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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


JOGO DUPLO / Tami Hoag
JOGO DUPLO / Tami Hoag

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Quando não estou sentada à secretária, gosto de praticar equitação e de participar em competições. Aliás, comecei a montar ainda antes de me tornar escritora. Ao longo dos anos os cavalos têm sido a minha alegria, o meu refúgio, a minha terapia, a minha salvação e o meu consolo. Participei em diversas provas de equitação. Quando tinha treze anos e as minhas amigas ganhavam dinheiro a tomar conta de crianças, o meu pai arranjava-me potros para eu domar.

Há vários anos decidi-me pelo adestramento equestre desportivo. O controlo, a precisão e o domínio da comunicação quase imperceptível entre cavaleiro e cavalo são fundamentais. O resultado final é algo semelhante a um elegante bailado, que parece não requerer o mínimo esforço, mas exige a mesma aptidão física e mental que o ioga.

Comecei a participar em provas de adestramento em 1999. Como não sou capaz de fazer nada com calma e me empenho ao máximo em tudo o que faço, tratei logo de comprar um magnífico (ainda que difícil) cavalo chamado D’Artagnon ao cavaleiro olímpico Guenter Seidel. Um ano depois entrei na minha primeira competição e passei a integrar o ranking nacional da Federação Norte-Americana de Adestramento como amadora. No final da minha primeira época, a minha treinadora, mentora e grande amiga Betsy Steiner (uma excelente amazona) encorajou-me a levar o D’Artagnon e vários outros cavalos dos seus estábulos até à Florida, para a época de Inverno.

Todos os melhores cavaleiros da costa este, do Midwest, do Canadá e da Europa se mudam para Wellington, no condado de Palm Beach, para três meses em treino e competições constantes em algumas das provas de adestramento e obstáculos mais prestigiadas do país. A presença de milhares de cavalos e centenas de cavaleiros cria uma atmosfera fascinante, um mundo movido pelo frisson da vitória, pela agonia da derrota e por muito dinheiro. Um mundo habitado por bilionários e por gente sem um chavo; celebridades, realeza e pessoas comuns que poupam durante todo o ano para poderem ”fazer a época”; filantropos, diletantes, profissionais, amadores, vigaristas e criminosos. Pessoas que adoram os cavalos e pessoas que vivem de explorar as pessoas que adoram os cavalos. Um mundo de aparências glamorosas e recessos obscuros. Yin e yang. Positivo e negativo.

 

 

 

 

No fim dessa primeira época na Florida, a minha imaginação fervilhava de ideias para histórias que uniriam os meus dois mundos. O resultado é Jogo Duplo, um romance policial que tem como pano de fundo as provas internacionais de obstáculos. Espero que gostem deste vislumbre do lado escuro do meu outro mundo.

 

Se quando acabarem de ler o livro ficarem com a ideia de que o negócio dos cavalos é todo mau, digo-vos que estão enganados. Algumas das melhores, mais bondosas e generosas pessoas que conheço pertencem ao mundo da equitação. Mas há o reverso da medalha: encontram-se igualmente algumas das pessoas mais vis, cruéis e detestáveis que já conheci. É um mundo de extremos e de aventuras rocambolescas. Já me drogaram ou roubaram alguns cavalos, e uma vez fiquei retida no estrangeiro com um negociante de cavalos sociopata que cancelou o meu transporte de regresso. Já me disfarcei de moço de estrebaria e viajei no porão de um avião de carga com um cavalo decidido a matar-me. Mas são histórias que não ocorrem todos os dias. É raro não sair de um estábulo plena de sentimentos de amizade, solidariedade e paz.

 

Os meus cavalos aparecem neste livro, no estábulo do Sean Avadon, mas, ainda que reconheça que a comparação é inevitável, a Elena não sou eu (se a minha vida fosse assim tão excitante, quando é que teria tempo para escrever livros?). No entanto, concordo com ela quando diz: ”Sobre o dorso de um cavalo sentia-me uma pessoa de corpo inteiro, completa, em ligação com aquele ponto vital no âmago do meu ser... e encontrava um equilíbrio para o caos que em mim reinava.”

 

EXTERIOR: CENTRO EQUESTRE DE PALM BEACH - PÔR DO SOL

 

Descampados planos, cobertos de vegetação enfezada, que se estendem para ocidente. Um caminho de terra batida que segue para norte até aos terrenos do centro equestre; para sul, dá acesso a pequenas quintas onde se criam cavalos. Não se vê vivalma. Os campos estão desertos, tanto de pessoas como de cavalos. É noite de domingo e toda a gente foi para casa.

 

Erin está junto do portão das traseiras. Espera por alguém. Sente-se nervosa. Pensa que a sua presença ali obedece a um desígnio secreto. Acredita que a sua vida mudará nessa noite.

 

O que é inteiramente verdade.

 

Olha para o relógio, impaciente. Receia que ele não apareça. Não se apercebe da câmara que está a filmá-la. Pensa que está sozinha.

 

Pensa que talvez se tenha enganado a respeito dele. ”Talvez não venha.”

 

Aproxima-se uma carrinha branca, bastante enferrujada vinda de sul. Ela observa o veículo que vem na sua direcção e mostra-se irritada. Ninguém costuma usar a estrada secundária àquela hora do dia. O portão que dá acesso ao hipódromo já foi fechado com correntes ao fim da tarde

 

A carrinha imobiliza-se. Do seu interior irrompe um assaltante mascarado.

 

- Não!

 

Ela começa a correr em direcção ao portão. Aproximando-se por detrás, o homem agarra-a por um braço, obrigando-a a dar meia volta. Ela dá-lhe um pontapé e ele esbofeteia-a com as costas da mão, fazendo-a desequilibrar-se. Erin liberta-se e cai. Tenta pôr-se de pé. O assaltante ataca-a por detrás, derrubando-a. Posiciona-se por cima dela e coloca-lhe um joelho sobre as costas. Retira uma agulha hipodérmica de uma das algibeiras do casaco e espeta-lha no braço. Ela grita de dor e começa a chorar.

 

O homem puxa-a até conseguir pô-la de pé, e empurra-a para dentro da carrinha. Fecha a porta com um estrondo, entra no veículo, faz inversão de marcha e afasta-se.

 

A vida muda de um momento para o outro.

A vida pode mudar de um momento para o outro.

 

Sempre o soube. Desde o dia em que nasci, sou a prova viva de toda a verdade contida nesta afirmação. Por vezes pressinto a chegada desses momentos, apercebo-me deles como se fossem precedidos por uma aura. Estou a dar-me conta da chegada de um neste preciso momento. A adrenalina flui pela minha corrente sanguínea como o combustível de um foguetão prestes a deixar o solo. O meu coração bate mais depressa. Estou pronta para o lançamento.

 

Disseram-me que me deixasse ficar quieta, que esperasse, mas sei que não é essa a decisão mais acertada. Se eu for a primeira a avançar apanharei os irmãos Golam desprevenidos. Eles pensam que me conhecem e as suas defesas estarão em baixo. Há três meses que trabalho neste caso e sei o que ando a fazer e que tenho razão. Começaram a sentir-se acossados. Quero fazer esta detenção e mereço-a. O tenente Sykes está aqui apenas para se mostrar quando os carros de exteriores da televisão chegarem. Quer assegurar o resultado das próximas eleições para xerife.

 

Relegou-me para um dos lados da caravana e deu-me instruções para aguardar. É um idiota chapado. Nem sequer sabe que a porta lateral é a que os irmãos Golam mais utilizam. Enquanto o Sykes & o Ramirez vigiam a parte da frente, devem estar a enfiar o dinheiro em sacos de viagem e preparam-se para escapar pela porta lateral. O todo-o-terreno do Billy Golam, coberto de lama, está estacionado apenas a três metros da caravana. Se tiverem de fugir, não há-de ser no Corvette que está estacionado na parte da frente. Com o todo-o-terreno podem-se enfiar por todo o tipo de caminhos.

 

O Sykes está a perder um tempo precioso. Os irmãos Golam têm as duas raparigas na caravana. Podem usá-las como reféns. Se eu avançasse agora conseguia apanhá-los desprevenidos...

 

Que se lixe o Sykes. Vou avançar antes que estes mentecaptos entrem em pânico.

 

O caso é meu. Sei o que estou a fazer.

 

Ligo o meu radiotransmissor.

 

- Isto é uma estupidez. Eles vão desatar a correr para o todo-o-terreno. Vou avançar.

 

- Raios te partam, Estes... - grita o Sykes. Desligo o rádio e deixo-o cair nas ervas que crescem

 

junto da caravana. O caso é meu. A detenção é minha. Sei o que estou a fazer.

 

Encaminho-me para a porta lateral e uso o código dos clientes dos irmãos Golam; duas batidas, uma, e mais duas.

 

- Eh, Billy, é a El! Preciso de uma dose.

 

Billy Golam abre a porta aos sacões, de olhos arregalados. De certeza que está pedrada com a sua mistura caseira favorita: cristais de metadona. A respiração é ofegante. Tem um revólver na mão.

 

Merda!

 

A porta da frente explode para o interior da caravana.

 

Uma das raparigas começa a gritar.

 

- Chuis! - avisa Buddy Golam.

 

Billy Golam aponta-me o 357 à cara. Inspiro a minha última golfada de ar.

 

E então abria os olhos, nauseada com a percepção de continuar viva.

 

Há dois anos que começava todos os meus dias desta maneira. Revivera esta recordação tantas vezes que já me parecia a projecção de um filme em sessões contínuas. Nada sofria qualquer alteração, nem uma só palavra, nem uma imagem. Eu não o permitia.

 

Fiquei na cama a pensar em cortar os pulsos. De modo específico, não abstracto. À luz suave do candeeiro da mesa-de-cabeceira observei os meus pulsos delicados e com uma ossatura tão frágil como as asas de um pássaro, uma pele fina como papel de seda coberto por uma teia azulada de veias - e pensei como o faria. Olhei para as linhas finas e azuladas e imaginei que eram instruções de uso. Linhas de orientação. Cortar aqui.

 

Visualizei a ponta aguçada de uma faca de trinchar. A luz do candeeiro reflectir-se-ia na superfície da lâmina. O sangue começaria a jorrar na esteira da lâmina e esta continuaria a deslizar ao longo da veia. Vermelho. A minha cor favorita.

 

A imagem não me assustava. A realidade era bastante mais pavorosa.

 

Olhei para o relógio: 4:38 da manhã. Tinha dormido as minhas habituais quatro horas e meia de um sono desassossegado. Era inútil continuar na cama.

 

Trémula, obriguei as pernas a rodarem para fora da cama e levantei-me. Envolvi-me numa pequena manta de lã azul-escura. O tecido era macio, sensual, cálido. Mentalmente, tomei nota destas sensações. Quanto mais próximo estamos de olhar a morte no rosto, mais intensamente vivos nos sentimos.

 

Perguntei-me se Hector Ramirez se teria apercebido disso no derradeiro segundo que antecedeu a sua morte.

 

Todos os dias fazia esta pergunta a mim própria.

 

Deixei cair a pequena manta e fui para a casa de banho.

 

- Bom dia, Elena. Estás com um aspecto de merda.

 

Excessivamente magra. O cabelo preto todo emaranhado. Os olhos grandes demais e demasiado escuros, como se no seu interior não houvesse nada que reflectisse a luz para o exterior. O busílis do meu problema: falta de substância. Havia - há - uma vaga assimetria na minha fisionomia, como numa jarra de porcelana que se partiu e foi restaurada com uma meticulosidade excruciante. Pode ser a mesma jarra de sempre, mas, de certo modo, não é a mesma. Aquele era o rosto com que eu nascera; todavia, não era o mesmo. Tinha uma fisionomia um pouco assimétrica e estranhamente desprovida de expressão.

 

Em tempos rui lindíssima.

 

Estendi a mão para um pente que estava sobre a bancada da casa de banho e, inadvertidamente, fiz com que caísse no chão, mas não me apeteceu apanhá-lo, optando por uma escova. Começar pela parte de baixo e escovar até às pontas. Como se se tratasse da cauda de um cavalo. Com suavidade, desemaranhar os nós. Mas a verdade é que já me tinha cansado de olhar para mim própria. A cólera e o ressentimento começaram a fervilhar dentro de mim; irritada, pus-me a escovar o cabelo com brusquidão, emaranhando a escova naquela massa de nós.

 

Durante cerca de quarenta e cinco segundos ainda tentei desembaraçar aquela espécie de ninho de ratos, arremetendo com a escova, arrepelando os cabelos que se recusavam a desenlear-se, sem que o facto de estar a arrancá-los pela raiz me incomodasse por aí além. Comecei a praguejar em voz alta e ataquei a minha imagem com o copo e a saboneteira, que caíram da bancada e se estilhaçaram no chão de azulejos. Em seguida, com movimentos bruscos, abri uma das gavetas e muni-me de uma tesoura.

 

Furiosa e com a respiração ofegante, cortei o cabelo de modo a soltar a escova. Caiu no chão com uma massa de cabelo preto agarrado às cerdas. A pressão que sentia no peito abrandou e o meu corpo foi percorrido por uma sensação de torpor. Calma.

 

Impassível, continuei a cortar o resto da juba e em dez minutos fiz um corte à rapaz. O resultado foi arrepiante, ainda que já tenha visto pior na Vogue.

 

Varri os cabelos espalhados pelo chão e os estilhaços de vidro, colocando tudo no caixote do lixo antes de sair da casa de banho.

 

Usava o cabelo comprido durante toda a minha vida.

 

A manhã estava fresca, envolta numa neblina cerrada que pairava rente ao solo. A atmosfera encontrava-se fortemente impregnada com as fragrâncias do Sul da Florida: plantas verdejantes e as águas turvas do canal que corria pelas traseiras da propriedade; lodo, estrume e cavalos. Detive-me no terraço do pequeno chalé reservado aos convidados e respirei fundo.

 

Tinha ido parar àquela quinta como uma espécie de refugiada. Sem trabalho e sem casa, uma pária. Abandonada e indesejada, sem ninguém que me amasse. Era merecedora de tudo isso. Há dois anos que não arranjava emprego e a maior parte desse período havia sido passado em hospitais, a reparar os danos que o meu corpo sofrera naquele dia, na caravana dos irmãos Golam. Os médicos colaram fragmentos de osso, remendaram carne dilacerada e juntaram as peças do quebra-cabeças tridimensional em que se transformara o lado esquerdo do meu rosto. Tinham tido menos sucesso com a minha psique.

 

Como precisava de fazer alguma coisa até me decidir a pegar na faca de trinchar, respondi a um anúncio publicado na Sidelines, uma revista local de equitação, bimensal:

 

”PRECISA-SE DE MOÇO DE ESTREBARIA.”

 

A vida é estranha. Não quero acreditar que tudo está predestinado. Teria de aceitar a existência de um poder superior cruel e perverso, porque essa seria a única explicação para coisas como os abusos sexuais de crianças, os violadores e a sida, sem esquecer os homens bons que são mortos a tiro no cumprimento do dever. Porém, sempre me interroguei sobre certos acasos.

 

O número de telefone indicado no anúncio era o de Sean Avadon. Conhecera-o há muito tempo, quando praticava equitação, período da minha vida em que fora uma adolescente de Palm Beach mimada e dada a amuos, enquanto ele era um igualmente mimado e insuportável rapaz de vinte e poucos anos que gastava os seus rendimentos em cavalos e casos amorosos fugazes com bonitos jovens oriundos da Suécia e da Alemanha. Tínhamos sido amigos, e Sean dizia-me constantemente que eu precisava dele como substituto do meu sentido de humor e fantasia.

 

As nossas famílias viviam em mansões bastante próximas, na zona da estreita ilha que dá para o lago Worth. O pai de Sean era um magnata do ramo imobiliário, enquanto o meu era advogado dos mais abastados vigaristas do Sul da Florida. O senhorio explorador e o advogado sem escrúpulos, ambos pais de uma prole que primava pela ingratidão. O desdém que sentíamos pelos nossos progenitores e o amor pelos cavalos tinham-nos unido.

 

Tudo isto parecia ter acontecido há muito tempo, como um sonho que mal conseguisse recordar. Muita coisa acontecera desde então. Entretanto, eu saíra de Palm Beach, deixando esse mundo para trás. Metaforicamente, tinha vivido e morrido numa outra vida. E então decidi responder a esse anúncio:

 

”PRECISA-SE DE MOÇO DE ESTREBARIA.”

 

Não consegui o emprego. Não obstante o meu mau estado psíquico, consegui descortinar o sentimento de piedade que se reflectia nos olhos dele quando nos encontrámos para tomar uma bebida no Players. Eu era uma vaga sombra da rapariga que Sean conhecera vinte anos atrás, tão patética que nem sequer possuía o orgulho suficiente para fingir que padecia de uma perturbação psíquica. Imagino que isso significava que batera no fundo. Nessa noite, podia ter ido para o meu apartamento alugado procurar a tal faca de trinchar.

 

Ao invés, Sean acolheu-me como se eu fosse um gato vadio - um tema recorrente ao longo da minha vida. Instalou-me na sua casa de visitas e pediu-me que lhe treinasse um par de cavalos para a época de Inverno. Disse-me que precisava dessa ajuda. O seu ex-amante e ex-treinador de cavalos fugira para a Holanda com o moço de estrebaria, deixando-o de mãos a abanar. Colocou as coisas de modo a parecer que estava a oferecer-me trabalho. Mas aquilo que estava a dar-me era um adiamento da execução.

 

Haviam decorrido três meses. Eu continuava a fantasiar o meu suicídio, e todas as noites tirava um frasco de Vicodin da gaveta da mesa-de-cabeceira; despejava os comprimidos, olhava para eles e contava-os, pensando que um só chegaria para aliviar a dor física que me acompanhava todos os dias desde ”o incidente”, como o meu advogado classificava a situação. (O termo parecia tão inócuo e certinho. Um pequeno troço de aspecto desagradável que podia ser isolado e extirpado da urdidura da vida. Uma imagem totalmente oposta às que me enchiam a cabeça.) Um único comprimido podia aliviar a dor. Trinta pôr-lhe-iam fim. Eu armazenara uma reserva de trezentos e sessenta.

 

Todas as noites olhava para aqueles comprimidos, após o que voltava a guardá-los no frasco, arrumando-o no seu lugar. Nunca tinha tomado nenhum. Era o meu ritual de todas as noites.

 

O meu ritual de todos os dias durante os últimos três meses era passar o tempo nas cavalariças de Sean, com os seus cavalos. Achava estes dois rituais bastante reconfortantes, ainda que por razões diversas. Os comprimidos eram um elo de ligação com a morte e cada noite em que eu não os tomava representava uma vitória. Por seu lado, os cavalos eram uma ligação à vida e cada hora que passava junto deles uma espécie de comutação da pena de morte.

 

Desde muito nova cheguei à conclusão de que a minha espiritualidade é algo único e singular e que só a mim diz respeito, qualquer coisa que posso encontrar apenas no fundo de um pequeno espaço de tranquilidade bem no centro do meu ser. Há pessoas que descobrem esse lugar através da meditação, do ioga ou da oração. Quando estou em cima de um cavalo, encontro esse lugar no meu íntimo. A minha religião zen: a arte equestre do adestramento.

 

O adestramento é uma disciplina que tem as suas raízes nos campos de batalha da Antiguidade. Os cavalos de guerra eram treinados para ter movimentos precisos, a fim de poderem ajudar os seus cavaleiros nas batalhas que estes travavam, não apenas com o objectivo de se esquivarem aos inimigos, mas também para os atacarem. Ao longo dos séculos, o adestramento equestre deslocou-se dos campos de batalha para os recintos das exibições hípicas, e a disciplina evoluiu para algo que se assemelha a um bailado equestre.

 

Para um olhar não treinado, parecem exercícios graciosos e elegantes, praticados sem qualquer esforço. Qualquer cavaleiro experiente apresenta uma postura tão serena e de tanta imobilidade, que parecem diluir-se, ele e o cavalo, na paisagem circundante. A equitação é uma disciplina complexa, muito exigente, quer para o cavalo quer para o cavaleiro. O cavaleiro tem de estar em sintonia com cada movimento do cavalo, atento ao equilíbrio de cada centímetro do corpo do animal. A mais ínfima alteração na distribuição do peso do cavaleiro, o mais pequeno movimento de uma mão, a mais ligeira tensão no músculo da perna afectarão a qualidade da exibição. A concentração deve ser absoluta. Tudo

o mais se torna insignificante.

 

Montar sempre foi o meu refúgio durante os anos da adolescência, uma altura em que eu sentia ter muito pouco

controlo sobre qualquer outro aspecto da minha vida. Também serviu para me libertar das tensões nos tempos em que tive uma carreira profissional. Foi a minha salvação, quando mais nada me restava. Sobre o dorso de um cavalo sentia-me uma pessoa de corpo inteiro, completa, em ligação com aquele ponto vital no âmago do meu ser que de outro modo se teria fechado sobre si mesmo, e encontrava um equilíbrio para o caos que em mim reinava.

 

D’Artagnon e eu deslocávamo-nos pelo picadeiro coberto de areia, através dos últimos fiapos da neblina matinal que pairava rente ao solo, com os músculos do cavalo protuberantes e em movimentos ondulados, os cascos a baterem no solo numa cadência perfeita de metrónomo. Passei a mão pela rédea esquerda, sentei-me firmemente no dorso e apertei a barriga das pernas contra o ventre do cavalo. à energia deslocou-se dos quartos traseiros, através do dorso; o pescoço arredondou-se e os joelhos elevaram-se num trote estilizado, em movimentos lentos, a que se chama passage. O cavalo quase parecia flutuar debaixo de mim, ressaltando no chão como uma bola gigantesca muito leve. Tive a sensação de que poderia voar se eu soubesse qual a palavra secreta para lhe sussurrar.

 

Parámos no centro do picadeiro, no ponto ”X”. Nesse momento, senti alegria e paz de espírito.

 

Deixei cair as rédeas sobre o pescoço do animal e afaguei-o. O cavalo baixou a cabeça e começou a avançar, mas deteve-se e ficou alerta.

 

Estava uma rapariga sentada na vedação de tábuas de madeira pintadas de branco que ladeava o caminho. Enquanto me observava, apercebi-me de uma certa postura expectante. Ainda que eu não tivesse reparado nela, percebi que já se encontrava ali há algum tempo, à espera. Calculei que deveria ter cerca de doze anos. Tinha uns cabelos compridos e castanhos, lisos e impecavelmente puxados para trás por uma bandolete que os mantinha afastados do rosto. Usava uns óculos pequenos de aros pretos e arredondados que lhe davam um ar muito sério. Ainda a cavalo, encaminhei-me para ela, estranhamente apreensiva.

 

- Desejas alguma coisa? - perguntei-lhe. D’Ar resfolegou-lhe pelas narinas, pronto para se pôr em debandada, colocando-nos a salvo da intrusa. Deveria ter permitido que ele o fizesse.

 

- Quero falar com Miss Estes - retorquiu ela com toda a compostura, como se estivesse ali para tratar de negócios.

 

- Elena Estes?

 

- Sim - confirmou a garota.

 

- E tu és...?

 

- Molly Seabright.

 

- Pois bem, Molly Seabright, neste momento, Miss Estes não está.

 

- Você é Miss Estes - afirmou ela enfaticamente. Reconheci o seu cavalo. O nome dele é D’Artagnon, como nOs Três Mosqueteiros - acrescentou, estreitando os olhos. - Cortou o cabelo - continuou, com uma expressão de reprovação.

 

- E eu conheço-te?

 

- Não - respondeu a garota.

 

- Então como é que me conheces? - perguntei, sentindo que a apreensão se elevava pelo meu peito até à garganta, como se fosse bílis. Talvez ela tivesse algum parentesco com Hector Ramirez, e tivesse aparecido para dizer que me odiava. Quem sabe se não teria sido enviada para me armar uma cilada, e um familiar mais velho aparecesse de repente de nenhures para me alvejar, para me insultar ou para me lançar ácido à cara.

 

- Vi-a na Sidelines - respondeu ela por fim. Senti-me como se tivesse entrado a meio de uma peça de teatro. Molly Seabright apiedou-se de mim e, com movimentos cautelosos, desceu do cimo da vedação. Tinha uma figura miúda, e o seu vestuário impecável era bastante prático, um par de calças escuras e uma blusinha de algodão azul com uma pequena orla de malmequeres bordada na gola. Aproximou-se com cautela de D’Artagnon e estendeu-me a revista, que estava dobrada, aberta numa das páginas centrais.

 

A fotografia era a cores. Vi-me a cavalgar D’Artagnon Por entre as ténues faixas do nevoeiro das primeiras horas da manhã. Os raios solares faziam a pelagem do animal brilhar, cintilando como uma moeda de cobre acabada de cunhar. O meu cabelo estava preso num espesso rabo-de-cavalo.

 

Não conseguia identificar a altura em que teria sido fotografada. Não fora de certeza entrevistada, apesar de o autor do artigo parecer saber coisas a meu respeito que eu própria desconhecia. A legenda dizia: ”A detective particular Elena Estes desfruta de um passeio matinal a cavalo, montando D’Artagnon pela Quinta Avadonis de Sean Avadon, em Palm Beach Point Estates.”

 

- Quero contratar os seus serviços - disse Molly Seabright com determinação.

 

Virei-me na direcção das cavalariças e chamei por Irina, a deslumbrante jovem russa que ficara com o emprego de moça de estrebaria. Saiu com uma cara aborrecida e de cenho franzido. Desmontei e pedi-lhe que me fizesse o favor de levar D’Artagnon para a cavalariça. Ela pegou nas rédeas, suspirou, fez beicinho e, de cabeça baixa, afastou-se qual modelo amuada a desfilar pela passarela.

 

Passei a mão enluvada pelo cabelo e espantei-me com a rapidez com que chegava às pontas. Um feixe de tensão começou a agitar-se no meu estômago.

 

- A minha irmã desapareceu. Quero contratá-la para a descobrir.

 

- Lamento muito. Não sou detective particular. Decerto que te enganaste.

 

- Então, por que razão diz na revista que é? - perguntou a garota, afivelando de novo uma expressão inflexível de reprovação. Era óbvio que não confiava em mim. Já lhe tinha mentido uma vez.

 

- Não te sei dizer - repliquei.

 

- Eu tenho dinheiro - acrescentou, na defensiva.- Só porque tenho doze anos não quer dizer que não possa contratá-la.

 

- Não me podes contratar pela simples razão de eu não ser uma detective particular.

 

- Nesse caso, o que é então? - perguntou-me num tom que exigia resposta.

 

Uma ex-detective do Gabinete do Xerife, patética e desfeita, sem nada mais para dar. Tinha desdenhado do modo como fora criada e sido votada ao ostracismo e banida da vida por que optara. Em que é que isso me transformava?

 

- Não sou nada - respondi, devolvendo-lhe a revista. Ela não a aceitou.

 

Afastei-me, encaminhando-me para um banco de jardim artisticamente decorado que havia ao fundo do picadeiro, e bebi um generoso gole da garrafa de água que ali deixara.

 

- Vim prevenida com cem dólares - acrescentou a rapariga. - Para o primeiro pagamento. Calculo que terá uma tabela diária para os seus honorários, a que, muito provavelmente, acrescentará as despesas que vier a ter. Estou certa de que conseguiremos chegar a um acordo.

 

Entretanto, Sean surgiu, vindo do fundo das cavalariças, mostrando o seu belo perfil; apesar da distância que nos separava, vi que semicerrava os olhos. Usava botas de montar e deteve-se com uma perna semidobrada, tirando um par de luvas de pele de veado do cinto das calças castanhas. Bem-parecido e em boa forma física. Daria um bom anúncio para a Ralph Lauren.

 

Atravessei a pista, com o estômago a fervilhar com uma cólera subjacente a um sentimento de pânico que gradualmente se ia intensificando.

 

- Que porra é esta? - gritei, batendo-lhe no peito com a revista dobrada.

 

Ele retrocedeu um passo, mostrando-se ofendido.

 

- É possível que seja a Sidelines, mas não consigo ler com os mamilos, pelo que não posso dizer ao certo. Por amor de Deus, El! O que é que fizeste ao cabelo?

 

Voltei a bater-lhe, desta feita com mais força, desejando magoá-lo. Sean apoderou-se da revista, deu um passo rápido para se colocar fora do meu alcance e concentrou-se na fotografia da capa.

 

- É o garanhão da Betsy Steiner, o Hilltop Giotto. Viste-o? É de se morrer por ele.

 

- Disseste a um repórter que sou detective particular.

 

- Perguntaram-me quem tu eras. Tinha de dizer qualquer coisa.

 

- Não, não tinhas. Não tinhas de dizer o que quer que fosse - ripostei, furiosa.

 

- É apenas a Sidelines, por amor de Deus!

 

- É o meu nome que vem na porra de uma revista que é lida por milhares de pessoas. Milhares de pessoas que agora passaram a saber onde podem encontrar-me. Já agora, Porque não pintas um alvo gigantesco no meu peito?!

 

- Só as pessoas que se interessam pelo adestramento é que lêem esta secção - respondeu ele com o sobrolho franzido. - Além do mais, fazem-no com o único objectivo de ver se os seus nomes vêm mencionados nos resultados das competições.

 

- Mas agora há milhares de pessoas que pensam que eu sou detective particular - insisti.

 

- O que é que tu querias que dissesse? A verdade? contrapôs, como se aquela fosse a opção mais repugnante que lhe ocorresse. De repente, apercebi-me de que talvez fosse.

 

- E que tal um simples ”sem comentários”?

 

- É uma resposta pouco interessante - alegou ele.

 

- Esta miudinha... - acrescentei apontando para Molly Seabright - veio aqui com a intenção de contratar os meus serviços. Está convencida de que poderei ajudá-la a encontrar a irmã.

 

- E talvez possas.

 

Não tive coragem para dizer o que era por de mais evidente: eu nem sequer era capaz de me ajudar a mim própria.

 

Numa atitude de indolente indiferença, Sean devolveu-me a revista.

 

- A que mais é que poderás dedicar o teu tempo? Naquele momento, Irina saiu das cavalariças, trazendo

 

Oliver pelas rédeas - um animal alto, elegante e lindíssimo, a versão equina de Sean, que dispensou a minha presença, subindo para o bloco de teca que utilizava para montar.

 

Molly Seabright sentara-se no banco de jardim com as mãos entrelaçadas pousadas no colo. Virei-lhe costas e encaminhei-me para as cavalariças, na esperança de que se fosse embora. O freio de D’Artagnon estava suspenso de uma viga do tecto, pendurado num gancho com quatro secções situado junto de um armário antigo de mogno cheio de produtos de limpeza para cabedais. Tirei de cima da bancada uma pequena esponja humedecida, passei-a por um sabonete de glicerina e comecei a limpar o freio, numa tentativa para descongestionar a mente, direccionando-a para a coordenação das simples funções motoras necessárias àquela tarefa.

 

- Você é muito mal-educada.

 

Conseguia vê-la pelo canto do olho: tão empertigada quanto a sua estatura lhe permitia - um metro e cinquenta e dois, nem mais nem menos -, os lábios contraídos num pequeno nó.

 

- Sim, sou. Faz parte da alegria de ser eu mesma: nada me interessa.

 

- Portanto, não tenciona ajudar-me? - retorquiu ela.

 

- Não posso. Não é de mim que tu precisas. Se a tua irmã desapareceu, os teus pais deviam ir à Polícia.

 

- Já fui ao Gabinete do Xerife. Eles também se recusaram a ajudar-me.

 

- Tu é, que foste lá? O que é que se passa com os teus pais? Não os incomoda não saberem do paradeiro da tua irmã?

 

Pela primeira vez, Molly Seabright pareceu-me ter hesitado.

 

- É complicado.

 

- O que é que o assunto tem de complicado? Das duas uma: ou ela desapareceu ou não.

 

- A Erin não vive connosco - esclareceu a garota.

 

- Que idade é que ela tem?

 

- Dezoito anos. Não se dá bem com os nossos pais.

 

- Isso é comum.

 

- Não é que seja má, nada disso - acrescentou Molly, que adoptara uma atitude defensiva. - Ela não consome drogas nem nada desse género. Tem as suas próprias opiniões, mais nada. E as opiniões dela não se coadunam com as do Bruce...

 

--Quem é esse Bruce? - inquiri.

 

- O nosso padrasto. A minha mãe toma sempre o partido dele, independentemente das imbecilidades que ele diga. A Erin irritou-se e decidiu sair de casa.

 

- Portanto, tecnicamente, a Erin é uma mulher adulta que vive sozinha, e tem liberdade para fazer o que bem lhe apetecer - disse eu. - Ela tem algum namorado?

 

Molly respondeu-me com um abanar de cabeça, mas evitou os meus olhos. Não podia garantir a veracidade daquela resposta, ou então pensava que uma mentira serviria melhor a sua causa.

 

- O que te leva a pensar que desapareceu?

 

- Ela ficou de ir buscar-me na segunda-feira de manhã. É o dia da folga dela. Trabalha como moça de estrebaria nos estábulos do Don Jade, que treina cavalos para corridas de obstáculos. Nesse dia, não havia escola. Tínhamos planeado ir à praia, mas ela não apareceu nem me telefonou. Liguei-lhe e deixei uma mensagem no telemóvel, mas não retribuiu a minha chamada.

 

- O mais provável é andar ocupada - alvitrei, passando a esponja a todo o comprimento da rédea. - Os moços de estrebaria têm de trabalhar muito.

 

Enquanto dizia isto, olhava para Irina, que se sentara no bloco de montar a fumar um cigarro virada para o sol, expelindo uma baforada de fumo que se evolava lentamente em direcção ao céu. A maior parte dos moços de estrebaria, corrigi-me em pensamento.

 

- Se pudesse, ela não deixaria de me ligar - insistiu Molly. - Decidi ir ao hipódromo no dia seguinte... ontem. Mas houve um homem das cavalariças do Don Jade que me disse que a Erin já não trabalha lá.

 

Era natural que o pessoal das estrebarias se despedisse. Também era normal serem despedidos. Um dia queriam ser floristas, no dia seguinte neurocirurgiões. Por outro lado, havia treinadores com fama de considerar os trabalhadores como escravos, patrões temperamentais que usavam os moços de estrebaria como máquinas de barbear descartáveis. Conheci alguns que exigiam que os moços dormissem no estábulo, junto a garanhões psicóticos, demonstrando maior apreço pelos cavalos do que pela vida humana. Também conheci outros que chegaram a despedir cinco moços de estrebaria numa semana.

 

Erin Seabright parecia uma jovem obstinada e disposta a defender os seus pontos de vista, sempre de olho no sexo oposto. Tinha dezoito anos e saboreava a sua independência pela primeira vez na vida... E por que motivo pensava eu nisto? Não entendia. Talvez devido à força do hábito. Ossos do ex-ofício, ainda que tivesse deixado de ser polícia há dois anos, e não pretendesse voltar a sê-lo.

 

- Está a parecer-me que a Erin tem a sua própria vida. É muito possível que tenha deixado de ter tempo para a irmã mais nova.

 

- Já lhe disse que a Erin não é assim - ripostou Molly Seabright, mostrando uma expressão sombria. - Ela não faria isso... ir-se embora sem nenhuma explicação.

 

- Mas saiu de casa - atalhei.

 

- Mas não me deixou. Ela nunca seria capaz de uma coisa dessas.

 

Finalmente, começava a parecer uma criança em vez de uma austera contabilista de quarenta e tal anos. Uma criança assustada e bastante insegura, que viera procurar-me para que eu a ajudasse.

 

- As pessoas mudam, crescem - disse-lhe, sem meias-palavras, enquanto tirava o freio do gancho. - Talvez tenha chegado a tua vez.

 

As minhas palavras atingiram o alvo como balas. As lágrimas brotaram por detrás dos óculos à Harry Potter. Não me permiti qualquer sentimento de culpa ou de piedade. Não desejava aquele tipo de trabalho nem tão-pouco qualquer cliente. Não queria que as pessoas entrassem na minha vida acompanhadas das suas expectativas.

 

- Pensei que você seria diferente - proferiu a garota.

 

- E o que te terá levado a pensar isso?

 

Olhou de relance para a revista, que estava agora em cima da prateleira, junto dos produtos de limpeza: D’Artagnon e eu flutuávamos pela página como uma imagem saída de um sonho. Mas ela não disse nada. Se tinha uma explicação para acreditar em mim, achou que seria preferível não partilhá-la comigo.

 

- Não sou uma heroína, Molly. Lamento muito se por acaso te dei essa impressão. Tenho a certeza de que se os teus pais não estão preocupados com a tua irmã, nem a Polícia, temos de concluir que não existe o mínimo motivo para preocupações. Acredita que não precisas da minha ajuda; ias acabar por te arrepender.

 

Ela não olhou para mim. Deixou-se ficar quieta por uns instantes enquanto se recompunha, e depois tirou uma pequena carteira vermelha da bolsa que trazia presa à cintura. Colocou uma nota de dez dólares em cima da revista.

 

Agradeço-lhe o tempo que me dispensou - declarou a garota, cheia de cortesia. De seguida, virou costas e começou a afastar-se.

 

Não fui atrás dela. Tão-pouco tentei devolver-lhe a nota de dez dólares. Fiquei a observá-la enquanto se afastava, reflectindo e concluindo que era mais adulta do que eu.

 

Entretanto, Irina surgiu no meu campo de visão periférica, encostando-se a uma ombreira como se não tivesse forças para se manter de pé.

 

- Querer que eu colocar sela na Feliki.

 

Erin Seabright devia ter-se despedido do emprego. O mais certo era estar nas Keys a desfrutar da sua recém-adquirida independência acompanhada de um tipo lindíssimo sem miolos. Molly não queria acreditar nessa hipótese, já que significaria uma mudança abismal no seu relacionamento com a irmã mais velha, que, obviamente, idolatrava. A vida é cheia de desilusões, e Molly acabaria por aprendê-lo do mesmo modo que toda a gente: sendo defraudada por alguém que amasse e em quem confiasse.

 

Irina soltou um suspiro dramático.

 

- Sim - disse eu. - Podes selar a Feliki. Quando ela começou a dirigir-se para a cocheira da égua, fiz-lhe uma pergunta que seria melhor que tivesse ficado sem resposta.

 

- Irina, sabes alguma coisa a respeito de um treinador especializado em obstáculos chamado Don Jade?

 

- Sim - respondeu ela casualmente, sem sequer olhar para mim. - É um assassino.

 

O mundo equestre é povoado por dois tipos de pessoas: as que adoram os cavalos e as que os exploram, bem como às pessoas que os adoram. O yin e o yang. Por cada coisa boa no mundo existe algo mau para contrabalançar. No que me concerne, sempre fui da opinião de que o mal suplanta o bem, e que há apenas bem suficiente para nos manter à tona, impedindo-nos de nos afogarmos no mar do desespero. Mas isso é o que eu acho.

 

Algumas das melhores pessoas que conheci estavam ligadas ao mundo dos cavalos. Pessoas generosas e atentas dispostas a sacrificar o seu conforto pessoal pelos animais que dependiam delas. Pessoas que cumpriam a sua palavra. Pessoas com integridade. Mas também foi neste meio que encontrei alguns dos indivíduos mais detestáveis, odiosos e perversos que tenho conhecido. Gente disposta a mentir, a fazer batota, a roubar e a vender a própria mãe, caso pensassem que isso lhes seria vantajoso. O tipo de pessoas que nos sorriem e nos dão palmadinhas amigáveis enquanto nos apunhalam pelas costas.

 

Pelo que Irina me contara, Don Jade inseria-se na segunda categoria.

 

Na manhã de domingo - o dia anterior àquele em que Erin Seabright não aparecera, apesar de ter combinado com a irmã mais nova irem à praia -, um cavalo que estava a Ser treinado por Don Jade para saltar obstáculos tinha aparecido morto na sua cocheira, alegadamente vítima de uma electrocussão acidental. Mas havia um pequeno senão: toda a gente sabia que com Don Jade não havia acidentes.

 

Liguei-me à Internet para me informar o melhor possível acerca de Don Jade, pesquisando em artigos publicados no Horsesdaily.com, bem como num par de outros sites dedicados a assuntos equestres. Mas eu queria a história toda, sem cortes, e sabia quem deveria contactar.

 

Se Don Jade era o melhor exemplo da minha segunda categoria de pessoas do mundo dos cavalos, o Dr. Dean Soren também ilustrava bem a primeira. Conhecia-o desde sempre. Não existia nada no mundo da equitação de que Dean Soren não tivesse conhecimento. Iniciara a sua carreira de veterinário nas pistas das corridas de cavalos, tendo acabado por se dedicar ao adestramento para exibições. Toda a gente no meio hípico conhecia e respeitava o Dr. Dean Soren.

 

Já se reformara há vários anos, tendo deixado de exercer medicina veterinária. Passava os dias, rodeado da sua corte, no café que era o centro de convívio das vastas cavalariças de que era proprietário, logo à saída de Pierson. Foi a gerente do café que atendeu o telefone. Identifiquei-me, perguntei pelo Dr. Dean e ouvi-a gritar para a outra extremidade do café.

 

- O que raio é que ela quer? - gritou o Dr. Dean.

 

- Diga-lhe que preciso de lhe fazer umas perguntas. A mulher gritou a minha mensagem.

 

- Ela que venha até cá para falar comigo - respondeu ele, continuando a gritar. - Ou será que se considera demasiado importante para vir visitar um velhote?

 

O Dr. Dean era assim mesmo. Não tinha muito boas maneiras, mas era uma das melhores pessoas que alguma vez me foi dado conhecer. Quaisquer que fossem as suas faltas de boa educação, compensava-as sobejamente em integridade e honestidade.

 

Eu não queria ter de ir falar pessoalmente com ele. O meu interesse em Don Jade fora despertado apenas pelo que Irina me dissera a seu respeito. Sentia-me curiosa, mas mais nada. A curiosidade não era motivo suficiente para me fazer interagir com as pessoas. Não tinha o mínimo desejo de abandonar o meu santuário, sobretudo depois de ter visto aquela fotografia publicada na Sidelines.

 

Comecei a andar de um lado para o outro dentro de casa, roendo o que ainda restava das minhas unhas.

 

Dean Soren estivera em contacto comigo, ainda que com uma certa irregularidade, ao longo de grande parte da minha vida. Durante o Inverno dos meus doze anos, ele permitira que eu o acompanhasse na sua ronda semanal aos animais doentes e assumisse o papel de sua assistente. A minha mãe e eu mudámo-nos para uma casa no Clube de Pólo onde passámos a temporada hípica, período em que tive um professor particular, de forma a poder montar todos os dias com o meu treinador, sem ter de obedecer a um horário escolar que me obrigaria a interromper o plano de exercícios equestres. Todas as segundas-feiras - dia de folga dos cavaleiros - costumava subornar o professor particular e lá ia com o Dr. Dean, para lhe estender a bandeja dos instrumentos cirúrgicos e limpar ligaduras usadas. Nem o meu próprio pai me tinha dedicado esse tipo de atenção. Nunca me senti tão importante como nessa altura.

 

Agora, as recordações que guardava desse Inverno tocavam-me num lugar particularmente vulnerável. Não fui capaz de me lembrar de qual a última vez em que me sentira tão importante. Mal me recordava da última vez em que o desejara. Contudo, lembrava-me com toda a clareza de ter andado ao lado do Dr. Dean no enorme Lincoln Town Car em que ele se deslocava e que era uma espécie de clínica veterinária itinerante.

 

Talvez fosse essa recordação que me fez pegar nas chaves do carro e pôr-me a caminho.

 

A propriedade do Dr. Dean, uma das mais cotadas no mercado imobiliário, era frequentada tanto por amantes das corridas de obstáculos e da caça, cujos cavalos ocupavam uma ampla cavalariça, como pelos que se dedicavam aos cavalos de adestramento, estes instalados numa outra cavalariça, também de grandes dimensões. Os escritórios e o estábulo particular do Dr. Dean, assim como o café, encontravam-se situados num edifício entre as duas.

 

O café era um estabelecimento simples ao ar livre com um balcão de madeira. O Dr. Dean estava sentado à mesa central numa cadeira de madeira entalhada, um velho rei no Seu trono, a beber qualquer coisa por um copo decorado com uma pequena sombrinha de papel de seda.

 

Senti-me um pouco tonta enquanto me encaminhava para ele, em parte receosa pela perspectiva de o ver - ou antes, de ele me ver -, e em parte temendo que as pessoas deixassem o seu trabalho para me observar com atenção, perguntando-se se eu era efectivamente uma detective particular. Mas verifiquei que o café estava vazio, para além de Dean Soren e da mulher que se encontrava por detrás do balcão. Ninguém saiu disparado das cavalariças para ficar a olhar embasbacado para mim.

 

O Dr. Dean ergueu-se da cadeira, com os olhos penetrantes fixos em mim, qual par de raios laser. Era um homem alto e de postura aprumada, com uma basta cabeleira encanecida, aparência que era acentuada por uns traços fisionómicos bastante vincados. Devia ter uns oitenta anos, mas, apesar disso, continuava a apresentar um aspecto robusto e inflexível.

 

- O que raio é que se passa contigo? - perguntou-me à laia de saudação. - Andas a fazer quimioterapia? Que aconteceu ao teu cabelo?

 

- Também tenho muito prazer em vê-lo, Dr. Dean retorqui, apertando-lhe a mão.

 

Ele olhou para a mulher que estava atrás do balcão.

 

- Marion! Prepara um hambúrguer com queijo para esta rapariga! Ela está com um aspecto horrível!

 

Imperturbável, Marion começou a fazer o que ele lhe dissera.

 

- O que tens montado ultimamente? - perguntou-me o Dr. Dean.

 

Sentei-me... numa cadeira barata, das desdobráveis, que me pareceu ser baixa de mais e que fez com que me sentisse como uma criança. Ou talvez essa reacção se devesse ao efeito que o Dr. Dean tinha em mim.

 

- Tenho montado alguns cavalos do Sean.

 

- Nem sequer me parece que tenhas forças suficientes para cavalgar um potro.

 

- Estou óptima.

 

- Não, não estás - declarou enfaticamente. - Quem é agora o veterinário do Sean?

 

- O Paul Geller.

 

- É um idiota.

 

- Ele não é como o senhor, Dr. Dean - redargui diplomaticamente.

 

-- Disse à Margo Whitaker que a égua dela precisa de ”terapia sonora”. Ela arranjou uns auscultadores ao pobre animal, que tem de ouvir duas horas diárias de uma cassete que reproduz os sons da natureza.

 

- O que proporciona à Margo alguma coisa com que se entreter.

 

- A égua precisa é de não ter a Margo sempre à volta dela. É disso que precisa - rosnou o veterinário. Bebeu um gole da sua bebida enfeitada com uma sombrinha e fitou-me atentamente.

 

- Há muito tempo que não te via, Elena - acrescentou. - É bom que estejas de volta. Precisas de ter os cavalos por perto. Fazem-te criar raízes. As pessoas sabem sempre com exactidão em que situação se encontram no tocante aos cavalos. A vida passa a ter mais sentido.

 

- Sim - concordei, sentindo-me enervada por ser objecto de uma atenção tão cerrada, receando que ele quisesse falar da minha carreira e sobre o que havia acontecido. Mas não abordou esses assuntos. Em vez disso, fez-me perguntas sobre os animais do Sean e ficámos a recordar os cavalos que eu e o Sean havíamos montado durante a nossa juventude. Entretanto, a Marion serviu-me o hambúrguer, que me apressei a comer obedientemente.

 

- Disseste ao telefone que querias fazer-me uma pergunta - disse ele quando acabei de comer.

 

- Sabe alguma coisa a respeito do Don Jade? - perguntei sem rodeios.

 

- Por que razão é que fazes perguntas acerca dele? retorquiu, semicerrando os olhos.

 

- Por causa de uma amiga de uma amiga que se meteu

 

numa embrulhada. A coisa pareceu-me um bocado esquisita.

 

Ele arqueou as sobrancelhas hirsutas repetidamente. Olhou para os estábulos dos cavalos de obstáculos. No resPectivo picadeiro evoluíam dois cavaleiros e respectivas montadas, a saltarem barreiras de cores garridas. À distância, exibiam um aspecto tão gracioso e leve como veados que saltitassem por um prado. A firmeza atlética de um animal é uma coisa muito pura e simples, ao contrário dos desPortos em que o obrigamos a participar, complicados pelas emoÇões, necessidades e ganância humanas.

 

- Bem - disse o veterinário -, o Don tem uma fachada muito bonita que não corresponde à verdade.

 

- O que quer dizer com isso?

 

- Vamos dar um passeio - sugeriu ele sem me dar resposta.

 

Pensei que não queria que ninguém aparecesse, pondo-se à escuta sub-repticiamente, tentando ouvir a conversa. Segui-o pela porta das traseiras do café até um cercado com divisórias para cavalos, onde se viam três cavalos, cada um no seu compartimento.

 

- Os meus projectos - começou o Dr. Dean a explicar. - Estes dois coxeiam inexplicavelmente e aquele sofre de um grave caso de úlceras estomacais.

 

Encostou-se à vedação, observando os animais que, provavelmente, salvara de um abate clandestino. Era muito possível que houvesse mais meia dúzia na mesma situação espalhados pelas instalações.

 

- Eles dão-nos tudo o que têm para dar - acrescentou. - Fazem o seu melhor para conseguir compreender aquilo que lhes pedimos que façam... que exigimos que façam. Tudo o que querem como retribuição é que cuidemos deles de maneira adequada e com afecto. Se as pessoas fossem assim...

 

- Pois... - foi o único comentário que pude fazer. Doze anos nas forças policiais, a natureza desse trabalho, as pessoas e situações a que estivera exposta queimaram qualquer resquício de idealismo que eu pudesse ter acalentado. A história que Dean Soren me contou sobre Don Jade serviu apenas para confirmar a opinião pouco abonatória que eu já tinha da raça humana.

 

Ao longo das duas últimas décadas, o nome de Jade estivera frequentemente associado a esquemas para defraudar companhias de seguros, o que acontecera em duas ocasiões. A trafulhice consistia em matar um dispendioso cavalo de exibição que não tivesse concretizado todo o seu potencial, após o que o proprietário participava à companhia de seguros que o animal morrera de causas naturais, sendo indemnizado com um montante que poderia chegar aos seis dígitos.

 

Esta vigarice não era novidade, dado que viera a lume em todos os meios de comunicação social durante a década de oitenta, altura em que algumas figuras proeminentes das exibições equestres foram apanhadas em flagrante. Várias dessas pessoas acabaram na cadeia, condenadas a alguns anos de reclusão, entre eles um treinador de renome internacional, assim como um proprietário de cavalos que era herdeiro de uma grande fortuna proveniente das novas tecnologias de informação. A riqueza nunca impediu que as pessoas fossem gananciosas.

 

Nessa altura Jade trabalhava como treinador adjunto num dos estábulos que haviam perdido alguns cavalos devido a causas misteriosas. Nunca chegara a ser acusado de nenhum crime específico, tal como nunca se estabelecera qualquer ligação directa entre ele e alguma dessas mortes. Depois de o escândalo ter rebentado, Jade passara alguns anos em França a treinar e a competir no circuito europeu de exibições equestres.

 

Com o decorrer do tempo, a celeuma que rodeara a morte dos cavalos acabou por ser esquecida, o que permitira que Don Jade regressasse aos Estados Unidos, onde encontrara dois clientes abastados que serviram de pilares para o seu próprio empreendimento.

 

Pode parecer inconcebível que um homem com a reputação de Jade pudesse ter continuado a exercer a sua profissão, mas aparecem sempre novos proprietários de cavalos que não têm conhecimento dos antecedentes dos seus treinadores, tal como sempre existirá gente que se recusa a acreditar naquilo em que não deseja acreditar. Para não mencionar que haverá sempre pessoas que, pura e simplesmente, não estão para se incomodar, enquanto outras estarão sempre dispostas a fingir que nada vêem, caso considerem existir alguma hipótese de virem a ganhar dinheiro ou fama. Por conseguinte, os estábulos de Don Jade atraíram clientes, muitos dos quais lhe pagavam generosamente, a fim de que este promovesse os seus cavalos na Florida aquando do Festival Equestre de Inverno.

 

Em finais da década de noventa, um desses cavalos era um animal especializado em obstáculos, chamado Titan.

 

Titan era um cavalo talentoso, mas, infelizmente, com um temperamento caprichoso. Custara uma grande porção de dinheiro ao seu dono e dava a impressão de estar sempre a sabotar os seus próprios esforços para ganhar o sustento. Começou a merecer a reputação de rufião e cabeça dura. A despeito das suas habilidades, o seu valor de mercado descer acentuadamente. Entretanto, o proprietário de Titan, Warren Calvin, um investidor de Wall Street, tinha perdido uma fortuna na bolsa. E subitamente, um belo dia, Titan morreu, e Calvin pediu uma indemnização de duzentos e cinquenta mil dólares.

 

A versão oficial, cozinhada por Jade e pelo chefe do seu pessoal de estrebaria, dizia que, a uma hora indeterminada da noite, Titan se tinha amedrontado e ficado numa grande agitação na cocheira, e o resultado fora partir uma pata, vindo a morrer devido ao choque e à perda de sangue. No entanto, um antigo empregado de Jade contara uma história bastante diferente, afirmando que a morte de Titan não havia sido um acidente e adiantando que Jade sufocara o animal e que este fracturara a pata devido ao estado de pânico em que se encontrava quando o asfixiaram.

 

Era uma história de contornos muito tenebrosos. A companhia de seguros ordenou que se realizasse de imediato uma necropsia e Warren Calvin passou a ser alvo da atenção do procurador-geral do estado de Nova Iorque. Calvin decidiu desistir da acção que intentara contra a companhia de seguros e a investigação foi encerrada. Desde que não houvesse fraude, não havia crime. A autópsia nunca chegou a ser efectuada. Warren Calvin abandonou o negócio dos cavalos.

 

Don Jade conseguiu ultrapassar os rumores e especulações e continuar com a sua actividade profissional. Tinha apresentado um álibi bastante conveniente para a noite em questão: uma rapariga de nome Allison, que trabalhava para Jade, afirmara que se encontrava na cama com ele na altura em que Titan morrera. Jade admitiu a relação amorosa, o que destruiu o seu casamento, mas conseguiu manter-se como treinador de cavalos. Os clientes antigos ou acreditaram nele ou deixaram-no, mas entretanto apareceram outros patos, incautos, para ele depenar.

 

Tomei conhecimento de extractos desta história através do trabalho de pesquisa que fiz na Internet, bem como da coscuvilhice de Irina. Sabia que a opinião que esta formara de Jade tinha por base as histórias que ouvira da boca de colegas que também trabalhavam em estábulos, informações que, plausivelmente, eram fundamentadas em factos bastante condimentados pela inveja. O negócio dos cavalos é um negócio incestuoso. Dentro das disciplinas individuais (saltos de obstáculos e demais artes equestres) todos se conhecem entre si e metade das pessoas já ”fodeu” a outra metade, quer literal quer figurativamente. Os ressentimentos e os ciúmes abundam. As maledicências chegam a raiar a perversidade.

 

Mas eu sabia que, se a história vinha da boca de Dean Soren, era verdadeira.

 

- É uma tristeza que um fulano com um carácter destes continue a trabalhar neste meio - comentei.

 

- As pessoas acreditam naquilo que querem acreditar retorquiu o Dr. Dean com um menear de cabeça e um encolher de ombros. - O Don é um tipo encantador e não há dúvida de que consegue fazer tudo numa competição de obstáculos. Podemos disputar o êxito até nos esfalfarmos, Elena, mas nunca conseguiremos vencer. Muito em especial, neste negócio.

 

- A moça de estrebaria do Sean disse-me que o Jade perdeu um cavalo no fim-de-semana passado - avancei eu.

 

- O Stellar - redarguiu o Dr. Dean, assentindo com um aceno de cabeça. A égua que sofria de uma úlcera aproximara-se do canto do compartimento do cercado, estendendo timidamente o focinho na direcção do seu salvador, implorando que ele lhe coçasse o pescoço. - Diz-se que o animal roeu o fio eléctrico de um aparelho de ventilação suspenso do tecto da cocheira, tendo ficado estorricado.

 

A égua aproximou-se um pouco mais, estendendo a cabeça por cima da vedação. Maquinalmente, afaguei-lhe o pescoço, concentrando a minha atenção em Dean Soren.

 

- O que é que lhe parece? - perguntei.

 

O veterinário tocou na cabeça do animal com uma mão enodada pela idade, com tanta suavidade como se afagasse uma criança.

 

- Estou em crer que o velho Stellar tinha mais garra do que talento.

 

- Acha que o Jade o matou?

 

- O que eu penso não interessa - respondeu ele. O que interessa é o que possa vir a ser comprovado. - Fitou-me com aqueles olhos que viram... e podiam ver... tanta coisa acerca de mim. - O que tem a amiga da tua amiga a dizer sobre o assunto?

 

- Nada - respondi, sentindo o estômago às voltas. Ao que tudo indica, ela desapareceu.

 

Na manhã de segunda-feira, a moça de estrebaria de Don Jade, Erin Seabright, deveria ter ido buscar a irmã mais nova para a levar à praia. Não apareceu e desde então não entrara em contacto com a família.

 

Numa manifestação de nervosismo, comecei a percorrer as divisões da casa de visitas enquanto roía a unha já muito gasta do polegar. O Gabinete do Xerife não se mostrara interessado na inquietação de uma garota de doze anos. Era pouco plausível que soubessem alguma coisa a respeito de Don Jade ou que tivessem algum interesse no indivíduo. Os pais de Erin Seabright, presumivelmente, também não saberiam nada sobre Jade, caso contrário, Molly não teria sido a única da família Seabright a procurar ajuda.

 

A nota de dez dólares que a garota me dera encontrava-se em cima da pequena escrivaninha, ao lado do meu computador portátil. Dentro da nota dobrada, colocara um cartão-de-visita que ela própria fizera: o nome, endereço e um gato listrado numa etiqueta de remetente; esta estava colada a um pequeno rectângulo azul. Cuidadosamente, escrevera o seu número de telefone na margem inferior do cartão.

 

Don Jade andava metido com uma das suas empregadas quando o cavalo Titan morrera havia cinco anos. Perguntei a mim mesmo se esse procedimento seria habitual por parte dele: foder com as moças de estrebaria. Não seria o primeiro treinador a adoptar esse passatempo. Pensei no modo como Molly evitou o meu olhar quando me disse que a irmã não tinha nenhum namorado.

 

Afastei-me da escrivaninha, sentindo-me ansiosa e preocupada. Desejei nunca ter ido falar com o Dr. Dean. Quem me dera nunca haver tomado conhecimento daquilo que fiquei a saber sobre Don Jade. A minha vida já estava suficientemente complicada sem a intrusão de Molly Seabright e os seus problemas de família. Em princípio, eu deveria estar a endireitar o emaranhado da minha vida, dando resposta a perguntas que vinham do meu íntimo, tentando encontrar-me a mim própria... ou encarando o facto de que não existia nada que valesse a pena encontrar.

 

Se eu não fosse capaz de me encontrar a mim mesma, como é que conseguiria encontrar outra pessoa? Não queria cair naquele poço sem fundo. O meu envolvimento no meio equestre era, supostamente, a minha salvação. Não queria que essa actividade tivesse alguma coisa a ver com gente como Don Jade, gente que não hesitava em electrocutar um cavalo, como no caso do Stellar, ou em lhe enfiar bolas de pingue-pongue nas narinas, cortando-lhe o oxigénio, como acontecera ao Titan de Warren Calvin.

 

Era assim que os sufocavam: com bolas de pingue-pongue empurradas para dentro das narinas. Senti um aperto no peito perante aquela imagem macabra em que o animal entrara em pânico, arremessando-se contra as paredes da sua cocheira enquanto tentava, desesperadamente, escapar ao seu triste destino. Imaginava os olhos revirados numa manifestação de terror, ouvindo os relinchos enquanto o cavalo se atirava para trás, embatendo com violência contra a parede. Imaginava o animal desorientado, o som horrível da pata dianteira a partir-se com um estalo. O pesadelo parecia tão verídico, com aqueles sons a ecoarem estridentemente na minha cabeça. Senti-me invadida por um misto de náuseas e fraqueza. Tive a impressão de que a minha garganta se fechava. Queria sufocar.

 

A suar e a tremer, saí para o pequeno terraço. Pensei que acabaria por vomitar. Perguntei o que é que aquele estado de espírito diria a meu respeito, tendo em vista que durante todo o tempo que trabalhara como detective nunca me sentira nauseada face a qualquer coisa que um ser humano tivesse feito a outro; porém, face a actos de crueldade para com um animal sentia-me desfeita.

 

O ar da noite era fresco e calmante e, a pouco e pouco, varreu aquelas imagens horríveis da minha mente.

 

Sean tinha visitas. Conseguia vê-las pelas janelas da sala de jantar, a falar e a rir. A luz do lustre filtrava-se através das janelas altas que abriam a meio, indo-se reflectir na superfície escura da água da piscina. Eu fora convidada para o jantar, mas recusei o convite sem pensar duas vezes, uma vez que continuava furiosa com ele por causa da reportagem da Sidelines. Ele estaria, muito possivelmente, enquanto eu me encontrava ali, a falar aos amigalhaços de uma detective particular que vivia nas traseiras de sua casa. Grande cabrão, diletante dum raio, a servir-se de mim para divertir os compinchas de Palm Beach! O facto de estar a brincar com a minha vida era coisa que nem sequer lhe passava pela cabeça.

 

De uma forma muito conveniente para mim, esquecia-me de que ele começara por salvá-la.

 

Não queria recordar esse pormenor. Não queria pensar em Molly Seabright nem na irmã. Em princípio, aquele lugar deveria ser o meu santuário, mas senti-me como se houvesse meia dúzia de mãos invisíveis que me agarrassem, puxando-me pelas roupas, beliscando-me. Tentei afastar-me delas, atravessando o relvado orvalhado até às cavalariças.

 

As cavalariças de Sean haviam sido concebidas pelo mesmo arquitecto que desenhara a mansão e a casa das visitas. Os arcos mouriscos formavam varandas abertas nos dois lados. O telhado era de telha verde e o tecto de madeira de teca. Os candeeiros suspensos do centro da galeria eram réplicas das de um hotel art déco que havia em Miami. A maior parte dos seres humanos não possui casas que tenham custado o que as cavalariças de Sean custaram.

 

Era um espaço encantador, um lugar onde eu ia frequentemente à noite para me acalmar. Existem poucas coisas que me induzam tanta calma e um sentimento de segurança como observar os cavalos a mordiscar o feno ao fim do dia. Levam uma vida simples. Sabem que se encontram em segurança. O seu dia acabou e têm a certeza de que o Sol se levantará no firmamento na manhã seguinte.

 

Confiam por completo em quem cuida deles. São extraordinariamente vulneráveis.

 

Oliver deixou a sua refeição, colocando a cabeça por cima da portinhola da cocheira para poder chegar o focinho à minha face. Apanhou-me a gola da camisa de ganga, já bastante velha, que lhe ficou presa nos dentes, dando a impressão de ter esboçado um sorriso, satisfeito com a partida que me pregara. Abracei a cabeça enorme, respirando o cheiro que emanava dele. Quando recuei, libertando a gola, ele olhou para mim com olhos tão generosos e inocentes quanto os de uma criança.

 

Regressei à casa das visitas, olhando uma vez mais para os convidados de Sean na casa de jantar, quando passei. Todos davam a impressão de estarem a divertir-se à grande, sorrindo e rindo, banhados pelas luzes de um matiz dourado. Perguntei a mim própria o que teria visto caso tivesse passado pela casa de Molly Seabright. A mãe e o padrasto a falarem na sua presença, preocupados com aspectos correntes do seu dia-a-dia; Molly isolada deles devido à sua inteligência arguta, ao que se associava a preocupação que a irmã lhe inspirava, perguntando-se a quem recorrer a seguir.

 

Quando entrei em casa, a luz que piscava no meu telefone indicou-me que tinha uma mensagem. Premi o botão e preparei-me para escutar a voz de Molly, para logo sentir algo que se assemelhava a desilusão quando ouvi o meu advogado a pedir-me que lhe telefonasse, de preferência, ainda neste século. Grande cara de cu! Desde que deixara de trabalhar no Gabinete do Xerife, travávamos uma batalha para que eu viesse a receber a indemnização por incapacidade física. (Dinheiro que não me fazia falta, mas a que tinha direito, visto que o acidente ocorrera durante o desempenho das minhas funções profissionais. Não interessava que a culpa tivesse sido inteiramente minha, ou que as lesões sofridas fossem insignificantes quando comparadas com o que acontecera a Hector Ramirez.) O que diabo desconheceria ele em relação à situação, decorrido todo este tempo? O que o levaria a pensar que precisava de falar comigo?

 

Por que razão haveria de existir alguém que pensasse que precisava de mim?

 

Dirigi-me para o meu quarto e sentei-me na cama, abrindo a gaveta da mesa-de-cabeceira. Tirei o tubo de Plástico castanho de Vicodin e despejei os comprimidos em cima do tampo da mesinha. Olhei fixamente para eles, contei-os um a um, tocando em cada comprimido. Como era Patético que um ritual como este tivesse o condão de me acalmar, que a perspectiva da ingestão de uma dose excessiva - ou o pensamento de que esta noite não tomaria os comprimidos - pudesse tranquilizar-me.

 

Meu Deus, quem é que no seu perfeito juízo pensaria que precisava de mim?

 

Enojada comigo própria, voltei a guardar os comprimidos dentro do tubo, que arrumei na gaveta. Detestei-me por não ser aquilo que sempre acreditara ser: forte. Mas era preciso não esquecer que eu sempre confundira tudo; sempre tomara o carácter insensível por fortaleza, a atitude de desafio por independência, a irresponsabilidade por bravura.

 

A vida é uma porra quando se conclui, já com trinta e tal anos, que tudo aquilo que se acreditava ser verdade e admirável a nosso respeito nada mais é que uma mentira que serve os nossos interesses.

 

Eu tinha-me enfiado num canto e não sabia como sair dele. Não sabia se seria capaz de me reinventar. Não me parecia que tivesse a força ou a vontade necessárias para o fazer. Ocultar o meu purgatório ciosamente não exigia nenhuma força especial.

 

Apercebi-me de até que ponto a minha situação era patética. Durante os últimos dois anos, passara um grande número de noites a perguntar a mim própria se a morte não teria sido preferível a ser patética. Até agora, havia concluído que a resposta era ”não”. Estar viva, no mínimo, proporcionava-me a possibilidade de melhorar a minha maneira de ser.

 

Estaria Erin Seabright algures a pensar a mesma coisa? Ou já seria tarde de mais? Ou ter-se-ia deparado com aquela circunstância única em que a morte era preferível, ainda que não fosse uma opção?

 

Trabalhei nas forças policiais durante muito tempo. Iniciara a minha carreira em West Palm Beach, num carro-patrulha, vistoriando áreas da cidade onde o crime era uma opção de vida bastante comum e os estupefacientes podiam ser comprados na rua em plena luz do dia. Já tinha trabalhado durante algum tempo na Brigada de Costumes, o que me dera a oportunidade de ver o negócio da prostituição e da pornografia de perto e de maneira muito pessoal. Passei vários anos a trabalhar para a Brigada de Narcóticos do Gabinete do Xerife.

 

Tinha a cabeça cheia de imagens que me mostravam as consequências gravosas de se ser uma mulher jovem no lugar errado à hora errada. O Sul da Florida proporcionava um grande número de lugares onde era possível que alguém se livrasse de cadáveres ou pudesse esconder segredos tenebrosos. Wellington era um oásis de civilização, mas os terrenos que ficavam para lá dos condomínios fechados assemelhavam-se mais à terra que o tempo esquecera. Pântanos e bosques. Campos abertos cobertos de uma vegetação enfezada e inóspita, além das plantações de cana-de-açúcar. Caminhos de terra batida cheios de sulcos percorridos por labregos, laboratórios clandestinos de metadona instalados em atrelados que deviam ter sido deixados para as ratazanas há vinte anos. Canais e valas de escoamento das águas pluviais cheios de um líquido sujo e negro, onde reinavam os jacarés, felizes por poderem fazer uma refeição com qualquer espécie de carne.

 

Estaria Erin Seabright algures por ali à espera de alguém que fosse salvá-la? Estaria ela à minha espera? Que Deus a ajudasse. Eu não queria ir.

 

Dirigi-me à casa de banho para lavar as mãos e refrescar o rosto. Uma tentativa para afastar quaisquer sentimentos de responsabilidade. Só sentia a água na face direita. Os nervos da face esquerda haviam ficado lesionados, deixando-me com os movimentos e a capacidade sensorial reduzidos. Os cirurgiões plásticos tinham-me proporcionado uma expressão fisionómica adequadamente neutra, um trabalho tão bem executado que ninguém desconfiava de que algo se passasse comigo para além de uma certa falta de emoção.

 

A expressão plácida, naquele momento, devolvia-me o olhar fixo reflectido no espelho. Outra lembrança que não me deixava esquecer que nenhum aspecto de mim era normal, pelo menos a cem por cento. Como se poderia esperar que eu fosse a salvadora de Erin Seabright?

 

Bati no espelho com os punhos uma vez, e depois repetidamente, desejando que a minha imagem se fragmentasse perante os meus olhos, com tanta precisão como acontecera comigo dois anos antes. Uma outra parte de mim desejava voltar a sentir a dor aguda da carne golpeada, o ritual da pureza simbolizado pelo verter de sangue. Queria sangrar para saber que existia. Queria desvanecer-me para escapar à dor. As forças contraditórias digladiavam-se dentro de mim, sobrecarregando os meus pulmões, fazendo pressão contra o meu cérebro.

 

Dirigi-me para a cozinha e fiquei a olhar para o cepo com as facas sobre a bancada, ao lado das chaves do meu carro.

 

A vida pode alterar-se de um momento para o outro, numa fracção de segundos. Sem o nosso consentimento. Eu já me inteirara de que isso correspondia à realidade. Bem no fundo do meu coração, naquele momento, naquela noite, suponho que soubesse que isso era verdade. Prefiro acreditar que peguei nas chaves e saí de casa para escapar ao tormento que infligia a mim própria. Essa noção permitiu-me continuar a acreditar que era egoísta.

 

Na verdade, a escolha que fiz nessa noite não era nada segura. Face a esse dilema, optei por seguir em frente. Utilizei um estratagema em mim mesma que me levou a escolher a vida em vez do purgatório.

 

Antes que tudo tivesse terminado, receei que viesse a arrepender-me da minha decisão... ou a morrer ao tentar.

 

O Centro de Pólo Equestre de Palm Beach é como uma pequena nação soberana, a que não faltam os membros da realeza e a guarda real postada junto dos portões da frente. Os portões das traseiras mantinham-se abertos durante o dia, ficando a uma distância de cinco minutos de carro da quinta de Sean. As pessoas das redondezas costumavam levar os seus cavalos no próprio dia em que as competições hípicas se realizavam, poupando assim o custo do alojamento dos animais - noventa dólares por um fim-de-semana numa cocheira montada numa tenda de circo de lona e tubos metálicos com espaço para mais noventa e nove cavalos. O guarda que fazia as rondas nocturnas costumava fechar os portões a uma determinada hora, madrugada adentro. Nessa noite, ainda não havia feito a sua ronda.

 

Transpus os portões ao volante do meu automóvel, tendo tido o cuidado de pendurar no espelho retrovisor um passe de cartão amarelo que roubara do Mercedes de Sean, não fosse o diabo tecê-las. Estacionei numa correnteza de veículos ao longo da vedação, no lado oposto ao das últimas quarenta tendas, bastante amplas, que serviam de estábulos no interior da propriedade.

 

Eu tinha um BMW 318i descapotável que comprei num leilão organizado pelo Gabinete do Xerife. Por vezes, a capota deixava entrar água quando chovia com intensidade, mas tinha a compensação de estar equipado com uma opção muito interessante que não fora instalada na fábrica da marca na Baviera: uma pequena caixa metálica, forrada com esPonja, oculta no lado de dentro da porta do lado do condutor, com tamanho suficiente para se guardar um pequeno saco de cocaína ou uma arma. A Glock de nove milímetros que eu guardava nessa caixa encontrava-se naquele momento na parte de trás das minhas calças de ganga, oculta pela fralda da camisa quando saí do carro.

 

Nos dias de exibições equestres, o hipódromo tem tanto movimento e o frenesim é tanto como o das ruas de Calcutá. Os carrinhos eléctricos e os pequenos motociclos andam velozmente de um lado para o outro entre os estábulos e as pistas de exibição, furtando-se aos cães, automóveis utilitários e atrelados, equipamento pesado, Jaguars e Porsches, gente a cavalo, crianças e potros, assim como ao pessoal que trabalha nas diversas estrebarias e que conduz os cavalos à sua guarda pelas rédeas, animais com crinas impecavelmente entrançadas e envoltos em capas de duzentos dólares, que os mantêm frescos, exibindo as cores das cavalariças a que pertencem. As tendas têm o aspecto de campos de refugiados com latrinas portáteis instaladas diante delas, pessoas a encherem baldes com a água que tiram das bocas-de-incêndio situadas nas bermas do caminho de terra batida, assim como imigrantes ilegais que despejam baldes cheios de esterco em fossas que são despejadas uma vez por dia por camiões dos serviços de saneamento. Cavalos de escolas de equitação em todos os pedaços de terreno desocupado, treinadores que gritam instruções, palavras de encorajamento e insultos aos seus alunos. A toda esta confusão acrescem as informações que são difundidas regularmente através do sistema de altifalantes de tantos em tantos minutos.

 

Durante a noite, aquele recinto é um mundo completamente diferente. Sossegado. Quase deserto. Os caminhos desertos. Os seguranças fazem as rondas, indo periodicamente aos estábulos. É possível que um ou outro moço de estrebaria ou treinador de cavalos passe por lá, procedendo ao ritual da inspecção nocturna ou para prestar cuidados médicos a algum animal que esteja lesionado. Há alguns estábulos que têm a sua própria segurança de serviço em tendas que servem de salas de arreios requintadamente decoradas. Amas de carne de cavalo que vale milhões.

 

Pode acontecer muita coisa má a coberto da noite. Rivais podem tornar-se inimigos. O ciúme pode transformar-se em vingança. Em tempos conheci uma mulher que passou a ter sempre um segurança com os seus cavalos depois de um dos seus melhores saltadores de obstáculos ter sido drogado com LSD na noite que precedeu uma competição cujo prémio eram cinquenta mil dólares.

 

Quando eu ainda trabalhava na Brigada de Narcóticos, fiz uma ou duas belas detenções neste mesmo hipódromo. Qualquer espécie de droga - para uso humano ou animal, medicinal ou recreativa - podia ser obtida aqui, caso se soubesse a quem e como perguntar. Porque em tempos eu havia feito parte deste mundo, não me era difícil passar despercebida. Comportava-me e falava como as pessoas ligadas àquele meio. Tinha esperança de que a pequena partida de Sean na Sidelines não me tivesse privado do anonimato.

 

Percorri o caminho sinuoso desde a área das traseiras até à zona que, num eufemismo, era conhecido por ”As Pradarias”, o gueto de tendas onde os organizadores instalavam sempre os cavalos de exibição que entravam apenas em alguns espectáculos por temporada. Destas tendas, instaladas nas traseiras do recinto, tem de se percorrer vinte minutos a pé até ao coração do hipódromo, onde são realizadas as exibições hípicas. Havia maquinaria de remoção de terras parada junto a um terreno recentemente desbravado. Andavam de novo a expandir as instalações.

 

Havia luzes ligadas no interior das tendas. O riso melódico de uma mulher ecoou pela noite dentro. O riso abafado de um homem sublinhou esse som. Conseguia ver o casal ao fundo de um corredor junto da tenda número dezanove. A um canto da tenda havia um canteiro impecavelmente ajardinado, no centro do qual se via uma tabuleta iluminada que indicava o nome das cavalariças com letras douradas sobre um fundo de verde-musgo: JADE.

 

Passei pela tenda. Agora que descobrira os estábulos de Jade, não sabia o que fazer a seguir. Não tinha planeado tudo. Virei no extremo mais afastado da tenda número dezoito, voltando a contorná-la até chegar ao corredor da número dezanove, suficientemente perto para escutar vozes outra vez.

 

- Estás a ouvir alguma coisa? - perguntou o homem.

 

Falava com um sotaque estrangeiro. Talvez fosse holandês, possivelmente flamengo. Sustive a respiração.

 

- São barulhos das entranhas - adiantou a mulher. Ela está bem, mas mesmo assim temos de rever a situação com o veterinário. Depois do que aconteceu com o Stellar não podemos ser descuidados.

 

O homem soltou uma gargalhada totalmente desprovida de humor.

 

- As pessoas já decidiram o que concluir com respeito a esse assunto. Acreditam naquilo em que querem acreditar.

 

- No pior - redarguiu a mulher. - A Jane Lennox telefonou-me hoje. Está a pensar em arranjar outro treinador para a Park Lane. Consegui convencê-la a não tomar essa decisão.

 

- Tenho a certeza de que conseguiste. Tu és muito persuasiva, Paris.

 

- Isto é a América. Todos são inocentes até prova em contrário.

 

- Caso se seja rico, belo ou encantador.

 

- O Don é belo e encantador, mas todos estão convictos de que é culpado.

 

- Como o O. J. Simpson era culpado? Neste momento anda a jogar golfe e a foder mulheres de raça branca.

 

- Mas que coisa para se dizer!

 

- É a verdade. E o Jade tem um estábulo cheio de cavalos. Americanos... - Uma entoação de desprezo.

 

- Eu sou americana, V. - Alguma irritação no tom de voz. - Estás a chamar-me estúpida?

 

- Paris... - Uma entoação de contrição mesclada de lisonja.

 

- Os americanos estúpidos que compram os teus cavalos e te enchem as algibeiras. Devias mostrar mais respeito. Ou isso serve única e exclusivamente para demonstrar até que ponto é que somos estúpidos?

 

- Paris... - O mesmo tom de voz de adulação e contrição. - Não te zangues comigo. Não quero que te zangues comigo.

 

- Não, não queres.

 

Entretanto, um jack-russel terrier apareceu a farejar numa esquina da tenda, olhando-me fixamente enquanto alçava a perna para urinar num fardo de feno, considerando se devia ou não denunciar-me. Baixou a perna e pôs-se a ladrar, armado em alarme de carro. Deixei-me ficar onde me encontrava.

 

- Milo Milo, vem cá! - chamou a mulher.

 

Milo manteve-se firme. Sempre que ladrava, balouçava para cima e para baixo como se fosse um brinquedo de corda.

 

A mulher contornou a esquina, mostrando-se surpreendida ao deparar comigo. Era loura e bonita, usava umas calças escuras e um pólo verde que deixava ver a garganta e os dois fios que usava. Exibiu um sorriso de mil voltes, adequado a um anúncio para pasta de dentes, que não passava de uma mera flexão muscular automática dos maxilares.

 

- Peço desculpa, ele tem a mania de que é um rottweiler - justificou-se ela, pegando no russel. - Deseja alguma coisa?

 

- Não sei. Ando à procura de uma pessoa. Disseram-me que trabalha para o Don Jade. A Erin Seabright?

 

- A Erin? O que é que pretende dela?

 

- Isto é um tanto ou quanto embaraçoso - disse eu. Ouvi dizer que ela andava à procura de outro emprego. Tenho um amigo que anda à procura de uma moça de estrebaria. Sabe como é durante a temporada.

 

- A quem o diz! - ripostou ela com um suspiro cheio de dramatismo, revirando os grandes olhos castanhos. Uma actriz. - Também andamos à procura de alguém para os nossos estábulos. A Erin despediu-se, o que nos deixou muito tristes.

 

- A sério? Quando é que isso aconteceu?

 

- No domingo. Deixou-nos assim, sem mais nem menos. Encontrou qualquer coisa mais interessante em Ocala, julgo eu. O Don ainda tentou convencê-la a mudar de ideias, mas estava firmemente decidida. Foi com muita pena que tomei conhecimento da sua decisão. Eu gostava da Erin. Mas sabe como estas raparigas podem ser estouvadas.

 

- Bem... a verdade é que estou surpreendida. Tanto Quanto me é dado saber, ela tencionava permanecer na área de Wellington. Deixou alguma morada... para onde o cheque do ordenado lhe possa ser enviado?

 

- O Jade pagou-lhe antes de ela se ter ido embora. A propósito, eu sou a assistente do Don, Paris Montgomery acrescentou, mantendo o cão chegado a si enquanto me estendia a outra mão. Tinha um aperto forte. - E você é...?

 

- ele Stevens... - Um nome que usei quando trabalhava à paisana na minha vida passada. Chegou-me à ponta da língua sem a mínima hesitação. - Portanto, ela partiu no domingo. Isso aconteceu antes ou depois de o Stellar ter ido desta para melhor?

 

O sorriso feneceu nos lábios dela.

 

- O que é que a leva a fazer essa pergunta?

 

- Bem vê... uma empregada descontente que se despede e, repentinamente, um dos vossos cavalos morre... adiantei.

 

- O Stellar roeu um fio eléctrico. Foi um acidente.

 

- Ora bem, quem sou eu para dizer o contrário? - retorqui com um encolher de ombros. - As pessoas começam a falar.

 

- As pessoas não sabem merda nenhuma! - ripostou.

 

- O que é que se passa aqui? Algum problema? O homem entrou em cena. Teria uns cinquenta e tal anos, era alto e exibia uma cabeça portentosa, com o escasso cabelo impecavelmente penteado; tinha uma expressão aristocrática e usava um par de calças beges e uma camisola de malha de algodão Lacoste.

 

- Não, de maneira nenhuma - disse eu. - Ando apenas à procura de uma pessoa.

 

- Da Erin - esclareceu Paris Montgomery.

 

- A Erin?!

 

- A Erin. A minha moça de estrebaria. A que se foi embora.

 

- Essa rapariga? - retorquiu ele mostrando uma expressão de desagrado. - Ela não servia para nada. O que quer dela?

 

- Para o caso não interessa - redargui. - Ela desapareceu.

 

- Como é que o seu amigo se chama? - perguntou Paris. - Na hipótese de eu ouvir falar de alguém.

 

- Sean Avadon. Da Quinta Avadonis.

 

Os olhos azuis do homem, até aí com uma expressão de frieza, brilharam.

 

- Ele tem uns cavalos muito jeitosos.

 

- Sim, de facto tem - concordei.

 

- Trabalha para ele? - perguntou-me o homem. Suponho que naquela situação se podia concluir que eu seria uma trabalhadora braçal, com o meu cabelo cortado às três pancadas, calças de ganga muito coçadas e botas de trabalho.

 

- É um velho amigo. Aluguei um dos cavalos dele até conseguir encontrar aquilo de que ando à procura.

 

Ao ouvir isto, ele sorriu como um gato que tivesse encurralado o rato.

 

- Posso ajudá-la - ofereceu-se.

 

Um negociante de cavalos. A terceira profissão mais antiga do mundo. Os antecessores dos vendedores de carros em segunda mão.

 

Paris Montgomery revirou os olhos. Nesse momento, apareceu um automóvel utilitário pelas traseiras da tenda.

 

- É o doutor Ritter. Tenho de ir. - Voltou a afivelar o sorriso rasgado e, uma vez mais, deu-me um aperto de mão. - Tive muito prazer em conhecê-la, ele - acrescentou como se não tivéssemos trocado algumas palavras mais desagradáveis quando a morte de Stellar fora abordada. Boa sorte na sua procura.

 

- Obrigada - agradeci.

 

Ela pousou o russel no chão, seguindo atrás da besta ladradora até contornar a esquina, quando o veterinário a chamou.

 

- Tomas Van Zandt - apresentou-se o homem estendendo-me a mão.

 

- ele Stevens - retribuí, seguindo-lhe o exemplo.

 

- Tenho muito prazer - disse ele, prendendo a minha mão durante um tudo-nada de tempo a mais.

 

- Acho que tenho de ir andando - adiantei, retrocedendo um passo. - Está a ficar tarde para uma caça aos gambozinos.

 

- Eu levo-a até ao seu carro - ofereceu-se ele. - As mulheres belas não devem andar desacompanhadas durante a noite. Nunca se sabe que tipo de gente é que pode andar por aí.

 

- Estou em crer que tenho uma ideia bastante precisa, mas agradeço o seu cuidado. As mulheres também não devem entrar em automóveis com homens que acabaram de conhecer - acrescentei.

 

- Eu sou um cavalheiro, ele - disse ele, rindo-se e levando uma mão ao coração. - Inofensivo. Sem segundas intenções, um homem que não quer mais nada de si além de um sorriso.

 

- Mas tal não o impediria de tentar vender-me um cavalo. O que me custaria muito dinheiro.

 

- Mas somente os melhores cavalos - prometeu ele. Encontrarei precisamente aquilo de que necessita por um bom preço. O seu amigo Avadon gosta de bons cavalos. Talvez pudesse apresentar-nos.

 

Negociantes de cavalos... Revirei os olhos, brindando-o com um meio sorriso.

 

- Talvez eu queira apenas uma boleia até ao meu carro. Aparentando satisfação, ele precedeu-me até à saída da tenda, dirigindo-se para um Mercedes preto de quatro portas e abrindo a do passageiro da frente para que eu entrasse.

 

- Deve ter muitos clientes satisfeitos para poder alugar um automóvel destes para a temporada - comentei.

 

Van Zandt esboçou um sorriso como o do gato que, desta vez, conseguira apanhar o rato e o canário.

 

- Tenho clientes tão satisfeitos que um deles me emprestou este carro durante os meses de Inverno.

 

- Que maravilha! Se ao menos o meu ex-marido me tivesse feito tão feliz, é muito possível que ele ainda pertencesse ao presente.

 

- Onde é que estacionou o seu automóvel, Miss ele? perguntou Van Zandt rindo-se da minha piada.

 

- Junto do portão das traseiras - respondi. Avançámos. - Conhece essa rapariga, a Erin? - perguntei-lhe quando já percorríamos o caminho que nos levaria às ”Pradarias”. - Ela é boa trabalhadora?

 

Ele apertou os lábios como se às narinas lhe tivesse chegado um vago cheiro a algo apodrecido.

 

- Má atitude. Língua afiada. Sempre a namoriscar com os clientes. As raparigas americanas não são boas moças de estrebaria. São mimadas e preguiçosas.

 

- Eu sou uma rapariga americana.

 

- Contrate uma boa moça polaca - retorquiu ele, ignorando o que eu acabara de dizer. - São resistentes e baratas.

 

- Acha que posso arranjar uma no Wall-Mart? Neste momento, tenho uma russa. Está convencida de que é uma czarina.

 

- Os Russos são arrogantes - adiantou ele.

 

- E o que é que os Holandeses são?

 

O sorriso melífluo aflorou-lhe aos lábios enquanto manobrava o Mercedes para o local que lhe indicara, parando ao lado do meu Beemer.

 

- Nasci na Bélgica - corrigiu ele. - Os Belgas são homens encantadores e sabem como tratar uma senhora.

 

- São uns patifes cheios de artimanhas, diria eu - retorqui. - As senhoras devem estar sempre na defensiva, estou em crer.

 

- Você não se deixa convencer com facilidade, ele Stevens - disse Van Zandt, rindo-se à socapa.

 

- É preciso mais do que um sorriso e um sotaque para que alguém me convença. Tenciono obrigá-lo a trabalhar para isso.

 

- Um desafio! - exclamou, mostrando-se deleitado perante a perspectiva.

 

Saí do carro sem esperar que ele o contornasse para me abrir a porta e tirei as chaves da algibeira das calças. Senti que as costas da mão roçavam pela coronha da arma que trazia presa no cós.

 

- Obrigada pela boleia - agradeci-lhe.

 

- Eu é que agradeço, ele Stevens. Você iluminou uma noite que de outro modo teria sido aborrecida.

 

- Não deixe que Miss Montgomery o ouça a dizer uma coisa dessas - adverti na brincadeira.

 

- Ela é só pessimismo, sempre a falar do cavalo castrado que morreu.

 

- Perder um cavalo que valesse tanto dinheiro como esse valia também me poria completamente de rastos.

 

-O dinheiro não era dela - esclareceu o homem.

 

- Talvez ela gostasse do cavalo - alvitrei.

 

- Existe sempre um outro - disse ele com um encolher de ombros.

 

- Que estou certa terá todo o prazer em fornecer ao proprietário desgostoso por um determinado preço.

 

- Claro que sim. E porque não? O negócio é assim mesmo... tanto para mim como para ela.

 

- Não haja dúvida, você é um idiota sentimental - redargui com ironia.

 

À luz crua dos candeeiros de rua, vi que os músculos do queixo de Van Zandt se contraíam.

 

- Há trinta anos que me dedico a este negócio, ele Stevens - afirmou ele, deixando adivinhar alguma impaciência na sua entoação de voz. - Não sou um homem sem coração, mas, na perspectiva dos profissionais, os cavalos vão e vêm. É uma pena que o castrado tenha morrido, mas, para os profissionais, um idiota sentimental é tão-somente isso mesmo: um idiota. As pessoas têm de dar continuidade às suas vidas. A exemplo do que acontece com os proprietários de cavalos. A companhia de seguros pagará a indemnização devida pela morte desse cavalo, o que permitirá ao dono comprar outro que o substitua.

 

- Que você terá todo o gosto em providenciar adiantei.

 

- Como é evidente. Já sei de um cavalo, que actualmente se encontra na Bélgica: tem umas radiografias sem qualquer anomalia e é duas vezes melhor a saltar obstáculos do que o que morreu.

 

- E pelo preço insignificante de um vírgula oito milhões, ele poderá vir a pertencer a algum americano cheio de sorte, além de passar a ser montado pelo Don Jade.

 

- Os bons cavalos custam bom dinheiro, mas os bons cavalos são vencedores - ripostou ele.

 

- Enquanto o resto pode roer fios eléctricos pela calada da noite, estorricando-se durante o processo, não é verdade? - perguntei. - Tenha cuidado com as pessoas a quem disser isso, Van Zandt. É possível que o perito de alguma companhia de seguros o ouça, interpretando erroneamente as suas palavras.

 

O homem não se mostrou indiferente ao que eu acabara de dizer. Apercebi-me da tensão que se apoderou dele.

 

- Eu nunca disse que havia alguém responsável pela morte do cavalo - declarou numa voz baixa e tensa. Estava irritado comigo. Em princípio, eu não devia ter um cérebro. Esperava-se que fosse a próxima americana com dinheiro a mais e juízo a menos, à espera que ele me encantasse e me levasse para a Europa para ir às compras.

 

- Não, mas o Jade goza dessa reputação, não é verdade? - perguntei.

 

Van Zandt aproximou-se mais de mim. As minhas costas colaram-se ao carro. Para o olhar fui forçada a erguer a cabeça. Não havia vivalma por perto. Apenas um descampado para lá dos portões das traseiras do recinto. Sorrateiramente, levei a mão à parte de trás do cós das calças, tocando no revólver.

 

- Por mero acaso, será você essa pessoa de uma companhia de seguros, ele Stevens? - perguntou ele.

 

- Eu?! - exclamei, rindo. - Deus do céu, claro que não! Eu não trabalho! - Pronunciei a última palavra com o timbre de desdém que a minha mãe teria usado. - Trata-se apenas de uma boa história, mais nada. Don Jade: ”Perigoso Homem dos Mistérios.” Sabe bem como é que nós somos, os nativos de Palm Beach. Não somos capazes de resistir a um escândalo bem apimentado. Neste momento, a maior preocupação que tenho na vida é saber de onde é que virá o meu próximo cavalo. O que se passa com a gente deste meio dos cavalos de exibição, para mim, não possui qualquer significado além de ser uma boa fonte de coscuvilhices.

 

Perante isto, ele descontraiu-se, tendo chegado à conclusão de que eu era excessivamente egoísta para ter outras preocupações. Deu-me um cartão-de-visita e voltou a recorrer ao velho charme. Não há nada como a ganância para motivar um homem.

 

- Telefone-me, ele Stevens. Pode estar descansada que eu trato de lhe encontrar esse cavalo.

 

Tentei sorrir, sabendo que apenas um lado da minha boca se deslocava para cima.

 

- É muito possível que eu venha a aceitar a sua oferta, Mister Van Zandt.

 

- Trate-me por V. - sugeriu ele num tom de voz estranhamente

 

íntimo. - V. para Cavalos Vencedores, para Vitórias no hipódromo.

 

”V. para vómito”, pensei.

 

- Agora somos amigos - anunciou ele. Inclinou-se e beijou-me na face direita e em seguida na esquerda, voltando a beijar-me na direita. Os lábios dele eram secos e frios.

 

- Três vezes - disse Van Zandt, num tom cada vez mais melífluo. - Como os Holandeses fazem.

 

- Não me esquecerei disso. Quero agradecer-lhe uma vez mais pela boleia. - Entrei no meu carro, recuando do lugar onde estacionara. O portão das traseiras estava fechado a cadeado. Inverti a direcção e retomei o caminho que me obrigaria a passar pela tenda número dezanove. Van Zandt seguiu-me até à entrada dos camiões. As luzes das quatro cavalariças permanentes à direita, muito amplas, brilhavam intensamente. Na guarita, à beira do caminho antes dos portões principais, havia um segurança; o rádio que ele tinha no interior transmitia música reggae com o volume do som no máximo. Acenei-lhe. Ele indicou-me que seguisse sem me perguntar o que quer que fosse, com toda a sua atenção concentrada no pesado camião com atrelado para o transporte de cavalos. Não era descabido pensar que eu pudesse ter o porta-bagagem cheio de selas roubadas. Podia ter ocultado um cadáver na parte de trás do carro. Eu podia ser qualquer pessoa, podia ter feito qualquer coisa. Pensamentos inquietantes que me acompanharam durante o trajecto até casa.

 

Virei à direita, para Pierson. Van Zandt virou à direita, em direcção a Pierson. Continuei a observá-lo através do espelho retrovisor, perguntando a mim mesma se ele não teria acreditado quando lhe dissera que não era perita de nenhuma companhia de seguros. Perguntei-me qual seria a reacção dele se visse a fotografia publicada na Sidelines, juntando dois mais dois. No entanto, as pessoas são engraçadas na sua maneira de agir, sendo mais facilmente enganadas do que o comum dos mortais gostaria de acreditar. Eu não era parecida com a mulher da fotografia. Tinha os cabelos curtos. Não lhe dissera o nome que legendava a fotografia. O único elo de ligação significativo era Sean. Mesmo assim, as palavras detective particular accionariam os alarmes. Tinha de ter esperança em que Sean estivesse certo: que apenas quem se interessava pelo adestramento de exibição lia essa secção da revista.

 

Virei à direita, em direcção a South Shore. Van Zandt virou à esquerda.

 

Desliguei os faróis, inverti a marcha e segui-o a alguma distância, passando pelo campo de pólo. Entrou pelo acesso particular do Players. Decerto que para uma ceia bem regada. Parte do trabalho dos negociantes de cavalos. Um bom amigo, recentemente arranjado, por detrás do balcão de um bar como aquele, podia vir a revelar ter bolsos fundos e sem qualquer tipo de contenção.

 

Van Zandt preparava-se para arrecadar uma boa receita ao vender o saltador de obstáculos belga à proprietária do Stellar, a qual, por seu turno, se preparava para receber uma indemnização choruda da companhia de seguros por um cavalo que nunca tivera grande futuro. Enquanto Don Jade o qual treinara e montara Stellar em exibições, e que faria o mesmo em relação ao animal que o substituísse - se encontrava no meio dos dois, recebendo dinheiro das duas partes do negócio. Era muito possível que naquela altura estivessem todos reunidos no Players a beber à morte prematura de Stellar.

 

Erin Seabright não havia sido vista desde a noite em que Stellar morrera.

 

Pus de parte a ideia de ir até ao clube. Não estava preparada para isso. Liguei o motor do carro, dei meia volta e dirigi-me para casa.

 

Estava prestes a tornar-me uma detective particular.

 

Pergunto a mim mesma por que razão continuo viva.

 

Billy Golam tinha apontado a arma directamente ao meu rosto. Em inúmeros pesadelos, olhei para o cano desse.357, inspirando o que devia ter sido o meu último sopro de ar. Mas acontece que Golam se virou, disparando noutra direcção.

 

Viver aquele castigo seria o meu purgatório? Ou esperar-se-ia que eu própria optasse por lhe pôr cobro como paga pela minha irresponsabilidade? Ou teria eu uma sorte dos diabos, recusando-me a acreditar que a realidade era essa?

 

Quatro e meia da manhã.

 

Estava deitada na cama a olhar fixamente para as pás da ventoinha de tecto no seu girar contínuo. A casa de visitas fora arranjada por um decorador de interiores de Palm Beach, que devia ter entrado em parafuso acometido de alucinações inspiradas em plantações nas Caraíbas. Parecia-me ser de uma grande vulgaridade, mas nunca ninguém me havia pago para escolher tintas ou padrões de tecidos para almofadões.

 

Às quatro da madrugada saí de casa para dar de comer aos cavalos. Às cinco já tomara duche. A última vez que tive de me apresentar perante alguém, preocupando-me com o que pudessem pensar de mim, havia sido há tanto tempo que já nem sequer me recordava de como proceder. Estava incapaz de expulsar a convicção de que seria rejeitada logo à primeira vista ou, caso tal não acontecesse, devido à minha reputação.

 

Era esquisito acreditar que toda a gente sabia de mim, tendo conhecimento de tudo o que eu fizera e do que me acontecera, dos eventos que levaram ao fim da minha carreira. Fui objecto de reportagens nos noticiários da noite durante uns dois dias. Algo que preencheu o tempo de antena antes do boletim meteorológico. A verdade é que ninguém directamente envolvido no que sucedera, ninguém que vivesse naquele mundo de polícias, deve ter concedido à história mais do que uma atenção muito fugaz. Na realidade, as pessoas só muito raramente se importavam com os acontecimentos catastróficos que afectam a vida dos outros, salvo para pensarem: ”Antes a ele do que a mim.”

 

Vestindo apenas a roupa interior, fiquei a observar a minha imagem reflectida no espelho. Apliquei um pouco de gel no cabelo, numa tentativa para que parecesse ter sido penteado de uma maneira específica. Perguntei-me se devia tentar maquilhar-me. Desde a operação destinada a consertar o meu rosto, não usava maquilhagem. O médico de cirurgia plástica dera-me o cartão-de-visita de uma mulher especializada em maquilhagem pós-operatória, da Linha Pós-Traumática da Avon. Eu atirara o cartão para o caixote do lixo.

 

Vesti-me depois de ter escolhido e desistido de uma dúzia de peças de roupa, acabando por me decidir por uma blusa de seda sem mangas, cor de cimento acabado de assentar, e um par de calças castanhas que me estavam tão largas na cintura que fui obrigada a prendê-las com um alfinete para que não me escorregassem pelas pernas abaixo.

 

Em tempos idos, tinha o cuidado de andar sempre bem vestida.

 

Matei algum tempo na Internet, roí as unhas e tomei alguns apontamentos.

 

Não encontrei nada de interessante a respeito de Tomas Van Zandt. O nome dele nem sequer constava do seu próprio site, Worldhorsesales.com, indicado no seu cartão-de-visita, e que mostrava fotografias de cavalos que haviam sido negociados por intermédio de Van Zandt. Os números de telefone correspondiam a um escritório no Luxemburgo, a outro para as transacções no mercado europeu e dois a subagentes norte-americanos, um dos quais era Don Jade.

 

Deparei com vários artigos sobre Paris Montgomery em Chronicle ofthe Horse e Horses Daily, que descreviam vitórias em competições hípicas recentes, descrevendo como ela vinha de um meio humilde em que montara potros em pêlo quando vivia em Pine Barrens, na Nova Jérsia. A fazer fé na propaganda, subira à sua própria custa, tendo começado como moça de estrebaria e estudante-trabalhadora até chegar a assistente de treinador de cavalos; o seu êxito devia-se ao trabalho esforçado e talento em bruto. E ao encanto. Sem esquecer que poderia ter sido modelo.

 

Paris era assistente de Don Jade havia três anos e sentia-se muito grata por esta oportunidade, blá-blá-blá. Dizia que eram muito poucas as pessoas que se apercebiam de que ele era um indivíduo extraordinário. Alegava que ele tivera a infelicidade de ter negócios com alguns fulanos de princípios duvidosos, contudo, não devia ser condenado por associação com essa gente, et cetera, et cetera. Jade era citado como havendo dito que Paris Montgomery tinha um futuro brilhante à sua frente, possuindo a ambição e o talento necessários para atingir o que quer que fosse que decidisse fazer.

 

Os artigos eram ilustrados por fotografias em que ela saltava uma barreira montada numa égua de nome Park Lane, assim como grandes planos em que mostrava um sorriso radiante.

 

Aquele sorriso rasgado irritou-me. Era demasiado radiante e de fácil assomo. O encanto não parecia ser sincero. Mas, por outro lado, eu tinha falado com ela durante apenas uns dez minutos. Talvez não simpatizasse com ela porque não podia sorrir, além de não ser encantadora.

 

Desliguei o ecrã do computador portátil e saí. A alvorada não passava de uma vaga noção ao longe, na linha do firmamento a oriente, quando entrei em casa de Sean pelas portas corrediças de vidro que davam para a sala de jantar. Ele estava deitado na cama sozinho, a ressonar. Sentei-me ao seu lado e dei-lhe umas palmadinhas na face. Com lentidão, as pálpebras entreabriram-se, revelando uma teia de veias vermelhas. Esfregou o rosto com a mão.

 

- Eu tinha esperança de que fosses o Tom Cruise proferiu ele numa voz empastada.

 

- Lamento ter-te desiludido. Se por acaso um negociador de cavalos, de nome Van Zandt, aparecer por cá, o meu nome é ele Stevens e tu andas à procura de uma moça de estrebaria.

 

- O quê?! - perguntou ele, sentando-se a direito e sacudindo a cabeça, como que para se libertar das teias de aranha. - Van Zandt? Tomas Van Zandt?

 

- Conhece-lo?

 

- Sim, conheço-o de nome. É o segundo maior vigarista da Europa. Por que razão havia de vir cá?

 

- Porque pensa que talvez lhe compres alguns cavalos expliquei.

 

- E o que é que o leva a pensar isso?

 

- Fui eu que o induzi a acreditar nessa probabilidade.

 

- O quê?! - exclamou Sean irritado.

 

- Não fiques tão ofendido - retorqui. - Essa expressão acentua-te as rugas à volta da boca.

 

- Cabra!

 

Ficou amuado por uns instantes antes de se recompor; passou as mãos pelo rosto, em movimentos a partir dos lábios, para fora e para cima. A plástica facial de dez segundos.

 

- Tu sabes bem que eu já tenho um contacto europeu. Sabes bem que só trabalho com o Toine.

 

- Sim, sei. O último dos negociantes de cavalos que é honesto - adiantei.

 

- O único em toda a história do mundo, tanto quanto sei - acrescentou ele.

 

- Portanto, deixa que o Van Zandt pense que conseguirá afastar-te do Toine. Vais ver que ele até tem um orgasmo. Se aparecer por cá, finge que estás interessado. Deves-me um favor.

 

- Não te devo um favor assim tão grande - contrapôs Sean.

 

- A sério? Graças a ti, agora tenho uma cliente e uma carreira que não quis.

 

- Mais tarde, ainda hás-de agradecer-me.

 

- Mais tarde hei-de vingar-me de ti. - Inclinei-me para ele, voltando a bater-lhe ao de leve na face. - Felicidades no negócio de cavalos.

 

Sean gemeu.

 

- E a propósito - acrescentei, detendo-me quando cheguei à porta -, ele pensa que eu sou uma diletante de Palm Beach e que tu me alugaste o D’Artagnon

 

- E estás à espera que eu não me esqueça de nada que seja convincente?

 

- Que mais é que tens para ocupar o teu tempo? perguntei com um encolher de ombros.

 

Estava eu já quase a sair do quarto quando Sean voltou a falar.

 

- El...

 

Voltei-me para trás, com uma mão apoiada na ombreira da porta. Sean fitou-me com uma expressão grave, nada característica nele, mas onde se adivinhava uma certa ternura. Queria dizer-me qualquer coisa de simpático. Eu desejava que ele fingisse que este dia era igual a qualquer outro. Parecíamos ter plena consciência dos pensamentos que iam na cabeça um do outro. Sustive a respiração. Um dos cantos da sua boca ergueu-se num sorriso de cedência.

 

- Hoje vestiste-te com muita elegância - afirmou ele. Acenei-lhe com a mão e abandonei a casa.

 

Molly Seabright vivia numa vivenda com primeiro andar, situada num dos extremos de uma urbanização chamada Binks Forest. Classe média-alta. Com jardim nas traseiras que davam para um canal. No caminho particular havia um Lexus branco. As luzes do interior da casa estavam ligadas. A classe média-alta, gente de trabalho, preparava-se para enfrentar outro dia. Estacionei junto da berma do passeio e fiquei à espera.

 

Às sete e trinta, os garotos da vizinhança começaram a sair de suas casas, passando por mim a caminho da paragem das camionetas da escola, que ficava ao fundo do quarteirão. Molly saiu de casa dos Seabright, puxando uma mochila sobre rodas que trazia atrás de si; tinha a aparência de um executivo a caminho de apanhar um avião. Saí do carro e encostei-me a ele com os braços cruzados. Ela avistou-me quando já se encontrava a cerca de seis metros de mim.

 

- Reconsiderei - disse-lhe quando parou diante de mim. - Decidi ajudar-te a encontrar a tua irmã.

 

Molly não me sorriu. Tão-pouco deu saltos de alegria, limitando-se a olhar-me com fixidez.

 

- Porquê? - perguntou.

 

- Porque não gosto da gente com quem a tua irmã andava metida - justifiquei.

 

- Acredita que lhe aconteceu alguma coisa de mal?

 

- Já sabemos que alguma coisa lhe aconteceu - retorqui. - Estava aqui e agora deixou de estar. Se isso é mau, ou não, é o que ainda está para se ver.

 

Molly assentiu com um acenar de cabeça, aparentemente satisfeita por eu não ter tentado sossegá-la, agindo com hipocrisia. A maior parte dos adultos fala com as crianças como se estas fossem estúpidas, simplesmente porque ainda não viveram tantos anos. Molly Seabright não era estúpida. Era uma garota inteligente e corajosa. Eu não tencionava tratá-la com condescendência. Decidira até que não lhe mentiria se estivesse ao meu alcance evitá-lo.

 

- Mas se você não é uma detective particular, de que é que pode servir? - perguntou ela.

 

- Até que ponto é que a tarefa pode ser difícil? - retorqui encolhendo os ombros. - Fazer umas quantas perguntas e alguns telefonemas. Não é preciso nenhum Einstein para fazer isso.

 

Molly reflectiu na minha resposta. Ou talvez estivesse a pensar se devia, ou não, dizer o que me disse a seguir.

 

- Você foi detective do Gabinete do Xerife.

 

Se ela tivesse empunhado um martelo batendo-me com ele na cabeça, talvez eu ficasse igualmente surpreendida. Eu, aquela que nunca falaria com condescendência a uma criança. Não me ocorrera que Molly Seabright correria para casa, levando a cabo o seu próprio trabalho de detective através da Internet. De súbito, senti-me vulnerável, exposta duma maneira que me convencera ser pouco provável que voltasse a suceder. Desagradavelmente surpreendida por uma garota de doze anos.

 

- Aquela é a tua camioneta? - perguntei, desviando o olhar para a camioneta de transporte escolar que acabara de parar junto do passeio, e para onde começou a entrar um grupo de crianças que ali se tinha reunido.

 

- Eu costumo ir a pé - respondeu ela, mostrando uma expressão muito séria. - Encontrei um artigo a seu respeito nos arquivos electrónicos do Post.

 

- Só um? Sinto-me ofendida.

 

- Mais do que um - precisou Molly.

 

- Muito bem. Portanto, o meu segredo obscuro foi exposto. Trabalhei como detective para as autoridades policiais do condado de Palm Beach. Mas agora já não trabalho.

 

Ela compreendeu que devia deixar o assunto por ali. Era mais sensata do que a maior parte das pessoas com o triplo da sua idade que eu conhecia.

 

- Precisamos de discutir os seus honorários - adiantou a garota. A rainha dos negócios em acção.

 

- Aceito os cem dólares que me ofereceste e veremos como é que as coisas evoluem.

 

- É com muito agrado que vejo que não está a tentar tratar-me com condescendência.

 

- Acabei de dizer que aceito os cem dólares que uma criança me ofereceu. Na minha opinião, é uma atitude bastante baixa.

 

- Não - discordou ela com aqueles olhos de expressão muito séria a fitarem-me através das lentes dos óculos à Harry Potter. - Não me parece - acrescentou, estendendo-me a mão. - Agradeço-lhe o facto de ter aceite o meu caso.

 

- Por amor de Deus! Tu fazes com que eu sinta que devíamos assinar um contrato - afirmei eu, dando-lhe um aperto de mão.

 

- Em termos técnicos, é o que devíamos fazer. Mas eu confio em si.

 

- E por que motivo é que havias de confiar em mim? Fiquei com a sensação de que ela tinha a resposta na ponta da língua, mas pensou que talvez fosse demasiado para eu compreender, tendo reconsiderado e concluído que não era aconselhável partilhá-la comigo. Comecei a perguntar a mim própria se ela seria realmente deste planeta.

 

- Por motivo nenhum - respondeu-me por fim. A resposta apropriada de uma criança a pessoas que não estão a prestar-lhe a devida atenção. Não insisti.

 

- Vou precisar que me dês algumas informações. E uma fotografia da Erin, a morada dela, a marca e o modelo do seu carro, esse género de pormenores.

 

Enquanto eu falava, Molly baixou-se e abriu o fecho de correr de uma das bolsas exteriores da mochila, de onde tirou um sobrescrito grande de papel amarelo que me entregou.

 

- Encontrará tudo o que me pediu aí dentro.

 

- Claro que sim. - Eu não devia ter ficado surpreendida. - E quando foste ao Gabinete do Xerife, com quem é que falaste? - perguntei.

 

- Com o detective Landry. Conhece-o?

 

- Sei quem ele é.

 

- Mostrou-se muito rude e condescendente - acrescentou Molly.

 

- Também eu - retorqui.

 

- Você não se mostrou condescendente.

 

Naquele momento, vi um Jaguar preto que saía de marcha a trás da garagem dos Seabright, com um homem de fato completo ao volante. Presumi que seria Bruce Seabright. Afastou-se de nós.

 

- É a casa da tua mãe? - perguntei. - Vou precisar de falar com ela.

 

Manifestamente, aquela perspectiva não lhe agradou muito. Pareceu-me que ficou um tanto ou quanto nauseada.

 

- Ela costuma ir para o escritório às nove horas. É mediadora imobiliária.

 

- Preciso mesmo de falar com ela, Molly. Assim como com o teu padrasto. Não tenciono envolver-te no assunto. Vou dizer-lhes que sou perita de uma companhia de seguros.

 

Molly anuiu com a cabeça, continuando a mostrar uma expressão sombria.

 

- Mas agora tens de ir para a escola. Não quero ser presa por contribuir para a delinquência de uma menor.

 

- Não - retorquiu ela, encaminhando-se de volta a casa, mantendo a cabeça erguida e com a pequena mochila com rodas a chocalhar atrás de si sobre o pavimento do passeio. Não se perderia nada se todos tivéssemos tanto carácter como ela.

 

Krystal Seabright falava por um telefone sem fios quando Molly e eu entrámos em sua casa. Estava inclinada sobre uma mesa do vestíbulo, observando-se num espelho rococó muito elaborado, tentando aplicar umas pestanas postiças com uma unha comprida pintada de verniz cor-de-rosa, ao mesmo tempo que falava com alguém acerca de uma casa geminada, absolutamente fabulosa, em Sag Harbor Court. Se ela fosse colocada numa fila de identificação, ninguém teria dito que era mãe de Molly. Depois de ter conhecido a garota, sem nunca ter visto a mãe, podia tê-la imaginado como uma advogada muito formal, médica ou física nuclear se não soubesse já que as crianças e os respectivos pais nem sempre se assemelham entre si.

 

Krystal era uma loura platinada que já se oxigenara um pouco de mais ao longo dos seus trinta e tal anos. Tinha o cabelo quase branco, com um aspecto tão frágil como algodão-doce. Usava um pouco de maquilhagem a mais. O fato saia-e-casaco era um tudo-nada apertado e garrido de mais; as sandálias também tinham uns saltos demasiado altos. Lançou-nos um olhar pelo canto do olho.

 

- posso enviar-lhe todos os pormenores por faxe assim que chegar ao meu escritório, Joan. Mas a verdade é que precisa de a ver para poder dar-lhe o devido valor. Casas como esta não se encontram no mercado durante a época de equitação. Tem muita sorte por esta ter aparecido.

 

Desviou o olhar do espelho, olhando para mim e depois para Molly com uma expressão que dizia: ”O que é que foi agora?”, embora continuasse a conversar com aquela Joan invisível, marcando um encontro para as onze horas, do qual tomou nota numa agenda imersa numa grande confusão. Finalmente, pôs o telefone de parte.

 

- Molly? O que é que se passa? - perguntou Krystal olhando para mim e não para a filha.

 

- Esta senhora é Miss Estes, detective particular - explicou Molly.

 

Krystal ficou a olhar para mim como se eu tivesse sido teletransportada do planeta Marte.

 

- É o quê?!

 

- Ela quer falar com a mãe a respeito da Erin.

 

A fúria espelhou-se na fisionomia de Krystal como fogo repentino que lhe consumisse a raiz dos cabelos.

 

- Oh, por amor de Deus, Molly! Não sou capaz de acreditar que tenhas feito uma coisa destas! O que é que se passa contigo?

 

A dor que se reflectia nos olhos de Molly era suficientemente intensa para eu própria a sentir.

 

- Eu já lhe tinha dito que lhe aconteceu alguma coisa de mal - retorquiu Molly num tom de insistência.

 

- Não sou capaz de acreditar que faças coisas destas! arengou Krystal, deixando bem patente que a frustração que a filha mais nova lhe inspirava não era novidade nenhuma. - Graças a Deus que o Bruce não está em casa.

 

- Mistress Seabright - intervim -, ando a investigar um incidente que ocorreu no centro equestre, sendo muito plausível que a sua filha Erin esteja envolvida. Se possível, gostaria de falar consigo em particular.

 

Ela fitou-me de olhos arregalados, sendo manifesto que continuava irritada.

 

- Não há nada a discutir. Não sei absolutamente nada sobre o que se passa nesse lugar.

 

- Mas, mamã... - começou Molly a dizer, querendo desesperadamente que a mãe se interessasse por aquele assunto.

 

Esta lançou à filha um olhar fulminante de desprezo.

 

- Se contaste a esta mulher alguma história ridícula, vais ver-te metida num grande sarilho, minha menina! É incrível que estejas sempre a arranjar problemas. Não tens consideração por ninguém além de ti própria.

 

As faces pálidas de Molly ficaram com duas rosetas vermelhas. Pensei que a garota estava prestes a chorar.

 

- Ando preocupada por causa da Erin - alegou ela numa vozinha receosa.

 

- A Erin é a última pessoa com que alguém precisa de se preocupar - ripostou Krystal. - E agora vai para a escola. Toca a andar. Sai-me desta casa para fora! Neste momento estou tão irritada contigo que... Se chegares tarde à escola, podes lá ficar de castigo durante toda a tarde. Nem sequer penses em telefonar-me para ir buscar-te!

 

Só me apetecia agarrar uma mão-cheia dos cabelos excessivamente oxigenados de Krystal Seabright e abaná-la até os arrancar.

 

Molly deu meia volta e saiu de casa, deixando a porta da frente aberta para trás. Vê-la a puxar a sua pequena mochila com rodas partiu-me o coração.

 

- E você pode ir imediatamente atrás dela! - disse-me Krystal Seabright, desabrida. - Caso contrário, talvez chame a Polícia.

 

Virei-me de modo a ficar de frente para ela e durante breves instantes não lhe disse nada, enquanto tentava conter a cólera que subia dentro de mim. Recordei-me de que em tempos fora uma terrível polícia de giro, nos primeiros tempos da minha carreira nas forças policiais, o que se devia ao facto de me faltarem as apetências diplomáticas para lidar com situações de natureza doméstica. Sempre fui da opinião de que algumas mulheres são umas cabras que precisam que lhes dêem uns bons tabefes. A mãe de Molly era uma dessas pessoas.

 

Krystal tremia que nem varas verdes, sendo evidente que tinha alguma dificuldade em controlar as suas próprias emoções.

 

- Mistress Seabright, se é que serve de alguma coisa, quero dizer-lhe que a Molly não tem nada a ver com isto menti descaradamente.

 

- Oh?! Ela não tentou dizer-lhe que a irmã desapareceu e que nós devíamos participar à Polícia, ao FBI e ao programa Mais Procurados da América?

 

- Sei que a Erin não é vista desde a tarde de domingo. Isso não a preocupa? - perguntei.

 

- Estará você a insinuar que eu não me interesso pelo bem-estar das minhas filhas? - Uma vez mais, tinha os olhos esbugalhados e uma expressão de afronta bem ensaiada: um sinal inequívoco de falta de amor-próprio.

 

- Não estou a insinuar absolutamente nada - respondi.

 

- A Erin é uma mulher adulta. Pelo menos, na sua própria cabeça. Ela queria passar a viver sozinha para poder tomar conta de si própria.

 

- Portanto, a senhora não sabe que ela trabalhava para um homem que já esteve envolvido em esquemas que se destinaram a defraudar companhias de seguros?

 

- Ela trabalha para um treinador de cavalos - respondeu Krystal, mostrando-se confusa. - Foi o que a Molly me disse.

 

- Ultimamente tem falado com a Erin?

 

- Quando ela saiu de casa, deixou bem claro que não queria manter qualquer contacto comigo. Levar uma vida decente, no seio de uma boa família, para ela era uma alternativa demasiado enfadonha. Depois de tudo o que eu fiz por ela e pela irmã...

 

Com estas palavras, dirigiu-se à mesinha do vestíbulo, deu uma rápida olhadela ao espelho e meteu a mão dentro de uma enorme mala Kate Spade, cor-de-rosa e laranja. Do interior tirou um cigarro e um isqueiro estreito, encaminhando-se para a porta da frente, que continuava aberta.

 

- Tenho trabalhado tanto, fiz tantos sacrifícios... - lamentou-se ela, mais ou menos para consigo própria, como se se sentisse confortada ao pôr-se na pele da heroína da história. Acendeu o cigarro e expeliu o fumo para a rua. Ela não tem feito mais nada além de me dar desgostos desde a noite em que foi concebida.

 

- O pai da Erin vive nas proximidades? Parece-lhe que ela talvez tenha ido passar uns tempos a casa dele?

 

Krystal desatou a rir, mas era um riso desprovido de humor. Não olhou para mim.

 

- Não. Ela não teria feito isso - respondeu-me finalmente.

 

- O que é feito do pai dela?

 

- Não faço a mínima ideia. Há quinze anos que não sei nada dele - adiantou Krystal.

 

- Sabe quem são os amigos e as amigas da Erin?

 

- O que quer dela? - perguntou-me. - O que é que ela fez agora?

 

- Que eu saiba, nada de especial. Mas é possível que me possa dar algumas informações. Eu só queria fazer-lhe algumas perguntas sobre o homem para quem ela trabalha. A Erin já se meteu em algum problema?

 

Krystal inclinou-se para fora da porta e inspirou outra fumaça generosa do cigarro, expelindo o fumo para cima de uma moita de hibiscos.

 

- Não estou a perceber como é que a minha família seJa assunto que lhe diga respeito.

 

- Ela alguma vez consumiu estupefacientes? - continuei, ignorando a última réplica.

 


- Foi por isso que veio cá? - ripostou ela, agreste, fitando-me. - Ela anda metida com gente do mundo das drogas? Deus me valha. Era disso mesmo que eu estava a precisar!

 

- Estou preocupada quanto ao bem-estar dela - repliquei. - O desaparecimento da Erin, por mero acaso, coincidiu com a morte de um cavalo que custou muito dinheiro.

 

- Acha que ela matou esse cavalo? - perguntou Krystal. Pensei que a minha cabeça iria abrir-se ao meio. As preocupações de Krystal pareciam concentrar-se em toda a gente excepto na filha.

 

- Só quero fazer-lhe algumas perguntas a respeito do patrão. Faz alguma ideia do sítio para onde ela possa ter ido?

 

Krystal saiu para o alpendre e sacudiu o cigarro, deixando cair a cinza para cima de uma planta envasada, após o que voltou para dentro de casa.

 

- O sentido de responsabilidade não é um dos pontos fortes da Erin. Ela está convencida de que ser adulta significa fazer tudo o que nos der na real gana. O mais certo é ter fugido para South Beach com algum rapaz - alvitrou Krystal.

 

- Ela tem algum namorado? - perguntei.

 

A mulher mostrou-me um semblante irritado, fixando o chão de azulejos. Olhos para baixo e para a direita: uma mentira.

 

- Como é que eu havia de saber? Ela não pede a minha opinião.

 

- A Molly disse-me que não consegue contactar a irmã através do telemóvel.

 

- A Molly! - Inspirou o fumo do cigarro e quando o expeliu tentou direccioná-lo para a rua com a mão. A Molly tem doze anos. A Molly pensa que a Erin é o máximo. A Molly lê romances de mistério a mais e vê um número excessivo de programas de acção e investigação criminal. Que tipo de criança é que vê estes programas? Law and Order, Investigative Reports. Quando eu tinha doze anos costumava ver as reposições da série Brady Bunch.

 

- Estou em crer que a Molly tem sobejas razões para se sentir preocupada, Mistress Seabright. Na minha opinião, acho que não seria má ideia se fosse ao Gabinete do Xerife e preenchesse uma participação de pessoa desaparecida - sugeri.

 

Krystal Seabright mostrou-se horrorizada. Não perante a perspectiva de a filha poder ter sido vítima de alguma desgraça, mas sim face à hipótese de alguém de Binks Forest ter de preencher um formulário da Polícia. O que diriam os vizinhos? Eram muito capazes de somar dois mais dois, chegando à conclusão de que a última casa arrendada por seu intermédio servia para fins obscuros.

 

- A Erin não desapareceu - insistiu ela. - Ela só... foi a qualquer sítio, mais nada.

 

Entretanto, no patamar do primeiro andar surgiu um adolescente que acabara de sair de um dos quartos, começando a descer as escadas num passo arrastado. Aparentava ter uns dezassete ou dezoito anos e sofria de uma grande ressaca. Estava pálido e mostrava uma expressão sorumbática; tinha cabelos pretos, com madeixas platinadas, espetados em tufos sujos. Dava a impressão de ter dormido, além de ter feito coisas piores, com a camisola de algodão que trazia vestida. Não se parecia com Krystal nem com as filhas desta. Presumi que pertenceria a Bruce Seabright, perguntando-me por que razão Molly não o mencionara ao falar comigo.

 

Krystal praguejou entre dentes e, sub-repticiamente, atirou o cigarro pela porta fora. Os olhos do rapaz acompanharam o acto, após o que voltou a concentrar-se nela. Apanhada com a boca na botija.

 

- Chad? O que é que estás a fazer em casa? - perguntou ela. Uma entoação de voz completamente diferente. Nervosismo. Obsequiosa. - Não estás a sentir-te bem, meu querido? Pensei que já tinhas ido para a escola.

 

- Estou adoentado - retorquiu ele.

 

- Oh, estou a ver. Bem... Queres que te faça umas torradas? - perguntou ela, radiante. - Tenho de ir para o escritório, mas posso fazer-te as torradas antes de sair.

 

- Não, obrigado - declinou o rapaz.

 

-- Ontem à noite estiveste fora até muito tarde - acrescentou Krystal num tom de voz cheio de doçura. - ProvaVelmente, só precisas de mais umas horas de sono.

 

- Provavelmente - repetiu ele, lançando-me um olhar de fugida antes de se afastar com os ombros descaídos.

 

Krystal mimoseou-me com um olhar de reprovação, falando-me em voz baixa.

 

- Olhe lá: não precisamos de si. Por isso, vá-se embora. A Erin há-de acabar por aparecer quando precisar de alguma coisa.

 

- O que é que se passa com a Erin? - perguntou Chad, que entretanto havia regressado ao vestíbulo, trazendo na mão uma garrafa de dois litros de Coca-Cola. O pequeno-almoço dos campeões.

 

Krystal cerrou os olhos, bufando.

 

- Nada. Só que... Não é nada. Volta para a cama, meu querido.

 

- Preciso de lhe fazer umas perguntas acerca do tipo para quem ela trabalha - disse eu, dirigindo-me ao rapaz. Por acaso sabe onde poderei encontrá-la?

 

- Tenho muita pena, mas não sei nada dela - replicou com um encolher de ombros enquanto coçava o peito.

 

No momento em que ele proferia estas palavras, o Jaguar preto regressou entrando no caminho de acesso à vivenda. Krystal mostrou-se perplexa. Chad desapareceu pelo corredor. O homem, que presumi ser Bruce Seabright, saiu do automóvel e encaminhou-se a passos largos para a porta aberta da frente; ali estava um homem com uma missão. Era encorpado e tinha uns cabelos ralos que penteava todos a direito para trás; exibia uma fisionomia mal-humorada.

 

- Querido, esqueceste-te de alguma coisa? - perguntou Krystal no mesmo timbre de voz com que falara a Chad. A serva ansiosa por agradar.

 

- O processo de Fairfields. Tenho um negócio da maior importância em relação a essa propriedade e não sei do processo. Estou certo de que o deixei em cima da mesa da casa de jantar. Deves tê-lo posto noutro lugar qualquer.

 

- Não, não me parece. Eu...

 

- Quantas vezes é que eu tenho de te dizer, Krystal? Não toques nos meus papéis do escritório. - A sua voz deixava transparecer um certo tom paternalista que não podia ser classificado de autoritarismo, apesar de, de uma maneira insidiosa e encapotada, ser isso precisamente.

 

- Eu... Eu lamento muito, meu querido - gaguejou ela. - Deixa que eu vou ver se consigo encontrá-lo.

 

Naquela altura, Bruce Seabright olhou para mim, mostrando uma expressão até certo ponto cautelosa, como se desconfiasse que eu andasse a pedir donativos para obras de caridade.

 

- Peço muita desculpa se interrompi - acrescentou ele cheio de cortesia. - Mas tenho uma reunião muito importante a que não posso faltar.

 

- Calculei que sim. Elena Estes - apresentei-me, ao mesmo tempo que lhe estendia a mão.

 

- A Elena anda a pensar em comprar um andar em Sag Harbor - apressou-se Krystal a dizer. Nos seus olhos vi vestígios de desespero quando olhou para mim em busca de uma atitude cúmplice.

 

- Por que motivo é que havias de lhe mostrar alguma coisa nessa zona, querida? - perguntou ele. - O valor das propriedades nessa área só tem tendência para descer. Devias mostrar-lhe qualquer coisa em Palm Groves. Diz-lhe que passe pelo escritório. Pede à Kathy que lhe mostre uma das casas-modelo.

 

- Sim, claro que sim - aquiesceu Krystal numa voz murmurada, engolindo a crítica implícita e a desfeita, permitindo-lhe que se apoderasse da sua venda. - Vou ver se descubro o teu processo.

 

- Eu procuro, meu amor. Não quero que caia algum papel da pasta.

 

Todavia, houve alguma coisa caída no degrau da entrada que chamou a atenção de Seabright. Baixou-se e apanhou a ponta de cigarro que Krystal deitara fora. Prendeu-a entre o polegar e o indicador e olhou para mim.

 

- Lamento muito, mas não é permitido fumar na nossa Propriedade.

 

- Peço desculpa - disse eu, tirando a beata da mão dele. - É um hábito asqueroso.

 

- Sim, de facto é - concordou o homem, entrando em casa para ir procurar a pasta desaparecida.

 

Krystal massajou a fronte, prendendo o olhar nas suas sandálias ligeiramente espampanantes, pestanejando como Se tentasse conter as lágrimas.

 

Por favor, vá-se embora - pediu-me num sussurro.

 

Enfiei a ponta do cigarro na terra da planta envasada e saí. Que mais poderia eu dizer a uma mulher cujo marido dominador mantinha tão submissa, que preferia abandonar a própria filha à sua sorte para não correr o risco de lhe desagradar?

 

São inúmeras as vezes ao longo da minha vida em que concluo que as pessoas são espantosas, sendo muito raro que seja pela positiva.

Nunca conhecemos a fundo a qualidade de vida dos outros, ainda que só muito raramente resistamos à tentação de imaginar e fazer juízos de valor. Há muitas mulheres que teriam visto a situação de Krystal Seabright através do filtro da distância, deduzindo que ela tinha tudo o que pudesse desejar. Uma casa grande, um automóvel de luxo, uma carreira no ramo imobiliário e um marido que negociava em terrenos. No papel, era uma vida bastante invejável. Nesta história chegava mesmo a existir um elemento de Cinderela: mãe solteira de duas crianças que fora arrancada às condições humildes da sua vida anterior, et cetera, et cetera.

 

O mesmo se passava, ao que tudo indicava, em relação aos endinheirados proprietários dos quatro mil cavalos de preço muito elevado que passavam pelo centro equestre. Champanhe e caviar todos os dias à hora do lanche. Uma criada em cada mansão, um Rolls em cada garagem com espaço para cinco viaturas.

 

Todavia, a verdade era bem mais sombria e menos atraente. Existiam histórias pessoais cheias de pequenas traroas muito desagradáveis: inseguranças e vícios, a par de infidelidades e falências. Havia pessoas que vinham passar a temporada à Florida imbuídas de um sonho e com os tostões todos contados, tendo poupado cada cêntimo durante o resto do ano, de molde a poderem partilhar um apartamento, que não era de luxo, com outros dois cavaleiros, contrair umas escassas e preciosas lições com um treinador de cavalos de renome, mostrando as suas montadas medíocres

no anonimato do hipódromo dos amadores. Também tínhamos os cavaleiros profissionais de segunda categoria, sobrecarregados com hipotecas sobre as suas casas e quintas em East Buttcrack, os quais rondavam as cercanias das grandes cavalariças na esperança de conseguir arranjar um ou dois clientes de peso. Também havia negociantes de cavalos como Van Zandt: hienas que caçavam à beira do charco de água potável, sempre à coca de presas vulneráveis. A vida de luxo tem muitos cambiantes de cinzento por baixo da folha de ouro. Oficialmente, a partir de agora, a minha tarefa era desenterrar alguns desses aspectos mais sombrios.

 

Pensei que a melhor táctica seria passar tanto tempo quanto me fosse possível nas proximidades dos estábulos de Don Jade, antes que alguém que tivesse ligação a ele fosse à casa de banho, levando consigo um número da Sidellnes e saindo de lá com uma revelação. Eu passara tempo mais do que suficiente a trabalhar no anonimato, nos tempos em que fizera parte da Brigada de Narcóticos, para saber que as hipóteses de isso vir a acontecer eram mínimas; não obstante, estavam bem presentes. As pessoas só vêem aquilo para que estão programadas, sendo muito raro que procurem outra coisa qualquer. Mesmo assim, a vida de um polícia que trabalha no anonimato nunca está isenta do risco de as coisas virem a correr mal. Isso pode acontecer a qualquer segundo, e quanto mais envolvido se está no assunto, pior é o sentido de oportunidade.

 

A minha estratégia quando trabalhava nestas condições sempre se regera pelo princípio de coligir o maior número possível de informações no mínimo de tempo possível; esboçar a minha dissimulação de modo temerário e com celeridade. Confundir o alvo, atrair os oponentes em grupo e depois atingi-los com um golpe de mestre e pôr-me a andar. Os meus superiores no Gabinete do Xerife haviam franzido o sobrolho ao inteirarem-se dos meus métodos, uma vez que eu adoptara o meu estilo de actuação inspirando-me em vigaristas, em vez de recorrer às tácticas policiais. Mas, apesar disso, não tinha sido frequente que franzissem o cenho perante os resultados.

 

Com o passe de estacionamento de Sean, que continuava suspenso do meu espelho retrovisor, passei pelo guarda C. na guarita, entrando no turbilhão do turno diurno de Udoiu” Wellington o recinto onde se realizavam os espectáculos de hipismo. Viam-se cavalos por toda a parte, gente por tudo quanto era sítio, carros em todos os cantos, carrinhos eléctricos por todo o lado. Na altura decorria uma exibição equestre, a qual se prolongaria até domingo. Os cavalos e os potros saltariam obstáculos em meia dúzia de pistas de competição. O caos fazia com que a situação fosse a meu favor, como se me mantivesse de olho num jogo de cartas ilegal numa esquina de Times Square. É difícil não perder de vista a rainha quando se está no meio de um circo.

 

Estacionei no segundo parque e atalhei caminho, passando pelas cavalariças permanentes e pela clínica veterinária, assim como pelas tendas concessionadas, dando comigo numa réplica da Quinta Avenida em pleno hipódromo: uma correnteza de pequenas lojas desmontáveis de arreios para cavalos e butiques de vestuário caríssimo em atrelados de luxo. Bijutarias de alto preço, alfaiatarias, antiquários, lojas especializadas em monogramas e cafetarias que vendiam cappuccinos. Fui a duas das butiques, onde comprei a farpela necessária ao meu papel de diletante. A imagem é tudo.

 

Comprei um chapéu de palha, de aba larga, enfeitado com uma fita de gorgorão preto, que pus imediatamente. Os homens nunca levam muito a sério uma mulher de chapéu. Também escolhi umas duas blusas de seda e saias compridas e rodadas em tecidos próprios para saris. Certifiquei-me de que os empregados de balcão que me atenderam não poupavam no papel de seda, de modo a que os sacos das compras dessem a impressão de estar a abarrotar. Comprei umas sandálias nada práticas e uns braceletes muito em moda, colocando-os nos braços sem mais perdas de tempo, quando me pareceu que estava com uma aparência suficientemente frívola, fui à procura de Don Jade.

 

Porém, não encontrei rasto dele nem de Paris Montgomery nas suas cavalariças. Deparei com um guatemalteco

mal alimentado, o qual acarretava esterco que retirava de

um estábulo, sempre de cabeça baixa, tentando não chamar

a atenção de ninguém, não fosse atrair algum inspector dos

serviços de Estrangeiros e Imigração. Aparte da frente de uma outra cocheira havia sido removida a fim de nela se instalar um espaço destinado ao pessoal dos estábulos. Foi aí que avistei uma rapariga excessivamente alimentada, que usava um top de alças demasiado revelador, a qual escovava de má vontade um cavalo malhado de pelagem parda. A rapariga tinha uns olhos estreitos e de expressão maldosa, de quem culpa toda a gente pelos fracassos da sua vida. Apanhei-a a olhar-me de esguelha, mostrando-me uma expressão azeda.

 

Inclinei a cabeça para trás, fitando-a por baixo da aba daquele chapéu ridículo.

 

- Estou à procura da Paris. Ela anda por aqui?

 

- Está a montar a Park Lane no picadeiro da escola.

 

- O Don está com ela? - perguntei. Don, o meu velho amigalhaço.

 

- Sim, está. - E o que teria eu a ver com isso?

 

- E você é...? - perguntei, perante a perplexidade dela, ao que se seguiu um sentimento de desconfiança e determinação indicadora de que tentaria tirar partido da oportunidade.

 

- Chamo-me Jill Morone. Sou a chefe do pessoal dos estábulos de Mister Jade.

 

Ela era a única moça de estrebaria de Mr. Jade, com base no que me era dado ver e, pela maneira pouco entusiasta como empregava aquela escova, definia o cargo de uma maneira bastante relaxada.

 

- A sério? Então deve conhecer a Erin Seabright adiantei.

 

As reacções da rapariga foram tão lentas que o cérebro dela deveria estar num outro fuso horário. Tinha a sensação de estar a ver todos os seus pensamentos a deslocarem-se preguiçosamente através da sua mente enquanto decidia qual a resposta a dar-me. Arrastava a escova ao longo da espádua do animal. O cavalo retesou as orelhas e revirou um olho na direcção da rapariga.

 

- Ela já não trabalha aqui - replicou, por fim.

 

- Eu sei. A Paris já me tinha dito. Sabe para onde é que ela foi? Tenho um amigo que queria contratá-la.

 

- Não sei - retorquiu Jill, encolhendo os ombros e desviando o olhar. - A Paris disse-me que ela foi para Ocala.

 

- Suponho que vocês duas não eram amigas. Quer dizer... você não me parece saber muita coisa acerca dela.

 

- Sei que ela não era uma moça de estrebaria muito competente. - ”Diz o roto ao nu: Porque não te vestes tu?”

 

- E presumo que você seja - aventei. - Está interessada em mudar de emprego?

 

A rapariga deu-me a impressão de estar satisfeita consigo própria, como se tivesse um pequeno segredo tenebroso.

 

- Oh, não. Mister Jade trata-me muito bem.

 

O mais plausível era Mister Jade mal saber o nome dela... a menos que ela fosse o seu último álibi, do que eu duvidei. Os homens como Jade só se interessam por raparigas bonitas ou que lhes possam ser úteis. Acontece que Jill Morone não era uma coisa nem outra.

 

- Ainda bem para si - disse eu. - Só espero que continue a ter emprego depois desse fiasco com o Stellar.

 

- Isso não foi por minha culpa - apressou-se ela a ripostar.

 

- É um problema, um cavalo que morre dessa maneira, em circunstâncias tão suspeitas. Os proprietários começam a ficar nervosos, a fazer telefonemas a outros treinadores... E lá se vai o negócio por água abaixo, de um momento para o outro.

 

- Foi um acidente - afirmou a rapariga.

 

- Estava presente quando ocorreu? - perguntei-lhe, encolhendo os ombros.

 

- Não. No entanto, fui eu que o encontrei - admitiu ela com uma estranha centelha de orgulho nos olhos pequenos com uma expressão porcina. A celebridade que surge por um mero acaso. Quem sabe, talvez estivesse prestes a sentir um cheirinho do que era a fama durante uma semana e meia. - Ele estava deitado na cocheira com as pernas esticadas - acrescentou Jill. - E tinha os olhos abertos. Pensei que era apenas preguiça. Por isso, dei-lhe umas palmadas na garupa para que se levantasse do chão. Afinal, cheguei à conclusão de que o cavalo já estava morto.

 

- Meu Deus! Que coisa horrível. - Com o olhar, percorri a fileira de estábulos de Don Jade, uma dúzia ou mais, Cada um equipado com uma ventoinha em forma de caixa suspensa pelo lado de fora das barras da frente das cocheiras. - Levando em consideração o sucedido, surpreende-me que continuem a ter estas ventoinhas.

 

- Está calor - retorquiu ela voltando a encolher os ombros e dando mais uma ou duas escovadelas à pelagem parda do cavalo. - Que outra coisa é que poderíamos fazer?

 

O cavalo aguardava que ela recuasse um passo, após o que a atingiu com a cauda ao agitá-la. A rapariga bateu-lhe com a escova entre as costelas.

 

- Eu não quereria ser a pessoa que, descuidadamente, permitiu que esse cordão eléctrico tivesse estado solto no estábulo do Stellar - adiantei. - Esse moço de estrebaria nunca mais voltaria a arranjar emprego neste meio. Se eu tivesse alguma coisa a ver com o assunto, encarregar-me-ia de me certificar de que assim seria.

 

Uma vez mais, os olhos pequenos adquiriram uma expressão maligna no rosto de tez macilenta.

 

- Não era eu quem tratava dele. Era a Erin. Está a ver o género de moça de estrebaria que ela era? Se eu estivesse no lugar de Mister Jade, tê-la-ia morto.

 

”Talvez ele o tenha feito”, pensei para comigo enquanto me afastava da tenda.

 

Avistei Paris Montgomery a alguma distância, no picadeiro da escola de equitação, com o rabo-de-cavalo a abanar de um lado para o outro, óculos de sol a sombrearem-lhe os olhos enquanto, de rédeas na mão, orientava os saltos do cavalo que montava. Executava um conjunto de exercícios. Poesia em movimento. Don Jade mantinha-se de lado, filmando-a com uma câmara de vídeo ao mesmo tempo que falava com um homem alto e magro de cabelos ruivos e faces avermelhadas, que gesticulava, obviamente encolerizado. Tinha o aspecto de um gigante, a caricatura irada de uma personagem de banda desenhada. Abeirei-me da pista, detendo-me junto da vedação não muito longe dos dois homens; quem me visse, deduziria que a minha atenção estava concentrada nos cavalos que ali eram treinados.

 

- Se houver um único indício que seja da presença de qualquer coisa que cheire mal nos resultados das análises, Jade, ver-te-ás a contas com a justiça - declarava o homem de bochechas coradas em voz alta; ou não se importava que o ouvissem ou desejava chamar a atenção de todos os que se encontravam por perto. - Isto não será outro caso em que a questão é saber se a General Fidelity pagará ou não a indemnização. Há já tempo de mais que tens vindo a sair-te airosamente desta porcaria. Chegou a altura de aparecer alguém que ponha cobro a este desmando!

 

Jade não dizia absolutamente nada, não dava mostras de irritação nem alegava nada em sua defesa. Imperturbável, nem sequer interrompeu a filmagem em que estava ocupado. Era um homem de constituição compacta, com uns antebraços tão musculados como os de um cavaleiro profissional. O seu perfil assemelhava-se ao de uma figura que não desmereceria ser cunhada numa moeda romana. Tanto podia ter trinta e cinco anos como cinquenta, e, provavelmente as pessoas continuariam a dizer isso mesmo sobre a sua idade quando chegasse aos setenta.

 

Observava a sua assistente, que executava uma combinação de exercícios, orientando Park Lane a saltar um conjunto de obstáculos, franzindo a testa quando os tornozelos da égua roçaram por uma barreira que acabou por cair. Quando Paris passou a meio galope, ele soergueu o olhar, indicando-lhe em voz alta umas duas correcções que ela devia fazer para que o cavalo elevasse mais os quartos traseiros em preparação para o arranque do salto.

 

O outro homem parecia ter ficado incrédulo pelo facto de as suas ameaças não terem produzido o efeito desejado.

 

- Não há dúvida de que tu me saíste uma bela prenda, Don! Nem sequer te dás ao trabalho de negar aquilo de que acabei de te acusar?

 

Jade continuava a não olhar para ele.

 

- Por que razão haveria eu de me incomodar, Michael? Não quero ser culpado pelo teu ataque de coração, como se o resto já não me chegasse.

 

- És um sacana pedante. Continuas convencido de que podes fazer com que as pessoas te beijem o cu, persuadindo-as de que cheira a rosas.

 

- Talvez cheire, Michael - retorquiu Jade, muito sereno, sem desviar a atenção do cavalo. - Jamais te inteirarás da verdade porque não queres. Não estás interessado em saber se estou inocente. Sentes um gozo tremendo por me odiares tanto.

 

- Não se pode dizer que eu seja o único.

 

- Estou a perceber. Voltei a ser um passatempo nacional. O que não altera em nada o facto de eu estar inocente. - Esfregou a parte de trás do pescoço queimado pelo sol, viu as horas no relógio de pulso e suspirou. - Já chega por hoje, Paris - gritou, desligando a câmara de filmar.

 

- Hoje mesmo tenciono telefonar ao doutor Ames prosseguiu o outro homem. - Se eu descobrir que tens contactos nesse laboratório...

 

- Se o Ames te disser alguma coisa sobre o Stellar, podes acreditar que farei com que ele fique proibido de exercer medicina veterinária - atalhou Jade calmamente. - Não que haja alguma coisa que ele possa dizer.

 

- Deixa-te disso. Tenho a certeza de que existe uma história qualquer. Contigo há sempre alguma coisa. Desta feita, com quem é que foste para a cama?

 

- Se eu tivesse alguma resposta a dar-te a esse respeito seria esta: não tens nada a ver com isso, Michael.

 

- Aí é que estás enganado, o assunto diz-me respeito contrapôs o outro.

 

- Tu estás obcecado - disse Jade virando-se para as cavalariças quando Paris se aproximou, ainda montada na Park Lane. - Se pusesses tanta energia no teu trabalho como no ódio que nutres por mim, quem sabe... talvez conseguisses fazer alguma coisa de ti próprio. Mas agora, se me dás licença, Michael, tenho um negócio que precisa da minha atenção.

 

O semblante de Michael era uma máscara de azedume, contorcida e malhada de emoção.

 

- Não o terás por muito tempo, se eu puder evitá-lo.

 

Jade virou-lhe as costas, encaminhando-se para os estábulos; aparentemente, não havia sido afectado por aquela troca de palavras azedas. O seu adversário deixou-se ficar por uns momentos com a respiração ofegante e mostrando um semblante de frustração. Depois, deu meia volta e afastou-se em passadas largas.

 

- Ora bem, que cena tão desagradável - comentei. Tomas Van Zandt encontrava-se a menos de três metros de mim. Tinha presenciado o diálogo aceso entre Jade e o outro homem, o que fizera sub-repticiamente, tal como eu, fingindo que observava os cavalos que eram treinados no picadeiro. Olhou-me fugazmente como se não me tivesse visto e começou a afastar-se.

 

- Pensei que os belgas eram homens encantadores acrescentei, mordaz.

 

Deteve-se repentinamente, voltou a olhar para mim e vi na sua expressão que só então me reconhecera.

 

- ele! Olhem bem para si!

 

- Levei uma grande barrela, como dizem os que habitam no parque das caravanas.

 

- Você nunca pôs os pés numa caravana dessas - troçou ele, observando bem o chapéu e o vestuário que eu usava.

 

- Claro que sim. Houve uma ocasião em que levei uma criada a casa no meu automóvel - justifiquei-me, antes de apontar na direcção do homem com quem Jade discutira. - Quem é aquele?

 

- Michael Berne. Um grande bebé chorão.

 

- Trata-se de algum proprietário de cavalos ou coisa no género?

 

- Um rival - respondeu Tomas.

 

- Ah... Os treinadores de saltos de obstáculos são uma gente tão teatral - retorqui. - Nos confins dos meus domínios equestres não se passa nada de tão interessante.

 

- Sendo assim, talvez não fosse má ideia se eu lhe vendesse um cavalo saltador - sugeriu Van Zandt, olhando de esguelha para os meus sacos de compras, calculando qual seria o limite do meu cartão de crédito.

 

- Não sei se estou preparada para isso. Dá a impressão de ser um meio muito competitivo. Além do mais, não conheço nenhum treinador.

 

Ele deu-me o braço. O cavalheiro por excelência.

 

--Venha. Vou apresentá-la ao Jade.

 

-- Magnífico. - Ergui o olhar, observando-o pelo canto do olho. - Posso comprar um cavalo e receber o seguro, todo no mesmo sítio. É como uma ida às compras num único lugar.

 

Como que por acção de um interruptor, o rosto de Van Zandt passou de bajulação a cólera; os olhos azuis adquiriram a frieza do mar do Norte, assustadoramente empedernidos.

 

- Não diga coisas estúpidas como essa! - ripostou, num tom exacerbado.

 

- Foi uma simples brincadeira - justifiquei-me, dando alguns passos e pondo-me fora do seu alcance.

 

- Consigo é tudo uma brincadeira - prosseguiu ele com um ar desdenhoso.

 

- E se você não tem capacidade de encaixe para uma brincadeira - ripostei -, vá-se foder!

 

Verifiquei que ele se esforçava por voltar a guardar Mr. Hyde na sua caixa. O estado de espírito dele alterara-se com tanta celeridade que me custava a acreditar que isso não o tivesse afectado fisicamente.

 

Passou a mão pelos lábios num gesto de impaciência.

 

- Muito bem. Não passou de uma brincadeira. Ah! Ah! - Um riso amarelo que não conseguia ocultar o facto de continuar furioso comigo. Começou a encaminhar-se para a tenda. - Esqueça. Venha.

 

- Não. Primeiro tem de me pedir desculpa - disse-lhe eu sem me mexer de onde estava.

 

- O quê?! - Olhou para mim com uma expressão de incredulidade. - Não seja idiota.

 

- Continue a enterrar-se, Van Zandt. Sou estúpida e idiota, e que mais?

 

Os músculos no rosto dele começaram a tremer. Queria chamar-me cabra ou coisa ainda pior. O que não me era difícil ver-lhe nos olhos.

 

- Peça desculpa - insisti, teimosa.

 

- Você não devia ter dito essa brincadeira - alegou ele. - Venha.

 

- E você devia pedir-me desculpa - contrapus, fascinada com o rumo da conversa. Ele parecia incapaz de apresentar uma fachada, além de ser notório que se sentia perplexo com a minha insistência.

 

- Você está a comportar-se com uma teimosia insuportável.

 

- Eu é que estou a ser teimosa? - perguntei, dando uma gargalhada.

 

- Sim. E agora venha.

 

- Não esteja para aí a dar-me ordens, como se eu fosse um cavalo que deve ser levado de um lado para outro - ripOStei.

 

- Pode pedir desculpa ou beijar-me o cu; como queira. - Aguardei à espera de uma explosão, sem saber ao certo como é que eu própria agiria quando a fúria dele se desencadeasse. Van Zandt ficou a olhar para mim, mas depois desviou o olhar; quando voltou a concentrar-se na minha pessoa, sorria como se não tivesse acontecido nada de especial.

 

- Você é uma pantera, ele! Gosto dessa atitude. Demonstra que tem carácter. - Acenou com a cabeça, mais para si próprio do que para mim; de súbito, pareceu ter ficado extraordinariamente satisfeito. - Isso é muito bom.

 

- Fico muito feliz por você aprovar - repliquei, irónica. Riu-se entre dentes para si mesmo, voltando a dar-me o braço.

 

- Venha daí. Vou apresentá-la ao Jade. Ele vai gostar de si.

 

- E eu gostarei dele? - perguntei.

 

Van Zandt não me deu resposta. Aquilo de que eu gostasse ou não era-lhe absolutamente indiferente. Sentia-se fascinado por eu o ter desafiado. Tive a certeza de que isso não lhe acontecia com muita frequência. A maior parte dos seus clientes norte-americanos deviam ter sido mulheres bastante ricas, cujos maridos e namorados não tinham interesse nenhum por cavalos. Mulheres que lhe davam mais crédito, simplesmente porque ele era europeu, além de lhes prestar muita atenção. Mulheres inseguras e susceptíveis de serem cativadas e manipuladas com a maior das facilidades, não sendo difícil impressioná-las com alguns conhecimentos e um grande ego, embelezados por um sotaque estrangeiro.

 

Ao longo dos anos, foram muitas as ocasiões em que tive oportunidade de presenciar esse fenómeno em primeira mão. As mulheres famintas por atenção e aprovação estão dispostas a fazer um sem-número de coisas, incluindo abrir mão de grandes quantias de dinheiro. Era este o tipo de clientela que permitia que os negociantes de cavalos sem escrúpulos ganhassem uma quantidade obscena de dinheiro, um tipo de clientes que fazia com que os negociantes como Van Zandt troçassem e desprezassem os ”americanos estúPidos” nas costas destes.

 

Entretanto, a Park Lane saía da tenda pela rédea da moça de estrebaria, Jill, quando entrámos. Van Zandt falou desabridamente à rapariga, dizendo-lhe que visse por onde ia, resmungando ”vaca estúpida” entre dentes, embora num timbre de voz audível, enquanto ela ia a reboque do cavalo.

 

- D. J. por que razão não arranjas raparigas com um pouco de cérebro? - perguntou ele em voz alta.

 

Jade encontrava-se junto da portinhola aberta de um estábulo drapejado de verde, onde se viam arreios e fitas por vitórias conseguidas em competições recentes. Com uma postura muito tranquila, o homem bebeu um gole da sua Coca-Cola.

 

- Isso é alguma espécie de charada? - perguntou Jade. Van Zandt levou algum tempo a apreender o sentido da pergunta e depois riu-se.

 

- Sim... uma pergunta ardilosa.

 

- Peço desculpa - comecei a dizer cortesmente -, mas por acaso parece-vos que estou equipada com um pénis?

 

- Não - respondeu Paris Montgomery, saindo da cocheira convertida que servia de sala de arreios. - Já temos aqui um par de pilas.

 

Van Zandt emitiu um som rosnado que lhe saiu da garganta, mas fingiu boa disposição.

 

- Paris, ninguém te bate, és sempre muito rápida com a língua!

 

Ela brindou-o com um sorriso radiante.

 

- É o que todos os fulanos que conheço costumam dizer.

 

Um sentido de humor elevado. Jade não prestava atenção a nada do que era dito. Olhava atentamente para mim. Fitei-o com a mesma intensidade, estendendo-lhe a mão.

 

- ele Stevens - apresentei-me.

 

- Don Jade. É amiga desta criatura? - perguntou-me, acenando com a cabeça na direcção de Van Zandt.

 

- Não me culpe por isso. Conhecemo-nos por força das circunstâncias.

 

- Pois bem, se houver uma circunstância propícia, o Tomas não deixará de estar presente para a aproveitar replicou Jade, arreganhando um canto da boca.

 

Eu não costumo esperar que a oportunidade me bata à porta - atalhou Van Zandt fazendo beicinho. - Costumo apresentar-me, convidando-a educadamente. E esta veio para te roubar a moça da estrebaria - acrescentou apontando para mim.

 

Jade mostrou uma expressão confusa.

 

- Não é a gorda - esclareceu Van Zandt. - A mais engraçadinha. A loura.

 

- A Erin - indicou Paris.

 

- A que se foi embora - disse Jade continuando a observar-me.

 

- Sim - confirmei. - Ao que tudo indica, houve alguém que se me adiantou.

 

Don Jade não acusou a mínima reacção. Não desviou o olhar, nem tão-pouco tentou manifestar a tristeza que a partida da rapariga lhe poderia ter suscitado. Absolutamente nada.

 

- Isso mesmo - acrescentou Paris, prazenteira. A ele e eu tencionamos fundar um grupo de apoio destinado a pessoas que não têm moços de estrebaria.

 

- O que a motivou a vir procurar a Erin em especial? perguntou-me Jade. - Ela não tinha uma experiência por aí além.

 

- Ela fazia um bom trabalho, Don - atalhou Paris, saindo em defesa da rapariga desaparecida. - Estou disposta a aceitá-la de volta sem pensar duas vezes.

 

- Eu soube através de pessoas amigas que a sua rapariga talvez quisesse mudar de emprego - afirmei eu dirigindo-me a Jade. - Agora que a temporada começou, não podemos dar-nos ao luxo de ser muito esquisitos, não lhe parece?

 

- De facto, o que está a dizer é verdade. Tem algum cavalo aqui, ele?

 

- Não, se bem que aqui o Z. esteja a tentar colmatar essa lacuna - adiantei.

 

- V. - corrigiu-me Van Zandt.

 

”- Gosto mais de Z. - retorqui. - Vou passar a tratá-lo por Z.

 

- Mantém-te de olho nesta, Jade - acrescentou ele, rindo-se. - É uma autêntica leoa!

 

Jade ainda não tinha despregado os olhos de mim. Procurava descortinar a pessoa que se encontrava por detrás daquele chapéu ridículo e do traje elegante. Não seria fácil enganá-lo. Cheguei à conclusão de que também não conseguia deixar de o olhar. O zunido do magnetismo irradiava dele como se fosse electricidade. Pareceu-me que o sentia a tocar-me na pele. Perguntei a mim mesma se ele conseguiria dominar isso; se poderia ligá-lo e desligá-lo à sua vontade como se fosse um interruptor. Provavelmente. Don Jade não tinha sobrevivido naquele jogo sem apetências especiais.

 

Perguntei a mim própria se conseguiria estar à altura dele.

 

Antes de ser forçada a responder a essa pergunta, surgiu um perigo mais iminente.

 

- Deus do céu! Que tipo de sádico é que resolveu pôr a minha aula a esta hora tão pouco civilizada do dia? Era o dono de Stellar. Monte Hughes III, conhecido por ”Trey” pelos amigos e lapas. Um estróina de Palm Beach. Um bêbedo dissoluto e debochado. A minha primeira grande paixoneta quando era jovem e rebelde, numa fase da minha vida em que acreditara que ser-se um estróina bêbedo, dissoluto e debochado era romântico e empolgante.

 

Sem dúvida que os óculos de sol serviam para ocultar os olhos raiados de sangue. Os cabelos grisalhos penteados à Don Johnson de Miami Vice estavam revoltos.

 

- Seja como for, que horas são? - perguntou ele com um sorriso enviesado. - Que dia é hoje? - Estava embriagado ou sob a acção de qualquer substância, ou ambas as coisas. O que acontecia desde que eu era gente. Era forçoso que o sangue dele tivesse constantemente um determinado nível de alcoolemia ao cabo de tantos anos de abuso. Trey Hughes: o bêbedo feliz, a alegria de todas as festas.

 

Quando ele se aproximou de nós, mantive-me imobilizada. As hipóteses de ele me reconhecer eram mínimas. A última vez que ele me vira, eu era ainda muito jovem havia vinte anos -, e ter o cérebro transformado em picles não deve ajudar nada à preservação da memória. Eu não podia dizer que ele me tivesse conhecido verdadeiramente, apesar de se ter atirado a mim em diversas ocasiões. Recordei-me de que na altura me sentira muito impressionada comigo própria, ignorando o facto de Trey Hughes ter o hábito de fazer o mesmo com qualquer burra de saias que se atravessasse no seu caminho.

 

- Paris, minha querida, por que razão eles me fazem uma coisa destas? - Inclinou-se para ela, pespegando-lhe um beijo na face.

 

- É uma conspiração, Trey - respondeu Paris.

 

Ele riu-se. Tinha uma voz enrouquecida e cálida devido ao muito uísque que ingeria, ao que se associava um número excessivo de cigarros.

 

- Sim, eu costumava pensar que era paranóico, mas depois concluiu-se que, realmente, toda a gente andava a tentar tramar-me.

 

Usava calças de cabedal próprias para montar, camisa e gravata. Trazia o saco de viagem pendurado ao ombro. Aos meus olhos, exibia exactamente o mesmo aspecto de há vinte anos atrás: atraente, com cinquenta anos e autodestrutivo. É óbvio que nessa altura tinha apenas trinta anos. Demasiadas horas passadas ao sol haviam-lhe sulcado de rugas a pele bronzeada do rosto, além de ter ficado prematuramente grisalho quando era novo de mais para isso, uma característica genética da sua família. Nesses tempos, na minha opinião, ele possuía uma figura deslumbrante e sofisticada. Naquele momento, considerava-o um ser absolutamente patético.

 

Ele inclinou-se para baixo, examinando-me sob a aba larga do chapéu de palha.

 

- Eu sabia que por debaixo disso tinha de haver uma pessoa. O meu nome é Trey Hughes.

 

- ele Stevens - apresentei-me.

 

- Eu conheço-a? - perguntou-me.

 

- Não. Não me parece.

 

- Graças a Deus. Sempre afirmei que nunca me esquecia de uma cara bonita. Por uns momentos, você levou-me a pensar que eu talvez estivesse a contrair a doença daqueles que dizem: ”No meu tempo...”.

 

- Trey, o teu cérebro está demasiado impregnado de álcool para que possa contrair o que quer que seja - atalhou Jade com secura.

 

Hughes nem sequer lhe dedicou um breve olhar.

 

- Há vários anos que ando a dizer às pessoas que bebo por razões clínicas - declarou ele. - Talvez, finalmente, isso esteja a dar os seus frutos... Não me leve a sério, minha querida - continuou Trey. - É coisa que nunca faço. Os seus sobrolhos uniram-se numa expressão de dúvida. Tem a certeza de que...?

 

- Sou uma cara nova - retorqui, quase divertida face à minha própria réplica. - Alguma vez esteve em Cleveland?

 

- Deus nos valha, não! Por que motivo é que eu iria a uma cidade dessas?

 

- Foi com tristeza que soube do que aconteceu ao Stellar.

 

- Sim, é verdade. Ora bem... - Proferiu mais qualquer coisa ininteligível, fazendo um gesto de desinteresse com a mão. - Merdas como essa acontecem. Não é verdade, Donnie? - A pergunta trazia uma alfinetada implícita. Hughes continuava a não olhar de frente para Jade.

 

- Pouca sorte - retorquiu este com um encolher de ombros. - Faz parte do negócio dos cavalos.

 

C’est la vie. C’est la mort.

 

A vida é assim. A morte é assim.

 

O desgosto dele era mínimo.

 

- Deus abençoe a General Fidelity - acrescentou Hughes, erguendo um copo imaginário num brinde. - Desde que eles abram mão da massa.

 

Uma vez mais, o seu tom de voz era acompanhado de um certo azedume; contudo, Jade parecia não se sentir minimamente afectado.

 

- Compra o cavalo belga - sugeriu Van Zandt. Passarás a dizer: ”Stellar, o que é isso?”

 

- a gastar o meu dinheiro antes mesmo que entre na minha algibeira, hein, V? - replicou Hughes rindo-se.

 

- Parece-me o mais acertado, conhecendo-te como te conheço, meu amigo.

 

- Toda a minha massa está destinada às novas cavalariças - afirmou Hughes. - A Casa do Poço sem Fundo.

 

- De que te servirão uns estábulos bestiais, se não tens cavalos para lá pôr? - perguntou Van Zandt.

 

- Deixemos que alguém como aqui Mister Jade nos traga uma camioneta cheia de clientes que paguem a hipoteca e me comprem um novo barco de competição - ripostou Hughes. - Como fazem metade das pessoas de Wellington. O que correspondia à verdade. Muitos dos residentes de Wellington pagavam as prestações das suas hipotecas, correspondentes a um ano, com as rendas exorbitantes que cobravam pelos três ou quatro meses de Inverno em que os turistas abundavam na cidade.

 

- Trey, monta o teu cavalo - ordenou Jade. - Quero que fiques suficientemente sóbrio para completares o curso.

 

- Que diabo, D. J., os copos são a única coisa que me espevita. Se estivesse sóbrio não me aguentava. - Olhou em redor como se procurasse alguma coisa. - Erin, meu pessegozinho - chamou. - Sê uma linda menina e traz-me o meu nobre garanhão.

 

- A Erin já não trabalha cá, Trey. Já te esqueceste? atalhou Paris, pegando no saco onde ele trazia o casaco e entregando-lhe o capacete protector.

 

- Oh, estou a ver. Livraste-te dela.

 

- Ela é que se quis ir embora - redarguiu Paris.

 

- Sim, sim. - Olhou para um ponto indefinido à distância, sorrindo para consigo próprio. - Pareceu-me ter acabado de a ver - proferiu Hughes olhando à sua volta como se estivesse a certificar-se de que a costa estava livre, dirigindo-se a Paris numa voz sussurrada de palco: - DoÇura, por que razão é que não puseste antes a pequena bezerra ao fresco?

 

- Monta o teu cavalo, Trey - replicou Paris revirando os olhos. Falando em espanhol, chamou o guatemalteco e disse-lhe que trouxesse o cavalo cinzento, após o que a comitiva começou a desocupar a coxia. Virei-me para lhes seguir o exemplo. Jade deixou-se ficar para trás, continuando a observar-me.

 

- Tive muito prazer em conhecê-la, ele. Espero que continuemos a vê-la por aqui... quer o V. lhe venda um caValo ou não.

 

- Tenho a certeza de que sim. Agora, fiquei intrigada.

 

- Como as traças são atraídas pela luz? - perguntou Jade.

 

- Qualquer coisa nesses moldes - concordei. -

 

Ele apertou-me a mão e senti aquela estranha corrente a atravessar-me o corpo, uma vez mais.

 

Fiquei a ver o grupo a dirigir-se para o picadeiro onde as aulas de equitação eram dadas. Van Zandt caminhava ao lado do cavalo pardo enquanto enchia os ouvidos de Hughes, gabando o cavalo belga, um excelente saltador. Hughes, que já montara, escutava o que ele lhe dizia a um ouvido. Paris olhou de relance para trás à espera que Jade os apanhasse.

 

Comecei a dirigir-me para o meu carro, desejando ter tempo para ir a casa tomar um duche que me lavasse daquela contaminação.

 

Os que andavam sempre à volta de Jade tinham uma melifluidade que decerto seria acompanhada de um cheiro característico, da mesma maneira que sempre acreditei que as serpentes deviam ter o seu odor muito próprio. Eu não queria ter nada a ver com eles; apesar disso, a engrenagem já fora posta em movimento. O zunido familiar, um misto de entusiasmo e ansiedade, ecoava na minha cabeça. Se bem que familiar, tal não significava que fosse minimamente bem-vindo.

 

Havia muito tempo que eu me mantinha à margem de tudo. Passara a viver um dia de cada vez, sem nunca saber se me decidiria a concluir que já vivera um dia a mais. Também não sabia se tinha as ideias suficientemente estáveis para meter mãos à obra. E se não fosse esse o caso, a vida de Erin Seabright poderia correr perigo de morte.

 

Isto é, se Erin Seabright ainda estivesse viva.

 

Livraste-te dela, dissera Trey Hughes. Reflectindo nessas palavras, concluía-se forçosamente que eram bastante inocentes. Uma simples maneira de falar. Para mais, vindas de um homem que nem sequer sabia qual era o dia da semana. Não obstante, haviam-me acendido uma luz de alerta.

 

Não sabia se devia confiar nos meus instintos, levando em consideração que há tanto tempo se mantinham inactivos. A comprová-lo, só era preciso ver o que tinha acontecido a última vez em que confiara neles, pensei. Os meus instintos, as minhas escolhas e as consequências dos meus actos. Tudo mau.

 

Porém, desta feita não tinham sido as minhas acções que haviam dado origem a que as coisas corressem mal. Tinha sido a inacção. A inacção da mãe de Erin Seabright, a inacção do Gabinete do Xerife.

 

Era imperativo que houvesse alguém que fizesse alguma coisa. Estas pessoas que Erin Seabright conhecera, e para quem trabalhara, mostravam-se demasiado indiferentes quando o nome dela era mencionado, e excessivamente displicentes quando o assunto versava a morte.

 

O endereço que Molly me deu como sendo o de Erin havia sido em tempos uma mansão com garagem para três automóveis que fora reconvertida em apartamentos, actualmente arrendados. Em termos geográficos, distava apenas uns escassos quilómetros da casa dos Seabright, situada em Binks Forest. Em todos os outros aspectos era um mundo inteiramente à parte.

 

Uma área onde as estradas secundárias são de terra batida e as valas não escoam as águas pluviais; onde ninguém alguma vez obedecera a qualquer postura camarária. Era uma estranha amálgama de construções dilapidadas, vivendas para uma nova classe média e pequenas propriedades de gente que tinha cavalos. O tipo de lugar onde os residentes pregam tabuletas nos troncos das árvores ao longo do caminho, publicitando tudo e mais alguma coisa, desde ”Ganhe Dinheiro na Sua Própria Casa” a ”Vendem-se Cachorrinhos”, passando por ”Aglomerado Barato de Aparas de Madeira”.

 

Na propriedade onde Erin vivera havia muitos pinheiros altos, palmeiras enfezadas e um excesso de matagal. A casa principal era uma espécie de arremedo de uma mansão espanhola, construída nos anos setenta. O estuque branco adquirira um tom acinzentado devido ao bolor. O jardim consistia em areia suja e uma relva anémica faminta de sol. Estacionado numa das bermas do caminho particular vi um Honda acastanhado, muito sujo e cheio de pingos de resina de pinheiro já endurecida. Dava a impressão de não ir a parte alguma há muito tempo.

 

Encaminhei-me para a porta da frente e toquei à campainha, na esperança de que ninguém se encontrasse em casa, dado que estávamos a meio do dia. Eu teria ficado muito mais satisfeita se pudesse entrar pela garagem ou casa de hóspedes. Já tinha mais do que a minha conta de contacto humano para um só dia. Enxotei o mosquito que pousou no meu antebraço e esperei, após o que toquei à campainha uma segunda vez.

 

- Estou nas traseiras! - gritou uma voz roufenha que mais parecia uma dobradiça ferrugenta.

 

Saíam-me ao caminho pequenos gecos castanhos que saltavam disparados, embrenhando-se na vegetação que crescia sem rei nem roque, enquanto eu contornava a casa até à garagem nas traseiras onde também havia uma piscina, como era habitual. A rede que cercava o alpendre, emprestando-lhe o aspecto de uma gaiola, fora instalada para impedir a entrada dos insectos, mas estava rota em várias zonas, dando a impressão de que os rasgões tinham sido feitos por patas gigantescas. A porta encontrava-se toda aberta para trás porque as dobradiças estavam partidas.

 

A mulher que se via à entrada há muito que perdera o aspecto e a idade em que alguém quisesse vê-la num fato de banho de duas peças, mas era isso mesmo que usava. A pele flácida descaía em pregas no corpo inclinado, dando a impressão de estarmos perante um conjunto de bolas de couro meio insufladas.

 

- Deseja alguma coisa, minha linda? - perguntou-me ela. Uma espécie de transplante de Nova Iorque com o tipo de óculos de sol gigantescos de que Jackie O. tanto gostara. Não andaria muito longe dos setenta anos, parecendo ter Passado os últimos sessenta e oito a tomar banhos de sol. Tinha a pele tão castanha e malhada como a dos lagartos que viviam no seu jardim. Na altura, fumava um cigarro enquanto mantinha presos por trelas dois gigantescos gatos, muito gordos e cor de gengibre. Ao vê-la, fiquei momentaneamente em silêncio, aparvalhada.

 

Ando à procura da minha sobrinha - disse eu dePOIS de me ter recomposto. - Chama-se Erin Seabright. vive aqui, não é verdade?

 

A mulher assentiu com a cabeça, deixando cair a ponta do cigarro, que esmagou com a biqueira de algo que se assemelhava a uma sandália de mergulhador em neopreno de um azul-esverdeado.

 

- A Erin. A rapariga que é muito bonita. Há uns dias que não a vejo, minha querida.

 

- Não? A família também não sabe dela. Estamos a ficar preocupados.

 

À mulher cerrou os lábios e fez um gesto como que para afastar as minhas preocupações.

 

- Não deve ser nada de grave. O mais certo é ela ter ido para fora com o namorado.

 

- Namorado? Não sabíamos que ela tinha namorado.

 

- Mas que grande surpresa! - ripostou ela, sarcástica. - Uma adolescente que não conta nada da sua vida à família. No entanto, eu pensei que eles se tinham zangado. Aqui há umas noites, ouvi-os a discutir no jardim.

 

- Quando é que isso se passou? - perguntei.

 

- Na semana passada. Não me lembro ao certo em que dia. Talvez tenha sido na quinta-feira ou na sexta - respondeu ela, encolhendo os ombros. - Sou reformada. Nunca sei em que dia é que estamos. Para mim, todos os dias são iguais. Sei que saí para que os meus bebés passeassem um pouco na manhã seguinte e vi que alguém riscara o carro da Erin com a ponta de uma chave, estragando a pintura. Tenho um portão que serviria para manter essa gentalha fora da propriedade, isto é, se o calão do meu filho viesse cá para o arranjar - acrescentou. - Se eu fosse violada e me assassinassem, ele não se importaria nada. Está convencido de que herdará tudo o que eu tenho.

 

Riu-se à socapa, baixando o olhar até aos gatos cor de gengibre, como se partilhasse com eles, telepaticamente, uma piada qualquer. Um dos felinos estava deitado de costas na terra com as pernas traseiras todas estendidas, enquanto o outro investia com o focinho contra os pés dela, mantendo as orelhas achatadas.

 

- Credo! Cedi! Não mordas o dedo grande da mamã! - ralhou ela. - A última vez que ele me mordeu apanhei uma infecção. Pensei que ia morrer por causa disso! - Com estas palavras, a mulher enxotou o gato e este retribuiu dando-lhe uma patada, após o que correu até onde a trela lhe permitia, começando a protestar de desagrado. Devia pesar, pelo menos, uns doze quilos.

 

- Acha que eu podia dar uma olhadela ao apartamento da Erin? - perguntei educadamente. - Talvez descubra alguma pista que me indique onde é que ela possa estar. A mãe está extremamente preocupada.

 

- Com certeza - anuiu ela com uma expressão de desinteresse. - E porque não? Ao fim e ao cabo, você é da família.

 

Aquele era o tipo de senhoria que todos desejamos ter. O direito à privacidade que a Constituição nos confere? O que é isso?

 

Prendeu as trelas dos gatos ao fecho da porta de rede suspensa das dobradiças e tirou uma argola cheia de chaves da bolsa que trazia presa à cintura, donde retirou também um cigarro e um isqueiro Bic de um rosa-vivo. Acendeu o cigarro enquanto contornávamos a parte da frente da garagem, onde duas portas flanqueavam janelas abertas numa parede de contraplacado de madeira, no local onde em tempos teriam estado as portas originais da garagem.

 

- Quando fiz esta casa de hóspedes decidi dividi-la em dois apartamentos - confidenciou-me a mulher. - Com uma casa de banho. É uma maneira de se ganhar mais dinheiro de renda. Semiprivados. Cobro setecentos e cinquenta dólares de renda por mês por cada apartamento.

 

Setecentos e cinquenta dólares por mês pelo privilégio de se viver numa garagem em que se partilhava a casa de banho com um ou uma desconhecida.

 

- A propósito, chamo-me Eva - apresentou-se ela, empurrando os óculos de sol para o topo da cabeça. - Eva Rosen.

 

- ele Stuart - informei.

 

- Você não tem parecenças nenhumas com ela - comentou Eva, perscrutando-me por entre as pálpebras semicerradas enquanto entrávamos no apartamento.

 

- Somos familiares por afinidade - esclareci.

 

O apartamento era composto por uma divisão única com um chão revestido a linóleo e o tipo de mobiliário que se compra em lojas de desconto. Instalada a um canto havia uma pequena cozinha muito compacta; um minúsculo lavalouça, cheio de utensílios sujos e cobertos de formigas, dois bicos de fogão, um microondas e um minifrigorífico. A cama estava no outro extremo, ainda por fazer.

 

Não avistei qualquer outro sinal que me indicasse que aquele espaço era habitado por alguém. Não havia peças de roupa, sapatos ou quaisquer outros artigos pessoais de espécie alguma.

 

- Parece que a Erin se mudou - afirmei eu. - Não se apercebeu de ela ter levado as coisas para o automóvel?

 

Eva deu meia volta no meio da sala, tendo ficado de boca aberta, com o cigarro agarrado ao lábio inferior a balouçar, bastante periclitante.

 

- Não! Ninguém me disse nada quanto a tencionar mudar-se. E, ainda por cima, deixou-me a louça toda suja! Proporcionamos às pessoas um lugar agradável para viverem e esta é a maneira como nos pagam!

 

- Durante os últimos dias, deu pela entrada ou saída de outras pessoas? - perguntei.

 

- Não. Quer dizer, tirando aquela rapariga gorducha.

 

- Está a referir-se à Jill Morone?

 

- Ela tem maus instintos. Aqueles olhinhos porcinos... Nunca deixaria os meus bebés com ela.

 

- É ela que vive no outro apartamento?

 

- Alguém vai ter de pagar por isto - resmungou Eva sem me responder. - Elas alugaram para toda a temporada. Vão ter de pagar as rendas que faltam.

 

- Quem é que lhe paga as rendas?

 

- Os cheques são passados pelas Quintas Jade. Aquela rapariga muito querida, a Paris, é ela que me entrega sempre os cheques. É extremamente simpática. Não sou capaz de acreditar que ela permitisse uma coisa destas.

 

A inspirar furiosamente o fumo do cigarro, encaminhou-se para o lava-louça e abriu a torneira. Os canos roncaram, cuspinhando água. Quando, finalmente, a água começou a correr com regularidade saía barrenta.

 

- As pessoas não podem abandonar as casas assim a meio da noite, convencidas de que não terão de pagar a renda. O meu filho, que não serve para nada, é bom para uma coisa: trabalha numa firma que empresta dinheiro para fianças e conhece pessoas influentes.

 

Fui atrás dela quando abriu a porta, atravessando a casa de banho que era partilhada pelas duas locatárias, até à parte da garagem alugada por Jill Morone. O chão estava pejado de toalhas molhadas, enquanto as paredes do duche se apresentavam negras devido ao bolor e cor de laranja por causa da ferrugem.

 

- Esta continua cá - disse Eva entre dentes. - É uma porca. Olhe bem para isto tudo!

 

A divisão parecia ter sido virada do avesso, mas desconfiei que aquela era a maneira habitual de a rapariga manter a casa onde vivia. Espalhadas por todo o lado, só se viam peças de roupa e revistas. Havia um cinzeiro a transbordar de beatas numa pequena mesa. Avistei um número da Sidelines, aquele em que a minha fotografia vinha publicada, caído no chão; sorrateiramente, com a biqueira do sapato, empurrei-a para debaixo do sofá.

 

- Eu nem sequer permitiria que os cães vivessem nestas condições - resmungou Eva Rosen sem mostrar o mínimo pejo em passar revista aos pertences de Jill Morone. - Onde é que ela irá buscar isto tudo? Roupas da Bloomingdales. Ainda têm as etiquetas. Aposto que as rouba. É o género de rapariga que faz esse tipo de coisas.

 

Decidi não contradizê-la. Passei uma vista de olhos às jóias falsas que a rapariga tinha numa grande desarrumação em cima da cómoda, perguntando-me se parte daquilo teria vindo como que por artes mágicas da porta ao lado. Uma troca justa por uma pilha de louça suja.

 

- No domingo passado esteve por aqui, Mistress Rosen?

 

- E estive aqui durante todo o dia.

 

- E quanto à noite de domingo? - especifiquei.

 

- Nas noites de domingo costumo ir com o meu amigo Sid ao Thai na A-Um. Comi caril de galinha. Tão picante! Fiquei com azia durante uma data de dias.

 

- A que horas é que veio para casa?

 

- Isso não é nada da sua conta - respondeu ela sem hesitar.

 

- Por Favor, Miss Rosen, esse pormenor pode ser muito importante. A Erin desapareceu.

 

Durante uns momentos, desempenhou o papel de obstinada, mas depois inclinou a cabeça de lado e encolheu os ombros.

 

- O Sid é um amigo muito especial. Está a compreender, não é verdade? Só voltei a casa na segunda-feira. Talvez por volta do meio-dia.

 

”Tempo de sobra para Erin poder ter feito a mala ou para alguém a ter feito por ela”, pensei.

 

- Tenho a certeza de que ela fugiu com um rapaz insistiu Eva, acabando de fumar o cigarro e acrescentando a beata ao monte que enchia o cinzeiro. - Não pretendo ofender a sua família, mas a verdade é que ela com aquelas camisolas muito justas, e com a barriga à mostra, ficava com uma aparência de... Está a perceber, não está?

 

Aquele comentário vinha de uma mulher com setenta anos que usava biquini.

 

- O que é que pode dizer-me sobre o namorado dela? perguntei. - Sabe que modelo e marca de carro é que ele tem?

 

- Vivi em Queens durante sessenta e sete anos. Está à espera que eu perceba alguma coisa de automóveis?

 

Tentei respirar devagar para me acalmar. Outra das minhas falhas como agente das forças policiais: falta de diplomacia para com o público em geral.

 

- A cor? O tamanho? Qualquer informação que eu pudesse passar à Polícia?

 

- Preto, talvez. Ou azul-escuro. Só o vi uma vez e foi à noite - disse Eva.

 

- E quanto ao rapaz? Acha que é capaz de o descrever? - insisti.

 

- Para que é este interrogatório? - perguntou ela fingindo-se indignada com o meu procedimento. - Agora estou no Law and Orderl Você é uma espécie de procuradora-geral ou quê? Agora vamos ter o Sam Waterston a sair do armário?

 

- Só estou preocupada por causa da minha sobrinha. Miss Rosen. Receio que lhe tenha acontecido alguma coisa de mal. Ela não disse a ninguém que tencionava mudar de casa. A família não sabe nada a respeito deste namorado. Como é que podemos saber se ela foi com ele de sua livre e espontânea vontade?

 

Eva reflectiu, ponderando as minhas palavras, com os olhos a brilharem por uns segundos perante a possibilidade de uma situação de intriga, após o que fez um aceno com a mão fingindo indiferença.

 

- Não tive a oportunidade de o ver como deve ser. Ouvi-os a discutir e espreitei através das persianas, mas só consegui avistar a parte de trás de uma cabeça.

 

- É capaz de me dizer se ele é alto ou baixo? Mais novo ou mais velho do que ela?

 

- Acho que ele era de altura mediana - respondeu Eva, encolhendo os ombros. - Esteve sempre de costas para mim.

 

- Chegou a conhecer o homem para quem a Erin trabalhava? - perguntei.

 

- Que homem? Pensei que ela trabalhava para a Paris!

 

- Chama-se Don Jade. É um homem de meia-idade, mais para o magro e muito bem-parecido.

 

- Não conheço. Só conheço a Paris. É uma mulher tão simpática. Tem sempre o cuidado de perguntar pelos meus bebés. Sou obrigada a concluir que ela ainda não sabe que a Erin fugiu, caso contrário, já teria falado comigo sobre esse assunto.

 

- Tenho a certeza que sim - concordei. - Reparou em alguma coisa, por mais insignificante que possa parecer-lhe, em relação a esse namorado, Miss Rosen? Seja o que for?

 

- Tenho muita pena, minha querida - retorquiu Eva Rosen, pesarosa, com um abanar de cabeça. - Se pudesse, pode crer que a ajudaria. Sabe... eu também sou mãe. Tem filhos? - perguntou ela olhando desconfiadamente para o meu corte de cabelo.

 

- Não, não tenho.

 

- Dão-nos tantas preocupações que nos põem doidas! E depois são as desilusões que nos dão. Os filhos são uma grande provação.

 

- Alguma vez ouviu a Erin referir-se ao namorado pelo nome? - perguntei.

 

- Talvez - respondeu ela depois de ter perscrutado a Memória. - É muito possível que nessa noite eu a tenha ouvido tratá-lo pelo nome. Sim. Era um nome ao estilo daqueles que usam nas personagens das telenovelas. Brad? Tad?

 

- Seria Chad?

 

- Isso mesmo - confirmou Eva. Chad Seabright.

 

Amor proibido. Perguntei-me se esse enredo tão shakespeariano teria contribuído para a deserção de Erin do lar dos Seabright. Era-me difícil imaginar que Bruce Seabright tivesse aprovado um namoro entre o filho e a enteada, a despeito do facto de não terem qualquer parentesco consanguíneo. E se a situação não agradasse a Bruce, decerto que não seria do agrado de Krystal.

 

Gostaria de saber por que motivo é que Molly não tinha aludido à relação entre Erin e Chad, o que é que a levara a não me dizer nada acerca de Chad. Talvez ela acreditasse que eu também reprovaria essa relação. A ser esse o caso, sem dúvida que não me avaliara correctamente. A moralidade da irmã era coisa que me deixava completamente indiferente. O único interesse que eu pudesse ter na vida amorosa de Erin seria motivado pelo seu desaparecimento.

 

Meti-me no automóvel e regressei a casa dos Seabright. Chad, o Inválido, encontrava-se no caminho de acesso à vivenda a lavar o seu Toyota preto. O protótipo do rapaz norte-americano com umas calças de ganga e uma T-shirt branca. Olhou para mim através de uns óculos de sol Oakley com lentes espelhadas enquanto retirava a espuma dos aros das jantes.

 

- Belas rodas - disse eu caminhando até ele. - A Eva Rosen falou-me dessa viatura.

 

- Quem é a Eva Rosen?

 

- É a senhoria da Erin. Não há nada que escape à velha Eva.

 

Chad endireitou-se, esquecendo-se da mangueira com que lavava os pneus.

 

- Peço desculpa - retorquiu ele educadamente. Não me recordo do seu nome.

 

- Elena Estes. Ando à procura da sua irmã por afinidade.

 

- Tal como eu já lhe disse esta manhã, Miss Estes, não a tenho visto.

 

- Isso é curioso porque a Eva disse-me que o viu nas traseiras de sua casa uma noite destas. Está a parecer-me que ela sabe algumas coisas deveras interessantes a seu respeito - continuei. - Acerca de si e da Erin.

 

Chad adoptou uma postura de desinteresse, meneando a cabeça, a que acrescentou um sorriso juvenil, compondo o estilo de Matt Damon.

 

- Lamento ter de lhe dizer que não sei de que está a falar.

 

- Deixe-se disso, Chad - retorqui numa entoação de voz persuasiva. - Eu já cá ando há alguns anos. O facto de você e a Erin manterem uma relação amorosa não me interessa rigorosamente nada. Não é um rapaz que ande a foder a irmã por afinidade que fará com que eu pestaneje.

 

O rapaz franziu a testa perante a acusação.

 

- Foi por isso que a Erin saiu de casa, não é verdade? - perguntei. - O seu pai não estava disposto a suportar os dois a coisarem mesmo nas sua barbas.

 

- Não andávamos metidos um com o outro - insistiu ele.

 

- A Eva contou-me que aqui há umas noites vocês dois discutiram à entrada da casa dela. O que é que aconteceu, Chad? A Erin deu-lhe com os pés? Deixa-me adivinhar: o padrasto e a mamã já não podiam assistir a tudo, e por isso ele desinteressou-se...

 

O rapaz furtou-se ao meu olhar, tentando decidir qual a melhor estratégia face ao que eu lhe dissera. Responder com a verdade, mostrar-se indignado, insistir em negar, permanecer calmo? Para começar, optara pela última alternativa; no entanto, a minha frontalidade começava a irritá-lo.

 

- Não sei bem quem é a senhora - declarou ele continuando a tentar manter aquele falso bom humor -, mas sei que está doida.

 

Descobri uma zona seca no pára-choques dianteiro da carrinha de caixa aberta, encostei-me aí e cruzei os braços.

 

-- Por causa de quem é que ela lhe terá com os pés, Chad? Um homem mais velho? Talvez o patrão?

 

- Não sei com quem é que a Erin anda - replicou ele com secura. - E não me interessa. - Com estas palavras, despejou a água de lavar a viatura na entrada da casa, levando o balde para a garagem. Fui atrás dele.

 

- Muito bem. Talvez eu esteja a divagar. Talvez a discussão tenha sido a respeito de uma coisa inteiramente diferente - concedi. - Se a ressaca que você tinha esta manhã serve para aferir alguma coisa, eu diria que é um indivíduo que gosta de se divertir. Com base no que ouvi dizer, é possível que a Erin goste muito de festas loucas. E lá está ela no centro equestre, todo um novo mundo de traficantes e consumidores de drogas. Quem sabe se não foi por causa disso que discutiram quando esteve no jardim da casa da Eva Rosen: drogas.

 

Chad arremessou com o balde para uma prateleira onde se viam vários artigos para automóvel, dispostos como que numa montra da Pep Boys.

 

- A senhora está a passar das marcas.

 

- Ela tentou deixá-lo de fora num negócio qualquer de drogas, Chad? Foi por isso que voltou mais tarde para lhe riscar o carro?

 

- O que é que se passa consigo? - perguntou ele num tom autoritário. - Porque é que veio aqui? Tem algum mandado ou coisa assim?

 

Eu tinha-me posicionado demasiado perto dele. Chad queria afastar-se de mim.

 

- Não preciso de nenhum mandado, Chad - respondi com muita calma, mantendo o olhar fixo nele. - Não sou esse tipo de polícia. - Apesar de o ter dito, não sabia bem o que queria dizer, mas a verdade é que as minhas palavras tiveram o condão de o enervar. Pôs as mãos nas ancas, arrastou os pés, cruzou os braços diante do peito e ficou a olhar para a rua.

 

- O que é feito da Erin? - perguntei.

 

- Já lhe disse que não sei. Não a tenho visto - insistiu ele.

 

- Desde quando? Desde sexta-feira passada? Desde a noite em que discutiu com ela? Desde a noite em que lhe riscou o carro?

 

- Não sei nada a esse respeito. É melhor falar com a vaca gorda com quem ela trabalha - sugeriu ele. - A Jill Morone. Ela é maluca. Pergunte-lhe onde é que a Erin está. O mais provável é ela tê-la morto e comido.

 

- Como é que você conhece a Jill Morone? - perguntei

 

- E como é que está a par do que se passa com as pessoas que trabalham com a Erin, uma vez que diz que não se tem mantido em contacto com ela?

 

Chad imobilizou-se, olhando através da porta da garagem.

 

”Apanhei-te!” Era muito agradável saber que eu ainda não tinha perdido o jeito.

 

- Por que razão é que discutiram na sexta-feira à noite, Chad? - voltei a insistir, aguardando pacientemente enquanto ele se debatia, tentando encontrar a resposta que devia dar-me.

 

- Decidi acabar com ela - afirmou por fim, voltando a concentrar-se nas prateleiras. Tirou uma toalha de turco branca de uma pilha de várias toalhas, cuidadosamente dobradas, todas brancas. - Não preciso dos problemas que a situação estava a arranjar-me.

 

- Sim, sim. Isso é uma treta de merda. Não se larga uma rapariga para voltar pouco depois para lhe riscar o carro com a chave. Quando não se é abandonado, isso não tem nenhuma razão de ser - argumentei.

 

- Eu não risquei o carro dela!

 

- Não acredito em si.

 

- Pois bem, isso é problema seu e não meu! - ripostou Chad com brusquidão.

 

- Não o estou a ver a deixá-la, Chad. É possível que a Erin tenha andado de candeias às avessas com o Bruce e com a Krystal por ter saído de casa, mas, apesar disso, você podia continuar a chatear o velho mantendo a relação com ela.

 

- Você não sabe nada sobre a minha família - replicou ele.

 

- Não sei? - Olhei em redor, observando a garagem onde havia um lugar para todas as coisas e com tudo nos devidos lugares. - O seu velho é um paranóico da arrumação. A sua maneira de ser é a única que prevalece. A opinião dele é a única que conta. Todos os que vivem nesta casa têm o objectivo de servir as suas necessidades, reconhecendo a sua superioridade sobre os demais. Até aqui, que tal estou a ir?

 

Furioso, Chad encaminhou-se para a sua carrinha, esforçando-se por limpar as manchas deixadas pela água que entretanto secara.

 

- Ele arrasa-o se você não conseguir retirar essas manchas, não é verdade, Chad? - perguntei-lhe, indo atrás dele quando contornou a viatura. - Não se pode deixar manchas na pintura dos automóveis. O que é que os vizinhos haveriam de pensar? E imagine-se se eles descobrissem o que se passa entre si e a Erin? Que vergonha, andar a coisar com a irmã por afinidade. Para todos os efeitos, pode-se dizer que é uma relação incestuosa. Não há dúvida de que você pôs em franja os nervos do papá, não foi, Chad?

 

- Minha senhora, devo dizer-lhe que está a chatear-me! Não lhe disse que a minha intenção era precisamente essa. Segui-o, contornando a dianteira do veículo até ao outro lado.

 

- Diga-me o que eu quero saber para me ir embora.

 

- Não tenho nada a dizer. Não sei do paradeiro da Erin e estou a cagar-me para isso.

 

- Aposto que quando tiver um chui atrás de si não dirá que está a cagar-se para isso... porque talvez haja uma questão de drogas relacionada com o desaparecimento da Erin. Posso dizer-lhe por experiência pessoal que existem poucas coisas que agradem mais a um traficante de droga do que conseguir agarrar um miúdo com dinheiro e conhecimentos. E o que é que lhe parece que acontecerá quando o seu pai for interrogado sobre este seu envolvimento? Calculo que você talvez goste de...

 

Interrompi-me quando ele se voltou para mim com as mãos ao alto, como se eu estivesse a apontar-lhe uma arma.

 

- Está bem! Já chega. Jesus me valha, minha senhora, você saiu-me uma bela prenda! - exclamou ele com um abanar de cabeça.

 

Esperei.

 

- De acordo - continuou, soltando um suspiro. A Erin e eu tivemos um caso. Pensei que era uma relação com significado, mas para ela não teve a mínima importância. Ela deixou-me. Foi isso que aconteceu. A história é essa. Não tem nada a ver com drogas nem com negócios de drogas, nada desse género. Mais nada. Ela deu-me com os pés. - Encolheu os ombros e fez tombar os braços numa atitude de derrota; o reconhecimento daquele facto deixou-o sem acção. O ego masculino é uma coisa muito frágil, quer se tenha dezassete ou setenta anos.

 

- Ela deu-lhe alguma razão para a sua atitude? - perguntei num tom apaziguador. - Não tencionava fazer-lhe esta pergunta - acrescentei quando vi que a tensão recomeçava a apoderar-se dele. - No entanto, sucedeu uma coisa no local onde a Erin trabalhava e agora ninguém sabe onde é que ela possa estar.

 

- Ela está metida nalgum sarilho? - perguntou Chad.

 

- Não sei.

 

- A Erin disse-me que havia outra pessoa - continuou depois de uma breve pausa. - ”Um homem”, especificou ela. - Como se eu tivesse doze anos ou coisa assim. Abanou a cabeça mostrando uma expressão de desprezo.

 

- Ela disse quem era esse homem? - perguntei.

 

- Não lhe perguntei. Bem vê, em que é que isso podia interessar-me? Sei que ela tinha um fraquinho pelo patrão, mas o homem deve ter uns cinquenta anos...

 

- Ela disse-lhe se tencionava ir a qualquer lugar em especial? Contou-lhe alguma coisa acerca de mudar de emprego ou de casa?

 

Chad respondeu-me com um abanar de cabeça.

 

- Ela não lhe disse nada sobre uma ida a Ocala?

 

- Ocala?! Por que motivo é que ela iria lá?

 

- O patrão diz que ela se despediu e que se mudou para Ocala, onde tinha arranjado outro emprego - expliquei.

 

- Isso é uma novidade para mim - retorquiu ele. Não. Ela nunca faria isso. Não faz sentido nenhum.

 

- Obrigada pelas informações que me deu. - Tirei do bolso um cartão-de-visita com o meu número de telefone. Se ela entrar em contacto consigo, importa-se de ligar para este número e deixar uma mensagem?

 

Chad aceitou o cartão, ficando a olhar fixamente para ele.

 

Regressei ao meu carro, que tinha parado ao fundo do caminho particular da casa dos Seabright, e deixei-me ficar sentada por uns momentos. Olhei à minha volta. Uma área Residencial tranquila, agradável e dispendiosa; praticantes de golfe que se preparavam para dar início a umas tacadas nos relvados das traseiras de suas casas. O sonho americano.

 

Pensei na família Seabright. Gente bem na vida, gente bem-sucedida; neuróticos, implicativos, cheios de ressentimentos secretos que fervilhavam por dentro. O sonho americano na casa dos horrores de um parque de diversões.

 

Estacionei junto ao passeio defronte da escola; as mamãs que iam buscar os filhos e eu. Ter-me-ia sentido menos desenquadrada numa fileira de coristas. As crianças começaram a sair em turbilhão pelas portas da escola, dirigindo-se para as camionetas ou para as mães a quem naquela semana cabia ir buscar um grupo de miúdos.

 

Não vi sinal de Krystal Seabright, embora não estivesse à espera disso. Pareceu-me bastante evidente que Molly era apenas uma pessoa pequena que, por um acaso da vida, vivia na mesma casa habitada por Krystal. Molly era a criança em que se tornara por mero acaso ou por um instinto de autopreservação, ou ainda por ver muitas séries televisivas de acção e pesquisa criminal. Provavelmente, assistira ao drama, à rebelião, aos constantes conflitos de Erin com os pais, tendo-se, conscientemente, voltado noutra direcção a fim de merecer alguma aprovação dos outros.

 

Engraçado... pensei; era bem possível que Molly Seabright fosse exactamente a rapariguinha que a minha irmã mais nova teria sido, caso eu tivesse tido uma irmã mais nova. Os meus pais haviam-me adoptado, não tendo desejado mais filhos. Eu era mais do que suficiente para eles. Uma lástima para os dois. Uma criança que aprendesse com os meus erros poderia muito bem ter sido precisamente a filha que eles desejavam.

 

Quando avistei Molly a transpor a porta da escola, saí do automóvel. Ela não deu logo pela minha presença. Caminhava de cabeça baixa, puxando a pequena mochila atrás de si. Apesar de estar rodeada pelas outras crianças, parecia muito só, profundamente mergulhada nos seus pensamentos. Chamei-a quando ela começou a percorrer o passeio. Ao ver-me, o seu semblante iluminou-se, reflectindo um sentimento de expectativa, cuidadosamente controlada.

 

- Já a encontrou? - perguntou-me, ansiosa.

 

- Não, ainda não. Passei o dia a fazer muitas perguntas. É possível que ela tenha ido para Ocala - adiantei.

 

- Ela não se mudava sem me dizer, sem me ter telefonado - retorquiu a garota, abanando a cabeça.

 

- A Erin conta-te sempre tudo? - perguntei, abrindo a porta do carro para ela entrar. Olhei em volta para ver se desconfiariam que eu fosse alguém que maltratasse crianças. Mas ninguém me prestava a mínima atenção.

 

- Sim - respondeu Molly por fim.

 

Contornei o automóvel até à porta do lado do condutor, sentei-me ao volante e liguei o motor.

 

- Ela disse-te que mantinha uma relação amorosa com o Chad?

 

Os olhos dela desviaram-se dos meus, dando-me a impressão de que se encolhia no assento.

 

- Por que razão não me falaste do Chad? - perguntei.

 

- Não sei - respondeu-me numa voz que mal se ouvia. - Prefiro fingir que o Chad não existe.

 

Ou ignorar que Erin tinha passado de irmã a um ser com apetências sexuais, pensei enquanto conduzia até ao beco sem saída onde Molly morava. Erin fora o seu ídolo e uma figura protectora. Se Erin a tivesse abandonado, então Molly encontrava-se completamente sozinha na família dos Seabright, uma família cheia de problemas.

 

- O Chad foi ao apartamento da Erin na sexta-feira à noite - disse eu. - Tiveram uma discussão. Sabes alguma coisa a esse respeito?

 

- Talvez tenham acabado o namoro - alvitrou ela, encolhendo os ombros.

 

- O que é que te leva a chegar a essa conclusão? Sabes se a Erin andava interessada numa outra pessoa?

 

- Ela tinha uma paixoneta pelo patrão, mas ele é velho de mais para ela.

 

Claro que aquilo era uma questão de opinião. Porém, tanto quanto me era dado saber sobre Erin, pelo menos, até ao momento, não teria ficado nada surpreendida se descobrisse que ela andava a atirar-se a um homem com idade suficiente para ser seu pai. E, se os acontecimentos passados serviam como ponto de referência, Jade não se teria feito rogado.

 

- Sabes de mais alguém? - continuei.

 

- Não sei - respondeu-me Molly sem ocultar a irritação que sentia. - A Erin gosta de agradar a todos os homens que conhece. Não prestei atenção. Não queria ouvir falar desse assunto.

 

- Molly, isto é muito importante - insisti quando já me aproximava do lancil do passeio ao fundo da rua. Quando eu te faço perguntas com relação à Erin, acerca de qualquer coisa ou de alguém, tens de me dizer a verdade absoluta, tal como ela é na tua percepção. Nada de dourar os pormenores que te desagradam. Estás a perceber?

 

Molly franziu as sobrancelhas, mas assentiu com a cabeça.

 

- Tens de confiar em mim - acrescentei, sentindo um arrepio gélido que me atravessava o corpo.

 

Molly olhou-me de uma maneira firme e com uma expressão que espelhava uma sensatez excessiva para os seus verdes anos.

 

- Já lhe disse que confio em si.

 

Desta feita não lhe perguntei por que motivo.

Encontro-me ao lado da caravana dos irmãos Golam. Disseram-me que me deixasse ficar quieta, que esperasse, mas sei que não é essa a decisão mais acertada. Se eu for a primeira a avançar apanharei os irmãos desprevenidos. Eles pensam que me conhecem. Há três meses que trabalho neste caso e sei o que ando a fazer e que tenho razão. Começaram a sentir-se acossados. Quero fazer esta detenção e mereço-a. O tenente Sykes está aqui apenas para se mostrar quando os carros de exteriores da televisão chegarem. Quer assegurar o resultado das próximas eleições para xerife.

 

Relegou-me para um dos lados da caravana, e deu-me instruções para aguardar. É um idiota chapado. Não me deu ouvidos quando lhe disse que a porta lateral é a que os irmãos Golam mais utilizam. Enquanto o Sykes e o Ramirez vigiam a parte da frente, devem estar a enfiar o dinheiro em sacos de viagem e preparam-se para escapar pela porta lateral. O todo-o-terreno do Billy Golam, coberto de lama, está estacionado apenas a três metros da caravana. Se tiverem de fugir, não há-de ser no Corvette que está estacionado na parte da frente. Com o todo-o-terreno podem-se enfiar por todo o tipo de caminhos.

 

O Sykes está a perder um tempo precioso. Os irmãos Golam têm as duas raparigas na caravana. Podem usá-las como reféns. Se eu avançasse agora... Eles pensam que me conhecem.

 

Ligo o meu radiotransmissor.

 

- Isto é uma estupidez. Eles vão desatar a correr para o todo-o-terreno. Vou avançar.

 

- Raios te partam. Estes... - grita o Sykes.

 

Deixo cair o rádio nas ervas que crescem junto da caravana. O caso é meu. A detenção é minha. Sei o que estou a fazer.

 

Saco da arma e mantenho-a atrás das costas. Dirijo-me para a porta lateral e uso o código dos clientes dos irmãos Golam: duas batidas, uma, e mais duas.

 

- Eh, Billy, é a ele! Preciso de uma dose.

 

Billy Golam abre a porta aos sacões, de olhos arregalados. De certeza que está pedrada com a sua mistura caseira favorita: cristais de metadona. A respiração é ofegante. Tem um revólver na mão.

 

Merda!

 

A porta da frente explode para o interior da caravana.

 

Uma das raparigas começa a gritar.

 

- Chuis! - avisa Buddy Golam.

 

Billy Golam aponta-me o 357 à cara. Inspiro a minha última golfada de ar.

 

Vira-se abruptamente e dispara. O som é ensurdecedor. A bala atinge o Hector Ramirez em cheio na cara e desfaz-lhe a parte de trás da cabeça, de onde são projectados bocados de matéria cerebral misturada com sangue que vão salpicar o Sykes, que se encontra atrás dele.

 

A imagem desvanece-se gradualmente, saindo do meu cérebro, enquanto o edifício que lentamente fui construindo na minha mente como que começa a materializar-se diante dos meus olhos.

 

O complexo do Departamento de Justiça de Palm Beach Country encontra-se semioculto num lote de terreno ajardinado próximo da Gun Club Road e do Parque do Lago Lytal. É neste complexo que o Gabinete do Xerife está situado, assim como os escritórios do Instituto de Medicina Legal, a morgue, os tribunais do condado e a penitenciária. Tal como se, com uma única ida às compras, os prevaricadores e as suas vítimas pudessem resolver os assuntos que os posicionam em campos antagónicos.

 

Fiquei sentada no parque de estacionamento olhando para o edifício das instalações do Gabinete do Xerife, sentindo o estômago às voltas. Havia muito tempo que não transpunha aquelas portas. Uma parte de mim achava que todos no interior do edifício iriam reconhecer-me assim que me vissem, ao que se associaria o ódio virulento que todos nutriam por mim. Em termos de lógica, eu sabia que isso não correspondia à verdade. O mais certo era eu ser reconhecida apenas por metade dessas pessoas, sendo essa percentagem a mesma em relação aos que me odiavam.

 

Os ponteiros do relógio aproximavam-se da hora de mudança de turno. Se eu não apanhasse James Landry agora, seria forçada a esperar até ao dia seguinte. Queria que o nome de Erin Seabright ficasse gravado na cabeça dele, um espinho mental que o incomodaria durante toda a noite.

 

Sentia as pernas fracas ao encaminhar os meus passos para as portas da frente. Os reclusos, que usavam uniformes de um tom cinzento-escuro, trabalhavam nos jardins, supervisionados por um guarda de raça negra que usava umas calças de camuflado e uma T-shirt preta com algo estampado; na cabeça tinha um boné de tropa. Trocava piadas com um par de polícias que se encontravam no passeio a fumar um cigarro. Nenhum deles olhou para mim.

 

Dirigi-me à recepção. Ninguém me chamou pelo nome ou correu para mim com o intuito de me atacar. Talvez fosse do corte de cabelo.

 

A recepcionista por detrás de um vidro à prova de bala era uma mulher jovem de feições arredondadas, com umas unhas que teriam um comprimento de mais de sete centímetros, pintadas com um verniz vermelho nacarado. O penteado, com tranças pretas entrelaçadas, davam-lhe uma aparência de Medusa.

 

- Preciso de falar com o detective Landry - informei.

 

- Acerca de que assunto, minha senhora?

 

- Sobre o caso de uma pessoa desaparecida - especifiquei.

 

- O seu nome?

 

- Elena Estes.

 

Não vi o mais pequeno sinal de reconhecimento. Não ouvi nenhum grito de indignação. Eu não a conhecia, e o mesmo se passava com ela. Contactou Landry pelo telefone, após o que me disse que me sentasse numa das cadeiras e que esperasse. Sentei-me e cruzei os braços enquanto o meu olhar ia das escadas para a porta e vice-versa, mal me atrevendo a respirar. Pareceu-me que decorreu uma hora até que, finalmente, a pesada porta cinzenta se abriu.

 

- Miss Estes? - perguntou Landry, que mantinha a porta aberta para trás num convite mudo.

 

Era um homem de compleição entroncada e de aspecto atlético, que teria uns quarenta e cinco anos; emanava dele um certo espírito de meticulosidade. Apesar de já serem quase dezasseis horas, a camisa continuava razoavelmente engomada. O cabelo, quase à escovinha, exibia um corte tipicamente militar; era preto, mas já bastante grisalho. Tinha o olhar penetrante de uma águia, com uma expressão, na minha opinião, ligeiramente desdenhosa. Ou talvez isto fosse a minha paranóia a manifestar-se.

 

Em tempos, eu conhecera vários dos dezassete detectives que integravam a Brigada de Furtos e Homicídios, a maior brigada do departamento, mas não tinha conhecido Landry. Devido à natureza do seu trabalho, os detectives da Brigada de Narcóticos, regra geral, eram - ou alguém fazia com que fossem - muito metidos consigo próprios, cruzando-se com os outros detectives no desempenho das suas funções somente quando investigavam crimes de morte.

 

Subimos as escadas até ao primeiro andar sem trocar uma palavra. Não avistei ninguém por detrás da parede de vidro no pequeno vestíbulo que dava acesso à sala da Brigada de Furtos e Homicídios. Landry abriu a porta com um cartão magnético.

 

As secretárias de aço dispostas em grupo formavam pequenas ilhas, espalhadas aqui e ali pela sala ampla. A maior parte das mesas não estava ocupada por ninguém. Não reconheci nenhuma das pessoas. Os olhares casuais que me foram lançados eram neutros e frios, sem deixarem adivinhar nada. Olhares de polícia. Uma expressão que é sempre a mesma, seja qual for o ramo das forças policiais, qualquer que seja a situação geográfica. O olhar de gente que não confia em ninguém e suspeita de todos, seja por que motivo for. Não seria capaz de dizer o que lhes iria pela mente. Fiquei apenas ciente de que alguns dos olhares se demoravam um pouco mais em mim.

 

Sentei-me na cadeira que Landry me indicou ao lado da sua secretária. Passou a mão pela gravata para a endireitar enquanto se instalava na sua cadeira; os olhos nunca deixaram o meu rosto. Ligou o computador e colocou um par de óculos de ver ao perto na cana do nariz.

 

- Sou o detective Landry - informou ele ao mesmo tempo que premia as teclas. - Vou registar as suas declarações. Tanto quanto sei, pretende participar o desaparecimento de uma pessoa.

 

- Essa participação já foi feita por outra pessoa. O nome da pessoa desaparecida é Erin Seabright. A irmã dela falou consigo há uns dois dias. Molly Seabright. Ela disse-me que você se mostrou rude e condescendente, não lhe tendo prestado a mínima ajuda.

 

Um outro capítulo de O Guia de Elena Estes sobre Como Conquistar Amigos e Influenciar as Pessoas.

 

Landry tirou os óculos do nariz, olhando-me, uma vez mais, com fixidez.

 

- Está a referir-se à miúda? Ela só tem doze anos.

 

- Será que esse pormenor, não sei bem como, altera o facto de a irmã ter desaparecido?

 

- Não aceitamos participações apresentadas por crianças. Mas já falei com a mãe pelo telefone. Ela não quis participar. Disse-me que a filha não desapareceu.

 

- Talvez ela tenha morto a rapariga - retorqui. Não tenciona tomar medidas nenhumas para a procurar porque quem a assassinou não deseja participar o seu desaparecimento? - perguntei.

 

- Tem alguma razão que a leve a pensar que a mãe a matou? - perguntou ele, unindo as sobrancelhas.

 

- Não. Não penso que isso tenha acontecido. O que quero dizer é que você não sabia rigorosamente nada sobre o possível desaparecimento quando mandou a garota embora.

 

-Portanto, assumo que veio aqui para discutir comigo? - ripostou ele, perplexo. - Sofre de alguma doença mental? que é que tem a ver com estas pessoas? São seus familiares?

 

- Não. A Molly é minha amiga - elucidei.

 

- A garota que tem doze anos.

 

-- Ela pediu-me que a ajudasse. Acontece que acho que ela tem muito boas razões para concluir que a irmã desapareceu.

 

- Com base em quê?

 

- A irmã, de facto, desapareceu. Não é vista desde domingo.

 

Contei-lhe a saga de Don Jade, pondo-o a par da morte do Stellar. Era óbvio que Landry estava irritado comigo. A impaciência parecia zumbir pelo ar que o rodeava. Não lhe agradava que eu tivesse chamado a mim o que lhe competia ter feito, apesar de pensar que não havia motivo para o fazer. Os polícias são gente com um acentuado sentido territorial.

 

- Você acredita que aconteceu alguma coisa à rapariga por causa de um cavalo que morreu... - concluiu ele, como se aquela fosse a teoria mais ridícula que ouvira em toda a sua vida.

 

- Há pessoas que são mortas por causa dos seus sapatos - disse eu. - Algumas pessoas são mortas por terem virado na rua errada. Este cavalo que morreu, por si só, vale o quarto de um milhão de dólares, o valor da indemnização que a companhia de seguros terá de pagar, e o substituto que o dono comprar, possivelmente, valerá quase tanto só em comissões de venda. Não me parece muito difícil acreditar que alguém tenha recorrido a um acto de violência quando é um montante desses que está em jogo. Não concorda?

 

- E o treinador diz que a rapariga se despediu, tendo-se mudado para Ocala - contrapôs Landry.

 

- O treinador que, plausivelmente, mandou matar o cavalo, tendo ficado em posição de vir a beneficiar generosamente do próximo negócio.

 

- Sabe se ela não se mudou para Ocala? - perguntou-me Landry.

 

- Não. Mas acho muito pouco provável.

 

- Esteve no apartamento dela? Encontrou algum indício de luta?

 

- De facto estive no apartamento dela. Não encontrei nada que corrobore qualquer altercação - admiti.

 

- Nada. Como se ela tivesse mudado de casa? - sugeriu ele.

 

- Talvez. Mas nunca saberemos, a menos que alguém tente encontrá-la. Pode difundir um pedido para que as forças policiais de Ocala a procurem.

 

- Ou você podia ir até lá para a procurar - alvitrou Landry.

 

- Ou você podia entrar em contacto com a esquadra de polícia local ou com quaisquer que sejam as forças policiais que eles têm em Ocala - contrapus.

 

- Para lhes dizer o quê? Que esta rapariga talvez se tenha mudado para lá, por ter arranjado um novo emprego? Ela tem dezoito anos. Tem idade para fazer o que diabo lhe der na veneta.

 

- Pode indicar-lhes a matrícula do carro dela - continuei.

 

- Porquê? Foi roubado?

 

Levantei-me. Eu estava mais irritada do que ele e a minha única consolação era ele não conseguir lê-lo na minha expressão facial.

 

- Muito bem, Landry. Você está a cagar-se para o facto de a rapariga ter desaparecido ou não, é-lhe indiferente que ela possa estar morta, tal como não está minimamente interessado num caso de fraude que implica um montante de seis números. Para que é que eu pago os meus impostos?

 

- Uma fraude que envolva uma companhia de seguros só pode ser considerada crime se a seguradora atestar esse facto. E uma rapariga, desde que tenha dezoito anos, não é dada como desaparecida caso se tenha mudado de sua livre vontade para outra localidade... salvo se a família participar o seu desaparecimento.

 

- A família participou o desaparecimento dela. Por iniciativa da irmã. Mas pondo esse pormenor de parte, está a dizer que se ela cortou relações com a família, e lhe acontecer alguma coisa de mal, só ela é que poderia participar o seu próprio desaparecimento. Ora isso é absolutamente absurdo. Você está disposto a permitir que aconteça só Deus sabe o quê a esta rapariga porque a mãe é uma cabeça no ar egoísta que ficará muito satisfeita por poder livrar-se dela!

 

Ja estou a ver - acrescentei sarcasticamente. - Ao fim e ao cabo, talvez seja preciso uma hora ou duas, que teria de tirar ao seu dia tão atarefado a investigar roubos por esticão, para fazer uns dois telefonemas, proceder a algumas

averiguações, fazer umas quantas perguntas...

 

Neste momento, Landry também se levantou da cadeira; apesar da pele bronzeada, via-se que estava a corar. Todos os que se encontravam no escritório tinham os olhos pregados em nós. No meu ângulo de visão periférica, vi um sargento que entretanto saíra do seu gabinete para observar a cena. Como barulho de fundo, ouvia-se a campainha de um telefone que ninguém atendia.

 

- Está a tentar dizer-me como é que hei-de fazer o meu trabalho, Miss Estes?

 

- Eu já exerci as suas funções, Landry. Não é assim tão difícil como isso.

 

- Ah, sim? Pois bem, tanto quanto sei, você agora não trabalha aqui. Porque será?

 

O telefone parou de tocar. O silêncio que se abateu sobre a sala era o do espaço interplanetário: absoluto.

 

Passaram-me pela cabeça meia dúzia de respostas válidas. Não apresentei nenhuma. Apenas uma resposta contava - tanto para mim como para os que se encontravam naquela sala. Eu já não trabalhava ali porque tinha feito com que um dos nossos - um dos deles - morresse. Não havia nada que pudesse alterar isso.

 

- Muito bem - disse eu com um menear de cabeça. Você ganhou - admiti com calma. - O prémio do dia para quem não faz nada vai para o Landry. Pensei que você seria um grande filho-da-mãe e não me enganei. Mas acontece que a Erin Seabright desapareceu e tem de haver alguém que se interesse pelo assunto. Se tiver de ser eu, pois que seja. Mas se a rapariga acabar por morrer porque não consegui encontrá-la com a rapidez necessária, enquanto você o podia ter feito por dispor de todos os meios para isso, essa ficará para sempre a moer-lhe a consciência, Landry.

 

- Há algum problema? - perguntou o sargento, aproximando-se. - Ora bem - continuou detendo-se à minha frente. - Estou a apreciar o descaramento inaudito que você tem para vir a este edifício, Elena Estes.

 

- Lamento. Ainda não me tinha apercebido de que o combate ao crime se efectua somente por convite. O meu deve ter-se extraviado nos correios.

 

A distância até à porta dava-me a impressão de se ter alargado enquanto me afastava dali. Fiquei com a sensação de que as minhas pernas eram pilares de água. Tinha as mãos a tremer. Saí do gabinete, percorri o corredor e entrei na casa de banho das senhoras, onde me debrucei sobre uma sanita e vomitei.

 

Passaram alguns momentos em que me mantive encostada à porta do cubículo; fechei os olhos e levei as mãos ao rosto. Estava quente e a suar, com a respiração arquejante. Sentia-me exausta. Mas continuava viva, literal e metaforicamente. Havia abordado os leões na sua caverna e sobrevivido. Quem sabe se eu não devia sentir-me orgulhosa do meu feito.

 

A custo, consegui pôr-me de pé, lavei a cara e bochechei com água da torneira. Esforcei-me por me concentrar na minha pequena vitória. Esta noite, James Landry não seria capaz de afastar Erin Seabright do seu pensamento com tanta facilidade como antes, quanto mais não fosse porque eu o desafiara. Se o facto de o ter confrontado se traduzisse em algum telefonema que viesse a revelar uma pista que fosse, os meus esforços teriam valido a pena, apesar do custo emocional.

 

Enquanto me dirigia para o carro, perguntei vagamente a mim própria se estaria a adquirir um sentido de objectividade. Havia tanto tempo que tal não me acontecia que não podia ter a certeza absoluta.

 

Entrei no meu BMW e esperei. Quando já estava quase a admitir que Landry teria saído enquanto eu me abraçava à sanita, que havia sido como que a minha salvação, ele abandonou o edifício com os olhos escondidos por trás dos óculos de sol, o casaco dobrado sobre o braço. Observei-o a entrar no Pontiac Grand Am metalizado em que saiu do Parque de estacionamento. Tendo o cuidado de deixar que duas viaturas se metessem de permeio, mantive-me atrás dele, desejando saber com quem é que estava a lidar. Iria ele directamente para sua casa onde a mulher e os filhos o Aguardariam? Poderia eu recorrer eficazmente a essa faceta

de pai? Mas não lhe tinha visto aliança de casamento.

 

Ele seguiu direitinho para um bar frequentado por polícias, situado em Military Trail. Uma decepção muito previsível.

Não o segui até ao interior do bar, sabendo de antemão que a recepção que me esperaria seria abertamente hostil. Era ali que as tropas encontravam a sua válvula de escape, libertando-se de todas as tensões, onde se queixavam dos superiores hierárquicos, protestavam contra a população civil, onde se queixavam dos ex-cônjuges. Decerto que Landry aproveitaria para se queixar de mim. O que estava bem. O que James Landry pudesse pensar de mim era-me absolutamente indiferente... desde que ao pensar em mim também pensasse em Erin Seabright.

Ao contrário de mim, Sean continuava a sentir-se satisfeito com o embaraço que causava à sua própria família muito convencional de Palm Beach, o que fazia aparecendo ocasionalmente nos bailes de caridade que são a vida da boa sociedade de Palm Beach durante a estação de Inverno. Estes bailes são sumptuosos, acontecimentos sociais ímpares que custam quase tanto a organizar como o que conseguem angariar para as várias causas que patrocinam. O resultado líquido proveniente dos fundos angariados num baile de caridade pode ser absurdamente baixo, quando o montante bruto é levado em consideração, mas é garantido que os eleitos que forem convidados se divertirão à grande e à francesa. Isto é, quando se gosta do que está subjacente a esse tipo de acontecimento social: roupas de costureiros famosos, o mesmo em relação às jóias, a última inovação em cirurgia plástica, atitudes pretensiosas e os maliciosos Jogos mentais dos obscenamente ricos. Apesar de eu ter sido criada no meio, nunca tive paciência para esse género de coisas.

 

Encontrei Sean no seu roupeiro - que é maior do que o Quarto da maioria das pessoas - envergando um fato a rigor Armani; estava a fazer o laço.

 

Qual é a doença do dia? - perguntei.

 

- Começa por ”P” - respondeu-me.

- Parametrite?

 

- Não, Parkinson. Nos últimos tempos, anda muito na moda. Teremos uma multidão mais jovem do que a que costuma patrocinar as doenças mais tradicionais. - Vestiu o casaco formal, admirando-se a si próprio no espelho trifacetado.

 

Encostei-me à mesa central com tampo de mármore, observando-o a aperaltar-se.

 

- Um destes anos vais esgotar as maleitas que afligem a humanidade.

 

- Já ameacei a minha mãe de que tencionava organizar um baile a fim de angariar fundos para o herpes genital - disse Sean.!

 

- Deus sabe que metade da população de Palm Beach poderia vir a beneficiar dessa iniciativa.

 

- E a outra metade seria contagiada durante as festas particulares depois do evento. Queres ser o meu par? perguntou-me ele.

 

- Para apanhar herpes?

 

- Estou a referir-me ao baile oficial, Cinderela. Com certeza que os teus pais estarão presentes. Escândalo a dobrar, farra a dobrar.

 

A perspectiva de encontrar a minha mãe e o meu pai era menos atractiva do que ter ido ao Gabinete do Xerife. Pelo menos, enfrentar Landry poderia vir a dar alguns resultados positivos.

 

A minha mãe visitara-me no hospital em duas ocasiões. O dever maternal de uma mulher que, bem no seu âmago, não tinha um único resquício de instinto maternal. Ela havia feito pressão para adoptar uma criança por razões que nada tinham a ver com o amor que pudesse ter por crianças. Eu fora apenas um acessório na sua vida, como uma mala de mão ou um cãozinho de estimação.

 

Um cãozinho de estimação proveniente do canil municipal, uma vez que a minha ascendência era posta em questão pelo meu pai de adopção sempre que eu pisava o risco, o que acontecia com bastante frequência. Ele ressentira-se da intromissão que representei na sua vida. Eu era uma recordação constante que não lhe permitia esquecer-se da sua incapacidade de gerar filhos. O ressentimento que eu sentia por ele, dado os sentimentos que não ocultava, só servira para alimentar o fogo da minha rebeldia.

 

Havia mais de dez anos que eu não falava com o meu pai. Deserdara-me quando saí da universidade e decidi ser uma mulher-polícia comum. Para ele, essa decisão fora uma afronta. Uma bofetada no rosto. Verdade. Também fora uma desculpa airosa para pôr fim a um relacionamento que, em princípio, devia ter sido indissolúvel. Tanto ele como eu aproveitámos a oportunidade.

 

- Tenho muita pena - disse eu abrindo os braços. Não estou vestida para a ocasião.

 

Com um olhar crítico, Sean examinou as calças de ganga, bastante velhas, e a camisola preta de gola alta.

 

- O que é que aconteceu a criatura elegante desta manhã? - perguntou-me.

 

- Teve um dia muito comprido a chatear toda a gente respondi.

 

- E isso é bom?

 

- É o que veremos. Se espremermos o número suficiente de borbulhas, certamente que uma delas acabará por rebentar.

 

- Mas que metáfora tão colorida.

 

- O Van Zandt apareceu por cá?

 

- Minha doçura, as pessoas como o Tomas Van Zandt são a razão por que vivo por trás de portões altos - replicou Sean pondo os olhos em alvo. - Se ele tivesse passado por cá, eu nem sequer queria saber.

 

- Imagino que ele ande muito ocupado a tentar convencer o Trey Hughes a gastar uns quantos milhões de dólares em cavalos.

 

- E o tipo vai realmente precisar deles. Já viste as cavalariças que está a construir? São o Taj Mahal de Wellington.

 

- Ouvi dizer qualquer coisa a esse respeito.

 

- Tem cinquenta estábulos, todos encimados por coroas, por amor de Deus! No andar de cima, possui alojamentos para quatro moços de estrebaria. Um hipódromo coberto. Um picadeiro enorme para saltos de obstáculos especificou Sean.

 

- Onde é que fica?

 

- Em cerca de cinco hectares dos melhores terrenos da área, na nova urbanização perto de Grand Prix Village: Fairfields.

 

- Fairfields? - O nome deixou-me chocada.

 

- Sim - confirmou ele, ajustando os botões de punho franceses e voltando a examinar atentamente a imagem que o espelho reflectia. - Vai ser uma monstruosidade espalhafatosa de grandes proporções, mas que fará com que o seu treinador de cavalos passe a ser a inveja de todos os jóqueis da costa leste. Mas agora, minha querida, tenho de me ir embora.

 

- Espera aí! Um complexo como o que descreveste custará os olhos da cara - adiantei.

 

- E ainda mais alguns trocos.

 

- Será que os rendimentos do Trey dão para essas folias?

 

- Ele não precisa de recorrer a esses fundos. A mãe deixou-lhe quase a totalidade da sua fortuna.

 

- A Sallie Hughes morreu?

 

- O ano passado. Caiu das escadas de casa e fracturou o crânio. Pelo menos é o que se diz. El, tu devias manter-te a par do que se passa com as pessoas da nossa meninice admoestou ele antes de me beijar na face, após o que se foi embora.

 

Fairfíelds. Naquela mesma manhã, Bruce Seabright preparava-se para fechar um negócio em Fairfíelds.

 

Não gosto, nem confio em coincidências. Não acredito que as coincidências sejam situações acidentais. Quando estudava na universidade, fui a uma palestra de um guru da New Age muito conhecido, o qual acreditava que todas as formas de vida, na sua estrutura molecular mais básica, eram energia. Tudo o que fazemos, todos os pensamentos que nos ocorrem, todas as emoções que experimentamos, pode ser desmantelado até restar apenas uma energia pura. As nossas vidas traduzem-se em energia, actividade, procura, correndo e colidindo com a energia dos demais que vivem nos nossos pequenos mundos. A energia atrai energia, o intento transforma-se numa força da natureza e as coincidências são coisa que não existe.

 

Sempre que me sinto inclinada a acreditar fortemente na

 

1 Movimento de finais de século xx que reúne filosofias e práticas tradicionalmente encaradas como ocultas, metafísicas e paranormais. (N. da T.)

 

minha teoria, apercebo-me de que tenho de aceitar o conceito que nos diz que nada na vida pode ser verdadeiramente acidental ou obra do acaso. É então que considero que me seria muito mais vantajoso não acreditar em nada.

 

Levando em linha de conta as pessoas envolvidas na vida de Erin Seabright, o que quer que se estivesse a passar não podia ser considerado positivo. Ao que tudo indicava, a mãe não sabia para quem é que a filha trabalhava, não me sendo difícil acreditar que isso era verdade. Krystal não se teria sentido nada incomodada mesmo que Erin trabalhasse para o próprio Diabo, desde que o seu pequeno mundo não fosse abalado em consequência disso. Provavelmente, ela até preferia pensar que Erin nem sequer era sua filha. Mas... e quanto a Bruce Seabright? Conheceria ele Trey Hughes? E a ser esse o caso, também conhecia Don Jade? E se conhecesse os dois, como é que Erin se enquadrava nessa fotografia?

 

Digamos que Bruce queria que Erin saísse de sua casa dado o seu envolvimento com Chad. Na hipótese de ele conhecer Hughes - e de ter, através dele, uma ligação a Don Jade - não seria descabido pensar que a colocara junto de Jade como meio para atingir os seus fins. A questão mais importante era saber se Bruce Seabright se interessava pelo que acontecesse a Erin depois de ela ter saído de sua casa. E, na eventualidade de se preocupar, essa preocupação seria positiva ou negativa? E se ele quisesse que ela partisse para sempre?

 

Foram estes os pensamentos e perguntas que preencheram o meu serão. Comecei a andar pela casa de visitas, manifestamente inquieta, roendo o sabugo das unhas. As colunas da aparelhagem estereofónica emitiam uma música de jazz suave e tranquilizante como som de fundo, uma selecção musical que se ajustava aos enredos que atravessavam a minha mente. Agarrei no telefone uma vez, ligando o número do telemóvel de Erin, e obtive como resposta uma voz automatizada que me dizia que a caixa de mensagens do cliente estava cheia. Se ela, muito simplesmente, se tivesse mudado para Ocala, por que motivo é que ainda não teria ouvido as mensagens deixadas no telefone? Por que razão ainda não teria telefonado a Molly?

 

Eu não queria perder tempo numa ida a Ocala, uma viagem que os meus instintos me diziam não levar a nada. Na manhã seguinte, tencionava entrar em contacto com um detective particular local, fornecendo-lhe as informações mais pertinentes, juntamente com as devidas instruções. Se Erin, estivesse a trabalhar no hipódromo de Ocala, eu ficaria a saber dentro de um ou dois dias no máximo. Instruiria o detective para que contactasse os escritórios do hipódromo a fim de que dissessem a Erin que tinha um telefonema importante. Caso alguém respondesse à mensagem emitida pelo sistema de altifalantes, ele poderia certificar-se se a pessoa com que falaria era realmente a Erin Seabright. Um plano bastante simples. Claro que Landry poderia ter feito a mesma coisa, recorrendo às autoridades policiais locais.

 

Grande filho-da-mãe! Esperava que ele estivesse acordado e com uma grande insónia.

 

Já passava da meia-noite, mas o sono teimava em manter-se arredio. Havia muitos anos que eu não tinha uma boa noite de sono - o que, em parte, se devia ao meu estado de espírito, mas que, por outro lado, também era o resultado da dor crónica de baixa intensidade com que o acidente me deixara. Não perguntei a mim mesma o que a falta de sono estaria a fazer ao meu corpo, tal como não queria saber quais seriam os efeitos na minha mente. Era coisa que não me interessava. Tinha-me acostumado a esse estado de coisas. Pelo menos, naquela noite não estava a matutar nos erros que cometera ou na forma como devia expiar esses mesmos erros.

 

Agarrei num casaco e saí de casa. A noite estava fresca por causa de uma tempestade que açoitava os Everglades, dirigindo-se para Wellington. Os relâmpagos iluminavam as nuvens concentradas a oeste, bastante ao longe.

 

Ao volante do meu automóvel, conduzi até Pierson, passando pela entrada reservada aos pesados do clube equestre e pelas cavalariças extravagantes de Grand Prix Village, virei e fui dar à entrada de pedra de Fairfíelds. Havia uma placa que me indicava as características do complexo, dividido em oito lotes de terreno, com superfícies de três a cinco hectares. Três destes lotes estavam assinalados com etiqueta de ”Vendido”. Uma obra colossal que prometia instalações equestres de uma beleza cheia de elegância, levada a cabo pelos Empreendimentos Gryphon, Inc., cujo número de telefone constava da placa.

 

A entrada era ladeada por colunas de pedra e para lá destas ficava a casa do guarda; todavia, os portões de ferro ainda não haviam sido instalados. Percorri o caminho particular de traçado sinuoso, com a luz dos faróis a iluminar as ervas e demais vegetação rasteira. Havia dois estaleiros de obras iluminados por umas luzes esbranquiçadas que se mantinham ligadas toda a noite. Apesar daquela semiescuridão, não tive a mínima dificuldade em identificar qual das duas propriedades pertencia a Trey Hughes.

 

Os estábulos já haviam sido erigidos. Os contornos da construção assemelhavam-se a um Kmart de grandes dimensões. Avistei uma estrutura rectangular com dois pisos, vastíssima, que se estendia paralela à estrada, parecendo fazer gala do seu tamanho. Fora construída por detrás de uma vedação de malha de ferro, talvez a uns trinta metros desta. O portão estava fechado com um cadeado preso a uma corrente.

 

Avancei pelo caminho de acesso tanto quanto os portões me permitiam e tentei absorver o mais possível a atmosfera que rodeava aquele lugar. A luz dos faróis do automóvel mostrava uma pesada máquina de terraplanagem e terra acumulada. Para lá dos estábulos, na extremidade mais próxima, mal consegui distinguir o que devia ser a caravana que servia de escritório ao encarregado da obra. Defronte dos estábulos, havia uma grande tabuleta que publicitava a empresa de construção orgulhosa de ter a seu cargo aquele empreendimento: a ”Quinta Lucky Dog”1.

 

Apenas conseguia fazer uma estimativa do custo daquela obra. Mais ou menos cinco hectares tão próximos do hipódromo deviam valer uma fortuna só pelo terreno. Instalações do tipo das que Trey Hughes estava a construir teriam forçosamente de custar uns dois ou três milhões, somente para os edifícios. E isto apenas para as instalações dos cavalos. À semelhança de Grand Prix Village, em Fairfíelds,

 

1 Literalmente, cão cheio de sorte. (N. da T.)

 

não existiriam mansões. Os proprietários dessas cavalariças possuíam vivendas luxuosas no Clube de Pólo, na ilha, ou nas duas áreas. A família de Hughes era dona de uma propriedade junto à praia, em Blossom Way, perto do muito exclusivo Clube de Banhos e Ténis de Palm Beach. Da última vez que ouvira falar dele, o próprio Trey tinha uma mansão no Clube de Pólo. Mas agora ele era o dono de tudo aquilo, graças ao facto de Sallie Hughes ter tropeçado nas escadas de sua casa.

 

Cão cheio de sorte, francamente. Depois de se ter visto livre da mulher a quem chamava ”a dominatriarca”, Trey passara a ter acesso ilimitado a uma fortuna de um valor obsceno, devido a uma simples queda infeliz. Esta ideia contorcia-se no mais recôndito da minha mente, qual serpente envolta em sombras.

 

Após ter falado com Sean, recorrera à Internet, tentando encontrar quaisquer artigos sobre a morte de Sallie Hughes, mas não encontrei nada além do obituário. Não havia absolutamente nada sobre qualquer investigação criminal.

 

Claro que jamais encontraria uma história dessas. Que inapropriado permitir que esse tipo de coisas chegasse aos jornais, teria dito a minha mãe. O jornal que se publicava na ilha dedicava-se exclusivamente aos assuntos de natureza social. Esses temas sujos, como a morte e as investigações policiais, não tinham o mínimo cabimento nesse tipo de publicação. O jornal que a minha mãe costumava ler era impresso num bom papel com tinta que não saía quando era manuseado. Limpo em toda a acepção da palavra: em moldes físicos e em conteúdo.

 

O Post, impresso em West Palm Beach (onde vivia o comum dos mortais), relatava que Sallie Hughes falecera em sua casa aos oitenta e dois anos.

 

Quaisquer que fossem as circunstâncias que rodeavam essa morte, Trey Hughes tivera direito a uma galinha dos ovos de ouro muito gorda. Certamente que existiriam umas quantas pessoas dispostas a fazer-lhe um pequeno favor, como, por exemplo, ver-se livre de um cavalo que não saltava como era esperado, porque tinha mais coragem do que talento. Não importava quanto dinheiro é que Trey já possuía. Mais um quarto de milhão de dólares seria sempre bem-vindo.

 

Era inevitável que Don Jade estivesse à cabeça da lista dos que estavam dispostos a ser prestáveis. Que negócio tão aprazível para Jade, ou para qualquer treinador: entrar nuns estábulos como aqueles, o tipo de lugar que voltaria a conferir-lhe legitimidade, atraindo ainda mais clientes com algibeiras sem fundo.

 

Gostaria de saber o motivo da tensão que detectara nessa manhã entre os dois homens. Trey Hughes podia agora dar-se ao luxo de contratar qualquer treinador de cavalos, fosse ele quem fosse, para as suas cavalariças. O que o levaria a optar por Don Jade, um indivíduo cuja reputação assentava mais em escândalos do que em triunfos? Um homem que gozava de uma reputação muito duvidosa, embora conseguisse sair-se airosamente das suas acções pouco claras...?

 

O que quer que o tivesse guindado à posição onde se encontrava, permitira a Don Jade sentar-se no lugar de honra. Isso teria de fazer com que ele fosse invejado por uma grande quantidade de gente amargamente invejosa da sua situação.

 

O nome de Michael Berne surgiu-me no pensamento. Eu tinha reconhecido logo esse nome quando, nessa mesma manhã, fora mencionado por Van Zandt. Berne constava do obituário do Stellar na revista Horses Daily, na Internet. Fora o treinador do Stellar antes de Jade, tendo alcançando êxitos bastante limitados no hipódromo. Mas depois Jade ficou com o cavalo a seu cargo. Ficou com o cavalo e também com o proprietário, o dono do Taj Mahal de Wellington. Não admirava que Berne tivesse ficado encolerizado. Ele não perdera apenas os seus honorários a partir do momento em que o Stellar fora levado do seu estábulo. Perdera uma fonte de grandes proventos.

 

O homem não se limitava a ser rival de Jade, como Van Zandt dissera. Ele era um inimigo figadal.

 

Porém, um inimigo poderia vir a revelar-se uma inestimável fonte de informações.

 

Conduzi de regresso ao centro equestre, querendo ter tempo para inspeccionar tudo à minha vontade, sem recear ser vista por alguma das pessoas que andavam sempre à volta de Jade. Queria descobrir os estábulos de Berne. Se conseguisse encontrar um número de telefone, poderia marcar um encontro algures onde não corrêssemos o risco de sermos vistos por qualquer dos amigalhaços de Don Jade. O segurança saiu da casa de guarda, mostrando uma expressão de aborrecimento e infelicidade.

 

- Já é muito tarde - disse ele em inglês, embora com um sotaque muito acentuado.

 

- A quem o diz - repliquei com um longo suspiro. Tenho um cavalo doente com cólicas. Calhou-me a fava.

 

O homem franziu-me o cenho, como se desconfiasse que eu tinha acabado de o insultar.

 

- Um cavalo doente - expliquei. - Esta noite estou de serviço, tal como você.

 

- Ah, estou a ver! - exclamou, e só então é que assentiu com um acenar de cabeça. - Compreendo. Lamento muito que o seu cavalo esteja doente. Boa sorte, menina.

 

- Obrigada - agradeci.

 

Ele não se deu ao trabalho de me perguntar o nome, ou qual o número do estábulo onde o cavalo estava instalado. Eu tinha um passe de estacionamento e uma história bastante credível. O que, para ele, era suficiente.

 

Estacionei nas traseiras das ”Pradarias”, não desejando que o meu carro despertasse a atenção de alguém. De lanterna em riste e o revólver preso no cós das calças de ganga, junto aos rins, comecei a percorrer os corredores entre as fileiras de tendas que serviam de estábulos, à procura do nome de Michael Berne, com a esperança de não me cruzar com ninguém que trabalhasse na estrebaria de outra pessoa, ou com qualquer segurança que fizesse as suas rondas.

 

A tempestade aproximava-se. O vento começara a levantar-se, fazendo com que o topo das tendas ondulasse e batesse, enquanto os cavalos davam sinais de nervosismo. Mantive o feixe de luz da lanterna apontado para o solo, enquanto lia os nomes e números de emergência indicados nos estábulos, mas, mesmo assim, não consegui evitar que alguns dos animais se assustassem, fazendo com que tivessem ficado numa grande agitação nos espaços reduzidos onde se encontravam, com os olhos revirados a mostrarem a área branca. Houve outros que me estenderam o focinho, na esperança de que eu tivesse alguma guloseima que pudessem comer.

 

Desliguei a luz enquanto percorria o caminho de traçado irregular entre as ”Pradarias” e o conjunto de tendas seguinte. Se tivesse sorte, os estábulos onde Berne instalara os seus cavalos não seriam relativamente próximos dos de Jade. A desavença entre os dois tivera lugar no picadeiro de instrução, mais perto das cavalariças de Jade. Talvez a escola de equitação de Berne fosse nessa mesma área. Mas se a sorte não estivesse do meu lado, concluiria que Berne teria saído do seu percurso habitual com a única finalidade de provocar uma discussão com Jade, pelo que eu seria obrigada a percorrer quarenta estábulos até encontrar o que procurava.

 

De súbito, senti uma rajada de vento que soprou vinda de ocidente, abanando as árvores. Os trovões ecoaram por cima de mim. Entrei na tenda número vinte e dois, começando a verificar os nomes.

 

Percorrido um quarto da distância da primeira correnteza, parei e pus-me à escuta. Ouvi os mesmos sons que ouvira nas outras tendas: cavalos que se mexiam, relinchavam e que davam pequenos coices nos tubos da estrutura das cocheiras que ocupavam. Só que estes sons não vinham dos cavalos que me rodeavam. Os distúrbios verificavam-se umas duas fileiras mais à frente. Nesse momento, ouvi o ranger da portinhola de uma cocheira que se abria. O barulho arrastado de cascos que se deslocavam sobre uma camada de palha. Um cavalo relinchou bastante alto. O animal instalado no estábulo mais próximo de mim raspou na Portinhola e retribuiu o relinchar do companheiro.

 

Liguei a lanterna, ergui-a e a luz mostrou-me um cavalo baio que erguera a cabeça com as orelhas completamente espetadas; tinha os olhos muito abertos e concentrados num Ponto para lá de mim, atrás do animal no lado oposto do corredor. O cavalo voltou a relinchar e girou sobre si mesmo. Houve outro na mesma correnteza, mas mais abaixo, que lhe seguiu o exemplo.

 

Desliguei a lanterna e, num passo cauteloso, comecei a Percorrer o corredor que me levaria às traseiras da tenda, com a lanterna empunhada como se fosse um bastão. Pesava quilo e meio. Nos tempos em que usava um uniforme, houve uma ocasião em que a utilizei para defender a minha vida contra um motoqueiro pedrado que pesaria uns cento e trinta e cinco quilos. O homem acabara no hospital com um traumatismo craniano.

 

Não saquei da arma. A minha intenção era investigar e não confrontar-me com alguém. A Glock era a minha última linha de defesa.

 

O vento rugia e o topo da tenda enfunou-se todo para cima, qual balão que quisesse fazer-se aos céus. As cordas grossas que prendiam as tendas às cavilhas no chão rangiam e gemiam. Furtivamente, esgueirei-me por detrás dos estábulos, mantendo-me junto da parede de lona. O solo atrás da tenda tinha um declive acentuado que descia até um terreno que durante o Verão fora desbravado e queimado, preparado para receber mais tendas e mais picadeiros para escolas de equitação. Parecia uma paisagem lunar. O cheiro a cinzas condimentava o ar.

 

Quando eu já contornava cautelosamente os fundos da cocheira próxima do corredor, ouvi o barulho das dobradiças de uma porta que se abria para trás, seguido de um som agudo e distinto que só se registou na minha mente quando o acontecimento seguinte já tivera lugar.

 

Qual espectro que fugisse do outro mundo, surgiu um cavalo de pelagem cinzenta, enorme e fantasmagórico, que irrompia pelo corredor na minha direcção. Já estava quase em cima de mim quando consegui reagir, apesar de me ter derrubado para trás. Atabalhoadamente, tentei manter-me de pé para poder sair do seu alcance. Senti o tornozelo preso na corda de uma das cavilhas da tenda, o que me obrigou a perder o equilíbrio, caindo no chão com um barulho surdo. Tentei cobrir a cabeça, fechando-me sobre mim mesmo como se fosse uma bola, preparando todas as partículas do meu corpo para o ataque terrível dos cascos ferrados a aço, associado ao impacto devastador de um animal de meia tonelada, que embateria em tecidos macios e ossos frágeis. Não obstante ter-me preparado para o pior, o cavalo de pelagem parda saltou por cima de mim, elevando-se em direcção ao declive por detrás da tenda. Com movimentos descoordenados, consegui pôr-me de joelhos, observando horrorizada quando ele tropeçou, tombando desamparado pela ravina abaixo e caindo de joelhos com os quartos traseiros continuando a fazer os movimentos da corrida. O animal soltava relinchos de terror, esforçando-se desesperadamente para se pôr de pé, arrastando-se até conseguir endireitar-se e correndo desenfreado pela escuridão.

 

Com esforço, consegui levantar-me do chão, virando-me para a tenda quando vi outro cavalo que se aproximava, desenfreado. Era escuro e tinha uma pelagem brilhante. Relinchava enquanto corria atrás do cinzento. Atirei-me para o lado quando passou por mim como se fosse um relâmpago.

 

Uma palmada na garupa.

 

Um som que eu já tinha ouvido; a palma de uma mão que dava uma palmada na garupa de um cavalo.

 

Corri de volta à tenda. Naquele momento, o resto do estábulo estava em polvorosa, com os cavalos a relincharem aflitivamente e a baterem com os cascos nas respectivas cocheiras. A estrutura pouco sólida destas, feita de tubos metálicos e lona, abanava e chocalhava. Gritei na esperança de assustar o responsável por aquele tumulto, o qual, ao verificar que havia uma testemunha, deveria pôr-se em fuga, esperava eu.

 

Entretanto, houve outro cavalo que se empinou numa cocheira aberta; viu-me, relinchou e passou por mim de rompante, atirando-me ao chão da cocheira atrás de mim. Em seguida, a portinhola foi empurrada para a frente juntamente comigo; caí desamparada de joelhos.

 

Desloquei-me apressadamente em frente como se fosse um caranguejo, estendendo a mão para a portinhola situada a alguma distância, tentando apoiar-me para conseguir pôr-me de pé. O cavalo saiu da cocheira atrás de mim, como um animal desenfreado num rodeio, soltando um relincho de desespero enquanto investia contra mim, tentando escoicear-me. Senti a deslocação do ar junto dos ouvidos quando o casco não me acertou por uma unha negra.

 

Antes que eu tivesse oportunidade de me virar, senti a cabeça e o torso envolvidos por uma escuridão nauseabunda sufocante, ao mesmo tempo que era empurrada para a frente contra a portinhola de uma cocheira. Tentei agarrar-me à lona, mas não consegui erguer os braços. Faltava-me o ar. Queria a pouca luz que iluminava aquele espaço. Queria liberdade de movimentos para poder defender-me contra o meu atacante, o qual me empurrou brutalmente para trás, e que depois me arremessou ora para um lado ora para o outro.

 

Senti-me invadida por tonturas, começando a cambalear, numa total ausência de coordenação de movimentos, acabando por cair sobre um joelho. Foi então que senti algo que me bateu com toda a força em cheio nas costas, com um impacto suficiente para que eu ficasse a ver estrelas.

 

Ao terceiro golpe caí para a frente e fiquei sem acção nenhuma. Respirava aos arrancos, uma respiração que vinha da parte mais cava dos meus pulmões. Além de um rugir constante na cabeça, não era capaz de ouvir absolutamente mais nada, o que me levou a perguntar a mim mesma se me aperceberia daquilo que viria a seguir, antes que o próximo cavalo solto me espezinhasse, esmagando-me debaixo das suas ferraduras. Tentei obrigar-me a levantar-me do chão, concluindo que estava incapaz de me mexer. As mensagens perdiam-se algures entre o meu cérebro e o meu sistema nervoso. Sentia dores excruciantes nas costas, ao ponto de me engasgar, começando a tossir, ansiando por ar, mas impossibilitada de respirar fundo.

 

Decorreram alguns momentos em que não fui espezinhada por cavalos. Tão-pouco fui empalada por uma forquilha. Deduzi que o meu atacante teria fugido, o que me deixava num lugar muito mau na altura menos adequada. Os cavalos corriam à solta. Se alguém irrompesse por aquele estábulo adentro e me encontrasse naquela situação...

 

Uma vez mais, tentei reunir forças e consegui empurrar a manta de cavalo que me tapava a cabeça; respirava com sofreguidão, lutando contra as náuseas que não me largavam. Agarrei-me à portinhola da cocheira, conseguindo arrastar-me, até que fui capaz de me endireitar. Entontecida, com a sensação de que o chão me fugia debaixo dos pés e a cambalear, consegui sair pelas traseiras da tenda, para voltar a tombar quase de imediato.

 

A lanterna estava caída no chão onde ficara quando fora atacada pelo primeiro cavalo, o seu feixe de luz como que um farol no meio das trevas. Apanhei-a do chão, agarrei-me a uma corda da tenda e, com muito esforço, pus-me de pé.

 

Os cavalos corriam desenfreados e desciam pela ravina até ao terreno recentemente desbravado. Havia outros que se deslocavam entre a tenda onde eu estivera e a adjacente. O vento começara a soprar com mais intensidade, trazendo consigo os primeiros pingos de chuva. Ouvi a voz de alguém que gritava à distância. Estava na hora de eu sair dali.

 

Entrei na tenda durante o tempo suficiente para ligar a lanterna, cujo feixe de luz projectei para a frente de uma cocheira aberta.

 

Em situação de emergência, ligar para Michael Berne...

 

- Não se mexa. Deixe cair a lanterna.

 

A voz ecoou atrás de mim, acompanhada de um feixe de luz que banhou os meus ombros. Apesar de não ter largado a minha lanterna, abri os braços, afastando-os do corpo.

 

- Apercebi-me de que havia um distúrbio - disse eu enquanto me voltava ligeiramente. - Havia alguém aqui que abriu as portinholas das cocheiras.

 

- Sim, sim... tal e qual! - ripostou o homem sarcasticamente. - E quem é que terá feito isso? Deixe cair a lanterna.

 

- Não fui eu - repliquei, virando-me um pouco mais. Tentei impedi-lo de continuar. Tenho as nódoas negras que o podem provar.

 

- Minha senhora, não vou voltar a dizer-lhe. Largue a lanterna.

 

- Quero ver a sua cara. Como é que posso saber que você não é o responsável pelo que aconteceu aqui?

 

- Eu pertenço à segurança.

 

Aquilo não me fez sentir mais segura. A segurança naquele recinto estava a cargo de uma empresa privada que apresentara uma proposta mais barata a fim de conseguir ganhar o concurso. O mais certo era o pessoal merecer tanta confiança, e estar tão bem treinado, como o pessoal que Permite que os loucos entrem a bordo de aviões comerciais com armas brancas e de fogo. Tanto quanto sei, cerca de Metade destes seguranças costumam ser gente que já cumpriu penas de prisão. Uma vez que continuava de costas Para o homem, nem sequer podia ver se usava uniforme ou não.

 

- Deixe-me vê-lo.

 

O homem bufou, numa manifestação de impaciência. Antes que pudesse dizer-me ”não”, virei-me para trás e atingi-o em cheio no rosto com a minha lanterna pouco delicada.

 

Reparei na roupa que ele vestia, mas antes vi o revólver que empunhava.

 

- Isso faz parte do uniforme? - perguntei.

 

- Faz parte do meu uniforme - respondeu, fazendo um gesto com a arma. - Mas já chega de perguntas. Desligue a luz e entregue-me a lanterna. Toca a andar.

 

Fiz como ele me dizia, mais do que desejosa de sair para fora da tenda, para um local onde sabia que haveria outras pessoas. Considerei e rejeitei a ideia de tentar a fuga. Não queria que andassem à minha procura, com a descrição da minha pessoa e o retrato-robô na primeira página do jornal local. Tão-pouco queria ser alvejada pelas costas. Conformar-me momentaneamente com a situação poderia proporcionar-me a oportunidade de me inteirar de algo importante.

 

Lá fora, ouvi a voz de pessoas que chamavam pelos seus cavalos, que continuavam a relinchar, assustados. Às vozes juntava-se o barulho dos cascos que raspavam o solo de terra batida muito compacta. O segurança levou-me para um carrinho eléctrico parado junto da tenda número dezanove: os estábulos de Jade.

 

Gostaria de saber há quanto tempo o carrinho estava parado ali. Também gostaria de saber até que ponto seria fácil subornar um sujeito como aquele para que abrisse as portinholas de algumas cocheiras. Trabalhar à noite por um ordenado de miséria, a guardar cavalos que tinham um valor superior aos proventos que, em média, um cidadão vulgar auferiria em toda a sua vida, poderia alterar a perspectiva de qualquer pessoa quanto ao que estava certo e errado.

 

Sentei-me no lugar do passageiro da frente; o assento, corrido e sem costas, estava molhado e escorregadio devido à chuva que caía cada vez com mais intensidade. O segurança, que continuava a empunhar a arma na mão esquerda, ligou a ignição, recuou e descreveu um semicírculo. Mudei de posição, virando-me ligeiramente para ele e, sub-repticiamente, toquei na Glock que continuava bem segura na parte de trás das calças de ganga, por baixo do casaco e da camisola de gola alta.

 

- Onde é que vamos?

 

O homem não me deu resposta. Preso ao cinto trazia um radiotransmissor portátil que começou a emitir estalidos. Deviam ser os outros seguranças a comunicar o que acontecia com os cavalos que continuavam à solta. Ele optou por não comunicar a ninguém que me havia detido. O que não me agradou nada. Começámos a percorrer o caminho que nos levaria à área principal do centro equestre, uma cidade-fantasma às duas da madrugada.

 

- Quero falar com o seu supervisor - exigi numa voz autoritária. - E é necessário que alguém telefone ao detective James Landry do Gabinete do Xerife.

 

- Porquê? - perguntou o homem virando a cabeça para mim.

 

Foi a minha vez de não lhe dar resposta. Ele que ficasse na dúvida. Passámos por outros guardas e por algumas pessoas que corriam à chuva para se juntarem à diversão que seria tentar apanhar meia dúzia de cavalos de sangue quente embriagados com a liberdade inesperada de que gozavam.

 

Continuámos a percorrer o labirinto de tendas, passando por uma fileira de pequenas lojas desertas. Agora a chuva caía em bátegas. Continuámos a avançar, afastando-nos cada vez mais de qualquer meio de ajuda. O meu coração acelerou uma batida. A adrenalina era como um narcótico na corrente sanguínea, a perspectiva do perigo uma sensação intoxicante e excitante. Olhei fixamente para o segurança, perguntando-me o que pensaria ele se soubesse disso, ”avia um grande número de pessoas que acharia este asPecto bastante perturbador.

 

O homem conduziu o carrinho eléctrico ao longo de uma das caravanas mais amplas de um grupo que servia de instalações de apoio às muitas actividades necessárias à gestão do hipódromo, e desligou o motor. Subimos uns quantos degraus de metal, fazendo um barulho característico enquanto o segurança me apressava para que entrasse. A uma secretária de metal sentava-se um indivíduo de compleição maciça, ouvindo os ruídos que eram emitidos por um radio-transmissor portátil com o tamanho de um tijolo. O homem tinha uma garganta que se parecia com a de uma rã gigante; um saco de carne mais largo do que a sua cabeça e com dobras que transbordavam do colarinho da camisa. Também usava o uniforme azul dos demais seguranças, mas com uns dois alfinetes suplementares presos ao peito. Certamente havia sido condecorado com a medalha de mérito por ”cu na cadeira” e por delegação de autoridade acima do que a pátria lhe exigia, calculei eu. Lançou-me um olhar de censura enquanto eu me imobilizava à sua frente, a pingar água da chuva, que ia alagando o chão.

 

- A culpada é ela - informou o guarda que me detivera. - Apanhei-a a abrir a portinhola das cocheiras.

 

Olhei bem de frente para ele, aplicando apenas a ênfase necessária para que o significado das minhas palavras fosse tão transparente como o cristal:

 

- Mais alguma pequena surpresa como essa na manga?

 

Ele já tinha guardado a arma. Não me passou despercebido que o homem se debatia com o facto de ter cometido um deslize ao permitir que eu visse ”aquela coisa”. Passei a ter algo que podia usar contra ele. O mais certo era não ter licença de porte de arma. Se viesse a provar-se que isso era verdade, e eu participasse às autoridades policiais, haveria muitas probabilidades de ele ser despedido, no mínimo dos mínimos. Eu lia na fisionomia dele que só nesse momento é que tudo isto lhe ocorria à mente.

 

Se ele fosse uma pessoa muito inteligente, decerto não estaria a trabalhar no turno da noite, usando um uniforme de polícia de aluguer.

 

- Você apanhou-me num estábulo com uma lanterna na mão - corrigi. - Eu estava a tentar ajudar. A fazer o mesmo que você.

 

- Tem alguma coisa contra o Michael Berne? - perguntou-me a Rã Gigante. Falava com o sotaque pastoso de um nativo do Sul da Florida, onde o ”Estado do Sol” e o ”Sul Profundo” roçam as virilhas, por assim dizer.

 

- Nunca me cruzei com o Michael Berne, apesar de o ter visto esta manhã numa discussão acesa, em que ameaçou o Don Jade. Talvez não fosse má ideia tentar descobrir onde é que Mister Jade se encontra neste preciso momento - sugeri.

 

- O Berne já vem a caminho - replicou o supervisor, olhando-me com fixidez. - Assim como dois agentes policiais. Sente-se, Miss...?

 

Não lhe dei resposta nem me sentei, embora sentisse umas dores fílhas-da-puta nas costas, consequência da grande sova que levara.

 

- É aconselhável que diga aos polícias que devem tratar essa área das cocheiras como se lá tivesse ocorrido um crime - sugeri. - Para além de ter soltado os cavalos, o responsável atacou-me fisicamente quando tentei pará-lo. Hão-de encontrar uma forquilha ou uma vassoura... qualquer coisa com um cabo comprido, que talvez tenha as impressões digitais dessa pessoa. Vou querer apresentar queixa. E quero ir aos serviços de urgência do hospital para ser examinada e para que fotografem os hematomas que tenho. É possível que decida meter uma acção em tribunal. Que raio de gestão é a deste lugar, se não são capazes de garantir a segurança quer de pessoas quer de animais?

 

A Rã Gigante ficou a olhar para mim como se nunca tivesse visto ninguém da minha espécie.

 

- Quem é você? - perguntou-me.

 

- Não tenciono dizer-lhe o meu nome.

 

- Eu preciso de saber o seu nome, miss. Tenho de o mencionar no meu relatório.

 

- Sendo assim, isso é um problema porque eu me recuso a dizer-lhe o meu nome - declarei. - Não sou obrigada a dizer-lhe nada. O senhor não é nenhum funcionário do tribunal nem do governo, consequentemente, não lhe assiste o direito de exigir que eu lhe faculte qualquer informação.

 

Os agentes de polícia já vêm a caminho - disse ele à laia de ameaça.

 

- Por mim, não vejo problema nenhum. É com todo o gosto que irei com eles, muito embora não tenham razões Para me prender. Ser encontrada no corredor de um estábulo não é nenhum crime, tanto quanto me é dado saber. - O Bud diz que você soltou os cavalos - alegou o homem.

 

Acho melhor que pergunte outra vez ao Bud o que é que ele viu realmente.

 

Ela estava a soltar os cavalos ou não? – perguntou o supervisor, fixando Bud.

 

Este parecia estar com prisão de ventre, incapaz de repetir a mentira que queria dizer, quer para salvaguardar o coiro, quer para colher alguns louros perante o seu chefe.

 

- Ela estava lá - alegou.

 

- Também você - salientei. - Como é que podemos saber que não foi você quem abriu as cocheiras?

 

- Isso é ridículo - atalhou a Rã Gigante. - Por que razão é que ele faria uma coisa dessas?

 

- Só posso especular. Dinheiro. Maldade. Doença mental - repliquei.

 

- Talvez todos esses motivos se apliquem a si.

 

- Não nestas circunstâncias em especial - ripostei.

 

- Tem cavalos em alguma destas cavalariças, Miss...?

 

- A minha conversa consigo chegou ao fim - anunciei. - Posso servir-me do seu telefone para ligar ao meu advogado?

 

- Não! - respondeu, peremptório, fitando-me por entre os olhos semicerrados.

 

Perante aquela recusa, sentei-me numa cadeira de espaldar direito ao lado da secretária. O rádio da Rã Gigante voltou a emitir os estalidos da electricidade estática. Era o guarda do portão a anunciar a chegada dos dois adjuntos do xerife. Um golpe de sorte. Eu não queria conhecer Michael Berne naquelas circunstâncias. A Rã Gigante deu instruções ao guarda para que indicasse o caminho aos agentes no carro-patrulha, de modo a chegarem ao escritório dos serviços de segurança.

 

- Soltar aqueles cavalos constitui um crime grave disse-me ele. - É capaz de ir parar à cadeia por causa disso.

 

- Não, não vou, porque não fui eu quem soltou os cavalos. O responsável poderá ser acusado de conduta maldosa, o que é um crime menor. Terá de pagar uma multa e, possivelmente, cumprir uma pena de alguns serviços à comunidade. O que não é nada quando comparado com, digamos, andar com um revólver escondido sem que se tenha licença de porta de arma - especifiquei, fitando Bud, que me olhava com uma expressão de censura.

 

- Pensei que tinha dito que não falava mais - ripostou ele.

 

Com a mão, alisei o cabelo molhado para trás e levantei-me quando ouvi o bater da porta de um automóvel do lado de fora da caravana. O adjunto do xerife entrou com uma expressão que indicava ter sido despertado de um sono profundo para tomar conta daquela ocorrência.

 

- O que é que se passa, Marsh? Houve alguém que deixou os cavalos à solta? Foi ela?

 

- Ela encontrava-se nas proximidades - respondeu a Rã Gigante. - É possível que tenha informações sobre a infracção.

 

- E tem, minha senhora? - perguntou-me o agente de polícia, olhando-me com um semblante pouco impressionado.

 

- Só falo pessoalmente com o detective Landry - respondi.

 

- Como é que se chama, minha senhora?

 

Passei por ele em direcção à porta e li o seu nome na pequena placa que trazia presa à camisa.

 

- Falamos no carro, agente Saunders. Acho melhor irmos andando.

 

Olhou para a Rã Gigante, que lhe disse com um abanar de cabeça:

 

- Boa sorte com essa. É de alto calibre!

 

- Tiraste-me da cama para isto? - perguntou Landry, cujo olhar foi do agente Saunders até mim, exibindo o género de desdém habitualmente reservado para a comida estragada.

 

- Ela recusa-se a falar com qualquer outra pessoa justificou Saunders.

 

Percorremos o corredor em direcção à sala de reuniões da brigada, com Landry a resmungar entre dentes:

 

- Mas não é que eu tenho cá uma sorte! Não estou a ver o que é que algum de nós está a fazer aqui. Podias ter tratado deste assunto no local em meia hora. Por amor de Deus!

 

- Eu fui agredida - atalhei. - Estou em crer que isso exige a presença de um detective.

 

- Nesse caso, deve participar a ocorrência a quem estiver de serviço. Decerto que você estará bem ciente dos procedimentos regulamentares.

 

- Mas acontece que eu já tivera contactos consigo com relação a este caso - aleguei.

 

- Não, isso não é verdade porque não há caso nenhum. Aquilo de que me veio falar ontem não é um caso.

 

Entrámos nos gabinetes da brigada através da recepção. Landry entregou o crachá e a arma ao agente de serviço incumbido da segurança, pousando-os na cavidade do balcão por baixo do vidro à prova de bala. Saunders seguiu-lhe o exemplo. Tirei a Glock da parte de trás das calças de ganga, colocando a arma juntamente com as chaves do automóvel na mesma cavidade. Landry ficou a olhar para mim.

 

- Tenho licença de porte de arma - disse eu com um encolher de ombros.

 

- És um cabrão de um grande idiota! - invectivou, virando-se para Saunders. - Ela podia ter desfeito a tua cabeça vazia dentro do carro.

 

- Calma, detective - intervim apaziguadora, passando por ele quando o agente da segurança abriu o trinco eléctrico da porta. - Não sou desse tipo de gente.

 

- Põe-te a andar daqui para fora, Saunders! - ordenou Landry furioso. - És tão útil como uma picha flácida.

 

Deixámos Saunders, que se mostrava desolado, no lado de fora do gabinete. Em grandes passadas, Landry avançou, com os músculos do queixo a movimentarem-se, agitados. Passámos pela sua mesa de trabalho em direcção a uma sala onde os interrogatórios tinham lugar. Ele abriu a porta para trás, dando-me passagem.

 

- Entre para aqui - indicou.

 

Entrei e, com algum cuidado, sentei-me. As dores que sentia nas costas não permitiam que eu respirasse fundo. Comecei a perguntar a mim mesma se, de facto, não devia ir aos serviços de urgência.

 

- Em que diabo é que você pensou? - perguntou-me Landry depois de ter fechado a porta com estrondo.

 

- Aí está uma pergunta com bastante amplitude. Por conseguinte, vou escolher determinados momentos - repliquei. - Fui ao centro equestre para procurar qualquer pista que me indicasse o que poderia ter acontecido à Erin Seabright...

 

- Mas você não se encontrava nos estábulos onde ela trabalhava, pois não? Os que pertencem a um fulano que se chama Don Jade. Portanto, o que é que a levou às cavalariças de outra pessoa?

 

- O Michael Berne é inimigo do Don Jade. Esta manhã, eu estava presente quando o Berne ameaçou o Jade.

 

- Como é que ele o ameaçou?

 

Desta maneira: ”Se eu descobrir que mataste esse cavalo, não hesitarei em dar cabo de ti!” Mais ou menos assim - expliquei.

 

-- Por conseguinte, esse tal Jade entrou muito sorrateiro nas cocheiras do outro e soltou os cavalos. Grande coisa!

 

- É uma grande coisa para um fulano cujo meio de vida depende da boa condição física desses mesmos cavalos. É uma grande coisa para o treinador que tem de explicar aos proprietários dos animais como é que um cavalo que vale um quarto de um milhão de dólares, ou meio milhão, partiu uma perna quando andava a correr à solta pela madrugada - repliquei.

 

Landry soltou um suspiro e inclinou a cabeça de uma maneira esquisita, como se quisesse fazer estalar uma vértebra na base do pescoço.

 

- E você tirou-me da cama para isto?

 

- Não. Fiz isso apenas para me divertir porque estava aborrecida.

 

- Você é uma chata do caraças, Elena Estes! E já lho disseram várias vezes.

 

- Isso e pior ainda. Mas não me incomoda. Eu própria não tenho grande opinião a meu respeito - retorqui. - Suponho que esteja a pensar que estou a mostrar-me frívola, mas isso não me incomoda muito. Não me interessa o que possa pensar de mim. Só quero que esteja ciente de que se passam coisas graves e que tudo parece indicar o Don Jade. E o Don Jade é o homem para quem a Erin Seabright trabalhava. Ora acontece que a Erin Seabright desapareceu sem deixar rasto. Está a ver a ligação que existe em tudo isto?

 

- Portanto, e recapitulando - prosseguiu ele depois de ter abanado a cabeça -, dizem-me que você foi apanhada nos estábulos desse outro fulano. Como é que eu posso saber que não foi você quem soltou as pilecas só para chamar a atenção? Você quer que as pessoas desconfiem do Jade, por isso, decidiu encenar esta pequena ópera...

 

- Bela maneira de expor a situação. Será que também me agredi a mim mesma com o cabo de uma forquilha? Posso garantir-lhe que não tenho um corpo assim tão flexível.

 

- Aparentemente, você parece mexer-se sem qualquer problema. Não me parece que esteja magoada.

 

- Muito bem - ripostei, despindo o casaco e levantando-me da cadeira. - Regra geral, não costumo fazer isto aquando de um primeiro interrogatório, mas se prometer que não me chama desavergonhada... - Virei-me de costas para ele e puxei a camisola até ao pescoço. - Se estes hematomas tiverem tão mau aspecto como a forma como me sinto...

 

Deus do céu! - exclamou Landry. Expressou-se em voz baixa, sem qualquer irritação, sem energia, como se tivesse ficado sem respiração.

 

Eu sabia que a reacção dele não tinha tanto a ver com as marcas que o atacante deixara no meu corpo, mas com os retalhos de cicatrizes que os enxertos de pele que eu fizera de há dois anos a esta parte haviam deixado nas minhas costas. Mas não era isso que eu queria. De maneira nenhuma. Havia muito tempo que eu vivia com essas cicatrizes. Faziam parte de mim. Era um assunto que eu guardava para mim mesma, tal como era reservada de feitio. Era um tema que eu não tinha por hábito abordar. Não costumava olhar para elas. De uma maneira estranha, as lesões que o meu corpo sofrera, para mim, não eram importantes, uma vez que eu própria passara a carecer de importância aos meus olhos.

 

Subitamente, porém, essas lesões adquiriram uma nova importância. Senti-me emocionalmente nua: vulnerável.

 

Puxei a camisola para baixo e peguei no casaco, mantendo-me de costas para Landry.

 

- Não ligue - disse eu, embaraçada e irritada comigo mesmo. - Vou para casa.

 

- Não quer apresentar queixa?

 

- Contra quem? - perguntei, voltando-me de frente para ele. - O estupor que você não se quer dar ao trabalho de procurar, quanto mais interrogar, porque nada do que esteja relacionado com essa gente do meio equestre tem o mínimo interesse para si? A menos que, evidentemente, um dia destes apareça alguém assassinado.

 

Landry não conseguiu encontrar nada que pudesse dizer Perante as minhas palavras.

 

As comissuras dos meus lábios movimentaram-se num trejeito que poderia passar por um sorriso amargo.

 

Imagine uma coisa destas: você, do mal o menos, tem a humanidade necessária para sentir-se acanhado. Ainda bem para si, Landry. - Dito isto, passei por ele a caminho da porta. - Quanto quer apostar que neste momento o Saunders está no parque de estacionamento a dormir? Acho que eu ganharia. Até à vista, Landry. Logo que encontrar um cadáver, prometo que lhe telefono.

 

- Elena Estes, espere. - Ele não quis olhar-me de frente quando me virei, ao contrário de mim, que o fitei. Você devia ir aos serviços de urgência. Eu levo-a ao hospital. É possível que tenha partido uma vértebra ou qualquer coisa assim.

 

- Já sofri lesões piores.

 

- Deus nos valha, você é muito teimosa!

 

- Não quero a sua piedade - repliquei. - Também não me interessa a sua simpatia. Não quero que goste de mim ou que tema pelo que me possa acontecer. Não quero nada de si, além de que faça o seu trabalho como deve ser. E, segundo parece, isso é pedir-lhe de mais. Não se incomode, eu saio sozinha. Conheço o caminho.

 

Ele foi atrás de mim até à recepção. Nenhum de nós falou enquanto as armas nos eram devolvidas. Procedi como se para mim ele tivesse deixado de existir enquanto percorríamos o corredor e descíamos as escadas.

 

- Eu sou bom no que faço - afirmou Landry quando já estávamos perto das portas da frente.

 

- De verdade? E o que é que faz? Tem um segundo emprego como filho-da-mãe profissional? - perguntei com ironia.

 

- Você saiu-me uma rica encomenda, não haja dúvida!

 

- Eu sou aquilo que tenho de ser - ripostei.

 

- Não, não é - retorquiu ele. - Você é malcriada e um estupor, dando... não sei como explicar... dando a impressão de que se sente superior aos outros.

 

A chuva continuava a cair. Adquiria reflexos prateados quando atravessava a luz dos candeeiros de rua no parque de estacionamento. Tanto Saunders como o carro-patrulha tinham desaparecido.

 

- Magnífico - exclamei. - Creio que, ao fim e ao cabo, tenho de aceitar a boleia que me ofereceu.

 

Landry olhou-me de esguelha, subindo a gola do casaco

 

- Vá-se foder! Chame um táxi.

 

Fiquei a vê-lo a entrar no carro, deixando-me à chuva até ele começar a fazer marcha atrás, abandonando o parque de estacionamento. Só então é que voltei a entrar no edifício para telefonar.

 

Não podia dizer que não estivesse a pedi-las.

 

Quando, finalmente, o táxi chegou, vi que o motorista queria conversa, cheio de curiosidade, desejoso de saber por que motivo é que eu precisava de um táxi às três e quarenta e cinco da madrugada... e quando saía do Gabinete do Xerife. Eu contei-lhe que o meu namorado era procurado por acusação de homicídio. Depois disto, o homem não me fez mais perguntas.

 

Instalei-me no assento de trás do táxi, levando todo o percurso até casa a perguntar a mim própria como é que Erin Seabright estaria a passar a sua noite.

 

       INTERIOR: UMA VELHA CARAVANA

 

Noite. Uma única lâmpada num candeeiro sem quebra-luz. As janelas, com os vidros sujíssimos, não têm cortinas. Uma cama de ferro já muito velha e enferrujada. O colchão está cheio de nódoas e não tem lençóis.

 

Erin está sentada na cama, dobrada sobre si mesma, encostada à cabeceira da cama; está assustada e nua. Acorrentaram-na à cama por um pulso. Tem o cabelo desgrenhado. O rímel está todo esborratado à volta dos olhos. O lábio inferior tem um corte e está manchado de sangue.

 

Tem plena consciência da câmara de filmar e do realizador que orienta a cena. Tenta cobrir-se tanto quanto lhe é Possível. Chora de mansinho, esforçando-se por ocultar o rosto.

 

REALIZADOR

 

- Olha para a câmara, cabra! Diz a tua fala.

 

Ela esboça um abanar de cabeça, continuando a tentar esconder-se.

 

REALIZADOR

 

- Diz! Queres que eu te obrigue?

 

Com um abanar de cabeça, ela olha para a câmara de filmar.

 

ERIN

 

- Socorro.

 

Não dormira merda nenhuma, e a culpa era de Elena Estes. Para começar, por culpa dela é que fora arrancado da cama. Era culpada por não conseguir voltar a conciliar o sono depois de, finalmente, ter regressado a casa. De cada vez que fechava os olhos, via as costas dela, todas cobertas de linhas entrecruzadas onde a carne dos enxertos fora suturada. Os hematomas que começavam a tomar forma, devido à agressão que sofrera no centro equestre, eram insignificantes, sombras pálidas, quando comparadas com as feridas mais antigas.

 

Lesões graves. Landry pensou em Elena Estes e no que sabia a respeito dela. Os caminhos de ambos nunca se haviam cruzado quando ela ainda fazia parte das forças policiais. A Brigada de Narcóticos regia-se por normas de trabalho em que a discrição imperava. Passavam demasiado tempo como agentes infiltrados, pelo menos na sua opinião. O que fazia com que fossem irritadiços e imprevisíveis. Uma opinião que fora reforçada com o incidente que pusera cobro à carreira dela e acabara com a vida de Hector Ramirez. O que sabia em relação a esse episódio cingia-se ao que todos sabiam: ela investira de arma em riste, desobedecendo às ordens que lhe haviam sido dadas, porque queria fazer a detenção, do que resultara o facto de a situação ter ficado completamente fora de controlo.

 

Landry nunca se tinha detido a pensar em Elena Estes, Para além de acreditar que ela tivera o que merecera, perdendo o emprego. Sabia que ficara ferida e que fora hospitalizada, que entrara com uma acção em tribunal a fim de receber a reforma por inteiro, alegando que ficara incapacitada no exercício das suas funções - o que lhe parecia descaramento dadas as circunstâncias -, mas isso nada tinha a ver com ele, pelo que se estava rigorosamente nas tintas. Só trazia problemas, o que ele já havia imaginado, mas que agora sabia ser um facto inegável.

 

Uma cabra estuporada e agressiva. Ter a ousadia de lhe dizer como é que havia de fazer o seu trabalho.

 

Interrogou-se sobre o que é que lhe teria acontecido realmente no centro equestre, se isso de facto estaria relacionado com a rapariga que ela dizia ter desaparecido...

 

Se, efectivamente, a rapariga tivesse desaparecido, por que motivo uma garota de doze anos fora a única a participar o desaparecimento? Porque não os pais? Porque não o patrão?

 

Quem sabe, talvez os pais quisessem ver-se livres dela.

 

Quanto ao patrão, era possível que andasse a arquitectar uma vigarice das grandes, e talvez tivesse sido ele quem agredira Helena Estes nas costas com o cabo de uma vassoura.

 

Landry tinha visto as costas dela, uma manta de retalhos de carne que não condizia, toda esticada por cima dos ossos.

 

Às cinco e meia da manhã, levantou-se da cama, vestiu uns calções de ginástica e começou a fazer exercícios de alongamento, seguidos de cem flexões e cem abdominais; foi assim que deu início ao seu dia. Uma vez mais.

 

Encontro-me ao lado da caravana dos irmãos Golam. Disseram-me que me deixasse ficar quieta, que esperasse, mas sei que não é essa a decisão mais acertada. Se eu for a primeira a avançar, apanhá-los-ei desprevenidos. Eles pensam que me conhecem. Há três meses que trabalho neste caso e sei o que ando a fazer e que tenho razão. Começaram a sentir-se acossados. Quero fazer esta detenção e mereço-a. O tenente Sykes está aqui apenas para se mostrar quando os carros de exteriores da televisão chegarem. Quer assegurar o resultado das próximas eleições para xerife

 

Relegou-me para um dos lados da caravana e deu-me instruções para que aguardasse. É um idiota chapado. Não me deu ouvidos quando lhe disse que a porta lateral é a que os irmãos Golam mais utilizam. Enquanto o Sykes e o Ramirez vigiam a parte da frente, devem estar a enfiar o dinheiro em sacos de viagem e preparam-se para escapar pela porta lateral. O todo-o-terreno do Billy Golam, coberto de lama, está estacionado apenas a três metros da caravana. Se tiverem de fugir, não há-de ser no Corvette que está estacionado na parte da frente. Com o todo-o-terreno podem-se enfiar por todo o tipo de caminhos.

 

O Sykes está a perder um tempo precioso. Os irmãos Golam têm as duas raparigas na caravana. Podem usá-las como reféns. Se eu avançasse agora... Eles pensam que me conhecem.

 

Ligo o meu radiotransmissor.

 

- Isto é uma estupidez. Eles vão desatar a correr para o todo-o-terreno. Vou avançar.

 

- Raios te partam Estes... - gritou Sykes.

 

Deixo cair o rádio nas ervas que crescem junto da caravana. O caso é meu. A detenção é minha. Sei o que estou a fazer.

 

Saco da arma e mantenho-a atrás das costas. Encaminho-me para a porta lateral e uso o código dos clientes dos irmãos Golam: duas batidas, uma, e mais duas.

 

- Eh, Billy, é a El! Preciso de uma dose.

 

Billy Golam abre a porta aos sacões, de olhos arregalados. De certeza que está pedrada com a sua mistura caseira favorita: cristais de metadona. A respiração é ofegante. Tem um revólver na mão.

 

Merda!

 

A porta da frente explode para o interior da caravana.

 

Uma das raparigas começa a gritar.

 

- Chuis! - avisa Buddy Golam.

 

Billy Golam aponta-me o.357 à cara. Inspiro a minha última golfada de ar.

 

Vira-se abruptamente e dispara. O som é ensurdecedor. A bala atinge o Hector Ramirez em cheio na cara e desfaz-lhe a parte de trás da cabeça, de onde são projectados bocados de matéria cerebral misturada com sangue que vão Salpicar o Sykes, que se encontra atrás dele.

 

Aponto a arma quando o Billy sai de rompante porta fora e me derruba, atirando-me pelos degraus abaixo.

 

Corre para o todo-o-terreno, a cambalear, e eu tento pôr-me de pé.

 

O motor do todo-o-terreno adquire vida com uma espécie de rugido.

 

- Billy! - grito, correndo para o veículo.

 

- Foda-se! Foda-se! Foda-se! - Os tendões no seu pescoço mostram-se intumescidos quando ele grita. Engrena a marcha atrás e carrega no acelerador a fundo.

 

Atiro-me contra a porta do lado do condutor, agarro-me ao espelho lateral e à moldura da janela, conseguindo pôr um pé no estribo. Nem sequer penso no que estou a fazer. Limito-me a agir instintivamente.

 

Estou a gritar. Ele está a gritar.

 

Ergue o revólver e aponta-mo ao rosto.

 

Desvio a arma e bato-lhe com ela na cara.

 

Manobra o volante, descrevendo um semicírculo enquanto o todo-o-terreno acelera sempre em marcha atrás. Um dos meus pés escorrega para fora do estribo. Ele engrena a primeira, levantando a gravilha do chão com as rodas traseiras.

 

Faço esforços desesperados para evitar cair. Tento agarrar o volante.

 

O todo-o-terreno tem uma boa aderência ao pavimento. Num movimento brusco, o Golam guina o volante para a direita. A fisionomia dele é uma máscara contorcida, tem a boca aberta e os olhos reflectem loucura. Tento agarrá-lo. A porta abre-se inesperadamente quando o veículo derrapa, fazendo um pião.

 

Estou suspensa no espaço.

 

Sinto-me a cair.

 

Caio violentamente de costas sobre o pavimento.

 

O meu malar esquerdo fragmenta-se como uma casca de ovo.

 

Depois, a sombra negra do todo-o-terreno do Billy Golam passa por cima de mim e eu morro.

 

E acordo.

 

São cinco e meia da manhã. Depois de duas horas de um dormitar inquieto, à espera que os fragmentos das minhas costelas perfurem um ou os dois pulmões, deslizo para fora da cama e forço-me a tentar distender o corpo.

 

Fui para a casa de banho e pus-me toda nua diante do espelho, observando o meu corpo. Demasiado magro. Marcas rectangulares nas coxas, nas regiões de onde foram tirados bocados para os enxertos de pele. Buracos na carne da perna esquerda.

 

Voltei-me para trás, numa tentativa de conseguir ver as costas no espelho por cima do ombro. Olhei para o que tinha mostrado a Landry e apelidei-me a mim própria de estúpida.

 

A única coisa útil que o meu pai me ensinou: nunca mostres as tuas fraquezas, nunca te mostres vulnerável.

 

As nódoas negras, o resultado da tareia que levara, assemelhavam-se a tiras acastanhadas. Sentia dores sempre que respirava.

 

Às seis horas e quinze minutos - depois de ter dado de comer aos cavalos - meti-me no carro e fui aos serviços de urgência do hospital. As radiografias não mostraram nenhum osso fracturado. Um médico de medicina interna, com os olhos ensonados, que dormira ainda menos do que eu, fez-me algumas perguntas, sendo notório que não acreditava na história que lhe contei: que tinha caído de um lanço de escadas. Sou olhada de esguelha por todo o pessoal médico que se encontra de serviço, com expressões que eram um misto de fadiga e tédio. Perguntaram-me por duas vezes se queria falar com o agente de polícia de serviço no hospital. Agradeci-lhes, mas recusei a sugestão. Ninguém tentou forçar-me a mudar de ideias, o que me levou a perguntar a mim própria quantas mulheres espancadas deixariam o hospital, assim, sem mais nem menos, para regressarem ao seu inferno particular.

 

O médico interno vomitou um chorrilho de termos clínicos, tentando intimidar-me com os seus vastíssimos conhecimentos de medicina.

 

- Tenho contusões nas costelas - disse-lhe eu, olhando-o sem me mostrar nada impressionada.

 

De facto, assim é. Vou passar-lhe uma receita de analgésicos. Vá para casa e descanse. Durante as próximas Quarenta e oito horas não deve fazer esforços físicos.

 

- Sim, tal e qual.

 

Deu-me uma prescrição para tomar Vicodin. Ri-me quando olhei para aquilo. Meti a receita no bolso do anoraque quando saí do hospital. Os meus braços funcionavam, as minhas pernas funcionavam, não tinha nenhum osso espetado que me saísse da pele e não estava a sangrar. Conseguia locomover-me, logo, estava óptima. Tanto quanto sabia, não morreria em virtude daquela sova; além do mais, tinha lugares aonde ir e gente com quem falar.

 

O meu primeiro telefonema foi para Michael Berne, ou, melhor dizendo, para a assistente de Michael Berne - o número de telefone que estava indicado nos estábulos. Michael era um homem muito ocupado.

 

- Pergunte-lhe se está demasiado ocupado para poder falar com um potencial cliente - avancei eu. - Posso sempre contratar os serviços do Don Jade, se for preciso.

 

Miraculosamente, de um momento para o outro, Michael passou a ter tempo e a assistente passou-lhe o telefone.

 

- Fala Michael Berne. Há alguma coisa em que possa ajudá-la?

 

- Talvez lavando um pouco da roupa suja do seu amigo Mister Jade - respondi calmamente. - Sou detective particular.

 

Vesti-me de preto da cabeça aos pés, penteei o cabelo todo para trás com a ajuda de uma mão-cheia de gel e coloquei um par de óculos de sol, também pretos, dos que se podem pôr como uma fita na cabeça, e depois roubei o Mercedes SL preto de Sean. Parecia uma personagem do filme Matrix. Com um aspecto impenetrável, misterioso e perigoso. Não era um disfarce, era, isso sim, um uniforme. A imagem é tudo.

 

Eu tinha pedido a Berne que fosse ter comigo ao parque de estacionamento do Restaurante Denny’s, em Royal Palm Beach, a uma distância de quinze minutos de carro do hipódromo. Ele protestara por ter de guiar, mas eu não podia arriscar-me a ser vista com ele perto do hipódromo.

 

Berne chegou ao volante de um Honda Civic que já havia visto melhores dias. Saiu do automóvel, mostrando-se nervoso e olhando em redor. Uma detective particular, um encontro clandestino. Uma situação pesada. Vinha vestido Para montar, com umas calças cinzentas de equitação onde reparei que havia duas nódoas, e um pólo vermelho que condizia mal com a cor do cabelo.

 

Abri o vidro eléctrico do Mercedes do lado do condutor.

 

- Mister Berne. Sou a pessoa com quem veio encontrar-se.

 

Observou-me através dos olhos semicerrados, mostrando uma expressão de dúvida e de insegurança, incapaz de ler o que me ia no pensamento. Uma agente de uma organizaÇão obscura. Talvez ele estivesse à espera da Nancy

Drew.

 

- Podemos conversar aqui dentro - sugeri. - Por favor, entre no meu carro.

 

Ele hesitou, como se fosse uma criança a quem um desconhecido convidara para dar um passeio. Uma vez mais, olhou à sua volta, abrangendo todo o parque de estacionamento, como se esperasse que acontecesse alguma coisa de mal. Elementos das forças especiais de rostos cobertos que saíssem sorrateiramente dos arbustos, fazendo-o cair numa cilada.

 

- Se tiver alguma coisa a dizer-me, entre no carro declarei eu sem ocultar a impaciência que sentia.

 

Era tão alto que quase teve de se agachar para poder entrar no Mercedes, como se estivesse a entrar num daqueles carros que os palhaços usam. Contrastava e muito com a imagem elegante do homem muito bem-parecido que era Don Jade. Um Howdy Doody1 criado com hormonas de crescimento. Tinha cabelos ruivos e sardas e era tão magro que mais parecia um pau de virar tripas. Consultara material suficiente sobre Michael Berne para saber que fora uma figura de segunda categoria das competições equestres de âmbito internacional durante os primeiros anos da década de noventa, altura em que montara um cavalo de nome Iroquois. Mas o feito mais importante que realizara tinha sido uma digressão pela Europa com a segunda linha da equipa olímpica norte-americana. Pouco depois, os proprietários do garanhão venderam-no, tirando-lhe o tapete de debaixo dos pés e, desde então, ele não conseguia qualquer vitória.

 

Quando Trey Hughes contratara os serviços dos estábulos de Berne, a imprensa citou-o como tendo afirmado durante uma entrevista que Stellar era o cavalo que o levaria de volta às luzes da ribalta do hipismo internacional. Nessa altura, Stellar foi para os estábulos de Don Jade e a estrela de Michael Berne perdeu, uma vez mais, o seu fulgor.

 

- Para quem é que me disse que trabalhava, Miss Estes? - perguntou-me, observando atentamente o carro de luxo.

 

- Não disse - respondi, sucinta.

 

1 Marioneta de um programa televisivo norte-americano muito popular (N. da T.)

 

- Trabalha para alguma companhia de seguros? Pertence à Polícia?

 

Quantos polícias é que conhece que conduzam Mercedes, Mister Berne? - perguntei, permitindo que um vislumbre de ironia viesse à superfície. Acendi um dos cigarros franceses de Sean, soprando o fumo contra o pára-brisas. Sou uma detective particular, sendo que particular é a palavra que define a função. Não tem motivo nenhum para preocupações, Mister Berne. Amenos que, como é evidente, haja cometido alguma acção condenável.

 

- Não fiz nada de condenável - ripostou ele na defensiva. - Dirijo um negócio honesto. Não circulam rumores nenhuns que digam que matei cavalos para receber a indemnização do seguro. Isso é território do Don Jade.

 

- Acha que ele contratou alguém para matar o Stellar?

 

- Sei que foi isso que sucedeu - afirmou ele.

 

Fiquei a observá-lo pelo canto do olho, e quando retomei a conversa fi-lo com uma entoação de voz monótona e neutra. Prática.

 

- Tem alguma coisa que corrobore o que está a dizer? Estou a referir-me a provas - acrescentei.

 

- O Jade é esperto de mais para fazer tolices - admitiu ele, com os cantos da boca a desenharem uma expressão de amuo. - Ele cobre sempre o rasto. Como, por exemplo, ontem à noite. Nunca ninguém estabelecerá alguma ligação entre o Don Jade e o facto de os meus cavalos terem sido soltos.

 

-Por que razão faria ele uma coisa dessas?

 

- Porque o enfrentei. Sei bem quem ele é. São as pessoas como o Don Jade que dão má fama ao negócio dos cavalos. Negócios que não passam de vigarices, roubar clientes e matar cavalos. As pessoas fingem que não vêem, desde que elas próprias não sejam as vítimas. Tem de haver alguém que faça alguma coisa.

 

Você alguma vez foi abordado pelo Trey Hughes para lhe pedir que fizesse alguma coisa de mal ao Stellar?

 

Não. Eu tinha o Stellar no bom caminho. O cavalo

estava a fazer progressos. Achei que teríamos uma boa hipótese na Taça Mundial. Seja como for, eu nunca me meteria num esquema desses.

 

- Por que razão o Hughes decidiu tirar o cavalo dos seus estábulos? - perguntei.

 

- Porque o Jade fez jogo sujo para mo tirar. Ele passa a vida a roubar os clientes dos outros.

 

- Essa decisão não teve nada a ver com o facto de você ultimamente não ter conseguido ganhar nenhuma competição? - sugeri.

 

- Estávamos no bom caminho - repetiu Berne, olhando-me de esguelha. - Era só uma questão de tempo.

 

- Mas acontece que o Hughes não estava disposto a esperar.

 

- O mais provável é o Jade ter-lhe dito que conseguia chegar lá mais depressa.

 

- Pois é, mas agora esse cavalo não vai a parte nenhuma - comentei.

 

- E quanto à autópsia? - perguntou Berne.

 

- Necropsia - corrigi.

 

- O quê!

 

- Chama-se necropsia quando se trata de um cavalo.

 

- E o que é que revelou? - perguntou ele, sendo manifesto que não lhe agradava ser corrigido.

 

- Não tenho autorização para divulgar esses pormenores, Mister Berne. Corriam alguns rumores sobre esse cavalo, Mister Berne, antes de o animal morrer? Ouvi dizer que ele não estava de boa saúde.

 

- O animal estava a ficar velho. Os cavalos mais velhos precisam de cuidados redobrados... injecções nas articulações, suplementos vitamínicos, coisas desse género. Mas ele era rijo. Tinha muita coragem e cumpria sempre o que lhe era pedido.

 

- Não ouviu ninguém dizer que se passava algo de menos claro nas cavalariças do Jade, pois não? - perguntei.

 

- Em relação ao Jade, os boatos são coisa que nunca faltam. Não sei se sabe, mas não é a primeira vez que ele faz uma coisa destas.

 

- Estou familiarizada com o passado de Mister Jade. Mas, ultimamente, que tipo de rumores é que lhe chegaram aos ouvidos?

 

- O habitual. As drogas que ele dá aos cavalos que tem a seu cargo. Que clientes é que ele pretende. Como teto o Trey Hughes bem agarrado pelos tomates... Desculpe a minha linguagem.

 

- Que razão o leva a dizer isso?

 

- Deixe-se de coisas - redarguiu ele, outra vez na defensiva. - O Jade deve ter alguma na manga. De que outra maneira é que ele ficaria com as cavalariças que o Hughes está a construir?

 

- Devido ao mérito? Boas acções? Amizade? - alvitrei.

 

Concluí que nenhuma das minhas sugestões lhe agradou.

 

- Você trabalhou para o Trey Hughes - continuei. O que é que o Jade poderia ter para o ameaçar?

 

- Só precisa de escolher: a droga do dia, a mulher de outro com quem ele anda a dormir actualmente...

 

- Como é que ele tomou posse da herança tão subitamente? - atirei de repente.

 

Berne recostou-se todo para trás, estudando o meu rosto por uns momentos e mostrando uma expressão bastante parecida com a de Jill Morone quando tentara decidir qual a melhor maneira de lidar comigo.

 

- Acha que ele a matou?

 

- Eu não acho nada. Limito-me a fazer perguntas aqui e ali - respondeu Berne. Ficou a pensar em qualquer coisa e depois riu-se. - O Trey nunca teria coragem para uma coisa dessas. Devia vê-lo a gaguejar sempre que falava da mãe. Tinha tanto medo dela que era capaz de se borrar todo.

 

Não lhe fiz notar que Trey só precisava de ter coragem Que bastasse para contratar alguém que fizesse o serviço. Estava certa de que delegar uma tarefa era algo bastante fácil para um homem que passara toda a sua vida a sacudir qualquer tipo de responsabilidade.

 

- Portanto, não ouviu nenhuns rumores a esse respeito?

-

perguntei.. As pessoas costumam dizer piadas nas costas dele. Mas, na verdade, ninguém lhes dá muita credibilidade, Trey é obrigado a aplicar todas as suas energias para conseguir aguentar-se de um dia para o outro. É incapaz de organizar o dinheiro e os documentos que traz na carteira, quanto mais planear um homicídio e sair-se impunemente.

 

Mas isto é absolutamente supérfluo, visto ele ter estado com alguém na noite em que recebeu o telefonema que o informou do que acontecera à mãe.

 

- A sério? Com quem? - perguntei, curiosa.

 

- Que diferença é que isso pode fazer? - retorquiu ele desviando o olhar.

 

- Faz muita diferença, se essa pessoa, de facto, for cúmplice indirecta de um crime.

 

- O assunto não tem nada a ver com isso - contrapôs Berne.

 

- Conseguirei obter resposta a esta pergunta de uma maneira ou de outra, Mister Berne. Quer que eu comece a fazer perguntas pelo hipódromo, abrindo feridas antigas, remexendo em boatos de outros tempos?

 

Berne pôs-se a olhar pela janela do automóvel sem me dar resposta.

 

- Prefere que eu me ponha a adivinhar? - perguntei insistente. - Talvez tenha sido consigo. Sem dúvida que isso imprimiria um novo cunho a uma história já com barbas, não lhe parece?

 

- Eu não sou nenhum mariconço! - ripostou ele, indignado.

 

- Não se pode dizer que isso seja considerado um estigma no meio equestre, não concorda? - adiantei, prestes a atingir o limite do tédio. - Pelo que tive oportunidade de ver, talvez um em três fulanos seja certinho. Pense em todos os novos amigos que passará a ter se a sua inclinação sexual passar a ser do domínio público. Ou talvez já tenha feito isso. Eu até posso procurar um antigo namorado...

 

- Estava com a minha mulher - atalhou Berne.

 

O homem adiantou esta informação sem o menor pejo para não correr o risco de haver uma perfeita desconhecida a pensar que ele se tinha passado para o outro lado da barreira sexual. Um sujeito e pêras!

 

- A sua mulher esteve com o Trey Hughes na noite em que a mãe dele faleceu? Com ele, no sentido bíblico?

 

- Sim - confirmou Berne.

 

- Com ou sem o seu consentimento? - continuei

 

- Que raio de pergunta é essa?! - ripostou Berne vermelho que nem um tomate.

 

- Se você pensasse que estava prestes a perder um cliente, talvez se decidisse a cozinhar, com a ajuda da patroa, um pequeno plano de incentivos para que ele não o abandonasse - sugeri.

 

- Teria de ter uma mente perversa!

 

-- O mundo está cheio de perversidade, Mister Berne. Não pretendo ofendê-lo, mas a verdade é que não sei muita coisa a seu respeito. Por exemplo: não sei se o senhor é pessoa em quem se possa confiar. É necessário que o meu nome e as minhas funções não venham a ser do conhecimento público. Ao longo da vida, cheguei à conclusão de que as pessoas são mais propensas a ficar de boca fechada caso tenham algum segredo que elas próprias não desejem que venha a ser divulgado. Está a perceber-me, Mister Berne? Ou vou precisar de ser mais directa?

 

- Está a ameaçar-me? - perguntou ele com uma expressão de perplexidade.

 

- Prefiro pensar que estamos a chegar a um entendimento mútuo no que concerne à importância da confidencialidade. Eu guardo o seu segredo, se o senhor guardar o meu.

 

- Você não trabalha para a General Fidelity - adiantou ele, mostrando-se pensativo. - O Phil ter-me-ia dito alguma coisa.

 

- O Phil?!

 

- O Phil Wilshire. O responsável pelo cálculo das indemnizações. Eu conheço-o. Ele ter-me-ia dito alguma coisa a seu respeito.

 

- Ele falou consigo sobre este assunto?

 

- Eu quero que o Jade seja apanhado de uma vez por todas - afirmou ele, esforçando-se por mostrar alguma indignação. - Ele devia ser banido deste negócio. Se estiver na minha mão fazer alguma coisa para que isso aconteça, não hesitarei um momento que seja.

 

- Seja o que for? - perguntei sem estar com rodeios. Se eu estivesse no seu lugar, teria tento na língua, Mister Berne - aconselhei. - Não será difícil estruturar um caso em que se demonstre que o senhor odiava tanto o Don

Jade que foi ao ponto de matar o Stellar, tentando assacar-lhe esse acto criminoso com o objectivo de o arruinar. E lá se vai a carreira dele. Lá se vai a posição que detém junto do Trey Hughes. O senhor conserta as coisas entre si e o Hughes e, quem sabe, volta a entrar imediatamente na fotografia.

 

- Você pediu-me que viesse aqui para poder acusar-me?! - perguntou Berne numa explosão de cólera. Quem é você? Uma doida?

 

- Com a breca, isso é que é ter mau feitio, Mister Berne - repliquei, muito calma. - Devia experimentar aconselhamento terapêutico para conseguir gerir esse mau feitio. A raiva faz mal à saúde.

 

Ele queria gritar comigo. Vi que quase sufocava, tal era a ira que o invadia.

 

- Mas para responder à sua pergunta de há pouco: não, não sou doida - continuei. - Sou apenas muito directa. Tenho de analisar todos os aspectos da situação e não há tempo para andar a brincar. Durante o processo, é verdade que não arranjo amigos, mas consigo obter as respostas que pretendo.

 

”Talvez não seja culpado de nada, Mister Berne. Mas, como já lhe disse, não o conheço bem. Todavia, a experiência diz-me que a maior parte dos crimes se escora em três motivos: dinheiro, sexo e/ou ciúme. O senhor enquadra-se nas três hipóteses. Assim, sugiro que o ilibemos imediatamente para que eu possa concentrar-me no Jade. Onde é que estava quando o Stellar morreu?

 

- Em casa. Na cama. Com a minha mulher - respondeu ele.

 

Inspirei uma longa fumaça, a última do cigarro que tinha na mão, expelindo o fumo por entre um meio sorriso.

 

- Ela vai ter de mudar o nome para ”álibi” - disse.

 

- Já chega! - ripostou Berne, levantando as mãos ao céu. - Já não tenho mais nada a fazer aqui. Vim apenas movido pela bondade do meu coração, para ajudar...

 

- Berne, guarde o violino. Ambos sabemos o que é que o trouxe aqui. O senhor quer a ruína do Jade. No que eu não vejo qualquer inconveniente. Eu própria tenho os meus objectivos.

 

- Que são o quê?

 

- Defender os interesses do meu cliente. É possível que ambos acabemos por conseguir aquilo que desejamos. Quanto tempo depois da morte de Sallie Hughes é que o Trey levou os cavalos para as cavalariças do Jade? - perguntei, mudando de assunto.

 

- Duas semanas.

 

- E quando é que ouviu dizer que o Hughes tinha comprado os terrenos em Fairfields?

 

- Uma semana depois - respondeu Berne. Sentia-me como se a minha cabeça tivesse sido apertada num torno. Não queria tomar conhecimento dos pormenores sórdidos da vida de Trey Hughes, tal como não queria saber da vida de Michael Berne ou de Don Jade. Só queria encontrar Erin Seabright. A sorte que eu tinha por ela viver na caixa de Pandora!

 

Tirei a fotografia dela da algibeira interior do casaco, passando-a para a mão de Berne.

 

- Alguma vez viu esta rapariga?

 

- Não - respondeu ele de imediato.

 

- Ela trabalhou para o Jade até domingo passado. Era moça de estrebaria.

 

- As raparigas que trabalham nas estrebarias vêm e vão - replicou Berne exibindo uma expressão desdenhosa. - Só eu é que sei o trabalho que as minhas me dão, sem nunca saber onde param.

 

- Esta desapareceu sem deixar rasto. Por favor, olhe outra vez para a fotografia. Tem a certeza de que nunca a viu com o Jade?

 

- O Jade anda constantemente rodeado de mulheres. Eu próprio não consigo ver o que é que as atrai tanto.

 

- O Jade tem fama de mulherengo, não é verdade? Dorme com as empregadas também, não? - perguntei.

 

- Com as empregadas, com as clientes, com as clientes dos outros. Não há nada que ele não se rebaixe a fazer.

 

- É disso mesmo que eu tenho receio, Mister Berne acrescentei, entregando-lhe um cartão-de-visita com o meu número do telefone. - Se puder dizer-me qualquer coisa de útil, agradeço-lhe que telefone para este número e deixe uma mensagem. Há-de haver alguém que entre em contacto consigo. Obrigada pelo tempo que me dispensou.

 

Landry estacionou o seu automóvel entre os volumosos veículos todo-o-terreno, BMW e Jaguars, e assim que saiu começou logo a esquadrinhar o solo de modo a não pisar qualquer coisa desagradável. Tinha crescido numa cidade. Os seus conhecimentos sobre cavalos limitavam-se a saber que eram grandes e cheiravam mal.

 

O dia estava radioso e ameno. Semicerrou as pálpebras apesar das lentes escuras dos óculos de aviador, observando tudo o que o rodeava. Aquilo parecia um raio de um campo de refugiados - tendas e animais por tudo quanto era sítio.

 

Pessoas que se deslocavam em bicicletas e motoretas. A poeira levantava-se em nuvens espessas à passagem dos camiões.

 

Avistou a tabuleta com o nome de Don Jade, entrou na tenda e perguntou à primeira pessoa que encontrou onde estava Mr. Jade. Um homem de ascendência hispânica, que tinha uma forquilha cheia de esterco na mão, acenou-lhe com a cabeça para um dos lados da tenda.

 

- Lá fora - disse o homem.

 

Landry caminhou na direcção que ele lhe indicara. A meio caminho entre a tenda de Jade e a seguinte, avistou um homem que vestia roupa de montar a beber de um copo de plástico com o logotipo do Café Starbucks, ouvindo com um semblante passivo o que uma loura atraente lhe dizia. A loura dava a impressão de estar irritada.

 

- Mister Jade?

 

O par virou-se e ambos olharam para Landry, que se aproximava, exibindo o seu crachá.

 

- Sou o detective Landry, do Gabinete do Xerife. Gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

 

- Oh, meu Deus! - exclamou a loura rindo-se com um sorriso radiante. - Eu sabia que havias de ser apanhado! Não devias ter rasgado a etiqueta daquele colchão. - Focou o sorriso em Landry. - Paris Montgomery. Sou a assistente de Mister Jade, ajudo-o a treinar os cavalos.

 

Landry não lhe retribuiu o sorriso. Três horas de sono não lhe haviam fornecido energia suficiente para desperdiçar em falsas expressões de cortesia. Olhou para um ponto atrás da mulher.

 

- O senhor é Mister Jade? - perguntou o detective

 

- O que é que se passa? - retorquiu o interpelado, encaminhando-se com rapidez para a tenda, passando por Landry, numa tentativa para o afastar do local onde quem passasse poderia vê-los.

 

- Tomou conhecimento do que sucedeu aqui ontem à noite? - perguntou Landry. - Alguém soltou alguns cavalos duas tendas mais à frente.

 

- A do Michael Berne - adiantou Paris Montgomery. - Claro que estamos a par desse incidente. Foi horrível. É imprescindível que se faça alguma coisa quanto à segurança. Faz alguma ideia do quanto estes cavalos valem?

 

- Aparentemente, o seu peso em ouro - respondeu Landry, nitidamente entediado com o assunto da conversa. Por que diabo é que um cavalo haveria de valer um milhão de dólares, uma vez que não competia nas pistas de corridas?

 

- Ele não te deixará em paz, Don - disse a mulher, falando com o patrão. - Sabes bem que o Michael irá dizer a quem o quiser ouvir que foste tu que fizeste o servicinho... ou que encarregaste alguém de o fazer.

 

- E por que razão diz isso, Miss Montgomery? - inquiriu Landry.

 

- Porque se ajusta à maneira de ser do Michael: azedo e vingativo. Não há nada, excepto a sua falta de talento, que não seja culpa do Don.

 

- Já chega, Paris - interveio o visado, lançando-lhe um olhar velado. - Toda a gente sabe que o Michael é um homem invejoso.

 

- De quê? - perguntou Landry.

 

- Tem inveja do Jade - adiantou a mulher. - O Don é tudo o que o Michael não é e, quando os clientes do Michael se dão conta disso e o largam, ele culpa o Don. Provavelmente, foi ele mesmo que soltou os cavalos de modo a Poder culpabilizá-lo publicamente.

 

Landry mantinha os olhos presos em Jade.

 

Isso deve ser uma grande chatice. Já lhe ocorreu faZer qualquer coisa que o calasse?

 

A fisionomia de Jade não sofreu alteração. Calmo, impávido e controlado... ”Há muito tempo que aprendi a ignorar gente como o

 

- Devias ameaçá-lo com um processo judicial por libelo difamatório - sugeriu Paris. - Talvez isso o calasse de uma vez por todas.

 

- Difamação - corrigiu Jade. - A difamação é oral. O libelo difamatório é escrito.

 

- Não sejas tão imbecil! - ripostou Paris. - Ele está a fazer tudo e mais alguma coisa para arruinar a tua reputação. Mas tu andas por aí como se pensasses que vives isolado dentro de uma bolha. Julgas que ele não pode prejudicar-te? Achas que ele não enche o bichinho do ouvido do Trey sempre que tem oportunidade para isso?

 

- Não posso impedir o Michael de cuspir o veneno que tem dentro de si, tal como não está na minha mão evitar que as pessoas lhe dêem ouvidos - retorquiu Jade. - Mas tenho a certeza de que o detective não veio aqui para ouvir as nossas queixas.

 

- Também não estou aqui por causa dos cavalos adiantou Landry. - Há uma mulher que foi agredida quando tentava parar a pessoa que soltou os cavalos.

 

- Que mulher? - perguntou Paris Montgomery com os olhos castanhos muito arregalados numa expressão de choque. - A Stella? A mulher do Michael? Ficou ferida?

 

- Tanto quanto sei, existem alguns desaguisados entre si e o Michael Berne, Mister Jade - prosseguiu Landry. Importa-se de me dizer onde é que se encontrava às duas horas da última madrugada?

 

- Sim, importo-me - respondeu Jade, conciso, colocando-se ao lado do cavalo que estava atado numa cocheira aberta. - E agora, se me der licença, senhor detective, tenho de montar um cavalo.

 

- Talvez prefira discutir este assunto mais alongadamente no Gabinete do Xerife - sugeriu Landry. Não lhe agradava nada ser dispensado como se fosse um criado.

 

Jade lançou-lhe um olhar altaneiro, que as lentes dos óculos de sol não conseguiram ocultar.

 

- Talvez o senhor prefira tratar do assunto com o meu advogado.

 

- Poupe o seu dinheiro e o meu tempo, Mister Jade. Só precisa de me dizer onde é que estava a essa hora. A menos que tenha estado aqui, não terá qualquer problema.

 

Estive com uma pessoa amiga. E não foi aqui - adiantou Jade.

 

E essa pessoa amiga tem nome?

 

-Não no que lhe diz respeito. - Com esta resposta,

 

Don Jade apertou uma correia da sela. O cavalo arrebitou as orelhas.

 

Landry olhou em volta, à procura de um lugar para onde pudesse saltar, caso a besta enlouquecesse e começasse a espinotear. Tinha um aspecto maldoso, como se não hesitasse em morder.

 

Entretanto, Jade desatava as cordas que prendiam o animal na cocheira.

 

- A nossa conversa terminou - anunciou. - A não ser que tenha algo de concreto que estabeleça qualquer ligação entre mim e o que sucedeu, além do que os outros dizem, isto é, que o Michael e eu não nos damos bem... e, como sei que não tem, não tenciono voltar a falar consigo. Conduziu o cavalo para fora da cocheira, percorrendo o corredor.

 

Landry colou-se à parede de lona, sustendo a respiração: uma boa ideia, fossem quais fossem as circunstâncias, dada a natureza daquele lugar. O fedor a excrementos de cavalo, e só Deus sabia que mais, pairava no ar como uma mistura de fumo e nevoeiro. Quando o cavalo já se encontrava a uma distância que o salvaguardava de um eventual coice, Landry seguiu Jade.

 

- E quanto a si, Miss Montgomery?

 

A loura apercebeu-se do olhar que o patrão lhe lançava antes de se virar para Landry.

 

- Idem. O que ele disse aplica-se a mim. Também estaVa com uma pessoa amiga.

 

Saíram para a luz do sol e Jade montou o cavalo que Puxava pela rédea.

 

-- Paris, traz-me o casaco e o boné.

 

”É para já.

 

Jade não esperou por ela, obrigando o cavalo a dar meia volta e seguindo a trote.

 

- Estavam juntos? - perguntou Landry, voltando a entrar na tenda com Montgomery.

 

”Não. Credo! Nem pensar - exclamou ela. - Já me chegam as ordens que ele me dá durante todo o dia. Não estou interessada em recebê-las também durante a noite.

 

- Ele tem mau feitio.

 

- O que não é para admirar. As pessoas não lhe dão muitas oportunidades.

 

- Talvez porque não as mereça - retorquiu Landry. Foi atrás dela até à cocheira drapejada a verde, com uma carpete oriental no chão e quadros a óleo nas paredes de lona. Paris abriu um guarda-fatos antigo de onde tirou um casaco verde-azeitona e um boné forrado de veludo castanho.

 

- Você não o conhece - disse ela.

 

- Mas você conhece. Com quem é que lhe parece que ele esteve ontem à noite?

 

- Eu não ando a par da vida particular do Jade - replicou ela rindo-se ao mesmo tempo que abanava a cabeça. Esta é a primeira vez que ouço dizer que ele anda com alguém.

 

Porém, Landry pensava que era muito pouco plausível que isso fosse verdade. Tanto quanto lhe fora dado saber até ao momento, aquela gente dos cavalos, para todos os efeitos, vivia nos bolsos uns dos outros, unha com carne. Mas, proximidade à parte, eram todos ricos, ou fingiam ser ricos; e a única coisa de que as pessoas ricas gostavam mais do que sacanearem-se umas às outras era a coscuvilhice.

 

- Ele é muito discreto - acrescentou Montgomery.

 

- Imagino que seja isso que o tem mantido afastado da prisão: a discrição. O seu chefe já pisou o risco umas duas ocasiões.

 

- Mas nunca foi condenado por nenhuma infracção. Agora, se me der licença, tenho de ir para o picadeiro da escola antes que ele me mate a mim - declarou ela, acompanhando as palavras com um sorriso radioso. - Então é que você teria uma tarefa talhada à sua medida.

 

Landry seguiu-a até fora da tenda. Paris sentou-se ao volante de um carrinho eléctrico verde com o logotipo das cavalariças de Jade na dianteira, dobrou o casaco e colocou-o cuidadosamente no assento ao seu lado. O boné foi atirado para o cesto atrás do assento.

 

- E quanto a si, Miss Montgomery? O seu amigo misterioso tem nome?

 

- Sim, tem - respondeu ela pestanejando recatadamente. - Mas eu também não costumo apregoar a minha vida particular, senhor detective. Uma rapariga pode ficar com má reputação por fazer isso. - Ligou o motor eléctrico do carrinho e começou a afastar-se, chamando e acenando às pessoas à medida que passava pelas tendas. Uma rapariga muito popular.

 

Landry deixou-se ficar com as mãos nos quadris por uns momentos, apercebendo-se da presença de uma rapariga que o observava do interior da tenda. Via-a pelo canto do olho: gorducha e de aspecto desmazelado, usava uma camisola de algodão justa que mostrava as curvas e dobras de um corpo que seria preferível deixar à imaginação de cada um.

 

Landry queria voltar ao automóvel, desejando pôr-se dali para fora o mais depressa possível. Elena Estes tinha razão: ele estava-se nas tintas para o que aquela gente podia fazer entre si. Contudo, necessitava de justificar o que se tinha passado no seu gabinete a meio da noite, com Miss Estes a exigir falar com ele e com mais ninguém; os relatórios da ocorrência ainda não tinham sido preenchidos, e aquilo era um pesadelo que estava a foder-lhe o juízo! O seu tenente não ficaria nada satisfeito se Elena Estes não apresentasse queixa formalmente, deixando as coisas por aí. Ele era obrigado a dar seguimento ao assunto. Suspirou e virou-se, observando a rapariga.

 

- Você trabalha aqui? - perguntou-lhe.

 

Os olhos pequenos arregalaram-se. Tinha o aspecto de quem não sabia se havia de se borrar pelas pernas abaixo ou ter um orgasmo. Assentiu com a cabeça.

 

Landry voltou para dentro da tenda e tirou o pequeno bloco de apontamentos do bolso das calças.

 

- Nome?

 

- Jill Morone. M-O-R-O-N-E. Sou a chefe do pessoal da estrebaria de Mister Jade.

 

- Estou a ver. E onde é que esteve ontem à noite por volta das duas horas da madrugada?

 

Na cama - respondeu ela com ar presumido, senhora de um segredo que estava morta por contar. - Com Mister Jade.

 

Os escritórios dos Empreendimentos Gryphon situavam-se num prédio de estuque branco, com pretensões a estilo espanhol, em Greenview Shores, no lado oposto da rua da entrada virada a ocidente do Clube de Pólo. Estacionei num dos lugares reservados aos visitantes, ao lado do Jaguar de Bruce Seabright.

 

O vidro da janela da fachada do escritório estava quase totalmente coberto por um cartaz que publicitava a Urbanização Fairfíelds, com o retrato de Bruce Seabright no canto inferior direito. Exibia o tipo de sorriso que dizia: ”Eu sou um grande estupor, deixem que eu vos venda qualquer coisa que tem um preço sobrevalorizado.” Aparentemente, a estratégia resultava com algumas pessoas.

 

Os escritórios haviam sido esmeradamente decorados por um profissional com o objectivo de lhes imprimir uma atmosfera de luxo convidativo. Sofás em pele e mesas de mogno. Nas paredes viam-se os retratos de quatro homens e três mulheres. Tinham pequenas placas metálicas encastradas nas molduras com palavras encomiásticas sobre os retratados. Krystal Seabright era um deles.

 

A recepcionista parecia-se muito com ela. Excesso de joalharia em ouro e laca no cabelo. Perguntei a mim mesma se teria sido assim que Krystal e Bruce se tinham conhecido. O patrão e a secretária. Era uma história trivial, mas que acontecia com demasiada frequência.

 

- O meu nome é Elena Estes e quero falar com Mister Bruce Seabright - anunciei. - Gostaria de lhe fazer algumas perguntas sobre Fairfíelds.

 

- Um local maravilhoso - adiantou a mulher, brindando-me com um sorriso de vendedora em período de formação profissional. - Temos alguns estábulos espectaculares que só agora é que foram postos à venda nessa urbanização.

 

- Sim, eu sei. Já passei por lá.

 

- Como a propriedade de Mister Hughes! - informou ela com uma expressão de quase euforia. - Não acha que é de morrer por uma coisa assim?

 

- Receio bem que sim - repliquei.

 

A mulher premiu um botão no intercomunicador ligado ao gabinete de Seabright. Instantes depois, a porta no extremo mais afastado da recepção abriu-se para dar passagem a Bruce Seabright, que manteve a mão na maçaneta da porta. Usava um fato de algodão bege muito bem engomado e vestia uma camisa às riscas. Muito formal para o Sul da Florida, a terra das camisas floridas ao estilo havaiano e sapatos de sola de borracha.

 

- Miss Estes?

 

- Sim. Obrigada por me receber.

 

Passei por ele, entrei no gabinete e coloquei-me no extremo oposto da sala com as costas viradas para uma credencia de mogno.

 

- Queira fazer o favor de se sentar - convidou ele, instalando-se à sua secretária. - Posso oferecer-lhe alguma coisa? Café? Uma água?

 

- Não, obrigada. Quero agradecer-lhe por me receber sem ter marcado. Tenho a certeza de que é uma pessoa com muitos afazeres.

 

- É com satisfação que digo que sim. - Sorriu-me com o mesmo sorriso que mostrava na fotografia do cartaz Que publicitava Fairfields. - O negócio vai de vento em Popa. A nossa pequena jóia de Wellington está a ser descoberta. As propriedades aqui são tão procuradas como em qualquer outra área do Sul da Florida. E os terrenos em que a senhora está interessada são um exemplo por excelência.

 

- Para lhe ser franca, Mister Seabright, tenho de admitir que não estou aqui por causa desses terrenos.

 

O sorriso desapareceu, dando lugar a alguma confusão. O homem tinha umas feições miúdas e acentuadas, como as de um furão.

 

- Não estou a compreender. Disse que queria fazer-me algumas perguntas sobre a urbanização de Fairfields.

 

- E quero. Sou detective particular, Mister Seabright. Ando a averiguar um incidente no centro equestre que está relacionado com um dos seus clientes: Trey Hughes.

 

Seabright recostou-se para trás na cadeira, manifestamente desagradado com o rumo que a conversa estava a tomar.

 

- É evidente que conheço o Trey Hughes. Não é segredo para ninguém que ele comprou uns terrenos em Fairfields. Mas a verdade é que não ando por aí a falar dos meus clientes, Miss Estes. Tenho os meus princípios de ética.

 

- Não procuro informações de carácter pessoal. Estou mais interessada na urbanização. Quando foram os terrenos postos à venda. Quando comprou Mister Hughes o seu lote.

 

- Essa informação consta dos registos públicos - retorquiu Seabright. - Podia ter ido à Conservatória do Registo Predial para obtê-la.

 

- De facto podia, mas é a si que estou a perguntar.

 

- O que é que está por detrás disto? - perguntou ele. A confusão tinha dado lugar à desconfiança. - Que incidente é que anda a investigar?

 

- Recentemente, Mister Hughes perdeu um cavalo muito valioso. Temos de pôr todos os pontos nos ”is” e os traços nos ”tês”. Sabe como é.

 

- O que é que a compra desses terrenos tem a ver com a morte do cavalo?

 

- Isto é apenas um processo de rotina em que reúno informações relativas a acontecimentos passados. Se o proprietário tinha dificuldades de ordem financeira, se os terrenos em que Mister Hughes está a construir foram muito caros, enquanto a urbanização dos mesmos é...

 

- O Trey Hughes não precisa de dinheiro - atalhou Seabright, ofendido pelo que estaria implícito nas minhas palavras. - Qualquer pessoa lhe dirá que no ano passado ele herdou uma fortuna muito substancial.

 

- Antes ou depois de ter comprado a propriedade de Fairfields? - perguntei.

 

- Que diferença é que isso pode fazer? - perguntou ele sem ocultar a irritação que sentia. - Havia já algum tempo que ele se mostrava interessado nesses terrenos. Efectuou a compra na Primavera passada.

 

- Depois da morte da mãe?

 

- O que a senhora está a tentar insinuar não me agrada absolutamente nada, Miss Estes. Além do mais, esta conversa deixa-me muito pouco à vontade. - Levantou-se da cadeira, a um segundo de me pôr do escritório para fora.

 

- Tem conhecimento de que a sua enteada tem andado a trabalhar para o treinador de cavalos de Mister Hughes? perguntei.

 

- A Erin? O que é que a Erin tem a ver com isto?

 

- Eu própria gostaria de obter resposta a essa pergunta. Mas, ao que parece, ela desapareceu.

 

O nível de agitação de Seabright subiu mais um grau.

 

- O que é que a senhora... Mais exactamente, para quem é que trabalha?

 

- Essa informação é confidencial, Mister Seabright. Eu também tenho os meus princípios de ética - ripostei. O senhor interveio de alguma maneira para que a Erin conseguisse esse emprego?

 

- Não estou a ver em que é que isso possa dizer-lhe respeito - respondeu ele pouco satisfeito.

 

- Já se deu conta de que ninguém teve qualquer contacto com a Erin em quase uma semana?

 

- A Erin não é muito chegada à família - alegou ele.

 

- De verdade? Disseram-me que ela era muito chegada ao seu filho.

 

-- Quero o número da sua licença de trabalho - ripostou ele apontando-me o indicador, vermelho que nem um tomate.

 

Arqueei a sobrancelha que conseguia deslocar e cruzei os braços diante do peito, encostando-me à credencia.

 

- Por que razão está tão irritado comigo, Mister Seabright? Na minha opinião, qualquer pai ficaria mais preocupado por causa de uma filha do que por causa de um cliente.

 

- Eu não sou... - Conteve-se a tempo fechando a boca.

 

- Pai dela? - sugeri. - O senhor não é pai dela; portanto, não tem de se preocupar com ela, não é verdade?

 

Não estou preocupado com a Erin porque a Erin é responsável por si própria. É uma mulher adulta.

 

- Ela só tem dezoito anos - adiantei.

 

- E deixou de viver debaixo do meu tecto. Ela faz o que muito bem lhe apetece.

 

- Isso tem sido um problema, não é verdade? Aquilo que agrada à Erin não lhe agrada a si. Estas adolescentes... interrompi-me, abanando a cabeça como se o lamentasse. - A vida é muito mais fácil sem ela perto de vocês, não é?

 

Pareceu-me ver o corpo dele a vibrar, tanta era a cólera que se esforçava por conter. Olhou-me fixamente, gravando a minha imagem a fogo no seu cérebro, de modo a poder visualizar-me e odiar-me depois de eu ter saído.

 

- Saia do meu escritório! - ordenou ele em voz baixa, mas num sibilar cheio de tensão. - E se eu a vir aqui de novo, não hesitarei em chamar a Polícia.

 

Afastei-me da credencia a que me mantivera encostada, o que fiz com todos os vagares.

 

- E o que é que lhes diria, Mister Seabright? Que eu devia ser presa porque me preocupo mais com o que possa ter acontecido à sua enteada do que o senhor? Tenho a certeza de que eles acharão isso deveras curioso.

 

Com brusquidão, Seabright abriu a porta e chamou Doris numa voz alterada.

 

- Doris, telefone para o Gabinete do Xerife!

 

Doris ficou a olhar para ele de olhos esbugalhados.

 

- Peça para falar com o detective Landry - sugeri. -- Indique-lhe o meu nome. Será com toda a satisfação que ele se deslocará até cá.

 

Seabright estreitou os olhos, tentando perceber se eu estaria a falar a sério ou se aquilo não passava de uma fanfarronada.

 

Abandonei os escritórios da Gryphon por minha própria vontade; entrei no carro de Sean e pus-me a caminho... não fosse dar-se o caso de Bruce Seabright não estar a brincar.

 

- Meu Deus, El, pareces uma daquelas raparigas das bandas femininas dos anos oitenta do Robert Palmer.

 

Quando regressei a casa, baixei a capota do carro, na esperança de que o ar fresco me desanuviasse as ideias. Em vez disso, o sol cozeu-me o cérebro, enquanto o vento me pôs os cabelos em pé num penteado tragicamente neurasténico. Só me apetecia uma bebida e uma soneca ao sol à beira da piscina, sabendo de antemão que não permitiria a mim mesma nenhum dos dois desejos.

 

Sean inclinou-se para baixo, depositando um beijo na minha face, após o que me ralhou num tom de rabugice.

 

- Roubaste o meu carro.

 

- Condizia com o meu vestuário. - Saí do Mercedes, entregando-lhe as chaves. Sean vestia calças de montar e uma T-shirt preta com mangas, que arregaçara para mostrar os bíceps do tamanho de toranjas, e calçava botas.

 

- O Robert deve estar a chegar para a tua lição - proferi eu.

 

- Por que razão dizes isso? - perguntou ele, irritado.

 

- Por causa da camisola que mostra os músculos. Meu querido, és tão francamente transparente.

 

- Ora bem, miau, miau. Mas que felina que estamos hoje!

 

- Uma boa sova tem esse efeito em mim.

 

- Tenho a certeza de que a mereceste. Da próxima vez convida-me. Adoraria ter estado presente.

 

Lado a lado, atravessámos o picadeiro a caminho da caSa das visitas. Observando-me de soslaio, Sean franziu o sobrolho.

 

- Estás a sentir-te bem? - perguntou.

 

Dei à pergunta uma importância e consideração que eram indevidas, em vez de atirar a resposta comum desprovida de qualquer significado especial. Que momento tão estranho para ser como que atacada por um golpe de discernimento, pensei. Mas detive-me, tendo a percepção do que se passava no meu íntimo.

 

- Sim - disse. - Estou bem.

 

Por muito enredado e cansativo que este caso estivesse a revelar-se, apesar de eu ser uma interveniente a contragosto, era bom poder voltar a pôr em prática as minhas capacidades de outros tempos. É bom sentirmos que somos necessários a qualquer coisa.

 

- Óptimo - retorquiu Sean. - Mas agora vai pôr pó-de-arroz no nariz e transforma-te outra vez numa Cinderela. O teu outro eu está prestes a fazer-te uma visita.

 

- Quem?

 

- O Van Zandt - Sean proferiu o nome como se o cuspisse, como se fosse uma coisa amarga com caroço. E nunca digas que eu nunca me sacrifiquei por ti.

 

- A minha própria mãe não teria feito tanto por mim.

 

- E podes crer que isso é verdade, minha doçura. A tua mãe jamais permitiria que aquele monte de esterco penetrasse em sua casa pela porta de serviço. Tens vinte minutos até entrares em palco.

 

Tomei um duche e vesti um dos trajes que comprara nas lojas do hipódromo: uma saia vermelha cor de rubi, de um tecido transparente com muita roda, ao estilo dos saris, e uma blusa de linho amarelo. Pus várias braceletes num braço e calcei um par de sandálias de couro grosso, vestuário que completei com um par de óculos de sol com armações de tartaruga, e ali estava eu, ele Stevens, a Diletante.

 

Van Zandt acabara de chegar quando atravessei as cavalariças a caminho da área onde costumávamos estacionar os carros. Quando me avistou, apressou-se a vir ter comigo com os braços abertos. O meu velho amigo que há tanto tempo não via.

 

- Ele!

 

Sofri durante a rotina dos beijos na cara, colocando as mãos entre mim e o peito dele, tirando-lhe quaisquer hipóteses de poder abraçar-me. O cheiro enjoativo da água-de-colónia que usava penetrou-me na garganta como um punho cerrado.

 

- Três vezes - recordou-me ele, dando um passo atrás. - Como os Holandeses fazem.

 

- A mim parece-me ser apenas uma desculpa para uns apalpões - retorqui com um meio sorriso. - A libertinagem bem dissimulada. A que outras culturas costuma recorrer para poder apalpar à vontade, à guisa de boas maneiras?

 

- Isso depende muito da senhora em questão - respondeu ele, exibindo um sorriso bajulador e melífluo.

 

- E eu convencido de que você viera cá para ver os meus cavalos - interveio Sean. - Serei eu apenas uma espécie de barba?

 

- Se você é uma barba?! - retorquiu Van Zandt, ficando a olhar para ele com um ar intrigado. - Mas você nem sequer tem barba!

 

- É uma maneira de falar, Z. - expliquei. - Tem de se habituar ao Sean. Quando era criança, a mãe mandou-o para um campo de férias onde aprendeu a fazer teatro. Não consegue evitar estes impulsos.

 

- Ah, um actor!

 

- E não o somos todos? - atirou Sean com uma expressão de inocência. - Já pedi à minha moça que selasse o Tino... o castrado de que lhe falei. Gostaria de receber uns oitenta mil por ele. É um cavalo com muito talento, mas acontece que tenho muitos mais com talento. Se houver alguns clientes que andem à procura de...

 

- Pode ser que haja - atalhou Van Zandt. - Trouxe a minha câmara de filmar para poder fazer um vídeo que tenciono enviar a um cliente que vive na Virgínia e de que estou à espera. E quando você estiver pronto para começar a Procurar qualquer coisa nova, terei todo o gosto em lhe mostrar os melhores cavalos que existem na Europa. Traga a ele consigo. Podemos divertir-nos imenso. - Interrompeu-se, olhando para mim e observando a saia atentamente. - Hoje não tenciona montar, ele?

 

Ontem a farra foi em excesso - repliquei. - Estou a recuperar. O Sean e eu fomos ao Baile da Parametrite.

 

- A ele não é capaz de resistir a uma boa causa -- afirmou Sean. - Ou dizer não a um copo de champanhe.

 

- Perdeu toda a excitação que houve no hipódromo acrescentou Van Zandt, satisfeito por ter oportunidade de coscuvilhar. - Cavalos à solta. Alguém foi agredido. Inacreditável!

 

- E você esteve presente? - aproveitei para perguntar. - Pela calada da noite? Acha que a Polícia talvez queira falar consigo?

 

- Claro que eu não estive presente! - ripostou ele, irritado. - Como é que é capaz de pensar que eu faria uma coisa dessas?

 

- Z.., não faço a mais pequena ideia daquilo que você é capaz de fazer ou não - respondi-lhe com um encolher de ombros. - Mas sei que não é capaz de encaixar uma piada. Francamente, essas suas alterações de humor estão a ficar muito aborrecidas, e eu só o conheço há dois dias! - acrescentei, dando largas à irritação que me invadia. - Você está à espera que eu ande a viajar de automóvel pela Europa consigo e com as suas múltiplas personalidades? Está-me a parecer que preferiria ficar em casa a bater repetidamente com um martelo no polegar.

 

Van Zandt abriu a mão sobre o peito como se eu tivesse acabado de o ferir.

 

- Eu sou uma pessoa muito sensível. Só desejo coisas boas para todos. Não costumo andar por aí a acusar gente só para me divertir.

 

- Não leve as coisas tanto a peito, Tomas - aconselhou Sean quando estávamos a chegar às cavalariças. Todas as noites, antes de se deitar, a nossa ele costuma afiar a língua numa pedra de amolar.

 

- Para melhor te cortar em filetes, meu querido.

 

- Não é uma língua afiada que atrairá um marido atalhou Van Zandt fitando-me com uma expressão de amuo.

 

- Marido?! Por que razão haveria eu de querer uma coisa dessas? - perguntei. - Tive um em tempos, mas acabei por devolvê-lo à procedência.

 

- Por que motivo é que se há-de querer ser uma esposa quando se pode ter uma vida interessante? - perguntou Sean, mostrando um sorriso trocista.

 

Um ex-marido é muito melhor - concordei. - Só

 

metade do dinheiro, mas, em contrapartida, nenhuma das dores de cabeça.

 

Van Zandt começou a acenar com o indicador dirigido a mim, tentando mostrar-se bem-humorado.

 

- Você precisa de ser domesticada, sua pantera. Veria que depois a história passaria a ser outra.

 

- Não se esqueça de trazer o chicote e a cadeira para esse trabalho - sugeriu Sean.

 

Van Zandt dava a impressão de já ter imaginado isso e muito mais. Esboçou outro sorriso. Delico-doce.

 

- Sei muito bem como tratar uma senhora.

 

Pelo canto do olho avistei Irina que se aproximava.

 

Imagens fugazes de um par de pernas compridas e nuas e botas de montanhismo que rangiam. Vi que trazia qualquer coisa na mão. Parecia estar irritada e eu presumi - erroneamente - que seria com Sean por ele se ter atrasado ou por a ter obrigado a alterar a ordem das suas tarefas, ou ainda por causa de qualquer uma de cinquenta outras transgressões que, com regularidade, punham Irina pior do que uma barata. Parou a cerca de metro e meio de nós, gritou qualquer coisa grosseira em russo e arremessou a coisa que trazia na mão.

 

Van Zandt ficou tão embasbacado que não foi capaz de conter um grito de surpresa, mal conseguindo erguer um braço para desviar a trajectória da ferradura de aço antes que lhe atingisse a cabeça.

 

- Irina! - exclamou Sean, saltando à retaguarda, horrorizado.

 

A moça de estrebaria atirou-se a Van Zandt, qual míssil contra o alvo, a vociferar, muito irada.

 

--Porco! Porco asqueroso!

 

Quanto a mim, fiquei petrificada a olhar e assarapantada, enquanto Irina lhe dava socos com os punhos fechados. Ela era magra que nem um caniço, mas forte como um estivador, com os músculos dos braços claramente delineados. Entretanto, Van Zandt cambaleava para trás e para os lados, tentando afastá-la de si, mas ela agarrava-se a ele que nem gato a bofe.

 

- Cabra maluca! - gritava ele. - Tirem-na de cima de mim! Tirem-na de cima de mim!

 

Sean saltou em frente, apressando-se a agarrar a rapariga pelo rabo-de-cavalo de cabelo louro com uma mão, enquanto com a outra tentava manietar um braço que era selvaticamente desferido.

 

- Irina, pára com isso!

 

- Grande filho-da-puta! És um fílho-da-puta nojento! gritava ela enquanto Sean a puxava para trás, obrigando-a a largar Van Zandt, ao mesmo tempo que ela despejava mais obscenidades em russo, cuspindo vigorosamente para cima do belga.

 

- Ela é tarada! - berrou Van Zandt, limpando o sangue que tinha nos lábios. - Devia estar fechada à chave!

 

- Presumo que vocês se conhecem - disse eu com frieza.

 

- Eu nunca a tinha visto! A puta da russa é tarada! Ao ouvir isto, Irina tentou soltar-se de Sean, que não a largou; o semblante dela era a expressão do ódio e da raiva.

 

- Da próxima vez corto-te a garganta e cago nos teus pulmões, cabrão! Pela Sasha!

 

Van Zandt recuou, mostrando-se siderado.

 

- Irina! - gritou Sean manifestamente embasbacado.

 

- E que tal se as senhoras se retirassem por uns momentos? - alvitrei, pegando em Irina por um braço e conduzindo-a em direcção às portas de vidro da sala de estar.

 

A jovem emitiu um rosnido que acompanhou com um gesto grosseiro na direcção de Van Zandt, mas não se recusou a ir comigo.

 

Entrámos na sala de estar, uma divisão toda revestida com painéis de mogno, na qual havia um bar e sofás de pele. Irina começou a andar de um lado para o outro enquanto proferia obscenidades entre dentes. Fui ao bar e tirei uma garrafa de Stoli do congelador, servindo três dedos num copo de cristal sem pé.

 

- À tua, minha amiga - brindei, erguendo o copo antes de lho passar para a mão. Ela tomou a bebida alcoólica como se fosse água. - Tenho a certeza de que ele estava a pedi-las, mas importas-te de me pôr a par da situação que te levou a isto?

 

Irina bufava, chamando a Van Zandt todos os nomes ofensivos que lhe ocorriam, mas depois de desabafar suspirou e acalmou-se. Assim, sem mais nem menos: compostura instantânea.

 

Ele não é um homem agradável - disse ela.

 

- O fulano que costuma fazer a entrega das rações também não é agradável, no entanto, tu nunca te deixaste levar a tais extremos com ele. Quem é a Sasha? - perguntei.

 

Irina tirou um cigarro de uma cigarreira que estava em cima do balcão do bar, chegou-lhe lume e aspirou o fumo até encher os pulmões. Em seguida, expeliu lentamente, inclinando a cabeça de lado num ângulo gracioso. Numa outra encarnação, poderia ter sido a Greta Garbo.

 

- A Sasha Kulak. Uma amiga que conheci na Rússia. Ela foi para a Bélgica com o intuito de trabalhar para aquele porco porque ele lhe prometeu este mundo e o outro. Disse-lhe que lhe pagaria um ordenado e deixaria que ela montasse os melhores cavalos que ele tinha, que seria como se fossem sócios e que faria dela uma estrela no mundo dos espectáculos equestres. Um mentiroso asqueroso. Tudo o que ele queria era ir para a cama com ela. Conseguiu que ela fosse para a Bélgica e passou a comportar-se como seu dono. Achava que ela tinha obrigação de foder com ele e, ainda por cima, ficar agradecida. Mas ela recusou-se a isso. Era uma rapariga lindíssima. Por que razão haveria ela de foder com um homem tão feio?

 

- Por que razão é que alguém o haveria de fazer? Perguntei à guisa de comentário.

 

- A Sasha tinha dezoito anos e sentiu-se amedrontada. Viu-se num país estranho onde não conhecia ninguém, além de não falar a língua estúpida que eles falam. Ficou sem saber o que fazer da sua vida.

 

- Ela não podia ter ido à Polícia?

 

Irina olhou para mim como se eu fosse estúpida, sem se dar ao incómodo de me responder.

 

- Por fim, acabou por ir para a cama com ele - continuou Irina com aquele encolher de ombros tão à maneira dos Europeus que os Americanos nunca conseguem imitar. apesar de ela ter cedido, ele portou-se de uma maneir horrível. Pegou-lhe herpes. Passado algum tempo, ela decidiu roubar algum dinheiro e fugiu quando os dois andavam a Procura de cavalos pela Polónia.

 

”Ele telefonou para a família dela fazendo ameaças por causa do dinheiro que ela lhe tirou. Contou-lhes uma série de mentiras a respeito da Sasha. Quando ela regressou a casa, o pai pô-la na rua.

 

- Em vez de acreditar na filha, acreditou no que o Van Zandt lhe disse? - perguntei, perplexa.

 

- Entre os dois, venha o diabo e escolha. São iguais.

 

- E que destino é que a Sasha levou? - perguntei, curiosa.

 

- Matou-se.

 

- Oh, meu Deus, Irina! Lamento muito.

 

- A Sasha era uma pessoa muito frágil, como uma bonequinha de porcelana. - Fumou outro cigarro, mostrando-se pensativa. - Se houvesse um homem que me fizesse uma coisa destas, eu não me mataria. Havia de lhe cortar o pénis, dando-o a comer aos porcos.

 

- Um método deveras eficaz - concordei.

 

- E depois matava-o - acrescentou Irina.

 

- Se tivesses tido um bocadinho mais de sorte na pontaria, quando lhe atiraste a ferradura, talvez tivesses conseguido isso - disse eu.

 

Irina serviu-se de mais três dedos de Stoli, que começou a beber em pequenos goles. Fiquei a pensar em Van Zandt a abusar da sua autoridade daquela maneira censurável na pessoa de uma jovem desamparada. A maior parte das pessoas adultas teria tido muita dificuldade em lidar com um temperamento tão inconstante como o dele. Uma jovem de dezoito anos teria sido incapaz de fazer face à situação. O homem merecia precisamente o que Irina imaginara que lhe faria.

 

- Gostaria de dizer que me ofereço para o segurar no chão enquanto tu lhe dás pontapés - proferi eu. - Mas agora, Irina, a verdade é que o Sean está à espera que tu lhe peças desculpa.

 

- Antes disso, ele terá de beijar o meu cu russo.

 

- Não precisas de ser sincera.

 

Ela ficou a pensar naquilo. Se fosse eu, continuaria a dizer a Sean que antes teria de me beijar o cu. Todavia, não podia arriscar-me a afastar Van Zandt, muito em especial agora, tendo em vista o que Irina acabara de me contar.

 

A amiga Sasha estava morta. Talvez Erin Seabright ainda estivesse viva.

 

- Vamos - encorajei, antes que ela se decidisse a não fazer o que eu lhe pedia. - Vamos acabar com isto de uma vez por todas. Podes matá-lo no teu próximo dia de folga.

 

Quando saímos de casa, tomei a dianteira. Sean e Van Zandt encontravam-se no relvado, perto do bloco de montar. Van Zandt continuava vermelho que nem um tomate, esfregando o braço onde a ferradura lhe acertara.

 

Irina desprendeu Tino do poste na cocheira onde costumava ser arreado, levando o castrado para fora.

 

- Sean, peço desculpa pelo meu mau feitio - declarou Irina entregando-lhe as rédeas do cavalo. - Peço desculpa se lhe causei algum embaraço - acrescentou, fitando Van Zandt com um olhar gélido de desprezo. - Peço desculpa por o ter agredido na propriedade de Mister Avadon.

 

Van Zandt não proferiu palavra, limitando-se a olhá-la com uma expressão de censura. A jovem olhou para mim, como que a dizer: Está a ver o porco que ele é? Apresentado o pedido de desculpas, Irina afastou-se, subiu os degraus do belveder ao fundo do picadeiro e sentou-se numa cadeira.

 

- A czarina - comentei.

 

- Eu devia era chamar a Polícia - disse Van Zandt, amuado.

 

- Não acredito que faça isso.

 

- Ela devia estar fechada à chave - ripostou ele.

 

- Como você fechou a amiga dela? - perguntei com um ar muito inocente, desejando poder enfiar-lhe uma faca no meio das costelas.

 

-- Você acreditou nas mentiras que ela disse a meu respeito? - perguntou-me ele com a boca a tremer como se estivesse prestes a chorar. - Eu não fiz nada de censurável.

Dei um emprego a essa rapariga, uma casa onde viver... ”E herpes...”

 

Ela roubou-me - continuou ele. - Eu tratei-a como minha filha e ela roubou-me... e ainda por cima a contar mentiras acerca de mim!

 

Uma vez mais, o homem fazia o papel de vítima. Todos estavam contra ele. Os seus motivos eram sempre puros.

Não lhe fíz ver que nos Estados Unidos, se um homem tratasse uma filha da maneira como ele havia tratado Sasha, teria ido parar à cadeia e quando de lá saísse veria averbado no seu cadastro que atentara contra o pudor.

 

- Mas que ingrata - retorqui com ironia.

 

- Você acreditou nela - acusou ele, mostrando-se ofendido.

 

- Acredito em não me intrometer nos assuntos dos outros, e a sua vida sexual não é, nem nunca será, assunto que me diga respeito.

 

O homem cruzou os braços e fez beicinho, baixando o olhar, que fixou nos sapatos de pala com pequenas borlas às tiras. Entretanto, Sean montara, procedendo a uma rotina de aquecimento no picadeiro.

 

- Esqueça a Irina - sugeri. - Ela é apenas uma empregada. Quem é que se interessa com o que as moças de estrebaria têm para dizer? Deviam ser como as crianças bem-comportadas: vistas, mas nunca ouvidas.

 

- Estas raparigas deviam saber qual é o seu lugar resmungou ele, taciturno, enquanto abria o fecho de correr do estojo de onde tirou a câmara de vídeo. - Ou então, devia haver alguém que a pusesse no seu lugar.

 

Senti um calafrio que me percorreu a espinha, como um dedo ossudo e gelado.

 

Enquanto observávamos Sean que trabalhava o seu cavalo, eu sabia que nenhum de nós se concentrava na qualidade do animal. Os pensamentos de Van Zandt haviam enveredado por uma senda muito sinistra. Era forçoso que ele estivesse a pensar como é que poderia conter os danos causados à sua reputação: era provável que Irina - e, possivelmente, eu - não hesitasse em espalhar a história de Sasha por Wellington, o que daria origem a perder alguns clientes. Ou, quem sabe, estaria, muito simplesmente, a fantasiar a maneira como estrangularia Irina com as suas próprias mãos, ouvindo os ossos da garganta a estalarem como pequenos galhos secos. Entretanto, Irina continuava no belveder a fumar um cigarro, com uma perna por cima do braço do amplo cadeirão de vime, sem nunca desviar o olhar que mantinha em Van Zandt.

 

Os meus pensamentos corriam numa outra direcçãoPerguntava-me se Tomas Van Zandt teria pensado que Erin Seabríght devia ter-se sentido satisfeita em aceitar os seus avanços amorosos, ou se ele já a teria ”posto no seu lugar”. Reflecti sobre a percepção que tinha da situação, a qual me dizia que fora Erin a largar Chad, perguntando-me ainda se Van Zandt, ou alguém como ele, teria feito promessas à jovem para depois as quebrar da maneira mais cruel. Mais ainda, perguntei de novo a mim própria se todas estas probabilidades terríveis teriam sido possíveis graças a Bruce Seabright.

 

Erin não se enquadrava no conceito que ele tinha da filha perfeita, e agora fora arredada do seu caminho. Caso ela viesse a aparecer já cadáver, teria ele um sentimento de culpa por um momento que fosse? E se ela nunca chegasse a aparecer, sentiria durante um único segundo que a culpa recaía sobre ele? Ou, pelo contrário, sentir-se-ia satisfeito por um trabalho bem feito?

 

Pensei no meu próprio pai, perguntando a mim mesma se ele se teria sentido aliviado se a filha ingrata houvesse desaparecido sem deixar rasto. Provavelmente, sim. Sempre me opus a tudo o que ele era, e representava, sem fazer o mínimo segredo disso. Não hesitei em desafiá-lo, enveredando por uma profissão que era dedicada a pôr na cadeia o tipo de pessoas que ele defendia em tribunal, a gente que lhe proporcionava os meios necessários para o estilo de vida em que eu fora criada. Mas, por outro lado, talvez, na perspectiva dele, eu tivesse desaparecido. Havia vários anos que não o via nem falava com ele. Tanto quanto eu sabia, na mente dele, eu deixara de existir.

 

Pelo menos o meu pai não me votara a um destino sombrio. A única responsável por isso era eu e mais ninguém.

 

Se Bruce tinha arranjado as coisas de maneira a que Erin fosse trabalhar para Trey Hughes, e este, por seu lado,

a despachasse para Jade, através dele, ela ficara exposta a Van Zandt. Verdade fosse dita, Erin nunca tivera uma palavra a dizer em relação ao seu destino. A ironia de tudo isto

é que ela imaginara que estava a ganhar a sua independência ao assumir o controlo da sua vida. Mas quanto mais prolongado fosse o seu desaparecimento, mais pouco provável

seria que ela viesse a sair dessa situação com uma vida para

viver.

 

Quando Sean acabou de exibir Tino, Robert Dover chegou para a aula de equitação. Sean trocou o cavalo por outro, deixando-me a tarefa de acompanhar Van Zandt até à porta.

 

- Acha que a sua cliente da Virgínia terá interesse no cavalo? - perguntei.

 

- A Lorinda Carlton? - replicou com o encolher de ombros tão europeu. - Dir-lhe-ei para se interessar, pelo que sim, estará interessada - acrescentou ele. A palavra de Van Zandt, ámen! - Ela não é uma cavaleira muito talentosa, mas possui cem mil dólares para gastar. Tudo o que tenho a fazer é convencê-la de que este cavalo é o seu destino, e todos viverão felizes e contentes para todo o sempre.

 

Excepto a mulher que comprava um cavalo que não seria capaz de dominar, pensei. Mas, nesse caso, Van Zandt haveria de a convencer a vender o animal para comprar outro. Evidentemente que ele receberia dinheiro pelas duas transacções, e o ciclo recomeçaria uma vez mais.

 

- Não devia revelar os segredos do seu negócio - disse eu. - Deixou-me desiludida.

 

- Você é uma mulher muito inteligente, ele. Conhece bem os meandros deste mundo dos cavalos. É um negócio difícil. As pessoas nem sempre são simpáticas. Contudo, eu costumo olhar pelos meus clientes. Sou-lhes leal e espero que sejam leais para comigo.

 

Espantoso. Acabara de admitir que tencionava enganar a mulher da Virgínia, levando-a a comprar um cavalo que não era adequado às suas qualidades equestres, o que faria com o objectivo de cair nas boas graças de Sean Avadon, mas, no minuto seguinte, não hesitava em falar de lealdade, como se ele próprio fosse o exemplo acabado da virtude.

 

- Está livre para o jantar, ele? - perguntou-me. Gostaria de a levar ao Players. Podíamos aproveitar para conversar sobre o tipo de cavalo que quero para si.

 

Achei aquele convite revoltante. Sentia-me exausta e tinha dores nas costas, além de estar farta até à ponta dos cabelos do carácter repugnante do homem, ao que acresciam as suas alterações bipolares de humor. Só me apetecia fazer o mesmo que Irina fizera, saltar para cima dele, dar-lhe tantas e chamar-lhe tantos nomes obscenos quantos me viessem à mente até ele não saber de que terra era. Ao invés disso, limitei-me a dizer-lhe:

 

- Esta noite não, Z. Estou com dores de cabeça.

 

- Eu não sou nenhum monstro - retorquiu ele mostrando-se magoado e, uma vez mais, irritado. - Tenho integridade. Tenho carácter. As pessoas que andam neste negócio às vezes zangam-se, espalham boatos. Você tem obrigação de saber que não se deve acreditar em tudo o que nos chega aos ouvidos.

 

-- Pare - disse eu erguendo uma mão. - Pare com isso, de acordo? Deus nos valha. Estou cansada, dói-me a cabeça. Quero passar o serão dentro do jacuzzi sem ninguém a falar comigo. Por muito difícil que lhe seja compreender esta minha necessidade, a verdade é que não tem nada a ver consigo.

 

Ele não acreditou no que eu dizia, mas, do mal o menos, decidiu mudar de táctica. Endireitou-se e fez um acenar de cabeça para si próprio.

 

- Você há-de ver, ele Stevens. Nem sonha como poderei ajudá-la. Vou fazer de si uma campeã - prometeu. Verá que espécie de homem é que eu sou.

 

No fim, essa foi a profecia que ele fez que de facto veio a provar ser verdade.

 

Jill colocara-se defronte do espelho de corpo inteiro, bastante ordinário, nada usando além da maquilhagem, um sutiã de renda preta e umas cuecas tipo fio dental. Virava-se em várias posições, praticando vários olhares. Timidez, malícia, sensualidade. Este último era o seu preferido. Condizia com o sutiã.

 

Era demasiado apertado, uns dois tamanhos abaixo do seu número, vincando-lhe os flancos, mas fazia com que os seios parecessem maiores, o que ela achava ser uma vantagem. À semelhança das mulheres que apareciam na Hustler, as mamas davam a impressão de estarem inchadas, transbordando para fora do sutiã. Não lhe era difícil imaginar Jade a mergulhar o rosto no rego dos seios. Aquela visão provocou-lhe um formigueiro entre as pernas, o que desviou a sua atenção para as cuecas de fio dental.

 

Também eram demasiado pequenas para o seu tamanho, com as tiras muito fininhas a vincarem a gordura das ancas. Os pêlos púbicos projectavam-se para fora dos dois lados da tira de renda preta que mal lhe cobria a pubes. Contorceu-se toda para tentar ver o traseiro, nu e branco, largo e com covinhas. Não lhe agradava a maneira como a tira de renda se enfiava no rego das nádegas, mas concluiu que seria melhor habituar-se àquela sensação. Aquele tipo de cuecas era muito sensual. Os homens gostavam. Só desejava que aquela cabra, Erin, não tivesse sido tão estuporadamente magrinha. Talvez se as cuecas de fio dental fossem do tamanho apropriado, a sensação não fosse tão desagradável

 

Ora bem, pelo menos eram de borla. Além do mais até certo ponto, o saber que haviam pertencido a outra pessoa era algo que a excitava. Estava a ocupar o lugar de Erin - nos estábulos e no mundo. Com Erin desaparecida, Jill poderia passar a ser a que namoriscava os homens todos. Jill poderia passar a ser a mais esperta.

 

Todavia, continuaria a estar sempre à sombra de Paris Montgomery.

 

Essa puta!

 

Jill ficou com uma expressão carrancuda quando se recordou daquilo. A imagem que a olhava do espelho não era muito bonita.

 

Ela odiava Paris. Detestava o sorriso dela, odiava os olhos grandes, odiava os cabelos louros. Odiava Paris mais do que odiara Erin. Havia odiado mais as duas em conjunto do que odiara qualquer outra coisa em toda a sua vida. Em conjunto, as duas assemelhavam-se às raparigas muito populares na escola: sofisticadas de mais para poderem ser amigas de alguém como Jill, sempre com piadas que só elas partilhavam e olhares felinos. Pelo menos, agora não seria obrigada a suportar mais aquela merda. Mas a verdade é que ainda havia Paris.

 

Os homens andavam todos caidinhos por Paris. Ela conseguia que qualquer pessoa fizesse tudo o que ela lhe pedisse. Ninguém parecia ver o quanto era falsa. Todos achavam que ela era espirituosa, doce e simpática. Mas de simpática não tinha nada. Quando as pessoas não estavam a ver, Paris era mandona, uma autêntica cabra cheia de maldade. Andava constantemente a fazer comentários irritantes em que dizia que Jill comia de mais, que Jill precisava de fazer exercício físico, que Jill não sabia como se vestir.

 

Jill olhou-se no espelho de alto a baixo e, de repente, viu exactamente a mesma coisa que Paris Montgomery costumava ver. Não uma mulher sexy que usasse roupas interiores sensuais, mas sim um rosto gordo com uns olhos porcinos e uma boca descaída com um ricto de azedume; braços inchados devido ao excesso de gordura; pernas gordas com joelhos que faziam covas; um corpo que odiava tanto que era frequente imaginar que pegaria numa faca para cortar grandes postas de gordura. Era uma rapariga feia, uma figura patética, com aquela roupa interior furtada e demasiado pequena para o seu tamanho.

 

As lágrimas começaram a cair-lhe pelas faces, que ficaram de um vermelho malhado. Jill não tinha culpa de ser gorda. A mãe é que deixara que isso acontecesse quando era miúda. Por conseguinte, agora não conseguia evitar comer as coisas mais inadequadas. Também não era por sua culpa que não fazia ginástica. Chegava ao fim do dia muito cansada... - apesar de a estuporada Paris passar a vida a censurá-la, dizendo-lhe que não trabalhava o suficiente.

 

Por que é que havia ela de se esforçar a trabalhar mais para Paris? Esta não lhe dava o mínimo incentivo nesse sentido; portanto, se não trabalhava tanto quanto ela queria, a culpa era toda dela. Também não era por sua culpa que não tinha roupas bonitas. Não ganhava o suficiente para comprar roupas bonitas. Era forçada a roubar nas lojas para poder ter algumas dessas coisas. E merecia-as tanto como qualquer outra pessoa - em boa verdade, ainda mais, levando em consideração que as pessoas a tratavam de forma tão mesquinha.

 

Pois bem, ela haveria de fazer ver a Paris Montgomery, pensou, remexendo num amontoado desarrumado de roupas que atirara para cima dos lençóis da cama, ainda por fazer. Ela haveria de tomar o lugar de Paris Montgomery, tal como já tomara o de Erin.

 

Jill sabia que podia ser uma cavaleira tão boa como Paris o era, se houvesse alguém que lhe desse uma oportunidade. Nunca tinha tido um cavalo que fosse suficientemente bom, mais nada. O pai comprara-lhe uma pileca, um appoloosa barato que não prestava para nada. Como é que se esperaria que ela fosse longe no mundo da competição montada num animal daqueles? Em tempos escrevera uma carta ao irmão da mãe, pedindo-lhe que lhe comprasse um cavalo a sério. Não percebia por que razão não haveria ele de lhe fazer a vontade. Ao fim e ao cabo, o homem era rico. O que eram setenta ou oitenta mil dólares para ele? Mas o tio nunca lhe deu notícias. O sacana forreta!

 

Ela também havia de lhe mostrar! Ainda faria ver a toda a gente o que era. Seria rica e mostraria os melhores cavalos... e participaria nas Olimpíadas. Tinha tudo planeado. Precisava apenas que lhe dessem uma oportunidade, e sabia muito bem onde é que a conseguiria.

 

Do monte de roupas que Erin deixara, Jill tirou uma blusa branca de renda elástica e transparente. Tinha-se apoderado das coisas da outra, considerando-as como suas. E porque não? Não se podia dizer que as tivesse roubado, dado que a outra deixara as coisas em casa. Com esforço, lá conseguiu vestir a blusa. Apesar da elasticidade do tecido, a frente, nos espaços entre os botões, abria-se. Desabotoou os três de cima, mostrando o rego dos seios e o sutiã preto. Isso ajudou um pouco. Além do mais, era sensual. O tipo de peça de roupa que Britney Spears usava constantemente. Fora por essa razão que Erin comprara aquela blusa. Erin vestia-se sempre dessa maneira: tops curtos e calças justas. E os olhos dos homens não a largavam... - incluindo os de Don.

 

Jill começou a procurar qualquer coisa num outro amontoado de roupa. Encontrou uma minissaia vermelha de um tecido elástico que roubara num Wal-Mart. Em qualquer dos casos, aquela saia estava em promoção, por isso, a loja não ficara a perder grande coisa. Vestiu-a, contorcendo-se e puxando daqui e dali até a saia ficar no devido lugar. O delineado das cuecas demasiado pequenas, e todas enfiadas no rabo, acentuava-se excessivamente por baixo da saia, mas calculou que isso seria bom. Era como se estivesse a fazer publicidade ao seu corpo.

 

Nas orelhas colocou um par de argolas enormes e para o pescoço optou por um colar que tirou de um monte de bijuterias que também pertenciam a Erin, a que acrescentou vários braceletes que roubara na Bloomingdale’s, considerando que estava pronta. Com dificuldade, calçou um par de sandálias com uma sola altíssima, agarrou na bolsa e saiu do apartamento. Ia mostrar a toda a gente quem era, e tencionava começar nessa noite.

 

Sentado à sua mesa de trabalho, Landry sentia-se um autêntico mentecapto, passando uma vista de olhos a várias páginas no ecrã do computador. Noite de sexta-feira e era àquilo que a sua vida se resumia.

 

Tudo por culpa da Elena Estes, pensou, carrancudo. Tinha permitido que esta frase se tivesse tornado o mote do dia. Como um espinho, ela espetara-se por baixo da pele para o irritar. Por causa dela, ali estava ele, sentado à sua secretária a ler ficheiros de artigos publicados em jornais já muito antigos.

 

A sala da brigada estava quase deserta. Havia dois agentes de serviço no turno da noite, que punham a papelada em dia. Há muito que o turno de Landry terminara, pelo que os outros quatro colegas com quem trabalhava já tinham ido para casa ter com as namoradas, ou com as mulheres e os filhos, ou então estariam no bar que costumavam frequentar a beber e a reclamar de tudo e mais alguma coisa, como os polícias habitualmente faziam.

 

Landry encontrava-se à sua secretária a tentar desenterrar qualquer coisa com respeito àquela gente dos cavalos. Nem Jade nem a sua assistente tinham cadastro criminal. A moça de estrebaria que, alegadamente, andava a foder com Jade havia sido apanhada em duas ocasiões por furto em lojas e uma vez por conduzir sob a influência do álcool. À primeira vista, ficara com a impressão de que a rapariga era bastante estranha, no que não se havia enganado. Não acreditava que ela tivesse estado com Jade na noite de sexta-feira; no entanto, ela sentira-se obrigada, de qualquer maneira, a fornecer um álibi ao indivíduo. Landry era forçado a interrogar-se porquê.

 

Saberia a rapariga que Jade estivera envolvido na tramóia de soltar os cavalos de Michael Berne? Teria sido ela a autora da façanha, e, ao fornecer um álibi a Jade, arranjara automaticamente um para ela própria? Talvez tivesse sido Jade que a instigara a fazê-lo. No entanto, ele dava a impressão de ter a inteligência necessária para não se meter num golpe desses. Caso a rapariga fosse apanhada, a qualquer altura, ele poderia negar ter conhecimento do que ela andava a tramar. Nada o impediria de alegar que teria sido uma tentativa disparatada para merecer a aprovação do patrão.

 

Sem dúvida que Michael Berne acreditava firmemente que Jade estivera por detrás do incidente. Nessa tarde, Landry conversara com Berne, tendo chegado a pensar que o homem estivera à beira das lágrimas ou de sufocar, enquanto culpava Don Jade por todos os problemas que tinha a sua vida. O que é que Paris Montgomery havia dito? Que Berne acusava Jade de tudo e mais alguma coisa, com a excepção da sua falta de talento. Ao que tudo indicava, Berne pensava que Jade era uma espécie de Anticristo responsável por todos os males que afligiam o negócio dos cavalos. Talvez o homem não estivesse completamente enganado. Elena Estes elucidara Landry sobre o passado de Jade, o que acontecera aquando da primeira vez que falara com o detective, descrevendo-lhe os esquemas utilizados para matarem cavalos, tendo como objectivo a indemnização a pagar pelas companhias de seguros. Apesar dessas suspeitas, nunca ninguém tocara no indivíduo. Qual serpente escorregadia, Jade conseguira esgueirar-se por debaixo de todos esses rumores.

 

Fraudes cometidas contra as companhias de seguros, a morte de cavalos... Landry perguntava-se o que poderia Erin Seabright saber a esse respeito. E por que razão não se sabia nada dela, o que o impedia de a interrogar?

 

Nessa mesma tarde, Landry entrou em contacto com as autoridades policiais de Ocala, pedindo-lhes que tentassem localizar a rapariga nas redondezas, ao mesmo tempo que difumdira um alerta para que todos os agentes das forças policiais do condado de Palm Beach se mantivessem atentos, procurando o automóvel dela. O mais provável era ter deixado a cidade devido a um novo emprego, ou por causa de um novo namorado, mas, para o caso de as coisas não se terem passado assim, não fazia mal nenhum cobrir todas as alternativas possíveis.

 

E se alguém lhe perguntasse o que diabo é que ele andava a fazer, responderia que era tudo por culpa de Elena istes, pensou Landry, irritado.

 

Bebeu pequenos goles do seu café, olhando por cima do ombro. Os agentes de serviço no turno da noite continuavam às voltas com a papelada. Landry premiu duas teclas, chamando ao ecrã do computador um artigo num jornal que relatava a detenção dos irmãos Golam, dois anos antes. Já o lera há algumas horas, pelo que conhecia bem o seu conteúdo, sabia com toda a precisão qual o parágrafo que os seus olhos iriam procurar: o parágrafo que descrevia como a detective Elena Estes, da Brigada de Narcóticos, ficara pendurada na porta do todo-o-terreno de Billy Golam antes de cair e de o veículo lhe ter passado por cima. Fora arrastada durante quase cinquenta metros pela Alameda Okeechobee, tendo sido hospitalizada em estado crítico na altura em que o jornalista escrevia aquele artigo.

 

Landry imaginava tudo por que ela devia ter passado desde esse dia fatídico, as muitas semanas, meses, em que estivera deitada numa cama de hospital. Perguntou a si mesmo o que se teria apoderado dela que a levara a saltar para o todo-o-terreno, numa tentativa de tirar o volante das mãos de Billy Golam.

 

Polícias da Brigada de Narcóticos. Eram todos uns cobóis, sem uma única excepção.

 

Entretanto, haviam decorrido dois anos. Interrogou-se sobre o que teria ela feito durante todo esse tempo e por que razão se decidira a sair das sombras, onde vivera até agora, motivada por aquele caso. Landry gostaria de saber qual o motivo por que a vida dela se cruzara com a sua.

 

Não lhe restava a mínima dúvida de que não queria os problemas que a acompanhavam. Mas ali estava. Mordera o isco. Agora via-se envolvido no caso, quer quisesse quer não.

 

E tudo por culpa de Elena Estes.

 

Jill saiu a correr pelas portas da frente do Players, a bufar e a soluçar, com grossas lágrimas que lhe corriam pelas faces, abrindo carreiros de rímel preto. Com as costas da mão, limpou o ranho que lhe escorria das narinas, após o que afastou uma madeixa de cabelo pegajoso que lhe caíra para os olhos.

 

Os porteiros mantinham-se de lado, observando-a de olhos arregalados, sem dizerem nada. Não lhe perguntaram se ela queria que fossem buscar o seu automóvel, uma vez que sabiam de antemão, bastava olhar para ela, que não teria um carro que tivesse valido a pena estacionar. Só estacionavam as viaturas das pessoas belas, ricas e magras.

 

- Para que é que estão para aí a olhar? - perguntou Jill, desabrida. Os homens entreolharam-se com expressões de troça. - Vão-se foder! - vociferou, desatando a correr e continuando a chorar enquanto atravessava o parque de estacionamento, caindo de uma das sandálias abaixo e torcendo o tornozelo. Aos tropeções, deixou cair a carteira bordada com contas que roubara na Neiman Marcus, e tudo o que tinha dentro ficou espalhado pelo pavimento.

 

- Raios partam isto tudo! - praguejou, rastejando apoiada sobre os joelhos e as mãos; partiu uma unha quando pegava no batom e num pacote de preservativos. - Foda-se! Foda-se!

 

O cuspo, as lágrimas e o ranho corriam-lhe pela cara, caindo no cimento. Jill dobrou-se sobre si mesma, como se fosse uma bola, e chorou ruidosa e desabaladamente, o corpo todo sacudido pelos soluços. A dor parecia inchar dentro dela como se fosse uma bolha que rebentasse com outra vaga de pranto.

 

Porquê? Fizera essa pergunta um milhão de vezes ao longo da sua vida. Porque estava fadada a ser sempre a gorda, a mais feia; aquela de quem ninguém gostava, quanto mais amar? Não era justo. Por que razão é que uma espécie de destino a obrigava a trabalhar esforçadamente para tentar mudar, quando estupores como Erin e Paris tinham tudo sem o mínimo esforço?

 

Limpou a cara à manga da blusa de renda branca, apanhou do chão as suas coisas e, a custo, pôs-se de pé. Viu um casal elegante, já idoso, que se afastava de um Jaguar, ficando a olhar para ela com uma expressão que não andava longe do horror. Jill fez-lhes um gesto obsceno com o dedo médio. A mulher ficou com a respiração suspensa e o homem rodeou-lhe os ombros com o braço numa atitude protectora, apressando-a em direcção ao edifício.

 

Jill abriu a porta do carro, atirando a bolsa e as coisas que haviam caído no chão para o assento do passageiro da frente. Num movimento brusco, sentou-se ao volante, bateu com a porta e, uma vez mais, desatou a chorar. Com os punhos fechados, batia no volante, até que o alvo da sua fúria Passou a ser o vidro da janela, tocando na buzina acidentalmente e mostrando-se surpreendida ao ouvir o som que troava pelo ar.

 

O seu grande plano. A sua grande sedução. Em que paródia tão fodida se transformara!

 

Tinha ido ao Players sabendo de antemão que Jade estava lá, convencida de que a convidaria para tomar uma bebida, o que lhe proporcionaria a oportunidade de se atirar a ele, informando-o da forma como o ajudara quando o polícia falara com ela. Esperara que ele se mostrasse agradecido, impressionado com o seu raciocínio rápido, grato pela sua lealdade para com ele. E, a rematar, os dois acabariam em casa dele, onde teriam fodido até mais não poder. Essa seria a primeira fase do seu plano com vista a ver-se livre de Paris de uma vez por todas.

 

Porém, tudo lhe tinha corrido mal, porque nunca ninguém lhe dava uma oportunidade. O mundo inteiro, toda a gente estúpida, estava contra ela. Quando entrou no restaurante, Jade ainda não chegara, e o chefe de mesa quis pô-la na rua. Do que ela se apercebeu quando ele a olhou de alto a baixo com uma expressão que não deixava margem para dúvidas, como se pensasse que ela era uma prostituta ordinária ou algo do género. Não acreditou quando ela lhe disse que estava à espera de uma pessoa. A empregada de mesa e o empregado do bar tinham juntado as cabeças, rindo-se à socapa enquanto ela se sentava à mesa, onde ficou à espera como uma idiota a beber uma Coca-Cola, porque eles não aceitaram o cartão de identidade falso que ela lhes apresentou, recusando-se a servir-lhe qualquer bebida alcoólica. E depois, aquele nojento do Van Zandt surgiu, quase embriagado, convidando-se a si próprio para se sentar à sua mesa.

 

Mas que idiota! As coisas más e cheias de veneno que ela se vira obrigada a ouvir sobre si própria; porém, naquele momento, o homem convenceu-se de que, de repente, podia fingir uma grande simpatia por ela, tentando usar o encanto para lhe saltar para cima. Durante os primeiros quinze minutos, o homem não despregara os olhos do rego dos seus seios. E quando ela lhe disse que estava à espera de uma pessoa, teve o descaramento de se mostrar ofendido. Como se ela alguma vez tivesse manifestado vontade de ter relações sexuais com ele. E que tinha de mais o facto de ele lhe ter oferecido uns dois copos? Isso não queria dizer que ela lhe devia uma mamada, precisamente o que ele queria. Se ela se decidisse a chupar uma picha nessa noite, decerto não seria a dele.

 

E então, por fim, Jade chegara. Olhou-a com uma expressão de tal maneira desdenhosa que Jill só desejou fragmentar-se como se fosse um copo de vidro. As palavras irritadas que ele proferira ainda lhe ecoavam nos ouvidos, como se lhas tivesse gritado, embora, na realidade, ele se limitasse a chamá-la de parte ao corredor, tendo falado com ela sem nunca elevar o tom de voz acima de um quase sussurro.

 

- Em que estavas tu a pensar quando decidiste vir aqui vestida nesses preparos? - perguntou-lhe Jade numa entoação de voz que exigia resposta. - Tu és minha empregada. O teu comportamento em público reflecte-se na minha pessoa.

 

- Mas eu só estava a...

 

- Eu não quero a expressão ”puta de rua” associada à minha estrebaria.

 

Jill ficou com a respiração suspensa, como se ele a tivesse esbofeteado. Foi nessa altura que Michael Berne passou pelo corredor. Ela já o vira pelo canto do olho, a fingir que fazia um telefonema, mas sempre a observá-los.

 

- Eu encontro-me com os meus clientes neste restaurante - prosseguiu Jade. - É aqui que trato de alguns dos meus negócios.

 

- Eu s... só q... queria ver-te - disse ela, titubeante, sentindo um nó na garganta e as lágrimas a assomarem-lhe aos olhos. - Eu q... queria contar-te o que...

 

- O que é que se passa contigo? Pensas que podes vir aqui para perturbar a minha noite? - perguntou Jade, irritado.

 

--M... mas eu tenho de t... te dizer... que sei tudo sobre o Stellar...

 

- Se precisas de falar comigo seja sobre o que for, terás de o fazer nas cavalariças durante as horas de serviço.

 

- M... mas...

 

- Está tudo bem por aqui? - perguntou Michael Berne intrometendo-se na conversa como se lhe dissesse resPeito, o idiota sardento e magricelas.

 

Isto não é da tua conta, Michael - ripostou Jade., A jovem dá-me a impressão de estar muito perturbada prosseguiu Berne, mas, quando olhou para Jill, esta apercebeu-se de que lhe era absolutamente indiferente se ela estava perturbada ou não. Olhara-a da mesma maneira que todos os outros homens a haviam olhado naquela noite... como se ela andasse a vender-se, mas sendo obrigada a baixar o preço.

 

- Meta-se na sua vida! - exclamou Jill, lançando-lhe um olhar furioso através de um véu de lágrimas. - Não precisamos de si a cheirar onde não é chamado, nem de qualquer outra pessoa!

 

- Devias tratar dos teus assuntos pessoais num lugar mais privado, Jade - observou Berne num tom muito afectado, antes de se afastar. - A tua atitude demonstra uma grande falta de profissionalismo.

 

Jade esperou que Berne estivesse a uma distância em que não poderia ouvi-lo, e só então é que se voltou de novo para ela, mais encolerizado do que nunca.

 

- Põe-te a andar daqui para fora! Sai antes que me embaraces mais do que já fizeste. Amanhã falaremos acerca deste assunto, logo de manhã! Isto é, se eu conseguir olhar para ti! - Para todos os efeitos, as palavras dele assemelhavam-se a um punhal que a golpeasse. A dor que ela sentiu foi tão profunda como se ele a tivesse esfaqueado.

 

”Ele que se foda!”, pensava Jill agora. Don Jade era o seu patrão e não o seu pai. Não lhe assistia nenhum direito para lhe dizer como devia vestir-se, ou onde é que podia ir ou não podia ir. Não podia chamar-lhe puta sem sofrer as consequências.

 

Todo o trabalho que ela fazia para Don Jade e era assim que ele a tratava... Teria sido de bom grado a sua parceira - na cama e fora dela. Teria sido leal para com ele. Estava disposta a fazer qualquer coisa por ele. Mas chegara a conclusão de que ele não a merecia, tão-pouco à sua lealdade e devoção. Merecia que as pessoas o atraiçoassem, que o apunhalassem pelas costas. Merecia tudo o que eventualmente pudesse vir a acontecer-lhe.

 

A pouco e pouco, houve uma ideia que começou a tomar forma no pensamento de Jill enquanto se deixava ficar sentada no automóvel. Não era obrigada a permitir que a tratassem como se fosse um monte de esterco. Não era obrigada a ouvir os outros chamarem-lhe nomes. Podia arranjar emprego em qualquer cavalariça onde quisesse trabalhar. Don Jade que se fosse foder!

 

Saiu do parque de estacionamento, virando à esquerda a caminho de South Shore e seguindo em direcção ao centro equestre, sem prestar a mínima atenção ao automóvel que se mantinha atrás do seu.

 

Molly conseguia ouvir Bruce e a mãe, que discutiam acaloradamente. Não percebia tudo o que diziam, mas o tom de voz era inequívoco. Estava deitada no soalho do seu quarto, junto da grelha da conduta do sistema de ventilação. O quarto dela ficava mesmo por cima do escritório de Bruce, onde era frequente que chamasse a mãe, Chad ou Erin a fim de lhes ralhar por causa do último pecado que tivessem cometido contra ele. Há muito que Molly aprendera a dar nas vistas o menos possível perante os homens com quem a mãe costumava sair. Não fazia excepção com relação a Bruce, ainda que agora, pelo menos tecnicamente, ele fosse o seu pai. Não pensava nele nesses termos. Pensava nele como sendo alguém em cuja casa, por mero acaso, vivia.

 

A discussão era a respeito de Erin. O nome da irmã sobressaía nos altos e baixos do desaguisado. Sem dúvida que se passava qualquer coisa. A mãe já se mostrara bastante perturbada quando Molly chegara da escola, andando de um lado para o outro numa manifestação de nervosismo, saindo de rompante pela porta das traseiras para fumar cigarro após cigarro. O jantar fora entregue pelas Pizas Domino, refeição em que Krystal não tocara. Por seu lado, Chad tragara aquilo que seria o suficiente para pôr a abarrotar um lobo, e quando acabou de comer saiu logo de casa, antes que Bruce regressasse do escritório.

 

E quando este franqueou a porta, Krystal pediu imediatamente para falar com ele no escritório.

 

Molly estava de tal maneira preocupada que sentia o estômago às voltas. Apercebeu-se de que o nome de Erin era mencionado, ouvindo também a palavra ”polícia”.

 

O timbre de voz da mãe passara da ansiedade às lágrimas histéricas. Bruce mantinha uma entoação constante de cólera. Mesclado com as vozes, ouvia-se um som mecanizado, como se o vídeo estivesse ligado e a cassete fosse constantemente rebobinada e avançada. Molly não era capaz de entender o significado daquilo. Talvez Krystal tivesse encontrado uma videocassete pornográfica no quarto de Chad. Mas a ser esse o caso, porquê a menção ao nome de Erin e não ao de Chad?

 

Com o coração a bater, desenfreado, Molly saiu do quarto, descendo sorrateiramente pelas escadas das traseiras. A casa estava às escuras, com a excepção da luz que vinha do escritório. Em bicos de pés, encaminhou-se para o vestíbulo, sustendo a respiração. Se a porta do escritório se abrisse, seria apanhada. A sala onde a família costumava reunir-se era contígua ao escritório. Se ela conseguisse entrar nessa sala... Esgueirou-se para o canto por detrás de uma planta ornamental, agachando-se colada à parede.

 

- Não vamos chamar a Polícia, Krystal - dizia Bruce. - Em primeiro lugar, não acredito que isto seja verdade. Deve ser um embuste qualquer...

 

- Mas... e se não for? - interpôs Krystal.

 

- Eles disseram para não se chamar a Polícia.

 

- Meu Deus! Não sou capaz de acreditar que isto esteja a acontecer - observou Krystal numa voz trémula.

 

- Não vejo por que motivo não haveria de suceder ripostou Bruce. - Ela é tua filha. Sabes muito bem que tem sido sempre uma fonte inesgotável de problemas.

 

- Como é que podes falar dessa maneira? --Com toda a facilidade. É a verdade.

 

- Consegues ser um cabrão de merda tão cruel! Não POSSO acreditar. Ai, ai! Estás a magoar-me! Bruce!

 

Molly ficou com os olhos marejados de lágrimas. Apertou os braços à volta dos joelhos, elevando-os até ao peito, tentando não tremer.

 

-Já te pedi que não usasses esse tipo de linguagem, Crystal. Não podes ser uma senhora a falar como um marinheiro.

 

-Peço desculpa. Peço desculpa. Estou muito ralada.

 

Não tive intenção de dizer o que disse.

 

- Estás a proceder irracionalmente. Tens de tentar controlar-te, Krystal. Tens de reflectir neste assunto com lógica. A cassete diz que a Polícia não deve ser envolvida.

 

- O que é que vamos fazer?

 

- Eu trato do assunto - disse Bruce.

 

- Mas eu penso que...

 

- Alguém te perguntou o que pensavas? - atalhou Bruce interrompendo-a.

 

- Não.

 

- Krystal, quem é que toma as decisões nesta casa?

 

- A pessoa que está mais bem preparada para as tomar- respondeu Krystal obedientemente, depois de um suspiro trémulo.

 

- E quem é essa pessoa? - prosseguiu ele, implacável.

 

- Tu.

 

- Obrigado. Agora deixa as coisas comigo. Toma um comprimido para dormir e vai para a cama. Não há nada que possamos fazer esta noite.

 

- Sim - anuiu Krystal numa voz que mal se ouvia. Acho que vou seguir o teu conselho.

 

Molly sabia, com base em experiências passadas, que a mãe tomaria mais do que um comprimido, ingerindo-os com vodca. Em seguida, recolher-se-ia no seu próprio pequeno mundo, fazendo de conta que tudo na sua vida estava bem e era agradável. Molly, entretanto, sentia-se nauseada, tanta era a preocupação que a afligia. Tudo o que conseguira escutar só servira para a atemorizar. O que é que Erin teria feito desta vez? Qualquer coisa de muito terrível para levar Krystal a querer chamar a Polícia.

 

- Vou dar uma volta de carro para desanuviar as ideias informou Bruce. - Tive um dia horrível. E agora isto!

 

Molly manteve-se muito quieta, rezando para que nenhum dos dois se dirigisse à sala de estar, fosse por que razão fosse. Ouviu os saltos altos da mãe no chão de azulejos do vestíbulo. Krystal subia sempre ao primeiro andar pelas escadas principais porque achava que eram muito bonitas, e ela sempre sonhara viver numa casa sumptuosa. Bruce passou pela porta da sala a caminho da cozinha. Molly deixou-se ficar imóvel até ouvi-lo a sair pela porta de ligação entre a cozinha e a garagem. Esperou até escutar o barulho do motor e a porta da garagem quando se fechou; por precaução, aguardou por mais uns momentos. Só quando teve a certeza de que ele já se tinha ido embora é que, sorrateira, saiu do seu esconderijo, dirigindo-se para o escritório.

 

Ninguém tinha autorização para entrar no escritório de Bruce quando ele não se encontrava presente. O homem esperava que toda a família respeitasse a sua privacidade, apesar de, com bastante regularidade, ele não hesitar em invadir a privacidade dos outros. Aquela era a sua casa e ele não permitia que ninguém se esquecesse disso.

 

Molly ligou a luz do candeeiro da secretária, olhando à sua volta e concentrando-se na estante e nas paredes cobertas de retratos de Bruce a apertar a mão a figuras importantes, Bruce a receber prémios por isto e por aquilo, coisas que se relacionavam com o seu trabalho e os serviços que prestava à comunidade. Tudo o que constituía o recheio daquela divisão encontrava-se exactamente como ele queria, e se alguma coisa surgisse deslocada, um milímetro que fosse e por muito pequena que fosse, ele reparava imediatamente.

 

Molly olhou por cima do ombro enquanto pegava no controlo remoto do televisor e do aparelho de vídeo. Carregou no botão que iniciaria o filme e esperou, tão nervosa que toda ela tremia.

 

O filme começou sem qualquer título, ficha técnica ou o que quer que fosse. A primeira imagem era uma rapariga de pé junto de um portão que dava para uma estrada secundária. Erin. Molly ficou a ver horrorizada uma carrinha branca que se aproximava e um homem com a cara coberta que saltava para a rua, agarrando-a e atirando-a para o interior do veículo.

 

Nesta altura, começou a ouvir pelo sistema de som uma voz automatizada que não reconheceu. ”Temos a vossa filha em nosso poder. Se chamarem a polícia...”

 

As lágrimas molharam as lentes dos óculos de Molly

 

Quando premiu o botão de paragem, ejectou a cassete e,

 

num passo cambaleante, se sentou numa cadeira, estendeu a

mão e tirou a cassete do aparelho. Queria dar largas ao seu

desespero. Apetecia-lhe vomitar. Mas não fez nada disso.

 

Sem largar a cassete, atravessou a casa a correr até à zona das lavagens, de onde tirou o casaco pendurado num cabide de parede. Embrulhou a cassete no casaco, que atou pelas mangas à cintura. Tremia que nem varas verdes, sem saber se teria forças para fazer aquilo que achava dever fazer. Tudo o que lhe ocorria era que tinha de tentar.

 

Abriu a porta da garagem, subiu para a bicicleta e saiu de casa, pedalando com quantas ganas tinha pela rua abaixo, desaparecendo na noite.

 

Não obstante o facto de todos os agentes das forças policiais do condado de Palm Beach me odiarem, eu continuava a manter alguns contactos nesse meio. Telefonei a um agente do FBI que conhecia dos escritórios regionais em West Palm. Armedgian e um outro agente haviam coordenado esforços com a Brigada de Narcóticos aquando de um caso que envolveu traficantes de heroína, em West Palm Beach, com ligações em França. Armedgian fora o responsável por todo o trabalho entre as duas forças, os escritórios dos representantes do FBI em Paris, as autoridades francesas e a Interpol. O caso prolongara-se por seis meses e, durante esse período, Armedgian tornara-se não só um contacto, mas também um amigo, o tipo de amigo a quem eu podia telefonar para que me desse algumas informações.

 

Liguei-lhe ao fim do dia, apresentando-me pela segunda vez. ”Fala a Elena Estes. Recorda-se de mim? We’ll always have Paris...” ”Claro que sim”, dissera ele, embora primeiro tenha feito uma pausa... e manifestasse um acréscimo de tensão no seu tom de voz.

 

Pedi-lhe que tentasse obter-me o máximo possível de informações a respeito de Tomas Van Zandt e da World Horse Sales, através da Interpol. Uma vez mais, uma pausa- Tinha eu retomado o serviço policial? Ele pensava que eu abandonara a profissão depois de... bem, depois...

 

”Teremos Paris para sempre”; alusão a uma das falas do filme Casablanca interpretado por Ingrid Bergman e Humphrey Bogart. (N. da T.) Literalmente, ”Vendas Mundiais de Cavalos.” (N. da T.)

 

Expliquei-lhe que estava a ajudar uma amiga que se vira envolvida com um fulano de má reputação num negócio, e eu tinha ouvido dizer que o indivíduo era um vigarista. Queria saber apenas se ele possuía registo criminal. Não me parecia que fosse pedir de mais, pois não?

 

Armedgian emitiu os habituais resmungos de quem protestava, manifestando o receio de vir a ser apanhado e censurado. Na realidade, os agentes federais eram autênticos miúdos de escola, preocupados por terem de ir à casa de banho e serem apanhados nos corredores sem o passe que os autorizava a sair da sala de aulas, o que acrescentaria uma reprimenda à caderneta escolar, arruinando a sua vida para sempre. Por fim, ele acabou por concordar em fazer o que eu lhe pedia.

 

Tomas Van Zandt não se transformara no que era da noite para o dia. Não era descabido imaginar que, se ele tinha aterrorizado uma rapariga, não hesitaria em fazer a mesma coisa a outras jovens. Talvez houvesse uma que tivesse tido a coragem de se queixar às autoridades. Mas, por outro lado, parte do controlo que ele exercera sobre Sasha Kulak só fora possível devido ao facto de ela estar num país estrangeiro, onde, possivelmente, entrara de forma ilegal.

 

Pensar neste assunto punha-me furiosa. O homem era um predador que se aproveitava de mulheres em situações vulneráveis, quer estas trabalhassem para ele ou fossem suas clientes. E a coisa que me enfurecia verdadeiramente face a esta situação era o facto de essas mulheres vulneráveis se recusarem a ver o perigo num homem como Van Zandt, ou optando por se convencerem a si próprias de que não tinham outro recurso para além de sofrer. Um psicopata como Van Zandt conseguia cheirar essa fraqueza a milhas de distância.

 

Peguei no cartão-de-visita que ele me dera e examinei-o. Podia ligar-lhe para o telemóvel, pedindo-lhe, uma vez mais, desculpa pelo comportamento de Irina, sugerindo-lhe que nos podíamos encontrar para tomar um copo... Talvez eu tivesse sorte e me visse forçada a matá-lo em legítima defesa lá mais para o fim da noite.

 

Já estendia a mão para o telefone quando houve qualquer coisa que bateu com força na porta da frente da minha casa. Automaticamente, a minha mão dirigiu-se para a Glock que pousara em cima da mesa para a limpar. Numa fracção de segundos, os meus pensamentos reviram vários enredos possíveis. Pouco depois, as batidas na porta recomeçaram e através da madeira ouvi uma vozinha a medo.

 

- Elena! Elena!

 

- Molly.

 

Apressadamente, abri a porta e, acto contínuo, a garota caiu já dentro de casa como se tivesse sido soprada por um furacão. De tão transpirada que estava, tinha o cabelo muito baço. Estava branca como a cal da parede.

 

- Molly, o que é que se passa? O que é que aconteceu? - perguntei-lhe, inquieta, conduzindo-a para uma poltrona onde ela como que se desfez, qual feixe flácido; a falta de respiração deixara-a ofegante.

 

- Como é que vieste até aqui? - perguntei-lhe.

 

- Na minha bicicleta.

 

- Meu Deus! Estamos a meio da noite. Se precisavas de falar comigo, porque não me telefonaste?

 

- Não podia. Não me atrevi.

 

- Tiveste alguma notícia da Erin?

 

Desatou as mangas do blusão que apertara à cintura, procurando qualquer coisa dentro das dobras de tecido. Tinha as mãos a tremer violentamente quando encontrou uma videocassete, que me entregou.

 

Inseri a cassete na ranhura do aparelho de vídeo e carreguei no botão. Fiquei a ver o drama que se desenrolava no ecrã do televisor, sabendo que Molly já fizera o mesmo, mas no meu caso com um pressentimento de desgraça iminente que sabia que ela não podia sentir porque não tinha vivido tantos anos como eu, e tão-pouco vira o que eu já havia visto. Observei a irmã ser atirada para o chão e dePois empurrada para dentro de uma carrinha branca. Em seguida, comecei a ouvir aquela voz distorcida electronicamente, o que fora feito com o intuito de a disfarçar ou para Assustar quem a ouvisse, ou as duas coisas: ”Temos a vossa filha em nosso poder. Se chamarem a Polícia, ela morre, trezentos mil dólares. Instruções mais tarde.”

 

A imagem imobilizou-se. Desliguei o aparelho de vídeo e virei-me para a criança. Molly, a executiva em miniatura, desaparecera. Molly, a adolescente disfarçada de adulta, já não estava ali. Sentada à minha mesa, pequena e com uma aparência de fragilidade, encontrava-se Molly, a criança de doze anos, aterrorizada, receando pela vida da irmã mais velha. As lágrimas ficavam presas atrás das lentes dos óculos à Harry Potter, as quais ampliavam o medo que se reflectia nos seus olhos.

 

A garota esforçava-se por mostrar coragem enquanto esperava que eu dissesse alguma coisa. Aquela sua atitude quase me atemorizava mais do que a própria cassete.

 

Agachei-me à sua frente, com os braços a rodearem os braços da poltrona.

 

- Onde é que arranjaste isto, Molly? - perguntei-lhe.

 

- Ouvi a minha mãe e o Bruce a discutirem por causa da Erin - explicou-me ela em voz baixa. - Quando eles saíram do escritório dele, entrei e foi então que encontrei isto.

 

- Isso quer dizer que eles já viram esta cassete, não é verdade?

 

Molly assentiu com a cabeça.

 

- O que é que eles fizeram?

 

As lágrimas começaram a correr-lhe pelos lados dos óculos, caindo-lhe pelas faces. Falou numa vozinha que mal se ouvia.

 

- Nada - respondeu.

 

- Eles não contactaram a Polícia?

 

- O Bruce disse que tratava do assunto e depois mandou a minha mãe para a cama - disse ela, abanando a cabeça numa atitude de perplexidade. Não me foi difícil detectar a cólera que fervilhava dentro da garota, ao ponto de a enrubescer. - E depois ele saiu para dar uma volta de automóvel, disse que era para desanuviar as ideias porque tivera um dia horrível. Odeio aquele homem! - gritou ela, batendo violentamente na mesa com um pequeno punho cerrado. - Odeio-o! Ele não fará nada porque não quer que ela volte para casa! A Erin vai morrer por causa dele! Nesse momento, as lágrimas caíam-lhe, abundantes, e Molly cambaleou para mim, lançando os braços à volta do meu pescoço.

 

Eu nunca soube como confortar as pessoas. Talvez por nunca me ensinarem, dando-me o exemplo. Ou, talvez quem sabe, eu tivesse ocultado as minhas dores no mais recôndito do meu ser, sem nunca permitir que ninguém as aflorasse. Contudo, o sofrimento de Molly era avassalador, não me deixando qualquer alternativa a não ser partilhá-lo. Fechei os braços à volta dela, afagando-lhe os cabelos com uma mão.

 

Mas o assunto não dependerá dele, Molly - disse eu à guisa de promessa. - Tens-me a mim, estás lembrada?

 

Nesse momento, senti um medo genuíno. Aquilo já não era um caso que eu não queria, em que o desfecho mais provável não teria consequências de maior. Deixara de ser uma simples questão de trabalhar num determinado caso. Eu sentia-me ligada àquela criança que tinha nos braços. Eu havia assumido um compromisso. Eu que não quisera nada mais, para além de me esconder com a minha infelicidade, até conseguir reunir coragem para deixar esta vida.

 

Abracei-a com mais força, não por ela, mas por mim.

 

Fiz uma cópia da cassete e, em seguida, colocámos a bicicleta de Molly no porta-bagagens do meu automóvel, tomando o caminho de Binks Forest. Era quase meia-noite.

 

Jill entrou na sala dos arreios de Jade, ligando um pequeno candeeiro em cima de uma cómoda antiga. Pegou num frasco de óleo para couros que estava numa prateleira com vários artigos de limpeza, desatarraxou a tampa, abriu a gaveta onde Jade guardava as calças de montar e regou-as com o óleo. Sabia, por ter visto os preços num catálogo, que aquelas calças custavam, no mínimo, duzentos dólares. Depois, abriu o guarda-fatos, tirou os dois casacos feitos por medida e também os ensopou, fazendo o mesmo às camisas acabadas de passar a ferro, também feitas por medida.

 

Mas não lhe pareceu que aquilo fosse suficiente. Queria sentir mais satisfação.

 

Jill ficara incumbida de limpar as cocheiras ao fim do dia, porque Javier, o tipo guatemalteco, tivera de sair mais cedo. Mas a verdade é que ela não gostava de apanhar esterco à pazada, pelo que se limitara a revolver a camada de palha, alisando-a depois para cobrir os excrementos de cavalo. Naquele momento, ria-se à socapa enquanto se dirigia à primeira cocheira, de onde tirou o cavalo cinzento de Trey Hughes. Colocou o cavalo na cocheira vazia onde Stellar estivera instalado, após o que agarrou na forquilha, levando-a para a cocheira do cinzento e começando a revolver a palha até pôr os montículos de excrementos à mostra, fazendo o mesmo à palha nos pontos onde estava ensopada de urina. O cheiro a amoníaco irritava-lhe o nariz, fazendo com que esboçasse um sorriso malicioso.

 

Pondo a forquilha de lado, regressou à área dos arreios e pegou na pilha de roupa.

 

Quando deparasse com aquela porcaria, Jade teria um ataque de fúria. Saberia logo que a responsável era ela, mas não conseguiria prová-lo. Em princípio, devia apresentar-se no picadeiro para uma exibição logo pela manhã. Não teria roupa nenhuma que pudesse usar. Os cavalos não se encontrariam preparados. E Jill estaria muito ocupada estendida na praia, bronzeando-se ao sol enquanto procurava um fulano que a excitasse.

 

Estendeu as peças de roupa pelo chão da cocheira, por cima das pilhas de porcaria e de mijo de cavalo e, em seguida, começou a andar em círculos em volta da cocheira, espezinhando as roupas caras de Jade, calcando-as contra aquilo. Ensiná-lo-ia a não tratar as pessoas como se fossem suas escravas. Não podia humilhá-la sem sofrer as consequências desse acto. Grande filho-da-puta! Ia arrepender-se do que lhe fizera. Ela poderia ter sido sua aliada, sua espia. Ao invés disso, no que lhe dizia respeito, ele podia apodrecer no inferno.

 

- Vai-te foder, Don Jade! Vai-te foder, Don Jade! Jill repetia estas palavras numa lengalenga enquanto continuava a dar voltas à cocheira.

 

Não tinha receio de poder ser apanhada por Jade. Ele continuava naquele clube de gente empertigada, a tentar impressionar algum cliente ou alguma mulher. Em princípio, caberia a Paris passar por ali naquela noite para ver se estava tudo bem, mas Jill sabia que, na realidade, ela quase nunca cumpria essa obrigação quando era a sua vez.

 

Não ocorreu a Jill que poderia haver alguém de outros estábulos que fosse ao hipódromo, ou que poderia ser vista por um dos seguranças quando estes fizessem as suas rondas. Era muito raro que fosse apanhada quando fazia coisas menos ortodoxas. Como, por exemplo, riscar a porcaria do Carro de Erin com uma chave. Toda a gente pensara que esse acto de vandalismo fora obra de Chad porque o rapaz estivera em casa dela nessa mesma noite, e ele e Erin tinham discutido. em tempos, Jill trabalhara no Wall-Mart, de onde

fartara toda a espécie de artigos, mesmo debaixo do nariz do gerente. Mas era muito bem feito que a loja tivesse ficado prejudicada, uma vez que haviam sido estúpidos ao ponto de contratar um fulano tão idiota como aquele gerente.

 

- Vai-te foder, Don Jade! Vai-te foder, Don Jade! - cantarolava ela enquanto, toda satisfeita, ia calcando as peças de roupa na porcaria.

 

Foi então que alguém acendeu as luzes das cavalariças.

 

Jill deteve-se de repente, imobilizando-se por completo. Sentia as batidas aceleradas do seu coração. A ressonância nos ouvidos tornava impossível que ela se apercebesse da aproximação de alguém. Enquanto ajustava os olhos à claridade inesperada, ainda que fraca, conseguiu ver silhuetas, mas a cocheira onde se encontrava era demasiado recuada, numa das extremidades da tenda, pelo que recebia pouca luz do potente candeeiro de rua.

 

Alguns cavalos começaram a agitar-se nas respectivas cocheiras. Outros relinchavam - num sinal de nervosismo, concluiu Jill. Sem ver, começou a apalpar a parede de lona, tentando encontrar a forquilha. Tinha-a deixado no extremo mais afastado da cocheira. Virou-se de costas para a portinhola, continuando a procurá-la.

 

Tudo aconteceu com tanta rapidez que ela ficou incapaz de reagir. Houve alguém que surgiu inesperadamente por trás dela. Ouviu o roçagar da palha no chão, pressentindo a presença de outra pessoa. Antes que tivesse oportunidade de gritar, uma mão tapou-lhe a boca. Num gesto de desespero, fechou as mãos no cabo da forquilha, contorcendo-se numa tentativa para se libertar das mãos de quem a atacara, o que, após muitos esforços, conseguiu, cambaleando para trás enquanto descrevia um arco alargado com a forquilha, batendo em qualquer coisa. No entanto, tinha as mãos muito perto da extremidade do cabo, o que não lhe permitia agarrá-lo com firmeza, impossibilitando-a de imprimir muita força quando desferia golpes com a forquilha, tendo esta acabado por lhe saltar das mãos, indo bater contra a parede de lona.

 

Tentou gritar, mas da garganta não lhe saiu qualquer som. Como se estivesse a ter um pesadelo, o som morreu-lhe na garganta. Nessa fracção de segundos, Jill teve a percepção de que ia morrer.

 

Mesmo assim, ainda tentou correr para a entrada da tenda. Sentia as pernas pesadas como se fossem de chumbo com os pés a enredarem-se nas roupas que tinha espalhado pelo chão. Como se tivesse uma corda com uma laçada na ponta à volta dos tornozelos, as roupas eram como que puxadas de debaixo dos seus pés. Caiu pesadamente para a frente, ficando sem respiração. Vindo por trás, o seu agressor atirou-se para cima dela.

 

Ouviu um som - uma voz - mas esta não se elevava acima do latejar que sentia nos ouvidos, associado ao barulho dos arrancos que lhe assomavam à garganta enquanto se esforçava por respirar, chorar e implorar. Sentiu que a minissaia era puxada acima das nádegas, ao mesmo tempo que uma mão se introduzia entre as suas pernas, rasgando as cuecas minúsculas.

 

Jill tentou impulsionar-se para a frente. Sentia uma pressão horrível no meio das costas, que se estendeu até à nuca, obrigando-a a baixar violentamente a cabeça contra o chão, enterrando o rosto no esterco de cavalo que devia ter limpo ao fim do dia. Não conseguia respirar. Tentou virar a cabeça, mas não foi capaz, esforçou-se por inspirar, mas, em vez de ar, a boca encheu-se-lhe de merda; ainda tentou vomitar, mas sentiu uma excruciante sensação de ardor no peito.

 

Depois, Jill deixou de sentir fosse o que fosse.

 

Nas proximidades da casa dos Seabright reinava o silêncio; todas aquelas casas, espaçosas e encantadoras, estavam às escuras, com os seus residentes mergulhados numa ignorância abençoada quanto aos graves problemas da família na porta ao lado. Num dos lados do andar térreo da vivenda dos Seabright ainda havia luzes. O primeiro andar estava totalmente às escuras. Perguntei-me se Krystal estaria realmente a dormir.

 

Bruce tinha-a ”mandado para a cama”, dissera Molly. Como se ela fosse uma criança. A filha fora raptada e o marido limitara-se a dizer-lhe que se fosse deitar, como se nada fosse. Ele trataria do assunto. Se Krystal não tivesse visto a cassete de vídeo, perguntei a mim mesma se Bruce não a teria atirado para o lixo, sem estar com meias-medidas, como a publicidade que se recebe pelo correio e se deita fora.

 

Molly abriu a porta da frente, indicando-me o caminho até ao escritório que Bruce Seabright tinha em casa, a divisão de onde provinha a luz. A porta do escritório estava aberta. Bruce encontrava-se no interior, a resmungar entre dentes enquanto procurava qualquer coisa na prateleira da estante mais próxima do televisor.

 

- Anda à procura disto? - perguntei, mostrando-lhe a cassete.

 

- O que é que está a fazer aqui? - perguntou ele girando sobre si mesmo. - Como é que entrou em minha casa? - O seu olhar furioso pousou em Molly, parcialmente escondida atrás de mim. - Molly? Foste tu quem deixou esta pessoa entrar?

 

--A Elena pode ajudar...

 

- Ajudar em quê? - perguntou ele, abrupto, recusando-se a aceitar os factos, apesar de eu estar ali com a cassete em que se via a enteada a ser raptada na mão. - Não precisamos da ajuda dela para nada.

 

- Acha que consegue tratar deste assunto sem a ajuda de ninguém? - perguntei-lhe, atirando a cassete para cima da secretária.

 

- Acho que deve sair da minha casa antes que eu chame a Polícia - ripostou ele.

 

- Essa ameaça, comigo, não resulta. Pensei que esta manhã você tinha aprendido essa lição.

 

A boca do homem fechou-se como se apertada num nó, enquanto ele me observava por entre os olhos semicerrados.

 

- A Elena já trabalhou como detective no Gabinete do Xerife - adiantou Molly, saindo da minha sombra. - Ela sabe muita coisa a respeito dessas pessoas com quem a Erin trabalhava, e...

 

- Molly, vai para a cama - ordenou Seabright peremptoriamente. - Amanhã falo contigo, minha menina! Escutar através das portas as conversas dos outros, entrar no meu escritório sem minha autorização, trazer esta pessoa para dentro da minha casa. Tens muito por que responder.

 

Molly manteve o queixo erguido, demorando o olhar no padrasto.

 

- Também você - ripostou a garota, após o que lhe virou as costas e saiu do escritório mostrando a dignidade de uma rainha.

 

- O que é que a levou a entrar em contacto consigo? -

 

Perguntou-me Seabright, dirigindo-se para a porta, que fechou.

 

Quer acredite quer não, as pessoas que vivem em sua casa têm a sua própria vida e mentes independentes, pelo que se permitem pensar por si mesmas sem terem de lhe pedir permissão. Mas tenho a certeza de que agora se apressa a pôr cobro a essa indisciplina, não é verdade?

- Como é que se atreve a criticar a maneira como eu oriento a minha casa? Você não sabe absolutamente nada sobre a minha família.

 

Aí é que está muito enganado: eu conheço tudo a respeito da sua família. Acredite no que lhe digo - repliquei com um azedume que há muito tempo não ouvia na minha voz. - Você pensa que é um semideus e o resto dos mortais gravitam à sua volta, como os planetas em redor do Sol.

 

- Como é que você se atreve a falar-me nesses termos? - perguntou ele avançando para mim, tentando obrigar-me a retroceder, literal e fígurativamente. Não me mexi.

 

- Não sou eu quem tem de se explicar, Mister Seabright. A sua enteada foi raptada e, aparentemente, a Molly é a única pessoa que se preocupa com o facto de ela voltar a ser vista com vida ou não. O que é que tem a dizer-me acerca disto?

 

- Eu não tenho absolutamente nada a dizer-lhe. Nada disto é assunto que lhe diga respeito.

 

- Mas acontece que eu decidi encarregar-me deste assunto. Quando, onde e como é que esta videocassete lhe chegou às mãos?

 

- Eu não sou obrigado a responder às suas perguntas ripostou ele passando por mim, como se me tivesse dispensado, e aproximando-se da estante para fechar as portinholas do móvel do televisor.

 

- Prefere responder às perguntas de um detective do Gabinete do Xerife? - perguntei.

 

- Eles disseram que a Polícia não devia ser envolvida recordou-me ele enquanto deslocava um dos cerra-livros cinco centímetros mais para a esquerda. - Quer ser responsável pela morte da rapariga?

 

- Não. E você?

 

- É evidente que não - retorquiu ele, endireitando a correnteza de livros, com olhos que já procuravam a próxima peça do seu reino que estivesse fora de ordem. Pareceu-me que estava nervoso.

 

- Mas a verdade é que se ela nunca mais voltasse a aparecer, não se pode dizer que você ficaria muito pesaroso com essa perda, pois não? - alvitrei.

 

- Isso é uma coisa demasiado chocante para se dizer.

 

- Sim, mas bem vê...

 

Parou de arrumar as coisas a seu gosto, afivelando a impressão de quem se sentia profundamente indignado.

 

- Que tipo de homem é que pensa que eu sou?

 

Não me parece que quisesse ouvir o que eu neste momento teria para lhe responder. Quando é que esta videocassete chegou, Mister Seabright? Há quase uma semana que a Erin não é vista nem dá notícias. Regra geral, os raptores querem o dinheiro do resgate o mais depressa possível. Bem vê, é assim que se passa nestes casos. Quanto mais tempo estiverem de posse da vítima, mais hipóteses existem de as coisas darem para o torto.

 

- A cassete acabou de chegar - retorquiu ele, mas não olhou para mim quando respondeu à minha pergunta. Eu era capaz de apostar que ele já a tinha consigo há uns dois dias.

 

- Mas os sequestradores ainda não telefonaram?

 

- Não - confirmou ele.

 

- Como é que a cassete veio parar às suas mãos?

 

- Pelo correio.

 

- Endereçada para sua casa ou para o escritório?

 

- Para casa - respondeu-me.

 

- Endereçada em seu nome ou no da sua mulher?

 

- Eu... eu não me recordo.

 

Estava endereçada em nome de Krystal. Mas ele tinha-lha ocultado. O mais certo era ser costume filtrar toda a correspondência que ela recebia, o paranóico do controlo. E quando, finalmente, a mulher tivera oportunidade de a Ver, ele mandara-a para a cama, saindo para dar uma volta de automóvel.

 

- Gostaria de ver o sobrescrito - pedi.

 

- Deitei-o fora.

 

- Sendo assim, tem de estar no seu caixote do lixo. Vamos procurá-lo. Pode ter impressões digitais e o carimbo dos correios pode dar-nos uma informação preciosa.

 

-Já desapareceu - replicou Bruce.,. Desapareceu para onde? Ontem o seu contentor do lixo estava no passeio. Se a cassete chegou hoje...

 

Ele não tinha resposta para aquilo, o grande filho-daPuta! Soltei um suspiro de desprezo, decidida a fazer outra tentativa.

 

- Os raptores já telefonaram? - Não.

 

- Deus lhe valha se está a mentir-me, Seabright.

 

- Como é que se atreve a chamar-me mentiroso? - protestou ele, vermelho que nem um tomate.

 

- Porque és.

 

Ambos nos voltámos para a porta, deparando com Krystal parada na ombreira; estava com o aspecto de uma puta velha que consumisse crack. Tinha as feições encovadas e pálidas. O rímel à volta dos olhos sobressaía do resto da maquilhagem. O cabelo oxigenado estava espetado como se fosse uma peruca num filme de terror. Vestia um curto roupão cor-de-rosa, orlado por um debrum de uma coisa penugenta na gola e nos punhos; calçava uns chinelos de quarto de saltos altos que condiziam com o roupão.

 

- És um mentiroso - afirmou ela com um olhar vitrificado fixo no marido.

 

- Estás bêbeda! - acusou Bruce.

 

- Devo estar, para estar a falar-te sem tua autorização. Observei Seabright. O homem estava tão furioso que tremia de raiva. Se eu não tivesse estado presente, não sei o que ele lhe poderia ter feito. Mas, por outro lado, se eu não tivesse estado ali, Krystal nunca teria tido coragem para dizer fosse o que fosse. Virei-me para ela, apercebendo-me das pupilas dilatadas e do batom esborratado em redor dos lábios.

 

- Mistress Seabright, quando é que viu pela primeira vez a cassete que mostra o rapto da sua filha?

 

- Eu já reparara no envelope. Tinha o meu nome. Não percebi por que razão é que o Bruce não mo entregara. Pensei que seria qualquer coisa que eu tinha encomendado por via postal - justificou ela.

 

- Krystal... - rosnou Bruce.

 

- Em que dia é que isso se passou? - continuei, ignorando-o.

 

- Na quarta-feira - respondeu ela com os lábios a tremer.

 

Dois dias antes.

 

- Não achei que houvesse necessidade de te preocupar - alegou Seabright em sua defesa. - Olha bem para ti. Vê bem o estado em que te encontras.

 

- Só hoje é que vi a cassete - afirmou ela, dirigindo-se a mim. - A minha filha foi raptada. Mas o Bruce não achou que eu devesse tomar conhecimento disso.

 

- Eu já te disse, Krystal, que trataria do assunto - observou ele por entre os dentes cerrados.

 

Krystal olhou para mim; tinha uma expressão patética, trágica, aterrorizada.

 

Na nossa família, deixamos as decisões ao critério da pessoa mais bem preparada para as tomar - interveio ele.

 

Com uma expressão cheia de dureza, olhei para Bruce Seabright. O homem estava a transpirar. Sabia que podia intimidar uma mulher como Krystal, mas nunca teria poder para me intimidar a mim.

 

- Vou fazer-lhe esta pergunta pela última vez, Mister Seabright. E, antes de me responder, quero que esteja bem ciente de que o Gabinete do Xerife pode exigir todos os registos telefónicos junto da companhia dos telefones, verificando as informações que o senhor me der. Os raptores da sua enteada já lhe telefonaram?

 

O homem levou as mãos à boca, ficando a olhar para o tecto enquanto sopesava os prós e os contras subjacentes a uma resposta negativa. Não era o tipo de indivíduo que desafiasse abertamente as autoridades policiais. Se acreditasse no que eu lhe dissera quanto aos registos telefónicos, estaria a reflectir no que poderia acontecer se o Gabinete do Xerife se envolvesse no assunto... A sua imagem pública ficaria prejudicada... Sentia-lhe a respiração suspensa.

 

- Ontem à noite - respondeu ele por fim.

 

Num arranco de angústia, a boca de Krystal Seabright soltou um som estranho quando ela se dobrou sobre as costas de um cadeirão em pele, como se tivesse sido mortalmente alvejada.

 

Seabright deu a impressão de inchar, qual pombo furioso, enquanto tentava justificar o seu procedimento.

 

- Em primeiro lugar, acredito que tudo isto não passa de um embuste. Esta situação não é mais do que a Erin a tentar humilhar-me...

 

- Por hoje, já estou farta até à ponta dos cabelos de homens com as suas teorias de perseguição - atalhei. Não estou disposta a ouvir a sua. Eu vi a cassete. Conheço o género de gente com quem a Erin se meteu. Eu não estaria disposta a apostar a vida dela contra o seu receio de uma situação embaraçante. Quem é que telefonou? Um homem? Uma mulher?

 

- Era uma voz parecida com a do filme - respondeu ele, manifestamente impaciente. - Distorcida.

 

- E o que é que disse?

 

Era óbvio que ele não queria responder. A sua boca cerrou-se num pequeno nó de amuo que fez com que só me apetecesse pespegar-lhe uma bofetada em cheio na cara.

 

- E por que razão hei-de eu falar-lhe deste assunto? retrucou ele. - Eu não sei nada acerca de si. Nem sequer sei para quem é que trabalha. Nem sei se não será um deles.

 

- Por amor de Deus! Diz-lhe o que ela quer saber! gritou Krystal. Num andar desalentado, contornou o cadeirão em pele, onde se sentou na posição fetal.

 

- E como é que eu sei que você também não é um dos raptores? - devolvi-lhe. - Ou a sua mulher?

 

- Não seja ridícula! - exclamou Seabright.

 

- ”Ridícula” não é a palavra que eu utilizaria para descrever a situação, Mister Seabright. A Erin tem sido uma fonte constante de irritação para si. Talvez tenha visto uma maneira de eliminar esse problema.

 

- Oh, meu Deus! - gritou Krystal, chocada, levando as mãos à boca.

 

- Isso é um absurdo! - vociferou Seabright.

 

- Não me parece que o Gabinete do Xerife possa ser dessa opinião - retorqui. - Portanto, acho melhor que comece a despejar cá para fora os pormenores.

 

O homem voltou a suspirar: o patriarca ultrajado.

 

- A voz disse-me que pusesse o dinheiro dentro de uma caixa de cartão e que a deixasse num lugar específico do hipódromo da Urbanização Equestre, algures em Loxahatchee.

 

Eu conhecia aquela área. Ficava a vinte minutos de Wellington. A Urbanização Equestre era uma propriedade que ainda estava por urbanizar. Espaços mais ou menos abertos com um recinto onde se realizavam espectáculos ípicos várias vezes por ano.

 

- Quando? - perguntei.

 

- Hoje. Às dezassete horas.

 

- E deixou o dinheiro onde lhe disseram?

 

Não - respondeu Seabright.

 

- Tu mataste-a! Tu mataste-a! - gritou Krystal, chorando convulsivamente.

 

- Oh, por amor de Deus, Krystal, pára com isso! ordenou ele, irritado. - Se ela foi realmente raptada, eles não a matarão. Qual seria o objectivo dessa morte?

 

- O único objectivo é o dinheiro - intervim com frieza. - Eles tentarão consegui-lo quer ela esteja viva ou morta. Prometeram-lhe que veria a Erin no ponto onde deixasse o dinheiro? Disseram-lhe que podia ir buscá-la a algum lugar preestabelecido caso lhes entregasse o dinheiro?

 

- Não disseram nada disso.

 

Nada garantia que Erin continuava viva. Se os raptores fossem implacáveis ao ponto de a matar, era muito possível que ela tivesse sido assassinada pouco depois de ser sequestrada, impossibilitando assim que, mais tarde, viesse a ser uma testemunha contra eles, acção que se destinaria, muito simplesmente, a simplificar a vida dos sequestradores. E... quem podia saber? Talvez tivesse sido esse o objectivo desde o início - eliminá-la -, para o que haviam encenado um rapto apenas para camuflar as verdadeiras intenções dos criminosos.

 

- E já telefonaram desde essa hora? - continuei.

 

- Não - respondeu Seabright.

 

- Custa-me muito a acreditar nisso. Se eu estivesse à espera de receber trezentos mil dólares às cinco da tarde, e isso não se concretizasse, decerto haveria de querer saber Porquê.

 

O homem levantou as mãos e aproximou-se de uma janela que tinha as venezianas meio abertas, ao estilo das Plantações sulistas, deixando entrar o ar da noite. Pus-me a observá-lo, perguntando-me até que ponto é que ele era um homem frio e calculista. Possuiria ele a frieza suficiente para atirar a enteada, num acto premeditado, para as mãos de

um predador sexual? Suficientemente frio para a mandar matar? Talvez.

 

A única coisa que eu tinha sérias dificuldades em aceitar era a noção de Seabright vir a ceder no seu espírito de controlo, qualquer que fosse a natureza deste, colaborando num esquema que o colocaria numa posição vulnerável Mas a única outra alternativa que lhe restava teria sido ele próprio sujar as mãos, atitude que me parecia muito pouco provável de vir a acontecer. Uma conspiração seria o mal menor. A conspiração podia ser negada a qualquer altura. O meu olhar prendeu-se na mesa de trabalho de Seabright, impecável e onde tudo estava metodicamente organizado. Quem sabe se eu não depararia com uma pasta com uma etiqueta onde se leria: ”ERIN - RAPTO”. Em vez disso, parei junto do telefone, um aparelho sem fios da marca Panasonic com um mostrador para números pré-marcados. O mesmo tipo de telefone que eu tinha na casa das visitas de Sean. Avancei, colocando-me por detrás da secretária e sentando-me no imponente cadeirão em pele antes de pegar no telefone. A luzinha vermelha na base do aparelho estava a piscar intermitente.

 

- O que é que está a fazer? - perguntou Bruce, autoritário, dirigindo-se apressadamente para junto de mim. Carreguei no botão de busca automática no auscultador, tendo-me aparecido um número no mostrador.

 

- Estou a aproveitar-me do milagre que são as tecnologias modernas. Se o raptor lhe ligou através desta linha por um telefone que não estivesse bloqueado, o número ficou registado na memória do aparelho, podendo ser verificado na opção das chamadas recebidas. Não acha que é realmente uma opção muito inteligente?

 

Tomei nota do número, escrevendo-o num papel em cima do mata-borrão imaculado, e passei ao número seguinte do registo, fazendo a mesma coisa. Era óbvio que ele queria arrancar-me o telefone das mãos. Vi-lhe os músculos dos maxilares contraídos.

 

- Os meus clientes e os meus sócios ligam-me para aqui por esse número - informou ele. - Não permitirei que você os incomode.

 

- Como é que sabe que um deles não é o sequestrador? - perguntei.

 

- Isso é irracional! Estamos a falar de pessoas respeitáveis e muito abastadas.

 

- Talvez todos menos um - aventei.

 

- Eu não quero que essas pessoas se vejam arrastadas para este assunto tão sórdido.

 

Tem algum inimigo, Mister Seabright? – continuei sem prestar atenção aos seus protestos.

 

- Claro que não.

 

- Nunca chateou ninguém? Um homem que negoceia propriedades no Sul da Florida? Isso seria absolutamente espantoso.

 

Eu sou um homem de negócios com uma reputação inatacável, Miss Estes.

 

- Também é uma pessoa tão simpática como uma disenteria - ripostei. - Não acredito que não tenha uma lista de pessoas que gostariam muito de o ver sofrer. E só estou a pensar nos membros mais chegados da sua família.

 

O homem odiava-me visceralmente, sentimento que eu via reflectido nos olhos pequeninos de expressão maldosa. O antagonismo era mútuo, pelo que achei aquele sentimento muito gratificante.

 

- Vou querer o número da sua licença de detective particular - decla