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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LÁGRIMAS SOBRE A BABILÓNIA / Nelson Demille
LÁGRIMAS SOBRE A BABILÓNIA / Nelson Demille

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

A nossa luta mal começou. O pior ainda está para vir. E convém que a Europa e os Estados Unidos da América fiquem avisados desde já para o facto de não poder haver paz... A perspectiva do deflagrar de uma terceira guerra mundial é coisa que não nos incomoda. O mundo tem-se servido de nós para depois se esquecer de que existimos. Chegou a altura de se darem conta da nossa existência. Seja qual for o preço, continuaremos a nossa luta. Sem o nosso consentimento, os outros árabes não poderão fazer nada, e jamais concordaremos com um acordo de paz pacífico. Nós somos o jocker no baralho.

George Habash, dirigente da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP).

 

Nós, os judeus, muito simplesmente recusamo-nos a desaparecer. Independentemente de quanto as forças que estão contra nós possam ser fortes, brutais e impiedosas aqui estamos nós. Os corpos dilacerados são aos milhões, corpos que foram sepultados em vida, imolados pelo fogo, mas nunca ninguém conseguiu quebrar a força de espírito do povo judeu.

Golda Meir, Bruxelas, 19 de Fevereiro de 1976, na II Conferência de Bruxelas, subordinada ao tema da situação difícil dos judeus soviéticos.

 

 

 

 

                           FRANÇA: SAINT-NAZAIRE

Nuri Salameh, um aprendiz de electricista, afagou uma vez mais as algibeiras exageradamente grandes do seu fato-macaco branco. Mantinha-se de pé, tendo adoptado uma postura um pouco encurvada, na área central de uma fábrica gigantesca da Aerospatiale, sem saber muito bem o que fazer a seguir. Em seu redor havia outros imigrantes argelinos de língua francesa, que davam a impressão de se mover com uma lentidão irreal, como se participassem num bailado clássico, enquanto matavam o tempo na expectativa de ouvir a sirena que assinalaria o final do seu turno de trabalho.

 

O Sol daquele fim de tarde projectava os seus raios por entre a maquinaria pesada coberta de pó, filtrando-se através das janelas do edifício de seis pisos; os raios solares banhavam a fábrica mal aquecida com uma luminescência feita de poalha dourada, que contrastava com o bafo que saía da boca de Salameh.

 

No exterior da fábrica, as luzes do aeroporto começavam a acender-se. O campo de aviação era sobrevoado por uma esquadrilha de Mirages azul-metálicos numa formação em V. As camionetas começaram a alinhar-se, preparadas para transportar os trabalhadores da Aerospatiale até às respectivas casas, em Saint-Nazaire.

 

No interior da fábrica, as correntezas adicionais de luzes fluorescentes começaram a tremeluzir, sobressaltando momentaneamente o argelino. Salameh lançou um olhar furtivo em redor. Pelo menos, um dos seus conterrâneos evitou o seu olhar, que parecia desferir chispas. Salameh sabia que o seu destino deixara de estar nas suas mãos, e tão-pouco, desconfiava ele, nas mãos de Alá.

 

Dado o antiquíssimo defeito de carácter dos árabes, ele deixava-se levar nas asas da esperança, elevando-se acima das profundezas do desespero, atingindo os picos mais perigosos dos excessos de confiança. Começou a caminhar numa passada vigorosa, percorrendo o piso de cimento.

 

Defronte de si, o Concorde de dimensões gigantescas era suportado por estruturas metálicas, que serviam para orientar o trabalho dos montadores, que se arqueavam por cima do aparelho, em baixo em volta da fuselagem e das asas. Ainda faltava instalar grande parte dos painéis exteriores da aeronave, e os operários gatinhavam por cima do aparelho como formigas que se deslocavam numa azáfama fervilhante por cima da carcaça de uma gigantesca libélula meio comida. Salameh subiu as escadas que o levaram à plataforma dos andaimes, que se estendia ao longo da base da cauda, com uma altura de doze metros. Numa das placas de alumínio da secção da cauda, ainda por pintar, estava estampado o número de produção: 4X-LPN.

 

Salameh olhou para o seu relógio de pulso. Faltavam dez minutos para o fim do seu turno. Tinha de passar à acção naquele momento, antes que os rebitadores do turno da noite encerrassem a secção da cauda. Pegou numa prancheta suspensa, leu-a de relance e olhou para trás, por cima do ombro. Mais abaixo, um dos argelinos fitou-o enquanto varria as aparas de metal espalhadas pelo chão, tendo-se afastado depois.

 

Salameh apercebeu-se do suor a formar-se-lhe no rosto, para logo arrefecer sob o efeito do frio que se sentia na fábrica. Limpou a testa com a manga antes de começar a descer por entre duas traves, dirigindo-se para a traseira da fuselagem de alumínio parcialmente revestida. A secção da cauda era um labirinto de braçadeiras curvas e longarinas soldadas a laser. Os seus pés estavam apoiados nos tubos de suporte entrecruzados, directamente acima do dispositivo de equilíbrio longitudinal do depósito de combustível número onze. Agachou-se, começando a arrastar-se de escora em escora, encaminhando-se para a antepara de pressurização semiacabada.

 

Salameh espreitou por cima da antepara, examinando toda a extensão cavernosa da fuselagem abaixo de si. Avistou seis homens que, caminhando sobre os pisos provisórios de contraplacado, instalavam material de isolamento entre a cabina de passageiros e o porão de bagagem, situado no bojo do aparelho. Alternadamente, levantavam as placas e colocavam fibra de vidro, após o que voltavam a pôr o contraplacado entre as escoras e as traves. Salameh reparou que os operários, juntamente com o material de isolamento, instalavam separadores de porcelana com a forma de favos e malha de blindagem em náilon. Mais acima, as luzes fluorescentes formavam uma fiada, que acompanhava todo o topo da cabina, e também havia uma luz acima da secção da cauda, todavia, Salameh não a ligou. Manteve-se agachado durante alguns minutos, ao abrigo da escuridão que o rodeava, por detrás da antepara ainda por acabar.

 

Finalmente, Nuri Salameh pigarreou antes de chamar para o interior da cabina.

 

Inspector Lavalle!

 

Um francês alto, que estivera a inspeccionar uma das saídas de emergência, voltou-se para trás, dirigindo-se para uma espécie de vedação que chegava ao peito. Ao reconhecer o argelino, sorriu-lhe.

 

Salameh! Porque estás para aí escondido como um rato às escuras?

 

O argelino esboçou um sorriso forçado à guisa de resposta e acenou com a prancheta na direcção do inspector de estruturas.

 

Está pronta para ser fechada, não lhe parece?

 

Henri Lavalle debruçou-se por cima da antepara, fez incidir o feixe da sua lanterna, que projectou uma luz intensa sobre a secção afuselada da cauda, e procedeu a uma inspecção superficial. Com a outra mão, tirou a prancheta das mãos do árabe, folheando-a rapidamente. Não se podia confiar que aqueles argelinos soubessem interpretar correctamente o mapa das inspecções. Lavalle examinou as folhas, uma a uma. Cada inspector inscrevia a sua marca, as quais correspondiam às verificações efectuadas aos depósitos de combustível, às secções eléctricas e aos equipamentos hidráulicos. Estavam todas em ordem e voltou a examinar as suas próprias marcas relativas às estruturas.

 

Sim. Já foram feitas todas as inspecções respondeu o inspector.

 

E o meu trabalho de electricidade? perguntou Salameh.

 

Sim, sim, o teu trabalho está como deve ser. Está terminado. A secção pode ser fechada.

 

Devolveu a prancheta ao argelino, deu-lhe as boas-noites e começou a afastar-se.

 

Obrigado, senhor inspector.

 

Salameh prendeu a prancheta no cinto do fato-macaco, virou-se e começou a caminhar com cuidado, mantendo-se agachado sobre a estrutura de traves. Sub-repticiamente, olhava por cima do ombro enquanto avançava, e viu que o inspector Lavalle já se tinha ido embora. Salameh ouviu o barulho feito pelos operários que, após guardarem as ferramentas, desciam da fuselagem até aos andaimes abaixo desta. Houve alguém que desligou a maior parte das luzes de trabalho da cabina, pelo que, na secção da cauda, a escuridão adensou-se.

 

Nuri Salameh ligou a sua lanterna, projectando o feixe de luz para o interior, e começou a subir morosamente pela estrutura de escoras até ficar tão perto do ponto onde os dois lados da cauda convergiam que quase lhe podia tocar. De um dos seus bolsos laterais, quase a abarrotar, retirou uma caixa negra que continha um mecanismo eléctrico não maior do que um maço de cigarros. A caixa tinha uma pequena placa de metal, que indicava o número de série atribuído à peça e que a identificava como sendo a #CD-3265-21 SFNEA, o que não correspondia à verdade.

 

Da algibeira de cima, tirou um tubo de cola, espremeu-a para cima de um painel de alumínio e, em seguida, premiu fortemente a caixa contra a superfície metálica, pressionando durante alguns segundos. Depois, puxou uma antena recolhida no interior da caixa negra, fazendo-a girar até ficar afastada das duas faces metálicas da cauda.

 

Em silêncio, mudou de posição, firmando as costas contra uma escora e apoiando simultaneamente os pés numa barra transversal. Apesar de o espaço confinado no interior da cauda não ser aquecido, a transpiração já lhe perlava o rosto.

 

Com uma faca eléctrica, Salameh começou a descarnar uma secção da camada isoladora de um comprido fio verde que chegava até à luz de navegação da cauda. De um dos seus bolsos, tirou então uma porção de fio igual, com um pequeno cilindro de metal simples, do tamanho de um cigarro Gauloise, acoplado num dos extremos. Depois uniu o outro extremo, que tinha o filamento de cobre à vista, ao fio da luz de navegação, envolvendo com cuidado esta junção com fita isoladora.

 

Em seguida, começou a descer cautelosamente pela estrutura dos andaimes, fazendo correr o fio verde ao longo de um feixe de fios multicoloridos até ter chegado ao estabilizador de direcção, no ponto onde se fazia a junção com a fuselagem, deixando que o fio pendesse através das escoras entrecruzadas abaixo dos pés.

 

Salameh esticou-se todo para baixo sobre a superfície fria das escoras de alumínio que se cruzavam entre si, estendendo a mão até conseguir tocar no depósito de combustível número onze, mais abaixo. Através dos poucos painéis que faltavam no bojo da fuselagem, conseguia avistar as cabeças dos homens que passavam por baixo do enorme aparelho. O suor escorria-lhe abundantemente pelas faces, levando-o a pensar que as gotas estariam a cair em cima dos homens, mas ninguém soergueu o olhar.

 

De outro dos seus bolsos, Salameh tirou uma mão-cheia de uma substância semelhante a massa de vidraceiro, que pesava mais ou menos meio quilo, e cuidadosamente deu-lhe forma, aplicando-a por cima do depósito de carburante número onze. Encontrou o fio verde suspenso e fez deslizar os dedos até à extremidade, onde apalpou o pequeno cilindro de metal aí acoplado, que empurrou para o interior da massa macia, apertando-a firmemente em seu redor. Então, foi sobressaltado pela sirena estridente, que indicava o fim do turno de trabalho.

 

Salameh ergueu-se, rápido, limpando a transpiração pegajosa que lhe cobria as faces e pescoço, mas o seu corpo estremecia enquanto gatinhava com todas as precauções através das escoras, que lhe restringiam os movimentos, em direcção à secção aberta da cauda. Içou-se da cauda até sair do espaço mergulhado em escuridão, e esgueirou-se pela abertura que servia de referência para a montagem das peças, saltando para a plataforma dos andaimes. Toda aquela operação, que lhe pareceu ter durado uma eternidade, demorara apenas cerca de quatro minutos.

 

Salameh continuava a tremer quando dois rebitadores, que trabalhavam no segundo turno, subiram para a plataforma. Enquanto ele tentava reassumir uma postura normal, os dois olharam-no com uma expressão de curiosidade.

 

Um deles era de nacionalidade francesa, enquanto o outro era argelino.

 

Isto está pronto? perguntou este último a Salameh, em francês, estendendo-lhe a mão.

 

O aprendiz de electricista sentiu-se momentaneamente confuso até se ter apercebido de que os olhos dos dois se fixavam na prancheta que continuava suspensa do seu cinto e, com rapidez, desprendeu-a, entregando-lha.

 

Sim, sim. Está tudo pronto. Electricidade, estruturas, hidráulica. Já foi tudo inspeccionado. Pode ser fechada.

 

Os dois homens responderam-lhe com um acenar de cabeça enquanto verificavam o mapa das inspecções. Pouco depois, começaram a preparar os painéis de alumínio, os rebites e as ferramentas automáticas. Salameh ficou a observá-los durante uns momentos até sentir que os joelhos paravam de tremer. Depois desceu, pouco seguro, pelas travessas da escada e dirigiu-se para o relógio de ponto.

 

Nuri Salameh entrou numa das camionetas que aguardavam os operários, sentando-se em silêncio entre os seus colegas, observando-os a beberem vinho directamente das garrafas enquanto faziam o percurso até Saint-Nazaire.

 

Salameh apeou-se no centro da cidade e percorreu as ruas sinuosas, pavimentadas com paralelepípedos, até chegar ao seu apartamento, infestado de baratas, que ficava por cima de um talho. Saudou a mulher e os quatro filhos em árabe, após o que anunciou que só jantariam depois de ele regressar de um recado muito importante que ainda tinha de fazer. Foi buscar a bicicleta, que se encontrava no estreito patamar mergulhado em escuridão, encaminhou-se para o beco e pedalou até à rua, percorrendo a zona ribeirinha onde o Loire convergia para a baía. A respiração condensava-se sob o efeito do frio quando respirava, arfante, devido ao exercício físico. Os pneus precisavam de ar e começou a praguejar ao sentir os solavancos ocasionados pelas pedras irregulares do pavimento.

 

Nas ruas que começavam a escurecer o movimento do trânsito era cada vez menos intenso, enquanto ele continuava a pedalar passando pela zona perto do rio, onde a actividade era maior, até à área deserta onde estivera instalada uma base de submarinos construída pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A estrutura de cimento à prova de bombas erguia-se das águas enegrecidas, marcada pelo impacte das deflagrações, e avistavam-se os guindastes que se elevavam acima das docas na zona ribeirinha, atraindo o reflexo dos últimos raios de Sol que banhavam a baía.

 

Nuri Salameh continuava a pedalar na sua bicicleta, dirigindo-se para o pontão semiapodrecido que levava à base, atravessando antes um maciço de loureiros.

 

Chegado à beira de água, desmontou e encaminhou-se para um quebra-mar coberto de limos e lapas, aproximando-se de uma área coberta da antiga base. O cheiro a gasóleo e a maresia encheram-lhe as narinas enquanto ele lia a inscrição sumida, já lascada, que fora pintada na superfície de cimento coberta de limos. Leu o habitual «Achtung» e outras palavras em alemão, ao que se seguia o número oito. Com lentidão, Salameh aproximou-se, entrando na antiga base de submarinos através de uma porta ferrugenta.

 

No interior, ouvia o marulhar suave da água que batia contra as paredes. A única fonte de iluminação era a que entrava pela porta aberta, através da qual se filtravam as luzes da outra margem do rio. Apalpando o que lhe surgia pela frente, Salameh encontrou o caminho ao longo do extenso passadiço que dava para o extremo do abrigo de submarinos, que tinha a configuração de um túnel. Naquela atmosfera húmida e estagnada sentia-se a tremer e foram várias as vezes em que teve de conter um ataque de tosse.

 

Subitamente, os seus olhos foram atingidos por um intenso feixe de luz, o que o levou a cobrir o rosto.

 

Rish...? chamou ele num murmúrio. Rish!

 

Ahmed Rish desligou a lanterna antes de começar a falar suavemente em árabe.

 

Missão cumprida? Era mais uma afirmação do que uma pergunta.

 

Sim respondeu Salameh, adivinhando a presença de outros homens naquele passadiço estreito.

 

Sim repetiu Ahmed Rish. Sim.

 

Do seu timbre de voz transparecia uma entoação de satisfação malévola.

 

Salameh começou a recordar-se daqueles olhos escuros, tipicamente árabes, que não se haviam desprendido de si ao longo de todo o dia. O rebitador argelino, acompanhado do francês assim como os outros, que o fitara com uma expressão de cumplicidade mal velada.

 

As inspecções foram completadas? A secção da cauda sempre vai ser encerrada esta noite?

 

O tom de voz de Rish era o de um homem que conhecia previamente a resposta às suas perguntas.

 

Sim.

 

Colocaste o rádio no ponto mais alto da cauda do avião... próximo dos painéis exteriores?

 

Precisamente nesse local, Ahmed.

 

Óptimo. E quanto à antena?

 

Ficou puxada.

 

E a junção? Tens a certeza de que o rádio receberá uma pequena carga vinda das baterias do aparelho?

 

Haviam sido inúmeras as ocasiões em que Salameh ensaiara aquela conversa na sua mente.

 

Fiz a puxada de energia a partir da luz de navegação da cauda. Ainda que haja uma inspecção apertada, ninguém dará pela ligação dos fios. Até me dei ao cuidado de arranjar um fio da mesma cor, verde. Ninguém descobrirá a presença do rádio, mas, se isso vier a acontecer, instalei-lhe uma placa com um número de série da Aerospatiale. Apenas um técnico especializado em electricidade não se deixaria enganar por isso. Ninguém dos que trabalham na manutenção se aperceberá da diferença e, caso alguém dê pelo rádio, pensará que faz parte da instalação.

 

Excelente, excelente replicou Rish, que pareceu ter feito um acenar de cabeça na escuridão que os envolvia.

 

Manteve-se em silêncio por uns momentos, embora Nuri Salameh conseguisse ouvir a respiração do homem, juntamente com o hálito que lhe chegava às narinas naquele ambiente opressivo. Pouco depois, Rish acrescentou:

 

O detonador eléctrico ficou preso como deve ser à outra extremidade?

 

Claro que sim.

 

E o plastiqué. recorreu à palavra usada em francês para explosivos.

 

Salameh começou a recitar aquilo que lhe fora ensinado.

 

Moldei-o por cima do depósito de combustível, que, nesse ponto, é um pouco arredondado. O plastique tinha aproximadamente dez centímetros de espessura desde o cimo do depósito até ao detonador, que coloquei precisamente no centro da carga explosiva. O resultado será uma carga de forma natural, que explodirá para dentro, perfurando as paredes do depósito.

 

Salameh lambeu os lábios frios. Não sentia a mínima simpatia por aquelas pessoas, nem tão-pouco pela causa por que se batiam, encontrando-se bem ciente de que cometera um acto gravíssimo. Desde o princípio que não desejara envolver-se naquele assunto, mas acontecia que todos os árabes eram guerrilheiros, de acordo com o que Rish dizia.

 

De Casablanca, em Marrocos, ao longo de um percurso de cinco mil quilómetros de deserto escaldante, até Bagdade, eram todos guerrilheiros, todos irmãos, em número superior a cem milhões. Nuri Salameh não acreditava numa única palavra daquela retórica, mas o facto de os pais e irmãs continuarem a viver na Argélia ajudara a persuadi-lo a levar a cabo aquela tarefa.

 

Foi com orgulho que cumpri a minha parte disse Salameh mais para preencher o silêncio, mas sabia que as suas palavras não teriam qualquer efeito.

 

De repente, apercebeu-se de que o seu destino fora selado no preciso momento em que havia sido abordado por aqueles homens. Rish deu a impressão de não ter ouvido o que ele dissera, tinha outras coisas no pensamento.

 

O plastique... Parece-te que passará despercebido na configuração do depósito? Talvez fosse mais aconselhável tê-lo pintado com aerossol da cor do alumínio acrescentou com uma expressão absorta.

 

Salameh estava ansioso por dar boas notícias, a fim de poder apaziguar o homem, para dispersar os demónios das dúvidas.

 

Ninguém vai à cauda do avião, nunca. É uma secção que está selada, não havendo qualquer contacto com a cabina pressurizada, que fica separada pela antepara de pressurização. Todas as secções eléctricas e hidráulicas são assistidas através de pequenos painéis de acesso instalados no exterior. Somente a falha de qualquer componente obrigaria à remoção dos painéis fixos com rebites. Essa parte do depósito de combustível, em princípio, nunca mais será vista por olhos humanos.

 

A Salameh não passava despercebida a respiração de impaciência de pelo menos, três homens que se mantinham na sombra, atrás de Rish. Ao fundo do túnel, a escuridão era total. Ocasionalmente, ouvia-se a sirena de um navio que navegava no rio ou na baía, um som dissonante e ensurdecido que percorria as águas antes de chegar à antiga base de submarinos, onde fazia bastante frio.

 

Rish murmurou qualquer coisa ininteligível.

 

Salameh aguardava o pior. Por que razão se encontravam num local tão escuro, quando um bistrô ou um apartamento teria servido para o efeito? No fundo do seu coração, ele sabia qual era a resposta; mas procura desesperadamente inverter a sua sorte, que já fora predestinada.

 

Já pedi que me transferissem para Toulouse, tal como era teu desejo. O pedido será aprovado. Para mim seria uma grande honra fazer o mesmo no que está a ser construído nessa fábrica acrescentou ele, dando voz às suas esperanças. Rish emitiu um som que era o arremedo de uma gargalhada, e que teve o efeito de fazer com que a espinha de Salameh fosse percorrida por um calafrio. Já faltava pouco para que aquela charada chegasse ao fim.

 

Não, meu amigo disse uma voz que veio das trevas. Esse assunto já está tratado. O teu jocker encontra-se no baralho, onde dentro em pouco o outro também ficará em segurança.

 

Salameh reconheceu a metáfora. Aquela gente classificava-se, assim como às suas operações, de acordo com aquele tipo de terminologia os jockers do baralho de cartas. O jogo desenrolava-se entre nações civilizadas até que o jocker anunciava a sua presença num massacre que ocorria num qualquer aeroporto, no desvio de um avião, numa carta portadora de uma bomba. Nessas ocasiões, o jogo dos diplomatas e dos políticos tornava-se confuso e frenético. Ninguém conhecia as regras sempre que o jocker era lançado para o pano verde da mesa de jogo. As pessoas começavam a gritar umas com as outras, surgiam navalhas e armas de fogo que haviam estado ocultas debaixo da mesa, e o jogo, que até então decorrera com toda a cortesia, enveredava por um caminho sinistro.

 

Salameh engoliu em seco, tentando desfazer um nó que lhe embargava a garganta.

 

Mas certamente que...

 

Então ouviu um ruído. Rish batera as palmas e, com rapidez e de maneira hábil, Salameh foi imobilizado, por várias mãos, contra a parede viscosa da antiga base de submarinos. Sentiu o aço frio que lhe cortava a garganta, mas não podia gritar porque uma mão lhe tapava a boca, assim como acusou os golpes de uma segunda e terceira navalhada, que tentavam encontrar-lhe o coração. Contudo, devido ao nervosismo que denotavam, os assassinos só conseguiram perfurar-lhe os pulmões, e Salameh sentiu o sangue morno que começara a escorrer-lhe pela pele pegajosa, ouviu os sons gorgolejantes que lhe saíam dos pulmões e da garganta e percebeu que outra navalha o golpeava na região posterior da cabeça, tentando seccionar-lhe as vértebras, mas a lâmina bateu no osso, resvalando. Movido pelo instinto, debatia-se sem grande convicção. Apesar do sofrimento, dava-se conta de que os seus assassinos tentavam despachar o assunto, mas, dada a agitação que os invadira, não estavam a ser muito bem-sucedidos. Pensou na mulher e nos filhos, que o esperavam para jantar, e foi então que uma das lâminas encontrou o caminho para o seu coração e, num movimento derradeiro, com um espasmo que anunciava o estertor da morte, conseguiu libertar-se dos que o atormentavam.

 

Rish começou a falar num tom de voz suave, enquanto as sombras pareciam ajoelhar-se, pairando acima de Salameh. Apossaram-se da sua carteira e do relógio, virando-lhe as algibeiras do avesso, para além de lhe terem tirado as botas de trabalho, que calçava na altura. Fizeram deslizar o corpo por cima do passadiço, suspendendo-o pelos tornozelos acima da água escura, cujo marulhar se ouvia contra as paredes laterais da antiga base. As ratazanas-d’agua, que durante a breve luta haviam soltado os seus guinchos, calaram-se à espera. Os olhos vermelhos dos roedores, semelhantes a contas que pareciam arder com um fogo interior dotado de vida própria, mantinham-se fixos, O rosto de Salameh, atravessado por pequenos riachos de sangue, tocou nas águas frias e enregeladoras, altura em que os assassinos largaram o corpo, que desapareceu com um chapinhar quase inaudível. Os guinchos das ratazanas-d’agua, que mergulhavam saltando do passadiço para as águas poluídas e fétidas, ecoavam por todo aquele espaço.

 

Os operários, com máscaras de protecção, aplicaram a última camada de tinta com pistolas pneumáticas, deixando ouvir um derradeiro silvar. O Concorde cintilava, com a sua cor branca de esmalte, no recinto cavernoso de pintura, onde pairava uma quietude que contrastava com todo o movimento e sons de há pouco. Os clarões das luzes de secagem, de raios infravermelhos, criavam um ambiente um tanto fantasmagórico e uma névoa de partículas de tinta, ainda não assente, pairava naquela atmosfera espectral que envolvia o avião, donde emanava um clarão avermelhado, reflexo das luzes, enquanto os extractores de ar sugavam a névoa daquele espaço gigantesco.

 

Os aparelhos desligaram-se automaticamente e as lâmpadas de infravermelhos começaram a brilhar com menos intensidade até se apagarem por completo. Depois, o recinto iluminou-se de novo com centenas de luzes fluorescentes de uma tonalidade azulada.

 

Mais tarde, homens com fatos-macaco brancos começaram a entrar em silêncio, como se tivessem acabado de chegar a um recinto sagrado, e imobilizaram-se, olhando fixamente, por breves segundos, para aquele pássaro de linhas longas e graciosas. Dava a impressão de que o aparelho se mantinha de pé sobre umas pernas altas numa postura de altivez, fitando-os do alto do seu bico com a arrogância e a indiferença características da sagrada íbis-do-nilo.

 

Os operários, que levavam chapas recortadas e pistolas de pintar, faziam rolar bidões de duzentos litros de tinta azul-clara. Depois, começaram a instalar os andaimes e a desenrolar compridos rolos de recortes para a estampagem.

 

Trabalhavam com uma grande parcimónia de palavras e o encarregado, de tempos a tempos, verificava o trabalho dos seus subordinados.

 

Um dos desenhadores colocou os recortes sobre a secção da cauda, onde o número de produção estava quase sumido por baixo da pintura a branco a partir daquele momento, o número de série passaria a ser o do registo internacional, e fez uma estampagem com o número 4X, a designação que correspondia à nação que seria proprietária do aparelho e que passaria a tê-lo ao serviço das suas linhas aéreas. Em seguida, aplicou uma estampagem com a sigla LPN, o número de registo individual do avião.

 

Acima do desenhador, num andaime mais elevado, dois outros retiravam o revestimento de vinilo negro que fora aplicado à cauda, e o que ficou contra o fundo branco era uma estrela de David com seis pontas, azul-clara, tendo ao centro as palavras EL AL.

 

                                                   ISRAEL O PLANALTO DE SHARON

 

Nas colinas da Samaria, que se erguiam acima do planalto de Sharon, estavam quatro homens em silêncio a coberto das trevas prestes a serem dissipadas pelo alvorecer. Abaixo deles, alargando-se pelo planalto, avistavam-se as luzes em linha recta do Aeroporto Internacional de Lod, que se situava a uma distância de quase nove quilómetros. Por detrás, viam-se as luzes, como que envoltas em brumas, de Telavive e Herzlya e, para lá destas, o mar Mediterrâneo, que reflectia a luz da Lua prestes a desaparecer.

 

Mantinham-se no local que, até à Guerra dos Seis Dias, fora território da Jordânia. Em 1967, aquela área havia sido classificada de estratégica, uma vez que se situava a pouco menos de quinhentos metros acima do planalto de Sharon, num promontório que entrava por território israelita, de acordo com uma linha limítrofe estabelecida ao abrigo das tréguas de 1948 e não existia qualquer outra posição jordana mais próxima do Aeroporto de Lod. A partir deste ponto, os morteiros da Jordânia haviam disparado umas quantas cargas contra a pista de aterragem antes de a aviação israelita os ter silenciado, e a Legião Árabe optara por abandonar aquela posição, tal como havia retirado da margem esquerda do Jordão. Agora, aquele posto avançado não tinha aparentemente qualquer significado militar, situava-se muito dentro do território israelita. As casamatas, em tempos de frente umas para as outras numa faixa de terra-de-ninguém, haviam sido destruídas, tal como já não existiam os muitos quilómetros de arame farpado que as separavam. Mas, mais importante, as patrulhas fronteiriças de Israel também primavam pela ausência.

 

No entanto, em 1967, a Legião Árabe deixara na sua esteira material bélico, juntamente com alguns militares, material esse que consistia em três morteiros de cento e vinte milímetros com as respectivas munições, enquanto a guarnição se resumia àqueles quatro palestinianos, que em tempos haviam feito parte da unidade auxiliar palestiniana incorporada na Legião Árabe. Nessa época, ainda eram jovens que haviam sido deixados ali com instruções para aguardar novas ordens um estratagema antigo, manter homens e equipamento militar em posições abandonadas. De facto, todos os exércitos modernos que batiam em retirada haviam procedido desta maneira, na esperança de que estes elementos pudessem vir a desempenhar qualquer função útil, se e quando o exército em retirada voltasse à ofensiva.

 

Os quatro palestinianos eram oriundos da aldeia de Budris, território ocupado pelos israelitas, e, ao longo dos últimos doze anos, tinham levado uma vida rotineira, em paz. Na verdade, até já se haviam esquecido dos morteiros e respectivas munições, até que chegou uma mensagem que os fez recordar a promessa feita há tantos anos, mensagem que surgira como que da sombra, como uma recorrência de um pesadelo há muito esquecido. Fingiram surpresa por uma ordem desse teor lhes ter chegado na véspera de uma conferência de paz, embora se encontrassem bem cientes de que tal se devia precisamente a esse motivo. Os homens que, a uma distância tão grande, eram senhores dos seus destinos não desejavam que a paz se concretizasse. Assim, não tinham maneira de fazer tábua rasa daquela ordem que os obrigaria a entrar em acção, encontravam-se encurralados naquele simulacro de exército, tão certo como se estivessem de uniforme numa parada militar.

 

Os quatro ajoelharam-se entre os pinheiros, começando a escavar com as mãos o solo de terra macia e arenosa. Encontraram um saco grande de plástico, que continha uma dúzia de projécteis de cento e vinte milímetros, próprios para morteiro, no interior de embalagens de cartão, voltaram a cobri-lo com terra misturada com agulhas de pinheiro e depois sentaram-se encostados ao tronco das árvores. À medida que o céu clareava, os pássaros começavam a entoar os seus trinados.

 

Um dos palestinianos, Sabah Khabbani, pôs-se de pé, encaminhando-se para o cume da colina, donde se podia observar o outro extremo do planalto. Com um pouco de sorte e com um pouco de vento que soprasse de oriente enviado por Alá deveriam conseguir atingir o aeroporto. Certamente que seriam capazes de disparar aquelas doze cargas altamente explosivas, que atingiriam com grande impacte o terminal principal, assim como a pista de estacionamento dos aparelhos.

 

Em resposta àquele pensamento, o kheffiyah de Khabbani adejou violentamente em redor do seu rosto quando uma rajada de ar quente o envolveu, enquanto os pinhais de Jerusalém se agitaram, soltando a sua fragrância resinosa. O hamseen tinha chegado.

 

As cortinas adejavam à volta das persianas das janelas do apartamento, num terceiro andar em Herzlya, e uma delas bateu com grande estrondo. O general da Força Aérea Teddy Laskov sentou-se na cama e estendeu a mão para a mesinha-de-cabeceira. À luminosidade pouco intensa que se filtrava através das janelas viu as persianas que batiam contra a caixilharia e, encostando-se à cabeceira, imobilizou a mão sobre a pistola automática de quarenta e cinco milímetros. O vento quente entrava no quarto pouco espaçoso.

 

Os lençóis ao seu lado agitaram-se quando uma cabeça espreitou, saindo debaixo deles.

 

Passa-se alguma coisa?

 

O sharav já começou a soprar respondeu Laskov depois de ter aclarado a garganta e usando a palavra hebraica. Chegou a Primavera e a paz não tardará. O que poderia correr mal?

 

A mão afastou-se da arma e começou à procura do maço de cigarros, na gaveta. Tirou um e acendeu-o.

 

Os lençóis junto de Laskov voltaram a agitar-se e Miriam Bernstein, a chefe de gabinete do ministro dos Transportes, ficou a observar a ponta incandescente, que se deslocava em movimentos agitados e curtos, do cigarro que Laskov tinha nos lábios.

 

Passa-se alguma coisa contigo?

 

Não, sinto-me lindamente respondeu ele, esforçando-se por manter a mão firme.

 

Baixou o olhar até ao rosto da mulher. Via as curvas do seu corpo por baixo do lençol, mas não a cabeça, parcialmente coberta pela almofada. Ligou então o candeeiro da mesa-de-cabeceira e afastou as cobertas para os pés da cama.

 

Teddy!

 

A voz dela deixava adivinhar uma ligeira irritação.

 

Queria ver-te replicou Laskov com um sorriso nos lábios.

 

Já viste que te chegue disse Miriam, agarrando o lençol e os cobertores, mas ele afastou-os com um pontapé. Está frio acrescentou ela com uma expressão de petulância, enrolando-se sobre si mesma.

 

A temperatura está amena. Não consegues senti-la?

 

Ela emitiu um som de exasperação enquanto estendia os braços e as pernas num movimento de grande sensualidade.

 

Laskov observava o corpo desnudado e bronzeado da mulher. Com a mão, percorreu-lhe a perna, passando por cima do maciço espesso de pêlos púbicos e acabando por se deter sobre um seio.

 

Porque estás a sorrir?

 

Pensei que fosse um sonho respondeu ela, esfregando os olhos, mas afinal não era.

 

Estás a referir-te à conferência de paz?

 

A entoação da voz de Laskov denotava a impaciência que sentia em relação àquele assunto.

 

Sim retorquiu Miriam, colocando a mão em cima da dele e cerrando as pálpebras para melhor sentir a fragrância daquele ar doce. O milagre aconteceu. Demos início a uma nova era, e agora os israelitas e os árabes vão sentar-se à mesma mesa com o objectivo de celebrarem um tratado de paz.

 

Para falarem de paz.

 

Não sejas tão céptico, é um mau princípio.

 

É preferível começar com uma atitude de cepticismo. Desta maneira, ninguém se sentirá desiludido com o desfecho da situação.

 

Deves dar uma oportunidade à paz.

 

Claro que sim replicou ele, baixando o olhar até ao rosto dela.

 

Tenho de me levantar disse Miriam com um sorriso, bocejando e voltando a espreguiçar-se. Tenho um encontro para o pequeno-almoço.

 

Com quem? perguntou Laskov, retirando a mão e sabendo de antemão que era uma pergunta que não deveria ter feito.

 

É com um árabe. Estás com ciúmes?

 

Não, é apenas o meu sentido de segurança a funcionar.

 

É o Abdel Majid Jabari esclareceu ela rindo-se. Tem a figura do meu pai. Sabes de quem é que estou a falar?

 

Laskov acenou afirmativamente. Jabari era um dos dois israelo-árabes membros do Knesset, e que integravam a missão de paz.

 

Onde te vais encontrar com ele?

 

No Michel’s, em Lod. Vou chegar atrasada. Dá licença que me vista, meu general? perguntou com um sorriso.

 

Contudo, não passou despercebido a Laskov que só os lábios é que sorriam, os olhos escuros de Miriam não reflectiam qualquer expressão. Aquela boca de lábios generosos adquirira uma extraordinária faculdade de mostrar toda a gama de emoções humanas, enquanto os olhos se limitavam a exibir uma expressão vazia. Uns olhos notáveis porque não reflectiam rigorosamente nada, serviam apenas para ver o que os rodeava, não eram uma janela que desse para a alma. As coisas que ela já deveria ter visto com aqueles olhos e que, pensava Laskov, não desejava que fossem do conhecimento de ninguém!

 

Estendeu a mão, acariciando os cabelos negros e fartos de Miriam, uma mulher excepcionalmente bonita, não havia dúvida, contudo, aqueles olhos... Viu que as comissuras dos seus lábios se ergueram quando a acariciou.

 

Tu nunca sorris?

 

Ela, sabendo o que é que ele queria dizer, escondeu o rosto na almofada, falando numa voz abafada.

 

Talvez quando regressar de Nova Iorque, talvez nessa altura. Laskov afastou a mão com que lhe acariciava os cabelos. Quereria ela dizer, se a missão de paz fosse um êxito? Ou, nas suas palavras, estaria implícita a possibilidade de vir a ter notícias do marido, Yosef, um oficial da Força Aérea dado como desaparecido há três anos, quando sobrevoava o espaço aéreo da Síria? Estivera sob o comando de Laskov, que vira o aparelho que ele pilotava desaparecer do seu radar. O brigadeiro estava convicto de que Yosef falecera e aquele tipo de pressentimentos, regra geral, correspondia à verdade, o que se devia aos muitos anos de experiência como piloto de combate. Decidiu confrontá-la, queria saber qual era a sua posição antes de ela partir para Nova Iorque, pois era possível que decorressem vários meses antes de voltar a vê-la.

 

Miriam...

 

Nessa altura, alguém bateu à porta com bastante força e Laskov ergueu

 

1 Parlamento israelita. (N. da T.)

 

as pernas, passando-as por cima da cama e levantando-se. Era um homem robusto e corpulento com feições mais características dos eslavos do que dos semitas e sobrancelhas espessas e pesadas, que se uniam no cimo da cana do nariz.

 

Teddy! Leva a arma.

 

Não me parece que os terroristas palestinianos costumem bater à porta retorquiu Laskov com uma gargalhada.

 

Pois bem, pelo menos veste as calças. Bem vês, pode ser que seja alguém à minha procura. Um assunto oficial.

 

Laskov vestiu um par de calças de caqui e deu um passo em direcção à porta, mas entretanto concluiu que seria idiotice estar com bazófias, pelo que pegou no Colt automático de quarenta e cinco milímetros, uma arma regulamentar do exército americano, e prendeu-a no cinto das calças.

 

Não me agrada nada que digas aos membros do teu gabinete onde passas a noite.

 

Uma vez mais, bateram à porta, desta feita com mais força. Descalço, Laskov atravessou a carpete oriental da sala de estar, colocando-se junto da ombreira da porta.

 

Quem é? perguntou.

 

Olhou então para o outro extremo da sala de estar e reparou que não fechara a porta do quarto. Miriam continuava deitada na cama, toda nua, na linha directa da porta.

 

Abdel Majid Jabari encontrava-se no vão reentrante dum prédio, envolto nas trevas que rodeavam o Michel’s em Lod. O café, propriedade de um árabe de fé cristã, estava localizado na esquina próximo da Igreja de São Jorge. Jabari viu as horas, e pensou que o estabelecimento já deveria ter aberto, mas não via nenhum movimento de pessoas no interior. Então acobertou-se mais nas sombras.

 

Jabari era um homem de nariz aquilino com traços fisionómicos puros e clássicos de um nativo da península Saudita. Envergava um fato escuro que não lhe assentava bem, assim como o kheffíyah axadrezado tradicional, preto e branco, que, envolvendo-lhe a cabeça, estava encimado por uma espécie de coroa feita de cordão negro.

 

Durante os últimos trinta anos, só muito raramente Jabari saía sozinho depois do escurecer, ou seja, desde a altura em que decidira celebrar um tratado de paz pessoal e particular com os judeus no recentemente formado Estado de Israel. Desde esse dia, o seu nome passara a constar das listas palestinianas de gente a aniquilar, e a sua eleição para o Knesset israelita, que ocorrera há dois anos, colocara o seu nome à cabeça dessas listas. Em certa ocasião estivera até prestes a ser morto em resultado de uma carta que lhe fora enviada, acompanhada de uma bomba que lhe arrancara parte da mão esquerda. Entretanto, passou por ele uma patrulha motorizada israelita, que lhe lançou um olhar de desconfiança, mas não parou. Voltou a ver as horas. Chegara com bastante antecedência para o encontro que combinara com Miriam Bernstein e não era capaz de pensar em outra pessoa, quer fosse homem ou mulher, que pudesse convencê-lo a deslocar-se a um local tão deserto. Estava apaixonado por ela, mas acreditava que esse amor era estritamente platónico, o que, em abono da verdade, era uma noção invulgar de tendência ocidental, embora tal sentimento não lhe causasse mal-estar. Ela preenchia o vazio que nele se instalara desde que a mulher e os filhos, assim como todos os seus familiares de sangue, haviam procurado refúgio na Margem Esquerda, em 1948. Quando esta zona passou a estar sob o domínio israelita, o que aconteceu em 1967, tudo o que lhe ocupava o pensamento, durante muitos dias, era a reunião de família que ocorreria dentro em breve. Seguira na esteira do exército de Israel, mas, quando chegou ao campo de refugiados onde sabia que a sua família se encontrava descobriu que a irmã morrera e que os demais familiares tinham fugido para a Jordânia. Dizia-se até que os seus filhos integravam a guerrilha palestiniana. Só ficara uma prima, que, ferida, jazia, às portas da morte, num hospital de campanha israelita. Jabari sentia-se atónito perante o ódio que devia minar aquela gente, os seus compatriotas, a exemplo da sua prima, pois até se recusavam a receber cuidados médicos prestados pelos israelitas.

 

A Jabari nunca antes se deparara um sentimento de desespero daquela dimensão. Esse dia, em Junho de 1967, tinha sido muito pior do que aquele em que ficara separado da família, em 1948, mas desde então fizera das tripas coração, tendo percorrido um longo caminho. Agora preparava-se para discutir a paz, que não estaria longe, durante um pequeno-almoço com uma delegada, sua colega, à Conferência das Nações Unidas, que decorreria em Nova Iorque.

 

Avistou sombras que se deslocavam na rua, o que o fez pensar que devia ter agido com mais cuidado já trilhara um longo caminho para que tudo terminasse ali. Contudo, o entusiasmo e a expectativa suscitados pela perspectiva de se encontrar com Miriam Bernstein, a que se aliava a viagem até Nova Iorque, haviam feito com que descurasse a segurança. Sentira-se demasiado embaraçado para lhe dizer que só se podia encontrar com ela depois do nascer do Sol, e não poderia censurá-la de não ser capaz de compreender essa atitude. Muito simplesmente, Miriam jamais conseguiria dar-se conta do terror em que ele vivera ao longo dos últimos trinta anos.

 

O hamseen continuava a soprar, varrendo a praça e erguendo o lixo do chão. O vento não soprava em rajadas, mas sim numa corrente longa e contínua, como se alguém houvesse deixado a porta de uma fornalha escaldante aberta. Silvava por toda a cidade, e cada obstrução que encontrava assumia o papel de uma flauta de cálamo entre vários instrumentos musicais de sopro, emitindo sons que se distinguiam dos outros em intensidade e timbre. Como sempre, aquele som fazia com que qualquer pessoa sentisse um certo mal-estar.

 

Das sombras de um prédio do outro lado da rua saíram três homens que se dirigiram a ele. À luz difusa que antecedia o amanhecer, Jabari apercebeu-se dos contornos da forma alongada das armas que os homens traziam debaixo do braço. Se fizessem parte de uma patrulha de segurança, pedir-lhes-ia que ficassem junto de si durante algum tempo. Caso não fossem... Apalpou a pequena Beretta banhada a níquel que trazia na algibeira, sabendo que, em qualquer dos casos, apenas conseguiria alvejar o que vinha à frente.

 

Sabah Khabbani ajudou os outros três palestinianos a rolarem a pesada pedra pelo solo, enquanto os lagartos corriam em todas as direcções, fugindo do local. No lugar da pedra ficou um buraco com um diâmetro de cerca de dez centímetros, donde Khabbani retirou uma espécie de bola formada por bocados de oleado. Depois meteu lá o braço, começando a apalpar o que encontrava, mas, ao sentir uma centopeia que se passeou pelo seu pulso, retirou-o.

 

Está em boas condições, não tem ferrugem.

 

Limpou o sebo que se lhe agarrara aos dedos às calças largas, ficando a olhar fixamente para o pequeno buraco, que tinha um aspecto inofensivo.

 

Aquele era um velho truque das organizações de guerrilha, inventado pelos vietcongues, e que, entretanto, havia sido adoptado por outros exércitos clandestinos. Coloca-se um morteiro num buraco grande, cujo cano é mantido na vertical por vários homens enquanto os projécteis são colocados no seu interior, e em seguida disparam-se vários, que, na sua linha curva de tiro, começam a cair longe do alvo, até que eventualmente um acerte no objectivo: um campo de aviação, um forte, um depósito de munições. Então, não se disparam mais projécteis, pois a partir desse momento, o morteiro passa a ter o registo de elevação, a trajectória e a linha de tiro pretendidos. Com rapidez, consolida-se depois a posição da peça com terra e pedras compactadas à sua volta, o que é feito com cuidado para que as coordenadas se mantenham inalteráveis, e oculta-se a boca do cano com uma pedra. Os artilheiros fogem antes que o poder de fogo devastador do morteiro atraiçoe a sua posição, mas da próxima vez que o queiram disparar dentro de um dia, uma semana ou mesmo uma década mais tarde só terão de pôr a descoberto a boca de tiro já com alcance preestabelecido, não haverá necessidade de transportar todo aquele pesado equipamento, a pesada base de metal e outros acessórios, que ao todo pesam mais de cem quilos. A delicada peça oca de formato cilíndrico não será necessária, o mesmo acontecendo em relação aos mapas que indicam as coordenadas, às tabelas de tiro, e aos aferidores de alcance dos projécteis, pois o morteiro já está regulado para os alvos a atingir, permanecendo enterrado no solo à espera apenas de que alguém coloque as respectivas munições dentro do cano.

 

Cada um dos companheiros de Khabbani dispararia quatro projécteis, após o que cobririam de novo as bocas de tiro com pedras, e na altura em que os disparos, cuja linha de tiro fora estabelecida num ângulo elevado e curvo, atingissem os respectivos alvos, um a um, já os artilheiros estariam muito longe.

 

Com um trapo ensopado num solvente à base de álcool, Khabbani começou a limpar as paredes do interior do longo cano, mas estava um pouco preocupado. Em 1967, teriam os morteiros sido posicionados com uma mira correcta? Desde então, teria o solo cedido? As balas estariam nas devidas condições? Haveria árvores novas na trajectória fixada para os disparos?

 

O trapo trazia agarrados alguns insectos mortos, terra e um pouco de humidade, assim como alguns vestígios de ferrugem, mas não faltava muito para que chegasse à conclusão de que os disparos se fariam em condições de segurança.

 

Richardson anunciou uma voz ensurdecida, embora Laskov tivesse a certeza de já a ter ouvido.

 

Destrancou então a porta e Miriam Bernstein levantou-se da cama, toda nua, e encostou-se à ombreira, numa pose de dama da noite parisiense junto ao poste de um candeeiro de rua. Ela sorriu, tentando imprimir aos olhos uma expressão sensual ao jeito de «aproxima-te mais», mas Laskov não achou graça à atitude dela e, com lentidão, abriu a porta. Tom Richardson, o adido militar da Embaixada americana, entrou no apartamento no momento em que Laskov ouviu o bater da porta do quarto, que se fechava atrás de si. Tentou ler a expressão no rosto de Richardson. Teria ele visto Míriam? Não ficou com qualquer certeza, àquela hora do dia ninguém mostrava muitas emoções.

 

Esta visita é de carácter social ou profissional?

 

Estou de uniforme completo e o Sol ainda nem sequer despontou respondeu Richardson, abrindo os braços.

 

Laskov fitava o oficial, um homem mais novo que ele, alto e com cabelo de tonalidade arenosa. Fora destacado para aquele lugar devido mais à sua habilidade de encantar os outros do que pela sua competência como piloto. Um diplomata de uniforme.

 

A sua resposta não esclarece a minha pergunta.

 

Porque traz esse bacamarte enfiado nas calças? Até mesmo em Washington ninguém responde dessa maneira a alguém que nos bata à porta.

 

Mas deviam. Bem, já que está aqui, sente-se. Apetece-lhe tomar um café?

 

Agradeço e aceito.

 

Laskov dirigiu-se para a pequena cozinha ao lado da sala.

 

Turco, italiano, americano ou israelita? Americano respondeu Richardson.

 

Mas por acaso só há café israelita, e é do solúvel.

 

Vamos ter um desses dias aziagos? perguntou Richardson, sentando-se numa poltrona funda de braços largos.

 

E não é o que acontece sempre?

 

Veja se consegue entrar no espírito da situação. A paz é para breve.

 

Talvez sim concordou Laskov, pondo a chaleira sobre o único bico a gás.

 

Vindo do outro lado da parede chegava-lhes o barulho da água a correr no chuveiro e Richardson lançou um olhar curioso à porta fechada do quarto.

 

Vim interromper alguma coisa? Estaria você a celebrar uma paz em separado com a irmã de algum rapaz árabe da localidade? perguntou, rindo-se, para logo acrescentar com uma expressão de seriedade: Podemos falar à vontade?

 

Podemos replicou Laskov, saindo da pequena cozinha. Tratemos quanto antes do assunto que o trouxe a minha casa. Tenho pela frente um dia muito preenchido.

 

Também eu retorquiu Richardson, acendendo um cigarro. Precisamos de saber que tipo de cobertura aérea é que planeou para protecção dos Concordes.

 

Laskov aproximou-se da janela e abriu completamente as portadas de tabuinhas. Por baixo do seu apartamento estendia-se a auto-estrada Haifa-Telavive, e próximo do Mediterrâneo viam-se as luzes de algumas residências particulares. Herzlya era conhecida como o enclave dos adidos da Força Aérea e também como a Hollywood de Israel ou a Riviera israelita, pois era lá que vivia o pessoal da El Al e da Força Aérea, isto é, caso tivesse meios para isso. Laskov detestava aquela localidade e o seu ambiente sofisticado, mas circunstâncias fortuitas, de natureza social, haviam colocado a maior parte das pessoas importantes, com quem ele tinha de tratar, a residir em Herzlya.

 

A fragrância das brisas marinhas provenientes de ocidente, que habitualmente entravam pelo seu apartamento adentro, foi substituída pelo vento seco que vinha de oriente, trazendo consigo o aroma dos laranjais e dos botões em flor das amendoeiras das colinas de Samaria. Do outro lado da auto-estrada, os primeiros raios solares revelavam a presença de dois homens junto de um vão reentrante de um estabelecimento. Ambos se colocaram mais a coberto das sombras e Laskov retrocedeu, afastando-se da janela e dirigindo-se para uma cadeira de costas altas, com rodízios, onde se sentou.

 

A menos que tenha vindo com um motorista e um soldado, devo informá-lo de que há alguém que mantém este apartamento sob vigilância.

 

É a função deles retorquiu Richardson com um encolher de ombros, quem quer que sejam. Também temos os nossos acrescentou inclinando-se para a frente. Vou precisar de um relatório muito minucioso sobre a operação de hoje.

 

Laskov recostou-se na sua cadeira, onde costumava reviver com os amigos os combates aéreos mais encarniçados. Quando se reuniam, regalavam-se recordando essas batalhas aéreas de outros tempos. Falavam dos Spitfires, dos Corsairs e dos Messerschmitts. Laskov prendeu o olhar no tecto- Uma vez mais, sobrevoava Varsóvia no cumprimento de uma missão aérea, era então o capitão Teddy Laskov, da Força Aérea soviética. Nessa época, as coisas eram mais simples, ou, pelo menos, assim lhe parecia.

 

Abatido pela terceira vez, durante os últimos dias da guerra, Laskov regressara à sua aldeia, Zaslavl, nos arredores de Minsk, no gozo de uma licença de convalescença, onde encontrara o que restava da sua família, a escassa metade que mal havia conseguido sobreviver ao horror dos nazis os outros tinham perecido durante a repressão duma insurreição civil, era assim que os comissários do povo lhe chamavam. Na óptica de Laskov, tratava-se, isso sim, de um pogrom, e concluiu que a URSS nunca mudaria. Um judeu continuava a ser um judeu, quer fosse na Rússia profana, quer na sagrada.

 

O capitão Laskov, que recebera inúmeras condecorações, regressara então ao seu esquadrão, destacado na Alemanha, e decorridos dez minutos após a sua chegada subira para um avião de combate e começara a fazer fogo cerrado sobre um acampamento do seu próprio exército, situado nos arrabaldes de Berlim, tendo depois ido aterrar numa pista ocupada pela Segunda Divisão de Blindados americana, acantonada na margem ocidental do Elba.

 

Quando saiu do campo de internamento americano dirigiu-se finalmente para Jerusalém, mas não sem antes ter visto aquilo em que a judiaria da Europa de Leste se transformara.

 

Em Israel, integrou a Força Aérea das Haganah1, na clandestinidade, a qual era composta por uns quantos aviões de combate britânicos bons para a sucata, juntamente com uns escassos aparelhos ligeiros civis dos Estados Unidos, que eram mantidos fora dos olhares curiosos sob os palmeirais. Nada que se pudesse comparar com a Força Aérea soviética. Mas quando Laskov avistou o primeiro Spitfire com a estrela de David na fuselagem sentiu os olhos humedecidos.

 

Desde esse dia, em 1946, combatera na Guerra da Independência, em

1948, na Guerra do Suez, em 1956, na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e na Guerra do Yom Kippur, em 1973. No entanto, para si, essas datas não tinham o mínimo significado, pois testemunhara mais acções bélicas entre essas guerras do que durante as mesmas. À sua conta, já efectuara cinco mil cento e trinta e seis surtidas aéreas, tendo sido atingido em cinco ocasiões e abatido duas vezes. A prová-lo, exibia cicatrizes provocadas pelos estilhaços de plexiglas, pelas queimaduras e pelos estilhaços de metralha. Como consequência de ter sido obrigado a ejectar-se de um Phantom em chamas, o que acontecera em 1973, caminhava ligeiramente encurvado. Estava a ficar velho e sentia-se cansado. Actualmente, era muito raro voar em missões de combate e albergava a esperança de que depois da conferência de paz deixariam de existir missões de combate aéreas.

 

A chaleira começou a silvar e Laskov ficou a olhar para ela. Richardson levantou-se e desligou o fogão.

 

E então...?

 

É preciso ter muito cuidado em relação às pessoas a quem fornecemos esse tipo de informações retorquiu Laskov, encolhendo os ombros

 

1 Forças judaicas que actuaram na clandestinidade na Palestina, de 1920 a 1948, e posteriormente vieram a formar o Exército de Israel na sequência da divisão da Palestina 1948. (N da T)

 

Num passo rápido, Richardson aproximou-se dele. Estava branco como a cal da parede, prestes a ter uma crise de nervos.

 

O quê?! Que raio pretende dizer com isso? Ouça uma coisa: tenho que fazer vários relatórios, para além de coordenar a frota dos nossos porta-aviões no Mediterrâneo. Desde quando guarda segredos de nós? Se está a pretender insinuar que existe uma fuga de informações...

 

Laskov não se achava preparado para aquela explosão emocional de Richardson. Os dois tinham sempre o costume de trocar algumas chalaças antes de abordarem os assuntos sérios, fazia parte do jogo. A reacção àquilo que Laskov considerava ser uma mera brincadeira era inapropriada, e concluiu que Richardson devia estar debaixo de grande tensão, tal como, de resto, toda a gente naquele dia.

 

Vamos lá com calma, coronel disse, apaziguador, olhando para o seu interlocutor, ainda bastante jovem.

 

A menção da sua patente pareceu tê-lo despertado daquele estado de tensão. Richardson sentou-se, esboçando um sorriso.

 

Peço desculpa, general.

 

Não há problema sossegou Laskov, levantando-se e pegando no telefone, a que fora acoplado um dispositivo que impedia que as conversas ficassem sob escuta. Ligou o número da Cidadela, o Quartel-General da Força Aérea israelita. Ligue-me ao E-2D pediu.

 

Richardson aguardava. O E-2D era o Hawkeye, o mais recente dos aviões de combate equipados com um radar especial, um sofisticado sistema electrónico, que podia detectar, acompanhar e identificar inimigos em potência ou forças amigas em terra, mar e ar a distâncias e com uma acuidade que nunca antes haviam sido possíveis. As informações que coligia eram posteriormente inseridas numa base de dados informatizada e depois transmitidas ao controlo das forças de reacção rápida, ao controlo do tráfego aéreo civil e às unidades de busca e resgate. Era um tipo de equipamento que também se encontrava munido de dispositivos para ludibriar as forças inimigas. Israel possuía três destes aparelhos, sendo que um deles permanecia constantemente no ar. Richardson observava Laskov, que ouvia o que lhe diziam do outro lado da linha, após o que desligou.

 

Detectaram alguma coisa? perguntou Richardson.

 

Quatro Foxbats, provavelmente egípcios, em manobras, além de um Mandrake de reconhecimento na estratosfera, que parece ser russo.

 

Richardson limitou-se a acenar a cabeça.

 

Ambos começaram a discutir os dados técnicos, enquanto Laskov preparava duas chávenas de café. Entretanto, a água na casa de banho deixou de correr.

 

Tenciona usar os seus F-14 como parte da escolta? perguntou Richardson, soprando o café fumegante.

 

Claro que sim.

 

O Tomcat F-14 era o melhor avião de combate do mundo, mas o mesmo se aplicava ao Mig-25 Foxbat, tudo dependia de quem se sentava aos comandos do aparelho. A diferença entre um e outro era mínima. Laskov tinha sob o seu comando uma esquadrilha formada por doze Tomcats, cada um dos quais custava ao Estado de Israel dezoito milhões de dólares. Naquele momento, encontravam-se estacionados na base militar do Aeroporto de Lod.

 

Tenciona pilotar algum dos aparelhos?

 

Evidentemente confirmou Laskov.

 

Porque não deixa essa tarefa para os homens mais novos?

 

E porque é que você não se vai foder? Tenho de admitir que domina muito bem o inglês corrente dos Estados Unidos redarguiu Richardson, rindo-se. Muito obrigado. Até que distância está a pensar acompanhá-los?

 

Até chegarmos ao limite do nosso alcance de voo. Laskov abeirou-se da janela, observando o firmamento onde o Sol começava a raiar. Não levando bombas nem mísseis ar-terra, num dia como o de hoje devemos ser capazes de percorrer uma distância de uns mil quilómetros e outros tantos para regressarmos à base, o que deve ser suficiente, não vá dar-se o caso de haver alguém com ideias malucas.

 

Mas não os colocará fora do alcance da Líbia, da Tunísia, de Marrocos e da Argélia. Ouça uma coisa... vocês podiam aterrar na nossa base na Sicília, uma vez que querem colocá-los a uma distância tão grande, ou, em alternativa, também é possível arranjar uns quantos KAGD para os abastecer em pleno voo.

 

Laskov desviou o olhar do rosto de Richardson, sorrindo. Os americanos eram boa gente, excepção feita às ocasiões em que entravam num estado de pânico que os levava a tentar estabelecer a paz a todo o custo.

 

Os aparelhos não sobrevoarão toda a extensão do Mediterrâneo. Os Concordes vão receber uma alteração de última hora no plano de voo, o que os levará até ao extremo norte da Itália. Já tratámos de arranjar uma autorização especial para podermos sobrevoar o espaço aéreo da França e da Itália a velocidades supersónicas. Tencionamos separar-nos deles a oriente da Sicília. Dar-lhe-ei as coordenadas para que o porta-aviões com os seus F-14 possa apanhá-los no radar, caso o desejem, mas não me parece que seja necessário. Não se esqueça de que eles podem atingir a velocidade de Mach dois a uma altitude de dezanove mil metros, e só os Bat, conseguem igualar esta proeza, para não mencionar que os Concordes ficarão fora do alcance de qualquer das bases deles, quer sejam árabes ou russas, quando os deixarmos.

 

Está à espera de algum problema? perguntou Richardson distendendo os membros. Os nossos serviços secretos dizem-nos que não deverá acontecer nada de especial.

 

Por aqui, estamos sempre a contar com problemas, mas, para lhe ser franco, tenho de responder que não. Só estamos a tomar as precauções necessárias. A bordo desses Concordes viajará muita gente importante, por conseguinte, há muita coisa em risco. Basta um doido para estragar tudo.

 

E quais são as condições de segurança em terra? inquiriu Richardson.

 

Esse é um problema que cabe ao chefe dos respectivos serviços, eu sou apenas um simples piloto e não um especialista de luta antiterrorista. Se esses dois pássaros de aspecto patusco levantarem voo, estou preparado para os escoltar até ao inferno, fazendo-os regressar sem que tenham sofrido um único risco. Em terra, não me responsabilizo pela sua segurança.

 

De acordo replicou Richardson, com uma gargalhada. Eu também não. A propósito, o que tenciona levar além da sua quarenta e cinco?

 

As ferramentas habituais de morte e destruição. Dois Sidewinders e dois Sparrows, além de seis Phoenix.

 

Richardson ficou a reflectir. Os Sidewinders eram eficientes entre cinco ou oito quilómetros, enquanto os Sparrows actuavam num raio de dezasseis a cinquenta quilómetros, e os Phoenix alcançavam entre cinquenta a cento e sessenta quilómetros, sendo essenciais para alcançar o Foxbat antes de este se encontrar a uma distância que permitisse um combate renhido, dada a sua enorme capacidade de manobra.

 

Aceite uma dica, Laskov. Lá em cima não há nada, a dezanove mil metros de altitude, que voe à velocidade de Mach dois, para além dos Foxbats. Pode deixar em casa as munições para o seu canhão de vinte milímetros, são novecentos e cinquenta projécteis e pesam muito. O Sidewinder interceptará qualquer coisa dentro do seu raio de acção. Em tempos fizemos uma simulação em computador, por isso não terá qualquer problema.

 

É possível que não disse Laskov, passando os dedos pelo cabelo, mas talvez decida levá-los, não vá dar-se o caso de me apetecer abater um Mandrake.

 

Está pronto a atacar um avião de reconhecimento desartilhado num espaço aéreo internacional? perguntou Richardson com um sorriso e expressando-se em voz baixa, como se receasse que alguém pudesse ouvi-los. Qual é a sua onda de frequência táctica e senha de chamada para hoje?

 

Vamos estar em VHF, canal trinta e um, o que se traduz em cento e trinta e quatro megahertz. A minha frequência alternativa ficará sujeita a uma decisão de segurança de última hora e mais tarde dar-lhe-ei essa informação. Hoje o meu nome de código será Anjo Gabriel, em conjunto com o número da cauda do meu aparelho, o trinta e dois. Os outros onze Tomcats também responderão pela designação Gabriel, juntamente com o número de cauda dos seus. Em momento oportuno, facultar-lhe-ei todos os pormenores.

 

E quanto aos Concordes!

 

A senha de chamada que a companhia atribuiu ao aparelho com o número de série quatro xis-LPN foi a El Al zero um e, quanto ao quatro xis-LPO, é a El Al zero dois. Será essa a designação que utilizaremos para comunicar com eles quer através da frequência do controlo de tráfego aéreo, quer a que será utilizada pela El Al. Como é evidente, na minha foram-lhes atribuídos nomes de código.

 

E que nomes são esses?

 

Na Cidadela, trabalha um funcionário qualquer, por certo um idiota chapado, que provavelmente passará os seus dias a tratar desse tipo de coisas retorquiu Laskov esboçando um sorriso. Seja como for, o piloto do El Al zero um é um jovem muito religioso, pelo que se decidiu dar ao seu aparelho o nome de código Kosher1 Clipper. Quanto ao do zero dois, que tinha nacionalidade americana, pôs-se ao seu avião o nome de código Asas de Emanuel em homenagem a uma companhia aérea do seu antigo país.

 

Mas isso é horrível atalhou Miriam Bernstein, que acabara de entrar na sala.

 

Usava um vestido elegante, de bom corte, amarelo-limão e pegara no saco onde trouxera uma muda de roupa.

 

Richardson levantou-se, reconhecendo a bela chefe do gabinete do ministro dos Transportes de quem se falava muito, embora fosse suficientemente diplomata para não aludir ao assunto.

 

Está tudo bem, coronel disse ela, dirigindo-se a Richardson, eu não sou uma pessoa qualquer, tenho acesso às informações mais secretas. O general não foi indiscreto.

 

O seu inglês era lento e preciso, percebia-se que raramente o utilizava e que fora aprendido numa sala de aulas.

 

Richardson assentiu com um acenar de cabeça.

 

Não passou despercebido a Laskov que o coronel sentia alguma perturbação com a presença de Miriam, o que o divertiu. Perguntou a si mesmo se deveria apresentar os dois formalmente, mas Miriam, que já se encontrava perto da porta, voltou-se para trás, dirigindo-se a Laskov.

 

Reparei nos homens que estão na rua e já chamei um táxi. O Jabari está à minha espera. Tenho de me apressar. Encontramo-nos na reunião em que serão dadas as últimas instruções. Olhou para trás de Laskov. Bons dias, coronel.

 

Richardson decidiu não permitir que ambos pensassem que estava completamente alheado do assunto.

 

Shalom. Desejo-lhe boa sorte em Nova Iorque. Antes de sair, Miriam Bernstein sorriu aos dois homens.

 

Não tenciono beber mais desta zurrapa comentou Richardson, olhando para a chávena com um resto de café. Convido-o para tomar o pequeno-almoço comigo e depois posso deixá-lo na Cidadela, quando for para a embaixada.

 

Laskov concordou e dirigiu-se ao quarto, onde vestiu uma camisa de algodão que poderia ter passado por ser de qualquer civil, não fossem as duas pequenas folhas de oliveira que indicavam a sua patente. Tirou a quarenta e cinco que prendera no cinto e, com uma mão, abotoou a camisa, enquanto a outra o empunhava quando assomou à janela. Mais abaixo, os dois homens, quem quer que fossem, baixaram rapidamente o olhar,

 

1 Tudo o que é admitido pela lei religiosa judaica, incluindo a alimentação. (N. da T.)

 

como se examinassem os sapatos. Míriam entrou no táxi que a aguardava, e que arrancou imediatamente a grande velocidade, e só depois Laskov arremessou com a arma para cima da cama.

 

Sentia um mal-estar indefinível. Era o vento, qualquer coisa que teria a ver com o desequilíbrio dos iões negativos que pairavam no ar, dizia-se. Aquele vento doentio era designado de muitas maneiras foehn, na Europa Central, mistral, no Sul de França, santana, na Califórnia, mas ali chamavam-lhe hamseen ou sharav. Havia pessoas, a exemplo de ele próprio, que eram sensíveis às condições atmosféricas, sofrendo física e psicologicamente os seus efeitos. A dezanove mil metros de altitude isso não exerceria qualquer influência, mas cá em baixo tinha alguma importância. Era uma bênção ambígua, o primeiro vento cálido daquela Primavera. Olhou para o firmamento do mal o menos, o dia revelava-se perfeito para voar.

 

Abdel Majid Jabari olhava para a chávena de café turco, a que misturara um cheirinho de araca.

 

Não tenho qualquer pejo em dizer que me senti verdadeiramente receoso. Estive prestes a disparar contra um homem dos Serviços de Segurança.

 

Miriam Bernstein fez que sim com a cabeça. Toda a gente andava sobressaltada, atravessava-se um período que pedia celebração, mas, em simultâneo, também era uma época de apreensões.

 

A culpa é minha. Eu devia ter previsto que isso poderia suceder.

 

Não te preocupes atalhou Jabari, erguendo uma mão. Vemos terroristas palestinianos por toda a parte, mas a realidade é que, nos tempos que correm, não restam muitos.

 

E quantos serão precisos? Tu, muito em especial, devias agir com todas as cautelas. Na verdade, não resta a mínima dúvida de que eles te querem apanhar. Miriam observou-lhe a fisionomia. Deve ser bastante difícil, um estranho numa terra estranha.

 

Jabari continuava a sentir-se muito tenso devido ao encontro que tivera ao alvorecer.

 

Esta terra não me é estranha, foi aqui que nasci replicou ele com firmeza. O que não é o teu caso acrescentou, para logo se arrepender daquele comentário. Esboçou um sorriso conciliatório falando em árabe. Sempre que misturamos os nossos assuntos com os deles, então passam a ser nossos irmãos.

 

À mente de Miriam ocorreu outro ditado árabe: «Cheguei ao local onde nasci e gritei: ”Onde estão eles?”, e o eco respondeu-me: ”Onde é que estão eles?”» Fez uma curta pausa.

 

Suponho que isso se aplique a nós dois. Neste momento, Abdel, esta é tanto a tua terra quanto era a minha quando aterrei nestas paragens. Pessoas deslocadas que arrastam outros desgraçados. Tudo isto é tão demoniacamente... cruel.

 

Jabari apercebia-se de que ela se encontrava prestes a deixar-se apoderar por um dos seus estados de espírito mais sombrios.

 

Pondo de lado os aspectos de ordem política e geográfica, Miriam, a verdade é que existem muitas similaridades de natureza cultural entre os árabes e os judeus. Quero acreditar que, finalmente, os dois povos compreenderam essa realidade. Serviu-se de outro copo de araca, que ergueu. Na língua hebraica, diz-se shalom alekhem, o que significa: «A paz esteja convosco», enquanto nós dizemos salaam alekum, que é o mais próximo que conseguimos chegar até à data.

 

Alekhem shalom brindou Miriam Bernstein depois de se ter servido de outro copo de araca, e que a paz te acompanhe. Bebeu a aguardente, sentindo logo um ardor no estômago.

 

Enquanto tomavam o pequeno-almoço, discutiram sobre o desenrolar da Conferência de Paz, que decorria em Nova Iorque. Para Miriam, era um prazer conversar com Jabari. Sentia-se apreensiva perante a perspectiva de se sentar frente a frente com os árabes que estariam do outro lado da mesa onde se realizaria a conferência sob os auspícios das Nações Unidas o confronto há muito anunciado, pelo que Jabari, do seu ponto de vista, era uma boa transição. Ela sabia que havia trinta anos que ele se mantinha à margem da principal corrente de pensamento árabe, ao que se aliava o aspecto de as suas lealdades penderem para Israel; todavia, se de facto existisse algo semelhante a uma psique de natureza racial, então era muito possível que Abdel Jabari reflectisse esse estado de espírito.

 

Por seu turno, este observava-a atentamente enquanto ela falava naquela voz enrouquecida que, por vezes, deixava adivinhar abatimento, enquanto outras, denotava sensualidade. Ao longo dos anos, a pouco e pouco, Jarabi tinha vindo a inteirar-se da história daquela mulher, tal como Miriam ficara a conhecer a sua. Tanto um como o outro não eram alheios ao que se poderia classificar de destroços de naufrágio e carga alijada ao mar de um mundo em turbilhão. Presentemente, ambos ocupavam posições destacadas no estrato social em que se inseriam, e quer um quer outro estavam em posição de alterar o rumo da história tanto para o melhor, como para o pior.

 

Miriam Bernstein era o produto típico do holocausto europeu. Fora encontrada pelas unidades de vanguarda do exército soviético num campo de concentração, cujos objectivos eram tão obscuros como o próprio nome, apesar de as palavras medizinische experimente estarem para sempre gravadas na sua memória. Recordava-se de que outrora tivera progenitores e demais familiares uma irmã de tenra idade, além de não se ter esquecido de que era judia. Para além disso, pouco mais sabia. Falava um pouco de alemão, devido ao contacto com os guardas do campo, assim como um pouco de polaco, que aprendera com as outras crianças internadas no mesmo campo de concentração. Também dizia umas quantas palavras em húngaro, o que a levara a acreditar que essa seria a sua nacionalidade, mas, em grande parte, sempre fora uma criança que se remetera ao mutismo. Não sabia, nem tão-pouco lhe interessava, se era uma judia de origem germânica, polaca ou húngara, tudo o que para ela constituía uma certeza absoluta era que pertencia ao povo judeu.

 

O Exército Vermelho tinha-a levado, juntamente com as outras crianÇas» para o que julgara ser um campo de trabalho, uma vez que as outras que já lá estavam ocupavam-se na reparação de estradas. Muitas delas morreram nesse mesmo Inverno e quando chegou a Primavera foram para os campos de cultivo. Miriam acabara por ir parar à cama de um hospital e, quando teve alta, ficou sob a tutela de um casal idoso de judeus.

 

Certo dia foram visitados por elementos da Agência Judaica e depois ela e o casal, juntamente com muitos outros judeus, viajaram de comboio, durante semanas a fio, através de um continente europeu que mostrava as cicatrizes de uma guerra devastadora, transportados em carruagens apinhadas, o que continuava a provocar-lhe pesadelos. Depois, embarcaram, num porto do Mediterrâneo, num navio que os levou até Haifa, mas os britânicos ordenaram ao comandante que se fizesse ao largo, recusando-lhe licença para atracar. Numa zona costeira um pouco mais acima, tentaram desembarcar os passageiros nessa mesma noite, mas no areal começou a travar-se uma acérrima batalha entre os judeus, que se esforçavam por tomar posse da testa-de-ponte, e os árabes, que não queriam que o navio procedesse ao desembarque dos passageiros. Os soldados britânicos acabaram por pôr cobro àquela luta e o barco foi obrigado a fazer-se ao largo uma vez mais. Nunca chegara a saber o que acontecera às outras pessoas, uma vez que fora das poucas que desembarcaram antes do início das hostilidades, e o casal idoso, de cujo nome não se recordava, levou sumiço; teriam morrido na praia ou continuaram a bordo do navio?

 

Contudo, houve outro casal de judeus que a tomou à sua guarda, dizendo aos ingleses que o nome dela era Miriam Bernstein, e que era sua filha. Explicaram que ela se afastara de casa e fora apanhada no meio da luta, e que nascera já em solo palestiniano. Recordava-se de que o jovem casal não tinha habilidade para mentir, mas os soldados britânicos limitaram-se a lançar-lhe um olhar de fugida antes de se afastarem.

 

Os Bernstein levaram-na para um kibutz situado nos arredores de Telavive, mas quando os ingleses se retiraram da Palestina, os árabes atacaram o povoado e o seu novo pai saiu de casa para o defender e nunca mais regressou. À medida que os anos foram passando, Miriam descobriu que o seu «irmão» mais velho, Yosef, também era um refugiado adoptado pelo mesmo casal. Ela não achou nada de invulgar nessa situação, porque imaginava que a maior parte das crianças à face da Terra ou no seu mundo vinham dos campos de concentração ou das ruínas da Europa devastada. Yosef Bernstein também tivera a oportunidade de presenciar o mesmo que ela, talvez ainda mais e, à semelhança do que acontecia com Miriam, não conhecera os pais biológicos nem sabia qual o seu nome verdadeiro, o que também se aplicava à idade e à nacionalidade. Começaram a namorar, tendo acabado por casar, e durante a Guerra do Yom Kippur o seu único filho, Eliahu, morreu em combate.

 

Desde muito cedo que Miriam manifestara interesse pelas organizações não governamentais que tentavam alcançar a paz, e procurou estabelecer amizade com as comunidades árabes locais. No entanto, os habitantes do kibutz onde Miriam vivia, a exemplo da maior parte dos israelitas, perfilhavam uma atitude belicosa e agressiva, pelo que ela se sentia cada vez mais isolada dos amigos e vizinhos. Apenas Yosef conseguira compreender os seus sentimentos, mas para ele não fora nada fácil, na sua qualidade de piloto de aviões de combate, ter uma mulher apologista de negociações políticas em nome da paz.

 

Depois da guerra que ocorreu em 1973, o partido em que ela se filiara nomeou-a para um lugar que vagara no Knesset, num gesto que reconhecia a popularidade de que Miriam gozava junto dos árabes que viviam em solo israelita, assim como as boas relações que mantinha com os movimentos em prol da paz promovidos por organizações de mulheres.

 

Não foi necessário muito tempo para que chamasse a atenção da primeira-ministra Golda Meir e as duas tornaram-se boas amigas. Quando a senhora Meir se demitiu, em 1974, subentendeu-se que Miriam Bernstein passaria a ser a sua porta-voz no Knesset e, com o apoio dela, subiu rapidamente até chegar ao cargo de chefe de gabinete. Já muito depois de a velha senhora ter deixado de se sentar nas bancadas do parlamento israelita, Miriam Bernstein continuou a manter o seu assento, assim como o seu cargo, a despeito das sucessivas crises governamentais, dando impressão no que ela acreditava de que conseguia resistir a todas as remodelações ministeriais, devido também à extraordinária eficácia com que desempenhava as suas funções. Os seus inimigos diziam que, em parte, um dos motivos dessa sobrevivência era o seu aspecto físico, de grande beleza, mas, na realidade, Miriam era capaz de escapar à elevada «taxa de mortalidade» que dizimava os membros do parlamento devido ao seu instinto político. Contudo, não se apercebia conscientemente desta faceta do seu carácter e se alguma vez se visse confrontada com um resumo das suas maquinações, ou face a uma listagem das pessoas que politicamente eliminara, não se teria reconhecido como sendo a Miriam Bernstein que fora responsável por isso.

 

Sempre que pensava no passado, na época em que a senhora Meir a ajudara e apoiara, eram sempre as coisas pequenas que sobressaíam na sua mente, como, por exemplo, a ocasião em que a primeira-ministra a levou a sua casa depois de uma sessão governamental que durara toda a noite, e lhe preparou pessoalmente um café. Depois houve o episódio em que as normas ministeriais exigiam que os membros do governo adoptassem um nome hebraico e a senhora Meir que em tempos usara o apelido de Meyerson compreendeu a relutância que Miriam mostrava em cortar o único elo que mantinha com o passado, tendo apoiado a sua resistência a essa mudança de nome.

 

Algumas pessoas estavam até convencidas de que Miriam Bernstein se preparava para ocupar o cargo que a senhora Meir deixara, mas ela negou ter tais ambições. Mesmo assim, havia-se dito que aquela fora nomeada primeira-ministra porque Miriam recusara esse cargo. Os israelitas gostavam de guindar ao poder as individualidades que não o desejavam, era mais seguro.

 

Actualmente, ocupava uma posição que cobiçara mais do que a de primeira-ministra: delegada ao processo de paz, cargo que ainda há alguns meses não existia, mas que ela sempre soubera que acabaria por ser criado.

 

Tinha muito que fazer em Nova Iorque, para além dos assuntos de carácter pessoal que precisava de tratar nessa cidade. Havia três anos que Yosef fora dado como desaparecido e Miriam perguntava a si mesma se conseguiria descobrir, junto da delegação árabe, alguma coisa sobre o destino que ele levara.

 

Jabari deu conta de um pequeno tumulto no exterior e, instintivamente, levou a mão ao bolso, mas ela pareceu não ter reparado em nada, embrenhada no que dizia na altura.

 

O povo elegeu um governo pronto a negociar cedências de parte a parte a troco de garantias sólidas, Abdel. Já provámos ao mundo que não mais nos deixaremos soçobrar. Sadat foi um dos primeiros dirigentes árabes modernos a compreender isto mesmo e quando veio a Jerusalém seguiu as pegadas de muitos outros que visitaram a cidade, desde que há memória nos registos escritos, com o objectivo de estabelecerem a paz, fazendo tábua rasa de um precedente e de uma posição que se mantinha inalterável há trinta anos. Míriam inclinou-se mais para a frente. Batemo-nos com galhardia, pelo que somos merecedores do respeito de muitas nações. O inimigo já não se encontra aos portões, o longo cerco chegou ao fim. As pessoas querem continuar a negociar.

 

Espero bem que sim retorquiu Jabari.

 

Olhou por cima do ombro, observando a pequena multidão que começara a juntar-se na rua, enquanto ela continuava a falar. Sentiu a mão de Miriam sobre a sua.

 

E tu, Abdel? Na hipótese de se fundar um novo Estado palestiniano, partirias?

 

Durante uns momentos que se alongaram, Jabari olhou fixamente em frente.

 

Sou um membro eleito do Knesset e não me parece que fosse bem aceite numa nova Palestina. Ergueu a mão mutilada. Mas mesmo assim, é muito possível que me arriscasse a dar tal passo. Quem sabe... até pode ser que nessa nova pátria pudesse reencontrar a minha família.

 

Miriam Bernstein lamentou ter feito aquela pergunta.

 

Bem... a verdade é que todos teremos de tomar decisões num futuro não muito longínquo, mas agora o mais importante é seguirmos para Nova Iorque a fim de negociarmos os termos de uma paz duradoura.

 

Sim aquiesceu Jabari. E devemos insistir, agora que os ventos nos são propícios. Mas tenho um pressentimento de que pode acontecer alguma coisa que destrua esta esperança de paz. Um incidente qualquer, uma falta de compreensão. Debruçou-se sobre a mesa. Todos os indicadores... sociais, históricos, económicos, militares e políticos convergem para o estabelecimento do processo de paz na Terra Santa de um modo que não se verifica há um milénio. Além disso, estamos na Primavera, por conseguinte não advirá mal ao mundo por causa dessas conversações de paz. Estás de acordo? Com esta pergunta, Jabari levantou-se. Mas quem me dera que já estivéssemos em Nova Iorque e que os trabalhos da conferência já tivessem começado. Olhou para a rua. Creio que os nossos aviões já aí vêm, é melhor darmos uma olhadela.

 

As pessoas que estavam no interior do café apressaram-se a sair para a rua. Vindos de norte, dois Concordes faziam-se à pista do Aeroporto de Lod e quando o primeiro iniciou a descida, a multidão pôde ver a estrela de David que se recortava contra o branco da cauda do aparelho, ouvindo-se então alguns aplausos, aqui e além, por parte de cidadãos árabes e judeus.

 

Com a palma da mão, Miriam Bernstein protegeu os olhos quando o Concorde desceu ainda mais, aproximando-se como que saído do Sol. Para lá do campo de aviação, as colinas de Samaria elevavam-se acima do planalto. Reparou nos botões de amendoeira em flor acabados de abrir durante a noite, cobrindo as encostas com um manto branco e cor-de-rosa. Os sopés rochosos eram verde-aveludados, atapetados com anémonas vermelho-garridas, tremoceiros bege-cremosos e malmequeres amarelos. O milagre anual do renascimento tinha regressado uma vez mais e, juntamente com as muitas flores silvestres que floresciam sob o efeito do hamseen, a paz seria restabelecida na Terra Santa.

 

Ou assim parecia.

 

Tom Richardson e Teddy Laskov saíram do café em Herzlya; encaminharam-se para o Corvette amarelo do primeiro e entraram no trânsito intenso de uma sexta-feira em Telavive, o que fazia com que o automóvel rodasse com lentidão. Chegados a um semáforo, à distância de um quarteirão da Cidadela, Laskov abriu a porta do seu lado.

 

Prefiro ir a pé a partir daqui, Tom. Obrigado pela boleia.

 

De acordo. Tentarei falar consigo antes de partir redarguiu Richardson, fitando-o.

 

Laskov colocou um pé no pavimento, sentiu a mão de Richardson sobre o seu ombro e olhou-o.

 

Ouça uma coisa começou Richardson encarando-o por longos segundos, veja lá se não dá largas à sua vontade de levar o dedo ao gatilho enquanto estiver lá em cima. Não queremos que ocorra nenhum incidente.

 

Laskov retribuiu-lhe friamente o olhar. Falou em voz alta para se fazer ouvir acima do ruído do trânsito de Telavive.

 

Nós também não queremos que isso aconteça, Tom, mas o melhor que temos encontrar-se-á a bordo desses pássaros. Se surgir alguma coisa no monitor do meu radar, e desde que se encontre ao alcance dos mísseis, juro-lhe por Deus que não hesitarei em varrê-lo do céu. Não estou disposto a consentir nenhuma aproximação de voos de reconhecimento, nem nenhuma treta de intimidações, seja da parte de quem for.

 

Laskov retirou o seu corpo entroncado do carro de tejadilho baixo, começando a caminhar com a determinação de quem ia ao encontro de uma rixa num bar qualquer.

 

A luz estava verde e Richardson avançou, limpando o suor que lhe perlava a parte superior do lábio. Chegado ao Bulevar do Rei Saul, virou à direita, mas a imagem de Laskov, alto e corpulento, continuava a preencher os seus pensamentos. Na verdade, até tinha a impressão que sentia o fardo enorme que pesava sobre os ombros largos do homem. Não existia nenhum comandante militar em todo o mundo, dos que ocupavam os lugares cimeiros, que não se interrogasse se não lhe caberia cometer a idiotice de dar início à terceira guerra mundial. O velho guerreiro Laskov sentia prazer em dizer cobras e lagartos, mas Richardson sabia que se fosse preciso tomar uma decisão de ordem militar, numa situação em que o tempo para reflectir não fosse muito, Laskov optaria pela mais acertada.

 

Entretanto, Richardson virou para a Rua Hayarkon, detendo a viatura em frente da Embaixada dos Estados Unidos. Alisou os cabelos húmidos olhando-se no espelho retrovisor. O dia começara mal.

 

Através do tejadilho aberto do automóvel avistou os dois Concordes brancos que voavam por cima de si, a que os raios solares intensos davam uma luminescência etérea. Um deles, que aguardava instruções da torre de controlo, dirigia-se para o mar, enquanto o outro voava na direcção oposta, dando início à descida para a aterragem. Durante uma fracção de segundos, os dois aparelhos deram a impressão de se cruzar, e as suas asas em delta formaram a estrela de David.

 

Sabah Khabbani mastigava lentamente um bocado de pão enquanto observava o Aeroporto de Lod com o seu binóculo de campanha, após ter ajustado o ângulo de visão das lentes. Mais abaixo, no planalto de Sharon, o solo lavrado adquiria tons castanhos. Entre os campos cultivados, as alteias e os lírios-do-vale floresciam, tal como vinham a fazer desde a época anterior a Salomão. O seu olhar prendeu-se num edifício acinzentado que se distinguia do resto da paisagem, o Presídio Militar de Ramalá, onde a vida de tantos dos seus irmãos definhava com a passagem dos anos. Mais para sul, as colinas rochosas da Judeia, que alguns dias atrás apresentavam uma coloração castanha, haviam-se revestido de vermelhos e brancos, amarelos e azuis das flores silvestres que desabrochavam. Em seu redor, tinha os pinhais de Jerusalém, os quais faziam parte do programa de reflorestação e cujas ramagens se agitavam sopradas pelo hamseen. A antiga Palestina da sua meninice revestira-se de grande beleza silvestre e era forçado a admitir que os judeus tinham beneficiado a paisagem. Mas apesar disso...

Khabbani tirou da algibeira o seu velho relógio de pulso sem correia., Dentro de menos de uma hora, a área do aeroporto reservada às pessoas mais importantes estaria cheia e qualquer momento a partir daí até à descolagem seria adequado para o efeito, de acordo com as instruções que recebera. Khabbani avaliou as suas hipóteses. Na verdade, o terminal situava-se um pouco fora do raio de acção de eficácia máxima dos seus morteiros, mas, se o hamseen não abrandasse, o alvo seria atingido. Na eventualidade de o alcance dos projécteis não ser suficiente para chegar ao terminal, estes errariam o alvo, indo cair na pista de aterragem onde estariam os Concordes, o que não teria importância só era necessário criar um incidente para que o voo fosse cancelado. Khabbani não tinha a certeza se o que estava a fazer lhe agradava ou não, mas encolheu os ombros,


Um dos seus homens chamou-o numa voz abafada e Khabbani olhou para o local que ele apontava. Os dois Concordes, um atrás do outro, dirigiam-se para o aeroporto vindos de norte, e Khabbani pôs-se a observá-los com o seu potente binóculo de campanha. Eram uns aparelhos de linhas elegantes e lera algures que os depósitos de combustível de cada um comportavam cerca de cento e vinte mil litros. O conjunto dos dois, que totalizava assim quase um quarto de milhão de litros, certamente que daria origem a uma explosão que se sentiria em Jerusalém.

 

A cidade de Lod, a antiga Lydda, abrasava envolta naquela onda de calor de início da Primavera, pois o primeiro hamseen do ano chegara invulgarmente cedo. Aquele vento escaldante, parecido com o siroco que soprava no deserto, vindo de oriente, açoitava a cidade com rajadas cada vez mais violentas, devendo perdurar por alguns dias, após o que o tempo se tornaria mais ameno. De acordo com a tradição árabe, todos os anos havia cinquenta dias de calor insuportável; a palavra árabe hamseen queria dizer exactamente cinquenta. O único destes ventos que era bem-vindo era o primeiro, uma vez que com ele as flores silvestres das colinas e campos de Judeia e de Samaria desabrochavam, enchendo o ar com as suas doces fragrâncias.

 

No Aeroporto Internacional de Lod, o alcatrão parecia tremeluzir sob o efeito do calor. Nas pistas onde os aparelhos estavam estacionados via-se um numeroso contingente de soldados israelitas, fortemente armados, e no terminal de passageiros, os elementos dos serviços de segurança, vestidos à civil e com óculos de sol, estavam de pé, fingindo que liam os jornais abertos à sua frente.

 

Ao longo de todo o dia, táxis, bem como os automóveis particulares, que transportavam homens e mulheres elegantemente trajados, tinham parado em frente das portas envidraçadas do terminal principal, seguindo os ocupantes para o interior do aeroporto, e depois para a sala de espera reservada às pessoas importantes, ou dirigindo-se para as instalações da segurança da El Al situadas no último andar.

 

No extremo mais afastado do aeródromo viam-se vários anexos, instalações militares onde soldados com camuflados se mantinham alerta. Por detrás dos anexos, uma esquadrilha formada por doze Tomcats F-14 de fabrico norte-americano estava estacionada numa área pavimentada. Os mecânicos e os artilheiros trabalhavam nos aviões, trocando algumas palavras com os pilotos e controladores de voo.

 

A estrada que descia de Jerusalém, de traçado sinuoso, atravessava Lod, assim como o antigo quarteirão maometano de Ramalá, em direcção ao Aeroporto Internacional. Desde as primeiras horas da manhã que os habitantes da cidade tinham reparado no intenso tráfego, bastante invulgar, de civis e militares. No passado, aquele tipo de actividade teria sido o prelúdio de outra crise, mas desta feita a situação era muito diversa.

 

Em Lod, a Igreja de São Jorge, ortodoxa grega, que remontava ao tempo dos cruzados e dos bizantinos, estava cheia de árabes e outros cidadãos de fé cristã, de ascendência indeterminada. Na altura não se realizava qualquer cerimónia religiosa específica, embora as pessoas tivessem afluído, atraídas por um impulso que as levava a procurar a companhia dos seus semelhantes num lugar especial desejando participar, ainda que de forma pouco significativa, em acontecimentos que, de uma maneira ou de outra, viriam a afectar as suas vidas.

 

As sinagogas da cidade, horas antes do início do serviço religioso que decorreria ao pôr do Sol, já haviam acorrido pequenos grupos, que falavam em voz baixa. No largo do mercado, perto da Igreja de São Jorge, mulheres israelitas faziam as suas compras para a refeição do sabat, percorrendo as bancas encimadas por toldos e regateando os preços, mas parecia existir uma atmosfera de despreocupação mais acentuada do que em qualquer outra tarde de sexta-feira, pois as pessoas demoravam-se no mercado mais do que seria necessário.

 

O largo em frente da Grande Mesquita, em Ramalá, estava à cunha muito antes de o muezim ter chamado os fiéis à oração, e o mercado encontrava-se tão apinhado quanto o de Lod, mas muito mais barulhento. Os árabes, por natureza indolentes, deslocavam-se lentamente nas ruas atravancadas de todos os géneros de transporte, desde Land Rover e Buicks até aos camelos e cavalos.

 

No Presídio Militar de Ramalá, os terroristas palestinianos acalentavam a esperança de que seriam homens livres dentro em pouco.

 

O estado de espírito que reinava em Lod e Ramalá era o mesmo que se sentia no resto do território israelita, assim como por todo o Médio Oriente. Aqui, neste canto do mundo, desde a Antiguidade que diversas facções políticas e religiosas se defrontavam, tendo utilizado aquelas terras como campo de batalha. Tentar viver em paz nesta área, dizia um provérbio, era o mesmo que procurar dormir numa encruzilhada. Milhares de exércitos e milhões de homens já tinham marchado através daquele pequeno território que constituía os limites geográficos daquilo a que se chamava a Terra Santa, mas naquelas colinas e desertos, aparentemente inóspitos, haviam-se cruzado mais do que apenas exércitos. As ideologias e as fés religiosas tinham entrado em conflito, deixando atrás de si um rasto de sangue. Quase todas as culturas do Oriente e do Ocidente estavam representadas naquelas ruínas, que se erguiam, quais pedras tumulares, por toda a zona rural, ou estavam soterradas como cadáveres. Era difícil proceder a qualquer escavação no Israel dos tempos modernos sem pôr a descoberto essas ruínas.

 

Ramalá e Lod tipificavam a história agonizante daquela terra da Antiguidade e a diversidade do Estado de Israel da era moderna, eram um espelho das emoções que se viviam naquele país complexo, com a sua grande diversidade religiosa. Esperança sem celebrações, desespero sem lágrimas.

 

O chefe da segurança da El Al, Jacob Hausner, pousou o auscultador do telefone, requintadamente elaborado, de fabrico francês, e virou-se para o seu jovem assistente, Matti Yadin. Quando deixarão estes sacanas de me incomodar? Que sacanas, chefe? perguntou Yadin. Hausner sacudiu uma partícula de pó que fora cair no tampo da sua

 

elegante secretária Luís XV. Decorara o gabinete onde trabalhava todos os dias com dinheiro do seu próprio bolso e gostava de que tudo se mantivesse impecável. Aproximou-se da enorme janela panorâmica sobranceira à] pista de aviões e arredou para os lados os pesados reposteiros de veludo,! permitindo a entrada dos fortes raios solares, que comiam as cores dos telheiros. Estou a referir-me a todos retorquiu com um gesto amplo que parecia abarcar todo o mundo. Era da Cidadela. Estão um tudo-nada preocupados.

 

Ninguém os pode censurar por isso.

 

Durante uns momentos, Hausner fitou friamente Yadin e este esboçou um sorriso antes de olhar o seu chefe com uma expressão de simpatia. Até mesmo nas melhores alturas, aquele trabalho era deveras difícil, mas durante as últimas semanas a situação transformara-se num autêntico inferno para todos os que trabalhavam nos Serviços de Segurança. Yadin examinava o perfil de Hausner, enquanto este olhava fixamente através do vidro da janela, mergulhado nos seus pensamentos.

 

Jacob Hausner era um filho da quinta aliya, a quinta vaga de emigração para a Palestina, formada maioritariamente por judeus de ascendência germânica que haviam abandonado a sua terra natal, regressando à pátria que desde tempos imemoriais era a sua, depois de Hitler ter subido ao poder, em 1933. Constituíam um grupo de pessoas bafejadas pela sorte, ou que talvez primassem pela sagacidade, pois haviam conseguido escapar aos horrores do holocausto que varrera a Europa, quando ainda era possível fugir, e formaram um grupo com um elevado grau de instrução académica, tendo levado consigo capacidades profissionais e capital, dois aspectos imprescindíveis ao nascimento da nova nação. Muitos deles optaram por se incorporar na antiga colónia germânica instalada no porto de Haifa, onde prosperaram, pelo que os primeiros anos de Hausner foram típicos de qualquer judeu alemão abastado residente naquela cidade, na época que antecedeu o início do conflito.

 

Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, Hausner, que então tinha apenas dezassete anos, entrou para o MI-6, os serviços secretos britânicos, tendo recebido a formação adequada às funções que viria a exercer. Assim, adoptou uma atitude em tudo semelhante àquela que os seus professores haviam adoptado para consigo a de um diletante, mas, à semelhança do que acontecia com um grande número de outros espiões britânicos, era extremamente eficiente no exercício das suas missões. Se considerou aquela actividade apenas como um passatempo, ainda que necessário em tempo de guerra, tanto melhor para ele. Era um jovem rico que adoptara uma postura e um modo de vida que não se assemelhava em nada com o que era habitual num espião típico, exactamente o que os serviços secretos pretendiam dele.

 

Fora de Haifa, era-lhe muito fácil passar por cidadão alemão e as suas actividades exigiam que frequentasse os estratos sociais mais elevados das colónias germânicas estabelecidas no Cairo e em Istambul, tarefa em que se mostrou muito competente. À sua mente arguta não escapavam os mais intrincados pormenores inerentes a essa situação estranha e um tanto obscura que era levar uma vida dupla, pela qual tinha quase tanta paixão como pela música de Chopin, Mozart e por sachertorten1.

 

Hausner decidira fazer-se membro de um aeroclube particular, o que se deveu a uma crise de tédio de que foi acometido antes da guerra, tendo-se tornado num dos poucos pilotos civis devidamente credenciados da Palestina. Entre as missões de que era incumbido pelos serviços secretos, ele assediava os britânicos para que lhe permitissem acumular horas de voo aos comandos dos Spitfires e dos Hurricanes, de forma a que as suas aptidões de piloto se mantivessem sempre actualizadas.

 

Depois da guerra, fez uma viagem à Europa, onde comprou aviões de guerra que tinham ido para a sucata, os quais passariam a integrar a Força Aérea das Haganah. Foi ele quem adquiriu o primeiro Spitfire britânico que o general Laskov pilotou, embora nenhum dos dois tivesse conhecimento desse facto.

 

Era muito natural que Hausner, devido aos seus antecedentes nos serviços secretos e na qualidade de piloto-aviador, viesse a tornar-se num dos primeiros homens incumbidos da segurança das linhas aéreas da El Al.

 

Quando comparado com a maior parte dos judeus que atingiram a idade adulta durante esse período, a sua vida decorreu sem dificuldades de maior. Actualmente, vivia em Herzlya, numa pequena vivenda, à beira do Mediterrâneo e tinha por conta uma série de amantes, assim como cultivava alguns conhecimentos femininos mais casuais, embora continuasse a visitar assiduamente a sua família, que residia em Haifa, sem nunca faltar a um feriado religioso.

 

A sua aparência física fazia lembrar um aristocrata europeu. Tinha um nariz fino de traços aquilinos, malares elevados e abundantes cabelos grisalhos.

 

Só espero que eles permitam que eu faça este voo comentou Hausner, fitando Yadin.

 

E quem crucificariam, caso os aviões explodissem, chefe? interrogou Yadin.

 

Nós não utilizamos a palavra explodir na mesma frase onde entre a palavra avião, Matti replicou com um sorriso.

 

Podia dar-se ao luxo de sorrir, tudo estava a correr-lhe de feição. O seu

 

1 Em alemão no original. Bolo de chocolate com compota de damasco, geralmente servido com natas. (N. da T.)

 

cadastro profissional era perfeito, não se vislumbrando razão alguma para que qualquer incidente com os Concordes viesse a manchar esse cadastro sem mácula.

 

Chegaram alguns rumores dos nossos serviços secretos? perguntou Matti, pondo-se de pé e espreguiçando-se.

 

Não respondeu-lhe Hausner, que continuava a olhar fixamente através da janela. Os nossos amigos palestinianos têm andado muito sossegados... isto é, o que resta deles.

 

Talvez demasiado sossegados...?

 

Como resposta, Hausner encolheu os ombros. Era o género de homem que se recusava a entregar-se a conjecturas sem ter por base qualquer informação palpável. A falta de notícias valia exactamente pela ausência das mesmas e depositava toda a confiança nos serviços secretos do país, que só muito raramente o haviam deixado mal. Caso algum insecto tocasse em qualquer secção da teia de que os serviços secretos israelitas eram formados, ela estremeceria e a aranha, no seu centro, sentiria o toque, pelo que qualquer coisa que se encontrasse fora da teia seria muito remota para suscitar preocupações.

 

Hausner voltou a fechar os cortinados, afastou-se da janela e olhou-se num espelho de parede, endireitando a gravata e o casaco antes de atravessar o gabinete, depois abriu uma porta que dava para a sala de reuniões contígua.

 

Yadin foi atrás dele, dirigindo-se para a parede mais afastada onde estava uma cadeira desocupada, onde se sentou.

 

A sala de conferências, naquele momento cheia de pessoas barulhentas, ficou em silêncio e todos se viraram para Hausner.

 

À volta da espaçosa mesa redonda sentavam-se algumas das pessoas mais poderosas de Israel: Chaim Mazar, comandante do Shin Beth, as forças de segurança interna; o general Itzhak Talman, chefe de operações da Força Aérea; o general Benjamin Dobkin, representante do Estado-Maior do Exército; Miriam Bernstein, chefe de gabinete do ministro dos Transportes; e Isaac Burg, chefe do Mivtzan Elohim, «a Ira de Deus», o grupo antiterrorista.

 

Também se encontravam presentes cinco membros do Knesset, além de Bernstein, e ao longo das paredes sentavam-se os assistentes e uma secretária, preparada para escrever a acta da reunião. Hausner aproximou-se da mesa redonda.

 

O grupo formava um comité ad hoc, o qual se reunira a fim de tomar as medidas que garantissem a segurança durante o voo dos Concordes e uma das tarefas de que estava incumbido era fazer perguntas a Hausner,. do que ninguém abdicaria. Hausner reparou que era o único dos presentes que usava um fato completo, como, aliás, era seu hábito. Olhou directamente para Miriam Bernstein e, uma vez mais, a expressão que via naqueles olhos intrigou-o. Tinha a sensação de que ela estava sempre a julgá-lo. E depois havia ainda o aspecto sensual daquela mulher. Hausner acreditava que ela não o fazia intencionalmente, mas estava sempre presente, e era um aspecto que a transformava indesmentivelmente numa mulher muito atraente. Desviou o olhar. Em termos técnicos, o seu superior hierárquico era o ministro dos Transportes, e talvez, pensou ele, fosse isso que causava aquele estado de tensão. Hausner continuou de pé, pigarreando antes de começar a falar.

 

Concordei em assistir a esta reunião para que todas as dúvidas que possam existir fiquem esclarecidas quanto à minha capacidade de conseguir que um avião descole da pista do aeroporto interrompeu-se erguendo a mão num gesto que impedia a verbalização de protestos incipientes. Muito bem, esqueçam o que eu disse.

 

A sala, espartanamente decorada, era iluminada pela luz que se infiltrava através de uma enorme janela panorâmica donde se desfrutava a mesma vista que se tinha da existente no gabinete de Hausner. Este aproximou-se e viu na extremidade mais afastada das pistas de estacionamento, afastados dos outros aparelhos, os dois Concordes de linhas alongadas sem ângulos acentuados, cada um com a estrela de David estampada na cauda, que cintilavam sob a luz intensa do Sol. Em redor das duas aeronaves, os homens do serviço de segurança mantinham-se atentos, armados com metralhadoras Uzi e espingardas com mira telescópica. O Exército também enviara um pelotão de infantaria, o que não contribuía em nada para atenuar o mau humor que Hausner sentia.

 

Todos estavam conscientes do silêncio que se abatera sobre a sala até que o chefe da segurança retomou a palavra, apontando com dramatismo.

 

Ali estão eles. O orgulho da frota da nossa aviação civil. Cada um custou uns meros oitenta milhões de dólares, e vieram equipados com todos os acessórios. Cobramos a todos os passageiros o preço de passagens em primeira classe, mais um acréscimo suplementar de vinte por cento e, contudo, ainda não conseguimos ganhar um shekel com eles, tal como todos sabem. Olhou para Miriam, que era uma das vozes mais críticas que no Knesset falavam contra ele. E uma das razões por que a El Al ainda não registou o mínimo lucro é porque eu exijo apertadas medidas de segurança e isso tem um custo muito elevado. Hausner deslocou-se alguns passos para um dos lados da janela. Os seus movimentos eram seguidos por olhares semicerrados. Alguns recomeçou ele numa voz compassada ficaram preocupados por causa dos lucros, mostrando-se dispostos a permitirem, por esse motivo, que as medidas de segurança não fossem tão rígidas. Agora, as mesmas pessoas o seu olhar fixou-se em Miriam Bernstein mostram-se preocupadas, receando que eu não tenha feito o suficiente. Hausner afastou-se da janela e dirigiu-se para uma cadeira vazia, onde se sentou. Muito bem, vamos lá resolver este assunto. No mesmo olhar, abarcou todos os que se sentavam à mesa e subitamente o seu timbre de voz endureceu. Há treze meses que esses pássaros fazem parte da nossa frota, e desde o dia em que os adquirimos nunca estiveram fora da vista dos homens dos meus serviços de segurança.

 

Unidade monetária de Israel. (N. da T.)

 

Ainda em fase de construção, nas fábricas de Toulouse e Saint-Nazaire, mandámos blindar as anteparas e o porão de carga e toda a manutenção é efectuada apenas pelos mecânicos da El Al, aqui em Lod. Hoje, inspeccionei pessoalmente o combustível com que os aparelhos foram abastecidos e posso garantir-lhes que é puro. Quando recebemos os Concordes, exigi, e foi-me concedido, que me fornecessem uma unidade auxiliar de energia, que foi instalada num compartimento perto das rodas da frente. A ignição dos demais Concordes que existem por todo o mundo tem de ser ligada por meio de uma unidade de energia situada em terra e, ao instalar essa que pedi dentro do aparelho, posso dispensar os dois camiões que, caso contrário, teriam de se aproximar dos meus pássaros em aeroportos estrangeiros... o camião de ar precondicionado e o que transporta a unidade móvel de energia. Estamos em condições de ligar os nossos motores em qualquer parte, a qualquer altura, sendo os pássaros inteiramente autónomos. Optámos pelo incómodo que o peso suplementar de novecentos quilos representa, que é quanto pesa essa unidade auxiliar, decisão que sempre assumimos ser o preço que as medidas de segurança nos custariam. Como é evidente, não é com o acréscimo de despesas desta natureza que conseguimos ter lucros, contudo recuso-me a permitir que as coisas se façam de outra maneira, o que, estou em crer, também será a vossa opinião.

 

Hausner olhou em redor à espera de ouvir algum comentário, que não surgiu.

 

Também incorremos nas despesas suplementares, que se devem ao facto de a maior parte dos serviços de manutenção ser prestada apenas aqui, em Lod continuou Hausner. Por exemplo, nenhum camião-cisterna tem autorização de se abeirar dos meus pássaros, excepto aqui, em Lod, de modo que quando se viaja com a El Al mija-se água do Jordão em Tóquio. A assistência aos lavabos também só se faz neste aeroporto. Mais ainda, depois de cada voo, os serviços de limpeza, supervisionados pelo meu pessoal, passam os aparelhos a pente fino, não vá dar-se o caso de alguém decidir deixar-nos um embrulho. Inspeccionamos todos os assentos e vistoriamos os lavabos ao pormenor, chegando mesmo ao ponto de abrir os sacos que serviram para os passageiros vomitarem. Outro aspecto a acrescentar: o serviço de refeições servidas a bordo é feito exclusivamente em Lod e quanto às que entraram há pouco a bordo daqueles dois Concordes, eu próprio as inspeccionei quando estavam a ser arrumadas nas copas. Têm a minha garantia de que tudo é kosher. De facto, o rabino da companhia comeu uma dessas refeições, e os únicos efeitos que sentiu resumiram-se a uma mera indigestão. Hausner recostou-se para trás, acendeu um cigarro e continuou a falar mais devagar. Na realidade, há que levar em consideração um factor de extrema importância: este voo é mais seguro do que qualquer outro, pois não teremos de nos preocupar com os passageiros. Hausner interrompeu-se, acenando na direcção de Matei Yadin.

 

O meu assistente ofereceu-se para chefiar a equipa de segurança destacada para o Concorde zero um e, quanto a mim, sou voluntário para fazer o mesmo em relação ao zero dois. No entanto, o primeiro-ministro ainda não me informou se serei ou não incumbido desta missão. Lentamente, observou as pessoas sentadas à mesa. Alguém deseja fazer alguma pergunta a respeito da segurança da El Al? Não? Óptimo.

 

Fez-se um longo silêncio e Hausner decidiu que, uma vez que estavam na sua sala de reuniões, supostamente deveria agir como presidente da mesa. Voltou-se para Chaim Mazar, do Shin Beth.

 

Quer apresentar o seu relatório?

 

Lentamente, Mazar pôs-se de pé. Era um homem alto e magro, com um olhar que indicava pertencer aos serviços secretos internos há muito tempo. A sua maneira de ser era abrupta alguns consideravam-na até bastante rude, e começou sem preâmbulos.

 

É claro que a nossa grande preocupação é a existência de algum maníaco que se coloque em cima de um telhado algures, munido de um pequeno lança-mísseis portátil equipado com mira térmica, entre o aeroporto e a zona costeira. Posso assegurar-lhes de que não há ninguém em cima de nenhum telhado entre aqui e a costa, tal como não estará ninguém nas proximidades do percurso do aparelho aquando da descolagem. Já pedi ao Ministério da Defesa que cancelasse quaisquer exercícios aéreos que pudessem cruzar a rota do voo. Toda esta área será patrulhada por helicópteros. Não se detectaram quaisquer sinais de actividade por parte das guerrilhas, seja de que tipo for, em território israelita e estou confiante em que não haverá o mínimo problema. Obrigado pela vossa atenção concluiu, sentando-se.

 

Hausner sorriu para consigo mesmo, Mazar tinha sido conciso, indo direito ao assunto, uma boa actuação. Virou-se então para Isaac Burg, o responsável pela Mivtzan Elohim.

 

Este continuou sentado, mas inclinou-se ligeiramente para a frente. Era baixo, com o aspecto de um verdadeiro cavalheiro, de cabelos grisalhos e um brilhozinho nos olhos. Era senhor de uns maneirismos que conseguiam desarmar qualquer pessoa, mas, na realidade, essa faceta não passava de uma fachada. Era bastante mais novo do que aparentava, sendo capaz de matar a sangue-frio enquanto fingia procurar nos bolsos um aerossol para desentupir as narinas. Ninguém acreditaria que era ele quem estava prestes a completar a missão cujo objectivo era aniquilar as organizações palestinianas de guerrilha, espalhadas por todo o mundo. Os seus homens comportavam-se brutalmente, dando caça aos últimos grupos desorganizados, e como resultado haviam posto cobro, quase definitivamente, aos ataques terroristas tanto em Israel, como no estrangeiro.

 

Há uns dias, em Paris, prendemos, por acaso, um guerrilheiro palestiniano informou com um sorriso, membro proeminente da Organização Setembro Negro, um dos últimos. Interrogámo-lo com bastante Vigor e garantiu-nos que não tinha conhecimento de quaisquer planos destinados a perturbar a missão de paz. Nos tempos que correm, os movimentos de guerrilha encontram-se de tal maneira dispersos, para além de reinar entre eles a desconfiança, que nem sequer podemos ter a certeza se falam uns com os outros, mas um dos meus homens, que ocupa um cargo importante numa das agências de serviços secretos palestinianos, informou-me de que não há nada planeado nesse sentido.

 

Burg começou à procura do seu cachimbo, que acabou por encontrar. Durante um longo momento, ficou a olhá-lo como que ensimesmado, após o que ergueu o olhar.

 

Seja como for, tanto quanto nos é dado saber, presentemente, os governos dos países árabes querem, tanto como nós próprios, que esta conferência de paz seja um êxito, e deram-nos a saber através de vários canais que se mantêm vigilantes quanto às actividades dos movimentos organizados de guerrilha conhecidos, ou de que suspeitem, nas suas próprias nações. Contudo, não vá dar-se o caso de eles se mostrarem um tanto ou quanto brandos, nós estamos a fazer a mesma coisa. Começou a calcar uma mistura de tabaco aromático no fornilho do cachimbo. O John McClure, da CIA, que trabalha em estreita ligação connosco, informou-me de que a sua agência também não teve conhecimento de quaisquer rumores de grupos árabes espalhados pelo mundo. A propósito, ele inicia amanhã a licença que gozará na sua terra natal, pelo que foi convidado a juntar-se à delegação do processo de paz durante a viagem, um gesto de cortesia da nossa parte. Enquanto chegava lume ao fornilho do cachimbo, Burg sorria cordialmente, e o fumo, com uma fragrância adocicada, começou a pairar acima da mesa. Olhou então para o general Dobkin. E quanto às regiões árabes do interior?

 

Benjamin Dobkin levantou-se, olhando à sua volta. Era um homem de constituição robusta com um pescoço grosso e cabelos negros, muito encaracolados, que se agarravam ao couro cabeludo. A exemplo da maioria dos generais israelitas, usava o camuflado de combate, com as mangas arregaçadas. As suas mãos e braços maciços eram o aspecto anatómico em que a maior parte das pessoas reparava de imediato, pois, como arqueólogo amador, as escavações, que exigiam muita força física e a que se dedicava nas antigas povoações soterradas, haviam acrescentado mais massa muscular à sua constituição já de si robusta. Na época em que comandara tropas de infantaria, todos os militares sob as suas ordens tinham, por vontade própria ou a contragosto, passado a ser arqueólogos improvisados. Não existia nenhuma trincheira colectiva ou individual, vala, latrina ou fosso antitanque que fosse escavado sem que, na primeira oportunidade possível, o solo fosse examinado a pente fino. Benjamin Dobkin era profundamente religioso, não fazendo qualquer esforço para ocultar a fé de que estava imbuído e os relatórios de avaliação respeitantes à sua conduta incluíam sempre palavras como «estável», «de confiança» e «com autodomínio».

 

Entrelaçou os dedos grossos atrás das costas antes de começar.

 

O problema é que... tal como sempre foi, os movimentos de guerrilha põem em prática os absurdos mais espantosos nas regiões do interior em vias de desenvolvimento. As operações especiais do Exército israelita já limparam grande parte dessas zonas, expulsando as forças da Fatah e os próprios governos árabes, em parte, concluíram esse trabalho nos seus países. Lançou um olhar em volta antes de prosseguir. Mas, ao contrário de alguns dos meus amigos aqui presentes, o Exército não pode, nem excluirá, a probabilidade de algum tipo de agressão armada por parte dos palestinianos, ou outros grupos de guerrilheiros que não tenham dado sinais de vida ultimamente. A nossa capacidade de acesso é limitada, apesar de termos enviado agentes dos nossos serviços secretos a essas zonas, onde, com um pouco de sorte, conseguem passar por cidadãos árabes. Espiamo-las neste ponto hesitou tal como temos vindo a fazer e já fazíamos há três mil anos. «E Moisés enviou-os à frente para que espiassem a terra de Canaã, tendo-lhes dito: ”Tomem por esse caminho que vos levará para sul e subi às montanhas: observai a terra, aquilo que é, e observai as pessoas que aí habitarem, vejam se são fortes ou fracas, poucas ou muitas.”» Naquele momento, Yakov Sapir, deputado do Knesset eleito por um partido de esquerda, que seria tudo menos religioso, interpôs:

 

E esses espiões do exército de Moisés, se a memória não me falha, informaram que esta era uma terra onde corria o leite e o mel. Por isso, não me parece que desde então tenha existido alguém que confie num relatório de reconhecimento elaborado pelo Exército.

 

À volta da mesa ouviram-se algumas risadas pouco convincentes, o mesmo sucedendo por parte dos que se sentavam nas cadeiras encostadas à parede.

 

O general Dobkin fitou Yakov Sapir durante longos momentos antes de lhe dar réplica.

 

E na minha qualidade de membro do Comité Postal do Knesset, estou em crer que talvez esteja interessado em saber que as respostas dos Coríntios às cartas de Paulo continuam à espera nos Correios de Jerusalém.

 

Esta resposta provocou mais risadas.

 

Não acham que talvez pudéssemos dispensar estas farpas de retórica sobre o conhecimento bíblico, por favor? interveio Hausner, sem ocultar a irritação que sentia. General? Quer fazer o favor de prosseguir?

 

Sim retorquiu Dobkin. De maneira geral, a situação não apresenta problemas de maior. Os meus homólogos dos países árabes informaram-nos de que já tomaram medidas no sentido de neutralizar o que resta dos poucos grupos de guerrilheiros, nos locais onde foi possível localizá-los.

 

- Que tipo de operação poderiam eles montar contra esta missão de Paz, caso não fossem neutralizados, general? interveio Chaim Mazar, inclinando-se para a frente.

 

Por mar e ar, continuamos preocupados com estas duas possibilidades. Não obstante, os responsáveis do Ministério da Marinha garantiram-me que a rota de voo dos Concordes acima do Mediterrâneo está a ser minuciosamente patrulhada não apenas pela aviação naval, e pela Sexta Esquadra Norte-Americana, mas também por vasos de guerra gregos, turcos e italianos, os quais estão a efectuar manobras no âmbito da NATO ao longo da rota de voo. Adicionalmente, seria necessário um míssil mar-ar capaz de abater um avião que voasse à velocidade e altitude dos Concordes, arma essa demasiado sofisticada para que os terroristas a possuam ou sejam capazes de a disparar. Mas ainda que dispusessem de um míssil deste tipo e de condições para o lançar a partir do mar, a escolta da Força Aérea teria tempo de sobra para o identificar, detectar a sua posição e neutralizá-lo. Estou certo, general? perguntou concentrando a sua atenção em Itzhak Talman, o chefe de operações da Força Aérea, para quem todos se viraram.

 

Itzhak Talman pôs-se de pé, encaminhou-se para a janela panorâmica e fixou o olhar à distância. Era um homem de estatura elevada e bem-parecido, com um bigode bem aparado, ao estilo dos militares britânicos. Exibia a postura orgulhosa de um antigo piloto da RAF, e expressava-se numa mistura de hebraico, falado incorrectamente, e de iídiche, ainda pior, com um sotaque característico da classe alta. A exemplo dos oficiais ingleses, a sua maneira de ser era fria e imperturbável, como se quisesse manter uma certa distância entre si e os outros, mas, tal como acontecia com grande número desses antigos oficiais do império, encenava a sua postura em público. Na verdade, era por natureza extremamente nervoso e emocional, virtudes ou defeitos que escondia dos outros na perfeição.

 

Talman virou-se para trás, ficando de frente para a mesa, e começou a expressar-se num tom de voz que não deixava transparecer a mínima emoção.

 

O meu melhor piloto de aviões de combate, o general Teddy Laskov, chefiará pessoalmente a esquadrilha formada apenas por homens escolhidos a dedo, que, por seu turno, estarão aos comandos dos melhores aparelhos de combate existentes em todo o mundo. Neste preciso momento, esses pilotos encontram-se a supervisionar os trabalhos de manutenção e a municiar esses doze aviões estacionados no extremo mais afastado deste aeroporto. Teddy Laskov assegurou-me que será capaz de detectar, perseguir, interceptar e abater qualquer coisa que se encontre no céu, incluindo os Foxbats, os mísseis Sam e o próprio Satanás, desde que surjam no monitor do seu radar. Olhou em redor, por cima da cabeça dos homens e mulheres ali reunidos. Os serviços secretos da Força Aérea informaram-me de que não só os movimentos de guerrilha nunca tiveram capacidade para efectuar um ataque aéreo, como também não estão em condições de o fazer actualmente, mas, se alguém decidisse atacar aqueles Concordes, teria de colocar no ar aquilo que se traduziria na mais poderosa esquadrilha| aérea em todo o Mediterrâneo. Talman interrompeu-se, afagando o bigode. Teddy Laskov é o melhor piloto que temos e assim que esses pássaros começarem a voar para lá da zona costeira a sua segurança será inteiramente da minha responsabilidade, a qual não sinto a mínima relutância em aceitar e com estas palavras dirigiu-se para a sua cadeira. Teddy Laskov, que entretanto se mantivera no corredor a ouvir tudo o que se passava dentro da sala, abriu a porta. Houve várias cabeças que se viraram para o visado dos rasgados elogios que Talman tecera, mas, mostrando algum acanhamento, Laskov esboçou um sorriso e fez um gesto vago com a mão, indicando que ninguém deveria prestar-lhe a mínima atenção, e encostou-se à parede, tentando passar despercebido.

 

Miriam Bernstein tentara prender a atenção de Hausner, mas este, deliberadamente, evitara cruzar o olhar com o dela. Depois Miriam olhou para a mesa e para as cadeiras ao longo da parede, mas ninguém parecia ter mais nada a acrescentar.

 

Sendo assim, então... começou o chefe de segurança.

 

Senhor Hausner interrompeu-o Miriam Bernstein, pondo-se de pé.

 

Sim...?

 

Gostaria de acrescentar qualquer coisa ao assunto em discussão.

 

Oh...!

 

Muito obrigada. Miriam brindou Hausner com um sorriso, que fingiu não ter reparado e baixou o olhar, à procura de qualquer coisa entre os papéis que trouxera consigo. Estive a ouvir com toda a atenção aquilo que foi dito nesta reunião e, embora me sinta bem impressionada com todas as precauções que foram tomadas, não posso deixar de ficar francamente preocupada em relação ao espírito com que essas medidas foram postas em prática, muito em especial, a respeito da linguagem utilizada para as descrever. Meus senhores, nós vamos participar nesta veida, nesta conferência, com o objectivo de alcançarmos um brit shalom, ou seja, um convénio de paz.

 

Neste ponto, Miriam Bernstein fez uma pausa, observando todos os que se sentavam àquela mesa, indo ao encontro do olhar de cada um e fitando um de cada vez.

 

Falar em abater coisas que se encontrem no céu, em interrogatórios feitos a árabes suspeitos em nações amigas com o vigor que foi referido, no envio de espiões do Exército para terras árabes... são tudo medidas que se justificam em determinadas circunstâncias, mas nesta fase da nossa história eu optaria por manter um perfil de não-agressão e que não desse nas vistas. Certamente que não pretendemos surgir nas Nações Unidas como um grupo de cobóis, empunhando revólveres de seis tiros e a disparar desenfreadamente. Desejamos apresentar-nos como gente que deseja falar de paz.

 

Fechou os lábios, como se estivesse a pensar nas palavras que usaria para expressar sensatez e discernimento, sem que desse a impressão de estar a falar de rendição. Ao longo de muitos anos, Miriam fora associada a uma facção do seu partido que desejava a paz, pelo que se sentia na obrigação de transmitir aquela mensagem no momento em que o país se encontrava no limiar de a ver concretizada. Em toda a sua vida, nunca vivera um único dia numa terra onde reinasse a paz, por isso estendeu as mãos com as palmas abertas para cima, num gesto de conciliação.

 

Não estou a tentar criar problemas onde eles não existem, limito-me a dizer que todas estas operações militares e dos serviços secretos deveriam ser suspensas durante as próximas semanas. É imprescindível que mostremos que isto é um acto de fé da nossa parte e alguém terá de ser o primeiro a guardar a arma no coldre. Ainda que o senhor detecte a presença do próprio Satanás no ecrã do seu radar, general Talman, não o varra do céu, aniquilando-o com um dos seus mísseis, tenha o cuidado de lhe explicar que integra uma missão de paz, pelo que não permitirá que alguém o instigue a cometer um acto de agressão. Essa hipotética pessoa compreenderá que o senhor está determinado a alcançar a sua paz, e que... a própria Providência se encarregará de afastar essa pessoa.

 

Olhou para todos os presentes detendo-se por uma fracção de segundos em Teddy Laskov, mas este retribuiu-lhe o olhar, detectando nos olhos dela uma expressão que muito poucas pessoas haviam tido oportunidade de ver, se bem que não soubesse como classificá-la, e depois Miriam olhou, por cima da cabeça dos que a rodeavam, em direcção à janela.

 

Entretanto, lá fora, para lá do campo de aviação, situavam-se as colinas rochosas onde Khabbani e os seus homens discutiam acerca do momento em que deveriam iniciar o disparo dos morteiros.

 

O calor trazido pelo hamseen fazia com que se abafasse na sala, e uma vez mais Miriam Bernstein olhou à sua volta.

 

Alguns não estão dispostos a ceder à mesa das negociações aquilo que alcançaram com sangue, o que eu compreendo, assim como estou bem ciente de todos os argumentos que substanciam a filosofia da «paz a qualquer custo». Estamos cientes disso e até acredito em muitos desses argumentos, só lhes estou a pedir, a todos, que reflictam no que eu disse a respeito dos próximos dias. Muito obrigada pela vossa atenção.

 

Miriam sentou-se, começando a folhear os papéis que tinha defronte de si, expectante, mas ninguém lhe deu resposta, o silêncio reinava.

 

O general Talman pôs-se então de pé, aproximando-se de Teddy Laskov, pegou-lhe pelo braço e ambos saíram para o corredor, enquanto os outros conversavam em voz baixa, dirigindo-se aos que se sentavam perto de si, ou seja, a reunião desfez-se em pequenos grupos, coordenando os últimos planos.

 

Jacob Hausner abstraiu-se das vozes em surdina que o rodeavam, e observou Miriam Bernstein demoradamente. Entre os dois corria uma subcorrente quase imperceptível, que ele sentia, e caso não fosse resolvida acabaria por surgir à superfície no momento mais inesperado. De súbito, recordou-se vividamente da ocasião em que ela recusara um convite que lhe fizera para passar um fim-de-semana na sua vivenda e sentiu-se frustrado ao pensar nesse episódio. Reclinou-se para trás focando o olhar no tecto, Miriam que fosse para o diabo, tinha outras coisas em que ocupar os seus pensamentos.

 

Ao longo dos últimos anos, aquele momento fora exaustivamente simulado. Os palestinianos sempre tinham considerado El Al como sendo um objectivo militar e os ataques haviam começado quase no mesmo momento em que a companhia se formara, em 1948. Contudo, o que fez as parangonas de todos os meios de comunicação social foram as espectaculares operações terroristas das décadas de sessenta e setenta.

 

O último incidente ocorrera no Aeroporto de Heathrow, uma tentativa de sequestro de um 747 da El Al, e o organizador desse golpe terrorista tinha sido Ahmed Rish. As feições de Hausner contorceram-se num esgar ao recordar-se desse nome, um dos últimos e provavelmente o melhor chefes de guerrilha. Em dada ocasião tinham conseguido encarcerá-lo no presídio Militar de Ramalá, depois de o deterem no Aeroporto de Lod, aonde se deslocara para cumprir uma missão que não revelara, mas em

1968, e já depois de Israel adoptar uma política de não negociar com terroristas, o governo aceitara trocá-lo, juntamente com outros quinze palestinianos, pela libertação dos passageiros de um voo da El Al sequestrados no decorrer de uma tentativa dos terroristas para capturar o general Sharon. Hausner achara nessa altura que essa cedência fora um erro e o desenrolar posterior dos acontecimentos veio provar que a razão estava do seu lado.

 

Desejava que Ahmed Rish tivesse sido dado como morto numa das «operações de limpeza» que o Mivtzan Elohim efectuara ao longo dos anos, pois a especialidade de Rish eram os aviões, e o pensamento de que ele andaria à solta um terrorista profundamente empenhado, que não sentia o mínimo remorso pelos seus actos perturbava-o sobremaneira. Hausner era um dos responsáveis e tinha a seu cargo os interrogatórios em Ramalá, e Rish fora um dos poucos terroristas que fizera com que ele perdesse as estribeiras, recordava-se até de o ter agredido. No seu relatório concluíra que se tratava de um homem extremamente perigoso que devia ser encarcerado para o resto da vida, mas, não obstante essa recomendação, ele acabara por ser libertado.

 

Desde então, Rish havia sido visto em muitos lugares, e em todas essas ocasiões sempre demasiado perto de um avião da El Al. Tinham também corrido alguns rumores de que fora um dos terroristas que conseguiram escapar ao ataque a Entebe1, o que muito provavelmente seria verdade, reflectiu Hausner.

 

Quando Isaac Burg mencionou o guerrilheiro apanhado em França, a memória de Hausner avivou-se: Rish tinha sido avistado nesse país há mais de um ano, depois do ataque ao Aeroporto de Heathrow. Mas porquê em França? Recordava-se de que houvera algo nesse incidente, na altura, que o perturbara. O que teria sido? O modus operandi de Rish, fora isso mesmo. Nessa ocasião, detectara qualquer coisa na forma de agir do terrorista que lhe ficara na memória, ele não era daqueles indivíduos sempre prontos a empunhar uma arma de fogo, nem tão-pouco um sequestrador de aviões meio tresloucado. Não corria muitos riscos pessoais, costumava actuar de maneira muito distanciada a circunspecta.

 

1 Capital do Uganda, onde, a 4 de Julho de 1976, foi efectuada uma operação de resgate, Por comandos israelitas, de um grupo de mais de cem passageiros desviado por piratas do ar a 27 de Junho, quando seguia para Jerusalém. Esta operação foi concluída com um número mínimo de baixas. (N. da T)

 

Mas porquê em França e não em qualquer das grandes comunidades árabes estabelecidas na Alemanha? O único grupo árabe de dimensão significativa em França era o dos argelinos e Rish era iraquiano, embora se batesse pela causa palestiniana. Na perspectiva do resto do mundo, os árabes perfilhavam todos as mesmas ideias, mas entre uns e outros isso não correspondia à verdade. Além do mais, para a polícia francesa, habituada a lidar com os argelinos, um iraquiano sobressairia dos demais árabes.

 

Sim, Rish era um insecto que tinha tocado na teia de que os serviços secretos israelitas eram formados, fazendo com que esta tremelicasse. Havia sido visto uma vez, não em Paris, mas numa zona rural - na Bretanha -, o que era muito estranho, e numa outra ocasião na região meridional, próximo da fronteira com a Espanha. Uma vez mais, porquê? Repentinamente, ocorreu à mente de Hausner o pensamento de que existiria um elo enfraquecido, algures, em toda a corrente de segurança, e ele não sabia onde nem o que era, o que lhe fez sentir um calafrio na espinha.

 

Em arquivo, havia um ficheiro que continha um perfil psicológico de Rish, para além de um conjunto de dados padronizados respeitantes à sua identidade. Tencionava consultar essas informações e também fazer um telefonema para a SDECE francesa. Hausner olhou em volta e, ao verificar que todos continuavam a conversar em pequenos grupos, levantou-se.

 

Caso a minha presença já não seja necessária, vou voltar ao meu trabalho.

 

Ninguém lhe respondeu.

 

Senhora adjunta do ministro...?

 

Não queremos retê-lo por mais tempo respondeu Miriam Bernstein.

 

Permitam então que eu me retire e voltou a olhar em redor. Por favor, utilizem a minha sala de reuniões à vontade. Virou costas e encaminhou-se para a porta. Shalom acrescentou num tom de sinceridade.

 

O capitão David Becker, piloto do Concorde 02 da El Al, estava na sala de operações, sentado próximo do seu co-piloto Moses Hess, e do outro lado da mesa muito comprida encontrava-se o engenheiro de voo Peter Kahn, um ex-norte-americano de ascendência judaica, a exemplo de Becker.

 

Viam-se vários mapas pendurados nas paredes, tabelas e boletins. Por uma grande janela envidraçada, de frente para a pista de estacionamento, avistavam-se os dois Concordes expostos a um sol escaldante.

 

Ao lado da sala de operações ficava o gabinete do técnico responsável pelas comunicações, o qual se encontrava junto dos seus teleimpressores e mapas meteorológicos.

 

No extremo mais afastado da extensa mesa, sentava-se a tripulação do Concorde 01: Asher Avidar, o piloto, um sabra1 de cabeça quente que Becker considerava ser demasiado jovem e impulsivo para pilotar fosse o que fosse, além dos aviões de combate; Zevi Hirsch, o co-piloto, que Becker achava que devia ter sido designado para aquele voo, apesar da sua idade; e Leo Sharett, o engenheiro de voo, que contrabalançava a impetuosidade de Avidar.

 

Avidar falava à sua tripulação, mas Becker era obrigado a esforçar-se para ouvir e compreender o hebraico que o outro articulava com grande rapidez. Era um plano de voo cuidadosamente planeado e Becker receava as extravagâncias de águia solitária a que Avidar era dado. Teria de se manter na retaguarda dele durante a viagem e o combustível era um factor crítico a uma velocidade superior a Mach dois, pelo que verificou os mapas mais recentes que a meteorologia lhes havia fornecido em relação ao voo, enquanto escutava as últimas instruções que Avidar dava à sua tripulação.

 

Becker era um indivíduo excepcionalmente alto, razão por que lhe fora recusada a possibilidade de receber formação de combate na Força Aérea dos Estados Unidos, quando entrou ao seu serviço, no começo da Guerra da Coreia. Na ROTC2 não o tinham informado desse limite de altura, e

 

1 Nome que em Israel se dá aos cidadãos que nasceram em território nacional. (N. da T.) Reserve Officers Training Corps: Centro de Treino de Oficiais na Reserva. (N. da T.)

 

foi para os comandos de um C-54 de transporte de tropas. Acabou por satisfazer a ânsia que sentia por pilotar aviões de combate e passou a integrar o Comando Estratégico Aéreo. Durante a década de cinquenta teve a oportunidade de pulverizar a cidade da Rússia que lhe coubera por missão, se bem que não se apercebesse do grau de destruição que causara. A cidade em questão tinha sido Minsk ou, mais precisamente, o aeroporto situado a noroeste da cidade, e a bomba que lançou também deveria ter incinerado a terra natal de Teddy Laskov, Zaslavl era uma grande coincidência que nenhum dos dois homens tivesse dado conta deste facto durante as conversas esporádicas que travavam.

 

Tempos depois, já mais maduro, a sua agressividade atenuou-se e, com o advento dos mísseis balísticos intercontinentais, voltou às aeronaves de transporte. Em seguida, veio a Guerra do Vietname, altura em que foi transferido para um B-52. Nesse país pulverizou muita gente, mas havia muito que perdera o apetite por esse tipo de acções. Depois ofereceu-se como voluntário para voos de apoio logístico, nomeadamente para o transporte de abastecimentos, mas esse tipo de missões terminou aquando do último voo que efectuou com destino a Lod, ao mesmo tempo que o seu casamento de vinte anos também chegava ao fim, pelo que decidiu permanecer em Israel, vindo a casar de novo com uma rapariga da Força Aérea, a qual sempre lhe dificultara a vida por causa dos manifestos de carga.

 

A Força Aérea israelita não tinha necessidade dos enormes bombardeiros de longo curso que ele conhecia tão bem, além de que a Hei Avir, a unidade aerotransportada, possuía apenas uns quantos C-130, mas a verdade era que ele não desejava voltar aos aviões de combate, tendo acabado por conseguir um lugar na aviação comercial, ao serviço da El Al, pilotando os aviões de carga DC-4.

 

Na Força Aérea dos Estados Unidos, Becker conseguira acumular milhares de horas de voo aos comandos de aviões a jacto e também passara pelos bombardeiros supersónicos FB-111, pelo que, consequentemente, era um dos poucos homens em Israel que sabiam como pilotar aeronaves de grande porte a velocidades supersónicas. Quando a El Al decidiu adquirir os dois Concordes, Becker foi a Toulouse, onde recebeu formação profissional, e agora encontrava-se prestes a sentar-se aos comandos de um avião no qual faria o voo mais importante de toda a sua carreira, mostrando-se firmemente decidido a fazer tudo para que a viagem decorresse sem quaisquer problemas.

 

Becker lançou um olhar de relance para a sala de comunicações quando a porta que dava para o corredor se abriu e os generais Talman e Laskov entraram. Os dois homens passaram alguns minutos a falar com os responsáveis por aquele serviço após o que transpuseram a porta que ligava as duas salas.

 

Todos os que se encontravam presentes na sala de operações, oficiais] na reserva adstritos à Hei Avir, se levantaram. Talman e Laskov sorriram fazendo um gesto para que se sentassem, o primeiro começou a falar.

 

Boas tardes. Acabámos de sair da reunião onde se discutiram os aspectos relativos à segurança e quero dizer-lhes que está tudo a correr pelo melhor, mas, por razões que se prendem com medidas de segurança ainda mais rigorosas, vamos antecipar para as quinze e trinta a hora de descolagem. Adicionalmente, as instruções são para não sobrevoarem o Mediterrâneo em rota para Madrid, em alternativa irão até ao extremo norte de Itália e depois seguirão para Orly, onde se reabastecerão. Temos autorização para sobrevoarmos a velocidades supersónicas o espaço aéreo da Itália e da França. Já está tudo tratado, incluindo novos planos de voo, mapas de coordenadas e condições meteorológicas. Ninguém desembarcará em Orly, as instruções são as mesmas que se aplicariam ao voo para Madrid.. Olhou para cada um dos homens. Meus senhores continuou, mas fez uma pausa, à procura da palavra mais adequada enquanto afagava o seu bigode bem aparado, acabando por acrescentar apenas: Desejo que tenham um bom voo, shalom. E virou costas, encaminhando-se de volta à sala das comunicações.

 

Teddy Laskov sentara-se à mesa.

 

Muito bem. Dispomos de alguns minutos para coordenarmos alguns pontos de última hora. Durante todo o tempo em que os acompanhar, estarei permanentemente em contacto convosco através do controlo de tráfego aéreo, assim como na frequência de rádio da companhia, mas caso queiramos falar uns com os outros devemos fazê-lo através da minha frequência táctica, canal trinta e um, o que corresponde à vossa frequência cento e trinta e quatro. Na hipótese de eu, por qualquer razão, achar que essa frequência deixou de ser segura... ou se vocês chegarem a essa conclusão, devem dizer as palavras: «O manómetro do meu depósito de combustível número três avariou-se.” Nesta situação, mudaremos para a frequência táctica alternativa que será o canal vinte e sete e que corresponderá à vossa frequência cento e vinte e nove. Estão a compreender? Muito bem. Irei com vocês até atingirem a altitude de dezanove mil metros à velocidade de Mach dois e, caso tenha combustível suficiente, é possível que me mantenha por perto. A partir de então, não deverão encontrar quaisquer dificuldades. Têm alguma pergunta a fazer?

 

Deixe-me esclarecer uma coisa com bastante clareza, meu general interveio Avidar, levantando-se. Quem tem o controlo táctico deste voo? Quer dizer, eu sou o comandante de voo destes dois Concordes, enquanto o senhor é o responsável pela escolta, além de que a sua patente na Hei Avir é superior à minha... mas acontece que estamos a falar de um voo civil. Assumamos que seremos atacados e digamos que eu quero optar por uma acção de evasão, mas o senhor pretende que nos mantenhamos num curso de voo preestabelecido, de forma a saber qual a nossa posição a qualquer instante. Quem manda numa situação hipotética como esta?

 

Laskov fitou Avidar durante muito tempo. Qualquer que fosse a opinião que as pessoas tivessem sobre aquele jovem piloto, havia que lhe fazer justiça, uma vez que não perdia tempo com meias palavras. Além do mais, não tinha o mínimo pejo em verbalizar o impensável.

 

Muito bem começou Laskov. É uma pergunta que tem todo o cabimento, Asher. Deixe-me repetir-lhe aquilo que certamente já lhe disseram. Não estamos a prever qualquer problema, mas se... se formos atacados, você seguirá os regulamentos que se aplicam a missões com bombardeiros pesados, e uma vez que Israel não os possui permita-me que o informe agora desses mesmos regulamentos. São bastante simples. A primeira regra é manter o seu curso de voo até receber instruções que lhe serão dadas pelo comandante da escolta, ou seja, eu, que lhe permitam pôr em prática a táctica de evasão individual ou, para que toda a gente altere o curso, a velocidade ou a altitude. Quanto ao regulamento número dois, ver o número um. Isto responde à sua pergunta?

 

Não respondeu sucintamente o piloto, sentando-se e desviando o olhar.

 

Veja uma coisa, Asher continuou Laskov num tom conciliatório, voar nestas condições é sempre uma grande chatice para toda a gente. Em Israel não costumamos ter situações de escolta de longo curso, pelo que esta é novidade para si... Mas nas guerras em que participei provou-se que as ovelhas têm de se manter junto do rebanho, além de terem de prestar atenção ao cão-pastor, caso contrário, serão filadas pelos lobos. Independentemente do número de ovelhas do rebanho que pareçam ter sido apanhadas, posso garantir-lhe que é muito pior quando uma delas tenta safar-se sozinha. Esta analogia não corresponde exactamente à situação que pretendo descrever, mas estou certo de que percebeu a mensagem. Tentou adoptar uma expressão paternal, mas Avidar não estava disposto a fazer a mínima cedência. Laskov deu de ombros voltando-se para Becker. David, tem alguma coisa a acrescentar?

 

Não, meu general. Acho que o que foi dito é o suficiente, exceptuando os códigos para as transmissões e frequências tácticas.

 

Muito bem retorquiu Laskov pondo-se de pé. Eu sou o Anjo Gabriel e o número da cauda do meu aparelho é o trinta e dois. Os pilotos da minha esquadrilha têm também o nome de código Gabriel juntamente com o respectivo número de cauda. Você, David, é o Asas de Emanuel e o Asher é o Kosher Clipper. Seja como for, uma vez no ar serão Emanuel e Clipper. Laskov consultou o seu relógio de pulso. Eram apenas catorze horas. Só mais uma coisa. Para além dos delegados que participam na missão de paz, os quais constam das listas de passageiros, é possível que sigam viagem algumas pessoas a mais, tudo gente muito importante. A bordo irá também um norte-americano, John McClure, funcionário da Embaixada que vai a casa de licença. Digam aos chefes dos assistentes de bordo para contarem com mais alguns passageiros.

 

Becker procurou entre os papéis que tinha presos na prancheta até encontrar a lista de passageiros.

 

Há outro dos meus compatriotas que também segue connosco, meu general. Tom Richardson, o adido da Força Aérea. Com certeza que o conhece. Ele tem uns assuntos a tratar em Nova Iorque.

 

Laskov fez uma pausa. Deveria ter sido uma decisão de última hora e sabia que aquilo queria dizer alguma coisa, mas concretamente não sabia o quê, talvez apenas um gesto amigável.

 

Mantenho contactos profissionais com ele acrescentou Laskov, ^ um amigo quando não nos está sempre a dizer como devemos proceder. Caso não lhe agrade a alimentação kosher, dê-lhe um pontapé no cu quando estiver a sobrevoar Roma. Avidar, se ele for a bordo do seu aparelho, não tente discutir política ou religião com ele, uma vez que não segue nenhuma orientação quer em relação a uma quer à outra.

 

Ele pediu para ir a bordo do meu avião disse Becker com um sorriso. Tratarei bem dele.

 

Faça isso retorquiu Laskov distraidamente. Caminhou até à porta de ligação com a sala de comunicações, onde estava Talman. Voltou-se para trás, ficando de frente para os homens, que entretanto tinham voltado a pôr-se de pé. David, você disse que ele escolheu o seu aparelho?

 

Sim, senhor respondeu Becker, entregando a Laskov a lista que continha o nome dos passageiros.

 

Laskov examinou-a e viu que, junto do nome de Richardson, acrescentado a lápis no fundo da lista, e ao contrário do que era habitual, estavam os números «02». De facto, por norma, não se indicava o número do avião nem o que correspondia ao lugar de cada passageiro, o que se devia a uma questão de segurança, isso só seria decidido no último instante. A escolha dos assentos era deixada ao critério de cada delegado, de maneira que pudessem agrupar-se em comités, adiantando algum do trabalho durante o voo. Laskov perguntava a si mesmo por que motivo Richardson teria pedido para viajar no Concorde 02 dado que não podia saber antecipadamente se qualquer dos seus amigos ou conhecidos seguiria a bordo desse avião. Porque não teria esperado até ver como se agrupariam os delegados? Além disso, tanto um aparelho como o outro só transportariam cerca de metade do número de passageiros para que tinham capacidade, mas talvez quisesse voar especificamente com Becker. Laskov ergueu o olhar.

 

Ele sabia que você pilotaria o zero dois?

 

Parece-me que sim e calculo que imaginou que se poderia sentar perto de mim e conversarmos durante toda a viagem. Ele não sabe falar hebraico muito bem.

 

Imagino que foi isso mesmo. Meus senhores, desejo-lhes um bom voo. Encontramo-nos daqui a pouco a mais ou menos cinco mil metros de altitude. Shalom.

 

Na sala do aeroporto reservada aos VIP, no fundo do corredor onde se situavam o gabinete de Hausner e a sala de operações, aglomeravam-se cerca de cem pessoas. Os reposteiros tinham sido corridos para o ar condicionado trabalhar melhor, mas mesmo assim continuava a sentir-se calor. No entanto, aquela semiobscuridade provocava uma ilusão de frescura. Mais ou menos de minuto a minuto alguém afastava um pouco os cortinados para admirar os Concordes, isolados dos outros aparelhos e com um cordão de soldados à sua volta.

 

Yaakov Leiber, o chefe dos assistentes de bordo do 02, entrou na sala. O pequeno Yaakov, como quase toda a gente o tratava, mostrava grande nervosismo, preferindo que fosse outra pessoa a dar as informações aos passageiros daquele voo. Estava acostumado a fazer o seu pequeno discurso naquela mesma sala, mas com grupos de pessoas diferentes. Reconheceu muitos dos rostos.

 

Para além dos vinte delegados que participariam na conferência de paz, havia um número invulgarmente elevado de assistentes e assessores, secretárias, intérpretes e pessoal dos serviços de segurança. A atmosfera da sala já se encontrava parcialmente saturada com o fumo de cigarros, o que não passou despercebido a Leiber, e o bar, como de costume, estava vazio.

 

Yaakov Leiber tossiu para aclarar a garganta.

 

Minhas senhoras e meus senhores começou ele com as mãos erguidas.

 

A pouco e pouco, fez-se silêncio em todo o salão e várias cabeças voltaram-se para ele. O homem era de estatura baixa e vestia um uniforme branco demasiado grande, além de usar um par de óculos com umas lentes bifocais tão espessas que os seus olhos se assemelhavam a ostras.

 

Leiber colocou-se de costas para o balcão do bar.

 

Boa tarde a todos. O meu nome é Yaakov Leiber e sou o chefe dos assistentes de bordo do Concorde zero dois da El Al.

 

Fico muito contente por ele não ser o nosso piloto comentou alguém no fundo da sala, e ouviram-se alguns risos.

 

Na realidade, até já fui piloto, mas certa ocasião esqueci-me de trazer a lista telefónica para me sentar e fui estampar-me contra o hangar.

 

Todos se riram e ouviram-se mesmo alguns aplausos.

 

Só quero dar-lhes algumas informações de última hora continuou Leiber, aproximando-se mais da pequena multidão, e durante vários minutos falou da escolha dos lugares e da nova hora de embarque. Alguém quer perguntar alguma coisa?

 

O rabino ortodoxo que integrava a missão de paz, Chaim Levin, levantou-se.

 

Certamente sabe, meu rapaz, que hoje é sexta-feira... Acabou de confirmar que vamos fazer uma longa viagem até Nova Iorque, mas mesmo assim aterraremos antes do início do sabat, não é verdade?

 

Leiber conteve um sorriso, pois nenhum rabino costumava viajar na El Al, até mesmo durante os dias de semana, porque todas as tripulações da companhia por vezes infringiam o sabat. Assim, eles optavam por utilizar as linhas aéreas estrangeiras dado que lhes era absolutamente indiferente que nesses voos não se obedecesse ao sabat judeu, ou até que nem sequer se respeitasse o dia santo da respectiva religião. Os dois rabinos que participavam na conferência de paz, um ortodoxo e outro ainda mais conservador, haviam decidido abrir uma excepção viajando nos aviões da El Al em nome de uma aparente união nacional.

 

Sim, senhor confirmou Leiber. O pôr do Sol em Nova Iorque será às dezoito horas e oito minutos, mas nós viajaremos a uma velocidade um pouco mais rápida do que a do Sol, por conseguinte chegaremos mais ou menos às catorze horas.

 

O rabino Levin ficou a olhar para Leiber por muito tempo.

 

Por outras palavras, aterraremos uma hora e meia antes da hora a que descolámos acrescentou Leiber. Bem vê...

 

Muito bem, já compreendi. Não sei se sabe, mas esta não é a primeira vez que viajo de avião e com estas palavras fitou Leiber, o infractor do sabat, brindando-o com um olhar que habitualmente reservava aos judeus que comiam carne de porco. Se aterrarmos um segundo que seja depois do pôr do Sol, pode ter a certeza de que ouvirá das boas.

 

Ouviram-se algumas gargalhadas, a que Leiber se juntou.

 

Sim, senhor disse, olhando à sua volta. Ó jantar será carne assada acompanhada com pudim de batata. Caso alguém esteja interessado, terá vários filmes à sua disposição. A minha mulher, Mareia, que é muito mais bonita do que eu, será uma das vossas hospedeiras a bordo do zero um.

 

À semelhança do que acontecia com outros casais que trabalhavam na El Al, os Leiber tinham como regra nunca trabalharem no mesmo aparelho, porque tinham filhos. Ele só esperava que ninguém inferisse nada de negativo por procederem desta maneira.

 

Mais alguma pergunta? insistiu. Nesse caso, quero agradecer-lhes por viajarem com a El Al... Ergueu as duas mãos. Shalom.

 

O capitão David Becker completou a sua inspecção ao exterior do Concorde 02 e protegeu-se do sol, procurando a protecção da sombra projectada pela dianteira cónica ligeiramente inclinada do aparelho. O pelotão de infantaria continuava a postos em redor do avião, lançando-lhe olhares ocasionais. O piloto foi abordado por um membro dos serviços de segurança da El Al, Nathan Brin.

 

Está tudo a correr bem, capitão?

 

Óptimo.

 

Pela nossa parte também estamos satisfeitos. E você? Becker olhou para o avião meneando a cabeça.

 

Encontramo-nos lá em cima respondeu ele, afastando-se.

 

De acordo.

 

Becker olhava fixamente para a parte superior do aparelho. Aquele pássaro branco, que naquele momento simbolizava a paz, não se parecia em nada com uma pomba, assemelhava-se mais a uma ave marinha, a uma cegonha ou talvez mesmo a uma gaivota, concluiu o piloto. Elevava-se sobre umas pernas compridas, aparência que lhe era conferida pelos acentuados ângulos de elevação necessários por causa das asas em delta. Se não fossem aquelas pernas tão altas, arrastaria a traseira pelo pavimento sempre que descolasse ou aterrasse. Deus criara os pássaros com pernas longas precisamente por essa razão e os técnicos ingleses e franceses tinham chegado à mesma conclusão em termos de engenharia aerodinâmica, tal como haviam feito os soviéticos quando construíram a sua aeronave supersónica, o TU-144. Era bom saber que Deus tinha razão, pensou Becker.

 

E havia ainda a proa, o bico, que se mantinha para baixo aquando das descolagens e aterragens, como se fosse um pássaro, o que permitia um maior grau de visibilidade. Para uma melhor rentabilidade das linhas aerodinâmicas, durante o voo, a dianteira mantinha-se elevada. Os técnicos britânicos, franceses e soviéticos, e Deus não necessariamente por esta ordem haviam, cada um por si só, chegado às mesmas soluções que lhes permitiram resolver problemas de voo. As aeronaves começaram por ser estruturas rígidas, pelo que o seu desempenho estava consequentemente confinado a parâmetros de rigidez, ao contrário das aves, que eram flexíveis, e assim, o homem começou também a construir aviões de linhas flexíveis, equipados com ailerons e lemes de direcção móveis. Em seguida, surgiu o equipamento de aterragem retráctil, logo depois foi a vez dos aviões a jacto com asas flexíveis, até que por fim apareceram as proas que subiam e desciam.

 

Com o olhar, Becker percorreu o aparelho de um extremo ao outro e pensou que não se tratava de uma aeronave muito grande. A fuselagem media cinquenta e dois metros de comprimento e a amplitude das asas em forma de delta era de somente vinte e sete metros. O peso bruto, incluindo os passageiros e o combustível, atingia cento e oitenta mil quilogramas, aproximadamente metade do peso de um 747.

 

Um dos últimos vestígios do tradicional sistema métrico dos britânicos poderia ser encontrado na carlinga. Em todo o mundo, os pilotos haviam recebido formação com base no sistema métrico usado no Reino Unido, padronizado e adoptado universalmente, pelo que não seria fácil, além de não haver necessidade disso, substituí-lo. A maior parte dos instrumentos de voo tinha mostradores com indicações em dois sistemas, o que permitia aos pilotos mudarem facilmente de um para o outro. Próximo do mostrador que indicava a velocidade do Concorde, via-se o graciosamente antiquado indicador de nós, o que, para Becker, constituía um ponto de referência num mundo que se transformava com tamanha rapidez. Visualizou na sua mente um velho navio que corajosamente tentasse alcançar a velocidade de cinco nós, procurando vencer a resistência de um vento que soprasse de proa.

 

Deu uma volta final ao aparelho, colocou-se por baixo da asa de bombordo, e soergueu o olhar. Não, aquele avião não fora concebido para transportar duzentas pessoas em classe turística, tinha, isso sim, por finalidade levar setenta passageiros VIP, a uma velocidade superior à do som, até aos locais onde firmariam os seus tratados de paz, fariam os seus negócios ou visitariam as suas amantes estrangeiras uma aeronave para as elites. Velocidade máxima: Mach dois cerca de dois mil e trezentos quilómetros por hora, dependendo da temperatura do ar, a mesma a que era projectada a bala de uma espingarda de elevado coeficiente de tiro, e voar a essa velocidade assemelhava-se a um limbo aeronáutico onde muitas das regras padronizadas subitamente sofriam alterações.

 

Existia toda uma série de requisitos, bastante peculiares, quando se voava a velocidades supersónicas. Era preciso ter em conta o importante factor do arrastamento à velocidade do som e, nesse aspecto, as asas em delta ajudavam, mas o seu coeficiente de operacionalidade não era dos mais elevados, tinham tendência para guinar com movimentos de rotação, fazendo com que a aeronave fosse difícil de pilotar. As asas eram submetidas a ângulos elevados de ataque e, caso o aparelho se encontrasse submetido a uma força de impulsão, manobrar em função da velocidade do vento podia ser tarefa bastante difícil.

 

Na hipótese de avaria de um dos motores, num avião a jacto comercial normal ninguém se sentiria excessivamente preocupado, mas o caso mudava completamente de figura se tal acontecesse com um supersónico, uma vez que facilmente se perdia o controlo do aparelho. Nesta situação, a aeronave começaria a dar cambalhotas descontroladas, acabando por se desintegrar. À velocidade de Mach dois, a temperatura poderia atingir os cento e vinte e sete graus centígrados, mas se subisse mais, embora o avião não se desintegrasse imediatamente, a estrutura ficaria enfraquecida, sendo possível que durante uma viagem posterior se viesse a pagar o preço por essa fadiga do metal.

 

A esta velocidade é preciso pensar-se com rapidez. Por exemplo, caso se pretenda nivelar o aparelho à altitude de dezanove mil metros, será preciso começar a manobrar nesse sentido aos dezassete mil, pois, se se fizer uma correcção demasiado apressada, os passageiros ficariam pendurados nos porta-bagagens por cima dos assentos.

 

Em acréscimo, havia algo que incomodava Becker desde o primeiro dia em que pilotara um Concorde à altitude de dezanove mil metros: o problema de uma súbita descompressão na cabina, tipo de situação que poderia verificar-se se o aparelho fosse atingido por um míssil, ou se ocorresse uma pequena explosão a bordo, ou ainda se alguém estilhaçasse o vidro de uma das janelas com uma bala. Num avião convencional das linhas comerciais, a descompressão da cabina não é um problema grave, uma vez que o voo se faz a altitudes relativamente baixas, a cerca de nove mil metros, e a tripulação e os passageiros teriam apenas de colocar as máscaras de oxigénio que se soltariam acima das suas cabeças, e usá-las enquanto a aeronave descia até onde o ar fosse mais denso. Contudo, a dezanove mil metros, seriam necessários fatos pressurizados para que a respiração fosse possível e, na falta deste tipo de equipamento, uma pessoa teria escassos segundos de lucidez. Assim, ainda que a máscara fosse colocada imediatamente, perder-se-ia a consciência. Entretanto, o computador de bordo já teria detectado a anomalia e faria descer o aparelho sem grandes sobressaltos, mas quando se chegasse a uma altitude em que era possível respirar com a máscara de oxigénio, quando se recuperasse a consciência já o cérebro teria sofrido graves lesões irreversíveis.

 

Becker tinha um pesadelo que nunca o abandonava: todos os membros da tripulação despertariam do estado de inconsciência com lesões cerebrais começando a respirar através da máscara de oxigénio, caso ainda tivessem o discernimento necessário para compreender essa simples necessidade e tentariam descobrir para que serviam todos aqueles mostradores e luzes engraçadas a piscar que tinham defronte de si, enquanto reviravam os olhos, com a saliva a escorrer-lhes pelas comissuras dos lábios. Durante todo esse tempo, o Concorde mantinha-se estável, à espera que mãos humanas o manobrassem, e, na cabina, setenta passageiros idiotas, em diversos estados de debilidade mental, fariam caretas enquanto grunhiam. No seu pesadelo, o Concorde acabava sempre por aterrar e as pessoas que acenavam da varanda do aeroporto onde aguardavam os passageiros ficavam surpreendidas quando viam os seus amigos e entes queridos começarem a sair naquele estado. Becker cerrou os olhos, pois sabia antecipadamente que nunca seria possível um aparelho descer dessas altitudes depois da perda de mais de trinta segundos de oxigénio. Aquilo não passava de um pesadelo irracional, mas apesar disso continuava a existir numa secção do seu cérebro cuja capacidade de resposta era condicionada: «Se nenhum dos instrumentos na carlinga te parecer familiar, não toques em nada.” Além disso, mais cedo ou mais tarde, o combustível esgotar-se-ia. Becker limpou o suor que lhe cobria o rosto, observando o outro extremo do aeródromo. À distância de cinquenta metros, Avidar olhava para a parte superior do «seu» Concorde e Becker perguntava a si mesmo se o colega teria pesadelos como aquele. Não, isso nunca aconteceria com Avidar.

 

Miriam Bernstein estava na sala dos VIP a beber café, na companhia de Abdel Jabari. Este avistou o outro delegado israelo-árabe, Ibrahim Ali Arif, que acabara de entrar, e pediu licença para trocar algumas palavras com ele.

 

Entretanto, Bernstein reparou em Jacob Hausner, sentado sozinho ao balcão do bar. Miriam pôs-se de pé, hesitou, mas acabou por se lhe dirigir, embora ele parecesse não ter dado pela sua presença.

 

Olá saudou ela.

 

Ah, olá retribuiu Hausner, lançando-lhe um olhar por cima do ombro.

 

Queria dizer que lamento muito se provoquei algum mal-estar na reunião.

 

Não tem importância replicou ele, mexendo a sua bebida.

 

Óptimo. Miriam ficou em silêncio por uns momentos. Então? Você vem connosco?

 

Vou, acabei de receber autorização do gabinete do primeiro-ministro. Viajarei a bordo do zero dois.

 

Ela não sabia por que motivo é que aquilo devia ser uma boa notícia, mas o certo é que teve uma sensação repentina de bem-estar.

 

Eu também sigo no zero dois. Fez-se silêncio.

 

Quer mudar de avião... ou quer que seja eu a mudar? perguntou Míriam pouco depois, forçando um sorriso.

 

Hausner sentiu que aquela pergunta fora feita para o provocar. Teve uma sensação visceral de que ela estava a reprimir uma emoção qualquer muito forte, e que esse sentimento tinha algo a ver com ele próprio. Fitou-a, mas não leu absolutamente nada naquela fisionomia que corroborasse esse sentimento, embora a sensação persistisse.

 

Não me parece que isso seja necessário.

 

Miriam viu-se ao espelho. Os seus olhos iam do rosto de Hausner para o seu, como que a certificar-se de que as máscaras de ambos permaneciam inpassíveis. A sua expressão não denotava nada de anormal, mas apercebia-se da tensão que se apoderara do seu corpo e de que estava quase em bicos de pés. Aquele homem provocava-lhe sempre aquele efeito. Descontraiu-se, sorrindo e exibindo uma expressão que não traía o que lhe ia por dentro.

 

É simpático da sua parte ter concordado em vir. Não vai fazer falta aqui?

 

Eles puderam escolher entre manter-me aqui para a crucificação. adiantou Hausner, acabando a sua bebida, ou permitir que eu fosse na esperança de que me despenhasse com o avião, se acontecer algo de anómalo.

 

Portanto, deduzo que se resolveu a cair com o avião.

 

Eles é que decidiram. Estou em crer que eles gostariam que eu me despenhasse e que o aparelho continuasse no ar, mas a verdade é que não podem ter as duas coisas. Aceita uma bebida?

 

Eu não bebo, mas...

 

Ninguém neste maldito país bebe. Quando eu estive na RAF, ninguém pilotava um avião a seco, a menos que estivesse cego. Hausner empurrou o copo na direcção do empregado do bar. Ora bem, encontramo-nos a bordo.

 

Certo disse ela, olhando-o, depois voltou costas e afastou-se. Naquele momento, Matti Yadin aproximava-se do bar quando deu pela presença de Miriam Bernstein.

 

Aquela cabra está outra vez a causar-lhe problemas, chefe?

 

Não tenho a certeza respondeu Hausner, depois de ter reflectido uns instantes.

 

Teddy Laskov entrou no salão dos VIP, onde foi à procura de Tom Richardson, pois queria fazer-lhe algumas perguntas e, supostamente, também devia informá-lo da frequência táctica alternativa que ele e Talman tinham acabado de seleccionar. Ainda pensou em ligar para o gabinete do adido norte-americano, mas desistiu dessa ideia e, por qualquer razão que não era capaz de explicar cabalmente, até mesmo a si próprio, decidiu não facultar aquela informação a Richardson. Se os americanos precisassem realmente de a conhecer depois de ele já estar no ar, podiam obtê-la junto de Talman, que ficaria na Cidadela.

 

Laskov viu Hausner e Miriam, que conversavam ao balcão do bar, mas logo de seguida ela afastou-se. Se não soubesse que os dois se detestavam, seria obrigado a admitir que ela tinha a expressão de alguém que ficara magoada com algo que Hausner dissera. Sentiu-se surpreendido ao aperceber-se dos ciúmes que repentinamente o assolaram. Laskov quedou-se a observá-la, mas Míriam não deu pela sua presença já se tinham despedido. Virou-se e dirigiu-se, na sua postura ursina, para as escadas das traseiras, ao fundo das quais estava um jipe à sua espera, que o levaria até junto da sua esquadrilha.

 

O general Benjamin Dobkin encontrava-se também na sala VIP a falar com Isaac Burg, enquanto bebia um café.

 

Com que então, você vai até Nova Iorque connosco, certo? perguntou ao outro.


Pensei aproveitar para ver como é que vão as coisas com os meus agentes em Nova Iorque respondeu Burg, meneando a cabeça. Além de que tenho lá uma amiga. Daqui a cerca de sete horas ela sentirá a «Ira de Deus» e sorriu com um olhar malicioso.

 

Dobkin olhava fixamente para o interior da sua chávena já vazia, após o que ergueu o olhar, fitando Burg.

 

É a última oportunidade que eles têm, não é verdade? Quer dizer, se pensaram em atacar, só pode ser agora. Caso não o façam ficarão inteiramente desacreditados perante os que os apoiam. Este é o maior alvo, e o mais importante, que alguma vez tiveram ao seu alcance. Para eles é uma questão do agora ou nunca. Não lhe parece?

 

Sim anuiu Burg, olhando para o rosto de Dobkin. Sabe, quando há pouco saímos da reunião sentia-me muito confiante. Não há dúvida de que os seres humanos têm muito expediente, são criaturas bastante matreiras e, desde que não percam a força de vontade necessária, acabam sempre por encontrar uma maneira de levar a sua avante. Uma realidade de que estou bem ciente depois de ter lidado com os árabes ao longo destes anos todos. Não são os fanfarrões ridículos que a imprensa nos quer fazer acreditar, tal como você e eu sabemos muitíssimo bem. Sim, tenho de admitir que me sinto preocupado.

 

O Concorde 01 e a sua réplica, o 02, permaneciam sob os raios solares com as portas abertas. A bordo de cada um já se encontravam seis homens do pelotão de segurança de Hausner. Matti Yadin sentara-se junto dos que estavam no 01, dando-lhes as últimas instruções. Todos dispunham de pistolas Smith Ó” Wesson, de calibre vinte e dois, automáticas, cujas balas, por pressuposto, não trespassariam completamente o corpo humano, pelo que também não teriam potência suficiente para perfurar a cabina. Em teoria, eram armas que pareciam seguras para o efeito, no entanto dispará-las numa cabina pressurizada não era boa ideia.

 

Os homens da segurança também haviam levado para bordo, como parte do seu equipamento bélico padrão, uma espingarda M-14 de fabrico americano, a qual fora modificada de modo a poder ser equipada com um dispositivo na mira telescópica que permitia ao atirador visão nocturna, a que se juntava uma Crossman 10X, com mira telescópica que, em caso de necessidade, seria utilizada durante o dia. A bordo seguia igualmente uma metralhadora Uzi, de fabrico israelita, arma muito pequena, que media quarenta e seis centímetros e pesava apenas quatro quilos, mas capaz de disparar um carregador com vinte e cinco balas de nove milímetros com muita eficácia.

 

A bordo existia também outra arma de que ninguém tinha conhecimento. Na cauda de cada um dos Concordes estava meio quilo de um explosivo plástico agarrado ao dispositivo de nivelamento de um depósito de combustível, que aí fora colocado há mais de um ano por dois argelinos, entretanto falecidos, que trabalhavam nas fábricas de Saint-Nazaire e Toulouse, a muitos quilómetros de distância. Quando a aeronave começasse a acelerar, o carburante seria bombeado para o depósito vazio, o que tinha por finalidade alterar o centro de gravidade do aparelho, possibilitando assim as velocidades supersónicas. Se o explosivo fosse detonado, a aeronave desapareceria do firmamento após uma gigantesca explosão.

 

Teddy Laskov estava já sentado na carlinga do seu F-14 fazendo cálculos com a sua máquina de bolso e tentando estabelecer qual seria a distância máxima que poderia percorrer, com base nalgumas variantes como, por exemplo, o consumo de combustível, o peso bruto, as manobras que em princípio teria de executar e a temperatura do ar. Como piloto experiente de caças, não lhe agradava prescindir das balas de vinte milímetros para os canhões, mas era obrigado a admitir que não só eram excessivamente pesadas, como também seriam redundantes dadas as circunstâncias. Os mísseis eram hoje o cerne da questão, talvez Richardson tivesse razão a esse respeito. Através da porta da carlinga falou com os artilheiros.

 

Retirem as de vinte milímetros.

 

Quando as munições foram removidas de todos os aviões, Laskov olhou à direita e à esquerda, falando através do microfone incorporado nos auscultadores.

 

Liguem os motores.

 

De seguida, dos vinte e quatro motores Pratt e Whiteney, com uma força de propulsão de mais de nove mil quilogramas cada, começou a sair um barulho explosivo capaz de perfurar qualquer ouvido, e fazendo estremecer o solo.

 

Um minuto depois, Laskov ergueu o polegar, gritando para o pequeno microfone:

 

Zanek A caminho.

 

Os doze aviões de combate começaram a rolar pela pista.

 

Tom Richardson apercebeu-se tarde de mais de que não tinha chegado a saber qual a frequência alternativa de Laskov. Aquele não era o tipo de informação que pudesse solicitar à Cidadela através do telefone e, por qualquer razão que não compreendia, o seu gabinete ainda não a recebera. Além do mais, a alteração na hora de partida, embora já a esperasse, causara-lhe alguns inconvenientes. Perguntou a si mesmo se Laskov teria aceitado a sua sugestão quanto às balas de canhão. Em qualquer dos casos, concluiu que não se tratava de um aspecto muito crítico.

 

Entretanto, os delegados à conferência de paz já tinham começado a sair da sala de espera, descendo pelas escadas das traseiras e entrando nas camionetas que os aguardavam. Richardson dirigiu-se à cabina telefónica próxima do bar e ligou para um número em Jericó, cidade situada na margem esquerda, em território ocupado por Israel. Não confiava nos telefones, mas naquela altura tinha muito pouco por onde escolher e ainda menos tempo.

 

Jacob Hausner espreitou pela porta entreaberta do seu gabinete.

 

A SDECE francesa já respondeu ao meu telefonema?

 

Não, senhor respondeu a sua secretária, erguendo o olhar.

 

Raios partam isto! Olhou por cima da cabeça dela em direcção à janela. As camionetas já estavam quase cheias. Tenho de partir. Provavelmente, regressarei amanhã num dos Concordes. Se surgir alguma coisa importante enquanto eu estiver a bordo, ligue para a Cidadela e eles passar-me-ão a informação por via segura. Seguirei no zero dois.

 

Faça boa viagem. Shalom.

 

Foi isso que deu origem a toda esta situação. Shalom. E, num passo apressado, começou a percorrer o corredor.

 

Matti Yadin olhou pela janela do autocarro que se dirigia para o Concorde 01 e avistou Hausner, que caminhava num passo rápido.

 

Chefe!

 

Hausner voltou-se para trás, soerguendo o olhar.

 

Se não quiser seguir com... sabe a quem me refiro, eu troco consigo ofereceu-se Yadin, debruçando-se pela janela aberta.

 

Não replicou Hausner com um abanar de cabeça. Não tem importância, o voo é curto. Além do mais, dá azar alterar planos de voo.

 

Hausner hesitou, continuava preocupado com qualquer coisa que não lhe saía do subconsciente, embora não soubesse exactamente o quê. De súbito, tinha um mau pressentimento em relação àquela viagem, vendo na expressão que se reflectia nos olhos de Yadin o mesmo mal-estar.

 

Está lembrado do Ahmed Rish?

 

E como poderia esquecer-me dele? retorquiu Yadin.

 

Tem razão... como? Pense nele e, se lhe ocorrer alguma coisa de importante, comunique comigo via rádio. Encontramo-nos em Nova Iorque.

 

Shalom despediu-se Yadin, forçando um sorriso.

 

Num impulso, Hausner estendeu a mão, agarrando a de Yadin, algo que jamais fizera.

 

Chaim Mazar encontrava-se na torre de controlo do Aeroporto de Lod, e tinha um binóculo de campanha, com que observava as camionetas que se aproximavam dos Concordes, quando a sua atenção foi despertada por um reflexo de luz vindo do telhado de um prédio na cidade. Desviou o ângulo de visão do binóculo para esse ponto e agarrou no seu radiotransmissor de campanha, continuando a observar o edifício enquanto falava rapidamente.

 

Torre chama controlo de helicópteros. Vi um reflexo de luz, no quadrante trinta e seis, no telhado de um prédio pintado de cor-de-rosa. Mandem alguém até lá.

 

Mazar observou as manobras do helicóptero Huey, que, em espaço de alguns segundos, começou a descer em direcção ao telhado do prédio. quatro homens saltaram empunhando metralhadoras Uzi antes mesmo de o aparelho ter aterrado. Alguns segundos mais tarde, ouviu-se uma voz distorcida, quase sem fôlego, através do radiotransmissor.

 

Chamo torre, daqui Huey sete seis.

 

Recebido e entendido, sete seis. Prossiga.

 

Nada de irregular, torre. Só uma jovem com um reflector de sol.

 

Fez-se uma pausa, a voz parecia achar graça a qualquer coisa. Estava a tomar banhos de sol toda nua. Termino.

 

Mazar limpou as gotas de suor que lhe perlavam as fontes e bebeu um pouco de água.

 

Recebido e entendido. Supostamente, neste momento, decorrem manobras aéreas. Digam-lhe que vista qualquer coisa e dêem-lhe voz de prisão. Mantenham-na no helicóptero até poderem entregá-la à polícia.

 

Recebido e entendido e fez-se uma pausa prolongada.

 

Daqui torre, termino.

 

Mazar encostou-se para trás na sua cadeira, junto dos controladores de tráfego aéreo, e virou-se para um deles.

 

Fui um pouco duro, mas acontece que tem sido um dia muito complicado.

 

Sabah Khabbani estendera-se ao comprido no alto da colina, concentrado a olhar através do seu binóculo de campanha. O dia estava límpido, sem uma nuvem no céu, mas nove quilómetros era uma distância muito grande. Dava a impressão que as pessoas começavam a embarcar nos Concordes e aquela era uma altura tão boa como qualquer outra. Ergueu uma mão e esperou que um helicóptero passasse por cima de si.

 

Atrás dele, no meio dos pinheiros, os outros três palestinianos mantinham-se ajoelhados, distanciados uns dos outros alguns metros. Cada um tinha um projéctil de morteiro em posição acima do pequeno buraco no solo e perto de si mais três. À vez, alternariam dois de intensidade elevada com dois fosforosos, e os doze deveriam cobrir toda a extensão entre o terminal e os dois Concordes. Na hipótese de haver um estilhaço em chamas que perfurasse um depósito de combustível e não havia razão alguma para que isso não viesse a suceder ninguém sobreviveria.

 

Os guerrilheiros observavam Khabbani atentamente. O braço deste baixou e, com mãos que tremiam, cada um deles deixou que o projéctil lhe deslizasse dos dedos. Ao ouvi-los descerem pelos canos compridos, taparam os ouvidos e abriram a boca, a fim de compensar a pressão da explosão prestes a dar-se.

 

O general Itzhak Talman encontrava-se na sala de operações da Cidadela, olhando para o ecrã do radar e demais monitores que forneciam informações relativas ao voo de um Hawkeye E-2D, observava também os doze F-14 da esquadrilha de Laskov, que se mantinham em formação ao largo da costa. As outras consolas, com vários monitores, indicavam a posição do tráfego aéreo comercial, de alguns aviões particulares e dos navios em pleno mar, e no ecrã de um computador liam-se várias mensagens, as quais eram impressas logo a seguir. Talman aumentou o som de um dos rádios, ouvindo Laskov que falava com os pilotos da sua esquadrilha. Até ali estava tudo a correr bem. Foi buscar uma chávena de café e sentou-se. Tudo o que podia fazer, a partir daquele momento, era esperar.

 

O capitão Ephraim Dinitz aguardou até ouvir o ruído dos projécteis que estabeleciam contacto com os percussores, no fundo dos canos. Aquilo deveria ser suficiente para satisfazer um tribunal, caso viesse a pôr-se a questão com respeito à intenção dos guerrilheiros. Ele e os seus homens começaram então a correr, saindo de trás das pedras e árvores que os tinham ocultado.

 

Ao abrigo da lei militar, estão presos! gritou ele em árabe. Ponham as mãos em cima da cabeça!

 

Os três palestinianos olhavam com fixidez, alternadamente, para os morteiros silenciosos e para os soldados israelitas que os cercavam. Lentamente, puseram-se de pé e obedeceram.

 

Khabbani voltou-se e observou a cena que se desenrolava a menos de trinta metros atrás. Sentiu que o coração lhe caía aos pés, ao mesmo tempo que se lhe formava um nó na garganta. Já se imaginava na prisão de Ramalá, a olhar para o vazio durante o resto da vida, jamais voltaria a tocar na mulher ou nos filhos, excepto através do arame farpado. Levantou-se, saltou do cimo do pequeno outeiro, e correu, tropeçando nas pedras e pisando as flores silvestres que pareciam ser uma mancha desfocada debaixo dos seus pés. Um dos militares gritou-lhe e depois ouviu outro grito, seguido do matraquear monocórdico de uma arma de fogo automática. Viu as balas que caíam à sua volta, mas decorreram vários segundos até se ter apercebido de que já não corria, estava estendido no chão a sangrar, às portas da morte.

 

Chaim Mazar pegou no seu rádio de campanha. Da torre de controlo observava as colinas onde tudo se desenrolara.

 

Muito bem, Dinitz disse com um tom de aprovação. Interrogue-os imediatamente e depois volte a comunicar comigo.

 

Recostou-se na cadeira com a percepção de que aqueles miseráveis camponeses palestinianos sabiam menos acerca de quem estaria por detrás daquela tentativa patética do que ele próprio. Há dez anos que se sabia da existência daqueles morteiros, tendo estes sido deixados de propósito no mesmo lugar para se ver quem tentaria voltar a utilizá-los, mas, como é evidente, os detonadores haviam sido removidos dos projécteis. Durante a última semana, apertara a vigilância sobre aquele local, e ao princípio do dia alguém dera uma dica a um dos seus agentes.

 

Fora uma tentativa tão desajeitada e temerária que Mazar não era capaz de conceber que alguém pudesse acreditar que viria a ser coroada de êxito. A única coisa que lhe ocorria à mente perante aquela situação era a expressão inglesa «pista falsa», ou as palavras em hebraico «cordeiro sacrificial». Precisamente o que aqueles infelizes palestinianos eram. A partir de agora, por pressuposto, todos deviam sentir-se mais relaxados, baixando a guarda, uma vez que a grande tentativa de ataque dos terroristas fora gorada.

 

Contudo, Mazar não encarava as coisas dessa maneira. Se aquilo fosse uma pista falsa, então só poderia significar que ainda deveria haver uma conspiração por descobrir, destinada a sabotar aquelas negociações de paz, mas, mesmo que a sua vida dependesse disso, não era capaz de imaginar o que poderia ser. Encolheu os ombros.

 

Um dos controladores de tráfego aéreo desviou o olhar do seu radiotransmissor.

 

Os Concordes estão prontos para iniciar a descolagem, senhor.

 

Sendo assim, diga-lhes que podem avançar e que se ponham a andar daqui para fora replicou Mazar.

 

A tripulação de voo do Concorde 01 da El Al deu por concluída a verificação dos instrumentos de bordo. O aparelho começou a rolar até ao extremo da pista, com a extensão de quatro mil metros, e o rádio deu sinais de vida.

 

Têm autorização para descolar, El Al zero um e zero dois, com dois minutos de intervalo. Boa viagem.

 

Recebido e entendido respondeu Avidar, que, empurrando as manetes do combustível para a frente, fez o gigantesco pássaro começar a deslocar-se ruidosamente pela pista.

 

David Becker, sentado no assento do lado esquerdo da cabina de pilotagem do 01, que se elevava graciosamente acima do solo, voltou-se para Moses Hess.

 

Queres fazer o favor de marcar os dois minutos, Moses?

 

Hess anuiu com um aceno, olhando para o seu relógio de pulso.

 

Atrás deles, Peter Kahn, o engenheiro de voo, sentara-se defronte da longa consola de instrumentos observando as luzes e os ponteiros, os quais se mantinham todos estáveis.

 

Todos os sistemas estão em ordem informou ele em inglês, virando-se para Becker.

 

Esplêndido retorquiu o piloto, sorrindo por o outro ter falado em inglês.

 

Um minuto.

 

No interior do avião, os passageiros e assistentes de bordo falavam em voz baixa. A lista de passageiros indicava dez delegados e vinte e cinco assessores que os coadjuvariam, além de duas hospedeiras e dois comissários e, por último, o chefe da cabina, Leiber, sentados em grupo logo atrás da carlinga. Distribuídos por entre os passageiros encontravam-se os seis seguranças, chefiados por Jacob Hausner. Tom Richardson sentara-se ao lado de John McClure, travando com este uma conversa em que só ele é que falava. O general Dobkin revia os apontamentos que apresentaria aos oficiais do Pentágono e Isaac Burg, sentado sem ninguém ao lado, lia um jornal e sugava o seu cachimbo apagado, enquanto o rabino Levin estava embrenhado numa discussão de natureza religiosa com um dos delegados. O número de pessoas a bordo era de cinquenta e cinco, incluindo a tripulação tanto de voo como de cabina. A bagagem suplementar colocava o Concorde muito próximo do peso máximo permitido para a descolagem, em especial tendo em atenção a temperatura do ar.

 

Miriam Bernstein sentara-se atrás de Abdel Jabari, que por seu turno se instalara ao lado de Ibrahim Arif, o outro delegado árabe que também seguia a bordo do 02. Um jovem membro da segurança, por sinal bastante nervoso, não despregava os olhos dos dois kheffiyabs axadrezados que envolviam as cabeças dos dois árabes, no outro lado da coxia. A cabina era pouco espaçosa e os lugares estavam agrupados dois a dois, mal deixando espaço suficiente para um homem com um metro e oitenta poder manter-se de pé. Contudo, os franceses tinham concebido o interior com a perspicácia que lhes era conhecida para aquele tipo de coisas, conferindo uma aparência de luxo ao interior da aeronave. A falta de espaço não tinha importância por aí além, uma vez que era pouco habitual que o Concorde fizesse voos de longo curso, sendo raro que estes excedessem três ou quatro horas consecutivas.

 

O toque final imprimido à decoração era o enorme monitor que indicava a velocidade Mach as luzes de néon vermelhas indicavam zero.

 

Na carlinga, Hess afastou o olhar do mostrador do seu relógio.

 

Está na hora de partirmos.

 

Becker soltou os travões, empurrou para a frente as manetes do combustível e a aeronave começou a rolar pela pista, ganhando cada vez mais velocidade sobre o pavimento que parecia tremeluzir sob a acção do calor.

 

Sessenta nós informou Hess.

 

Está tudo a correr bem interveio Kahn, abrangendo todos os seus instrumentos num só olhar.

 

Becker deu instruções para que os afterburners fossem ligados.

 

O engenheiro de voo, com o dedo já em posição, accionou a ignição dos dois motores mais afastados da fuselagem, ao que se seguiu o par mais perto desta.

 

Afterburners... os quatro ligados informou. Simultaneamente, ouviu-se um ruído ensurdecedor, que tornou as palavras completamente desnecessárias.

 

Cem nós acrescentou Hess.

 

Metade da pista já ficara para trás e as vagas ondulantes de calor, que se elevavam acima do alcatroado, faziam com que o que restava percorrer parecesse mais curto do que na realidade era. Os charcos de água, fruto de miragens, formavam-se e evaporavam-se a uma velocidade cada vez maior. Becker pestanejou com força. «Concentra-te nos instrumentos, esquece-te dos efeitos visuais», mas continuava a manter o olhar fixo no pára-brisas. Sentia-se atordoado pelas ondas de calor que também distorciam o extremo da pista, dando a impressão de que se acabara o alcatroado. Sentiu as gotículas de suor que se formavam na testa, esperando que Hess não reparasse

 

1 Motor a jacto acoplado ao motor principal para impulso adicional. (N. da T.)

 

nessa manifestação de nervosismo. Desviou o olhar do pára-brisas, onde os raios do Sol se projectavam, e observou o painel de instrumentos, onde os ponteiros do velocímetro se moviam com rapidez. A mão esquerda apertou-se com mais força em redor dos comandos e inconscientemente recostou-se um pouco mais para trás. De forma involuntária, os músculos das nádegas contraíram-se e elevou-se do assento, num movimento quase imperceptível. «Para cima, sobe, maldito sejas!”

 

V-um1 anunciou Hess.

 

O timbre de desinteresse na sua voz mascarava o significado das suas palavras, à medida que a velocidade aumentava até cento e sessenta e cinco nós. Agora não tinham possibilidades de anular o voo, quer quisessem quer não, mesmo que o piscar ininterrupto de uma luz ou o ponteiro de um mostrador lhes indicasse o contrário.

 

V-R acrescentou o engenheiro de voo.

 

Becker começou a puxar a alavanca de controlo com uma ansiedade mais acentuada. O pneu dianteiro do aparelho ergueu-se do alcatroado escaldante e as asas começaram a obliquar em direcção ao firmamento, cortando o ar num ângulo mais alargado. A pista continuava a ficar para trás à velocidade de setenta e cinco metros por segundo e, por breves instantes, ele sentiu que a coragem lhe faltava. Todos os antigos demónios que o haviam assombrado desde os tempos em que aprendera a pilotar um avião começaram a trepidar no seu cérebro. «Há qualquer coisa que não está bem, Becker, e ninguém tem tomates para falar. Porque está a tremelicar o ponteiro daquele mostrador, aquele ali? Afinal, quem construiu este avião? Porque pensas que és capaz de o fazer voar? Abortar! Abortar! Vais morrer, Becker! Abortar!” Sentiu que os músculos do pescoço se contraíam e que as mãos e os joelhos tremiam que nem varas verdes.

 

V-dois informou Hess com uma ligeiríssima entoação daquilo que Becker pensou ser ansiedade na voz.

 

O piloto sentiu que os controlos se soltavam da sua mão quando os pneus principais se elevaram da pista e baixou o olhar para o painel de instrumentos. O velocímetro indicava duzentos e vinte nós, a velocidade de subida aumentava rapidamente e o ponteiro do altímetro deslocava-se ainda com maior celeridade. Becker manobrava a aeronave com a palma e os dedos de uma mão. Sorriu pigarreando.

 

Vamos levá-lo mais para cima o som da própria voz, firme e estável, dava a impressão de expulsar os diabinhos perversos da carlinga, mas ouviu a promessa feita à partida, que lhe era tão familiar: «Da próxima vez, matar-te-emos, Becker.” Esperou que surgisse uma sequência de luzes, após o que continuou num tom desnecessariamente elevado:

 

Potência de subida. E, baixando a voz, acrescentou: Verificação de instrumentos pós-descolagem. Inclinou ligeiramente o aparelho, descrevendo uma curva lateral, para poder acompanhar a rota do avião gémeo, e concluiu: Quando puderes, Peter, pede ao pessoal da cabina que nos traga café.

 

1 Velocidade a que deixa de ser possível evitar a descolagem. (N. da T.)

 

Recostou-se no assento, sentindo os músculos mais descontraídos. O plano de voo previa uma escala em Orly, uma paragem mais demorada no aeroporto de Nova Iorque e o regresso a Lod dentro de vinte e quatro horas. Em seguida, tencionava apresentar a sua demissão com efeito imediato. Há muito tempo que sabia que «aquilo» aconteceria. Sentia-o de cada vez que o seu esfíncter se apertava aquando das descolagens e aterragens, todas as vezes que o ventre ficava lasso, sempre que atravessava uma zona de turbulência, ainda que insignificante, nas ocasiões em que tinha de limpar o suor da testa quando atravessava uma zona de tempestades. Contudo, isso não tinha nada de especial, já acontecera a pilotos melhores do que ele. O truque era encarar a situação bem de frente e dizer:

 

Desisto!

 

Desistes do quê? perguntou Hess.

 

O quê? interrogou por sua vez Becker, virando a cabeça e fitando o colega sem compreender.

 

Desistir do quê? De que vais desistir? Hess continuava a verificar os instrumentos enquanto falava.

 

Vou desistir... de beber café. Esqueci-me, afinal, não quero café nenhum.

 

Hess deixou de fitar o painel, e o seu olhar cruzou-se com o de Becker. Ambos sabiam.

 

De acordo gritou a Kahn: São só dois cafés, Peter.

 

Becker limpou o rosto com a palma das mãos sem tentar ocultar o gesto. Já não era preciso fazê-lo sem que os outros vissem, Hess tinha o direito de saber. Acendeu um cigarro, inalando profundamente o fumo.

 

O Concorde 02 iniciou a sua subida graciosa quase na vertical. Os volumosos trens de aterragem já se encontravam recolhidos no bojo do aparelho e Hess accionou outra alavanca hidráulica, recolhendo os freios aerodinâmicos e activando o mecanismo que permitia a descida do nariz articulado, de forma a colocá-lo a direito. O silêncio instalou-se na cabina de pilotagem, ouvindo-se apenas o zumbido abafado dos instrumentos electrónicos como pano de fundo. Becker imprimiu uma inclinação lateral ao aparelho, começando a descrever uma curva num ângulo de trinta graus, posicionando-o numa rota rumo a ocidente, em direcção a Telavive. O altímetro indicava seis mil pés e, simultaneamente, mil e oitocentos metros, enquanto a velocidade era de trezentos nós. Becker acendeu outro cigarro. Até ali, tudo sem problemas.

 

Manobrou o aparelho de forma a desfazer a curva, recostou-se no seu assento e, com o olhar, abrangeu todos os instrumentos. O Concorde era electronicamente controlado, um pouco à semelhança de uma cápsula espacial, por exemplo, quando se accionavam os pedais dos comandos ou dos lemes de direcção surgia um sinal electrónico, que era enviado para os mecanismos de activação do controlo hidráulico, substituindo os antigos cabos ou bielas que, noutros aviões, cumpriam a ordem. Por seu lado, o computador debitava dados que voltavam a proporcionar estabilidade e resistência artificiais, do que o piloto se apercebia. Os aviadores não estavam acostumados a estes processos, pelo que os técnicos das firmas construtoras decidiram dizer ao computador que propiciasse resistência artificial nos instrumentos de controlo de movimento e direcção. Era apenas uma questão psicológica, reflectia Becker, e tudo aquilo era deveras singular, tornando-se cada vez mais estranho com o advento das inovações tecnológicas. Muito antes de começar a ter receio, sentira aquele tipo de alienação sempre que se encontrava a bordo de uma cabina de pilotagem. Sim, chegara a altura de deixar que a geração seguinte assumisse os comandos.

 

Naquele momento, sobrevoavam uma praia nos arredores de Telavive. Becker pegou no binóculo de campanha que colocara no seu estojo de voo e perscrutou o solo. Num dia normal, aquela praia estaria coberta com milhares de biquinis, mas a realização de exercícios aéreos tinha feito com que toda a gente se mantivesse em casa. Becker avistou a sua, em Herzlya, tal como fazia sempre que a sobrevoava, e distinguiu a espreguiçadeira vazia no relvado, perguntando-se se a sua mulher saberia que ele era uma das razões por que toda a gente das redondezas fora forçada a interromper os primeiros banhos de sol daquela Primavera. À sua frente, espraiavam-se as águas azul-escuras do Mediterrâneo, por baixo de um firmamento azul-celeste. Becker aliviou um pouco a pressão que imprimia aos comandos, aumentando o fluxo de injecção do combustível e o avião ganhou imediatamente mais velocidade e altitude.

 

À sua frente, avistava o 01. Era possível que o Concorde fosse um pássaro de aspecto desajeitado no solo, mas assim que levantava voo era a expressão de uma estética pura, contributo de novas tecnologias, e também um aparelho maravilhoso para quem o pilotava. No entanto, Becker sempre tivera uma sensação de mal-estar ao pensar que os computadores talvez falhassem um dia, quando menos esperasse, ou então que o atraiçoassem. Eram mecanismos extraordinários, com capacidade para fazer um milhar de coisas simultaneamente, o que não estava ao alcance de uma tripulação composta por três homens, por muito que se esforçassem. Esses computadores levavam-no facilmente a uma altitude de sessenta mil pés dezanove mil metros e à velocidade Mach dois, mas ele estava disposto a desistir antes que no tubo de raios catódicos surgisse a mensagem intermitente: «Pilota-o com as tuas próprias mãos, estúpido!» Becker forçou um sorriso só mais duas descolagens e três aterragens.

 

Premiu o botão de transmissão na sua consola, falando para o microfone incorporado nos auscultadores.

 

Controlo de tráfego aéreo, aqui Concorde zero dois da El Al. Termino.

 

Continue, zero dois. Termino.

 

Recebido e entendido. Aeronave da companhia à vista. Estou a trezentos e oitenta nós, acelerando para Mach ponto-oito-zero.

 

Recebido e entendido. Estabilize a cinco mil metros.

 

Recebido e entendido. Premiu o interruptor de selecção, entrando na frequência da companhia. El Al zero um, aqui zero dois. Tenho-o directamente à minha frente e sigo a uma distância de mais ou menos oito quilómetros. Vou aproximar-me para cerca de cinco e colocar-me um pouco abaixo de si. Manter a mesma velocidade.

 

Avidar acusou a recepção da transmissão e continuaram a falar durante mais algum tempo, coordenando a velocidade dos dois aparelhos.

 

Becker subiu até aos cinco mil metros aproximando-se de Avidar e comunicou com o controlo de tráfego aéreo.

 

El Al zero um e zero dois em formação à altitude de cinco mil metros e agora à velocidade de Mach ponto-oito-seis. Esperamos autorização para subir a dezanove mil metros.

 

Recebido e entendido. Mantenham-se a postos. Há um 747 da Air Iran que voa ao nível seis-zero-zero. Manter a altitude de cinco mil metros.

 

Avidar chamou Becker através da frequência da companhia.

 

El Al zero dois, daqui zero um. Veja se consegue contactar o nosso cão pastor. Não estou a vê-lo.

 

Gabriel trinta e dois, aqui Emanuel disse Becker, mudando para a frequência trinta e quatro mil e setecentos.

 

Teddy Laskov tinha estado a monitorizar as frequências do El Al e do controlo de tráfego aéreo, pelo que teve de mudar para o canal trinta e um para poder comunicar com Becker.

 

Emanuel, daqui Gabriel trinta e dois. Estou a recebê-lo bem e a vê-lo, e ao Clipper, na minha posição baixa das onze horas. Deixe um rádio nesta frequência.

 

Gabriel, quando deixarmos a zona de restrição, subimos até dezanove mil metros e aceleramos a Mach dois num ângulo de duzentos e oitenta graus.

 

Recebido e entendido. Continuarei a acompanhá-los. Até agora tudo bem.

 

Até agora. Vou voltar à frequência da companhia. O co-piloto continuará a monitorizar a sua frequência.

 

Recebido e entendido... Termino. Hawkeye, daqui Gabriel trinta e dois. Como estão os seus pontos de radar?

 

O Hawkeye E-2D, que se encontrava a quase cinco quilómetros acima dos dois Concordes e dos F-14, já monitorizara as três frequências em simultâneo e o oficial do controlo aéreo que ia a bordo pegou no seu radiofone.

 

Tenho todos detectados e cartografados, Gabriel. Vê um aparelho a aproximar-se de um ângulo de cento e oitenta e três graus? Aproximadamente a cento e oitenta quilómetros de distância? Não pertence a nenhuma linha aérea com plano de voo escalonado.

 

Laskov falou com o seu oficial de voo, sentado atrás de si, através do microfone acoplado aos auscultadores.

 

Estás a ver alguma coisa, Dan?

 

Daniel Lavon baixou o olhar, observando a combinação de televisor e tubo de raios catódicos.

 

É possível que sim. Detecto qualquer coisa no extremo sudoeste do nosso radar, a pouco mais de cento e sessenta quilómetros... que se aproxima da rota estabelecida no nosso plano de voo.

 

O Hawkeye E-2D, com uma tripulação de cinco homens e uma cabina de pilotagem a que não faltava nenhum equipamento electrónico do mais sofisticado, encontrava-se em melhor posição para detectar e classificar outras aeronaves do que qualquer dos F-14. O técnico de voo a bordo do Hawkeye comunicou com Laskov.

 

Estamos a tentar contactar esse aparelho, mas ainda não obtivemos resposta.

 

Laskov acusou a recepção da comunicação.

 

O controlador do comando de informações do E-2D entrou em comunicação.

 

Gabriel, o aparelho não identificado está a deslocar-se a uma velocidade aproximada de novecentos e sessenta quilómetros horários. Segue numa rota a uma velocidade que o colocará no vosso plano de voo, mas mil e oitocentos metros abaixo do Emanuel e do Clipper, tendo como ponto Je referência a altitude a que se encontram neste momento.

 

Recebido e entendido, Hawkeye. Contactem o filha da puta e digam-lhe que mude a rota ou diminua a velocidade, ou melhor ainda, faça ambas as coisas.

 

Recebido e entendido, Gabriel. Continuamos a tentar.

 

Laskov reflectiu na situação. Dentro de um minuto, o aparelho não identificado estaria no raio de alcance cento e sessenta quilómetros dos seus Phoenix. Se aquela aeronave estivesse equipada com um par de mísseis Acrid russos, só poderia atingir o Concorde a cento e trinta quilómetros de distância, e aquela diferença de trinta quilómetros entre o Acrid russo e o Phoenix americano era crucial. Precisamente por essa razão é que o F-14 era considerado o rei dos céus, pois tinha um raio de alcance muito maior, era como se fossem dois cavaleiros, um com uma lança de cerca de dois metros e setenta e outro com uma de três metros. No entanto, dentro de escassos minutos, Laskov deixaria de desfrutar dessa vantagem.

 

Hawkeye, vou manter este alvo sob mira antes que chegue à distância de cento e trinta quilómetros, a menos que consiga identificá-lo, ou que ele o faça.

 

O general Talman levantou-se da sua cadeira na sala de operações da Cidadela. Agarrou no radiofone e entrou imediatamente em comunicação.

 

Gabriel, daqui controlo de operações. Ouça... você é que tem de decidir, mas, por amor de Deus, avalie todos os aspectos da situação. Fez uma pausa. Aconteça o que acontecer, pode contar com o meu apoio. Termino.

 

Talman não queria sobrecarregar a rede de comunicações com conversas de carácter político, pois todas as eventualidades haviam sido debatidas muito antes daquele dia. Ficou a observar os pontos convergentes nos seus monitores do radar enquanto afagava o bigode.

 

O que Laskov ouvira da boca de Talman não oferecia a mais pequena dúvida: ordem para disparar à vontade, mas sabia que as coisas não podiam ser assim tão lineares.

 

Gabriel, aqui Hawkeye. Ouça. Ele não é... repito, não é... militar, porque não conseguimos apanhar nenhuma emissão sofisticada de radar, em termos tecnológicos, emitida pelo aparelho desconhecido.

 

Nesse caso, porque raio voa à velocidade de novecentos e sessenta quilómetros horários?

 

Muito provavelmente é um jacto civil, Gabriel. Espere um pouco, está a chegar uma comunicação via rádio.

 

Não quero saber se é ou não um jacto civil gritou Laskov pelo microfone. Mesmo que seja, pode muito bem estar equipado com mísseis ar-ar. Arranjem-me a identificação deste tipo, ou ele vai desta para melhor!

 

Não houve qualquer resposta.

 

Entretanto, Danny Lavon começou a falar pelo seu pequeno microfone.

 

General, isto não passa de uma treta de merda. Estou pronto a assumir a responsabilidade. Pode alegar que eu entrei em pânico e carreguei no botão, neste momento já o tenho sob mira...

 

Laskov cortou abruptamente a comunicação e quando soltou o botão que interrompera a conversa pelo sistema que permitia à tripulação comunicar entre si, Lavon já tinha parado de falar.

 

Ouve uma coisa, meu rapaz. Limita-te a seguir as ordens que te derem. Não quero ouvir mais conversas desse género.

 

O oficial do controlo aéreo voltou a entrar no circuito:

 

Gabriel, daqui Hawkey e. Ouça o que lhe digo... Acabámos de falar com o controlo de tráfego aéreo em Chipre. O nosso aparelho não identificado é um jacto civil, um Lear, com licença de registo francesa. Apresentou um plano de voo no Cairo com destino a Chipre, Istambul e Atenas. Leva seis pessoas a bordo, homens de negócios, todos possuidores de passaportes franceses. Já sabemos qual é a frequência deles e o código de identificação. Neste momento, estamos a tentar contactá-los.

 

A tentarem, não é? retorquiu Laskov nada satisfeito. Isso é uma treta de merda. Eles encontram-se num raio de alcance de cento e trinta quilómetros, vocês sabem qual é a frequência deles, para não mencionar que dispõem dos melhores rádios. Qual é o problema, Hawkeyeí

 

É possível que o mal seja deles, Gabriel.

 

Recebido e entendido. Laskov soltou um grande suspiro, olhando através do vidro de plexiglas do pára-brisas do seu aparelho. Os dois Concordes mantinham-se no ar abaixo de si, como se fossem aeroplanos de papel. Clipper e Emanuel, Gabriel chama. Têm estado a monitorizar tudo isto?

 

Becker e Avidar responderam afirmativamente.

 

Muito bem. Digam ao controlo de tráfego aéreo que desejam alterar a vossa rota, seguindo para norte, e peçam autorização para subir sem restrições até dezanove mil metros, imediatamente!

 

Becker e Avidar acusaram a recepção e este último entrou em contacto com o controlo de tráfego aéreo, tendo sido informado de que havia um 747 da TWA e um 707 da Lufthansa acima dos dois, pelo que seriam obrigados a esperar cinco minutos para poderem subir sem restrições.

 

No que lhe dizia respeito, Laskov, que não estava inclinado a esperar nem sequer só cinco segundos, começou a falar com Lavon através do microfone acoplado aos auscultadores. Contudo, resolveu não falar com o resto dos pilotos da sua esquadrilha, porque não queria que Talman ou qualquer outra pessoa ouvisse o que dizia.

 

Arma o Phoenix, Daniel, e prepara-te para manteres o alvo sob mira.

 

Pensou em Miriam Bernstein. «Ainda que o próprio Satanás apareça no ecrã do teu radar... não o varras do céu com um dos teus mísseis.»

 

Richardson: «Veja lá se não dá largas à sua vontade de levar a mão ao gatilho enquanto estiver lá em cima. Não queremos que aconteça nenhum incidente.” Depois recordou-se ainda das complicadas missões em que participara ao longo de toda a sua vida.

 

- Hawkeye, este tipo tem mais ou menos sessenta segundos de vida, a menos que se decida a falar connosco.

 

Desta feita, foi o piloto do Hawkeye quem respondeu.

 

Recebido e entendido, Gabriel. Ainda não conseguimos entrar em contacto com ele. Lamento muito, mas não lhe podemos dizer mais nada. Compreendo a sua posição, faça aquilo que a sua consciência aconselhar.

 

Obrigado agradeceu Laskov.

 

Estou consigo, Gabriel interveio Talman entrando na rede. Começara a pensar que alguma coisa não batia certo. Na hipótese de o sistema de rádio do Lear não se encontrar em boas condições de funcionamento, o piloto deveria ter voltado atrás e aterrado em Alexandria. Não sendo esse o caso, por que motivo não respondia? Escutara o chamamento do Hawkeye, na frequência do Lear, primeiro em francês, em seguida em inglês, depois na linguagem internacional do meio aéreo e, por último, até mesmo em árabe.

 

Esta situação está a cheirar-me muito mal, Gabriel acrescentou Talman via rádio.

 

Assim me parece respondeu Laskov. Qual é a posição dele?

 

Está a cerca de sessenta e cinco quilómetros informou Lavon após ter lançado uma olhadela ao ecrã do seu radar, e continua a subir.

 

Já era tarde de mais para o Phoenix entrar em acção.

 

Armar o Sparrow e... assesta a mira sobre o alvo.

 

Entendido, meu general.

 

Lavon accionou um interruptor eléctrico e em seguida inseriu uma pequena placa negra na consola do armamento. Por baixo do painel havia um botão vermelho sobre o qual colocou um dedo.

 

Gabriel, daqui Emanuel a voz de Becker deixava adivinhar a tensão que sentia.

 

Laskov levantou a mão, interrompendo o que Lavon fazia, e acusando a recepção da mensagem de Becker.

 

Lear está a chamar na frequência da companhia.

 

Recebido e entendido.

 

Laskov aumentou o volume do som do rádio que se mantinha na frequência da El Al e Lavon comunicou com o resto da esquadrilha, dando instruções aos pilotos para que também passassem a escutar.

 

El Al Concorde zero um e zero dois. Aqui Lear cinco quatro. Estão a escutar?

 

Laskov sentiu um arrepio de frio na espinha, pois o sotaque com que o homem falava era inequivocamente de um árabe.

 

Becker e Avidar acusaram a recepção e Lear retomou a transmissão, numa voz baixa e bem articulada.

 

Ouçam com muita atenção, temos uma informação muito importante que lhes interessará.

 

Uma vez mais, Becker e Avidar acusaram a recepção e na voz de ambos adivinhava-se uma entoação de apreensão.

 

Laskov apercebeu-se de que Lear tentava ganhar tempo e falou com Lavon.

 

Quando eu erguer a mão, dispara imediatamente. Entretanto, no centro da sala de operações, Talman imobilizara-se,

 

sem querer acreditar no que ouvia, olhando fixamente para os altifalantes do rádio.

 

Que raio é...? murmurou para consigo.

 

Lear voltou a comunicar e agora a voz expressava-se com muita fluência.

 

Na secção da cauda de cada um dos Concordes foi instalada uma carga explosiva que é accionada por um comando de rádio à distância, um comando por rádio! acentuou ele. Não tenham a menor dúvida sobre o que acabei de lhes dizer. Foi colocada no zero um em Saint-Nazaire e no zero dois em Toulouse e está acoplada ao depósito de combustível número onze. Eu sei que vocês são acompanhados por uma escolta de doze F-14, mas se eu vir o rasto de fumo de algum míssil disparado contra mim, ou o clarão do disparo de projécteis do canhão, não hesitarei em carregar nos botões do meu radiodetonador e mando-os aos dois pelos ares sem qualquer hesitação. Compreenderam o que acabei de dizer? Os F-14 estão a monitorizar as minhas palavras? Entenderam bem?

 

Laskov recusou-se a acusar a recepção da mensagem, limitando-se a olhar fixamente para o vazio.

 

Grande sacana! vociferou Avidar através do rádio, numa voz que tremia de raiva.

 

Recebido e entendido acusou Becker via rádio, numa voz que não denotava a mínima emoção. Depois carregou no botão do sistema de comunicação com a cabina de passageiros, exprimindo-se com grande calma. Agradeço que peçam ao senhor Hausner, ao general Dobkin e ao senhor Burg que venham à cabina de pilotagem. Obrigado.

 

Laskov deixou pender a cabeça sobre o peito. Pura e simplesmente, não era capaz de acreditar no que estava a acontecer. Todo o planeamento que tinha antecedido aquela viagem, todas as precauções quanto à segurança... Da pasta de pele que levava aos pés tirou um binóculo de campanha, que além do uniforme, fora a única coisa que trouxera da URSS. Levou-o aos olhos e começou a perscrutar o céu muito azul. No seu ângulo de visão apareceu o Lear, verde e branco, que se aproximava, deixando uma longa esteira fina formada pelos gases que saíam dos dois motores turbojacto. Estava próximo, de facto, demasiado perto para o mínimo alcance de tiro de dezasseis quilómetros do Sparrow, e longe de mais para o máximo de oito quilómetros de alcance do Sidewinder. O Lear descreveu uma rotação de noventa graus, começando a voar paralelamente ao Concorde 02, e Laskov viu que no plexiglas se recortava uma bolha, na traseira do tejadilho da cabina. Dava a impressão de que alguém observava através dessa bolha, por isso, calculando que essa pessoa teria um binóculo assestado nele próprio, o comandante da esquadrilha baixou o seu.

 

O Lear, quer por uma questão de sorte quer por desígnio do destino, manteve-se dentro do espaço «morto» de oito quilómetros entre o Sparrow e o Sidewinder, área essa que, apesar de incomodar muita gente do meio militar ocidental, na maioria das situações não era considerada crítica. Num voo convencional, Laskov ter-se-ia limitado a ganhar altitude ou retardado o seu voo até estar em condições de lançar o míssil mais apropriado, mas receava fazer manobras abruptas porque sabia que o observador no Lear não desprendia os olhos da esquadrilha, dando-se conta de todos os seus movimentos, por isso manteve a sua rota num curso estável.

 

Arma o Sidewinder para o caso de ele se aproximar mais instruiu em voz baixa, mas sabia que era inútil, o Lear mantinha-se muito perto dos Concordes, pelo que nem sequer podia pensar em disparar os mísseis.

 

O Lear efectuou uma pequena correcção na sua rota de voo, posicionando-se a cento e cinquenta metros abaixo do Concorde 02, logo à frente da sua proa cónica, e do ponto onde Laskov se encontrava, acima dos dois Concordes, mal o conseguia avistar.

 

Talman deixara-se cair desanimado na sua cadeira e o pessoal que trabalhava na sala de operações estava como que paralisado. O general viu que os pontos no ecrã do radar correspondentes ao Lear e aos Concordes convergiam, formando um só, e sabia que Laskov estava de mãos atadas, sem poder disparar os seus mísseis. Aquela maldita situação desenrolara-se com uma rapidez inacreditável. Olhou para o cronómetro digital instalado na parede e verificou que desde que Laskov avistara o Lear no monitor do seu radar até àquele momento tinham decorrido menos de dez minutos. De forma inexplicável, sempre soubera que aquilo acabaria por acontecer, não era preciso mais do que alguns tresloucados, pois com a tecnologia moderna não existiam impossíveis. Qualquer zé-ninguém tinha poder para alterar o destino das nações. Uma bomba atómica lançada sobre uma cidade, um agente biológico colocado na rede de abastecimento de água canalizada, uma bomba a bordo de um Concorde...

 

Hausner, Dobkin e Burg estavam de pé na carlinga enquanto Becker lhes explicava o sucedido. Tom Richardson e John McClure também se lhes haviam juntado, embora sem serem convidados. Tinham visto o Lear a aproximar-se, indício de que qualquer coisa não estava a correr bem.

 

McClure, com uma expressão abatida, encostou-se à consola do engenheiro de voo, mordiscando um fósforo. Era extremamente alto e magro, e lembrava um Lincoln sem barbas. Um sotaque característico da região centro-oeste dos Estados Unidos completava essa imagem.

 

Eu devia ter regressado no voo da Pan Am foi tudo o que disse quando Becker anunciou que estavam a ser sequestrados por piratas do ar.

 

Quer que eu chame o ministro dos Negócios Estrangeiros? perguntou Burg, dirigindo-se a Becker.

 

Não preciso dos conselhos de um político respondeu este, abanando a cabeça. Tomaremos as nossas decisões aqui mesmo, deixem-se ficar por perto.

 

De tempos a tempos, ele avistava a carlinga do Lear, que espreitava por baixo da longa proa cónica do Concorde. Aquilo trazia-lhe à recordação o que um soldado de infantaria lhe dissera certa ocasião no Vietname, descrevendo-lhe como os vietcongues gostavam de se aproximar muito durante um combate, de forma a que os norte-americanos não pudessem recorrer ao seu armamento pesado sem matar os seus próprios homens. Sabia que Laskov se encontrava de mãos atadas e que todos eram impotentes naquela situação.

 

Hausner, absorto, dava a impressão de estar desinteressado do que se passava à sua volta, mas de súbito os seus lábios esboçaram um sorriso estranho. Agora já se lembrava do que até então não conseguira recordar-se. Rish fora avistado em pequenas aldeias de França e, na altura, o nome dessas localidades não tivera o mínimo significado para ele. Nessa época, Israel não possuía nenhum Concorde, mas agora compreendia que essas aldeias obscuras se situavam nas proximidades de Saint-Nazaire e Toulouse. Ocorreram-lhe então à mente as palavras que dissera durante a reunião: «Há treze meses que aqueles pássaros fazem parte da frota das nossas linhas aéreas e desde o dia em que os adquirimos, nunca ficaram fora da vista do pessoal dos meus serviços de segurança.» Esse era o elo fraco da cadeia de segurança. «Desde o dia em que os adquirimos...» Saint-Nazaire, Toulouse. Que grande idiota fora!

 

Becker olhou por cima do ombro dirigindo a palavra a Hausner.

 

Será possível? Estou a referir-me à carga explosiva.

 

Lamento replicou Hausner, com um acenar de cabeça que confirmava essa possibilidade.

 

Becker ainda fez menção de querer dizer alguma coisa, mas virou-se de novo para a frente.

 

Começou a ouvir-se o ruído do rádio e a voz de Matti Yadin chegou através dos altifalantes. Sabia que naquele momento Hausner também estaria na carlinga.

 

Tinha toda a razão, chefe.

 

Hausner não lhe respondeu e entretanto Becker chamou Laskov pela frequência táctica.

 

O que pensa fazer, Gabriel.

 

Mantenham-se na mesma posição.

 

Laskov via a dianteira do Lear, que espreitava por baixo do nariz articulado do Concorde 02, e olhou para o botão que accionava o canhão. Imaginou-se a disparar sessenta balas de vinte milímetros, por segundo, cujo traçado passava por cima do pára-brisas do Concorde, indo atingir a carlinga do Lear, o único óbice era não as ter trazido, mas mesmo que pudesse usá-las não sabia se arriscaria uma acção dessas. Pouco tempo antes tivera uma oportunidade, agora não. Pensou em Richardson e Bernstein e sentiu-se atraiçoado, embora por pessoas cheias de boas intenções, mas, de qualquer modo, atraiçoado. Premiu um botão e a câmara de filmar começou a funcionar, gravando as imagens que se destinavam aos homens da Cidadela. Depois deu um murro na consola à sua frente.

 

A voz vinda de Lear voltou a ouvir-se através dos rádios dos dois Concordes.

 

Presumo que a vossa escolta monitorizou as frequências da El Al. Ouçam com atenção, estou a dirigir-me aos pilotos dos caças F-14. Tenho um observador atento a todos os vossos movimentos e não hesitarei em carregar no botão que fará explodir os Concordes. É-me indiferente se depois morrer. Agora, ouçam o que lhes digo... Devem dispersar e regressar à base, nada há aqui que possam fazer. Caso não obedeçam dentro de sessenta segundos, farei explodir o Concorde que segue na dianteira para que percebam, de uma vez por todas, que falo a sério.

 

Avidar chamou Laskov através da frequência táctica.

 

Muito bem, «cão pastor». E agora o que fazemos?

 

Laskov ainda considerou a hipótese de voar por baixo do Concorde e investir a toda a velocidade contra o Lear, pois era possível que não estivessem à espera de que quinhentas toneladas caíssem sobre eles com toda a violência, e talvez entrassem em pânico. Contudo, mesmo que conseguisse atingi-los, a explosão certamente danificaria o Concorde 02.

 

Gabriel, o que fazemos? insistiu Avidar, fazendo-se ouvir de novo através do rádio.

 

Atenção, Concordes chamou de novo Lear, que transmitia pela frequência da El Al. Julgo que estarão a comunicar com a vossa escolta, mas não lhes servirá de nada. A esquadrilha dispõe de quinze segundos para fazer meia volta.

 

Laskov interrogou-se: os ocupantes do Lear fariam explodir os dois Concordes logo que os F-14 dispersassem, ou quem quer que fossem, os malditos pretenderiam fazer reféns? Mudou de frequência, sintonizando a da El Al e comunicando pela primeira vez directamente com o Lear.

 

Quero que fiquem cientes de que esta é uma comunicação da esquadrilha incumbida da escolta. Nós não tencionamos... repito, não tencionamos dispersar. Vamos regressar todos a Lod e vocês devem seguir-nos e aterrar connosco. Se não agirem de acordo com as nossas instruções, tenho a intenção de... subitamente, a expressão «os ter na mira» não lhe parecia a mais apropriada... não hesitarei em aniquilá-los acrescentou Laskov numa voz serena.

 

A voz vinda do Lear emitiu um riso escarninho.

 

O vosso tempo chegou ao fim. Voltem à base, caso contrário todas estas mortes ficarão a pesar nas vossas consciências.

 

Hausner identificou a voz que transmitia via rádio e pousou a mão no ombro de Becker.

 

Conheço este homem. Diga a Laskov que o nome dele é Ahmed Rish e que não terá pejo em fazer o que diz. Dêem-lhe instruções para que disperse.

 

Não é intenção deles fazerem-nos mal, se fosse esse o caso já teriam detonado as cargas interveio Richardson. Isto é pura e simplesmente um sequestro levado a cabo por piratas do ar. Pergunte-lhes o que pretendem interrompeu-se, fazendo uma pausa. E diga ao Teddy Laskov que estou muito arrependido por causa das balas de vinte milímetros. Becker voltou-se para Burg e Dobkin, e, como ambos acenaram afirmativamente começou a transmitir a Laskov as mensagens de Hausner e Richardson, após o que chamou Lear.

 

Quem são vocês e o que têm a propor-nos?

 

Não interessa quem somos replicou Rish, falando de novo numa voz clara e forte. A nossa intenção é escoltá-los até um local designado por nós, mantendo-os como reféns até que deixem de nos ser úteis, e nessa altura libertá-los-emos. Ninguém sofrerá qualquer dano físico desde que cumpram rigorosamente as instruções que lhes dermos. No entanto, se a escolta não regressar à base dentro de um segundo, tenciono fazer explodir o Concorde da frente.

 

Se existir uma carga explosiva a bordo, não há nada que possamos fazer aqui, meu general disse entretanto Danny Lavon, comunicando com Laskov. Talvez nos possamos afastar e tentar abatê-lo quando chegarmos a cento e sessenta quilómetros de distância.

 

Controlo, vamos regressar à base informou Laskov, chamando Talman.

 

A culpa é minha, Gabriel retorquiu este, comunicando pelo rádio em voz baixa.

 

Laskov sabia que aquela situação não era culpa de ninguém, mas nos próximos dias haveria muita gente a proferir as mesmas palavras.

 

Lear voltou a ouvir-se via rádio e Laskov apercebeu-se de que era a mesma voz a de Rish, só que desta feita perdera alguma da sua compostura inicial. Rish berrava-lhe que voltasse atrás, mas durante alguns segundos o chefe da esquadrilha ignorou as instruções, procedendo a uma avaliação da situação. Perguntou a si mesmo como teria o outro conseguido estabelecer um plano de voo que o colocara tão próximo, em termos de espaço e de tempo, dos dois Concordes, especialmente levando em consideração que a descolagem dos dois aparelhos fora antecipada meia hora. Além do mais, tinha a impressão nítida de que os ocupantes do Lear ouviam tudo o que se dizia através da frequência táctica.

 

O indicador do meu depósito de combustível número três está inoperante informou ele, e, acto contínuo, os F-14 e o E-2D, Talman e os Concordes mudaram para a frequência táctica alternativa. Laskov chamou Clipper e Emanuel nessa frequência.

 

Ouçam começou em voz baixa. Aquele filho da puta monítorizou a frequência táctica primária. Não sei como teve conhecimento dela e também é possível que esteja à escuta nesta, mas mesmo assim vou continuar a transmitir. Não tencionamos abandoná-los. E o E-2D saberá qual a vossa posição a qualquer altura. Vamos manter-nos algumas centenas de quilómetros mais atrás, por isso comuniquem comigo através desta frequência, mantendo-me informado do desenrolar dos acontecimentos. Se houver alguma ocasião propícia em que decidam arriscar, nós atacaremos Com o Phoenix a cento e sessenta quilómetros de distância. Há boas hipóteses de eles não detectarem o rasto de gases, se não estiverem à espera disso. Compreenderam?

 

Um de cada vez, todos acusaram a recepção da mensagem, mas Ahmed pjsh voltou a gritar pelo seu rádio sintonizado na frequência da El Al.

 

Eu sei que têm estado a falar! Já chega de tanto disparate. Basta! Cinco segundos e colocou o dedo sobre um botão, com uma etiqueta que dizia zero um, no radiodetonador. Um, dois, três...

 

Boa sorte desejou Laskov, transmitindo na frequência da El Al.

 

Deu a ordem e a esquadrilha de F-14 descreveu uma curva para a direita num ângulo muito acentuado. Completou uma volta de cento e oitenta graus e, no espaço de alguns segundos, os caças tinham-se sumido no céu.

 

Becker não estava em posição de poder vê-los dispersar, mas, de súbito, sentiu-se muito sozinho.

 

A Avidar não agradava a maneira como a situação estava a ser tratada. Com lentidão, começara a aumentar de velocidade e, pelas suas estimativas, já deveria estar à frente do Lear e do Concorde 02, tendo-se adiantado pelo menos dez quilómetros. Qual seria o raio de alcance de um radiodetonador? Com certeza que não ultrapassaria os dez ou doze quilómetros. Olhou para o seu altímetro. Encontrava-se a uma altitude ligeiramente superior aos cinco mil metros que o controlo de tráfego aéreo estabelecera.

 

Entretanto, este detectara o ponto luminoso que assinalava a posição do Lear, que convergia para aquele que indicava o 02 da El Al, tal como detectara o voo de afastamento dos F-14, embora não tivesse estado à escuta das transmissões feitas na frequência da companhia aérea israelita. Apesar disso, o controlador sabia que algo não corria bem, por isso comunicou com os Concordes.

 

Se estiver tudo em ordem, já podem subir sem restrições até aos dezanove mil metros. Peço desculpa pela demora.

 

Rish, que aparentemente monitorizava a frequência do controlo de tráfego aéreo, instruiu os pilotos para que acusassem a recepção da mensagem, e Avidar e Becker assim fizeram.

 

O primeiro consultou o velocímetro e viu que voava a uma velocidade aerodinâmica de mil quilómetros por hora. Caso imprimisse mais capacidade de aceleração ao aparelho, accionando os afterburners, poderia alcançar Mach um, distanciando-se no mínimo mais três quilómetros em menos de quinze segundos.

 

A voz de Rish voltou a fazer-se ouvir via rádio.

 

Muito bem, estão a mostrar sensatez. Agora mantenham as luzes de navegação ligadas e venham atrás de mim. Vou proceder a um avanço magnético de cento e sessenta graus, a uma velocidade aerodinâmica de trezentos nós. O Al El zero dois seguirá directamente atrás de mim, enquanto o El Al zero um deverá colocar-se em posição logo atrás do zero dois. Vamos descer cento e cinquenta metros. Compreenderam?

 

Becker e Avidar responderam afirmativamente.

 

O Lear começou a descrever a sua curva lateral acentuada para a esquerda, e Becker preparou-se para fazer o mesmo.

 

Asher Avidar accionou os interruptores dos seus afterburners e, em seguida, aumentou o débito de combustível tão depressa quanto os motores tinham capacidade de aceitar, apontando para o centro de uma formação nebulosa à sua frente. Os quatro motores gigantescos Rolls Royce Olympus debitavam setenta mil cavalos de força motriz e o Concorde avançou que nem um raio.

 

O que raio é... gritou Zevi Hirsch a Avidar. Leo Sharett voltou costas ao painel de voo.

 

Asher, não...

 

Matti Yadin, que continuava na carlinga, agarrou Avidar por um braço, mas este empurrou-o com um safanão. Yadin sacou da sua Smith Wesson e colocou-a junto da cabeça do piloto, que num gesto rápido a sacudiu como se fosse um simples insecto irritante.

 

A bordo do Concorde zero dois, Moses Hess tocou no braço de Becker, apontando para o pára-brisas, e Becker viu a aeronave de Avidar desaparecer no meio de uma formação de nuvens.

 

Entretanto, no interior da cabina dos passageiros do 02, já todos se tinham apercebido de que algo não estava bem. Yaakov Leiber debruçou-se sobre as costas de um lugar vazio, observando o desaparecimento do avião que levava a sua mulher, o qual guinara para estibordo, e pouco depois viu que reaparecia saindo de uma nuvem.

 

Um dos seis árabes que seguiam no Lear gritou a Ahmed Rish e este, ao ver que o Concorde 01 se afastava à velocidade de um raio, pegou no radiodetonador, com dois botões vermelhos, que colocara no assento ao seu lado. Sem olhar, colocou o dedo no que tinha marcado 02, começando a fazer pressão, mas então deu conta do engano que estivera prestes a cometer e deslizou o dedo para o que assinalava 01.

 

O Concorde 01 continuava a ganhar altitude, enquanto, automaticamente, o depósito de combustível número onze se enchia, uma vez que o computador determinou que o centro de gravidade do aparelho devia situar-se mais à popa, em sintonia com a velocidade e ângulo a que a aeronave se deslocava. Na cabina de passageiros, o enorme mostrador digital marcava quase Mach um, altura em que as luzes de aviso para colocação dos cintos se acenderam. Os passageiros mostraram-se inquietos quando a força da gravidade os colou aos assentos, no momento em que o avião descrevia uma acentuada curva lateral.

 

Ahmed Rish premiu o botão e o sinal enviado por rádio atravessou os céus, sendo, recebido já enfraquecido, no El Al 01, a onze mil quilómetros de altitude, onde o dispositivo de recepção o transformou num impulso que bloqueou o interruptor e permitiu que a corrente fornecida pelas luzes de navegação da cauda começasse a alimentar o fio eléctrico ligado ao detonador enterrado na carga de explosivo.

 

Naquele momento, o mostrador já indicava que o Concorde ultrapassara a barreira do som e então o depósito da cauda, o qual continha quatro mil litros de combustível, fez explodir a antepara de pressurização e à cabina dos passageiros chegou uma língua de fogo. Automaticamente, as máscaras de oxigénio soltaram-se dos seus compartimentos acima dos passageiros e, acto contínuo, a cabina começou a perder pressurização.

 

Asher Avidar apercebeu-se de que perdera o jogo antes mesmo de ouvir o som da explosão. Subitamente, as suas mãos soltaram-se dos controlos, e as luzes dos instrumentos de bordo começaram a piscar uma a uma; A porta que separava a carlinga da cabina de passageiros abriu-se com a força do impacte, e os membros da tripulação ouviram gritos atrás de si. Hirsch voltou-se, percorrendo toda a extensão do aparelho com o olhar e viu a luz do dia pelo rombo na cauda, mas tudo o que conseguiu dizer foi; «Oh, meu Deus!” Atrás dele, Matti Yadin estava deitado no chão, sangrando de um ferimento na face provocado pela porta. Avidar virou-se para Zevi Hirsch, gritando para se fazer ouvir acima do silvar das rajadas de vento:

 

É preferível desta maneira! Não se pode ceder perante estes sacanas! enquanto o outro, aparvalhado, se limitou a olhá-lo.

 

Becker observava a aeronave gémea, que se esforçava por manter o controlo, e com um distanciamento feito de frieza, ao ver as chamas laranja-rubras, compreendeu que a carga explosiva fora colocada no dispositivo de equilíbrio longitudinal do depósito de combustível número onze um local inacessível a partir da cabina. Calculou que a carga deveria ser de pequenas proporções o maior perigo residia no carburante em combustão. Então em voz baixa, começou a falar com Peter Kahn.

 

Anula os dados do computador e bombeia o combustível todo do depósito número onze. Voltou-se para Hess. Diz aos passageiros, pelos altifalantes, que se juntem na parte da frente da cabina.

 

Perguntava a si mesmo se a antepara de pressurização conseguiria suster o impacte da explosão e só esperava não ser forçado a obter uma resposta.

 

Becker ficou a olhar pelo pára-brisas, atordoado com o que se desenrolava à frente dos olhos, enquanto Hausner, Dobkin, Burg, Richardson e McClure se agrupavam atrás dos assentos dos pilotos, absorvidos pela mesma cena.

 

O El Al 01 iniciou um bailado macabramente belo com a morte e, com as suas asas em delta, guinava, descrevendo movimentos de rotação como se fosse um planador num voo gracioso. Becker adivinhava aquilo por que Avidar estaria a passar enquanto manejava as manetes, válvulas, interruptores e botões, mas estava a perder a batalha.

 

O Concorde 02 acercou-se do seu gémeo prestes a morrer e Becker pediu que lhe passassem o binóculo de campanha para observar as evoluções da aeronave. Houve um pequeno propulsor que tombou do ventre do pássaro ferido e em chamas, o que indicou a Becker que, do mal o menos o computador continuava a funcionar. À semelhança do cérebro lesionado de um animal de grande porte, compreendia que corria perigo, mas, ao contrário do de um ser humano, não era capaz de perceber que o ferimento era mortal, pelo que continuava a debater-se num esforço desesperado para se manter vivo. O computador detectara as falhas nos sistemas eléctrico e hidráulico, por conseguinte o propulsor na verdade uma espécie de moinho de vento foi alisado para dar lugar a um gerador eléctrico e a uma bomba hidráulica. Os franceses haviam classificado aquela solução alternativa como três pratique^, mas, por seu turno, os britânicos apelidavam-na de «em desespero de causa». Becker sabia que, naquelas circunstâncias, a nova fonte de energia só contribuiria para o agravamento da situação. Os fios eléctricos que haviam sido seccionados readquiririam uma nova vida, enquanto os fluidos hidráulicos esguichariam das tubagens perfuradas, extremidades nervosas danificadas e artérias seccionadas. Contudo, o coração mecânico continuava a bater e o cérebro electrónico também não interrompera a sua actividade. Becker, nauseado pela cena que o seu binóculo lhe permitia presenciar, pousou-o e esfregou as frontes.

 

A bordo do Concorde moribundo, Avidar e Hirsch reagiam movidos por puro instinto tentando dar resposta às crises que se sucediam, porque não havia mais nada que pudessem fazer naquele aparelho destroçado, enquanto Leo Sharett continuava serenamente sentado defronte da consola do engenheiro de voo, no desempenho das suas funções, a operação de sistemas, embora já tivesse deixado de existir qualquer sistema que pudesse ser manobrado. Uma a uma, as luzes dos seus instrumentos piscavam intermitentemente e o Concorde começou a despenhar-se com a secção da cauda dobrada sobre a proa, qual folha prateada empurrada por uma brisa suave. E então, misericordiosamente, desintegrou-se numa grande bola de fogo.

 

Aos ouvidos de Becker chegavam os gritos de angústia que vinham da cabina de passageiros, e sobrepondo-se a todas as outras conseguia ouvir a voz do pequeno Yaakov Leiber, que gritava angustiado pela mulher.

 

Becker avistou alguns estilhaços que flutuavam na sua direcção, sendo forçado a executar uma manobra muito brusca a fim de os evitar. Os cinco homens que continuavam de pé na carlinga caíram desamparados e, na cabina, os passageiros foram arremessados para fora dos seus lugares. Fazendo o que devia, Peter Kahn ligou o aviso que mandava apertar os cintos de segurança, e falou através dos altifalantes.

 

Peço a todos que se mantenham sentados, não há motivo para receios e sucintamente começou a explicar a situação.

 

Os que tinham caído na carlinga levantaram-se e Hausner olhou para Dobkin e Burg, mas tanto um como o outro lhe viraram costas.

 

Naquele momento, o Lear recomeçou a transmitir via rádio e uma vez mais se ouviu a voz de Rish, num timbre elevado que denotava um estado de histeria.

 

Foram eles que me obrigaram a fazer isto! gritou. Agora ouçam o que tenho para lhes dizer! Vão seguir-me e proceder exactamente como eu ordenar, caso contrário, partilharão do mesmo destino que eles tiveram!

 

Com um gesto brusco, Hausner agarrou o microfone que estava na consola.

 

Rish, meu grande sacana! Fala Jacob Hausner. Maldito assassino! Quando aterrarmos, quem te matará sou eu, meu grande filho da puta!

 

1 Em francês no original: muito prático. (N. da T.)

 

Depois desta explosão de raiva, iniciou uma longa tirada com invectivas em árabe, muito características da linguagem corrente do Médio Oriente.

 

A voz de Rish voltou a ouvir-se através dos altifalantes depois de Hausner ter acabado de o insultar, mas era evidente que se esforçava ao máximo por se conter, e até falou pausadamente.

 

Senhor Hausner, quando aterrarmos, a primeira coisa que farei é matá-lo.

 

Hausner começou a desfiar outro chorrilho de insultos em árabe, mas Becker arrancou-lhe o microfone das mãos e mudou de frequência, passando à alternativa para comunicar com Laskov, mas só conseguiu captar um prolongado som agudo.

 

A voz de Rish ouviu-se outra vez através da frequência da companhia, mal se distinguindo acima dos ruídos de interferência que vinham do rádio.

 

Já não estão em condições de comunicar com a vossa escolta ou comigo. Limitem-se a vir atrás de mim.

 

O som prolongado e agudo elevou-se ainda mais e Becker reduziu o volume do som em todos os rádios.

 

Ele está a provocar obstruções em todas as nossas frequências, muito provavelmente terá a bordo um transmissor de difusão alargada. Olhou para todos os que se encontravam na carlinga. Parece-me que Rish tem nas mãos as cartas todas e fitou Burg, que, entre os presentes, detinha a posição hierárquica mais elevada.

 

Este fez um gesto vago com a mão. Estava extremamente pálido, o que acontecia a todos, pois a imagem do Concorde 01, com a sua dianteira cónica dobrada por cima da cauda fizera com que todos se sentissem literalmente nauseados.

 

Vou falar com o ministro dos Negócios Estrangeiros e com os outros passageiros anunciou Burg, esboçando outro aceno. Têm o direito de saber o que está a acontecer. Sentia a voz embargada. Com licença e saiu da carlinga.

 

Talvez fosse melhor que a partir de agora deixássemos os pilotos entregues aos comandos do avião sugeriu Tom Richardson depois de pigarrear.

 

Sim anuiu Dobkin, com um gesto de cabeça. Temos de falar com cada um dos passageiros, dando-lhes a saber o que esperamos deles quando aterrarmos. Devemos começar a organizar uma frente de defesa psicológica contra as pressões a que estaremos sujeitos na situação de reféns. É um aspecto da maior importância.

 

Sim concordou Hausner. Boa ideia. Imagino que será um cativeiro muito alongado, pelo menos para si.

 

Não se preocupe com isso, senhor Hausner interveio Richardson. O filho da puta só estava a ver se conseguia assustá-lo. McClure falou pela primeira vez desde que tinha anunciado a sua preferência por um voo da Pan Am.

 

Não seja asno, Richardson. O homem acabou de assassinar cinquenta seres humanos. Se ele ameaçou matar Hausner, pode crer que não descansará até conseguir liquidá-lo.

 

Obrigadinho atalhou Hausner com ironia.

 

É preciso encarar as coisas como elas são acrescentou McClure, descobrindo outro fósforo, de um fornecimento que parecia inesgotável, e colocando-o entre os lábios.

 

O Concorde seguia na peugada do Lear, que rumava ao Sul. Hausner deixou-se ficar na carlinga, enquanto os outros voltavam para junto dos passageiros. Naquele momento, não se encontrava capaz de encarar ninguém, sentia-se inteiramente responsável, quando, de facto, tinham sido as palavras cautelosas de Talman, a par da indecisão de Laskov naquele último minuto, que haviam criado aquela situação. No tocante a Laskov, a sua reacção devia-se ao abrandamento que vinha com a idade os seus apurados instintos bélicos talvez estivessem embotados pela promessa de paz. A todos estes factores acresciam as informações vindas do Hawkeye, assegurando a Laskov que o Lear transportava apenas homens de negócios, a que era preciso acrescentar a precariedade da segurança francesa nas fábricas de montagem. Por fim, ao somatório de todos estes aspectos devia-se juntar tudo o mais que sucedera ao longo do último milénio as circunstâncias tinham-se conjugado para originar uma situação em que tudo convergira sob aqueles céus sem nuvens, a uma altitude de milhares de metros acima das águas do Mediterrâneo. Hausner pôs aqueles pensamentos de parte naquele momento, só desejava ter trocado de avião com Matti Yadin.

 

O general Talman sentara-se no centro da sala de operações na Cidadela, evitando os olhares dos que trabalhavam consigo, incluindo os técnicos que o rodeavam, pois todos tinham presenciado, nos ecrãs do radar, a desintegração do Concorde 01.

 

Talman ainda conseguia acompanhar a posição do Lear e do Concorde 02, que se aproximavam da costa do Sinai, e desde que a imagem no monitor do E-2D continuasse nítida, ele poderia seguir-lhes a rota. Contudo, sabia que mais cedo ou mais tarde, o Lear obrigaria o Concorde a voar quase a rasar a copa das árvores, altura em que lhe perderiam o rasto no meio dos reflexos de objectos no solo que costumavam interferir nas imagens dos radares.

 

O oficial de voo de Teddy Laskov, Danny Lavon, que se mantinha atento ao ecrã do seu radar, chegou à mesma conclusão.

 

Eles estão a perder altitude rapidamente, meu general. Não conseguiremos acompanhar a posição dos aparelhos quando sobrevoarem o Sinai.

 

Laskov não lhe deu réplica.

 

Talman pegou num telefone que tinha a certeza não estar sob escuta e comunicou com todas as esquadrilhas sob as suas ordens. Ordenou-lhes que violassem o espaço aéreo egípcio, seguindo por uma rota que lhes permitisse não perder o Concorde no radar e um dos seus assessores estabeleceu ligação com o Cairo. Os egípcios estavam dispostos a colaborar, mas ainda levaria algum tempo até que o pedido de Israel seguisse os seus trâmites normais.

 

David Becker seguiu o Lear até este chegar a cerca de uma centena de metros do nível do mar e ao fim de muito pouco tempo avistou a costa do Sinai, começando a sobrevoá-la. Para poder ter um ângulo de visibilidade melhor, baixou o nariz articulado do aparelho, enquanto, mais abaixo, o deserto ia ficando velozmente para trás numa sucessão de imagens desfocadas. O poderoso Concorde agitava-se violentamente sempre que atravessava uma corrente de ar ascendente e Becker não sabia o que Rish teria em mente, embora não lhe restasse a mais pequena dúvida de que o homem estava completamente doido. Era relativamente fácil manobrar o Lear por entre aquelas turbulências próprias das altitudes mais baixas, o que não se aplicava ao gigantesco Concorde que Becker mal conseguia manter numa rota estável e equilibrada. A velocidade aerodinâmica que lia no mostrador do velocímetro era apenas de duzentos e cinquenta nós e sabia de antemão que, se aquela se reduzisse mais corria o risco de os motores se irem abaixo. E, contudo, o Lear parecia estar completamente abstraído destas dificuldades, ganhando e perdendo alternadamente velocidade, sempre com o 02 atrás de si. O pequeno aparelho efectuava ligeiras correcções de voo tanto em direcção como em altitude, o que era problemático para Becker conseguir acompanhar, pelo que este chegou à conclusão de que o piloto do Lear não devia ser um profissional com experiência. Becker já accionara os primeiros lemes de profundidade para ter mais margem de manobra, ajustando constantemente o grau de aceleração dos motores e Kahn começou a bombear combustível para o depósito número dez, situado no centro do aparelho, numa tentativa para o manter no grau de equilíbrio apropriado.

 

Becker sentia a boca ressequida e o coração a bater desnorteadamente enquanto mantinha os controlos firmemente agarrados. À sua direita tinha o canal de Suez, abaixo de si via o desfiladeiro de Mitla e à sua frente o solo erguia-se abruptamente. O altímetro mostrava trezentos e trinta metros, ou seja, mil e cem pés, mas a Becker parecia-lhe que continuava a voar a não mais do que os mesmos cem metros acima do solo, altitude que tinha procurado manter desde que atravessara a costa. À distância, distinguia, ainda que a custo, os picos acastanhados envoltos em brumas da cordilheira sul do Sinai, que ele sabia terem uma altura de oitocentos metros, pelo que perguntava a si mesmo se o piloto do Lear se aperceberia de que deviam começar a subir, se é que não queriam embater naquelas montanhas.

 

Dave, este tipo vai-nos matar! desabafou Hess, olhando para Becker.

 

Este aumentou o som do rádio, mas tudo o que ouvia resumia-se aos ruídos de estática provocados pela obstrução de que eram alvo.

 

Grande filho da puta! gritou ao microfone acoplado aos auscultadores. Rish, não podemos manter-nos a esta altitude! És o sacana mais mentecapto que alguma vez se sentou numa carlinga! Mas as interferências no rádio continuavam, obrigando-o a reduzir o som.

 

Que tempo de voo nos resta?

 

Menos de duas horas e meia.

 

Becker olhou para o seu relógio de pulso e viu que passava pouco das dezasseis horas. Se Rish estava a planear uma repetição de Entebe, jamais conseguiriam safar-se.

 

Pois bem, se eu adivinhasse para onde este sacana tenciona levar-nos, já saberia se devíamos estar ou não a borrar-nos de medo.

 

Becker amaldiçoou a sua pouca sorte. Teriam sido apenas mais duas descolagens e três aterragens, mas agora, ao que tudo parecia indicar, isso ficara reduzido a apenas uma aterragem e nada de descolagens.

 

O Lear descreveu uma curva lateral muito acentuada para a esquerda e Becker acompanhou-o, embora o seu grau de curvatura tivesse sido menos acentuado do que o do outro aparelho, mas, quando desfez a manobra, guinou para a direita, e com rapidez corrigiu o rumo, colocando-se de novo atrás do outro. Pediu a Kahn que lhe passasse o binóculo e começou a observar o Lear, que naquele momento se encontrava a cerca de mil metros à sua frente. Conseguia ver com toda a clareza a bolha de observação no plexiglas, pelo que alguém também o olhava com fixidez.

 

Filhos de uma grande puta!

 

Pousou o binóculo, à espera de que os diabinhos que tinha na cabeça começassem a rir-se dele, mas naquela altura eles não estavam presentes. Respirou profundamente, estranhamente calmo e seguro de si como há muito tempo não se sentia. Seria aquele o estado de espírito das pessoas quando se davam conta de que para elas estava tudo terminado?

 

Hausner, que durante todo aquele tempo estivera sentado no assento retráctil, ergueu o olhar.

 

Quais são as hipóteses de a nossa gente conseguir manter-se a par da nossa posição através do radar?

 

A esta altitude, voando a rasar o solo desta maneira, eu diria que nenhumas respondeu Becker, olhando-o por cima do ombro. O E-2D tem uma engenhoca computorizada que é capaz de fornecer imagens, isolando-as dos reflexos de objectos no solo que interferem nos radares, mas há já algum tempo que estamos a sobrevoar o Egipto e não me parece que ele tenha autonomia para nos acompanhar.

 

E quanto aos egípcios?

 

Eles têm Barlocks, de fabrico russo, que conseguem detectar o tráfego que voa a baixa altitude respondeu Hess com um abanar de cabeça, mas aqui encontramo-nos atrás da linha Henri Kissinger e os radares egípcios estão direccionados para oriente, para as linhas israelitas. Muito provavelmente já teremos sido detectados visualmente a partir do solo, mas quando eles conseguirem decifrar o que raio está a acontecer, já estaremos sobre o mar Vermelho, caso nos mantenhamos nesta rota. Seja como for, neste momento não nos podem ajudar, ainda que quisessem fazê-lo.

 

Eu pensei na sugestão de Laskov de disparar um míssil alvitrou Hausner. Aceitaríamos essa hipótese, se ele continuar a seguir-nos pelo radar?

 

Becker replicou, enquanto tentava manter o nível de estabilidade do aparelho.

 

Se ele conseguir saber a nossa posição no radar, e se ainda nos mantivermos no ar depois do crepúsculo, sou capaz de considerar essa hipótese, mas a esta hora não é muito difícil ver o rasto de vapor deixado por um míssil e os sinais enviados aos detonadores electrónicos percorrem o ar mais depressa. Becker começou a manobrar os pedais dos lemes de direcção, quando a cauda do Concorde guinou para a esquerda e depois para a direita. Além disso, voamos muito próximos do Lear, no ecrã de um radar devemos estar pertíssimo um do outro. Teria de ser um disparo feito com muita habilidade para que não fôssemos nós os atingidos em vez do Lear.

 

Vou dar uma olhadela à antepara de pressurização anunciou Hausner, pondo-se de pé.

 

Vá, vá concordou Becker, mas eu já pensei nisso. Não há maneira de entrarmos lá atrás a partir daqui de dentro... tal como você sabe. No entanto, tem a minha bênção para sair e gatinhar até à cauda, caso lhe apeteça.

 

Logo que proferiu este comentário, Becker lamentou tê-lo feito, mas os seus nervos à medida que os minutos passavam estavam cada vez mais à flor da pele.

 

Hausner saiu da carlinga e iniciou a caminhada pela coxia, mas ninguém lhe dirigiu a palavra, só o pequeno e choroso Yaakov Leiber o olhou com fixidez através das suas grossas lentes. Os homens que tinham estado presentes na reunião de segurança voltaram-lhe as costas.

 

Quando passou por Miriam Bernstein, ela tocou-lhe no braço, mas ele ignorou o gesto e fez sinal a dois dos seus homens, que se levantaram de imediato, seguindo o chefe.

 

Hausner dirigiu-se para a copa, na traseira do avião, atravessando-a até um pequeno compartimento onde a tripulação e os assistentes de bordo guardavam as suas coisas e onde também se viam alguns casacos e sobretudos dos passageiros pendurados em cabides ao longo da parede. Afastou-os para o lado e ficou a olhar fixamente para a antepara de pressurização.

 

Talman ouvia os comandantes de cada uma das suas dez esquadrilhas que sobrevoavam Sinai apresentarem os seus relatórios verbais transmitidos via rádio para a sala de operações, nos quais diziam nada terem conseguido avistar a olho nu, nem tão-pouco no ecrã dos radares. Laskov foi o último a apresentar o seu.

 

Vou aterrar em Eilat para reabastecer e quero que os camiões-cisterna estejam à nossa espera na pista. Quando voltar a descolar, não tenciono tornar a aterrar até ter conseguido encontrá-los. Arranje aviões-cisterna americanos, que devem estar a postos para nos reabastecerem no ar da próxima vez que for necessário. Tenciono sobrevoar cada centímetro desta área até os detectar. Os pilotos e os oficiais de voo dormirão e pilotarão à vez.

 

Espere aí, Gabriel interveio Talman, abanando a cabeça. Observou o mapa iluminado que indicava os pormenores da situação e sabia que, minuto a minuto, a extensão de espaço aéreo onde seria minimamente concebível que o Concorde estivesse aumentava em termos geométricos. Olhou para os círculos concêntricos no seu mapa, os quais compreendiam o último ponto onde o aparelho havia sido visto, acima da zona costeira, e verificou que desde essa altura já decorrera meia hora de voo, à velocidade de mais ou menos quinhentos quilómetros por hora e que, além disso, o Concorde poderia ter seguido em qualquer direcção. O raio abrangido pela última circunferência era de duzentos e cinquenta quilómetros, caso se tivesse como referência a velocidade suposta. Deu entrada das informações no computador e procedeu à leitura do mostrador digital: o espaço aéreo a inspeccionar já era de cerca de cento e noventa mil quilómetros quadrados, sem levar em linha de conta as altitudes entre cento e cinquenta e oito mil metros, e cada minuto de voo acresceria o número de quilómetros quadrados e cúbicos. Talman premiu o botão do rádio.

 

Gabriel, regresse à base, não há-de faltar muito para sabermos onde é que estão. Já violámos espaço aéreo suficiente para um só dia, e se até este momento os egípcios se têm mostrado muito pacientes, agora querem que abandonemos o seu espaço aéreo. Prometeram enviar alguns aviões com a missão de procurarem o nosso. Não forcemos a nota, Gabriel, é isso precisamente o que os piratas do ar pretendem e o que estamos a tentar evitar. Volte ao celeiro, meu velho. Fez uma pausa. Isto é uma ordem.

 

Laskov acusou a recepção da comunicação de maneira sucinta e brusca.

 

Talman suspirou e chamou as outras esquadrilhas, mas o que ele não disse através das ondas hertzianas, que podiam estar sob escuta, era que os satélites americanos já estavam a tentar descobrir a posição do Concorde e que os Lockheeds SA-71, aviões de reconhecimento que tinham sucedido aos U-2, também já se encontravam na troposfera, voando à velocidade de Mach três enquanto fotografavam toda a extensão da península do Sinai. As informações recolhidas pelos satélites e os SA-71 levariam alguns dias até ser interpretadas, era uma espécie de tiro no escuro, mas sempre era melhor do que não fazer nada. Talman desconfiava de que os satélites russos e os Mandrakes já estariam também em acção e perguntava a si mesmo se Moscovo telefonaria a Telavive, caso tivesse sorte. O último ás que ainda lhe faltava jogar era o sistema de escuta electrónica, cujos poderosos «ouvidos» tanto da Agência Nacional Norte-Americana de Segurança como dos Serviços Secretos Israelitas poderiam eventualmente isolar um vector no som das ondas longas do dispositivo de obstrução. Em quase todos os países, a nível mundial, havia homens e mulheres, agentes pagos, que se mantinham sentados no piso superior de suas casas trabalhando por turnos e cuja tarefa era escutar e registar todas as transmissões via rádio que fossem emitidas nas proximidades dos locais onde viviam. Mais cedo ou mais tarde, era possível que alguma delas captasse o som de um transmissor de ondas longas que emitisse do ar, de acordo com as instruções que haviam recebido, mas Talman sabia que o Lear, tão próximo do Concorde, transmitiria um sinal extremamente fraco, pelo que as hipóteses de vir a ser captado eram ínfimas, se bem que tal não fosse impossível.

 

O general sentia-se satisfeito, consciente de que fizera tudo o que naquele momento estava ao seu alcance. Pegou no telefone, ligou para o primeiro-minístro e pô-lo a par da situação, após o que lhe apresentou verbalmente a sua demissão, desligando antes que o interlocutor pudesse dizer alguma coisa. Depois levantou-se, aproximou-se do adjunto do chefe de operações, o general Hur, com quem trocou algumas palavras, pegou no chapéu e saiu da sala. Todos o observaram em silêncio até ter fechado a porta atrás de si.

 

O Concorde subiu gradualmente até ao cume das montanhas do Sinai e Becker percebeu que Rish queria que ele se mantivesse a cento e cinquenta metros do solo, mas as elevações e depressões abruptas davam-lhe uma sensação nauseante, como se andasse numa montanha-russa. Vários dos passageiros já estavam com vómitos.

 

O monte mais alto elevava-se à frente deles e o Lear passou-o à justa, com uma margem de segurança de apenas cinquenta metros. Becker empurrou as alavancas do combustível, conseguindo manter-se afastado do cume, enquanto o ponteiro do seu altímetro oscilava vertiginosamente entre os cinquenta e os cem metros e as asas em delta sofriam o impacte das correntes de ar ascendentes. Becker, que já estava farto, voltou a empurrar as alavancas do combustível e subiu a uma altitude acima do Lear, mas este, repentinamente, acelerou e ganhou altitude mesmo à sua frente, o que o obrigou a inverter o sentido do fluxo de combustível, fazendo a estrutura do Concorde estremecer quando os turborreactores estiveram prestes a parar. Com rapidez, accionou de novo as alavancas no sentido dianteiro até ter conseguido ultrapassar a velocidade a que os motores falhariam, mantendo a aeronave a uma velocidade estabilizada.

 

Foi por uma unha negra comentou Hess numa voz um pouco trémula. Calculo que ele queira que o sigamos, independentemente das dificuldades que se nos possam deparar. Deve saber que és um piloto extraordinário, Dave.

 

Becker limpou as gotas de suor que lhe perlavam a testa, enquanto o Lear descia até à altitude anterior, voltando a reduzir substancialmente a velocidade a que voava, com o Concorde sempre atrás. O piloto sentia-se como uma criança obediente obrigada a seguir um inspector escolar que o levava para um lugar desconhecido onde lhe seria aplicado o castigo o sentimento era de humilhação. Sabia, além disso, que Rish estava preparado para provocar uma colisão em pleno espaço, na eventualidade de as coisas não lhe correrem exactamente como ele planeara, e as mãos tremiam-lhe não tanto de medo, mas mais de raiva.

 

Os homens da segurança descarnavam o laminado plástico que revestia a antepara, para o que utilizavam as suas facas de comandos, e Hausner observava a superfície de aço que começava a revelar-se a pouco e pouco, verificando que era impossível perfurá-la.

 

Alguém tem uma boa ideia?

 

Um dos seus homens, Nathan Brin, soergueu-se no chão que oscilava e olhou-o.

 

E que tal uma tentativa desesperada?

 

Deita-a cá para fora.

 

Podíamos retirar a pólvora das nossas munições começou a explicar rapidamente o jovem, levantando-se, colocamo-la num recipiente e improvisamos um engenho explosivo. Em seguida, fazemos uma ligação com um fio eléctrico e provocamos uma explosão, que abrirá um buraco na antepara. Desmanchamos e unimos uns quantos cabides de arame e, com a ajuda de uma lanterna, havemos de conseguir prender o fio que está acoplado à bomba, puxando-o para cima.

 

Hausner virou-se para o outro segurança, Moshe Kaplan.

 

Kaplan, é este o tipo de homem que nos últimos tempos tenho vindo a contratar?

 

Qual é o problema? perguntou Brin, enxofrado, corando que nem um tomate.

 

É perigoso. E o que te leva a pensar que existe um fio em vez de uma bateria?

 

Tem de haver uma fonte de energia no aparelho que alimente o radiorreceptor e também o detonador. Qualquer coisa fez explodir a bomba a bordo do zero um, e não pode ser uma bateria que tenha instalada sabe-se lá há quantos anos argumentou Brin, depois de ter reflectido.

 

Muito bem cedeu Hausner, se de facto for um fio, então terá de estar ligado a qualquer coisa com uma voltagem estável e constante, algo como, por exemplo, a luz de navegação da cauda.

 

Ficou a pensar por uns momentos, após o que, num passo apressado, saiu do pequeno compartimento de bagagens, percorrendo a coxia em direcção à carlinga.

 

Quando ouviu Hausner, que acabara de entrar, Becker voltou-se para trás.

 

Teve sorte? Ouça, a fonte de energia que alimenta o rádio e o detonador pode muito bem ser a luz de navegação da cauda do aparelho. Desligue-aH

 

Becker sopesou aquelas palavras, pois recordava-se de que Rish form bem claro, acentuando que deviam deixar as luzes de navegação sempre ligadas, mas, fosse como fosse, todas as aeronaves voavam sempre com elas acesas. O que o teria levado a dar ênfase a esse aspecto? Na secção traseira existem outras fontes de energia, já que todos os elementos hidráulicos são activados e monitorizados electricamente, incluindo a roda amortecedora e o leme de direcção. Certamente que poderei desligar a luz da cauda e até cortar a energia que alimenta a roda, mas é impossível cortar a energia do leme de direcção, preciso dele para as manobras.

 

Do seu lugar, à frente da consola com os seus instrumentos de bordo, o engenheiro de voo interveio.

 

Eu também já pensei em tudo isso e existem boas possibilidades de que a fonte de energia seja a luz de navegação da cauda, mas qualquer carga explosiva comandada por rádio à distância dispõe de uma bateria que prevenirá qualquer falha, a qual será carregada, com uma carga pequena, mas constante, a partir de qualquer dessas fontes de alimentação na cauda, se bem que tenha sido instalada há vários anos, a bateria do rádio recebe energia a cem por cento sempre que ligamos os motores do avião. Mas também é possível que eu esteja enganado. Podemos desligar a luz de navegação da cauda e a do conjunto da roda do amortecedor e arriscarmo-nos a uma fuga. Talvez nos façam explodir, talvez não. Alguém está disposto a tentar?

 

Ninguém se mostrou interessado naquela alternativa.

 

Hausner sentou-se no assento retráctil e acendeu um cigarro. O entusiasmo momentâneo desvanecera-se.

 

Talvez pudéssemos levantar uma secção do chão da cabina e depois retirávamos a malha blindada e as placas de isolamento, o que nos permitiria abrir um buraco no tecto de alumínio do porão de carga. Uma vez lá dentro, é possível que seja mais fácil chegar à antepara de pressurização da secção da cauda alvitrou ainda, Becker voltou a abanar a cabeça, não lhe agradava que fizessem buracos ou perfurações no seu aparelho.

 

Sabem que o compartimento da bagagem é pressurizado e que a antepara lá em baixo é tão espessa como a da cabina. Mesmo que conseguissem perfurá-la... Quanto a arranjar uma passagem por baixo do chão, não me posso arriscar, existem lá muitos fios.

 

Hausner levantou-se do pequeno assento, forçando um sorriso.

 

Dado o que acabou de dizer, suponho que não lhe agradasse muito a ideia de nos servirmos da pólvora das munições para arranjar um explosivo improvisado, com que abriríamos um buraco na antepara de pressurização.

 

Mau grado os apuros em que se encontravam, Becker riu-se ao ouvir aquela sugestão. Sabia que Hausner era um homem que preferia morrer a ter de enfrentar a vida depois do que acontecera com os Concordes, a menos que, pessoalmente, conseguisse salvar a situação. Em qualquer dos casos, também não desconhecia que sobre ele pendia uma sentença de morte e, dadas as circunstâncias, nunca poderia confiar na sua capacidade de avaliação. Por isso retorquiu:

 

Senhor Hausner, estou-lhe muito grato pelo que está a tentar fazer, mas, na qualidade de comandante desta aeronave, sou forçado a vetar quaisquer sugestões que a possam colocar, e às pessoas a bordo, em perigo. Desde que nos mantenhamos no ar, o único responsável sou eu e não o senhor, nem o senhor Burg, nem tão-pouco o ministro dos Negócios Estrangeiros. Apenas eu. Olhou por cima do ombro. Ouça uma coisa, Jacob, tenho uma boa percepção daquilo por que estamos a passar, mas é preciso levar as coisas com calma. Ainda nos restam mais ou menos duas horas de voo. Vejamos o que vai acontecer.

 

De acordo aquiesceu Hausner, saindo da carlinga.

 

O Concorde sobrevoou o extremo da península do Sinai, em direcção ao mar Vermelho, na esteira do Lear, quando este guinou acentuadamente para a esquerda, rumo à Arábia Saudita. Becker sentia alguma curiosidade quanto ao local onde aterrariam, embora isso parecesse cada vez menos importante.

 

Com a proa articulada em posição descendente e o freio aerodinâmico da cauda na mesma posição, o Concorde parecia mais do que nunca um enorme pássaro marinho desamparado, desejoso de pousar nas águas abaixo de si, mas que, por qualquer razão desconhecida, não o podia fazer. Becker olhou para a crista espumosa das ondas no mar Vermelho, até que começou a sentir-se atraído por aquela visão.

 

Estamos a aproximar-nos da costa, Dave.

 

Passaram rapidamente pela linha do litoral da Arábia Saudita. Tanto quanto lhe era dado ver, o solo era plano, por isso soltou um suspiro de alívio.

 

A partir de agora o voo não será tão mau.

 

É uma maneira de encarar as coisas retorquiu Hess, olhando-o de relance. Queres que eu fique aos comandos durante algum tempo?

 

Becker fitou-o, interrogando-se se o seu co-piloto seria capaz de manter o Concorde em formação naquela situação, e decidiu não estar com rodeios.

 

Consegues pilotá-lo?

 

Até sou capaz de pilotar a grade em que veio embalado. Becker sorriu, largando os comandos, e procurou um cigarro. Sentia-se quase bem-disposto. Se havia alguma ocasião em que um piloto tinha razão não para perder a coragem, era quando sobrevoava o Sinai. Acontecesse o que acontecesse, naquele momento sentia-se confortado ao pensar que aquele, em princípio o seu último voo, fora o melhor de sempre.

 

O Lear ganhou velocidade com rapidez, atingindo cerca de oitocentos quilómetros horários, e Hess esforçava-se por conseguir manter o Concorde a cento e cinquenta metros acima do solo.

 

Um pouco mais à frente, Becker avistou alguns beduínos com os seus camelos, que olhavam fixamente para o aparelho. O Sol, que se aproximava do crepúsculo, projectava no solo a sombra gigantesca em delta, o que fez com que os animais se assustassem dispersando-se desajeitadamente à passagem do avião. Puxou uma baforada do cigarro. Agora, sobrevoando solo plano, o voo não lhe inspirava grandes cuidados, mas Becker sabia que com o aumento de velocidade e à altitude de cento e cinquenta metros, qualquer pequeno abaixamento originaria que se despenhassem no solo, sem qualquer possibilidade de correcção de voo.

 

Resta-nos uma hora e cinquenta minutos de combustível, comandante anunciou Peter Kahn, erguendo os olhos do seu painel de instrumentos.

 

Pouco depois, Dobkin entrou na carlinga e colocou uma mão sobre o ombro de Becker.

 

Como vão as coisas?

 

Tudo bem. Já lhe ocorreu alguma ideia?

 

Fizemos uma pequena reunião na cabina respondeu Dobkin.

 

E...?

 

Bem... chegámos à conclusão de que eles são muito espertos. Em primeiro lugar, não estiveram com grandes arengas de natureza política, o que é habitual neste género de acções, portanto nem sequer imaginamos quem são, excepto que talvez sejam palestinianos, uma vez que Hausner reconheceu a voz de Rish. Tudo isto dificulta extremamente o trabalho dos nossos serviços secretos, que não saberão por onde começar.

 

O que não augura nada de bom comentou Becker.

 

Mesmo nada corroborou Dobkin. Mais ainda, eles alteraram o modus operandi habitual ao obstruírem os nossos rádios, o que só pode significar que vamos para um local secreto. Desta feita não haverá milhares de pessoas nem meios de comunicação social num qualquer aeroporto internacional quando aterrarmos, e também não ocorrerá nenhuma operação de resgate, como em Entebe, uma vez que ninguém saberá onde é que estamos. Vamos ser mantidos incomunicáveis.

 

Becker já chegara a conclusões similares, desconfiara de que seria forçado a aterrar o Concorde no deserto, mas agora tinha a certeza absoluta. Contudo, tal não o impedia de acalentar a esperança de que, no mínimo, tal se fizesse numa pista de terra compacta como, por exemplo, a do Aeródromo de Dawson.

 

Dobkin parecia ter-lhe lido os pensamentos.

 

Conseguirá pousar em qualquer tipo de solo?

 

Sim, menos num campo lavrado, não haverá problemas. Não se preocupe com isso.

 

Vou tentar.

 

Hausner sentou-se ao lado de Miriam Bernstein e começaram a conversar em voz baixa. Ambos partilhavam de um sentimento de culpa, do qual tentavam aliviar-se falando um com o outro. Um dos comissários, Daniel Jacoby, que assumira a chefia do pessoal de bordo, começou a dar instruções para que servissem bebidas e refeições. Hausner pediu um uísque duplo com gelo.

 

Ainda não consigo acreditar que isto me tenha escapado disse ele, mexendo a bebida.

 

Se não fosse assim, eles teriam maquinado outra maneira de levar os seus intentos a cabo retorquiu Míriam.

 

Qualquer que fosse o modo de operar que utilizassem, em última análise eu seria sempre o responsável.

 

Tenho pensado constantemente no Teddy... no general Laskov. Ele caiu na mesma cilada que nós. Sei que teria reagido de maneira diferente se eu não...

 

Ainda não sou capaz de acreditar que os grandes filhos da puta conseguiram levar este golpe avante.

 

Jacob... ouvi dizer que esse tal Rish é seu conhecido. Ele ameaçou...

 

Eu devia ter abatido o filho da puta quando esteve nas minhas mãos.

 

Ele disse, pelo rádio, que tencionava...

 

Não dê ouvidos a essas conversas atalhou Hausner. Nos próximos dias correrão boatos que cheguem.

 

Está lembrado de quando me perguntou... começou Míriam, pousando a mão no braço dele... se eu queria que você viajasse no outro avião...?

 

Não comece a dizer coisas de que venha a arrepender-se quando regressarmos a Telavive redarguiu Hausner, rindo-se. Sou muito capaz de lhe pegar nas palavras.

 

A verdade é que nunca consegui compreendê-lo continuou ela com um sorriso. Sempre tive admiração por si... mas assusta as pessoas.

 

Não quero ouvir confissões de leito de morte. Ainda não estamos preparados para esse momento.

 

De acordo.

 

Enveredaram por outros assuntos e entretanto o jantar foi servido, mas nenhum deles conseguiu comer.

 

Abdel Majid Jabari falava com Ibrahim Ali Arif, o outro delegado árabe a bordo, exprimindo-se num árabe célere, suave e sussurrante. Isto é uma tragédia de proporções incalculáveis. Neste momento, sinto um enorme mal-estar retorquiu Arif, comendo rapidamente enquanto falava. Sinto-me como Daniel no covil dos leões.!

 

Jabari não despregava os olhos do homem corpulento que levava a comida à boca como se esta lhe pudesse fugir.

 

Não esteja sempre a pensar no seu desconforto pessoal, meu amigo. Esta tragédia transcende esse aspecto. Acendeu um cigarro. Sinto-me pior pelos judeus que puseram a sua reputação e carreiras em jogo, apostando na boa vontade dos árabes.;

 

Isso não impede que continue a sentir-me mal, e não acredito em culpa de sangue. Desconforto, sim... culpa, não, tal sentimento é uma emoção muito própria dos judeus. Olhou para o tabuleiro de Jabari, que não tocara na comida. Importa-se...? e colocou-o em cima do seu.

 

Em qualquer dos casos continuou Jabari, bebendo pequenos goles da sua araca, o covil dos leões é lá fora apontou na direcção do Lear. Naquele avião seguem compatriotas nossos, e é preciso olhá-los bem de frente... sem que se sinta o mínimo mal-estar. Não duvide de que viremos a partilhar do destino deles.

 

Devíamos ter essa sorte, meu amigo disse Arif, rindo-se entre garfadas. Ainda que eventualmente sejamos libertados, sabe muito bem que estamos marcados, somos sempre alvo de uma atenção muito especial. Somos homens que não têm pátria, nem povo, nem paraíso celeste, ficámos condenados à desgraça. Parece-me que sou capaz de comer outra refeição. Comissário!

 

O Lear rumou em direcção ao Norte com o Concorde atrás, abandonando o espaço aéreo da Arábia Saudita e dirigindo-se para o Iraque. O Sol já descera no horizonte, projectando sombras alongadas sobre o solo laranja-purpúreo. Becker começou a sentir-se mais preocupado.

 

Tempo de voo?

 

Meia hora respondeu Kahn.

 

Uma das coisas que sempre fascinara o piloto no Médio Oriente era a ausência de um crepúsculo autêntico. Num minuto havia luz, para no seguinte se ter feito escuridão. De dia, a aterragem em qualquer lugar que não fosse um campo de aviação já era perigosa; à noite podia ser um desastre.

 

O que vai acabar em primeiro lugar, Peter?

 

Kahn sabia a que é que ele se referia e já abrira um atlas.

 

Nesta região, o Sol põe-se oficialmente às dezoito horas e dezasseis minutos e o fim do dia, o crepúsculo náutico, ocorre cinco minutos mais tarde. Neste momento são dezoito horas. Dispomos de vinte minutos de claridade e de vinte e nove de combustível, aproximadamente.

 

Becker avistava a Lua acima do horizonte que escurecia diante de si. Na orla escura da noite viam-se algumas estrelas esparsas e para norte, à esquerda do pára-brisas, a Estrela Polar começava a surgir. Por baixo, as sombras projectavam-se mais alongadas, a cor púrpura tinha dado lugar ao negro. O deserto era inacreditavelmente belo, pensou.

 

Olha! disse Hess chamando-lhe a atenção.

 

Becker olhou através do pára-brisas e percebeu que, à distância, o solo era em declive, onde distinguiu uma faixa de terra verde e luxuriante. Avistou um rio sinuoso, que atravessava maciços de tamareiras, e para lá dele, naquele momento quase por baixo de si, viu outro com um curso longo e também sinuoso o Tigre e o Eufrates. Ao longe, as montanhas do Irão elevavam-se a mil metros e o altímetro de bordo indicava que o solo descera de cento e oitenta metros acima do mar até quase ao nível deste. Agora, a indicação era de que o aparelho se encontrava a quase trezentos metros acima do solo, mas o Lear não fez menção de se preparar para descer para os cento e cinquenta metros anteriores.

 

Isto só pode ser o fim da linha comentou Hess.

 

Becker observava a área entre os dois rios a Mesopotamia, o Crescente Fértil, um dos berços da civilização. Depois da longa extensão de deserto de terras castanhas, aquela paisagem era um autêntico lenitivo para a vista. Perguntou-se se rumariam a norte, em direcção a Bagdade, e no seu subconsciente procurava o rasto de vapor de um míssil lançado por Laskov. Apagou o cigarro e virou-se para Hess.

 

A partir daqui, sou eu quem o leva.

 

O Lear descreveu um semicírculo alargado para o lado esquerdo e Becker foi no seu encalço, mas o outro começou a perder altitude, o que lhe deu a saber que o destino não seria Bagdade.

 

Hess carregou no botão que ligava o aviso para que os cigarros fossem apagados e os cintos de segurança apertados, e depois falou pelo microfone do sistema de comunicação com a cabina de passageiros.

 

Estamos a efectuar a aproximação para a aterragem. Por favor, permaneçam sentados. A partir de agora não podem fumar.

 

Agradece-lhes por terem voado com a El Al gracejou Becker com sarcasmo.

 

Não tem graça nenhuma retorquiu Kahn.

 

Como estamos de combustível?

 

Tecnicamente secos respondeu Kahn.

 

Deixa-te de tecnicismos.

 

Talvez uns dois mil litros respondeu Kahn após alguma hesitação.

 

Becker acenou com a cabeça. Eram cerca de cinco minutos de voo em condições favoráveis. Se iniciasse já as manobras, poderia fazer uma aterragem em condições perfeitas, mas no caso de esta abortar e ser necessária outra tentativa de reaproximação ao solo, não teria condições para a efectuar. Esperava a qualquer momento que os motores começassem a parar um a um.

 

O Lear concluiu uma volta num ângulo de noventa graus e dirigiu-se para norte, assumindo um curso a direito no sentido descendente.

 

À distância, Becker avistou uma estrada em linha recta que se estendia de norte a sul.

 

Estou em crer que aquilo é a nossa pista de aterragem. E, executando uma manobra em círculo, colocou-se atrás do Lear. Hess accionou as alavancas de aterragem e baixou os freios aerodinâmicos para a aproximação inicial. Já vi melhor comentou. O Sol tinha desaparecido quase por completo, pelo que a estrada mal se via. Em ambos os lados, Becker distinguia vegetação rasteira e um terreno irregular. Deram início à aproximação final.

 

Dobkin e Hausner entraram de rompante na carlinga e o primeiro gritou qualquer coisa a Becker.

 

Voltem aos vossos lugares! protestou Becker, encolerizado. Estou a tentar fazer com que este maldito avião aterre minimamente em segurança!

 

Nenhum dos homens fez qualquer menção de sair da carlinga.

 

Fizemos uma votação informou Hausner.

 

Isto aqui não é o Knesset. Estejam calados!

 

Mais abaixo, acenderam-se quatro pares de holofotes nas duas bermas da estrada, que ficou parcialmente iluminada, e alguém acenava com uma luz de grande potência, indicando o que Becker assumiu ser o ponto onde deveria efectuar a aproximação ao solo. O Lear sobrevoou esse ponto e Becker viu os freios aerodinâmicos que desciam. Sacudiu a cabeça, numa tentativa para afastar a fadiga, e verificou que os instrumentos de bordo pareciam estar desfocados. Soergueu o olhar para o pára-brisas, mas o clarão das luzes, mais abaixo, incomodava-o. Naquele tipo de situação era possível ficar rapidamente desorientado e sabia de pilotos que tinham tentado aterrar de pernas para o ar quando a fadiga se apoderara deles, o que se devia a deixarem de olhar para o painel de instrumentos, passando ao contacto visual físico. Assim, enganavam-se, pensando que as estrelas eram luzes de aterragem e os rios pistas. Esfregou os olhos.

 

A votação foi unânime insistiu Hausner, que se aproximara. Caso contrário, não a teríamos levado em consideração.

 

Becker abrandou a força que fazia nas alavancas do combustível, dizendo a Hess que accionasse os freios aerodinâmicos em toda a extensão. Com uma mão manobrava os comandos e com a outra as alavancas. Tentou alinhar a dianteira cónica entre as luzes dos holofotes, mantendo os olhos fixos nas luzes de navegação do Lear.

 

Que votação? De que raio está para aí a falar? Vou fazer uma aproximação final à pista mais estuporada em que alguma vez tive de aterrar. O que quer?

 

A bomba não serve de nada no solo respondeu Hausner, falando com rapidez. Becker! O máximo que fará é amolgar a cauda do aparelho.

 

Continue.

 

Becker viu que o Lear tocou no solo com um ressalto e o Concorde passou por cima do ponto de início da aterragem. Deu então mais aceleração aos turborreactores e a poderosa aeronave roçou a pista.

 

O nosso voto foi unânime, decidimos oferecer resistência informou Hausner. Os meus homens têm algumas armas. Consegue aterrar noutro sítio qualquer? perguntou quase aos gritos.

 

Becker sentia a almofada de ar que se formava abaixo das amplas asas.

 

Porque não me fez essa pergunta há dois minutos? inquiriu Becker também aos gritos.

 

Por baixo das asas do Concorde, vindos de ambos os lados, surgiram camiões e homens. O piso era mau, fazendo com que o aparelho ressaltasse perigosamente. Cerca de dois quilómetros mais adiante, no ponto onde teria de imobilizar o avião, avistou outro grupo de veículos com os faróis acesos.

 

À sua esquerda, à frente, via-se uma colina elevada cujas encostas apresentavam um declive suave e que Becker tinha quase a certeza de que se elevaria acima da margem do Eufrates. Hausner gritou-lhe mais qualquer coisa e, antes de ter tempo para pensar racionalmente, Becker tomou uma decisão rápida: empurrou as alavancas que regulavam o fluxo de carburante e a gigantesca aeronave voltou a elevar-se. Depois, aplicou toda a sua força aos comandos e sobre os pedais dos lemes de direcção, e o Concorde desviou-se da rota, guinando para a esquerda, na direcção do Lear.

 

Este já rolara para o lado esquerdo da estrada, parando entre os grupos de veículos que Becker avistara perto do ponto onde deveria ter parado. De pé sobre uma das asas do Lear, Rish observava a manobra de Becker. Inicialmente, pensou que o Concorde ressaltara de maneira mais brusca do que o desejável, pelo que estaria a patinar, resvalando para fora da estrada, mas foi então que reparou na posição do leme de direcção e nos freios aerodinâmicos. Baixou-se, voltou a entrar no Lear, desligou o dispositivo de obstrução do rádio e começou a berrar pelo microfone.

 

Pare! Pare!

 

Estendeu a mão para o radiodetonador no momento em que o Concorde se arremessava violentamente na sua direcção, apenas a uns escassos metros acima do solo e a uma velocidade de mais de trezentos quilómetros, com o trem de aterragem semidescido. As asas em delta proporcionavam uma grande almofada de ar, e Becker apontou para a elevação de terreno à sua esquerda. O ruído em surdina da estática que se ouvia no rádio cessou então, dando lugar à voz de Rish, que berrava descontroladamente. De facto, avistou o Lear a menos de cinquenta metros à sua frente, directamente no seu caminho, e durante um momento de loucura temporária, ainda pensou em embater nele, mas compreendeu que o facto de matar Rish não os salvaria do mesmo destino, uma vez que, se colidisse com o Lear àquela velocidade, poderia fazer com que todos a bordo perecessem. Era forçoso que se afastasse do outro avião.

 

Naquele momento já não tinha possibilidade de recorrer às alavancas do combustível nem aos afterburners, pois, caso o fizesse, o Concorde elevar-se-ia e quando a cauda desaparecesse, devido à explosão, morreriam todos ou, ainda, se os afterburners consumissem o pouco combustível que lhes restava e os motores parassem, a morte também seria inevitável. Devia manter o aparelho num voo rasante, mas não a uma velocidade que os pusesse em rota de colisão com o Lear, ou que fossem embater em qualquer outro obstáculo. Becker susteve a respiração quando o Concorde passou disparado por cima do Lear e foi por pouco que o trem de aterragem não bateu no pequeno jacto. Agora tinha pela frente os restos de uma antiga construção, mas decidiu arriscar, começando a puxar os comandos gradualmente para trás. A proa elevou-se ligeiramente, e quando passou por cima das ruínas sentiu que a roda do amortecedor lhes batera. O Concorde estremeceu, Becker voltou a puxar os comandos para trás e a dianteira cónica elevou-se, ficando à altura da colina que se erguia defronte de si. Gostaria de ter descrito uma curvatura acima do rio, mas apercebeu-se de que só tinha dois segundos antes que Rish carregasse no botão.

 

O Lear oscilou violentamente contra os blocos de madeira que o impediam de se deslocar quando o Concorde passou a rasar-lhe o tejadilho. Os detritos que a deslocação do ar ergueu do chão elevaram-se, batendo na pequena aeronave e atingindo também os homens e veículos à sua volta, enquanto do solo se elevava uma gigantesca nuvem de poeira, que cegou todos os que se encontravam nas proximidades. Rish começou a apalpar, à procura do radiodetonador, encontrou-o e tacteou até sentir os botões.

 

Becker accionou as alavancas do combustível para trás, ouvindo Rish, continuava a gritar através do rádio, e o trem de aterragem principal tocou no cume lateral da colina quando o nariz articulado do Concorde começou a subir. Becker reverteu então a força de impulso frontal dos motores, a roda do amortecedor traseiro bateu, ressaltando, a proa descaiu e o trem de aterragem tocou no solo. A aeronave sofreu um forte impacte, arremessando para o chão os homens que estavam atrás de Becker, enquanto o sistema computorizado que accionava os travões aplicava e aliviava alternadamente a pressão exercida sobre as rodas. Os pneus quase se desfizeram e foi então que a secção da cauda explodiu.

 

Becker desligou imediatamente os quatro motores, Hess puxou a alavanca do extintor de incêndios e Kahn desligou todos os sistemas. O Concorde entrou desconsoladamente em declive, sugando, com um som doentio, detritos para o interior dos turborreactores. Dois destes imobilizaram-se por completo, o único som que se ouvia vinha do que restava dos pneus, que ressaltavam sobre o pedregoso solo da colina.

 

Becker sentiu os pedais dos lemes de direcção lassos antes mesmo de ouvir a explosão, e como sabia que ainda havia alguns restos de combustível no depósito número onze tentou imaginar qual a gravidade dos danos, perguntando a si mesmo se a antepara de pressurização teria aguentado. Uma segunda explosão de um depósito de combustível cheio destruiria completamente a aeronave, que, sem a cauda e o leme de direcção, ficaria inteiramente desgovernada, até mesmo em terra.

 

De súbito, o trem de aterragem dianteiro deu de si e todos os que se encontravam na carlinga foram violentamente projectados para a frente. A proa articulada afocinhou, abrindo um sulco profundo no solo, enquanto o Concorde continuava a rolar desgovernado. Os detritos provocados pelo impacte do nariz do avião começaram a embater no pára-brisas, causando fissuras que formavam uma teia de aranha. Por puro instinto, Becker accionou o interruptor de um dos sistemas hidráulicos, e logo o visor de protecção começou a subir a toda a altura do pára-brisas. O piloto agachou-se no assento, olhando para cima e para fora da carlinga inclinada, e ao ver mais à frente, a pouco menos de cem metros, uma estrutura semiarruinada preparou-se para o embate. De súbito, algo parecido com uma pedra perfurou o pára-brisas antes que o visor de protecção tivesse subido completamente, e os estilhaços de plexiglas foram projectados para o interior da carlinga, cortando a face e uma mão de Becker.

 

Segurem-se! gritou ele, e o Concorde começou a abrandar, até que se imobilizou a escassos metros da estrutura.

 

Estão todos bem? perguntou Becker e, erguendo o olhar para a direita, viu Moses Hess caído desamparado em cima da coluna dos comandos, com sangue a escorrer-lhe de um ferimento na cabeça. Directamente à frente dele havia um buraco enorme no pára-brisas.

 

Se tencionam dar luta, ponham-se a andar, saiam imediatamente do raio do avião! gritou para os que estavam atrás de si.

 

Evacuar! gritou Peter Kahn, pondo-se de pé. Assistentes de bordo! Evacuação de emergência!

 

Yaakov Leiber já desapertara o cinto de segurança antes mesmo de o aparelho se ter imobilizado por completo. Correu para a porta a bombordo da proa, fez girar a alavanca de abertura e abriu-a toda para trás. Ao fazê-lo, activou as botijas de ar, insuflando a rampa de emergência e os seis homens de Hausner foram os primeiros a sair. Os dois comissários de bordo ajudaram os outros passageiros, enquanto as hospedeiras abriam as duas portas de emergência, por cima das asas, para que a evacuação fosse mais rápida, pois era possível saltar dali para o chão, a altura não era demasiada, e algumas pessoas preferiram usar aquelas saídas.

 

Hausner levantou-se e, meio a correr meio a gatinhar, dirigiu-se para a porta de estibordo da carlinga. Abriu-a, saltou antes que a rampa de emergência tivesse tido tempo para se insuflar completamente e, mal chegou ao solo, começou logo a gritar ordens aos seus homens.

 

Desçam a encosta! Mexam-se. Os sacanas não tardarão a subir pela estrada! Por ali! Avancem cem metros!

 

Dobkin seguiu Hausner pela mesma saída e fez uma rápida avaliação da situação. Encontravam-se em terreno elevado, o que era uma vantagem, e a área em redor do aparelho era plana. Para oriente, a encosta descia suavemente até à estrada, para ocidente, o talude caía a pique até ao rio, mas, na escuridão, não conseguiu ver os extremos norte e sul. No tocante ao armamento, dispunham apenas de meia dúzia de armas de calibre vinte e dois, uma metralhadora Uzi e uma espingarda, e por certo que os árabes teriam muito mais armas. Soergueu o olhar até à secção da cauda, seriamente danificada, mas isso agora deixara de ser importante. A antepara traseira de pressurização devia ter explodido, o que deduzia ao ver as bagagens espalhadas pelo caminho que o Concorde percorrera. Estojos com artigos de higiene, sapatos e peças de vestuário que haviam caído no sulco fundo, quais sementes grotescas à espera de serem cobertas aquando da sementeira da Primavera. Os últimos raios de Sol desapareceram no horizonte, dando lugar às estrelas brancas e frias que enchiam o céu. Repentinamente, Dobkin sentiu um arrepio, compreendendo que o hamseen também soprava naquela região. Aquela noite seria longa e fria e perguntou-se se ele ou algum dos seus companheiros de viagem veriam o nascer de um novo dia.

 

Isaac Burg encontrava-se sobre a asa em delta inclinada, observando os outros passageiros que saltavam. Voltou-se e subiu para a fuselagem, dirigindo-se para a secção danificada da cauda. Firmou-se bem, agarrando-se a uma longarina retorcida e observou a estrada lá em baixo a cerca de meio quilómetro. Avistou os faróis de camiões que oscilavam na vertente acidentada, a par de silhuetas a correr à frente dos veículos, que seguiam em marcha lenta. Empunhou a sua arma, um Colt.45 do Exército americano, e ficou à espera.

 

Jabari e Arif deslizaram pela rampa de emergência correndo para se afastarem da aeronave o mais depressa possível. O primeiro ajudava o outro, cuja corpulência fazia com que tropeçasse. Ambos caíram, e depois rastejaram, procurando a protecção de uma pequena elevação do solo. Decorridos vários segundos, Jabari começou a espreitar por cima do montículo.

 

Não me parece que vá explodir. Arif, ofegante, limpou o suor do rosto.

 

Não sou capaz de acreditar que votei a favor da resistência.

 

Tu próprio disseste que estavas condenado, qualquer que fosse o desfecho da situação retorquiu Jabari, soerguendo-se. Tão condenado como Jacob Hausner. Ouviste o que se disse anteriormente? Ele esbofeteou Rish quando este esteve detido em Ramalá.

 

Má sorte para Hausner, mas do mal o menos, ele terá morrido por um motivo. Eu nunca dei uma bofetada a ninguém, salvo à minha mulher, mas o Rish cortar-me-á a garganta com tanto regozijo como quando degolar o Hausner.

 

És um homem muito egocêntrico, Ibrahim retorquiu Jabari, acendendo um cigarro.

 

Quando se trata da minha garganta, assim é.

 

Anda disse Jabari, levantando-se. Vamos ver onde e de que maneira eles se propõem oferecer luta. Talvez possamos ajudar.

 

Por mim, tenciono ficar aqui retrucou Jabari, que continuava sentado. Vai tu. Retirou o pano axadrezado que trazia enrolado à cabeça. E agora, estou com um aspecto mais de judeu?

 

Contra vontade, Jabari teve de se rir.

 

Como está o teu hebraico?

 

É melhor do que o que os membros do Knesset falam.

 

Pois bem, Ibrahim, se chegarmos a isso, vale a pena tentar.

 

Avraham... aronson.

 

Tom Richardson encontrava-se na encosta que dava para a margem do rio, observando o Eufrates, que mais abaixo corria lentamente no seu leito. John McClure aproximou-se por trás apoiando um pé em cima de uma pequena saliência de terreno, e Richardson reparou que o outro empunhava uma arma. Esfregou as mãos frias.

 

Isto foi uma decisão errada.

 

Talvez retorquiu McClure, cuspindo o fósforo e procurando outro nos bolsos.

 

Olhe uma coisa... Não me sinto na obrigação de ficar por aquj Não me parece que haja alguém na margem do rio. Vamos, amanhã a esta hora já podemos estar em Bagdade.

 

Como sabe onde estamos? perguntou McClure, fitando-o. Richardson permaneceu imobilizado e em silêncio.

 

Fiz-lhe uma pergunta, coronel.

 

Richardson obrigou-se a fitar McClure, olhos nos olhos, e manteve o seu fixo, continuando sem proferir palavra.

 

McClure deixou que o silêncio se arrastasse durante alguns segundos, depois, ergueu a pistola, reparando no ligeiro pestanejar de Richardson.

 

Parece-me que prefiro ficar por aqui acrescentou suavemente.

 

Pois bem, eu opto por me ir embora retorquiu Richardson, olhando para a enorme pistola.

 

McClure avistou o reflexo de várias lanternas que se deslocavam ao longo da margem do rio, à distância de cerca de três estádios de futebol, era a sua única forma de calcular distâncias. Trezentas jardas, aproximadamente duzentos e setenta metros no ridículo sistema métrico.

 

Eles já nos cercaram acrescentou, apontando.

 

É possível que sejam civis alvitrou Richardson, sem se dar ao trabalho de olhar.

 

Talvez sim.

 

McClure ergueu a pistola, uma Magnum Ruger de grandes dimensões, e com as duas mãos fez pontaria e disparou duas balas na direcção das luzes, prontamente respondidas por uma série de tiros de armas automáticas. Os dois homens agacharam-se quando as balas procuravam atingi-los.

 

Recoste-se e relaxe disse McClure, voltando a carregar a arma. É possível que tenhamos de ficar aqui por muito tempo.

 

Nathan Brin apoiou a M-14 em cima de uma pedra, ligou a mira telescópica com visão nocturna, alimentada por uma bateria e observou a paisagem em seu redor. A visão nocturna emprestava aos objectos uma luminosidade esverdeada de aspecto espectral. Girou a lente até conseguir uma boa definição de imagem e viu que estavam entre as ruínas de uma antiga aldeia. Na sua perspectiva, toda aquela cena se revestia de aspectos acentuadamente lunares tudo exceptuando os cerca de vinte árabes que subiam sem grandes pressas a encosta, vindos da estrada. A uma escassa centena de metros atrás, os camiões tinham-se detido no sopé da encosta. Naquele momento, os árabes encontravam-se a cerca de duzentos metros. Brin posicionou o fio de retículo de forma a ter em mira a região acima do coração do homem que vinha à frente, Ahmed Rish, mas não o reconheceu. Premiu ligeiramente o gatilho, mas então recordou-se da instrução militar que recebera e desviou a arma, fazendo pontaria ao que fechava a fila. Premiu o gatilho com mais força, o silenciador e o supressor de clarão entraram em acção e o único som que se ouviu foi o do tirante accionado para a frente e para trás. O homem caiu sem sequer soltar um gemido, mas os outros, que obviamente não deram pela falta dele continuaram a subir a encosta.

 

Brin apontou na direcção do que passou a ser o último da fila e, uma vez mais, puxou o gatilho. De novo, a única coisa que se ouviu foi o som metálico da cavilha a embater no tirante e o homem caiu imediatamente por terra. Brin sorriu. Estava a divertir-se, a despeito da educação que recebera, contrária ao que estava a fazer. Uma vez mais, escolheu um alvo, voltou a disparar e um terceiro homem caiu, mas aparentemente emitiu um som, pois de súbito os árabes dispersaram-se, procurando o abrigo das rochas. Brin endireitou-se, abrigado atrás de uma pedra e acendeu um cigarro. Tinha conseguido, para o melhor ou para o pior, estavam empenhados na luta, perspectiva que lhe dava bastante satisfação. Ouviu um ruído atrás de si e voltou-se, empunhando a espingarda, e viu que Hausner o olhava com fixidez.

 

Está tudo bem? perguntou Brin com um sorriso.

 

Tudo respondeu Hausner.

 

Becker perscrutava o que tinha à sua frente, tentando ver por entre as trevas daquela noite escura.

 

Onde diabo estamos?

 

Peter Kahn, que tomara nota das coordenadas indicadas pelo sistema de navegação giroscópico antes do impacte, lia a carta aérea à luz do sistema de energia de emergência.

 

Boa pergunta.

 

Becker abriu o fecho do seu cinto de segurança, levantou-se e amparou com as mãos a cabeça de Hess. O crânio do co-piloto tinha sido esfacelado por um grande tijolo, agora caído no seu colo, e ele não mostrava sinais de vida. Becker largou a cabeça, pousando-a com suavidade, limpou à camisa branca o sangue que lhe manchara as mãos e voltou-se para Kahn.

 

Ele está morto, Peter.

 

Kahn concordou, acenando com a cabeça.

 

Bom... temos de voltar ao trabalho prosseguiu o piloto, limpando o suor do rosto. Onde diabo é que estaremos?

 

Kahn consultou outra vez a carta aérea, fazendo nela uma marca com o transferidor.

 

Na Babilónia respondeu, erguendo o olhar. Aterrámos perto dos rios da Babilónia.

 

Becker colocou a mão sobre o ombro de Kahn, debruçando-se sobre o mapa.

 

Sim. Nós chorámos quando nos recordámos do Sião.

 

                                        BABILÓNIA AS TORRES DE VIGIA

 

Junto dos rios de Babilónia estávamos sentados e chorando, lembrando-nos de Sião. Ali, sob os salgueiros, suspendemos as nossas harpas. Era lá que eles nos pediam os nossos carcereiros, cânticos; os nossos verdugos, alegria; «Cantai para nós cânticos de Sião.» Como cantar os cânticos do Senhor numa terra alheia? Se de ti, Jerusalém, eu me esquecer, seja ressequida a minha dextra. Pegue-se a minha língua ao palato, se me não lembrar de ti, se não colocar Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.

 

SI 137, 1-6

 

Então Babilónia, a flor dos reinos, jóia e orgulho dos Caldeus, será destruída por Deus como Sodoma e Gomorra. Nunca mais será habitada, nem povoada até ao fim dos tempos. O beduíno não mais acampará ali, os pastores não apascentarão ali os seus rebanhos. As feras não farão ali o seu covil, os mochos encherão as suas casas, morarão ali as avestruzes, os sátiros aí dançarão. As hienas uivarão nos seus palácios e os chacais nas suas casas de prazer. A sua hora está para chegar, os seus dias já estão contados.

 

Is 13, 19-22

 

No cume da colina reinava a quietude, quebrada apenas pelos sons emitidos pelo sistema de arrefecimento dos quatro motores Rolls Royce Olympus. A enorme aeronave branca, com o seu trem de aterragem dianteiro semidestruído e com a proa afocinhada na terra, assemelhava-se a uma qualquer criatura altaneira que alguém fizera vergar, obrigando-a a ajoelhar-se na poeira do solo. Por momentos o tempo deu a impressão de se ter imobilizado, mas então ouviu-se o chilrear a medo de um pássaro noctívago e todas as outras criaturas nocturnas assinalaram a sua presença.

 

Jacob Hausner sabia que tudo as suas vidas, os seus futuros e talvez o da sua própria nação dependia do que poderia acontecer durante os próximos minutos. Um ataque em força por parte dos palestinianos significaria naquele momento a tomada da colina, o que seria o derradeiro golpe no discurso de defesa feito com tanta bravura. Olhou em seu redor. A luz fraca conseguia ver as pessoas que andavam à volta do Concorde sem um objectivo definido. Algumas, desconfiava ele, continuavam em estado de choque devido à colisão contra o solo. Agora que chegara o momento de tomarem uma iniciativa, ninguém sabia o que fazer. Os actores estavam cheios de boa vontade, mas faltava-lhes o argumento da peça. Hausner decidiu escrever um ali, naquele preciso momento, mas desejava ter Dobkin e Burg por perto para que fossem os seus co-autores.

 

Tirou a M-14 das mãos de Brin, observando toda a extensão da encosta até ao sopé através da lente da mira telescópica. Os três árabes estavam entre as pedras, no mesmo sítio onde tinham tombado e viu pelo menos duas espingardas automáticas AK-47 caídas no chão. Se conseguisse chegar a essas armas, acrescentaria mais meios de defesa ao seu castelo de cartas.

 

Vou descer para ir buscar aquelas armas disse Hausner virando-se para Brin. Cobre-me a retaguarda ordenou, passando-lhe para as mãos a M-14 e empunhando a sua Smith Ó” Wesson.

 

Um dos outros homens dos serviços de segurança, Moshe Kaplan, deu conta de que ele começara a descer a encosta da colina e seguiu no seu encalço.

 

Já está a desertar?

 

Se tencionas vir comigo, mantém-te agachado e fala em voz baixa disse ele num sussurro, não lhe passando despercebido que a arma de Kaplan estava equipada com um silenciador.

 

Em corridas rápidas e curtas foram-se aproximando de pedra em pedra e alternando-se, um deles cobria a retaguarda do que corria. Hausrier constatou que aquilo que pensara serem pedras eram, na verdade, grandes amontoados de barro seco misturado com terra, que aparentemente se haviam fracturado e soltado da superfície da colina. Os seus movimentos fizeram com que outros pedaços desta amálgama endurecida se desprendessem, deslizando pela vertente. Seria difícil a qualquer atacante subir a colina se tivesse de se esquivar às balas ao mesmo tempo que se deslocava por entre as formações argilosas que se esboroavam.

 

Do cume da colina, Brin observava a cena através da mira telescópica, que lhe permitia ter visão nocturna. Meio quilómetro mais abaixo, avistava os palestinianos, que se reagrupavam próximo dos camiões. Continuando a observar, deduzia pelos seus movimentos que não faltava muito para ficarem num estado de grande frenesim. Brin conhecia o estilo daquele povo: se fossem surpreendidos, tal como acontecera àquele grupo, regra geral, batiam em retirada. Só depois surgiriam as recriminações e o embaraço, seguindo-se o instilar de coragem e raiva, tal como lhe era dado presenciar naquele momento. Então, quando se sentissem suficientemente empolgados, passariam à acção, podendo mostrar-se deveras resolutos. De facto, enquanto Brin continuava a observá-los, um grupo de aproximadamente vinte homens recomeçou a subir a colina depois de terem ido buscar a um dos camiões três padiolas maleáveis enroladas iam recuperar os cadáveres.

 

Na escuridão, Hausner não conseguia destrinçar grande coisa. Tentou caminhar em linha recta a partir do ponto donde iniciara a marcha, pois vira que os corpos estavam próximos de uma formação geológica parecida com a vela de um navio. Tentou examinar os contornos do terreno, embora soubesse que daquele ponto mais elevado deveriam ter um aspecto diferente, para o que utilizou o método corrente de visão nocturna olhar lateralmente pelo canto dos olhos enquanto a cabeça se movia em movimentos curtos. Estava a sentir-se desorientado naquele terreno que lhe era desconhecido.

 

À medida que descia pelo talude, perguntava-se o que estariam os outros a fazer perto do avião. Esperava que Brin tivesse informado todos os que estavam armados de que ele descera pela colina. Pensou na quantidade de armamento que possuiriam. Os seus cinco homens continuavam no cimo da colina, cada um com a sua arma regulamentar, uma Smith Ó” Wesson, e adicionalmente Brin dispunha da M-14 e um outro, possivelmente Joshua Rubin, trouxera uma metralhadora Uzi de nove milímetros. Suspeitava que também existiriam mais algumas pistolas a bordo, mas esse tipo de armas não era muito fiável em relação a alvos que estivessem a mais de vinte metros. A Uzi e a M-14 eram a única esperança que lhes restava, mas quando se acabassem as balas ser-lhes-iam inúteis. A chave do problema residia na recuperação daquelas AK-47, pois, caso as munições fossem em número suficiente, poderiam defender aquela posição no cimo da colina durante mais ou menos um dia. Todavia, naquele momento, começava a duvidar se conseguiria encontrar os cadáveres por entre aquelas formações irregulares de terreno, desgastado pela erosão.

 

De súbito ouviu algo e imobilizou-se, tal como Kaplan, que pareceu cer ficado colado a uma rocha. Voltaram a ouvir o mesmo som, uma voz baixa queixosa que chamava em árabe:

 

Estou aqui e pouco depois repetiu: Estou aqui.

 

Já estou perto respondeu Hausner num murmúrio e na mesma língua, esperando que o sotaque não o denunciasse. Já estou perto repetiu.

 

Estou aqui voltou a dizer a mesma voz. Fui ferido.

 

Já estou perto insistiu Hausner, começando a rastejar por uma vala pouco funda. Pouco depois ergueu o olhar, observando um espaço aberto dominado pela tal formação que se assemelhava à vela de um navio. A luz da Lua, que acabara de se elevar no firmamento, avistou três corpos caídos, um deles ainda com uma AK-47 entre os braços, o que o fez praguejar entre dentes.

 

Kaplan colocou-se ao seu lado, segredando-lhe ao ouvido.

 

Deixe-me arrumá-lo. A minha pistola tem um silenciador.

 

Estamos muito afastados replicou Hausner.

 

Caso Kaplan não acertasse o primeiro tiro, a bala poderia fazer barulho quando atingisse outro alvo, a que se seguiria uma barragem de disparos de AK-47 vindos de todas as direcções.

 

Eu trato dele disse Hausner.

 

Tirou a gravata, despiu o casaco e puxou a fralda da camisa para fora das calças, desabotoando os primeiros botões a partir do colarinho. Rasgou o forro de seda do casaco, amarrou-o à volta da cabeça, tentando dar-lhe a forma daquilo que esperava se parecesse minimamente com um kheffiyah, e começou a rastejar até junto do árabe ferido.

 

Por seu lado, Kaplan engatilhou o revólver a agachou-se, protegido por uma nuvem que ocultou a Lua.

 

Brin observava os palestinianos que subiam pela colina e já se encontravam a menos de cem metros do último lugar onde avistara Hausner e Kaplan, mas desta feita não constituíam bons alvos, pois haviam posto em prática as estratégias de camuflagem e encobrimento, o que fazia parte da instrução militar dos soldados de infantaria. Brin posicionou a arma de forma a tentar encontrar Hausner com a sua mira telescópica e avistou então um homem que rastejava por uma área descoberta e que usava um kheffiyah escuro.

 

Estou aqui, estou aqui sussurrou Hausner.

 

O árabe ferido semicerrou as pálpebras tentando ver na escuridão, e o israelita aproximou-se dele, deslocando-se com mais rapidez.

 

Brin, que continuava a observar através da mira telescópica, viu o possuidor do kheffiyah não muito ortodoxo a arrastar-se pelo chão como se fosse um lagarto. Foi então que reparou no árabe ferido de quem o outro se aproximava, e que devia ser o último atacante que ele atingira, aquele que alertara os companheiros. Posicionou a espingarda enquadrando o homem que rastejava e começou a premir o gatilho, mas hesitou, havia algo de desonroso em alvejar quem arriscava a vida para prestar auxílio a un camarada ferido. E, contudo, Brin não via outra alternativa, por isso optou por um meio termo dispararia contra o que ia ajudar o ferido, mas não voltaria a atingir este último. Como tal decisão tão dúbia satisfaria o deus ou deuses da guerra, que punham os homens naquelas situações difíceis, era coisa que não sabia explicar, sabia apenas que era importante jogar de maneira equitativa. Uma vez mais perscrutou rapidamente a encosta, e não avistou Hausner nem Kaplan. No entanto, via os palestinianos, que continuavam a progredir, e já se encontravam a menos de cinquenta metros do ferido e do seu camarada. Este ia avançando mas os outros não constituíam ainda bons alvos dada a configuração do terreno onde se moviam. Brin manteve a decisão de disparar sobre o homem que se arrastava pelo descampado.

 

Está tudo bem murmurou Hausner, que ouvia os passos dos palestinianos, que se apressavam colina acima.

 

O árabe ferido soergueu-se sobre um cotovelo e, quando Hausner se aproximou mais, forçou-se a sorrir, fitando-o, mas então soltou uma exclamação de surpresa e ergueu a AK-47. Hausner saltou rapidamente sobre ele, e foi nessa altura que Brin aliviou a pressão no gatilho.

 

O árabe gritou outra vez, e Hausner tacteou até encontrar uma pedra, agarrou-a e lançou-a contra o árabe, acertando-lhe em cheio na cara.

 

Kaplan começou então a correr pelo descampado, localizou os dois árabes mortos e apoderou-se das suas armas automáticas e das respectivas cartucheiras enquanto Hausner agarrou na do ferido e também nas munições.

 

Brin aguardou até que o árabe mais adiantado chegasse à área descoberta e só então disparou. O silenciador pareceu tossir suavemente, o homem foi violentamente arremessado para trás e Hausner e Kaplan olharam na direcção donde tinha vindo o ruído que ele provocou ao cair. Naquele momento, avistaram os palestinianos, que se aproximavam contornando os amontoados de terra e barro e estavam já a menos de vinte metros de distância.

 

Brin voltou a fazer fogo e os atacantes dispersaram-se quando outro caiu por terra.

 

Hausner levantou o árabe ferido, colocou-o às costas e, entregando a AK-47 e as munições a Kaplan, ambos começaram a correr pela encosta acima, carregando os seus pesados fardos. Contornavam as elevações de terreno que encontravam pela frente e atravessavam valas rasgadas pela erosão, agachados naquele solo árido e irregular. De súbito, ouviu-se um tiroteio de armas automáticas, e a terra, o barro e as lascas de tijolo choveram à volta dos dois.

 

Kaplan jamais esqueceria aquele som distinto, um barulho cavo de rolha a saltar, provocado pelas AK-47, como se fosse uma sucessão de fogo-de-artifício chinês. Ao sentir o silvar das balas que lhe passavam rente aos ouvidos ficou com o sangue gelado e várias vezes pensou que fora atingido, mas tratava-se apenas de bocados de terra que saltavam ou do ricochetear das cápsulas vazias, quentes mas inofensivas.

 

- Ponha-o no chão! gritou Kaplan a Hausner, pois se continuassem a carregar com o ferido não conseguiriam safar-se.

 

Não recusou Hausner, obstinado, respirando com dificuldade. Preciso dele. Siga você em frente, não espere por mim.

 

Nem pensar!

 

Kaplan voltou-se para trás com uma das AK-47 em punho, pronta a entrar em acção, e disparou um pente de balas completo com trinta projécteis. Do cume da colina chegava-lhe o som patético das Smith Ò” Wesson, mas foi então que se começou a ouvir o som mais intimidante da metralhadora Uzi. Kaplan deu meia volta, aproximando-se de Hausner. Naquele momento encontravam-se a menos de cinquenta metros do cume da colina e alguns dos passageiros do avião desceram pela encosta, tendo um deles aliviado Hausner do peso do árabe. Kaplan tropeçou e caiu, exausto e a transpirar por todos os poros, mas alguém ajudou-o a levantar-se. Corriam em ziguezague enquanto à sua volta continuavam a levantar-se pedaços de terra. Já perto do cimo da colina, Kaplan viu Brin, que continuava a disparar aquela terrível arma com silenciador, e nesse momento sentiu que fora atingido por qualquer coisa. Desta feita, não foi nenhum pedaço de barro nem o ricochete de uma cápsula de bala, mas sim algo quente e penetrante e perdeu a consciência.

 

Hausner deitara-se de bruços, arquejante, logo que se sentiu em terreno nivelado. Tinha conseguido. Ouvia a voz calma de Dobkin, que dava ordens quanto ao posicionamento das três AK-47 e aos seus ouvidos também chegava o som dos disparos das armas dos homens que subiam pela encosta, assim como o ripostar dos seus companheiros, que se defendiam no cume. Assim que as três AK-47 vieram reforçar o poder de fogo dos israelitas, o tiroteio dos árabes cessou de imediato e pouco depois os ecos que reverberavam à distância extinguiram-se e a colina ficou envolta num silêncio espectral.

 

A sua acção foi muito insensata, Jacob dizia Dobkin, debruçado sobre Hausner, mas o certo é que durante algum tempo eles não voltarão a aventurar-se.

 

O Kaplan...?

 

Foi atingido, não com gravidade, no traseiro replicou o general, agachando-se ao lado de Hausner.

 

Foi ele quem pediu esse tiro comentou Hausner sentando-se no chão. A última coisa que me disse foi «o meu traseiro»1. Onde está ele?

 

1 Em inglês, «my ass» ou «meu cu», trocadilho impossível de reproduzir, uma vez que os americanos também empregam essa expressão querendo significar «o tanas». (N. da T.)

 

Primeiro trate de recuperar a respiração respondeu Dobkin, que com uma mão enorme, tentava mantê-lo deitado no chão. Não quero que tenha um ataque de coração.

 

A corpulência do homem bloqueava completamente a visão que Hausner poderia ter do firmamento.

 

Está bem anuiu este, sentindo-se um pouco ridículo, ali, estendido no solo. Conseguimos abater algum deles? Apossámo-nos de algumas armas?

 

Atingimos uns quantos, mas não voltaram a cometer o mesmo erro, agora levaram os feridos e todas as armas. No entanto, deixaram alguns mortos para trás.

 

E o prisioneiro que eu fiz?

 

Esse está vivo confirmou Dobkin.

 

Já falou? perguntou Hausner.

 

Há-de acabar por falar.

 

Agora gostaria de me levantar e ver como estão os meus homens adiantou Hausner.

 

De acordo, mas com calma aquiesceu Dobkin, olhando-o atentamente.

 

Certo. Em movimentos lentos, Hausner pôs-se de pé e olhou em redor. Alguém ficou ferido?

 

O Moses Hess morreu.

 

Mais alguém? perguntou, recordando-se do pára-brisas quebrado.

 

Algumas pessoas andaram aos trambolhões durante a aterragem, mas, apesar de tudo, o Becker e o Hess conseguiram fazer um trabalho quase perfeito.

 

É verdade.

 

Hausner deu alguns passos na direcção de Brin, que continuava a observar pela mira telescópica com visão nocturna. A sua posição era o ponto fundamental na defesa da encosta do lado oriental, sobre uma espécie de promontório que se projectava da superfície lateral da colina. No terreno em redor havia um cômoro baixo que teria de ser elevado e fortificado, uma espécie de varanda que seria perfeita para um franco-atirador. Hausner apoiou um pé sobre essa elevação, observando as cercanias envoltas em trevas e pouco depois concentrou a sua atenção em Dobkin.

 

Onde estamos?

 

Na Babilónia.

 

Deixe-se de brincadeiras.

 

Na Babilónia insistiu Dobkin.

 

Hausner remeteu-se ao mutismo durante breves momentos.

 

Quer dizer, «a Babilónia caiu?” Ou «pelos rios da Babilónia?»

 

Precisamente nesse lugar.

 

Pela mente de Hausner começou a passar uma fiada de pensamentos. Há poucas horas encontrava-se a bordo de uma aeronave moderna e confortável a caminho de Nova Iorque, agora rastejava pelas terras poeirentas da Babilónia. Aquilo era absolutamente surrealista, se Dobkin tivesse dito ”Marte”» o efeito teria sido o mesmo.

 

Babilónia porquê? ripostou em voz alta.

 

Era um desses nomes evocativos no léxico da geografia universal, um nome que se transcendia por si só, um lugar que era mais do que apenas isso. A semelhança de Hiroxima ou da Normandia, de Camelot ou de Shangri-Lá, de Auschwitz ou de Masada1, de Jerusalém ou do Armagedão.

 

Quem sabe...? respondeu Dobkin com um encolher de ombros. - Talvez uma espécie de brincadeira por parte de Rish, suponho eu. O exílio na Babilónia e tudo o mais.

 

Um estranho sentido de humor.

 

Bem... talvez não seja uma piada, mas sim uma espécie de coincidência histórica...

 

Estou a entender. Hausner virou-se para Brin. Ouviste isto, Nathan? És um exilado na Babilónia. Que pensas disso?

 

Exilado, uma porra! ripostou Brin, acendendo um cigarro, cuja chama protegeu na mão em forma de concha. Ao nascer do Sol tenciono ir pessoalmente até junto desses filhos da puta, lá em baixo, e apresentar-lhes um ultimato para que se rendam.

 

Hausner soltou uma gargalhada, deu-lhe uma palmada nas costas e voltou-se para Dobkin.

 

Está a ver? Os meus homens estão prontos a oferecer resistência àqueles sacanas, general!

 

Dobkin, que gostava pouco das instituições paramilitares, como a polícia e os homens dos serviços de segurança, limitou-se a grunhir.

 

Qual é a nossa posição? continuou Hausner. Estou a referir-me em termos tácticos.

 

Ainda é um pouco cedo para procedermos a esse tipo de avaliação. Fiz um reconhecimento rápido a esta colina enquanto você dava uma de John Wayne.

 

E...?

 

Pois bem, esta elevação tem uma altura de mais ou menos setenta metros, mas desconfio de que não é uma colina natural, antes o que resta de construções antigas que ao longo dos séculos foram sendo erigidas umas em cima das outras. Não é difícil ver-se que é bastante plana no cimo, como uma mesa... como em Masada. A analogia era inevitável. Estou em crer que esta zona seria a cidadela, na muralha norte da cidade, agora coberta de terra que se foi acumulando ao longo dos anos, mas, se começássemos a escavar, certamente que encontraríamos muralhas e torres. Aquele pequeno outeiro ali, provavelmente, era o topo de um torreão e este promontório, onde o Brin está, seria uma torre que ressaltava de uma muralha lateral.

 

1 Fortaleza erigida no cimo de uma montanha em Israel Oriental, na margem sudoeste do mar Morto, onde os zelotas se bateram pela última vez contra os romanos durante a revolta de 66-73 a. C. (N. da T.)

 

Isso quer dizer que você está familiarizado com este local? inquiriu Hausner, olhando para Dobkin. Era mais uma afirmação do que uma pergunta. Como?

 

Com base em mapas e maquetas. Nunca me passou pela cabeça que alguma vez teria a oportunidade de ver esta região, é o sonho de qualquer arqueólogo judeu acrescentou ele com um sorriso.

 

Sinto-me muito feliz por si, general retorquiu Hausner, tentando distinguir-lhe as feições por entre as trevas. Não me posso esquecer de dar os parabéns à El Al por ter tirado vantagem de uma situação inesperada, proporcionando-nos esta excursão turística de interesse arqueológico. Talvez venha a fazer parte de uma rota regular, com aterragem forçada e tudo incluído.

 

Acalme-se, Jacob.

 

Hausner deixou que o silêncio se arrastasse, enquanto respirava fundo.

 

Muito bem. Acha que este lugar é defensável? Dobkin passou os dedos pelos cabelos.

 

Eu... penso que sim respondeu fazendo uma breve pausa. É uma elevação de terreno em forma oblonga, com o tamanho e configuração de uma pista de atletismo, que se prolonga para norte e sul ao longo da margem do Eufrates. Nesta altura do ano, as águas do rio já atingiram o seu nível máximo, e transbordaram até ao sopé da encosta ocidental da colina, onde os palestinianos já colocaram alguns homens. O americano, o McClure, disparou sobre eles uns tiros ao acaso com o seu revólver de seis tiros, uma coisa ao género dos cobóis. O coronel Richardson foi com ele.

 

São os únicos que estão desse lado?

 

Coloquei também sentinelas em todo o perímetro do cume, mas o McClure é o único armado. A encosta é muito íngreme e está exposta. Acho que era a muralha da cidadela, do lado do rio, há cerca de dois mil e quinhentos anos, aquilo a que nós chamamos, em termos de engenharia militar, uma defesa avançada. Não me parece que tenhamos de recear um ataque a sério vindo desse lado a partir de agora, uma vez que lhes mostrámos que nos mantemos vigilantes e que podemos responder aos disparos.

 

E quanto a este lado da colina? perguntou Hausner, acendendo um cigarro.

 

É aí que reside o nosso problema. De norte a sul medeia mais ou menos meio quilómetro e o grau de declive da encosta é gradual até à estrada e ao planalto. Em algumas áreas existem valas abertas pela erosão, assim como formações geológicas, tal como você sabe bem, ou seja, os pontos mais prováveis para uma acção ofensiva. Noutros sítios, o terreno é muito descampado com campos de tiro descobertos, o que para nós é uma vantagem, não me parecendo que haja motivo para nos preocuparmos com um ataque vindo dessas áreas. Destaquei homens armados com as três AK-47 para cobrirem os pontos mais prováveis de aproximação do inimigo e três dos seus agentes foram incumbidos dessa missão. Um outro, o Joshua Rubin, tem a Uzi e aqui o Brin tem a M-14. Os seus homens entregaram as pistolas regulamentares de calibre vinte e dois aos passageiros que lhes indiquei e são eles que reforçam este perímetro defensivo. Tenciono estabelecer uma combinação de posições avançadas e postos de observação mais abaixo, na encosta. Se não tivéssemos as AK-47, seria forçado a recomendar que se pedissem condições de rendição.

 

Hausner puxou uma longa fumaça do cigarro e fitou Dobkin.

 

Acha que eles atacarão de novo esta noite?

 

Qualquer comandante militar digno desse nome faria precisamente isso. Quanto mais esperarem, mais organizada estará a defesa. Há meia hora, as nossas hipóteses eram ínfimas, agora é muito possível que consigamos aguentar-nos durante a noite.

 

Eles não se atreverão a atacar-nos de dia, pois não?

 

No lugar deles, eu não o faria.

 

O Becker vai enviar algum SOS?

 

Ele tem estado a trabalhar nas baterias dos rádios. Sugiro que voltemos ao Concorde, o ministro dos Negócios Estrangeiros quer que você participe numa reunião.

 

Até mesmo aqui retorquiu Hausner, lançando um olhar de esguelha.

 

Brin continuava a observar através da sua mira telescópica, mas a intervalos regulares de alguns minutos desligava o dispositivo de visão nocturna para poupar as baterias, aproveitando para descansar os olhos. Hausner deu-lhe uma palmada amigável no ombro.

 

Mais tarde enviarei alguém para te render.

 

Terá de ser muito forte para conseguir tirar-me a minha espingarda das mãos.

 

Como queiras redarguiu Hausner com um sorriso, seguindo no encalço de Dobkin.

 

O Concorde encontrava-se a meio do pequeno planalto de forma oblonga que encimava a colina. Nas extremidades norte e sul viam-se as ruínas das muralhas viradas para o rio que actualmente eram uma espécie de rampas que permitiam o acesso ao cume. Tinha sido contra a situada a sul que o avião embatera. Hausner e Dobkin atravessaram o sulco que a dianteira cónica do Concorde abrira, caminhando por ela em direcção ao aparelho e o primeiro tinha dificuldade em acompanhar a passada do general, que, apesar de muito corpulento, demonstrava grande agilidade.

 

Quem é o responsável? perguntou Hausner. Dobkin não lhe respondeu.

 

Vamos lá esclarecer este assunto, a hierarquia do comando. Certamente que compreende essa necessidade. Só pode haver um homem com poderes de chefia.

 

Como é evidente, o ministro dos Negócios Estrangeiros é o que tem o cargo mais elevado atalhou Dobkin, falando mais lentamente.

 

Quem se lhe segue?

 

Suponho que será o Isaac Burg.

 

E abaixo dele?

 

Pois bem, esse lugar deve ser ocupado por um político replicou Dobkin, sem ocultar a exasperação que começava a sentir.

 

Quem? continuou Hausner.

 

A Bernstein, ela representa um ministério.

 

Eu sei, mas não me parece que esse aspecto constitua uma qualificação dadas as circunstâncias em que nos encontramos.

 

Não queira envolver-me neste assunto retorquiu Dobkin com um encolher de ombros. Eu não passo de um velho militar de carreira.

 

E a seguir?

 

Calculo que você ou eu.

 

Tenho seis homens, todos armados, que me são leais e constituem a única força de combate de que dispomos nesta colina.

 

- Um deles tem uma bala no traseiro atalhou Dobkin e ainda se está para ver até que ponto é que são operacionais. As acções desta noite são apenas como que uma sondagem. Da próxima vez enfrentaremos um ataque frontal.

 

Hausner virou costas recomeçando a caminhar, mas Dobkin alcançou-o e, colocando-se ao seu lado, deu-lhe uma palmada nas costas.

 

De acordo, compreendo, mas você já cumpriu a sua obrigação, Jacob, e quase ia morrendo. Diga-se de passagem que foi bastante destemida. Agora veja se consegue acalmar-se um pouco. Teremos pela frente muitas horas cheias de dificuldades.

 

Eu diria que não são horas, mas sim dias.

 

De maneira alguma, não nos poderemos aguentar muito mais além do pôr do Sol de amanhã, se é que conseguiremos resistir até lá.

 

É muito possível que não sejamos resgatados até essa altura argumentou Hausner.

 

Tem razão concordou Dobkin. Esta é a pior altura do ano para se chegar aqui. As cheias da Primavera fazem com que o acesso a esta região seja quase impossível. Além disso, Becker não consegue comunicar com ninguém via rádio, pelo que o mais certo é decorrerem muitos dias até que alguém saiba qual é a nossa posição. E ainda mais tempo até que possam entrar em acção.

 

Parece-lhe que os iraquianos arriscariam uma missão de resgate?

 

Quem pode saber? Os árabes são capazes dos actos mais inimagináveis de nobreza, e também dos mais traiçoeiros... tudo no mesmo dia.

 

Hausner fez que sim com a cabeça.

 

Acredito que eles desejem que estas negociações de paz venham a dar resultados positivos, por isso, se Bagdade descobrir que estamos aqui, acho que podemos contar com o auxílio deles.

 

Quem poderá dizer? replicou Dobkin com um gesto de mão, indicador do desinteresse que sentia pelo assunto. É muito possível que a paz já esteja perdida, mas eu não sou um político. Em termos militares, ser-lhes-á muito difícil ajudarem-nos neste tipo de terreno, é a única coisa de que tenho a certeza.

 

Hausner deteve-se já próximo do Concorde, onde pessoas de pé conversavam em pequenos grupos. Baixou o tom de voz.

 

Porquê?

 

Bem... de acordo com as últimas informações dos nossos serviços secretos respondeu Dobkin também em voz baixa, os iraquianos dispõem de muito poucos helicópteros, e o corpo de pára-quedistas ainda tem menos capacidade; quanto aos meios anfíbios, virtualmente, pode dizer-se que não existem, o que seria indispensável para a deslocação de tropas nesta altura do ano. São um exército bem equipado para acções militares no deserto, mas acontece que durante a estação das cheias, entre o Tigre e o Eufrates, existem muitos pântanos, leitos lodosos e cursos de água. É grande o número de exércitos que foram vencidos na Mesopotamia durante a Primavera.

 

E quanto à infantaria ligeira? Já ninguém utiliza este tipo de corpo militar?

 

Sim anuiu Dobkin, a infantaria ligeira podia chegar até nós, mas para isso precisariam de muito tempo. Há uma pequena cidade a sul, Hausner virou costas recomeçando a caminhar, mas Dobkin alcançou,O e, colocando-se ao seu lado, deu-lhe uma palmada nas costas.

 

De acordo, compreendo, mas você já cumpriu a sua obrigação, Jacob, e quase ia morrendo. Diga-se de passagem que foi bastante destemida. Agora veja se consegue acalmar-se um pouco. Teremos pela frente muitas horas cheias de dificuldades.

 

Eu diria que não são horas, mas sim dias.

 

De maneira alguma, não nos poderemos aguentar muito mais além do pôr do Sol de amanhã, se é que conseguiremos resistir até lá.

 

É muito possível que não sejamos resgatados até essa altura argumentou Hausner.

 

Tem razão concordou Dobkin. Esta é a pior altura do ano para se chegar aqui. As cheias da Primavera fazem com que o acesso a esta região seja quase impossível. Além disso, Becker não consegue comunicar com ninguém via rádio, pelo que o mais certo é decorrerem muitos dias até que alguém saiba qual é a nossa posição. E ainda mais tempo até que possam entrar em acção.

 

Parece-lhe que os iraquianos arriscariam uma missão de resgate?

 

Quem pode saber? Os árabes são capazes dos actos mais inimagináveis de nobreza, e também dos mais traiçoeiros... tudo no mesmo dia.

 

Hausner fez que sim com a cabeça.

 

Acredito que eles desejem que estas negociações de paz venham a dar resultados positivos, por isso, se Bagdade descobrir que estamos aqui, acho que podemos contar com o auxílio deles.

 

Quem poderá dizer? replicou Dobkin com um gesto de mão, indicador do desinteresse que sentia pelo assunto. É muito possível que a paz já esteja perdida, mas eu não sou um político. Em termos militares, ser-lhes-á muito difícil ajudarem-nos neste tipo de terreno, é a única coisa de que tenho a certeza.

 

Hausner deteve-se já próximo do Concorde, onde pessoas de pé conversavam em pequenos grupos. Baixou o tom de voz.

 

Porquê?

 

Bem... de acordo com as últimas informações dos nossos serviços secretos respondeu Dobkin também em voz baixa, os iraquianos dispõem de muito poucos helicópteros, e o corpo de pára-quedistas ainda tem menos capacidade; quanto aos meios anfíbios, virtualmente, pode dizer-se que não existem, o que seria indispensável para a deslocação de tropas nesta altura do ano. São um exército bem equipado para acções militares no deserto, mas acontece que durante a estação das cheias, entre o Tigre e o Eufrates, existem muitos pântanos, leitos lodosos e cursos de água. É grande o número de exércitos que foram vencidos na Mesopotamia durante a Primavera.

 

E quanto à infantaria ligeira? Já ninguém utiliza este tipo de corpo militar?

 

Sim anuiu Dobkin, a infantaria ligeira podia chegar até nós, mas para isso precisariam de muito tempo. Há uma pequena cidade a sul daqui, Hilla, mas não sei se tem guarnição militar, ou se dispõe de meios para vir em nosso socorro. E mesmo que fosse esse o caso, estariam os iraquianos na disposição de se virarem contra estes palestinianos?

 

Sugiro que guardemos esta conversa apenas entre nós dois.

 

É o segredo militar número um concordou Dobkin. E, já agora, vou-lhe dizer qual é o número dois. Existem unidades militares iraquianas inteiramente formadas por palestinianos refugiados, e eu detestaria estar no lugar do oficial que fosse obrigado a pôr à prova a lealdade dessas tropas, pedindo-lhes que combatessem contra compatriotas seus. Mas nós não queremos baixar o moral de ninguém, portanto, o que acabei de lhe dizer também não deve ser tornado público.

 

Hausner e Dobkin encaminharam-se para o Concorde e pararam perto da proa cónica. A alguns metros do nariz do avião situava-se a estrutura em que por pouco não tinham embatido, que parecia ser um antigo abrigo de pastores em ruínas, mas não era de pedra, como Hausner pensara quando corriam na sua direcção, mas sim de tijolos cozidos ao sol, característicos da Mesopotamia, e tinha o tecto parcialmente coberto com folhas de tamareiras. Hausner apercebeu-se de que era bastante diferente das cabanas de pastores em Israel, provavelmente seria muito diversa das construções espalhadas pelo Médio Oriente. Era um monumento sem ângulos à profissão mais solitária em todo o universo, um elo de ligação com o mundo de Abraão. Hausner conseguia ver o interior através de um buraco numa das paredes e avistou homens e mulheres a conversarem. Era ali que se realizaria a reunião organizada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros.

 

Hausner voltou-se na direcção de um barulho que viera da escuridão, mas não conseguia distinguir a fisionomia da maior parte dos passageiros que se agrupava por baixo da asa de estibordo, onde o rabino Chaim Levin dava início à cerimónia religiosa do sabat com algum atraso. Contudo, reconheceu a silhueta baixa de Yaakov Leiber, amparado pelos outros dois comissários de bordo.

 

No entanto, avistou qualquer coisa que se movimentava por baixo da fuselagem, e inesperadamente Peter Kahn deixou-se cair do compartimento da proa onde a roda da frente do avião ficava recolhida quando em voo. Na mão segurava uma lanterna, que apagou com rapidez.

 

Qual é o aspecto? perguntou Hausner, aproximando-se.

 

Mau.

 

Está muito danificado? insistiu Hausner.

 

Aquilo que o senhor fez foi um acto heróico respondeu Kahn olhando-o com um sorriso nos lábios.

 

Quais são os danos?

 

A unidade auxiliar de energia. Ficou danificada quando o trem de aterragem bloqueou.

 

E então? Podemos descolar?

 

Não replicou Kahn com um sorriso forçado, mas ainda há algumas centenas de litros de combustível no fundo dos dois depósitos das asas. Se conseguirmos pôr a unidade auxiliar em funcionamento, os geradores começarão a trabalhar, pelo que teremos energia para comunicar. As baterias não durarão sempre.

 

Hausner esboçou um aceno. ”Sempre” poderia ser uma mera questão de horas no que lhes dizia respeito, situação em que as baterias seriam mais do que suficientes.

 

Onde está o comandante?

 

Na carlinga.

 

Hausner ergueu o olhar até à parte superior do nariz cónico inclinado para baixo, donde através do pára-brisas se filtrava um clarão esverdeado, que lhe permitia distinguir a silhueta de Becker.

 

Vou ter com ele.

 

O ministro dos Negócios Estrangeiros quer falar consigo insistiu Dobkin, abanando a cabeça ao mesmo tempo que apontava para a cabana de pastor.

 

Não vou ainda retorquiu Hausner, pouco disposto a debater a situação em que se encontravam.

 

Receio ter de insistir.

 

Fez-se um silêncio que se arrastou. Hausner olhou para a cabina de pilotagem, depois para a cabana, e Kahn, pouco à vontade, optou por se afastar.

 

Na minha bagagem tenho um dossiê com alguns dados de identificação e um perfil psicológico de Ahmed Rish. Quero ir buscá-lo.

 

Bom, suponho que... começou a dizer Dobkin, hesitante, mas de súbito mostrou-se surpreendido por uma ideia que lhe ocorreu. Porque diabo trouxe isso?

 

Foi apenas um palpite.

 

Tenho de confessar que me sinto impressionado, Jacob, de verdade que estou. Muito bem, eles gostarão de ver isso.

 

Hausner saltou para o bordo da asa delta que se elevava a poucos metros do solo, e caminhou pela superfície em declive até à porta de emergência.

 

A cabina de passageiros, posicionada num ângulo inclinado, estava às escuras, mas através da porta de acesso à carlinga saía uma luz esverdeada de tonalidade fantasmagórica. Os avisos dos cintos de segurança e de proibição de fumar continuavam ligados, assim como o mostrador de velocidade, que indicaria Mach zero, para sempre. A cabina estava vazia e cheirava a querosene, com bagagens, cobertores e almofadas espalhados por toda a parte. Hausner conseguia ouvir a voz clara do rabino Levin, que se infiltrava através do rombo que a antepara de pressurização sofrera, na secção onde existira a cauda.

 

Entrou na carlinga inclinada, onde Becker tentava sintonizar os rádios, ajustando os botões luminosos. Ouviam-se os ruídos em surdina dos componentes electrónicos a que se juntavam os produzidos pela estática. O corpo de Moses Hess continuava tombado sobre os comandos que manobrava na altura da morte. Becker falava em voz baixa e Hausner apercebeu-se de que não era para o microfone do rádio, mas sim para Hess. Pigarreou.

 

David.

 

Becker virou a cabeça, mas nada disse, concentrava a sua atenção no rádio.

 

Hausner aproximou-se dos dois assentos, sentindo que o cadáver de Hess lhe causava algum mal-estar.

 

Você fez um trabalho magnífico.

 

Sem lhe dar réplica, Becker recomeçou a procurar uma frequência de transmissão, monitorizando-a, mas sem tentar transmitir.

 

Hausner abeirou-se mais, colocando-se entre os dois assentos, e uma das suas pernas roçou pelo corpo sem vida de Hess. Instintivamente, recuou. Se a sua vontade prevalecesse, aquele cadáver estaria sepultado dali a dez minutos, mas sabia de antemão que o rabino não permitiria que o enterro se fizesse durante o sabat. A menos que ele, ou qualquer outra pessoa, pudesse invocar razões de saúde e fosse bem-sucedido, o corpo do co-piloto continuaria ali até ao pôr do Sol.

 

Vou tirá-lo daqui, David disse Hausner.

 

Não tem importância.

 

Naquele momento ouviu-se por toda a carlinga um som agudo e Becker praguejou, desligando o rádio e cortando em seguida a fonte de energia de emergência. As luzes apagaram-se e o interior da carlinga ficou apenas iluminado pelo luar.

 

O sacana continua a provocar obstruções nos nossos rádios, mas não está a conseguir grandes resultados do lugar onde se encontra, o que não o impede de continuar a tentar explicou o piloto.

 

Quais são as nossas probabilidades de conseguirmos comunicar com alguém?

 

Quem sabe?

 

Becker recostou-se, levando um cigarro aos lábios, pôs-se a olhar fixamente através do pára-brisas e segundos depois voltou-se para Hausner.

 

O rádio de alta frequência parece completamente inoperante, o que não é de estranhar, pois trata-se de um equipamento muito sensível. Se conseguíssemos pô-lo a trabalhar, em teoria, ficaríamos aptos a transmitir para qualquer parte do mundo, dependendo das condições atmosféricas. Quanto ao rádio de VHF funciona na perfeição e tenho estado a transmitir em cento e vinte e um ponto cinco, a frequência internacional de emergência, mas não consigo ouvir ninguém, até agora não obtive resposta.

 

E porque não?

 

Bem, porque este rádio só funciona se não houver obstruções entre o ponto de transmissão e o de recepção. Ainda não verifiquei, mas presumo que existem formações montanhosas à nossa volta que se elevam a uma altitude superior àquela a que nos encontramos.

 

É isso mesmo confirmou Hausner.

 

Além de que as baterias não dispõem do mesmo poder de um gerador, e convém não esquecer que Rish provoca constantemente ruídos de estática em todas as frequências, para o que se serve do seu transmissor de ondas longas, uma vez que tem capacidade para manter os seus motores e o gerador em funcionamento. Becker expeliu uma longa espiral de fumo.

 

De acordo replicou Hausner, olhando com fixidez pelo pára-brisas. Via as pessoas que se movimentavam abaixo de si, perto da cabana de um qualquer pastor da Antiguidade. No entanto, talvez sejamos capazes de contactar sem grandes dificuldades um avião que sobrevoe esta zona. O que lhe parece?

 

Certo, tudo aquilo de que precisamos é que isso aconteça.

 

Só então Hausner reparou no tijolo ensanguentado, agora sobre a consola dos instrumentos de bordo, que provocara a morte de Hess. Na semiobscuridade esverdeada dos instrumentos conseguia distinguir a inscrição cuneiforme nele gravada, e embora não soubesse ler estes caracteres, tinha a certeza de que dizia o mesmo que a maior parte dos até aí encontrados na Babilónia: «Nabucodonosor, rei da Babilónia, filho de Nabopolassar, rei da Babilónia, (605-526 a. C.).” Aquele tijolo encontrava-se bastante desenquadrado no tempo e no local, ali, na carlinga de uma aeronave supersónica. Desviou o olhar.

 

Vou colocar um grupo de observadores sobre a fuselagem e, caso se aviste algum avião, arranjaremos maneira de o avisar.

 

Parece boa ideia disse Becker, ficando a olhar demoradamente para o seu co-piloto morto, mas pouco depois voltou a concentrar a sua atenção em Hausner. O Kahn tem estado a trabalhar na unidade auxiliar de energia.

 

Eu falei com ele, diz que está muito danificado. Qual é o tempo de duração das baterias?

 

Na verdade, isso é difícil de prever. Tenho capacidade para monitorizar os rádios durante bastante tempo, mas sempre que tento estabelecer comunicação despendo grande quantidade de energia e não sei quanto é que o circuito de emergência gasta. As baterias de cádmio de níquel são boas, só que não avisam quando estão prestes a esgotar-se. No entanto, têm um desempenho excelente até ao último momento de vida.

 

Hausner acenou com a cabeça, pois estava a par daquela particularidade que o preocupava a espingarda com a mira telescópica nocturna funcionava com o mesmo tipo de baterias.

 

Parece-lhe que seria preferível esperar, poupando as baterias, para ver se o Kahn consegue arranjar a unidade auxiliar?

 

Não sei respondeu Becker, alisando o cabelo com os dedos. Merda! Tudo o que fizermos a partir deste momento terá de ser uma espécie de permuta, não é verdade? Ainda não lhe posso responder, tenho de pensar no assunto.

 

De acordo. Hausner agarrou-se ao assento do engenheiro de voo, impulsionando-se para a frente em direcção à porta, segurou-se à ombreira e voltou-se para trás: Até logo.

 

Acha que vamos conseguir safar-nos desta? perguntou Becker fazendo girar o seu assento.

 

Claro que sim respondeu Hausner, entrando na cabina, que Se mantinha num ângulo extremamente inclinado, para procurar a sua bagagem.

 

Hausner saiu pela porta de emergência, saltou para o chão e constatou que a cerimónia religiosa do sabat terminara naquele momento. A maior parte dos homens e mulheres dirigiram-se num passo apressado para o perímetro da colina, mas outros encaminhavam-se para a cabana, entre eles o rabino Levin. Hausner colocou-se ao seu lado.

 

Acha que podemos sepultar o Moses Hess?

 

Não!

 

Temos de começar a construir qualquer coisa que nos permita defendermo-nos. Tem alguma objecção a apresentar, se trabalharmos durante o sabat?

 

Tenho respondeu o rabino sucinta e implacavelmente.

 

Pararam junto da parede da antiga cabana e algumas pessoas que tinham assistido à cerimónia religiosa passaram por eles, entrando no casebre. Hausner fitou o rabino.

 

Vamos trabalhar em conjunto ou entrar permanentemente em conflito, rabino?

 

Este guardou o seu livro de orações e o tallit1 num dos bolsos do casaco.

 

Meu jovem, é da natureza de todas as religiões estarem em conflito com os objectivos racionais da secularidade. É claro que o corpo de Moses Hess devia ser sepultado esta noite, e é por de mais evidente que você deveria começar a cuidar da nossa defesa. Consequentemente, teremos de fazer cedências de parte a parte. Pode ordenar que toda a gente comece a trabalhar, ignorando as minhas objecções, e eu assumo a responsabilidade pelo corpo de Moses Hess, proibindo o enterro. Estamos perante o tipo de cedências que Israel tem vindo a fazer desde mil novecentos e quarenta e oito.

 

O que, se me permite que lhe diga, é uma rematada estupidez, tudo isso não passa de uma grande hipocrisia. Pois bem, por agora façam-se as coisas à sua maneira e com estas palavras Hausner aproximou-se da porta da cabana.

 

O rabino Levin travou-o pelo braço, puxando-o para trás.

 

É frequente que a luta pela sobrevivência seja um misto de estupidez, hipocrisia e cedências.

 

Eu não tenho tempo para isto.

 

Espere, você é um anglófilo, Hausner. Alguma vez perguntou a si mesmo por que motivo os ingleses param para tomar o seu chá, ainda que no meio de uma batalha? Ou por que razão se vestem a rigor, mesmo quando estão nos trópicos?

 

1 Espécie de faixa, com franjas nas extremidades, que os homens usam na cabeça, ou nos ombros, durante as cerimónias religiosas judaicas (N da T)

 

- Tem a ver com o seu estilo de vida.

 

Ou então porque é bom para o moral, bom para o moral repetiu o rabino, batendo no peito de Hausner. Não queremos que as pessoas fiquem possuídas de uma fúria assassina no cume de uma colina perdida na Babilónia, rodeada por árabes hostis. Por conseguinte, continuamos com a nossa rotina diária, celebramos a cerimónia religiosa do sabat, não enterramos os nossos mortos durante o sabat e não trabalhamos no sabat, tal como não ficaremos reduzidos a comer lagartixas, ou qualquer coisa desse género, porque elas não são kosher. Voltou a bater no peito de Hausner, desta feita com mais vigor. Tal como não infringiremos quaisquer outras leis de natureza religiosa. Sacudiu um pouco de poeira da camisa de Hausner. Pergunte ao general Dobkin por que razão os soldados em combate são obrigados a fazer a barba todos os dias. Moral, Jacob Hausner, maneira de estar na vida, estilo, civilização, é a única forma de este grupo agir, nesta situação, com alguma racionalidade. Os homens que continuem a barbear-se e as mulheres a fazerem os seus penteados e a aplicar batom nos lábios. É um bom princípio para que se consiga manter uma certa normalidade. Eu sei do que estou a falar, já fui capelão do exército.

 

Apesar de a vontade não ser muita, Hausner teve de sorrir.

 

Não há dúvida de que é uma teoria interessante, mas tudo o que perguntei foi se conseguiríamos dar-nos bem.

 

Continuarei a bramir com a minha retórica acerca da Lei replicou Levin, baixando o timbre de voz e você a esgrimir com a sua sobre a conveniência militar. As pessoas começarão a tomar partido, mas os conflitos internos nem sempre são um aspecto negativo, servem para fazer com que os indivíduos se esqueçam da situação desesperada em que se encontram, o que acontece sempre que discutem os seus desentendimentos, por muito insignificantes que sejam. Portanto, discutiremos acerca de ninharias, mas em privado estou disposto a fazer concessões, como agora, mantendo esta conversa consigo durante o sabat. Sou um tipo razoável, como pode ver e, sem acrescentar mais nada, o rabino entrou na cabana.

 

Hausner ficou a olhar fixamente para o local onde o religioso estivera, não conseguindo apreender toda a lógica que o Levin apresentara. O seu discurso fora um misto de maquiavelismo e bizantinismo, com um toque de ideias judaicas, para que nada lhe faltasse. Até certo ponto, desconfiava que o próprio rabino não compreendera inteiramente tudo o que dissera e não lhe restava a mínima dúvida de que o homem era um excêntrico. Todavia, a sua linha de raciocínio assentava num bom princípio.

 

Hausner encaminhou-se para a cabana.

 

Estavam cerca de quinze pessoas de pé, conversando em voz baixa, mas quando Hausner entrou todos se calaram e as cabeças voltaram-se na sua direcção, o que o fez deter-se na ombreira. Um raio de luar azul-esbranquiçado filtrava-se através das folhas de tamareira, iluminando o local onde ele permanecia. Ariel Weizman, o ministro dos Negócios Estrangeiros, atravessou o pequeno espaço e deu-lhe um aperto de mão.

 

Fez um trabalho esplêndido, senhor Hausner.

 

O interpelado não impediu que o ministro lhe apertasse a mão.

 

Está a referir-se ao facto de eu ter permitido que a carga explosiva fosse colocada a bordo do avião em que o senhor ministro viajou?

 

Jacob respondeu o ministro numa voz suave, já chega desse assunto e Ariel Weizman deu meia volta. Comecemos. Estamos aqui com a finalidade de definirmos os nossos objectivos e de fazer uma avaliação das probabilidades de os podermos pôr em prática.

 

Hausner pousou o seu saco de viagem no chão e olhou os presentes, enquanto o ministro prosseguia com o seu discurso em estilo parlamentar.

 

Kaplan estava deitado de bruços junto de uma parede, coberto da cintura para baixo por um cobertor. Ao seu lado estavam as calças ensanguentadas, e as duas hospedeiras de bordo, Beth Abrams e Rachel Baum, cuidavam dele, o que aparentemente lhe proporcionava grande satisfação. Hausner sentiu-se aliviado por os assistentes de bordo, quer do sexo masculino quer do feminino, terem recebido alguma formação em enfermagem.

 

Os dez delegados oficiais que integravam a missão de paz também estavam presentes, incluindo os dois árabes, Abdel Jabari e Ibrahim Arif. Miriam Bernstein posicionara-se perto da abertura na parede e a luz do luar tornava-a ainda mais bela, reflectiu Hausner, que deu consigo a olhá-la com fixidez.

 

O prisioneiro árabe estava sentado a um canto, com os pulsos atados aos tornozelos e com o rosto numa pasta de sangue seco. Tinha sido ferido num ombro e a camisa do seu camuflado ficara tesa devido ao sangue que escorrera, mas alguém a rasgara e lhe fizera um penso, também lhe deviam ter dado um sedativo, pois parecia meio adormecido ou drogado.

 

Hausner ouviu atentamente as opiniões de todos, aquilo parecia uma reunião normal do Knesset: argumentos, a ordem do dia e votações de braço no ar, mas nem sequer conseguiram definir por que razão haviam decidido lutar, ou que medidas deviam tomar a seguir. E durante todo aquele tempo, os cinco homens de Hausner, juntamente com uns quantos voluntários, mantinham-se vigilantes num perímetro defensivo impossível de aguentar. Aquelas pessoas formavam um microcosmo de Israel: democracia em acção ou inacção. Churchill tivera razão, reflectiu Hausner, ao dizer que o sistema democrático é a pior forma de governação com a excepção de todos os outros.

 

Não escapava à percepção de Hausner que Dobkin também mostrava indícios de impaciência, mas a formação militar que recebera ensinara-lhe a submeter-se à vontade dos políticos.

 

Alguém já se deu ao trabalho de interrogar o prisioneiro? perguntou Hausner, interrompendo quem no momento usava da palavra.

 

Fez-se um silêncio total. Porque falara aquele homem quando ainda não chegara a sua vez? O que tinha o prisioneiro a ver fosse com o que fosse? Um dos membros do Knesset, Chaim Tamir, baixou o olhar até ao árabe, o qual, ao que tudo indicava, adormecera profundamente.

 

Já tentámos, mas ele mostra-se relutante em falar, além de que parece gravemente ferido.

 

Hausner assentiu e, numa passada casual, aproximou-se do prisioneiro dando-lhe um pontapé numa das pernas. Ouviram-se algumas exclamações de surpresa, incluindo uma do próprio árabe, e Hausner voltou-se para trás.

 

Como podem constatar, senhoras e senhores, o orador mais importante que se encontra nesta sala é este jovem. Aquilo que ele nos der a conhecer sobre a capacidade militar dos palestinianos determinará o nosso destino. Arrisquei a minha vida para o trazer até junto de vós, no entanto, só tendes estado a falar do que não interessa.

 

Hausner constatou que Dobkin e Burg manifestavam um sentimento de alívio, a par de alguma ansiedade, e como ninguém se manifestou ele prosseguiu.

 

E caso tenha más notícias para nós, isso não deve ser do conhecimento geral. Portanto, sugiro que, à excepção do senhor ministro, do senhor general e do senhor Burg, todos os demais devem retirar-se.

 

Na sala ouviu-se uma explosão de gritos de indignação por parte dos que se sentiam ultrajados.

 

O ministro pediu a todos que se acalmassem e virou-se para o general Dobkin com uma expressão interrogativa no rosto.

 

Não há dúvida de que isso deveria ter sido a nossa primeira prioridade admitiu Dobkin. Seja qual for o estado de saúde do prisioneiro, é imperativo que o interroguemos, o que deve ser feito sem mais delongas.

 

Sendo assim, por que razão ainda não nos tinha dito isso? perguntou o ministro dos Negócios Estrangeiros, sem ocultar a sua surpresa.

 

Bem, o prisioneiro está ferido e a assistente de bordo deu-lhe uns analgésicos, por isso decidimos fazer antes esta reunião...

 

Importa-se de chamar a si esta tarefa? perguntou Hausner a Burg.

 

É a minha especialidade aquiesceu este, enquanto levava um fósforo ao fornilho do seu cachimbo.

 

O prisioneiro apercebia-se de que era o tema da conversa, o que não lhe trazia grande felicidade.

 

Retomaremos esta reunião num outro local, mas por agora deixamo-lo a sós com o prisioneiro, senhor Burg decidiu o ministro, com um dos seus proverbiais acenos de cabeça.

 

Burg esboçou um gesto de assentimento e todos começaram a sair da cabana, seguindo o ministro dos Negócios Estrangeiros, com uma expressão irritada, quase de rebeldia.

 

Miriam Bernstein travou o passo de Jacob Hausner, colocando-se à sua frente e fitando-o. Ele voltou-lhe as costas, mas ela, surpreendendo-se a si mesma, agarrou-o por um braço, obrigando-o a voltar-se parcialmente.

 

Quem pensa que é?

 

Você sabe muito bem o que sou e quem sou. Míriam tentou dominar a cólera que a invadia.

 

Os fins, senhor Hausner, não justificam os meios.

 

Esta noite justificam.

 

Veja uma coisa: se conseguirmos sair daqui com vida, quero que mantenhamos o nosso sentido de humanidade e respeito próprio intactos

 

insistiu ela, falando lenta e articuladamente. Num curto espaço de tempo, o senhor dispersou uma reunião que prosseguia em moldes democráticos e conseguiu obter autorização para torturar um ferido.

 

Só estou surpreendido por ter levado tanto tempo a conseguir isso

 

ripostou ele, acendendo um cigarro. Entenda uma coisa, Miriam, a primeira jogada foi a favor dos tiranos, o que, muito provavelmente, voltará a repetir-se sistematicamente a partir de agora. Portanto, você e os que perfilham as suas ideias devem meter na cabeça que são supérfluos, a não ser na qualidade de soldados. Tenciono salvar esta situação, que pior não podia ser, ainda que para isso seja forçado a transformar a porra desta colina num campo de concentração.

 

Ela deu-lhe uma violenta bofetada e o cigarro que ele tinha nos lábios voou pelos ares. Os que ainda se encontravam no interior da cabana fingiram não ter visto nem ouvido aquela bofetada dada na escuridão, e seguiu-se um silêncio pesado.

 

O senhor Burg tem uma tarefa à sua espera e nós estamos a empatá-lo, senhora Bernstein disse Hausner depois de pigarrear. Agradeço-lhe que se retire.

 

Miriam abandonou a cabana.

 

Sugiro que inspeccionemos o perímetro de defesa, a fim de avaliarmos a nossa situação acrescentou Hausner dirigindo-se a Dobkin. Atravessou o interior da cabana. Isaac, assim que conseguir saber alguma coisa de concreto, mande um mensageiro avisar-nos. Apontou para o saco de viagem pousado no chão. Aqui dentro estão alguns dados relativos ao perfil psicológico do Rish, bem como informações quanto à sua identificação. Trate disso.

 

Como é que, em nome de Deus...? começou Burg a perguntar, olhando fixamente para o saco de viagem.

 

Foi apenas um palpite que deu certo. Nada mais.

 

Hausner ajoelhou-se junto de Kaplan, quase adormecido, possivelmente devido ao efeito dos sedativos. Era improvável que despertasse com o barulho do interrogatório.

 

Estás a sentir-te bem, Moshe? Queres que te leve para outro sítio?

 

Não é nada que eu já não tenha visto respondeu o ferido numa voz enfraquecida. Vá inspeccionar esse perímetro e trate de arranjar uma boa frente defensiva.

 

Que outro tipo de atitude poderíamos ter, Moshe?

 

Nenhum, que eu saiba.

 

Hausner e Dobkin caminhavam lado a lado quando ouviram um grito penetrante vindo da cabana que atravessou a quietude da noite. Se o primeiro tiro disparado por Brin os levara irremediavelmente ao confronto armado, pensou Hausner, a tortura a que submetiam o árabe obrigava-os a uma política em que a rendição seria inadmissível. Não poderiam pedir que lhes fosse aplicado melhor tratamento do que aquele que davam aos outros, a partir dali, não havia maneira de voltar atrás.

 

Os dois homens caminhavam pelo lado da colina sobranceiro ao rio. A espaços de mais ou menos cinquenta metros, homens e mulheres estavam, sozinhos ou aos pares, de pé ou sentados, olhando em direcção ao Eufrates.

 

Na sua maior parte eram os assessores mais jovens, reparou Hausner, assim como o pessoal de secretariado e intérpretes, de ambos os sexos, que costumavam integrar qualquer delegação diplomática importante. Tinha sido com muita expectativa que haviam encarado a viagem a Nova Iorque e era possível que alguns ainda viessem a fazê-la.

 

Hausner mencionou a Dobkin que teriam de se assegurar de que os delegados cumpriam tarefas de vigilância, tal como todos os outros.

 

Isso reduzirá as suas disponibilidades de tempo para as reuniões de que tanto gostam acrescentou Hausner, e Dobkin sorriu.

 

Deram com McClure e Richardson sentados num montículo de areia e Hausner aproximou-se dos dois.

 

Vocês não tiveram muita sorte.

 

Podia ter sido pior retorquiu McClure, soerguendo o olhar num movimento lento. Contudo, em vez disto, seria melhor gozar a minha licença junto da minha mulher e dos meus sogros.

 

Qual é a situação? perguntou Richardson, levantando-se.

 

Nada boa replicou Hausner, pondo-os a par dos últimos acontecimentos.

 

Vocês querem ir-se embora protegidos por uma bandeira branca? O senhor, coronel, é um cidadão norte-americano que enverga um uniforme da Força Aérea do seu país. Quanto a si, senhor McClure, tenho a certeza de que traz consigo os documentos de identificação adequados que comprovam ser um funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Por isso é quase certo que eles não se atreveriam a fazer-lhes mal. Nos dias que correm, os palestinianos não querem antagonizar o vosso governo.

 

Uma coincidência deveras engraçada comentou McClure. Tive um tio-avô que morreu na batalha de Álamo. Eu costumava interrogar-me acerca da sensação que uma pessoa experimenta quando está sitiada. Percebem? Rejeitar as ofertas de rendição, ver os mexicanos transpor as paliçadas. Deve ter sido um combate e pêras.

 

Dobkin compreendia o suficiente da língua inglesa para ter ficado confuso.

 

Isso é, suponho, uma resposta à pergunta?

 

É um homem estranho, senhor McClure redarguiu Hausner rindo-se, mas teremos todo o prazer em que continue connosco. A propósito, é o único que tem uma arma neste lado da colina.

 

Foi o que imaginei.

 

Certo prosseguiu Hausner. Portanto, se alguém gritar pOr aqui, prepare-se para fazer uns quantos disparos até eu poder enviar um dos homens armados com automáticas, que neste momento estão na encosta oriental.

 

De acordo.

 

Na verdade acrescentou Hausner, que se sentia confiante em relação a McClure, não estou em crer que eles tentem atacar por este lado.

 

Provavelmente não. McClure olhou para o firmamento e depois para Hausner. Acho melhor que organize um tipo de defesa qualquer antes que a Lua apareça.

 

Sim, eu sei replicou Hausner. Obrigado, senhor McClure.

 

Voltou-se para Richardson. Ao senhor também, coronel.

 

Trate-me por Tom disse este último, começando a falar em hebraico, o que surpreendeu Hausner e Dobkin. Estou do seu lado, mas acho que devíamos tentar negociar.

 

Negociar com vista a quê? perguntou Dobkin, aproximando-se mais de Richardson e falando-lhe também em hebraico. Nós fazemos parte de uma missão de paz e metade dos nossos já morreu. O que, supostamente, deveríamos propor?

 

Richardson não lhe respondeu.

 

Levaremos em conta o seu conselho, coronel interveio Hausner.

 

Muito obrigado.

 

McClure não dava mostras de se sentir minimamente incomodado por os outros travarem aquela conversa numa língua que não compreendia, mas Hausner sentiu a tensão existente entre os dois norte-americanos qualquer coisa ali não batia certo.

 

Hausner e Dobkin continuaram a percorrer o perímetro defensivo, que era quase de um oval perfeito ou, tal como o general o descrevera, tinha o tamanho e o traçado de uma pista de corridas, o que levou Hausner a concordar com ele quanto à hipótese de não se tratar de uma formação natural. O cume da colina era razoavelmente plano mais uma prova de que por baixo haveria uma estrutura que fora obra do homem e apresentava como únicos obstáculos algumas dunas formadas pela areia que o vento arrastara, assim como umas quantas valas que a erosão das águas abrira. Havia zonas onde pequenos montes de terra de contorno arredondado se erguiam da superfície nivelada e Dobkin explicou que, muito plausivelmente, seriam antigas torres de vigia que em tempos se haviam erguido acima das muradas da cidadela e em cada uma delas Dobkin colocou sentinelas.

 

Cerca de trinta pessoas, de ambos os sexos, tinham, com mais ou menos dificuldade, ocupado posições defensivas na sua maioria haviam-no feito movidas pelo instinto, e Dobkin só precisara de posicionar algumas logo depois da aterragem forçada.

 

Hausner mantinha-se ao seu lado enquanto o general avaliava o problema da cobertura e camuflagem, assim como os ângulos de tiro, para o que alterou e ajustou a linha defensiva, de forma a tirar melhor partido do terreno. Deu ordens para que começassem a juntar tijolos e terra, para improvisarem parapeitos baixos, e a escavar trincheiras individuais onde fosse possível naquele solo arenoso. Contudo, Hausner perguntava a si mesmo se não seria um esforço inútil, uma vez que os defensores dispunham de pouco poder de fogo.

 

Burg entregara a Dobkin o seu Colt, e este, por seu turno, dera-o a um dos comissários de bordo, Abel Geller, que se colocou numa posição estratégica. Quanto a Hausner também entregou a sua Smith Ó” Wesson a uma jovem estenógrafa de nome Ruth Mandei.

 

Sabe servir-se desta arma?

 

Passei quase toda a minha vida no exército respondeu ela, olhando para a arma, que parecia enorme na sua mão pequena.

 

Hausner contou três pistolas de pequeno calibre, além das seis Smith Wesson dos seus homens. Com a sua eram dez e também podiam contar com Joshua Rubin, armado com a sua Uzi, Brin com a M-14, e com três dos agentes, Jaffe, Marcus e Alpern, armados com AK-47. Estas três armas foram posicionadas estrategicamente de maneira a cobrirem toda a encosta oriental da colina com fogo cruzado. Havia em média uma pessoa de trinta em trinta metros, e se não era o ideal, também não se podia dizer que a situação fosse desesperada.

 

Dobkin encontrou um dos comissários de bordo, Daniel Jacoby, a quem pediu que distribuísse café pelos que se encontravam de vigia no perímetro defensivo.

 

Hausner e Dobkin pararam junto do posto de Brin e viram uma jovem, vestida com um fato de treino de um azul-garrido, que dormia encostada a um pequeno outeiro próximo do agente.

 

Quem é ela? perguntou Hausner.

 

Chama-se Naomi Haber respondeu Brin, desviando o olhar da mira telescópica. É estenógrafa e ofereceu-se para ser a minha mensageira. Preciso de alguém que passe a palavra, se avistar algo de anormal.

 

E já viu alguma coisa? perguntou Hausner.

 

Não.

 

Quando a Lua se puser acredite que verá.

 

Eu sei.

 

Dobkin e Hausner colocaram-se a alguma distância de Brin e da rapariga adormecida. Em silêncio, ambos se puseram a observar a Babilónia, mais abaixo, com um olhar atento.

 

Então...? perguntou Hausner pouco depois, levando um cigarro aos lábios.

 

Não sei retorquiu Dobkin. Tudo depende da determinação com que o ataque seja feito. Uma unidade ou pelotão regulares de infantaria conseguiria tomar esta colina se fossem bons estrategas. Por outro lado, um batalhão composto por quinhentos homens não seria capaz de a conquistar, se fossem maus soldados. Atacar eficazmente uma posição elevada, ainda que a linha de defesa desta não seja muito forte, requer uma coragem especial.

 

E parece-lhe que aquele bando lá em baixo tem essa coragem?

 

Quem sabe? Até que ponto esse Rish é um dirigente carismático? Os seus homens estarão dispostos a morrer por ele? Pela sua causa? Nem sequer sabemos quantos são. Esperemos pelo relatório de Burg.

 

De acordo concordou Hausner, abrangendo num olhar toda a encosta oriental.

 

Distinguia pequenos cursos de água que reflectiam a luz do luar, assim como vastas extensões pantanosas. E contudo, basicamente aquela região era desértica, terra arenosa e barro. Era difícil acreditar que a Mesopotamia tivesse alimentado milhões de pessoas em tempos longínquos. Hausner observava um muro baixo a quase um quilómetro de distância, e para lá deste a estrada onde tinham começado a aterrar.

 

Você conhece realmente esta área, Ben?

 

Muito provavelmente sou capaz de a reproduzir em mapa. De facto, amanhã de manhã, depois de ter encontrado alguns pontos de referência que sirvam Para me orientar, tenciono desenhar uma bela carta militar.

 

Pergunto a mim mesmo como chegaram estes palestinianos aqui.

 

Ora, sabe que isso não é problema para os guerrilheiros.

 

Eles tinham alguns camiões comentou Hausner.

 

Também reparei nisso.

 

E quanto ao armamento pesado? Morteiros?

 

Espero que Deus não permita isso replicou Dobkin.

 

Eles queriam manter-nos como reféns... em cativeiro, na Babilónia, Um aspecto que, sou forçado a admitir, chega a ter a sua graça.

 

Se aterrássemos naquela estrada, acredite que não teria graça nenhuma redarguiu Dobkin. Pergunto-me se agimos da forma mais assisada^..

 

É possível que nunca venhamos a saber retorquiu Hausner, enfiando as mãos frias nas algibeiras. Talvez o Asher Avidar optasse pela atitude mais aconselhável.

 

Talvez.

 

Hausner olhou para norte. A pouco mais de trezentos metros avistou uma colina elevada que se erguia do solo plano com um efeito dramático, e constatou que se tratava de um tell1.

 

O que é aquilo?

 

É a colina de Babil. Alguns arqueólogos dizem que era ali que se erguia a Torre de Babel respondeu Dobkin, seguindo a direcção do olhar de Hausner.

 

Acredita nessa teoria? perguntou este, olhando fixamente.

 

Quem sabe?

 

Acha que daqui podemos avistar os Jardins Suspensos? inquiriu Hausner, olhando à sua volta.

 

Não costumo organizar visitas guiadas durante o sabat retorquiu Dobkin, rindo-se e colocando uma mão enorme no ombro de Hausner.

 

Sinto alguma curiosidade em saber o que sou capaz de identificar deste ponto quando o Sol nascer. As ruínas principais situam-se a sul, ali.

 

Parece-lhe que vive alguém por estas bandas?

 

Os árabes não gostam desta região. Pensam que está assombrada. Conhece os versículos de Isaías?

 

Está a referir-se aos que dizem qualquer coisa deste género: «Tão-pouco o árabe montará lá a sua tenda; nem os pastores apresentarão os seus rebanhos... Mas as bestas selvagens... farão lá o seu leito... e os dragões nos seus belos palácios.» Está a referir-se a estas palavras?

 

Exactamente.

 

E, não obstante, há uma cabana de pastor mesmo ali.

 

Além de uma pequena aldeia situada a poucos quilómetros disse Dobkin, apesar da maldição bíblica que pesa sobre este lugar.

 

1 Elevação artificial de terreno, vulgar no Médio Oriente, formada pela acumulação de ruínas de povoações da Antiguidade. (N da T)

 

Acha que poderemos esperar algum auxílio da gente dessa aldeia? -^perguntou Hausner, extinguindo o cigarro e guardando a beata.

 

Não me parece. Em tempos, fazia parte das minhas funções interrogar os homens dos serviços secretos do Exército quando regressavam das suas missões no Iraque. Existem muitas aldeias iraquianas inacreditavelmente primitivas. Algumas das pessoas que lá moram nem sequer sabem que são cidadãos iraquianos, vivem exactamente como os primeiros camponeses da Mesopotamia, os quais deram início à civilização, precisamente aqui, há cinco mil anos.

 

Isso significa que não nos encontramos perto de nenhum meio de comunicação ou transporte modernos?

 

Temos Hilla, a sul, mas duvido que eles saibam que estamos aqui.

 

Dobkin fez uma pausa, parecendo ter-se recordado de qualquer coisa.

 

Há um pequeno museu e uma casa de hóspedes na zona sul das ruínas da Porta de Istar.

 

Continue pediu Hausner, virando a cabeça na direcção de Dobkin, num movimento rápido.

 

Foi a Secretaria das Antiguidades do Iraque que mandou construir os dois edifícios, há cerca de vinte anos. Conheço o curador do museu, o doutor Al-Thanni, há apenas seis meses encontrei-o em Atenas e correspondemo-nos através de um amigo mútuo que vive em Chipre.

 

Está a falar a sério? perguntou Hausner, começando a andar de um lado para o outro. Acha que conseguiria chegar até lá?

 

Jacob, nós encontramo-nos numa situação que, em terminologia militar, significa cerco, ou seja, quer dizer que estamos sitiados. Tal como pusemos sentinelas em posições de tiro aqui em cima, pode ter a certeza de que eles fizeram o mesmo em redor de toda a colina.

 

Mas se conseguisse atravessar as linhas deles...

 

São muito poucas as hipóteses de o doutor Al-Thanni estar no museu antes de finais de Abril, altura em que se inicia a estação turística.

 

Mas lá deve haver um telefone argumentou Hausner.

 

Provavelmente, tal como água corrente, e já agora também lhe posso dar um palpite quanto à localização, quase certa, do quartel-general de Rish.

 

Mesmo assim, se conseguisse chegar... ao museu ou à casa de hóspedes, haveria uma hipótese de comunicar com o mundo civilizado retorquiu Hausner, detendo-se. Até é possível que o doutor Al-Thanni esteja lá. Talvez consiga arranjar um jipe ou o telefone não seja vigiado. O que lhe parece, Ben?

 

Dobkin olhou para sul, abarcando a paisagem acidentada. Distinguia os contornos de algumas ruínas que já haviam sido escavadas, e até às da Porta de Istar mediavam pelo menos dois quilómetros. Em redor do sopé da colina existiria apenas um cordão esparso de sentinelas, mas apesar disso ele queria ter oportunidade de observar o terreno à luz do dia, ainda que apenas uma vez.

 

Estou de acordo com a sua sugestão, mas, se for apanhado, eles obrigar-me-ão a dizer tudo o que sei sobre o sistema defensivo que temos aqui. Toda a gente acaba por falar, Jacob, está bem ciente disso.

 

Claro que sim.

 

Eu teria de levar uma pistola... para ter a certeza de que não cairia nas mãos deles. Pode dispensar-me uma arma?

 

Não me parece, Ben.

 

Foi o que pensei.

 

Uma navalha ofereceu Hausner.

 

Sabe, nunca consegui entender como conseguiram os nossos antepassados ter tomates para se deixarem cair sobre a lâmina das suas próprias espadas replicou Dobkin, rindo-se. É preciso coragem para isso, já não falando que deve ser muitíssimo doloroso. Ficou com o olhar perdido à distância. Não sei se teria coragem para fazer uma coisa dessas.

 

Bem... começou Hausner sugiro que perguntemos por aí para ver se há alguém que tenha algum medicamento que, tomado em excesso, seja fatal.

 

Dou muito apreço aos incómodos a que você se dá para facilitar o meu possível suicídio.

 

Temos mais de cinquenta pessoas...

 

Eu sei. Sim, estou disposto a ir, mas só depois de ver o terreno à luz do dia. Partirei amanhã ao cair da noite.

 

É possível que não consigamos sobreviver até lá.

 

Vale a pena esperar insistiu Dobkin. Terei mais hipóteses de ser bem-sucedido. Se decidisse partir esta noite, estaria a desperdiçar a minha vida. Não vou fazer isso, quero que os meus esforços tenham êxito.

 

Claro que sim.

 

Isaac Burg aproximou-se a fumar o seu cachimbo, caminhando com um passo pesado, como alguém que tivesse terminado uma tarefa desagradável.

 

Hausner e Dobkin foram ao seu encontro.

 

Ele falou? perguntou o primeiro, adiantando-se.

 

Toda a gente acaba por falar.

 

Ele está...? insistiu Hausner, hesitante.

 

Oh, não, está vivo. Na realidade, nem sequer precisei de apertar muito com ele. Queria falar.

 

Porquê?

 

Eles são todos assim, o Dobkin pode dizer-lhe, e tenho a certeza de que você próprio teve oportunidade de verificar isso em Ramalá. Mostram um misto de bravata, choque, nervosismo e medo. Durante breves instantes dedicou-se a examinar o cachimbo. Além do mais, prometi-lhe que o deixaríamos ir para junto dos companheiros.

 

Não podemos permitir uma coisa dessas adiantou Dobkin. Faz parte dos regulamentos militares. Qualquer pessoa que tenha estado atrás de um cordão defensivo não pode regressar às suas linhas antes de as hostilidades terminarem. É uma regra que se aplica aqui como em qualquer outra parte do mundo.

 

Pois bem continuou Burg, no meu mundo... dos espiões e agentes secretos, fazemos as coisas de modo diverso. Fiz-lhe uma promessa para não dizer que podemos abrir uma excepção por razões humanitárias Além do mais, não teve oportunidade de ver grande coisa. Não beneficia ninguém deixar que um homem morra só porque não lhe podemos prestar cuidados médicos.

 

Vou pensar no assunto ripostou Dobkin.

 

Hausner ouvia os dois a trocarem pontos de vista, mas não travavam uma discussão acalorada, tratava-se pura e simplesmente de um desacordo quanto à interpretação dos regulamentos. No mínimo, Burg era um enigma, na opinião de Hausner. Num minuto estava pronto a torturar um homem até à morte, para no seguinte tentar salvar-lhe a vida. Caso permitissem que o árabe partisse e os companheiros deste tomassem a colina de assalto, capturando Burg com vida, certificar-se-iam de que ele morria de morte muito lenta. Se estivesse no seu lugar, reflectia Hausner, não hesitaria em matar o homem enterrando-o bem fundo. Quanto a Dobkin, era o exemplo de um soldado perfeito, leal, inteligente e até mesmo engenhoso, mas era inquestionável que gostava de se cingir aos regulamentos militares. Hausner começou a sentir-se impaciente ao ouvir os argumentos que cada um apresentava.

 

Vamos pôr esse assunto de parte. Afinal, o que disse o rapaz?

 

O que é que disse? repetiu Burg, batendo com o fornilho do cachimbo na sola do sapato. Um monte de coisas. Contou que se chamava Muhammad Assad e que era um ashbal, tenho a certeza de que conhecem esta palavra, um «gato-montês»... um palestíniano órfão por causa das guerras com Israel. Na verdade, todos aqueles soldados ali em baixo são ashbals, jovens criados pelos movimentos de guerrilha palestinianos. Agora já atingiram a idade adulta e não gostam de nós.

 

A guerra deixa muitos legados retorquiu Dobkin e este é o pior. Ficou a pensar nos ashbals. Quantas crianças abandonadas de olhar vazio, vestidas com andrajos, e que já haviam chorado convulsivamente debruçadas sobre os cadáveres dos pais, entre os escombros das aldeias árabes? A guerra. Agora estavam crescidas, essas jovens vítimas, eram pesadelos que regressavam durante o dia. Eles não gostam nada de nós concordou Dobkin.

 

Isso é inegável corroborou Burg. São um grupo muito perigoso, pois foram todos doutrinados na filosofia do ódio desde o dia em que começaram a ter capacidade de raciocínio. Rejeitam todos os padrões de comportamento considerados normais, o ódio que nutrem por Israel é a sua religião tribal. Bateu no bolso para ver se era aí que estava a bolsa que continha o seu tabaco, o que confirmou. Além do mais, receberam instrução militar desde que começaram a dar os primeiros passos, estão diabolicamente bem treinados.

 

Quantos são? perguntou Dobkin.

 

Cento e cinquenta.

 

Fez-se silêncio.

 

Tem a certeza? insistiu Hausner.

 

Burg confirmou.

 

Como pode estar tão seguro?

 

Porque, em relação aos seus efectivos todos os soldados mentem, não é verdade, Ben? respondeu Burg com um sorriso. Ao princípio, ele disse que eram quinhentos, mas não conseguiu impingir-me essa treta. foi por causa disso que ouviram os gritos. Finalmente, acabámos por concordar em cento e cinquenta.

 

E em relação ao armamento pesado, o que têm? prosseguiu Dobkin.

 

Não esperavam encontrar resistência respondeu Burg. No entanto, na sua maior parte, estão armados com AK-47.

 

Devem ter uma base por perto alvitrou Dobkin.

 

Não tão perto como isso, fica no planalto de Chamiyé, na outra margem do Eufrates, a uns bons cem quilómetros daqui. O governo iraquiano permite a existência desse campo por uma variedade de razões por de mais conhecidas. Seja como for, vieram para aqui, de camião, em finais de Janeiro, antes da estação das cheias, e desde essa altura esperam ordens. Então, há algumas horas, Rish chegou de avião, tendo comunicado com eles via rádio. O resto é da história... que continua a ser escrita.

 

Presumo que Rish seja o chefe? perguntou Hausner.

 

Sim, e o lugar-tenente é um tal Salem Hamadi, outro velho «amigo», que, além de ser palestiniano, também é um ashbal, na realidade, é o responsável por todo o programa dos ashbals. Quanto a Rish, como sabem, não é palestiniano, mas iraquiano, e a aldeia onde nasceu não fica muito longe desta área. De qualquer maneira, há algum tempo, os dois uniram forças, começando a aliciar os órfãos que encontraram em vários campos, tanto do sexo masculino como do feminino, pois cerca de vinte destes «gatos-monteses» são mulheres. Muhammad afirma que há vários anos que são treinados no planalto de Chamiyé, com vista a missões especiais que nunca mais se concretizavam.

 

Sabiam por que motivo foram enviados para aqui? perguntou Dobkin.

 

Disseram-lhes apenas quando o Lear de Rish se preparava para a aterragem. Houve alguma confusão porque não sabiam se seriam um ou dois Concordes que supostamente chegariam. Burg fez uma pausa ao recordar-se do que explodira. Foi-lhes dito que nos manteriam como reféns aqui por diversos motivos de ordem política, alguns dos quais nunca foram muito claros na perspectiva do senhor Muhammad Assad, que admitiu sentir-se bastante surpreendido com a nossa atitude. Desconfio que não se encontravam psicologicamente preparados para combater e sofrer baixas. Estavam preparados, isso sim, para fazerem gato-sapato dos civis israelitas que vinham a bordo de duas aeronaves, mas, de repente, alguns dos seus caíram mortos.

 

Mas são tropas de elite observou Hausner. Foi o que você disse.

 

Eu nunca afirmei isso retorquiu Burg, sacudindo a cabeça. Limitei-me a dizer que eram bem treinadas, o que é diferente, mas nenhum deles entrara em combate até ao momento. Burg deu a impressão de ter ficado a reflectir. Não sei se sabem, mas esta não é a primeira vez que crianças órfãs são preparadas como soldados desde a infância, a história está cheia de casos parecidos. E sabem que mais? Na verdade, nunca foram melhores nem piores do que as tropas recrutadas normalmente, de facto, foram muitas as ocasiões em que até provaram ser piores. Estes soldados órfãos, à semelhança das crianças que vivem em instituições de acolhimento em qualquer parte do mundo, sempre foram um pouco mais obtusas do que os seus iguais criados num ambiente familiar, o que é o caso dos ashbals, tenho a certeza. Não se transformam em tropas especialmente competentes, falta-lhes imaginação, e não possuem virtualmente objectivos pessoais na vida. Carecem de qualquer género de experiência fora do âmbito militar, ao que se deve acrescentar que o seu desenvolvimento emocional é retardado. Têm apenas uma noção muito vaga do motivo que os leva a combater, uma vez que não possuem nenhum lar fora das casernas. Estou certo de que se mostram dispostos a lutar até à morte para defender os seus camaradas e os seus bivaques, mas fora disso não têm qualquer percepção de família ou pátria, na sua mente, para além das unidades, pelotões e companhias em que os integraram, tudo é bastante vago. Existe ainda uma dúzia de outras razões por que nunca chegam a ser soldados ideais, e eu detectei algumas no nosso jovem «amigo» Muhammad. Burg concentrou a sua atenção em Dobkin. Bem...?

 

Estou de acordo com o que acabou de dizer respondeu este, mas o certo é que continuam a ser mais de cem, para não mencionar que estão mais bem armados do que nós. Não parecem prestes a enrolar as suas tendas, como os árabes proverbiais, partindo a coberto da noite.

 

Não concordou Hausner, não farão isso, e por uma simples razão: porque têm dois bons chefes.

 

Esse é o elemento-chave anuiu Dobkin. As chefias. Pareceu estar a rememorar combates antigos, como se travasse um diálogo consigo próprio, e depois fitou Hausner e Burg. Vou dizer-lhes o que sei sobre os árabes do ponto de vista militar. Em primeiro lugar, são uns românticos inveterados, cuja imagem mental de uma guerra se traduz em homens montados em cavalos a atravessar os desertos. Em boa verdade, nos nossos dias, eles não obtêm grandes êxitos em estratégias ofensivas, os tempos em que hasteavam o estandarte do islão, percorrendo meio mundo civilizado, há muito que pertence ao passado. Nesta altura, Dobkin acendeu um cigarro. Contudo, não se deixem enganar pelas minhas palavras, não são uns combatentes tão inferiores como se pretende fazer crer. De maneira geral mostram-se resolutos e corajosos, muito em especial quando em situações estáticas de defesa. A exemplo de muitos militares provenientes de estratos socioeconómicos de nível inferior, estão preparados para suportar as maiores dificuldades e privações, mas na qualidade de soldados, de facto, têm pontos fracos: revelam relutância em passar à ofensiva, e quando as situações sofrem alteração não se mostram capazes de mudar de táctica. Os seus oficiais e sargentos, embora não dos melhores, são elementos essenciais nos aspectos da disciplina e chefia. O soldado árabe médio tem pouco espírito de iniciativa, e ainda menos disciplina, sempre que o seu comandante é morto. Por acréscimo, ainda não se sentem completamente à vontade com o equipamento militar dos tempos modernos, e em particular os ashbals, a julgar pelo pouco que sei deles, dão a impressão de se enquadrar nesta descrição. Mais ainda, ficam de tal forma cegos com a propaganda anti-israelita que, como militares, não são capazes de manter a cabeça fria e não revelam grande profissionalismo.

 

Estou inteiramente de acordo anuiu Burg e creio que talvez se ponham em debandada se perderem o número suficiente de oficiais de patente superior, ou se o número de baixas se tornar inaceitável... o que, sou forçado a admitir, é muito pouco plausível que venha a acontecer dadas as circunstâncias. Por outro lado, nós não temos hipótese de fugir para onde quer que seja, apenas nos resta batermo-nos pelas nossas vidas e todas as baixas são aceitáveis. Não existe qualquer outra alternativa.

 

Há uma disse Hausner por fim. Eles vão querer parlamentar.

 

Mas nunca antes de tentarem um segundo ataque adiantou Dobkin, olhando para o firmamento. Teremos oportunidade de ver se somos capazes de infligir baixas nos efectivos deles dentro de muito pouco tempo, pois a Lua está prestes a pôr-se.

 

Brin foi o primeiro a avistá-los, antes mesmo de os dois homens destacados para a posição avançada, a meio da encosta com a missão de observar os movimentos dos inimigos, os terem detectado.

 

Aproximavam-se como sombras, com os camuflados que os «gatos-monteses» costumavam usar e empunhando as suas espingardas automáticas. A mira telescópica com visão nocturna ampliava o mais pequeno feixe de luz natural, permitindo que Brin distinguisse coisas que nem sequer as criaturas da noite conseguiam ver e que até mesmo os homens objecto de observação não detectavam em si próprios. Via a silhueta dos atacantes enquadrada no dispositivo da arma, distinguia a pele esbranquiçada abaixo dos olhos, sintoma do medo, e também observava os movimentos mais íntimos feitos ao abrigo do que parecia um manto de escuridão os lábios que se movimentavam em preces silenciosas, o urinar apressado, fruto do temor, o puxar de madeixas de cabelo. Viu até uma rapariga apertar a mão do jovem que se encontrava ao seu lado. Brin sentia-se como se estivesse a espreitar por uma fechadura.

 

Estão a aproximar-se avisou, numa voz murmurada, enquanto pousava a M-14.

 

Naomi Haber fez um gesto com a cabeça, que indicava ter ouvido, tocou-lhe no braço e correu a alertar os outros.

 

A longa linha sinuosa de defesa, posicionada na encosta oriental da colina, ficou em estado de alerta quando o aviso se espalhou mais depressa do que a mensageira de pés ágeis.

A escuridão abateu-se sobre o cenário da próxima luta, apenas a superfície luminescente do Eufrates reflectiria qualquer coisa que se deslocasse encosta acima. Homens e mulheres mantinham-se atentos, no cimo da colina, tentando descobrir qualquer forma que se movimentasse, mas mais abaixo só se avistavam as águas cinzento-prateadas do rio Eufrates, que fluíam silenciosamente em direcção ao Sul.

 

Dobkin, Burg e Hausner encontravam-se sobre um pequeno cômoro onde haviam estabelecido a sua posição avançada e posto de observação, que simultaneamente também era o de comando. Daquele local privilegiado esperavam conseguir orientar a defensiva contra o ataque que se desenrolaria nos quinhentos metros que se estendiam abaixo deles.

 

Uma escora comprida de alumínio, retirada da secção da cauda do Concorde, toda retorcida e dobrada, estava espetada no cimo do cômoro de terra endurecida e barro, e do cimo deste pau de bandeira inverosímil fora Basteado um estandarte ainda mais inconcebível: uma T-shirt de algodão, de criança, recuperada de uma das malas de viagem, e comprada com o intuito de ser oferecida a alguém em Nova Iorque. Na frente, ostentava uma paisagem da zona ribeirinha de Telavive, pintada em cores fosforescentes. O objectivo daquela posição avançada e posto de comando era a coordenação das operações um local para onde os mensageiros convergiriam para dar as suas informações e receber ordens, as quais, posteriormente, transmitiriam. Era também o último ponto de reagrupamento das tropas improvisadas, a cidadela dentro da cidadela, a partir donde a última acção se faria na eventualidade de o cordão de defesa vir a ser penetrado ou desagregado. Era uma táctica antiga, da época que antecedera o advento dos radiotransmissores, telégrafo e telefones de campanha. Os três comandantes ocuparam as suas posições no cimo do cômoro, com a sua bandeira hasteada, preparados para esperar.

 

Os dois homens que haviam sido colocados a meio da encosta deixaram-se cair quase sem respiração junto da base do cômoro, relatando o que os chefes já tinham sabido através de Nathan Brin e Naomi Haber.

 

Eles estão a aproximar-se.

 

Brin observava os ashbals, que continuavam a subir pela colina em marcha lenta. Não tinham optado pela formação em fila indiana, tal como haviam feito durante o anterior ataque. Desta feita deslocavam-se em cordão a toda a largura da encosta, em número aproximado de cem efectivos, homens e mulheres, bem espaçados mantendo entre si uma distância de cerca de cinco metros. Mantinham-se em linha, quais tropas de infantaria bem treinadas de outras eras, sem desvios da formação nem tão-pouco ajuntamentos. Também não atrasavam o passo nem se congregavam em áreas que lhes pudessem oferecer meios de protecção e camuflagem naturais, como certamente os seus instintos recomendariam que fizessem, e empunhavam as suas AK-47 com as baionetas caladas. Qualquer pessoa que pudesse assistir àquela cena considerá-la-ia avassaladora, mas, na óptica de Brin, tudo aquilo era uma encenação, treino de parada militar. Estava mais interessado em ver como reagiriam eles quando as balas começassem a ser disparadas do cume, caindo em seu redor. Nessa altura, desconfiava ele, rapidamente reverteriam ao que tinham aprendido na instrução militar moderna, ou seja, constatariam que as condições do terreno não lhes proporcionavam muitos meios de camuflagem e protecção, e começariam a deslocar-se cautelosamente das pedras para as valas e depressões de terreno. Contudo, por agora, a coberto das trevas, apresentavam uma encenação que representava um ataque de infantaria em moldes clássicos o que faziam mais para si próprios do que para impressionar os israelitas, que não conseguiam avistá-los.

 

Saber que era o único que podia vê-los fez com que Brin se sentisse à

beira de um ataque de pânico. O suor acumulava-se na pala de protecção de borracha com que a mira telescópica estava equipada, escorrendo-]}^ para o peito. Os inimigos ainda estavam bastante distanciados, a mais ou menos quinhentos metros, que, pouco depois, ficaram reduzidos a quatrocentos.

 

Dobkin e Isaac Burg não estavam de acordo no respeitante às tácticas defensivas a adoptar. O general pretendia atacar com fogo intenso a uma distância tão grande quanto possível, com a intenção de manter o inimigo o mais longe possível das linhas defensivas, que tão pouco reforçadas estavam, o que com um pouco de sorte provocaria uma debandada em pânico. O prisioneiro árabe dissera que os atacantes não possuíam granadas de mão, mas Dobkin não podia ter a certeza se isso corresponderia ou não à verdade e, em qualquer dos casos, não queria que conseguissem colocar-se de forma a que os defensores ficassem ao alcance desses mortíferos engenhos.

 

Por seu turno, Burg pretendia aguardar, travando combate apenas quando os adversários estivessem perto ao alcance das pistolas com a finalidade de lhes provocar pesadas baixas com um dispêndio de munições tão reduzido quanto fosse humanamente possível.

 

Hausner não foi consultado sobre estas tácticas militares, embora pensasse que os argumentos que Dobkin apresentava eram mais realistas, tendo em vista a situação em que se encontravam. No entanto, sabia de antemão que no fim, Dobkin, um militar de carreira, acabaria por ceder perante um membro civil do governo. Tratava-se de um tipo de decisão bastante subjectivo que o experimentado militar tomara, e a posição hierárquica prevaleceria sempre numa discussão daquela natureza.

 

Hausner pediu licença, saltou do pequeno outeiro e percorreu os cinquenta metros que o separavam do local onde Brin se mantinha ajoelhado.

 

Era visível que este tremia enquanto observava a vaga de ashbals que continuavam a aproximar-se, e Hausner não podia censurar o jovem.

 

A que distância estão? perguntou em voz baixa.

 

A trezentos e cinquenta metros respondeu Brin sem erguer o olhar.

 

Posição?

 

Continuam com a formação em linha, a maior parte avança em campo aberto, com as baionetas caladas.

 

Naomi Haber sentara-se no chão, respirando com dificuldade, semiexausta, e Hausner concentrou a sua atenção na rapariga.

 

Vai a uma das posições que tenha uma AK-47 e diz-lhes que comecem a disparar. Num movimento ágil, ela levantou-se e correu ao longo do cordão defensivo. Hausner voltou-se então para Brin. A que distância estão agora?

 

A trezentos metros.

 

Começa a disparar instruiu numa voz sussurrada.

 

Brin apertou o gatilho, voltou a colocar a espingarda em posição e fez de novo pressão sobre o gatilho. Da boca do cano equipado com silenciador começaram a sair balas em sucessão e foi então que a primeira AK-47 interveio. Foi um sinal para que todos disparassem à vontade, e ao longo do cordão defensivo, vindos do cume da colina, começaram a ouvir-se tiros. Os sons cavos das três AK-47 sobrepunham-se aos sons produzidos pelos tiros das armas de fogo de pequeno calibre e acima de todos os outros ouvia-se o staccato sustenido da Uzi, a pequena metralhadora.

 

De imediato, os árabes ripostaram com o fogo cerrado das suas AK-47 e não tardou que o barulho se tornasse ensurdecedor. Hausner acompanhava o traçado das balas que tinham por alvo os parapeitos baixos improvisados pelos israelitas e não sabia se algum já tinha sido atingido.

 

A missão de Brin era tentar localizar os comandantes das unidades da infantaria, eliminando-os, por isso mudou a posição da arma quando avistou a antena de um radiotransmissor de campanha, transportado, como se fosse uma mochila, pelo operador de rádio. Na extremidade de um fio metálico em espiral que se projectava do rádio estava acoplado um radiofone e junto deste avistou um jovem agachado. Fez pontaria para a boca do soldado, disparou e o radiofone e o rosto do jovem fragmentaram-se em pedaços, que voaram em todas as direcções. Voltou a posicionar a mira da espingarda e fez depois fogo sobre o operador de rádio, a quem atingiu em cheio no coração.

 

O fogo com que os ashbals ripostavam cessou quando a longa formação em cordão foi quebrada, tendo eles começado a formar pequenos grupos, que se aglomeravam à volta de áreas naturais de protecção, pelo que a sua marcha foi atrasada, embora continuassem a avançar. Através da mira telescópica, Brin perscrutou a retaguarda dos ashbals, tentando encontrar os de patente mais elevada. Teve a impressão de ter avistado Rish de fugida, mas então a cabeça dele desapareceu da sua mira, sendo substituída, segundos depois, pelo rosto de uma jovem. Sem hesitar, disparou e viu a cabeça da rapariga descrever um movimento brusco para o lado. A boina saltou-lhe da cabeça e os longos cabelos espalharam-se num movimento ondulado quando ela caiu por terra.

 

Dobkin observava os clarões das rajadas de disparos que acompanhavam o avanço dos árabes pela colina acima. Era possível que tivessem sido bem treinados, no entanto, em matéria de táctica militar dava-lhes uma nota baixa. O método aprovado para um ataque nocturno, o qual fora aperfeiçoado em grande parte pelo exército israelita, era muito diferente do que os ashbals estavam a pôr em prática. Actualmente sabia-se que as acções ofensivas efectuadas a coberto da noite deviam ser realizadas em silêncio na fase inicial, e não com o barulho e impacte das barragens da artilharia, acompanhadas dos gritos dos homens, tal como se praticara em guerras do passado, princípio a que os ashbals tinham obedecido na fase inicial do ataque. Todavia, haviam avançado com lentidão e ripostado ao fogo com demasiada rapidez. Os israelitas sabiam, de combates travados anteriormente, que uma corrida rápida e em silêncio era o método mais eficaz a empregar num ataque nocturno. De maneira geral, as forças inimigas encontravam-se apenas parcialmente em estado de alerta, e ao darem-se conta do que estava prestes a abater-se sobre eles na escuridão não conseguiam acreditar no que os seus olhos viam. Quando, finalmente, começavam a reagir, os atacantes já se encontravam à distância de poderem lançar as suas granadas de mão com eficácia e segundos depois chegavam às trincheiras. Até mesmo um soldado de infantaria com todo o equipamento regulamentar era capaz de correr meio quilómetro em menos de dois minutos.

 

Dobkin continuava a observar o traçado luminoso das balas que atravessavam a escuridão os ashbals disparavam enquanto corriam, após o que se detinham, procurando protecção, precisamente o oposto daquilo que o bom senso militar mandava pôr em prática. Assim, os que integravam o cordão defensivo no cimo da colina disparavam contra os clarões que saíam da boca das armas, enquanto os atacantes corriam, e tanto quanto era dado a Dobkin vislumbrar, até ao momento o fogo dos ashbals, feito a partir dos locais onde tinham procurado protecção, não produzira grandes efeitos, com a excepção de uma baixa de que já fora informado. Percorrendo com o olhar toda a encosta até ao sopé, pareceu-lhe que a intensidade do fogo adverso diminuíra, pelo que admitiu que alguns desses atiradores tivessem sido atingidos.

 

Haviam sido necessários inúmeros combates ao longo de muitos anos para que pudesse avaliar a forma como um combate nocturno decorria, com base nos clarões e barulhos, a partir de uma posição elevada. E, acima de tudo, era preciso uma espécie de instinto guerreiro que lhe dizia quando as coisas corriam bem, ou quando a batalha estava perdida.

 

No cômputo geral, apesar do intenso tiroteio, Dobkin sabia que as baixas seriam em número bastante reduzido quer num lado quer no outro, situação que só se alteraria quando os comandantes se encontrassem quase frente a frente. Tinha sido sempre assim ao longo de épocas passadas, mas desta feita sentia que a vitória estaria do lado deles. Virou-se para Burg.

 

Estamos em presença de tropas muito mal preparadas, o que não impede que sejam muito determinadas. O mais provável é que dentro em pouco se nos acabem as munições. Talvez devêssemos dar ordens para que os nossos efectivos retrocedessem para este outeiro.

 

Burg abanou a cabeça. Muito antes de ter integrado os serviços secretos, comandara um batalhão durante a Guerra da Independência e também era dotado de um sexto sentido para aquelas situações.

 

Vamos esperar, tenho um pressentimento de que eles acabarão por bater em retirada.

 

Dobkin não lhe deu resposta.

 

Ao nascer do Sol devemos levar Hausner a conselho de guerra comentou Burg, como se estivesse a discutir o estado do tempo.

 

Não temos a certeza de que foi ele quem deu a ordem para que começassem a disparar contrapôs Dobkin.

 

Sabe bem que sim.

 

Burg mantinha-se de pé com uma das mãos na espécie de mastro de alumínio retorcido onde flutuava a improvisada bandeira. Dava a impressão de estar hipnotizado pelos clarões que saíam do cano das armas, a par do sibilar incessante das balas. Apercebeu-se de que o que faltava àquele teatro de guerra era o troar dos canhões, que imprimia a todos os bélicos um carácter especial. Aquele recontro assemelhava-se em muito a um filme norte-americano de polícias e ladrões só pistolas e metralhadoras ligeiras.

 

E então, general? Parece-lhe que o Hausner tenha dado a ordem de fogo contra as nossas ordens? perguntou Burg.

 

Suponho que tenha sido ele respondeu Dobkin, que não estava com disposição para discussões. Mas, na verdade, isso não faz uma diferença por aí além, não lhe parece?

 

No que me diz respeito faz, e até muita.

 

Ao longo de todo o cordão defensivo, a intensidade de fogo permanecia constante, uma vez que, se começassem a poupar munições, tal seria um indicador claro de que o fim estaria próximo. Contudo, as munições que restavam aos israelitas eram cada vez menos, de facto, algumas das pistolas já estavam sem balas. As AK-47 continuavam a executar a sua sinfonia de detonações curtas, enquanto Joshua Rubin, com a sua Uzi, continuava a disparar sistematicamente, parando apenas para que o cano arrefecesse. Brin, que gastava um número relativamente pequeno de balas, era o mais mortífero, contando já com nove baixas infligidas pela sua arma.

 

Naquele momento, os ashbals encontravam-se a cerca de cem metros das linhas defensivas, mas o número de baixas que sofriam aumentava na proporção de cada dez metros que avançavam.

 

Surgiu alguém que corria na direcção do posto de comando, vindo da encosta ocidental e Dobkin e Burg ficaram à espera das más notícias que os informariam de que os árabes tinham lançado um ataque secundário do lado do rio, cuja defesa estava a cargo de McClure, armado apenas com a sua pistola, e de doze homens e mulheres munidos de tijolos e bocados de placas de alumínio, com que haviam improvisado lanças. O mensageiro saltou para cima da pequena elevação de terreno, tentando recuperar a respiração.

 

Está tudo calmo na encosta ocidental informou, com uma careta risonha.

 

Dobkin retribuiu-lhe o sorriso, dando-lhe uma palmada amigável nas costas.

 

Essa é a única notícia boa que recebi desde que uma senhora, ontem à noite, em Telavive, concordou com a minha proposta.

 

Hausner, ajoelhado ao lado de Brin, previa que o fim das hostilidades ocorreria dentro de minutos, porque muito simplesmente não dispunham de munições suficientes para manter aquele ritmo de fogo.

 

Os defensores, como se lhe tivessem lido os pensamentos, aumentaram a intensidade dos disparos, numa última e desesperada tentativa de provocar o pânico entre os atacantes, enquanto Hausner não perdia de vista os árabes, que continuavam a aproximar-se e que naquele momento eram parcialmente visíveis apesar das trevas. Os ashbals começaram então a vacilar perante o aumento de fogo que se abatia sobre eles, e retardaram o avanço, embora continuassem a mostrar-se resolutos. O ímpeto com que o ataque se iniciara abrandou consideravelmente, mas, se bem que dessem mostras de recear avançar, também não faziam menção de bater em retirada. Os seus chefes gritavam e empurravam-nos, tentando recuperar a iniciativa, e com alguma relutância uns quantos grupos recomeçaram a avançar.

 

Brin, tirando partido da visibilidade crescente a que os chefes estavam expostos, abateu dois em menos de trinta segundos e os outros procuraram de imediato proteger-se quando se aperceberam do que estava a acontecer. Ao mesmo tempo, tentava desesperadamente descobrir Rish, pois examinara minuciosamente a fotografia incluída nos elementos de identificação que Hausner trouxera respeitantes ao terrorista, e fizera-o ao longo da última hora com tal intensidade que tudo o que conseguia ver em pensamento era a fisionomia de Rish espelhada no rosto de todos os árabes. Contudo, sabia que quando avistasse efectivamente esse rosto teria de estar absolutamente seguro da sua identidade.

 

Entretanto, alguns dos israelitas, principalmente os que tinham experiência militar, ao ouvirem os gritos dos adversários, e deduzindo que havia problemas entre os ashbals, resolveram então contra-atacar. Assim, Hausner, que continuava a observar tudo o que se desenrolava à sua frente, viu, perplexo, um grupo de cerca de vinte homens e mulheres, sem terem recebido ordens nesse sentido, largarem a correr, também aos gritos, pela colina abaixo.

 

Dobkin teve a percepção do que estava a acontecer e, com um frio distanciamento, sopesou as possibilidades de êxito. A ideia subjacente a um contra-ataque, de características primitivas, em que os gritos selváticos imperavam, era semear o pânico entre os agressores e, caso fosse posto em prática com o impacte e a convicção suficientes, e se fosse espontâneo, como aquele, poderia fazer com que o sangue nas veias do inimigo gelasse. Os mais cobardes dentre eles seriam os primeiros a reagir, depois até mesmo os mais intrépidos debandariam, numa situação em que os atacados se transformavam em atacantes, e, na falta de um plano de recurso previamente elaborado, correriam até cair de exaustão.

 

Mas seria esse o caso ali? O que poderia acontecer se os ashbals tivessem destacado outra força para a encosta do lado do rio? Na hipótese de decidirem atacar por esse lado, Dobkin não estava em condições de enviar reforços, pois parte dos israelitas encontrava-se a meio da encosta oriental, efectuando um contra-ataque que não fora autorizado. Aquilo era o exemplo do que sucedia sempre que as pessoas desobedeciam às ordens que lhes haviam sido dadas. Dobkin começou então a correr na direcção da encosta oriental.

 

Hausner pegou na M-14 e observou a cena através da mira telescópica. Durante breves instantes, a situação manteve-se equilibrada, mas, se as fileiras dos ashbals não começassem a desagregar-se, haveria um autêntico massacre. Os israelitas que tinham passado ao ataque, em número bastante inferior, na proporção de um para cinco, além de mal armados, estavam agora a uma distância de poucos metros dos árabes e disparavam com uma pontaria cada vez mais certeira. Joshua Rubin, que parecia ter enlouquecido por completo, corria enviando sucessivas rajadas, a um ritmo que, pensava Hausner, acabaria por derreter o cano da Uzi. Aos ouvidos de Hausner chegavam os gritos de guerra primitivos, os quais se sobrepunham a todos os outros ruídos da refrega.

 

Hausner, que começou a disparar a M-14, tendo por alvo os ashbals que rodeavam Rubin, numa tentativa para o proteger do fogo inimigo, viu então um dos atacantes descerrar fileiras e bater em retirada. Em seguida, foi a vez de duas jovens, logo imitadas por outros, enquanto ouvia a palavra árabe para retirada, gritada pelos ashbals em debandada. Alguns dos comandantes ainda tentaram evitar a fuga das suas tropas, mas Hausner enquadrou um desses chefes, que estava a obter algum sucesso, e disparou. O homem foi atingido, caindo por terra e tornou-se evidente para os outros que havia alguém armado com uma espingarda equipada com uma potente mira telescópica, que lhes estava a causar um número de baixas considerável. Agora que os atacantes eram mais visíveis, a tentativa de os agressores organizarem uma força de reacção traduzir-se-ia virtualmente por um suicídio colectivo. Hausner voltou a fazer pontaria, pois tinha treinado tiro ao alvo com todo o tipo de armas distribuídas aos seus homens, mas aquilo não fazia parte das suas funções, pelo que Brin começava a mostrar sinais de impaciência. Disparou então uma vez mais, atingindo outro dos chefes, após o que devolveu a espingarda a Brin.

 

Finalmente, por entre os gritos para chamar os maqueiros com padiolas para os feridos, os chefes árabes sobreviventes começaram a sentir-se desanimados, juntando-se aos que já se tinham posto em debandada.

 

A retirada fez-se então de maneira mais ordenada quando os ashbals constataram que já havia alguma distância entre eles e os israelitas, os quais já tinham perdido a loucura, fruto do desespero, que os levara a efectuar aquele contra-ataque.

 

Os árabes começaram a reunir o armamento espalhado pelo chão, ao mesmo tempo que recolhiam os seus mortos e feridos enquanto organizavam as forças da retaguarda, de forma a ganharem tempo para bater em retirada. Contudo, enquanto desciam a encosta, eram atingidos por desprendimentos de terra, que os faziam cair, sendo forçados a largar os mortos e os feridos.

 

Os israelitas seguiam-nos de perto, até que finalmente pararam quando um mensageiro enviado por Dobkin lhes ordenou que retrocedessem. Então reuniram todo o armamento abandonado que lhes foi possível encontrar no meio da escuridão e subiram até ao cume da colina, sujos, suados e exaustos. Rubin e uma das estenógrafas, Ruth Mandei, tinham sido atingidos, embora os ferimentos não fossem graves.

 

Continuavam sem notícias da encosta do lado do rio, o que levou Dobkin a decidir enviar dois homens armados com AK-47 com a missão de avaliarem a situação nessa área. Depois, o silêncio abateu-se sobre a colina, apenas o cheiro a cordite pairava no ar onde mais nada bulia.

 

Hausner tirou a M-14 das mãos de Brin e, através da mira telescópica, fez um último reconhecimento da situação, verificando que os árabes continuavam a retirar. Naquele momento já se encontravam fora do alcance da espingarda, ainda que conseguisse vê-los com toda a clareza. Avistou um homem sozinho sobre uma elevação de terreno, tendo ao lado o corpo de uma mulher de cabelos compridos e que se mantinha imóvel enquanto os últimos ashbab passavam por ele. O homem ergueu o olhar até ao cimo da colina que custara a vida a tantos dos seus irmãos e, com o braço, fez um movimento amplo uma espécie de saudação ou um gesto de quem lança uma maldição, Hausner não soube como interpretá-lo. Àquela distância não foi capaz de o identificar, mas ficou com a certeza absoluta de que se tratava de Ahmed Rish.

 

O primeiro-ministro de Israel entrou, sem se ter feito anunciar, na sala onde se reunia o seu gabinete de crise, em Telavive. O pessoal da Força Aérea permitiu-se um olhar de fugida, após o que retomou o seu trabalho.

 

O barulho que vinha dos telefones, teleimpressores e equipamento electrónico era muito mais elevado do que o primeiro-ministro se recordava de ter ouvido desde os seus tempos da Guerra do Yom Kippur, em 1973.

 

Instintivamente, procurou o general Talman na sala espaçosa, mas então recordou-se do ocorrido e dirigiu-se ao homem que o substituíra, o general Mordecai Hur, enquanto a sua comitiva se dispersava pela sala, a fim de recolher informações e transmitir as ordens que havia recebido.

 

O primeiro-ministro aproximou-se do novo chefe da Força Aérea.

 

Há sobreviventes do zero um? perguntou a Hur.

 

Este era uma cópia fiel do oficial que o antecedera naquele cargo, pois, além de ter recebido também instrução militar na Grã-Bretanha, mostrava-se reservado, correcto, bem-falante e andava sempre bem vestido. O primeiro-ministro, apesar de não revelar nenhuma destas facetas, o que não o impedira de se dar bem com Talman, alimentava esperança de poder vir a estabelecer o mesmo tipo de relacionamento com o general Hur.

 

Este abanou a cabeça num movimento quase imperceptível.

 

Não, senhor primeiro-ministro, mas já conseguimos recuperar quase metade dos cadáveres. Fez uma pausa. Deve calcular que não encontraremos nenhum sobrevivente.

 

Sim, eu já supunha isso. Olhou à sua volta, lendo os mostradores electrónicos. Neste momento, Motty, qual é a posição do zero dois?

 

Hur sentiu-se ligeiramente desconcertado ao ouvir o diminutivo do seu nome.

 

Não sei, senhor primeiro-ministro, e em cada minuto que passa a área onde o aparelho poderá estar vai aumentando, isto é, se reabasteceram os depósitos e continuam no ar. Chegámos aos limites dos nossos recursos para fazer o que quer que seja a fim de o encontrar.

 

O primeiro-ministro concordou.

 

E quanto ao satélite dos Estados Unidos em órbita sobre o Sudão, já enviou algumas imagens?

 

Aqui está um relatório que recebemos do agente que destacámos para essa região respondeu Hur, pegando numa folha de papel que tinha ao lado. Chegou-se à conclusão de que o que se vê na fotografia são placas de alumínio dispersas pela areia, cujo tamanho e configuração podem corresponder às de um Concorde.

 

Mas serão do zero dois?

 

Quanto a isso, as opiniões divergem. Eu diria que eles se serviram de uma artimanha muito bem concebida, mas há quem pense tratar-se apenas de uma coincidência. Contudo, ainda possuímos mais três ou quatro fotos semelhantes a esta que teremos de estudar. Vamos tentar avaliar a situação com a ajuda de raios infravermelhos e de estudos espectrográficos, se conseguirmos arranjar um agente no local que nos mereça confiança. A acrescentar a isto, ainda podemos contar com os relatórios de radar, rádio e visuais, o que, no entanto, se poderá vir a provar serem somente pistas falsas sem nada de substancial.

 

Tratou-se de uma operação cuidadosamente planeada, mas para ser bem-sucedida alguém forneceu aos terroristas informações sigilosas, não lhe parece?

 

Essa não é a minha área, senhor primeiro-ministro. Terá de perguntar ao chefe Shin Beth.

 

Havia mais de uma hora que o primeiro-ministro dera instruções a Mazar nesse sentido, mas o pessoal dos Serviços de Segurança Interna ficara tão surpreendido com tudo aquilo como qualquer outra pessoa. Não obstante, Mazar, ao contrário de uma dúzia de responsáveis, não lhe apresentara a demissão e o primeiro-ministro, quer lhe agradasse ou não, era forçado a admirar um homem que lhe dissera: «Vá-se lixar, o facto de eu me demitir não resolverá o problema», embora soubesse que, mais cedo ou mais tarde, Mazar teria de ser afastado do seu cargo.

 

Entretanto, foi abordado por um assessor que lhe levava um telefone.

 

É o secretário-geral das Nações Unidas, senhor primeiro-ministro.

 

Sim... senhor secretário-geral? atendeu este último, que passou a ouvir atentamente as informações relativas àquela situação de crise, que pedira algumas horas antes ao Conselho de Segurança da ONU.

 

Assim ficou a saber que as delegações afectas às negociações de paz continuavam em Nova Iorque, ninguém fora chamado pelos respectivos governos, e que o estado de espírito prevalecente era de grande apreensão. Iria Israel reagir de maneira a colocar os estados árabes numa posição melindrosa? O responsável israelita recusava-se a fazer declarações, quer num sentido, quer no outro, e o diálogo prolongou-se por alguns minutos, pontuado pela cortesia. O primeiro-ministro lançou um olhar ao mostrador do relógio instalado numa das paredes. Em Nova Iorque era meia-noite e o secretário-geral dava a impressão de estar fatigado.

 

Estou-lhe muito agradecido, poderia pôr-me em comunicação com o gabinete da missão de paz israelita? Muito obrigado.

 

Falou com o embaixador permanente nas Nações Unidas, a quem se seguiram algumas das pessoas que haviam ido para Nova Iorque há mais tempo com a incumbência de preparar a conferência de paz, tarefa a que se dedicavam há vários meses. Muitos tinham amigos e familiares a bordo da aeronave que explodira em pleno voo, por isso expressavam um misto de ultraje, desespero e optimismo. O primeiro-ministro conseguia ouvir o eco da sua própria voz, que era transmitida através dos altifalantes nos gabinetes onde eles trabalhavam, de modo que resolveu dirigir-se a todos:

 

Vocês prepararam um solo fértil para que o processo de paz se possa desenvolver harmoniosamente para além do cargo que desempenhava, o primeiro-ministro também se dedicava à agricultura, daí o seu pendor para recorrer àquele tipo de metáforas, por isso, teremos por certo oportunidade de lançar essa semente à terra. Assim, mantenham o solo amanhado, mas se for necessário arar a terra com sal... aqui fez uma pausa, aquela linha telefónica não era segura o FBI e a CIA teriam instalado dispositivos de escuta, mas esse era o seu objectivo: queria que ouvissem as suas palavras, que toda a gente tivesse conhecimento delas... então, não hesitaremos em fazê-lo de forma a que fique estéril durante uma década e com estas palavras, desligou o telefone, voltando a concentrar a sua atenção no general Hur, a quem disse: Só dentro de alguns minutos é que o Departamento de Estado americano ouvirá a gravação deste telefonema, e nessa altura tenho a certeza de que entrarão imediatamente em contacto connosco. Vamos aproveitar esta pausa para tomar um café.

 

Dirigiram-se à cafetaria, servindo-se eles próprios do café. Um balcão próximo estava a ficar empilhado com jornais da imprensa local e estrangeira e na primeira página de quase todos via-se a mesma fotografia de um Concorde com o símbolo da El Al, que o primeiro-ministro reconheceu: tinha sido tirada, para efeitos de relações públicas, por ocasião do voo inaugural do 01. Todos os jornais publicavam grandes títulos referindo-se à mesma notícia, embora em contextos variados e em diversas línguas. O primeiro-ministro começou a folhear de fugida alguns desses jornais.

 

Por vezes tenho a sensação de que estamos muito sozinhos neste enorme planeta, mas há ocasiões em que sinto que as pessoas se interessam por nós.

 

O general Hur baixou o olhar até ao café negro na sua caneca, após reparar nos olhos avermelhados e no cabelo um pouco despenteado do primeiro-ministro. Nunca fizera fé naquela conferência quando se tinha começado a falar na possibilidade da sua realização, mas agora constatava que muita gente acreditava firmemente nesse esforço em prol da paz, o que lhe provocou um sentimento de culpa pelo facto de ter albergado a esperança de que algo qualquer coisa de pouca monta fizesse com que fosse cancelada. Ergueu o olhar até ao rosto do primeiro-ministro.

 

A minha experiência como militar diz-me que, de maneira geral, as pessoas só se interessam pela paz na última hora, e nessa altura é muitas vezes impossível inverter o curso dos acontecimentos.

 

E quando pensa que chegará esse momento, general?

 

É-me impossível responder à sua pergunta, senhor primeiro-ministro. Essa é a particularidade que distingue qualquer coisa de última hora. Nunca se sabe quando faltam quinze minutos... e só nos apercebemos de que ela já passou cinco minutos depois...

 

Entretanto, surgiu outro ajudante com o telefone para o primeiro-ministro.

 

É uma chamada de Washington, do Departamento de Estado. O chefe do governo lançou um olhar rápido ao general Hur e agarrou no auscultador.

 

Sim, senhor secretário. E como têm corrido as coisas na sua quinta na Virgínia? Sim, sim, eu sei, a região costeira tem sofrido bastante os efeitos da salinização desde que os seus antepassados se instalaram nessa área. Os tempos mudam, mas as marés não se compadecem. Também se nos deparam problemas similares por aqui. Os mares possuem tanto espaço por onde as suas águas podem correr e, contudo, ficamos com a impressão de que só querem espraiar-se por terra.

 

Durante alguns minutos travaram um diálogo repleto de rodeios até que o primeiro-ministro pousou o auscultador sobre o descanso, voltando-se para Hur.

 

A nossa reputação de povo que reage fortemente a actos de terrorismo não nos prejudicou em nada. Toda a gente quer ter a certeza de que continuamos abertos a negociar.

 

O general pareceu esquecer-se do seu sentido de profissionalismo e do cargo que ocupava.

 

E estamos?

 

O primeiro-ministro abarcou o seu gabinete de crise num só olhar e ficou em silêncio durante bastante tempo, até que retomou a palavra.

 

Não sei, general. Não há maneira de podermos alterar o que aconteceu ao zero um, mas estou em crer que o estado de espírito das pessoas dependerá em grande parte do destino que o zero dois levou. Porque não recebemos ainda notícias dos piratas do ar?

 

Não sou capaz de imaginar uma razão.

 

Talvez não sejam...

 

Não sejam o quê, senhor primeiro-ministro?

 

Não tem importância. Já teve oportunidade de ler o relatório que a Aerospatiale nos enviou?

 

Já, trata-se de um exemplo clássico de «depois da casa roubada trancas à porta», e daí não nos virá grande ajuda.

 

Os palestinianos que prendemos junto do aeroporto não devem estar ao corrente de nada importante acrescentou o primeiro-ministro.

 

Eu ficaria muito surpreendido se assim não fosse.

 

Ter-nos-emos esquecido de algo, Motty?

 

Não replicou o interpelado. Não me parece. Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance. Mantemo-nos em comunicação constante com os centros de operação das forças aéreas, de Teerão a Madrid, e podemos contar com o auxílio deles. A partir de agora, tudo depende de qualquer notícia que nos seja dada pelos serviços secretos.

 

Ou isso ou o senhor Ahmed Rish decidirá finalmente contactar-nos para nos informar do desenrolar da situação.

 

Quanto a mim, preferia que nos inteirássemos pelos nossos próprios meios retorquiu Hur.

 

Continue a tentar, Motty incentivou o primeiro-ministro, lançando um último olhar à sala. Prosseguiremos esta conversa mais tarde.

 

Com certeza, onde é que posso contactá-lo, se surgir algo de novo?

 

O chefe do governo ficou a pensar. Os meios de comunicação e transporte em Telavive eram muito superiores aos de outras cidades e, sob outros aspectos, também era mais segura e menos exposta. Um estudo elaborado pelo Ministério da Defesa reafirmava que ela devia ser o centro de todas as operações durante uma situação de crise e, no entanto, a verdade é que a capital da nação era Jerusalém não apenas a sede administrativa, mas também o coração e a alma de Israel, a cidade que representava um conceito, um estado de espírito, e uma entidade espiritual que eram eternos. Ainda que não passasse de um monte de escombros ou de solo salinificado, tal como os romanos a haviam deixado nunca deixaria de ser tudo isso.

 

Em Jerusalém, vou para lá.

 

Hur fez que sim com a cabeça, esboçou um sorriso, e o primeiro-ministro abandonou o gabinete de crise.

 

Teddy Laskov encontrava-se sozinho na pista, no extremo do Aeroporto de Lod, área reservada à base militar. Um falso alvorecer iluminava o céu a oriente, deixando ver os contornos das colinas da Samaria que se elevavam acima da planície de Sharon. Durante muito tempo, ficou a observar o firmamento até que a luminosidade desapareceu, dando lugar ao interregno mais escuro que antecedia o verdadeiro amanhecer.

 

Voltou-se, percorrendo com o olhar as pistas alcatroadas até onde os doze F-14 estavam estacionados e cujos contornos se recortavam contra os feixes de luz que vinham do terminal internacional, à distância. Os jactos, quais sentinelas de guarda às fronteiras da civilização e da humanidade, encontravam-se envoltos num manto de silêncio. As pessoas chamavam-lhes máquinas de guerra, reflectiu Laskov, e iria sentir a sua falta, a falta do cheiro do couro e dos fluidos hidráulicos, das salas onde os pilotos recebiam as últimas instruções de voo, dos ruídos de estática nos rádios. Muito em especial, sentiria a ausência dos homens e mulheres que haviam feito com que a Hei Havir fosse algo mais do que uma colecção de metal de preço exorbitante. Desde o primeiro avião que pilotara nos céus da Rússia até ao último em Israel tinham decorrido quarenta anos, e, qualquer que fosse a avaliação que se fizesse, na sua opinião era muito tempo.

 

Voltou-se e dirigiu-se para o jipe que o aguardava, permitindo-se um último olhar para trás ao subir para o veículo.

 

O motorista ligou as luzes, engrenou a mudança e começou a percorrer a pista em direcção à estrada para Telavive, enquanto Laskov tirava o quépi e o capote, que colocou no colo. O vento nocturno soprava por cima do pára-brisas despenteando-lhe os cabelos grisalhos e, recostando-se no assento, pensou em Miriam, cujo destino durante alguns minutos estivera nas suas mãos, de facto, não só o dela como também o de toda a nação, mas agora tudo o que lhe restava limitava-se ao quépi e ao capote. Sentia uma certa ambivalência ao deixar a autêntica panela de pressão que era uma posição de comando e, apesar de estar bem consigo mesmo, não conseguia eliminar um sentimento de vazio. Apercebeu-se ainda de que aquela sensação de solidão se abatia muito rapidamente sobre si e de que, sem Miriam, se acentuaria ainda mais.

 

O motorista aventurou-se a lançar-lhe um olhar de esguelha e Laskov virou a cabeça, obrigando-se a um sorriso forçado.

 

Para casa, meu general? perguntou o jovem, depois de ter pigarreado.

 

Sim, para casa.

 

Pouco passava das seis da manhã quando o firmamento começou a clarear num azul perfeito sem uma única nuvem. No ar sentia-se uma ligeira brisa fresca, e a humidade que vinha das brumas do rio pairava acima da colina. As névoas matinais elevavam-se da superfície das águas, à medida que a temperatura do ar ia aquecendo, e algures os pássaros deram início aos seus chilreios. Minutos depois, o Sol começou a subir acima dos cumes das montanhas Zagros, que se erguiam à distância, em terras do Irão, dissipando as brumas que pairavam perto do solo.

 

Hausner perguntava a si mesmo o que deveriam ter pensado os antigos habitantes do vale do Tigre e do Eufrates ao avistarem aqueles picos montanhosos, envoltos em mistério, cobertos de neve, sempre que o Sol se elevava no céu surgindo por detrás deles todos os dias. E então, um belo dia, os persas haviam chegado vindos dessas alturas. Gente semibárbara, sôfrega de sangue, que derrotou as antigas civilizações dos rios Tigre e Eufrates. Contudo, os conquistadores acabaram por ser assimilados pela cultura dos habitantes ancestrais daquele vale.

 

Mais ou menos em todos os séculos, homens da montanha, ferozes e esquálidos, surgiam de rompante vindos das terras altas, do que hoje em dia é o Irão e a Turquia. As cidades e vilas da Antiguidade, assim como os campos, assimilavam a destruição e os saques, as violações de que as mulheres eram vítimas e os massacres, prosseguindo as suas vidas sob o domínio dos novos senhores, depois de a poeira ter assentado e terminada a matança. Em seguida, foram os povos arábicos que vieram dos desertos do Sul, destruindo os antigos deuses.

 

Contudo, os piores haviam sido os mongóis, que espalharam tanta destruição que a Mesopotamia nunca mais conseguiu recuperar desse desastre, e o que em tempos fora uma região habitada por vinte ou trinta milhões de pessoas a maior concentração de populações em todo o mundo, com a excepção do Egipto e China transformou-se num deserto onde viviam uns escassos milhares de pessoas aterrorizadas e sofrendo de inúmeras moléstias. As terras, cultivadas continuamente ao longo de quatro mil anos, transformaram-se em poeira estéril, e os pântanos, donde vinha a malária, e as dunas instalavam-se alternadamente naquela região, enquanto as águas dos dois rios gémeos corriam selvaticamente pelos seus leitos assoreados, inundando as margens, ou nelas depositando os seus aluviões. Alguns séculos mais tarde, com a chegada dos turcos, as terras e os povos sofreram um declínio ainda mais acentuado, e quando os britânicos escorraçaram esses últimos invasores, em 1917, tinham dificuldade em acreditar que aquela área fora o Crescente Fértil. Os lendários Jardins do Paraíso, em Qurna, estavam reduzidos a um pântano tão pestilento que os soldados britânicos costumavam dizer na brincadeira: «Se isto são os Jardins do Paraíso, eu detestaria ser obrigado a ver os do Inferno.”

 

Não admirava, pois, que os actuais iraquianos fossem um povo vingativo, pensava Hausner uma mistura de gente amarga face ao seu destino histórico, mas orgulhosa da herança que a Antiguidade lhe legara. Esse era um dos elementos-chave da personalidade complexa de Ahmed Rish. Se houvesse alguém em Telavive ou em Jerusalém que tivesse capacidade para o compreender, então seria possível que dissesse: «O exílio babilónico.»

 

Hausner sacudiu a cabeça. Não, era fácil chegar a essa conclusão quando se estava de facto na Babilónia, mas não seria assim tão evidente para os serviços secretos militares, que estudavam relatórios via rádio e posições indicadas por radares, fotografias de levantamentos topográficos aéreos e memorandos internos enviados por agentes de campo.

 

Não obstante, os serviços secretos israelitas eram conhecidos pela imaginação fértil do seu pessoal e maneira de pensar nada convencional. Caso examinassem com atenção o perfil psicológico de Ahmed Rish um romântico com ilusões de grandeza histórica, então talvez conseguissem chegar às conclusões certas, e Hausner esperava que tal acontecesse.

 

Começou a inspeccionar a diluída linha defensiva. A partir daquele momento, dispunham de mais duas AK-47, e talvez munições em quantidade suficiente para conseguirem aguentar outro ataque com as mesmas características do que haviam sofrido na noite anterior.

 

Todos trabalhavam no cordão defensivo, com a excepção de um pequeno grupo que se oferecera para passar uma vez mais a pente fino a encosta, na esperança de ainda encontrar mais armamento, para o que se muniram de folhas e pedaços de alumínio, que usariam como se fossem pás, a fim de darem sepultura a dois árabes mortos, que haviam sido abandonados.

 

Os israelitas tinham sete pessoas feridas e uma delas era Chaim Tamir, um dos delegados da missão de paz, que se queixava de muitas dores. Todos descansavam o mais confortavelmente possível na antiga cabana de pastores junto de Kaplan, local que Hausner designara com enfermaria, onde estavam aos cuidados das duas assistentes de bordo.

 

Entretanto, haviam começado a construir uma rampa com barro e terra, a qual se estendia até à extremidade de uma das asas delta, o que facilitaria o acesso ao interior do Concorde. O trabalho era efectuado por homens de tronco nu, que suavam profusamente, utilizando ferramentas improvisadas feitas de sucata do aparelho, sendo a terra transportada em malas de viagem e cobertores e compactada à força de pés e mãos.

 

Hausner subiu pela rampa semiacabada, saltou para cima da asa e entrou na cabina de passageiros por uma das portas de emergência. Sentados na traseira da aeronave, de frente para si, estavam Burg e Dobkin, o conselho de guerra a que teria de se submeter.

 

Hausner percorreu a coxia e viu que o Sol se filtrava através das pequenas janelas e que os seus raios banhavam de luz as partículas de poeira que entravam pelo rombo da antepara da cauda.

 

Bons dias saudou, permanecendo de pé na coxia e sentindo que o cheiro a combustível queimado ainda pairava no interior da cabina.

 

Os dois homens saudaram-se e Dobkin aclarou a garganta.

 

Jacob, criou-se uma situação que nos desagrada profundamente, mas, para que possa haver um mínimo de disciplina entre nós, não podemos mostrar complacência alguma em relação a quem não obedeça às ordens que lhe são dadas.

 

Estou inteiramente de acordo assentiu Hausner.

 

Por conseguinte, não duvida de que nós temos autoridade para o julgar? perguntou o general, inclinando-se para a frente.

 

Eu não disse isso ripostou Hausner.

 

Não é importante que o reconheça acrescentou Dobkin. Nós somos a lei que impera aqui, quer você esteja ou não de acordo.

 

Concordo quando diz que nós somos a lei, e que podemos julgar as pessoas e impor o castigo apropriado.

 

Jacob, você está a pisar um terreno muito perigoso retorquiu Dobkin franzindo o sobrolho. Esta situação é muito grave, e caso o levemos a julgamento, este decorrerá em tribunal aberto, com a participação de observadores e tudo o mais, mas posso adiantar-lhe que a sentença já foi predeterminada: culpado. E a única condenação possível nestas circunstâncias é... interrompeu-se olhando na direcção de Burg, à procura de apoio.

 

De facto, fora este quem instigara aquele processo, mas, bem no seu âmago, ele era um pragmático e um sobrevivente. Assim reclinou-se, sem proferir palavra e com grandes floreados levou um fósforo ao fornilho do cachimbo, emitindo uns sons estranhos, pois, antes de tomar qualquer atitude, queria ver para que lado pendiam as coisas. Dobkin era um militar dos pés à cabeça, acostumado a exigir uma lealdade incondicional, a que ninguém se podia esquivar, mas, ao contrário, Burg, no mundo em que se movimentava, aceitava naturalmente deslealdades e cedências de parte a parte, situações em que os generais estenderiam imediatamente a mão para os manuais que regiam os conselhos de guerra.

 

De maneira ostensiva, Hausner olhou para o seu relógio de pulso.

 

Ouçam o que lhes digo: a única coisa em que estão enganados nestas circunstâncias é que eu não posso ser acusado de ter ignorado uma ordem pela simples razão de o responsável ser eu próprio. Sendo assim, se alguém se atrever a desobedecer-me, incluindo qualquer um de vocês, reuniremos este conselho com a finalidade de submetermos o infractor a julgamento. Há mais alguma coisa que desejem acrescentar?

 

Estará, por acaso, a amotinar-se? perguntou Dobkin, inclinando-se mais para a frente.

 

Eu não classificaria a minha atitude nesses termos.

 

Pois eu, sim. A pessoa que ocupa o cargo mais elevado entre nós é o ministro dos Negócios Estrangeiros. Como membro eleito do Knesset ele...

 

Esqueça isso, general, eu posso contar com a lealdade da maior parte dos homens armados que se encontra aqui. É possível que o ministro seja o responsável de jure, mas, de facto, nós usurpámos essa responsabilidade, situação de que os dois estão bem cientes, e foi precisamente por esse motivo que nenhum de vocês se deu ao incómodo de o convidar para esta pequena reunião. O único ponto de controvérsia que aqui se põe é saber qual de nós três é o chefe máximo e na minha opinião, sou eu, mas, se desejarem que as ordens lhes sejam transmitidas através do ministro, isso para mim não constitui problema, desde que todos compreendam inequivocamente donde elas vêm. Estamos de acordo?

 

Fez-se um longo silêncio e depois Burg falou pela primeira vez.

 

Bem vêem... creio que estamos perante uma manobra clássica, a teoria de Neumann-Morgenstern. Jacob usurpou o poder que, por direito, devia pertencer ao ministro, e com a nossa aprovação tácita. Uma vez que demos esse passo, para nós não há maneira de desfazer o que está feito, e agora é o Jacob quem se adiantou com um jogo de subterfúgios. Muito maquiavélico o tom de voz com que Burg se expressava era absolutamente neutro.

 

Hausner não fez qualquer comentário, e seguiu-se outra longa pausa.

 

O que o leva a agir desta maneira? perguntou Dobkin, num timbre sereno.

 

Imagino que a minha atitude tenha a ver com o facto de eu ser a única pessoa que sabe como lidar com esta situação respondeu Hausner com um encolher de ombros. Tenho confiança em mim, mas quanto a vocês, tenho de reconhecer que me sinto um tudo-nada nervoso.

 

Não atalhou Dobkin. É porque foi você quem nos trouxe para aqui e agora quer sair desta embrulhada. Pretende vestir a pele do herói, de forma a poder enfrentar a vida se regressarmos a casa. Por isso, não se sente nada incomodado se alguém for espezinhado durante o processo, desde que possa acertar contas com a sua própria consciência.

 

Tire as ilações que bem lhe apetecer, general replicou Hausner, muito vermelho. Voltou costas, encaminhando-se para a saída de emergência, mas a meio caminho voltou-se para trás, olhando por cima do ombro. Teremos uma reunião de trabalho ao meio-dia em ponto, aqui, no interior do aparelho e saiu sem acrescentar mais nada.

 

Hausner encontrou Becker e Kahn, os dois sentados no chão ao lado de um diagrama esquemático da unidade auxiliar de energia. Agachou-se junto deles à sombra da asa delta.

 

Ontem à noite, por que motivo não tivemos sorte com o rádio?

 

Com todo o barulho que se ouvia por aqui, era muito difícil alguém conseguir concentrar-se adiantou Kahn.

 

Lamento muito replicou Hausner com um sorriso. Esta noite esforçar-me-ei para que haja mais tranquilidade.

 

Só peço a Deus que nos tire daqui para fora até ao cair da noite acrescentou Kahn.

 

Parece-me que isso dependerá em grande parte de vocês dois retorquiu Hausner, fitando-o.

 

Depende de mim interveio Becker, levantando-se. O comandante do avião sou eu e se conseguirmos estabelecer contacto via rádio, o mérito será todo meu. Caso tal não venha a acontecer, a culpa também será minha o tom de voz de Becker deixava adivinhar grande frieza.

 

Claro que sim. Toda a gente está alertada ripostou Hausner, que também se pôs de pé. Assim que alguém detectar um avião, tem ordens específicas para correr até aqui o mais depressa que lhe for possível, a fim de o informar. A rampa de acesso ao Concorde estará concluída dentro de poucas horas, o que permitirá ao Dave entrar e começar a transmitir logo que se aviste qualquer avião. Acha estas medidas satisfatórias?

 

Parecem-me boas concordou Becker.

 

Hausner olhou para as asas do aparelho, dando a impressão de ter tomado uma decisão.

 

Tenciono drenar o que resta do combustível.

 

Preciso dele para pôr a unidade auxiliar de energia em funcionamento alegou Becker, olhando-o fixamente, o que nos permitirá ter a energia suficiente para comunicarmos através dos rádios.

 

A unidade não funciona, nem nunca mais voltará a funcionar. A nossa primeira prioridade é manter os árabes afastados. Ainda que você conseguisse pô-la a trabalhar, não serviria virtualmente para nada se o Ahmed Rish estivesse sentado na carlinga. Preciso desse combustível para fazer engenhos explosivos.

 

Não posso permitir que me prive dele.

 

Você está a perder tempo com esse gerador respondeu Hausner, fitando Becker enquanto pensava que os técnicos saíam mais vezes ilesos de situações complicadas do que o comum dos mortais. Esse equipamento não vale o tempo que está a desperdiçar com ele. Regresse à carlinga e tente comunicar através dos rádios até que as baterias se esgotem. Não nos podemos dar ao luxo de nos preocuparmos em arranjar a nossa própria fonte de energia para a usarmos mais tarde. Talvez nem venha a haver «mais tarde», a menos que nos cinjamos a trabalhar com o que temos, tal como fizemos a noite passada. Sem deixar transparecer qualquer emoção, Hausner fitou Becker e depois Kahn. Para não acrescentar que não quero ter toda essa quantidade de combustível nos depósitos das asas acrescentou em voz baixa. Uma bala de metralhadora será suficiente para os assar na carlinga.

 

Becker sabia que Hausner não andava muito longe da verdade, mas também ele estava lá próximo. Para cada problema que tinham pela frente existiam várias soluções.

 

Olhe uma coisa começou o piloto, sugiro que tentemos reparar a unidade auxiliar de energia enquanto a recepção via rádio for má. Você retira o combustível de que necessita, aliás, acho que resta mais do que inicialmente pensámos ter, e dado o número de recipientes de que dispomos existe um limite à quantidade que podemos extravasar. O que restar deixamos ficar nos depósitos. Está de acordo?

 

Enquanto nos mantivemos no ar retorquiu Hausner com um sorriso, você exigiu, e foi-lhe concedida, uma obediência total da minha parte e da de todos os outros, sem que lhe exigíssemos quaisquer cedências ou levantado objecções, porque é o comandante do avião. Agora o chefe em terra sou eu. Porque não haveria de exigir o mesmo tipo de obediência?

 

Lá em cima as coisas são muito diferentes argumentou Becker, é tudo muito técnico. Por outro lado, aqui em baixo é tudo muito subjectivo, temos margem para negociar compromissos de parte a parte.

 

Isso é uma treta de merda! ripostou Hausner, erguendo o olhar para o Concorde, de cuja pintura branca irradiava um clarão suave de um amarelo-esmaecido que os raios solares lhe emprestavam. Mais tarde, tenciono tomar uma decisão final quanto a este assunto, mas entretanto vou começar a fazer cocktails molotov com o combustível. Até logo virou costas aos dois homens e afastou-se.

 

Por baixo da secção danificada da cauda do aparelho, o ministro dos Negócios Estrangeiros estava sentado no chão com dois dos seus adjuntos, Shimon Peled e Esther Aronson. Junto deles também se encontravam dois delegados, Yaakov Sapir, membro de um partido de esquerda com assento parlamentar, por quem Hausner não nutria grande apreço, e Miriam Bernstein, com quem não estava de muito boas relações.

 

Apercebeu-se de que haviam interrompido o que quer que fosse que tinham estado a fazer e iniciado um debate, ao estilo parlamentar, com grande vivacidade. Hausner aproximou-se do grupo.

 

O ministro soergueu o olhar e, a princípio, mostrou-se surpreendido ao vê-lo, mas deduziu correctamente que Dobkin e Burg se tinham saído mal na tentativa de disciplinarem Hausner. Fez uma rápida avaliação da situação e pôs-se de pé para saudar Hausner.

 

Ainda não tive oportunidade de lhe agradecer o papel que desempenhou na acção de ontem à noite.

 

Muito obrigado, senhor ministro agradeceu Hausner, baixando o olhar para as quatro pessoas que continuavam sentadas no solo poeirento, as quais se esforçavam por ignorar a sua presença. Lamento muito não ter arranjado tempo esta manhã para lhes designar as tarefas de que se deveriam incumbir.

 

Não tem importância, mas sem dúvida que nos sentiremos muito satisfeitos se nos der alguma indicação acerca da melhor maneira de gastarmos as nossas energias, e...

 

O que eu tinha em mente, senhor ministro, é o seguinte... Deviam juntar toda a bagagem que se encontra espalhada por aí, e que caiu quando o aparelho ainda estava no ar. Algumas das malas de viagem rolaram pelas vertentes, por isso é preciso muito cuidado quando saírem do perímetro defensivo. Despejem-nas, separem o conteúdo e em seguida levem-nas até junto dos homens e mulheres de serviço no perímetro. Eles devem começar a enchê-las com terra e barro, que servirão para erguer os parapeitos defensivos. Depois devem fazer bolas de trapos, que rasgarão das roupas, enchendo-as com terra e pedaços de pano, as quais serão dispostas estrategicamente ao cair da noite. Guardem algumas das peças de roupa para servirem de ligaduras e façam uma lista de mais qualquer coisa que nos possa vir a ser útil, como, por exemplo, garrafas com bebidas alcoólicas, medicamentos e géneros alimentícios, enfim, esse género de coisas. Hausner fez uma pausa, recomeçando a falar em voz baixa: Também quero que procurem, entre os medicamentos, algum que possa matar rapidamente, e sem dor, quando ingerido em excesso, mas mantenham este assunto só entre nós. Em seguida perguntou em voz alta: Compreenderam tudo o que disse?

 

Claro que sim replicou o ministro dos Negócios Estrangeiros. Assim que dermos este debate por encerrado, começaremos imediatamente a cumprir essas tarefas.

 

Hausner abanou a cabeça num gesto quase imperceptível.

 

Bem, talvez seja preferível darmos a sessão por encerrada de imediato acrescentou o ministro, virando-se para os outros que continuavam sentados. Todos os que estiverem de acordo com o encerramento da sessão digam «sim».

 

Algumas vozes resmungaram as suas respostas e com expressões amuadas e movimentos lentos, puseram-se de pé, afastando-se um a um, à excepção de Miriam Bernstein.

 

Hausner virou costas e encaminhou-se na direcção oposta.

 

Você acabou de humilhar um bom homem observou ela alcançando-o.

 

Hausner não lhe respondeu.

 

Raios o partam! Ouviu o que eu lhe disse? Ele deteve-se, mas não se voltou para a encarar.

 

Qualquer pessoa que insista em brincar comigo está a sujeitar-se a uma humilhação, senão a coisa pior. Além do mais, não disponho de tempo nem de paciência para mais uma das suas palestras, Miriam.

 

Ela pôs-se à frente dele, olhando-o.

 

O que se passa consigo, Jacob? perguntou numa voz suave. Custa-me a acreditar que esteja a comportar-se desta maneira.

 

Hausner abeirou-se mais, fitando-a nos olhos, e viu lágrimas, mas foi incapaz de distinguir se eram de raiva ou de tristeza. De repente, apercebeu-se de que nunca conseguiria ler as expressões fisionómicas de Miriam. Por vezes, ela dava a impressão de ser um robô programado para proferir sermões de paz e conciliação, no entanto desconfiava de que por baixo daquela fachada existia carne e sangue misturados com emoções e paixão paixão genuína. Tivera oportunidade de descobrir isso quando se sentara lado a lado a bordo do Concorde, só que nessa altura, sentira-se bastante em baixo, e ela mostrara a sua faceta humana. Miriam era uma daquelas mulheres que respondiam com calor humano às necessidades e fraquezas dos outros, mas as manifestações de força e de autoconfiança nos homens pareciam deixá-la desconcertada. Hausner supôs que isso teria alguma coisa a ver com os uniformes negros da sua meninice. Que Deus lhe valesse, ele jamais seria capaz de entender os judeus que haviam estado em campos de concentração. Não lhe custava compreender as atitudes de arrogância e petulância dos sabras, embora também não fosse um deles, os seus pares formavam um pequeno grupo que, de ano para ano, se reduzia cada vez mais, mas, para dizer a verdade, tinha de admitir que nunca se sentira realmente em casa no novo Estado de Israel. Contra vontade, Hausner baixou o olhar, observando o pulso dela, ainda com números gravados. Muitas das pessoas assinaladas daquela forma optavam por removê-los por meio de cirurgia plástica, mas os dela eram irregulares e menos nítidos do que os da maior parte, resultado do processo de crescimento, pois fora marcada em criança.

 

Não tenciona responder-me? insistiu ela.

 

Ao quê? Ah, sim. O que me passou pela cabeça? Pois bem, Míriam, vou dizer-lhe uma coisa. Há alguns minutos, o general Dobkin e o senhor Burg preparavam-se para me colocar em frente de um pelotão de fuzilamento. Hausner ergueu a mão, para calar a exclamação de descrença prestes a sair da boca de Miriam, e prosseguiu: Não me interprete mal, não me sinto irritado com a atitude deles, estou de acordo com a linha de raciocínio que os levou a esse extremo, com a única diferença de que não me foi possível concordar com a escolha da vítima. Bem vê, eles percebem as coisas com muito mais clareza do que o resto de vocês, sabem o que é preciso fazer aqui. Posso garantir-lhe, Miriam, que, se esta situação se prolongar por mais quarenta e oito horas, todos começarão a clamar pela execução dos açambarcadores de alimentos, dos que se fingem doentes para se furtar ao trabalho, dos traidores e das pessoas que adormecerem enquanto estiverem de sentinela. No entanto, não nos podemos dar ao luxo de aguardar por um consenso geral, aquilo que talvez lhe possa parecer brutal hoje, amanhã dar-lhe-á a impressão de ser um acto de indulgência.

 

Você mostra muito pouca fé na humanidade replicou ela, enquanto limpava uma lágrima. A maioria não corresponde a essa descrição. Eu preferia morrer a ter de votar a execução de um ser humano.

 

Você morrerá se mantiver essa atitude, e deixe que lhe diga que, para uma pessoa que viu o que foi forçada a ver, não sou capaz de conceber como continua a ter tanta fé na generosidade básica dos seres humanos.

 

O que eu disse foi que a maioria dos seres humanos é gente decente, embora haja que contar sempre com uns quantos fascistas.

 

O que você pretende dizer é que existe sempre um pequeno fascista dentro de cada um de nós, e essa é a faceta da sua maneira de ser que se sobreporá a tudo o mais quando as coisas se complicarem, é a parte de mim a que recorri para conseguir manter-me vivo e que chamei à superfície conscientemente e de vontade própria. A besta, o coração das trevas... - Hausner observava-a e viu que Miriam tinha empalidecido. Não sei se sabe, mas, para uma pessoa que passa tanto tempo na companhia de um general da Força Aérea, eu pensava que um pouco da belicosidade dele tivesse passado para si.

 

Com rapidez, Miriam ergueu o olhar para o rosto de Hausner e as faces enrubesceram, substituindo a palidez.

 

Você... e virou-lhe costas, afastando-se num passo apressado.

 

Hausner sentara-se junto de Brin e Naomi Haber na posição avançada destes últimos. Com o olhar, percorreu a vertente oriental até ao sopé, enquanto fumava um cigarro e conversava com os dois jovens.

 

Já a ensinou a usar a mira telescópica e a disparar? perguntou a Brin.

 

Ela não quer aprender respondeu Brin, dando de ombros.

 

E porque não? perguntou Hausner, dirigindo-se à rapariga.

 

Sinto-me incapaz de disparar contra uma pessoa alegou ela, sacudindo a poeira que lhe manchava o fato de treino azul, mas sou uma mensageira rápida e foi para isso que me ofereci como voluntária.

 

Hausner fez menção de se preparar para lhe responder, mas Dobkin surgiu subitamente e Hausner lançou-lhe um olhar rápido, à procura de uma arma que não encontrou. Brin também assumiu uma postura tensa.

 

Dobkin parecia já ter esquecido o incidente que decorrera no Concorde. Saudou-os com um acenar de cabeça, sentou-se no chão e durante algum tempo ninguém falou.

 

Hausner voltou-se, apontando para o outro extremo da elevação plana, em direcção a sudoeste.

 

O que é aquilo?

 

Dobkin olhou. Os primeiros alvores da manhã banhavam a terra acastanhada, afastando as sombras, e as espirais de brumas elevavam-se do pântano, que reflectia a primeira luz do dia.

 

É um anfiteatro grego mandado construir por Alexandre, o Grande. Quando conquistou a Babilónia, cerca de trezentos e vinte anos antes de Cristo, aquela cidade já era muito antiga e entrou em declínio. Ele ainda tentou reanimá-la, mas já não havia nada que a pudesse salvar. Alexandre faleceu ali, sabia disso?

 

Não replicou Hausner, acendendo outro cigarro na ponta do que acabara de fumar.

 

Não tardarão a parlamentar acrescentou Dobkin.

 

Quem? Os gregos?

 

Com esses até eu conseguiria negociar retorquiu Dobkin, permitindo-se um sorriso. Os árabes é que me preocupam.

 

Hausner retribuiu-lhe o sorriso, entre os dois sentia-se um pouco menos de tensão.

 

- Talvez queiram. Virou-se para Brin e Naomi Haber. Porque não fazem um intervalo, aproveitando para se porem à sombra?

 

A rapariga levantou-se e Brin, após alguma hesitação, pegou na M-14 e afastou-se, seguido de Naomi.

 

Pode estar certo disso continuou Dobkin depois de se certificar de que os jovens não poderiam ouvi-lo. Eles não tentarão um assalto à luz do dia, e também não querem esperar pelo cair da noite para resolver este assunto.

 

Tem razão concordou Hausner.

 

E o que lhes vamos dizer, caso venham falar connosco? perguntou Dobkin.

 

Você está comigo? perguntou Hausner fitando-o.

 

O ministro dos Negócios Estrangeiros começou Dobkin a dizer com alguma hesitação e o senhor Burg são os nossos superiores hierárquicos.

 

Isso é o que veremos.

 

Esta noite vou partir numa missão sem retorno disse Dobkin, mudando de assunto e voltando a hesitar.

 

Estou a par disso.

 

Não existem grandes probabilidades de conseguir passar as linhas inimigas. O único motivo que me move é alimentar as esperanças dos que aqui ficam, a minha atitude servirá para lhes elevar o moral.

 

É por essa razão que o incumbo dessa missão, mas também não me parece que consiga levá-la a cabo. Poucas pessoas estariam dispostas a tentar depois de deduzirem isso mesmo. O senhor prima pelo profissionalismo, general. Volto a perguntar-lhe: está comigo?

 

Que diferença faz isso? replicou Dobkin com um encolher de ombros. Você tem todas as cartas, os dirigentes políticos acobardaram-se e a verdade é que os seus homens estão armados com cinco das seis armas automáticas de que dispomos.

 

Só quero que me responda a isso, o assunto fica entre nós continuou Hausner, apontando para sul. A propósito, o que é aquilo?

 

Não tenciono dar-lhe paz de espírito alinhando consigo, digamos apenas que a minha posição é neutra. Dobkin olhou na direcção que Hausner lhe apontara. Deve ser o cômoro de Kasr, Do outro lado ficam as escavações do palácio de Nabucodonosor e as ruínas dos Jardins Suspensos. Próximo, situa-se a Porta de Istar, assim como o museu e a hospedaria. Dobkin fez uma pausa. É com alguma ansiedade que gostaria de ver esse local ainda esta noite.

 

Sinto-me contente por ouvir isso retorquiu Hausner e os dois remeteram-se ao mutismo.

 

Bruscamente, Hausner assumiu uma postura de alerta, apontando em direcção a sudoeste, no enfiamento do Eufrates.

 

Aquilo é fumo? Dá a impressão de ser uma aldeia entre as ruínas. É a aldeia de Kweirish informou Dobkin, confirmando sem olhar.

 

Talvez eles pudessem auxiliar-nos alvitrou Hausner.

 

Não me parece, são camponeses e não têm qualquer contacto com o mundo exterior. Além do mais, tenho a certeza de que os ashbals já a ocuparam.

 

Hausner distinguia as cabanas feitas de barro cozido ao sol, de aspecto primitivo, amontoadas como qualquer aldeia italiana da era medieval sobre as ruínas de uma antiga cidade romana.

 

Tudo o mais que se encontrava naquelas redondezas proporcionava espectaculares contrastes. Zonas desérticas e terrenos pantanosos para oriente, e para lá do Tigre viam-se as montanhas que se agigantavam em direcção ao céu. Na margem ocidental do Eufrates, avistava-se uma superfície imensa de terras alagadas, que se estendia até à linha de horizonte, naquela altura com alguma água, mas que dentro em pouco ficaria ressequida e cheia de fendas abertas pelo sol escaldante, qual quebra-cabeças arquitectado pela natureza. Viam-se ainda alguns juncos e tamareiras, que se esforçavam por vingar nas duas margens inóspitas do Eufrates.

 

Na superfície plana que circundava o cômoro onde ambos se encontravam, Hausner distinguia tijolos, cascalho e pedras, junto de pequenas elevações de terreno e algumas áreas pantanosas, além das valas em que haviam assentado as muralhas da cidade, pontilhadas aqui e ali por outeiros mais altos onde se situavam as torres de vigia. Vento, água, areia e sucessivas gerações de camponeses tinham-se combinado para obliterar o que em tempos fora a maravilha de todas as cidades do mundo. Hausner sabia que paisagens de desolação como aquela eram muito comuns na Mesopotamia, as cidades mais grandiosas e mais opulentas da Antiguidade estavam soterradas há milhares de anos. Sentiu-se invadido por um sentimento de vazio enquanto olhava para o outro lado do Eufrates. Terras desérticas, lamaçais completamente estéreis que, aqui e ali, eram atravessadas por canais de irrigação que presentemente não eram utilizados. Até mesmo a vida animal que devia ter existido em abundância parecia ter abandonado a região. Aquele era um canto do mundo estranho e, de certa forma, malevolente, um local onde haviam sido erigidos templos gigantescos, em homenagem a deuses que todos tinham esquecido, e imponentes palácios em reinos que se haviam sumido sem deixar um único vestígio.

 

O silêncio que pairava naquele lugar gritava-lhe aos ouvidos, como se ouvisse nitidamente os gritos de vitória dos exércitos babilónicos enquanto carregavam sobre as forças inimigas em fuga. A opulência da Babilónia no Antigo e no Novo Testamentos, um símbolo do orgulho humano, da carnalidade e do pecado. Para os judeus e cristãos da era moderna, a desolação absoluta daquela terra representava simbolicamente o cumprimento das profecias bíblicas. Hausner sabia que teria de existir um significado qualquer para todo aquele vazio que se estendia à sua frente, mas, por outro lado, talvez esse significado fosse precisamente aquele vazio: areia, poeira, morte.

 

O que levara Rish a trazê-los até àquele lugar? O exílio na Babilónia? Hausner calculava que seria isso mesmo, ou talvez algo que se revestisse deuns contornos bastante menos melodramáticos. Possivelmente, era o mais Conveniente para os objectivos que ele tinha em vista a proximidade do campo de treino palestiniano, que, contudo, se situava a cerca de cem quilómetros... Pois bem, que fosse o exílio na Babilónia. Nas bibliotecas espalhadas por todo o mundo havia livros sobre o assunto, que caso fossem revistos, passariam a ter uma nota de rodapé com asterisco, a qual diria: ” um incidente curioso, onde estiveram envolvidos uma aeronave supersónica Concorde e...». Hausner extinguiu a ponta do cigarro, mas guardou a beata.

 

Ali vêm eles anunciou em voz baixa.

 

Do lado da estrada, aproximava-se um grupo composto por cinco homens, caminhando pela ladeira que conduzia ao cimo da colina, e o que vinha à frente empunhava uma bandeira branca.

 

Haber e Brin, que não se tinham afastado muito, regressaram apressadamente ao seu posto e o rapaz ajustou a mira telescópica a fim de observar a aproximação dos emissários.

 

Não me parece que o Rish venha com eles.

 

Brin passou a espingarda para as mãos de Hausner, que se ajoelhou, começando a perscrutar os forasteiros através da mira, pousando depois a arma com um abanar de cabeça.

 

Ele não confia em nós. Está convencido de que não respeitaríamos uma bandeira branca, o que me deixa absolutamente lixado. General?

 

De facto, isso manifesta falta de fé da parte dele retorquiu Dobkin, que ficou pensativo por momentos. Mas a realidade é que não nos compreende... e isso é um aspecto que me deixa assustado.

 

Passem palavra para que ninguém dispare ordenou Hausner falando com Brin e Haber. Quero que se mantenham fora de vista e ninguém deverá abandonar o perímetro, Nathan. Se alguém tentar, impeça-o. Sacudiu a poeira da roupa. General, importa-se de me acompanhar?

 

Claro que não respondeu Dobkin, pondo-se também de pé e endireitando o uniforme. Sabe, isto até tem a sua ironia, eles desejam falar agora, precisamente o que nós queríamos fazer em Nova Iorque... e durante o voo no Concorde. Agora sou eu que não estou muito disposto a falar com eles.

 

Concordo consigo redarguiu Hausner, mas tenho a certeza de que a delegação de paz deseja falar com eles. Contudo, eu não confio nessa gente, Ben, são fazedores profissionais da paz, mal são capazes de se conter, ansiando por ver o lado bom de qualquer proposta. Amaldiçoados sejam, porque tornam a próxima guerra mais sangrenta do que a última.

 

Amém concordou Dobkin, rindo-se. Os generais é que deviam negociar a paz, enquanto os fazedores da mesma se incumbiriam de chefiar os exércitos. Depois destas palavras, assumiu uma postura mais formal. Em boa verdade, temos de admitir que não estamos a ser justos para com a delegação de paz. Não são todos iguais... alguns, a maior parte, são negociadores a quem é muito difícil satisfazer, são tão realistas como nós.

 

Duvido muito contrapôs Hausner, dando alguns passos até à extremidade do cume. Vamos lá, temos de avançar antes que uma dúzia de negociadores profissionais se abata sobre nós.

 

Começou a descer pela colina e Dobkin seguiu-lhe os passos. Durante algum tempo ambos perderam os árabes de vista, enquanto percorriam uma depressão que os ocultava do seu campo de visão, mas depois de percorridos cem metros, voltaram a avistar a bandeira branca e em seguida os emissários, que vinham armados e avançavam com rapidez. Hausner sentiu-se invadido por algumas dúvidas momentâneas, mas decidiu acenar com um lenço branco e gritar em árabe. Entretanto, os outros deram pela sua presença e responderam. Com passos lentos, os dois grupos aproximaram-se e os árabes detiveram-se numa saliência da encosta.

 

Caminhando com determinação, Hausner aproximou-se deles, posicionando-se muito perto do que parecia o chefe.

 

Onde está Rish? É com ele que quero falar, e mais ninguém. Durante longos momentos, o homem fitou-o atentamente e os seus olhos, de um negro profundo, davam a impressão de arder, tal o ódio e desprezo que se adivinhava neles. Era por de mais evidente que aquela missão não era do seu agrado.

 

O meu nome é Salem Hamadi, sou o lugar-tenente de Ahmed Rish informou numa voz lenta e grave. Ele envia os seus cumprimentos e pede a vossa rendição imediata.

 

Hausner observava-o, pois ao contrário de Rish, Hamadi nunca fora capturado, pelo que não existiam quaisquer dados relativos à sua identificação, nem tão-pouco um perfil psicológico, assim como não estavam de posse de uma lista minimamente pormenorizada das suas actividades. Os conhecimentos que Hausner tinha sobre aquele homem diziam-lhe apenas que era um órfão palestiniano e que, posteriormente, passara a chefiar o programa dos ashbals sob a égide das várias organizações de libertação palestinianas. Valores? Morais? Honra? Era difícil especificar e nem sequer era possível contar com uma educação de natureza religiosa, aquela a que a maior parte dos árabes estava sujeita. O homem que se encontrava a menos de um metro de Hausner era baixo, embora bem proporcionado, tinha uma pêra impecavelmente bem aparada e, aparentemente, adoptava hábitos de higiene pessoal até certo ponto mais rigorosos do que tivera ocasião de observar entre os terroristas encarcerados em Ramalá. Hausner aproximou-se mais.

 

Onde é que está Rish? Exijo falar com ele.

 

Você é o Jacob Hausner disse Hamadi com um acenar lento de cabeça.

 

Sou, sim.

 

Está disposto a acompanhar-me?

 

É possível que sim.

 

Pode contar com a minha palavra no tocante à sua segurança acrescentou Hamadi depois de ter hesitado por breves instantes.

 

De verdade? retorquiu Hausner com ironia.

 

Literalmente, Hamadi foi obrigado a morder os lábios para conseguir Conter a impaciência crescente que sentia.

 

Tem a minha palavra de honra replicou, fazendo uma pausa. Acredite no que lhe digo, queremos discutir este impasse tanto como vocês. Inopinadamente, esboçou um sorriso. Isto não se trata de uma armadilha para o matar, Jacob Hausner, se quiséssemos, podíamos fazer isso aqui, neste preciso momento. Além do mais, não é uma pessoa assim tão importante quanto possa julgar.

 

Rish deu-me a impressão de pensar o contrário, pois afirmou que te mataria logo que aterrássemos.

 

Ele esqueceu essa promessa ripostou Salem Hamadi, pondo os olhos em alvo.

 

Hausner voltou-se para trás fazendo um gesto na direcção de Brin, que observava tudo através da mira telescópica e que acenou, dando a entender que percebera. Hausner avistava algumas cabeças que olhavam discretamente por cima dos recentemente construídos parapeitos baixos, feitos com bagagem e terra, e não lhe escapou que alguns exibiam cores demasiado garridas. Tinha de se certificar de que aquelas posições defensivas eram cobertas com uma camada de terra. Voltou a concentrar a sua atenção em Hamadi, que avistara o reflexo de luz na mira telescópica, registando na memória a sua localização. Hausner foi contra ele de propósito quando passou.

 

Pois bem, vamos embora. Tenho mais que fazer.

 

O grupo começou a descer pela vertente da colina, chegou ao sopé e caminhou paralelamente a uma elevação de terreno com cerca de um metro que Dobkin explicou ser a muralha interna de uma cidade da Antiguidade. Hausner viu o sítio onde o trem de aterragem posterior do Concorde embatera, incidente que parecia ter ocorrido há um século, e em seguida dirigiram-se para as ruínas da cidade, onde as escavações apenas tinham aflorado a camada superior.

 

Era necessária muita imaginação para se conseguir visualizar uma metrópole a fervilhar de gente raparigas com pulseiras ornadas com berloques junto de soldados a comer e a beber, bazares animados e cheios de cor, procissões magníficas e os famosos astrólogos da Babilónia, que desenhavam horóscopos no barro húmido por uns quantos cobres. Contudo, Hausner, na qualidade de residente no Médio Oriente, estava familiarizado com aqueles ambientes, por isso era capaz de imaginar tudo e mais alguma coisa. Quase conseguia sentir a presença das pessoas, que lhe davam encontrões nas ruas cheias de movimento, e ouvia como que um zunido, o qual se ia transformando em vozes semidistintas, falando numa língua semita da Antiguidade, palavras ou parte de frases articuladas em hebreu antigo. De súbito, sentiu nitidamente que o caminho que percorria já fora trilhado por um judeu que conversava com a mulher e os filhos. Iam para um lugar distante, encaminhavam-se na direcção da Porta de Istar, fora da cidade, abandonavam a Babilónia, o cativeiro, para todo o sempre.

 

Naquele momento, Hamadi disse qualquer coisa, despertando Hausner dos seus devaneios e este apercebeu-se de que já tinham percorrido uma grande distância. Olhou em redor e viu que ali as escavações se faziam mais afincadamente. Hamadi conversava com Dobkin, o qual fazia perguntas, umas atrás das outras, acerca das ruínas, mas o palestiniano, pouco seguro das respostas que lhe dava, acabou por dizer a Dobkin que se calasse.

 

Hausner sabia alguma coisa da história da Babilónia, ainda que não tivesse conhecimentos pormenorizados sobre a cidade em si, conhecia-a mais como sendo um nome, um símbolo, um conceito, um estado de espírito. O facto de existirem tijolos e restos de argamassa, do seu ponto de vista, não era muito relevante, ao contrário de Dobkin, para quem era isso precisamente que lhe despertava interesse. No tocante a Hausner, se havia alguma coisa que pudesse suscitar a sua atenção teria de ser algo mais duradouro, e o que poderia haver de mais definitivo do que a total destruição? Fora isso que fizera da Babilónia um símbolo vivo, o seu lugar na história era perpetuado pelo facto de ter sido arrasada tal como fora profetizado.

 

Portanto, a Babilónia morrera, como outras cidades, e as nuvens de poeira haviam soprado por cima dela infinitamente ao longo dos séculos, soterrando-a completamente. Era difícil de localizar pelos arqueólogos modernos, e até mesmo as lendas que tinham mantido vivos os sítios onde outrora se situavam outras povoações, a certa altura deixavam de mencionar a Babilónia, tão absoluta e completa era a desolação que a envolvia.

 

E agora tinham começado as escavações, a exemplo do que acontecia em locais históricos de Israel e do Médio Oriente, e cada uma delas era uma chamada de atenção não só para a natureza transitória do trabalho do homem, mas também para uma peculiaridade dos seres humanos: a autodestruição. Na óptica de Hausner, a situação tinha tanto de risível quanto de triste, e o facto de chegarem ali a bordo de um avião supersónico nada tinha a ver com o assunto. A verdade é que se encontravam naquele local contra a vontade de todos. A dimensão humana não sofrera grandes alterações ao longo de milhares de anos, somente as dimensões externas se haviam alterado.

 

Quando o pequeno grupo chegou perto do anfiteatro grego virou para ocidente, em direcção ao Eufrates, seguindo por um caminho de cabras. Avistaram um burro, que já vira melhores dias, a mordiscar um maciço espinhoso e sentia-se uma ligeira brisa, a qual fazia roçagar as frondes de uma tamareira solitária, de folhas amarelo-esverdeadas. O calor era cada vez mais opressivo, o que fez com que Hausner se recordasse de que na colina a reserva de líquidos só chegaria para cerca de vinte e quatro horas, embora os alimentos talvez durassem o dobro do tempo. Haviam improvisado recipientes, para recolher a água das chuvas, com painéis do revestimento de alumínio da aeronave, no entanto as hipóteses de chover naquela região pareciam tão improváveis como as de nevar.

 

Caminhavam em silêncio, e ao longo do percurso, Dobkin olhava para tudo o que o rodeava, movido por um interesse tanto militar como arqueológico, até que se detiveram junto de uma pequena vala. Do ponto Onde se encontravam, Hausner avistava o Concorde, a aproximadamente quilómetro e meio para norte. A parte superior do aparelho mal se distinguia, mas a colina ou a cidadela soterrada tinha um aspecto majestoso vista daquela perspectiva, consequentemente não lhe era difícil entender o motivo por que os ashbals desejavam negociar.

 

Mais a ocidente corria o Eufrates, a uma distância de mais ou menos quinhentos metros a partir do fim do caminho de cabras e Hausner avistava, agora com mais clareza, a aldeia de Kweirish, de aspecto sórdido, situada na margem do rio composta por cabanas toscas de lama as sarifas que nada tinham que as embelezasse. À medida que se aproximavam, Hausner avistava mulheres completamente veladas, à excepção dos olhos, envoltas nos seus abbahs que lhes davam pelos pés, e os homens com vestimentas semelhantes a saias, os gellebiahs, que completavam com os kheffycths que adejavam ao vento. Alguém dedilhava um instrumento de cordas, que emitia sons plangentes. As cabras, da cor da terra, pastavam num solo de vegetação esparsa e rasteira guardadas por pastores que mais pareciam figuras bíblicas, fazendo o mesmo trabalho, e nas mesmas condições, dos seus antepassados de há milhares de anos, e a sua maneira de viver, raciocinava Hausner, mal sofrera qualquer alteração ao longo dos últimos quatro ou cinco milénios. Nos dias de hoje, aquele povo era muçulmano, ao invés de idólatra, e já não guardava varas de porcos, assim como a Babilónia deixara de existir, mas, tirando esses dois aspectos, a vida nas margens do Eufrates continuava sem alterações desde tempos imemoriais de facto, mudara consideravelmente menos do que as águas irrequietas e erráticas do rio.

 

O grupo saiu do caminho de cabras e começou a subir um outeiro bastante elevado, que terminava num lanço íngreme de degraus de tijolos, o qual desembocava numa área plana escavada na encosta do outeiro, onde, sobre uma base de pedra, se encontrava o Leão da Babilónia. Nada se sabia sobre aquela peça de estatuária, nem a idade nem o significado, mas era inegável que tinha uma aparência impressionante, escarranchado para sempre sobre uma vítima caída por terra.

 

A partir deste ponto temos de os revistar e vendar os olhos anunciou Hamadi.

 

Não retorquiu Hausner.

 

É um procedimento militar comum em todo o mundo sempre que se traz um inimigo às nossas linhas de defesa argumentou Hamadi, voltando-se para Dobkin. O senhor sabe que a regra é essa, não é uma humilhação.

 

Dobkin foi forçado a concordar com o que o árabe dizia e, com relutância, Hausner acabou por anuir. Ambos foram minuciosamente revistados, depois vendados e a seguir conduzidos num passo lento. O solo era agora nivelado, apesar de coberto pelo que pareciam ser tijolos, e passados minutos desceram um lanço de escadas, sentindo, de repente, que o ar ficava mais fresco. As vendas foram retiradas dos olhos dos dois e Hausner esforçou-se por ver naquele espaço onde reinava uma semiobscuridade mas só ouviu vozes que conversavam em surdina.

 

Eu sou Ahmed Rish anunciou uma voz, num hebreu sofrível vinda de um canto ainda mais mergulhado na sombra. Ter a oportunidade de o ver outra vez, Jacob Hausner, é um evento digno de nota e também é uma honra conhecer o famoso general Dobkin.

 

Hausner e Dobkin mantinham-se em silêncio, sentindo a presença de outros homens, que se acobertavam junto das paredes. Aquela espécie de câmara em ruínas não tinha tecto, mas o Sol já estava demasiado baixo para entrar pelo buraco. Lentamente, encararam tudo o que os rodeava enquanto os olhos de ambos se ajustavam à obscuridade.

 

Estamos nas ruínas do Palácio Sul disse Rish, retomando a palavra, a sala do trono onde Beltechaçar, o neto de Nabucodonosor viu a escrita aziaga na parede. Certamente que conhecem a história do Livro de Daniel.

 

Os visitantes continuavam em silêncio.

 

Encontro-me no local onde se situava o trono real, num recesso da parede acrescentou Rish. Se semicerrarem os olhos, tentando ver por entre as trevas, poderão visualizar a cena do banquete, as taças de prata e ouro de que Nabucodonosor se apoderou aquando do saque de Jerusalém, as candeias de chamas tremeluzentes, a mão que surgiu das sombras e escreveu na parede as palavras que condenavam a Babilónia à destruição. Fez uma pausa para dar mais efeito. Essa é uma das histórias preferidas dos judeus e foi por essa razão que os trouxe aqui. Um tratamento especial.

 

Tanto Dobkin como Hausner não lhe deram réplica, o que não desanimou Rish, que prosseguiu.

 

Perto deste lugar, as escavações revelaram uma fornalha enorme, sem dúvida para onde Nabucodonosor atirou Chadrac, Mechac e Abed-Nego. No entanto, Deus forjou um milagre que os salvou das chamas, mas os judeus nem sempre foram salvos por milagres como esse. Interrompeu-se por momentos e por entre a escuridão ouvia-se o som de respirações, que enchiam aquele espaço. Rish recomeçou a falar numa voz tão baixa que mal se conseguia ouvir. Para os judeus, a Babilónia é uma cidade que lhes inspira uma tristeza infinita, mas também é um lugar associado a milagres. O que teremos desta vez, senhor Hausner?

 

Tem estado a falar com grande eloquência, Ahmed Rish retorquiu Hausner, acendendo um cigarro, mas eu vou ser muito conciso. O que é que quer?

 

O que você fez foi muito temerário, aterrar aquele avião enorme no cume de uma colina. Poderia ter causado a morte de todos os que se encontravam a bordo.

 

O que quer?

 

Peço desculpa, é imperdoável da minha parte não lhes ter perguntado se gostariam de beber ou comer alguma coisa.

 

Temos mais do que suficiente, quer de água quer de alimentos atalhou Dobkin.

 

Não me parece que isso seja verdade ripostou Rish, rindo-se.

 

Vá direito ao assunto interveio Hausner quase aos gritos, pois não tinha paciência para ouvir os circunlóquios que pareciam ser hábito entre os árabes. O que quer?

 

Pretendo que sejam meus reféns enquanto eu negoceio com o vosso governo respondeu Rish num timbre de voz um pouco mais brusco e evitar que haja mais derramamento de sangue.

 

Os olhos de Hausner, que já começavam a ajustar-se à semiobscuridade, distinguiam a silhueta de Rish recortada contra o recesso da parede. Usava um gellebiah branco muito simples, calçava sandálias e tinha o mesmo aspecto físico de que Hausner se recordava do tempo que ele estivera encarcerado em Ramalá. Para um árabe, era excepcionalmente alto, de pele clara, e na altura pensara-se que devia ter sangue persa ou circassiano.

 

Ontem à noite você sofreu um pequeno revés, desconfio que perdeu mais ou menos trinta dos seus homens, quer mortos quer feridos.

 

Não os trouxe aqui com a finalidade de trocarmos relatórios pós-acção militar, Jacob Hausner, e também não estou disposto a encetar consigo uma discussão de carácter político sobre o porquê daquilo que fizemos, quais são os nossos objectivos, ou qualquer outro assunto nestes moldes. Só abordarei essas questões com o seu governo e tenciono dar-lhe apenas uma garantia e fazer-lhe um ultimato: que nenhum israelita será morto caso decidam render-se, e que se entreguem antes do pôr do Sol. A minha sugestão parece-lhe aceitável?

 

E se o meu país rejeitar o que você exigir? perguntou Hausner, por seu turno. Nessa eventualidade, como poderá assegurar que nós, como reféns, estaremos em segurança?

 

Se eles não se deixarem levar pela nossa intrujice, estaremos dispostos a libertá-los, mas, como é evidente, só vocês dois e eu estaremos a par desta combinação. Contudo, dou-lhe a minha palavra de honra de que não faltarei ao combinado.

 

Hausner e Dobkin conferenciaram numa voz segredada.

 

Acho que sabemos qual é o seu jogo, Ahmed Rish disse Hausner pouco depois. O seu primeiro objectivo foi provocar um incidente numa tentativa para que a conferência de paz fosse cancelada, e é muito possível que os seus esforços venham a ser coroados de êxito, mas por outro lado, talvez não. O segundo era apoderar-se de duas aeronaves cheias de proeminentes cidad&at