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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Jogo de Mãos / Nora Roberts
Jogo de Mãos / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Jogo de Mãos

 

A Dama Desaparece. O velho artifício, com uma apresentação moderna, que sempre deixava boquiaberto ao público do Rádio City.

Até no momento de subir ao pedestal de vidro, Roxanne sentiu o suspense e a excitação dos pressente: essa mescla maravilhada de espera e incredulidade que sentiam todos, e que nivelava condições e classes sociais.

A magia os igualava a todos.

Roxanne recordou que Max havia dito isso. Muitas, muitas vezes.

Entre o redemoinho de bruma e os faz de luz, o pedestal começou a ascender com lentidão, descrevendo círculos majestosos ao som da melodia de "Rapsódia em Azul", de Gershwin. O suave giro de trezentos e sessenta graus lhe permitiu ao público ver todos os lados desse pedestal transparente e à esbelta mulher que estava sobre ele... e ao mesmo tempo conseguiu distrai-los do truque que se estava levando a cabo.

Tinham-lhe ensinado que a apresentação de um efeito era o que estabelecia a diferença entre um enganador e um artista.

Fazendo jogo com o tema musical, Roxanne usava um resplandecente traje azul noite que se aderia a sua figura esbelta e espingarda, ao extremo de que ninguém que a observasse pudesse acreditar que levava debaixo dessa seda rutilante nada que não fora sua própria pele. Seu cabelo, uma cascata de fogo que lhe chegava à cintura, cintilava com milhares de diminutas estrelas iridescentes.

Fogo e gelo. mais de um homem se perguntou como era possível que uma mulher fora as duas coisas ao mesmo tempo.

Como adormecida ou em transe, seus olhos estavam fechados  - ou pareciam está-lo -  e seu rosto elegante se levantava para a parte superior do cenário, tachonada de estrelas.

À medida que se elevava, deixou que seus braços se balançassem ao compasso da música, depois os elevou por cima de sua cabeça, tanto para obter um efeito teatral quanto pelas necessidades práticas.

Sabia que era um efeito formoso. A bruma, as luzes, a música, a mulher. Roxanne desfrutava do dramático da situação, e também da ironia que implicava utilizar o ancestral símbolo de uma mulher só e formosa sobre um pedestal, localizada-se por cima das preocupações e as fadigas cotidianas do homem.

Era, do mesmo modo, uma tarefa muito complexa, que requeria uma grande dose de controle físico e de sentido exato do tempo e do momento oportuno. Mas nem sequer os espectadores que tinham a fortuna de ocupar a primeira fila conseguiram detectar essa intensa concentração em seu rosto sereno. Nenhum deles podia saber quantas horas tediosas tinha dedicado para aperfeiçoar cada detalhe desse número, primeiro no papel e depois na prática. Uma prática rigorosa e implacável.

Lentamente, de novo ao ritmo da música de Gershwin, seu corpo começou a girar, a baixar, a balançar-se. Uma dança sem companheiro três metros por cima do cenário; uma dança toda cor e movimento fluido. ouviram-se murmúrios entre o público, e aplausos isolados.

Alcançavam a vê-la; sim, podiam vê-la através dessa bruma azulada e das luzes que giravam sem cessar. O resplendor de seu traje escuro, o cintilar de seu cabelo colorido, o brilho de sua pele de alabastro.

Até que, de repente, não a viram mais. Em menos tempo do que se demora para piscar, tinha desaparecido. E em seu lugar apareceu um esplêndido tigre de Rojão de luzes que se parou sobre suas patas traseiras para arranhar o ar e rugir.

fez-se um silêncio, esse silêncio tão maravilhoso para um animador, no que o público condene um instante a respiração antes do aplauso fechado e monumental, que seguia ressonando quando o pedestal voltou a descender. O enorme felino saltou e avançou majestosamente para a direita do cenário. deteve-se junto a uma caixa de ébano, lançou outro rugido que fez que uma mulher da primeira fila riera nervosamente. E, de repente, os quatro lados da caixa caíram ao uníssono.

E ali estava Roxanne, não já com seu vestido azul noite a não ser com um traje prateado. Saudou o público como o tinham ensinado quase desde seu nascimento: com um floreio.

E enquanto os aplausos estrondosos seguiam ressonando em seus ouvidos, montou ao tigre e levou a besta fora da cena.

 - Bom trabalho, Osear.  - Com um pequeno suspiro, inclinou-se para diante para arranhar ao animal entre as orelhas.

 - Esteve muito bem, Roxy.  - Seu robusto assistente sujeitou uma correia ao colar cintilante do Osear.

 - Obrigado, Mouse.  - Roxanne desmontou e se atirou para trás o cabelo. Entre decorações reinava grande atividade. Várias pessoas se encarregariam de retirar sua equipe e de guardá-lo e colocá-lo a salvo de olhos indiscretos. Como tinha uma conferência prevista de imprensa para o dia seguinte, Roxanne não receberia nesse momento aos jornalistas. Sonhava com uma garrafa de champanha gelado e um banho de imersão bem quente, com hidromasaje.

Só.

Com ar ausente, esfregou-se as mãos; um velho hábito que Mouse poderia lhe haver dito que tinha herdado de seu pai.

Mouse permaneceu onde estava, deixando que Osear se esfregasse contra seus joelhos. Nunca tinha tido facilidade de palavra, nem sequer nas melhores circunstâncias, mas tratou de encontrar a maneira de lhe dar a notícia.

 - Tem visita, Roxy. No camarim.

 - Ah, sim?  - Suas sobrancelhas se aproximaram, e entre elas apareceu uma linha fina de impaciência.  - Quem?

 - Sal a saudar de novo, querida.  - Lily, a assistente de cena do Roxanne e sua mãe substituía, aproximou-se e a tirou do braço.  - Esta noite fez vibrar ao público.  - Lily deu alguns toquecitos com um lenço ao redor das pestanas postiças que usava em cena e fora dela.  - Max se sentiria tão orgulhoso.

Roxanne se esforçou por reprimir as lágrimas. Não lhe notaram. Jamais permitia que lhe brotassem em público. Avançou para o lugar de onde provinham os aplausos.

 - Quem me está esperando?  - perguntou por sobre o ombro, mas já Mouse se levava a felino.

Seu amo lhe tinha ensinado que a discrição era fundamental para a sobrevivência.

Dez minutos depois, com as bochechas arrebatadas pelo êxito, Roxanne abriu a porta de seu camarim. A fragrância foi o primeiro que sentiu: de rosas e de base de maquiagem. Essa mescla de aromas se converteu em algo tão familiar que a aspirava como se fora ire fresco. Mas a ela se incorporava agora outro aroma: o de tabaco forte. Sua mão tremeu sobre o maçaneta enquanto abria a porta de par em par.

Ali estava um homem que ela associaria sempre com esse aroma. Um homem que habitualmente fumava magros charutos franceses.

Roxane não disse nada quando o viu. Não pôde dizer nada quando ele se levantou do assento onde tinha estado desfrutando de seu charuto e do champanha do Roxanne. Deus, era excitante e horrível observar essa boca magnífica nessa careta tão familiar, cruzar o olhar com esses olhos incrivelmente azuis,

Ainda levava o cabelo longo, um arbusto ondeada cor ébano, penteada para trás. Inclusive de menino tinha sido estupendo, um cigano elegante com olhos capazes de congelar ou de queimar. Os anos tinham acrescentado sua atitude e afinado esse rosto atraente, de ossos largos e ocos em sombras, esse queixo quase não partido. além do físico, existia nele um drama que o rodeava como um aura.

Era um homem que fazia que as mulheres se estremecessem e o desejassem.

Como lhe tinha passado a ela. Sim, vá se lhe tinha passado.

Cinco anos tinham transcorrido da última vez que viu esse sorriso, desde que lhe aconteceu a mão pelo cabelo ou sentiu a pressão dessa boca impaciente. Cinco anos de duelo, de pranto e de ódio.

Porque não tinha morrido?, perguntou-se enquanto se obrigava a fechar a porta a suas costas. Porque não tinha tido a decência de morrer?

E, pelo amor de Deus, o que faria ela com esse terrível desejo que sentia com apenas vê-lo de novo?

 - Roxanne.  - O enfrentamento tinha feito que a voz do Luke se mantivera firme ao pronunciar seu nome. Tinha-a observado ao longo dos anos. Essa noite, tinha estudado cada seu movimento desde decorações, nas sombras. Tinha-a julgado e avaliado. E, sobre tudo, tinha-a desejado. Agora, ali, frente a frente, pareceu-lhe quase insuportavelmente formosa.  - Foi um bom espetáculo. O efeito final foi deslumbrante.

 - Obrigado.

Sua mão estava firme quando lhe serve uma taça de champanha, igual às dela ao aceitá-la. depois de todo, os duas eram gente do espetáculo, forjados no mesmo molde. O molde do Max.

 - Lamento o do Max.

 - Sério?

Porque Luke sentia que se merecia algo mais que a agressão do sarcasmo, limitou-se a assentir com a cabeça, e, depois, olhou seu vinho borbulhante e se sumiu em suas lembranças. Voltou a cravar seus olhos no Roxanne.

 - Esse trabalho no Calais, os rubis. Foi você?

 - É obvio.

 - Ah  - voltou a assentir, comprazido. Tinha que estar seguro de que ela não tinha perdido sua habilidade... para a magia e para o roubo.  - Ouvi dizer que uma primeira edição da casa do Usher, do Poe, foi roubada de uma abóbada de segurança de Londres.

 - Sempre teve bom ouvido, Callahan. Ele seguiu sorrindo e se perguntou quando teria aprendido ela a exsudar sexo como fôlego. Recordou à pequena inteligente, a adolescente brincalhona, ao pimpolho irresistível em que se converteu ao fazer-se mulher. Esse pimpolho tinha florescido de maneira sedutora. E Luke sentiu a atração que sempre existiu entre eles. Jogaria mão agora dessa atração, com pesar, mas a usaria para seus próprios fins.

O fim o justifica todo. Outra das máximas do Maximillian Nouvelle.

 - Tenho uma proposição para você, Rox.

 - Seriamente?  - Bebeu um último sorvo antes de se separar sua taça. As borbulhas lhe souberam amargas em sua língua.

 - Negócios  - disse ele com ar jovial e apagou seu charuto. Tomou a mão e aproximou os dedos do Roxanne a sua boca.  - E também algo pessoal. Te senti saudades, Roxanne.  - Foi a afirmação mais veraz que pôde fazer. Um brilho de sinceridade em meio de anos de ardis, jogos e simulação. Sumido em seus próprios sentimentos, não viu o brilho de advertência nos olhos do Roxanne.

 - Sério, Luke? Seriamente sentiu saudades?

 - mais do que posso te dizer.  - Imerso em suas lembranças e suas necessidades, atraiu-a para si e sentiu que seu sangue bombeava com força quando o corpo dela o roçou. em que pese a haver-se fugido com êxito infinidade de vezes, jamais conseguiu liberar do todo da armadilha em que Roxanne Nouvelle o deixava preso.  - Vêem meu hotel  - disse em um suspiro quando ela caiu em seus braços - . Jantaremos. E falaremos.

 - Falaremos?  - Seus braços se ateram sinuosamente ao redor dele. Seus anéis brilharam quando afundou os dedos em seu cabelo. O espelho de maquiagem que estava sobre o penteadeira refletiu a imagem de ambos por triplicado, como mostrando-os em passa- • dou, presente e futuro. Quando ela falou sua voz foi como a bruma em que tinha desaparecido momentos antes: escura, densa e misteriosa.  - Isso é o que quer fazer comigo, Luke?

Ele esqueceu a importância de controlar-se, esqueceu-o todo salvo o fato de que a boca do Roxanne estava a um par de centímetros da sua.

 - Não.

Deixou cair a cabeça para a dela. E de repente o ar explodiu em seus pulmões quando o joelho do Roxanne se incrustou em seu entrepierna. E no momento em que ele se dobrava em dois, lhe pegou um murro no queixo.

Seu grunhido de surpresa e as lascas que saltaram da mesa contra a que atingiu ao cair, proporcionaram ao Roxanne uma satisfação enorme. As rosas saltaram pelo ar, a água caiu por toda parte.

 - Você...  - Com face de fúria, desenredou-se uma rosa do cabelo. Recordou que essa chiquilina sempre agia de maneira oculta.  - É mais rápida do que estava acostumado a ser, Rox.

Os braços em jarra, ela o olhou de acima, uma guerreira esbelta e chapeada que jamais aprendeu a vingar-se com frieza.

 - Sou muitas coisas que não estava acostumado a ser.  - Os nódulos lhe doíam como um fogo, mas aproveitou essa dor para anular uma pena muito mais profunda.  - E agora, vagabundo irlandês mentiroso, mais vale que volte a te colocar na caverna que te fabricou faz cinco anos. Se chegar a te aproximar de novo a mim, juro que te farei desaparecer para sempre.

Encantada com essas palavras finais, girou sobre seus calcanhares e soltou um alarido quando Luke' agarrou-lhe um tornozelo. Caiu com força sobre o traseiro e, antes de que alcançasse a utilizar suas unhas e dentes, ele conseguiu sujeitá-la. Tinha esquecido o rápido e forte que era Luke.

Max haveria dito que tinha cometido um engano de cálculo. E essa classe de enganos eram a base de todos os fracassos.

 - Está bem, Rox, podemos falar aqui.  - Embora quase não podia respirar e tinha muita dor, sorriu.

 - Foi seu escolha.

 - Verei-te no inferno...

 - É muito provável  - disse ele e seu sorriso se desvaneceu - . Maldita seja, Roxy, nunca pude resistir.

 - E quando apertou sua boca contra a dela, foi como se os dois se mergulharam no passado.

 

1973, perto do Portland, Maine

 - Apurem-se, passem. Surpreenda-se, maravilhem-se. Observem como o Grande Nouvelle desafia as leis da natureza. Por só um dólar, vejam-no fazer que as cartas dancem no ar. diante de seus olhos, vejam uma formosa mulher serrada em dois.

Enquanto o pregonero continuava com seus anúncios, Luke Calavam se deslizou entre a multidão do parque de diversões, muito atarefado em roubar carteiras. Contava com mãos rápidas, dedos ágeis e, o que é mais importante para um ladrão bem-sucedido, uma completa falta de consciência moral.

Tinha doze anos.

Fazia quase seis semanas que andava pelos caminhos, depois de ter fugido de sua casa. E planejava rumbar para o sul antes de que o úmido verão de Nova a Inglaterra se convertesse em um cru inverno.

Não chegaria muito longe com o pouco que conseguia roubar, pensou, e extraiu uma carteira do bolso de um macacão. A maioria dos assistentes levavam só alguns bilhetes enrugados.

Mas quando chegasse a Miami, as coisas seriam diferentes. detrás de um dos postos, entre as sombras, desfez-se da carteira imitação couro e contou o que tinha conseguido essa noite.

Vinte e oito dólares.

Mas em Miami, a terra do sol, da diversão e do mar com seus enormes escolhos, iria muito melhor. Quão único tinha que fazer era chegar lá, e até o momento só tinha conseguido reunir duzentos dólares. um pouco mais e poderia pagar a passagem em ônibus, pelo menos uma parte do trajeto.

Um fugitivo não podia mostrar-se exigente com respeito ao meio de transporte. Luke sabia perfeitamente que fazer carona e conseguir que um automóvel particular o levasse podia terminar em um relatório policial ou  - quase tão mau como isso - , em um sermão sobre os perigos a que se expõe um menino ao fugir de sua casa.

depois de separar dois bilhetes de um dólar, Luke guardou o resto de sua bota de cano longo no bolso de suas calças puídas. Precisava comer. O aroma de gordura quente o torturava desde fazia quase uma hora. premiaria-se com um hambúrguer recocida e batatas fritas, e baixaria a comida com alguma refrigerante.

Como à maioria dos meninos de doze anos, ao Luke teria encantado dar uma volta no Látego, mas ocultou esse desejo depois de um olhar de desprezo. Outros meninos de sua idade estariam essa noite bem agasalhados em suas camas, enquanto que ele dormiria sob as estrelas, mas ao despertar teriam que fazer o que seus pais lhes ordenassem. Ele, em troca, era livre e não lhe devia obediência a ninguém.

Sentindo-se superior em todo sentido, colocou os polegares nos bolsos de seu Jean e seguiu percorrendo a feira.

Voltou a passar frente ao quartel que mostrava ao mago em tamanho maior que o natural. O GranNouvelle, com seu arbusto de cabelo negro, seus grandes bigodes, seus hipnóticos olhos escuros.

Esses olhos pareciam olhá-lo até dentro, como se fossem capazes de ver e compreender muito sobre o Luke Calavam.

Quase esperava que essa boca grafite lhe falasse e a mão que sustentava o leque de cartas se adiantasse, agarrasse-o pela garganta e o metesse no pôster. E ficaria prisioneiro ali para sempre, atingindo o outro lado do papelão, como o tinha feito contra tantas portas fechadas com chave durante sua infância.

A sozinha ideia o aterrou, e Luke fez uma careta com os lábios.

 - A magia é pura palavrório  - disse, mas em voz muito baixa. E o coração lhe bateu com força quando desafiou a esse rosto pintado.  - Que graça  - prosseguiu, ganhando confiança - . Tirar coelhos estúpidos de galeras estúpidas e fazer uma série de estúpidos jogos de cartas.

Desejava ver esses estúpidos jogos de cartas muito mais do que desejava dar uma volta no Látego. Mais inclusive que enchê-la boca com batatas fritas cheias de ketchup. Luke vacilou e tocou um dos bilhetes que tinha no bolso.

Decidiu que poder demonstrar-se a si mesmo que o mago não era nada do outro mundo, bem valia um dólar. Valeria um dólar poder sentar-se. Na escuridão, justificou-se enquanto tirava o bilhete enrugado e comprava a entrada, certamente haveria vários bolsos nos que poderia colocar os dedos.

A aba de grosa lona da carpa se fechou atrás dele e bloqueou quase toda a luz e o ar de fora. A gente já se encontrava se localizada nas cadeiras de madeira, falando em voz baixa, movendo-se e abanicándose para aliviar esse mormaço.

Ele permaneceu um momento de pé no fundo, e inspecionou o lugar. Com um instinto que se havia aflatado ao longo das últimas seis semanas, descartou a um grupo de meninos e a várias parceiras por considerá-los muito pobres. Escolheu como alvos a algumas mulheres, pois a maioria dos homens estariam sentados sobre seu dinheiro.

 - Perdão  - disse, cortês como um boy scout, enquanto se localizava detrás de uma mulher com aspecto de avó. Assim que se sentou, o Grande Nouvelle apareceu no cenário.

O smoking negro e a camisa branca engomada pareciam desconjurado no calor cansativo dessa carpa. Seus sapatos brilhavam como um espelho e no dedo mindinho da mão esquerda usava um anel de dourado com uma pedra central negra, que titilava com as luzes da cena.

Seu aspecto majestoso se impôs assim que enfrentou a seu público.

O mago não disse nada, mas a carpa pareceu encher-se com sua presença. Seu porte era" tão dramático como se via no pôster, embora seu cabelo negro mostrasse algumas fios chapeados. O Grande Nouvelle levantou as mãos, mostrou as Palmas ao público. Com um movimento de punho, entre seus dedos vazios e estendidos apareceu uma moeda. Outro movimento e outra moeda, e outra, e outra, até que as amplas "V" de seus dedos se encheram com o brilho dourado.

Isso interessou suficientemente ao Luke para fazê-lo inclinar-se para diante e entrecerrar os olhos. Queria saber como se fazia. Era um truque, certamente. Sabia que o mundo estava cheio de truques. Já tinha deixado de perguntar-se por que, mas não de perguntar-se como.

As moedas se converteram em bolas de cores que foram trocando de tamanho e de tom. multiplicaram-se, subtraíram-se, apareceram e desapareceram enquanto os espectadores aplaudiam.

Custou-lhe se separar o olhar do espetáculo, mas lhe funcionou muito singelo tirar seis dólares da carteira da avó. depois de meter-se no bolso o fruto de seu trabalho, Luke trocou de lugar e se localizou detrás de uma loira cuja carteira de ráfia estava descuidadamente apoiada no chão, junto a ela.

Enquanto os jogos de prestí digitação esquentavam ao público, Luke conseguiu outros quatro dólares. Mas não podia concentrar-se. disse-se então que esperaria um momento antes de dedicar-se à senhora gorda sentada a sua direita, e se dispôs a olhar a função.

Durante os seguintes momentos, Luke foi só uma criatura, os olhos muito abertos pelo sobressalto, enquanto o mago abria em leque um maço de cartas, passava uma mão sobre a parte superior, e a outra por debaixo, de modo que o maço aberto ficava suspenso no ar. E, com um elegante movimento de suas mãos, as cartas se balançavam, caíam, giravam.

 - Você  - ressonou a voz do Nouvelle. Luke ficou paralisado ao sentir que esses olhos escuros o enfocavam.

 - Parece um garotinho acordado. Necessito alguém inteligente...  - Leve pestanejo desses olhos.  - Um menino honesto que me ajude no seguinte jogo. Sobe aqui.

 - Nouvelle recolheu as cartas pendentes e lhe fez um gesto com a mão.

 - Vê, moço. Vê.  - Um cotovelo se incrustou nas costelas do Luke.

Avermelhado da cabeça aos pés, Luke ficou de pé. Sabia que era perigoso atrair a atenção da gente. Mas pensou que se fixariam mais nele se se negava a subir.

 - Escolhe uma carta  - disse-lhe Nouvelle quando Luke subiu ao cenário - . Qualquer carta.

Voltou a abrir o maço em abano frente ao público, para que vissem que era um maço comum. Com rapidez e habilidade, Nouvelle as mesclou e as estendeu sobre a pequena mesa.

 - Qualquer carta  - repetiu e Luke franziu o sobrecenho pela concentração quando tomou uma - . Olhe para nosso amável público  - instruiu-lhe Nouvelle - . E sutiã a carta para que todos possam vê-la. Bem, excelente.

Rendo para si, Nouvelle tomou o resto do maço e voltou a manipulá-lo com seus dedos largos e inteligentes.

 - Agora...  - Os olhos fixos no Luke, estendeu-lhe o maço.  - Coloca seu carta em qualquer parte. Onde te ocorra. Excelente.  - Seus lábios estavam curvados em um sorriso quando lhe ofereceu o maço ao moço.  - Mescla as cartas como quer, por favor.  - O olhar do mago permaneceu fixa no Luke enquanto o menino mesclava as cartas.  - Agora...  - Nouvelle colocou uma mão sobre o ombro do Luke.  - Colocava sobre a mesa, por favor. Você gostaria de cortar, ou quer que o eu faça?

 - Eu o farei.  - Luke tinha as mãos sobre as cartas, para assegurar-se de que não lhe fizessem nenhum truque. Sobre tudo quando estava tão perto do mago.

 - Seu carta é a de acima? Luke a deu volta e sorriu.

 - Não.

Nouvelle pareceu surpreso enquanto o público ria com dissimulação.

 - Seguro? Será, então, a de abaixo? Luke girou o maço e mostrou a carta de abaixo.

 - Não. Parece que lhe falhou o truque, senhor.

 - Que estranho  - murmurou Nouvelle, tocando o bigode - . É um menino mais vivo do que imaginei. Todo parece indicar que ganhou. Mas a carta que escolheu não está nesse maço. Porque está...  - Estalou os dedos, girou o punho e tomou o oito de corações do ar.  - Aqui.

Enquanto Luke o olhava, aturdido, o público prorrompeu em um aplauso fechado. Aproveitando o estrondo, Nouvelle disse ao Luke em voz baixa.

 - Vêem atrás do cenário depois do espetáculo. E isso foi todo. Com um golpecito, o mago enviou ao moço de volta a seu assento.

Durante os seguintes vinte minutos, Luke esqueceu tudo o que não fora magia. Observou a uma pequena ruiva dançar sobre o cenário com malha com lentejoulas. Sorriu quando ela se meteu em uma galera enorme e se transformou em um coelho branco. sentiu-se adulto e divertido quando a menina e o mago iniciaram uma discussão em brincadeira sobre a hora em que ela devia deitar-se. A pequena agitou sua cabeleira anelada e vermelha e deu patadas contra o piso. Com um suspiro, Nouvelle fez girar sobre ela uma capa negra e deu três toquezinhos com sua varinha mágica. A capa caiu ao chão e a menina desapareceu.

Como broche, Nouvelle serrou pela metade a uma loira de generosas curvas com breve malha de bailarina.

Um entusiasta espectador saltou e gritou:

 - Né, Nouvelle, se terminou com a senhora, eu ficarei com as duas metades!

O mago separou à dama dividida em dois. A uma ordem dela, ela moveu os dedos da mão e do pé. Quando as duas partes da caixa voltaram a unir-se, Nouvelle tirou os divisores de aço, moveu a mão e abriu a tampa.

Magicamente recomposta, a dama saltou ao chão em meio de um aplauso estrondoso.

Luke tinha esquecido todo o referente à carteira da mulher gorda, mas decidiu que lhe tinha tirado bom proveito ao preço da entrada.

Enquanto o público saía da carpa para entreter-se em algum dos jogos ou olhar boquiaberto ao Sahib o Encantado de Serpentes, Luke se dirigiu ao cenário. Posto que tinha sido algo assim como um assistente para o truque das cartas, pensou que possivelmente Nouvelle lhe ensinaria como fazê-lo.

 - Moço.

Luke levantou a vista. Desde seu lugar privilegiado, o homem parecia um gigante. Um metro noventa e cinco de estatura e cento e dezoito quilos de puro músculo. A face barbeada era ampla como um prato, os olhos pareciam duas passas de uva. De sua boca pendurava um cigarro sem filtro.

Herbert "Mouse" Patrinski se sentia seguro.

Instintivamente, Luke adotou uma pose altiva: o queixo para diante, os ombros jogados para trás, as pernas abertas e bem afirmadas no piso.

 - Sim?

Por toda resposta, Mouse fez um movimento de cabeça e se afastou. Luke duvidou um instante e logo o seguiu.

Grande parte do encanto gritão da feira se voltou cinza à medida que foram cruzando o pasto amarelado e pisoteado em direção ao amontoamento de caminhões e casas rodantes.

O trailer do Nouvelle parecia um puro sangue em meio de um campo de matungos. Era longo e elegante, e sua pintura negra brilhava à luz da lua. Um pôster prateado proclamava O GRANDE NOUVELLE, PRESTIDIGITADOR EXTRAORDINÁRIO.

Mouse atingiu uma vez à porta antes de abri-la. Quando subiu detrás dele, Luke percebeu uma fragrância que curiosamente lhe fez acordar a uma igreja.

O Grande Nouvelle já se trocou de roupa e estava sentado em um sofá estreito vestido com uma bata negra de seda. Finas espirais de fumaça ascendiam preguiçosamente de meia dúzia de varinhas de incenso. Em segundo plano se ouvia música de cítara enquanto Nouvelle fazia girar cinco centímetros de conhaque em sua taça.

Luke colocou as mãos nos bolsos e observou o que o rodeava. Sabia que acabava de entrar em uma casa lhe rodem, mas flutuava ali a intensa ilusão de um santuário exótico. Isso se devia, sem dúvida, aos coloridos almofadões empilhados aqui e lá, às pequenas esteiras tecidas disseminadas como ao azar sobre o piso, aos cortinados de seda das janelas, ao misterioso oscilar da luz das velas.

E, certamente, ao mesmo Maximillian Nouvelle.

 - Ah.  - Com seu sorriso divertido semioculta por seu bigode, Max brindou pelo moço.  - Me alegro de que pudesse vir.

Para demonstrar que não se sentia impressionado, Luke se encolheu de ombros.

 - Foi um espetáculo bastante bom.

 - Seu elogio me faz me ruborizar  - disse secamente Max e com a mão indicou ao Luke que se sentasse - . Interessa-te a magia, senhor...?

 - Sou Luke Calavam. Pensei que ver alguns truques bem valia um dólar.

 - Um total avultado, concordo contigo.  - Lentamente, os olhos fixos no Luke, Max tomou um sorvo de seu conhaque.  - Mas confio em que terá sido um bom investimento para você.

 - Investimento?  - Intranqüilo, Luke olhou para Mouse, quem bloqueava a porta.

 - Saiu com mais dólares dos que entrou. Em finanças, chamaríamos a isso um investimento rápido e frutífero.

Luke resistiu o desejo de escapar e olhou ao Max aos olhos. Bem feito, pensou Max. Muito bem feito.

 - Não sei de que fala.

 - Sente-se.  - Max só pronunciou essa única palavra e levantou um dedo. Luke se retesou mas obedeceu.  - Verá você, senhor Calavam... ou posso te chamar Luke? Um bom nome. Deriva do Lucius, a palavra latina que significa luz.  - Riu entre dentes e bebeu outro sorvo.

 - Verá Luke, enquanto você me olhava , eu olhava a você. Não estaria bem que te perguntasse quanto obteve, mas calculo que entre oito e dez dólares.

 - Esboçou um sorriso encantador.  - Nada mal, para uma sozinha função.

Luke entrecerrou os olhos e sentiu que pelas costas lhe corria a transpiração.

 - Está-me chamando você ladrão?

 - Não se te ofende. depois de todo, é meu convidado. Posso te oferecer algo de beber?

 - Do que se trata, senhor?

 - Já chegaremos a isso. Mas primeiro, o primeiro, digo sempre. Como eu também fui menino, sei o que é o apetite de um garoto.  - E esse menino era tão fraco que Max quase podia lhe contar as costelas debaixo da suja camiseta.  - Mouse, acredito que a nosso convidado gostaria de comer um ou dois hambúrgueres, bem servidas.

 - Está bem.

Max ficou de pé quando Mouse saiu pela porta.

 - Um refresco?  - ofereceu e abriu a pequena geladeira. Não precisava vê-lo para saber que os olhos do pequeno olhavam para a porta.  - Pode fugir, certamente  - disse com tom casual enquanto tirava uma garrafa - . Mas duvido que o dinheiro que tem oculto em seu sapato direito te leve muito longe. Ou pode descansar e desfrutar de uma comida civilizada e de uma boa conversação.

Luke baralhou a possibilidade de fugir. Seu estômago começou a lhe fazer ruídos. No caso de, aproximou-se um pouco à porta.

 - O que é o que quer?

 - Seu companhia, é obvio  - disse Max enquanto lhe servia um refrigerante com gelo. Suas sobrancelhas se elevaram apenas ao notar um relampejo nos olhos do Luke. De modo que tinha sido assim de mau, pensou enquanto sorria. Procurando lhe fazer sentir ao moço que estaria a salvo dessa classe de riscos, Max chamou o Lily.

Ela atravessou uma cortina de seda cor carmesim. Ao igual a Max, também usava uma bata. Era de cor rosa pálido, festoneada com plumas cor fúcsia, ao igual às chinelas com taco que cobriam seus pés. Ao deslocar-se deixou no ar uma esteira do Chanel.

 - Temos um convidado  - disse com voz aguda.

 - Sim, querida Lily.  - Max tomou a mão, a levou aos lábios e se atrasou nela.  - Apresento ao Luke Calavam. Luke, esta é meu invalorable assistente e adorada companheira, Lily Bate.

Luke sentiu um nó na garganta. Jamais tinha visto uma beleza igual. Era toda curvas e fragrância e seus

Olhos e boca estavam pintados de maneira exótica. Sorriu, movendo umas pestanas incrivelmente largas.

 - Prazer em conhecê-lo  - disse e se aproximou mais ao Max quando lhe aconteceu um braço ao redor da cintura.

 - Eu também, senhora.

 - Luke e eu temos que falar de algumas coisas. Não quero que me espere levantada.

 - Não me importa.

Ele a beijou com suavidade, mas com tal ternura, que Luke sentiu suas bochechas quentes antes de se separar o olhar.

 - Je t'aime, MA belle. Vai-te a dormir  - murmurou ele.

 - Está bem.  - Mas seus olhos lhe disseram, com toda claridade, que o esperaria acordada.  - Um gosto te conhecer, Luke.

 - O mesmo digo, senhora  - alcançou a dizer ele quando ela desapareceu do outro lado da cortina vermelha.

 - Uma mulher maravilhosa  - comentou Max enquanto oferecia ao Luke o copo - . Roxanne e eu estaríamos perdidos sem ela. Não é verdade, MA petite?

 - Papaizinho.  - Roxanne arrastou debaixo da cortina e ficou de pé de um salto.  - Eu estava tão quieta e calladita, que nem sequer Lily me viu.

 - Mas eu te cheirei.  - lhe sorrindo, Max se atingiu o nariz com um dedo.  - Seu xampu. Seu sabão. Os crayones com que esteve desenhando.

Roxanne fez uma careta e se aproximou com seus pés descalços.

 - Sempre sabe.

 - E sempre saberei quando meu pequeñita está perto.  - Elevou-a e a sentou sobre seu quadril.

Luke reconheceu à pequena do ato, embora agora estava vestida para a cama com um longo camisola franzida. Sua cabeleira frisada cor vermelha fogo, chegava-lhe à costas. Enquanto Luke bebia seu refrigerante, ela passou um braço pelo pescoço de seu pai e ficou a estudar ao convidado com seus enormes olhos verde mar.

 - Parece mau  - decidiu Roxanne, e seu pai riu entre dentes e a beijou na têmpora.

 - Estou seguro de que te equivoca. Roxanne refletiu e decidiu contemporizar.

 - Parece que poderia ser mau.

 - Muito mais exato.  - Max a parou no piso e deslizou uma mão por seu cabelo.  - Agora saúda-o com cortesia.

Ela inclinou a cabeça e depois a inclinou como uma pequena rainha que concede uma audiência.

 - Olá.

 - Sim. Olá.  - Que molequa insolente, pensou Luke, e voltou a ficar avermelhado quando seu estômago fez ruído.

      - Suponho que terá que lhe dar de comer  - disse Roxanne, como se Luke fora um cão abandonado ao que se encontrou revolvendo o lixo - . Mas não sei se deveríamos ficar com ele.

Metade exasperado e metade divertido, Max lhe pegou um tapinha no traseiro.

 - Vai-te à cama, mulher anciã.

 - Uma hora mais, por favor, Papai. Ele negou com a cabeça e se inclinou para beijá-la.

 - Bonne nuit, bambine.

As sobrancelhas do Roxanne se juntaram formando uma pequena ruga vertical entre elas.

 - Quando for grande, ficarei acordada toda a noite se tiver vontades.

 - Estou seguro de que sim, e mais de uma vez. Mas até então...  - e seu pai assinalou a cortina.

Roxanne tirou tromba, mas obedeceu. Separou-se a cortina de seda, e olhou por sobre seu ombro.

 - De todos os modos, quero-te.

 - E eu a você.  - Max sentiu que seu coração se enchia de afeto. Sua filha. A única coisa que tinha feito sem truques nem efeitos de magia.  - Está crescendo  - disse Max para si.

 - Merda  - saltou Luke, lhe falando com seu refrigerante - . Não é mais que uma menina.

 - Estou seguro que isso deve lhe parecer com uma pessoa de tantos anos e experiência como você.  - O sarcasmo era tão sutil, que Luke não o percebeu.

 - Os meninos são uma lata. E, além disso, custam dinheiro, não é assim?  - Em suas palavras penetrou um antigo rancor.  - Todo o tempo se entremetem e dão trabalho. A gente os tem sobre tudo porque se esquentam muito para pensar nas conseqüências quando se deitam.

Max se passou um dedo pelo bigode enquanto levantava sua taça de conhaque.

 - Uma filosofia muito interessante. Algum dia temos que analisá-la em profundidade. Mas esta noite... Ah, seu comida.

Confundido, Luke olhou para a porta. Seguia fechada. Não ouviu nada. Só segundos mais tarde pôde perceber umas pegadas e um leve batido na porta. Mouse entrou com uma bolsa de papel marrom, com algumas mancha de gordura. O aroma fez que ao Luke lhe fizesse água a boca.

 - Obrigado, Mouse.  - Pela extremidade do olho, Max viu que Luke se continha para não arrebatar a bolsa.

 - Quer que fique por aqui?  - perguntou Mouse e colocou a comida sobre a pequena mesa redonda que estava frente ao sofá.

 - Não é necessário. Estou seguro de que está cansado.

 - Está bem. boa noite, então.

 - boa noite. Por favor  - prosseguiu Max quando Mouse teve fechado a porta detrás dele - , te sirva.

Luke colocou uma mão na bolsa e tirou um hambúrguer. Em um intento de parecer indiferente, deu a primeira dentada com suavidade. Depois, antes de poder conter-se, devorou o resto. Max se tornou para trás no sofá, fez girar o conhaque em sua taça e entrecerrou os olhos.

O menino comia como um lobo. Max supôs que estava faminto de muitas outras coisas também. Sabia perfeitamente o que era ter fome... de muitas coisas. Porque confiava em seus instintos, e no que acreditou ver atrás do desafio nos olhos do moço, ofereceria-lhe uma oportunidade.

 - Cada tanto faço um ato de mentalismo  - disse Max - . Talvez não saiba.

      Como tinha a boca cheia, Luke só pôde grunhir.

 - Parecia-me que não. Se quiser, farei-te então uma demonstração. Foi de seu casa e faz um tempo que está viajando.

Luke tragou e arrotou.

 - equivoca-se. Meus pais têm uma granja a poucos quilômetros daqui. Só vim a me divertir na feira.

Max abriu os olhos. Neles havia força, poder, e algo que fazia que esse poder fora mais intenso.

 - Não me minta. Faz-o com outros, se não ficar mais remédio, mas não comigo. Fugiu de seu casa.  - moveu-se com tal celeridade, que Luke não pôde esquivar a mão que se fechou como aço sobre seu punho.  - me diga, deixou atrás a uma mãe, um pai, um avô com o coração destroçado?

 - Já lhe disse...  - As mentiras ardilosas, as que tinha aprendido a dizer com tanta facilidade, murcharam-se em sua língua. São esses olhos, pensou em um ataque de pânico. Iguais aos olhos do pôster, que pareciam olhar dentro dele e vê-lo todo.  - Não sei quem é meu pai  - cuspiu essas palavras enquanto todo seu corpo começava a tremer com vergonha e fúria - . E não acredito que tampouco ela saiba. Nem que lhe importe. Talvez lamente que eu me tenha ido porque não tem a ninguém perto para que lhe vá procurar uma garrafa ou lhe roube uma se não ter o dinheiro para comprá-la. E é possível que o filho de puta com o que vive o lamente porque já não tem a quem pegar.  - Em seus olhos lhe queimaram lágrimas que não sabia que tinha.  - Não voltarei. Juro Por Deus que o matarei a você se tenta me obrigar a voltar para isso.

Max soltou a pressão de sua mão sobre o punho do Luke. Sentiu a pena do moço, tão parecida com a que ele tinha sentido a sua idade.

 - Esse homem te atingia.

 - Quando conseguia me agarrar.  - Havia desafio inclusive nisso. As lágrimas brilharam um instante e logo se secaram.  - Vou ao sul. A Miami.

 - Mmmm.  - Max tomou o outro punho do Luke e girou as mãos para cima. Quando sentiu que o moço se retesava, mostrou seu primeiro sinal de impaciência.  - Não me interessam os homens sexualmente  - disse - . E embora assim fora, não me rebaixaria tocando a uma criatura.  - Luke levantou os olhos, e Max viu algo neles, algo que nenhum menino de doze anos deveria ter conhecido.  - Esse homem abusou de você em outros sentidos?

Luke se apressou a negar com a cabeça, muito humilhado para falar.

Mas Max chegou à conclusão de que tinham abusado dele. Ou, ao menos, de que alguém tinha tentado fazê-lo. Isso teria que esperar, até que existisse confiança entre os dois.

 - Tem boas mãos, dedos rápidos e ágeis. Seu sentido do ritmo e da oportunidade é também bastante bom para alguém de tão pouca idade. Eu poderia utilizar essas qualidades, e possivelmente te ajudar às refinar, se aceita trabalhar comigo.

 - Trabalhar? Que classe de trabalho?

 - De todo um pouco. -Max voltou a sentar-se e sorriu.  - Talvez você goste de aprender alguns truques, jovem Luke. Acontece que dentro de poucas semanas enfiamos para o sul. Pode trabalhar para te pagar o quarto e a comida, e ganhar, além disso, um pequeno salário se lhe merecer isso. Certamente, eu teria que te pedir que te abstivera de roubar carteiras por um tempo. Mas duvido que algo que te pedisse arruinasse seu estilo.

Ao Luke doía o peito. Só quando deixou sair o ar se deu conta de que tinha estado contendo a respiração até que os pulmões lhe queimavam.

 - Estaria no espetáculo de magia? Max voltou a sorrir.

 - A resposta é não. Entretanto, ajudaria na preparação do espetáculo e no desarmado. E aprenderia, se é que tem facilidade para essas coisas. Com o tempo, pode aprender muito.

Luke deu voltas ao redor do oferecimento como se rodeasse uma serpente adormecida.

 - Suponho que poderia pensá-lo.

 - Isso sempre é prudente.  - Max ficou de pé e se separou sua taça vazia.  - por que não dorme aqui? Pela manhã decidirá. Conseguirei-te roupa de cama  - disse Max e desapareceu sem esperar resposta.

Luke pensou que podia ser uma armadilha, embora ainda não a descobrisse. E seria tão bom dormir dentro por uma vez, com o estômago cheio. estirou-se, dizendo-se que não era mais que para provar o terreno. Mas lhe fecharam os olhos. A luz das velas tinha um efeito hipnótico sobre ele.

disse-se que, se assim o quisesse, partiria pela manhã. Ninguém podia obrigá-lo a ficar. Já ninguém podia obrigá-lo a fazer nada.

Esse foi seu último pensamento antes de ficar dormido. Não ouviu que Max retornava com um travesseiro e lençóis limpa. Não sentiu o puxão quando lhe tiraram os sapatos. Nem sequer murmurou nem se moveu quando lhe levantaram muito suavemente a cabeça e a depositaram sobre esse travesseiro com capa de linho e um deixo a fragrância de lilás.

 - Sei de onde vem  - murmurou Max - . Pergunto-me aonde irá.

Durante um momento, ficou observando ao moço dormido: notou os fortes ossos da face, a mão que estava fechada em um punho em atitude defensiva, a marcado ascensão e descida desse frágil peito que falava de um esgotamento total.

Deixou ao Luke dormindo e foi deitar se nos braços ternos do Lily.

 

Luke despertou por etapas. Primeiro ouviu o gorjeio dos pássaros no exterior, depois sentiu a carícia cálida do sol sobre sua face. A seguir cheirou o aroma do café e se perguntou onde estava.

Então abriu os olhos, viu a menina e recordou.

Estava parada entre a mesa redonda e o sofá onde ele se encontrava recostado; olhava-o com os lábios apertados e a cabeça inclinada. Seus olhos se viam brilhantes e curiosos, com uma curiosidade não muito cordial.

Luke observou algumas peca na ponte do nariz que não lhe tinha notado quando estava no cenário ou sob a luz das velas.

Tão cauteloso como ela, devolveu-lhe o olhar enquanto lentamente se passava a língua pelos dentes. Sua escova de dentes estava na mochila roubada que tinha escondido entre alguns arbustos próximos. Era muito suscetível com respeito à higiene de seus dentes, um hábito diretamente relacionado com seu medo pânico ao dentista.

Estava desejando beber um pouco desse café quente e estar só.

 - Que demônios olha?

 - A você.  - Em realidade, sua intenção tinha sido observá-lo com atenção, e a decepcionou um pouco descobrir que se despertou antes de que ela tivesse oportunidade de fazê-lo.  - Está fraco. Lily diz que tem uma face linda, mas não me parece isso.

 - E você é fraca e feia. te largue.

 - Eu vivo aqui  - disse ela com ares de grandeza - . E se você eu não gosto, posso fazer que meu papai te jogue.

 - À merda que funcionou má.

 - Essa é uma má palavra -disse Roxanne e colocou face de escandalizada. Ou isso pareceu.  - Eu sim que posso ser educada e cortês. Porque sou a proprietária de casa, trarei-te uma taça de café. Já o preparei.

 - Você?

 - É meu trabalho  - disse e se dirigiu à cozinha - . Porque Papai e Lily dormem até tarde pela manhã, e eu não gosto. Quase nunca preciso dormir. Nem sequer quando era bebê. É algo que tem que ver com o metabolismo  - disse, encantada com essa palavra que seu pai lhe tinha ensinado.

 - Sim. Está bem. -Olhou-a servir o café. Pensou que o mais provável era que tivesse gosto a barro, e esperou o momento adequado para dizer-lhe

 - Creme e açúcar? -perguntou ela como o faria a aeromoça de um avião.

 - Muito das duas coisas. 

     Tomou a palavra e, depois, com a língua entre os dentes, levou-lhe a taça à mesa.

 - Com o café da manhã também pode tomar suco de laranja.  - Embora sem muita simpatia para seu visitante, Roxanne estava encantada com a idéia de poder jogar a amável dona-de-casa, e se imaginou usando uma das largas batas de seda do Lily e seus sapatos de taco alto.  - Agora me prepararei um especial para mim.

 - Fantástico.

 - Luke se preparou para fazer uma careta ao provar o café, mas lhe surpreendeu encontrá-lo saboroso.

 - Está muito bom  - murmurou, e Roxanne lhe dedicou um sorriso extremamente feminino.

 - Tenho uma mão especial para o café. Todo mundo o diz.  - Agora com mais entusiasmo, colocou fatias de pão no torrador e depois abriu a geladeira.  - Como é que não vive com seu mãe e seu pai?

 - Porque não quero.

 - Mas tem que fazê-lo  - assinalou Roxanne - . Embora não queira.

 - Um corno. Além disso, não tenho pai.

 - OH  - disse ela e apertou os lábios. Embora só tinha oito anos, sabia que essas coisas aconteciam. Também ela tinha perdido a sua mãe, embora não a recordava absolutamente. E posto que Lily tinha cheio esse lugar à perfeição, não era uma perda que a tivesse sacudido muito. Mas a idéia de estar sem pai sempre a entristecia e a assustava.  - Adoeceu, ou teve um acidente espantoso?

 - Não sei e não me importa. Deixa de fazer perguntas.

Em qualquer outra circunstância, essa resposta a teria enfurecido. Mas agora, em troca, caiu-lhe bem.

 - Que parte do espetáculo você gostou mais?

 - Não sei. Os jogos de cartas foram excelentes.

 - Eu sei um. lhe posso mostrar isso Com cuidado, verteu suco em copos de cristal.  - Depois do café da manhã o farei.  - E, com a serenidade de uma rainha em seu trono, Roxanne se instalou sobre um almofadão de cetim e ficou a beber o suco.  - por que guardas o dinheiro em um sapato, quando tem bolsos?

 - Porque ali está mais seguro.  - E notou que era certo, que estava todo, até o último dólar. sentou-se em seu lugar e observou seu prato: nele havia uma torrada lubrificada com manteiga e mel, polvilhada com canela e açúcar e atalho em dois prolixos triângulos.

Uma hora mais tarde, quando Max se abriu passo pela cortina, viu-os os dois sentados cotovelo a cotovelo no sofá. Sua filhinha tinha uma pequena pilha de bilhetes frente a ela e com perícia trocava de lugar três cartas sobre a mesa.

 - Muito bem, onde está a rainha?

Luke se soprou o cabelo dos olhos, vacilou um momento, e depois atingiu com o dedo a carta do meio.

Muito comprazida consigo mesma, Roxanne deu volta a carta e riu para si quando ele lançou uma imprecação.

 - Roxy  - disse Max ao aproximar-se deles - . É uma grosseria depenar a um convidado.  - Sorriu e lhe deu um golpecito no queixo.  - Minha pequena estelionatária.  - E, depois: -Como dormiu, Luke?

 - Muito bem.  - Tinha perdido cinco dólares a mãos dessa tramposita. E isso o mortificava.

 - Já vejo que comeste. Se decidiu ficar, colocarei-te em mãos de Mouse. O te atribuirá alguma tarefa.

 - Está bem.  - Mas sabia que era melhor não parecer ansioso. Pelo general, quando um se mostra impaciente, nesse momento lhe serram o piso.  - Bom, ao menos por um par de dias.

 - Esplêndido. antes de começar te darei uma lição grátis.  - Fez uma pausa para servir-se café, cheirá-lo com expressão apreciativa e logo prová-lo.  - Nunca aposte contra a mão da casa, a menos que te convenha perder. Necessitará roupa?

Embora ele não imaginava de que maneira podia convir perder, não comentou nada a respeito. Disse:

 - Tenho algumas coisas.

 - Está bem, então. Pode ir as buscar. E depois começaremos.

Uma das vantagens de ser um menino como Luke era não ter expectativas. Sempre acreditou que era mais comum receber um mau pagamento que uma boa recompensa.

Assim quando o taciturno Mouse o colocou a levantar, arrastar, limpar, pintar e procurar coisas, obedeceu ordens sem queixa nem conversação.

Não tinha nada de excitante esfregar o enorme trailer negro, ou ajudar a Mouse a trocar as velas da pick-up Chevy que o arrastava.

Mouse tinha a cabeça e os ombros colocados debaixo do capô, e escutava o zumbido do motor com os olhos entrecerrados. Cada tanto cantarolava uma melodia, ou grunhia e fazia alguns outros ajustes.

Luke não sabia nada de automóveis, e não imaginava por que deveria sabê-lo quando faltavam muitos anos para que pudesse dirigir um. O cantarolo e os movimentos de Mouse começavam a colocá-lo nervoso.

 - Pois a mim, o motor me soa muito bem. Mouse abriu os olhos. Tinha gordura nas mãos, em sua face de lua cheia e em sua camiseta branca.

 - A mim não  - corrigiu-o e voltou a fechar os olhos. Fez pequenos ajustes, com a suavidade com que um homem apaixonado inicia a uma virgem. O motor lhe ronronou.  - Preciosura  - disse-lhe em voz baixa.

Para Mouse, não havia nada no mundo mais fascinante e sedutor que um motor bem azeitado.

 - Deus, se não ser mais que um estúpido caminhão. Mouse voltou a abrir os olhos e neles apareceu um sorriso. Tinha pouco mais de vinte anos, e por seu tamanho e sua forma de ser, tinha sido considerado um inseto raro por outros meninos no asilo estatal no que cresceu. Não confiava nem lhe tinha simpatia a muitas pessoas, mas já tinha desenvolvido um afeto tolerante pelo Luke.

 - Inteligente.  - E, para demonstrá-lo, Mouse fechou o capô e rodeou a tromba do veículo para tirar as chaves do contato e meter-lhe no bolso. Jamais tinha esquecido o orgulho que sentiu a primeira vez que Max lhe confiou as chaves do automóvel.

      - Andará perfeitamente esta noite quando enfiarmos para o Manchester.

 - Quanto tempo estaremos ali?

 - Três dias.  - Mouse tirou um pacote do Pall Mall de sua manga arregaçada, sacudiu-o e extraiu um cigarro com os dentes antes de oferecer o pacote ao Luke, quem aceitou com o ar mais natural possível.  - Esta noite teremos que trabalhar duro para carregar todo.

Luke deixou que o cigarro lhe pendurasse da canto da boca e esperou a que Mouse acendesse um fósforo.

 - Como é que alguém como o senhor Nouvelle anda em feiras como esta?

O fósforo brilhou quando Mouse o aproximou do extremo de seu cigarro.

 - Tem suas razões  - disse, sustentou o fósforo na ponta do do Luke, e depois se tornou para trás sobre o caminhão e começou a sonhar acordado com esse trajeto prolongado e sereno.

Luke aspirou, abafou-se, começou a tossir e cometeu o engano de inalar a fumaça. Tossiu tanto que os olhos lhe encheram de lágrimas, mas quando Mouse o olhou, lutou por manter sua dignidade.

 - Não é a marca que chão fumar.  - Sua voz era um chiado agudo, mas decidiu aspirar outra baforada. Esta vez, tragou a fumaça. Foi como se os olhos lhe afundassem na cabeça e tratassem de reunir-se com o estômago que sentia na boca.

 - Temos problemas?  - perguntou Max ao aproximar-se. Lily se separou de seu lado para inclinar-se junto ao Luke.

Viu o cigarro aceso que tinha caído das mãos do Luke e disse:

 - Que fazia esta criatura com uma dessas coisas espantosas?

 - É minha culpa  - disse Mouse, olhando fixo seus próprios pés - . Estava distraído quando lhe ofereci um cigarro. É minha culpa.

 - O não tinha obrigação de aceitá-lo.  - Max sacudiu a cabeça enquanto Luke, inclinado, lutava contra as náuseas.  - E agora o está pagando. Ofereço-te outra lição grátis: não aceite o que não é capaz de agüentar.

 - Deixa tranqüilo ao menino  - disse Lily movida por seu instinto maternal e apertou o rosto frio e pegajoso do Luke contra seu peito. Depois, fulminou com o olhar ao Max.  - Só porque você não estiveste doente nem um só dia de seu vida, não é motivo para não te colocar no lugar do outro.

 - Tem razão  - disse Max e reprimiu um sorriso - . Mouse e eu lhe encomendamos isso a seu terno cuidado.

 - Não se preocupe por nada, querido meu. Só precisa te deitar um momento, isso é todo.

 - Sim, senhora.  - Queria deitar-se. Seria mais fácil morrer desse modo.

 - Não tem que me dizer "senhora", coração. me chame Lily como todo mundo.  - Tinha-o apertado debaixo de um braço quando abriu a porta da casa lhe rodem.  - te deite no sofá. Eu irei procurar um pano bem frio.

Com um grunhido, Luke se deixou cair de barriga para baixo.

 - Aqui tem, querido.  - Armada com um pano úmido e uma bacia, no caso de, Lily se ajoelhou junto a ele. depois de lhe tirar o lenço transpirado que lhe rodeava a cabeça, apoiou-lhe o pano frio sobre a frente.  - Logo se sentirá melhor, prometo-lhe isso.

Luke só pôde lhe responder com um gemido. Lily seguiu falando enquanto dava volta o pano e o passava pela face e o pescoço.

 - Descansa. Assim, querido, muito bem. Dorme. Quando despertar sentirá melhor.

Lily se deu o gosto de lhe passar os dedos pelo cabelo. Era grosso e longo e suave como a seda. Pensou que se ela e Max tivessem conseguido ter um filho juntos, poderia ter tido um cabelo assim, Mas embora seu coração era fértil para amar a toda uma ninhada de meninos juntos, seu útero era estéril.

O garotinho tem uma face formosa, pensou Lily. Sua pele estava dourada pelo sol e era rígida como a de uma garota. debaixo dela havia ossos bons e fortes. E essas pestanas. Lily voltou a suspirar. Mas por atrativo que fora o moço, e por muito que o coração do Lily desejasse encher sua vida com meninos, não estava segura de que Max fizesse bem em recebê-lo.

Não era um órfão como Mouse. depois de todo, Luke tinha mãe. E embora a vida do Lily tinha sido difícil, funcionava-lhe impossível acreditar que uma mãe não faria tudo o que estivesse em sua mão para proteger, defender e amar a seu filho.

Com suavidade e ternura, começou a lhe tirar a camisa suada. Seus dedos ficaram paralisados pelo que viu. E enquanto de seus olhos brotavam lágrimas de dor e de raiva, voltou a cobri-lo.

Max permanecia de pé frente ao espelho que tinha instalado sobre o cenário e ensaiava sua rotina de prestidigitação. Observava no espelho o que o público veria à medida que as moedas apareciam e desapareciam entre seus dedos.

Levantou as mãos, atingiu uma contra a outra, e todas as moedas desapareceram, salvo a primeira com que tinha iniciado o jogo.

 - Nada em minhas mangas  - murmurou e se perguntou por que a gente sempre acreditava essas palavras.

 - Max!  - Quase sem fôlego pela carreira, Lily se apressou a chegar ao cenário.

     Para o Max foi  - sempre o era -  um prazer olhá-la.

     Lily com shorts ajustados, com camiseta ajustada, com as unhas dos pés pintadas aparecendo pelas poeirentas sandálias, era um espetáculo que dava gosto contemplar. Mas quando tomou a mão para ajudá-la a subir ao cenário, e viu sua face, seu sorriso se desvaneceu.

 - O que ocorreu? É Roxanne?

 - Não, não.  - Alterada, jogou-lhe os braços ao redor do pescoço e se apertou forte contra ele.  - Roxy está muito bem. Mas esse garotinho... Max, esse pobre garotinho...

Então ele pôs-se a rir e lhe deu um abraço carinhoso.

 - Lily, meu amor, sentirá-se incômodo por um tempo, e muito desventurado pela vergonha durante um período bastante mais largo, mas lhe passará.

 - Não, não é isso.  - Com as lágrimas rodando já por suas bochechas, apertou a face contra o pescoço do Max.

 - Fiz que se deitasse no sofá, e quando ficou dormido quis lhe tirar a camisa. Estava empapada de transpiração, e eu queria que estivesse cômodo.

 - Fez uma pausa e respirou fundo.  - Suas costas, Max, não imagina. Cheia de cicatrizes, algumas antigas e outras feridas muito recentes que ainda não terminaram que cicatrizar. De uma correia, ou um cinturão, ou Deus sabe o que.  - secou-se as lágrimas com a mão.  - Alguém deve ter golpeado espantosamente a esse moço.

 - Seu padrasto  - disse Max com voz apagada - . Não acreditei que fora tão grave. Acredita que terei que levá-lo a um médico?

 - Não.  - Com os lábios bem apertados, ela sacudiu a cabeça.  - Em sua maioria são cicatrizes, cicatrizes horríveis. Não entendo como alguém pôde lhe fazer isso a uma criatura.  - Choramingou e aceitou o lenço que Max lhe oferecia.  - Eu não estava segura de que tivesse feito o correto ao recebê-lo. Pensei que sua mãe estaria se desesperada por ter notícias dele.  - Seus olhos doces se endureceram como o vidro.  - Sua mãe. Eu gostaria de lhe colocar as mãos em cima a essa bruxa. Embora não tenha sido ela a que o açoitou, permitiu que isso o, passasse a seu próprio filho. Pois bem, terei que açoitá-la a ela. Faria-o eu mesma se tivesse a oportunidade.

 - Tão feroz e impetuosa. -Max lhe rodeou a face com as mãos e a beijou. Deus, amo-te, Lily. Por tantas razões. Agora vá arrumar te a face e te prepare uma boa taça de chá para te serenar. Ninguém voltará a machucar ao moço.

 - Não, ninguém o machucará de novo  - disse ela e curvou os dedos ao redor do punho do Max. Seus olhos se viam cheios de paixão, e sua voz estava surpreendentemente calma.  - Agora é nosso.

Ao Luke quase lhe aconteceram as náuseas, mas sua vergonha aumentou ao despertar e encontrar ao Lily sentada junto a ele, bebendo chá. Tratou de balbuciar alguma desculpa, mas ela falou animadamente por sobre o gagueira dele, e lhe preparou um bol de sopa.

Nesse momento entrou Roxanne.

Vinha coberta de terra da cabeça aos pés, e o cabelo que Lily lhe tinha trancado com tanta prolijidad essa manhã estava totalmente despenteado. Em um joelho tinha um raspão recém feito, e um rasgão em seus shorts. O aroma de animal a seguiu ao interior da casa lhe rodem. Roxanne acabava de jogar com o trio de terriers do número com cães.

 - Está meu Roxy debaixo dessa terra?  - perguntou Lily.

Roxanne sorriu e abriu a geladeira em busca de um refresco bem frio.

 - Estive andando no carrossel uma eternidade, e Big Jim me permitiu sustentar o anel todo o tempo que quisesse.  - Olhou ao Luke.  - Seriamente fumou um cigarro e vomitou todo?

Luke lhe mostrou os dentes mas não disse nada.

 - por que fez isso?  - prosseguiu a pequena charlatana - . Supõe-se que os meninos não devem fumar.

 - Roxy  - disse Lily, ficou de pé e começou a empurrar à menina para a cortina - . Tem que te assear.

 - Mas eu só quero saber...

 - te apresse. Logo será a hora da primeira função.

 - Só me perguntava...

 - Pergunta-te muitas coisas. Roxanne desapareceu e Lily voltou junto ao Luke.

 - Muito bem. Suponho que mais vale que coloquemos mãos à obra. por que não vai e pede a um dos moços que te dê alguns volantes para reparti-los quando a gente comece a aparecer?

O se encolheu de ombros a maneira de assentimento, e quando Lily lhe estendeu a mão, tornou-se para trás com brutalidade. Tinha esperado um golpe. Ela se deu conta pela expressão escura e fixa que advertiu em seus olhos. Também percebeu a confusão do moço quando o despenteou carinhosamente.

Ninguém o havia tocado assim jamais. Enquanto olhava ao Lily, sobressaltado, lhe fez um nó na garganta que não lhe permitiu falar.

 - Não tem que ter medo  - disse-lhe ela em voz baixa, como se fora um secreto entre os dois - . Não te machucarei.  - Baixou a mão e lhe rodeou o queixo.  - Nem agora nem nunca. Se chegasse a necessitar algo, vai para mim. Entendeste-me?

O só pôde assentir enquanto ficava de pé. Sentia uma opressão no peito e tinha a garganta seca. Ao compreender que estava perigosamente perto do pranto, correu para fora. Esse dia tinha aprendido três coisas. Supôs que Max as chamaria lições grátis, e jamais as esqueceria. Primeiro, nunca voltaria a fumar um cigarro sem filtro. Segundo, detestava a essa molequa do Roxanne. E, terceiro e o mais importante de todo, acabava de apaixonar-se loucamente do Lily Bate.

 

O verão se fez sentir enquanto viajavam. Primeiro se dirigiram para o sul e depois para o oeste, ao Allentown, onde Roxanne se divertiu como louca jogando com um par de gêmeas chamadas Tessie e Trudie. Quando partiram dali, dois dias mais tarde, entre lágrimas e promessas solenes de amizade eterna, Roxanne sentiu pela primeira vez as desvantagens de uma vida nômade.

Fez bico durante uma semana, enlouquecendo ao Luke com louvores de seus amigas perdidas. Ele  a evitava sempre que lhe era possível, mas não era nada fácil pois virtualmente viviam sob o mesmo teto.

Ela o buscava, mas não porque lhe tivesse simpatia. De fato, sentia um desagrado profundo que nenhum dos dois reconhecia ainda como uma rivalidade natural. Mas, desde sua experiência com o Tessie e Trudie, Roxanne começou a desejar a companhia de pessoas de sua idade.

Embora essa pessoa fora um varão.

E ela fez o que as irmãs pequenas fazem a seus irmãos maiores desde o começo dos tempos: converteu sua vida em um inferno.

Incomodava-o sem piedade, seguia-o a todas partes e o chateava com crueldade. Desde não ter sido pelo Lily, talvez Luke se teria defendido. Mas por razões que ele não alcançava a entender, Lily estava louca pela molequa.

A prova disso se fez evidente durante o ensaio prévio à função que deviam realizar no Winston-Salem.

está-se equivocando nos tempos, pensou Luke com satisfação observando-a enquanto vagabundeava pela carpa.

Esse ensaio insatisfactorio lhe deu esperanças. Ele poderia fazer esse truque muito melhor que ela, se tão somente Max lhe desse a oportunidade.

 - Roxanne  - disse Max com tom paciente, interrompendo os pensamentos do Luke - . Não está emprestando atenção.

 - Estou cansada de ensaiar  - disse Roxanne e levantou sua face ruborizada - . Estou cansada da casa lhe rodem, do espetáculo e de todo. Quero voltar para o Allentown a ver o Tessie e Trudie.

 - Temo-me que isso é impossível  - disse Max - . Se não querer agir, essa será seu escolha. Mas se eu não posso confiar em você, terei que te substituir.

 - Max!  - Consternada, Lily deu um passo adiante, mas se deteve em seco quando Max levantou uma mão.

 - Como minha filha  - prosseguiu ele enquanto pela bochecha do Roxanne se deslizava uma única lágrima - , tem direito a todas as chiliques que queira. Mas como minha empregada, ensaiará quando houver ensaio. Entendeste-me?

Roxanne deixou cair a cabeça.

 - Sim, Papai.

 - Muito bem, então. te seque a face  - disse e lhe colocou uma mão debaixo do queixo - . Quero que você...  - Não seguiu falando e lhe tocou a frente.  - Está ardendo  - disse com voz rara - , Lily. Esta garota está doente.

Lily ficou imediatamente de joelhos e verificou ela mesma se a criatura tinha febre. A frente do Roxanne estava quente e pegajosa ao tato.

 - Querida, dói-te algo?

 - Estou bem. É só que aqui faz muito calor. Quero ensaiar. Não deixe que Papai me substitua.

 - Que tolices diz  - foi a resposta do Lily enquanto seus dedos se atarefavam em busca de gânglios inflamados - . Ninguém poderia te substituir.  - E, olhando ao Max:  - Acredito que deveríamos ir à cidade a procurar um médico.

Sem fala, Luke observou como Max se levava em braços à chorosa Roxanne. Compreendeu que seu desejo se feito realidade. A molequa estava doente. Até podia ser que tivesse a peste. Com o coração lhe batendo depressa, saiu correndo da carpa e observou a nuvem de pó levantada pelo caminhão, que se afastava a toda velocidade.

Talvez morrera antes de que chegassem à cidade. Esse pensamento lhe produziu uma onda de pânico seguida por uma culpa terrível.

 - Aonde foram?  - perguntou Mouse, ofegando por ter deslocado quando ouviu que ficava em marcha seu amado motor.

 - Ao médico.  - Luke se mordeu o lábio.  - Roxanne está doente.

antes de que Mouse pudesse lhe fazer mais pergunta, Luke fugiu precipitadamente. Esperava que se realmente havia um Deus, Ele saberia que sua intenção não tinha sido fazer mal ao Roxanne.

Passaram duas intermináveis horas antes de que o caminhão retornasse. Ao vê-lo aproximar-se, Luke pôs-se a andar para o veículo, mas o coração lhe deteve o ver que Max tomava o corpo inerte do Roxanne dos braços do Lily e tinha elevada à pequena até a casa lhe rodem.

 - Está...?  - Lhe fechou a garganta.

 - Dorme  - respondeu-lhe Lily com um sorriso distraído - . Sinto-o Luke, mas será melhor que desapareça por um momento. Estaremos muito ocupados.

 - Mas... mas...

 - Será bravo durante alguns dias, mas uma vez que a crise tenha passado, estará bem.

 - Eu não quis  - soltou de repente Luke - . Juro que não quis fazer que se adoecesse.

Embora Lily tinha a cabeça em outra parte, freou-se junto à porta.

 - Não o fez, querido. Em realidade, suspeito que Roxy recebeu do Trudie e Tessie muito mais que a promessa de uma amizade eterna.  - Sorriu ao entrar no trailer.  - Parece que tem varicela.

Luke ficou com a boca aberta enquanto Lily lhe fechava a porta na face.

A molequa só tinha varicela, e ele quase se havia morto de medo?

 - Posso fazê-lo.  - Luke estava obstinadamente de pé no centro do cenário, enquanto Max seguia manipulando as cartas.  - Posso fazer algo que ela faça.

Fazia três dias que Roxanne se encontrava confinada em cama, sentindo calor, uma grande coceira e uma grande desdita. E durante esse tempo, em cada oportunidade, Luke entoou sempre a mesma litania.

 - Só tem que me ensinar o que devo fazer.

 - Vêem aqui.  - Luke deu um passo adiante, e de repente viu nos olhos do Max algo que o fez estremecer-se. -  Jura  - disse Max, e sua voz soou profunda e autoritária nessa carpa poeirenta - . Jura por tudo o que é e tudo o que será, que jamais revelará nenhum dos secretos desta arte.

Luke quis sorrir, lhe recordar ao Max que, depois de todo, só se tratava de um truque. Mas não pôde.

Quando conseguiu falar, sua voz foi um sussurro.

 - Juro-o.

Max se tomou outro momento para escrutinar o rosto do Luke, e depois assentiu.

 - Muito bem. Isto é o que quero que faça.

Em realidade, era tão simples. Quando Luke descobriu o notavelmente singelo que era todo, ficou surpreso. Detestava reconhecê-lo para si, e se negava a admiti-lo frente a Max, mas agora que sabia como tinha feito Roxanne para converter-se em coelho, como tinha desaparecido debaixo da capa, lamentava-o um pouco.

Mas Max não lhe deu tempo para lamentar-se pela perda da inocência. Trabalharam e repetiram a seqüência durante mais de uma hora: aperfeiçoando os tempos, cuidando a coreografia de cada movimento, eliminando coisas que ficavam bem ao Roxanne e as substituindo com outras que se adequavam mais ao Luke.

Era uma tarefa cansada e incrivelmente monótona, mas Max só aceitava o próximo à perfeição.

Revoleó a capa e cobriu ao Luke, depois estalou duas vezes os dedos, e riu pelo baixo quando a forma que estava debaixo desse tecido negro permaneceu em seu lugar.

 - A um bom assistente jamais lhe passa por cima o sinal de seu mago, por distraído que esteja.

Ouviu-se um leve desaforo debaixo da capa, e a forma se dissolveu. longe de estar descontente com os adiantamentos do Luke, Max pensou que o moço serviria. Aproveitaria a rabugice de seu caráter, sua fome e sua atitude desafiante. Jogaria mão a tudo o que Luke era, e, a sua vez, brindaria-lhe um lar, e a oportunidade de escolher.

Um convênio bastante justo, pensou Max.

 - De novo  - limitou-se a dizer quando Luke voltou a aparecer no cenário por decorações.

Nesse momento, Lily entrou na carpa.

 - Sei que chego tarde  - disse enquanto se aproximava depressa - . Hoje todo está atrasado.

 - E Roxanne?

 - Afiebrada e irritável, mas melhorando. Detesto ter que deixá-la só. Mas neste momento todo mundo está ocupado, assim que eu... Luke  - disse de repente-, faria-me um favor enorme se fosses sentar te com ela durante ao redor de uma hora.

 - Eu?  - Poderia lhe haver pedido também que se comesse um sapo.

 - Sim. Faz-lhe falta companhia, para que deixe de pensar na coceira.

Max sorriu e com gesto cordial apoiou uma mão sobre o ombro do moço.

 - Apresento-te ao integrante mais recente de nosso grupo  - disse ao Lily - . Luke agirá esta noite.

 - Esta noite?  - de repente alerta, Luke girou para enfrentar ao Max.  - Só esta noite? Não estive praticando como louco para agir uma sozinha noite.

 - Isso está por ver-se. Se esta noite te desempenhar bem, voltará a agir amanhã de noite. É o que eu chamo um período de prova. Seja como for, por agora já ensaiamos o bastante, de modo que baixas livre para entreter ao Roxanne.

 - Não sei que merda se supõe que devo fazer com ela  - murmurou Luke ao saltar do cenário. Lily suspirou ante a linguagem utilizada pelo moço.

 - Joguem a algo  - sugeriu ela - . E, querido, seriamente preferiria que não dissesse más palavras quando está com o Roxy.

Muito bem, pensou enquanto abandonava a carpa em trevas e saía ao exterior banhado pelo sol. Não diria más palavras diante do Roxy. Diria-as para si quando pensasse nela.

Abriu a porta da casa lhe rodem e se dirigiu para a geladeira. O impulso que sentiu de olhar por sobre o ombro ao procurar uma bebida fria seguia sendo intenso. Sempre esperava que alguém aparecesse de repente e o atingisse por apropriar-se de algum comestível.

Mas ninguém o fez.

Moveu-se com sigilo, outro hábito que a necessidade o tinha obrigado a desenvolver. Ao avançar pelo corredor estreito, ouviu cantar ao Roxanne, acompanhando uma melodia que transmitia a rádio.

Divertido, Luke espiou da porta. Roxanne estava deitada de costas, a vista fixa no céu cetim, enquanto escutava a rádio. Em uma pequena mesa redonda junto à cama, havia uma jarra com suco de frutas e um copo, ao lado de uma série de remédios e um maço de cartas.

Roxanne moveu a cabeça e o viu. Esteve a ponto de sorrir, tão desesperada estava por companhia. Luke a observou.

A pele branca da menina se via cheia de feias rodelas vermelhas, que também lhe cobriam a face. perguntou-se como fariam Lily e Max para tolerar olhá-la.

 - Deus, pelo visto tem essa merda em todo o corpo.

 - Lily diz que logo irão e que estarei formosa.

 - É provável que vão  - disse com tal tom de dúvida que Roxanne franziu o sobrecenho - , mas seguirá sendo feia.

Ela esqueceu a horrível coceira que sentia no estômago e conseguiu incorporar-se até ficar sentada.

 - Espero te contagiar a varicela. Espero que tenha rodelas por todo... até no apito.

Luke quase se engasgou com o refrigerante, e depois sorriu.

 - A varicela é para os bebês.

 - Eu não sou um bebê.  - Nada poderia havê-la enfurecido mais. antes de que Luke tivesse tempo de esquivá-la, ela pegou um salto e caiu sobre ele, atingindo-o com os punhos. A garrafa de refrigerante saltou pelo ar, foi dar contra a parede e esparramou seu conteúdo por toda parte. Poderia ter sido divertido, e de fato ele lançou uma gargalhada, mas em seguida lhe impressionou comprovar quão frágil estava a menina. Seus braços era como dois palitos ardentes.

 - Está bem, está bem. Não é uma bebita. Agora volta para a cama.

 - Estou cansada da cama  - deu Roxanne, mas se deixou cair nela, ajudada pelo não muito suave empurrão do Luke.

 - Igual, faz-o. Merda, olhe como ficou todo. Suponho que tenho que limpá-lo.

 - É seu culpa  - disse ela com face de ofendida e ficou a olhar pela janela.

Grunhindo, Luke partiu em busca de um pano de piso.

Quando terminou de secar os restos de refrigerante, ela seguia ignorando-o.

 - Olhe, retratei-me, não?

Ela o observou um instante, mas a expressão de seu rosto seguiu sendo gelada.

 - Arrepende-te de me haver dito que sou feia?

 - Bom, suponho que sim. Silêncio.

 - Muito bem, muito bem. Deus. Lamento haver dito que é feia.

 - Serviria-me um pouco de suco?

 - Suponho que sim.

Serve-lhe um copo e o entregou.

 - Não fala muito  - disse ela ao cabo de um momento.

 - E você fala muito.

 - Se quiser, poderíamos jogar a algo.

 - Sou muito grande para jogos.

 - Não é verdade. Papai diz que ninguém é muito grande para jogar.  - Viu um brilho de interesse no rosto do Luke e seguiu adiante.  - Se jogar comigo, ensinarei-te um truque com cartas.

Luke não tinha conseguido sobreviver até os doze anos sem saber como regatear.

 - Insígnia me primeiro o truque com cartas, e depois jogarei.

 - Nada disso.  - Seu sorriso foi complacente, uma versão apenas mais inocente que a de uma mulher que sabe que prendeu a seu homem.  - Eu te mostrarei o truque, e depois jogaremos. E só depois te ensinarei como fazê-lo.

Tomou o maço da mesa e mesclou as cartas com considerável habilidade. Interessado, Luke se sentou na beira da cama e observou as mãos da menina.

 - Isto se chama Perdida e Encontrada. Escolhe qualquer carta que veja, e diz em voz alta qual é.

 - Que graça. Onde está o truque se eu te disser qual é a carta?  - murmurou Luke. Mas quando ela voltou a passar as cartas, ele escolheu o Rei de Espadas.

 - Não pode ter essa carta  - disse-lhe Roxanne.

 - por que demônios não? Disse-me que escolhesse qualquer das que via.

 - Mas não pôde ver o Rei de Espadas. Não está aqui.  - Sorrindo, voltou a passar as cartas, e Luke ficou boquiaberto. Maldição, tinha visto esse rei. Como tinha feito ela para fazê-lo desaparecer?

 - Juntou-o.

Ela sorriu amplamente.

 - Não tenho nada nas mãos  - disse Roxanne e, depois de apoiar o maço sobre os joelhos, levantou as duas mãos para mostrar que estavam vazias - . Pode escolher outra.

Esta vez, com muita atenção, Luke escolheu o três de trevos.

 - Não faz mais que escolher cartas que faltam  - disse ela sacudindo a cabeça. Ao voltar a passar as cartas, Luke não só viu que faltava o três mas também o rei estava de volta. Com raiva, tentou apoderar do maço, mas ela o levantou por sobre sua cabeça.

 

 - Não acredito que seja um maço comum.

 - Não acreditar é o que faz que a magia seja magia  - disse ela, citando a seu pai com grande seriedade. Mesclou as cartas, abriu-as de face acima sobre os lençóis. Com um movimento da mão assinalou as duas cartas que Luke tinha eleito entre as cinqüenta e dois do maço.

Ele suspirou, vencido.

 - Muito bem, como o faz? Mas ela insistiu em jogar primeiro. depois de duas partidas, ele foi procurar bebidas frias e doces para os dois.

 - Agora te ensinarei o truque  - deu Roxanne - . Mas tem que jurar que jamais revelará o secreto.

 - Já fiz esse juramento. Roxanne entrecerrou os olhos.

 - Quando? Como é isso?

Ele teve vontades de mordê-la língua.

 - No ensaio, faz um momento  - disse a contra gosto - . Farei seu número até que vão as rodelas.

Lentamente, ela levantou as cartas e começou às mesclar. Fazer algo com as mãos sempre a ajudava a pensar.

 - Está ocupando meu lugar.

 - Max disse que sem ou haveria um vão no espetáculo.

 - Eu o encherei  - disse. E com uma diplomacia que não tinha consciência de possuir, adicionou:  - Transitoriamente. Isso foi o que disse Max. Talvez só por esta noite.

depois de outro momento de reflexão, ela assentiu.

 - Se Papai o disse, está bem. Confiou-me que lamentava haver dito que me substituiria. Que ninguém poderia fazê-lo jamais.  - E, continuando:  - Isto é o que tem que fazer...  - e com a paciência de uma mestra de primeiro grau que ensina a um aluno a escrever seu nome, começou a lhe mostrar o truque.

Quando ela sorriu, lhe devolveu o sorriso. Ao menos por um momento, foram somente duas crianças que compartilhavam um segredo valioso.

 

Era uma experiência nova e difícil. Luke estava inteligente e impaciente enquanto esperava entre decorações. Seu smoking de segunda mão, arrumado muito depressa pelos dedos hábeis de Mama Franconi, o fazia sentir uma estrela. Uma e outra vez repassava mentalmente sua parte, seus movimentos, sua letra, enquanto Max esquentava um pouco ao auditório com jogos de prestidigitação.

Pensou que não era nada do outro mundo. Uma habilidade mais que lhe significaria ganhar dez dólares por noite enquanto Roxanne seguisse coberta com essas rodelas. Se o prognóstico do médico era exato, representaria cem dólares mais no "fundo" reservado para a viagem a Miami.

felicitava-se a si mesmo por sua boa sorte e olhava com desdém aos camponeses de olhos saltados da primeira fila, quando Mouse lhe deu uns toquezinhos no ombro.

 - aproxima-se o momento de seu entrada.

 - O que?

 - Seu entrada  - repetiu Mouse e moveu a cabeça para o cenário, onde Lily rebolava com suas meias rutilantes, acentuando o movimento de seus quadris para benefício do setor masculino do público.

          - Minha entrada  - repetiu Luke, enquanto lhe gelavam as vísceras e seu coração se convertia em uma bola ardente em sua garganta. Como Max tinha previsto o ataque de medo do Luke, Mouse lançou um grunhido de assentimento e empurrou ao moço a cena.

         Houve um murmúrio de risadas quando esse menino fraco com o smoking muito grande apareceu cambaleando. Em contraste com as lapelas negras e brilhantes de seu traje, a face do Luke estava alva como o papel. Não ocupou o lugar que devia e se salteou a primeira linha de seu diálogo. Quão único pôde fazer enquanto a transpiração lhe empapava as costas, foi permanecer imóvel enquanto com os olhos percorria os rostos de seu primeiro público.

 - Ah.  - Com a mesma suavidade com que tinha feito aparecer e desaparecer o lenço de seda, Max se aproximou dele.  - Meu jovem amigo parece perdido.  - Para os espectadores, a impressão foi que Max acariciava a cabeça do Luke. Não viram como seus dedos ágeis lhe beliscaram com força a nuca para tirar o dessa sorte de transe em que estava sumido na noite de sua estréia.

Luke deu um coice, piscou e tragou.

 - Eu, este...  - Merda, o que era o que tinha que dizer?  - Perdi minha galera  - concluiu a frase muito apurado, e depois sua face passou do alvo ao vermelho quando as risadas chegaram ao cenário. Ao diabo com eles, disse-se e endireitou os ombros.

Nesse momento, de um menino assustado se transformou em um garoto arrogante.  - Tenho uma encontro com o Lily. Não posso levar a dançar a uma mulher formosa sem minha galera.

 - Diz que tem uma encontro com o Lily?  - Tal como o tinham ensaiado, a expressão do Max foi primeiro de surpresa, logo depois de zango e, por último, oculta.  - Temo-me que deve estar equivocado, garoto. A formosa Lily se comprometeu a passar a velada comigo.

 - Suponho que trocou de idéia  - disse Luke, sorriu e colocou os polegares detrás das lapelas - . Está-me esperando. Iremos A...  - Um pequeno floreio, e em sua lapela negra brotou uma enorme rosa vermelha.  - Sairemos da cidade.

Os aplausos dispersos que saudaram seu primeiro truque público de magia o atraíram como uma mulher sedutora.

Luke Calavam tinha encontrado sua vocação.

 - Estraga  - disse Maxy olhou de esguelha ao público - . Não é um pouco jovem para uma mulher com os encantos do Lily?

Agora Luke já não sentia medo.

 - O que me falta em anos, compenso-o com energia.

   O comentário, dito com tom depreciativo, suscitou fortes gargalhadas entre o público. Esse som despertou algo no mais íntimo do Luke. Começou a sentir-se cada vez mais cômodo, e o desdém se converteu em um sorriso.

 - Mas, como é natural, um cavalheiro não pode escoltar a uma dama fora da cidade sem sua galera.  - Max se esfregou as mãos e olhou para a esquerda do cenário.  - E me temo que essa é a única galera que vi esta noite.  - Dito o qual, um spot iluminou a galera investida.  - E me parece um pouco grande, inclusive para uma pessoa com a cabeça tão inchada como a tua. Balançando-se sobre seus pés, Luke colocou os dedos no cinturão.

 - Conheço seus truques. Todo andará melhor se voltar a deixar minha galera tal como estava.

 - Eu?  - perguntou Max, arqueou as sobrancelhas e ficou uma mão sobre o coração - . Está-me acusando de fazer bruxarias para arruinar seu saída com o Lily?

 - Isso mesmo.  - Não eram exatamente as palavras ensaiadas, mas Luke as disse com fruição enquanto se aproximava da galera e colocava a mão sobre a beira.

     - Vamos, comece de uma vez.

 - Muito bem, então.  - E com um suspiro pelos evidentes maus maneiras do moço, Max fez um gesto.  - Se tiver a bondade de te colocar dentro da galera.  - Sorriu quando Luke o olhou com suspicacia.

 - Bom, mas nada de coisas raras,  - Com agilidade e presteza, Luke pegou um salto e se meteu na galera.   

  - Recorde que eu não me chupo o dedo. Assim que a cabeça do Luke desapareceu debaixo da asa, Max extraiu sua varinha mágica e pronunciou umas palavras. Imediatamente, colocou a mão na galera e extraiu um coelho branco. Enquanto o público expressava sua aprovação com gritos entusiastas, Max inclinou a galera para que pudesse ver que estava completamente vazia.

 - Duvido muito que ao Lily interesse agora sair com ele.

Para ouvir seu "pé", Lily entrou em cena. Um olhar ao coelho que se contorsionaba na mão do Max a fez lançar um alarido.

 - Outra vez!  - E com face indignada, girou para olhar à audiência.  - É o quarto coelho este mês. Advirto-lhes uma coisa, senhoras: não lhes ocorra enredar-se com um mago ciumento.  - E entre as risadas dos pressente, olhou ao Max.  - Transforma-o de novo no que era.

 - Mas, Lily...

 - Faz-o neste instante  - disse ela, fechou os punhos e os apoiou nos quadris - . Do contrário, terminamos.

 - Muito bem.  - Com exagerada relutância, Max voltou a colocar o coelho na galera, suspirou, e atingiu duas vezes a beira com a varinha. E de repente Luke brotou, com a irritação pintada em suas feições.

O público seguia aplaudindo quando Luke saiu do chapéu, os punhos em alto. E se ouviram gargalhadas quando viram o rabo de algodão branco estrategicamente colocado na parte posterior de seu smoking.

 - Um pequeno engano de cálculo  - desculpou-se Max quando o público deixou de rir - . Para te demonstrar que não estou zangado contigo, farei desaparecer esse rabo.

 -  Promete-me isso?  - perguntou Lily com uma careta.

 - Prometo-lhe isso  - jurou Max com uma mão sobre o coração. tirou-se a capa, fez-a girar sobre o Luke e depois passou a mão sobre o tecido de seda. Quando a capa começou a cair ao chão, Max sujeitou um extremo e a levantou, fazendo-a descrever outro giro.

 - Max!  - gritou Lily, horrorizada.

 - Cumpri com minha promessa  - disse ele, e fez uma reverência, primeiro para ela e depois em direção ao público que o aclamava - . O rabo desapareceu. E, com ele, esse moleque presumido.

Enquanto Lily e Max prosseguiam para o final do número, Luke observava desde decorações, transportado de felicidade. A gente aplaudia. Aplaudia-o a ele. Luke ficou olhando ao Max enquanto este se preparava para serrar ao Lily pela metade.

Os olhares de ambos se cruzaram por apenas uma fração de segundo. Mas houve nesse instante tal riqueza de compreensão e de felicidade, que Luke sentiu que lhe queimava a garganta. Pela primeira vez em sua vida começou a amar a outro homem. E nesse amor não havia vergonha.

Luke ficou a caminhar pela feira. A última função tinha terminado fazia momento, mas em sua cabeça seguiam ressonando os aplausos e as risadas, como uma velha canção que repetia uma e outra vez sua melodia.

Ele tinha sido alguém. Por breves momentos, tinha sido alguém importante. Ante o olhar assombrado de muita gente, tinha desaparecido. E eles acreditaram. Esse é o secreto, disse-se Luke enquanto passava junto a artistas cansados que ainda tratavam de atrair ao público, já não tão numeroso. Fazer acreditar às pessoas que uma ilusão é realidade, embora só seja por um instante fugaz. Esse era um poder, um autêntico poder que superava o dos punhos e a fúria. perguntou-se se seria capaz de lhe explicar o que nesse momento passava por sua mente. Pareceu-lhe que sua cabeça, transbordante desse poder, em qualquer momento se partiria, e se derramaria uma luz branca e queimante.

Sabia que Max entenderia essa sensação, mas ainda não estava disposto a compartilhá-la com ninguém. Por essa noite, essa primeira noite, seria só dela.

Os dez dólares que Max lhe tinha dado depois da última função rangeram entre seus dedos quando ele colocou a mão no bolso.

O impulso de gastá-los foi surpreendentemente forte; mais intenso até que a fome que tinha aprendido a passar por cima. ficou olhando as luzes da Roda Mágica e ouvindo o matraqueio do Látego. Essa noite provaria todos os jogos.

A pequena figura de jeans e camisa que cruzou depressa por seu campo visual o fez frear-se, logo franzir o sobrecenho, e depois amaldiçoar.

 - Roxanne! Né, Rox, Rox!  - Correu atrás dela e a agarrou pelo braço. -  Que diabos faz aqui fora? Não pensou que não devia sair?

Vá se tinha pensado. Pensou que estava presa em sua cama, sentindo-se tão mal, enquanto Luke ocupava seu lugar no cenário. Pensou no intermináveis que se tornaram os dias, e na ardência terrível que despertava nas noites. E pensou em que eles já estariam em Nova Orleáns e a temporada do verão teria ficado atrás, antes de que ela se livrasse das rodelas.

 - Vou dar uma volta na Roda Mágica.

 - Está louca, molequa de porcaria?

Mas, sem deixá-lo terminar de falar, lhe pegou uma cotovelada no estômago e pôs-se a correr antes de que ele recuperasse o fôlego.

 - Maldita seja, Roxy.  - Alcançou a sujeitá-la e começou a tironear dela, mas Roxanne lhe lançou umas dentadas.

 - Está louca?

 - vou subir à Roda Mágica  - disse ela e cruzou os braços sobre o peito. As luzes de cores brincaram sobre seu rosto, lhe dando um aspecto festivo a suas rodelas.

Ele poderia haver-se ido. Mas por motivos que não alcançava a imaginar sequer, ficou junto a ela. Até tirou seu dinheiro para pagar a entrada, mas o encarregado, que conhecia bem ao Roxy, fez-lhe gestos de que acontecesse pagar. Como uma princesa que concede uma audiência, Roxanne assentiu em direção ao Luke.

 - Se quiser, pode vir comigo  - disse.

 - Obrigado.  - O se deixou cair a seu lado e esperou o ruído metálico da barra de segurança.

Roxanne não gritou nem ofegou quando a roda iniciou sua ascensão. tornou-se para trás, fechou os olhos e deixou que um pequeno sorriso de satisfação brincasse entre seus lábios. Anos mais tarde, Luke recordaria esse momento e compreenderia que o aspecto do Roxanne era o de uma mulher satisfeita que descansa em uma balança depois de um longo dia.

Ela não falou até que a roda cumpriu uma volta completa. Quando o fez, sua voz soou estranhamente adulta.

 - Estou cansada de ficar dentro. Não posso ver a luz, não posso ver às pessoas.

 - É igual todas as noites.

 - É diferente todas as noites.  - Abriu os olhos, duas esmeraldas nas que brilhavam todas as cores. inclinou-se contra a barra de segurança e o vento lhe jogou o cabelo para trás, contra o céu.  - Vê esse homem fraco lá abaixo, o do chapéu de palha? Jamais o vi antes. E essa garota de shorts que leva o cão de brinquedo? Tampouco a conheço. Assim é diferente.  - E quando a roda voltou a ascender, jogou a cabeça para trás.  - Eu estava acostumado a acreditar que isto subiria até o céu. Que poderia tocá-lo e me levar isso abaixo comigo. Desejei fazê-lo. Embora só fora uma vez  - disse, sorrindo.

 - De muito te serviria lá abaixo  - disse ele, mas também sorriu.

 - Esteve bem esta noite no ato  - disse de repente Roxanne - . Ouvi que Papai o comentava quando falava com o Lily. Acreditaram que eu dormia.

 - Ah, sim?  - foi a resposta dele, tratando de parecer indiferente.

. - Disse que tinha visto algo em você, e que não o decepcionou.  - Roxanne levantou os braços. A carícia da brisa foi uma bênção para sua pele ardente.

 - Suponho que agora formará parte do ato.

A onda de excitação que Luke sentiu não teve nada que ver com o descida súbito da roda.

 - Pelo menos é algo que fazer  - disse e se encolheu de ombros para não demonstrar o que sentia-, Pelo menos enquanto estou aqui.  - Quando olhou de esguelha ao Roxanne, viu que ela o observava.

 - Também disse que fez coisas, que viu coisas que não devia. Que coisas?

Uma mescla de humilhação, fúria e asco estalaram em seu peito. Max sabia. De algum jeito, sabia. Sentiu que a pele lhe queimava, mas sua voz foi fria.

 - Não sei de que falas.

 - Sim que sabe.

 - Se souber, não é teu assunto.

 - É-o se fica conosco. Sei todo o referente a Mouse e ao Lily e ao LeClerc.

 - Quem demônios é LeClerc?

 - Cozinha para nós em Nova Orleáns e ajuda a Papai com a função do cabaré. Estava acostumado a roubar bancos.

 - Sério?

Comprazida de ter despertado seu interesse, Roxanne assentiu.

 - Esteve preso e todo porque o pescaram. Ensinou a Papai a abrir qualquer fechadura. Por isso, eu deveria sabê-lo todo sobre você também.

 - Ainda não disse que ficava. Tenho meus próprios planos.

 - Ficará  - disse Roxanne, metade para si mesmo - . Papai quer que fique. E Lily. Papai te ensinará magia, se te interessa aprender. Igual a me ensina . Só que eu o farei melhor.  - Nem sequer piscou ao pronunciar essa frase cheia de brincadeira.  - Eu serei a melhor,

 - Isso o veremos  - murmurou Luke enquanto subiam para o céu. Girou a face para ficar frente ao vento e quase se convenceu de que o que tinha feito não era nada, nada comparado com o que faria no futuro.

 

A primeira impressão que Luke recebeu de Nova Orleáns foi um torvelinho de ruídos e aromas. Enquanto Max, Lily e Roxanne viajavam no trailer, ele o fez aconchegado na cabine do caminhão, dormindo da momentos, vexado pelo aborrecido e monótono cantarolo sem melodia de Mouse, quem se negava a acender a rádio para não perder o prazer de escutar o zumbido do motor.

Agora, outros sons tinham começado a penetrar no cérebro dormitado do Luke: vozes agudas e risadas chillonas, o barulho de saxos, tambores e trompetistas. Enquanto se ia despertando pouco a pouco, acreditou que estavam de novo no parque de diversões. O ar cheirava a comida, a especiarias, com o fedor subjacente do lixo arremesso a perder pelo calor.

Bocejou, abriu os olhos, piscou e olhou pelo guichê.

As ruas estavam repletas de gente. Viu um malabarista, jogando no ar bolas de uma cor laranja vivo que brilhavam na escuridão. Uma mulher muito gordo com vestido floreado fazia um só de boogie. Cheirou a salsichas quentes.

O circo está na cidade, pensou, enquanto se esforçava por incorporar-se no assento.

E se deu conta de que tinham deixado atrás o circo ambulante para unir-se a outro mais imponente e estável.

 - Onde estamos?

Mouse conduzia o caminhão e a casa lhe rodem por ruas muito estreitas.

 - Em casa  - limitou-se a dizer.

Luke seguia ouvindo a música, mas agora era muito mais frágil; e havia menos pessoas caminhando por essas ruas mais tranqüilas. Com a luz vacilante dos faróis, alcançou a ver velhos edifícios de tijolos, balcões repletos de flores, táxis que avançavam a grande velocidade e figuras aconchegadas para dormir nos portais.

Não entendia como podia dormir ninguém com essa música, esses aromas, esse calor insuportável. Seu próprio cansaço se desvaneceu e foi substituído por uma grande impaciência pela lentidão com que Mouse dirigia o caminhão.

Luke queria chegar de uma vez a desuno. Onde fora.

 - Por Deus, Mouse, se chegasse a conduzir mais devagar estaríamos retrocedendo.

 - Não há apuro  - disse Mouse, e surpreendeu ao Luke ao frear por completo na metade da rua e baixar do veículo.

 - Que demônios faz?  - gritou Luke, apareceu e viu mouse de pé junto a um portão aberto - . Não pode deixar isto em meio da rua. Atrairá à polícia.

 - Estou refrescando minha memória. -Mouse seguia parado, arranhando o queixo.  - Tenho que colocá-lo ali.

 - Colocar o que?  - perguntou Luke com os olhos totalmente abertos. aproximou-se primeiro ao portão e depois devolvida ao veículo. -Retroceder o caminhão e colocá-lo ali?  - Luke olhou a abertura do portão entre os dois muros de tijolo, e depois girou a cabeça para calcular o largo da casa lhe rodem.  - Impossível.

Mouse sorriu. Seus olhos brilharam como os de um pecador que acaba de converter-se à religião.

 - Você fique ali parado, se por acaso te necessito  - disse Mouse e saltou ao caminhão.

 - É impossível  - gritou-lhe Luke. Mas Mouse cantarolava de novo e começou a manobrar o caminhão e a casa lhe rodem por essa rua estreita.

 - vais chocar. Por Deus, Mouse.  - Luke se preparou para ouvir o estrépito do metal. Sua boca se abriu de par em par quando a enorme casa lhe rode se deslizou dentro da abertura com a facilidade de uma mão em uma luva. Enquanto o caminhão fazia outro tanto, Mouse olhou ao Luke e lhe piscou os olhos um olho.               

 - Homem, é um gênio  - gritou Luke enquanto Mouse saltava do caminhão. Mas deu um salto como um boxeador inteligente para o ataque quando uma luz se acendeu na casa, detrás deles.  - Quem é?  - perguntou a Mouse ao divisar uma figura no portal.

 - LeClerc.  - Fazendo soar as chaves no bolso, Mouse avançou para fechar os portões de ferro.

 - De modo que tornaram  - disse LeClerc aproximando-se. Luke viu um homem miúdo com barba e cabelo grisalho. Usava uma camiseta esportiva alva e calças cinzas abolsados  que sustentava com uma parte de soga. Falava com um leve acento, não com a clara dicção do Max, a não ser com uma vocalização que parecia adicionar sílabas às palavras.  - Suponho que têm fome, não?

 - Não paramos a comer  - gritou Mouse.

 - Foi uma sorte que não o fizessem.  - LeClerc se aproximou e Luke viu que era velho, pelo menos dez anos mais que Max. Seu rosto lhe pareceu um baqueteado mapa de pergaminho no que apareciam centenas de rotas muito transitadas.

Por sua parte, LeClerc viu um garotinho magro com uma face formosa em que dominava um par de olhos cautelosos. Um moço que estava inteligente para tornar-se a correr, ou para brigar.

 - E este quem é?

 - Este é Luke  - disse Max ao descer da casa lhe rodem, com o Roxanne dormitando em seus braços - . Vem conosco.

Algo ocorreu entre os dois homens, algo que pareceu mais íntimo por não ter sido expresso.

 - Outro, né?  - disse LeClerc com os lábios curvados ao redor da boquilha da pipa que permanentemente sujeitava entre seus dentes - . Já veremos. E como está meu bebê?

Dormitada, Roxanne estendeu os braços e foi elevada pelo LeClerc. A pequena se aconchegou contra esse conjunto de ossos e tendões como se fora um travesseiro de plumas.

 - Está melhor, oui?

 - A varicela foi eterna. Nunca mais penso voltar a me adoecer.

Ele a apoiou sobre seu quadril no momento em que Lily desembarcava da casa lhe rodem. Levava uma pesado bolsa de maquiagem em um de seus braços que cobriam as mangas etéreas de uma bata.

 - Ah, mademoiselle Lily  - disse LeClerc e conseguiu lhe fazer uma reverência em que pese a ter à pequena instalada sobre seu quadril - . E mais formosa que nunca.

Ela sorriu e lhe estendeu uma mão para que ele a beijasse, coisa que LeClerc fez com aprumo.

 - É bom estar em casa, Jean.

 - Passem, passem. Desfrutem do jantar que lhes preparei. -Dito o qual, abriu a marcha da comitiva pelo jardim, onde floresciam em profusão rosas e lilás e begônias e, depois de ascender alguns degraus, transpôs a porta que dava à cozinha. Ali, uma luz iluminava as superfícies lustrosas de azulejos brancos e madeira escura.

Havia um pequeno fogão de tijolos que a fumaça tinha tingido de um cinza rosado. Sobre ele, uma imagem iluminada da Muito santo Virgem, e o que parecia uma matraca a Índia adornada com contas e plumas.

Embora o ambiente estava milagrosamente afresco para supor que fazia pouco se utilizou esse forno, Luke poderia ter jurado que sentiu o aroma cautivamente do pão recém feito.

Ramos secos de especiarias e ervas penduravam do teto, junto com tiras de cebolas e de alho. De ganchos de ferro se localizados sobre a cozinha pendiam reluzentes caçarolas de cobre. Outra panela, da que brotava fumaça, estava sobre a fornalha posterior. O que se estava cozinhando dentro dela cheirava como um manjar.

Uma larga mesa de madeira estava já preparada com bols e pratos e guardanapos de linho a quadros. Sem baixar ao Roxanne, LeClerc tirou de uma despensa todo o necessário para adicionar outro coberto. Luke observou, fascinado, como a tatuagem que LeClerc tinha do punho até o ombro, movia-se e bailoteaba. Compreendeu que eram serpentes. Um ninho de víboras em azul e vermelho desbotados, cobria essa pele correosa.

Só faltava que lançassem um som sibilante.

      - Você gosta?  - perguntou LeClerc com olhos divertidos, enquanto estudava ao Luke - . As serpentes são velozes e ardilosas. E me dão boa sorte.  - E produziu um som sibilante enquanto lançava o braço para o moço.  - Mas as serpentes não são para você, garoto.  - Riu para si enquanto servia sua sopa espessa e aromática. -  Traz-me um jovem lobo, Max. Ele será o primeiro em morder.

 - Um lobo precisa alimentar-se bem.  - Max tomou um canasto que estava sobre a mesa, desentupiu-o e nele apareceu uma fogaça dourada. Passou- o canasto ao Lily.

 - O que sou eu, LeClerc?  - Já bem acordada, Roxanne comia sua sopa.

 - Você.  - Essa face correosa e enrugada se encheu de doçura quando ele passou a mão sobre o cabelo da menina - . É meu gatita.

 - Só uma gatita?

 - Mas as guaritas são inteligentes e valentes e soube, e algumas se convertem em tigresas.

Isso a conformou. Entrecerrou os olhos e olhou ao Luke.

 - Os tigres se comem aos lobos  - disse.

Quando a lua começou a ficar, e até os ecos da música da rua Bourbon se sossegaram, LeClerc se sentou em um banco de mármore do jardim, rodeado das flores que tanto amava.

Max era o dono da casa, mas Jean foi o que a converteu em um lar. Tinha levado a ela antigas lembranças de uma cabana no pântano, e flores silvestres que sua mãe tinha domesticado.

LeClerc teria sido feliz vivendo no pântano, mas não sem o Max e a família que Max lhe tinha agradável.

Fumou seu cachimbo e escutou os sons da noite. A leve brisa arrancava murmúrios das folhas da magnólia, agitava o calor e prometia chuva. A umidade pendurava do ar como uma bruma.

Não viu que Max se aproximava, nem o ouviu, embora tinha bom ouvido. Mas o intuiu.

 - E bem  - aspirou uma baforada de fumaça de sua pipa e observou as estrelas - . O que fará com o moço?

 - lhe dar uma oportunidade  - disse Max - . Quão mesma você me deu faz anos. Seria capaz de me aconselhar que o jogasse?  - perguntou ao sentar-se junto ao LeClerc no banco.

 - É muito tarde para ser prático, quando entra em esculpir o coração.

 - Lily está muito afeiçoada com ele  - começou a dizer Max, mas foi interrompido pela gargalhada estentórea do LeClerc.

 - Só Lily, mon ami?

Max se tomou um momento para acender um charuto e aspirar a fumaça.

 - Tenho-lhe afeto ao moço.

 - Quê-lo muitíssimo - corrigiu-o LeClerc-. Como poderia ser de outra maneira, quando ao te olhá-lo vê você mesmo? Traz-te lembranças. Era difícil reconhecê-lo. Max sabia que quando se ama, é possível machucar e ser machucado.

 - Faz que eu não esqueça. Quando um esqueça a dor, a solidão, o desespero, também esquece mostrar-se agradecido por não sentir já nenhuma dessas coisas. Isso me ensinou isso você, Jean.

 - E agora, meu aluno é o mestre. Isso me agrada.  - LeClerc girou a cabeça e seus olhos escuros brilharam na escuridão.  - Como se sentirá quando ele te supere?

 - Não sei  - disse Max e se olhou as mãos - . comecei a lhe ensinar magia. Ainda não decidi se lhe ensinarei o resto.

 - Não poderá manter muito tempo o secreto para esse par de olhos. Que fazia ele quando o encontrou?

Max teve que sorrir.

 - Era ladrão de carteira.

 - Ah-  - Também LeClerc sorriu.

     -Então, já é um dos nossos. É tão bom como o foi você?

 - Sim  - reconheceu Max - . Talvez melhor que eu a essa idade. Tem menos medo das represálias, é mais desumano. Mas há uma grande distancia entre roubar carteiras em um parque de diversões e abrir fechaduras de mansões e hotéis de luxo com gazuas.

 - Uma distância que você salvou com grande estilo. Lamenta-o, mon ami?

 - Para nada - respondeu Max e voltou a rir - . O que tenho eu de mau?

 - Nasceu para roubar  - respondeu LeClerc e se encolheu de ombros - . Tal como nasceu para tirar coelhos de uma galera. E, ao parecer, também para recolher meninos desencaminhados. É bom te ter de volta em casa.

 - É bom estar em casa.

Por um momento permaneceram em silêncio, desfrutando da noite. Depois, LeClerc foi ao grão.

 - Os diamantes que me mandou de Boston eram excepcionais.

 - eu gostei mais das pérolas do Charleston.

 - Ah, sim. Eram elegantes, mas os diamantes tinham como um fogo dentro. Me causar pena ter que trocá-los por dinheiro.

 - Quanto conseguiu?

 - Dez mil, e só cinco mil pelas pérolas, apesar de sua elegância.

 - O prazer das sentir na mão é maior que o ganho que se obtém.  - Recordou, com prazer, como luziram sobre a pele do Lily uma noite gloriosa.  - E o quadro?

 - Vinte e dois mil. O que é para mim, pareceu-me um trabalho incompetente. Esses pintores ingleses não tinham paixão  - adicionou, desprezando a paisagem do Turner com um movimento de ombros - . Fiquei-me por um tempo mais com o vaso chinês. Trouxe a coleção de moedas?

 - Não, não a consegui. Quando Roxanne adoeceu, cancelei esse compromisso.

 - Melhor assim.  - LeClerc assentiu e seguiu apitando sua pipa. -A preocupação por ela te teria distraído.

 - Assim é, não teria trabalhado bem. De modo que, até que coloque o vaso, isso representa... três mil e setecentos dólares.

 - Para fim de ano, terá esbanjado pelo menos quinze mil. Isso, somado a cada ano que extraíste dez por cento para sossegar seu consciência...

 - Uma doação para obras de caridade  - interrompeu-o Max, divertido - . Não o faço para sossegar minha consciência a não ser para apaziguar minha alma. Sou ladrão, Jean, um ladrão excelente a quem não lhe importam nada as pessoas às que rouba, mas sim muito quem não tem nada que valha a pena roubar. Possivelmente não seja capaz de viver segundo as normas morais dos outros, mas devo cumprir as minhas.

Luke teve a sensação de ter encontrado o paraíso. Não podia acreditar em sua boa sorte.

Tinham-lhe dado um quarto para ele só, e tinha passado a maior parte dessa noite de insônia olhando e tocando. A cabeceira, alta e esculpida, tinha-lhe fascinado, quão mesmo o brilho suave do empapelado das paredes e o desenho e os tons apagados do tapete. Havia um móvel enorme que Max chamou guarda-roupa. Luke supôs que nele caberia mais roupa da que uma pessoa podia necessitar ao longo de toda uma vida.

E havia flores. Um vaso azul alto estava cheio delas. Nunca antes tinha tido flores em seu quarto, e embora sabia que deveria as descartar por ser pouco masculinas, sua fragrância lhe proporcionou um prazer profundo e secreto.

Luke perambulou pela casa tão sigilosamente como a fumaça. Ainda não estava seguro de como era LeClerc, e tratou de evitá-lo em suas explorações.

Os móveis refletiam a elegância do Max e lhe permitiam ter uma idéia de como era seu mentor, embora não reconhecesse as antiguidades francesas nem britânicas. Viu mesas distinguidas e lustrosas, sofás curvos, formosos abajures chinesas e paisagens cheias de paz.

Por muito que gostasse da casa, o lugar favorito do Luke era o balcão que se abria para o exterior de seu quarto. De ali podia cheirar a tibieza das flores e da rua. Podia ver gente que tomava fotografias e procurava souvenirs.

Não pôde evitar notar quão descuidadas eram as pessoas com suas carteiras. As mulheres, com suas carteiras pendurando do ombro; os homens, com o dinheiro metido no bolso traseiro da calça. O paraíso de um ladrão de carteira. Se o de Miami não funcionava, Luke decidiu que iria muito bem ali, incrementado seu salário como "aprendiz de feiticeiro".

 - Que miras? -perguntou Roxanne a suas costas, fazendo-o colocar tenso.

Lhe uniu junto ao corrimão do balcão, muito prolixa e atraente com seus shorts amarelos.

 - O que está fazendo?

 - Olhando.

 - Papai diz que podemos tomar o dia livre. Amanhã temos que começar a ensaiar o novo ato para o cabaré do clube.

 - Que clube?

 - A Porta Mágica. Trabalhamos ali. Nesse lugar podemos apresentar truques mais importantes que na feira. Às vezes Papai vai ao clube durante o dia e faz jogos para alguns dos clientes, de perto.

Luke não sabia que lugar ocuparia no ato do cabaré, mas se propunha assegurar-se algum.

 - Quantas funções por noite?

 - Dois. Às oito e às onze. Somos o número mais importante.  - Franziu o nariz.  - Todos os dias, depois do colégio, tenho que dormir a sesta. Como um bebê. Ao Luke não importavam absolutamente os problemas do Roxanne. Talvez teria oportunidade de luzir-se com os truques de cartas que Roxanne lhe tinha ensinado e que vinha praticando diariamente pelo menos uma hora.

 - Papai me deu dinheiro para um gelado  - disse ela - . Quer ir comprar o?

 - Não.  - Luke estava muito ocupado para ser distraído por um gelado e a companhia de uma molequa de oito anos.  - Vai-te de uma vez, por favor. Tenho que pensar.

 - Mais para mim  - retrucou-lhe Roxanne, sem conseguir controlar da toda uma panela.

Assim que esteve só, Luke tirou seu maço de cartas e começou a praticar. Não viu o vaso se localizado ao lado de suas mãos excitadas.

Para o Luke, todo aconteceu em câmara lenta. Viu o cristal facetado vivo com a luz, cheio de rosas vermelhas. Viu horrorizado como sua mão volteava o vaso, e até o observou balançar-se quando ele se cambaleava tratando de recuperar o equilíbrio.

Seus dedos o roçaram. Sentiu o cristal frio sobre sua pele e lançou um gemido de desespero quando lhe escapou. O som do vaso fazendo-se migalhas sobre a madeira do piso foi como uma surriada de disparos. Luke ficou paralisado, as lascas brilhantes a seus pés, e o aroma a rosas no ar.

LeClerc amaldiçoava. Não fazia falta que Luke soubesse francês para saber que suas palavras eram fortes e cheias de fúria. Não se moveu, não se incomodou em sair correndo.

 - Parece um selvagem. E, agora, quebra o Waterford, arruína as rosas e empapa o piso com água. Imbécile!

    Olhe o que lhe tem feito a meus tesouros.

 - Jean.  - A voz do Max foi pouco mais que um sussurro, mas interrompeu o manha de criança do velho.

 - O Waterford, Max  - disse LeClerc e ficou em cuclillas para recuperar suas rosas.

 - Jean  - repetiu Max - . Suficiente. lhe olhe a face. Com as mãos cheias de rosas que jorravam água, LeClerc levantou a vista. O moço estava alvo como o papel, e seus olhos escuros apareciam velados por algo muito profundo para ser chamado medo. Com um suspiro, incorporou-se.

 - Procurarei outro vaso  - disse e se foi.

 - Decepciona-me, Luke  - disse Max em voz baixa. Algo se estremeceu nas vísceras do Luke e apareceu por um instante em seus olhos. Um insulto, um golpe não o teriam roçado, mas essa singela tristeza na voz do Max impregnou fundo em seu coração.

 - Lamento-o.  - As palavras queimaram como ácido em sua garganta.  - Posso pagar pelo vaso. Tenho dinheiro para fazê-lo.

Não me jogue, suplicou seu coração. Deus, por favor, não faça que me jogue.

 - O que é o que lamenta?

 - Ser torpe. Estúpido. Lamento-o  - repetiu, e seu desespero cresceu enquanto esperava o golpe. Ou, pior ainda, que o jogassem pela porta.

Max levantou uma parte do cristal quebrado.

 - O que vê aqui?

 - Está quebrado. Eu o quebrei. Nunca penso em ninguém mais que em mim, Y...

 - te cale. Está quebrado  - disse Max, lutando por acalmar-se - . E é verdade que você o quebrou. Teve intenção de fazê-lo?

 - Não, mas eu...

 - Olhe isto  - disse e lhe mostrou a parte de cristal ao Luke - . É uma coisa. Um objeto. Algo que qualquer pode possuir se tiver o dinheiro suficiente. Acredita acaso que você vale menos para mim que isto?  - Quando o jogou em um lado, Luke não pôde conter mais os tremores.  - Acredita que eu seria capaz de te atingir por ter quebrado um vaso?

 - Eu não...  - Ao Luke custava respirar enquanto a pressão que sentia em seu peito se expandia como um incêndio. Não pôde evitar que em seus olhos brotassem lágrimas.  - Por favor, não me jogue.

 - Minha querida criatura, como pode ter estado comigo todas estas semanas e não saber que sou diferente deles? Machucaram-lhe muito?  - murmurou Max e apertou ao Luke contra seu corpo. O moço ficou tenso ao voltar a sentir esse temor primitivo. Mas o medo se desvaneceu quando Max começou a balançá-lo.  - Ninguém pode te obrigar a voltar. Aqui está a salvo.

Sabia que deveria lhe dar vergonha estar chorando como uma criatura contra a camisa do Max, mas os braços que o rodeavam eram fortes, sólidos, reais,

Que classe de moço é este  - perguntou-se Max - , que está disposto a desfazer-se de um de seus preciosos dólares para pagar pelo que quebrou? E pensou profundamente que o podiam machucar a crueldade e a falta de opções.

 - Pode-me dizer o que lhe fizeram? Luke sentiu uma onda de vergonha e, ao mesmo tempo, a necessidade de que alguém entendesse.

 - Eu não pude fazer nada. Não pude frear as coisas.

 - Já sei.

As velhas raivas se foram acalmando à medida que caíam as lágrimas.

 - Atingiam-me todo o tempo. Se eu fazia algo, se não o fazia. Se estavam bêbados, se estavam sóbrios.

 - Os punhos do Luke se fecharam contra a camisa do Max como pequenas bolas de ferro.  - Às vezes me encerravam com chave, e eu atingia na porta do placard e lhes suplicava que me deixassem sair. Mas não podia. Nunca pude sair.

     Foi espantoso recordá-lo: sentir-se chorar histéricamente no ataúde escuro do placard, sem esperanças, sem ajuda, sem poder escapar.

 - Vinham as assistentes sociais, e se eu não dizia o que ele queria, desforrava-se me açoitando com o cinto. A última vez, a última vez antes de que me fora de casa, acreditei que me mataria. Ele tivesse querido fazê-lo.

Mas havia mais. Luke não estava seguro de atrever-se a dizê-lo. Mas ao ver os olhos serenos e intensos do Max nos seus, foi soltando a fervuras.

 - Ele... uma noite trouxe para um homem a casa. Era tarde e estavam bêbados. Ao saiu e fechou a porta com chave. E o homem.. o homem tratou de...

 - Está bem  - disse Max e tratou de abraçar de novo ao moço, mas o horror fez que Luke se separasse.

 - Colocou-me as mãos em cima, e a boca.  - Luke se limpou agora a seu com o dorso da mão.  - Disse que lhe tinha pago a Ao, e que se supunha que eu devia lhe fazer coisas, e deixar que ele me fizesse isso . E eu fui um estúpido, porque não soube o que queria dizer com isso.

'Agora não houve lágrimas a não ser uma raiva feroz.

 - Não soube até que o tive em cima de mim. Então sim que soube  - disse Luke e começou a entrelaçar as mãos e às soltar, deixando profundos rastros em sua Palmas-. Atingi-o e o atingi, mas ele não se detinha. Assim que me coloquei a mordê-lo e a arranhá-lo. Fiquei com as mãos cheias de seu sangue, e ele, apertando-a face e chiando. Então entrou Em, e me atingiu durante um bom momento, E não recordo... não sei se...  - Isso era o pior: não saber, não ter a certeza. Era uma vergonha que ele não conseguia expressar em voz alta.  - Essa noite quis me matar. E essa noite fui.

Max permaneceu em silêncio um bom momento, tanto que Luke teve medo de ter falado muito, de haver dito muito para ser perdoado.

 - Fez-o todo bem.  - Algo na voz do Max fez que nos olhos do Luke voltassem a aparecer lágrimas. -  E eu te prometo uma coisa: que ninguém voltará a te tocar nessa forma enquanto esteja comigo.

Luke tratou de perguntar, mas as palavras lhe engasgaram até que ele as obrigou a sair. Sua vida dependia da resposta:

 - Então posso ficar aqui?

 - Até que queira ir.

Sua gratidão foi tão enorme, que teve medo de que lhe estalasse o coração. Quão mesmo o amor.

 - Pagarei pelo vaso  - conseguiu dizer - . Prometo-o.

 - Já o tem feito. Agora, corre a te lavar a face. E será melhor que limpemos isto antes de que ao LeClerc dê outro ataque.

Desde seu esconderijo na salita, Roxanne ouviu que seu pai suspirava. E ela pôs-se a chorar.

Capítulo 6

Durante os dias que seguiram, Luke agiu com muita cautela. Não estava seguro do LeClerc, e só sabia que ele estava a cargo da casa. Fez o possível por manter-se fora de seu caminho. E jamais cometeu sequer o deslize de deixar cair miolos ao piso.

Acompanhava ao Lily a fazer compras, e lhe levava caixas e bolsas por essas ruas fumegantes. ficava sentado com a Santa paciência nas boutiques enquanto ela escolhia roupa nova, esperava-a quando se atrasava lançando exclamações frente às cristaleiras.

Seu amor pelo Lily era suficientemente profundo para tolerar que lhe escolhesse a roupa. Tanto que nem sequer fazia uma careta frente às camisetas de cores vivas e desenhos vistosos que lhe comprava. Se ficava tempo livre, percorria o bairro, feliz de poder explorar, de poder ouvir os músicos de rua e observar aos pintores nos arredores do Plaza Jackson.

Mas o melhor para o Luke eram os ensaios.

A Porta Mágica era um clube pequeno e sombrio com aroma de uísque e a fumaça impregnada nas paredes durante décadas. Nessas tardes de calor cansativo, as persianas se baixavam para proteger do sol e dos turistas. O aparelho de ar condicionado de ar lançava chiados metálicos mais impressionantes que o leve sopro de ar morno que produzia. O ventilador de teto conseguia funcionados um pouco mais satisfatórios, mas com as luzes de cena acesas, o clube era um pequeno forno.

As paredes estavam empapeladas em veludo vermelho e dourado, e a parede atrás do mostrador do bar se encontrava coberta de espelhos para dar ilusão de um maior espaço.

Ao Luke fascinava.

Cada tarde, Lester Friedmont, o gerente, sentava-se frente à mesa mais próxima, com uma cerveja e um charuto aceso entre os lábios. Era um homem alto cujos quilos de mais se acumulavam invariavelmente em sua barriga. Usava sem exceção uma camisa branca de mangas curtas, com gravata e atiradores fazendo jogo. Seus sapatos negros sempre exibiam um brilho impecável. Seu cabelo já não tão abundante, penteado para trás com fixador, brilhava sob as luzes. Observava seu mundo através dos cristais sujos de seus grossos óculos negros, calçados na ponta de seu nariz angular.

Um gato volumoso que ele chamava Fifi estava acostumado a esfregar-se ao redor de suas pernas. afastava-se da momentos para mordiscar o conteúdo de um prato colocado debaixo do mostrador do bar e retornava junto a seu amo.

Friedmont tinha um telefone sobre a mesa. Possuía a habilidade de observar o ensaio, expressar seus comem-: arianos, atormentar à pessoa que limpava nesse momento o clube, e falar por telefone, todo em forma simultânea.

Luke demorou vários dias em dar-se conta de que Friedmont era um levantador de apostas.

Não importava com quanta freqüência ensaiavam um número, Lester sempre sacudia a cabeça e gritava:

 - Deus, que bom que esteve isso. Dirá-me como o fez, Max?

 - Sinto muito, Lester. É um segredo profissional.

E Lester voltava para enfrascarse na tarefa de tomar apostas e arranhá-la barriga.

Max planejava começar a função com alguns jogos de prestí digitação e vários truques com lenços de cores, similares aos apresentados no parque de diversões. Depois, queria acrescentar sua própria versão da bola que flutuava no ar, antes de fazer aparecer ao Roxanne para seu novo número chamado Levitação da Moça. Tinha-lhe dado uma volta de porca adicional ao ato da mulher serrada em dois, ao utilizar uma caixa vertical e cortar ao Lily em três partes. O ato de ilusionismo era quase perfeito.

Provava ao Luke em distintos papéis. Não tinha dúvidas sobre a rapidez mental e de mãos do moço. O que provava agora era seu coração.

 - Observa  - disse-lhe - . Aprende.

De pé no centro do cenário, Max extraiu lenços de seda de seu bolso, de uma cor atrás de outro. Os lábios do Luke começaram a crispar-se. Não entendia que o que estava vendo era puro manejo do tempo, pura estratégia.

 - Estende os braços  - ordenou-lhe Max, e foi colocando os lenços, aparentemente ao azar, sobre os braços do Luke - . Isto ficaria muito melhor com música. Lily?

Ela colocou em funcionamento o reprodutor. ouviu-se o Danubio Azul.

 - Esta valsa é lenta, precioso  - disse Max - . Trataremos de que os gestos o reflitam.  - Suas mãos voaram sobre os lenços, elevaram-se, caíram, enquanto caminhava ao redor do Luke.  - E, é obvio, se escolher a uma mulher formosa do público para que ocupe seu lugar, isso realçará o espetáculo e a beleza do efeito. E sua reação induzirá a do resto dos espectadores.  - Com um movimento do punho, Max tomou o extremo de um lenço e, ao atirar dele, os outros seguiram, prolixamente atados entre si, do escarlate ao amarelo, do amarelo à safira, da safira à esmeralda.

Luke abriu os olhos de par em par e depois sorriu.

 - Excelente  - disse Max enquanto, simultaneamente, apertava os lenços até convertê-los em uma bola colorida - . Como vê, inclusive em um truque tão singelo, a presença em cena, a habilidade na apresentação, são tão importantes como a rapidez. Fazer bem um truque nunca é suficiente. Mas se o faz com graça...  - Arrojou a bola ao ar e os lenços, agora soltos, flutuaram para o chão.

Roxanne, que estava perto, riu e aplaudiu.

 - Eu gosto de esse, Papai.

 - Meu melhor público  - disse Max, e se inclinou para recolher os lenços - . Vamos, agora faz-o você. Roxanne se esfregou as mãos e se mordeu o lábio.

 - Ainda não posso fazê-lo com tantos lenços.

 - Então, faz o que possa.

Os nervos e o orgulho se fundiram nela enquanto escolhia seis dos lenços. Olhando ao público imaginário, apertou-os primeiro dentro de sua mão e depois fez ondear cada um e foi colocando nos braços do Luke. Havia algo inegavelmente feminino em seus gestos que fez sorrir ao Max enquanto ela passava as mãos por cima e por debaixo dos lenços de seda. Embora seguiu o compasso da música enquanto executava uma série de piruetas lentas ao redor do Luke, sua concentração era total. No mundo do Roxanne, não existiam os truques fáceis e singelos. Todos eram importantes.

De novo frente a Luke, Roxanne sorriu, passou uma vez mais as mãos sobre os lenços, como poderia fazê-lo uma mulher ao acariciar um gato e depois, agarrando o extremo de um, fez-o ondear por sobre sua cabeça. Riu com ar triunfal quando se rodeou os ombros com os lenços atados.

 - Bem feito  - disse Max e a levantou para lhe estampar um beijo - . Muito bem feito.

 - É fantástica, Max  - gritou Lester - . Deveria deixar que o fizesse frente ao público.

 - Você o que diz, Roxanne?  - perguntou Max e lhe acariciou o cabelo antes de colocá-la de novo no chão - . Está preparada para fazê-lo só?

 - Posso?  - Sentiu que o coração lhe estalava no peito.  - Por favor, Papai, posso?

 - Faremos a prova na primeira função, e depois veremos.

Ela lançou um chiado e correu para o Lily.

 - Posso usar aros? Aros de verdade? Posso? Lily sorriu ao Max por sobre a cabeça da pequena.

 - Pode escolher os que mais você goste.

 - Os que estão no negócio ao final da rua. Os azuis.

 - Tome vinte minutos, Lily  - sugeriu Max - . Uma mulher necessita pelo menos esse tempo para escolher acessórios para seu traje.  - E, além disso, queria estar um momento a sós com o Luke.

 - E bem.  - Enquanto Roxanne arrastava ao Lily para fora, Max tomou um maço de cartas e começou a fazer cortes com uma sozinha mão.  - Suponho que te está perguntando por que uma menina pode fazer algo que você não pode.

Luke ficou avermelhado, mas manteve o queixo em alto.

 - Eu posso aprender algo que ela saiba.

 - É possível.  - Para entreter-se, Max formou um leque com as cartas. Poderia te dizer que é um engano usá-la a ela, ou a qualquer outra pessoa, como medida para você mesmo. Mas não me escutaria.

 - -Você poderia me ensinar.

 - Poderia  - disse Max.

 - Eu já sei alguns truques. estive praticando.

 - Ah, sim?  - Arqueando uma sobrancelha, Max lhe ofereceu as cartas.  - me mostre.

Quando Luke mesclou as cartas, os nervos lhe umedeceram as pontas dos dedos.

 - O efeito não será o mesmo, porque você sabe como se faz.

 - Nisso te equivoca. O melhor público de um mago é outro mago, porque entende o propósito do jogo. Entende-o você?

 - Fazer um truque  - respondeu Luke, tratando de concentrar-se nas cartas.

 - Somente isso? Sente-se  - disse Max. Quando estiveram instalados frente a uma das mesas, escolheu uma das cartas do maço que Luke lhe oferecia.  - Qualquer pode aprender a fazer um truque. Só faz falta entender como funciona, e uma habilidade básica que pode refinar-se com a prática. Mas a magia...  - Olhou a carta e depois a colocou dentro do maço.  - Magia é tomar o que é real e o que não o é, e fundi-los por um momento em uma sozinha coisa. É fazer que o incrédulo pisque com surpresa. É lhe dar às pessoas o que ela quer.

 - O que é o que quer a gente?  - Luke mesclou as cartas, deu um golpecito sobre a de acima, e quando a girou era a carta escolhida pelo Max. Seu coração se encheu de satisfação ao ver o gesto de aprovação do Max.

 - Excelente. me faça outro.  - E se tornou para trás, enquanto Luke realizava com dificuldade um corte com uma sozinha mão.  - O que é o que quer a gente? Ser enganada, enganada, surpreendida. Ver como, diante de seus narizes, ocorre o assombroso.  - Max abriu a mão e mostrou ao Luke uma pelotita vermelha.  - Diante o seus próprios olhos.  - Esmagou a bola contra a mesa, depois, tirou sua outra mão de debaixo da mesa. Nela estava a bola, e a outra mão estava vazia. Luke sorriu e preparou as cartas para outro jogo.

 - Juntou-a  - disse Luke - . Sei que o fez, mas não o vi fazê-lo.

 - Porque eu olhei aos olhos. E então você olhou meus. Sempre olha-os aos olhos. Com expressão inocente ou presumida, como escolhe. Mas olha-os aos olhos. Isso faz que um simples truque seja verdadeira magia.

 - Mas um truque é algo assim como uma armadilha, não?

 - Só se não obter que desfrutem de do engano  - voltou a assentir quando Luke deu volta os quatro agarra da parte superior do maço que acabava de mesclar - . Seu técnica é boa, mas onde está seu estilo? Onde está isto que diz a seu público que não é tão somente um truque bem praticado a não ser magia? Faz-o de novo  - disse e empurrou as cartas para o Luke - . Me assombre.

Max observou a concentração que aparecia nos olhos do moço, ouviu suas duas respirações profundas enquanto se preparava.

 - Quero fazer de novo o primeiro.

 - Está bem. Mas antes quero ouvir seu apresentação. A cor tingiu as bochechas do Luke, mas pigarreou e começou. Fazia várias semanas que o praticava.

 - Eu gostaria de lhes mostrar alguns jogos de cartas.  - E fez uma mescla russa e um corte especial.  - Agora bem, não todos os magos lhes dirão de antemão o que pensam fazer. Mas eu sou só um menino e não sei fazê-lo melhor.  - Formou um leque com o maço e lhes mostrou as cartas a seu público imaginário para que vissem que era um maço comum.  - Pedirei-lhe agora a esse cavalheiro que escolha uma carta, qualquer carta.  - Luke abriu em fita as cartas de barriga para baixo sobre a mesa, e aguardou um instante enquanto Max tomava uma.  - Essa?  - disse e pareceu intranqüilo - . Seguro que escolhe essa?

lhe seguindo o jogo, Max assentiu com a cabeça.

 - É obvio que escolho essa.

 - Seguro que não prefere esta?  - perguntou Luke e mostrou a última carta - . Não?  - E tragou forte quando Max se manteve em seus treze.  - Está bem. Mas recordem que sou só um menino. Por favor, lhe mostre a carta ao público. Mas assegure-se de que eu não a veja

 - adicionou enquanto estirava o pescoço para tratar de ver a carta - . Bem. Suponho que agora pode colocar a carta no maço, em qualquer lugar, onde queira. E depois, pode mesclar o maço... a menos que queira que o eu faça  - disse com voz esperançada enquanto juntava as cartas.

 - Não, acredito que as mesclarei eu.

 - Estupendo  - disse e suspirou - . Quando estiverem mescladas, eu farei um corte e, por arte de magia, aparecerá a que este amável cavalheiro escolheu.  - Colocou a mão no bolso, tirou um lenço invisível e se secou a frente.  - Acredito que assim está bem. Sério, já mesclou o bastante  - disse e tirou o maço ao Max. depois de colocá-lo sobre a mesa moveu as mãos sobre ele e murmurou:  - Já quase a tenho. Aqui está!

 - Fez um corte e levantou uma carta com tom triunfal. Ao ver que Max negava com a cabeça, pareceu muito abatido.  - Não é essa? Estava seguro de que tinha feito todo bem. Aguarde um minuto...  - Voltou a colocar as cartas em seu lugar e uma vez mais escolheu uma equivocada. "A este maço acontece algo. Não acredito que sua carta esteja aqui absolutamente. Acredito que você fez armadilha.”  - ficou de pé, furioso, e começou a falar com o público.  - E você deve ter um ajudante entre o resto dos espectadores. Você  - disse e assinalou ao Lester, quem se encontrava atarefado recebendo apostas.  - Vamos, dê-me isso

 - Que te dê o que, moço?

 - A carta. Sei que a tem.

 - Um momento  - disse Lester, apoiou-se o tubo do telefone no ombro e levantou as duas mãos - . Eu não tenho nenhuma carta, moço.

 - Ah, não?  - Luke colocou a mão debaixo da cintura da calça do Lester e extraiu um nove de diamantes - . Suponho que estava caminho a uma partida de pôquer.

Enquanto Lester se desternillaba de risada, Luke levantou a carta para que o público a visse.

 - Obrigado. Muito obrigado. foi você muito amável em colaborar  - disse ao Lester - . por que não fica de pé e aviso?

 - Seguro, moço, seguro.  - Divertido, Lester ficou de pé.  - Tem um aluno muito prometedor, Max. Vejo-lhe um grande futuro.

O elogio fez que Luke sonriera de orelha a orelha. Mas isso não foi nada comparado com o gosto de ouvir a risada do Max.

 - Bom  - disse Max e já de pé, colocou uma mão no ombro do Luke - , isso sim que é ter habilidade para os efeitos teatrais. Vejamos se podemos incluir esse número na função.

A boca do Luke se abriu de par em par.

 - Sério?

Max despenteou ao moço, e lhe alegrou comprovar que já não reagia negativamente ante esse contato.

 - Sério.

A viagem de Nova Orleáns ao Lafayette não foi muito longo. Com Mouse ao volante do sedan escuro, Max pôde reclinar-se, fechar os olhos e preparar-se. Roubar não era muito diferente de agir frente a um público. Ou, ao menos, não foi nunca para ele. Quando começou, tantos anos antes, fundiu as duas habilidades. Era uma questão de sobrevivência.

Agora, com mais anos e mais amadurecido, separava suas atuações profissionais dos roubos. Isso também era uma questão de sobrevivência. Agora que seu nome era bem conhecido, teria sido temerário lhe roubar a sua audiência.

E Max não era um homem temerário.

Se alguém assinalasse que já não tinha necessidade de roubar para ter o estômago cheio ou um teto sobre sua cabeça, Max se teria mostrado de acordo. Também teria agregado que não só era difícil quebrar um hábito mantido durante tanto tempo, sobre tudo para quem era tão hábil nesse campo, mas também roubar lhe divertia.

Para um menino não querido, maltratado e abandonado, roubar foi uma questão obrigada e um desafio.

Agora, era mas bem uma questão de orgulho.

além de ser um dos melhores em seu gênero, escolhia seus alvos com cuidado, lhe roubando só a quem podia dar o luxo de perder.

Dificilmente trabalhava perto de sua casa. Max o considerava de uma vez arriscado e complicado. Mas, como é sabido, as regras se fazem para as violar.

Com os olhos fechados, conseguia ver o brilho e a beleza do colar de aguamarinas e diamantes. Essa gelada combinação de azul e branco. Pessoalmente, ele preferia as gemas cálidas: rubis, safiras, cores ricas e profundas que encerravam paixão e glória. Mas às vezes era preciso passar por cima o gosto pessoal em bem da praticidade. Se a informação que possuía era correta, essas aguamarinas com talha de esmeralda lhe proporcionariam um bom total quando as tirasse de seu engaste.

LeClerc já tinha um comprador.

Inclusive depois de descontar a décima parte e os castos, Max calculou que ficaria uma boa fatia para o fundo destinado  aos estúdios universitários do Roxanne, e também para o que tinha aberto fazia pouco para o Luke.

Sorriu para si. A ironia sempre o fazia graça. Era um ladrão a quem lhe preocupavam as taxas de juros e os recursos de investimento.

 - Esta é a esquina, Max.

Max abriu os olhos e notou que Mouse tinha detido o veículo junto ao cordão da vereda. Era uma vizinhança tranqüila e arborizada, com elegantes mansões atormenta detrás de folhas e arbustos em flor.

 - Ah, sim. Que horas são?

Mouse consultou seu relógio, e outro tanto fez Max.

 - As duas e dez.

 - Esplêndido.

 - O sistema de alarme é realmente elementar. Quão único tem que fazer é cortar os dois cabos vermelhos. Mas, se não estar seguro, posso ir fazer o por você.

 - Obrigado, Mouse  - disse Max enquanto se calçava um par de magras luvas negras - . Acredito que posso fazê-lo. Se a caixa forte for como disse LeClerc, só necessitarei sete ou oito minutos para abri-la. te encontre aqui comigo às duas e meia em ponto. Se me atrasar mais de cinco minutos, vai-te.  - Para ouvir que Mouse grunhia, Max lhe deu uns toquezinhos no ombro.  - É preciso que eu conte contigo nesse sentido.

 - Estará de volta a tempo  - disse Mouse e se inclinou no assento.

 - E seremos vários milhares de dólares mais ricos  - disse Max, desembarcou do automóvel e se perdeu entre as sombras.

Uma meia quadra mais adiante, saltou por cima de um muro baixo de pedra. Não se viam luzes na casa de tijolos de três plantas, mas igual deu um rodeio para estar seguro antes de procurar a caixa do alarme. Uma vez que houve seccionado os cabos vermelhos, não vacilou nem um instante. Mouse não se equivocava nunca.

Tomou o cortavidrios e a ventosa da bolsa de couro suave que levava na cintura. As nuvens que dançavam por sobre a lua faziam que a luz trocasse todo o tempo, mas ele não precisava ver: embora tivesse estado cego ou com os olhos enfaixados, igual teria encontrado a forma de entrar e de sair por uma porta fechada com chave.

ouviu-se um leve clique ao colocar a mão e soltar o fecho. Depois, silêncio. como sempre, escutou e aguardou um momento antes de entrar.

Jamais poderia haver descrito a ninguém o que sentia cada vez que entrava em uma casa escura e em silêncio, algo que se parecia muito ao poder.

Silencioso como uma sombra, atravessou a cozinha, depois a sala de jantar e ingressou no vestíbulo.

Seu coração começou a bater depressa.

Encontrou a biblioteca exatamente onde LeClerc lhe havia dito; e a caixa forte, oculta detrás de uma porta falsa.

Com uma lanterna lapiseira sustentada com os dentes e um estetoscópio perto da fechadura, Max começou sua tarefa.

Desfrutava dela. Na biblioteca flutuava um leve aroma de rosas já murchas e a tabaco. Uma suave brisa fazia que os ramos de um castanho repicassem contra a janela. Percebeu o estalo da terceira das quatro combinações da fechadura ao cair em seu lugar. Então ouviu os gemidos.

Preparado para sair correndo, girou com lentidão e, com a lanterna, iluminou em direção ao som. Um cachorrito, de não mais de algumas semanas, observava-o. Com outro gemido, sentou-se e molhou o tapete turco.

 - É um pouco tarde para me pedir que te deixe sair  - murmurou Max - . Sinto muito, mas não tenho tempo para limpar o que tem feito.

ficou a trabalhar na quarta combinação enquanto o cachorro se aproximava para olisquearle os sapatos. Com um suspiro de satisfação, Max abriu a caixa forte.

 - Por sorte para mim, não planejei este trabalho para dentro de um ano, quando você já fosse suficientemente grande para me pegar uma dentada. Embora tenha no traseiro a cicatriz que me deixou um caniche não muito maior que você.

Fez a um lado os certificados de ações da Bolsa e abriu uma caixa de veludo. As aguamarinas o saudaram com um brilho. Usando a lanterna e uma lupa de joalheiro, revisou as pedras e suspirou com satisfação.

 - Uma preciosura  - disse, tirou-as da caixa e as colocou na bolsa.

Quando se inclinava para despedir do cachorro com uma carícia, ouviu ruído de passos pela escada.

 - Diabinho?  - era uma voz feminina e aguda, que falava quase em um sussurro - . Diabinho, está lá abaixo?

 - Diabinho?  - repetiu em voz baixa Max e acariciou ao cão - . Alguns de nos vemos obrigados a crescer e a superar nossos nomes.  - Fechou a caixa forte e se escondeu entre as sombras.

Uma mulher de média idade, com uma rede para cabelo no cabelo e a face encremada, entrou em pontas de pé à biblioteca. O cachorro lançou um gemido, atingiu com a cauda sobre o tapete e começou a avançar para onde se encontrava Max.

 - Ali está! Vêem com seu mamita!  - A menos de trinta centímetros do Max, elevou o cão.  - No que andaste? Cão mau.  - Começou a beijar ruidosamente ao cachorro, que tratava de escapar.  - Tem fome. Tem fome, meu amor? Daremo-lhe um lindo bol com leite.

Max fechou os olhos e ficou por completo de parte do pobre cão, que uivava e tratava de liberar-se. Mas a mulher o agarrou com força contra seu peito e se dirigiu à cozinha.

Posto que isso significava que Max não poderia sair pelo caminho utilizado para entrar, levantou a janela. Se a sorte seguia acompanhando-o, a mulher estaria muito ocupada com o cachorro para notar o prolixo buraco na porta de vidro da cozinha.

Em caso contrário, refletiu Max enquanto passava uma perna pela janela, inicialmente igual contaria com certa vantagem.

Fechou a janela a suas costas e procurou não pisar no trabalhador de pedreira de pensamentos.

Luke não podia dormir. A sozinha ideia de agir de noite seguinte o enchia de excitação e de terror. E se fracassava? E se esquecia o truque? O que aconteceria o público pensava que ele não era mais que um menino tolo?

Mas ele sabia que podia ser um bom mago. Sabia que, no fundo, tinha tudo o que fazia falta para sê-lo. Mas muitos anos de ouvir que o consideravam estúpido, inútil, imprestável, tinham deixado seu rastro nele.

Luke tinha uma sozinha maneira de vencer a insônia: comer.

tornou-se algo em cima e começou a baixar sigilosamente pela escada. Por sua mente desfilavam imagens do porco à churrasqueira e o bolo de noz preparados pelo LeClerc, quando a voz de este o fez deter-se e lançar uma imprecação. Estava longe de sentir-se seguro desse velho. Mas quando ouviu também a voz do Max,

 - Seu informação é sempre confiável, Jean. Os planos, a caixa forte, as gemas.  - Max tinha uma taça de conhaque em uma mão e as jóias na outra.  - Não posso protestar muito pela aparição de um cachorrito.

 - A semana passada não tinham nenhum cão. E tampouco faz cinco dias.

 - Pois agora sim o têm.  - Max se pôs-se a rir e bebeu mais conhaque.  - Ao que ainda não lhe ensinaram onde deve fazer suas necessidades.

 - Graças a Deus que não ladrou.  - LeClerc verteu um pouco de uísque em seu café.  - Eu não gosto das surpresas.

 - Até certo ponto, eu gosto de muito.  - E a luz do êxito brilhou nos olhos do Max, como o colar que cintilava com a luz do teto.  - Do contrário, você trabalho se voltaria muito rotineiro. E a rotina é perigosa. Acredita que sentirão saudades isto pela manhã?  - E sustentou em alto o colar, deixando que as gemas se deslizassem por seus dedos.  - E o fato de que este colar fora o pagamento de uma dívida de jogo, evitará que eles denunciem sua perda?

 - Denunciem-na ou não, jamais poderão rastreá-lo até aqui.  - LeClerc começou a levantar sua  taça de café em um brinde, mas se freou em seco. Seus olhos se entrecerraram quando voltou a colocar a taça sobre a mesa.  - Temo-me que esta noite, as paredes têm pelo menos dois ouvidos.

Alertado, Max olhou para cima e depois suspirou.

 - Luke.  - Pronunciou o nome e logo fez um gesto para as sombras.  - Vêem a luz.  - Aguardou e calibrou o rosto do moço enquanto Luke se aproximava da cozinha.  - É tarde para que esteja levantado.

 - Não podia dormir.  - em que pese a seu esforço por não fazê-lo não podia se separar os olhos do colar. Foi uma questão de confiança, de pura confiança, a que lhe permitiu voltar a olhar ao Max e dizer:  - Você o roubou.

 - Sim.

Luke estendeu um dedo e roçou uma das gemas cor celeste.

 - por que?

Max se tornou para trás em seu assento, bebeu um gole de conhaque e refletiu.

 - por que não?

Os lábios do Luke tremeram para ouvir essa resposta. Era uma boa resposta. Funcionou-lhe mais satisfatória que muitas doídas justificações.

 - Então é um ladrão.

 - Entre outras coisas.  - Max se inclinou para frente, mas resistiu o impulso de colocar uma mão sobre a do Luke.  - Decepciono-te?

Os olhos do Luke se encheram de um amor que não tinha palavras para expressar.

 - Não poderia fazê-lo  - disse e sacudiu a cabeça em uma negação frenética - . Jamais.

 - Não esteja tão seguro.  - Max lhe roçou a mão e depois tomou o colar. - O vaso que quebrou aquele dia era um objeto... este também o é. Os objetos valem só tanto ou tão pouco como a gente crie.  - Fechou a mão sobre o colar, atingiu-se os punhos e abriu as duas mãos. Estavam vazias.  - Uma ilusão mais. Minhas razões para me apropriar do que outros valoram são minhas. Talvez algum dia as compartilharei contigo. Até então, peço-te que não fale disso.

            - Não o direi a ninguém.  - Primeiro, preferiria morrer

           -Posso ajudá-lo. Asseguro-lhe que posso fazê-lo  - repetiu, furioso com o sorriso de desprezo do LeClerc - . Posso fazer bom dinheiro como ladrão de carteira.

 - Luke, não existe dinheiro mau. Mas prefiro que não coloque as mãos nos bolsos de outros, a menos que seja como parte de uma atuação.

 - Mas, por que...?

 - Eu lhe direi isso.  - Indicou ao Luke que se sentasse, e o colar voltou a aparecer em sua mão.  - Se tivesse permanecido no parque de diversões, provavelmente lhe teriam aceso. Algo desprolijo e lamentável.

 - Eu sou cuidadoso.

 - É jovem  - corrigiu-o Max - . Por exemplo, duvido que te tenha ocorrido pensar se as pessoas às que lhe roubou podiam dar o luxo de prescindir desse dinheiro.  - Sacudiu a cabeça antes de que Luke pudesse falar.  - E seu necessidade era grande nesse momento. Mas não o é agora.

 - Mas você rouba.

 - Porque escolhi fazê-lo. Porque, Lisa e sinceramente, diverte-me. E por razões muito complexas que você...  - interrompeu-se e riu para si.  - Estava por dizer que não empreenderia. Mas não é assim.  - Seus olhos se escureceram.  - Eu era apenas maior que você quando LeClerc me encontrou. Ganhava moedas e bilhetes com truques o cartas. E roubando carteiras. Também eu tinha escalado da classe de pesadelo que nenhum menino deveria experimentar. A magia me salvou. E também o fato de roubar. Não me desculpo por ser ladrão. Cada vez que roubo, recupero algo do que me roubaram.

    pôs-se a rir e bebeu um sorvo de conhaque.

 - Não quero nem pensar o que um psiquiatra diria disso. Não, não me desculpo, mas tampouco jogarei justiceiro contigo. Eu te ensinarei magia, Luke. E quando for maior, tomará seus próprias decisões. Luke refletiu um momento.

 - Roxanne sabe?

Pela primeira vez, a sombra de uma dúvida apareceu no rosto do Max.

 - Não vejo nenhum motivo para que saiba. Isso fez que as coisas lhe parecessem melhores ainda. O fato de estar a par de algo que Roxanne ignorava, era maravilhoso.

 - Esperarei. Aprenderei.

 - Estou seguro de que sim. E, falando disso, devemos começar a pensar em seu educação. O entusiasmo do Luke sofreu um rude golpe.

 - Educação? Não penso ir ao colégio.

 - Pois sim o fará.  - Com ar casual, Max entregou o colar ao LeClerc.  - Suponho que os trâmites serão bastante singelos.

 - Tomarão uma semana  - disse LeClerc - . Ou possivelmente dois.

 - Excelente. Então estaremos inteligentes para as classes no outono.

 - Não penso ir ao colégio  - repetiu Luke - . Não preciso ir ao colégio. Você não pode me obrigar a ir.

 - Ao contrário  - disse Max com serenidade - . Irá ao colégio, obviamente o necessita, e te asseguro que posso te obrigar a ir.

Luke estava disposto a morrer por ele, haveria-se sentido feliz com a oportunidade de demonstrá-lo. Mas não estava disposto a sofrer horas de aborrecimento durante cinco dias por semana.

 - Não irei.

Max se limitou a sorrir.

 

Luke foi ao colégio. Suas súplicas e regateios e ameaças caíram em ouvidos surdos. Quando descobriu que inclusive a terna Lily estava contra ele, deu-se por vencido.

Ou o simulou.

Podiam obrigá-lo a ir. Ao menos, podiam fazê-lo vestir-se, carregar um montão de livros estúpidos e enfiar para o colégio sob o olhar de águia do LeClerc.

Mas não podiam obrigá-lo a aprender nada.

Mas a vaidade com que Roxanne luzia suas "sobressalentes" e suas bandas de honra começaram a lhe picar o amor próprio. Não podia tolerar o sorriso que lhe dedicava quando Max ou Lily lhe expressavam sua aprovação. E, cada noite, a molequa se sentava entre decorações e se dedicava a fazer suas tarefas entre um ato e outro.

Max tinha ampliado seu número com os lenços de seda.

Luke sabia que se podia tirar um sobressalente. Se o propunha.

Não era nada muito complicado, mas para demonstrar que uma molequa com face de macaco não podia superá-lo, estudou para a prova de geografia.

depois de todo, não foi tão espantoso estudar sobre os diferentes estados e seus capitais. Sobre tudo quando começou a contar quantos desses estados tinha visitado.

Depois, não via a hora de poder luzir-se. Mas se obrigou a manter-se em calma. Se sua prova de geografia com o "10" desenhado com cor vermelha lhe caía por acaso do caderno entre decorações não era culpa dela.

Quase explodiu de impaciência até que Lily a viu e a levantou.

 - O que é isto?  - Viu como os olhos do Lily se abriam de par em par e lhe brilhavam com uma emoção que poucas vezes descobriu neles, e isso o fez avermelhar da cabeça aos pés. Era orgulho.  - Luke! Que maravilha! por que não nos disse nada?

 - Que coisa?  - O sorriso tolo que se propagou por toda sua face lhe arruinou sua atuação de indiferença, mas de todos os modos se encolheu de ombros.  - Ah, isso. Não foi nada.

 - Não foi nada?  - Sorrindo, Lily o apertou contra seu corpo.  - É muitíssimo. Não te equivocou em nenhuma pergunta. Em nenhuma.  - E com um braço ainda ao redor do moço, chamou o Max, que nesse momento discutia com o Lester.  - Max, Max, vêem querido a ver isto.

 - O que é o que tenho que ver?

 - Isto.  - Triunfante, Lily blandió a prova escrita frente a ele.  - Olhe o que fez nosso Luke, e não o contou a ninguém.

 - Com todo gosto olharei, se não mover tanto o papel.  - Suas sobrancelhas se arquearam ao olhar depois ao Luke.  - Bom, bom. depois de todo, colocaste a trabalhar seu cérebro. E com excelentes resultados.

 - Não é nada. É só questão de cor.

 - Meu querido moço.  - Max estendeu um braço e com um dedo deu um golpecito na bochecha do Luke.  - A vida consiste precisamente nisso, em memorizar. Uma vez que se aprende o truque, não há muito mais que se possa fazer. E você o tem feito bem. Muito bem.

Enquanto se preparavam para o seguinte ato permaneceu imóvel, absorvendo todo o prazer. Só se apagou um pouco quando girou e viu o Roxanne observando-o com olhos ardilosos.

 - Que demônios olha?

 - A você  - disse simplesmente ela.

 - Bom, corta-a.

Mas quando ele se afastou, ela o seguiu com o olhar. Quão mesmo faria com algo que a desconcertasse.

O colégio não foi tão mau. Luke descobriu que podia tolerá-lo, e rara vez faltava a classe mais de um ou dois dias por mês. Suas notas eram boas. Talvez não recebia sobressalentes todo o tempo como Roxanne, mas tampouco ia mau.

Mas não foi bem em todos os sentidos. Fizeram falta um olho negro e um lábio partido para que essa revelação se fizesse carne nele.

Enquanto retornava a casa machucado, aborrecido e com três dólares e vinte e sete centavos menos de seu dinheiro no bolso, começou a planejar sua vingança. Sua única esperança era ter tempo de arrumar-se um pouco a face em casa antes de que alguém o visse. perguntou-se se poderia dissimular os hematomas e o olho negro com base de maquiagem.

 - O que fez?

Luke se amaldiçoou por ter caminhado descuidadamente pela vereda em lugar de estar alerta. E agora acabava de tropeçar nada menos que com o Roxanne.

 - Não é teu assunto.

 - estiveste brigando. A Papai não gostará de nada  - disse Roxanne, calçou a mochila em um ombro e colocou os braços em jarras - . E te sangra o lábio.  - Com um suspiro, procurou um lenço de papel no bolso de sua saia azul.  - Aqui tem. Não lhe esfregue isso com a mão, esparramará-te o sangue por todos lados.

 - Com a paciência de uma anciã, ela mesma foi secando o sangue da ferida.  - Será melhor que se sente. É muito alto para mim.

Com um grunhido, Luke se sentou, nos degraus de uma loja. De todas formas necessitava um momento para preparar-se a enfrentar ao Max e ao Lily.

 - Eu o posso fazer só.

Ela não se queixou quando lhe arrancou o lenço. Estava muito interessada em lhe olhar o olho, onde já começava a parecer o hematoma.

 - Fez zangar a alguém?

 - Sim. zangaram-se comigo porque não quis lhes dar meu dinheiro. Agora, te cale.

 - Eles?  - perguntou Roxanne e entrecerrou os olhos - . Eles lhe atingiram e se levaram seu dinheiro? A humilhação lhe doeu mais que o olho.

 - Esse tarado do Alex Custer me pegou um murro. Eu poderia havê-lo vencido, se dois de seus cupinchas não me houvessem sustenido.

 - Falaremos disto mais tarde. Agora temos que voltar para casa. Se não, começarão a preocupar-se.

Mas ao Luke preocupava a reação de outros quando ele aparecesse na porta da cozinha. O mais provável era que lhe gritassem. Ou, pior ainda, imensamente pior, Max o olharia com pena e diria essas palavras espantosas.

Decepciona-me, Luke.

Sim gritaram quando ele seguiu ao Roxanne e transpôs a porta da cozinha. Todos juntos, mas não foi precisamente o que Luke esperava.

 - feliz aniversário!

Deu um salto para trás como se o tivessem golpeado. Todos estavam de pé ao redor da mesa: Max, Lily, Mouse, LeClerc, e nela havia uma enorme torta com velitas acesas. Enquanto olhava a cena, sobressaltado, o sorriso rutilante do Lily se transformou em um "OH" de desgosto.

 - Querido! O que aconteceu?  - Max tomou ao Lily do punho para frear seu impulso para diante. Seus olhos se centraram no Luke, e embora neles havia um brilho de raiva, sua voz foi muito serena.

 - Teve uma briga, não?

Luke só atinou a encolher-se de ombros, mas Roxanne saiu em sua defesa.

 - Foram três, Papai. Isso os converte em covardes, não é verdade?

 - Certamente.  - inclinou-se para diante e tomou com a mão o queixo do Luke.  - A próxima vez, escolhe seus adversários com mais cuidado.

 - te coloque isto  - disse LeClerc, tomou um frasco de uma prateleira e verteu parte de seu conteúdo sobre um pano limpo. Quando o colocou sobre o olho inchado do Luke, grande parte da dor desapareceu.  - Três?  - perguntou e lhe piscou os olhos um olho - . O que tem na camisa é sangue deles, oui?

Era a primeira vez que recebia a aprovação do LeClerc. Luke se arriscou a que lhe voltasse a abrir a ferida no lábio e disse:

 - Maldito se o eram.

 - Bom  - disse Lily - . Deste-nos uma surpresa tão grande como a que nós queríamos te dar. Espero que a nossa você goste mais. feliz aniversário, querido.

 - Mais vale que sopre as velas  - sugeriu Max quando viu que Luke permanecia ali, como paralisado - . antes de que incendiemos a casa.

 - Não esqueça de formular um desejo  - disse Roxanne enquanto se colocava no quadro para sair na fotografia que estava por tomar Mouse.

Luke só tinha um desejo, e esse desejo era estar com eles. Pensou que já se feito realidade.

Assombrada-a excitação de sua primeira torta de aniversário, de abrir presentes comprados expressamente para ele, apagou da mente do Luke todo pensamento sobre o Alex e a vingança que planejava levar a cabo.

Roxanne, em troca, era mais obstinada.

Dois dias depois, Luke se encontrou metido em um plano que lhe deixaria uma enorme satisfação ou a face destroçada.

Mas teve que reconhecer que como plano era ardiloso. Seguindo os conselhos do Roxanne, assegurou-se que Alex e suas duas jovens secuaces o vissem perambular por um supermercado se localizado em uma esquina, a uma quadra do colégio. Pagou pela garrafa de refrigerante, desentupiu-a e tomou um bom gole enquanto saía do negócio.

Depois, simulou ver pela primeira vez ao Alex e parecer assustado. Alex não necessitou muito mais para começar a persegui-lo.

Luke pôs-se a correr por um beco, enquanto desentupia um frasco que continha um dos remédios caseiros do LeClerc.

Com mãos ágeis, verteu o forte laxante na garrafa dê refrigerante. Confiava em que Roxanne saberia o que fazia e que não estava a ponto de matar a ninguém. Embora sua consciência não o teria incomodado muito neste caso.

meteu-se o frasco vazio no bolso, girou em redondo, como morto de pânico. Tinha eleito esse beco sem saída deliberadamente. Talvez o atingiriam de novo, mas ao menos um de seus atacantes o pagaria depois.

 - O que te passa? Está cansado?  - Ao ver sua presa sem saída, Alex sorriu.  - Perdeu-te?

 - Não quero problemas.  - Luke se tragou o orgulho em favor da vingança e fez que sua voz e suas mãos tremessem.  - Não tenho mais dinheiro. Gastei-o nisto.

 - Não tem dinheiro?  - Alex lhe arrancou a garrafa das mãos antes de jogar no Luke contra a parede.  - Note se está mentindo, Jerry.  - Alex bebeu um bom gole do suposto refrigerante e sorriu.

Luke gemeu, permitindo que o outro moço lhe revisasse os bolsos. Queria assegurar-se de que Alex terminasse de beber o conteúdo da garrafa.

 - Não tem nada  - anunciou Jerry - . Me dê um gole, Alex.

 - te consiga um  - disse Alex, levantou a garrafa e terminou de beber seu conteúdo - . E agora, lhe demos seu castigo a esse safado.

Mas esta vez Luke estava inteligente para eles. Quando a gente não podia brigar, corria. Baixou a cabeça e arremeteu contra o estômago do Alex, atingindo assim a um menino contra o outro, até que os três caíram como um castelo de naipes. E pôs-se a correr para a boca do beco. Sabia que era mais veloz que os outros, e poderia ter desaparecido antes de que eles saíssem a persegui-lo. Mas queria que o seguissem. Pensou que um pouco de exercício colocaria as coisas em movimento no corpo do Alex, assim que se fez seguir.

Ao olhar para trás viu que a face do Alex estava alva como o papel e muito transpirada. Luke chegou ao jardim de sua casa e não soube se devia seguir correndo para que a carreira continuasse, quando ouviu que Alex gemia e se apertava a barriga.

 - Epa, o que te passa?  - perguntou-lhe Jerry - . Vamos, homem. Estamo-lo perdendo.

 - Dói-me muito!  - gritou Alex, correu para um arbusto e se inclinou.

 - Por Deus! - gritou Jerry, com repugnância - . Que porcaria!

 - Não posso, não posso  - foi tudo o que Alex conseguiu dizer enquanto o laxante do LeClerc exercia seu efeito desumano.

 - Olhem!  - gritou Roxanne, que apareceu de repente e assinalou - . Há um menino entre os arbustos, e está cagando. Mamãe!  - uivou com voz de bebita - . Mamita, vêem logo.

depois de olhar em todas direções, tanto Jerry como seu companheiro deixaram ali ao Alex e fugiram a toda pressa, enquanto vários adultos começavam a aproximar-se.

Com um sorriso na face, Roxanne entrou no jardim.

 - Isto é melhor que lhe pegar um murro  - disse ao Luke - . Isso o esqueceria, mas te asseguro que jamais esquecerá isto.

O não pôde evitar sorrir.

 - E disse que eu era mau.

Do balcão, Max tinha visto quase toda a cena e ouvido tudo o que fazia falta ouvir. Seus filhos  - pensou com muito orgulho -  estavam crescendo bem. Como se teria alegrado Moira por sua filhinha.

Inclusive depois dos anos transcorridos, funcionava-lhe difícil acreditar que todo isso tivesse desaparecido. Tão rápido. Tão inutilmente.

Um apêndice perfurado. Ela era muito impaciente para queixar-se pela dor, e depois... depois foi muito tarde. Uma carreira frenética ao hospital, e a intervenção cirúrgica de emergência que não conseguiu salvá-la. E assim se foi de sua vida, lhe deixando o tesouro mais prezado que tinham criado juntos.

Sim, estava seguro de que Moira se sentiria orgulhosa de sua filha.

Ao entrar de novo na residência, observou como Lily lhe colocava um par adicional dessas suas meias com um desenho de rombos na bolsa.

Lily. Até seu nome o fazia sorrir. A doce e formosa Lily. Mal podia ele amaldiçoar a Deus, quando lhe tinham sido dadas duas mulheres tão gloriosas em uma sozinha existência.

 - Não tem por que fazer isso para mim.

 - Não me importa  - disse ela. assegurou-se que o estojo com os elementos para barbear-se tivesse folhas novas antes de colocá-lo na bolsa.  - Sentirei saudades.

 - Estarei de volta antes de que te dê conta. Houston está virtualmente aqui ao lado.

 - Já sei.  - Suspirou e se aconchegou contra ele.  - Sentiria-me melhor se fosse contigo.

 - Mouse e LeClerc são suficiente amparo, não te parece?  - Voltou a beijá-la, primeiro em uma têmpora, logo na outra. Seu Lily tinha uma pele tão rígida como as pétalas de uma rosa.

 - Suponho que sim - respondeu ela, inclinou a cabeça e fechou os olhos quando ele começou a lhe beijar o pescoço - . E alguém tem que ficar com os meninos. Seriamente acredita que isto te reportará um quarto de milhão de dólares?

 - Pelo menos. A estes petroleiros gosta de investir a prata que lhes sobra em jóias e obras de arte.

A idéia de semelhante soma de dinheiro a excitou, mas não tanto como o que a língua do Max lhe estava fazendo na orelha.

 - Fechei a porta com chave  - disse ela.

Max riu para si enquanto a jogou sobre a cama.

 - Já sei.

Durante o breve vôo de Nova Orleáns a Houston, com Mouse frente aos controles do   Cessna, Max teve tempo de sobra para repassar os planos uma vez mais. A casa em que dariam o golpe algumas horas mais tarde era enorme: mais de mil e quinhentos metros quadrados.

Esses planos haviam flanco mais de cinco mil dólares em subornos. Era um investimento que Max calculou valia a pena fazer envista das lucros que previa.

O Rancho da R Torcida, tal era o nome que levava, estava repleto de obras de arte dos séculos XIX e XX, todas as quais foram compradas através de agentes. E não por seu valor estético ou sua beleza, a não ser simplesmente como investimento.

E muito boa, por certo. Representaria uma quantidade importante de dinheiro para o Max.

Também havia jóias. A preparada, que Max tinha obtido dos arquivos da casa central de uma companhia de seguros de Atlanta, continha suficientes jóias para sortir uma modesta joalheria.

Posto que suas próximas vítimas o tinham todo assegurado, Max calculou que a perda da companhia de seguros seria seu ganho. depois de todo, os seguros eram algo assim como uma aposta entre assegurador e assegurado. E alguém tinha que perder.

Max levantou a vista e sorriu ao olhar ao LeClerc: tinha os nódulos brancos de tanto que se agarrava aos apoyabrazos. Pendurados do pescoço levava uma cruz de prata, um amuleto de dourado, um talismã de cristal e uma pluma de águia. Sobre os joelhos havia contas de rosário, uma pata negra de coelho e uma bolsa cheia de miçangas de cores.

Cada vez que se via obrigado a voar, LeClerc se assegurava de cobrir todas as possibilidades.

Como LeClerc tinha os olhos fortemente fechados e sua boca se movia em uma prece silenciosa, Max  não disse nada quando ficou de pé para servir um pouco de conhaque para os dois.

LeClerc o bebeu de um gole.

 - Não é natural que um homem esteja no ar. É um desafio aos deuses.

 - Sinto ter que te obrigar a fazer algo que detesta, mas minha ausência de Nova Orleáns não passaria inadvertida se nos tivéssemos tomado o tempo necessário para viajar de automóvel.

 - O que pode a fama...

 - Tem também suas vantagens. A gente me convida para jantar com a esperança de que os entretenha com minha magia. Nossos amigos de Houston ficaram encantados com minha atuação improvisada naquela velada em Washington, o ano passado. Que sorte para nós que tivessem decidido ir visitar sua primo o senador.

 - E mais sorte ainda para nós que neste momento se encontrem na Europa.

 - É verdade. Embora não representa quase nenhum desafio roubar em uma casa desabitada.

Alugaram uma limusine em Hobby, e Mouse ficou sua boina e jaqueta de chofer para a viagem. Nessa vizinhança opulenta, a elegante limusine funcionava menos chamativa que um sedan qualquer.

E, sempre que era possível, Max preferia viajar bem.

No assento traseiro, com o Mozart como música de fundo, verificou suas ferramentas por última vez.

 - Duas horas  - anunciou - . Não mais.

LeClerc já se estava colocando as luvas. Fazia meses que não ouvia soar e cair as combinações, meses desde que teve o prazer de abrir a porta de uma caixa forte e colocar a mão nesse buraco escuro. Durante o longo verão tinha sido celibatário  - ao menos, em um sentido figurado - , e estava impaciente por viver o romance do roubo.

Sem o Max, sabia que esse prazer teria desaparecido de sua vida. Embora jamais falavam disso, os dois sabiam que LeClerc se estava colocando muito lento para esse trabalho. Agora só acompanhava ao Max em trabalhos menos difíceis. Se a casa do petroleiro não tivesse estado vazia, LeClerc sabia que nesse momento estaria em casa esperando, como Lily.

Mas não sentia rancor. Ao contrário, estava agradecido pela oportunidade de sentir de novo a emoção que tanto o apaixonava.

Quando estacionaram frente à casa, os homens se moveram em silêncio. Max e LeClerc se dirigiram ao baú e Mouse foi ocupar do sistema de segurança. Estava muito escuro, sem rastros da lua.

 - É um terreno muito grande  - murmurou, comprazido, LeClerc - . Com muitas árvores añosos. Os vizinhos devem necessitar largavistas para espiar nas janelas dos outros. Surpreende-me que confiem somente em um sistema de alarmes.

Max tirou do baú do automóvel uma caixa grande estofa em veludo, e um cilindro de material de isolamento acústica, como o que se está acostumado a utilizar nos cinemas.

E aguardaram.

Dez minutos depois, Mouse apareceu correndo.

 - Sinto muito. Era um sistema de alarme bastante complexo. Tomou um pouco de tempo desativá-lo.

 - Não tem por que te desculpar  - disse Max e começou a sentir o comichão familiar nas pontas dos dedos ao aproximar-se da porta principal. Tirou seu conjunto de gazuas e começou Á trabalhar.

 - por que perder tempo com isso? Que Mouse a abra de um golpe. O alarme está desativado.

 - Mas não seria um roubo com estilo  - murmurou Max, os olhos entrecerrados, sua mente concentrada nas combinações - . Um momento mais Y...

Instantes depois estavam de pé no imponente foyer de mármore branco e negro e três pisos de alto.

separaram-se: LeClerc subiu pela ampla escalinata curva em direção à caixa forte do dormitório e as jóias da proprietária de casa; Mouse e Max cobriram a planta baixa.

Trabalharam em forma gaita, cortando tecidos do que Max considerava Marcos muito ornamentados, as enrolando e as colocando na caixa de veludo. As esculturas de bronze e mármore e pedra foram envoltas no tecido de isolamento acústica.

 - Um Rodin.  - Max fez uma breve pausa para lhe dar uma classe a Mouse.  - Uma peça realmente notável. Vê o movimento, Mouse? A fluidez, a emoção que sentia o artista por seu modelo.

Max suspirou ao envolver com reverência o Rodin nesse tecido grosa.

 - Não, essa não  - disse quando viu o objeto de bronze que Mouse sustentava.

 - É realmente pesado  - disse-lhe Mouse - . E sólido. Deve valer muito.

 - Sem dúvida, do contrário não estaria nesta coleção. Mas lhe falta estilo, Mouse. E beleza. É muito mais importante roubar coisas belas que coisas valiosas. Se não fora assim, estaríamos roubando bancos, não o acredita?

 - Suponho que sim.  - Foi à outra residência e voltou com uma escultura que representava a um cavaleiro montado sobre um cavalo que corcoveava.  - O que me diz de este, Max?

Max o observou. Era uma boa peça e provavelmente pesasse como um caminhão. Embora não era de seu gosto pessoal, viu que a Mouse gostava.

 - Uma escolha excelente. Melhor lhe leve isso à limusine tal qual está. Aqui já quase terminamos.

 - -E nos foi bem  - disse LeClerc ao descer pela escada e lhe dar toquezinhos a sua bolsa volumosa - . Não sei o que Madame e Monsieur se levaram a Europa, mas deixaram aqui muitos quinquilharias para nós.  - Havia-lhe flanco muito não tomar os bônus negociáveis e o efetivo que encontrou nas caixas fortes gêmeas, mas Max era supersticioso com respeito a roubar dinheiro. E LeClerc respeitava sempre as superstições de outros.  - Olhem isto.

E extraiu da bolsa um desdobramento de diamantes e rubis trabalhados em um colar de três voltas. Max tomou e o levantou para vê-lo a luz.

 - Como pode alguém tomar pedras tão formosas e fabricar com elas algo tão abominável? A senhora deveria nos agradecer por não ter que voltar a usar isto em sua vida.

 - Deve equivaler a cinqüenta mil dólares, pelo menos.

 - Mmmm.  - É possível, pensou Max e desejou ter sua lupa de joalheiro. Escolheria algumas das melhores pedras e mandaria fazer um colar mais adequado para o Lily. Consultou seu relógio e assentiu.  - Acredito que nosso passeio de compras terminou. Parece-lhes bem que carreguemos todo? Acredito que estaremos de volta em casa a tempo.

 

Quando Luke fez dezesseis anos, Mouse lhe ensinou a conduzir um automóvel. Tiveram muitas sacudidas freadas nos caminhos vicinais, e em uma oportunidade, quando Luke tentou trocar de velocidade, girar   o volante e frear, todo ao mesmo tempo, quase acabaram em um pântano. Mas Mouse tinha uma capacidade inesgotável de paciência.

Obter a licença de condutor foi um acontecimento memorável para o Luke, um passo gigantesco para chegar a ser um homem, o que ele começava a ansiar tanto. Mas inclusive isso passou a segundo plano frente a outra ocasião também memorável: seu encontro com o Annabelle Walker, que incluía ir ao cinema a ver esse maravilhoso filme chamada A guerra das galáxias, duas bolsas gigantescas de pochoclo  e uma velada que terminou com sexo no automóvel de segunda mão que tinha comprado com suas economias.

Nem para o Annabelle nem para o Nova foi novidade essa atividade no assento traseiro. Mas para o Luke era a primeira vez, e o caminho escuro, a música, os ofegos e gemidos, a experiência milagrosa de ter os seios do Annabelle nas mãos, foram tão românticos como o Taj Mahal.

Poderia haver-se pensado que Annabelle era uma garota fácil, mas o certo é que só se instalava no assento traseiro do automóvel se o menino era arrumado, se a tratava bem, e se era um bom besador. Luke cumpria todos esses requisitos. Quando o deixou colocar a mão debaixo de sua camiseta para acariciar seus generosos seios brancos, para o Luke foi como tocar o céu. Mas quando lhe baixou o fechamento do Levis e se apoderou dele, compreendeu que as portas do paraíso se abriam de par em par.

Tinha esperado que ela o deixasse tocá-la, mas jamais pensou que uma série de saídas e uma noite vendo como se salvavam alguns mundos a convenceria de deixar que ele fora até o final.

Mas ele não estava disposto a perder uma oportunidade quando lhe apresentava. Isso o tinha ensinado

Max.

 - Deixa que eu...  - disse e, embora não estava muito seguro, colocou a mão dentro de suas calcinhas vermelhas de renda.

Estava molhada, quente e escorregadia. O sangue do Luke se deslocou com selvageria da cabeça a entrepierna, e começou a pulsar ali com uma intensidade que marcou o ritmo de seus dedos curiosos. O prazer do Annabelle começou a expressar-se em um cantarola suave que logo se converteu em gemidos ansiosos, ofegos desesperados e choramingações deliciosas. Seus amplos quadris se arqueavam e caíam, atingindo contra o andrajoso estofo do assento do Nova. Os guichês que Luke tinha subido para protegê-los do frio exterior se empanaram, transformando o automóvel em uma fumegante sauna com aroma de sexo.

Com a face enterrada entre os seios do Annabelle, e uma mão trabalhando sobre seu corpo, liberou-lhe os quadris do Levis. A sensação de estar dentro de uma mulher dessa maneira era quase suficiente para lhe fazer perder todo controle. Entretanto, uma parte dele, um pequeno canto de seu cérebro, permaneceu frio, estranhamente indiferente, até divertido.

Ali estava Luke Calavam, com o traste ao ar em seu Nova '72, com os Bee Gs cantando pela rádio  - Por Deus, tinham que ser os Bee Gs? -  e Annabelle abrindo-se de pernas debaixo dele.

Não foi sua habilidade o que lhe permitiu lhe dar a ela muito mais que os outros meninos com os que tinha saído. Era pura inexperiência mesclada com uma sã curiosidade e um amor pelas coisas belas. Sentir um corpo feminino que tremia e se sacudia debaixo dele foi uma das coisas mais formosas que Luke tinha experiente em sua vida.

 - OH, meu amor.  - Annabelle, uma veterana do sexo; n o assento traseiro, começou a mover-se e a contorsionarse, e por último travou as pernas ao redor dos quadris do Luke.  - Não posso esperar. Juro-te que não posso.

Tampouco podia ele. Um instinto cego o fez peñerarla. Quão último ouviu foi que ela pronunciava seu nome.

Por cortesia do Annabelle, na segunda-feira retornaria ao colégio com uma reputação que faria sentir-se orgulhoso a um menino maior que ele.

Quando voltou, com aroma de sexo e a transpiração e à colônia do Annabelle, a casa estava às escuras, salvo por uma luz acesa na cozinha.

Alegrou-lhe que não houvesse ninguém levantado para recebê-lo. E se alegrou mais ainda de que lhe dessem um fim de semana livre cada quinze dias para que desenvolvesse sua vida social.

Abriu a geladeira e bebeu como meio litro de suco de laranja diretamente da garrafa. Ainda sorria quando girou e descobriu ao Roxanne no vão da porta.

 - Que chanchada  - disse e inclinou a cabeça para a garrafa que ele tinha nas mãos.

Os dois tinham pego um estirão ao longo dos anos. Mas enquanto que Luke ainda não chegava ao metro oitenta e tinha uma estatura normal para sua idade, Roxanne era a mais alta de sua classe; de fato, mais alta que a maioria de seus companheiros varões.

 - Não diga tolices!  - Luke sorriu e apoiou a garrafa na mesada.

 - Ao melhor outra pessoa tinha vontades de beber um pouco de suco.  - Embora não tinha sede, aproximou-se da geladeira e procurou. Enquanto escolhia uma bebida, enrugou o nariz ao olhar ao Luke.  - Empesteia...  - Farejando o ar, pescou, entre outras coisas, um quê da colônia do Annabelle.  - Voltou a sair com ela.

Roxanne detestava ao Annabelle por princípio. E o princípio consistia em que era baixa e loira e bonita, e que Luke passava muito tempo com ela.

 - E a você o que te importa?

 - esclarece-se o cabelo e usa roupa muito ajustada.

 - Usa roupa sexy  - corrigiu-a Luke, sentindo um perito na matéria - . Está ciumenta porque ela tem tetas e você não.

 - Já as terei.  - Aponto de fazer treze anos, ao Roxanne a mortificava o passo de tartaruga de seu desenvolvimento feminino. Quase todas as garotas de sua classe tinham pelo menos projetos de seios de mulher, e ela seguia tão chata como a tabela que LeClerc usava para cortar o pão.  - E quando as tiver, serão melhores que as dela.

 - Está bem.  - A idéia do Roxanne com seios o divertiu. Em um princípio. Quando ficou a pensar nisso, começou a sentir um calor muito incômodo.  - Vai-te daqui.

 - Não penso.

 - Então irei eu.  - Como fazia um tipo para flutuar em uma nuvem de luxúria com uma molequa perto?, perguntou-se enquanto saía da cozinha e subia a escada. Depois, sem perder nem um minuto, tirou-se a roupa e se atirou nu sobre a cama.

acostumou-se ao aroma e a sensação de savanas podas, embora não por isso o dava por sentado.

Nos últimos quatro anos, tinha percorrido a maior parte do leste dos Estados Unidos e agido em campo aberto, em clubes sujos e em cenários encerados. O verão anterior, depois de que Max  - com bastante pesar -  vendesse o circo ambulante, viajaram a Europa onde o mago incrementou sua reputação de mestre.

Sabia matar francês e tinha aprendido a fazer dançar as cartas. A seu leal saber e entender, tinha-o ido. A vida é perfeita, pensou Luke antes de deixar-se vencer pelo sonho.

Assim foi uma desagradável surpresa para ele desertar uma hora depois empapado de um suor frio e  um soluço na garganta.

O sonho o tinha levado de volta a esse matizado apartamento de dois ambientes. O cinto do lhe tinha atravessado a pele como uma navalha, e não havia aonde fugir, aonde esconder-se.

Sentado na cama, Luke aspirou grandes baforadas do pesado ar outonal e aguardou a que os tremores lhe passassem. Fazia meses que não me ocorria, disse-se enquanto apoiava a cabeça sobre os joelhos. Meses e meses sem que seu subconsciente o fizesse voltar para esse lugar. Acreditava haver ganho nessas lembranças. Cada vez que passavam várias semanas sem sofrer um desses pesadelos, estava seguro das haver deixado atrás.

Já não sou um menino, recordou-se Luke e decidiu levantar-se. Não tinha sentido ter pesadelos e despertar tremendo e querer que Lily ou Max estivessem junto a ele para protegê-lo.

Sairia a caminhar. ficou as calças e se disse que iria até o Bourbon e voltaria, para sacudi-los restos do pesadelo.

Quando chegou à planta baixa ouviu um alarido agudo e o murmúrio apagado de vozes. Ao olhar no estúdio, viu o Roxanne sentada cruzada de pernas no piso, com um bol de pochoclo na saia.

 - O que está fazendo?

Ela se sobressaltou, mas não se separou a vista da tela.

 - Estou olhando um filme de terror. O castelo dos mortos viventes. O conde está embalsamando às pessoas. eu adoro.

 - Que espanto.  - Mas ficou preso, pelo menos o suficiente para sentar-se em um extremo do sofá e colocar uma mão no pochoclo do Roxanne. Ainda se sentia um pouco sacudido, mas um momento depois ficou dormido.

Roxanne esperou até estar segura de que dormia e depois, apoiando a bochecha contra o almofadão do sofá, levantou o braço para lhe acariciar o cabelo.

 

- Os meninos estão crescendo, Lily.

 - Já sei, querido.  - Suspirou ao introduzir-se na caixa horizontal grafite de cores vivas. Ensaiavam oí no clube um novo número que Max tinha denominado A Mulher Dividida.

 - Roxy logo entrará na adolescência  - disse Max e calçou as braçadeiras dos ferrolhos e deu uma volta ao redor da caixa para benefício dos espectadores potenciais - . Não falta muito para que os moços comecem a acossá-la.

Lily sorriu e moveu os pés e as mãos que saíam pelos buracos da caixa.

 - É verdade. Mas não se preocupe, Max. Ela é muito preparada para escolher algo que não seja exatamente o que quer.

 - Espero que tenha razão.

 - É filha de seu pai  - disse Lily e deixou ouvir os gemidos e choramingações apropriadas quando Max lhe mostrou  o fio de sua cimitarra enjoyada.

 - Suponho que com isso quer dizer que é teimada, ambiciosa e decidida.

Lily permaneceu em silêncio enquanto Max prosseguia com a rotina de cortar a caixa até separá-la por completo, e depois unir as metades. Logo, pergunto:

 - Não estará triste porque os meninos crescem, verdade, querido?

 - Talvez um pouco. Recorda-me que me estou voltando velho. Imagine: Luke dirigindo um automóvel e perseguindo as garotas.

 - Não tem necessidade das perseguir  - disse Lily e rugó a frente com chateio-. Elas se jogam em seus braços. Seja como for  - disse e suspirou - , são bons meninos, Max. Uma parceira fantástica.

 

Uma metade dessa parceira fantástica estava a duas quadras dali, concentrada em um jogo de cartas. Para o Roxanne era uma tentação a que não podia resistir. Uma multidão de participantes de uma convenção tinha alagado a cidade, e vários estavam dispostos a jogar. Roxanne não o fazia somente por dinheiro, mas sim porque a divertia.

Tomou outros cinqüenta dólares, e pagou vinte para manter boas relações. De uma esquina próxima soou uma trompetista solitária. Roxanne decidiu que tinha chegado o momento de terminar com o jogo e voltar para casa.

 - Isso é todo por hoje. Obrigado, damas e cavalheiros. Espero que desfrutem de sua estadia em Nova Orleáns.  - Começou a recolher as cartas, quando uma mão se fechou sobre seu punho.

 - Uma volta mais. Não cheguei a provar minha sorte. Era um moço de ao redor de dezenove anos. debaixo de sua camiseta e de seus jeans desbotados se adivinhava um corpo forte e magro, puro músculos. Seu cabelo loiro dourado formava uma sorte de halo ao redor de uma face de feições angulosas. Seus olhos, de um marrom intenso e escuro, estavam fixos na garotinha.

Recordou ao Luke, não no físico a não ser em sua selvageria interior e uma certa maldade potencial. Sua voz não soou com o acento de Nova Orleáns.

 - Chega muito tarde  - disse-lhe ela. A mão dele seguiu apertando firmemente seu punho. Quando o moço sorriu, mostrando seus dentes brancos e parecidos, ela ficou nervosa.

 - Somente uma mão  - disse ele - . Estive-te observando.

Roxanne não pôde rechaçar esse desafio direto. Seu instinto lhe aconselhou não aceitá-lo, mas o orgulho ganhou a partida.

 - Tenho tempo para uma. A aposta são cinco dólares.

Com um movimento da cabeça, ele extraiu um bilhete dobrado do bolso traseiro da calça e o uso sobre a mesa.

Roxanne colocou as cartas de barriga para baixo: duas damas vermelhas e uma negra no centro.

 - Não perca de vista a dama negra  - disse ela enquanto trocava de lugar as cartas - . A  último momento decidiu não juntar a carta a não ser fazer  frente ao desafio sem utilizar nenhum truque. Foi trocando as cartas de lugar a um ritmo cada vez mais rápido, e sem lhe tirar os olhos de cima ao moço.

Não era a primeira vez que ele participava desse leigo. Ela o fazia desde fazia muito tempo amo para não ser capaz de reconhecer a um profissional. Roxanne apostou seu ego contra esse bilhete de cinco dólares.

Embora não havia tornado a olhar as cartas desde que iniciou o jogo, sabia exatamente onde estava a dama negra.

 - Onde está?

O não vacilou, e atingiu com o dedo a carta da esquerda. Mas antes de que ela pudesse dá-la volta, voltou a lhe sujeitar o punho.

 - Farei-o eu  - disse e desentupiu a dama de corações.

 - Parece que minhas mãos são mais rápidas que seus olhos.

Sem lhe soltar a mão, ele deu volta as outras duas cartas piscou com surpresa ao comprovar que a dama  negra estava exatamente no mesmo lugar do princípio: no centro.

 - Isso parece  - murmurou. Entrecerrou os olhos enquanto a observava deslizar seu bilhete de cinco dólares e suas cartas em uma bolsa que tinha colocado debaixo da essa.

 - Desejo-te mais sorte a próxima vez  - disse, pregou mesa, a colocou debaixo do braço e pôs-se a andar para

A Porta Mágica.

O não se deu por vencido com tanta facilidade.

 - Ouça, como te chama?  - perguntou. Ela o olhou de esguelha quando ele a alcançou.

 - Roxanne. por que?

 - Para saber. Eu sou Sam. Sam Wyatt. É boa. Muito boa.

 - Já sei.

Ele riu em voz baixa, mas mentalmente baralhava as distintas possibilidades. Se conseguia conduzi-la a um lugar menos concorrido, poderia recuperar seus cinco dólares, e também ficar com o resto do dinheiro que levava.

 - Ganhou bem. Que idade tem? Doze, treze?

 - Não é teu assunto.

 - Quanto faz que te dedica a enganar às pessoas?

 - Eu não sou uma enganadora.  - A sozinha ideia de que acreditassem isso dela a enfureceu.  - Sou maga  - informou-lhe - . Trabalhar com essa gente foi algo assim como um ensaio.

 - Maga.  - Sam notou que nesse lugar transitavam menos pedestres. Não via ninguém que pudesse lhe causar problemas quando lhe arrancasse a bolsa e pusesse-se a correr.  - por que não me mostra um truque?  - Colocou-lhe a mão no braço e se preparou para arrojá-la ao piso.

 - Roxanne.  - Com face de mau humor, Luke apareceu do outro lado da rua.  - Que demônios está fazendo? Teria que estar no ensaio.

 - Já vou  - disse e o fulminou com o olhar. Enfurecia-a que se apresentou justo quando ela estava por provar suas armas em um flerte.  - Você tampouco está lá.

 - Isso não tem nada que ver.  - Viu a mesa e a bolsa, e adivinhou no que tinha andado.  - Quem é este?

 - meu amigo  - decidiu Roxanne de repente.

 - . Sam, este é Luke. Sam lhe dedicou um sorriso cativante.

 - Como está?

 - Bem. Não é de por aqui.

 - Cheguei à cidade faz um par de dias. Estou estragando um pouco, sabe?

Ao Luke, Sam não lhe caiu nada bem. Seu olhar malicioso não harmonizava com esse sorriso franco.

 - Estamos atrasados, Roxy. Vamos.

 - dentro de um minuto.  - Se Luke pensava tratá-la meu uma criatura, lhe ensinaria que era uma mulher independente.  - Não quer nos acompanhar Sam, e ver o ensaio? Estamos aqui perto, em La Porta Mágica.

 - Parece-me fantástico.

Sam Wyatt sabia como mostrar-se encantador. Exibir afabilidade, bons maneiras e bom humor era arte do jogo. Sam se sentou em La Porta Mágica e aplaudiu, expressou uma incredulidade cheia de assombro e riu nos momentos apropriados.

Quando Lily o convidou para jantar, aceitou com tímida gratidão.

LeClerc lhe pareceu velho e tolo; Mouse, lento e estúpido, mas procurou por todos os meios causar uma boa impressão nos dois.

Depois, brilhou por sua ausência durante todo o dia seguinte, para não parecer muito confianzudo. Quando se apresentou em La Porta Mágica para assistir a uma função, assegurou-se que Lily o visse contar cuidadosamente sua mudança menino para poder comprar um refrigerante.

 - Max  - disse ela quando estiveram entre decorações, depois de ter deixado ao Luke em cena para realizar seus cinco minutos de prestidigitação.  - Esse menino está em problemas.

 - Luke?

 - Não, não. Sam.

 - Eu não o chamaria menino, Lily. Já é quase um homem.

 - Não acredito que seja muito maior que Luke  - retrucou-lhe ela. Espiou para o salão e viu o Sam sentado frente ao mostrador do bar e notou que ainda tinha o mesmo copo de Coca.  - Não acredito que tenha dinheiro, nem aonde ir.

 - Não me parece que esteja procurando trabalho.  - Max sabia que se estava mostrando duro, e não tinha idéia de por que sentia tanta reticência em ajudar ao moço.

 - Querido, já sabe quão difícil é conseguir trabalho. Não tem nada para lhe oferecer?

 - Pode ser. me dê um par de dias para pensá-lo. Um par de dias era tudo o que Sam necessitava. Como broche para a imagem que queria dar, certa noite pôs-se a dormir no jardim, assegurando-se de que o descobririam à manhã seguinte.

Totalmente acordado, manteve os olhos fechados, vendo através das pestanas como saía Roxanne pela porta da cozinha. Gemeu, moveu-se e depois piscou quando ela o descobriu e reprimiu um grito de alarme.

 - O que está fazendo?

 - Nada  - respondeu ele, enrolou uma manta puída e ficou de pé

- Não fazia nada.

Ela se aproximou com o sobrecenho franzido.

 - Dormiu aqui?

Sam se umedeceu os lábios.

 - Olhe, não é nada. Por favor não o diga a ninguém.

 - Não tem um quarto?

 - Perdi-o  - disse, e se encolheu de ombros e conseguiu parecer valente e ao mesmo tempo desesperançado - . Já aparecerá algo. Mas não queria estar na rua toda a noite. Supus que aqui não incomodaria a ninguém.

      Roxanne tinha o bom coração de seu pai.

 - Entra  - disse e lhe estendeu a mão - . LeClerc está preparando o café da manhã.

 - Não necessito uma esmola.

Porque ela entendia o orgulho do Sam, enterneceu-se ainda mais.

 - Papai pode te dar trabalho. O pedirei.

 

Max não estava acostumado a negar nada ao Roxanne. Por ela tomou ao Sam Wyatt, apesar da estranha relutância que sentia ira incorporá-lo a sua equipe. Encarregou-lhe a tarefa de transportar as coisas grandes para os espetáculos, uma participação que Sam sabia por debaixo de sua dignidade e habilidade.

Mas também Sam tinha intuição. E essa intuição lhe disse que unir-se aos Nouvelle podia ser a chave que lhe permitiria acessar a coisas muito mais importantes. Era questão de ter paciência.

Passava muitas horas carregando e descarregando equipe, lustrando as caixas e as dobradiças que Max  usava para várias rotinas. Certo dia jurou vingar do velho por lhe haver oferecido um trabalho tão degradante, mas se mostrava incesantemente bondoso e atento com o Roxanne e tímido e lisonjeador com o Lily. Fazia muito  que estava convencido de que, em todo grupo, eram as mulheres as que possuíam o autêntico poder.

Não cometeu o engano de competir com o Luke. Duvidava que fora prudente rivalizar abertamente com a pessoa que Max considerava seu filho. O fato de que esse antagonismo fora mútuo o favorecia. Nenhum dos dois teria podido dizer por que, mas o certo me que se odiaram a primeira vista.

Enquanto isso, Sam se sentia satisfeito com o lugar que se assegurou e com a perspectiva de passar uma semana em Los Anjos.

Max também estava comprazido com essa próxima viagem. Teriam oportunidade de agir no Castelo Mágico e de assistir a um jantar oferecido pelo Brent Taylor, um ator de cinema e mago amateur, e Max  teria o prazer de mostrar a sua família algo do brilho de Hollywood.

Também se propunha levar-se de volta ao este outros brilhos bastante mais caros. Beverly Hills, e suas mansões cheias de tesouros, somariam-se a uma viagem e a um trabalho de por si lucrativo.

Tinha duas casas escolhidas, e decidiria qual das dois seria seu alvo uma vez que chegasse aos Anjos e inspecionasse os lugares com seus próprios olhos.

Tomaram várias residências no Beverly Hills Hotel. Divertiu-lhe ver o Luke, que fascinava aos botões e à empregada com alguns efeitos de prestidigitação. O moço sim que tinha aprendido. E muito bem.

Fez todos os acertos necessários para um almoço preparado no Maxim's, de que fez participar não só a sua família mas também também a todos os integrantes de sua equipe, inclusive os mais humildes. Depois, enviou ao Lily e ao Roxanne de compras.

Na sobremesa, acendeu um charuto e disse:

 - Muito bem. Mouse e eu temos que falar de negócios, mas o resto de vocês têm o dia livre para explorar, percorrer a cidade, o que queiram. Necessitarei-os a todos bem acordados manhã, às nove da manhã.

Quando outros partiram, Luke se sentou em uma cadeira junto ao Max.

 - Tenho que falar com você.

 - É obvio.  - Reconhecendo no moço uma mescla de nervos e de determinação, Max arqueou uma sobrancelha.  - Algum problema?

 - Não acredito que seja um problema.  - Luke respirou fundo e se lançou ao vazio.  - Quero ir com vocês.  - E sacudiu a cabeça antes de que Max pudesse falar. Durante dias tinha estado preparando esse discurso.  - Conheço a rotina, Max. Você e Mouse irão um par de casas. Sem dúvida já têm quase todo o material essencial: uma cópia das inteligentes dos objetos assegurados, planos, um esquema dos sistemas de segurança, uma idéia dos costumes de seus habitantes. Agora irão fazer uma inspeção de primeira mão ara decidir onde dar o golpe.

Max se passou a mão pelo bigode. Não sabia bem se estava vexado ou impressionado.

 - Não perdeste o tempo.

 - tive quatro anos para estudar enquanto esperava que me deixasse participar do trabalho.

Max sacudiu a cinza de seu charuto antes de aspirar uma baforada.

 - Meu querido garotinho...

 - Já não sou um garotinho.  - Os olhos do Luke ralaram ao aproximar-se do Max.  - Ou confia em mim ou não o faz. Tenho que sabê-lo.

Max exalou a fumaça e se manteve em silêncio enquanto o garçom levantava os pratos.

 - Não é questão de confiança, Luke, mas sim de oportunidade.

 - Não me estará dizendo que tenta me salvar da vida de delitos.

 - Por certo que não. Jamais fui hipócrita, e sou tão egocêntrico como qualquer pai que espera que seus filhos sigam seus passos. Mas...

Luke apoiou uma mão no punho do Max.

 - Mas?

 - Ainda é jovem. Não estou seguro de que esteja preparado. Ser um ladrão bem-sucedido requer maturidade, experiência.

 - Requer ter bolas  - disse Luke e Max pôs-se a rir.

 - É claro que sim. Mas, além disso, uma boa dose de habilidade, sutileza, serenidade. Em alguns anos mais talvez esteja amadurecido, mas por agora...

 - Que horas são?

Distraído, Max piscou e depois olhou seu relógio. Ou, mas bem, o lugar onde deveria estar seu relógio.

 - Sempre disse que tinha boas mãos  - murmurou.

 - Não sabe que horas são?  - Luke girou o punho e o sol brilhou no Rólex de dourado do Max.  - São quase as três. Acredito que será melhor que pague a conta e que nos partamos.  - O mesmo Luke chamou o garçom. Com ar ausente, Max colocou a mão no bolso em busca de sua carteira. Não a encontrou.

 - Não tem suficiente dinheiro?  - perguntou Luke com um sorriso e tirou a carteira do Max de seu próprio bolso - . Esta vez pago eu. Dá a casualidade que ultimamente recebi algo de dinheiro.

Dois a zero, pensou Max e sorriu a Mouse.

 - por que não toma você também a tarde livre? Luke pode me levar.

 - Está bem, Max. Vou ao Teatro Chinês a ver os rastros dos artistas.

 - te divirta.  - Com um suspiro, Max estendeu a mão para pedir sua carteira.  - Inteligente?  - perguntou ao Luke.

 - Faz anos que estou preparado.

Ao Luke gostava de Beverly Hills. Não tanto como Nova Orleáns, que com suas ruas desordeiras e seu encanto decadente era o único lugar que considerava seu lar. Mas essas advindas largas e flanqueadas por palmeiras, e o aura de fantasia das mansões encastradas nas colinas em uma brumosa lonjura, eram como um filme. Supôs que essa era a razão pela que tantas estrelas de cinema escolhiam esse setor para viver.

Percorreu a zona seguindo as indicações do Max. Advertiu cada tanto os patrullajes da polícia. Ali, nada de automóveis poeirentos nem com rayaduras para os agentes da ordem: todos brilhavam com o sol da tarde.

A maioria das propriedades estavam ocultas detrás de muros e cercos altos. Em duas oportunidades, enquanto faziam sua percorrida, cruzaram-se com ônibus que levavam aos turistas a ver as casas dos artistas o cinema. Luke se perguntou como às pessoas lhe ocorreria pagar por esse tour, quando o único que podiam ver em realidade era muros de pedra e taças de árvores.

 - -por que  - perguntou Max enquanto abria sua maleta -  quer roubar?

 - Porque é divertido  - respondeu Luke sem sequer pensar - . Sou muito hábil para isso.

 - Mmmm.  - Max conveio interiormente que era melhor passar a vida fazendo algo que a um divertia  para o qual tinha habilidade.  - O botões que subiu nossas valises e ficou tão encantado com seus truques, tinha um relógio e uma carteira. Os roubou?

 - Não.  - Surpreso, Luke girou a cabeça e olhou ao Max.  - por que teria que fazê-lo?

 - Eu perguntaria mas bem por que não fazê-lo.  - Max se afrouxou a gravata e a colocou dentro da maleta.

 - Bom, demônios, não tem graça quando é tão difícil. Além disso, era um pobre tipo que tratava de ganhá-la vida.

 - Poderia alegar-se que um ladrão é também um pobre tipo que trata de ganhá-la vida.

 - Se isso fosse quão único quisesse, poderia roubar em um supermercado.

 - E considera isso fora da questão.

 - É algo ruim, nada elegante.

 - Luke.  - Max suspirou enquanto colocava bem dobrada sua camisa branca engomada na maleta.  - Estou orgulhoso de você.

 - É como a magia  - disse Luke ao cabo de um momento - . A gente quer fazer o melhor do que é capaz. Se se planeja enganar a alguém, terá que fazê-lo com estilo. Correto?

 - Correto.  - Max ficou uma camisa de poliéster de mangas curtas, com um espantoso desenho de quadros verdes e alaranjados.

 - O que faz?

 - Coloco-me o traje adequado  - disse Max e como broche final se calçou um gorro de beisebol e um par de óculos espejados para sol - . Espero parecer um turista.

Luke freou frente a um semáforo em vermelho e se tomou tempo para observá-lo.

 - O que parece é um tarado.

 - Bastante aproximado. Vê o ônibus do tour, lá, a meia quadra? Estaciona detrás dele.

Luke obedeceu.

Max se pendurou do pescoço um par de binoculares e uma câmara fotográfica.

 - Essa é a casa da Elsa Langtree  - disse Max com acento do meio oeste quando desembarcou do carro. Assobiou antes de unir-se aos outros turistas para espiar pela grade de ferro forjado.  - Deus, vá se for uma riqueza!

Luke lhe seguiu o trem e estirou o pescoço.

 - Demônios, Papai, é velha.

 - Pois não me importaria me perder no bosque com ela.

Esse comentário suscitou algumas risadas no resto da multidão, antes de que o guia do tour começasse sua rotina. Dando um passo atrás, Max rodeou o ônibus e subiu ao teto do veículo enquanto o resto da gente escutava ao guia e tomava fotografias. Max utilizou a teleobjetiva da câmara para fazer tira do muro, da casa colonial de três plantas, os edifícios anexos e o sistema exterior de iluminação.

 - Né, amigo  - disse o chofer do ônibus, entrecerrando os olhos debaixo da viseira de sua boina - . Baixe-se dali, quer? Deus, em todos os grupos há algum louco.

 - Só queria ver se podia jogar uma olhada a Elsa.

 - Vamos, Papai. Dá-me vergonha.

 - Está bem, está bem. Um momento! Parece-me seria. Elsa!  - gritou, e aproveitou a confusão do movimento da gente que correu de novo junto à grade para tomar suas últimas fotografias.

Enquanto o condutor lançava imprecações e menazas, Max se desceu do teto e lhe dedicou um sorriso pusilânime e uma desculpa.

 - Faz vinte anos que sou admirador da Elsa. Em sua honra, até lhe coloquei seu nome a meu periquito.

 - Imagino que lhe fascinaria sabê-lo. Com evidente relutância, Max deixou que Luke o arrastasse de volta ao automóvel.

 - Conseguiu o que queria?  - perguntou Luke.

 - Suponho que sim. Jogaremo-lhe uma olhada a uma das casas. A casa do Lawrence Trent não está incluída no  tour, mas é famoso por possuir uma excelente coleção de caixas de rapé do século XIX.

 - E o que tem Elsa?

 - além de seus evidentes encantos femininos? esmeraldas, meu querido moço. À dama adora as esmeraldas. Fazem jogo com seus olhos.

Também ao Max adorava as esmeraldas. Uma vez que LeClerc fez revelar as fotografias, fez-se evidente que a propriedade do Trent seria o alvo mais fácil. Max não necessitou muito mais para decidir. Iria depois das gemas.

Talvez fora por efeito dessas luzes, ou de seus próprios pensamentos, mas por um momento, quando se levantou o pano de fundo, Max viu o Roxanne como uma mulher feita e direita, espingarda e formosa, cheia de aprumo e confiança em si mesmo, os olhos cheios de secretos que só um coração feminino poderia entender.

E de repente voltou a ser sua pequena, com sapatos de taco alto e fascinando ao público com sua habilidade com os lenços de seda, que um momento depois ficaram feitos um montão a seus pés. Então girou para olhar a seu pai, preparada para ser posta em transe, para o novo número de levitação, uma combinação do velho efeito do pau de vassoura com a moça que frota.

Começou a soar a música: Para a Elisa. Lenta e elegantemente, Max passou as mãos frente à face do Roxanne, quem moveu a cabeça e fechou os olhos.

Utilizou escovas de fantasia, pois a beleza lhe importava tanto como o impacto. Colocou-lhe uma entre os omoplatas e depois, dando um passo para a esquerda do cenário, estendeu os braços e os moveu. Como um ser leve, as pernas do Roxanne começaram a levantar-se e a estender-se, até que seu corpo ficou paralelo ao cenário. Empregou a outra escova para passá-la por cima e por debaixo dela. A cabeleira avermelhada do Roxanne pendurava para o piso. Quando lhe tirou seu único ponto de apoio e aconteceu as duas escovas ao Lily, o público aplaudia a trovejar.

Ao compasso da música do Beethoven, Roxanne começou a mover-se. A luz se voltou chapeada enquanto o corpo da moça girava, inclinava-se, ficava vertical a trinta centímetros do cenário. Max a fez baixar suavemente, centímetro a centímetro, até que seus pés tocaram o chão.

E despertou.

Roxanne abriu os olhos enquanto soavam aplausos tronadores. Para ela, esse já era um som celestial.

Sam observava desde decorações e sacudiu a cabeça. É nada mais que um truque, pensou. O que mais troveja  lhe dava era que ninguém queria lhe dizer como se fazia. Outra coisa pela que os Nouvelle teriam que pagar  mas adiante.

Tinha que haver uma maneira de tirar proveito da situação. Acendeu um cigarro e observou a entrada a cena do Luke. O muito imbecil acredita que é alguém importante, ali parado sob os refletores, atraindo o aplauso e a atenção dos pressente, pensou Sam.

Mas já chegaria o dia em que ele incitaria toda a atenção. Porque se o obtinha, obtinha-se o poder. E  isso era o que mais queria Sam.

 - Senhor Nouvelle.  - Assim que terminou a função, Trent Taylor, o máximo galã de moda, com aspecto de ídolo e voz de barítono, procurou o Max em seu camarim. -  Jamais vi algo melhor  - disse Taylor e lhe estreitou com entusiasmo a mão.

 - Adula-me você, senhor Taylor.

 - Brent, por favor.

 - Brent, então, e você me chame Max. Não há luto lugar aqui, mas seria uma honra para mim que me acompanhasse a beber uma taça de conhaque.

 - Com todo gosto. O ato de transformação  - prosseguiu dizendo Taylor enquanto Max servia o cognac - , simplesmente maravilhoso. E a levitação foi espetacular. Estou impaciente porque chegue o dia do jantar que ofereço para que tenhamos mais tempo de falar sobre magia.

 - Sempre eu gosto de falar sobre magia  - disse Max lhe ofereceu uma taça do Napoleón.

 - E talvez poderemos falar também sobre a magia na tela garota. Na televisão  - disse Taylor e Max se limitou a sorrir com cortesia.

 - Sim, temo-me que tive pouca oportunidade de ver televisão. Meus meninos, em troca, são peritos na matéria.

 - E magos excelentes por direito próprio. Suponho que adorariam provar sorte em um especial de televisão.

Max indicou ao Taylor que tomasse assento em um pequeno canapé e ele se sentou frente à mesa de maquiagem.

 - A magia perde seu poder em filme.

 - É possível, certamente. Mas com seu sentido teatral, poderia ser maravilhoso. Serei franco com você, Max. Uma das correntes televisivas me brindou a oportunidade de produzir uma série de especiais com variedades. Eu gostaria muitíssimo produzir um de uma hora chamado Os Assombrosos Nouvelle.

 - Max  - disse Luke e se deteve, com uma mão na porta - . Lamento interrompê-los, mas há um jornalista do Los Anjos Teme.

 - Falarei com ele dentro de um momento. Brent Taylor, Luke Callahan.

 - Um prazer te conhecer  - disse Taylor e ficou de pé para lhe estreitar a mão - . Tem muito talento, o qual não é surpreendente quando tiveste ao melhor por mestre.

 - Obrigado. Eu gosto de seus filmes.  - Luke olhou ao Taylor e depois ao Max.  - Direi-lhe que espere no bar.

 - Parece-me bem.

 - Um moço muito arrumado  - comentou Taylor quando Luke os deixou sós - . Se decidisse não seguir seus passos, amanhã mesmo poderia lhe conseguir seis papéis.

Max sorriu e se olhou as unhas.

 - Temo-me que está muito decidido a me seguir no meu. Agora bem, com respeito a seu oferecimento...

Luke estava tão impaciente que quase não podia esperar. Não teve tempo de falar em privado com o Max  até depois da segunda função. Assim que Max entrou em seu camarim, Luke lhe perguntou:

 - Quando o fazemos?

 - Fazemos?  - Max se sentou frente à mesa de maquiagem e colocou os dedos na creme de limpeza.  - Fazemos o que?

 - o da televisão. O especial que Taylor quer produzir. Faríamo-lo aqui, em Los Anjos?

Com toques lentos, Max se tirou a base de maquiagem.

 - Não.

 - Poderíamos fazê-lo em Nova Orleáns.  - Já imaginava: as luzes, as câmaras, a fama. Max arrojou os lenços de papel.

 - Não o faremos, Luke.

 - O que quer dizer com que não o faremos?

 - Só isso.  - Max se afrouxou a gravata do smoking antes de ficar de pé para trocar-se.  - Rechacei a oferta.

 - Mas, por que? Chegaríamos a milhões de pessoas em uma sozinha noite.

 - A magia perde seu impacto em filme.  - Max pendurou sua jaqueta e começou a desabotoá-los gêmeos de dourado,

 - Não faria falta filmá-lo. Poderíamos fazê-lo em vivo. Muitas vezes há público nos estúdios.

 - De todas formas, nossa agenda de compromissos não o permitiria.  - Max colocou os gêmeos em um pequeno estojo.

 - Isso não é verdade.  - A voz do Luke se aquietou quando em sua mente apareceu algo que dissipou sua confusão.  - É por mim.

Com lentidão, Max fechou o estojo.

 - Que disparate.

 - Não, não o é. Não quer que nos exponhamos dessa maneira, mas por mim. Por isso rechaçou também agir no programa do Carson o ano passado. Você não quer apresentar-se em televisão porque acredita que esse filho de puta pode ver-me, ele ou minha mãe, e causar problemas. Está rechaçando algo que poderia colocá-lo no topo.

Max se tirou a camisa do smoking e ficou parado em camiseta e cueca. Por puro hábito, pendurou a camisa em um cabide acolchoado e alisou as pranchas com os dedos.

 - Eu tomo minhas próprias decisões, Luke, e por meus próprios motivos.

 - É por mim  - murmurou Luke - . Não está bem.

 - Está bem para mim, Luke.  - Max estendeu a mão para lhe tocar o ombro, mas ele pegou um salto para trás. Era a primeira vez em anos que o moço reagia com esse violento movimento defensivo.  - Não faz falta que tome assim.

 - Como se supõe que devo tomá-lo?  - perguntou Luke. Teve vontades de quebrar algo, algo, mas conseguiu apertar os punhos aos flancos do corpo.  - É minha culpa.

 - A culpa não tem nada que ver com isto. As prioridades, sim. Talvez não tenha idade suficiente para compreendê-lo, mas o tempo passa. dentro de dois anos terá dezoito. Se nesse momento eu dito aceitar uma oferta de fazer televisão, farei-o.

 - Não quero que espere. Não por mim.  - Seus olhos se viam brilhantes e cheios de fúria.  - Se se apresentarem problemas, eu os dirigirei. Já não sou um menino. E, por isso sabemos, ela está morta. Espero Por Deus que o esteja.

 - Não diga isso.  - A voz do Max foi afiada como uma espada.  - Seja o que for que fez ou que não fez, segue sendo seu mãe, e te deu a vida. Não lhe deseje a morte, Luke. Já é algo que vem a todos muito logo.

 - Acaso espera que não a odeie?

Sentindo-se de repente muito cansado, Max se passou as mãos pela face. Sabia que chegaria o momento de falar disso. Sempre chegava o momento do que um mais temia.

 - Não está morta.

 - Como sabe?  - saltou Luke.

 - Acredita que correria riscos contigo?  - Furioso por ter que dar explicações, Max arrancou uma camisa poda de um cabide. -  Segui-lhe a pista e sei onde está, como vai, o que faz. Ao primeiro movimento que fizesse para você, eu te teria levado a algum lugar onde ela não pudesse te encontrar.

Toda a fúria do Luke se desvaneceu, deixando-o vazio e desventurado.

 - Não sei o que se supõe que devo lhe dizer.

 - Não tem que dizer nada. Fiz o que fiz, e seguirei fazendo-o, porque te quero. Se tivesse que te pedir algo em troca, pediria-te que tivesse paciência durante dois curtos anos.

Os ombros encurvados, Luke ficou a toquetear os potes de creme que estavam no penteadeira do Max.

 - Jamais poderei lhe pagar o que faz por mim.

 - Não me insulte ao tentá-lo...

 - Você e Lily...  - Tomou um pote, voltou-o a deixar. Alguns sentimentos eram muito grandes para expressá-los com palavras.  - Eu faria algo por vocês.

 - Então te tire isso da cabeça no momento. vá trocar te. Ainda tenho trabalho que fazer esta noite.

Luke voltou a levantar a vista. Max se perguntou como era possível que esse moço se converteu em um homem no breve momento que estiveram falando nesse quarto matizado. Mas era um homem o que agora o olhou, seus ombros largos e erguidos, seus olhos já não brilhantes a não ser escuros e diretos.

 - Esta noite você pensa fazer o trabalho na mansão Langtree. Quero ir com você.

Max suspirou e se sentou para tirá-los sapatos de cena.

 - Está-me fazendo muito difíceis as coisas esta noite, Luke. Comprouve-te antes, mas há um grande trecho entre obter informação para fazer um trabalho e executá-lo.

 - Irei com você, Max.  - Luke deu um passo adiante de modo que Max se viu obrigado a jogar a cabeça para trás para olhar ao Luke aos olhos.  - Sempre fala de fazer escolhas. Não é hora de que me deixe começar a fazer as minhas?

Houve um longo silencio antes de que Max voltasse a falar.

 - Saímos dentro de uma hora. Necessitará roupa escura.

Max se alegrou muitíssimo de que Elsa Langtree não colecionasse os pequenos cães mulherengos a que eram tão afetas a maioria das atrizes. As excentricidades da Elsa se dirigiam mas bem a colecionar homens... cada vez mais jovens e musculosos à medida que passavam os anos. Na atualidade atravessava o período entre seu marido número sete e número oito. Recentemente se tinha divorciado de um jogador de futebol profissional e estava em plenos preparativos de casamento com seu atual amor: um levantador de pesos de vinte e oito anos.

Elsa tinha, segundo sua própria confissão, quarenta e nove.

Embora seu gosto era bastante mau no relativo aos homens, não o era em outros sentidos. Um fato que Max assinalou ao Luke enquanto subiam o muro de dois metros e meio de altura que rodeava sua propriedade.

 - Os ricos com freqüência perdem toda perspectiva  - disse Max em voz baixa enquanto corriam pelo bem cuidado parque - . Mas, como verá, a casa que Elsa mandou construir faz dez anos é preciosa. Contratou a decoradores, é obvio. Mas ela inspecionou e aprovou cada tecido, cada peça, cada detalhe pessoalmente.

 - Como sabe todo isso?

 - Quando um se prepara para entrar em uma casa, é imperativo sabê-lo todo sobre seus habitantes, tanto como conhecer o plano estrutural do edifício.  - Fez uma pausa ao abrigo de umas árvores.  - A casa, como pode ver, é um excelente exemplo de arquitetura colonial. Linhas muito tradicionais, levemente fluídas e femininas e perfeitamente adequadas para uma pessoa como Elsa.

 - É muito grande  - comentou Luke.

 - Naturalmente, mas não ostentosa. Uma vez que estejamos dentro, falará só quando for absolutamente necessário. Fica todo o tempo a meu lado e segue minhas instruções ao pé da letra e sem vacilar.

Luke assentiu. Em seu sangue bulia a espera.

 - Estou preparado.

Max encontrou o sistema de alarme camuflado entre os trabalhadores de pedreira dos ventanales junto ao pátio posterior. Seguindo as instruções de Mouse, desatornilló a placa de amparo e cortou os cabos apropriados. Lutando contra a impaciência, Luke aguardou a que Max voltasse a colocar os parafusos e se dirigisse à porta da terraço.

 - Cristal esculpido, talhado e desenhado por um artista de Nova Hampshire  - murmurou Max - . Seria um crime machucá-lo.  - Em lugar de usar seu cortavidrios, tirou as gazuas e ficou a trabalhar nas duas fechaduras.

Tomou tempo. Enquanto os minutos passavam, Luke ouvia todos os sons que flutuavam no ar. O frágil zumbido do filtro da pileta de natação, o murmúrio dos pássaros nas árvores, o leve clique de metal sobre metal enquanto Max tentava abrir as fechaduras. Depois, o suspiro de triunfo quando Max abriu a porta.

Agora, pela primeira vez, Luke sentiu o que Max sempre tinha experiente. Essa vibrante excitação de caminhar pelo interior de uma casa fechada com chave, o prazer fantástica de saber que nela havia gente dormindo, o pungente poder de deslocar-se pela escuridão para cobrar o prêmio.

Caminharam em silêncio, em fila a Índia, pela sala espaçosa, um leve aroma a crisântemos, um sussurro de perfume feminino. Com os planos gravados na mente, Max enfiou para a cozinha e a porta que conduzia ao porão.

 - por que...?

Max sacudiu a cabeça para impor silêncio e desceu pela escada. As paredes estavam revestidas com pinheiro escuro. No centro da residência principal se via uma mesa de pool, rodeada por pesados móveis. Um bar de carvalho dominava uma das paredes.

 - Um quarto de jogos  - disse Max em voz baixa - . Para manter contentes a seus homens.

 - Guarda suas jóias?

 - Não. - Max riu entre dentes ante a mera idéia.

 - Mas aqui está a caixa principal de fusíveis. A caixa tem um mecanismo de tempo. Muito sofisticado e difícil de eliminar. Mas se se desconecta a corrente...

 - A caixa forte se abrirá.

 - Exatamente.  - Max entreabriu a porta que dava a outro pequeno quarto.  - Não te parece perfeito?

 - disse ao Luke - . Todo prolixamente rotulado. Biblioteca  - disse e tirou o fusível - . Com isso deve bastar.  - Olhou ao Luke com um sorriso.  - É tão freqüente que a gente esconda a caixa de segurança entre os livros. Interessante, não te parece?

 - Sim.  - dentro das luvas, transpiravam-lhe as mãos.

 - Como se sente?

 - Como a primeira vez que me instalei com o Annabelle no assento traseiro do automóvel  - ouviu-se dizer Luke e ficou avermelhado. Max se levou uma mão ao coração mas não pôde reprimir a risada.

 - Sim, claro - conseguiu dizer um momento depois - . Uma analogia muito apropriada.  - E se deu meia volta e começou a subir pela escada.

Na biblioteca encontraram a caixa forte, detrás de um quadro magnífico. Com o mecanismo de tempo anulado, foi tão singelo como abrir o porquinho de um criança. Max deu um passo atrás e fez gestos ao Luke.

De pai a filho, pensou com orgulho enquanto Luke extraía o alhajero. Iluminou com sua lanterna lapiseira quando Luke o abriu.

As gemas eram uma preciosura. Isso foi tudo o que Luke pôde pensar enquanto contemplava o resplendor das pedras, magnificamente engastadas em dourada e platina. O fato de que nesse primeiro instante não tivesse pensado absolutamente em seu valor monetário lhe teria comprazido muitíssimo ao Max.

 - Ainda não  - disse Max com a boca muito perto da orelha do Luke-. O que resplandece com freqüência é só uma imitação.  - Extraiu sua lupa da bolsa e, depois de entregar a lanterna ao Luke para que iluminasse as gemas, examinou-as.  - Maravilhosas

 - murmurou com um suspiro - . Simplesmente maravilhosas. Como te disse, Elsa tem um gosto delicioso.

 - Fechou a caixa forte e voltou a ocultá-la com o quadro.

Luke ficou um momento com milhares de dólares em esmeraldas nas mãos. E sorriu.

 

Para o Sam, o truque para poder enganar bem às pessoas, consistia em explodir o elo mais fraco da corrente. No curto tempo em que estava com a troupe dos Nouvelle, ofereceu-se a realizar qualquer trabalho, sempre com um sorriso nos lábios e com um cumprimento na ponta da língua. Tinha escutado com ar pormenorizado o relato que lhe fez Lily do passado do Luke, e conseguiu ganhar seu afeto inventando a história de uma mãe morta e um pai brutal, história que teria surpreso a seus pais, que viviam em uma casa modesta no Bloomfield, Nova Pulôver, e que nos dezesseis anos em que ele viveu sob seu teto, nem sequer lhe tinham levantado a mão.

Mas ele sempre detestou os subúrbios e, por razões que tinham desconcertado a seus pais tranqüilos e trabalhadores, desprezou-os, não só a eles mas também a seu estilo de vida e suas ambições modestas.

Durante sua adolescência, tinha-lhes destroçado o coração com seu desafio e rebelião. Roubou pela primeira vez o automóvel da família aos quatorze anos e se dirigiu a Manhattan. Poderia havê-lo obtido se se tivesse incomodado em pagar o pedágio. A polícia o levou de volta ao Bloomfield, arrogante e impenitente.

Começou a roubar nas lojas: relógios, jóias de fantasia, maquiagens. Depois, embalava a mercadoria roubada em algum estojo de couro também roubado e a vendia com desconto a suas companheiras de estúdios.

Em duas oportunidades entrou pela força ao colégio e realizou ali atos de vandalismo, destroçando por puro prazer os vidros das janelas e os canos de água. Teve a inteligência de não alardear de suas atividades, e se mostrou tão sedutor com seus mestres que jamais suspeitaram dele.

Em sua casa era um verdadeiro demônio que permanentemente fazia chorar a sua mãe. Seus pais sabiam p ele lhes roubava: hoje, um bilhete de vinte dólares da carteira; amanhã, alguns objetos de adorno; outro dia, uma jóia. Não podiam entender por que tomava essas coisas quando eles lhe davam tudo o que queria. Não entendiam que, em realidade, o que mais gostava não era roubar a não ser machucar às pessoas.

Recusou assistir a reuniões com conselheiros, ou se conseguiam arrastá-lo ante um terapeuta, não abria a boca.. Aos dezesseis, em uma oportunidade em que sua mãe não quis lhe emprestar o automóvel, ele respondeu atingindo-a, lhe partindo o lábio e lhe colocando um olho em compota. Depois, muito alegre, tomou as chaves, saiu pela porta e se levou o automóvel.

Deixou abandonando o carro perto da fronteira com a Pensilvania e jamais retornou.

Nunca pensava em seus pais. Por sua mente não desfilavam lembranças de Natais, nem de aniversário, nem de viagens à costa. Para o Sam, eles virtualmente não significavam nada, e, por conseguinte, não existiam.

Le-proporcionavam-os-nouvelle dinheiro de bolso, uma fachada excelente, e tempo para planejar seu futuro. Porque lhe era possível usá-los, desprezava-os tanto como à parceira que lhe desse a vida.

Por razões que ele mesmo não compreendia nem tentava entender, ao que mais odiava era ao Luke. E como intuía que Roxanne tinha um amor quase infantil para o Luke, Sam se preparou para se separar a dele.

Além disso, considerava-a o elo mais frágil.

Brindou-lhe tempo e atenção, escutou-a expressar suas idéias, felicitou-a por suas habilidades na magia. Por meio de adulações, convenceu-a de que lhe ensinasse alguns truques e pouco a pouco conseguiu que confiasse nele e lhe tivesse afeto.

Estava seguro da lealdade do Roxanne, e por volta de fins de seu segundo mês em Nova Orleáns, decidiu colocá-la a prova.

Com freqüência ia caminhar e a encontrar-se com o Roxanne quando ela saía do colégio, um hábito que o fez congraçar-se com o Max e com o Lily. Era um inverno muito frio e úmido, e a gente caminhava depressa pelas ruas, apurada por encontrar refúgio em sua casa. Funcionava fácil descobrir ao Roxanne, que caminhava com lentidão pelas veredas, e se protegia da garoa ao avançar debaixo dos balcões enquanto olhava as cristaleiras das lojas.

Estava ainda a duas quadras de distância quando ele a viu: seu chamativo cabelo e sua jaqueta azul profundo se destacavam nessa paisagem sombria.

 - Né, Roxy, como andou o colégio?

 - Muito bem  - respondeu ela e lhe sorriu, com idade suficiente e por certo o bastante feminina para sentir-se adulada pelas cuidados de um moço de dezenove anos.

Uma das lojas da rua Royal estava repleta de mais quinquilharias que de tesouros. Mas se podiam encontrar algumas peças interessantes, a maioria de pouco valor. A mulher que atendia a loja tomava mercadoria em consignação, e completava seus ganhos atirando o Tarot e lendo as mãos. Sam tinha eleito essa loja porque pelo general a proprietária trabalhava só e porque com freqüência Roxanne entrava ali para bisbilhotar sobre seu futuro.

 - Quer te fazer atirar as cartas  - perguntou ele com um sorriso? - . Poderia lhe perguntar se conseguirá namorado.  - Lançou-lhe um olhar que a comoveu e abriu a porta antes de que ela tivesse tempo de seguir de comprimento.  - Possivelmente te diga quando te casará.

Madame D'Amour se encontrava sentada atrás do mostrador. Tinha um rosto angular muito maquiado e dominado por escuros olhos marrons. Esse dia usava um  de seus muitos turbantes, uma de cor púrpura, e aros importantes imitação diamante que quase chegavam aos ombros de sua larga túnica também púrpura. Ao redor do pescoço levava várias correntes de prata e, em ambos os punhos, uma série de braceletes.

Teria algo mais de sessenta anos e alegava descender de ciganos. Talvez fora certo, mas à margem de sua herança, Roxanne sentia fascinação por ela.

Quando soaram as campainhas da porta, levantou a vista e sorriu. Frente a ela, sobre o mostrador, havia cartas do Tarot dispostas formando uma cruz celta.

 - Pensei que minha pequena amiga me visitaria hoje. Roxanne se aproximou para poder estudar as cartas.

 - Deveste comprou  - perguntou-lhe Madame  - , ou a olhar?

 - Tem tempo para me atirar as cartas?

 - Para o Ü, querida, sempre tenho tempo.  - Olhou ao Sam, e seu sorriso se desvaneceu um pouco. Havia algo no moço que não gostava de nada, apesar de seu sorriso aberto e cordial e seus lindos olhos.  - E você? Tem alguma pergunta para as cartas?

 - Em realidade, não  - disse e sorriu com acanhamento - . Mas você, Roxy, tome seu tempo. Eu tenho que ir procurar algumas coisas à farmácia. Verei-te em casa.

 - Está bem.  - Enquanto Madame tomava as cartas e ficava de pé, Roxanne se aproximou da cortina que separava a trastienda.  - lhe diga a Papai que já vou.

Ele abriu com lentidão a porta de rua para que soassem as campainhas. E depois voltou a fechá-la. Movendo-se com rapidez, enfiou para o mostrador, debaixo do qual havia uma caixa de charutos grafite onde Madame guardava o dinheiro e os recibos. Sam tirou todo o efetivo, até o último centavo. Depois, sustentando as campainhas para que não soassem, deslizou-se fora e fechou a porta muito devagar.

Durante a seguinte semana, Sam roubou em outras quatro lojas da zona. Quando lhe convinha, usufruía da colaboração do Roxanne: percorria as lojas com ela, e aguardava até que ela, uma face familiar no bairro, chamava a atenção do empregado.

Ao Sam não importava o valor do bota de cano longo. O que mais desfrutava era que a confiada e ingênua Roxanne fora seu cúmplice sem sabê-lo. A ninguém lhe ocorreria acusar à adorada filha do Maximillian Nouvelle de elevar-se algumas bagatelas. Enquanto estivesse com ela, poderia enchê-los bolsos.

Mas o melhor desse verão em Nova Orleáns foi seduzir ao Annabelle e se separá-la assim do enamoradísimo Luke.

Funcionou-lhe fácil, tão fácil como seus rateios compulsivos nas lojas. Quão único tinha que fazer era observar, escutar e tirar vantagem das oportunidades que lhe ofereciam.

Ao igual à maioria dos jovens apaixonados, Luke e Annabelle tinham sua boa dose de disputas, a maioria das quais giravam ao redor do pouco tempo que Luke lhe dedicava e das crescentes exigências dela de que passassem mais tempo juntos. Tratava de convencer o de que faltasse aos ensaios, de que se retirasse das funções para poder levá-la a uma festa, a um baile, a um passeio.

 - Olhe, não posso  - disse Luke com impaciência e se passou o tubo do telefone à outra orelha - . Annabelle, já lhe expliquei isso mil vezes.

 - O que teimado que é.  - Através do tubo se notou o pranto em sua voz.  - Sabe perfeitamente bem que o senhor Nouvelle o entenderia.

 - Não, não sei  - respondeu Luke... porque não lhe tinha pedido ao Max que entendesse e não pensava fazê-lo - . Não tenho o fim de semana livre, Annabelle. Estou comprometido com a função.

 - Suponho que isso te importa mais que eu. Era certo, mas Luke duvidava muito que fora prudente reconhecê-lo.

 - É nada mais que algo que tenho que fazer.

 - A festa do Lucy será a maior do ano. Todo mundo estará ali. Seu pai contratou a uma banda em vivo. Morrerei se me perco isso.

 - Então vê  - disse Luke a contra gosto - . Disse-te que eu não tinha inconveniente. Não te obrigo a ficar sentada e só em seu casa.

 - Não pode fazer um esforço?

 - Não posso, Annabelle.

 - Não quer  - disse ela com tom gelado.

 - Escuta  - disse ele, mas fez uma careta quando ouviu que ela cortava a comunicação com fúria - . Meu deus  - murmurou e deixou cair o tubo.

 - Problema com as mulheres?  - Parecia que Sam passava por ali em forma casual ao sair da cozinha, com uma maçã na mão. Em realidade, tinha escutado toda a conversação, e já lhe estava dando forma a seus planos.

Enquanto Luke se preparava para sua atuação em La Porta Mágica, Sam batia na porta da casa do Annabelle. Ela mesma foi abrir, com os olhos inchados pelo pranto, e de muito mau humor.

 - Olá, Sam  - disse e se alisou o cabelo - . O que faz por aqui?

 - Luke me mandou.  - E com um sorriso de desculpa, tirou o braço que tinha detrás das costas e lhe ofereceu um ramo de pensamentos.

 - OH  - disse ela, e tomou as flores. Estava adulada. Com uma noite aborrecida e larga por diante, pareceu-lhe tolo lhe fechar a porta a este moço atraente.

      - Quer entrar em tomar uma Coca ou algo? A menos que tenha outros planos.

 - eu adoraria, se a seus pais não parece mau.

 - saíram, e não voltarão até dentro de várias horas.  - Piscou.  - Eu gostaria de estar acompanhada.

 - A mim também  - disse Sam e fechou a porta a suas costas.

Primeiro se fez um pouco o tímido e manteve bastante distancia enquanto tomavam Coca e ouviam música. Pouco a pouco, foi transformando em um pormenorizado confidente. Procurou não criticar ao Luke por temor a que ela levasse a mal e o defendesse. Com a desculpa de compensá-la por ter perdido a festa, convidou-a a dançar, embora com certo acanhamento.

Essa diminuída admiração pareceu muito doce ao Annabelle, e a fez apoiar a cabeça sobre seu ombro enquanto se balançavam sobre o tapete. Quando a mão dele começou a ascender e descender ritmicamente por sua coluna vertebral, Annabelle se limitou a suspirar.

 - Me alegro tanto de que viesse  - murmurou - . Sinto-me muitíssimo melhor.

 - Colocava-me mal pensar que estava só e zangada. Luke tem sorte de ter uma garota como você  - disse e tragou forte, assegurando-se de que ela o ouvisse. Quando voltou a falar, sua voz era vacilante.  - Eu, bom, penso em você todo o tempo, Annabelle. Sei que não deveria, mas não posso evitá-lo.

 - Sério?  - Seus olhos brilhavam quando jogou a cabeça para trás para olhá-lo à face.  - O que é o que pensa de mim?

 - No formosa que é.  - Aproximou sua boca a dela e a sentiu estremecer-se.  - Quando vem a casa ou ao clube, não posso te tirar os olhos de cima.  - Roçou-lhe os lábios com os seus, apenas, e depois, como recuperando-a sensatez, deu uma sacudida para trás.

 - Lamento-o  - disse e se passou uma mão tremente pelo cabelo - . Deveria ir.

Mas não se moveu mas sim ficou ali de pé, olhando-a. Um momento depois foi ela, tal como ele tinha suposto, como o tinha planejado, a que lhe aproximou e jogou os braços ao pescoço.

 - Não vá, Sam.

Era atraente, era agradável com ela e sabia beijar. Os requerimentos do Annabelle acabavam de ver-se satisfeitos.

Quando ele a recostou no divã e a possuiu, seu corpo se estremeceu no momento do clímax. Mas se estremeceu mais ainda pelo prazer de saber que acabava de tomar algo que tinha sido do Luke.

Enquanto Sam fazia gemer ao Annabelle sobre as imprecisas flores do estofo do divã de sua mãe, Madame se aproximava por detrás do cenário de La Porta Mágica. Incomodava-lhe ser portadora de más notícias. Mas era algo que devia fazer, nem tanto por outros comerciantes do bairro, nem sequer por ela mesma, mas sim pelo Roxanne.

 - Monsieur Nouvelle.

 - Max levantou a vista dos bosquejos que estava fazendo e viu o Madame na porta de seu camarim. Seus olhos se iluminaram com autêntico prazer, ficou de pé e tomou a mão para beijar-lhe

 - Ah, Madame, bonsoir, bienvenue. É um verdadeiro prazer voltar a vê-la.

 - Oxalá pudesse dizer que vim a ver a função, mon ami, mas não é assim.  - Viu que o sorriso dos olhos do Max se permutava em preocupação.

 - Ocorre algo.

 - Oui, algo que infelizmente tenho que lhe dizer. Podemos falar?.

 -Certamente, colina a porta e a conduziu a uma cadeira.

 - Ao princípio desta semana, minha loja foi roubada.

 - O que se levaram?

 - ao redor de cem dólares, e várias bagatelas. Não será uma tragédia, mas é bastante desagradável. Fiz a denúncia, é obvio, e, como é natural, não se pôde fazer muito. Quando a gente está no comércio, aceita as perdas. Não teria tornado a pensar no assunto se um ou dois dias depois não me tivesse informado de que outros dois negócios  - a boutique Nova Orleáns, da rua Bourbon, e Rendezvous, na rua Conti - , também tinham sido roubados, sempre por totais não muito grandes. Um dia depois, ocorreu-lhe o mesmo à loja contigüa à minha, embora nesse caso as perdas não foram tão pequenas: levaram-se várias peças valiosas de porcelana e também várias centenas de dólares em efetivo.

Max se passou um dedo pelo bigode.

 - Alguém alcançou a ver o ladrão?

 - Talvez sim  - disse Madame e ficou a jogar com o amuleto que descansava sobre a seda vermelha de sua túnica - . Talvez não. Enquanto os comerciantes trocavam idéias sobre o ocorrido, descobrimos que alguém conhecido tinha estado na loja em cada oportunidade em que se produziu o roubo. É possível que tenha sido uma coincidência.

 - Uma coincidência?  - Max arqueou uma sobrancelha.  - Parece-me muito pouco provável. por que deveu ver-me por este tema, Madame?

 - Porque a pessoa que esteve em todas as lojas foi Roxanne.

Madame apertou os lábios bem forte quando viu a mudança na expressão do rosto do Max. Nada ficava nele da preocupação, o interesse, o evidente desejo de ajudar. Em seu lugar aparecia uma fúria perigosa.

 - Madame  - disse em um murmúrio - . Atreve-se você...?

 - Atrevo-me, Monsieur, porque quero muito à pequena.

 - E, entretanto, acusa-a.

 - Não. Não a acuso a ela. Roxanne não estava só recuando visitou esses lugares.

 - Quem a acompanhava?

 - Samuel Wyatt.

Max teria querido dizer que a notícia o surpreendia.

 - Aguarda-me você um momento?  - disse, aproximou-se da porta e chamou o Roxanne. Quando ela entrou em camarim, em seu rosto apareceu um enorme sorriso ao ver o Madame.

 - Veio!  - exclamou e correu a beijar à mulher - . Não sabe quanto me alegro. Poderá ver o novo número. Luke e eu o fizemos pela primeira vez frente ao público; n a função anterior. E o fizemos bem, verdade, Papai?

 - Sim.  - Fechou a porta e depois se inclinou e lhe colocou as mãos nos ombros.  - Tenho que te perguntar algo, Roxanne. Algo importante. E deve me dizer a verdade, não importa o que seja.

O sorriso desapareceu dos olhos do Roxanne, e neles apareceu uma expressão solene e um pouco assustada.

 - Eu não te mentiria, Papai. Nunca.

 - Esteve na loja do Madame a princípios desta semana?

 - na segunda-feira, depois do colégio. Madame me atirou as cartas.

 - Esteve só?

 - Sim... quero dizer, quando me atirou as cartas. Sam foi comigo, mas partiu.

 - Levou-te algo da loja do Madame?

 - Não. Tivesse-me gostado de comprar o pequeno arranho azul, para o aniversário do Lily, mas não levava dinheiro em cima.

 - Não falo de comprar, Roxanne, mas sim de te levar, de tomar.

 - Eu...  - Sua boca tremeu ao entender.  - Jamais roubaria nada ao Madame, Papai. Como poderia fazê-lo? É meu amiga.

 - Viu se Sam se levava algo, do do Madame ou de qualquer das outras lojas que visitou contigo esta semana?

 - OH, Papai, não.  - A sozinha ideia fez que em seus olhos aparecessem lágrimas.  - O não poderia havê-lo feito.

 - Já o veremos  - disse Max e a beijou na bochecha - . Sinto muito, Roxanne. Peço-te que não pense mais nisto até depois da função, e que esteja preparada para aceitar a verdade, qualquer que seja.

 - É meu amigo.

 - Isso espero.

Já tinha passado a uma da madrugada quando Max abriu a porta do dormitório do Sam. Viu a figura debaixo do cobertor e avançou sigilosamente para um flanco da cama. Totalmente acordado, Sam se moveu, piscou e abriu os olhos como se acabasse de despertar. A luz da lua iluminou sua face.

 - Sente-se melhor?  - perguntou Max.

 - Isso acredito  - disse Sam e esboçou um frágil sorriso - . Lamento havê-los decepcionado esta noite.

 - Não tem importância  - disse Max e acendeu a luz, sem emprestar atenção ao grunhido de surpresa do Sam - . Desde já te peço desculpas por esta intromissão. Mas é necessária.  - Disse e se aproximou do placard.

 - O que ocorre?

 - Há duas maneiras de olhá-lo  - disse Max e se separou a roupa pendurada - . Ou estou defendendo meu lar, ou do contrário te estou causando um grave mal. Sinceramente, espero que seja o segundo.

 - Você não tem direito de revisar meus pertences.  - Sam saltou da cama em roupa interior e tiro do braço do Max.

 - Ao fazê-lo, é possível que esteja salvando seu reputação.

 - Vamos, Sam.  - Muito incômodo a julgar pelo rubor de suas bochechas, Mouse entrou na residência ia separar ao Sam.

 - Pedaço de imbecil, me tire as mãos de cima.

   -Sam saltou e tocou, mas Mouse o sustentou com firmeza. A fúria que sempre bulia debaixo da superfície estalou no Sam quando viu que Max tirava uma caixa de uma prateleira.  - Maldito filho de puta, matarei-te por isso.

Com grande calma, Max lhe tirou a tampa à caixa e observou o que continha. O dinheiro em efetivo estava prolixamente disposto em um maço sujeito com uma banda elástica. Algumas das bagatelas da preparada proporcionada pelo Madame se encontravam também ali.

 - Aceitei-te em meu lar  - disse Max com lentidão olhando ao Sam - . Não espero gratidão por isso, posto que trabalhou para pagar seu alojamento e comida, mas confiei a minha filha e ela te acreditou seu amigo. Usou-a, e de tal maneira que, junto com todo isto, roubou-lhe parte de sua infância. Se eu fosse Um homem violento, mataria-te somente por isso.

 - Ela sabia o que eu estava fazendo  - disse Sam - . Foi parte do plano. Ela...

Calou quando Max lhe pegou uma bofetada com o dorso o a mão.

 - Possivelmente, depois de todo, seja um homem violento.  - Deu um passo adiante para que seus olhos estivessem perto dos do Sam.  - Tomará seu roupa r irá esta mesma noite. Pagarei-te o que te deva,   irá, não só desta casa, mas também também deste bairro. me acredite, conheço cada centímetro desta vizinhança. Se ao amanhecer segue nele, eu saberei. E te encontrarei.

deu-se meia volta e, levando-a caixa, encaminhou-se à porta.

 - Deixa-o ir, Mouse. Mas vigia que empacotamento suas coisas e somente suas coisas.

 - Pagará-me isso, filho de puta  - disse Sam enquanto se limpava o sangue do lábio - . Juro Por Deus que me pagará isso.

Sam tomou um par de jeans do respaldo de uma cadeira e se mofou de Mouse enquanto os colocava.

 - Esquenta-te ver como me visto, maricas de porcaria?

Mouse se ruborizou um pouco, mas não disse nada.

 - De todos os modos, eu adorarei picar-me as daqui.  - ficou uma camisa.  - Os últimos meses me aborreci como louco.

 - Então te largue de uma vez.  - Luke estava de pé no vão da porta. Seus olhos refulgiam.  - Isso nos dará tempo para fumigar este quarto usado pela animália que usa a uma criatura para salvar seu traseiro.

 - Não acredita que lhe gosta de ser usada?  - Sorrindo pelo desafio, Sam colocou o resto de sua roupa em uma bolsa de lona.  - Isso é o que mais gosta às mulheres, tarado. Pregúntaselo ao Annabelle.

 - Que merda quer dizer isso?

 - Bom, bom.  - Sam se encolheu de ombros.  - Posto que o pergunta, tal vê te interesse saber que enquanto esta noite jogava bom moço com o resto da troupe, eu estava muito ocupado me agarrando a seu garota.  - Viu a fúria na face do Luke e também sua incredulidade.  - Justo nesse horrível divã floreado do living.  - O sorriso do Sam foi gelada.  - Em cinco minutos a tive para fora dessa preciosa bombachita vermelha de renda. lhe gosta mais estar acima, não? Para poder dar-lhe bem a fundo. E esse lunar que tem debaixo da teta esquerda que é sexy, verdade?

preparou-se, desejando a briga enquanto Luke saltava para ele. Mas Mouse foi mais veloz: agarrou ao Luke e arrastou para a porta.

 - Não vale a pena  - dizia sem cessar Mouse - . Vamos Luke, solta-o. Não vale a pena. Sal e te tranqüilize.

Fantástico, pensou Luke. Sairia e esperaria ao Sam. Baixou correndo os degraus e saiu ao jardim. O sangue bulia nas veias. Já tinha os punhos apertados e inteligentes. Planejava esperar ao Sam na rua, segui-lo  durante uma ou duas quadras, e depois lhe dar uma surra inesquecível.

Então ouviu chorar ao Roxanne. O já estava virtualmente na rua, inteligente para lutar, sua mente cheia de violência. Mas ela chorava como se tivesse o coração destroçado, aconchegada sobre um banco de pedra junto as azaleas.

Talvez se Roxanne tivesse tido o hábito de chorar, Luke poderia não lhe haver emprestado atenção e  seguir com o seu. Mas em todos os anos passados junto os Nouvelle, jamais a tinha ouvido chorar desde que tutor doente com varicela. E esse som lhe chegou fundo, tocou-lhe o coração.

 - Vamos, Roxy.  - Com estupidez, Luke se aproximou do banco e a aplaudiu na cabeça.  - Não chore. Ela seguiu com a face apertada contra os joelhos e soluçou.

 - meu deus.  - E, de repente, Luke se encontrou sentado junto a ela, abraçando-a.  - Vamos pequena, não deixe que ele te faça chorar desta maneira. É um filho o puta, um desgraçado.  - Suspirou e se balançou e descobriu que pouco a pouco se ia acalmando.  - O não o vale  - disse, metade para si, e nesse momento compreendeu a verdade nas palavras de Mouse.

 - Usou-me  - murmurou Roxanne contra o peito do Luke. Agora já tinha controle sobre os soluços, e quase

sentiu-se suficientemente forte para deixar de chorar.  - Fingiu ser meu amigo, mas jamais foi. Usou-me para lhe roubar coisas às pessoas que me importava. Ouvi o que disse a Papai. Foi como se nos odiasse, como se nos tivesse odiado sempre.

 - Talvez fora assim. O que nos importa?

 - Eu o traga para casa.  - Não estava segura de poder perdoar-lhe Ele... realmente fez isso com o Annabelle?

Luke soltou o ar de seus pulmões e apoiou a bochecha contra o cabelo do Roxanne.

 - Suponho que sim.

 - Sinto muito.

 - Se ela o permitiu, de qualquer jeito, não acredito que tenha sido realmente minha.

 - Ele queria te machucar  - disse Roxanne - . Acredito que queria ferir todo mundo. Por isso roubou essas coisas. Não é como o que faz Papai.

 - Mmmm  - disse Luke com ar ausente - . O que?

 - Já sabe, isso de roubar. Papai não roubaria a um amigo, nem a uma pessoa que se prejudicasse por esse roubo.  - Roxanne bocejou.  - Sempre se leva jóias e coisas que estão asseguradas.

 - Deus santo.  - Empurrou-a de seus joelhos e a pobre Roxanne caiu de traste sobre o banco.  - Quanto faz que sabe? Quanto faz que sabe o que fazemos?

Ela sorriu com ar condescendente, e seus olhos inchados refletiram o claro de lua.

 - sempre  - disse, simplesmente - . Sempre soube.

Sam partiu da casa, mas não do bairro. Porque ainda tinha que ajustar contas com alguém. A mexeriqueira tinha que ter sido Roxanne.

Esperou-a. Sabia o caminho que tomava para ir ao colégio. Algumas vezes inclusive a tinha acompanhado, tratando de mostrar-se atento com ela. E lhe tinha pago dessa maneira.

Passou várias horas aconchegado em um beco, tratando de proteger-se de uma garoa gelada. Detestava  ter frio.

Era outra coisa pela que a faria pagar.

Viu-a e se ocultou mais. Mas comprovou que não fazia falta tomar precauções. Ela caminhava com despreocupação, levando a mochila nas costas, os olhos alhos. Ele esperou e, quando Roxanne esteve suficientemente perto, saltou sobre ela.

A menina não teve sequer tempo de gritar quando foi tomada desde atrás e jogada no beco. Levantou os punhos, mas os baixou ao ver que se tratava do Sam.

Ainda tinha os olhos inchados. Isso lhe deu raiva. Deu-lhe raiva que ele a tivesse feito chorar. Com o  queixo bem alta, e seus olhos perfeitamente secos, olho-o.

 - O que quer?

 - Conversar um momento. Só você e eu. Algo na face do Sam a fez ter vontades de fugir, Viu algo que jamais lhe tinha visto antes. Ódio.

 - Papai te disse que te partisse daqui.

 - Acredita que esse velho me assusta?  - disse e a atirou contra a parede - . Faço o que quero, e o que quero  neste momento é ajustar contas contigo. Deve-me isso, Rox.

 - Eu te devo?  - Esquecendo a surpresa, esquecendo a dor do ombro onde tinha golpeado contra a pedra, separou-se da parede.  - Eu te levei a casa. Pedi a Papai que te desse trabalho. Ajudei-te, e depois roubou a meus amigos. Eu não te devo nada.

 - Aonde vai?  - Voltou-a a atirar contra a parede atando ela tratou de escapar.  - Ao colégio? Não acredito. Acredito que deveria acontecer um bom momento comigo  - disse lhe rodeou a garganta com a mão. Roxanne teria querido gritar nesse momento, muito forte e por muito tempo, mas não tinha suficiente ar.

O medo a fez levantar os braços e, sem pensá-lo sequer, e sem prévio aviso, lhe cravar as unhas na face. Ele chiou e afrouxou as mãos. Roxanne quase tinha conseguido chegar à boca do beco quando ele a capturou.

 - Putita de porcaria.  - Respirava forte quando a estendeu no chão. Sentia raiva e dor, mas também excitação. Faria o que lhe desejasse muito com ela: algo, todo, e ninguém poderia impedir-lhe

Ela o viu aproximar-se e se incorporou apoiando-se nas mãos e os joelhos. Sabia que ele a machucaria, e que as coisas ficariam realmente feias. Aponta baixo, disse-se e atinge forte.

Não fez falta. Quando ela se preparava para o ataque, Luke apareceu correndo pelo beco. Ao saltar sobre o Sam um rugido brotou de sua garganta. Um rugido que Roxanne só poderia descrever como o de um lobo.

E, depois, ouviram-se golpes surdos de punhos contra o corpo. Roxanne conseguiu ficar de pé, embora lhe tremiam as pernas. O primeiro que fez foi procurar uma arma: uma prancha de madeira, uma pedra, uma parte de metal, o que fora. Ao final se resignou a utilizar a tampa de um tacho de lixo e se aproximou do lugar da briga.

Só demorou um momento em comprovar que Luke não necessitava sua ajuda. Agora estava montado escarranchado sobre o Sam e lançava murros, metódica e implacavelmente, sobre sua face.

 - Já basta  - disse ela, e arrojou a tampa para poder frear ao Luke com as duas mãos - . Tem que parar. Meteremo-nos em uma confusão se o matas.  - Teve que inclinar-se para que os olhos cheios de fúria do Luke se encontrassem com os seus.  - Luke, Papai não quereria que te machucasse as mãos.

Algo no tom frio e lógico dessas palavras o fez olhar-lhe Seus nódulos estavam machucados, em carne viva e ensangüentados. pôs-se a rir.

 - De acordo.  - Mas tocou com uma dessas mãos sangrentas a face do Roxanne. Tinha estado furioso pelo do Annabelle, mas isso não era nada, nada absolutamente, comparado com o que sentiu quando viu o Roxanne no chão e Sam erguido sobre ela.  - Está bem?

 - Sim. Estava por atingi-lo nas bolas, mas te agradeço que o tenha surrado por mim.

Luke moveu a cabeça em direção à boca do beco.

 - Vai-te, Rox. me espere.

depois de olhar por última vez ao Sam, ela se deu meia volta e se afastou.

 - Poderia te matar por havê-la tocado  - disse Luke e e inclinou para o Sam - . Se chegar a te aproximar de novo a ela ou a qualquer de minha família, juro que te matarei.

Sam conseguiu apoiar-se nos cotovelos quando Luke ficou de pé. Tinha um fogo na face e sentia o corpo como se o tivesse atropelado um caminhão, Ninguém o lábia machucado assim antes.

 - Pagará-me isso  - disse, com um grasnido. O prometeu quando se esforçava por ficar de pé. Algum dia. Algum dia me pagarão isso.

 

Paris, 1982

-Já não sou uma criatura  - disse Roxanne com raiva.

-Tenho plena consciência disso  - disse Max. Em franco contraste, seu tom era calmo. A fúria de sua filha parecia não afetá-lo absolutamente quando lhe adicionou um pouco de creme a seu café francês bem carregado. Os anos haviam acinzentado sua cabeleira.

 

 - Tenho direito de ir contigo, tenho direito de participar disso.

Max enmantecó generosamente seu croissant, provou uma parte e se secou os lábios com um guardanapo de linho.

 - Não - disse, sorriu com doçura e seguiu comendo.

 - Papai...  - Roxanne terminou de beber seu café e conseguiu lhe sorrir.  - Dou-me conta de que só quer me proteger.

 - A tarefa mais importante de um pai.

 - E te quero muitíssimo por isso. Mas tem que me deixar crescer.

Ele a olhou. Embora em seus lábios permanecia o sorriso, em seus olhos havia uma tristeza inenarrável.

 - Nem sequer toda a magia de que disponho poderia ter impedido isso.

 - Estou preparada.  - Tirou vantagem do longo suspiro do Max, tomou as mãos e se inclinou para diante. Seu olhar era de novo terna; seu sorriso, persuasiva.  - Faz tempo que estou preparada. E sou tão boa como Luke...

 - Não tem idéia de quão bom é Luke  - disse Max e lhe acariciou a cabeça.

O olhar do Roxanne se endureceu.

 - Por bom que seja  - disse - , eu posso ser melhor.

 - Não se trata de um concurso, meu amor. Nisto se equivoca, pensou Roxanne ficando de pé e começando a passear-se pela residência. Era uma competência entre ambos, e muito feroz, desde fazia anos.

 - É porque eu não sou varão  - disse, e houve amargura em cada sílaba.

 - Isso não tem nada que ver  - disse Max - . É muito jovem, Roxy. Max acabava de empregar o pior argumento. Indignada, ela se deu meia volta.

 - Já quase tenho dezoito anos. Que idade tinha Luke a primeira vez que o levou contigo?

 - Vários anos mais  - murmurou Max - . Além disso, Roxanne, quero que tenha estúdios universitários, que aprenda coisas que eu não posso te ensinar. Que te descubra.

 - Sei perfeitamente quem sou  - saltou ela, levantou cabeça e endireitou os ombros. E Max vislumbrou em que classe de mulher se converteria. E se sentiu tão orgulhoso que quase lhe encheram os olhos de lágrimas.  - Ensinou-me tudo o que necessito saber.

 - Já te chegará o dia, se for isso o que o destino te tem preparado. Mas não agora  - disse Max.

 - Maldição. Eu quero...

 - Seus desejos terão que esperar.  - Seu tom foi categórico e cortante. E só ele soube o alívio que sentiu ao ser interrompidos por um golpe na porta. Fez- gestos ao Roxanne de que abrisse.

Ela conseguiu dissimular sua fúria e abrir a porta com um sorriso agradável no rosto, que se apagou ao ver o Luke, a quem fulminou com o olhar.

 - Max  - disse Luke - . Pensei que quereria saber que finalmente chegou o resto da equipe.

 - Por fim - disse Max e indicou ao Luke que se sentasse - . Toma uma taça de café. Eu mesmo irei verificar todo. Você poderia ficar com o Roxanne.

 - Irei com você  - disse, e já se estava colocando de pé quando Max o obrigou a sentar-se de novo.

 - Não é necessário. Mouse e eu podemos ver se toda está em ordem. Calculo que poderemos ensaiar esta mesma tarde.

Nenhum dos dois se dá conta das faíscas que produzem no outro?, perguntou-se Max. Qualquer que estivesse perto se incendiaria. Ah, a juventude, pensou com  um suspiro e um sorriso. Viu-os refletidos no espelho: estavam tão tenso como gatos de rede de esgoto, embora se encontrassem cada um em um extremo da residência.

Assim que a porta se fechou detrás de seu pai, Roxanne disse ao Luke:

 - Esta vez não penso permitir que me deixem fora.

 - Não depende de mim.

aproximou-se da mesa frente à que ele se encontrava sentado, e atingiu com as Palmas das mãos a toalha de linho com tal força, que o serviço de porcelana se sacudiu estrepitosamente.

 - E se dependesse de você?

Ele a olhou aos olhos. Teve vontades de estrangulá-la por haver-se convertido em uma moça tão formosa. E o tinha feito lenta e insidiosamente ao longo dos últimos anos.

 - Faria exatamente o que faz Max.

Isso doeu ao Roxanne. Pareceu-lhe uma traição.

 - por que?

 - Porque ainda não está preparada.

 - Como sabe?  - perguntou e jogou a cabeça para detrás. A luz que penetrava pela janela iluminou seu cabelo e pareceu acender fogo nele. Luke teve medo de que tivesse notado a paixão que palpitava em seus próprios olhos.  - Como sabe para que estou preparada?

Era um desafio direto. Muito direto. Lhe umedeceram as mãos. Faria-a zangar. Era o melhor. Enquanto estivesse furiosa esperava poder manter suas mãos longe dela.

 - Sou tão boa como você, Calavam. Nem sequer sabia mesclar um maço de cartas até que eu te ensinei como fazê-lo.

 - Deve ser duro saber-se superada.

Ela ficou branca e depois avermelhou com violência. endireitou-se e, para desdita do Luke, ele pôde notar cada uma das curvas de seu corpo debaixo da bata que levava posta.

 - Filho de puta. Não poderia me superar embora estivesse parado sobre pernas de pau. O se limitou a sorrir.

 - A. quem lhe dedicaram mais espaço nos meios de  imprensa na última excursão em Nova Iorque?

 - Um idiota que se faz encadear a um baú e jogar no East River forzosamente consegue mais; de uma metragem na imprensa.

 - Se falaram de mim foi porque consegui me liberar -recordou-lhe - . Por ser o melhor. Deveria te contentar  com seus bonitos truques de magia, Rox, e com seus arrumados festejantes...  - A todos os quais teria querido assassinar.  - Deixa os trabalhos perigosos aos que podemos dirigi-los.

Ela era rápida. Luke sempre a admirou por isso. Quase não teve tempo de levantar uma mão e lhe aterrar punho antes de que lhe estrelasse um murro em nariz. Sem lhe soltar a mão, ele ficou de pé. Agora estavam cara a cara, e os corpos de ambos quase se içavam.

Roxanne sentiu um calafrio que lhe percorreu a coluna. E em seu interior floresceu um desejo, como uma  chama que jamais pôde apagar. Teve vontades de odiá-lo por isso.

 - Muito cuidado com o que faz  - disse ele. A advertência foi serena, mas lhe fez sentir que não tinha conseguido avivar o fogo de sua irritação, a não ser outra coisa.

 - Se acredita que tenho medo de que me pegue... Sorpresivamente, tomou o queixo com seus vades tensos e manteve sua face bem perto. Os lábios; ela se entreabriram, tanto pela surpresa quanto pela ansiedade. Por sorte, tinha a mente em branco.

 - Poderia fazer algo pior  - disse ele com lentidão - . E os dois pagaríamos as conseqüências.

Separou-a antes de ver-se arrastado a algo que não se perdoaria jamais. E, enquanto se encaminhava à porta  disse:

 - Às duas da tarde no Palace.  - E se foi dando uma portada.

Quando ela se deu conta de que lhe tremiam os joelhos, sentou-se. Por um instante, um instante fugaz, ele a tinha cuidadoso como se compreendesse que era uma mulher. Uma mulher que ele podia desejar. Uma mulher a que desejava.

Que ridículo. De todas formas, não lhe interessavam os homens. Tinha planos mais importantes.

Sorrindo, cruzou as pernas, tornou-se para trás na cadeira e começou a traçá-los.

Luke estava agradecido por ter tantas coisas no que ocupar-se. Entre preparar a função no Palace e o trabalho no Chaumet, não ficava tempo para pensar no Roxanne.

pôs-se a dormir um momento essa tarde. Ao pouco tempo despertou empapado de suor frio, depois de sonhar com ela. Um sonho incrivelmente real, no que esse corpo branco estava fundido com o seu; sua gloriosa cabeleira vermelha esparramada sobre uma parte de grama verde coberta de orvalho no claro de um bosque; seus olhos feiticeiros, nublados pela paixão.

Se existia um inferno, Luke sem dúvida arderia nele nada mais que por esses sonhos. Pelo amor de Deus, tinha crescido junto a ela, e era o mais parecido a uma irmã. O único que impedia ao Luke concretizar o que desejava era a idéia de que cometeria algo assim como um incesto espiritual.

E a certeza de que, se chegava a lhe demonstrar seus sentimentos, ela riria dele, e essa risada gelada lhe penetraria até os ossos.

depois de passear um bom momento pela residência, compreendeu que tinha que sair. Uma boa caminhada antes do jantar, um passeio pelo entardecer parisino.

Tomou sua jaqueta de couro e se deteve um instante ante o espelho, só o tempo suficiente para passá-la mão pelo cabelo.

Não tinha notado as mudanças em si mesmo ao longo o os anos. Tantas coisas permaneciam igual. Seu cabelo seguia sendo escuro e grosso, e o levava o bastante largo como para que lhe curvasse sobre o pescoço ou pudesse pentear-lhe com um acréscimo. Seus olhos seguiam sendo azuis, e o longo de suas pestanas renegridas já não o incomodava. Tinha aprendido que sua atitude podia fascinar às mulheres às que o que mais lhes importava era a beleza física. Sua pele seguia sendo suave, e tensa sobre seus ossos largos. Durante sua adolescência se deixou crescer o bigode, mas descobriu que não ficava bem e o barbeou.

Em um de seus escapamentos se quebrado o nariz, mas lhe tinha cicatrizado bem, o qual lhe produziu uma leve decepção.

Aos vinte e um tinha alcançado sua estatura definitiva: quase dois metros, e seu corpo era magro. A expressão perturbada de seus olhos que aparecia com tanta freqüência durante sua infância, agora só lhe via muito rara vez. Os anos transcorridos junto ao Max lhe tinham ensinado a controlar-se, tanto física, como mental e emocionalmente. E sempre lhe estaria agradecido por isso.

Luke se separou do espelho, saiu e pôs-se a andar pelo longo corredor atapetado para os elevadores. Olhou de esguelha à bonita garçonete loira que empurrava seu carrinho.

Tinha chegado a hora de trocar as toalhas e a roupa de cama. O menino que alguma vez dormisse em sarjetas, acostumou-se tanto a esses luxos que quase não os notava.

 - Bon soir  - murmurou ele com um sorriso casual quando passou junto a ela.

 - Bon soir, monsieur.  - Seu sorriso foi tímida e breve antes de chamar uma porta do outro lado do corredor.

Luke já estava quase junto aos elevadores quando se freou em seco. Essa fragrância. O perfume do Roxanne. Maldita seja, estaria ele tão assanhado que lhe parecia cheirar seu perfume em todas partes? Deu outro passo e voltou a deter-se. Entrecerrou os olhos enquanto girava e observava bem à empregada que nesse momento introduzia sua chave mestra na fechadura.

Essas pernas. Apertou os dentes enquanto estudava essas pernas largas e esbeltas debaixo da saia negra e discreta do uniforme.

As pernas do Roxanne.

Ela já fechava a porta detrás de si quando ele atingiu.

 - Que demônios acredita que está fazendo? Ela piscou.

 - Pardon?

 - Basta de tolices, Roxanne. O que te propõe?

 - te cale  - disse, tirou-o do braço e o arrastou para dentro. Estava furiosa, mas isso podia esperar. Primeiro queria algumas respostas.  - Como soube que era eu?

O não podia lhe dizer que a tinha reconhecido pelas pernas, assim mentiu.

 - Por favor. A quem quer enganar com esse disfarce?

Em realidade era perfeito. Essa peruca loira e curta trocava muitíssimo seu aspecto. Até a cor de seus olhos era diferente. Lentes de contato coloridos, supôs, que convertiam o tom esmeralda em um marrom defumado. Tinha suficiente habilidade com a maquiagem para modificar sutilmente o tom de sua cútis e a forma de seu rosto. Tinha almofadado um pouco seus quadris e  - disso Luke estava seguro - , usava um corpete com cheio que deveria ser declarado ilegal pelo efeito que produzia nos homens.

 - Isso não é certo  - disse ela, zangada, mas em voz muito baixa - . Estive dez minutos na residência do Lily e ela não me reconheceu.

 - Pois eu sim  - disse ele - . E agora me diga que demônios faz aqui.

 - Devi roubar as jóias da senhora Melville.

 - Um corno se o fará.

Os olhos dela despediram chamas. Talvez fossem ladrões, mas eram os do Roxanne.

 - me deixe em paz. Entrei aqui e não penso ir com as mãos vazias. Planejei-o até em seus menores detalhes, e não penso deixar que o arruíne.

 - E o que fará quando a senhora Melville chame gritos à polícia?

 - Parecer surpreendida, consternada e furiosa, é obvio. Como todos outros hóspedes do hotel. -deu-se meia volta e se dirigiu diretamente ao penteadeira. Tirou um lenço do bolso e o utilizou ao abrir as gavetas para não deixar impressões digitais.

 - Acredita que encontrará suas jóias dispersadas n uma gaveta? O Ritz tem na planta baixa uma caixa de segurança para seus clientes.

Roxanne lhe dedicou um olhar lânguido.

 - Ela não as guarda abaixo. A outra noite a ouvi discutir por isso com seu marido. Gosta das ter perto  para poder escolher todas as noites ao vestir-se.

Bem, muito bem, pensou Luke. Tratou de encontrar outro enguiço no plano.

 - O que fará se alguém chega a entrar no quarto enquanto está revisando todo?

 - Não estarei revisando todo  - disse ela, e com rapidez e habilidade fechou uma gaveta - . Estou aqui para abrir as camas. Que desculpa tem você?

 - Está bem, Rox, é suficiente  - disse ele e tomou li braço - . Faz meses que planejamos o do Chaumet. E  não penso permitir que algo de pouca subida arruíne o trabalho.

 - Uma coisa não tem nada que ver com a outra  - disse ela e se separou dele - . E não é de pouca subida. Viu o tamanho das pedras que usa?

 - Poderiam ser falsas.

 - Isso me toca averiguá-lo Á mim.  - E arqueando uma sobrancelha, tirou do bolso uma lupa de joalheiro.  - Faz quase dezoito anos que estou ao lado do Max - disse enquanto voltava a guardá-la - . E sei o que faço.

 - O que fará será sair em seguida daqui...  - Mas calou quando ouviu o ruído de uma chave na fechadura.  - Merda.

 - Poderia gritar  - disse ela - . Dizer que entrou aqui pela força e me atacou.

Não havia tempo para contradizê-la. Lançou-lhe um olhar fulminante e tomou a única opção que lhe apresentava. mergulhou-se debaixo da cama.

Tentada de risada, Roxanne começou abrir a cama. endireitou-se quando a porta se abriu e seu rosto se encheu de rubor.

 - OH, Monsieur Melville  - falou em inglês, com forte acento francês - . Se quiser, volto em outro momento.

 - Não faz falta, preciosa.  - Era um texano cinqüentão robusto e musculoso, e a maldita comida francesa lhe provocava indigestão.  - Continue com o que estava fazendo.

 - Merci.  - Roxanne alisou o cobertor e esponjou os travesseiros, com plena consciência de que os olhos do Melville estavam fixos em seu traseiro.

 - Não recordo havê-la visto antes por aqui.

 - Em realidade  - disse e se inclinou um pouco mais sobre a cama - , este não é meu piso.  - Desfrutando de seu papel, deu-se meia volta e lhe dedicou um olhar provocador por debaixo de suas pestanas. Quer que lhe traga mais toalhas, monsieur? Deseja alguma outra coisa?

 - Bom, bom  - disse ele e se inclinou para lhe fazer cócegas no queixo. Em seu fôlego havia rastros de uísque.  - O que pode me oferecer?

Ela lançou uma série de risitas tolas e voltou a colocar em movimento suas pestanas.

 - OH, monsieur. Você se aproveita de mim, oui? É claro que sim que eu gostaria de fazê-lo, pensou ele. Desembrulhar um pacote tão tentador como esse seria muito mais divertido que assistir ao concerto ao que sua mulher pensava arrastá-lo. Mas também tomaria tempo. Esquecida sua indigestão, decidiu que poderia franelear  um pouco.

 - Sempre sentei debilidade pelos doces franceses  - disse Melville e lhe aplaudiu o traste, e quando ela riu com dissimulação, beliscou-lhe um peito. Desde debaixo da cama, Luke teve a certeza de que lhe estavam crescendo as presas.

Ruborizada e sem fôlego, Roxanne olhou ao Melville com seus enormes olhos marrons.

 - OH, monsieur. Vocês, os norte-americanos...

 - Eu não sou só norte-americano, preciosa. Sou texano.

 - Ah.  - Roxanne deixou que lhe beijasse o pescoço enquanto Luke observava a cena, impotente, os punhos apertados.  - É verdade o que dizem dos nos cubra, monsieur? O que todo é... maior?

Melville pegou um grito e a beijou forte na boca.

 - É totalmente certo, preciosa. Não quer averiguá-lo você mesma?  - E esqueceu por completo a sua esposa e seu estômago e começou a empurrá-la para a cama. Luke se preparou, inteligente para saltar sobre ele.

 - Mas, monsieur, estou de serviço  - disse Roxanne enquanto lutava por liberar-se sem deixar de rir - . Despedirão-me.

 - O que te parece então quando não estiver de serviço?

Jogando a fundo o papel da buscona francesa, voltou a ruborizar-se e se mordeu o lábio inferior.

 - Talvez poderíamos nos encontrar a meia-noite - disse e lhe fez uma caída de olhos - . Há um lindo café aqui perto. chama-se Robert'S.

 - Bom, acredito que poderia arrumá-lo.  - Voltou a tomá-la em seus braços e lhe apertou os quadris almofadados.  - Não me perca de vista. Como te chama, preciosa?

 - Monique  - respondeu ela e deslizou os dedos sobre a bochecha do Melville - . Aguardarei com impaciência que chegue a meia-noite.

Lhe deu outro beliscão e lhe piscou os olhos um olho antes de partir, sonhando deitando-se com essa francesa garota.

Roxanne se desabou na cama e começou a rir a gargalhadas.

 - Sim, claro, muito divertido  - murmurou Luke enquanto saía de debaixo da cama - . Deixou que esse descarado lhe toqueteara e virtualmente se montasse em cima de você e agora ri. Deveria te dar uma boa surra.

 - Vamos, Luke, cresce de uma vez.

 - Você parece ter crescido pelos dois. É uma perita nesse campo. me diga, Rox, a quantos dos companheiros de estúdio com os que sai lhes permitiu que lhe toquetearan assim?

Esta vez, o rubor do Roxanne foi autêntico.

 - Isso não é teu assunto.

 - É claro que sim que o é. Eu...  - Estou louco por você. As palavras estiveram a ponto de brotar de seus lábios antes de que ele as tragasse.  - Alguém tem que cuidar de você.

 - Eu me posso cuidar muito bem só  - disse ela e se abriu passo com o cotovelo, horrorizada pelo comichão que sentia no espinho dorsal - . E para seu informação, cérebro de mosquito, ele não me colocou as mãos em cima . Onde ele tocava, eu tinha suficiente cheio para fabricar um colchão.

 - Isso não tem nada que ver  - disse ele e a tirou da mão, mas ela o separou - . Roxanne, vamos daqui. Agora mesmo.

 - seu vai-te. Eu obterei o que devi buscar.  - Preparada para não ceder, jogou a cabeça para trás.  - Quero-o mais que nunca. Esse degenerado comprará a sua esposa um novo canasto cheio de jóias. O tem merecido... ir encontrar se com uma putita francesa em um café barato.

em que pese a si mesmo, Luke se pôs-se a rir e se passou a mão pelo cabelo.

 - Você é a putita francesa, Rox.

 - E eu sou a que o farei pagar por seu adultério  - disse, com um olhar tão decidido, que Luke não pôde menos que admirá-la - . E o que dirá ele sobre mim? Dirá que encontrou aqui a uma empregada, e me descobrirá, mas não com muito detalhe porque se sentirá culpado e assustado. É melhor que se não me tivesse visto absolutamente.  - dirigiu-se ao placard e, enquanto revisava a prateleira superiora, sorriu.  - Et, voila.

Teve que estirar-se para alcançar o joalheiro de três pisos.

 - Deus, Luke, isto deve pesar como dez quilos!

 - antes de que ele pudesse ajudá-la, ela colocou o alhajero no chão e ficou em cuclillas. - É meu

 - disse e lhe pegou uma palmada na mão. Tomou uma série de gazuas que levava no bolso, escolheu uma e ficou a trabalhar na fechadura.

Demorou quarenta e três segundos; Luke tomou o tempo. E teve que reconhecer que era muito mais hábil do que ele tinha imaginado.

 - Deus santo.  - O coração do Roxanne lhe deu um salto quando abriu a tampa. Brilhos, brilhos, resplendores. sentiu-se Alí Baba explorando a caverna. Não, não, pensou: mas bem como um dos quarenta ladrões.  - Não são maravilhosas?  - perguntou e colocou a mão no joalheiro - . São fabulosas!

 -  - Se...  - começou a dizer Luke mas a voz lhe falhou. Teve que pigarrear.  - Se forem autênticas.

Roxanne suspirou e tirou a lupa. depois de examinar uma corrente de safiras e diamantes, sentou-se sobre os calcanhares.

 - São autênticas, Callahan.  - E agindo agora com rapidez, examinou uma peça atrás de outra antes das envolver em toalhas.

Ele a ajudou a ficar de pé. Depois, limpou o alhajero e, usando para isso uma toalha, voltou a colocá-lo em seu lugar.

 - Agora, nos larguemos daqui.

 - Vamos, Luke  - disse ela, bloqueou a porta e sorriu com os olhos - . Pelo menos poderia dizer que o fiz bem.

 - Sorte de principiante  - disse ele, mas lhe devolveu o sorriso.

 - A sorte não teve nada que ver  - disse Roxanne e lhe cravou um dedo no peito - . Você goste ou não, Callahan, tem uma nova sócia.

 

 - Não é justo.

Roxanne estava no camarim de seu pai, totalmente vestida para a função. As lentejoulas e o canutillo de seu vestido sem breteles cor esmeralda refulgiam com as luzes e com sua indignação.

 - demonstrei que sou capaz  - insistiu ela.

 - O que demonstrou é que é impulsiva, imprudente e teimada.  - depois de colocá-los gêmeos na camisa de seu smoking, Max olhou no espelho a face furiosa de sua filha.  - E não participará, repito, não participará do trabalho do Chaumet. Agora, faltam só dez minutos para que chamem cena, garota. Alguma outra coisa?

Nesse momento, Roxanne se sentiu imersa de novo em sua infância. Seu lábio inferior tremeu quando se desabou em uma cadeira.

 - Papai, por que não confia em mim?

 - Pelo contrário, eu confio em você. Mas você deve confiar em mim quando te digo que não está preparada.

 - Mas as jóias dos Melville...

 - Foram um risco que jamais deveria ter deslocado.  - Sacudiu a cabeça enquanto se aproximou para tomar o queixo. Como podia esperar que uma filha de seu sangue não lhe parecesse? No fundo, estava orgulhoso dela.

O público do Palace estava constituído por estrelas de cinema, modelos parisinas e gente rica e cheia de glamour. Max tinha criado um espetáculo sofisticado e suficientemente-complexo para entreter a pessoas desse nível. Ao Roxanne era impossível agir com o pensamento em outra coisa.

Tal como tinha sido treinada, separou-se de sua mente tudo o que não fora magia. Agora era ela a que realizava o efeito das Bolas Flutuantes, ela, uma mulher esbelta com um rutilante vestido cor esmeralda. Ao observá-la, Luke compreendeu que parecia uma rosa de caule longo: esse verde sinuoso, seu cabelo cor fogo. O público ficou tão cativado com sua beleza como com as bolas chapeadas que se balançavam e dançavam alguns centímetros por cima de suas grácis mãos.

Ao Luke gostava de chateá-la e lhe dizer que seus jogos de magia eram puro brilho, mas o certo era que tinha uma habilidade extraordinária.

Max sorriu quando o pano de fundo se levantou e mostrou o tanque de vidro cheio de água para o número final que protagonizaria Luke: sua própria versão do Escapamento da Água do Houdini. Luke mesmo tinha desenhado esse receptáculo: as dimensões, a grossura do vidro, inclusive as dobradiças. Luke sabia exatamente quanta água continha para permitir o deslocamento de seu corpo quando fora submerso, encadeado, nesse tanque.

Sabia ao segundo quanto tempo necessitava para liberar-se das correntes, das esposas, dos grilhões que o asseguravam aos ferrolhos da câmara.

E sabia que período de graça lhe permitiriam seus pulmões se algo chegava a sair mau.

Agora com seu traje branco, Roxanne estava de pé junto à tanque. Pese ao medo que sentia em seu coração, seu rosto se via sereno. Foi ela a que lhe tirou a camisa de mangas largas ao Luke para que ficasse nu até a cintura.

Não olhou as cicatrizes que lhe cruzavam as costas. Em todos os anos que tinham estado o um junto ao outro, jamais as tinha mencionado. Embora ela fora capaz de abrir fechaduras, não pensava tocar essa que se fechava sobre o orgulho do Luke.

Foi ela a que permaneceu serenamente de pé enquanto dois voluntários do público fechavam as pesadas correntes ao redor do Luke. Quando os braços dele estiveram cruzados sobre seu peito e sujeitos ali, as esposas de aço sujeitas ao redor de seus punhos, seus pés descalços algemados a um tablón de madeira.

Os cellos tocavam uma melodia lenta e carregada de suspense enquanto a plataforma sobre a que Luke estava parado era elevada pelo ar.

 - diz-se  - começou a dizer ele com uma voz que flutuou por cima das cabeças dos espectadores, que o Grande Houdini perdeu a vida devido às lesões que sofreu durante seu escapamento. Desde sua morte, duplicar esse escapamento e triunfar nele foi um desafio para cada mago, cada escapista.

Olhou para baixo e ali estavam Mouse, incômodo e lenho de vergonha com seu traje de príncipe árabe, empunhando um enorme maço.

 - Com sorte, não haverá necessidade de que meu amigo quebre o vidro com seus braços musculosos  - disse e piscou os olhos um olho ao Roxanne - . Mas talvez sim terei necessidade de que a formosa Roxanne me faça respiração boca a boca.

Ao Roxanne não gostou de muito esse agregado ao libreto, mas o público riu e aplaudiu.

 - Uma vez que me baixem e me metam no tanque, ou selarão hermeticamente.  - O público deixou escapar uma exclamação quando a plataforma girou e Luke voltou a enfrentá-lo, mas esta vez de barriga para baixo. Começou a realizar inspirações profundas e a enchê-los pulmões de ar. Agora Roxanne se fez cargo do resto do ato.

 - Pedimo-lhes um completo silêncio durante o escapamento, e que centrem sua atenção no relógio.  - Ao  dizê-lo, um refletor iluminou a esfera de um grande relógio na parte posterior do cenário.  - Começará a funcionar no momento em que Calavam seja submerso no tanque. Damas e cavalheiros...  - Luke foi baixado centímetro a centímetro para a superfície da água. Roxanne manteve os olhos e a mente fixos no público.  - Calavam terá exatamente quatro minutos, e só quatro minutos para escapar, do contrário nos veremos obrigados a quebrar o vidro. Temos um médico aqui se por acaso se produzira um acidente.

Agora ela devia girar e estender os braços enquanto a cabeça do Luke fendia a água. Viu-o descender até que todo seu corpo ficou submerso, ouviu o golpe seco ao calçar ajustadamente a plataforma na parte superior do tanque. Seu cabelo descreveu um redemoinho e flutuou, enquanto os olhos do Luke, de um azul brilhante, olhavam os do Roxanne.

Então descendeu a cortina branca que cobriu os quatro custados do tanque.

O relógio começou a funcionar.

 - Um minuto  - anunciou Roxanne com uma voz que não revelava seu desgosto interior. Imaginou ao Luke livre das esposas. Desejou que assim fora. Sem dúvida trabalhava já nas correntes.

Houve murmúrios no público quando o relógio marcou os dois minutos. Roxanne sentiu que um suor frio lhe cobria as Palmas das mãos, a nuca, as costas. Luke sempre emergia aos três minutos, quando muito aos três minutos e vinte segundos. Através do tecido branco lhe pareceu ver a sombra de um movimento.

Não tem como pedir ajuda, pensou com desespero quando ao relógio lhe faltava pouco para marcar os três minutos. Não havia maneira de fazer um sinal se lhe falhavam os pulmões e lhe faltava ar. Podia morrer antes de que se separassem as cortinas, antes de que Mouse tivesse tempo de quebrar o vidro. Podia morrer só e em silêncio, encadeado a sua própria ambição.

 - Três minutos  - disse, e agora em suas palavras se filtrou o medo e fez que os espectadores se inclinassem para diante.

 - Três minutos, vinte segundos  - disse e olhou a Mouse com olhos aterrados     - Três minutos, vinte e cinco segundos. Por favor, damas e cavalheiros, mantenham a calma e permaneçam em seus assentos.  - Tragou uma baforada de ar e pensou com espanto nos pulmões do Luke.  - Três minutos, quarenta segundos.

Uma mulher, localizada-se no fundo da sala, teve um ataque de histeria e ficou a gritar coisas em francês. Isso iniciou uma reação de alarme em corrente que se deslocou pelas distintas filas até que todo o público ficou eletrizado. Muitos se tinham colocado de pé de um salto ao ver que faltava pouco para que o relógio marcasse-lhes quatro minutos.

 - Por Deus, Mouse.  - Quando só faltavam oito segundos, Roxanne perdeu a compostura e atirou da cortina, que caiu justo no momento em que Luke me separava a plataforma que tampava o tanque. Tirou a cabeça e aspirou fundo. Em seus olhos brilhava o triunfo ruando o público reagiu com gritos e aplausos.

Permaneceu um momento ali de pé, com uma mão; n alto. agarrou-se da plataforma, saltou do tanque de água e baixou ao cenário. Ali ficou parado, jorrando água, saudando o público com reverências.

Movido por um súbito impulso, tomou uma mão do Roxanne, e inclinandoa beijou, para alegria de todos esses franceses românticos.

 - Treme  - comentou, sem que sua voz se ouvisse pelos aplausos - . Não me diga que pensou que não o obteria.

Em lugar de retirar a mão de um puxão, como teria desejado, Roxanne lhe sorriu.

 - Tinha medo de que Mouse tivesse que quebrar o vidro. Sabe quanto custaria substitui-lo?

 - Essa é meu Roxanne  - disse e voltou a lhe beijar a mão - . Adoro seu mente mesquinha.

Esta vez ela sim se separou a mão. Os lábios dele se demoraram muito.

 - Está-me salpicando, Callahan  - disse e deu um passo atrás para que só ele ficasse iluminado pelo refletor.

Ao Roxanne indignava ter que ficar sentada  a esperar. É degradante, pensou enquanto se passeava com impaciência pela sala enquanto Lily, comodamente recostada no sofá, olhava por televisão um velha filme em branco e negro.

 - Alguma vez teve vontades de ir com eles? Jamais quis integrar a equipe?  - perguntou-lhe Roxanne.

 - Sou parte da equipe  - respondeu-lhe Lily com um sorriso - . Sei que Max entrará por essa porta e terá esse olhar especial nos olhos. Esse olhar que diz que tem feito o que queria fazer. E me precisará contar isso compará-lo comigo. Necessitará que eu lhe diga o inteligente e hábil que é.

 - E isso te basta?  - prosseguiu Roxanne - . Ser uma caixa de ressonância para o ego do Max?

O sorriso do Lily se desvaneceu, e o brilho de seus olhos celestes se voltou frio como o mármore.

 - Em todos os anos que faz que estou com o Max, ele não me usou jamais, nem feriu meus sentimentos em forma deliberada. Talvez isso não signifique muito para você, mas para mim é mais que suficiente. É um homem gentil e terno e me dá tudo o que posso desejar.

 - Sinto muito  - disse Roxanne, e seriamente o sentia quando tomou a mão. Lamentava ter ferido os sentimentos do Lily. Lamentava, também, que seu espírito independente não pudesse entender.  - O que passa é que me enfurece que me tenham deixado atrás, e então me desforro contigo.

 - Querida, não todos podemos pensar igual, ou sentir o mesmo, ou ser idênticos. Você...  - Lily se tornou para diante para tomar a face do Roxanne entre suas mãos.  - Você é filha de seu pai.

 - Possivelmente ele teria preferido ter um filho varão.

 - Nem te ocorra pensá-lo.

 - Luke foi com ele  - disse, sem poder dissimular seu ressentimento - . Eu estou aqui sentada, papando moscas.

 - Roxy, só tem dezessete anos.

 - Então detesto ter dezessete anos.  - levantou-se de um salto, foi para a janela e a abriu.  - Detesto ter que esperar para todo, e que me digam que tenho muito tempo por diante.

 - É obvio que sim.  - Havia um sorriso nos lábios do Lily e lágrimas em seus olhos quando observou ao Roxanne. É tão formosa, pensou. Tão cheia de ansiedades. Que desesperador é ter dezessete anos. Que maravilhoso e horrível ficar presa na beira mesmo da feminilidade.  - Posso te dar alguns conselhos, mas talvez não sejam os que quer ouvir.

Roxanne levantou a face para essa agradável noite primaveril e fechou os olhos. Como lhe explicar ao Lily essas ânsias ardentes e imperiosas que sentia, quando nem ela mesma as entendia?

 - Os conselhos nunca fazem mau, mas segui-los não sempre é bom.

Lily se pôs-se a rir porque esse era um dos ditos o Max.

 - Terá que chegar a uma fórmula de transação. -Roxanne protestou para ouvir essas palavras, mas Lily seguiu adiante.  - Não é muito penoso quando é um o que fixa os termos dessas concessões.  - ficou de pé, e lhe alegrou ver que Roxanne girava a cabeça para olhá-la.  - É mulher, você gostaria de trocá-lo?

Roxanne sorriu ao recordar o alívio e o orgulho que sentiu quando seu seios finalmente começaram a tomar forma.

 - Não. É obvio que não.

 - Então tira partido disso, querida.  - Lily apoiou uma mão sobre o ombro do Roxanne.  - Tirar partido não significa...

 - Explodi-lo?  - sugeriu Roxanne e Lily sorriu.

 - Isso. Um saca partido do que tem. Faz-o trabalhar em favor de um. Refiro-me ao cérebro, o aspecto físico, a feminilidade. Querida, as mulheres que o têm feito estiveram liberadas há séculos. O que passa é que os homens não sempre souberam.

 - Pensarei-o  - disse e beijou ao Lily na bochecha - . Obrigado.

ficou tensa quando ouviu que a chave girava na fechadura da porta, e se obrigou a distender-se. junto a ela, Lily já vibrava de excitação. Isso adorou ao Roxanne, e ao mesmo tempo a desconcertou. depois de todos os anos que estavam juntos, Max podia fazer que seguisse sentindo isso.

perguntou-se, fugazmente, se alguma vez apareceria alguém que pudesse lhe fazer esse dou de presente a ela.

Max abriu a porta. Luke entrou detrás dele, sorriu e arrojou uma pequena bolsa ao Roxanne.

 - Ainda acordadas?  - Embriagado ainda pela vitória, Max beijou ao Lily.  - Que mais pode querer um homem, Luke, que voltar para sua casa depois de uma aventura bem-sucedida e encontrar a duas mulheres formosas esperando-o?

 - Uma cerveja gelada  - respondeu Luke e enfiou para o minibar - . Acredito que nessa abóbada havia uma temperatura de perto de cinqüenta graus quando desconectamos a corrente.  - Luke abriu uma lata de cerveja e se bebeu a metade.

Parece um bárbaro, pensou Roxanne. Moreno, suado, e decididamente masculino. Como lhe olhá-lo tinha secado a garganta, olhou a seu pai. Esse sim que é um homem, pensou comprazida, um homem com classe. Um aristocrata pirata, com seu bigode brilhante, suas calças negras prolixamenta engomadas, o suéter escuro de cachemira com um leve deixo de sua colônia.

Havia ladrões, decidiu enquanto se sentava no braço do divã, e ladrões.

 - E Mouse e LeClerc?  - perguntou Lily.

 - foram-se à cama. Convidei ao Luke a beber uma taça. Meu querido moço, o que te parece se abrir uma garrafa desse Chardonnay que temos bem gelado?

 - É obvio.  - Enquanto desarrolhava a garrafa, olhou ao Roxanne. -  Não quer ver o que há nessa bolsa, Rox?

 - Suponho que sim - disse ela, não querendo parecer ansiosa. Não desejava lhes dar muita importância. Mas quando verteu o conteúdo da bolsa em sua mão, ou houve força de vontade que lhe impedisse de ofegar  e  ficar sem fôlego.

 - OH!  - exclamou quando os diamantes crepitaram contra sua pele.

 - São espetaculares, não o acredita?  - Max tomou a bolsa  e esvaziou o resto das pedras nas mãos do Lily.

-Absolutamente perfeitos. Quanto acredita que podem valer, Luke? Um milhão quinhentos mil?

 - Eu diria que mas bem dois milhões.  - Ofereceu-lhe Roxanne uma taça de vinho e colocou a do Lily sobre a mesa.

 - Possivelmente tenha razão.  - Max murmurou uma palavra de agradecimento quando Luke lhe entregou uma taça.  - Devo reconhecer que estive tentado de me mostrar muito ambicioso. As coisas que havia na abóbada!

Luke recordava uma peça em particular, uma sinfonia espetacular de esmeraldas, diamantes, topázios e ametistas engastadas em um colar de dourada vitamina de estilo bizantino. imaginou-se colocando-o ao redor do pescoço do Roxanne, lhe levantando sua povoada cabeleira, lhe ajustando o fechamento. Ela pareceria uma rainha.

Teria tentado lhe dizer que precisava vê-la com esse colar colocado, que precisava lhe dar de presente algo que nenhuma outra pessoa podia lhe dar.

Luke sacudiu a cabeça quando a voz do Max  quebrou sua fantasia.

 - O que acontece? se preocupa algo?

 - Não. Estou cansado, isso é todo. foi um dia muito longo. boa noite, Lily, Max.

 - Um trabalho excelente, Luke  - disse Max - . Que durma bem. Abriu a porta e olhou por sobre o ombro. Os três estavam muito juntos. Max no centro, com o Lily aconchegada debaixo de seu braço. Roxanne no braço do divã, sua cabeça recostada contra o flanco de seu pai, sua mão cheia dessas pedras brancas que pareciam de gelo.

Um retrato de família, pensou. Sua família. Olhou ao Roxanne.

 - Até manhã, Rox.

Fechou a porta e se encaminhou a sua própria residência, onde sabia que passaria o resto da noite sonhando com um prêmio muito mais inalcançável que os diamantes.

Ao dia seguinte, assim que terminou o ensaio, Roxanne montou no assento posterior de uma motocicleta detrás de um Adonis loiro. Saudou com a mão, rodeou com os braços a cintura desse patife francês e os dois se perderam no tráfico parisino.

 - Quem demônios era esse?  - perguntou Luke. Max se deteve junto a um vendedor de rua de flores e comprou um cravo para ficar na casa.

 - A quem te refere?

 - A esse tarado com o que acaba de fugir-se Roxanne.

 - OH, esse moço.  - Max aspirou a fragrância de sua flor vermelha antes de passar o caule pela casa de sua jaqueta. -  Antoine, Alastair, ou algo parecido. Um aluno da Sorbona. E acredito que também pintor.

 - Deixa-a ir-se com um tipo que você nem sequer conhece?

 - Roxanne o conhece  - assinalou Max. Encantado com a vida em geral, aspirou uma baforada de ar.  - Quando Lily termine de trocar-se, acredito que todos iremos almoçar em algum café ao ar livre.

 - Como pode pensar em comer?  - Luke girou sobre seus calcanhares e lutou contra o desejo de enforcar a

Max.  - Sua filha acaba de partir com um perfeito desconhecido. Por isso você sabe, poderia ser um maníaco sexual.

Max riu pelo baixo e decidiu comprar ao Lily uma dúzia de rosas.

 - Roxanne é muito capaz de arrumar-lhe sozinha.

 - Lhe estava olhando as pernas  - disse com fúria Luke.

 - Sim, bom. Não podemos culpá-lo por isso. Ah, aqui está Lily.  - E lhe entregou as rosas com uma reverência que a fez tentar de risada.

Roxanne o passou estupendamente bem. Um picnic n os subúrbios, o aroma das flores silvestres, um pintor francês que lhe lia poemas sob a sombra de uma nogueira.

Desfrutou desse interlúdio, dos beijos suaves, das palavras de amor sussurradas no idioma mais romântico do mundo. Voltou para seu quarto como se andasse nas nuvens, com um sorriso secreta nos lábios e estrelas nos olhos.

 - Que chifres esteve fazendo?

Ela reprimiu um grito, cambaleou-se e olhou fixo ao Luke. Ele estava sentado em uma poltrona junto à janela, com uma garrafa de cerveja na mão e um olhar assassino nos olhos.

 - Maldito seja, Calavam, deu-me um susto terrível. O que faz em meu quarto?

 - Esperando que decidisse voltar.

Quando seu coração voltou a bater com normalidade. Roxanne se jogou o cabelo para trás. Estava despenteada pelo passeio de moto e, ao notá-lo, Luke pensou que parecia uma mulher que acabava de levantar-se da cama depois de uma relação sexual turbulenta e apaixonada. Uma razão mais para querer assassiná-la.

 - Não sei de que falas. Fica só uma hora por diante antes de que tenhamos que sair para o teatro.

Ela tinha deixado que esse filho de puta a beijasse. OH, sim, sabia. Roxanne tinha esse aspecto, esses lábios inchados, esses olhos entrecerrados. Sua blusa estava enrugada. Ela permitiu que ele a deitasse sobre o pasto Y...

Não podia nem pensá-lo.

 - Eu gostaria de saber onde tem a cabeça. E como foi que te ocorreu ir com um vagabundo francês chamado Alistair.

 - Fomos de picnic  - retrucou-lhe ela - . E não é um vagabundo. É um homem doce e sensível. Um pintor.  - Arrojou-lhe isso como uma luva.  - E, para seu informação, chama-se Alain.

 - Importa-me um caralho como se chama.  - Luke ficou de pé lentamente. Ainda supunha que podia controlar-se.  - Não voltará a sair com ele.

Por um instante, Roxanne ficou muito atordoada para falar. Mas só por um instante.

 - Quem demônios acredita que é?  - aproximou-se do Luke e lhe atingiu o peito com a mão.  - Eu posso sair com quem me deseje muito.

Luke lhe agarrou o punho e a atirou para ele.

 - Um corno.

 - Quem me impedirá isso? Você? Não é quem para opinar sobre o que eu faço, Calavam. Não o é agora nem o será nunca.

 - Equivoca-te  - disse ele entre dentes. Tinha fundo sua mão no cabelo do Roxanne. Não podia parar. Cheirou sua fragrância, e o deixo persistente do pasto, do sol. Das flores silvestres. Provocava-lhe uma raiva assassina pensar que alguém tinha estado tão perto dela. O suficientemente perto para tocá-la. Para lhe sentir o gosto.  - Deixou que te colocasse as mãos em cima. Se voltar a fazê-lo, matarei-o.

Roxanne poderia haver-se posto-se a rir pela ameaça, ou gritado. Mas viu a verdade nua em seus olhos. E única forma de combater o medo que lhe fechou a garganta era com fúria.

 - Está louco. Se ele me tocou-me porque eu quis que fizesse.  - Sabia que era justo o que não tinha que dizer, mas não pôde evitá-lo.  - E agora quero que me tire as mãos de cima. Já mesmo.

 - Seriamente?  - Sua voz era suave, suave como a dá. Isso a assustou ainda mais, muito mais que as ameaças iradas.  - por que não chamamos a isto uma lição grátis?  - Luke se amaldiçoou a si mesmo inclusive no momento em que lhe cobria a boca com a sua.

Ela não lutou, não protestou. Nem sequer soube se seguia ou não respirando. Isso não se parecia nada aos ternos e suaves do pintor. Nada como os braços torpes e arrogantes dos moços com os lhe tinha saído. Isso era algo glorioso, primitivo e aterrador. Roxanne se perguntou se alguma mulher desejava ser beijada de outra maneira.

A boca do Luke se adaptava perfeitamente a já. A parte de pele que ele não se barbeou contribuía a que ela soubesse que, por fim, estava sendo razada por um verdadeiro homem, que destilava agressão, paixão, fúria. Esse momento único e selvagem foi dou o que ela tinha desejado sempre.

Com sua mão ainda no cabelo do Roxanne, jogou-lhe a cabeça para trás. Desejava, com desespero, arrojá-la sobre a cama, lhe rasgar a roupa e possui-la. Sentir como seu corpo se arqueava e se fechava ao redor dele. Era tal seu desejo que quase não podia respirar.

Era como estar encerrado em uma caixa. Preso quase sem ar. Sentiu a força de seu coração e de seus limões. Não tinha controle sobre eles. Não tinha controle sobre nada.

Se agora ela chegava a tocá-lo, só tocá-lo, tomaria como um animal. Para proteger a disso, controlou-se detrás de toda a fúria que sentia pelo que tinha estado a ponto de fazer, e enfocou essa fúria nela.

 - Uma lição grátis  - repetiu e simulou não ver como os lábios dela se abriam pelo choque, e seus olhos brilhavam com dor - . Isto é o que receberá se sair com homens que não conhece.

Ela tinha orgulho e também massa de atriz.

 - Que curioso, não? Você é o único que me tratou assim. E te conheço. Ou acreditei te conhecer.  - Deu-lhe as costas e ficou a olhar pela janela.  - Sal de meu quarto, Callahan. Se voltar a me tocar dessa maneira, pagará-me isso.

Já o estou pagando, pensou Luke. Fechou a mão em um punho antes de ceder ao impulso de lhe acariciar o cabelo. De lhe suplicar. Em troca, encaminhou-se à porta.

 - Falei a sério, Roxanne.

Ela o olhou por cima do ombro.

 - Eu também.

 

Roxanne fez caso ao Lily e chegou a uma fórmula de transação com o Max... embora preferia denominá-lo um trato. Ela se inscreveria na Universidade do Tulane e lhe emprestaria muita atenção a sua educação universitária. Se ao cabo de um ano seguia decidida a unir-se ao trabalho não tão público de seu pai, ele tomaria como aprendiz.

Isso vinha muito bem ao Roxanne. Em primeiro lugar, porque desfrutava de da aprendizagem. Em segundo lugar, porque não tinha intenções de trocar de idéia.

As exigências de sua carreira em cena e de seus estúdios tinham o benefício adicional de lhe deixar pouco tempo livre. E isso significava passar o menor tempo possível junto ao Luke.

Poderia ter esquecido seus gritos, inclusive suas ordens. E, sem dúvida, poderia lhe haver perdoado o beijo. Ou jamais o perdoaria por converter um dos momentos mais gloriosos de sua vida apenas em só uma lição oferecida por um mestre a uma aluna. Era muito profissional para permitir que isso interferisse em seu trabalho ou no do Luke. Quando havia tutor, ensaiava com ele. Agiam juntos uma noite pois de outra sem que os sentimentos profundos de ambos aflorassem.

Se a troupe saía de viagem, viajavam juntos sem nenhum incidente, como o fariam dois desconhecidos corteses; compartilham um avião, um trem ou um automóvel. Só em uma oportunidade, quando Lily expressou sua preocupação ante os escapamentos do Luke que se estavam vendo cada vez mais complexos e perigosos, saiu à superfície algo do torvelinho que Roxanne sentia em seu interior.

 - Deixa-o  - disse - . Os homens como ele sempre têm que demonstrar algo. Sua pequena vingança consistiu em sair com uma série de homens atraentes. Com freqüência os levava ou casa para jantar, a festas, a grupos de estúdio. Dava-lhe muito prazer saber que sua "simpatia" do momento como Lily estava acostumado a chamá-los -  estava entre o público durante as funções. E lhe dava ainda mais prazer saber que Luke sabia.

Preferia os moços letrados, porque lhe atraíam as mentes inquietas. E estava acostumado a mencionar, como ao passar, e Matthew estudava Direito, ou que Phillip preparava sua licenciatura em Economia.

Quanto a seus próprios estúdios, Roxanne tinha eleito História da Arte e Gemología. Seu propósito, para deleite do Max, era acrescentar seus conhecimentos o que agora denominava seu "hobby". Informou a seu pai que, se um se propunha roubar obras de arte e gemas muito finas, deveria ter uma formação sólida com respeito aos antecedentes e valor do bota de cano longo.

Max se sentia orgulhoso de ter uma filha com tanta visão das coisas.

Também lhe alegrava que sua própria reputação como ilusionista e o respeito por seu grupo se incrementaram. Entesourava o prêmio de "Mago do ano" que lhe outorgasse a Academia de Artes Mágicas. Já não lhe parecia necessário evitar sua apresentação pública a nível nacional. Os Nouvelle tinham em seu haver dois bem-sucedidos especiais de televisão e Max acabava de assinar contrato para escrever um livro sobre magia.

Com tudo isso nas mãos agora, Max tinha um propósito que o apaixonava: encontrar a pedra filosofal.

Para alguns, era uma lenda. Para o Max, era uma meta. Queria ter em suas mãos essa pedra que era o sonho de todo mago. Não tão somente para converter o metal em dourado, mas sim como testamento de tudo o que tinha aprendido, obtido, recebido e dado ao longo de sua vida. Já tinha reunido livros, mapas e quantidades enormes de cartas e diários que se referiam ao tema.

Achar a pedra filosofal seria a máxima façanha do Maximillian Nouvelle. Quando a tivesse, poderia retirar-se. E ele e Lily percorreriam o mundo como um par de vagabundos, enquanto seus filhos continuavam com a tradição Nouvelle.

Ao Roxanne gostava da chuva. Produzia-lhe certa ensoñación senti-la ricochetear contra a vereda, sulcar o vidro da janela. Permaneceu de pé no balcão coberto do apartamento do Gerald e observou como essa fina cortina fria de água afastava aos pedestres. Se respirava fundo alcançava a cheirar o aroma do café com leite que Gerald preparava em sua cozinha diminuta.

Era agradável estar ali - pensou - , tomando-se livre a noite chuvosa. Desfrutava da companhia do Gerald, encontrava-o inteligente e doce. Era um homem ao gostava de escutar a Gershwin e ver filmes estrangeiros. Seu pequeno apartamento, localizado-se sobre a loja de souvenirs, estava lotado de livros e videocassetes. Gerald estudava cinema e já tinha conseguido colecionar mais filmes das que Roxanne  supôs,  teria tempo de ver em toda uma vida.

Essa noite pensavam ver Quando foge o dia, do Igmar Bergman, e Tontura, do Hitchcock.

 - Não tem frio?  - perguntou Gerald do outro ido da janela, e lhe entregou um suéter. Talvez fora nos quinze centímetros mais baixo que ela, mas seus ombros largos davam a sensação de que sua estatura  era maior. Seu cabelo loiro e escorrido lhe caía sobre a frente. Suas feições angulosas o assemelhavam vagamente ao Harrison Ford. Seus olhos marrons pareciam mais distinguidos através dos óculos com armação de tartaruga marinha.

 - Em realidade, não.  - Mas entrou.  - Esta noite não parece haver nem uma alma na cidade. Todos devem estar metidos em suas casas.

Ele separou o suéter.

 - Me alegro de que esteja aqui.

 - Também eu  - disse Roxanne e lhe deu um beijo muito suave - . Eu gosto deste lugar.  - Fazia um mês que se viam cada tanto, mas era a primeira vez que ela ia a sua casa.

Era o típico apartamento de um estudante. As paredes estavam cobertas de posters de filmes, sobre o divã algo fundo havia uma manta desbotada, o escritório bastante maltratado estava coberto de livros. Entretanto, sua equipe eletrônica era de última geração.

 - Suponho que esta forma de ver cinema em casa é a  que mais se adotará no futuro.

 - Para fins desta década, as videocaseteras serão algo tão comum como os televisores no lar dos norte-americanos. Todo mundo terá videocámaras  - assegurou Gerald - . Talvez algum dia me deixará que te filme.

 - A mim?  - A sozinha ideia lhe deu risada.  - Não posso imaginá-lo sequer.

Mas ele, sim. Tirou-a da mão e a conduziu ao divã.

 - primeiro Bergman, de acordo?

 - De acordo.  - Roxanne tomou sua taça de café e se instalou contra o braço do Gerald, quem se dedicou a oprimir algumas teclas de seu controle remoto. Um para colocar em funcionamento a videocasetera, a outra, para fazer outro tanto com a câmara que tinha colocado estrategicamente entre várias pilhas de livros.

Roxanne supôs que era uma ignorante, mas o certo foi que Bergman não lhe interessou. Lutou por concentrar-se nas lentas imagens em branco e negro que titilavam sobre a tela.

Não lhe importou que Gerald a rodeasse com o braço. Cheirava a enxágüe bocal mentolado e a uma colônia suave e troca. Tampouco lhe importou que lhe deslizasse os dedos pelo braço. Quando quis beijá-la, não teve inconveniente em girar a cabeça e aceitar esse beijo.

Mas quando ela tratou de se separar-se, ele a apertou com mais força.

 - Gerald  - disse ela ao girar a cabeça em outra direção - . Te vais perder o filme.

 - Já a vi antes.  - Sua voz era rouca e ofegante e começou a lhe beijar o pescoço.

 - Pois eu não.  - Roxanne não estava muito preocupada. Talvez um pouco chateada de que o intento fora tão óbvio e apaixonado, mas não preocupada.

 - Não a encontra erótica? As imagens, as sutilezas.

 - Não. - Em realidade, parecia-lhe tediosa, e tampouco gostava que ele a estivesse empurrando contra os almofadões do divã.  - Mas possivelmente é porque não tenho imaginação.  - Lhe bloqueou a boca, mas não foi suficientemente rápida para lhe frear os dedos que já começavam a lhe desabotoar os botões da blusa.  - Basta, Gerald.  - Não queria machucá-lo em seu orgulho.  - Eu não vim aqui para isto, e não é o que quero.

 - Desejo-te desde a primeira vez que te vi.  - Conseguiu lhe separar as pernas e começou a esfregar seu pênis ereto contra ela. Roxanne sentiu que o pânico começava a superar seu enfado.  - Filmarei-te nua, coração, e te converterei em uma estrela.

 - Não fará nada semelhante.  - Lutou a sério quando uma mão do Gerald se fechou sobre seu peito e o apertou. O medo fez que lhe tremesse a voz. Foi um engano vir aqui, pensou em seguida para ouvi-lo ofegar, cheio o excitação.  - Maldito seja, te separe de mim.  - debatia-se com todas suas forças, mas ouviu que lhe  rasgava a blusa.

 - Você gosta do jogo forte, coração? Está bem.

-E agarrou o fechamento automático dos jeans do Roxanne com mãos impaciente e suarentas.

-Assim está melhor. O campo visual é melhor. Mais arde a olharemos.

 - Filho de puta.  - Ela nunca soube em que momento o terror a tinha feito balançar o braço e atirar o cotovelo contra a têmpora do Gerald para fazê-lo retroceder. Não vacilou, mas sim fechou a mão em um punho e o estrelou no nariz.

O sangue brotou como de uma fonte, lhe manchando a blusa e fazendo-o uivar como um cachorrito chutado. Aproximou suas mãos à face dele e lhe arrancou os óculos. Depois, ficou de pé, agarrou sua bolsa de lona tomando impulso com as duas mãos, o atingiu contra a face.

 - Quebrou-me o nariz  - balbuciou ele enquanto a media com seus dedos ensangüentados.

Tratou de incorporar-se, mas se deixou cair de novo quando ela o ameaçou com os dois punhos, parada em posição de boxeador.

 - Vamos  - desafiou-o ela. Agora havia lágrimas em seus olhos, mas não eram de medo mas sim de fúria.  - Quer tomar, filho de puta?

Ele sacudiu a cabeça e agarrou um extremo da manta para parar o sangue que lhe saía do nariz.

 - Vai-te daqui. Por Deus, está louca.

 - Sim  - disse ela e sentiu que sua fúria crescia. Queria voltar a atingi-lo. Queria lhe dar murros e machucá-lo até que ele sentisse o mesmo medo e a mesma impotência que ela tinha experiente momentos antes.

 - Não o esqueça, tarado, e mantente afastado de mim.

 - Saiu dando uma portada, e o deixou murmurando sobre hospitais e ações legais.

Roxanne estava a uma quadra do apartamento quando de repente o compreendeu. me converter em uma estrela de cinema? Veremo-la depois? Um alarido brotou de sua garganta ao entender o significado dessas palavras.

O muito filho de puta deveu ter estado filmando toda a cena.

Era como afundar-se em um pesadelo. Embora a chuva se transformou em uma garoa, era uma noite fria e espantosa. E se adequava à perfeição ao estado de ânimo do Luke.

Em suas mãos tinha uma carta, uma carta que o tinha feito voltar para passado. Do Cobb. O filho de puta o tinha encontrado.

Por ardiloso que ele tivesse sido, por bem-sucedido e forte, algumas palavras em um papel tinham conseguido transformá-lo em um garotinho assustado.

Callahan, quanto faz que não nos vemos. Tenho muitas vontades de que falemos dos velhos tempos. Se não querer perder seu elevada posição, te encontre comigo esta noite às dez no Bodine 's, da rua Bourbon. Não tentem nenhum ato de escapismo, pois do contrário me verei obrigado a ter um largo bate-papo com os Nouvelle. Ao Cobb.

Teria querido não lhe emprestar atenção. Teria querido tornar-se a rir e quebrar esse papel em pedacinhos, só para demonstrá-lo pouco que isso lhe importava ao homem em que se converteu. Mas lhe tremiam ás mãos e tinha um nó no estômago. E soube, sempre soube, que não podia escapar do lugar de onde procedia. Nem do que lhe tinha passado.

Mas, de todos os modos, não era um menino para lhe ter medo a um fantasma. Fez um pão-doce com o  papel, o meteu no bolso e saiu para a rua. Enfrentaria essa noite ao Cobb, e as engenharia para encontrar a maneira de fazê-lo desaparecer, a ele e a tudo o que ele representava.

A chuva lhe umedecia a jaqueta, os sapatos e o aspecto. Inclinou os ombros, lançou uma imprecação e pôs-se a andar para a esquina. Quando um táxi se aproximou do cordão da vereda, vacilou, e pensou se não seria melhor chegar em automóvel e seco, que caminhando e molhado.

Esqueceu ambas as possibilidades quando viu descer dele ao Roxanne. Era um alvo perfeito para descarregar sua frustração.

 - De volta tão logo?  - gritou-lhe - . Seu amigo não conseguiu te entreter?

 - Vai-te à merda, Callahan.  - E Roxanne manteve a cabeça baixa tratando de passar junto a ele sem ser vista. Mas Luke tinha tanta raiva que não o permitiu.

 - Né  - disse, tirou-a do braço e a fez girar. Mas se freou em seco quando viu o estado em que tinha a roupa. debaixo da colorida jaqueta, a blusa de algodão estava rota e salpicada de sangue. Luke sentiu uma onda de pânico enquanto a sujeitava pelos ombros e lhe cravava os dedos.  - O que te passou?

 - Nada. me deixe em paz. Sacudiu-a com força.

 - O que aconteceu?  - perguntou, e as palavras pareceram não querer sair de sua garganta - . Pequena, o que aconteceu?

 - Nada  - repetiu ela. por que de repente começo a tremer?, perguntou-se. Já todo tinha terminado. Definitivamente.  - Gerald tinha uma idéia distinta da minha sobre minha presença em seu apartamento.  - Levantou o queixo, preparada para escutar um sermão.  - Tive que convencê-lo do contrário.

Ouviu que Luke aspirava ar, embora em realidade foi mas bem o grunhido de um animal. Quando levantou a vista, seu pulso, já instável, enlouqueceu. Os olhos do Luke pareciam de vidro, como os de uma fera cegada.

 - Matarei-o.  - Seus dedos se afundaram tanto nos ombros do Roxanne que a fizeram gritar. E Luke a soltou tão depressa que a moça se cambaleou para trás. Quando finalmente recuperou o equilíbrio teve que correr para alcançá-lo.

 - Luke. Basta.  - Agarrou-o da manga.  - Não passou nada. Nada. Estou bem.

 - Está cheia de sangue.

 - Não é minha.  - Ensaiou um sorriso e se separou o cabelo molhado da face.  - Vamos, aprecio seu gesto de cavalheiro andante, mas eu já me ocupei dele. Nem sequer sabe onde vive.

Encontraria-o. De algum jeito, Luke soube que conseguiria rastrear a esse filho de puta do mesmo modo em que um lobo lhe segue a pista a um coelho. Mas a mão do Roxanne tremia sobre seu braço.

 - Machucou-te?  - Custava-lhe muitíssimo manter a voz calma e uniforme, mas o fez pelo bem dela.  - me diga a verdade, Rox. Violou-te?

 - Não.  - Roxanne não resistiu quando Luke a rodeou com seus braços. Compreendeu que não era o medo a não ser o sentir-se traída o que a fazia tremer. Conheceu o Gerald, funcionou-lhe atraente, e ele tinha querido forçá-la a ter relações sexuais.- - Não, não e violou. Juro-lhe isso.

 - Rasgou-te a blusa.

Esta vez, o sorriso do Roxanne foi mais autêntica.

 - Disse que eu lhe tinha quebrado o nariz, mas acredito que eu a fiz sangrar.  - pôs-se a rir e apoiou a cabeça no ombro do Luke. sentia-se tão bem, parada ali na chuva com ele, sentindo os batimentos de seu coração. Cada vez que as coisas ficam feias, pensou, sempre está Luke a meu lado. Isso a consolou.  - Teria que havê-lo ouvido gritar. Luke, não quero que Max e  Lily saibam. Por favor.

 - Max tem direito de...

 - Já sei.  - Voltou a levantar a cabeça. A chuva  deslizava como lágrimas por sua face.  - Não tem nada que ver com os direitos. Machucaria-o e o assustaria. E já passou, de modo que o que poderia fazer ele?

 - Está bem. Não lhe direi nada. Se...

 - Sabia que haveria uma condição.

 - Se  - repetiu Luke e lhe colocou um dedo debaixo do queixo - . Se promete deixar que eu fale com esse bruto para me assegurar que não voltará a aproximar-se de você.

 - me acredite, não tenho por que me preocupar. É provável que esteja tratando de conseguir uma ordem judicial que me prohíba me aproximar isso a menos de cento e cinqüenta metros.

 - Falo com ele ou falo com o Max. Escolhe.

 - Maldição.  - Roxanne suspirou, refletiu e se encolheu de ombros.  - Está bem, direi-te onde encontrá-lo, se...

 - Bom, de acordo, qual é seu condição?

 - Se me jurar que só falará com ele. Não quero nem necessito que volte a atingir a ninguém por mim.  - Ela sorriu uma vez mais, e soube que os dois pensavam no Sam Wyatt. -  Esta vez eu me ocupei disso.

 - Só falarei  - disse Luke. Amenos que decidisse que fazia falta algo mais.

 - De fato, poderia me fazer um favor.  - separou-se do Luke porque o que tinha que dizer lhe funcionava difícil.  - Não estou do todo segura, mas acredito... Por algo que ele disse quando tratou de...

 - O que?

 - Acredito que tinha uma câmara escondida em alguma parte. E que estava filmando o que acontecia.

Luke abriu a boca. Voltou a fechá-la. Talvez melhor tivesse sido que ficasse sem fala.

 - Como diz?

 - É aficionado ao cinema  - seguiu dizendo ela depressa - . Tem loucura pelos filmes e os vídeos. Por isso fui a seu apartamento. Para ver um par de filmes clássicos. E ele...  - Suspirou.  - Estou bastante segura de que tinha uma câmara em funcionamento, para poder nos ver depois.

 - Maldito degenerado de porcaria.

 - Sim, bom, mas me perguntava, se insistir em falar com ele, se não poderia fazer que ele te desse o filme ou o tampe ou o que fora.

 - Conseguirei-a. Se alguma vez voltar a fazer uma coisa assim...

 - Eu?  - atingiu-se as mãos contra os quadris.

 - Escuta, afemine, estive a ponto de ser violada. Isso me converte em vítima, entendeste? Eu não fiz nada que merecesse esse tratamento.

 - Não quis dizer...

 - Ao demônio com isso. Típico dos homens.  - deu-se meia volta, deu dois passos e voltou a girar.  - Suponho que pensa que me merecia isso, verdade? Que seduzi a esse pobre homem indefeso, fiz-o cair em minha teia, e depois troquei de idéia quando as coisas ficaram pesadas.

 - te cale. - Atraiu-a para si e a apertou forte.

 - Sinto muito. Não quis dizer nada pelo estilo. Por Deus, Roxanne, não entende que me assustou? Não sei o teria feito se ele...  - apertou sua boca contra o cabelo Roxanne.  - Não sei o que teria feito.

 - Está bem.  - Outro tremor a estremeceu e lhe correu as costas.  - Todo está bem.

 - De acordo  - murmurou ele enquanto a acariciava, tratava de consolá-la, inclusive quando sua boca procurava dela - . Ninguém vai machucar te nunca mais.  - Havia chuva nos lábios do Roxanne, e ele a tirou, terna docemente, e depois voltou a procurar mais. Os laços dela subiram e lhe rodearam o pescoço e seu corpo começou a derreter-se como cera contra o dele. Luke se permitiu um momento, um momento glorioso, no que a abraçou e simulou que isso podia ser real.

 - Sente-se melhor?  - perguntou com sorriso tenso enquanto a separava.

Quando Roxanne lhe colocou a mão na bochecha, ele se agarrou e lhe beijou o centro da palma.

 - Rox... seria melhor que...  - interrompeu-se quando advertiu que um homem se aproximava entre a cortina e chuva. Luke começou a empurrar ao Roxanne para dentro, e então viu a face do Cobb, os olhos do Cobb, e sentiu que sua vida dava um salto mortal.

Que tolo tinha sido em esquecer por um momento que essa noite deveria enfrentar a seus próprios demônios.

Mas embora não pudesse fazer outra coisa, sim podia impedir que semelhante fealdade roçasse ao Roxanne.

 - Vai-te dentro  - ordenou-lhe.

 - Mas, Luke...

 - Entra. Já.  - Empurrou-a para o portão do jardim. -  Há algo que tenho que fazer.

 - Esperarei.

 - Não, não o faça.  - E Roxanne alcançou a lhe ver os olhos, e a angústia que havia neles.

Luke caminhou por entre a chuva para enfrentar um velha pesadelo.

 - Quanto tempo faz que não te vejo, moço.

 - Ao Cobb estava sentado no sujo boteco da rua Bourbon, fumando um Camel.

Luke tinha um braço apoiado no respaldo de sua cadeira. esforçava-se por manter-se sereno, e centrava toda sua força de vontade em impedir que essas desagradáveis lembranças penetrassem em sua mente.

 - O que quer?

 - Uma taça, um pouco de conversação.  - Cobb deixou que seus olhos percorressem os seios da garçonete e baixassem até seu entrepierna.  - Um uísque, duplo.

 - BlackJack  - ordenou Luke, sabendo que a cerveja que estava acostumado a beber não teria o fogo necessário.

 - A bebida de um homem  - disse Cobb, sorriu, e mostrou seus dentes manchados de tabaco. Tantos anos de levantar o cotovelo não tinham sido bondosos com ele. Inclusive nessa suave penumbra, Luke alcançou a ver o labirinto de capilares quebrados que se desenhava em sua face, esses intrincados estandartes que luzem os bêbados. Tinha engordado muito e a camisa lhe abria na cintura.

 - Perguntei-te o que queria.

Cobb não disse nada enquanto lhes serviam as bebidas. Levantou seu copo, bebeu um bom gole e ficou a contemplar o cenário. Uma ruiva tinta começava a tirar o uniforme de empregada. Agora só a cobria um taparrabo mínimo e um par de plumas.

 - Por Deus, olhe as tetas dessa puta.  - Cobb bebeu seu uísque e fez gestos de que lhe trouxessem outro. Olhou ao Luke e sorriu.  - O que te passa, moço? Você não gosta de olhar tetas?

 - O que faz em Nova Orleáns?

 - Estou-me tomando umas pequenas férias.

 - Cobb se passou a língua pelos lábios enquanto a bailarina saltava e se apertava seu seios abundantes.

 - Pensei que, já que andava por aqui, trataria de verte. Não vais perguntar me por seu mãe?

Luke bebeu um sorvo de uísque e esperou a que esse calor chegasse às vísceras e enfraquecesse seus músculos congelados.

 - Não.

 - Isso não é natural  - -disse Cobb e estalou a língua - . Agora vive no Portland. Cada tanto passamos um tempo juntos. Sabia que começou a me cobrar?

 - Olhou ao Luke com expressão lasciva e se alegrou ao ver que apertava os queixos.  - Mas a velha e querida Maggie é o suficientemente sentimental para me dar uma sessão grátis, quando atinjo a sua porta. Quer que lhe dê tuas saudações?

 - Não quero que lhe dê nada de minha parte.

 - Seu atitude é uma merda.  - Cobb bebeu mais uísque enquanto a música se voltava mais intensa e mais áspera. Um homem tentou subir ao cenário e foi arrojado dele.  - Sempre foi assim. Se te tivesse ficado em casa um tempo mais, eu te teria surrado até te infundir um pouco de respeito.

Luke se inclinou para diante, e seus olhos lançavam negou.

 - Ou me teria convertido em um puto.

 - Tinha um teto sobre seu cabeça, comida na ventre.  - Cobb se encolheu de ombros e seguiu bebendo.  - Algo tinha que pagar por isso.  - Ao Cobb não lhe ocorria ter medo do Luke. Sua memória era suficientemente boa para recordar o fácil que lhe funcionava acovardar a esse menino com alguns açoites propinados com seu cinto.  - Mas isso já é história antiga, não te parece? Agora é um personagem importante. Quase me caio de traseiro quando te vi por televisão. E fazendo truques de magia, pelo amor de Deus. Parece que aprendeu a usar seu varinha mágica, verdade, Luke?

 - Lançou uma gargalhada festejando sua própria piada até que os olhos lhe encheram de lágrimas.  - Você  e esse velho sim que o terão acontecido bárbaro.

A risada se converteu em sufoco quando Luke o agarrou pelo pescoço. Agora as faces de ambos estavam perto, o suficientemente perto como para que Luke cheirasse o uísque no fôlego do Cobb por cima do fedor e a fumaça do local.

  - O que quer?  - repetiu, separando as duas palavras.

 - Quer brigar, moço?  - Sempre inteligente para armar briga, rodeou os punhos do Luke com seus dedos carnudos. Surpreendeu-lhe a força que encontrou nelas, mas em nenhum momento duvidou de sua própria superioridade.  - Quer brigar comigo?

É obvio que queria fazê-lo, com uma necessidade quase tão profunda como o sexo. Mas um parte dele, sepultada no mais profundo de seu ser, seguia sendo esse menino apavorado que recordava o ruído do cinto de couro e seu açoite sobre a carne viva.

 - Não quero viver no mesmo estado que você.

 - É um país livre.  - Como era suficientemente vivo como para saber que com uma briga não obteria o que tinha ido procurar, Cobb se separou com uma sacudida e ordenou outro uísque.  - O problema é que terá que pagar por tudo isso. Está ganhando bom dinheiro com seus truques de magia.

 - Isso é o que quer?  - Luke poderia haver-se posto-se a rir se o asco não lhe tivesse fechado a garganta.  - Quer que te dê dinheiro?

 - Eu ajudei a te criar, não? E sou o mais parecido a um pai que teve.

Agora sim riu. E nesse som houve tanta fúria que a gente que estava perto os olhou com precaução.

 - te largue.  - Mas antes de que pudesse levantar-se, Cobb se prendeu de sua manga.

 - Eu poderia te causar problemas, a você e a esse velho com o que está enredado. Quão único tenho que fazer é um par de chamadas a alguns jornalistas. O que acredita que pensariam os produtores de televisão quando lessem a respeito de você? Callahan... assim é como te faz chamar, não? Somente Callahan. Escapista e táxi-boy.

 - Mentira.  - Mas tinha empalidecido, e Cobb o noto. Todas essas lembranças lhe alagaram a cabeça: essas mãos gordas que o tocavam, que o apalpavam, o suor e os ofegos.  - Não permiti que me tocasse.

 - Não tem idéia do que aconteceu que eu te chutei e te deixei inconsciente.  - Cobb estava contente de que essa mentira fizesse efeito no moço.  - De todos os modos, a gente duvidaria, não te parece? Pessoas como a garota que estava abraçando faz um momento não quereriam ter nada que ver contigo se soubessem o que fazia com os maricas quando tinha doze.  - Sorriu, e havia odeio em seus olhos.  - Não importa se for mentira ou verdade, moço, uma vez que apareça impresso.

 - Matarei-te.  - A náusea debilitou a voz do Luke e lhe perolou a frente.

 - Funcionará-te mais fácil me pagar. Não necessito muito. Só um par de milhares para começar  - disse - . Para começar amanhã mesmo. Depois te escreverei cada tanto, te dizendo quanto quero e onde tem que mandá-lo. Do contrário... dirigirei aos meios de imprensa. E direi como vendeu a uma série de degenerados, como abandonou a seu pobre e enfermo mãe, como te enredou com esse tal Nouvelle. Parece-me que, ao tomar sob sua asa a um menino que fugiu que seu lar, ele violou um par de leis. Por outro lado, pode dar a impressão de que tem outros usos para você. Já sabe o que quero dizer.  - E voltou a sorrir, satisfeito ao observar a repugnância no rosto do Luke.  - Eu poderia fazer que a gente se perguntasse se ele não recebeu grátis o que a outros fez pagar.

 - Mantenha ao Max fora disto.

 - Com todo gosto  - disse Cobb e abriu as mãos - . Você me traga dois mil dólares aqui, amanhã de noite. Será um assunto de boa fé. Depois irei. Se não te apresentar, chamarei por telefone ao National Enquirer. E opino que a todos esses meninos e garotas, e a seus mamitas e papaizinhos, não lhes faria nenhuma graça ver um mago que tem debilidade pela carne jovem. Não imagino que possa dar outra função ante a Rainha da Inglaterra se te acusa de sodomia. É assim como o chama a polícia. Sodomia.  - Cobb riu de novo ao ficar de pé.  -  Amanhã de noite. Estarei-te esperando.

Luke permaneceu imóvel em seu assento, lutando para poder respirar. Mentiras, asquerosas mentiras. E ele podia demonstrá-lo, verdade? A mão lhe tremeu quando tomou o copo. Ninguém acreditaria, ninguém, de maneira nenhuma, poderia acreditar que Max...

Enojado, apertou-se as mãos contra os olhos.

Cobb tinha razão. Quando isso aparecesse em letras de molde, quando a gente começasse a duvidar e a murmurar, já não importaria. A mancha estaria ali, junto com a vergonha e o horror.

E embora ele era capaz de suportá-lo, não podia tolerar que nada disso roçasse sequer ao Max ou ao Lily. Ou ao Roxanne. A doce Roxanne. Fechou os olhos com força enquanto terminava de beber o que ficava de uísque. Ordenou outro e decidiu embebedar-se.

Ela o esperava. Roxanne tinha entrado e conseguido deslizar-se em sua residência sem que ninguém o notasse. Um banho de imersão bem quente e prolongado tinha aliviado grande parte de suas dores e parte de suas frustrações. Depois se instalou no balcão a esperar.

Viu-o aproximar-se cambaleando entre a garoa e a névoa. Viu-o balançar-se e deter-se e arrancar de novo, com a forma típica de caminhar dos bêbados. Sua preocupação e confusão se permutaram em fúria assassina.

Ele a tinha deixado em meio da chuva, com todos os sentidos aguçados, e partiu para reunir-se com uma garrafa. Ou com várias garrafas, a julgar por seu aspecto. Roxanne ficou de pé, ajustou-se o cinturão de sua bata  - como um soldado que se prepara para a batalha -  e correu para baixo para interceptar ao Luke no jardim. ,  - Pedaço de imbecil.

O se cambaleou para trás, tratou de manter o equilíbrio e sorriu com expressão tola.

 - Querida, o que faz aqui na chuva? Resfriará-te  - disse e deu um passo vacilante - . Deus, que linda está, Roxy. Volta-me louco.

 - Isso é evidente.  - Não foi precisamente um cumprimento lhe ouvir balbuciar essas palavras em forma quase incompreensível. Estendeu um braço para sustentá-lo quando ele se balançou.  - Espero que pagará por isso pela manhã.

 - De noite  - murmurou enquanto a cabeça lhe dava voltas e mais voltas sobre os ombros - . Tenho que pagar amanhã de noite.

 - Espero que viva até esse momento  - disse Roxanne e suspirou, mas igual o sustentou e passou um dos braços do Luke sobre seus ombros - . Vamos, Calavam, vejamos se podemos colocar a um bêbado na cama sem despertar ao resto da casa.

 - Não estou bêbado.

Ela grunhiu um pouco pelo esforço de arrastá-lo para uma porta lateral.

 - Claro que não. Por seu fôlego, calculo que só tem dentro como quatro litros de uísque.

Ele sorriu e atingiu pesadamente contra a porta antes de que ela tivesse tempo de abri-la.

 - Sinto muito. Cheira bem, Rox. Como a chuva sobre as flores silvestres.

 - Ah, o poeta irlandês.  - E as cores subiram a seu rosto ao sustentar ao Luke com uma mão e abrir a porta com a outra.

 - Me alegro de que não tenha tetas como essa tipa de esta noite. Acredito que não me teria gostado.

 - Que tipa?  - perguntou Roxanne em um sussurro, antes de adicionar, quase sem fôlego:  - Não importa.

 - Não me entusiasma muito ver despir-se a uma mulher quando no quarto há muitos homens. Uma e a gente é mais meu estilo, sabe?

 - Fascinante.  - Roxanne não sentiu o menor remorso quando o jogou contra a mesada da cozinha.  - Deixa-me em meio da chuva e corre a um local onde se faz strip tease. Filho de puta.

 - Sou um filho de puta  - disse com voz de bêbado - . Nasci sendo-o e morrerei da mesma maneira.  - cambaleou-se quando ela tratou de dirigi-lo para a escada de atrás.  - Acredito que o melhor seria matá-lo. Seria mais limpo.

 - Não, você prometeu que só falaria com ele. Luke se passou uma mão pela face para assegurar-se de que seguia tendo-a ali.

 - Falar com quem?

 - Com o Gerald.

 - Sim, claro.  - Tropeçou com o primeiro degrau, e embora caiu e se atingiu com força, não pareceu dar-se conta. Para desconcerto do Roxanne, estendeu-se sobre a escada e se dispôs a dormir.  - É terrível que se aproxime de você dessa maneira. E que não saiba se puder ou não detê-lo. E que ele te agarre e lhe toquetee. Deus santo... Não quero nem pensá-lo.

 - Então não o faça. Pensa em chegar ao piso de acima.

 - Tenho que me deitar  - murmurou, irritado, quando ela tratou de levantá-lo - . Me deixe em paz.

 - Não penso permitir que durma aqui, como o imbecil bêbado que é. Lily se preocupará muitíssimo se te encontrar neste lugar.

 - Lily  - disse ele e suspirou. Começou a subir os degraus, instigado pelo Roxanne.  - É a primeira mulher que quis. É a melhor. Ninguém machucará jamais ao Lily.

 - É obvio que não. Vamos, um esfuercito mais.

 - Tanto tironeo lhe tinha aberto a bata. De onde se encontrava, Luke teve uma visão perturbadora de uma coxa branca e suave.  - Irei ao inferno  - disse e riu quando Roxanne o fez calar - . Direito ao inferno. Deus, oxalá usasse algo debaixo da bata, pelo menos alguma vez. me deixe que...  - Mas quando ele estirou a mão para tocar, nada mais que para tocar essa pele rígida e branca, terminou feito uma pelanca no descanso superior da escada.

 - De pé, Callahan - disse-lhe ao ouvido Roxanne - . Não quero que desperte ao Max e ao Lily.

 - Está bem, está bem.  - Tratou de tragar, mas sua saliva tinha gosto a veneno.  - vou vomitar?  - perguntou, quando a náusea se escondeu em seu estômago.

 - Isso espero  - disse ela entre dentes enquanto o arrastava a seu dormitório - . Sinceramente o espero.

 - Detesto isso. Faz-me sentir como aquela vez que Mouse me deu meu primeiro cigarro. Não voltarei a me embebedar, Rox.

 - De acordo. Aqui estamos... merda. O se derrubou na cama. E, embora era rápida, não se moveu com a suficiente rapidez para evitar cair com ele. Luke aterrissou sobre ela e lhe tirou o fôlego.

 - Sal de em cima de mim, Callahan.

Ele respondeu com um murmúrio incompreensível. Seus lábios lhe roçaram a garganta.

 - Basta. OH... maldição.  - A maldição terminou em um gemido afogado. O prazer, pesado e escuro, invadiu-a quando ele rodeou com a mão um de seu seios. O não mediu, nem apertou, simplesmente possuiu.

 - Suave - murmurou - . Suave e doce Roxanne.

 - Seus dedos acariciaram a fina seda, ausente e preguiçosamente, enquanto seus lábios beijavam a pele.

 - Luke. me beije.  - O corpo do Roxanne já flutuava quando tentou aproximar sua boca a do Luke.  - me beije como o fez aquela vez.

 - Mmmm.  - O suspiro do Luke foi prolongado, depois do qual perdeu o conhecimento.

 - Luke  - disse ela e o sacudiu pelos ombros. Não pode ser, disse-se. Não duas vezes a mesma noite. Mas quando tomou uma mecha do cabelo do Luke para lhe jogar a cabeça para trás, viu que estava inconsciente. Apertando os dentes e amaldiçoando em voz baixa, separou-se esse corpo inerte que tinha em cima.

Deixou-o estendido transversalmente na cama, totalmente vestido, e foi dar uma ducha gelada.

 

Esteve a ponto de matar-se. Entre a ressaca de sua bebedeira e seu precário estado emocional, Luke perdeu os sentidos do tempo e do equilíbrio. Na arte das fugas, como as que ele fazia, existem regras, regras rígidas e exigentes que limitam a fronteira entre a vida e a morte.

Mas a escolha de agir seguindo essas regras e deixar de lado o orgulho, deixava pouco lugar para manobrar. Luke seguiu adiante com o ato de escapamento da primeira função, e permitiu que lhe colocassem uma camisa de força, algemassem-no e lhe algemassem as pernas antes de encerrar-se em um borda de ferro se localizado no centro do cenário.

Dentro todo era negrume, mormaço e falta de ar. Como uma tumba, como uma abóbada. Como um placard. Tal como lhe ocorria sempre, sentiu essa onda inicial de pânico, a sensação de estar preso.

Não tem saída, moço, ressonou a voz do Cobb em cabeça do Luke. Não tem saída até que eu te deixe ir. Não o esqueça.

Esse medo antigo e inerme se meteu dentro dele. Começou a inalar com lentidão e em forma superficial ira ganhar nos nervos, enquanto começava a trabalhar para liberá-las mãos.

Podia sair. Tinha demonstrado uma e outra vez que ninguém poderia voltar a mantê-lo encerrado nunca as. Lutou e lutou, mas a imagem do Cobb voltava:

Eu tenho a chave, pequeno vagabundo, e ficará onde te coloquei. E é hora de que recorde quem manda aqui.

sentiu-se uma vez mais dentro do placard: o menino que soluçava e pegava golpes contra a porta com as mãos machucadas. Quase deixou de respirar quando seu coração lhe atingiu contra as costelas e ressonou em sua cabeça. As náuseas lhe queimavam o estômago. Voltou sentir medo, um medo que lhe deslizava por todo o corpo como diminutos insetos por sua pele suarenta.

Lançou uma exclamação de dor quando os ferros lhe incrustaram nos punhos. Por um momento, lutou contra eles como o faria um homem se desespera-o para livrar-se de seus grilhões caminho do cadafalso. E cheirou o aroma a cobre de seu próprio sangue.

"Estou respirando muito rápido", disse-se, acovardado pelo som de seus pulmões que lutavam por mais oxigênio. "te acalme, te acalme, maldito seja".

Dobrou seu corpo, e sentiu o familiar e esperada ponto de dor ao mover suas articulações. Colocou seu ombro em uma posição impossível, que lhe permitia manobrar e mover-se dentro do colete de força.

Teve que deter-se de novo, e reunir suficiente coragem para fazer caso omisso da dor.

Estava enjoado, uma sensação que lhe recordou seu vividamente estado da noite anterior... e também

Ao Roxanne. Imagine começaram a desfilar por sua mente, embora ele lutasse pelas reprimir e concentrar-se na tarefa de liberar seus braços. A pele suave e alva do Roxanne, e as mãos dele movendo-se sobre ela. O corpo do Roxanne, cheio de curvas, que cedia debaixo do dele.

O suor lhe cobria o corpo. Tinha perdido noção do tempo, um grave engano. Se ficasse fôlego, teria se amaldiçoado. Quando conseguiu liberar do colete de força, tinha os músculos e articulações em um grito de dor. Só tinha que atingir a parede do arca... como antes o tinha feito com a porta do placard.

Eles a abririam, deixariam-no sair, deixariam que aspirasse uma enorme baforada de ar. Sua cabeça caiu para trás, ricocheteando contra o flanco do arca. Uma dor ardente e luminosa lhe incrustou na cabeça, e as imagens dançaram detrás de seus olhos fechados.

Cobb o olhava de esguelha, dele brotavam olhadas com desdém e ironia.

Ocuparei-me do Cobb, prometeu-se Luke. Só fazia falta dinheiro.

Roxanne. Essas imagens do Roxanne no filme que tinha conseguido lhe tirar um Gerald aterrorizado. Pareceu-lhe ouvir o som de sua blusa ao rasgar-se, suas súplicas abafadas de que a soltasse. Pareceu-lhe ver o jorro de sangue, quase cheirá-lo, quando ela lutou para liberar-se.

E que aspecto tinha, Deus santo, ali parada, os punhos preparados, o corpo em posição de luta, como uma Amazona, protegida por sua coragem como por uma armadura; o medo e a raiva brilhando em seus olhos.

Teria querido abraçá-la então, lhe apagar os tremores com carícias. Tal como teria querido surrar ao já golpeado Gerald até fazê-lo mingau.

Mas, por muito furioso que tivesse estado, sentiu-se igualmente envergonhado. Havia-lhe ele, cego pelo álcool e a luxúria, feito ao Roxanne o que Gerald só tinha tentado?

Desejo e chantagem. Pois bem, nenhuma das coisas mereciam morrer por elas. Levantou uma mão vacilante se esbofeteou forte, uma, duas vezes, para que a dor esclarecesse brumas de seu cérebro.

ficou a trabalhar com os grilhões das pernas, enquanto inalava com cautela o pouco ar que ficava .

 

Demora muito. Roxanne ouviu o pânico em sua própria voz quando agarrou a manga de seu pai.  - Papai, já se passou dois minutos.

 - Já sei  - Max fechou uma mão que tinha a temperatura do gelo sobre a de sua filha.  - Ainda tem tempo.  - Não cabia lhe contar que ao ver o Luke tão pálido e com os olhos afundados no camarim, tinha-lhe exigido que cancelasse sua parte na função dessa noite.

Tampouco tinha sentido lhe dizer que Luke se negou a obedecê-lo. O moço era agora um homem, e as renda do poder estavam trocando de mão.

 - Algo anda mau.  - Imaginava inconsciente, asfixiado e indefeso.  - Maldito seja.  - Roxanne pegou meia volta, com a intenção de ir a decorações para lhe tirar as chaves do arca a Mouse. Antes que alcançasse a dar um passo, a tampa da caixa se abriu com um golpe.

Impressionado, o público aplaudiu. Empapado de suor, Luke saudou e encheu, por fim, seus pulmões famintos. Quando Max viu que se cambaleava e tratava de sustentar-se, fez- um gesto ao Roxanne e em seguida deu um passo adiante para distrair aos pressente com jogos de prestidigitação.

 - Idiota. Tarado. Cérebro de mosquito.  - Roxanne lhe lançou uma surriada de insultos entre os dentes fechados de um sorriso largo, enquanto o tirava do braço e o tirava do cenário.  - Que demônios tratava de demonstrar?

Lily estava ali com um grande copo de água e uma toalha. Luke se bebeu até a última gota.

 - Vão-se  - disse, enquanto se secava o suor da face. Quando se cambaleou, Roxanne o rodeou com os braços. O coração dela ressonava como trovão em seus ouvidos enquanto continuava arreganhando-o.

 - Não tinha sentido que te metesse nessa caixa esta noite, depois de te passar a noite chupando.

 - Meu trabalho é me colocar ali  - recordou-lhe ele. sentia-se tão bem, tão mas tão bem, com ela sustentando-o. soltou-se e se encaminhou ao camarim. Como um terrier raivoso, Roxanne o seguiu.

 - Pertencer ao mundo do espetáculo não significa que tenha que te matar. E se você...  - Roxanne se deteve junto à porta do camarim do Luke.  - OH, Luke, está sangrando.

Ele baixou a vista e viu que lhe saía sangue dos punhos e dos tornozelos.

 - Os grilhões das pernas me deram um pouco de trabalho  - disse e levantou uma mão para impedir que ela entrasse - . Quero me trocar.

 - Necessita que alguém te limpe isso. Deixa que eu...

 - Disse que queria me trocar. - Agora foi o olhar gelada de seus olhos o que a freou.  - Posso me ocupar eu disso.

Ela apertou os lábios para impedir que lhe tremessem. Não sabia ele, acaso, que essa frieza lhe doía mil vezes mais que uma palavra irada? Levantou o queixo. É obvio que sabia.

 - por que me trata assim, Luke? depois do de ontem à noite...

 - Estava bêbado  - disse com tom cortante, mas ela sacudiu a cabeça.

 - Antes, antes não estava bêbado. Quando me beijou. Pequenas línguas de fogo brotaram em suas vísceras. Um homem teria que ser cego para não ver o que ela estava oferecendo com os olhos. sentiu-se doente e cansado até os ossos.

 - Estava transtornada  - conseguiu dizer com surpreendente calma - . E eu também. Tratava de fazer que se sentisse melhor, isso foi todo.

 - É um mentiroso  - saltou ela com o orgulho ferido - . Desejava-me.

O sorriso dele estava calculada para ser um insulto. Pelo menos, controle para isso ficava.

 - Querida, se algo aprendi nos últimos dez anos é a tomar o que desejo.  - Suas mãos se fecharam em um punho aos flancos do corpo, mas a expressão o seus olhos seguiu sendo divertida.

Fechou-lhe a porta na face e depois se recostou pesadamente contra ela.

Esteve perto, Calavam, pensou fechando os olhos. Em mais de um sentido. Como os dores que sofria exigiam atenção, ficou a procurar uma aspirina. Tinha que ir ver o Cobb, e o faria armado com dois mil dólares e uma cabeça limpa.

Ninguém sabia melhor que Maximillian Nouvelle o valor que tinha o momento apropriado. Aguardou pacientemente ao longo da segunda função, sem fazer nenhum comentário nem expressar nenhuma crítica. Fez caso omisso das objeções do Lily e do Roxanne quando Luke se introduziu na caixa de ferro para o público de última hora. Max sabia bem que se um homem não se enfrentar a seus demônios pessoais, acaba devorado completamente por eles.

Uma vez em casa, convidou cortesmente ao Luke à sala para um gole e se apressou cortesmente  a  servir duas taças de conhaque antes de que ele tivesse tempo de aceitar ou rechaçar o convite.

 - Não estou de ânimo para um gole  - disse Luke. A sozinha ideia de beber álcool o decompunha.

Max se instalou em sua poltrona favorita e rodeou a taça com as mãos para enfraquecê-la.

 - Não? Bom, então pode me acompanhar um momento enquanto eu bebo.

 - foi uma noite larga  - disse Luke.

 - É claro que sim que sim.  - Max levantou uma mão e lhe indicou uma cadeira.  - Sente-se.

O poder seguia sendo dele, com a mesma força que alguma vez tinha obrigado a um menino de doze anos a esperar junto a um cenário em trevas. Luke se sentou, tomou um charuto. Jogou com ele enquanto aguardava que Max falasse.

 - Existem muitos métodos para suicidarse.  - A voz do Max foi suave, como a de um homem que começa a relatar uma história.  - Mas tenho que reconhecer a todos eles uma forma de covardia. Entretanto, uma escolha dessa natureza é uma questão extremamente pessoal. Está de acordo?

Luke estava perdido. Como fazia muito que aprendeu a mostrar-se cauteloso com as palavras quando Max lhe estendia uma armadilha, limitou-se a encolher-se de ombros.

 - Muito eloqüente  - disse Max com um quê de sarcasmo que fez que Luke entrecerrasse os olhos.

Se chegar a considerar de novo essa escolha  - prosseguiu Max depois de beber um sorvo de conhaque - , sugiro-te um método mais limpo e mais rápido, como por exemplo o uso da pistola que guardo na prateleira superiora do placard de meu dormitório.  - antes de que Luke pudesse fazer outra coisa que piscar pela surpresa, Max se tinha jogado para diante, com uma mão delicadamente ao redor de sua taça, enquanto com a outra atirava com força do pescoço da camisa do Luke. Quando os rostos de ambos estiveram perto,

Max falou com uma fúria intensa e serena que se refletiu no olhar de seus olhos.  - Não volte a usar meu cenário, nem a ilusão da magia para algo tão covarde como colocar fim a seu vida.

 - Max, pelo amor de Deus.  - Luke sentiu que esses ledos fortes se fechavam ao redor de sua garganta e depois afrouxavam a tensão.

 - Jamais te levantei sequer a mão.  - Agora, o controle que Max tinha mantido durante a segunda função e depois, começou a rachar-se, assim teve que levantar-se e olhar em outra direção ao falar.

 - Já aconteceram dez anos, e respeitei a promessa p te fiz. Mas devo te acautelar que a quebrarei. Se voltar a fazer uma coisa como a de esta noite, moerei a golpes.  - E girou medindo ao Luke com olhos que jogavam faíscas.

A raiva e a indignação foram o primeiro. Luke se parou de um salto, com a garganta cheia de desafios e de negações. Foi nesse momento quando, à luz do abajur, advertiu que os olhos do Max não brilhavam de Fúria mas sim pelas lágrimas. Isso o humilhou mais que mil sovas.

 - Não teria que ter feito essa prova esta noite  - disse em voz baixa - . Tinha perdido o sentido do tempo. Tinha problemas que não pude me tirar da cabeça. Sabia, mas não pude... Juro que não tentava me machucar, Max. Foram a estupidez e o orgulho.

 - Deve ser a mesma coisa, não te parece?  - Max voltou a beber um sorvo para esclarecê-la garganta.

 - Fez chorar ao Lily. E isso é algo que me custa perdoar.

Pela primeira vez em anos, Luke sentiu um medo terrível, medo do rechaço.

 - É por uma mulher? Se for assim, poderia te dizer que nenhuma mulher vale seu vida nem seu paz espiritual, Mas, é obvio, isso seria uma mentira. Há algumas, e para um homem é de uma vez uma bênção e uma maldição as encontrar. Quer que falemos sobre o assunto?

 - -Não  - conseguiu dizer Luke, em que pese a ter a garganta obstruída. A sozinha ideia de falar de seu desejo escuro e imperioso com respeito ao Roxanne com seu pai lhe pareceu absurdo.  - Tenho-o todo sob controle.

 - Muito bem. Então possivelmente queira saber sobre o novo trabalho.

 - Sim. É obvio.

Satisfeito de ter esclarecido coisas, Max voltou a sentar-se.

 - LeClerc conhece uma informação muito interessante. Certo político de alto nível tem uma amante nos subúrbios opulentos de Maryland, perto da capital deste país. Parece que nosso servidor público não desdenha os subornos; em minha opinião, uma maneira muito suja de ganhá-la vida, mas assim é. De todos os modos, é o suficientemente ardiloso como para não trocar de estilo de vida para evitar toda classe de suspeitas. Em troca, investe em jóias e obras de arte, e guarda seus investimentos em casa de seu amante.

"Agora bem, com respeito a nossa viagem a Washington..."

Planejar a operação tomou seis meses. Era preciso perfilar e polir os detalhes com tanto cuidado como a função que os Nouvelle ofereceriam no Kennedy Center.

Em abril, na época em que florescem as cerejeiras, Luke viajou ao Potomac, Maryland. Disfarçado com um traje de raias finas, uma peruca loira e uma barba recortada, ficou a percorrer propriedades com um agente de bens raízes. Com um forte acento bostoniano, assumiu a identidade do Charles B. Holderman, o representante de um endinheirado industrial de Nova a Inglaterra, a quem lhe interessava comprar uma casa nos subúrbios elegantes do Distrito Federal.

alegrou-se de viajar, não só pela oportunidade de conhecer lugares novos, mas também pelo benefício adicional de  estar longe do Roxanne. Ela se tinha vingado da maneira mais arteira e eficaz: agindo como se nada tivesse passado.

Luke percorreu a série de casas que lhe oferecia o promotor imobiliário. As perguntas que formulava como representante de um possível comprador eram quão mesmas ele necessitava saber como ladrão potencial: quem vivia na vizinhança e a que se dedicavam. Se havia cães e patrulhas policiais, A que companhia

recomendaria para instalar sistemas de segurança, etc.

Mais tarde, esse mesmo dia, Luke decidiu ir ao grão e fazer uma visita ao Miranda Leesburg. Avançou por seu atalho de lajes bordeado de flores e chamou a sua porta de carvalho com vitrais.

Já sabia o que esperar: tinha estudado as fotografias dessa loira de trinta e tantos anos, com um corpo Fenomenal e olhos azuis e gelados. Ouviu com resignação o latido agudo de um par de cães. Sabia que tinha dois pomeranias, mas era uma pena que ladrassem tanto.

Quando ela abriu a porta, Luke se surpreendeu ao ver um cabelo escorrido penteado para trás e sujeito em uma rabo-de-cavalo, e a face de feições angulosas perolada de transpiração. Miranda levava uma toalha ao redor do pescoço. O resto desse corpo cheio de curvas estava coberto por um traje de ginástica de duas peças, de intensa cor púrpura.

Ela elevou aos dois cães. Ao olhá-la, Luke começou a entender por que o bom senador guardava escondido esse pequeno tesouro.

Nas fotografias, era bonita mas de uma maneira fria e distante. Pessoalmente, sua atração sexual era incrível.

 - Perdão  - disse ele com acento ianque - . Lamento incomodá-la.  - Os cães seguiam ladrando e teve que levantar a voz para ser ouvido em meio de tanto barulho.

 - Sou Holderman, Charles Holderman.

 - Sim?  - Ela o olhou de cima abaixo, como o faria se ele fosse uma estátua que contemplava em um museu.

 - Vi-o pela vizinhança.

 - Meu chefe está interessado em comprar uma propriedade nesta zona  - disse Luke e voltou a rir.

 - Sinto muito, minha casa não está em venda.

 - Não, já me dou conta. Pode me brindar um momento de seu tempo? Se quer podemos falar aqui fora.

 - por que acredita que me sentiria mais cômoda aqui fora?  - Baixou os cães e lhes deu um tapinha para que se afastassem. Com seu amante fora da cidade durante quase duas semanas em uma excursão para arrecadar recursos, sentia-se aborrecida. Charles B. Holderman lhe pareceu uma diversão interessante.  - Do que queria me falar?

 - Ah, seu parque. Meu empregador é muito exigente com respeito aos parques e jardins. E o seu se aproxima bastante a satisfazer seus requisitos. Perguntava-me se você mesma construiu o jardim com rochas do parque.

Ela se pôs-se a rir.

 - Querido, não sei distinguir um pensamento de uma petunia. Emprego a um especialista na matéria.

 - Ah, então possivelmente terá você a bondade de me dar seu nome, seu número de telefone.

 - Sim, suponho que poderia ajudá-lo. Entre, procurarei o cartão.

 - Muito amável de sua parte.  - Luke começou a gravar-se mentalmente os detalhes do vestíbulo, das escadas do frente, do tamanho e número das residências que davam ao corredor.  - Sua casa é preciosa.

Era todo bolo e estampados florais. Muito feminina.

Luke se deteve admirar um quadro.

 - Delicioso  - disse quando Miranda olhou por sobre ombro.

 - Gosta dos quadros?

 - Sim, sou um admirador das obras de arte. E o estilo de este é impecável. Não lhe importava nada o estilo, mas sim conhecia muito bem o valor desse tecido.

 - Jamais pude entender por que às pessoas lhe ocorre pintar árvores e arbustos.

Luke sorriu.

 - Talvez para que algumas pessoas se perguntem dêem ou o que está detrás dessas árvores e arbustos.

Ela se pôs-se a rir.

 - Isso está muito bem, Charles, muito bem. Tenho um fichário de cartões na cozinha. por que não toma algo afresco comigo enquanto encontro o nome e a direção desse especialista em parques?

 - Seria um prazer.

A cozinha possuía o mesmo encanto suave e feminino do resto da casa. Nas mesadas azulejadas em tons malva e marfim havia vasos de barro com violetas africanas. Os aparelhos elétricos eram modernos e não desafinavam. Uma mesa redonda de cristal com quatro cadeiras colchadas cor creme ocupavam o centro do amiente, sobre um tapete cor rosa pálido. Como nota dissonante, pelos falantes da cozinha se ouviam os lembre estridentes de um violão.

 - Estava fazendo ginástica quando bateu na porta  - disse Miranda e se aproximou da geladeira para tirar uma jarra com limonada - . Eu gosto de estar em forma, sabe? esse tipo de música me faz transpirar.

 - Estou seguro de que funciona estimulante.

 - É claro que sim  - disse ela, tirou dois copos e serve neles a limonada.  - Sinta-se, Charles. Procurarei essa

cartão. Colocou os copos sobre a mesa e o roçou ao passar junto a ele e aproximar-se de uma gaveta.

Tranqüilo, moço, pensou Luke e se endireitou o nó da gravata antes de tomar seu copo.

 - Um dia precioso  - disse, enquanto ela revolvia o conteúdo da gaveta - . Que afortunada que é ao poder desfrutá-lo em sua casa.

 - OH, bom, meu tempo é meu. Tenho uma pequena boutique no Georgetown. Terá que vigiar os negócios, mas tenho um gerente que se ocupa dos problemas de todos os dias.  - Tirou um cartão comercial da gaveta e ficou a brincar com ela.  - É você casado, Charles?

 - Não. Divorciado.

 - Eu também - disse ela e sorriu, comprazida - . Descobri que eu adoro ter minha casa e minha vida para mim. Quanto tempo pensa ficar nesta zona?

 - Só um ou dois dias mais, temo-me. Compre ou não meu empregador uma propriedade aqui, minha tarefa ficará terminada.

 - E então se irá de volta A...

 - A Boston.

 - Mmmm.  - Isso era bom. De fato, era perfeito. Se ele se ficou mais tempo, ela o teria despedido com a bebida e o cartão do parquista. Mas, tal como estavam as coisas, era a resposta ideal a duas semanas larguísimas e frustrantes. Cada tanto  - muito cada tanto - , ao Miranda gostava de trocar de companheiro e dançar um pouco.

Ela não o conhecia, e tampouco o senador. Uma deitada rápida e anônima a ajudaria muito.

 - Bom...  - disse ela e deslizou a mão para baixo e se esfregou apenas a entrepierna - . Poderia dizer-se então que você... entrará e sairá daqui.

Luke apoiou o copo na mesa antes de que lhe caísse dos dedos.

 - Sim. Em certa forma, sim.

 - Posto que está aqui agora...  - Ela o olhou e ficou o cartão no triângulo de seu biquíni.  - por que não toma o que necessita?

Luke duvidou uma fração de segundo. As coisas não foram saindo exatamente como havia imagina-pero, como estava acostumado a dizer Max, uma onça de espontaneidade valia uma libra de planejamento.

 - por que não?  - ficou de pé e, movendo-se com muito maior rapidez do que ela supôs, colocou um dedo debaixo da linha enviesada do biquíni. Enquanto ela se arqueava para trás e o primeiro tom de luxúria brotava de seus lábios, já lhe tinha baixado o biquíni. Em dois movimentos rápidos, também abriu a braguilha e a penetrou com violência.

 - Deus!  - gritou ela e seus olhos se abriram de par em pelo prazer. Depois, as mãos dele agarraram quadris e a elevou com força para que as pernas se agarrassem ao redor de sua cintura. Ela ofegou e se entrego por completo.

Ele a observou. Seu sangue bombeava como um fogo. Ouvia que os cães tinham entrado na cozinha, nervosos e curiosos pelos estranhos sons que fazia proprietária. Estavam aconchegados debaixo da mesa de cristal, e ladravam.  Vão Puxem dava alaridos pelos falantes. Luke igualou seu ritmo ao deles. Alcançou a contar os orgasmos dela, e viu que o terceiro a deixou atordoada e frouxa, e foi um prazer para ele lhe proporcionar outro antes de sucumbir com o próprio.

 - meu deus  - exclamou Miranda e se teria derrubado ao piso se ele não a houvesse sustenido.  - Quem te ensinou todo isso debaixo desse traje tão elegante?

 - Só minha alfaiate.

 - Quando disse que tinha que ir ?

 - Em realidade, amanhã de noite. Mas hoje tenho bastante tempo livre.  - E, já que estava, mais lhe dava utilizá-lo para lhe jogar uma boa olhada à casa. Tem uma cama? Miranda lhe jogou os braços ao redor do pescoço.

-Tenho quatro. Em qual quer começar?

 - Parece muito contente contigo mesmo  - comentou LeClerc quando Luke deixou cair as valises no vestíbulo da casa de Nova Orleáns.

 - Consegui completar o trabalho. por que não teria que estar satisfeito?  - Luke abriu a maleta e tirou um caderno cheio de notas e desenhos.  - O plano da casa. Duas caixas fortes: uma no dormitório principal, a outra no living. Tem um Corot no hall de abaixo, e um Monet sobre a cama.

LeClerc grunhiu ao folhear as notas.

 - E como fez para descobrir a pintura e a caixa forte de seu dormitório, mon ami?

 - Agarrando-a como louco.  - Com um sorriso, Luke se tirou a jaqueta de couro.  - Sinto-me tão vulgar.

 - Casse pasmón coeur  - murmurou LeClerc, divertido - . A próxima vez farei que Max me envie .

 - Bonne chance, velho. Não tem idéia de algumas de suas posições...  - interrompeu-se quando ouviu um ruído proveniente da parte superior da escada. Roxanne estava ali, obstinada ao corrimão com uma mão. Tinha a face branca como o papel, salvo por dois emplastros de cor que poderiam dever-se à vergonha ou à fúria. Sem uma palavra, deu-se meia volta e desapareceu. E em seguida se ouviu o eco de uma portada.

Agora sim que Luke se sentia vulgar e sujo.

 - por que chifres não me avisou que ela estava aqui?

 - Não me perguntou isso  - foi a resposta do LeClerc - . Allons. Max está no quarto de trabalho. Quererá ouvir o que tem descoberto.

No piso superior, Roxanne estava estendida de barriga para baixo sobre a cama, lutava contra a imperiosa necessidade de começar a quebrar coisas. Mas não lhe daria esse gosto. Ela não o necessitava, não o queria. Não lhe importava. Se ele queria passá-la vida deitando-se com putitas  superdotadas, era assunto dele.

Mas desejou que se fora ao diabo por desfrutá-lo. Havia como uma dúzia... bom, pelo menos meia dúzia de homens que estariam mais que contentes por liberar a da carga da virgindade. Talvez tinha chegado o momento de escolher a um deles.

Ela também podia alardear, caramba. E, depois, fazer ornamento de suas proezas sexuais sob os narizes do Luke até que ele se engasgasse.

Não, maldito se tomaria uma decisão assim nada mais que por despeito.

sentou-se e decidiu que não voltaria a esperar entre decorações enquanto os homens desfrutavam de toda diversão. Quando se dirigissem à casa do Potomac, estaria-a junto a eles.

Chovesse ou trovejasse.

 - Estou totalmente preparada, papai.  - Roxanne transladou uma blusa prolixamente dobrada, de sua valise a uma gaveta em seu quarto do Washington Ritz.  - E cumpri com minha parte do trato.  - Arrumou sua roupa interior na gaveta de acima.  - Completei meu primeiro ano no Tulane, com excelentes qualificações. E me proponho fazer outro tanto em outono, quando começarem as classes.

 - isso apreço, Roxanne.  - Max estava de pé junto à janela. Depois dela, o verão de Washington assava o pavimento e se elevava em ondas oleosas.  - Mas estivemos meses planejando este trabalho. É mais prudente que faça seu estréia, por assim dizê-lo, com algo mais singelo.

 - Prefiro começar com algo importante  - disse ela  e começou a pendurar vestidos no placard - . Não sou novata e você sabe. fui parte desta faceta de seu vida  - infelizmente, desde detrás da cena -  desde que era garota. Posso abrir uma fechadura tão bem como LeClerc, e mais velozmente que ele. Sei muito sobre motores e mecânica graças a Mouse.  - depois de fechar o placard, olhou a seu pai.  - E sei mais sobre computadores que qualquer de vocês. E não ignora que essa classe de habilidade é invalorable.

 - E apreciei muito seu ajuda nas primeiras etapas deste trabalho. Entretanto...

 - Não há, entretanto, papai. É hora.

 - Há aspectos físicos além de mentais  - começou a dizer ele.

 - Acredita acaso que, durante o último ano, estive fazendo ginástica durante cinco horas semanais por minha saúde?  - retrucou-lhe ela. Tinham chegado a uma encruzilhada. Roxanne escolheu seu caminho e apoiou os punhos fechados sobre seus quadris.  - Faz-o porque como pai tem escrúpulos de estar me guiando por um caminho desonesto?

 - Por certo que não. Dá a casualidade de que considero que o que faço é uma arte antiga e valiosa. O roubo é uma profissão honrosa, querida minha. Que não se deve confundir com esses valentões que assaltam a gente pela rua, ou com os malfeitores que roubam bancos a ponta de pistola. Nós selecionamos nossos brancos. Somos românticos. Somos artistas.

 - Muito bem, então  - disse ela e se aproximou para beijá-lo em uma bochecha - . Quando começamos...?

O ficou olhando a face sorridente de sua filha e pôs-se a rir.

 - É um orgulho para mim, Roxanne.

 - Já sei, Max.  - E voltou a beijá-lo.  - Já sei.

 

O Kennedy Center se emprestava para espetáculos e ilusionismo do mais alto nível, assim como também as amasse de televisão que gravavam o evento para um programa especial a ser difundido em outono. Max tinha apresentado o espetáculo de cento e dois minutos como uma obra em três atos, com orquestra completa, iluminação estudada e vestuário importante.

O espetáculo começava com o Max a sós em um cenário às escuras, iluminado pelo feixe de um único spot. Estava envolto em uma capa de veludo cor azul noite, adornada com fios de prata. Em uma mão sustentava uma varinha mágica, também de prata, que resplandecia com a luz. Na outra, uma bola de cristal. Merlín teria tido esse aspecto quando preparava o nascimento de um rei.

O tema era a bruxaria, e Max interpretava ao místico nigromante com dignidade e dramatismo. Levou a bola à ponta dos dedos. Titilava com distintas luzes quando lhe falou com público de feitiços e de dragões, de alquimia e de bruxaria. Enquanto os espectadores o olhavam, cativados, a bola começou a flutuar: percorreu os pregas da capa de veludo, subiu até a ponta da varinha mágica e começou a girar por cima da cabeça do Max. O público deixou escapar uma exclamação de surpresa quando a bola iniciou uma caída vertical para o piso do cenário, e aplaudiu quando se deteve, instantes antes de sua destruição, e começou a rodar em uma espiral cada vez mais ampla e a subir até as mãos estendidas do Max, para ficar finalmente apoiada sobre as pontas de seus dedos. Uma vez mais ele tomou, deu-lhe um golpecito com a varinha mágica e a jogou para cima. A bola se transformou em uma chuva de prata que caiu sobre o cenário antes de que ficasse totalmente às escuras.

Quando as luzes reacenderam se, segundos depois, era Roxanne a que ocupava o centro do cenário, com um traje coberto de lentejoulas chapeadas. Em seu cabelo brilhavam estrelas. Estava parada, erguida como uma espada, os braços cruzados sobre o peito, os olhos fechados. Quando a orquestra começou a interpretar um movimento da Sexta Sinfonia do Beethoven, começou a balançar-se e abriu os olhos.

Falou de conjuros e do amor perdido, de feitiçaria. Ao descruzar os braços e levantá-los bem alto, das pontas de seus dedos brotaram faíscas. Seu cabelo, uma labareda de cachos que quase chegava aos ombros, começou a ondear em virtude de um vento inexistente. O feixe do refletor se alargou para mostrar uma pequena mesa junto a ela, e sobre a mesma, uma campainha, um livro e uma vela apagada. Roxanne se esfregou as Palmas e produziu fogo, uma série de chamas que ascendiam e baixavam como ao ritmo de uma respiração. Quando passou as mãos sobre a vela, as chamas se consumiram sobre a palma de suas mãos e brotaram do pavio da vela em uma catarata dourada.

Com um movimento do punho, fez que as páginas do livro começassem a girar, primeiro devagar e depois cada vez com maior rapidez, até parecer um torvelinho. A campainha se elevou da mesa entre sua Palmas estendidas, e soou quando ela moveu as mãos. de repente, debaixo da mesa, onde antes só havia um espaço vazio, apareceram três velas acesas. Suas chamas se foram fazendo cada vez mais altas até que toda a mesa estava em chamas, iluminando a face do Roxanne que seguia de pé um pouco mais atrás. Estendeu os braços para diante, e não ficou nada mais que fumaça. Nesse mesmo instante, acendeu-se outro spot. E ali estava Luke, à esquerda do cenário.

Usava um traje negro trabalhado com ouro reluzente. A maquiagem aplicada pelo Lily lhe tinha acentuado os maçãs do rosto e arqueado as sobrancelhas. Seu cabelo, quase tão largo como o do Roxanne, flutuava em liberdade. Olhou-a como o faria uma mescla de sátiro e pirata.

Ela o olhou do outro extremo do cenário, por sobre a fumaça que se elevava entre os dois. Sua  atitude era de desafio: a cabeça arremesso para trás, um braço levantado, o outro, estendido para diante. Um feixe de luz brotou de seus dedos para o Luke. Ele levantou uma mão e pareceu prendê-lo. O público prorrompeu n aplausos enquanto o duelo prosseguia. Os combatentes se aproximaram, entre a fumaça e as chamas, e as luzes de cena foram cor rosa e dourado, simulando um amanhecer. Roxanne se cobriu os olhos com um braço, para proteger-se. Depois, seus dois braços caíram, inertes, ao flanco do corpo, e sua cabeça caiu para diante. Seu traje prateado começou a jogar faíscas e a lançar luz enquanto ela se balançava, como se seu corpo estivesse sujeito por cordas às mãos do Luke. Ele a rodeou e passou suas mãos sobre ela, muito perto mas sem roçá-la. Depois lhe aconteceu uma mão estendida frente aos olhos, indicando que estava em transe. Logo, lentamente, fez-lhe gestos para que retrocedesse, cada vez mais. Os pés do Roxanne se elevaram do cenário. Mas suas costas permaneceu reta como uma espada quando ele a fez elevar-se para cima, até que ficou deitada sobre farrapos de fumaça azul.

Luke se deu meia volta, e quando voltou a enfrentar ao público sustentava um aro de metal. Com a graça de um bailarino, moveu-se ao redor do Roxanne e fez deslizar o aro por seu corpo. Depois  - e isso não formava parte do ato - , inclinou-se para ela como beijá-la. Sentiu que o corpo dela se retesava quando lhe aproximou os lábios.

 - Não o arruíne todo, Rox  - sussurrou. Depois, tirou-se a capa e a jogou sobre ela. manteve-se uns momentos no ar, antes de que a forma que estava debaixo parecesse começar a derreter-se. Quando a capa caiu ao chão, Luke tinha entre seus braços um cisne branco.

ouviu-se um alvoroço entre decorações. Luke se inclinou em busca de sua capa, rogando ao céu que o maldito cisne não o bicasse esta vez. escondeu-se, fez girar a capa sobre sua cabeça, e desapareceu.

 - Eu não gostei desse agregado  - disse Roxanne ao Luke assim que o viu.

 - Não?  - Entregou o cisne a Mouse e sorriu a ela. -  Pareceu-me que era um lindo toque.

 - Se voltar a tentá-lo, eu também farei algo fora de programa  - disse Roxanne e lhe cravou um dedo na camisa - . E juro que terminará com um lábio ensangüentado.

Luke a agarrou do punho antes de que ela pudesse afastar-se. Pelo som dos aplausos, soube que Max e Lily mantinham encantado ao público.

 - Olhe, Rox, o que fazemos no cenário é uma representação. Um trabalho. Como o que faremos amanhã de noite no Potomac. Nada pessoal.

Ela sentiu que o sangue batia em suas têmporas, mas conseguiu esboçar um sorriso cordial.

 - Talvez tenha razão.

Luke alcançou a cheirar seu perfume, sua maquiagem, o leve deixo de almíscar pela transpiração de cena.

 - É obvio que tenho razão. É só uma questão de...  - Mas não pôde seguir falando porque lhe cravou um cotovelo no estômago, afastou-se e sorriu, agora com muito mais sinceridade.

 - Nada pessoal  - disse com doçura, entrou em seu camarim, e fechou a porta com chave. Tinha chegado o momento de trocar-se para outro ato.

A seguinte vez que teve que enfrentar ao Luke, estavam os dois quase nariz a nariz, separados só pela lâmina fina de madeira atravessada. Estavam encerrados em uma caixa trucada e só tinham segundos para transmutar-se.

 - Se voltar a fazer isso  - disse Luke enquanto trocavam de lugar - , juro que te devolverei o golpe.

 - Olhe como tremo  - disse Roxanne e emergiu de caixa em lugar do Luke para receber um aplauso monumental.

Os dois saudaram graciosamente depois do final. Luke a beliscou forte, para lhe deixar um hematoma, ela o pisou.

O se inclinou com uma reverência, materializou rosas de um nada e as ofereceu ao Roxanne. Ela as aceitou, não antes de que tivesse tempo de fazer outra reverência, ele se deslocou. Não permitiria que esse golpe ficasse impune. Arqueou-lhe as costas com exagero e a beijou.

Ou isso acreditou o público, encantado. Mas em realidade mordeu.

 - Filho de puta  - disse ela enquanto se esforçava por sorrir. Os dois deram um passo atrás quando Max fez sua entrada final em cena. Luke tomou a mão do Roxanne. Mas seus olhos se abriram de par em par  quando lhe apertou um dedo e o dobrou.

 - Por Deus, Rox, as mãos não. Não posso trabalhar sem minhas mãos.

 - Então mantenlas longe de mim, companheiro. -Soltou-o, satisfeita com a idéia de que lhe doeria 1 polegar tanto como o lábio inferior. Os dois se uniram ao Max e ao Lily no centro do cenário para  uma saudação final.

 - eu adoro o mundo do espetáculo  - disse Roxanne, rendo.

O bom humor em sua voz fez que Luke desistisse de seu plano de lhe chutar o traseiro. Voltou a tomar a da mão, só que com mais cautela.

-A mim também.

A elegante recepção oferecida na Casa Branca foi o broche perfeito da velada.

 - Parece que a magia fez prodígios em você. Roxanne girou para ver seu interlocutor, e seu agradável sorriso se desvaneceu.

 - Sam. O que faz aqui?

 - Desfruto da reunião. Quase tanto como desfrutei de seu atuação.  - Tomou a mão e se levou aos lábios os dedos rígidos do Roxanne.

Tinha trocado muitíssimo. O adolescente fraco e mau vestido se converteu em um homem elegante e impecável. Seu cabelo cor areia luzia um corte conservador, igual ao smoking que usava. Em uma mão levava um discreto anel com um diamante.

O via bem barbeado e lustroso, como as fulgurantes antiguidades que enchiam a Casa Branca. dele emanava uma sólida aura de riqueza e êxito. E ela pensou em seguida que, como no caso dos políticos, debaixo desse aura resplandecente se adivinhava o leve fedor da corrupção.

 - cresceste, Roxanne. E está preciosa. Ela liberou sua mão.

 - Eu poderia dizer o mesmo de você.

 - por que não o faz, então, enquanto dançamos?

Poderia haver-se negado, rotundamente e com cortesia. Tinha habilidade suficiente para isso. Mas sentia curiosidade. Sem dizer uma palavra foi com ele à pista e os dois se uniram à multidão que dançava.

 - Asseguro-te  - disse ela, bastante surpreendida pela atitude dele - , que a Casa Branca é o último lugar onde esperava voltar a verte. Mas, bom  - adicionou, olhando-o aos olhos - , a maioria dos gatos caem bem parados.

 - Eu, em troca, sempre planejei verte, vê-los todos, de novo. Que estranho que o destino tenha querido que isso ocorresse aqui, em um entorno tão cheio e poder.  - Apertou-a contra seu corpo, face ao dura que ficava ela, sem deixar por isso de segui-lo no baile.  - A função de esta noite foi um grande progresso com respeito ao que faziam nesse clube sinistro. Melhor inclusive que o espetáculo que Max  ideou para o Castelo Mágico.

 - Ele é o melhor.

 - Tem um talento fenomenal  - conveio Sam e juntou sua face com a do Roxanne - . Mas tenho que reconhecer que os que me tiraram o fôlego foi você Luke. Um número muito sexy, por certo.

 - Nada mais que uma ilusão  - disse ela com frieza - . O sexo não teve nada que ver.

 - Se existiu algum homem no mundo capaz de não sentir nada ao verte levitar debaixo de suas mãos, esse indivíduo deve estar morto e enterrado. - E que interessante seria, pensou, possui-la. Sentir que ela se estremecia, voluntariamente ou não, sob suas mãos. Essa sim que seria uma revanche formosa, com o benefício adicional do sexo.  - Mas te asseguro que eu estou bem vivo.

 - Se acredita que me adula o vulto de seus calças, Sam, equivoca-te.  - Teve a satisfação de ver como ele apertava os lábios com troveja antes de que ela continuasse. Sim, seus olhos seguiam igual a sempre: matreiros, sagazes, e potencialmente malvados.  - Aonde foi quando te partiu de Nova Orleáns?

Agora, ele não só desejava possui-la mas também também machucá-la primeiro.

 - Aqui e lá.

 - E aqui e lá lhe conduziram... aqui?

 - Em uma rota circular. Neste momento sou a mão direita do "Cavalheiro do Tennessee".

 - Brinca.

 - Absolutamente. Sou o principal assistente do senador. E me proponho ser muito mais.

Ela demorou só um instante em recuperar-se da surpresa.

 - Bom, suponho que é coerente, posto que a política é a máxima extorque. Seu passado não interferirá em seus ambições?

 - Pelo contrário. Minha infância difícil me proporciona uma perspectiva fresca e pormenorizada dos problemas de nossas crianças... nossa fonte natural mais valiosa. Eu sou algo assim como um exemplo, alguém que lhes demonstra no que podem converter-se.

 - Não acredito que em seu curriculum haja posto que usou a uma criatura ignorante para poder lhe roubar a seus amigos.

 - Que dueto que formávamos  - disse ele e riu pelo baixo, como se sua traição só tivesse sido uma brincadeira - . E que melhor dueto seríamos agora.

 - Sinto te informar que a sozinha ideia me repugna.  - Sorriu e piscou. Mas quando Roxanne começou a afastar-se, lhe apertou a mão com tal força que ela fez uma careta de dor.

 - Acredito que ficam algumas coisas detrás da bruma da memória, não te parece, Roxanne? depois de todo, se de repente sentiu a necessidade de chusmear sobre uma velha relação, talvez eu queira fazer outro tanto. E, a menos que me equivoque muito, sei que preferiria que essas coisas permanecessem ocultas.

Ela sentiu que a cor desaparecia de suas bochechas.

 - Não sei do que está falando. Machuca-me, Sam.

 - Preferiria evitar isso  - disse e afrouxou a tensão da mão - .Amenos que se tratasse de uma circunstância mais íntima. Talvez um jantar a meia-noite, onde poderíamos renovar uma velha amizade.

 - Não. Compreendo que deve ser um golpe para seu ego, Sam, mas realmente não tenho nenhum interesse em seu passado, seu presente nem seu futuro.

 - Então não falaremos de negócios.  - Apertou ou boca contra a orelha do Roxanne e lhe murmurou ao  ouvido uma proposição tão ofensiva, que ela não soube se espantar-se ou rir em voz alta. Não teve oportunidade de fazer nenhuma das duas coisas, porque uma mão lhe agarrou o braço e a atirou para trás.

 - lhe tire as mãos de cima  - disse Luke com Fúria na face ao interpor-se entre o Roxanne e Sam. De novo tinha dezenove anos, e estava preparado para todo.  - Não a toques sequer.

 - Bom, parece que pisei em alguns calos.  - Em marcada oposição ao murmúrio do Luke, Sam falou forte e com jovialidade. De fato, estava no certo. Não todas as faíscas que tinha visto voar pelo cenário foram o resultado de efeitos especiais e magia.

 - Luke.  - Com plena consciência de que uma série de cabeças giravam para eles, Roxanne lhe aconteceu a mão pelo braço. Isso lhe deu oportunidade de lhe cravar as unhas na pele.  - Uma recepção na Casa Branca não é lugar para fazer uma cena.  - Disse-o com um grande sorriso.

 - Sensata e formosa  - disse Sam e assentiu, mas seus olhos estavam cravados no Luke. Esses sentimentos seguiam ali: o ciúmes e o ódio, e Sam se alegrou disso.

 - Sabe quantos ossos tem na mão?  - perguntou Luke com tom agradável enquanto seus olhos seguiam prometendo assassinato - . Se voltar a tocá-la, descobrirá-o. Porque lhe quebrarei isso todos.

 - Basta. Eu não sou nenhum osso para que vocês dois briguem.  - Com alívio, viu que seu pai e Lily se abriam caminho para eles por entre a multidão.  - Terminemos com isto, sim? Papai! Não poderá acreditar quem está aqui. Sam Wyatt. depois de tanto tempo.

 - Max.  - Sam lhe estendeu a mão, e depois tomou com a outra os dedos do Lily e os beijou.  - E Lily. Mais formosa que nunca.

 - Jamais adivinhará no que anda agora Sam  - prosseguiu Roxanne como se acabassem de reunir-se com um amigo velho e querido.

Max não era homem de guardar rancor, nem tampouco de baixar o guarda.

 - De modo que te decidiu pela política.

 - Sim, senhor. Poderia dizer que graças a você.

 - Como é isso?

 - Você me ensinou como fazer para que outros apreciassem minhas habilidades, a lhe dar um efeito teatral a meus atos.  - Sorriu, e parecia um póster que exaltava o êxito e a energia juvenil.  - Senador Bushfield  - disse-lhe Sam a um homem arrumado e calvo, com olhos marrons cansados e um sorriso torcido - . Suponho que conhece os Nouvelle.

 - Sim, sim. Um espetáculo delicioso, como já lhe disse, Nouvelle.

 - Não quis mencioná-lo antes, senador, porque queria surpreender a meus velhos amigos.  - Olhando com expressão divertida ao Luke, Sam apoiou uma mão no ombro do Max.  - Em uma oportunidade estive vários meses como aprendiz deste grande mago.

 - Incrível!  - Os olhos do Bushfield se acenderam com interesse.

 - É assim  - disse Sam com um sorriso - . Infelizmente, descobri que não tinha aptidões para isso. Mas quando me parti do lado dos Nouvelle, foi com um novo propósito, e lhe asseguro que não estaria onde me encontro hoje, se não fora por eles.

 - Direi-lhes uma coisa.  - Bushfield aplaudiu paternalmente ao Sam nas costas.  - Este moço chegará longe. É ardiloso, sabe o que quer e tem carisma.  - Piscou os olhos um olho ao Max.  - Talvez não fora bom para a magia, mas lhe asseguro que sabe fascinar aos votantes.

 - Ao Sam jamais faltou encanto  - disse Max - . Só talvez para que usá-lo.

 - Agora já sei  - disse Sam olhando ao Luke como fazer o que faz falta fazer.

 - Esse sujo filho de puta te colocou as mãos em cima. Roxanne se limitou a suspirar. Não terminava de entender ao Luke. Talvez se devia a que as tinha engenhado para evitá-lo durante a maior parte das últimas vinte e quatro horas.

 - Estávamos dançando, imbecil.

 - Estava-te dando besitos no pescoço.

 - Pelo menos não me mordeu  - disse ela, sorriu-lhe com ar de superioridade e se tornou para trás. Mouse conduzia o automóvel em silencio pelos subúrbios, fazendo passadas lentas ao redor da casa do Miranda.

 - te avive um pouco e te concentre no trabalho que temos por diante, Calavam.

 - Eu gostaria de saber o que esse tipo tem na cabeça  - murmurou Luke - . É um sinal de má sorte ter tropeçado assim com ele.

 - A sorte é a sorte, moço  - comentou Max do assento dianteiro - . O que fazemos com ela determina que seja boa ou má.  - Satisfeito com a atmosfera reinante, Max se tirou a jaqueta e o falso peitilho de camisa que ocultava um magro suéter negro.

No assento traseiro, Luke e Roxanne realizaram transformações similares.

 - Mantente afastada dele  - disse Luke ao Roxanne. Era uma noite silenciosa e úmida. A frágil luz desse arco magro da lua estava quase obscurecida pela bruma, e o calor flutuava no ar como um capuz. Roxanne alcançava a perceber o aroma a rosas, a jasmins e a pasto recém talhado, e o úmido aroma de esterco e abono acabados de regar.

moveram-se como sombras pelo parque. Outra sombra passou velozmente junto a eles, fazendo que Roxanne se atingisse pesadamente contra Luke. O coração lhe palpitou contra as costelas.

Mas era só um gato, que corria em busca de um camundongo ou de um companheiro.

 - Nervosa, Rox?  - Os dentes do Luke brilharam na escuridão.

 - Não.  - Chateada, apressou-se a avançar, e o tamborilar da bolsa de couro contra a coxa lhe transmitiu segurança.

Tal como o tinham planejado, separaram-se na esquina leste da casa. Luke cortou os cabos telefônicos e Max se dirigiu a desconectar o sistema de alarme.

 - Terá que fazê-lo com muita suavidade  - disse Max com paciência a sua filha - . Não terá que apurar-se nem confiar-se muito. Faz falta prática  - disse, como tinha repetido inumeráveis vezes durante os ensaios - . Um artista jamais pode treinar de mais. Até a bailarina mais famosa segue tomando classes durante toda sua vida profissional.

Ela o observou separar e cortar cabos. Era um trabalho tedioso que tinha cãibras as mãos. Roxanne lhe sustentava a luz e observava cada movimento que fazia.

 - Há uma unidade no interior da casa que opera segundo um código. Com muito cuidado, é possível anulá-la daqui fora.

 - Como sabe quando o conseguiste? Lhe sorriu e lhe aplaudiu a mão, sem emprestar atenção ao muito que doíam os dedos.

 - A fé, junto com intuição e experiência. Y... essa pequena luz dali acima se apagará. Et voila  - -murmurou quando o ponto vermelho desapareceu.

 - Já aconteceram seis minutos  - disse Luke, inclinado detrás deles.

 - Não cortaremos o vidro  - disse Max enquanto se deslocavam para a porta da terraço de atrás - . Como vêem, é vidro armado. Inclusive com o alarme desconectado, é perigoso... e tomaria muito mais tempo que se abrirmos a fechadura.

Tirou seu jogo de gazuas, um presente que lhe fizesse LeClerc trinta anos antes. Com alguma cerimônia, as entregou ao Roxanne.

 - Prova seu sorte, meu amor.

 - Por Deus, Max. Demorará uma eternidade.

Roxanne se tomou um momento para olhar com severidade ao Luke antes de concentrar-se em sua tarefa. Nem sequer ele podia lhe arruinar esse momento. Trabalhou como seu pai lhe tinha indicado. Com paciência. Com mãos tão delicadas como as de um cirurgião, operou sobre a fechadura com os olhos fechados.

imaginava no interior da fechadura, deslocando as combinações com mãos muito suaves. Movendo, persuadindo, manobrando.

Um sorriso lhe iluminou a face quando ouviu o clique.

 - É como uma música  - murmurou, e fez que nos olhos do Max aparecessem lágrimas.

 - Dois minutos, trinta e oito segundos  - deu Max olhando ao Luke enquanto oprimia o botão do cronômetro - . Acredito que é o melhor tempo que tem feito.

Sorte de principiante, pensou Luke, mas teve a sensatez de não expressar em voz alta sua opinião. Entraram em fila a Índia pela porta e voltaram a separar-se.

A descrição que Luke fazia da casa era tão completa que não precisaram subornar a ninguém para conseguir os planos. A tarefa do Roxanne era a de apoderar-se dos quadros. Cortou cuidadosamente os tecidos para tirar as dos Marcos, enrolou vários Manet e uma excelente cena da rua do Pisarro, e as meteu na mochila antes de reunir-se com seu pai no living.

Não o distraiu de sua tarefa. Os dedos do Max faziam girar o dial da caixa forte. Roxanne pensou que parecia Merlín, preparando seus conjuros. O coração lhe encheu de afeto.

Intercambiaram sorrisos quando a porta da caixa finalmente se abriu.

 - Rápido agora, querida.  - Abriu estojos de veludo e outros chatos e longos, e derrubou o conteúdo na bolsa do Roxanne. Para demonstrar que tinha aprendido bem, ela extraiu uma lupa e, sob o feixe de luz de sua lanterna, examinou as pedras de um broche de safiras.

 - Excelentes  - murmurou - , com um...

Nesse momento ouviram o latido de um cão.

 - Merda.

 - Tranqüila.  - Max lhe colocou uma mão no braço para acalmá-la. À primeiro sinal de perigo, sai por essa porta e volta aonde está Mouse.

 - Não te deixarei.

 - Sim o fará.  - Movendo-se com rapidez, Max esvaziou a caixa forte.

No piso superior, Luke olhou ceñudamente aos pomeranias que grunhiam. Não os tinha esquecido. Sabia, pela tarde que tinha passado ali, que tinham o hábito de dormir na cama de sua proprietária.

Por isso tinha dois ossos com carne em sua bolsa.

Tirou-os e ficou paralisado quando Miranda lhes grunhiu entre sonhos aos cães e se deu volta na cama. Depois, ele ficou em cuclillas, uma sombra entre as sombras, e lhes ofereceu os ossos aos cães.

Não falou, não quis correr esse risco nem sequer quando Miranda começou a roncar. Mas os cães não necessitaram um convite verbal. Ao cheirar a comida, saltaram da cama e a procuraram.

Satisfeito, Luke atirou para fora o fronte falso da prateleira da biblioteca e começou a trabalhar na caixa forte.

Perturbava-o um pouco que a mulher estivesse dormindo nesse quarto. Não era que nunca antes tivesse roubado em uma casa em que uma dama roncava muito perto. Mas jamais o tinha feito com uma mulher com a que tivesse compartilhado o leito.

A excitação, sempre vagamente sexual, que sentia cada vez que tentava abrir uma caixa forte, viu-se extremamente incrementada. Quando por fim conseguiu abri-la, descobriu que tinha uma forte ereção, e o absurdo da situação o fez sorrir.

Mas, como diria Max, havia prioridades e prioridades. Uma verdadeira pena.

 - Demorou dois minutos mais do previsto  - disse-lhe Roxanne, com chateio, ao pé da escada - . Estava a ponto de subir. Ocorreu-te algo?

O se limitou a sorrir e seguiu baixando a escada. Quando ela se deu conta do problema do Luke saltou:

 - Deus, é um degenerado!

 - Só um moço norte-americano, e muito são, Roxy.

 - Dá-me asco.

 - Meninos, meninos  - disse-lhes Max como um mestre de escola paciente - . Não seria melhor seguir discutindo isso no automóvel? Roxanne seguiu resmungando insultos enquanto corriam pelo parque. Quando chegaram ao automóvel, apoderou-se dela a alegria pela emoção da tarefa cumprida. deixou-se cair no assento posterior, mas se inclinou para beijar a Mouse, morta de risada. Estampou- outro beijoca ao Max  e, como se sentia generosa  - e talvez também um pouco vingativa - -, girou a cabeça e oprimiu fortemente seus lábios sobre os do Luke.

 - meu deus.

 - Espero que sofra.  - E, tornando-se para trás, apertou a bolsa com as gemas contra seu peito. - Muito bem, papai, quando será o seguinte trabalho?

 

Roxanne se passeava com impaciência pela loja do Madame, quem depois de trinta anos de atividade comercial, seguia desdenhando os adiantamentos modernos, como por exemplo uma caixa registradora: sua velha caixa de charutos grafite à mão, debaixo do mostrador, servia-lhe à perfeição.

 - Roxanne querida, te haver recebido sendo quinta de seu promoção, não é pouca coisa. Roxanne se encolheu de ombros.

 - Só foi uma questão de aplicação. Tenho boa memória para os detalhes.

 - E isso se preocupa?

 - Não. Preocupa-me meu pai.  - Foi um alívio poder dizê-lo em voz alta.  - Suas mãos já não são o que eram.

Era algo sobre o que não podia falar com ninguém, nem sequer com o Lily. Todos sabiam que a artrite estava fazendo estragos no Max, lhe inchando os nódulos e endurecendo esses dedos ágeis. Houve muitos médicos, remédios, massagens. Roxanne sabia que a dor não era nada comparado com o medo de perder o que mais amava: sua magia.

 - Nem sequer Max pode fazer desaparecer o tempo, petíte.

 - Sei. Entendo-o. Mas não posso aceitá-lo. A afeta emocionalmente. Não posso chegar a ele como antes, sobre tudo desde que está tão obcecado com essa maldita pedra.

 - Pedra? que pedra?

 - A pedra filosofal. É um mito, Madame, uma ilusão. A lenda diz que essa pedra pode permutar em aro tudo o que touca. E devolver a juventude aos anciões e saúde aos doentes.

 - E você não acredita nessas coisas? Você, que viveste toda seu existência em meio da magia?

 - Eu sei como se realiza a magia. Com transpiração e prática, com um sentido preciso do tempo e dirigir a atenção do espectador aonde a gente quer. Emoção e dramatismo. Acredito na arte da magia, Madame, não em pedras mágicas. Não no sobrenatural.

 - Entendo  - disse Madame e começou a dar volta cartas do Tarot - . Mas igual procura as respostas aqui?

Roxanne franziu o sobrecenho e se ruborizou.

 - Só para passar o tempo.

 - É uma pena desperdiçar esta oportunidade  - disse Madame e se inclinou sobre as cartas - . Vejo aqui que a moça está preparada para converter-se em mulher. E vejo também uma viagem, logo.

Roxanne sorriu.

 - Faremos um cruzeiro. Ao norte, pela rota do St. Lawrence. Agiremos a bordo, é obvio. Max o considera umas férias de trabalho.

 - te prepare para muitas mudanças - disse Madame - . Vejo aqui a realização de um sonho... se for sensata. E, depois, a perda desse sonho. E alguém do passado. E dor. Mas também tempo para que cicatrize. Faz seu viagem e aprende, Roxanne.

Luke estava mais que disposto a ir. Não havia nada que desejasse mais que ir-se da cidade. Sobre a mesa de café estava o último pagamento ao Cobb, ensobrado e carimbada.

Ao longo dos anos, os pedidos tinham sido tão regulares e permanentes como o pagamento de uma hipoteca. Dois mil aqui, quatro mil por lá, até alcançar um médio de cinqüenta mil dólares por ano.

Ao Luke não importava o dinheiro. Tinha mais que suficiente. Mas ainda não tinha conseguido controlar as náuseas e repugnância que sentia cada vez que encontrava um cartão em sua casinha postal.

Por isso Luke estava ansiando partir no cruzeiro: para afastar-se dos cartões postais, dessa sensação de insatisfação que sentia na nuca, do muito que o alarmava a obsessão crescente do Max com respeito a uma pedra mágica que não existia.

No barco, com suas atuações, as visitas a porto e o planejamento do trabalho que pensavam realizar em Manhattan, estariam muito ocupados para preocupar-se dessas coisas.

Uns golpes na porta o obrigaram a abandonar suas reflexões.

 - Lily  - disse Luke e se inclinou para beijá-la e tirar de suas mãos as caixas e bolsas que levava.

 - Estava às compras. Bom, suponho que é evidente. E tive vontades de passar a verte. Espero que isso não te incomode.

 - Ao contrário, eu adoro  - disse ele e colocou as compras em uma cadeira  - . Decidiu por fim deixar ao Max e te vir a viver comigo?

Ela se pôs-se a rir pela brincadeira.

 - Se o fizesse, seria para darum castigo a todas essas mulheres que entram e saem daqui.

 - Eu renunciaria a todas elas pela pessoa adequada. Esta vez Lily não riu.

 - Estou seguro de que sim, querido. Mas não vim a falar de seu vida amorosa, por fascinante que seja.

Ele sorriu.  - Me vais fazer colocar avermelhado.

 - Não acredito. Em realidade, vim para ver se necessitava ajuda com as valises, ou se queria que te comprasse algo: meias, roupa interior, o que seja.

O lhe rodeou a face com as mãos e a beijou.

 - Amo-te, Lily.

 - Eu também amo a você. E sei como detestam os homens fazer valises e comprar essas coisas.

 - Eu já tenho todo inteligente, juro-o. Quer um café?

 - Preferiria algo afresco, se tiver.

 - Limonada?  - perguntou, enfiando para a cozinha - . Devo ter tido uma premonição de que cairia por aqui quando esta manhã espremi os limões.

Escolheu um copo cor verde clara e lhe serve a bebida e uns cubitos de gelo.

Ela tomou o copo que lhe oferecia e voltou para living, depois de ter observado bem a prolijidad da cozinha.

 - Tem muito bom gosto. O riu e lhe perguntou:

 - O que ocorre, Lily?

 - Nada. Já te disse que passava por aqui.

 - Tem preocupação nos olhos.

 - Que mulher não a tem?

 - me deixe te ajudar.

As lágrimas nublaram a visão do Lily quando ele tomou seu copo, separou-o e tomou em seus braços.

 - Sei que me estou levando como uma tola, mas não posso evitá-lo.

 - Está bem  - disse ele, beijou-lhe o cabelo, a têmpora, e aguardou.

 - Acredito que Max já não me ama.

 - O que?  - A intenção dele tinha sido mostrar-se pormenorizado, consolá-la, apoiá-la. Em troca, pôs-se a rir, enquanto ela soluçava.  - Não. Vamos, Lily, não chore. Sinto me haver rido. O que te faz pensar semelhante disparate?

 - Ele... ele...  - foi tudo o que pôde dizer enquanto soluçava contra o ombro do Luke.

Tenho que trocar de tática, pensou Luke, e lhe acariciou as costas.

 - Está bem, querida, não se preocupe. Em seguida vou para lá e o propino uma boa surra. Isso a fez rir.

 - O que passa é que o amo tanto. Max é o melhor que me passou na vida.

 - Conhecer o Max e à pequena teve muito de magia. Em seguida os amei com todo meu coração. Ele tinha perdido a sua esposa, e talvez também uma parte de si mesmo. E eu desejava o ter, assim fiz o que toda mulher inteligente teria feito, e o seduzi.

Luke a apertou mais forte.

 - Arrumado a que ele opôs uma terrível resistência, verdade?

Isso a fez rir e suspirar.

 - Poderia ter recebido o que eu lhe dava e deixá-lo assim. Mas não o fez. Aceitou a seu lado. Tratou-me como a uma senhora. Ensinou-me como devia ser todo entre um homem e uma mulher. Fez-me formar parte de sua família. Mas, por sobre tudo, amou-me... só pelo que sou, se entender o que quero dizer.

 - Sim, entendo-o. Mas não acredito que tenha sido algo unilateral, Lily. Acredito que recebeu tanto como deu.

 - Sempre o tentei, Luke. Já faz quase vinte anos que o amo. E acredito que não poderia tolerar perdê-lo.

 - O que te faz pensar nessa possibilidade? Está louco por você. Essa é uma das coisas que melhor me tem feito sentir, a maneira em que vocês dois são o um para o outro.

 - está-se afastando. Sim, segue sendo doce comigo, quando recorda que estou perto. Max jamais poderia me machucar, nem a mim nem a ninguém, a propósito. Mas se passa horas só, repassando livros, notas e revistas. Essa maldita pedra.  - Tirou um lenço do bolso e sei soou o nariz.  - Está tão obcecado com ela que quase não pensa em nada mais. E começou a esquecer coisas. Coisas pequenas. Como compromissos e refeições. A semana passada quase chegamos tarde a uma representação porque ele o tinha esquecido. Sei que lhe preocupa não poder fazer já alguns dos jogos de prestidigitação, e que isso o está afetando...  - interrompeu-se, perguntando-se como poderia expressar o de maneira delicada.  - O que quero dizer é que Max sempre foi tão, bom, intenso sexualmente. Mas ultimamente quase nunca... já sabe.

 - Bom, eu...

 - Não se trata só de seu desempenho concreto, por assim dizê-lo, mas sim da parte romântica. Já não gira para me olhar pelas noites, nem me tira da mão, nem me olhe dessa maneira tão especial.

 - Está distraído, Lily. Isso é todo. A enorme pressão que implica fazer um programa especial mais, escrever outro livro, retornar e fazer uma excursão pela Europa. E, depois, os outros trabalhos. Max sempre tomou sobre seus ombros a preparação e a execução desses trabalhos. E, em minha opinião, você está tão esgotada como Max por tantas emoções: a graduação do Rox, preparar-se para esta viagem.

 - Pode ser.

 - me acredite quando te digo que todo se solucionará. Iremos por um tempo, descansaremos e beberemos champanha na coberta de popa.

Ela se secou as lágrimas e se incorporou no assento.

 - Juro-te que não era minha intenção te carregar com meus problemas. Seguro que não quer que te faça as valises?

 - Já parecem. Estou tão impaciente como você por partir pela manhã.

 - É certo que estou ansiosa. Mas ainda não tenho nada inteligente.

 - Que compras esteve fazendo? Coisas sexy?

 - Sim, algumas.

Sabendo o muito que gostava ao Lily mostrar suas aquisições, Luke lhe seguiu o jogo.

 - Não me mostrará isso?

 - Talvez.  - Piscou e deixou seu copo sobre a mesa. Nesse momento viu a carta que ele tinha deixado ali e ficou petrificada.  - Cobb. por que lhe escreve?

 - Não lhe escrevo  - disse Luke, amaldiçoou-se interiormente, tomou a carta e a meteu no bolso - . Não é nada.

 - Não me minta. Não me minta nunca.

 - Não te menti. Disse que não lhe escrevia.

 - O que há então nesse sobre? Luke ficou pálido.

 - Não tem nada que ver contigo.

Ela não disse nada ao princípio, mas em seu rosto sulcado pelas lágrimas apareceram várias emoções em forma simultânea.

 - Todo o teu tem que ver comigo  - disse e ficou de pé - . Ou isso acreditava eu. Será melhor que vá.

 - Não. Maldito seja, Lily, não me olhe assim. Estou dirigindo isto da única forma que conheço. deixe-me isso .

 - É obvio.  - Lily tinha a maneira de mostrar-se perfeitamente agradável e simultaneamente colocar a um homem de joelhos.  - Estará em casa às oito, verdade? Não queremos perder o vôo.

 - Ao caralho contudo. Estou-lhe pagando a esse tipo. Cada tanto lhe mando dinheiro e ele me deixa tranqüilo. Deixa a todos tranqüilos.

Lily assentiu com a cabeça e voltou a sentar-se.

 - Está-te chantageando!

 - Esse é um termo cortês.  - Furioso consigo mesmo, Luke se aproximou da janela.  - Posso me dar o luxo de ser cortês.

 - por que?

O se limitou a sacudir a cabeça. Não o diria a ela nem a ninguém. Nem o que tinha sido, nem dos pesadelos que o acossavam durante dias quando encontrava essa postal em sua casinha de correios.

 - Enquanto siga lhe pagando, jamais te deixará em paz.

 - Talvez não. Mas ele sabe algo que me envergonha e pelo que estou disposto a lhe pagar para que não o diga a ninguém. me vale a pena.

 - Não sabe que ele já não pode te machucar?

 - Não. Não sei. E, o que é pior, não sei se não poderia machucar a alguma outra pessoa. Não correrei esse risco, Lily. Nem sequer por você.

 - Eu não lhe pediria isso. Mas sim te rogo que confie o suficiente em mim para me dizer isso sempre que te passe algo. Sei que sou um pouco tola Y...

 - Cala.

Mas ela pôs-se a rir.

 - Querido, sei o que sou. E não o lamento. Sou uma mulher de média idade que usa muito maquiagem e que morrerá sem deixar que em seu cabelo apareça a primeira cã. Mas apoio aos que amo. Faz muito que te quero, Luke. Envia esse cheque se sentir necessidade de fazê-lo. E se ele te pede mais do que tem, vêem mim. Eu tenho minhas próprias economias.

 - Obrigado  - disse ele e pigarreou - . Mas não me dói muito.

 - Quero que recorde sempre que eu não me envergonharia de nada do que tem feito ou poderia fazer.  - voltou-se para começar a recolher todas suas bolsas. - Será melhor que volte para casa. Tomará a metade da noite pensar o que colocar nas valises. Deus  - disse e se tocou as bochechas. Primeiro tenho que me arrumar a face. Não posso sair à rua com o delineador todo deslocado. -  Foi para o banho com sua carteira.  - Ah, Luke, poderia vir a casa comigo e passar a noite em seu antigo quarto. Assim seria mais singelo juntar todo pela manhã.

Poderia ser, pensou Luke e se meteu as mãos nos bolsos. Talvez seria melhor voltar para casa, embora só fora por uma noite.

 - Espera um momento que procure minhas valises  - gritou ao Lily - . E depois, levarei-te a seu casa no automóvel.

 

As comodidades atribuídas a quem protagonizava os espetáculos no Yankee Princess não eram tão luxuosas como Roxanne teria desejado. Mas, graças a sua qualidade de estrelas convidadas, deram-lhes cabines exteriores... apenas por cima do nível da água.

O camarote de dois beliches era tão pequeno que ao menos ela se sentiu agradecida de não ter que compartilhá-lo com ninguém durante as vindouras seis semanas. Seu espírito prático a afastou do olho de boi e a fez tirar o conteúdo de suas duas valises. Como era habitual, todos os objetos ficaram prolixamente pregadas ou penduradas na cômoda e no placard tamanho gnomo. Seu romantismo a fez apurar-se para estar na coberta quando soasse a sereia no momento da partida.

Mas primeiro se olhou no espelho e se retocou a maquiagem. disse-se que não era só por vaidade, pois parte da missão que a troupe dos Nouvelle tinha tomado sobre seus ombros era mesclar-se com os passageiros e mostrar-se cordiais e agradáveis com eles.

Não era um preço muito alto para um cruzeiro de seis semanas em um elegante hotel flutuante.

Tomou sua bolsa de lona, saiu do camarote e enfiou para coberta. Quão passageiros acabavam de embarcar já perambulavam pelos estreitos corredores, em busca de sua cabine ou simplesmente explorando o barco.

Quando chegou à parte superior da escada, abriu-se caminho pelo salão Lido para coberta, no setor de popa, onde alguns viajantes bebiam um coquetel de boas vindas, tomavam vídeos ou simplesmente estavam inclinados sobre o corrimão, esperando para despedir do perfil de edificação de Manhattan.

Tomou um copo alto da bandeja que levava um garçom, e enquanto bebia ficou a observar a seus companheiros de viagem.

Em linhas gerais, Roxanne calculou que a idade médio dos passageiros era de sessenta e cinco anos. Havia algumas famílias com meninos, alguma que outra parceira em lua de mel, mas em seu maior parte eram matrimônios maiores, gente solteira de bastante idade e um punhado de mulheres não tão jovens à caça de marido.

 - Poderíamos chamá-lo o Barco Geriátrico  - disse Luke ao ouvido e quase obteve que ela derramasse o líquido do copo.

 - me parece muito terno.

 - Não disse que não o fora.  - Luke decidiu que, já que foram passar as seguintes semanas bastante juntos, deveriam tratar de ter uma atitude civilizada, e lhe aconteceu um braço pelos ombros.

 - Olhe, lá está Mouse  - disse Roxanne e agitou a mão para que se aproximasse - . E? O que te parece todo isto.

 - Fantástico. - Sua face grande e pálida estava vermelha de prazer. Lhe notavam os músculos debaixo das mangas curtas da camisa floreada que Lily lhe tinha comprado.  - Deixaram-me baixar à sala de máquinas. Tenho que revisar a equipe para o espetáculo e todo o resto, mas mais tarde me disseram que posso subir à ponte e todo.

 - Têm mulheres lá abaixo?  - perguntou Luke.

 - Na sala de máquinas? Não  - disse Mouse com um sorriso - . Mas têm fotos de mulheres em todas as paredes.

 - Não te afaste de mim, companheiro. E eu te encontrarei algumas bem reais.

 - Deixa-o em paz, homem lascivo.  - E, em defesa de Mouse, Roxanne lhe aconteceu a mão pelo braço. ouviram-se duas largas sereias.  - Estamos zarpando.

 - Olhe para a coberta de acima  - murmurou Luke quando a viu procurando a alguém com a vista.

Ela o fez e os viu. Lily, com um solero azul; Max, com jaqueta branca e calças azul marinho, e LeClerc, revoando como uma sombra detrás deles.

 - Estará bem.  - Luke tomou a mão e entrelaçou seus dedos com os dela.

 - É obvio que sim. Subamos. Quero tomar algumas fotografa.

Não seria exatamente pão comido. A primeira reunião com o pessoal da bordo apagou de suas mentes a ilusão de que as seguintes seis semanas seriam uma viagem grátis de prazer. Os Nouvelle deviam dar essa noite uma mini função de boas vindas para os passageiros, junto com atuações curtas de outros artistas: uma cantor francesa, um comediante que salpicava seus monólogos com malabarismo, e o grupo Moonglades, formado por seis integrantes.

além de sua função, lhes pediu que assistissem às atividades diárias, do bingo até as excursões em terra firme. Quando descobriram que Roxanne falava francês com fluidez, imediatamente lhe solicitaram que ajudasse aos dois intérpretes do barco.

Também lhes ditaram algumas normatiza: ser corteses e cordiais com os passageiros era obrigatório; intimar muito com eles, não o era absolutamente. Estava proibido aceitar gorjetas, e não estava bem vista a embriaguez. As refeições se tomavam só uma vez que os passageiros terminassem de fazê-lo. E, no caso de algum sinistro em alta mar, os membros da tripulação e do pessoal poderiam subir aos botes isso salva-vidas depois de que todos os passageiros se encontrassem salvo.

O diretor do cruzeiro, Jack, um homem com dez anos de experiência nessas lides, adicionou:

 - Se chegarem a necessitar algo, digam-me isso Às três e meia haverá um ensaio geral no salão auditório, que fica na coberta de Passeio, para popa. E a primeira função será às oito. Tomem-se seu tempo ara familiarizar-se com a distribuição do barco.

Roxanne percorreu o barco, ensaiou, depois voltou a percorrer o barco, enquanto respondia perguntas, sorria e lhes desejava boa viagem aos passageiros.

Por volta do final da tarde, conseguiu apoderar-se de uma maçã e de algumas partes de queijo do bufet de passageiros e escondê-los no quarto de depósito no que ela e Lily se trocariam para a primeira função.

 - São tantos  - comentou Roxanne enquanto comia uma parte de queijo - . E querem sabê-lo todo.

 - Mas são agradável e cordiais  - disse Lily enquanto se trocava - . Encontrei-me com gente de todo o país. É quase como andar de novo pelos caminhos.

 - Ao Max gosta, verdade?

 - adora. Já está fascinado.

Isso foi suficiente para o Roxanne, embora tivesse que apertar o estômago com a mão ao primeiro som o barco.

 - Acredita que isto seguirá?

 - A que te refere, querida?

 - Ao movimento.

 - Do barco? É parecido a estar em um berço, não o acredita? Muito agradável e sedativo.

 - Sim. Tem razão - disse Roxanne e tragou com força.

Conseguiu sair adiante na primeira função antes de que o berço sedativo em que estava a fizesse correr até seu camarote. Justo acabava de vomitar quando Luke abriu a porta.

 - Fechei-a com chave  - disse ela, com toda a dignidade que pôde reunir enquanto estava sentada no chão.

 - Já sei. Demorei quase trinta segundos em abri-la.

 - O que quis dizer é que, posto que a fechei com chave, isso provavelmente significa que quero estar só.

 - Mmmm.  - Luke estava muito atarefado molhando um pano com água fria. Ajudou-a a levantar-se e a levou até o beliche.  - Sente-se. te coloque isto na nuca.

Mas o fez ele mesmo, e conseguiu um suspiro longo e agradecido por parte do Roxanne.

 - Como soube que estava enjoada? Passou a mão sobre as lentejoulas verdes do vestido dela.

 - Seu face tinha a mesma cor de seu roupa.

 - Já estou bem.  - Pelo menos, isso era o que esperava.  - Acostumarei-me.  - Seus olhos tinham uma expressão se desesperada quando levantou a vista para olhá-lo e perguntou:  - Não o acredita?

 - É obvio que sim.  - Era estranho ver o Roxanne Nouvelle vulnerável. Algo tão fora de quão comum Luke teve que resistir o impulso de abraçá-la e curá-la com seus beijos.  - Tome um par destas.  - E lhe entregou duas pílulas brancas.

 - Quero acreditar que não são de morfina.

 - Lamento-o. É só Dramamine. as trague com uns sorvos de ginger ale.  - E, como uma enfermeira competente, deu volta o pano e colocou sobre a nuca o lado mais frio.  - E se não melhorar, o médico do barco dará a solução. Ao ver que a cor de seu rosto começava a normalizar-se, julgou que já estava melhorando.

 - Se não se sentir bem, podemos cobrir seu parte em segunda função.

 - Não.  - ficou de pé, e obrigou a suas pernas e a seu corpo a permanecer em equilíbrio.

 - Uma Nouvelle jamais deserta do espetáculo. me dê só um minuto. Foi ao banho a enxaguá-la boca e a verificar sua maquiagem.  - Suponho que te devo uma  - disse ao sair.

 - Querida, deve-me muito mais que uma. Preparada?

 - Seguro, estou preparada.  - Abriu a porta e saiu.

 - Luke, não há por que mencionar isto, não é certo? Ele levantou as sobrancelhas.

 - Mencionar o que?

 - Está bem  - disse ela e lhe sorriu - . Devo-te dois.

Como nos dias que seguiram não voltou a sentir-se enjoada, Roxanne não teve mais remedeio que reconhecer que o movimento do barco só tinha sido o detonante de um total desafortunado de fatores: a tensão, a taça que tinha bebido ao embarcar em que pese a ter o estômago vazio, e os nervos. Não lhe funcionou fácil reconhecê-lo a uma mulher que sempre se vangloriou lhe fazer frente a todas as circunstâncias. Entretanto, seus dias estavam muito ocupados para preocupar-se com isso.

A tensão que, sem sabê-lo, tinha levado a bordo, começou a dissipar-se com cada hora que passava. Talvez teria desaparecido por completo se, ao dirigir-se à escada que conduzia à coberta Lacuna não tivesse encontrado ao Max ali parado e, ao parecer, completamente desorientado.

 - Papai?  - O não respondeu, assim Roxanne lhe aproximou e o tirou do braço.  - Papai?

O se sobressaltou, e ela viu pânico em seus olhos. Nesse instante, lhe gelou o sangue. Nos olhos de seu pai viu mais que temor: viu uma confusão total. O não a reconhecia. Olhava-a e não a reconhecia.

 - Papai  - voltou a dizer, e não pôde evitar que lhe tremesse a voz - . Está bem?

Max piscou, e um músculo começou a mover-se em seu queixo. Como uma nuvem que lentamente se levanta, a confusão se desvaneceu de seus olhos e me substituída por chateio.

 - É obvio que estou bem. por que não teria que está-lo?

 - Bom, pensei que você...  - disse ela e se obrigou a sorrir - . Que tinha perdido o caminho. me passa todo o tempo.

 - Sei exatamente aonde me dirijo.  - Max sentiu que o sangue lhe batia na base do pescoço. Quase podia ouvi-la. Por um momento, não tinha podido recordar onde se encontrava nem o que estava fazendo. E o medo fez que se irritasse com sua filha.  - Não necessito que ninguém me cuide. E tampouco eu gosto que me exortem por cada movimento que faço.

 - Sinto muito  - disse Roxanne e empalideceu - . Dá a casualidade de que ia a seu camarote. Mas não foi minha intenção te incomodar.

 - Perdão  - disse ele, sentindo de repente muita vergonha por sua atitude - . Desculpo-me. Tinha a mente em outra parte.

Ela só se encolheu de ombros, um gesto tipicamente feminino capaz de humilhar a qualquer homem.

Max tirou a chave para abrir a porta de seu camarote. Mouse, LeClerc e Luke já o estavam esperando.

 - Muito bem, queridos meus  - disse Max, tirou a única cadeira que estava junto ao escritório, e se sentou - . É hora de que coloquemos mãos à obra.

 - Lily ainda não está aqui  - assinalou Luke, e lhe preocupou ver que Max passeava a vista pela residência.

 - Ah, bom.

Roxanne se sumiu em um silêncio incômodo. rodava-se nervosamente as mãos quando Lily entrou muito acalorada.

 - Sinto chegar tarde, mas junto à piscina estavam fazendo uma demonstração de esculpido em gelo, e me Fascinou. Um homem esculpiu um pavão incrível.  - Sorriu ao Max, quem se limitou a inclinar a cabeça com ar ausente.

 - Muito bem, então. O que é o que temos? LeClerc entrelaçou as mãos detrás das costas.

 - DiMato no camarote 767. Aros de diamantes, provavelmente de dois quilates, um relógio Rolex e um pendente de safiras de entre cinco e seis quilates.

 - Os DiMato são os que estão celebrando seus casamentos de dourado  - demarcou Roxanne - . O pendente é o presente que lhe fez para esse aniversário. E os dois são muito doces e ternos.

Max sorriu com expressão pormenorizada.

 - Alguma outra coisa interessante?

 - Bom, a senhora Gullager, do camarote 620

 - disse Roxanne - . Um conjunto de rubis: bracelete, colar, aros. Parecem jóias herdadas.

 - Essa mulher é um encanto  - disse Lily e em seus olhos houve uma súplica ao olhar ao Roxanne - . O outro dia tomei o chá com ela. Vive na Virginia com seus dois gatos.

 - Outro candidato?  - perguntou Max a todos os pressente.

 - Está Harvey Wallace no 436  - disse Luke e se encolheu de ombros - . Gêmeos e alfinete de gravata de diamantes, e um Rolex. Mas.. merda, é um velho tão divertido.

 - Sim, é muito agradável  - interveio Mouse - . Contou-me todo o referente ao DeSoto que reconstruiu em 1962.

 - Os Jamison  - disse LeClerc entre dentes - . Camarote 710. Um anel de diamantes, de aproximadamente cinco quilates. Um anel de rubis, acredito que do mesmo peso. Um broche antigo de esmeraldas...

 - Nancy e John Jamison?  - interrompeu-o Max - . Passei-o muito bem jogando ontem ao bridge com eles. Ele trabalha em uma empresa de mantimentos processados e ela tem uma livraria.

 - Bon Dieu  - balbuciou LeClerc.

 - Somos lastimosamente sentimentais, não é assim?  - disse Roxanne e aplaudiu a mão do LeClerc - , algo bastante incômodo para você, estou segura. Mas o certo é que não vejo como podemos lhe roubar a pessoas com as que virtualmente convivemos todos os dias. Sobre tudo se nos caem tão bem.

Max juntou as mãos e se tomou o queixo.

 - Tem muita razão, Roxanne. Quando se estabeleceram laços emocionais, já deixa de ser divertido. - Foi olhando-os um por um.  - Estamos de acordo, então? Nenhum candidato esta semana?

Todos assentiram menos LeClerc, que grunhiu entre dentes.

 - Não te desanime  - disse Luke - . Ainda fica muito tempo por diante. É seguro que embarcará alguém que nós não gostemos.

 - Então, dou por terminada esta reunião.

 - Tem um minuto para mim?  - perguntou- Luke ao Max quando o grupo começou a dispersar-se.

 - Certamente que sim.

Luke esperou a que os dois ficassem sós, mas igual tomou a precaução de falar em voz baixa.

 - por que demônios lhe está fazendo isto ao Lily?

 - Como diz?  - perguntou Max, boquiaberto.

 - Maldito seja, Max, está-lhe destroçando o coração.

 - Isso é absurdo.  - Sentindo-se insultado, Max ficou de pé.  - De onde tirou essa ideia ridícula?

 - Do Lily. Deveu ver-me no dia anterior a nossa partida de Nova Iorque. Maldito seja, você a fez chorar.

 - Eu? Eu?  - Sacudido pela mera idéia de havê-lo feito, Max voltou a sentar-se.  - De que maneira?

 - Por negligência. Desinteresse. Está tão obcecado com essa maldita pedra mágica, que não é capaz de ver o que ocorre diante de seus olhos. Ela acredita que você não a ama mais. E depois de ter visto neste ultimo par de dias como se comporta com ela, entendo como ocorreu ao Lily pensá-lo.

Muito pálido, muito imóvel, Max ficou olhando ao Luke.

 - Não tem nenhum motivo para duvidar de meus sentimentos.

 - Ah, não?  - Luke se sentou na beira do beliche e se inclinou para diante.  - Quando foi a última vez que se tomou o trabalho de lhe dizer o que sente por ela? sentou-se com ela à luz da lua para escutar o som do mar? Sabe perfeitamente o muito que importam ao Lily os detalhes, as coisas pequenas. incomodou-se em lhe dar de presente algo sem importância? usou esta cama para alguma outra coisa que não seja dormir?

 - Está indo muito longe  - disse Max, muito tenso - . Muito longe.

 - Absolutamente. Não tolerarei seguir vendo nos olhos do Lily esse olhar tão triste. Ela seria capaz de arrastar-se sobre vidros quebrados por você, mas você não pode sequer lhe dar dez minutos de seu valioso tempo.

 - Equivoca-te  - disse Max e baixou a vista para seus punhos fechados - . E se Lily sentir o que você diz, está muito equivocada. A amo. Sempre a amei.

 - Pois não o parece. Nem sequer a olhou quando ela entrou.

 - Nesse momento falávamos de negócios  - começou a dizer, mas se freou. Sempre se tinha gabado de ser honesto, a sua maneira.  - Talvez nos últimos tempos estive algo distraído, mas jamais seria capaz de machucá-la. Preferiria me arrancar o coração antes que feri-la.

 - Diga-lhe a ela  - disse Luke dirigindo-se à porta - . Não a mim.

 - Aguarda.  - Max se apertou os dedos contra os olhos. Se tinha cometido um equívoco, faria tudo o que fora necessário para repará-la.  - Necessito que me faça um favor.

O fato de que Luke vacilasse foi para o Max uma prova de quão vexado estava e da gravidade de seus próprios pecados.

 - Qual?

 - Em primeiro lugar, queria que esta conversação ficasse entre nós dois. E, em segundo lugar, depois da função de esta noite, agradeceria-te que entretivera ao Lily, ou a mantivera longe da cabine durante ao redor de trinta minutos. Depois, quero que te assegure que virá diretamente para aqui.

 - Está bem.

 - Luke?

Tinha a mão sobre o trinco, mas se deteve e olhou para trás.

 - Sim?

 - Obrigado. Cada tanto, um homem necessita que alguém o em frente com seus defeitos e suas virtudes. Você tem feito as duas coisas.

 - Compense-a a ela.

 - Sim, farei-o.  - Max exibiu um sorriso largo.  - Isso, ao menos posso te prometer.

 - Estivemos bem  - disse Roxanne e se deixou cair pesadamente em uma poltrona, em um canto da discoteca. A segunda função da noite tinha tido tanto êxito como a primeira.

 - Metemo-nos isso no bolso.  - Luke se sentou e estendeu as pernas.  - Mas, claro, isso não é muito difícil com um público desta idade.

 - Não seja malvado  - saltou Roxanne - . Vamos, serve para algo e traz bebidas ao Lily e a mim,

 - Eu acredito que irei ao camarote  - disse Lily e examinou visualmente o salão em busca do Max - . Vocês, os jovens, deveriam divertir-se.

 - De maneira nenhuma  - disse Luke e a tirou da mão - .Não pense que irá dançar comigo.  - E a levou, rendo, à pista.

Dori, uma moça loira e alta, membro do pessoal da bordo, instalou-se na cadeira que Luke tinha deixado vazia.

 - Quer beber algo?  - perguntou ao Roxanne.

 - Uma taça de vinho branco. Um PinkLady para o Lily e uma Becks para o Luke.

 - Que sejam dois Becks  - disse Dori ao garçom.

Quando lhes serviram as bebidas, disse:

 - A primeira volta a pago eu. Na verdade eu gosto de trabalhar nos barcos que fazem cruzeiros. Quase todos os passageiros estão decididos a divertir-se e a passá-lo bem. Isso facilita muito as coisas. E a gente conhece gente tão diferente. E já que estamos nisso, que problema tem ele?

Roxanne olhou para onde Luke fazia girar ao Lily.

 - Problema?

 - Quero dizer, é estupendo, dinâmico, solteiro. Não será gay, não?

Roxanne se tentou de risada.

 - É decididamente heterossexual.

 - Como é então que não te lançaste a conquistá-lo?

Roxanne esteve a ponto de engasgar-se com o vinho.

Eu, conquistá-lo?

 - Roxanne, é um tipo incrivelmente arrumado. Faria-o eu, se não fora que eu não gosto de nadar no lago de outra pessoa.

depois de respirar fundo, Roxanne sacudiu a cabeça.

 - Não te sigo, Dori.

 - Vocês dois. É tão óbvio.

 - O que é o óbvio?

 - Entre vocês há suficiente fricção sexual para incendiar o barco.

 - Equivoca-te.

 - Ah, sim?  - Dori olhou Luke, bebeu um sorvo de cerveja e logo dirigiu seus olhos ao Roxanne.  - Está-me dizendo que não o deseja?

 - Não. Quero dizer, sim. Quero dizer...  - Não estava acostumada a turvar-se dessa maneira. -  O que quero dizer é que as coisas não são assim entre nós.

 - Porque você não quer que sejam?

 - Porque... porque não o são.

 - Estraga. Bom, eu não gosto de me colocar nos assuntos de outros.

Roxanne não pôde menos que soltar a gargalhada.

 - Isso é evidente.

 - Seja como for  - disse Dori com um sorriso - , se decidisse me colocar, daria-te um conselho muito singelo. Intriga-o, confunde-o, seduz-o. E se isso não tem efeito, te equilibre sobre ele. Tem que funcionar.

 - Sim, claro  - disse Roxanne com a vista fixa no vinho.

 - Até mais tarde  - disse Dori e se afastou. Roxanne estava tão sumida em seus pensamentos que se sobressaltou quando Luke e Lily voltaram e se sentaram.

 - Esteve muito divertido.  - Quase sem fôlego, Lily tomou sua taça.

 - te beba isso e sairemos a dançar de novo.

 - Está louco. Faz-o com o Roxy.

Roxanne voltou a engasgar-se e ficou tinta.

 - Tranqüila  - disse Luke e lhe deu golpes nas costas - . Quer dançar, Rox?

 - Não. Talvez mais tarde  - Sentia um comichão em todo o corpo e o coração lhe atingia no peito ao ritmo do contrabaixo, Fricção sexual? Era isso? Nesse caso, era letal. Bebeu outro gole, mas com mais precaução. Intriga. Muito bem, faria a prova.

 - Eu gostei de olhá-los dançar a vocês dois.  - Roçou com a mão as costas do Luke.  - Move-te muito bem, Callahan.

O ficou olhando-a. O que era esse brilho novo em seus olhos? Em outra mulher, o teria tomado como um convite. No Roxanne, perguntou-se onde o morderia ou o arranharia primeiro.

 - Obrigado.  - Levantou sua cerveja e disimuladamente consultou seu relógio.

 - Tem uma encontro?

 - O que? Não.

Que interessante, pensou Lily. Um jogo do gato e o camundongo, com o Roxanne no papel do gato.

 - Vocês dois deveriam sair a caminhar um momento por coberta. É uma noite maravilhosa.

 - Boa idéia. por que não o fazemos os três? Luke tomou ao Lily da mão e observou ao Roxanne com cautela. Devia entreter ao Lily durante outros dez minutos, e depois talvez fora prudente sair fugindo,

 - Não, não, estou um pouco cansada  - disse Lily e simulou um bocejo - . Acredito que irei deitar me.

 - Não terminaste seu gole  - disse Luke e voltou a sentar-se sem soltar ao Lily - . estive pensando em te perguntar...  - O que? Que demônios podia lhe perguntar?  - Se acredita que manhã choverá no Sidney.

 - Na Austrália?  - perguntou Lily, com os olhos totalmente abertos pela surpresa.

 - Não, em Nova Escócia. Amanhã tocamos esse porto. E teremos um par de horas livres, assim pensei que poderíamos ir à cidade e percorrê-la um pouco.

Está nervoso, pensou Roxanne, e isso lhe funcionou muito terno.

 - Eu também  - murmurou ela - . Necessita companhia?

 - Bom...

 - Seriamente estou cansada  - disse Lily, voltou a bocejar e conseguiu liberar sua mão da do Luke - . Divirtam-se.

Merda, pensou Luke. Quão único podia fazer era confiar em que o tempo transcorrido fora suficiente.

 - Eu também estou um pouco cansado.  - Luke se levantou o afastar-se Lily. E se surpreendeu quando Roxanne fez outro tanto e apertou seu corpo contra o seu.

 - Uma caminhada por coberta te ajudará a dormir melhor  - disse ela e jogou a cabeça para trás, de modo que ficaram com os olhos e a boca quase ao mesmo nível.

 - Não.  - Luke pensou em todas as coisas que gostaria de fazer com ela, lhe fazer a ela, à luz da lua. -  Posso te garantir que não. E acredito que também você deveria ir descansar.

 - Não acredito.  - Deslizou um dedo por seu braço.  - Suponho que já encontrarei a alguém que tenha vontades de dançar ou de caminhar comigo  - disse e lhe roçou a boca com os lábios - . boa noite, Callahan.

 - Sim.  - Olhou-a afastar-se e logo inclinar-se sobre a mesa onde vários animadores bebiam uma taça. Duvidava muito em poder fechar os olhos essa noite.

Lily abriu com sua chave a porta do camarote. Sorria ao pensar no Roxanne e Luke caminhando da mão à luz da lua. Fazia muito que esperava que esses dois "filhos" seus se encontrassem. Talvez esta noite, pensou, e ao abrir a porta se topou com música, rosas e luz de velas.

 - OH.  - ficou ali parada, sua silhueta recortada pela luz do corredor. Max se afastou da mesa em que aguardava uma garrafa de champanha recém aberta. Lhe aproximou e lhe ofereceu uma rosa rosada.

Não disse nada, só tomou a mão e a levou aos lábios, enquanto fechava a porta a suas costas. Logo e jogou chave.

 - OH, Max.

 - Espero que não seja muito tarde para uma pequena celebração, bon voyage.

 - Não  - respondeu ela e apertou os lábios para reprimir o pranto - . Não é muito tarde. Nunca é muito tarde.

Lhe rodeou a face com as mãos e lhe jogou a cabeça para trás.

 - meu coração  - murmurou. Seus lábios foram suaves e fortes sobre os do Lily. Depois, o beijo se aprofundou e se prolongou. Quando finalmente ele se separou, em seus olhos estava o velho brilho que ela adorava.  - Posso te pedir um pequeno favor?

 - Sabe que sim.

 - Essa negligée cor escarlate que empacotou na valise. lhe quer colocar isso enquanto eu sirvo o champanha?

 

Finalmente o entendeu. Luke passou um par de dias e um número igual de noites em vela, mas finalmente o entendeu.

Ela se propunha voltá-lo louco.

Era a única explicação razoável para a conduta do Roxanne. Não era que o sonriera tão seguido, a não ser a forma em que lhe sorria. Com essa luz estranhamente feminina em seus olhos, mescla de convite, desafio e diversão.

Em justiça, não podia culpá-la pelo fato de que não passava um dia sem que lhe desse um desses beijos etéreos que o enlouqueciam tanto.

Ainda estavam amarrados na cidade do Quebec. Do corrimão do alto podia ver formosas colinas, cale levantadas, a elegância do Chotean Fontenac. Tinha sido divertido percorrer com ela a cidade velha, ouvi-la rir, ver como seus olhos se acendiam.

Não sabia como faria para manter essa atitude fraternal durante as seguintes cinco semanas.

Girou. A maioria das reposeras de coberta estavam vazias. Como não zarpariam até as sete da tarde, muitos dos passageiros ficariam em terra até último momento. Os que preferiam descansar a bordo se encontravam duas cobertas mais abaixo, desfrutando das deliciosas massas que se serviam com o chá.

Mas Roxanne estava ali, estendida em uma reposera, os olhos ocultos depois de um par de óculos espejados, um livro nas mãos, e uma biquíni insuportavelmente direta que lhe cobria só o indispensável para não transgredir a lei.

Luke amaldiçoou entre dentes antes de aproximar-se dela.

Roxanne sabia que ele estava ali, soube do momento em que ele apareceu pela escada e se dirigiu ao corrimão. Fazia cinco minutos que estava na mesma página da novela.

Deu volta a página e estendeu o braço para tomar o refrigerante morno que estava na mesa, a seu lado.

 - Você gosta de viver perigosamente. Ela levantou a vista, arqueou uma sobrancelha e se baixou apenas os óculos para olhar por sobre o armação.

 - Parece-te?

 - Uma ruiva sentada ao sol é um convite a uma queimadura feroz.

 - Não ficarei muito tempo  - disse ela com um sorriso e voltou a calçá-los óculos - . Além disso, acabo de me passar uma loção pelo corpo  - disse, e com lentidão se passou um dedo pela coxa brilhante - . Deu ao Lily o leque de renda que lhe comprou?

 - Sim.  - Para assegurar-se de que suas mãos não faziam nenhuma loucura, as meteu nos bolsos.  - Tinha razão. adorou.

 - Viu? Tem que confiar em mim. Ela se moveu, apenas, mas Luke teve consciência de cada músculo dele, de cada detalhe de seu corpo. merecia-se que a assassinassem.

 - Jack queria saber se podia receber esta noite aos novos passageiros. Uma das garotas está em cama com um vírus.

 - Acredito que poderei fazê-lo  - respondeu ela - . Quer provar?  - e lhe ofereceu a Coca fria - . Parece quente.

 - Estou muito bem. -  Ou o estaria se conseguisse mover seu pé, que parecia parecido sobre coberta junto à cadeira do Roxanne.  - Não teria que entrar e te preparar?

 - Tenho tempo de sobra. Posso te pedir um favor?  - Tomou o frasco de loção e o arrojou.  - Me pode passar isso pelas costas?

 - Pelas costas?

 - Estraga.  - Baixou o respaldo da reposera e ficou de barriga para baixo.  - Eu não chego.

 - Seus costas está muita bem.

 - Sei bom.  - E depois de apoiar a cabeça sobre as duas mãos, suspirou como uma mulher distendida. Mas detrás de seus óculos espejados, tinha os olhos bem abertos e alertas.  - Acredito que não estaria bem visto que o pedisse a um dos marinheiros.

Essas palavras foram decisivas. Luke apertou os dentes, inclinou-se e lhe verteu a loção sobre os omoplatas. Ela voltou a suspirar e curvou os lábios.

 - Que agradável sensação  - murmurou - . Está morna.

 - Isso se explica por ter deixado o frasco ao sol.  - E começou a esparramar a loção com as pontas dos dedos, com a sensação de que o fazia objetivamente. depois de todo, não era mais que umas costas. Pele e ossos. Pele rígida e acetinada. Ossos largos e delicados. Ela se moveu sinuosamente debaixo de suas mãos, e ele se mordeu um gemido.

As mãos do Luke eram mágicas sobre a pele escorregadia do Roxanne, conjuravam imagens, acendiam rogos, nublavam o cérebro. Mas Luke não era o único que sabia de imagens e de como as controlar.

 - Agora tem que me desprender o corpete. As mãos que traçavam círculos em suas costas se detiveram.

 - Como?

 - O corpete  - repetiu ela - . Solta-me isso ou ficará a marca.

 - Está bem.  - Luke se disse que não era nada do outro mundo, mas teve que tentá-lo duas vezes antes de obter seu encargo.

Agora Roxanne fechou os olhos para desfrutar de cada uma das sensações.

 - Mmmm. Poderia conseguir trabalho com a Inga.

 - Inga?

 - A massagista da bordo. Ontem à noite tive uma sessão de trinta minutos com ela, mas é um poroto ao teu lado, Calavam. Papai sempre admirou seus mãos, sabia?

Deus santo, os ossos do Roxanne se estavam derretendo debaixo de suas mãos. A sensação erótica que Luke experimentou era intolerável. Uma série de imagens desfilaram por sua cabeça com intensidade.

O que o fez voltar para a realidade foi sua própria respiração desacompasada. Descobriu que tinha as mãos aos flancos dos seios do Roxanne, e que seus dedos estavam a ponto de reclamar esse tesouro.

Ela tremia, e era óbvio que sua excitação era idêntica a do Luke.

E estamos em coberta, ao ar livre, pensou ele com desgosto. A pleno sol. E, o que era muito pior, a relação de ambos os era tão estreita como podia sê-lo sem compartilhar um parentesco de sangue.

Ele separou as mãos.

 - Já é suficiente.

Roxanne levantou a cabeça, e com uma mão sustentou o corpete em seu lugar, enquanto com a outra voltava a baixá-los óculos.

 - É-o?

Furioso pela facilidade com que ela vencia sua força de vontade, cravou-lhe os dedos no queixo.

 - Já tenho feito o necessário para que não te queime, Rox. nos faça um favor aos dois, e mantente longe do calor.

Ela se obrigou a sorrir.

 - A qual de nós dois lhe tem medo, Calavam? Como não sabia a resposta, tornou-se para trás e ficou de pé.

 - Não force seu boa sorte, Roxy.

Mas ela, enquanto caminhava por coberta e descendia pela escalerilla, decidiu que isso era exatamente o que se propunha fazer.

 - Quem te colocou tão furioso, Loup?

 - Ninguém.  - Luke estava de pé junto ao LeClerc à entrada do cassino, e olhava aos que dançavam no Salão Montecarlo. O quarteto de músicos poloneses interpretava nesse momento "Noite e dia".

 - Então por que tem essa face? Juro-te que essa forma de olhar afugenta aos homens e estremece e faz suspirar às mulheres.

em que pese a seu mau humor, Luke sorriu.

 - Talvez isso é o que eu gosto. Onde está essa francesa platinada com a que te vi freqüentemente?

 - Enjoe-Claire. Virá em qualquer momento. É uma mulher atraente. Tem carne sobre os ossos e fogo nas vísceras. Uma viúva rica é um presente de Deus para um homem. Tem jóias. Ah - disse LeClerc, beijou-se a ponta dos dedos e suspirou - . Ontem à noite, tive seu pendente de opala na mão. Dez quilates, mon ami, talvez doze, rodeado de uma dúzia de diamantes. Mas você e o resto me fazem sentir culpado por pensar sequer em roubar-lhe Assim amanhã lhe direi adieu, e ela voltará para seu lar em Montreal com sua opala e seus diamantes, com seu anel de rubi de deliciosas proporções, e uma série de outros tesouros que me espremem o coração. E eu lhe terei roubado só sua virtude.

Divertido, Luke apoiou uma mão sobre o ombro do LeClerc.

 - Às vezes, mon ami, isso é suficiente  - disse e olhou para a entrada do salão.

Roxanne estava ali e nesse momento o primeiro oficial do barco lhe beijava a mão. O fato de que esse indivíduo fora um homem alto e bronzeado e, além disso, grego, já era bastante mau. Mas pior ainda foi o som da risada do Roxanne.

Seu vestido era uma espécie de túnica ajustada, curta e de deslumbrante cor aguamarina. Não usava breteles, e deixava ao nu os braços e os ombros do Roxanne. Virtualmente não tinha costas.

A pele que ela tinha exposto ao sol essa mesma tarde, brilhava com um tom dourado contra esse azul de sonho. Levava o cabelo recolhido com uma fivela enjoyada.

 - Não se sairá com a sua.

 - O que?

 - Já sei o que é o que se propõe  - disse Luke em voz baixa - . E não o obterá.  - Luke se dirigiu ao bar para beber um uísque. LeClerc permaneceu onde estava e riu pelo baixo.

 - Já o obteve, mon cher loup. O lobo foi preso pela puta.

Duas horas depois, Roxanne estava de pé entre as sombras, atrás do cenário, esperando o momento em que lhe tocaria agir. O espetáculo preparado para a última noite do cruzeiro compreendia a todo o elenco. E os Nouvelle se propunham deixá-los a todos com a boca aberta.

Max e Lily começaram com uma das variações de La Mulher Dividida. Assim que Lily foi recomposta para que saudassem, Luke saiu a entreter ao público com seu bate-papo e seus malabarismos de bolso.

Enquanto explicava o escapamento que planejava fazer com esposas e dentro de um baú fechado com chave, solicitou dois voluntários do público e procedeu a lhes roubar tudo o que tinham, para deleite dos pressente.

Com apenas um apertão de mãos, pendurou-se detrás da cabeça o relógio do primeiro, enquanto seguia distraindo a seus dois voluntários a quem tinha dado as esposas para que as examinassem. Ante seus mesmos narizes, roubou-lhes canivete, carteiras e moedas.

 - É realmente bom, não?  - disse Dori espiando por sobre o ombro do Roxanne.

Luke terminou seu número e a orquestra atacou com uma animada melodia.

Nesse momento entrou em cena Roxanne; Luke e ela protagonizaram uma espécie de duelo de jogos de prestidigitação dos dois extremos do cenário. O traje dele, um smoking negro com lapelas brilhantes, harmonizava com o vestido dela. A precisão nos tempos era tão essencial como a velocidade. Os objetos apareciam e desapareciam de suas mãos, multiplicavam-se e trocavam de cor e de tamanho.

Como broche final do ato, Luke cumpriu com sua promessa do escapamento do baú, para o qual teve que tratar de conseguir a colaboração do Roxanne, quem não parecia muito predisposta.

 - Vamos, Roxy, não me obrigue a fazer um papelão diante destas pessoas tão agradáveis.

 - Faz-o você só, Callahan. Sei o que ocorreu a última vez.

Luke olhou à audiência e estendeu as mãos.

 - E, bom, ela desapareceu durante um par de horas. Mas depois a fiz retornar.

 - Não.

 - Não seja má.  - Ela voltou a sacudir a cabeça, e ele suspirou.  - Está bem, então só te peço que sustente a cortina.

Ela o observou com desconfiança.

 - Quer só que sustente a cortina.

 - Sim.

 - Não há nenhuma armadilha?

 - Decididamente não.  - Girou para um flanco e lhes piscou os olhos um olho aos espectadores.

 - Está bem. Farei-o, mas só porque o público é tão maravilhoso. Até te colocarei as esposas.

E as sacudiu, fazendo que os pressente se matassem de risada ao ver que Luke abria os olhos de par em par e se apalpava os bolsos.

 - Muito ardilosa, Roxanne.

 - E tenho muitos truques mais. te coloque em posição, Callahan.

A música voltou a soar quando lhe ofereceu os punhos. Com movimentos muito exagerados, Roxanne lhe colocou as esposas, as fechou com chave e, no caso de, atou-lhe as mãos com uma corrente.

Depois rodeou o baú e abriu a tampa, para que todos vissem que tinha quatro lados e um fundo. Luke se meteu nele e, aproveitando que tinha as mãos sujeitas, Roxanne se inclinou para lhe dar um beijo forte.

 - Para que tenha sorte  - disse, empurrou-lhe a cabeça para baixo e fechou a tampa. Depois jogou os ferrolhos e os travou com chaves que tirou de seu bolso. Logo, utilizando uma cortina branca de quatro lados, parou-se sobre a tampa do baú e deixou que o tecido o cobrisse todo desde seu queixo até abaixo.

 - À conta de três  - disse em voz alta-. Um. Dois. Sua cabeça desapareceu e apareceu a do Luke.

 - Três.

O público estalou em aplausos e prosseguiu quando Luke teve deixado que a cortina caísse ao chão. Agora usava um smoking branco com lentejoulas chapeadas. Saudou com uma reverência e de repente olhou como ao descuido por sobre seu ombro. Do interior do baú brotavam golpes fortes.

 - Caramba, parece-me que esqueci algo.  - Estalou os dedos e neles apareceu uma chave. depois de abrir com ela as fechaduras do baú, levantou a tampa.

 - Muito gracioso, Calavam. Realmente gracioso. Ele sorriu e levantou em braços ao Roxanne para tirá-la do baú. Também ela usava um smoking branco, e agora suas mãos estavam algemadas e atadas com uma corrente. Ele saudou uma vez mais com o Roxanne em braços, e depois a levou até detrás da cena.

 - Preparada?  - perguntou-lhe em voz baixa.

 - Quase. Agora.

O voltou para cenário, com ela em seus braços, só que agora as mãos do Roxanne estavam livres e as dele, algemadas.

 - Poderia havê-lo feito em dois minutos menos  - queixou-se ele quando a baixou ao piso frente ao camarim.

Pela quinta vez, Roxanne se olhou ao espelho. Acabava de pentear-se e sua face tinha apenas um toque de maquiagem. A bata larga de seda cor marfim lhe delineava cada curva. ficou perfume no cabelo e depois pôs-se a andar entre uma nuvem de fragrância. Decidida, saiu da cabine e pelo corredor se dirigiu a do Luke.

O se tinha tirado quase toda a roupa salvo um par de calças cinzas de ginástica, e tratava de preparar-se para dormir pensando em outros métodos de escapamento.

Grunhiu para ouvir que chamavam. Seu olhar distraído, para ouvir que a porta se abria, converteu-se em uma surpresa total ao ver o Roxanne.

 - O que? O que acontece? Algum problema?

 - Não acredito  - respondeu ela e se recostou contra a porta. Fez girar a chave e atravessou o quarto. O se parou e se dispôs a se separá-la. Mas Roxanne só teve que apoiar a palma da mão sobre seu peito nu para quebrar suas defesas e estremecê-lo.

 - Tinha razão  - disse Roxanne e colocou os dedos estendidos sobre o coração do Luke -  a respeito de meu sentido do tempo. Isto é algo que deveria ter feito faz muito tempo.

 - Estou ocupado, Roxanne, e é muito tarde para adivinhações.

 - Já tem a resposta a este  - disse ela e, rendo, acariciou-o e subiu as mãos até seus ombros.

 - O que ocorre quando um homem e uma mulher estão juntos, sós, de noite, em um quarto pequeno?

 - Disse-te que...  - Mas ela se moveu com rapidez e lhe cobriu a boca com a sua. Pouco podia fazer com respeito à resposta de seu próprio corpo. Mas podia impedir que fora mais longe. Rogou a Deus ser capaz de obtê-lo.

 - Já está  - disse Roxanne e voltou a beijá-lo uma, duas vezes antes de se separar-se apenas o suficiente para lhe sorrir aos olhos - . Sabia que tinha a resposta.

Custou-lhe muitíssimo, mas Luke deixou cair suas mãos e deu um passo ao flanco.

 - Terminou o jogo. Agora vai-te. Tenho trabalho. Roxanne sentiu que lhe cravavam uma adaga no peito. Muito bem, pensou, talvez sangre, mas não penso me dar por vencida sem lutar. Estava em plena etapa de sedução, seguindo os conselhos do Dori. Maldito se deixaria que ele se desse conta do aterrorizada que se sentia.

 - Essa técnica não funcionou bem nem sequer quando eu tinha doze anos.  - Lhe aproximou, fora da luz, nas sombras, e conseguiu abandoná-lo.  - Tampouco funciona agora. me olhe.  - Lhe aproximou ainda mais, tanto que Luke estendeu as mãos para tomar a dos braços e impedir que seu corpo roçasse perigosamente o seu.  - Sinto como me olha quando estou no mesmo quarto. Quase posso ouvir o que pensa nesse momento.  - Os olhos do Roxanne eram como um oceano escuro e profundo, e Luke já se estava abafando nele.  - Pergunta-te como seria entre nós dois.  - Tomou o queixo e deslizou seus dedos por seu queixo.  - Também eu. Pergunta-te o que sentiria ao me possuir e fazer todas essas coisas secreta que faz tempo quer me fazer. E eu também me pergunto isso.

Ele teve que fazer um esforço supremo de vontade até para respirar. Se isso era sedução, jamais a tinha experiente antes, nunca imaginou que ela pudesse fazê-lo com tanta habilidade. Preso, só atinou a pensar. Estava prisioneiro em uma jaula de necessidades inenarráveis e a única porta de saída era sua vontade, que já fraquejava.

 - Não tem idéia do que eu quereria te fazer. Se soubesse, fugiria em seguida daqui.

O corpo do Roxanne lhe aproximou mais, com um desejo muito mais forte que o temor.

 - Mas não fujo. Não tenho medo.

 - Não tem a sensatez de ter medo. - Mas ele sim a tinha. Separou-a com brutalidade.  - Eu não sou um desses confiáveis teus amigos da universidade, Rox. Eu não seria cortês nem te faria promessas nem te diria o que acredita que quer ouvir. Assim sei uma boa garota e vai-te daqui.

Ela sentiu o comichão de lágrimas na garganta, mas permaneceu forte e com os olhos secos.

 - Nunca fui uma boa garota. E não penso ir a nenhuma parte. Ele suspirou.

 - Roxy, está-me obrigando a que fira seus sentimentos.  - Lhe aproximou e lhe aplaudiu a cabeça, sabendo que uma bofetada teria funcionado menos insultante.  - Sei que te esforçaste por levar adiante esta cena de sedução. E me adula, sério, que tenha esse entusiasmo por mim.

 - Entusiasmo?  - conseguiu dizer Roxanne quando sua voz lhe respondeu. Ao advertir como o fulminava com o olhar, Luke soube que tinha dado na tecla.

 - É um sentimento muito doce, e o aprecio, mas não me interessa. Não é meu tipo, pequena. É linda, e não posso negar que tive algumas fantasias muito apasionantes contigo ao longo destes anos, mas enfrentemos a realidade.

 - Você...  - A punhalada do rechaço quase a fez cair de joelhos.  - Está-me dizendo que não me quer.

 - Parece-me que está bem claro  - disse ele e tomou um charuto da cômoda - . Não te quero, Roxanne.

Ela poderia lhe haver acreditado. Tinha pronunciado essas palavras com tanta calma, compreensão e tom de desculpa que era um verdadeiro insulto. Havia um brilho divertido em seu olhar que cortava como uma navalha e um esboço de sorriso em seus lábios. Poderia lhe haver acreditado. Mas viu que tinha os punhos apertados com tal força que seus nódulos estavam brancos. E já tinha destroçado o charuto.

Roxanne manteve os olhos baixos um momento, sabendo que necessitava uma pausa para eliminar deles a expressão de triunfo.

 - Está bem, Luke. Só te peço uma coisa. O respirou fundo e pareceu aliviado.

 - Não se preocupe, Rox, não lhe mencionarei isto a ninguém.

 - Não é isso.  - Levantou a cabeça e a beleza deslumbrante de seu rosto apagou o fácil sorriso do rosto do Luke.  - O que quero te pedir é... que me demonstre isso.

Dito o qual, soltou o cinturão da bata.

 - Basta.  - Deixou cair o charuto esmiuçado e retrocedeu.  - Por Deus, Roxanne, o que está fazendo?

 - te mostrar o que assegura não desejar.  - Sem deixar de olhá-lo, jogou a bata para trás e a deixou cair ao chão. Debaixo tinha mais seda, uma camisa da mesma seda cor marfim, com renda. Enquanto ele tratava de recuperar o fôlego, um dos breteles deslizou a ela do ombro.  - Se disser a verdade, isto não deveria te causar problemas, verdade?

 - Vístete. Sal daqui. Não tem nenhuma pingo de orgulho?

 - Tenho mais que suficiente.  - E sentiu ainda mais orgulho quando viu o desejo indefeso nos olhos do Luke.  - O que parece me faltar neste momento é vergonha. Neste momento  - murmurou, lhe aproximou e lhe jogou os braços ao redor do pescoço - , não tenho nem um milímetro de vergonha.  - Inclinou a cabeça e lhe mordeu o lábio inferior. O grunhido que lançou Luke fez que ela soltasse a gargalhada.  - me diga de novo que não te interesso. diga-me isso de novo.

 - Maldita seja, Rox.  - Tinha de novo as mãos em seu cabelo, fechadas em um punho.  - É isso o que quer?  - Fez-a girar com tal força que foi dar contra a cômoda enquanto a boca dele se estrelava na sua.  - Quer ver o que posso te fazer, o que posso te obrigar a fazer? Quer que te use para depois te fazer a um lado?

Roxanne jogou a cabeça para trás.

 - Tenta-o.

Ele a amaldiçoou, atraiu-a para si, jogou-a na cama e se atirou sobre ela. Sem cuidado, sem compaixão, cobriu-a com suas mãos, rasgou a seda, machucou-a e se odiou pela onda de excitação que sentiu cada vez que ela gemia ou ofegava.

Pensou que os dois se iriam ao inferno, mas que antes passariam pelo paraíso.

Por entre um labirinto de necessidades e medos, Roxanne reconheceu a fúria do Luke. E sua avidez. Soube que ele tinha mentido, e como, enquanto gritava quando sentiu sua boca fechar-se com fome sobre seu peito.

Afundou os dedos no cabelo do Luke e se estremeceu. Essa era a verdade, essa sensação se desesperada para caos era a verdade. O resto era uma ilusão, uma simulação, um engano.

Ele ficou sem fôlego quando levantou a cabeça para olhar ao Roxanne. Também sem fôlego e machucada. Mas, de algum jeito, a raiva tinha desaparecido.

Debaixo do dele, o corpo do Roxanne vibrava.

Sabendo-se perdido, baixou a frente para ela.

 - OH, Rox  - murmurou e lhe acariciou os ombros. Sem vacilar, ela o rodeou com seus braços.

 - me escute, Calavam. Se agora te detiver, terei que te matar.

A risada foi um alívio.

 - Roxy, a única forma em que poderia me deter agora seria se já estivesse morto.  - Levantou a cabeça. Ela viu a concentração em sua face, a mesma que lhe tinha visto tantas vezes quando ele preparava um truque complicado ou um escapamento perigoso.  - Já cruzamos a linha, Roxanne. Esta noite não posso deixar ir.

 - Graças a Deus  - disse ela com um enorme sorriso de felicidade.

Ele sacudiu a cabeça.

 - Faria melhor em rezar  - advertiu-lhe ele e uniu sua boca com a sua.

 

Por fim. Foi o último pensamento coerente que aconteceu a mente do Roxanne quando a boca do Luke se fixou sobre a sua. Por fim.

Outra mulher talvez teria desejado escutar palavras ternas, mãos lentas, uma suave persuasão. Mas ela não necessitava isso nesse momento. Cada desejo que havia sentido, cada fantasia que tinha tecido em segredo foi concedido com as exigências selvagens e decididas das mãos e os lábios do Luke.

Deu-lhe o presente mais prezado que uma mulher lhe pode outorgar a um homem: sua entrega total.

Esse era seu poder e seu triunfo.

As necessidades que tinham germinado timidamente em seu interior floresceram do todo. Os temores misturados com elas a fizeram estremecer-se. Jamais imaginou, nem em suas fantasias mais secreta, que era possível sentir-se assim.

Indefesa e forte. Enjoada e sensata.

Voltou a rir, pelo mero prazer de fazê-lo.

Cada suspiro, cada ofego intensificava a avidez do Luke. Era Roxanne a que estava debaixo dele, e seu corpo esbelto e ágil tremia com cada toque, sua boca ofegante se fundia com a sua, sua fragrância o fazia enlouquecer.

A luz seguia brilhando com intensidade, não com a semipenumbra com que se está acostumado a fazer o amor. O cobertor que não tinham afastado era áspero contra a pele de ambos. O beliche estreito se balançava com os movimentos do barco. Mas Roxanne se arqueava contra ele e para o Luke não havia nada mais que ela e o que ela tão temerariamente lhe oferecia.

Ele desejava mais, necessitava mais, e rasgou o que ficava da camisola do Roxanne para senti-la toda.

Impaciente, urgente, a mão do Luke baixou e descobriu que ela já estava quente, molhada e espectador. Com um movimento violento a levou a um primeiro clímax monumental.

Ela sentiu como se a tivessem esmigalhado em duas com a mesma facilidade com que se partiu a seda cor marfim. Seu corpo se estremeceu, convulsionou-se, explodiu antes de que sua mente conseguisse compreendê-lo. Inclusive quando se tornou para diante, maravilhada e aturdida, ele já voltava a acariciá-la com força.

Roxanne teria querido lhe dizer que esperasse, que lhe desse um momento para recuperar o fôlego e a razão. Mas Luke voltou a levá-la a outro orgasmo até que seu fôlego era um soluço nos pulmões e toda razão era impossível.

Com voracidade, ele se apoderou de seu seios, um depois do outro, com os dentes, a língua e os lábios, de modo que a resposta dela propagou a todo o corpo e inclusive aos ossos.

O sangue atingia na cabeça do Luke e pulsava sem piedade em seus genitais. Tremia como um padrillo quando finalmente a montou e lhe levantou os quadris e a penetrou bem fundo.

Ela lançou um grito, e se arqueou quando a dor a "transpassou como um relâmpago branco e gelado em meio de tanto calor. Seus quadris se sacudiram como tratando de fugir e ele gemeu.

 - Por Deus, Roxanne.  - O suor lhe perolava a frente quando lutou contra todo seu instinto para permanecer imóvel e não machucá-la mais.  - Deus santo.

Uma virgem. Sacudiu a cabeça em um intento desesperado de limpá-la, enquanto seu corpo vibrava no fio da navalha, entre a frustração e o desejo de terminar. Roxanne era virgem e ele tinha arremetido contra ela como uma aplanadora.

 - Sinto muito, querida. Sinto muito.  - Palavras sem sentido, pensou Luke ao ver as primeiras lágrimas rodar pelas bochechas do Roxanne. apoiou-se nos braços e se preparou para sair dela com a maior suavidade possível.  - Não te machucarei.

O fôlego do Roxanne tremeu por entre seus lábios. Ainda sentia dor, uma dor irradiada e outro, mais profundo e mais suave. E, misturado com os dois, uma sensação de glória ainda não alcançada. Instintivamente arqueou os quadris ao sentir que ele se retirava.

 - Não te mova. - O estômago do Luke se converteu em uma superfície nodosa quando ela voltou a apertar-se contra ele.  - Pelo amor de Deus não o faça...  -  O prazer estava a ponto de voltá-lo louco.  - -Deterei-me.

Ela abriu os olhos e o olhou fixo.

 - Nem te ocorra.  - Preparada para a seguinte surriada de dor, agarrou os quadris do Luke, ouviu-o amaldiçoar. Mas não podia estar segura. Pois não sentia nenhuma dor, só um prazer profundo e glorioso.

O não pôde resisti-lo. Seu corpo o traiu, e agradeceu a Deus por isso. Enterrou a face no cabelo de

Roxanne e deixou que ela tomasse.

Roxanne teve a sensação de que seu corpo era um cristal delicado. Tinha medo de mover-se por temor a estalar em mil pedaços. De modo que isso é o que faz chorar aos poetas, pensou.

Suspirou e se arriscou a mover a mão para acariciar as costas do Luke. Era maravilhoso estar ali deitada, sentindo os batimentos do coração de seu amado contra o seu. Poderia haver ficado assim durante dias.

Mas ele se moveu. Roxanne fez uma careta. sentia-se um pouco dolorida. Mas como não queria perder essa sensação de proximidade e de calidez, aconchegou-se contra Luke quando ele girou e se deitou de costas.

Enquanto olhava o teto, Luke pensava que não havia insultos suficientemente fortes para o que ele tinha feito. Havia-a possuído como um animal, sem cuidado, sem ternura. Fechou os olhos. Se a culpa não o matava, Max o faria.

Até então, tinha que fazer algo para reparar o que com tanta brutalidade tinha destruído.

-Rox.

 - Mmmm.

 - Sou responsável.

Meio adormecida, ela apoiou a cabeça sobre seu ombro.

 - Está bem.

 - Não quero que se preocupe nem que se sinta culpado.

 - Do que?

 - Deste engano  - respondeu ele com impaciência. Roxanne abriu os olhos. O sorriso que tinha nos lábios se converteu em um cenho franzido.

 - Um engano? Está-me dizendo que o que acaba de acontecer foi um engano?

 - É obvio que foi. -  Rodou, levantou-se da cama e procurou sua roupa antes de que seu corpo o convencesse de repetir a experiência.  - Em muitos sentidos.  - Olhou-a e mordeu forte. Agora Roxanne estava sentada, o cabelo lhe caía sobre os ombros e se curvava seductoramente sobre seu seios. O fato de ver a mancha de sangue sobre o cobertor conseguiu anular seus desejos crescentes.

 - Sério?  - A sensação estupenda de sonho tinha desaparecido. Se Luke não tivesse estado tão ocupado em amaldiçoar-se, teria reconhecido o brilho de batalha em seus olhos.  - por que não me diz algumas dessas razões?

 - Pelo amor de Deus, Roxanne, quase é minha irmã.

 - Ah.  - cruzou-se de braços e endireitou os ombros. Teria sido um gesto muito forte se não tivesse estado completamente nua.

 - Acredito que nessa frase, a palavra que importa é quase. Não há nenhum parentesco de sangue entre nós, Calavam.

 - Max me recebeu em sua casa.  - Para poder manter a sensatez, Luke abriu uma gaveta e tirou uma camiseta de manga curta. A jogou no Roxanne.  - Brindou-me um lar, uma vida. E eu traí todo isso.

 - Que disparate  - disse ela e lhe arrojou a camiseta de volta.  - Sim, recebeu-te e te deu um lar. Mas o que aconteceu aqui foi algo entre os dois, só entre nós dois. Não tem nada que ver com o Max nem com uma traição.

 - Ele confiava em mim.  - Com severidade, Luke tomou a camiseta e a jogou para a cabeça do Roxanne, quem ficou de pé de um salto.

 - Acredita que Max estaria escandalizado e furioso porque nos queremos? Não é meu irmão, maldito seja, e se pensa seguir ali parado e me dizer que faz alguns minutos pensava em mim como uma irmã, é um mentiroso de primeira.

 - Não, não pensei em você como uma irmã.  - Agarrou-a dos ombros e a sacudiu.  - Não pensei nisso absolutamente, esse é o problema. Desejava-te. Faz anos que te desejo. É algo que me esteve carcomendo por dentro.

Ela jogou a cabeça para trás. O gesto era todo um desafio, mas uma suave calidez ardia em seu interior. Durante anos. Fazia anos que ele a desejava.

 - De modo que estiveste jogando comigo desde que eu tinha dezesseis anos. E todo porque me queria e seu cérebro diminuto e tortuoso acreditava que isso era algo assim como... um incesto emocional.

Ele abriu a boca e a fechou. por que de repente isso soava tão ridículo?

 - Sim, mais ou menos.

Não sabia que resposta esperava dela, mas por certo não era a risada. Roxanne se pôs-se a rir a gargalhadas até que lhe encheram os olhos de lágrimas. sentou-se na beira da cama.

 - Por Deus, que pedaço de tarado.

O orgulho do Luke estava em jogo. Maldito se ia reconhecer que uma mulher nua, e morta de risada a gastos dele, podia excitá-lo até o extremo de estar a ponto de choramingar e suplicar.

 - Não vejo o que tem de gracioso.

 - Brinca? É divertidísimo.  - Roxanne se separou o cabelo da face e o olhou.  - E também extremamente doce. Estava protegendo minha honra, Luke?

 - te cale.

Ela riu entre dentes e se secou as lágrimas das bochechas.

 - Pensa-o, Calavam. Realmente, pensa-o um momento. Você está ali parado, morto de culpa por ter feito o amor com uma mulher que usou todos os métodos imagináveis para te seduzir. Uma mulher a que conhece desde quase toda a vida, e que não tem, repito-te, não tem nenhum parentesco contigo. Uma mulher solteira, com idade suficiente para saber o que faz. Não te parece gracioso?

O se meteu as mãos nos bolsos e franziu o sobrecenho.

 - Não muito.

 - Está perdendo seu senso de humor.  - ficou de pé e o abraçou. Seu seios nus lhe roçaram o torso e Roxanne teve a satisfação de sentir como se estremeciam os músculos do Luke. Mas não lhe devolveu ao abraço.  - Se isso for o que sente, suponho que terei que te seduzir todas as vezes. Acredito que estou em condições de fazê-lo.  - Mordiscou-lhe os lábios e sorriu ao olhar para baixo.  - E parece que você também.

 - Termina-a. Também há outras coisas.

 - Está bem  - disse ela, deslizou os dedos pelas costas do Luke e lhe beijou o pescoço - . As ouçamos.

 - Maldição, foi virgem.  - Agarrou-lhe os braços e a separou para poder escapar.

 - E isso te incomoda? Sempre acreditei que isso adulava aos homens.

 - O que?

 - Bom, poder entrar onde nenhum homem esteve antes.

Ele reprimiu a risada.

 - Deus.  - Desejou ter uma cerveja, ou melhor, um papelão de seis latas, mas se conformou com uma garrafa morna de água mineral.  - Olhe, Roxanne, a questão é que não o fiz bem.

 - Ah, não?  - Inclinou a cabeça com ar de curiosidade.  - Não posso imaginar que haja tantas maneiras de fazê-lo.

O se engasgou e colocou a garrafa sobre a mesa. Deus santo, não só virgem mas também eróticamente inocente.

 - O que aconteceu com todos esses companheiros de faculdade? Não souberam o que fazer contigo?

 - Bom, suponho que sim... se eu o tivesse querido.  - Voltou a sorrir, segura de seu poder. Quando voltou a falar, fez-o com voz doce.  - Eu queria que você fosse o primeiro.  - Viu a emoção nos olhos do Luke e lhe aproximou.  - Só desejava a você.

Ninguém nem nada o tinham comovido tanto em sua vida. Com suavidade, acariciou-lhe o cabelo.

 - Machuquei-te. Se ficar a meu lado, o mais provável é que volte a fazê-lo. O que disse antes sobre o que há em meu interior é certo. Há coisas que ignora. Se as soubesse...

 - Sei-as.  - Deslizou-lhe uma mão pelas costas, sobre as cicatrizes.  - Faz anos que sei, desde dia em que o contou ao Max. Ouvi-te. Chorei por você. Não te afaste  - disse e o encerrou entre seus braços com força para que ele não pudesse ir-se - . A sério acredita que eu pensaria distinto de você pelo que lhe fizeram quando foi menino?

 - Eu não gosto da piedade  - disse ele, muito tenso.

 - Eu não lhe estou dando isso.  - Os olhos do Roxanne estavam escuros e ardentes quando jogou a cabeça para trás.  - Mas sim compreensão, a compreensão que tem que aceitar, a que só te pode dar alguém que te conheceu e amou durante toda a vida.

Esgotado, Luke apoiou a frente sobre a dela.

 - Não sei o que te dizer.

 - Então não me diga nada. Só fica junto a mim.

Não houve muito tempo para desfrutar da sensação de despertar em braços do Luke, e nenhum absolutamente para vadiar pela manhã. Roxanne se tomou apenas um minuto para aconchegar-se mais perto do Luke enquanto pelo alto-falante ouvia o anúncio dos preparativos para o desembarque. Um beijo longo e dormitado, alguns grunhidos de frustração e por fim se levantou, ficou as calças de ginástica do Luke e a camiseta que tinha rechaçado a noite anterior. Enquanto se sujeitava as calças na cintura com uma mão, entreabriu a porta e passeou a vista pelo corredor. Para ouvir que Luke ria a suas costas, olhou por cima do ombro.

Roxanne tinha o cabelo despenteado, a face arrebatada, os olhos pesados e sonhadores. Parecia, pensou Luke contendo o fôlego, exatamente o que era. Uma mulher que acabava de passar a noite com seu amante.

E ele era seu amante. O primeiro. O único.

 - Espero-te em coberta dentro de quinze minutos, Calavam, disse com voz rouca.

 - De acordo.

Sustentando-os calças, Roxanne correu a sua própria cabine e, um quarto de hora depois, apresentou-se na Coberta Lido. Os passageiros estavam reunidos nos salões, com bolsas de compras, enquanto bocejavam, conversavam e aguardavam seu turno para baixar a terra. Roxanne o passou estreitando mãos, beijando bochechas e intercambiando abraços, enquanto o alvoroço ia acalmando-se cada vez mais.

Às dez da manhã, só ficavam a bordo a tripulação e uma pequena percentagem dos passageiros, que se dirigiam de volta a Nova Iorque. Os novos não subiriam ao barco até a uma da tarde. Max aproveitou o intervalo de tranqüilidade para chamar um ensaio.

Roxanne se alegrou de ver seu pai em atividade, talvez com algo mais de lentidão mas sem as vacilações que tanto a tinham preocupado.

Ela o fez todo bem, dos truques com cartas até outros com sogas e efeitos mais importantes, sem trair o que estava em sua mente e seu coração. Manteve baixo estrito controle as imagens do Luke tombando-a na cama e as lembranças que lhe proporcionavam excitação e prazer. Alegrava-lhe que ninguém, salvo ela mesma e seu homem, estivesse informado do salto espetacular que tinha tomado sua vida.

 

Mas, certamente, o amor é cego.

Lily suspirava cada vez que os olhava. Seu coração romântico a levava a chorar de alegria. LeClerc se mordia os lábios. Até Mouse, que tinha passado a maior parte de sua vida sem emprestar atenção às mudanças sutis entre os homens e as mulheres, sorria e se ruborizava.

Só Max não parecia notar o que ocorria.

 - Não é maravilhoso?  - disse Lily e voltou a suspirar quando ela e Max se tomaram a hora livre na coberta Lido, agora quase deserta, frente a taças de consomé e de chá de ervas.

 - É-o, por certo.  - E lhe aplaudiu a mão, pensando que se referia a esse momento de tranqüilidade, à brisa fresca e a visão de Montreal que se apreciava desde bombordo.

 - É como ver que um sonho muito ansiado se faz realidade. Confesso-te que começava a pensar que isso nunca ocorreria entre os dois.

Max piscou e franziu o sobrecenho.

 - De quem está falando?

 - Do Roxy e Luke, tolo.  - Apoiou os cotovelos na mesa e suspirou com ar sonhador.  - Arrumado a que neste momento estão caminhando por Montreal tirados da mão.

 - Roxanne e Luke?  - foi tudo o que pôde dizer Max - . Roxanne e Luke?

 - É obvio, querido. A quem acredita que me referia?  - e se pôs-se a rir, desfrutando da superioridade que sentem as mulheres sobre os homens em assuntos do coração - . Não viu como se olhavam esta manhã? É um milagre que o salão não se gostou muito fogo com todas essas faíscas que voavam.

 - Sempre se lançaram faíscas. E não faziam mais que discutir.

 - Querido, isso foi algo assim como um ritual de acasalamento.

Max esteve a ponto de obstruir-se com o chá.

 - Acasalamento?  - disse com um fio de voz - . Meu deus.

 - Max, meu coração.  - Surpreendida e preocupada, Lily tomou as mãos e comprovou que tremiam.

 - Não estará aborrecido, verdade que não, querido? São tão perfeitos o um para o outro, e estão tão apaixonados.

 - O que me está dizendo é que ele... que eles...

 - Não pôde seguir falando.

 - Bom, eu não sou uma mosca nem estive no camarote, mas a julgar pelo que vi esta manhã, diria que ontem à noite se deitaram juntos.  - Disse-o em um tom jovial, mas ao comprovar que Max seguia olhando-a fixo, impactado, seu tom trocou.  - Max, está zangado?

 - Não. Não.  - Sacudiu a cabeça mas teve que ficar de pé. dirigiu-se ao corrimão como um homem em transe. Meu bebê, pensou e sentiu que acabavam de lhe arrancar um pedaço do coração. Sua pequena. E o moço que desde fazia tanto tempo queria como até filho. Tinham crescido. Os olhos lhe encheram de lágrimas.  - Teria que me haver dado conta, suponho  - murmurou quando Lily o tirou do braço.

Max voltou a sacudir a cabeça.

 - Acredita que terão o que temos nós? Ela recostou a cabeça sobre o ombro do Max e sorriu.

 - Ninguém poderia, Max.

Essa noite, Luke era a  ela. Roxanne o esperava. Não importa quantas vezes se disse que era uma tolice, estava mais nervosa agora que antes. Supôs que era algo relacionado com o controle. A noite anterior, essa primeira noite, ela tinha esboçado o percurso e se sentou segura do curso a seguir.

Essa noite, sem dúvida, ele a levaria mais longe.

alegrou-se de que ele não tivesse ido diretamente a sua cabine depois da última função, mas sim lhe tinha dado tempo para que se tirasse a maquiagem de cena, tirasse-se o vestido com lentejoulas e ficasse uma singela bata cor azul. Mas esse momento só também havia agido em seu contrário, lhe dando a seu coração a oportunidade de bater com muita força e rapidez.

Tinha sido uma tarde preciosa. Fizeram precisamente o que Lily imaginou que fariam. Caminhar pelas veredas levantadas de Montreal, escutar música norte-americana, aconchegar-se juntos frente à pequena mesa de um café sobre a rua.

Agora estavam de novo sós. O buquê de flores que lhe comprou em um colocado de rua luzia fragrante sobre seu penteadeira. A cama estava prolixamente aberta. O barco se balançava debaixo de seus pés enquanto avançava para o sul.

 - Esta noite tivemos um bom público.  - Um comentário bastante estúpido, arreganhou-se Roxanne.

 - Entusiasta  - disse Luke, sacudiu o punho e em sua mão apareceu um pimpolho branco de rosa. Ao Roxanne lhe derreteu o coração.

 - Obrigado.  - Todo sairá bem, disse-se ao tomar a flor. Agora sabia o que esperar, e podia antecipar o toque das mãos do Luke sobre sua pele e essa viagem intensa para o esqueço. depois de todo, a dor tinha sido fugaz. Sem dúvida alguns momentos de mal-estar eram um preço bem baixo para o maravilhoso prazer de jazer aconchegada em seus braços.

Em seus olhos ele via os nervos com a mesma claridade com que via sua cor. Não tinha sentido seguir amaldiçoando-se por sua negligente iniciação da noite anterior. Pelo menos tinha tido o bom tino de passar o resto da noite tendo-a em seus braços.

Roçou-lhe a bochecha com a mão e viu como seus olhos subiam lentamente da rosa a sua face. Agradeceu a Deus que houvesse neles muito mais que medo. Podia obter que esse medo desaparecesse. Passou uma mão diante de seu rosto e a fez rir quando ela viu a vela que apareceu entre seus dedos.

 - Muito inteligente.

 - Ainda não viu nada.  - aproximou-se do penteadeira e lhe colocou em cima um castiçal de cristal que tinha juntado na sala de jantar. Colocou a vela e estalou os dedos. O pavio se acendeu e a chama brilhou com intensidade.

um pouco mais relaxada, Roxanne sorriu.

 - Tenho que aplaudir?

 - Ainda não.  - Sem deixar de olhá-la, apagou as luzes e se tirou a jaqueta.  - Pode esperar até que  o espetáculo tenha terminado.

Inconscientemente, ela se levou a mão à garganta.

 - Há mais?

 - Muito mais.  - Lhe aproximou. Não era muito justo que fora recompensado em lugar de açoitá-lo por seu comportamento da noite anterior. Mas a compensaria por isso. Compensaria-os aos dois. Tomou a mão que Roxanne ainda tinha na garganta, a girou, apertou seus dedos contra a palma e os deslizou ao punho frágil onde o pulso batia com a força de um trovão.  - Disse-te que havia mais de uma maneira, Roxanne.  - Com a mão dela ainda sujeita pela sua, foi lhe dando beijos no queixo.  - Mas, igual a acontece com a magia, mostrar é melhor que dizer. E prometo que não voltarei a te machucar.

Para ouvir isso, ela abriu os olhos. Esses olhos nos que se livrava uma luta entre as dúvidas e os desejos.

 - Está bem  - murmurou ela e levantou a boca em resposta a seu convite.

 - Confia em mim.

 - Isso faço.

 - Não, ainda não confia.  - Cobriu sua boca espectador e a beijou até que ela vibrou.  - Mas o fará  - disse e tomou em seus braços.

Roxanne se preparou para a luta. Uma parte de seu ser ardia em desejos de sentir essas mãos fortes e essa boca urgente. Mas essa noite seus lábios eram suaves, sedutores, até sedativos quando murmuraram sobre os seus.

 - Tenho lugares aonde te levar. Lugares mágicos.

Ela não teve outra opção que segui-lo. Seu corpo já flutuava antes de que terminasse seu primeiro beijo e maravilhoso. Luke deixou os lábios do Roxanne tremendo e desejando mais e se embarcou em sua própria travessia lânguida, enquanto lhe beijava a pele, atrasava-se em sua garganta.

Os braços que se levantaram para envolvê-lo ficaram de repente lassos, e Luke soube que lhe pertencia.

 - Quero te olhar  - sussurrou e, suavemente, separou-lhe a bata.  - Deixa que te olhe.

A beleza do Roxanne lhe abrasou o coração e lhe derreteu o sangue. Mas nessa tênue luz, foi tocando a pele com as pontas dos dedos: deslizou-os por suas curvas e terrenos baixos e lhe maravilhou o contraste de sua própria pele contra a dela, cativado pelos tremores que cada carícia suscitava no Roxanne.

 - Antes estivemos apurados  - disse e, baixando a cabeça, com muita suavidade lhe acariciou os mamilos com a língua - . E possivelmente estaremos apurados mais tarde.  - Quando se endireitou para olhá-la, fez girar o mamilo umedecido entre seu polegar e seu índice, beliscando e tironeando com suavidade, para levá-la a esse ponto incrível em que a dor e o prazer se unem.  - Mas agora tomaremos todo o tempo que seja necessário, Roxanne.  - E deslizou um dedo para baixo pelo centro de seu corpo, desfrutando de cada estremecimento do Roxanne enquanto ele seguia descendendo por seu suave triângulo de pêlo para acariciar é ponto tão secreto e sensível.

 - Quero te fazer coisas. Quero que me permita isso.

Ela o via à luz da vela. Seu peito agora estava nu, embora Roxanne não recordava que ele se tivesse tomado tempo para tirá-la camisa. Sentiu sua ereção contra a perna, e então compreendeu que estava tão nu como ela.

Vá se lhe fez coisas, tal como o tinha prometido. Coisas deliciosas, impossíveis, deliciosas.

Mostrou-lhe o que era sentir-se desejada, ser entesourada e, por fim, o que era ser possuída lentamente, como um veleiro que navega em um rio sereno e se perde na bruma.

Penetrou-a sem dor e sem problemas, e ela estava quente e úmida e mais que preparada. Seu corpo se elevou para recebê-lo. Luke jamais imaginou que seria tão fácil, que poderia sentir uma dor tão doce quando ela se fechou ao redor dele. O ritmo foi crescendo, igual às necessidades de ambos.

 - Roxanne  - disse ele com voz rouca e agarrou as renda do controle como um homem que luta contra uma besta selvagem - . Me olhe. Necessito que me olhe.

Sua voz pareceu brotar de um extremo do túnel longo e escuro no que o corpo do Roxanne voava. Levantou as pálpebras e o viu. Os olhos do Luke eram de um azul violento, como o calor no centro da chama.

 - Agora me pertence  - disse ele e apertou sua boca, contra a do Roxanne no momento em que o clímax explodia dentro dela. Só a mim, pensou e deixou que seu corpo a acompanhasse.

Roxanne não estava segura de poder voltar a mover-se, mas quando o fez foi girar a cabeça e procurar a boca do Luke. Ele respondeu com um murmúrio ininteligível e rodou para trocar as posições de ambos.

 - Assim está melhor  - disse ela com um suspiro, agora que podia voltar aspirar. Esfregou sua bochecha uma vez mais contra o peito do Luke.  - Não sabia que podia ser assim.

Tampouco ele. Mas ao Luke pareceu que ficaria como um tolo se o dizia e, em troca, acariciou-lhe o cabelo.

 - Não te machuquei?

 - Para nada. Tive a sensação de ter levitado até a lua.

 - Acariciou-lhe o peito. Quando deslizou seus dedos sobre o ventre do Luke, sentiu que seus músculos se estremeciam. Bom, bom, pensou, sorrindo para si. De modo que ele não era o único que tinha poder em suas mãos. Muito em breve colocaria em prática o que acabava de descobrir.

 - Então...  - disse ela, levantou a cabeça e olhou para baixo em direção ao Luke - . Quantas maneiras tem que fazê-lo?

Ele arqueou uma sobrancelha.

 - me dê alguns minutos e lhe mostrarei isso. Embriagada com seu próprio prazer, Roxanne trocou de posição e subiu em cima dele.

 - por que não me mostra isso agora mesmo?  - sugeriu ela e fechou sua boca sobre a do Luke.

 

Luke e Roxanne teriam negado com veemência qualquer insinuação de que ambos tivessem caído no clichê denominado "romance em um barco". Talvez a brisa marinha, as espetaculares postas de sol e as cobertas banhadas pelo claro de lua poderiam influir sobre outras parceiras, mas não sobre eles.

Os dois fizeram descobrimentos. Para alívio do Luke, ele conheceu que não era um tolo ciumento. Inclusive desfrutava da forma em que os homens giravam a cabeça quando Roxanne entrava em um salão. Podia sorrir quando a via flertar ou alguém tomava uma atitude sedutora com ela. As duas coisas eram uma questão de orgulho e confiança, mescladas com um toque de arrogância. Ela era formosa e lhe pertencia.

Roxanne descobriu que detrás da fachada do garotinho duro e aflito que tinha conhecido a maior parte de sua vida, escondia-se um homem bondoso e terno do que ela se apaixonou. O verniz de sofisticação e encanto era uma capa muito fina sobre um leito ardente de paixões. Mas, junto com isso, existia uma forte sensação de lealdade e um desejo de amor que não era menor que o seu.

Os dois podiam comunicar-se mutuamente, inclusive em um salão repleto de gente. Não precisavam tocar-se nem pensar, um olhar era mais que suficiente.

além dessa fantasia apaixonada que lhes ocupava os dias e as noites, os dois estiveram de acordo em que só lhes faltava uma coisa: ainda tinham que escolher um alvo. Seu sangue de ladrão se impacientava. É certo que tinham aliviado transitoriamente essa impaciência despojando à senhora Cassell de jóias antigas com marcasita e rubis. Como a velha protestona tinha passado sete dias a bordo do Yankee Princess queixando, exigindo coisas e fazendo a vida impossível ao Jack, o diretor do cruzeiro, os Nouvelle pensaram que era uma questão de honra lhe dar um autêntico motivo de queixa.

Mas o trabalho tinha sido muito singelo. Roxanne só teve que deslizar-se no camarote da senhora Cassell entre uma aparição em cena e outra, e tirar de entre a pilha de valises a meio desempacotar o alhajero fechado com chave. Ao observar o mecanismo teve que alterar seu plano original. Em lugar de sair e passar o joalheiro ao Luke, usou uma das forquilhas da senhora para abrir a fechadura. Quando as jóias estiveram no bolso de seu smoking de atuação, voltou a fechar o alhajero e saiu da cabine.

Tal como estava planejado, Luke apareceu nesse momento pela galeria de popa.

 - Algum problema? Ela sorriu.

 - Nenhum absolutamente.  - E arqueando uma sobrancelha; aplaudiu-se os bolsos.  - Só preciso procurar algo em meu camarote  - disse enquanto sorria - . Não chegarei tarde a minha entrada em cena.

Luke a rodeou com os braços e a beijou. E seus dedos ágeis lhe revisaram o bolso para fazer um inventário da colheita obtida.

 - Tem três minutos, Rox.

Demorou menos da metade desse lapso para guardar as jóias no falso fundo de seu estojo de maquiagem. Teve tempo também para retocá-la pintura dos lábios que Luke lhe tinha tirado e chegar a cena.

Todos estiveram de acordo em que os engaste eram elegantes e as pedras, excelentes. Mas tinha sido muito singelo, e sentiram saudades a excitação que implica um desafio.

Os Nouvelle, um e todos, desejavam um trabalho a sério.

 - Possivelmente deveríamos tentar algo em algum dos portos  - disse Roxanne com ar ausente. Ela e Lily se encontravam de pé em coberta. Os novos passageiros embarcados em Montreal saíam ali, com seu coquetel na mão e as câmaras preparadas.

 - Suponho que poderíamos fazê-lo.  - Lily seguia preocupada com o Max. despertou-se antes do amanhecer e o viu sentado no estreito sofá debaixo do olho de boi, com seus livros de investigação esparramados ao redor dele. Estava manipulando uma moeda entre os dedos. A segunda vez que lhe caiu, ela viu a expressão de dor em sua face. Uma dor que ela soube que nunca o abandonaria.

 - Concretamente, pensava no Newport  - prosseguiu Roxanne.

Esse lugar está repleto de mansões. A próxima vez que passemos por ali poderíamos ao menos investigar um pouco.

 - Parece-te tanto ao Max  - disse Lily com um suspiro - . Se não estar empenhada em um projeto, dedica-te a planejar outro. É a única forma em que se sente feliz.

 - A vida é muito curta para não desfrutar de do trabalho que alguém faz. E Deus sabe bem que desfruto de do meu.  - Em seu sorriso houve um quê de malícia.

 - O que faria se todo terminasse? Se não pudesse seguir fazendo-o. Refiro-me à magia e ao outro.

 - Se despertasse uma manhã e essa possibilidade tivesse desaparecido? E o que ficasse por fazer fora uma vida comum?  - Roxanne refletiu um momento e depois pôs-se a rir. Aos vinte e um anos, era impossível acreditar que algum dia chegaria a velhice.  - Suponho que colocar a cabeça no primeiro homo que encontrasse.

 - Não diga isso.  - Lily lhe agarrou uma mão e a oprimiu até fazê-la doer.  - Nunca volte a dizer isso.

 - Querida, só foi uma brincadeira  - disse Roxanne, surpreendida - . Conhece-me e sabe que é assim.

Roxanne olhou bem ao Lily e notou em seu rosto olheiras ocultas sob uma hábil maquiagem. A surpresa se permutou em preocupação.

 - Está bem? Não se sente bem?

 - Estou muito bem.  - Sua experiência na cena lhe permitia mostrar só o que estava disposta a mostrar.  - Talvez só um pouco cansada Y... bom, sei que é tolo, mas também sinto um pouco a nostalgia de casa.

 - Entendo o que quer dizer. Toda comida deliciosa, mas ao cabo de duas semanas, a gente estaria disposto a pagar cem dólares por um hambúrguer com batatas fritas... e dez essa vezes soma por um dia inteiro sem ter que falar com ninguém.

Essas palavras fizeram que Lily compreendesse que precisava estar só um momento, e disse ao Roxanne que iria a seu camarote por uma hora.

Ao ficar só, Roxanne passeou a vista por coberta. Novas faces, pensou, novas histórias. Gostava da variedade, sempre lhe tinha gostado, mas sentia saudades ao Luke.

Girou a cabeça quando ouviu que alguém a chamava. Por um instante seu sorriso vacilou, mas logo se manteve firmemente em seu lugar. depois de todo, era uma profissional.

 - Sam. Que mundo tão, tão menino.

 - Sim, verdade?  - Poderia ter saído de uma revista de modas. Suas calças cor ante estavam impecavelmente engomados. Sua camisa, em troca, era de algodão enrugado... das que custam uma fortuna para parecer informais. Seu braço rodeava a uma loira esbelta, que usava calças de seda azuis para fazer jogo com a cor de seus olhos, e uma blusa drapeada do mesmo tom. Mas o que mais impressionou ao Roxanne foi o singelo colar de pérolas cor creme com uma safira do tamanho do polegar de Mouse.

 - Justine, querida, quero te apresentar a uma velha amiga. Roxanne Nouvelle. Roxanne, esta é minha esposa, Justine Spring Wyatt.

 - Muito prazer  - disse Justine com um sorriso. A esposa ideal para um político, decidiu Roxanne.

 - O prazer é meu.

Roxanne também emprestou atenção a seus aros: duas pedras cor índiga e em forma de lágrima, que pendiam de um par de pérolas magníficas.

 - Surpreendeu-me verte em coberta  - disse Sam - . E estou duplamente surpreso ao ver que pertence ao pessoal do cruzeiro.  - Seu olhar baixou até o alfinete com seu nome que Roxanne levava no peito, atrasou-se ali e voltou a subir.  - abandonaste a magia?

 - Absolutamente. Durante as próximas duas semanas agiremos a bordo.

 - Fabuloso.  - Certamente que ele sabia, preocupou-se por averiguá-lo. Não pôde resistir a tentação de passar uma semana com os Nouvelle.  - Justine, Roxanne é uma maga consumada.

 - Algo muito insólito, por certo. Trabalha em festas infantis?

 - Ainda não  - disse Roxanne e tomou um coquetel da bandeja de um garçom que passava - . Esta é sua primeira viagem no Yankee Princess?

 - Bom, neste barco em particular, sim. Embora haja realizado muitos cruzeiros... o Caribe, o Mediterrâneo, essa classe de viagens.  - Levantou uma mão branca e fina para jogar com a safira rodeada de diamantes.

 - Que agradável  - disse Roxanne - . Espero que desfrute igualmente deste cruzeiro.

 - Estou segura que assim será. eu adorei que Sam me sugerisse isso como parte de nossa lua de mel.

 - OH, são recém casados.  - Sabendo que era um gesto feminino inofensivo, Roxanne ficou a estudar os anéis do Justine. Sim, uma esmeralda de dez quilates para o de compromisso, e uma aliança de platina com diamantes para o de casamentos. Desejou poder examiná-los com sua lupa.  - Que beleza. Felicitações, Sam.

 - Obrigado. eu adorarei voltar a ver seu família... e ao Luke, é obvio.

 - Não faltará a ocasião. Um prazer conhecê-la, Justine. Desfrutem da excursão.

Sorria quando se afastaram. Por fim, tinham encontrado um alvo que valia a pena.

Luke decidiu aproveitar um tempo livre na sauna com que contava o barco. Isso lhe daria a oportunidade de limpá-la cabeça e pensar no que Roxanne lhe tinha comunicado essa tarde, quando conseguiu dar com ele.

O senhor Samuel Wyatt e senhora.

Com todos os barcos que fazem cruzeiros e que tocam todos os portos do mundo, pensou e fez uma careta. Bom, teriam que agüentá-los durante a seguinte semana. Mas não estava seguro de compartilhar o entusiasmo do Roxanne ante a idéia de converter a essa parceira de recém casados em alvo de seus roubos.

Não, Luke queria meditar cuidadosamente os perigos envoltos nesse plano.

Quando a porta de madeira da sauna se entreabriu, Luke abriu um olho. Voltou a fechá-lo e permaneceu recostado contra a parede negra, com a toalha branca sujeita a sua cintura.

 - Inteirei-me que subiu a bordo, Wyatt.

 - E você, segue tirando coelhos do traseiro para ganhar a vida.  - Sam se instalou em um banco, debaixo do Luke. Só fizeram falta algumas discretas averiguações para descobrir onde passava Luke sua hora livre.  - E dançando ao compasso do velho.

 - Alguma vez aprendeu a cortar um maço com uma sozinha mão?

 - Faz tempo que abandonei os jogos. Luke só sorriu.

 - Não me parece. Sempre foi torpe com as mãos... salvo para empurrar às pequenas.

 - Ainda me guarda rancor  - disse Sam e estendeu os braços sobre o banco. Os anos tinham sido benévolos com ele. Seu corpo refletia o fruto de sua ginástica diária com um professor particular. E jogava mão de sua posição, e agora do dinheiro de sua esposa, para utilizar os serviços de estilistas do penteado, manicuras e institutos para o cuidado da pele. - Que estranho  - prosseguiu - . Roxanne não me pareceu ressentida. mostrou-se muito cordial comigo hoje.

O que essas palavras provocaram no Luke não foi raiva, como poderia ter acontecido em outra época, a não ser pura diversão.

 - Companheiro, ela quereria te mastigar e te cuspir depois.

 - Seriamente?  - Os braços do Sam se retesaram contra a madeira hirviente. Havia uma coisa que sua posição e seu dinheiro não lhe tinham podido dar: senso de humor com respeito a si mesmo.  - Acredito possível que ela me encontre mais de seu tipo do que você pensa. Uma mulher como Roxanne apreciaria mais a um homem de posição elevada que a um que nunca conseguiu superar-se. Segue sendo um perdedor, Calavam.

 - Sigo sendo muitas coisas.  - Luke abriu os olhos e ficou a estudar a face do Sam.  - Fizeram-lhe um bom trabalho no nariz. Ninguém diria que a teve rota. Salvo eu, é obvio. Adeus.

Sam apertou e soltou os punhos quando a porta se fechou detrás do Luke. Ao parecer, seu velho amigo necessitava uma lição mais contundente. Um telegrama ao Cobb, talvez, pensou Sam e tratou de relaxar seus músculos tensos. Tinha chegado o momento de espremê-lo com mais intensidade.

 - Digo-lhes que é perfeito  - disse Roxanne e olhou um rosto atrás de outro. A reunião levada a cabo entre uma função e outra no camarote de seu pai não estava saindo de acordo com seus planos.  - Qualquer mulher que usa pedras como essas pela tarde, tem que estar carregada de jóias. E, além disso, qualquer mulher capaz de casar-se com um lixo como Sam merece as perder.

 - Seja como for  - disse Max e uniu as pontas dos dedos enquanto lutava por concentrar-se - . É arriscado lhe roubar a uma pessoa que alguém conhece e que o conhece um, sobre tudo em uma situação tão limitada como esta.

 - Poderíamos fazê-lo  - insistiu ela - . LeClerc, se eu te conseguisse fotografias e descrições detalhadas de algumas das peças mais importantes, quanto tempo tomaria a seu contato fazer réplicas em massa?

 - Uma semana, talvez dois.

 - E se o apurasse? LeClerc pensou um momento.

 - Se lhe lubrificássemos mais a mão, quatro ou cinco dias. Mas, certamente, isso não inclui o tempo de entrega.

 - Isso pode arrumar-se com facilidade  - disse Roxanne e olhou a seu pai - . A última noite do cruzeiro. Quando Justine chegue de volta a sua casa e advirta a diferença, já estaremos muito longe.  - Aguardou com impaciência uma resposta.  - Papai?

 - O que?  - respondeu ele com um sobressalto e por um momento sentiu pânico enquanto tentava encontrar o fio da conversação - . Não há suficiente tempo para planejar as coisas como é devido.

Como podia ele traçar planos se quase lhe funcionava impossível pensar? Sentiu que um suor frio lhe descia pelas costas. Todos o olhavam, todos tinham os olhos fixos nele.

 - A resposta é não  - disse em tom categórico e ficou de pé. Queria que se fossem, que se fossem todos. Não suportava ver em seus rostos a pena e a curiosidade.

 - Mas...

 - Não há mais que falar.  - Disse-o a gritos, fazendo que Roxanne piscasse e que Lily se mordesse o lábio inferior.  - Ainda sou eu o que leva a batuta, senhorita. Quando necessitar seus sugestões e seus conselhos, pedirei-lhe isso. Até esse momento, faz o que te diz. Está claro?

 - Muito claro.  - O orgulho fez que mantivera a cabeça erguida, mas o choque e a pena lhe notavam nos olhos. O não lhe tinha gritado nunca antes. Jamais. Tinham discutido, sim, mas sempre com amor e respeito. E agora, quão único via na face de seu pai era fúria.  - Se me desculparem, irei caminhar um momento antes da função.

Luke ficou de pé com lentidão quando Roxanne partiu dando uma portada.

 - Estou de acordo com as razões que você deu para rechaçar o trabalho, mas não acredita que tratou ao Roxanne com muita dureza?

Max o enfrentou.

 - Não acredito necessitar seu opinião sobre como tratar a minha própria filha. Talvez você te deite com ela, mas eu sou seu pai. E minha generosidade por volta de você ao longo dos anos não te dá direito a interferir nos assuntos de minha família.

 - Max.  - Lily se aproximou para tomar o braço, mas já Luke sacudia a cabeça.

 - Está bem, Lily. Acredito que eu também irei caminhar um momento.

O mar estava salpicado pela luz das estrelas. Com as mãos fortemente apertadas contra o corrimão, Roxanne o contemplava. Uma forte dor de cabeça espreitava detrás de seus olhos, funcionado direto de rechaçar as lágrimas que os queimavam. Não choraria como uma criatura porque seu pai a tinha desafiado.

Ouviu passos a suas costas e girou com veemência. Mas não era Luke, como ela esperava, a não ser Sam.

 - Que cena tão encantadora  - disse e tomou as pontas do cabelo - . Uma mulher formosa à luz das estrelas, emoldurada pelo oceano.

 - Perdeu a seu esposa?  - E deliberadamente olhou para trás dele antes de levantar uma sobrancelha.  - Não a vejo por nenhuma parte.

 - Justine não é a classe de mulher que precisa estar pega a seu marido.  - Trocou de posição e capturou ao Roxanne ao colocar as duas mãos sobre o corrimão. Um relâmpago de desejo o percorreu. Era formosa, e pertencia a outra pessoa.

 - Deve havê-la seduzido com gestos românticos como esse.

 - Algumas mulheres preferem um discurso mais direto.  - inclinou-se para ela, e só se deteve quando Roxanne o propinó um murro no peito.

 - Não sou seu esposa, Sam, pedio também prefiro as coisas claras. Como te comporta assim? Encontro-te repugnante, patético e óbvio.  - Dou disse com um tom muito agradável e a mais encantem a dos sorrisos.  - Agora, por que não vai antes de que tenha que te dizer algo realmente insultante?

 - Lamentará essas palavras.  - Sua voz também foi suave, para benefício das poucas pessoas que caminhavam por coberta. Mas a expressão de seus olhos era gelada.  - Juro que o lamentará muitíssimo.

 - Não vejo como, quando desfrutei tanto ao as pronunciar. Agora, por favor, sal de minha vista.

 - Não terminei contigo  - disse Sam antes de afastar-se.

Esse estreito corredor atapetado que ia de seu camarote ao do Luke, era um dos atalhos mais difíceis que Max tinha devido percorrer em toda sua vida. Sabia que sua filha estava ali, junto com o homem que ele tinha considerado seu filho. Levantou a mão para bater na porta, mas voltou a baixá-la. Essa noite havia dor nos dedos de suas mãos, uma profunda dor óssea. Atingiu com força a porta da cabine, para castigar-se.

Luke abriu a porta.

 - Max? Necessita algo?

 - Queria entrar um momento, se não ter inconveniente.

Luke vacilou. Pelo menos agradecia a Deus que tanto ele como Roxanne estivessem totalmente vestidos.

 - É obvio. Quer beber algo?

 - Não, nada. Obrigado.  - E ficou parado no interior do camarote, junto à porta, olhando a sua filha.

 - Roxanne.

 - Papai.     

Os três permaneceram imóveis um momento mais, como um triângulo congelado. Três pessoas que tinham compartilhado-tantas intimidades. Max descobriu que todos os discursos que tinha preparado se desvaneceram como a fumaça.

 - Sinto muito, Roxy  - foi o único que pôde dizer - . Não tenho perdão.

 - Está bem.  - Por ele, Roxanne estava disposta a deixar de lado seu orgulho. Fez-o, estendeu suas mãos e se aproximou dele.  - Suponho que estive muito insistente e pesada.

 - Não.  - Abatido pela facilidade com que ela o perdoava, levou-se aos lábios as mãos do Roxanne - . Estava expondo seu caso, como sempre esperei que fizesse. O meu não foi justo nem bondoso. Se te servir de consolo, é a primeira vez em quase vinte anos que Lily me grita e me lança insultos.

 - Ah, sim? Quais empregou?

 - Acredito que tarado foi um deles. Roxanne sacudiu a cabeça.

 - Terei que lhe ensinar alguns melhores.  - Beijou a seu pai e voltou a sorrir.  - Fará as pazes com ela?

 - Será-me mais fácil se primeiro o fizer contigo.

 - Pois bem, já o tem feito.

 - Com os dois  - murmurou Max e olhou ao Luke.

 - Entendo  - disse Roxanne - . Parece-me que conviria que eu fora a falar com o Lily para te limpar o caminho.  - Roçou o braço do Luke ao passar e os deixou sós.

 - Há coisas que preciso dizer  - disse Max e levantou as mãos, com um estranho gesto de desvalimiento - . Acredito que, depois de todo, aceitarei esse gole.

 - É obvio.  - Luke abriu a gaveta inferior da cômoda e tirou uma pequena garrafa de conhaque. Depois, serve três dedos dessa bebida nos copos para água.

 - Você Gene algumas coisas que dizer sobre o Roxanne e eu  - começou a dizer Luke - . Perguntei-me por que não o fez antes.

 - Custa-me reconhecê-lo, mas não sabia como. O que disse esta tarde...

 - Estava zangado com o Rox  - interrompeu-o Luke - , não comigo.

 - Luke.  - Max lhe apoiou uma mão no braço. Seus olhos estavam cheios de pesar.  - Não me feche a porta. Eu estava furioso, mas a fúria, ao contrário do que afirma a crença popular, não sempre se apóia na verdade. Quis machucar, porque eu me sentia ferido. E isso me envergonha.

 - Esqueça-o. - Incômodo, Luke separou o conhaque e ficou de pé.  - Foi um momento de mau gênio, isso é todo.

 - Dá-lhe mais importância ao que disse em um momento de irritação que ao que te hei dito e mostrado durante todos estes anos?

 - Você me deu tudo o que tenho e tive. Você não me deve nada.

 - É uma pena que a gente não se dê conta do poder que têm as palavras. Se soubessem, usariam-nas com mais cuidado. Ao Roxanne funciona mais fácil perdoar porque jamais duvidou de meu amor. Confesso-te que esperava que você tampouco tivesse motivos para duvidá-lo.  - Max colocou seu conhaque, que não havia tocado, ao lado do do Luke.  - É o filho que Lily e eu nunca pudemos ter juntos. Pode entender que houve períodos em que esqueci que não é filho de minhas vísceras? E que se o pensei, não tinha importância.

Por um momento Luke não disse nada, não pôde dizer nada. Depois, sentou-se na beira da cama.

 - Sim. Porque houve momentos em que também eu quase o esqueci.

 - E possivelmente, porque essas linhas divisórias estavam apagadas em meu coração, funcionou-me difícil, muito difícil, aceitar o que há entre você e minha filha.

Luke se pôs-se a rir.

 - Também me fez acontecer muito maus momentos, a tal ponto que quase joguei ao Roxanne de meu lado. Mas não pude fazê-lo, Max, nem sequer por você.

 - Ela não se teria ido.  - Entendia a seus dois filhos. Colocou uma mão sobre o ombro do Luke e oprimiu os dedos, face ao muito que lhe doíam.  - Uma lição grátis  - murmurou e viu que Luke sorria - . O amor e a magia têm muito em comum. Enriquecem a alma, deleitam o coração. E os dois exigem uma prática constante e inexorável.

 - Recordarei-o.

 - Procura fazê-lo.  - Max se encaminhou à porta, mas se deteve quando um pensamento apareceu em sua mente.  - Queria ter netos  - disse e Luke ficou com a boca aberta - . Eu gostaria de muito ter netos.

 

Sam se sentia bastante satisfeito com o progresso de seus planos. Era um membro respeitado da comunidade, uma personalidade reconhecível em Washington. Como mão direita do senador, tinha seu próprio escritório, um bastión de masculinidade modestamente decorado com poltronas de couro e cores neutras. Tinha seu próprio secretário, um político veterano muito inteligente, que sabia exatamente a que número chamar para conseguir informação.

Embora teria preferido um automóvel estrangeiro, Sam tinha critério amplo e dirigia um Chrysler. Cada vez era maior a importância que lhe dava ao feito de comprar produtos norte-americanos. E ele tinha planos de converter-se em um filho favorito dos Estados Unidos.

De acordo com seu cronograma, seis anos depois ocuparia o lugar do senador. Os alicerces estavam jogados; anos de dedicação ao serviço público, os contatos em Washington, no mundo das grandes corporações e na rua.

Tinha estado a ponto de apresentar-se nas últimas escolhas. Mas decidiu que seria melhor ter paciência. Sabia que sua juventude lhe jogaria em contra e que algumas pessoas poderiam interpretá-lo como uma deslealdade para com o Bushfield.

De modo que se tomou seu tempo e deu os passos seguintes com serenidade e com a olhe posta na década do '90. Cortejou ao Justine Spring, a rica herdeira de uma grande loja, com linhagem impecável e aspecto refinado, e se casou com ela. Justine favorecia às instituições de caridade apropriadas, podia organizar um jantar para cinqüenta pessoas sem problemas e tinha a vantagem adicional de ser extremamente fotogênica.

Quando Sam lhe deslizou a aliança no dedo, soube que tinha dado outro passo importante. O povoado norte-americano preferia que seus dirigentes estivessem casados. No momento adequado, iniciaria sua campanha para ocupar os bancos no Senado como pai devoto de um filho, e Justine estaria grávida do segundo e último.

imaginou um novo Kennedy, não quanto à política, naturalmente. Era a época do Reagan. Mas sim a juventude, a atitude, a mulher formosa e uma família encantadora.

Funcionaria porque sabia que cartas empregar nesse jogo. Subia pela escalinata com passos lentos e calculados, e já tinha subido a metade.

Só uma coisa lhe tinha deixado ao Sam o sabor amargo do fracasso: os Nouvelle. Eram cabos soltos e embrulhados, pergunta sem resposta. Queria vingar-se deles por motivos pessoais, mas o necessitava também por imperiosos motivos profissionais: era imprescindível debilitá-los, esmagá-los, para que as coisas negativas que pudessem dizer dele não fossem tomadas em conta.

Teve tempo mais que suficiente para observar os de perto durante sua lua de mel no cruzeiro. Agora, comodamente instalado no Palácio Hemsley de Nova Iorque, esperando as festas e celebrações pelo centenário da Estátua da Liberdade, tinha tempo para efetuar um balanço de suas apreciações.

O velho parecia cansado. Sam recordava a velocidade de movimento dessas mãos uma década antes e chegou à conclusão de que Max iniciava seu decaden-recua. Funcionava também interessante que o ancião mago passasse tanto tempo procurando uma rocha mística.

Estava Lily, tão esplêndida como sempre... e também tão ingênua. Certo dia que Sam decidiu procurá-la em coberta e os dois caminharam um momento, ela não fez mais que lhe aplaudir a mão e lhe dizer quanto se alegrava de que lhe tivesse ido bem na vida.

E Roxanne. Ah, Roxanne. Se a magia existia absolutamente, existia nela. Que conjuro tinha convertido à menina flacucha e díscola em uma mulher tão incrivelmente atraente? Uma pena que não tivesse tido oportunidade de fazer algumas jogadas em direção a ela diante do Justine. Teria desfrutado em seduzi-la e em usá-la em uma forma que teria escandalizado e repugnado a sua esposa bonita e morna.

E isso o levou ao Luke. Sempre ao Luke. Nele estava a chave que conduzia aos Nouvelle. Mouse e LeClerc não eram nada, mas Luke era a peça chave. Destrui-lo racharia de tal modo a fortaleza dos Nouvelle, que certamente não seria possível repará-la. E, além disso, representaria um triunfo muito doce e pessoal.

o do Cobb não progredia na forma que esperava. Depois de partir de Nova Orleáns, tinha demorado anos em alcançar uma posição que lhe permitisse contratar detetives para investigar o passado do Luke.

O custo tinha sido alto, mas Sam o considerava um investimento a futuro e um pagamento pelo passado. Localizar à mãe do Luke foi um golpe de boa sorte. Mas Cobb, Cobb foi o prêmio maior. Rememorou aquele primeiro encontro.

Tinha saído da elegante suíte no Hemsley para encaminhar-se a um úmido bar se localizado no mole.

O ar fedia a pescado e urina, e a uísque e tabaco baratos consumidos pelos paroquianos.

Escolheu as sombras. Um chapéu com a asa bem baixa e um sobretudo amplo ocultavam sua pessoa.

Viu entrar no Cobb. Viu-o observar todos os cantos do salão. Quando o localizou, assentiu e se dirigiu ao bar. Depois, aproximou-se da mesa com um copo de uísque.

 - Tem algum assunto que tratar comigo?

 -  - Tenho um oferecimento de negócios. Cobb se encolheu de ombros e tratou de parecer aborrecido.

 - Ah, sim?

 - Acredito que conhece um conhecido meu  - disse Sam e deixou sua bebida sem tocar sobre a mesa. Tinha notado, com bastante asco, que a taça estava suja.  - Luke Calavam.

Nos olhos do Cobb apareceu uma expressão de surpresa antes de que os entrecerrasse.

 - Não o conheço.

 - Não compliquemos um assunto singelo. Você se deita cada tanto com a mãe de Calavam. Viveu com eles quando Luke era menino... me algo assim como seu padrasto não oficial. Por aquela época, você se dedicava ao proxenetismo e também à pornografia... sobre tudo com meninos e adolescentes.

A cor subiu ao rosto do Cobb, ao ponto que a rede de capilares que o cobria se acendeu como tocha.

 - Não sei o que lhe terá contado esse vagabundo ingrato, mas o tratei bem. Sempre teve comida no bucho.

 - Você deixou sua marca nele, Cobb. Eu mesmo a vi.

 - O moço necessitava disciplina.  - O uísque começava a colocar nervoso ao Cobb. Voltou a tomar um bom gole.  - Vi-o por televisão. Agora é todo um personagem. E não lhe ocorre nos pagar a sua velha e a mim por todos os anos que lhe dedicamos.

Isso era exatamente o que Sam desejava ouvir: ressentimento, amargura e inveja.

 - Você acredita que ele os débito algo?

 - É claro que sim que nos deve muito.  - Cobb se inclinou para diante.  - Se o mandou a você aqui para...

 - Ninguém me mandou. Calavam também tem uma dívida comigo. E você pode me ser útil.  - Sam colocou a mão no bolso e tirou um sobre. depois de passear a vista pelo salão, Cobb tomou. Com seu grosso polegar contou quinhentos dólares em bilhetes de vinte.

 - O que quer em troca disto?

 - Satisfação. Isto é o que quero que faça.

E assim foi como Sam mandou seu sabujo a Nova Orleáns.

Mas a chantagem não foi tão eficaz como Sam esperava. Luke pagou religiosamente os trinta ou quarenta mil dólares por ano que lhe exigiam. Haveria outro cartão postal esperando ao Luke quando retornasse a Nova Orleáns. Só que esta vez a cifra seria de dez mil dólares.

Sam calculou que vários meses seguidos de cartões com esse total conseguiriam liquidar as finanças do Luke.

Luke estava furioso. Espremeu o quadrado de cartolina branca no punho e o jogou no outro extremo da residência. Isso o aterrorizava.

Dez mil dólares. Não era o dinheiro em si mesmo; ele tinha mais que suficiente e podia conseguir mais. Era o fato de compreender que Cobb não só não desapareceria jamais, mas também se voltava cada vez mais ambicioso.

A seguinte vez poderiam ser vinte ou trinta mil.

Que o filho de puta se dirija nomás à imprensa, pensou. Os jornais se fariam uma festa esse dia.

A INFÂNCIA SECRETA DE UM MAGO IMPORTANTE

E o que?

A VIDA DE PROSTITUIÇÃO DE UM ESCAPISTA

A quem lhe importava isso caralho?

UM TRIANGULO REPULSIVO ENTRE OS NOUVELLE

As relações de um mago com seu mentor e com a filha de este.

Deus santo. Luke se esfregou a face com as mãos e tratou de pensar. Tinha direito a sua própria vida. A que se foi Armando, passo a passo, desde que fugiu desse apartamento que empesteava a gim, com a espantosa dor dos açoites nas costas e a angústia de não saber o que lhe teriam feito quando perdeu o sentido.

Não toleraria que o sujassem nem que fizessem outro tanto com as únicas pessoas que amava. E, entretanto... entretanto, perdia algo de si mesmo cada vez que respondia uma dessas postais.

Existia uma alternativa que ainda não tinha tomado em conta. Luke tomou uma taça de chá e ficou a observar seu delicado desenho de violetas contra a porcelana cor creme. Uma alternativa com a que tinha sonhado mas que jamais se atreveu a considerar.

Podia voar a Maine e tirar o Cobb de sua toca. E, então, fazer o que tanto tinha desejado cada vez que seu cinto lhe fendia a pele. Podia matá-lo.

A taça se fez pedacinhos em sua mão, mas Luke nem se alterou. Seguiu olhando para baixo enquanto a imagem se formava com mais nitidez em sua mente, e o sangue lhe corria pela palma da mão.

Podia matar.

Os golpes na porta o fizeram voltar para a realidade.

 - Olá!  - disse Roxanne com o cabelo empapado. A camiseta molhada se aderia a seu torso. Quando ofereceu os lábios ao Luke, ele aspirou a fragrância da chuva e das pradarias no verão.  - Pensei que você gostaria de um picnic.

 - Um picnic?  - Lutou por se separar de sua mente a violência e lhe sorrir ao Roxanne. Enquanto fechava a porta, observou a chuva que caía a correntes do outro lado da janela.  - Suponho que este clima pelo menos afugentará às formigas.

 - Trago asas de frango à churrasqueira  - disse ela e mostrou uma caixa de papelão.

 - Sério?

 - Sim, e um grande bol da salada de batatas do LeClerc que roubei da geladeira, junto com um burdeos branco.

 - Parece que pensaste em todo. Salvo na sobremesa.

 - Também pensei nisso. por que não procura um par de taças...? O que é isto?  - perguntou e levantou uma parte de porcelana.

 - Eu... quebrei uma taça.

Quando se inclinou a recolher os pedaços, viu o sangue em sua mão.

 - O que tem feito?  - Tomou a mão e foi estancando o sangue com a prega de sua camiseta.

 - Não é mais que um arranhão, doutora.

 - Não brinque.  - Mas viu, com alívio, que era uma ferida muito superficial.  - Seus mãos valem muito, não sei se sabe. Profissionalmente, refiro-me.

Lhe introduziu um dedo no decote.

 - Profissionalmente?

 - Sim. Bom, também tenho um interesse pessoal nelas.  - depois de lhe mordiscar os lábios, Roxanne se sentou em cuclillas.  - O que tem que essas taças, e de um saca-rolha?

O ficou de pé e se encaminhou à cozinha.

 - por que não te busca uma camisa seca? Com essa camiseta, orvalhará a salada de batatas.

 - Não penso  - disse ela, e a camiseta empapada aterrissou um passo detrás do Luke e salpicou o piso de linóleo. Luke olhou o objeto e depois olhou ao Roxanne. Será um picnic muito interessante, pensou. Frango, salada de batatas e uma mulher molhada e semidesnuda. A tensão se dissolveu em um sorriso.

 - eu adoro as mulheres com praticamente.

Depois, muito depois, lhe disse:

 - te mude a casa, vêem viver comigo, Roxanne.

 - Já tenho as valises feitas, Luke.

 

Foi algo tão fácil como tirar um coelho de uma galera. depois de todo, tinham vivido muito perto um do outro durante anos. Conheciam os hábitos, os defeitos e as excentricidades do outro.

Ela se levantava o amanhecer; ele colocava a cabeça debaixo das telhas. O se dava duchas intermináveis que esgotavam a existência de água quente; ela levava novelas à banheira e ficava inundada entre a trama e as borbulhas até que a água se esfriava.

Ele fazia ginástica com pesos no piso do living; ela preferia assistir a uma classe de ginástica três vezes por semana.

O estéreo troava com rock quando Luke tinha os controles da equipe de áudio, e adoecia com blues quando Roxanne se saía com a sua.

Mas tinham muitas coisas em comum. A nenhum sei lhe ocorreria queixar-se pela necessidade de praticar uma única rotina uma vez atrás de outra.

Aos dois adoravam caminhar pela cidade e os dois gritavam quando discutiam.

Ao longo das semanas seguintes gritaram muito. A fricção formava parte de sua relação tanto como respirar, e ambos lamentariam perdê-la.

Para o aniversário do Roxanne, Luke deu de presente uma varinha mágica de cristal, uma varinha larga e fina envolta em fios magros de prata com incrustações de rubis, ametistas e topázios de uma cor intensa. Ela a colocou sobre uma mesa junto à janela para que o sol lhe desse todos os dias e fizesse pulsar sua magia e a propagasse pelo ar.

Estavam loucamente apaixonados e o compartilhavam todo. Todo, salvo o secreto que fazia que Luke pagasse todos os meses com um cheque ao portador por valor de dez mil dólares.

Max os tinha convocado a uma reunião, mas não parecia ter apuro em começá-la. Bebeu o café quente preparado pelo LeClerc e se tomou seu tempo. O fazia sentir bem o fato de ter de novo sua família reunida. Jamais imaginou a sacudida que significou que Roxanne e Luke não vivessem mais sob seu teto. Embora estavam muito perto de sua casa, sentiu uma profunda sensação de perda.

Pensou que estava perdendo muitas coisas em um lapso muito curto. Seus filhos, que já não eram criaturas; suas mãos, que com tanta freqüência pareciam pertencer a um estranho, com seus dedos rígidos.

Inclusive seus pensamentos, e isso era o que mais o assustava. Tão seguido pareciam afastar-se flutuando dele e ficar fora de seu alcance, que se concentrava e tentava com desespero voltar a capturá-los.

disse-se que era porque tinha tantas coisas na cabeça, tantas coisas que o preocupavam.

Mas esse dia, os ter a todos ali o fazia sentir-se mais forte, mais seguro. Sua voz não refletiu nenhuma de suas dúvidas quando lhes pediu silêncio e deu começo à reunião.

 - Acredito que tenho algo interessante  - disse quando os murmúrios se aquietaram - . Uma coleção particular de jóias... O que mais me interessa dessa coleção são as safiras. A senhora em questão parece ter debilidade por essas pedras, e sua grande variedade de jóias reflete essa predileção. Há também uma gargantilha de pérolas e diamantes muito elegante que não devemos desprezar. Naturalmente, é só parte da coleção, mas acredito que satisfaz nossas necessidades.

 - Quantas peças?  - Roxanne tirou um anotador da carteira e se preparou para rabiscar informação em seu código próprio e complexo. Max voltou a sentir-se orgulhoso pela precisão e o praticamente de sua filha.

 - De safiras, nove. Dois colares, três pares de aros, um bracelete, dois anéis e um alfinete. Assegurados por meio milhão de dólares. A gargantilha está avaliada em noventa mil, mas me parece um total um pouco excessiva. Acredito mais razoável oitenta mil.

 - Temos fotografias?  - perguntou Luke.

 - Naturalmente. Jean?

LeClerc tomou o controle remoto e o dirigiu para o televisor. O aparelho se acendeu e, depois, a videocasetera começou a funcionar.

 - passei as fotografias a vídeo.  - Quando a primeira apareceu, acendeu um fósforo e, sustentando-o sobre a cazoleta da pipa, começou a aspirar.  - Estes novos brinquedos me divertem. Este colar  - prosseguiu -  tem um desenho algo conservador, não muito imaginativo. Mas as pedras são boas. São dez safiras cor azul clara. Peso total: vinte e cinco quilates. Os diamantes são baguettes de muito boa qualidade e de um peso total de aproximadamente 8.2 quilates.

Mas foi a seguinte diapositiva a que prendeu a atenção do Roxanne. Com uma leve exclamação de surpresa ficou olhando a tela e depois se dirigiu a seu pai.

 - Justine Wyatt. Que me mora se não ser a mesma jóia que a vi usar no barco o verão passado.

 - Não morra, por favor  - disse Max - . É precisamente a mesma peça.

iniciou-se como um leve sorriso que foi abrangendo toda a face e terminou em uma gargalhada.

 - De modo que finalmente o faremos... por que não me disse isso?

 - Queria que fora uma surpresa  - respondeu Max, encantado com a reação de sua filha - . Considera-o um presente de Natal adiantado, embora de fato o levaremos a cabo mais perto de Páscoa. Sigamos, quer Jean? Depois podemos voltar para esta peça. As fotografias são uma cópia das que existem no arquivo da companhia asseguradora. Nossa própria contribuição acredito que será mais entretida.

As imagens ziguezaguearam na tela quando as diapositivas se passaram a grande velocidade, e a seguir apareceram vídeos com autêntico movimento, tomados a bordo do Yankee Princess.

 - Estes filmes são "caseiros". As filmei eu  - disse Mouse.

 - Um futuro Spielberg entre nós  - felicitou-o Max.

Mas as imagens eram perfeitas, igual ao som e a montagem: as panorâmicas lentas, os deslocamentos ópticos com zoom e os planos gerais se aconteciam com fluidez sem os saltos e desprolijidades próprios de um amateur.

 - Olhem. Ali está a agradável senhora Woolburger. Recorda-a, Max? Em todos os espetáculos se instalava em primeira fila.

 - E ali está Dori.  - Roxanne se inclinou para diante e apoiou os cotovelos sobre suas coxas.  - Y... Deus.  - ruborizou-se quando o zoom de Mouse se enfocou sobre ela e Luke trancados em um beijo prolongado.

 - Esta é a parte romântica  - disse Mouse com um sorriso de orelha a orelha - . Em todos os filmes sempre há uma.

 - A trama se faz mais complexa  - murmurou Roxanne ao ver o Sam e Justine, caminhando por coberta. concentrou-se ainda mais quando a imagem mostrou um primeiro plano do bracelete que acabavam de observar na tomada fixa. A câmara os seguiu em sua caminhada até que cada um escolheu uma reposera de coberta.

Não havia nada dos sorrisos secreta e as carícias furtivas dos recém casados. Sem intercambiar nenhuma sozinha palavra, instalaram-se, ela com uma revista e ele com um tecno-thriller do Tom Clancy.

 - Dois autênticos tórtolos, verdade?  - comentou Roxanne ao observar ao Sam - . A câmara é muito generosa com ele. Suponho que esse é um lucro político.

Quando as imagens da tela se obscureceram e adquiriram um tom cinzento, e logo voltaram para a vida com uma explosão cromática, Roxanne assobiou.

 - De modo que essa é a gargantilha.

 - É soberba, verdade? Congela a imagem ali, querida.  - E quando Roxanne o fez, Max começou sua classe como o faria um professor experiente.

 - A gargantilha foi um presente que lhe fizeram seus pais quando ela fez vinte e um anos; em abril fará quatro anos. Foi comprada no Cartier de Nova Iorque, pelo total de noventa e dois mil quinhentos e noventa e nove dólares a que terá que lhe somar os impostos.

 - Custa-me acreditar que eu não lhe tenha visto uma peça assim  - comentou Roxanne.

 - Usou-a na festa de despedida da última noite

 - recordou Lily com precisão - . Acredito que você e Luke estiveram muito... ocupados... até a hora do espetáculo.

 - OH.  - Também Roxanne o recordava, e olhou ao Luke por sobre o ombro. -  Sim, suponho que sim. É uma peça única, não?

 - Assim é  - respondeu Max, feliz de ter ensinado tão bem a seus filhos - . E isso fará que seja mais difícil, embora não impossível, dispor dela. Bom, acredito que já vimos o bastante, Roxanne.  - Quando sua filha apagou o projetor, Max se tornou para trás em seu assento. Pensava com tal claridade que se perguntou se não se teria imaginado essa névoa que com tanta freqüência o obnubilaba a mente.  - Estamos esperando receber planos da casa do Tennessee, assim como do pied-a-terre de Nova Iorque. Levará-nos bastante tempo estudar os sistemas de segurança das duas residências.

 - Isso nos permitirá desfrutar de primeiro de Natal  - disse Lily.

O Natal e o Ano Novo passaram com rapidez, e um inverno longo e chuvoso se hospedou com empecinamiento até março.

Na casa do Chartres, LeClerc mantinha a cozinha bem esquentada. Embora era uma afronta a seu amor próprio, permanecia no interior do edifício e rara vez saía, nem sequer para ir ao mercado. O frio o impregnava até os ossos.

A velhice, pensava quando se permitia considerar o tema, é uma filha de puta.

A porta se abriu e na casa entrou uma rajada de vento gelado e de chuva. Ele saltou:

 - Fecha essa maldita porta. Isto não é uma caverna.

 - Sinto muito  - disse Luke, que não usava chapéu nem luvas, só uma jaqueta de denim para proteger do frio. LeClerc sentiu uma inveja feroz.

 - Onde está Roxanne?

 - Em sua classe de ginástica. Disse que era provável que depois almoçasse com uma par de companheiras.

 - Assim anda meio perdido, oui?

 - Estava estudando bem os movimentos de meu próximo escapamento, e precisava descansar um momento.  - Não queria reconhecer que o apartamento parecia vazio sem o Roxanne.  - Terei-o inteligente para o Mardi gras.

 - Ficam só duas semanas.

 - É suficiente. Queria conversar com o Max sobre um par de detalhes. Está na casa?

 - Está dormindo.

 - Agora?  - Luke arqueou uma sobrancelha.  - São as onze.

 - Ontem à noite não dormiu bem. Um homem tem direito de dormir cada tanto até tarde em sua própria casa  - disse LeClerc com face preocupada, mas dando as costas ao Luke.

 - Não quis... não estava acostumado a fazê-lo antes  - disse Luke e olhou para o vestíbulo e pela primeira vez notou o silêncio que reinava no lugar - . Está bem?

Luke olhou as costas rígida do LeClerc. Mentalmente lhe pareceu ver o Max trabalhando suas mãos e seus dedos, flexionando-os, abrindo-os e manipulando-os uma e outra vez como um pianista antes de um concerto.

 - Como tem as mãos?  - perguntou e, ao ver uma leve tensão nos ombros do LeClerc, soube que tinha dado no prego.

 - Não sei o que quer dizer  - foi a resposta do LeClerc, quem seguiu lhe dando as costas enquanto fechava a torneira da pileta e procurava um pano de prato.

 - Jean. Não me engane. E me deixe que me preocupe tanto como você.

 - Maldição  - disse ele, e essa foi suficiente resposta para o Luke.

 - Não viu a um médico?

 - Lily o obrigou a consultar a um  - disse LeClerc.

Girou, e seus olhos pequenos e escuros refletiram a preocupação e a emoção que tanto tinha procurado dissimular.  - Deram-lhe pílulas para aliviar a dor. A dor de seus dedos, não a dor daqui  - disse e se atingiu o peito com o punho - . Mas isso não lhe devolve a magia. Nada conseguirá fazê-lo.

 - Tem que haver algo...

 - Riem  - interrompeu-o LeClerc - . Nada. dentro de cada homem há algo assim como um calendário que fixa quando lhe nublará a vista, ou lhe fecharão os ouvidos. Em que dia se levantará da cama com os ossos duros e as articulações doloridas. E quando lhe falhará a bexiga ou lhe debilitarão os pulmões ou lhe estalará o coração. Os médicos dizem faça isto, tome aquilo, mas o bon Dieu estabeleceu o dia e a hora, e quando Ele diz c'est assez, ninguém pode fazer nada a respeito.

 - Não acredito.  - Luke não queria acreditá-lo. ficou de pé.  - O que afirma é que um não pode fazer nada, que não tem nenhum controle.

 - Acredita que sim?  - perguntou LeClerc e riu - . Essa é a arrogância dos jovens. Acredita acaso que foi por acaso que aquela noite foi à feira de atrações, encontrou ao Max e ele encontrou a você?

Luke recordava com muita claridade a forte atração que despertou o pôster, a maneira em que esses olhos pintados o seduziram e o moveram a entrar na carpa.

 - Foi um golpe de boa sorte.

 - Sorte, oui. Um nome mais para o destino. Mas Luke já tinha ouvido bastante da filosofia fatalista do LeClerc. infiltrava-se perigosamente perto de suas próprias crenças sepultadas.

 - Nada disto tem que ver com o Max. Deveríamos levá-lo a um especialista.

 - Pourquoi? Para que lhe façam estúdios que lhe destroçarão o coração? Tem artrite. É algo que se pode aliviar, mas não tem cura. Agora você é suas mãos, você e Roxanne o são. Luke voltou a sentar-se.

 - Sabe ela?

 - Talvez não intelectualmente, mas sim em seu coração. Igual a você.  - LeClerc vacilou um instante. Tomou assento frente a Luke.  - Há mais  - disse.

Luke o olhou e a expressão que viu no LeClerc lhe produziu calafrios.

 - Passa horas com seus livros, com seus mapas.

 - A pedra filosofal?

 - Oui, a pedra. Fala-lhe com os cientistas, aos professores, até aos médiums.

 - apropriou-se de sua imaginação  - disse Luke - . O que tem de mau?

 - Talvez, nada em si mesmo. Mas é seu Santo Grial. Acredito que, se o encontrar, terá paz. Mas neste momento... vi-o olhar fixamente uma página de um livro e, uma hora depois, seguir com a vista fixa na mesma página. À hora do café da manhã pede a Mouse que leve o sofá junto à janela, e durante o almoço pergunta por que trocaram que lugar os móveis. Diz ao Lily que devemos ensaiar um novo truque, e quando ela o espera um bom momento e vai buscá-lo, encontra-o enfrascado na biblioteca com seus livros, e ele não recorda nada de um ensaio.

 - O que passa é que tem muitas coisas na cabeça.

 - É precisamente sua cabeça, sua mente, o que me preocupa  - disse LeClerc. Suspirou e os olhos lhe encheram de lágrimas. -  Ontem o encontrei parado no jardim, sem nenhum abrigo pese ao frio que fazia. "Jean, onde está o trailer?", perguntou-me.

 - O trailer? Mas...

 - Sim, já sei. Faz quase dez anos que não o temos, mas ele me perguntou se Mouse o tinha levado para lavá-lo antes da função.

 - Por Deus  - disse Luke.

 - Quando o corpo de um homem o trai, seus movimentos se fazem mais lentos. Mas, o que faz quando sua mente fraqueja?

 - Tem que ver um médico.

 - Ah, oui, e isso se fará porque Lily insistirá. Mas há algo que você deve fazer.

 - O que posso fazer eu?

 - te assegurar que não os acompanhe quando forem ao Tennessee.  - antes de que Luke pudesse falar, LeClerc prosseguiu.  - Deve intervir na preparação da operação, mas não em sua execução. O que aconteceria esqueça onde se encontra ou o que está fazendo? Podem arriscar-se a isso? Permitiria você que ele corresse esse perigo?

 - Não  - respondeu Luke depois de uma pausa prolongada - . Não o arriscarei a isso. Mas tampouco quero feri-lo. Acredito que deveríamos...

 - Jean, o que é esse aroma tão maravilhoso?  - perguntou Max ao entrar na cozinha, com um aspecto tão atento e acordado que Luke esteve a ponto de desprezar o relatado pelo LeClerc - . Ah, Luke, vejo que você também lhe fez caso a seu olfato. Onde está Roxanne?

 - Saiu com algumas amigas. Quer um pouco de café?  - perguntou Luke e em seguida se levantou e se aproximou da cozinha. Max se sentou e estendeu as pernas com um suspiro. Movia os dedos sem cessar, como um homem que touca as teclas de um piano invisível.

 

 - Espero que não se atrase. Sei que Lily queria levá-la a comprar sapatos novos. A essa criatura não dura nada o calçado.

Ao Luke tremeu a mão e derrubou um pouco de café. Max falava do Roxanne como se ela tivesse doze anos.

 - Já voltará.

 - Esteve trabalhando no escapamento do tanque de água?

-Bom, neste momento estou trabalhando no escapamento da Soga em Chamas. Não recorda? A data fixada é na terça-feira da semana próxima.

 - A Soga em Chamas?  - A mão do Max se deteve e a taça de café que ficou a metade de caminho para seus lábios oscilou. Funcionava penoso observar como lutava por retornar à presente. Abriu a boca e seus olhos se moveram com rapidez. E logo voltaram a enfocar-se. O movimento de sua mão prosseguiu levando a taça a sua boca.  - Terá um público numeroso

 - disse - . Os comentários da imprensa são excelentes.

 - Já sei. E não se poderia pedir uma tela melhor para o trabalho no do Wyatt. Quero realizá-lo essa mesma noite.

Max franziu o sobrecenho.

 - Ainda ficam por resolver alguns detalhes.

 - Há tempo.  - Odiando-se por isso, Luke se tornou para trás em seu assento e disse:  - Quero lhe pedir um favor muito grande, Max.

 - Está bem.

 - Quero fazer o trabalho eu só.  - Viu o impacto de suas palavras na face do Max, sua decepção.  - É muito importante para mim  - prosseguiu - . Conheço as regras pelas que nenhum trabalho deve converter-se em algo pessoal, mas este é uma exceção. Tenho muitas contas que saldar com o Sam.

 - Razão de mais para não te deixar dominar por seus sentimentos.

 - trata-se, precisamente, de meus sentimentos.

 - Isso, pelo menos, era certo. E então jogou sua carta de triunfo.  - Se não ter confiança em mim, se acreditar que não sou capaz de fazê-lo só, diga-me isso

 - É obvio que confio em você. A questão é...

 - Não tinha idéia de qual era a questão, salvo que seu filho se estava afastando um passo mais dele.  - Tem razão. Já é tempo de que tente algo por seu conta. E é muito capaz de fazê-lo.

 - Obrigado.  - Teria desejado tomar essas mãos inquietas nas suas, mas se limitou a levantar sua taça de café a modo de brinde.  - Tive o melhor professor do mundo.

 - O que quer dizer com isso de que o fará você só?  - perguntou Roxanne. Com sua bolsa de ginástica pendurado do ombro, tinha seguido ao Luke do living, onde ele deixasse cair sua bomba de tempo, ao dormitório.

 - O que disse. Que é meu espetáculo.

 - Um corno. Todos trabalhamos em equipe. Papai não o permitirá.

 - Pois me deu sua aprovação. Não é nada do outro mundo.

 - É-o. Se todos participamos desde o começo em cada uma das etapas de planejamento, o que te faz pensar que será o único em te divertir?

 - Porque  - disse Luke e se tombou na cama e entrelaçou as mãos detrás da cabeça - , eu quero que seja assim.

 - Olhe, Calavam...

 - me escute você, Nouvelle.  - Que ele a chamasse pelo sobrenome sempre a fazia tentar-se de risada. Mas igual, manteve uma expressão de desafio.  - Max e eu o falamos e ele está de acordo. Isso é definitivo.

 - Talvez ele esteja de acordo, mas eu não  - disse ela e colocou os braços em jarras - . Eu vou, companheiro. E ponto.

Os olhos do Luke refulgiram.

 - Quero fazê-lo eu só.

 - Fantástico. E eu quero ter cabelo loiro e escorrido, mas não me vê choramingar por isso, não?

 - Eu gosto de seu cabelo  - disse ele, com a esperança de distrai-la - . Parece um molho de saca-rolha em chamas.

 - Que poético.

 - Eu gosto sobre tudo quando está nua. Não quer te despir, Rox?

 - Controla um pouco seus hormônios, Calavam. Não troque de tema. Eu irei.

 - Como quer.  - Em realidade não lhe importava se ia ou não. Mas o fato de discutir o fez deixar de pensar no Max.  - Mas eu dirijo o espetáculo.

 - Nem em sonhos. Seremos sócios com idêntica responsabilidade.

 - Eu tenho mais experiência.

 - Isso disse com respeito ao sexo, mas eu aprendi logo, não é verdade?

 - Agora que o menciona...  - Insinuou tomá-la, mas ela conseguiu escapar.

 - Vêem aqui  - disse ele.

Ela inclinou a cabeça e lhe dedicou um sorriso sedutor por cima do ombro.

 - Parece suficientemente forte para te levantar e caminhar, Calavam. por que não vem a me buscar?

Ele sabia como agir nesse jogo. depois de um movimento negligente dos ombros, ficou a olhar o forro do teto.  - Não, obrigado. Não estou tão interessado como para isso.

 - Está bem. Quer comer cedo, para evitar o amontoamento do Mardi gras?

 - É obvio.  - Sem mover um milímetro, baixou o olhar e a viu tirá-la camiseta, debaixo da qual usava um corpete magro de algodão para ginástica.

 - Tenho vontades de algo bem quente  - disse ela, dobrou com cuidado a camiseta e a colocou sobre a cômoda. Com movimentos lentos se desabotoou o Jean. Luke ouviu o suave toque do fechamento ao abrir-se e se concentrou em tratar de não tragar-se sua própria língua.  - E bem picante.

baixou-se o Jean e deixou ao descoberto um slip tão alvo como o corpete. Sua pele tinha a palidez do inverno e se via perfeita. Pregou o Jean com o mesmo cuidado meticuloso da camiseta.

Tomou a escova e o atingiu contra a palma da mão.

 - E você, Calavam, do que tem vontades?  - aproximou-se o suficiente à cama como para que, quando ele estendesse a mão, pudesse tomar o braço. Ria a gargalhadas quando caiu sobre o colchão.

 - Eu ganhei  - disse ele e se encarapitou sobre ela.

 - Nada disso. Foi um empate  - disse Roxanne e levantou a cabeça para que seus lábios recebessem os do Luke - . Somos sócios