Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LUA CRESCENTE DO MAL / Sherrilyn Kenyon
LUA CRESCENTE DO MAL / Sherrilyn Kenyon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LUA CRESCENTE DO MAL

 

O COMEÇO DOS WERE-HUNTER

Muito antes que a história fora registrada, viveu um valente rei. Um que se negou a ceder ante a vontade que os deuses gregos ordenavam. Como tantos antes e depois, cometeu o engano de apaixonar-se pela mulher mais bela do reino. Uma mulher cujo só sorriso era o sangue de sua vida.           

   Pouco sabia ele que ela carregava a mais escura das maldições. Pelos atos que seus antepassados tinham cometido contra o Deus Grego Apolo, há mais de dois mil anos antes de seu nascimento, sua raça estava condenada a morrer brutalmente em seu vigésimo sétimo aniversário. Era um segredo que ela manteve até o dia em que, como todos os outros da raça Apolita, começou a envelhecer e morrer.

   Em só vinte e quatro horas passou de uma bela jovem a uma bruxa, e então não restou nada, salvo um montão de pó espalhado.

     Lycaon ficou devastado pela perda de seu amor, mas pior era o conhecimento obcecante de que logo seus filhos se uniriam a sua mãe e morreriam do mesmo horrível modo.

   Como ela, morreriam por algo no qual nenhum deles tinha tomado parte.

   Incapaz de suportar essa injustiça enfrentou aos deuses e lhes disse que se fodessem. Não ficaria esperando para ver seus filhos morrer. Jamais.

   Nessa mesma noite, começou a utilizar a mais escura das magias para unir os genes da raça de sua esposa com os dos animais mais fortes. Lobos, chacais, leões, tigres, panteras, jaguares, guepardos, ursos, falcões, leopardos, inclusive um raro dragão... esses foram os poucos que escolheu para salvar aos seus filhos.

   Quando terminou seus experimentos, tinha criado uma espécie completamente nova. Não mais humanos, nem Apolitas ou animais, eram algo completamente distinto.

   Os experimentos converteram seus dois filhos em quatro seres separados. Duas criaturas que mantinham o coração de animal e viviam como animais à luz do dia. E dois que tinham coração humano. Durante o dia, sua forma base seria a humana.

   Este foi seu presente.

   E desta maneira nasceu uma nova maldição.

   Da raça Apolita de sua mãe herdaram as habilidades mágicas e psíquicas. O que seu pai tinha forçado fez com que vivessem durante o dia em sua forma base, seja humana ou animal, e de noite poderiam mudar ao seu desejo à outra. O homem se converteu em besta e a besta em homem.

   Sob a luz da lua cheia, quando seus poderes eram mais fortes, nem tão sequer as leis do tempo ou da física tinham controle sobre eles. A partir desse dia viveriam durante séculos, imunes à maldição de Apolo.

   Os deuses não estavam felizes. Exigiram ao rei que matasse a todas as criaturas que tinha criado. Como se atrevia ele, um simples mortal, a ser o bastante beligerante para frustrar sua vontade.

   Mas o rei se negou.

   —Não deixarei que meus filhos sofram por vossa vaidade! Podeis morrer-vos todos, não me importa.

   Desse modo, enquanto seus filhos se salvavam da maldição Apolita, os deuses lhes deram uma nova. Nenhum de sua espécie poderia escolher ao seu companheiro por seu livre-arbítrio, só as Parcas poderiam atribuir a eles. E nunca haveria paz entre os animais Katagaria e os humanos Arcadianos que o rei tinha criado.

   Eternos inimigos, ambas as raças se conheceriam como Were-Hunters porque caçariam uns aos outros. Com o passar do tempo, lutariam e matariam a sua raça... sempre desconfiando. Sempre zangados. Mais que isso, converter-se-iam na fonte de alimento escolhida por seus primos, os vampíricos Daimons que necessitavam de almas para viver depois de seu vigésimo sétimo aniversário.

   Nenhuma paz. Nenhuma ajuda. Seu destino era sofrer e existir apesar dos deuses.

   Até o dia em que os dois últimos superviventes se aniquilassem. Essa foi sua profecia.

   E nenhum deveria sofrer mais que os que levavam o nome dos descendentes diretos do rei. Aqueles que carregavam o sobrenome Kattalakis...

  

   Janeiro, 2004

   O Santuário, Nova Orleans

   —Assim que este é o infame Santuário…

   Fang Kattalakis elevou o olhar de onde estava apagando sua simples Kawasaki Ninja para ver Keegan olhando o edifício de tijolo vermelho de três andares enquanto cruzava a rua.

   O cachorrinho quase nem tinha alcançado a puberdade, ao redor dos trinta em idade humana, mas certamente para sua espécie e em idade dos Were-Hunter, Keegan aparentava dezesseis, o que significava que era tão excitável como um menino humano. Vestido de couro negro para proteger-se enquanto montava a motocicleta, Keggan quase deixou cair sua moto em seu entusiasmo por visitar o famoso santuário que pertencia a uma família de Were-Ursos.

   Fang deixou escapar um comprido suspiro exasperado quando prendeu seu capacete na parte traseira. Como castigo, a ele e ao seu irmão Vane, lhes tinha atribuído a tarefa de vigiar a Keegan e ao seu irmão gêmeo Craig.

   Diversão, Oh diversão. Preferia que lhe extraíssem as vísceras pelas fossas nasais, a cuidar de filhotes nunca tinha sido de seu agrado. Mas ao menos não tinham ao seu líder Stefan com eles nesta excursão. Isso teria terminado em um completo banho de sangue já que Fang não tinha respeito ou tolerância por Stefan nem sequer em seu melhor dia.

   O loiro filhote se aventurou a partir, mas Vane lhe agarrou pelo dorso do pescoço.

   Keegan se submeteu instantaneamente, o que refletia sua idade e inexperiência. Inclusive quando ele tinha sido um filhotinho, Fang nunca se rendeu sem lutar. Não estava em sua natureza.

   Vane soltou seu agarrão sobre o pescoço do menino.

   —Não deixes a manada, filhote. Nos espere.

   Isso era pelo qual iam de motos. Tinham dois filhotes com eles e dado que os “inexperientes” jovens não eram realmente bons se teletransportando até mais ou menos os quarenta ou cinqüenta anos, e que seus poderes de filhote tendiam a fazer estragos incluso no mais forte quando estava sendo teletransportado por outro, o mundano meio de transporte humano era o melhor.

   Assim, ali estavam eles.

   Aborrecidos. Inquietos. E com aparência humana. Que asquerosa combinação.

   Mais que tudo, Fang estava cansado.

   E como estavam adestrando aos filhotes para serem sociáveis e manter a aparência humana durante a luz do dia…

   O Santuário parecia o melhor lugar e o mais seguro para tirá-los fora do campo. Só os mais fortes lobos katagaria podiam permanecer em forma humana à luz do dia. Se os filhotes não podiam aprendê-lo para quando alcançassem os trinta e cinco, seu líder ordenaria à manada que os matasse.

   Era um mundo áspero no qual viviam e só o mais forte de sua espécie sobrevivia. Se não podiam lutar e misturarem-se, estariam mortos de todos os modos.

   Não havia necessidade de gastar seus preciosos recursos em criaturas que não podiam defender à manada.

   Vane jogou uma olhada a Fang como se esperasse que dissesse algo a Keegan. Normalmente Fang teria feito algum comentário jocoso ao filhote, mas estava muito cansado para incomodar-se com isso.

   —O que os está levando tanto tempo? —Fury se deteve ao lado de Fang, irritado pelo atraso.

   Não tão alto como Fang, Fury era magro e arisco. Com olhos turquesa, Fury tinha feições agudas e tudo nele fazia com que Fang se arrepiasse. O comprido cabelo loiro estava recolhido em um apertado rabo-de-cavalo.

   Deslizando a mochila sobre um ombro, Fang lhe lançou uma brincadeira com a qual lhe dizia o que pensava sobre o lobo… não de todo.

   —Estou guardando minha moto, idiota. Queres que a guarde tu de modo que saibas que estará aqui quando voltar?

   As pupilas de Fury se entrecerraram.

   —Eu gostaria de ver-te tentá-lo.

   Antes que Fang pudesse lançar-se a ele, Liam, o irmão mais velho de Keegan, meteu-se entre eles.

   —Abaixo, Lobos.

   Em forma real, Fang mostrou os dentes a Fury que lhe devolveu o gesto. Ante a insistência de Liam, Fury se afastou passando dele enquanto os outros cruzavam a rua.

   Ele e Vane fecharam a retaguarda.

   Fang assinalou a Fury com um gesto do queixo.

   —Realmente odeio ao bastardo.

   —Não o mates ainda. Tem sua utilidade.

   Possivelmente. Mas não o bastante para que Fang não se alegrasse de pôr a Fury em um lado da parede. Não é que tivesse uma parede, mas se a tivesse, Fury seria uma agradável e peluda decoração.

   Fang voltou a atenção ao seu irmão, que era uns centímetros mais baixo, igualmente alto como Fury.

   —Assim, por que estamos realmente aqui? Poderíamos ter adestrado aos filhotinhos no acampamento.

   Vane deu de ombros.

   —Markus queria que nos assentásemos com os Ursos. Já que temos tantas fêmeas prenhes, possivelmente necessitemos da ajuda de seu médico.

   Sim, sua irmã Anya e outra meia dúzia de fêmeas dariam a luz a qualquer minuto.

   Markus… o indisposto doador de esperma para eles três, tinha querido também perder aos seus “filhos” de vista. O que estava bem para Fang. Ele tampouco era aficionado ao velhote. Já deveria lhe haver desafiado pela liderança, mas Vane e Anya seguiam jogando-o para trás.

   Dado que Vane era um Arcadiano oculto em meio de sua manada Katagaria, a última coisa que precisavam era que Fang fosse líder. Isso levaria a incômodas perguntas tais como por que Vane, o mais velho da ninhada de sua companheira, que era o aparente herdeiro de seu pai e um que sabiam que era mais forte magicamente que Fang, não era o que lutava pela liderança. Mas Vane nunca poderia fazê-lo. Porque a dor tendia a fazer que mudassem a suas verdadeiras formas base e não podiam arriscar-se que Vane se convertesse em humano em uma briga.

   Isso era pelo qual Fang tinha permanecido em claro toda à noite. Inconsciente, Vane era humano e sua manada mataria ao seu irmão se algum deles suspeitasse sequer a verdadeira forma de Vane.

   Bocejando, Fang alcançou à manada que tinha sido detida na porta do Santuário pelo porteiro do Clube. Mais volumoso que os Lobos, o Urso tinha o comprido cabelo loiro encaracolado e levava uma camiseta negra com o logotipo do Santuário parcialmente coberta com uma jaqueta negra de couro para evitar que se resfriasse.

   Seus olhos azuis os esquadrinharam cuidadosamente.

   —Clã?

   Vane deu um passo adiante.

   —Kattalakis Regis Lykos... Katagaria.

   O Urso arqueou as sobrancelhas como se estivesse impressionado com seu pedigree. Regis significava que seu pai tinha um assento no Omegrión —o concílio que observava e fazia as leis que governavam a todos os Were-Hunters. Dado que ali só havia vinte e três membros (vinte e quatro originalmente, mas uma das espécies se extinguiu)… era impressionante ser um deles.

   —Algum de vós leva o sobrenome Kattalakis?

   —Eu e meu irmão.

   Vane assinalou a Fang.

   O Urso assentiu quando cruzou os braços sobre o peito e se colocou ali.

   —Somos os Peltier. Eu sou Dev, um de um montão de idênticos quadrigêmeos, assim não, não estarás vendo em dobro ou triplo lá dentro, e permaneçam atentos a um como eu que se veste completamente de negro, Remi é um irritável filho da puta. Minha mãe, Nicolette, é a Regis Ursulan Katagaria, assim não comeces nenhuma merda e não serás nenhuma merda. Uma rápida regra a ter em conta. Nada de brigas, nada de golpes e nada de magia. Quebrem as regras, faremo-lhes pedacinhos e lhes expulsaremos daqui… estão avisados —passou um significativo olhar aos filhotes—. Em resumo, venha em paz ou saia em pedaços. Entendeis?

   Fang levantou a mão para lhe responder, mas Vane lhe agarrou o pulso antes que pudesse fazê-lo.

   —Entendemos.

   Gritando pelo dano que Vane lhe tinha feito, Fang se libertou do puxão de seu irmão.

   Vane o fulminou com o olhar.

   Mantenha a boca fechada e teus gestos para ti mesmo, projetou-lhe mentalmente.

   Não aceito ordens de Ursos.

   Não, mas as aceitará de mim. Te comporte, Fang ou te chutarei o traseiro até a Idade da Pedra.

   Vane lhe agarrou pela manga da jaqueta e lhe arrastou ao bar.

   Fang se afastou dele. Ao menos que o vencesse com magia, Vane não era nem de perto tão forte como ele.

   —Não sou sua cadela, rapaz.

   Vane se voltou para ele com um olhar que dizia que estava a um passo de lhe dar seu melhor golpe.

   —Então faça-o por Anya. Possivelmente necessitemos que nos ajudem se ela tiver problemas com sua ninhada.

   Isso era um golpe baixo e a única coisa que Vane sabia com a qual ele não lutaria. Anya era de seu sangue. Por ela, fariam qualquer coisa.

   —Certo. Só estou irritável pela falta de sono.

   —Por que não dormiste?

   Estava te protegendo… Alguns dos lobos tinham estado rondando a noite passada e Fang imaginou que tropeçariam com a posição de Vane enquanto dormia. Assim que ficou fazendo guarda para assegurar-se que o perfume e o cheiro de Vaine não fossem descobertos.

   Mas nunca diria a verdade ao seu irmão. A Vane envergonharia pensar que seu irmão mais novo tinha que lhe proteger.

   —Não sei. Só não podia.

   —Assim, quem é ela?

   Fang pôs os olhos em branco.

   —Por que achas que é uma fêmea?

   Vane elevou as mãos.

   —Não sabia que foras aficionado em homens. Anotarei isso dentro de minha pasta especial para Fang.

   Ignorando-lhe, Fang jogou uma olhada ao redor do infame e escuro clube que não estava muito abarrotado pela tarde. Uns poucos humanos ocupavam as mesas, mais jogavam bilhar ou aos videogames na parte de trás. Ante o cenário se situava uma vazia pista de dança com o nome Howlers gravado em azul escuro e branco sobre a parede do fundo.

   Craig e Keegan juntaram três mesas em um canto para acomodar aos dez. Alguns dos humanos os olharam nervosamente, o que Fang achou engraçado, especialmente a mulher que pôs sua bolsa no colo quando passaram junto a eles. Como se um Lobo necessitasse de dinheiro.

   Mas claro, pareciam um grupo de arruaceiros. Vestidos com roupas de couro de motociclistas, cada um deles estava preparado para lutar se tinham que fazê-lo.

   O único deles que parecia remotamente inofensivo era Vane, que levava calças jeans com uma jaqueta de couro marrom e uma escura camiseta vermelha. Terei que dizer, que ele tinha o cabelo mais comprido de todos eles. Mas estava recolhido em um rabo-de-cavalo e com um impecável barbeado, estava passável. O resto deles levava uma barba de vários dias e pareciam as feras bestas que eram em realidade.

   Fang atirou sua mochila no chão e tomou assento para estirar suas longas pernas. Apoiando-se contra a parede, ajustou seus óculos de sol e fechou os olhos para tirar uma rápida sesta, enquanto se lançavam merda entre eles. Se pudesse ter só dez minutos ininterruptos para sentar-se e não pensar em nada, seria um Lobo novo....

 

   —Acaba de chegar uma manada de lobos.

   Com um nó deslizando-se em seu estômago, Aimee Peltier jogou uma olhada sobre o livro de contabilidade no qual apontava as novas entradas. Sua mãe, Nicolette Peltier, congelou-se ante a seca declaração de Dev.

   Encontrou o olhar perplexo de Aimee enquanto se levantava detrás do grande mesão marrom.

   —Quantos?

   —Parecem ser oito Slayers e dois filhotes em treinamento.

   Maman arqueou uma loira sobrancelha. Embora se aproximasse dos oitocentos anos, parecia não ser mais velha que uma humana de quarenta anos. Vestida com um traje azul executivo e com seu cabelo loiro em um apertado coque, parecia afetada e apropriada, diferente de Aimee, que estava vestida com uma camiseta e uns jeans, levando seu comprido cabelo solto.

   —Slayers ou Strati?

   Os Strati eram os guerreiros Katagaria mais ferozes do grupo e, em geral, zangavam-se com rapidez. Os filhotes, devido às mudanças hormonais que eram ainda piores que nos humanos, eram ainda mais ferozes. Mas, em geral, careciam do poder e da força para respaldar seus egos. Os Slayers por outra parte, eram assassinos indiscriminados que matavam a tudo o que cruzasse em seu caminho. Os Arcadianos aplicavam este último termo a qualquer soldado Katagaria como uma justificativa do porquê era necessário matá-los.

   Se este grupo de lobos eram realmente Slayers, sua presença no bar era como um barril de dinamite que repousa sobre um fogão em um furioso incêndio.

   Dev se coçou atrás do pescoço.

   —Eles são tecnicamente Strati, mas estes são casos excepcionais. Não lhes custaria muito se fazer Slayers.

   Aimee se levantou.

   —Irei ver o que querem.

   Dev bloqueou sua saída.

   —Cherise já tomou nota.

   Ela se horrorizou por sua imprudência.

   —Confiou em um humano para que os atendesse?

   Estava louco?

   Dev parecia imperturbável ante sua própria estupidez.

     —Cherise é muito agradável e doce. Duvido inclusive que um verdadeiro Slayer pudesse lhe fazer algo. Além disso, sei como se sente com os lobos e pensei em lhe economizar ter que lidar com eles. Não necessitamos de mais problemas aqui por um tempo.

   Era verdade. Seus encontros com os lobos nunca tinham sido bons. Ela não podia explicar, mas compartilhava a aversão de sua mãe aos dessa espécie. Os lobos eram violentos e asquerosos. Arrogantes ao extremo. Sobretudo, afetavam a sua sensibilidade “urseira”.

   Nicolette se levantou.

   —Aimee, vá e vigia-os. Te assegure de que não causem nenhum problema enquanto estão aqui. Não quero outro espetáculo. Se tentarem algo, embora só seja respirar de forma incorreta, os jogue fora.

   Ela inclinou a cabeça a sua mãe.

   Dev se colocou a um lado para deixá-la passar.

   —Se necessitas de uma mão, estarei ali com ajuda mais rápido do que possas dizer “mancha de lobo”.

   Aimee se conteve de sussurrar um insulto ao seu superprotetor irmão. Ele a conhecia bem. Mas havia momentos nos quais se sentia completamente asfixiada por sua família.

   Ainda assim, ela os amava. Com defeitos e tudo.

   Dando-lhe um tapinha no braço, caminhou pelo corredor para a cozinha onde as pessoas, inconscientemente, misturavam-se com o pessoal Were-Hunter. Eles pensavam que isto era um bar e um restaurante normal. Se soubessem a verdade…

   Pegou seu avental e o atou à cintura antes de pegar sua bandeja.

   —Onde estiveste?

   Fez uma pausa no bar onde se encontrava seu irmão Remi. Idêntico a Dev, não era nenhuma surpresa já que eram dois dos quadrigêmeos que Maman tinha dado a luz, ele tinha herdado toda a cólera rude de seus outros três irmãos combinados.

   Além de que apenas a tolerava.

   —Com Maman, ordenando a comida e a bebida. Nada que seja de teu interesse.

   Remi deu a volta na mesa de aço inoxidável industrial para meter-se em seu espaço pessoal de uma forma que a fez querer lhe dar uma forte joelhada em seu orgulho de homem.

   —Sim, pois há uma manada de lobos.

   —Dev já me disse isso.

   —Então tira teu traseiro daqui e vigia-os.

   Ela se burlou dele.

   —Boa atitude, Rem. Realmente, deverias pensar em pôr uma demanda ao idiota que te vendeu ela.

     Ele se lançou contra ela.

     Aimee lhe afastou com sua bandeja e lhe empurrou de novo.

   —Não, irmão. Não estou de humor.

   Ele lhe deu um empurrão pelas costas.

   —Remi!

   Ele se congelou quando seu pai entrou na cozinha. Com mais de dois metros de altura e bem musculoso, Papai Urso era uma visão aterradora, inclusive para os filhos que sabiam que nunca lhes faria mal. Seu comprido cabelo loiro estava amarrado em um rabo-de-cavalo que se parecia com o de Remi. De fato, parecia muito parecido a Remi e Dev, ante qualquer um que não o conhecesse bem poderia passar como um irmão mais velho.

   —Deixe a sua irmã em paz. Agora, vá lavar os pratos até que te resfries.

   Remi o olhou airadamente.

     —Ela me provocou.

   Papai suspirou.

   —Todo mundo te provoca, mon fils. Agora vá e faça o que te hei dito.

   Aimee ofereceu ao seu pai um reconciliador sorriso.

   —É só um leve desacordo, papai. Remi tem essa necessidade de respirar, dentro e fora, que me incomoda. Se só deixasse de respirar, estaria bem.

   Seu pai lhe lançou um olhar triste.

   —Nunca me digas isso, Chere. Já enterrei suficientes filhos e irmãos. Agora te desculpe ante Remi.

   Completamente arrependida, Aimee se aproximou de seu irmão. Seu pai tinha razão, ela não queria que acontecesse nada a ninguém de sua família. Inclusive, tão arisco como era Remi, ela ainda o amava mais que a tudo e o protegeria com sua vida.

   —Sinto muito.

   —Assim deve ser.

   Aimee grunhiu ante sua personalidade hostil. Por que tinha que brigar com todos? Ela olhou airadamente ao seu pai.

   —Sabes, é uma pena que os ursos Katagaria não comam a suas crias, especialmente aos mais irritantes.

   Querendo pôr distância entre eles, saiu pela porta, para a área do bar onde a garçonete humana, Cherise Gautier, enchia umas bebidas. Miúda e loira, Cherise tinha a inclinação mais amável que qualquer outra pessoa com a qual Aimee se encontrou em seus trezentos anos de vida. As criaturas como ela eram raras e Aimee desejava ser mais como ela.

   Infelizmente, havia muito de Remi nela, por essa razão não podia suportar ao seu irmão a maioria dos dias. Eram duas ervilhas em uma vagem que juntos a faziam explodir.

   —Ouça, Aimee —disse Cherise com um brilhante sorriso que em seguida a animou—. Estás bem, neném? Pareces irritada.

   —Estou bem.

   Cherise lhe dirigiu um fixo olhar quando cobriu sua mão e lhe deu um apertão de apoio.

   —Outra vez brigando com seu irmão?

   Às vezes poderia jurar que a humana tinha poderes sobrenaturais.

   —Não o fazemos sempre?

   Imperturbável, Cherise pôs os copos sobre sua bandeja.

   —Bem, para isso está a família. Mas sabes que se alguém te ameaçara, Remi teria seu traseiro para o jantar e tu farias o mesmo por ele. Esse menino te ama mais que a sua vida. Nunca esqueças disso.

     Cherise começou a recolher a bandeja.

   —Eu o farei.

   Aimee se colocou frente a ela.

   Cherise franziu o cenho.

   —Estás segura?

   —Absolutamente. Além disso, esta é tua hora de descanso.

   Com uma expressão cética, Cherise se afastou.

   —Certo, então. Estarei só a um grito se por acaso se enche de repente. Isto é para a mesa trinta.

   Aimee levantou a bandeja do balcão e amaldiçoou quão pesadas eram as oito cervejas e os copos de gelada Coke. Era algo bom que ela o tivesse pegado da humana. Tão diminuta e frágil como era Cherise, teria tido problemas para levá-lo. Mas o certo é que a humana nunca pronunciaria uma só queixa. Cherise nunca dizia nada ruim de nada ou ninguém.

   Aimee se dirigiu cuidadosamente do bar até as mesas nas quais os lobos se sentaram. Quando dobrou a esquina, soltou um fôlego estrangulado.

   É obvio que pareciam a escória do reino animal. Brutos, desalinhados e usando couro. Só esperava que os dois jovens não tratassem de subir aos móveis ou às pernas de algum humano.

   Embora quando os viu mais de perto, pôde notar que o de cabelo comprido era muito bonito. Seu cabelo escuro estava composto por uma multidão de cores. Vermelho, mogno, marrom, negro, inclusive alguns loiros. Era tão assombroso como seus olhos escuros.

   O único deles realmente notável era o que levava uma jaqueta de motorista negra, que estava inclinado em sua cadeira com suas incrivelmente longas pernas estiradas em frente dele. Sua negra camiseta se estirava sobre seu apertado estômago que parecia rocha dura e plana. Com o cabelo curto escuro e uma evidente atitude desagradável, era difícil que passasse desapercebido. Seus duros traços estavam cobertos com uma barba incipiente de vários dias e seus olhos estavam completamente ocultos atrás de um par de óculos escuros.

   Havia algo nele que gritava poder. Algo letal. Mortal. Duro. O animal nela podia apreciar como era capaz de impressionar ao mesmo tempo em que parecia estar totalmente a gosto. Isto também pôs em alerta seus instintos, fazendo-a extremamente cautelosa com esse grupo.

   Sim, um lobo que dava à palavra Slayer todo um novo significado. Olhou pela sala para localizar aos seus aliados. Seus irmãos Zar e Quinn estavam na barra do bar. Colt, outro urso que vivia com eles, estava bebendo em frente deles. O garçom, Wren, que era um Tigre, estava situado no canto e limpava umas mesas enquanto seu bichinho, o macaco Marvin, colocava a cabeça no bolso do avental de Wren.

   Ela estava rodeada se por acaso fosse necessário.

   Saindo de sua “enroscada” aura, fechou a distância entre eles.

   Logo que a viram aproximar-se, os lobos ficaram de pé... exceto o que parecia o pior de todos. Continuou recostado com seus braços cruzados sobre seu peito.

   —Fang!

   O de cabelo comprido e escuro lhe deu um chute nas pernas.

   Fang lançou uma maldição tão suja, que realmente a fez ruborizar-se. Teve ao que ladrou seu nome em suas mãos antes que parecesse dar-se conta do que tinha feito.

   —Vane?

   —Sim, idiota, me solte.

   O lobo alto e loiro mais próximo a Fang baixou a cabeça ameaçadoramente.

   —Estavas dormindo?

   Fang libertou Vane e se dirigiu ao que tinha falado com uma brincadeira que demonstrava que não só odiava ao outro lobo, mas também pensava que era um idiota.

   —Eu era lobo ou humano?

   —Humano.

   —Então não estava dormido verdade, Scooby?

   Ela enrugou sua testa ante o insulto. Aos lobos não gostavam de ser comparados com cães e menos se se referia a um cachorro de um desenho conhecido por suas palhaçadas e sua falta de inteligência na briga.

   O fato de que o lobo loiro não saltasse sobre ele corroborava a ferocidade de Fang como nada mais poderia fazê-lo.

   Fang se levantou e subiu os óculos de sol como se tratasse de ser respeitoso com a presença de Aimee, algo que lhe pareceu incongruente e ainda assim... Estes lobos não eram nada como ela esperava.

   E seus olhos…

   Eram de uma bela cor marrom com um toque de ferro neles. Entretanto, era a dor e a inteligência que mostravam o que chegava a ela. Uma dor que parecia ilimitada.

   Bocejando, Fang coçou o espesso bigode de seu rosto.

   —Embora não foi falta de tentá-lo.

   O filhote de lobo se aproximou dela.

   —Me deixe te ajudar com isso.

   —Deixe —disse brandamente, surpreendida pelo bem educados que estavam estes lobos.

   Os que ela tinha conhecido no passado tinham estado nos mais baixos degraus da escala evolutiva.

   Logo que baixou a bandeja, todos pegaram suas bebidas sem esperar que as repartisse.

   Vane tomou seu pano e secou a bandeja antes de devolver-lhe.

   Aimee lhe sorriu.

   —Obrigada.

   Foi realmente desconcertante ver que os lobos pareciam ter modos. Não estava segura de como lidar com eles.

   Quando começou a afastar-se, o que se chamava Fang a deteve com um gentil toque.

   —Te caiu isto.

   Ele se inclinou para recolher sua caderneta, que devia ter caído do bolso de seu avental.

   Quando se levantou, deu-se conta de quão grande era. Não fornido como os ursos aos que ela estava acostumada, ele era mais magro.

   E era duro. Sólido como o aço.

   —Obrigada.

   Fang não podia falar enquanto olhava os olhos de cor azul mais clara que já tinha visto. Estavam no rosto de um anjo loiro. Um ao qual lhe marcava uma covinha na bochecha direita quando falava. Sua pele era tão suave que parecia de veludo e, por alguma razão que não podia compreender, queria passar o dorso de seus dedos contra sua bochecha para ver se era tão suave como parecia.

   E seu cheiro... era de lilás e lavanda. Normalmente, o cheiro de outra espécie é repugnante aos sentidos aumentados do lobo. Mas não o seu. Ela cheirava cálida e doce. Tão doce, que fazia todo o possível para não esfregar seu rosto contra seu pescoço para cheirar mais dela. Quando sua mão lhe roçou, seu corpo estalou com o calor.

   Sem uma palavra, meteu a caderneta no bolso e deu a volta.

   Fang teve que se controlar para não ir atrás dela.

   Vane lhe entregou sua cerveja, desviando sua atenção. Ao voltar a olhar, ela já tinha ido.

   —Estás bem?

   Fang assentiu ante a pergunta de Vane.

   —Só cansado.

   No momento em que começou a sentar-se, a ursa retornou. Todos eles voltaram a se levantar. Os lobos protegiam a suas mulheres com mais força que qualquer outro Were-Hunter.

   Leais e mortais, lhes ensinavam desde seu nascimento a mostrar respeito às mulheres, independentemente das espécies. O fato de que esta ursa estava relacionada com os donos do bar a fez ainda mais respeitada.

   A ursa tirou sua caderneta de novo.

   —Meu nome é Aimee. Esqueci-me de tomar vosso pedido.

   Aime... era um bonito nome, suave e perfeito para ela. Embora ele não o dissesse em voz alta, sabia que sua língua o saborearia qual fino uísque.

   —Carne —disse Vane—. Tão crua como é possível.

   Ela o anotou.

   —Imagino que todos quererão o mesmo.

   Liam se acomodou na cadeira.

   —Sim, por favor.

   Aimee assentiu e conteve a risada ante o pedido mais habitual da clientela katagaria. A todos os animais gostava da carne que quase nem era aquecida pelos humanos na cozinha, os quais não podiam entender por que tinham tantas ordens parecidas.

   —Muito bem, duas dúzias de especialidades da casa. Algum de vocês quer viver perigosamente e provar a verdura?

   —Acaso te parecemos coelhos?

   Vane golpeou no ombro ao loiro sentado a sua direita.

   —Já basta, Fury.

   O lobo lhe olhou molesto, mas se freou. Como lobos, todos eles estavam com o alfa, inclusive embora lhes mortificasse, fariam-no. É obvio, também lutavam até a morte por sua manada. Mas não importava o muito que lutassem entre si, ao final do dia sempre estavam unidos contra qualquer pessoa alheia. Era o que os faziam tão perigosos. Os lobos nunca lutavam sozinhos. Lutavam como uma manada. Raivosos. Frios. Letais. E juntos podiam matar a quase tudo o que vivesse... ou inclusive aos que não.

   —Tens algo doce?

   Aimee centrou sua atenção em Fang ante seu pedido pouco comum.

   Os ursos gostam dos doces, mas aos lobos geralmente gostavam da carne.

   —Gostas de doces?

   —A mim não. É para nossa irmã. Está prenhe e tem desejo de doces.

   Desta vez seu sorriso se filtrou em forma de calor através dela.

   —E queres levar alguns para ela?

   Ele assentiu.

   Que lindo podia ser. Ela se congelou ante a punhalada de dor que sentiu ante um pensamento que lhe veio à mente. Inclusive apesar de que imediatamente os cortava. Sempre fazia o possível para não pensar em Bastien e Gilbert. Ainda assim, estavam em seus pensamentos muitas vezes ao dia.

   —Feito. Vou pedir em um par de carnes e sobremesas para ela.

   —Muito obrigado.

   Por alguma razão que não podia explicar, Aimee queria seguir aí e falar com o lobo. Sem nenhuma outra razão que escutar o timbre profundo de sua voz quando falava. Tinha um leve acento como se tivesse vivido na Inglaterra em algum momento de sua vida. Era realmente sedutor...

   O que está errado comigo? Odeio aos lobos.

   Eram rudes. Incômodos. Fedorentos e sempre em busca de problemas.

   Entretanto, havia algo sobre isto que não lhe convencia.

   O fato de que pensasse de sua irmã.

   Pelo menos tinha coração. Isso só o pôs milhas a frente de outros de sua espécie.

   Quando se foi de novo, não pôde resistir olhar para trás. Agora dava golpes com Fury enquanto Vane os separava como um pai com dois filhos pequenos.

   Aimee sacudiu a cabeça.

   Isso lhe confirmou o por que não podia se confiar nos lobos. Algo sobre as presas, sempre eram mordazes e diretos com todos e cada um dos suficientemente tolos que se aproximassem deles.

   Quando se dirigia à cozinha com os pedidos na mão, um grupo buliçoso que baixava as escadas se deteve. Amaldiçoou-se por dentro ao vê-los.

   Chacais.

   Duas mulheres e quatro homens. Deviam ter se teletransportado ao andar superior que estava reservado para esse tipo de atividade, tratava-se de uma zona a salvo dos seres humanos para que nunca suspeitassem o que realmente era o Santuário. Para eles era só um clube.

   Para os Were-Hunter, era terreno neutro onde não podiam ser atacados.

   E se havia algo que ela odiava mais que aos lobos, era a seus primos caninos, os chacais. Se ser um chacal não era bastante ruim já, estes eram também Sentinelas Arcadianos e pelo olhar que tinham estavam à caça de alguém.

   Suspirando pesadamente, olhou para os lobos Katagaria, perguntando-se como iam reagir ante na presença dos Chacais Arcadianos.

   A última coisa que precisava era que estalasse uma luta feroz entre um clã de sentinelas e uma manada de Strati. Especialmente Strati com jovens a proteger. O que os fazia inclusive mais ferozes e violentos que o normal.

   Voltou de novo para o bar, mas seu caminho foi interrompido quando um dos chacais se teletransportou diante dela. Ele a olhou de cima a baixo com uma careta de asco.

   Aimee estreitou seu olhar nele.

   —Não podes usar tua magia aqui. Há muitos humanos que poderiam te ver.

   Ele sorriu.

   —Não aceito ordens de animais. Agora me diga onde está Constantine ou vamos derrubar este bar.

   Aimee se negou a ser intimidada por alguém.

   —Estamos protegidos pelas leis do Omegrión, que estás obrigado a seguir. Todos são bem-vindos, inclusive as criaturas mais pútridas e a nenhum lhe pode tirar a força.

   Ele a agarrou pelo braço.

   —Procura Constantine, ou vou fazer umas botas com tua pele, ursa.

   Aimee se soltou de seu puxão.

   —Não me toques, ou enviarei tuas bolas contra a parede por cima de tua cabeça.

   Os chacais a rodearam.

   —Não temos tempo para isto. Está aqui. Podemos cheirá-lo.

   Aimee o olhou com uma careta zombadora.

   —Alguém tem que tirar a cabeça fora de seu traseiro e deixar de cheirar sua própria roupa íntima porque o único chacal que há aqui, és tu, amigo.

   —Há algum problema?

   Por uma vez, agradecia escutar o profundo grunhido de Dev.

   Aimee olhou mais à frente do ombro do líder para ver Dev com Colt, Remi, e Wren.

   Papai estava vindo até eles.

   —Sim. E acredito que é o momento de que nossos amigos encontrem a saída.

   Dev foi alcançado pelo líder que lhe pegou tão rápido, que apenas o viu passar. Com um fluido movimento, atirou Dev sobre suas costas ao chão. Dev ficou preso e congelou quando o chacal sustentou sua Teaser pronta.

   Não era pela dor de um possível golpe pelo qual se imobilizou. Uma descarga e perderiam o controle de suas formas humanas durante horas. Em realidade, qualquer golpe de eletricidade os teria cintilando de humano a animal uma e outra vez.

   Uma coisa que era difícil de explicar à clientela humana que tendia a ficar um pouco histérica se chegasse a vê-lo.

   Aimee jogou uma olhada ao número de humanos que havia no salão. Tinham que arrumar a situação o mais pacificamente possível. E rápido. O líder a olhou e ela assentiu com a cabeça. De repente, um homem a agarrou por trás e lhe colocou uma faca na garganta. O olhar do líder brilhou como o gelo.

   —Agora nos dêem Constantine ou terei sua cabeça.

   Aimee contemplou assustada a Dev, que sabia o que tinha feito. Não podiam lhes dar o que não tinham. Ia ficar sangrento e dela ia ser o sangue que derramariam primeiro.

 

   —Permaneça fora disto, Fang. —disse Vane com um baixo suspiro.

   Sentindo sua cólera sair à superfície, Fang estreitou os olhos nos sentinelas que rodeavam a Aimee.

   —É uma fêmea ameaçada.

   —Não é uma de nós e necessitamos aos ursos de nosso lado. Infrinja as leis do Santuário do Omegrión e se negarão a nos ajudar. Para sempre. Negar-se-ão a ajudar a Anya.

   Fang ouviu essas palavras e estava disposto a acatá-las. Sua irmã era o mais importante…

   Até que viu a faca.

   Vane amaldiçoou quando também a viu. Anya ou não, não estava em sua natureza deixá-lo passar e posto que os ursos pareciam estar para dentro de suas pequenas cabeças peludas…

   O olhar cor avelã de Vane se fixou em Fang.

   —O imbecil da frente é meu, tu tomas ao que está com a mulher.

   Fury baixou a cabeça de acordo com sua carreira suicida.

   —Cobrimo-lhes a retaguarda.

   Vane assentiu com a cabeça antes de teletransportar-se à luta.

 

Aimee considerou as conseqüências de golpear a cabeça do chacal que a mantinha cativa. Mas ele manteve a faca apertada contra sua garganta, impedindo-lhe. Poderia cortar a jugular se o tentava. Olhou aos seus irmãos e ao seu pai, todos afastados, muito assustados de mover-se por medo a lhe machucar.

   Lágrimas de frustração emanaram de seus olhos. Não podia ficar aí tão indefesa. O urso nela queria provar o sangue do chacal independentemente do que lhe custasse. Inclusive a morte. Mas seu lado humano tinha melhor critério.

   Não valeria a pena.

   O chacal a agarrou pelo cabelo e pressionou a faca ainda mais.

   —Nos digam onde está Constantine. Agora! Ou seu sangue fluirá como o poderoso Niágara.

   Seu pai abriu a boca, mas antes que pudesse falar alguém lhe arrebatou a faca de sua garganta.

   Aimee amaldiçoou quando recuperou sua cabeça e seus cabelos estirados. Cambaleando, caiu ao chão e aterrissou sobre seu estômago. Os sons explodiram completamente ao seu redor enquanto o chacal foi rápida e dolorosamente derrubado pelos lobos. Esfregando a garganta onde tinha estado a faca, procurou o chacal que a tinha segurado.

   Fang o tinha contra o chão, golpeando repetidamente sua cabeça tão forte como podia. Era como se estivesse possuído por algo que lhe exigia matar ao chacal com suas próprias mãos.

   Ambos estavam cobertos de sangue.

   —Fang! —Gritou Vane, puxando em seguida ele—. Está inconsciente.

   Grunhindo, Fang só se levantou para lhe dar um chute nas costelas do chacal.

     —Covarde bastardo. Ameaçar com uma faca a uma mulher.

   Começou de novo com sua vítima, mas Vane o apanhou.

   —Basta!

   Fang deu de ombros antes que seu irmão lhe dirigisse um olhar tão angustiado e atormentado que lhe tirou o fôlego. Que demônio tinha afundado suas garras tão profundamente em sua alma? Algo trágico jazia por trás daquele tipo de dor.

   O que tinha que fazer.

   Deu a volta até o chacal.

   Vane estendeu seus braços para capturá-lo.

   —Está acabado. Deixe-o.

   Grunhindo como um verdadeiro lobo, Fang passou empurrando ao seu irmão.

   —Vou esperar lá fora.

   Antes que Vane lhe detivera, deu um último chute na cabeça ao chacal em seu caminho para a porta.

   Fury riu da ação de Fang quando torceu o braço do chacal que sustentava.

   —Deveria te quebrar em dois. Isso não poderia melhorar teu dia, mas definitivamente melhoraria o meu.

   Vane sacudiu a cabeça pelas ações de Fang e as palavras de Fury.

   Dando a volta para Papai, caminhou devagar para eles.

   —Infelizmente, rompemos o pacto.

   Deu o dinheiro a Dev.

   —Partiremos e nunca voltaremos.

   Papai empurrou de volta o dinheiro para Vane.

   —Não tendes que partir. Salvasteis a minha filha. Vos agradeço. Enquanto tenhamos um refúgio, vós também o tereis.

   Era a honra mais alta que lhe poderia outorgar a um Were-Hunter. Era um dito muito antigo que só se oferecia a outra espécie como um gesto de eterna amizade.

   Não, bem mais de família.

   Vane parecia envergonhado por isso.

   Aimee viu como sua família tomava aos chacais dos lobos e os levavam afastando-os, sem dúvida para lhes dar ainda mais chutes no traseiro fora da vista dos humanos.

   —Estás bem? —Perguntou-lhe Remi enquanto lhe ajudava a ficar de pé.

   Ela assentiu.

   Fulminou com o olhar ao que Fang tinha estendido no chão num atoleiro de sangue.

   —Bom, porque vou brigar com um chacal quando despertar.

   Aimee pôs os braços em jarra.

   —Acredito que já o fez o lobo.

   —Sim, mas não é suficiente. Vou lhe esmurrar com minha cabeça. Esse rapaz terá pesadelos com ursos durante o resto de sua vida… a qual poderia resultar ser muito mais curta do que tinha sonhado.

   Aimee normalmente se meteria com ele, mas ainda estava alterada, como o resto deles. Era muito estranho que alguém incomodasse a sua família, especialmente a Dev, que sempre foi conhecido por suas proezas na luta. Nunca em todos estes séculos tinha visto que alguém o imobilizasse.

   Uma pequena surra aos chacais poderia assegurar que não acontecesse outra vez.

   —O que acontecerá aos humanos?

   Papai sacudiu com força o queixo para o loiro alto que passeava ao redor da multidão.

   —Max está limpando, inclusive enquanto falamos. É por isso que ninguém gritou nem se moveu quando os chacais lhe atacaram. Ouviu a comoção e se apresentou aqui.

   Respirou aliviada. Max era um were-dragão que tinha a capacidade de substituir as lembranças da memória humana. Era uma das razões pelas quais lhe mantinham aqui, embora era difícil dar espaço a sua grande forma de dragão. Seu talento era útil em ocasiões como essa e significava que não tinham que matar aos humanos que fossem testemunhas de coisas que se supunha que não existiam.

   —Devemos ir atrás de Fang? —Keegan perguntou a Vane quando passaram diante dela.

   —Deixe-o que se acalme primeiro. Não necessitamos que comece outra briga.

     Aimee tomou a mão de Vane.

   —Obrigada por tua ajuda. Realmente o aprecio.

   Ele sacudiu sua mão brandamente.

   —Em qualquer momento.

   Sorriu-lhe e gesticulou com o polegar para a cozinha.

   —Irei dar vossos pedidos para os ter logo.

   Seu pai inclinou a cabeça para Vane.

   —Não te preocupes, está em tua casa. O que necessiteis tu e os lobos, nos façam saber.

   —Obrigado —disse Vane e conduziu aos lobos de volta a sua mesa.

   Dev sorriu abertamente a ela.

   —Nunca pensei que diria isto de nenhuma espécie canina, mas acredito que eu gosto desse grupo.

   Aimee não fez nenhum comentário e se dirigiu à cozinha onde sua mãe a estava esperando.

   Com seus traços severos, Maman se afastou para deixá-la passar.

   —Constantine se encontra no Omegrión como o principal Regis Arcadiano. Não o conheço bem, entretanto, acredito que deveríamos encontrá-lo e dizer que seus amigos o estão esperando, para nivelar um pouco o campo já que parecem estar tão impacientes para reunir-se com ele.

   Era uma forma sutil de dizer que Maman queria aos chacais mortos e poder justificá-lo no Omegrión se alguém fazia perguntas. Depois de tudo, se os chacais caçavam Constantine tão ferozmente, ele devia saber o porquê.

   Aimee poderia ter argumentado que era uma sentença dura, mas dado o que os chacais lhe tinham feito, estava do mesmo humor esportivo que sua mãe.

   —Estou segura de que Dev pode arrumá-lo.

   Os olhos de sua mãe se escureceram.

   —Ninguém ameaça aos meus cachorrinhos. Realmente estás bem, chérie?

   —Estou bem, Maman. Graças aos lobos.

   Maman lhe acariciou brandamente o braço antes de retornar ao seu escritório.

   Aimee foi por uma ordem de carne que estava no bar. Entregou os pedidos aos outros cozinheiros, tomou o prato e pegou uma cerveja para Fang quando passou pelo bar.

   —Volto em uns minutos.

   Seu irmão mais velho, Zar, que se parecia muito a Dev só que com o cabelo mais curto, mais alto e mais corpulento, deteve-a.

   —Estás bem?

   Neste ponto, a pergunta a estava cansando. Não era um pulso frágil que se romperia ao mais leve contato. Era um urso com toda a força e capacidades inerentes a sua espécie. Sua família, entretanto, tendia a esquecer aquele fato.

   —Um pouco sacudida e bastante irritada. Eu não gosto que ninguém caia sobre mim da maneira em que fizeram esses chacais. Mas agora estou bem.

   Um músculo se esticou em sua mandíbula, lhe mostrando a ira que mantinha oculta debaixo de seu tranqüilo exterior.

   —Sinto que não fôssemos tão rápidos.

   Aquelas palavras a atormentaram enquanto revolviam lembranças dentro dela que não queria recordar.

   —Realmente, está bem, Zar. Prefiro ser ameaçada a te ver sofrer.

   Outra vez. Deixou aquelas palavras tácitas enquanto via suas próprias dolorosas lembranças refletidas no horror de seu olhar.

   Era um passado do qual nunca falavam, mas que tinha deixado marcados a todos.

   —Te amo, Zar.

   Ele lhe ofereceu um oco sorriso antes que se afastasse de modo que pudesse seguir atendendo o bar.

   Aimee se dirigiu para a porta traseira que dava ao beco e logo cruzou a rua onde Fang estava sentado sobre a calçada, esperando aos outros. Seus traços preocupados recordaram aos de um menino perdido. Algo completamente incongruente com sua aura de mais-resistente-que-o-aço. Sem mencionar sua coragem ao separá-la de seu atacante sem sequer ter sofrido um arranhão. Sua velocidade e força não tinham igual e atemorizavam.

   Apesar de ter utilizado seus poderes para eliminar o sangue de sua roupa, recordava bem a forma em que tinha golpeado ao chacal.

   Mas o que mais a surpreendeu era o fato de que não sentisse rechaço por sua violência. Normalmente, ante tal excesso, teria tido que lhe mostrar a porta.

   Então, voltava a ter a faca em sua garganta. Pessoalmente, gostaria de chutar ela mesma ao chacal. Sim, tinha que ser isso. Estava muito agradecida com ele para estar zangada por suas ações.

   Fang ficou de pé logo que a viu.

   Por alguma razão que não podia nomear, sentia-se nervosa, tímida quando se aproximou dele. Inclusive vacilante.

   Quão distinto a ela. Sempre era fria quando estava ao redor de homens, especialmente quando eram de outra espécie. Mas com Fang...

   Havia algo diferente.

   Fang engoliu seco quando viu que Aimee cruzava a rua. Era ainda mais bonita à luz do dia do que era dentro do escuro clube. A luz do sol brilhou em seu cabelo, convertendo-o em ouro, fazendo com que lhe picasse a palma da mão por querer tocar sua suavidade. Devia estar congelando-se. Tudo o que tinha posto era uma magra camiseta do Santuário.

   Tirou a jaqueta quando ela finalmente se aproximou.

   —Queria te agradecer de novo —disse com sua voz baixa e doce. Franziu o cenho quando lhe colocou a jaqueta ao redor de seus magros ombros.

   Fang baixou a cabeça com vergonha quando compreendeu por que a incomodou sua ação.

   —Sei que cheira a lobo, mas faz muito frio para estar aqui fora com os braços nus.

   Ela franziu o cenho ainda mais ao olhar seus braços.

   —Tu também levas só uma camiseta.

   —Sim, mas estou acostumado a estar do lado de fora —tomou a comida—. Assim suponho que não nos proibiram de voltar depois de tudo.

   Ela riu, lhe mostrando a covinha que mataria por beijar.

   —Nem muito menos. Alguém que luta por nós é sempre bem-vindo.

   Seus traços se suavizaram, ele assentiu.

   —Bom. Tinha medo de ter que escutar merda de Vane durante os próximos séculos.

   Aimee sufocou uma risada pelo modo que se repreendeu por ter amaldiçoado frente a ela. Era muito doce, encantador e também inesperado.

   —Não é como os outros lobos, verdade?

   Ele bebeu sua cerveja diretamente da garrafa.

   —O que queres dizer?

   —Nunca estive ao redor dos lobos e que fossem tão...

   Arqueou uma sobrancelha como se a desafiasse a insultá-lo.

   —Educados.

   Fang riu, um quente e rico som que carecia de qualquer indício de brincadeira. A expressão suavizou seus traços, fazendo-o ainda mais bonito e fascinante. E por alguma razão, não podia ter bastante dele, com cada movimento que fazia seu olhar se dirigia para seus bem esculpidos braços flexionados. Tinha os melhores bíceps que já tinha visto.

   —Nossa irmã está grávida —disse depois de ter engolido um bocado—. Ela tem códigos que devemos seguir e Vane os faz cumprir.

   —Mas tu não gostas? —Havia uma nota em sua voz enquanto falava.

   Ele não respondeu enquanto cortava a carne com seu garfo.

   Aimee fez um gesto para o bar.

   —Queres comer lá dentro com o resto?

   —Nah. Eu não gosto de estar lá dentro e não posso suportar a maioria deles de todos os modos —virou seu queixo para a porta lavrada do bar onde Dev montava guarda de novo—. Provavelmente deverias voltar. Estou seguro de que teu irmão não quer que estejas aqui fora com cães.

   —Não és um cão.

   Disse cada palavra enfaticamente, surpreendida de que realmente fora o que sentia. Fazia uma hora, teria sido ela a que lançara esse insulto a ele e ao resto de sua manada.

   Agora…

   Realmente não era como os outros e seriamente queria ficar aí com ele.

   Vai, Aimee.

   Deu um passo afastando-se antes que recordasse que levava sua jaqueta. Tirando-lhe a devolveu.

   —Obrigada de novo.

   Fang não podia falar quando a viu cruzar a rua e entrar no bar. Quando sustentou sua jaqueta contra seu peito, seu cheiro o golpeou com toda a força de uma onda, tão forte que queria uivar por ela. Em troca, enterrou o rosto contra o pescoço inalando profundamente, sentiu seu corpo endurecer-se a um nível pelo qual só o tinha feito por uma fêmea…

   Estremeceu-se quando velhas lembranças o rasgaram.

   Apesar de que não tinham sido companheiros, Stephanie tinha sido seu mundo inteiro.

   E tinha morrido em seus braços fruto de um brutal ataque.

   Aquela lembrança destroçou o calor em seu sangue e o levou de volta à realidade com um feroz aviso de quão perigosa era sua existência. Era a razão pela qual o chacal tinha tido sorte de seguir vivo. A única coisa que não podia suportar Fang era ver uma mulher ameaçada, não importava quem saísse prejudicado.

   Qualquer criatura o suficientemente covarde para aproveitar-se de uma mulher, merecia a morte mais brutal imaginável. E se era pela mão de Fang, então melhor.

   Dobrou sua jaqueta, tomou o prato e voltou a comer.

   Uma vez que terminou, Dev pegou os pratos e lhe agradeceu uma vez mais por salvar a Aimee.

   —Sabes, para ser um lobo, realmente não fedes.

   Fang soprou.

   —E para ser um urso, não irritas meu traseiro.

   Dev riu de boa vontade.

   —Irás para dentro?

   —Não. Prefiro estar aqui fora e congelar o traseiro.

   —Entendo-te. Também gosto de estar fora. Há muitos humanos lá dentro.

   Fang inclinou a cabeça, surpreso de que o urso o entendesse. Anya o tinha feito bastante humano, não queria irromper mais do que o tinha feito. Colocando as mãos nos bolsos, dirigiu-se de novo para as motos para esperar.

 

 Aimee saiu pelas insistentes queixas de Dev que seguiram entrando pelo fone que ela levava; todo o pessoal os levava de modo que os Were-Hunter pudessem parecer mais humanos sempre que usassem seus poderes para se comunicarem uns com os outros.

   —O que é? —parou-se na entrada.

   Ele lhe deu o prato vazio e a garrafa de cerveja.

   —Oh.

   Ela deu um passo para frente para pegá-los. Espontaneamente seu olhar se dirigiu para Fang, que havia voltado a sentar-se no chão com as pernas flexionadas e os braços cobertos enquanto se apoiava contra um velho poste.

   Havia algo selvagem e masculino naquela postura. Algo nisso fez com que seu coração se acelerasse.

   Não és da mesma espécie, garota…

   Entretanto, isso não importava aos seus hormônios. Magnífico, era magnífico, independentemente da espécie ou o tipo.

   Sim, isso era o que lhe passava. Não era nada mais que o fato que era um espécime excepcional de fisiologia masculina.

   —Acontece-te algo?

   Piscou e olhou a Dev, que a olhava fixamente.

   —Não, por que?

   —Não sei. Tens esse tipo de expressão tola que nunca tinha visto em ti.

   Fez um som brusco de asco.

   —Não tenho nenhuma expressão tola.

   Ele soprou.

   —Sim, te ponha em frente de um espelho e comprove-o. É realmente aterrador. Sem dúvida, não deixe a Maman ver isto.

   Ela rodou seus olhos.

   —Isso vem de um urso cujo traseiro foi chutado por um chacal?

   Seus olhos flamejaram.

   —Estava preocupado pela faca em tua garganta.

   Ela soltou uma risada exagerada.

   —Estavas no chão antes que fora capturada.

   Começou a discutir, logo se deteve. Olhou ao redor como se tivesse medo de que alguém pudesse havê-la ouvido por acaso.

   —Achas que alguém se lembra dessa parte?

   —Depende —lhe dirigiu um olhar calculista—. Quanto vais pagar-me para respaldar tua versão?

   Seu olhar se voltou encantadora e doce.

   —Eu te pago com amor, preciosa irmãozinha. Sempre.

   Ela se mofou de sua oferta.

   —O amor não paga o aluguel, bebê. Só o frio efetivo.

   Com a boca aberta, tinha uma expressão de total ofensa enquanto sustentava uma mão sobre seu coração como se lhe tivesse ferido.

   —Realmente queres converter a teu irmão favorito em um mercenário?

   —Não. Nunca faria isso a Alain.

   —Ai! —Dev sacudiu a mão como se se queimasse—. A bearswan tem atitude.

   Rindo, saiu para lhe dar um rápido abraço.

   —Não te preocupes, irmão mais velho, seu segredo está seguro comigo sempre e quando não me incomodar muito.

   Ele apertou seus braços ao redor dela e a abraçou.

   —Sabes que te amo, irmãozinha.

   —Eu também te amo.

   E o fazia. Apesar de seus desacordos e disputas, sua família significava tudo para ela. Enquanto se afastava, voltou-se para ver pela última vez a Fang. O mais provável era que nunca o voltasse a ver de novo. Algo realmente comum entre seus clientes e, entretanto, por alguma razão, dessa vez esse pensamento a feria profundamente.

   Perdi três células cerebrais… Ursa, ponha teu traseiro de novo para trabalhar e te esqueça dele.

 

 Fang ficou de pé assim que viu a manada saindo do bar. Vane foi o primeiro a chegar a ele.

   —Aqui.

   Vane lhe jogou sua mochila e a seguir, entregou-lhe uma sacola com algo doce e gostoso.

   —A ursa queria assegurar-se de que tens tudo para Anya. Disse que havia algo ali para ti.

   Isso o impressionou completamente. Nunca ninguém lhe tinha dado presentes.

   —Para mim?

   Vane deu de ombros.

   —Não entendo os processos de pensamento dos ursos. A maioria dos dias quase nem compreendo os nossos.

   Fang tinha que lhe dar a razão, ele tampouco os entendia. Colocou a sacola em sua mochila e o resto dos lobos montou suas motos e partiram. Andaram em silêncio todo o caminho de volta ao pântano onde tinham feito seu acampamento para que as mulheres dessem a luz a seus filhotinhos em condições de paz e proteção.

   Assim que voltaram, seu pai os encontrou em sua forma de lobo. Markus mudou para humano somente para burlar-se deles.

   —Por que demoraste tanto tempo em retornar para as fêmeas?

   Quando Fang abriu a boca para dizer algo inteligente, Vane lhe lançou um olhar de advertência.

   —Fui visitar a clínica e assim ter a informação do contato no caso de que as mulheres requeram de nossa ajuda.

   Markus curvou seus lábios. Apesar de os ter enviado ali, tinha que se comportar como um idiota.

   —Em meus dias em que deixei nas mãos de Wolfswans incapazes nossas jovens mulheres, elas morriam no parto.

   Fang se mofou.

   —Então é algo bom que estejamos no século XXI e não na Idade Média, não?

   Vane sacudiu a cabeça enquanto seu pai lhe grunhia como se estivesse a ponto de atacá-lo.

   Desta vez Fang se negou a retratar-se.

   —Prove-o, velho —disse, utilizando um termo que sabia que enfureceria ao seu pai já que sendo um Katagaria desprezava sua natureza humana—. Te arrancarei a garganta e será o início de uma nova era de liderança para esta manada.

   Podia ver o desejo de fazê-lo nos olhos de Markus, mas o senhor dos lobos sabia o que fazia. Em uma briga, Fang ganharia.

   Seu pai não era o mesmo lobo que tinha matado ao seu próprio irmão para ser o Regis de sua manada. Tornou-se fraco com a idade e sabia que não tinha muitos anos mais antes que Fang ou Vane assumissem o posto.

   De uma ou outra maneira.

   Fang preferia estar sobre o cadáver do velho. Mas outras disposições também lhe valeriam.

   Essa era outra das razões pela qual seu pai os odiava. Sabia que seu mandato tinha passado e que eles só estavam aproximando-se do próprio.

   Markus estreitou seu olhar de modo ameaçador.

   —Um dia, cachorrinho, vais cruzar em meu caminho e seu irmão não estará aqui para me impedir de te matar. Quando esse dia chegar, será melhor que rezes por tua salvação.

   O olhar de Fang se voltou maligno.

   —Não necessito de salvação. Não há um lobo aqui que não limpe meu traseiro. Tu sabes. Eu sei e o mais importante, todos sabem.

   Vane arqueou uma sobrancelha diante de seu comentário como se não aprovasse suas palavras.

   Fang lhe dedicou um sorriso um pouco torcido.

   —Tu não contas, irmão. Penso mais em ti para tentá-lo.

   Markus os examinou retorcendo de maneira repugnante seus lábios.

   —Ambos me põem doente.

   Fang disse com um bufado.

   —Vivo para isso… pai —não podia resistir usar o título que sabia que desgostava a transbordar ao velho—. Tua eterna repugnância me alimenta como o leite materno.

   Markus se transformou em um lobo e se afastou de um salto.

   Vane se voltou contra ele.

   —Por que fazes isso?

   —Fazer o que?

   —Foder a todo mundo com quem tens contato? Só por uma vez, poderias fechar a boca?

   —É uma habilidade.

   —Bom, desejaria que a esquecesses.

   Fang soprou, irritado pelo maldito tema que o incomodava há trezentos anos. Não era o tipo de lobo que o suportasse. A maior parte do tempo dava o melhor de si.

   —Vai contra meus princípios. Deixa de ser uma anciã.

   Deu a volta e se dirigiu para a margem do acampamento que Anya tinha escolhido como guarida com seu companheiro Orian.

   Fang sempre tinha que morder a língua ao seu redor. Odiava ao lobo que os Destinos tinham escolhido para sua irmã. Ela merecia algo melhor que aquele tolo, mas infelizmente, isso não estava em suas mãos. As Destinos escolhiam aos seus companheiros e eles somente podiam submeter-se ou o macho viveria toda sua vida completamente impotente e a fêmea estéril.

   Para salvar a sua espécie, tinham que aceitar a qualquer um que as Destinos tivessem atribuído como seu par. No caso de seus pais, sua mãe se negou e agora seu pai tinha ficado impotente e perpetuamente arritado.

   Não é que Fang culpasse ao velho por isso. Provavelmente, ele estaria muito insuportável se passasse séculos sem sexo. Mas isso era a única parte de seu pai que entendia. O resto do lobo era um completo mistério para ele.

   Felizmente o companheiro de Anya não estava com ela.

   Anya estava deitada sobre a grama na mortiça luz do sol, seus olhos apenas abertos, uma ligeira brisa agitava sua suave pele branca. Sua barriga estava torcida e podia ver-se aos cachorrinhos moverem-se dentro dela.

   Era bastante vulgar, mas não ia insultá-la dessa forma.

   Já voltaram…

   Sorriu ante a suave voz em sua cabeça.

   —Sim e…

   Tomou a sacola e a estendeu.

   Ela se sentou imediatamente e trotou para ele.

   O que trouxe?

   Farejou a sacola como tratando de ver através dela com seu focinho.

   Fang se sentou e a abriu para mostrar o que lhes tinha dado Aimee. No momento em que o fez, seu coração se acelerou. Tinha agregado dois filés, baklava, beignets e bolachas. Também havia uma pequena nota no fundo.

   Tirou as bolachas e as sustentou para Anya enquanto lia a letra fluída de Aimee.

  

   Realmente aprecio o que fizeste e espero que tua irmã desfrute da comida. Irmãos como tu deveriam ser sempre apreciados. Cada vez que necessites de um bife, já sabes onde estamos.

  

   Não entendia por que uma nota tão pequena e inofensiva lhe chegava tão fundo, mas o fazia. Não pôde evitar sorrir enquanto uma imagem dela se introduziu em sua mente.

   Deixa de te comportar como um louco.

   Sim, algo definitivamente estava errado com ele. Talvez precisava ver um desses psicólogos de animais ou algo assim. Ou possivelmente faria com que Vane lhe desse um forte chute no traseiro.

   Cheira a urso?

   Colocou a nota em seu bolso.

   —É do pessoal do Santuário.

   Ela negou com a cabeça e espirrou na terra.

   Gah, poderiam cheirar pior?

   Fang não esteve de acordo. Ele não cheirava a urso, só cheirava a Aimee e era uma essência deliciosa.

   —Provavelmente, eles pensam o mesmo de nós.

   Anya se deteve para observá-lo.

   Que disseste?

   Fang clareou a garganta como se não tivesse defendido a outra espécie.

   —Nada.

   Ela lhe lambeu os dedos enquanto lhe dava mais bolachas.

   Uma sombra caiu sobre eles. Olhando para cima, viu Vane aí de pé com o cenho franzido.

   —Não deveria ser seu companheiro quem fizesse isso por ela?

   Fang deu de ombros.

   —Sempre foi um sacana egoísta.

   Anya lhe mordeu com força os dedos.

   Cuidado, irmão, é do pai de meus cachorrinhos de quem estás falando.

   Fang se mofou de seu tom protetor.

   —Um escolhido por um trio de cadelas psicopatas… ai!

   Saltou quando Anya afundou seus dentes profundamente na parte carnuda de sua mão. Amaldiçoou quando viu como o sangue jorrava como água da ferida que lhe tinha feito.

   Ela estreitou seu olhar.

   De novo, ele é meu companheiro e o respeitarás.

   Vane lhe deu uns leves golpes na parte traseira da cabeça.

   —Menino, será que não aprendes?

   Fang mordeu o lábio para abster-se de lançar uma dentada a ambos. Odiava quando o tratavam como a um deficiente mental. Como se suas opiniões não tivessem importância. Em qualquer momento que abrisse a boca, um deles lhe diria que a fechasse.

   Honestamente, estava bastante cansado desse tratamento. Todos o viam como à força que necessitavam. Uma arma carregada para ser utilizada contra seus inimigos. O resto do tempo, queriam colocá-lo numa caixa, completamente silencioso e discreto.

   Como seja.

   Transformando-se em um lobo, deixou-os antes que dissesse algo que todos lamentariam.

   Mas um dia…

   Um dia lhes faria saber simplesmente que tão cansado estava de ser seu lobo omega.

 

Aimee se deteve na mesa onde os lobos tinham estado. No canto havia um par de óculos escuros esquecido. Inclinou-se e os recolheu só para perceber a essência de seu dono.

   Fang.

   Um leve sorriso sobrevoou nas bordas de seus lábios quando recordou a forma em que se via inclinado em sua cadeira. Relaxado e letal.

   —O que é isso?

   Saltou quando Wren falou justo por trás dela. Lhe olhando sobre o ombro, sorriu ao jovem tigre. Bonito e magro, tinha longas mechas loiras com franja que caíam sobre seus olhos, defendendo-os do mundo. Ela era uma das poucas pessoas a quem ele falava.

   Sustentou no alto os escuros óculos a fim de que pudesse os ver.

   —Um dos lobos os deixou.

   Ele coçou sua barbuda bochecha.

   —Queres que os ponha entre os objetos perdidos?

   —Está bem. Farei-o eu.

   Ele assentiu com a cabeça antes que seguisse adiante para cobrar a outra mesa.

   Aimee fechou os olhos e apertou os óculos. Quando o fez, viu uma perfeita imagem de Fang em forma de lobo atravessando o pântano correndo.

   Alguém espirrou.

   Sobressaltou-se, olhando rapidamente ao seu redor com medo de que alguém a apanhasse usando um poder que ninguém sabia que tinha. Era algo que só uns dos mais poderosos Aristos podia dirigir e o fato que ela o tivesse…

   Era tanto um perigo como um presente.

   E era um poder que havia custado à vida de dois de seus irmãos. Por essa só razão, nunca devia permitir que alguém soubesse o que podia fazer.

   Mas hoje esses poderes não lhe davam medo. Permitiriam-na encontrar a Fang e lhe devolver seus óculos.

   Verificou o relógio em seu pulso.

   Em trinta minutos teria liberdade para tomar um descanso do trabalho e procurar o lobo…

  

 Aimee se deteve junto a cipreste que se projetava na água e se torcia até o céu. O sol poente se avivava entorno aos ramos, emitindo um resplendor majestoso que também se refletia na brilhante água negra. Era estranho e belo. Enfeitiçante.

   Embora tivesse vivido em Nova Orleans mais de um século, nunca tinha prestado muita atenção ao pântano ou aos riachos. Tinha esquecido que tão belos podiam ser.

   Sorrindo à imagem, manifestou sua câmera e começou a fotografá-la. Não havia nada que amasse mais que capturar a natureza em suas formas mais puras.

   Completamente cativada pela complexidade do modo em que a luz jogava contra a árvore, deixou de prestar atenção a sua volta. O mundo desapareceu à medida que se movia enum círculo grande, inclinando a câmara para melhores ângulos.

   A água turva chapinhava ao redor de seus pés quando se movia. Pela extremidade do olho, viu um pássaro elevar o vôo. Começou a capturar isso igualmente, mas quando se moveu, ouviu algo…

   Um grunhido baixo, agudo.

   Antes que pudesse reagir, um lobo a atacou.

  

 Reagindo com puro instinto, Aimee deixou cair a câmera e manifestou um comprido cajado. agachou-se, esperando o ataque. Mas ao verdadeiro estilo lobo, ele não atacou sozinho. Esperou que três mais se unissem ao grupo. Por seus aromas, sabia que nenhum deles eram os lobos que tinha visto anteriormente no Santuário.

   Estes eram selvagens e vis.

   Verdadeiros assassinos…

   E ela era sua presa.

   Aimee fez girar a arma, preparando-se para enfrentá-los. Se quiserem uma briga, poderia e definitivamente ia lhes dar uma. Algumas vezes eram eles os que comiam ao urso, mas hoje o urso ia tomar um suculento pedaço deles.

   Grunhindo e estalando os dentes, rodearam-na.

   Ela sacudiu a cabeça ante sua valentia.

   —Acreditem em mim, rapazes, não querem provar ao urso. Este morde com o triplo de força que vós.

   Isso não evitou que o líder atacasse.

   Aimee lhe deu por um costado com o cajado e o enviou pelos ares. Os outros dois saltaram para frente. Ela enterrou a vara no chão e levantou seu corpo para chutar um lombo antes de girar e usar seu bastão para golpear ao outro nos quartos traseiros.

   Ele revelou uma furiosa choramingação.

   —Choramingando por mamãe, Grande Lobo Mau. A Pequena Chapeuzinho Vermelho está a ponto de servir tua pele para o jantar.

   «Achas que podes nos apanhar?»

   Ela se deu a volta para responder ao líder.

   —Oh, pequenino, pode ir diretamente ao inferno. —Ao menos isso era o que pensava até que quatro mais correram para ela.

   As possibilidades agora…

   Não eram tão boas.

   Grunhindo e estalando as mandíbulas, avançaram lenta e ameaçadoramente. Ao mesmo tempo em que retrocedia, Aimee considerou transformar-se para brigar, mas não seria tão rápida em sua forma de urso. Eles teriam muita melhor manobra e isso a faria perder.

   Perder diante de alguém era algo que não estava disposta a fazer.

   Não, maneje isto como uma mulher.

   «Sabes, a melhor arma contra eles seria uma pistola…»

   Franziu o cenho quando escutou a voz de Fang na cabeça. Entretanto não lhe tinha perto.

   O líder se lançou.

   Aimee se agachou e justo quando chegava a ela… justo quando sentiu seu calor, o fôlego fedorento em sua pele, um grande lobo marrom o interceptou e o enviou voando na direção contrária.

   Fang.

   Graças à imagem que ela tinha visto em sua visão, soube que era ele. Rasgou a garganta do lobo que tinha iniciado o ataque contra ela. Aimee teria seguido lutando, mas os outros retrocederam confusos.

   Um grande lobo branco ficou entre ela e outros se transformando em Vane.

   —Estão loucos? —Grunhiu aos lobos—. Ela é um dos ursos Peltier.

   Um por um os lobos se transformaram em humanos. À exceção de Fang e aquele contra o qual lutava.

   —Stefan! —gritou Vane com cólera.

   Em vez de retirar-se, Stefan se lançou para Vane. Fang o agarrou violentamente pela garganta enquanto os dois lobos seguiam lutando e retorcendo-se. Aimee se encolheu ante a cólera selvagem que demonstrava que os dois odiavam apaixonadamente um ao outro. Velhas lembranças se elevaram enquanto eles grunhiam e se atacavam, rasgando-se mutuamente a carne. A visão disto a pôs doente.

   —Basta! —Ela os atacou com seus poderes.

   Fang uivou quando uma rajada lhe golpeou com força na cauda. O impacto agudo e pulsante o lançou dando voltas. Odiava ser machucado, e ainda mais por alguém que obteve o melhor dele…

   Isto o irritou como nada mais poderia fazê-lo. Furioso, cintilou à forma humana ainda quando fora difícil de mantê-la.

   —Que diabos estás fazendo? —Perguntou ao tempo em que ia coxeando para ela, com seu traseiro ainda ardendo.

   Aimee estreitou o olhar sobre ele.

   —Eu não gosto de brigas.

   —E eu não gosto de receber um duro golpe no traseiro.

   Ela nem retrocedeu nem se intimidou.

   —Bom, se tivessem parado quando Vane lhes disse isso…

   —Não aceito ordens de uma mulher pela qual estava lutando para proteger.

   Ela sustentou a mão no alto como se as palavras dele fossem uma declaração de guerra.

   —Bom, macho[1]. Para que conste em ata, não necessito de sua proteção.

   Fang se burlou da fanfarronada desconjurada.

   —Sim, claro! Estiveram a ponto de te derrotar.

   —Duvido-o seriamente.

   Fang cortou a distância entre eles olhando-a com desaprovação, ao tempo que a fúria ardia em cada parte dele. Queria que ela entendesse o perigo ao qual estupidamente se havia exposto.

   —Isto não é o Santuário, garotinha. Invades nosso território e temos fêmeas prenhes. No que estavas pensando? Te mataríamos aqui sem uma piscada.

   Ela fez uma careta de desgosto.

   —Ah, acabáramos! Como se desse dois centavos por sua toca —tirou os óculos de sol e as empurrou para ele com tanta força que lhe obrigou a dar um passo atrás—. Só queria te devolver o que é teu. Assim vai às favas.

   Fang ficou paralisado quando sua mão lhe golpeou no centro do peito. Instintivamente, agarrou os óculos de sol enquanto ela desaparecia, sem dúvida para voltar para sua casa.

   O único problema era que não sabia o que lhe incomodava mais, se o tapa que lhe tinha dado sobre o peito, que lhe tinha sacudido o traseiro ou o golpe que acaba de dar ao seu ego.

   —Como nos encontrou essa cadela? —Resmungou Stefan entre os dentes apertados.

   Vane lhe dedicou um fixo olhar zombador que lhe dizia que compartilhava a mesma opinião que tinha Fang sobre Stefan… que Stefan era um idiota de primeira categoria.

   —Deve ter seguido nossa essência.

   Fang não disse nada. Ainda estava muito atordoado pela cólera que ela sentiu por ele, quando tudo o que tinha estado tratando de fazer era fazê-la entender o perigo. Como podia ela ignorá-lo? Se Stefan não tivesse esperado os reforços e Fang não tivesse compreendido a quem estavam dispostos a atacar, Aimee teria sido esquartejada.

   Uns poucos minutos mais…

   Seu estômago se contraiu pelas imagens de sua mente.

   Vane estalou os dedos diante de seu rosto.

   —Cara? Estás bem?

   Fang lhe empurrou.

   —É obvio que estou bem.

   Stefan avançou com uma careta em seu rosto.

   —De todas as maneiras, o que queria a ursa de ti?

   Vane agarrou a Fang antes que pudesse aproximar-se do lobo para atacá-lo e o forçou a afastar-se de Stefan.

   —Ela…

   —Não lhe devemos nenhuma explicação —resmungou Fang, interrompendo a Vane—. Pode beijar meu peludo traseiro.

   Stefan se pendurou sobre ele.

   Vane grunhiu aos dois.

   —Juro pelos deuses que estou farto de estar em cima de vós para vos separar —empurrou a Stefan—. Da próxima vez não pararei a Fang. Um insulto mais, um mau olhar mais, e me afastarei para lhe deixar que te chute o traseiro.

   As fossas nasais de Stefan se dilataram. Em lugar de insistir nisso, estalou os dedos para que outros lhe seguissem. Transformando-se em lobos, retrocederam para a guarida.

   Vane lhe enfrentou com um penetrante olhar.

   —O que está acontecendo entre tu e a ursa?

   —Nada.

   —Nada? Com que propósito veio aqui, no meio de um nada, para te devolver uns óculos de sol?

   Para evitar que qualquer outra pessoa fora capaz de usar seu cheiro para lhe rastrear. Não tinha passado desapercebida para ele a bondade de Aimee.

   Mas se Vane não era capaz de entendê-lo, não estava disposto a lhe dar pistas.

   —Não sei. Desde quando as mulheres de qualquer espécie têm sentido?

   —Bom ponto. Muito bem, então retornarei. Vem?

   Fang assentiu.

   Transformando-se em um lobo, Vane se afastou. Fang estava a ponto de reunir-se com ele quando viu algo no chão a poucos metros de distância.

   Era uma câmera.

   Que demônios?

   Aproximou-se para pegá-la. No instante em que o fez, percebeu o chiro de Aimee por todo o objeto. Preparou-se para lançá-la à água, mas a curiosidade se impôs. Conectando-a, avançou através das imagens digitais dos ursos Peltier, às vezes na forma humana, outras como ursos. Ele fez uma pausa sobre uma do ajudante de garçom que tinha visto no bar alimentando com amendoins ao seu bichinho macaco. Ela realmente tinha capturado o modo em que a luz de néon incidia sobre ele e o macaco de maneira muito insólita.

   Mas eram as fotos da paisagem de toda Nova Orleans as que eram verdadeiramente impressionantes. A ursa tinha tido um surpreendente bom olho para captar a luz e as sombras. Inclusive um lobo como ele podia apreciá-lo.

   Simplesmente atire a maldita coisa e te mande…

   Não podia. Era como se estivesse olhando seu diário particular e sabia instintivamente que Aimee não quereria perdê-la. Estas eram mais que meras fotografias. Pareciam formar parte de sua alma.

   Dê ela a Vane para que a devolva.

   Era o que deveria fazer. O senso comum lhe dizia que se mantivera o mais longe possível dela.

   —Desde quando tive alguma vez um pingo de senso?

   Era certo. O senso comum lhe havia dito adeus há muito tempo.

   Apertando o agarre sobre a câmera, cintilou do pântano de volta ao bar.

   Fez uma pausa quando compreendeu que tinha conseguido chegar ao último andar… estranho. Era difícil manifestar-se em um lugar ao qual não tinha ido antes. Os ursos deviam ter alguma espécie de filtro para dirigi-los a um tipo de “pista de aterrissagem”.

   O que explicava por que os chacais tinham chegado antes desta direção. Boa jogada por parte dos ursos.

   Fang começou a descer pela escada para o bar onde Dev ou um dos irmãos idênticos de Dev estava atendendo.

   —Onde está Aimee?

   O urso se esticou.

   —Quem diabos és?

   Definitivamente não era Dev.

   —Fang Kattalakis. Queria lhe devolver algo de sua propriedade, de qualquer maneira não é que te importe sabê-lo.

   O urso lhe fulminou com um olhar hostil.

   Outro urso com o cabelo curto negro… um que era Arcadiano se a Fang não falhava o olfato, deu uma delicada cotovelada ao irmão de Aimee.

   —Relaxe, Cherif, ele é o que a salvou antes dos chacais.

   Cherif retrocedeu, mas não muito.

   —Queres devolver-lhe a ela?

   —Claro

   O Arcadian dirigiu um sorriso amistoso para Fang.

   —Sou Colt —disse afavelmente—. Siga-me…

   Fang o fez, mas não antes de dirigir um olhar ao irmão de Aimee de vá ao inferno.

   Colt o conduziu pela cozinha e pela frente de outro que se parecia com Dev para uma porta que se abria para uma casa decorada ao estilo Vitoriano de fins de século. As paredes estavam pintadas de um suave amarelo enquanto que os móveis eram uma mescla de borgonha e negro. A escura madeira lhe dava uma aparência muito régia.

   —A casa dos Peltier —explicou Colt enquanto seguia caminhando—. Não estavas aqui quando papai urso a mostrou ao seu irmão. Aqui é onde os Were Hunters têm seu lar no Santuário quando não trabalham no clube. Há quatro andares mais, mas a maior parte dos Peltiers estão no segundo andar.

   Colt se dirigiu ao andar de cima.

   —Carson é o doutor e o veterinário e tem seu escritório aqui —tocou a primeira porta quando chegaram ao segundo andar e seguiram caminhando para o final do corredor.

 Deteve-se na última porta. Dando um suave toque, inclinou-se perto dela.

   —Aimee? Estás aí?

   —Estou tratando de dormir uma sesta, Colt.

   —Sinto muito, mas há um visitante aqui que quer te ver.

   A porta se abriu tão de repente que Colt quase caiu para dentro. Aimee parecia surpreendida, e logo molesta ao ver Fang de pé por trás dele.

   —O que fazes aqui?

   Fang deu de ombros.

   —Ao que parece vim te insultar um pouco mais de maneira inadvertida. Quem sabe?

   Em lugar de diverti-la, que era o que ele tinha pretendido, ela estreitou seu fixo olhar sobre ele.

   —Realmente eu não gosto disso.

   Fang se inclinou para frente com um sorrisinho de suficiência.

   —Em realidade não tens uma razão para isso.

   Colt ampliou os olhos.

   —Devo deixar aos dois sozinhos? Ou fico e arbitro?

   —Podes ir. Simplesmente devolvo isto —Fang sustentou em alto a câmera—. E logo partirei.

   Sem outra palavra, Colt se dirigiu de volta pelo caminho pelo qual tinham chegado.

   Aimee arrebatou a câmera do agarrão de Fang.

   —Onde conseguiu isto?

   —Deves ter deixado ela cair.

   Ela apareceu pela porta para assegurar-se de que Colt se foi antes de sussurrar em um tom baixo:

   —Disseste a alguém que estive lá?

   —Não. Querias que o fizesse?

   —Não —lhe olhou extremamente aliviada—. Obrigada. —Então em uma piscada, virou zangada outra vez—. Olhaste minhas fotografias? —Era mais uma acusação que uma pergunta.

   —Supõe-se que não devia?

   Ela retorceu o gesto.

   —Oh, és um porco! Invadiste minha intimidade. Como te atreveste!

   Fang se sentia aturdido por suas rápidas e bruscas mudanças de humor. Definitivamente ia necessitar de uma guia para entendê-la.

   —Sempre estás tão alterada?

   —Não estou alterada!

   —Se tu o dizes. Mas realmente, teriam que te pôr um colar que mude de cor com suas mudanças bruscas de humor.

   Ela curvou os lábios como se suas palavras a desgostassem até um nível superior.

   —Oh, és um animal.

   —Ui. Sim.

   Ela pôs os olhos em branco.

   Fang começou a afastar-se, logo deu a volta.

   —Por certo, não exagerei antes no pântano. Podias ter sido esquartejada.

   Ela sacudiu a cabeça, soprando antes de poder finalmente falar de novo.

   —Basta já com suas idiotices de macho. Estou farta de que os homens me digam como controlar minha vida. No caso de que não o tenha notado, há toda uma manada de homens no andar de baixo simplesmente morrendo por me dizer como não estou apta. A última coisa que preciso é a outro mais.

   —Talvez deverias escutá-los de vez em quando.

   —E talvez tu não deverias te meter no que não te importa.

   Fang nunca tinha tido tantas vontades de estrangular a alguém em sua vida. Cada parte dele ardia com fúria e ao mesmo tempo não podia deixar de notar quão bonita ela estava com suas bochechas acesas pela raiva. O rubor em suas bochechas fazia com que seus olhos parecessem de um azul intenso.

   —Talvez devas aprender a dizer obrigado de vez em quando.

   Ela cortou a distância entre os dois.

   —E talvez tu…

   As mãos dela tocaram seu peito e sua parte mais primitiva cobrou vida.

   Inclusive antes de dar-se conta do que fazia, ele a tinha atraído para seus braços e silenciado sua diatribe com um beijo.

   Aimee não podia respirar ao sentir os braços de Fang rodeando seu corpo. Sua fúria morreu ao momento em que os lábios dele tocaram os seus e saboreou um poder doce e cru que nunca tinha experimentado antes.

   A língua dele dançava com a sua enquanto explorava completamente sua boca. Cada hormônio em seu corpo se esquentou e ela se aferrou a ele, querendo devorar cada centímetro de seu duro corpo com a boca e as mãos. Ambas, a mulher e a ursa dentro dela se voltaram selvagens e lascivas. Nunca tinha provado nem sentido nada como isto.

   Era tudo o que ela podia fazer para não lhe despir e lhe rogar pedindo misericórdia.

   Fang abandonou seus lábios para finalmente enterrar a cabeça contra seu pescoço para poder respirar sua essência. Era o mais delicioso que ele tinha cheirado alguma vez. E despertou algo em seu interior que quis provar cada parte dela. Cada hormônio de seu corpo cantou com necessidade.

   E isso o horrorizou.

   Retirando-se, baixou o olhar para a expressão aturdida dela.

   Os sentidos deviam ter retornado a ela nesse mesmo instante.

   —Tens que ir. Agora.

   Ele o tentou, mas algo nela…

   Vá!

   Forçando a si mesmo a afastar-se, se teletransportou de volta a sua guarida no pântano.

 

 Aimee desabou contra a parede que tinha atrás enquanto tratava de tranqüilizar seus sentidos.

   Acabava de beijar a um lobo.

   Um lobo.

   Sua família o mataria. Diabos, eles a matariam. Estava proibido corromper a linha de sangue, especialmente quando eram membros do Omegrión. O dever dela era manter e purificar sua linhagem. Para fortalecê-la. Como ursos, eles traçavam sua linhagem através da linha feminina e era a única filha de seu clã. Por isso era que seus irmãos a protegiam tanto.

   Ainda assim…

   Aimee sacudiu a cabeça para clarear suas idéias. Nunca poderia ver de novo a Fang.

   Nunca.

   Nunca, nunca, jamais.

   E esta vez ela ia escutar a razão!

   Isso esperava.

    

Três semanas depois

   —Então?

   Aimee olhou por cima do livro que estava lendo recostada na cama e viu sua mãe de pé na porta. O estômago lhe atou em resposta. Tinha temido esta visita todo o dia com a esperança de que sua mãe a esquecesse.

   Devia pensá-lo melhor. Maman tinha uma memória superada somente pela de Aimee.

   —Não senti nada, Maman. Desculpe-me.

   Maman produziu um som grave, de desgosto, com a garganta enquanto entrava no quarto fechando a porta.

   Aimee se levantou, dando espaço na cama para que sua mãe pudesse sentar-se junto a ela, e deixou o livro na mesinha de noite tomando cuidado de não perder a página. Reuniu-se com o outro clã de ursos pela tarde, tão otimista como sempre.

   E como todas às vezes anteriores…

   Nada.

   —Tentei-o, Maman. Juro-te que o fiz, é somente que… —Suspirou aflita ao recordar o olhar espectador no rosto extremamente bonito de Randy. Ele tinha querido que ela o aceitasse, tanto como ela mesma, mas foi seguido por outro olhar de desilusão extrema quando Aimee negou com a cabeça. Não havia sentido nada pelo outro urso.

   Absolutamente nada.

   —Possivelmente senti a excitação mas simplesmente não a notei.

   Maman riu pelo baixo.

   —Não, ma petite. Não há forma de confundir a sensação. Cada parte dentro de ti desperta e se aviva. Atravessa-te o corpo como fogo. A urgência de emparelhar-te é tão intensa que pouco podes fazer para lutar contra ela. É uma necessidade que consome tudo.

   Aimee afastou o olhar quando uma onda de terror a açoitou. O único homem pelo qual havia sentido isso…

   Era um lobo.

   —Devo comunicar ao seu Regis que não estás interessada. De qualquer maneira, eles podem solicitar uma prova de emparelhamento.

   Aimee se horrorizou ante a idéia de deitar-se com um homem ao qual não conhecia, um pelo qual não sentia desejo.

   —Randy é atraente, mas…

   —Mas o que?

   Não quero me deitar com ele. Mas havia mais que isso. Ela ademais guardava um amargo segredo que não se atrevia a compartilhar com ninguém.

   Aimee mordeu o lábio, temerosa de dizer a sua mãe a verdade.

   Sou Arcadiana…

   Tentou com todas suas forças pronunciar essas palavras em voz alta. Levava anos tentando dizê-las. Mas uma vez mais, afogou-se com elas. Sua mãe ficaria arrasada para ouvir a verdade. Aimee nasceu Katagaria, assim como sua mãe. Entretanto durante a puberdade, converteu-se em Arcadiana, como seu pai.

   Era seu segredo mais guardado. Absolutamente ninguém conhecia a verdade de sua forma básica.

   Ninguém.

   Sendo ao caso, ninguém, fora da família imediata, sabia que Papai Urso Peltier era um Arcadiano. O escândalo conseguinte tinha deixado marcada a sua mãe, entretanto Maman havia se emparelhado com ele para assim poder ter os cachorrinhos que sempre tinha desejado. Para poder seguir mantendo o assento dos Peltier no Omegrión, assento ocupado pela linha de sua mãe desde o primeiro dia.

   Era o animal em sua mãe quem a impulsionava a emparelhar-se e procriar.

   Mas a orgulhosa parte humana nela se ressentia.

   Sua mãe se inclinou para ela.

   —Estás a ponto de entrar novamente no cio. Por décadas rejeitaste pretendentes. Já é hora…

   —Maman, por favor. Conheço minhas obrigações. — E as conhecia. O problema era que os ursos são diferentes dos outros animais. Ainda em época de cio, a fêmea escolhe ao macho. Se ele não a atraía, se não a conquistava, não havia sexo e por conseguinte nenhuma oportunidade de emparelhamento.

   Se não se emparelhavam, não poderia haver cachorrinhos.

   A ilustre linhagem de sua mãe morreria e outro clã ocuparia o lugar dos Peltier no Omegrión, outra razão pela qual sua família era incrivelmente superprotetora com ela. Se Aimee conseguia emparelhar-se com um urso Katagari, então haveria uma oportunidade de que tivesse uma filha Katagari que poderia tomar o lugar de sua mãe no Omegrión, quando Maman fora muito velha para essas obrigações. Então ninguém teria que saber a verdade a respeito de Aimee.

   Era a única esperança que tinham e todo o peso dessa responsabilidade nunca abandonava completamente seus pensamentos.

   —Seguirei tentando.

   Maman assentiu.

   —Teremos mais Katagaria aqui amanhã. Este é um clã proveniente do Canadá. Têm dúzias de machos para que os examines. Rogo para que encontres digno ao menos um deles.

   Também Aimee.

   —Farei meu maior esforço.

   Maman inclinou a cabeça, assentindo.

   —É tudo o que te peço. —Levantando-se da cama, dirigiu-se à porta e saiu.

   Aimee passava as páginas de seu livro enquanto os pensamentos corriam por sua cabeça. O que ia fazer?

   Não é culpa tua. Sua mãe se emparelhou com um Arcadiano. Ninguém podia evitá-lo. Dev, Remi, Cody e Kyle eram todos Arcadiann e sua mãe sabia, e ainda assim os amava apesar de suas formas básicas. De acordo, sua mãe estava em negação respeito a isto, mas eles nunca o tinham ocultado.

   Só ao resto do mundo.

   É tua mãe. Nunca te faria mal.

   Isso não era de todo certo. Sua mãe era uma ursa, com todos os instintos de um urso. Para proteger sua toca, sua mãe mataria a qualquer um deles que ameaçasse sua segurança e bem-estar. Era a natureza de sua espécie.

   Aimee nunca se permitia esquecê-lo. Sua mãe tinha mais compaixão que qualquer um, mas quando Maman odiava a alguém, como no caso de Wren, não havia forma de raciocinar com ela. Uma vez que Nicolette se aferrava a uma idéia, nada podia dissuadi-la.

   E isso era na verdade aterrador.

   —O que vou fazer?

   Te emparelharás com um desses ursos amanhã e rogarás aos deuses que esse um te produza as marcas de emparelhamento.

   Era sua única esperança.

   Do contrário…

   Não, nem sequer podia contemplar isso. A sobrevivência de seu clã era a única coisa que importava. Por cima de sua própria felicidade e, ainda mais, por cima de sua própria vida.

   Emparelharia-se com um urso Katagari embora fora à vida nisso.

 

   —Fang?

   Fang congelou quando escutou a sedutora voz da que tinha que ser a mais sexy wolfswan de sua manada. Petra. Alta, sensual e voluptuosa, revolvia os hormônios de cada lobo que a via. Ele nunca tinha sido uma exceção.

   Até esta noite.

   Franziu o cenho quando ela cortou a distância entre eles e se esfregou ao seu lado. Alcançando-o tomou um punhado de seu cabelo e puxou-o.

   Ela ronronou em seu ouvido.

   —Estou no cio, bebê. Queres me dar uma mão?

   Era uma pergunta capciosa ou o que? Fang fuçou sua cara contra seu pescoço, inalando sua essência. Normalmente isso teria sido mais que suficiente para incendiar sua luxúria até o ponto no qual seria mais que capaz de agradá-la.

   Vamos, corpo, acorda.

   Mas só se revolveu um pouco.

   Que diabos?

   Ela se agachou para embalá-lo como uma profissional.

   —Algo vai errado?

   —Não.

   Ela se retirou para lhe fazer uma careta quando não ficou duro imediatamente.

   —Não te emparelhaste, verdade? —Essa seria a hipótese natural dado que desde o momento que um lobo se emparelhava somente poderia ser atraído por seu par feminino e nunca mais por outra. Algo que na verdade cheirava mal. Isso era o por que não tinha nenhuma pressa em encontrar par. Parecia-se muito a comer o mesmo jantar a cada noite. Quem o quereria?

   Ela puxou suas mãos, procurando a marca que sempre os assinalava quando as Destinos tinham escolhido sua outra parte. Era uma marca que sempre aparecia em suas palmas depois que tivessem tido sexo.

   O problema era que ele não havia tocado a ninguém nas últimas três semanas. Não desde que tinha visto Aimee.

   Afastou as mãos dela.

   —Não estou emparelhado.

   O alívio aliviou sua expressão enquanto alcançava sua braguilha.

   —Então o que estás esperando?

   Inspiração… e uma ereção definitivamente ajudaria. Se pênis se moveu quando ela o roçou com suas unhas, mas não fez nada mais que isso. Nem sequer estava ajudando seu manuseio.

   Fang a beijou e ela o atacou.

   Entretanto estava frio. Vazio. Onde estava o fogo usual que sentia? A necessidade de impulsionar-se dentro dela.

   Ele só sentia…

   Nada.

   Ela afundou sua mão mais para dentro de suas calças para tomá-lo enquanto respirava em sua orelha. Isso enviou calafrios sobre ele, mas ainda não tinha desejos de tocá-la.

   Mordiscando com força sua orelha, retirou-se com uma maldição e lhe golpeou o peito com seus punhos.

   —O que está errado contigo?

   Fang a olhou inexpressivamente, desejando ter uma resposta. Em lugar disso só podia pensar em uma coisa.

   —Parvo[2].

   Ela enrugou seu rosto em desgosto.

   —Parvo, meu traseiro. Vamos Fang. Não quero me emparelhar com o resto destes perdedores, tu és o único ao quel quero.

   —A mente está de acordo contigo, bebê, mas o corpo…

   Ela o esbofeteou. Com força.

   —Fedes!

   Fang limpou o sangue dos lábios com uma careta. Esse era o problema maior com as wolfswans[3]. Quando seus hormônios tinham o controle, eram umas cadelas brutais. Agora que o pensava, a última vez que tinham tido sexo, Petra o tinha mordido tão forte no ombro que sangrou. Inclusive tinha uma cicatriz permanente disso.

   Agarrou-lhe o cabelo e o beijou de novo.

   Agora com sua própria raiva estalando, empurrou-a para trás.

   —Vá esbofetear a alguém mais. Esta noite não estou de humor para ser mordido nem arranhado.

   Ela lhe puxou o cabelo o suficientemente forte para lhe arrancar um punhado.

   —Isso parece. Tu terias SPM quando eu estou no cio. —Ela lhe grunhiu—. Bem, irei procurar a Fury.

   E pode que vos emparelheis por toda a eternidade…

   No inferno.

   Isso era o que mereciam. Esfregando os lábios, que ainda lhe ardiam pelo golpe, fechou a calça e se afundou na terra. Recostou-se sobre as costas para ver o escuro céu, tratando de encontrar algum tipo de consolo.

   Escutou uma briga no acampamento onde Petra devia ter espalhado sua essência por aí para incitar aos outros. O mais provável é que lutariam e o ganhador a tomaria.

   Mas satisfazer a uma loba no cio não era algo fácil. Estava acostumado a tomar toda uma noite e algumas vezes outros dois ou três seriam necessários para saciá-la. É obvio que tudo isso mudava uma vez que a fêmea se emparelhava. Então estava fora dos limites de todos à exceção de seu macho eleito.

   Fang não poderia acreditar que a tivesse rechaçado. Inclusive hostil e hormonal, era uma peça fina de…

   —Que diabos me acontece?

   Possivelmente se tinha parvo ou raiva. Poderia um Were-hunter ter isso? Nunca tinha ouvido falar de alguém que a contraíra, mas…

   Algo devia estar seriamente errado com ele. A essência de uma excelente fêmea no cio nunca tinha falhado antes em estimulá-lo. Deveria estar aí nesse mesmo instante, chutando e arranhando para ser o único que a montasse.

   Mas enquanto o considerava, seus pensamentos mudaram para Aimee. A maneira em que se via lhe trazendo comida onde tinha estado sentado perto das bicicletas. A forma em que sua jaqueta a tinha envolvido completamente enquanto a usava e lhe sorria.

   Tinha sido formosa e amável. Generosa e doce. Inclusive quando tinha gritado com ele tinha sido…

   Bingo. Agora estava duro como uma rocha.

   Fang deixou sair um suspiro agradecido. Graças aos deuses. Ao menos não estava arruinado. Ainda funcionava.

   Só que não por Petra.

   Esse pensamento o pôs fisicamente mal. Oh gah, estava melhor tendo Parvo.

   —O que estás fazendo aqui?

   Inclinou para trás a cabeça para ver Vane parado a uns passos dele, parecendo desconcertado pela pose de Fang.

   —Nada.

   —Por que não estás com Petra?

   —Por que não o estás tu?

   Vane se sentou ao seu lado.

   —Não a suporto. Aranha como um gato. Como seja, isso nunca deteve antes a ti.

   Fang deu de ombros enquanto escondia suas mãos debaixo de sua cabeça.

   —Há mais na vida que o sexo.

   Vane lhe franziu o cenho.

   —Quem és e o que tens feito com meu irmão?

   Fang lhe deu um olhar curioso.

   —Não sejas imbecil.

   —Está bem. Deixarei-te sozinho. Mas agora a sério, estás bem?

   —Quando estive bem?

   Vane riu.

   —Bom ponto. Sigo pensando que te vem desde que Anya te empurrou costa abaixo por aquele barranco quando eras um cachorrinho, isso te fodeu para toda a vida.

   —Pensei que vinha de ti sempre dormindo em minha cabeça quando éramos cachorrinhos. Anos de falta de oxigênio de noite passam fatura.

   Vane riu.

   —É, provavelmente matei aos seis neurônios de teu cérebro incluso antes que alcançasses a puberdade.

   —Provavelmente. Explica muito, não é assim?

   Com sua expressão sóbria, Vane ficou de pé.

     —Por certo, escutei Markus na outra noite, estava falando a respeito de nos substituir como seus herdeiros.

   Não era grande surpresa dado seu ódio por eles. Mas mesmo assim, no passado Markus sempre tinha sido cuidadoso a respeito de separar o clã com um enfrentamento total.

   —Por que?

   —Porque nenhum de nós se emparelhou. Pensa que é um sinal de que não podemos. Que somos geneticamente deficientes e portanto indignos de ser Regis.

   Fang sentia o calor da ira precipitando-se através dele. Odiava ao seu pai com uma paixão tão forte que não estava seguro de como se agüentava de arremeter.

   —Na verdade desejo que me tivesses deixado desafiá-lo. Assim veria que tão geneticamente deficiente não… sou.

   —Não te incomodes tanto. Olhe o lado bom, ao menos não somos impotentes.

   Possivelmente Vane não o era, mas Fang…

   —Pequeno consolo —Fang se queixou enquanto se recusava a pensar em Aimee sustentando-o—. Provar seu sangue. Como seja, ao final não me acalmaria nada. —Moveu sua cabeça para ficar mais cômodo—. Assim a quem está procurando como nosso substituito?

   —A Stefan quem mais?

   Só ia de melhor a melhor. Por que se incomodou em perguntar? Devia ter sabido a resposta.

   —Estou seguro de que Stefan não defende nossa causa.

   —Nop.

   —Um dia vou rasgar sua garganta e tu não estarás aí para me deter.

   Vane se congelou quando escutou a crua intenção no tom de Fang. E a angústia. Sabia que era difícil para seu irmão refrear sua fúria. Que era difícil para Fang retirar-se e ser seu subordinado ou de qualquer outra pessoa.

   Ia contra tudo no código genético de Fang. E o fazia perguntar-se como teria sido Fang se Vane não tivesse mudado para Arcadiano durante a puberdade.

   Deuses, que espantoso tinha sido isso, tinha-lhe levado semanas para entender o que estava acontecendo ao seu corpo, e logo uma vez que esteve seguro…

   Dizer a Fang tinha sido o mais difícil de tudo. Inclusive embora tivessem sido irmãos de ninhada uma parte dele tinha temido que seu irmão o atacasse e o matasse por isso. Quem o teria culpado? Os Arcadianos sempre estavam atacando-os.

   E tinham matado à única mulher pela qual Fang se preocupou.

   Em troca Fang o tinha aceitado com calma e prometeu sua eterna proteção. Leal como um lobo… e um irmão… até o final.

   Era uma proteção que nunca duvidou. Fang tratou de ocultar a Vane, mas não era estúpido. Sabia quantas vezes seu irmão se manteve acordado nas noites, protegendo seu segredo. Quantas vezes Fang se afastou de uma luta mesmo quando fazê-lo o irritava, de maneira que Vane não fora questionado ou descoberto.

   Ele era a debilidade de seu irmão e se odiava por isso.

   —Sinto muito, Fang.

   —Por que?

   Por tudo. Por privá-lo de seus direitos de nascimento. Privá-lo de sua capacidade de desafiar a Stefan e a Markus.

   Sobretudo estava arrependido de que seu irmão não tivesse idéia do respeito que tinha por ele. Mas não estava em suas naturezas falar de algo assim.

   —Por ser o espinho em teu traseiro que te impede de desafiá-lo.

   Fang voltou a elevar a vista para o céu escuro.

   —Não te preocupes por isso. É o que é.

   Possivelmente, mas a verdadeira pergunta era, o que teria acontecido se Vane não tivesse estado ao redor para detê-lo? Mas como Fang havia dito, era o que era. Não houve mudanças no fato de que ele era humano e seu irmão lobo.

   Suspirando, dirigiu-se para sua irmã.

   Fang não se moveu até que Vane se foi. Recostou-se aí escutando os sons dos insetos e dos lobos enquanto olhava o céu em cima dele. Os Dark-Hunters os tinham advertido hoje mais cedo de que havia uma manada inimiga de lobos Arcadianos na cidade e um grupo de Daimons que poderia estar procurando estender a duração de suas vidas comendo um par de lobos. Suas fêmeas prenhes eram a principal isca dos Daimons.

   Mas Fang não lhes temia. Podia se manter numa luta e compadecia ao suficientemente estúpido que o desafiasse.

   Se só seu pai e Stefan conseguissem feridas na cabeça que os fizessem mais entupidos que o normal. Oh, combater-lhes…

   Fechando os olhos retornou a sua forma de lobo. Isto era o que necessitava, a única coisa que o confortava.

   Mas enquanto se recostava aí, pensou em algo mais que o confortava.

   A essência e o sabor de uma ursa etérea.

   Tire-a de teus pensamentos. Estava proibida como algo poderia sê-lo, seu pai o odiava o suficiente. Se alguma vez averiguasse que estava excitado por uma ursa…

   Convocariam uma caça e ele seria assassinado.

  

Aimee se deteve frente à porta de Carson, reunindo coragem. Embora tinha passado um mês desde a última vez em que viu os lobos, ela ainda não podia tirar a essência e o gosto de Fang de sua mente e seus pensamentos. Era como se de algum modo a tivesse marcado.

   Essa era a parte mais irritante de tudo.

   Desde então, já lhe haviam dito três vezes “Aimee, deves encontrar um brinquedo sexual”. Infelizmente, nenhum dos Ursos lhe tinha feito sentir nada, nem repulsão nem aversão. Estava completamente intumescida a respeito deles.

   Com todos eles.

   O que ia de errado com ela?

   Precisava falar com alguém e não podia fazê-lo com ninguém de sua extensa família por medo de que se inteirassem seus pais. Sua mãe poderia matá-la, mutilá-la e isso não seria nada agradável.

   Mas Aimee queria entender que estava de errado com ela. Por que não podia encontrar um urso com quem se emparelhar? E sobretudo, por que tinha esses pensamentos com o único homem inaceitável do planeta?

   —Aimee?

   Amaldiçoou em silêncio ao escutar a profunda voz de Carson ao outro lado da porta. Como tinha esquecido aquele poder? Ele sabia em qualquer momento quem estava perto de seu escritório.

   Não podia seguir indecisa.

   Ao agarrar o touro pelos chifres…

   Tomou ar e abriu a porta, viu-o sentado frente a seu escritório com um expediente aberto escrevendo algumas nota.

   Alto e musculoso, quase poderia passar por um urso. Mas Carson era um Falcão Arcadiano, com seu cabelo negro e seus traços rendendo homenagem à herança nativa americana de seu pai.

   Seus traços se abrandaram com afeto paternal ao vê-la, o que era cômico, já que ela era cem anos mais velha que ele, embora ela parecesse mais jovem.

   —Passa algo de errado?

   Sacudiu a cabeça enquanto fechava a porta atrás dela.

   —Tens um segundo?

   —Para ti, sempre.

   Ela lhe ofereceu um sorriso sincero em resposta. Eles tinham sido amigos desde que tinha perguntado a Maman sobre fundar uma clínica em sua casa há mais de sessenta anos. Foi a melhor decisão que tomaram. Não só era o melhor médico veterinário que alguma vez tinha visto, era um aliado vital e um amigo no qual todos eles podiam confiar.

   Carson aproximou uma cadeira para ela ao seu lado. Deixando sua pluma, inclinou-se para trás e entrelaçou seus dedos sobre o estômago.

   —O que é que acontece?

   Aimee se sentou e tratou de pôr em ordem seus pensamentos e preocupações.

   —Estive me perguntando uma coisa.

   Ele arqueou uma sobrancelha, ao vê-la vacilar.

   —É um problema feminino? Quer que chame Margie? Talvez com ela não se sinta tão envergonhada. Aimee, sabes que como medico podes me dizer o que seja. Não posso ser uma mulher, mas entendo seus corpos e seus problemas.

   O calor se precipitou até seu rosto. Como se fora justo o que ela necessitasse… um humano para lhe dar conselho sobre seus sentidos de animal. Margie era bastante agradável, mas não conhecia nada sobre rituais de emparelhamento.

   —Não, não é nada disso. É somente que…

   Quero me lançar sobre um lobo enquanto nos deitamos e não sei porquê.

   Por que era tão difícil para ela?

   Por que queres te lançar em cima de um lobo e se alguém se inteira estás frita.

   Era bastante certo, mas tinha que se dirigir a Carson e averiguar se isto era um capricho de sua parte ou sim havia algum precedente em sua espécie do qual ela não sabia. Algo para sentir-se um pouco mais “normal”, ao menos tão normal como uma Were ursa com poderes poderia sê-lo.

   Vamos, ao objetivo. Só diga-o.

   —É relacionado à inter espécie.

   Carson curvou as sobrancelhas.

   —Tens medo de me insultar?

   —Não… ao menos, espero que não.

   Nem sequer havia pensando no fato de que Carson era metade humano e metade Arcadiano.

   —Estou tratando de entender como funciona. Quero dizer, entendo que em teu caso tens um pai humano e o outro Arcadiano… é quase uma atração natural entre duas pessoas. A maior parte do tempo o humano não tem nem idéia de que o outro não é humano, sobretudo agora que as pessoas tendem a sentir uma atração pouco natural para conosco. Isso o entendo. O que me tem um pouco confusa são os gostos dos pais de Wren. Por que um leopardo da neve ia quereri um tigre por companheiro ou um Katagaria a um humano?

   Essa era a maneira de obter uma resposta, sem dizer realmente a razão de sua pergunta.

   Carson considerou sua resposta cuidadosamente.

   —Honestamente?

   Ela assentiu.

   —Ninguém sabe realmente. Há infinidade de especulações a respeito de algum defeito no DNA. Talvez um gene defeituoso, não sei. O mesmo tipo de coisa que faz a um humano ansiar a companheiros inadequados. Mas…

   O olhou para o horizonte. Legal, tinha um defeito de nascimento.

   —Mas?

   Incitou-o a continuar, queria inteirar-se se havia outra explicação que não tivesse a ver com que estivesse cromossomicamente estragada.

   —Pessoalmente me pergunto se não é algo que as Destinos nos fazem como a continuação de um castigo.

   —O que queres dizer?

   —Muito bem, observa a Wren. Independentemente de quem seja sua companheira, seja humana ou Were-Hunter, o mais provável é que ele seja estéril. No momento em que um Katagaria, seja macho ou fêmea, emparelha-se com um humano, não há possibilidade de gerar origem. Inclusive eu como Arcadiano, tenho menos possibilidade de gerar crianças porque meu pai era humano. Penso que é uma forma em que as Destinos hão encontrado para matar a nossa espécie.

   Aimee não tinha pensado nisso. Tão cruéis poderiam ser realmente as três deusas?

   Então outra vez…

   —Isso teria sentido de um modo muito retorcido… que poderia coincidir com o presente das Destinos.

   Carson assentiu.

   —Exatamente. Isso explicaria por que é tão comum que nossos companheiros não fossem da mesma espécie. Talvez por isso há tantos Katagarias e Arcadianos juntos. Os Destinos esperam que as mulheres rejeitem aos homens e logo ambos sejam abandonados e estéreis para o resto de suas vidas. Realmente é cruel. —Sim, era-o.

   Mas seguia sem explicar sua atração por Fang.

   —Escutaste alguma vez de algum emparelhamento totalmente fora de espécies?

   —A que te referes?

   —Como no caso de Wren, seus pais não eram da mesma espécie, mas ambos eram gatos. Escutou-se em algum momento que por exemplo um lobo quisesse por companheiro a um falcão ou a um dragão?

   Ou em seu caso, um urso.

   Clareou-se a garganta antes de perguntar a parte mais importante.

   —Especialmente se um deles é Arcadiano e o outro Katagaria?

   Carson franziu o cenho ante a pergunta, como se fora algo totalmente absurdo.

   —Não, nunca aconteceu isso. Ao menos não que eu me tenha informado. Deuses, não posso imaginar nada pior que isso. E tu?

   Em realidade, sim, ela poderia assinalar muitas coisas de fato. Mas não o diria em voz alta e arriscar que ele o contasse a sua mãe.

   —Horripilante ao extremo.

   E ela realmente o pensava assim. Como podia sequer pensar em tocar a Fang? Como Carson havia dito, era antinatural e incorreto. Isso desafiava tudo o que ela sabia de sua gente e suas tradições. Tudo.

   Se pudesse tirá-lo de sua mente. Fang tinha entrado em seus pensamentos como uma luz que a atraía e se havia abandonou indefesa a desenhar fantasias com ele. Inclusive agora, uma parte dela queria caçar para ele.

   Estou tão mal.

   Quando Aimee estava se levantando, sentiu uma chicotada de dor na cabeça.

   Carson se inclinou para frente preocupado, ao ver sua cara de agonia.

   —Estás bem?

   Uma imagem de Wren veio até ela. Podia vê-lo lá fora, rodeado por um grupo ao qual ela odiava.

   —Wren está com problemas.

   Carson a olhou com desconfiança.

   —Está lá embaixo limpando mesas. Como poderia estar com problemas?

   Aimee sacudiu a cabeça enquanto as imagens dele sendo golpeado lhe chegavam com absoluta claridade. Por causa de sua próxima amizade, quase podia sentir os golpes.

   —Não está dentro do clube.

   Sem uma palavra mais a Carson, dirigiu-se ao beco na parte traseira do clube onde estavam os contêineres de lixo.

   Tal e como o tinha visto em sua mente, Wren estava ali, rodeado por um grupo de lobos. Era um grupo Arcadiano que levava mais tempo que os ursos em Nova Orleans. Seu líder, Stone, brigava com seu clã desde que ela tinha chegado à puberdade.

 Todos odiaram ao pequeno idiota.

   Havia algo sobre ele que a incomodava como um pequeno roce. Ele e sua esquadrilha de valentões esperavam para saltar sobre qualquer Were-Hunter que chegasse ao Santuário e se era Katagarian melhor ainda. Não tinha nem idéia do porquê eram tão agressivos, e não havia nenhuma desculpa em seu comportamento.

   Wren tratava de manter sua forma humana, mas a dor da surra mais o fato de encontrar-se no meio de sua puberdade, fazia com que seguisse mudando de humano nu a tigre e a leopardo intermitentemente. Estava coberto de machucados e mordidas.

   A fúria a percorreu e com sede de vingança correu para os lobos.

   —O que estão fazendo? Fora daqui!

   Eles se viraram para ela. Stone, que era uma cabeça mais alto que ela e duas vezes sua largura, agarrou-a e a empurrou contra a parede.

   —Não estás dentro do clube menina. A proteção do Santuário não existe aqui fora. Não te metas nisto ou sairás machucada.

   Wren lançou um grunhido, mas não representava nenhuma provocação para eles. Não enquanto não pudesse controlar seus poderes.

   Essa imagem a desgostou.

   —Se essa são minhas únicas opções… escolho ser machucada.

   Lançou uma cabeçada a Stone e lhe deu chutes por trás, logo correu para Wren para ajudá-lo a ficar de pé. Algo que teria sido mais fácil se deixasse de mudar de humano a gato grande e pesado.

   —Podes caminhar? —perguntou-lhe em um ofego tratando de levantar seu corpo.

   —Estou-o tentando.

   —Podes te cintilar dentro do clube?

   Ela se congelou ao escutar a profunda voz de Fang em seu ouvido. Ao levantar o olhar, viu-o em sua forma humana. Com o coração palpitando, fez o que ele tinha perguntado, rezando para que os poderes incontroláveis de Wren não interferissem com seu salto.

   Fang se virou enfrentando aos Arcadianos que o olharam fixamente com incredulidade.

   —Vá, vá —disse seu líder em tom satisfeito—. O que temos aqui? Um pedaço de lixo Katagaria que procurou refúgio com os ursos?

   Fang lhe ofereceu seu melhor sorriso come-merda desenhado para zangá-lo.

   —Não, só um lobo que vai chutar teu traseiro de volta ao buraco de onde saiste.

   Stone se burlou dele.

   —E pensas fazê-lo sozinho? Para ser um animal, tens uma grande opinião de ti mesmo? —Fang sacudiu a cabeça.

   —Ah, por favor. Acredite-me, tratando-se de um covarde como tu que golpeias a um menino para sentir-se poderoso, não necessito de ajuda.

   Atacaram-no. Fang se converteu em lobo e atacou a garganta do líder e o atirou ao chão. Teria atacado mais, mas viu como um dos outros tirava um Taser. Quando o Arcadiano disparou, Fang salto longe do caminho. A descarga golpeou ao líder, lhe fazendo soltar uma maldição.

   Fang golpeou as pernas de outro, antes que pudessem atacá-lo, Dev e seus irmãos estavam ali como reforço. Não é que os necessitasse, mas…

   Os Arcadianos se dispersaram como em um pátio de recreio, intimidados ante a vista de diretor.

   Fang se manifestou em sua forma humana e burlou de sua fuga.

   —Sim, será melhor que corram para casa com sua mãe. Se esconder sob sua saia até que cresçam um pouco mais e tenham suficientes bolas para lutar.

   Dev agarrou ao que estava ainda atirado no chão.

   —Stoooone —lhe disse, estendendo seu nome em um tom mortal—. Quantas vezes devemos te dizer que não podes vir aqui?

   Mas era difícil agarrá-lo, já que Stone seguia mudando de humano a lobo intermitentemente.

   —O tigre começou —grunhiu Stone uns dez segundos e meio enquanto foi humano. Dev soprou.

   —Isso duvido. Wren se mantém afastado a menos que o provoquem. Quanto a ti? —Um parecido a Dev, mas com rabo-de-cavalo disse a Fang—. O que estás fazendo aqui?

   Fang entrecerrou os olhos ante o tom do urso.

   —Para trás, urso Grizzly Adams. Não tenho por que te responder.

   —Deixe-o em paz, Remi —Gritou Aimee aproximando-se deles—. Ele me ajudou distraindo-os enquanto eu conseguia pegar Wren e lhes enviar para fora para que brigassem com Stone.

   Fang passou com um arrogante desprezo que certamente a Remi não tinha causado graça, centrou sua atenção em Aimee. Reteve o fôlego ao vê-la vestida com uma simples camiseta e uns jeans. Seu cabelo loiro estava desordenado caindo sobre os olhos.

   Cada parte dele cobrou vida.

   Ela nem sequer se virou para olhá-lo, toda sua atenção estava em Stone.

   Remi se inclinou para ela para agarrá-la.

   —Sente-se, irmãzinha.

   Aimee lutou contra seu agarrão.

   —Que sente-se, que nada. Viu o que fez a Wren? Quero arrancar um pedaço de sua pele.

   Stone lhe lançou um olhar enojado.

   —É um animal, como tu. Não merece nada melhor que ser posto sobre uma parede.

   Aimee chutou a Stone, mas por cortesia de Remi, seu pé não o encontrou de novo.

   —És repugnante! Se tu és o ideal da humanidade, prefiro ser um animal —olhou a Dev fazendo uma careta com os lábios—. Tens razão, odeio aos lobos. São a espécie mais repulsiva que conheci. Não entendo por que Lycaon os escolheu como filhos. Penso que deveriam ser devolvidos e executados. Cães asquerosos! Todos vocês!

   Impressionado, Fang sentiu suas palavras como um golpe a seu estômago. “Cão”, era o pior insulto que poderiam dizer a um lobo. Era a comparação de um animal açoitado cuja função é obedecer ao seu amo. Um estúpido sem poder, sem dignidade e nenhum sentido.

   Mas não eram as palavras que ela havia dito, e sim o sincero ódio que apoiava àquelas palavras, que cortavam o mais profundo da alma.

   Ela era igual aos outros que odiavam a sua espécie e isso era pelo qual os lobos faziam todo o possível para evitar outros ramos de sua espécie. Agora entendia por que de todas as espécies diferentes de Weres que viviam sob o teto dos Peltier, nenhum deles eram lobos.

   Assegurando-se de manter tranqüila sua voz, Fang deu um passo adiante.

   —Para que conste, há uma diferença muito grande entre um cão e um lobo. A principal é que nós não somos menos que outros. Nunca.

   Aimee ficou gelada ao recordar a presença de Fang. Congelou-se nos braços de Remi sentindo a pena rasgar através dela. Como tinha podido esquecer que estava aí?

   Deu-se à volta e viu a angústia oculta por trás de uma expressão impassível. Sentiu um ardor em seus olhos.

   —Fang.

   Ele desapareceu antes que ela pudesse terminar uma desculpa.

   Aimee amaldiçoou. Como tinha podido ser tão estúpida?

   O problema era que ela não o incluía na mesma categoria que a Stone e seu bando. Até que tinha conhecido a Fang e seu clã, Stone era ao único lobo que ela tinha conhecido alguma vez.

   Remi lhe perguntou enquanto Dev levava dentro a Stone.

   —Achas que feristes seus sentimentos, hum?

   Aimee mordeu a língua para não lhe dizer que se calasse.

   Não posso deixar isso assim…

   Sem uma palavra a seus irmãos, fechou seus olhos e dividiu as áreas em busca de Fang. Não estava com seu clã ou seu irmão, manifestou-se ao final da rua Bourbon onde se sentou parecendo tão doente como ela se sentia.

   Que estranho…

   Fang se sentou sozinho, fora de uma casa, com toda a fúria o dano e o ódio que lhe estavam queimando profundamente o estomago. Deveria ir para casa.

   Sim, claro…

   Vane era tão volúvel como um Gêmeos adolescente durante seu período, depois de ter conhecido a humana que agora lhe obcecava não era o mesmo. Anya não sabia nada de seu companheiro e Petra sempre assobiava e grunhia cada vez que o via. Simplesmente, tinha estado vagando ao redor do French Quarter, tratando de conseguir o que seria sua última guarida.

   De algum modo tinha encontrado o caminho de volta ao Santuário.

   Não, não era “de algum modo”. Tinha ido procurando algo que sabia que não deveria procurar.

   Aimee. Tudo o que queria era vê-la uma vez mais. Havia dito que com isso bastaria para aliviar a dor que tinha por dentro. Somente um momento para vê-la e estaria satisfeito.

   Soltou o fôlego muito cansado. O que tinha esperado realmente? Que Aimee se atirasse em seus braços, despisse-o completamente e fizesse amor com ele?

   Ela é um urso.

   Tu és um lobo.

   Não, segundo ela, era um cão asqueroso que deveria ser devolvido e executado.

   —Fang?

   Elevou a vista para a gentil voz, para vê-la aparecer na rua diante dele.

   —Como me encontraste?

   Aimee fez uma pausa ante o tom hostil.

   —Seu cheiro —mentiu, não queria lhe falar sobre seus poderes.

   —Não deixo cheiro. Sei melhor que ninguém —ela sacudiu a cabeça em um gesto de negação.

   —Tu deixas um cheiro —talvez quando a tinha beijado deixou sua essência como uma marca.

   —Como seja —se levantou—. Olhe, não preciso de mais insultos de ti nem de ninguém mais. Já ultrapassei minha cota do dia. Assim me deixe só e vá embora.

   Ela o agarrou pela manga da jaqueta para detê-lo.

   —Não quis dizer o que disse.

   —Não insultes minha inteligência. Não sou um cão e captei perfeitamente a sinceridade em teu tom de voz. Quiseste dizer cada palavra que disseste.

   Ela ficou rígida, começava a zangar-se.

   —Muito bem, então quis dizer o que disse. Reclame comigo, mas tudo foi dirigido ao covarde do Stone e seus valentões. Nem sequer pensei em te incluir dentro dessa categoria.

   Sim, claro. Quão estúpido acreditava que era?

   —Não acredito em ti.

   Aimee queria gritar de frustração. Mas se algo sabia dos homens teimosos… era que não havia forma de fazê-los mudar de opinião.

   —Bem. Não acredites em mim então —soltou sua manga e levantou suas mãos em gesto de rendição— Nem sequer sei por que me incomodo.

   —E por que te incomodas? —aproximou-se dela, tão perto que ela se sentiu tonta, o que realmente queria era estar entre seus braços e senti-lo.

   O cheiro de sua pele encheu sua cabeça, podia sentir o calor de seu corpo…

   Cada parte dela chispava. Não havia outra palavra para defini-lo. Maman tinha razão, era uma sensação que não podia confundir. Isto era o que se supõe que tinha que sentir ao encontrar ao seu companheiro. Esta sensação tão evasiva que tinha estado tentando experimentar com sua espécie.

   E Fang era o único que a fazia sentir assim.

   Maldição.

   Apertou os dentes antes de responder.

   —Não queria que estiveras irritado comigo.

   —Por que não?

   —Não sei —mas sim sabia e isso era o mais triste de tudo. Ela o queria.

   Queria tudo dele.

   Ia tocá-la. Aimee não se moveu esperando aquele toque. Necessitando-o.

   Mas não podia. Isto é tão incorreto…

   Isto poderia destruir as pessoas que lhe importavam. A todos aos quais amava.

   Mordendo o lábio deu um passo para trás.

   —Tenho que voltar e ver se Wren está bem, não se sente cômodo com outras pessoas ou animais ao redor.

   —Eu tampouco.

   Engoliu com força e desapareceu.

   Fang ficou na escuridão, saboreando os últimos remanescentes de seu cheiro, queria uivar por isso.

   Mais que tudo, queria detectá-la, saborear cada polegada de seu corpo e aliviar a dor que sentia por dentro.

   Concentrou-se em sua respiração para tomar o controle e não persegui-la depois. Mas lhe tinha deixado claro que estava proibida para ele.

   E honraria sua decisão. Inclusive se isto o matava.

   Olhando o vulto em suas calças, pensando que o resultado não fora tão exagerado.

 Stone foi capturado pelos ursos… outra vez.

   Eli Blakemore levantou a vista do livro que estava lendo, algo ameaçava ao seu segundo filho na linha de sucessão na hierarquia. Qual era seu nome? David? Davis? Donald? Dreack?

   Isso não importava. Era inferior de qualquer modo. Não era de sua linhagem, Arcadiana, vinha de algum Apolita desconhecido com o qual um ancestral de Eli esteve experimentando.

   A linhagem de Eli vinha diretamente do mesmo rei Arcadiano, do filho mais velho do rei, nada mais e nada menos. Aquela distinção tinha sido imposta desde o momento de seu nascimento. Seu dever sagrado era mostrar aos plebeus como se comportar e vigiar a esses animais de seu antepassado que deveriam havê-los matado no momento em que foram criados.

   E seriam condenados se esse grupo Katagarian se atrevesse a tocar ao seu ilustre filho.

   Ficando de pé, e deixando o livro com uma calma que não sentia.

   —Varyk, voltou já para casa? —o lobo engoliu seco de forma audível.

   —Varyk?

   Eli lhe ofereceu um sorriso hermético. Varyk era um dos Were lobo mais letal que tenha nascido. Um assassino natural, Varyk seria o instrumento que Eli usaria para destruir a esses ursos e a tudo o que representavam.

   Já era tempo de tomar Nova Orleans de uma vez por todas. O Santuário arderia até seus alicerces.

   E Varyk acenderia o fósforo.

   —Sim, tragam a Varyk. Agora.

  

Aimee ainda estava alterada por seu encontro com Fang quando se sentou ao lado da cama de Wren. Jazia em sua forma de Tigard[4], ao seu lado sem mover-se.

   —O que aconteceu?

   Ele pestanejou duas vezes antes de responder.

   Estava tirando o lixo e eles estavam esperando por mim.

   —O que fizeste tu a eles?

   Nada, acredito que estavam esperando que algum de nós saísse, eu fui somente o pobre idiota suficientemente estúpido para estar lá… Infelizmente ignorei sua desenfreada estupidez até que Stone me chutou nas costas, isso foi suficiente.

   Ela acariciou sua suave pele. como sempre, os lobos estavam procurando uma briga.

   —Sinto-o tanto Wren.

   Ele cobriu sua mão com uma enorme pata.

   Não o estejas. Os deuses são os únicos que sabem o que teria acontecido se tivesse sido Cherise ou uma das outras mulheres. Só estou zangado de não ter podido controlar suficientemente bem meus poderes para dar a briga que eles mereciam.

   Ela lhe sorriu quando Marvin, seu macaco mascote, saltou à cama para colocar-se em seu travesseiro. Quando Wren não se moveu, Marvin se inclinou para frente para abraçar sua cabeça grande de Tigard e acariciar uma de suas orelhas pontudas. Isso devia ser a coisa mais doce que tinha visto em muito tempo.

   —Deixar-te-ei descansar se necessitas de alguma coisa, me chame.

   Obrigado.

   Aimee cruzou o quarto e tomou cuidado para não fechar a porta com muita força. Wren odiava os sons fortes. Ela não estava segura se isso se devia aos seus ouvidos agudos ou a más lembranças de sua infância. De qualquer maneira não ia incomodá-lo depois de tudo o que tinha acontecido.

   Quando estava perto das escadas, encontrou-se com sua mãe que vinha subindo com um severo cenho franzido.

   —Ocorre algo?  

   Maman franziu seus lábios.

   —Esse estúpido Tigard. Preciso lhe perguntar porque atacou a esses lobos.

   Aimee estava horrorizada com a acusação.

   —Ele não o fez. Eles o atacaram.

   —Isso diz tu e provavelmente ele também, mas os lobos têm uma história diferente, são maioria e estão dispostos a jurá-lo.

   —Mentem.

   Maman fez um som de suprema irritação.

   —E tu aceitas a palavra de Wren?

   —Acaso tu não?

   —Não. —Maman olhou com ódio a porta de Wren—. Ele é antinatural. Tudo a respeito dele o é, até esse macaco asqueroso que mantém.

   Então o que era Aimee? Um urso katagaria que se converteu em Arcadiana na puberdade. Um com os poderes de rastreamento de um deus, que atualmente se sente atraída unicamente por um lobo. Não se pode encontrar algo mais antinatural que isso.

   Por isso, nunca poderia dizer a sua mãe a verdade sobre si mesma. Sim, sua mãe a amava, mas sua mãe era um animal e seus instintos eram os de matar algo que fora diferente.

   —Independentemente do que Wren é, Maman, não é um mentiroso. Stone e seu grupo por outro lado… foram alguma vez honestos?

   —Enviaram um emissário. Se não entregar a Wren, irão ante o Omegrión e dirão que estou albergando um perigo para todos os licantropos. Tens idéia do que poderia acontecer? Poderíamos perder nossa licença e nossa casa.

   —Então lhes devolva Stone, isso é tudo o que seu pai quer de todas as maneiras. E lhes diga que Wren vai ser disciplinado por nós.

   —E desde quando mandas tu aqui?

   Aimee inclinou sua cabeça como forma de respeito para sua mãe.

   —Perdoe por ultrapassar meus limites. Eu só odeio que um inocente seja castigado enquanto à imundície do universo se permite dançar tranqüilamente para a liberdade, especialmente desde que puderiam ter agredido a qualquer um de nós que tivesse estado nesse beco e isso inclui a ti e a mim.

   Sua mãe a olhou enfurecida.

   —Meus instintos me dizem que lhes dêm a Wren. Atrai os problemas e não o necessitamos aqui. Não o quero aqui. —Deixou que saísse um comprido suspiro. Entretanto, tinha sido trazido aqui pelo próprio Savitar. Savitar é o que está a cargo do Omegrión. O único ao que ninguém deve contrariar ou questionar nunca—. Portanto a parte humana em mim reconhece a grande vantagem que isso supõe sempre e quando o proteja. Tentarei-o a sua maneira, ma petite. Mas se isto falha, lhe entregarei sem importar o que tu digas.

   E eu irei com ele para protegê-lo. Aimee não disse isto em voz alta. Sua mãe não poderia suportar que ninguém a questionasse ou a contradissera, essa é a natureza da besta. Esta era a guarida de Nicolette e todos eles estavam sujeitos a sua última palavra.

   —Obrigada Maman.

   Sua mãe inclinou sua cabeça para ela antes de mudar de direção para baixar as escadas.

   Aimee a seguiu depois, perguntando-se o que estava passando pela mente de Eli. Durante anos eles tinham tido problemas com esse insofrível arrogante idiota e seus exploradores. Nada do que seu clã tivesse feito alguma vez tinha tido sentido para ela.

   Entretanto sentia uma coceira na parte de trás de sua mente como se lhe advertisse de que isto não se tratava de um momento de loucura ao azar. Havia algo mais que o que estava acontecendo. Algo sinistro.

  

Stone olhou Dev com ódio quando o imundo urso abriu a jaula onde o tinham jogado. Ao menos tinha deixado de mudar de forma.

   —Vejo que finalmente entraste em razão.

   Dev riu.

   —Se isso fosse certo estaria te arrastando para fora dessa jaula e te levando para o pântano para alimentar aos jacarés. Infelizmente teu papai mandou a alguém para te reclamar.

   Esperando ver Darrel, surpreendeu-se quando Dev abriu a porta e apareceu Varyk parado aí em todo seu selvagem esplendor. Alto, desumano e irritado. Varyk usava o cabelo marrom à altura dos ombros e olhos tão azuis que pareciam penetrantes glaciais. Um sorriso zombador estava permanente cinzelado em seu bonito rosto. E sua postura dura dizia que sempre andava procurando a alguém a quem estripar.

   Stone engoliu seco quando um arrepiou desceu por sua coluna vertebral. Varyk estava ligeiramente lúcido…

   E isso em seu melhor dia.

   Pelo zangado e fulminante olhar do rosto de Varyk este não era um de seus melhores dias.

   Que diabos estava pensando seu pai para enviá-lo aqui?

   Pessoalmente, Stone preferiria ficar em sua jaula antes que passar um segundo na presença deste homem.

   —Onde está meu pai?

   Varyk respondeu com um grunhido grave.

   —Tu não fales garoto. Provavelmente nunca mais. —Agarrou-o rudemente pelo pescoço e o arrastou até a porta. Logo deu a volta para olhar Dev—. Onde está quem o atacou? Também o tenho que escoltar de volta.

   O urso moveu sua cabeça em uma descarada negação que Stone teve que admirar. Tinha valentia para incomodar a alguém como Varyk.

   —Não poderá ser. Wren fica aqui.

   —Não foi isso o que me disseram.

   Dev lhe dirigiu um sorriso insultante que Stone respeitaria se não fora um movimento suicida da parte do urso.

   —Bem acabo de te dizer eu.

   Varyk lhe lançou um olhar turvo.

   —Tu não importas, pedaço de lixo.

   —Esse sentimento é totalmente mútuo, isca de urso, diabos, inclusive não admito que estejas aqui. Assim saia e leve teu lixo contigo.

   O olhar mortal de Varyk se tornou frágil.

   —Tu realmente não queres usar esse tom comigo.

   Dev cruzou seus braços sobre seu peito.

   —Bem tenho outros tons para escolher, depreciativo, zangado, vil, irritado. Que tal se somente ficamos com o sarcasmo extremo e estamos quites?

   —Quero ao Tigard.

   —E eu quero que vá embora. Adivinha quem vai ganhar esta discussão? E no caso que sejas mais estúpido do que aparentas, não vais ser tu.

   Varyk o agarrou pela camisa.

   —Estás me chamando de louco?

   —Estou te chamando de lento. Não louco. —Dev tirou suas mãos de cima—. Agora te sugiro que vá. Rapidamente antes que decida que realmente não preciso viver mais aqui.

   Varyk moveu a cabeça de maneira que parecia que ia atacar a Dev. Stone ofegou. Varyk era uma besta instável. Uma que nunca se sabia o que ia fazer e se atacava aqui…

   Estavam fodidos.

   Varyk passou através de Dev à área de cima.

   —Chegará o momento e o lugar onde não serás tão afortunado como o és esta noite.

   Dev riu malvadamente.

   —Vamos, podes vir a qualquer momento que sinta falta da tua mãe e necessites que te surrem o traseiro.

   Varyk grunhiu, o som de um lobo a ponto de arrancar a garganta a alguém. Em vez de brigar com Dev, virou-se para Stone e o agarrou pelo braço para teletransportá-lo fora da casa dos Peltier.

   —Importa-te? —Disse Stone tão logo estiveram na rua—. Não sou tua namorada.

   Varyk o agarrou pela garganta em um apertão asfixiante.

   —Exatamente, não tenho nenhuma razão para não te baixar a bola ou te matar. —Apertou-o fortemente antes de deixá-lo ir.

   Stone tossiu para limpar sua garganta, olhou-o airadamente.

   —Qual é teu problema?

   —Meu problema é que tive que sofrer o fedor desses animais para salvar seu quebrado e podre traseiro. Não sou teu pai e não há nenhum código genético entre nós que me faça querer te salvar novamente, por isso tenha cuidado menino, da próxima vez te deixarei aí.

   —O que acontece com meu pai?

   Varyk não respondeu enquanto caminhava rua abaixo e desaparecia na noite.

   Stone recolocou sua jaqueta com um puxão fino.

   —Se claro tu contínuas caminhando, punk. Se alguma vez me tocas de novo dessa maneira, golpear-te-ei até te deixar no chão. —Claro que não disse isso o suficientemente alto, de maneira que o Were-Lobo o pudesse ouvir. Não era completamente idiota.

   Jogando um olhar para trás sobre seu ombro olhou airadamente para o santuário.

   —Seus dias estão contados ursos.

   E também estariam para os lobos katagaria. Seu pai não tinha nem idéia de que eles estavam na cidade, mas Stone ia assegurar-se que se inteirasse imediatamente. Logo choveria o inferno sobre todos eles.

  

 Fang permanecia em sua forma de lobo, dormindo sobre uma cama de grama. Mas inclusive enquanto dormia estava alerta sobre tudo o que ocorria ao seu redor. Comportava-se desta maneira desde que era um filhotinho. Mas bem, tinha tido que se comportar assim desde que era um filhotinho. Apesar de Vane e ele serem filhos do Regis de sua pátria, eles estavam expostos ao pior, não só por parte de seu pai, mas também por aqueles que o seguiam como Stefan.

   Seu pai os culpou pelo fato de que sua mãe Arcadiana tinha recusado a completar o ritual de emparelhamento com ele. Sua recusa converteu Markus em um ser impotente e hostil.

   E sua negativa de manter aos seus filhos katagaria os converteu em um alvo.

   Por isso quando Anya se aproximou o suficiente, despertou preparado para atacar.

   Anya se agachou até ficar contra o chão.

   —Sou somente eu Fang.

   Ele mudou a sua forma humana e deixou sua mão sobre o nariz dela.

   —Sinto-o bebê, não sabia. —Ela lambeu seus dedos antes de colocar-se ao seu lado e pôr a cabeça sobre sua coxa.

   Ele acariciou a pele ao redor de suas orelhas.

   —Acontece algo?

   —Não podia dormir, Orian se encontra fora patrulhando e não queria estar sozinha.

   —Onde está Vane?

   —Não estou segura. Não está de guarda ou no acampamento, não o vi desde um momento. Viste-o tu?

   —Estava ajudando um dos Dark-Hunter que vive no pântano, Talon, assumi que já tinha retornado a esta hora.

   Os Dark-Hunters eram guerreiros imortais que brigavam para a deusa Artemisa. Caçavam aos primos dos Were-Hunter, os Apolitas, e os matavam cada vez que estes se convertiam em Daimons e começavam a roubar as almas dos humanos para manter-se com vida.

   Era estranho para os Dark-Hunters mistirarem-se com os Were-Hunter, mas não impossível, e através dos anos, Fang e Vane ficaram amigos de uma grande quantidade deles.

   Anya suspirou fortemente.

   —Esse era o caçador escuro com o qual se encontraram na outra noite?

   —Sim, Talon e Acheron. Acheron era o líder dos Dark-Hunter e um grande amigo de Vane desde muito tempo.

   —Teria preferido que não se encontrassem com eles. Cada vez que um Were-Hunter se mistura com um deles acaba ocorrendo alguma desgraça.

   —Ah, não te preocupes, de fato foi divertido, além disso há muito lixo Daimon por aí e os Daark-Hunter estiveram de acordo em nos ajudar a vos proteger se algo acontecer.

   —Diga o que queiras, mas eu não confio neles.

   —Eu tampouco, mas confio em Vane e tu também deverias. Ele nunca faria nada que nos machucasse ou aos demais.

   Ela olhou ao longe com cara de arrependimento.

   Fang se sentiu culpado ao fazê-la sentir dessa maneira. Entretanto ela nunca deveria questionar ao seu irmão. Vane morreria se algo lhes ocorresse.

   E pensar que ele o tinha causado…

 

Vane nunca o superaria. Assim como Fang enquanto acariciava a orelha de sua irmã tinha um mau pressentimento. Não o podia definir. Entretanto se mantinha no mais profundo de sua mente como um fantasma atrás de seu sangue.

   É unicamente a preocupação de Anya.

   Era realmente isso? Ou poderia ser uma premonição? Nunca tinha sido particularmente pré-cognitivo.

   Mas…

   Não pensaria nisso. Anya estava a salvo. Estava aqui para protegê-la, e Vane voltaria logo que pudesse. Nada mudaria. Ela teria aos seus filhotinhos aqui enquanto seus velhos inimigos os buscavam. Uma vez que os filhotinhos fossem o suficientemente grandes para viajar se moveriam novamente.

   Essa era forma que as coisas ocorriam e nada ia mudar, assegurar-se-ia disso.

   Fang despertou por um forte som de alarme. Em sua forma de lobo estava ao lado de sua irmã que também se despertou pelo som.

   —Fique aqui —ele a protegeria—. Irei ver o que ocorre. Levantou-se e correu até o acampamento principal onde um grupo de lobos se encontrava reunido.

   Dois deles estavam sangrando profundamente.

   Liam o irmão mais velho de Keegan mantinha sua pata ensangüentada levantada para evitar apoiá-la, sua pele de uma cor marrom clara se encontrava ensangüentada.

   —Foi uma emboscada temos sorte de que algum de nós tenha sobrevivido.

   Markus, também em sua forma de lobo, olhou-o airadamente.

   —Quem o fez?

   —Lobos Arcadianos, tinham uma armadilha preparada para nós.

   Markus amaldiçoou.

   —Onde está o resto de seu grupo?

   —Não sei, Orian nos disse que retornássemos para vos prevenir.

   Markus jogou um olhar ao redor do grupo.

   —Reúnam nossas forças, quero a todos os homens disponíveis.

   Fang tomou forma humana para enfrentar-se ao seu pai.

   —Não podes, o que acontece se for uma armadilha para nos manter a todos afastados das mulheres e as deixar desprotegidas? —Olhou ao redor aos lobos—. Recordem que já ocorreu antes. Quantas mulheres e filhotes perdemos pela matança dos Arcadianos?

   Markus o olhou airadamente.

   Mas Fang viu o olhar indeciso dos demais.

   Wiliam avançou.

   —Acredito que Fang poderia ter razão, alguns de nós deveríamos ficar somente no caso de acontecer.

   Os olhos de Markus brilharam intensamente na escuridão. Odiava ser questionado.

   —Bem, Fang e o resto de vós mulheres podeis ficar enquanto caço.

   O grupo se dividiu pela metade.

   Liam coxeou para Fang.

   —Não sei o que pensas tu, mas eu estou seguro que não me sinto como uma mulher.

   Fang riu.

   —Ignore a maravilha impotente. Me diga, o que aconteceu exatamente?

   —Estávamos andando pelos arredores, depois da caça de pequenas aves para praticar. Em um momento os estávamos perseguindo pelo pântano e ao seguinte Orian era golpeado com um taser, depois alguém começou a disparar com armas de fogo contra nós, perdemos a Agarian imediatamente por uma bala que lhe deu na cabeça —Liam olhou para baixo para sua própria ferida—. Me alcançaram na pata, mas é um simples arranhão.

   Razão pela qual não podia usar sua magia. Quando eram feridos sua magia se tornava imprevisível e inútil. Se usava poderia causar toda uma série de desastres.

   De repente Anya gritou.

   Convertendo-se de novo em lobo Fang correu até ela, alcançou-a em tempo recorde. Encontrava-se no solo retorcendo-se, aterrorizado farejou seu pescoço.

   —Anya?

   Ela soluçou incontrolavelmente, estava de parto tão cedo? Fang trocou um olhar desconcertado com Liam que tinha chegado atrás dele.

   —O que é que ocorre?

   —Orian.

   —O que acontece com ele?

   Anya chutou o chão como se sofresse uma terrível agonia.

   —Está morto.

   Fang tentou acalmá-la.

   —Não, foi alcançado com um taser.

   Ela sacudiu a cabeça negativamente.

   —Não, está morto, eu sei posso senti-lo.

   —Somente estás grávida e transtornada.

   Ela lhe lançou um olhar tão hostil e agonizante que lhe chegou até o fundo da alma.

   —Estávamos vinculados Fang. Está morto o posso sentir.

   Fang não pôde respirar quando essas palavras o atravessaram. Vinculados.

   Quando dois Were-Hunter vinculavam sua força de vida se convertia numa só. Isso era um ato final de lealdade e amor, isso significava que quando um morria ambos o faziam.

   A única exceção era se a mulher estava grávida, então sua vida era estendida, mas unicamente até que os bebês nascessem, uma vez que o último deles se encontrava fora e a salvo, a mãe se uniria com seu par na eternidade.

   Anya ia morrer.

   Fang lutou para respirar quando essas palavras o golpearam como garras que escavavam no mais fundo de sua alma e era tudo o que podia fazer para tratar de manter-se em pé.

   —Por que o fizeste?

   Ela lhe lançou um olhar mordaz.

   —Amava-o estúpido idiota. Por que se não?

   Uivou um atormentador e inesquecível som. O grito de um lobo em completa agonia.

   Fang inclinou sua cabeça para trás, levantando-se e se uniu a ela em sua própria dor.

   Sua irmã ia morrer… e não havia nada que ele pudesse fazer.

   Anya rompeu a chorar.

   —Como é possível que esteja morto? Como?

   Mas Fang não escutou suas palavras, tudo o que podia fazer era vê-la morrer e resignar-se, ver como seus cachorrinhos iriam até ele para que lhes contasse histórias sobre uma mãe a qual nunca conheceriam.

   Como podia ser?

   Seriam como ele. Teriam esse buraco dentro deles que nada poderia preencher. Perguntariam-se o que é que se sente ao ser amado. Ter uma mãe que se preocupasse com eles e os alimentasse.

   Transformando-se em humano, abraçou-a e a sustentou enquanto suas próprias lágrimas surgiam.

   —Anya, nunca os deixarei sozinhos e não lhes faltará nada.

   Exceto tu e seu pai.

   Essas palavras o estrangularam e fizeram que perdesse o controle. Contra sua vontade as lágrimas começaram a fluir, envergonhado ocultou o rosto contra seu pescoço e a abraçou, ela era tudo o que valia a pena, não se supunha que tinha que ser desta maneira. Seu irmão e irmã eram as únicas constantes em sua vida.

   Eles eram seu único consolo.

   E agora perder a um deles… era mais do que podia suportar.

   Sustentou-a perto, balançando-a por horas sem lhe importar nada mais, somente quando Vane retornou ao amanhecer, deu-se conta de todo o tempo que tinha transcorrido.

   Vane se aproximou lentamente.

   —O que ocorre?

   Fang procurou uma maneira de dizê-lo brandamente, Anya estava dormindo. Mas não existia consolo para o que lhe preocupava. Apertou o punho sobre sua pele branca e se deu conta que não havia uma maneira fácil de dizê-lo, uma que não afetasse Vane da mesma forma que tinha afetado a ele.

   —Tu sabias que Anya estava vinculada com Orian?

   Vane franziu seus lábios como se só a idéia lhe repugnasse tanto como a Fang.

   —Por que ia fazer algo assim?

   —Disse-te que o amava?

   Vane ficou em tensão.

   —Falaste em tempo passado.

   Fang soltou um suspiro comprido e se preparou para a reação de Vane. Deus como desejaria não ser a pessoa que tivesse que lhe dizer isto.

   —Orian morreu esta noite.

   Vane deixo sair uma maldição tão forte, que Fang estava desconcertado por ela. Normalmente seu irmão era mais comedido, mas o entendia perfeitamente. Estava experimentando as mesmas emoções. Vane ficou de joelhos seu lado e colocou uma mão sobre Anya, quando se encontrou com o olhar deste Fang viu a mesma dor agonizante dentro dos olhos de seu irmão que a que sentia em seu próprio coração.

   —O que vamos fazer?

   Fang sacudiu sua cabeça.

   —Teremos que vê-la morrer,

   Vane olhou ao longe, como se não pudesse suportá-lo mais do que Fang o fazia.

   —O que aconteceu?

   —Um grupo de Arcadianos os atacou e Orian morreu durante a briga. Que mais? Maldito lobo estúpido, tinha que ter estado aqui com Anya e não saindo de festa com seus amigos.

   Vane lançou um olhar aos arredores como se esperasse que uma sombra voltasse para a vida e os perseguisse.

   —Rastrearam aos outros de volta para cá?

   —Não sei, não lhes perguntei. Markus e um grupo dos outros foi atrás deles.

   —E?

   —Ainda não retornaram.

   Essas palavras quase nem tinham saído de sua boca, justo quando os demais apareceram lentamente no acampamento, alguns estavam sangrando e coxeando, mas não parecia que faltasse ninguém.

   —Fique com Anya.

     Vane foi consultar com os outros.

   Fang não se moveu até que seu irmão retornou com um olhar de aço em seu rosto.

   —O que?

   —É o grupo de Arcadianos sobre o qual Acheron nos preveniu, de algum jeito descobriram que estamos aqui e seus sentinelas estão lá fora procurando nosso sangue.

   Essa era a história de nossa vida, sem importar onde estivessem os Arcadianos os encontravam e atacavam. Por que não podiam seus irmãos humanos deixá-los em paz?

   Porque as Destinos eram três cadelas psicóticas que queriam a completa aniquilação de sua espécie.

   Agora sua irmã devia pagar o preço de uma maldição que nenhum deles tinha querido ou merecido, a vida era tão injusta. Mas como Acheron há dito muitas vezes, merecê-lo não tem nada a ver com nada a vida simplesmente é.

   Vane se sentou ao seu lado.

   —Te pareces como a merda. Por que não vais e tomas um descanso?

   —Não posso dormir?

   —Precisas dormir, não fará nenhum bem a ninguém se estás muito cansado para funcionar.

   Sim, mas como conseguiria encontrar paz nesta noite? Não havia nada, exceto esse doentio nó, em seu estômago, que o fazia querer vomitar.

   Como quereria poder retroceder vinte e quatro horas e esquecer deste futuro…

   Vane o empurrou brandamente.

   —Eu me encarrego de Anya, vá descansar, não há nada mais a fazer, te converta em lobo por um momento.

   Fang cabeceou sobriamente antes de deixá-la, apesar de que a única coisa queria fazer era sustentá-la tanto como pudesse, mas Vane tinha razão, precisava estar em sua verdadeira forma.

   E precisava encontrar algo para si mesmo. Algo que levasse a dor embora fora por um pequeno nanossegundo.

 

Aimee despertou quando sentiu uma dor que a atravessava. Era a mesma sensação que tinha sempre que Wren ou um de seus irmãos se encontrava em dificuldades.

   Só que nesta ocasião era por Fang, podia-o sentir como se ele estivesse no quarto bem ao seu lado.

   E era a mesma sensação de temor em seu peito, a mesma urgência de localizá-lo imediatamente e assegurar-se que tudo estava bem.

   O que tinha acontecido?

   Fechando seus olhos o localizou, estava deitado sobre seu estômago em sua forma de lobo. Não parecia estar machucado e entretanto havia algo nele que parecia estar quebrado, ferido.

   —Fang?

   Fang se congelou pelo som da voz de Aimee, abrindo seus olhos a viu ajoelhada junto a ele.

   O que estás fazendo aqui?

   —Eu…eu… não sei, simplesmente senti que necessitavas de alguém.

   Franzindo o cenho, quis lhe dizer que partisse, só que ela colocou uma mão suave em seu pescoço.

   Fang sempre tinha odiado que o tocassem aí. Nem sequer Anya podia acariciá-lo enquanto estivesse em sua forma de lobo. Não podia suportá-lo.

   Entretanto o toque de Aimee o acalmava. Ela passou sua mão através de sua pele até sua orelha, que esfregou brandamente entre dois dedos. Antes de poder deter-se, inclinou-se mais perto dela.

   —O que aconteceu?

   Sufocou-se quando pensou em Anya.

   O companheiro de minha irmã morreu ontem à noite.

   —Tua irmã estava vinculada?

   Ele assentiu

   —Oh, coração, quanto o sinto.

   Sinto-o… eram umas palavras sem valor, sem dúvida pronunciadas como hábito. Ele odiava que as pessoas dissessem isso quando não tinham idéia do que realmente significavam. Nenhuma idéia da dor que o queimava por dentro, o de uma perda que logo experimentaria e para a qual não existia nenhum tipo de alívio que a pudesse aliviar ou diminuir.

   Como poderia seguir sem sua irmã?

   Tu tens a tua família, não tens nem idéia do que é...

   —Isso não é verdade —lhe disse ela apertando-o com força. —Perdi dois irmãos e um de suas parceiras, sei a angústia que o tempo não pode curar. Não passa um dia sem que me lembre deles e de como morreram, assim não uses esse tom comigo, não o poderia suportar.

   Fang tomou forma humana e a abraçou.

   —Sinto-o Aimee, não sabia.

   Aimee o apertou com força enquanto tratava de controlar as lágrimas que sempre surgiam quando recordava a Bastian e Gilbert.

   Pior ainda, eles tinham morrido por sua culpa. Porque ela tinha compartilhado seu poder e lhes tinha mostrado como localizar aos seus inimigos e foram atrás deles para protegê-la. A culpa disso. A dor… havia momentos como este quando era mais do que podia suportar.

   Entretanto a vida continuava com cada pulsado agonizante.

   —Está tudo bem. —Sussurrou, mas não o dizia a sério nunca estaria bem perder a quem amas. A vida era dura, cruel e fria. Ela sabia melhor que ninguém.

   O humor bipolar de sua mãe era prova disso. Enquanto Maman lhe dava a bem-vinda e protegia a qualquer um que era leal a sua casa. Rapidamente estava disposta a matar a qualquer um que suspeitasse que a trairia, daí seu ódio antinatural contra Wren.

   E era tão implacável, ainda sabendo que a amava, Aimee pôde vislumbrar nos olhos de Maman como a culpava inclusive embora fora só um filhote quando eles morreram.

   Aimee suspirou.

   —Como Wren sempre diz, cedo ou tarde a vida nos passa fatura a todos.

   —Wren?

   —O Tigard que me ajudaste a salvar. Tem uma forma particular de ver a maioria das coisas, mas nisto eu acredito que tem a razão. Nós somos as vítimas.

   Fang sacudiu a cabeça.

   —Nego-me a ser a vítima. Alguma vez… mas não agora, não posso acreditar que a vá perder e que não haja nada que possa fazer para evitá-lo.

   —Ao menos tens tempo de lhe dizer adeus, meus irmãos se foram em um instante, não houve tempo para nada nem sequer duelo.

   Fang se deteve quando se deu conta do muito que ela o reconfortava, estavam compartilhando sua dor…

   O que estás fazendo?

   Estava chegando a ela e não tinha idéia do porquê, ele nunca confiava em ninguém, especialmente não em estranhos. Recusava acomodar-se e sempre o tinha feito.

   Entretanto, não queria deixá-la, queria ficar desta maneira durante um momento, para que ela aliviasse a dor de seu coração.

   Aimee se separou de seu braço para olhar algo no chão. Inclinou-se ligeiramente para frente para agarrar o pedaço de tecido que Stefan tinha rasgado de um dos atacantes Arcadianos. Tinha-o levado para inspecioná-lo e Vane o havia trazido de volta antes para lhe dar uma olhada. Infelizmente o cheiro estava tão contaminado que era inútil para eles tentar utilizá-lo para localizá-los.

   Aimee franziu o cenho quando o estudou atentamente.

   Ele copiou seu gesto.

   —O que acontece?

   —Conheço isto, é de um grupo uniformizado.

   Seu coração deixou de pulsar.

   —O que queres dizer com o que o conheces?

   Aimee fechou os olhos para usar seus poderes vendo como imagens reproduzindo-se em sua cabeça. Ela podia ver os lobos brigando, ouvi-os grunhindo e rasgando. Ver os Arcadianos atacando-os, mas alguns fatos estavam mais claros que outros, entretanto havia um rosto que ela conhecia muito bem.

   —Esse é Stone.

   Fang inclinou sua cabeça.

   —Stone? Porque me soa esse nome?

   —Esse foi o lobo com o qual brigou fora do Santuário.

   Fang deixou sair o fôlego como se o tivessem golpeado fortemente no plexo solar.

   —O que?

   —Ele era o lobo.

   —Não. —Fang sacudiu a cabeça com incredulidade ante essas palavras que destroçavam sua alma. O que tenho feito? —Queridos deuses—… Sou eu quem matou a minha irmã.

  

Fang sentiu náuseas assim que a realidade lhe veio em cima, esmagando-o. A estúpida briga lhe havia custado a sua irmã a vida de seu parceiro e a levaria de seu lado logo que nascessem as crias.

   Como pôde ser tão idiota?

   —Fang, não podes te culpar.

   Escutou as palavras de Aimee, mas sabia a verdade.

   —Eles nem sequer teriam sabido que estávamos aqui se eu não os tivesse atacado. —Por ti. Não disse o último em voz alta, mas queimava em sua mente como um carvão abrasador.

   O que hei feito?

   —Fang…

   Ele a empurrou fora de seu alcance.

   —Por favor vá embora. Cada vez que te aproximas de mim, algo ruim acontece.

   Aimee retrocedeu como se a tivesse esbofeteado. E essas palavras lhe arderam como um golpe. Ela tratou de dizer que era sua própria dor que o fazia estalar de ira. Mas não importava. De todos os modos, lhe fazia mal.

   —Irei, mas se precisas de uma…

   O olhar que lhe dedicou era cruel, penetrante e condenador.

   —Não preciso de uma merda de ti nem de qualquer outro. —A garganta lhe secou instantaneamente. Assentindo, ela se foi para casa, de volta a sua cama onde se sentou assombrada pelo rechaço. Não deveria lhe doer.

   Só é um estúpido lobo zangado.

   Era a verdade, e precisava deixá-lo para trás. Precisava deixar ele para trás. Não havia nada que pudesse fazer por ele. Precisava centrar-se em seu próprio futuro e encontrar um parceiro que fora apropriado para sua espécie. Alguém que sua família não só aceitasse, mas também estivessem orgulhosos de introduzi-lo em suas linhas. Era sua obrigação com aqueles aos quais amava.

   Amanhã encontraria um urso e não pensaria mais em Fang ou em qualquer outro lobo.

  

Fang se sentia como uma merda. Não deveria haver gritado com Aimee e sabia. Não era culpa dela. Tinha sido ele quem tinha saltado dentro da briga sem pensar. Culpar a ela não tinha sentido. Era seu aborrecimento consigo mesmo com o qual não podia enfrentar-se. Culpá-la era mais fácil que culpar a si mesmo.

   Mas afinal de contas, ele sabia a verdade.

   Ele era a única razão pela qual Anya morreria. Seu temperamento e sua necessidade de brigar eram a causa de tudo isto. O lobo que havia nele queria vingança por isso. Queria banhar-se no sangue de seus inimigos. Fazer desaparecer seu aborrecimento e a culpa com suas mortes.

   Se fosse tão fácil.

   Mas sua parte humana sabia que um monte de violência não desfaria o que tinha feito. Anya morreria e seria sua culpa por tratar de salvar a um urso, do qual nem sequer deveria preocupar-se.

   Então, por que o fazia?

   Incapaz de enfrentar-se a tudo isto, voltou para a forma de lobo para deitar-se no úmido chão enquanto pensamentos se perseguiam entre eles dentro de sua cabeça.

   Ao final, tudo lhe levava a uma simples realidade, como podia o único encontro com uma pessoa em uma maldita tarde alterar tanto toda sua vida? Como era possível que um urso houvesse, de algum jeito, colado em seu coração e lhe tivesse arruinado a vida?

 

 Eli caminhou por seu escuro e imaculado estúdio pensando em esfolar ao seu próprio filho. Sim, o rapaz era ainda jovem, mas como podia ser tão imbecil? Tão imprudente…

   Agora os lobos Katagaria sabiam que eles sabiam de sua existência e os caçariam. O elemento surpresa se perdeu.

   Maldito sejas, Stone.

   —Convocaste-me?

   Eli parou para encontrar Varyk frente ao sobrecarregado escritório de madeira negra, olhando-o. O cabelo da nuca lhe arrepiou. Esse homem tinha a arrepiante habilidade de viajar sem ser detectado jamais. Nunca tinha visto ninguém tão competente em esconder seu cheiro ou presença.

   —Temos outro desastre.

   Varyk tomou as notícias com um completo estoicismo. De novo tomava tudo dessa forma.

   —Stone?

   Eli se estremeceu.

   —É obvio. —Não era necessário negar o que Varyk poderia verificar facilmente—. O grupo de Stone foi atrás de uma patrulha Katagaria e mataram a alguns de seus membros. Estou seguro de que agora virão atrás de nós.

   Para surpresa de Varyk, não pôs nenhuma cara ou deu sinal algum de emoção.

   —Desejas que limpe tudo isto?

   —Quero tua opinião sobre a melhor forma de proceder.

   Varyk cruzou os braços sobre o peito e lhe dirigiu um frio olhar.

   —Eu começaria matando ao meu filho e a sua equipe de idiotas antes que sua estupidez se expanda sobre alguém mais e os infecte. —Havia, inclusive, menos emoção em seu tom que em sua linguagem corporal.

   Eli agarrou o brandy da pequena mesa de mármore frente a ele e tomou um gole antes de responder.

   —Falando como um homem que não tem filhos. Não posso fazer isso. Não sou um animal.

   —Eu sim.

 Eli arqueou uma sobrancelha ante isso. Havia momentos em que Varyk parecia mais Katagaria que Arcadiano, mas ele o conhecia melhor. Era mais duro que o inferno, Varyk era Arcadiano.

   Sim, apenas.

   Varyk deslizou seu olhar sobre o fogo que estava flamejando na ornamentada chaminé Vitoriana.

   —Pediu minha opinião e eu a dei a ti. É obvio que deves recordar que se eu tivesse estado na ilha de Gilligan, o tivera morrido aos dez minutos do primeiro episódio. De onde venho, incompetência e estupidez são razões para homicídio justificado.

   Eli soprou.

   —Bem, deveria idealizar um plano que não desembocasse na morte de meu herdeiro.

   —Uma boa mutilação seria considerada excessiva?

   Eli sacudiu a cabeça. Varyk era sempre persistente.

   —Minha cidade está sendo invadida por animais. Antes que o Santuário introduza algum mais, quero que os detenhas. A todos eles.

   —Estou trabalhando nisso, mas deves estar prevenido que destruir o Santuário não é algo que se faça da noite para o dia. Queima o edifício. Eles o reconstruirão e Savitar tomará vingança contra os autores.

   —Pensas que não sei?—Eli se freou no momento em que jogou essas palavras. acalmou-se antes de voltar a falar—. Se fosse tão fácil, os teria tirado dali há décadas. O que quero para esses ursos é que sejam assassinados.

   Varyk arqueou uma só sobrancelha ante o tom e comportamento do homem. Havia algo malicioso. Um ódio tão frio, havia mais nisto do que Eli lhe havia dito. Não havia dúvida alguma de que valia a pena investigá-lo…

   —Por que tanto veneno, Blakemore? O que te hão feito os Peltier?

   —Isso não é de tua incumbência. —grunhiu—. Agora vá. —Assinalou para a porta com sua taça de brandy—. Faça o que tenha que fazer para terminar com esse montão de cães e depois acabe com os ursos.

   Varyk lhe realizou uma reverência mofando-se, antes de virar sobre si mesmo e desaparecer fora da sala de volta ao seu lar no Garden District. Era uma elegante relíquia pré-bélica que mantinha a adequada quantidade de frio no ar. Com 1.219,20 metros quadrados, a casa não era em nenhum caso pequena, mas não era tampouco uma mansão.

   Era, de todos os modos, um aviso de sua solitária existência. E, entretanto, ele tinha vivido sua vida desta maneira durante tanto tempo, que vagamente podia recordar outra vida…

   Congelou-se no vestíbulo assim que sentiu uma presença que não tinha sentido durante séculos. Dando uma volta ao redor, usou seus poderes para imobilizar ao bastardo contra a parede.

   —Deixe-me ir.

   Varyk apertou sua dominação invisível.

   —Por que deveria?

   —Porque somos irmãos.

   —Não. Éramos irmãos.

   Constantine tossiu lutando para respirar. Mate-o. A urgente voz dentro da cabeça de Varyk era difícil de ignorar. Era o que ele deveria fazer. Era definitivamente o que lhe devia.

   Mas a curiosidade ganhou. Ao menos por uns poucos minutos.

   Varyk o libertou.

   Constantine caiu ao chão onde ofegou sobre suas mãos e joelhos. Alto e bem proporcionado, tinha cabelo negro carvão e traços angulosos. Era fácil ver o chacal nele. Tal como era fácil de ver o lobo em Varyk. Ninguém jamais os teria reconhecido como irmãos, o que estava bem para ele.

   —Por que estás aqui?—grunhiu Varyk.

   Constantine o olhou levantando a cabeça.

   —Estou sendo caçado.

   —E a mim deveria importar um demônio. Por que?

   Franzindo os lábios, Constantine se obrigou a ficar de pé.

   —Já que eles confundiram tua essência com a minha, pensei que o mínimo que podia fazer era te advertir.

   Varyk franziu o cenho ante suas palavras.

   —Do que estás falando?

   —Como pensas que te encontrei aqui? Um grupo de chacais veio ao Santuário me procurando. Já que eu não estava lá, sabia que somente havia outra pessoa que podia cheirar o suficientemente parecido a mim para conduzir aos meus inimigos ao… tu.

   Dirigiu a Constantine um divertido olhar fixo.

   —Uau, resolveste por ti só. Estou impressionado. Nem sequer precisaste pôr um quarto de dólar na máquina de Zoltan. Verdadeiramente assombroso.

   —Acaba já com o sarcasmo.

   Varyk reduziu a distância entre ambos.

   —Preferiria acabar contigo.

   Constantine ficou tenso, mas para sorte sua, não atacou. Unicamente ficou ali, insultando-o com sua presença.

   —Acredite, eu sei. Pensas que é fácil para eu vir aqui depois do que aconteceu?

   Varyk o agarrou pelas lapelas e o sacudiu fortemente.

   —Realmente achas que me importa?

   —Nem sequer queres saber por que estou sendo caçado?

   —A mim, verdadeiramente, importa uma merda. E mais, espero que te apanhem.

   Constantine se soltou e retrocedeu.

   —Bem, irmão. Deixarei-te com sua solidão.

   —Queres dizer exílio.

   Constantine se estremeceu, logo se deteve. Olhou a Varyk por cima de seu ombro.

   —Mamãe morreu na primavera passada. Simplesmente pensei que deverias sabê-lo.

   Varyk queria ser frio e insensível. Sem sentimentos. Queria que essas notícias não lhe fizessem mal. Maldita seja, como podia lhe fazer tanto dano depois de tudo o que eles lhe fizeram?

   Entretanto o fazia. Odiava não ter tido uma oportunidade de ver sua mãe pela última vez.

   Ela somente te esbofeteou a cara, o que tu tentaste.

   E bem, odiava mais a si mesmo por essa debilidade sua que o que odiava a eles.

   —Antes que eu vá, não obstante, tenho que te fazer uma pergunta.

   —O que é?

   —Como terminou um híbrido lobo-chacal infundido com os poderes de uma deusa egípcia a cão cheirador de um homem como Eli Blakemore?

   Varyk dirigiu ao seu “irmão” um sorriso sarcástico.

   —Bem, suponho que não é sem razão que nos chamem de traiçoeiros.

 

Aimee levantou o olhar do livro enquanto escutava uma batida abrupta na porta. Fechando os olhos, viu seu irmão Alain no vestíbulo com uma bandeja de chá e pãozinhos. Diferente da maior parte de seus irmãos, ele tinha o cabelo loiro curto e um rosto que lhe recordava o de um querubim. Seus olhos azuis sempre estavam brilhantes e quentes, e mantinha uma pequena barba tipo cerrada, bem cortada.

   Sentiu afeto ante sua consideração.

   —Entre.

   Ele abriu a porta lentamente, sempre era cuidadoso de entrar em território de um urso sem o correto convite. Sua companheira, Tanya, tinha-lhe ensinado bem.

   —Sou eu. Queres um pouco de chá?

   —Claro.

   Ela colocou o livro na cama e foi segurar a porta enquanto ele entrava e colocava a bandeja na penteadeira.

   Fechando a porta detrás dele, retornou à cama.

   Alain serviu para ambos uma taça de chá de baunilha Rooibos e lhe trouxe o prato de sanduíches de porcelana que estava amontoado no alto com pãozinhos açucarados.

   Ela não pôde evitar sorrir.

   —Não tens feito isto para mim em anos.

   Ele salpicou mel em sua taça… muito de mel, eram ursos depois de tudo. Segurou a vasilha plástica de urso para ela.

   Aimee o tirou dele e duplicou o gesto enquanto ele lambia a doçura dos dedos.

   —Sinto-me como um filhotinho, na espera de que Maman ou Papa entrem e nos gritem por quebrar o toque de silêncio, sempre foste tão bom para conseguir me colocar em problemas com festivais de chá noturno.

   Alain riu.

   —Maman nunca foi a que me assustava quando filhote… só como adulto lhe temo.

   Aimee vacilou ante a nota estranha em sua voz.

   —Por que dirias isso?

   —Pela mesma razão que o farias tu. Amo a Maman, sabes. Mas há vezes que sinto algo sobre ela que me põe nervoso.

   Aimee esteve de acordo enquanto deixava a um lado o mel.

   —Não gosta que os outros fiquem aqui conosco. Acredito que teme que eles descubram nosso segredo… Ou pior, que se voltem contra nós como o fez Josef. —Foi quem conduziu a festa que finalmente tinha matado a seus irmãos.

   Como Wren, Josef tinha sido introduzido em sua guarida como um filhote adolescente ferido em lugar de ficar lá fora para morrer como Maman teria querido. Logo que Josef se curou, tinha-os odiado sem razão alguma. Era quase como se os tivesse odiado e se houvesse ressentido por ter uma família quando ele não a tinha. E somente por isso, tinha tentado destruí-los.

   Sua traição tinha deixado uma cicatriz em todos eles, um momento de compaixão que se converteu em toda uma vida de arrependimento, mas Maman estava mais obcecada que outros. Ela se culpava por não ter suspeitado mais dele. Culpava-se pelas mortes de Bastien e Gilbert.

   Era por isso que Maman era tão dura com todo mundo agora. Mantinha-se esperando que os outros se voltassem contra ela sem razão também.

   Alain agitou seu chá com uma pequena colherzinha.

   —Há muitos segredos nesta casa, chere. Algumas vezes acredito que muitos.

   Aimee arqueou uma sobrancelha ante isso.

   —O que estás ocultando tu?

   Ele se deteve para baixar o olhar para sua palma onde estava o intrincado trabalho em espiral que o declarava emparelhado. Era uma marca que era idêntica a da palma de Tanya.

   —Conheces meu segredo.

   Seu coração se contraiu com força ante o aviso. Embora ele estava emparelhado a uma boa ursa, seu coração pertencia à outra. Sempre pertenceu.

   —Sinto muito, Alain.

   Ele deu de ombros.

   —Não tenho nada do que me queixar. Tanya é leal a mim. É amável e temos dois filhos lindos. Como poderia estar inconformado com isso?

   —Ainda pensas em Rachel?

   Ignorando sua pergunta, baixou o olhar a sua xícara enquanto continuava revolvendo o mel através do líquido escuro.

   —Queria te perguntar uma coisa.

   —Claro.

   Ele golpeou ligeiramente a colher duas vezes antes colocá-la em seu prato.

   —Notaste qualquer coisa em Kyle? —Kyle era seu irmão mais jovem. Um pequeno obstáculo às vezes, era basicamente amável e doce embora se mantivera mais isolado do que outros faziam.

   —Como o que?

   Ele vacilou antes de falar.

   —Que ele seja um Aristos.

   Aimee se congelou de incredulidade ante essas palavras.

   —O que?

   —Ele é um Aristos, —Alain repetiu, seu olhar ardendo no dela—. Estou seguro disso.

   Os Aristi eram os feiticeiros mais poderosos em seu mundo. Mais fortes que os Sentinelas, eram a única coisa que cada Arcadiano suplicava ser e os seres que faziam que o sangue de todo Katagaria corresse frio.

   —Como sabes?

   —Nos divertíamos ontem, praticando sujeições, e ele me atirou com uma facilidade de força que ninguém da sua idade deveria possuir. E quando me imobilizou, vi-o em seus olhos.

   Aimee se sentiu doente ante as notícias. Os Aristi eram os que tinham assassinado aos seus irmãos e eram a única coisa que sua mãe não poderia deixar estar. Era também outro segredo que Aimee reservava de todos. Ela também era uma.

   —Maman o matará se fosse assim.

   —Isso é o que me temo.

   —Discutiste isto com Kyle?

   Alain negou com a cabeça, seus olhos horrorizados pela só sugestão.

   —Claro que não. Tu és a única em que confio para manter isto entre nós. Nunca faria nada para prejudicá-lo e sei que tu sentes o mesmo.

   Aimee ouviu a corrente subjacente. Havia mais nisto do que lhe estava dizendo.

   —Mas?

   —Precisa ser adestrado. Esse tipo de poderes, se se deixarem sem guia. . .

   Poderiam matá-lo. Ele não terminou a frase porque Aimee sabia disso assim como também ele. Um Aristos requeria um tutor, especialmente os varões. Enquanto uma fêmea poderia adaptar-se melhor e aprender a controlar esses poderes por si mesma, um macho não poderia fazê-lo. Era o que a tinha salvado, mas ela não podia treinar Kyle sem expôr a ambos.

   —O que podemos fazer?

   —Esperava que tu tiveras algumas idéias.

   —Não realmente. Nem sequer sei de um Aristos. —Isso não era completamente certo, mas ela não estava a favor de compartilhar isso com Alain—. São muito raros.

   Ele assentiu.

   —Eu sei. . . Pensa nisso. Faça-me saber se te ocorre algo. Não quero deixá-lo só nisto.

   Nem tampouco ela. Kyle estaria tão assustado por seus poderes como ela o esteve pelos seus.

   —Queres que fale com ele?

   —Odeio descarregá-lo sobre ti, mas és com a qual está mais próximo. Poderia abrir-se a ti. Ao menos mais do que alguma vez faria comigo.

   Aimee lhe sorriu. Ele tinha razão. Kyle mantinha a seus irmãos na escuridão, mas por alguma razão a via como a outra mãe.

   —Falarei com ele amanhã. Averiguarei se sabe o que lhe está ocorrendo.

   Ele deu a sua mão um apertão gentil.

   —É o melhor.

   Bufou.

   —Em frente, Etienne, e me diga que sou a melhor irmana que tens.

   Etienne era outro de seus irmãos que era um descarado e encantador. Sempre andava dizendo que não importava que mentira necessitasse para conseguir o que quisesse.

   Alain riu outra vez de seu insulto.

   —Ele é semelhante a merda, verdade?

   —Sim, sim o é. E falando de excremento, ouvimos qualquer algo mais dos lobos e suas ameaças?

   —Queres dizer do grupo de Eli?

   Ela assentiu.

   —Nenhuma palavra. Acredito que Dev pôs o temor a Zeus neles quando se recusou a recuar.

   —O que duvido. São bastante estúpidos.

   —Sim, mas ainda Eli tem um pingo de autoconservação. Ele deveria saber já que é melhor nos deixar em paz.

   Esperava que isso fora certo, mas também o duvidava. Eli era tal narcisista que a idéia de que alguém na verdade o superasse acaba por não parecer estar ao alcance de sua realidade.

   —Não estaria tão segura. Não o chamam de ódio cego sem uma razão. Acredito que está em um ponto conosco no qual poderia cruzar qualquer limite sem ter em conta as conseqüências.

   Ele estreitou seu olhar nela.

   —Tens uma de tuas premonições, verdade?

   —Sim, mas não posso pôr um dedo nisso exatamente. Só sei que vai fazer algo que não esperamos. Só desejaria saber exatamente o que e quando.

   —Então farei correr as notícias para que todos mantenham os olhos abertos.

   —Obrigada.

Vane se sentou afastado a um lado do acampamento em forma humana enquanto escutava as conversações ociosas ao redor dele. A metade do grupo estava em forma humana enquanto que outros eram lobos.

   Muitos dos homens estavam inquietos. Havia um inquietante cheiro no ar. Um que denotava problemas, mas ninguém podia dirigir isso. Nem sequer ele estava seguro do que o causava.

   Mas estava tão nervoso como o resto deles. Uma palavra equivocada ou uma ação e ele estava justamente tão propenso de tomar uma vida como um Daimon. Tanto mais, de fato.

   E talvez essa era a fonte de sua ansiedade. Desde que ele e Fang tinham ajudado a Acheron e Talon, tinha tido uma sensação de presságio que não podia sacudir-se.

   Fang se aproximou dele e lhe ofereceu uma cerveja fria.

   —Queres ir patrulhar e ver se podemos averiguar o que vai acontecer?

   Vane levantou as pálpebras de repente e inclinou a cabeça para poder ver ao redor do corpo de Fang onde Stefan e outros se reuniam. Negou com a cabeça.

   Se saísse com Stefan no estado de ânimo no qual estava, um deles terminaria morto.

   —Seja o que for, vem para cá. Acredito que deveríamos estar presos às mulheres.

   Fang riu disso.

   —Amo a forma em que pensa, adelphos[5]. Estar preso às mulheres é o que melhor me dá.

   Sorriu ante as palavras de Fang.

   —Sim, mas não te vi fazendo isso ultimamente.

   Fang olhou rapidamente a Petra que estava sentava em forma de lobo com várias outras Were-Hunters.

   —Estive preocupado.

   —Com o que?

   —Coisas.

   Vane não o pressionou. Seu irmão, com todo seu fluxo interminável de comentários sarcásticos e a arrogância de vive-para-o-momento, algumas vezes podia ser extremamente caprichoso. Inclusive reservado.

   Era um espaço e liberdade que Vane voluntariamente lhe dava.

   Vane!

   Vane se engasgou com a cerveja ao tempo em que ouvia a voz frenética e assustada de sua irmã na cabeça.

   —O que? —Ele enviou de volta silenciosamente.

   Os cachorrinhos vêm. Preciso de ti.

   —Ouviu isso? —Perguntou a Fang.

   —Estou nisso.

   Sua cerveja esquecida, Vane ficou rapidamente em pé e correu em busca dela. Encontrou-a a um lado do acampamento, perto de uma pequena correnteza onde devia ter ido conseguir algo para beber.

   —Segurei-te, bebê —disse ele com delicadeza enquanto se ajoelhava ao seu lado para ajudá-la.

   Ela lhe lambeu o queixo, então choramingou à medida que mais da dor do trabalho de parto a golpeava.

   Fang se uniu a eles alguns segundos mais tarde com mantas.

   —Deveria trazer a Markus?

   Vane negou com a cabeça.

   —O podemos controlar.

   Enquanto se aproximava para acariciar Anya, seu telefone celular timbrou. Vane começou por não respondê-lo, mas o ID mostrava a Acheron, que não chamaria a menos que fora importante. Furioso pela inoportunidade do momento, desdobrou-o.

   —Estou ocupado, Dark Hunter. Este não é um bom...

   —Eu sei, mas há um grande número de Daimons se dirigindo ao redor do Poço de Miller. Vêm atrás da tua manada, Vane.

   Vane ficou frio ante as notícias enquanto olhava para Fang para ver se seu irmão tinha ouvido as palavras tão claramente como ele.

   —Estás seguro?

   —Positivo. Parece que querem uma supercarga antes das festividades do Mardi Gras conosco, assim têm que sair daí, caras. Logo.

   Como desejava que fora tão simples.

   —Anya está com dores de parto. Não a podemos mover. Mas me assegurarei de que os outros se vão.

   —Está bem, —disse Ash—. Não te movas e te conseguirei alguns reforços o antes possível.

   A implicação insultou cada parte animal de Vane.

   —Não necessito de tua ajuda, Dark-Hunter. Podemos cuidar de nós mesmos.

   —Sim, de todas formas, estaremos aí em pouco tempo.

   O telefone morreu.

   Grunhindo, Vane devolveu o telefone ao seu bolso. Encontrou-se com o olhar glacial de seu irmão.

   —Mobilize aos outros.

   Fang assentiu, então se foi correndo para fazer correr a notícia.

 

Acheron Parthenopaeus, líder dos Dark-Hunters e um deus Atlante imortal sob uma situação de crise maciça, a menor das quais não era seu irmão tentando matá-lo, amaldiçoou enquanto desligava o telefone. Isto não era bom e piorava a cada pulsado. Se os Daimons conseguiam pegar essas lobas grávidas e aumentavam seus poderes, não haveria freio para eles e as ruas de Nova Orleans correriam vermelhas pelo sangue de seus ocupantes humanos.

   Caminhou rapidamente pelo Bourbon Street para o Canal, que era onde seu Dark-Hunter se supunha estava patrulhando pelos Daimons que andavam lá fora para alimentar-se de almas humanas.

   Não havia sinal dele.

   E onde diabos estava Talon?

   Supunha-se que o Celta estaria em seu pântano, protegendo à humana, Sunshine Runningwolf, e em lugar disso não houve sinal dele quando Ash tinha ido para lá.

   Fechando os olhos, Ash detectou que o Celta estava bem. Mas não tinha tempo de afastá-lo da mulher que ele estava protegendo. Os Daimons se moviam rápido e não teria muito tempo antes que alcançassem a Vane e sua família.

   Então poderiam chover arcos-íris e pétalas de rosa sobre eles. . . .

   Não.

   Abriu seu telefone e ligou para Valerius que estava ainda em casa. O antigo general romano era uma importante dor no traseiro em seu melhor dia, mas em uma crise, havia poucos melhores combatentes.

   —Val, estou no Bourbon...

   —Não me aventurarei nessa rua de enormes iniqüidades e horror plebeu, Acheron. É a latrina da humanidade. Nem sequer o perguntes.

   Ash pôs os olhos em branco ante o tom arrogante do romano.

   —Necessito-te no pântano.

   O silêncio lhe respondeu. Já podia imaginar Val em casa com seu lábio encrespado de repugnância. Não é que o general não tivesse estado em piores lugares lá nos dias nos que tinha comandado um exército romano. Ele era simplesmente resmungão em sua velhice.

   —Temos uma situação, Valerius —disse severamente—. Um grupo de Daimons vai atrás de um grupo de Katagaria e eles têm a mulheres em trabalho de parto...

   —Onde me necessitas?

   Ash sorriu. O romano tinha seus momentos. Bons e maus. Felizmente, este era um bom.

   —Estarei justo aí. —Ash desligou o telefone. Ele se precipitou dentro de um portal próximo onde ninguém pudesse vê-lo e se cintilou ao lado de Val em sua mansão.

   Valerius reagiu com atraso vendo Ash na sala antes que o romano pudesse ainda retornar o telefone sem fio ao pedestal. Vestido com um traje Armani negro e uma camisa negra de seda, e com o cabelo escuro até os ombros e penteado para trás em um rabo-de-cavalo, Valerius era o epítome de um homem privilegiado, bem criado.

   Patrício até o fim.

   O único indício de sobressalto que Valerius mostrou foi um ligeiro arqueamento de sua sobrancelha direita.

   —Não temos tempo para meios de transporte convencionais —esclareceu Ash.

   Antes que Val lhe pudesse perguntar o que queria dizer, Acheron o agarrou e se materializaram perto da guarida Katagaria.

   Val o olhou carrancudo.

   —Como fizeste isso? És algum estranho Were-Hunter híbrido como Ravyn?

   Ash lhe dirigiu um meio sorriso misterioso. Nenhum dos Dark Hunters sabia que ele era um deus e em realidade queria conservá-lo desse modo. Entre menos soubessem dele e seu sórdido passado melhor.

   —É uma longa história. A parte relevante é que tenho que ser precavido usando meus poderes ao redor das Katagaria grávidas. Se as lobas grávidas são forçadas na forma humana por meus poderes, isso matará a elas e a seus bebês instantaneamente. Assim, estarei brigando estritamente com as mãos como um humano somente para nos assegurar. Teus poderes não estão iónicamente carregados pelo que deverias estar bem brigando como sempre.

   Val assentiu entendendo.

   Acheron manifestou seu bastão de guerreiro, então guiou a Val para a guarida.

   O acampamento estava no caos total enquanto os varões, em sua maioria em forma humana, tentavam recolher às lobas grávidas e os cachorrinhos e movê-los sem usar a magia.

   Vane e Fang permaneciam sobre uma loba grávida em trabalho de parto enquanto outro varão, que tinha uma semelhança notável com Vane, ajoelhava-se ao seu lado. O homem era muito maior que os irmãos.

   Era Markus.

   Ash lhe recordava bem. O cruel governante Katagaria odiava a todo mundo fora da manada.

   Não obstante, Ash retificou, enquanto olhava a Vane e a Fang, seu pai odiava a muitos que estavam na manada também. Incluindo aos seus filhos.

   —Nos faça sentir orgulhosos, Anya —disse Markus severamente—. Sabe que criarei a teus cachorrinhos sob minha completa proteção.

   A wolfswan choramingou.

   Seu pai ficou de pé e deixou cair uma frase com desprezo sobre Vane e Fang.

   —Isto é vossa culpa. Amaldiçôo o dia no qual alguma vez tive filhos were lobos.

   Fang grunhiu pelo insulto que dava a entender que eram mais humanos que animais, e começou a andar para seu pai, mas Vane o agarrou.

   Markus curvou seus lábios.

   —Faria melhor em proteger a suas crias. Melhor que os deuses ajudem a ambos se algo lhes ocorrer. —Saiu à espreita de outros.

   Acheron e Val se dirigiram para os irmãos.

   —O que estão fazendo aqui? — demandou Vane logo que os viu—. Te disse que nos podíamos arrumar isso.

   Acheron plantou o extremo de seu cajado no chão e lhe olhou com uma paciência que realmente não possuía.

   —Não brinques de herói, Vane. A última coisa que precisas é lutar com os Daimons a suas costas enquanto Anya dá a luz.

   Vane estreitou os olhos neles.

   —Sabes algo sobre assistir no parto?

   Ash assentiu.

   —A verdade é que sim. Ajudei a trazer mais que minha justa parte deles durante os últimos onze mil anos. Humanos e outras coisas.

   Apesar de suas anteriores palavras, Vane pareceu estar aliviado pela resposta de Ash.

   Vane olhou a Val.

   —O que tu o que sabes?

   A resposta de Val foi tão desajeitada para ele como sua presença aqui.

   —Não sei nada sobre partos de cachorritos, Miss Scarlett, mas posso arrancar a cabeça de um Daimon sem suar.

   —Está bem, podem ficar ambos. —Vane ficou de cócoras ao lado de sua irmã e acariciou seu focinho com seu rosto enquanto ela ofegou e gemeu—. Não te preocupes, coração. Não vou te deixar.

   Ash se sentou ao seu lado e estendeu sua mão para que ela a farejasse.

   —Sou um amigo, Anya —disse em voz baixa—. Sei que tens muita dor, mas vamos ficar contigo e ajudar para que dês a luz a tuas crias.

   Ela contemplou a Vane quem fez ruídos do lobo em resposta a ela.

   Uma maldição forte soou.

   —Vane! —Fang gritou—. Temos crocodilos movendo-se por todo o lugar.

   Ash sorriu.

   —Está tudo bem. Estão comigo. Não atacarão ao menos que os golpeis.

   Fang levantou a cabeça duvidosamente.

   —Estás seguro? Não estão me olhando amigavelmente.

   —Positivo.

   O último do grupo Katagaria se foi, exceto por dois. Ash tinha visto ambos de antes, mas não os conhecia. . . .

   Não, não era totalmente certo. Desde que podia ver dentro de suas mentes e corações, soube instantaneamente que o loiro era o irmão de Vane e de Fang. Um irmão que tampouco eles sabiam que tivessem.

   O lobo de cabelo escuro era um amigo. Liam.

   Fang estreitou seu olhar sobre eles quando se uniram aos irmãos.

   —O que estão fazendo?

   Fury se encolheu.

   —Os lobos não brigam sozinhos.

   —Desde quando dás tu uma merda?

   Fury percorreu o olhar rapidamente para Anya e Ash sentiu não só sua dor, mas também seu desejo por ser contado entre seus irmãos. Era tão duro e profundo que trouxe uma dor ao seu próprio peito.

   Era também uma dor da qual ele poderia mais que relatar.

   —Vós dois necessiteis uma cabeça prudente para ajudar a brigar. —Fury indicou a ele e a Liam—. Esses somos nós.

   Vane levantou o olhar.

   —Deixe-os em paz, Fang. Se querem ficar, deixe-os. Quanto mais tenhamos para ajudar a proteger Anya, melhor.

   Fang deu um passo para trás enquanto os outros dois lobos lhe davam distância. Foram afastar-se a um lado com Val e os crocodilos enquanto Ash, Fang e Vane estavam agrupados sobre Anya.

   A tranqüila quietude do pântano foi quebrada só pelos ofegos e gemidos de Anya.

   Enquanto esperavam, Ash sentiu a tristeza nos olhos de Vane. Recordou um tempo quando ele tinha escutado os gritos de sua irmã enquanto dava a luz aos seus bebês. Não havia nada mais inquietante.

   Mas tudo isso desapareceu quando a primeira choramingação de bebê se escutou. Então o enfoque se converteu em um de alegria pela vida nova que tinha sido criada.

   —Ela estará bem —Val reconfortou aos irmãos enquanto notava seu desconforto também—. Sairá desta.

   —Não. —disse Vane, negando com a cabeça—. Tudo o que podemos esperar é salvar aos seus filhotinhos. Logo que o último deixe seu corpo, ela morrerá.

   Val lhe olhou com o cenho franzido.

   —Não sejas tão fatalista.

   Um músculo se moveu na mandíbula de Vane.

   —Não o sou, Dark-Hunter. Ela foi reclamada por seu companheiro. Uniram suas forças vitais. Se não tivesse estado grávida e carregasse uma nova vida quando ele morreu, ela teria morrido com ele. Logo que os filhotes nasçam, ela irá se unir a ele no outro lado.

   O estômago de Ash se contraiu apertado com a tristeza compassiva enquanto escutou a dor na voz de Vane. Ele sabia quanto significava Anya para ambos os irmãos. Também sabia o que estava a ponto de acontecer e embora queria mudá-lo, sabia que não podia. O destino era o que era e por tentar evitá-lo, poderia piorar o resultado para todos eles.

   —Sinto muito, Vane.

   —Obrigado. —Vane roçou sua mão através da coberta branca de sua irmã.

   Fang se sentou longe a um lado, seu olhar rondando enquanto guardava silêncio. Era tão estranho de sua parte não estar ficando pouco cerimonioso e inclusive fazer comentários estúpidos. Isso disse a Ash mais que qualquer coisa, que tão alterado estava Fang.

   Repentinamente, de um nada, uma horda de Daimons atacou.

   Vane disparou a seus pés para enfrentá-los.

   —Não sei como ajudar a nascer aos filhotes —disse a Ash—. Fique com ela e eu brigarei.

   Ash assentiu e permaneceu agachado junto a Anya enquanto ela sofria uma crise nervosa e choramingava.

   Fang se transformou em lobo, sua forma mais forte, para combater, como fez Liam e Fury, mas Vane permaneceu humano.

   Ash ouviu os Daimons gritarem enquanto encontravam aos lagartos espreitando-os.

   Anya começou a agitar-se enquanto a briga estalava. Ash manteve sua atenção enfocada na loba e só levantou o olhar para assegurar-se que os Daimons não estavam abrindo caminho mais perto de Anya.

   Fang, Fury e Liam estavam fazendo um trabalho notável mantendo-os a distância em forma de lobo enquanto Valerius e Vane os combatiam com faca e espada. Má coisa que os lobos não pudessem usar sua magia mais do que Ash poderia. Qualquer disparo ao azar de sua energia acidentalmente poderia pegar a Anya e aos seus filhotinhos e poderiam matá-los.

   —Vane!

   Ash se impulsionou ante o ruído humano da Were-Hunter. Levantou o olhar para ver um Daimon a ponto de atacar as costas de Vane. Prevenido, Vane viu o Daimon e se virou ao redor a tempo de apunhalar ao Daimon através do coração e matá-lo.

   Anya te recoste.

   Ash a segurou ainda enquanto o primeiro de seus filhotes coroava.

   —Assim é —disse a ela em uma suave e tranqüilizadora voz —. Estamos quase lá.

   Um Daimon subiu através das sebes ao lado deles. Ash se levantou de um salto e virou para defender Anya enquanto Fang apanhava ao Daimon e o nocauteava longe deles.

   —Te encarregue de minha irmã, —disparou-lhe Fang em sua mente.

   Ash rapidamente retornou a Anya.

   Com os Daimons tão perto agora, tinha que controlar a chegada do filhote, a Anya e aos Daimons.

   Não era fácil.

   —Empurra —disse a Anya—. Só um pouquinho mais.

   Os segundos seguintes passaram rapidamente e ainda pareceram mover-se lentamente através do tempo.

   Pulsado a pulsado.

   Dois Daimons se levantaram de sua briga com Fang. Um deles disparou a Fang com um Taser, voltando-o instantaneamente humano. Fang deixou sair um uivo enquanto seu corpo convulsionou incontrolavelmente de um a outro, entre lobo e humano.

   Vane foi atrás do segundo ao mesmo tempo em que o primeiro apontou o Taser em Vane, que se agachou no chão. O Daimon pressionou o botão e os aguilhões eletrificados erraram a Vane por uma fração de polegada.

   Em lugar disso, golpearam a Anya.

   Ash amaldiçoou furioso enquanto Anya foi transformada de loba a mulher e de novo a loba. Seus gritos ecoaram nas árvores e então ficou misteriosamente calada.

   Retornou a sua forma de lobo, sem mover-se absolutamente.

   Vane correu para ela, mas era muito tarde.

   Estava morta.

   Ash deixou sair seu grito de guerra e se precipitou ao Daimon que a tinha matado.

   Golpeou duramente ao Daimon na mandíbula, então usou suas mãos nuas para rematá-lo. Empurrou sua mão diretamente no peito do Daimon, perfurando sua marca.

   O Daimon se desintegrou em um rastro de pó dourado.

   Agora que podia usar seus poderes sem restrições, Ash cortou o trabalho dos Daimons que restavam.

   As transformações de Fang se haviam feito mais lentas, mas ainda se alternava entre as formas de humano e de lobo enquanto se arrastava lentamente para o corpo de sua irmã.

   Vane caminhou inexpressivamente para Anya e se deixou cair ao seu lado. Recolheu o corpo da loba em seus braços e a embalou como se fora um bebê.

   As lagrimas fluíram por seu rosto enquanto se balançava de trás para frente com ela e lhe murmurava ao ouvido.

   Fang deixou sair um uivo agudo e se converteu em homem. Com o corpo nu, pôs sua cabeça nas costas de Anya e se abraçou também a ela.

   Ash nunca esqueceria a visão dos três amontoados ali em sua dor. Perseguiria-lhe para sempre.

   Muito bem, recordou seu passado.

   Despedindo-se de sua irmã e seu bebê…

   Doía como se isso nunca sarasse completamente. De fato assim era. Nem mesmo onze mil anos levaram a ardente amargura dele.

   Com o rosto sombrio, Ash deu um passo para eles.

   —Precisas de mim para…

   —Fora —grunhiu Vane, sua voz feroz e fria—. Só nos deixe sozinhos.

   Val arqueou uma régia sobrancelha.

   —Poderia haver mais daimons aproximando-se.

   —E os matarei —Vane grunhiu—. Os matarei a todos.

   Não havia nada mais a fazer para ajudá-los e Ash odiou isso sobretudo. Os irmãos necessitavam de tempo para levar sua tristeza.

   Desintegrando seu cajado, deu a volta para Val que observava aos irmãos com um olhar afligido.

   —Não havia nada mais que pudesse fazer — disse Valerius a Vane—. Não te culpes.

   Vane deixou sair um grunhido desumano.

   Ash puxou o braço de Val e o separou da cena antes que Vane o atacasse pelo pesar.

   Os traços de Val estavam ainda perturbados com compaixão.

   —Os inocentes nunca deveriam ter que padecer pelas batalhas de outros.

   —Eu sei —disse Ash, com o coração pesado—. Mas assim parece ser sempre.

   Val assentiu.

   —A furore infra, libera nos.

   Ash fez uma pausa ante a citação latina. Tem piedade da fúria interna.

   —Sabes, Valerius, há vezes nas quais penso que na verdade poderias ser humano depois de tudo.

   Valerius se mofou disso.

   —Confie em mim, Acheron, não importa que parte de mim haja sido humana alguma vez, essa foi assassinada há muito tempo.

Fury observou silenciosamente durante horas enquanto Vane e Fang abraçavam a sua irmã e choravam como meninos. Recordou um tempo quando ele tinha chorado assim também, mas tinha sido uns séculos antes.

   Ele tinha enviado Liam na frente não muito tempo depois que a briga tinha terminado para contar ao resto grupo o acontecido, então ficou para trás no caso de que houvesse mais briga a terminar. Sem ter em conta as batalhas do passado, as emboscadas, e os maus sentimentos, Vane e Fang não precisavam estar sozinhos agora mesmo. Tudo pelo qual eles se preocuparam estava morto. Era uma dor que Fury não desejava a ninguém.

   A tristeza de Fury o golpeou a um nível diferente. Enquanto eles choravam pela irmã que tinham perdido, ele chorou internamente pela irmã que nunca conheceria.

   Era tão duro observar aos seus irmãos abraçarem-se dessa maneira enquanto ele estava parado lá fora.

   Para sempre um desconhecido.

   Mas não podia dizer a verdade a eles. Sua mãe e irmãos com os quais se criou se voltaram contra ele e tinham tentado matá-lo. A única mulher que alguma vez tinha amado tinha estado entre essas que se voltaram contra ele. Por que então Fang e Vane poderiam aceitar alguma vez o fato de que ele tinha nascido da mesma união maldita que tinha dado nascimento a eles?

   Além agora não era definitivamente o momento para uma reunião familiar.

   Deu um passo adiante tentativamente. Não por medo, e sim por respeito.

   —Caras? Estivemos aqui muito tempo. Já que o Taser desapareceu, acredito que deveríamos ir.

   Vane lhe imobilizou com o olhar mais friamente mortal que alguma vez teria visto. Voltou esse olhar para Fang.

   —Precisamos lhe dar um enterro apropriado. O devemos a ela.

   Fang quis gritar e amaldiçoar. Queria golpear até que a fúria impotente dentro dele se calasse. Mas não sabia se alguma vez voltaria a estar em silêncio. Algo dentro dele se fez pedaços. Não se supunha que Anya morrera. Supunha-se que ela estaria aqui. Em todo o inferno e incerteza que tinham sido suas vidas, ela tinha sido a única coisa para a qual ele e Vane tinham vivido. Sua influência tranqüilizadora.

   Ela tinha humanizado o lobo.

   Sem ela. . .

   Não havia nada dentro dele agora a não ser o animal selvagem que só queria o sangue de todos ao redor dele.

   Fury se aproximou deles lentamente em forma humana.

   —Onde está Liam? —perguntou Vane.

   —Enviei-lhe na frente para lhe dizer aos outros que os Daimons foram derrotados.

   Vane o olhou carrancudo.

   —Por que ficaste?

   Fury percorreu o olhar para o corpo de Anya.

   —Não acreditei que estivessem em condições de vos defender...

   —Estamos bem —grunhiu Fang, e o agarrou pela garganta.

   Fury cobriu o pulso com sua mão e a afastou de repente. Seus olhos turquesa jogaram faíscas de fúria.

   —Com tristeza ou sem tristeza, se me tocas assim outra vez, matar-te-ei.

   Vane os afastou.

   —Já houve suficiente morte aqui esta noite. Temos que ir.

   Fury deu um passo atrás.

   Fang começou a desculpar-se, mas as palavras lhe entupiram na garganta. Além disso, não devia nada ao bastardo. Fury provavelmente estava sentindo oculta satisfação por isso. Era típico dele.

   Descartando o pensamento, Fang se agachou até recuperar o corpo de Anya. Levantou-se lentamente com Anya em seus braços. Sua pelagem lhe fez cócegas à pele. Uma e outra vez viu imagens dela como cachorrinho, como adolescente e como mulher. Sobretudo, viu imagens delas como sua irmã e melhor amiga.

   Deus, como sentiria saudades.

   Vane suspirou.

   —Estás preparado?

   Não. Nunca estaria preparado para dizer adeus a ela. Mas não podiam ficar aqui para sempre. Assim assentiu, inclusive embora quis morrer ao lado dela.

   Usando seus poderes, encontraram a sua manada e o lugar onde tinham feito uma guarida temporária em Slidell. Não muito longe devido a que as fêmeas carregadas não podiam viajar facilmente, mas o suficientemente longe de maneira que deveriam estar relativamente seguros.

   Logo que apareceram, toda a atividade no acampamento se deteve.

   Cada olho, humano e lobo, voltou-se para eles e Fang jurou que poderia ouvir suas bruscas inspirações de fôlego.

   Mas foi o aspecto cinzento de seu pai o que os fez deter-se.

   A Fang pegou de surpresa a expressão de seu pai. Era ainda possível que o velho bastardo tivesse sentimentos para com eles?

   Contudo, não havia negação na angústia em seus olhos cansados.

   Markus se adiantou.

   —Onde estão as crias?

   Vane deixou cair sua mão do corpo de Anya.

   —Ela morreu antes que nascessem.

   Markus se afogou com um soluço. Aniquilado pela exibição inesperada de emoção, Fang não se moveu enquanto seu pai se adiantava para abraçar a Vane.

   Ao menos isso foi o que pareceu que ia fazer até que seu pai plantou um pequeno colar de prata no pescoço de seu irmão. Antes que Fang pudesse mover-se, Stefan plantou um nele por trás.

   Dando um passo atrás, Markus olhou para os outros ao seu redor.

   —É o momento para a timoria. Matem-nos.

 

 Fang lutou quando Markus arrancou o corpo de Anya de seus braços. Não queria deixá-la ir, mas com o colar posto, era praticamente um humano sem poderes e sem a força necessária para fazer algo mais que amaldiçoá-los.

     Stefan lhe agarrou e com ajuda dos bastardos de seus colegas pôde atirar Fang ao chão e lhe atar as mãos às costas. Tentou usar de novo seus poderes, mas o colar o evitou e em forma humana não era nem de longe tão forte como em forma de lobo.

   Vane estava no chão a pouca distância dele, também amarrado.

   Fury abriu caminho a empurrões através da multidão que os rodeava, seu rosto tinha expressão de asco quando olhou a Markus.

   —Posso falar a seu favor?

   Markus respondeu a sua pergunta com um cruel golpe de reverso. Fury cambaleou pelo golpe, o lábio e o nariz lhe sangravam abundantemente.

   —Só se queres te unir a seu castigo.

   A raiva pura que refletiam os olhos de Fury era abrasadora, encontrou o olhar fixo de Fang e o pesar e a tristeza que havia nele pegou Fang de surpresa. Por que merda teria que lhe importar um caralho se algo lhes acontecia?

   Limpando a boca com a mão, Fury retrocedeu gradualmente e afastou o olhar.

   —Senhor? —desta vez foi Liam quem deu um passo à frente.

     Markus lhe lançou um olhar furioso e ele se retirou.

   —Há algum outro bastardo que queira morrer com eles? —Markus jogou a todos um olhar raivoso.

   Fang não esperava que ninguém saísse em sua defesa e não lhe desiludiram.

   Inclusive Petra inclinou a cabeça e se retirou. Isso quanto a querer emparelhar-se com ele. Bruxa covarde.

   Markus baixou o corpo de Anya enquanto Stefan e George os punham de pé.

   —Como Regis deste clã, proclamo Vane e Fang traidores de nosso povo. Vane ajudou a um Dark-Hunter a proteger a um humano —cuspiu a palavra como se fora a coisa mais repugnante que se podia imaginar.

   Houve uma inspiração bem definida quando essas palavras foram ditas.

   Fang se voltou para Petra que recusou a aceitar seu fixo olhar. Suas bochechas eram de um vermelho intenso. Sua própria cólera cresceu ao compreender que lhe tinha traído. Por que lhe havia contado alguma vez isso?

   Maldita seja, deveria ter tido melhor critério.

   Quando aprenderia que as pessoas e os animais só traíam? Ninguém tinha sido nunca tão leal a ele como ele a eles.

   Markus os assinalou.

   —Os dois combateram contra os Daimons para ajudar aos Dark-Hunters e aos dois se viu conspirando com esses que caçam e matam a nossos primos, os Daimons. Como vingança por sua ação os Daimons atacaram nosso povo e ameaçaram a existência de todos nós —gesticulou para seus pés onde jazia o corpo sem vida de Anya —. Minha filha está morta por sua culpa.

   A hipocrisia dessa declaração acendeu a ira de Fang.

   —Filha? Nunca antes a reclamaste como tal. Não fizemos nada de errado! Os Dark-Hunters tentaram nos proteger enquanto tu corrias.

   —Silêncio! —Markus fez um movimento com a mão e apareceu uma mordaça sobre a boca de Fang—. Como líder e protetor de nosso clã, ordeno a todos uma timoria.

     Markus rasgou a parte traseira da camisa de Fang enquanto George rasgou a de Vane.

     Fang encontrou o olhar de seu irmão.

   “Sinto-o tanto, Vane” lhe disse mentalmente.

   Vane se esforçou por lhe oferecer um sorriso aberto.

   “Sairemos desta. Não te preocupes”.

   Fang queria compartilhar seu otimismo, mas sabia a verdade.

   Ambos iam morrer esta noite.

 

Fury se pôs a um lado quando seus irmãos foram atados a uma árvore e golpeados. Coléricas e amargas lembranças lhe rasgaram quando recordou ao povo de sua mãe lhe fazendo o mesmo, embora em seu caso tinha sido sua mãe quem encarregou sua timoria.

   O motivo para isso tinha sido equivalente a este, não porque ameaçassem ao clã, não porque tivessem feito algo incorreto.

     Foi simplesmente pelo fato de ter nascido de pais que os odiavam.

   A culpa lhe mordia por dentro, queria deter isto, protegê-los, mas… como poderia fazê-lo?

     A manada se voltaria também contra ele e enquanto ele e Liam tinham tentado falar em defesa deles, ninguém falaria na sua. Estaria como antes, lhe atacariam e deixariam para morrer.

   Se tivesse sorte…

   Assim deu um passo para trás, sua passividade o fazia tão culpado disto como dos delitos contra seus irmãos.

   Ao menos desta vez não és tu.

   A desculpa de um covarde. Fury queria ser melhor, ser tão valente como eles, ficar ao seu lado e agüentar com eles o que viesse.

   Mas não o era, o medo superou sua coragem e deu um passo para trás embora soubesse que devia fazer algo. Tentou descarregar a consciência dizendo-se que tampouco lhe teriam defendido.

   Possivelmente fora certo.

     Fang lhe odiava, sabia. Desde o dia em que Fury se uniu ao clã, não tinham se entendido nunca, eram muito parecidos.

     E isso fazia isto ainda mais duro. Ele se viu refletido nos olhos de Fang, a dor… a traição… o ódio brutal.

   Mas sobretudo viu a injustiça.

   —Isto é ridículo —grunhiu Liam ao seu lado—. Deveríamos fazer algo.

   —Algo como o que?

   Liam afastou o olhar com o lábio franzido.

   —Não nos irá bem uma vez que não estejam. Stefan estará encarregado agora, é indiscutível.

 —Então desafie a Markus.

   Liam bufou.

   —Não sou o suficientemente forte.

   E Fury tampouco o era, embora poderia lutar com Markus com pura força animal, não era competidor para a magia de seu pai porque lhe tinham jogado do clã de sua mãe pouco depois da puberdade e ninguém lhe tinha ensinado a forma de controlar seus poderes. Oh, se… podia mudar de forma, viajar através do tempo e do espaço, mas isso era tudo. E inclusive algumas destas coisas nem sempre podia controlá-las bem.

   Fury se estremeceu quando desataram Fang e Vane, seus corpos estavam destroçados pelos látegos com pontas até o extremo de lhe dar náuseas.

     Caíram sobre seus joelhos, ofegando e sangrando. Seu estômago se revolveu ante a visão. Estar preso em forma humana e não poder mudar a lobo era uma tortura em si mesmo, mas estar ferido e manter essa forma…

     Ele só podia imaginar quão atroz seria sua dor.

     E ainda assim continuavam juntos, não enfrentavam um ao outro culpando-se do que lhes ocorria.

     Isso era o que invejava Fury, uma união pura e carinhosa que nunca tinha experimentado ou compreendido.

   Vane e Fang eram irmãos.

   Até o final.

   Com mão tremente, Vane tentou alcançar a Fang que jazia imóvel, seu rosto estava deformado pela angústia.

   —Fang?

   A tortura e o medo que havia nessa fraca chamada trouxeram lágrimas aos olhos de Fury.

   Fang fechou sua mão ao redor da de Vane.

   O alívio no rosto de Vane foi intenso e de breve duração já que Stefan e George os puseram de pé e voltaram a lhes atar as mãos às costas.

     Não havia piedade ou remorso no rosto de Markus.

   —Leve-os ao pântano e deixe-os aos jacarés.

   Essas brutais palavras deixaram claro a Fury que tinha estado certo ao decidir não dizer nunca ao seu pai que ele era seu filho. Tal carência de misericórdia e de amor…

     Sua mãe havia tinha razão, Markus era um autêntico animal, mas ela era igual a ele. O instinto maternal tinha passado longe com tanta rapidez que não tinha deixado nenhuma marca sobre seu intolerante coração.

     Fury ia saindo quando ouviu um sussurrou trazido pelo vento e viu Markus falando com Stefan ao ouvido.

   —Pendure-os uma árvore, conjure aos Daimons para lhes rematar e diga-lhes que tomem tempo com eles. Quero que sofram.

   Stefan dobrou sua cabeça com submissão enquanto a cólera rompia através de Fury.

   E nesse momento, Fury soube o que tinha que fazer…

 

   Fang jogou a cabeça para trás enquanto todo seu corpo pulsava e ardia, pendurado no galho de uma árvore por uma fina corda que lhe cortava profundamente os pulsos, enviando rios de sangue por seus antebraços. O sangue gotejava diretamente desde seus cotovelos até a turva água e embora não teria que ter escutado o som da mesma, jurou que o fazia.

   Uma e outra vez, viu em sua mente os acontecimentos que os tinham levado até ali e se sentiu completamente como uma merda.

   —Sinto tanto, Vane. Juro que não era minha intenção nos matar assim.

   Vane grunhiu quando voltou a cair ao tratar de elevar-se. Fang podia dizer que lhe doíam os braços pela tensão de levantar noventa quilogramas de puro músculo só com os ossos de seus pulsos.

   Fang inspirou profundamente, tratando de ignorar a forte dor de seus pulsos enquanto pulsavam e ardiam.

   —Não te preocupes, Fang. Nos tirarei desta.

   Fang lhe escutou, mas realmente não registrou as palavras. Sentia-se muito mal pela situação. Tinha sido sua culpa. A morte de Anya, sua captura. Deveria ter sabido que seu pai lançaria algum tipo de merda.

   Por que não o tinha visto vir?

   Poderia ter lutado com mais ferocidade. Teria que ter lutado com mais ferocidade. Como pôde deixar que saltassem sobre ele tão facilmente?

   Agora ia provocar também a morte de Vane…

   Quando aprenderia?

   Vane esticou a corda afiada que atava suas mãos juntas por cima de sua cabeça, amarrada ao fino ganho de um velho cipreste enquanto pendurava precariamente sobre a parte mais escura, mais suja, da água do pântano que já tinha visto. Não sabia que era pior, a idéia de perder as mãos, sua vida ou cair nesse asqueroso e lamacento espaço infestado de jacarés.

   Embora, sinceramente, estaria morto antes de tocar o solo pelo fedor. Inclusive na escuridão do bayou[6] de Louisiana, podia ver o asqueroso e podre que era.

   Havia algo seriamente de errado em alguém que queria viver aqui no pântano. Finalmente tinha a confirmação de que o Dark-Hunter, Talon dos Morrigantes, era um idiota de primeira linha.

   Fang estava amarrado a um galho igualmente fino no lado contrário da árvore onde lhes tinham deixado pendurados surpreendentemente no meio do gás do pântano, as serpentes, insetos e jacarés.

   Com cada movimento que Vane fazia, a corda cortava a carne de seus pulsos. Se não conseguia soltar-se logo, essa corda cortaria de um lado ao outro através dos tendões e ossos, e cercearia suas mãos.

   Seria o último engano que cometeria alguma vez seu pai.

   Ao menos o seria se Vane pudesse tirar seus traseiros desse condenado pântano sem serem comidos.

   Ambos estavam em sua forma humana, e apanhados pelos finos colares chapeados de metriazo[7], que levavam ao redor do pescoço e enviavam impulsos elétricos. Estes os mantinham em sua forma humana. Algo que seu pai acreditou que lhes debilitaria.

   Era certo no caso de Fang.

   No de Vane, não.

   Mesmo assim, os colares amorteciam sua habilidade para esgrimir a magia e manipular as leis da natureza. E isso realmente lhe irritava muito.

   Como Fang, Vane estava vestido só com um par de jeans ensangüentados. É obvio, ninguém esperava que vivessem. Os colares não podiam ser tirados salvo com magia, a qual tampouco podiam utilizar enquanto os levassem postos e embora por algum milagre se desprendessem da árvore, havia já um numeroso grupo de jacarés que podiam cheirar seu sangue. Jacarés que simplesmente estavam esperando que caíssem ao pântano e fazer deles uma saborosa comida lobuna.

   —Homem —disse Fang irritado—. Fury tinha razão. Nunca deveria confiar em algo que sangra durante cinco dias e não morre. Teria que te haver escutado. Disse-me que Petra era uma cadela, mas te escutei? Não. E agora nos olhe. Juro que se sair desta, vou matá-la.

   —Fang! —estalou quando seu irmão seguiu amaldiçoando enquanto Vane tratava de guiar alguns poderes incluso através dos dolorosos golpes de corrente em seu pescoço—. Deixa o festival de culpa e me deixe me concentrar aqui, do contrário vamos estar pendurados nesta maldita árvore durante uma eternidade.

   Fang grunhiu enquanto também tentava elevar-se, mas tinha inclusive menos êxito que Vane. Por alguma razão simplesmente não podia conseguir subir muito mais.

   Malditos por isso. Olhou ao seu irmão e suspirou.

   —Bem, não eternamente. Acredito que só temos perto de meia hora antes que as cordas cerceiem nossos pulsos. Falando de meus pulsos, realmente me doem. Que tal os teus?

   Fang fez uma pausa enquanto Vane inalava profundamente e sentiu o diminuto movimento da corda que desceu afrouxada.

   Também escutou o rangido do galho.

   Fang entrou o pânico ante o som do rangido e a imagem do jacaré que esperava para tragá-los inteiros. Incapaz de ocupar-se disso, reagiu do único modo que podia. Com palavras.

   —Juro que nunca vou te dizer que me mordas o traseiro. Da próxima vez que me digas algo, vou te escutar, sobretudo se for sobre uma fêmea.

   Vane grunhiu.

   —Então, poderias começar a me escutar quando te digo que te cales?

   —Guardo silêncio. Só odeio ser humano. Isto absorve. Como o suportas?

   —Fang!

   —O que?

   Vane pôs os olhos em branco. Era inútil. Sempre que seu irmão estava em sua forma humana, a única parte de seu corpo que fazia um pouco de exercício era sua boca. Por que sua matilha não havia amordaço a Fang antes de lhes pendurar?

   —Sabes? Se estivéssemos em forma de lobo só teríamos que roer nossas patas. Claro que se estivéssemos em forma de lobo, as cordas não nos segurariam, então…

   —Te cale —o censurou Vane de novo.

   Fang fez uma careta enquanto seguia tentando-o e levantando as pernas, mas era inútil. Todo seu corpo estava intumescido e não podia suportar as agudas e dolorosas punhaladas que provocava a falta de circulação.

   —A sensibilidade volta alguma vez depois de que as mãos se intumesçem assim? Isto não ocorre quando somos lobos. Ocorre freqüentemente aos humanos?

   Vane fechou os olhos enojado. Assim desta maneira ia acabar sua vida. Não em uma gloriosa batalha contra um inimigo ou seu pai. Nem tranqüilamente em seu sono.

   Não, a última coisa que escutaria seria Fang dizendo merda.

   Em sentido figurado.

   Inclinou a cabeça de modo que pudesse ver seu irmão através da escuridão.

   —Sabe, Fang, por um minuto vamos deixar a culpa. Estou farto de estar aqui pendurado por tua maldita bocarra que decidiu explicar ao seu último brinquedo mastigável como protegi à companheira de um Dark-Hunter. Muito obrigado por não saber quando demônios fechá-la.

   —Sim, bem, como podia saber que Petra correria para Markus e lhe contaria que estava com Sunshine e que ele pensaria que por isso os Daimons nos atacaram? Cadela de duas caras. Petra disse que queria emparelhar-se comigo.

   —Todas querem emparelhar-se contigo, estúpido, é a natureza de nossa raça.

   —Vai a merda!

   Vane soltou o fôlego aliviado enquanto finalmente Fang se acalmava. A raiva de seu irmão lhe daria um alívio próximo aos três minutos enquanto Fang fervia para uma volta mais imaginativa e melhor expressiva. Só pedia que seus ossos lhe sujeitassem durante mais tempo sem separar-se.

   Enlaçando os dedos, Vane elevou as pernas. Mais dor atravessou seus braços enquanto a corda cortava mais profundamente sua carne. Só rezava para que seus ossos agüentassem um pouco mais sem separarem-se.

   Mais sangre se deslizou por seus antebraços enquanto elevava as pernas até o galho que havia sobre sua cabeça.

   Se só pudesse as envolver… ao redor…

   Golpeou ligeiramente a madeira com o pé descalço. A casca contra a qual arrastou sua suave planta do pé estava fria e quebradiça. Cavou seu tornozelo ao redor da madeira.

   Só um pouco… um pouquinho…

   Mais.

   Fang lhe grunhiu:

   —És tão idiota.

   Bem, isso quanto à criatividade.

   Vane centrou sua atenção em seus próprios batimentos rápidos e se negou a escutar os insultos de Fang.

   Cabeça abaixo, envolveu uma perna ao redor do ramo e soltou o fôlego. Vane grunhiu aliviado enquanto tirava a maior parte do peso de seus pulsos palpitantes, ensangüentados. Ofegou por isso enquanto Fang continuava com sua diatribe sem ser escutado.

 O ramo rangeu perigosamente.

   Vane conteve de novo o fôlego, com medo de mover-se não fora a ser para que isso provocasse que o ramo se partisse e lhe enviasse em uma queda em ponta ao pântano podre, de águas verdes debaixo dele.

   Repentinamente, os jacarés se agitaram na água, então se foram rapidamente.

   —Oh, merda —assobiou Vane.

   Esse não era um bom sinal.

   Pelo que sabia, só existiam duas coisas que afastassem aos jacarés. Uma era que Talon ou Acheron os refreassem. Mas desde que Talon estava nessa noite no French Quarter salvando o mundo e não no pântano parecia extremamente improvável. Quanto ao Acheron, não tinha nem idéia de aonde tinha ido.

   A outra opção muito menos atraente eram os Daimons… aqueles que eram mortos andantes, amaldiçoados a matar para manter suas vidas artificialmente estendidas. A única coisa da qual se orgulhavam mais de matar que aos humanos eram aos Were-Hunter Katagaria. Tendo em conta que as vidas dos Were-Hunter se estendiam durante séculos e possuíam habilidades mágicas, suas almas poderiam manter um Daimon dez vezes mais que um humano médio.

   Inclusive mais impressionante que isso, uma vez que a alma do Were-Hunter era reclamada, suas habilidades mágicas eram absorvidas dentro dos corpos dos Daimons que podia utilizar esses poderes contra outros.

   Era um dom especial ser o pequeno deleite dos não mortos.

   Só havia uma razão pela qual os Daimons estariam aqui. Só um modo pelo qual pudessem encontrar a ele e a Fang nesse isolado pântano que os Daimons não pisavam sem uma razão. Alguém tinha oferecido a ambos como sacrifício de modo que os Daimons esquecessem a sua matilha Katagaria.

   E não havia dúvidas em sua mente sobre quem tinha feito essa chamada.

   —Maldito! —grunhiu Vane na escuridão, sabendo que seu pai não podia lhe ouvir. Mas precisando desabafar de algum modo.

   —O que te fiz? —Perguntou indignado Fang—. Além de conseguir de todos os modos que te matem.

   —Tu não —disse Vane enquanto punha todo seu esforço em conseguir subir sua outra perna de modo que pudesse libertar suas mãos.

   Algo saltou do pântano à árvore por cima dele.

   Vane retorceu seu corpo para ver o alto e magro Daimon que estava justamente sobre ele, percorrendo-o com o olhar com um brilho divertido em seus olhos famintos.

   Completamente vestido de negro, o Daimon estalou a língua.

   —Deverias estar encantado de nos ver, lobo. Depois de tudo, só queremos te libertar.

   —Vai ao inferno! —grunhiu Vane.

   O Daimon riu.

   Fang uivou quando um Daimon afundou suas presas em seu ombro. Provou a dar uma cabeçada. Foi um fiasco. Apinharam-se sobre ele como se fossem formigas enquanto não tinha forma de lhes deter. Tratou de chutar e morder… qualquer coisa para atacá-los.

   Nada funcionou.

   Estava impotente para proteger-se.

   Estava impotente para proteger a Vane. Esse conhecimento lhe deixou totalmente sorvete. Nunca tinha conhecido esse sentimento de completo desamparo. Era um lutador. Um soldado.

   Como podia não ser capaz de proteger as coisas que mais amava? Anya tinha ido e agora Vane…

   —Afastem a merda de mim! —grunhiu aos Daimons, fazendo sua melhor tentativa para libertar-se.

   Afundaram as presas profundamente, rasgando sua carne. A dor era insuportável. Tinha a impressão de que lhe estavam comendo vivo.

   Vane viu como um grupo de dez Daimons desprendia a Fang da árvore. Maldito seja! Seu irmão era um lobo. Não sabia como lutar contra eles em forma humana. Ao menos não enquanto Fang levasse posto o colar.

   Enfurecido, Vane chutou com suas pernas. O galho se rompeu imediatamente, lhe lançando direto à água estancada debaixo dele. Conteve o fôlego quando o gosto pútrido, lamacento invadiu sua cabeça. Tentou espernear até a superfície, mas não pôde.

   Não é que isso importasse. Alguém lhe agarrou pelo cabelo e puxou até a superfície.

   Logo que sua cabeça esteve por cima da água, um Daimon afundou suas presas no ombro nu de Vane. Grunhindo furioso, Vane acotovelou ao Daimon nas costelas e utilizou seus dentes para devolver a dentada.

   O Daimon gritou e lhe soltou.

   —Este briga —disse uma fêmea enquanto se dirigia para ele—. Nos sustentará mais que o outro.

   Vane lhe chutou as pernas antes que pudesse lhe alcançar. Utilizou o corpo dela como se fora um trampolim para sair da água. Como qualquer bom lobo, suas pernas eram o bastante fortes para que lhe lançassem da água ao toco de um cipreste próximo.

   Seu cabelo escuro e molhado caía e frente de seu rosto enquanto seu corpo pulsava pela briga e pela surra que sua matilha lhe tinha dado. A luz da lua cintilou sobre seu musculoso corpo molhado, enquanto se agachava com uma mão sobre o velho toco de madeira que se delineava contra a cortina de fundo do pântano. A escura Barba Espanhola pendurava das árvores e a madeira ressaltada pela lua cheia, escondida na névoa, refletindo misteriosas ondas negras nas aveludadas águas.

   Como o animal que era, Vane observou aos seus inimigos fechar linhas ao seu redor. Não estava perto de entregar a si mesmo ou a Fang a esses bastardos. Podia não estar morto, mas estava igualmente maldito como eles e inclusive mais zangado com o destino.

   Subindo as mãos até a boca, Vane utilizou os dentes para cortar a corda que rodeava seus pulsos e libertar suas mãos.

   —Pagarás por isso —disse um Daimon varão enquanto se movia até ele.

   Com as mãos livres, Vane retrocedeu lançando-se do tronco cortado até a água. Atirou-se às profundidades turvas da água até que conseguiu arrancar um pedaço de madeira de uma árvore caída que estava ali sepultado. Impulsionou-se de caminho de volta até a área onde Fang estava sendo segurado.

   Saiu da água justo ao lado de seu irmão para encontrar dez Daimons diferentes alimentando-se do sangue de Fang.

   Chutou umas costas, agarrou outro pelo pescoço e cravou a estaca improvisada no coração do Daimon. A criatura se desintegrou imediatamente.

   Outros se voltaram para ele.

   —Adquiram número —lhes grunhiu Vane—. Há o suficiente deste para todos.

   O Daimon que estava perto dele riu.

   —Teus poderes estão presos.

   —Diga-o ao diretor de pompas fúnebres —disse Vane enquanto se lançava até ele. O Daimon saltou para trás, mas não o bastante longe. Acostumado a lutar contra humanos, o Daimon não teve em conta que Vane podia saltar dez vezes mais longe.

   Vane não necessitava de seus poderes psíquicos. Sua força animal era suficiente para terminar isto. Apunhalou ao Daimon e se virou para enfrentar aos outros enquanto o Daimon se evaporava.

   Adiantarem-se até ele, mas não sortiu efeito. A metade do poder de um Daimon era a habilidade para golpear desprevenidamente e fazer que sua vítima entrasse em pânico.

   Isso funcionaria se, como primo dos Daimons, Vane não tivesse sido treinado nessa estratégia desde o berço. Não havia nada a respeito deles que lhe fizesse aterrorizar-se.

   Tudo o que sua tática fez foi lhe voltar frio e determinado.

   E, finalmente, isso lhe faria vencedor.

   Vane rasgou a dois mais com sua estaca enquanto Fang permanecia quieto na água. Seu medo começou a crescer, mas o forçou a baixar.

   Manter-se tranqüilo era o único modo de ganhar uma briga.

   Um dos Daimons o surpreendeu com uma explosão que lhe lançou em espiral através da água. Vane chocou contra um tronco cortado e gemeu pela dor que explodiu em suas costas.

   Por costume, golpeou com seus poderes só para sentir que o colar se apertava e lhe eletrocutava. Amaldiçoou pela nova dor, então o ignorou.

   Levantando-se, se jogou contra os dois varões que se dirigiam até seu irmão.

   —Te dê já por vencido —grunhiu um dos Daimons.

   —Por que não o fazes tu?

   O Daimon se lançou. Vane se meteu rapidamente debaixo da água e puxou os pés do Daimon debaixo dele. Brigaram na água até que Vane lhe surpreendeu com a estaca no peito.

   O resto se foi correndo.

   Vane estava na escuridão, escutando-os se espalhar longe dele. Com o coração golpeando seus ouvidos deixou que a fúria lhe consumisse. Jogando a cabeça para trás, deixou sair o uivo de seu lobo que ressonou misteriosamente através do brumoso bayou.

   Desumano e maligno, era o tipo de som que fazia com que inclusive as sacerdotisas do vodu corressem em busca de refúgio.

   Certo agora de que os Daimons partiram, Vane penteou seu cabelo molhado afastando-o de seus olhos enquanto fazia o caminho até Fang, quem ainda não se havia movido.

   Estrangulado pela tristeza tropeçou enquanto se movia cegamente através da água com um único pensamento em mente… que não esteja morto.

   Uma e outra vez, viu em sua mente o corpo sem vida de sua irmã. Sentiu sua frieza contra sua pele. Não podia perder aos dois. Não podia.

   Isso lhe mataria.

   Pela primeira vez em sua vida, desejo ouvir um dos estúpidos comentários de Fang.

   Nada.

   As imagens passaram como um relâmpago por sua mente quando recordou a morte de sua irmã. Uma inimaginável dor destroçou através dele. Fang tinha que estar vivo. Tinha que está-lo.

   —Por favor, deuses, por favor —respirou ao fechar a distância entre eles. Não podia perder ao seu irmão.

   Isto não…

   Os olhos de Fang estavam abertos, com o olhar perdido na lua cheia que lhes teria permitido saltar no tempo fora do pântano se não tivessem levando ambos os colares.

   Tinha feridas abertas de dentadas por todo o corpo.

   Uma intensa e profunda tristeza destruiu através de Vane, rompendo em pedaços seu coração.

   —Vamos, Fang, não estejas morto —disse, rompendo sua voz quando se esforçou para não chorar. Em troca, grunhiu—. Não morras sobre mim, tolo.

   Puxou seu irmão até ele e descobriu que Fang não estava morto. Ainda respirava e tremia incontrolavelmente. Superficial e abrasivo, o vazio cavernoso da respiração de Fang foi uma sinfonia nos ouvidos de Vane.

   As lágrimas se revelaram enquanto o alívio o perfurava. Balançou cuidadosamente a Fang entre seus braços.

   —Vamos, Fang —disse com tranqüilidade—. Diga algo estúpido para mim.

   Mas Fang não falou. Só jazeu ali em um completo choque enquanto tremia entre os braços de Vane.

   Ao menos estava vivo.

   No momento.

   Vane chiou os dentes enquanto a cólera o consumia. Tinha que tirar seu irmão daqui. Tinha que encontrar um refúgio para ambos.

   Se semelhante lugar existisse.

   Com sua raiva solta, fez o impossível, destroçou o colar de Fang tirando-o de sua garganta com as mãos nuas. Num segundo, Fang se converteu em lobo.

   Ainda assim, Fang não voltou. Não piscou ou falou.

   Vane tragou o nó de dor da garganta e lutou contra as lágrimas que ardiam seus olhos.

   —Está bem, irmãozinho —murmurou ao ouvido de Fang enquanto o recolhia da fedorenta água. O peso do lobo marrom era doloroso, mas a Vane não importou. Ignorou a dor de seu corpo que protestava ao levar Fang.

   Enquanto houvesse um sopro de vida em seu corpo, ninguém voltaria a machucar a alguém ao qual Vane cuidasse.

   E levaria a morte a quem quer que alguma vez o tentasse.

 

 Aimee deixou cair o prato enquanto a dor a atravessava. Tratando de respirar, recostou-se contra a pia da cozinha.

   —Ocorre algo?

   Ela olhou a Tony, um de seus cozinheiros e assentiu com a cabeça.

   —Só uma estranha pontada.

   Como era humano não lhe faria nada bem lhe explicar o que estava acontecendo com ela e seus poderes.

   Fang estava ferido.

   Podia-o sentir. E mais que isso, tinha uma assustadora necessidade de encontrá-lo.

   Agora!

   Não o faças…

   Ele não a queria ao seu redor. Tinha-o deixado mais que claro. E mesmo assim, ela não podia sacudir o sentimento interior que lhe dizia que era imperativo chegar a ele. Estava muito próximo à morte. Fechando os olhos, dirigiu sua atenção e viu Vane lutando contra Daimons enquanto um grupo deles se alimentava de Fang. Ela viu seus colares claramente na escuridão e soube que isso os tinha deixado indefesos para a briga.

   Seriam devorados.

   Incapaz de suportá-lo, esqueceu-se do prato e correu para a casa Peltier. Dev tinha terminado suas funções há uma hora. Transportou a si mesma para sua porta e chamou.

   —Entra.

   Ela abriu a porta para encontrá-lo em sua cama, vendo televisão enquanto folheava uma revista de motocicletas.

   —Os lobos que me salvaram estão em sérios problemas. Não posso deixá-los sozinhos nesta briga e poderia necessitar de reforços.

   Dev não duvidou.

   —Levarei Etienne e Colt. Tu vais atrás de Alain.

   Agradecida por seu entendimento, deixou-o para ir ao seguinte quarto para bater na porta de Alain. Antes que inclusive pudesse levantar sua mão, seu celular soou. Aimee respondeu para encontrar ao lobo Fury na outra linha.

   —Estavam falando a sério sobre oferecer proteção a Vane e Fang? —sua voz soava mortalmente séria.

   —Sim, por que?

   —Porque seu pai os traiu e os deixou para morrer. Não há nada que eu possa fazer, mas espero que vós sejais capazes de salvá-los.

   Ela escutava enquanto ele a enchia com mais detalhes do que sua visão lhe havia provido. Sobretudo, deu-lhe sua locação exata.

   —Por que me estás dizendo isto?

   —Porque devo, mas não posso fazer mais. Salve-os Aimee, por favor.

   —Farei tudo o que possa.

   —Obrigado e eu tratarei de manter à manada longe. Além disso, não diga nada a ninguém a respeito desta ligação, especialmente não a Vane ou Fang —desligou antes que pudesse responder.

   Ela franziu o cenho ante suas palavras de despedida. Que pedido tão estranho.

   Sacudindo sua cabeça, guardou seu telefone, bateu na porta de Alain e lhe contou o que estava acontecendo. Como Dev, levantou-se imediatamente para unir-se a ele.

   Uma vez que estiveram reunidos, levou-os para onde tinha visto Vane e Fang em sua visão e para a locação que Fury lhe tinha dado. Os Daimons já tinham voado quando eles chegaram.

   A sua esquerda, Vane sustentava a Fang, que estava agora em sua forma de lobo. Ela correu para eles com seus irmãos bem atrás.

   —Vane?

 Ele olhou para cima, com um cenho furioso até que percebeu que não eram Daimons. Sua irritação se fundiu sob um severo gesto de confusão.

   —O que estão fazendo aqui?

   Ela duvidou em lhe dizer a verdade. Ninguém precisava saber a extensão de seus poderes ou sua de habilidade de afinar-se na posição dos seres com uma exatidão surpreendente. E sobretudo, não desejava trair a Fury.

   —O que aconteceu? —perguntou, tratando de mudar sua atenção para eles.

   Vane sacudiu sua cabeça como se estivesse tratando de despertar de um pesadelo.

   —Fomos atacados…

   —Olhe —disse Alain, dando um passo adiante—. Não quero ser grosseiro, mas os Daimons estão aí fora e com força esta noite e enquanto a maioria deles é covarde, há suficientes Spathi pelos arredores e não queremos ser pegos em desvantagem. Retornemos ao Santuário e então falaremos.

   Aimee não podia estar mais de acordo.

   Vane os olhou com suspeita.

   Dev pôs sua mão sobre o ombro de Vane.

   —Vós salvastes a Aimee e meu pai lhes disse que seriam bem-vindos a qualquer momento. O dissemos a sério. Agora vamos. Limparemos e cuidaremos de vós.

   Aimee não se moveu até que todos eles desapareceram. Olhou a área enquanto os eventos da noite jogavam em sua mente. A agonia de Vane e Fang persistia aqui como um fantasma que a acossava.

   Anya estava morta e sua manada se voltara contra eles. Ela entrecerrou os olhos pela dor que sentia por Fang. Isto não seria fácil para ele.

   Tratando de ajudar, apareceu de novo no Santuário. Seus irmãos tinham levado a Fang ao quarto de exames de Carson enquanto eles e Vane, que tinha vestido a si mesmo com um novo par de calças e camiseta, permaneciam no escritório, relatando os eventos aos seus irmãos.

   Carson estava na outra sala, sozinho, examinando a Fang.

   Ela permaneceu ao lado de Dev e esperou silenciosamente enquanto eles falavam. Era surpreendente quanto horror tinha visto em suas visões que Vane não deixava sair. Mas, talvez não era tão estranho. Admitir que teu pai tinha a intenção de os matar, a ti e a teu irmão, sem razão alguma tinha que ser duro para ele. Quem quereria dizê-lo a completos estranhos?

   Enquanto eles falavam, foi procurar comida para Vane. Trouxe-o das escadas e o colocou no escritório de Carson.

   Vane sorriu com gratidão.

   —Obrigado.

   Ela inclinou a cabeça para ele.

   —Necessita de algo mais?

   O olhou melancolicamente para a porta da sala onde Carson estava tratando a Fang.

   —Suponho que não.

   Aimee lhe tocou o ombro com simpatia, sabendo que a única coisa que precisava era ver Fang normal e inteiro. Que tivesse sobrevivido ao ataque.

   E por alguma razão que ela não podia dizer, também o necessitava.

   Carson saiu da sala de exames um tempo depois que Vane tinha terminado de comer e ela tinha levado os pratos à cozinha.

   Vane se levantou imediatamente.

   Ela podia ver, pela tristeza nos olhos de Carson, que não eram boas notícias.

   —E então?

   Vane golpeou suas mãos contra suas coxas com agitação nervosa.

   Carson o olhou e suspirou.

   —Está completamente sem resposta.

   Vane franziu o cenho.

   —Isso o que significa?

   —Está retraído em si mesmo, provavelmente pelo chowue, e não responde a nada do que faço.

   Essa notícia não pareceu satisfazer a Vane mais do que satisfez a Aimee.

   —E com respeito a suas feridas?

   —Sararão, mas não estou seguro sobre seu estado mental. Os ossos e as feridas posso ajeitar, mas o que está mal com ele… talvez necessitem de um psicólogo.

   Vane o empurrou para passar atrás dele.

   —Tolices.

   Abriu a porta completamente para ver Fang descansando na mesa em sua forma de lobo. Exceto pela sutil subida e descida de suas costelas, seria fácil confundi-lo com um cadáver. Nem sequer se movia.

   Aimee se moveu para olhar enquanto Vane o abraçava.

   —Fang? Vamos garoto. Te levante.

   Fang o ignorou completamente.

   Vane crispou seus punhos na pele de seu irmão e apertou o suficientemente forte para fazer que Aimee se estremecesse.

   —Maldito seja. Te levante!

   Fang não respondeu absolutamente. Só estava aí, sem mover-se, sem piscar. Era como se tivesse deixado este mundo e tivesse ido a algum lugar mais longínquo.

   Carson se foi para a parte oposta da mesa. Gentilmente, retirou as mãos de Vane da pele de Fang.

   —Não está realmente conosco. É como se sua mente não pudesse controlar o que aconteceu com os dois e se retirou profundamente dentro dele.

   Vane sacudiu a cabeça em negação.

   —Ele é mais forte que isso. Sempre foi forte…

   —Inclusive o mais magnífico carvalho pode ser derrubado pelo sussurro de um vento se vier da mais poderosa tormenta.

   Ela tragou o nó que lhe queimava na garganta pelas emoções empáticas que a golpeavam. Uma e outra vez, via Fang como tinha estado no dia que lhe tinha levado o filé enquanto esperava a sua manada. Tinha um grande poder e integridade. Como podia lhe haver acontecido isto?

   Estava de acordo com Vane. Não tinha nenhum sentido.

   —Há algo que possamos fazer? —perguntou ela.

   Carson suspirou.

   —Não tenho idéia. Diria que chamassem a Grace Alexander e vissem se ela pode ajudar.

   Vane franziu o cenho.

   —Quem é ela?

   Carson alisou a pele de Fang onde Vane a tinha apertado.

   —Ela está casada com um semideus Grego e é uma psicóloga licenciada. É a única que conheço que pode alcançá-lo.

   Vane tomou a cabeça de Fang e a colocou em um ângulo de tal maneira que o olhava com os olhos em branco.

   —Olhe para mim Fang! Por todos os demônios, não faças isto. Preciso de ti lúcido. Não podemos ficar aqui. Me escutas? Tens que te levantar para poder lutar.

   Carson tirou suas mãos novamente.

   —Não acredito que mais violência seja a resposta. Deixe-lhe descansar esta noite. Talvez esteja melhor pela manhã.

   Dev e Alain se aproximaram.

   —Queres que o movamos?

   Carson negou com a cabeça.

   —Acredito que é melhor se permanecer aqui durante algum tempo. Mas estou seguro que Vane gostaria de um lugar mais confortável para passar a noite.

   Aimee pôs sua mão sobre o ombro de Vane.

   —Vá, tome uma ducha quente e descanse um momento. Estarei aqui com Fang até que retornes.

   Vane duvidou.

   —Não sei.

   Ela deu tapinhas em seu braço e sorriu.

   —Está tudo bem, Vane. Chamarei-te se algo muda. Prometo-o.

   Assentiu desanimado. A agonia em seus olhos avelã era assustadora. Ela pediu aos deuses que, de algum jeito, pudesse diminuir a dor aí, mas não havia nada que pudesse fazer por ele, exceto que retornasse Fang, e neste momento parecia impossível.

   Suspirando, impulsionou a si mesmo e seguiu a Dev e Alain longe do quarto. Colt permaneceu por trás dela enquanto Carson retornava ao seu escritório para fazer a papelada.

   Aimee pegou um lençol do armário para envolver Fang. Deslizou sua mão através de sua suave pele, acariciando-o tão meigamente como podia.

   —Aqui estou Fang —sussurrou—. Quando estiveres preparado para enfrentar ao mundo de novo, não estarás sozinho. Vane está aqui e nós estamos aqui. Para ti.

   Se as palavras o alcançaram, ela não tinha idéia. Ele nem sequer piscou.

   Ela olhou para cima e captou o olhar de Colt.

   Seu olhar estava vazio e era arrepiante.

   —Eu sei como é esse estupor no qual ele está. É o mesmo no qual estive eu quando minha irmã foi assassinada.

   —Recordo-o —disse ela pensando na noite quando Colt tinha aparecido em sua porta depois que ele e sua irmã os tivessem deixado durante um ano. Sua mãe tinha sido uma ursa Arcadiana… a babá de seu pai.

   Colt e sua irmã tinham nascido aí. E só ele retornou a eles.

   Família era família e eles lhe tinham dado a bem-vinda e o tinham mantido a salvo. Ele era como um irmão para ela também.

   O engraçado era que quando ela o chamava de primo ou priminho, as pessoas pensavam que era de carinho. Não tinham nem idéia que em realidade eram primos.

   Aimee assinalou com a mandíbula para a porta.

   —Por que não vais e descansas? Estarei bem aqui com ele.

   —Estás segura?

   Ela assentiu.

   —Carson estará justo lá fora.

   —Se necessitar algo…

   —Eu sei, obrigada.

   Aimee esperou até que esteve a sós com Fang. Recostando-se, colocou seu rosto contra seu pescoço e o abraçou perto.

   —Onde quer que estejas Fang. Precisa voltar conosco.

 

Fang se moveu bruscamente enquanto escutava uma suave voz lhe sussurrando.

   —Aimee! —gritou.

   Ninguém respondeu. Havia escuridão em todo seu redor. Sentia-se apertado e pesado como pedaços de gelo. Congelando-o enquanto caminhava com dificuldade através de uma lúgubre água que parecia atravessar seu corpo. Tilintavam-lhe os dentes, tinha as mãos envoltas a sua volta.

   —Vane!

   Ainda não havia resposta. Estaria morto?

   Era isto o inferno?

   Era a única explicação racional. Que mais seria tão horrível?

   —Não estás morto.

   Virou bruscamente para a voz que vinha atrás dele.

   Tampouco havia ninguém.

   —Quem disse isso?

   —Eu disse.

   Virou-se de novo enquanto escutava em seu ouvido uma vez mais. Aí não havia ninguém.

   —Quem és?

   —Sou Misery.

   Ele a viu então. Um magro esboço de ser com flutuante cabelo negro que remarcava a pele branca mais pálida que tinha visto. Estava tão pálida que tinha uma leve tintura como cinzento. Seus penetrantes olhos eram negros e grandes. Parecia estar quase vazia.

   —Onde estamos?

   Ela sorriu desanimadamente.

   —No Reino das Trevas.

   Fang franziu o cenho ante a resposta.

   —O que?

   —Estamos cativos em um lugar entre a vida e a morte. Foste atacado pelos Daimons e tomaram suficiente de tua alma para que não estejas vivo. Entretanto, não estás realmente morto. Uma parte de ti ainda vive no reino humano. Agora estás preso nas sombras como o resto de nós.

   —O resto de quem?

   Ela levantou a mão e ele viu legiões ao seu redor. Tipo zumbis, golpeavam-se e grunhiam, caminhando com dificuldade na mesma água pesada que lhe pegava.

   —Somos almas perdidas que foram renegadas a este lugar por crueldade.

   Ele sacudiu a cabeça cuidando para que tudo tivesse sentido. Como era que ele podia estar aí?

   —Não entendo. Como foi que chegaram?

   Ela baixou seu braço e a luz desapareceu.

   —Sou um demônio que foi apanhado há séculos. Minha família ainda me procura, mas nunca me encontrarão. Deverei viver toda a eternidade aqui nesta agonia. Incapaz de escapar sem ajuda humana. Incapaz de dormir ou comer comida real. Não há nada a fazer exceto sofrer e ter saudades —suspirou—. Mas cedo ou tarde, seu corpo mortal morrerá e serás libertado… não como eu. Inclusive se escapar, nunca serei realmente livre.

   Fang sacudiu de novo a cabeça.

   —Tolices. Isto é só um sonho. Um louco pesadelo.

   Ela riu.

   —Se tão somente o fora.

   Ainda assim, recusou-se a acreditar nisso. Ela estava mentindo. Tinha que estar fazendo-o. Virou-se longe dela e esbofeteou a si mesmo. Com força.

   —Vamos Fang, acorda.

   Misery o seguiu.

   —Todos passamos por um período de negação. Mas não muda para nada. Estamos aqui e aqui permaneceremos.

   —Vane! —gritou Fang tão alto como pôde, ignorando a ela e a sua nefasta predição.

   Enfocou-se tão forte como pôde, tratando de alcançar através deste reino ao seu irmão.

   Vamos irmão, me escute!

   —Demônios, Vane! Desperta-me!

   Lá vêm os Coletores! Lá vêm os Coletores! Frenéticas vozes gritavam na escuridão.

   Misery tomou seu braço.

   —Venha, temos que nos esconder.

   —Nos esconder do que?

   —Dos Coletores. Se te encontrarem, destruirão essa parte de ti e estarás para sempre aqui preso como seu escravo.

   Ele se burlou.

   —Que merda é esta?

   Ela o empurrou para frente rumo a uma tenebrosa greta.

   Fang começou a lhe dizer coisas, mas mordeu a língua. O que acontecia se não era um retorcido pesadelo? Ele era um Were-Hunter. De todas as criaturas, ele sabia que havia muito mais no universo que a ordem “natural”.

   Melhor estar a salvo que apenado até que se desse conta exatamente do que estava acontecendo aí.

   Empurrou a si mesmo profundamente dentro do estreito e escarpado espaço. Além da bruma, podia escutar algo se aproximando. Parecia como balbuceios humanos ou um falatório demoníaco sem sentido. Horripilante e ameaçador inclusive para o mais sólido dos corações.

   Aproximava-se.

   Até mais perto, até que pôde ver a figura de seu grande e retorcido corpo. Como Misery, o ar flutuava ao seu redor. Musculoso e alto, recordava aos ogros e trolls com grandes e afiadas unhas.

   Aproximou-se de uma dos zumbis que tinha visto. Tomando-a, atravessou-lhe o pescoço com os dentes. Ela gritou, então ficou em silêncio e rígida enquanto o Recoletor parecia inalar sua essência. Deixou cair seu corpo sem vida a um lado e procurou outra vítima.

   Misery colocou um dedo sobre seus lábios para lhe recordar que permanecesse em silêncio.

   “O que estão fazendo?” Projetou para ela.

   “Te disse isso, estão tomando uma parte deles e deixando-os presos neste lugar para sempre. Agora são escravos dos Coletores e farão qualquer coisa que peçam”.

   “Com que propósito?”

   “Os Coletores levam as partes recoletadas aos demônios e outros de sua espécie como troca para utilizar o corpo dos demônios para poder escapar daqui por um tempo. Conduzem-nos para a terra para poder fazer uma troca conosco. Mas não são os únicos dos quais terás que tomar cuidado. Há outros demônios que tratarão de te escravizar ou te torturar. É um lugar perigoso para todos nós”.

   Fang não se moveu até muito tempo depois que os Coletores se fossem. Misery escalou primeiro. Duvidando e temerosa, recordou a um tímido coelho.

   —Já se foram, acredito.

   Fang estava desconcertado por tudo isto.

   —Não entendo como posso estar preso aqui. Sou um Were-Hunter.

   —E eu sou um demônio com poderes muito maiores que os teus, lobo. Este é o vórtice entre dimensões, um lugar de má morte de inimaginável crueldade.

   —Então por que estás me ajudando?

   Ela lhe jogou um insidioso meio sorriso.

   —Misery adora companhia.

   —Não és engraçada.

   Ela riu enquanto dançava ao seu redor.

   —Não te preocupes Were-Hunter. Agora venha, devemos estar fora da principal via de entrada antes que os Coletores retornem.

   Fang não estava tão seguro de que devesse segui-la, mas não tinha razão para duvidar dela. Tinha razão, não sabia nada a respeito deste reino, de seus perigos e seus habitantes.

   —Tem que haver uma forma de sair daqui.

   Misery riu.

   —Sempre esperançado. Eu gosto disso. Mas toda a esperança do universo não fará que apareça uma porta quando não há. Acredite em mim.

   Ele desejou poder fazê-lo. Mas não era ingênuo. Nunca o tinha sido. Seguindo-a cautelosamente, tratou de ver através da escuridão. Era opressiva.

   Finalmente chegaram a um espaço parecido a uma cova e mesmo assim se curvava acima para o sombrio céu. Fang se deteve na entrada.

   —O que é este lugar?

   —Eu o chamo lar. Venha, Lobo.

   Contra seu melhor juízo, entrou.

   Misery riu de novo enquanto se balançava diante dele. Recordava a uma criança enquanto saltava e dançava com um ritmo que só ela podia escutar.

   Fang não estava muito entusiasta e enquanto entrava no delgado corredor, finalmente entendeu seu sexto sentido. Ali havia centenas de demônios.

   Misery se virou para olhá-lo com um radiante sorriso enquanto um grande e feio demônio se manifestava ao seu lado.

   —Olhe, Ceryon. Trouxe o café da manhã.

 

 Fang tentou por todos os meios converter-se em um lobo, mas não podia. Não era nada bom, mas não havia nada que pudesse fazer.

   Bom. Era humano e como humano lutaria com tudo o que lhe tinham deixado. Mas eles estavam a ponto de aprender a única realidade quanto a ele concernia.

   Ninguém tomava o melhor de Fang Kattalakis. Nunca.

   —Dancemos, idiota. —Tratou de esmagá-los com sua força.

   Seus poderes não estavam funcionando.

   Oh. Merda...

   Misery riu.

   —Este não é teu reino, lobo. Aqui tu és só uma pessoa... uma com uma força vital que pode alimentar a todos.

   —Bebê, não vale a pena a indigestão. Acredite em mim —lhe replicou Fang.

   Puxou o primeiro demônio que tratou de alcançá-lo. O demônio ficou estupefato e se afastou. Tomou ao seguinte com um golpe em sua mandíbula que o deixou cambaleante.

   Mas estava seriamente ultrapassado.

   Ultrapassado pela magnitude de seu grupo, foi derrubado até o frio e úmido chão. Amaldiçoando, Fang fez tudo o que pôde para libertar-se.

   Não era suficiente.

   O puxaram mais profundamente dentro da cova e o estamparam contra uma parede de pedra.

   —Muito bem, lobo. Briga contra nós com tudo o que tens. —A risada correu em seus ouvidos um instante antes que algo atravessasse sua pantorrilha.

   Fang gritou de dor.

   Mais risadas encheram seus ouvidos.

   Misery se aproximou baixando o olhar para ele.

   —Quanto mais sofras, mais fortes nos voltaremos. Nos alimentamos da dor. Da miséria. Assim me dê o melhor de ti.

   Um homem se colocou junto a ela.

   —Passou muito tempo desde que tivemos um assim forte aqui. Quanto pensas que durará?

   —Não sei… mas será interessante e dada a sua natureza, deveria ser suficiente para nos tirar daqui para o reino mortal. —Ela tomou a adaga de sua mão—. Enquanto isso…

   Afundou-a através do estômago de Fang.

   —Comeu?

   Vane tragou saliva ante a pergunta de Mamãe Urso Peltier e negou com sua cabeça. Fang não tinha comido um bocado desde que os ursos haviam o trazido por volta de dois dias.

   Seu irmão estava morrendo e assim como a Anya, não havia nada que Vane pudesse fazer para salvá-lo.

   Uma raiva impotente o encheu e queria sangue pelo que lhe tinha acontecido. Não só a Anya, mas também também a Fang.

   Mamãe Urso lhe sorriu gentilmente.

   —Se necessitas de algo, peça-o.

   Vane forçou a si mesmo para não lhe grunhir.

   O que precisava era que seu irmão estivesse inteiro de novo. Mas o ataque dos Daimon tinha deixado Fang sem nada pelo qual sobreviver. Tinham tomado mais que o sangue de seu irmão, tinham tomado sua dignidade e seu coração.

   Vane duvidava se seu irmão seria normal de novo.

   Maman mudou a sua forma de urso e se retirou. Vane estava vagamente consciente de Justin brincando lá fora em sua forma de pantera, seguido de um tigre e dois falcões. Todos se dirigiam a seus aposentos onde podiam passar o dia em seus verdadeiros corpos animais, seguros do mundo que não suspeitava.

   Se tão somente ele pudesse fazer o mesmo.

   —É um zoológico. Certo?

   Elevou o olhar aonde procedia a voz de Colt, próxima à porta. Com 1,90 de estatura, Colt era um dos membros dos Howlers. Como Mamãe e seu clã, Colt era um urso, mas diferente deles, também era um Arcadiano.

   Vane estava impressionado de que os ursos o tolerassem. A maioria dos clãs Katagaria mataria qualquer Arcadiano à vista.

   Mas também, Mamãe Lo e Papai Ursso não eram a tribo usual.

   —O que queres? —perguntou Vane.

   Colt cruzou seus braços sobre o peito.

   —Estava pensando… sabes que seria muito mais seguro para todos no Santuário se houvesse dois Sentinelas protegendo os Peltiers.

   Vane lhe mostrou os dentes.

   —Desde quando um Sentinela protege um clã Katagaria?

   Colt lhe dedicou um olhar zombador.

   —Isso vem de um Sentinela que está acariciando uma pele de lobo Katagaria?

   A raiva escureceu a vista de Vane, ante o fato de que Colt podia ver o que sempre tinha mantido oculto de todos outros. Se não fora pela necessidade que tinha de permanecer ali pela segurança de Fang, estaria lançando-se à garganta de Colt.

 —Não sou um Sentinela e não sou Arcadiano.

   —Não podes te esconder de mim, Vane. Como eu, escolheste esconder tuas marcas faciais, mas não muda o que és. Nós somos Sentinelas.

   Vane o amaldiçoou.

   —Nunca serei Sentinela. Recusei esse direito de nascimento. Não caçarei e matarei a minha própria raça.

   —Não o tens feito já? —Colt arqueou sua sobrancelha—. Quantos Sentinelas massacraste por tua manada?

   Vane não queria pensar nisso. Isso tinha sido diferente. Eles tinham ameaçado Anya e Fang.

   Colt deu um passo adiante.

   —Olhe, não estou aqui para te julgar. Só estou pensando que seria mais fácil para...

   —Não estou ficando —grunhiu Vane—. Os lobos não se misturam com outros. Uma vez que esteja o suficientemente forte para proteger a Fang de novo, iremos.

   Colt inalou profundamente e assentiu com a cabeça.

   —O que seja. —Se virou e se foi.

   O coração de Vane doía enquanto deixava o quarto o suficiente para levar a comida intacta de Fang para a cozinha.

   Se seu irmão não retornava logo, não saberia o que devia fazer. Ambos estavam sob sentença de morte.

   Não passaria muito antes que seu pai mandasse exploradores de novo para determinar seu destino. Uma vez que descobrissem que ambos tinham sobrevivido, os assassinos viriam atrás deles. Necessitava que Fang se movesse.

   Podia brigar sozinho, mas carregar o catatônico traseiro de Fang com ele não seria fácil e não era algo que desejasse fazer quando tudo o que desejava era descansar e lamber suas feridas também.

   Maldito Fang por ser tão egoísta.

   Quando Vane retornou acima ao seu quarto, encontrou Wren justo dentro da porta e a Aimee Peltier na cama junto a Fang.

   Aos seus trinta e poucos anos, Wren parecia muito mais jovem. Levava o escuro cabelo loiro em rastas e quase nem tinha falado com Vane.

   Mamãe Lo lhe havia dito que Wren tinha sido levado ao Santuário pelo próprio Savitar. Ninguém sabia nada a respeito de Wren, além do fato de que era um híbrido Katagaria e feroz como o demônio.

   Aimee era uma bela loira, se a um homem gostasse das mulheres extremamente frágeis e a Vane não gostava. Era a jóia e o orgulho do clã Peltier e pelo que tinha visto era uma dos verdadeiros ursos com bom coração.

   Vane franziu o cenho quando Aimee se inclinou para frente e sussurrou algo a Fang. Acariciou a pele de Fang e se levantou da cama. Congelou-se quando viu Vane.

   —Que lhe disseste? —perguntou Vane.

   —Disse-lhe que ambos são bem-vindos aqui. Que ninguém voltará a feri-lo de novo.

   Vane olhou ao seu irmão.

   —Não ficaremos.

   Wren lhe deu um sorriso sarcástico.

   —Tem graça. Isso é o que eu disse também, entretanto aqui estou.

   —Não sou tu, Tigard.

 A raiva se mostrou em seus olhos.

   Vane preparou a si mesmo para o ataque.

   Aimee os separou então.

   —Vá para cama Wren. Sei que estás cansado.

   Isso pareceu diluir seu temperamento o suficiente para virar-se e ir embora.

   Aimee olhou a Vane.

   —Sei o que Carson disse a respeito de Fang, mas...

   —O que?

   Olhou através de Vane para onde Fang descansava em seu estupor.

   —Não sei. É só que para mim não parece Fang. Ele não é o tipo de pessoa que só se abandona a si mesmo desta maneira. E não sai disso.

   Vane replicou:

   —Não conheces meu irmão. Não está acostumado que ninguém seja melhor que ele. Nunca. Tiraram-lhe uma grande porção de seu ego no pântano, mas estará bem. Eu sei. —Vane olhou por cima de seu ombro ao seu irmão—. Estará melhor pela manhã.

   Aimee não respondeu a isso. Era o que Vane tinha estado dizendo desde que chegaram. Não acreditava nisso muito mais do que ele o fazia.

   Mas sentia que algo estava muito errado. Não podia assinalá-lo...

   Ainda assim o sentimento persistia.

   —Boa noite —disse, oferecendo a Vane um sorriso antes de deixá-lo.

   Ainda incômoda, percorreu o caminho para seu quarto, onde se preparou para ir para cama. Enquanto lavava o rosto e escovava o cabelo, não podia sacudir o sentimento dentro dela. Era como se Fang lhe estivesse gritando. Como se houvesse algo que ele queria que ela soubesse.

   Frustrada se dirigiu para sua cômoda e tomou seu telefone celular. Nunca tinha chamado antes a Acheron, mas não podia pensar em ninguém mais que pudesse lhe ajudar.

   Respondeu ao primeiro toque.

   —Olá Ash, sou Aimee Peltier Como estás?

   —Confuso. Como conseguiste meu número?

   Aimee passou a mão através de seu cabelo enquanto passeava sobre o tapete Oriental de seu quarto.

   —Dev me deu ele quando o deste. Só no caso de precisar.

   —Ah. Desculpe por ser tão abrupto. Não estou acostumado a que vós me chameis. Em geral me chamam da ala dos Dark-Hunters.

   Ela riu.

   —Sim, suponho-o.

   —Então, o que posso fazer por ti?

   —Eu... —Ela duvidou o que dizer. Ele provavelmente pensara que estava louca. Como podia lhe explicar o sentimento quando inclusive ela não o entendia?—. O que é que sabes a respeito de ataques de Daimons?

   Sua deliciosa risada encheu-lhe o ouvido.

   —Nenhuma maldita coisa. Por que?

   Ela pôs os olhos em branco ante seu sarcasmo. Sim, era uma pergunta estúpida dado o fato de que ele tinha estado lutando contra eles por mais de onze mil anos.

   —Não sei se conheceu Fang Kattalakis, mas foi atacado por Daimos há uns dias e... —Suas palavras morreram ao mesmo tempo em que Ash apareceu ao seu lado vestido todo de negro.

   Seu longo cabelo negro combinava com sua vestimenta, à exceção de profundas umas nervuras borgonhas nele. Apesar de ser o mais velho dos Dark-Hunter em idade, fisicamente parecia só ter vinte e um anos.

   —O que aconteceu?

   Aimee estava muito ocupada acostumando-se à inesperada entrada em seu quarto para responder a sua pergunta. Parado sobre seus dois metros de altura, o homem abrangia muito espaço em seu quarto e possuía uma poderosa aura de poder e desejo fora do normal.

   —Como o feizeste? Não sabia que os Dark-Hunters pudessem se teletransportar.

   —Alguns podemos. Agora, o que aconteceu com Fang?

   Fechou seu telefone e o retornou à mesa.

   —Foi atacado no pântano e agora está em coma.

   —Mas não morto?

   —Não, não está morto.

   Ele deixou sair um suspiro de alívio.

   —Onde está?

   Aimee o guiou para baixo ao salão, onde tinham dado a Fang seu próprio quarto. Tocou a porta e esperou pelo agudo grunhido de Vane antes de empurrá-la para abri-la e encontrá-los onde os tinha deixado.

   Vane ficou de pé no momento que viu Acheron.

   —O que estás fazendo aqui? —Seu tom era acusatório e frio.

   —Inteirei-me do de Fang. O que aconteceu?

   Um tique começou na bochecha de Vane.

   —Foi uma timoria. Fomos dados por mortos e depois atacados pelos Daimons.

   Depois de entrar na sala, Ash se ajoelhou diante da cama para examinar o corpo de Fang. Colocou uma grande mão no pescoço de Fang e lhe elevou as pálpebras.

   Aimee trocou olhadas com Vane.

   —Carson diz que está em choque pelo ataque.

   —Disse que está morrendo —adicionou Vane.

   Ash baixou sua mão e olhou para eles.

   —Isto é estranho. Parece como que se estivesse já morto.

   —Não digas isso.

   Ash se inclinou enquanto Vane lhe lançava um golpe.

   —Podes me atacar tudo o que queiras, mas não muda nada.

   Aimee pôs sua mão no braço de Vane, tratando de reconfortá-lo.

   —Viste algo como isto? —perguntou a Ash.

   —Não em onze mil anos e tampouco o entendo. Os Daimons podem alimentar-se de humanos e Were-Hunter sem causar dano. Entretanto isto…

   Aimee engoliu seco.

   —Parecera como se lhe arrebatassem a alma.

   —Não —disse Vane com um suspiro—. Arrebataram-lhe mais que isso. É Anya. Ele não suporta deixá-la ir. —moveu-se para sentar-se a um lado de Fang—. Não penso que seja capaz de dirigir a dor de viver sem ela.

   Aimee animou a Ash a sair da sala.

   No corredor, fechou a porta lentamente atrás dela e esperou que Vane não estivesse escutando.

   —Pensas que é assim simples?

   Ele negou com a cabeça.

   —Eu tampouco.

   Ash olhou de volta à porta, como se pudesse ver dentro da sala.

   —Me deixe examiná-lo com Savitar. Estou contigo. Acredito que há mais que o que é óbvio.

   —Obrigada.

   Inclinou sua cabeça antes de deixá-la sozinha. Aimee fez o caminho de volta ao seu quarto onde terminou de preparar-se para a cama.

   A madrugada estava iniciando quando finalmente se deitou.

   Aimee?

   —Fang?

   Seus sonhos mudaram até que o viu envolvido em uma escura névoa. Parecia cansado e pálido, mas inteiro. Estava vestido só com um par de sangrentos jeans e seus pés nus estavam marcados com cortes e machucados.

   Correndo para ele, tratou de alcançá-lo só para afastá-lo de novo.

   —Fang! —chamou-lhe.

   —Shh. —sussurrou ele, sua voz ecoando na escuridão.

   —Onde estás?

   —Não sei. Em uma cova.

   Caminhou para frente até que ele a tomou e a empurrou contra uma rugosa parede.

   —Não te movas —seu tom era um sussurro ameaçador.

   Aimee se estremeceu ante sua proximidade. Tinha esquecido o tão alto e formidável que era em sua forma humana. Mas cheirava delicioso e parecia inclusive melhor. Com a barba de uma semana tinha uma aparência rude que só adicionava ao seu formidável atrativo sexual.

   Envolvendo seus braços ao seu redor, aproximou-o mais, revelando a dureza de seu corpo. Revelando de fato que estava com ela e não morto.

   Ele afundou seu punho em seu cabelo e colocou seu rosto em seu pescoço como se ela fora a linha de vida a qual se aferrava. Ninguém nunca a tinha segurado com tal ternura. Deuses, que bom sentia e quanto desejava estar justo aí com ele.

   Mas algo úmido e quente estava molhando seu estômago. Foi nesse momento quando se precaveu do que era. Fang estava sangrando profusamente de uma ferida em seu estômago. Surpreendida, empurrou-o para ver seu sangue lhe cobrindo a bata.

   —Que demônios?

   Cobriu sua mão com a sua e a separou de sua ferida.

   —Um grupo de demônios babões me atacou. Afastei-os, mas não foi fácil. —Franziu o cenho em desgosto—. Olhe não tenho muito tempo antes que me encontrem de novo e tu não podes permanecer aqui. Se algum deles te encontra, te matarão ou pior, te tomarão prisioneira.

   —Não entendo.

   Ele engoliu seco antes de falar de novo.

   —Não posso despertar, Aimee. Necessito que alguém encontre aos demônios que se alimentaram de mim e os mate.

   Ela se assustou.

   —O que?

   —Os Daimons… tomaram o suficiente de minha alma e está presa dentro deles. Assim enquanto vivam não posso despertar ou usar meus poderes. Isso também o têm. Alguém tem que matá-los para que possa estar inteiro de novo. Entendes?

   Ela assentiu.

   —Como os encontrarei?

   Ele tomou sua mão e a sustentou contra seu peito nu, justo sobre seu coração. A calidez de sua pele a fez estremecer-se.

   —Use teus poderes.

   Fechando os olhos, ela se concentrou na noite em que ele foi atacado. Um por um ela viu os rostos dos Daimos que o atacaram.

   Ele se reclinou para lhe sussurrar ao ouvido, sua voz profunda e sedutora.

   —Não posso fazer isto sozinho, Aimee. Não posso encontrá-los daqui.

   Ela franziu o cenho ante seu pedido, que estava tão fora de seu caráter. Fang nunca pediria ajuda de ninguém.

   —Quem és?

   Ele tomou seu rosto entre suas mãos.

   —Sou eu. Juro-o.

   —Não. Fang não pediria ajuda. Não de minha parte.

   Ele riu amargamente.

   —Acredite, isto tampouco é o que eu quero fazer. Mas não posso brigar por minha conta. Tentei tudo e Vane não está respondendo. Pensa que sou um sonho e não importa quanto o tente, não responderá. Tu és a única que veio a mim. Por favor, Aimee. Não me deixe aqui assim.

   A dúvida a encheu.

   —Como sei que és tu?

   Respondeu sua pergunta com um apaixonado beijo, um que a deixou sem fôlego e quente. Necessitada. Tremendo. Oh, sim… era Fang. Não havia dúvida. Ninguém mais beijava como ele o fazia. E ninguém mais tinha sua essência.

   Ele se retirou, seus olhos atormentados.

   —Me tire daqui. Por favor. Tu és a única esperança que tenho.

   Ela assentiu enquanto escutava um feroz grunhido.

   Fang a empurrou rapidamente.

   —Os Coletores estão vindo de novo. Vá bebê. —Beijou-a na bochecha—. Não voltes. Não é seguro para ti.

   Empurrou-a de novo e se foi.

   Aimee despertou tremente.

   Assustada, olhou ao redor de seu quarto para ver a luz do sol muito mais alta no céu enquanto se desfazia das remelas de suas pálpebras. Desorientada olhou ao seu relógio. As dez da manhã.

   Só foi um sonho.

   Então por que estava sendo caçada por ele? Aimee se virou e tratou de voltar a dormir.

   Necessito mais de cinco horas.

   Ainda assim, não podia sacudir o som desesperado da voz de Fang em sua cabeça.

   Necessitava dela.

   Repreendeu a si mesma.

   —Ele está na cama, idiota. Volta a dormir.

   Não podia. Não importa quanto o tentasse, não podia relaxar ou fazer com que o sentido de urgência a deixasse. Repreendeu a si mesma por sua estupidez, levantou-se, agasalhando-se em seu penhoar verde e se dirigiu ao corredor em frente para o quarto de Fang.

   —Gah, pareces como a merda.

   Olhou a Dev enquanto se encontravam no corredor.

   —Pelo menos tenho uma razão para isso amigo. Rompeste o espelho esta manhã ou o que?

   Dev riu enquanto seguia caminhando afastando-se dela.

   —Pensei que estavas no turno da noite.

   —Estou. Só vou ao banheiro.

   Ela lhe deu um olhar malicioso.

   —Deixei a tampa levantada.

   —É obvio que o fizeste. Ao menos desta vez me avisaste.

   Ele enrugou seu nariz brincalhonamente antes de desaparecer.

   Sacudindo a cabeça ante seu irmão e suas travessuras, redirecionou seus passos ao quarto de Fang. Cuidadosamente abriu a porta para assegurar-se de que estivera sozinho, o qual, felizmente, estava. Vane devia haver-se ido finalmente ao seu quarto.

   Aimee se deslizou por volta do quarto e fechou a porta.

   Tudo estava em silêncio. Nem sequer se podia escutar um sussurro.

   Devo estar louca…

   Tinha que está-lo.

   Movendo-se para colocar-se junto ao seu comatoso corpo, colocou sua mão sobre sua suave pele. Sua respiração era fraca, mas calma. Não havia sinais de violência ou de nada.

   Fang estava bem.

   Exceto pelo fato de que se negava a retornar ao mundo. Não entendia esse tipo de debilidade. Parecia tão forte e capaz. O que tinha acontecido para destroçá-lo dessa maneira?

   Não tinha sentido.

   Mas não havia nada que ela pudesse fazer por ele. Acariciando seu ouvido, sussurrou-lhe.

   —Durma bem, bebê. —Depois se virou e retornou ao seu quarto.

   Repreendendo a si mesma por ser dez mil vezes tola, tirou a bata e a jogou sobre a cama.

   Enquanto caía viu algo estranho…

   Uma mancha.

   Uma mancha vermelha.

   Inclusive ainda mais confusa. Olhou até a bata e viu o sangue da ferida de Fang. E enquanto olhava a si mesma no espelho, viu algo mais que adicionou realidade ao seu sonho. Seu rosto estava marcado pelos bigodes de Fang. Seus lábios inflamados por seu beijo.

   Tinha sido real.

   Todo ele.

   Fang estava preso e ela era a única esperança que tinha para regressar…

  

   —O que estás fazendo?

   Aimee saltou ante o inesperado tom zangado de Dev saindo da escuridão do corredor, enquanto estava tratando de escapulir sem ser vista. Por que não fez suas necessidades lá fora em lugar de fazê-lo no banheiro como qualquer ser humano?

   Isso te ensinará.

   —Maldição, Deveraux Alexander Aubert Peltier. Juro que vou te pôr um sino se não deixar de andar sigilosamente sem fazer nenhum ruído! O que fazes? Esperas até que me tenha ido de meu quarto para te penduarar sobre mim como um gato com um camundongo?

   Estreitando seu fixo olhar nela, cruzou os braços sobre o peito em uma rude postura.

   —Tu só te zangas comigo quando te apanho fazendo algo que não deves. Então, no que andas?

   Tratou de não se mostrar culpada, mas era difícil.

   —Não estou fazendo nada.

   Ele lhe dirigiu um olhar que dizia que a conhecia melhor que isso.

   —Então, por que não estás trabalhando esta noite?

   —Não me sentia bem.

   Posou um olhar fixo em suas sapatilhas brancas.

   —Isso é pelo qual estás vestida para sair?

   E o teria feito se ele não tivera intrometido.

   —Não disse que ia sair.

   Ele bufou.

   —Não me trates como um idiota, Aim. Conheço-te melhor que isso. Algo acontece. Está acontecendo há semanas com teus estranhos desaparecimentos. O que é?

   Deixou sair um irritado sopro. Tinha razão. Durante semanas, tinha estado procurando em vão aos Daimons. Esses pequenos roedores eram bons escondendo-se.

   —Não me acreditarias se tratasse de te explicar isso.

   —Me ponha a prova.

   Não digas uma palavra. Ela viu vir esse “choque de trens” e entretanto, não havia forma de acautelá-lo. Se não respondia, reclamaria com ela até que o fizesse.

   Ou pior, a seguiria. O urso podia ser terrivelmente fastidioso de qualquer maneira.

   Portanto, sem opção, optou pela verdade.

   —Bem, vou caçar Daimons.

   Ele exclamou rindo.

   —E eu sou uma gorda fada voadora.

   —Fantástico… Sininho. Agora, se me desculpas.

   Agarrou-a pelo braço para mantê-la ao seu lado.

   —Falas a sério?

   —Como Maman sobre fechar com chave a porta traseira.

   Sacudiu sua cabeça em total incredulidade.

   —Por que, em nome do Olimpo, irias caçar Daimons?

   Ela jogou uma olhada à porta que dava ao quarto de Fang e soube que não podia decepcioná-lo.

   —Porque se não o faço, Fang morrerá.

   Ele soprou.

   —Estás drogada?

   —Não.

   —Vamos, Aim, admite-o. Aqui há uma enorme quantidade de drogas envolvidas. Tem que as haver.

   Ela se sacudiu de seu agarrão.

   —Tenho que ir.

   Ele a agarrou de novo.

   —Não acredito. Da última vez que notei, não éramos Dark-Hunters, e tu não tinhas nenhum motivo para perseguir um Daimon.

   E outra vez, ela escapou dele.

   —O que é que se supõe que devo fazer, Dev? Vane foi expulso daqui esta manhã, e tem as mãos cheias com sua manada lhe seguindo o rastro e a humana a qual está agora protegendo. A última coisa que precisa é saber que Fang está longe de estar a salvo. Esses demônios estão tratando de matá-lo em outro reino. Não é exatamente algo no qual ele possa se enfocar neste momento.

   —Aimee…

   —Deveraux —disse bruscamente, imitando seu tom sinistro—. Sabes que não posso só me afastar.

   —Por que não?

   —Fang me salvou a vida. Agora está sendo ameaçado e pediu minha ajuda. Sabes o que acontecerá se os Daimons ficam com sua alma. Cedo ou tarde, esta morrerá e ele ficará preso sem vida, sem alma e sem amigos ou família, isso é algo que não desejo nem ao meu pior inimigo, não importa que seja um lobo que salvou minha vida e a tua. Só tenho um tempo limitado para salvá-lo.

   Dev grunhiu alto através de sua garganta.

   —Nós só temos um tempo limitado.

   —Nós?

   Dirigiu-lhe um olhar severo.

   —Não esperas, realmente, que me afaste a um lado e deixe que arrisques tua vida, não? Se tu estás dentro, eu também o estou.

   Aimee o abraçou.

   —És o melhor.

   —Não. Sou o pior. Maman me agarrará pelo meu traseiro sem esforço, se alguma vez se inteira disto. Juro aos deuses, devo ser o mais tolo idiota no planeta para me meter nisto.

   —Não. És o melhor irmão que há nascido e eu estarei em dívida contigo para sempre.

   —Oh, que bom —disse com exagerada felicidade—. Justo o que sempre quis —soltou um cansado suspiro antes de resmungar—. Então, o que vamos fazer?

   —Bom, os Daimons os atacaram no pântano. Isso significa que eles estão aqui, em Nova Orleans… em alguma parte. Eu digo que comecemos dando com seus usuais lugares prediletos até que os encontremos e destruamos seus desprezíveis esconderijos.

   —E como saberemos onde encontrá-los?

   —Eu saberei. Vi-os.

   Ele pôs outra cara de totalmente exagerada excitação.

   —E como os encontraremos então, Wendy?

   Odiava-o quando se referia a ela como a personagem do Peter Pan. Mas ignorou sua brincadeira.

   —Fang me mostrou isso. Agora comecemos.

   Deteve-a de novo. Agora seu rosto estava mortalmente sério e era todo atenção.

   —Mostrou-lhe isso, como?

   —Em um sonho.

   Isso resultou como um globo de chumbo. Seus olhos lhe lançaram chamas.

   —Deveria te proibir entrar em seu quarto?

   Ela virou seus olhos ante sua extrema superproteção, a qual estava altamente fora de lugar enquanto Fang estivesse em coma.

   —Não sejas ridículo, e precisamos continuar. Ou, de outra maneira, vou sozinha.

   Ele franziu seus lábios em uma feroz careta.

   —Bem, urso cabeça de porco.

 

 Fang gritou assim que a lâmina do demônio cortou através de seu flanco e saiu por suas costas.

   Enfurecido, agarrou a lança e a manteve em seu flanco com uma mão enquanto saltou com um golpe ascendente de sua espada que abriu o peito do demônio.

   Gritando, este morreu aos seus pés.

   Seu flanco palpitava, Fang cambaleou para trás, ofegando pela dor ao tirar a arma com uma violenta torção através de seu tecido, e logo a jogou no chão. Suor e sangue o cobriam, um frio vento congelava sua pele e essa água suja cobria suas pernas. Estava tão cansado deste lugar, de brigar a cada minuto por sua sobrevivência. Parte dele estava preparada para jazer e deixar que o tivessem, mas a outra…

   Não sabia como se render e se entregar.

   Secando o suor da testa, baixou a espada com a qual tinha tido outra matança e escutou os ventos uivantes que açoitavam ao seu redor. Seu corpo inteiro se estremeceu pelo frio e pela agonia de suas feridas. A tormenta fazia difícil perceber se os Coletores ou demônios estavam próximos e isso era a pior parte de tudo.

   Em duas oportunidades, Misery apareceu diante dele com sua equipe atrás dela e enquanto que fez o melhor que pôde, ainda tinha que matar a essa pequena puta.

   Se só pudesse encontrar Vane e lhe fazer saber o que estava acontecendo. Vane seria um aliado vital, mas seu irmão não acreditaria nele. Seguia pensando que era um sonho ou que se estava tornando louco cada vez que ouvia a voz de Fang.

   Maldito sejas, Vane.

   Só Aimee tinha respondido a sua chamada. Só ela tinha acreditado que o inferno no qual se encontrava encerrado era real.

   Aimee…

   Deixo-se cair aos pés de uma árvore negra para descansar enquanto uma imagem de seu doce rosto passava por sua mente. Ele jurou que ainda podia cheirá-la, sentir a suavidade de sua pele. E ali na escuridão, encontrou um conforto momentâneo nesses pensamentos.

   Seria capaz de abraçá-la de novo?

   Deuses, ter cinco minutos nos quais nada o estivesse caçando, que não estivesse brigando para assim poder sustentá-la perto e deixar que seu corpo o aliviasse.

   Um chiado soou sobre sua cabeça.

   Fang se pressionou mais perto da árvore assim que reconheceu a chamada de Reaper. Eles eram demônios com garras e asas que rasgariam a qualquer criatura que encontrassem. Não havia nenhum lugar seguro aqui neste mundo. Todos eram predadores.

   Às vezes inclusive a folhagem.

   Mas estas árvores desengançadas tinham provado serem seguras. Só elas lhe deram refúgio aqui.

   —Pelo menos estou aprendendo a brigar como um humano.

   Sentiu-se doente apesar de assim ser, tornou-se totalmente competente neste sentido através dos meses que tinha passado aqui.

   Ou eram anos?

   Estava tendo dificuldades em estimar o tempo. Mas podia escutar coisas provenientes do outro lado. Sabia que Vane estava emparelhado e escutou às vezes em que seu irmão o tinha amaldiçoado por ser tão egoísta ao não despertar.

   Como se ele quisera estar aqui.

   Somente Aimee tinha continuado lhe sussurrando palavras de conforto. Tome seu tempo, Fang. Dorma bem. Quando nada mais podia alcançá-lo, ele sentiu suas gentis mãos sobre sua pele.

   E essa amabilidade o manteve e o tinha feito fraco ao ter saudades de um mundo que não estava seguro que alguma vez pudesse voltar a alcançar.

   Fang elevou a cabeça para ouvir a aproximação de Reaper. Dando uma olhada, tratou de procurar um melhor lugar para esconder-se.

   Ali. A sua esquerda havia uma caverna.

   Dirigiu-se para ela, esperando que não houvesse nada pior lá dentro aguardando para atacar. Mas assim que alcançou a abertura, uma adaga branca e afiada lhe acertou justo no meio do peito. A dor era tão severa que deslizou rapidamente ao chão onde tentou levantar-se de novo.

   Não podia. A agonia era paralisante.

   O Reaper se centrou nele.

   Fang amaldiçoou. Tratou de pegar sua espada, mas outra adaga o alcançou e o cravou ao chão.

   Incapaz de agüentar, gritou e ao fazê-lo, sentiu uma sacudida por dentro. Calor e ferocidade se estenderam como lava.

   Eram seus poderes.

   Ofegando, lançou suas mãos em direção ao Reaper e jogou uma explosão direto a ele. O demônio chiou ao ser frito no lugar.

   Fang lançou um grito vitorioso ao dar-se conta do que acabava de acontecer.

   Aimee acabava de matar a um dos Daimons e libertou uma parte de sua alma. Apesar de ainda não estar completo, ao menos tinha algo melhor que só suas próprias mãos com as quais proteger-se. Isto se devia tudo a ela.

   —Que garota. Bebê, poderia te beijar!

   Manteve suas mãos no alto e viu o resplendor de seus poderes emanando da ponta de seus dedos. Realizou um lançamento com suas mãos e explodiu as três árvores, aos pés das quais tinha estado poucos minutos antes.

   Converteram-se em chamas.

   Apertou sua mão enum punho, havia uma coisa a mais que estava morrendo para provar.

   Fang fechou seus olhos e tratou de mudar de forma, assim poderia ser um lobo de novo.

   Não ocorreu nada.

   —Maldição.

   Seguia sendo humano.

   Está bem. Ao menos tinha recuperado parte de seus poderes e neste momento isso valia tudo para ele.

   —Assim tens uma ajudante…

   Virou em volta para encontrar Misery ali. Como demônios ela podia fazer isso? Era como se tivesse um farol sobre ele.

   Instintivamente, lançou-lhe uma explosão. Ela rodou afastando-se desta e contra-atacou com uma das suas.

   Fang girou, distanciando-se antes que o golpeasse e se inclinou para recuperar sua espada. Lançou uma estocada aos seus pés, mas ela era rápida como o vento.

   Fang arremeteu contra ela.

   —Não a toques!

   Rindo, ela desapareceu antes que pudesse fazer contato.

   Uivou com frustração.

   —Cadela! Volte aqui.

   Mas sabia que não serviria de nada. Misery não escutava a ele.

   —Aimee —sussurrou—. Por favor, cuida de tuas costas.

   —Aimee!

   Aimee amaldiçoou quando Dev a agarrou pelas costas.

   —O que?

   Ele apontou ao pedaço quebrado de calçada aos seus pés.

   —Estavas a ponto de tropeçar.

   —Bem, não tens por que gritar comigo. Ssh!

   Seu coração estava pulsando violentamente pelo susto que lhe tinha dado. Aqui estavam eles, caçando Daimons e ele estava preocupado que tropeçasse com um pedaço de ladrilho?

   O urso estava louco e tinha um sentido de prioridades atrofiado.

   Ele lhe lançou um sorriso zombador.

   —Gritar contigo é a segunda coisa melhor que faço.

   Ela bufou.

   —Perguntar-te-ia o que seria a primeira, mas não acredito que queira sabê-lo. Um metido, isso és. Estou segura de que envolve mulheres de algum jeito.

   Ele riu conduzindo-a por uma rua lateral.

   —Não estou seguro de que vamos encontrar mais de seus amigos Daimons esta noite. Parece que eles estão gordos, felizes e escondidos.

   Odiava admiti-lo, mas provavelmente tivesse razão. Estiveram procurando durante horas.

   —Tivemos sorte de apanhar um dos quais procurávamos. Não há rastro de onde estão os outros.

   —Quantos estamos procurando, de qualquer modo?

   —Nove. Bom, agora oito.

   Ele ficou boquiaberto ante o número.

   —Oito? Estás louca? Nove? Como achas que encontremos nove Daimons desconhecidos?

   Ela deu de ombros.

   —Sempre poderíamos convidá-los ao Santuário e matá-los na parte traseira.

   Ele voltou os olhos.

   —Te tornaste louca, não?

   —Bem, estou aqui fora contigo. Isso diz tudo.

   Deixou sair um comprido e sofrido suspiro como se ela o estivesse torturando.

   —E pensar que poderia estar na porta agora mesmo, checando longas pernas e minissaias.

   Ela, com sua cabeça, indicou-lhe a rua.

   —Não deixes que te retenha.

   O rosto de Dev se tornou pálido ao olhar por trás dela.

   Aimee virou sua cabeça para ver o que estava observando, logo se congelou ao ver as sombras saindo das paredes. Estes não eram Daimons.

   Eram demônios.

   E iam até eles.

  

   —Não! —gritou Fang, ao ver na parede da caverna imagens de Misery e companhia rodeando a Aimee e a Dev.

   Golpeou o punho contra a rocha, ignorando a dor, ao dar-se conta que estava a ponto de ser o causador da morte de outra mulher. Tudo se repetia, como aconteceu com Stephanie. Seus inimigos a tinham encontrado por sua culpa.

   Quando aprenderei?

   As mulheres deviam ser protegidas e ele estava maldito no que a elas concernia. Era por isso que tinha tratado tão arduamente de não se aproximar de outra.

   Aimee não devia significar nada para ele, mas assim era e a só a idéia de sua morte o rasgava.

   Grunhindo de frustração, ficou de costas à parede, assim não teria que vê-la morrer. Mas não funcionou. Em sua mente, viu o que ia ocorrer e o adoeceu.

   O que podia fazer? Estava preso aqui, sem apenas poderes nem força. Não havia nada, além de demônios chupadores de almas.

   Demônios…

   Nesse instante soube o que poderia fazer para salvá-la. Havia de uma coisa que um demônio e um Daimon tinham em comum. Uma coisa que ambos necessitavam para prosperar e sobreviver.

   Uma alma.

   E embora ele podia não ter toda a sua, tinha o suficiente para tentá-los.

   Fang jogou sua espada às águas negras.

   —Demônios! —gritou—. Tenho uma alma para vós! Venham atrás dela.

   Apenas as palavras abandonaram seus lábios, o som de milhares de asas encheu seus ouvidos. O fedor de enxofre e cheiro corporal de demônio invadiram suas fossas nasais. Odiava-o. Mas não tinha alternativa.

   Era ele ou ela, e não estava disposto a deixar que fora ela.

   —Tornaste-te louco?

   Fang franziu o cenho enquanto um homem alto e esbelto aparecia junto a ele. Vestido com um manto ensangüentado que cobria uma armadura negra com pontas, tinha os olhos de um azul tão claro que se destacavam por sua intensidade. Seu cabelo castanho lhe chegava até os ombros, com a franja caindo sobre aqueles olhos que pareciam conter toda sabedoria da eternidade.

   E uma crueldade sem par.

   Completamente sereno ante a horda invasora, elevou uma sobrancelha finamente arqueada.

   —O que estás tratando de fazer?

   Fang se negou a responder.

   —Quem és?

   Um canto de sua boca se levantou, insinuando um sorriso zombador.

   —Neste momento, o único amigo que tens.

   —Sim, claro.

   Os demônios se atiraram.

   Fang se preparou para o ataque.

   —Minha alma é…

   Uma focinheira apareceu sobre sua cara.

   O homem se estremeceu.

   —Nem sequer o diga, rapaz. Não tens idéia do que significa vender tua alma. Não é prazeiroso e de verdade não queres oferecê-la a esta turma. Não quando podes fazer algo muito melhor com ela.

   Fang o fulminou com o olhar, ao tempo que lhe lançava um golpe de energia.

   Ele absorveu o golpe sem mover-se ou pestanejar.

   —Não desperdice a energia. Necessita de algo muito mais forte que tu para me sacudir.

   Girando-se, disparou uma rajada de fogo aos demônios. Chiando, estes se retiraram.

   Seu rosto era uma máscara de chateação total. Tirando um pequeno celular de seu bolso direito, sustentou-o como um rádio.

   —Acabem com eles e os enviem de volta.

   —Temos que ser amáveis? —perguntou uma voz masculina muito acentuada.

   —Diabos, não. Os façam sofrer.

   —Obrigado chefe.

   O homem devolveu o celular à armadura e se enfrentou à expressão perplexa de Fang.

   —Oh. Sinto o da focinheira. Mas foi necessário para te proteger de tua própria estupidez.

   O artefato desapareceu do rosto de Fang, que esfregou incomodamente a mandíbula e lançou um olhar hostil ao estranho que parecia muito cômodo eliminando demônios.

   —Quem demônios és?

   O homem riu.

   —Isso é mais acertado do que imaginas. Meu nome é Thorn e, como já te disse, sou o único amigo que tens nestes momentos.

   —Sem ofender, mas Misery me disse o mesmo e podes ver quão bem resultou —disse, assinalando para as feridas que o marcavam dos pés a cabeça.

   Thorn aceitou o sarcasmo sem perturbar-se e o devolveu com acréscimo.

   —Sim, pois no caso de que não o tenhas notado, eu não sou Misery. Não, ao menos até que me agarres pelo lado mau. Então… bem, só digamos que aqueles que o têm feito não desfrutaram da experiência.

   Fang ignorou a advertência, embora pôde notar, por seu comportamento, que estar de mal com Thorn seria na verdade nefasto.

   —Então o que és?

   Nesse momento baixou o capuz do manto. Havia um ar incongruente ao seu redor. Uma aura de poder e total crueldade. Entretanto, ao mesmo tempo, era como se as mantivera sob um rígido controle. Como se estivesse em guerra consigo mesmo.

   Que estranho.

   —Pensa em mim como um carcereiro ou como um vaqueiro. Meu trabalho é me assegurar de que os reclusos aqui dentro obedeçam às leis, especialmente quando saem em liberdade condicional.

   —Que leis?

   Sorrindo diabólicamente, ignorou por completo a pergunta de Fang.

   —Tu me surpreendeste, lobo, e não muitas pessoas o fazem… ao menos não no bom sentido.

   —A que te referes?

   Thorn lhe deu uma palmada nas costas. Em um momento estavam na caverna e no seguinte, dentro de um grandioso vestíbulo de pedra obsidiana[8]. A luz resplandecia desde candelabros iridescentes, moldados em formas de rostos retorcidos de gárgulas e mãos de esqueletos. O teto se elevava uns bons dez metros, com contrafortes lavrados em forma de colunas vertebrais humanas. Opulento, enorme e horripilante como o inferno, era frio e absolutamente nada acolhedor.

   A única coisa remotamente atraente do lugar era a gigante lareira onde ardia um fogo enorme. Um lar flanqueado a cada lado pelos esqueletos alados de dois Reapers. Os quais ainda conservavam uma adaga encaixada entre suas costelas.

   Fang fez uma careta ante a visão, perguntando-se se eram reais ou nada mais que mórbida decoração.

   Ou possivelmente ambas …

   —O que é este lugar?

   Thorn tirou o manto com uma floritura. A armadura negra cintilou com a luz frágil, fazendo destacar suas mortíferas pontas.

   —O Salão Estigio. Nome estúpido, eu sei, mas em meu favor devo dizer que eu não o inventei. Só sou o idiota que atualmente o vigia —uma taça de vinho apareceu em suas mãos e a estendeu para Fang.

   Fang declinou o oferecimento.

   Thorn riu diabólicamente.

   —Temes que o tenha envenenado ou posto alguma droga? Acredite-me, lobo. Não necessito de um líquido para fazer nenhuma das duas coisas. Se te quisesse morto, a estas alturas, estaria dando um festim com tua carne —de um gole comprido bebeu o vinho.

   Fang estava perdendo a paciência com toda essa merda críptica. Nunca tinha tido paciência para tais coisas.

   —Olhe, não sou muito conversador e todo este dramatismo teu está me matando de aborrecimento. Quem és e por que estou aqui?

   Thorn atirou a taça à lareira, fazendo explodir as chamas. Enquanto estas flamejavam para ele, suas roupas mudaram da armadura a um moderno traje bege, com camisa celeste. Em vez de um guerreiro antigo, parecia mais um executivo multimilionário. À exceção de sua mão esquerda, que continuava coberta com as garras metálicas que formavam parte de sua armadura.

   —Sou o líder de um grupo de elite, conhecidos como os Hellchasers.

   Fang arqueou uma sobrancelha ante o nome.

   —Caçadores do inferno?

   Thorn assentiu.

   —Quando os demônios violam as leis que os regem ou decidem escapar enquanto estão de licença, somos nós quem se encarregam deles.

   —Encarregar-se, como?

   Thorn estendeu a mão e uma imagem apareceu na parede, à esquerda de Fang. Misery e sua turma eram trazidos de volta aos seus domínios, encadeados. Ensangüentados e com golpes, pareciam como se alguém os tivera usado para praticar tiro ao alvo. Era óbvio que os dois homens que os traziam de volta não tinham sido nada gentis.

   —Resumindo a história, somos caçadores de recompensas, sem as recompensas.

   —Então, por que o fazeis?

   Thorn fechou o punho e a imagem desapareceu.

   —Mais que tudo, por pura diversão. Mas se não o fazemos, os demônios invadiriam o reino dos humanos e pareceria como este em pouco tempo.

   —Te põe os cabelos pra cima.

   Thorn assentiu.

   —Felizmente, opinamos igual, razão pela qual fazemos o que fazemos.

   —E como entro eu nisto?

   Aproximando-se dele, Thorn o percorreu com um olhar especulativo como julgando cada molécula de seu ser, por dentro e por fora.

   —Tu tens certos talentos que me resultam atraentes. Um lobo que sobreviveu entre demônios por seus próprios meios, sem seus poderes… é impressionante.

   A declaração encolerizou a Fang.

   —Claro, e por que não apareceu antes?

   —Porque acreditei que pertencias aqui. Que tinhas sido enviado a este reino por tuas ações passadas. Não foi até que começaste a oferecer tua alma para proteger Aimee que descobri que estavas aqui por engano.

   —Não és muito intuitivo, verdade?

   Em lugar de se irritar, Thorn levou o insulto esportivamente.

   —Só digamos que em muitas contadas ocasiões vejo o bem nos outros. É uma mercadoria tão rara no mundo, que nem sequer me incomodo em procurá-la —Thorn desdobrou o braço e um banquete de comida apareceu sobre a mesa—. Deves estar faminto.

   —Sim, e tampouco como na mesa de desconhecidos.

   Um canto de sua boca se elevou em amarga diversão.

   —É sábio ao pensar desse modo.

   —Também sei que nada é de graça —Fang assinalou com o queixo em direção à mesa—. Qual é o preço dessa comida?

   —Diria que é um presente para aliviar minha consciência, por te deixar tanto tempo aqui onde não pertences, mas não tenho consciência e, honestamente, importa-me uma merda quanto tenhas sofrido.

   —Então por que encurralas aos demônios para proteger aos humanos?

   Thorn soltou um longo suspiro, como se o tema tirado por Fang o tivesse irritado.

   —Assim, ao que parece, sim tenho consciência depois de tudo. Condenada essa coisa. Nego-a constantemente, mas não quer me deixar em paz. Entretanto, esse não é o ponto. Durante a noite do Mardi Gras, umas centenas de demônios escaparam do Kalosis. Alguma vez ouviste mencionar a ele?

   —Não.

   Thorn deu de ombros.

   —Em resumo, é o inferno Atlante. Os demônios comeram um par de meus homens e agora me encontro mais escasso de pessoal em Nova Orleans —abriu a boca, como assombrado—. Espera um momento! Tu és de lá… agora o vês?

   —Queres que te ajudes a apanhá-los.

   —Não exatamente. Mais que tudo, tu ajudarás a mantê-los vigiados e, se passarem dos limites, os traga de volta… ou os mate.

   —E se me nego?

   Thorn gesticulou para a porta, onde o vento uivava no exterior.

   —És livre de deixar meu salão e os valer por ti mesmo quando queiras.

   A idéia de ir era menos que atraente, mas isso ambos sabiam.

   —E se fico?

   —Ajudaremos a tua namorada e a seu irmão a caçar esses Daimons, e lhe tiraremos daqui.

   Fang não acabava de aceitar o trato. Devia haver mais do que lhe estavam contando. Tinha que havê-lo.

   —Com todos teus poderes, parece-me que te seria fácil recrutar centenas de pessoas para este trabalho. Por que a mim?

   Thorn riu.

   —Há uma certa raça, um certo grupo pequeno de pessoas que são capazes de fazer o que fazemos sem sairem massacrados aos três segundos de cruzar a porta. Não tem a ver com as habilidades para lutar ou inclusive sobreviver. Tem a ver com o caráter.

   Fang se burlou ante a só idéia.

   —Eu não tenho caráter.

   À medida que cortava a distância entre eles, Thorn ficava mais sério. Com aqueles olhos azuis o atravessava, como se pudesse ver no profundo de sua alma e sua mente.

   —Aí é onde te equivocas, lobo. Tens lealdade e coragem. Sem iguais. Duas coisas quase impossíveis de achar. Tens idéia de quantas pessoas teriam deixado morrer a Aimee antes de oferecer suas próprias almas para salvá-la? Essa, meu amigo, é uma qualidade excepcional que não posso ensinar a ninguém. Ou a tens, ou não. E acontece que tu a tens de sobra. Essa habilidade de sacrificar a ti mesmo para salvar ao outro. Não tem preço.

   Fang não o sentia assim. Em ocasiões o sentia mais como uma maldição.

   Thorn lhe estendeu a mão.

   —Então, te alistas comigo?

   —Tenho alternativa?

   —É obvio que sim. Nunca me imporia sobre teu livre-arbítrio.

   Aceitou então a mão que Thorn lhe estendia.

   —Tu te encarregues de manter Aimee a salvo e eu te entregarei até minha alma.

   As pupilas de Thorn cintilaram em vermelho, tão rápido que por um instante Fang acreditou haver imaginado. Com o rosto impassível lhe soltou a mão.

   —Rapaz, tenho que te ensinar a tirar essas palavras de teu vocabulário. Acredite-me, não é uma brincadeira de crianças, assim como tampouco o é ao que estás a ponto de te unir.

   —Dev?

   Atraiu a Aimee atrás dele enquanto encarava aos demônios que saíam das sombras.

   —Devemos sair daqui —a empurrou em direção à rua.

   Aimee começou a correr, mas não chegou longe antes que outro demônio a interceptasse. Tratou de transportar-se e não pôde.

   —Dev? Podes nos tirar daqui?

   —Esse poder parece estar quebrado.

   Se pôs costas com costas contra Dev. Enquanto os demônios iam se aproximando, podia cheirar o enxofre neles.

   —O que está ocorrendo aqui?

   —Não tenho nem idéia, mas não parecem demônios alegres.

   Não, não o pareciam. De fato, pareciam resolvidos a fazer deliciosa comida de urso com eles.

   Aimee manifestou seu cajado.

   —Alguma idéia de como matá-los?

   Dev encolheu os ombros com uma despreocupação que, ela sabia, não sentia.

   —Cortar a cabeça deles funciona com a maioria e se não resultar com estes, estamos seriamente fodidos.

   —Ou podem ficar onde estão e se manterem à margem de nosso caminho.

   Aimee franziu a testa aos dois homens que se transportaram junto a eles. Não eram demônios, aparentavam ser humanos, entretanto se moviam com uma velocidade que desmentia essa aparência. Antes inclusive que afastasse sua arma, tinham aos demônios algemados e contra o chão, em atrativos montões ensangüentados.

   Sacudindo a cabeça, tratou de repassar os acontecimentos, mas honestamente, havia aconteceu tudo tão rápido que a única coisa que pôde ver foram manchas no ar.

   —O que foram esses movimentos?

   Dev desdobrou um grande sorriso.

   —Chuck Norris conhece Jet Li.

   Os demônios grunhiam e amaldiçoavam enquanto os homens os retinham, a golpes, contra o chão.

   —Já te cale —o mais alto dos dois homens levantou a mulher de um puxão—. Por uma vez, não poderia me tocar um demônio sem cordas vocais?

   O outro homem riu sem humor.

   —Ao menos, desta vez não nos estão vomitando em cima.

   —Pequeno favor.

   E ignorando-os por completo, desapareceram.

   Aimee trocou um olhar perplexo com seu irmão.

   —Isto está totalmente fora da esfera de minha experiência. E dadas às coisas estranhas com as quais lidamos, isso o diz tudo.

   —Sim, eu também estou alucinando.

   Aimee sacudiu a cabeça, tratando de encontrar sentido ao ocorrido.

   —Tony colocou as ervas especiais em nossa comida outra vez?

   Dev riu.

   —Não acredito. Mas perguntarei a ele de todos os modos quando retornarmos.

   —Eu não o faria.

   Voltaram-se para encontrar uma mulher no beco, justo onde os outros tinham desaparecido. Seu cabelo vermelho escuro estava amarrado às costas e vestia uma blusa decotada, com as costas descobertas, e calças, ambas de couro negro e ajustadas como uma segunda pele. Era estonteante e fazia sentir a Aimee pouca coisa em comparação.

   Dev desdobrou seu sorriso mais sedutor.

   —Olá, linda. Onde estiveste toda minha vida?

   Ela pôs os olhos em branco.

   —És muito charmoso urso. Mas não. Não és meu tipo.

   Aimee reprimiu a risada ante o comentário desdenhoso que Dev aceitou de boa maneira.

   —E tu és?

   —Me chame de Wynter.

   Dev riu entre dentes.

   —Não há nada melhor que o fogo para uma fria noite de invierno[9].

   Wynter lhe devolveu um olhar curioso.

   —Essas frases bregas funcionam com outras mulheres?

   —Te surpreenderias.

   —Se alguma vez funcionaram, então sim, estou-o —passou ao longo ao seu lado, para dirigir-se a Aimee—. Thorn me enviou para te ajudar a encontrar aos Daimons que têm a alma de Fang.

   Aimee franziu o cenho ante a menção do nome que nunca tinha ouvido antes.

   —Thorn?

   —Meu chefe. Não discutimos suas ordens. Simplesmente obedecemos. Queres o lobo a salvo, assim aqui estou.

   —Não discutem? Quem mais? —perguntou Dev, olhando ao redor se por acaso havia alguém espreitando entre as sombras.

   Wynter lhe sorriu com os lábios apertados, ignorando sua pergunta.

   —Então, os Daimons desapareceram enquanto os perseguiam?

   Aimee assentiu.

   —Acreditamos que escaparam através de um portal.

   —Isso vai ser difícil.

   Dev apoiou o peso do corpo sobre sua perna direita, dirigindo um sorriso impaciente a Aimee.

   —Sigo opinando que teríamos que deixá-lo nas mãos dos Dark-Hunters. É seu trabalho, não o nosso.

   Aimee estava se cansando de discutir com ele sobre o mesmo assunto.

   —Eles não podem identificar aos indicados e tampouco atravessar um portal para tirá-los dali.

   —Nós tampouco. Em caso de que não o tenhas notado, somos um manjar seleto para eles e não quero acabar como Fang, atirado em uma cama, em coma… ou pior ainda, morto.

   —Então volte para casa, Dev.

   —Volte para casa, Dev —se burlou—. Como se Maman não fora a me esfolar vivo se te deixar aqui e retornas para casa em coma. Tudo volta para “não quero morrer” que estou tratando arduamente de evitar.

   —Então me deixe em paz, ou eu mesma te porei em coma.

   Wynter suspirou.

   —Sempre discutem assim?

   —Sim —responderam ao uníssono.

   —Mas é ela quem sempre começa.

   Wynter pôs os olhos em branco e fez um som de desgosto supremo.

   —Obrigada Thorn. Isto era o que me faltava e vou te fazer pagar por isso.

   —Fang?

   Fang abriu os olhos para encontrar Aimee inclinada sobre ele. Ao vê-la inteira e ilesa o alívio o inundou. De algum jeito, Thorn tinha conseguido cumprir sua promessa.

   —Olá.

   Deu-lhe de presente um sorriso que irradiou por cada parte do corpo de Fang e quando falou, seu tom era suave e zombador. Mais que qualquer outra coisa, o fez sentir quase normal outra vez.

   —Pareces muito melhor que em nosso último encontro. Talvez deva te deixar aqui depois de tudo.

   Ele riu, embora a só idéia o deixava horrorizado.

   —Preferiria que não o fizeras. Mas tampouco quero te ver machucada. Antes de vê-lo, prefiro ficar aqui e que tu estejas a salvo.

   Ela lhe tomou a mão. A cálida ternura desse toque se esparramou por todo seu ser. Seu corpo doía para prová-la de verdade.

   Oh, ter um minuto no reino humano….

   —Apanhamos a três esta noite.

   Fang assentiu.

   —Eu sei. É por isso que minhas feridas sararam tão rapidamente —também por isso, estava muito mais forte—. Obrigado.

   Aimee o beijou na mão.

   —De nada. Dentro de pouco lhe teremos de volta. Prometo-o.

   Por Deus que assim o esperava. Era duro estar ali, dia pós dia. Sentia-se sozinho e tão afastado da realidade. Mas ao menos ela estava aqui, com ele, e esse era um simples consolo que nunca poderia pagar.

   —Como está Vane?

   —Não estamos muito inteirados. Está ficando com um dos Dark-Hunters, durante estes dias, para proteger a sua companheira.

   —Com qual?

   —Valerius.

   Fang amaldiçoou ao ouvir o nome. Se esse bastardo tivesse cumprido com seu trabalho no pântano, Anya ainda estaria com vida. Por que, no nome do Olimpo, Vane foi a ele depois daquilo?

   —O romano?

   Aimee fez uma careta e assentiu.

   —Sinto muito, Fang. Não acreditei que fora a te incomodar.

   Mas lhe incomodava. Não só porque Valerius não foi capaz de ajudá-los a proteger a Anya, mas sim porque Fang não estava ali para ajudar Vane quando seu irmão mais o necessitava.

   —Sabes quem de nossa manada o estão caçando?

   —Stefan é o único ao qual vimos. Veio ao Santuário um par de vezes, sem dúvida para tratar de te achar.

   Fang amaldiçoou.

   —Tenho que sair daqui. Vane não pode enfrentá-los sozinho.

   —Não está sozinho.

   Fang ficou gelado pela inesperada contradição.

   —O que queres dizer?

   —Fury está com ele.

   —Fury? —a indignação o deixou sem fôlego. Obviamente Vane tinha perdido alguns parafusos desde que Fang tinha caído ferido. Em que diabos estava pensando seu irmão?—. Esse desgraçado. O que está fazendo Vane com ele?

   Aimee se distanciou ao dar-se conta do engano que tinha cometido. O que acontecia com ela, que cada vez que se aproximava de Fang, cometia uma gafe?

   —Já teria que ir.

   Ele se negou a lhe soltar a mão.

   —Tu sabes algo —seu tom era pura acusação.

   Ela estava duvidosa. Não era sua história.

   —Fang, não me corresponde contá-lo.

   —Me contar o que?

   Aimee não podia fazê-lo. Era coisa de Vane. Ou de Fury. Mas não sua.

   —Devo ir.

   —Aimee —disse em um tomo agônico que a rasgava por dentro—. Por favor. Preciso saber que está ocorrendo com ele. É a única família que me resta. Não me deixes aqui sem sabê-lo.

   Tinha razão. Isso seria mais cruel ainda, e ele já tinha sofrido suficiente.

   Respirando profundamente, preparou a si mesma para sua reação.

   —Fury é seu irmão.

   Seu charmoso rosto perdeu toda a cor.

   —O que?

   Ela assentiu.

   —É verdade. Assim mesmo como Vane, mudou de forma na puberdade e se converteu em Katagaria. Assim como teu pai fez convosco, tua mãe chamou a sua tesera contra ele e o golpearam, deixando-o por morto. Agora está trabalhando com Vane contra eles para proteger a Bride, a companheira de Vane.

   Fang sacudiu a cabeça, incrédulo. Mas foi a tortura em seus olhos escuros o que a fez pedaços. Odiava ser a causador de mais dor.

   —Fury é meu irmão? Aff, o que segue? Mamãe Lo terminará sendo uma irmã perdida de tempos?

   Ela pôs os olhos em branco.

   —Isso já é exagerar.

   Voltando-se para recostar na cama, tampou os olhos com a mão.

   —Sinto-me doente.

   Aimee o golpeou, brincando, no estômago.

   —Oh, basta de dramatismo, Fang. Tens outro irmão. Deverias estar agradecido.

   A maneira em que ela o golpeou o deixou assombrado. Qualquer outro teria perdido o braço. Mas seu tom carinhoso conseguiu acalmar a raiva e a sensação de traição.

   —E se fosse eu quem te dissesse isso?

   —Em caso de que não o tenhas notado, meu copo está transbordando de irmãos. Mas tu… deverias estar contente de ter mais família.

   Possivelmente.

   —Sim, mas é Fury. A última criatura na terra com a qual queria estar aparentado.

   Não suportava a esse filho de puta.

   Aimee riu ante o tom que usou.

   —Todos temos um Remi na família. Confronte-o, chorão.

   O apelativo o deixou com a boca aberta. Ninguém tinha se atrevido a insultá-lo, jamais. Nem sequer Vane.

   —Chorão?

   Ela assentiu.

   —Se a carapuça te serve…

   Ele se lançou para lhe fazer cócegas.

   Aimee gritou e tratou de escapar, mas Fang a derrubou na cama e a sustentou debaixo dele. Retorceu-se, brincalhona, com seus olhos dançando divertidos, ao lhe devolver cosquinha por cosquinha.

   Fang ficou paralisado ao compreender o que estava acontecendo. Estava preso no inferno e Aimee o estava fazendo rir…

   Ficando sério, olhou esses olhos celestiais que deixavam marcas em seu coração. Essa covinha tentadora que infestava seus sonhos. Como podia lhe fazer sentir dessa maneira? Sua vida inteira parecia pedaços, entretanto ela o fazia rir. O fazia esquecer que estava preso num reino com demônios que lhe torturavam a cada oportunidade. Esquecer que tinha vendido sua alma para mantê-la a salvo.

   Como era possível?

   O olhar no atraente rosto de Fang fez estremecer a Aimee. O cabelo lhe caía sobre os olhos, enquanto a observava com uma expressão abrasadora e mortífera de uma vez.

   No que estaria pensando?

   Então, lentamente, aproximou seus lábios até os dela, que gemeu ao sentir seu sabor, ao tempo em que o rodeava com os braços para aproximá-lo mais. Fechou os olhos assim que inalou a escura essência de sua pele e deixou sua língua dançar com a dele.

   Isto estava tão mal. Não tinha nada a fazer aqui. Com ele. Ainda assim, não podia imaginar nenhum outro lugar no qual queria estar mais que aqui.

   Não é real.

   Era um sonho. Só estava ali em espírito. Isso contava?

   Talvez.

   A contra gosto se afastou.

   —Devo ir Fang.

   —Eu sei—lhe cheirou o pescoço, lhe provocando mais calafrios ao lhe fazer cócegas com a barba.

   Essas palavras lhe romperam o coração. Seguia triste por sua irmã e estava perdido neste mundo de trevas, sem ninguém em quem confiar.

   —Tome —disse, tirando o relicário que sempre levava e pendurando-lhe redor do pescoço.

   Fang franziu o cenho ao ver o relicário com forma de coração, gravado com trepadeiras que se entrelaçavam e formavam redemoinhos em torno a uma caveira. Não tinha nada de masculino. Devia estar horrorizado de tê-lo ao pescoço.

   Mas não o estava.

   Aimee pôs sua mão sobre a de Fang, que sujeitava o relicário.

   —Estou a um só grito de distância, se me necessitares.

   Necessito-te agora mesmo…

   Mas não pôde obrigar-se a dizer essas palavras em voz alta. Em seu lugar, aproximou-se para sentir seu cheiro de lilás uma vez mais.

   —Cuida-te.

   —Tu também.

   E com isso, desapareceu. Quase foi suficiente para fazê-lo chorar. Pelo menos seu aroma permanecia em sua pele, como um sussurro fantasmal. Se tão somente pudesse conservar também seu calor.

   Suspirando, tirou-se o pingente e o abriu. Em seu interior guardava a imagem dela de filhotinho, junto a dois homens que nunca tinha visto antes. Tinham ao pequeno urso negro entre seus braços e sorriam orgulhosos. Estes deviam ser seus irmãos mortos e o fizeram pensar em Anya. Sentia como se uma faca se retorcesse profundamente em suas vísceras.

   A dor seguia a flor de pele. Pior ainda, nunca desapareceria. Sentiria falta da sua irmã durante o resto de sua vida.

   Passando um dedo sobre a imagem, descobriu um poema também guardado dentro.

   Onde eu esteja, sempre estarão. Vossa imagem vive em meu coração.

   As palavras o comoveram, afogando-o com uma corrente de emoções que lhe nublaram os olhos. Piscando rapidamente, amaldiçoou a sensação. Era um guerreiro. Um lobo com L maiúsculo. Não era nenhuma anciã que chora com os comerciais do Hallmark.

   Entretanto, uma pequena ursa o fazia sentir como nunca antes.

   Como um ser humano.

   Mais concretamente, o fazia sentir querido.

   Que estupidez era essa? Seu irmão e sua irmã sempre o tinham amado… Talvez Vane não o amasse justo agora, que não era de nenhuma utilidade no reino humano, mas Vane e Anya sempre tinham sido seu refúgio. Eles o amavam e ele amava a eles.

   Mas o que sentia por Aimee…

   Não é correto, lobo. Não deverias pensar sequer nela.

   Onde eu esteja, sempre estarão. Vossa imagem vive em meu coração.

   Era exatamente o que sentia por ela.

   Fechando o relicário, beijou-o brandamente e o pôs de volta sobre seu pescoço. Sim, era o suficientemente efeminado para fazê-lo vomitar. Mas era de Aimee e ela obviamente o entesourava.

   Assim que ele também o faria até devolver-lhe quando retornasse ao seu mundo.

   Agora não podia dormir nada. Insônia assegurada. Era a primeira vez em meses que se sentia o suficientemente a salvo para fazer algo mais que tomar sestas de combate, à espera de ser atacado. E se não alcançava com isso, além disso, tinha uma ereção infernal. Dolorosa e demandante.

   Golpeando a cabeça contra a cama, grunhiu. Sim, estou no inferno. Mas ao menos não tinha fome e não estava brigando com os demônios. A isso adicionemos que estava mais forte.

   Quase inteiro.

   Logo voltaria a ser ele mesmo e ao mundo ao qual pertencia, e todo este tempo ficaria para trás.

   Isso esperava.

 

   —Não falas a sério sobre recrutar a esse lobo, verdade?

   Thorn não se incomodou em voltar-se ao ouvir a voz de Misery saindo de entre as sombras por trás dele. Tomou a grandes goles o vinho de seu enorme copo enquanto seguia olhando fixamente para o fogo, que lhe recordava tanto ao lar que nunca quis reclamar.

   —Há alguma razão significativa pela qual vens a me chatear?

   Ela se situou por trás de sua cadeira. Apoiando um braço ao redor do respaldo e inclinando o quadril, baixou o olhar, vagamente, para ele.

   —Quero saber por que enviou aos seus valentões atrás de nós.

   —Vós quebrantastes a lei.

   Misery lançou um som de desgosto antes de acomodar-se ela mesma no colo de Thorn, que quase nem pôde conter-se para não atirá-la ao chão.

   Acariciando-o na bochecha com uma de suas unhas, sorriu-lhe, coquete.

   —Não estás pensando seriamente em ir até lá, verdade? Venha ao lado escuro comigo, amor. Sabes que o desejas.

   Sim, queria-o. Sentia a atração constantemente e seu pai continuava lhe enviando demônios, como Misery, para dobrá-lo de todo.

   Mas ele se recusava.

   Havia feito uma promessa e pela pequena parte dele que era decente, não seria tentado. Fazendo uso de seus poderes se transportou fora da cadeira para ir se colocar de pé junto ao fogo, deixando Misery esparramada no chão.

   —Vade retro, Misery. Não estou de humor para lutar contigo.

   Esta ficou de pé e anunciou:

   —Está bem. Mas pensas nisto… estripamos ao seu anterior soldado instalado em Nova Orleans. Só espera para ver o que temos planejado para seu lobo.

  

Cada dia parecia eterno enquanto Fang treinava para lutar contra demônios em forma humana e amaldiçoava aos Daimons que continuavam vivendo. Ao menos Aimee era capaz de instruí-lo rapidamente a respeito do que estava passando fora no mundo real, mas estava cansado de estar preso aqui. Estava cansado do fedor de demônio.

   Sobretudo, estava cansado de estar sozinho. Aimee era o único contato que tinha com o mundo que tinha deixado para trás. Essa era a parte mais difícil. Por que Vane não teria falado com ele? Era Fury muito melhor irmão que ele para que Vane já nem sequer o recordava?

   Era um pensamento estúpido. Sabia e entretanto persistia. Provavelmente porque se sentia traído e abandonado por seu irmão. Como pôde Vane simplesmente descartá-lo como a um sonho e não escutá-lo?

   Como pôde não ajudá-lo quando mais o necessitava?

   —Ei, lobo… aqui há algo que acredito que precisas ver.

   Fang se deteve enquanto Thorn ingressava na sala onde tinha estado treinado. Tomou o bastão da mão de Fang enquanto as imagens começaram a piscar nas paredes ao seu redor.

   Inseguro a respeito do que esperar, Fang observou como as imagens se voltavam nítidas e viu Aimee Peltier em um clube que estava em construção. Havia escadas e baldes de pintura em toda parte, assim como também serrotes e ferramentas. Mas o peculiar era o fato de que se encontrava rodeada de demônios Carontes enquanto o mais novo de seus irmãos, Kyle, estava ao seu lado.

   Um alto Caronte de cabelo escuro com pele azul salpicada sacudiu a cabeça enquanto o som os alcançava.

   —Aqui não há nenhum de nós o suficientemente idiota para fazer isso.

   Aimee o deslumbrou com um doce sorriso.

   —Vamos, Xedrix… certamente alguém deve se sentir nostálgico?

   Ele soprou.

   —Conheceste realmente alguma vez à Destruidora? —Seu tom era azedo e frio—. Sabes, houve uma época, admito que foi antes que se registrasse a história, mas houve um tempo durante o qual foi como uma segunda mãe para mim. Mas então os humanos tiveram que massacrar ao seu único filho e desde o dia em que foi ressuscitado e ela foi enviada de volta ao seu buraco, esteve um pouquinho resmungona e tive que sofrer um perpétuo SPM durante onze mil anos. Não te ofendas, mas não há suficiente cerveja, carne ou beignets no mundo que me façam voltar ali.

   Os demônios ao redor dele lançaram aclamações de conformidade.

   Aimee suspirou.

   —Tenho que entrar no Kalosis.

   Xedrix lhe soltou uma apática careta desdenhosa.

   —Vá comer um Daimon.

   Kyle riu.

   —Isso não a seduzirá desde que tendem a converter-se em pó quando morrem e a tortura tampouco funciona. Tentamos nessa última noite. Os pequenos pegajosos são altamente pouco cooperativos.

   —E nós também.

   Xendrix tomou um martelo para assim poder retornar ao trabalho.

   Aimee lhe lançou um olhar zangado a Kyle que fez Fang querer abraçá-la.

   Kyle fez uma careta, então se colocou frente aos demônios para cortar seu caminho.

   —Xed, vamos. Fiz muito por vós, meninos. Não poderiam ajudar a um irmão? Um demônio que nos leve e nos tire dali. Ninguém tem que sabê-lo.

   Xedrix lançou o martelo de volta à caixa de ferramentas. Olhou para Aimee.

   —Por que é tão importante para ti?

   —Fang me salvou a vida. Quero lhe devolver o favor.

   Xedrix se mofou.

   —Bobagens. As pessoas, e especialmente os Were-Hunters, não são assim altruístas. Acredite-me. Estive ao redor deste desde o amanhecer dos tempos. Vós, pequenos bastardos, são egoístas até o final. Me dê uma razão para ser suicida.

   Aimee lhe jogou uma olhada envergonhada a Kyle antes de responder.

   —Ele é importante para mim.

   —E as partes de meu corpo são extremamente importantes para mim.

   Thorn se voltou para olhar a Fang enquanto as imagens cintilavam ao seu redor.

   —Tua ursinha pensa espantosamente muito em ti, não é assim?

   Fang não respondeu. Estava muito surpreso pelo que ela estava tratando de fazer em seu nome.

   —Por favor, Xedrix —Aimee suplicou—. Perdi suficientes pessoas que importaram em minha vida. Não quero perder a outra. Fang é um bom lobo e não posso deixá-lo como está. Só temos que assassinar um Daimon a mais para libertá-lo. Pela primeira vez posso salvar a alguém que me importa. Não poderia viver comigo mesma sabendo que falhei estando assim tão perto da meta.

   Uma fêmea demônio deu um passo a frente e dirigiu a Xedrix um olhar de recriminação.

   —Olhe a pobre ursa. Ama-o… como podes dizer que não a isso? —A demônio sacudiu a cabeça, logo olhou a Aimee—. Eu te levarei.

   Xedrix levantou a mão.

   —Não, não o farás. Não arriscarei a nenhum de vós. Têm sua liberdade, assim desfrutem dela. Apollymi será clemente por minha deserção, o que só significa que me assassinará rápido em vez de me torturar primeiro —suspirou pesadamente—. Eu os levarei.

   Os demônios fizeram ruídos de protesto.

   —És nosso líder —soltou um dos homens.

   —Sim, cara de bunda, esse sou eu.

   Xedrix tomou a toalha que estava sobre seu ombro e a deu ao macho que tinha falado.

   —Desfrutem do bar, caras. Recordem o que disse Kyle. Só vos coma aos turistas. Ninguém os sentirá falta deles.

   Transformou-se em sua verdadeira forma de demônio, completo com seus chifres e asas negras. Suas roupas se desintegraram em uma tanga.

   Encontrou o olhar de Aimee e seus olhos brilharam com um amarelo sinistro.

   —Me siga.

   Aimee puxou-o até detê-lo.

   —Obrigada, Xedrix. De verdade o aprecio.

   —De verdade eu gostaria de poder dizer o mesmo. Malditos ursos, fazendo assassinar aos demônios. O que lhes tenho feito?

   Kyle deixou escapar uma risada um pouco nervosa.

   —Bom, trataste de me comer.

   Xendrix se mofou.

   —Homem, Kyle. Só foi uma pequena dentada.

   —E se infeccionou. Essa dentada doeu durante um mês.

   Aimee riu.

   —Agradeça de que não se converteu em raiva ou algo pior.

   Xedrix arqueou uma sobrancelha ante o comentário.

   —Sabe, ursa, poderias esperar pelos insultos até depois que te leve e te traga. Não é muito tarde ainda para que meu sentido comum prevaleça.

   Aimee desprezou seu comentário.

   —O sentido comum está seriamente sobrestimado. És um demônio. Pensei que seu lema era “Mutile até ser vencedor.”

   —Não, nosso lema é “Tudo tem gosto melhor com molho picante”.

   —Então menos mal que escaparam para o país Cajun aonde temos molho picante em cada esquina.

   Xedrix exibiu um sorriso dentuço.

   —Me acredite, a beleza disso não nos escapou —suas feições se tornaram sérias, levou-os para o beco atrás do clube e elevou o braço—. De verdade, espero que Apollymi esteja dormindo agora mesmo… —os atravessou com um olhar ameaçador—. Protejam os olhos.

   Fizeram-no e um instante depois uma luz branca brilhante inundou o beco.

   Aimee fez uma careta de dor. Inclusive com os olhos protegidos, era terrível e cegador. Finalmente, a luz desapareceu. Baixou a mão para ver um círculo negro abatendo-se sobre o beco.

   Xedrix sorriu malignamente.

   —Bem-vindos ao inferno bolt-hole[10]. A única coisa boa é que não saltaremos no hall central dos Daimons aos pés de Stryker. Os Caronte têm uma entrada à parte —lhes deu um olhar duro—. Escutem-me e façam o que os diga ou na verdade federá ser vocês. Entraremos em domínio Caronte e devem estar famintos.

   Aimee assentiu.

   —Estamos justo atrás de ti.

   —A alegria de minha vida —disse, com seu tom destilando sarcasmo.

   Xedrix entrou em primeiro lugar, lentamente. Guiou-os até um sombrio beco. Elevando o braço, manifestou uma tocha enquanto continuava passando as portas onde puderam ouvir o som dos demônios falando.

   —Como parecia esse Daimon?

   Kyle respondeu antes que ela tivesse oportunidade de falar.

   —É alto e loiro.

   Xedrix o olhou com chateio.

   —Bom, isso o reduz a cada Daimon aqui exceto Stryker. Quanto poderia ser isso? Vários milhares deles? Poderias ser um pouco mais específico e se me dizes que estava vestido de negro, assassinar-te-ei eu mesmo e me economizarei a agonia da morte.

   Aimee sacudiu a cabeça.

   —É um pequeno demônio carrancudo.

   —Deverias conhecer minha ama. É uma verdadeira jóia.

   Então sem aviso, colocou as mãos em sua cabeça e fechou os olhos.

   Aimee franziu o cenho enquanto as imagens se derramavam através de sua mente como se ele estivesse escaneando suas lembranças ao usar um botão de avanço rápido. Fez-a enjoar-se e atordoar-se.

   Depois de um momento, afastou-se.

   —Cadmon… Sei onde está esse covarde.

   Kyle pareceu impressionado.

   —Assim podes sugar os pensamentos?

   Xedrix fez uma careta.

   —Prefiro sugar tripas, mas os pensamentos têm suas vantagens de vez em quando. Agora lhes sugiro que fiquem em silêncio. Só sou um demônio entre muitos aqui e enquanto eu… bom, realmente não me importa se vivem ou morrem, mas a vós sim, e desde que necessitamos de Kyle para terminar o clube… sep, têm que viver, assim me sigam em silêncio.

   Aimee se manteve justo atrás dele através dos ziguezagueantes corredores e becos do Kalosis. Deteve-se ante a vista do imenso palácio na longínqua colina. Reluzia como o mármore polido contra o fundo e o céu escuros. Sinistro e inspirador, tinha que admirar sua beleza.

   —Me deixe adivinhar —sussurrou—. A residência do Apollymi?

   Xedrix assentiu. Pondo um dedo sobre seus lábios, sacudiu o queixo para o pequeno edifício ao outro lado da rua.

   —Não posso ser visto aqui por ninguém —sussurrou—, ou Apollymi exigirá minha volta e morte. Vós dois tereis que entrar e encontrá-lo.

   —Como sabes que está aí dentro?

   Colocou a mão na dela e viu uma perfeita imagem de Cadmon dormindo na cama com uma mulher.

   —Obrigada.

   Ele inclinou a cabeça para ela.

   —Boa sorte.

   Aimee duvidou.

   —Kyle, quero que fique aqui com Xedrix.

   —Mas…

   —Sem mas. Ainda és novo com teus poderes e isto é sério. Fique aqui e faz que não os vejam.

   Ele assentiu.

   Aimee se deslizou através das sombras, assegurando-se de evitar algo que pudesse expô-la. Seus nervos estavam completamente crispados e fez o possível para não ter medo. Sabia que era mais poderosa e forte, mas nunca antes tinha tido que brigar sozinha. Embora estava segura de si mesma, não era arrogante. Era um lugar perigoso e não tinha idéia da extensão dos poderes de Cadmon.

   Mantenha teus pensamentos em Fang…

   Isso ajudou. Entreabriu a porta, agradecida de que não estivesse debaixo de chave, e se deslizou dentro da pequena casa. Estava tudo tão calado que sua mente encheu o silêncio com o tamborilar de seu coração.

   Estás a ponto de massacrar a um homem adormecido.

   Vacilou ante aquele pensamento. Todos os outros Daimons a tinham atacado, mas esse...

   Estava dormindo em casa.

   Aimee duvidou até que este pensamento a cobriu. Como poderia fazê-lo?

   Matou a centenas de pessoas para viver. Não era inocente por nenhum motivo.

   Tinha atacado a Fang quando este tinha estado amarrado e indefeso. Impotente. Mas tudo isso empalideceu ante sua consciência. Isto era assassinato. Não era em defesa própria. Não era justiça.

   Assassinato.

   Apertou a estaca na mão. É muito tarde para ser uma galinha. Vê e acabe com ele.

   Como poderia?

   Dando um passo para trás, chocou-se contra uma cadeira fazendo o mais ligeiro e sussurrante arranhão no chão. Seu coração se deteve.

   Ainda assim, não se ouviu nenhum som.

   Graças aos Deuses, não tinha despertado a ninguém.

   Aimee girou só para encontrar a Daimon atrás dela. Seus olhos se viam escuros e famintos enquanto arrastava um olhar encantado sobre seu corpo.

   —Bom, bom, que saboroso petisco és. Desde que não ordenei nenhuma entrega, longe estaria de mim o rechaçar tal atento presente.

   Aimee lhe deu uma dura joelhada na virilha. Enquanto se dobrava, apunhalou-o nas costas, mas saída de nenhuma parte, uma fêmea Daimon a agarrou e a estampou contra a parede.

   Aturdida, voltou-se a brigar só para encontrar-se com outros três Daimons.

   —O que é isto? Uma orgia?

   Eles atacaram.

   Aimee evitou ao primeiro, e se dirigiu para o mais importante. Cadmon. Que retinha a alma de Fang. Era ao que principalmente tinha que matar. Os outros eram simples alvos de prática.

   A fêmea a enviou de um chute ao chão. Aimee atirou a Daimon sobre seu corpo, logo rodou até ficar de pé. Um dos homens a sacudiu. Deu-lhe um duro murro no rosto, a mão lhe vibrou em protesto.

   Girando, apontou ao alvo e estampou o punho em seu peito.

   Funcionou. A estaca entrou e ele estalou em um pó dourado.

   Mas antes que tivesse canído, os outros a rodearam. Aimee gritou ao tempo em que a fêmea afundava as presas em seu braço…

 

Fang cambaleou para trás enquanto sentia o último pedaço de si mesmo voltar para casa, ao seu corpo. Pela primeira vez em meses, realmente respirou profundamente.

   Thorn sorriu perversamente.

   —Bem-vindo de volta, lobo.

   Mas não havia tornado ainda e tampouco Aimee. Ainda estava preso nesse inferno.

   —Posso ir com ela?

   Thorn fez uma careta.

   —É um pouco complicado. Rompe uns quantos tratados te enviar a um reino que tecnicamente não controlamos.

   Fang se sentiu presa do pânico enquanto observava a cena na parede. Aimee estava perdendo.

   Gravemente.

   —Vão matá-la, Thorn —então Fang fez a única coisa que nunca tinha feito em toda sua vida. Rogou—. Por favor.

   Thorn estendeu a mão para a parede onde as imagens apareciam.

   —O portal está aberto. Mais vale que saias correndo.

   Fang não vacilou. Correu para as imagens, meio esperando colidir contra a parede e romper os membros ou o pescoço.

   Não o fez.

   Em troca, encontrou a si mesmo no quarto com Aimee e os Daimons. Tomou a que tinha as presas ainda enterradas na carne do Aimee e puxou sua cabeça. Manifestando uma adaga, apunhalou-a diretamente no peito e deixou ao pó cair sobre ele.

   Aimee se moveu para matar ao recém-chegado até que seu olhar se enfocou em seu rosto. A incredulidade a encheu.

   —Fang?

   Ele manifestou outra adaga e colocou a si mesmo entre ela e os Daimons. Apunhalou um e chutou outro de volta.

   —Saia daqui. Agora.

   —Não sem ti.

   Fang não podia acreditar enquanto ela se posicionava atrás dele, seus ombros pressionados contra os seus.

   —Aimee, me escute. Estamos em zona zero para os Daimons, aqui não há forma de que possamos vencer a todos. Necessito que saias daqui e me despertes. Então ambos estaremos a salvo. Agora vá.

   Aimee odiou esse plano. Mas tinha razão. Não podiam brigar contra cada Daimon Spathi que havia ali e se a Destruidora os apanhava…

   Como Xedrix disse, cheiraria mal ser eles.

   —Não te atrevas a morrer, Fang.

   Correu pela porta e se dirigiu para onde tinha deixado Kyle e Xedrix.

   —Me leve para casa, agora.

   Xedrix os teletransportou imediatamente.

   Aimee franziu o cenho enquanto se dava conta que estava de volta em seu clube e não no deles.

   —Referia-me ao Santuário, Xed. Maldição!

   Grunhindo, cintilou-se de volta ao quarto de Fang.

   Aí estava deitado, quieto e imóvel.

   Seu coração palpitou com terror e culpa por havê-lo deixado sozinho enfrentando aos Spathi. Estaria ainda vivo?

   —Por favor, não deixes que esses Daimons te apanhem de novo.

   Não sabia se poderia caçá-los outra vez.

   Aterrorizada, correu para a cama e sacudiu seu corpo para levantá-lo.

   —Fang?

   Não respondeu. Como antes, estava inerte e frio.

   As lágrimas encheram seus olhos enquanto as emoções a estrangulavam.

   —Maldito sejas, lobo! Não te atrevas a me fazer isto. Mais vale que te levantes. Agora! Escuta-me? Fang? Fang!

   Então o sentiu. Era como uma faísca de eletricidade sacudindo-o enquanto se estremecia fortemente entre seus braços. Um momento sustentava um lobo e no seguinte, era um homem nu olhando-a com um confuso assombro.

   Uma lágrima se deslizou por sua bochecha ante a visão dele vivo e completo.

   —Fang?

   Fang olhou ao redor do escuro quarto sem acreditar que estivesse realmente de volta e que não fora outro sonho que pudesse tornar em um pesadelo. A essência de Aimee o ancorou e lhe manteve na terra. Embalou sua cabeça entre suas mãos e soube que tudo havia valido a pena.

   —Retornei…

   Ela o abraçou e riu.

   —Estava aterrorizada de que te tivessem apanhado de novo.

   Sua risada se uniu a dela enquanto se afastava para lhe mostrar a sangrenta ferida em seu braço.

   —Tentaram-no —então a observou—. Não te machucou, ou sim?

   —Não realmente. Só uma mordida, mas não é tão profunda. É só que não posso acreditar que estejas aqui de novo —sustentou suas mãos a cada lado de seu rosto e lhe sorriu—. Colega, necessitas de uma barbeada e um corte de cabelo.

   Fang riu.

   —Sip, posso imaginá-lo.

   Seus olhos dançaram peraltas e cheios de lágrimas.

   —Sabes o que isso significa, não?

   —Que preciso de um banho mais do que preciso de uma barbeada?

   Seu sorriso se alargou enquanto tirava sarro dele.

   —Bom, sim, isso também. Mas não. Estás em dívida comigo. Uma grande.

   —Serei teu eterno escravo. Sempre —apoiou a testa contra a sua—. Obrigado, Aimee.

   Essas palavras pareciam tão miseráveis comparadas com a autentica gratidão que sentia.

   Tinha-o salvado de um inimaginável inferno. Sem ela, jamais poderia ter escapado…

   —De nada.

   Beijou-lhe a testa antes de deitar-se de novo na cama e puxar a ponta do edredom sobre seu regaço.

   —Sinto-me como se tivesse sido atropelado por um caminhão.

   —Bom, estivemos tratando de mover teus membros enquanto eras um lobo, mas em ocasiões estavas tão duro que não podíamos.

   Fang tratou de não pensar nisso. Provavelmente tinha sido quando estava sendo atacado por Misery e sua equipe. Mas tudo isso era passado. Estava de volta no lugar ao qual pertencia.

   Aimee lhe afastou o cabelo do rosto.

   —Estás faminto?

   —Esfomeado.

   —Te trarei algo para comer e voltarei logo.

   Tomou sua mão quando começava a afastar-se. A calidez de sua pele o apanhou com a guarda baixa. No outro reino, sentia-se diferente. Agora sentia o verdadeiro calor e a suavidade de seu corpo.

   —Fica comigo um pouquinho mais.

   Tinha estado só durante tanto tempo que não queria voltar a estar nesse momento. Tinha medo de que se o estava, de algum jeito o levariam de volta para esse reino infernal.

   Aimee ouviu a necessidade em sua voz.

   —Chamarei Dev para que te traga algo.

   Ajudou-lhe a meter-se debaixo das mantas enquanto usava seus poderes para pedir a Dev que trouxesse comida e água.

   Fang deitou de lado, quieto e silencioso. Tinha o braço metido debaixo da cabeça enquanto seus olhos dançavam ao redor do quarto como se, se não olhasse a todas as sombras, cobrariam vida e o atacariam.

   E ainda assim, se convenceu para lhe parecer encantador. Inclusive com o cabelo emaranhado e a barba descuidada. Embora seu corpo fora muito mais magro, ainda enviava uma sacudida de desejo através dela.

   —No que estás pensando?

   Esses olhos escuros encontraram os dela e a enfeitiçaram. Também lhe tiraram o fôlego.

   —No agradecido que estou de que não te rendetas.

   Tomou sua mão na dela e a apertou brandamente.

   —Os lobos não são os únicos que são leais, sabe? Nós os ursos temos uma boa reputação nesse departamento também.

   Dev bateu na porta ligeiramente antes de abri-la. Ficou com a boca aberta quando viu Fang acordado.

   —Santa merda. O lobo vive.

   Aimee se ergueu para tomar a bandeja de suas mãos e colocá-la sobre a penteadeira.

   —Por que achas que pedi caldo?

   —Pensei que tinhas sofrido uma lesão na cabeça ou algo.

   Ela rodou os olhos.

   Dev fechou a porta e avançou até estar ao lado da cama de Fang.

   —Assim que quando recuperaste a última?

   —Há alguns minutos.

   Seu olhar se endureceu.

   —Sozinha?

   —Não. Kyle estava comigo.

   Isso não ajudou com seu olhar absolutamente. De fato, intensificou-a.

   —Maldita sejas, Aimee. Arriscou ao filhote?

   —Não é somente um filhote.

   —Tens razão. Ele é um passageiro que há caído do mini-ônibus. Maldição, Aimee, de todas as pessoas que podias levar contigo em uma briga…

   —Dev! —Interrompeu-o, seu próprio aborrecimento acendendo-se. Não estava de humor para sua reprimenda.

   Ele sacudiu a cabeça.

   —Conheces ao garoto. Não pensa a maior parte do tempo exatamente. É o pedreiro que deixou a metade das ferramentas na fábrica.

   Irritada, apontou para a porta.

   —Vá embora.

   Quando se recusou a fazer o que lhe disse, empurrou-o através da porta, logo a fechou de uma portada em sua cara.

   —Isso foi de verdade muito grosseiro, irmã —gritou do corredor—. Realmente feriu meus delicados sentimentos —sua voz soou como a de um menino.

   —Não tens sentimentos, Devereaux. Esse ônibus te ultrapassou faz muito tempo.

   —Oh, sim. Esqueci-o. Bem. Que assim seja. Tenho coisas mais importantes a fazer de qualquer forma. Tenho um padrasto que necessita de minha atenção.

   Aimee pôs novamente os olhos em branco enquanto tomava o caldo da bandeja para Fang, que tinha estado extraordinariamente silencioso durante sua discussão.

   —Sempre é assim?

   Desejou poder dizer o contrário, mas não podia.

   —Basicamente, sim.

   Fang lhe tirou a tijela e sorveu dela como se fora uma taça.

   —É incrível que não o tenhas assassinado.

   —É-o, verdade?

   Deteve-se como se desse conta do que estava fazendo. Lançou-lhe um olhar envergonhado.

   —Supõe-se que tenho que usar algo para comer isto, não?

   Essa pergunta a comoveu profundamente. Que pudesse estar preocupado a respeito de ofendê-la depois de tudo o que tinha acontecido. Era inesperado e isso a reconfortou.

   —Não te preocupes. Sei que estás morto de fome.

   Fang assentiu. Estava certa. Seu estômago lhe doía tanto que foi tudo o que pôde fazer para não atacar. Terminou a sopa rapidamente e logo trocou a terrina pelo copo com água.

   —Sabes, de verdade poderia devorar um filé agora mesmo.

   —Seu corpo não está habituado à comida real. Carson te manteve com intravenosas e te alimentamos manualmente com líquidos todo este tempo. Não quero que adoeças por comer algo sólido antes que fale com ele.

   Fang olhou para baixo e se deu conta de quão magro estava.

   —Maldição. Estou da metade de meu tamanho.

   —Não de todo, mas levará tempo sarar.

   De todas as formas, estremeceu-se. Não gostava de ver-se assim. Sobretudo não gostava desse débil sentimento. Era um lutador, não um inválido.

   —Necessito de um banho.

   —Podes te levantar?

   A pergunta o ofendeu gravemente.

   —Não estou indefeso.

   —Oh, olhe! —Aimee exclamou em um exagerado falsete—. O Senhor Macho está de volta em toda sua glória. Olá, Senhor Macho, não é estupendo lhe ver novamente. Mas sabe, Senhor Macho, que esteve acamado até o ponto de que suas pernas não estão acostumadas a suportar seu peso e não é precisamente humano. Assim se quer se levantar e e cair, os Deuses proíbam que faça qualquer coisa para detê-lo. Depois de tudo, vivo para Os Vídeos Mais Divertidos da América. Deveria ir procurar a câmera de vídeo agora?

   Quis zangar-se com ela. Pelo menos ofender-se, e entretanto se encontrou estranhamente entretido.

   —Te cale e me ajude a chegar ao banheiro.

   —OK, mas poderia ser que querias pôr algumas roupas em cima antes que Maman, Papa ou Dev tenham uma apoplexia. Em segundo lugar, queremos que Dev tenha uma, mas por minha sorte serão só Maman ou Papa que nos vejam e isso não seria bom para nenhum de nós.

   Sorrindo ante seu humor, vestiu a si mesmo com um par de jeans e uma camisa. E enquanto tratava de ficar de pé se deu conta de quanta razão tinha ela. Seus membros se sentiam como se caminhasse sobre talharins úmidos. Mas com sua ajuda, foi capaz de chegar ao banheiro e dentro da banheira. Dissolveu as roupas enquanto Aimee ligava a água e ajustava a temperatura.

   —Deveria perguntar a respeito de quão cômoda estás comigo nu?

   Tomou uma toalha e a colocou junto à banheira.

   —Tenho muitos irmãos.

   —Viu-os nus?

     Colocou a mão na água para comprovar a temperatura.

   —Os ursos se despem muito durante o dia e mais vezes das quais me importaram. Além disso, ajudo a Carson na clínica.

   Cruzou os braços sobre a borda da alta banheira com patas em forma de garra e descansou o queixo sobre as mãos. Era uma pose adorável e o fez desejar ter a força para puxá-la ao interior da banheira com ele e aliviar a dor de sua entreperna.

   —Se isto alivia teu ego, és um lobo muito atraente —lhe aproximou uma toalhinha e uma barra de sabão, logo lhe pôs um barbeador elétrico de barbear, espuma e um espelho no chão ao alcance de sua mão—. Entretanto, tenho que ir antes que Maman ou Papa casualmente me apanhem a sós contigo. Nenhum deles ficará feliz e passei por muito para te salvar a vida para que eles acabem com ela agora.

   Fang realmente não queria estar sozinho de novo. Tinha passado muito tempo dessa maneira nos últimos meses, mas sabia que tinha razão. A última coisa que queria era colocá-la em problemas.

   —Se me necessitas, chama.

   Assentiu enquanto ela saía caminhando pela porta como uma pessoa normal. Mas não era normal e tampouco o era ele. Eram dois animais que não tinham nenhum assunto que os relacionasse um com o outro.

   Suspirando, ensaboou a toalhinha e se dispôs a lavar-se para assim não ofender a suas próprias glândulas olfativas. Bah, Como pôde agüentar Aimee ao seu lado? Estava enojado de seu próprio cheiro.

   Barbear-se foi um pouco mais difícil que se banhar. Nunca o tinha dominado muito bem em seu melhor dia.

   Vaiando, encolheu-se ao tempo em que se cortava o queixo.

   Aimee esteve aí imediatamente.

   —O que ocorre?

   Surpreso, franziu o cenho. Tinha-o estado escutando?

   —Cortei-me.

   Ela fez uma careta ante a visão do atoleiro de sangue. Sustentou um pedaço de papel e o cobriu.

   —Deus, lobo. Não posso te deixar sozinho por três segundos?

   —Nunca pude fazer esta mer… coisa bem.

   Tirou-lhe a lâmina e a passou cuidadosamente sobre sua bochecha.

   —Não é tão difícil.

   Esperou até que afastou lâmina para limpá-la antes de falar.

   —E novamente, pergunto-te como é que és tão boa barbeando homens.

   Ela riu.

   —Sou um urso e tenho muita mais área para barbear que tão só o rosto.

   Arqueou uma sobrancelha ante o comentário, então inclinou a cabeça para olhar para suas pernas como se tratasse de imaginar como pareciam debaixo dos jeans.

   —Sim, tens.

   Aimee tomou seu queixo com a mão e o forçou a inclinar a cabeça para trás para assim poder barbear seu pescoço. Seu olhar se deslizou seguindo os músculos ondulantes até onde sua ereção era evidentemente visível sob a água. O calor cobriu suas bochechas. Embora podia estar cômoda com sua nudez, esse era outro assunto completamente distinto. E era algo que nunca tinha visto antes.

   Desde que jamais havia sentido a aceleração, nunca tinha se emparelhado com um macho. Não é que fora ingênua e ignorante a respeito do que os machos e as fêmeas faziam. Conhecia todos os matizes do sexo à medida que seus irmãos se haviam sentido livres de compartilhar os mais vergonhosos fatos de suas façanhas pré-maritais, mas…

   Nunca as tinha experimentado por si mesma.

   E até Fang, nunca se sentiu completamente curiosa a respeito do que estava perdendo. Mas agora não podia evitar perguntar-se como seria provar Fang. Como se sentiria dentro dela. Inclusive embora fora feroz, sabia que seria delicado. Carinhoso.

   Forçando a voltar sua atenção de volta ao seu pescoço, admirou as perfeitas curvas que formavam a linha da mandíbula. Realmente era um homem bonito. Inclusive gasto e debilitado.

   Te concentre, Aimee.

   O problema era que estava concentrada. Só que não no que precisava estar concentrada.

   Fang lambeu os lábios enquanto terminava de barbeá-lo. Tratou de manter as mãos sobre a parte rígida de si mesmo e rogou aos Deuses que ela não fora capaz de vê-lo. Mas era difícil e sentia uma dor insuportável ali.

   Afastando-se, colocou o barbeador elétrico sobre o lavabo.

   —Sei que não estás indefeso, mas necessitas que te ajude a te secar?

   A simples oferta fez com que seu pênis se sacudisse com expectativa.

   —Um, não, acredito que posso fazê-lo.

   —Seguro?

   Sentiu-se endurecer inclusive mais.

   —Bastante. Sim.

   —Está bem. Podes usar teus poderes para te levar de volta à cama enquanto apresso a limpar aqui dentro?

   E mantê-la afastada de ver quanto desejava prová-la?

   —Absolutamente.

   Ela franziu o cenho ante a palavra que tinha saído como um estranho chiado.

   —Estás bem?

   Fang se amaldiçoou silenciosamente.

   —Bem.

   Ou ao menos tão bem como um homem morrendo por intoxicação de testosterona poderia estar.

   Dirigiu-lhe um olhar receoso.

   —Não pareces estar bem. Pareces um pouquinho agitado.

   —Estou absolutamente estupendo.

   Cintilou fora daí tão rápido que esqueceu de secar-se.

   Amaldiçoou-se enquanto se dava conta do desastre em que tinha convertido sua cama. Grunhindo a si mesmo, usou seus poderes para acomodar tudo em seu lugar antes de conjurar um par de calças de pijama de flanela. Mas não fizeram nada para ocultar sua ereção que agora formava uma sólida tenda em sua virilha.

   A ponha fora de sua mente.

   Sim, correto. Seu toque era como se marcasse seus sentidos com sua essência e não havia alívio à vista.

   Me matem…

   Suspirou e se obrigou a dar volta. Mas no momento em que o fez, sentiu uma poderosa mudança no ar. Uma que só poderia anunciar a chegada de uma entidade extremamente poderosa.

   Preparado para a batalha, agachou-se na cama para encontrar Thorn parado justo dentro da porta.

   —O que estás fazendo aqui?

   Thorn lhe obsequiou um olhar penetrante.

   —É hora de que ganhe tua manutenção, lobo. Preparado?

  

   —Ganhar o pão? —perguntou Fang muito lentamente, enunciando cada palavra com claridade, para assegurar-se de ter entendido bem a Thorn—. Ficaste completamente louco? Acabo de retornar e quase nem posso me manter em pé. O que queres que faça? Que sangre sobre eles?

   Thorn riu.

   —Soas saudável para mim.

   Que diabos. O homem estava alucinando se acreditava, embora seja por um segundo, que Fang podia fazer algo mais do que estava fazendo justo agora. Estar sentado. Thorn se tinha fumado algo, sem dúvidas.

   Voltando a recostar-se na cama o olhou seriamente.

   —O que queres exatamente?

   —Que acabem com o mau trato aos pequenos e esponjosos coelhinhos do pó[11]. Mas isso não parece factível de momento, assim em vez disso quero que saibas que embora Xedrix e companhia podem ter ajudado a Aimee e a ti, não deixam de ser demônios que devem ser vigiados e executados se for necessário.

   Sip, isso soava como algo que ia estar ansioso de fazer. Me marquem para… jamais.

   —Se significam tanto problema, por que não os enviam de volta ao Kalosis?

   Thorn parecia muito desiludido.

   —Em realidade não estão sob minha jurisdição. Os demônios Caronte são de outra entidade e têm um panteão à parte ao qual respondem. Isso não quer dizer que façamos vista grossa com eles, mas enquanto tomem com calma, quer dizer, só comam aos corruptos e não aos cidadãos honrados, e seus deuses os mantenham sob controle, não nos preocupamos, muito, por eles.

   Fazendo aparecer uma foto de 13x18, Thorn a entregou. Mostrava um homem de uns vinte anos cujo coração tinha sido arrancado do peito.

   —Isto, por outro lado, é o que nos concerne. Mais pontualmente, a mim e por conseqüência a ti.

   Embora era horrenda, era uma cena que Fang tinha visto em várias ocasiões desde sua chegada à Nova Orleans.

   —Parece como um típico sacrifício vodu.

   —Bom, me golpeie e me chame de Sally se não for um menino esperto. É parte de um ritual de chamada para um Grand Laruae.

   Esse não era um termo que um were-lobo escutava todos os dias. De fato ele nunca o tinha escutado.

   —Um o quê?

   As feições de Thorn se mantiveram imperturbáveis.

   —Um demônio sacana com complexo de superioridade, que poda os dentes com ossos de infantes. Mantenhamos simples e digamos que é um demônio que quero fora do reino humano o quanto antes.

   —E por que não podes tu ir atrás dele?

   Thorn pareceu profundamente perturbado por sua pergunta.

   —É uma longa história, para uma dessas noites onde esteja bêbado como um gambá. No momento, a história mais curta e simplificada é: política, a qual me produz ardência no traseiro. Acredite-me, disto eu não gosto mais que a ti. De fato, nada eu gostaria mais que cravar o couro verrugoso desse bastardo à árvore mais próxima, preferivelmente um carvalho… mas não vamos por aí. Infelizmente, eu, em pessoa, não posso tocá-lo sem desatar uma guerra.

   Com um movimento de queixo assinalou a foto.

   —Phrixis eliminou alguns de meus melhores homens através dos séculos e daria nada menos que minha alma para tirá-lo de serviço de uma vez por todas.

   Fang voltou a observar o rosto do rapaz na fotografia. Seus traços estavam desfigurados pelo medo. O pobre menino nunca teve oportunidade e isso acendeu sua própria ira. Algo que Fang nunca tinha podido suportar era a quem abusava dos mais fracos. Thorn tinha razão. Tinha que deter o imbecil.

   Thorn o imobilizou com um olhar letal.

   —Tu, meu pequeno loup-garou, é a melhor arma nesta batalha, posto que nem nossa perita em Vodu, nem Phrixis, ver-te-ão vir.

   —O que acontece com a sacerdotisa? —Perguntou, já que Thorn tirou o assunto—. O que queres que faça com ela?

   —Dessa me encarrego eu. Não há nenhum tratado no qual a ela concerne, assim tenho carta branca para fazer com ela o que queira. A rameira lamentará o dia que decidiu libertar Phrixis no mundo.

   Fang arqueou as sobrancelhas, divertido. Essa era uma frase que não se ouvia todos os dias.

   —”Lamentará o dia”?

   Thorn deu de ombros.

   —Sou o suficientemente velho para te fazer parecer como um embrião. Em ocasiões se nota. Tens vinte e quatro horas para encontrar Phrixis ou te enviarei de volta ao reino das trevas.

   Essa ameaça, dita nesse tom, era como colocar sal na ferida. Fang lhe lançou um olhar feroz.

   —Vai a merda, imbecil!

   Os olhos de Thorn se tornaram vermelhos. Um vermelho profundo e ardente que cintilou como sangue fluindo sob uma luz tênue. Por alguma razão que não podia nomear, uma imagem de Thorn com asas e vestindo armadura negra cruzou por sua mente. Mas se foi tão rápido que não estava seguro do que a causou.

   —Recomendo-te que não uses esse tom comigo, lobo. Apesar de ser muito bom domando à besta em meu interior, nem sempre o consigo. E, definitivamente, não queres ver essa parte de mim. De fato, deverias estar agradecido de ter as vinte e quatro horas. Se estivesse de todo recuperado e não fora sua primeira atribuição, não seria tão indulgente.

   —Eu não gosto de receber ordens.

   —E eu não gosto de repetí-las. —Depois de olhar à porta por onde Aimee tinha saído momentos antes, imobilizou a Fang com um olhar imisericordioso—. Ofereceu sua alma a quem fora que te ajudasse a salvar Aimee. Eu respondi e agora me pertences. Em corpo e alma. Faça o que te ordenei, lobo, ou ambos passarão a eternidade em um lugar que fará que o Reino das Trevas pareça a Disneylândia.

   Os cabelos do lombo de Fang se arrepiaram. Odiava o tom e a ameaça, mas Thorn estava certo. Foi ele quem fez o trato, por vontade própria, e a ele se aseguraria.

   Embora significasse sua morte.

   —Tens sérios problemas em te relacionar com as pessoas.

   O vermelho foi desaparecendo dos olhos de Thorn à medida que um sorriso insidioso curvava seus lábios.

   —E me suspenderam do curso de controle da ira depois de jogar o conselheiro através de uma parede de pedra. Talvez queira o ter em mente.

   Os músculos da mandíbula de Fang se esticaram.

   —Desde já posso ver que vamos nos dar tão bem como Batman e Curinga.

   —Só recordas uma coisa, lobo. Sou o melhor amigo que jamais terás ou o último inimigo que farás.

   Porque não viveria tempo suficiente para fazer outro. Thorn não disse essas palavras, mas seu tom o implicava.

   Entregou outra fotografia a Fang junto a uma parte de tecido que conservava o fedor de demônio.

   —Este é teu objetivo. Não me faças lamentar de te haver salvado.

   Fang se dispunha a lhe mostrar o dedo do meio. De ter estado mais recuperado, provavelmente o teria feito. Mas justo nesse momento, a idéia de atravessar uma parede, quando teria que sair para caçar um demônio, não parecia o curso de ação mais prudente.

   Vane estaria orgulhoso. O Reino das trevas lhe tinha ensinado, finalmente, um indício de instinto de sobrevivência.

   —Quando começa a correr meu prazo?

   —Há dez minutos.

   Fang soprou.

   —Obrigado. É muito generoso de tua parte.

   Thorn parecia imperturbável ao seu sarcasmo.

   —Provavelmente deveria te advertir que não sou muito dado à justiça e tenho uma tolerância abaixo de zero para a maioria das coisas. Faça teu trabalho. Faça-o bem e não teremos nenhum problema. O cagas e te mato. O cagas completamente e te torturarei primeiro.

   —Algo mais que deva saber?

   —Só isto.

   Thorn se adiantou e o tomou pelo pulso. Antes que Fang pudesse reagir, tinha-o de barriga para baixo na cama, e lhe pressionava a palma contra a omoplata.

   Fang amaldiçoou enquanto seu ombro ardia. Sentia como se estivesse sendo marcado. Tratou de lutar, mas não podia mover-se. Era como se algo desumano e invisível o sujeitasse. Quando Thorn finalmente o libertou, viu que não tinha estado muito errado. O cheiro de carne queimada flutuava pesado no ar e em seu ombro havia um círculo com símbolos antigos.

   Estirando-se para tocá-lo gritou, ao aumentar a dor ao fazê-lo.

   —O que é isso?

   —Proteção contra os demônios menores e os feitiços que os peritos e feiticeiros possam usar contra ti, uma vez que descubram que é um dos meus. Me acredite, estarás agradecido de tê-lo.

   Possivelmente quando a dor cessasse, mas justo nesse instante queria chutar o traseiro de Thorn até que o bastardo estivesse tão dolorido como ele.

   —Funcionará com Phrixis?

   Thorn riu.

   —És engraçado. —Retirando-se, entregou uma empunhadura de ouro. Ao pressionar para cima uma pedra de rubi, projetava-se para fora uma lâmina com noventa centímetros de fio—. Esta é tua espada —disse num tom que implicava que Fang era menos que inteligente—. Tens que inserir o extremo pontiagudo no inimigo. Trata de não fazer contato visual com ele e recorda: cospe veneno invisível.

   —Oh, legal.

   Thorn ignorou o comentário e tirou um telefone celular.

   —Me ligue quando terminar. Pressione dois e atenderei.

   —E se morrer?

   —Saberei e não estarei feliz. Recorda, lobo, sou um dos poucos seres que podem te seguir e te foder a estadia mais à frente. Não me falhes.

   —Nota importante, assentada. Obrigado, Doutor Mórbido.

   Thorn inclinou a cabeça antes de desaparecer.

   Fang soltou um profundo suspiro enquanto debatia o que fazer. Mas não havia nada o que pensar em realidade. Tinha que começar a rastrear ao demônio e o relógio estava correndo.

   Melhor sair daqui antes que Aimee retornasse.

   Levantando o relicário de seu peito, apertou-o forte no punho. Retornaria.

   Mas primeiro tinha obrigações.

   Respirando fundo, vestiu-se com jeans, uma camiseta e uma jaqueta de couro antes de aproximar o pedaço de tecido do seu nariz e inspirar profundamente. Com o fedor de demônio afogando-o, partiu para rastreá-lo.

  

Aimee se deteve ao entrar no quarto vazio de Fang. O edredom branco ainda estava desalinhado e os travesseiros torcidos, como se recentemente tivesse saído da cama.

   —Fang?

   Ninguém respondeu.

   Franziu o cenho, sabia que não estava no banheiro, pois vinha dali recentemente. Aonde teria ido? Examinou a Casa Peltier e o Santuário com seus poderes e ainda não havia sinais dele.

   Teria saído para procurar seu irmão?

   Fechando os olhos, deixou seus poderes vagar pelo éter, até que o encontrou. Estava no Distrito Warehouse, caminhando pela rua, como se não acabasse de retornar do inferno. As lojas de antiguidades alojadas, antigamente, nos edifícios de depósito fechavam pela noite, enquanto ele passava frente a eles.

   Que diabos fazia ali?

   Observou, enquanto ele se recostava contra um edifício cinza de tijolos, como se tratasse de recuperar o fôlego. Envolvendo um braço ao redor de suas costelas, endireitou-se e continuou descendo pela rua. Pela cabeça agachada e os movimentos predatórios, podia ver que estava rastreando a alguém.

   Por que faria algo tão estúpido? Tomou-se um motão de moléstias para salvá-lo, para que agora ele desse a volta e o esfaqueassem em um beco escuro quando deveria estar de cama descansando.

   —O que achas que fazes, lobo?

 Não estava em condições de ir atrás de alguém ou algo. E antes que pudesse deter a si mesma, transportou-se para estar bem ao seu lado.

   Fang se virou para ela com um grunhido tão feroz que a fez dar um passo atrás por temor. Tinha esquecido quão imponente podia ser. Magro e débil, era ainda tão feroz como qualquer Slayer que tinha visto. Seu cabelo comprido caía sobre uns olhos selvagens e a espada que brandia se moveu tão rápido que tudo o que pôde fazer foi conter o fôlego e elevar as mãos.

   A espada se deteve tão perto dela que sentiu quando lhe produzia um pequeno raspão em suas mãos levantadas.

   —O que fazes aqui? —exigiu Fang, com a voz apertada pelo aborrecimento.

   —O mesmo digo, amigo. Sabes, da última vez que nos vimos, como a vinte minutos atrás, não estavas precisamente em forma para sair para passear. —Tomando cuidado de não cortar a mão, pôs a espada a um lado—. Não digamos já para lutar contra algo para o que necessites disso —olhou para baixo, a sua arma—, para lhe chamar a atenção. Sabes, ao menos, como usar uma espada?

   Ele se burlou de seu aborrecimento.

   —Não é muito difícil. São bastante fáceis de entender. Usa-se o extremo afiado para fincar no oponente.

   —Sim, claro… não são tão fáceis de usar, te diz isso alguém com séculos de experiência.

   Deslizando um trilho no punho retraiu a lâmina.

   —Aprendo rápido, te diz isso a alguém que passou os últimos meses dependendo delas para manter-se com vida.

   Talvez era certo, mas ainda assim não o queria sozinho, na rua, até que não estivesse em ótimas condições para lutar.

   —O que fazes aqui, Fang?

   Queria lhe responder, de verdade queria. Mas como lhe explicar que a tinha salvado, oferecendo sua alma em troca? Não era algo que fosse agradecer. Conhecendo-a, o ia amaldiçoar por isso. Se havia algo que Aimee não queria, era que as pessoas tratassem de protegê-la.

   Mas que diabos, parada ali, frente a ele, com a luz da rua refletindo em seu cabelo claro e o cenho franzido de preocupação por ele, era a coisa mais bonita que jamais tinha visto.

   Como gostaria de uma dentada dessa maçã…

   Forçando seus pensamentos a afastar-se desse desastre, clareou-se a garganta.

   —Necessito de uns minutos a sós. Importaria-te?

   Ela não cedeu nem o mínimo.

   —Para fazer o que? E se for dizer algo desagradável, como faria Dev para me escandalizar, te economize-o.

   —Tudo tem que ser uma discussão contigo? —perguntou, deixando sair um suspiro exasperado.

   —Fiz-te uma simples pergunta. —Conteve a respiração, com expressão ofendida.

   —Que tem uma resposta extremamente complicada. Agora…

   Suas palavras foram interrompidas por um grito estridente. Fang soltou uma maldição ao reconhecer que provinha da direção para onde pretendia dirigir-se.

   Era o demônio. Podia senti-lo. Se tinha aprendido algo no reino das trevas era a sentir um apenas estando perto.

   —Por favor, Aimee. Vá embora.

   Como era de se esperar, negou-se. Inclusive se dirigiu a toda pressa para o lugar onde ouviram o grito.

   Fang sacudiu a cabeça aborrecido, enquanto se transportava até o demônio, em um beco escuro, chegando apenas antes que Aimee. Não se supunha que as mulas eram as teimosas?

   Parou-se em seco assim que divisou uma montanha de besta. Ao menos dois metros e quinze de alto, o demônio tinha cabelo negro, comprido e solto, e olhos sem pupilas nem branco discerníveis. Um par de pedras negras, em um rosto retorcido pelo prazer proveniente de infringir dor.

   A humana parecia ter uns vinte e cinco anos. Bonita e pequena, vestia o uniforme azul de um restaurante. Sua cara tinha sido rasgada pelas garras do demônio.

   Assim que Phrixis se deu conta que não estavam sozinhos, soltou-a e se virou em volta de Fang.

   Este, desdobrando a espada, transportou-se entre a humana e Phrixis.

   —Tire-a daqui.

   Aimee assentiu, enquanto abraçava à mulher histérica e a afastava do perigo.

   Phrixis riu ao arrastar um olhar repugnante sobre o corpo de Fang.

   —Que tipo de criatura patética és tu?

   —Patético não é uma palavra que combine comigo.

   —Não? —A besta lhe lançou uma descarga.

   Fang esquivou o golpe e lançou a espada direto à garganta do demônio.

   Phrixis riu.

   —Tão débil e inútil achas que sou? —Um sólido golpe deu em cheio no flanco de Fang.

   Foi tão duro que podia jurar que lhe rangeram as costelas.

   A dor o deixou sem ar. Fang caiu sobre um joelho, mas se negou a cair completamente. Era um lobo e Phrixis estava a ponto de aprender o que isso significava. Trocando de forma, atacou.

   O demônio retrocedeu estupefato enquanto Fang lhe cravava os dentes no braço e o rasgava.

   Phrixis o açoitou contra a parede, com toda a força de um caminhão Mack[12].

   Fang sentiu que seu agarrão cedia diante da pancada. Quando o demônio se moveu para apanhá-lo, apoiou-se em suas patas e cruzou entre as pernas da besta, saindo por trás dele. Mudando a forma humana, rodou para poder tomar a espada do chão.

   Phrixis virou para enfrentá-lo.

   Quando o fez, Fang lhe atravessou o coração, afundando a espada até o punho. Logo a retirou e a voltou a cravar uma vez mais.

   Phrixis começou a rir.

   —Achas que…?

   Fang interrompeu seu discurso com um golpe de reverso, que lhe cerceou a cabeça do corpo, por completo.

   O demônio se derrubou lentamente para o pavimento, onde caiu como um vulto, com o sangue saindo a jorros.

   Fang cuspiu sobre seus restos.

   —Me diga outra vez quão bom és, idiota. Nada pior que um enema de aço para arruinar até teu melhor dia. —Com o corpo debilitado e tremente, recostou-se contra uma parede enquanto lutava para respirar com suas costelas danificadas.

   Ao menos tinha sido mais fácil de matar que os demônios no reino das trevas. Ofegante, tirou o telefone de seu bolso e chamou Thorn.

   —Parece. Matei-o.

   Para sua surpresa, este apareceu imediatamente ao seu lado.

   —Que diabos fizeste?

   —Fantástica atitude, safado.

   Thorn deixou escapar um som, mescla de indignação e raiva. Suas roupas mudaram do traje azul de empresário para uma armadura, vermelho brilhante, enquanto seu cabelo parecia em chamas.

   —Não te disse que o matasse, imbecil. Disse que o enviasses de volta ao lugar de onde veio.

   —É o que fiz.

   Thorn chutou ao demônio atirado no chão e amaldiçoou.

   —Não. Mataste-o.

   Obviamente lhe estava faltando uma peça importante nesse quebra-cabeças, porque em seu universo, matar a um demônio não era considerado como algo ruim. A maior parte dos dias era considerado como um serviço público.

   —Em meu mundo essas duas coisas são sinônimos.

   Thorn inspirou profundamente, apertando os dentes. Sustentava suas mãos, como tratando de refrear a si mesmo, de matar a Fang.

   —Sabes, de fato, não é muito difícil matar a um demônio, em especial com a marca que te fiz. Qualquer criatura sobrenatural com o meio cérebro pode fazê-lo. O que necessitava que fizesses, era retorná-lo ao seu reino. Isso é um pouco mais sofisticado e cem vezes mais difícil.

   —Então para que me deu uma espada?

   —Olhou-a antes de usá-la?

   —Sim.

   Thorn lhe dirigiu um olhar cheio de dúvidas.

   —Repito. A-olhaste-antes-de-usá-la?

   Arrebatando o punho das mãos de Fang, sustentou-a frente de seus olhos para que visse as palavras inscritas nela.

   Golpeia forte. Golpeia rápido. Golpeia três vezes. Avast[13].

   Quem ia pensar que Thorn fora um pirata. Fang abandonou essa linha de pensamento. Avast era, sem ofender ao ferreiro da espada, uma palavra tão antiga que ele não a tinha usado sequer quando vivia em sua terra.

   Não pôde tirar o sarcasmo de sua resposta.

   —E em teu mundo, Capitão Tenebroso, isso quer dizer…?

   —Golpeia-o três vezes e logo te detenhas. É inglês. Diabos, é em teu inglês. Nasceste lá.

   Fang assinalou para o corpo do demônio, nesse momento em decomposição.

   —Esse foi meu terceiro golpe.

   Thorn cobriu o olho esquerdo com a mão direita, como se uma terrível enxaqueca se estivesse gerando.

   —Tenho um tumor. Sei que tenho um tumor. Quem dera fora mortal, assim poderia me matar.

   Frustrado, Fang pôs os olhos em branco ante a dor de Thorn.

   —Ainda não compreendo o que fiz de errado com… —Suas palavras foram afogadas por uma onda de insuportável dor.

   —Espera, lobo. —Thorn o assinalou com sarcasmo—. Estás a ponto de ser ilustrado. Vai cheirar mal ser tu, mein freund.

   Fang gritou quando a mais colhedora pontada de agonia imaginável lhe atravessou o corpo inteiro. Sentia como se estivesse sendo partido em dois. Não podia mover-se ou respirar.

   —O que está me ocorrendo?

   —Estás absorvendo os poderes desse demônio.

   —Hã?

   Thorn assentiu.

   —Sip. E não só seus poderes. Tua alma se está fundindo com a essência do demônio morto. Tudo o que ele foi, está agora penetrando no que tu és. Os demônios são imortais sem alma. Quando morrem, como seja, suas forças vitais saltam ao que destruiu seu corpo, e tratará de apropriar-se de ti de agora em diante.

   —O que queres dizer? Necessito de um exorcismo?

   —Não. Não há corpo ao qual possa retornar. Tens que carregar com ele. Mazel tov! —Thorn o felicitou, com uma voz exageradamente feliz. Foi se pondo sério, enquanto seu corpo retornava à normalidade, com exceção dos olhos. Eram vermelhos, com umas finas pupilas amarelas que recordaram a Fang uma serpente—. E é pelo que tratamos, com esforço, de não matar a nenhum. Não é uma bonita realidade.

   Fang sentiu como sua visão mudava. Voltava-se mais aguda. Mais clara. O cheiro de sangue impregnava sua cabeça e podia ouvi-lo correr, não só por suas veias, mas também pelas de Thorn.

   —O que está acontecendo?

   Thorn o agarrou pelos ombros e sorriu cruelmente.

   —É o sabor do maléfico, fluindo denso por de tuas veias. Sedutor e convidativo, te tentará daqui adiante. E agora já sabes por que não sou um alegre feliz, a maioria dos dias. É a batalha que luto a cada segundo de cada minuto de minha vida. Como te disse, agora cheira mal ser tu.

   Antes que pudesse evitá-lo, Fang vomitou na calçada. Argh, nada digno. Sem mencionar a dor de fazê-lo, ao sentir que suas vísceras cobravam vida, como se estivessem se retorcendo.

   Thorn não se alterou nem o mínimo e retrocedeu para lhe dar espaço.

   —Não te preocupes. Tuas tripas não sairão, embora assim o sintas. Teu estômago se assentará, eventualmente. Entretanto, a necessidade que tens de sangue e morte, que está crescendo dentro de ti, nunca desaparecerá.

   Fazendo uma careta, Fang envolveu os braços ao redor de seu estômago e se apoiou contra a parede para recuperar o fôlego. Levantando a cabeça olhou a Thorn.

   —Honestamente, não pensei que em teu atual estado de debilidade pudesses matá-lo. Imaginei que ao terceiro golpe da espada, ou estarias morto ou ele estaria banido… me deixe voltar atrás, à parte onde este demônio em particular tinha eliminado alguns de meus melhores homens no passado. Devia ter avaliado tuas habilidades com mais precisão. Meu engano.

   —Odeio-te, Thorn.

   Este deu de ombros, indiferente.

   —Todas as criaturas o fazem, e na verdade não me importa. Por certo, sua namorada está retornando para cá. Trate de não comê-la embora a sede de sangue vai ser muito difícil de resistir.

   Fang se deslizou pela parede, tratando de acalmar seu estômago e seus nervos. Mas não era fácil. Ainda sentia como se estivesse sendo esmigalhado de dentro para fora.

   Deuses, o que vou fazer?

   Aimee apareceu ao seu lado uns minutos depois, enquanto ele se recostava para trás, com a cabeça apoiada na parede e os olhos fechados.

   —Fang? —A mão que tocou sua testa era fresca—. Estás ardendo.

   Sua única resposta foi lhe sujeitar a mão contra sua bochecha, enquanto o suave cheiro de lavanda de seu pulso o acalmava. Mas Thorn tinha tido razão, podia cheirar o sangue em suas veias e queria lhe abrir o pulso para saboreá-la.

   —Podes me levar para casa? —sussurrou, temeroso de usar seus próprios poderes nesses momentos.

   —Certamente. —Ajudou-o a ficar em pé e só então se deu conta que o demônio se desintegrou.

   Não restava nada, exceto um vago contorno negro. Aconteceria o mesmo com ele, se morrera agora?

   Maldito sejas Thorn, por não me dizer tudo.

   Aimee os transportou de volta à cama de Fang e o ajudou a recostar-se.

   —Vou procurar ao Carson.

   Puxou-a pela mão e a reteve ao seu lado.

   —Não. Não há nada que ele possa fazer.

   —Mas Fang…

   —Aimee, confie em mim. Só preciso descansar um momento, de acordo?

   Podia ver o debate em seus olhos enquanto lhe apertava a mão com mais força.

   Depois de uns segundos, assentiu.

   —Apenas me necessite…

   —Chamar-te-ei. Prometo-o.

   Ela acariciou sua mão antes de soltar-se.

   —De acordo. Que descanses.

   Fang não relaxou até que a viu deixar o quarto. Só então se recostou e sucumbiu às emoções conflitivas que o rasgavam. Queria matar algo.

   Qualquer coisa.

   Mas sabia que não podia.

   A única coisa não sabia era quanto tempo seria capaz de conter ao demônio em seu interior. Pelo como se sentia, ia converter-se em um Slayer. Um verdadeiro Slayer.

   Mas isso, em seu mundo, conduzia a sentença de morte.

 

 Fang jazia em sua cama como um lobo, sua mente estava presa pelos poderosos demônios que se enfrentavam dentro dele enquanto convertiam seu corpo ainda mais. Só era vagamente consciente dos sons do mundo exterior.

   Agora via as coisas em infravermelho enquanto dormia. Cada diminuto inseto em seu quarto. Cada criatura que caminhava pela frente de seu quarto no corredor. Era consciente de tudo a um nível que nunca tinha imaginado, mas estava incapacitado para responder. Parecia um espectador externo que não podia transpassar a vitrine sem importar com quanta força a golpeasse.

   —Fang?

   Vane. Reconheceria essa voz profunda de barítono em qualquer parte. Mas na mente de Fang, Vane não era nada mais que uma silhueta avermelhada de pé ao lado de sua cama. Havia uma mulher com ele. Uma que cheirava doce e completamente a humana. Ela se mantinha tão perto de Vane que parecia agasalhada por ele.

   Fang tratou de estender a mão ao seu irmão, mas não pôde. Era quase como estar de volta no Reino das Trevas onde só as vozes podiam lhe alcançar. Só que agora ele não podia entender as palavras que seu irmão estava lh dizendo. Estas estavam desordenadas e mal construídas quando ele e a mulher as diziam.

   Agachando a cabeça, Fang suspirou cansadamente.

   —Ai! O que vai errado, lobinho? Não podes despertar?

   Fang ficou rígido como uma baqueta ao ouvir a voz chiante de um demônio.

   —Alastor.

   Não sabia como é que conhecia o nome da criatura, não obstante sabia.

   Seu corpo diretamente adotou o comportamento de um predador letal. Fang baixou a cabeça e olhou ao demônio aproximar-se com sua visão periférica, preparado para lhe abater com precisão mortal quando chegasse o momento.

   Pequeno e robusto, o demônio era feio e tinha a pele cinzenta. E o pior, fedia a enxofre e sangue. Seu nariz aquilino e a cabeça calva lhe faziam parecer um gárgula. Na escuridão de seu sonho algo prateado cintilou.

   Fang reagiu por instinto. Agarrou a mão do demônio para ver uma adaga sustentada ali. Rindo da audácia, ou melhor da estupidez, envolveu sua outra mão ao redor da garganta do demônio e lhe levantou de seus pés.

   No momento em que o fez, viu os pensamentos de Alastor em sua mente. Ouviu sua própria mãe convencendo ao demônio para que seqüestrasse à companheira de Vane e a levasse para ela, de modo que Bride não pudesse completar o ritual de emparelhamento com Vane. Este era um pacto que sua mãe tinha feito com o demônio para capturar a todas suas companheiras para impedir que tivessem nem sequer uma pequena possibilidade de serem felizes.

   Ou para sermos mais diretos, para lhes impedir de procriar e propagar suas naturezas animais as quais sua mãe desprezava tanto.

   Uma fúria crua explodiu em seu interior.

   —Tu, bastardo putrefato —grunhiu enquanto a sede de sangue de seu demônio abria passagem em seu interior rugindo à vida.

   Deu-lhe vontade de lhe arrancar a cabeça ao demônio com suas mãos nuas e se dar um banquete com suas vísceras. Nunca tinha experimentado algo como isto.

   —Só estava fazendo o que me disseste.

   A choramingação da voz do demônio foi como uma cadeira chiando através do chão. Provocou que os cabelos da nuca lhe arrepiassem e não moveu um dedo para conter sua febre de sangue.

   Antes inclusive que Fang se desse conta do que estava fazendo, afundou os dentes na garganta do demônio a fim de poder provar seu sangue.

   Pare!

   O som de sua consciência teve êxito em lhe alcançar. Afogando-se no líquido espesso que tinha gosto de metal quente, obrigou-se a retroceder. Alastor se deslizou até o chão, segurando o pescoço enquanto patéticamente rogava por sua vida.

   Uma parte de Fang exigia que matasse à besta chorona que estava aos seus pés. Era o que merecia. Mas a parte dele que era lobo rechaçava matar por prazer.

   Os Katagaria só matavam para proteger ou defender. Nunca matavam por diversão.

   Ao menos não freqüentemente.

   Mas o lobo nele tampouco podia deixar ir ao demônio enquanto Alastor plantasse sequer um indício de ameaça para sua família, a qual os lobos mataram sem remorso.

   —Tu caças a algum de nós ou àqueles aos quais amamos de novo, e te juro que não me deterei até que te tenham que recolher em tantos pedaços que pensarás que te passaram por um triturador.

   Alastor se dobrou até o chão enquanto lhe agradecia sua misericórdia.

     —Nunca caçarei outra vez, amo. Juro-o.

   E desapareceu imediatamente.

   Fang limpou os lábios que ainda estavam cobertos do sangue fétido do demônio. Amaldiçoou pelo que tinha feito. Mas o pior, era o desejo que ainda sentia de causar dor e matar.

   O demônio era forte dentro dele e era duro resistir a ele.

   —Não o farei —grunhiu a si mesmo.

   Jamais.

   Ele era um Were-Hunter, não um demônio, e não se abandonaria a esse inferno. Não se converteria em um deles. Por nada. Sem importar a tentação ou a fome. Manteria-se firme.

   Desperta-te!

   Não podia. Um pânico frio lhe consumiu ao cambalear pela escuridão que não tinha forma ou substância, procurando algo que o devolvesse ao seu quarto. Teria-lhe relegado Thorn de volta ao inferno depois de tudo?

   Não, isto era pior que o Reino das Trevas. Não havia cavernas ou qualquer outra coisa aqui. Isto recordava a uma marcha por um deserto interminável que não tinha margens ou limites. A paisagem era de obsidiana e não havia trégua.

   —Fang?

   Ouviu Aimee lhe chamando, entretanto não podia localizá-la no negrume opressivo. Isso foi ainda mais aterrador para ele que estar encerrado ali.

   —Aimee?

   —Fang? Desperta, céu.

   Aquela preciosa voz de sereia...

   Se tão somente ela pudesse lhe encontrar outra vez.

   —Aimee! —gritou até que sua garganta esteve em carne viva, mas não pareceu que, desta vez, lhe ouvisse.

   O que estava acontecendo? Como poderia lhe haver ocorrido isto de novo?

   Algo lhe golpeou com força atrás da cabeça.

   Em um momento, estava perdido na escuridão e, no seguinte, estava em sua cama com Aimee inclinada sobre ele com seus traços deformados pelo medo e pela preocupação.

   Aimee começou a afastar-se bruscamente enquanto Fang mudava de lobo a humano, mas o pânico nos olhos dele a imobilizou. Com respiração desigual, ele se aferrou a suas mãos como se fossem uma corda de salvamento para ele e temesse que ela a retirasse.

   Isto a fez sofrer por ele.

   —Estás bem?

   Agarrou-a com força e puxou-a até seus braços onde a sustentou em um abraço esmagante.

   Ela franziu o cenho ao dar-se conta de que ele estava tremendo por completo. Temendo por ele, envolveu seus braços ao redor de seu corpo para lhe ajudar o melhor que podia.

   —O que é?

   —Nada.

   Mas ela não era tola. Algo havia lhe acontecido outra vez. Algo que ele não queria compartilhar.

   Fang a abraçou estreitamente, permitindo que seu cheiro e seus braços lhe ancorassem de volta no mundo da vida. Fechou seus olhos e tentou pôr em ordem seus nervos e sua respiração. Parecia um idiota por agir desta forma…

   Mas o trauma do Reino das Trevas ainda estava fresco e ferindo. Não queria voltar ali jamais. Não queria ir dormir jamais sem contar com um modo de retornar.

   Com estresse pós-traumático e fraco, o que queria era sentir-se seguro de novo. Mas era como se já não tivesse nenhum controle sobre si mesmo. Nenhum controle sobre nada.

   Era um sentimento que odiava.

   Aimee se afastou de repente para lhe olhar. Posou-lhe a mão pela bochecha enquanto explorava seus olhos com seu olhar penetrante.

   —Estiveste dormido durante dois dias. Estava começando a me preocupar de que te tivesses perdido outra vez.

   Ficou olhando com incredulidade. Dois dias? De verdade tinha sido tanto tempo?

   —O que?

   Ela assentiu com a cabeça.

   —Hoje é Ação de Graças e já dormiste a maior parte do dia.

   Fang sacudiu a cabeça quando aquelas palavras penetraram nele. Como é que tinha passado tanto tempo e ele não o tinha sabido? Tinha a sensação de que só se deitou para descansar.

   Aimee franziu o cenho.

   —Não ouviu quando Vane e sua companheira entraram para falar contigo um pouco, há pouco?

   —Não —mentiu, não querendo admitir diante dela o perto que tinha estado de cair de volta no estado comatoso no qual tinha estado anteriormente—. Estão ainda aqui?

   As sobrancelhas dela se elevaram enquanto erguia a cabeça com receio.

   —Não ouviu o escândalo no quarto contigüo há uns minutos?

   —Que escândalo?

   Ela fez gestos em direção à parede onde um espelho gigantesco estava montado. Era estranho que nunca tivesse olhado através dele em seu sonho. Só através da porta.

   —A companheira de Vane, Bride, derrubou a tua mãe no quarto do lado quando Bryani veio aqui para te matar. Bride de fato, enjaulou-a durante a luta... de verdade estavas adormecido durante tudo isto?

   Ficou pasmo com o que Aimee descreveu. Sua mãe tinha vindo atrás dele?

   Era por isso que tinha visto Alastor?

   Mas a parte mais incrível era que um humano tinha derrotado a sua mãe... isso requeria coragem e força. E um carregamento gigantesco de estupidez.

   —Suponho que o estava.

   Ela sacudiu a cabeça.

   —Hei ouvido de caras com o sono pesado antes, mas caramba, lobo. Tu és especial. —ela deu um passo para trás—. Vane e Bride estão ainda abaixo se gostaria de vê-los antes que partam.

   Podia ser que tivesse sentimentos encontrados a respeito, mas seu irmão precisava saber que ele estava vivo e de volta no mundo real. Ao menos no momento.

   Ao passo que ia, poderia ser sugado de volta ao inferno em um abrir e fechar de olhos.

   Sem uma palavra, Fang se vestiu com uma camiseta negra de manga comprida e jeans antes de levantar-se e quase cair de novo. Enganchou-se na coluna de cama, aborrecendo-se do fato de que ainda estivesse fraco. Necessitava de sua força em plena forma o quanto antes.

   Ela pôs suas mãos sobre ele para estabilizar seu equilíbrio. Aquele toque inocente lhe queimou o centro de seu ser. Cobriu a mão direita dela com sua esquerda e lhe deu um apertão suave.

   Aimee se deteve ante a inusitada ação de Fang. Normalmente ele a afastaria, diria-lhe que estava bem e brigaria com ela por lhe tratar como se estivesse indefeso. Aquilo só lhe disse o agitado que se encontrava ele pelo que fora o que lhe estava ocultando.

   Era um lobo forte e orgulhoso.

   Ela retrocedeu para lhe dar espaço enquanto este se encaminhava para a porta e saía. O fato de que não usasse seus poderes também foi muito revelador.

   Aimee lhe seguiu pelo corredor até a escada e para a cozinha que estava animada com a atividade. Uma das poucas vezes ao ano em que o Santuário estava fechado ao público, Ação de Graças sempre tinha sido uma celebração para eles, uma época em que celebravam um banquete enorme. Todos os Were–Hunters que viveram na Casa Peltier se reuniam para festejar e passar o tempo e, neste ano, também tinham a vários dos antigos Dark–Hunters, e a Acheron e Simi, entre os comvidados.

   Todo mundo ria e se divertia. Suas ovações ressonavam na cozinha onde Cherif e Etienne serviam mais batatas e carne e acrescentavam um montão de molho de churrasco às mesmas, já que Simi ainda devia ter fome. Rindo ao pensar na gótica demônio Caronte que podia comer o peso de um elefante em comida, devolveu-lhes a alegre saudação a seus irmãos enquanto ajudava a Fang na porta.

   Fez uma parada ali enquanto Fang seguiu para o bar e para a mesa onde Vane e Bride estavam sentados juntos e agarrados pela mão. Manteve-se aí de pé e se moveu fluidamente, mas ela pôde sentir seu dano e inquietação. Sua cólera sepultada ante o fato de que Vane não tinha estado ali para ele.

   —Boa sorte —sussurrou ela em voz baixa. Esperava que tudo se resolvesse entre eles.

   Seu olhar se dirigiu a Fury que ficou petrificado e parecia aflito no momento em que viu Fang erguido e em movimento. Sentia-o por todos eles, pela família que agora tinha recuperado uma parte deles a qual estava de volta.

   Com um nó na garganta, ela explorou o quarto em busca de sua própria família... Alain estava sentado com Tanya e seus pequenos, alimentando-os com palitos de mel tratando de evitar que Zar os roubasse em brincadeira. Kyle e Cody rindo de algo que Colt havia dito enquanto Carson tomava uma cerveja dos gêmeos. Mamãe e Papai se sentavam ao lado, agarrados pelas mãos enquanto sussurravam um ao outro como dois adolescentes humanos desejando estar a sós e sabendo que não poderiam. Dev sentado conversando e rendo com Remi, Acheron, Jasyn, Quinn e Simi, enquanto esta abria passagem ante um prato de peru recheiado e presunto.

   Não podia imaginar não tê-los em sua vida. Por tudo, a família era a família, e contudo, Fang e seus irmãos, neste momento, receavam uns dos outros.

   Isto lhe rompia o coração.

   Fang queria dar meia volta e partir ao dar-se conta de que todos os olhos no Santuário estavam postos nele. A maior parte deles não tinham nem idéia de que ele despertou e se sentia como um monstro em um laboratório onde todo mundo tratava de entender o que estava equivocado em seu DNA.

   Mas ele não era um covarde.

     Fazendo caso omisso do frio nó em seu estômago e envolvendo os braços ao redor, Fang manteve seu olhar fixo em seu objetivo, seu irmão e sua companheira. Mesmo que Bride estivesse sentada, podia dizer que ela era alta e cheinha, justo como gostava a Vane suas mulheres. Com o cabelo castanho avermelhado e os olhos tão brilhantes que dançavam cheios de vida, ela era deliciosa. E o amor em seu olhar quando olhava a Vane era algo excepcional. Algo que sempre deveria ser apreciado e não fazer nunca mau uso dele.

   A seu irmão tinha ido bem por si mesmo e isso só provocou que o nó em seu interior se apertasse muito mais.

   Fang fez todo o possível para ignorar a todos os outros Were–Hunter, a Acheron e a Simi enquanto caminhava para eles. Eram a única coisa que lhe importava e quando se aproximou sua cólera cresceu.

   Fang odiava o que estava sentindo, mas não podia detê-lo. O ressentimento e a amargura aumentavam em seu interior. Como se atrevia Vane a partir e encontrar a felicidade enquanto ele tinha sido torturado e maltratado. As imagens dos demônios lhe golpeando, das feridas que lhe tinham talhado profundamente até o osso passavam por sua mente. Uma vez mais, recordou a fome implacável e a sede que nunca tinha sido saciada. Os meses de penosa agonia.

   Todo esse tempo Vane tinha estado com Bride…

   Calcando sua raiva, Fang ofereceu a mão a Bride no instante em que chegou até ela.

   Ela vacilou um momento antes de tomar a mão na sua e ele sentiu o modo em que Bride tremeu de incerteza. O cheiro de seu nervosismo era espesso em suas fossas nasais e o lobo protetor nele desejou apaziguá-la. Não era culpa dela que ele tivesse estado encerrado no Reino das Trevas. Era a companheira de seu irmão e ele a honraria como se não importasse o que estivesse sentindo por dentro.

   —Ela é bonita, Vane. Estou contente de que a tenhas encontrado —deu a sua mão um apertão suave antes se retirar e encontrasse o olhar emocionado de Fury.

   Ao menos o bastardo tinha a decência de parecer envergonhado. Bem que deveria. Era tudo o que Fang podia fazer para não lhe dar um murro por lhe substituir no afeto e na lealdade de Vane.

   Mas a presença de Fury no quarto não era nem de perto tão ofensiva para Fang como o era a de Stefan. Stefan que tinha sido o cabeça que golpeiou a Vane e a ele e que logo os encadeou à árvore para que os Daimons os comessem. Stefan que tinha mandado matá-los. Obviamente as coisas tinham mudado enquanto Fang tinha estado isolado.

   Agora, o grandíssimo idiota de seu pai estava sentado a uma mesa com toda a pinta de ter recebido uma boa surra. Sem dúvida, a merecia.

   Stefan rechaçou encontrar o olhar penetrante de Fang.

   Vane ficou de pé.

   —Fang?

   Fang não se deteve em seu caminho de volta à cozinha. Tinha medo de que se o fazia, atacaria a seu irmão por lhe abandonar no Reino das Trevas e a última coisa que queria era estragar a felicidade que compartilhavam Bride e Vane. Vane merecia ser feliz e Fang não tinha nenhum direito a lhe fazer mal. Ele sabia que Vane teria movido céu e terra para lhe tirar... se tão somente tivesse respondido quando Fang tinha chamado.

   Deuses, suas emoções eram absolutamente bipolares e voláteis no que a Vane concernia.

   Aquela dor e dano ainda estavam em carne viva em seu interior. Os meses de brutal sobrevivência não podiam desfazer-se com um simples encontro. Necessitava de tempo para aceitar pelo que ele tinha passado.

   Ao que se relegou.

   Com um sorriso indeciso em seu bonito rosto, Aimee lhe encontrou na porta da cozinha. A camiseta que levava hoje ficava um pouco mais justa ao corpo e isto fez com que uma onda viciosa de luxúria lhe consumisse. Graças aos deuses algo anulava sua dor.

   Antes inclusive de que se desse conta do que tinha feito, estendeu a mão para ela e pôs seu braço por cima de seus ombros. Ela envolveu seu braço ao redor de sua cintura e lhe ajudou a atravessar a cozinha e a subir de volta até seu quarto.

   Fang não falou em todo o caminho subindo a escada de mogno enquanto o cheiro de lavanda de Aimee lhe apanhava.

   Uma vez em seu quarto, tombou-se de volta na enorme cama com baldaquino enquanto lhe cobria com um edredom de alegre colorido.

   Com olhar desconfiado, ela se colocou ao seu lado.

   —Sei que algo de errado te acontece, lobo. Tu nunca estás tão silencioso.

   Fang soprou em uma pobre tentativa humorística. Provavelmente não deveria mencionar nada disto e apesar disso se encontrava confiando nela inclusive contra seu melhor julgamento.

   —Se minha mãe está derrotada e Stefan está lá embaixo no bar com Vane e Fury e não estão lutando até a morte... —não terminou o pensamento.

   Já se tinha feito uma boa idéia do que isto significava.

   Alguém estava agora a cargo daqueles dois clãs.

   E esse não era ele.

   Isto lhe picou profundamente dentro. As coisas tinham mudado tão dramaticamente e ele se sentia absolutamente sozinho. Desvinculado. Aturdido. Mas sobretudo, profundamente traído. Talvez deveria haver ficado no Reino das Trevas. Era óbvio que aqui já ninguém necessitava dele. Vane tinha seguido adiante com sua vida.

   Seu clã inteiro se reestruturou sob o comando de algum outro.

   O que ia fazer ele agora? Sentia-se perdido e odiava essa sensação.

   Aimee sentiu a confusão de Fang e lhe fez querer gritar por não poder lhe ajudar. Não podia suportar sentir-se tão indefesa. Sobretudo, não queria ver suas famílias separadas no momento em que mais necessitavam uns aos outros.

     —Sabes que teu irmão vinha te ver a cada dia enquanto estavas inconsciente. Inclusive hoje, ele se assegurou de vir te ver. Fury estava aqui também.

   —Eu sei.

   E ainda assim estava tão triste.

   Sem pensar, ela se acomodou na cama ao seu lado e envolveu seus braços ao seu redor para abraçá-lo estreitamente. Era o único modo de lhe consolar que ela sabia.

   Fang fechou os olhos enquanto seu coração pulsava com força pelo calor de seu abraço. Ninguém lhe tinha abraçado jamais desta maneira antes.

   Ninguém.

   Não havia nada sexual nisto. Era um abraço destinado a lhe consolar. E já podiam ter os deuses misericórdia de sua desprezível alma, porque o fez.

   Colocando sua mão na dela, muito menor, sentiu que algo dentro dele se rompia e naquele momento, ele soube uma verdade que lhe assustou inclusive mais que o demônio que vivia em seu interior.

   Ele a amava.

   Isto fazia com que o que ele tinha acreditado que sentiu por Stephanie, há todos aqueles anos, fora uma farsa. Este não era o amor de um lobo jovem fascinado com uma bela loba que era cobiçada pela manada. Isto era o ensangüentado e ferido coração de um animal que nunca tinha sido, em realidade, aberto antes.

   Aimee tinha vindo atrás dele e tinha estado de pé ao seu lado quando ninguém mais o esteve. Ela sozinha tinha lutado para lhe salvar do inferno.

   Inclusive agora...

   Que os deuses me ajudem. Ele não deveria se sentir desta maneira. Deveria jogá-la pela porta e, apesar disso, não se sentia com coragem para destruir a serenidade desse momento com ela. A ternura dentro dele que seu toque despertava.

   Pela primeira vez em toda sua vida estava em paz.

   Sem uma palavra, ela arrastou a mão para cima para passá-la por seu cabelo. O corpo dele estava ao vermelho vivo, lhe recordando o fato de que tinha passado literalmente meses desde que tinha estado com uma mulher.

   E ele a desejava com uma loucura que lhe estava consumindo. Uma loucura que tinha que rechaçar pelo bem de ambos.

   —Embora esteja desfrutando enormemente disto, Aimee, vais ter que parar.

   —Por que?

   —Porque te desejo tão endemoniadamente que quase posso saboreá-lo.

   Ela lhe derrubou lhe pondo de barriga para cima. Seu olhar de um azul cristalino só se acrescentada à necessidade nele por tê-la. Aqueles delicados dedos, tão suaves e reconfortantes, brincavam sobre seus lábios enquanto lhe sorria. Então, ela fez a coisa mais assombrosa de todas, baixou sua cabeça e lhe beijou.

   Fang grunhiu ante seu sabor. Ante o calor de seu fôlego misturado com o seu ao dançar suas línguas juntas. Ele se rendeu à magia de sua boca.

   Durante um momento, todos seus pensamentos se dispersaram.

   —Não —disse ele, retrocedendo—. Não podemos fazer isto.

   —Eu sei. Sinto muito.

   Beijando-lhe ligeiramente na bochecha, ela se levantou devagar e se colocou bem a roupa.

   Seu pênis puxou bruscamente quando os seios dela se marcaram ainda mais por aquela ação. Maldição, é que nenhum de seus irmãos ou seus pais lhe disseram alguma vez que não passeasse por aí dessa maneira? Seus mamilos estavam duros e perfilados de um modo que lhe torturavam ainda mais que os demônios que tinha.

   Deuses, saborear só um daqueles...

   O lobo em seu interior estava salivando.

   —Estás faminto?

   Sim, estava-o, mas não de comida.

   —Não. Estou bem.

   Ela assentiu com a cabeça.

   —Estarei em meu quarto se me necessitares.

   Nua? Ele quase gemeu em voz alta quando aquela imagem passou por sua mente com uma claridade que deveria ser ilegal. Maldita seja sua imagem, sai de minha cabeça. Mas a imagem de seu corpo nu estava aí e isto lhe levantou bolhas.

   Logo que ela partiu, posou sua mão em seu pênis para tentar aliviar um pouco a dor que ela tinha causado. Não serviu de nada. Estava tão duro, que poderia bater um prego com sua ereção.

   —O que vou fazer?

   Se a tocava, violaria todas as leis do Omegrión e a família dela fixaria seu bolas ao espelho que pendurava sobre o bar.

   Assim, se agüentaria. Queixar-se... não lhe daria o que ele realmente queria, o que era estar dentro de seu corpo pecaminosamente delicioso.

   —Fang?

   Ouviu a voz de Vane ao outro lado de sua porta. Puxando os lençóis sobre seu regaço para esconder o que Aimee lhe tinha ocasionado, suspirou ante a bem-vinda interrupção, ainda quando temesse ver seu irmão outra vez.

   —Entre.

   Vane abriu a porta.

   —Tudo bem?

   Fang teria estado divertido com sua incomum vacilação, mas agora mesmo pouco podia produzir uma resposta assim por sua parte. Não enquanto seu corpo estivesse assim faminto.

   Um silêncio embaraçoso encheu o quarto enquanto se olhavam um ao outro.

 Vane se apoiou contra a porta fechada.

   —Não posso acreditar que por fim estejas acordado. De verdade pensei que te tinha perdido.

   —Sim, bom, terás que me perdoar por ser um idiota egoísta —Fang se encolheu quando aquelas palavras voaram de sua boca antes que pudesse detê-las.

   Vane ficou rígido ao reconhecer o dito.

   —Ouviste-me?

   Fang afastou o olhar, relutante a responder. Então mudou de assunto.

   —Por que está Stefan lá embaixo?

   —Markus há caído e Stefan já não é líder. Pus Fury a cargo da manada.

   Fang não podia haver-se irritado mais se seu irmão lhe tivesse dado uma bofetada. Entretanto, isso é exatamente o que ele tinha feito ao pôr Fury como seu líder.

   Deveria ter sido ele.

   —Ele não é o bastante forte para liderar.

   —Com meu apoio o é.

   E com o apoio de Vane, Fang não podia lhe desafiar pela liderança. Bom, poderia, mas isto romperia sua união e os debilitaria ante os outros, lhes deixando acessíveis ao ataque. O que era exatamente o que os outros lobos machos fariam. Perfeito. Tinham suprimido completamente seus direitos de nascimento.

   Markus estaria emocionado.

   Vane se adiantou com cautela enquanto observava a espera solene de Fang. Este não era o reencontro que ele tinha esperado quando Fang finalmente saiu de seu coma. Tinha sonhado com este momento uma e outra vez. Fang despertando, contente de estar vivo. Seu irmão lhe abraçando...

   Mas algo era diferente agora. Havia um ar ao redor de Fang muito mais mortal que qualquer coisa que Vane houvesse sentido proveniente dele com antecedência.

   Seu irmão estava zangado e havia uma amargura para com ele que não compreendia. Por que se sentiria assim dado que ele tinha posto Vane e Fury nessa situação?

   —Estiveste desligado durante meses.

   —Me acredite, eu sei —seus olhos cintilaram com malícia brutal.

   Frustrado, Vane suspirou.

   —O que queres de mim?

   —Nada, Vane, só quero que sejas feliz.

   Sua boca poderia haver dito isso, mas seu tom não. Vane tratou outra vez de aliviar a tensão entre eles.

     —Sou. Finalmente. Bride é melhor do que nunca mereci. E ambos temos um quarto para ti em nossa casa.

   Fang fez caretas ante sua oferta.

   —Não sei. Vós estais recém emparelhados. A última coisa que precisas é de teu irmão, o deficiente mental, assustando de morte a tua mulher.

   Era um comentário clássico de Fang. Uma das réplicas sarcásticas que Vane tinha estado ansiando ouvir ao longo de todos esses meses passados.

   —Bride não se assusta facilmente.

   —Provavelmente seja certo se tu és a primeira coisa que vê pela manhã.

   Vane riu de sua jocosidade. Seu peito se apertou ao dar-se conta exatamente do quanto tinha sentido falta do seu irmão em realidade, enquanto Fang tinha estado inconsciente. Não havia ninguém mais no mundo como ele.

   —Te queremos conosco.

   Fang se atirou da cama como se estivesse a ponto de atacar.

   —Não sou teu filho, Vane —grunhiu com uma raiva inesperada—. Não sou um menino. Sou um lobo adulto e realmente não acredito que tenha lugar com tipos como vós.

   Ele assentiu com a cabeça, mas se negou a se recuar. Sabia perfeitamente que não devia deixar Fang perceber suas emoções. Isto só faria ao lobo nele mais volátil.

   Assim tentou mudar de assunto a algo mais seguro.

   —Há algo mais que tens que saber sobre Fury.

   Fang se burlou:

     —Ele é meu irmão. Aimee já me disse isso.

   Isto lhe surpreendeu muitíssimo. Exatamente, como íntimo era seu irmão com a ursa?

   Isso não podia ser bom.

   —Queres lhe ver? —perguntou Vane.

   —A verdade é que não. Se por acaso o esqueceste, nós dois não somos exatamente amistosos.

   —Sim, eu sei. Mas ele foi uma grande ajuda protegendo a Bride.

   —Estou contente de que o tivesses.

   O tom de sua voz desmentiu aquelas palavras.

   Vane franziu o cenho ante sua atitude, que começava a lhe tocar as bolas. Tinha estado mantendo seu caráter bem seguro, mas começava a deslizar sob o constante assalto do qual não era merecedor.

   Estava tentando, mas Fang não fazia nenhum esforço absolutamente.

   Em troca Fang seguiu atacando e a parte de lobo de Vane estava se realmente fartando dele.

   —Por que estás tão zangado comigo?

   Fang estava a ponto de estalar por dentro. Sua fúria era vulcânica e ansiava arremeter contra Vane da pior maneira.

   Tu falhaste comigo, idiota!

   Mas esse não era o único veneno que ardia em seu interior. Era o fato de que enquanto Vane tinha falhado com ele, ele lhe tinha amaldiçoado por estar preso. De maneira que seu irmão lhe havia dito coisas más e ferinas.

   E totalmente imerecidas.

   Ele queria sentir, agora, o mesmo amor e lealdade por seu irmão que havia sentido na noite em que Anya tinha morrido. Mas ele já não estava ali, nem sobre tudo, esse dano.

   Fang não era o mesmo e tampouco o era Vane.

   Resistente a lutar mais quando isto não mudaria nada, Fang se retirou.

   —Olhe, ainda não me sinto bem. por que não vais e passas o tempo com sua companheira e Fury?

   —E t?u Tu também és minha família.

   Sim, certo.

   O engraçado é que ele já não se sentia assim.

     —Só imagine que ainda estou em coma. Estou seguro que isso te resultará bastante fácil de fazer.

   Vane retorceu seu rosto com um gesto de desgosto.

   —Ah, que te fodam, bastardo egoísta. Sabes? Fury e eu fomos os únicos que te mantivemos seguro enquanto estavas na cama, inútil para nós. E agora te atreves a mostrar essa atitude comigo? És um amargurado de merda.

   Fang varreu a Vane com uma risada de desprezo.

     —Certo, como que tu não sabes nada sobre ser egoísta.

   —O que se supõe que significa isso?

   —Abandonou-me para procurar um pinto e assim quando não me levantei a tua ordem, aliou-te com um bastardo que odeias. Não esqueças que conheço teu amor pelas correrias de Fury tão profundamente como o meu. Onde estava tua lealdade em tudo isto?

   Vane lançou sua mão e embotar Fang contra a parede.

   —Melhor te alegrar de ter estado doente ou te faria engolir essas palavras.

   Fang lhe sacudiu com uma onda das suas. Isto fez pedacinhos os poderes que Vane usava para lhe segurar e deixou a seu irmão cambaleante enquanto ele ficava livre.

   —Não é o único que pode dominar a magia, imbecil.

   Vane elevou a vista de onde tinha aterrissado no chão contra a parede com a consternação marcada em seus traços.

   —Como fizeste isso?

   —Há muito sobre mim que não sabes, adelphos. Agradeça que não lhe quero mostrar tudo. Agora saia daqui.

   Vane ficou de pé. Não, este não era o mesmo Fang com quem tinha atravessado uma amarga infância. Algo estava seriamente errado em seu irmão e não tinha nem idéia do que.

   Mas se Fang não o dizia, não havia nada que pudesse fazer.

   Passou a mão pela boca.

   —Muito bem. Sente-se aí e te apodreça.

   Fechou com uma portada quando partiu.

   Aimee saiu em disparada de seu quarto ante o som e se deteve no corredor ao lhe ver.

   —Estás bem?

   —Não, não o estou —Vane fulminou com o olhar a porta fechada enquanto imaginava estilhaçar tanto a esta como abrir a cabeça de Fang de par em par—. Estou a um passo de matar a esse idiota.

   —Fang?

   —É há outro aqui?

   Com expressão aturdida, ela assentiu com a cabeça.

   —Um bom número debaixo deste teto, de fato, e estou aparentada com vários deles. Mas por que quereria fazer mal ao seu irmão depois de tudo pelo qual ele passou?

   —Depois de tudo pelo qual passou? —mofou-se Vane—. Por favor! Soas como ele. Lamenta ter jazido na cama e ter sido alimentado na boca, porque não podia enfrentar-se à mesma realidade que o resto de nós tivemos que encarar e ele tarear sem cuidado o que estivemos passando Fury e eu. Quase nem sobrevivemos à caça. Tive que combater a um demônio e aos Daimons e…

   —E tu achas que Fang queria estar naquele coma?

   Vane lhe disse com desprezo:

     —Já ouviu o que Carson e Grace disseram. Poderia ter saído disso a qualquer momento se tivesse querido.

   Aimee sacudiu a cabeça.

   —Não, Vane, não podia. Acredite em mim.

   —O que te crês? Não —disse quando sua amargura se incrementou profundamente dentro dele. Como se atrevia ela a apoiar Fang—. Conheço meu irmão melhor que ninguém e sei exatamente quão egoísta é. Tudo do que se preocupa é dele mesmo.

   —Vane... estás equivocado. Fang não estava em coma. Estava preso no inferno. Eu sei porque fui eu que entrei e lhe tirou dali. Tu combateste a um único demônio. Ele combateu a centenas.

 

 Fang se sentou na beira da cama com os pés no chão, os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça entre suas mãos. Estava tão cansado de tudo, cansado de tratar de resistir, cansado de machucar. De desejar coisas que não podia ter.

   Só queria um minuto de paz.

   Por que era algo tão difícil de encontrar? Certamente deveria ser fácil e, ainda assim, era o objetivo mais difícil de alcançar que tinha conhecido.

   Antes que se pudesse mover, Vane apareceu ante ele no quarto. Levantou Fang da cama e lhe abraçou tão forte que sentiu suas costelas quebrar-se.

   Fang lutou contra o agarrçao.

   —Me solte, maldito pervertido!

   Vane lhe soltou e lhe golpeou com força no braço.

   Fazendo uma careta, Fang lhe empurrou e lhe haveria devolvido o golpe com um próprio se Vane não o tivesse esquivado.

   —A que veio isso?

   Vane lhe grunhiu.

   —Por não me dizer o que te aconteceu, imbecil.

   Essa última palavra estava carregada com suficiente veneno para derrubar a um furioso elefante macho.

   Completamente confuso, franziu o cenho.

   —Do que estás falando?

   Vane lhe agarrou pela camisa e, furioso, sustentou-lhe com os punhos.

   —Aimee me disse onde estiveste todos estes meses. Pensei que estavas em coma. O que mais me incomoda, é que devias ser tu quem me dissera isso, não ela.

   Zangado por seu tom e seu agarrão, Fang o empurrou outra vez.

   —Sim, bom, tu deverias ter sido o que me ajudara a recuperar minha alma, não ela.

   —Pensei que estava sonhando.

   Fang soprou.

   —Vane, vem me ajudar —o disse friamente, usando as palavras com as quais tinha tratado repetidamente de conseguir a atenção de seu irmão—, não é exatamente sutil.

   Um tique palpitou na mandíbula de Vane. Fez gestos para a cama enrugada.

   —E quando vinha aqui a te ver, parecias comatoso. Todos me disseram que isso era o que te estava ocorrendo. Como podia supor outra coisa?

   Que convincente. Fang o fulminou com o olhar e a sua obtusa estupidez.

   —Devias me ter conhecido melhor. Quando me recostei e lambi minhas feridas? Francamente?

   Vane olhou para outro lado, seus traços envergonhados enquanto se dava conta da verdade, Fang não era um covarde. Era um lutador até a medula.

   —Tens razão, deveria havê-lo sabido. Devia ter pensado melhor de ti. Mas sei quanto significava Anya para ti, assumi que…

   Que Fang era fraco e incompetente, o que Vane sempre tinha pensado dele, e já estava cansado de estar a sua sombra.

   —Olhe, não quero falar disso. O que está feito, feito está. Graças a Aimee e a seus irmãos, estou de volta.

   Que irônico, dada a forma injusta em que Fury e Vane o tinham tratado. Mas para bem ou para mau, estava aqui no reino humano.

   Agora que o pensava, basicamente negociou um inferno por outro.

   Diga-me outra vez por que briguei tanto para voltar para cá…

   Uma vez mais, ao menos aqui ninguém estava tratando de estripá-lo.

   Ainda.

   —Só esqueçamos o que aconteceu.

   Vane escutou as palavras, mas conhecia seu irmão. Tinha ferido Fang e levaria aos dois bastante tempo para voltar a dar-se bem com o que tinha acontecido. E com toda honestidade, odiava-se assim mesmo por não ter estado aí quando deveria havê-lo feito.

   Mas tal e como disse Fang, não se podia desfazer o que estava feito. Tudo o que podia fazer era assegurar-se de não deixar que voltasse a acontecer.

   —Somos irmãos, Fang. Significas tudo para mim. Espero que saibas.

   Fang fez uma careta.

   —Quando te converteste em mulher? Argh, se isso for o que te faz estar emparelhado, eu passo.

   Vane sacudiu sua cabeça.

   —Bride não me ensinou isso, fez-o perder a Anya. Há muitas coisas que desejaria lhe haver dito antes que morrera. Não quero cometer esse erro contigo.

   Fang fez um gesto.

   —Sim. Bom, por favor cometa o erro. Estás me assustando com essas patranhas amorosas —indicou com sua mandíbula para a porta—. Sua mulher está lá embaixo. Não deveria deixá-la esperando.

   Ele não se moveu.

   —Queremos que vivas conosco.

   Fang ainda não estava preparado para isso. Tinha mudado muito e viver com Vane e sua parceira humana… Na verdade, preferia não fazê-lo.

   —Acredito que ficarei aqui por um tempo. Seria bom para vós dois ter um tempo juntos sem seu odioso irmão misturando-se.

   Vane se burlou.

   —É essa a verdadeira razão?

   —Que mais poderia ser?

   Vane olhou para a porta, então baixou sua voz num sussurro.

   —Aimee.

   Fang soprou, embora seu irmão estava muito perto d