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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LUA COMANCHE / Troy Sagan
LUA COMANCHE / Troy Sagan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LUA COMANCHE

 

   Frequentemente, sonhos parecem tão reais que podem confundir nossa mente.

   Clifford Marshand, caçador de peles, era atormentado por sonhos recorrentes onde um assassino que ele não conseguia identificar, matava jovens índias.

   Capturado pelo chefe dos comanches, já não tinha mais esperança de salvação. Seu destino seria escalpo e morte terrível. No entanto, seus amigos caçadores resolveram salvá-lo, atraindo a ira dos índios contra todos.

   Em maior número, os comanches massacraram os caçadores, ocasião em que Marshand conseguiu entender a origem de seus pesadelos.

  

    

                        Pesadelo

     Clifford Marshand viu ele se aproximar. As mulheres não viram. Sorriam. Gargalhavam entrando e saindo do riacho, nuas, nadando, alheias aquela sombra silenciosa e matreira que se esgueirava entre as pedras, espreitando-as com os olhos chispando de ódio. Eram índias.

     É, eram índias...

     Mesmo assim! Ninguém merecia o destino que aquela sombra silenciosa, que o ódio homicida que carregava nas mãos, reservava para elas. A morte. Aquele homem tinha a morte nas mãos, o coração cheio de ódio. Marshand sabia. Tentara evitar. Lutara contra aquela criatura ruim durante muitos anos, fizera tudo para detê-lo, para arrefecer aquele ódio implacável e homicida que fizera tantas vítimas e criara tantos problemas para ele e para os amigos que ousavam caçar no perigoso território comanche.

     Aquelas mulheres eram comanches. Pior, bem pior. Elas eram crianças, meninas ou jovens ainda, que mal tinham entrado na puberdade. Riam alheias, divertindo-se, brincando, nadando, correndo, corpos nus e esguios refletindo a luz brilhante e vermelha de um sol quente, quente como o fogo do inferno em que vivia Marshand desde que aquele homem começou a matar, matar comanches, matar índios, sempre índios, índias principalmente.

     Ele alimentava um ódio desconhecido mas mortal contra as índias. Marshand não sabia explicá-lo. É, conhecia-lhe a origem, mas não podia crer que apenas um incidente, um simples incidente na vida de um homem pudesse transformá-lo tão rapidamente num assassino. Não era compreensível. Não era humano. Ele, seu ódio, aquela compulsão irrefreável para matar, não era humano.

     Marshand quis gritar. Gritou, gritou com todas as forças, procurou alertar aquelas índias, chamar-lhes a atenção para o perigo que corriam, para aquela criatura insidiosa que se achegava a elas. Elas nem imaginavam o perigo que corriam. A morte. Era a morte que se aproximava deles vagarosa mas impiedosamente.

     Elas não ouviram. Era como se não estivesse ali. Continuaram alheias, sorrindo, divertindo-se, indo de uma margem a outra do riacho; os risos soando na manhã ensolarada, espalhando-se por toda a região pedregosa e deserta em que se encontravam. Devia haver um acampamento comanche pelas redondezas, mas Marshand não conseguia vê-los.

     Aquela entidade do mal ia matá-las. Aquelas índias iam morrer por algo que não haviam feito. Sangue inocente. Mais uma vez seria sangue inocente, como as outras tantas que ele matara. Nem se lembrava quantas vezes fizera parte daquele espetáculo de sangue e destruição. Vira muitas mulheres jovens e inocentes morrerem como aquelas índias. Todas eram índias. Comanches, siouxs, shoshones, não importava a tribo. Bastava serem índias para merecerem a morte e a destruição. A morte implacável e sem piedade, sem explicação.

     Desesperado, o sol refletido do cano do rifle do assassino, Marshand correu ao seu encontro, os braços agitados, os gritos e apelos angustiados jorrando da boca arreganhada, suplicando para que não as matasse, para que as mulheres corressem, fugindo da morte que começou a jorrar do cano da arma num lampejo mortífero e avermelhado.

     Elas estavam morrendo. Morriam sem compreender, o estampido dos vários disparos explodindo nos ouvidos de Marshand que gritava e falava.

     — Nãããão...

     Um apelo inútil e angustiado, os olhos estatelados observando a morte das índias, vendo-as correr de um lado para o outro, de uma margem a outra, procurando fugir da morte que se avizinhava impiedosa, devastadora.

     Não havia o que fazer ou para onde ir. Elas estavam morrendo, continuariam morrendo, sendo mortas, e não havia nada que pudessem fazer... Nada!

     Morriam!

     Marshand atracou-se com o assassino. Suplicou para que parasse. Estava claro, o sol brilhava forte sobre sua cabeça e derramava-se num jorro incessante de luzes e cores sobre o riacho tingido de vermelho com o sangue das índias mortas, mas estranhamente não conseguia ver-lhe o rosto, a fisionomia daquele assassino impiedoso. Nada além dos olhos brilhantes e homicidas, faiscantes de ódio.

     — Pare! Pare! — gritou com desespero, agarrando-se ao cano do rifle, olhando-o nos olhos, procurando-lhe o rosto na inesperada escuridão que se abatera sobre ambos. Quis desarmá-lo, arrancar-lhe o rifle das mãos, acabar com a matança.

     — Por quê? — indagou aquele assassino, desvencilhando-se com um safanão, empurrando-o para o lado com o cano fumegante da arma, atracando-se com ele antes de voltar a atirar, atirando em corpos sem vida, os cadáveres que boiavam num mar de sangue dentro do riacho. Os gritos aterrorizados das mulheres, meras crianças despidas e sem formas definidas, substituídos pela quietude da manhã ensolarada, pelo rumorejar das águas.

     Ele parecia encontrar algum sentimento obscuro e indecente naquela matança indiscriminada e selvagem. Prazer, Marshand encontrou prazer em seus olhos, uma satisfação feroz e sem explicação.

     Marshand atracou-se novamente com ele, um desconhecido, uma sombra em sua vida, um demônio de olhos vermelhos e brilhantes que carregava a morte nas mãos e sorria um risinho escarninho, os dentes exibidos e rilhando com ferocidade, o riso da morte. Quanto mais batia, xingava e se atracava com ele, mais ele ria, divertia-se com o esforço que Marshand fazia para impedi-lo de atirar, de matar. Em certo momento, menosprezando-o, afirmou:

     —- Não pode me impedir, idiota.

     A voz era forte, cavernosa, imbuída de uma autoconfiança aterradora.

     Marshand tornou a xingá-lo; as palavras e palavrões jorrando de sua boca numa profusão incontrolável, as feições crispadas numa careta de raiva indescritível e desesperada.

     — Você não vai matar mais ninguém! — prometeu.

     Outra gargalhada. Sardônica. Demente.

     Verdade? — seus olhos, aqueles eliminadores olhos vermelhos e brilhantes, cravaram-se em Marshand, procurando os dele com ódio, mas inexplicável indulgência. — E acha que pode me deter? Acha mesmo?

     Empurrou-o. Marshand esparramou-se no chão. Despencou de uma encosta, rolando o barranco, arranhando-se nas inúmeras touceiras de mato espinhento. Caiu dentro do riacho. Debateu-se, arquejante, olhando de um lado para o outro, afogando-se, vendo os cadáveres das índias erguerem-se, os corpos nus crivados de balas, a água tornando-se vermelha, transformando-se em sangue.

     — Deus! — gemeu, aterrorizado, afogando-se em sangue, acompanhando os olhos estatelados, a aproximação das índias mortas, as órbitas vazias, despojadas de vida, de um brilho vítreo e fixo.

     Elas repetiam-lhe o nome. Não era possível. Era inteiramente absurdo. Elas não o conheciam. Tudo parecia um grande pesadelo. O homem na borda do barranco, com o rosto encoberto pela sombra produzida pelo chapéu, os olhos brilhantes e a arma fumegante nas mãos, gargalhando zombeteiramente, divertindo-se com seu sofrimento. Os cadáveres despidos e ensanguentados das índias avançando na direção de Marshand. As águas do riacho tornando-se vermelha, transformando-se em sangue, envolvendo-o, como que ganhando vida, querendo arrastá-lo para baixo, afogá-lo. Todos pareciam conspirar para matá-lo.

     — Não... Não... — balbuciava Marshand, cuspindo grandes golfadas de água, para não se afogar. — Nãããão...

     Clifford Marshand levantou-se, sobressaltado, suando frio, suando abundantemente, as roupas grudadas no corpo, os olhos esbugalhados e indo de um lado para o outro da escuridão. Esbugalhados, como se procurasse a morte em algum ponto ao seu redor.

     — Meu Deus... — gemeu lívido, assustado, prendendo o rosto entre as mãos, olhando fixamente para o fogo crepitante da fogueira, vendo-se só com o acúmulo de rochas de várias formas e tamanhos que rodeavam o pequeno acampamento, o rifle encostado numa rocha e ao alcance das mãos. Nem o assassino misterioso, nem as índias mortas e as águas do rio transformando-se em sangue. Nada. Fora apenas um pesadelo. Outro, um dos muitos que o perseguiam em suas noites de sono.

     Aquilo parecia não ter mais fim e estava enlouquecendo-o.

     Voltou a ter medo. Seus olhos iam da direita para a esquerda e vice-versa, de maneira desconfiada. Inesperadamente sentiu-se espreitado, observado de dentro do negrume noturno. Aqueles pesadelos estavam transformando-o num homem amedrontado, que temia a própria sombra, que se sentia incomodado pela solidão. Aquilo nunca acontecera antes. Passara quase toda a vida na solidão das montanhas e percorrendo as trilhas do perigoso território comanche. Jamais alimentara um medo tão intenso como aquele que estava sentindo nos últimos dias.

     Quando a solidão apertava e o incomodava, pensava sempre nos comanches. Eles o matariam muitas vezes se o encontrassem. Tremia só em pensar no que poderia acontecer se caísse nas mãos dele.

     Não conseguiu mais dormir. Tentaria fechar os olhos. Chegaria até mesmo a cochilar. O que adiantaria? Correria o risco de deparar com outro daqueles pesadelos, o inferno de um sonho absurdo e sem explicação.

     Levantou-se. Nesse momento, os guerreiros comanches, com os rostos lambuzados de pintura de guerra começaram a abandonar os esconderijos entre as pedras da escuridão, arremetendo de várias direções sobre Marshand. Caíram sobre Marshand. Caíram sobre ele, derrubando-o e prostrando-o de costas no chão, segurando-lhe braços e pernas, impedindo-o de movê-los.

     Marshand esperneou desesperadamente, gritando e procurando se desvencilhar daquelas mãos fortes e calosas. Os olhos dos recém-chegados voltaram-se para a figura corpulenta e sombria de braço forte que caminhava vagarosamente em sua direção. Era um guerreiro corpulento e musculoso, de elevada estatura, o maior comanche em que pusera os olhos em toda sua vida. Usava o cabelo negro repartido ao meio e preso em duas tranças enfeitadas com ossos e dentes de urso e uma solitária pena de gavião no alto da cabeça.

     Parou diante de Marshand e contemplou-o, olhando-o nos olhos e aumentando-lhe a palidez no rosto suado e crispado de medo, vendo-o espernear vigorosamente, desesperado. Gritou-lhe o nome, dizendo coisas tão depressa que mal compreendeu a metade do que ele dizia em inglês e em comanche. Pouco importava. Encontrara-o. Era tudo o que importava. Não queria ouvir seus apelos insistentes e inúteis. Os protestos de inocência.

     Não, não queria ouvi-lo.

     — Você é um homem morto, Marshand — afirmou, os olhos chispando de ódio, erguendo o rifle que empunhava e apontando-o na direção de Clifford Marshand. Engatilhou-o. Chegou a premir o gatilho. Desistiu, balançando a cabeça negativamente e acrescentando: — Morto!

     Marshand esperneou vigorosamente, gritando, protestando, suplicando pela vida e dizendo coisas que Braço-Forte não queria ouvir.

    

                        Cheiro de Morte

     — Acho que chegamos tarde demais, rapazes!

     Clyde Burke contemplou os restos fumegantes da fogueira do acampamento, o terreno úmido coalhado de rastros, os grandes olhos cinzentos apertados, vasculhando a região pedregosa que o rodeava. Virou-se para os outros caçadores parados poucos metros à sua frente, montados, e acrescentou:

     — Os comanches o encontraram antes!

     Era um tipo corpulento, o rosto ossudo e queimado pelo sol, o nariz pontiagudo e de narinas largas. A vasta cabeleira cor de areia caía-lhe sobre os ombros e, parte dela, era usada presa em duas pequenas tranças que lhe caíam pelas têmporas. Vestia-se como os companheiros, trajando pesadas roupas de pele franjada e mocassins.

     — Tem certeza? — indagou Otis Yorke, um grandalhão com cara de buldogue e pequenos olhos melancólicos, rodeados por assustadoras olheiras cinzentas. Tinha os cabelos ralos e no alto da cabeça, uma tonsura que crescia à medida que o cabelo assumia uma tonalidade prateada ou simplesmente caía. — Ele pode ter ido apenas ao riacho. Tem um, além daquelas pedras, sabia?

     Burke levantou-se e encarou-o com uma expressão cética no rosto marcado por profundas rugas de cansaço.

     — É, sei... — caminhou ao encontro dos companheiros. Parou diante do interlocutor e informou: — mas aquele terreno está coberto por pegadas feitas por mocassins...

     — Todos nós usamos mocassins, inclusive Cliff — atalhou Rupert Boyce, apressadamente. Era um rapaz magro, avermelhado e de cabelo vermelho, preso num longo rabo-de-cavalo. Usava a aba do chapéu levantada e presa por uma pena de águia. — Isso não quer dizer nada. . .

     — Há também muitas marcas, marcas de cavalos sem ferraduras! — concluiu Burke.

     Os outros caçadores se entreolharam silenciosamente por um instante.

     — É, acho que tem razão, parceiro — concordou Bruce Duncari, outro caçador, um tipo esguio, esbelto, o cabelo louro com grandes entradas e despenteado, o bigode aparado com esmero e com as pontas viradas para cima. — Comanches?

     — Sem dúvida — respondeu Burke.

     — Pode dizer há quanto tempo eles o pegaram? — indagou Walter Tinsley. Era um indivíduo muito magro, velho, de rosto estreito e enorme nariz que encimava um vasto bigode tão branco quanto o cabelo.

     — Não, mas pelos rastros posso dizer que eles o estão seguindo há um bom tempo.

     — Cliff já deve estar morto! — disse Frank Murray, o último dos caçadores, um mestiço de pele escura, de pouco mais de 1,60 m e que usava o cabelo negro preso em duas tranças que enfeitava com dentes de lobo e penas de águia.

     — Não, não creio — replicou Yorke, olhando de um lado para o outro. —- Nós conhecemos aqueles peles-vermelhas o bastante para saber que eles vão querer se divertir com Cliff por algum tempo antes de mandá-lo para o inferno. Isso é bem do feitio deles!

     -— Concordo com Otis — disse Burke, apanhando as rédeas do cavalo que Rupert Boyce lhe entregou. — Eles devem tê-lo levado para algum acampamento por essas bandas.

     — É, talvez — concordou Tinsley com certa impaciência. — Mas alguém sabe aonde?

     — Podemos seguir os rastros. Eles levam para o sul.

     — Contou quantos guerreiros capturaram Cliff?

     — Não dá para saber com certeza, mas...

     — Sim?

     — Eu contei pelo menos vinte cavalos, mas pode haver mais.

     — Se estamos tão perto de um acampamento comanche, bem mais. Eu acho...

     — Você não acha nada, Walt! — atalhou Duncan com rispidez. — Sabemos muito bem que nunca morreu de amores por Cliff e que, por você, deixaríamos o pobre coitado nas mãos daqueles selvagens.

     — Seria a atitude mais sensata. Forte Bent não está longe. Poderíamos tentar chegar até lá e conseguir ajuda dos soldados.

     — Cliff estaria morto e escalpelado antes que um deles tivesse saído do forte! Duncan virou-se para Clyde Burke e perguntou: — Será que pode encontrar Cliff e aqueles peles-vermelhas, meu velho?

     — É possível. Os rastros não têm mais de duas ou três horas. Se partirmos agora, acredito que possamos alcançar os comanches ao anoitecer.

     — E depois? — insistiu Tinsley.

     — O que? — Duncan e Burke trocaram um rápido olhar.

     — O que faremos quando encontrarmos os comanches? Parece que nenhum dos dois pensou nisso, não é mesmo?

     — Tinsley virou-se para os outros caçadores e perguntou: — Não acham que alguém devia começar a pensar sensatamente antes que nos envolvamos numa enrascada com os comanches? Estamos longe do forte e gastamos a maior parte de nossa munição caçando. Se...

     — Ninguém está pedindo para vir conosco, Walt! — grunhiu Duncan. — Cliff não é seu amigo!

     — Cliff não tem amigos, Bruce! Nunca teve! Sempre foi um lobo solitário que fugia de nós como o Diabo foge da cruz. Por que deveríamos arriscar nossos pescoços por ele agora? Alguém pode me dar uma resposta convincente para essa pergunta?

     Clyde Burke e Bruce Duncan trocaram um novo olhar e Burke respondeu:

     — Porque ele faria o mesmo por nós.

     — Ele fez por vários dos nossos — lembrou Rupert Boyce.

     — É verdade — aduziu Murray. — Eu mesmo me lembro que...

     — E daí? Isso significa que devemos invadir um acampamento comanche para... — os olhos de Walter Tinsley foram de um rosto a outro várias vezes, em busca de apoio. Um por um seus companheiros foram evitando seu olhar ou encarando-o com nítido desprezo ou contrariedade.

     Duncan cuspiu para o lado e informou:

     — Está sozinho, Walt! Se quiser ir embora, esteja à vontade! Ninguém vai impedi-lo!

     — Mas nenhum de vocês vai permitir que eu pegue a minha parte nas peles, não é mesmo? — Tinsley apontou para os fardos de peles que quatro mulas carregavam sobre o lombo.

     Frank Murray sorriu ardilosamente e informou:

     — Isso tomaria muito o nosso tempo, e é exatamente o que não temos sobrando!

     Os olhos de Tinsley novamente encararam seus companheiros. Aborreceu-se.

     — O que há com vocês, rapazes? — indagou. — Não me digam que estão pensando realmente em ir atrás daqueles selvagens?

     — Estamos — respondeu Burke. — Mas não precisa...

     — É uma loucura! Acabaremos todos mortos se...

     — Não precisa vir conosco, Walt!

     — Acha que voltarei à Forte Bent sem minhas peles? Está completamente louco! Eu trabalhei durante muitos meses para consegui-las e não pretendo me separar delas enquanto não chegarmos ao posto de trocas.

     — Então terá que vir conosco! — disse Otis Yorke, calmo, mas firmemente.

     — Eu não sei por que insistem tanto! — grunhiu Tinsley, exasperado. — Cliff está morto ou estará quando nós o encontrarmos! Por quê...?

     — Acreditarei nisso quando vir seu cadáver — afirmou Duncan, olhando de um lado para o outro e dizendo: — Não estou vendo o corpo dele por aqui e você?

     — Não, é claro que não!

     — Então vamos atrás dele e daqueles peles-vermelhas.

     Todos concordaram com meneios de cabeça e olharam para Walter Tinsley.

     — Ah, está bem! — resmungou ele, finalmente. — Acho que não há outra maneira de vigiar minha parte nas peles! Espero que não venha me arrepender por ter resolvido participar desta loucura — virou-se para Burke e perguntou: — Então, Clyde? Você pode nos levar até aquele idiota?

     — Os rastros das botas dele se misturam aos dos cavalos sem ferraduras que seguem para o sul — informou Clyde Burke. — Acho que eles o amarraram e foram puxando o pobre coitado.

     — A pé?

     — É, a pé. Se essa caminhada não matá-lo, nada poderá fazê-lo.

     — Não aposte nisso, meu velho! — replicou Tinsley. — Os comanches podem fazer da morte de um homem um espetáculo horrendo e de mexer com o estômago do mais forte dos humanos.

     — É o que veremos. Burke incitou a montaria com os calcanhares e enveredou por uma passagem entre as pedras, acompanhado pelos outros caçadores. Rumaram para o sul.

     Clifford Marshand era um homem truculento, de aspecto feroz e espessas sobrancelhas cor de areia. O cabelo e a barba grisalhas, o nariz pontiagudo e os olhos negros e empapuçados investiam-se de certo ar sombrio e hostil, comum aos rudes caçadores de peles que perambulavam pelas Montanhas Rochosas, solitariamente, durante grande parte do ano.

     Esquadrinhou a tenda e tentou soltar as mãos manietadas às costas por fortes tiras de couro, que começavam a cortar-lhe os pulsos. Inútil. A dor era terrível e o sangue começava a jorrar dos cortes, escorrendo por entre seus dedos.

     Era um prisioneiro. Estava cansado, assustado, preocupado, temendo a demorada solidão e silêncio a que foi confinado desde que Braço-Forte o deixou na tenda. Imaginava o que ele e os outros guerreiros tencionavam fazer. Ouvira muitas histórias sobre os suplícios que os comanches costumavam infligir a seus prisioneiros antes de matá-los. Presenciara um deles e em mais de uma ocasião, encontrara algumas de suas vítimas.

     Não era nada agradável de se ver ou de se participar. Era como morrer muitas vezes antes da morte definitiva, dissera um velho guerreiro cheyenne, que costumava realizar incursões ao território comanche atrás de cavalos.

     Inquietava-se diante dos dias de silêncio e isolamento na tenda. Não vira nem Braço-Forte ou qualquer um de seus guerreiros. Não fora alimentado. Tinha a garganta seca e o estômago vazio roncava, atormentado pela fome e pela bílis negra que na falta de comida, parecia corroê-lo para saciar-se.

     Eles iam matá-lo. Parecia não haver muita coisa a se fazer diante daquela verdade terrível a não ser esperar pelo fim e pelos suplícios imaginados por seus captores.

     A morte... Acabaria morto.

     Nunca imaginara que terminaria seus dias daquela maneira, torturado, destruído, lenta, mas impiedosamente, longe dos amigos, de qualquer pessoa que pudesse resgatar seu corpo e dar-lhe um enterro decente.

     Braço-Forte entrou. Durante certo tempo ficou parado à entrada da tenda, calado, olhando-o, vasculhando-o como se procurasse algum sentimento, alguma arma, qualquer coisa que Marshand não imaginava o que poderia ser.

     Há dias que não o via. Tremia só em pensar o que se escondia por trás de seu silêncio.

     — Veio me matar, chefe? — perguntou, encarando-o desafiadoramente, procurando esconder os próprios temores dos olhos perscrutadores do chefe comanche.

     Braço-Forte deu mais alguns passos em sua direção. Parou. Olhou-o fixamente.

     — Matou minha "squaw". Matou as minhas irmãs. Matou as filhas de muitos de meus guerreiros — disse. — Merece a morte.

     — Não matei ninguém! — resmungou Marshand. — Você...

     — Eu sei que matou... Por que mente para mim? Não há necessidade. Nós vamos matá-lo!

     — Não estou mentindo! Eu não matei ninguém! Vocês estão enganados...

     — Gostaria de entender homens como você. Porque fazem guerra a mulher e crianças? Não há orgulho algum na morte de mulheres e crianças.

     — Eu já disse...

     — Sei o que disse... Mentiu para mim, como mentirá para qualquer outro que aparecer à sua frente. Mentirá até mesmo enquanto estiver morrendo.

     Olharam-se silenciosamente por um instante.

     — Se vai me matar, mate-me logo! — rosnou Marshand, mal-humorado. — Não vou servir de diversão para nenhum comanche piolhento.

     Os olhos de Braço-Forte cravaram-se em Marshand, imperturbáveis, indevassáveis.

     — Você vai morrer, mas vai morrer quando e onde nós, que perdemos nossas "squaw", filhas e irmãs, decidirmos. Não antes!

     — Quer ter o seu prazer nojento antes de me mandar para o inferno, não é mesmo, chefe?

     Braço-Forte encarou o interlocutor.

     — Os espíritos de nossos mortos estão inquietos. Precisam de tranquilidade. Nossos corações clamam por vingança.

     Caminhou para a entrada da tenda e saiu. Marshand soltou um violento palavrão.

    

                        O Resgate de Marshand

     De repente, Boyce surgiu no alto da pequena elevação rochosa e começou a descê-la, escorregando, apoiando-se nas rochas para não cair. Burke e os outros caminharam ao seu encontro puxando os cavalos pelas rédeas. Walter Tinsley observou:

     — Parece que ele encontrou algo. Os outros se entreolharam, tensos.

     — Do jeito que ele está correndo, parece que tem toda a nação comanche em seus calcanhares — afirmou Frank Murray, forçando um sorriso.

     Ninguém achou graça.

     — Há um acampamento comanche depois daquelas colinas — informou Rupert Boyce, apontando para as elevações arredondadas às suas costas.

     — Viu Cliff? — perguntou Duncan, excitado. Os outros caçadores rodearam o recém-chegado.

     — Não, eu não cheguei muito perto. Mas os rastros de botas levam para aquele acampamento. Tenho certeza de que Cliff está lá.

     Burke virou-se para os companheiros e disse:

     — É melhor irmos andando!

     Boyce apanhou as rédeas de um dos dois cavalos que Murray lhe entregou e disse:

     — Cuidado, rapazes! Não façam barulho e procurem ficar contra o vento. Tem muitos cães no acampamento e se um deles sentir o nosso cheiro, teremos muitos problemas para conservar os nossos escalpos!

     Galgaram a encosta vagarosamente: Tinsley retirou o rifle da bandoleira da sela, nervoso.

     — É melhor se acalmar, Walt — pediu Otis Yorke. — A última coisa de que precisamos é de alguém dando tiros de um lado para o outro!

     — Eu sei, eu sei — sussurrou Tinsley. — Mas se um desses cães começar a latir quero ter certeza de que serei o primeiro a atirar.

     Yorke e Duncan se entreolharam e Yorke resmungou:

     —- Devíamos ter deixado esse cabeça-dura com os cavalos, Bruce. Se ele começar a atirar, vamos ter problemas.

     — E vem dizer isso a mim? Caminhando uns passos à frente, Clyde Burke virou-se e atravessando o indicador sobre os lábios, disse;

     — Shhht! Grunhindo, mal-humorado:

     — Querem acordar todo o acampamento?

     Alcançaram o alto da elevação pedregosa. Avistaram as tendas cônicas do acampamento comanche à margem de um córrego arenoso e de águas escuras. O brilho tremeluzente de algumas fogueiras luziam na noite escura e os caçadores avistaram os vultos silenciosos de vários sentinelas sentados em torno delas. De quando em quando, ouvia-se o latido de um ou outro cão.

     Preocupado, Tinsley virou-se para Murray e indagou:

     — Será que esses miseráveis já sentiram o nosso cheiro? Eu ouvi dizer que o faro deles é...

     Clyde Burke fulminou-o com um olhar de contrariedade e rosnou:

     — Eles não sentiram nada, seu idiota! Agora quer fechar essa boca? Toda essa conversa fiada está me dando nos nervos!

     Debruçado no terreno pedregoso a seu lado, Burke observou o acampamento com um binóculo, informando:

     — Eu contei quatro sentinelas espalhados ao longo da outra margem...

     — E Cliff? — impacientou-se Murray.

     — Você o viu?

     — Não, ainda não!

     — Ele não está lá! — insistiu Tinsley.

     — Estamos apenas perdendo tempo e... Bruce Duncan fuzilou-o com os olhos faiscantes de raiva, o sangue subindo-lhe para a cabeça.

     — Dê uma boa olhada, Clyde — pediu, sem desviar os olhos de Tinsley. — Eu quero estar completamente convencido antes de ir embora. Não gostaria de ter a morte de Cliff em minha consciência.

     — Eu sobreviveria a isso — garantiu Tinsley.

     — Acredito... Você não tem consciência!

     Burke continuou vasculhando o acampamento comanche através das lentes do binóculo.

     — Sabem de uma coisa, rapazes? — indagou. — Não é um acampamento tão pequeno quanto imaginávamos. Deve haver mais de sessenta guerreiros naquelas tendas.

     — Nós já percebemos isso, meu velho. — disse Bruce Duncan. — Diga-nos quando encontrar Cliff.

     — Se encontrar... — atalhou Tinsley, sustentando-lhe o olhar feroz.

     — Eu já lhe disse para calar a boca, Walt! Vai acabar...

     — Fiquem quietos, os dois — interrompeu-o Burke. — Acho que vi algo...

     Tinsley e Duncan se entreolharam.

    — O que? Perguntou o primeiro.

     — Cliff? — indagou o segundo, achegando-se a Burke.

     — Parece que sim -— respondeu seu interlocutor, entreolhando-os. Tornou a observar o acampamento através das lentes do binóculo e acrescentou: — O pobre diabo está lá embaixo.

     — Ele está bem?

     — Deitado no chão. Tem um sentinela vigiando. Ele vai ser torturado.

     — Talvez já tenha sido e estejamos nos preparando para arriscar o pescoço por um cadáver.

     Todos os olhos voltaram-se para Tinsley, embaraçando-o.

     — Não é possível?

     Burke fez um muxoxo e admitiu:

     — É, é possível...

     Bruce Duncan encarou-o, aborrecido.

     — Não vai deixá-lo lá, vai, Clyde? — perguntou.

     — Eu não disse isso — respondeu seu interlocutor. — Além disso, nem mesmo um comanche se preocuparia em vigiar um cadáver.

     Os caçadores se entreolharam.

     — Ele está vivo — disse Boyce, os dentes alvíssimos exibidos num amplo sorriso de alívio.

     — É, está. Parece que os miseráveis ainda não começaram a se divertir com ele.

     — Vamos pegá-lo! — falou Bruce Duncan, impaciente.

     Burke o deteve com o braço e cortou:

     — Não tão depressa, meu velho!

     — O que estamos esperando, Clyde? Você mesmo disse que não tínhamos muito tempo. Temos que tirar Cliff logo de lá.

     — Antes que aqueles selvagens comecem a se divertir com ele — lembrou Frank Murray.

     — Não precisamos ir todos até lá.

     — Eu vou!

     — Nós iremos, Bruce! — afirmou Clyde Burke. — E é melhor aproveitarmos que todos no acampamento estão dormindo!

     — Todos, não! — replicou Tinsley. — Aquelas sentinelas e aqueles cães me parecem bem acordados! — abriu-se num amplo sorriso. — Mas, por favor, amigos. Não deixem que esse pequeno detalhe os impeçam de livrarem Cliff.

     Burke e Duncan trocaram um rápido olhar, aborrecidos.

     — Não, é claro que não! — Clyde Burke virou-se para os outros caçadores e pediu:

     — Protejam-nos, rapazes! E cuidem bem dos cavalos. Assim que livrarmos Cliff, teremos que sair daqui bem depressa.

     — Estaremos prontos, Clyde! — prometeu Otis Yorke. — Cuidem-se, hem?

     — Nem precisa me lembrar, meu velho — disse Burke, trocando um novo olhar com Bruce Duncan. — Sabemos que estamos nos metendo numa bela enrascada.

     Desceram a encosta sorrateiramente, acocorados, ziguezagueando entre as pedras e as touceiras de mato, rumando para o acampamento comanche. De vez em quando, o latido de um cão ou o som da voz de um ou outro sentinela, fazia com que os dois parassem e olhassem para os companheiros encarapitados no alto da encosta, desconfiados, temendo que um daqueles homens tivesse visto os dois ou que o faro aguçado de um dos cães sentisse seu cheiro.

     Suavam abundantemente, sentindo as grossas roupas de peles colarem nos corpos, os espasmos mais pesados e a respiração difícil. Medo era apenas medo, um temor agravado pela proximidade do acampamento comanche e pelo burburinho das vozes das sentinelas. Todos estavam acordados. Pararam à margem do riacho e voltando-se para o companheiro, Clyde Burke sussurrou:

     — Temos que ter cuidado. . .

     — E vem dizer isso a mim? — indagou Duncan.

     Entraram na água, esgueirando-se entre os bancos de areia, os olhos perscrutando a escuridão, vigiando a movimentação de um ou outro sentinela, os cães e os cavalos presos num curral de arbustos entrelaçados. O vento mudava constantemente de direção, o que levava os dois a pararem de quando e quando, evitando que seu cheiro chegasse aos narizes e focinhos espalhados na outra margem da corrente de água escura. Alcançaram-na e debruçados no chão, rastejaram na direção do sentinela que, sentado com as pernas cruzadas, o queixo apoiado no peito, cochilava diante do corpo de Clifford Marshand.

     Entreolharam-se. Burke segurou o cano do rifle de Duncan, impedindo-o de dispará-lo e grunhindo entre dentes:

     — O que deu em você? Quer acordar todo o acampamento?

     Duncan fez um muxoxo de pouco caso e afastou-lhe a mão da arma com um safanão, pedindo:

     — Fique aqui e veja, parceiro!

     Reiniciou a marcha através do acampamento, rastejando na direção do sentinela. Burke surpreendeu-se, olhando de um lado para o outro, desorientado, temendo que acabassem vistos por um dos sentinelas. Acompanhou a movimentação insidiosa do companheiro, apontando o rifle para a escuridão à frente, receando que de um momento para o outro, um daqueles selvagens emergisse do negrume noturno numa gritaria assustadora e acordasse todos os outros, lançando-se sobre ambos e sobre os companheiros que os esperavam na outra margem do riacho.

     Inesperadamente, Duncan parou às costas do sentinela e pondo-se de joelhos, golpeou-o com o longo cano do rifle. Virou a cabeça e sorriu para Burke, apontando para o sentinela inconsciente e estirado de lado diante do corpo de Marshand.

     — Ora, vejam só! — disse Clyde Burke, abandonando o esconderijo e engatinhando em sua direção. Olharam para Marshand estirado de costas no chão, os pés e mãos firmemente amarrados por tiras de couro em algumas estacas. — Corte isso, Bruce! — pediu, olhando de um lado para o outro e acrescentando: — Logo, alguém vai aparecer procurando esse índio eu não quero estar aqui quando...

     — Já estou cortando, já estou cortando — sussurrou Bruce Duncan asperamente, desembainhando uma grande faca.

     Marshand despertou, os olhos esbugalhados, surpresos, fixos nos caçadores.

     — Bruce! Clyde! — balbuciou num fio de voz, os olhos brilhantes, o rosto encovado, iluminado por um amplo sorriso de satisfação, como se quase não acreditasse que os dois estivessem ali, Burke de joelhos apontando o rifle da direita para a esquerda, os olhos apertados com nervosismo, e Duncan cortando as tiras de couro 'que lhe manietavam os pulsos e tornozelos.

     —- Fale baixo, Cliff! — pediu Bruce Duncan. -— Esses selvagens podem acabar nos ouvindo se...

     — Estou calado! Estou calado!

     — É, nós já percebemos — rosnou Burke, mal-humorado.

     Marshand calou-se, acabrunhado.

     — Desculpem-me. É que...

     — Nós entendemos, parceiro — Duncan sorriu, cortando as tiras de couro que lhe manietavam os tornozelos.

     — Depressa, Bruce! — impacientou-se Burke, olhando fixa e nervosamente para frente.

     — Acho que ouvi vozes...

     Marshand sentou-se no chão, esfregando os pulsos doloridos. Agachado diante dele, Duncan ajudou-o a se levantar, indagando:

     — Está ferido?

     — Não, — respondeu Marshand. — Eu posso andar.

     — Então é melhor irmos andando. — Clyde Burke adiantou-se aos outros caçadores e encaminhou-se para o riacho, acocorado, vasculhando o acampamento e a escuridão, as vozes de vários guerreiros soando mais próximas, vindo de várias direções, preocupando-os. — Esse lugar está me dando nos nervos!

     Repentinamente, os cães começaram a latir. Um dos cavalos presos no curral de arbustos entrelaçados relinchou alto, sendo imediatamente imitado pelos outros que escoiceavam e empinavam, atirando-se sobre a frágil cerca do curral. Os passos tornaram-se mais apressados e as vozes soaram preocupantemente próximas. Sombras agitaram-se na escuridão entre as tendas.

     — Os cães nos farejaram! — gritou Duncan, alarmado.

     Marshand soltou um violento palavrão.

     — É — concordou Clyde Burke —, e estão acordando todo o acampamento!

     Um bando de cães macilentos saiu detrás de uma grande tenda e atirou-se sobre os fugitivos, latindo e rosnando ferozmente, uma espuma amarelecida escorrendo-lhes das mandíbulas arreganhadas e rutilantes, exibidas de forma ameaçadora.

     — Malditos pulguentos! — vociferou Duncan, golpeando um deles com a coronha do rifle.

     — Odeio cães! — grunhiu Marshand, apavorado, chutando outro e colocando-se atrás dos caçadores.

     — Eles são o menor de nossos problemas agora, Cliff! — afirmou Burke, baleando um dos animais, os olhos voltados para um ponto à sua frente. — Vejam!

     Um grande número de guerreiros emergiu da escuridão, gritando selvagemente. O estampido dos primeiros tiros elevando-se ao latido intermitente dos cães e aos relinchos dos cavalos que, finalmente, derrubaram a cerca do curral e derramaram-se num galope desembestado pelo acampamento. A confusão tornou-se assustadora.

     — Fomos descobertos! — disse Bruce Duncan, desvencilhando-se dos cães e correndo para o riacho, tendo-os em seus calcanhares; as balas e flechas passando a centímetros de seu corpo e dos corpos dos companheiros. — Corram, rapazes! Corram para salvar seus escalpos!

     — Estamos atrás de você, parceiro! — afirmou Clyde Burke, recuando de costas, aos tropeções, e disparando o rifle sobre homens e animais que arremetiam sobre si de maneira enlouquecida, vindos de todas as direções.

     — Deem-me uma arma! Deem-me uma arma e eu ajudo os dois a mandarem esses selvagens miseráveis para o inferno! — pediu Marshand, os olhos faiscantes de raiva.

     — Gostaríamos de fazer isso, parceiro — disse Duncan —, mas só temos as nossas e como pode ver, elas estão um bocado ocupadas!

     — Acabem com a raça deles! Deixem que eu...

     Burke e Duncan trocaram um olhar de impaciência e Burke informou:

     — Já me darei por satisfeito se conseguir sair daqui vivo, parceiro! Não vim atrás de vinganças, mas de um amigo!

     — Vingança? Acham que estou atrás de vingança?

     Duncan alvejou dois guerreiros que arremetiam sobre si brandindo pesadas maças de guerra. Fitou Marshand de viés, grunhindo:

     — Não precisávamos de mais nada além de uma discussãozinha idiota!

     Marshand esmurrou outro comanche e acabrunhado, desculpou-se.

     — Esqueça! — pediu Burke. — Vamos nos preocupar em sair logo deste maldito acampamento! Os rapazes estão nos esperando na outra margem com os cavalos!

     Os pôneis índios galopavam de um lado para o outro, obrigando perseguidos e perseguidores a se esquivarem constantemente para não serem atropelados. Tendas desabavam sob suas patas e eram rapidamente envolvidas pelas chamas de um incêndio que espalhou-se pelo acampamento e iluminou a noite escura e sem estrelas. Os latidos dos cães diluíam-se na confusão de vozes, gritos e do castanholar desembestado dos cascos dos cavalos. Mulheres corriam de um lado para o outro com algumas crianças apertadas contra o peito. Velhos e crianças tropeçavam e caíam procurando fugir dos animais em fuga e do violento tiroteio. Cães enlouquecidos de medo atacaram alguns deles.

     — Atirem! Atirem! — pedia Marshand, desesperado, entrando no riacho. — Não deixem aqueles carniceiros se aproximarem!

     — O que acha que estamos fazendo, meu velho? — indagou Bruce Duncan, acompanhando-o.

     Burke os seguiu. Patinando, os três alcançaram a outra margem com Braço-Forte e um numeroso e barulhento bando de guerreiros em seus calcanhares, galgando-a aos trambolhões, de gatinhas, para fugir da rajada de balas que Otis Yorke e os outros, entrincheirados atrás das pedras à sua frente, dispararam sobre seus perseguidores.

     — Venham por aqui! — gritou Rupert Boyce, agitando o braço desesperadamente. — Depressa!

     Tinsley e Murray agarraram Marshand pelas axilas e o arrastaram para trás das pedras, com Duncan e Burke colocando-se protetoramente entre eles e os comanches, disparando os rifles.

     — Conseguimos afugentá-los! — disse Bruce Duncan, vendo os índios recuarem para a outra margem do riacho, recarregando a arma fumegante.

     — Não por muito tempo! — replicou Burke, acompanhando Marshand e os outros.

     Os comanches voltaram com redobrada fúria, os gritos enfurecidos ressoando de vários pontos do riacho iluminado pelo clarão alaranjado do acampamento em chamas, misturados aos cavalos que arremetiam sobre os caçadores.

     — Eles estão voltando! — berrou Boyce, alarmado, puxando vários cavalos pelas rédeas. Achegou-se aos companheiros.

     — Prepare-se, parceiro! — disse Walter Tinsley, montando e disparando o revólver sobre os índios. — Ainda vamos ver esses carniceiros muitas vezes antes de chegarmos a Forte Bent... Se chegarmos!

     — Cale a beca, idiota! — rugiu Duncan, mal-humorado. — Cale a boca e atire se quiser chegar com seu escalpo em Fort Bent!

     Nova rajada de balas despejou-se sobre os comanches, afugentando-os de volta a outra margem.

     — Não vai ser nada fácil mantê-los daquele lado! — afirmou Frank Murray, recarregando o Colt e observando os índios que iniciavam uma nova investida, atirando e gritando ferozmente.

     — Não alimentaria tal esperança se fosse você, meu velho — disse Yorke, desanimado. — Eles estarão atrás de nós assim que sairmos daqui!

     Incitando a montaria, Clyde Burke apontou para as elevações pedregosas às suas costas e gritou:

     — Por aqui, rapazes!

     Rumou para elas a todo galope, acompanhado pelos outros caçadores; as balas e flechas passando assobiando ao redor de seus corpos, os gritos de seus perseguidores elevando-se da escuridão.

     Walter Tinsley virou a cabeça e viu alguns vultos atravessando o riacho, o lampejo alaranjado dos rifles repetidamente disparados iluminando as feições congestionadas e ferozes de Braço-Forte e meia dúzia de guerreiros lambuzados com pintura de guerra.

     — Os comanches... Eles estão vindo atrás de nós! — gritou, desesperado.

     — Eles virão atrás de nós! — garantiu Clyde Burke, irritado. — O que acha que devemos fazer?

     Tinsley desviou o olhar para Clifford Marshand que cavalgava alguns metros à sua direita e aborrecido, respondeu:

     — Nada, não há mais nada a fazer a não ser fugir e torcer para chegarmos vivos ao forte!

     Galgaram a encosta velozmente e desceram a colina em disparada, os gritos, tiros e a confusão de homens e animais indo de um lado para o outro perdendo se na noite escura. O clarão alaranjado do acampamento em chamas iluminava as colinas às suas costas, assustando-os, a imagem rutilante perturbando-os com o constante temor da perseguição inevitável.

    

                        A História

     Amanhecia, um sol brilhante e avermelhado derramava-se pela região árida e pedregosa, varando os desfiladeiros e ravinas umbrosas com uma luz intensa e forte.

     Clyde Burke e os companheiros refrearam as montarias e esquadrinharam a extensa e desolada paisagem.

     —- Não vejo nenhum comanche — disse, cansado, encurvado sobre o cavalo, a poeira caindo da cabeça, das roupas e da própria montaria.

     — Mas eles estão lá — replicou Walter Tinsley, carrancudo, entreolhando-se com os companheiros. — Eu posso lhe garantir.

     — Sabemos que eles estão lá, Walt! — cortou Duncan, fuzilando-o com os olhos.

     Otis Yorke desmontou e resmungou:

     — Se vocês não repararam, nós estamos é perdidos!

     — Você talvez esteja — atalhou Boyce —, mas eu sei que podemos chegar a Forte Bent dentro de dois ou três dias.

     — Precisamos apanhar as mulas e as peles — lembrou Murray.

     — Chegaremos nelas antes do anoitecer. Se andarmos depressa.

     — Precisamos descansar, rapazes — disse Duncan, desmontando. — Nós e os cavalos.

     Marshand escorregou da garupa do cavalo de Rupert Boyce e deixou-se cair de costas no chão, os braços e pernas abertos.

     — Acho que tem razão, Bruce — concordou. — Eu não aguentaria nem mais um quilômetro, se continuássemos.

     — Ninguém está pedindo para vir conosco, Cliff — rosnou Tinsley, mal-humorado. — Nós já salvamos o seu escalpo!

     Marshand levantou a cabeça e fixou-o com os olhinhos agudos e brilhantes.

     — Eu tinha me esquecido de você, Walt — disse, sorrindo maliciosamente.

     — Gostaria de fazer o mesmo por você, Cliff! — Tinsley sustentou-lhe o olhar, irritado.

     — Está bem, vocês dois, já chega disso! — grunhiu Clyde Burke autoritariamente,

     — Nós já temos problemas demais com os comanches para procurar mais alguns por aqui. Vamos precisar muito um do outro se quisermos chegar vivos a Forte Bent. Depois que estivermos lá, os dois podem se matar quando quiser que eu prometo que não interferirei.

     — Vamos procurar logo um pouco d'água! — rosnou Frank Murray, mal-humorado. — Eu estou com a garganta seca e cheia de poeira.

     — Então somos dois — Rupert Boyce o acompanhou.

     Os dois se dirigiram para uma pequena nascente d'água aninhada entre as rochas.

     — Não devíamos parar! — protestou Walter Tinsley, correndo atrás de ambos e colocando-se à frente dos dois, impedindo-os de caminhar para o poço. Olhou por sobre o ombro de Boyce e disse para Burke: — Os comanches vão acabar nos alcançando se perdermos muito tempo aqui!

     Murray empurrou-o e grunhiu:

     — Saia da minha frente, Walt! O meu cantil está vazio e eu não quero morrer de sede!

     Tinsley segurou-o pelo braço, gritando:

     — Podemos dividir a água que nos resta e continuar até encontrarmos as mulas e as peles.

     Murray desvencilhou-se com um safanão e reiniciou a marcha na direção da nascente. Tinsley quis segui-los. Clyde Burke chamou-o e enquanto ele se voltava, disse:

     — Os cavalos precisam descansar. Vamos precisar deles se quisermos chegar até as peles e em Forte Bent. Agora pare com isso, antes...

     — Vocês estão todos loucos! As nascentes d'água serão os primeiros lugares onde os comanches nos procurarão! Agora mesmo, eles devem estar vigiando todos os poços — os olhos de Walter Tinsley vasculharam receosamente a paisagem pedregosa e ensolarada que os rodeava. — Inclusive este! — parou o olhar no interlocutor e indagou: — Já pensou nisso?

     — Você está completamente louco, Walt! — grunhiu Bruce Duncan, olhando de viés para Burke e acrescentando: — Louco de medo!

     Olhou-o com desprezo e rumou para a nascente. Tinsley rilhou os dentes com raiva, rosnando:

     — Ora...

     Duncan olhou-o com o rabo dos olhos, sorrindo maliciosamente e gesticulando para que o acompanhasse, pedindo:

     — Venha logo, Walt, ou este sol o matará antes que os comanches!

     Clyde Burke acercou-se de Tinsley, acrescentando:

     — Bruce tem razão, Walt! Vamos precisar descansar uns instantes e encher os cantis para o resto da viagem!

     Tinsley encarou-o, ruminando:

     — É uma tolice! Estamos perdendo tempo!

     — Não podemos fazer mais nada contra isso. Se insistirmos, os cavalos não aguentarão e aí sim é que teremos que nos preocupar realmente com os comanches.

     — Ali, está bem! — resmungou Tinsley.

     Passando pelos dois, Clifford Marshand sorriu desdenhosamente e disse:

     — Ainda bem que você concorda conosco, Walt.

     Coxeou na direção da nascente d'água. Tinsley apontou-o para Burke e rosnou:

     — Mantenha este linguarudo bem longe de mim, Clyde, ou eu terei que fazer o trabalho dos comanches.

     — Não gosta dele, não é mesmo, Walt? — indagou Burke.

   — Nem eu nem os muitos homens que ele enganou e roubou.

     — O que?

     — Converse com qualquer um em Forte Bent, Clyde, e vai ouvir muitas histórias sobre aquele salafrário — Tinsley fungou, tenso. — Acredite meu velho, ainda viverei muito tempo para vê-lo se arrepender de tê-lo tirado daquele acampamento. Viverei sim.

     Dirigiu-se para a nascente d'água.

     Os lamentos ecoaram pelo acampamento destruído durante todo o resto da noite e pelas primeiras horas do dia. Homens, mulheres e crianças choravam por seus mortos, os cadáveres encontrados às margens do riacho, sob os escombros fumegantes das tendas, os guerreiros caminhando, acabrunhados, desorientados, de um lado para o outro, os olhos vasculhando o curral vazio e destruído, o pequeno descampado onde pastavam tranquilamente alguns cavalos.

     A destruição fora completa. A maioria dos guerreiros estava morta ou ferida. As peles e os fardos de "pemmican"¹ tinham sido queimados com as tendas. Somente com o amanhecer, as mulheres, velhos e crianças começaram a voltar para o acampamento.

     Braço-Forte sentia-se envergonhado, o coração apertado, evitava os olhares de censura das pessoas que passavam à sua volta ou lhe dirigiam palavras aflitas e desesperadas. Vingança, todos queriam vingança e esperavam que ele a consumasse. Ele mesmo não conseguira dormir desde que Burke e os outros caçadores resgataram Marshand do acampamento. Era como se algo, uma parte importante de si, tivesse sido arrancado de suas mãos; um bem precioso, a vida de Marshand, algo que lhe pertencia para ser destruída.

     Lança-Pequena e um grupo de jovens guerreiros achegaram-se ao corpulento comanche. Era um guerreiro magro, de pele muito escura, de rosto ossudo e pintado de vermelho e preto. Vestia apenas uma tanga e um par de velhos mocassins.

     — Nossos mortos clamam por vingança, Braço-Forte — informou irritado, as feições crispadas e os grandes olhos cor de azeviche falseando de ódio e impaciência. — Nós desejamos ir atrás dos caras-pálidas!

     — Também desejo vingar-lhes as mortes, Lança-Pequena — falou Braço-Forte, os olhos passeando pelos rostos à sua volta. — Nem eu nem nossos mortos estaremos em paz enquanto aquele assassino estiver vivo!

     — Mas como podemos encontrá-los? — perguntou Cavalo-Grande, outro guerreiro, um tipo corpulento e de rosto largo, apoiado num vistoso “coup-stick"². — Os espíritos parecem proteger os caras-pálidas! Nenhum de nós encontrou seus rastros!

     — Encontraremos... — garantiu Braço-Forte. — Se quisermos que os espíritos de nossos mortos cheguem às pradarias do céu, temos que encontrá-los e matá-los. Punir seus assassinos!

     — Guie-nos contra, aqueles homens, Braço-Forte — pediu Lança-Pequena. — O terreno é pedregoso e não vai ser fácil encontrar os rastros daqueles homens, mas confiamos que você possa nos guiar.

     — Guiarei. Dividam-se em pequenos grupos e deem uma busca pela região. Eles não podem ter ido muito longe. Nenhum deles conseguirá ir distante o bastante para escapar de minha vingança!

     Os olhos de Braço-Forte cintilaram de ódio, o rosto enchendo-se de rugas e crispando-se de maneira preocupante.

     — Como tudo começou, Cliff? — perguntou Bruce Duncan sentando-se ao lado de Marshand, debaixo de uma rocha à pique e entregando-lhe o cantil.

     — A prisão no acampamento comanche?

     — É, Cliff, eu também gostaria de saber — admitiu Clyde Burke.

     Marshand sorriu maliciosamente e perguntou:

     — Para saber se valeu a pena tirar-me das mãos de Braço-Forte e seus carniceiros?

     — Talvez... — admitiu Tinsley, mal-humorado, encarapitado no alto da rocha, os olhos esquadrinhando a paisagem árida e ensolarada de maneira preocupante. Voltou-os para Marshand e insistiu: — Então? Não vai nos contar?

     Marshand esquadrinhou os rostos que o rodeavam.

     — Aqueles selvagens estão me acusando de ter assassinado algumas de suas mulheres — informou.

     Silêncio, os caçadores trocaram um rápido olhar.

     — E você não as matou? — indagou Tinsley.

     — É claro que não!

     — Não me parece tão claro. Afinal de contas, todos sabem que odeia os índios.

     — Ele não é o único, Walt! — cortou Bruce Duncan com aspereza. Entreolhou-se com os companheiros. — Todos nós temos motivos suficientes para não gostar daqueles piolhentos!

     — Não como Cliff! — Tinsley sorriu maliciosamente. Todos os olhos se voltaram para ele e aborrecido, Duncan indagou:

     — O que está querendo insinuar?

     — Não estou querendo insinuar nada. Todos os caçadores que conhecem Cliff Marshand sabem que ele tem razões bem fortes para odiá-los mortalmente.

     Os olhos de Marshand fixaram-se no interlocutor com certa irritação.

     — É melhor dizer logo o que tem em mente, Walt! — rosnou — Não gosto de homens que falam por evasivas!

     — Sabemos que passou alguns meses nas mãos dos comanches e que quando o encontraram você estava mais morto do que vivo e dizendo que mataria todo e qualquer índio que encontrasse pela frente. Esqueceu-se disso, Cliff?

     — Não, não esqueci. Mas você também diria o que eu disse se tivesse sofrido como eu sofri nas mãos daqueles selvagens. Foi apenas uma tolice.

     — Tolice? Chama de tolice a morte daquele shoshone em Forte Carlton? Não se esqueceu dele, esqueceu? E das empregadas tonkawas de Ralph Spenc em Forte Bent no verão passado? Lembra-se do que fez?

     — Pare com isso, Walt! — rosnou Duncan, fuzilando-o com os olhos.

     — Eu só queria...

     — Sabemos muito bem o que queria. Agora cale-se ou eu...

     Clyde Burke pigarreou vigorosamente, cortando:

     — Parem com isso, rapazes! Não vamos recomeçar, vamos?

     Duncan e Tinsley trocaram um olhar hostil.

     — Não... — disse o primeiro.

     — Seria uma grande bobagem! — afirmou o segundo. Desviando o olhar do interlocutor,

     Burke virou-se para Clifford Marshand e perguntou:

     — E como os comanches chegaram à conclusão de que você tinha matado as mulheres, Cliff?

     — Foi tudo um mal-entendido.

     — Que tipo de mal-entendido? — indagou Rupert Boyce.

     — O pior deles, meu amigo — Marshand encostou-se numa rocha e entreolhando-se com Duncan, encarou os interlocutores, afirmando: — Não espero que acreditem em mim, mas posso jurar sobre uma pilha de bíblias que é a mais pura verdade.

     — O que houve?

     — Este ano eu passei caçando no território comanche...

     — É perigoso — disse Frank Murray.

     — Eu sei, eu sei, mas seus rios estão cheios de castores. Eu não podia simplesmente virar as costas a eles e preferi correr o risco. Não foi difícil passar despercebido aos grupos de caça e apenas em uma ocasião, eles encontraram meu acampamento. Carreguei várias mulas com as peles que consegui durante todo este tempo. Mas, há duas semanas atrás, eu estava acampado num bosque de cedros perto do acampamento de Braço-Forte, quando ouvi as vozes de um grupo de mulheres e depois, vários tiros. Tiros e gritos, muitos gritos. Corri para ver o que estava acontecendo e encontrei um sujeito matando um bando de mulheres índias que deviam estar tomando banho num pequeno lago. Ele as estava matando.

     — Que homem? — perguntou Boyce, Os ombros de Marshand subiram e desceram num gesto de desorientação.

     — Não sei. Nunca o vi por essas bandas — calou-se por um instante, coçando o queixo, o cenho carregado. Tornou a olhar para os caçadores e corrigiu-se: — Para dizer a verdade, nem tive tempo de olhá-lo direito.

     — O que fez?

     — Ora, o que qualquer homem faria numa situação daquelas. Atraquei-me com o desconhecido e tentei fazê-lo parar de matar aquelas mulheres.

     — Você? — espantou-se Tinsley, com um risinho escarninho nos lábios. — Não consigo imaginá-lo arriscando a vida por um bando de índias!

     — Eu não pensei nelas desta maneira, Walt! Eram mulheres, algumas não passavam de meninas, crianças... eu... eu... eu simplesmente não podia ficar ali, vendo-o matá-las. Lutei com aquele desconhecido, mas o miserável era forte demais. Nunca vi um homem tão forte quanto aquele. Fui atirado dentro do lago e quando saí, encontrei Braço-Forte e dezenas de guerreiros me xingando, me ameaçando e dizendo que eu tinha matado suas "squaw". Fui cercado e nenhum deles me deu tempo sequer de abrir a boca. Tentei explicar-lhes o que tinha acontecido, mas os comanches estavam irritados e assustados demais com o que viram naquele lago para se ocuparem com minhas desculpas. Eles me agarraram e tentaram me arrastar para seu acampamento. Apavorei-me. Todos sabem o que passei nas mãos dos selvagens quando fui capturado pela primeira vez e eu não queria passar por aquilo novamente. Fugi. Nem eu mesmo sei como consegui, mas livrei-me das mãos daqueles assassinos e corri como um louco para bem longe e durante quase todo o dia, até que me senti suficientemente seguro para descansar.

     — E o que aconteceu? Estava no acampamento de Braço-Forte quando nós o encontramos.

     — Eles me encontraram e me capturaram há dois dias atrás. Pensei que desta vez ia morrer.

     — Agora está conosco, amigão — afirmou Duncan, sorridente.

     — O que não é grande coisa, já que ainda não saímos do território comanche — atalhou Clyde Burke, preocupado.

     — E se não andarmos depressa, jamais sairemos — resmungou Tinsley.

    

                        Fuga Desembestada

     O nome dela era Pluma. Apenas Pluma. Tinha os olhos enormes e brilhantes de uma onça, o corpo miúdo e de traços delicados, resquícios de uma velha e muitas vezes esquecida ancestralidade francesa. O andar suave, silencioso, como se os pés muito pequenos não tocassem o chão quando caminhava. O cabelo negro e sedoso era longo e chegava-lhe até a cintura.

     Braço-Forte a amou desde a primeira vez que a viu. Nunca houve um guerreiro que amasse e se dedicasse tão inteiramente a uma "squaw" entre os comanches quanto ele. Os dois se amavam verdadeiramente. Fizeram muitos planos depois que se uniram. Filhos. Felicidade. Durante poucos meses, Braço-Forte se considerou o homem mais feliz do mundo, dedicando a própria existência àquela que escolhera como companheira para até o último de seus dias.

     Braço-Forte praticamente enlouqueceu quando encontrou o cadáver da mulher amada e de várias outras jovens, entre elas, suas irmãs e duas irmãs de Pluma, boiando nas águas de um pequeno lago.

     Morta. Pluma morta. Pluma estava morta.

     Escondeu-se no ermo pedregoso e ensolarado. Durante dias, ninguém o viu ou testemunhou sua dor. Ele fugiu. Fugiu dos olhares penalizados dos companheiros e de cada um dos moradores do acampamento. Fugiu da dor de pais, mães e de outros guerreiros que tinham perdido suas filhas, irmãs e companheiras no mesmo massacre em que Pluma morrera. Ninguém jamais soube onde sepultou Pluma. Ele jamais disse e ninguém teve coragem de perguntar quando Braço-Forte finalmente voltou.

     Depois de retornar ao acampamento, Braço-Forte quase não dormiu. Passou cada instante de muitos dias seguindo rastros, vasculhando trilhas e passagens pedregosas, procurando os responsáveis pela morte de Pluma e das outras "squaw" comanches. Homens brancos. Os rastros de botas que encontrou à margem do lago pertenciam às botas de um homem branco e o levaram até o acampamento de Clifford Marshand.

     Ele era o culpado. Viu a culpa em seus olhos. Quanto mais Marshand insistisse que era inocente e garantisse que não matara Pluma e as outras "squaw", mais tinha certeza de que mentia e de que era o responsável por aquelas mortes, todas elas. Ele matara Pluma e suas companheiras. Condenara-o a solidão e a um sofrimento que jamais teria fim.

     Esquadrinhou a paisagem solitária e silenciosa, o sol se pondo, a vermelhidão crepuscular investindo o fim do dia de um ar triste e ainda mais opressivo e melancólico. Marshand fugira. Havia mais mortos clamando por vingança. Sua dor transformara-se em ódio e colocara uma pedra, uma pesada pedra, no lugar de seu coração. Marshand fugira e continuaria fugindo, mas não havia lugar naquele mundo inóspito e selvagem que o pudesse esconder por muito tempo. Nada, nem ninguém o impediria de consumar sua vingança, prometeu Braço-Forte de si para si. Nada nem ninguém o impediria de matar Marshand, onde quer que ele estivesse.

     Lança-Pequena e os outros guerreiros não se aproximaram. Deixaram-no sozinho, contemplando a imensidão rochosa e tomada pelas sombras.

     — Ele está pensando em Pluma novamente — disse Cavalo-Grande, observando o chefe comanche.

     — É, está — concordou Lança-Pequena. Encarou o companheiro e acrescentou: — Braço-Forte não pensa em outra coisa desde que aquele cara-pálida a matou.

     — Acha que vamos encontrá-lo?

     — Braço-Forte não vai deixar um deles vivo, Cavalo-Grande. Eu tenho certeza.

     Subitamente, Braço-Forte ergueu os braços para o céu vermelho e gritou vigorosamente. Lágrimas molharam-lhe o rosto cavado em rugas de dor.

     — Lua comanche!

     Rupert Boyce encarou Tinsley com curiosidade e perguntou:

     — O que?

     Tinsley apontou para a grande e brilhante lua cheia que pairava sobre o horizonte e explicou:

     — A gente no Texas costuma chamar esse tipo de lua de lua comanche e sabe por quê?

     Boyce fez um muxoxo de enfado e respondeu:

     — Não, mas acredito que você não vai me deixar sem uma boa resposta.

     — Os comanches não têm medo de lutar à noite e, nas noites de lua cheia, aqueles demônios estão particularmente dispostos para a luta. É por isso que no Texas chamamos essa lua de lua comanche.

     — Estamos um pouco longe do Texas, Walt.

     — Mas nunca estivemos tão próximos dos comanches quanto agora — Walter Tinsley virou-se para o acampamento aninhado entre as pedras e fixou o olhar em Marshand.

     — Porque não deixa Cliff em paz, Walt? — perguntou Boyce. — O pobre homem já andou sofrendo demais nas mãos daqueles selvagens e...

     — Acreditou na história, dele, Rupert? — contrapôs Tinsley.

     — Por favor, Walt, não recomece, sim?

     — Eu estou lhe dizendo, meu velho. Não acreditei nem numa palavra que ele disse. Conheço Cliff Marshand há muito tempo e sei do que ele é capaz. Não duvidaria se alguém me contasse que matou várias mulheres comanches. Aquele sujeito odeia os índios, mas odeia de tal maneira que poucos acreditariam.

     — Acreditei no que ele nos contou. Sabemos como os comanches são esquentados e ninguém acreditaria na história de Cliff se o encontrasse no meio de todos aqueles cadáveres.

     Tinsley sorriu maliciosamente.

     — Só um bando de idiotas como nós — afirmou.

     O rosto de Rupert Boyce anuviou-se.

     — É melhor parar com isso, Walt — grunhiu. — Marshand é um de nós e mesmo que tenha mandado aquelas índias para o inferno, é nossa obrigação protegê-lo até chegarmos a Forte Bent.

     — A nossa única obrigação é continuarmos vivos. Se vocês não estão interessados, eu estou. Não pretendo morrer porque Cliff Marshand resolveu matar algumas índias.

     — Ah, é? E o que vai fazer? Ir embora? Pensa que vamos impedi-lo? Esqueça! Se quiser ir embora, fique à vontade. Ninguém vai impedi-lo! Ninguém!

     Boyce começou a descer a trilha e rumou para o acampamento. Tinsley segurou-o pelo braço e perguntou:

     — Ei, aonde pensa que vai? Não pode me deixar aqui sozinho!

     — Ah, não? Pois... Inesperadamente, uma flecha passou zunindo junto ao ouvido de Walter Tinsley e cravou-se no peito de seu interlocutor. Boyce tombou pesadamente para trás, esparramando-se de costas no chão, os braços e pernas abertos, os olhos esbugalhados transformado numa pálida máscara de pavor e surpresa.

     O tropel desembestado de alguns cavalos soou atrás de Tinsley, levando-o a se voltar e avistar um grupo de guerreiros fazer uma curva a todo galope e descer a trilha gritando e atirando, os corpos magros e cobertos por uma película de suor luzindo sob a luminosidade quase diurna da grande lua cheia.

     — Comanches! — gritou, correndo de volta a acampamento. — Eles nos encontraram! Acordem, seus idiotas! Fomos descobertos! Os comanches estão aqui!

     Clyde Burke levantou-se, sobressaltado, apanhando o rifle e disparando-o sobre os recém-chegados. Um pôr um, seus companheiros levantaram-se e correram para os cavalos atrelados nos galhos secos de um tronco tombado.

     — Corram! Corram! — insistiu Tinsley, apavorado, disparando o revólver repetidamente, fora de si. — Eles são muitos!

     — Onde está Rupert? — perguntou Frank Murray. — Não podemos deixá-lo...

     — Foi atingido!

     — Precisamos ir buscá-lo!

     Tinsley empurrou Frank Murray na direção dos outros, fuzilando-o com os olhos e rugindo:

     — Esqueçam-no! Ele está morto! Compreenderam? Morto!

     Bruce Duncan aproximou-se dos dois, puxando outros cavalos pelas rédeas e montando num terceiro.

     — Vamos! Montem! — pediu. — Precisamos sair logo daqui!

     Colocou-se à frente dos companheiros, disparando o revólver sobre os comanches que atiravam alucinadamente, descendo a trilha em desabalada carreira. Foi seguido.

     Enveredando por uma segunda trilha, Burke e Marshand gesticularam para os companheiros e Burke insistiu:

     — Saiam logo daí, seus idiotas! Querem morrer?

     Desapareceram rapidamente entre as pedras. Duncan e os outros os seguiram.

     — Não consigo imaginar pior noite para enfrentar esses demônios! — rosnou Otis Yorke, açoitando a montaria com as rédeas, de quando em quando, virando a cabeça e olhando para trás, vendo Braço-Forte e um numeroso bando de guerreiros perseguindo-os. Essa maldita lua iluminou tudo por aqui!

     Uma chuva de balas e flechas despejou-se sobre os fugitivos, explodindo nas pedras que se erguiam, em todas as formas e tamanhos, e se amontoavam em dois altos e assustadores paredões pedregosos ao longo da trilha esburacada.

     — Vamos acabar nos perdendo, correndo desta maneira — resmungou Tinsley.

     — Alguém sabe para onde estamos indo?

     — Isso importa? — replicou Duncan.

     — Estamos tentando salvar nossos escalpos! Já basta para mim!

     Murray virou a cabeça para trás e contemplou os perseguidores.

     — Então teremos que correr ainda mais depressa! — disse. Aqueles selvagens estão bem atrás de nós e chegando cada vez mais perto! Não conseguiremos mantê-los afastados por muito mais tempo!

     — Alguém tem ideia melhor? — indagou Burke. Disparou o rifle sobre os perseguidores. Um deles escorregou do mustang e estatelou-se dolorosamente no chão, o peito manchado de sangue. Nenhum dos companheiros disse qualquer coisa. — Então é melhor fecharem a boca e continuarem atirando!

     O tiroteio era violento de parte a parte, a distância entre os dois grupos aumentando e diminuindo várias vezes no vaivém atordoador e desembestado através de uma infinidade de trilhas e passagens apertadas entre as rochas; perseguidos e perseguidores chocando-se contra os paredões rochosos, ferindo-se nos penhascos e nas lascas de pedras. Cavalos refugavam para não se chocarem contra várias delas, tombando sobre outros e derrubando seus cavaleiros que acabavam sendo obrigados a engatinhar para dentro de uma ou outra fresta rochosa. Mais de um acabou atropelado, seguidamente pisoteado pelas montarias dos companheiros.

     — Esses miseráveis nunca se cansam? — perguntou Otis Yorke, desesperado, guardando o revólver descarregado no coldre. Uma flecha cravou-se em seu braço esquerdo, arrancando-lhe um grito de dor.

     Frank Murray emparelhou-se a ele e apoiou-o com o próprio corpo para que o companheiro não caísse. Atravessaram vários pequenos córregos de leito arenoso e escorregadio. Os outros caçadores espalharam-se em torno de ambos, erguendo uma barreira protetora entre eles e os perseguidores.

     Marshand descarregou o revólver gritando:

     — Esses carniceiros não me pegarão vivo! Nunca! Eu prefiro morrer a...

     — Todos nós, meu velho, todos nós — cortou Duncan. — Agora continue atirando! É a única maneira de impedi-los de porem as mãos em nossos escalpos!

     Seu cavalo soçobrou sobre as patas dianteiras, relinchando alto e rolando repetidamente pelo terreno pedregoso, derrubando-o,

     — Bruce! — gritou Clyde Burke, apavorado, refreando a montaria diante dele.

     Os outros fizeram o mesmo, disparando os revólveres furiosamente. Burke estendeu uma das mãos para Bruce Duncan e gritou:

     — Venha logo, Bruce, Pegue minha mão!

   — Suma-se daqui, Clyde! — rosnou Duncan, irritado, sangrando por um ferimento no ombro direito.

     — Não sem você!

     Duncan soltou um palavrão e rosnou:

     — Eu quebrei um braço! Agora você quer montar logo neste cavalo e sumir da minha frente?

     Clyde Burke desmontou e insistiu:

     — Não sem você!

     Desesperado, Walter Tinsley vociferou:

     — Diabos, Clyde! Acabe logo com isso! Aqueles miseráveis estão vindo!

     Burke agarrou Bruce Duncan pelas axilas e o ajudou a se levantar.

     — Você é um grande idiota, Clyde Burke! — grunhiu Duncan, apoiando-se no cavalo.

     — É, sou sim. Mas não vou deixá-lo aqui para morrer! Agora monte!

     Burke ajudou o companheiro a ajeitar-se na sela e montou atrás dele, prendendo-o entre os braços e esporeando a montaria.

     — Vamos andando, rapazes! — gritou, internando-se por uma longa trilha escarpada.

     Tinsley e os outros o acompanharam. Os apaches surgiram logo em seguida na entrada da trilha.

     — Os comanches voltaram! — informou desesperado, encolhendo-se sobre a montaria, as balas e flechas passando sobre sua cabeça e levando-o a balançar-se agilmente de um lado para o outro da sela para fugir delas.

     — Não desperdicem mais balas, rapazes! — pediu Clyde Burke, galgando uma íngreme encosta pedregosa, coberta por perigosas giestas espinhentas. — Venham comigo! Depressa!

     Alcançou a borda da encosta e desmontou. Duncan escorregou da sela e rolou com inesperada agilidade para trás de algumas pedras. Entrincheirando-se, apanhou o rifle que o companheiro lhe atirou e pôs-se a dispará-lo sobre os perseguidores, garantindo:

     — Podemos nos defender aqui por um bom tempo!

     Apeando do cavalo ainda em movimento, Tinsley replicou:

     — Enquanto tivermos munição!

     — Parem de falar e atirem, rapazes! — pediu Frank Murray, recarregando o rifle. — Ainda há muitos comanches atrás de nós! Procurem um abrigo e atirem!

     Os comanches alcançaram o alto da encosta, lançando-se a um violento, mas rápido tiroteio com Clyde Burke e os companheiros. Vários deles saltaram das montarias sobre um ou outro caçador, tentando golpeá-los com os machados e maças de guerra. Empunhando o rifle descarregado pelo cano, Tinsley derrubou dois do alto da encosta. Uma pesada maça prostrou Murray. Marshand baleou o índio quando ele se preparava para golpeá-lo pela segunda vez. Duncan levantou-se e cambaleou na direção de um dos perseguidores, alvejando-o, Foi derrubado pelo cavalo do adversário. Yorke agarrou-o pelas axilas e o arrastou para trás de uma rocha.

     — Nós conseguimos! — gritou exultante, ao ver os comanches descerem a encosta aos trambolhões, alguns tentando montar nos cavalos. — Eles estão indo embora!

     — Não por muito tempo — atalhou Tinsley, arquejante, as costas apoiadas numa rocha, olhando-o. — Eles voltarão, acredite, eles voltarão.

     Os outros permaneceram calados, cansados e assustados demais para dizer qualquer coisa.

    

                        Cerco

     Novamente o via. Era ele, o assassino. Reconheceu sua gargalhada roufenha e perversa, o cheiro nauseante de uísque barato. Era ele, Marshand tinha certeza. Ele estava atrás de si. Saiu das sombras, o rosto encoberto pela sombra do chapéu, o rifle fumegante empunhado ameaçadoramente. De sua boca arreganhada, estranhamente jorravam palavras incompreensíveis. Ele não parava de falar, falar, falar... Falava incontrolavelmente e tão depressa que Marshand praticamente não compreendia o que dizia.

     Ódio, encontrou apenas um ódio intenso e escarnecedor naquele burburinho feroz e interminável. Ele viera matá-lo. Queria vê-lo morto. Morto como as índias. Não imaginava por que. Os comanches estavam atrás dele e não do verdadeiro assassino de suas "squaw". Era Marshand que fugia, que corria, que tinha Braço-Forte e quase todos os guerreiros comanches da região em seus calcanhares.

     Não imaginava porque aquele homem estava querendo matá-lo.

     — Afaste-se de mim! — grunhiu, cerrando os punhos, os dentes rilhados com raiva, recuando, os olhos fixos no misterioso adversário.

     Ele sorriu. Marshand tropeçou e caiu. Caiu sobre os cadáveres de várias índias nuas. Sangue. Horrorizou-se. Tinha sangue nas mãos. O sangue grudava em suas mãos, empapava-lhe as roupas, impedia-o de levantar. Os corpos crivados de balas viam-se imbuídos de vida, cercavam-no e clamavam por suas vidas.

     Cercado... Era cercado, agarrado, dominado por aquele clamor cavernoso e impassível. Balançava a cabeça negativa e assustadoramente, balbuciando:

     — Não... Não... Não é possível... Não é, não...

     Ele gargalhou. O desconhecido gargalhou, divertindo-se com seu sofrimento. Apontou-lhe o cano fumegante do rifle. Deus, como Marshand gostaria de ver-lhe o rosto. Reconhecer o homem que o atirara naquele inferno e que, naquele momento, queria matá-lo.

     — Assassino! — gritou, angustiado, mais assustado do que irritado.

     Os lábios do desconhecido se torceram num sorriso escarnecedor.

     — Eu? — indagou. — Você está me chamando de assassino? Você, Clifford Marshand?

     Inesperadamente, Marshand viu-se cercado pelos cadáveres das índias e surpreendeu-se quando o desconhecido começou a atirar... Atirar nelas!

     — Assassino! Assassino! — gritavam elas enquanto caíam, agarrando-o, rasgando-lhe as roupas, fulminando-o com um faiscante olhar de ódio, de intenso ódio. Morriam odiando-o e Marshand não compreendia. Deviam estar odiando o desconhecido, a criatura desconhecida e odiosa que as matava, aquela entidade perversa que continuava atirando, atirando e gargalhando, divertindo-se com suas mortes e com seu sofrimento.

     Loucura. Elas morriam e ressuscitavam. Ressuscitavam para voltarem a ser baleadas e morrer. Morrer e ressuscitar mais vezes do que Marshand conseguia contar. Loucura, a mais absoluta loucura. O jogo perverso de onde o desconhecido retirava um intenso e indecente prazer.

     De repente, o rifle se calou. Marshand viu o desconhecido recarregá-lo com mãos hábeis e manchadas de nicotina. Voltar o cano fumegante para si, a boca arreganhando-se num sorriso malévolo.

     — Você está morto, Clifford Marshand! — gritou. — Morto, ouviu? Morto! Morto! Morto!

     Continuou gritando. Gargalhando. Divertindo-se com o sofrimento e o medo que inspirava. Atirou. O estrondo do disparo soando nos ouvidos de Marshand.

     Ele despertou, sobressaltado. Correu os olhos à sua volta e encontrou Bruce Duncan e Walter Tinsley discutindo acaloradamente junto da fogueira do acampamento. Amanhecia e as rochas em torno do acampamento, cobertas por uma fina película de orvalho, refletiam a luz do sol que despontava no alto de um grupo de colinas escarpadas à sua direita.

     Fora outro pesadelo. Um pesadelo, apenas mais um de seus intermináveis pesadelos. Afundou o rosto nas mãos e começou a chorar, sem saber por que.

     — Aquele idiota nos meteu numa bela enrascada!

     Tinsley caminhava de um lado para o outro, contrariado, as mãos agitadas nervosamente. De quando em quando, paravam e apontava para Clifford Marshand, grunhindo:

     — Se não tivéssemos parado para ajudar aquele encrenqueiro, jamais estaríamos metidos nesta enrascada e Rupert estaria vivo! Se querem a minha opinião...

     — Não, não queremos! — cortou Duncan, sentado diante da fogueira, as costas apoiadas numa rocha. Sustentou o olhar do companheiro, irritado. — E você faria um grande favor a todos nós se fechasse logo essa boca e fosse vigiar os cavalos! Se os comanches os roubarem ou matarem, estaremos perdidos!

     — Nós já estamos perdidos! Será que ainda não notaram? Estamos cercados! Aqueles demônios vermelhos nos encurralaram aqui. Não podemos sair.

     — Deve haver alguma passagem ali atrás — disse Frank Murray, entreolhando-se com os companheiros, como se procurasse apoio entre eles.

     — É, tem sim — afirmou Otis Yorke. Encarou Tinsley, pedindo: — Não deixe que as palavras de Walt o assustem! Ele não gosta de Cliff, nunca gostou, e vai fazer o possível para nos convencer de que ele é responsável por tudo de ruim que tem nos acontecido.

     — E não é? Pensem bem e me digam: se tivéssemos continuado viajando para Forte Bent, não estaríamos bem longe de toda essa confusão?

     Duncan e os outros caçadores trocaram um olhar de aborrecimento e contrariedade.

     — Feche essa boca, Walt! — resmungou Bruce Duncan, mal-humorado.

     — Ele é seu amigo, Bruce! — replicou Tinsley. — Morra por ele se quiser, mas não nos peça para fazer o mesmo! Eu não vou morrer por aquele idiota! Por mim...

     — Por você, já o teríamos entregado aos comanches! — Duncan levantou-se num salto e cravou os olhos brilhantes e apertados no interlocutor. — Não é isso que ia dizer?

     — É o que todos gostariam de dizer e não têm coragem de fazê-lo!

     Duncan e os outros caçadores se entreolharam silenciosamente. Tinsley insistiu:

     — Alguém tem coragem de negar? O silêncio agravou-se ainda mais.

     — Tem?

     — Vá cuidar dos cavalos, Walt! — rugiu Clyde Burke rispidamente. — Dentro de duas horas, eu o substituo.

     Tinsley fulminou-o com o olhar.

     — Não me dê ordens, Clyde! — disse, entre dentes. — Nós estamos juntos há muito tempo, mas isso não lhe dá o direito de me dar ordens! Não obedecerei nenhuma ordem!

     — Vá logo, Walt!

     Os olhos de Tinsley se estreitaram preocupantemente.

     — Posso encher de chumbo qualquer um que tentar me dar ordens — virou-se para Duncan e acrescentou: — Qualquer um!

     — É melhor fazer o que Clyde pediu, Walt! — grunhiu Duncan, sustentando-lhe o olhar. — Você está com a cabeça quente e...

     Walter Tinsley deu-lhe um tapa na mão e replicou:

     — Eu estou apenas vendo o que todos se recusam a ver.

     Tomou a apontar para Marshand, afirmando:

     — Cliff é o nosso problema! Ele matou aquelas índias e nós estamos apenas protegendo um maldito assassino se insistirmos em...

     Bruce Duncan esmurrou-o, rosnando:

     — Feche essa boca, miserável!

     Tinsley esparramou-se no terreno pedregoso. Levantou-se agilmente, apoiando-se num dos joelhos e sacando o revólver.

     — Eu vou matá-lo por isso, seu idiota! — replicou, enfurecido, limpando o sangue que escorria do nariz com o dorso da mão.

     — Não vai, não! — Duncan chutou-lhe a mão, a arma escapando por entre os dedos de Tinsley e caindo no chão. Disparou. Agarrou-o pela gola do casaco e esmurrou-o, gritando: — Nunca mais aponte esse revolver para mim, ouviu? Nunca mais!

     Tinsley levantou-se, atingindo-lhe a barriga com uma violenta cabeçada.

     — Maldito! — vociferou. — Estou esperando por este momento há muito tempo!

     Duncan abaixou-se, esquivando-se de um soco e falou:

     — Pois não o farei esperar mais!

     Acertou um murro na barriga de Tinsley, fazendo-o dobrar-se, gemendo de dor, e esmurrar a esmo, xingando e claudicando. Novamente seu punho cerrado desabou sobre o rosto do adversário, prostrando-o de costas no chão.

     — Ótimo! — Tinsley derrubou-o com uma rasteira e atirou-se sobre ele. Os dois engalfinharam-se, rolando de um lado para o outro num violenta troca de socos.

     Clyde Burke e os outros caçadores levantaram-se e acercaram-se dos dois.

     — Parem com isso, seus idiotas! — gritou Burke, irritado.

     Walter Tinsley esmurrou Duncan, desvencilhando-se dele e jogando-o ao chão. Murray e Yorke atiraram-se sobre Duncan, segurando-o, colocando-se entre ele e o adversário.

     — Vou matá-lo, Walt! — rugiu, enfurecido, o sangue escorrendo pelo canto da boca.

     — Quando quiser! — replicou Walter Tinsley desafiadoramente.

     Clyde Burke colocou-se à frente dele, empurrando-o e grunhindo;

     — Basta!

     Apontou o dedo para Duncan e insistiu:

     — Ê melhor os dois pararem logo com isso, ou eu mesmo cuidarei para que recebam um pouco do chumbo que estou reservando para os comanches!

     Tornou a virar-se para Tinsley e ordenou rispidamente:

     — Você! Pegue seu rifle e vá vigiar aqueles cavalos! Os outros tentem dormir um pouco! Muito em breve aqueles selvagens estarão de volta!

     Tinsley desvencilhou-se de suas mãos e fazendo um muxoxo de contrariedade, disse:

     — Está bem! Talvez seja melhor mesmo!

     Fixou o olhar em Marshand que se levantou e o observava, espantado.

     — Se Braço-Forte resolver nos atacar, eu quero estar bem próximo de meu cavalo! Não pretendo morrer por ninguém!

     Afastou-se.

     Duncan empurrou os companheiros e olhando-o fixamente, rosnou:

     — Devíamos matar logo este idiota!

     Burke e os outros se entreolharam, carrancudos.

     — Não acha que já cometemos erros demais, Bruce? — perguntou Otis Yorke, encaminhando-se para a fogueira.

     Murray o acompanhou. Sentaram-se diante dela. Duncan virou-se para Clyde Burke e entreolhando-se com Marshand que se aproximava de ambos, perguntou:

     — O que acha, Clyde?

     — Acho que estamos encurralados.

     Calou-se e virou-se para o fundo de sua trincheira rochosa, surpreso ao ver Tinsley voltar correndo, branco como um cadáver, gritando:

     — Comanches! Comanches! Eles estão roubando os cavalos!

     O estrondo provocado pelo vigoroso tropel das montarias soou de todos os lados. A pequena manada surgiu alguns passos às suas costas, dentro de uma grande nuvem de poeira. Burke contou cinco guerreiros cavalgando entre os animais e pelo menos três deles, gritando e agitando as mantas que tinham nas mãos. Os outros começaram a atirar. Atingido por vários tiros, Tinsley esparramou-se num dos lados da trilha estreita e acidentada.

     — São poucos! — informou Clifford Marshand, disparando um rifle sobre os recém-chegados. — Atirem, rapazes! Acabem com todos eles!

     Um dos guerreiros foi arremessado para fora da montaria e chocou-se contra as rochas, a cabeça varada por uma bala. Murray e Yorke olharam-se desorientadamente um para o outro, os rostos substituídos por uma grande máscara de medo. Duncan arrancou o rifle das mãos de Otis Yorke e pôs-se a dispará-lo repetida e desesperadamente. Burke entrincheirou-se entre as pedras, pedindo:

     — Saia logo da frente destes cavalos, Bruce!

     Duncan repetiu o pedido para Clifford Marshand que parado no meio da trilha, os olhos injetados de sangue, continuava atirando, disparando o rifle e logo depois, o revólver sobre os cavalos e os índios.

     — Você quer morrer, idiota? — berrou, desesperado.

     Os joelhos de Marshand dobraram-se e ele caiu de lado, apoiando-se no cotovelo esquerdo, o sangue jorrando de um ferimento na barriga. Duncan aproximou-se e o ajudou a se levantar.

     — Eles me pegaram, Bruce! — disse Marshand, tropeçando nas próprias pernas e encontrando dificuldades em manter-se de pé. — Proteja-se!

     — Nós dois nos protegeremos, meu velho! — afirmou Duncan, colocando-o sobre os ombros e carregando-o para trás de uma grande rocha.

     Os animais passaram num galope desembestado pelo acampamento, atropelando a fogueira e atirando uma nuvem de fagulhas para todos os lados. Assustado, Murray correu para dentro de uma fresta rochosa. Yorke abaixou-se para não ser atingido pela "coup-stick" de Cavalo-Grande e agarrou-se a sela de uma das montarias. Montou, descendo a trilha em desabalada carreira, sacando o revólver e disparando-o sobre outro guerreiro. Os animais dispersaram-se entre as pedras, o tropel diluindo-se pouco a pouco até extinguir-se completamente.

     — Eles levaram nossos cavalos — balbuciou Frank Murray, aterrorizado, os olhos enormes e voltados para os companheiros. — Estamos perdidos, Clyde! Perdidos...

     Afastou-se, balançando a cabeça desconsoladamente.

     Burke e os outros trocaram um rápido olhar. Duncan bufou, tenso, e admitiu:

     — Estamos cercados, meu amigo... Cercados!

    

                        Um Último Instante no Inferno

     Otis Yorke tremia dos pés a cabeça. Só pensava em fugir. Encolhido sobre a montaria, não olhou para trás ou para os lados. Apenas para frente, vendo os cavalos com as selas vazias ficarem para trás ou desaparecerem dentro das trilhas e passagens da região pedregosa. Amedrontado, apertava o cabo do revólver e apontava-o de um lado para o outro, temendo que os comanches estivessem em seu encalço, tentando matá-lo. Uma grande loucura.

     À medida que se distanciava do acampamento, sentia-se culpado, as vidas dos companheiros pesando em sua consciência, incomodado pela sensação de tê-los abandonado.

     Fugira. Abandonara-os à própria sorte para salvar-se. Não havia mais nada que pudesse fazer. Teria que conviver com o fato de que eles morreram, sem que esboçasse o menor gesto para ajudá-los a escapar.

     Não, não havia nada que pudesse fazer a não ser pensar na própria vida, salvá-la da sanha homicida dos comanches.

     Correu os olhos pela árida e ensolarada paisagem. Sentiu-se aliviado. Estava só. Em qualquer direção que olhasse, não encontrava viva alma. Nada do ermo pedregoso e as incontáveis trilhas poeirentas estendendo-se interminavelmente para além do horizonte.

     Prometeu a si mesmo que chegaria a Forte Bent e traria os soldados para resgatar os companheiros. Tolice. Sabia que era tolice, uma satisfação para sua consciência. Clyde Burke e os outros não resistiriam por muito mais tempo as investidas dos comanches. Talvez um dia. Dois no máximo. Encontraria apenas seus cadáveres escalpelados, devorados pelos abutres, quando chegasse com os soldados ao local onde estavam entrincheirados.

     Pensamento ruim.

     Incitava a montaria com os calcanhares e com as rédeas, angustiado, de quando em quando, virando a cabeça e observando a trilha de poeira que deixava pelo ermo pedregoso. Ninguém. Estava sozinho. Procurava acreditar, mas não conseguia. A todo instante, julgava-se observado, espreitado, perseguido, vítima impotente dos olhares penetrantes e homicidas dos comanches.

     — Vamos, cavalinho! — pediu impaciente, açoitando a montaria. — Leve-me bem depressa para Forte Bent!

     Subitamente, o cavalo tropeçou e caiu para frente, arremessando-o no terreno, sobre várias touceiras de mato espinhento. Desesperado, vendo-o se levantar, Yorke engatinhou e em seguida, correu atrás dele, rugindo:

     — Fique onde está, animal idiota! Quer que aqueles selvagens nos alcancem?

     Empalideceu, o corpo sacudido por uma violenta descarga elétrica, ao ver quatro guerreiros montados surgirem no alto de uma elevação pedregosa à sua frente.

     — Oh, meu deus... — balbuciou. — Eles me encontraram!

     Viu o cavalo desaparecer atrás de outra elevação. Sacou o revólver e correu, disparando-o procurando um esconderijo no terreno acidentado.

     Estava perdido. Arrancou um dos perseguidores da montaria, mas os outros continuavam em seus calcanhares, gritando, brandindo algumas lanças e disparando os rifles que empunhavam. Sabiam que ele não podia fugir e não havia lugar em que pudesse se esconder.

     Arremessou o revólver descarregado sobre os três. Viu-se rodeado por eles, apavorado, esquivando-se das lanças e dos canos dos rifles, atingido e golpeado repetidamente.

     — Não, por favor, não!

     Caiu. Foi atropelado pelos cavalos de seus perseguidores. Cambaleou desorientadamente de um lado para o outro, procurando fugir dos três guerreiros que refreando os cavalos poucos metros às suas costas. Ia e voltava em desabalada carreira. Caiu e levantou duas outras vezes. Virando-se viu um do comanches arremessar uma lança em sua direção. Esparramou-se de costas no chão, atingido na barriga, agarrado à haste da lança.

     Os guerreiros pararam à sua frente. Lança-Pequena era um deles. Olhou para Braço-Forte que surgia no alto da colina, à frente de um numeroso grupo de guerreiros, puxando a montaria de Otis Yorke pelas rédeas.

     — Os companheiros do assassino de nossas "squaw" estão morrendo — disse o chefe comanche. — Ele está ficando cada vez mais sozinho. Vamos pegá-lo!

     Marshand estava a ponto de enlouquecer. Aqueles pesadelos não o deixavam em paz. Acossavam-no nas noites de sono. Perseguiam-no até nos momentos de meros cochilos. Pesadelos. Um único pesadelo, aquele homem desconhecido, aquelas índias mortas que ressuscitavam de maneira infernal, aquele rosto que jamais vira e que vivia permanentemente perdido nas sombras de seu chapéu. Loucura. Estava prestes a enlouquecer. A angústia que sentia depois de cada um daqueles pesadelos estava matando-o aos poucos.

     Queria ver aquele rosto, o rosto daquele demônio de olhos brilhantes e sorriso escarnecedor. Queria. Atirou-se sobre ele assim que o miserável e as índias emergiram da escuridão.

     — Deixe-me em paz! — gritou, desesperado. — Por favor, me deixem em paz!

     Eles sorriram. O desconhecido. As índias.

     Marshand empurrou as índias. Agarrou-se ao pescoço do desconhecido, rilhando os dentes com raiva, sacudindo-o e gritando:

     — Quem é você? Quem é você? Por que não me deixa em paz?

     Ele sorriu. O demônio sorriu escarnecedoramente e indagou:

     — Eu? Você quer saber quem sou eu?

     — Fale logo, miserável! — Marshand sacudiu-o ainda com mais força, as mãos se estreitando em torno de seu pescoço, os olhos injetados de ódio.

     O chapéu escorregou da cabeça do desconhecido. Marshand viu seu rosto e soltou-o, horrorizado, recuando e balbuciando:

     — Meu deus, não... Não...

     O desconhecido tinha o seu rosto. Era a sua imagem, uma imagem perversa, transtornada e distorcida pelo ódio, mas a sua imagem. Sentiu como se estivesse se olhando num espelho. Ele sorriu.

     — Compreende agora, Cliff — perguntou, avançando em sua direção. — Compreende agora por que não posso deixá-lo em paz?

     — Não... Não... Não é possível...

     — Eu sou você, Cliff! A parte mais feia de você, aquela que você se recusa a ver. Eu sou você, Cliff... Você... Você... Você...

     Clifford Marshand despertou, sobressaltado. Sentiu uma dor lancinante no peito e viu Duncan inclinando-se em sua direção, preocupado, perguntando:

     — Você está bem, parceiro?

     Fora outro pesadelo. Um dos muitos, mas o mais revelador. Era o assassino. O desconhecido tinha um rosto. Talvez sempre conhecesse seu rosto. Odiava os índios. Fora torturado por eles. Torturado durante dias. Humilhado, torturado, submetido a coisas que estremecia só em lembrar. Odiava-os mortalmente, de maneira insana, de um modo tão intenso que o lançava contra qualquer um que encontrasse pelo caminho, ao longo de suas solitárias viagens pelas montanhas.

    Matara aquelas índias. Todas elas. Encontrara-as tomando banho no lago e as matara. Uma a uma. Nem sequer as tocara. Matara, apenas matara, mesmo que não soubesse por que e intimamente lutasse contra aquele impulso homicida.

     Olhou novamente para Duncan que ajudando-o a sentar-se, informou:

     — Você foi ferido, Cliff, e eu lamento dizer que é coisa feia.

     —- Feia como?

     Duncan mordeu a ponta do lábio, embaraçado. Marshand sorriu, condescendente e perguntou:

     — Vou morrer?

     — Não se o levamos para Forte Bent. Eles têm um médico muito bom por lá e...

     — É, eu vou morrer.

     — O que está dizendo, parceiro? Você...

     Nesse momento, Clyde Burke, empoleirado no alto de uma rocha, virou a cabeça e gritou:

     — Venha logo, Bruce! Eles estão voltando!

     Marshand segurou o braço de Bruce e olhando-o fixamente, disse:

     — Eu matei aquelas índias, Bruce!

     Ele encarou-o, embasbacado, e indagou:

     — O quê?

     Burke tornou a chamar Duncan.

     — Não são eles! — disse Frank Murray, vendo o cavalo avançar solitariamente pela trilha, com a sela vazia.

     Estirado sobre a rocha a seu lado, Clyde Burke espantou-se:

     — É o cavalo de Otis. Entreolharam-se, preocupados.

     — Será que eles o pegaram?

     Burke deixou o companheiro sem resposta e tornou a chamar Duncan.

     — Meu Deus, Clyde! — balbuciou Murray, os olhos arregalados, apontando para o animal que se aproximava velozmente, no meio de um grande tumulto de poeira. — Veja aquilo!

     Burke apanhou os binóculos que o companheiro lhe entregou e observou o cavalo e o cadáver escalpelado e coberto de sangue e poeira que ele arrastava, preso por tiras de couro à cauda. Baixou-o, pálido e horrorizado, dizendo:

     — É o corpo de Otis!

     O animal avançou para dentro do acampamento, arrastando o cadáver de Otis Yorke. Murray desceu a encosta pedregosa e segurou-o pela rédea, fazendo menção de montar. Burke agarrou-o pelos fundilhos e perguntou:

     — O que diabos acha que está fazendo, Frank?

     — O que acha? — contrapôs Murray.

     — Fugindo!

     — Você não pode!

     — Não? — Murray empurrou-o com o pé e ajeitou-se na sela. — Pois então veja!

     O crepitar ensurdecedor de vários tiros chegou-lhe aos ouvidos. O cavalo tombou pesadamente, esguichando sangue por vários buracos na cabeça, pescoço e barriga. Frank Murray esparramou-se no terreno, o peito ensanguentado, gemendo:

     — Eles me pegaram... Clyde... Eles me pegaram... Pegaram...

     Clyde Burke parou hesitante, os olhos indo do cadáver do companheiro para Duncan e Marshand que conversavam no fundo da pequena trincheira rochosa e por fim, para um grupo de guerreiros que galgava a encosta em disparada, atirando e gritando como loucos sedentos de sangue.

     — Os comanches, Bruce! — gritou. — Eles estão voltando! Venha me ajudar!

     Bruce Duncan desvencilhou-se das mãos de Marshand e apanhou o rifle encostado numa rocha e achegou-se a ele apressadamente. Observando os atacantes, assustou-se.

     — Santo Deus, Clyde, eles são muitos! — disse. — Parece que a nossa sorte acabou! Não vamos conseguir sair vivos deste buraco miserável!

     — Conseguiremos sim! — afirmou Burke. Apontou para Marshand e indagou: — E ele?

     — Está morto! Teremos que nos safar sem ele ou qualquer outro!

     — Faremos o possível.

     — Morreremos! Olharam-se fixamente.

     — É, talvez —- admitiu Clyde Burke. —- Mas não pretendo fazer essa viagem para o inferno sozinho!

     Encaminhou-se para a borda da encosta, entrincheirando-se atrás de algumas rochas arredondadas e cinzentas. Duncan o acompanhou e segurando-o pelo braço, o chamou.

     — O que é?

     — Cliff matou mesmo aquelas índias.

     Burke olhou por sobre o ombro do interlocutor e contemplou o cadáver de Clifford Marshand.

     — Como soube?

     — Cliff me contou antes de morrer. Parece que Walt tinha razão. Todo aquele ódio que Cliff sentia pelos índios foi demais para ele. O pobre homem estava completamente louco.

     Clyde Burke soltou um violento palavrão, desabafando:

     — Tudo isso por nada!

     Olhou para Duncan e o encontrou acabrunhado, evitando seu olhar. Acalmou-se, o rosto desanuviando-se e assumindo uma expressão de indulgência.

     — Bem, acho que não adianta nada ficarmos perdendo tempo nos arrependendo do que fizemos — disse. É melhor tratarmos de gastar nossa munição com aqueles selvagens!

     — Estou com todos na mira, Clyde!

     Começaram a atirar, os comanches surgindo no alto da encosta numa onda barulhenta de morte e destruição, as nuvens de pólvora queimada misturando-se à poeira levantada pelos mustangs dos atacantes. Homens e animais rolavam encosta abaixo, mortos ou desequilibrados. Cadáveres espalhavam-se pelo chão. Os comanches vinham de todos os lados. Atingido seguidamente, Duncan recuou para o fundo das trincheiras improvisadas, entregando-se a um violento e desesperado corpo a corpo com os índios,

     — Esses diabos vermelhos são um bocado teimosos, não, parceiro? — observou Bruce Duncan, com uma flecha cravada na coxa direita, coxeando e tentando deter o sangue que jorrava de vários ferimentos na barriga.

     — Vamos levar muitos deles conosco para o inferno! — disse Burke.

     Encostaram-se um no outro, atirando, golpeando os atacantes com os punhos cerrados ou com os canos fumegantes dos revólveres que eram obrigados a recarregar cada vez mais rapidamente. Os índios ultrapassaram a borda da encosta e encurralaram os dois caçadores entre as pedras, desmontando dos cavalos e correndo no encalço de ambos.

     A luta tornava-se cada vez mais feroz e encarniçada, os cavalos, aterrorizados, escoiceando e pinoteando em meio à confusão barulhenta do tiroteio. A fúria humana era assustadora. Os comanches avançavam como um grande formigueiro humano, destruindo tudo o que encontravam pelo caminho, arrastando os cadáveres de Murray e Marshand pelas pernas e escalpelando-os, tropeçando uns nos outros na ânsia de chegarem primeiro em Burke e Duncan.

     — É o fim para nós dois, meu velho — afirmou Bruce Duncan, tropeçando e esparramando-se de bruços no chão. — É melhor continuar sem mim! Eu estou acabado!

     — Nós estamos acabados! — corrigiu-o Burke, quebrando a haste de uma flecha cravada em seu ombro esquerdo e sentando-se ao lado do companheiro. Alguns índios avançavam velozmente por uma trilha muito estreita e tomada por uma densa nuvem de poeira.

     Olharam-se.

     — Não quero terminar meus dias nas mãos desses selvagens, Clyde — disse Bruce Duncan.

     — Nem eu, parceiro! — afirmou Burke, encostando o cano do Colt na têmpora esquerda do companheiro e disparando-o. — É melhor acabarmos logo com isso!

     Virou-o para o próprio peito e tornou a puxar o gatilho. Quando um dos comanches aproximou-se e agarrou-o pelo cabelo, ele já estava morto.

     Refreando a montaria, Braço-Forte e os companheiros contemplaram-nos por um instante.

     — Eram homens corajosos! — observou, enquanto os outros guerreiros os escalpelavam.

     — Eram sim — concordou Cavalo-Grande. — Não posso imaginar homens assim lutando por um assassino de mulheres.

     — Eles eram amigos — disse Lança-Pequena. — Não lutaria por seus amigos, Cavalo-Grande?

     Cavalo-Grande tornou a contemplar os cadáveres escalpelados de Bruce Duncan e Clyde Burke e resmungou:

     — Eles lutaram pelo amigo errado. Aquele homem não merecia suas vidas.

     Incitaram as montadas e se afastaram.

 

 

     1) Mistura concentrada de gordura e proteína utilizada como comida nutritiva. Os ingredientes utilizados variavam de acordo com a disponibilidade; a carne geralmente era de bisão, alce e veado.

     2) Pedaço de pau com o qual índios norte-americanos procuravam tocar seus inimigos, como sinal e coragem.

 

                                                                                Troy Sagan  

 

                      

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