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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LÁGRIMAS DO DRAGÃO / Dean R. Koontz
LÁGRIMAS DO DRAGÃO / Dean R. Koontz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LÁGRIMAS DO DRAGÃO

 

 

Terça-feira. Fazia um belo dia californiano, cheio de sol e promessas, até que Harry Lyon teve de matar alguém na hora do almoço.

De manhã, sentado à mesa da cozinha, ele comeu bolinhos de milho com geléia de limão e bebeu café jamaicano, preto e forte. Uma pitada de canela deu à bebida um gosto agradavelmente condimentado.

A janela da cozinha se abria para o cinturão verde que serpenteava ao longo de Los Cabos, um grande condomínio em Irvine. Como presidente da associação dos proprietários, Harry trazia os jardineiros a rédea curta e monitorava rigorosamente o seu trabalho, certificando-se de que as árvores, os arbustos e a grama estivessem tão bem cuidados como numa paisagem de conto de fadas, como se fossem mantidos por pelotões de elfos jardineiros portando centenas de minúsculas tesouras de podar.

Durante a infância ele gostara de contos de fadas ainda mais do que qualquer criança. Nas palavras dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen, os montes primaveris eram sempre de um verde impecável e aveludado. Prevalecia a ordem. Os bandidos invariavelmente encontravam a justiça e os virtuosos eram recompensados — ainda que, algumas vezes, somente depois de sofrimentos horríveis. Joãozinho e Maria não morreram no forno da bruxa; ela, sim, foi assada viva. Em vez de roubar a filha recém-nascida da rainha, Rumpelstiltskin foi enganado e se dilacerou de raiva.

Na vida real, durante a última década do século XX, Rumpelstiltskin provavelmente seqüestraria a filha da rainha. Sem dúvida iria viciá-la em heroína, transformá-la em prostituta, confiscar seus ganhos, espancá-la por prazer, cortá-la em pedaços e escapar da justiça afirmando que a intolerância da sociedade para com os gigantes malignos e geniosos o havia deixado temporariamente louco.

Harry engoliu o resto do café e suspirou. Como muitas pessoas, ele sonhava em viver num mundo melhor.

Antes de sair para o trabalho lavou, secou e guardou os pratos e utensílios. Odiava chegar em casa e encontrar sujeira e bagunça.

Parou para ajustar o nó da gravata diante do espelho junto à porta do hall. Vestiu um blazer azul-marinho e certificou-se de que a arma no coldre preso ao ombro não fazia volume visível.

Como em todos os dias de trabalho nos últimos seis meses, evitou as auto-estradas cheias de trânsito, seguindo pelas mesmas ruas secundárias até o Centro de Projetos Especiais Para os Órgãos de Cumprimento da Lei, em Laguna Niguel, um caminho que ele mapeara para minimizar o tempo de viagem. Podia chegar ao escritório entre 8:15 e 8:28, mas nunca se atrasara.

Naquela terça-feira, quando parou seu Honda à sombra, no estacionamento do lado oeste do prédio de dois andares, o relógio do carro indicava 8:21. Seu relógio de pulso confirmou a hora. Na verdade, todos os relógios da casa de Harry e o que ficava na mesa de seu escritório estariam indicando 8:21. Ele os sincronizava duas vezes por semana.

De pé, ao lado do carro, respirou fundo, relaxando.

Chovera durante a noite, o ar estava limpo. O sol de março dava à manhã um brilho dourado como a polpa de um pêssego maduro.

Para atender aos padrões arquitetônicos de Laguna Niguel, o Centro de Projetos Especiais era um prédio de dois andares em estilo mediterrâneo, com uma varanda em colunata. Rodeado por azaléias viçosas e altas malaleucas de galhos rendilhados, não tinha qualquer semelhança com a maioria das instalações da polícia. Alguns dos tiras que trabalhavam no Centro de Projetos Especiais achavam a aparência muito afetada, mas Harry gostava.

A decoração institucional tinha pouco em comum com o exterior paisagístico. Piso de vinil azul. Paredes cinza-claro. Teto acústico. No entanto, o ar de organização e eficiência era confortador.

Mesmo sendo tão cedo, havia pessoas se movimentando pelo saguão e pelos corredores, na maioria homens com o físico sólido e a atitude autoconfiante característicos dos policiais de carreira. Apenas uns poucos usavam uniforme. O Centro de Projetos Especiais contava com detetives de homicídios e funcionários disfarçados das agências federal, estadual, do condado e do município, todos sem uniforme, para facilitar as investigações criminais que se espalhavam por várias jurisdições. As equipes de Projetos Especiais — algumas vezes forças-tarefas inteiras — lidavam com crimes cometidos por gangues de adolescentes, assassinos em série, estupradores que seguiam padrões definidos e atividades ligadas a entorpecentes em larga escala.

Harry compartilhava um escritório no segundo andar com Connie Gulliver. Sua metade da sala era suavizada por uma pequena palmeira, sempre-verdes chinesas e pelos ramos folhosos de uma trepadeira. A metade de Connie não tinha nenhuma planta. Na mesa de Harry havia apenas um borrador, um conjunto de canetas e um pequeno relógio de latão. Pilhas de dossiês, papéis soltos e fotografias viviam atulhados sobre a dela.

Surpreendentemente, Connie chegara primeiro ao escritório. Estava de pé junto à janela, de costas para ele.

—      Bom dia — disse Harry.     

—      Está mesmo? — perguntou ela em tom azedo.

Em seguida virou-se. Usava um velho tênis Reebok, jeans, blusa xadrez marrom e vermelha e uma jaqueta de veludo cotelê marrom. A jaqueta era uma de suas favoritas, tão surrada que o veludo estava pelado em vários lugares, os punhos puídos e as dobras na parte de dentro das mangas parecendo tão permanentes quanto vales escavados pela água em leitos de rocha durante eras geológicas.

Segurava um copo de papel, vazio, no qual tomara café. Amassou-o quase com raiva e jogou-o no chão. O copo quicou e foi parar na metade da sala ocupada por Harry.

—- Vamos à luta — disse ela caminhando em direção à porta.

Harry olhou para o copo no chão.

—      Por que a pressa?

-— Somos tiras, não somos? Não vamos ficar com o dedo enfiado no rabo, vamos fazer trabalho de tira.

Enquanto ela desaparecia no corredor, ele ficou olhando o copo do seu lado da sala. Empurrou-o com o pé, para o outro lado da linha imaginária que dividia o escritório.

Foi atrás de Connie, mas parou junto à porta. Olhou de novo para o copo de papel.

Connie já devia estar no fim do corredor, talvez até mesmo descendo a escada.

Harry hesitou. Voltou até o copo amassado e jogou-o na lata de lixo. Aproveitou para jogar também outros dois.

Alcançou Connie no estacionamento, onde ela escancarou a porta do seda comum usado em serviço. Enquanto ele entrava pelo outro lado Connie deu a partida, virando a chave com tanta violência que ela quase quebrou na ignição.

—      Teve uma noite ruim? — perguntou ele.

Ela engatou a marcha com um gesto brusco.

—      Dor de cabeça?

Ela saiu de ré, depressa demais.

—      Um espinho na pata?

O carro disparou pela rua.

Harry se retesou, mas não estava preocupado com o modo de Connie dirigir. Ela podia manobrar muito melhor um carro que pessoas.

—      Quer falar sobre o que há de errado?

—      Não.

Para alguém que vivia no limite, que parecia destemida em momentos de perigo, que nos finais de semana fazia pára-quedismo e motocross na lama, Connie Gulliver era de uma reticência frustrante e absoluta quando se tratava de revelações pessoais. Os dois trabalhavam juntos há seis meses e, apesar de conhecer um bocado de coisas sobre ela, algumas vezes Harry parecia não saber nada importante.

—      Falar a respeito pode ajudar — disse ele.

—      Não ajudaria.

Harry olhou-a sub-repticamente, imaginando se a raiva poderia decorrer de problemas com homens. Ele era policial há quinze anos e vira muita traição e miséria humana para saber que os homens eram a fonte da maioria dos problemas femininos. Não sabia nada sobre a vida amorosa de Connie, nem mesmo se tinha uma vida amorosa.

-— Tem a ver com este caso?

—      Não.

Acreditou. Connie tentava, com aparente sucesso, não se emporcalhar na sujeira na qual a vida de policial exigia que ela entrasse.

—      Mas sem dúvida quero pegar o filho da puta do Durner —

disse ela. — Acho que estamos perto.

Doyle Durner, um vagabundo que entrara para a subcultura do surfe, era procurado para interrogatório sobre uma série de estupros que crescera ern violência a cada incidente, com a última vítima sendo espancada até a morte. Uma colegial de dezesseis anos.

Durner era o principal suspeito porque sabia-se que ele passara por um tratamento para aumentar a circunferência peniana. Um cirurgião plástico de Newport Beach havia lipoaspirado gordura de sua barriga e injetado no pênis, para aumentar a grossura. Esse procedimento definitivamente não era recomendado pela Associação Médica Americana mas, se o cirurgião tivesse uma hipoteca grande a pagar e o paciente fosse obcecado com sua circunferência, as forças de mercado prevaleciam sobre a preocupação com complicações pós-operatórias. A circunferência do pênis de Durner fora aumentada em cinqüenta por cento, um acréscimo tão dramático que deve ter causado desconforto ocasional. Segundo todos os relatos, ele estava feliz com o resultado. Não porque quisesse impressionar as mulheres, mas porque queria machucá-las—e esse era o ponto central. A descrição que as vítimas fizeram sobre a diferença monstruosa do atacante levara as autoridades a centrar as suspeitas em Durner — e três das vítimas haviam observado uma serpente tatuada em sua virilha, um detalhe que ficara registrado em sua ficha policial depois da prisão por dois estupros em Santa Barbara, há oito anos.   

Até o meio-dia daquela terça-feira, Harry e Connie haviam falado com funcionários e clientes de três pontos de encontro populares entre surfistas e demais freqüentadores da praia em Laguna: uma loja que vendia pranchas e equipamentos de surfe, uma loja de iogurtes e alimentos energéticos e um bar mal-iluminado onde uma dúzia de clientes bebia cerveja mexicana às onze da manhã. Se desse para acreditar no que disseram — e não dava —, eles nunca tinham ouvido falar de Doyle Durner e não o reconheceram na foto que foi mostrada.

No carro, entre as paradas, Connie presenteou Harry com os itens mais recentes de sua coleção de ultrajes.

—      Ouviu falar naquela mulher de Filadélfia? Encontraram dois bebês mortos por desnutrição no apartamento e dúzias de vidros de crack espalhados. Ela estava tão dopada que deixou os filhos morrerem de fome. E sabe qual foi a única acusação que conseguiram contra ela? Dolo irresponsável.

Harry apenas suspirou. Quando Connie estava com vontade de falar sobre o que algumas vezes chamava de 'a crise contínua" — ou, nos momentos mais sarcásticos, de "essa nova Idade das Trevas" -— não esperava qualquer resposta. Ficava satisfeita em recitar um monólogo.

—      Um cara em Nova York matou a filha da namorada, uma criança de dois anos, Cobriu a menina de socos e pontapés porque ela ficou dançando na frente da TV, atrapalhando sua visão. Provavelmente estava assistindo à Roda da Fortuna e não queria perder um instante das fabulosas pernas de Vanna White,

Como a maioria dos tiras, Connie tinha um agudo senso de humor negro. Era um mecanismo de defesa. Sem ele a pessoa enlouqueceria ou ganharia uma depressão terminal após os intermináveis contatos com o mal e a perversidade humanos, que são o cerne do trabalho. Para quem só conhece a vida policiai a partir dos enlatados de televisão, o humor dos tiras na vida real pode parecer às vezes grosseiro e insensível —- se bem que nenhum tira dá a mínima para o que qualquer pessoa possa pensar a seu respeito, a não ser que seja outro tira.

—      Há um Centro de Prevenção de Suicídios em Sacramento — continuou Connie, parando num sinal vermelho. — Um dos conselheiros enjoou de receber telefonemas de um cidadão idoso e deprimido. Então foi com um amigo até o apartamento do velho, agarrou-o e cortou-lhe os pulsos e a garganta.

Algumas vezes, por trás do humor mais negro de Connie, Harry percebia uma amargura que não era comum aos tiras. Talvez fosse pior do que simples amargura. Talvez fosse pior até mesmo do que desespero. Connie era tão reservada que em geral ficava difícil determinar exatamente o que ela sentia.

Diferentemente de Connie, Harry era um otimista. Mas para continuar otimista ele achava necessário não revolver a imbecilidade e a malevolência humana, como ela fazia.

Tentou mudar de assunto:

—      Que tal almoçarmos? Conheço uma pequena trattoria italiana que é fantástica, com mesas forradas de oleado, garrafas de vinho servindo de castiçais, um bom nhoque, um manicotti fabuloso.

Connie fez careta.

—      Que nada! Vamos pegar uns tacos num drivethrough e comer no caminho.

Chegaram a um meio-termo: uma lanchonete a meia quadra ao norte da auto-estrada Pacific Coast. Dentro, uma dúzia de clientes e decoração estilo sudoeste. Os tampos das mesas, de madeira pintada de branco, eram selados sob dois centímetros de acrílico. Nas cadeiras, forros com padrão de chamas, em tons pastel. Cactos em vasos. Litografias de Gorman e Parkison. Deveriam estar vendendo sopa de feijão-preto e carne grelhada com algaroba, em vez de hambúrguer com fritas.

Harry e Connie estavam comendo numa pequena mesa encostada à parede — sanduíche de frango grelhado para ele; batatas fritas com um cheeseburger gorduroso e aromático para ela —, quando o sujeito entrou em meio a um clarão de luz solar emitido pela porta de vidro. Ele parou junto ao posto da recepcionista e olhou ao redor.

Apesar de estar penteado e bem-vestido, com calças de cotelê cinza-claro, camisa branca e paletó esporte de camurça, algo nele fez com que Harry se inquietasse no mesmo instante. O sorriso vago e o ar meio distraído dava-lhe um ar curiosamente profissional. O rosto era redondo e suave, com queixo pequeno e lábios pálidos. Parecia tímido, não ameaçador. Mesmo assim as entranhas de Harry ficaram tensas. Instinto de tira.

 

Sammy Shamroe fora conhecido como "Sam, o Simulado", cutivo de uma agência, de publicidade em Los Angeles, abençoado com um talento criativo especial — e amaldiçoado com a atração pela cocaína. Isso fora há três anos. Uma eternidade.

Agora estava saindo do caixote onde vivia, rastejando sobre os trapos e jornais amassados que lhe serviam de cama. Parou de se arrastar assim que ultrapassou os ramos pendentes do arbusto de oleandro, que crescia na beirada do terreno baldio e escondia a maior parte do caixote. Por um instante ficou de quatro, olhando para o chão do beco.

Há muito tempo perdera a possibilidade de obter as drogas caras que o haviam arruinado por completo. Agora sofria uma dor de cabeça de vinho barato. Era como se o seu crânio tivesse sido aberto enquanto dormia e o vento houvesse plantado um punhado de aparas de metal na superfície do cérebro exposto.

Não estava nem um pouco desorientado. Como a luz do sol caía direto no beco, deixando sombras apenas junto às paredes de trás dos prédios no lado norte, Sammy sabia que era quase meio-dia. Ainda que não usasse relógio, visse um calendário, tivesse um trabalho ou apartamento há três anos, estava sempre consciente da estação, do mês, do dia. Terça-feira. Percebia nitidamente onde estava (Laguna Beach), como chegara lá (cada erro, cada auto-indulgência, cada estúpida ação autodestrutiva guardada em detalhes nítidos) e o que poderia esperar pelo resto da vida (vergonha, privação, luta, arrependimento).

O pior aspecto da queda era a clareza teimosa de sua mente, que mesmo quantidades maciças de álcool só podiam poluir por breves períodos. As aparas metálicas de sua dor de cabeça eram uma pequena inconveniência comparada aos agudos espinhos da memória e da autoconsciência que penetravam mais fundo no cérebro.

Ouviu alguém se aproximando. Passos pesados. Um ligeiro coxear: um pé se arrastando de leve no pavimento. Conhecia aquelas passadas. Começou a tremer. Manteve a cabeça baixa e fechou os olhos, desejando que o ruído diminuísse, recuando até o silêncio. Mas os passos soaram mais alto, mais perto... e então pararam à sua frente.

—      Já descobriu?

Era a voz profunda e sepulcral que recentemente começara a assombrar os pesadelos de Sammy. Só que agora ele estava acordado. Não era o monstro de seus sonhos turbulentos. Era a criatura real que inspirava os pesadelos.

Relutante, Sammy abriu os olhos granulosos e levantou a cabeça.

—      Já descobriu?

Alto, corpulento, com a cabeleira revolta, a barba emaranhada e com pedaços de matéria nojenta demais para se contemplar, o homem-rato era uma figura aterrorizante. Onde a barba não escondia, seu rosto era nodoso, cheio de cicatrizes, como se o tivessem golpeado e revolvido com um ferro de soldar incandescente. O nariz grande era torto e adunco, os lábios cheios de feridas. Sobre as gengivas escuras e doentias os dentes se empoleiravam como lápides de mármore amareladas pelo tempo.

A voz sepulcral ficou mais alta.

—      Talvez você já esteja morto.

A única coisa comum no homem-rato eram suas roupas: tênis, calças caqui de bazar de caridade, camisa de algodão e uma capa de chuva muito gasta. Tudo manchado e amarrotado. Era o uniforme de muita gente de rua que resvalara através das rachaduras e caíra no porão escuro que havia sob os pisos da sociedade moderna, alguns por culpa própria e outros não.

A voz suavizou-se dramaticamente quando o homem-rato se curvou, chegando rnais perto.

—      Já está morto e no inferno? Pode ser?

Dentre todas as coisas extraordinárias do homem-rato, seus olhos eram o que havia de mais perturbador. Eram de um verde intenso, incomum, mas possuíam estranhas pupilas negras e elípticas, como as de um gato ou réptil. Os olhos faziam o corpo do homem-rato parecer meramente um disfarce, uma roupa de borracha, como se algo indizível espiasse, através de uma fantasia, um mundo onde não nascera, mas que desejava.

Ele baixou a voz ainda mais, até um sussurro grave:

— Morto, no inferno, e eu sou o demônio designado para torturar você?

Sabendo o que viria, já tendo passado por aquilo, Sammy tentou ficar de pé. Mas o homem-rato, veloz como o vento, chutou-o antes que ele pudesse sair da frente. O chute pegou-o no ombro esquerdo,, quase acertando o rosto, e não pareceu dado por um tênis, e sim por uma bota, como se o pé fosse inteiramente de osso, de chifre ou do material que forma a carapaça dos besouros. Sammy enrolou-se em posição fetal, protegendo a cabeça com os braços do melhor jeito que podia. O homem-rato chutou-o de novo, de novo, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, quase como uma dança, uma espécie de jiga, um-chute-e-dois-chute-e-um-chute-e-dois, sem som, sem rugir de raiva ou rir de escárnio, sem arfar a despeito do esforço.

Os chutes pararam.

Sammy se enroscou numa bola ainda mais apertada, como um tatu, enrolando-se ao redor de suas dores.

O silêncio no beco era anormal, a não ser pelo choro baixo de Sammy, pelo qual ele se desprezava. O ruído do trânsito nas ruas próximas desaparecera por completo. O arbusto de oleandro não mais sussurrava à brisa. Quando Sammy, com raiva, disse a si próprio para ser um homem, quando engoliu os soluços, o silêncio foi de uma perfeição mortal.

Ousou abrir os olhos e uma fresta entre os braços, olhando para o fim do beco. Piscou para clarear a visão velada por lágrimas e pôde ver dois carros parados na rua de trás. Os motoristas, visíveis apenas como sombras, aguardavam imóveis.

Mais perto, direto em frente ao seu rosto, uma lacraia de três centímetros, estranhamente fora de seu hábitat de madeiras podres e lugares escuros, estava congelada no processo de atravessar o beco. Os espinhos gêmeos na parte de trás do inseto pareciam malignos, perigosos, curvados para cima como a cauda de um escorpião, ainda que na verdade fossem inofensivos. Algumas de suas seis pernas tocavam o chão, e outras estavam erguidas no meio do passo. O bicho não movia sequer um dos segmentos de sua antena, como se estivesse congelado pelo medo ou prestes a atacar.

Sammy virou o olhar para o final do beco. Na rua, os mesmos carros estavam imóveis nos mesmos lugares. As pessoas lá dentro pareciam manequins,

O inseto outra vez. Imóvel. Como se estivesse morto e alfinetado num quadro de entomólogo.

Cautelosamente, Sammy baixou os braços cruzados sobre a cabeça. Rolou de costas, gemendo, e olhou com relutância para o atacante.

Pairando lá em cima, o homem-rato parecia ter trinta metros de altura. Estudou Sammy com um interesse solene.

—      Quer viver?

Sammy ficou surpreso não pela pergunta, mas pela incapacidade de responder. Estava paralisado entre o medo da morte e a necessidade de morrer. A cada manhã sentia-se desapontado ao acordar e descobrir que continuava entre os vivos; e a cada noite, quando se enrolava em sua cama de trapos e papel, aguardava o sono sem fim. Contudo, dia após dia lutava para obter comida suficiente, para encontrar um lugar aquecido naquelas raras noites em que a bondade climática da Califórnia desaparecia, para ficar seco nos dias de chuva, de modo a evitar uma pneumonia. Antes de atravessar a rua olhava para os dois lados.

Talvez não quisesse viver, só desejasse ser punido por estar vivo,

—      Seria melhor se você quisesse viver—disse o homem-rato

em voz baixa. — Mais divertido para mim.

O coração de Sammy trovejava. Cada pulsação latejando mais forte na carne machucada que marcava os pontos de impacto dos chutes ferozes do homem-rato.

—      Você tem trinta e seis horas para viver. Melhor fazer alguma

coisa, não acha? Hmmmm? O relógio está correndo. Tique-taque, tique-taque.     

—      Por que está fazendo isso comigo? — Sammy perguntou em tom choroso.

Em vez de responder, o homem-rato disse:

—      À meia-noite de amanhã os ratos virão atrás de você...

—      Eu nunca fiz nada ao senhor.

As cicatrizes no rosto brutal do atormentador ficaram lívidas.

—      ...mastigar seus olhos...

—      Por favor!

Seus lábios pálidos se esticaram enquanto ele falava, revelando mais dentes podres:

—      ...rasgar seus lábios enquanto você grita, mordiscar sua língua.

Enquanto o homem-rato se agitava, sua conduta não ficava mais febril, e sim mais fria. Seus olhos de réptil pareciam irradiar um gelo que abria caminho pela carne de Sammy e penetrava nos recônditos mais profundos de sua mente.

—      Quem é você?—perguntou Sammy, não pela primeira vez.

O homem-rato não respondeu. Inchou de fúria. Seus dedos grossos e imundos se fecharam, formando punhos, abriram, fecharam, abriram. Amassou o ar como se quisesse espremer sangue. O que é você?, pensou Sammy, mas não ousou perguntar.

—      Ratos — sibilou o homem.

Com medo do que estava por vir, apesar de já ter acontecido antes, Sammy arrastou-se de costas na direção do arbusto que meio escondia seu caixote, tentando colocar alguma distância entre ele e o vagabundo enorme.

—      Ratos — repetiu o homem-rato e começou a tremer.

Estava começando.

Sammy congelou, aterrorizado demais para se mexer.

Os tremores do homem-rato se transformaram em convulsões. As convulsões evoluíram para sacudidas violentas. Seu cabelo oleoso chicoteava ao redor da cabeça, os braços tinham espasmos e a capa preta balançava como se estivesse em meio a um ciclone, mas nenhum vento soprava ou uivava. O ar de março estava tão sobrenaturalmente imóvel que era como se o mundo não passasse de um cenário pintado, e os dois fossem os únicos atores dentro dele.

Parado sobre recifes de asfalto, Sammy Shamroe finalmente conseguiu se levantar. Fora lançado de pé pelo medo da maré de garras, dentes aguçados e olhos vermelhos que logo se ergueria ao seu redor.

Entre as roupas, o corpo do homem-rato sacudia como um saco de aniagem cheio de cascavéis iradas. Ele estava... mudando. Seu rosto se dissolveu e se reformou, como se ele estivesse numa forja controlada por alguma divindade louca que pretendesse moldar uma série de monstros, cada qual mais terrível que o outro. Sumiram as cicatrizes lívidas, os olhos de réptil, a boca cruel. Por um momento sua cabeça era apenas uma pasta de carne indiferenciada, uma bola de massa transpirante, vermelha de sangue, depois vermelho-amarronzada e mais escura, brilhando, como algo que escorresse de uma lata de comida para cães. Abruptamente o tecido se solidificou, e a cabeça era composta de ratos grudados uns nos outros, uma bola de ratos, caudas penduradas como trancas de rastafáris, olhos ferozes, escarlates como gotas de sangue radiante. Onde as mãos teriam pendido das mangas, ratos saíam de punhos frouxos. Cabeças de outros roedores começaram a surgir por entre os botões da camisa.

Apesar de ter visto tudo isso antes, Sammy tentou gritar. Sua língua inchada grudou no céu da boca seca e ele só conseguiu um som abafado de pânico no fundo da garganta. De qualquer modo, um grito não ajudaria. Ele havia gritado antes, durante outros encontros com seu atormentador, e ninguém respondera.

O homem-rato se desmembrou como se fosse um espantalho frouxo numa tempestade violenta, pedaços do corpo sendo espalhados. Quando batia contra o pavimento, cada parte era um rato. Com bigodes, nariz molhado, dentes agudos, guinchando, as criaturas repelentes enxameavam umas sobre as outras, caudas longas chicoteando para a direita e a esquerda. Mais ratos brotavam da camisa e das pernas das calças, muito mais do que as roupas poderiam ter contido: vinte, quarenta, oitenta, mais de cem.

Como um balão construído em forma de homem, ele desinflou, e as roupas assentaram devagar sobre o pavimento. Depois cada peça também se transformou. As roupas amarrotadas fizeram brotar cabeças e membros e produziram mais roedores, até que o homem-rato e seus trajes fedorentos foram substituídos por uma multidão de animais que se agitavam Uns sobre os outros com a agilidade desossada que tornava sua espécie tão repulsiva.

Sammy não conseguia respirar. O ar ficou ainda mais pesado. Antes o vento havia parado, e agora uma imobilidade anormal parecia assentar sobre camadas mais profundas do mundo natural, até que a fluidez das moléculas de oxigênio e nitrogênio declinou drasticamente, como se a atmosfera começasse a engrossar, virando um líquido que ele só conseguia sugar para os pulmões com extremo esforço.

Agora que o corpo do homem-rato havia se desintegrado em muitas dezenas de bichos guinchantes, subitamente o corpo transformado se dispersou. Os ratos gordos e untuosos irromperam do bolo, correndo em todas as direções, afastando-se de Sammy e ao mesmo tempo enxameando ao seu redor, sobre seus sapatos e entre suas pernas. Aquela maré odiosa e viva derramou-se para as sombras junto aos prédios e no terreno baldio, onde escorreu por buracos nas paredes e na terra — buracos que Sammy não podia ver — ou simplesmente desapareceu.

Uma brisa súbita empurrou folhas mortas e pedaços de papel. O ranger de pneus e o rugir de motores cresceram enquanto carros passavam pela rua principal junto à entrada do beco. Uma abelha zumbiu perto do rosto de Sammy.

Ele podia respirar de novo. Ficou parado um momento à luz forte do meio-dia, arfando.

O pior era que tudo acontecera durante o dia, ao ar livre, sem fumaça, espelhos, iluminação especial, fios de seda, alçapões ou as ferramentas comuns do ofício de mágico.

Sammy havia se arrastado do seu caixote com a boa intenção de começar o dia a despeito da ressaca, talvez procurando latas de alumínio para vender no centro de reciclagem, talvez pedindo esmolas na calçada. Agora a ressaca se fora, mas ele continuava sem disposição para enfrentar o mundo.

Voltou ao arbusto de oleandro, sentindo as pernas inseguras. Os ramos estavam pesados de flores vermelhas. Ele empurrou-os para o lado e olhou para o grande caixote de madeira.

Pegou uma vara e cutucou os trapos e os jornais dentro da caixa, espetando que alguns ratos saíssem do esconderijo. Mas eles tinham ido para outro lugar.

Ficou de joelhos e se arrastou para dentro do abrigo, deixando que as cortinas de oleandro se fechassem atrás dele.

Da pilha de suas magras posses no fundo do caixote retirou uma garrafa fechada de um borgonha barato e desatarraxou a tampa. Tomou um gole comprido do vinho morno.

Sentado de costas na parede de madeira, agarrando a garrafa com as duas mãos, tentou esquecer o que vira. Até onde podia perceber, o esquecimento era sua única esperança de enfrentar a situação. Ele não conseguia mais cuidar dos problemas da vida cotidiana. Como poderia enfrentar algo tão extraordinário quanto o homem-rato?

Um cérebro embebido em muitos gramas de cocaína, temperado com várias outras drogas e marinado em álcool podia produzir o mais espantoso zoológico de criaturas alucinadas. E quando sua consciência exigia o melhor, e ele lutava para atender a um de seus periódicos pedidos de sobriedade, a privação levava ao delirium tremens povoado por uma fantasmagoria de feras ainda mais exóticas e ameaçadoras. Mas nenhuma delas era tão memorável e tão perturbadora quanto o homem-rato.

Tomou outro gole generoso de vinho e recostou a cabeça na parede do caixote, segurando-se firme à garrafa.

Ano após ano, dia após dia, Sammy encontrava uma dificuldade cada vez maior em distinguir entre a realidade e a fantasia. Há muito deixara de confiar em suas percepções. Mas de uma coisa ele estava desalentadamente certo: o homem-rato era real. Impossível, fantástico, inexplicável — mas real.

Sammy não esperava encontrar respostas às questões que o assombravam. Mas não conseguia parar de perguntar: o que era aquela criatura? De onde vinha? Por que o interesse em atormentar e matar um sem-teto grisalho e arruinado cuja morte — ou cuja existência permanente — trazia pouca ou nenhuma conseqüência ao mundo?

Bebeu mais vinho.

Trinta e seis horas. Tique taque. Tique-taque

 

                   Instinto de tira

Quando o cidadão vestido de calças cinza, camisa branca e paletó cinza-escuro entrou no restaurante, Connie percebeu-o e soube que ele estava pretendendo alguma coisa. Ao ver que Harry também notara, seu interesse no sujeito cresceu dramaticamente, porque Harry tinha um faro de dar inveja a um sabujo.

O instinto de tira é menos instinto do que um talento afiado para a observação e o bom senso de interpretar corretamente o que é observado. Com Connie era mais uma percepção subconsciente do que um monitoramento calculado de qualquer pessoa que atravessasse sua linha de visão.

O suspeito ficou parado junto à porta, perto da caixa registradora, esperando enquanto a recepcionista levava um jovem casal a uma mesa perto de uma das grandes janelas da frente.

À primeira vista ele parecia comum, quase inofensivo. Mas numa inspeção mais atenta, Connie pôde identificar as incongruências que haviam levado seu subconsciente a recomendar uma observação mais acurada. Nenhum sinal de tensão era visível em seu rosto bastante suave, e sua postura era relaxada—mas as mãos se fechavam com força dos lados do corpo, como se ele mal pudesse controlar uma ânsia de atacar alguém. Seu sorriso vago reforçava o ar de ausência — mas o sorriso ia e vinha, oscilando incerto, um atestado sutil de seu tumulto interior. O paletó esporte estava abotoado, o que era estranho porque ele não usava gravata e o dia estava quente. Mais importante, o paletó não caía direito; o bolso externo e o interno pareciam cheios com algo pesado que o deformava criando uma saliência sobre a fivela do cinto — como se escondesse um revólver por dentro da calça.

Claro que o instinto de tira nem sempre era confiável. O paletó podia simplesmente ser velho e deformado. O cara podia ser o professor distraído que aparentava; e, nesse caso, o paletó poderia estar atulhado de coisas sinistras como cachimbo, bolsa de fumo, régua de cálculo, calculadora, anotações e todo tipo de objetos que ele colocava no bolso sem ao menos perceber.

Harry, cuja voz se interrompera no meio de uma frase, lentamente pousou na mesa o sanduíche de frango. Estava concentrado no homem de paletó disforme.

Connie pegara algumas batatas fritas. Largou-as no prato, em vez de comer, e limpou os dedos gordurosos no guardanapo, ao mesmo tempo em que tentava vigiar o novo cliente sem encará-lo de modo óbvio.

A recepcionista, uma lourinha com cerca de vinte anos, voltou a área de recepção depois de acomodar o casal junto à janela e o homem com paletó de camurça sorriu. Ela falou com ele, ele respondeu, e a loura sorriu educada como se ele tivesse dito algo um tanto engraçado.

Quando o cliente disse outra coisa e a recepcionista riu de novo, Connie relaxou ligeiramente. E estendeu a mão para pegar mais batatas.

O recém-chegado pegou a recepcionista pelo cinto, puxou-a violentamente e agarrou sua blusa. O ataque fora tão súbito e inesperado, seus movimentos tão felinos, que ele a levantou do chão antes que ela começasse a gritar. Como se a jovem não pesasse nada, o homem lançou-a sobre as pessoas que comiam numa mesa próxima.

—      Merda! — Connie empurrou a cadeira para trás e ficou de pé, enfiando a mão sob a jaqueta e procurando o revólver preso às costas.

Harry também se levantou, segurando o seu revólver.

—      Polícia!

Seu grito foi soterrado pelo ruído da jovem loura caindo sobre a mesa, que tombou de lado. Os ocupantes se levantaram das cadeiras e vidros se espatifaram. Por todo o restaurante as pessoas levantaram os olhos dos pratos, espantadas com o barulho.

O exagero e a selvageria do estranho só podiam significar que ele estava drogado — ou podia ser também um psicótico genuíno.

Connie não se arriscou, agachando-se enquanto levantava a arma.

—      Polícia!

Ou o sujeito tinha ouvido o primeiro aviso de Harry ou os vira com o canto do olho, porque já estava correndo por entre as mesas, para o fundo do restaurante.

Ele tinha um revólver — talvez uma Browning nove milímetros, a julgar pelo som e pelo vislumbre que Connie teve. E fazia uso dele, atirando ao acaso, cada disparo trovejando no interior do restaurante.

Um vaso de terracota pintado explodiu ao lado de Connie. Lascas de cerâmica vitrificada choveram sobre ela, cobrindo-a de folhas longas e estreitas, e ela se curvou ainda mais, tentando usar uma das mesas como escudo.

Queria terrivelmente dar um tiro no sacana, mas o risco de acertar um dos outros clientes era grande demais. Quando olhou por baixo das mesas, achando que talvez pudesse pulverizar um dos joelhos daquele escroto com um disparo bem-colocado, pôde vê-lo tropeçando pela sala. O problema era que, entre os dois, um punhado de gente em pânico, de olhos arregalados, buscara refúgio sob as mesas.

— Merda! — Connie perseguiu o degenerado tentando ser o menor alvo possível, consciente de que Harry estava indo atrás dele a partir de outra direção.

As pessoas gritavam porque estavam apavoradas ou porque haviam sido acertadas e sentiam dor. A pistola do maldito alucinado disparava com muita freqüência. Ou ele podia trocar de pentes com uma rapidez super-humana ou tinha outro revólver.

Uma das grandes janelas recebeu um tiro direto e desmoronou num ruído estrondoso. Uma cachoeira de cacos de vidro se espalhou pelo piso de cerâmica Santa Fé.

Enquanto Connie se arrastava por entre as mesas, seus sapatos iam pegando batatas fritas amassadas, ketchup, mostarda, pedaços de cactos úmidos e cacos de vidro. E enquanto passava pelos feridos, estes gritavam ou estendiam as mãos, desesperados, em busca de ajuda.

Odiou ignorá-los, mas precisava empurrá-los para o lado, continuar se movimentando, tentar acertar um tiro no catarro ambulante vestido com paletó de camurça. Os parcos primeiros-socorros que ela poderia proporcionar não iria ajudá-los. Não podia fazer nada quanto ao terror e à dor que o filho da puta já provocara, mas, se ficasse na sua cola, poderia impedir que ele causasse mais danos.

Levantou a cabeça, arriscando-se a levar uma bala no cérebro, e viu que o saco de vômito estava no fundo do restaurante, junto a uma porta de vaivém com uma vigia de vidro no centro. Rindo, ele continuou disparando em qualquer coisa que lhe chamasse a atenção, pelo visto igualmente satisfeito em acertar um vaso de planta ou um ser humano. Mantinha uma aparência irritantemente comum, o rosto redondo e suave, o queixo pequeno e a boca macia. Nem mesmo o riso fazia com que parecesse louco; era mais o no riso largo e afável de alguém que tivesse visto um palhaço levar um tombo. Mas não havia dúvida de que era um louco perigoso, porque acertou um cacto gigante, depois um sujeito de camisa xadrez, depois novamente o cacto — e ele tinha duas armas, uma cm cada mão.

Bem-vindos aos anos noventa.

Connie ergueu-se do abrigo o suficiente para fazer pontaria.

Harry também foi rápido em aproveitar a súbita obsessão do lunático pelo cacto gigante. Ficou de pé em outra parte do restaurante e disparou. Connie disparou duas vezes. Lascas de madeira explodiram na porta, nos dois lados da cabeça do louco, e o vidro da vigia se despedaçou: tinham errado por centímetros nos primeiros tiros.

O doido desapareceu através da porta de vaivém, que recebeu os tiros seguintes de Harry e Connie e continuou balançando. A julgar pelo tamanho dos buracos de bala, a porta era oca, de modo que os projéteis poderiam ter atravessado e acertado o filho da puta.

Connie correu para a cozinha, patinando ligeiramente pelo chão coberto de alimentos. Duvidou que tivessem sorte o bastante para encontrar aquele escroto ferido e se sacudindo como uma barata meio amassada do outro lado da porta. O mais provável é que ele os estivesse esperando. Mas não conseguia se controlar, Ele poderia até mesmo atravessar a porta, vindo da cozinha, e interceptá-la. Mas ela estava cheia de adrenalina; acelerada. E quando a adrenalina estava alta ela só conseguia fazer as coisas no pique total, e nem importava que sua adrenalina vivesse alta ai maior parte do tempo.

Meu Deus, ela adorava esse trabalho.

Harry odiava essa coisa de caubói

Quando você é um tira, sabe que a violência pode dar as caras mais cedo ou mais tarde. Pode subitamente se encontrar metido até o pescoço no meio de lobos muito mais asquerosos do que os enfrentados por qualquer Chapeuzinho Vermelho. Entretanto, mesmo fazendo parte do trabalho, você não gosta disso.

Bom, talvez gostasse, se fosse Connie Gulliver.

Enquanto corria para a porta da cozinha, curvado e com o revólver engatilhado, Harry ouviu-a atrás dele, os pés batendo-amassando-chapinhando no chão, vindo à toda. Sabia que se virasse a cabeça iria vê-la rindo, não muito diferente do maníaco que cravejara o restaurante. Mesmo sabendo que ela estava do lado dos anjos, aquele sorriso nunca deixava de enervá-lo.

Parou junto à porta, chutou-a e instantaneamente pulou para o lado, esperando como resposta uma saraivada de balas.

Mas a porta bateu do lado de dentro, balançou para fora, e não veio nenhum tiro. De modo que, quando ela girou de novo para dentro, Connie passou rápido por ele e entrou na cozinha. Ele seguiu-a, xingando entre dentes, seu único modo de xingar.

No interior úmido e claustrofóbico da cozinha, hambúrgueres crepitavam na chapa e gordura borbulhava numa frigideira funda. Panelas de água ferviam num fogão. Fornos a gás estalavam com o calor intenso, e uma fileira de fornos de microondas zumbiam baixinho.

Meia dúzia de cozinheiros e outros empregados vestidos de calças e camisetas brancas, com os cabelos enfiados sob gorros amarrados com cordões, pálidos como cadáveres, encontravam-se de pé ou agachados entre o equipamento culinário. Estavam envolvidos por fiapos ondulantes de vapor e fumaça de carne, mais parecendo fantasmas do que pessoas reais. Viraram-se na direção de Connie e Harry quase como se fossem um só.

-— Onde? —- sussurrou Harry.

Um dos empregados apontou para uma porta entreaberta no fundo da cozinha.

Harry foi na frente, através de uma passagem estreita ladeada a esquerda por prateleiras cheias de panelas e utensílios. À direita havia uma série de bancadas de cortar carne, uma máquina usada para cortar batatas e outra que picava alface.

A passagem se alargou num espaço livre, com pias fundas e lavadoras de pratos para serviço pesado, junto à parede da esquerda. A porta entreaberta ficava a cerca de seis metros das pias.

Connie passou ao seu lado e chegou junto) à porta. Manteve distância suficiente para garantir que não fossem ambos apanhados no mesmo tempo por uma rajada de tiros.

A escuridão depois da porta incomodou Harry. Provavelmente havia um depósito sem janelas. O criminoso sorridente e com cara de lua seria ainda mais perigoso encurralado.

Depois de flanquear a porta, os dois hesitaram, parando um momento para refletir. Harry poderia ficar pensando durante metade do dia, dando ao sujeito tempo suficiente para assar lá dentro. Mas não era assim que a coisa funcionava. Esperava-se que os tiras unissem, em vez de reagir. Se o depósito tivesse outra saída, qualquer atraso de sua parte permitiria a fuga do criminoso.

Além disso, quando sua parceira era Connie Gulliver, não era possível se dar ao luxo de vadiar ou ruminar. Ela nunca era imprudente, sempre profissional e cautelosa—mas tão rápida e agressiva que algumas vezes parecia que viera para as investigações de homicídios depois de passar por uma equipe da SWAT.

Connie agarrou uma vassoura que estava apoiada na parede. «Segurando-a junto à base, enfiou o cabo através da porta entreaberta, que balançou para dentro com um guincho longo. Quando a porta se abriu por completo ela jogou a vassoura para o lado. O som foi de ossos velhos caindo sobre o piso de cerâmica.

De lados opostos da porta, os dois se olharam, tensos.

Silêncio no depósito.

Sem se expor ao criminoso, Harry só conseguia ver uma fresta estreita de escuridão depois do portal.

Os únicos sons eram os estalos e gorgolejos das panelas e frigideiras, o rumor dos exaustores junto ao teto.

Enquanto seus olhos se ajustavam à escuridão além da porta, Harry viu formas geométricas cinza-escuro sobre o negro ameaçador. De súbito percebeu que não era um depósito. Era a base de uma escada.

Outra vez xingou entre dentes.

—      O que foi? — sussurrou Connie.

—      Escada.

Atravessou o portal, tão pouco preocupado com a segurança quanto Connie. Não havia outro modo de agir. Escadas são armadilhas estreitas onde você não pode mirar com facilidade, e escadas escuras são ainda piores. A escuridão acima era tamanha que ele não conseguia ver se o criminoso estava lá, mas achou que ele próprio representava um alvo perfeito, uma silhueta contra a luz da cozinha. Teria preferido bloquear a porta da escada e encontrar outra rota para o segundo andar, mas até então o criminoso teria ido embora ou feito uma barricada tão segura que desalojá-lo poderia custar a vida de uns dois tiras.

Depois de decidir, subiu a escada o mais rápido que ousou, diminuindo a velocidade apenas pela necessidade de ficar de um dos lados, junto à parede, onde os degraus seriam mais espessos e teriam menos probabilidade de ranger. Chegou a um patamar estreito, movendo-se cegamente com as costas coladas à parede.

Tentando enxergar na escuridão absoluta, perguntou-se como um segundo andar poderia ser tão escuro quanto um porão.

De cima veio um riso baixo.

Harry congelou no patamar. Confiava em que não estivesse mais recebendo a luz por trás. Comprimiu-se ainda mais contra a parede.

Connie chocou-se contra ele e também congelou.

Harry esperou que o riso esquisito se repetisse. Esperava conseguir uma orientação suficientemente precisa para valer o risco de um tiro, revelando sua própria localização.

Nada.

Prendeu o fôlego.

Então alguma coisa fez um ruído surdo. Chacoalhado. Surdo de novo. Chacoalhado. Surdo de novo.

Percebeu que algum objeto estava rolando e deslizando pelos degraus em sua direção. O quê? Não tinha idéia. Sua imaginação abandonou-o.

Tum. Tactactactac. Tum.

Instintivamente soube que o que quer que estivesse rolando pela escada não era bom. Por isso o criminoso tinha rido. Alguma coisa pequena, a julgar pelo som, mas mortal. Sentiu-se furioso consigo próprio por ser incapaz de pensar, de visualizar. Sentiu-se estúpido e inútil. Um suor fedorento subitamente banhou-o.

O objeto bateu no patamar e rolou, parando junto ao seu pé esquerdo. Bateu contra o pé. Ele saltou para trás depois agachou-se rápido, tateou cegamente pelo chão e encontrou a coisa. Maior do que um ovo, mas com forma ligeiramente oval. Com a superfície geométrica intrincada de uma pinha. Mais pesada do que uma pinha. Com uma alavanca no topo.

—      Para baixo! — Ele ficou de pé e jogou a granada de volta

para o hall superior antes de seguir o próprio conselho e saltar o

mais rápido possível para o térreo.

Ouviu a granada bater contra alguma coisa lá em cima.

Esperava ter lançado aquela coisa no hall do segundo andar. Mas talvez ela tivesse se chocado contra uma parede no poço da escada e estivesse caindo agora mesmo, com o timer tiquetaqueando os últimos dois segundos antes da detonação. Ou talvez tivesse simplesmente caído no hall de cima e o criminoso a houvesse chutado de volta em sua direção.

A explosão foi alta, clara, cataclísmica. Seus ouvidos zumbiram dolorosamente. Cada osso pareceu vibrar enquanto a onda de choque passava por ele e as batidas cardíacas se aceleravam mesmo já estando rápidas. Lascas de madeira, reboco e outros entulhos choveram sobre ele, e o poço da escada ficou cheio do fedor ácido de pólvora queimada, como uma noite de Quatro de Julho depois de uma grande queima de fogos de artifício.

Teve uma nítida imagem mental do que teria acontecido caso tivesse sido dois segundos mais lento: sua mão se dissolvendo num jorro de sangue enquanto a granada explodia, o braço sendo arrancado do corpo, o rosto se enrolando para dentro...

—      Que diabo...? — rosnou Connie, a voz próxima e distante no mesmo tempo, distorcida porque os ouvidos de Harry continuavam zumbindo.

—      Granada — respondeu ele, ficando de pé.

— Granada? O que esse palhaço é?

Harry não tinha qualquer pista sobre a identidade ou a motivação do sujeito, mas agora sabia o que o casaco de camurça escondia de tão volumoso. Se o criminoso estava carregando uma granada, por que não duas? Ou três?

Após o breve clarão a escada continuou tão escura quanto antes.

Harry deixou de lado qualquer cautela e subiu até o segundo andar. Sabia que Connie vinha logo atrás. A cautela não parecia prudente em tais circunstâncias. Sempre existe a chance de escapar de uma bala, mas se o indivíduo carregava granadas, toda a cautela do mundo não teria a menor importância quando ela explodisse.

Não que eles estivessem acostumados a enfrentar granadas. Essa era a primeira vez.

Esperou que o lunático tivesse ficado para ouvi-los morrer na explosão — e que tivesse sido apanhado desprevenido quando a granada voltou para ele. Sempre que um tira matava um criminoso a burocracia era horrenda, mas Harry estava disposto a sentar-se feliz diante de uma máquina de escrever durante dias, se pelo menos o cara de paletó de camurça houvesse sido transformado em papel de parede úmido.

O longo corredor do andar de cima não tinha janelas, e antes da explosão devia estar completamente escuro. Mas a granada arrancara uma porta das dobradiças e fizera buracos em outra. Um pouco de luz do dia se infiltrava através das janelas pelos cômodos e penetrava no corredor.

Os danos causados pela explosão foram extensos. O prédio era antigo, construído de pau a pique em vez de tijolos, e em alguns pontos a trama de varas surgia como ossos quebradiços em meio aos buracos na carne ressecada do corpo mumificado de algum faraó. Tábuas do piso estavam soltas e lascadas, espalhadas por metade do corredor, revelando o forro por baixo e, em alguns lugares, as vigas queimadas.

Não havia chamas. A força sugadora da explosão impedira que qualquer coisa pegasse fogo. A fina névoa de fumaça não reduzia a visibilidade, mas irritava os olhos fazendo-os lacrimejar.

O criminoso não estava visível.

Harry respirou pela boca para não espirrar. A névoa acre era amarga em sua língua.

Oito portas se abriam para o corredor, quatro de cada lado, inclusive a que fora inteiramente arrancada das dobradiças. Sem qualquer comunicação direta além de um olhar, Harry e Connie moveram-se coordenados a partir da escada em direção à porta aberta, cuidando para não pisar em qualquer dos buracos no chão. Tinham de inspecionar rapidamente o andar de cima. Cada janela era uma rota de fuga em potencial, e o prédio podia ter escadas nos fundos.

—      Elvis!

O grito veio do cômodo sem porta, do qual estavam bem próximos.

Harry olhou para Connie e os dois hesitaram porque naquele momento havia uma estranheza perturbadora no ar.

—      Elvis!

Ainda que pudesse haver outras pessoas no segundo andar antes da chegada do criminoso, de algum modo Harry soube que era ele mesmo gritando.

—      O Rei! O Senhor de Memphis!

Flanquearam o portal, como haviam feito embaixo da escada. O criminoso começou a gritar nomes de músicas de Elvis Presley:

—      Heartbreak Hotel, Blue Suede Shoes, Hound Dog, Money Honey, Jailhouse Rock...

Harry olhou para Connie e ergueu uma sobrancelha. Ela encolheu os ombros.

—      Stuck on You, Little Sister, GoodLuck Charm...

Harry fez um sinal para Connie, indicando que entraria primeiro. Iria agachado, para que ela o cobrisse disparando por sobre sua cabeça.

—      Are YouLonesome Tonight?, AMess ofBlues, In the Ghetto!

Quando Harry se preparava para agir, uma granada voou da sala. Bateu no corredor entre ele e Connie, rolou e desapareceu por um dos buracos abertos pela primeira explosão.

Não havia tempo para revirar as tábuas do piso. Nem para voltar à escada. Se demorassem, o corredor explodiria ao redor deles.

Contrariamente ao plano de Harry, Connie correu primeiro e entrou no cômodo onde estava o criminoso, permanecendo agachada e dando alguns tiros. Ele seguiu-a, disparando duas vezes por sobre sua cabeça, os pés de ambos fazendo barulho sobre a porta que fora lançada para dentro pela primeira explosão. Caixas. Suprimentos empilhados em todo canto. Nenhum sinal do criminoso. Os dois se abaixaram, jogaram-se no chão entre as pilhas de caixas.

Ainda estavam deitando, se arrastando, quando o corredor se despedaçou num clarão e num estrondo atrás deles. Harry enfiou a cabeça sob o braço e tentou proteger o rosto.

Um vento breve e quente trouxe uma tempestade de entulho através do portal. Uma luminária de teto se dissolveu em cacos de vidros.

Respirando novamente o fedor de fogos de artifício, Harry levantou a cabeça. Um pedaço de madeira de aparência maligna— do tamanho de uma faca de açougueiro, mais grossa e quase tão amolada quanto — passara a cinco centímetros dele e se cravara numa grande caixa de lenços de papel.

A fina camada de suor em seu rosto estava fria como gelo.

Harry tirou os cartuchos deflagrados do revólver, pegou o carregador no bolso e colocou-o, torcendo, largando-o e batendo o tambor.

— Return to Sender, Suspicious Mind, Surrender

Harry sentiu-se varado de saudade dos vilões simples, diretos e compreensíveis dos irmãos Grimm; como a rainha má, que comeu o coração de um porco selvagem achando que era o da enteada. Branca de Neve, cuja beleza ela invejava e cuja vida ela ordenara que fosse confiscada.

 

Connie ergueu a cabeça e olhou para Harry, caído ao seu lado, coberto de pó, pedaços de madeira e cacos brilhantes de vidro. Exatamente como ela, sem dúvida.

Dava para notar que ele não se sentia tão à vontade quanto ela. Harry gostava de ser tira; para ele um tira era símbolo de ordem e justiça. Loucuras assim deixavam-no doído, porque a ordem só poderia ser imposta através de uma violência equivalente à do perpetrador. E nunca seria possível obter justiça de um criminoso (ilo fora da realidade, incapaz de sentir remorso ou de temer uma reação à altura.

O pirado gritou de novo:     

—      Long Legged Girl, Ali Shook Up, Baby Don't Get Hooked un Me!

—      Elvis Presley não cantava Baby Don't Get Hooked on Me! — sussurrou Connie.

Harry piscou.

—      O quê?

—      Pelo amor de Deus, era Mac Davis.

— Rock-a-Hula Baby, Kentucky Rain, Flaming Star, I Feel So Bad!

A voz do maluco parecia vir de cima.

Connie levantou-se cautelosamente, com o revólver na mão. Espiou por entre as caixas empilhadas e depois por cima delas.

No lado extremo do cômodo, perto do canto, havia um alçapão aberto no teto. Uma escada dobrável se estendia da abertura.

—      A Big Hunk o' Love, Kiss Me Quick, Guitar Man!

O vômito de cachorro ambulante subira a escada. Estava gritando do sótão escuro.

Queria agarrar aquele pirado e esmagar sua cara, o que talvez não fosse uma reação comedida de policial, mas que sem dúvida era sincera.

Harry também viu a escada e se levantou quando ela ficou de pé. Connie estava tensa, pronta para saltar longe caso outra granada caísse daquele alçapão.

—      Anyway You WantMe, PoorBoy, Running Bear!

—      Droga, isso também não era do Elvis — disse Connie, não se importando mais em sussurrar, — Johnny Preston cantava Running Bear,

—      E daí?

—      Esse cara é um babaca! — disse ela com raiva, o que não era exatamente uma resposta. Mas a verdade era que Connie não sabia por que o fato daquele perdedor não saber direito as músicas de Elvis a incomodava tanto.

—      Your're the Devil in Disguise, Don't Cry Daddy, Do the Clam!

—      Do the Clam (Banque o marisco)? — perguntou Harry,

Connie franziu a testa.

—      É, acho que essa era do Elvis.

Enquanto fagulhas corriam dos fios em curto, partindo do lustre danificado no teto, os dois atravessaram a sala por lados opostos de uma longa fila de caixas, juntando-se perto do acesso ao sótão,

Do mundo embaixo da janela empoeirada veio o gemido de sirenes distantes. Reforço e ambulâncias.

Connie hesitou. Agora que o pirado estava no sótão, poderia ser melhor expulsá-lo com gás lacrimejante, lançar uma granada de concussão para deixá-lo desacordado e simplesmente esperar reforço.

Mas rejeitou a atitude cautelosa. Ainda que isso fosse mais seguro para ela e Harry, seria mais arriscado para todas as outras pessoas de Laguna Beach. O sótão talvez não fosse um beco sem saída. Uma porta de serviço para o telhado daria ao cara uma rota de fuga.

Evidentemente Harry tivera o mesmo pensamento. Ele hesitou uma fração de segundo a menos do que ela, e começou a subir.

Connie não se importou que Harry fosse na frente porque ele não estava fazendo isso a partir de alguma necessidade protetora equivocada, nem tentando afastar a dama do perigo. Ela atravessara a outra porta na frente, de modo que dessa vez ele liderava. Intuitivamente compartilhavam o risco — uma das coisas que faziam deles uma boa dupla, a despeito das diferenças.

Claro que, apesar de estar com o coração martelando e as entranhas travadas, ela preferiria ir na frente. Atravessar uma ponte sólida nunca era tão satisfatório quanto andar na corda bamba.

Seguiu-o escada acima. Lá no alto, ele hesitou apenas um instante, antes de desaparecer na escuridão. Não houve nenhum tiro, nenhuma explosão sacudiu o prédio, de modo que Connie também entrou no sótão.

3Harry havia se afastado da luz cinzenta que subia pelo alçapão, Em seguida se agachou a pouco mais de um metro, ao lado de uma mulher nua e morta.

Num segundo olhar ficou claro que era um manequim com expressão fixa, olhos cobertos de poeira e um sorriso sereno e misterioso. Era careca, e o crânio de gesso tinha uma mancha de umidade. 

O sótão era escuro, mas não impenetrável. Nas paredes dos fundos, a pálida luz do dia atravessava uma série de frestas de ventilação no beirai e nas aberturas maiores, cobertas por venezianas metálicas, revelando caibros cobertos de teias de aranha sob um telhado agudo. No centro até mesmo um homem alto poderia ficar de pé, mas perto das paredes largas era necessário agachar. Sombras se agigantavam em todos os lugares e pilhas de baús e caixotes ofereciam numerosos esconderijos.

Parecia que uma multidão se reunira naquele lugar alto para celebrar uma cerimônia satânica. Por toda a câmara viam-se silhuetas parciais de homens e mulheres, algumas vezes iluminadas de lado, algumas vezes por trás, na maioria quase invisíveis, de pé, apoiadas ou deitadas, silenciosas e imóveis.

Eram manequins semelhantes ao que estava no chão junto de Harry. Mesmo assim Connie sentia seus olhares, e sua pele ficou áspera de arrepio.

Um deles poderia ser capaz de vê-la. Um que não era feito de gesso, e sim de sangue, carne e ossos.

 

No alto reduto dos manequins o tempo parecia suspenso. O ar úmido estava contaminado de poeira, do aroma áspero de jornais envelhecidos, papelão embolorado e fungos acres que haviam brotado em algum canto escuro é morreriam no final da estação chuvosa. As figuras de gesso observavam, sem respirar.

Harry tentou lembrar que tipo de comércio dividia o prédio com o restaurante, mas não conseguiu atinar com os possíveis donos dos manequins.

Do lado leste do sótão veio um martelar frenético, metal contra metal. O criminoso deveria estar batendo contra a abertura maior na parede dos fundos, tentando sair, arriscando-se a cair no beco, no corredor de serviço ou na rua lá embaixo.

Meia dúzia de morcegos apavorados irromperam de seus poleiros e voaram de um lado para o outro do longo sótão, buscando segurança mas relutantes em trocar a escuridão pela luz do dia. Suas pequenas vozes eram suficientemente agudas para serem ouvidas apesar do guincho crescente das sirenes. Quando passavam perto, as batidas coriáceas de suas asas e um vuuup que cortava o ar faziam com que Harry se encolhesse.

Queria esperar pela chegada dos reforços.

O criminoso martelou com mais força.

O metal rangeu, como se estivesse cedendo.

Não podiam esperar, não ousavam.

Ainda agachado, Harry se arrastou entre pilhas de caixas na direção da parede sul, e Connie deslizou para o outro lado. Pegariam o criminoso num movimento de pinça. Ao se aproximar do lado sul o máximo que o teto inclinado permitia, Harry virou-se para leste, de onde se originava o ruído das pancadas.

Por todos os lados, manequins mantinham poses eternas. Seus membros lisos e roliços pareciam absorver e ampliar a luz fraca que atravessava as aberturas estreitas nos beirais. As carnes duras que não estavam cobertas por sombras tinham um brilho sobrenatural de alabastro.

As batidas pararam. Nenhum golpe, estalo ou guincho final indicava que a abertura estivesse liberada.

Harry parou, esperou. Só podia ouvir as sirenes, a um quarteirão de distância, e o guincho dos morcegos quando voavam perto.

Adiantou-se alguns centímetros. Seis metros à frente, no final da passagem que fedia a mofo, uma fraca luz cinzenta surgia de uma fonte invisível à esquerda. Decerto era a grande abertura contra a qual o criminoso estivera martelando. O que significava que ela continuava no lugar. Se tivesse sido arrancada da estrutura, a luz do dia estaria jorrando naquele extremo do sótão.

Uma a uma, as sirenes expiraram lá embaixo. Seis.

Enquanto se arrastava para a frente, Harry viu uma pilha de membros decepados num dos nichos escuros entre dois caibros envoltos em luz espectral. Braços cortados nos cotovelos. Mãos imputadas nos pulsos. Dedos abertos, como se pedissem ajuda, implorando, buscando. No instante em que ficava boquiaberto pelo choque, percebeu que a coleção macabra era apenas uma pilha de partes de manequins.        

Continuou andando agachado, a uns três metros do final da passagem estreita, agudamente cônscio do arrastar débil porém audível de seus sapatos pelas tábuas empoeiradas. Como as sirenes, os morcegos agitados haviam silenciado. Da rua subiram alguns gritos e estalos das transmissões dos rádios da polícia, mas eram sons distantes e irreais, como vozes em um pesadelo do qual ele estivesse acordando ou no qual estivesse prestes a entrar. Harry parava a cada meio metro, tentando ouvir qualquer ruído revelador que o criminoso pudesse fazer, mas o sujeito estava quieto como um fantasma.

Quando chegou no final da passagem, a menos de dois metros da parede leste do sótão, parou de novo. A abertura que o criminoso estivera golpeando devia estar logo atrás da última pilha de caixas.

Ele prendeu o fôlego e tentou ouvir a respiração de sua presa. Nada.

Inclinou-se para a frente, olhou por trás das caixas, vendo o fim da passagem e a área vazia diante da parede leste. O criminoso se fora.

Não tinha fugido pela abertura do sótão. Ela estava danificada mas continuava firme, emitindo uma vaga corrente de ar e tiras finas e irregulares de luz que faziam listras no chão onde as pegadas do criminoso tinham revolvido o tapete de pó.

Um movimento na extremidade norte do sótão atraiu a atenção de Harry e seu dedo se tensionou no gatilho. Connie espreitou pelo canto das caixas empilhadas naquele lado.

Os dois se olharam através do grande espaço.

Q criminoso havia circulado por trás deles.

Apesar de Connie estar quase totalmente na sombra, Harry a conhecia suficientemente para ter certeza de que ela estava murmurando baixinho: merda, merda, merda.

Ela veio se arrastando pelo espaço vazio no lado leste, movendo-se em direção a Harry e olhando cautelosa cada passagem entre filas de caixas e manequins.

Harry foi em sua direção, conferindo as passagens escuras do seu lado. O sótão era tão grande e estava tão atulhado de coisas que formava um labirinto. E abrigava um monstro capaz de rivalizar com qualquer ser mitológico.

De outra parte do cômodo veio a voz agora familiar:

—      Ali Shook Up, I Feel So Bad, Steamroller Blues!

Harry apertou as pálpebras. Queria estar em outro lugar. Talvez no reino das "Doze Princesas Dançarinas", com os doze belos e jovens herdeiros do trono, castelos subterrâneos de luz, árvores com folhas de ouro e outras com folhas de diamantes, salões de baile encantados repletos de música maravilhosa... É, seria ótimo. Era um dos contos mais leves dos irmãos Grimm. Nele ninguém era comido vivo ou retalhado por um gigante.

—      Surrenderl (Renda-se!)

Dessa vez era a voz de Connie.

Harry abriu os olhos e franziu a testa na direção dela. Tinha medo de que ela entregasse o lugar onde estavam. Certo, ele não conseguira descobrir, pelo ouvido, a posição do criminoso; naquele sótão o som ecoava de modo estranho, o que significava proteção tanto para eles quanto para o louco. Mesmo assim, o silêncio era mais sensato.

O criminoso gritou outra vez:

—      A Mess of Blues, Heartbreak Hotel!

—- Surrender! -— repetiu Connie.

—      Go Away Little Girl (Vá embora, garotinha)!

Connie fez uma careta.

—      Essa não era do Elvis, seu cabeça de minhoca! Era do Steve Lawrence. Surrender!

—      Stay Away (Fique longe)!

—      Surrender!

Harry piscou para afastar o suor dos olhos e estudou Connie sem compreender. Nunca se sentira menos no controle de uma situação. Alguma coisa estava acontecendo entre ela e o lunático, mas Harry não tinha idéia do que fosse.

—      I Don 't Care If the Sun Don 't Shine (Não me importo se o sol não brilhar).

—      Surrender!

De repente Harry lembrou-se de que Surrender (Renda-se) era o título de um clássico de Elvis.

—      Stay Away.        

Ele achou que pudesse ser outra música de Elvis.          

Connie deslizou por uma das passagens, sumindo da vista de Harry enquanto gritava:

—      It´s Now or Never (É agora ou nunca)!

—      What 'd I Say ? (O que eu poderia dizer?)

Afastando-se pelo labirinto, Connie respondeu ao criminoso

com dois títulos de canções de Elvis:

—      Surrender (Renda-se). I Beg ofYou (Eu te imploro).

—      I Feel So Bad (Eu me sinto tão mal).

Depois de uma hesitação, Connie respondeu:

—      Tell Me Why (Diga-me por quê).

—      Don 't Ask Me Why (Não me pergunte por quê).

Fora estabelecido um diálogo. Com nomes de músicas de Elvis Presley. Parecendo um estranho show de televisão, sem prêmios para as respostas corretas mas repleto de perigos para as respostas erradas.

Totalmente agachado, Harry seguiu por uma passagem diferente da que Connie pegara. Uma teia de aranha envolveu seu rosto. Ele arrancou-a e penetrou mais fundo nas sombras guardadas pelos manequins.

Connie voltou ao título á utilizado:

—      Surrender!

—      Stay Away.

—      Are You Lonesome Tonight? (Está se sentindo só esta noite?)

Depois de uma hesitação, o criminoso admitiu:

—      Lonely Man (Homem solitário).

Harry continuava sem conseguir detectar a origem da voz. Agora o suor jorrava. Restos delicados da teia de aranha se grudavam ao seu cabelo e faziam sua testa cocar. A boca tinha o gosto do fundo de um pilão do laboratório de Frankenstein, e ele se sentia como se tivesse saído da realidade para as negras alucinações de algum viciado em drogas.

—      Let Yourself Go (Liberte-se) — aconselhou Connie.

—      IFeel So Bad — repetiu ele.

Harry sabia que não deveria estar tão desorientado pelo modo tortuoso com que o sujeito se expressava. Afinal de contas, esses eram os anos noventa, a época mais irracional de todos os tempos, quando o estranho era tão comum a ponto de estabelecer uma nova definição de normalidade. Como o assaltante que recentemente passara a ameaçar balconistas de mercearias não com revólveres, mas com seringas cheias de sangue contaminado por AIDS.

Connie gritou para o criminoso:

—      Let Me Be Your Teddy Bear (Deixe-me ser seu ursinho de pelúcia) — o que, para Harry, pareceu uma virada estranha na conversa até então realizada a partir de títulos de canções.

No entanto, o criminoso devolveu numa voz cheia de anseio e suspeita:

—      You Don 't Know Me (Você não me conhece).

Connie só precisou de alguns segundos para descobrir a continuação certa:

—      Doncha Think It's Time? (Não acha que está na hora?)

E por falar em coisa estranha: Richard Ramirez, o assassino em série conhecido como o Rastejador Noturno, era visitado regularmente na prisão por uma quantidade de jovens bonitas que o achavam atraente, excitante, uma figura romântica. E que tal o sujeito de Wisconsin que, não faz muito tempo, cozinhava partes das vítimas para o jantar, guardando fileiras de cabeças decepadas na geladeira? E os vizinhos diziam: bem, há anos a gente sentia um mau cheiro vindo do apartamento dele. E de vez em quando eles ouviam gritos e barulho de serra elétrica, mas os gritos nunca duravam. E de qualquer modo o cara parecia legal, parecia se importar com as pessoas. A década de noventa. Não há outra igual.

—      Too Much (Demais) — disse finalmente o criminoso, evidentemente não acreditando no interesse romântico declarado por Connie.

—      Poor Boy (Pobre menino)—disse ela, aparentemente com uma simpatia genuína.

—      Way Down (Na pior)! — A voz do criminoso, agora desagradavelmente lamurienta, ecoou nos caibros cobertos de teias enquanto ele admitia sua falta de auto-estima, um tipo de desculpa bem anos noventa.

—      Wear My Ring Around Your Neck (Use meu anel pendurado no pescoço)—disse Connie, fazendo-o entrar no clima românticos enquanto se arrastava pelo labirinto, sem dúvida pretendendo acabar com ele assim que o visse.

O criminoso não respondeu.

Harry também continuou em movimento, diligentemente procurando em cada nicho e em cada espaço escuro, mas sentindo-se inútil. Nunca imaginara que, na última década desse estranho século, poderia precisar ser um especialista em curiosidades do rock'n 'roll para ser um policial eficaz.

Odiava essa bosta, mas Connie adorava. Ela abraçava o caos dos tempos; havia nela algo escuro e selvagem.

Harry chegou a uma passagem perpendicular. Estava deserta — a não ser por dois manequins nus que haviam caído há muito tempo, um sobre o outro. Agachado, com os ombros curvados tenntando se proteger, foi adiante.

—      Wear My Ring Around Your Neck — gritou Connie, em outra parte do labirinto.

Talvez o criminoso estivesse hesitando por achar que era uma oferta que um rapaz devesse fazer a uma garota, e não o contrário. Apesar de ser definitivamente um homem dos anos noventa, talvez o sacana ainda tivesse uma idéia ultrapassada dos papéis sexuais.

—      Treat Me Nice (Trate-me bem) — disse Connie.

Sem resposta.

—      Love Me Tender (Ame-me com ternura) — ela tentou de novo.

O criminoso continuou sem responder, e Harry sentiu-se alarmado porque a conversa havia se transformado num monólogo. O escroto poderia estar perto de Connie, deixando que ela falasse para conseguir um alvo melhor.

Harry estava para gritar um alerta quando uma explosão abalou o prédio. Congelou, cruzando os braços para proteger o rosto. Mas a explosão não ocorrera no sótão; não tinha havido clarão.

Do andar de baixo vieram gritos de agonia e terror, vozes confusas, berros de raiva.

Evidentemente outros policiais haviam entrado na sala de baixo, onde a escada dava acesso ao sótão, e o criminoso os tinha escutado. Havia lançado uma granada pelo alçapão.

Os gritos horríveis trouxeram uma imagem à mente de Harry: alguém tentando impedir que os intestinos saíssem da barriga.

Sabia que ele e Connie estavam num raro momento de plena harmonia, experimentando o mesmo pavor e a mesma fúria. Pela primeira vez não deu a mínima para os direitos legais do criminoso, para o uso da força excessiva ou para o modo adequado de fazer as coisas. Só queria o sacana morto.

Acima dos gritos, Connie tentou restabelecer o diálogo:

—      Love Me Tender.

—      Tell Me Why (Diga-me por quê) — exigiu o criminoso, ainda duvidando da sinceridade dela.

—      My Baby Left Me (Meu bem me deixou) — respondeu Connie.

No andar de baixo os gritos foram diminuindo. Ou o homem ferido estava morrendo ou o estavam retirando do cômodo onde a granada detonara.

—      Any way You Want Me (De qualquer jeito que você me quiser) — disse Connie.

O criminoso ficou em silêncio por um momento. Depois sua voz ecoou pelo cômodo, furiosamente sem direção.

—      I Feel So Bad.

—      l Am Yours (Sou sua) — disse Connie.

Harry não conseguia acompanhar a velocidade com que ela pensava nos títulos adequados.

—      Lonely Man—lamentava o criminoso, e realmente sua voz

parecia tristíssima.

—      I´ve Got a Thing About You Baby — insistiu Connie.

Ela é um gênio, pensou Harry, admirado. E verdadeiramente obcecada por Elvis Presley.

Esperando que o criminoso estivesse distraído pela estranha dedução de Connie, Harry arriscou-se a se mostrar. Como estava diretamente sob a cumeeira do telhado, levantou-se devagar até ficar de pé e examinou todos os lados do sótão.

Algumas pilhas de caixas iam até a altura do ombro, mas muitas outras iam pouco acima da cintura de Harry. Uma enorme quantidade de formas humanas olhavam das sombras, enfiadas entre as faixas e até sentadas sobre elas. Mas todas deviam ser manequins,

porque nenhuma se mexeu ou atirou nele. 

—      Lonely Man, Ali Shook Up (Homem solitário, completamente abalado) — disse o criminoso em tom de desespero.

—      There 's Always Me (Pode contar comigo).

—      Please Don 't Stop Loving Me (Por favor, não deixe de me amar).

—      Can't Help Falling in Love (Não consigo deixar de me apaixonar) — disse Connie.

De pé, Harry tinha uma idéia ligeiramente melhor de onde vinham as vozes. Connie e o criminoso estavam à sua frente, mas n princípio ele não podia discernir se um estava perto do outro. Não conseguia ver, por cima das caixas, os outros caminhos do labirinto.

—      Don't Be Cruel (Não seja cruel) — implorou o criminoso.

—      Love Me — instigou Connie.

—      I Need Your Love Tonight (Preciso do seu amor esta noite).

Eles se encontravam perto da parede oeste do sótão, do lado sul, e estavam perto um do outro.

—      Stuck on You (Grudada em você) — insistiu Connie.

—      Don't Be Cruel.

Harry sentiu um crescimento na intensidade do diálogo, revelado sutilmente no tom de voz do sujeito, na velocidade das respos-las e no fato dele estar repetindo o mesmo título.

—      I Need Your Love Tonight.

—      Don 't Be Cruel.

Harry parou de colocar a cautela em primeiro plano. Correu na direção das vozes, para uma área mais densamente povoada por manequins, grupos amontoados em nichos entre caixas. Ombros pálidos, braços graciosos, mãos apontando ou erguidas, como se cumprimentassem alguém. Olhos pintados, cegos na escuridão, lábios pintados, eternamente entreabertos em meios-sorrisos, em cumprimentos jamais verbalizados, em suspiros desapaixonadamente eróticos,

Outras aranhas viviam ali, o que ficou evidenciado pelas teias que se enredavam em seus cabelos e grudavam em suas roupas. Enquanto se movia, ele retirava do rosto os fios diáfanos. Farrapos retorcidos se dissolviam na língua e nos lábios, e sua boca se enchia de saliva enquanto a náusea o envolvia, Harry se engasgou, expelindo um chumaço de cuspe e teia de aranha.

—      Ifs Now or Never — prometeu Connie em algum lugar ali perto.

Como resposta, as três palavras familiares haviam se tornado menos um pedido do que um alerta:

—      Don't Be Cruel.

Harry teve a sensação de que o sujeito não estava sendo enganado, e sim se aproximando de uma outra explosão.

Deu mais alguns passos e parou, virando a cabeça de um lado para o outro, ouvindo com atenção, com medo de perder alguma coisa por causa das batidas de seu coração, que soavam altas demais em seus ouvidos.

—      Fm Yours, Puppet on a String (Sou sua, Marionete presa num fio), Let Yourself Go — instigou Connie, a voz caindo para um sussurro teatral, tentando criar uma falsa sensação de intimidade com a presa.

Apesar de respeitar as habilidades e os instintos de Connie, Harry teve medo de que a ansiedade em enganar o criminoso pudesse não estar sendo respondida pela confusão e pelo desejo dele, mas sim por uma ânsia semelhante de enganá-la.

—      Playingfor Keeps (Jogando à vera), One Broken Heart For Sale (Vende-se um coração partido) — disse Connie.

Ela parecia estar perto de Harry, na próxima passagem, no máximo a duas passagens de distância, e paralela a ele.

—      Ain 't That Loving You Baby (Isso não é amar você, baby), Crying in The Chapei (Chorando na capela). — O sussurro de Connie tinha ficado mais feroz do que sedutor, como se ela também tivesse consciência de que algo dera errado no diálogo,

Harry tensionou o corpo, esperando a resposta do criminoso, tentando enxergar na escuridão à sua frente; depois, virando-se para olhar o caminho por onde viera, quando imaginou o assassino sorridente e com cara de lua vindo por trás.

O sótão não parecia apenas silencioso, mas a fonte de todo o silêncio, como o sol era a fonte de luz. As aranhas invisíveis moviam-se furtivas em todos os cantos escuros e milhões de grãos de poeira deslizavam silenciosamente como planetas e asteróides no vácuo espacial. Dos dois lados de Harry grupos de manequins encaravam sem ver, ouviam sem escutar, posavam sem saber.

Forçado por entre os dentes trincados, duro como uma ameaça, o sussurro de Connie deixara de ser um convite para se tornar um desafio; e não eram apenas os títulos das músicas que constituíam suas falas:

— Anyway You Want Me, seu escroto. Venha, venha para a mamãe. Let Yourself Go, saco de merda.

Sem resposta.

O sótão estava silencioso e fantasmagoricamente imóvel. Mais imóvel do que a mente de um defunto.

Harry teve a estranha sensação de estar se transformando em um dos manequins, a carne transmutada em massa, os ossos em hastes de aço, nervos e tendões em emaranhados de arame. Deixou apenas os olhos se mexerem, e a visão deslizar pelos habitantes inanimados do sótão.

Olhos pintados. Seios pálidos com mamilos permanentemente eretos, coxas roliças, nádegas rijas, curvando-se para a escuridão. Torsos sem pêlos. Homens e mulheres. Cabeças carecas ou com perucas emaranhadas cobertas de poeira.

Lábios pintados. Franzidos como se fossem dar um beijo, ou fazendo um beicinho divertido, ou ligeiramente entreabertos como numa surpresa erótica pela eletricidade do toque de um amante. Outros com sorrisos tímidos, alguns recatados, alguns com uma curva mais ampla, o brilho opaco de dentes, aqui um sorriso mais pensativo e ali uma gargalhada cheia e perpétua. Dentes de manequim não brilham. Não há saliva em dentes de manequins.

Qual? Ali, ali, no fundo do nicho, por trás de quatro manequins de verdade, uma imitação esperta, olhando por entre cabeças carecas e com perucas, quase perdido em sombras mas com os olhos úmidos brilhando na escuridão, a não mais que dois metros, cara acara , o sorriso se alargando enquanto Harry olhava, mais largo porém tão sem humor quanto uma ferida, o queixo pequeno, o rosto de lua, e mais um nome de canção, tão baixo a ponto de quase não ser audível.

— BlueMoon.

Harry captou tudo isso num instante, ao mesmo tempo em que levantava o cano do revólver e apertava o gatilho.

O criminoso abriu fogo com sua Browning 9 mm, talvez uma fração de segundo antes de Harry, e o sótão se encheu com os ruídos e os ecos dos disparos. Harry viu o clarão no cano da pistola, que parecia estar apontada direto para o seu peito, ah, meu Deus, por favor, e descarregou o revólver mais rápido do que parecia possível, num piscar de olhos, se ele ousasse piscar, a arma dando coices tão fortes que parecia prestes a voar da sua mão.

Alguma coisa golpeou forte suas tripas, e Harry soube que fora atingido, apesar de ainda não sentir dor, só uma pressão aguda e um calor súbito. E antes que a dor viesse, ele foi lançado para trás, manequins caindo por cima dele, empurrando-o contra a parede da passagem. As caixas empilhadas balançaram e algumas caíram na outra passagem do labirinto. Harry derrubado no chão em meio ao barulho de membros de gesso e corpos pálidos e duros, preso sob eles, buscando respirar, tentando gritar por socorro, incapaz de fazer qualquer ruído mais alto do que um arquejo. Sentiu o cheiro metálico e nítido de sangue.

Alguém acendeu as luzes do sótão, uma longa fileira de lâmpadas pequenas penduradas sob a cumeeira, mas isso só melhorou a visibilidade durante um segundo ou dois, o bastante para que Harry visse que o criminoso era parte do peso que o mantinha no chão. O rosto de lua olhava para baixo, no topo do bolo, entre os membros nus entrelaçados e por trás dos crânios carecas dos manequins, seus olhos agora tão cegos quanto os deles. O sorriso se fora. Os lábios estavam pintados, mas de sangue.

Apesar de Harry saber que as luzes na verdade não estavam sendo apagadas, parecia que elas iam sendo reduzidas por um dimmer. Tentou pedir socorro, mas de novo só conseguia emitir um chiado vindo do peito. Seu olhar foi da cara de lua para as lâmpadas que escureciam lá em cima. A última coisa que viu foi um caibro cheio de teias de aranha esfarrapadas. Teias que flutuavam como bandeiras de nações há muito desaparecidas. Em seguida afundou numa escuridão tão profunda quanto os sonhos de um morto.

 

Nuvens agourentas vinham de noroeste, rolando como silenciosos batalhões de máquinas de guerra, impulsionadas por um vento de grande altitude. Ainda que o dia continuasse calmo e com um calor agradável ao nível do solo, o céu azul foi desaparecendo por trás dos sinais de trovoada,

Janet Marco estacionou seu Dodge arruinado num dos extremos do beco. Com seu filho Danny, de cinco anos, e o cão vadio que recentemente se ligara aos dois, ela seguiu pelo caminho estreito, examinando os conteúdos das latas de lixo, buscando a sobrevivência a partir do que os outros haviam descartado.

O lado leste do beco era acompanhado por uma ravina profunda e estreita, cheia de imensos eucaliptos e um emaranhado de arbustos secos, enquanto o lado oeste era definido por uma série de garagens para dois e três carros, separadas por portões de ferro desgastado e madeira pintada. Por trás de alguns portões Janet vislumbrou pequenos pátios e quintais cobertos de cascalho, à sombra de palmeiras, magnólias, fícus e cercas de árvores australianas que floresciam ao ar oceânico. Todas as casas davam de frente para o Pacífico, por cima dos telhados de outras casas em plataformas mais baixas nos morros de Laguna. Na maioria, eram pilhas de pedra e estuque, com três andares e telhas de cedro envelhecido, destinadas a ocupar ao máximo os terrenos caros.

Apesar dos moradores serem ricos, os resultados da coleta eram praticamente os mesmos de qualquer outro lugar: latas de alumínio e garrafas retornáveis que poderiam ser trocadas por moedas em centros de reciclagem. Mas de vez em quando ela encontrava um tesouro: sacolas de roupas fora de moda, mas que não pareciam muito gastas, equipamentos quebrados que valeriam alguns dólares numa loja de artigos de segunda mão, caso só precisassem de pequenos reparos, bijuterias ou livros e discos velhos que poderiam ser revendidos a sebos freqüentados por colecionadores.

Danny carregava um saco plástico de lixo, onde Janet colocava as latas de alumínio. Ela carregava outra sacola para as garrafas.

Enquanto prosseguiam pelo beco, sob um céu que escurecia rápido, Janet olhava repetidamente para o Dodge. Vivia preocupada com o carro e nunca tentava se afastar mais do que dois quarteirões, mantendo-o o máximo possível em seu campo de visão. O carro não era apenas um meio de transporte; era o abrigo contra o sol e a chuva, e um lugar para guardar seus magros pertences. Era a sua casa.

Vivia apavorada com a perspectiva de algum defeito mecânico irreparável — ou irreparável dentro de suas posses, o que era a mesma coisa. Mas tinha mais medo de roubo, porque sem o carro eles não teriam um teto sobre suas cabeças, nem um lugar seguro onde dormir.

Sabia que não era provável alguém roubar aquele destroço ambulante. O desespero do ladrão teria de ser maior do que o dela, e Janet não conseguia conceber ninguém mais desesperado,

De um grande balde de plástico marrom extraiu meia dúzia de latas de alumínio que alguém já amassara, provavelmente separando para reciclagem. Colocou-as na sacola de Danny.

O garoto observou com ar solene. Não disse nada. Era um menino quieto. Seu pai o intimidara, tornando-o quase mudo, e no ano passado, desde que Janet cortara de suas vidas aquele sacana dominador, Danny apenas se tornara um pouco menos retraído.

Janet olhou para o carro. Continuava lá.

Sombras de nuvens caíram sobre o beco e surgiu uma brisa com leve cheiro de sal. De longe, sobre o mar, um débil estrondo de trovão.

Ela se apressou até a próxima lata e Danny seguiu atrás.

O cachorro, a quem Danny dera o nome de Woofer, farejou as lixeiras, foi até um portão e enfiou o nariz por entre as barras de ferro. Sua cauda balançava o tempo todo. Era um vira-lata amigável e razoavelmente bem-comportado, do tamanho de um retriever, de pêlo preto e marrom e cara bonita. Mas Janet só tolerava o custo de alimentá-lo porque nos últimos dias ele conseguira provocar muitos lixos no garoto. Antes de Woofer aparecer ela quase esquecera como era o sorriso de Danny.

Virou-se de novo para o Dodge arruinado. Tudo bem.

Olhou para o outro extremo do beco e depois para a ravina cheia de arbustos e troncos pelados dos eucaliptos. Não temia somente os ladrões de carros ou os moradores que poderiam fazer objeções a sua coleta de lixo. Também tinha medo do tira que a vinha assediando ultimamente. Não. Não era um tira. Era alguma coisa que fingia ser um tira. Aqueles olhos estranhos, o rosto gentil e sardento que podia se transformar tão de repente numa criatura de pesadelo...

 

Janet Marco tinha uma religião: o medo. Nascera nessa fé cruel sem ter consciência disso, tão cheia de espanto e de aptidão para o deleite quanto qualquer criança. Mas seus pais eram alcoólatras, e o sacramento de bebidas destiladas que professavam revelava neles uma ira profana e uma capacidade especial para o sadismo. Educaram-na vigorosamente com base nas doutrinas e dogmas do culto no medo. Ela só ficou conhecendo um deus, que não era uma pessoa ou uma força específica; para ela deus era mero poder, e quem o exercesse era automaticamente elevado ao status de divindade.

Não foi surpresa ter caído escrava de um louco descontrolado como Vince Marco assim que teve idade para escapar dos pais. Nessa época ela já se dedicava ao papel de vítima e tinha necessidade de ser oprimida. Vince era preguiçoso, indolente, bêbado, jogador e adúltero, mas era altamente capacitado e enérgico quando se tratava de esmagar o espírito da esposa.

Durante oito anos haviam percorrido o Oeste, nunca ficando mais de seis meses em qualquer cidade, enquanto Vince conseguia obter a subsistência — nem sempre de modo honesto. Ele não queria que Janet tivesse amizades. Se continuasse sendo a única presença consistente na vida dela, ele teria controle total; não havia ninguém para aconselhá-la e encorajá-la à rebelião.

Enquanto permanecia totalmente submissa e mantendo o medo à vista dele, as pancadas e os tormentos eram menos severos do que quando se tornava mais estóica e lhe negava o prazer de sua angústia. O deus do medo apreciava expressões visíveis da devoção de sua discípula, tanto quanto o Deus Cristão do amor. Perversamente, o medo se tomou seu refúgio e sua única defesa contra selvagerias maiores.

E assim ela poderia ter continuado até não passar de um animal trêmulo e aterrorizado encolhido na toca... Mas Danny veio para salvá-la. Depois que o menino nasceu, Janet começou a temer por ele tanto quanto por ela. O que aconteceria a Danny caso Vince fosse longe demais uma noite e, num frenesi alcoólico, a espancasse até a morte? Como Danny poderia se virar sozinho, tão pequeno, tão desamparado? Com o tempo passou a ter mais medo dos males causados a Danny do que a ela — o que deveria ter aumentado seu fardo, mas foi estranhamente libertador. Vince não percebeu, mas ele não era mais a única presença consistente na vida de Janet. Seu filho, simplesmente por existir, era um argumento para a rebelião e uma fonte de coragem.

Mesmo assim, talvez ela jamais houvesse tido coragem suficiente para retirar a canga se Vince não tivesse levantado a mão contra o garoto. Uma noite, há um ano, numa casa alugada caindo aos pedaços e com quintal desértico na periferia de Tucson, Vince chegara fedendo a cerveja, suor e perfume de outra mulher, e espancara Janet por simples prazer. Danny tinha quatro anos, pequeno demais para proteger a mãe, mas suficientemente grande para achar que deveria defendê-la. Quando apareceu vestido de pijama e tentou intervir, o pai começou a estapeá-lo malignamente. Derrubou-o no chão e chutou-o até que o menino se arrastou para fora da casa, caindo no pátio da frente, chorando aterrorizado.

Janet suportou a surra, mas depois, quando o marido e o filho dormiam, foi até a cozinha e pegou uma faca na prateleira perto do fogão. Totalmente sem medo pela primeira vez na vida — e talvez pela última—ela voltou ao quarto e esfaqueou Vince repetidamente, na garganta, no peito e no estômago. Ele acordou com o primeiro golpe, tentou gritar, mas somente gorgolejou enquanto a boca se enchia de sangue. Resistiu brevemente e de modo ineficaz.

Depois de verificar que Danny não havia acordado no outro quarto, Janet enrolou o corpo de Vince nos lençóis manchados de sangue. Com corda de varal amarrou a mortalha nos tornozelos e no pescoço. Depois arrastou-o pela casa, saiu pela porta da cozinha e atravessou o quintal dos fundos.

A lua alta reduzia e aumentava alternadamente o brilho, enquanto nuvens velejavam pelo céu como galeões em direção ao leste, mas Janet não estava preocupada em ser vista. Os barracos naquele pedaço da rodovia estadual eram espaçados e não havia qualquer luz acesa nas casas mais próximas.

Levada pela compreensão amarga de que, tanto quanto Vince, a polícia poderia afastá-la de Danny, ela arrastou o cadáver até o final do terreno e penetrou no deserto noturno que se estendia despovoado até as montanhas distantes. Lutou entre arbustos de algaroba e amarilhos ainda enraizados sobre areia macia em alguns lugares e placas de xisto duro em outros.

Quando o rosto frio da lua brilhou, revelou uma paisagem hostil de sombras recortadas e agudas formas alabastrinas. Numa das sombras mais profundas — um arroio escavado por séculos de enchentes súbitas — Janet abandonou o cadáver.

Retirou os lençóis do corpo e enterrou-os, mas não cavou uma sepultura para o cadáver porque achava que os carniceiros noturnos e os urubus limpariam os ossos mais depressa se ele fosse deixado exposto. Depois que os animais do deserto tivessem mastigado e bicado as macias pontas dos dedos de Vince, depois que o sol e os comedores de carniça tivessem acabado com ele, sua identidade só poderia ser deduzida pelos registros dentários. Como Vince raramente fora a um dentista, e nunca duas vezes ao mesmo, não havia registros para a polícia consultar. Com sorte, o cadáver não seria descoberto até a próxima estação chuvosa, quando os restos seriam levados a quilômetros de distância, revirados, partidos e misturados com pilhas de outros refugos, até estarem essencialmente destruídos.

Naquela noite Janet empacotou o pouco que tinham e partiu com Danny no velho Dodge. Nem mesmo sabia para onde iam até atravessar a divisa estadual e dirigir-se ao condado de Orange. Aquele tinha de ser o destino final porque ela não poderia gastar mais dinheiro com gasolina só para se afastar do morto no deserto.

Ninguém em Tucson imaginaria o que acontecera a Vince. Afinal de contas, ele era um vagabundo indolente. Desligar-se e ir embora era seu modo de vida.

Mas Janet morria de medo de se candidatar a uma ajuda da previdência social ou de qualquer outra forma de assistência. Poderiam perguntar pelo marido, e ela não confiava em seu talento para mentir de modo convincente.

Além disso, a despeito dos comedores de carniça e da ferocidade desidratante do sol do Arizona, talvez alguém tivesse tropeçado no corpo de Vince antes dele se tornar incapaz de ser identificado. Se a esposa e o filho aparecessem na Califórnia, pedindo ajuda do governo, talvez fossem realizadas as conexões no fundo de um computador, levando uma assistente social alerta a chamar os tiras. Considerando sua tendência a sucumbir a qualquer pessoa que exercesse autoridade — uma característica profundamente entranhada que melhorara muito pouco depois do assassinato do marido —, Janet tinha poucas chances de passar por um escrutínio policial sem se incriminar.

E aí eles lhe tirariam Danny.

Não poderia permitir isso. Não permitiria.

Nas ruas, sem moradia a não ser pelo Dodge enferrujado e chacoalhante, Janet Marco descobriu que tinha talento para sobreviver. Não era estúpida; simplesmente nunca antes fora livre para exercer sua vontade. Numa sociedade cujos refugos poderiam alimentar parte significativa do terceiro mundo, ela agarrou-se a um grau de segurança precária, alimentando-se e ao filho, recorrendo o mínimo possível aos centros de caridade.

Aprendeu que o medo, sobre o qual estivera apoiada durante tanto tempo, não precisava imobilizá-la. Podia também motivar.

A brisa ficara mais fria, aumentando até virar um vento errante. O rugir dos trovões continuava distante, porém mais alto do que quando Janet o ouvira pela primeira vez. Apenas uma tira de céu azul permanecia no leste, desaparecendo tão depressa quanto a esperança.

Depois de minerar dois quarteirões de latas de lixo, Janet e Danny se dirigiram de volta para o Dodge, com Woofer na frente.

Na metade do caminho o cachorro subitamente parou e inclinou a cabeça para ouvir alguma coisa acima do sopro do vento e do coro de vozes sussurrantes das folhas agitadas dos eucaliptos. Ele fez um ruído baixo e pareceu perplexo por um instante, depois virou-se e olhou para Janet. Mostrou os dentes e o ruído se transformou num rosnado grave.

Ela sabia o que atraíra a atenção do cachorro. Não precisava olhar.

Mesmo assim sentiu-se forçada a virar e a enfrentar a ameaça, não por ela mesma, mas por Danny. O tira de Laguna Beach, aquele tira, estava a cerca de três metros.

Sorria, como a coisa sempre começava. Tinha um sorriso atraente, um rosto gentil e lindos olhos azuis.

Como sempre, não havia carro-patrulha, nenhuma indicação de como ele chegara ao beco. Era como se estivesse escondido, esperando por ela entre os troncos de eucalipto, convicto de que a coleta iria trazê-la a este beco nesta hora deste dia.

—      Como vai, senhora? — A princípio a voz era gentil, quase musical.

Janet não respondeu.

Na primeira vez em que ele a abordara, na semana anterior, ela respondera tímida, nervosa, evitando olhá-lo, tão terrivelmente respeitosa com relação à autoridade quanto fora durante toda a vida — a não ser por uma noite sangrenta em Tucson. Mas logo descobriu que ele não era o que aparentava e que preferia um monólogo a um diálogo.

—      Parece que vai cair uma chuvinha — disse ele, levantando a cabeça para o céu turbulento.

Danny se aproximara de Janet. Ela envolveu-o com o braço livre, puxando-o ainda mais para perto. O menino tremia.

E ela também. Esperava que Danny não percebesse.

O cachorro continuou a mostrar os dentes e a rosnar baixo.

Baixando o olhar de novo para Janet, o tira falou com a mesma voz animada:

—      Certo, chega de babaquice. Está na hora da diversão de verdade. O que vai acontecer agora é que... você tem até o amanhecer. Compreende? Hmmmmm? De manhã eu vou matar você e o seu garoto.

A ameaça não surpreendeu Janet. Qualquer pessoa com autoridade sobre ela sempre fora um deus, mas sempre um deus selvagem, nunca benigno. Ela esperava a violência, o sofrimento e a morte iminente. Só se surpreenderia com uma demonstração de gentileza por parte de alguém com poder, já que a gentileza era infinitamente mais rara do que o ódio e a crueldade.

De fato, seu medo já quase paralisante só poderia ficar ainda maior com essa improvável demonstração de gentileza. Para ela a gentileza teria parecido apenas uma tentativa de mascarar alguma intenção inimaginavelmente maligna.

O tira continuava sorrindo, mas o rosto irlandês, sardento, não era mais amigável. Era mais arrepiante do que o ar frio chegando do mar antes da tempestade.

—      Ouviu, sua puta idiota?

Ela não disse nada.

—      Está pensando que deveria fugir, sair da cidade, talvez ir para Los Angeles, onde eu não possa encontrá-la?

Ela estava pensando alguma coisa do tipo, Los Angeles ou, mais para o sul, San Diego.

—      É, por favor, tente fugir — ele encorajou-a. — Vai ser mais divertido. Fuja, resista. Aonde quer que você vá, eu a encontrarei, mas desse jeito vai ser muito mais excitante.

Janet acreditou. Conseguira fugir dos pais e escapar de Vince matando-o, mas agora estava diante de algo que não era apenas mais um dos muitos deuses do medo que a haviam dominado, e sim o Deus do medo, cujos poderes ultrapassavam a compreensão.

Os olhos dele estavam mudando, escurecendo do azul para um verde elétrico.

Subitamente o vento soprou forte no beco, varrendo folhas mortas e alguns pedaços de papel.

Os olhos do tira haviam ficado de um verde radiante, pareciam ter uma fonte de luz por trás, um fogo dentro de seu crânio. E as pupilas também haviam mudado, até ficarem longas e estranhas como as de um gato.

O rosnado do cachorro transformou-se num ganido apavorado.

Na ravina os eucaliptos balançavam ao vento, e seu murmúrio suave cresceu até virar o rugido de uma multidão raivosa.

Para Janet pareceu que a criatura fantasiada de policial comandava o vento, para dar mais dramaticidade à ameaça, mas certamente ele não tinha tanto poder assim.

—      Quando eu chegar, na hora em que o sol nascer, abrirei os corpos de vocês, comerei seus corações.

A voz mudara tão completamente quanto os olhos. Era profunda, grave, a voz maligna de algo que pertencia ao inferno.

Ele deu um passo na direção do pequeno grupo.

Janet recuou dois passos, puxando Danny. Seu coração martelava com tanta força que ela teve certeza de que o torturador podia ouvi-lo.

O cachorro também recuou, ganindo e rosnando alternadamente com o rabo entre as pernas.

—      Ao amanhecer, sua puta miserável. Você e seu molequinho de nariz catarrento. Dezesseis horas. Só dezesseis horas, puta.

Tique-taque... tique-taque... tique-taque...

O vento morreu num instante. O mundo inteiro ficou em silêncio. Nenhum rumor nas árvores. Nenhum trovão distante.

Um galho com meia dúzia de compridas folhas de eucalipto parou no ar, alguns centímetros ao lado e dois palmos diante de seu rosto. Ficou imóvel, abandonado pelo vento rodopiante que o sustentara, mas ainda assim suspenso magicamente — como o escorpião morto dentro do suvenir de acrílico que Vince comprara muna parada de caminhoneiros no Arizona.

O rosto sardento do tira se esticou e inchou com uma elasticidade espantosa, como uma máscara de borracha que sofresse uma grande pressão por trás. Os olhos verdes e felinos pareciam a ponto de saltar do crânio deformado.

Janet quis correr para o carro, seu porto seguro, seu lar, trancar a porta, ficar segura dentro de casa e sair dirigindo feito uma louca; mus não podia, não ousava dar as costas para ele. Sabia que seria derrubada e dilacerada a despeito da promessa de que teria dezesseis horas, porque ele desejava que ela visse a transformação, exigia, e ficaria furioso caso fosse ignorado.

Os poderosos tinham um orgulho intenso de seu poder. Os deuses do medo precisavam se envaidecer e ser admirados, ver como seu poder humilhava e aterrorizava todos que fossem impotentes diante dele.

O rosto distendido do policial se dissolveu, suas feições foram desaparecendo, os olhos se liquefazendo em poços vermelhos de óleo quente, o óleo empapando as bochechas gordas até que ele ficasse sem olhos, o nariz escorregando para a boca, lábios se espalhando pelo queixo e pelas bochechas, e então não havia mais queixo ou bochechas, apenas um volume transpirante. Mas a carne que parecia de cera não ferveu nem pingou, de modo que a presença de calor era provavelmente uma ilusão.

Talvez tudo fosse ilusão, hipnose. Isso explicaria um bocado de coisas. Levantaria novas perguntas, sim, mas explicaria muito.

O corpo dele estava pulsando, se contorcendo, mudando por dentro das roupas. Então as roupas começaram a se dissolver no corpo, como se nunca tivessem sido roupas de verdade, e sim apenas outra parte dele. Logo a nova estrutura estava coberta de pêlo preto emaranhado: uma imensa cabeça alongada começou a tomar forma sobre um pescoço poderoso, ombros curvos e nodosos, olhos amarelos e maléficos, uma ferocidade de dentes perversos e garras de cinco centímetros, um lobisomem de cinema.

Em cada uma das quatro ocasiões anteriores em que aparecera diante dela, aquela coisa se manifestara de modo diferente, como se quisesse impressioná-la com o seu repertório. Mas ela não estava preparada para o que acontecia agora. Ele abandonou a encarnação de lobo antes mesmo que o corpo tomasse forma completa, e mais uma vez assumiu o disfarce humano, se bem que não de policial. Mesmo com as feições pouco desenvolvidas, ela acreditou que ele se tornaria o seu marido morto. O cabelo escuro era o mesmo, a forma da testa, a cor de um olho pálido e malévolo.

A ressurreição de Vince, enterrado nas areias do Arizona durante o último ano, abalou Janet mais do que qualquer coisa que a criatura já fizera ou na qual se tornara, e finalmente ela chorou de medo. Danny também gritou e se agarrou ainda mais à mãe.

O cachorro não tinha o coração volúvel de um animal vadio. Parou de ganir e reagiu como se estivesse com eles desde que era filhote. Mostrou os dentes, latiu e mordeu o ar, ameaçador.

O rosto de Vince permaneceu malformado, mas o corpo se completou, e ele estava nu como estivera quando ela o dominara durante o sono. Na garganta, no peito e na barriga Janet pensou ver os ferimentos deixados pela faca de cozinha com a qual o matara: (talhos abertos em carne viva, sem sangue, porém escuros e terríveis.

Vince ergueu um braço na direção dela.

O cão atacou. A vida sem coleira nas ruas não transformara Woofer num fraco ou doentio. Era um animal forte e musculoso e, quando se lançou para a aparição, pareceu levantar vôo como um pássaro.

Seu rosnado foi interrompido e ele ficou miraculosamente parado no ar, o corpo arqueado no ataque, como se fosse apenas num imagem num videoteipe depois de alguérn apertar o botão pause. Congelado. Saliva espumante brilhava como geada em seus lábios pretos e no pêlo ao redor do focinho, os dentes luziam frios como filas de pingentes de gelo.

O galho de eucalipto vestido de folhas verde-prata continuava pairando à direita de Janet e o cão à esquerda. A atmosfera parecia crislalizada, prendendo Woofer pela eternidade em seu momento de coragem, mas Janet conseguia respirar, quando se lembrava de fazê-lo.

Ainda malformado, Vince andou em sua direção, passando pelo cachorro.

Ela se virou e correu, puxando Danny, esperando congelar no meio de um passo. Como seria a sensação? Será que a escuridão baixaria ao seu redor quando ela estivesse paralisada, ou ainda poderia ver Vince surgindo por trás e ficando de novo cara a cara com ela? Será que cairia num poço de silêncio ou poderia ouvir a voz odiosa do morto? Sentiria a dor de cada golpe que ele desse ou ficaria tão insensível quanto o galho levitante de eucalipto?

Como águas de enchente, uma maré de vento rugiu pelo beco, quase derrubando-a. O mundo estava de novo cheio de som.

Ela girou e olhou para trás, em tempo de ver Woofer voltando a vida no meio do ar e terminando o salto interrompido. Mas não havia mais ninguém para ele atacar. Vince desaparecera. O cachorro caiu no pavimento, escorregou, deslizou, rolou e ficou de pé outra vez, girando a cabeça amedrontado e confuso, procurando a presa como se ela tivesse desaparecido diante de seus olhos.

Danny estava chorando.

A ameaça parecia ter passado. Afora Janet, o menino e o cachorro, o beco estava deserto. Mesmo assim ela correu com Danny em direção ao carro, ansiosa para ir embora, olhando repetidamente a ravina cheia de arbustos e as sombras profundas entre as árvores enormes, enquanto passava por elas, meio esperando que o monstro surgisse de novo de seu covil, pronto para se alimentar de seus corações mais cedo do que prometera.

Relampejou. O rugido do trovão estava mais alto e mais perto do que antes.

O ar cheirava a chuva que viria. Aquele odor de ozônio fez com que Janet se lembrasse do fedor de sangue quente.

 

Harry Lyon estava sentado numa mesa de canto no fundo do restaurante, agarrando um copo d'água na mão direita e com a mão esquerda fechada sobre a coxa. De vez em quando tomava um gole de água, e cada gole parecia mais frio do que o anterior, como se o copo absorvesse frio de sua mão, em vez de calor.

Seu olhar viajou pela mobília revirada, plantas arruinadas, vidros quebrados, comida espalhada e sangue que se coagulava. Nove feridos tinham sido retirados, mas dois cadáveres continuavam onde haviam caído. Um fotógrafo da polícia e técnicos de laboratório estavam trabalhando.

Harry tinha consciência do salão e das pessoas, do clarão periódico da máquina fotográfica, mas o que via com maior clareza era a lembrança do rosto de lua do criminoso, encarando-o através dos membros entrelaçados dos manequins. Os lábios úmidos de sangue. As janelas duplas dos olhos e a visão do inferno por trás.

Agora Harry não se sentia menos surpreso por estar vivo do que quando haviam retirado de cima dele o morto e os manequins da loja de departamentos. Seu estômago doía no local onde a mão de gesso de um manequim o golpeara com todo o peso do criminoso por trás. Ele pensou que fora atingido. O criminoso tinha atirado duas vezes, à queima-roupa, mas evidentemente os dois disparos haviam sido desviados pelos torsos e membros de gesso.

Dos cinco tiros que Harry disparara, pelo menos três haviam causado grandes danos.

Detetives à paisana e técnicos entravam e saíam pela porta da cozinha furada de balas, indo e vindo do segundo andar e do sótão. Alguns falavam com ele ou batiam em seu ombro.

—      Bom trabalho, Harry.

—      Tudo bem, Harry?

—      Bom trabalho, cara.   

—      Precisa de alguma coisa, Harry?

—      Que confusão, hein, Harry?

Ele murmurava "obrigado", "sim", "não" ou simplesmente balançava a cabeça. Não estava pronto para conversar com qualquer um deles, e certamente não estava pronto para ser herói.

Uma multidão se juntara do lado de fora, pressionando ansiosa contra as barreiras da polícia, espiando através de janelas. Tentou ignorá-la, porque muitas pessoas lembravam o criminoso, os olhos com um brilho vitrificado e febril e os agradáveis rostos cotidianos incapazes de ocultar fomes estranhas.

Connie veio da cozinha, pela porta de vaivém, levantou uma cadeira virada e sentou-se junto dele. Segurava um pequeno bloco de anotações, onde leu:

—      O nome era James Ordegard. 31 anos. Descasado. Morava em Laguna. Engenheiro. Nenhum registro policial. Nem mesmo multa de trânsito.

—      Qual a conexão dele com este lugar? A ex-esposa ou a namorada trabalha aqui?

— Não. Até agora não pudemos descobrir qualquer conexão. Nenhuma das pessoas que trabalha aqui se lembra de tê-lo visto antes.

—      Estava com algum bilhete de suicida?

—- Não. Parece que foi violência aleatória.

—      Conversaram com alguém que trabalhe com ele?

Ela assentiu.

—      Estão perplexos. Era um bom trabalhador, feliz..

—      O cidadão modelo.

—      É o que dizem.

O fotógrafo bateu mais algumas chapas do cadáver mais próximo — uma mulher com cerca de trinta anos. Os clarões do flash eram brilhantes, e Harry percebeu que o dia por trás das janelas ficara encoberto desde que ele e Connie tinham entrado para almoçar.               —    Tem amigos, família?

—      Conseguimos nomes, mas ainda não falamos com eles.

Nem com vizinhos. — Ela fechou o bloco. — Como você está?

—      Já estive melhor.

—      E o seu estômago?

—      Não muito ruim. Quase normal. Vai estar bem pior amanhã.

Onde será que ele conseguiu as granadas?

Ela encolheu os ombros.

—      Vamos descobrir.

A terceira granada, jogada no cômodo de baixo pelo alçapão do sótão, pegara de surpresa um policial de Laguna Beach. Agora ele estava no Hospital Hoag, agarrando-se desesperadamente à vida.

—      Granadas. — Harry continuava incrédulo. — Já ouviu uma coisa dessas?

Imediatamente arrependeu-se de ter feito a pergunta. Sabia que isso provocaria o assunto preferido dela-— a confusão da virada do milênio, a crise contínua da atual Idade das Trevas.

Connie franziu a testa;

—      Se já ouvi uma coisa dessas? Talvez não igual, mas tão ruim quanto, pior, muito pior. No ano passado, em Nashville, uma mulher matou o namorado deficiente físico empurrando a cadeira de rodas no fogo.

Harry suspirou.

—      Oito adolescentes de Boston estupraram e mataram uma mulher — continuou ela. — Sabe qual foi a desculpa que deram?

Estavam entediados. Entediados. A culpa era da cidade, por fazer tão pouco para proporcionar atividades de lazer aos garotos.

Ele observou as pessoas amontoadas por trás das barreiras do lado de fora das janelas e rapidamente virou o olhar.

—      Por que você coleciona esse tipo de notícia?

—      Olha, Harry, é a Idade do Caos. Adapte-se aos tempos.

—      Talvez eu prefira ser um velho ultrapassado.

—      Para ser um bom tira nos anos noventa você precisa ser dos

anos noventa. Precisa estar em sincronia com os ritmos da destruição. A civilização está desmoronando na nossa cara. Todo mundo quer uma licença, ninguém quer responsabilidade, e a base não se sustenta. É preciso saber quando violar uma regra para salvar o sistema e como surfar cada onda de loucura que aparecer.

Ele simplesmente encarou-a, o que foi bastante fácil, mais fácil do que pensar no que ela dissera, porque o apavorava imaginar que ela estivesse certa. Não podia levar isso em consideração. Não levaria. Pelo menos não agora. E a visão de seu rosto adorável era uma distração bem-vinda.

Apesar de não fazer jus ao atual padrão americano de beleza definitiva determinado pelos comerciais de cerveja na televisão, e apesar de não possuir o fascínio exótico e tórrido das estrelas do rock — com células mutantes e três quilos de maquiagem — que inexplicavelmente excitava toda uma geração de jovens machos, Connie Gulliver era atraente. Pelo menos Harry achava. Não que tivesse algum interesse romântico por ela. Não tinha. Mas era homem, e ela era mulher, e os dois trabalhavam juntos, de modo que era natural perceber que seus cabelos castanhos-quase-negros eram maravilhosamente espessos, com um brilho de seda, apesar dela mantê-los curtos e penteá-los com os dedos. Os olhos tinham um tom azul estranho, violeta quando a luz atingia um certo ângulo, e poderiam ter sido irresistivelmente sedutores se não fossem os olhos atentos e desconfiados de um tira.

Tinha 33 anos, quatro a menos do que Harry. Nos raros momentos em que baixava a guarda, ela aparentava 25. Mas na maior parte do tempo a sabedoria sombria adquirida no trabalho policial fazia com que parecesse mais velha do que era.

—      Está olhando o quê? — perguntou ela.

—      Só imaginando se por dentro você é realmente tão dura quando finge ser.

—      Você já deveria saber.

—      É exatamente isso... eu deveria.

—      Não dê uma de freudiano comigo, Harry.

—      Não vou dar. — Ele tomou um gole d'água.

—      Uma coisa que eu gosto em você é que não tenta psicanalisar todo mundo. Isso não passa de um monte de merda.

—      Concordo.

Ele não se surpreendeu ao descobrir que compartilhavam a mesma opinião. A despeito das muitas diferenças, eram suficientemente parecidos para trabalhar bem como parceiros. Mas como Connie evitava revelações pessoais, Harry não sabia se haviam chegado às atitudes semelhantes por motivos similares ou totalmente opostos.

Algumas vezes parecia importante compreender por que ela tinha certas convicções. Outras vezes Harry tinha igualmente certeza de que encorajar a intimidade levaria a um relacionamento confuso. Ele odiava confusão. Em geral era sensato evitar a familiaridade numa associação profissional, manter uma distância confortável, uma zona de amortecimento — especialmente quando ambos usavam armas de fogo.

Trovões rolaram à distância.

Um vento frio atravessou a grande janela espatifada e chegou até o fundo do restaurante. Guardanapos de papel voaram do chão.

A perspectiva de chuva agradou Harry. O mundo precisava ser lavado, refrescado.

—      Vai pedir uma massagem mental? — perguntou Connie.

Depois de um tiroteio eles eram encorajados a participar de

algumas sessões de aconselhamento.

—      Não. Estou bem.

—      Por que não dá um tempo, vai para casa?

—      Não posso deixar tudo por sua conta.

—      Eu posso cuidar das coisas por aqui.

—      E a papelada?

—      Também posso cuidar disso.

—      É, mas os seus relatórios são sempre cheios de erros de datilografia.

Ela balançou a cabeça.

—      Você é cê-dê-efe demais, Harry.

—      É tudo no computador, mas você nem se preocupa em rodar o programa de correção ortográfica.

—      Acabaram de jogar três granadas em mim, Foda-se a correção ortográfica.

Ele assentiu e levantou-se da mesa.

—      Vou voltar ao escritório e começar a escrever o relatório.

Acompanhados por outro ribombar longo e grave de trovão, dois funcionários do necrotério, vestidos com jalecos brancos, se aproximaram da mulher morta. Sob a supervisão de um assistente de legista, prepararam-se para remover a vítima.

Connie entregou a Harry o bloco de anotações. Para o relatório ele precisaria de alguns dos fatos que ela coletara.

—      Vejo você mais tarde — disse ela.  

—      Mais tarde.

Um dos funcionários desdobrou um saco opaco destinado a colocar cadáveres. Ele fora dobrado tão apertado que as camadas de plástico se separavam com um ruído grudento, estalado, desagradavelmente orgânico.

Harry foi surpreendido por uma onda de náusea.

A mulher morta estivera com o rosto para baixo e a cabeça virada para o outro lado. Ele ouvira outro detetive dizer que ela fora atingida no peito e no rosto. Não queria vê-la quando a virassem para colocá-la no saco.

Reprimindo a náusea com um esforço da vontade, virou na direção da saída.

—      Harry?

Relutantemente, ele se virou para Connie.

—      Obrigada.

—      Obrigado você também.

Esta provavelmente seria a única referência que jamais fariam ao fato de que a sobrevivência de ambos dependera de formarem uma boa dupla.

Continuou em direção à porta da frente, apavorado com a multidão de curiosos.

De trás veio um som úmido, de sucção, quando ergueram a mulher do sangue meio coagulado que a havia colado ao piso.

Algumas vezes ele não conseguia recordar o motivo de ter virado tira. Não parecia uma escolha de carreira, e sim um ato de loucura.

Imaginou em que poderia ter-se tornado se jamais houvesse entrado para a polícia, mas, como sempre, sua mente dava um branco. Talvez houvesse essa coisa chamada destino, um poder infinitamente maior do que a força que impulsionava a Terra ao redor do Sol e mantinha os planetas alinhados, movendo homens e mulheres através da vida como se fossem apenas peças num jogo de tabuleiro. Talvez o livre-arbítrio fosse apenas uma ilusão desesperada.

O policial uniformizado parado junto aporta ficou de lado para que ele passasse.

— É um zoológico — disse o sujeito.

Harry não sabia se o tira estava se referindo à vida em geral ou somente à multidão de curiosos.

Do lado de fora, o dia estava consideravelmente mais frio do que quando Harry e Connie haviam entrado no restaurante para almoçar. Sobre a cortina de árvores o céu estava escuro como granito de cemitério.

Por trás dos cavaletes da polícia e da barreira feita com uma fita amarela esticada, para isolamento da cena do crime, umas sessenta ou oitenta pessoas se acotovelavam e esticavam o pescoço para ver melhor a carnificina. Jovens com cortes de cabelo new-wave lado a lado com pessoas idosas; homens de negócios, de terno, próximos a garotos de praia com bermudas e camisas havaianas. Alguns comiam enormes biscoitos de chocolate trazidos de uma padaria ali perto, e no geral tinham aparência festiva, como se nenhum deles jamais fosse morrer.

Harry teve uma percepção desconfortável do interesse da multidão por ele, quando saiu do restaurante. Evitou cruzar olhares com qualquer pessoa. Não queria enxergar o vazio que eles pudessem revelar.

Virou à direita e passou pela primeira das grandes janelas, que continuava intacta. Adiante estava a janela quebrada, onde apenas alguns cacos parecendo dentes irrompiam da estrutura. Pedaços de vidro atulhavam o concreto.

A calçada estava vazia entre as barreiras da polícia e a frente do prédio—e então um jovem com cerca de vinte anos passou sob a fita amarela amarrada a duas árvores. Atravessou a calçada como se não percebesse que Harry se aproximava, os olhos e a atenção lixos em algo dentro do restaurante.

—      Por favor, fique atrás da barreira — pediu Harry.

O homem — na verdade mais parecia um garoto, usando tênis gastos, jeans e uma camiseta com estampa da cerveja Tecate — parou junto à janela despedaçada, sem dar indicação de que escutara o aviso. Curvou-se através da janela, ferozmente concentrado em algo lá dentro.

Harry olhou para o restaurante e viu o corpo da mulher sendo levado para um saco de necrotério.

—      Eu disse para ficar atrás da barreira

Agora estavam próximos. O rapaz era uns cinco centímetros menor do que o 1,83m de Harry, magro, com cabelo preto e espesso. Continuou olhando para o cadáver, para as luvas de látex brilhante dos funcionários do necrotério, cada vez mais vermelhas. Parecia não perceber a presença de Harry ao seu lado, avultando-se acima dele.

—      Você me ouviu?

O garoto não respondeu. Seus lábios estavam ligeiramente entreabertos numa antecipação ofegante. Os olhos pareciam vítreos, como se ele estivesse hipnotizado.

Harry pôs uma das mãos sobre o ombro do rapaz.

Lentamente ele virou as costas para a carnificina, mas continuava com o olhar distante, através de Harry. Seus olhos tinham o cinza da prata ligeiramente oxidada. A língua rósea lambeu lentamente o lábio inferior, como se tivesse acabado de provar alguma coisa saborosa.

Não foi a desobediência do sujeito nem a arrogância de seu olhar vazio que tirou Harry do sério. Foi talvez a sua língua, a língua obscena e rosada deixando uma trilha úmida nos lábios muito carnudos. De súbito Harry quis esmurrar aquele rosto, partir seus lábios, quebrar os dentes, fazer com que ele ficasse de joelhos, esmagar a sua insolência e lhe ensinar alguma coisa sobre o valor da vida e o respeito aos mortos.

Agarrou o rapaz e, antes que soubesse direito o que fazia, foi meio sacudindo meio arrastando-o para longe da janela, atravessando a calçada. Talvez tenha batido no sacana, talvez não, achava que não, mas empurrou-o com tanta brutalidade quanto se o tivesse apanhado assaltando ou molestando alguém. Empurrou-o e sacudiu-o, dobrou-o ao meio e forçou-o a passar sob a fita de isolamento.

O vagabundo caiu de quatro, e a multidão se afastou para dar-lhe algum espaço. Tentando respirar, ele rolou de lado e encarou Harry. Seu cabelo caíra sobre o rosto. A camiseta estava rasgada. Agora seus olhos estavam em foco e atentos.

Os curiosos murmuraram excitados. Acena do restaurante era uma diversão passiva, o assassino estava morto quando chegaram, mas isto era ação de verdade, diante de seus olhos. Era como se uma tela de televisão houvesse expandido para permitir que atravessassem o vidro, e agora faziam parte de um verdadeiro filme policial, no meio das emoções e dos calafrios; e quando olhou no rosto deles, Harry viu que estavam esperando que o roteiro fosse animado e violento, uma história que merecesse ser contada às famílias e aos amigos durante o jantar.

De repente sentiu-se enojado de seu próprio comportamento e afastou-se do rapaz. Andou rápido até o final do prédio, que ocupava o resto do quarteirão, e passou sob a fita amarela num ponto onde não havia gente.

O carro do departamento estava estacionado depois da esquina, a dois terços do outro quarteirão ladeado por árvores. Com os curiosos deixados para trás e fora de vista, Harry começou a tremer. O tremor cresceu, e logo ele se debatia violentamente.

Parou a meio caminho do carro e apoiou uma das mãos contra o tronco áspero de uma árvore. Respirou lenta e profundamente.

Um trovão sacudiu o céu acima da copa das árvores.

Um dançarino fantasma, feito de folhas mortas e lixo, girou no centro da rua no abraço de um redemoinho.

Ele tratara o rapaz muito duramente. Não tinha reagido ao que o garoto fizera, mas a tudo que acontecera no restaurante e no sótão. Síndrome de tensão retardada.

Mas era mais do que isso: ele sentira necessidade de atacar alguma coisa, alguém. Deus ou homem, a crueldade pura e cega do destino. Como o perverso pássaro do desespero, sua mente retornava às duas pessoas mortas no restaurante, aos feridos, ao policial agarrado a um fio de vida no Hospital Hoag,. às esposas, aos maridos o pais, aos filhos tornados órfãos, aos amigos que choravam, aos muitos elos na terrível corrente de dor forjada por cada morte.

O rapaz fora apenas um alvo conveniente.

Harry sabia que deveria voltar e pedir desculpas, mas não podia. Não era tanto o rapaz que ele temia enfrentar, e sim a multidão hedionda.

— De qualquer modo, o sujeitinho escroto precisava de uma lição — disse ele, justificando-se por seus atos.

Havia tratado o garoto como Connie faria. Agora estava até mesmo falando como Connie.

...precisa estar em sincronia com os ritmos da destruição... a civilização está desmoronando na nossa cara... é preciso saber quando violar uma regra para salvar o sistema... surfar cada onda de loucura que aparecer...

Harry desprezava aquela atitude.

Violência, loucura, inveja e ódio não consumiriam a todos. A compaixão, a razão e a compreensão inevitavelmente prevaleceriam. Tempos ruins? Certo, o mundo conhecera muitos tempos ruins, centenas de milhões de mortos em guerras e pogroms, as loucuras oficiais do fascismo e do comunismo, mas também houvera algumas épocas de paz precária, e sociedades que deram certo pelo menos por algum tempo, de modo que sempre havia esperança.

Desencostou-se da árvore. Espreguiçou-se, tentando afrouxar os músculos tensos.

O dia começara tão bem, mas sem dúvida fora correndo para o inferno.

Estava determinado a voltar aos trilhos. O trabalho com a papelada ajudaria. Nada como relatórios oficiais e formulários em triplicata para lazer com que o mundo parecesse ordenado e racional.

No meio da rua o redemoinho levantara mais poeira e detritos. Antes o dançarino fantasma parecera estar valsando sobre o asfalto. Agora dançava um jitterbug frenético. Assim que Harry afastou-se um passo da árvore a coluna de lixo mudou de rumo, ziguezagueou cm sua direção e irrompeu sobre ele com uma força espantosa, forçando-o a fechar os olhos contra a poeira abrasiva.

Por um momento louco ele pensou que seria carregado como Dorothy e levado para Oz. Os galhos das árvores tagarelavam e tremiam, lançando mais folhas sobre ele. O sopro e o lamento agudo do vento logo se transformaram num guincho, num uivo—mas no instante seguinte caiu numa imobilidade lúgubre.

Alguém falou perto de Harry, uma voz grave, áspera e estranha:

—      Tique-taque, tique-taque.

Harry abriu os olhos e desejou não ter feito isso.

Na sua frente estava um mendigo enorme, com mais de 1,90m, odioso e vestido de trapos. O rosto era grosseiramente desfigurado por cicatrizes e feridas úmidas. Olhos estreitos, pouco mais do que frestas, com coágulos brancos grudados nos cantos. A respiração que vinha por entre os dentes podres e os lábios supurados do vagabundo era tão nojenta que Harry ficou nauseado.

—      Tique-taque, tique-taque — repetiu o vagabundo. Falava baixo, mas o efeito era o de um grito porque a voz parecia ser o único som do universo. Um silêncio sobrenatural envolvera o dia.

Sentindo-se ameaçado pelo tamanho e pela imundície extravagante do estranho, Harry deu um passo atrás. O cabelo gorduroso do sujeito estava cheio de lixo, pedaços de grama e folhas; havia comida seca e coisas piores presas à sua barba emaranhada. Sem dúvida era um tubo de ensaio ambulante, carregando todas as doenças mortais conhecidas e um incubador de novos horrores viróticos e bacterianos.

—      Tique-taque, tique-taque — riu o vagabundo. — Você vai estar morto dentro de dezesseis horas.

—      Para trás — alertou Harry.

—      Morto ao amanhecer.

O vagabundo abriu os olhos espremidos. Eram vermelhos de pálpebra a pálpebra, sem íris ou pupilas, como se no lugar dos olhos só houvesse pedaços de vidro, e apenas um depósito de sangue dentro do crânio.

—      Morto ao amanhecer — repetiu o vagabundo.

E explodiu. Não como uma granada. Sem ondas de choque mortais ou sopros de calor, sem ruído ensurdecedor, apenas um fim súbito para a imobilidade antinatural e um influxo feroz de vento: Uuush! O vagabundo pareceu desintegrar-se, não em partículas de carne e jorros de sangue, mas em pedrinhas, pó e folhas, em galhos, pétalas de flores e torrões secos de terra, em trapos de pano velho e pedaços de jornais amarelados, tampas de garrafas, cacos de vidro brilhante, ingressos de teatro amassados, penas de pássaros, barbante, papel de bala e chiclete, pregos tortos e enferrujados, copos de papel amassados, botões perdidos...

A coluna de lixo passou por Harry. De novo foi obrigado a fechar os olhos enquanto os restos mundanos do fantástico vagabundo batiam contra ele.

Quando pôde abrir os olhos sem risco de feri-los, Harry girou, olhando em todas as direções, mas o lixo espiralado desaparecera, dispersado por todos os cantos do dia. Nenhum.redemoinho. Nenhum dançarino fantasma. Nenhum vagabundo! Ele desaparecera.

Harry virou-se outra vez, boquiaberto.

Seu coração batia ferozmente.

Um carro buzinou em outra rua. Uma pick-up virou a esquina, aproximando-se, o motor roncando. No outro lado da rua um jovem casal andava de mãos dadas, e o riso da mulher era como o som de pequenos sinos de prata.

De súbito Harry percebeu como o dia se tornara estranhamente quieto entre o aparecimento e o desaparecimento do gigante vestido de trapos. Afora a voz tumular e malévola e os poucos sons de movimento que o vagabundo fizera, a rua estivera silenciosa como algum lugar a mil léguas abaixo do mar ou no vácuo entre as galáxias.

Um relâmpago espocou. Sombras dos galhos da árvore tremularam na calçada ao redor.

O trovão fez ressoar a frágil membrana do céu, depois ressoou com mais força. O céu ficou mais escuro, como se queimado pelo raio, a temperatura do ar pareceu cair dez graus num instante e as nuvens de chumbo se partiram. Gordas gotas de chuva golpearam as folhas, deram cacetadas nos capôs dos carros estacionados, pintaram manchas escuras na roupa de Harry, salpicaram seu rosto e lançaram um frio no fundo de seus ossos.

 

O mundo parecia estar se dissolvendo por trás do pára-brisa do carro estacionado, como se as nuvens tivessem liberado torrentes de um solvente universal. Chuva prateada escorria pelo vidro e as árvores do lado de fora pareciam se dissolver tão depressa como aquarelas verdes. Pedestres apressados se fundiam com seus guarda-chuvas coloridos e se liquefaziam na torrente cinza.

Harry Lyon sentia-se como se também fosse se liquefazer, transformado numa solução insensata e varrido para longe. Seu confortável mundo de razão feito de granito e lógica de aço erodia ao seu redor, e ele não tinha forças para impedir a desintegração.

Não conseguia decidir se realmente vira o vagabundo corpulento ou se fora uma simples alucinação.

Deus sabia que uma subclasse de despossuidos vagueava pela paisagem da América naqueles dias. Quanto mais dinheiro o governo gastava para reduzir o seu número, mais surgiam, até começar a parecer que eles não eram resultado de qualquer política ou da ausência dela, e sim um flagelo divino. Como tantas pessoas, Harry aprendera a desviar os olhos ou a olhar através deles, porque não parecia haver nada que pudesse ser feito para ajudá-los de modo significativo... e porque a própria existência deles levantava questões perturbadoras sobre a estabilidade do seu futuro. A maioria era patética e inofensiva. Mas alguns eram inegavelmente estranhos, os rostos estimulados por tiques e contorções de impulsos neuróticos, levados por necessidades obsessivas, o brilho da loucura nos olhos, a capacidade para a violência evidente na tensão contínua dos corpos. Até mesmo numa cidade como Laguna Beach — retratada em folhetos de turismo como uma pérola do Pacífico, mais um paraíso da Califórnia — Harry podia sem dúvida encontrar alguns sem-teto cuja conduta e aparência eram tão hostis quanto a tio homem que parecera surgir do redemoinho.

Mas jamais esperaria encontrar um deles com olhos vermelhos sem íris e pupilas. Também não confiava na probabilidade de localizar qualquer morador da rua que pudesse se manifestar a partir de um demônio do pó ou explodir numa coleção de lixo comum e voar para longe no vento.

Talvez houvesse imaginado o encontro.

Era uma possibilidade que Harry relutava em considerar. A perseguição e a execução de James Ordegard foram traumáticas.Mas ele não acreditava que ter sido apanhado na fúria sangrenta de Ordegard fosse suficientemente estressante para causar uma alucinação repleta de pregos enferrujados e com um mau hálito assassino.

Se o gigante imundo fosse real, de onde viera? Para onde fora, que era, que doença ou defeito de nascença o deixara com aqueles olhos aterrorizantes?

Tique-taque, tique-taque, você vai estar morto ao amanhecer.

Girou a chave na ignição e deu partida no motor.

A papelada estava esperando, calmamente tediosa, com espaços a preencher e quadros a verificar. Uma ficha bem datilografada reduziria a desordem do caso de Ordegard a parágrafos nítidos de palavras sobre papel branco, e depois nada pareceria tão inexplicável quanto antes.

Não incluiria o vagabundo de olhos vermelhos no relatório, claro. Não tinha nada a ver com Ordegard. Além disso, não queria dar a Connie ou a qualquer outra pessoa do Departamento de Projetos Especiais um motivo para rir à sua custa. Vestir-se impecavelmente para o trabalho, de terno e gravata, desdenhar a linguagem chula numa profissão onde ela era a tônica, seguir as regras o tempo todo e ser obsessivo com a clareza de seus relatórios já o tomaram alvo freqüente do humor dos outros. Contudo, mais tarde, em casa, poderia datilografar um relatório sobre o vagabundo, só puni ele, como um meio de trazer ordem à experiência esdrúxula e deixá-la para trás.

— Lyon — falou, encarando-se no retrovisor —, você é um espécime ridículo.

Ligou os limpadores de pára-brisa e o mundo se solidificou.

O céu da tarde estava tão carregado que as lâmpadas das ruas, acionadas por um interruptor sensível à luz solar, foram iludidas pelo falso entardecer. O pavimento brilhava, de um negro luzidio. Todas as sarjetas estavam cheias de água suja correndo rápida.

Foi para o sul, pela Pacific Coast Highway, mas em vez de virar para o leste na Crown Valley Parkway, em direção ao Departamento de Projetos Especiais, continuou em frente. Passou pelo Ritz Cove, depois pela entrada do Ritz-Carlton Hotel e seguiu até Dana Point.

Sentiu-se meio surpreso ao parar na frente da casa de Enrique Estefan, ainda que subconscientemente soubesse para onde estava indo.

A casa era um daqueles bangalôs charmosos construídos nos anos quarenta e início dos cinqüenta antes que as casas de estuque, sem alma, se tornassem a arquitetura preferida. Janelas decorativamente esculpidas, faixas rendilhadas e telhados com várias cumeeiras emprestavam um caráter especial. A chuva escorria pelas copas das grandes tamareiras no quintal da frente.

Durante um breve descanso do temporal, Harry saiu do carro e correu pela calçada. No momento em que subia os três degraus de tijolos rumo à varanda, a chuva piorava de novo. Não havia mais vento, como se o grande peso da chuva o houvesse suprimido.

Sombras esperavam na varanda, como uma reunião de velhos amigos, entre um balanço em forma de banco e cadeiras brancas com almofadas de pano verde. Mesmo num dia ensolarado a varanda ficava agradavelmente fresca, já que era abrigada por buganvílias vermelhas densamente entrelaçadas que adornavam uma treliça e se esparramavam pelo telhado.

Apertou o botão da campainha e, acima do tamborilar da chuva, ouviu o tilintar suave de dentro da casa.

Uma lagartixa de quinze centímetros correu pela varanda, desceu os degraus e saiu na tempestade.

Harry esperou pacientemente. Enrique Estefan — Ricky para os amigos — não se movimentava muito rápido ultimamente.

Quando a porta interna se abriu Ricky espreitou através da porta de tela, claramente infeliz por estar sendo perturbado. Depois riu e disse:

—      Harry, que bom ver você! — Abriu a porta de tela e ficou de lado. — É realmente bom ver você.

—      Estou ensopado—disse Harry tirando os sapatos e deixando-os na varanda.

—      Não é necessário — falou Ricky.

Harry entrou na casa calçando apenas as meias.

—      Continua sendo o homem de maior consideração que já conheci — disse Ricky.

—      Sou eu, o Sr. Educação, aquele dos revólveres e das algemas.

Trocaram um aperto de mão. A pegada de Enrique Estefan era firme, apesar de sua mão ser quente, seca, rígida, com muito pouca carne, quase murcha, toda feita de juntas, metacarpos e falanges, Era quase como cumprimentar um esqueleto.

—      Venha para a cozinha — disse Ricky.

Harry seguiu-o pelo piso de carvalho encerado. Ricky arrastava os pés, sem jamais levantá-los totalmente.

O pequeno corredor só era iluminado pela luz que vinha da cozinha no fundo e por uma vela votiva tremulando num vidro vermelho. A vela fazia parte de um altar dedicado à Nossa Senhora montado sobre uma mesa encostada à parede. Por trás havia um espelho com moldura prateada. Reflexos da pequena vela reluziam na folha de prata e dançavam no espelho.

—      Como vai, Ricky?

—      Bem. E você?

—      Já tive dias melhores — admitiu Harry.

Apesar de ter a mesma altura de Harry, Ricky parecia bem menor, porque se encurvava para a frente como se estivesse andando contra o vento, as costas arqueadas, as linhas agudas das omo-platas proeminentemente saltadas contra a camisa amarelo-claro. Visto por trás, seu pescoço parecia esquelético. Aparte posterior do crânio era aparentemente tão frágil quanto a de um bebê.

A cozinha era maior do que seria de esperar num bangalô e muito mais alegre do que o corredor: chão de ladrilho mexicano, armários de pinho, uma grande janela dando para um quintal espaçoso. O rádio tocava uma música de Kenny G, O ar estava denso com o rico aroma de café.

—      Quer uma xícara? — perguntou Ricky.

—      Se não for incômodo.

—      Nenhum. Acabei de fazer.

Enquanto Ricky pegava uma xícara e um pires num dos armários e servia o café, Harry estudou-o. Ficou preocupado com o que via.

O rosto de Ricky estava magro demais, desenhado com rugas fundas nos cantos dos olhos e ao redor da boca. A pele era frouxa como se houvesse perdido toda a elasticidade. Os olhos estavam remelentos. Talvez fosse apenas reflexo da cor da camisa, mas o cabelo branco tinha um tom amarelo doentio, e tanto o rosto quanto o branco dos olhos exibiam um traço de icterícia.

Havia perdido mais peso. As roupas caíam frouxas. O cinto estava apertado no último furo e os fundos das calças pendiam como um saco vazio.

Enrique Estefan era um velho. Só tinha 36 anos, um a menos do que Harry, mas mesmo assim era um velho.

 

Na maior parte do tempo a mulher cega não vivia meramente na escuridão, e sim em outro mundo separado daquele em que nascera. Algumas vezes o espaço interno era um reino de fantasia brilhante, com castelos rosa e âmbar, palácios de jade, apartamentos altos e luxuosos, terrenos em Bel Air com vastos gramados verdes. Nessas paisagens era a rainha e soberana definitiva ou uma atriz famosa, top-model, romancista aclamada, bailarina. Mas em outros tempos ali houvera um império maligno, cheio de masmorras sombrias, catacumbas úmidas e gotejantes repletas de cadáveres em decomposição, paisagens bombardeadas cinza e áridas como as crateras da Lua, povoadas por criaturas monstruosas e malévolas, de onde ela estava sempre fugindo, escondendo-se apavorada, nem poderosa nem célebre, muitas vezes nua e com frio.

Ocasionalmente seu mundo interior carecia de concretude, era apenas o domínio de cores, sons e aromas, sem forma ou textura, e deslizava através dele, pensativa e espantada. Freqüentemente havia música — Elton John, Three Dog Night, Nilsson, Marvin Claye, Jim Croce, as vozes de seu tempo — e as cores giravam e explodiam para acompanhar as canções, um show de luzes tão ofuscante que o mundo real jamais poderia produzir algo equivalente..

Mesmo durante uma daquelas fases amorfas o país mágíco que havia dentro de sua cabeça podia escurecer e se tornar um local medonho. As cores tornavam-se turvas e sombrias; á música era dissonante, agourenta. Sentia como se fosse arrastada por um rio gélido e turbulento, como se estivesse sufocando nas águas amargas, lutando inutilmente para respirar, depois rompendo a superfície e sorvendo o ar rançoso, desesperada, chorando, rezando para ser jogada numa praia quente e seca.

De vez em quando, como agora, ela emergia dos mundos falsos se conscientizava da realidade na qual existia de fato. Vozes abafadas em quartos e corredores adjacentes. O rangido de solas de borracha. Cheiro de pinho dos desinfetantes, aromas medicinais, algumas vezes (mas não agora) o odor pungente de urina. Estava enrolada em lençóis limpos e passados, frios contra sua carne febril. Quando desembaraçou a mão direita dos panos e estendeu-a cegamente, encontrou a grade de aço da cama de hospital.

A princípio ficou preocupada com a necessidade de identificar um som estranho. Não tentou ficar de pé, mas se agarrou firme à grade e permaneceu totalmente imóvel, ouvindo com atenção o que inicialmente parecera o rugir de uma grande multidão numa arena distante. Não. Não era uma multidão. Fogo. O sussurro sibilante e zombeteiro de um incêndio. Seu coração começou a martelar, mas por fim ela reconheceu o que era o incêndio: o oposto, o aguaceiro refrescante de uma grande tempestade.

Relaxou um pouco — mas logo percebeu um movimento ali perto e congelou de novo, cautelosa.

—      Quem está aí? — perguntou e ficou surpresa com a própria

voz espessa e indistinta.

—      Ah, Jennifer, você está conosco.

Jennifer. Meu nome é Jennifer.

Fora uma voz de mulher. Parecia acima da meia-idade, profissional porém solícita.

Jennifer quase reconheceu a voz, sabia que já a ouvira antes, mas não se sentiu tranqüila,

—      Quem é você? — exigiu saber, desconcertada porque não conseguia se livrar da voz confusa.

—      É Margaret, querida.

O passo com solas de borracha, aproximando-se.

Jennifer se encolheu, meio esperando um soco, mas sem saber por quê.

Dedos seguraram seu pulso direito, e Jennifer se encolheu mais ainda.

—      Calma, querida. Só quero medir sua pulsação.

Jennifer cedeu e ficou ouvindo a chuva.

Depois de um tempo Margaret soltou seu pulso.

—      Rápida, mas regular.

Lentamente a lembrança voltou para Janet.

—      Você é Margaret?

—      Isso.

—      A enfermeira do dia.

—      Sim, querida.

—      Então é de manhã?

—      Quase três da tarde. Vou sair dentro de uma hora. Depois Angelina vai cuidar de você.

—      Por que é que fico tão confusa quando... acordo?

—      Não se preocupe, querida. Não há nada que você possa fazer para mudar isso. Sua boca está seca? Gostaria de beber alguma coisa?

—      Sim, por favor.

—      Suco de laranja, Pepsi, Sprite?

—      Suco seria bom.

—      Volto logo.

Passos recuando. Uma porta se abrindo. Deixada aberta. Acima do som da chuva, ruídos de trabalho em outro lugar do prédio, outras pessoas em outras tarefas.

Jennifer tentou encontrar uma posição mais confortável e com isso redescobriu não somente a extensão de sua fraqueza como o fato de que estava paralisada do lado esquerdo. Não podia mover a perna esquerda e nem mesmo mexer os dedos. Não tinha qualquer sensação na mão ou no braço esquerdos.

Um medo profundo e terrível envolveu-a. Sentiu-se desamparada e abandonada. Parecia questão da máxima urgência lembrar-se de como chegara a esta condição e a este lugar.

Com a mão direita tocou o queixo, a boca. Lábios secos e ásperos. Tinham sido diferentes. Homens a haviam beijado.

Uma lembrança tremulou na escuridão de nuamente: um beijo doce, carinhos murmurados. Era apenas um fragmento de memória, em detalhes, levando a lugar nenhum.

Tocou a bochecha direita, o nariz. Quando explorou o lado esquerdo do rosto pôde senti-lo com as pontas dos dedos, mas o rosto em si não registrou o toque. Os músculos daquele lado da face pareciam... deformados.

Depois de breve hesitação levou a mão aos olhos. Traçou os contornos com as pontas dos dedos, e o que descobriu fez sua mão tremer.

Subitamente lembrou-se não somente de como viera parar ali, mas de todo o resto, da vida desde a infância, tudo num relâmpago, muito mais do que desejava recordar, mais do que poderia suportar.

Afastou a mão dos olhos e emitiu um som frágil e terrível de mágoa. Sentiu-se esmagada sob o peso da lembrança.

Margaret voltou, os sapatos rangendo baixo.

O copo tilintou contra a mesa-de-cabeceira quando ela o pousou.

—      Vou levantar a cama para você poder beber.

O motor zumbiu e a cabeceira da cama começou a se levantar, forçando Jennifer a manter-se sentada.

Quando a cama parou de se mover, Margaret disse:

—      O que há de errado, querida? Eu fico achando que você estava tentando chorar... isto é, se pudesse.

—      Ele ainda costuma vir? — Jennifer perguntou trêmula.

—      Claro que sim. Pelo menos duas vezes por semana. Você uté esteve alerta numa das visitas há alguns dias. Não se lembra?

— Não. Eu... eu...

—     Ele é muito fiel.

O coração de Jennifer disparou. Uma pressão dilatou seu peito. A garganta ficou tão contraída de medo que ela teve dificuldade para falar.

—      Eu não... não...

—      Qual é o problema, Jenny?

—      ...não quero que ele venha aqui!

—      Ah, você não está falando sério.

—      Mantenha ele longe daqui.

—      Ele é tão dedicado!

—      Não. Ele é... ele é...

—      Pelo menos duas vezes por semana. E ele fica sentado com você umas duas horas, quer você esteja conosco quer esteja escondida dentro de si própria.

Jennifer estremeceu ao pensar nele dentro do quarto, perto da cama, quando ela não tinha consciência do que havia ao redor.

Estendeu a mão cegamente, encontrou o braço de Margaret, apertou-o o máximo que pôde.

—      Ele não é como você ou como eu — falou ansiosa.

—      Jenny, você está se transtornando.

—      Ele é diferente.

Margaret pôs a mão sobre a de Jennifer e apertou-a de um modo tranqüilizador.

—      Quero que você pare com isso, Jenny.

—      Ele não é humano.

—      Você não está falando sério. Não sabe o que está dizendo.

—      Ele é um monstro.

—      Coitadinha. Relaxe, querida. — Dedos tocaram a testa de Jennifer, começaram a alisar as rugas de tensão, a pentear seus cabelos para trás. — Não se agite. Tudo vai ficar bem. Você vai ficar ótima. É só se acalmar, relaxe, você está segura aqui. Nós a amamos, vamos cuidar de você.

Depois de algum tempo Jennifer ficou mais calma — mas não menos amedrontada.

O aroma de laranjas fez sua boca salivar. Enquanto Margaret segurava o copo, Jennifer bebeu através de um canudinho. Sua boca não funcionava muito bem. Ocasionalmente tinha alguma dificuldade para engolir, mas o suco estava frio e delicioso.

Quando esvaziou o copo, deixou que a enfermeira enxugasse sua boca com um guardanapo de papel.

Ficou ouvindo o som tranqüilizador da chuva, esperando que ele acalmasse seus nervos. Não acalmou.

—      Quer que eu ligue o rádio? — perguntou Margaret.

—      Não, obrigada.

—      Posso ler, se você quiser. Poesia. Você sempre gosta de ouvir poesia.

—      Seria bom.         

Margaret puxou uma cadeira para perto da cama e sentou-se. Enquanto procurava uma determinada passagem do livro, o som das páginas virando era nítido e agradável.

—      Margaret? — disse Jennifer antes que a mulher pudesse começar a ler.

—      Sim?

—      Quando ele vier me visitar...

—      O que é, querida?

—      Você vai ficar no quarto conosco, não vai?

—      Se é o que você quer, claro que sim.

—      Bom.

—      E agora, que tal um pouquinho de Emily Dickinson?

—      Margaret?

—      Hmmmmm?

—      Quando ele vem me visitar e eu estou... perdida dentro de mim... você nunca me deixa sozinha com ele, deixa?

Margaret ficou quieta, e Jennifer quase pôde ver a expressão de censura da mulher.

—      Deixa? — insistiu ela.

—      Não, querida. Nunca deixo.

Jennifer sabia que a enfermeira estava mentindo.

—      Por favor, Margaret. Você parece uma boa pessoa. Por favor.

—      Querida, ele ama você de verdade. Ele vem sempre porque a ama. Você não corre perigo com o seu Bryan, nenhum perigo.

Ela estremeceu à simples menção do nome.

—      Sei que você acha que eu estou mentalmente perturbada., confusa...

—      Um pouquinho de Emily Dickinson vai ajudar,

—      Eu estou confusa com um monte de coisas—disse Jennifer, desanimada ao ouvir a própria voz ficando cada vez mais fraca. —

Mas não sobre isso. Não estou nem um pouco confusa sobre isso.

Numa voz artificial demais para transmitir o vigor poderoso e oculto de Dickinson, a enfermeira começou a ler:

—      Que o Amor é tudo que existe, é só o que sabemos do Amor...

 

Metade da grande mesa na cozinha espaçosa de Ricky Estefan era coberta por uma toalha de plástico sobre a qual estavam dispostas as pequenas ferramentas elétricas que ele usava para fazer jóias de prata: uma furadeira de mão, instrumento para gravar, esmeril, polidor e equipamentos menos identificáveis. Frascos de líquidos e latas de compostos misteriosos ficavam cuidadosamente arrumados num dos lados, bem como pequenos pincéis, pedaços de tecido de algodão branco e esponjas de aço.

Ele estivera trabalhando em duas peças quando Harry o interrompeu: um broche de escaravelho espantosamente detalhado e uma enorme fivela de cinto coberta com símbolos indígenas, talvez Navajo ou Hopi. Sua segunda profissão.

A forja e o equipamento para moldes ficavam na garagem. Mas quando se ocupava dos detalhes de acabamento das jóias ele algumas vezes gostava de sentar-se junto à janela da cozinha, de onde podia ver suas roseiras.

Do lado de fora, mesmo sob o sinistro dilúvio cinzento, as flores estavam radiantes — vermelhas, amarelas e corais, algumas grandes como laranjas.

Harry sentou-se junto à parte livre da mesa, com sua xícara de café, enquanto Ricky arrastava os pés até o outro lado e colocava a xícara e o pires em meio às latas, frascos e ferramentas. Sentou-se na cadeira rígido como um octogenário com artrite.

Há três anos Ricky Estefan era um tira, um dos melhores, parceiro de Harry. Um sujeito bem-apessoado, de basta cabeleira, não branco-amarelada como agora, mas negra e espessa.

Sua vida mudou quando ele se viu involuntariamente envolvido num assalto a uma mercearia. Viciado em crack, o assaltante armado precisava de financiamento para manter o hábito, e talvez tenha sentido cheiro de tira assim que Ricky atravessou a porta, ou talvez estivesse a fim de acabar com qualquer um que, mesmo inadvertidamente, atrasasse a transferência do dinheiro da caixa registradora para os seus bolsos. Qualquer que fosse o caso, ele atirou quatro vezes em Ricky, errando a primeira, mas acertando as outras três: uma na coxa direita e duas no abdome.

—      Como vai o negócio de jóias? — perguntou Harry.

—      Bastante bem. Vendo tudo que faço, recebo mais pedidos de fivelas do que posso atender.

Ricky tomou um gole de café e saboreou-o antes de engolir. Café não fazia parte da dieta aprovada. Se tomasse muito, fazia estragos em seu estômago — ou no que restara de seu estômago.

Receber um tiro é fácil; sobreviver é que são elas. Ele teve sorte porque a arma do criminoso era apenas um revólver .22, e teve azar porque os tiros foram de perto. Para início de conversa, Ricky perdeu o baço, parte do fígado e uma pequena seção do intestino grosso. Apesar do cirurgião tomar todas as precauções para manter limpa a cavidade abdominal, as balas espalharam matéria fecal, e rapidamente Ricky desenvolveu uma peritonite aguda, difusa e traumática. Mal sobreviveu. Teve uma gangrena que os antibióticos não conseguiram curar, e passou por mais uma cirurgia onde perdeu a vesícula biliar e parte do estômago. Depois uma infecção no Nungue, A temperatura chegou próxima à da superfície ensolarada de Mercúrio. Peritonite de novo, e a remoção de outro pedaço do cólon. Em meio a tudo isso ele permaneceu com um bom humor espantoso e, no final, sentiu-se abençoado por ter mantido parte suficiente do sistema gastrintestinal para se poupar da indignidade de ter que usar uma bolsa de colostomia pelo resto da vida.

Ele estava de licença quando entrou naquela loja, armado, mas sem esperar problemas. Prometera à esposa, Anita, comprar leite e margarina cremosa no caminho do trabalho para casa.

O assaltante nunca foi julgado. A distração proporcionada por Ricky permitira que o dono da mercearia—Sr. Wo Tai Han—pegasse uma espingarda que ele guardava atrás do balcão. Arrancou a parte de trás da cabeça do criminoso com um disparo de calibre .12.

Claro que, sendo esta a última década do milênio, a coisa não terminou por aí. A mãe e o pai do assaltante processaram o Sr. Han por privá-los do afeto, da companhia e do apoio financeiro dados pelo filho falecido, e não importava que um viciado em crack fosse incapaz de proporcionar qualquer dessas coisas.

Harry tomou um gole de café. Estava bom e forte.

—      Teve notícias do Sr. Han ultimamente?

—      Tive. Ele está realmente convicto de que vai vencer com a apelação.

Harry balançou a cabeça.

—      Nunca se pode dizer o que um júri fará hoje em dia, Ricky sorriu tenso.

—      É. Acho que tive sorte em não ter sido processado também.

Não tivera sorte em muito mais coisas. Na época do tiroteio estava casado há apenas oito meses. Anita ficou com ele mais um ano, até que Ricky se agüentasse de pé, mas quando percebeu que ele seria um velho pelo resto da vida, desistiu. Ela tinha 26 anos e uma vida pela frente. Além disso, nessa época, a cláusula matrimonial que dizia "na doença e na saúde, até que a morte nos separe" geralmente não era considerada impositiva até o final de um longo processo jurídico que durasse, digamos, uma década; mais ou menos como não ter direito a um plano de pensão antes de trabalhar cinco anos na empresa. Nos últimos dois anos Ricky estivera sozinho.

Devia ser o dia de Kenny G. O rádio tocava outra de suas músicas. Esta era menos melódica do que a primeira. Deixou Harry irritado. Talvez qualquer música o irritasse naquele momento,

—      O que há de errado? — perguntou Ricky.

—      Como você sabe que há algo errado?

—      Nunca, nem daqui a um milhão de anos, você visitaria sem motivo um amigo no horário de trabalho. Você sempre dá ao contribuinte o valor do dinheiro pago.

—      Sou realmente tão rígido assim?

—      Precisa mesmo perguntar?

—      Deve ter sido um pé no saco trabalhar comigo.

—      Algumas vezes — sorriu Ricky.

Harry contou sobre James Ordegard e a morte entre os manequins.

Ricky ficou ouvindo. Praticamente não falava, mas, quando linha algo a dizer, era sempre a coisa certas Sabia ser amigo.

Quando Harry parou, aparentemente depois de terminar o assunto, e ficou olhando por longo tempo as rosas no jardim, Ricky falou:

—      Isso não é tudo.

—      Não — admitiu Harry. Em seguida pegou o bule de café, encheu de novo as xícaras e sentou-se outra vez. — Apareceu um vagabundo.

Ricky ouviu aquela parte da conversa tão seriamente quanto ouvira o resto. Não pareceu incrédulo. Não havia a menor dúvida em seus olhos ou em sua atitude. Depois de escutar tudo, perguntou:

—      E o que você acha disso?

—      Eu posso ter visto coisas, alucinações.

—      Pode? Você?

—      Mas pelo amor de Deus, Ricky, como pode ter sido real?

—      O vagabundo é realmente mais estranho do que o criminoso no restaurante?

A cozinha estava quente, mas Harry sentiu arrepios. Colocou as duas mãos ao redor da xícara de café.

—      É. Ele é mais esquisito. Talvez não tanto, mas pior. A coisa é... acha que eu devo pedir uma licença psiquiátrica, umas duas semanas para aconselhamento?

—      Desde quando você começou a acreditar que os desentupidores de cérebros sabem o que estão fazendo?

—      Não acredito. Mas eu não me sentiria tranqüilo sabendo que existem outros policiais andando enlouquecidos por aí com uma arma carregada na mão.

—      Você não representa perigo para ninguém, Harry, a não ser para você mesmo. Vai morrer de preocupação qualquer hora dessas. Bom, quanto a esse cara de olhos vermelhos... em algum momento da vida todo mundo passa por alguma coisa que não consegue explicar, um esbarrão no desconhecido.

—      Eu não—disse Harry em tom firme, balançando a cabeça.

—      Até você. Agora, se esse cara começar a aparecer no meio de um redemoinho de hora em hora, pedindo para marcar um encontro, querendo te dar um beijo de língua... aí talvez você esteja com um problema.

Exércitos de chuva marcharam pelo telhado do bangalô.

—      Sou um cara controlado demais — afirmou Harry. — Sei disso.

—      Exatamente. Você se controla demais. Não há nenhum parafuso frouxo em você, meu chapa.

Ficaram olhando a chuva durante alguns minutos, sem dizer nada.

Finalmente Ricky colocou óculos de proteção e pegou a fivela de prata. Ligou o polidor manual, que era mais ou menos do tamanho de uma escova de dentes elétrica e cujo barulho não chegava a atrapalhar a conversa, e começou a limpar manchas e minúsculas aparas de prata em um dos desenhos gravados.

Depois de algum tempo Harry suspirou.

—      Obrigado, Ricky.

—      De nada.

Harry levou a xícara e o pires até a pia, passou água e colocou-os na máquina de lavar louça.

No rádio, Harry Connick, Jr, cantava o amor.

Acima da pia ficava outra janela. A chuva forte fazia um estrago nas rosas. Pétalas brilhantes se espalhavam como confetes pela grama encharcada.

Quando Harry voltou à mesa, Ricky desligou o polidor e começou a se levantar.

—      Tudo bem — disse Harry. — Eu saio sozinho.

Ricky assentiu. Parecia muito frágil.

—      Vejo você qualquer hora dessas.

—      Não demora muito para começar a temporada — disse Ricky.

—     Vamos a um jogo de abertura dos Angels.

—      Eu gostaria.

Ambos gostavam de beisebol. Havia uma lógica reconfortante na estrutura e na progressão de cada jogo. Era um antídoto para a vida cotidiana.

Na varanda da frente Harry calçou de novo os sapatos e tu narrou os cordões, enquanto a lagartixa que ele assustara ao chegar — ou uma igual — observava-o do braço da cadeira mais próxima. Escamas verdes e púrpura, ligeiramente iridescentes, brilhavam opacas em cada curva ondulada do animal, como se um punhado de pedras semipreciosas tivesse sido largado sobre a madeira branca.     

Sorriu para o dragão minúsculo.

Sentia-se de novo equilibrado, calmo.

Assim que desceu o último degrau para a calçada e saiu na chuva, Harry olhou para o carro e viu alguém sentado no banco do carona. Uma figura sombria e enorme. Cabelos despenteados e barba emaranhada. O intruso estava olhando para outro lado, mas logo virou a cabeça. Mesmo através da janela lateral molhada de chuva e a uma distância de dez metros, o vagabundo era instantaneamente reconhecível.

Harry se virou na direção da casa, pretendendo gritar por Ricky Estefan, mas mudou de idéia ao lembrar como o vagabundo desaparecera subitamente da outra vez.

Olhou para o carro, esperando descobrir que a aparição havia evaporado. Mas o intruso continuava lá.

Dentro da volumosa capa de chuva, o homem parecia grande demais para o sedã, como se não estivesse num carro de verdade, e sim numa daquelas versões reduzidas dos brinquedos de trombadas nos parques de diversões.

Harry seguiu rapidamente pela calçada da casa, chapinhando em poças cinzentas. Ao chegar perto da rua viu no rosto do maníaco as cicatrizes das quais se recordava tão bem—e os olhos vermelhos.

Assim que chegou ao carro, Harry falou:

—      O que está fazendo aqui?

Mesmo através da janela fechada, a resposta do vagabundo foi claramente audível:

—      Tique-taque, tique-taque, tique-taque...

—      Saia daí — ordenou Harry.

—      Tique-taque... tique-taque...

Uma característica indefinível mas enervante no riso do mendigo fez com que Harry hesitasse.

—      ...tique-taque...

Harry pegou o revólver e segurou-o com o cano virado para cima. Colocou a mão esquerda na maçaneta.

—      ...tique-taque...

Aqueles olhos líquidos intimidavam Harry. Pareciam bolhas de sangue que poderiam explodir e escorrer pelo rosto cinzento. Vê-los, tão desumanos, era enervante.

Antes que sua coragem se esvaísse, Harry escancarou a porta.

Quase foi derrubado por um sopro de vento frio e cambaleou dois passos para trás. O vento escapou do seda como se uma tempestade glacial tivesse sido guardada ali dentro, aguilhoou seus olhos e provocou lágrimas.

Em alguns segundos, o vento cessou. Por trás da porta aberta do carro, o banco do carona estava vazio.

Dentro do seda, Harry pôde enxergar o suficiente para certificar-se de que o vagabundo não estava em lugar nenhum. Mesmo assim rodeou o veículo olhando por todas as janelas.

Parou atrás do carro, pegou as chaves no bolso e abriu o porta-malas, protegendo-se com o revólver enquanto levantava o capo. Nada: estepe, macaco, alavanca e bolsa de ferramentas.

Observando o calmo bairro residencial, aos poucos Harry se conscientizou da chuva, da qual havia esquecido por um breve tempo. Um rio vertical jorrava do céu. Ele estava ensopado até os ossos.

Bateu a tampa do porta-malas e depois fechou a porta do carona. Foi até o lado do motorista. Suas roupas fizeram ruídos molhados quando ele se sentou atrás do volante.

Antes, na rua do centro de Laguna Beach, o vagabundo exalara um odor corporal e expelira um hálito mortal. No entanto, não ficara qualquer cheiro dele dentro do carro.

Harry trancou as portas. Depois recolocou o revólver no coldre debaixo do paletó esporte completamente encharcado.

Estava tremendo.

Afastando-se do bangalô de Enrique Estefan, Harry ligou o aquecedor e colocou no máximo. Água escorria de seu cabelo e descia pela nuca. Os sapatos tinham inchado e apertavam seus pés.

Lembrou-se dos radiantes olhos vermelhos encarando-o através da janela do carro, as feridas purulentas no rosto imundo e coberto de cicatrizes, o crescente de dentes amarelos e partidos — e subitamente conseguiu identificar a característica enervante do riso do vagabundo, que o interrompera quando estava para abrir a porta. Não era o palavreado lunático que tornava o estranho mendigo tão ameaçador. Não era o riso de um louco. Era o riso de um predador, tubarão espreitando, pantera caçando, lobo rondando ao luar, algo muito mais formidável e mortal do que apenas um mendigo vadio.

Por todo o caminho de volta ao Departamento de Projetos Especiais em Laguna Niguel a paisagem e as ruas eram familiares. Nada havia de misterioso nos outros motoristas, nada que parecesse do outro mundo no jogo de faróis dentro da chuva niquelada ou no ruído metálico que as gotas frias faziam contra a pele do seda, nada fantasmagórico nas silhuetas das palmeiras contra o céu de ferro. Entretanto ele se sentia avassalado por uma sensação de mistério e lutava para evitar a conclusão de que esbarrara em alguma coisa... sobrenatural.

Tique-taque, tique-taque...

Pensou nas outras coisas que o vagabundo dissera depois de surgir do redemoinho: Você vai estar morto ao amanhecer.

Olhou para o relógio. O vidro continuava molhado de chuva, o mostrador distorcido, mas dava para ver a hora: 15:28.

A que horas o sol nascia? Seis? Seis e meia? Por aí. No máximo dali a quinze horas.

A batida metronômica dos limpadores de pára-brisa começou a soar como a cadência agourenta de tambores de funeral.

Ridículo. O mendigo não poderia tê-lo seguido de Laguna Beach até a casa de Enrique — o que significava que ele não era real, mas meramente imaginado, e portanto não representava ameaça.

Não se sentiu aliviado. Se o vagabundo era imaginário, Harry não corria perigo de morrer quando o dia amanhecesse. Mas, até onde podia ver, isso deixava apenas uma explicação alternativa e nem um pouco tranqüilizadora: ele devia estar tendo um colapso nervoso.

 

O lado de Harry, no escritório, era reconfortante. O borrador e o jogo de canetas estavam perfeitamente perpendiculares e alinhados com as bordas da mesa. O relógio de latão mostrava a mesma hora do seu relógio de pulso. As folhas da palmeira plantada no vaso, as sempre-verdes chinesas e a trepadeira permaneciam limpas e brilhantes.

A tela azul do computador também funcionava como um calmante, e todos os relatórios do Departamento de Projetos Especiais estavam instalados sob a forma de programas, por isso ele poderia preenchê-los e imprimi-los sem precisar de uma máquina de escrever. Quando se tentava preencher os vazios dos relatórios com aquela tecnologia antiquada, os resultados eram sempre os mesmos: espaços irregulares.

Ele era um excelente datilografo e compunha na cabeça a narrativa dos casos quase com tanta rapidez quanto podia datilografar. Qualquer pessoa era capaz de preencher espaços em branco e fazer X nos quadrados, mas nem todo mundo tinha capacidade para a parte do trabalho que ele gostava de chamar de "teste de ensaio". Suas narrativas de caso eram escritas em linguagem mais vivida e sucinta do que a de qualquer outro detetive que ele conhecera.

Enquanto seus dedos voavam sobre o teclado, frases nítidas se formavam na tela e Harry Lyon se sentia mais em paz com o mundo do que em qualquer momento desde que se sentara à mesa para tomar o café da manhã, comendo bolinhos de milho com geléia de limão e desfrutando a vista do cinturão verde e meticulosamente cuidado do condomínio. Quando a orgia assassina de James Ordegard foi resumida em prosa seca, isenta de verbos e adjetivos exagerados, o episódio nem de longe pareceu tão bizarro quanto no momento em que Harry participara. Ele martelava as palavras, e as palavras o tranqüilizavam.

Sentia-se suficientemente relaxado até para se permitir ficar mais informal no escritório do que era seu hábito. Desabotoou o colarinho e afrouxou ligeiramente o nó da gravata.

Só deu uma parada no trabalho burocrático para ir até a máquina de café no corredor. Suas roupas continuavam úmidas em alguns pontos e irremediavelmente amarrotadas, mas o gelo dentro de seus ossos havia derretido.

Ao levar o café de volta para o escritório, viu o vagabundo. O mendigo gigantesco estava no fim do corredor, atravessando o cruzamento, passando pelo outro corredor da esquerda para a direita. Andava decidido, olhando para a frente e sem se virar na direção de Harry, como se tivesse outros interesses no prédio. Em alguns passos longos atravessou a interseção e sumiu de vista.

Enquanto disparava pelo corredor para ver aonde ele fora, tentando não derramar o café, Harry disse a si próprio que não tinha visto a mesma pessoa. Havia uma vaga semelhança, só isso; imaginação e nervos em frangalhos se encarregaram de fazer o resto.

Suas negativas careciam de convicção. A figura no final do corredor tinha a mesma altura de sua nêmesis, com aqueles ombros de urso, o peito largo, a mesma juba imunda e a barba emaranhada. A capa de chuva preta e comprida o envolvia como um roupão, e ele exibia aquela autoconfiança leonina, como se fosse um profeta louco misticamente transportado dos dias do Velho Testamento e largado nos tempos modernos.

Harry parou no fim do corredor, escorregando ao chegar ao cruzamento, estremecendo quando o café quente se derramou do copo e queimou sua mão. Olhou à direita, para onde fora o mendigo. As únicas pessoas naquele corredor eram Bob Wong e Louis Yancy, emprestados pelo Departamento do Chefe de Polícia do Condado de Orange, que consultavam uma pasta de papel pardo.

—      Para onde ele foi? — perguntou Harry.

Os dois piscaram e Bob Wong disse:

—      Quem?

—      O cabeludo com capa de chuva preta, o vagabundo.

Os dois homens pareciam perplexos.

—      Vagabundo? —perguntou Yancy.

—      Bom, se vocês não viram, devem ter cheirado o sujeito.

—      Agora? — perguntou Wong.

—      É, há dois segundos.

—      Ninguém passou por aqui — disse Yancy.

Harry sabia que os dois não estavam mentindo, não faziam parte de alguma imensa conspiração. Mesmo assim, queria inspecionar todas as salas do corredor.

Conteve-se apenas porque eles já o olhavam com curiosidade. Suspeitou que estivesse com a aparência meio estranha — desarrumado, pálido, os olhos arregalados.

Não conseguia tolerar a idéia de que estivesse dando um espetáculo. Tinha construído a vida com base nos princípios da moderação, da ordem e do autocontrole.

Voltou relutantemente para o escritório. Pegou um apoio para copos na gaveta de cima da escrivaninha, depositou-o em cima do borrador e pôs sobre ele o copo de café.

Ele guardava um rolo de toalhas de papel e um frasco de Windex spray na gaveta de baixo de um dos arquivos. Usou duas toalhas para enxugar o café das mãos e depois secou o copo.

Ficou satisfeito ao ver que as mãos não tremiam.

Acabaria descobrindo o que estava acontecendo e daria um jeito. Podia enfrentar qualquer coisa. Sempre pudera. Sempre poderia. Autocontrole. Essa era a chave.

Respirou lenta e profundamente várias vezes. Com as duas mãos retirou o cabelo da testa.

Pesado como uma laje de ardósia, o céu baixo fizera com que o crepúsculo chegasse mais cedo. Já passava alguns minutos das dezessete horas, faltava uma hora para o pôr-do-sol, mas o dia se rendera a um anoitecer mais longo. Harry acendeu as luzes fluorescentes do teto.

Durante um ou dois minutos permaneceu junto à janela parcialmente embaçada, olhando toneladas de chuva despencarem no estacionamento. Os trovões e relâmpagos haviam cessado há muito, e o ar estava pesado demais para permitir vento, de modo que o dilúvio tinha uma intensidade tropical, uma implacabilidade medonha que trazia ao pensamento mitos antigos envolvendo punição divina, arcas e continentes desaparecidos sob mares furiosos.

Um pouco mais calmo, voltou à escrivaninha e girou a cadeira para o computador. Quando ia acessar o documento contendo a narrativa do caso, que ele salvara antes de ir pegar o café, percebeu que a tela não estava vazia como deveria.

Outro documento fora criado em sua ausência. Consistia em uma única palavra no centro da tela: TIQUE-TAQUE.

 

Eram quase dezoito horas quando Connie chegou ao escritório, depois de pegar carona num carro preto e branco do Departamento de Polícia de Laguna Beach. Veio reclamando da mídia, particularmente de um repórter de televisão que chamara Harry e ela de "Batman e Batgirl", sabe Deus por que motivo. Talvez porque a perseguição desesperada feita a James Ordegard envolvera bastante coragem, ou talvez simplesmente porque havia um bando de morcegos no sótão quando os dois apagaram o sacana. Os jornalistas eletrônicos nem sempre tinham motivos lógicos ou justificativas verossímeis para dizer e fazer algumas das coisas que diziam e faziam. Para eles, relatar as notícias não era um compromisso sagrado nem um serviço público, era show business, onde luzes e estardalhaço são mais necessários que fatos e números. Connie já estava na estrada há tempo suficiente para saber disso tudo e se resignar, mas de qualquer modo ficara furiosa, despejando uma lengalenga sobre Harry assim que atravessou a porta.

Ele estava acabando de resolver a papelada. Na última meia hora ficara vadiando, esperando que ela chegasse. Tinha decidido contar sobre o vagabundo de olhos vermelhos, em parte porque ela era sua parceira e ele abominava esconder de um parceiro qualquer coisa significativa. Ele e Ricky Estefan sempre haviam compartilhado tudo, e este fora um dos motivos que o levara a procurar Ricky antes de voltar ao Departamento de Projetos Especiais; o outro era que ele valorizava as idéias e os conselhos de Ricky. Quer o vagabundo ameaçador fosse verdadeiro, quer fosse sintoma de colapso mental, Connie tinha o direito de saber.

Se aquela figura imunda e espectral fosse imaginária, talvez bastasse falar sobre ela com alguém para alfinetar a bolha da ilusão. O vagabundo poderia nunca mais aparecer.

Harry também queria contar a ela porque este seria um motivo para passar algum tempo de folga junto dela. Além disso, pelo menos um pouquinho de socialização entre os parceiros era aconselhável, ajudava a reforçar aquele laço especial entre tiras que precisavam arriscar a vida uns pelos outros. Precisavam falar sobre o que haviam passado durante a tarde, reviver juntos os acontecimentos e transformar uma experiência traumática numa anedota bem-acabada, capaz de perturbar os recrutas nos próximos anos.

E, na verdade, ele queria passar algum tempo com Connie porque começara a se interessar por ela não somente como parceira, mas como mulher. O que o surpreendeu. Eram totalmente opostos. Ele passara muito tempo dizendo a si mesmo que ela o deixava louco. Agora não conseguia parar de pensar em seus olhos, no brilho dos cabelos, nos lábios cheios. Ainda que não quisesse admitir, essa mudança de atitude vinha se acelerando há algum tempo, e hoje as engrenagens tinham finalmente se encaixado em sua cabeça.

Nenhum mistério nisso. Ele quase fora morto. Mais de uma vez. Um esbarrão com a morte era um grande esclarecedor de pensamentos e sentimentos. Ele não somente esbarrara na morte; fora abraçado por ela, um abraço apertado.

Raras vezes Harry abrigara tantas emoções intensas ao mesmo tempo: solidão, medo, dúvida dolorosa, alegria por estar vivo, desejo tão agudo que pesava no coração e tornava a respiração um pouco mais difícil do que o normal.

— Onde eu assino?—perguntou Connie quando ele disse que havia terminado com a papelada.

Ele espalhou sobre a mesa todos os relatórios requisitados, inclusive a declaração oficial de Connie. Ele a escrevera para ela, como sempre, o que ia contra a política do departamento e era uma das poucas regras que ele violava. Mas a dupla dividia as tarefas de acordo com suas capacidades e preferências, e nisso ele simplesmente era melhor do que ela. As narrativas de caso que Connie redigia tendiam a um tom raivoso, em vez de solenemente neutro, como se cada crime fosse a pior afronta pessoal à sua pessoa, e algumas vezes usava palavras como "bundão" ou "cabeça de merda" em vez de "suspeito" ou "elemento detido", o que lançava o advogado do réu a arrebatados espasmos de indignação no tribunal.

Connie assinou sem ler todos os relatórios que ele colocou à sua frente, inclusive a declaração perfeitamente datilografada atribuída a ela. Harry gostava disso. Significava confiança.

Enquanto observava Connie assinando, decidiu que deveriam ir a algum lugar especial, mesmo ele estando amarrotado e úmido. Um bar aconchegante com reservados almofadados, luzes baixas e velas sobre as mesas, um pianista tocando música de coquetel — mas não um daqueles sujeitos melosos que faziam versões de poliéster de canções boas e a cada meia hora cantavam Feelings, o hino dos inebriados sentimentais e cabeças de pudim em todos os cinqüenta estados americanos.

Connie não conseguia parar de se enfurecer por ter sido rotulada de Batgirl e sofrido outros abusos nas mãos da mídia, de modo que Harry teve dificuldade em encontrar o momento certo para convidá-la para um drinque e um jantar, o que lhe deu muito tempo para olhá-la. Não que ela parecesse menos tentadora ao ser olhada mais longamente. Pelo contrário: quando teve tempo de estudar seu rosto ponto por ponto, ela se mostrou mais atraente do que ele jamais percebera. O problema é que Harry começou a ver também como ela estava cansada: olhos avermelhados, pálida, olheiras escuras de cansaço, ombros curvos sob o peso do dia. Começou a duvidar de que ela quisesse tomar um drinque e repassar os eventos da hora do almoço. E quanto mais percebia a exaustão de Connie, mais profundamente cansado se sentia.

A irritação que ela demonstrava com a tendência da mídia em transformar tragédia em diversão lembrou a Harry que ela começara o dia irritada, perturbada por alguma coisa que se recusara a discutir.

Enquanto o ardor resfriava, ele se perguntou se realmente era boa idéia sentir interesse romântico por uma parceira. A política do departamento era separar as duplas que desenvolvessem mais do que um relacionamento de amizade, gay ou hetero, fora do serviço. As políticas implementadas por longo tempo geralmente se baseavam num grande número de experiências duras.

Connie terminou de assinar os papéis e olhou-o de cima a baixo.

—      Esta é a primeira vez que você parece capaz de considerar a idéia de se vestir no Gap, em vez de exclusivamente na Brooks Brothers. — Depois abraçou-o, o que poderia ter alvoroçado de novo sua paixão, só que foi um abraço de parceiro. — Como está a sua barriga?

Só uma dor fraca, obrigado, nada que me impeça de fazer um amor apaixonado, quente e suado com você.

—      Estou bem — falou.

—      Certeza?

—      Sim.

—      Meu Deus, eu estou cansada.

—      Eu também.

—      Acho que vou dormir umas cem horas.

—      Pelo menos dez.

Connie sorriu e, para surpresa dele, beliscou afetuosamente a sua bochecha.

—      Vejo você de manhã, Harry.

Ele ficou observando enquanto ela saía do escritório. Continuava usando Reeboks velhos, bluejeans, camisa xadrez vermelha e marrom e jaqueta de veludo cotelê marrom—e o resultado era pior, por causa das últimas dez horas. Entretanto ele não poderia achá-la mais fascinante do que se estivesse de salto alto, num vestido justo e cheio de lantejoulas, com decote mais fundo do que um cânion.

A sala ficou lúgubre sem ela. As luzes fluorescentes pintavam sombras duras e frias nos móveis, em cada folha de cada planta.

Por trás da janela embaçada o crepúsculo prematuro dava lugar à noite, mas o dia tempestuoso fora tão sombrio que a fase de demarcação era terrivelmente sutil. A chuva martelava a bigorna da escuridão.

Harry fizera um círculo completo, indo da exaustão física e mental aos pensamentos apaixonados, e daí novamente à exaustão. Era quase como ser adolescente outra vez.

Desligou o computador, apagou as luzes, fechou a porta da sala c arquivou cópias dos relatórios no escritório da frente.

Dirigindo para casa em meio à chuva depressiva e pesada, pediu a Deus que conseguisse dormir, e que o sono fosse sem sonhos. Quando acordasse refrescado de manhã, talvez a resposta ao mistério do vagabundo de olhos vermelhos se tornasse clara.

No meio do caminho quase ligou o rádio, querendo música. Mas parou a mão antes de tocar nos controles. Teve medo de, em vez de algum número da parada de sucessos, ouvir a voz do mendigo cantando: tique-taque, tique-taque, tique-taque...

 

Jennifer devia ter cochilado. Mas foi um sono comum e não o delírio dos mundos fantásticos que freqüentemente lhe proporcionavam fuga. Ao acordar não precisou afastar visões de templos de esmeralda-diamante-safira ou de platéias aplaudindo, cativadas com seu virtuosismo vocal num Carnegie Hall da mente. Sentia-se pegajosa por causa da umidade, com um gosto azedo na boca — suco de laranja velho e sono pesado.

A chuva continuava caindo. Tamborilava ritmos complicados no teto do hospital. Na verdade um sanatório particular. Mas não eram somente ritmos: também havia melodias atonais cheias de risos-gorgolejos-murmúrios.

Sem enxergar, Jennifer não tinha um modo fácil de saber com certeza a hora do dia ou a estação. Mas, cega há vinte anos, desenvolvera uma percepção refinada de seus ritmos circadianos, e conseguia adivinhar a época e o dia com precisão surpreendente.

Sabia que a primavera estava para chegar. Talvez fosse março, fim da estação chuvosa no sul da Califórnia. Não sabia qual era o dia da semana, mas suspeitava de que estivesse anoitecendo, entre seis e oito horas.

Talvez houvesse jantado, mas não lembrava. Algumas vezes apenas tinha consciência suficiente para engolir, quando punham a colher em sua boca, mas sem estar suficientemente desperta para saborear o que comia. Em outras ocasiões, em estados catatônicos mais profundos, recebia nutrientes por via intravenosa.

Apesar do silêncio que envolvia o quarto, ela percebia outra presença, fosse por alguma peculiaridade indefinível na pressão do ar ou um odor percebido subconscientemente. Permaneceu imóvel, tentando respirar como se estivesse dormindo, esperando que a pessoa desconhecida se movesse, tossisse ou suspirasse e, com isso, desse alguma pista de sua identidade.

Sua companhia não fez o que ela queria. Gradualmente Jennifer começou a suspeitar de que estava sozinha com ele.

Sabia que o mais seguro era fingir que dormia.

Lutou para ficar perfeitamente imóvel.

Por fim não tolerou mais continuar na ignorância. Falou:

—      Margaret?

Ninguém respondeu.

Sabia que o silêncio era falso. Lutou para recordar o nome da enfermeira do segundo turno.

-— Angelina?

Nenhuma resposta. Somente a chuva.

Ele a estava torturando. Tortura psicológica, mas esta era a arma mais eficaz que poderia ser usada contra ela. Conhecera tanta dor física e emocional que desenvolvera defesas contra essas formas de abuso.

—      Quem está aí?

—      Sou eu — disse ele.

Bryan. O seu Bryan.

A voz era suave e gentil, até musical, nem um pouco ameaçadora, e mesmo assim provocou a formação de gelo em seu sangue.

—      Onde está a enfermeira? — perguntou ela.

—      Pedi que nos deixasse a sós.

—      O que você quer?

—      Só ficar com você.

—      Porquê?

— Porque eu te amo.

Ele parecia sincero, mas ela sabia que não era. Bryan era congenitamente incapaz de ser sincero.

—      Vá embora — implorou.

—      Por que me trata assim?

—      Eu sei o que você é.

—      O que eu sou?

Ela não respondeu.

—      Como você pode saber o que eu sou?

—      Quem pode saber melhor? — disse ela em tom áspero, consumida pela amargura, pelo desprezo — não só por ele mas por si mesma — e pelo desespero.

Julgando pelo som da voz, ele estava junto da janela, mais perto do barulho da chuva do que dos fracos ruídos do corredor. Ela ficou apavorada com a possibilidade dele vir até a cama, pegar sua mão, tocar seu rosto ou sua testa.

—      Quero Angelina — disse ela.

—      Ainda não.

—      Por favor.

—      Não.

—      Então vá embora,

—      Por que você me trata assim?—perguntou ele de novo. Sua voz continuou gentil como sempre, melódica como a de um menino de coro, intocada pela raiva ou pela frustração, apenas tristeza. —

Eu venho duas vezes por semana. Fico sentado com você. Sem você, o que eu seria? Nada. Tenho consciência disso.

Jennifer mordeu o lábio e não respondeu.

De súbito percebeu que ele se movia. Não conseguia ouvir passos, nenhum farfalhar de roupas. Ele podia ser mais silencioso do que um gato, quando queria.

Ela soube que ele estava chegando perto da cama.

Desesperadamente procurou esquecer suas ilusões, as fantasias brilhantes ou os terrores negros no interior de sua mente danificada, não importava o que fosse, qualquer coisa menos o horror da realidade naquele quarto de um sanatório particular demais. Mas não podia recuar ó vontade para os reinos interiores; a periódica consciência involuntária talvez fosse a pior maldição de seu estado patético e Debilitado.

Esperou, trêmula.

Tentou ouvir.

Ele estava quieto como um fantasma.

As pancadas da chuva no teto foram interrompidas de um segundo para o outro, mas ela compreendeu que a chuva não tinha parado de cair. Repentinamente o mundo fora capturado no aperto de um silêncio incomum, uma imobilidade.

Jennifer transbordava de medo, mesmo nas extremidades paralisadas de seu lado esquerdo.

Ele pegou sua mão direita.

Ela ofegou e tentou se livrar dele.

— Não — disse ele e apertou mais. Era forte.

Ela chamou a enfermeira, sabendo que era inútil.

Ele segurou-a com uma das mãos e acariciou seus dedos com a outra. Gentilmente massageou seu pulso. Afagou a carne murcha de seu braço.

Cegamente ela esperou, tentando não especular sobre as crueldades que viriam.

Ele beliscou seu braço, e um pedido inarticulado de piedade escapou de sua boca. Ele beliscou com mais força, mas provavelmente não o bastante para deixar marca.

Suportando, Jennifer tentou imaginar como seria o rosto dele, feio, comum ou bonito. Intuiu que não seria uma bênção recuperar a visão, se tivesse de encarar os olhos odiosos de Bryan uma só vez.

Ele enfiou um dedo em seu ouvido, e a unha pareceu longa e pontuda como uma agulha. Girou-o e arranhou, apertou ainda mais, até que a pressão-dor se tornou insuportável.

Jennifer gritou, mas ninguém respondeu.

Ele tocou os seios flácidos, desinflados pelos longos anos deitada de costas, alimentando-se por via intravenosa. Mesmo em sua condição assexuada os mamilos eram fonte de dor, e ele sabia como provocar agonia.

Mas o importante não era tanto o que ele fazia... e sim o que podia estar pensando em fazer. Era infinitamente inventivo. O verdadeiro terror estava na antecipação do desconhecido.

Ela gritou por alguém, qualquer pessoa, socorro, chega. Implorou a Deus para morrer.

Seus guinchos e gritos chamando por ajuda caíram num vácuo.

Finalmente ficou quieta e suportou.

Bryan soltou-a, mas ela estava agudamente cônscia de que ele continuava junto à cama.

—      Me ame — disse Bryan.

—      Por favor, vá embora.

Baixinho:

—- Me ame.

Se fosse capaz de produzir lágrimas, Jennifer teria chorado.

—      Me ame, e não vou ter motivo para machucar você de novo.

Só quero que você me ame.

Ela não era mais capaz de amá-lo do que de produzir lágrimas com os olhos arruinados. Mais fácil amar uma víbora, uma pedra ou a escuridão fria e indiferente entre as estrelas.

—      Só preciso ser amado — insistiu ele.

Ela sabia que ele era incapaz de amar. Na verdade ele não tinha idéia do significado da palavra. Só queria porque não poderia ter, não poderia sentir, porque para ele isso era um mistério, um grande desconhecido. Mesmo se ela pudesse amá-lo e convencê-lo do seu aimor, não seria salva, porque ele não se emocionaria com o amor quando finalmente o recebesse, negaria sua existência e continuaria u torturá-la por causa do hábito.

Subitamente a chuva retornou. Vozes no corredor. Rodas rangendo no carrinho que transportava as bandejas do jantar.

O tormento acabara. Por enquanto.

—      Não posso ficar muito tempo esta noite — disse Bryan. —

Não a eternidade usual.

E deu um risinho, divertido consigo próprio, mas para Jennifer foi somente um som úmido e ofensivo na garganta, sem humor.

—      Os negócios tiveram um aumento inesperado — disse ele.

— Muita coisa a fazer. Acho que preciso ir embora.

Como sempre, ele marcou sua partida curvando-se sobre a grade da cama e beijando o lado entorpecido de seu rosto. Ela não podia sentir a pressão ou a textura dos lábios contra a face, só um toque de frieza como asas de borboleta. Suspeitava que o beijo não seria diferente, talvez apenas mais frio, se plantado no lado direito, ainda sensível.

Ao sair, ele optou por fazer barulho e ela ouviu os passos recuando.

Depois de algum tempo Angelina veio trazer o jantar. Comida mole. Batata amassada com molho. Purê de carne. Purê de ervilha. Compota de maçã com canela e açúcar mascavo. Sorvete. Coisas que ela não tivesse dificuldade para engolir.

Jennifer não disse nada sobre o que ele fizera. Pela dura experiência, sabia que não acreditariam.

Bryan devia ter a aparência de um anjo, porque todos os outros confiavam nele à primeira vista, atribuindo-lhe apenas os objetivos mais gentis e as intenções mais nobres.

Imaginou se aquela provação teria fim.

 

Ricky Estefan esvaziou meia caixa de rigatoni na panela de água fervente. Uma camada de espuma subiu de imediato e um agradável cheiro de amido se ergueu numa nuvem de vapor. Em outra boca do fogão havia uma panela menor, onde borbulhava o fragrante molho de espaguete.

Enquanto ajustava as chamas, Ricky ouviu um ruído estranho na frente da casa. Uma batida; não especialmente alta, porém sólida. Inclinou a cabeça, atento. Justo quando decidiu que tinha imaginado o ruído, ele veio de novo: tump.

Atravessou o corredor até a porta da frente, acendeu a luz da varanda e espiou pelo olho mágico. Pelo que podia ver, não havia ninguém.

Destrancou a porta, abriu-a e cautelosamente se inclinou para a frente, olhando dos dois lados. Nenhum móvel da varanda tinha caído. A noite estava sem vento e o banco do balanço pendia imóvel das correntes.

A chuva continuava forte. Na rua, a luz vagamente púrpura das lâmpadas a vapor de mercúrio revelavam rios nas duas sarjetas, indo quase até a altura dos meios-fios, espumando na direção dos bueiros no fim do quarteirão, brilhando como torrentes de prata derretida.

Estava preocupado com a hipótese daquele ruído significar algum dano provocado pela tempestade, mas isso parecia improvável sem um vento forte.

Depois de fechar a porta, girou a tranca e colocou a corrente de segurança. Desde que levara um tiro e lutara para sair da beira do abismo, ele desenvolvera uma saudável paranóia. Bom, saudável ou doentia, era um exemplo claro de paranóia, lustrosa de tanto uso. Mantinha as portas trancadas o tempo todo, e à noite fechava as cor tinas de todas as janelas, para que ninguém pudesse espiar para dentro.

Seu medo o embaraçava. Ele já fora tão forte, capaz, auto-confiante, Quando Harry saíra, Ricky tinha pretendido ficar na mesa da cozinha, trabalhando na fivela. No entanto, assim que ouviu a porta da frente fechando, arrastou os pés pelo corredor pura girar silenciosamente a tranca enquanto o velho amigo ainda estava na varanda. Seu rosto queimara de vergonha, mas ele se Mentia inquieto quando deixava a porta destrancada mesmo durante alguns minutos.

Agora, enquanto se afastava da porta, o ruído aconteceu de novo. Tump.

Dessa vez achou que se localizara na sala de estar. Atravessou a urcada para encontrar a origem do som.

Havia dois abajures acesos na sala. Um caloroso brilho âmbar preenchia o espaço aconchegante. O teto abobadado estava marcado por dois círculos de luz interrompidos pelas sombras dos arames e acabamentos da cúpula dos abajures.

Ricky gostava de deixar toda a casa iluminada à noite até ir para a cama. Não se sentia mais confortável em entrar num cômodo escuro e depois apertar um interruptor.

Tudo estava em ordem. Chegou a olhar atrás do sofá, para ter certeza., bom, para ter certeza de que nada estava fora do lugar.

Tump.

No seu quarto?

Uma porta da sala de estar se abria para um pequeno vestíbulo com teto decorado de forma simples porém graciosa. Três outras portas partiam do vestíbulo: banheiro de hóspedes, um quarto de hóspedes atulhado e um quarto principal, de dimensões modestas, cada um com uma lâmpada acesa. Ricky checou tudo, até os armários, mas não encontrou nada que pudesse ter causado o ruído.

Puxou as cortinas de todas as janelas para ver se as trancas estavam presas e todos os vidros intactos. Estavam.

Tump.

Dessa vez pareceu vir da garagem.

Pegou um revólver na mesinha-de-cabeceira. Smith & Wesson .38 Chief's Special. Sabia que estava carregado. De qualquer modo girou o tambor para verificar. As cinco balas estavam lá.

Tump.

Sentiu uma pontada no lado esquerdo do abdome, uma sensação dolorosa de estiramento e contração bastante familiar, e, apesar do bangalô ser pequeno, precisou de mais de um minuto para chegar à porta que dava para a garagem. Ficava no fim do corredor, logo antes da cozinha. Encostou-se nela, com um dos ouvidos encostado na fresta do portal, ouvindo.

Tump.

Definitivamente, o som vinha da garagem.

Segurou o trinco entre o polegar e o indicador... e hesitou. Não queria entrar na garagem.

Teve consciência de uma película de suor em sua testa.

— Vamos, vamos — falou, mas não reagiu à própria insistência.

Odiou-se por sentir medo. Apesar de recordar a dor terrível das balas atravessando sua barriga e fazendo estrago em suas tripas, apesar de conseguir lembrar a agonia de todas as infecções subseqüentes e a angústia dos meses no hospital, à sombra da morte, apesar de saber que muitos outros homens teriam desistido quando ele perseverou, e apesar de saber que sua cautela e seu medo eram justificados pelas coisas que experimentara e às quais sobrevivera, mesmo assim se odiou.

Tump.

Xingando-se, puxou a tranca, abriu a porta e encontrou o interruptor de luz. Atravessou o portal.

A garagem era suficiente para dois carros, e o seu Mitsubishi azul estava estacionado na parte mais distante. A metade mais próxima à casa era ocupada por sua longa bancada, prateleiras de ferramentas, armários cheios de suprimentos e a forja a gás onde ele derretia pequenos lingotes de prata para colocar nos moldes das jóias e fivelas que criava.

O rataplã da chuva era mais alto, porque ali não havia forro e oi telhado da garagem não era isolado. Um frio úmido subia do chão de concreto.

Não havia ninguém naquela metade do cômodo. Nenhum dos armários tinha um compartimento onde coubesse uma pessoa.

Com o .38 na mão, rodeou o carro, olhou dentro dele, chegou ai dobrar os joelhos enferrujados para verificar embaixo. Não havia ninguém escondido ali.

A porta externa da garagem estava trancada por dentro, assim como a única janela, que de qualquer modo era pequena demais pura admitir a passagem de alguém com mais de cinco anos.

Imaginou se o ruído poderia ter vindo do telhado. Durante um minuto, dois minutos, ficou ao lado do carro, olhando para os caibros no alto, esperando a repetição do barulho. Nada. Só a chuva, chuva, chuva, uma tatuagem interminável.

Sentindo-se idiota, Ricky voltou para a casa e trancou a porta de ligação. Levou o revólver para a cozinha e colocou-o na secretaria embutida ao lado do telefone.

As chamas sob as panelas da massa e do molho tinham apagado. Por um instante ele imaginou que o serviço de gás tivesse sido interrompido, mas depois viu que os botões dos dois queimadores estavam na posição DESLIGADO.

Sabia que estavam acesos quando saíra da cozinha. Acendeu-os de novo, e chamas azuis saltaram para a vida com um uuuush sob as panelas. Depois de ajustá-las para a intensidade correta, ficou olhando-as por algum tempo; as chamas não sumiram por conta própria.

Alguém estava brincando com ele.

Voltou para junto da secretária, pegou a arma e avaliou a idéia de dar outra busca na casa. Mas já inspecionara cada centímetro e sabia, com certeza, que estava só.

Depois de breve hesitação, fez nova busca — com o mesmo resultado.

Ao voltar para a cozinha, ninguém havia desligado o gás. O molho borbulhava tão depressa que começara a grudar no fundo da panela. Colocou o revólver de lado. Pegou um pedaço de rigatoni com um garfo grande, soprou-o e provou. Ligeiramente cozido demais, mas tudo bem.

Escorreu a massa na pia, sacudiu o escorredor, colocou-a num prato e acrescentou o molho.

Alguém estava brincando com ele.

Mas quem?

 

A chuva escorria pelas folhas dos arbustos de oleandro, encontravam as camadas de sacos plásticos de lixo, que Sammy colocara sobre o caixote, e jorrava no terreno baldio ou no beco. Sob os trapos que serviam de cama, o chão do caixote também fora coberto de plástico, de modo que sua humilde morada estava relativamente seca.

Mesmo se estivesse sentado com água até a cintura, Sammy Shamroe poderia não ter percebido, já que terminara com uma garrafa de dois litros de vinho e começara uma segunda. Não sentia dor — pelo menos foi o que disse a si próprio.

Na verdade estava muito bem. O vinho barato mantinha-o calmo, temporariamente livrava-o do ódio e do remorso contra ele mesmo e colocava-o em contato com sentimentos inocentes e ingênuas expectativas da infância. Duas velas gordas e com cheiro de amora, recolhidas no lixo e ancoradas numa fôrma de torta, enchiam seu santuário com uma fragrância agradável e uma luz suave e acolhedora como a de uma antiga luminária Tiffany. As paredes apertadas do caixote eram mais confortáveis do que claustrofóbicas. O coro interminável da chuva era tranqüilizante. Afora as velas, talvez tivesse sido assim no saco de membranas fetais: aconchegado, suspenso sem peso no líquido amniótico, rodeado pelo rumor suave e aquoso do sangue correndo pelas veias e artérias da mãe, não somente despreocupado com o futuro mas inconsciente dele.

Mesmo quando o homem-rato puxou para o lado o tapete que servia de oorta na única abertura do caixote, Sammy não foi arrancado de seu arremedo de bênção pré-natal. Bem no fundo sabia que estava encrencado, mas sentia-se bêbado demais para ter medo.

O caixote media 2x2,5m, tão espaçoso quanto muitos closets. Mesmo sendo enorme, o homem-rato poderia ter-se espremido para junto de Sammy sem derrubar as velas, mas continuou encolhido junto à porta, segurando o tapete com uma das mãos.

Seus olhos estavam diferentes do que sempre haviam sido. Negros e brilhantes. Sem íris. Minúsculas pupilas amarelas no centro, luzindo. Como faróis distantes na rodovia noturna para o inferno.

—      Como vai, Sammy?—perguntou o homem-rato numa voz estranhamente solícita.    —- Está indo bem, hmmmmm?

Mesmo com o excesso de vinho atordoando seu instinto de sobrevivência a ponto de Sammy não conseguir reatar o contato com o medo, ele sabia que deveria estar com medo. Por isso permaneceu imóvel e atento, como teria feito se uma cascavel tivesse entrado em seu caixote e bloqueado a única saída.

—      Só queria que você soubesse que não vou passar por aqui durante algum tempo — disse o homem-rato. — Tenho novos negócios. Estou ocupado demais. Preciso cuidar primeiro de coisas mais urgentes. Quando terminar vou estar exausto, e dormirei um dia inteiro, vinte e quatro horas.

Estar temporariamente sem medo não significava que Sammy tivesse ficado corajoso. Não ousava falar.

—      Sabe o quanto isso me esgota, Sammy? Não? Reduzir o rebanho, remover os aleijados e os mortos. Não é moleza, vou te contar.

Brilhantes contas de chuva voaram de sua barba quando o homem-rato sorriu e balançou a cabeça. Elas espirraram em Sammy.

Mesmo no útero confortável de sua névoa de vinho, Sammy retinha consciência suficiente para se surpreender com o falatório do homem-rato. Entretanto, por mais espantoso que fosse, o monólogo do sujeito grandalhão lembrava curiosamente algo que ele ouvira antes, há muito tempo e em outro lugar, ainda que não pudesse recordar onde, quando ou de quem. Não era a voz tumular ou as palavras que levaram Sammy à beira do déjà vu, e sim a qualidade total das revelações, a seriedade fantasmagórica, as cadências da fala.

—      É exaustivo lidar com vermes como você. Acredite. Exaustivo. Seria muito mais fácil se eu pudesse acabar com cada um de vocês no primeiro encontro, provocar combustão espontânea ou fazer sua cabeça explodir. Não seria ótimo?

Não. Seria curioso, excitante, sem dúvida interessante, mas não ótimo, pensou Sammy, apesar de seu medo continuar em estado latente.

—- Mas, para cumprir meu destino, tornar-me o que preciso me tornar, preciso mostrar minha ira, fazer com que vocês estremeçam e se humilhem diante de mim, fazer com que compreendam o significado de sua danação.

Sammy lembrou-se de onde ouvira antes esse tipo de coisa. Outro sem-teto. Há uns dezoito meses, dois anos, em Los Angeles. Um cara chamado Mike tinha complexo de messias, achava que fora escolhido por Deus para fazer o mundo pagar seus pecados. Finalmente passou dos limites, esfaqueando três ou quatro pessoas na fila de um cinema de arte onde era exibido Bill and Ted's Excellent Adventure, com montagem especial do diretor contendo vinte minutos de material que não fora visto na versão original.

—      Sabe o que estou me tornando, Sammy?

Sammy apenas agarrou com mais força a garrafa de dois litros.

—      Estou me tornando o novo deus. É necessário um novo deus. Eu fui escolhido. O deus antigo era piedoso demais. As coisas fugiram ao controle. É meu dever me Tornar, e depois de me Tornar, governar com mais severidade.

Àluz das velas, os pingos de chuva que continuavam no cabelo, na barba e nas sobrancelhas do homem-rato brilhavam como se um artesão desastrosamente inepto houvesse decorado seu rosto com jóias, como um ovo de Fabergé.

—      Quando terminar com esses julgamentos mais urgentes, e quando tiver chance de descansar, volto para ver você — prometeu o homem-rato. — Só não quero que pense que foi esquecido. Não quero que você se sinta negligenciado, depreciado. Coitado, coitado do Sammy. Não vou esquecê-lo. Isso não é somente uma promessa: a palavra sagrada do novo deus.

Então o homem-rato fez um milagre maligno para garantir que ele não fosse esquecido nem mesmo a mil braças no fundo de um mar de vinho. Piscou, e quando seus olhos se abriram de novo, não eram mais ébano e amarelo, não eram mais olhos, e sim bolas de vermes brancos e oleosos se retorcendo nas órbitas. Quando abriu a boca, os dentes tinham virado presas afiadas como navalhas, pingavam veneno; uma língua negra e lustrosa moveu-se como a de uma serpente, e uma exalação violenta irrompeu de dentro dele, cheiro de carne putrefata. A cabeça e o corpo incharam, explodiram, mas dessa vez não se desconstruíram numa horda de ratos. Em vez disso, ele e suas roupas se transformaram em dezenas de milhares de moscas pretas que enxamearam o caixote, zumbindo ferozes,batendo contra o rosto de Sammy. O ruído das asas era tão alto que cobria até mesmo o barulho da chuva, e depois...

Elas se foram.

Desapareceram. O tapete pendia úmido e pesado na abertura do caixote.

O brilho das velas tremulava e pulsava nas paredes de madeira.

O ar tinha cheiro de cera perfumada com amoras.

Sammy tomou dois longos goles de vinho direto no gargalo, 'em vez de colocá-lo primeiro no copo de geléia que estiver usando. Um pouco se derramou pelo queixo barbado de dias, mas ele não se importou.

Estava ansioso para continuar atordoado, distante. Se tivesse estado em contato com o seu medo durante os últimos minutos, sem dúvida teria mijado nas calças.

Além disso achava importante permanecer desligado, para pensar menos emocionalmente no que o homem-rato dissera. Antes a criatura falara pouco e nunca revelara nada de suas motivações ou intenções. Agora viera com aquele blablablá sobre reduzir o rebanho, julgamento, divindade.

Era valioso saber que a mente do homem-rato estava cheia da mesma loucura que atulhara a cabeça do velho Mike, o esfaqueador de cinéfilos. Independentemente de sua habilidade de surgir do nada e desaparecer no ar, a despeito dos olhos não-humanos e da capacidade de mudar de forma, aquela tagarelice sobre deus fez com que ele não parecesse mais especial do que os incontáveis herdeiros de Charles Manson e Richard Ramirez que atulhavam o mundo ouvindo vozes, matando por prazer e mantendo geladeiras cheias com as cabeças cortadas de suas vítimas. Se de algum modo fundamental ele fosse como os outros loucos, talvez se mostrasse tão vulnerável quanto eles, mesmo com seus talentos especiais.

Submerso numa névoa de vinho, Sammy pôde ver que essa nova idéia poderia ser uma ferramenta útil para a sua sobrevivência. O problema era que ele nunca fora bom em termos de sobrevivência.

Pensar sobre o homem-rato fez sua cabeça doer. Droga, a simples hipótese de sobreviver lhe dera uma enxaqueca. Quem queria sobreviver? E por quê? A morte só viria mais tarde caso não viesse mais cedo. Cada sobrevivência era apenas um triunfo de curto prazo. No fim, o esquecimento para todos. E, enquanto isso, apenas dor. A Sammy parecia que a única coisa terrível no homem-rato não era ele matar pessoas, e sim o fato dele aparentemente gostar de fazê-las sofrer primeiro, estimulando o terror, fazendo a dor brotar, incapaz de remover as vítimas desse mundo com uma despedida gentil.

Virou a garrafa e colocou vinho no copo de geléia sobre o chão, entre suas pernas esparramadas. Levou o copo aos lábios, No líquido brilhante e cor de rubi, Sammy buscou uma escuridão sem brilho, pacífica, perfeita.

 

Mickey Chan estava sentado sozinho num reservado dos fundos, concentrado na sopa.

Connie viu-o assim que empurrou a porta da frente do pequeno restaurante chinês em Newport Beach, e foi até ele passando entre cadeiras laqueadas de preto e mesas com toalhas cinza-prateado. Um dragão pintado em vermelho e ouro coleava pelo teto, serpenteando entre as luminárias.

Se Mickey a viu chegando, fingiu o contrário. Chupou a sopa da colher e depois pegou mais, sem afastar o olhar do conteúdo da tigela.

Era pequeno, porém rijo, com quase cinqüenta anos, e mantinha o cabelo cortado rente. A pele tinha cor de pergaminho antigo.

Mesmo deixando que seus clientes caucasianos pensassem que fosse chinês, era na verdade um refugiado vietnamita que fugira paia os Estados Unidos depois da queda de Saigon. Corria o boato de que ele fora detetive de homicídios em Saigon ou oficial da Agência de Segurança Interna do Vietnã do Sul, o que provavelmente era verdadeiro.

Alguns diziam que tinha reputação de ser um verdadeiro terror nu sala de interrogatórios, um sujeito que usaria qualquer instrumento ou técnica para quebrar a vontade de um suspeito de ser criminoso ou comunista, mas Connie duvidava dessas histórias, Gostava de Mickey. Ele era durão, mas tinha o ar de alguém que sofrerá grande perda e era capaz de muita compaixão.

Assim que ela chegou junto à mesa, ele falou sem afastar a atenção da sopa:

—      Boa noite, Connie.

Ela deslizou, sentando-se do outro lado do reservado.

—      Você está fixado nessa tigela como se dentro dela estivesse o significado da vida.

—      E está — disse ele, pegando mais uma colherada.

—      É? Para mim isso parece sopa.

—      O significado da vida pode ser encontrado numa tigela de sopa, A sopa sempre começa com algum tipo de caldo, que é como o fluxo líquido dos dias que formam nossa vida.

—      Caldo?

—      Algumas vezes há massa no caldo, algumas vezes legumes, clara de ovo, pedaços de frango ou camarão, cogumelos, talvez arroz.

Como Mickey não a encarava, Connie se viu olhando para a sopa, do outro lado da mesa, quase tão intensamente quanto ele.

—      Algumas vezes é quente, algumas vezes fria—prosseguiu Mickey. — Algumas vezes é feita para ser fria, e nesse caso é bom mesmo que não haja o menor calor. Mas se não for feita para ser fria irá parecer amarga ou coalhar no estômago, ou as duas coisas. A voz forte porém suave tinha um efeito hipnótico. Fascinada, Connie ficou olhando a superfície plácida da sopa, agora totalmente esquecida de qualquer outra pessoa no restaurante.

—      Considere isso — disse Mickey. — Antes que a sopa seja tomada ela tem valor e objetivo. Depois, ela perde o valor para qualquer pessoa, a não ser para quem a consumiu. E ao realizar seu objetivo ela deixa de existir. Para trás só ficará a tigela vazia, que pode simbolizar desejo e necessidade —- ou a expectativa agradável de outras sopas que virão.

Connie desejava que ele continuasse e só afastou o olhar da sopa quando percebeu que ele a encarava. Seus olhos se cruzaram e ela disse:

—      É isso?

—      Sim.

—      O significado da vida?

—      Totalmente.

Ela franziu a testa.

—      Não captei.

Ele encolheu os ombros.

-— Nem eu. Fui inventando essa baboseira enquanto falava.

—- Você o quê? — piscou ela, espantada.

Rindo, Mickey falou:

-— Bom, é o tipo de coisa que se espera de um detetive particular chinês, você sabe. Palavras com substância, observações filosóficas impenetráveis, provérbios inescrutáveis.

Ele não era chinês, nem seu nome era Mickey Chan. Ao chegar aos Estados Unidos e decidir usar seu passado de policial tornando-se detetive particular, achou que os nomes vietnamitas eram muito exóticos para inspirar confiança e muito difíceis para a pronúncia dos ocidentais. E sabia que não poderia viver apenas de clientes de origem vietnamita. Duas de suas coisas favoritas na América eram os desenhos de Mickey Mouse e os filmes de Charlie Chan, e para ele fez sentido mudar legalmente o nome. Por causa de Disney, Rooney, Mantle e Spillane, os americanos gostavam de pessoas que se chamavam Mickey; e graças a um monte de filmes antigos, o nome Chan estava subconscientemente associado ao gênio investigativo. Evidentemente Mickey sabia o que estava fazendo, porque construíra um negócio próspero com uma reputação legítima, e agora tinha dez empregados.

—      Você me decepcionou — disse ela, indicando a sopa.

—      Você não é a primeira.

Divertida, ela rebateu:

—      Se eu pudesse mexer os pauzinhos, iria fazer com que mudassem seu nome para Charlie Mouse. Para ver o que aconteceria.

—      Fico feliz porque você ainda consegue sorrir — disse Mickey.

Uma garçonete jovem, linda, com cabelos negríssimos e olhos amendoados, surgiu junto à mesa e perguntou se Connie gostaria de pedir o jantar.

—- Só uma garrafa de Tsingtao, por favor ~— disse Connie. E para Mickey: — Se você quer saber a verdade, não sinto muita vontade de sorrir. Você arruinou meu dia com o telefonema de manhã.

-— Arruinei seu dia? Eu?

—      E quem mais?

—      Quem sabe um certo cavalheiro com uma Browning e algumas granadas?

—      Então você ouviu falar.

—      E quem não ouviu? Até mesmo no sul da Califórnia esse é

o tipo de história que chega ao noticiário antes dos esportes.

—      Talvez num dia lento.

Ele acabou de tomar a sopa.

A garçonete voltou com a cerveja.

Connie derramou a Tsingtao pela face do copo gelado para minimizar o colarinho, tomou um gole e suspirou.

—      Sinto muito — disse Mickey em tom sincero. — Sei o quanto você queria acreditar que tinha uma família.

—      Eu tinha uma família—disse ela.—Só que todos se foram.

Entre os três e os dezoito anos Connie vivera numa série de instituições públicas e lares temporários, cada um mais abismai do que o anterior, exigindo que ela fosse forte e contra-atacasse.

Devido à sua personalidade, ela não atraía pais adotivos e não podia escapar por esse caminho. Certos traços de seu caráter, que ela via como pontos fortes, eram considerados problemas de comportamento por outras pessoas. Desde pequena fora independente, solene acima da idade, virtualmente incapaz de ser criança. Para aparentar a idade que tinha, ela precisaria representar, já que era um adulto em corpo de criança.

Até sete meses atrás ela não pensara muito na identidade dos pais. Parecia não haver qualquer percentual de preocupação. Por algum motivo eles a haviam abandonado, e ela não tinha qualquer lembrança da família.

Então, numa ensolarada manhã de domingo, depois de saltar de pára-quedas no campo de Perris, seu cabo de abertura emperrou. Ela despencou quatro mil metros na direção da areia marrom do deserto, árido como o inferno, certa de que estava morta, só faltando a morte em si. O pára-quedas abriu no último instante possível para permitir a sobrevivência. Apesar da violenta aterrissagem, ela teve sorte: o incidente resultou apenas numa luxação de tornozelo, arranhões na mão esquerda, contusões — e uma súbita necessidade de saber de onde viera.

Todo mundo saía da vida sem ter qualquer pista de para onde iria, de modo que parecia essencial saber ao menos alguma coisa sobre a chegada.

Durante as horas de folga ela poderia ter usado canais oficiais, contatos e computadores para investigar seu passado, mas preferiu Mickey Chan. Não queria que os colegas se envolvessem em sua busca — insistentes e curiosos — no caso dela descobrir alguma coisa que não quisesse compartilhar com eles.

O que Mickey descobrira depois de seis meses pesquisando os arquivos oficiais não foi bonito de ver.

Ao entregar o relatório em seu elegante escritório Fashion Island, decorado com arte francesa do século XIX e móveis Biedermeier, ele dissera:

— Vou estar na sala ao lado, ditando algumas cartas. Diga quando tiver terminado.

Sua reticência asiática, a implicação de que ela poderia sentir necessidade de estar só, alertou-a para o quanto as notícias seriam más.

De acordo com o relatório, um tribunal a havia separado dos pais porque sofrerá repetidas violências físicas. Como punição por transgressões desconhecidas—talvez simplesmente por estar viva —eles bateram nela, rasparam todo o seu cabelo, puseram-lhe uma venda nos olhos, amarraram-na e deixaram-na dentro de um armário durante dezoito horas seguidas. E quebraram três de seus dedos.

Ao ser entregue aos cuidados do tribunal, ela ainda não aprendera a falar, já que os pais nunca haviam ensinado nem permitido que ela falasse. Mas ela aprendeu depressa, como se adorasse a rebelião representada pelo simples ato de falar.

Entretanto, nunca teve a oportunidade de acusar o pai e a mãe. Enquanto fugiam do estado para evitar um processo, acabaram morrendo numa violenta colisão frontal perto da divisa entre a Califórnia e o Arizona.

Connie leu o primeiro relatório de Mickey com um fascínio sinistro, menos abalada pelo conteúdo do que a maioria das pessoas ficaria. Era policial há tempo suficiente para ter visto muitas vezes esse tipo de coisa—e outras piores. Não achou que o ódio que lhe fora dirigido fosse provocado por suas deficiências ou porque fosse menos adorável do que outras crianças. Era simplesmente como o mundo funcionava algumas vezes. Com muita freqüência. Finalmente compreendeu por que, mesmo aos três anos, era tão solene, tão sensata, tão independente, durona demais para ser a menininha bonita e afável que os pais adotivos procuravam.

O abuso deve ter sido pior do que a linguagem seca do relatório fazia parecer. Por um lado, geralmente os tribunais toleravam muita brutalidade paterna antes de tomar uma atitude tão drástica. Por outro, ela bloqueara todas essas lembranças — suas e de sua irmã —, o que era um ato de certo desespero.

A maioria das crianças que sobrevivem a esse tipo de experiência cresce profundamente perturbada pelas lembranças reprimidas e pelo sentimento de não ter valor — ou tornam-se totalmente incapacitadas. Ela teve sorte em ser uma das fortes. Não tinha qualquer dúvida de seu valor como ser humano ou de como era um indivíduo especial. Ainda que talvez pudesse ter gostado de ser uma pessoa mais gentil, mais relaxada, menos cínica, de riso mais imediato, mesmo assim gostava de si própria e estava contente a seu modo.

O relatório de Mickey não continha somente más notícias. Connie ficou sabendo que tinha uma irmã da qual não se recordava. Colleen. Constance Mary e Colleen Mary Gulliver, a primeira nascida três minutos antes da segunda. Gêmeas idênticas. Ambas sofreram violências, ambas foram permanentemente afastadas dos pais. Enviadas para instituições diferentes, levaram vidas separadas.

Naquele dia, há um mês, sentada na cadeira dos clientes diante da mesa de Mickey, um tremor de alegria percorrera a espinha de Connie ao perceber que existia alguém com quem compartilhar um laço íntimo tão especial. Gêmeas idênticas. Repentinamente compreendeu por que algumas vezes sonhava que era duas pessoas ao mesmo tempo e aparecia em duplicata naquelas fantasias oníricas. Apesar de Mickey ainda estar procurando pistas de Colleen, Connie ousou ter esperanças de não estar só.

Mas agora, algumas semanas depois, o destino de Colleen era conhecido. Fora adotada, crescera em Santa Barbara — e morrera há cinco anos, aos 28 anos de idade.

Naquela manhã, ao saber que perdera outra vez a irmã — e dessa vez para sempre —, Connie conhecera uma tristeza mais intensa do que em qualquer outra época da vida,

Não chorou.

Raramente chorava.

Em vez disso, enfrentara aquela tristeza como enfrentava todos os desapontamentos, frustrações e perdas: manteve-a ocupada, obsessivamente ocupada — e ficou com raiva. Pobre Harry. Ele pegara a rebarba de sua raiva a manhã inteira, sem a menor pista de qual fosse a causa. Educado, razoável, amante da paz, o sofredor Harry. Nunca saberia como ela ficara perversamente agradecida pela chance de caçar aquele criminoso com cara de lua, James Ordegard. Pudera direcionar a raiva para alguém que a merecesse de fato e liberar a energia represada pela tristeza que não conseguia soltar através de lágrimas.

Agora, bebendo Tsingtao, falou:

—      Esta manhã você mencionou fotos.

O ajudante de garçom retirou a tigela vazia.

Mickey colocou um envelope de papel pardo sobre a mesa.

—      Tem certeza de que quer olhar?

—      Por que não olharia?

—      Você nunca vai poder conhecê-la. As fotos podem trazer

este fato de volta.

—      Já aceitei isso.

Abriu o envelope. Oito ou dez instantâneos deslizaram para fora.

As fotos mostravam Colleen com cinco ou seis anos, com vinte e poucos, praticamente a idade em que morreu. Usava roupas diferentes das que Connie sempre usara, cortava o cabelo de modo diferente e fora retratada em salas de estar e cozinhas, em gramados c praias, lugares que Connie nunca vira. No entanto, em cada coisa fundamental — altura, peso, coloração, características faciais, até mesmo expressões e posturas corporais inconscientes — era um duplo perfeito de Connie.

Ela teve a estranha sensação de estar vendo fotos dela mesma numa vida que não conseguia recordar de ter vivido.

—      Onde você conseguiu essas fotos?

—      Com os Ladbrook. Dennis e Lorraine Ladbrook, o casal que adotou Colleen.

Examinando outra vez as fotos, Connie se sentiu chocada com o fato de Colleen estar sorrindo ou gargalhando em todas elas. As poucas fotos da infância de Connie eram geralmente imagens de grupo nas instituições, em meio a uma multidão de crianças. Não havia uma só fotografia em que aparecesse sorrindo.

—      Como são os Ladbrook?

—      São comerciantes. Trabalham juntos, têm uma loja de suprimentos para escritórios em Santa Barbara. Gente boa, acho, calmos e despretensiosos. Não puderam ter filhos, e adoravam Colleen.

A inveja escureceu o coração de Connie. Cobiçou o amor e os anos de normalidade que Colleen conhecera. Coisa irracional, invejar uma irmã morta. E vergonhosa. Mas não conseguiu evitar.

—      Os Ladbrook não superaram a morte dela—disse Mickey.

— Mesmo depois de cinco anos. Não sabiam que ela tinha uma irmã gêmea. Nunca receberam essa informação das agências de bem-estar infantil.

Connie recolocou as fotos no envelope pardo, incapaz de continuar olhando. Aauto piedade era uma coisa que ela desprezava, mas era nisso que sua inveja estava rapidamente se transformando. Um peso, como de pedras empilhadas, pressionava seu peito. Mais tarde, na privacidade de seu apartamento, talvez sentisse vontade de passar mais tempo com o adorável sorriso da irmã.

A garçonete chegou com moo goo gaipan e arroz para Mickey.

Ignorando os pauzinhos que eram oferecidos junto com talheres comuns, Mickey pegou o garfo.

—      Connie, os Ladbrook gostariam de conhecê-la.

—      Porquê?

—      Como eu disse, eles não sabiam que Colleen tinha uma irmã gêmea.

—      Não sei se é uma boa idéia. Não posso ser Colleen para eles.

Sou uma pessoa diferente.

—      Não acho que seria assim.

Connie tomou mais um gole de cerveja.

—      Vou pensar a respeito.

Mickey mergulhou em seu moo goo gaipan como se nada mais gostoso jamais houvesse saído de qualquer cozinha no hemisfério ocidental.

A aparência e o cheiro da comida deixaram Connie meio enjoada. Sabia que nada havia de errado com o jantar, mas sim com sua reação a ele. Tinha mais de um motivo para estar nauseada. Fora um dia difícil.

Finalmente fez a apavorante pergunta que restava:

—      Como Colleen morreu?

Mickey estudou-a durante um momento, antes de responder.

—      Eu estava pronto a contar hoje de manhã.

—      Acho que eu não estava pronta para ouvir.

—      De parto.

Connie estivera preparada para qualquer das mortes estúpidas e sem sentido que poderiam acontecer subitamente a uma bela mulher de 28 anos nesses negros anos terminais do milênio. Mas não estivera preparada para isso, e levou um choque.

—      Ela teve um marido.

Mickey balançou a cabeça.

—      Não. Mãe solteira. Não sei das circunstâncias, nem quem era o pai, mas esse não parece ser um tema difícil para os Ladbrook, nada que eles considerem uma mancha na memória dela. Colleen era uma santa aos olhos deles.

—      E quanto ao bebê?

—      Uma menina.

—      Sobreviveu?

—      Sim. — Mickey pousou o garfo, bebeu um pouco d'água, secou a boca com um guardanapo vermelho, o tempo todo observando Connie. — O nome dela é Eleanor. Eleanor Ladbrook. Eles a chamam de Ellie.

—      Ellie — disse Connie numa voz entorpecida.

—      Ela se parece um bocado com você.

—      Por que não me contou esta manhã?

—      Você não me deu chance. Desligou na minha cara.

—      Não desliguei.

—      Praticamente. Foi muito brusca. Conte-me o resto à noite, você disse.

—      Desculpe. Quando ouvi dizer que Colleen estava morta, pensei que o assunto acabara.

—      Agora você tem uma família. Você é tia.

Connie aceitou a realidade da existência de Ellie, mas ainda não conseguia avaliar o que ela poderia significar em sua vida, em seu futuro. Depois de estar só durante tanto tempo, sentia-se atordoada ao descobrir com certeza que alguém de seu sangue e sua carne também estava viva neste mundo vasto e conturbado.

—      Ter família em algum lugar, mesmo que seja apenas uma pessoa, deve fazer diferença —- disse Mickey.

Ela suspeitou de que faria uma diferença gigantesca. Ironicamente, mais cedo naquele dia, ela quase fora morta antes de descobrir que tinha um motivo novo e muito importante para viver.

Colocando outro envelope de papel pardo sobre a mesa, Mickey falou:

—     O relatório final. O endereço e o número de telefone dos Ladbrook estão aí, para o caso de você decidir que precisa deles.

—      Obrigada, Mickey.

—      E a conta. Também está aí.

Ela sorriu.

—      Obrigada, de qualquer modo.

Enquanto Connie deslizava para fora do reservado e ficava de pé, Mickey observou:

—      A vida é engraçada. Tantas conexões com outras pessoas, das quais nem fazemos idéia, fios invisíveis nos ligando a gente que há muito esquecemos e a alguns que não encontraremos durante anos — se é que encontraremos algum dia.

—      É. Engraçado.

—      Mais uma coisa, Connie.

—      O que é?

—      Há um ditado chinês... "Algumas vezes a vida pode ser amarga como lágrimas de dragão."

—      Isso é mais uma de suas baboseiras?

—      Oh, não. É um ditado real. — Sentado ali, um homem pequeno num reservado grande, com seu rosto gentil e os olhos enrugados cheios de bom humor, Mickey Chan parecia um Buda magro. — Mas isto é só uma parte do ditado. O ditado inteiro é assim: "Algumas vezes a vida pode ser amarga como lágrimas de dragão. Mas se as lágrimas de dragão são amargas ou doces depende inteiramente de como cada homem percebe o gosto." Em outras palavras, a vida é dura, até mesmo cruel, mas também é aquilo que você faz dela.

Juntando as mãos esguias e sem cruzar os dedos, na posição de prece oriental, Mickey curvou a cabeça na direção dela, com seriedade zombeteira.

—      Talvez a sabedoria possa atravessar o osso duro de sua cabeça ianque.

—      Tudo é possível — admitiu ela.

Saiu com os dois envelopes pardos. O sorriso capturado da irmã. A promessa de uma sobrinha.

Do lado de fora a chuva continuava caindo a uma taxa que a fez perguntar se um novo Noé estaria atuando em alguma parte do mundo, levando agora mesmo casais de bichos por uma prancha de embarque.

O restaurante ficava num novo shopping center e uma marquise larga mantinha a calçada seca. Um homem estava de pé à esquerda da porta. A visão periférica deu a Connie a impressão de que era alto e robusto, mas ela não o olhou até ele falar com ela.

—      Tenha piedade de um pobre, por favor. Piedade de um homem pobre, minha senhora.

Ela estava para descer da calçada, saindo de debaixo da marquise, mas a voz dele era irresistível. Suave, gentil, até mesmo musical, parecia fora de sincronia com o tamanho da pessoa que cia vira pelo canto do olho.

Ao se virar, ficou surpresa com a tremenda feiúra do sujeito e imaginou como ele conseguiria ganhar qualquer coisa como pedinte. Seu tamanho incomum, o cabelo embolado e a barba descuidada davam-lhe o aspecto doido de um Rasputin, ainda que, em comparação, o enlouquecido sacerdote russo tivesse sido um menino bonito. Tiras terríveis de tecido cicatricial desfiguravam seu rosto, e o nariz adunco era escuro por causa dos vasos sangüíneos rompidos. Os lábios estavam marcados por bolhas lodosas. Um vislumbre de seus dentes e gengivas adoecidos fizeram com que ela se lembrasse de um cadáver que vira ser exumado para testes de | envenenamento nove anos depois do enterro. E os olhos. Cataratas. Membranas espessas e leitosas. Ela mal conseguia ver os círculos escuros das íris. A aparência era tão ameaçadora que Connie imaginou que a maioria das pessoas, depois de ser abordada por ele, viraria as costas e fugiria, em vez de se aproximar para colocar dinheiro em sua mão estendida.

—      Tem piedade de um pobre homem? Piedade de um cego?

Um trocado para quem é menos feliz do que a senhora.

Sem dúvida, a voz era extraordinária, mas era muito mais extraordinária quando se considerava a fonte. Clara, melodiosa, o instrumento de um cantor nato que traria doçura a qualquer letra de canção. Deveria ser apenas a voz que lhe possibilitava viver como mendigo, apesar da aparência.

Normalmente, a despeito da voz, Connie diria para ele se mandar—ainda que não de modo tão gentil. Alguns mendigos não eram culpados por não terem onde morar; e, tendo experimentado uma espécie de situação sem lar quando morava em orfanatos, ela sentia compaixão pelas vítimas de verdade. Mas seu trabalho exigia contato diário com muitos sem-teto para que ela pudesse romantizá-los como uma classe. De acordo com sua experiência, muitos eram gravemente dementes e, para seu próprio bem, deveriam estar nas instituições mentais de onde os benfeitores os haviam "libertado", ao passo que outros tinham chegado à perdição através do álcool, das drogas ou do roubo.

Ela suspeitava que em todas as camadas da sociedade, desde a mansão até a sarjeta, os genuinamente inocentes eram uma clara minoria.

Mas, por alguma razão, apesar desse cara parecer ter tomado todas as más decisões e de ter feito todas as escolhas autodestrutivas que lhe cabiam, ela vasculhou os bolsos da jaqueta até encontrar duas moedas de 25 cents e uma nota de dez dólares amaciada pela idade. Para sua enorme surpresa, ela guardou as moedas e entregou os dez dólares.

— Deus a abençoe, senhora. Deus a abençoe, guarde e faça Seu rosto brilhar sobre a senhora.

Perplexa consigo própria, ela virou-se. Correu pela chuva, na direção do carro.

Enquanto corria, imaginou o que a possuíra. Mas realmente não era difícil imaginar. Ela recebera mais de um presente no correr do dia. Sua vida fora poupada na perseguição a Ordegard. E eles tinham apagado o sujeito escroto. E havia Eleanor Ladbrook, de cinco anos. Ellie. Uma sobrinha. Connie não podia recordar muitos dias tão bons quanto esse, e supôs que sua boa sorte a pusera no clima para devolver alguma coisa quando surgisse a oportunidade.

Sua vida, um criminoso fora de circulação e uma nova direção para seu futuro—não era um negócio ruim em troca de dez dólares.

Entrou no carro e bateu a porta. Já estava com as chaves na mão direita. Ligou o motor e acelerou, porque o carro engasgou um pouco como se protestasse contra o tempo.

De súbito percebeu que seu punho esquerdo estava apertado. Não tivera consciência de ter feito aquele gesto. Era como se a mão tivesse se fechado num espasmo à velocidade da luz.

Havia algo em sua mão.

Ela desenrolou os dedos para ver o que estava segurando.

As lâmpadas do estacionamento mandavam luz suficiente através do pára-brisa molhado de chuva para que visse a coisa amarrotada.

Uma nota de dez dólares. Amaciada, de tão velha.

Ficou olhando, confusa, com uma descrença cada vez maior. Deviam ser os mesmos dez dólares que ela pensava ter dado ao mendigo.

Mas ela dera o dinheiro ao vagabundo, tinha visto a meia-luva suja se fechando ao redor dele enquanto o sujeito balbuciava sua gratidão.

Atordoada, olhou pela janela lateral, na direção do restaurante chinês. O mendigo não estava mais lá.

Examinou toda a calçada. Ele não se encontrava em nenhum lugar diante do shopping center.

Olhou o dinheiro amarrotado.

Gradualmente seu bom humor desapareceu. Foi assolada pelo pavor.

Não tinha idéia de um motivo para sentir medo. E depois teve. Instinto de tira.

 

Harry demorou mais do que o esperado para chegar em casa, vindo do Departamento de Projetos Especiais. O trânsito se arrastava, engarrafando repetidamente nas esquinas inundadas.

Perdeu mais tempo ao parar num 7-Eleven para comprar algumas coisas de que precisava para o jantar. Um pão. Mostarda.

Todas as vezes em que entrava numa mercearia, Harry .pensava em Ricky Estefan parando depois do dia de trabalho para comprar um litro de leite — e em vez disso comprando uma drástica mudança de vida. Mas nada de ruim aconteceu no 7-Eleven, a não ser ouvir a história sobre o bebê e a festa de aniversário.

Uma pequena televisão no canto do balcão mantinha o funcionário atento quando os negócios ficavam fracos. Estava ligada no noticiário enquanto Harry pagava as compras, Uma jovem mãe em Chicago fora acusada de assassinar seu bebê. Seus parentes haviam planejado uma festa de aniversário para ela, mas como a baby-sitter não apareceu, ela achou que não poderia se divertir. Então enfiou o bebê de dois meses no tubo do incinerador do prédio, foi à festa e dançou a valer. O advogado já tinha dito que a defesa seria baseada em depressão pós-parto.

Mais um exemplo da crise contínua para a coleção de ultrajes e atrocidades de Connie.

O balconista era um jovem magro com olhos negros e tristes. Falou num inglês com sotaque iraniano:

—      O que é que este país está virando?

—      Há ocasiões em que faço a mesma pergunta—disse Harry.

— Mas no país de onde você veio, os lunáticos não ficam à solta por aí; eles são presos.

—      Certo. Mas aqui também são, algumas vezes.

—      Não posso argumentar contra isso.

Enquanto empurrava uma das portas de vidro ao sair da mercearia, com o pão e a mostarda num saco plástico, Harry de repente percebeu que estava carregando um jornal dobrado sob o braço direito. Parou com a porta entreaberta, tirou o jornal de debaixo do braço e olhou-o sem compreender. Tinha certeza de que não pegara o jornal, quanto mais de que o dobrara e pusera sob o braço.

Voltou à caixa registradora. Quando o colocou sobre o balcão, o jornal se desdobrou.

—      Eu paguei por isso? — perguntou Harry.

O balconista reagiu confuso.

—      Não, senhor. Nem mesmo vi o senhor pegá-lo.

—      Eu não me lembro de ter apanhado.

—      O senhor quer o jornal?

—      Na verdade, não.

Então ele percebeu a manchete no topo da primeira página: TIROTEIO EM RESTAURANTE DE LAGUNA BEACH. E o subtítulo: DOIS MORTOS, DEZ FERIDOS. Era a edição da tarde, com a primeira matéria sobre a violência de Ordegard.

— Espere —- disse Harry. — É. Acho que vou levar.

Nessas ocasiões, quando um dos seus casos se tornava digno de sair nos jornais, Harry nunca lia sobre si próprio. Era um tira, não uma celebridade.

Deu 25 cents ao balconista e pegou a edição da tarde.

Ainda não entendia como o jornal fora dobrado e enfiado sob sou braço. Tivera um branco? Ou teria sido algo mais estranho, mais diretamente relacionado aos outros eventos inexplicáveis do dia?

Quando Harry abriu a porta da frente e, pingando, pisou no hall de seu apartamento de condomínio, o lar nunca parecera tão convidativo. Era um porto limpo e organizado, onde o caos do mundo exterior não podia se intrometer.

Tirou os sapatos. Estavam saturados, provavelmente destruídos. Deveria ter usado galochas, mas a previsão do tempo não falara de chuva antes do anoitecer.

As meias também estavam molhadas, mas ele as deixou. Enxugaria os ladrilhos do piso depois de colocar roupas limpas e secas.

Parou na cozinha para colocar o pão e a mostarda sobre a bancada, ao lado da tábua de cortar. Mais tarde faria sanduíches com um pouco de frango cozido. Estava morrendo de fome.

A cozinha brilhava. Ele se sentia felicíssimo por ter limpado a bagunça do desjejum antes de ir trabalhar. Ficaria deprimido se a visse agora.

Da cozinha atravessou a sala de jantar e passou pelo pequeno corredor até o quarto principal, levando o jornal da tarde. Ao cruzar a porta, acendeu as luzes — e descobriu o vagabundo em sua cama.

Alice jamais caiu num buraco de coelho mais profundo do que aquele em que Harry despencou ao dar de cara com o mendigo.

O sujeito parecia ainda maior do que ao ar livre ou à distância, no corredor do Departamento de Projetos Especiais. Mais sujo. Mais horrendo. Não tinha a semitransparência de uma aparição; na verdade, com sua massa de cabelo emaranhado, as camadas variadas e intricadas de sujeira e a teia de cicatrizes, com suas roupas escuras tão amarrotadas e gastas que lembravam as bandagens mortas de uma antiga múmia egípcia, ele era mais real do que o próprio quarto, como um quadro espantosamente detalhado, pintado por um artista hiper-realista e depois inserido num quarto de decoração minimalista.

Os olhos do vagabundo se abriram. Como piscinas de sangue.

Ele se sentou e disse:

—      Você se acha muito especial. Mas é só um animal a mais, carne ambulante como todos os outros.

Harry largou o jornal, pegou o revólver no coldre sob o braço e disse:

—      Não se mova.

Ignorando o aviso, o intruso passou as pernas pela borda da cama e ficou de pé.

A impressão da cabeça e do corpo do vagabundo continuou na colcha, nos travesseiros e no colchão. Um fantasma poderia andar sobre a neve sem deixar pegadas, e alucinações não tinham peso.

—      Só outro animal morto.—A voz do vagabundo estava ainda mais profunda e áspera do que na rua em Laguna Beach, a voz gutural de uma fera que aprendera a falar com dificuldade. — Acha que é um herói, não é? Grande homem. Grande herói. Bem, você não é nada, menos do que uma formiga, é o que você é. Nada!

Harry não conseguia acreditar que ia acontecer de novo, não duas vezes num mesmo dia e, pelo amor de Deus, não em sua casa. Recuando para a porta, falou:

—      Experimente não se deitar no chão agora mesmo, de cara para baixo, com mãos nas costas, agora mesmo, que com a ajuda de Deus eu vou explodir a sua cabeça,

O vagabundo rodeou a cama na direção de Harry.

—      Você acha que pode atirar em qualquer um quando quiser, tirar qualquer um do caminho quando quiser, e a coisa acaba aí.

Mas comigo não acaba, atirar em mim nunca é o final.

—      Pare agora, estou falando sério!

O intruso não parou. Sua sombra móvel era imensa na parede.

—      Arrancar as suas tripas, esfregá-las na sua cara, fazer você cheirá-las enquanto morre.

Harry segurava o revólver com as duas mãos. Postura de atirador. Sabia o que estava fazendo. Era bom de tiro. Àquela distância poderia acertar um beija-flor em pleno vôo, quanto mais aquele grandalhão. Portanto, só havia um jeito da coisa terminar: o intruso frio como uma posta de carne, sangue nas paredes, apenas um cenário plausível—e, no entanto, sentia-se correndo maior perigo do que em qualquer momento da sua vida, infinitamente mais vulnerável do que estivera entre os manequins no sótão labiríntico.

— Vocês, pessoas—disse o vagabundo passando junto ao pé da cama —, são tão divertidas!

Pela última vez Harry ordenou que ele parasse.

Mas ele continuou se aproximando, talvez a uns três metros de distância, dois e meio, dois.

Harry abriu fogo, disparando com firmeza e suavidade, sem deixar o coice do revólver afastar o cano da direção do alvo, uma, duas, três, quatro vezes, e as explosões eram ensurdecedoras no quarto pequeno. Viu que cada disparo provocava danos, três no (ronco, o quarto na base da garganta, disparado a menos de um braço de distância, fazendo a cabeça girar como numa reação cômica de surpresa.

O vagabundo não caiu, não recuou, somente estremecia a cada tiro. Atingido à queima-roupa, o ferimento na garganta era horrível. A bala devia ter atravessado de um lado ao outro, deixando um ferimento de saída ainda pior, na nuca, fraturando ou decepando a coluna. Mas não havia sangue, nem borrifos, nem jorro, nem uma gota, como se o coração do sujeito tivesse parado de bater há muito tempo, e todo o sangue houvesse secado e endurecido nos vasos. O sujeito continuou vindo, tão impossível de ser parado quanto um irem expresso. Chocou-se contra Harry, levando-o a expelir o ar dos pulmões, levantou-o, empurrou-o de costas pela porta, fazendo com que ele batesse com tanta força contra a parede mais distante do corredor que seus dentes se chocaram com um clac audível e o revólver voou de sua mão.

A dor se abriu como um leque japonês, do centro das costas até os ombros de Harry. Por um momento ele pensou que iria desfalecer, mas o terror o manteve consciente. Preso à parede, pés balançando acima do chão, perplexo com aquela força capaz de arrancar o reboco da parede, ele se sentia desamparado como uma criança no aperto de aço do atacante. Mas se conseguisse permanecer consciente, sua força poderia voltar, ou talvez ele pensasse em algo para se salvar, qualquer coisa, um movimento, um truque, uma distração.

O vagabundo se encostou em Harry, esmagando-o. O rosto de pesadelo ficou mais próximo. As cicatrizes lívidas eram rodeadas por poros do tamanho de cabeças de fósforos cheios de sujeira. Tufos de pêlos pretos se projetavam das narinas largas.

Quando o sujeito exalou, foi como um túmulo coletivo liberando os gases de decomposição, Harry engasgou de náusea.

—      Enojado, homenzinho? — perguntou o vagabundo, e sua capacidade de falar parecia não ter sido afetada pelo buraco em sua garganta e pelo fato de que suas cordas vocais haviam sido pulverizadas e lançadas através da nuca. — Apavorado?

Harry estava apavorado, sim, seria um idiota se não estivesse. Nenhum treinamento bélico ou trabalho policial prepara alguém para encarar um bicho-papão, e ele não se importava em admiti-lo. Estava preparado para gritar de cima de um telhado, se esse fosse o desejo do vagabundo, mas não conseguia ter fôlego para falar.

—      O sol nasce dentro de onze horas. Tique-taque.

Coisas se moviam nas profundezas da barba do vagabundo. Arrastando-se. Talvez insetos.

Ele sacudiu Harry ferozmente, chacoalhando-o contra a parede.

Harry tentou levantar os braços entre seu corpo e o do sujeito, queria livrar-se dele. Era como tentar dobrar concreto.

—      Primeiro tudo e todos que você ama — rugiu o vagabundo.

Então ele se virou, ainda segurando Harry, e lançou-o de volta pela porta do quarto.

Harry bateu com força no chão e rolou para o lado da cama.

—      Depois você!

Arfando e atordoado, Harry levantou os olhos e viu o vagabundo encobrindo a porta, observando-o. O revólver estava aos pés do gigante. Ele chutou-o para dentro do quarto, na direção de Harry, e a arma girou até parar sobre o tapete, fora de seu alcance.

Harry imaginou se poderia pegar a arma antes que o sacana viesse para cima dele. Imaginou se faria sentido tentar. Quatro tiros, quatro acertos, nenhum sangue.

—      Ouviu? — perguntou o vagabundo. — Você me ouviu?

Você me ouviu, herói? Ouviu? — Ele não ficou esperando a resposta. Repetia a pergunta num tom cada vez mais irritado e curiosamente zombeteiro, alto, mais alto ainda. — Você me ouviu, herói? Você me ouviu, você me ouviu, você me ouviu, ouviu, ouviu, ouviu? Você me ouviu? VOCÊ ME OUVIU, OUVIU, OUVIU, HERÓI, ME OUVIU, OUVIU?

O vagabundo tremia brutalmente, e seu rosto estava escuro de fúria e ódio. Nem olhava mais para Harry, mas o teto, uivando as palavras "VOCÊ ME OUVIU, VOCÊ ME OUVIU?", como se a fúria tivesse ficado tão enorme que um homem não pudesse mais ser um alvo satisfatório. Gritava para o mundo inteiro ou mesmo para outros mundos, a voz oscilando entre um baixo trovejante e um agudo lancinante.

Harry tentou ficar de pé, apoiando-se na cama.

O vagabundo ergueu a mão e faíscas verdes de eletricidade estática brilharam entre seus dedos. Uma luz tremulou no ar acima de sua palma, e subitamente sua mão estava pegando fogo.

Ele estalou os dedos e lançou uma bola de fogo pelo quarto. Ela bateu contra as cortinas que explodiram em chamas.

Seus olhos não eram mais piscinas de sangue líquido. Em vez disso, chamas lambiam as órbitas, alcançando as sobrancelhas, como se ele fosse apenas a figura oca de um homem feito de vime e queimando de dentro para fora.

Harry estava de pé. Suas pernas tremiam.

Tudo o que ele queria era sair dali. Cortinas em chamas cobriam a janela. O vagabundo estava na porta. Sem saída.

O gigante se virou, estalou os dedos como um mágico revelando um pombo, e outra esfera incandescente girou pelo quarto, bateu contra a penteadeira, explodiu como um coquetel molotov espalhando chamas. O espelho se espatifou. A madeira se partiu, gavetas se abriram e a conflagração se tornou geral.

Fumaça brotava de sua barba e fogo era cuspido de suas narinas. O nariz adunco ficou empolado e começou a derreter. A boca estava aberta num grito, mas os únicos sons que ele fazia eram os silvos, estalos e estouros da combustão. O mendigo exalava uma cascata pirotécnica, fagulhas de todas as cores do arco-íris, e então as chamas jorraram de sua boca. Os lábios se encresparam para fora, secos como pele de porco frita, ficaram pretos e se soltaram dos dentes, que pareciam carvão em brasa.

Harry viu serpentes de fogo subirem pela parede, da penteadeira até o teto. O tapete queimava em vários pontos.

Àquela altura o calor já era tremendo. Logo o ar estaria cheio de fumaça acre.

Chamas brilhantes saíam dos três buracos de bala no peito do vagabundo, fogo vermelho e dourado, em vez de sangue. Ele estalou os dedos uma outra vez e um terceiro globo reluzente irrompeu de sua mão.

A massa sibilante partiu para cima de Harry. Ele tombou, encolhido. A coisa passou por cima de sua cabeça, tão perto que Harry protegeu o rosto com um dos braços e gritou ao ser varrido pela onda de calor mortal. As roupas de cama irromperam em chamas como se estivessem ensopadas de gasolina.

Quando Harry olhou para cima, o vão da porta estava vazio. O vagabundo sumira.

Pegou o revólver no chão e correu para o corredor, com o tapete lançando chamas ao redor de seus pés. Ficou aliviado porque as meias estavam encharcadas.

O corredor estava deserto, o que era bom, porque ele não queria outro confronto com... com aquela coisa que ele tinha enfrentado — não se as balas não funcionavam. A cozinha era à esquerda. Ele hesitou, depois passou pela porta, o revólver pronto. Fogo comendo os armários, cortinas balançando como as saias das dançarinas do inferno. Fumaça rolando em sua direção. Continuou andando. O hall em frente, a sala de estar à direita, para onde aquela coisa devia ter ido. Coisa, e não vagabundo. Relutou em cruzar a arcada, com medo de que a coisa saltasse sobre ele, o agarrasse em suas mãos incandescentes, mas ele precisava sair depressa, o lugar estava se enchendo de fumaça e ele tossia, incapaz de respirar ar puro em quantidade suficiente.

Chegando junto ao hall, com as costas apoiadas na parede do corredor e de frente para o arco, Harry manteve o revólver diante do corpo, mais por causa do treinamento e do hábito do que por alguma fé em sua eficácia. De qualquer modo, ainda havia uma bala no tambor.

A sala também ardia em chamas e no meio dela se encontrava a figura medonha, totalmente engolfada pelo fogo, braços abertos abraçando a tempestade tórrida, consumido por ela e obviamente sem sentir dor, talvez até mesmo num estado de êxtase. Para aquela coisa, cada lambida das chamas parecia fonte de um prazer perverso.

Harry teve certeza de que ele o observava de dentro do sudário de fogo. Tinha medo de que pudesse se aproximar de repente, os braços ainda em postura cruciforme, para grudá-lo de novo contra a parede.

Arrastou-se de lado, passando pelo arco até o pequeno hall, enquanto a maré negra de fumaça espessa e ofuscante rolava pelo corredor, vinda do quarto, cobrindo-o inteiramente. A última coisa que Harry viu foi seus sapatos encharcados. Agarrou-os com a mesma mão que segurava o revólver. A fumaça era tão densa que nenhuma luz penetrava no hall, nem mesmo a luz das chamas. De qualquer modo, seus olhos ardiam, cheios de lágrimas; foi forçado a fechá-los com força. Na escuridão de breu havia o perigo dele se desorientar, mesmo num espaço tão pequeno.

Prendeu o fôlego. Uma inalação seria suficientemente tóxica para lançá-lo de joelhos, tossindo, atordoado. Mas ele não estava recebendo ar puro desde que safra do quarto, de modo que não conseguiria segurar-se por mais tempo, alguns segundos. Enquanto pegava os sapatos, procurou a maçaneta da porta. Não conseguiu encontrá-la em meio à escuridão. Tateou, começou a entrar em pânico, mas acabou fechando a mão esquerda ao redor dela. Trancada. Os pulmões estavam quentes, como se o fogo tivesse penetrado neles. O peito doía. Onde estava a tranca? Deveria estar acima da maçaneta. Quis respirar, encontrou a tranca, tinha de respirar, não podia, destrancou, percebeu o crescimento de uma escuridão interna mais perigosa do que a de fora, agarrou a maçaneta, escancarou a porta, mergulhou para fora. A fumaça continuava ao redor, sugada pela noite fria, e ele precisou virar para a esquerda, para encontrar ar puro, e a primeira respiração foi dolorosamente gelada em seus pulmões.

No jardim onde caminhos serpenteavam entre azaléias, cercas vivas e canteiros luxuriantes de narcisos ingleses, com o prédio em forma de U ao redor, Harry piscou furiosamente, clareando a visão. Viu alguns vizinhos saindo de seus apartamentos para a varanda do térreo, e havia duas pessoas na varanda do segundo andar, através da qual se chegava aos apartamentos de cima. Provavelmente tinham sido atraídos pelos tiros, porque aquela era uma vizinhança onde esse não era um som comum. Estavam chocados olhando para ele e para as plumas de fumaça oleosa que saíam da porta da frente, mas Harry achou que não ouvira ninguém gritar "fogo", por isso começou a gritar, e então os outros o acompanharam.

Correu até uma das duas caixas de alarme na varanda do térreo.

Largou a arma e os sapatos e baixou a alavanca que quebrava o vidro fosco. Campainhas soaram estridentes.        

À direita, a janela de sua sala, que dava para o jardim, explodiu lançando vidros no piso de concreto da varanda. Em seguida a fumaça irrompeu, chicoteando penachos de fogo chicoteando, e Harry esperou ver o homem em chamas pular a janela quebrada Dará continuar a perseguição.

De um modo louco, a frase do tema musical de um filme atravessou sua mente: Quem você vai chamar? OS CAÇA-FANTASMAS!

Estava vivendo um filme com Dan Aykroyd. Podia achar engraçado, se não estivesse apavorado e com o coração no meio da garganta.

Sirenes soaram à distância, aproximando-se rapidamente. Correu de porta em porta, batendo com os punhos. Mais explosões abafadas. Um rangido metálico e estranho. Campainhas de alarme soando intermináveis. Ruídos seqüenciados de vidro partindo pareciam centenas de sininhos golpeados por uma tempestade errante. Harry não olhava para as fontes dos sons, continuava de porta em porta.

Quando as sirenes cresceram a ponto de dominar todos os outros sons, e pareciam estar a apenas alguns quarteirões de distância, ele finalmente achou que todos os moradores do prédio tinham sido alertados e saído dos apartamentos. Pessoas se espalhavam pelo jardim, olhando para o telhado ou vigiando a rua, à espera dos bombeiros, horrorizados e com medo, em silêncio ou chorando,

Harry correu de volta à primeira caixa de alarme e calçou os sapatos, que tinham ficado ali. Pegou o revólver, passou sobre um canteiro de azaléias, pisou sobre narcisos e chapinhou em poças num caminho de concreto.

Só então percebeu que a chuva tinha parado de cair durante os poucos minutos em que estivera no apartamento. Os fícus, as palmeiras e os arbustos continuavam gotejando. Os troncos e as I olhas molhadas pareciam cheios de jóias, com milhares de reflexos minúsculos do fogo.

Virou-se e, como os vizinhos, olhou para o prédio, atônito ao ver como o incêndio se espalhava depressa. O apartamento acima do seu fora engolido pelas labaredas. Pelas janelas quebradas, línguas sangrentas de fogo lambiam os dentes de vidro que restavam nas molduras. A fumaça crescia, e uma luz pavorosa pulsava o cuspia contra a noite.

Olhando na direção da rua, Harry sentiu alívio ao ver que os caminhões dos bombeiros tinham entrado no complexo de Los Cabos. A menos de um quarteirão de distância as sirenes começaram a morrer, mas as luzes continuavam piscando.

Pessoas tinham saído dos outros prédios, mas rapidamente se afastaram do caminho dos veículos de emergência.

Uma intensa onda de calor atraiu sua atenção novamente para o seu prédio. O incêndio atravessara o telhado.

Como num conto de fadas, a silhueta de um dragão de chamas surgiu no alto, acima da cumeeira, desenhada contra o céu escuro, chicoteando sua cauda laranja, amarela e vermelha, abrindo imensas asas de cornalina, escamas cintilantes, olhos escarlates relampejando, rugindo um desafio a todos os cavaleiros e pretensos matadores de dragões.

 

Connie parou no caminho de casa para comprar uma pizza de pepperoni e cogumelos. Comeu na mesa da cozinha, fazendo a comida descer com uma lata de Coors.

Nos últimos sete anos alugava um pequeno apartamento em Costa Mesa. O quarto só tinha uma cama, uma mesinha-de-cabeceira e um abajur. Nenhuma penteadeira. Suas vestimentas eram tão simples que ela podia facilmente guardar todas as roupas e sapatos no armário pequeno. A sala continha um sofá de couro preto, um abajur de pé ao lado da grande poltrona, para quando ela quisesse ler, e do outro lado uma mesa de canto. O sofá ficava de frente para um aparelho de televisão e um videocassete instalados sobre um suporte com rodinhas. A área de jantar, na cozinha, tinha uma mesa de jogo e quatro cadeiras dobráveis com almofadas nos assentos. A maioria dos armários estava vazia, contendo apenas o mínimo de potes e utensílios para preparar refeições rápidas, algumas tigelas, quatro pratos de jantar, quatro bandejas, quatro xícaras e pires, quatro copos—sempre quatro porque era o número dos menores jogos que ela conseguiu encontrar — e enlatados. Ela nunca recebia convidados.

As posses não lhe interessavam. Crescera sem isso, passando de um lar adotivo a outro, de uma instituição a outra, apenas com uma velha mala de roupas.

De fato, ela se sentia estorvada por posses, amarrada, presa. Não tinha um simples badulaque. A única decoração nas paredes era um pôster na cozinha, uma foto tirada por um pára-quedista a cinco mil pés: campos verdes, morros, um leito de rio seco, árvores dispersas, duas estradas de asfalto e duas de terra, estreitas como fios, cruzando-se como linhas numa pintura abstrata. Todas as fitas de vídeo a que assistia eram alugadas.

Possuía o carro, mas era uma máquina de liberdade, como um albatroz de aço.

Liberdade era o que ela buscava e valorizava, no lugar de jóias, roupas, antigüidades e arte, mas algumas vezes isso era mais difícil de adquirir do que um original de Rembrandt. Na longa e suave queda livre antes da abertura do pára-quedas havia liberdade. Montada numa motocicleta potente numa rodovia solitária, ela conseguia encontrar uma certa liberdade, mas uma moto suja na vastidão do deserto era ainda melhor, com paisagens apenas de areia, afloramentos de rocha e arbustos secos rolando até o céu em todas as direções.

Enquanto comia pizza e bebia cerveja, tirou os instantâneos do envelope pardo e estudou-os. Sua irmã morta, tão parecida com ela.

Pensou em EUie, a filha da irmã, vivendo em Santa Barbara com os Ladbrook. Não havia qualquer imagem dela entre as fotos, mas talvez fosse tão parecida com Connie quanto Colleen havia sido. Tentou entender como se sentia por ter uma sobrinha. Como sugerira Mickey Chan, era uma coisa maravilhosa ter família, não estar só no mundo depois de ter vivido assim desde quando podia recordar. Uma emoção agradável atravessou-a quando pensou em Ellie, mas foi uma emoção temperada pela preocupação de que uma sobrinha poderia ser um entrave mais pesado do que todas as posses materiais do mundo.

E se conhecesse Ellie e desenvolvesse afeto por ela?

Não. Não estava preocupada com afeto. Tinha dado e recebido afeto antes. Amor. Essa era a preocupação.

Suspeitava que o amor, apesar de ser uma bênção, também podia ser uma corrente. Que liberdade poderia ser perdida ao amar alguém — ou ao ser amada? Não sabia, porque nunca dera ou recebera qualquer emoção tão forte e profunda como o amor—ou como o que ela imaginava que fosse o amor, depois de ter lido tantos grandes romances. Lera que o amor poderia ser uma armadilha, uma prisão cruel, e vira pessoas com o coração partido pelo peso do amor.

Estivera só durante muito tempo.

Contudo, sentia-se confortável em sua solidão.

A mudança implicava um risco terrível.

Estudou o rosto sorridente da irmã nas cores quase reais do Kodachrome, separado dela pelo fino verniz de acabamento fotográfico — e por cinco longos anos de morte.

De todas as palavras tristes faladas e escritas, as mais tristes são: "Poderia ter sido!"

Podia nunca ter conhecido a irmã. No entanto, ainda podia conhecer a sobrinha. Só precisava de coragem.

Pegou outra cerveja na geladeira, voltou à mesa, sentou-se para estudar o rosto de Colleen por mais um tempo — e encontrou um jornal cobrindo as fotografias. O Register. Uma manchete atraiu seu olhar: TIROTEIO EM RESTAURANTE DE LAGUNA

BEACH... DOIS MORTOS. DEZ FERIDOS.

         Por um momento longo e inquieto, ficou olhando a manchete.       O jornal não estivera ali há um minuto, na verdade não estivera em nenhum lugar da casa, porque ela não o comprara.

         Quando fora pegar a cerveja na geladeira, em nenhum momento ficara de costas para a mesa. Sabia sem qualquer dúvida que não havia mais ninguém no apartamento. Mas, mesmo se um intruso o tivesse invadido, ela não poderia ter deixado de vê-lo entrar na cozinha.

Connie tocou o jornal. Era verdadeiro, mas o contato arrepiou-a tão profundamente quanto se houvesse tocado em gelo.

Pegou-o.

Fedia a fumaça. As páginas estavam marrons junto às bordas, tingindo-se de amarelo e branco na direção do centro, como se tivesse sido retirado de um incêndio pouco antes de queimar.

 

As coroas das palmeiras mais altas desapareciam em meio aos rolos de fumaça.

Moradores atordoados e em prantos recuavam enquanto bombeiros com impermeáveis amarelos e pretos e botas de cano alto, de borracha, desenrolavam mangueiras dos caminhões, puxando-as através dos caminhos e dos canteiros. Alguns usavam equipamento de respiração, de modo a poder entrar nos apartamentos cheios de fumaça. A chegada rápida virtualmente garantira que a maioria das unidades seria salva.

Harry Lyon olhou para seu apartamento, no extremo sul do prédio, e foi atravessado por uma aguda pontada de perda. Foi-se. Sua coleção de livros arrumados em ordem alfabética, os CDs guardados em gavetas, de acordo com o tipo de música e o nome do artista, a cozinha branca e limpa, as plantas cuidadosamente tratadas, os 29 volumes de seu diário, que ele mantinha desde os nove anos (um volume para cada ano) — tudo se foi. Quando pensou no fogo voraz abrindo caminho pelos cômodos, fuligem cobrindo o pouco que o fogo não consumira, tudo que era brilhante ficando manchado e fosco, sentiu-se nauseado.

Lembrou-se do Honda na garagem atrás do prédio, partiu naquela direção, e depois parou porque parecia idiotice arriscar a vida para salvar um carro. Além do mais, ele era presidente da associação de proprietários. Num momento desses deveria ficar com os vizinhos, tranqüilizá-los, oferecer conforto, conselhos sobre seguros e outras questões.

Enquanto guardava o revólver para não alarmar os bombeiros, lembrou-se de algo que o vagabundo dissera quando ele estava grudado contra a parede, o ar sumindo de seus pulmões: Primeiro tudo e todos que você ama... depois você!

Quando pensou nessas palavras e considerou suas ramificações, um medo profundo se arrastou através dele rápido como uma aranha, pior do que qualquer pavor que sentira até então, tão escuro quanto o fogo era brilhante.

Caminhou na direção das garagens. De súbito precisava desesperadamente do carro.

Enquanto Harry se afastava dos bombeiros e rodeava o prédio, o ar se encheu de milhares de brasas brilhantes como mariposas luminosas, girando e flutuando, dançando em espiral nas correntes termais. No alto do telhado um estalo cataclísmico foi acompanhado por um ruído que estremeceu a noite. Uma saraivada de telhas de madeira, em chamas, desabou sobre a calçada e sobre os canteiros mais próximos.

Harry cruzou os braços acima da cabeça, com medo de que as brasas de cedro incendiassem seu cabelo, esperando que as roupas continuassem encharcadas demais para se incendiar. Saindo ileso da chuva de fogo, empurrou um portão de ferro ainda frio por causa da chuva.

Atrás do prédio o pavimento de asfalto estava cheio de poças e coberto de vidro das janelas dos fundos que haviam explodido. Cada superfície espelhada formigava com imagens cobre e púrpura da tempestade brilhante que rugia no telhado do prédio. Serpentes luminosas ondulavam ao redor dos pés de Harry enquanto ele corria.

A passagem dos fundos ainda estava deserta quando ele chegou à porta da sua garagem e escancarou-a. Mas no momento em que a porta se abria surgiu um bombeiro gritando para ele sair dali.

— Polícia! — replicou Harry. Esperava que isso lhe desse os poucos segundos de que precisava, apesar de não ter parado para mostrar o distintivo.

Brasas haviam semeado algumas chamas no teto comprido.

Uma fumaça tênue enchia sua garagem dupla, descendo do papel alcatroado entre os caibros e as telhas de madeira.

Chaves. Subitamente Harry ficou com medo de tê-las deixado na mesa do hall ou na cozinha. Ao se aproximar do carro, tossindo por causa da fumaça tênue porém acre, bateu freneticamente nos bolsos e sentiu-se aliviado ao ouvir o ruído das chaves no bolso do paletó.

Primeiro tudo e todos que você ama...

Deu ré, saindo da garagem, mudou de marcha, passou pelo bombeiro que havia gritado e escapou pela extremidade da passagem dos fundos dois segundos antes de um caminhão de bombeiros se aproximar e bloqueá-la. Quando Harry virou o Honda na direção da rua, os pára-choques quase se beijaram.

Depois de ter dirigido por três ou quatro quarteirões com uma ousadia incomum, costurando em meio ao trânsito e atravessando sinais vermelhos, o rádio ligou sozinho. A voz profunda e rouca do vagabundo ecoou nos alto-falantes em estéreo, assustando-o.

—      Preciso descansar agora, herói. Preciso descansar.

—      Que diabo...?

Apenas um silvo de estática respondeu. Harry aliviou o pé do acelerador. Estendeu a mão para desligar o rádio, mas hesitou.

—      Muito cansado... tirar um cochilo...

Estática sibilante.

—      ...de modo que você tem uma hora...

Silvo.

—      ...mas eu volto...

Silvo.

Harry continuou sem olhar para a rua movimentada à sua frente, atento ao mostrador luminoso do rádio. Era um brilho verde e suave, mas fez com que ele se lembrasse dos radiantes olhos vermelhos do vagabundo — primeiro sangue, depois fogo.

—      Grande herói... só carne ambulante...

Silvo.

—      ...atirar em qualquer um... grande homem... mas atirar em mim... nunca é o final... não em mim... não em mim...

Silvo. Silvo. Silvo.

O carro passou por uma depressão inundada no pavimento. A água branca e fosforescente projetou-se dos dois lados como asas de anjos.

Harry tocou os controles do rádio, meio esperando um choque silvo foi interrompido.

Não tentou avançar o próximo sinal vermelho. Parou atrás de uma fila de carros, lutando para repassar os eventos das últimas horas e descobrir o sentido que eles faziam. Quem você vai chamar?

Ele não acreditava em fantasmas ou em caça-fantasmas. Mesmo assim tremia, e não somente porque as roupas continuavam molhadas. Ligou o aquecedor. Quem você vai chamar?

Fantasma ou não, o vagabundo não era uma alucinação. Não era sinal de colapso mental. Era verdadeiro. Talvez não humano, I mas verdadeiro.

Essa certeza foi estranhamente tranqüilizadora. A coisa que Harry mais temia não era o sobrenatural ou o desconhecido—mas a desordem interna da loucura, ameaça que agora parecia ter sido substituída por um adversário externo, estranho além de qualquer avaliação e terrivelmente poderoso mas, pelo menos, externo.

Enquanto o sinal ficava verde e o tráfego começava a andar de novo, ele olhou as ruas de Newport Beach ao redor. Viu que fora para o oeste, na direção da costa, e para o norte a partir de Irvine, e pela primeira vez percebeu para onde estava indo: Costa Mesa, ao apartamento de Connie Gulliver.

Ficou surpreso. A aparição em chamas prometera destruir todos e tudo que ele amava antes de destruí-lo, e tudo isso ao amanhecer. Entretanto Harry optara por procurar Connie antes mesmo de verificar seus pais em Carmel Valley. Anteriormente admitira ter um maior interesse nela do que se dispusera a reconhecer, mas talvez essa admissão não expusesse a verdadeira complexidade de seus sentimentos, nem sequer para ele. Sabia que se preocupava com ela, ainda que o motivo dessa preocupação continuasse em parte um mistério para ele, considerando como os dois eram tão diferentes e o quanto ela era fechada em si própria. Nem ele tinha certeza da profundidade de seu interesse, só sabia que era profundo, tão profundo que significava a maior revelação num dia cheio de revelações.

Enquanto passava junto ao porto de Newport, viu através das aberturas entre os prédios comerciais à esquerda os altos mastros dos iates espetando a noite, as velas recolhidas. Como uma floresta de campanários. Eles fizeram-no lembrar-se de que, como muitos de sua geração, fora criado sem qualquer fé específica e que, depois de adulto, não conseguira descobrir uma fé pessoal. Não que negasse a existência de Deus, só não conseguia encontrar um meio de acreditar.

Quando você combate o sobrenatural, quem vai chamar? Se não são os caça-fantasmas, então Deus. Se não Deus... quem você vai chamar?

Durante a maior parte de sua vida Harry colocara fé na ordem, mas ordem era meramente uma condição, não uma força que ele poderia chamar pedindo ajuda. A despeito das brutalidades com as quais o trabalho o levava a ter contato, acreditava também na decência e na coragem dos seres humanos. Era isso que o sustentava agora. Ia procurar Connie Gulliver não somente para alertá-la, mas para pedir conselho, para pedir que ela o ajudasse a descobrir o caminho para fora da escuridão que baixara à sua volta.

Quem você vai chamar? O seu parceiro.

Ao parar no próximo sinal surpreendeu-se de novo, mas desta vez não pelo que descobriu em si próprio. O aquecedor esquentara o carro e afugentara os piores arrepios. Mas ainda sentia uma frieza dura no coração. Essa surpresa mais nova estava no bolso de sua camisa, contra seu peito. Não eram emoções, e sim alguma coisa tangível que ele podia pegar, segurar e ver. Quatro objetos escuros e sem forma. Metal. Chumbo. Mesmo que ainda não conseguisse avaliar como haviam terminado em seu bolso, ele sabia o que eram os objetos: as balas que atirara rio vagabundo, quatro balas de chumbo deformadas pelo impacto em alta velocidade contra carne, ossos e cartilagens.  

 

Harry tirou o paletó, a gravata e a camisa para se lavar da melhor maneira possível no banheiro de Connie. Suas mãos estavam tão sujas que pareciam as do vagabundo e precisaram ser ensaboadas várias vezes até ficarem limpas. Lavou na pia os cabelos, o rosto, os braços e o peito, mandando embora, junto com as cinzas, parte do cansaço. Depois usou o pente dela para ajeitar os cabelos.

Não podia fazer muita coisa com as roupas. Passou uma escova de banho, seca, para remover o pó da superfície, mas elas continuavam manchadas e bastante amarrotadas. Sua camisa branca estava cinza, com um vago cheiro de suor e um odor mais forte de fumaça, mas precisou vesti-la de novo, porque não tinha outras roupas para colocar. Não se recordava de já ter permitido ser visto num estado tão deplorável.

Tentou resgatar a dignidade fechando o botão do colarinho e dando o nó na gravata.

Mais do que a condição lamentável de suas roupas, preocupava-o o estado de seu corpo. Seu abdome estava dolorido onde a mão do manequim o golpeara. Uma dor seca pulsava em suas costas, junto à cintura, e não sumia antes de chegar à metade da coluna vertebral — uma lembrança da força com que o vagabundo o lançara contra a parede. A parte de trás do braço esquerdo, por toda a extensão do tríceps, também doía, porque quando o vagabundo o empurrara do corredor para o quarto ele caíra sobre o braço.

Enquanto estava em movimento, correndo pela vida, bombeando adrenalina, não se apercebera das várias dores, mas a inatividade acabou por revelá-las. Preocupava-se com a possibilidade dos músculos e das juntas começarem a enrijecer. Tinha certeza absoluta de que, antes do final da noite, precisaria ser rápido e ágil mais de uma vez, caso esperasse salvar o rabo.

No armário de remédios encontrou um frasco de Anacin. Colocou quatro na palma da mão direita, tampou o frasco e guardou-o num bolso do paletó.

Quando voltou à cozinha e pediu um copo d'água para tomar as pílulas, Connie entregou-lhe uma lata de Coors.

Ele recusou.

—      Quero manter a cabeça clara.

—      Uma cerveja não vai fazer mal. Pode até ajudar.

—      Eu não costumo beber.

—      Não estou pedindo que você aplique vodca na veia.

—      Prefiro água.

—      Não seja puritano, pelo amor de Deus!

Ele concordou, aceitou a cerveja, puxou o anel e tomou as quatro aspirinas com um gole comprido. O sabor foi maravilhoso. Talvez fosse exatamente disso que ele precisava,

Faminto, pegou um pedaço de pizza na caixa aberta sobre a bancada. Mordeu um bocado e mastigou entusiasticamente, sem nenhuma de suas preocupações habituais com as boas maneiras.

Nunca estivera antes naquele apartamento, e percebeu como era espartano.

—      Como se chama esse estilo de decoração? Monge Antigo?

—      Quem se preocupa com decoração? Só estou demonstrando um pouco de cortesia com o meu senhorio. Se eu sair da linha, ele pode esvaziar o local em uma hora e alugá-lo amanhã.

Connie voltou à mesa de jogo e olhou para os seis objetos que havia alinhado. Uma nota de dez dólares amaciada pelo tempo. Um jornal descolorido pelo calor, com páginas ligeiramente queimadas nas bordas. Quatro balas de chumbo deformadas.

Harry se aproximou:

—      E então?

—      Eu não acredito em fantasmas, espíritos, demônios, essa baboseira.

—      Nem eu.

—      Eu vi esse cara. Era só um mendigo.

—      Ainda não consigo acreditar que você deu dez pratas a ele.

Connie ficou ruborizada. Ele nunca a vira enrubescer antes. A primeira coisa que a embaraçava diante dele era essa indicação de que possuía alguma compaixão.

—      Ele era... envolvente, de algum modo — disse ela.

—      Então não era só um mendigo.

—      Talvez não, se conseguiu me arrancar dez dólares.

—     Vou dizer uma coisa. — Harry enfiou o último bocado de pizza na boca.

—      Diga.

Ainda mastigando a pizza, ele falou:

—      Eu vi esse sujeito se queimando vivo na minha sala de estar, mas não acho que vão encontrar nenhum osso carbonizado entre as cinzas. E mesmo se ele não tivesse falado no rádio do carro, eu esperaria encontrá-lo de novo, tão grande e sujo e esquisito e sem nenhuma queimadura como antes.

Enquanto Harry pegava mais um pedaço de pizza, Connie disse:

—      Acho que você tinha dito que também não acreditava em fantasmas.

—      Não acredito.

—      E então?

Mastigando, ele a encarou pensativamente.

—      Então você acredita em mim?

—      Parte da coisa aconteceu comigo também, não foi?

—      É. Acho que o bastante para que você acreditasse em mim.

—      E então? — repetiu ela.

Ele queria sentar-se junto à mesa, tirar um peso dos pés, mas imaginou que provavelmente ficaria enrijecido se sentasse numa cadeira. Encostou-se na bancada, perto da pia.

—      Estive pensando... Todo dia, trabalhando na rua numa investigação, a gente encontra pessoas que não são como nós, que acham que a lei é só uma farsa para levar as massas ignorantes a obedecer.

Essas pessoas só se preocupam com elas mesmas, satisfazendo seus próprios desejos, independente do que isso custe aos outros.

—      Escória, sacos de vômito; são o nosso trabalho.

—      Elementos criminosos, sociopatas. Eles têm um monte de nomes. Como as pessoas feitas de vagens, em Invasores de Corpos, eles andam entre nós e passam por seres humanos comuns, civilizados. Mas mesmo havendo muitos, ainda são uma pequena minoria, e são qualquer coisa, menos comuns. Sua civilização é um verniz, maquiagem teatral escondendo o selvagem escamoso e rastejante do qual evoluímos, a antiga consciência reptiliana.

—      E daí? Isso não é novidade — reagiu ela impaciente. —

Nós somos a linha tênue entre a ordem e o caos. Olhar todos os dias para esse abismo. Oscilar naquela borda, me testar, provar que não sou um deles, que não vou cair naquele caos, que não vou me tornar, não posso me tornar como eles—é isso que faz desse trabalho algo tão excitante. Por isso sou uma policial.

—      Verdade? — exclamou Harry, surpreso.

Não era nem um pouco por isso que Harry era um tira. Proteger os genuinamente civilizados, guardá-los das pessoas-vagens que estão entre eles, preservar a paz e a beleza da ordem, proporcionar a continuidade e o progresso — era por esse motivo que se tornara um policial, pelo menos parte do motivo, e certamente não para provar a si próprio que não era um dos retrocessos reptilianos.

Enquanto falava, Connie afastou o olhar de Harry e ficou olhando um envelope de papel pardo, tamanho ofício, que estava sobre uma das cadeiras. Ele imaginou o que poderia conter.

—      Quando você não sabe de onde veio, quando não sabe se pode amar — disse ela baixinho, quase como se falasse consigo mesma —, quando tudo o que você quer é liberdade, é preciso se forçar a assumir responsabilidades, um monte delas. Liberdade sem responsabilidade é pura selvageria. — Sua voz não estava simplesmente baixa. Estava assombrada. — Talvez a gente venha da selvageria, não dá para ter certeza, mas o que você realmente sabe sobre você é que pode odiar de verdade, mesmo que não possa amar, e isso apavora, significa que talvez você possa escorregar para dentro daquele abismo...

Harry parou de mastigar um pedaço de pizza, hipnotizado por ela.

Sabia que Connie estava se revelando como nunca fizera antes. Apenas não compreendia totalmente o que ela estava revelando.

Como se saísse de um transe, o olhar dela passou do envelope para Harry, e sua voz suave endureceu.

—      De modo que, tudo bem, o mundo está cheio desses cabeças de merda, sacos de vômito, sociopatas, o que quer que sejam chamados. E daí?

Ele engoliu a pizza.

—      Suponha que um tira comum, fazendo o seu trabalho, cruze com um sociopata que seja pior do que os sacos de vômito comuns, infinitamente pior.

Ela fora até a geladeira enquanto ele falava. Pegou outra cerveja.

—      Pior? Em que sentido?

—      Esse cara tem...

—      O quê?

—      Ele tem um... dom.

—      Que dom? Está na hora das charadas? Desembuche, Harry.

Ele se aproximou da mesa, passou um dedo pelas quatro balas

de chumbo. Elas rolaram contra o tampo de fórmica com um som que parecia o eco da eternidade.

—      Harry?

Ainda que precisasse expor sua teoria, ele relutava em começar. O que tinha a dizer explodiria de uma vez por toda sua imagem de Senhor Equanimidade.

Tomou um gole de cerveja, respirou fundo e mergulhou:

—      Suponha que você precise enfrentar um sociopata... um psicótico com poderes paranormais, que faça a luta contra ele parecer uma guerra contra um deus aprendiz. Poderes psíquicos.

Ela estava boquiaberta, com o anel da lata de cerveja ao redor do indicador, sem abri-la. Parecia estar posando para um pintor. Antes que Connie pudesse interromper, ele continuou:

—      Não quero dizer que ele simplesmente pode prever o naipe de uma carta de baralho escolhida ao acaso, adivinhar quem vai ganhar o Campeonato Mundial ou levitar um lápis. Nada tão insignificante. Talvez o cara tenha o poder de se manifestar a partir do nada... e se desvanecer. O poder de provocar incêndios, de queimar sem ser consumido, de receber tiros sem ser morto. Talvez possa colocar uma etiqueta psíquica em você, como um guarda-florestal coloca uma etiqueta eletrônica num gamo, e depois seguir a sua pista quando você está longe, não importa para onde vá ou o quanto corra. Sei, sei, isso é absurdo, é loucura, é como cair num filme de Spielberg, só que mais escuro, um filme do James Cameron ou do David Lynch, mas talvez seja verdade.

Connie balançou a cabeça, incrédula. Enquanto abria a porta da geladeira e guardava de novo a lata fechada, ela disse:

—      Talvez meu limite esta noite deva ser duas.

Ele sentia uma necessidade urgente de convencê-la. Tinha consciência de como a noite corria, de como a alvorada se aproximava depressa.

Connie voltou da geladeira.

—      E onde ele conseguiria esses poderes espantosos?

—      Quem sabe? Talvez tenha vivido tempo demais debaixo de fios de alta-tensão e o campo magnético tenha causado mudanças em seu cérebro. Talvez tenha havido muita dioxina no leite que bebeu quando criança, ou tenha comido maçãs contaminadas com algum estranho elemento tóxico; quem sabe sua casa estivesse debaixo de um buraco na camada de ozônio, alienígenas estejam fazendo experiências com ele para dar uma boa história para a National Enquirer, ou ele tenha comido Twinkies demais, ou tenha ouvido rap demais! Como é que eu vou saber, porra?

Ela o encarou. Pelo menos não estava mais boquiaberta.

—      Você está levando isso a sério.

—      Estou.

—      Sei disso porque, nos seis meses em que trabalhamos juntos, essa é a primeira vez que você usou a palavra porra.

—      Ah. Sinto muito.

—      Claro que sente — disse ela, conseguindo um traço de sarcasmo mesmo naquelas circunstâncias. —Mas esse cara... ele é só um mendigo.

—      Não creio que esta seja sua aparência real. Acho que ele pode ser qualquer coisa que queira, se manifestar de qualquer forma que escolher, porque a manifestação não é realmente ele... é uma projeção, uma coisa que ele quer que a gente veja.

—      Isso não é a coisa mais próxima de um fantasma? — perguntou ela. — E nós não concordamos que nenhum dos dois acredita em fantasma?

Ele pegou a nota de dez dólares sobre a mesa.

—      Se eu estou tão errado, como você explica isso?

—      Mesmo se você estiver certo... como você explica?

—      Telecinésia.

—      O que é isso?

—      Capacidade de mover um objeto através do tempo e do espaço apenas com o poder da mente.

—      Então por que eu não vi a nota flutuando no espaço até a minha mão?

—      Não é assim que funciona. É mais como uma teleportação.

A coisa vai de um lugar para o outro, puff, sem viajar fisicamente a distância intermediária.

Ela abriu as mãos, exasperada.

—      Transporte-me para cima, Scotty!

Harry olhou para o relógio de pulso. 20:38. Tique-taque... tique-taque.,.

Sabia que estava parecendo um lunático, mais indicado para o circuito vespertino de entrevistas na televisão ou para um programa noturno de rádio, com telefonemas ao vivo do que para o trabalho policial. Mas também sabia que estava certo, ou pelo menos que circulava a periferia da verdade, se é que não estava no âmago.

—      Olhe — disse ele, pegando o jornal escurecido pelo fogo e sacudindo diante dela. —Ainda não li o jornal, mas se você folhear, sei que vai encontrar algumas histórias para acrescentar à sua maldita coleção, evidências da nova Idade das Trevas. — Largou o jornal, que exalou um cheiro de fumaça.—Vejamos, quais foram algumas das histórias que você me contou recentemente, coisas que recolheu em outros jornais, na televisão? Tenho certeza de que consigo lembrar algumas.

—      Harry...

—      Não que eu queira lembrar. Deus sabe que preferiria esquecer, — Começou a andar mais ou menos num círculo. —Não havia uma sobre um juiz no Texas que sentenciou um sujeito a 35 anos de cadeia por roubar uma lata de Spam? E ao mesmo tempo, em Los Angeles, alguns desordeiros espancaram um sujeito até a morte na rua, tudo registrado em videoteipe por jornalistas, mas ninguém realmente quer perturbar a comunidade procurando os assassinos, não quando a surra foi um protesto contra a injustiça?

Ela foi até a mesa, pegou uma cadeira, virou-a ao contrário e sentou-se. Olhou para o jornal queimado e para os outros objetos. Ele continuou andando, falando com ansiedade crescente.

—      E não havia uma sobre a mulher que mandou o namorado estuprar a filha de onze anos, porque queria mais um filho e não podia ter, e imaginou que poderia ser mãe do bastardo gerado na menina? Onde foi isso? Wisconsin? Ohio?

—      Michigan — corrigiu Connie em tom sombrio.

—      E não havia uma sobre um cara que decapitou o enteado de seis anos com uma machadinha...

—      Cinco. Ele tinha cinco anos.

—      ...e os adolescentes, de algum lugar, que esfaquearam 130 vezes uma mulher para roubar um dólar sujo...

—      Boston — sussurrou ela.

—      Ah, sim, e houve aquela pérola sobre o pai que espancou até a morte o filho que ainda estava no jardim de infância, porque o menino não conseguiu lembrar o alfabeto depois do G. E uma mulher do Arkansas ou Louisiana ou Oklahoma, que misturou vidro moído no cereal do bebê, esperando que a menina ficasse doente para que o pai pedisse licença da marinha e pudesse passar algum tempo em casa.

—      Não foi no Arkansas — disse Connie. — Mississippi.

Harry parou de andar e agachou-se junto à cadeira, ficando cara a cara com ela.

—      Vê? Você aceita todas essas coisas incríveis, por mais incríveis que sejam. Sabe que elas aconteceram. Esses são os anos noventa, Connie. O cotilhão do pré-milênio, a nova Idade das Trevas, quando qualquer coisa pode acontecer e geralmente acontece, quando o impensável não é somente pensável, mas aceito, quando cada milagre da ciência é contrabalançado por um ato de barbárie humana que não faz praticamente ninguém erguer a sobrancelha. Cada realização tecnológica brilhante é contrabalançada por mil atrocidades de ódio e estupidez humana. Para cada cientista que busca a cura do câncer existem cinco mil facínoras querendo marretar o crânio de uma senhora de idade até transformá-lo em suco de maçã, só pelos trocados que ela tem na bolsa.

Perturbada, Connie olhou para outro lado. Pegou uma das balas deformadas. Com a testa franzida, girou-a entre o polegar e o indicador.

Assombrado com a velocidade absurda com que os minutos mudavam no visor de cristal líquido em seu relógio de pulso, Harry não sossegou.

—      Então, quem vai dizer que não pode existir em algum laboratório um cara que descobriu um modo de desenvolver o poder do cérebro humano, aumentar e controlar os poderes que sempre Suspeitamos existir dentro de nós, mas que nunca pudemos usar?

Talvez esse cara tenha se injetado essa coisa. Ou talvez o sujeito que estamos procurando seja a cobaia dessa experiência, e que, ao perceber no que tinha se tornado, tenha matado todo mundo no laboratório, todos os que sabiam. Talvez agora ele esteja andando pelo mundo, a pessoa-vagem mais apavorante de todas.

Connie recolocou a bala deformada sobre a mesa. Virou-se de (novo para ele. Tinha olhos maravilhosos.

—      Essa coisa de experiência faz sentido para mim.

—      Mas provavelmente não é nada do tipo, nada que possamos (adivinhar. Alguma coisa diferente.

—      Se existe um homem assim, ele pode ser neutralizado?

—      Ele não é Deus. Não importa que poderes tenha, continua sendo um homem, um homem profundamente perturbado. Ele deve (ter fraquezas, pontos vulneráveis.

Harry continuava agachado junto à cadeira, e Connie encostou uma das mãos em seu rosto. O gesto de ternura surpreendeu-o. Ela sorriu.

—      Você tem uma tremenda imaginação, Harry Lyon.

—      É. Bom, eu sempre gostei de contos de fadas.

Franzindo a testa de novo, ela afastou a mão, como se estivesse envergonhada por ser surpreendida num momento de ternura.

—      Mesmo que ele seja vulnerável, não poderemos enfrentá-lo se ele não puder ser achado. Como vamos rastrear esse tal de Tique-taque?

—      Tique-taque?

—      Não sabemos o nome dele. Tique-taque parece ser um nome tão bom quanto qualquer outro. Pelo menos por enquanto.

Tique-taque. Era sem dúvida um nome de vilão de conto de fadas. Rumpelstiltskin, Escaraboche, Knucklebone... e Tique-taque.

—      Certo. — Harry ficou de pé. Começou a andar de novo. — Tique-taque.

—      Como vamos encontrá-lo?

—      Não tenho certeza. Mas sei onde quero começar. No necrotério de Laguna Beach.

Ela estremeceu.

—      Ordegard?

—      É. Quero ver o relatório da autópsia, se já foi feita, conversar com o legista, se possível. Quero saber se descobriram alguma coisa estranha.

—      Estranha? Como o quê?

—      Como é que eu vou saber? Qualquer coisa fora do comum.

—      Mas Ordegard está morto. Ele não era somente uma...

projeção. Era real, e agora está morto. Não pode ser Tique-taque. Inúmeros contos de fadas, lendas, mitos e romances fantásticos davam a Harry um vasto suprimento de conceitos incríveis.

—      Talvez Tique-taque tenha o poder de controlar outras pessoas, entrar na mente delas, controlar seus corpos, usá-los como marionetes, e depois dispor delas como quiser, ou sair fora quando estão mortas.

Talvez ele estivesse controlando Ordegard, depois tenha passado para o vagabundo, e agora talvez o vagabundo esteja morto, realmente morto, e seus ossos estejam na minha sala de estar incendiada. E talvez Tique-taque apareça em outro corpo da próxima vez.

—      Possessão?

—      Por aí.

—      Você está começando a me apavorar.

—      Começando? Você é realmente durona. Escute, Connie, logo antes de arrasar com meu apartamento, Tique-taque disse algo do tipo... "Você acha que pode atirar em quem quiser, e a coisa acaba aí; mas não comigo, atirar em mim não é o fim." — Harry deu um tapinha no volume da arma no coldre. — E em quem eu atirei hoje?

Ordegard. E Tique-taque diz que isso não é o fim. Então quero descobrir se há alguma coisa esquisita com o cadáver de Ordegard.

Ela estava espantada, mas não descrente. Começava a entrar no ritmo.

—      Você quer saber se havia sinais de possessão?

—      É.

—      E quais são exatamente os sinais de possessão?

—      Qualquer coisa esquisita.

— Como o crânio do cadáver estar vazio, sem cérebro, só com cinzas dentro? Ou talvez o número 666 marcado a fogo na nuca?

—      Gostaria que fosse alguma coisa tão óbvia, mas duvido.

Connie riu. Um riso nervoso. Incerto. Curto.

Ela se levantou da cadeira.

—      Certo. Vamos até o necrotério.

Harry esperava que uma conversa com o legista ou uma leitura rápida do relatório da autópsia revelasse o que ele precisava saber, e que não fosse necessário olhar o cadáver. Não queria ver de novo aquela cara de lua.

 

A grande cozinha da Casa de Repouso Pacific View, em Laguna Beach, era toda de azulejos brancos e aço inoxidável, limpa como um hospital.

Qualquer rato ou barata que resolva aparecer, pensou Janet Marco, é melhor conseguir sobreviver à base de sapóleo, amoníaco e cera.

Apesar de anti-séptica, a cozinha não cheirava como um hospital. Os aromas de presunto, peru assado, ervas e batatas cozidas eram suplantados pela fragrância de fermento e canela dos pãezinhos doces que estavam sendo assados para o café da manhã. Além disso, era um lugar quente, e o calor era bem-vindo depois do frio que a tempestade trouxera ao ar de março.

Janet e Danny jantavam na ponta de uma mesa comprida, no canto sudoeste da cozinha. Não estavam no caminho de ninguém, mas ocupavam um ponto de onde podiam observar os funcionários ocupados.

Janet sentia-se fascinada com a operação da grande cozinha, que funcionava como um mecanismo de relógio. Os empregados eram ativos e pareciam felizes. Sentiu inveja deles. Gostaria de poder conseguir um trabalho na Pacific View, na cozinha ou em outro departamento qualquer, mas não sabia que tipo de capacitação era exigida. E duvidava que até mesmo o proprietário, um homem bom è generoso, contratasse alguém que morava num carro, tomava banho em lavatórios públicos e não tinha endereço fixo.

Ainda que gostasse de olhar o pessoal da cozinha, às vezes ficava tremendamente frustrada ao vê-los.

Mas não poderia culpar o Sr. Ishigura, proprietário e gerente da Pacific View, porque ele era uma dádiva divina em dias assim. Tão econômico quanto gentil, ficava consternado com o fato de qualquer pessoa sentir fome num país tão próspero. Invariavelmente, depois que a sua equipe e quase cem pacientes tinham jantado, sobrava comida bastante para alimentar dez ou doze pessoas, porque as receitas não podiam ser refinadas a ponto de produzir exatamente o número de porções necessárias. O Sr. Ishigura oferecia essas refeições de graça para alguns sem-teto.

A comida era boa, realmente boa. A Pacific View não era uma clínica de repouso comum. Tinha classe. Os pacientes eram ricos ou tinham parentes ricos.

O Sr. Ishigura não alardeava sua generosidade, e sua porta não estava aberta a todos. Quando via pessoas de rua que lhe pareciam ter caído naquele destino não totalmente por vontade própria, oferecia as refeições grátis. Como era seletivo, era possível comer ali sem precisar dividir a mesa com os alcoólatras e drogados mal-humorados e perigosos que tornavam tão pouco atraentes as cozinhas das igrejas e das missões.

Janet não se aproveitava sempre da hospitalidade do Sr. Ishigura. Dos sete almoços e jantares que podia comer por semana na Pacific View, limitava-se a não mais que dois. Por outro lado, ela conseguia cuidar de si própria e de Danny, e se orgulhava de cada refeição adquirida com seus ganhos.

Naquela noite de terça-feita ela e Danny compartilhavam as instalações com três homens idosos, uma mulher cujo rosto era enrugado como um saco de papel amassado, mas que usava um lenço colorido e um boné vermelho, e um jovem tristemente feio e de rosto deformado. Apesar de malvestidos, não estavam sujos, nem barbados, mas com cheiro de limpos.

Ela não falou com nenhum deles, ainda que tivesse gostado da conversa. Fazia tanto tempo que não conversava longamente com outra pessoa que não fosse Danny, que não tinha confiança em bater papo com qualquer adulto.

Além disso, tinha medo de encontrar alguma pessoa muito curiosa. Não queria ter de responder a perguntas pessoais sobre o passado. Afinal de contas, era uma assassina. E se o corpo de Vince tivesse sido encontrado no deserto do Arizona, ela poderia estar sendo procurada pela polícia.

Não falou nem mesmo com Danny, que não precisava de encorajamento para comer ou para ter bons modos. Apesar de estar com apenas cinco anos, o menino era bem-comportado e sabia rumo se conduzir à mesa.

Janet tinha um orgulho feroz do filho. Vez por outra, enquanto comiam, alisava o cabelo dele, tocava sua nuca ou dava-lhe um lapinha no ombro, para que ele soubesse de seu orgulho.

Deus, como o amava! Tão pequeno, tão inocente, suportando com tanta paciência uma dificuldade depois da outra. Nada deveria acontecer com ele. Devia ter chance de crescer, de se tornar alguma coisa nesse mundo.

Só conseguia desfrutar a refeição enquanto mantinha os pensamentos no policial num nível mínimo. O policial que podia mudar de forma. Que quase se tornara um lobisomem de cinema. Que tinha se transformado em Vince, enquanto o trovão rolava e os raios espocavam, e que paralisara Woofer no meio do ar.

Depois do encontro naquele beco, Janet dirigira o carro para o norte, debaixo da chuva, saindo de Laguna Beach em direção a Los Angeles, desesperada para colocar um monte de quilômetros entre eles e a criatura misteriosa que queria matá-los. Aquela coisa dissera que poderia encontrá-los onde quer que fossem e ela acre-itara. Mas era intolerável simplesmente esperar pela morte. Só chegou até Corona Del Mar, a próxima cidade subindo a costa, antes de perceber que deveria voltar. Em Los Angeles ela teria de aprender que bairros eram melhores para a coleta, quando os caminhões de lixo passavam — para poder procurar as latas logo antes deles —, que comunidades tinham a polícia mais tolerante, onde as latas e as garrafas poderiam ser trocadas, onde encontrar outra pessoa humanitária como o Sr. Ishigura e tantas outras coisas. No momento tinha pouco dinheiro, e não poderia viver com as magras economias até aprender o que fosse necessário em outro lugar. Era Laguna Beach ou lugar nenhum.

Talvez a pior coisa em ser pobre fosse não ter escolha.

Tinha dirigido de volta até Laguna Beach, censurando-se mentalmente pela gasolina desperdiçada.

Estacionaram numa rua secundária e ficaram no carro durante toda a tarde chuvosa. À luz cinzenta da tempestade, com Woofer cochilando no banco de trás, ela leu para Danny histórias de um livro grosso encontrado numa lixeira. Danny adorava que lessem para ele. Ouvia fascinado, enquanto sombras prateadas e peroladas da água brincavam sobre seu rosto, criando padrões que imitavam os riachos de chuva correndo pelo pára-brisa.

Agora a chuva tinha passado, o dia se fora, o jantar havia terminado, e já era hora de voltar ao velho Dodge para passar a noite. Janet estava exausta, e sabia que Danny cairia no sono, rápido como uma pedra afundando num lago. Mas estava apavorada com a idéia de fechar os olhos. Temia que a coisa-polícia os encontrasse enquanto dormiam.

Quando juntaram os pratos sujos e levaram até a pia, onde sempre os deixavam, uma cozinheira cujo primeiro nome era Loretta — e cujo sobrenome Janet não sabia, aproximou-se deles. Loretta era uma mulher grandalhona, de uns cinqüenta anos, com pele lisa como porcelana e testa tão desprovida de rugas que ela nunca deveria ter tido qualquer preocupação na vida inteira. Suas mãos eram fortes e vermelhas do trabalho na cozinha. Carregava uma bandeja descartável cheia de pedaços de carne.

—      Aquele cachorro ainda está por aí? — perguntou Loretta.

— O bonitinho que veio seguindo vocês nas últimas vezes?

—      Woofer — disse Danny.

—      Ele se ligou no meu filho—explicou Janet. — Está lá fora, esperando.

—      Bom, eu tenho uma coisa para o belezinha—disse Loretta, indicando os restos de carne.

Uma enfermeira bonita e loura, de pé junto a um bloco de açougueiro e bebendo um copo de leite, entreouviu a conversa.

—      Ele é realmente bonito?

—      É só um vira-lata — explicou Loretta. — Não é de raça, mas deveria servir de modelo para quadros.

—      Eu sou louca por cachorros—disse a enfermeira.—Tenho três. Adoro cães. Posso vê-lo?

—      Claro, venha — convidou Loretta. Em seguida caiu em si e sorriu para Janet. — Você se importa se Angelina for olhar o cachorro?

Angelina evidentemente era a enfermeira.

—      Claro que não, por que iria me importar?

Loretta foi na frente, até a porta que dava para o beco. As sobras de carne na bandeja não eram gordura e sebo, e sim pedaços escolhidos de presunto e peru.

Do lado de fora, sob o cone de luz amarela de uma lâmpada de serviço, Woofer permanecia sentado numa espera paciente, a cabeça inclinada para a direita, uma orelha empinada e a outra caída como sempre, e um olhar irônico na cara. Uma brisa fresca, o primeiro movimento no ar desde que a tempestade passara, agitou seu pêlo.

Angelina sentiu-se instantaneamente cativada.

—      Ele é maravilhoso.

—      É meu—falou Danny em voz tão baixa que provavelmente ninguém ouviu, a não ser Janet.

Como se entendesse o elogio da enfermeira, Woofer mostrou os dentes num sorriso, e seu rabo peludo bateu vigorosamente contra o pavimento.

Talvez ele tivesse entendido. Um dia depois de ter encontrado Woofer, Janet decidira que ele era um vira-lata esperto.

Pegando a bandeja cheia de sobras que estava com a cozinheira, Angelina passou na frente de todos e se agachou diante do cachorro:

—      Você é bonitinho. Olha só, amigão. Parece bom? Aposto que vai gostar.

Woofer olhou para Janet como se pedisse permissão para fazer um festim com as sobras. Era somente um cão de rua, sem coleira, mas evidentemente já fora o animal de estimação em alguma casa. Tinha o autocontrole que vinha do treinamento e da capacidade de afeição recíproca que surgia nos animais — e talvez também nas pessoas — ao ser amado.

Janet assentiu.

Somente então o cachorro jantou, abocanhando faminto os pedaços e lascas de carne.

Inesperadamente Janet Marco percebeu um parentesco com o cão que a deixou enervada. Seus pais a haviam tratado com crueldade que algumas pessoas doentias dedicavam aos animais. De fato, eles tratariam qualquer gato e cachorro com mais humanidade do que a haviam tratado. Vince não fora mais gentil. E ainda que não houvesse qualquer indicação de que o cachorro tivesse apanhado ou passado fome, ele certamente fora abandonado. Apesar de não ter coleira, era óbvio que não crescera sozinho. Era ansioso demais por agradar e muito carente de afeto. O abandono era apenas outra forma de abuso, o que significava que Janet e o cachorro haviam passado por muitas dificuldades, medos e experiências.

Decidiu ficar com o cachorro independentemente dos problemas e das despesas que ele poderia causar. Havia um elo digno de respeito entre eles: ambos eram criaturas vivas, corajosas e capazes de se comprometer — e ambos passavam necessidade.

Enquanto Woofer comia com entusiasmo canino, a jovem enfermeira loura o acariciava, cocava atrás de suas orelhas e dizia palavras carinhosas.

—      Eu disse que ele era bonitinho — falou Loretta, cruzando os braços sobre o peito imenso e balançando a cabeça para Woofer.

— Devia estar fazendo filmes. Um bichinho feiticeiro.

—      Ele é meu — falou Danny em tom preocupado, e mais uma vez numa voz tão baixa que somente Janet poderia ouvi-lo. Ele estava junto dela, agarrado, e ela colocou uma das mãos sobre seu ombro, tranqüilizando-o.

Na metade da refeição Woofer levantou subitamente a cabeça e olhou curioso para Angelina. Sua orelha boa estremeceu de novo. Ele cheirou seu uniforme branco, suas mãos magras, e depois enfiou a cabeça entre seus joelhos para dar uma boa cheirada em seus sapatos brancos. Cheirou novamente as mãos, lambeu seus dedos, resfolegando e ganindo, sacudindo-se sem sair do lugar, cada vez mais excitado.

A enfermeira e a cozinheira riram, achando que Woofer reagia somente à boa comida e à atenção, mas Janet sabia que era outra coisa. Misturado aos ganidos havia grunhidos curtos e graves. Ele captava algum cheiro do qual não gostava. E sua cauda parará de balançar.

Sem qualquer aviso, e para grande constrangimento de Janet, o cachorro afastou-se das mãos carinhosas de Angelina e disparou, passando por ela, passou por Danny, por entre as pernas da cozinheira e entrando direto na porta aberta para a cozinha.

— Woofer, não! — gritou Janet.

O cão não atendeu ao chamado, e todos que estavam no beco lutam atrás dele.

O pessoal da cozinha tentou capturar Woofer, mas ele era rápido demais. Fintou e desviou, com as unhas fazendo barulho no piso de ladrilhos. Passava debaixo das mesas de preparar comida, rolava, saltava e abruptamente mudava de direção para enganar as lmãos que tentavam agarrá-lo, exibindo a agilidade de uma enguia, ofegando, mostrando os dentes e aparentemente se divertindo.

Mas não era somente uma brincadeira de pique. Ele procurava ansiosamente alguma coisa, seguindo um cheiro fraco, farejando o chão e o ar. Parecia desinteressado dos fornos cheios de pães doces, de onde fluía uma torrente de aromas de dar água na boca, e não saltou sobre qualquer das bancadas onde havia comida exposta. Alguma outra coisa o interessava, algo que ele descobrira primeiro na jovem enfermeira loura chamada Angelina.

— Cachorro mau! — Janet ficava repetindo enquanto ajudava na caçada. — Cachorro mau, cachorro mau!

Woofer lançou alguns olhares magoados, mas não se acalmou.

Um auxiliar de enfermagem, sem saber o que acontecia na cozinha, passou por uma porta de vaivém com um carrinho de suprimentos, e imediatamente o cão aproveitou a abertura. Passou pelo auxiliar, atravessou a porta e entrou em outra parte da clínica de repouso.

 

Cachorro mau. Não é verdade. Cachorro bom. Bom.

O lugar das comidas é repleto de aromas saborosos, ele não encontra a pista do outro cheiro — o cheiro estranho —- tão rápido quanto gostaria. Mas do outro lado da porta de vaivém há um lugar longo, longo e estreito, com outros lugares que se abrem dos dois lados. Aqui os cheiros que dão fome não são tão pesados.

Montes de outros cheiros, entretanto, na maioria cheiro de gente, na maioria não maravilhosos. Odores pungentes, salgados, odores doces e enjoativos, azedos.

Pinho. Um balde de pinho no lugar longo, longo e estreito. Mais que depressa, ele enfia o nariz no balde de pinho, imaginando como a árvore inteira conseguiu entrar ali, mas não é uma árvore, é só água, água de aparência suja que cheira como um pinheiro, uma floresta de pinheiros, dentro de um balde. Interessante.

Depressa.

Mijo. Sente cheiro de mijo. Mijo de gente. Mijo de diferentes, tipos de gente. Interessante. Dez, vinte, trinta cheiros de mijo diferentes, nenhum realmente forte, mas lá, mijo de muito mais gente do que ele jamais havia cheirado dentro de qualquer lugar. Ele poderia dizer um bocado de coisa a partir do mijo das pessoas, O que elas comeram, o que beberam, onde tinham estado hoje, se cruzaram recentemente, se estão saudáveis ou doentes, com raiva ou felizes, se são boas ou más. A maioria daquelas pessoas não cruzava há muito tempo, e estava doente de um modo ou de outro, algumas muito doentes. Nenhum dos mijos é do tipo divertido de se cheirar.

Sente cheiro de couro de sapato, cera de assoalho, lustra-móveis, rosas velhas, margaridas, tulipas, cravos, limões, dez-vinte-mil tipos de suor, chocolate bom, cocô ruim, poeira, terra úmida num vaso de planta, sabão, spray de cabelo, hortelã, pimenta, sal, cebolas, a ardência de cupins numa parede—dá vontade de espirrar —-, café, metal quente, borracha, papel, aparas de lápis, caramelos, mais pinheiros dentro de um balde, outro cachorro. Interessante. Outro cachorro. Alguém tem um cachorro e traz o cheiro dele nos sapatos, cachorro interessante, fêmea, e os sapatos levam o cheiro por todo o lugar comprido e estreito. Interessante. Há incontáveis odores — seu mundo é feito principalmente de odores —, inclusive aquele cheiro estranho, estranho e ruim, ruim aponto de arreganhar os dentes, inimigo, coisa odiosa, cheirada antes, cheiro de policial, cheiro de lobo, cheiro de coisa-policial-lobo, lá, sentiu de novo, por aqui, por aqui, seguir.

As pessoas o estão caçando porque ele não é daqui. Em toda parte as pessoas acham que você não é do lugar, ainda que você não tenha cheiro tão ruim quanto a maioria das pessoas, mesmo as limpas, e mesmo se você não é tão grande, desajeitado, barulhento e não ocupa tanto espaço quanto as pessoas.

Cachorro mau, diz a mulher, e isso o deixa magoado porque ele gosta da mulher, do garoto, está fazendo isso por eles, descobrindo sobre a coisa-policial-lobo, a coisa ruim com o cheiro estranho.

Cachorro mau. Não é verdade. Cachorro bom. Bom.

Mulher de branco, atravessando uma porta, parecendo surpresa, com cheiro de surpresa, tentando impedi-lo. Rosnado rápido. Ela salta pura trás. Tão fáceis de assustar, as pessoas. 11o fáceis de enganar.

O lugar comprido e estreito chega a outro lugar comprido e estreito. Mais portas, mais odores, amônia e enxofre, e mais tipos de cheiros doentes, mais tipos de mijo. Pessoas vivem aqui e também mijam aqui. Tão estranho. Interessante. Cachorros não mijam onde vivem.

Mulher no lugar estreito, carregando alguma coisa, parece surpresa, cheira a surpresa, diz:

Oh, olha, que bonitinho.

Dar uma balançada de cauda para ela. Por que não? Mas continuar em frente.

Aquele cheiro. Estranho. Odioso. Forte, ficando mais forte.

Uma porta aberta, luz suave, um espaço com uma mulher doente deitada numa cama. Ele entra, subitamente cauteloso, olhando para a esquerda e para a direita, porque esse lugar tem aquele cheiro estranho, de uma coisa ruim. O chão, as paredes, e especialmente a cadeira, onde a coisa ruim ficou sentada. Esteve aqui por longo tempo, mais de uma vez, muitas vezes.

A mulher diz:

Quem está aí?

Ela fede. Cheiro fraco de suor azedo. Doença, mas é mais do que isso. Tristeza. Infelicidade profunda, densa, terrível. E medo. Mais do que qualquer coisa, o cheiro agudo, tempestuoso, ferruginoso de medo.

Quem está aí? Quem é?

Pés correndo no lugar comprido e estreito do lado de fora, pessoas chegando.

Medo tão denso que o odor estranho-ruim é quase bloqueado pelo medo, medo, medo, medo.

Angelina? É você? Angelina?

O cheiro ruim, cheiro da coisa, está ao redor da cama, na cama. A coisa ficou aqui e conversou com a mulher, não faz muito tempo, hoje, tocando-a, tocando o pano branco que está sobre ela. O resíduo vil continua, na cama, rico, maduro, sobre a cama e com a mulher, e interessante, oh, muito-muito interessante.

Ele volta correndo até a porta, vira, corre para a cama, salta, voa, uma pata batendo na grade, mas superando todos os outros obstáculos, acima da mulher doente e encharcada de medo. Plop.

Uma mulher gritou.

Janet nunca receara que Woofer mordesse alguém. Era um cão gentil e amigável, e parecia incapaz de fazer mal — exceto, talvez, à coisa que os atacara no beco, naquele mesmo dia.

Mas quando ela entrou no quarto mal-iluminado, atrás de Angelina, e viu o cachorro na cama da paciente, por um instante pensou que ele estava atacando a mulher. Puxou Danny para trás de si, tentando impedir que ele visse aquela violência, antes de perceber que Woofer apenas cheirava a paciente, escarranchado sobre ela. Cheirando-a, cheirando-a vigorosamente, mas só isso.

— Não!—gritava a inválida.—Não, não! — Ela reagia como se não fosse apenas um cachorro, e sim alguma coisa vinda dos poços mais profundos do inferno para saltar sobre ela.

Janet estava envergonhada e perturbada. Sentia-se responsável e tinha medo das conseqüências. Duvidava que ela e Danny fossem novamente bem-recebidos na cozinha da Pacific View.

A mulher na cama era magra — mais do que magra, devastada — e tão pálida, tão delicadamente brilhante quanto um fantasma à luz da lâmpada. O cabelo era branco e fosco. Parecia antiqüíssima, uma anciã enrugada, mas um certo aspecto indefinível fazia Janet pensar que a pobre alma poderia ser mais jovem do que aparentava.

Obviamente fraca, ela lutava tentando se erguer dos travesseiros e empurrar o cachorro com o braço direito. Ao perceber a chegada dos perseguidores de Woofer, virou à cabeça para a porta. Seu rosto magro deveria ter sido lindo, mas agora era cadavérico e, pelo menos em um aspecto, digno de pesadelo.

Os olhos.

Ela não tinha.

Janet estremeceu involuntariamente — e ficou feliz por ter escondido Danny.

— Tire-o de cima de mim! — a mulher gritou com um terror desproporcional a qualquer ameaça que Woofer pudesse significar. - Tire-o de cima de mim!

A princípio, vislumbradas através das sombras cinza e púrpura, as pálpebras da inválida pareciam meramente fechadas. Mas quando a luz da lâmpada incidiu diretamente sobre seu rosto, o verdadeiro horror de sua condição tornou-se aparente. As pálpebras estavam costuradas como as de um cadáver. O fio cirúrgico sem dúvida se dissolvera há muito tempo, mas as pálpebras superiores e inferiores haviam-se fundido. Nada existia por baixo para sustentá-las, e a pele afundava, deixando concavidades rasas.

Janet teve certeza de que a mulher não nascera sem olhos. Alguma experiência terrível, não-natural, roubara sua visão. Qual seria sido a gravidade dos ferimentos para os médicos chegarem à conclusão de que não era possível instalar olhos de vidro nem mesmo por razões estéticas? A pura intuição revelou a Janet que aquela paciente cega e atrofiada encontrara alguém pior do que Vince, e com sangue mais frio do que os dos pais reptilianos de Janet.

Assim que Angelina e um auxiliar se aproximaram da cama, chamando a cega de "Jennifer" e garantindo que tudo ficaria bem, Woofer saltou para o chão e enganou-os de novo com um movimento imprevisto. Em vez de sair direto para a porta do corredor, entrou no banheiro que era compartilhado com o quarto vizinho e dali disparou para o corredor.

Dessa vez Janet liderou a caçada, segurando a mão de Danny, não somente porque se sentia responsável pelo que acontecera e temia que seu privilégio de comer na Pacific View estivesse em vias de ser cancelado para sempre, mas também porque estava ansiosa para sair do quarto sombrio e atulhado e se afastar da moradora pálida e sem olhos. Dessa vez a perseguição levou-a ao corredor principal, e dali ao hall de entrada.

Janet amaldiçoou-se por ter deixado o vira-lata entrar em suas vidas. O pior nem era a humilhação que ele provocara com a brincadeira, mas toda a atenção que atraía. Tinha medo de atrair atenção. Encolher-se, ficar quieta, permanecer nas sombras da vida era o único meio de reduzir a quantidade de abuso que tinha de sofrer. Além do mais, queria continuar sendo virtualmente transparente aos outros, pelo menos até que o marido morto descansasse durante mais um ou dois anos no deserto do Arizona.

Woofer era rápido demais para eles, mesmo mantendo o nariz no chão e cheirando cada passo do caminho.

A recepcionista da noite era uma jovem hispânica de uniforme branco e usava um rabo-de-cavalo preso por uma fita vermelha. Tendo se levantado da cadeira para verificar a fonte do tumulto que se aproximava, ela avaliou a situação e agiu rápido. Assim que Woofer entrou no hall, foi até a porta da frente, abriu-a e deixou que ele disparasse saindo à rua.

Do lado de fora, sem fôlego, Janet parou na base da escada da frente. A clínica de repouso ficava a leste da rodovia litorânea, numa ladeira com loureiros indianos e cavalinhas nas calçadas. As lâmpadas a vapor de mercúrio lançavam uma luz ligeiramente azulada, Quando uma brisa sacudia os galhos, sombras das folhas dançavam no pavimento,

Woofer estava a cerca de quinze metros, envolto na luz azul, farejando continuamente a calçada, os arbustos, os troncos das árvores, o meio-fio. Experimentava principalmente o ar da noite, aparentemente buscando um cheiro fugidio. A tempestade derrubara centenas de flores vermelhas das cavalinhas que cobriam o pavimento, como colônias de anêmonas mutantes deixadas por um maremoto apocalíptico. Quando as farejava, o cão espirrava. Seu progresso era intermitente e incerto, mas firme em direção ao sul.

—      Woofer! — gritou Danny.

O vira-lata virou-se e olhou para eles.

—      Volte! — implorou Danny.

Woofer hesitou. Depois balançou a cabeça, latiu para o ar e continuou atrás do fantasma que perseguia.

Lutando contra as lágrimas, Danny balbuciou:

—      Eu achei que ele gostava de mim.

As palavras do menino fizeram Janet se arrepender dos xingamentos íntimos que ela despejara contra o cão durante a caçada.

Chamou-o também.

—      Ele vai voltar — falou, procurando tranqüilizar Danny.

—      Não vai.

—      Talvez não agora, mas mais tarde. Amanhã ou depois de amanhã. Ele vai voltar para casa.

A voz do menino saiu trêmula devido à sensação de perda:

—      Como ele pode voltar para casa se a gente não tem casa para ele achar?

—      Temos o carro — disse ela num tom pouco convincente.

Mais do que nunca tinha consciência de que um Dodge velho e enferrujado era uma casa lamentavelmente inadequada. Não poder dar coisa melhor ao filho fez o seu coração pesar a ponto de doer. Sentiu-se perturbada pelo medo, pela raiva, pela frustração. Um desespero tão intenso que a deixou nauseada.

—      Os cachorros têm sentidos mais aguçados do que os nossos

— disse. — Ele vai nos achar. Ele vai nos achar, tenho certeza.

As sombras negras das árvores estremeciam sobre o pavimento, uma antevisão das folhas mortas do outono que logo viria.

O cachorro chegou ao fim do quarteirão e virou a esquina, desaparecendo.

—      Ele vai nos achar—disse ela, mas não acreditou.

Besouros fedorentos. Casca de árvore molhada. Odor viscoso de concreto úmido. Galinha assando num lugar de gente, ali perto. Gerânios, jasmins, folhas mortas. Cheiro mofado-azedo de minhocas escavando a terra ensopada dos jardins. Interessante.

Agora a maioria dos cheiros é cheiros de depois-da-chuva, porque a chuva limpa o mundo e deixa seu próprio cheiro. Mas nem a chuva mais forte pode lavar todos os cheiros antigos, camadas e camadas, dias e semanas de odores deixados por pássaros e insetos, cães e plantas, lagartos, pessoas, vermes, gatos...

Ele capta um cheiro fraco de pêlo de gato e congela. Trinca os dentes, abre as narinas. Fica tenso.

Engraçados os gatos. Ele não os odeia, realmente, mas são tão caçáveis, é tão difícil resistir a eles. Nada mais divertido do que caçar um gato, a não ser talvez um menino jogando uma bola e depois alguma coisa gostosa de comer.

Está quase indo atrás do gato, mas seu focinho queima cor uma velha lembrança de arranhões causados por garras e de um nariz ardendo durante dias. Lembra-se das coisas ruins sobre gatos, como eles se movem depressa, arranham você e depois sobem numa parede ou árvore, onde você não consegue persegui-los. Você fica embaixo latindo, com o nariz ardendo e sangrando sentindo-se estúpido, e o gato lambe o pêlo olhando para você depois se acomoda para dormir, até que finalmente você precisa ir embora, morder um graveto velho ou latir para algumas lagartixa até se sentir melhor.

Fumaça de carro. Jornal molhado. Sapato velho impregnado de cheiro de pé de gente.

Rato morto. Interessante. Rato morto apodrecendo na sarjeta Olhos abertos. Minúsculos dentes à mostra. Interessante. Engraçado como coisas mortas não se mexem. Anão ser que estejam mortas há muito tempo, e então ficam cheias de movimento, mas mesmo assim não são elas, e sim coisas que se mexem nelas. Rato morto, rabo rígido espetado no ar. Interessante.

Coisa-policial-lobo.

Ergue a cabeça e procura o cheiro fraco. Acima de tudo essa coisa tem um cheiro diferente de qualquer criatura que ele já tenha encontrado antes, é o que a torna interessante. Em parte é odor humano, mas só em parte. Também é cheiro de coisa-que-vai-ma-tar-você, que algumas vezes você cheira em pessoas e em alguns cachorros doidos-maus, maiores do que você, e em coiotes e cobras que chocalham. Na verdade tem mais cheiro de coisa-que-vai-ma-tar-você do que qualquer coisa que ele já tenha cheirado, o que significa que deve ter cuidado. Acima de tudo aquilo tem um odorj próprio: parecido mas não-parecido com o mar numa noite fria; parecido, mas não-parecido com uma cerca de ferro num dia! quente; parecido, mas não-parecido com o rato morto e apodrecendo; parecido, mas não-parecido com raio, trovão, aranhas, sangue e buracos escuros no chão, que são interessantes mas assustadores, O cheiro débil é um fio frágil na rica tapeçaria de aromas noturnos, mas ele o acompanha.

 

 

                     O Trabalho Policial e a Vida de Cachorro

                     Vivendo na idade moderna,

                     O salário é a morte virtuosa.

                     É o que parece nas horas negras.

                     O mal domina, a bondade se curva.

 

                     Governados pela violência e pelo vício

                     Estamos todos sobre gelo fino.

                     Somos corajosos ou camundongos,

                     aqui, sobre esse gelo tão fino?

                    Ousamos hesitar, ousamos patinar?

                     Ousamos rir ou celebrar,

                     Sabendo que podemos quebrar o gelo?

                     A qualquer preço preservar o gelo?

                                                          The Book of Counted Sorrows

 

 

                     Quando varrido pela tempestade, abrace o caos.

                                                           The Book of Counted Sorrows

 

 

Pegaram a auto-estrada litorânea porque um caminhão-tanque cheio de nitrogênio líquido tinha virado na junção das rodovias de Costa Mesa e San Diego, transformando-as em estacionamentos. Harry acelerava o Honda, costurando de pista em pista, passando a toda velocidade pelos sinais luminosos amarelos, atravessando os vermelhos quando não havia carros se aproximando pelas transversais, dirigindo mais como Connie de mau humor do que como ele mesmo.

Implacável como um abutre voando em círculos, a danação sombreava todos os seus pensamentos. Na cozinha de Connie ele discursara cheio de confiança sobre a vulnerabilidade de Tique-taque. Mas como o sujeito seria vulnerável se podia rir das balas e das fogueiras?

—      Dou graças por não ser como os personagens de um daqueles filmes—disse Harry. — Eles vêem morcegos imensos voando contra a lua cheia, vítimas cujo sangue desapareceu totalmente, mas continuam dizendo que isso não pode acontecer, que os vampiros

não são reais.

—      Ou como o padre que vê a cabeça da garotinha girar 360 graus, vê a cama levitar e ainda assim não consegue acreditar que há um demônio, por isso consulta livros de psicanálise para diagnosticá-la.

-— Que assunto você acha que ele procura no índice remissivo?

—      Ele vai direto na letra "M", de "Merda Estranha" — respondeu Connie.

Atravessaram uma ponte sobre um canal do porto de Newport. Luzes de casas e barcos brilhavam na água negra.

—      Engraçado — disse Harry. — Você passa a vida pensando que as pessoas que acreditam nessas coisas são idiotas ou lesmas lobotomizadas. Até que acontece uma coisa assim, e instantânea mente você passa a aceitar todo tipo de idéia fantástica. No fundo somos todos selvagens cultuadores da lua, que sabem que o mundo é muito mais estranho do que desejamos acreditar.

—      Não que eu já tenha aceitado sua teoria do super-homem psicótico.

Ele olhou para ela. À luz do painel de instrumentos, seu rosto parecia a escultura de alguma deusa da mitologia grega, moldada em bronze e com patina verde.

—      Se não acredita na minha teoria, você acredita em quê?

Em vez de responder, ela observou:

—      Se você vai dirigir como eu, mantenha os olhos na estrada.

Foi um bom conselho, e ele o aceitou a tempo de evitar a produção de uma tonelada e meia de geléia de Honda contra a parte de trás de um Mercedes pesadão e velhíssimo, dirigido pela avó de Matusalém e com um adesivo no pára-choque onde estava escrito LICENÇA PARA MATAR. Os pneus cantaram quando ele ultrapassou o seda. Enquanto passavam, a venerável dama atrás do volante fez uma careta e um sinal obsceno com o dedo.

—      Nem as avós são mais avós — disse Connie.

—      Se não é a minha teoria, o que é? — insistiu ele.

—      Não sei. Só estou dizendo que, se você vai surfar no caos, é melhor não achar que já conhece todos os padrões das correntes, porque é aí que uma onda grande pode derrubar você.

Durante algum tempo ele ficou pensando no assunto, enquanto dirigia em silêncio.

À esquerda, os hotéis do Newport Center e as torres de escritórios passavam como se eles é que estivessem em movimento, e não o carro, grandes navios iluminados navegando à noite em missões misteriosas. Os gramados e as filas de palmeiras eram de um verde incomum, perfeitos demais para serem de verdade, como um cenário gigantesco. A tempestade recente parecia ter varrido a Califórnia vindo de outra dimensão, deixando para trás um resíduo de magia negra.

—      E seu pai e sua mãe? — perguntou Connie. — Esse cara disse que ia destruir todos que você ama e depois você.

—      Eles estão a centenas de quilômetros costa acima. Estão fora disso.

—      Não sabemos até onde ele pode chegar.

—      Se ele puder ir tão longe, ele é Deus. De qualquer modo, lembre-se do que eu disse. E se esse cara coloca uma etiqueta psíquica na gente? Como os pesquisadores que colocam um badulaque eletrônico num cervo ou num urso para descobrir seus hábitos migratórios. Isso parece correto. Desse jeito é possível que ele não consiga encontrar minha mãe e meu pai antes que eu o leve até eles.

Talvez a única coisa que ele saiba a meu respeito é o que mostrei desde que ele colocou a etiqueta em mim, esta tarde.

—      Então você veio me procurar primeiro porque...

Porque eu amo você?, pensou ele. Mas não disse nada.

Sentiu alívio quando ela jogou o anzol em outro lugar:

—      ...porque nós acabamos com Ordegard juntos. E se esse cara estava controlando Ordegard, ele está quase tão furioso comigo quanto com você.

—      Eu tinha de alertá-la — disse Harry. — Estamos nisso juntos.

Mesmo estando consciente de que ele a examinava com interesse aguçado, ela não disse nada. Fingiu não perceber aquele olhar analítico.

Depois de algum tempo ela disse:

—      Você acha que esse tal de Tique-taque é capaz de sintonizar a gente? Pode nos ouvir, ver, sempre que quiser? Agora, por exemplo?

—      Não sei.

—      Ele não pode saber de tudo, como Deus — disse Connie.

— Então talvez nós sejamos apenas uma luz piscando em seu quadro de rastreamento mental, e ele só possa nos ver e ouvir quando podemos ouvi-lo e vê-lo.

—      Talvez. Provavelmente. Quem sabe?

—      Melhor termos esperança de que seja assim, Porque se ele estiver escutando e vendo o tempo todo, não temos a mínima chance de pegar o filho da puta. No momento em que começarmos a chegar perto, ele vai incendiar a gente do mesmo jeito que incendiou o seu apartamento.

Na rua principal de Corona Del Mar, cheia de lojas, e ao longo da escura costa de Newport, num ponto onde os terrenos estavam sendo preparados para um novo condomínio nos morros diante do oceano, e onde enormes máquinas de terraplenagem pairavam imóveis como monstros pré-históricos dormindo de pé, Harry sentiu alguma coisa se arrastando pela nuca. Ao descer a estrada costeira para Laguna Beach, aquilo ficou pior. Sentiu como se estivesse sendo vigiado do mesmo jeito que um rato é vigiado por um gato.

Mesmo já tendo conhecido dias melhores, Laguna era uma colônia de artistas e uma meca do turismo, ainda famosa pela beleza. Envoltos por luzes douradas e adornados com um manto suave de áreas verdes, os morros serrilhados desciam do leste até a costa do Pacífico, graciosos como uma linda mulher descendo uma escadaria até as ondas. Entretanto, naquela noite, a mulher parecia mais perigosa do que adorável.

 

A casa ficava num penhasco sobre o mar. A parede oeste, de vidro fume, abarcava uma vista primitiva de céu, água e espuma se entrechocando.

Quando Bryan queria dormir durante o dia, cortinas Rolladen operadas por eletricidade desciam para banir o sol. Mas era noite e, enquanto Bryan dormia, as janelas enormes revelavam um céu negro, o mar mais negro ainda e ondas fosforescentes vindo como fileiras de soldados fantasmagóricos em marcha.

Quando dormia, Bryan sempre sonhava.

Ainda que os sonhos da maioria das pessoas fossem em preto e branco, os dele eram coloridos. Na verdade, o espectro de cores em seus sonhos era maior do que na vida real, uma fabulosa variedade de tons e nuances que tornavam cada visão intricada.

Os cômodos em seus sonhos não eram simplesmente vagas sugestões de lugares e as paisagens não eram borrões impressionistas. Cada local era vividamente—e até mesmo exaustivamente— detalhado. Se ele sonhasse com uma floresta, cada folha era adornada com veios, tinha manchas e tonalidades individuais. Se nevava, cada floco era único.

Afinal de contas, ele não era um sonhador como qualquer outro. Era um deus adormecido. Criativo.

Naquela noite de terça-feira os sonhos de Bryan eram, como sempre, recheados de violência e morte. Sua criatividade se expressava melhor em formas imaginativas de destruição.

Ele caminhava pelas ruas de uma cidade fantástica mais labiríntica do que qualquer uma que existisse no mundo real, uma metrópole de torres apinhadas. Quando as crianças olhavam para ele, eram atacadas por uma praga de tamanha virulência que em seus pequenos rostos surgiam instantaneamente massas de pústulas gotejantes e lesões sangrentas partiam sua pele. Quanto Bryan tocava em homens fortes, eles irrompiam em chamas e seus olhos derretiam nas órbitas. Mulheres jovens envelheciam diante dele, encarquilhavam e morriam em segundos, transformadas de objetos de desejo em pilhas de refugo coberto de vermes. Quando ele sorriu para um vendedor parado diante de uma mercearia de esquina, o homem caiu na calçada, encolhendo-se agonizante, e enxames de baratas saíram de seus ouvidos, narinas e boca.

Para Bryan, isso não era um pesadelo. Ele gostava dos sonhos e sempre despertava refrescado e excitado.

As ruas da cidade se transformaram nos incontáveis quartos de um bordel infinito, com uma mulher linda esperando para satisfazê-lo em cada quarto ricamente decorado. Nuas, elas se prostravam diante dele, imploravam para ter a permissão de aliviá-lo, mas ele não se deitava com nenhuma delas. Em vez disso, massacrava cada mulher de um jeito, infinitamente criativo em suas brutalidades, até se encharcar de sangue.

Não estava interessado em sexo. O poder era mais satisfatório do que o sexo jamais poderia ser, e o poder mais satisfatório de todos era o poder de matar.

Nunca se cansava dos gritos implorando piedade. As vozes lembravam os guinchos dos pequenos animais que tinham aprendido a temê-lo quando ele ainda era criança e apenas começara a se Tornar. Nascera para governar o mundo dos sonhos e o mundo real, para ajudar a humanidade a reaprender a humildade perdida.

Acordou.

Durante longos e deliciosos minutos Bryan permaneceu deitado numa confusão de lençóis pretos, tão pálido contra a seda amarrotada como a espuma luminescente contra a crista das ondas quebrando junto à costa abaixo de suas janelas. A euforia daquele sonho sangrento permaneceu por algum tempo e foi imensuravelmente melhor do que a exaltação pós-orgasmo.

Desejou o dia em que poderia brutalizar o mundo real como fazia com o mundo dos sonhos. Elas mereciam a punição, aquelas multidões agitadas. Em sua auto-absorção, haviam presumido arrogantemente que o mundo fora feito para elas, para seu prazer, e tinham-no devastado. Mas ele era o ápice da criação, e não elas. Deviam ser profundamente humilhadas, e seu número reduzido.

Mas ainda era jovem, não tinha controle total de seu poder, ainda estava se Tornando. Ainda não ousava começar o seu destino: a limpeza da terra.

Nu, ele levantou da cama. O ar ligeiramente frio provocava uma sensação gostosa em sua pele.

Além da cama simples, ultramoderna e laqueada de preto, só havia no quarto duas mesinhas-de-cabeceira pretas e luminárias de mármore preto com abajures pretos. Nenhum aparelho de som, nem televisão, nem rádio. Não havia cadeira para relaxar ou ler; livros não lhe interessavam, já que não continham qualquer conhecimento que ele precisasse adquirir e nenhuma diversão equivalente à que ele poderia proporcionar a si próprio. Quando estava criando e manipulando os corpos fantasmagóricos nos quais patrulhava o mundo exterior, preferia ficar na cama, olhando para o teto.

Não tinha relógio. Não precisava. Era tão sintonizado com a mecânica do universo que sempre sabia a hora, o minuto e o segundo. Era parte de seu dom.

Toda a parede diante da cama era espelhada, do chão ao teto. Ele tinha espelhos por toda a casa; gostava do que eles mostravam, a imagem da divindade se Tornando, em toda a sua graça, beleza e poder.

Salvo os espelhos, as paredes eram pintadas de preto. O teto lambem era preto.

Numa estante, as prateleiras laqueadas de preto continham uma enorme quantidade de potes de conserva cheios de formaldeído. Flutuando neles estavam pares de olhos, visíveis a Bryan mesmo na escuridão profunda. Alguns eram olhos de seres humanos: homens, mulheres e crianças que tinham recebido seu julgamento; vários tons de azul, castanho, negro, cinza, verde. Outros eram olhos de animais com os quais ele experimentara seu poder há muitos anos: ratos, gerbos, lagartos, cobras, tartarugas, gatos, cães, pássaros, esquilos, coelhos; alguns possuíam uma luminescência suave mesmo na morte, com brilhos pálidos, vermelhos, amarelos ou verdes.

Olhos votivos. Ofertados por seus súditos. Simbolos do reconhecimento de seu poder, sua superioridade, seu Tornar-se. Em todas as horas do dia e da noite os olhos estavam ali, reconhecendo-o, admirando-o, adorando-o.

Olhai para mim e tremei, disse o Senhor. Porque eu sou a piedade, mas também sou a fúria. Sou o perdão, mas também sou a vingança. E o que jorrar sobre vós, jorrará de mim.

 

A despeito dos exaustores zumbindo, a sala fedia a sangue, bile, gases intestinais e desinfetante adstringente, o que fez Connie franzir o nariz.

Harry borrifou a mão esquerda com purificador de hálito Binaca. Em seguida pôs a mão em concha sobre o nariz, para que a fragrância de norteia bloqueasse ao menos parte do cheiro de morte.

Ofereceu a Connie o frasco de Binaca. Ela hesitou e depois aceitou.

A mulher morta estava nua e arregalada na mesa de aço inoxidável. O legista fizera uma grande incisão em Y no seu abdome, e a maioria dos órgãos fora cuidadosamente removida.

Era uma das vítimas de Ordegard, no restaurante. Seu nome era Laura Kincade. Trinta anos. Tinha sido bonita, quando levantara da cama naquela manhã. Agora era uma figura apavorante, saída da casa dos horrores de um parque de diversões.

As luzes fluorescentes davam um brilho leitoso aos seus olhos, nos quais se refletiam imagens gêmeas do microfone com cabo flexível, de metal segmentado, que estava pendurado acima. Os lábios estavam entreabertos, como se ela estivesse a ponto de sentar-se, falar ao microfone e acrescentar alguns comentários ao registro oficial da autópsia.

O legista e dois assistentes faziam serão, terminando os últimos três exames de Ordegard e suas duas vítimas. Os homens pareciam cansados, tanto física quanto espiritualmente.

Em todos os seus anos na polícia, Connie jamais encontrara um daqueles patologistas durões que apareciam com tanta freqüência nos filmes e na televisão, escavando cadáveres enquanto faziam piadas grosseiras e comiam pizza, intocados pela tragédia dos outros. Pelo contrário. Apesar da necessidade de abordar um trabalho desses com distanciamento profissional, o contato regular com vítimas de crimes violentos sempre cobrava o seu preço, de um modo ou de outro.

Teel Bonner, o legista-chefe, tinha cinqüenta anos, mas parecia mais velho. À dura luz fluorescente seu rosto parecia menos bronzeado do que amarelado, e as bolsas sob os olhos eram suficientemente grandes para carregar a bagagem de um fim de semana.

Bonner parou de cortar para dizer que a fita da autópsia de Ordegard já fora transcrita por um datilografo. A transcrição estava numa pasta sobre a mesa dele, no escritório envidraçado adjacente à sala de dissecação.

— Ainda não escrevi o sumário, mas os fatos estão todos lá.

Connie sentiu-se aliviada ao entrar no escritório e fechar porta. A pequena sala tinha um exaustor próprio e o ar era relativamente puro.

O estofamento de vinil marrom da poltrona estava arranhado, enrugado e manchado pela idade. A mesa padronizada, de metal, n a arranhada e cheia de mordeduras.

Este não era um necrotério de cidade grande, com várias salas de dissecação e um escritório decorado por um profissional destinado a receber repórteres e políticos. Nas cidades menores, a morte violenta em geral ainda era vista com menos glamour do que nas metrópoles maiores.

Harry sentou-se e leu a transcrição da autópsia, enquanto Connie continuava de pé junto à parede de vidro, olhando os três homens reunidos ao redor do cadáver, na outra sala.

A causa da morte de James Ordegard fora três ferimentos por arma de fogo no peito — fato que Connie e Harry já conheciam porque todos os tiros haviam saído da arma dele. Os efeitos das balas incluíam perfuração e colapso do pulmão esquerdo, grandes danos ao intestino grosso, corte nas artérias comuns ilíacas e celíacas, rompimento total da artéria renal, laceração profunda do estômago e do fígado por fragmentos de ossos e chumbo, e um rasgo no músculo do coração, suficiente para causar um colapso cardíaco súbito.

—      Alguma coisa estranha? — perguntou Connie, de costas para ele.

—      Como o quê?

—      Como o quê? Não pergunte a mim. Você é o cara que acha que a possessão deve deixar uma marca.

Na sala de dissecação, os três patologistas trabalhando em Laura Kincade pareciam, de um modo estranho, médicos lutando para salvar a vida de um paciente. As posturas eram as mesmas; apenas o ritmo era outro. Contudo a única coisa que esses homens poderiam preservar era um registro dos meios exatos pelos quais uma bala danificara fatalmente um frágil corpo humano, o como da morte de Laura. Não poderiam começar a responder à pergunta maior: Por quê? Nem James Ordegard e suas motivações deturpadas poderiam explicar por quê; ele era somente outra parte do como. Explicar por que era uma tarefa para sacerdotes e filósofos que diariamente se debatiam desamparados em busca de significado.

—      Eles fizeram uma craniotomia — disse Harry, sentado na cadeira rangente do legista.      

—      E?

—      Nenhum hematoma visível na superfície. Nenhuma quantidade incomum de líquido cerebrospinal, nenhuma indicação de pressão excessiva.

—      Fizeram cerebrotomia? — perguntou ela.    

—      Tenho certeza de que sim. — Ele folheou as páginas da transcrição. — É, está aqui.

—      Tumor cerebral? Abcesso? Lesões?  

Ele ficou quieto durante um longo momento, examinando o relatório. Então:

—      Não, nada do tipo.

—      Hemorragia?

—      Nada anotado.

—      Embolia?

—      Não foi descoberta nenhuma.

—      Glândula pineal?

Algumas vezes a pineal podia se deslocar e sofrer pressão dos tecidos cerebrais ao redor — resultando em alucinações extremamente vividas, algumas vezes em paranóia e comportamento violento. Mas não foi esse o caso com Ordegard.

Olhando a autópsia à distância, Connie pensou na irmã, Colleen, morta há cinco anos ao dar à luz. Parecia que a morte de Colleen não fazia mais sentido que a da pobre Laura Kincade, que cometera o erro de parar para almoçar no restaurante errado.

Afinal de contas, a morte não fazia sentido. A loucura e o caos eram os motores desse universo. Tudo nascia somente para morrer. Onde estavam a lógica e a razão para tudo isso?

—      Nada — disse Harry, largando o relatório sobre a mesa. As molas da cadeira rangeram quando ele ficou de pé. — Nenhuma marca sem explicação no corpo, nenhuma condição fisiológica especial. Se Tique-taque controlava Ordegard, não há nenhuma pista no cadáver.

Connie virou-se de costas para a parede de vidro.

—      E agora?

Teel Bonner abriu a gaveta do necrotério.

O corpo nu de James Ordegard estava lá. Sua pele branca tinha um tom azulado em algumas partes. Pontos com fio preto haviam sido usados para fechar as grandes incisões da autópsia.

A cara de lua. O rigor mortis abrira seus lábios num sorriso torto. Pelo menos os olhos estavam fechados.

—      O que você queria ver? — perguntou Bonner.

—      Se ele ainda estava aqui — respondeu Harry.

O legista olhou para Connie.

—      E onde mais ele estaria?

 

O piso do quarto era coberto por ladrilhos de cerâmica pretos. Em alguns pontos brilhava como água ondulante, com fracos reflexos da luz que vinha da noite além das janelas. Estava frio sob os pés de Bryan.

Enquanto ele andava até a parede de vidro diante do oceano, os enormes espelhos refletiam preto sobre preto, e sua forma nua deslizava como um espectro de fumaça através das camadas de sombras.

Parou junto à janela, olhando o mar de breu e o céu de piche. A paisagem de ébano só era aliviada pelas cristas das ondas e pelos retalhos de gelo nas barrigas das nuvens. O gelo era um reflexo das luzes de Laguna Beach, que ficava atrás dele. Sua casa se localizava num dos pontos mais ocidentais da cidade.

A vista era perfeita e serena porque estava ausente o elemento humano. Nenhum homem, mulher ou criança, nenhuma estrutura, máquina ou artefato se intrometia. Quieto, escuro. Limpo.

Ele desejava erradicar de grandes porções da Terra a humanidade e todas as suas obras, restringir as pessoas a reservas escolhidas. Mas ainda não tinha controle total sobre o seu poder, ainda estava se Tornando.

Baixou o olhar do céu e do mar para a praia clara aos pés do penhasco.

Encostando a testa no vidro, imaginou vida—e, ao imaginá-la, criou-a. Em meio às ervas logo acima da linha de maré, a areia começou a estremecer. Cresceu, formando um cone do tamanho de um homem—e depois se tornou um homem. O vagabundo. O rosto cheio de cicatrizes. Olhos reptilianos.

Essa pessoa jamais existira. O mendigo era estritamente uma criatura da imaginação de Bryan. Através dessa e de outras construções, Bryan podia percorrer o mundo sem correr perigo.

Ainda que seus corpos fantasmagóricos pudessem levar tiros, queimar e ser esmagados sem lhe causar mal, seu corpo verdadeiro era lamentavelmente vulnerável. Quando cortado, sangrava. Quando golpeado, criava hematomas. Ele presumia que, ao se Tornar, a invulnerabilidade e a imortalidade seriam os últimos dons que receberia, assinalando sua Ascensão à divindade—o que o deixava ansioso por realizar sua missão.

Agora, deixando apenas parte da consciência no corpo real, transportou-se para o vagabundo na praia noturna. De dentro daquela enorme figura olhou para sua casa sobre o penhasco. Viu seu próprio corpo despido junto à janela, olhando para baixo.

No folclore judaico havia uma criatura chamada golem. Feita de barro em forma de homem, dotado de uma espécie de vida, era geralmente um instrumento de vingança.

Bryan podia criar uma infinita variedade de golems, e através deles espreitar sua presa, reduzir o rebanho, policiar o mundo. No entanto, não podia entrar nos corpos de pessoas reais e controlar suas mentes, o que ele teria gostado de fazer. Talvez um dia viesse a ter esse poder também, quando finalmente se Tornasse.

Retirou sua consciência do golem na praia e, olhando-o da janela alta, fez com que ele mudasse de forma. A coisa triplicou de tamanho, assumiu uma forma reptiliana e desenvolveu imensas asas membranosas.

Algumas vezes um efeito podia ir além do que ele pretendia, adquiria vida própria e resistia aos seus esforços de contenção. Por isso vivia treinando, refinando suas técnicas e exercitando o poder, para reforçá-lo.

Uma vez criara um golem inspirado no filme Alien, o Oitavo Passageiro, e o usara com o objetivo de atacar os mendigos num acampamento de sem-tetos sob um viaduto em Los Angeles. Sua intenção fora matar dois deles, rápido como um raio, e deixar os outros com a lembrança de seu poder e de seu julgamento impiedoso. Mas ficou excitado com o terror abjeto que eles demonstraram à manifestação inexplicável daquele monstro cinematográfico. Delirou ao sentir suas garras rasgando carnes, o calor do sangue jorrando, o cheiro quente de entranhas sendo arrancadas, o estalar de ossos frágeis como pedaços de giz em suas mãos monstruosas. A princípio os gritos das vítimas eram de um agudo cortante, mas se tornaram fracos, trêmulos, eróticos; eles cederam suas vidas como amantes teriam cedido, tão exaustos pela intensidade da paixão que sucumbiram em meio a suspiros, sussurros, estremecimentos. Por alguns minutos ele foi a criatura que havia criado, cheio de dentes e garras de navalha, a coluna cheia de espinhos e a cauda de chicote, esquecido do corpo real em que sua mente repousava de fato. Ao recuperar os sentidos descobriu que matara todos os dez homens sob o viaduto, e estava num abatedouro cheio de sangue, torsos eviscerados, cabeças e membros decepados.

Não ficara chocado ou intimidado pelo grau de violência que provocara — e sim por ter chacinado todos num frenesi insensato. Aprender a se controlar era vital, caso quisesse realizar sua missão e se Tornar.

Usara o poder de pirocinésia para incendiar os corpos, envolvendo-os em labaredas tão intensas que até mesmo os ossos foram vaporizados. Sempre desaparecia com os objetos de sua prática, porque não queria que as pessoas comuns soubessem que ele andava em seu meio, pelo menos não antes de seu poder ser aperfeiçoado e sua vulnerabilidade superada.

Era também por esse motivo que por enquanto ele focalizava sua atenção principalmente em pessoas de rua. Caso fossem denunciar que estavam sendo vítimas de um demônio que podia mudar de forma à vontade, suas queixas seriam desconsideradas como loucuras de perdedores mentalmente desarranjados pelo vício do álcool e das drogas. Além disso, quando sumiam da face da terra, ninguém se importava nem tentava descobrir o que lhes acontecera.

Entretanto, dentro de pouco tempo ele poderia levar o terror sagrado e o julgamento divino às pessoas de todas as camadas da sociedade.

Por isso treinava.

Como um mágico desenvolvendo sua destreza.

Controle. Controle.

Na praia, a forma alada saltou da areia de onde nascera. Bateu asas na noite, como uma gárgula vadia retornando ao parapeito de uma catedral. Pairou diante da janela, olhando para dentro com olhos amarelos e luminosos.

Apesar de ser uma coisa sem cérebro até que Bryan projetasse parte de si próprio dentro dele, o pterodáctilo era uma criação impressionante. Suas imensas asas coriáceas atravessavam o ar de modo fluido e pairavam facilmente nas correntes ascendentes junto ao penhasco.

Bryan tinha consciência dos olhos nos frascos, às suas costas, Olhando. Vigiando-o, atônitos, admirando, adorando.

— Desapareça — disse ao pterodáctilo, fazendo cena para a platéia.

O réptil alado transformou-se em areia e choveu sobre a praia embaixo.

Chega de brincadeira. Tinha trabalho a fazer.

 

O Honda de Harry estava estacionado perto do prédio municipal, sob a luz de um poste.

Mariposas de início de primavera, surgidas depois da chuva, voejavam ao redor da lâmpada. Suas sombras enormes e distorcidas brincavam sobre o carro.

Enquanto atravessava a rua junto com Harry, na direção do Honda, Connie disse:

—      A mesma pergunta: e agora?

—      Quero ir até a casa de Ordegard dar uma olhada.

—      Para quê?

—      Não imagino. Mas é a única outra coisa em que consigo pensar. A não ser que você tenha alguma idéia.

—      Gostaria de ter.

Enquanto se aproximavam do carro, ela viu alguma coisa balançando, pendurada no retrovisor interno. Era retangular e brilhava suavemente por trás das sombras de mariposas que dançavam sobre o pára-brisa. Não se lembrava de ter visto nenhum purificador de ar ou ornamento preso ao espelho.

Foi a primeira a entrar no carro e a olhar de perto o retângulo prateado. Inicialmente não percebeu o que era. Segurou-o, virou-o na direção da luz e viu que era uma fivela feita a mão, adornada com motivos do sudoeste.

Harry sentou-se atrás do volante, bateu a porta, e viu o que ela segurava.

— Ah, meu Deus! — exclamou. — Ah, meu Deus, Ricky

Estefan.

 

A maior parte das rosas levara uma surra da chuva, mas algumas flores tinham atravessado intactas a tempestade, Balançavam delicadamente à brisa noturna. As pétalas captavam a luz que atravessava as janelas da cozinha e pareciam ampliá-la, brilhando como se fossem radiativas.

Ricky estava sentado à mesa da cozinha, da qual retirara as ferramentas e os projetos atuais. Terminara de jantar há mais de uma hora, e desde então vinha tomando vinho. Queria ficar meio tonto.

Antes de levar os tiros ele não bebia muito, mas quando queria beber preferia tequila com cerveja. Um gole de Sauza e uma garrafa de Tecate eram o máximo de sofisticação que ele se permitia. Mas depois de todas as cirurgias abdominais um simples trago de Sauza — ou de qualquer outra bebida destilada — causava-lhe uma azia intensa e uma dor de estômago que durava boa parte do dia. mesmo ocorria com a cerveja.

Descobriu que conseguia se dar bem com licores, mas ficar bêbado com Baileys Irish Cream, creme de menta ou Midori exigia a ingestão de tanto açúcar que seus dentes apodreceriam muito antes de conseguir provocar qualquer dano ao fígado. Os vinhos comuns também não desciam muito bem, mas o do Porto mostrou-se a coisa certa, suficientemente doce para acalentar suas entranhas delicadas, mas não tão doce a ponto de induzir diabete.

Um bom porto era sua única condescendência. Bem, um bom porto e um pouquinho de autopiedade de vez em quando.

Olhando as rosas dançarem na noite, algumas vezes conduzia o foco do olhar para um ponto mais próximo e observava seu reflexo na janela. Era um espelho imperfeito, revelando uma contrafação incolor e transparente como um espírito mal-assombrado; mas talvez fosse um reflexo preciso, porque ele não passava de um fantasma de seu eu anterior. De certo modo, já estava morto.

Uma garrafa de Taylor's jazia sobre a mesa. Ele tornou a encher o cálice de porto e tomou um gole.

Algumas vezes, como agora, era difícil acreditar que o rosto na janela fosse realmente seu. Antes de levar os tiros, ele fora um sujeito feliz, raramente dado a introspecções problemáticas, jamais taciturno. Mesmo durante a fase de recuperação e reabilitação ele mantivera um senso de humor, um otimismo com relação ao futuro que nenhuma quantidade de dor pôde escurecer totalmente.

Seu rosto só se tornara o rosto da janela depois que Anita partiu. Mais de dois anos depois ele ainda tinha dificuldade para acreditar que ela se fora — ou para imaginar o que fazer quanto à solidão que o destruía com mais convicção do que as balas jamais teriam conseguido.

Ao erguer o cálice, Ricky sentiu que havia alguma coisa errada no exato instante em que o encostou à boca. Talvez tivesse registrado subconscientemente a falta do aroma de vinho do Porto—ou o leve mau cheiro que o substituíra. No momento em que estava para virar o cálice nos lábios, viu o que ele continha: duas ou três minhocas gordas e entrelaçadas, vivas e deslizando úmidas e langorosas.

Com o susto, ele gritou, e o cálice escorregou de seus dedos. Como só caiu alguns centímetros até bater contra a mesa, o vidro não se partiu. Mas, quando virou, as minhocas escorriram para o tampo de pinho lustroso.

Ricky empurrou a cadeira para trás, piscando furiosamente... e as minhocas desapareceram.

Vinho derramado brilhava sobre a mesa.

Parou no movimento de ficar de pé, as mãos nos braços da cadeira, olhando incrédulo para a poça de porto vermelho-rubi.

Tinha certeza de que vira as minhocas. Não estava imaginando coisas. Não estava bêbado. Diabo, ele nem mesmo começara a sentir o efeito do porto.

Voltando a sentar-se, fechou os olhos. Esperou um segundo, dois. Olhou. O vinho continuava brilhando sobre a mesa.

Tocou a poça de vinho com o indicador, hesitante. Era molhado, real. Esfregou o polegar no indicador, espalhando a gota de vinho sobre a pele.

Checou a garrafa de Taylor's para certificar-se de que não bebera mais do que tinha pensado. Era escura, de modo que ele precisou virá-la contra a luz para conferir o nível de líquido. Aquela era uma garrafa nova, e a linha do porto estava logo abaixo do gargalo. Ele só colocara as duas doses.

Surpreso — não só tanto pela incapacidade de descobrir uma explicação, mas pelo que acontecera —, Ricky foi até a pia, abriu o armário e pegou o esfregão úmido no suporte atrás da porta. Voltou à mesa e enxugou o vinho derramado.

Suas mãos tremiam.

Sentia raiva de si próprio por ter se amedrontado, ainda que a fonte do medo fosse compreensível. Preocupava-se com a possibilidade de ter sofrido o que os médicos chamavam de "pequeno incidente cerebral", um ligeiro ataque do qual a rápida alucinação com as minhocas fosse o único sinal. Durante sua longa hospitalização, ele temera um ataque mais do que qualquer coisa.

O desenvolvimento de coágulos nas pernas, e ao longo das suturas nas veias e artérias danificadas, era um efeito colateral potencialmente perigoso, fruto das grandes cirurgias abdominais que sofrerá e do longo repouso que viera em seguida. Se um daqueles coágulos se soltasse e viajasse até o coração, poderia causar morte súbita. Se, era vez disso, viajasse até o cérebro, obstruindo a circulação, o resultado poderia ser paralisia total ou parcial, cegueira, perda da fala e a terrível destruição da capacidade intelectual. Os médicos haviam-no tratado para inibir os coágulos, e as enfermeiras tinham-no submetido a um programa de exercícios passivos, mesmo quando ele precisava ficar deitado de costas. Mas não houvera um único dia, durante sua longa recuperação, em que ele não se preocupasse com a possibilidade de se descobrir súbita mente incapaz de se locomover ou falar, sem saber onde estava, incapaz de reconhecer a esposa ou o próprio nome.

Naquela época, pelo menos, ele tivera o conforto de saber que, independentemente do que acontecesse, Anita estava ali para cuidar dele. Agora não havia ninguém. Teria de enfrentar sozinho a adversidade. Se fosse silenciado e aleijado por um ataque, ficaria à mercê de estranhos.

Ainda que o seu medo fosse compreensível, ele percebia que até certo ponto era um temor irracional. Estava curado. Tinha suas cicatrizes, claro, e sua provação deixara-o minguado. Entretanto, não era mais doente do que a média das pessoas e provavelmente era mais saudável do que muitas. Mais de dois anos haviam-se passado desde a cirurgia mais recente. Suas chances de sofrer embolia cerebral eram as mesmas de qualquer homem da sua idade, 36 anos. Homens dessa faixa etária raramente sofriam de ataques debilitadores. Estatisticamente, era mais provável que ele morresse num acidente de trânsito, de um ataque cardíaco, vítima de um crime violento ou quem sabe até mesmo pela queda de um raio.

O que temia não era tanto a paralisia, a afasia, a cegueira ou qualquer outro problema físico. O que o apavorava de fato era ficar só, e a estranheza das minhocas deixara-o impressionado com o tamanho da solidão que sentiria se acontecesse algo do gênero.           Determinado a não se deixar dominar pelo medo, Ricky pôs de lado o esfregão manchado de vinho e levantou o cálice virado. Sentaria diante de outra dose e pensaria a respeito. Depois de refletir, a resposta seria óbvia. Havia uma explicação para as minhocas. Talvez um truque de luz que poderia ser repetido segurando o copo assim ou assado, virando-o um pouco, recriando as circunstâncias exatas da ilusão.

Pegou a garrafa de Taylor's e virou-a sobre o cálice. Por um instante, mesmo tendo-a segurado há pouco diante da luz para checar o nível de vinho, esperou que derramasse novelos de minhocas entrelaçadas. Só porto.

Pousou a garrafa e ergueu o cálice. Enquanto o levava aos lábios, hesitou. Pensar em beber num copo que contivera minhocas escorregadias que transpiravam um muco frio o fazia sentir repulsa.

Sua mão tremia de novo, a testa subitamente ficou úmida de suor, e ele ficou furioso por ser tão idiota. O vinho batia contra a parede do cálice, brilhando como jóia líquida.

Trouxe-o aos lábios, tomou um pequeno gole. O gosto era doce e puro. Tomou outro. Delicioso.

Um riso baixo e trêmulo escapou de sua boca.

— Babaca—falou, sentindo-se melhor ao zombar de si próprio.

Julgando que um pouco de castanhas ou de biscoitos salgadi-nhos cairiam bem com o vinho do Porto, pousou o copo e foi até o armário onde guardava latas de amêndoas torradas, castanhas mistas e pacotes de salgadinhos de queijo. Quando abriu a porta, o armário pululava de tarântulas.

Mais rápido e mais ágil do que estivera em anos, Ricky se afastou do armário aberto, batendo contra a bancada atrás dele.

Seis ou oito aranhas gigantescas escalavam latas de amêndoas Blue Diamond e castanhas Planter, explorando as caixas de salgadinhos Che-Cri. Eram ainda maiores do que deveriam ser as tarântulas, maiores do que cantalupos, habitantes irrequietas dos piores pesadelos de um araenófobo.

Ele fechou os olhos com força. Abriu-os. As aranhas continuavam lá.

Acima das batidas de seu próprio coração e da respiração ofegante, ele podia ouvir as pernas peludas das tarântulas arranhando o celofane dos pacotes de salgadinhos. O tic-tic-tic quitinoso das patas e mandíbulas contra as pilhas de latas. Um som sibilante, baixo e maligno.

Mas logo percebeu que estava captando mal a origem dos sons.

Os ruídos não vinham do armário aberto, e sim dos outros, que ficavam acima e atrás dele.

Olhou por sobre o ombro, para as portas de pinho, atrás das quais deveria haver somente pratos e tigelas, xícaras e pires. Elas estavam sendo forçadas para fora por alguma coisa que se expandia, um centímetro, dois centímetros. Antes que Ricky pudesse se mexer, as portas dos armários se abriram. Uma avalanche de cobras cascateou sobre sua cabeça e seus ombros.

Gritando, ele tentou correr. Escorregou no tapete cheio de serpentes que se contorciam e caiu entre elas.

Cobras finas como chicotes, cobras grossas e musculosas, cobras pretas e verdes, amarelas e marrons, lisas e estampadas, de olhos vermelhos, de olhos amarelos, algumas com capuzes como najas, atentas e risonhas, línguas bifurcadas, sibilando, sibilando. Tinha de estar sonhando. Alucinando. Uma cobra negra, com pelo menos l,20m, picou-o, ah, meu Deus, nas costas da mão esquerda, afundando as presas, sangue brotando, e mesmo assim devia ser um sonho, pesadelo, com exceção da dor.

Ele nunca sentira dor num sonho, e certamente não daquele jeito. Uma ardência aguda envolveu sua mão esquerda, e depois uma agonia ainda mais penetrante atravessou seu punho como uma corrente elétrica, subindo pelo braço até o cotovelo.

Não era sonho. Estava acontecendo. De algum modo. Mas de onde elas tinham vindo? De onde?

Estavam todas deslizando sobre ele, sessenta, oitenta. Outra atacou-o, afundou as presas através da manga de sua camisa e picou seu braço esquerdo, triplicando a dor. Outra mordeu através da meia, dentes rasgando seu tornozelo.

Lutou para ficar de pé, e a serpente que picara seu braço caiu, bem como a que estava em seu tornozelo, mas a que cravara as presas em sua mão esquerda permanecia firme, como se estivesse grampeada nele. Agarrou-a, tentou desprendê-la de sua mão. O relâmpago de dor foi tão intenso, fervente, que ele quase desmaiou, mas a serpente continuava presa à mão ensangüentada.

Um tumulto de cobras sibilava e se enroscava à sua volta. Ele não viu nem ouviu nenhuma cascavel. Conhecia muito pouco para identificar outras espécies, não tinha certeza de quais seriam venenosas, nem mesmo se alguma delas era venenosa, inclusive aquelas que já o haviam picado. Venenosas ou não, outras iriam picá-lo se ele não se mexesse rápido.

Agarrou um cutelo de carne num suporte de facas na parede. Quando bateu com o braço esquerdo sobre a bancada mais próxima, a serpente negra se esticou sobre os ladrilhos do tampo. Ricky levantou o cutelo bem alto, desceu-o, decepou a serpente, e a lâmina de aço ressoou na superfície de cerâmica.

A cabeça de aparência odiosa continuava presa em sua mão, com apenas alguns centímetros do corpo negro, e os olhos brilhantes pareciam observá-lo, vivos. Ricky largou o cutelo e tentou abrir a boca da serpente, arrancar de sua carne os dentes curvos e longos.

Gritou e xingou, furioso de dor, continuou lutando, mas inutilmente.

As cobras sobre o chão se agitaram com seus gritos.

Correu na direção da arcada entre a cozinha e o corredor, chutando as cobras para fora do caminho antes que elas pudessem picá-lo. Algumas já tinham armado o bote, e atacaram, mas suas calças largas de brim evitaram as picadas.

Teve medo de que elas deslizassem sobre os sapatos, entrassem sob uma bainha e subissem por uma de suas pernas. Mas chegou ao corredor em segurança.

As cobras estavam atrás dele e não o perseguiam. Duas tarântulas haviam caído do armário dentro do pesadelo herpeto-lógico, e as serpentes duelavam por elas. Pernas aracnídeas, agitando-se freneticamente, desapareceram sob escamas onduladas.

Tump!

Ricky saltou de surpresa.

Tump!

Até agora ele não associara o estranho ruído, que o incomodara mais cedo com as aranhas e as cobras.

Tump!

Tump!

Alguém estivera brincando com ele, mas isso não era mais brincadeira. Era mortalmente sério. Impossível, fantástico como um sonho, mas sério.

Tump!

Ricky não identificou a fonte do ruído, nem mesmo podia dizer com certeza se vinha de cima ou de baixo. Janelas reverberavam, e os ecos de cada pancada vibravam nas paredes. Sentia que algo estava chegando, pior do que cobras ou aranhas, algo que ele não queria enfrentar.

Ofegando, e com a cabeça da serpente negra ainda pendurada em sua mão esquerda, Ricky afastou-se da cozinha em direção à porta da frente, no fim do corredor.

Picado duas vezes, seu braço latejava terrivelmente a cada pancada do coração que batia acelerado. Não era bom, meu Deus, um coração descompassado espalhava mais depressa o veneno, se houvesse algum. O que ele tinha de fazer era ficar calmo, respirar fundo, andar em vez de correr, ir até a casa de um vizinho, ligar para o 911 e conseguir atendimento médico.

TUMP!

Poderia ter usado o telefone do quarto, mas não queria entrar lá. Não confiava mais em sua própria casa, o que era loucura, sim, piração, mas ele sentia que o lugar adquirira vida e se voltara contra ele.

TUMP, TUMP, TUMP!

A casa se sacudia como se cavalgasse as costas de um terremoto, quase derrubando-o. Ricky tropeçou de lado, batendo contra a parede.

A estátua de cerâmica da Virgem Santa caiu da mesa do corredor, que ele transformara num altar como todos os altares que sua mãe mantivera em casa. Desde que levara os tiros, ele fora reduzido pelo medo à armadura que a mãe escolhera contra as crueldades do mundo. A estatueta bateu no chão e se despedaçou aos seus pés.

O grosso vidro vermelho que continha a vela balançou sobre a mesa, projetando sombras de duendes dançantes na parede e no teto.

TUMPTUMPTUMPTUMPTUMP!

Ricky estava a dois passos da porta da frente quando o piso de carvalho estalou de modo sinistro, foi forçado para cima e partiu-se com um barulho quase tão alto quanto o de um trovão. Ele tropeçou e caiu para trás.

Alguma coisa rompera o piso como se ele fosse uma casca de ovo. Por um instante a tempestade de poeira, lascas e tábuas quebradas tornou impossível enxergar o que nascera no corredor.

Então Ricky viu um homem no buraco, pés plantados na terra cerca de quarenta centímetros sob o piso da casa. Embora estivesse mima superfície abaixo de Ricky, o sujeito se agigantava acima dele, imenso e ameaçador. Seus cabelos despenteados e as partes visíveis do rosto eram grosseiramente cheias de cicatrizes. A capa preta, de chuva, se agitava como um manto ao seu redor, enquanto um vento soprava do pequeno espaço, subindo por entre as tábuas partidas.

Ricky sabia que aquele era o vagabundo que surgira diante de Larry vindo de um redemoinho. Tudo nele se adaptava à descrição — menos os olhos.

Ao vislumbrar aqueles olhos grotescos Ricky congelou em meio aos fragmentos da Virgem Santa, paralisado pelo medo e pela certeza de que estava louco. Mesmo se continuasse recuando ou se virasse e tentasse correr para a porta dos fundos, não teria escapado, porque o vagabundo saiu da cova e pisou no corredor mais rápido do que qualquer serpente ao dar o bote. Pegou Ricky, levantou-o do chão com uma força tão sobre-humana que qualquer resistência era inútil, e bateu-o contra a parede com violência suficiente para quebrar o reboco e a sua coluna vertebral.

Cara a cara, varrido pela respiração fétida do vagabundo, Ricky encarou aqueles olhos e ficou aterrorizado demais para gritar. Não eram os poços de sangue que Harry descrevera. Na verdade não eram realmente olhos. Aninhadas nas órbitas profundas estavam duas cabeças de serpentes, com dois pequenos olhos amarelos em cada uma, línguas bifurcadas se enrascando.

Por que eu?, perguntou-se Ricky.

Como se fossem dois palhaços saltando de dentro de uma caixa de surpresa, as cobras pularam das órbitas do vagabundo e picaram o rosto de Ricky.

 

Entre Laguna Beach e Dana Point, Harry dirigiu tão rápido que até mesmo Connie, amante da velocidade e dos riscos, teve de se segurar, emitindo ruídos de perplexidade quando ele fazia algumas curvas muito fechadas. Estavam no carro dele, e não num seda do departamento. Não havia uma luz de emergência para colocar no teto. Também não havia sirene, mas às dez e meia da noite de uma terça-feira a auto-estrada costeira não tinha muito trânsito, e ele conseguia abrir caminho apenas socando a buzina e piscando os faróis.

—      Talvez devêssemos ligar para o Ricky, avisá-lo—disse ela, quando ainda estavam ao sul de Laguna.

—      Não tenho telefone no carro.

—      Pare num posto de gasolina, numa loja, em algum lugar.

—      Não posso perder tempo. De qualquer maneira, adio que o telefonema não ia adiantar.

—      Por que não?

—      A não ser que Tique-taque queira que ele adiante.

Subiram um morro, fizeram uma curva depressa demais. Os pneus traseiros escavaram cascalho do acostamento e o atiraram contra o fundo do carro e o tanque de gasolina. A extremidade direita do pára-choque traseiro beijou uma barreira de proteção, e logo eles voltavam à estrada, disparando sem ter freado.

—      Então vamos chamar a polícia de Dana Point — disse ela.

—      Do jeito que estamos indo, se não pararmos para ligar, estaremos lá antes deles poderem chegar.

—      Poderíamos pedir reforços,

—      Não vamos precisar de reforços se chegarmos atrasados demais e Ricky estiver morto.

Harry estava nauseado de tanta apreensão e furioso consigo mesmo. Pusera Ricky em perigo ao visitá-lo. Naquela ocasião não poderia saber dos riscos a que estava expondo o velho amigo, mas depois, quando Tique-taque prometera primeiro tudo e todos que você ama, deveria ter percebido que Ricky era um dos alvos.

Algumas vezes era difícil para um homem admitir que amava outro homem, mesmo de modo fraternal. Ele e Ricky Estefan unham sido parceiros, tinham passado por dificuldades juntos. Ainda eram amigos e Harry o amava. Simples. Mas a tradição americana da autoconfiança machista tornava difícil admitir isso.

Babaquice, pensou Harry irritado.

A verdade é que ele achava difícil admitir que amava qualquer pessoa, homem ou mulher, até mesmo seus pais, porque o amor era uma coisa muito complicada. Implicava obrigações, compromissos, envolvimentos, troca de emoções. Quando você admitia que amava pessoas, tinha de deixá-las entrar mais profundamente em sua vida, e elas traziam todos os seus hábitos confusos, seus gostos promíscuos, suas opiniões turvas e suas atitudes desorganizadas.

Enquanto disparavam atravessando o limite da cidade de Dana Point, com o amortecedor batendo contra um calombo na estrada, Harry falou:

—      Meu Deus, algumas vezes sou um idiota.

—      Diga alguma coisa que eu não saiba — disse Connie.

—      Um espécime realmente ferrado.

—      Ainda estamos em território familiar.

Ele só tinha uma desculpa para não ter percebido que Ricky iria se tornar um alvo: desde o incêndio em seu apartamento, há menos de três horas, ele estivera reagindo em vez de agir. Não tivera outra opção. Os eventos haviam ocorrido tão depressa, e eram tão fantásticos — um pedaço de estranheza empilhado sobre o outro — que ele não tivera tempo de pensar. Uma desculpa fraca, mas Harry agarrou-se a ela.

Ainda nem sabia como pensar numa merda estranha como aquela. O raciocínio dedutivo, a ferramenta mais útil de todo detetive, era inadequado para enfrentar o sobrenatural. Ele estivera tentando o raciocínio indutivo, através do qual chegara à teoria do sociopata com poderes paranormais. Mas não era bom nisso porque, para ele, o raciocínio indutivo parecia a coisa mais próxima da intuição, e a intuição não era lógica. Gostava de evidências físicas, de premissas sólidas, deduções lógicas e conclusões claras amarradas com laços de fitas.

Enquanto viravam a esquina da rua de Ricky, Connie disse:

— Que diabo...?

Harry virou a cabeça na direção dela.

Connie estava olhando para a própria mão em concha.

—      O que é? — perguntou ele. .

Havia alguma coisa aninhada em sua mão. Com a voz abalada, ela disse:

—      Eu não estava com isso há um segundo, de onde esse negócio veio?

—      O que é?

Ela ergueu a mão para que ele visse, enquanto o carro se aproximava de um poste de luz diante da casa de Ricky. A cabeça! de uma estatueta de cerâmica. Quebrada no pescoço.

Raspando os pneus no meio-fio, Harry parou bruscamente, e o cinto de segurança tensionou-se contra seu peito.

—      Foi como se minha mão se fechasse à força, num espasmo —disse ela.—E essa coisa estava dentro, vinda do nada, pelo amor de Deus!

Harry reconheceu o objeto. A cabeça da Virgem Maria que estivera no centro do altar, na mesa do corredor de Ricky Estefan.

Assolado por negras expectativas, Harry escancarou a porta e saiu do carro. Pegou o revólver.

A rua estava tranqüila. Luzes brilhavam cálidas na maioria das casas, inclusive na de Ricky. A música do aparelho de som de um vizinho pairava no ar fresco, tão fraca que ele não conseguia identificar a canção. A brisa sussurrava fazendo bater levemente as folhas da grande tamareira no quintal de Ricky.

Não há nada com que se preocupar, a brisa parecia dizer. Tudo está calmo, tudo está bem neste lugar.

Mesmo assim ele manteve o revólver na mão.

Correu pelo caminho da frente, atravessando as sombras noturnas das palmeiras em direção à varanda franjada de buganvílias. Tinha consciência de que Connie vinha atrás, e que ela também pegara sua arma.

Que Ricky esteja vivo, Harry pensava com fervor, por favor, que ele esteja vivo.

Era o mais próximo que chegava de uma oração em muitos anos.

Por trás da tela, a porta da frente estava aberta. Uma tira estreita de luz projetava o padrão da tela no chão da varanda.

Apesar de acreditar que ninguém percebia seu medo — e teria se sentido mortificado se soubesse que ele era tão óbvio —, Ricky era obcecado com segurança desde que levara os tiros. Sempre mantinha tudo trancado. Uma porta aberta, mesmo alguns centímetros, era mau sinal.

Harry tentou examinar o hall de entrada olhando entre a porta c o batente. Com a porta de tela no caminho, não pôde chegar perto da fenda para ver o bastante.

Cortinas bloqueavam as janelas dos lados da porta. Estavam bem fechadas cruzando-se no centro. Harry olhou para Connie. Com o revólver, ela indicou a porta da frente. Normalmente os dois teriam se separado, Connie dando a volta para cobrir os fundos enquanto Harry tomava a dianteira. Mas não estavam tentando impedir que o criminoso fugisse. Aquele era um sacana que não podia ser encostado num canto, dominado e algemado. Estavam apenas tentanto ficar vivos—e manter Ricky vivo, se já não fosse tarde demais.           Harry assentiu e abriu cautelosamente a porta de tela. Dobradiças rangeram. A mola que mantinha a porta fechada cantou uma nota longa, como um inseto de pântano.

Esperava não fazer barulho, mas quando a porta externa o denunciou, pôs uma das mãos sobre a porta de dentro e empurrou-a, pensando em entrar abaixado e rápido. Ela girou para a direita, e Harry meteu o ombro pela abertura. A porta bateu contra alguma coisa e parou antes que houvesse espaço suficiente. Ele empurrou. Estalo. Raspão. Um barulho alto. A porta se abriu por completo, e Harry entrou com tamanha violência que quase mergulhou no buraco no piso do corredor.

Lembrou-se do corredor despedaçado no prédio em Laguna, em cima do restaurante. No entanto, se uma granada causara aquele dano, ela só poderia ter explodido no espaço exíguo embaixo do bangalô. A explosão lançara para cima barrotes, isolamento e tábuas, mas ele não pôde detectar o cheiro químico de uma bomba. A luz do hall clareava a terra nua sob o chão de carvalho.

Perigosamente junto à borda da mesa-altar, a vela dentro do vidro vermelho lançava flâmulas de luz e sombra.

A meio caminho do corredor, a parede do lado esquerdo estava manchada de sangue. Não eram baldes de sangue, mas o suficiente para significar um combate mortal. No chão, embaixo das manchas, perto da parede, jazia o corpo de um homem, retorcido numa postura tão pouco natural que o fato da morte era tristemente óbvio ao primeiro olhar.

Harry pôde ver o suficiente do cadáver para não ter dúvida que era Ricky. Nunca sentira tamanha dor no coração. Um frio subiu pela boca do estômago e suas pernas enfraqueceram.

Enquanto Harry rodeava o buraco no chão, Connie entrou na casa. Viu o corpo, não disse nada, mas fez um gesto na direção da arcada para a sala de estar.     

Naquele momento o procedimento habitual da polícia tinha uni tremendo apelo para Harry, mesmo sabendo que era inútil procurar o assassino. Independentemente do tipo de criatura que fosse, Tique-taque não estaria escondido num canto ou pulando uma janela dos fundos, não quando poderia desaparecer num redemoinho ou num pilar de fogo. Além disso, mesmo que pudesse ser encontrado, de que serviriam os revólveres contra ele: ainda assim, era relaxante proceder como se fossem os primeiros a chegar numa cena de crime comum; a ordem era imposta sobre o caos através de prudência, método, costume e ritual.

Logo depois da arcada para a sala de estar, à esquerda, havia uma pilha de lama escura, como se tivesse vindo de debaixo da casa, irrompendo com a explosão. Só que não havia qualquer lama espalhada no hall ou no corredor. Era como se alguém houvesse cuidadosamente levado a lama em baldes para dentro da casa e despejado sobre o tapete da sala de estar.

Por mais estranho que fosse, Harry apenas olhou rapidamente para a lama, antes de continuar andando pela sala. Mais tarde teria tempo de pensar a respeito.

Revistaram os quartos e os dois banheiros, mas só encontraram uma tarântula gorda. Harry levou um susto tão grande com a aranha que quase disparou um tiro. Se ela tivesse corrido em sua direção, em vez de sumir sob uma penteadeira, ele poderia tê-la estourado antes de perceber o que era.

O sul da Califórnia—um deserto antes que o homem trouxesse água e tornasse habitáveis as grandes áreas—era um lugar perfeito para as tarântulas, mas elas se mantinham nos cânions e nas regiões de cerrado. Apesar da temível aparência, eram criaturas tímidas, que viviam a maior parte da vida debaixo da terra, raramente saindo à superfície fora da época de acasalamento. Dana Point, ou pelo menos essa parte da cidade, era civilizada demais para despertar o interesse delas, e Harry se perguntou como aquela chegara até o coração da cidade, onde ficava tão deslocada quanto um tigre.

Silenciosamente os dois refizeram o caminho através da casa, percorrendo o hall, o corredor, e depois passando pelo corpo. Um rápido olhar confirmou que Ricky estava além de qualquer ajuda. Fragmentos da estátua de cerâmica estalavam debaixo dos pés.

A cozinha estava cheia de serpentes.

—      Ah, merda! — exclamou Connie.

Uma cobra rastejava logo depois da arcada. Mais duas se arrastavam entre as pernas da cadeira e da mesa. A maioria se encontrava na parte mais distante do cômodo, uma massa emaranhada, no mínimo trinta ou quarenta, talvez umas sessenta. Várias pareciam estar se alimentando de alguma coisa.

Mais duas tarântulas corriam sobre uma bancada de ladrilho branco, perto da beirada, vigiando as serpentes no chão.

—      Que diabo aconteceu aqui? — perguntou Harry, e não se surpreendeu ao ouvir um tremor na própria voz.

As serpentes começaram a notar as presenças de Harry e Connie. A maioria parecia desinteressada, mas algumas se afastaram da massa borbulhante para investigar.

Uma meia-porta separava a cozinha do corredor. Harry fechou-a rapidamente.

Checaram a garagem. O carro de Ricky. Um trecho úmido no concreto, onde havia uma goteira, e uma poça que não se evaporara totalmente. Nada mais.

De volta ao corredor, Harry finalmente se ajoelhou ao lado do corpo do amigo. Tinha adiado o exame o máximo possível.

—      Vou ver se há um telefone no quarto — avisou Connie.

Alarmado, ele ergueu os olhos para ela.

—      Telefone? Não, pelo amor de Deus, nem pense nisso.

—      É preciso notificar o homicídio.

—      Escute — disse ele, verificando o relógio de pulso. — Já vão dar onze horas. Se informarmos isso, vamos ficar presos aqui durante horas.

—      Mas...

—      Não temos tempo a perder. Nem sei como vamos encontrar esse Tique-taque antes do amanhecer. Talvez não tenhamos a mínima chance. Mesmo que o encontremos, não sei como podermos enfrentá-lo. Mas seria idiotice não tentar, não acha?

—      É, você está certo. Não quero ficar sentada esperando ser feita em pedaços.

—      Tudo bem, então. Esqueça o telefone.

—      Eu só... Vou esperar você.

—      Cuidado com as cobras — alertou Harry enquanto ela seguia pelo corredor.

Ele voltou a atenção para Ricky.

O estado do cadáver era ainda pior do que ele imaginara. Viu a cabeça de serpente com as presas enterradas na mão esquerda e estremeceu. No rosto, pares de pequenos orifícios poderiam ser marcas de picadas. Os dois braços estavam dobrados para trás nos cotovelos; os ossos não tinham sido simplesmente quebrados, e sim pulverizados. Ricky Estefan estava tão machucado que era difícil especificar a causa da morte; mas, se não estivesse morto quando a cabeça fora girada 180 graus, ele certamente morrera naquele momento terrível. O pescoço estava dilacerado, a cabeça pendia frouxa e o queixo repousava sobre as omoplatas.

Os olhos haviam desaparecido.

—      Harry? — chamou Connie.

Olhando para as órbitas vazias, Harry não conseguiu responder. Tinha a boca seca, e sua voz estava presa na garganta como se tivesse rebarbas de metal.

—      Harry, é melhor você olhar isso.

Ele já vira suficientemente o que fora feito com Ricky. Demais.

Sua raiva de Tique-taque só era suplantada pela ira contra si próprio.

Ergueu-se de junto do corpo, virou e viu-se refletido no espelho de moldura prateada acima da mesa-altar. Estava pálido. Parecia tão morto quanto o sujeito no chão. Uma parte dele tinha morrido ao ver o corpo; sentia-se debilitado.

Quando encontrou os próprios olhos, teve de olhar para longe tio terror, da confusão e da fúria primitiva que vira neles. O homem no espelho não era o Harry Lyon que ele conhecia—ou queria ser.

—      Harry? — chamou ela novamente.

Na sala de estar encontrou Connie abaixada junto à pilha de lama. Na verdade não chegava a ser lama, eram apenas cem ou 150 quilos de terra úmida e compactada.

—      Veja isso, Harry.

Ela apontou para uma pista inexplicável, que ele não percebera durante a busca na casa. Em sua maior parte, a pilha era informe mas, brotando do monte amorfo, havia uma mão humana, não de verdade, e sim modelada em terra úmida. Era grande, forte, com dedos espatulados, tão detalhada como se tivesse sido modelada por um grande escultor.

A mão se projetava do punho de uma manga também feita de terra, com casas e três botões de lama. Até a textura do tecido era bem-fabricada.

—      O que você acha? — perguntou Connie.

—      Não faço a mínima idéia.

Ele encostou um dedo na mão e apertou-o, meio esperando descobrir que era uma mão de verdade coberta por uma fina camada de lama. Mas era toda de terra, e se despedaçou ao primeiro toque, mais frágil do que parecia, deixando apenas o punho do casaco e dois dedos.

Uma lembrança mergulhou e escapou da mente de Harry antes que ele pudesse captá-la, tão fugidia quanto um peixe apenas vislumbrado, sumindo, desaparecendo num relâmpago de cor nas profundezas lodosas de um lago japonês. Olhando para o que restava da mão de terra, sentiu que estava perto de descobrir uma coisa de tremenda importância sobre Tique-taque. Contudo, quanto mais tentava pescar a memória, mais a rede voltava vazia.

— Vamos sair daqui — falou.

Seguindo Connie pelo corredor, Harry não olhou na direção do corpo.

Caminhava sobre uma linha tênue entre o controle e a insanidade, impregnado de uma fúria tão intensa que mal podia ser contida, diferente de tudo que eleja sentira antes. Os novos sentimentos sempre o deixavam perturbado, porque não sabia aonde eles poderiam levá-lo; preferia manter a vida emocional ordenada como seus relatórios sobre homicídios e sua coleção de CDs. Se olhasse para Ricky só mais uma vez, sua raiva poderia crescer a ponto de não ser mais contida e algum tipo de histeria poderia dominá-lo. Sentia ânsia de gritar com alguém, qualquer pessoa, gritar até que a garganta doesse. Precisava bater em alguém, bater, rasgar e chutar. Na ausência de um alvo, queria dirigir a fúria para objetos inanimados, quebrar e esmagar qualquer coisa que estivesse ao seu alcance, por mais estúpido e sem sentido que fosse, ainda que atraísse a atenção dos vizinhos. A única coisa que o impediu de extravasar sua fúria foi uma imagem mental de si próprio envolto nas garras de um frenesi, arregalado e bestial; não poderia tolerar a idéia de ser visto tão descontrolado, especialmente por Connie Gulliver.

Depois de sair, ela fechou a porta da frente. Os dois caminharam juntos até a rua.

Assim que chegaram ao carro, Harry parou e examinou as imediações.

—      Ouça.

Connie franziu a testa.

—      O quê?

—      Pacífico.

—      E?

—      Deve ter feito um barulho dos infernos.

Ela concordou.

—      A explosão que arrebentou o piso do corredor. E ele deve ter gritado, talvez pedido socorro.

—      E por que nenhum vizinho curioso veio ver o que estava acontecendo? Isso aqui não é uma cidade grande, é uma comunidade relativamente pequena. As pessoas não se fingem de surdas quando ouvem um tumulto na casa ao lado. Elas vêm ajudar.

—      O que significa que não ouviram nada — disse Connie.

—      Como é possível?

Um pássaro noturno cantou numa árvore ali perto.

De uma das casas vinha um som fraco de música. Dessa vez ele pôde identificar a canção: A String of Pearls.

Talvez a um quarteirão de distância, um cachorro emitiu um ruído solitário, entre um gemido e um uivo.

— Não ouviram nada... Como é possível? — repetiu Harry.

Ainda mais longe, um enorme caminhão começou a subir uma ladeira numa estrada distante. O motor parecia o bramido de um brontossauro deslocado no tempo.

 

A cozinha era totalmente branca — piso de ladrilhos brancos, bancadas de mármore branco, utensílios brancos. O único alívio com relação ao branco era o brilho de cromo e aço inoxidável refletindo outras superfícies brancas, onde fossem necessárias estruturas ou painéis de metal.

Quartos deviam ser pretos. O sono era preto, a não ser quando os sonhos se desenrolavam no teatro da mente. E apesar de seus sonhos sempre abundarem de cor, de algum modo eram também escuros; neles os céus eram sempre pretos ou cobertos de nuvens tempestuosas. O sono era como uma morte breve. A morte era preta.

Mas as cozinhas deviam ser brancas porque cozinhas significavam comida, e comida significava limpeza e energia. A energia era branca: eletricidade, relâmpago.

Vestido num roupão de seda vermelha, Bryan estava sentado numa cadeira de um branco perolado, com estofado de couro branco, diante de uma mesa laqueada de branco e com tampo de vidro grosso. Gostava do roupão. Tinha mais cinco iguais. A seda fina era gostosa contra a pele, escorregadia e fria. O vermelho era a cor do poder e da autoridade: vermelho da batina de um cardeal, vermelho adornado de ouro e arminho do manto de um rei; vermelho do manto de dragão de um imperador mandarim.

Em casa, quando optava por não ficar nu, só se vestia de vermelho. Era um rei oculto, um deus secreto.

Quando saía pelo mundo, usava roupas sóbrias porque não queria atrair atenção. Até se Tornar, ele era pelo menos um pouco vulnerável, e o anonimato era uma sensatez. Quando seu poder tivesse se desenvolvido totalmente, e ele possuísse controle total, poderia ser capaz de sair vestindo roupas que mostrassem seu verdadeiro status, e todos se ajoelhariam diante dele ou se afastariam com espanto e terror.

A perspectiva era excitante. Ser reconhecido. Ser conhecido e venerado. Logo.

Na mesa branca da cozinha, tomava sorvete de chocolate com cobertura de chocolate e cerejas ao maraschino, castanhas e biscoitos doces. Adorava doces. Salgadinhos também. Batatas fritas, enroladinhos de queijo, pretzels, amendoins, salgadinhos de milho, pele de porco frita. Só comia doces e salgadinhos, porque ninguém mais podia dizer-lhe o que comer.

A avó Drackman teria um ataque cardíaco se pudessfe ver no que consistia sua dieta nos últimos tempos. Ela o criara praticamente desde o nascimento até os dezoito anos, e fora absolutamente rígida com relação à alimentação. Três refeições por dia, nada de salgadinhos. Legumes, frutas, cereais integrais, pães, massa, peixe, frango, nada de carne vermelha, leite magro, iogurte gelado em vez de sorvete, o mínimo de sal, o mínimo de açúcar, o mínimo de gordura, o mínimo de diversão.

Até aquele cachorro nojento, um poodle nervoso chamado Pierre, era forçado a comer segundo as regras da avó, o que, no caso dele, significava dieta vegetariana. Ela estava convicta de que os cães só comiam carne porque se esperava isso deles, que a palavra "carnívoro" era um rótulo sem sentido aplicado por cientistas que não sabiam de nada, e que todas as espécies — especialmente os cães, por algum motivo — tinham o poder de superar seus desejos naturais e levar vidas mais pacíficas do que geralmente levavam. A coisa dentro da tigela de Pierre algumas vezes parecia ser granola, algumas vezes cubos de tofu, algumas vezes carvão, e o mais perto que ele chegava do gosto de carne era a imitação de bife de soja gorduroso e salpicado da proteína em pó, que era colocada em quase tudo que lhe era servido. Boa parte do tempo Pierre tinha uma aparência tensa e desesperada, como se enlouquecido pela necessidade de alguma coisa que não conseguia identificar e que, portanto, não podia satisfazer. E provavelmente por isso era tão odioso, tão furtivo e dado a crises de nervosismo, durante as quais mijava cm lugares inconvenientes como o armário de Bryan, sobre seus sapatos.

A avó Drackman era uma soberana demoníaca. Tinha regras sobre como se arrumar, se vestir, estudar e se comportar em todas as situações sociais concebíveis. Um computador de dez megabytes não teria capacidade suficiente para catalogar todas as suas regras.           Pierre, o cão, tinha suas próprias regras a aprender. Em quais poltronas podia sentar e em quais não podia. Nada de latir. Nada de ganir. Refeições num horário rígido. Nada de ganhar sobras à mesa. Escovar o pêlo duas vezes por semana, fique quieto, não faça bagunça. Sente, role, finja-se de morto, não arranhe a mobília...

Mesmo quando era uma criança de cinco ou seis anos, Bryan entendia em seus próprios termos que a avó era uma espécie de personalidade obsessiva-compulsiva, retentiva-anal, e ele era cuidadoso, educado e obediente, fingindo amor sem nunca deixar que ela entrasse em seu verdadeiro mundo interno. Já nessa época, quando sua especialidade se manifestava de modo tímido, ele era bastante esperto para esconder dela os talentos que brotavam, sabendo que a reação poderia ser... perigosa. A puberdade trouxe um surto de crescimento não apenas em seu corpo, mas em suas habilidades secretas, e mesmo assim ele guardou-as, explorando seu poder com o auxílio de uma multidão de pequenos animais que sucumbiram numa grande variedade de tormentos deliciosos.

Há dois anos, somente algumas semanas após seu 18e aniversário, a força estranha e dinâmica jorrou outra vez dentro de Bryan, como acontecia periodicamente, e ainda que ele não se sentisse forte o bastante para lidar com o mundo inteiro, sabia que estava pronto para lidar com a avó Drackman. Ela estava sentada em sua poltrona favorita, os pés apoiados numa otomana, comendo palitos de cenoura, bebendo um copo de água transparente, lendo um artigo sobre o pecado capital no Los Angeles Times, acrescentando comentários calorosos sobre a necessidade de estender a compaixão até mesmo ao pior dos criminosos, quando Bryan usou seu poder recém-refinado de pirocinésia para incendiá-la. Jesus, como ela queimou! Se bem que tivesse menos gordura sobre os ossos do que um louva-a-deus, ela ardeu como uma vela de sebo. Ainda que uma de suas regras fosse jamais levantar a voz dentro de casa, ela gritou num volume quase suficiente para estraçalhar janelas — mas não por muito tempo. Foi um incêndio controlado, concentrado na avó e em suas roupas, apenas chamuscando a poltrona e a otomana, mas ela emitia um brilho tão luminoso que Bryan teve de fechar os olhos. Como uma lagarta mergulhada em álcool e acesa com a chama de um fósforo, ela se encolheu, estalou e teve uma combustão cada vez mais brilhante; então encrespou-se e foi se enrolando. Mesmo assim ele a manteve queimando até que os resíduos de carvão dos ossos virassem cinzas, até que as cinzas virassem fuligem e até que a fuligem simplesmente desaparecesse num sopro final de fagulhas verdes.

Então Bryan arrastou Pierre para fora de seu esconderijo e fritou-o também.

Foi um dia maravilhoso.

O fim da avó Drackman e de suas regras. Daí em diante Bryan viveu de acordo com suas próprias leis. Logo todo o mundo também viveria de acordo com elas.

Levantou-se e foi até a geladeira. Estava cheia de doces e coberturas de sobremesa. Não seria possível encontrar um único cogumelo ou pedaço de legume. Levou uma garrafa de calda de caramelo para a mesa e colocou um pouco no sundae.

— Dingdong, a bruxa está morta, a velha bruxa malvada, a bruxa está morta — cantou exultante de felicidade.

Mexendo nos registros públicos, deu à avó uma certidão de óbito, alterou sua idade oficial para 21 anos (de modo que nenhum tribunal designasse um curador) e fez de si próprio o único herdeiro no testamento. Uma brincadeira de criança, já que nenhum escritório ou cofre era à prova de Bryan; através do exercício de seu Poder Maior e Mais Secreto, podia ir aonde quisesse, fazer o que bem entendesse, e ninguém saberia que estivera lá. Depois de tomar posse da casa, fez com que fosse remodelada e mobiliada ao seu gosto, eliminando todos os traços da puta comedora de cenouras.

Apesar de nos últimos dois anos ter gastado mais do que herdara, a extravagância não era problema. Podia conseguir qualquer quantia sempre que precisasse — o que não acontecia com freqüência porque, graças ao seu Poder Maior e Mais Sagrado, ele podia pegar virtualmente tudo o que quisesse, e nunca ser apanhado.

— Isto é para você, vovó — disse ele, erguendo uma colher cheia de sorvete com cobertura.

Apesar de não ser capaz — por enquanto — de curar seus próprios ferimentos ou fazer sumir um hematoma, ele parecia apto a manter o peso adequado e um excelente tônus físico simplesmente concentrando-se no corpo alguns minutos por dia, ajustando o metabolismo como se ele fosse um termostato comum. Devido à essa habilidade, confiava em que, após mais um ou dois jorros de crescimento, seu poder se estenderia à capacidade de cura e, eventualmente, à invulnerabilidade.

Enquanto isso, a despeito de todos os doces e salgados, tinha um corpo em boa forma. Orgulhava-se da musculatura esguia, um dos motivos pelos quais gostava de andar nu pela casa captando visões inesperadas de si próprio nos diversos espelhos.

Sabia que as mulheres gostariam de seu corpo. Se ele se importasse com mulheres, poderia ter quantas quisesse, talvez até mesmo sem precisar usar qualquer um de seus poderes.

Mas não se interessava por sexo. Por um lado, o sexo era um dos maiores equívocos do deus antigo. As pessoas tinham ficado obcecadas por ele, e o acasalamento frenético e interminável arruinara o mundo. Por causa do sexo, o novo deus deveria reduzir o rebanho e limpar o planeta. Além disso, para ele, o orgasmo não era proporcionado pelo sexo, e sim pelo término violento de uma vida humana. Depois de usar um de seus golems para matar alguém, quando trazia toda a consciência de volta para o corpo real, ele costumava encontrar a seda preta dos lençóis molhada com tiras brilhantes de esperma.

O que a avó pensaria dissol

Riu.

Podia fazer o que quisesse e comer o que quisesse, e onde estava a avó rabugenta? Queimada, morta, desaparecida para sempre—é isso aí!

Ele tinha vinte anos, e poderia viver até mil, dois mil, possivelmente para sempre. Quando tivesse vivido o bastante, decerto esqueceria totalmente a avó, e isso seria bom.

—      Vaca velha e estúpida — disse e deu um risinho. Achava muito agradável poder falar sobre ela, do jeito que quisesse, na casa que tinha sido dela.

Apesar de ter preparado o sundae numa vasilha grande, comeu tudo. Exercer seus poderes era extremamente desgastante, e ele precisava de uma quantidade de sono maior do que o normal e de muito mais calorias do que as outras pessoas. Dormia e beliscava comida boa parte do tempo, mas presumia que a necessidade de comida e de sono poderia desaparecer por completo quando terminasse de se Tornar e fosse finalmente o novo deus. Quando o seu Tornar-se estivesse completo, não precisaria mais dormir e não comeria pela necessidade, e sim pelo prazer.

Depois de ter raspado a última colherada, lambeu a travessa.

A avó Drackman odiava isso.

Lambeu-a inteira. Quando terminou, a travessa parecia limpa como se tivesse sido lavada.

—      Posso fazer o que quiser — falou. — Tudo.

Sobre a mesa, flutuando num líquido dentro de um frasco de conserva, os olhos de Enrique Estefan observavam-no em adoração.

 

Enquanto dirigia pelo litoral noturno em direção ao norte, Harry pensava em Ricky, morto na casa infestada de cobras em Dana Point.

—      É culpa minha o que aconteceu com ele.

Sentada no banco do carona, Connie disse:

—      Claro que não é.

—      Claro que é.

—      Imagino que seja culpa sua ele ter entrado naquela mercearia depois do serviço, há três anos.

—      Obrigado por tentar fazer com que eu me sinta melhor, mas não precisa.

—- Eu deveria tentar fazer com que você se sentisse pior? Olha, essa coisa que a gente está procurando, esse Tique-taque, não há como você saber o que ele vai fazer em seguida.

— Mas talvez eu possa. De algum modo, eu estou começando a perceber; começando a detectar o que devo esperar. Só que estou um passo atrás do filho da puta. Assim que vi a fivela, soube que ele iria atrás do Ricky. Era parte do significado da ameaça dele. Só que percebi tarde demais.

—      Exatamente o que eu quis dizer. Talvez não haja como estar na frente desse cara. Ele é uma coisa nova, nova demais, e pensa de um modo muito diferente do nosso, diferente do modo como um bandido comum pensa. Ele não se adapta a nenhum perfil psicológico, portanto não há como esperar que alguém possa prever o que o sacana vai fazer. Harry, isso não é responsabilidade apenas sua.

Ele gritou com ela sem querer, sem culpá-la de nada, incapaz de continuar reprimindo a raiva:

—      É isso que está errado com o mundo atual. Meu Deus, é exatamente isso que está errado! Ninguém quer ser responsável por nada. Todo mundo quer uma licença para ser e fazer tudo, ninguém quer pagar a conta.

—- Você está certo.

Ela estava sendo sincera ao concordar com ele. Não estava simplesmente consolando-o, mas Harry não seria acalmado tão facilmente.

—      Hoje em dia, se a sua vida se ferra, se você fracassa com a família e os amigos, nunca é culpa sua. Você é um bêbado? Bom, talvez seja uma predisposição genética. É um adúltero compulsivo, tem cem parceiros sexuais por ano? Talvez não tenha se sentido amado na infância, talvez seus pais nunca lhe tenham dado todo o carinho que você precisava. Tudo isso é besteira.

—      Exatamente — disse ela.

—      Você arrebenta a cabeça de um balconista ou espanca uma senhora até a morte em troca de vinte pratas? Bom, você não é um mau sujeito, não tem culpa! Seus pais é que têm culpa, a sociedade é que tem culpa, toda a cultura ocidental tem culpa, mas não você, nunca você, que idiotice sugerir uma coisa dessas, que insensatez, que coisa mais fora de moda!

—      Se você tivesse um programa de rádio, eu escutaria todos os dias — disse ela.

Ele estava ultrapassando todos os outros carros, mesmo quando a faixa amarela era dupla. Nunca fizera isso antes na vida, nem quando dirigia um carro com sirene e luzes de emergência piscando.

Tentou imaginar o que lhe acontecera. Tentou imaginar como podia imaginar isso — mas seguiu em frente, agora ultrapassando um furgão com um mural das Montanhas Rochosas num dos lados, voltando à pista numa manobra cega, mesmo com o furgão dando dez quilômetros por hora acima da velocidade limite.

Prosseguiu furioso:

—      Você pode abandonar a esposa e os filhos sem pagar pensão às crianças, roubar milhões de seus investidores, transformar em geléia o cérebro de um cara só porque ele é gay ou se mostrou desrespeitoso com você...

Connie ajudou:

—      ...jogar o bebê no incinerador de lixo porque tem outras idéias sobre a alegria de ser mãe...

—      ...fraudar os impostos, o seguro social...

—      ...vender drogas a crianças da escola primária,,.

—      ...abusar da própria filha e mesmo assim dizer que você é a vítima. Todo mundo é vítima hoje em dia. Ninguém é agressor. Não importa a atrocidade que você cometa, pode implorar simpatia, reclamar que é vítima de racismo, de racismo às avessas, de sexismo, preconceito de idade, de classe, preconceito contra pessoas gordas, pessoas feias, pessoas burras, pessoas inteligentes. Por isso roubou bancos ou explodiu a cabeça daquele tira, porque é uma vítima, há milhões de modos de ser vítima, É, certo, você desvaloriza as reclamações honestas das vítimas de verdade, mas que diabo, a gente só vive uma vez, é preciso participar da ação e, afinal de contas, quem se importa com aquelas vítimas de verdade? Pelo amor de Deus, eles são perdedores.

Ele se aproximava rapidamente de um Cadillac vagaroso. Havia uma brecha para ultrapassar, Mas um furgão Jeep igualmente lento, com dois adesivos na janela de trás — "VIAJO COM JESUS" e "PRAIAS, BIQUÍNIS E CERVEJA" —, bloqueava o cuminho.

Ele não podia atravessar de novo a faixa dupla amarela porque uma corrente de tráfego na direção contrária surgiu subitamente atrás de faróis ofuscantes.

Pensou em buzinar, tentando fazer com que o Cadillac ou o Jeep se apressassem, mas não teve paciência.

Naquele ponto o acostamento era mais largo do que o normal, e ele aproveitou para ultrapassar o Cadillac pela direita. Ao mesmo tempo em que fazia isso, não acreditava que estava fazendo. Nem o chofer do Cadillac; Harry olhou para a esquerda e viu o sujeito encarando-o atônito, um homenzinho engraçado com bigode fino c peruca malfeita. Um barranco de terra erodida, cheio de musgo e ervas, chegou muito perto da lateral direita do Honda, Passou a centímetros da porta mesmo na parte em que o acostamento era largo... e depois ele começou a se estreitar. O Cadillac reduziu a velocidade, tentando sair do caminho. Harry acelerou, e o acostamento se encolheu mais ainda. Uma placa de sinalização escrita NÃO PARE surgiu à sua frente, e sem a menor dúvida iria pará-lo se ele batesse. Harry desviou do acostamento, voltou para o asfalto cortando a frente do Cadillac, reassumiu o controle e continuou para o norte tendo à esquerda a vastidão do Pacífico, tão negra quanto o seu sentimento.

—      É isso aí! — disse Connie.

Harry não sabia se ela estava sendo sarcástica ou sincera, Com o amor que Connie sentia pela velocidade e pelo risco, poderia ser qualquer das duas opções.

—      O que estou falando — disse ele, lutando para manter o sangue quente — é que não quero ser assim, sempre apontando o dedo para outra pessoa. Quando sou o responsável, quero me afogar na minha responsabilidade.

—      Eu ouvi você.

—      Eu sou responsável pelo Ricky.

—      Está certo.

—      Se eu fosse mais esperto, ele continuaria vivo.

—      Certo.

—      Ele está pesando na minha consciência.

—      Por mim, tudo bem,

-— Sou responsável.

—      E tenho certeza de que vai apodrecer no inferno por causa disso.

Harry não conseguiu evitar: soltou uma gargalhada. Foi um riso negro, e por um instante ele teve medo de irromper em lágrimas por Ricky.

Mas ela não deixaria isso acontecer. Falou:

—      Vai ficar por toda a eternidade num poço de vômito de cachorro, se é o que você acha que merece.

Mesmo que Harry desejasse manter a raiva no seu ponto máximo, ela estava cedendo — como devia. Olhou para Connie e riu mais ainda.

—      Você é um cara tão ruim que vai ter de comer larvas e beber bile de diabo durante... bem... uns mil anos.

—      Odeio bile de diabo...

Ela também estava rindo.

—      ...e com certeza vai ter de deixar Satã aplicar-lhe uma lavagem intestinal...

—      ...e assistir a Hudson Hawk (O Falcão Está à Solta) dez mil vezes...

—      Ah, não, até o inferno tem seus limites.

Estavam rugindo, liberando a tensão, e durante algum tempo o riso não diminuiu.

Quando finalmente se estabeleceu o silêncio, foi Connie quem o rompeu:

—      Você está bem?

—      Eu me sinto podre.

—      Mas está melhor?

—      Um pouco.

—      Vai ficar legal.

—      Vou. Acho que vou,

—      Claro que vai. Quando tudo é dito e feito, talvez essa seja a verdadeira tragédia. De algum modo deixamos crescer crostas sobre as feridas e as perdas, até as piores. A gente vai em frente e nada dói para sempre, ainda que algumas vezes pareça que sim.

Continuaram em direção ao norte. O mar à esquerda. Morros escuros pontilhados de luzes à direita.

Estavam de novo em Laguna Beach, mas Harry não sabia para onde eles iam. O que queria era continuar dirigindo até a ponta da bússola, subir toda a costa, passar por Santa Barbara, Big Sur, atravessar a Golden Gate, entrar no Oregon, Washington, Canadá, e talvez subir ao Alasca, longe, ver um pouco de neve e sentir a picada do vento ártico, olhar a lua brilhando sobre as geleiras, e depois virar à direita, atravessando o Estreito de Bering, o carro passando sobre a água com a facilidade mágica de um conto de fadas, e então descer o litoral congelado do que um dia fora a União Soviética, chegar à China, parar para uma boa comida Szechwan.

—      Gulliver? — falou ele.

—      Sim.

—      Gosto de você.

—      Quem não gosta?

—      Estou falando sério.

—       Bom, eu também gosto de você, Lyon.

—      Só achei que deveria dizer.

—      Fico feliz por você ter dito.

—      Não quer dizer que a gente esteja indo fundo ou coisa do tipo.

Ela sorriu.

—      Bom. A propósito, para onde estamos indo?

Ele resistiu à idéia de sugerir pato com especiarias em Pequim.

—      Para a casa de Ordegard. Por acaso você sabe o endereço?

—      Não somente sei. Eu estive lá.

Ele ficou surpreso.

—      Quando?

—      Depois que saí do restaurante e antes de voltar ao escritório, enquanto você datilografava os relatórios. Não há nada especial no lugar. É arrepiante, mas não creio que vamos achar nada que nos ajude.

—      Quando você esteve lá, não sabia sobre Tique-taque. Agora que sabe vai procurar as coisas de um modo diferente.

—      Talvez. Daqui a dois quarteirões, vire à direita.

Ele virou, e os dois seguiram na direção dos morros, por ladeiras sinuosas ladeadas por palmeiras e eucaliptos. Uma coruja branca, com noventa centímetros de envergadura, voou da chaminé de uma casa para o telhado íngreme de outra, atravessando a noite-como uma alma perdida em busca do paraíso. O céu sem estrelas parecia tão perto que Harry quase podia ouvi-lo comprimindo suavemente os pontos mais altos das montanhas no oeste.

 

Bryan abriu a porta dupla e saiu para a varanda do quarto principal.

As portas estavam destrancadas, como todas as outras na casa. Apesar de ser prudente não chamar a atenção até se Tornar, ele não temia ninguém, nunca temera. Outros meninos eram covardes, não ele. Seu poder lhe dava uma confiança que talvez mais ninguém em toda a história do mundo tivera. Sabia que ninguém poderia impedi-lo de cumprir seu destino; sua jornada rumo ao trono definitivo estava escrita, e ele só precisava de paciência até acabar de se Tornar.

A hora antes da meia-noite era fria e úmida. O piso da varanda estava coberto de orvalho. Uma brisa fresca soprava do mar. Seu roupão vermelho estava amarrado na cintura, mas ao redor das pernas a bainha se agitava como um lago de sangue se espalhando,

As luzes de Santa Catalina, quarenta quilômetros a oeste, estavam ocultas por uma densa névoa estacionada a mais de trinta quilômetros mar adentro e igualmente invisível. Depois da chuva as nuvens continuavam baixas, obstruindo a claridade das estrelas ou da lua. Ele não conseguia ver as janelas iluminadas dos vizinhos, já que sua casa ficava no extremo da costa, com o penhasco caindo dos três lados do quintal dos fundos.

Sentia-se envolto por uma escuridão tão confortadora quanto seu roupão de seda. O bramido, as pancadas e o eterno sussurro das ondas era acalentador.

Como um feiticeiro num altar solitário sobre um pináculo de rocha, Bryan fechou os olhos e entrou em contato com o seu poder.

Parou de sentir o ar frio da noite e o orvalho gelado do piso da varanda. Também não sentia mais o roupão balançando contra as pernas nem ouvia as ondas quebrando na costa.

Primeiro se estendeu para encontrar as cinco cabeças de gado morto à espera do machado. Tinha marcado cada uma delas com um laço de energia psiônica para facilitar a localização. Com os olhos fechados, sentiu como se flutuasse acima da Terra. Olhando para baixo viu cinco luzes especiais, auras diferentes de todas as outras fontes de energia ao longo da costa ao sul. Os objetos de seu

esporte sangrento.

Empregando clarividência — ou "visão à distância" — podia observar aquelas cabeças de gado, uma de cada vez, e tudo que estava nas imediações. Não podia ouvi-las, o que algumas vezes era frustrante. Mas presumia que desenvolveria uma clarividência dos cinco sentidos assim que finalmente se Tornasse o novo deus. Bryan observou Sammy Shamroe, cujos tormentos adiara devido à necessidade imprevista de lidar com o tira espertinho metido a herói. O perdedor encharcado de birita não estava encolhido em seu caixote sob os ramos de oleandro no beco, nem mamando a segunda garrafa de dois litros de vinho, como Bryan esperava. Em vez disso andava pelo centro de Laguna, carregando o que parecia ser uma garrafa térmica, tropeçando bêbado diante de lojas fechadas, apoiando-se momentaneamente no tronco de uma árvore para respirar e se orientar. Depois cambaleava dez ou vinte passos, somente para se apoiar numa parede de tijolos e pender a cabeça, evidentemente considerando se deveria pôr os bofes para fora. Decidindo contra a regurgitação, ele cambaleou de novo, piscando freneticamente, a cabeça impulsionada para a frente, um olhar de determinação incomum, como se tivesse algum destino significativo, apesar de ser mais provável estar andando ao acaso, levado por motivações estúpidas ou irracionais que só seriam explicáveis a alguém cujo cérebro, como o dele, estivesse conservado em álcool. Deixando Sam o Simulado, Bryan passou a observar o grande herói imbecil e, por associação, a puta-policial, sua parceira. Estavam no Honda do herói, chegando à entrada de carros de uma casa contemporânea com uma cerca de cedro envelhecido e um monte de janelas grandes, no alto dos morros. Eles conversavam. Não dava para ouvir o que diziam. Animados. Sérios. Os dois tiras saíram do carro, sem saber que eram observados. Bryan olhou ao redor. Reconheceu o bairro porque passara toda a vida em Laguna Beach, mas não sabia de quem era a casa.

Dentro de alguns minutos visitaria Lyon e Gulliver mais diretamente.

Por fim sintonizou Janet Marco e seu garoto maltrapilho, encolhidos dentro do Dodge dilapidado, num estacionamento junto à Igreja Metodista. O garoto parecia dormir no banco de trás. A mãe estava atrás do volante, encurvada no banco e apoiada na porta do motorista. Acordada, vigiando a noite ao redor do carro.

Bryan prometera matá-los ao amanhecer, e pretendia cumprir o prazo auto-imposto. Lidar com eles e com dois tiras, depois de despender tanta energia atormentando e destruindo Enrique Este-fan, seria desgastante. Mas com um cochilo ou dois antes do sol nascer, mais dois sacos de batata frita, alguns biscoitos e possivelmente outro sundae, acreditava que poderia esmagar todos de maneiras maravilhosamente satisfatórias.

Normalmente ele se manifestaria através de um golem pelo menos duas ou três vezes durante as últimas seis horas das vidas de mãe e filho, assediando-os para conduzi-los à borda mais aguda do terror. Matar era puro prazer, intenso e orgiástico. Mas as horas — e algumas vezes os dias — de tormento que precediam a maioria de suas matanças eram quase tão divertidas quanto o momento em que, finalmente, o sangue corria. Ficava excitado com o medo demonstrado pelo gado, pelo horror e pelo espanto que engendrava neles; empolgava-se com a descrença pasma e com a histeria que os assaltava quando, cedo ou tarde, descobriamter fracassado em suas patéticas tentativas de se esconder ou fugir. Mas com Janet Marco e o menino ele teria de abrir mão das preliminares, visitá-los só mais uma vez, ao amanhecer, quando então receberiam sua conta de dor e sangue por terem poluído o mundo com sua presença.

Bryan precisava conservar a energia para o policial fodão. Queria que o grande e poderoso herói sofresse mais tormentos do que os outros. Humilhá-lo. Quebrar suas defesas. Reduzi-lo a um bebê, fazê-lo implorar e lamuriar. Havia um covarde dentro do grande herói. Havia covardes ocultos dentro de todos eles. Bryan queria fazer o covarde se arrastar de quatro, revelar o fraco que realmente era, uma lesma, somente um cagão escondido atrás do distintivo e do revólver. Antes de matar os dois tiras, eles os faria correr até a exaustão. Iria desmontá-los peça por peça e fazer com que desejassem nunca ter nascido.

Parou de ver à distância e afastou-se do Dodge no estacionamento da igreja. Trouxe toda a consciência de volta ao corpo na varanda do quarto.

Altas ondas surgiam do oeste escuro e arrebentavam contra a costa, fazendo Bryan Drackman lembrar os arranha-céus brilhantes das cidades de seus sonhos, que tombavam à força de seu poder afogando milhões de pessoas que gritavam sob marés de vidro e aço estilhaçados.

Quando terminasse de se Tornar, nunca mais precisaria descansar ou preservar energia. Seu poder seria o poder do universo, infinitamente renovável e além de qualquer medida.

Voltou ao quarto negro e fechou a porta da varanda.

Tirou o roupão vermelho.

Nu, estirou-se na cama, cabeça apoiada em dois travesseiros de plumas de ganso com fronhas de seda preta.

Algumas respirações lentas e profundas. Fechar os olhos. Soltar o corpo. Limpar a mente. Relaxar.

Em menos de um minuto estava pronto para a criação. Projetou uma quantidade substancial de sua consciência no quintal ao lado da casa moderna com cerca de cedro e janelas grandes, no alto do morro, onde o Honda do tira tinha estacionado.

O poste de luz mais perto ficava a meio quarteirão. Havia sombras profundas em todo canto.

Na parte mais escura, um pedaço do gramado começou a se agitar. A grama se dobrou na terra que havia embaixo, como se um arado invisível estivesse trabalhando, e a lama borbulhou com um som fraco e úmido, como massa de bolo sendo mexida por uma espátula de plástico. Tudo aquilo — grama, solo, pedras, folhas mortas, minhocas, besouros, uma caixa de charutos contendo as penas e os ossos partidos de um periquito enterrado há tempos por alguma criança — subiu numa coluna escura e agitada, grande e larga como um homem alto.

A enorme figura foi adquirindo forma, de cima para baixo. Primeiro o cabelo, embolado e gorduroso. Depois a barba, Uma boca se abriu. Dela brotaram dentes tortos e descoloridos. Lábios com feridas purulentas.

Um olho se abriu. Amarelo. Malévolo. Desumano.

 

Ele está num beco escuro, andando compassado, em busca do rastro da coisa-que-vai-matar-você, certo de que o perdeu, mas de qualquer modo farejando por causa da mulher, por causa do garoto, porque é um cachorro bom, bom.

Lata vazia, cheiro de metal, ferragem. Poça de chuva, pingos de óleo brilhando na superfície. Abelha morta flutuando na água. Interessante, as abelhas morrerem. Não consegue se lembrar de ter visto um gato morto, e agora imagina se os gatos podem morrer, como as abelhas.

Engraçado pensar que talvez os gatos morram.

O que poderia matá-los?

Eles podem subir em árvores e em lugares onde ninguém mais pode ir. Com suas garras afiadas, podem arranhar seu nariz tão rápido que você não vê o golpe chegando. Portanto, se existe algo que mata os gatos, também não pode ser bom para cães, nem um pouco bom, alguma coisa mais rápida do que os gatos, e maligna.

Interessante.

Ele segue pelo beco.

Em algum lugar de pessoas há carne cozinhando. Lambe os beiços porque continua com fome.

Pedaço de papel. De enrolar doce. Cheiro bom. Coloca uma das patas em cima e lambe-o. O papel de doce tem gosto bom. Lambe, lambe, lambe, mas é só isso, pouca coisa, só um gostinho de doce no papel. Geralmente é assim, algumas lambidas ou mordidas e acabou-se, raramente a quantidade que ele quer, nunca é mais do que ele quer.

Cheira o papel, só para ter certeza, e ele gruda no seu nariz. Sacode a cabeça, soltando o papel. Ele gira no ar e depois flutua pelo beco, na brisa, subindo e descendo, indo para um lado e para o outro, como uma borboleta. Interessante. De repente vivo e voando. Como é que pode? Muito interessante. Corre atrás e ele voa. Salta, late, erra, e agora quer, quer mesmo, precisa tê-lo, salta, late, erra. O que está acontecendo aqui, que coisa é essa? Era só um papel, e agora está voando como uma borboleta. Realmente realmente realmente precisa dele. Corre e salta e late e dessa vez pega, mastiga, mas é só papel, e então cospe-o. Fica olhando, olhando e olhando, esperando, vigiando, pronto para atacar, não vai ser enganado, mas ele não se mexe mais, morto como a abelha.

Policial-lobo-coisa! A coisa-que-vai-matar-você. Aquele cheiro estranho e odioso chega de repente numa brisa do mar e ele se contorce. Cheira, procurando. A coisa ruim saiu na noite, está na noite, em algum lugar perto do mar.

Segue o cheiro. Aprincípio é fraco, às vezes, quase desaparece, mas depois fica mais forte. Começa a ficar nervoso. Está chegando perto, não realmente perto, mas cada vez mais perto, indo de beco para rua para parque para beco para rua de novo. A coisa ruim é a coisa mais estranha e mais interessante que ele já cheirou. A mais. Luzes fortes. Bi-biüp-biiiiiiip. Carro. Perto. Poderia estar morto numa poça, como a abelha.

Vai atrás do cheiro da coisa ruim, mais depressa, orelhas espetadas, alerta e atento, mas ainda se baseando em seu nariz. Então ele perde a pista.

Pára, vira, cheira o ar por aqui e por ali. A brisa não mudou de direção, ainda vem do mar. Mas o cheiro da coisa ruim não está mais nela. Aguarda, fareja, vira, solta um ganido de frustração e cheira cheira cheira.

A coisa ruim não está mais na noite. Foi para algum lugar, talvez para um lugar de gente, onde a brisa não sopra. Como um gato subindo numa árvore, fora do alcance.

Fica um tempo parado, ofegando, inseguro quanto ao que fazer, e então surge o homem mais espantoso pela calçada, tropeçando e oscilando de um lado para o outro, carregando uma garrafa engracada numa das mãos, murmurando consigo próprio. O homem exala mais odores do que o cão já cheirou numa só pessoa. Na maioria são ruins, como se fosse um monte de gente fedorenta num só corpo. Vinho azedo. Cabelo gorduroso, suor azedo, cebolas, alho, fumaça de vela, amoras. Tinta de jornal, oleandro. Brim úmido. Flanela úmida. Sangue seco, cheiro fraco de mijo de gente, hortelã num bolso do casaco, um velho pedaço de presunto seco e pão mofado esquecido em outro bolso, mostarda seca, lama, grama, um pouquinho de vômito de gente, cerveja choca, tênis apodrecendo, dentes podres. Além disso peida enquanto anda, peida e murmura, depois tropeça e pára para se apoiar na parede de um lugar de gente e peidar mais um pouco.

Tudo isso é interessante, muito, mas a coisa mais interessante de todas, dentre os muitos odores, é que o homem carrega um traço do odor da coisa mim. Ele não é a coisa mim, não, não, mas conhece a coisa mim, está vindo de um lugar onde há pouco tempo encontrou a coisa ruim, traz nele o toque da coisa mim.

Sem dúvida é aquele cheiro, tão estranho e maligno: como o cheiro do mar numa noite fria, cerca de ferro num dia quente, rato morto, relâmpago, trovão, aranhas, sangue, fossas escuras—como todas essas coisas e ao mesmo tempo não exatamente como qualquer uma delas.

O homem tropeça perto dele, que recua com o rabo entre as pernas. Mas o homem nem parece vê-lo, só cambaleia e vira a esquina para um beco.

Interessante.

Ele observa.

Espera.

Finalmente vai atrás do homem.

 

Harry sentia-se inquieto por estar na casa de Ordegard. Um bilhete da polícia na portada frente proibia a entrada até que fosse concluida a investigação criminal, mas ele e Connie não tinham seguido os procedimentos habituais para entrar. Numa pequena bolsa de couro ela trazia um conjunto de gazuas que passou pelas fechaduras de Ordegard mais depressa do que um político gastaria um bilhão de dólares.

Normalmente Harry ficaria pasmo com esse tipo de método e, desde que ela se tornara sua parceira, era a primeira vez que ele permitia o uso das gazuas. Mas simplesmente não havia tempo para seguir as regras; o amanhecer estava a menos de sete horas, e eles não se encontravam mais perto de achar Tique-taque do que há três horas.

A casa de três quartos não era grande, mas o espaço era bem projetado. Como o exterior, o interior não tinha ângulos agudos. Todos os cantos eram arredondados, e muitos cômodos tinham pelo menos uma parede em curva. Frisos arredondados, laqueados de branco e muito brilhantes eram usados amplamente. Também na maioria das paredes fora usada uma pintura branca que emprestava aos cômodos um lustro perolado, mas a sala de jantar recebera um acabamento que imitava couro bege.

O lugar parecia o interior de um navio de cruzeiro e devia ter sido aconchegante. Mas Harry estava tenso, não só porque o assassino com cara de lua vivera ali, ou porque haviam entrado ilegalmente, mas também por outros motivos que não conseguia identificar.

Talvez os móveis tivessem algo a ver com sua apreensão. Todas as peças eram de estilo escandinavo moderno, severas, sem ornamentos, feitas de madeira amarelada, tão angulosas quanto a casa era arredondada. O contraste extremo com a arquitetura fazia as bordas aguçadas dos braços das poltronas, as pontas das mesas e as estruturas dos sofás parecerem estar se encrespando contra ele. O tapete era um Berber de pouquíssima espessura e com um mínimo de espuma por baixo; se cedia sob os pés, era tão pouco que não poderia ser detectado.

Enquanto percorriam as salas de estar e de jantar, o escritório e a cozinha, Harry observou que nenhuma obra de arte adornava as paredes. Não havia um só tipo de objeto decorativo; a não ser por luminárias simples de cerâmica em branco e preto, as mesas estavam absolutamente nuas. Não se viam livros ou revistas em lugar algum.

Os cômodos possuíam um ar monástico, como se a pessoa que os habitasse estivesse fazendo uma longa penitência por sei pecados.

Ordegard parecia ser um homem com duas características distintas. As linhas orgânicas e as texturas da casa descreviam um| morador com forte natureza sensual, tranqüilo consigo próprio e cora suas emoções, relaxado e até certo ponto auto-indulgente. Por outro lado, a monotonia interminável dos móveis e a falta absoluta! de ornamentação indicava que era frio, implacável consigo mesmo e com os outros, introvertido e melancólico.

—      O que você acha?—perguntou Connie assim que entraram

no corredor que levava aos quartos.

—      Arrepiante.

—      Foi o que eu disse. Mas por quê, exatamente?

—      Os contrastes são... extremos demais.

—      É. E simplesmente não parece que alguém morou aqui.

Finalmente, no quarto principal, havia uma pintura na parede diante da cama. A primeira coisa que Ordegard via, ao acordar, e a última, antes de adormecer a cada noite. Era a reprodução de uma famosa obra que Harry conhecia, ainda que não soubesse o título. Achou que o artista fosse Francisco de Goya. Resíduos do tempo em que havia estudado Apreciação da Arte 101. A obra era ameaçadora, provocativa. Despertava um sentimento de horror e desespero, e não só porque incluía a figura de um gigante demoníaco devorando um corpo humano sangrento e sem cabeça.

Perturbadora, brilhantemente composta e executada, era sem dúvida uma grande obra de arte—porém mais adequada às paredes de um museu do que a uma casa particular. Precisava ser reduzida por um enorme espaço de exposição com teto em cúpula. Aqui, nesse quarto de dimensões comuns, sua energia escura era quase paralisante.

—      Com o que você acha que ele se identificava?—perguntou Connie.

—      O que quer dizer?

—      Com o gigante ou com a vítima?

Pensou a respeito.

—      Com os dois.

—      Devorando a si próprio.

—      É. Sendo devorado pela própria loucura.

—      E incapaz de parar.

—      Talvez pior do que incapaz. Não querendo parar. Sádico e masoquista ao mesmo tempo.

—      Mas como isso nos ajuda a descobrir o que está acontecendo? — perguntou Connie.

—      Até onde posso ver, não ajuda.

—      Tique-taque -— disse o vagabundo.

Quando giraram, surpresos ao ouvir a voz grave e baixa, o mendigo estava a apenas alguns centímetros deles. Não poderia ter chegado tão perto sem alertá-los, mas ali estava ele.

O braço direito de Tique-taque bateu contra o peito de Harry com tanta força que pareceu a bola de aço de um guindaste de demolição. Ele foi lançado para trás. Bateu na parede com violência suficiente para fazer as janelas do quarto vibrarem nos caixilhos, os dentes se entrechocando com tamanha força que ele poderia ter decepado a língua se ela estivesse no caminho. Caiu de cara no chão, sugando poeira e fibras do tapete, lutando para recapturar o fôlego que lhe fora arrancado.

Com tremendo esforço, levantou o rosto do tapete Berber e viu que Connie fora erguida do chão. Tique-taque segurou-a contra a parede, sacudindo-a furiosamente. A nuca e os calcanhares de Connie tamborilavam uma música maluca.

Ricky, e agora Connie.

Primeiro tudo e todos que você ama.

Harry apoiou-se nas mãos e nos joelhos, engasgado com fibras de tapete presas no fundo da garganta. Cada tosse lançava uma cunha de dor pelo peito, e ele sentia como se as costelas fossem um torno se fechando ao redor do coração e dos pulmões.

Tique-taque gritava contra o rosto de Connie palavras que Harry não conseguia entender porque tinha os ouvidos zumbindo.

Tiros de revólver.

Ela conseguira puxar o revólver e esvaziá-lo no pescoço e no rosto do atacante. As balas fizeram-no sacudir ligeiramente, mas ele não diminuiu o aperto.

Fazendo caretas por causa da dor no peito, e se apoiando numa penteadeira estilo dinamarquês moderno, Harry lutou para ficar de pé. Atordoado, respirando com dificuldade. Pegou o seu revólver, sabendo que seria inútil contra esse adversário.

Ainda gritando e segurando Connie acima do chão, Tique-ta-que girou, afastando-a da parede e lançando-a em direção às duas portas deslizantes de vidro que davam na varanda. Ela se chocou contra uma das portas, como se tivesse sido projetada de um canhão, e o painel de vidro temperado se estilhaçou em dezenas de milhares de fragmentos gomosos.

Não. Não podia acontecer com Connie. Não podia perder Connie. Impensável.

Harry disparou duas vezes. Dois buracos apareceram nas costas da capa de chuva de Tique-taque.

A coluna do vagabundo devia ter sido espatifada. Estilhaços de ossos e chumbo deviam ter rasgado todos os seus órgãos vitais. Ele deveria ter desabado como King Kong mergulhando do Empire State Building.

Em vez disso, virou-se.

Não gritou de dor. Nem sequer cambaleou. Falou:

—      Herói fodão.

Era um mistério como ainda podia falar, talvez um milagre. Em sua garganta havia um furo de bala do tamanho de um dólar de prata.

Connie também estourara parte do rosto do sujeito. O tecido que faltava deixara uma grande concavidade do lado esquerdo, do maxilar inferior até abaixo do olho, e a orelha esquerda se fora.

Nenhum sangue jorrou. Nenhum osso foi exposto. A carne não era vermelha, e sim marrom-preta e estranha.

Seu sorriso era mais terrível do que nunca, porque a desintegração da bochecha esquerda expusera os dentes podres do lado do rosto. Naquela gaiola de cálcio a língua se agitava como uma enguia gorda aprisionada na rede de um pescador.

—      Você acha que é tão mau, grande herói, tira durão, fodão -— disse Tique-taque. A despeito de sua voz profunda e rouca, ele parecia curiosamente um menino de escola gritando um desafio numa briga de pátio, e nem mesmo sua aparência temível conseguia esconder totalmente essa qualidade infantil em suas ofensas. — Mas você não é nada, não é ninguém, é só um homenzinho amedrontado.

O vagabundo deu um passo em sua direção.

Harry apontou o revólver para o enorme atacante e... descobriu-se sentado numa cadeira na cozinha de James Ordegard. O revólver continuava em sua mão, mas o cano estava apertado contra a parte de baixo de seu queixo, como se estivesse prestes a cometer suicídio. O aço era frio contra sua pele, e a mira se afundava dolorosamente contra o osso do maxilar. O dedo estava em volta do gatilho.

Largando o revólver como se tivesse descoberto uma cobra venenosa na mão, ele saltou da cadeira.

Não se recordava de ter ido à cozinha, puxado a cadeira de perto da mesa e sentado. Num piscar de olhos parecia ter sido transportado até lá e levado às raias da autodestruição.

Tique-taque tinha ido embora.

A casa estava silenciosa. Estranhamente silenciosa.

Harry caminhou em direção à porta...

...e estava sentado na mesma cadeira de antes, o revólver de novo em sua mão, o cano dentro da boca, os dentes mordendo o aço.

Atordoado, tirou o .38 da boca e colocou-o no chão ao lado da cadeira. A palma da mão estava molhada. Enxugou-a nas calças.

Ficou de pé. As pernas trêmulas. Começou a suar, e o gosto azedo de pizza meio digerida surgiu no fundo da garganta.

Apesar de não entender o que estava acontecendo, tinha certeza de que não sentia uma ânsia suicida. Queria viver. Para sempre, se possível. Não colocaria o cano do revólver entre os lábios, não voluntariamente, não em um milhão de anos.

Passou a mão trêmula pelo rosto úmido e...

...estava de novo na cadeira, segurando o revólver, o cano apertado contra o olho direito, olhando para o buraco escuro. Doze centímetros metálicos de eternidade. Dedo ao redor do gatilho.

Santo Deus.

Seu coração batia tão forte que ele podia senti-lo em todos os locais doloridos do corpo.

Cuidadosamente colocou o revólver no coldre sob o paletó amarrotado.

Sentia como se tivesse sido enfeitiçado. Mágica parecia ser u única explicação para o que acontecia. Feitiçaria, bruxaria, vodu, Subitamente estava disposto a acreditar em tudo isso, desde que acreditar provocasse o perdão da sentença que Tique-taque pronunciara contra ele.

Passou a língua nos lábios. Rachados, secos, ardendo. Olhou para as mãos pálidas e imaginou que o rosto estivesse ainda mais pálido.

Depois de ficar de pé, trêmulo, hesitou brevemente e foi em direção à porta. Ficou surpreso ao alcançá-la sem estar inexplicavelmente de volta à cadeira.

Lembrou-se das quatro balas que encontrara no bolso da camisa depois de atirar quatro vezes no mendigo e lembrou-se também da descoberta do jornal sob o braço enquanto saía da mercearia no início da noite. Encontrar-se por três vezes na cadeira da cozinha sem lembrar-se de ter ido até lá seria meramente resultado de uma aplicação diferente do mesmo truque que pusera as balas no bolso e o jornal sob o braço. Uma explicação de como o efeito era obtido parecia quase ao seu alcance... mas continuou fugidia.

Quando saiu da cozinha sem mais nenhum incidente, decidiu que o feitiço estava quebrado. Correu para o quarto principal, receando encontrar Tique-taque, mas o vagabundo parecia ter ido embora.

Teve medo de encontrar Connie morta, a cabeça virada ao contrário, como a de Ricky, os olhos arrancados.

Ela estava sentada no chão da varanda, em meio a poças brilhantes de vidro temperado, ainda viva, graças a Deus, segurando a cabeça nas mãos e gemendo baixo. Seu cabelo curto e escuro se agitava à brisa da noite, brilhante e macio. Harry desejou tocar nele, acariciá-lo.

Agachou-se ao lado dela.

—      Tudo bem?

—      Onde ele está?

—      Foi embora,

—      Quero arrancar os bofes dele.

Harry quase riu, aliviado com a bravata.

—      Arrancar e enterrar onde o sol não brilhe — disse ela. — fazê-lo respirar pelo cu, de agora em diante.

—      Provavelmente isso não iria acabar com ele.

—      Faria com que ficasse um pouco mais lento.

—      Talvez nem mesmo isso.

—      Mas de onde ele surgiu?

—      Do mesmo lugar para onde foi. Do ar.

Ela gemeu de novo.

—      Tem certeza de que está bem? — perguntou Harry.

Ela finalmente levantou o rosto das mãos. O canto direito da boca sangrava, e a visão do sangue fez com que Harry estremecesse de raiva e medo. Todo o lado do rosto estava vermelho, como se ela tivesse levado uma série de tapas. Amanhã provavelmente estaria roxo de hematomas.

Se eles vivessem para ver o amanhã.

—      Meu chapa, umas aspirinas cairiam bem — sugeriu ela.

—      Para mim idem.

Harry tirou do bolso do paletó o frasco de Anacin que pegara no armário de remédios de Connie, há algumas horas.

—      Um escoteiro genuíno.

—      Vou pegar um pouco d'água.

—      Eu posso me virar sozinha.

Harry ajudou-a a ficar de pé. Cacos de vidro caíram de seu cabelo e das roupas.

Quando entraram no quarto, Connie parou para olhar a pintura pendurada na parede. O cadáver sem cabeça. Ura gigante faminto de olhos loucos e fixos.

—      Tique-taque tinha olhos amarelos—disse ela.—Não eram como quando ele me pediu esmola, do lado de fora do restaurante.

Olhos amarelos, brilhantes, com traços negros no lugar de pupilas.

Foram para a cozinha pegar água para tomar o Anacin. Harry tinha o sentimento irracional de que os olhos do gigante no quadro de Goya tinham se virado para observá-los e que o monstro saíra da tela para ir atrás deles pela casa do homem morto.

 

Algumas vezes, quando se cansava de exercer seus poderes, Bryan Drackman tornava-se carrancudo e petulante. Não gostava de nada. Se a noite estava fria, queria que estivesse quente; se estava quente, queria que estivesse fria. O sorvete era doce demais, os salgadinhos de milho salgados demais, o chocolate achocolatado demais. O toque das roupas sobre a pele, até mesmo de um roupão de seda, era intoleravelmente irritante, e mesmo assim ele se sentia estranho e vulnerável quando estava nu. Não queria ficar em casa, não queria sair. Quando se olhava no espelho não gostava do que via, e quando se colocava diante dos frascos com os olhos, tinha a sensação de que zombavam dele, em vez de adorá-lo. Sabia que deveria dormir para recuperar as energias e melhorar o humor, mas desprezava o mundo dos sonhos tanto quanto o mundo real.

Essa irritação crescia até deixá-lo com vontade de brigar. Como não havia ninguém com quem discutir nesse santuário litorâneo, ele não tinha como desabafar seu mau humor. A irascibilidade se transformava em raiva. A raiva se tornava uma fúria cega.

Exausto demais para canalizar sua ira para uma atividade física, sentava-se nu na cama preta, encostado nos travesseiros forrados de seda preta, e deixava a raiva consumi-lo. Cerrava as mãos com força, apertava mais, mais, até que as unhas escavassem dolorosamente as palmas, e até que os músculos dos braços doessem com o esforço. Batia com os punhos nas coxas — com os nós dos dedos, para doer mais—e depois no abdome, no peito. Enrolava o cabelo nos dedos e puxava até que as lágrimas nublassem sua visão.

Seus olhos. Dobrava os dedos em garras, apertava as unhas contra as pálpebras e tentava criar coragem bastante para arrancá-los e esmagá-los com os punhos.

Não compreendia por que se deixava levar pela raiva a ponto de querer se cegar, mas a compulsão era poderosa.

A irracionalidade dominava-o.

Uivava, erguia a cabeça, angustiado, e batia contra os lençóis pretos, chutava e se debatia, gritava e cuspia, praguejava com tal fluidez e veemência que fazia a explosão parecer obra de algum filho do inferno que o houvesse possuído. Amaldiçoava o mundo e a si próprio, mas acima de tudo a puta, a puta parideira, a puta parideira estúpida e odiosa. Sua mãe.

Sua mãe.

Subitamente a raiva prorrompia em perturbação e angústia, e seus gritos furiosos se crispavam em soluços agoniados. Enroscava-se em posição fetal e chorava tão intensamente quanto havia gritado, tão passional em sua autopiedade quanto na fúria.

O que se esperava dele não era justo, nem um pouco justo. Tinha de se Tomar sem a companhia de um irmão, sem a mão condutora de um pai carpinteiro, sem a misericórdia suave de sua mãe. Jesus desfrutara o amor perfeito de Maria enquanto se Tornava, mas dessa vez não havia Virgem Santa, nenhuma Madonna radiante estava ao seu lado. Dessa vez houvera uma bruxa, seca e debilitada pelos apetites insaciáveis e pela auto-indulgência, que se afastara dele cheia de desprezo e medo, incapaz e sem vontade de lhe proporcionar algum conforto. Era tão injusto, tão amargamente injusto que ele devesse se Tornar e refazer o mundo sem os discípulos adoradores que tinham estado junto de Jesus, e sem uma mãe como Maria, Rainha dos Anjos!

Gradualmente seus soluços desventurados cessavam.

O fluxo de lágrimas se reduzia, secando.

Ele mergulhava numa solidão miserável.

Precisava dormir.

Desde o último cochilo ele criara um golem para matar Ricky Estefan, construíra outro para amarrar a fivela de prata no retrovisor do Honda de Lyon, brincara de deus trazendo à vida o réptil voador na areia da praia e criara outro golem para aterrorizar o herói fodão e sua parceira. Também usara o Poder Maior e Mais Secreto para colocar as aranhas e cobras nos armários de Ricky Estefan, para botar a cabeça quebrada da estatueta religiosa na mão fechada de Connie Gulliver e para deixar Lyon meio doido, trazendo-o de volta por três vezes àquela cadeira da cozinha, em várias posturas suicidas.

Riu ao lembrar do medo e da absoluta confusão de Harry Lyon,

Tira estúpido. Grande herói. Quase mijou nas calças de tanto medo.

Bryan riu de novo. Ele se virou, enterrou a cara no travesseiro e caiu na gargalhada.

Quase mijou nas calças. Grande herói.

Logo ele parou de sentir pena de si mesmo. Estava se sentindo melhor.

Continuava exausto, precisava dormir, mas também sentia fome. Queimara uma quantidade tremenda de calorias no exercício de seu poder e perdera mais de um quilo. Enquanto não aquietasse as pontadas de fome, não conseguiria dormir.

Vestindo o roupão de seda vermelho, desceu a escada até a cozinha. Pegou no armário um pacote de Mallomars, um de Oreos e um saco grande de batatas chips sabor cebola. Na geladeira apanhou duas garrafas de Yoo-Hoo: uma de chocolate e uma de baunilha.

Pegou a comida, atravessou a sala de estar e saiu para o pátio forrado de ladrilhos mexicanos, parte do qual era coberto pela varanda do quarto principal no andar de cima. Sentou-se numa espreguiçadeira perto da cerca, assim poderia ver o Pacífico escuro.           Enquanto a terça-feira cruzava a meia-noite e se tornava quarta-feira, uma brisa fria soprou do oceano, mas Bryan não se importou. A avó Drackman teria ralhado com ele, dizendo que iria pegar pneumonia. Mas se ficasse frio demais, com um pouco de esforço ele poderia ajustar seu metabolismo e aumentar a temperatura do corpo.

Comeu todo o pacote de Mallomars com Yoo-Hoo de baunilha.

Podia comer o que quisesse.

Podia fazer o que quisesse.

Ainda que o processo de se Tornar fosse solitário, e ainda que parecesse injusto não ter discípulos que o admirassem e a sua própria Mãe Sagrada, tudo isso tinha uma boa finalidade. Enquanto Jesus era um deus de compaixão e cura, Bryan destinava-se a ser um deus de cólera e limpeza; por esse motivo, era preferível que se Tornasse na solidão, sem o aconchego de um amor materno, sem ser incomodado por ensinamentos de dedicação e piedade.

 

Então o homem fedorento, mais fedorento do que laranjas podres caídas de uma árvore e cheias de coisas se mexendo, mais fedorento do que um rato morto há três dias, mais fedorento do que qualquer coisa, fedorento a ponto de fazer você espirrar quando o cheirava por muito tempo, vai de rua em rua até entrar num beco, deixando escapar nuvens de odores.

O cão segue alguns passos atrás, curioso, mantendo distância, cheirando o rastro da coisa-que-vai-matar-você misturada a todos os outros cheiros.

Param nos fundos de um lugar onde gente faz comida.

Cheiros bons, quase mais fortes do que o homem fedorento, cheiros de dar fome, montes, montes de cheiros. Carne, galinha, cenouras, queijo. Queijo é bom, gruda no dente mas é bom mesmo, muito melhor do que chiclete velho na rua, que gruda no dente mas não é tão bom. Pão, ervilhas, açúcar, baunilha, chocolate e mais coisas que fazem sua mandíbula doer e a boca encher de água.

Algumas vezes ele vai a lugares de comida assim, balançando a cauda, ganindo, e eles dão alguma coisa boa. Mas na maioria das vezes expulsam-no, jogam coisas, gritam, batem os pés. As pessoas são estranhas com relação a um monte de coisas, uma delas é a comida. Um monte de gente guarda comida, não quer que você tenha nem um pouco — e depois jogam um bocado fora, em latas onde a comida foi deixada até feder e ser capaz de causar doenças. Se você derruba as latas para pegar a comida antes que ela seja capaz de provocar doença, as pessoas vêm correndo e gritando e caçando como se você fosse um gato ou coisa do tipo.

Ele não é divertido de se caçar. Gatos são divertidos de se caçar, Ele não é um gato. É um cachorro. Isso parece tão óbvio para ele.

As pessoas podem ser estranhas.

Agora o homem fedorento bate numa porta, bate de novo, e a porta é aberta por um homem gordo vestido de branco e envolto em nuvens de cheiros de dar fome.

Por Deus, Sammy, você está pior do que o normal, diz o homem gordo vestido de branco.

Só um pouco de café, diz o homem fedorento, estendendo a garrafa que estivera carregando. Não quero incomodar você, verdade. Eu me sinto mal em ter que pedir, mas preciso de um pouco de café.

Lembro de quando você começou, há anos...

Um pouco de café pra me deixar sóbrio.

...trabalhando naquela pequena agência de publicidade em Newport Beach...

Preciso ficar sóbrio depressa.

...antes de se mudar e se dar bem em Los Angeles. Você estava sempre bem-vestido, as melhores roupas.

Vou morrer se não ficar sóbrio.

Agora você falou a verdade, disse o homem gordo.

Só uma garrafa térmica de café, Kenny. Por favor.

Você não vai ficar sóbrio só com café. Vou pegar um pouco de comida, e você vai prometer que vai comer.

É, claro, claro que vou. E um pouco de café, por favor.

Fica de lado, aí, longe da porta. Não quero que o chefe veja você. Vai perceber que eu estou lhe dando alguma coisa.

Certo, Kenny, certo. Agradeço, agradeço mesmo, porque preciso ficar sóbrio.

O homem gordo olha para trás e para o lado do homem fedorento e diz:

Agora você tem um cachorro, Sammy?

Hem? Eu? Um cachorro? Claro que não.

O homem fedorento se vira, olha, fica surpreso.

Talvez o homem fedorento o chutasse ou caçasse, mas o homem gordo é diferente. O homem gordo é legal. Qualquer pessoa que cheire a tantas coisas boas de comer deve ser legal

O homem gordo se inclina para fora, junto à porta, com a luz do lugar de comer vindo por trás. Numa voz de gente-que-vai-alimentar-você, ele diz:

E aí, amigão, como vai?

Só ruídos de gente. Ele não entende de verdade, são só ruídos

de gente.

Então ele balança o rabo — sabe que as pessoas gostam disso —, inclina a cabeça e coloca a expressão que geralmente faz elas dizerem ahhhh.

O homem gordo diz Ahhhh, você não é da rua, amigão. Que tipo de gente iria abandonar um vira-lata tão bonito como você? Está com fome? Aposto que sim. Posso cuidar disso, amigão.

Amigão é uma das coisas que as pessoas dizem para ele, a que dizem mais vezes. Lembra-se de ser chamado de Príncipe quando era um filhote, por uma menininha que gostava dele, mas isso foi há muito tempo. A mulher e o menino chamam-no de Woofer, mas Amigão é o que ele ouve com maior freqüência.

Balança a cauda mais ainda e geme para mostrar que gosta do homem gordo. E se agita inteiro para mostrar que é inofensivo, um cachorro bom, um cachorro muito bom, bom. Gente gosta disso.

O homem gordo diz alguma coisa ao homem fedorento, depois desaparece no lugar de comida, deixando a porta fechar.

Preciso ficar sóbrio, diz o homem fedorento, mas só está falando com ele mesmo.

Tempo de esperar.

Só esperar é difícil. Esperar um gato numa árvore é mais difícil. E esperar comida é a pior espera de todas. O tempo passado desde que as pessoas parecem que vão dar comida até eles realmente darem é sempre tão longo que talvez desse para caçar um gato, caçar um carro, cheirar todos os outros cachorros do território, caçar seu rabo até ficar tonto, virar montes de latas cheias de comida que dá doença e quem sabe dormir um pouco — e ainda ter de esperar antes que elas voltem com alguma coisa para você comer.

Ando vendo coisas das quais as pessoas precisam saber, diz o homem fedorento.

Mantendo distância do homem, ainda balançando o rabo, ele tenta não sentir todos os cheiros que vêm do lugar de comida, o que só torna a espera pior. Mas os cheiros continuam vindo. Ele não consegue não cheirá-los.

O homem-rato é real. É real.

Finalmente o homem gordo volta com a garrafa estranha e com um saco para o homem fedorento — e mais um prato cheio de sobras.

Balançando o rabo, tremendo, ele pensa que as sobras são para ele, mas não quer ser ousado demais, não quer ir atrás das sobras e depois o homem gordo chutá-lo ou fazer alguma coisa do tipo. Espera. Geme para que o homem gordo não o esqueça. Então o homem gordo coloca o prato no chão, o que significa que as sobras são para ele, e isso é bom, isso é muito bom, ah, isso é o melhor.

Aproxima-se furtivamente do prato, enfia o nariz na comida. Presunto. Carne. Pedaços de pão encharcado de molho gorduroso. Sim sim sim sim sim sim sim.

O homem gordo se agacha, quer acariciá-lo, cocar atrás das orelhas, e ele deixa, embora esteja um pouco assustado. Algumas pessoas atraem você com comida, colocam na sua frente, dão a comida, fingem que querem fazer carinho, depois dão-lhe um tapa no nariz, chutam você ou fazem coisa pior.

Lembra uns garotos que uma vez vieram com comida para ele, garotos risonhos, garotos felizes. Pedaços de carne. Oferecidos coro a mão. Garotos legais. Todos fazendo carinho, cocando atrás de suas orelhas. Ele farejou-os, não cheirou nada estranho. Lambeu suas mãos. Garotos felizes, cheirando a sol de verão, areia, sal do mar. Equilibrou-se nas patas traseiras, caçou o rabo e caiu de quatro outra vez, só para eles rirem, só para agradá-los. E eles riram. Brincaram com ele. Ele até se deitou de costas. Expôs a barriga. Garotos legais. Talvez um deles o levasse para casa, desse comida todo dia. Depois pegaram-no pela pele do pescoço, e um deles botou fogo num pauzinho e começou a querer incendiar seu pêlo. Ele se contorceu, guinchou, ganiu, tentou se libertar. O pauzinho de fogo apagou. Eles acenderam outro. Poderia tê-los mordido. Mas isso seria ruim. Ele era um cachorro bom. Bom. Ele ficou com cheiro de pêlo queimado, mas não pegou fogo, por isso eles acenderam outro pauzinho e ele fugiu. Correu para longe do alcance deles.

Olhou de volta. Garotos sorridentes. Cheirando a sol, areia e sal do mar. Garotos felizes. Apontando para ele e rindo.

A maioria das pessoas é legal, mas outras não são, Algumas vezes ele pode cheirar as não-legais imediatamente. Elas cheiram... a coisas frias,,, como gelo,., como metal no inverno... como o mar quando está cinza e não venta e todas as pessoas foram embora da praia. Mas outras vezes as pessoas não-legais cheiram exatamente como as legais. As pessoas são as coisas mais interessantes do mundo, São também as mais assustadoras.

O homem gordo atrás do prato de comida é legal. Nada de tapa no seu nariz. Nada de chute. Nada de fogo. Só comida boa, sim sim sim sim, e riso legal quando você lambe a mão dele.

Finalmente o homem gordo deixa claro que não há mais comida por enquanto. Você fica de pé nas patas traseiras, geme, gane, rola e expõe a barriga, senta e pede, faz sua dançazinha num círculo, inclina a cabeça, balança balança, balança o rabo, sacode a cabeça e abana as orelhas, faz todos os truques de ganhar comida, mas não dá para conseguir mais nada com ele. Ele entra, fecha a porta.

Bom, você está cheio. Não precisa de mais comida.

Não significa que não queira mais.

Então espera. Junto à porta.

É um homem legal. Vai voltar. Como pode esquecer de você, de sua dança, do rabo balançando e do gemido de pidão?

Espera.

Espera.

Espera. Espera.

Gradualmente lembra-se de que estava fazendo alguma coisa interessante quando encontrara o homem gordo com a comida. Mas o quê?

Interessante...

Então se recorda: o homem fedorento.

O estranho homem fedorento está no extremo do beco, no canto, sentado no chão entre dois arbustos, com as costas apoiadas na parede do lugar de comida. Está comendo algo que tira de um saco, bebendo de uma garrafa grande. Cheiro de café. Comida.

Comida.

Vai em direção ao homem fedorento porque talvez consiga mais alguma coisa para comer, mas pára porque subitamente cheira a coisa ruim, No homem fedorento. Mas também no ar da noite. Muito forte de novo, aquele cheiro, frio e terrível, levado na brisa.

A coisa-que-vai-matar-você saiu de novo.

Parando de balançar o rabo, ele vira para longe do homem fedorento e corre através das ruas noturnas, seguindo aquele cheiro entre milhares de outros, indo para onde a terra desaparece, onde há somente areia e água, na direção do mar que ruge, frio, escuro, mar escuro.

 

Os vizinhos de James Ordegard, como os de Ricky Estefan, não tinham percebido a agitação ali perto. O tiroteio e os vidros espatifados não provocaram resposta. Quando Harry abriu a porta da, frente e olhou para a rua, a noite continuava calma, e nenhuma sirene soou à distância.

Era como se o confronto com Tique-taque tivesse se passado num sonho onde só haviam estado Harry e Connie. Entretanto, eles tinham provas suficientes de que o encontro fora real: cartuchos deflagrados nos revólveres, vidro quebrado em toda a varanda do quarto principal, e cortes, arranhões e vários pontos doloridos que mais tarde se tornariam hematomas.

A primeira urgência de Harry — e de Connie — era dar o fora antes que o vagabundo retornasse. Mas ambos sabiam que Tique-taque poderia encontrá-los facilmente em qualquer lugar e precisavam deduzir o máximo de coisas possíveis a partir do confronto com ele.

De novo no quarto de James Ordegard, sob o olhar malévolo do gigante na pintura de Goya, Harry procurava outra prova. Sangue.

Connie atirara em Tique-taque pelo menos três vezes, talvez quatro, à queima-roupa. Parte do rosto dele fora arrancada, e havia um ferimento substancial em sua garganta. Depois do mendigo ter lançado Connie através da porta de vidro, Harry dera dois tiros nas suas costas.

Deveria haver sangue espalhado como cerveja numa festa estudantil. Não havia uma gota visível nas paredes ou no tapete.

—      E então? — perguntou Connie, encostada à porta, segurando um copo d'água. Os comprimidos de Anacin haviam grudado em sua garganta. Ela ainda tentava fazer com que eles descessem.

Talvez tivessem descido facilmente, e em sua garganta estivesse grudada outra coisa, como o medo, que ela tinha dificuldade de engolir. — Encontrou alguma coisa?

—      Nenhum sangue. Só essa... terra, acho que é terra.

A coisa certamente parecia terra úmida quando ele a esmagou entre os dentes e cheirou. Torrões e farelos estavam espalhados pelo chão e sobre a cama.

Harry moveu-se agachado pelo quarto, parando junto aos torrões maiores para cutucá-los com um dedo.

—      Esta noite está correndo muito rápido — disse Connie.

—      Não me diga que horas são — pediu ele sem levantar a cabeça.

Mesmo assim ela falou:

—      Já se passaram alguns minutos da meia-noite. Hora das bruxas.

—      Sem dúvida.

Ele continuou se movendo, e num montinho de terra encontrou uma minhoca. Ainda estava úmida, brilhante, mas morta.

Descobriu uma bolota de matéria vegetal apodrecida, que pareciam folhas de fícus. Elas se desfizeram como camadas num mil-folhas. Um pequeno besouro preto com pernas rígidas e olhos verde-jóia estava sepultado no meio delas.

Perto de uma das mesinhas-de-cabeceira Harry encontrou uma bala de chumbo ligeiramente deformada, uma das que Connie atirara em Tique-taque. Havia terra úmida grudada nela. Pegou-a e rolou-a entre o polegar e o indicador, olhando pensativamente.

Connie entrou no quarto para ver o que ele descobrira.

—      O que você acha disso?

—      Não sei exatamente... acho que talvez...

—- O quê?

Ele hesitou, olhando a terra espalhada pelo chão e sobre a cama.

Harry recordava algumas lendas folclóricas, espécies de contos de fadas, talvez com um tom religioso ainda mais forte do que os de Hans Christian Andersen. De origem judaica, se é que não estava enganado. Histórias de magia cabalística.

—      Se você juntasse toda essa terra e essas coisas, se comprimisse de verdade... acha que seria exatamente a quantidade de material necessária para encher o ferimento na garganta e o buraco do lado do rosto dele?

Connie franziu a testa.

—      Talvez. Mas... o que você quer dizer?

Ele ficou de pé e guardou o torrão no bolso. Sabia que não precisava lembrá-la da inexplicável pilha de terra na sala de Ricky Estefan — ou da mão e da manga de casaco detalhadamente esculpidas, brotando da terra.

—      Ainda não tenho certeza do que estou falando — disse

Harry. — Preciso pensar mais um pouco.

Enquanto atravessavam a casa de Ordegard, apagaram as luzes. A escuridão deixada atrás parecia viva.

Do lado de fora, no mundo depois da meia-noite, o ar do oceano lavava a terra sem limpá-la. Para Harry, o vento do Pacífico sempre parecera claro e limpo, mas agora não parecia mais. Perdera sua fé na idéia de que o caos da vida era continuamente posto em ordem pelas forças da natureza. Naquela noite a brisa fresca fazia-o pensar em coisas impuras: granito de lápide, ossos sem carne no abraço eterno da terra gélida, brilhantes carapaças de besouros que se alimentavam de carne morta.

Estava surrado e cansado; talvez a exaustão respondesse por essa modificação sombria e prodigiosa de pensamento. Qualquer que fosse a causa, ele passava a compartilhar a visão de Connie de que o caos, e não a ordem, era o estado natural das coisas, e que era impossível resistir, só se podia cavalgá-lo como um surfista deslizando numa onda enorme e potencialmente mortal.

No gramado, entre a porta da frente e a entrada de carros onde ele estacionara o Honda, quase tropeçaram num grande monte de terra que não estivera ali quando haviam chegado.

Connie pegou uma lanterna no porta-luvas do Honda, voltou e dirigiu o facho para o monte de terra, para que Harry pudesse examiná-lo mais de perto. Primeiro ele rodeou com cuidado a pilha, estudando-a atentamente, mas sem conseguir encontrar qualquer outra característica humana, como uma mão. Desta vez a destruição fora completa.

No entanto, revolvendo a terra com as mãos, ele descobriu amontoados de folhas mortas e apodrecidas como as que encontrara no quarto de Ordegard. Grama, pedras, minhocas mortas. Pedaços de uma caixa de charutos. Pedaços de raízes e gravetos, Minúsculos ossos de periquito, inclusive o frágil laço de cálcio de uma asa dobrada. Harry não tinha certeza do que esperava encontrar; talvez um coração esculpido em terra — com todos os detalhes da mão que tinham visto na sala de Ricky —, e ainda batendo com uma vida estranha e maligna.

No carro, depois de dar a partida, ligou o aquecedor. Um frio profundo penetrara em seu corpo.

Enquanto se aquecia, e olhava o monte de terra preta no gramado escuro, Harry contou a Connie sobre o monstro vingativo da lenda e do folclore — o golem. Ela ouviu sem comentários, menos cética com relação a essa possibilidade espantosa do que estivera no apartamento, no início da noite, quando ele falara de um sociopata com habilidades psíquicas e o poder demoníaco de possuir outras pessoas.

Quando ele terminou, Connie disse:

—      Então ele faz um golem e usa-o para matar, enquanto fica em segurança em outro ponto.

—      Talvez.

—      Faz um golem de terra.

—      Ou de areia, de uma vassoura velha ou de qualquer outra coisa.

—      Faz com o poder da mente.

Harry não respondeu.

—      Com o poder de sua mente ou com mágica, como nos contos folclóricos?

—      Meu Deus, não sei. É tudo tão louco!

—      E você ainda acha que ele também pode possuir pessoas, usá-las como marionetes?

—      Provavelmente, não. Até agora não temos prova disso.

—      E Ordegard?     

—      Não creio que haja qualquer conexão entre Ordegard e esse tal de Tique-taque.

—      Mas você queria ir ao necrotério porque pensava...      

—      Pensava, mas não penso mais. Ordegard era só um doido comum, pré-milênio. Quando acabei com ele no sótão, ontem à. tarde, foi o fim.

—      Mas Tique-taque apareceu aqui na casa de Ordegard.  

—      Porque estávamos aqui. Ele sabia como encontrar a gente, de algum modo. Veio porque estávamos aqui, não porque tenha alguma coisa a ver com James Ordegard.

Um jato de ar quente brotou das entradas no painel de instru mentos. Envolveu-o sem derreter o gelo que ele imaginava ter sentido na boca do estômago.

—      Por acaso nós demos de cara com dois psicóticos num

intervalo de horas — disse Harry. — Primeiro Ordegard, e depois esse cara. Foi um mau dia para o time da casa, só isso.

—      Um dia para entrar nos registros — concordou Connie. —

Mas se Tique-taque não é Ordegard, por que ele se fixou em você?

Por que quer você morto?

—      Não sei.

—      Na sua casa, antes de botar fogo, ele não disse que você não poderia atirar nele e achar que era o fim?

—      É, isso é parte do que ele disse. — Harry tentou recordar o resto do que o vagabundo-golem trovejara, mas a memória estava arísca. — Agora que penso a respeito, ele nunca mencionou o nome de Ordegard. Eu só presumi... Não. Ordegard foi uma pista falsa.

Receou que ela perguntasse como fariam para encontrar a pista verdadeira, a certa, que iria levá-los a Tique-taque. Mas Connie deve ter notado que ele estava completamente perdido, porque evitou colocá-lo na berlinda.

—      Está ficando muito quente aqui — disse ela.

Harry baixou o controle de temperatura do aquecedor.

Nos ossos, ele continuava gelado.

À luz do painel de instrumentos, observou as mãos. Estavam cobertas de sujeira, como as mãos de um homem que, enterrado vivo, houvesse cavado desesperadamente, tentando sair de um túmulo recente.

Deu marcha à ré, saindo da entrada de carros, e dirigiu lentamente descendo os morros íngremes de Laguna. Àquela hora da noite as ruas dos bairros residenciais estavam virtualmente desertas. A maioria das casas se encontrava às escuras. Pelo que sabiam, os dois podiam estar descendo por uma cidade fantasma moderna, cujos moradores tinham desaparecido como a tripulação do velho veleiro Mary Celeste: camas vazias nas casas escuras, televisões acesas em salas desertas, lanches noturnos servidos sobre pratos nas cozinhas silenciosas onde ninguém ficara para comer.

Olhou para o relógio do painel: 12:18.

Pouco mais de seis horas até o amanhecer.

—      Estou tão cansado que não consigo pensar direito — disse

Harry. — E, droga, eu preciso pensar.

—      Vamos tomar um café, comer alguma coisa. Recuperar as energias.

—      É, está certo. Onde?

—      The Green House. Fica na Pacific Coast Highway. É um dos poucos lugares abertos a essa hora.

—      Green House. É, eu conheço.

Depois de um silêncio que durou enquanto desciam outro morro, Connie disse:

—      Sabe o que achei mais esquisito na casa do Ordegard?

—      O quê?

—      Lembrou meu apartamento.

—      Verdade? Como?

—      Não me sacaneie, Harry. Você viu os dois lugares esta noite.

Harry tinha percebido uma certa semelhança, mas não quis pensar a respeito.

—      Ele tem mais móveis do que você.

—      Não muito mais. Nenhum bricabraque, nada do que chamam de objetos decorativos, nenhuma foto de família. Uma peça de arte pendurada na casa dele, uma na minha.

—      Mas há uma grande diferença, uma diferença enorme. Você tem aquele pôster com a visão de um pára-quedista, luminoso, alegre, dá um sentimento de liberdade só de olhar. Nada como o gigante mastigando pedaços de corpo humano.

—      Não tenho tanta certeza. A pintura no quarto dele é sobre a morte, o destino humano. Talvez o meu pôster não seja tão alegre, na verdade. Talvez ele também seja sobre a morte, sobre cair, cair e nunca abrir o pára-quedas.

Harry olhou para ela. Connie não o estava encarando. Tinha a cabeça inclinada para trás, os olhos fechados.

—      Você não é mais suicida do que eu — disse ele.

—      Como você sabe?

—      Eu sei.

—      Sabe coisa nenhuma.

Ele parou num sinal vermelho da Pacific Coast Highway e encarou-a de novo. Ela ainda não abrira os olhos.

—      Connie...

—      Eu sempre cacei a liberdade. E qual é a liberdade definitiva?

—      Diga-me.

—      A liberdade definitiva é a morte.

—      Não dá uma de freudiana pra cima de mim, Gulliver. Uma coisa que sempre gostei em você é que não tenta psicanalisar todo mundo.

Ela sorriu, evidentemente lembrando-se de que usara aquelas mesmas palavras no restaurante depois do tiroteio com Ordegard, quando Harry imaginara se ela era tão dura por dentro quanto fingia ser.

Ela abriu os olhos, verificou o sinal de trânsito. 1 — Verde.

—      Não estou pronto para ir.

Ela olhou para ele.

—      Primeiro—disse ele—, quero saber se você só está falando da boca para fora ou se realmente acha que tem algo em comum com um panaca que nem o Ordegard.

—      Essa merda toda que eu vivo falando, que é preciso amar o caos, abraçá-lo? Bom, talvez seja preciso, se você quiser sobreviver nesse mundo fodido. Mas esta noite estive pensando que talvez eu gostasse de surfar nesse caos, porque, secretamente, eu esperava que um dia ele me varresse.

— Talvez gostasse?

— Parece que não tenho o mesmo gosto pelo caos que já tive.

—      Tique-taque fez você se empanturrar?

—      Não ele. Só que... logo depois do trabalho, antes de seu apartamento ser queimado e tudo ir pro inferno, eu descobri que tenho um motivo para viver, do qual eu não sabia.

O sinal tinha ficado vermelho outra vez. Dois carros passaram zunindo pela rodovia litorânea, e ela ficou olhando até que eles sumiram.

Harry não disse nada, com medo de que qualquer interrupção a desencorajasse de terminar o que começara a dizer. Em seis meses, sua discrição ártica nunca descongelara até que, por um brevíssimo instante, no apartamento, ela parecera em vias de revelar alguma coisa particular e profunda. Rapidamente congelara de novo; mas agora a face da geleira estava estalando. O desejo que ele sentia de ser recebido no mundo de Connie era tão intenso que revelava não só sua própria necessidade de contato como mostrava até que ponto ela conseguia resguardar sua privacidade. Ele estava preparado para gastar todas as suas últimas seis horas de vida naquele sinal luminoso, se necessário, esperando que ela proporcionasse uma compreensão melhor da mulher especial que ele acreditava existir sob o duro verniz de policial das ruas.

— Eu tive uma irmã—disse Connie. — Nunca soube dela até recentemente. Está morta. Morreu há cinco anos. Mas teve uma filha. Eleanor. Ellie. Agora não quero ser varrida do mundo, não quero mais surfar no caos. Só quero ter uma chance de encontrar Ellie. Conhecer Ellie. Ver se posso amar essa menina... e acho que talvez eu possa. Talvez o que me aconteceu quando eu era criança não tenha destruído para sempre minha capacidade de amar. Talvez eu possa fazer mais do que odiar. Preciso descobrir. Não posso esperar para descobrir.

Ele estava desalentado. Se entendera bem, ela ainda não sentia por ele nada parecido com o amor que ele começara a sentir por ela. Mas tudo bem. Independentemente das dúvidas de Connie, ele sabia que ela tinha capacidade de amar e que encontraria no coração um lugar para a sobrinha. E, se houvesse um lugar para a sobrinha, por que não para ele?

Ela encarou seus olhos e sorriu.

—      Meu Deus, olha só, estou parecendo uma dessas neuróticas confessionais botando os bofes pra fora num programa vespertino de entrevistas na TV.

—      De jeito nenhum. Eu... eu quero ouvir.

—      Daqui a pouco vou estar dizendo como gosto de fazer sexo com homens que se vestem como as suas mães.

—      Você gosta?

Ela gargalhou.

—      Quem não gosta?

Harry queria saber o que ela pretendera dizer com o que me aconteceu quando eu era criança, mas não ousou perguntar. Essa experiência, ainda que não fosse a sua parte central, era pelo menos o que ela acreditava ser a sua parte central, e ela só poderia revelá-la no momento adequado. Além disso, havia mil outras perguntas que ele queria fazer, dez mil, e, se começasse, eles realmente ficariam naquele cruzamento até o amanhecer, Tique-taque e a morte.

O sinal luminoso estava novamente a favor deles. Harry virou à direita no cruzamento. Dois quarteirões ao norte estacionou diante do The Green House.

Quando saíram do carro, Harry percebeu um vagabundo sujo nas sombras no canto do restaurante, junto a um beco que passava por trás do prédio. Não era Tique-taque, mas um espécime menor, de aparência patética. Sentado entre dois arbustos, com as pernas esticadas, comia num saco que havia em seu colo, bebendo café quente de uma garrafa térmica e murmurando sozinho.

O sujeito olhou-os enquanto se encaminhavam para a entrada do The Green House. Seu olhar era febril, intenso. Os olhos vermelhos pareciam com os de muitos moradores das ruas, ardentes de medo. Talvez acreditasse estar sendo perseguido por alienígenas do espaço que lançavam microondas para embaralhar seus pensamentos. Ou pelo grupo covarde de 10.082 conspiradores que tinham realmente matado John F. Kennedy e que desde então controlavam secretamente o mundo. Ou por malignos empresários japoneses que comprariam tudo em todos os lugares, transformariam todo mundo em escravo e serviriam órgãos internos de crian-Ças americanas, crus, como acompanhamentos em sushi bars de Tóquio. Recentemente parecia que metade da população sadia — ou que passava por sadia nos últimos tempos — acreditava em alguma teoria paranóica demonstravelmente ridícula. Para a maioria dos moradores de rua, drogados como esse sujeito, essas fantasias eram obrigatórias.

Connie dirigiu-se ao vagabundo:

— Você consegue me ouvir ou está em algum lugar da Lua?

O homem encarou-a.

—      Nós somos tiras. Sacou? Tiras. Encoste a mão naquele carro enquanto estivermos fora e vai se ver tão rápido num programa de desintoxicação que não vai saber o que o atingiu. Nada de birita nem droga durante três meses.

A desintoxicação compulsória era a única ameaça que funcionava com alguns desses fidalgos da sarjeta. Eles já estavam no fundo do pântano, acostumados a serem chutados e mastigados pelos animais maiores. Não tinham nada a perder — a não ser a chance de ficarem ligados com vinho barato ou qualquer outra coisa que conseguissem obter.

—      Tiras? — disse o homem.

—      Isso — respondeu Connie. — Você me ouviu, Tiras. Três meses sem ficar de barato. Vão parecer três séculos.

Na semana anterior, em Santa Ana, um mendigo bêbado se aproveitara do seda que eles tinham deixado estacionado para fazer um protesto social deixando suas fezes no banco do chofer. Ou talvez ele os houvesse confundido com alienígenas do espaço, a quem um presente de dejetos humanos fosse sinal de boas-vindas e convite à cooperação intergaláctica. De qualquer modo, Connie quisera matar o sujeito e Harry precisara de toda a sua diplomacia e persuasão para convencê-la de que a desintoxicação era mais cruel.

—      Trancou as portas? — perguntou ela a Harry,

—      Tranquei.

Atrás deles, enquanto entravam no The Green House, o mendigo disse em tom pensativo:

—      Tiras?

 

Depois de comer os biscoitos e as batatas fritas, Bryan usou brevemente seu Poder Maior e Mais Secreto para garantir privacidade total. Em seguida ficou de pé na beirada do quintal e urinou entre as traves da cerca, no mar silencioso lá embaixo. Ele sempre se excitava fazendo esse tipo de coisa em público, algumas vezes no meio da rua, com gente em volta, sabendo que seu Poder Maior! e Mais Secreto impediria que descobrissem. Com a bexiga vazia, fez as coisas recomeçarem e voltou a casa.

Só comida raramente bastava para restaurar sua energia. Afinal de contas ele era um deus se Tornando e, de acordo com a Bíblia, o primeiro deus precisara descansar no sétimo dia. Antes que pudesse operar mais milagres, Bryan precisaria tirar um sono, talvez de uma hora.

No quarto principal, iluminado somente por uma lâmpada de cabeceira, ele permaneceu algum tempo diante das prateleiras laqueadas de preto, onde olhos de muitas espécies e cores flutuavam em fluido preservativo. Sentindo seus olhares imóveis e eternos. Sua adoração.

Desamarrou o roupão, tirou-o e deixou que ele caísse.

Os olhos o amaram. Amaram. Ele podia sentir o amor, e aceitou-o.

Abriu um dos frascos. Aqueles olhos pertenciam a uma mulher que fora extirpada do rebanho porque era uma das que poderiam desaparecer do mundo sem causar preocupação. Eram olhos azuis, Tinham sido lindos, mas agora a cor desbotara e as lentes eram leitosas.

Mergulhando os dedos no fluido pungente, retirou um dos olhos azuis e segurou-o na mão esquerda, Parecia uma tâmara madura — macia porém firme e úmida.

Colocando o olho entre a palma da mão e o peito, rolou-o suavemente pelo corpo, de mamilo a mamilo, para a frente e para trás, sem apertar muito, cuidando para não danificá-lo, mas ansioso para que a mulher morta o visse em toda a sua glória de se Tornar, cada plano macio, curva e poro. A pequena esfera era fria contra sua carne quente e deixava uma trilha de umidade sobre a pele. Ele estremeceu deliciado. Fez o globo escorregadio descer pela barriga lisa, descrevendo círculos, depois prendeu-o por um momento no umbigo.

Tirou do frasco o segundo olho azul. Colocou-o sob a mão direita e deixou que os dois olhos explorassem seu corpo: peito, flancos e coxas, subindo a barriga e o peito de novo, pelas laterais do pescoço, pelo rosto, girando suavemente as esferas úmidas e esponjosas pelas bochechas, girando, girando, girando. Satisfeito por ser objeto de adoração. Absolutamente glorioso por conceder à mulher morta esse momento de intimidade com o deus que se Tornava, que a julgara e condenara.

Trilhas sinuosas de líquido preservativo marcavam a viagem dos olhos sobre seu corpo. Enquanto o líquido evaporava, era fácil acreditar que o rastro de frescor era um cordão de lágrimas sobre a pele, derramadas pela mulher morta que se rejubilava ao contato sacrossanto.

Os outros olhos nas prateleiras observavam de seus universos líquidos com paredes de vidro. Pareciam invejosos dos olhos azuis com os quais ele se permitia comungar.

Bryan gostaria de poder trazer a mãe ali, e mostrar a ela todos os olhos que o adoravam e sentiam carinho por ele, reverenciavam-no e não descobriam nele qualquer aspecto que não desejassem ver.

Mas, claro, ela não olharia, não poderia enxergar. A bruxa teimosa e ressequida persistiria no temor. Ela o via como abominação, ainda que devesse ser óbvio, mesmo para ela, que ele estava se Tornando uma figura de poder espiritual transcendente, a espada do julgamento, instigador do Armagedon, salvador de um mundo infestado por uma abundante humanidade.

Colocou os olhos azuis de novo na jarra aberta e enroscou a tampa.

Satisfizera uma fome com biscoitos e batatas fritas, satisfizera outra revelando sua glória à congregação reunida nos frascos e constatando a reverência dos olhos. Agora era tempo de dormir um pouco e recarregar as baterias. O amanhecer estava mais próximo e, ele tinha promessas a cumprir.

Enquanto se acomodava sobre os lençóis desarrumados, estendeu a mão para o abajur, mas decidiu não apagá-lo. Os comungantes descorporificados nos frascos iriam vê-lo melhor se o quarto não estivesse totalmente escuro. Agradava-lhe pensar que seria admirado e venerado mesmo enquanto dormia.

Bryan Drackman fechou os olhos, bocejou e, como sempre, o sono veio sem demora. Sonhos: grandes cidades desmoronando, casas queimando, monumentos tombando, túmulos coletivos de concreto espatifado e aço retorcido estendendo-se até o horizonte e visitados por bandos de abutres tão numerosos que escureciam o céu.

 

Ele dispara, corre mais devagar, reduz a velocidade e finalmente se esgueira de sombra em sombra enquanto se aproxima da coisa-que-vai-matar-você. O cheiro é denso, forte, nauseabundo. Não é de imundície, como o do homem fedorento. Diferente. A seu modo, é pior. Interessante.

Não está com medo. Não está com medo. Nada de medo. É um cachorro. Tem dentes e garras afiados. É forte e ágil. Corre no sangue a necessidade de rastrear e caçar. É um cachorro, esperto e feroz, e não foge de nada. Nasceu para caçar, não para ser caçado, e persegue sem temor qualquer coisa que queira, até mesmo gatos. Apesar deles terem arranhado seu nariz, de terem-no mordido e humilhado, ainda assim ele os caça sem medo, porque é um cachorro, talvez não tão esperto quanto alguns gatos, mas é um cachorro.

Segue devagar junto a uma fileira de oleandros densos. Flores bonitas. Frutinhas. Não coma as frutas. Dão doença. Dá para sabei pelo cheiro. Também as folhas. Também as flores.

Nunca comer nenhum tipo de flores. Ele tentou comer uma, certa vez. Havia uma abelha na flor, depois na sua boca, zumbindo em sua boca, picando a língua. Foi um dia muito ruim, pior do que gatos.

Continua se esgueirando. Não tem medo. Não. Não. Ele é um cachorro.

Lugar de gente. Paredes brancas e altas. Janelas escuras. Um quadrado de luz pálida perto do topo.

Ele se esquiva junto ao lugar.

O cheiro da coisa ruim é forte, e está ficando cada vez mais forte. Quase queima o focinho. Como amônia, mas diferente. Um cheiro frio e escuro, mais frio do que gelo e mais escuro do que a noite.

Na metade da parede alta e branca ele pára. Escuta. Fareja.

Não está com medo. Não está com medo.

Alguma coisa lá em cima faz Uuuuuuuuuu.

Ele tem medo. Gira, começa a voltar correndo na direção de onde veio.

Uuuuuuuuuuu.

Espera. Conhece esse som. Uma coruja, voando pela noite lá em cima, caçando alguma presa.

Sentiu medo de uma coruja. Cachorro mau. Cachorro mau.

Mau.

Lembra-se do garoto. Da mulher e do garoto. Além disso... o cheiro, o lugar e o momento são interessantes.

Ele torna a se virar e continua a se esgueirar junto ao lugar de gente, paredes brancas, uma luz fraca lá em cima. Chega a uma cerca de ferro. É apertada. Não tão apertada quanto o cano onde você entra atrás do gato e fica preso e o gato continua em frente, e você se retorce e chuta e luta muito tempo dentro do cano, acha que nunca vai se soltar, e depois imagina se o gato não está voltando pela escuridão do cano, vai arranhar seu nariz enquanto você está preso e não pode se mexer. Apertado, mas não tão apertado. Sacode a traseira, dá um impulso e atravessa.

Chega ao final do lugar, vira a quina e vê a coisa-que-vai-ma-tar-você. Sua visão não é tão aguçada quanto o olfato, mas ele consegue vislumbrar um homem, jovem, e sabe que é a coisa ruim porque fede àquele estranho cheiro negro frio. Antes parecia diferente, jamais um homem jovem, mas o cheiro era o mesmo. Esta é a coisa, com certeza. Congela.

Não está com medo. Não está com medo. Ele é um cachorro.

O homem-jovem-coisa-ruim está indo para o lugar de gente. Está carregando sacos de comida. Chocolate. Marshmallow. Batatas fritas.

Interessante.

Até a coisa ruim come. Estivera do lado de fora, comendo, agora está entrando, e talvez tenha sobrado alguma comida. Um balançada de rabo, um gemido amigável, o truque de sentar e talvez possa conseguir alguma coisa boa, sim sim sim sim.

Não não não não. Má idéia.

Mas chocolate.

Não. Esqueça. É o tipo de má idéia que deixa seu nariz arranhado. Ou pior. Morto como a abelha na poça, o rato na sarjeta.

A coisa-que-vai-matar-você entra, fecha a porta. Seu cheiro assustador não é tão forte agora.

Nem o cheiro de chocolate. Ainda bem.

Uuuuuuuuuuuu.

Só uma coruja. Quem tem medo de coruja? Não um cachorro.

Fareja por um tempo nos fundos do lugar de gente. Parte é de terra, parte de grama, parte de pedras chatas que as pessoas colo cam. Arbustos. Flores. Besouros ocupados na grama, vários tipos. Duas coisas de gente sentar... e junto a uma delas, um pedaço de biscoito. Chocolate. Bom, bom, acabou. Cheirar debaixo, aqui, ali, mas não há mais nada para achar.

Uma lagartixa! Zip, rápida, em cima das pedras, pega, pega, pega! Por aqui, por ali, por aqui, entre as suas pernas, por ali, lá vem, lá vai... Agora onde está?... Lá, zip, não deixa ela fugir, pega, pega, pega, quer, precisa dela, bang, uma cerca de ferro surgida do nada.   

A lagartixa sumiu, mas a cerca cheira a mijo fresco de gente. Interessante.

É o mijo da coisa-que-vai-matar-você. Não é cheiro bom. Não é cheito ruim. Só interessante. A coisa-que-vai-matar-você parece gente, mija que nem gente, então deve ser gente, mesmo sendo diferente e estranha.

Segue o caminho que a coisa ruim tomou depois de mijar, quando foi para o lugar de gente, e na base da porta grande encontra uma porta menor, mais ou menos do seu tamanho. Fareja. Aporta menor tem cheiro de outro cachorro. Fraco, muito fraco, mas outro cachorro. Há muito tempo um cachorro entrou e saiu por essa porta. Interessante. Há tanto tempo, ele tem que cheirar cheirar cheirar cheirar para descobrir alguma coisa. Um cachorro macho. Não era pequeno, nem grande. Interessante. Cachorro nervoso... ou talvez doente. Há muito tempo. Interessante.

Pensa nisso.

Porta de gente. Porta de cachorros.

Pensa.

Então esse não é só um lugar de gente. É um lugar de gente e de cachorro. Interessante.

Empurra o nariz contra a porta de metal, pequena e fria, e ela balança para dentro. Enfia a cabeça, levantando a porta apenas o bastante para cheirar profundamente lá dentro.

Lugar de comida de gente. Comida escondida, não onde ele pode ver, mas onde ele pode cheirá-la. Mais forte do que tudo, o cheiro da coisa ruim, tão forte que ele se desinteressa da comida.

O cheiro repele e assusta, mas também atrai, e curiosamente leva-o adiante. Ele se espreme pela abertura, a portinha de metal deslizando pelas suas costas, pelo rabo, e depois fechando com um rangido leve.

Dentro.

Ouvindo. Zumbindo, tiquetaqueando, um estalo fraco. Sons de máquinas. Afora isso, silêncio.

Não muita luz. Só pequenos pontos brilhantes em algumas das máquinas.

Não está com medo. Não, não, não.

Esgueira-se de um lugar escuro para outro, espreme-se nas sombras, ouvindo, cheirando, mas não encontra a coisa-que-vai-matar-você até chegar à base de uma escada. Olha para o alto e sabe que a coisa está num dos espaços lá em cima.

Começa a subir, pára, continua, pára, olha para o andar de baixo, olha para cima, continua, pára, e pensa na mesma coisa em que sempre pensa em algum momento quando está caçando um gato: o que está fazendo aqui? Se não há comida, se não há uma fêmea no cio, se não há ninguém para acariciar, cocar e brincar, por que está aqui? Na verdade não sabe. Talvez faça parte da natureza dos cães imaginar o que há depois da próxima esquina, do morro seguinte. Os cães são especiais. São curiosos. A vida é estranha e interessante, e ele tem a sensação de que cada lugar novo e cada novo dia pode mostrar alguma coisa tão diferente e especial que só vendo e cheirando ele compreenderá melhor o mundo e será mais feliz. Tem a sensação de que há uma coisa maravilhosa esperando para ser encontrada, uma coisa maravilhosa que ele não consegue imaginar, mas melhor até do que comida ou fêmeas no cio, melhor do que carinho, cocadas, brincadeiras, corridas pela praia com o vento no pêlo, melhor do que caçar um gato, ou até mesmo melhor do que pegar um gato, se tal coisa fosse possível. Mesmo aqui, nesse lugar assustador, com o cheiro da coisa-que-vai-matar-você tão forte que ele quer espirrar, mesmo assim sente que pode haver uma maravilha logo depois da próxima esquina.

E não esqueça a mulher, o garoto. São legais. Gostam dele. Talvez possa descobrir um jeito de impedir que a coisa ruim os incomode.

Continua até o topo da escada, chegando a um espaço pequeno. Ele procura, farejando as portas. Luz fraca sob uma delas. E, muito forte, o cheiro da coisa-que-vai-matar-você.

Não tem medo, não tem medo, ele é um cachorro, rastreador e caçador, bom e corajoso, cachorro bom, bom.

A porta está com uma fresta aberta. Ele encosta o nariz na brecha. Poderia abri-la, entrar no espaço que há ali atrás, mas hesita.

Não há nada maravilhoso ali. Talvez em alguma outra parte desse lugar de gente, talvez por trás de todas as outras esquinas, mas não aqui.

Talvez devesse ir embora, voltar para o beco, ver se o homem gordo deixou mais comida para ele.

Seria uma coisa de gato. Arrastar-se para longe. Fugir. Ele não é um gato. É um cachorro.

Mas os gatos acabam com os narizes arranhados, cortados, sangrando, doendo por vários dias? Pensamento interessante. Ele nunca vira um gato com nariz arranhado, nunca chegara suficientemente perto para arranhar um deles.

Mas ele é um cachorro, não um gato, por isso empurra a porta. Ela se abre facilmente. Ele entra no espaço que há atrás.

Homem-jovem-coisa-ruim deitado em panos pretos, acima do chão, sem se mexer, sem fazer som, olhos fechados. Morto? Coisa ruim morta em panos pretos. Ele se aproxima, cheirando. Não. Não morto. Dormindo.

A coisa-que-vai-matar-você come, mija, e agora dorme, de modo que, de várias maneiras, é como gente, como cachorros também, mesmo que não seja gente nem cachorro.

E agora?

     Fica olhando a coisa ruim adormecida, pensando como poderia saltar ali em cima, latir na cara dela, acordá-la, assustá-la, de modo que ela nunca mais vá atrás da mulher e do garoto. Talvez até mesmo mordê-la, só uma mordidinha, ser um cachorro mau pela primeira vez, só para ajudar a mulher e o garoto, morder o queixo dela ou o nariz.

Ela não parece perigosa, dormindo. Não parece tão forte ou rápida. Ele não consegue lembrar por que era assustadora antes.

Olha pelo quarto, depois levanta a cabeça e a luz brilha num monte de olhos flutuando em garrafas, olhos de gente sem gente, olhos de animais sem animais. Interessante, mas não bom, nem um pouco bom.

Outra vez se pergunta o que está fazendo ali. Percebe que o lugar é como um cano onde você pode ficar preso, como um buraco no chão onde vivem grandes aranhas que não gostam que você meta p nariz no lugar delas. E depois percebe que o homem-jovem-coisa-ruim sobre a cama se parece um pouco com aqueles garotos risonhos, cheirando a areia e sol e sal do mar, que acariciam você e cocam atrás da sua orelha e depois tentam pôr fogo em seu pêlo.

Cachorro estúpido. Estúpido por ter vindo aqui. Bom mas estúpido.

A coisa ruim murmura no sono.

Ele se afasta da cama, vira-se, enfia o rabo entre as pernas e sai do quarto. Desce a escada, saindo dali, não com medo, não com medo, só cauteloso, não com medo, mas com o coração batendo forte e rápido.

 

Nos dias de semana, Tanya Delaney era a enfermeira particular no chamado turno do cemitério, que ia da meia-noite até as oito da manhã. Em algumas noites ela preferiria trabalhar num cemitério mesmo. Jennifer Drackman era mais estranha do que qualquer coisa que Tanya poderia ter imaginado encontrar num cemitério.

Tanya estava sentada numa cadeira de braços perto da cama da cega, lendo silenciosamente um romance de Mary Higgins Clark. Gostava de ler, e era por natureza uma pessoa noturna, de modo que o turno da meia-noite era perfeito para ela. Em algumas noites ela conseguia terminar um romance inteiro e começar outro, porque Jennifer dormia direto.

Em outras ocasiões Jennifer era incapaz de dormir, balbuciando coisas sem nexo, consumida pelo terror. Nessas horas, Tanya sabia que a coitada estava fora do ar, irracional, e que não havia nada a temer, mas a emoção da paciente era tamanha que contagiava a enfermeira. A pele de Tanya ficava eriçada, a nuca arrepiava. Olhava inquieta para a escuridão por trás da janela, como se houvesse alguma coisa esperando ali, e saltava a qualquer ruído inesperado.

Pelo menos naquela quarta-feira as horas antes do alvorecer não estavam cheias dos gritos, dos choros torturados e das torrentes de palavras tão sem significado quanto a algaravia maníaca de um fanático religioso falando em línguas desconhecidas. Em vez disso, Jennifer dormia, mas não dormia bem, assolada por pesadelos. De vez em quando gemia sem acordar, agarrava a grade da cama com a mão boa e tentava em vão levantar-se. Com os dedos ossudos e brancos agarrados no aço, músculos atrofiados maldefinidos nos braços sem carne, rosto fundo e pálido, pálpebras costuradas e côncavas em órbitas vazias, ela não parecia uma mulher doente na cama, e sim um cadáver lutando para se erguer de um caixão. Quando falava no sono, não gritava, murmurava num sussurro, com uma urgência tremenda; a voz parecia surgir do nada e flutuar pelo quarto com o tom misterioso de um fantasma numa sessão espírita:

— Ele vai matar todos nós... matar... ele vai matar todos nós...

Tanya estremecia e tentava se concentrar no romance de suspense, mesmo sentindo-se culpada por ignorar a paciente. Deveria pelo menos tirar a mão ossuda da grade, sentir a testa de Jennifer para ver se não estava com febre, murmurar palavras de consolo e tentar guiá-la do sonho tempestuoso às praias tranqüilas do sono. Era uma boa enfermeira, e normalmente correria para confortar um paciente nas garras de um pesadelo. No entanto, permanecia na cadeira, segurando o livro de Mary Higgins Clark, porque não queria se arriscar a acordar Jennifer. Desperta, a mulher poderia saltar do pesadelo para um daqueles jorros de gritos, choros sem lágrimas, uivos e glossolalia que faziam o sangue de Tanya virar gelo.

Do fundo do sono veio a voz fantasmagórica:

—      ...o mundo está pegando fogo... marés de sangue... fogo e sangue... eu sou a mãe do inferno... que Deus me ajude, sou a mãe do inferno...

Tanya queria aumentar o termostato, mas sabia que o quarto já estava quente demais. O frio que sentia estava dentro dela, e não fora.

—      ...uma mente tão fria... coração morto... batendo, porém morto...

Tanya tentou imaginar o que a pobre mulher havia passado que a deixara num estado tão lamentável. O que teria visto? O que teria sofrido? Que lembranças a assombravam?

 

The Green House, na Pacific Coast Highway, abrigava um restaurante grande e típico da Califórnia, com samambaias e palmeiras demais até mesmo para o gosto de Harry, e um bar onde os fregueses, de saco cheio das samambaias, há muito haviam aprendido a manter o verde sob controle, envenenando a terra com uísque. A parte do restaurante estava fechada aquela hora.

O bar ficava aberto até as duas. Fora remodelado num estilo art déco preto-prata-verde, em nada semelhante ao restaurante adjacente, numa tentativa forçada de ser chique. Mas serviam sanduíches junto com a birita.

Em meio a plantas mirradas e amareladas, cerca de trinta fregueses bebiam, falavam e ouviam jazz tocado por um quarteto. Os músicos executavam arranjos rebuscados e semiprogressivos de números famosos da era das big-bands. Dois casais, sem perceber que o som era melhor para ser ouvido, dançavam corajosamente músicas quase melódicas marcadas por constantes mudanças de andamento e passagens tortuosas e extemporâneas que teriam frustrado Fred Astaire ou Baryshnikov.

Quando Harry e Connie entraram, o mattre recebeu-os com olhar dúbio. Usava um terno Armani, gravata de seda pintada a mão e sapatos maravilhosos, de aparência tão macia que poderiam ter sido feitos de um feto de bezerro. Tinha as unhas manicuradas, os dentes com jaquetas perfeitas, o cabelo com permanente. Fez um sinal sutil para um dos garçons, sem dúvida para ajudá-lo a colocar os vagabundos de volta na rua.

Salvo o sangue seco no canto da boca e o hematoma que começava a escurecer todo o lado do rosto, Connie estava razoavelmente apresentável, ainda que ligeiramente amarrotada, mas Harry era um espetáculo. Suas roupas, frouxas e deformadas pela chuva, estavam mais amarrotadas do que as bandagens de uma múmia. Anteriormente impecável e branca, sua camisa agora possuía um tom cinza manchado, cheirando a fumaça do incêndio do qual ele mal escapara. Os sapatos estavam rotos, arranhados, enlameados. Uma esfoladura úmida de sangue, do tamanho de uma moeda de 25 cents, marcava sua testa. Tinha a barba por fazer, já que não se barbeava há dezoito horas, e as mãos sujas de remexer a pilha de terra no quintal de Ordegard. Percebeu que devia estar apenas um traiçoeiro degrau acima do vagabundo fora do bar, a quem Connie acabara de alertar sobre a desintoxicação compulsória, e baixando a escala social diante dos olhos cheios de desprezo do maitre.

No dia anterior Harry teria se sentido mortificado se aparecesse em público em tal desalinho. Agora isso não tinha nenhuma importância. Estava preocupado demais com a sobrevivência para se incomodar com elegância e padrões de vestimenta.

Antes que pudessem ser ejetados do The Green House, ambos puxaram as identidades do Departamento de Projetos Especiais.

—      Polícia — disse Harry.

Nenhuma chave-mestra, nenhuma senha, nenhum registro de sangue azul, nenhuma linhagem real abria portas com tanta eficácia quanto uma carteirada. Na maioria das vezes abria contra a vontade, mas abria.

O fato de Connie ser Connie também ajudou.

—      Não somente polícia — disse ela —, mas polícia puta da vida, depois de um dia ruim, sem saco para aturar um babaca que se recusa a nos servir, um desmunhecado que acha que nós podemos ofender sua clientela metida a besta.

Foram gentilmente levados a uma mesa de canto que, por acaso, ficava num lugar escuro e longe da maioria dos fregueses.

Uma garçonete chegou imediatamente, disse que seu nome era Bambi, franziu o nariz, sorriu e anotou os pedidos. Harry pediu café e um hambúrguer médio bem-passado com cheddar.

Connie quis seu hambúrguer malpassado com queijo gorgonzola e recheado de cebolas cruas.

~— Café para mim também. E traga duas doses duplas de conhaque Rémy Martin. — Depois olhou para Harry e disse: — Tecnicamente, não estamos mais de serviço. E se você se sente tão na merda quanto eu, precisa de um tranco maior do que o que vai conseguir com um café ou um sanduíche.

Enquanto a garçonete anotava os pedidos, Harry foi até o banheiro lavar as mãos. Sentia-se tão na merda quanto Connie suspeitara, e o espelho do lavatório confirmou que sua aparência era ainda pior. Mal podia acreditar que aquele rosto de pele granu-losa, olhos fundos e cheio de rugas de desespero era o seu rosto.

Esfregou vigorosamente as mãos, mas um pouco de terra permaneceu grudado sob as unhas e em algumas dobras dos dedos. Suas mãos pareciam as de um mecânico de automóveis.

Jogou água fria no rosto, mas isso não fez com que ele se sentisse mais refrescado—ou menos tenso. O dia cobrara um preço que poderia deixar sua marca para sempre. A perda da casa e de todas as suas posses, a morte horrível de Ricky e a estranha cadeia de eventos sobrenaturais que rasgara sua fé na razão e na ordem. A expressão assombrada poderia permanecer durante muito tempo— presumindo que ele fosse viver além das próximas horas.

Desorientado pela estranheza do próprio reflexo, quase esperou que o espelho fosse mágico, como acontecia tantas vezes nos contos de fadas — uma porta para outra terra, uma janela para o passado ou o futuro, a prisão onde fora encarcerada a alma de uma rainha má, um espelho mágico e falante como o da madrasta malvada de Branca de Neve, onde ela descobrira que não era mais a mulher mais bela. Colocou uma das mãos no vidro, dedos quentes encontraram dedos frios, mas nada sobrenatural aconteceu.

Mesmo assim, considerando os eventos das últimas doze horas, não era loucura esperar algo como uma bruxaria. Ele parecia estar preso em algum tipo de conto de fadas, um dos lúgubres, como Os Sapatinhos Vermelhos, onde os personagens sofrem terríveis torturas físicas e angústias mentais, morrem horrivelmente e enfim sâo recompensados com a felicidade — não neste mundo, mas no céu, Um roteiro insatisfatório, caso você não tivesse certeza absoluta de que o céu estivesse lá em cima esperando por você.

A única indicação de que ele não se enredara numa fantasia infantil era a ausência de um animal falante, Os animais falantes povoavam os contos de fadas com freqüência ainda maior do que os assassinos psicóticos povoavam os filmes americanos modernos.

Contos de fadas. Bruxaria. Monstros. Psicose. Crianças.

De repente Harry sentiu que oscilava na borda de uma percepção que revelaria um fato importante sobre Tique-taque.

Bruxaria. Psicose, Crianças. Monstros, Contos de fadas.

A revelação escapou.

Ele lutou para encontrá-la. Não conseguiu.

Notou que não estava mais tocando de leve os dedos no reflexo, apertava a mão contra o espelho com força suficiente para quebrá-lo. Quando a retirou, uma vaga impressão úmida permaneceu por um instante, depois evaporou rapidamente.

Tudo desaparece. Inclusive Harry Lyon. Talvez ao amanhecer.

Saiu do banheiro e voltou à mesa do bar onde Connie esperava.

Monstros, Feitiçaria, Psicose, Contos de fadas. Crianças.

O quarteto tocava um medley de Duke Ellington com uma interpretação de jazz moderno. Uma merda. Ellington não precisava de melhorias.

Sobre a mesa, duas xícaras de café fumegante e duas taças com o Rémy brilhando como ouro líquido.

—      Os sanduíches vão chegar em alguns minutos — avisou Connie enquanto ele puxava uma das cadeiras pretas e sentava.

Psicose. Crianças. Feitiçaria. Nada.

Decidiu parar de pensar em Tique-taque por algum tempo. Dar ao subconsciente a chance de trabalhar sem pressão.

—      I Gotta Know (Preciso saber) — falou, dando a Connie o título de uma canção de Elvis Presley.

—      Saber o quê?

—      Tell me Why (Diga por quê).

—      Hem?

         lt's Now or Never (É agora ou nunca).

Ela percebeu. Sorriu.

—      Sou fanática pelo Elvis.

—      Deu pra perceber.

—      Ele veio a calhar.

—      Provavelmente impediu que Ordegard jogasse outra grana da em cima de nós. Salvou nossas vidas.

—      Ao rei do rock-'n'-roll — disse ela, erguendo a taça de conhaque.

O quarteto parou de torturar as músicas de Duke EUington e fez uma pausa. Afinal de contas, talvez houvesse um Deus no Céu e uma ordem abençoada no universo.

Harry e Connie tocaram os copos, beberam.

—      Por que Elvis? —perguntou ele.

Ela suspirou.

—      O Elvis do início... era demais, Tinha a ver com liberdade, com ser o que se quer, com não ser jogado de um lado pro outro só porque você é diferente. "Don 't step on mv blue suede shoes (Não pise no meu sapato de lona azul). As canções dos primeiros dez anos já eram velhas quando eu tinha sete ou oito, mas elas me tocavam fundo. Sabe como é?

—      Sete ou oito? Coisa meio pesada para uma meninha.

Quero dizer, um bocado daquelas músicas falava de solidão, de coração partido.

—      Certo. Ele era aquela figura de sonho: um rebelde sensível, educado, mas sem disposição pra levar desaforo, romântico e cínico ao mesmo tempo. Eu fui criada em orfanatos, lares adotivos, sabia o que era a solidão, e meu coração tinha algumas rachaduras.

A garçonete trouxe os sanduíches e o ajudante de garçom serviu mais café.

Harry começava a sentir-se de novo como um ser humano. Um ser humano sujo, amarrotado, dolorido, cansado e amedrontado, mas mesmo assim um ser humano.

—      Certo — falou. — Eu entendo isso de ser louca pelo Elvis do início, memorizar as primeiras canções. Mas e depois?

Sacudindo o ketchup sobre o sanduíche, Connie falou:

—      De certa forma, o fim é tão interessante quanto o início.

Tragédia americana.

—      Tragédia? Terminar como um cantor gordo em Las Vegas, vestido com macacões de cetim?

—      Claro. O rei bonito e corajoso, tão cheio de promessas, transcendente... e então, por causa de uma falha trágica, ele tropeça, tem uma queda longa, morre aos 42 anos.

—- Num banheiro.

—      Não falei que era uma tragédia shakespeariana. Há um elemento de absurdo. É isso que a torna uma tragédia americana.

Nenhum país do mundo tem o nosso senso de absurdo.

—      Não creio que tão cedo você veja os democratas ou os republicanos usando essa frase em campanha. — O sanduíche estava delicioso. Entre uma mordida e outra, ele perguntou: — E qual foi a falha trágica de Elvis?

—      Ele se recusou a crescer. Ou talvez não tenha conseguido.

—- Mas o artista não deve manter a criança dentro de si?

Ela mordeu um pedaço do sanduíche e balançou a cabeça.

—      Não é a mesma coisa que ser perpetuamente essa criança. Olha, o Elvis Presley jovem queria a liberdade, tinha paixão por ela, como eu sempre tive, e através da música ele conseguiu a liberdade total para fazer qualquer coisa. Mas quando conseguiu, quando poderia ser livre para sempre... bom, o que aconteceu?

—      Diga.

Sem dúvida ela tinha uma idéia a respeito.

—      Ele perdeu a direção. Acho que talvez tenha se apaixonado mais pela fama do que pela liberdade. Liberdade genuína, responsável, nada de querer libertar-se da responsabilidade, esse é um sonho digno de um adulto. Mas a fama é somente uma emoção barata. Você precisa ser bastante imaturo para realmente gostar da fama, não acha?

—      Eu não gostaria. Não que tenha probabilidade de consegui-la.

—      É uma coisa sem valor, volátil, uma bijuteria que só uma criança confundiria com diamante. Elvis tinha «aparência de gente grande, falava como gente grande...

—      E na sua melhor fase sem dúvida cantava como gente grande.

—      É. Mas emocionalmente era um caso de desenvolvimento interrompido. O adulto era somente uma fantasia que ele usava, uma máscara, por isso ele tinha sempre um séquito enorme, o seu clube de esquina particular. Ele comia principalmente sanduíches de banana frita com creme de amendoim, comida de criança, e alugava parques de diversões inteiros quando queria se divertir com os amigos. Eis por que ele não conseguiu impedir que pessoas como o coronel Parker se aproveitassem dele.

Gente grande. Crianças. Desenvolvimento interrompido. Psicose. Fama. Feitiçaria. Contos de fadas. Desenvolvimento interrompido. Monstros. Máscaras.

Harry empertigou-se, a mente em disparada.

Connie ainda estava falando mas sua voz parecia vir de longe:

—      ...e a última parte da vida dele mostra quantas armadilhas existem...

Criança psicótica. Fascinada por monstros. Com o poder de um feiticeiro. Desenvolvimento interrompido. Parece gente grande, mas é uma máscara.

— ...como é fácil perder a liberdade e nunca encontrar o caminho de volta...

Harry pousou o sanduíche na mesa.

—      Meu Deus, acho que talvez eu saiba quem é Tique-taque.

—      Quem?

—      Espere. Deixe-me pensar a respeito.

Risos agudos irromperam de uma mesa ocupada por bêbados perto do palco. Dois homens por volta dos cinqüenta e com aparência de ricos, duas louras por volta dos vinte. Tentavam viver seus próprios contos de fadas: os homens envelhecendo, sonhando com o sexo perfeito e a inveja dos outros homens; as mulheres sonhando com riqueza, felizes, sem perceber que um dia suas fantasias pareceriam melancólicas, opacas e pegajosas até mesmo para elas.

Harry esfregou os olhos, lutando para organizar os pensamentos.

—      Não percebeu que há alguma coisa infantil nele?

—      Tique-taque? Aquele touro?

—      Esse era o golem dele. Estou falando sobre o Tique-taque de verdade, o que cria os golems. Para ele, isso é como um jogo.

Ele está brincando comigo do mesmo jeito que um garoto mau arranca as asas de uma mosca e a observa tentando voar, ou tortura um besouro com fósforos. O prazo do amanhecer, os ataques sarcásticos, infantis, como se fosse um valentão de pátio de escola se divertindo.

Lembrou-se melhor do que Tique-taque dissera ao se levantar da cama em seu apartamento, antes de começar o incêndio: ...vocês, pessoas, são tão divertidas de se brincar... grande herói... você acha que pode atirar em qualquer um quando quiser, tirar qualquer um do caminho quando quiser...

Tirar qualquer um do caminho quando quiser...

—      Harry?

Ele piscou, estremeceu.

—      Algumas pessoas viram sociopatas depois de sofrerem abusos na infância. Mas outras simplesmente nascem assim, tortas.

—      Alguma coisa deformada nos genes — concordou ela,

—      Suponha que Tique-taque tenha nascido mau.

—      Ele nunca foi um anjo.

—      E suponha que esse poder incrível não veio de nenhuma

experiência esquisita de laboratório. Talvez também seja resultado

de genes deformados. Se ele nasceu comesse poder, o próprio poder separou-o das outras pessoas, do mesmo modo que a fama separou Elvis, e ele nunca aprendeu a crescer, não precisou ou não quis crescer, No fundo ainda é uma criança. Brincando um jogo de criança. Um jogo sujo de criança pequena.

Harry lembrou-se do enorme vagabundo em seu quarto, rosto vermelho de raiva, gritando e gritando: Você me ouviu, herói, você me ouviu, você me ouviu, você me ouviu, VOCÊ ME OUVIU, VOCÊ ME OUVIU...? Aquele comportamento fora aterrorizante devido ao tamanho e ao poder do mendigo mas, em retrospecto, possuía a qualidade nítida do ataque de birra de um garotinho.

Connie inclinou-se sobre a mesa e balançou uma das mãos diante do rosto dele.

—      Não dê uma de catatônico, Harry. Estou esperando o desfecho da história. Quem é Tique-taque? Você acha que ele na verdade é uma criança? Estamos procurando algum garoto da escola primária, pelo amor de Deus? Ou uma menina?

—      Não. Ele é mais velho. Ainda jovem, porém mais velho do que isso.

—      Como pode ter tanta certeza?

—      Porque eu me encontrei com ele.

Tirar qualquer um do caminho quando quiser...

Contou a respeito do jovem que passara sob a fita de isolamento da cena do crime, atravessando a calçada até a janela espatifada do restaurante onde Ordegard atirara nas pessoas durante o almoço. Vestido com jeans, tênis, camiseta da cerveja Tecate.

—      Ele estava olhando para dentro, fascinado pelo sangue, pelos corpos. Havia alguma coisa esquisita no sujeito... Tinha um olhar distante... e lambia os lábios como se... como se... não sei, como se houvesse alguma coisa erótica em todo aquele sangue, naqueles corpos. Ele me ignorou quando falei para voltar para trás da barreira, provavelmente nem me ouviu... como se estivesse em transe... lambendo os lábios.

Harry pegou a taça de conhaque e terminou de bebê-lo num gole.

—      Pegou o nome dele? — perguntou Connie.

—      Não. Ferrei tudo. Lidei muito mal com a situação.

Na memória, via-se agarrando o rapaz, empurrando-o pela calçada, talvez batendo nele e talvez não. Teria dado uma joelhada na virilha? Agarrando-o e torcendo-o, dobrando-o ao meio, forçando-o a passar sob a fita de isolamento.

—      Depois fiquei enojado por causa daquilo. Enojado comigo mesmo. Não podia acreditar que o havia tratado daquele jeito. Acho que ainda estava tenso demais com os acontecimentos do sótão, depois de quase ser morto por Ordegard, e quando vi aquele garoto

babando com o sangue, reagi como... como...

—      Como eu — disse Connie, pegando de novo o sanduíche.

—      É, como você.

Apesar de ter perdido o apetite, Harry mordeu um pedaço do sanduíche porque tinha de guardar energias para o que viria.

—      Mas ainda não vej o como você pode ter tanta certeza de que esse cara é Tique-taque — disse Connie.

—      Eu sei que é.

—      Só porque ele era meio estranho...

—      É mais do que isso.

—      Um pressentimento?

—      Muito melhor do que pressentimento. Chame de instinto de tira.

Ela encarou-o por um instante, depois assentiu.

—      Certo. Você lembra a aparência dele?

—      Nitidamente, acho. Talvez uns dezenove anos. Não mais do que 21.

—      Altura?

—      Dois centímetros menos do que eu.

—      Peso?

—      Talvez uns 68 quilos. Magro. Não, não é isso, não esquelético. Esguio porém musculoso.

—      Pele?

—      Clara. Passa muito tempo em lugar fechado. Muito cabelo, castanho-escuro ou preto. Um garoto de boa aparência, meio parecido com aquele ator, Tom Cruise, mas com um tipo de gavião. Tinha olhos incomuns. Cinza. Como se fosse de prata meio oxidada.

—      Acho que devemos ir até a casa de Nancy Quan — disse Connie. — Ela mora aqui em Laguna Beach...

Nancy era uma desenhista que trabalhava no Departamento de Projetos Especiais e tinha o dom de ouvir e interpretar corretamente as nuances da descrição de um suspeito. Seus desenhos a lápis costumavam ser retratos espantosamente bons dos criminosos, conforme se constatava quando eles eram finalmente apanhados e levados sob custódia.

—      ...você descreve o garoto, ela desenha, e nós levamos o retrato até a polícia de Laguna para ver se eles conhecem o sujeito.

—      E se não conhecerem?

—      Nós começamos a bater nas portas, mostrando o desenho.

—      Portas? Onde?

—      Nas casas e apartamentos nas imediações do lugar onde você o encontrou. É possível que ele more nas redondezas. Mesmo que não more por ali, talvez costume aparecer, tenha amigos na região.

—      Esse garoto não tem amigos.

—      ...ou parentes. Alguém pode reconhecê-lo.

—      As pessoas não vão ficar muito felizes se formos bater nas portas no meio da noite.

Connie fez uma careta.

—      Você quer esperar amanhecer?

—      Acho que não.

O quarteto voltava para a última sessão.

Connie bebeu o resto do café, afastou a cadeira, levantou-se, pegou dinheiro num bolso do casaco e jogou algumas notas sobre a mesa.

—      Deixe que eu pago a metade — disse Harry.

—      Essa é por minha conta.

—      Não, sério, eu pago a metade.

Ela lançou um olhar tipo você-é-idiota.

—      Gosto de manter a contabilidade equilibrada com todo mundo. Você sabe disso — explicou ele.

—      Bote um pouco o pé na lama, Harry. Deixe a contabilidade desequilibrar. Vou dizer uma coisa: se chegar o amanhecer e a gente acordar no inferno, você pode pagar o café da manhã.

Ela caminhou em direção à porta.

Quando viu Connie se aproximando, o maitre vestido de terno Armani e gravata de seda pintada a mão correu para a segurança da cozinha.

Indo atrás de Connie, Harry olhou para o relógio de pulso. 1:22. A alvorada estaria chegando provavelmente dali a cinco horas.

 

Andando pela noite da cidade. Pessoas em seus lugares escuros, todas dormindo.

Boceja e pensa em se deitar sob alguns arbustos e dormir. Há outro mundo quando ele dorme, um mundo bom, onde ele tem uma família que vive num lugar quente. Eles o recebem, alimentam-no todos os dias, brincam com ele sempre que ele quer brincar, chamam-no de Príncipe, levam-no para passear num carro e deixam que ele coloque a cabeça fora da janela, com as orelhas balançando — é bom, cheiros chegando rápido a ponto de deixá-lo tonto, sim sim sim — e nunca ninguém o machuca. É um mundo bom aquele do sono, mesmo que lá também ele não consiga pegar os gatos.

Então lembra-se da coisa-ruim-homem-jovem, do lugar preto, dos olhos de pessoas e de animais sem corpos, e não tem mais sono.

Precisa fazer alguma coisa com relação à coisa ruim, mas não sabe o quê. Sente que ela vai machucar a mulher, o garoto, machucar muito. A coisa tem muita raiva. Ódio. Colocaria fogo no pêlo deles, se eles tivessem pêlo. Não sabe por quê. Ou quando, como ou onde. Mas precisa fazer alguma coisa, salvá-los, ser um cachorro bom, bom.

Então...

Fazer alguma coisa.

Certo.

Então...

Até que consiga pensar no que fazer com a coisa ruim, ele pode procurar um pouco mais de comida. Talvez o homem gordo e sorridente tenha deixado mais sobras boas atrás do lugar de comida de gente. Talvez o homem gordo ainda esteja lá na porta aberta, olhando para um lado e para o outro no beco, esperando ver Amigão de novo, pensando que gostaria de levar Amigão para casa, dar-lhe um lugar quente, alimentá-lo todos os dias, brincar com ele sempre que ele quiser, levar Amigão para passear de carro com a cabeça ao vento.

Correndo agora. Tentando cheirar o homem gordo. Será que ele está do lado de fora? Esperando?

Farejando, farejando, passa por um carro com cheiro de ferrugem, cheiro de graxa, cheiro de óleo estacionado num grande espaço vazio, e depois cheira a mulher, o garoto, mesmo através das janelas fechadas. Pára, olha para cima. Menino dormindo, não pode ser visto. Mulher encostada na porta, cabeça encostada na janela. Acordada, mas sem vê-lo.

Talvez o homem gordo goste da mulher, do menino, tenha espaço para todos no seu lugar quente, e eles possam brincar juntos, todos, comer o que quiserem, todos passeando de carro e botando a cabeça para fora das janelas, os cheiros chegando tão rápido a ponto de dar tontura. Sim sim sim sim sim sim. Por que não? No mundo do sono há uma família. Por que não neste mundo também?

Fica excitado. Isso é bom. Isso é realmente bom. Sente a coisa maravilhosa depois da esquina, a coisa maravilhosa que ele sempre soube que estava lá, em algum lugar. Bom. Sim. Bom. Sim sim sim sim sim.

O lugar de comida de gente com o homem gordo esperando não fica longe do carro, de modo que talvez ele possa latir para fazer a mulher vê-lo, depois levá-la junto com o menino até o homem gordo.

Sim sim sim sim sim sim.

Mas espere, espere, pode demorar demais, demais, fazer com que eles o sigam. O homem gordo pode ir embora. E aí eles chegam lá e o homem gordo sumiu. Daí eles ficam no beco sem saber por quê, acham que ele é só um cachorro estúpido, cachorro bobo e estúpido, humilhado ao ver que o gato subiu na árvore enquanto ele fica embaixo, olhando para ele.

Não não não não não. O homem gordo não pode ir embora, não pode. Se o homem gordo for embora, eles não vão ficar juntos num lugar bom e quente ou num carro com o vento.

O que fazer, o que fazer? Excitado, Latir? Não latir? Ficar, ir, sim, não, latir, não latir?

Mijar. Precisa mijar. Levantar a perna. Ah. Sim. Mijo de cheiro forte. Fumegando no pavimento, fumegando. Interessante.

Homem gordo. Não esquecer o homem gordo. Esperando no beco. Ir primeiro até o homem gordo, antes que ele entre e suma para sempre, pegá-lo e trazê-lo até aqui, sim sim sim sim, porque a mulher e o garoto não vão a lugar nenhum.

Cachorro bom. Cachorro esperto.

Afasta-se do carro. E corre. Para a esquina. Dá a volta. Um pouco mais. Outra esquina. O beco atrás do lugar de comida de gente.

Ofegando, excitado, corre até a porta onde o homem gordo lhe deu as sobras. Está fechada. O homem gordo foi embora. Não há mais sobras no chão.

Fica surpreso. Unha tanta certeza! Todos eles juntos como no mundo do sono.

Arranha a porta. Arranha, arranha.

O homem gordo não aparece. Aporta fica fechada.

Late. Espera. Late.

Nada.

Bom. E então? E agora?

Ainda está excitado, mas não tanto quanto antes. Não excitado a ponto de ter de mijar, mas excitado demais para ficar parado. Anda de um lado para o outro diante da porta, vai e volta pelo beco, ganindo de frustração e perplexidade, começando a ficar um pouco triste.

Vozes ecoam, chegando até ele do final do beco, e ele sabe que uma delas pertence ao homem que cheira a tudo que é ruim ao mesmo tempo, inclusive um toque da coisa-que-vai-matar-você. Ele pode cheirar o homem fedorento muito bem, mesmo à distância. Não sabe a quem pertencem as outras duas vozes, não pode cheirar muito aquelas pessoas porque o odor do homem fedorento cobre o delas.

Talvez um deles seja o homem gordo, procurando seu Amigão.

Pode ser.

Balançando o rabo, corre até o fim do beco, mas quando chega lá não encontra o homem gordo e pára de balançar o rabo. Só um homem e uma mulher que ele nunca viu antes, junto de um carro na frente do lugar de comida de gente, com o homem fedorento, todos falando.

São tiras de verdade ?, diz o homem fedorento.

O que você fez com o carro?, diz a mulher.

Nada. Não fiz nada com o carro.

Se tiver alguma merda no carro, você é um cara morto.

Não, escutem, pelo amor de Deus.

Desintoxicação compulsória, seu saco de vômito.

Como eu poderia entrar no carro com ele fechado? Então você tentou, hem?

Eu só queria olhar, ver se vocês são realmente tiras.

Vou mostrar a você se nós somos tiras ou não, seu panaca.

Ei, me solta! Jesus, como você fede! Me solta, me solta!

Calma, deixe ele ir.

Tudo certo, calma, diz o homem que não é tão fedorento.

Farejando, farejando, ele cheira nesse homem novo alguma coisa que cheira também no homem fedorento, e fica surpreso. O toque da coisa-que-vai-matar-você. Este homem esteve com a coisa ruim não faz muito tempo.

Você cheira como um depósito de lixo tóxico ambulante, diz a mulher.

Ela também tem o cheiro da coisa-que-vai-matar-você. O homem fedorento, o homem e a mulher. Interessante. Aproxima-se, farejando.

Escutem, por favor, preciso falar com um tira, diz o homem fedorento.

Então fale, diz a mulher.

Meu nome é Sammy Shamroe

. Preciso denunciar um crime.

Deixe eu adivinhar. Alguém roubou seu Mercedes novo.

Eu preciso de ajuda!

Nós também, meu chapa.

Os três não somente têm o toque da coisa ruim, mas cheiram a medo, o mesmo medo que ele farejou na mulher e no menino que o chamam de Woofer. Têm medo da coisa ruim, todos eles. Alguém vai me matar, diz o homem fedorento.

É, e serei eu, se você não sair da minha frente.

Calma, calma aí.

O homem fedorento diz:

E ele não é humano. Eu o chamo de homem-rato.

Talvez essas pessoas devessem encontrar a mulher e o garoto , no carro. Todos têm medo separados. Juntos, talvez não tenham medo. Juntos, todos eles, podem viver num lugar quente, brincar o tempo todo, alimentá-lo todos os dias, todos passeando de carro — só que o homem fedorento vai ter de correr atrás, a não ser que pare de ser tão fedorento a ponto de fazer você espirrar.

Eu o chamo de homem-rato porque ele efeito de ratos. Ele se desmonta todo e vira um monte de ratos correndo pra tudo que é canto.

Mas como? Como fazer os três se juntarem à mulher e ao garoto? Como fazer com que compreendam, já que algumas vezes as pessoas são tão lentas?

 

Quando o cão se aproximou farejando os seus pés, Harry não sabia se ele estava com o mendigo, Sammy, ou se era um cão vadio. Se tivessem de usar a força contra o vagabundo, dependendo do tumulto que ele fizesse, o cão poderia assumir sua defesa. Não parecia perigoso, mas nunca se sabe.

Quanto a Sammy, parecia mais ameaçador do que o cão. Era um sujeito devastado pela vida nas ruas e pelo que o pusera ali, pior do que magro, varapau, as roupas dadas pelo Exército da Salvação pendendo tão frouxas que quase se esperava ouvir os ossos chocalhando quando ele se movia, mas isso não significava que fosse fraco. Estava crispado com o excesso de energia, os olhos tão arregalados que as pálpebras pareciam ter sido esticadas e presas. O rosto estava cheio de rugas de tensão e os lábios se repuxavam repetidamente, expondo os dentes ruins, num rosnado feroz que talvez pretendesse ser um sorriso agradável, mas que era alarmante.

—      O homem-rato, sabe, é assim que eu o chamo, e não como ele chama a si próprio. Nunca ouvi ele se chamando de coisa nenhuma. Não sei de onde ele vem, onde ele esconde a nave, de repente ele está ali, simplesmente ali, o sacana sádico, um filho da puta assustador...

A despeito da aparência frágil, Sammy poderia ser como um mecanismo robótico recebendo potência demais, com sobrecarga nos circuitos, em vias de explodir, de se desintegrar em estilhaços de engrenagens e molas, lançando tubos pneumáticos que matariam todas as pessoas no raio de um quarteirão. Poderia ter uma faca, facas, até mesmo um revólver. Harry já vira sujeitinhos trêmulos assim, parecendo que um sopro de vento iria soprá-los até a China; depois ficava claro que eles estavam doidões com PCP, que podia transformar gatinhos em tigres, e era necessário três homens fortes para desarmá-los e dominá-los.

—      ...olha, talvez eu não me importe se ele me matar, talvez isso fosse uma bênção, só ficar totalmente bêbado e deixar ele me matar, tão ferrado que nem perceba quando ele acabar comigo — disse Sammy, aproximando-se deles, movendo-se para a esquerda quando eles iam naquela direção, para a direita quando tentavam por ali, insistindo num confronto. — Mas aí, esta noite, quando eu estava no fundo do poço, mamando minha segunda garrafa de dois litros, percebi quem é o homem-rato, quero dizer, o que ele tem de ser: um dos extraterrestres.

—      Extraterrestres — repetiu Connie com desgosto, — Extraterrestres; com vocês, são sempre os extraterrestres. Saia daqui, seu porco imundo, ou juro por Deus que vou...

—      Não, não, escutem! Nós sempre soubemos que eles viriam, não soubemos? Sempre soubemos, e agora estão aqui, e vieram primeiro atrás de mim, e se eu não avisar ao mundo, todos vão morrer!

Quando agarrou o braço de Sammy, tentando tirá-lo do caminho, Harry estava quase tão irritado com Connie quanto com o mendigo. Se Sammy era um mecanismo prestes a explodir, Connie era uma usina nuclear em vias de derreter o núcleo. Estava frustrada porque o vagabundo retardava sua ida até a casa de Nancy Quan, a desenhista da polícia agudamente cônscia de que a madrugada vinha do leste. Harry também sentia-se frustrado, mas não havia perigo de que pudesse chutar Sammy no saco e lançá-lo através da janela de um dos restaurantes das proximidades.

—      ...não quero ser responsável pelos extraterrestres matarem todo mundo! Já tenho coisas demais na consciência, demais, não suporto a idéia de ser responsável, já deixei tantas pessoas na pior...

Se Connie batesse no sujeito, eles nunca chegariam até Nancy Quan nem teriam chance de localizar Tique-taque. Ficariam ali uma hora ou mais, resolvendo a prisão de Sammy, tentando não morrer sufocados pelo seu odor e lutando para negar brutalidade policial (alguns clientes do bar estavam olhando, os rostos grudados no vidro). Muitos minutos preciosos seriam perdidos.

Sammy agarrou a manga da jaqueta de Connie.

—      Dona, me escute, me escute!

Connie soltou-se dele e fechou um punho.

—      Não! — disse Harry.

Connie mal conseguiu se segurar, quase deu o soco. Sammy cuspia enquanto falava ininterruptamente:

—      ...ele me deu 36 horas para viver, o homem-rato, mas agora devem faltar 24 ou menos, não tenho certeza...

Harry tentava segurar Connie com uma das mãos enquanto ela partia de novo em direção a Sammy e, simultaneamente, empurrava Sammy com a outra mão. Então o cachorro saltou sobre ele. Mostrando os dentes, ofegando, a cauda balançando. Harry se retorceu, balançou a perna, e o cachorro caiu na calçada sobre as quatro patas.

Sammy falava freneticamente, agora agarrando e puxando com as duas mãos a manga de Harry, exigindo atenção, como seja não a tivesse:

—      ...os olhos que nem de cobra, verdes e terríveis, terríveis, e ele disse que eu tinha 36 horas para viver, tique-taque, tique-taque...

Medo e espanto atravessaram Harry quando ele ouviu aquela palavra, e a brisa do oceano subitamente pareceu mais fria. Espantada, Connie parou de tentar acertar Sammy.

—      Espere um minuto, o que você disse?

—      Extraterrestres! Extraterrestres! — Sammy gritou com raiva. — Vocês não estão me escutando, droga!

—     Não é a parte sobre extraterrestres — falou Connie. O cão saltou sobre ela. Dando tapinhas na cabeça dele e ernpurrando-o, ela voltou-se para o parceiro: — Harry, ele falou o que eu pensei que falou?

—      Eu também sou um cidadão — guinchou Sammy. Sua necessidade de testemunhar crescera até uma determinação frenética. — Algumas vezes eu tenho o direito de ser ouvido!

—      Tique-taque — disse Harry.

—- Isso — confirmou Sammy. Ele estava puxando a manga de Harry com força quase suficiente para rasgá-la. — "Tique-taque, tique-taque, o tempo está correndo, você vai estar morto amanhã ao amanhecer, Sammy." E depois ele simplesmente se dissolve num monte de ratos, na frente dos meus olhos.

Ou num redemoinho de lixo, pensou Harry, ou num pilar de fogo.

—      Tudo bem, vamos conversar — disse Connie. —- Fique calmo, Sammy, e discutiremos isso. Desculpe o que eu falei, realmente. Fique calmo.

Sammy deve ter pensado que ela não estava sendo sincera e que meramente tentava engambelá-lo, fazendo-o baixar a guarda, porque não reagiu ao respeito e à consideração que ela demonstrava. Bateu os pés em frustração. Suas roupas tremiam sobre o corpo ossudo e ele parecia um espantalho sacudido por um vento do dia das bruxas.

—      Extraterrestres, sua mulher estúpida! Extraterrestres, extra terrestres, extraterrestres!

Olhando para o The Green House, Harry viu meia dúzia de pessoas na janela do bar, observando-os. Percebeu o espetáculo singular que aqueles três sujos ofereciam, puxando-se e empurrando-se, gritando sobre extraterrestres. Provavelmente estava nas últimas horas de sua vida, perseguido por alguma coisa paranormal e incrivelmente maligna, e sua luta desesperada pela sobrevivência se transformara, pelo menos por um momento, numa peça de teatro-pastelão.

Bem-vindo à América dos anos noventa, à beira do milênio. Meu Deus.

Música abafada chegava até a rua: o quarteto tocava um swing da Costa Oeste, Kansas City, mas com rijfs esquisitos,

O maitre de terno Armani era um dos que olhavam da janela do bar. Provavelmente censurando-se por ter sido enganado pelo que agora certamente acreditava serem distintivos falsos, e a qualquer segundo chamaria a polícia de verdade.

Um carro que passava reduziu a velocidade, o motorista e o passageiro aparvalhados.

—      Mulher estúpida, estúpida, estúpida! — Sammy gritava para Connie.

O cão agarrou a perna esquerda da calça de Harry, quase fazendo-o perder o apoio. Ele oscilou, manteve o equilíbrio, e conseguiu se libertar de Sammy, mas não do cachorro. O bicho fez força para trás, lutando com tenacidade canina para arrastar Harry. Ele resistiu, depois quase tornou a perder o equilíbrio quando o vira-lata bruscamente largou sua calça.

Connie ainda tentava acalmar Sammy, e o mendigo continuava dizendo que ela era estúpida, mas pelo menos nenhum dos dois tentava bater no outro.

O cachorro correu alguns metros pela calçada, parou à luz de um poste, olhou para trás e latiu para eles. A brisa agitou o seu pêlo, afofou seu rabo. O bicho correu um pouco mais para o sul, dessa vez parou à sombra e latiu de novo.

Vendo que Harry estava distraído com o cachorro, Sammy ficou ainda mais ultrajado pela incapacidade de ser levado a sério. Sua voz tornou-se zombeteira, sarcástica:

—      Ah, é isso aí, presta mais atenção em uma porcaria de cachorro do que em mim! E o que eu sou, afinal? Só um pouco de lixo da rua, menos do que um cachorro, não há motivo para dar atenção a um lixo que nem eu! Vai lá, Sammy, ver o que Lassie quer!

Talvez Papai esteja preso sob um trator virado lá na porra do campo sul!

Harry não conseguiu evitar o riso. Nunca teria esperado uma observação como essa vinda de alguém como Sammy, e imaginou o que o homem teria sido antes de terminar nesse estado.

O cachorro deu um latido agudo, suplicante, cortando o riso de Harry. Enfiando o rabo peludo entre as pernas, espetando as orelhas, levantando a cabeça interrogativamente, ele girou num círculo e farejou o ar da noite.

—      Há alguma coisa errada — disse Connie, olhando preocupada para a rua.

Harry também sentiu. Uma mudança no ar. Uma pressão estranha. Alguma coisa. Instinto de tira. Instinto de tira e de cão.

O vira-lata captara um cheiro que o fizera ganir de medo. Girou na calçada, mordendo o ar, e depois correu outra vez na direção de Harry. Por um instante Harry pensou que o cachorro fosse saltar sobre ele e derrubá-lo, mas depois ele virou na direção do The Green House, mergulhou num canteiro de arbustos e ficou deitado sobre a barriga, escondido entre azaléias, mantendo visíveis somente os olhos e o focinho.

Pegando a deixa do cachorro, Sammy virou-se e correu para o beco ali perto.

—      Ei, não, espere — gritou Connie, correndo atrás dele.

—      Connie — disse Harry alertando-a, sem certeza do motivo para o alerta, mas sentindo que não era boa idéia se separarem naquela hora.

Ela virou-se.

—      O quê?

Atrás dela, Sammy desapareceu na esquina.

Foi aí que tudo parou.

Gorgolejando morro acima, na pista do lado sul da rodovia costeira, um caminhão-guincho, certamente prestes a socorrer um motorista com problemas, parou instantaneamente, sem emitir o ruído proverbial de freios. O motor ficou em silêncio de um instante para o outro, sem sacolejar, sem tossir, apesar dos faróis continuarem acesos.

Ao mesmo tempo um Volvo que vinha cerca de trinta metros atrás do caminhão também parou e ficou mudo.

Simultaneamente a brisa morreu. Não desapareceu aos poucos nem soprou para longe, mas cessou tão depressa como se um ventilador cósmico fosse desligado. Milhares e milhares de folhas pararam de balançar ao mesmo tempo.

Precisamente coordenada com o silenciar do trafego e da vegetação, a música do bar parou no meio de uma nota.

Harry quase achou que ficara surdo de pedra. Jamais vira um silêncio tão profundo como esse num ambiente fechado, quanto mais ao ar livre, onde a vida de uma cidade e as miríades de ruídos do mundo produziam uma incessante sinfonia atonal, mesmo na quietude relativa entre a meia-noite e a alvorada. Não conseguia ouvir a própria respiração, e depois percebeu que sua contribuição ao silêncio sobrenatural era voluntária: ele simplesmente estava tão pasmo com a mudança que prendera o fôlego.

Além do som, o movimento fora roubado do mundo. O caminhão-guincho e o Volvo não eram as únicas coisas que haviam parado por completo. As árvores da calçada e os arbustos diante do The Green House pareciam ter-se congelado num átimo. As folhas não haviam simplesmente parado de sussurrar, tinham paralisado; não poderiam estar mais imóveis se fossem esculpidas em pedra. Acima 4as janelas do The Green House, as barras dos toldos de lona tinham estado balançando ao sopro da brisa, mas agora estavam rígidas, duras como se fossem feitas de metal. Do outro lado da rua, a flecha piscante de um anúncio de neon congelara na posição acesa.

—      Harry? — chamou Connie.

Ele teve um sobressalto, como teria tido em reação a qualquer som que não fossem as batidas abafadas do próprio coração disparado. Viu sua própria confusão e ansiedade espelhadas no rosto dela. Aproximando-se, ela perguntou:

—      O que está acontecendo?

Sua voz, além de um tremor incomum, estava vagamente diferente do que era, ligeiramente chapada e com um pouco menos de inflexão.

—      Não faço a mínima idéia.

A voz dele lembrava a dela, como se viesse de um equipamento mecânico extremamente capaz — mas não totalmente perfeito — de reproduzir a fala de qualquer ser humano.

—      Tem de ser ele que está fazendo isso — disse Connie.

Harry concordou:

—      De algum modo.

—      Tique-taque.

—      É.

—      Merda. Isso é loucura.

—      Para mim isso não é argumento.

Ela começou a pegar o revólver, e depois deixou a arma escorregar de volta para o coldre sob o braço. Um clima sinistro envolvia a cena, um ar de temerosa expectativa. Mas pelo menos por enquanto não havia nada em que atirar.

—      Onde está o desgraçado? — perguntou ela.

—      Desconfio que ele vai aparecer.

—      Sem dúvida. — Indicando o caminhão-guincho na rua, ela

disse: — Pelo amor de Deus... olhe aquilo.

A princípio ele achou que Connie estivesse observando apenas o fato de que o veículo parara misteriosamente como todo o resto, mas depois percebeu qual fora a visão que levantara a agulha no medidor de espanto de Connie. O ar estivera suficientemente frio para fazer o escapamento dos veículos se condensar em plumas pálidas; aqueles finos sopros de névoa estavam suspensos no ar atrás do caminhão, sem se dispersar nem se evaporar como deveria acontecer com os vapores. Ele viu outro fantasma branco acinzentado suspenso atrás do cano de descarga do Volvo.

Agora que fora instigado a procurá-las, maravilhas semelhantes tornavam-se evidentes em todos os lados, e ele apontou-as para Connie. Alguns pedaços de lixo leve — papéis de chiclete e bala, uma lasca de palito de picolé, folhas secas, um pedaço de lã vermelha emaranhada—tinham sido capturados pela brisa. Apesar de não haver qualquer corrente de ar para sustentá-los, continuavam suspensos, como se o ar houvesse subitamente se transformado em cristal puro, congelando-os imóveis por toda a eternidade. Ao alcance do braço e apenas trinta centímetros acima de sua cabeça, duas mariposas de fim de inverno, brancas como flocos de neve, estavam imóveis, as asas macias e peroladas à luz da lâmpada de rua.

Connie bateu no relógio de pulso e depois mostrou-o para Harry. Era um Timex estilo tradicional, com mostrador redondo e ponteiros de horas, minutos e um de segundos, vermelho. Havia parado à uma hora, vinte e nove minutos e dezesseis segundos.

Harry verificou o relógio de mostrador digital. Também marcava 1:29, e o minúsculo ponto piscante que às vezes servia de ponteiro de segundos estava aceso fixo, sem contar cada sessenta avôs de minuto.

—      O tempo... — Connie foi incapaz de terminar a frase.

Examinou espantada a rua silenciosa, engoliu em seco, por fim encontrou a própria voz: — O tempo parou... simplesmente parou.

É isso?

—      O que está dizendo?

—      Parou para o resto do mundo, menos para nós?

—      O tempo não... não pode... simplesmente parar.

—      Então o que é?

A física nunca fora sua matéria predileta. E apesar de ter alguma afinidade com as ciências, porque elas buscavam incessantemente a ordem no universo, ele não tinha a formação científica necessária a uma época em que a ciência era rainha. Entretanto guardara o bastante das aulas, vira documentários suficientes e lera um número grande de best-sellers de divulgação científica para saber que a afirmação de Connie não explicava numerosos aspectos do que estava acontecendo com eles.

Por um lado, se o tempo realmente houvesse parado, por que eles continuavam conscientes? Como poderiam perceber o fenômeno? Por que não foram congelados naquele último instante de tempo em movimento como acontecera com o lixo no ar, como as mariposas?

—      Não — falou trêmulo. — Não é tão simples. Se o tempo parasse, nada se moveria, não é? Nem mesmo partículas subatômicas. E sem movimento subatômico... as moléculas de ar... bem, as moléculas de ar não iriam ser tão sólidas quanto moléculas de ferro?

Como poderíamos respirar?

Reagindo a esse pensamento, os dois respiraram fundo e com gosto. O ar tinha realmente um leve gosto químico, ligeiramente estranho como as vozes, mas parecia capaz de manter a vida,

—      E a luz—disse Harry. — As ondas luminosas parariam de se mover. Não haveria ondas para serem registradas pelos olhos.

Como poderíamos ver qualquer coisa, a não ser a escuridão?

Na verdade, o efeito de uma parada do tempo seria infinitamente mais catastrófico do que a imobilidade e o silêncio que haviam baixado sobre o mundo naquela noite de março. Parecia-lhe que tempo e matéria eram partes inseparáveis da criação e que, se o fluxo de tempo fosse interrompido, a matéria deixaria de existir instantaneamente. O universo implodiria—não é? —, despencaria para dentro de si próprio, numa bola minúscula de... bom, do diabo de coisa extremamente densa que existia antes da explosão que criara o universo.

Connie ficou na ponta dos pés, estendeu a mão, e gentilmente segurou a asa de uma das mariposas entre o polegar e o indicador. Voltou a se apoiar nos calcanhares e trouxe o inseto para diante do rosto, numa inspeção mais atenta.

Harry não tivera certeza se ela poderia alterar ou não a posição do inseto. Ele não se surpreenderia se a mariposa ficasse imóvel no ar, tão fixa quanto uma mariposa de metal soldada a uma parede de aço.

—      Não é tão macia como deveria ser — disse ela. — Parece feita de tafetá... ou algum tipo de pano engomado.

Quando ela abriu os dedos, soltando a asa, a mariposa ficou na mesma posição em que fora deixada.

Com as costas da mão, Harry bateu de leve no inseto e olhou fascinado enquanto ele rolava alguns centímetros antes de ficar de novo parado no ar. Tão imóvel quanto estivera antes de terem mexido com ele, apenas em outra posição.

As maneiras como eles afetavam as coisas pareciam bastante normais. Suas sombras se moviam junto com eles, apesar de todas as outras estarem imóveis como os objetos que as projetavam. Podiam atuar sobre o mundo e passar através dele normalmente, mas não podiam realmente interagir com ele. Connie pudera mover a mariposa, mas o fato de tocá-la não a trouxera de volta à sua realidade, não fizera com que o inseto vivesse outra vez.

—      Talvez o tempo não tenha parado — disse ela. — Talvez tenha somente ralentado, para tudo e para todos, menos para nós.

—      Também não é isso.

—      Como você pode ter tanta certeza?

—      Não posso. Mas acho... se estamos vivenciando o tempo a uma taxa tão tremendamente mais rápida, o bastante para que o resto do mundo pareça imóvel, todo movimento que fazemos tem uma velocidade relativa incrível, não é?

—      E?

—      Quero dizer, muito mais velocidade do que uma bala disparada de um revólver. A velocidade é destrutiva. Se eu pegasse uma bala com a mão e jogasse na sua direção, ela não causaria dano.

Mas a mil metros por segundo, ela vai fazer um buraco considerável em você.

Connie assentiu, olhando pensativa para a mariposa suspensa.

—      Assim, se nós estivéssemos vivenciando um tempo muito mais rápido, o tapa que você deu no inseto iria desintegrá-lo.

—      É. Acho que sim. Provavelmente também teria causado algum dano à minha mão. — Harry olhou para a mão. Não tinha qualquer marca. — E se as ondas de luz estivessem viajando mais devagar do que o normal... nenhuma lâmpada estaria tão brilhante quanto está agora. Estariam mais fracas e... avermelhadas, acho, quase como luz infravermelha. Talvez. E as moléculas de ar estariam lerdas.

—      Seria como respirar água ou xarope?

Ele assentiu.

—      Acho que sim. Na verdade não tenho certeza. Puxa, não tenho nem mesmo certeza se Albert Einstein poderia explicar o que está acontecendo, se estivesse aqui conosco.

—      Do jeito que isso vai, ele deve aparecer a qualquer minuto.

Ninguém saíra do caminhão-guincho ou do Volvo, o que indicava que os ocupantes se mantinham tão presos ao mundo modificado quanto as mariposas. Ele só conseguia perceber as sombras de duas pessoas no banco da frente do Volvo, que estava mais distante, mas tinha uma visão melhor do homem ao volante do caminhão-guincho, praticamente diante deles, do outro lado da rua. Nem as sombras no carro nem o motorista do caminhão tinham se movimentado uma fração de centímetro desde que baixara a imobilidade. Harry supôs que, se não estivessem na mesma trilha temporal dos veículos, eles teriam explodido através dos pára-brisas e sido lançados na pista no instante em que os pneus subitamente pararam de girar.

Nas janelas do bar do The Green House, seis pessoas continuavam a olhar para fora, exatamente nas mesmas posturas em que se encontravam quando a Pausa se instalara. (Harry pensava naquilo mais como uma Pausa do que como Parada, porque presumia que cedo ou tarde Tique-taque recomeçaria tudo. Presumindo que fosse Tique-taque quem havia conjurado a parada. Se não ele, quem mais? Deus?) Duas estavam sentadas numa mesa junto à janela; as outras quatro estavam de pé, duas de cada lado da mesa.

Harry atravessou a calçada e ficou entre os arbustos para examinar mais de perto as pessoas que olhavam para fora. Connie acompanhou-o. Pararam diante do vidro, a uns trinta centímetros de distância dos que se encontravam dentro do bar.

Além do casal grisalho sentado à mesa, havia uma jovem loura e seu companheiro cinqüentão — um dos casais que estivera junto ao palco, fazendo barulho demais e rindo empolgados demais. Agora estavam tão quietos quanto os habitantes de qualquer túmulo. Do outro lado da mesa se encontravam o rnditre e um garçom. Todos os seis semicerravam os olhos para enxergar através da janela, ligeiramente inclinados na direção do vidro.

Enquanto Harry os observava, nenhum deles piscou um olho. Nenhum músculo nos rostos estremeceu. Nenhum fio de cabelo se agitou. As roupas os envolviam como se cada peça fosse esculpida em mármore.

As expressões inalteráveis variavam da divisão ao assombro e à curiosidade e, no caso do maítre, à perturbação. No entanto, não reagiam à incrível imobilidade que baixara sobre a noite. Não podiam percebê-la porque faziam parte dela. Olhavam por cima das cabeças de Harry e Connie, fixando o lugar da calçada onde os dois tinham estado pela última vez depois de Sammy e o cachorro fugirem. As expressões faciais reagiam àquele teatrinho de rua interrompido.

Connie levantou uma das mãos acima da cabeça e acenou-a diante da janela, diretamente na linha de visão de um dos observadores. Nenhum dos seis reagiu.

—      Não podem nos ver — concluiu ela pensativa.

—      Talvez estejam nos vendo lá na calçada, no exato instante em que tudo parou. Podem ter congelado naquele segundo de percepção e não ter visto nada que fizemos a partir disso.

Praticamente ao mesmo tempo, Harry e Connie olharam por sobre os ombros para examinar a rua imóvel, morta igualmente, apreensivos com a inexplicável quietude. No quarto de Ordegard, Tique-taque surgira atrás deles com uma furtividade surpreendente, e os dois tinham pagado com dor o fato de não terem antecipado seus movimentos. Aqui, ele ainda não aparecera, mas Harry tinha certeza de que ele estava chegando.

Voltando a atenção para as pessoas dentro do bar, Connie bateu com os nós dos dedos contra um painel de vidro. O som foi ligeiramente metálico, diferente do que seria o som correto de nós de dedos batendo contra um vidro—exatamente como suas vozes, que contrastavam suas vozes reais no mesmo grau — pequeno, porém audível.

As pessoas de dentro não reagiram.

Para Harry eles pareciam estar mais inexpugnavelmente encarcerados do que o homem mais isolado na cela mais profunda do pior estado policial do mundo. Como moscas em âmbar, capturados num instante sem sentido de suas vidas. Havia uma coisa terrivelmente vulnerável em sua suspensão impotente, e na ignorância abençoada dessa imobilidade.

O apuro em que se encontravam, ainda que não tivessem qualquer consciência dele, provocou um calafrio na espinha de Harry. Ele esfregou a nuca para esquentá-la.

—      Se eles ainda estão nos vendo lá na calçada—disse Connie — o que acontece se formos embora, e tudo começar de novo?

—      Suponho que, para eles, será como se tivéssemos desaparecido no ar diante de seus olhos.

—      Meu Deus.

—      Seria um baque, sem dúvida.

Ela virou-se de costas para a janela, encarando-o. Rugas de preocupação marcavam sua testa. Os olhos escuros pareciam assombrados e a voz estava lúgubre, a tal ponto que não poderia ser atribuída totalmente à mudança de tom e volume.

—      Harry, esse sacana não é só um showman de Las Vegas, desses que entortam colher, adivinham o futuro e fazem truques de mágica.

—      Nós já sabíamos disso. Ele tem poder de verdade.

—      Poder?

—      Sim.

—      Harry, isso é mais do que poder. A palavra não diz tudo, está ouvindo?

—      Estou — disse ele num tom especialmente destinado a acalmá-la.

—      Só com a vontade, ele consegue parar o tempo, parar o motor do mundo, trocar as engrenagens, fazer qualquer porra que queira. Isso é mais do que poder. Isso é... ser Deus. Que chance nós temos contra alguém assim?

—      Nós temos uma chance.

—      Que chance? Como?

—      Nós temos uma chance — insistiu ele, teimoso.

—      É? Bem, eu acho que esse cara pode esmagar a gente como insetos na hora que quiser, e só está adiando isso porque gosta de ver os insetos sofrendo.

—      Você não está parecendo a Connie Gulliver que eu conheço.

— disse Harry, um pouco mais ríspido do que pretendia ser.

—      Bom, talvez não. — Ela colocou um dos polegares na boca e usou os dentes para roer o crescente da unha.

Ele nunca a tinha visto roer unhas, e ficou quase tão pasmo com essa revelação quanto se ela tivesse tido uma crise e caído no choro..

—      Talvez eu tenha tentado cavalgar uma onda grande demais para mim. Eu me equilibrei mal, perdi o controle dos nervos.

Para Harry era inconcebível que Connie Gulliver perdesse o controle dos nervos ou de qualquer outra coisa, nem mesmo diante de algo tão estranho e assustador quanto o que estava acontecendo com eles. Como podia perder o controle dos nervos quando ela era totalmente feita de nervos, uns 55 e cinco quilos de nervo sólido?

Ela virou-se de costas para ele, tornou a examinar a rua com o olhar, foi até alguns arbustos de azaléias e separou-os com uma das mãos, revelando o cão escondido.

—      Não se parecem com folhas. São mais rígidas, Parecem papelão.

Harry juntou-se a ela, agachou-se e fez um carinho no cachorro, que estava tão congelado pela Pausa quanto os clientes do bar.

—      O pêlo parece arame fino.

—      Acho que ele estava tentando nos dizer alguma coisa.

   — Tambem acho, Agora.

— Não tenho dúvida de que ele sabia que alguma coisa estava para acontecer quando se escondeu nesses arbustos.

Harry lembrou-se do pensamento que tivera no banheiro do The Green House: A única indicação de que não estou preso num conto de fadas é a ausência de um animal falante.

Engraçado como era difícil romper o apego de uma pessoa à sua sanidade. Depois de cem anos de análise freudiana, as pessoas eram condicionadas a acreditar que a sanidade era uma coisa frágil, que todo mundo era vítima potencial de neuroses ou psicoses causadas por abuso, negligência ou até mesmo pelas tensões comuns da vida cotidiana. Se ele tivesse visto os acontecimentos das últimas treze horas como o argumento de um filme, teria achado inacreditável, certo de que o principal personagem masculino — ele mesmo — teria desmoronado sob a tensão de tantos eventos e contatos sobrenaturais combinados ao tremendo abuso físico. Entretanto, ali estava, com a maioria dos músculos e metade das juntas doloridas, mas com as faculdades mentais intactas.

Então percebeu que talvez não pudesse presumir que suas faculdades mentais estivessem realmente intactas. Por mais improvável que fosse, ele poderia já estar amarrado a uma cama numa enfermaria psiquiátrica, com uma cunha de borracha na boca para impedir que mordesse a língua num frenesi de loucura. O mundo silencioso e imóvel poderia ser apenas ilusão.

Doce pensamento.

Quando Connie soltou os galhos de azaléias eles não voltaram para o lugar. Harry teve de apertá-los suavemente para forçá-los a esconder o cão outra vez.

Os dois ficaram de pé e sondaram o trecho visível da Pacific Coast Highway, a fileira de lojas dos dois lados, os espaços estreitos e escuros entre os prédios.

O mundo era um gigantesco mecanismo de relógio com um eixo curvo, molas partidas e engrenagens ligadas pela ferrugem. Harry tentou se convencer de que estava começando a se acostumar a esse estado de coisas, mas não adiantou. Se estivesse tão à vontade com tudo isso, por que esse suor frio em sua testa, sob os braços e na base das costas? A noite totalmente silenciosa não exercia nenhuma influência tranqüilizante, pelo contrário: a passagem de cada não-segundo tornava-a ainda mais profundamente fantasmagórica. Sob a fachada pacífica havia a mola retesada da violência e a morte súbita.

—      Encanto — disse Harry.

—      O quê?

—      Como num conto de fadas. O mundo inteiro caiu sob um encanto maligno, um feitiço.

—      Então, onde é que está a bruxa que fez isso? É o que eu quero saber.

—- Não é uma bruxa — corrigiu Harry. — É um bruxo, um feiticeiro.

Ela estava ficando furiosa. 

-— Qualquer coisa. Droga, onde está ele? Por que está brincando conosco assim, demorando tanto pra mostrar a cara?

Olhando para o seu relógio de pulso, Harry verificou que o indicador vermelho dos segundos não voltara a piscar. O mostrador continuava marcando 1:29.

—      Na verdade, esse tempo é relativo. Depende de como você vê a coisa. Creio que podemos dizer que ele não demorou absolutamente nada.

Ela confirmou a hora em seu relógio.

—- Ora, vamos acabar com isso! Ou você acha que ele está esperando que a gente vá procurá-lo?

Em algum lugar na noite surgiu o primeiro som, desde a Pausa: Riso. O riso baixo e grave do vagabundo-golem que queimara como uma vela de sebo no apartamento de Harry e depois reaparecera para espancá-los na casa de Ordegard.

Mais uma vez, pela força do hábito, os dois procuraram os revólveres. Em seguida lembraram-se da inutilidade deles contra esse adversário e resolveram deixá-los no coldre.

Ao sul de onde eles estavam, no final do quarteirão e morro acima, do outro lado da rua, Tique-taque virou a esquina usando sua familiar identidade de vagabundo. Se havia alguma diferença, é que o golem parecia maior do que antes, com bem mais de 1,90m, muito mais cabelo emaranhado e barba revolta do que quando o tinham visto. Cabeça leonina. Pescoço de tronco de árvore. Ombros maciços. Peito impossivelmente largo. Mãos grandes como raquetes de tênis. A capa preta de chuva era tão volumosa quanto uma tenda.

—      Por que diabo eu estava tão impaciente para vê-lo? —

perguntou Connie, verbalizando um pensamento idêntico ao de Harry.

Interrompendo o riso de gigante mau, Tique-taque desceu do meio-fio e começou a atravessar a rua em sentido diagonal, vindo na direção deles.

—      Qual é o plano? — perguntou Connie.

—      Que plano?

—      Sempre há um plano, droga!

De fato, Harry ficou surpreso ao perceber que os dois tinham ficado ali, aguardando o golem, sem qualquer idéia de uma linha de ação. Eram policiais há muito tempo, e trabalhavam como parceiros o tempo suficiente para saber como responder melhor a cada situação, a virtualmente qualquer ameaça. Em geral não tinham que discutir juntos a estratégia; agiam instintivamente, cada um confiando que o outro também faria os movimentos certos. Nas raras ocasiões em que precisavam discutir um plano de ação, bastavam algumas poucas palavras, o código sintético de parceiros sincronizados. Entretanto, diante de um adversário cruel e praticamente invulnerável, feito de terra, pedra, vermes e sabe-deus-o-que-mais, diante de um lutador feroz e incansável, que era apenas um dentre um interminável exército que o inimigo real podia criar, eles pareciam privados de instinto e cérebro, capazes apenas de ficar paralisados ao vê-lo se aproximar.

Corra, pensou Harry, e estava pronto a seguir seu próprio conselho quando o enorme golem parou no meio da rua, a cerca de quinze metros.

Os olhos dele eram diferentes de tudo que Harry já vira. Não somente luminosos, mas fulgurantes. Azuis. O azul ardente das chamas de gás. Dançando brilhantes nas órbitas. Os olhos lançavam imagens de fogo azul tremulante sobre os malares e faziam as pontas frisadas da barba parecer filamentos de neon azul.

Tique-taque abriu os braços e ergueu as mãos enormes sobre a cabeça, como um profeta do Velho Testamento no alto de uma montanha dirigindo-se aos seus seguidores e trazendo mensagens do além. Sob sua generosa capa de chuva poderiam estar escondidas tabuletas de pedra contendo cem mandamentos.

—      Dentro de uma hora de tempo real o mundo começa de novo

— disse Tique-taque. — Vou contar até cinqüenta. É a partida.

Sobrevivam uma hora e eu deixo vocês viverem. Nunca mais irei

atormentá-los de novo.

—      Jesus santíssimo — sussurrou Connie. — Ele realmente é uma criança fazendo brincadeiras sórdidas.

Isso tornava-o pelo menos tão perigoso quanto qualquer outro sociopata. Mais ainda. Algumas crianças pequenas, em sua inocência empática, tinham a capacidade de ser extremamente cruéis.

—      Vai ser uma caçada justa e honesta. Não vou usar nenhum dos meus truques. Só meus olhos — disse o vagabundo e apontou para as órbitas de chamas azuis —, meus ouvidos—e apontou para um deles — e minha inteligência. — Bateu no lado do crânio com um dedo grosso. — Nada de truques. Nada de poderes especiais. É mais divertido assim. Um... dois... melhor correr, não acham?

Três... quatro... cinco...

—      Isso não pode estar acontecendo—disse Connie, para logo depois virar e sair correndo.

Harry seguiu-a. Dispararam em direção ao beco, virando a esquina do The Green House, quase colidindo com o mendigo ossudo que se chamava Sammy e que agora estava precariamente congelado, com um pé erguido no meio do passo. Seus pés faziam ruídos curiosos e ocos no asfalto enquanto passavam por Sammy e corriam pelo beco dos fundos. Era quase o som de passos correndo, mas não exatamente. Os ecos tampouco eram precisamente como os ecos no mundo real, reverberavam menos e eram muito curtos.

Enquanto corria, contraindo-se devido às centenas de dores distintas que brotavam a cada passo, Harry lutava para pensar em alguma estratégia que os mantivesse vivos àquela hora da noite. Mas, como Alice, eles haviam atravessado o espelho e invadido o reino da Rainha Vermelha, e nenhum plano ou lógica funcionaria naquela terra do Chapeleiro Maluco e do Gato Cheshire, onde a razão era desprezada e o caos bem-vindo.

 

— Onze... doze... vocês estarão mortos se eu encontrá-los... treze...

Bryan estava se divertindo muito.

Esparramado e nu sobre os lençóis de seda preta, ele criava e gloriosamente se Tornava enquanto os olhos votivos adoravam-no dentro dos relicários de vidro.

Contudo, parte dele estava no golem, o que também era gratificante. Dessa vez construíra a criatura em tamanho maior, uma máquina feroz e indestrutível, a melhor, para aterrorizar o herói fodão e a puta. Seus ombros imensos também eram os ombros de Bryan, e seus braços poderosos eram controlados por ele. Dobrar aqueles braços, sentir os músculos não-humanos flexionando, contraindo, flexionando, era tão emocionante que ele mal conseguia conter a excitação pela caçada que viria.

— ...dezesseis... dezessete... dezoito...

Criara este gigante com terra, barro e areia, dera ao seu corpo a aparência de carne e o animara exatamente como o primeiro deus criara Adão a partir do barro sem vida. Apesar de estar destinado a ser uma divindade mais impiedosa do que qualquer outra que viera antes, Bryan tanto podia criar quanto destruir. Ninguém poderia dizer que ele era menos deus do que os outros, ninguém. Ninguém.

De pé no meio da Pacific Coast Highway, erguendo-se como uma torre, olhou o mundo imóvel e silencioso; e ficou satisfeito com a sua obra. Este era seu Poder Maior e Mais Secreto—a capacidade de parar tudo com a mesma facilidade com que um relojoeiro parava um relógio simplesmente abrindo a caixa e aplicando o instrumento adequado no ponto fundamental do mecanismo.

— ...24... 25...

Esse poder surgira durante um de seus surtos de crescimento psíquico, quando tinha dezesseis anos, mas ele precisou chegar aos dezoito para aprender a usá-lo direito. Isso era de se esperar. Jesus também precisara de tempo para aprender a transformar água em vinho, a multiplicar pães e peixes para alimentar multidões.

Vontade. O poder da vontade. Para refazer a realidade, esse era o instrumento adequado. Antes do começo do tempo, antes do nascimento deste universo, uma vontade o trouxera à existência, uma consciência que as pessoas chamavam de Deus — se bem que Deus era sem dúvida totalmente diferente de todas as representações que a humanidade tinha feito ele. Talvez fosse apenas uma criança brincando; como num jogo, criara galáxias como grãos de areia. Se o universo era uma máquina de moto contínuo criada por um ato de vontade, também poderia ser alterado, refeito ou destruído pela vontade pura. Para manipular e editar a criação do primeiro deus bastava ter poder e conhecimento — e ambos haviam sido dados a Bryan. O poder do átomo era uma luz tênue diante do poder ofuscante da mente. Ao aplicar sua vontade, ao focalizar intensamente o pensamento e o desejo, ele se descobrira capaz de fazer mudanças essenciais nos próprios fundamentos da existência. — ...31... 32... 33...

Como ainda estava ardentemente se Tornando, e como ainda não era o novo deus, Bryan só conseguia manter essas mudanças durante curtos períodos, geralmente não mais que uma hora de tempo real. Às vezes ficava impaciente com seus limites, mas tinha certeza de que chegaria o dia em que, se quisesse, poderia alterar a realidade atual de modo permanente. Enquanto ele continuava a se Tornar, divertia-se com alterações que negavam temporariamente todas as leis da física e que, pelo menos por um curto espaço de tempo, amoldavam a realidade ao seu desejo.

Apesar de para Lyon e Gulliver parecer que o tempo havia parado, a verdade era bem mais complicada do que isso. Através da aplicação de sua vontade extraordinária, quase como se fizesse um pedido antes de soprar as velas de um bolo de aniversário, ele reconcebera a natureza do tempo. Se existira um rio em constante fluxo de causa e efeito, ele o transformara numa série de córregos, grandes lagos plácidos e gêiseres com uma variedade de efeitos. Agora este mundo estava num dos lagos onde o tempo avançava num ritmo tão desesperadamente lento que parecia ter parado de correr. Entretanto, também pela sua vontade, ele e os dois tiras interagiam nesta nova realidade mais ou menos como interagiam na realidade antiga, experimentando apenas pequenas mudanças na maioria das leis da matéria, da energia, do movimento e da força.

—      ...40... 41...

Como se fizesse um pedido de aniversário, como se pedisse a uma estrela cadente, a uma fada madrinha, desejando, desejando, desejando com toda a sua considerável força, ele criara o parque de diversões perfeito para um animado jogo de esconde-esconde. E daí, se tivesse estragado o universo para transformá-lo num brinquedo?

Ele tinha consciência de que era duas pessoas de naturezas tremendamente díspares. Por um lado era um deus se Tornando, sublime, com autoridade e responsabilidade incalculáveis. Por outro, era uma criança inconseqüente e egoísta, cruel e orgulhosa.

Com relação a isso ele se imaginava semelhante à própria humanidade — só um pouquinho pior.

—      ...45...

Na verdade, acreditava ter sido consagrado precisamente por causa do tipo de criança que tinha sido. Egoísmo e orgulho eram simplesmente reflexos do ego, e sem um ego forte ninguém poderia ter estímulo para criar. Era necessária uma certa dose de imprudência, caso se quisesse explorar os limites dos poderes criativos. Correr riscos, sem ligar para as conseqüências, poderia ser uma libertação, uma virtude. E, como ele seria o deus que castraria a humanidade por ter poluído a Terra, a crueldade era um requisito para se Tornar. Sua capacidade de permanecer criança, de evitar o desperdício de sua energia criativa na geração insensata de mais animais para o rebanho tornava-o o candidato perfeito para a divindade.

—      ...49... 50!

Por algum tempo ele manteria a promessa de caçá-los somente com a ajuda dos sentidos humanos normais. Seria divertido. Desafiador. Seria bom experimentar as graves limitações da existência deles. Não para desenvolver compaixão — eles não mereciam compaixão—e sim para desfrutar mais completamente, através da comparação de seus extraordinários poderes.

No corpo do imenso mendigo, Bryan passou da rua para o fabuloso parque de diversões que era a cidade mortalmente imóvel, sem um sussurro.

— Lá vou eu! — gritou. — Estejam prontos ou não!

 

Tal como um ornamento de Natal suspenso por um fio no ramo elevado, uma pinha fora aprisionada pela Pausa em meio à queda. Um gato laranja e branco fora imobilizado no ar enquanto saltava de um galho de árvore para o topo de um muro de estuque, patas dianteiras estendidas à frente, patas traseiras esticadas atrás. Uma filigrana de fumaça rígida e imutável brotava sinuosa de uma chaminé.

Enquanto corria junto com Harry para o coração estranho e sem pulsações da cidade imóvel, Connie não acreditava que escapariam com vida. Mesmo assim concebia e descartava freneticamente numerosas estratégias para enganar Tique-taque durante uma hora. Sob a casca dura de cinismo que alimentara com tanto amor durante tanto tempo, ela evidentemente guardava, como qualquer pobre-diabo do mundo, a esperança de que era diferente e que viveria para sempre.

Ela deveria ter ficado embaraçada ao descobrir dentro dela uma fé tão estúpida e animal em sua própria imortalidade. Em vez disso, abraçava-a. A esperança podia ser uma espécie de crença traiçoeira, mas ela não conseguia ver como um mínimo de pensamento positivo poderia agravar o apuro em que se encontravam.

Numa única noite descobrira muitas coisas novas sobre si própria. Seria uma pena não viver o bastante para construir uma vida melhor a partir dessas descobertas.

Mesmo com o pensamento fervihante, somente lhe ocorriam estratégias patéticas. Sem reduzir a velocidade, entre respirações cada vez mais ofegantes, ela sugeriu que ficassem mudando de rua, virando para um lado e para outro, na frágil esperança de que uma trilha tortuosa fosse mais difícil de seguir do que um caminho reto. E guiou Harry através de uma rota em declive, porque assim poderiam cobrir um caminho maior em menos tempo do que se estivessem se esgueirando morro acima.

Em volta deles, os inertes moradores de Laguna Beach ignoravam o fato de que os dois corriam pelas suas vidas. E se ela e Harry fossem alcançados, nenhum grito despertaria os que dormiam um sono de encanto ou traria socorro.

Ela sabia por que os vizinhos de Ricky Estefan não tinham ouvido o golem explodindo através do piso do corredor e espancando-o até a morte. Tique-taque interrompera o tempo em todos os cantos do mundo, menos dentro daquele bangalô. A tortura e o assassinato de Ricky tinham sido conduzidos com uma tranqüilidade sádica, enquanto para o resto da humanidade tempo algum havia passado. Da mesma forma, quando Tique-taque os acuara na casa de Ordegard e lançara Connie através da porta de vidro em direção à varanda do quarto principal, os vizinhos não reagiram ao ruído dos vidros partidos nem ao som dos tiros porque todo o confronto ocorrera no não-tempo, uma dimensão ligeiramente deslocada da realidade.

Enquanto corria a toda velocidade, Connie contava mentalmente, tentando repetir o ritmo lento com que Tique-taque iniciara a contagem. Chegou a cinqüenta depressa demais e duvidou se haviam alcançado distância suficiente para se sentirem seguros.

Se tivesse continuado a contagem, poderia ter chegado a cem antes de, finalmente, precisarem parar. Os dois se apoiaram num muro de tijolos para recuperar o fôlego.

Seu peito estava tenso e o coração parecia ter inchado a ponto de explodir. Cada respiração parecia inflamada, como se ela fosse uma engolidora de fogo, exalando vapores de gasolina fumegante. A garganta estava áspera. Os músculos da perna e do tornozelo latejavam, e a intensidade da circulação renovava a dor em todas as pancadas e contusões que sofrerá durante a noite.

Harry parecia pior do que ela. Claro, recebera mais golpes em seus contatos com Tique-taque. Estava há mais tempo na luta. Quando pôde falar, ela disse:

—      E agora?

A princípio cada palavra saiu aos borbotões do peito de Harry.

—      Que. Tal. Usar. Granadas?

—      Granadas?

—      Como Ordegard.

—      Sei, sei, eu lembro.

—      Balas não funcionam contra um golem...

—      Deu pra notar — disse ela.

—      ...mas se explodirmos a coisa em pedacinhos...

—      Onde vamos encontrar granadas? Hem? Você conhece uma lojinha de explosivos aqui nesse bairro agradável?

—      Talvez num depósito da Guarda Nacional, algum lugar do tipo.

—      Caia na real, Harry.

—      Por quê? O resto do mundo não caiu.

—      A gente explode uma dessas porcarias em caquinhos, ele

simplesmente pega mais um pouco de lama e faz outro.

—      Mas isso vai retardá-lo.

—      Talvez dois minutos.

— Cada minuto conta. Só precisamos agüentar uma hora. Ela olhou-o incrédula.

—      Está dizendo que acredita que ele vai manter a promessa?

Harry enxugou o rosto com a manga do paletó.

—      Bom, ele pode manter.

—      Uma ova.

—      Pode — insistiu Harry.

Ela sentia vergonha de si própria por querer acreditar. Ouviu a noite. Nada. Isso não significava que Tique-taque não estivesse por perto.

—      Temos de ir em frente — disse ela.

—      Para onde?

Não sentindo mais necessidade de apoiar-se contra o muro, Connie olhou ao redor e descobriu que estavam no estacionamento ao lado de um banco. A seis metros dali havia um carro parado perto da caixa automática 24 horas. Iluminados pelo brilho azulado de uma lâmpada de serviço, dois homens estavam parados junto à máquina.

Havia alguma coisa errada na postura dos dois. Não só por estarem parados como estátuas. Era outra coisa.

Connie começou a atravessar o estacionamento na direção do estranho quadro.

—      Aonde você vai? — perguntou Harry.

—      Checar isso.

Seu instinto mostrou-se correto. A Pausa os interrompera em pleno assalto.

O primeiro homem usava o seu cartão de banco para retirar 300 dólares da máquina. Tinha quase sessenta anos, cabelos e bigode brancos, e um rosto gentil com rugas de medo. O maço de notas novas começara a deslizar da caixa para sua mão, quando tudo parará.

O assaltante tinha uns vinte anos, louro, boa aparência. Calçava tênis Nike, vestia jeans e um suéter. Era um daqueles garotos de praia que podiam ser encontrados durante todo o verão em qualquer rua do centro de Laguna, usando sandálias e bermudas, a barriga lisa, um bronzeado de mogno, cabelo clareado pelo sol. Olhando-o agora, ou imaginando como estaria quando o verão chegasse, podia-se suspeitar que fosse ambicioso e tivesse talento para o lazer, mas não para desconfiar que alguém de aparência tão saudável pudesse ter intenções criminosas. Mesmo durante o assalto, ele parecia um querubim com um sorriso amável. Na mão direita segurava uma pistola calibre 32, cora o cano apertado contra as costas do homem mais velho.

Connie rodeou a dupla, estudando-os pensativamente,

—      O que vai fazer? — perguntou Harry.

—      Preciso dar um jeito nisso.

—      Não temos tempo.

—- Somos tiras, não somos?

—      Estamos sendo caçados, pelo amor de Deus!

—- E quem mais vai impedir o mundo de ir para o inferno, se não nós?

—      Um momento, um momento! Pensei que você estivesse nessa profissão por causa da emoção e para provar alguma coisa a si mesma. Não foi isso que disse antes?

—      E você? Não está nela para preservar a ordem, proteger os inocentes?

Harry respirou fundo como se fosse argumentar, depois desistiu, exalando um suspiro explosivo de irritação. Não era a primeira vez, nos últimos seis meses, que ela provocava aquela reação nele.

Connie achou que ele até ficava bonito quando se exasperava; era uma mudança bastante agradável em relação à sua imparcialidade habitual, tediosa de tão constante. Na verdade, Connie até gostava do modo como ele estava naquela noite, amarrotado e com a barba por fazer. Nunca o vira assim, nunca esperara vê-lo assim, e achou que Harry parecia mais durão do que malvestido, mais perigoso do que acreditaria que ele pudesse se tornar.

—      Certo, certo—disse ele, entrando no quadro do assalto para inspecionar mais de perto o assaltante e a vítima. — O que você quer fazer?

—      Alguns ajustes.

—      Pode ser perigoso.

—      Essa coisa de velocidade? Bom, a mariposa não se desintegrou.

Cautelosamente, ela encostou um dedo no rosto do assaltante. Apele parecia de couro e a carne era mais firme do que deveria ser. Quando afastou o dedo, deixou uma reentrância rasa na bochecha que certamente não desapareceria até o fim da pausa.

Olhando nos olhos dele, falou:

—      Escroto,

O rapaz não demonstrou que percebera sua presença. Ela era invisível para ele. Quando o tempo reassumisse o fluxo normal, o assaltante não saberia que ela tinha estado ali.

Puxou o braço do assaltante para trás. Ele se moveu, mas com uma resistência rígida.

Connie agia com paciência porque tinha medo de que o tempo voltasse a andar de repente, que sua presença pudesse assustar o sujeito armado assim que ele se reanimasse, e isso o levasse a disparar acidentalmente. Ela poderia levá-lo a matar o velho, ainda que sua intenção original fosse apenas cometer um assalto.

Quando o cano do 32 não estava mais apertado contra as costas da vítima, Connie puxou-o devagar para a esquerda, até que estivesse apontando inofensivamente para a noite.

Harrv soltou cuidadosamente os dedos dele do revólver.

—      É como se fôssemos crianças brincando com bonecos de tamanho real. — O .32 ficou precisamente onde estivera quando a mão do assaltante o envolvia, suspenso no ar.

Connie achou que o revólver poderia ser movido com mais facilidade do que o assaltante, mas ele continuou oferecendo alguma resistência. Ela colocou-o junto do homem na caixa automática, apertou-o contra sua mão direita e envolveu-o com os dedos. Quando a Pausa acabasse ele encontraria uma pistola na mão, onde há um segundo atrás não havia nada, e não teria idéia de como ela tinha chegado ali. Da abertura da máquina ela retirou o maço de notas de vinte e colocou-o na mão esquerda do homem.

—      Agora sei como a nota de dez dólares terminou magicamente de volta na minha mão depois de eu tê-la dado ao vagabundo — falou.

Enquanto examinava a noite, inquieto, Harry disse:

—      E como as quatro balas que atirei nele terminaram no bolso da minha camisa.

—      A cabeça da estatueta indo do altar de Ricky Estefan para a minha mão. — Ela franziu a testa. — Dá arrepios pensar que estávamos como essas pessoas, congelados no tempo, enquanto o sacana brincou com a gente.

—      Você acabou aqui?

—      Ainda não. Venha, me ajude a virar o cara de costas para a máquina.

Juntos, giraram-no 180 graus, como se ele fosse uma estátua de jardim esculpida em mármore. Quanto terminaram, a vítima não somente tinha a pistola, como a estava apontando para o assaltante.

Como vitrinistas num museu de cera, lidando com manequins extremamente realistas, tinham reprogramado a cena e dado a ela um novo tipo de dramaticidade.

—      Certo, agora vamos dar o fora daqui — disse Harry, e começou a se afastar do banco através do estacionamento.

Connie hesitou, examinando o trabalho que haviam feito.

Ele se voltou, viu que ela não vinha atrás dele e vírou-se.

—      O que foi agora?

Ela balançou a cabeça:

—      Isso é perigoso demais.

—      O sujeito bonzinho está com a arma agora.

—      É, mas ele vai ter uma surpresa quando descobri-la em sua mão. Pode deixá-la cair. O escroto aqui pode pegá-la de novo — o que provavelmente vai acontecer — e eles vão estar de volta ao ponto em que os encontramos.

Harry se voltou, com um olhar apoplético no rosto.

—      Você esqueceu um tal cavalheiro sujo, demente, com cicatrizes no rosto e vestido de capa preta?

- Ainda não ouvi ele chegando.

—      Connie, pelo amor de Deus! Ele pode parar o tempo para nós também! Pode demorar o tempo que quiser para nos achar, esperar até chegar na nossa frente antes de deixar a gente voltar ao jogo! Você não iria ouvi-lo até ele arrancar seu nariz e perguntar se você não quer um lenço!

—      Se ele vai trapacear assim...

—      Trapacear? Por que não iria trapacear?—-perguntou Harry exasperado, apesar de dois minutos antes ter argumentado que Tique-taque manteria sua promessa de jogo limpo.—Não estamos falando de Madre Teresa!

—      .. .então tanto faz corrermos ou acabarmos o nosso trabalho.

De qualquer modo ele vai nos pegar.

As chaves do carro do cliente de cabelos brancos estavam na ignição. Connie retirou-as e abriu o porta-malas. A tampa não saltou. Ela precisou levantá-la, como se estivesse erguendo a tampa de um caixão.

—      Esse é um comportamento anal-retentivo —- disse Harry.

—      Mesmo? É como você lidaria normalmente com essa situação, não é?

Ele piscou, olhando para ela.

Harry pegou o assaltante por baixo dos braços e Connie agarrou-o pelos pés. Levaram-no para a parte de trás do carro e colocaram-no gentilmente no porta-malas. O corpo parecia um pouco mais pesado do que deveria pesar em tempo real. Connie tentou bater a tampa, mas nessa realidade alterada seu empurrão não teve o impulso suficiente para que ela fosse até o fim. Teve de se apoiar sobre ela para fazer a tranca fechar.

Quando a Pausa terminasse e o tempo recomeçasse, o assaltante iria se ver no porta-malas do carro sem ter a menor idéia de como chegara àquela posição infeliz. Num piscar de olhos teria passado de assaltante a prisioneiro.

—      Acho que sei como terminei três vezes na mesma cadeira da cozinha de Ordegard, com o cano do meu revólver dentro da boca — disse Harry.

—      Ele ficou tirando você do tempo real e colocando naquela posição.

—      É. Uma criança pregando peças.

Connie imaginou se também fora assim que as cobras e as tarântulas tinham chegado à cozinha de Ricky Estefan. Será que, durante uma Pausa anterior, Tique-taque as coletara em lojas de animais, laboratórios, ou até mesmo em seus ninhos nos desertos, para colocá-las no bangalô? Será que recomeçara o tempo — pelo menos para Ricky—aterrorizando o pobre coitado com a repentina infestação?

Connie afastou-se do carro e parou no meio do estacionamento, ouvindo a noite antinatural.

Era como se tudo no mundo tivesse subitamente morrido, desde o vento até a humanidade inteira, deixando um cemitério planetário onde os gramados, as flores, as árvores e as pessoas de luto eram feitas do mesmo granito que as lápides.

Algumas vezes, nos últimos anos, ela considerara a hipótese de sair da polícia e mudar-se para uma cabana às margens do Mojave, tão distante das pessoas quanto pudesse ficar. Vivia de modo tão espartano que tinha economias substanciais; como um rato de deserto ela poderia fazer o dinheiro durar longo tempo. As vastidões de areia, pedras e rochas estéreis e despovoadas eram imensamente atrativas quando comparadas à civilização moderna.

Mas a Pausa era muito diferente da paz de uma paisagem deserta e torrada pelo sol, onde a vida ainda fazia parte da ordem natural e a civilização, por mais doente que fosse, continuava existindo em algum lugar além do horizonte. Depois de somente uns dez não-minutos de silêncio e de uma imobilidade tão profunda quanto a morte, Connie ansiava pela loucura bombástica do circo humano. A espécie era muito cheia de mentiras, trapaças, inveja, ignorância, autopiedade, hipocrisia e visões utópicas que sempre conduziam ao assassinato em massa — mas até que se destruísse, se isso viesse a acontecer, ela abrigava o potencial de enobrecer, de assumir a responsabilidade por seus atos, de viver e deixar viver, e de merecer a guarda da terra.

Esperança. Pela primeira vez na vida, Connie Gulliver começara a acreditar que a esperança, por si mesma, era motivo para viver e tolerar a civilização.

Mas enquanto Tique-taque vivesse, ele significava o fim da esperança.

—      Odeio esse filho da puta como nunca odiei ninguém — disse ela. — Quero pegá-lo. Quero tanto acabar com ele que mal posso esperar.

—      Para pegá-lo, primeiro temos de ficar vivos—lembrou-lhe Harry.

—      Vamos.

 

A princípio, continuar em movimento naquele mundo imóvel parecia a coisa mais sensata a fazer. Se Tique-taque cumprisse a promessa, usando somente os olhos, os ouvidos e a inteligência para descobri-los, sua segurança aumentava proporcionalmente à distância que pusessem entre eles.

Enquanto corria junto de Connie, indo de uma rua solitária para outra, Harry suspeitava de que havia uma chance razoável de o psicótico manter a palavra, rastreando-os apenas pelos meios comuns e liberando-os da Pausa caso não conseguisse pegá-los dentro de uma hora do tempo real. Afinal de contas, a despeito de seu poder incrível, o sacana era obviamente imaturo, uma criança se divertindo, e algumas vezes as crianças levavam mais a sério os jogos do que a vida real.

Claro que, quando ele os liberasse, quando finalmente os relógios voltassem a andar, ainda seria 1:29. O amanhecer continuaria cinco horas no futuro. E ainda que Tique-taque pudesse disputar esse jogo-dentro-do-jogo estritamente de acordo com as regras que determinara, ele ainda estaria disposto a matá-los ao amanhecer. Sobreviver à Pausa valeria somente a pequena chance de encontrá-lo e destruí-lo assim que o tempo recomeçasse.

E mesmo que Tique-taque quebrasse a promessa, usando algum sexto sentido para encontrá-los, era sensato continuar em movimento. Talvez ele houvesse grudado etiquetas psíquicas nos dois, como Harry especulara antes; e, nesse caso, se ele trapaceasse, poderia encontrá-los aonde quer que fossem. Permanecendo em movimento, pelo menos estariam seguros até que ele pudesse encontrá-los ou passasse à sua frente, antecipando a próxima jogada dos dois.

De rua para beco para rua, por entre quintais e casas silenciosas, eles corriam, saltando cercas, através de um pátio de escola, as passadas soando vagamente metálicas, por onde cada sombra parecia rígida como ferro, onde as luzes de neon eram mais fixas do que Harry jamais vira e pintavam arco-íris no asfalto. No caminho, passaram por um homem de casaco de tweed que saíra para levar o cão para passear, ambos tão imóveis quanto figuras de bronze.

Correram junto a um córrego onde a torrente que sobrara da chuva estava congelada pelo tempo, mas nem um pouco parecida com gelo: mais clara do que gelo, negra com reflexos da noite e marcada por brilhos de prata no lugar da cristalização branca. E a superfície não era lisa, como um riacho congelado no inverno, mas ondulada e espiralada pela turbulência. Onde o córrego batia sobre pedras, o ar estava cheio de borrifos imóveis de água brilhante, lembrando elaboradas esculturas feitas de cacos e contas de vidro.

Ainda que fosse aconselhável permanecer em movimento, a corrida contínua logo se mostrou pouco prática. Já estavam cansados e rígidos de dor quando começaram a correr; cada esforço adicional cobrava um preço geometricamente maior dos dois.

Mesmo parecendo que se movimentavam tão facilmente naquele mundo petrificado quanto no mundo comum, Harry percebeu que eles não criavam vento quando corriam. O ar se partia como manteiga ao redor de uma faca, mas nenhuma turbulência resuítava da passagem deles, o que indicava que, objetivamente, o ar era mais denso do que parecia ser. A velocidade dos dois poderia ser muito menor do que parecia, e nesse caso o movimento exigia mais esforço do que percebiam.

Além do mais, o café, o conhaque e o hambúrguer que Harry ingerira se agitavam azedos em seu estômago. Chamas ácidas de indigestão queimavam seu peito.

Mais importante: a cada quarteirão que passavam, através daquele mausoléu do tamanho de uma cidade, uma inexplicável inversão de resposta biológica fazia aumentar o sofrimento. Ainda que uma atividade tão extenuante devesse deixá-los superaquecidos, eles se sentiam cada vez mais frios. Harry não conseguia produzir suor, nem mesmo um suor gelado. Os dedos dos pés e das mãos pareciam estar numa geleira do Alasca, e não num balneário de praia na Califórnia.

A noite, em si, não estava mais fria do que antes da Pausa. Na verdade, talvez nem estivesse tão fresca quanto antes, já que a brisa do oceano se imobilizara junto com todo o resto. A causa do estranho frio interno era evidentemente algo diferente da temperatura do ar, mais misterioso e profundo — e assustador.

Era como se o mundo ao redor, com a abundante energia presa numa estase, houvesse se transformado numa espécie de buraco negro, absorvendo incansavelmente a energia deles, sugando-a, até que, de grau em grau, eles se tornassem tão inanimados quanto tudo a sua volta. Ele suspeitava de que era imperativo começar a poupar todos os recursos que lhes restavam.

Quando se tornou absolutamente claro que deveriam parar e descobrir um bom lugar para se esconder, perceberam que tinham deixado um bairro residencial e entrado no início de um cânion estreito com as paredes cobertas de arbustos. Ao longo da estrada de serviço ladeada por árvores e iluminada por uma fila de lâmpadas a vapor de sódio que transformavam a noite numa tela em preto e amarelo, o terreno liso era ocupado por estabelecimentos semi industriais, do tipo que cidades preocupadas com a própria imagem,como Laguna Beach, afastavam cuidadosamente das principais rotas turísticas.

Agora caminhavam, trêmulos. Connie se abraçava. Harry levantou a gola e juntou as duas abas do paletó esporte.

—      Quanto tempo já se passou? — perguntou ela.

—      Não faço a menor idéia. Perdi toda a noção de tempo.

—      Meia hora?

—      Talvez.

—      Mais do que isso?

—      Talvez.

—      Menos?

—      Talvez.

—      Merda.

—      Talvez.

À direita, no grande pátio de um depósito de veículos de lazer, por trás de uma cerca de metal coroada de arame farpado, diversas motor homes estavam estacionadas lado a lado na escuridão, como se fossem filas de elefantes adormecidos.

—      O que são todos esses carros? — perguntou Connie.

Havia carros estacionados dos dois lados da estrada, com duas

rodas no acostamento estreito e duas no asfalto, reduzindo a rodovia de três pistas para no máximo duas. Era curioso, porque nenhum daqueles estabelecimentos estaria aberto no momento da Pausa. Na verdade, todos estavam escuros, e tinham fechado entre sete e oito horas atrás.

À direita deles, uma empresa de manutenção de jardins ocupava um prédio de blocos de concreto, atrás dela havia uma sementeira de árvores e arbustos na metade da parede do cânion.

Sob um dos postes descobriram um jovem casal dentro de um carro. Ela com a blusa aberta, ele com a mão dentro dela, palma de mármore segurando um seio de mármore. Para Harry, aquelas expressões de paixão ardente, coloridas pelo amarelo de sódio e vislumbradas através das janelas do carro, eram quase tão eróticas quanto um casal de cadáveres caídos sobre uma cama.

Passaram por duas oficinas de automóveis nos lados opostos da rodovia, cada uma especializada em uma diferente marca estrangeira. Cada estabelecimento tinha seu próprio pátio de ferro-velho atulhado de veículos canibalizados e com altas cercas de arame.

Os carros continuavam alinhados na rua, bloqueando as entradas para os estabelecimentos. Um rapaz com cerca de dezoito ou dezenove anos, sem camisa, vestindo jeans e tênis Rockport, tão completamente aprisionado pela Pausa quanto tudo que os dois tinham visto até então, estava esparramado sobre o capo de um Camaro 86 preto, os braços esticados para os lados e as palmas para cima, olhando para o céu encoberto como se houvesse algo para ver lá em cima, no rosto uma expressão estúpida de bênção drogada.

—      Coisa esquisita — disse Connie.

—      Muito — concordou Harry, flexionando as mãos para impedir que as juntas enrijecessem com o frio.

— Mas sabe de uma coisa?

—      É meio familiar — disse ele.

-É.

No trecho final da via de três pistas todos os estabelecimentos eram armazéns. Alguns eram feitos de blocos de concreto cobertos com estuque sujo de poeira, manchados com ferrugem da água que descera dos telhados de metal corragado durante incontáveis estações chuvosas. Outros eram inteiramente de metal, construções pré-fabricadas e semicirculares.

Os carros estacionados tornavam-se mais numerosos no quarteirão final da rua, que terminava sem saída no fim do cânion. Em alguns lugares eles estavam estacionados em filas duplas, estreitando a rodovia para uma pista.

No fim da rua, o último dos prédios era um grande armazém sem qualquer identificação do nome da empresa. Era um dos modelos cobertos de estuque, com teto de aço corrugado. Um letreiro gigante escrito ALUGA-SE estava pendurado na frente, com o telefone de um corretor.

Luzes de serviço clareavam a face da estrutura, com portas de enrolar suficientemente grandes para permitir a entrada de tratores com reboques. No canto sudoeste do prédio havia uma porta menor, de dimensão humana, junto à qual estavam dois sujeitos com aparência de durões, por volta dos vinte anos, com físicos mantidos por esteróides, muito mais inchados do que halterofilismo e dieta sozinhos poderiam proporcionar.

—      Dois seguranças — disse Connie, enquanto se aproximavam dos sujeitos congelados pela Pausa.

Subitamente a cena fez sentido para Harry:

—      É uma rave.

—      Em dia de semana?

—      Pode ser uma festa especial de alguma pessoa, um aniversário ou coisa do tipo.

Importado da Inglaterra há alguns anos, o fenômeno da rave atraía os adolescentes e os jovens desejosos de uma festa que durasse a noite inteira, fora dos olhares das autoridades.

—      Lugar esperto para se esconder, não é?—perguntou Connie.

—      Bem esperto, eu acho, mais do que a maioria.

Os promotores das raves alugavam armazéns e prédios industriais por uma ou duas noites, levando o evento de um lugar para outro, evitando ser descobertos pela polícia. Os locais das próximas raves eram anunciados em jornais underground e filipetas, distribuídos em lojas de discos, boates e escolas, todos escritos no código da subcultura, usando títulos como "The Mickey Mouse X-press", "American X-press", "Double-Hit Mickey", "Get X-rayed", "Cirurgia Dental Explicada" e "Balões de Graça para Crianças". Mickey Mouse e X eram apelidos para uma droga potente, mais conhecida como Ecstasy, e as referências à odontologia e aos balões significavam que oxido nitroso — ou gás hilariante — estaria à venda.

Era essencial evitar a descoberta por parte da polícia. Os temas das festas rave ilegais — em oposição às imitações bem-comportadas nas boates de rave legalizadas — eram sexo, drogas e anarquia.

Harry e Connie passaram pelos seguranças, atravessaram a porta e entraram no coração do caos, mas um caos ao qual a Pausa trouxera uma ordem tênue e artificial.

O salão cavernoso estava iluminado por meia dúzia de lasers vermelhos e verdes, talvez uma dúzia de refletores amarelos e vermelhos, estroboscópios, e tudo isso estivera piscando e varrendo a multidão até que veio a Pausa. Agora, lanças de luzes coloridas e fixas encontravam alguns participantes e deixavam outros nas sombras.

Quatrocentas ou quinhentas pessoas, na maioria entre dezoito e vinte e cinco, mas algumas com no máximo quinze anos, estavam congeladas no ato de dançar ou de simplesmente andar por ali. Como nas raves os disc-jóqueis invariavelmente tocavam techno dance music altamente energizada, com um baixo de pulsação rápida capaz de sacudir paredes, muitos dos jovens haviam parado em poses exóticas, saltando e girando em abandono, corpos retorcidos, cabelos voando. A maioria dos homens e rapazes estava vestida com jeans ou calças de algodão, camisas de flanela e bonés de beisebol virados para trás, ou com jaquetas de times estudantis sobre camisetas, mas alguns vestiam-se totalmente de preto. As garotas usavam uma variedade maior de roupas, mas todas provocantes — apertadas, curtas, decotadas, transparentes, reveladoras; afinal de contas, as raves eram celebrações carnais. O silêncio tumular substituíra a música ribombante, bem como os gritos e urros dos freqüentadores; a luz fantasmagórica se combinava com a imobilidade para dar uma qualidade cadavérica e antierótica às curvas expostas de pernas, coxas e peitos.

Enquanto os dois se movimentavam em meio à multidão, Harry percebia que os rostos dos participantes da festa estavam esticados em expressões grotescas que, quando em ação, provavelmente demonstravam excitação e alegria provocadas pelo barato das drogas. Congelados, no entanto, transformavam-se em máscaras de raiva, ódio e agonia.

No brilho feroz produzido pelos lasers, pelos refletores e pelas imagens psicodélicas que os projetores de filmes lançavam em duas paredes enormes, era fácil imaginar que, afinal de contas, isso não era uma festa, e sim um diorama do inferno, com os condenados se retorcendo de dor e uivando para se livrar do tormento.

Ao calar o ruído e o movimento da rave, a Pausa podia ter capturado a verdade básica do evento. Talvez o segredo horrível, o mais apavorante, fosse que, em sua busca obsessiva de diversão, aquelas pessoas não estivessem realmente se divertindo em qualquer nível fundamental, e sim sofrendo de mágoas particulares das quais tentavam freneticamente se libertar, em busca de um alívio que sempre lhes escapava.

Harry guiou Connie, saindo de perto dos que dançavam e caminhando em direção aos espectadores reunidos ao redor do perímetro da enorme câmara abobadada, A Pausa surpreendera alguns em pequenos grupos, no meio de conversas gritadas e riso exagerado, rostos tensos e músculos encordoados nos pescoços, lutando para competir com a música trovejante.

Mas a maioria parecia estar sozinha, desligada dos que se encontravam ao redor. Outros pareciam rígidos como arame esticado, olhares enervantemente febris, Talvez fosse a iluminação fantasmagórica e as sombras recortadas, mas de qualquer modo, de olhos fundos ou arregalados, os freqüentadores pétreos nas laterais fizeram com que Harry lembrasse os zumbis dos filmes, paralisados em meio a alguma tarefa criminosa.

—      É um show de horrores comum — disse Connie em tom inquieto, evidentemente também captando uma espécie de ameaça na cena, que talvez não fosse tão óbvia se tivessem entrado ali antes da Pausa.

—      Bem-vinda aos anos noventa.

Uma quantidade dos zumbis na periferia da pista de dança segurava balões coloridos que não estavam presos a linhas ou varetas. Aqui havia um garoto ruivo e sardento de dezessete ou dezoito anos, que esticara o gargalo de um balão amarelo-canário e o enrolara no indicador para impedir que se esvaziasse. E aqui estava um jovem com bigode de Pancho Villa, agarrando firmemente o gargalo de um balão entre o polegar e o indicador, igual a uma garota loura com olhos azuis e vazios. Os que não usavam os dedos pareciam usar um tipo de prendedor metálico que podia ser comprado em papelarias. Alguns freqüentadores mantinham a abertura do balão entre os lábios, tragando o oxido nitroso que haviam comprado num vendedor que, sem dúvida, estaria num furgão atrás do prédio. Com tantos olhares vazios e intensos e tantos balões coloridos, era como se um grupo de mortos-vivos houvesse invadido um aniversário de criança.

Apesar de ser infinitamente estranha e fascinante por causa da Pausa, a cena continha uma familiaridade apavorante para Harry.

Afinal de contas, ele era um detetive de homicídios, e ocasionalmente ocorriam mortes súbitas nas raves.

Algumas vezes por overdose de drogas. Nenhum dentista sedaria um paciente com uma concentração de oxido nitroso maior do que 80%, mas o gás disponível nas raves costumava ser puro, sem nenhum oxigênio misturado. Tragando diversas vezes o gás puro num certo espaço de tempo, ou sugando por muito tempo de uma só vez, você poderia não se transformar meramente num espetáculo risonho, mas provocar um ataque que o mataria; ou, pior, um ataque que, embora não fosse fatal, causasse danos irreparáveis ao cérebro e o deixasse esparramado no chão feito um peixe, ou catatônico.

Harry notou uma plataforma que ocupava toda a largura da parede dos fundos do armazém, seis metros acima do piso principal, acessível através de degraus de madeira nas duas extremidades.

— Lá em cima — falou para Connie, apontando.

Daquele posto elevado poderiam ver todo o armazém — e localizar Tique-taque se o ouvissem entrando, independente da porta que ele utilizasse. As duas escadas garantiriam rota de escape, não importa de qual direção ele viesse.

No fundo do prédio, passaram por duas jovens de peitos grandes, que usavam camisetas apertadas onde estava impresso: "Just Say NO (Diga NÃO)", uma piada rave sobre a campanha antidrogas de Nancy Reagan, que significava que as duas diziam sim ao oxido nitroso, cujo símbolo é NO, se é que não diziam sim a qualquer outra coisa.

Foi preciso rodear três garotas deitadas no chão perto da parede, duas segurando balões meio desinflados e Pausadas num jorro de riso com o rosto vermelho. A terceira estava inconsciente, a boca aberta, um balão totalmente desinflado sobre o peito.

Perto dos fundos, não muito longe da escada da direita, havia um enorme X branco pintado na parede, suficientemente grande para ser visível de todos os pontos do armazém. Dois caras com suéteres do Mickey Mouse — e um deles com chapéu de orelhas de rato, pegavam notas de 20 dólares dos clientes em troca de cápsulas de Ecstasy ou biscoitos impregnados com a mesma droga.

Aproximaram-se de uma adolescente de no máximo quinze anos, olhos ingênuos e rosto tão inocente quanto o de uma jovem freira. Usava uma camiseta preta com a imagem de uma espingarda sob as palavras PUMP ACTION. Tinha sido congelada no ato de colocar um daqueles biscoitos na boca.

Connie arrancou o biscoito dos dedos rígidos da garota e puxou-o dos lábios entreabertos. Jogou-o no chão. O biscoito não teve ímpeto suficiente para chegar até o piso, parando a alguns centímetros acima do concreto. Com a ponta do sapato ela forçou-o para baixo até envergá-lo.

—      Garota estúpida.

—      Isso não faz o seu gênero — comentou Harry.

—- O quê?

—      Ser uma adulta careta.

— Talvez alguém tenha de ser.

Ametilenedioximetanfetamina, ou Ecstasy, uma anfetamina de efeitos alucinógenos, era capaz de energizar radicalmente o usuário e induzir euforia. Também poderia gerar uma falsa sensação de profunda intimidade com qualquer estranho em cuja companhia o usuário estivesse durante o barato.

Apesar de outras drogas aparecerem algumas vezes nas raves, o NO e o Ecstasy eram de longe as predominantes. O NO era simplesmente um suco de riso, não-viciante — não? — e o Ecstasy podia colocá-lo em harmonia com os outros seres humanos e em sintonia com a mãe natureza. Certo? Era o que se dizia. A droga preferida pelos defensores da paz, por aqueles que se preocupavam com a ecologia, consumida nas passeatas destinadas a salvar o planeta. Certo, era perigosa para pessoas com problemas cardíacos, mas não havia, em todos os Estados Unidos, registros de morte devida ao seu uso. Certo, os cientistas haviam descoberto recentemente que, com o uso contínuo, o Ecstasy causava minúsculos buracos no cérebro, centenas ou até mesmo milhares deles, mas não havia prova de que esses buracos resultassem na diminuição da capacidade mental. Então, o que eles provavelmente faziam, tá sabendo?, era permitir que os raios cósmicos atravessassem melhor a alma e auxiliassem a sua iluminação. Certo?

Enquanto subia até a plataforma, Harry podia olhar para baixo por entre os degraus e ver casais congelados em posturas explícitas nas sombras sob a escada.

Toda a educação sexual do mundo, todos os panfletos sobre uso de camisinha poderiam ser varridos para o lado por um tablete de Ecstasy, caso o usuário experimentasse uma reação erótica, como acontecia com tantos. Como continuar preocupado com doenças quando o estranho que você acaba de encontrar era uma tremenda alma gêmea, o yin do seu yang, radiante e puro ao seu terceiro olho, tão afinado com todas as suas necessidades e os seus desejos?

Quando chegaram à plataforma, a luz era mais fraca do que no nível principal, mas Harry pôde ver casais deitados no chão ou sentados juntos, encostados na parede do fundo. Eles se agarravam mais agressivamente do que os que se encontravam debaixo da escada. Paralisados em duelos de línguas, as blusas desabotoadas, os jeans com zíperes abertos, as mãos dentro deles.

Dois ou três casais, no frenesi do Ecstasy, deviam ter perdido tão completamente o contato com a realidade e com as convenções sociais que de um modo ou de outro pareciam estar transando quando a Pausa chegou.

Harry não tinha vontade de confirmar essa suspeita. Como o triste circo do piso principal, a cena na plataforma era apenas depressiva. Não tinha o menor erotismo, nem sequer para um voyeur de padrões mínimos, mas provocava tantos pensamentos sombrios quanto qualquer pintura de Hieronymus Bosch sobre reinos e criaturas infernais.

Enquanto os dois se movimentavam entre os casais rumo a uma balaustrada de onde poderiam observar melhor o piso principal, Harry disse:

—      Cuidado onde pisa.

—      Você é nojento.

—      Só estou tentando ser cavalheiro.

—      Bom, nesse lugar isso é uma coisa excepcional.

Junto à balaustrada, eles tinham uma boa visão da turba congelada numa festa eterna.

—      Meu Deus, estou com frio — disse Connie.

—      Eu também.

De pé, lado a lado, abraçaram-se pela cintura, compartilhando ostensivamente o calor dos corpos.

Poucas vezes na vida Harry se sentira tão perto de alguém como naquele momento. Não num sentido amoroso. Os casais drogados e agarrados no chão atrás deles eram suficientemente anti-românticos para impedir qualquer sentimento romântico. A atmosfera não era propícia. O que ele sentia, ao contrário, era a proximidade platônica entr