava-se a constantes abusos, caprichos e injustiças. Se o marido desejava ficar com o dote que a mulher trazia ao casamento e, ao mesmo tempo, recuperar o celibato, tinha apenas de acusar a mulher de infidelidade. Das duas uma: ou a mulher falecia por causa das águas amargas ou assumia a suposta culpa, com as conseqüências Já referidas.

 

Papai Noel, o nosso computador, completou a minha informação sobre as águas amargas, acrescentando que Já no Código de Hammurabi existia um precedente semelhante. Se uma mulher era suspeita de adultério, era atirada à corrente do Eufrates. Se escapava com vida era considerada inocente. Se perecia, a sua culpabilidade era manifesta. (N. do M.)

 

         Tal como suspeitava, era extremamente raro que a vítima sobrevivesse à ingestão daquela beberagem. Em suma, aquela desgraçada, depois de declarar que era pura, fora levada pela Porta de Nicanor - tal como estabelecia a tradição – ao estreito terreiro existente ao pé da muralha oriental do Templo, ao mesmo lugar onde eram levadas a cabo as cerimônias de purificação de leprosos e de parturientes. Um dos sacerdotes saiu então da turba e, com passo decidido, pôs-se em frente da jovem, puxando-lhe a túnica com a mão esquerda e à altura do ventre. Depois de um forte puxão, rasgou-lhe a roupa, deixando a descoberto uns seios brancos e pequenos. O grito da esposa foi abafado pelo bramido da multidão , excitada ante a contemplação daquele formoso peito. Imediatamente, o mesmo sacerdote se colocou nas costas da mulher, soltando-lhe a sua comprida cabeleira negra.

         André, nervoso e desgostoso, fez um movimento para se retirar. Procurando então ganhar tempo e aproveitar aquele desejo lógico do meu amigo de evitar tão lamentável acontecimento, peguei na minha bolsa de borracha e meti-lhe na mão dois denários de prata. André olhou-me sem compreender.

         - Desejo pedir-te um novo favor - disse-lhe. - É importante para mim adquirir uma mostra da tinta com que foi escrita essa maldição... O Galileu ficou perplexo. E, antecipando-me ao seus pensamentos, acrescentei:

         - Confia em mim. Sabes que não posso entrar no Santuário e tentar comprá-la pessoalmente. Bastar  uma pequena quantidade, talvez seja suficiente uma décima de log.

         Continuei olhando fixamente para André, tentando transmitir-lhe um mínimo de confiança. A sorte voltou a sorrir-me e o discípulo, encolhendo os ombros, concordou pedindo-me que não saísse dali. Enquanto André tornava a entrar no recinto do Templo, voltei a acompanhar os acontecimentos. O sacerdote que rasgara a túnica da mulher encontrava-se agora a deliberar com os outros membros do Templo. De vez em quando voltavam a cabeça para a infeliz, envolvendo-se em novas e calorosas polêmicas. Um deles deixou o grupo e deu uns passos, ficando a um palmo da suspeita de adultério. Sem se comover com as lágrimas da mulher, inclinou-se ligeiramente, inspecionando de perto os pequenos e morenos mamilos. Ao cabo de uns minutos voltou ao centro da reunião, iniciando-se nova e ainda mais áspera controvérsia. No final, e depois de chegar a um acordo, um outro sacerdote pegou num cinturão egípcio - formado por cordas entrelaçadas - e encaminhou-se para a moça. Tapou-lhe o torso cingindo o pano por cima do peito, de modo que a túnica não pudesse cair.

(1) A mulher judia só tinha direito a pedir o divórcio se seu marido exercesse uma destas três profissões : apanhasse esterco de cão (lixeiro), fosse fundidor de cobre ou curtidor. (Lista tirada do escrito rabínico Ketubot VII.lOs.) E isso era devido, unicamente, ao mau cheiro provocado pelas referidas atividades.

A Lei estipulava também que a esposa podia solicitar o divórcio se, a partir dos treze anos, o marido a obrigasse a fazer votos, abusando da sua dignidade, ou se padecesse de lepra ou pólipos (N. do M.)

(2) Um log – medida usada para líquidos e secos - equivalia a meio litro aproximadamente. (N. do M.)

 

         A uma ordem do guardião do Templo e chefe da patrulha de levitas, um dos hebreus que permanecia junto dos sacerdotes, e era o marido, avançou até ao centro do círculo, depositando aos pés de sua mulher um cesto de palha com três ou quatro quilos de farinha de cevada. Depois, com a mesma frieza, retirou-se. Por um momento, acreditei que o querelante ia pôr o pequeno cesto nas mãos da condenada, mas, por indicação de um dos levitas que segurava a mulher, acabou por colocá-lo no chão. No meu regresso ao módulo, na manhã de domingo, o computador esclareceria este ponto: a tradição bíblica especificava que a oferenda do marido - a efa de farinha de cevada - devia ser posta nas mãos da vítima. O sacerdote, então, colocava a mão por baixo das da mulher, agitando o recipiente de forma ritual. Depois, aproximava-o do altar, tirava um punhado e queimava-o. O resto era destinado à alimentação dos sacerdotes do Templo.

         A forte resistência da infeliz - que não podia ser libertada do firme controle dos guardas - aconselhou que, neste caso, o sacerdote passasse por alto aquela parte do ritual. Não tardou, que os judeus fossem abrindo um corredor, pela zona mais próxima da muralha dando passagem a outro sacerdote, bem escoltado por seis levitas. Um murmúrio percorreu a multidão, ao ver-se que aquele sacerdote trazia qualquer coisa nas mãos.

         O objeto em questão - bastante leve, a julgar pelo pouco esforço feito pelo hebreu - vinha coberto com um lenço branco. Logo imaginei que devia tratar-se do recipiente que continha as águas amargas. Infelizmente, não tive de esperar muito

tempo para tirar a dúvida. A recém-chegada escolta acercou-se da mulher e dos guardas que a agarravam, formando um segundo cordão de segurança.

         O sacerdote retirou o lenço e apareceu aos olhos dos presentes uma pequena tigela de barro avermelhado, com a capacidade aproximada de um litro. Ao vê-lo, a esposa sofreu um novo ataque de desespero, com convulsões violentas e soltando gritos que fizeram com que numerosas pombas pousadas nos torreões e na cúpula do Templo levantassem vôo. Um silêncio total - quebrado unicamente pelos gritos da prisioneira - abateu-se pouco a pouco sobre o local. O sacerdote que tinha a vasilha de barro levantou então a voz, incitando a mulher, pela última vez, a que se declarasse culpada ou inocente.

         A multidão aguardou, ansiosa. Porém, a hebréia, entre gemidos cada vez mais apagados, só conseguiu pronunciar duas palavras fatídicas: Sou pura.

         O membro do Templo, que parecia ter uma pressa incompreensível, voltou a cabeça para um dos levitas, murmurando-lhe qualquer coisa ao ouvido. Então, o guarda saiu do seu lugar, unindo-se aos três colegas que agarravam a jovem. E, pondo-se atrás da vítima, agarrou-a pela espessa cabeleira, puxando os cabelos para baixo e obrigando-a a ficar com o rosto voltado para o céu. Os gritos aumentaram. Enquanto a patrulha fincava os pés no terreno  áspero, prendendo com novas forças os braços e as pernas da mulher, mais guardas se colocaram a poucos centímetros dela, cada um do seu lado. Como se aquela operação tivesse sido demoradamente estudada ou praticada, enquanto o levita do flanco esquerdo apertava com os dedos o nariz da adúltera, o do lado direito colocou as mãos a pouca distância do rosto , esperando que a asfixia obrigasse a judia a abrir a boca. Entre soluços mal contidos, a moça acabou por aspirar. Como que movidas por uma mola, as mãos do guarda enfiaram-lhe na boca, separando violentamente o maxilar inferior. Em décimos de segundo, o sacerdote que trazia a malga deu um passo em frente, vertendo o seu conteúdo na boca da vítima. Apesar dos seis guardas que tomavam parte na imobilização da hebréia, esta conseguiu voltar levemente a cabeça, fazendo com que parte do líquido escuro lhe corresse pela cara, pescoço e túnica.

 

 

* Uma efa  - medida judaica de capacidade - equivalia a setenta e dois log. Neste caso, a Bíblia considerava que devia oferecer-se um décimo de efa , quer dizer, 7,2log ou, o que é o mesmo, 3 quilos e 600 gramas, aproximadamente. (N. do M.)

 

         Uma vez engolida a beberagem, o sacerdote recuou, ao mesmo tempo que os levitas dos flancos deixavam livres o nariz e a boca. O que puxava o cabelo, no entanto, tal como os três que lhe aprisionavam os braços e as pernas continuaram nos seus lugares.

         Apesar de ter sido preparado para esta missão, uma onda de indignação me percorreu dos pés à cabeça. No entanto, tal como fora estabelecido pelo Cavalo de Tróia, não podia fazer mais que assistir impassível àquele trágico acontecimento. Agora reconheço que foi uma prova decisiva para suportar a minha missão e poder assistir - com toda a frieza às não menos dramáticas horas da Sexta-Feira Santa...

         Não teriam decorrido sequer cinco minutos quando a mulher começou a sofrer uma série de espasmos. Os joelhos vergaram, enquanto os levitas procuravam mantê-la de pé. (Depois, ao analisar a mostra de tinta, compreendi que aquela atitude dos guardas tinha como único e bem estudado objetivo evitar que, ao cair no chão, se vergasse e pudesse vomitar as águas amargas, anulando assim os seus efeitos.) Lentamente, a jovem esposa foi perdendo força. O seu rosto ganhou um tom amarelado e os olhos - muito abertos e fitos naquele azul infinito do céu de Jerusalém - abriram-se mais, ao mesmo tempo que as grandes artérias do pescoço inchavam de forma alarmante.

         Evidentemente, o veneno fizera efeito. Os sacerdotes sabiam-no e, ao notarem aqueles sintomas, ordenaram à patrulha que soltasse a mulher. Ao libertarem-na, ela caiu por terra desamparada, enquanto as dezenas de curiosos começavam a passar em silêncio, atravessando de novo a muralha ou afastando-se encosta abaixo, para o Cédron.

         Foi a voz de André, chamando-me do arco da Porta Oriental, que me arrancou à triste contemplação daquele corpo desmaiado, ou talvez Já sem vida, rodeado pela guarda do Templo.

         O meu amigo devia ter notado logo a minha desolação e puxando-me pelo braço, levou-me pelo Átrio dos Gentios em direção à Cidade Baixa. Uma vez fora do Templo, o discípulo, tirou dissimuladamente de entre a roupa um pequenino jarro (cerca de dezessete centímetros de altura), munido de uma só asa e com a reduzida boca circular perfeitamente tapada com um tampão de pano. Sem mais explicações, colocou o recipiente de barro vermelho nas minhas mãos, tal como um dos denários que eu lhe tinha entregado. André não fez uma só pergunta e eu

agradeci duplamente a sua eficácia e discrição. Dias mais tarde, quando foi possível analisar o conteúdo daquele recipiente, as minhas suspeitas foram confirmadas. A tinta em questão continha quatro substâncias principais: anil, carbonato de potássio,  ácido arsenioso e caláviva. Tudo isto diluído em água vulgar. A circunstância chave de - segundo o Antigo Testamento - a tinta ser susceptível de se dissolver na água, reduziu consideravelmente o conjunto de tintas utilizadas provavelmente no século I em Israel. Este importante requisito da dissolução da tinta na água, e o não menos decisivo fato de provocar no ser humano os Já referidos efeitos, conduziu-nos quase irremissivelmente à chamada tinta azul. Os nossos técnicos descobriram igualmente que um dos seus ingredientes - o ácido arsenioso - na realidade não fazia parte das substâncias originais e necessárias para a composição da tinta. Junto ao anil, o carbonato de potássio e a cal viva aparecia o áIfureto de arsênio, mas nunca o  ácido arsenioso. Como podia ser isto? A explicação era elementar: os Israelitas utilizavam o tipo denominado sulfureto amarelo de arsênio, que se formava espontaneamente na Natureza em massas compostas de lâminas semitransparentes, amarelo-ouro, inodoras, insípidas insolúveis na água e voláteis ao fogo.

         Este sulfureto amarelo de arsênio não é tóxico. Isso explicava que pudesse ser manipulado sem problema. No entanto, no seu interior albergava-se um veneno muito ativo: o  ácido arsenioso puro, de efeitos enérgicos. Os Judeus conseguiam a dissolução deste veneno (insolúvel na água, como Já anteriormente citei), mercê de outras substâncias que apareciam na composição da tinta azul: o carbonato de potássio e a cal viva, ambos de forte poder alcalino 2.

 

* Provavelmente, o sacerdote encarregado da fabricação das águas amargas fervia as quatro primeiras substâncias - anil, carbonato de potássio, sulfureto amarelo de arsênio e cal viva -, conseguindo uma dissolução total. A seguir, depois de filtrar o líquido resultante, acrescentava uma pequena porção de goma-arábica pulverizada - encontra

Este sulfureto - diferindo do chamado sulfureto vermelho de arsênio, que se encontra abundantemente na Boemia, é fácil de encontrar na Pérsia. Daí que os Israelitas pudessem ter mais acesso ao amarelo,. Ambos, no entanto, reúnem características parecidas, quanto ao fato de serem solúveis em soluções alcalinas. No entanto, o amarelo, ao conter ácido arsenioso, torna-se muito mais tóxico que o vermelho. Era também muito mais abundante no comércio daquela época, sendo conhecido mesmo por Teofrasto que viveu trezentos anos antes de Jesus Cristo. (N. do M.)

 

2 O carbonato de potássio, em especial é fortemente alcalino em contato com a água, gozando, além disso de um forte poder caustico ou corrosivo, que poderia conter tinta. (N. do M).

 

         A desintegração das lâminas de sulfureto de arsênico e a dissolução dada pelos nossos especialistas na tinta azul e numa proporção idêntica à da cal viva -, dando origem a um líquido duplamente útil: como tinta e como veneno.

         Quanto ao sabor amargo, que deu o nome à poção, poderia dever-se à presença do carbonato de potássio, de forte sabor acre.

         Dado o caráter sagrado desta tinta o mais lógico é que só fosse composta pouco antes da sua utilização. A Mrsn  na sua Ordem Terceira (dedicada às mulheres), explica que o sacerdote enchia uma malga nova de barro com uma quantidade que oscilava entre um quarto e meio Iog de água do tanque (quer dizer, entre 125 e 250 gramas de água vulgar). Em seguida, entrava no Santuário e dirigia-se para a direita, onde havia um lugar de um côvado quadrado cerca de quarenta e cinco centímetros quadrados), com uma mesa de mármore e um anel fixado nela. Depois de a levantar, colhia a cinza que tinha por baixo e punha-a na malga, de tal modo que se tornasse perceptível na água, tal como está escrito: Da cinza que haja no pavimento do santuário tomar  o sacerdote e a por  na água.

         Por último, o sacerdote fazia a tinta e escrevia as fórmulas rituais. Yavé - tal como especificava o livro sagrado (Números 5, 23) - ordenava que se escrevesse num livro. Por outras palavras, num rolo. Também não devia ser utilizada goma, nem vitríolo nem qualquer outra substância fixante. Logicamente, se o que se pretendia era que a acusada bebesse veneno contido na tinta, esta tinha de ser perfeitamente solúvel na água. Depois daquelas verificações, uma série de dúvidas – mais intensas e fascinantes, se é possível - ficaram a flutuar no espírito dos homens do projeto Cavalo de Tróia.

         Em primeiro lugar, se a saída dos Judeus do Egito se registrou pelo ano 1290 antes de Cristo, como é possível que o povo hebreu conhecesse o  ácido arsenioso e a sua funesta ação sobre o organismo humano, se as primeiras notícias sobre o referido  ácido começaram a difundir-se pelo mundo no século IX da nossa Era 2? E, se não foram eles os descobridores ou criadores de tal fórmula, quem foi? A conclusão imediata só pode ser uma: Yavé. Mas aceitando esta hipótese, quem era este Yavé, capaz de transmitir fórmulas químicas tão precisas, antecipando-se, além disso aos tempos? E, principalmente, por que razão um ser que se auto definia como Deus estabelecia processos tão injustos e horrendos na altura de decidir quanto à culpabilidade de uma pessoa? Segundo os especialistas em toxicologia e medicina legal, a mulher que ingerisse uma substância com as características das águas amargas sofreria um quadro clínico gastrenterítico. Na realidade, com uma dose de cento e vinte miligramas de  ácido arsenioso poderia provocar-se a sua morte. Poucos minutos depois, apareciam os sintomas típicos: sede muito intensa, vômitos, disenteria, cãibras e crispação das feições, provocando a morte por asfixia. Outros técnicos em venenos foram de opinião que talvez as águas amargas pudessem conter, em vez do  ácido arsenioso, outro poderoso tóxico, extraído da víbora do deserto conhecida por Gariba. Neste caso, e para tornar ativo tão mortífero veneno, os sacerdotes introduziam na poção a cal viva, que queimava e dilacerava as mucosas internas da infeliz, ativando o veneno da víbora, inócuo por via oral. Se as Águas amargas eram preparadas com este último veneno, sempre existia a possibilidade de se dar o milagre. Bastava suprimir o tóxico produzido pela Gariba ou Echis Carinatus - muito freqüente nos desertos da península do Sinai - para que a suposta adúltera não sofresse dano algum.

         Naturalmente, este truque - também ensinado pelo suspeito Yavé - prestava-se a numerosas manipulações da multidão ignorante e - porque não? - à possível chantagem dos responsáveis pelas águas amargas. Um assunto digno de um estudo em profundidade...

 

* Contrariamente à crença popular, o ácido arsenioso não tem um sabor amargo, mas sim levemente açucarado. (N. do M.)

2 Ainda que os Gregos e os Romanos conhecessem os sulfuretos de arsênio naturais, parece não se ter tido conhecimento do ácido arsenioso - pelo menos na Europa - antes da época de Geber (século IX). O mesmo metal, embora Já citado por Paracelso, só foi bem definido nas suas propriedades e natureza em 1732, pelo famoso alquimista Brand. (N. do M.)

* O professor E. Kochva, do Departamento de Zoologia da Universidade de Telavive, Israel, manifestou-se também de acordo com esta última hipótese. Se as mucosas que protegem as paredes internas do intestino são rasgadas, as águas amargas podem converter-se num veneno ativo. (N. do M.)

 

         Com certa pressa, justificadíssima, como é natural, André foi-me guiando pelas estreitas vielas daquela parte baixa de Jerusalém, até chegar a uma casa situada entre a Sinagoga dos Libertos e a piscina de Siloé, na ponta meridional da Cidade Santa. A fachada, inteiramente de pedra lavrada, ostentava sobre um pétreo dintel um escudo circular com estrela de cinco pontas. No formoso alto-relevo, gasto pela passagem do tempo, pude ler a palavra JExusni.n.t, formada pelas cinco letras hebraicas, cada uma delas situada entre as pontas da famosa estrela de David.

         José, José de Arimatéia, nobre decurião (uma espécie de assessor do Sinédrio, dada a sua riqueza e nobre estirpe: a sua família vinha, como a de Jesus, do mítico rei David), era uma personagem de grande prestígio na Cidade Santa. A sua tendência liberal, fruto, sem dúvida, das suas viagens pela Grécia e pelo Império Romano, tinham-no arrastado desde o começo para os ensinamentos de Jesus de Nazaré. E ainda que tivesse nascido na aldeia de Arimatéia (hoje Rantis, a nordeste de Lida), a sua infância e juventude tinham decorrido quase por completo em Jerusalém. Aquela casa - segundo me contou, ao longo do almoço - fora erguida pelos seus antepassados, justamente sobre o que restava da antiga Cidade de David, no promontório chamado Ofel.

         A sua considerável fortuna - amontoada, principalmente, com os negócios da construção - tinha-lhe permitido preparar aquela mansão com o mais requintado dos luxos notando-se em toda a sua decoração uma clara influência helenística. A sua profissão - e este foi um dos aspectos que mais me atraiu em José - permitira-lhe ainda um estreito contato com o procurador romano, Pôncio Pilatos. A sua chegada à Judéia, por ordem do imperador romano Tibério, Pilatos desenvolveu grande atividade. Uma das suas primeiras obras foi a construção de um aqueduto com cerca de trezentos estádios (quase cinqüenta quilômetros). Pois bem, José de Arimatéia foi um dos principais administradores de obras públicas. André conhecia bem a casa e guiou-me diretamente para o espaçoso pátio - a céu aberto - onde se encontravam o Mestre, os discípulos, uma trintena de gregos (os mesmos que abordaram Jesus nas primeiras horas da tarde de domingo e que, pelo que parecia, tinham reconsiderado, procurando de novo o Mestre) e José, José de Arimatéia, com os dezenove membros do Sinédrio que tinham apresentado a sua demissão, perante as graves irregularidades do supremo tribunal para com Jesus. A comida, consistindo, fundamentalmente, de caça e de legumes, ia Já no terceiro prato quando me sentei numa ponta da mesa.

         O Nazareno, em tom fatigado, parecia dirigir-se àqueles estrangeiros de Alexandria, Roma e Atenas:

         - Sei que a Minha hora se está aproximando e estou angustiado. Percebo que a as pessoas estão decididas a desdenhar o reino, porém, alegro-me, ao receber estes gentios, que procuram a Verdade, que vêm aqui hoje perguntar-me pelo caminho da Luz.

         - No entanto - prosseguiu Jesus -, o coração dói-me pelo meu povo e a minha alma entristece-se com o que está diante de Mim... O Mestre fez uma pausa e os convivas entreolharam-se, desorientados perante a idéia obsessiva, que o Rabi manifestava, desde há dias. Ao entrar no pátio, eu tinha procurado encostar a minha vara a uma das paredes de mármore branco, carregando no prego que punha a filmagem em funcionamento. E, para dizer a verdade, no tempo que permaneci em casa de José, a minha atenção esteve mais dependente do cajado - não fosse ele ser derrubado pela infinidade de servos que entravam e saíam com as iguarias - que do meu anfitrião e dos seus convidados.

         - Que posso dizer - continuou Jesus - quando olho em frente e vejo o que vai acontecer?

         Pedro cravou os olhos azuis no seu irmão André, mas, a julgar pelas expressões dos rostos de ambos, nenhum conseguia compreender.

         - Devo dizer: salvai-Me dessa hora horrorosa? Não! Para este fim vim ao mundo e, justamente, para esta hora. Mas direi e rogarei que vos unis a Mim: Pai, glorificai o seu nome. A tua vontade será cumprida.

         Ao terminar a refeição, alguns dos gregos e discípulos levantaram-se, rogando ao Mestre que lhes explicasse mais claramente o que significa e quando teria lugar a hora horrorosa. Mas Jesus não deu qualquer resposta.

 

* Efetivamente, na sua obra Guerras dos Judeus, Flávio Josefo, fala deste aqueduto, que constitui outro dos graves erros de Pilatos. Sem o menor tato político, o procurador mandou utilizar o tesouro que os Judeus chamavam Corboman para trazer água. Aquilo provocou uma revolta, mas Pilatos atuou com energia, ordenando que os seus soldados espancassem os manifestantes com bastões e paus, dando lugar a uma grande mortandade. Recentes descobertas arqueológicas demonstraram que o aqueduto em questão ia até ao monte dos Francos, nas cercanias de Belém, Sobre o qual se apoiava a fortaleza do Herodium. (N. do M.)

 

         Enquanto empunhava a minha vara, chamou-me a atenção um esplêndido copo de cristal, fechado juntamente com uma reduzida coleção de pedras ovóides e esféricas numa vitrina.

         José deve ter-se apercebido do meu interesse por aquelas peças e, aproximando-se, explicou-me que se tratava de um valioso copo de diatreta, coberto com filigrana de prata. Fora encontrada na Germânia e constituía um exemplar único na difícil arte do vidro, tão magistralmente praticada pelos Romanos. Quanto às pedras - de uns cinco centímetros cada -, faziam parte de outra singular coleção. Eram antigos projéteis de funda - pederneira e calcário - utilizados, segundo os antepassados de José, pelas tropas especiais de setecentos soldados benjaministas canhotos, capazes de disparar contra um cabelo sem falhar o tiro, tal como cita o Livro dos Juízes (20, 16).

         - É muito possível - insinuou José - que David utilizasse uma pedra semelhante contra Golias. Aquele breve encontro com o venerável José - que deveria rondar Já pelos sessenta anos - foi de grande utilidade para os planos que Cavalo de Tróia traçara para mim. Um dos meus objetivos, antes do anoitecer de quinta-feira, era, justamente, estabelecer contato com o procurador romano em Jerusalém. Quando expus o meu desejo de ter uma entrevista com Pôncio Pilatos, José mostrou-se indeciso. Procurei então ganhar a sua confiança, explicando-lhe que trabalhara como astrólogo ao serviço de Tibério e que, aproveitando a minha curta passagem por Israel, seria de extremo interesse para Pilatos que pudesse conhecer os graves acontecimentos assinalados nos astros.

         José, tal como eu esperava, manifestou uma enorme curiosidade e prometeu obter a entrevista para a manhã do dia seguinte, quarta-feira, mas desde que pudesse estar presente.

         Concordei, encantado.

         Pelas duas da tarde, Jesus despediu-se de José de Arimatéia, subindo pelas empedradas ruas até à parede sul do Templo. Pelo caminho avisou os Seus amigos de que aquele ia ser o Seu último discurso público. Mas os Seus homens de confiança não fizeram qualquer comentário. Na realidade, os seus corações encontravam-se mergulhados numa profunda confusão. Seria que o Mestre, que sempre tinha escapado das garras do Sinédrio, ia permitir que O capturassem? Uma vez no Átrio dos Gentios, o Rabi sentou-se no Seu lugar habitual - as escadarias que rodeavam o Santuário - e, num tom extremamente carinhoso, começou a falar:

         - Durante todo este tempo estive convosco, indo e vindo por estas terras, proclamando o amor do Pai para com os filhos dos homens. Muitos vieram à luz e, pela fé, entraram no reino do céu. Apoiando este ensinamento e pregação, o Pai fez coisas maravilhosas, incluindo a ressurreição dos mortos. Muitos doentes e aflitos foram curados porque acreditavam. Porém, toda esta proclamação da Verdade e cura das enfermidades não serviram para abrir os olhos dos que recusaram a luz e dos que estão decididos a recusar o evangelho do Reino.

         - Eu e todos os Meus discípulos fizemos o possível para viver em paz com os nossos irmãos, para cumprir os sensatos mandamentos das leis de Moisés e as tradições de Israel. Procuramos persistentemente a paz, mas os dirigentes desta nação não a podem ter. Repelindo a verdade de Deus e a luz do céu colocam-se do lado do erro e da escuridão . Não pode haver paz entre a luz e as trevas, entre a vida e a morte, entre a verdade e o erro. Muitos de vós vos haveis atrevido a crer nos Meus ensinamentos e Já haveis entrado na alegria e liberdade da consciência de ser filho de Deus. Sereis testemunhas de que ofereci a mesma filiação em Deus a todo o Israel. Até a estes mesmos homens que hoje procuram a Minha destruição. Mas digo-vos mais, mesmo agora receberia Meu Pai estes mestres cegos, estes dirigentes hipócritas, se voltassem, o seu rosto para Ele e aceitassem a Sua misericórdia...

         Jesus fora indicando com a mão os diferentes grupos de escribas, saduceus, fariseus, que se foram juntando às centenas de judeus que desejavam escutar o Rabi da Galiléia.

         Alguns dos discípulos, especialmente Pedro e André, empalideceram ao escutar os audazes ataques do Mestre.

         - Mesmo agora não é demasiado tarde - continuou Jesus - para que essas pessoas receba a palavra do céu e dê as boas-vindas ao Filho do Homem.

         Um dos membros do Sinédrio, ao escutar estas expressões , irritou-se visivelmente, arrastando os outros elementos do seu grupo a que saíssem do terreiro. Jesus apercebeu-se perfeitamente do fato e, levantando o tom de voz lançou-se contra eles:

         - Meu Pai tratou com clemência aquelas pessoas. Geração após geração enviamos os Nossos profetas para que os ensinassem e avisassem. E, geração após geração, eles mataram os Nossos enviados. Agora, os vossos poderosos sumos sacerdotes e casmurros dirigentes continuam fazendo o mesmo. Tal como Herodes assassinou João, vós, igualmente, vos preparais para destruir o Filho do Homem.

         - Enquanto houver uma possibilidade de os Judeus voltarem o seu rosto para Meu Pai e procurarem a sua salvação, o Deus de Abraão, Isaac e Jacob manterá as Suas mãos estendidas para vós. Mas, uma vez que tiverdes transbordado a taça da vossa impertinência, esta nação será abandonada aos seus próprios conselhos e irá  rapidamente para um final pouco glorioso...

         O arraigado sentimento de patriotismo dos Hebreus ficou visivelmente impressionado com aquelas sentenças de Jesus. E a multidão que O escutava, sentada sobre as lajes do Átrio dos Gentios, agitou-se, inquieta, entre murmúrios de desaprovação.

         Mas o Nazareno não se impressionou. Aquele Homem, na verdade, era valente.

         - Estas pessoas foram chamadas para ser a luz do mundo e para mostrar a glória espiritual de uma raça que conhecia Deus... Mas, até hoje, haveis-vos afastado do cumprimento dos vossos privilégios divinos e os vossos dirigentes preparam-se para cometer a loucura suprema de todos os tempos...

         Jesus fez uma brevíssima pausa, mantendo o auditório ansioso.

         - Digo-vos que estão prestes a recusar a grande oferta de Deus a todos os homens e a todas as épocas, a revelação do Seu amor. Em verdade, em verdade vos digo que, uma vez que tenhais repelido esta revelação, o reino do céu será entregue a outras pessoas.

         Em nome do Pai que Me enviou, Eu vos aviso: estais a um passo de perder o vosso lugar no mundo como sustentáculos da eterna verdade e como custódias da lei divina. Justamente agora vos estou oferecendo a vossa última oportunidade para que entreis, como crianças, pela fé sincera, na segurança da salvação do reino do céu. Meu Pai trabalhou durante muito tempo pela vossa salvação, e Eu desci para viver entre vós para vos mostrar pessoalmente o caminho. Muitos dos judeus e samaritanos e, até, gentios, acreditaram no evangelho do reino. E vós, os que deveríeis ser os primeiros a aceitar a luz do céu, haveis recusado a revelação da verdade de Deus revelado no homem e do homem elevado a Deus.

         Esta tarde, os Meus apóstolos estão ante vós em silêncio. Mas depressa escutareis as suas vozes, clamando pela salvação. Agora vos peço que sejais testemunhas, discípulos meus e crentes no evangelho do reino, de que, uma vez mais, ofereci a Israel e seus dirigentes a liberdade e a salvação. De todas as formas vos advirto que estes escribas e fariseus se sentam ainda na cadeira de Moisés e, portanto, até que os poderes mais altos que dirigem o reino dos homens os desterrem e destruam Eu vos ordeno que coopereis com estes grandes de Israel. Não vos é pedido que vos unais a eles nos seus planos para destruir o Filho do Homem mas sim em qualquer outra coisa relacionada com a paz de Israel. Nestas questões, fazei o que vos ordenarem e observai a essência das leis, mas não retireis exemplo das suas ações. Recordai que é este o seu pecado, dizem o que é bom, mas não o fazem. Bem sabeis vós como estes dirigentes vos fazem suportar pesadas cargas sem levantarem um dedo para vos ajudarem. Oprimiram-vos com cerimônias e escravizaram-vos com as tradições. E ainda vos direi mais: estes sacerdotes, só pensando em si próprios, se deleitam fazendo boas obras, de modo a serem vistos pelos homens. Aumentaram as suas faixas e alargaram as orlas dos seus trajes oficiais. Solicitam os lugares principais nos festins e pedem as primeiras cadeiras nas sinagogas. Cobiçam as saudações e louvores nos mercados e desejam que todos os homens lhes chamem rabis. E, até, enquanto procuram todas estas honras, tomam secretamente posse das viúvas e beneficiam dos serviços do Templo sagrado. Por ostentação, estes hipócritas fazem grandes orações em público e dão esmolas para chamar a atenção dos seus semelhantes.

         Naqueles momentos, quando Jesus lançava os Seus primeiros e fatais ataques contra os sacerdotes e membros do Sinédrio, os apóstolos que se tinham encarregado da instalação do acampamento na encosta do monte das Oliveiras apareceram no terreiro, unindo-se ao grupo dos discípulos. Foi pena que não tivessem escutado a primeira parte do discurso de Jesus. Em especial, Judas Iscariotes. A título pessoal, creio que se o traidor tivesse sido testemunha daquelas primeiras frases, oferecendo misericórdia, talvez tivesse mudado de idéia. Mas, pelo que pude deduzir na tarde de quarta-feira, a última metade do discurso do Mestre no Templo foi decisiva para que desertasse do grupo. O seu sentido do ridículo e o seu negativo condicionamento, ao que dirão, estavam muito mais acentuados na sua alma do que eu acreditava.

         - E assim é como deveis honrar os vossos chefes e reverenciar os vossos mestres - continuou o Rabi – não deveis chamar a nenhum homem pai no sentido espiritual. Só Deus é vosso Pai. Também não deveis tentar dominar os vossos irmãos do reino. Recordai: Eu ensinei-vos que aquele que for maior entre vós deve ser servo de todos. Se vos pretendeis exaltar a vós próprios ante Deus, certamente sereis humilhados; porém, o que se humilha sinceramente, certamente

será  exaltado: Procurai na vossa vida diária, não a própria glória, mas a de Deus. Subordinai inteligentemente a vossa própria vontade à do Pai do Céu.

         Não confundais as Minhas palavras. Não tenho malícia para com estes sacerdotes principais, que pretendem mesmo a Minha destruição. Não tenho maus desejos contra estes escribas e fariseus, que repudiam os Meus ensinamentos. Sei que muitos de vós acreditais em segredo e sei que professareis

abertamente a vossa lealdade quando chegar a hora. Mas, como se justificarão a si mesmos os vossos rabis se dizem falar com Deus e pretendem repudiá-lo e destruir O que vem ao mundo para revelar o Pai? Ai de vós, escribas e fariseus!

         Hipócritas!... Fechais as portas do reino dos céus aos homens sinceros porque são incultos. Recusais entrar no reino e, ao mesmo tempo, fazeis tudo o que está na vossa mão para evitar que entrem os outros. Permaneceis de costas para as portas da salvação e lutais com todos aqueles que querem entrar.

         Ai de vós, escribas e fariseus! Sois hipócritas Abarcais o céu e a terra para fazer prosélitos e, quando o conseguis, só ficais contentes quando os fazeis duas vezes piores do que aquilo que eram como filhos dos gentios.

         Ai de vós, sacerdotes e chefes principais. Dominais a propriedade dos pobres e exigis pesados tributos aos que querem servir Deus. Vós, que não tendes misericórdia, podeis esperá-la dos mundos vindouros?

         Ai de vós, falsos mestres! Guias cegos. Que pode esperar-se de uma nação em que os cegos guiam os cegos? Cairão todos no abismo da destruição. Ai de vós, que dissimulais quando prestais juramento Sois trapaceiros mais que Ensina um homem! pode jurar ante o Templo e quebrar o seu juramento, mas o que jura ante o ouro do Templo permanecer  ligado. Sois todos cegos e loucos.

         Jesus pusera-se de pé. O ambiente, pesado por aquelas verdades como punhos que toda as pessoas conhecia mas que ninguém se atrevia a proclamar em voz alta e muito menos na presença dos dignitários do Templo, ficava cada vez mais tenso.

         Ninguém se atrevia sequer a respirar. Os discípulos, cada vez mais acovardados baixavam o rosto ou olhavam com temor para os grupos de sacerdotes.

         Mas o Nazareno parecia estar disposto a tudo...

         - Nem sequer sois conseqüentes com a vossa desonestidade. Quem é maior, o ouro ou o Templo? Ensinais que se um homem jura ante o altar, nada significa.

         - Mas se jurar ante a oferenda que está em frente do altar, então, permanece como devedor. Sois cegos à verdade! Quem é maior: a oferenda ou o altar que santifica a oferenda? Como podeis justificar tanta hipocrisia e desonestidade?

         - Ai de vós, escribas e fariseus! Certificai-vos de que trouxeram dízimos, hortelã e cominhos e, ao mesmo tempo, não quereis saber das questões mais importantes da fé, misericórdia e justiça. Com razão deveis fazer uma coisa, mas sem esquecer a outra. Sois certamente mestres cegos e surdos! Espantais os mosquitos e suportais o camelo... Ai de vós, escribas, fariseus e hipócritas! Sois escrupulosos a limpar a parte de fora da taça e das travessas, mas por dentro continua a ferrugem da extorsão e dos excessos e da decepção. Sois espiritualmente cegos. Reconhecei Comigo que melhor seria limpar por dentro da taça. Então, o que dela transbordasse limparia por fora. Malvados réprobos! Fazeis que os atos exteriores da vossa religião estejam conformes à letra, quando as vossas almas estão impregnadas de iniqüidade e assassínios. Ai de vós, de todos vós, que recusais a verdade e desdenhais a misericórdia! Muitos de vós sois como sepulcros caiados. Por fora parecem formosos mas, por dentro, estão cheios de ossos de homens e de toda a espécie de porcaria. Mesmo assim, vós, os que repelis conscientemente o conselho de Deus, apareceis ante os homens como santos e retos, porém, por dentro, os vossos corações estão doentes de hipocrisia. Ai de vós, falsos guias da nação! Com o tempo haveis construído um monumento aos profetas martirizados pelos antigos, enquanto vós conspirais para destruir Aquele de quem eles falaram. Adornais os túmulos dos retos e louvais-vos a vós próprios dizendo que, se tivésseis vivido no tempo de vossos pais, não teríeis morrido os profetas. E com este pensamento tão justo vos preparais para assassinar Aquele de quem os profetas falaram: o Filho do Homem. Em frente, pois, e enchei até aos bordos a taça da vossa condenação! Ai de vós, filhos do pecado! João, com verdade, vos chamou filhos das víboras. E perguntou-Me: como podeis escapar à sentença que João pronunciou contra vós?

         O Nazareno conservou-se uns segundos em silêncio, enquanto os membros do Sinédrio - vermelhos de ira - iam tomando notas nos rolos ou livros que costumavam trazer nos braços. Aquele fato trouxe-me à mente outra realidade, que, tal como ia verificando, seria lamentável. Nenhum dos apóstolos ou adeptos de Jesus tomava alguma vez uma só nota de quanto fazia e, principalmente, de quanto dizia o seu Mestre. Dados os múltiplos ensinamentos do Rabi da Galiléia e a Sua considerável extensão - como o discurso que pronunciava naquele momento -, ia ser quase impossível que as Suas palavras pudessem ser recolhidas no futuro, na sua integridade e total fidelidade. Era lamentável que nenhum daqueles homens tivesse chamado a si a importantíssima missão de ir recolhendo os discursos e fatos que o Nazareno protagonizou. Naquela mesma noite, no acampamento do monte das Oliveiras, teria ocasião de verificar que não estava enganado nas minhas apreciações pessoais.

         - Porém, Eu vos ofereço, em nome do Meu Pai, misericórdia e perdão. Mesmo agora – acrescentou Jesus num tom mais suave e conciliador -, vos ofereço a Minha mão. Meu Pai vos enviou os profetas e os sábios. Haveis matado os primeiros e haveis perseguido os segundos. Então, apareceu João, proclamando a vinda do Filho do Homem, e também o haveis destruído, apesar de muitos terem acreditado nos seus ensinamentos. E agora preparais-vos para derramar mais sangue inocente. Compreendeis que chegar  um dia terrível em que o Juiz de toda a terra vos pedirá  contas pela forma como haveis recusado, perseguido e destruído estes mensageiros do céu? Compreendeis que tereis de prestar contas por todo este sangue honrado, desde o primeiro profeta, assassinado nos tempos de Zacarias entre o Santuário e o altar? E mais Eu vos digo: se prosseguirdes com esta malvada conduta, essas contas podem ser exigidas, mesmo nesta geração. Ó Jerusalém e filhos de Abraão! Vós, que haveis apedrejado os profetas e assassinado os mestres, mesmo agora reuniria vossos filhos como a galinha reúne os seus pintos debaixo das suas asas... Mas não quereis! Vou deixar-vos agora. Haveis ouvido a minha mensagem e tomado a vossa decisão. Os que acreditaram no Meu evangelho estão salvos. Os que recusam a oferenda de Deus Me verão ensinar no Templo. O Meu trabalho está feito.

         - Tende cuidado, agora! Eu sigo com os Meus filhos e a vossa casa fica deserta.

         As cruas denúncias de Jesus de Nazaré tinham fechado toda a possibilidade de reconciliação com os dirigentes do Sinédrio e da classe sacerdotal de Jerusalém. Ao terminar as suas palavras, o Mestre ordenou aos discípulos que O seguissem, e todos saímos do Templo, em direção ao acampamento do monte das Oliveiras. Mas no ambiente da Cidade Santa ficou, flutuando, esta pergunta: Que sorte aguardaria o Rabi da Galiléia?

         Quando nos preparávamos para sair, um dos doze - Mateus, que recordava a profecia do seu Mestre no cimo do monte das Oliveiras aproximou-se de Jesus e, apontando os pesados silhares da muralha do Templo, comentou com evidente

incredulidade:

         - Mestre, repara de que forma isto está construído. Olha as pedras maciças e os formosos adornos. Como podem estas edificações ser destruídas? O Rabi, sem abrandar a Sua marcha pelas ruas da cidade, rumo à Porta da Fonte, disse-lhe:

         - Haveis visto aquelas pedras e aquele templo maciço? Pois em verdade, em verdade vos digo que muito próximos estarão os dias em que não ficará  pedra sobre pedra. Todas serão deitadas abaixo.

         E o Gigante calou-se. O grupo entrou, então, em intermináveis polêmicas, considerando que era muito difícil que aquela fortaleza pudesse ser demolida. Nem sequer o fim do mundo, chegaram a insinuar alguns dos apóstolos, poderia originar a destruição do Templo. O dia encaminhava-se para o ocaso e Jesus, procurando evitar a multidão de peregrinos que iam e vinham pelo vale de Kidrón, sugeriu aos seus discípulos que deixassem o caminho que ia para Betânia, indo por um dos atalhos que percorria a encosta sul do monte das Oliveiras, na direção norte.

         Ao alcançar um dos cumes, Jerusalém surgiu de repente à nossa esquerda, majestosa e banhada em ouro pelos últimos raios solares. No santuário e nas vielas tinham começado a acender-se as primeiras candeias de azeite. Aquele espetáculo deteve o grupo. Então, um dos discípulos - indicando a Cidade Santa - perguntou a Jesus:

         - Diz-nos, Mestre, como saberemos que esses acontecimentos estão para acontecer?

         O grupo acabou por sentar-se na erva e o Rabi, de pé e sem pressa, foi-lhes dizendo:

         - Sim, contar-vos-ei alguma coisa sobre os tempos em que estas pessoas ter  enchido a taça da sua iniqüidade e a justiça cair  sobre esta cidade de nossos pais... Quando a vós - Estou prestes a deixar-vos. Vou para junto de Meu Pai. - deixar, tende cuidado em que nenhum homem vos engane. Muitos virão como libertadores e levarão muitos pelo mau caminho. Quando ouvirdes rumores sobre guerras, não vos consterneis. Ainda que tudo isso aconteça, o fim de Jerusalém não terá ainda chegado. Também não vos deveis preocupar quando fordes entregues às autoridades civis e perseguidos pelo evangelho...

         Os apóstolos entreolharam-se, com o medo refletido nos semblantes.

         - Sereis expulsos da Sinagoga e feitos prisioneiros por Minha causa. E alguns de vós morrerão. Quando fordes levados aos governadores e dirigentes ser  como testemunho da vossa fé e para que mostreis firmeza no evangelho do reino. E quando estiverdes perante juízes, não tenhais antecipadamente angústia quanto ao que deveis dizer: o Espírito vos ensinará nesse mesmo momento o que deveis responder aos vossos adversários. Nesses dias de dor, até os vossos parentes, sob a direção daqueles que repeliram o Filho do Homem, vos entregarão à prisão e à morte. Por algum tempo sereis odiados por Minha causa mas até nessas perseguições, vos não abandonarão, não duvideis dos que o evangelho deixará  desamparados. Sede pacientes, o meu reino triunfará  de todos os inimigos e, a seu tempo, será  proclamado por todas as nações.

         O Mestre calou-se, enquanto contemplava a cidade. E eu, sentado como os outros, fiquei maravilhado ante a precisão daquelas frases. Certamente, quarenta anos mais tarde, quando as legiões de Tito cercaram e assolaram Jerusalém, nenhum dos apóstolos se encontrava na cidade. Se não tivessem sido avisados pelo Mestre, teria sido mais que provável que alguns, talvez, tivessem perecido ou sido aprisionados.

         O silêncio foi quebrado por André:

         - Mas, Mestre, se a Cidade Santa e o Templo vão ser destruídos e se Tu não estás aqui para nos dirigires, quando deveremos abandonar Jerusalém? Jesus, então procurou ser extremamente claro e preciso:

         - Podeis ficar na cidade depois de Eu ter partido, mesmo naqueles tempos de dor e amarga perseguição. Mas, quando finalmente virdes Jerusalém cercada pelos exércitos romanos, depois da revolta dos falsos profetas, sabereis então que a sua desolação está à porta. Deveis então fugir para as montanhas. Não deixeis que ninguém vos detenha nem que outros entrem. Haverá  uma grande aflição. Serão os dias da vingança dos gentios. Quando tiverdes fugido da cidade, essa gente desobediente cairá  pelo gume das espadas dos gentios. Entretanto vos aviso: não vos deixeis enganar. Se algum homem vier dizer-vos: Olha, este é o Libertador, aqui o tens, não acrediteis. Virão muitos falsos mestres e outros serão levados por mau caminho. Não vos deixeis enganar. Como podeis ver, avisei-vos de antemão.

         Como soaram claras e proféticas aquelas palavras aos meus ouvidos! Os apóstolos e discípulos não podiam querer que tenha estudado, ainda que parte daquela profecia. Para quem só sumariamente, a aproximação dos exércitos romanos de Jerusalém pouco antes da lua cheia da Primavera do ano 70 o aviso do Mestre só pode ser lapidar. Tal como acabava de anunciar o Galileu, Israel converter-se-ia num inferno, entre os anos 66 e 70. Naquele tempo, o partido dos zelotas, os fanáticos, armados até aos dentes, acabou por sublevar toda a comunidade judaica. Em Maio de 66, a guarnição romana é derrotada, em conseqüência do pedido do procurador Floro, que exigiu dezessete talentos do tesouro do Templo. Os Judeus tomam Jerusalém e proíbem o sacrifício diário em honra do Imperador. Aquilo esgotou a paciência de Roma que envia uma legião às ordens do governador da Síria, Céstio Galo. Mas as revoltas tinham incendiado o país e os romanos vêem-se obrigados a retirar.

         A nação judaica prepara-se para a guerra e saque das suas cidades,

 

(1) sendo nomeado generalíssimo dos seus exército o que depois seria historiador, Flávio Josefo. E, efetivamente, Nero confia três legiões a Tito Flávio Vespasiano, que, acompanhado por seu filho Tito, cai sobre a Galiléia, chacinando-a. Mas Nero suicida-se e Tito Flávio tem de regressar precipitadamente a Roma. Seu filho se encarregaria de completar a grande vingança de Roma.

         Os Hebreus ficam aterrorizados ao verem passar a caminho de Jerusalém milhares de soldados pertencentes às 5.a, l0.a 12.a e 15. legiões, acompanhados por forças de cavalaria e tropas auxiliares, bem como um pesado equipamento de assalto e demolição. No que foram tomando homens, que - como Jesus profetizara no ano 30, - metiam nas prisões e cercando a Cidade Santa. Jerusalém, cheia de peregrinos, viu-se submetida a fortes tensões internas, pela loucura de súbitas aparições de libertadores que procuravam arrastar as massas, e pelo medo. Porém quando os homens de Tito começam os ataques, os apóstolos de Jesus, que recordaram aquelas palavras pronunciadas na tarde de terça-feira, 4 de Abril de 30, diante de Jerusalém, Já tinham fugido da cidade. Poucos meses depois, a artilharia romana - capaz de arremessar pedras de um quintal de peso a 185 metros de distância - arrasaria Jerusalém sem deixar pedra sobre pedra.

        

         Pedro, apesar da sua boa vontade, não parecia compreender o que Jesus lhes estava anunciando. Pelos seus comentários, deduzi que associava aquela destruição com o fim do mundo e não com a queda de Jerusalém. Ao formular a sua pergunta ao Rabi, convenci-me por completo:

         - Mas, Mestre - disse Pedro -, todos sabemos que estas coisas se darão quando os novos céus e a nova terra apareçam. Como saberemos então que Tu vens para trazer tudo isto?

         O Gigante olhou-o com infinita compaixão, compreendendo que o seu fogoso amigo não entendera a mensagem. E disse-lhe:

        - Pedro, erras sempre porque sempre procuras relacionar o novo ensinamento com o velho. Estás condenado a interpretar mal o Meu ensinamento. Insistis em interpretar o evangelho, de acordo com as vossas crenças estabelecidas. No entanto, tentarei explicar-vos. Porque continuas tentando que o Filho do Homem se sente no trono de David e esperas ver cumpridos os sonhos materiais dos Judeus? As coisas a que agora dás valor vão acabar e será  um novo começo, a partir do qual o evangelho do reino chegará  a todo o mundo. Quando o reino chegue ao seu pleno cumprimento, estai certos de que o Pai do céu não deixar  de vos visitar. E assim continuará  meu Pai, manifestando a Sua misericórdia e mostrando o Seu amor, mesmo a este escuro e malvado mundo. E assim, depois de Meu Pai Me ter investido com todo o poder e autoridade, também Eu acompanharei os vossos destinos, guiando-vos nas questões do reino com a presença do Meu espírito, que não tardará  a ser vertido sobre toda a carne. Estarei, portanto, presente entre vós em espírito, e prometo que voltarei ainda a este mundo, onde vivi esta vida da carne e tive a experiência de revelar simultaneamente Deus ao homem e levar o homem a Deus. Bem cedo tenho de vos deixar e realizar a obra que o Pai em minhas mãos confiou, mas tende coragem: voltarei um dia. Entretanto, o Meu Espírito de Verdade vos confortar  e guiará .

         Sem que eu o esperasse, Jesus passara da profecia sobre a destruição de Jerusalém a um tema que profundamente me interessava e de que Já falara com ele: a Sua anunciada e confusa segunda vinda à Terra. E, assim, todos os meus sentidos se concentraram naquelas palavras, tão mal interpretadas, e transmitidas pior ainda, no futuro, pelos Seus adeptos.

         - Agora Me vedes na debilidade e na carne. Mas, quando voltar - acentuou o Rabi, voltando os Seus olhos para mim -, será  com poder e espírito. O olho da carne vê o Filho do Homem em carne, mas só o olho do espírito contemplará  o Filho do Homem glorificado pelo Pai e aparecendo na Terra com o Seu próprio nome.

         Mas os tempos da reaparição do Filho do Homem só são conhecidos pelos conselhos do paraíso. Nem sequer os anjos sabem quando isto acontecerá. No entanto, deveis compreender que, quando este evangelho do reino tenha sido proclamado por todo o mundo para a salvação dos homens e quando a plenitude da época tiver chegado, o Pai vos enviará  outra outorga de designação divina, ou o Filho do Homem voltar á para encerrar a época.

         Ao escutar aquelas revelações fiquei perplexo. E estive tentado a interrogar Jesus sobre este misterioso encerramento de uma época. No entanto, a minha condição de simples observador manteve-me à margem do diálogo.

         - E agora, relacionado com a dor de Jerusalém, em verdade vos digo que esta geração passará  sem que se cumpram as minhas palavras. Quanto à nova vinda do Filho do Homem, ninguém na terra ou no céu, pode ter pretensões a falar.

         Como se o Rabi tivesse lido os meus pensamentos, prosseguiu com es