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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Lua de Sangue / Nora Roberts
Lua de Sangue / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Lua de Sangue

 

    Acordou no corpo de uma amiga morta. Tinha oito anos, era alta para a idade, frágil de ossos, delicada de feições. O cabelo era da cor do milho sedoso, e caía-lhe pelas costas estreitas, embelezando-as. A mãe adorava escová-lo todas as noites, cem vezes, com a escova de prata de cerdas suaves que estava sobre a graciosa cômoda de madeira de cerejeira.

    O corpo da criança recordava-se, sentia cada passagem demorada da escova fazendo-a imaginar-se um gato a ser escovado. Lembrava-se de como a luz incidia obliquamente nas caixinhas e nas garrafas de cristal e cobalto, e batia na escova de prata que reluzia sobre o cabelo.

    Lembrava-se do cheiro do quarto, sentia-o naquele momento. Gardênia. Sempre gardênia para a mamãe.

    E no espelho, à luz da luminária, conseguia ver a palidez oval do seu rosto, tão jovem, tão bonito, com aqueles olhos azuis e profundos e a pele suave. Tão vivo.

    Chamava-se Hope.

    As janelas e as portas de vidro mantinham-se fechadas, pois o verão estava no auge. O calor pressionava os dedos úmidos contra os vidros, mas dentro de casa o ar era fresco e a sua camisola de algodão estava tão seca que parecia estalar quando ela se mexia.

    Era o calor que ela desejava, e a aventura, mas manteve esses pensamentos guardados dentro de si quando deu à mamãe um beijo de boas-noites. Um beijo de leve, delicado, numa face perfumada.

    Em junho, a mamãe mandava tirar as cortinas do hall e levá-las para o sótão. As tábuas do soalho de pinho encerado tinham um toque liso e suave sob os pés descalços da garotinha, que saiu do quarto, atravessou o corredor com os seus painéis de cipreste e os seus quadros de molduras pesadas em ouro mate. Seguiu o serpentear da escada até ao escritório do pai.

    Lá estava o cheiro do pai. Fumo, couro, Old Spice e bourbon.

    Adorava esta divisão da casa, com as suas paredes perfeitas e as suas cadeiras grandes e pesadas, estofadas em couro da cor do vinho do Porto que o papai bebia às vezes, depois do jantar. As estantes em volta estavam apinhadas de livros e tesouros. Amava o homem que se sentava à enorme escrivaninha, com o seu charuto e o seu pequeno copo de uísque e os seus livros de contabilidade.

    O amor era uma dor no coração da mulher dentro da criança, uma lança de saudade e de inveja desse amor simples e completo.

    A voz dele troava, os seus braços eram fortes e o seu estômago suave enquanto a envolvia num abraço tão diferente do beijo de boas-noites delicado e comedido da mamãe.

    Lá vai a minha princesa para o Reino dos sonhos.

    Com que é que vou sonhar, papai?

    Cavaleiros e cavalos brancos e aventuras no mar.

    Ela riu, mas deixou ficar a cabeça no ombro dele um pouco mais do que o habitual, sussurrando qualquer coisa na garganta como um gatinho a ronronar.

    Saberia? Saberia que nunca mais voltaria a sentar-se naquele colo seguro?

    Voltou a descer a escada, passou pelo quarto de Cade. Não estava deitado, ainda não, porque era quatro anos mais velho e rapaz, e podia ficar acordado até mais tarde nas noites de verão, vendo televisão ou lendo livros, desde que se levantasse de manhã pronto para os seus deveres.

    Um dia Cade seria dono de Beaux Revés e sentar-se-ia à grande escrivaninha do escritório com os livros da contabilidade. Contrataria e dispensaria pessoal e supervisionaria as sementeiras e as colheitas e fumaria charutos nas reuniões e queixar-se-ia do governo e do preço do algodão.

    Porque ele era o filho.

    Hope não se importava. Não queria ter de sentar-se a uma escrivaninha a somar números.

    Parou diante da porta do quarto da irmã e hesitou. Faith não estava bem. Faith parecia estar sempre mal. Lilah, a governanta, dizia que Miss Faith discutiria com Deus-Todo-Poderoso só para irritá-Lo.

    Hope achava que isso era verdade, e embora Faith fosse sua irmã gêmea não compreendia o que a fazia estar constantemente irritada. Esta noite tinham-na mandado diretamente para a cama, por ter sido insolente. A porta estava completamente fechada e não se via luz por baixo da porta. Hope imaginou que Faith estaria a olhar fixamente para o teto, com aquele olhar amuado no rosto e os punhos fechados, como que à espera de esmurrar o escuro.

    Hope tocou na maçaneta. Quase sempre conseguia acalmar Faith e tirá-la daquela disposição soturna. Conseguia enrolar-se na cama com ela, às escuras, e inventar histórias até Faith rir e as chispas nos seus olhos desaparecerem.

    Mas esta noite era para outras coisas. Esta noite era para aventuras.

    Estava tudo planejado, mas Hope não deixou que a excitação tomasse conta dela até estar no seu quarto, com a porta fechada. Manteve a luz apagada, movendo-se em silêncio na escuridão prateada pelo luar. Trocou a sua camisa de noite de algodão por uns calções e uma T-shirt. O coração batia-lhe agradavelmente no peito enquanto dispunha as almofadas sobre a cama, numa forma que aos seus olhos ingênuos de criança parecia alguém a dormir.

    Debaixo da cama tirou o seu kit de aventuras. A velha lancheira com tampa arredondada continha uma garrafa de Coca-Cola que entretanto aquecera, um saco de bolachas cuidadosamente surripiadas do pote na cozinha, um pequeno canivete enferrujado, fósforos, uma bússola, uma pistola de água - carregada - e uma lanterna vermelha, de plástico.         

    Ficou sentada no chão por um momento. Sentia o cheiro dos seus lápis de cera e do pó de talco, colado à sua pele desde o banho. Ouvia a música muito tênue vinda da salinha da sua mãe.

    Quando abriu a janela e tirou a rede mosquiteira, sem fazer barulho, estava sorrindo.

    Jovem, ágil, e louca de excitação, passou a perna por cima do parapeito e apoiou o pé na treliça coberta pela glicínia.

    O ar parecia xarope, e o sabor quente e doce encheu-lhe os pulmões, enquanto descia. Uma lasca de madeira espetou um dedo da sua mão, fazendo-a soltar um silvo abafado. Mas continuou, de olhos postos nas janelas iluminadas do primeiro andar. Era uma sombra, pensou, e ninguém conseguia vê-la.

    Era Hope Lavelle, espiã, e tinha um encontro com o seu contacto às dez e meia em ponto.

    Teve de abafar uma gargalhada nervosa e quando chegou ao chão estava arquejante, do riso que queria soltar.

 

    Para acrescentar mais emoção, correu e apressou-se a esconder-se atrás dos troncos grossos das velhas árvores de grande porte que sombreavam a casa, e depois espreitou, de trás delas, a luz azul e fraca que pulsava na janela do quarto onde o seu irmão estava vendo televisão, e o halo amarelo, mais nítido, de onde os seus pais passavam o serão.

    Ser descoberta naquele momento equivaleria a um desastre para a sua missão, pensou, acocorando-se enquanto atravessava os jardins, por entre o aroma doce das rosas e do jasmim. Tinha de evitar ser capturada, a todo o custo, pois o destino do mundo assentava nos seus ombros e nos da sua fiel companheira.

    A mulher dentro da criança gritou. Volta para trás, por favor volta para trás. Mas a criança não ouviu.

    Tirou a sua bicicleta cor-de-rosa de trás das camélias, onde a escondera naquela tarde, meteu o kit no cesto branco e depois empurrou-a por cima da almofada de relva, ao longo do caminho de cascalho, até a nitidez da casa e das luzes se perder na distância.

    Pedalava velozmente, imaginando que a bonita bicicleta era uma moto toda artilhada, equipada com disparador de gás de nervos e óleo escorregadio. As tiras de plástico branco dançavam nas pontas do guidom, batendo umas nas outras alegremente.

    Voava, atravessando o ar espesso, e o coro de chilreios e vozes de cigarras transformou-se no rugido de pantera da sua máquina veloz.

    No sítio onde a estrada se bifurcava, virou à esquerda e depois saltou agilmente da bicicleta, empurrando-a para fora da estrada até a ravina estreita onde iria ficar escondida pelos arbustos. Embora a lua estivesse suficientemente brilhante, tirou a lanterna do kit. A sorridente Princesa Leia do seu relógio disse-lhe que chegara quinze minutos antes da hora. Sem medo e sem pensar, meteu-se pelo caminho estreito que conduzia ao pântano.

    Ao fim do verão, da infância. Da vida.

    Ali, havia um mundo vivo de sons, de água e de insetos e pequenas criaturas noturnas. A luz entrava em fitas estreitas pela abóbada de árvores da borracha e ciprestes, de onde pendia musgo. Aqui, as magnólias eram enormes e delas desprendia-se um perfume penetrante e doce. Conhecia de cor o caminho para a clareira. Este local de encontro, este local secreto, estava bem cuidado, guardado e era muito amado.

    Como fora a primeira a chegar, tirou da pilha de lenha gravetos velhos e ramos curtos e grossos e começou a fazer uma fogueira.

   

    O fumo afastou os mosquitos, mas mesmo assim coçou vagamente as picadelas que já lhe ponteavam as pernas e os braços.

    Preparou-se para esperar, com uma bolacha e a Coca-Cola.

    O tempo foi passando e seus olhos começaram a se fechar, embalados pela música do pântano. O fogo consumiu a lenha magra até não ser mais do que uma réstia de calor. Cambaleante, pousou a cabeça nos joelhos dobrados.

    O restolhar começou por fazer parte do seu sonho, onde se esquivava pelo emaranhado das ruas de Paris para fugir ao malvado espião russo. Mas o estalar de um ramo debaixo de um pé fê-la levantar a cabeça e afastar o sono dos olhos. Sorriu de imediato, mas depressa transformou o sorriso na expressão resoluta e profissional de uma agente secreta.

    A senha!

    Silêncio no pântano, à exceção do zumbido monótono dos insetos e do ligeiro crepitar da fogueira quase extinta.

    Pôs-se de pé e a lanterna acendeu em sua mão como se empunhasse uma arma. A senha!, voltou a gritar, dirigindo o curto feixe de luz para o local de onde viera o ruído.

    Mas agora ouviu o restolhar atrás de si, por isso virou-se, com o coração a bater descompassadamente e a luz da lanterna a dançar em movimentos nervosos. O calor do medo, algo que raramente sentira em oito curtos anos, apoderou-se dela, queimando-lhe a garganta.

    Vá lá, pára com isso. Não me assustas.

    Um som vindo da esquerda, cauteloso, escarninho. Quando uma nova serpente de medo se lhe enrolou nas entranhas, deu um passo atrás.

    E ouviu o riso, leve, ofegante, próximo.

    Ela corria agora, através das sombras espessas e da luz trêmula. O terror cortante na garganta esquarteja os gritos antes de estes conseguirem escapar. Passos ressoam atrás de si. Rápidos, demasiado rápidos, e demasiado próximos. Qualquer coisa atinge-a pelas costas. Uma dor aguda vibra até à sola dos pés. Os ossos e a respiração são sacudidos num espasmo quando ela cai no chão. O ar é empurrado para fora dos pulmões, num soluço, quando o peso dele a prende junto ao solo. Cheira-lhe a suor e a uísque.

    E grita, agora, um longo grito de desespero, e chama pela amiga.

    Tory! Tory, ajuda-me!

    E a mulher prisioneira da criança morta chora.

   

    A sua melhor amiga, a sua irmã do coração. Morrera naquela noite, no pântano, enquanto ela estava trancada no quarto, a soluçar depois da última surra que levara.

    E ela soubera. E vira. E não pudera fazer nada.

    A culpa assolou-a, fresca como dezoito anos antes.

    - Não posso ajudar-te - repetiu. - Mas vou voltar.

    Tínhamos oito anos, naquele verão. Naquele verão distante, em que nos parecia que os dias intensos e abafados iriam durar para sempre. Foi um verão de inocência e de imprudência, e de amizade, o tipo de mistura capaz de formar uma bela redoma de vidro à volta do nosso mundo. Uma noite mudou tudo isso. Desde então, nada voltou a ser o mesmo para mim. Como poderia ser o mesmo!

    Ao longo de quase toda a minha vida tenho evitado falar no assunto. Isso não impediu as recordações, as imagens. Mas durante algum tempo tentei enterrá-lo, tal como Hope estava enterrada. Enfrentá-lo agora, dizer isto em voz alta, ainda que apenas para mim própria, é um alívio. É como arrancar um estilhaço do coração. A dor ainda vai prolongar-se um pouco.

    Ela era a minha melhor amiga. Os laços que nos ligavam tinham a profundidade e a intensidade imediata que apenas as crianças são capazes de tecer. Acho que formávamos uma parelha estranha, a luminosa e privilegiada Hope Lavelle e a sombria e tímida Tory Bodeen. O meu pai cultivava uma pequena parcela de terreno, um cantinho da enorme plantação de que o dela era dono. Às vezes, quando a mãe dela dava um grande jantar ou uma das suas festas exuberantes, a minha ajudava a limpar e a servir.

    Mas essas diferenças de estrato social e de classe nunca beliscaram a amizade. Na verdade, foi questão que nunca nos ocorreu.

    Ela vivia numa casa enorme, que o seu pai, bem conhecido pela sua excentricidade, construíra não ao estilo Georgiano, tão popular na época, mas no intuito de que se assemelhasse a um castelo. Era de pedra, com torres e torreões, e aquilo que se poderia chamar ameias, acho eu. Mas não havia nada de princesa em Hope.

    Vivia para a aventura. E eu também, quando estava com ela. Com ela fugia aos tormentos e à confusão da minha casa, da minha vida, e tornava-me companheira dela. Éramos espiãs, detetives, cavaleiros, piratas, ou salteadores do espaço. Éramos corajosas e autênticas, temerárias e ousadas.

    Na primavera antes desse verão usamos o canivete dela para fazer um pequeno corte nos nossos pulsos. Solenemente, misturamos os nossos sangues. Acho que tivemos sorte em não termos acabado com tétano. Em vez disso, tornamo-nos irmãs de sangue.

   

    Ela tinha uma irmã gêmea. Mas Faith raramente se juntava às nossas brincadeiras. Eram demasiado idiotas para ela, ou demasiado brutas, ou demasiado sujas. Eram sempre demasiado qualquer coisa para Faith. Não sentíamos a falta do mau feitio nem das queixas dela. Naquele verão, eu e Hope éramos as gêmeas.

    Se alguém me tivesse perguntado se eu a amava, teria ficado atrapalhada. Não teria compreendido. Mas todos os dias, desde aquele momento terrível naquele agosto, sinto a falta dela como sinto a falta da parte de mim que morreu com ela.

    Tínhamos combinado encontrar-nos no pântano, no nosso lugar secreto. Acho que não era lá grande segredo, mas era nosso. Brincávamos lá muitas vezes, naquele ar úmido e verde onde tínhamos as nossas aventuras por entre as canções dos pássaros, o musgo e as azáleas selvagens.

    Era contra as regras ir até lá depois do pôr do Sol, mas aos oito anos quebrar regras é uma excitação.

    Comprometi-me a levar marshmallows e limonada. Em parte, por orgulho. Os meus pais eram pobres e eu era ainda mais pobre do que eles, mas precisava de contribuir e contei todo o dinheiro que tinha no frasco que escondia debaixo da mesa. Tinha dois dólares e oitenta e seis cêntimos naquela noite de agosto - depois de ter feito as compras no Hanson 's -, o que restava do meu pecúlio monetário consistia apenas em algumas moedas.

    Jantamos frango com arroz. A casa estava tão quente, mesmo com as ventoinhas ligadas no máximo, que comer era um suplício. Mas mesmo que houvesse um só grão de arroz no prato, o pai esperava que o comêssemos e nos sentíssemos gratos por isso. Dávamos graças antes do jantar.

    Dependendo da disposição do pai, isso demorava entre cinco e vinte minutos, enquanto a comida ficava ali, a esfriar, e a barriga dava voltas e o suor nos escorria pelas costas em rios pegajosos.

    A minha avó costumava dizer que quando Hannibal Bodeen encontrava Deus, até Deus tentava encontrar um lugar para se esconder.

    Era um homem grande, o meu pai, e o peito e os braços tornaram-se-lhe cada vez mais largos. Ouvi dizer que o consideravam bonito, quando era jovem. As marcas que os anos deixam num homem variam, e os anos que passaram pelo meu pai deixaram as marcas do azedume. Azedume e rispidez, com um toque de maldade. Usava o cabelo escuro puxado para trás, e o rosto parecia sair daquela cúpula como rochas de arestas afiadas que saem de uma montanha. Rochas que nos esfolavam até aos ossos se déssemos um passo em falso. Também tinha os olhos escuros, de um escuro que queimava e que reconheço agora nos olhos de alguns pregadores na televisão e de alguns sem-abrigo.

   

    A minha mãe tinha medo dele. Tento perdoar-lhe isso, o ter tanto medo dele que nunca me defendeu quando ele usava o cinto para meter dentro de mim, à chibatada, o deus vingativo dele.

    Naquela noite estive sossegada ao jantar. Era muito possível que ele não desse por mim se eu estivesse sossegada e limpasse o meu prato. Dentro de mim, a excitação antecipada era como uma coisa viva, que me deixava tensa e feliz. Mantive os olhos baixos, tentando comer ao ritmo certo, para ele não me acusar de embromar ou de devorar a comida. Com o pai, era sempre difícil encontrar o ponto de equilíbrio.

    Lembro-me do som das ventoinhas a trabalhar, e dos garfos a tocar nos pratos. Lembro-me do silêncio, do silêncio das almas escondidas, com medo, que viviam na casa do meu pai.

    Quando a minha mãe lhe ofereceu mais frango, ele agradeceu-lhe educadamente e demorou um segundo a servir-se. A sala pareceu respirar melhor. Era bom sinal. A minha mãe, encorajada por isto, fez um comentário qualquer sobre os tomates e o milho estarem a produzir bastante e sobre as conservas que ia fazer durante as próximas semanas. Também andavam a fazer conservas em Beaux Revés, e ela quis saber se ele achava uma boa idéia ela ir ajudar, porque lhe tinham pedido.

    Não falou em quanto iria ganhar. Mesmo quando a disposição do pai não era má de todo, era sensato não mencionar o dinheiro que os Lavelle pagavam por um serviço, em jeito de caridade. Ele era o ganha-pão em sua casa, e não nos era permitido esquecer este ponto tão importante.

    A sala voltou a suster a respiração. Havia alturas em que a simples menção do nome dos Lavelle fazia trovejar o olhar do pai. Mas naquela noite deixou, achando que isso se afigurava uma coisa sensata. Desde que ela não negligenciasse nenhuma das suas tarefas debaixo do teto que ele punha sobre a cabeça dela.

    Esta resposta relativamente agradável fê-la sorrir. Lembro-me de como o rosto dela se suavizou e de como isso quase voltou a fazê-la bonita. De vez em quando, se pensar com muita força, consigo lembrar-me de que a mamãe era bonita.

    Han, chamou-lhe ela enquanto sorria. A Tory e eu vamos manter as coisas a funcionar por aqui, não te preocupes. Vou falar com Miss Lilah, amanhã, e combinar tudo. Com as bagas que estão a ficar prontas para colher também vou fazer doce. Sei que tenho parafina algures, mas não consigo lembrar-me onde.

    E isso, apenas aquela referência casual ao doce e à parafina e a falta de cuidado, mudou tudo. Suponho que o meu pensamento tenha divagado durante a conversa deles, que estivesse a pensar na aventura que estava para breve. Falei sem pensar, sem saber as consequências. E assim disse as palavras que me condenaram.

    A caixa da parafina está na prateleira de cima do armário, por cima do fogão, atrás do melaço e do amido de milho.

    Limitei-me a mencionar o que imaginei, a caixa quadrada de parafina atrás da garrafa escura de mel de cana, e peguei no meu chá frio e doce para me ajudar a engolir os grãos duros de arroz.

    Antes de beber o primeiro gole, ouvi o silêncio regressar, a vaga muda que submergiu tudo, até o zumbido monótono das pás da ventoinha. O meu coração começou a bater com força dentro daquele vácuo, uma pancada forte após a outra, acompanhado de um tinir que estava apenas na minha cabeça e que vinha do pulsar súbito e alterado do sangue. O pulsar do medo.

    Ele falou com suavidade, como fazia, como fazia sempre antes da fúria. Como sabes onde está a parafina, Vitoria? Como sabes que está ali em cima, onde não consegues vê-la? Onde não consegues chegar-lhe?

    Menti. Foi uma tolice, porque já estava condenada, mas a mentira saiu precipitadamente, numa defesa desesperada. Disse-lhe que achava que tinha visto a mamãe pô-la lá. Lembro-me de a ter visto pô-la lá, mais nada.

    Ele reduziu a mentira a pó. Tinha uma maneira de conseguir ver através das mentiras e de rasgá-las em pedaços de todos os tamanhos, pegajosos. Quando tinha eu visto isso? Porque não era melhor na escola, se a minha memória era tão boa que conseguia lembrar-me onde estava a parafina um ano depois da última época das conservas? E como sabia que estava atrás do melaço e do amido de milho e não à frente deles, ou ao lado deles?

    Ah, era um homem esperto, o meu pai, e nunca falhava o mais pequeno pormenor.

    A mãe não disse nada enquanto ele falava naquele tom suave, atirando-me as palavras como murros embrulhados em seda. Entrelaçou as mãos, que tremiam. Tremeria por minha causa? Acho que gosto de pensar que sim. Mas ela não disse nada quando a voz dele subiu de tom, nada quando ele empurrou a cadeira para trás, afastando-a da mesa. Nada quando o copo me escorregou da mão e se partiu no meio do chão. Um dos fragmentos de vidro feriu-me o tornozelo, e senti aquela pequena dor por entre o terror que crescia em mim.

    Primeiro verificou, claro. Terá dito a si próprio que era a coisa mais justa, a coisa certa a fazer. Quando ele abriu o armário, afastou as garrafas e, lentamente, tirou aquela caixa quadrada, azul, com parafina, de trás do melaço escuro, chorei. Nessa altura ainda tinha esperança. Mesmo quando ele me puxou e me obrigou a levantar-me, tive esperança de que o castigo fosse apenas orações, horas de oração até os meus joelhos ficarem entorpecidos. Às vezes, pelo menos às vezes naquele verão, isso era suficiente para ele.

    Não me tinha avisado para não deixar entrar o demônio? Mas, mesmo assim, eu tinha trazido a maldade para aquela casa, tinha-o envergonhado perante Deus. Pedi-lhe desculpa, disse-lhe que não tinha feito de propósito. Por favor, papai, por favor, não volto a fazer. Vou ser boa.

    Implorei-lhe, ele gritou escrituras e com as suas mãos grandes e duras arrastou-me até ao meu quarto, mas eu continuei a implorar-lhe. Foi a última vez que fiz isso.

    Não ofereci resistência. Era pior quando lhe oferecia resistência. O quarto mandamento era uma coisa sagrada, e o pai era para honrar naquela casa, mesmo quando ele nos batia até fazer sangue.

    Tinha o rosto vermelho de integridade, grande e ofuscante como o sol. Deu-me uma bofetada só. Foi o que bastou para calar as minhas súplicas e as minhas desculpas. E para matar a minha esperança.

    Fiquei deitada em cima da cama, de barriga para baixo, passiva como um cordeiro prestes a ser sacrificado. O som do cinto quando ele o fez passar pelas presilhas das calças de trabalho foi o de o silvo de uma cobra e depois um estampido, preciso e hábil, quando ele o fez estalar.

    Fazia-o estalar sempre três vezes. Uma santíssima trindade de crueldade.

    O primeiro golpe é sempre o pior. Seja qual for o número de primeiras vezes, o choque e a dor deixam-nos atordoados e arrancam-nos um grito das entranhas. O corpo contorce-se, em sinal de protesto. Não, em sinal de descrença. Então, somos atingidos pelo segundo golpe e pelo terceiro.

    Em breve os gritos tornam-se mais animais do que humanos. A nossa humanidade foi comprometida, enterrada sob uma avalanche de dor e humilhação.

    Pregava enquanto me batia, e a voz dele troava. E sob esse troar havia uma excitação horrível, uma espécie de prazer que eu não compreendia. Nenhuma criança devia conhecer essa sensação e, durante algum tempo, eu fui poupada.

    A primeira vez que ele me bateu eu tinha cinco anos. A minha mãe tentou impedi-lo, e ele lhe pôs um olho negro. Ela não voltou a tentar. Não sei o que ela fez naquela noite enquanto ele zurzia o demônio que me fazia ter visões. Não consegui ver, nem com os olhos nem com a mente, senão um torpor ensanguentado.

    Ele deixou-me a chorar e fechou a porta à chave, por fora. Algum tempo depois, a dor fez-me adormecer.

    Quando acordei estava escuro e um fogo parecia arder dentro de mim. Não posso dizer que a dor fosse insuportável, porque a suportei. Que escolha tinha? Também rezei, rezei para que o que quer que estivesse dentro de mim tivesse sido finalmente arrancado. Não queria ser má.

    Contudo, enquanto rezava, senti a pressão na barriga e o formigueiro, como pequenos dedos pontiagudos a dançar na parte de trás do pescoço. Foi a primeira vez que me aconteceu desta maneira, e pensei que estava doente, com febre.

    Então vi Hope, tão claramente como se estivesse sentada ao lado dela na nossa clareira, no pântano. Cheirei a noite, a água, ouvi o gemido dos mosquitos, o zumbido dos insetos. E, como Hope, ouvi o restolhar nos arbustos. Como Hope, senti medo. Em jorros vivos, quentes. Quando ela fugiu, eu fugi, a minha respiração soluçante, magoando-me o peito. Vi-a soçobrar sob o peso do que quer que saltou sobre ela. Uma sombra, uma forma que não consegui ver claramente, embora conseguisse ver a ela.

    Ela chamou por mim. Gritou por mim.

    Depois, não vi mais nada senão escuridão. Quando acordei, o Sol ia alto e eu estava no chão. E Hope tinha desaparecido.

   

    Optara por se perder em Charleston, e o conseguira durante quase quatro anos. A cidade fora para ela como uma mulher encantadora e generosa, mais do que disposta a acarinhá-la no seu colo macio e a acalmar os nervos esfrangalhados nas ruas implacáveis de Nova Iorque.

    Em Charleston as vozes eram mais lentas, e ela conseguia misturar-se na sua corrente morna e fluida. Podia esconder-se, como acreditara que poderia esconder-se nas multidões compactas e apressadas do Norte.

    O dinheiro não era problema. Sabia viver com frugalidade e estava disposta a trabalhar. Guardara as suas economias como um falcão, e quando esse ovo começou a crescer no ninho permitiu-se sonhar em ter o seu próprio negócio, em trabalhar por conta própria e em viver a vida calma e sem sobressaltos que sempre lhe escapara.

    Vivia metida consigo mesma. As amizades verdadeiras implicavam relações verdadeiras. Não tivera a vontade ou a força suficientes para voltar a abrir-se a elas. As pessoas faziam perguntas. Queriam saber coisas sobre nós, ou fingiam querer saber.

    Tory não tinha respostas para dar, nem nada para dizer.

    Descobriu a pequena casa - velha, arruinada, perfeita - e negociara ferozmente o preço até conseguir comprá-la.

    As pessoas subestimavam muitas vezes Victoria Bodeen. Viam uma mulher jovem, pequena e franzina. Viam a pele macia e as feições delicadas, uma boca séria e olhos cinzentos e límpidos que eram frequentemente tomados por ingênuos. Um nariz pequeno, apenas ligeiramente curvado, acrescentava um toque de doçura a um rosto emoldurado por cabelo castanho bem alinhado. Viam fragilidade, ouviam-na na musicalidade sulista da sua voz. E nunca viam o aço, por dentro. O aço moldado pelos inúmeros golpes do cinto de Sam Browne.

    Quando queria alguma coisa trabalhava para ela, lutava por ela, com toda a garra e a determinação de um soldado na linha da frente empenhado em chegar à praia. Quisera a velha casa com o seu jardim tomado pelo crescimento excessivo das plantas e com a tinta a soltar-se das paredes, e mexera-se e agira, insistira e persistira, até adquiri-la. Os apartamentos traziam-lhe recordações de Nova Iorque e do desastre que acabara com a sua vida, lá. Não haveria mais apartamentos para Tory.

    Dera também o seu contributo àquele investimento, usando o seu tempo, o seu trabalho e as suas habilidades para reabilitar a casa, uma divisão de cada vez. Demorara três anos inteiros, e agora a venda, a acrescer às suas economias, ia fazer o seu sonho tornar-se realidade.

    Tudo o que tinha a fazer era regressar a Progress.

    À sua mesa da cozinha, Tory leu pela terceira vez o contrato de arrendamento do espaço em Market Street. Perguntou-se se Mr. Harlowe, da agência imobiliária, se lembrava dela.

    Tinha apenas dez anos quando se mudaram de Progress para Raleigh, para os pais dela arranjarem um trabalho fixo. Um trabalho melhor, argumentara o pai, do que escarafunchar num pedaço de terra estafado e alugado pelos todos-poderosos Lavelle.

    Claro que tinham sido tão pobres em Raleigh como em Progress. Tinham ficado apenas com menos espaço.                    

    Não interessava, recordou Tory a si própria. Não ia voltar a ser pobre. Já não era a rapariga assustada e magricela de outrora, mas sim uma mulher de negócios que ia montar uma empresa nova na sua cidade natal.

    Então, perguntaria a sua analista, porque tem as mãos a tremer?

    Expectativa, decidiu Tory. Excitação. E nervos. Pronto, eram nervos. Os nervos eram humanos. Tinha direito a tê-los. Era uma pessoa normal. Era o que quer que desejasse ser.

    - Que se dane!

    De dentes cerrados, pegou na caneta e assinou o contrato.

    Era apenas por um ano. Um ano. Se não desse certo, partiria para outra. Já não seria a primeira vez. Parecia que estava sempre a partir para outra.

    Mas, desta vez, antes de partir para outra havia muito a fazer. O contrato de arrendamento era apenas uma fina camada de uma montanha de papel. As licenças para a loja que tencionava abrir estavam assinadas e seladas. Considerava o estado da Carolina do Sul um autêntico ladrão, mas pagara os impostos. A seguir tinha de instalar-se e tratar dos assuntos com os advogados que, pensava ela, eram piores que os ladrões.

    Mas, no final do dia, teria o cheque na mão e estaria a caminho.

    As malas estavam quase feitas. Não havia muito que emalar, pensou, pois vendera quase tudo o que adquirira desde que se mudara para Charleston. Viajar com pouca bagagem simplificava as coisas, e ela aprendera muito cedo que nunca, nunca devia ligar-se a uma coisa que pudesse ser-lhe retirada.

    Levantou-se, lavou a chávena, secou-a e depois embrulhou-a em jornal para acondicioná-la na pequena caixa de utensílios de cozinha que achou prático levar consigo. Da janela sobre o lava-louça observou o seu pequeno quintal.

    O pequeno pátio estava esfregado e varrido. Deixaria aos novos donos os vasos de barro com verbena e petúnias brancas. Esperava que tratassem do jardim, mas se resolvessem enterrá-lo debaixo de um pavimento, bem, era da conta deles.

    Deixara a sua marca ali. Podiam pintar e forrar as paredes a papel, pôr alcatifa e azulejos, mas o que ela fizera estaria ali primeiro. Estaria sempre primeiro que tudo o resto.

    Não se podia apagar o passado, nem matá-lo, nem desejar que ele deixasse de existir. Nem se podia afastar o presente ou mudar o que estava para vir. Estávamos todos fechados naquele ciclo de tempo, girando em torno de um centro de dias passados. Por vezes, esses dias passados eram suficientemente fortes, suficientemente voluntariosos para nos arrastarem, por mais que lutássemos contra isso.

    Conseguiria ser mais deprimente?, perguntou-se.

    Fechou a caixa, pegou-lhe para levá-la para o carro, e saiu da cozinha sem olhar para trás.

    Três horas mais tarde, o cheque da venda da sua casa foi depositado. Apertou a mão aos novos donos, ouviu com delicadeza o seu entusiasmo estonteante por comprarem a sua primeira casa, e foi abrindo caminho até à saída.

    A casa, e as pessoas que doravante iam viver nela, já não faziam parte do seu mundo.

    - Tory, espere um minuto.

   

    Tory virou-se, com uma mão na porta do carro e o pensamento já na estrada. Mas esperou até a sua advogada acabar de atravessar o parque de estacionamento do banco. Serpentear por ele, diria, corrigiu Tory. Abigail Lawrence nunca apressava nada nem ninguém, especialmente a si própria. O que provavelmente explicava por que motivo parecia sempre acabada de sair graciosamente das páginas da Vogue.

    Para o encontro de hoje escolhera um traje azul-pálido, pérolas que provavelmente devia ter herdado da bisavó, e saltos altos e finos que causavam cãibras nos tornozelos de Tory só de olhar para eles.

    - Uff! - Abigail agitou a mão diante do rosto, como se tivesse acabado de correr três quilometros e não andado dez metros. - Tanto calor, e ainda só estamos em abril. - Desviou o olhar de Tory para o carro e observou as caixas. - Então, vai-se mesmo embora?

    - Parece que sim. Obrigada, Abigail, por ter tratado de tudo.

    - Foi você que tratou da maior parte das coisas. Não me lembro de ter um cliente que compreendesse metade do que eu digo, muito menos de ter um capaz de me dar lições.

    Espreitou para a parte de trás do carro, vagamente surpreendida por a vida de uma mulher ocupar tão pouco espaço.

    - Não pensei que estivesse a falar a sério quando disse que se ia embora diretamente, hoje à tarde. Mas devia ter pensado. - Voltou a pousar o olhar no rosto de Tory. - É uma mulher séria, Victoria.

    - Não tenho motivos para ficar.

    Abigail abriu a boca e depois abanou a cabeça.

    - Ia dizer que a invejo. Fazer as malas, levar o que cabe no porta-bagagens do carro, e partir para um novo lugar, uma nova vida, um novo começo. Mas a verdade é que não a invejo. Nem um pouco. Deus Todo-poderoso, a energia que uma coisa dessas requer, e a coragem! Mas você é suficientemente jovem para ter tanto uma como a outra.

    - Talvez seja um novo começo, mas vou regressar às minhas origens. Ainda tenho família em Progress.

    - Se quer saber a minha opinião, ainda é preciso mais coragem para regressar às origens do que para partir para qualquer outro lugar. Espero que seja feliz, Tory.

    - Fico bem.

    - Bem é uma coisa. - Para surpresa de Tory, Abigail pegou-lhe na mão e depois inclinou-se, depositando-lhe um beijo ao de leve na face. - Feliz é outra. Seja feliz.

    - Tenciono ser. - Tory voltou atrás. Havia qualquer coisa naquele toque das mãos, qualquer coisa nos olhos preocupados de Abigail. - Você sabia - murmurou Tory.

     - Claro que sim. - Abigail apertou ligeiramente os dedos de Tory antes de soltá-los. - As notícias de Nova Iorque voam até aqui, e alguns de nós até lhes prestam atenção de vez em quando. Mudou o cabelo, o nome, mas eua  reconheci. Sou boa em memorizar rostos.

    - Porque não me disse nada? Não me perguntou nada?

    - Contratou-me para tratar dos seus negócios, não para me meter onde não era chamada. Achei que se quisesse que as pessoas soubessem que era a Victoria Mooney das notícias de Nova Iorque de há uns anos atrás, teria dito.

    - Obrigada.

    A formalidade e a cautela fizeram Abigail sorrir.

    - Por amor de Deus, querida, acha que lhe vou perguntar se o meu filho vai casar ou onde diabo perdi o anel de noivado com diamantes da minha mãe? Só estou a dizer que sei que passou por tempos difíceis e que espero que conheça melhores dias. E se tiver problemas em Progress, dê-me uma ligada.

    A bondade simples deixava-a sempre atrapalhada. Tory lutou desajeitadamente com a maçanete da porta.

    - Obrigada. A sério. Acho melhor ir andando. Tenho que fazer várias paradas. - Mas voltou a estender a mão. - Agradeço-lhe tudo o que fez.

    - Conduza com cuidado.

    Tory deslizou para dentro do carro e depois abriu a janela, enquanto punha o motor a trabalhar.

    - Na gaveta do meio, do arquivo do seu escritório, entre os Ds e os Es.

    - O que é isso?

    - O anel da sua mãe. Fica-lhe um bocado grande, caiu e ficou entre os arquivos. Devia mandá-lo ajustar à medida do seu dedo. - Tory apressou-se a fazer marcha atrás e deu a volta ao carro enquanto Abigail a seguia, piscando os olhos.

   

    Saiu de Charlston e rumou a oeste, e depois mergulhou no caminho para sul, para iniciar a planejada volta ao estado antes de aterrar em Progress. A lista de artistas e artesãos que tencionava visitar estava cuidadosamente impressa e guardada na sua mala nova. A lista incluía indicações para chegar a cada um, e isso significava entrar em várias estradas secundárias. Levava tempo, mas era necessário.

    Já tratara das coisas com vários artistas do Sul para exporem e venderem os seus trabalhos na loja que iria abrir em Market Street, mas precisava de mais. Começar uma coisa pequena não significava não começar bem.

    Os custos iniciais, a compra de artigos, encontrar um lugar aceitável para viver iam levar-lhe quase todo o dinheiro que poupara. Tencionava fazer com que o investimento valesse a pena e colher lucros.

    Dali a uma semana, se tudo corresse como planejado, estaria a começar a instalar a loja. No final de maio abriria as portas. Depois, veria.

    Quanto ao resto, lidaria com as coisas à medida que elas fossem surgindo. Na altura certa tomaria o caminho longo e sombrio até Beaux Revés e enfrentaria os Lavelle.

    Enfrentaria Hope.

   

    No final da semana Tory estava exausta, várias centenas de dólares mais pobre, graças a um radiador estragado, e pronta a pôr fim às suas viagens. A substituição do radiador significou o adiamento da sua chegada a Florence até à manhã seguinte e a necessidade de pernoitar no conforto duvidoso de um motel da Route 9, fora de Chester.

    O quarto tresandava a fumo bafiento, e as suas comodidades incluíam uma lasca de sabão e a possibilidade de aluguel de filmes destinados a estimular os apetites sexuais da clientela que pagava os quartos à hora e impedia que o estabelecimento decretasse falência. Havia manchas no carpete, cuja origem Tory decidiu ser melhor não procurar descobrir.

    Pagara o quarto em dinheiro, pois não lhe agradara a idéia de entregar o seu cartão de crédito a um empregado de olhar manhoso, que cheirava ao gin sabiamente disfarçado numa caneca de café.

    O quarto era tão repulsivo como a idéia de ficar atrás do volante durante mais uma hora, mas era o que havia. Tory pegou na cadeira bamba, a única que havia, e usou-a para trancar a porta, prendendo o espaldar sob a maçaneta. Achou que era tão segura como a corrente fina e ferrugenta. Mesmo assim, o uso de ambas deu-lhe a ilusão de segurança..

    Sabia que era um erro permitir a si própria estar tão cansada. A resistência quebrou-se. Mas tudo conspirara contra ela. O oleiro que visitara em Greenville era temperamental e difícil de agarrar. Se não fosse o fato de ser também brilhante, Tory teria saído do estúdio ao fim de vinte minutos, em vez de ter passado duas horas a elogiá-lo, a cair-lhe nas boas graças e a convencê-lo.

    O carro demorara mais quatro horas, entre rebocar, arranjar um radiador num ferro-velho e fazer cara feia para convencer o mecânico a fazer a reparação no local.

    A acrescentar a isso, admitia que fora a sua estupidez que a levara até à By the Way Inn. Se tivesse alugado um quarto num hotel em Greenville, ou parado numa das pensões perfeitamente respeitáveis na estrada nacional, não andaria aos tropeções num quarto malcheiroso.

    Era apenas por uma noite, recordou a si própria, olhando para a colcha verde e suja que cobria a cama. Por uns meros trocos, oferecia os prazeres questionáveis de um sistema Magic Fingers.

    Decidiu aceitar as circunstâncias.

    Umas horas de sono e estaria a caminho de Florence, onde a avó teria pronto o quarto de hóspedes: lençóis lavados, um banho quente. Só tinha de aguentar aquela noite.

    Sem sequer descalçar os sapatos, estendeu-se em cima da colcha e fechou os olhos.

    Corpos em movimento, empapados em suor.

    Querida, sim, querida. Isso. Com mais força!

    Uma mulher a chorar, a dor jorrando através dela como lava.

    Meu Deus, meu Deus, que vou eu fazer? Para onde posso ir? Para qualquer lado, menos para trás. Por favor, fazei com que ele não me encontre.

    Pensamentos dispersos e mãos hesitantes, envoltos em pânico ou devastados pela culpa.

    E se eu engravidar? A minha mãe mata-me. Irá doer? Será que ele me ama realmente?

    Imagens, pensamentos, vozes inundavam-na em vagas de formas e sons.

    Deixem-me em paz, exigiu. Deixem-me em paz! Com os olhos ainda fechados, Tory imaginou um muro, grosso, alto e branco. Construiu-o tijolo a tijolo, até ele se interpor entre ela e todas as memórias que pairavam no quarto como fumo. Atrás do muro tudo era fresco, azul-claro. Havia água para flutuar, para mergulhar. E, finalmente, para dormir.

    E bem acima daquela piscina azul, o Sol erguia-se branco e quente. Ouvia os pássaros a cantar e o movimento da água quando passava as mãos por ela. O seu corpo não tinha peso, a sua mente estava tranquila. À volta da piscina, via os carvalhos com o seu rendilhado de musgo, e um salgueiro curvado como um cortesão, mergulhando a sua fronde na superfície vítrea.

    Sorrindo para si própria, fechou os olhos e deixou-se ir, à deriva.

    O som de risos era audível e claro, a alegria despreocupada de uma rapariga. Preguiçosamente, Tory abriu os olhos.

   

    Ali, junto ao salgueiro, Hope acenava-lhe.

    Olá, Tory! Andava à tua procura!

    A felicidade atingiu-a como uma seta certeira. Virando-se na água, Tory acenou também. Anda. A água está ótima.

    Vamos ser apanhadas a mergulhar sem roupa, vamos ser castigadas. Mas, soltando gargalhadas, Hope descalçou os sapatos, despiu os calções e depois a camisa. Pensei que tinhas ido embora.

    Não sejas tonta. Para onde iria?

    Há muito tempo que ando à tua procura. Lentamente, Hope meteu-se na água. Magra como o salgueiro e branca como o mármore. O cabelo espalhou-se-lhe pela superfície, flutuando. Ouro sobre azul. Para todo o sempre.

    A água escureceu, começou a agitar-se. Os ramos graciosos do salgueiro fustigavam como chicotes. E a água ficou fria, subitamente tão fria que Tory começou a tremer.

    Vem aí uma tempestade. É melhor irmos para casa.

    Está por cima da minha cabeça. Não consigo chegar ao fundo. Tens que me ajudar. Hope emergiu por entre as águas revoltas, batendo os braços jovens e magros, lançando cortinas de água que adquiriam o tom lúgubre de um pântano.

    Tory debateu-se freneticamente, mas cada vez que Hope batia os braços ela era afastada mais e mais do sítio onde a menina lutava. A água queimava-lhe os pulmões, arrastou-a. Sentiu-se afundar, sentiu-se afogar-se com a voz de Hope dentro da sua cabeça.

    Tens que vir. Tens que te apressar.

   

    Acordou no escuro, a boca tomada pelo sabor do pântano. Sem ânimo nem energia para voltar a construir o seu muro, Tory levantou-se. No banheiro, passou água ferrugenta pelo rosto e depois ergueu-o pingando até ficar frente ao espelho.

    Uns olhos toldados e ainda vítreos do sonho olharam para ela. Demasiado tarde para voltar atrás, pensou. Era sempre demasiado tarde.

    Pegou na mala e no estojo de viagem que trouxera consigo.

    A escuridão era agora mais suave, e o chocolate e o refrigerante que comprara lá fora, na máquina ruidosa à entrada do quarto, mantiveram-na desperta. Ligou o rádio para se distrair. Não queria pensar em mais nada senão na estrada.

    Quando chegou ao coração do estado, o Sol ia alto e havia muito trânsito. Parou para reabastecer o carro sedento, antes de rumar para leste. Quando passou a estrada que conduzia ao lugar onde os seus pais se tinham reinstalado, sentiu uma cãibra no estômago, que se manteve apertado durante os próximos cinquenta quilometros.

    Pensou na avó, na bagagem que levava na traseira do carro e na que estava a ser expedida para Progress. Pensou no orçamento que tinha para os seis meses seguintes e no trabalho que havia a fazer para ter a sua loja aberta e a funcionar no Memorial Day.[ Dia no final de maio em que são recordados os que morreram ao serviço da nação. (N.T.)]

    Pensou em tudo exceto no verdadeiro motivo que a levava a regressar a Progress.

    Logo a seguir a Florence, voltou a parar e usou o banheiro de um posto da Shell para escovar o cabelo e aplicar alguma maquiagem. O artifício não enganaria a avó, mas pelo menos teria feito um esforço.

    Num impulso, voltou a parar, desta vez numa florista. Os jardins da avó eram sempre um espetáculo, mas a dúzia de tulipas cor-de-rosa era um outro tipo de esforço. Vivia - vivera, recordou a si própria - a apenas duas horas de caminho da avó e desde o Natal que não se dava ao trabalho de fazer a viagem.

    Quando entrou na bonita rua com os seus cornisos e as suas olaias em flor, perguntou-se porquê. Era um local agradável, o tipo de bairro onde as crianças brincavam nos quintais e os cães dormitavam à sombra. O tipo de lugar onde reinava os mexericos, onde as pessoas observavam os carros estranhos e não tiravam os olhos de casa do vizinho, tanto por consideração como por curiosidade.

    A casa de Íris Mooney ficava no meio do quarteirão, irrepreensivelmente cuidada, com as velhas e enormes azáleas a guardar a casa. As flores estavam já a descair um pouco, mas os rosa e os púrpura desbotados acrescentavam uma cor delicada ao azul forte que a avó escolhera para as paredes. Como seria de esperar, o jardim da frente estava viçoso e encantador, com a relva bem aparada em volta da fonte e a pedra bem esfregada.

    Uma pickup onde se lia encanamentos a qualquer hora estava estacionada no caminho, atrás do pequeno carro da avó. Tory estacionou junto à curva. A tensão que ignorara durante o caminho começou a diminuir à medida que ela caminhava em direção à casa.

    Não bateu. Nunca tinha de bater a esta porta, e sempre soubera que ela estaria sempre aberta para recebê-la. Em certas alturas, essa fora a única coisa que a impedira de soçobrar.

    Ficou surpreendida por não ouvir barulho na casa. Eram quase dez horas, pensou, enquanto entrava. Esperava encontrar a avó no jardim, ou de um lado para o outro dentro de casa.

    A sala estava, como sempre, apinhada de mobília, quinquilharias, livros. E, observou Tory, uma jarra com uma dúzia de rosas vermelhas que faziam das suas túlipas fracas relações públicas. Largou a mala de viagem, a bolsa, e depois chamou, na direção do hall.

    - Vó? Está em casa? - Com as flores na mão, encaminhou-se na direção dos quartos e ergueu as sobrancelhas ao ouvir o movimento atrás da porta fechada do quarto da avó.

    - Tory? Potinho de mel, já vou. Vai indo e... serve-te de um chá gelado.

    Encolhendo os ombros, Tory tomou a direção da cozinha, olhando para trás ao ouvir o que lhe pareceu uma gargalhada abafada.

    Pousou as flores no balcão e abriu a geladeira. O jarro com o chá estava à espera, feito como ela mais gostava, com rodelas de limão e folhas de menta. A avó nunca se esquecia de nada, pensou Tory, sentindo lágrimas de sentimento e fadiga incomodarem-lhe os olhos.

    Piscou-os quando ouviu os passos apressados da avó.

    - Meu Deus, vieste cedo! Só te esperava lá para o meio-dia, ou depois! - Pequena, magra e ágil, Íris Mooney entrou na cozinha e abraçou Tory com força.

    - Parti cedo e não parei em lado nenhum em especial. Acordei-a? Não se sente bem?

    - O quê?                                                                

    - Ainda está de robe.

    - Ah, pois. - Após um último abraço, Íris desprendeu-se de Tory. - Estou fresca como a chuva. Deixa-me olhar para ti. Oh, querida, estás esgotada.

    - Só um bocadinho cansada. Mas a avó... Está com um ar maravilhoso.

    Era inegavelmente verdade. Sessenta e sete anos de vida tinham-lhe marcado o rosto, mas não lhe tinham estragado a pele de magnólia nem ensombrado o cinzento profundo dos olhos. O cabelo, que fora ruivo na sua juventude, mantinha-se dessa cor. Como Íris gostava de dizer, se Deus quisesse que as mulheres ficassem grisalhas, não teria inventado Miss Calirol. Íris cuidava do seu aspecto e mimava-se.

    Coisa que, pensou naquele momento, não podia dizer sobre a neta.

    - Senta-te aqui. Vou arranjar-te o pequeno-almoço.

    - Não se incomode, Vó.

    -Já sabes que não ganhas nada em discutir comigo, não sabes? Senta-te. - Apontou para uma cadeira junto à mesinha de apoio. - Ora vejam, tão bonitas! - Pegou nas tulipas, com a satisfação estampada nos olhos. - Não há ninguém mais doce do que tu, minha Tory.

    - Tive saudades suas, Vó. Desculpe não ter vindo visitá-la.

    - Tens a tua vida, e foi isso que eu sempre quis para ti. Agora, descansa, e quando voltares a te sentir bem podes contar-me tudo sobre a tua viagem.

    - Valeu todos os quilômetros. Encontrei umas peças maravilhosas.

    - És como eu, tens bom olho para as coisas bonitas. - Piscou-lhe o olho, virando-se mesmo a tempo de ver a neta ficar de boca aberta quando viu o homem que acabara de entrar na cozinha.

    Era alto como um carvalho, com um peito largo como um Buick. O emaranhado de cabelo grisalho tinha a cor e a textura de palha de aço. Os olhos eram do castanho polido das bolotas e lânguidos como os de um basset hound. O seu rosto de couro estava bronzeado a condizer. Pigarreou de forma exagerada e depois fez um gesto com a cabeça na direcção de Tory.

    - Bom-dia - começou ele, num tom arrastado, característico do interior. - Ah... Miz Mooney, já lhe consertei aquele cano.

    - Cecil, deixa-te de tolices, nem sequer tens a caixa de ferramentas contigo. - Íris pousou uma caixa com ovos. - Não vale a pena corares - disse-lhe ela. - A minha neta não vai desmaiar por saber que a avó tem um namorado. Tory, este é Cecil Axton, a razão para eu não estar vestida às dez da manhã.

    - Íris. - O rubor assolou-lhe o rosto, como fogo a espalhar-se pelo mato. - Prazer em conhecê-la, Tory. A sua avó tem estado desejosa de vê-la.

    - Muito prazer. - disse Tory, à falta de qualquer coisa mais inteligente. Estendeu a mão, e como ainda estava atordoada e os sentimentos de Cecil estavam tão à superfície, teve um ligeiro vislumbre do que fizera a avó rir atrás da porta do quarto.

    Afastou rapidamente a imagem quando os seus olhos encontraram os de Cecil, num desconforto mútuo.

    - É... É encanador, Mister Axton?

    - Veio consertar-me o aquecedor - interrompeu Íris -, e desde essa altura que me tem mantido quente.

   

    - Íris! - Cecil baixou a cabeça, encolheu os ombros montanhosos, mas não conseguiu esconder o sorriso. - Tenho que ir andando. Espero que goste da visita, Tory.

    - Nem penses que te escapas sem me dares um beijo de até logo. - Para resolver o assunto, Íris aproximou-se dele, pegou com ambas as mãos no rosto marcado pelo tempo para baixá-lo ao nível do dela, e beijou-o firmemente na boca. - Ora aí tens: não houve relâmpagos nem trovões, e esta criança não teve um colapso com o choque. - Voltou a beijá-lo e depois fez-lhe uma festa na bochecha. - Vai lá, lindo, e tem um bom dia.

    - Vou ter. Ahn... Volto logo mais.

    - É bom que voltes. Foi o que decidimos, Cecil. Agora, pira-te. Vou conversar com a Tory.

    - Vou andando. - Com um sorriso hesitante, virou-se para Tory. - Discutir com esta mulher só nos dá dor de cabeça. - Pegou num boné azul desbotado que estava pendurado no cabide da cozinha, pô-lo sobre o seu cabelo de arame e apressou-se a sair.

    - Não é um amor? Tenho aqui um belo bacon. Como queres os teus ovos?

    - Com bolachas de chocolate, Vó. - Tory soltou um suspiro cauteloso e levantou-se. - Não tenho absolutamente nada a ver com isso, mas...

    - Claro que não tens nada a ver com isso, a não ser que eu te convide a ter, coisa que fiz. - Íris pôs o bacon na velha caçarola em cima do tripé, e deixou-o lá ficar até estalar. - Vou ficar muito desapontada contigo, Tory, se estiveres chocada e estarrecida com a idéia de a tua avó ter uma vida sexual.

    Tory estremeceu, mas conseguiu manter a compostura no rosto quando Íris se virou para ela.

    - Não estou chocada, nem estarrecida, mas é claro que estou um pouco desconcertada. A idéia de aparecer aqui esta manhã e quase dar consigo...

    - Bem, chegaste cedo, docinho. Vou fritar estes ovos, e vamos ambas refestelar-nos com um belo pequeno-almoço cheio de gordura, a meio da manhã.

    - Parece que não lhe falta apetite.

    Íris pestanejou e depois virou a cabeça e riu.

    - Ora aí está a minha menina. Quando não sorris, fico preocupada contigo, ameixinha.

    - Que razões tenho eu para sorrir? A avó é que anda a ter sexo.

    Divertida, Íris coçou a cabeça.

    - E de quem é a culpa?

    - Sua. A avó viu o Cecil primeiro. - Tory tirou dois copos do armário e serviu o chá. Quantas mulheres, pensou, podiam gabar-se de ter uma avó que tinha encontros escaldantes com o encanador? Não sabia se havia de sentir-se orgulhosa ou divertida, e decidiu que a combinação de ambas as coisas se adequava à situação. - Parece ser um bom homem.

    - E é. Melhor: é um homem muito bom. - Com o garfo, Íris começou a brincar com o bacon e decidiu pôr tudo em pratos limpos. - Tory, ele vive aqui.

    - Vive? A avó vive com ele?

    - Ele quer casar, mas não sei bem se é isso que quero. Por isso, estou a fazer o que poderia ser chamado um teste.

    - Acho que afinal me vou sentar. Meu Deus, Vó. Disse à mãe?

    - Não, e não tenho intenção de dizer, porque passo bem sem um sermão sobre viver em pecado e perdição e sobre os planos de Deus Todo-Poderoso. A tua mãe é uma seca maior do que as estações de serviço em self-service. Não percebo como uma filha minha conseguiu tornar-se num rato e não numa mulher.

    - Sobrevivência - murmurou Tory, mas Íris limitou-se a dizer em tom ríspido:

    - Teria sobrevivido mais que bem se tivesse deixado o filho da mãe com quem casou, num dia qualquer de há vinte e cinco anos para cá. A escolha foi dela, Tory. Se tivesse iniciativa, a escolha teria sido diferente. A tua foi.      

    - Foi? Não sei que escolhas fiz, nem as que foram feitas por mim. Não sei quais foram certas e quais foram erradas. E aqui estou eu, Vó, de regresso ao ponto de partida. Digo a mim própria que agora quem manda sou eu. Que tudo depende da minha decisão. Mas no fundo sei que não consigo parar.

    - E queres parar?

    - Não sei a resposta.

    - Então, vais continuar à procura dela. Tens uma luz muito forte dentro de ti, Tory. Hás-de encontrar o teu caminho.

    - A avó sempre disse isso. Mas, acima de tudo, aquilo que sempre me assustou foi sentir-me perdida.

    - Devia ter-te ajudado mais. Devia ter estado ao teu lado.

    - Vó. - Tory levantou-se e atravessou a cozinha para lançar os braços à volta da cintura de Íris, para unir o seu rosto ao dela, enquanto o bacon estalava e frigia. - Sempre foi o único alicerce da minha vida. Não estaria aqui se não fosse a avó.

    - Claro que estarias. - Íris fez uma festa na mão de Tory, e depois, bruscamente, tirou o bacon da frigideira e pô-lo a escorrer. - És mais forte do que todos nós juntos. E, se queres saber, acho que era isso que assustava Hannibal Bodeen. Quis quebrar-te porque tinha medo de ti. Filho da mãe ignorante. - Partiu um ovo na borda da frigideira e deixou-o escorregar sobre a gordura borbulhante. - Faz umas torradas para nós, docinho.

    - Ela não é nada como a avó. A mãe - disse Tory, enquanto punha o pão na torradeira. - Não é nada parecida consigo.

    - Não sei com quem se parece a Sarabeth. Perdi-a, há muitos anos. Na mesma altura em que perdi o teu avô, acho eu. Ela tinha apenas doze anos quando ele morreu. Raios, eu própria tinha pouco mais de trinta, e dei por mim viúva, com dois filhos para criar sozinha. Foi o pior ano da minha vida. Nenhum outro se lhe assemelhou, nem de perto nem de longe. Meu Deus, eu amava aquele homem.

    Soltou um suspiro e serviu os ovos nos pratos.

    - Ele era o meu mundo, o meu Jimmy. Num minuto, o mundo estava firme, e no minuto seguinte tinha-se desmoronado. E a Sarabeth com doze anos e o J.R. tinha acabado de fazer dezesseis. Ela despejou a raiva toda em cima de mim. Talvez devesse ter encurtado as rédeas dela. Deus sabe que era o que eu devia ter feito.

    - Não tem por que culpar-se a si própria.

    - Não culpo. Mas quando olhamos para trás vemos certas coisas. Vemos que quando uma coisa é feita de forma diferente é a vida inteira que muda. Se eu tivesse saído de Progress naquela altura, se tivesse usado o dinheiro do seguro do Jimmy em vez de ter arranjado emprego no banco. Se não me tivesse dedicado a poupar todos os tostões para os meus filhos poderem ir para a universidade.

    - Queria o melhor para eles.

    - Queria, sim. - Íris pousou os pratos na mesa e virou-se para tirar doce e manteiga da geladeira. - O J.R. foi para a universidade e soube usar o curso que fez. A Sarabeth arranjou Hannibal Bodeen. Era assim que estava destinado. E é por isso que eu e a minha neta vamos sentar aqui e comer uns ataques de coração.[referência ao excesso de gordura] Se pudesse voltar atrás e mudar alguma coisa, não mudaria. Porque assim não te teria.                                                          

    - Eu vou voltar, Vó, e sei que não posso mudar nada. - Tory pousou a torrada num prato pequeno e levou-o até à mesa. - Assusta-me, precisar tanto assim de voltar. Já não conheço aquelas pessoas. Tenho medo de não conhecer a mim própria quando lá chegar.

    - Não vais descansar enquanto não fizeres isto, Tory. Não vais conseguir libertar-te enquanto não puseres um ponto final no assunto. Tens regressado continuamente a Progress desde que saíste de lá.

    - Eu sei. - E ter alguém que compreendesse isso ajudava. Sorrindo um pouco, Tory serviu-se de uma fatia de bacon. - Fale-me então do seu encanador.

    - Ah, aquela doçura. - Deliciada com o assunto, Íris atirou-se ao pequeno-almoço. - Parece um urso grande e velho, não parece? Olhando para ele nem se percebe como ele é inteligente. Fundou a empresa, que é dele, há mais de quarenta anos. Perdeu a mulher, que conheci vagamente, há cerca de cinco anos. Está quase aposentado. Dois dos filhos praticamente tomam conta de todo o negócio. Tem seis netos.

    - Seis?

    - Sim,  é verdade.  Um até é médico.  Um jovem muito bem-parecido. Estava a pensar...

    - Não diga mais nada. - De olhos semicerrados, Tory espalhou doce na torrada. - Não estou interessada.

    - Como sabes? Nem sequer conheces o rapaz.

    - Não estou interessada em rapazes. Nem em homens.

    - Tory, não te envolveste com um homem desde...

    - O Jack - concluiu Tory. - É isso mesmo, e não tenciono voltar a envolver-me. Uma vez chegou. - Como o assunto ainda lhe deixava um travo amargo na boca, pegou no chá. - Nem toda a gente é feita para viver a dois, Vó. Sou feliz sozinha.

    Perante o erguer de sobrancelhas de Íris, Tory encolheu os ombros.

    - Pronto, está bem, digamos que tenciono ser feliz sozinha. Vou esforçar-me para isso.

   

    Passara demasiado tempo, pensou Tory, desde a última vez que se sentara num balanço, num alpendre, a observar as estrelas e a ouvir o cantar dos grilos. Muito tempo desde que se sentira suficientemente descontraída para não fazer nada senão ficar sentada a cheirar a brisa.

    No momento em que pensou isto apercebeu-se de que era provável que passasse muito tempo até voltar a sentir-se assim.

    Amanhã faria os últimos quilômetros até Progress. Ali, apanharia os cacos da sua vida e, finalmente, deixaria uma amiga morta descansar.

    Mas esta noite era de brisas suaves e pensamentos tranqüilos.

    Olhou para cima, ao ouvír o chiar da porta de tela, e ofereceu um sorriso a Cecil. A avó tinha razão, concluiu. Parecia mesmo um urso velho e grande. E, naquele momento. Muito nervoso também.

    - A Íris pôs-me fora da cozinha. - Tinha uma garrafa de cerveja, castanho-escura, na mão e apoiava-se nervosamente ora num pé ora noutro, dentro das suas botas número 44. - Disse-me para vir até cá fora, sentar-me um bocado e fazer-te companhia.

    - Quer que sejamos amigos. Porque não se senta um bocado? Gostaria da companhia.

    - Parece um bocado esquisito. - Sentou a sua enorme massa corporal no balanço e lançou a Tory um olhar pelo canto do olho. - Sei bem o que vocês, jovens, pensam. Um velho pato-marreco como eu a cortejar uma mulher como Íris.

    Ainda cheirava ao sabonete Lava que usara para se lavar antes do jantar. Sabonete Lava e cerveja Coors. Era uma agradável combinação masculina.

    - A sua família não aprova?

    - Bem, agora já não se importam. A Íris conquistou os meus rapazes. É aquela maneira de ser dela. Um dos filhos, o Jerry, ficou um bocado abespinhado, mas ela deu-lhe a volta. Só que...

    Deteve-se e pigarreou duas vezes. Tory cruzou as mãos e mordeu um sorriso que se preparava para surgir, enquanto ele se lançava naquilo que era, sem dúvida, um discurso preparado.

    - És terrivelmente importante para ela, Tory. Acho que és a coisa mais importante que existe, para a Íris. Tem orgulho em ti e preocupa-se contigo, e fala de ti sempre com muito orgulho. Sei que há uma divergência entre ela e a tua mãe. Acho que pode dizer-se que isso te torna ainda mais especial para ela.

    - O sentimento é mútuo.

    - Eu sei. Pude ver isso ao jantar. Só que... - voltou ele a dizer, e depois pegou na cerveja e bebeu-a em tragos profundos. - Ora, raios! Eu a amo. - Soltou as palavras impulsivamente e o rubor assomou-lhe às faces. - Acho que isto te parece tonto, vindo de um homem que já passa dos sessenta e cinco, mas...

    - E porque haveria de parecer? - Não se sentia confortável a tocar casualmente em quem não conhecia bem, mas ele parecia estar a precisar e ela pousou-lhe a mão no joelho. - E o que tem a idade a ver com isto? A avó gosta de si. Isso me basta.

    O alívio tomou conta dele. Tory conseguiu ouvir isso no suspiro que ele soltou.

    - Nunca pensei voltar a sentir este tipo de coisas. Fui casado durante quarenta e seis anos, com uma mulher maravilhosa. Crescemos juntos,  criamos uma família juntos,  iniciamos um negócio juntos. Quando a perdi, achei que era o fim dessa parte da minha vida. Depois, conheci a Íris e, Jesus Cristo!, ela fez-me voltar a ter vinte anos.

    - A ela, põe-lhe estrelas nos olhos.

    Ele corou mais ao ouvir isso, mas os lábios contorceram-se-lhe num sorriso tímido e deliciado.

    - Verdade? Tenho mãos jeitosas. - Ao ouvir o resfolegar do riso incontrolável de Tory, abriu desmesuradamente os olhos. - Quero dizer, tenho jeito para consertar coisas cá em casa.. Coisas estragadas.

    - Eu sei o que quis dizer.

    - E a Stella, que era a minha mulher, acho que pode se dizer que me treinou bem. Não passo com as botas cheias de lama num chão lavado, nem atiro as toalhas sujas para o chão. Sei cozinhar qualquer coisa, se não se for muito exigente, e tenho uma vida decente.

    A avó tinha razão, pensou Tory. O homem era um doce.

    - Cecil, está pedindo a minha bênção? Ele soltou o ar num sopro.

    - Tenciono casar com ela. Ela não quer ouvir falar nisso agora. É uma mula teimosa, aquela mulher. Mas eu também tenho a cabeça dura. Só queria que soubesses que não quero aproveitar-me dela, que as minhas intenções...

    - São respeitáveis - concluiu Tory, maravilhosamente comovida. - Estou a torcer por si.

    - Verdade? - Voltou a recostar-se, fazendo o balanço gemer. - Isso é um alívio para mim, Tory. É mesmo um alívio. Deus Todo-Poderoso, ainda bem que acabou. - Abanando a cabeça, bebeu mais cerveja. - Fico com a língua toda entaramelada.

    - Saiu-se muito bem. Cecil, faça-a feliz.

    - É essa a minha intenção. - Outra vez à vontade, pousou o braço nas costas do balanço e ficou a observar o jardim de Íris. - Está uma bela noite.

    - Sim, está uma bela noite.

    Dormiu profundamente e sem sonhos, na casa da avó.

   

    - Gostava que ficasses mais um dia ou dois.

    - Tenho de ir-me embora.

    Íris acenou com a cabeça, tentando conter a emoção enquanto Tory levava a mala até ao carro.

    - Telefona, depois de estares instalada.

    - Claro que telefono.

    - E vai logo ter com o J.R., para ele e o Boots poderem ajudar-te.

    - Vou sim, e também vou ver a Tia Boots e o Wade. - Beijou a avó em ambas as faces. - Agora, não te preocupes.

    - Só que já estou com saudades. Dá-me as tuas mãos. - Como Tory hesitasse, Íris pegou simplesmente nelas. - Tem paciência comigo, pote de mel. - Apertou-lhe as mãos firmemente e os olhos enevoaram-se-lhe um pouco quando olhou para ela.

    Ela não tinha o esplendor de luz com que a neta fora dotada. Via cores e formas. O cinzento-fumo da preocupação, o rosa-luminoso do entusiasmo, o azul-baço da dor. Tudo atravessado pelo vermelho-escuro e profundo do amor.

    - Vais ficar bem. - Íris apertou-lhe as mãos uma última vez. - Estarei aqui, se precisares de mim.

    - Sempre soube isso. - Tory meteu-se no carro e respirou fundo. - Não lhes diga onde estou, Vó.

    Íris abanou a cabeça, sabendo que Tory se referia aos pais.

    - Não digo.

    - Adoro-a. - Manteve os olhos fixos em frente, enquanto arrancava.

   

    Os campos começaram a passar pelo carro, ondulando suavemente, cobertos pelo verde suave do que cresce na terra. Reconheceu as culturas. Soja, tabaco, algodão; as hastes delicadas cobriam o solo castanho.

    Tivera saudades dos campos cultivados.

    A terra nunca exercera em relação a ela o apelo que exercia sobre outros. Gostava de fazer umas coisas leves no jardim, de vez em quando, mas não tinha qualquer necessidade imperiosa de sentir a terra nas mãos, de semear e de colher, de armazenar o que colhera.

    Ainda assim, apreciava o ciclo, a continuidade. Gostava do aspecto dos campos. Os campos bem cuidados que os homens lavravam e alimentavam passavam lado a lado com a opulência dos carvalhos misturados com o musgo, o sumagre presente em toda a parte, os veios de água escura que nunca poderiam ser, nunca seriam verdadeiramente domados.

    O cheiro era forte e escuro como eles. Fertilizante e água do pântano. Mais como o perfume do Sul do que o de magnólia, pensou. Afinal, era ali o coração do Sul. Para lá dos jardins formais e dos relvados profusos, o Sul era feito de colheitas e suor e das sombras secretas dos seus rios.

    Tomara estradas secundárias por causa da solidão, e cada quilômetro aproximava-a mais desse coração.

    Na zona a oeste de Progress algumas das fazendas e dos campos tinham dado lugar a casas. Empreendimentos bem acabados, com jardins verdes e rega automática. Havia sedans último modelo e mini-vans nas entradas, e passeios largos e iguais. Aqui estavam os jovens casais, refletiu, na sua maioria com dois ordenados, que queriam uma casa simpática nos subúrbios para criarem uma família.

    Eram estes os seus clientes-alvo e a principal razão para conseguir justificar a sua mudança. Os proprietários de uma casa, com sucesso e rendimentos disponíveis, gostavam de decorar o seu espaço. Com a publicidade adequada e cartazes inteligentes, conseguiria chamá-los à sua loja.

    E eles iriam comprar.                    

   

    Haveria alguém a viver bem naquelas casas tranquilas que ela tivesse conhecido quando era criança? E que se recordasse da rapariguinha magra que chegava à escola cheia de nódoas negras? Recordar-se-iam de que por vezes ela sabia coisas que não era suposto saber?

    A memória era curta, lembrou Tory a si própria. E, mesmo que alguém se recordasse, havia de encontrar uma maneira de usar isso para promover a sua loja.

    As casas acotovelavam-se mais à medida que se aproximava dos limites da cidade, como se ansiassem por companhia. Entrou-lhe pela mente, num flash, uma imagem do extremo oposto, onde o serpentear mais estreito do rio marcava a fronteira de Progress. Na sua juventude, as casas que escorriam suavemente em direção ao vale eram pequenas e escuras, com telhados que deixavam passar a água e carrinhos de mão ferrugentos, quase sempre em cima de blocos de cinza amassada. Um lugar onde os cães rosnavam e puxavam furiosamente pelas suas correntes. Onde as mulheres estendiam roupa encardida, enquanto as crianças se sentavam em tufos de erva, quase sempre suja.

    Alguns dos homens cultivavam a terra para terem que comer, e alguns viviam apenas de cerveja e hidromel. Quando criança estivera a um passo trêmulo desse destino. E quando criança receara perder o equilíbrio e afundar-se no vale onde o pão era servido com o suor da exaustão.

    Começou por avistar o campanário da igreja. A cidade ostentava quatro, ou ostentara. Mesmo assim, quase toda a gente que ela conhecia pertencia à Igreja Batista. Sentara-se, durante horas infindáveis, num dos bancos duros, a ouvir, a ouvir o sermão desesperadamente, porque o pai ia fazer-lhe perguntas sobre ele, à noite, antes do jantar.

    Se ela não respondesse bem, o castigo era duro e rápido.

    Havia oito anos que não entrava em qualquer tipo de igreja.

    Não penses nisso, ordenou a si própria. Pensa no agora. Mas o agora, como o via, parecia-se muito com o dantes. Pareceu-lhe que muito pouco mudara dentro dos limites de Progress.

    Deliberadamente, virou para Lake Oak Drive, para passar pela zona residencial mais antiga da cidade. As casas eram grandes e graciosas, as árvores antigas e de folhagem abundante. O tio mudara-se para aqui alguns anos antes de ela ter saído de Progress. Com o dinheiro da mulher, dissera o pai com azedume.

    Tory não tinha autorização para ir ali de visita, e mesmo agora sentia uma pontada de pânico e de culpa, só de passar pela velha casa de tijolo, branca e encantadora, com os seus arbustos floridos e as suas janelas resplandecentes.

    O tio devia estar a trabalhar, a gerir o banco como fizera praticamente desde sempre, segundo ela se recordava. E embora tivesse um grande afeto pela tia, Tory não estava com disposição para o aperto de mãos sacudido nem para a voz sussurrante de Boots Mooney.

    Serpenteou pelas ruas, passou por casas mais pequenas e por um pequeno complexo de apartamentos que não existia dezesseis anos antes. Ergueu as sobrancelhas ao deparar em uma esquina com uma loja de conveniência, com os seus vermelhos e amarelos brilhantes, que substituíra o velho drive-in de Progress.

    O liceu fora aumentado, e havia um pequeno parque, muito agradável, logo a seguir à praça, no lugar onde outrora existira uma fila de casas geminadas a cair aos pedaços. Havia árvores novas plantadas entre os velhos troncos, e flores graciosas que se entornavam de vasos de cimento.

    Parecia tudo mais bonito, mais limpo, mais fresco do que ela se recordava. Perguntou-se até que ponto estaria tudo na mesma sob aquela nova capa de verniz.

    Quando virou para a Market, ficou ridiculamente satisfeita por ver que o Hanson's ainda estava de pé, ainda ostentava o mesmo letreiro carcomido, e a sua vitrine continuava semeada de folhetos e letreiros.

    O gosto doce da infância de Grape Nehi encheu-lhe de imediato a boca, a garganta, e fê-la sorrir.

    O salão de beleza mudara de proprietários, observou. A Lou's Beauty Shop se chamava agora Hair Today. Mas o restaurante de Market Street permanecia onde sempre estivera, e pareceu-lhe que os mesmos homens velhos, com os mesmos sobretudos, se reuniam à porta para mexericar.

    A meio do quarteirão, metido entre a Rollins Paint and Hardware e a Flower Basket estava a velha loja de tecidos. Aquela, pensou Tory enquanto estacionava junto à curva, ia ser a sua mudança.

    Saiu do carro para o calor espesso do meio-dia. O exterior do edifício estava exatamente como ela se lembrava. Os velhos tijolos cozidos mantinham-se unidos entre si pela argamassa cinzenta como fumo. A vitrine era alta e larga e estava coberta de pó e sujidade da rua. Mas ela iria tratar disso.                    

    A porta também era de vidro, que estava quebrado. O senhorio, decidiu enquanto pegava no seu bloco-notas, trataria disso.

   

    Iria pôr um banco à porta, o banco estreito com as costas em ferro forjado, que despachara. E, ao lado do banco, vasos cheios de petúnias púrpura e brancas. Flores simpáticas.

    Na vitrine, por cima do banco, mandaria gravar o nome da loja. CONFORTO DO SUL

    Seria isso que ofereceria à sua clientela. Ambientes confortáveis, onde os artigos estariam expostos com estilo e com o preço discretamente marcado na etiqueta.

    Em pensamento já estava no interior da loja, a encher prateleiras, a dispor mesas e candeeiros. Só ouviu chamarem-na pelo nome quando alguém a arrebatou do chão.

    O sangue subiu-lhe à cabeça, ressoando nela enquanto a sua pulsação subia até ao nível de pânico.

    - Tory! Vi logo que eras tu! Tenho andado de olho na tua chegada, nestes últimos dias.

    - Wade. - O nome dele saiu numa espécie de silvo.

    - Assustei-te. - Imediatamente constrangido, voltou a pousá-la no chão. - Desculpa. Estou tão contente por ver-te!

    - Deixa-me recuperar o fôlego.

    - Recupera, enquanto eu olho para ti. Raios, passaram mesmo dois anos? Estás com um ar maravilhoso.

    - Estou? - Era agradável ouvir isso, embora não acreditasse nem por um instante no que ouvia. Puxou o cabelo para trás, enquanto a pulsação se recompunha.  

    Embora ele não chegasse a ter um metro e oitenta, ela teve de inclinar a cabeça para trás para lhe observar o rosto. Sempre fora bonito, recordou, mas imaginou que ele estivesse aliviado por o tempo ter passado um pouco pelo rosto angelical da sua juventude. Os olhos dele eram de um chocolate profundo e tranquilo. O rosto tinha agora traços mais acentuados do que na juventude, mas continuava a ter covinhas nas faces. O cabelo, um pouco mais claro do que o dela, estava bem aparado, para contrariar a tendência para encaracolar.

    Trazia vestidas umas calças de brim e uma camisa simples de algodão, de um azul-desbotado. Enquanto ela o estudava, os lábios dele curvaram-se subitamente.

    Tinha um ar jovem, bonito e tranquilamente próspero, decidiu ela.

    - Se eu estou com um ar maravilhoso, não tenho palavras para descrever o teu. Reuniste tudo o que há de bonito na família, primo Wade.

    Ele esboçou um sorriso ao ouvir aquilo, rápido e arrapazado, mas resistiu a voltar a abraçá-la. Sabia que Tory sempre fora avessa a abraços e festas. Limitou-se a passar-lhe brevemente a mão pelo cabelo.

    - Ainda bem que voltaste.

    - Não podia ter arranjado melhor comissão de boas-vindas. - Fez um gesto largo. - A cidade está com bom ar. Igual, em muitos aspectos, mas melhor. Mais alinhada, acho eu.

    - É o progresso em Progress - disse ele. - Devemos muito disto aos Lavelle, à câmara municipal e, em particular, ao presidente dos últimos cinco anos. Lembras-te do Dwight? Dwight Frazier?

    - Dwight, o Marrão, um dos Três Magníficos, formados por ti, por ele e pelo Cade Lavelle.

    - O Marrão saiu-se bem no liceu, tornou-se uma estrela do atletismo, nas corridas, casou com a rainha do curso, meteu-se no negócio de construção do pai e ajudou a transformar Progress. Hoje, somos todos cidadãos de caráter.

    Ao ver-se ali, com o trânsito a passar na rua atrás dele, a ouvir o ritmo familiar da sua voz, ocorreu-lhe por que motivo ele fora sempre objeto do seu afeto.

    - Tens saudades da confusão, não tens, Wade?

    - Um bocado. Ouve, tenho uma consulta a seguir. Tenho de convencer um dinamarquês enorme, chamado Igor, de que precisa de uma vacina contra a raiva.

    - Antes tu do que eu, doutor Mooney.

    - O meu consultório fica do outro lado da rua, no final do quarteirão. Vem comigo e ofereço-te um chá gelado.

    - Gostava muito, mas preciso de passar pela imobiliária, para ver o que têm para mim. - Notou o brilho nos olhos dele e inclinou a cabeça. - Que foi?

    - Não sei o que achas disso, mas a tua antiga casa está vaga.

    - A casa? - Instintivamente, cruzou os braços e agarrou os cotovelos. O destino, pensou, tinha um braço tão comprido e tão traiçoeiro. - Também não sei o que acho disso. Acho que devia descobrir.

    Numa cidade com menos de seis mil habitantes era difícil andar dois quarteirões sem dar com alguém conhecido. Não importava se se tinha estado fora dezesseis anos ou setenta. Quando entrou no escritório da imobiliária viu apenas uma pessoa sentada à escrivaninha.

    A mulher era bonita, pequena e bem tratada. O cabelo comprido e louro estava preso atrás, afastado de um rosto em forma de coração, dominado por olhos grandes, azul-bebê.

    - Tarde. - A mulher pestanejou e largou um romance em edição de bolso, com um pirata de peito nu no meio da capa. - Posso ajudá-la?

    Tory vislumbrou uma imagem rápida do recreio na escola primária de Progress. Um grupo de meninas a gritar, amedrontadas e ofendidas, e a fugir. E o olhar complacente, satisfeito, nos olhos grandes e azuis da líder, que lançava um sorriso de escárnio por cima do ombro, enquanto o seu longo cabelo louro voava atrás dela.

    - Lissy Harlowe.

    Lissy inclinou a cabeça.

    - Conheço-a? Bem, peço desculpa, não... - Os olhos azuis abriram-se mais. - Tory? Tory Bodeen? Por amor de Deus! - Deu um gritinho agudo e pôs-se de pé, de um salto. Parecia estar grávida de uns seis meses, a avaliar pelo volume sob a camisa rosa-pálido. - O pai disse que chegavas esta semana.

    Apesar do passo automático que Tory deu atrás, Lissy apressou-se a dar a volta à escrivaninha para abraçar aquela que parecia ser uma amiga querida, que não via há muito.

    - Isto é tão excitante. - Recuou um pouco, irradiando alegria e boas-vindas. - Tory Bodeen regressa a Progress, passado todo este tempo. E estás muito bonita.

    - Obrigada. - Tory viu os olhos de Lissy avaliarem, medirem e depois luzirem de satisfação. Não havia dúvida sobre quem se tinha saído melhor. - Estás na mesma. Mas sempre foste a rapariga mais bonita de Progress.

    - Ora, que tontice. - Lissy agitou a mão, mas não conseguiu deixar de sentir-se um pouco lisonjeada. - Agora, senta-te e deixa-me ir buscar-te uma bebida fresca.

    - Não, não te incomodes. Eu estou bem. O teu pai conseguiu o contrato de arrendamento?

    - Acho que ele disse que sim. Toda a cidade fala na tua loja. Estou ansiosa pela abertura. Não se encontram coisas bonitas em Progress. - Voltou a sentar-se à escrivaninha, enquanto falava. - E Deus sabe que não se pode ir a Charleston sempre que se quer alguma coisa com um pouco de estilo.

    - É bom saber isso. - Tory sentou-se e encontrou ao nível dos olhos a placa que identificava Lissy Frazier. - Frazier? Dwight? Casaste com o Dwight?

    - Cinco anos felizes. Temos um filho. O meu Luke é uma coisinha fofa. - Pegou numa fotografia emoldurada, para mostrar um garoto de olhos vivos e de cabelos louros esbranquiçados. - E estamos à espera de um irmãozinho ou de uma irmãzinha para o final do Verão.

    Acariciou com satisfação a sua barriga proeminente e mexeu os dedos de modo a que a aliança e o anel de noivado refletissem a luz e os diamantes disparassem fogo.

    - Tu não casaste, querida?

    Havia veneno suficiente na pergunta para Tory saber que Lissy ainda gostava de ser a melhor.

    - Não.

    - Admiro as mulheres que apostam na carreira, tanto que nem tenho palavras. São todas tão corajosas e inteligentes! Deixam envergonhadas a todas nós que não saímos de casa. - Quando Tory ergueu uma sobrancelha, olhando para a escrivaninha e a placa com o nome, Lissy riu e voltou a agitar a mão. - Oh, só venho algumas vezes por semana, para ajudar o papai. Quando o bebé nascer, sei que não vou ter tempo nem energia.

    E iria, pensou Lissy, enlouquecer rápida e não muito calmamente em casa, com dois filhos. Mas lidaria com isso, e com Dwight, quando chegasse a altura.

    - Agora, conta-me tudo o que tens feito.

    - Gostava muito de conversar, Lissy. - Se me puxasses a língua e ma enrolasses à volta do pescoço. - Mas preciso de instalar-me.

    - Oh, que tonta sou. Deves estar exausta e pronta para te deixares cair num sofá. - O sorriso forçado disse a Tory que se não estava com ar disso, Lissy pensava certamente que sim. - Havemos de ter uma bela conversa para pôr a escrita em dia, quando descansares.

    - Mal posso esperar. - Lembra-te, disse Tory a si própria, este é exatamente o tipo de cliente de que precisas. - Encontrei o Wade, há uns minutos. Disse que a casa, a minha antiga casa, deve estar para alugar.

    - É claro que está! Os caseiros dos Lavelle mudaram-se há umas semanas. Mas, querida, não queres viver ali, pois não? Temos uns bons apartamentos aqui, na cidade. River Terrace tem tudo o que uma moça solteira pode desejar, incluindo homens solteiros - acrescentou ela, com uma piscadela de olho matreira. - Equipamentos modernos, alcacarpetados. Temos um com jardim, que é um encanto.

    - Não estou interessada num apartamento. Gostava de ficar no campo. Quanto é o aluguel?

   

    - Vou ver. - Ela sabia, claro. A mente de Lissy era muito mais afiada do que as pessoas pensavam. Mudou a posição da cadeira e brincou um pouco com o teclado do computador. - Juro que nunca hei de entender como estas coisas funcionam. Sabes que são dois quartos e um banheiro.

    - Sim, sei.

    Procurando na tela, Lissy anotou rapidamente o aluguel mensal.

    - Fica a uns bons quinze, vinte minutos da cidade, de carro. Aquele apartamento amoroso de que estava a falar-te não fica a mais de dez minutos a pé, num dia bonito.

    - Fico com a casa.

    Lissy olhou para cima e pestanejou.

    - Ficas? Não queres passar por lá e veres como está, primeiro?

    - Já vi. Vou passar um cheque. O aluguel do primeiro e do último mês?

    - Sim. - Lissy encolheu os ombros. - Vou imprimir o contrato de aluguel.

    Menos de trinta segundos depois de Tory ter assinado o contrato e saído com a chave na mão, já Lissy estava ao telefone, a espalhar a novidade.

    Também isto tinha mudado. A casa estava como sempre estivera, um pouco recuada em relação a um carreiro estreito e lamacento e a pouca distância do pântano. Os campos estendiam-se a oeste, com os tenros rebentos de algodão já a sair da terra, como filas de crianças dóceis. Mas alguém plantara azáleas rosa e brancas e uma jovem magnólia perto da janela do quarto.

    Lembrava-se de os caixilhos terem ficado ferrugentos e a pintura branca se ter tornado cinzenta. Mas alguém cuidara de tudo. As janelas reluziam e a tinta era de um azul fresco e suave. Fora acrescentado um alpendre, suficientemente grande para a cadeira de balanço que estava junto à porta.

    Era quase acolhedora.

    O pulso acelerou-se-lhe enquanto ela se aproximava. Haveria fantasmas, mas fora pelos fantasmas que ela regressara. Não seria melhor enfrentá-los a todos?

    As chaves tiniram-lhe na mão.

    A porta de tela rangeu. Disse a si própria que era um som acolhedor. Uma porta de tela acolhedora devia ranger, e devia bater.

    Mantendo-a aberta com o braço, meteu a chave na fechadura e deu-lhe uma volta. Respirou fundo antes de entrar.

   

    Viu o sofá coçado, com as suas rosas desbotadas, o velho televisor, o tapete carcomido. Paredes amarelas, monótonas, sem quadros a alegrar o espaço. O cheiro a vegetais demasiado cozidos e a Lysol.

    Tory! Vem cá e vai lavar-te imediatamente. Não te disse que queria esta mesa posta para o jantar antes de o teu pai chegar a casa?

    Depois, a imagem desvaneceu-se e ela encontrou-se num quarto vazio. As paredes estavam pintadas de creme, uma cor simples mas prática. O chão estava nu, mas limpo. O ar transportava um vago aroma a tinta e a verniz, mais funcional do que ofensivo.

    Vagueou pela cozinha. As bancadas tinham sido substituídas por umas de pedra cinzenta, neutra, e os armários estavam pintados de branco. O fogão era novo - ou mais novo do que aquele diante do qual a mãe suara. A janela por cima do lava-louça dava para o pântano, como sempre dera. Luxuriante e verde e secreto.

    Ganhando coragem, virou-se e encaminhou-se para o seu antigo quarto.

    Fora assim sempre tão pequeno?, perguntou-se. Quase não dava para albergar um gato, embora tivesse sido suficientemente grande para ela. A cama estava perto da janela. Tinha uma pequena cômoda, cujas gavetas inchavam e ficavam emperradas todos os verões. Escondia livros na de baixo, pois o pai não aprovava que ela lesse alguma coisa que não fosse a Bíblia.

    Havia recordações boas misturadas com más, neste quarto. De ler à noite, no quarto, em segredo, de sonhar sonhos privados, de planejar aventuras com Hope.

    E, claro, das surras.

    Ninguém voltaria a pôr-lhe as mãos em cima, nunca mais.

    Daria um escritório agradável, decidiu. Uma escrivaninha, um arquivo, talvez uma cadeira de leitura e um candeeiro. Servia.

    Dormiria no antigo quarto dos pais. Sim, dormiria ali e o transformaria no seu quarto.

    Fez menção de sair, mas não conseguiu resistir. Mansamente, abriu a porta do armário. Ali, o fantasma de si própria estava enrolado no escuro, o rosto cheio de lágrimas. Chorara as lágrimas de uma vida inteira antes de fazer oito anos.

    Acocorando-se, passou os dedos pelo rodapé, e os dedos tremeram-lhe ao sentir o ligeiro relevo. Com os olhos fechados, leu as cartas com as pontas dos dedos, como um cego que lê Braille.

    SOU A TORY

    - É verdade. É verdade. Sou a Tory. Ninguém pode tirar-me isso, nem à pancada. Sou a Tory. E estou de volta.

   

    Pôs-se de pé, pouco firme. Ar, pensou. Precisava de ar. Nunca havia ar no armário, nem luz. As palmas das mãos começaram a transpirar-lhe, enquanto ela recuava.

    Virou-se, preparando-se para sair do quarto a correr, para fugir da casa. Mas uma sombra furtiva aproximou-se, do lado de lá da porta de tela. O sol da tarde incidia sobre ela, vindo de trás, desenhando a forma de um homem.

    Quando a porta se abriu e rangeu, ela voltou a ter oito anos. Sozinha, indefesa. Aterrorizada.

    A sombra disse o nome dela. Por extenso, Victoria, derramado como um néctar saído de uma garrafa aquecida.

    Apeteceu-lhe fugir, e sentiu-se envergonhada e surpreendida ao descobrir que ainda havia dentro dela muito daquele coelho que procurava desaparecer desastradamente, num buraco qualquer, ao primeiro estalar de um ramo qualquer. Os fantasmas da casa rodeavam-na, murmurando-lhe censuras ao ouvido.

    Já fugira. Mais do que uma vez. Isso nunca a salvara.

    Ficou onde estava, sem se mexer. O pânico subiu-lhe do estômago até à garganta, numa onda de náusea, quando a porta se abriu com um estalido.

    - Assustei-te. Desculpa. - A voz dele era suave, naquele tom que um homem usa para tranquilizar alguém ferido ou para fazer um jogo de sedução. - Vim ver se precisavas de alguma coisa.

    Manteve-se à entrada, em contraluz, o que lhe deixava os traços indefinidos. Os pensamentos giravam em turbilhão na cabeça dela, suavizando-se à medida que caíam uns sobre os outros.

    - Como sabias que eu estava aqui?

    - Estás fora há tanto tempo que já não sabes que em Progress as novidades correm depressa?

    Havia um sorriso na voz dele, na intenção de pô-la à vontade, pensou ela. Isso significava que o seu medo transparecia e fazia dela um alvo fácil. Com isso, pelo menos com isso, ela podia acabar. Entrelaçou as mãos.

    - Com quem estou a falar?

    - O som que estás a ouvir é o meu ego a desfazer-se aos pedaços. Mesmo depois destes anos todos, conseguiria reconhecer-te no meio de uma multidão. Sou o Cade - disse ele, e aproximou-se um pouco. - Kincade Lavelle.

    Saiu da luz forte, que mergulhou atrás dele num jogo de sol e sombra. Todos os vestígios de medo se dissiparam, e ela viu-o claramente.

    Kincade Lavelle, irmão de Hope. Tê-lo-ia reconhecido? Não, achava que não. O rapaz de quem se recordava tinha um corpo magro e um rosto suave. A compleição deste homem era esguia, mas revelava força nos músculos que sobressaíam debaixo das mangas enroladas da camisa. E embora ele sorrisse francamente, não havia qualquer suavidade nos ossos ou nas feições do seu rosto.

    Tinha o cabelo mais escuro, cor de avelã, com as pontas encaracoladas aclaradas pelo sol. Sempre gostara de andar ao ar livre. Recordava-se disso. Recordava-se de o ter visto algumas vezes a passear pelos campos com o pai, com uma espécie de orgulho que advinha de ser dono da terra que pisava.

    Os olhos, pensou ela. Talvez tivesse reconhecido os olhos. Aquele azul profundo de verão, como os de Hope. O sol deixara ali também a sua marca, nas linhas que convergiam nos cantos dos olhos. O tipo de marca que conferia caráter aos homens e desesperava as mulheres.

    Aqueles olhos observavam-na agora, com uma espécie de paciência indolente que a teria embaraçado se a sua pulsação estivesse regular.

    - Passou muito tempo - foi o melhor que conseguiu dizer.

    - Quase metade da minha vida. - Não lhe estendeu a mão. O instinto disse-lhe que ela daria um salto para trás e que ambos ficariam embaraçados. Ela parecia pronta a dar um pulo ou a ter um colapso. Não lhe apetecia nada disso. Assim, enfiou os polegares nos bolsos da frente das calças de brim.

    - Porque não vens até ao alpendre, para te sentares? Parece que a velha cadeira de balanço é a única cadeira que temos, de momento.

    - Estou bem. Eu estou bem.

    Na verdade estava branca como cal, com aqueles olhos cinzentos que sempre o tinham fascinado muito abertos e brilhantes. O fato de ter crescido numa família largamente dominada por mulheres ensinara-lhe a lidar com o orgulho e com os estados de espírito femininos sem grandes complicações e com um mínimo de dispêndio de energia. Limitou-se a virar-se e abrir a porta de tela.

    - Está abafado, aqui dentro - disse ele, saindo para o alpendre e mantendo a porta aberta, num gesto de boas maneiras, fazendo-lhe sinal para que o seguisse.

    Com pouca alternativa, ela atravessou a sala e saiu também para o alpendre. Ele sentiu o perfume dela e pensou no jasmim que preferia florir à noite, quase em segredo, no jardim da sua mãe.

    - Deve ser uma experiência e tanto. - Tocou-a de leve, para guiá-la até à cadeira. - Voltar aqui.

    Ela não saltou, mas afastou a mão dele, num gesto ligeiro mas deliberado.

    - Precisava de um lugar para viver, e queria instalar-me rapidamente. - Os músculos do estômago recusavam-se a relaxar. Não gostava de falar assim com os homens. Nunca se sabia com segurança o que estava por detrás das palavras e dos sorrisos fáceis.

    - Há uns tempos que vives em Charleston. A vida é muito mais calma aqui.

    - Eu quero calma.

    Ele encostou-se ao varandim. Havia ali uma espécie de aresta viva, pensou. Por mais delicada que ela parecesse, havia aquela aresta viva, como um grito pronto a soltar-se. Estranho, apercebeu-se que era exatamente disso que mais se lembrava nela.

    A delicadeza dela, como a parte cortante de um bisturi.

    - Fala-se muito sobre a tua loja.

    - Ainda bem. - Ela sorriu, apenas uma ligeira curva dos lábios, mas os olhos permaneceram sérios e observadores. - Isso significa curiosidade, e a curiosidade vai fazer com que as pessoas apareçam.

    - Tinhas alguma loja em Charleston?

    - Era gerente de uma. Mas ser dona de uma é diferente.

    - Pois é. - Beaux Revés era seu, agora, e ser dono de alguma coisa era, de fato, diferente. Olhou para trás, na direção dos campos onde as plantas jovens e os rebentos procuravam a luz do Sol. - Qual é a sensação, Tory? Depois de todo este tempo e esta distância?

    - A mesma. - Não olhava para os campos, mas sim para ele. - E, ao mesmo tempo, completamente diferente.

    - Estava a pensar nisso sobre ti. Cresceste. - Olhou para ela, e viu-a cravar os dedos nos braços da cadeira, como que para manter o equilíbrio. - Cresceste à medida dos teus olhos. Sempre tiveste olhos de mulher. Quando eu tinha doze anos, metiam-me medo.

    Foi necessária toda a sua força de vontade e o orgulho em que se alicerçara para aguentar o olhar dele.

    - Quando tinhas doze anos estavas demasiado ocupado a correr por aí com o meu primo Wade e com o Dwight Mar..., o Dwight Frazier, para reparares em mim.

    - Aí é que te enganas. Quando eu tinha doze anos - disse ele devagar - houve uma altura em que reparava em tudo o que havia em ti. Ainda tenho essa imagem tua na cabeça. Porque não paramos de fingir que ela não está aqui, neste preciso momento?

    Tory levantou-se de repente, avançou até ao outro extremo do alpendre e ficou ali, de braços cruzados sobre o peito, a observar os campos.

    - Ambos a amávamos - disse Cade. - Ambos a perdemos. E nenhum de nós a esqueceu.

    Sentiu um peso no peito, como se alguém a esmurrasse.

    - Não posso ajudar-te.

    - Não estou a pedir-te ajuda.

    - Estás a pedir o quê, então?

    Confuso, mudou de posição e depois voltou a deter-se, para a estudar de perfil. Ela se fechara, pensou. A pequena fresta que se abrira voltara a se fechar.

    - Não estou a pedir nada, Tory. É isso que esperas de toda a gente?

    Ela sentia-se mais forte, agora, de pé, e virou-se, olhando-o com firmeza:

    - Sim.

    Um pássaro voou como uma seta por detrás dele, um flash cinzento e breve que encontrou poleiro numa das árvores que delimitavam o pântano. E ali, segundo pareceu a Tory, cantou o que lhe ia no coração horas a fio, antes de Cade voltar a falar.

    Tinha esquecido isto?, perguntou-se. As pausas longas e confortáveis, o ritmo paciente das conversas do campo?

    - É pena - disse ele, quando o sangue dela começou a pulsar no silêncio. - Mas não quero nada de ti, exceto talvez uma palavra amiga de vez em quando. A verdade é que a Hope significava muito para nós dois. Perdê-la teve um grande impacto na minha vida. Não quero chamar mentirosa a uma senhora, mas se me olhasses nos olhos e me dissesses que isso não afetou a tua, não poderia deixar de fazê-lo.

    - Que te importa aquilo que sinto? - Apeteceu-lhe esfregar os braços, para aquecê-los, mas resistiu. - Não nos conhecemos. Nunca nos conhecemos realmente.

    - Conhecíamos a ela. Talvez o teu regresso remexa as coisas e as faça voltar à tona, outra vez. A culpa não é tua, as coisas são apenas como são.

    - Isto é uma visita de boas-vindas ou um aviso para me manter à distância?

    Por um momento ele não disse nada, e depois abanou a cabeça. O humor regressou-lhe aos olhos, iluminando-os mais rapidamente do que à sua voz.

    - Não há dúvida de que cresceste e te tornaste irritadiça. Para começar, não tenho por hábito pedir às mulheres bonitas que se mantenham à distância. Eu é que sofreria com isso, não era?

    Ela não sorriu, mas ele sim, e desta vez deu um passo na direcção dela, aproximando-se deliberadamente. Talvez o movimento, ou o som das botas de trabalho na madeira, fez o pássaro embrenhar-se mais no pântano e silenciou a canção.

    - Por tua vez, podes sempre dizer-me que me mantenha à distância, mas é pouco provável que te dê ouvidos. Voltei para te dar as boas-vindas, Tory, e para te ver. Tenho direito à minha curiosidade. E ver-te traz de volta um pouco daquele verão. É uma coisa natural. Vai trazê-lo de volta a outras pessoas, também. Já devias saber isso quando decidiste vir.

    - Vim por minha causa.

    É por isso que tens um ar doente, cansado e assustado?, perguntou-se ele.

    - Então, sê bem-vinda a casa.

    Estendeu-lhe a mão. Ela hesitou, mas ao mesmo tempo que lhe pareceu um desafio, pareceu-lhe também um gesto sincero. Quando a mão dela tocou a dele, sentiu-a mais quente e mais firme do que esperara. Assim como sentiu a ligação, uma espécie de clique interno, suave, inesperado. E indesejado.

    - Desculpa se te pareço desagradável. - Libertou a mão. - Mas tenho muito que fazer. Preciso de começar.

    - Se eu puder fazer alguma coisa, diz-me.

    - Obrigada. Ah... arranjaste bem a casa.

    - É uma boa casa. - Mas ele manteve o olhar fixo nela, quando ela falou. - Fica num bom sítio. Vou deixar-te trabalhar - acrescentou, e começou a descer os degraus. Parou junto a uma pickup com ar maltratado, que precisava desesperadamente de uma lavagem. - Tory? Sabes, aquela imagem tua que fixei na minha cabeça? - Abriu a porta da camioneta e uma ligeira brisa passou-lhe pelos cabelos iluminados pelo sol. - Tenho uma melhor, agora.

    Arrancou, mantendo-a enquadrada no retrovisor até fazer a curva e sair da terra para o asfalto.

    Não pensara em falar em Hope, não para já. Como dono de Beaux Revés, como senhorio dela, como conhecimento de infância, disse a si mesmo que era uma mera visita de cortesia, por dever. Mas não conseguira enganar-se a si próprio, e não conseguira enganar Tory, obviamente.

    A curiosidade fizera-o rumar de imediato ao que toda a gente por ali chamava a Casa do Pântano, quando tinha uma dúzia de assuntos urgentes a tratar. Fora criado para dirigir a fazenda, mas dirigia-a à sua maneira. E essa maneira não agradava a toda a gente.

    Aprendera a ser político e diplomata. Aprendera a desempenhar qualquer papel que lhe fosse pedido, desde que conseguisse o que queria.

    Perguntou-se que papel teria de desempenhar com Tory.

    Quer ela estivesse pronta a admiti-lo, quer não, o seu regresso alterava todos os equilíbrios. Ela era a pedrada no charco, e a agitação formada por essa pedrada ia ser grande.

    Não estava bem certo do que fazer com ela, do que queria fazer com ela. Mas era um homem da terra, e os homens que viviam da terra e das sementeiras e do tempo sabiam esperar.

    Num impulso, estacionou a camioneta junto ao acostamento. Não tinha nada que fazer aquele tipo de desvios, quando todas as suas responsabilidades estavam em Beaux Revés. As novas colheitas estavam a nascer, e quando as plantas cresciam também cresciam as ervas daninhas. Tinha de supervisionar as culturas. Este era um ano decisivo para os planos que fizera. Queria vigiar tudo de perto e em todas as etapas.

    Mesmo assim, saiu, atravessou a pequena ponte de madeira e entrou no pântano.

    Ali o mundo era verde e rico e vivo. Os caminhos tinham sido limpos, e ao longo deles, alinhadas como num parque, cresciam azáleas impressionante e teimosamente floridas. Entre as magnólias e as árvores de borracha havia tufos de flores silvestres, pequenos outeiros e arbustos de folhagem persistente. Já não era o mundo excitante e ligeiramente perigoso da sua juventude.

    Agora era um altar em honra de uma criança perdida.

    Fora o seu pai que fizera aquilo. Movido pela dor, pelo orgulho, talvez mesmo pela raiva que nunca mostrara. Mas Cade sabia que essa raiva vivera dentro dele, como um câncer. Crescendo e espalhando-se em segredo e em silêncio, aqueles tumores de raiva e de desespero.

    A dor fora tratada como uma doença, dentro dos muros de Beaux Revés.

    E aqui, pensou ele, fora transformada em flores.

    Os lírios iriam dançar no verão, num desfile colorido, e os delicados íris amarelos que gostavam de ter os pés molhados, estavam já a florir nas sombras da primavera, como pequenos raios de sol. A erva mantinha-se afastada. Embora voltasse a crescer rapidamente, enquanto o seu pai vivera houvera mãos para voltar a cortá-la. Agora, essa responsabilidade cabia também a Cade.

    Havia um pequeno banco de pedra na clareira onde Hope fizera a fogueira na última noite da sua vida. Havia mais uma ponte sobre a água castanho-tabaco assombrada por ciprestes, bordejada por fetos espessos e encaracolados e rododendros de flores do mais puro branco. Camélias e amores-perfeitos trariam flores e aromas ao inverno, quando desabrochassem.

    E entre o banco e a ponte, no meio de um lago cheio de flores cor-de-rosa e azuis, havia uma estátua de mármore que parecia de uma jovem sorridente, que teria oito anos para sempre.

    Tinham-na enterrado dezoito anos antes, num outeiro ensolarado. Mas era ali, nas sombras verdes e nos aromas selvagens, que vivia o espírito de Hope.

    Cade sentou-se no banco, com as mãos entre os joelhos. Desde a morte do pai, oito anos antes, que ninguém se sentava ali, pelo menos ninguém da família.

    Quanto à mãe, este lugar deixou de existir no momento em que encontraram Hope. Violada, estrangulada, e depois deixada ao abandono como uma boneca velha.

    Cade perguntou-se, como fizera vezes sem conta ao longo daquele comprido mar de anos, se a sua mente retivera tudo o que lhe fora feito.

    Recostou-se e fechou os olhos. Mentira a Tory, admitia agora. Queria, de fato, qualquer coisa dela, Queria respostas. Respostas pelas quais esperara mais de metade da sua vida.

    Demorou cinco minutos preciosos a acalmar-se. Estranho só agora ter reparado o quanto o enervara voltar a vê-la. Ela tinha razão ao dizer que ele mal lhe prestava atenção quando eram crianças. Ela era a garota Bodeen com quem a irmã andava, e um rapaz de doze anos não se dava ao trabalho de lhe prestar atenção.

   

    Até àquela manhã, aquela manhã terrível de agosto, quando ela chegara à sua porta com a cara ferida e cheia de nódoas negras e os olhos aterrorizados. A partir daquele momento, não havia nada nela em que ele não reparasse. Nada que ele tivesse esquecido.

    Empenhara-se em saber tudo o que havia a saber sobre onde ela fora, o que fizera, em quem se tornara muito depois de ter deixado Progress.

    Soubera praticamente o momento exato em que ela começara a fazer planos para regressar.

    E, ainda assim, não estava preparado para vê-la naquela divisão vazia, tão pálida que os seus olhos sobressaíam como lagos de fumo.

    Ambos precisavam de tempo, decidiu Cade enquanto se punha de pé. Depois, tratariam de Hope.

    Voltou à camioneta e arrancou, para passar os olhos pelas suas colheitas e pelos seus trabalhadores.

    Tinha calor, estava transpirado e sujo quando entrou no caminho entre os pilares de pedra que guardavam o caminho comprido e sombreado até Beaux Revés. Vinte carvalhos, dez de cada lado, flanqueavam a estrada e arqueavam-se sobre ela, formando um túnel verde e dourado. Entre os seus troncos grossos podia ver os arbustos em flor, a grande extensão relvada, o serpentear de um caminho de ladrilho que conduzia ao jardim e aos anexos.

    Quando estava cansado, como agora, esta extensão nunca deixava de lhe abrir os braços, aliviando-lhe a fadiga como uma mão apaziguadora. Na seca e na guerra, na destruição de uma parte da sua vida e na construção de outra, Beaux Revés estava ali, firme.

    A terra estava nas mãos dos Lavelle havia mais de duzentos anos. Eles tinham-na preparado, alimentado, abusado dela e amaldiçoado, mas ela sobrevivia. Enterrava-os e dava-lhes vida.

    E agora era dele.

    Talvez a casa fosse uma enorme excentricidade no centro da elegância, mais fortaleza do que casa, mais desafiadora do que graciosa. A pedra refletia a luz fraca do sol. As torres erguiam-se arrogantemente contra um céu que era agora da cor de uma nódoa negra acabada de fazer.

    Havia um enorme canteiro de flores oval, no meio da rotunda que encimava o caminho. Cade sempre pensara que se tratava da tentativa, por parte de algum antepassado distante, de suavizar as linhas arrogantemente masculinas. Em vez disso, o mar de flores e de arbustos fazia um nítido contraste com as portas grandiosas e maciças da entrada, em carvalho trabalhado em relevos, e a rigidez das janelas.

    Deixou a camioneta na curva mais distante do caminho e subiu os seis degraus de pedra. O alpendre fora acrescentado pelo seu bisavô. Um toque de simpatia, pensou Cade, com a sombra lançada pelo telheiro e as clemátides trepando de ambos os lados. Podia sentar-se, se quisesse, como os membros da sua família tinham feito durante gerações, e observar a relva e as árvores e as flores, sem estragar a vista com o trabalho dos campos, árduo e empapado em suor.

    Razão pela qual raramente se sentava ali.

    Raspou a terra das botas. Para lá daquelas portas ficava o domínio da sua mãe e, embora ela não dissesse nada, o seu silêncio de desaprovação, o seu olhar frio ao ver qualquer vestígio dos campos no seu soalho, seriam piores do que uma preleção.

    A primavera fora generosa, por isso as janelas estavam abertas ao entardecer. O aroma dos jardins entrava, misturando-se com os perfumes das flores selecionadas em arranjos dentro de casa.

    O hall era impressionante, o chão de mármore, verde-mar, dava idéia de que os pés iriam simplesmente afundar-se em água fresca.

    Pensou numa ducha, numa cerveja e numa bela refeição quente antes de folhear o jornal da tarde. Movia-se em silêncio, à escuta, sem se sentir culpado por ter esperança de conseguir evitar qualquer contacto com a sua família antes de estar limpo e restabelecido.

    Chegara ao bar na sala principal e acabara de tirar a tampa de uma Beck's, quando ouviu o toque feminino de saltos. Estremeceu, mas o seu rosto estava composto e tranquilo quando Faith entrou de rompante.

    - Serve-me um pouco de vinho branco, querido, tenho umas arestas que precisam de ser limadas.

    Estendeu-se no sofá enquanto falava, com um pequeno suspiro irritado, e afastava uma madeixa do seu cabelo louro. Voltara a ser loura. Havia quem dissesse que Faith Lavelle mudava a cor do cabelo quase tão frequentemente como mudava de homens.

    Havia quem gostasse de dizer isso.

    Divorciara-se pela segunda vez aos vinte e seis anos, e arranjara e deixara mais amantes do que a maioria se dava ao trabalho de contar. Em especial Faith. Contudo, conseguia projetar a imagem da delicada flor do Sul, com a sua pele branca-camélia e os olhos azuis dos Lavelle. Olhos azuis temperamentais que podiam encher-se de lágrimas quando ela quisesse e eram especialistas em fazer promessas que ela podia ou não tencionar cumprir.

    O seu primeiro marido era um rapaz irreverente e bonito, de dezoito anos, com quem ela fugira dois meses antes de acabar o liceu. Amara-o com toda a paixão e com todo o capricho da juventude e ficara devastada quando ele a deixara sem um tostão, menos de um ano depois.

    Não que tivesse permitido que alguém soubesse disso. Para o mundo, ela deixara Bobby Lee Matthews e regressara a Beaux Revés porque se fartara de brincar de casinha.

    Três anos mais tarde, casara com um ambicioso cantor country, que conhecera num bar. Fizera-o por se sentir aborrecida, mas aguentara-o durante dois anos, antes de perceber que Clive aspirava também a viver as letras que falavam de traição e de violência e que escrevia toldado por Budweiser e Marlboro.

    Por isso, uma vez mais, voltou a Beaux Revés, irritadiça, insatisfeita e secretamente descontente consigo própria.

    Lançou a Cade um sorriso doce e derretido quando ele lhe trouxe um copo de vinho.

    - Querido, pareces exausto. Porque não te sentas e levantas os pés por um bocado? - Pegou-lhe na mão e apertou-a um pouco. - Trabalhas de mais.

    - Se quiseres colaborar...

    O sorriso dela acentuou-se, numa lâmina afiada.

    - Beaux Revés é teu. O Papai deixou isso claro ao longo das nossas vidas.

    - O Papai já não está aqui.

    Faith limitou-se a encolher um ombro, descontraidamente.

    - Isso não muda os fatos.

    Ergueu o copo de vinho e bebericou. Era uma mulher bonita, que exagerava na pintura para explorar a sua beleza. Mesmo agora, para um serão em casa, acrescentara alguma cor às faces, pintara a sua boca sensualmente grande de um cor-de-rosa iridescente e vestira uma blusa de seda e calças rosa suave.

    - Pode se mudar tudo aquilo que se queira mudar.

    - Fui criada para ser decorativa e inútil. - Inclinou a cabeça e depois espreguiçou-se como um gato. - E faço isso muitíssimo bem.

    - Irritas-me, Faith.

    - Também faço isso muito bem. - Divertida, tocou-lhe na perna com o pé descalço. - Não sejas irritante, Cade. A discussão vai estragar-me o vinho. Já troquei umas palavras com a Mamãe, hoje.

    - Não passa um só dia em que não troques umas palavras com a Mamãe.

    - Isso não aconteceria, se ela não fosse tão crítica em relação a tudo. Tem estado mal-disposta a maior parte do dia. - Os olhos de Faith faiscaram. - Desde que a Lissy telefonou.

    - Não terá sido por isso. Ela sabia que a Tory tinha intenção de voltar.

    - Ter intenção é diferente de estar aqui. Acho que ela não gosta da idéia de lhe alugar a Casa do Pântano.

    - Se a Tory não viver ali, viverá noutro sítio qualquer. - Como estava cansado, recostou a cabeça e tentou aliviar a tensão do dia, acumulada no pescoço e nos ombros. - Está de volta e parece que veio para ficar.

    - Então, foste vê-la. - Faith tamborilou com os dedos na coxa.- Logo vi que irias. O dever em primeiro lugar, para o nosso Cade. Bem... como é que ela é?

    - Educada, reservada. Nervosa, acho eu, em relação ao regresso.

    - Bebeu um gole de cerveja. - Atraente.

    - Atraente? Lembro-me de um cabelo que parecia a casca de uma árvore e de uns joelhos salientes. Magricela e estranha.

    Ele não disse nada. Faith tinha tendência a amuar quando um homem, mesmo que fosse o irmão, tecia comentários sobre a beleza de outra mulher. E ele não estava com disposição para os amuos dela.

    - Podias fazer um esforço para seres simpática com ela, Faith. A Tory não foi responsável pelo que aconteceu à Hope. De que serve fazê-la sentir como se fosse?

    - E eu disse que não ia ser simpática com ela? - Faith passou os dedos pelo bordo do copo, parecia não conseguir mantê-los quietos.

    - Acho que ela precisa de uma amiga.

    Faith deixou cair a mão, e a sua voz de seda endureceu.

    - Ela era amiga da Hope e não minha.

    - Talvez não, mas a Hope já aqui não está. E tu também precisas de uma amiga.

    - Querido, tenho montes de amigos. Acontece apenas que nenhum é mulher. Para dizer a verdade, as coisas estão tão aborrecidas por aqui que sou capaz de ir até à cidade esta noite, afinal. Ver se consigo estar com um amigo durante umas horas.

    - Como queiras. - Afastou o pé dela e levantou-se. - Preciso de tomar uma ducha.

    - Cade - disse ela antes de ele chegar à porta. Vira o laivo de decepção nos olhos dele e isso magoou-a. - Tenho o direito de viver a minha vida como entender.

    - Tens o direito de desperdiçar a tua vida como entenderes.

    - Sim - disse ela, sem alterar o tom de voz. - E tu também. Mas deixa-me dizer-te que, por uma vez na vida, concordo com a Mamãe numa coisa. Estaríamos todos bem melhor se a Victoria Bodeen voltasse para Charleston e ficasse lá. E tu ficarias bem melhor se te mantivesses afastado de qualquer problema que ela traga com ela.

    - De que tens medo, Faith?

    De tudo, pensou ela, enquanto ele se afastava. De tudo.

    Inquieta agora, endireitou-se e foi até às enormes janelas da frente. A bela sulista lânguida desaparecera. Os seus movimentos eram rápidos, quase agitados por uma energia nervosa.

    Talvez fosse até à cidade, pensou. A qualquer lado. Talvez fosse embora.

    E para onde iria?

    Nada foi o que ela pensava que seria, quando deixou Beaux Revés. Ninguém era como ela pensava que seria. Incluindo ela própria.

    Sempre que ia embora dizia a si mesma que era de vez. Mas voltava sempre. Sempre que ia embora dizia a si própria que seria diferente. Que ela seria diferente.

    Mas nunca era.

    Como podia esperar que alguém compreendesse que tudo o que acontecera antes, tudo o que acontecera desde então, tudo tinha a ver com aquela noite quando ela - quando Hope - tinha oito anos?

    Agora a pessoa que ligava aquela noite a todas as outras estava de volta.                                                                              

    De pé, a olhar para o relvado e os jardins que o crepúsculo prateava, Faith desejou que Tory Bodeen fosse para o inferno.

   

    Eram quase oito horas quando Wade acabou de atender o seu último paciente, um rafeiro velhote com problemas de rins e um sopro cardíaco. A sua dona, igualmente velhota, não podia imaginar-se a mandar abater o pobre cão, por isso, mais uma vez, Wade voltara a tratar o cão e a apaziguar o elemento humano.

    Estava demasiado cansado para jantar e pensou em limitar-se a fazer uma sanduíche simples ou a abrir uma lata.

    O pequeno apartamento por cima do consultório agradava-lhe. Era prático, conveniente e barato. Podia pagar qualquer coisa melhor, como os seus pais estavam constantemente a recordar-lhe, mas preferia viver de forma simples e aplicar os lucros da profissão no consultório.

    De momento, não tinha animais de estimação, embora tivesse tido uma grande coleção quando era criança. Cães e gatos, claro, e com eles os incontornáveis pássaros feridos, as rãs, as tartarugas, os coelhos e, uma vez, um porco anão a que chamara Buster. A sua mãe, paciente, só impusera limites quando ele quisera levar para casa uma cobra preta que encontrara estendida no meio da estrada.

    Estava certo de que conseguiria convencê-la, mas quando apareceu à porta da cozinha com uma súplica nos olhos e um metro e meio de cobra a mexer-lhe nas mãos, a mãe gritou suficientemente alto para fazer o Sr. Pritchett, da casa ao lado, saltar a vedação que separava os dois quintais.

    Pritchett fez uma ruptura de ligamentos, a mãe de Wade deixou cair a sua leiteira adorada nos mosaicos da cozinha e a cobra foi expulsa para o rio, fora da cidade.

    Mas, abençoada, pensou Wade, tolerara tudo o resto que ele arrastara até casa, praticamente sem um queixume.

    Havia de ter uma casa com quintal e tempo para si próprio. Mas até poder pagar a mais pessoal, a maior parte dos seus dias tinha um mínimo de dez horas, sem contar com as urgências. As pessoas que não têm tempo para dedicar a animais de estimação não deviam tê-los. Sentia o mesmo em relação a filhos.

    Primeiro, foi até à cozinha e pegou numa maçã. O jantar, fosse o que fosse, iria esperar até ele tirar o cheiro de cão que trazia consigo.

    Mordendo a maçã, passou os olhos pelo correio que trouxera consigo, enquanto se dirigia para o quarto.

    Sentiu o cheiro dela antes de vê-la. A ondaa quente da mulher atingiu-lhe os sentidos, dispersou-lhe os pensamentos. Ela mexeu-se na cama, num restolhar de seda contra os lençóis.

    Não tinha nada vestido, exceto um sorriso convidativo.

    - Olá, amor. Trabalhaste até tarde.

    - Disseste que ias estar ocupada, esta noite.

    Faith chamou-o com o dedo:

    - E tencionava estar. Porque não vens até aqui ocupar-me?

    Wade largou o correio e a maçã:

    - Porque não?

   

    Wade achava que era deplorável para um homem ligar-se a uma mulher a vida inteira. E era mais do que deplorável quando essa mulher insistia em entrar e sair dessa vida como uma borboleta inconsequente. E o homem deixava.

    Sempre que ela voltava, ele dizia a si próprio que não iria jogar o jogo. E ela conseguia sempre fisgá-lo de tal maneira que ele ficava sem hipótese de fuga.

    Fora o primeiro homem a estar com ela. E não tinha a esperança de ser o último.

    Era tão incapaz de resistir-lhe agora como fora mais de dez anos antes. Naquela bela noite de verão ela subira até à janela dele e metera-se na sua cama enquanto ele dormia. Ainda se lembrava de como fora, acordar com aquele corpo suave e quente a deslizar junto ao dele, aquela boca faminta a asfixiá-lo, a devorá-lo, agarrando-se a ele até ele estar louco de desejo.

    Ela tinha quinze anos, pensou ele, e lidara com ele com a eficácia rápida e desprovida de sentimento de uma prostituta de cinquenta dólares. E era virgem.

    Era precisamente disso que se tratava, dissera-lhe ela. Não queria ser virgem, e decidira ver-se livre do fardo com a menor complicação possível e com alguém que conhecia, de quem gostava e em quem confiava.

    Tão simples quanto isso.

    Para Faith, sempre fora simples. Mas para Wade, aquela noite de verão, semanas antes de ter voltado à faculdade, fora a primeira de muitas voltas complicadas de que era feita a sua relação com Faith Lavelle.

   

    Naquele verão, fizeram sexo sempre que puderam. No banco de trás do carro dele, à noite, quando os pais dele estavam a dormir, durante o dia, enquanto a mãe dele estava sentada no alpendre, a mexericar com as amigas. Faith estava sempre desejosa, ansiosa, pronta. Era o sonho úmido de um homem tornado realidade.

    E tornara-se a obsessão de Wade.

    Tinha a certeza de que ela esperaria por ele.

    Em menos de dois anos, enquanto ele estudava arduamente e fazia planos para o futuro, o futuro deles, ela fugira com Bobby Lee. Wade embebedara-se e ficara bêbado durante uma semana.

    Ela voltara, claro. A Progress, e para ele. Sem qualquer pedido de desculpas e sem rogar qualquer perdão.

    Era assim a relação entre ambos. Ele detestava-a por isso, quase tanto como se detestava a si próprio.

    - Então... - Faith rolou para cima dele e tirou um cigarro do maço que estava na mesa-de-cabeceira e, mantendo-se em cima dele, acendeu-o. - Fala-me da Tory.

    - Quando recomeçaste a fumar?

    - Hoje. - Sorriu, inclinando-se para lhe dar uma pequena mordidela no queixo. - Não me venhas com sermões, Wade. Toda a gente tem direito a ter um vício.

    - E que vício é que tu não tens?

    Ela riu, mas havia uma certa amargura naquele riso, uma certa amargura nos olhos.

    - Se não os experimentarmos a todos, como sabemos de quais gostamos? Agora, vá lá, fofo, fala-me da Tory. Estou morta por saber tudo.

    - Não há nada para saber. Ela voltou.

    Faith soltou um enorme suspiro.

    - Os homens são criaturas tão irritantes. Como é ela? Que atitudes tem? O que tenciona fazer?

    - É adulta e tem atitudes de adulta. Tenciona abrir uma loja em Market Street. - Diante do olhar frio de Faith, encolheu os ombros. - Cansada. Parece cansada, talvez um tanto magra de mais, como alguém que não tem estado muito bem ultimamente. Mas há um certo brilho nela, do tipo que se ganha quando se vive na cidade. Quanto às intenções dela, não sei. Porque não lhe perguntas?

    Ela passou a mão pelo ombro dele. Ele tinha uns ombros maravilhosos.

    - É provável que ela não me diga. Nunca gostou de mim.

    - Isso não é verdade, Faith.

    - Eu é que sei. - Impaciente, saiu de cima dele, levantou-se da cama, graciosa e indomada como um gato, aspirando profundamente o seu cigarro enquanto andava pelo quarto. O luar brilhava sobre a sua pele branca, conferindo-lhe um tom azul pálido e exótico. Ele notou as marcas, as nódoas negras.

    Ela quisera um pouco de violência.

    - Sempre a olhar para mim com aqueles olhos assustadores, quase sem dizer palavra, a não ser à Hope. Tinha sempre muito a dizer à Hope. As duas andavam sempre aos segredinhos. Para que quererá voltar à velha Casa do Pântano? Em que estará a pensar?

    - Imagino que esteja a pensar que seria agradável ter um teto familiar sobre a cabeça. - Levantou-se, fechando as cortinas cuidadosamente, antes que um dos vizinhos a visse.

    - Sabes tão bem como eu o que aconteceu debaixo daquele teto. - Faith virou-se e os seus olhos brilharam quando Wade diminuiu a intensidade da luz da luminária da mesa-de-cabeceira. - Que tipo de pessoa volta a um lugar onde foi prisioneira? Talvez seja tão maluca como as pessoas diziam.

    - Ela não é maluca. - Cansado, Wade vestiu as calças de brim. - Sente-se sozinha. Às vezes, as pessoas que se sentem sozinhas voltam a casa porque não há mais nenhum lugar para ir.

    Aquilo atingiu-a demasiado perto do coração. Desviou os olhos dos dele e bateu o cigarro no maço.

    - Às vezes, a nossa casa é o lugar mais solitário de todos.

    Tocou-lhe no cabelo, apenas e leve. Isso fê-la desejar embrenhar-se nele, agarrar-se a ele. Deliberadamente, levantou a cabeça, ostentando um sorriso radioso.

    - Seja como for, porque estamos a falar da Tory Bodeen? Vamos arranjar o jantar e comer na cama. - Lentamente, com os olhos fixos nos de Wade, puxou o fecho das calças de brim dele. - Tenho sempre tanto apetite quando estou contigo.

    Mais tarde, ele acordou no escuro. Ela desaparecera. Nunca ficava, nunca dormia com ele, simplesmente. Havia alturas em que Wade se perguntava se ela dormiria ou se aquele motor interno dela trabalharia incessantemente, alimentado a nervos e a necessidades que nunca eram totalmente satisfeitas.

    Supunha que era a sua maldição, amar uma mulher que parecia incapaz de retribuir com sentimentos genuínos. Devia pô-la fora da sua vida. Era a coisa mais sensata a fazer. Ela voltaria a feri-lo, e de cada vez que isso acontecia levava mais tempo a sarar. Mais cedo ou mais tarde, não restaria nada do seu coração senão cicatrizes, e ele seria o único culpado.

    Sentiu a fúria crescer dentro de si, um calor negro que lhe borbulhava no sangue. Mantendo as luzes apagadas, vestiu-se às escuras. A sua fúria precisava de um alvo antes que se virasse para dentro e implodisse.

   

    Teria sido mais inteligente, mais confortável, mais sensível, porventura, ter alugado um quarto de hotel. Teria sido mais simples ter aceitado a hospitalidade do tio e dormido num dos quartos cheio de bugigangas, decorado de cima a baixo, que os Boots tinham prontos na casa grande.

    Quando era criança, sonhara muitas vezes em dormir naquela casa perfeita, naquela rua perfeita, onde imaginava que tudo cheirava a perfume e a verniz.

    Em vez disso, Tory estendeu um cobertor no chão nu e ficou acordada, às escuras.

    Orgulho, teimosia, necessidade de provar alguma coisa a si própria? Não estava certa dos motivos que a levavam a passar a sua primeira noite em Progress na casa vazia da sua infância. Mas fizera a sua cama, por assim dizer, e estava decidida a deitar-se nela.

    De manhã, haveria muito a fazer. Naquela tarde verificara a lista e acrescentara mais uma dúzia de coisas. Precisava de comprar uma cama e um telefone. Toalhas novas, uma cortina para o chuveiro. Precisava de um candeeiro e de uma mesa onde pô-lo.

    Acampar já não era a aventura que costumava ser, e ter gostos e necessidades simples não significava que não quisesse ter o conforto básico.

    Deitada no escuro, verificou a sua lista como costumava usar a parede imaculadamente branca. Cada coisa verificada mentalmente era mais um tijolo que bloqueava imagens e a mantinha concentrada no momento presente.

    Iria ao mercado e abasteceria a cozinha. Se deixasse a situação prolongar-se demasiado, voltaria ao hábito de saltar refeições. E quando negligenciava o corpo, era mais difícil controlar a mente.

    Iria ao banco, abrir contas, uma pessoal e outra para os negócios. Estava agendada uma visita ao Progress Weekly. Já fizera o seu anúncio.

   

    Acima de tudo, enquanto montasse a loja nas próximas semanas, precisava de estar visível. Treinaria para conseguir ser simpática, agradável. Normal.

    Levaria algum tempo a conseguir enfrentar os inevitáveis mexericos, as perguntas, os olhares. Estava preparada. Quando abrisse a loja, as pessoas estariam outra vez habituadas à sua presença. Mais, muito mais importante, estariam habituadas a vê-la como ela queria ser vista.

    Pouco a pouco, faria parte da cidade. E depois começaria a explorar. Seria ela a fazer as perguntas. Começaria a procurar as respostas.

    Quando as tivesse, poderia despedir-se de Hope.

    Fechando os olhos, ficou a escutar os sons da noite, o coro de cigarras, tão alegremente monótono, o piar agudo e irritante de uma coruja que caçava, os lamentos suaves da madeira, os movimentos astutos dos ratos a instalarem-se do lado de lá da parede.

    Teria de pôr armadilhas, pensou, ensonada. Lamentava imenso, mas não queria partilhar o espaço com roedores. E colocaria bolas de naftalina sob os alpendres, para desencorajar as cobras.

    Eram bolas de naftalina, não eram? Havia tanto tempo que não vivia no campo. Usava-se bolas de naftalina para as cobras e pendurava-se sabão por causa dos veados, e assim protegia-se aquilo que era nosso, embora tivesse sido deles primeiro.

    E se os coelhos viessem mordiscar a horta, espalhava-se pedaços de mangueira, para eles pensarem que eram as cobras que tínhamos afastado com as bolas de naftalina. Ou o pai chegava a casa e matava-os com a sua 22. E tínhamos de comê-los ao jantar, embora ficássemos doentes depois, porque eles eram muito engraçados, a mexer as orelhas compridas. Tínhamos de comer o que Deus nos dava, ou pagar pelo pecado. E ficar doente sempre era melhor do que levar uma surra.

    Não, não penses nisso, ordenou a si própria, mudando de posição no chão duro. Ninguém ia fazê-la comer o que ela não queria, nunca mais. Ninguém ia erguer o chicote contra ela, nem um punho.

    Agora, era ela quem mandava.

   

    Sonhou que estava sentada no chão macio, junto a uma fogueira que crepitava, fumegante, e queimava o marshmallow que ela segurava sobre a chama, num pau. Gostava dele queimado, com a parte de fora preta e estaladiça sobre o interior macio, pegajoso e branco. Afastou-o do lume, soprando para apagar a chama que ardia nele.

    Queimou o céu da boca, mas isso fazia parte do ritual. A dor rápida e depois o contraste do crocante com o açúcar.

    - Mais valia comeres carvão - disse Hope, virando o seu doce dourado. - Ora aqui tens um marshmallow perfeitamente assado.

    - Gosto deles à minha maneira.

    Para prová-lo, Tory tirou outro do saco e enfiou-o na ponta aguçada do seu pau.

    - Como diz a Lilah, sela-se o burro à vontade do dono. - A sorrir, Hope mordeu delicadamente o seu marshmallow. - Ainda bem que voltaste, Tory.

    - Sempre quis voltar. Acho que talvez tivesse medo. Acho que ainda tenho.

    - Mas estás aqui. Vieste, exatamente como se esperava.

    - Naquela noite, não apareci. - Tory desviou os olhos do fogo e mergulhou-os no olhar da sua infância.

    - Acho que não tinhas que aparecer.

    - Prometi que viria. Às dez e trinta e cinco. Mas não apareci. Nem sequer tentei.

    - Tens que tentar agora. Porque houve mais. E continuará a haver mais até lhes pores fim.

    O peso voltava a aumentar, e o seu peito de oito anos ardia sob ele.

    - Que queres dizer, mais?

    - Mais como eu. Exatamente como eu. - Os olhos solenemente azuis, profundos como lagos, fixaram os de Tory através do fumo. - Tens de fazer o que tens de fazer, Tory. Tens de ter cuidado e tens de ser esperta. Victoria Bodeen, a espiã.

    - Hope, já não sou uma garota.

    - Por isso é que está na hora. - O fogo subiu mais alto e mais brilhante. Os olhos profundamente azuis refletiam as chamas, pedaços de luz selvagem. - Tens que pôr um fim a isto.

    - Como?

    Mas Hope abanou a cabeça e murmurou:

    - Há qualquer coisa no escuro.

    Os olhos de Tory abriram-se de repente. O coração parecia querer saltar-lhe do peito e na boca sentia o sabor do medo e do doce queimado.

    Há qualquer coisa no escuro. Ouviu o eco da voz de Hope e o restolhar, como um sopro de vento por entre as folhas, do lado de fora da janela.

    Viu a ligeira mudança de luz quando alguém passou diante da lua.

    A criança dentro de si quis enrolar-se sobre si mesma, cobrir o rosto com as mãos, tornar-se invisível. Estava sozinha. Indefesa.

    Quem quer que se encontrasse lá fora estava à espreita, à espera. Conseguia sentir isso, mesmo através do medo. Tentou libertar a mente, ser racional. Mas diante de si estava apenas a parede de vidro do terror.

    O terror não era apenas dela.

    Eles também têm medo, pensou. Medo de mim. Porquê? A mão tremia-lhe, enquanto tentava chegar à lanterna, ao lado do cobertor. O peso sólido ajudou-a a afastar grande parte do medo. Não ficaria indefesa. Defender-se-ia, enfrentaria a situação, dominá-la-ia. A criança fora uma vítima. A mulher não o seria. Pôs-se de joelhos, tateou para acender a lanterna e quase gritou quando viu o feixe de luz. Apontou-o para a janela como uma arma. E só havia sombras e lua.

    Respirava de forma irregular, mas pôs-se de pé. Correu para a porta e acendeu as luzes do teto. Quem quer que estivesse lá fora podia vê-la, agora. Deixa-os ver, pensou. Deixa-os ver que ela não se acovarda no escuro.

    O feixe de luz balançava enquanto ela corria do quarto para a cozinha. Uma vez mais, acendeu as luzes do teto. Deixa-os ver, pensou de novo, e tirou uma faca do conjunto preso no bloco de madeira, que desempacotara. Deixa-os ver que não estou indefesa.

    Trancara as portas, um hábito que adquirira na cidade. Mas estava perfeitamente ciente da inutilidade dessa precaução. Um bom pontapé faria saltar as fechaduras.

    Saiu da luz e envolveu-se nas sombras da sala. De costas para a parede, fez um esforço para controlar a respiração, até conseguir que ela fosse lenta e calma. Não conseguia ver se tivesse a cabeça num turbilhão, não conseguia concentrar-se se o seu sangue estivesse aos gritos.

    Pela primeira vez em mais de quatro anos preparou-se para se abrir ao dom com que fora amaldiçoada à nascença.

    Mas as luzes entraram como setas pela janela da frente e varreram a sala. Os seus pensamentos voltearam como pétalas, ao ouvir o som de um carro a subir rapidamente o caminho de acesso à casa.

    Os pneus cuspiram a fina camada de cascalho, num som impaciente e exigente. Voltou a respirar de forma ofegante, forçando-se a aproximar-se da porta. Meteu a lanterna no bolso do traje de treino com que dormira, agarrou a faca com firmeza e destrancou a fechadura.

   

    As luzes do carro apagaram-se e o condutor abriu a porta.

    - O que quer daqui? - Voltando a pegar na lanterna, Tory procurou o botão para acendê-la. - O que está a fazer aqui?

    - Apenas a visitar uma velha amiga.

    Tory apontou a luz para a figura que saiu do carro. Sentiu os joelhos fracos, a pele arrepiada.

    - Hope. - Pronunciou o nome, a meia-voz, enquanto a faca lhe caía dos dedos e tilintava no chão. - Oh, meu Deus!

    Mais um sonho. Mais um episódio. Ou talvez fosse apenas loucura. Talvez sempre tivesse sido.

    Ela subiu os degraus do alpendre. O luar refletia-se-lhe no cabelo, nos olhos. A porta de tela rangeu quando ela a abriu.

    - Parece que viste um fantasma, ou que estavas à espera de algum. - Baixou-se e apanhou a faca. Passou um dedo elegante pela ponta da lâmina.

    - Mas sou real. - Dizendo isto, virou o dedo e mostrou uma gota minúscula de sangue. - Sou a Faith - acrescentou, entrando em casa. - Vi a luz acesa, quando ia a passar.

    - Faith? - Pareceu-lhe que a cabeça era varrida pelo mar. A alegria, aquele arrebatamento esfriou quando ela voltou a pronunciar o nome. - Faith.

    - Isso mesmo. Tens alguma coisa que se beba? - Entrou na cozinha.

    Como se fosse a dona da casa, pensou Tory, e depois lembrou a si própria que os Lavelle eram, de fato, os donos da casa. Passou uma mão pela cara, pelo cabelo. Depois, cruzando os braços, seguiu Faith até à cozinha.

    - Tenho chá gelado.

    - Referia-me a qualquer coisa com mais espírito.

    - Não, desculpa. Não tenho. Não estou propriamente apetrechada para ter companhia, por enquanto.

    - Estou a ver. - Intrigada, Faith deambulou pela cozinha, pousando a faca em cima da bancada, quando passou por ela. - Um pouco mais espartana do que eu esperava. Mesmo para ti.

    Era este o aspecto que Hope teria, se fosse viva. Tory não conseguia tirar aquela idéia da cabeça. Era exatamente o aspecto que ela teria, olhos azuis profundos a contrastar com uma pele muito branca, o cabelo da cor do milho sedoso. Elegante e linda. E viva.

    - Não preciso de muita coisa.

    - Essa foi sempre a diferença entre nós, ou pelo menos uma delas. Tu não precisavas de muito. Eu precisava de tudo.

    - Chegaste a consegui-lo?

    Faith arqueou uma sobrancelha e depois limitou-se a sorrir, encostando-se ao balcão.

    - Oh, ainda estou a juntar coisas. Qual é a sensação de estar de volta?

    - Não estou de volta há tempo suficiente para saber.

    - Há tempo suficiente para vires à porta com uma faca de cozinha na mão quando alguém te faz uma visita.

    - Não estou habituada a visitas às três da manhã.

    - Tive um encontro até tarde. Estou entre casamentos, de momento. Tu nunca casaste, pois não?

    - Não.

    - Juro que ouvi qualquer coisa sobre estares noiva, uma vez. Não deve ter dado certo.

    O sentimento de falha, desespero, traição, começou a querer soltar-se.

    - Não, não deu certo. Presumo que os teus casamentos, dois, não foram?, também não tenham dado certo.

    Faith sorriu, e desta vez o sorriso era genuíno. Preferia um jogo equilibrado.

    - Vejo que estás saída da casca.

    - Não quero espetar-te alfinetadas, Faith. E não vejo qual o teu interesse em me espetar, passado todo este tempo. Eu também a perdi.

    - Ela era minha irmã. Nunca te lembraste disso.

    - Era tua irmã. E era a minha única amiga.

    Qualquer coisa ameaçou remexer-se dentro dela, mas Faith travou-a.

    - Podias ter feito amigos novos.

    - Tens razão. Nada que eu possa dizer conseguirá compensar, alterar as coisas, trazê-la de volta. Nada que eu possa dizer ou fazer.

    - Então, porque voltaste?

    - Nunca me deixaram despedir dela.

    - É demasiado tarde para despedidas. Acreditas em recomeços e segundas oportunidades, Tory?

    - Sim, acredito.

    - Eu não. E vou dizer-te porquê. - Tirou um cigarro da bolsa e acendeu-o. Deu uma tragada e agitou-o. - Ninguém quer recomeçar. Os que dizem que sim são mentirosos ou iludem-se a si próprios, mas são sobretudo mentirosos. As pessoas só querem ir embora a partir do ponto em que as coisas deram erradp, seguir noutra direção e sem bagagem. Aqueles que o conseguem são uns sortudos, porque de alguma forma conseguem livrar-se de todos esses fardos irritantes, como a culpa e as consequências.

    Voltou a saborear o cigarro, lançando a Tory um olhar contemplativo.

    - E não me parece que tenhas tanta sorte.

    - Sabes uma coisa? Tu também não. E isso é surpreendente.

    A boca de Faith entreabriu-se, trêmula, e depois ela voltou a fechá-la e sorriu pensativamente.

    - Ora, viajo sem bagagem e com muita frequência. Pergunta a quem quiseres.

    - Parece que aterramos no mesmo sítio. Porque não tiramos o melhor partido disso?

    - Desde que te lembres de quem chegou cá primeiro, não teremos problemas.

    - Nunca me deixaste esquecer disso. Mas neste momento esta é a minha casa e estou cansada.

    - Então, até depois. - Dirigiu-se à saída, soltando baforadas de fumo. - Dorme bem, Tory. Ah, e se ficar aqui sozinha te dá arrepios, eu cá trocava aquela faca por uma pistola.

    Parou, abriu a bolsa e tirou de lá uma pistola pequena, com coronha de madrepérola.

    - Uma mulher nunca anda suficientemente segura, pois não? - Com uma pequena gargalhada, voltou a meter a pistola na mala, fechou-a e depois fez a porta de tela bater atrás de si.

    Tory deixou-se ficar à porta, mesmo quando os faróis a cegaram. Ficou ali até o carro dar meia volta no caminho, chegar à estrada e afastar-se a toda a velocidade.

    Trancou a porta e depois voltou à cozinha, à procura da lanterna e da faca. Uma parte de si queria meter-se no carro, ir até à cidade e bater à porta do tio. Mas se não conseguisse passar aquela primeira noite na casa, ficaria mais fácil evitar a seguinte e a outra.

    Encostou-se à parede, com os olhos fixos na janela, até a escuridão começar a suavizar-se e os primeiros pássaros da manhã despertarem.

    Tivera medo. Quando se aproximara silenciosamente da janela, sentira o que raramente sentia. O medo a estrangular-lhe a garganta.

    Tory Bodeen, de regresso ao sítio onde tudo começara.

   

    Estava a dormir, enrolada no chão como uma cigana, e ele podia ver a curva da sua face, a forma dos seus lábios, à luz oblíqua do luar.

    Era preciso fazer alguma coisa. Ele sabia isso e começara a fazer planos, ao seu jeito calmo e firme. Mas que impacto vê-la ali, recordar tudo com toda a nitidez só de vê-la ali.

    Ficara surpreendido quando ela acordara, saindo do sono rápida e certeira como uma flecha disparada por um arco. Mesmo no escuro vira visões nos olhos dela. Isso inundara-lhe o rosto de suor, e as palmas das mãos. Mas havia muitas sombras, muitos sítios onde esconder-se. Buracos na parede.

    Enrolara-se num dos buracos e vira Faith chegar. O cabelo claro brilhando ao luar, num contraste interessante com o de Tory, escuro. Tory, que parecia absorver a luz em vez de refleti-la.

    Naquele momento em que elas tinham estado juntas, em que as suas vozes se tinham misturado, soubera onde seria delas. Onde elas seriam dele.

    Seria como da primeira vez, havia tanto tempo. Seria o que tentava reviver havia dezoito longos anos.

    Seria perfeito.

   

    Planejara levantar-se cedo. Quando o bater na porta da frente a acordou, às oito, Tory não sabia bem se estava mais irritada consigo mesma ou com o novo visitante. Esfregando os olhos para afastar o sono, saiu do quarto aos tropeções, semicerrou os olhos ao encarar a luz do sol e debateu-se com a fechadura.

    Lançou a Cade um olhar exausto através da porta de tela.

    - Talvez não deva pagar renda, se os Lavelle decidiram fazer desta a sua casa fora de casa.

    - Desculpa?

    - Nada. - Empurrou a porta de tela com pouca energia, num convite pouco claro, e virou-lhe as costas. - Preciso de café.

    - Acordei-te. - Entrou e seguiu-a até à cozinha. - Os agricultores têm tendência a pensar que toda a gente se levanta de madrugada. Eu... - Parou diante da porta aberta do quarto e soltou uma exclamação. - Por amor de Deus, Tory, nem sequer tens cama!

    - Vou comprar uma, hoje.

    - Porque não ficaste com o J.R. e a Boots?

    - Porque não quis.

    - Preferes dormir no chão? O que é isto? - Entrou no quarto, abusivamente, pensou Tory, tal como a irmã fizera à noite, e depois saiu com a faca na mão.

   

    - É a minha agulha de croché. Ando a fazer um xaile. - Quando ele ficou a olhar para ela, ela soltou um suspiro e voltou a entrar na cozinha, batendo os pés. - Tive uma noite atribulada e estou de mau humor, por isso toma cuidado.

    Sem dizer nada, ele voltou a meter a faca na ranhura que lhe correspondia, no bloco de madeira. Enquanto ela media o café e a água, ele pousou na bancada o prato que tinha na mão.

    - O que é isso?

    - É a Lilah que manda, sabia que eu vinha para estes lados, esta manhã. - Cade levantou uma ponta da folha de alumínio. - Bolo de café. Disse que tinhas uma predileção pelo bolo de café amargo que ela faz.

    Tory ficou a olhar para o bolo, chocando ambos quando os olhos se lhe encheram de lágrimas. Antes que ele pudesse mexer-se, ela levantou a mão e manteve-a assim, como um escudo, enquanto se virava.

    Incapaz de resistir, ele passou-lhe a mão pelo cabelo e não insistiu quando ela se apressou a dar um passo em frente, para ficar fora do alcance dele.

    - Diz-lhe que lhe agradeço muito. Ela está bem, não está?

    - Porque não vens ver por ti própria?

    - Não, pelo menos por enquanto. - Mais calma, abriu um armário e tirou de lá uma chávena.

    - Queres partilhar o teu café?

    Ela olhou para trás, por cima do ombro. Tinha os olhos secos e límpidos. Ele não se parecia nada com o raio de um agricultor, pensou ela. Estava bronzeado e era magro, e tinha o cabelo aclarado pelo sol. Vestia umas calças de brim velhas e a camisa era de um azul desbotado. Tinha os óculos de sol presos por uma das hastes no bolso.

    Parecia antes a imagem dada por algum realizador de Hollywood de um jovem agricultor sulista, próspero, que vertia charme e sex appeal com um simples sorriso.

    Ela não confiava em imagens.

    - Suponho que tenha que ser delicada.

    - Podes ser mal-educada e gananciosa - disse ele -, mas mais tarde vais sentir-te muito mal por isso.

    Ele notou que ela tinha quatro chávenas e quatro pires, tudo num branco sólido e sensível. Tinha uma cafeteira automática e não tinha cama. As estantes, também brancas, estavam já escrupulosamente arrumadas. Não havia uma única cadeira na casa.

    O que diziam aquelas coisas sobre Tory Bodeen?, perguntou-se.

    Ela pegou noutra faca e depois ergueu as sobrancelhas, olhando para ele, enquanto media uma fatia. Ele agitou os dedos até ela a tornar um pouco maior.

    - Estás com apetite, esta manhã? - perguntou ela, enquanto cortava a fatia de bolo.

    - Vim a cheirar o bolo todo o caminho até aqui. - Pegou nos pratos. - Porque não levamos isto lá para fora, para o alpendre? Quero o meu café simples - acrescentou, e depois saiu.

    Tory limitou-se a suspirar e serviu duas chávenas.

    Quando ela chegou, ele estava sentado nos degraus, com as costas apoiadas no degrau de cima. Ela sentou-se ao lado dele, bebericando o café e olhando para os campos dele.

    Sentira a falta disto. Percebeu isso com surpresa, sentindo mais choque do que dor. Sentira a falta das manhãs ali, quando o calor do dia ainda não tinha envolvido o ar, quando os pássaros cantavam como milagres e os campos estavam verdes, a crescer.

    Tivera manhãs preciosas como aquela mesmo quando era criança, quando se sentava no que fora um degrau de cimento rachado, a observar o dia que chegava e a sonhar sonhos tontos.

    - É um bonito sorriso - comentou ele. - Arrancado pelo bolo ou pela companhia?

    O sorriso desapareceu como um fantasma.

    - Porque vinhas para este lado, esta manhã, Cade?

    - Tenho campos para cuidar e trabalhadores para supervisionar.

    - Partiu um pedacinho do bolo de café. - E queria voltar a ver-te.

    - Porquê?

    - Para verificar se eras tão bonita como eu pensei que eras, ontem.

    Ela abanou a cabeça, deu uma dentada no bolo que a levou imediatamente até à bela cozinha de Miss Lilah. Ficou tão animada que voltou a sorrir e deu outra dentada no bolo.

    - Não me digas.

    - Estavas com melhor ar ontem - disse ele, descontraidamente. - Mas tenho de ter em conta que não dormiste grande coisa, naquele chão. E faz um belo café, Miz Bodeen.

    - Não há razão nenhuma para te sentires no dever de verificar se está tudo bem comigo. Eu estou ótima, aqui. Só preciso de uns dias para me instalar. Seja como for, não vou passar aqui nem metade dos dias. Montar a loja vai levar-me o tempo quase todo.

    - Imagino que sim. Janta comigo esta noite.

    - Para quê? - Como ele não respondeu, ela virou a cabeça. O olhar dele era divertido e tinha os lábios ligeiramente curvados. E naquela expressão suave e simpática ela viu qualquer coisa que conseguira evitar com sucesso durante anos. Interesse masculino.

    - Não, não. Oh, não. - Levantou a chávena e bebeu grandes goles de café.

    - Foi bastante peremptório. Fica para amanhã, então.

    - Não, Cade, tenho a certeza de que devo sentir-me lisonjeada, mas não tenho tempo nem disposição para nenhum tipo de... nenhum tipo de coisa.

    Ele esticou as suas pernas compridas e cruzou-as nos tornozelos.

    - Nesta altura, não sabemos que tipo de coisa cada um de nós tem em mente. Quanto a mim, gosto de uma boa refeição de vez em quando e gosto ainda mais quando a companhia é boa.

    - Não saio com ninguém.

    - Isso é uma obrigação religiosa ou uma opção social?

    - É uma escolha pessoal. Agora... - Como ele parecia perfeitamente instalado, demasiado confortável, ela pôs-se de pé. - Desculpa, mas tenho que começar o meu dia. Já estou atrasada.

    Ele levantou-se e viu-a abrir muito os olhos quando ele se aproximou mais.

    - Alguém te fez das boas, não foi?

    - Não continues.

    - É precisamente isso, Tory. - Como não queria que ela fugisse dele, deu um passo atrás. - Eu não faria. Obrigado pelo café.

    Foi até à camioneta e fez uma pausa, virando-se para trás quando abriu a porta. Olhou para ela demoradamente, achando que faria bem a ambos se ela se habituasse àquele olhar.

    - Estava enganado - gritou enquanto se metia na cabina. - Estás igualmente bonita, hoje.

    Ela sorriu antes de conseguir deter-se e viu-o sorrir antes de recuar pelo caminho de acesso à casa. Sozinha, voltou a sentar-se.

    - Raios partam - resmungou, e encheu a boca com mais café.

   

    Os pequenos bancos das pequenas cidades eram uma raça em vias de extinção. Tory sabia isso porque o tio, que geria o Banco e Seguradora de Progress havia doze anos, raramente esquecia de mencioná-lo. Mesmo que não houvesse uma ligação familiar, tê-lo-ia escolhido para o seu negócio. Fazia parte da boa política.

    Ficava no lado este de Market Street, a dois quarteirões da loja dela. Isso tornava-o ainda mais conveniente. O velho edifício de tijolo vermelho fora cuidadosa e maravilhosamente preservado. Isso acrescentava encanto. Os Lavelle tinham-no fundado em 1853 e mantinham-se proprietários.

    Ali, pensou ela enquanto se encaminhava para a porta principal, estava a política. Quem queria fazer negócios bem-sucedidos em Progress, Carolina do Sul, fazia-os com os Lavelle.

    Praticamente não havia torta onde não tivessem metido os dedos.

    O interior do banco mudara. Lembrava-se de visitar a avó e de pensar que os bancários viviam em gaiolas, como animais exóticos no jardim zoológico. Agora a entrada era aberta, quase arejada, e quatro empregados dominavam um balcão comprido e alto.

    Tinham acrescentado um guichet nas traseiras, e atrás de um gradeamento de madeira, à altura da cintura, dois empregados sentavam-se a duas belas escrivaninhas antigas, com computadores de aspecto eficiente. A adornar as paredes, vários quadros muito bem executados que representavam paisagens da terra e do mar da Carolina do Sul.

    Alguém, pensou ela, descobrira como modernizar sem apagar a alma. Interrogou-se sobre se conseguiria convencer o tio a comprar algum dos quadros ou dos enfeites de parede que em breve iria ter à venda.

   

    - Tory Bodeen, és tu?

    Dando um pequeno salto, Tory virou a atenção para a mulher que estava atrás do gradeamento. Conseguiu esboçar um sorriso enquanto tentava reconhecer o rosto, sem sucesso.

    - Sim, olá.

    - Bem, é muito bom voltar a ver-te, ainda por cima assim, crescida. - A mulher era minúscula, mal devia chegar ao metro e meio. Abriu a cancela do gradeamento e estendeu-lhe ambas as mãos. - Sempre soube que te tornarias numa bela jovem. Não te lembras de mim.

    Sentiu que era má educação não se lembrar, perante tanta alegria sincera. Por um momento, Tory esteve tentada a agarrar-se a um nome. Mas não podia quebrar uma promessa por causa de uma coisa tão trivial.

    - Desculpe.

    - Ora, não tens porquê pedir desculpa. A última vez que te vi eras uma amostra de gente. Sou a Betsy Gluck. A tua avó deu-me lições, logo depois de eu sair do liceu. Lembro-me de te ver entrar de vez em quando e de ficares sentada, calada como um rato.

    - Dava-me pirulitos. - Foi um tremendo alívio recordar-se, ter na boca aquele sabor doce e célere a cereja.

    - Ora vejam só, lembrares-te de uma coisa dessas passado todo este tempo. - Os olhos de Betsy brilharam enquanto apertava as mãos de Tory. - Estás então aqui para falares com o J.R.

    - Se ele estiver ocupado, posso...

    - Não sejas tonta. Tenho instruções para te levar imediatamente ao gabinete dele. - Passou um braço pela cintura de Tory e fê-la passar pela cancela.......

    Teria de habituar-se a isto, recordou Tory a si própria. A ser tocada. Não podia ser uma estranha, ali.

    - Deve ser tão emocionante abrir uma loja só nossa. Mal posso esperar por ir às compras. Aposto que a Miss Mooney está tão orgulhosa que podia rebentar. - Betsy bateu a uma porta no fim de um pequeno corredor. - J.R., a sua sobrinha está aqui.

   

    A porta abriu-se de imediato e J. R. Mooney encheu o espaço. O tamanho dele nunca deixava de espantar Tory. Como este homem grande e possante nascera da sua avó era um dos mistérios da vida.

    - Aqui está ela! - A sua voz era quase tão grande como o resto, e troou enquanto ele a abraçava.

    Tory estava preparada para isso, mas ficou sem respiração quando o abraço de urso a levantou no ar. E, como sempre, a surpresa chegou quando os dedos dos pés deixaram de tocar no chão e o abraço que lhe fez estalar as costelas fê-la também rir.

    - Tio Jimmy. - Tory encostou o rosto ao pescoço de touro e finalmente, finalmente sentiu-se em casa.

    -J. R., está a abanar a rapariga como se fosse um ramo.

    - Ela é pequena. - J.R. piscou o olho a Betsy. - Mas é forte. Certifica-te de que vamos conseguir ter uns minutos sossegados aqui, está bem, Betsy?

    - Não se preocupe. Bem-vinda a casa, Tory - acrescentou Betsy, e fechou a porta.

    - Anda cá, senta-te. Queres alguma coisa? Coca-Cola?

    - Não, nada. Estou bem. - Não se sentou, levantou as mãos e depois deixou-as cair. - Devia ter vindo falar consigo ontem.

    - Não te chateies por causa disso. Estás aqui, agora. - Ele encostou-se à escrivaninha, um homem de sessenta e dois anos. Musculado. O seu cabelo cor de gengibre não esmorecera com a idade, mas havia pequenos fios prateados tecidos por entre a massa capilar. O bigode, que conferia um pouco de movimento ao rosto redondo, era de prata pura, tal como as lagartas peludas das sobrancelhas.. Os olhos eram mais azuis do que cinzentos, e sempre pareceram simpáticos a Tory.

    De repente sorriu, grande como a lua.

    - Tens mesmo um ar da cidade, mocinha. Tão bonita e refinada como uma estrela de televisão. A Boots vai adorar mostrar-te a toda a gente.                                                        

    Riu ao ver Tory estremecer automaticamente.

    - Ora, vamos, vais dar-lhe um bocadinho desse prazer, não vais? Ela nunca teve a filha que queria ter tido, e o Wade não colabora e não casa nem lhe dá netinhas para ela vestir e enfeitar.

    - Se ela tentar vestir-me um aventale cheio de rendas, vamos ter sarilho. Eu vou vê-la, Tio Jimmy. Mas primeiro preciso instalar-me, ir até à loja e arregaçar as mangas. Tenho material que vai chegar nos próximos dias.

    - Pronta para trabalhar, não é?

    - Ansiosa. Há muito tempo que queria dar este passo. Espero que o Banco e Seguros de Progress tenha espaço para mais uma cliente.

    - Temos sempre espaço para mais dinheiro. Eu próprio vou tratar disso, já daqui a pouco. Querida, ouvi dizer que alugaste a casa velha.

    - A Lissy Frazier detém o recorde da maior boca de Progress?

    - Está numa luta renhida com umas quantas. Ouve, não quero pressionar-te, nem nada disso, mas o Cade Lavelle não ia obrigar-te a manter o contrato se mudasses de idéias. A Boots e eu gostávamos que ficasses conosco. Sabe Deus que espaço não falta.

    - Agradeço muito, Tio Jimmy...

    - Espera aí. Não digas «mas», ainda. És uma mulher feita. Tenho olhos na cara, consigo ver isso muito bem. Há anos que vives por tua conta. Mas não me agrada a idéia de viveres ali, naquela casa. Acho que não é bom para ti.

    - Bom ou  não,  é  necessário.  Ele batia-me,  naquela casa. - Quando J.R. fechou os olhos, Tory aproximou-se. - Tio Jimmy, não estou a dizer isto para magoá-lo.

    - Eu devia ter feito alguma coisa. Devia ter-te tirado de lá. Ter-te afastado dele. Devia ter-vos tirado de lá a ambas.

    - A mamãe não iria. - Falava agora com simpatia, porque ele parecia precisar. - O tio sabe isso.

    - Naquela altura, desconhecia o ponto a que as coisas tinham chegado. Não me preocupei o suficiente. Mas agora sei, e não me agrada pensar que estás lá, a recordar aquilo tudo.

    - Lembro-me, esteja onde estiver. Ficar ali, bem... prova a mim mesma que consigo encarar isso. Consigo viver com isso. Já não tenho medo dele. Não me vou deixar ter medo dele.

    - Então, porque não vens até lá em casa só por uns dias? ver como te adaptas? - Ele suspirou quando ela abanou a cabeça. - É a minha sina, estar rodeada de mulheres teimosas. Bem, senta-te para eu tratar desta papelada e ficar com o teu dinheiro.

   

    Ao meio-dia, os sinos da igreja batista martelaram as horas. Tory deu uns passos atrás e limpou o suor do rosto. A vitrine da sua loja brilhava como um diamante. Trouxera algumas caixas no carro e levara-as para dentro, para o depósito. Tirara medidas para as prateleiras, os balcões, e fizera uma lista de perguntas e de pedidos que tencionava fazer à imobiliária.

    Estava elaborando a segunda lista, de ferramentas, quando alguém bateu no vidro partido da porta.

    Observou o homem magro e bem constituído, vestido com roupas de trabalho, enquanto se aproximava. Cabelo escuro, bem cortado, rosto brando e bonito, com um sorriso franco. Os óculos escuros escondiam-lhe os olhos.

    - Desculpe, está fechado - disse ela, enquanto abria a porta.

    - Parece que precisas de um carpinteiro. - Passou o dedo pelo vidro rachado. - E de um vidraceiro. Como vai isso, Tory? - Tirou os óculos de sol, revelando uns olhos escuros e intensos e uma pequena cicatriz em forma de gancho logo abaixo do olho direito. - Dwight Frazier.

    - Não te reconheci.

    - Um bocado mais alto e com mais uns quilos desde a última vez que me viste. Pensei que devia vir até cá, dar-te as boas-vindas como presidente da câmara, e ver se há alguma coisa que as Construções Frazier possam fazer por ti. Importas-te que eu entre por um instante?

    - Não, claro. - Afastou-se. - Não há grande coisa para ver, por agora.

    - É um bom espaço.

    Movia-se a vontade, notou ela. Não parecia nada o miúdo estranho e gorducho que já fora. O aparelho dos dentes desaparecera, bem como o corte à escovinha que o pai dele insistia em lhe fazer.

    Parecia em forma e próspero. Não, pensou ela. Não o teria reconhecido.

    - O edifício é sólido - prosseguiu ele -, com boas fundações. E o telhado está firme. - Virou-se, exibindo o sorriso que ajudara o seu ortondontista a comprar um barco de recreio. - Sei do que falo, fomos nós que o pusemos de pé há dois anos.

    - Então já sei a quem dirigir-me quando começar a entrar água. Ele riu e prendeu os óculos de sol na abertura da camisa.

    - Os Frazier constróem para durar. Vais querer balcões, prateleiras e expositores.

    - Bem, estava precisamente a tirar as medidas.

    - Posso mandar-te um carpinteiro, por um bom preço.

    Era inteligente, e, uma vez mais, boa política, usar mão-de-obra local. Se, pensou ela, a mão-de-obra local estivesse dentro do seu orçamento.

    - Bem, a tua idéia de bom preço e a minha podem não coincidir. O sorriso dele era luminoso e cheio de encanto.

    - Vamos fazer o seguinte. Deixa-me pegar umas coisas no meu carro. Dizes-me o que tens em mente e eu te faço um orçamento. E logo vemos se coincidem ou não.

    Ele tinha consciência de que ela estava a medi-lo, enquanto ele media as paredes. Estava habituado a isso. Quando era um garoto, o pai o media e ele estava sempre abaixo do esperado.

   

    Dwight Frazier, ex-fuzileiro, caçador ávido, presidente da câmara da cidade e fundador das Construções Frazier, tinha grandes expectativas em relação ao seu rebento. A sua desilusão, quando verificara que esse rebento ficava muito aquém do esperado, cravara-se como um espinho.

    E nunca fora permitido ao jovem Dwight Júnior esquecer isso.

    A verdade era que, pensou Dwight enquanto rabiscava números no seu bloco, ficara muito aquém do esperado. Baixo, gordo, desajeitado, era candidato constante a brincadeiras e escárnios e ao ar de desapontamento do pai.

    O pior de tudo é que ele tinha cérebro. Quando era garoto, não havia combinação mais fatal do que um corpo gorducho, pés desajeitados e um cérebro esperto. Era o querido dos professores, o que equivalia a ter pintado nas costas um letreiro dizendo «Dêem-me um chute».

    A mãe tentara compensá-lo da melhor forma que sabia. Empanturrando-o de comida. Na idéia da sua querida mãe, não havia nada como uma caixa de Ho Ho's para fazer as pazes com o mundo.

    A sua salvação tinham sido Cade e Wade. O fato de eles terem se tornado seus amigos nunca fizera grande sentido para Dwight. Fora também uma questão de classe. Pertenciam a três das famílias mais proeminentes da cidade. Ficara e continuava a lhes estar grato por isso.

    Talvez existisse ainda uma pequena chispa de ressentimento dentro dele, quanto aos caprichos do destino que tinham feito os outros dois altos, bem-parecidos e ágeis, enquanto ele fora gordo, desinteressante e estranho. Mas ele dera a volta a isso. Sem sombra de dúvida.

    - Comecei a correr aos catorze anos. - Disse como que por acaso, enquanto voltava a usar a sua fita métrica.

    - Desculpa?

    - Estás a ruminar. - Baixou-se e voltou a tomar apontamentos no seu bloco. - Cansei-me de ser o garoto gordo e decidi fazer qualquer coisa. Perdi seis quilos de gordura em apenas alguns meses. Quando comecei a correr, fazia-o à noite, para ninguém poder ver-me. Sentia-me de rastos. Parei de comer os bolos e os doces que a minha mãe me mandava na lancheira, todos os dias. Achei que ia morrer de fome.

    Levantou-se e voltou a exibir o seu sorriso.

    - No primeiro ano do liceu, comecei a ir para a pista à noite, e corria ali. Ainda tinha peso de mais, ainda era lento, mas já não vomitava o jantar. Parece que o treinador Heister costumava ir até lá à noite, também, no seu Chevy sedan, na companhia da mulher de outro homem. Não vou dizer quem, porque a senhora continua casada e é avó orgulhosa de três netos. Segura aqui esta ponta, minha querida.

    Fascinada, Tory pegou na ponta da fita métrica, enquanto Dwight andava para trás, para medir a área do balcão.

    - Ora, aconteceu que numa das minhas visitas à pista da escola secundária de Progress dei com o treinador e a futura avó de três netos. Como podes imaginar, foi um momento bastante estranho para todas as partes envolvidas.

    - É o mínimo que se pode dizer.

    - E quanto menos se disser, melhor, que foi o que o treinador me sugeriu que fizesse, com as mãos à volta do meu pescoço. Tive que concordar. Contudo, como homem justo que era, ou talvez apenas desconfiado, fez-me uma oferta. Se eu continuasse a treinar e perdesse mais cinco quilos, ele arranjava-me lugar na equipe de atletismo, na primavera seguinte. Foi este o nosso acordo tácito, que eu esquecesse o incidente e ele abster-se-ia de matar-me e de enterrar o meu corpo em campa rasa.

    - Parece ter sido um bom acordo para todos.

    - Para mim, foi. Perdi o peso e surpreendi toda a gente, incluindo eu próprio, não só por ter integrado a equipe como por ter ganhado tudo nos cinquenta e nos cem metros. Tornei-me um velocista de primeira. Ganhei o trofeu All Star durante três anos e o amor da bela Lissy Harlowe.

    Ela sentiu empatia em relação a ele, de um excluído para outro.

    - É uma linda história.

    - Com um final feliz. Acho que consigo ajudar-te a ter uma história com final feliz aqui, na tua loja. Porque não me deixas oferecer o almoço enquanto falamos disso?

    - Eu não... - Interrompeu-se quando a porta se abriu atrás de si.

    - Não me digas que estás a contratar este trapalhão de meia-tijela. - Wade entrou com passo decidido e pôs o braço por cima do ombro de Tory. - Graças a Deus cheguei a tempo.

    - Este médico de cachorros não entende nada de construção. Vai fazer um clister a um poodle, Wade. Vou levar a tua bonita prima, e minha potencial cliente, a almoçar.

    - Então, resta-me ir também para proteger os interesses dela.

    - Preciso mais de prateleiras do que de uma sanduíche.

    - Vou arranjar-te as duas coisas. - Dwight piscou-lhe o olho. - Anda, minha querida, e traz esse peso morto contigo.

   

    Fez uma pausa de trinta minutos, e gostou mais do que esperava. Dava gosto ver a amizade adulta entre Dwight e Wade, que tinha raízes nos rapazes de quem se lembrava.

    Fê-la sentir saudades de Hope.

    Era fácil, para uma mulher que raramente se sentia confortável na companhia de homens, sentir-se bem quando um deles era seu primo e o outro perfeitamente casado. Tão perfeitamente que Dwight estava a mostrar fotografias do filho antes dos sanduíches serem servidos. Fosse como fosse, Tory teria soltado as expressões habitualmente esperadas, mas na verdade o rapazinho era realmente adorável, com o bonito rosto de Lissy e os olhos vivos do pai.

    E, enquanto ia a caminho das compras, concluiu que fora construtivo e fácil, ao mesmo tempo. Não só Dwight compreendeu o que ela pretendia, como melhorou as idéias dela, e o orçamento ajustava-se confortavelmente às suas disponibilidades. Ou melhor, ajustou-se depois de ela ter regateado, recusado, questionado e pressionado. E, limpando o suor imaginário da testa, prometeu que o trabalho estaria feito antes de meados de maio.

    Satisfeita, saiu e comprou uma cama.

    O que ela tinha realmente em mente era apenas o colchão e o estrado. Anos de frugalidade nunca lhe tinham permitido comprar nada por impulso. E era raro, muito raro, sentir o desejo forte de ter alguma coisa.

    No momento em que a viu, ficou fascinada.

    Afastou-se duas vezes, e duas vezes voltou. O preço não estava fora de contas, mas não precisava de uma bela cama de ferro clássica, com um enquadramento delicado da cabeceira e dos pés do colchão. Sim, era prática, mas não era necessária.

    Um estrado sólido e um bom colchão era tudo o que precisava. Pelo amor de Deus, era apenas para dormir.

    Debateu-se consigo mesma, mesmo enquanto tirava o cartão de crédito da carteira, enquanto levava o carro até ao armazém, enquanto dirigia em direção a casa. Depois, ficou demasiado ocupada descarregando, praguejando e puxando para perder tempo discutindo.

    Entre filas de algodão recém-cultivado, Cade observou a luta dela durante dez minutos. Depois, praguejou também, marchou até à sua camioneta e meteu-se no caminho para a casa dela.

    Não bateu a porta quando saiu, mas teve vontade de fazê-lo.

    - Esqueceste as pulseiras mágicas.

   

    Ela estava arquejante, algumas madeixas de cabelo tinham escapado do arranjo que ela fizera e estavam coladas ao rosto, mas já conseguira levar a caixa enorme e pesada até o meio dos degraus do alpendre. Endireitou-se, tentando controlar a respiração.

    - O quê?

    - Não podes ser a Supermulher sem as tuas pulseiras mágicas. Eu pego por este lado.

    - Não preciso de ajuda.

    - Deixa de ser casmurra e abre a porta. Ela avançou furiosamente e abriu a porta.

    - Estás sempre por aqui?

    Ele tirou os óculos de sol e atirou-os para o lado. Era um hábito que lhe custava uma média de dois pares por mês.

    - Vês aquele campo, ali? É meu. Agora, afasta-te enquanto eu faço subir isto. Que raio de cama é esta?

    - De ferro - disse ela, com alguma satisfação quando viu que ele tinha de empurrar a caixa com as costas.

    - É o que parece. Precisamos levantá-la para passar pela porta.

    - Isso já eu sabia. - Firmou os pés, acocorou-se e tomou o peso do seu lado da caixa. Houve muito resmungo, muito jeito e um nó de dedo esfolado da parte dela, mas conseguiram. Ela continuou a andar para trás, forçada a confiar nele enquanto ele lhe dava indicações para a direita ou para a esquerda, até conseguirem chegar ao quarto.

    - Obrigada. - Sentia os braços como se fossem de borracha. - Agora já me arranjo.

    - Tens ferramentas?

    - Claro que tenho ferramentas!

    - Muito bem. Vai buscá-las. Evita eu  ir buscar as minhas. É melhor armarmos isto antes de trazermos o resto para dentro.

    Num gesto irritado, ela atirou a cabeça transpirada para trás.

    - Eu consigo fazer isso.

    - E és quase suficientemente teimosa para eu deixar que faças. Mas sou vítima da minha raça superior. - Pegou-lhe na mão, examinou a pele ferida e beijou-a de leve antes de ela conseguir libertá-la. - Podes ir tratar disto enquanto eu faço isto.

    Pensou em insultá-lo, pô-lo fora, ou mesmo corrê-lo a pontapés, e decidiu que qualquer opção era uma perda de tempo. Foi buscar as ferramentas.

   

    Ele admirou a caixa preta das ferramentas, que parecia realmente eficaz:

    - Estarás tu preparada para tudo?

    - Provavelmente não sabes distinguir um alicate de uma chave de fendas.

    Obviamente divertido, pegou num alicate de pontas finas:

    - Tesoura, certo?

    Quando a respiração dela terminou numa gargalhada, ele deu início à pesada tarefa de tirar os grampos cravados na caixa.

    - Vai pôr qualquer coisa nesse dedo.

    - Não é nada.

    Ele não se deu ao trabalho de olhar para ela, nem de mudar o tom de voz, mas fez ouvir a leve dureza de uma ordem.

    - Vai pôr aí qualquer coisa. E depois, porque não vais arranjar-nos uma bebida fria?

    - Ouve, Cade, não sou a tua mulherzinha. Ele ergueu os olhos e observou-a, impassível.

    - És pequenina e és mulher. E sou eu que tenho a tesoura.

    - Suponho que se eu te disser onde podes meter esse alicate isso não tire esse sorriso da tua cara.

    - Suponho que se eu te disser que ficas sexy quando estás cansada isso não te convença a batizar esta cama comigo, depois de montada.

    - Deus meu! - foi tudo o que ela disse enquanto saía do quarto, com passos decididos.                                                              ,

    Deixou-o sozinho. Ouvia o arrastar e o praguejar ocasional, enquanto trazia as mercearias para casa, as arrumava e fazia chá. Ele tinha umas mãos compridas, pensou ela. Dedos elegantes de pianista, que contrastavam com as palmas ásperas e calosas. Tinha a certeza de que ele sabia plantar, tratar e colher. Fora criado para isso. Mas tarefas do dia a dia? Não, isso era uma questão diferente.

    Como achava que ele nunca tinha montado uma cama na sua vida privilegiada, imaginou que quando entrasse no quarto iria deparar com um caos completo. E estava decidida a dar-lhe muito tempo para armar a maior confusão.

    Pendurou o seu novo telefone na cozinha, guardou os seus novos panos da louça e, preguiçosamente, cortou rodelas de limão para o chá. Convencida de que ele tivera tempo suficiente para mortificar-se, deitou o chá em dois copos com gelo e dirigiu-se para o quarto, com eles.

   

    Ele estava a apertar o último parafuso.

    Os olhos dela iluminaram-se e o leve som que soltou foi de absoluta alegria feminina.

    - Oh! Que maravilha! É realmente uma maravilha! Eu sabia que ia ficar linda!

    Sem pensar, meteu-lhe os copos nas mãos, para poder passar as dela pelo ferro.

    A primeira reação dele foi de divertimento, e depois de satisfação. Quando ele começou a beber o chá, ela aproximou-se do centro da cama e passou as pontas dos dedos pelas traves.

    E a reação dele transformou-se em puro desejo, tão básico, tão forte, que ele deu um passo atrás, deliberadamente. Imaginou perfeitamente os dedos dela enrolados à volta daqueles ferros, segurando-se a eles enquanto ele entrava nela. Em impulsos fortes e longos, enquanto aqueles olhos de bruxa com pestanas compridas se esvaíam em fumo.

    - É sólida. - Abanou um pouco a cabeceira e o estômago dele doeu-lhe e apertou.

    - É bom que seja.

    - Fizeste um bom trabalho, e eu fui mal-educada. Obrigada e desculpa.

    - De nada, e esquece isso. - Estendeu-lhe o copo e depois estendeu o braço para puxar a corrente do ventilador de teto. - Está calor, aqui dentro. - Apeteceu-lhe morder aquele bocadinho mesmo por baixo da orelha esquerda dela, onde começava a curva do maxilar.                                                  

    Como a voz dele soou pouco firme, ela sentiu-se outra vez atacada pela culpa.

    - Fui realmente mal-educada, Cade. Não sou muito boa em lidar com as pessoas.

    - Não és boa a lidar com as pessoas? E vais abrir uma loja onde vais lidar com elas todos os dias?

    - Isso são clientes - disse ela. - Sou muito boa em lidar com clientes.

    - Então... - Deu alguns passos até ficar exatamente diante dela, do outro lado da moldura da cama. - Se eu te comprar qualquer coisa, vais ser simpática comigo.

    Não precisava ler os pensamentos dele quando podia ler-lhe os olhos.

    - Tão simpática, não. - Entorpecida, afastou-se dele e saiu do quarto.

    - Eu podia ser um bom cliente.

    - Estás a tentar vencer-me outra vez pela exaustão.

    - Estou a tentar vencer-te outra vez pela exaustão, Tory. - Pousou-lhe uma mão no ombro. - Pára com isso - disse ele suavemente quando ela se contraiu. Pousou o copo no chão e depois fê-la vi-rar-se para ficar frente a frente com ele. - Pronto, não doeu nada, pois não?

    As mãos dele eram suaves. Havia muito tempo, muito tempo que não sentia um toque suave vindo de um homem.

    - Não estou interessada em namoros.

    - Eu estou. Mas, por enquanto, podemos arranjar um compromisso. Vamos tentar ser amigos.

    - Eu não sou uma boa amiga.

    - Eu sou um bom amigo. E agora, porque não vamos buscar o resto da tua cama, para poderes dormir decentemente esta noite?

    Ela deixou-o chegar quase até à porta. Dissera a si própria que não falaria nisso. Nem a ele, nem a ninguém, até estar preparada. Até se sentir forte e segura. Mas estava borbulhando dentro dela.

    - Cade, nunca perguntaste. Nem naquela altura, nem agora. Nem uma única vez perguntaste como eu sabia. - As mãos começaram a transpirar-lhe quando ele se virou, por isso agarrou os cotovelos. - Nunca perguntaste como eu sabia onde ela estava. Como eu sabia o que tinha acontecido.

    - Não foi preciso perguntar.

    As palavras dele fluíam agora em torrente, saltando como água de uma fonte desgovernada.

    - Algumas pessoas acharam que eu estava com ela, apesar de eu dizer que não estava. Que fugi e a deixei sozinha. Que a abandonei...

    - Eu não penso isso.

    - E aquelas que acreditaram em mim, que acreditaram que eu vi da maneira que vi, afastaram-se de mim, afastaram os filhos de mim. Deixaram de olhar-me nos olhos.

    - Eu olhava-te nos olhos. Naquela altura e agora.

    Ela teve de respirar fundo para se acalmar.

    - Porquê? Se acreditas que eu tenho aquilo dentro de mim, porque não te afastaste? Porque estás aqui, agora? Estás à espera que eu te revele o futuro? É que não consigo. Ou que te dê algumas dicas para comprares acções na bolsa? Não faço isso.

    Ele notou que ela tinha o rosto afogueado, os olhos escuros e vivos com emoções à flor da pele. Uma dessas emoções, uma que sobressaía por entre todas as outras, era a raiva.

    Ele não ia jogar aquele jogo, nem reagir como ela esperava que ele reagisse.

    - Gosto de viver um dia de cada vez, mas obrigado na mesma. E tenho um corretor para tratar das minhas ações. Já te ocorreu que estou aqui agora porque gosto de olhar por ti?

    - Não.

    - Então és a primeira e única mulher sem vaidade que tive ocasião de conhecer. Não te fazia mal nenhum arranjares alguma. Agora vejamos... - Inclinou a cabeça. - Queres trazer este colchão cá para dentro ou surpreender-me, contando-me o que almocei hoje?

    A boca dela abriu-se, enquanto ele se aproximava da porta. Estaria ele a fazer uma piada? As pessoas faziam troça dela, ou reviravam os olhos. Ou afastavam-se cautelosamente. Alguns vinham pedir-lhe que resolvesse os seus problemas e infelicidades. Mas ninguém, que fosse do seu conhecimento, dissera uma piada sem má intenção.

    Rodou os ombros, para aliviar a tensão, e depois foi ajudá-lo a trazer o colchão.

    Trabalhavam agora em silêncio, ela amuada e ele com a cabeça noutro lado qualquer. Quando a cama estava no lugar, Cade acabou de beber o chá, levou o copo para a cozinha e depois dirigiu-se para a porta.

    - A partir daqui, já deves dar conta do recado. Já estou um bocado atrasado.

    Ai, isso é que não estás, pensou, e correu atrás dele.

    Fosse por impulso ou por aborrecimento, ela seguiu-o e segurou-lhe o braço até ele parar e olhar para baixo.

    - Agradeço a ajuda. De verdade.

    - Bem, então pensa em mim quando estiveres a entrar na terra dos sonhos, esta noite.

    - Sei que o tempo te faz falta. Falaste em almoço?

    Perplexo, ele abanou a cabeça.

    - Almoço?

    Era de mais.

    - Sim, o teu almoço, hoje. Metade de uma sanduíche de presunto com queijo suíço e mostarda escura. Deste a outra metade àquele cão preto escanzelado que vem pedinchar quando te vê. - Sorrindo, afastou-se. - Deves estar ficando com fome para o jantar.

    Ele refletiu um minuto e depois decidiu seguir o instinto.

    - Tory, porque não voltas aqui e me dizes o que estou a pensar agora?

    Ela sentiu uma espécie de riso a agitar-se no peito.

    - Acho que vou deixar isso só para ti.

    E deixou a porta de tela fechar-se atrás de si.

    

    Eram as flores, Margaret sempre pensara isso, que a mantinham lúcida. Quando tratava das flores, elas nunca respondiam, nunca lhe diziam que ela não compreendia, nunca arrancavam as raízes nem se iam embora, amuadas.

    Ela podia cortar as partes selvagens, aqueles rebentos que cresciam de repente e que pensavam que podiam seguir o seu caminho, até a planta ter a forma que ela entendia que devia ter.

    Imaginou que devia estar muito melhor se tivesse ficado solteira e criado peônias em vez de filhos.

    Os filhos partem corações só por serem filhos.

    Mas o casamento fazia parte do que era esperado da parte dela. E tanto quanto se lembrava sempre fizera o que era esperado da parte dela. De vez em quando fazia um pouco mais, mas raramente, muito raramente, fazia menos.

    E amara o seu marido, pois evidentemente que isso também era esperado da parte dela. Jasper Lavelle era um jovem bem-parecido quando começou a cortejá-la. Bem, e também tinha charme, o mesmo sorriso lento e evasivo que ela via por vezes desenhar-se no rosto do filho que tinham feito juntos. Era temperamental, mas isso era excitante quando ela era suficientemente jovem para achar excitante esse tipo de coisa. Reconhecia esse mesmo temperamento na sua filha. Na filha que estava viva.

    Era grande e forte, um homem dramático com um riso alto e mãos rijas. Talvez por isso ela visse tanto dele e tão pouco de si própria nos filhos que lhes restavam.

    Quando analisava a situação, irritava-a o fato de a sua marca naquelas vidas que ela ajudara a criar ser tão tênue. Em vez disso, optara, estava certa de que sensatamente, por deixar a sua marca em Beaux Revés. Ali, o seu toque, a sua visão eram tão profundas como as raízes dos velhos carvalhos que ladeavam o caminho de acesso à casa.

    E isso, mais do que o filho ou a filha, tornara-se o seu orgulho.

    Se Hope fosse viva, teria sido diferente. Cortou a cabeça murcha de um cravo, sem lamentar a perda daquela flor outrora perfumada. Se Hope fosse viva, refletiria e compreenderia todas as esperanças e sonhos que uma mãe tem para uma filha.Teria dado um novo brilho ao nome dos Lavelle.

    Jasper teria permanecido forte e firme, e nunca se teria desgraçado com mulheres e escândalos. Nunca se teria desviado do caminho que ambos tinham iniciado, nem deixado a sua esposa a esfregar as nódoas do nome que partilhavam.

    Mas no fim Jasper ficara intratável, e quando não estava furioso estava se preparando para ficar. Na vida com ele não tinham faltado acontecientos. O último fora o mau gosto de sofrer um ataque de coração fatal na cama da amante. O fato de a mulher ter tido o bom senso e a dignidade de se manter afastada enquanto o incidente era abafado cravara-se no estômago de Margaret como um osso pontiagudo.

    Ainda assim, feito o balanço, era muito mais fácil ser viúva dele do que sua esposa.

    Não sabia porque estava a lembrar-se tanto dele naquela abençoada manhã fresca, em que o orvalho depositava beijos molhados nas suas flores e o céu se apresentava no azul suave da primavera.

    Fora um bom marido. Na primeira fase do casamento fora um alicerce forte e sólido, um homem que tomava as decisões para ela ter de se preocupar com pormenores. Fora um pai atento, talvez até um pouco permissivo.

    A paixão entre eles já acalmara quando chegaram ao primeiro aniversário da sua noite de casamento. Mas a paixão era um elemento difícil e perturbador na vida de uma pessoa, uma emoção exigente e instável. Não que ela alguma vez lhe tivesse dito que não, claro, nem uma única vez desde a noite do casamento lhe virara as costas na cama.

    Margaret tinha orgulho nisso, orgulho em ter sido uma boa esposa, dedicada. Mesmo quando a idéia de sexo a deixava nauseada, não ficara ao dispor dele, em silêncio, para que ele se aliviasse?

    Cortou mais flores murchas, com um clique afiado da tesoura, e colocou-as no cesto do lixo.

    Fora ele que lhe virara as costas, que mudara. Nada voltara a ser o mesmo no casamento deles, nas suas vidas, na sua casa, desde aquela manhã terrível, aquela manhã quente e pegajosa de agosto, quando encontraram a sua Hope no pântano.

    Doce e boa Hope, pensou, com uma dor que se tornara mais surda e mais pesada com o passar dos anos. Hope, o seu anjo de luz, a única das crianças a quem tinha dado vida que parecia verdadeiramente ligada a si, verdadeiramente sua.

    Havia momentos, passados todos estes anos ainda havia momentos em que se perguntava se aquela perda fora uma espécie de castigo. Ter-lhe sido levada a filha de quem ela gostava mais. Mas que crime, que pecado cometera ela para merecer tal castigo?

    Permissividade, talvez. O ter permitido que a menina se ligasse à miúda Bodeen, quando teria sido mais sensato - era tão fácil ver isso agora, à distância! - contrariar, até mesmo proibir a sua inocente Hope de desenvolver tal ligação. Esse fora o erro, mas não fora verdadeiramente um pecado.

    E se fora um pecado, era mais da responsabilidade de Jasper. Ele minimizava a sua preocupação quando ela a manifestava, chegava mesmo a rir-se dela. A miúda Bodeen era inofensiva, dizia ele. Inofensiva.

    Jasper pagara por aquele juízo errado, aquele erro, aquela pecado, para o resto da sua vida. E, mesmo assim, não era suficiente. Nunca seria suficiente.

    A miúda Bodden matara Hope, exatamente como se lhe tivesse tirado a vida com as suas próprias mãos, pequenas e sujas.

    Agora, estava de volta. De volta a Progress, de volta à Casa do Pântano, de volta às suas vidas. Como se tivesse todo o direito.

    Margaret arrancou um pedaço de trepadeira daninha e atirou-o para o cesto. A avó costumava dizer que as ervas daninhas eram apenas flores silvestres que cresciam no lugar errado. Mas não eram. Eram invasoras e precisavam de ser arrancadas, cortadas, destruídas de qualquer maneira.

    Não podia permitir-se que Victoria Bodeen criasse raízes e florescesse em Progress.

   

    Era tão bonita, pensou Cade. A sua mãe, aquela mulher admirável e distante. Vestia-se para jardinar como se vestia para tudo: com cuidado, precisão e perfeição.

    Usava um chapéu de palha de abas largas, para lhe proteger a cabeça, com uma fita azul clara a condizer com a saia comprida de algodão e a blusa curta, que ela protegia com um avental de jardinagem cinzento.

    Tinha pérolas nas orelhas, luas redondas e brancas, tão luminosas como as gardênias que tanto adorava.

    Usava também o cabelo branco, embora tivesse apenas cinquenta e três anos. Era como se quisesse que ele fosse um símbolo de idade e de dignidade. Tinha a pele suave. As preocupações pareciam nunca se refletir nela. O contraste entre aquele rosto bonito e jovem e o choque causado pelo cabelo branco era marcante.

    Mantinha-se em forma. Esculpia o corpo impiedosamente, com dietas e exercício. Os quilos indesejados não eram mais tolerados do que as ervas daninhas no seu jardim.

    Havia oito anos que era viúva, e assumira tão facilmente essa condição que era difícil recordá-la de outro modo.

    Sabia que ela estava descontente com ele, mas isso não era novidade. O seu descontentamento era quase sempre mostrado da mesma forma que a sua aprovação. Com algumas palavras frias.

    Não se lembrava da última vez que ela lhe tocara com sentimento, ou com calor. Não se lembrava se alguma vez esperara que ela lhe tocasse assim.

    Mas continuava a ser sua mãe, e ele faria tudo o que pudesse para apagar a distância entre eles. Sabia demasiado bem que uma pequena brecha se podia transformar num abismo, através do silêncio.

    Uma pequena borboleta amarela volteava junto à cabeça dela e foi ignorada. Margaret sabia que ela estava ali, tal como sabia que ele caminhava na direção dela, com largas passadas, pelo caminho pavimentado. Mas não reagiu à presença de nenhum dos dois.

    - Está uma bela manhã para andar cá fora - começou Cade. - A primavera está boa para as flores.

    - Era bem-vinda alguma chuva.

    - Anunciaram chuva para esta noite, já não é sem tempo. Abril está muito seco para o meu gosto. - Ele acocorou-se, deixando a distância de um braço entre eles. As abelhas zumbiam loucamente ali perto, nos montes de azáleas. - As primeiras sementeiras estão quase prontas. Tenho que ir dar uma volta para ver como está o gado. Temos uns bezerros prontos a serem desmamados. Tenho umas compras a fazer. Quer que lhe traga alguma coisa?

    - Um herbicida dava-me jeito. - Nessa altura, levantou a cabeça. Os olhos dela eram de um azul mais pálido e mais suave do que os dele. Mas eram igualmente diretos. - A não ser que tenhas alguma objecção moral a que eu use herbicida nos meus jardins.

    - Os jardins são seus, Mãe.

    - E os campos são teus, como me foi lembrado. Tratas deles como entenderes. Exatamente como as propriedades são as tuas propriedades. Arrenda-las a quem te apetecer.

    - Exatamente. - Podia ser tão frio como ela, se quisesse. - E os lucros desses campos e dessas propriedades irão manter Beaux Revés sem dívidas. Enquanto estiverem nas minhas mãos.

    Arrancou um amor-perfeito,  rápida e impiedosamente,  com as pontas dos dedos.

    - Os rendimentos não são os padrões pelos quais regemos as nossas vidas.

    - Mas o que é certo é que as tornam bem mais fáceis.

    - Não há necessidade de falares nesse tom comigo.

    - Peço desculpa. Pensei que havia. - Pousou as mãos nos joelhos, aguardando que eles se acalmassem. - Alterei o funcionamento da fazenda, comecei a mudá-lo há mais de cinco anos. E funciona. No entanto, recusa-se a aceitar ou a reconhecer que fiz com que as coisas funcionassem. Não posso fazer nada quanto a isso. Quanto às propriedades, também trato delas à minha maneira. Que é diferente da do pai.

    - Achas que ele deixaria aquela miúda Bodeen pôr os pés naquilo que era nosso?

    - Não sei.

    - Nem te importa - disse ela, voltando a arrancar ervas daninhas.

    - Talvez não. - Afastou o oíhar. - Não posso viver a minha vida a perguntar-me o que ele faria, ou quereria ou esperaria. O que sei é que a Tory Bodeen não é responsável pelo que aconteceu há dezoito anos.

    - Estás enganado.

    - Bem, um de nós está. - Pôs-se de pé. - Seja como for, ela está cá. Tem direito a estar cá. Não há nada a fazer quanto a isso.

    Era o que iriam ver, pensou Margaret, enquanto o filho se afastava. Iriam ver o que havia a fazer quanto a isso.

   

    O mau humor manteve-se durante o dia. Por mais vezes que tentasse, sem sucesso, aproximar-se da mãe, sentia a dor dessa rejeição como se fosse a primeira.

    Deixara de tentar explicar e justificar as alterações que fizera na fazenda. Ainda se lembrava da noite em que lhe mostrara mapas, gráficos e projeções, ainda se lembrava de como ela olhara para ele, de como o informara, dura como pedra, antes de lhe virar as costas, que Beaux Revés era uma coisa que não podia ser posta no papel e analisada.

    Magoara-o, mais ainda, supunha ele, porque ela tinha razão. Não podia ser posta no papel. Nem a terra, que ele estava tão decidido a proteger, a preservar e a passar à próxima geração de Lavelle.

    O seu orgulho nela, o seu compromisso para com ela, não eram menores do que os da mãe. Mas para Cade era, como sempre fora, uma coisa viva que respirava e crescia e mudava com as estações. E para a mãe era estática, como um monumento cuidadosamente preservado. Ou um túmulo.

    Tolerava a falta de confiança dela, tal como tolerava a troça e o ressentimento dos vizinhos. Passara inúmeras noites sem dormir durante os primeiros três anos em que estivera à frente da fazenda. A preocupação e o medo de estar enganado, de falhar, de que o legado que lhe fora parar às mãos escorregasse por entre elas na sua impaciência e no seu entusiasmo, na teimosia e na insistência em fazer as coisas à sua maneira.

    Mas não estava enganado, pelo menos quanto à fazenda. Sim, requeria mais tempo, esforço e dinheiro fazer a cultura biológica do algodão. Mas a terra... ah!, a terra ficava mais forte. Via-a explodir no verão, descansar no inverno, e surgir na primavera, sedenta de tudo o que ele pusesse nela.

    Recusava-se a envenená-la, por mais que lhe dissessem que com essa recusa estava a condenar a terra e as colheitas. Tinham-lhe chamado obstinado, teimoso, louco, e muito pior.

    E no primeiro ano em que atingira as condições impostas pelo governo para a cultura biológica do algodão, depois de colher e vender, celebrara embebedando-se calmamente, sozinho no escritório que fora do pai.

    Comprou mais gado, porque acreditava na diversificação. Adquiriu mais cavalos, porque os adorava. E porque tanto os cavalos como o gado produziam estrume.

    Acreditava na força e no valor do algodão biológico. Estudou, fez experiências. Aprendeu. Manteve-se suficientemente fiel às suas crenças para arrancar as ervas daninhas à mão quando era necessário e para tratar das bolhas sem se queixar. Observava o céu e ouvia as previsões meteorológicas com igual devoção, e voltava a aplicar os lucros na terra, ciclicamente, tal como lavrava depois da colheita.

    Havia outras áreas a operacionalizar, os contratos, os arrendamentos e as fábricas. Ele usava-os, trabalhava-os, sem nunca os descurar. Mas o seu coração não era deles.

    Era da terra.

    Não conseguia explicar, e nunca tentara. Mas amava Beaux Revés como alguns homens amam uma mulher. Completamente, obsessivamente, com ciúme. Todos os anos o seu sangue fervia de emoção quando ela dava à luz os seus filhos.

    A manhã fresca transformara-se numa tarde abafada quando ele terminou todas as tarefas aborrecidas, incluindo as compras, que tinha para fazer. Tinha a lista na cabeça e ia-as eliminando sistematicamente.

    Passou pela estufa, a dois quarteirões da praça da cidade, para comprar o herbicida para a mãe. As caixas de flores chamaram-lhe a atenção. Impulsivamente, escolheu uma caixa de alegria-da-casa cor-de-rosa e levou-a para dentro.

    Havia dez anos que os Clampett tinham a estufa. Começara por ser uma forma de complementar os seus campos de soja. Com os anos, tinham-se saído melhor com as flores do que com as colheitas.

    - Leva outra com um desconto de vinte por cento. - Billy Clampett fumava um Camel, mesmo por baixo do letreiro NÃO FUMAR que a mãe pusera na parede.

    - Cobra-me duas, então. Levo a outra quando sair. - Cade pousou a caixa no balcão. Andara na escola com Billy, embora nunca tivessem sido propriamente amigos. - Como vão as coisas?

    - Pouco movimentadas, disso não há dúvida. - Billy semicerrou os olhos através do fumo. Tinha os olhos escuros e insatisfeitos. Insistia em usar o cabelo cortado à escovinha, áspero como agulhas, e sem cor definida. Engordara desde o liceu ou, para ser mais exacto, perdera os músculos que o tinham tornado um conhecido defesa no futebol.

    - Vão ser mais umas das tuas plantas de cobertura?

    - Não. - Sem querer entrar em atrito, Cade deu alguns passos pela estufa, observando uns vasos. Pegou em dois com uma patina verde, e pô-los em cima do balcão. - Preciso de Roundup.

    Billy acabou o cigarro e meteu a chepa numa garrafa que guardava por baixo do balcão. Sabia bem que não podia deixar provas à vista, ou a mãe iria desancá-lo.

    - Bem, pensei que não aprovavas essas coisas. Quando deixaste de andar aos abraços com as árvores?

    - E um saco de terra, para plantar as alegrias-da-casa - disse Cade, simplesmente.

    - Também te posso arranjar pesticida; andas à procura de algum insecticida?

    - Não, obrigado.

    - Não, está certo. - Billy soltou uma gargalhada sonora. - Não queres nada com inseticidas, nem pesticidas, nem com os horríveis fertilizantes químicos. As tuas colheitas são puras como virgens. Até te citaram numa revista por causa disso.

    - Quando foi que começaste a ler? - disse Cade em tom agradável. - Ou andavas só a ver as imagens?

    - As revistas e os discursos bonitos não fazem mossa, por aqui. Toda a gente sabe que tu te limitas a ficar sentado e a colher os benefícios das despesas que os vizinhos fazem nos campos deles.           

    - Ai, sim?

    - Sim, pois - atacou Billy. - Tiveste uns anos com sorte. Sorte de mais, acho eu.                                                                                              

    - Não me lembro de te ter perguntado o que achavas, Billy. Não te importas de fazer a conta?

    - Mais cedo ou mais tarde, vais pagar por isto. Estás apenas a  abrir os braços à peste e às doenças.

    O dia fora comprido e aborrecido, e Cade Lavelle era um dos alvos preferidos de Billy. Era manso e nunca respondia.

    - Mas se as tuas colheitas forem infectadas, as outras também vão ser. E nessa altura vai ser o inferno.                            

    - Vou ver se não me esqueço. - Cade tirou algumas notas da carteira e atirou-as para cima do balcão. - Vou levar isto para a camioneta enquanto fazes a conta.

    Manteve as emoções açaimadas, por mais que lhe apetecesse deixá-las rosnar como um cão raivoso. Mas à solta eram selvagens. Billy       Campbell não valia o tempo nem o esforço de refreá-las depois de        deixadas à solta.                                                                                               

    Foi isso que disse a si próprio enquanto punha os vasos e as caixas de flores na camioneta.                                                                  

    Quando voltou a entrar, o Roundup e um saco de dez quilos de terra estavam em cima do balcão.

    - Tens a haver três dólares e seis cêntimos. - Com uma lentidão deliberada, Billy contou o troco. - Vi a tua irmã uma ou duas vezes na cidade. Está com bom aspecto. - Ergueu os olhos e sorriu. - Mesmo bom.

    Cade meteu o troco no bolso e manteve nele o punho fechado, para impedi-lo de ir direito àquela boca trocista.

    - Como está a tua mulher, Billy?

    - A Darlene está bem. Grávida outra vez, a terceira. Espero ter plantado mais um filho forte dentro dela. Quando meto o arado num campo ou numa mulher, faço o serviço bem feito. - Os olhos brilharam-lhe e o sorriso alargou-se. - Pergunta à tua irmã.

    A mão de Cade estava fora do bolso, agarrando Billy pelo colarinho antes de qualquer deles estar preparado para isso.

    - Só uma coisa - disse Cade calmamente. - Não te esqueças quem é o dono daquela casa onde moras. Não te esqueças disso, Billy. E deixa a minha irmã em paz.

    - Tens muita garganta acerca do teu dinheiro, mas não tens bolas para usar os punhos como um homem.

    - Deixa a minha irmã em paz - repetiu Cade -, ou vais descobrir para que tenho bolas.

    Cade soltou-o, pegou no resto das compras e saiu com grandes passadas. Saiu do parque de estacionamento e seguiu até ao primeiro sinal de Pare. Ficou ali, sentado e com os olhos fechados, até a nuvem vermelha de fúria desaparecer.

    Não tinha a certeza do que era pior: andar a murros com Clampett num lugar cheio de ramos de flores, ou não se esquecer da insinuação de que a irmã tinha deixado um lixo como Clampett pôr-lhe as mãos em cima.

    Engatando a primeira, deu meia volta e dirigiu-se a Market Street. Encontrou lugar para estacionar a meio quarteirão da loja de Tory, mesmo atrás do carro do Dwight. Fazendo o melhor possível para acalmar-se, pegou nos vasos e pousou-os à entrada da loja.

    Ouviu o som agudo de uma serra elétrica, antes de entrar.

    A base do balcão já estava no lugar e a primeira fila de prateleiras estava pronta. Mandara-as fazer em pinho e depois as envernizara. Uma escolha inteligente, pensou Cade. Simples e sem artefatos, evidenciariam os artigos que ela exporia nelas em vez de chamar a atenção sobre elas próprias. O chão estava coberto de lona e ferramentas, e o ar cheirava a serragem e a suor.

    - Olá, Cade. - Dwight veio ter com ele, cheio de ferramentas. Cade deu um puxão à gravata azul com riscas que Dwight usava.

    - Que bonito que estás.

    - Tive uma reunião. Uns banqueiros. - Como se se tivesse lembrado apenas naquele momento que a reunião já acabara, Dwight desapertou um pouco o nó da gravata. - Vim verificar se estava tudo bem, antes de ir para o escritório.

    - Estás fazendo progressos.

    - A cliente tem idéias bem definidas sobre o quer e quando quer. - Dwight revirou os olhos. - Estamos aqui para nos entendermos, mas deixa-me que te diga, ela não te dá o mínimo espaço de manobra. Aquela menina gaguejante transformou-se numa mulher de negócios dura de roer.

    

    - Onde está ela?

    - Nas traseiras. - Dwight fez um gesto com a cabeça na direção da porta fechada. - Deixa-me trabalhar à vontade, verdade se diga. Deixa-me trabalhar à vontade desde que eu faça as coisas como ela quer.

    Cade voltou a olhar para o trabalho já feito.

    - As coisas como ela quer parecem-me bem - concluiu.

    - Tenho de admitir que sim. Ouve, Cade... - Dwight mexeu-se um pouco. - A Lissy tem uma amiga.

    - Não.

    - Meu Deus, escuta-me.

    - Não tenho de escutar-te. Ela tem uma amiga, uma amiga que é perfeita para mim. Porque não telefono a esta amiga ou não apareço lá em casa para jantarmos os quatro, ou tomarmos um copo?

    - Bem, porque não? A Lissy não me vai deixar em paz até tu fazeres isso.

    - A mulher é tua, o problema é teu. Diz à Lissy que descobriste que sou gay, ou qualquer coisa assim.

    - Boa, vai dar certo. - A idéia divertiu tanto Dwight que riu com gosto. - Vai mesmo dar resultado. Da maneira que as coisas estão, vai começar a escolher homens para ti.

    - Deus Todo-Poderoso. - Cade percebeu que aquele cenário não estava afastado. - Então diz-lhe que tenho um caso secreto e escaldante com alguém.

    - Quem?

    - Escolhe alguém - disse Cade, pondo fim ao assunto e dirigindo-se para a porta do fundo. - Ou diz-lhe simplesmente que não. - Bateu à porta e depois entrou, sem esperar pela resposta.

    Tory estava em cima de um escadote, a substituir uma lâmpada fluorescente na calha do teto.

    - Deixa que eu faço isso.

    -Já está. Isto é obrigação do arrendatário, não do senhorio. -

    Ainda a irritava, só um pouco, saber que ele era o dono do edifício.

    -Já vi que puseram um vidro novo na porta.

    - Sim, obrigada.

    - Parece que consertaram o ar condicionado.

    - Sim.

    - Se quiseres chatear-te comigo hoje, vais ter que ir para a fila. Há muita gente à espera.

   

    Ele virou-se, de mãos nos bolsos. Ali, optara por prateleiras de metal, observou. Cinzentas, feias, sólidas e práticas. Já estavam atulhadas de caixas de cartão, e as caixas meticulosamente etiquetadas com um número de estoque.

    Comprara uma escrivanuinha, também sólida e prática. Em cima dela já havia um computador e um telefone, bem como uma pilha de papéis cuidadosamente arrumados.

    Em dez dias, era uma organização considerável. Não pedira ou aceitara a ajuda dele uma única vez. Desejou que isso o deixasse indiferente.

    Tinha vestido uns calções pretos, uma T-shirt cinzenta e tênis cinzentos. Desejou não se sentir atraído por eles.

    Virou-se enquanto ela descia do escadote e agarrou-o para dobrá-lo.

    - Eu arrumo isto.

    - Eu faço isso.

    Ele puxou o escadote e ela também.

    - Raios partam, Tory.

    O súbito silvo de fúria, a luz perigosa nos olhos dele, fizeram-na recuar, juntando as mãos. Ele fechou o escadote e meteu-o num pequeno armário.

    Quando ele estava ali, de costas viradas para ela, ela sentiu um toque de culpa e de simpatia. Era estranho aperceber-se de que não sentia medo nem nervosismo, como acontecia habitualmente diante de homens zangados.

    - Senta-te, Cade.

    - Porquê?                         

    - Porque pareces estar precisando. - Foi até ao sítio onde colocara uma minigeladeira, tirou de lá uma garrafa de Coca-Cola e tirou-lhe a tampa. - Toma, estás precisando refrescar.

    - Obrigado. - Deixou-se cair na cadeira de escrivaninha e bebeu um longo gole da garrafa.

    - Mau dia?

    -Já tenho tido melhores.

    Sem dizer nada, ela abriu a sua bolsa e encontrou a caixa de comprimidos com incrustações, onde guardava a aspirina. Quando ela lhe estendeu duas, ele ergueu o sobrolho.

    Ela sentiu o calor assomar-lhe rapidamente às faces.

    - Eu não... É que parece, só isso.

    - Obrigado. - Engoliu a aspirina, suspirou e rodou os ombros. - Suponho que não queiras melhorar as coisas vindo até aqui e sentando-te no meu colo.

    - Não, não quero.

    - Tinha que perguntar. E que tal jantar e ir ao cinema? Não, não digas não sem sequer pensares no assunto - disse ele, antes de ela conseguir falar. - Só jantar e ir ao cinema. Que diabo, uma pizza, um hambúrguer, qualquer coisa simpática. Prometo não te pedir em casamento.

    - É um alívio, mas não é lá grande incentivo.

    - Pensa nisso durante cinco minutos. - Ele largou a garrafa na escrivaninha e levantou-se. - Vem até lá fora. Tenho uma coisa para ti.

    - Ainda não acabei aqui.

    - Terás tu que argumentar a propósito de tudo, mulher? Cansas-me. - Para resolver o problema, pegou-lhe na mão e arrastou-a até à porta.

    Era de esperar que ela resistisse. Mas havia dois carpinteiros na loja, o que significava dois pares de olhos e de ouvidos. Haveria menos razões para falatório se ela saísse calmamente com Cade.

    - Gostei deles - começou Cade, fazendo um gesto na direção dos vasos, enquanto continuava a puxá-la pelo passeio, até à sua camioneta. - Se não gostares, podes trocá-los na loja dos Clampett. E estas também, acho eu.

    Ele parou e tirou uma das plantas da caçamba da camioneta.

    - Mas acho que ficam muito bem.

    - Bem com quê?

    - Contigo. Com a tua loja. Considera-as uma espécie de presente de boa sorte, mesmo que tenhas que ser tu a plantá-las. - Meteu-Ihe a primeira caixa na mão e tirou a segunda e o saco de terra.

    Ela ficou ali, perplexa e comovida. Lembrou-se de que queria flores, flores em vasos, à porta da loja. Pensara em petúnias, mas estas eram mais bonitas e igualmente simpáticas.

    - Foi bonito da tua parte. E atencioso. Obrigada.

    - Podes olhar para mim? - Ele esperou que ela levantasse a cabeça e que os olhos dela encontrassem os seus. - De nada. Onde as queres?

    - Vamos levá-las até à entrada. Vou plantá-las.

    Quando começaram a caminhar pelo passeio, juntos, ela olhou-o demoradamente.

    - Que se dane. Podes aparecer por volta das seis. A pizza parece-me bem. Se correr bem, podemos falar sobre o cinema.

    - Ótimo. - Pousou as flores e a terra diante da vitrine. - Eu volto.

    - Sim, eu sei - murmurou ela, enquanto ele se afastava.

    

    Talvez as pessoas não morressem mesmo de tédio, concluiu Faith, mas também não sabia como raio conseguiam viver com ele.

    Quando era criança e se queixava de que não tinha nada para fazer, as palavras caíam nos ouvidos de adultos pouco condoídos, que lhe distribuíam tarefas aborrecidas. Detestava essas tarefas ainda mais do que detestava o tédio. Mas há lições que se aprendem da forma mais difícil.

    - Não há nada para fazer aqui. - Faith estava confortavelmente sentada à mesa da cozinha, a mordiscar uma bolacha ao pequeno-almoço. Passava das onze, mas não se dera ao trabalho de vestir-se. Usava o robe de seda que comprara numa viagem a Savannah, em Abril.

    E aquilo também começava a entediá-la.

    - As coisas são sempre iguais aqui, dia após dia, mês após mês. Juro que é milagre nenhum de nós sair daqui a correr, aos gritos, durante a noite.

    - Está com problemas de aborrecimento, Miss Faith? - A voz de Lilah, áspera como grés, pairou sobre a pronúncia francesa. Mantinha-a em parte porque a avó era crioula, mas principalmente porque gostava.

    - Nunca acontece nada por aqui. Todas as manhãs são iguais, e os dias vão-se estendendo em longas linhas de mais nada.

    Lilah continuou a esfregar a bancada. A verdade era que tinha a cozinha arrumada havia mais de uma hora, mas sabia que Faith havia de aparecer. Tinha estado à espera.

    - Acho que está precisando de alguma atividade. - Lançou a Faith um olhar suave, com os seus olhos castanhos e cândidos. Como ausência de candura era coisa que Lilah tinha em abundância, aquele olhar requerera alguma prática.

    Mas ela conhecia o seu alvo. Cuidara de Miss Faith desde o dia em que aquela menina nascera. Nascera, recordou Lilah com alguma ternura, a berrar e a ameaçar o mundo com os seus punhos cerrados. A própria Lilah fazia parte do círculo doméstico dos Lavelle desde os seus vinte anos de idade, quando fora contratada para ajudar nas limpezas, quando Mrs. Lavelle estava grávida de Mr. Cade.

    Nessa altura, tinha o cabelo preto e não grisalho, como agora. Tinha as ancas consideravelmente mais estreitas, mas não se desleixara. Amadurecera e tornara-se, como gostava de pensar, uma bela figura de mulher.

    Tinha a pele da cor do caramelo escuro que fazia para envolver as maçãs, no Halloween. Gostava de realçá-la com um batom vermelho forte, e trazia-o no bolso do avental.

    Nunca casara. Não que não tivesse tido oportunidade. Lilah Jackson tivera muitos pretendentes, no seu tempo. E como o seu tempo estava longe de chegar ao fim, ainda gostava de enfeitar-se para correr a cidade na companhia de um homem bem-parecido. Mas casar? Bem, isso era diferente.

    Preferia as coisas como estavam, e isso significava ter um homem que viesse buscá-la à porta e a levasse onde ela queria ir. E se ele quisesse sair com ela outra vez, era melhor lembrar-se de trazer uma bela caixa de chocolates ou umas flores e abrir-lhe as portas, como um cavalheiro.

    Casar com um homem significava passar a vida atrás dele, a vê-lo soltar gases e a coçar-se e sabe Deus mais o quê, enquanto ela se esfalfava para fazer esticar o cheque e conseguir manter a sanidade e comprar umas coisas bonitas para si.

    Não, assim tinha uma bela casa: para dizer a verdade, Beaux Revés era tanto dela como de qualquer pessoa, que diabo! Criara três bebês e ficara com o coração doente por causa da que tinham perdido, e tinha, na sua forma de pensar, todos os benefícios da companhia masculina sem qualquer dos problemas.

    Também gostava de um bom aconchego, de vez em quando. Se o bom Deus não quisesse que os seus filhos se aconchegassem não teria posto neles essa necessidade.

    E Miss Faith, pensou, estava ali cheia de necessidades e tinha de descobrir como preenchê-las sem se magoar a si mesma. Isso significava que a rapariga estava igualmente cheia de problemas. A maioria por culpa própria. Lilah sabia que havia pintos que demoravam mais tempo a encontrar o caminho no pátio em volta do galinheiro.

    - Talvez possa ir dar um belo passeio de carro - sugeriu Lilah.

    - Onde? - Faith bebericou o café, sem mostrar interesse. - É tudo igual, qualquer que seja a direção.

    Lilah tirou o batom do bolso e retocou a pintura aproveitando o reflexo no metal da torradeira.

    - Sei o que me anima quando fico deprimida. Uma belo monte de compras.

    - Vejam só. - Faith suspirou e brincou com a idéia de ir até Charleston. Não há nada melhor para fazer.

    - Muito bem, então. Vá lá fazer as compras e animar-se. Aqui está a lista.

    Faith pestanejou e depois ficou a olhar para a lista de compras que Lilah abanava diante do seu rosto.

    - Mercearias? Não vou comprar mercearias!

    - Não tem nada melhor para fazer, e foi a menina que o disse. Veja lá se esses tomates estão maduros, ouviu? E traga-me o detergente para o chão que escrevi aí. O anúncio na televisão fez-me rir, por isso vale a pena experimentar.

    Virou-se para o lava-louça para enxaguar a esponja da louça e teve de conter uma gargalhada por causa da forma como a sua menina tinha a boca aberta.

    - Depois, passe pela drogaria e traga-me o meu óleo de palma, daquele em frascos, o da garrafa não. E a espuma de banho. De leite e mel. No regresso, passe pela lavandaria e traga tudo o que lá deixei a semana passada, que é quase tudo seu, a propósito. Sabe Deus para que quer meia centena de blusas de seda.

    Faith semicerrou os olhos.

    - Mais alguma coisa? - disse ela, docemente.

    - Está tudo escrito aí, não há como se enganar. Assim, tem alguma coisa para fazer e não se aborrece durante algumas horas. Vá, agora vá vestir qualquer coisa, é quase meio-dia. É pecado, pecado ficar a preguiçar metade do dia, de robe. Vá, mexa-se.

    Lilah fez de conta que estava a enxotar uma galinha e depois levantou da mesa o prato e a chávena de Faith.

    - Não terminei o meu pequeno-almoço.

    - Não a vi comê-lo. Estava a depenicar e a fazer beicinho, foi isso que a vi fazer. Agora, fora da minha cozinha e torne-se útil, para variar.

    Lilah cruzou os braços, inclinou a cabeça e ficou a olhar para ela. Tinha uma maneira de olhar capaz de vergar a alma mais intrépida. Faith levantou-se da mesa, fungou e saiu com passos amuados.

    - Quando voltar, voltei - gritou.

    Abanando a cabeça e soltando uma gargalhada, Lilah acabou de beber o café de Faith.

    - Alguns pintos nunca aprendem quem manda no galinheiro.

   

    Wade levara três anos e dezoito cachorros a convencer Dottie Betrum a esterilizar a sua labrador retriever doida por sexo. A última ninhada de seis acabara de ser desmamada, e enquanto a sua mamã descansava dos efeitos da cirurgia, ele deu a cada um dos alegres e barulhentos cãezinhos a necessária injecção.

    - Não posso ver agulhas, Wade. Fico com a cabeça à roda.

    - Não precisa olhar, Mistress Betrum. Porque não vai esperar lá para fora? Daqui a alguns minutos está tudo terminado.

    - Oh! - As mãos agitavam-se como borboletas em volta das suas faces, e os seus olhos míopes brilhavam, perturbados, atrás das grossas lentes dos óculos. - Acho que devo ficar. Não me parece certo... - Interrompeu-se quando Wade espetou a agulha sob o pêlo.

    - Maxine, leve a Mistress Betrum para a sala de espera. - Deu à sua assistente uma rápida piscadela de olho. - Eu trato disto.

    E trato melhor assim, pensou ele, enquanto Maxine ajudava a chocada senhora a sair da sala, antes que houvesse velhinhas queridas a desmaiar no meio do chão.

    - Pronto, meu lindo. - Wade afagou a barriga do cachorro para lhe dar confiança e fez o resto das inoculações. Pesou, coçou orelhas, viu se havia parasitas e preencheu impressos, enquanto uivos e latidos ecoavam entre as paredes.

    A Sadie de Mrs. Betrum dormia pacificamente, o velho gato de Mr. Klingle, o Silvester, assanhava-se na sua gaiola, e o Speedy Petey, o hamster mascote da turma do terceiro ano da escola primária, corria na sua roda, provando que estava recuperado de uma grave infecção na bexiga.

    Para o Dr. Wade Mooney, aquele era o seu pequeno paraíso.

    Despachou o último cachorro, enquanto os irmãos caíam por cima uns dos outros, lhe puxavam os atacadores dos sapatos ou faziam chi-chi no chão. Mrs. Betrum já lhe assegurara que tinha encontrado bons lares para cinco dos cachorros. Ele, como sempre, declinara a oferta de ficar com um para si próprio.

    Mas tinha uma idéia de onde o último podia ter uma casa.

    - Doutor Wade? - Maxine espreitou pela porta.

    - Está tudo pronto, aqui. Vamos reunir as tropas.

    - São tão engraçados. - Os seus olhos negros dançavam. - Pensei que não ia resistir a ficar com um, desta vez.

    - Se começarmos, é difícil parar. - Mas as covinhas na sua cara tornaram-se mais profundas quando um dos cachorros se aninhou nas suas mãos.

    - Quem me dera poder ficar com um. - Maxine pegou num cachorro, afagando-o enquanto ele lhe lambia a cara com um amor e uma velocidade desesperados.

    Adorava animais, razão pela qual a oportunidade de trabalhar com o Dr. Wade caíra do céu. Já havia dois cães lá em casa, e sabia que não conseguiria convencer os pais a ficar com mais um.

    Nascera no vale, e os pais tinham-se esfalfado para se sustentarem a si próprios, à filha e aos dois filhos mais novos. O dinheiro continuava a ser curto, recordou a si própria enquanto acariciava o cachorro, com vontade de levá-lo para casa.

    E o dinheiro ia continuar a ser curto por mais algum tempo, pensou, soltando um suspiro. Era a primeira da sua família a ir para a universidade, e havia que poupar todos os tostões.

    - São tão doces, doutor Wade. Mas entre o trabalho e a escola, não ia ter tempo para lhe dar atenção suficiente. - Voltou a pousar o cachorro. - Além disso, o meu pai matava-me.

    Wade não pôde deixar de sorrir. O pai de Maxine adorava-a.

    - As aulas vão bem?

    Ela revirou os olhos. Estava no segundo ano da faculdade, e o tempo era tão pouco como o dinheiro. Se não tivesse sido o Dr. Wade a dar-lhe total flexibilidade de horário e a deixá-la estudar quando não havia movimento, nunca teria conseguido chegar ali.

    Era o seu herói, e já tivera uma paixoneta maravilhosamente dolorosa por ele. Agora esperava apenas poder ser um dia uma veterinária tão boa e tão inteligente como ele.

    - Os exames estão aí. Tenho tanta coisa na cabeça que parece que vai explodir. Vou levar estes bebês lá para fora, doutor Wade. - Pegou no cesto cheio de cachorros. - O que digo a Mistress Betrum sobre a Sadie?

    - Ela pode vir buscá-la ao fim da tarde. Diz-lhe que por volta das quatro. Ah, e pede-lhe para não dar o último cachorro. Estou a pensar numa pessoa para ficar com ele.

    - Está certo. Posso ir almoçar, agora? Não temos nada marcado na próxima hora, e pensei que podia ir estudar um bocado no parque.

    - Vai. - Foi até ao lavatório, para lavar as mãos. - Podes demorar a hora toda, Maxine. Vamos lá ver que mais consegues meter nesse teu cérebro.

    - Obrigada.

    Ia ter pena quando ela se fosse embora. Coisa que Wade pensava que iria acontecer assim que ela tivesse o diploma na mão. Não iria ser fácil encontrar alguém tão competente, tão solícito ou tão bom com os animais, e que soubesse também datilografar, lidar com donos de animais à beira de um ataque de nervos e atender o telefone.

    Mas a vida continuava.

    Preparava-se para ver como estava Sadie, quando Faith apareceu à porta de trás.

    - Doutor Mooney. Exatamente quem eu procurava.

    - Sou fácil de encontrar a esta hora do dia.

    - Bem, estou só de passagem. Ele coçou uma sobrancelha.

    - Belo vestido para se estar de passagem.

    - Oh. - Passou um dedo pelo tecido macio, de algodão, justo e curto, vermelho-vivo com riscas finas. - Gostas? Estou virada para o vermelho. - Atirou o cabelo para trás, lançando nuvens de um perfume sedutor. Avançando na direção dele, passou-lhe as mãos pelo peito, pelos ombros. - Adivinha o que tenho vestido por baixo.

    Era sempre assim, pensou ele. Como um estalar de dedos, bastava um olhar dela para deixá-lo pronto a implorar.

    - Porque não me dás uma pista?

    - És um homem tão inteligente. Tens um diploma e aquelas letras antes do teu nome. - Pegou na mão dele e, com a dela por cima, começou a passá-la pela coxa. - Aposto que conseguias descobrir depressa.

    - Meu Deus. - O sangue dele agitou-se violentamente. - Andas pela cidade sem nada por baixo do vestido?

    - E só tu e eu é que sabemos. - Inclinou-se para a frente, com os olhos brilhantes fixos nos dele, e mordeu-lhe o lábio inferior. - O que vais fazer, Wade?

    - Anda lá para cima.

    - É muito longe. - Com uma gargalhada rouca, abriu a porta atrás dele. - Quero-te agora. E quero-te depressa.

    A cadela dormia sossegadamente, respirando de forma regular.

    O espaço cheirava a cão e a anti-séptico. A velha cadeira onde ele passava muitas horas a observar pacientes estava cheia de pêlos de inúmeros cães e gatos.

    - Não tranquei a porta da rua.

    - Vamos viver perigosamente. - Desapertou-lhe o botão das calças de brim e puxou o fecho. - Ora, vejam o que encontrei! - Acariciou-o com a mão, e viu os olhos dele enevoarem-se antes de esmagar a boca contra a dela.

    A enorme excitação que sentira enquanto se vestia, dirigia até à cidade sabendo que ia ter com ele e seduzi-lo, transformou-se num emaranhado de desejos. Era quase doloroso.

    - Leva-me daqui. - Ela arqueou as costas, enquanto a boca dele lhe tomava a garganta. - Leva-me para um sítio doce e escuro e selvagem. Preciso disso. Despacha-te e leva-me daqui.

    O quase limite do desespero dela entrou-lhe no sangue como uma lâmina, deixando-o indefeso. Não havia nada de dócil entre eles quando atingiram o clímax juntos, nada de suave, nada de doce. Quando ela disse o nome dele, com as mãos no sexo dele, arquejante, ele esqueceu-se de que queria suavidade e doçura.

    Tudo o que ele queria era Faith.

    Puxou-lhe a saia vermelha para cima e agarrou-lhe as ancas. Ela estava quente e molhada, e pareceu agarrar-se a ele como uma mandíbula faminta quando ele entrou dentro dela.

    Ela enrolou uma perna à volta da cintura dele e gemeu, longa e profundamente. Ele preenchia o vazio. Não importava se era apenas no momento, se o vazio regressava. Ele preenchia-o, e mais ninguém o preenchera antes.

    Sons selvagens, animalescos, o movimento sólido e rítmico de corpo contra corpo, os corpos contra a madeira, e ele, forte, dentro dela. Ela soltou-se, com um pequeno grito estrangulado na garganta, quando o orgasmo se libertou. Com Wade, o orgasmo era sempre rápido e forte, uma surpresa, um choque maravilhoso para o seu sistema.

    Depois, recomeçava, mais lentamente, mais profundamente, numa insistência gradual que abria qualquer coisa dentro dela para ele.

    E porque era ele, ela podia agarrar-se, render-se. Podia aguentar-se e saber que ele estaria com ela quando caísse.

    O telefone estava a tocar. Pelo menos nos ouvidos dele. A respiração dele estava em sintonia com a dela. Movia-se com ele, a cada impulso, sem nunca parar, sem nunca abrandar. Havia alturas em que ele conseguia pensar nela de forma lúcida e se perguntava por que razão os dois não se devoravam um ao outro até não sobrar nada.

    Ela repetia o nome dele, misturando a palavra com sons arquejantes e gemidos. E mesmo antes de se esvair dentro dela, viu os olhos de Faith fecharem-se, como que em oração.

    - Meu Deus. - Ela estremeceu uma vez e encostou a cabeça à porta, mantendo os olhos fechados. - Meu Deus. Sinto-me maravilhosamente. De ouro por dentro e por fora. - Abriu os olhos, espreguiçando-se. - E tu?

    Ele sabia do que ela estava à espera, por isso resistiu a enterrar a cara no cabelo dela, murmurando palavras em que não acreditava. Palavras que não tinham sido importantes para ela anos antes, quando ele fora suficientemente louco para pronunciá-las.

    - Foi bastante mais apetitoso do que o sanduiche de presunto e alface em que tinha pensado para o almoço.

    Ela riu e enrolou-lhe os braços ao pescoço, de uma forma tão simpática quanto íntima.

    - Ainda há umas partes em mim que não provaste. Por isso...

    - Wade? Wade, querido, estás aí em cima?

    - Credo! - A parte dele que ainda estava aninhada dentro de Faith estremeceu. - A minha mãe.

    - Ora, mas que interessante.

    No momento em que Faith se preparava para soltar uma gargalhada, Wade tapou-lhe a mão com a boca.

    - Chiu. Meu Deus, era mesmo disto que eu estava a precisar. Com os olhos a dançar, Faith produzia sons esquisitos contra a mão dele, enquanto o corpo se lhe agitava de riso.             

    - Não tem graça. - Mas ele próprio teve de controlar as suas próprias gargalhadas. Ouvia a mãe andar de um lado para o outro, chamando-o alegremente no mesmo tom vivo em que costumava chamá-lo para jantar quando ele tinha dez anos.

    - Está calada - sussurrou a Faith. - E fica aqui. Não saias daqui e não faças barulho nenhum.

    Recuou devagar e semicerrou os olhos quando Faith mordeu o lábio e riu devagarinho.

    - Wade, querido - disse ela quando ele chegou à porta, e depois calou a boca com os dedos quando ele se virou e lhe lançou um ar furioso.

    - Nada de barulho - repetiu.

    - Está bem, só pensei que querias guardar isso.

    Ele olhou para baixo, praguejou e apressou-se a meter o sexo dentro das calças e a correr o fecho.

    - Mãe? - Lançou a Faith um último olhar de aviso e depois saiu, fechando a porta com firmeza atrás de si. - Estou cá em baixo. Estava com um paciente.

    Apressou-se a subir as escadas, grato por a mãe ter subido para procurá-lo.

    - Aí estás tu, meu amor. Ia mesmo agora deixar-te um bilhete a dizer que te adoro.

    Boots Mooney era um poço de contradições. Era uma mulher alta, mas toda a gente a considerava baixa. Tinha voz de gato de desenho animado e uma vontade de ferro. Fora a Rainha do Algodão no último ano de liceu e continuara a reinar como Miss Georgetown County.

    Tinha muito a agradecer ao seu ar reto, rosado e de rebuçado. Preservava-o religiosamente, não por vaidade, mas por espírito de obrigação. O marido era um homem importante e ela nunca permitiria que ele fosse visto ao lado de alguém que não o merecesse.

    Boots gostava de coisas bonitas, incluindo ela própria.

    Abriu os braços a Wade, como se não o visse há dois dias e sim há dois anos. Ele aproximou-se dela e deu-lhe um beijo em cada face, e depois apressou-se a recuar.

    - Querido, estás todo corado. Tens febre?

    - Não. - A seu favor teve o fato de não vacilar quando ela lhe encostou as costas da mão à testa. - Não, estou bem. Acabei... uma operação. Está um bocado quente, aqui dentro.

    Era fundamental distraí-la, e ele conhecia a saída de emergência.

    - Olhe para si. - Pegou-lhe nas mãos, fê-la estender os braços e observou-a com ar de aprovação. - Está tão bonita, hoje.

    - Ora, ora. - Ela riu, mas corou de satisfação. - Vim agora do cabeleireiro, é só isso. Devias ter-me visto antes de a Lori me ter posto as mãos em cima. Parecia um sem-abrigo.

    - Impossível.

    - Tu é que és tendencioso. Tinha uma mão-cheia de coisas para fazer, e não podia ir para casa sem ver o meu bebê. - Deu-lhe uma palmadinha na bochecha e depois encaminhou-se imediatamente para a cozinha. - Aposto que não almoçaste. Vou arranjar-te qualquer coisa.

    - Mamã, tenho uma paciente. A Sadie, de Miss Dottie.

    - Oh, céus! O que tem ela? A Dottie não saberia o que fazer sem aquela cadela.

    - Não tem nada. Acabei de tratá-la.

    - Se não tem nada, porque precisou de ser tratada?

    Wade passou a mão pelo cabelo enquanto a mãe espreitava a geladeira.

    - Para deixar de ter cachorros todos os anos.

    - Oh, Wade, não tens comida suficiente nesta casa para tratares de ti como deve ser. Vou comprar-te umas coisas ao mercado.

    - Mãe...

    - Não me venhas com «mãe». Não comes nada de jeito desde que saíste de casa, e não me digas o contrário. Quem me dera que fosses mais vezes lá jantar. Amanhã vou trazer-te uma bela caldeirada de atum. É o teu prato preferido.

    Odiava caldeirada de atum. Detestava-a completamente. Mas nunca conseguira convencer a mãe.

    - Obrigado, gostava muito.

    - Talvez também leve uma à Toryzinha. Passei por lá para a ver. Está tão crescida. - Boots pôs três ovos a cozer. - A loja dela está a avançar tão depressa. Não sei onde aquela rapariga vai buscar a energia. Deus sabe que a mãe dela nunca teve nenhuma, que eu notasse, e o pai, bom... é melhor nem falar.

    Boots apertou os lábios um contra o outro e pegou num frasco de pickles.

    - Sempre tive um fraco por aquela criança, embora por uma razão ou por outra nunca me tivesse aproximado dela. Pobre cordeirinho. Às vezes desejava poder ir lá buscá-la e levá-la comigo para casa.

    O amor, pensou Wade, tornava-nos fracos. Fosse onde fosse ou como fosse. Aproximou-se de Boots, pôs-lhe os braços à volta e pousou a sua face no cabelo dela, que ainda cheirava a laca.   

    - Adoro-a, mãe.

    - Ora, querido, eu também te adoro. É por isso que te vou fazer uma bela salada de ovo, para não ter que ver o meu único filho morrer de fome. Estás ficando muito magro.

    - Não perdi nem um quilo.

    - Então já estavas muito magro. Ele não pôde deixar de rir.

    - O melhor é cozer mais um ovo, mãe, assim chega para nós dois. Eu vou lá abaixo ver a Sadie e depois volto e almoçamos juntos.

    - Isso era agradável. Vai lá, sem pressas.

    Meteu mais um ovo na água e olhou para trás, por cima do ombro, quando ele saiu.

    Boots sabia bem que o filho era um homem feito, mas continuava a ser o seu bebê. E uma mãe nunca deixava de preocupar-se nem de tratar dos filhos.

    Os homens, pensou com um suspiro, eram criaturas tão delicadas, tão esquecidas. E as mulheres, bem, algumas mulheres, podiam aproveitar-se disso.

    As portas do velho edifício não eram tão grossas como o filho pudesse julgar. E uma mulher não chegava aos cinquenta e três anos sem reconhecer certos sons. Tinha quase a certeza de quem estava do outro lado daquela porta, com o seu rapaz. Não faria juízos sobre o assunto, disse a si mesma enquanto cortava pickles.

    Mas vigiava Faith Lavelle como um falcão.

    Fora-se embora. Wade percebeu que era mesmo isso que estava à espera que ela fizesse. Colara um post-it na porta, com um coração desenhado, e pressionara os lábios no centro, deixando-lhe um beijo vermelho e sexy.

    Ele descolou-o, e embora dissesse a si próprio que era um idiota, meteu-o numa gaveta para guardá-lo. Ela voltaria quando lhe apetecesse. E ele deixá-la-ia. Deixá-la-ia até se desprezar a si próprio ou, se tivesse sorte, até voltar a ter domínio sobre o seu coração e ela passasse a ser uma simples diversão.

    Afagou a cabeça de Sadie e depois verificou os sinais vitais, a incisão e os pontos. Como ela estava acordada, com os olhos de um castanho profundo vítreos e confusos, pegou-lhe cuidadosamente. Ia levá-la lá para cima com ele, para não a deixar sozinha.

    

    O sexo dera-lhe sede. Com muito melhor disposição do que antes, Faith decidiu ir até ao Hanson's, comprara uma garrafa de qualquer coisa fresca e doce para saborear a caminho do mercado.

    Lançou mais um olhar ao consultório veterinário e depois ao andar de cima, às janelas do apartamento de Wade. Mentalmente, atirou-lhe um beijo. Pensou que talvez lhe telefonasse mais tarde, para ver se lhe apetecia dar uma volta de carro à noite. Talvez pudessem ir até Georgetown e descobrir um sítio bonito junto à água.

    Era agradável estar com Wade, confortável por um lado, emocionante por outro. Ele era previsível como o nascer do Sol, estava sempre lá quando ela precisava.

    As recordações de um verão já distante em que ele falara de amor e de casamento, de casas e de filhos, tentaram afastar-se do pensamento dela, do coração dela. Ela expulsou-as e concentrou-se na excitação do último encontro sexual secreto.

    Era isso que ela queria e, felizmente, ele também. Arranjaria programa para ambos, mais tarde. Pegaria o conversível de Cade e dariam aquela volta até à costa. Estacionariam algures e dariam largas à sua paixão, dentro do carro, como adolescentes.

    Estacionara o carro várias portas acima da do consultório de Wade. Não valia a pena dar motivos de conversa às más-línguas, embora Deus soubesse que elas falavam a propósito de tudo e de nada. Estava quase a entrar no carro quando viu Tory sair da loja dela, recuar um pouco no passeio e ficar a observar.

    Há um patinho feio que não se transformou, debaixo daquelas penas esquisitas, pensou Faith, mas a curiosidade fê-la atravessar a rua.

    - Estás num dos teus transes?

    Tory deu um salto e depois forçou-se a distender os ombros que tinham ficado tensos.

    - Estava só a ver o aspecto da vitrine. O pintor terminou o letreiro há pouco tempo.

    - Humm. - Faith pôs a mão na anca, observando ela própria o letreiro demoradamente. As letras pretas e arredondadas tinham um ar novo e elegante. - Conforto do Sul. É isso que vendes?

    - Sim. - Como o prazer daquele momento fora interrompido, fez menção de voltar a entrar na loja.

    - Não é uma forma lá muito simpática de tratar uma potencial cliente.

    Tory olhou para trás, com um olhar suave. Faith estava deslumbrante, pensou. Impecável, radiante e satisfeita. E ela não estava com disposição para isso.

    - Ainda não abri.

    Aborrecida, Faith segurou a porta antes de ela se fechar na sua cara e entrou.

    - Cá para mim, nem vais abrir tão depressa - comentou, olhando para as prateleiras quase vazias.

    - Falta menos do que parece. Tenho trabalho para fazer, Faith.

    - Oh, não te importes comigo. Vai lá, e faz o que tiveres a fazer. - Faith levantou a mão e, tanto por teimosia como por interesse, começou a andar de um lado para o outro.

    O local estava meticulosamente limpo, teve de admitir. Os vidros reluziam e nas prateleiras que os homens de Dwight tinham construído a madeira brilhava. Até as caixas de material estavam cuidadosamente alinhadas, e um grande saco de plástico continha os pedaços de esferovite usados no acondicionamento. Havia um computador portátil e um bloco em cima do balcão.

    - Tens coisas que cheguem para encher isto?

    - Vou ter. - Conformando-se com a intrusão, Tory continuou a tirar material das caixas. Se bem conhecia Faith Lavelle, aborrecer-se-ia rapidamente e voltaria a sair. - Se estás interessada, estou a pensar abrir no próximo sábado. Haverá artigos selecionados com dez por cento de desconto, só nesse dia.

    Faith encolheu os ombros.

    - Costumo estar ocupada aos fins-de-semana. - Passou pelo balcão com topo de vidro, à altura da cintura. Lá dentro, sobre um pedaço de cetim branco, estavam algumas jóias feitas à mão: prata e contas e pedras coloridas, artisticamente dispostas, feitas para apelar à vista e à imaginação.

    Deu por si a começar a levantar o topo de vidro, mas estava trancado e ela praguejou. Lançou um olhar discreto a Tory, contente por a outra mulher não ter reparado.

    - Tens aqui uma bijuteria bem bonita. - Queria os brincos de prata com as pequenas bolas de lápis-lazúli, e queria-os imediatamente. - Nunca pensei que te interessasses por bijuteria. Quase nunca usas nada disso.

    - Neste momento, tenho bijuteria de três artistas - acrescentou Tory secamente. - Gosto especialmente da pregadeira que está ao centro. O arame é de prata de lei e as pedras são granadas, citrinas e cornalinas.

    - Estou vendo. As pedras estão todas espalhadas pelo arame como estrelas, como um daqueles foguetes que os garotos lançam no quatro de julho.

    - Sim, muito parecido com isso.

    - É bonito, acho eu, mas não sou muito de alfinetes e pregadeiras. - Mordeu o lábio, mas a ganância venceu o orgulho. - Gosto destes brincos, aqui.

    - Vem cá no sábado.

    - Devo estar ocupada. - E queria-os agora. - Porque não me vendes? Fazias uma venda mais cedo do que o previsto. É para isso que estás a abrir um negócio, não é? Para venderes.

    Tory colocou um candeeiro a petróleo na prateleira. Teve o cuidado de apagar o sorriso do rosto quando se virou.

    - Ainda não abri, mas... - Aproximou-se da vitrina. - Pelos bons velhos tempos.

    - Nunca tivemos bons velhos tempos.

    - Acho que tens razão. - Pegou nas chaves que trazia penduradas no cinto. - O que é que te chamou a atenção?

    - Aquele. Aqueles. - Bateu com o dedo no vidro. - De prata e lápis-lazúli.

    - Sim, são lindos. Condizem contigo. - Tory tirou-os do cetim e admirou-os contra a luz antes de entregá-los a Faith. - Podes usar um dos espelhos, se quiseres experimentá-los. A artista vive à saída de Charleston. Faz um trabalho maravilhoso.

    Enquanto Faith se aproximava de um trio de espelhos emoldurados em bronze e cobre, Tory tirou um longo pendente do estojo. Porquê fazer uma venda quando podia fazer duas?

    - Esta é uma das peças dela que prefiro. Ficava bem com os brincos.

     Tentando não se mostrar abertamente interessada, Faith olhou para baixo. O pendente era uma barra grossa de lápis-lazúli incrustada em prata.

    - Fora do vulgar. - Trocou os brincos que trazia pelos novos e depois cedeu e pegou no colar. - Espero não encontrar ninguém com um igual, no meio da rua.

    - Não. - Tory sorriu. - Tenciono oferecer objetos únicos.

    - Acho que devo levar as duas coisas. Há séculos que não me mimo. Parece que todas as coisas que há em Progress são iguais umas às outras.

    Calmamente, Tory fechou o vidro do expositor.

    - Agora já não.

    Pressionando os lábios um contra o outro, Faith virou o colar para ver o preço.

    - Algumas pessoas vão achar que estás a exceder-te nos preços. - Passou o dedo pela corrente enquanto olhava para Tory. - Mas enganam-se. O preço é justo. Na verdade até podias cobrar mais, se estivesses em Charleston.

    - Mas não estou. Vou buscar as caixas.

    - Não te incomodes, vou usá-los já. - Abriu a carteira e atirou os outros brincos lá para dentro. - Corta apenas as etiquetas e registra.

    - Vou fazer a conta - corrigiu Tory. - Ainda não tenho a caixa registradora pronta a funcionar.

    - Faz como entenderes. - Pegou no colar e nos brincos. - Vou passar-te um cheque. - Faith franziu o sobrolho quando Tory lhe estendeu a mão. - Só posso passá-lo quando me disseres quanto é.

    - Não, dá-me os teus outros brincos. Não é maneira de tratá-los. Vou dar-te uma caixa.

    Com uma breve gargalhada, Faith procurou na carteira e tirou-os de lá.                                 

    - Está bem, mãezinha.

    Sexo e compras, pensou Faith, enquanto dava mais uma volta pela loja. Não podia haver melhor maneira de passar o dia. E pelo que estava a ver, podia passar um tempo muito agradável na loja de Tory.

    Quem haveria de pensar que a pequena Tory Bodeen, com os seus olhos estranhos, desenvolveria um gosto tão requintado? E aprenderia a usá-lo com tanta inteligência?

    Devia ter tido um trabalhão a escolher as coisas certas, a procurar as pessoas que fizessem essas coisas, a calcular o que deveria cobrar por elas, a organizar o espaço e a expô-las.

    Antes isto do que outra coisa, pensou Faith. Livros e esse tipo de coisas aborrecidas.

    Deu por si algo impressionada e com alguma inveja, diante da idéia de Tory possuir o expediente e a habilidade para criar um negócio a partir do nada.

    Não que ela quisesse para si alguma parte daquele esforço ou daquela responsabilidade. Uma loja daquelas agarrava uma pessoa mais do que uma droga. Mas não era bom a loja ser tão perto de Wade? Talvez a vida em Progress estivesse prestes a animar-se.

    - Devias pôr esta taça num encosto, na vertical. - Parou e pegou na grande taça. - Para as pessoas verem o interior, do sítio onde estiverem.

    Era isso que Tory tencionava fazer, depois de desempacotar os encostos. Mal levantou os olhos, enquanto fazia as contas.

    - Queres um emprego? Tenho aqui o teu total, IVA incluído, mas é melhor conferires.

    - Sempre tiveste melhor nota em Matemática do que eu. - Começou a passar o cheque e a porta da loja abriu-se. Faith juraria ter ouvido Tory resmungar qualquer coisa.

   

    Os gritinhos de Lissy eram, na opinião de Tory, apenas um dos seus detestáveis hábitos. Outro deles era a sua tendência para se ensopar daquele cheiro a lírios do vale que entrava sempre antes dela e ficava muito tempo depois de ela se ir embora.

    Quando o cheiro e os gritinhos entraram na loja, Tory rangeu os dentes, esperando que tal fosse tomado por um sorriso.

    - Ora, que engraçado! Acabei de sair do cabeleireiro e ia a caminho do escritório quando vos vi aqui dentro.

    Quando Lissy juntou as mãos e começou a dar uma vista de olhos, Tory lançou a Faith um olhar mortífero. Esta respondeu com um sorriso luminoso que evidenciava a mais perfeita compreensão e com um bater de pestanas provocatório.

    - Passei por aqui quando a Tory estava a pendurar o letreiro.

    - Que também está muito bonito. Está tudo a compor-se, não está? - Com uma mão pousada sobre o peso da barriga, Lissy virou-se para espreitar as prateleiras. - Está tudo tão bonito, Tory. Deves ter trabalhado que nem seis mulas para ter tanta coisa pronta em tão pouco tempo. E o meu Dwight fez um belo trabalho.

    - Sim, não podia estar mais satisfeita com ele.

    - Claro que não. Ele é o melhor. Ai, mas que querido! Pegou avidamente no candeeiro a petróleo que Tory acabara de colocar na prateleira.

    - Adoro bibelots espalhados pela casa. O Dwight diz que só servem para apanhar pó, mas são esses toques que fazem um lar, não são?

    Tory respirou fundo. Outra das características irritantes de Lissy era o seu hábito de transformar todas as frases em exclamações.

    - Sim, acho que sim. Se o pó não tiver onde cair, cai numa simples mesa vazia.

    - É exatamente isso! - Discretamente, Lissy virou a etiqueta com o preço e depois abriu a boca num O surpreendido. - É caro, não é?

    - É feito à mão e está assinado - começou Tory a dizer, mas Faith interrompeu-a.

    - O que é bom custa dinheiro, não custa, Lissy? E o Dwight ganha o suficiente para te pagar estas extravagâncias, especialmente quando estás quase a dar à luz outro bebê. Juro que se alguma vez carregasse um peso desses durante nove meses, o homem que o tivesse plantado dentro de mim teria que comprar-me a Lua e as estrelas.

    Sem saber bem se estava a ser elogiada ou insultada, Lissy franziu o sobrolho.

    - O Dwight estraga-me com mimos.

    - Claro que sim. Eu acabei de comprar estes brincos para mim. - Fez balançar um deles tocando-lhe com a ponta do dedo. - E um colar, também. A Tory deixou-me adiantar um bocadinho em relação à abertura do próximo sábado.

    - Verdade? - Os olhos de Lissy tornaram-se penetrantes: Faith sabia que ela não tolerava que ninguém lhe levasse a melhor. Agarrou o candeeiro avidamente contra os seios.

    - Tory, tens de deixar-me levar isto agora. Estou apaixonada por ele. Não sei se consigo vir aqui no sábado, cedo, e alguém pode chegar antes de mim. Não podias ser uma querida e deixar-me comprar hoje?

    Tory fez um círculo em volta do total de Faith, para poder começar a fazer contas.

    - Vai ter que ser em dinheiro ou cheque, Lissy. Ainda não posso trabalhar com cartões de crédito. Mas não me importo de te guardar se...

    - Não, não, posso passar-te um cheque. Já que aqui estou, talvez possa dar mais uma vista de olhos... É como brincar às lojas.

    - Sim. - Tory pegou no candeeiro e pousou-o em cima do balcão.

    Afinal, parecia que já tinha aberto a loja ao público.

    - Oh! Estes espelhos estão à venda?

    - Tudo está à venda. - Tory tirou uma pequena caixa azul-marinha que tinha debaixo do balcão e pôs lá dentro os brincos de Faith. - Vou também pôr aqui dentro o cartão da artista.

    - Está bem. Não precisas de me agradecer - acrescentou, a meia voz.

    - Estou a pensar se terás feito isto para me ajudares ou para me irritares - disse Tory em igual tom. - Ou para a irritares a ela. Mas... - Anotou o preço do candeeiro. - Negócio é negócio, por isso agradeço-te. Sabias exatamente em que botão carregar.

    - Naquela? - Faith olhou para onde Lissy soltava repetidos ohs e ahs. - É do mais simplório que há.

    - Se ela me comprar um daqueles espelhos passa a ser a minha nova melhor amiga.

    - Bem, maravilhoso. - Divertindo-se mais do que imaginara, Faith pegou no seu talão de cheques. - Já fui posta de lado, mesmo depois de ter sido a tua primeira cliente.

    - Tenho que ter este espelho, Tory. O oval, com os lírios de um lado. Nunca vi nada assim. Vai ficar tão querido na minha salinha!

    Os olhos de Tory encontraram os de Faith, por cima do balcão, e brilharam.

    - Desculpa, ela acabou de comprar mais do que tu. E depois, para Lissy:

    - Vou buscar a caixa, lá atrás.

    - Obrigada. Já há tanta coisa para escolher, e acho que ainda não tens metade das coisas à vista. Uma noite destas estava a dizer ao Dwight que não sei onde vais arranjar tempo para tanta coisa. Entre a mudança para a tua casa, o arranjar das coisas aqui, as entregas de mercadoria e as noites passadas com o Cade, os teus dias devem ter vinte e seis horas.

    - O Cade?

    O nome saiu ao mesmo tempo dos lábios de Tory e de Faith.

    - Aquele homem é mais expedito do que eu pensava. - Lissy deu mais uns passos pela loja. - Devo dizer que nunca imaginei os dois juntos, como casal. Mas sabes o que se diz sobre quem não parte um prato.

    - Sim. Não. - Tory ergueu a mão. - Não sei do que estás a falar. O Cade e eu não estamos juntos.

    - Ora, não vale a pena esconderes, estamos só aqui as três. O Dwight contou-me tudo, e explicou-me que devias querer manter as coisas em segredo por algum tempo. Eu não disse a ninguém, não te preocupes.

    - Não há nada para dizer. Absolutamente nada para dizer. Nós só... - Viu dois pares de olhos penetrantes e sentiu a língua entaramelar-se. - Nada. O Dwight está enganado. Vou buscar a caixa.

    - Não sei porque está tão decidida a fazer segredo disto - comentou Lissy, enquanto Tory se apressava a ir ao armazém. - Afinal, nenhum deles é casado, nem nada disso. Claro - acrescentou com um trejeito de ironia -, acho que a idéia de se rebolar nos lençóis com o Cade depois de estar de volta há menos de um mês não condiz com a atitude de senhora calma e educada que ela pretende dar de si.

    - Não? - Os assuntos do Cade eram os assuntos do Cade, disse Faith a si própria. E diabos a levassem se ia deixar esta gata assanhada arranhá-lo. - E as senhoras calmas e educadas não têm sexo? - Com um sorriso vivo e irónico, bateu com o dedo na barriga de Lissy. - Acho que essa bola que trazes aí não foi de comeres chocolate a mais.

    - Eu sou uma mulher casada.

    - Não eras, quando tu e o Dwight andavam enrolados no assento de trás do Camaro de segunda mão que o pai dele lhe comprou quando ele ganhou as corridas.

    - Oh, por amor de Deus, Faith, tu também te enrolaste bastante nessa altura.

    - Exatamente. Por isso tenho muito cuidado a quem atiro pedras, quando tenho vontade de atirar alguma. - Assinou o cheque com um floreado e depois pegou no par do brinco que tinha posto.

    - Só estou a dizer que para alguém que acabou de regressar a Progress e que tem feito sabe Deus o quê estes anos todos, apanhou um Lavelle bem depressa.

    - Ninguém apanha um Lavelle, se ele não quiser.

    Mas ia pensar no assunto. Ia pensar muito bem no assunto.

    Tory ficou tentada a trancar a porta assim que viu na rua as suas duas clientes inesperadas. Mas isso iria atrasá-la e significaria dar demasiada importância aos mexericos de Lissy.

    Trabalhou na loja durante mais três horas, colocando preços, fazendo registros e dispondo objetos pela loja. O trabalho manual e o tédio da papelada impediram-na de ficar a matutar.

    Mas o regresso a casa deu-lhe bastante oportunidade para isso.

    Não era desta forma que tinha planejado voltar a estabelecer-se em Progress. Não ia tolerar, nem por um momento, ser alvo da bisbilhotice da cidade. A melhor maneira de derrotar essa bisbilhotice era ignorá-la, ser superior a ela.

    E manter-se longe de Cade.

    Nada disso representava para ela qualquer problema.

    Estava acostumada a ignorar línguas viperinas, e sobre assuntos muito mais vitais do que um romance inventado. Era mais do que evidente que não precisava passar tempo com Cade Lavelle. Fosse como fosse, a verdade era que não passara praticamente tempo nenhum com ele. Umas refeições, um filme ou dois, talvez uma carona. Tudo coisas inofensivas e casuais.

    A partir de agora, andaria sozinha.

    E ponto final, pensou.

    Deveria ser ponto final, se não tivesse visto a camioneta dele à beira de um campo.

    Disse a si própria que iria até lá. Na verdade, não valia a pena falar no assunto. Seria muito mais sensato continuar a caminho de casa e deixar aquele assunto idiota morrer de morte natural.

    E continuou a ver o brilho faminto, predatório, nos olhos de Lissy.

    Virou o volante e estacionou à beira da estrada, onde a erva era curta e espessa. Ia apenas mencionar a questão, mais nada. Apenas dizer a Cade que se calasse e parasse de falar dela com os seus amigos idiotas. Já não estavam no liceu, que raios!

    Piney Cobb aspirou contemplativamente o seu último Marlboro. Vira a station wagon encostar no acostamento, observara a mulher - diabos o levassem se não era a garota Bodden, já crescida! - começar a caminhar pelo campo e continuara a observá-la enquanto ela punha os pés entre as filas de pés de algodão e continuava a avançar.

    Ao lado dele, Cade estava de pé a pensar no dia de trabalho e no progresso das colheitas. Quanto a ele, o rapaz tinha idéias esquisitas, mas essas idéias esquisitas estavam a dar resultado. Fosse como fosse, não era da sua conta. Ganhava o mesmo se espalhasse pesticidas nas plantas ou se as apaparicasse com merda de vaca e joaninhas.

    - Vinha a calhar mais uma chuva como a da outra noite - considerou Cade.

    - Pois vinha. - Piney coçou o queixo semeado de pêlos grisalhos e pressionou os lábios um contra o outro. - O que tem aqui está uns bons dez centímetros mais alto do que os campos tradicionais.

    - O algodão orgânico cresce mais depressa - disse Cade, distraidamente. - Os químicos travam o crescimento.

    - Pois, foi o que disse. - E assim, apesar das dúvidas de Piney, viera a provar-se verdade. Fê-lo pensar que, afinal, talvez os cursos universitários não fossem só tretas.

    Não que dissesse uma coisa daquelas em voz alta. Mas era coisa para deixar a fermentar.

    - Patrão? - Piney deu uma última passa no cigarro e depois pisou-o cuidadosamente com o pé. - Tem problemas com mulheres?

    Como tinha a cabeça cheia de trabalho, Cade demorou um minuto a reagir.

    - Como disse?

    - Vá por mim, tenho-me mantido bem longe das mulheres, mas ando neste mundo há tempo suficiente para reconhecer uma mulher a fumegar.

    Virou a cabeça, semicerrando os olhos por causa do sol forte, e apontou-a preguiçosamente na direção onde Tory abria caminho por entre as filas de algodão.

    - E ali vem uma, agora. Ao que parece, é um homem morto.

    - Não tenho problema nenhum.

    - Eu cá acho que está enganado - resmungou Piney, e recuou um pouco para não levar por medida.

    - Cade.

    Era um prazer vê-la, um verdadeiro e puro prazer.

    - Tory, que bela surpresa.

    - Verdade? Isso é o que vamos ver. Preciso de falar contigo.

    - Está bem.

    - A sós.

    - Vamos andar por aí.

    Tory respirou fundo e lembrou-se das suas boas maneiras.

    - Desculpe, Mister Cobb.

    - Não é preciso desculpares-te. Achei que já não te lembravas de mím.

    E não lembrava. Pelo menos conscientemente. Dissera o nome dele sem pensar. Por um instante, a sua irritação misturou-se com a velha imagem de um homem escanzelado, de peito magro e cabelo cor de trigo, que costumava cheirar a álcool e lhe dava balas de hortelã-pimenta sem ninguém ver.

    Continuava escanzelado, notou ela, mas a idade e a bebida estavam-lhe marcadas no rosto. Era vermelho, gasto e descaído, e o cabelo cor de trigo, se ainda o tinha, era suficientemente parco para estar completamente coberto por uma velha boina cinzenta.

    - Lembro-me que costumava dar-me balas e que trabalhava no campo ao lado do do meu pai.

    - Era. - Os lábios estenderam-se-lhe num sorriso,  revelando dentes tão tortos e espaçados entre si como uma velha vedação de madeira. - Agora trabalho aqui para o rapaz da universidade. Paga melhor. Vou andando. Até amanhã, patrão.

    Levou a mão à boina e depois tirou do bolso uma bala de hortelã-pimenta e deu-o a Tory.

    - Se bem me lembro, estas eram as tuas preferidas.

    - Ainda são. Obrigada.

    - Ficou satisfeito por te lembrares - disse Cade, enquanto Piney atravessava o campo, em direção à estrada.

    - O meu pai costumava gritar com ele por causa dos males do uísque, e aí uma vez por mês embebedavam-se juntos. No dia seguinte, Piney estava outra vez no campo, a trabalhar como de costume. E o meu pai voltava a gritar com ele.

    Abanou a cabeça e virou-se para Cade.

    - Não vim aqui para fazer uma viagem ao passado. Em que estavas a pensar quando disseste ao teu amigo Dwight que andamos a sair juntos?

    - Não sei bem se...

    - Nós não andamos a sair juntos.

    Cade ergueu uma sobrancelha, tirou os óculos de sol e prendeu-os na camisa.

    - Então, Tory, andamos sim. Estamos aqui os dois juntos, neste preciso momento.

    - Sabes muito bem o que quero dizer. Não andamos juntos. Ele não sorriu, mas apetecia-lhe fazê-lo. Optou antes por coçar a cabeça e fazer um ar perplexo.

    - A mim parece-me que o que andamos a fazer se parece bastante com isso. Saímos, quê, quatro vezes nos últimos dez dias. E acho que, quando um homem e uma mulher saem para jantar, andam juntos.

    - Pois achas mal. Não andamos juntos, portanto mete bem isso na tua cabeça.

    - Sim, senhora.

    - Não me venhas com os teus sorrisos irônicos. - Um trio de corvos grasnou, com as suas penas alinhadas e brilhantes. - E mesmo que tivesses essa idéia em mente, não era da tua conta, não tinhas o direito de dizer ao Dwight que andamos envolvidos. Ele foi logo contar à Lissy e agora ela meteu naquele cérebro de ervilha que temos um caso, com uma relação sexual tórrida. Não quero, nem tenciono deixar que as pessoas daqui se convençam que eu sou a tua última conquista.

    - A minha última? - Meteu os polegares nos bolsos e rodou nos calcanhares usados das suas botas de trabalho. Achou que, quanto a entretenimento, aquele era o momento alto do dia. - Mas quantas conquistas pensas tu que eu tive?

    - Não estou interessada.

    - Tu é que trouxeste o assunto à baila - salientou ele, apenas pelo prazer de vê-la furiosa.

    - A questão é que disseste ao Dwight que andávamos um com o outro.

    - Não, não disse. Mas não vejo... - Lembrou-se. - Ah, sim. Humm.

    - Ora aí tens. - Com uma espécie de triunfo, espetou um dedo na direcção dele. - És um homem, e podias ter evitado a conversa de vestiário.

    - Foi um mal-entendido. - E um mal-entendido fascinante, em sua opinião. - A Lissy não pára de tentar tramar-me. Parece que não suporta que haja um único homem livre. É uma chata. Da última vez disse ao Dwight que lhe dissesse qualquer coisa para ela me deixar em paz, que lhe dissesse que eu tinha um caso escaldante ou qualquer coisa assim.

    - Comigo? - Admirou-se que não lhe saísse fumo pelos ouvidos. - Porque é que de todas...

    - Eu não disse contigo - interrompeu Cade. - Imagino que o Dwight te tenha escolhido porque estávamos em tua casa na altura da conversa. Se quiseres saltar em cima de alguém, salta em cima de mim. Mas, pessoalmente, não vejo para quê tanta agitação. Somos ambos solteiros, andamos juntos... Andamos, sim, Tory - acrescentou ele, antes de ela poder argumentar. - E se a Lissy quiser pensar que as coisas entre nós progrediram e chegaram ao que é um estágio perfeitamente natural, onde está o problema?

    Ela não estava certa de conseguir falar. Ele estava divertido. Conseguia ver isso nos olhos dele, ouvi-lo na voz dele.

    - Achas que tem graça?

    - Não tem graça, mas é anedótico - concluiu ele. - Parece uma pequena anedota engraçada.

    - Anedótico, o diabo! A Lissy vai espalhar isto pela região toda, se é que já não espalhou.

    Os corvos voltaram, voando em círculo.

    - Ora aí está uma verdadeira tragédia. Se calhar é melhor fazermos um comunicado à imprensa negando tudo.

    Ela soltou um som, algo perigosamente parecido com um grunhido. Quando deu meia volta, ele pegou-lhe no braço e reteve-a.

    - Acalma-te, Victoria.

    - Não me digas para acalmar-me. Estou a tentar estabelecer aqui um negócio, uma casa, e não quero ser alvo dos mexericos dos vizinhos.

    - Os mexericos dos vizinhos são o combustível que faz andar as cidades pequenas. Viveste na cidade grande tanto tempo que te esqueceste disso. E se as pessoas falarem vão aparecer na tua loja para verem. Onde está o mal disso?

    Fez a questão parecer menor e razoável.

    - Não gosto que as pessoas se metam estupidamente na minha vida. Já tenho que chegue disso.

    - Antes de vires para cá, já sabias que isso iria acontecer. E se as pessoas querem mexericar um pouco acerca da mulher que chamou a atenção de Cade Lavelle, basta olhar para ti para perceber porquê.

    - Estás a dar a volta ao assunto. - Não sabia inteiramente porquê, mas sabia que já não estava em terreno firme. - A Faith estava na loja quando a Lissy fez o seu anúncio. - Ele vacilou, o que deu a Tory alguma satisfação. - Agora já não estás tão contente, pois não?

    - Se a Faith me vai chatear por causa disso, e com certeza que não vai conseguir resistir, está na altura de tirar algum proveito disso.

    Apertou-lhe mais o braço e atirou os óculos de sol para o chão. Depois, puxou-a para si.

    Os alarmes soaram e ela empurrou o peito dele com a mão.

    - O que estás a fazer?

    - Não é preciso ficares com espinhos. - Com a mão livre, segurou-lhe a nuca. - Vou só provar-te.

    - Não.

    Mas os lábios dele já se apossavam dos dela.

    - Não vai doer. Prometo.

    Manteve a palavra. Não doeu. Fortaleceu-a e acalmou-a, estimulou-a e despertou aquelas necessidades que ela tinha tão bem fechadas. Mas não doeu.

   

    A boca dele era macia, suave e convidava a dela a saboreá-la. Como ele estava a saborear a dela. O calor alastrou-se-lhe na barriga, enquanto cordas de tensão e de semiconsciência se misturavam. E quando aquela mistura começou a subir-lhe na direção do coração, ele soltou-a.

    - Senti qualquer coisa - murmurou. A mão dele continuou a afagar a nuca dela. - Senti-a da primeira vez que voltei a ver-te.

    Ela tinha a cabeça à roda. Não era uma sensação que apreciasse.

    - Isto é um erro. Eu não... - Recuou, numa tentativa de defesa, e sentiu qualquer coisa estalar debaixo do seu salto.

    - Raios partam, é o segundo par esta semana. - Cade abanou a cabeça, olhando para os óculos partidos. - A vida está cheia de erros - prosseguiu, voltando a beijá-la, de leve. - Isto não parece ser um, mas vamos ter que experimentar para ver.

    - Cade, não tenho jeito para este tipo de coisa.

    - Que tipo de coisa? Beijar?

    - Não. - Foi surpreendida pelo seu próprio riso. Como conseguia ele fazê-la rir quando estava aterrorizada? - Esta coisa do homem-mulher, esta coisa da relação.

    - Então, vais ter que praticar.

    - Não quero praticar. - Não pôde fazer mais nada senão suspirar quando ele pressionou os lábios contra a nuca dela. - Cade, há tantas coisas que não sabes sobre mim.

    - Posso dizer o mesmo. Por isso, vamos descobrir. A noite está bonita. - Fez deslizar a mão até à dela. - Porque não vamos dar uma volta de carro?

    - Não é assim que se resolve o assunto.

    - Podemos parar e comer qualquer coisa, quando nos apetecer.

    - Fê-la voltar-se e, com bastante elegância, baixou-se para apanhar os óculos partidos. Começou a caminhar, com o algodão jovem entre ambos. - Um passo de cada vez, Tory - disse ele com suavidade.

    -  Sou um homem paciente. Se olhares à tua volta e prestares atenção, podes ver como sou paciente. Levei três anos a transformar a fazenda e a fazer dela aquilo que eu queria. Aquilo em que acreditava, e fi-lo contra algumas gerações de tradição. Há pessoas que ainda me apontam o dedo e fazem troça, ou resmungam e praguejam. Tudo porque não segui o caminho com que a maioria se sente confortável, que a maioria compreende. E o que as pessoas não compreendem costuma assustá-las.

    Ela olhou para ele e depois desviou o olhar. O homem encantador e despreocupado que troçara discretamente da fúria dela, era atravessado por uma corda de aço. Não seria sensato da parte dela esquecer isso, refletiu.

    - Eu sei. Vivo com isso.

    - Então porque não nos consideramos dois inadaptados e vemos o que isso nos traz?

    - Não sei do que estás a falar. Nenhum Lavelle é inadaptado em Progress.

    - Pensas isso porque ainda não te chateei até à exaustão com as maravilhas da agricultura orgânica e a beleza do algodão biológico. - Pegou na mão dela e beijou-a. - Mas vou chatear-te, já que há meses que não tenho uma nova vítima. Vamos fazer assim: vai andando para casa. Preciso lavar-me. Eu vou buscar-te daqui a uma hora.

    - Tenho coisas para fazer.

    - Deus sabe que não há dia em que não tenhamos coisas para fazer. - Abriu-lhe a porta do carro. - Apareço daqui a uma hora - disse-lhe, enquanto ela se sentava ao volante. - E, Tory? Para que não haja confusão: andamos juntos.

    Fechou a porta e depois, metendo as mãos nos bolsos, encaminhou-se para a sua camioneta.

    

    - Oh, não sejas mau, Cade. Só estou a pedir-te um favorzinho. - Faith estava estendida na cama do irmão, com o queijo apoiado nas mãos fechadas e o seu olhar mais convincente.

    Adquirira o hábito de vir ao quarto dele para ter companhia, depois de Hope ter morrido e a solidão ser insuportável. Agora, costumava aparecer quando queria alguma coisa.

    Ambos sabiam isso, e ele não parecia importar-se.

    - Estás a perder tempo a lançar-me esse olhar. - Despido até à cintura, com o cabelo ainda molhado, Cade tirou uma camisa lavada do armário. - Vou precisar do carro esta noite.

    - Podes usá-lo sempre que quiseres. - Tentou um amuo.

    - Pois posso. E vou usá-lo esta noite. - Ofereceu-lhe o sorriso de complacência reservado a irmãs irritantes.

    - Fui eu que comprei a comida que meteste na boca. - Levantou-se e ajoelhou-se na cama. - E fui à lavandaria buscar as tuas roupas estúpidas, e tudo o que estou a pedir-te é que me emprestes a porcaria do teu carro por uma noite. Mas és demasiado egoísta.

    Ele vestiu a camisa e começou a abotoá-la, mantendo o sorriso satisfeito no rosto.

    - E com isto tu queres dizer...

    - Odeio-te. - Pegou numa almofada, fez pontaria e falhou por uns bons centímetros. Nunca tivera uma pontaria decente.

    - Espero que te espetes com a porcaria do carro e acabes entalado num monte de ferros retorcidos e a arder. - A almofada que se seguiu passou-lhe por cima da cabeça. Ele nem se deu ao trabalho de se baixar. - Espero que os vidros se espetem nos teus olhos e fiques cego, e se ficares vou fartar-me de rir quando fores contra as paredes.

   

    Ele virou-lhe as costas, num insulto deliberado e calculado.

    - Bem, então acho que não vais querer pedir-me emprestado o que restar do carro amanhã.

    - Eu quero o carro agora!

    - Faith, meu tesouro... - Meteu a camisa para dentro das calças e pegou no relógio que estava em cima da cómoda. - Tu queres tudo agora. - Incapaz de resistir, pegou nas chaves e abanou-as diante dos olhos dela. - Mas não podes tê-lo.

    Ela gritou, um grito de guerra, e atirou-se da cama. Ele poderia ter-se ido embora, mas era mais divertido segurar-lhe os braços antes de ela usar aquelas unhas lindas e letais na cara dele.

    Além disso, se ele saísse do caminho dela, ela teria mergulhado de imediato, cega de fúria, na cómoda dele.

    - Vais magoar-te - avisou ele, dançando com ela enquanto ele lhe mantinha os braços seguros.

    - Não, vou é matar-te. Vou arrancar-te os olhos da cabeça.

    - Tens uma verdadeira obsessão com a minha cegueira esta noite. Se me arrancas os olhos, como vou poder ver como és bonita?

    - Larga-me, seu filho da mãe. Luta como um homem.

    - Se eu lutasse como um homem, dava-te um murro que te deixava estendida e pronto. - Para a enfurecer, inclinou-se e deu-lhe um beijo rápido. - Gastava menos energia.

    Ela deixou-se cair pesadamente, derrotada, com os olhos cheios de lágrimas.

    - Deixa lá. Não quero a porcaria do teu carro velho.

    - Isso também não vai resultar. Choras com demasiada facilidade. - Mas ele beijou-a na face. - Podes levar o carro amanhã, o dia inteiro e metade da noite, se quiseres. - Apertou-lhe os braços com carinho e preparou-se para sair.

    E viu estrelas quando ela lhe deu um pontapé na canela.

    - Raios partam! Deus meu! - Deu-lhe um empurrão, tentando minimizar a dor. - Sua cabra falsa.

    - Dá-te por satisfeito eu não ter seguido o meu primeiro instinto e usado o joelho. Estive quase. - Quando ele se inclinou para esfregar o sítio do pontapé, ela deu um salto, tentando agarrar as chaves que ele ainda tinha na mão. Quase conseguiu, mas ele mexeu-se e o impulso dela para tentar apanhar a chave fez com que fosse projetada para a frente e caísse no chão com uma enorme pancada.

    - Kincade! Faith Ellen! - A voz parecia uma chicotada no cetim. Margaret estava à porta, o corpo rígido, o rosto pálido. Instantaneamente, tudo ficou imóvel.

    - Mãe! - Cade pigarreou.

    - Ouvi os gritos e as pragas no andar de baixo. E o juiz Purcell, que estou a receber esta noite, também. E Lilah, e a criada, e o jovem que veio mesmo agora trazê-la a casa.

    Esperou um pouco, para que o peso da indecência se abatesse sobre os ombros dos filhos.

    - Talvez vocês achem este tipo de comportamento aceitável, mas eu não acho, e não quero que convidados, criados e estranhos acreditem que eu criei duas hienas nesta casa.

    - Peço desculpa.

    - Obriga-o a pedir-me desculpa, a mim - exigiu Faith, soluçando enquanto esfregava o cotovelo magoado. - Ele empurrou-me.

    - Não fiz nada disso. Tropeçaste nos teus próprios pés.

    - Ele estava a ser cruel e nada razoável. - Ainda tinha um cartucho para gastar, pensou Faith, e tencionava gastá-lo. - Tudo o que eu fiz foi pedir, e pedir educadamente, que ele me emprestasse o carro esta noite, e ele começou a chamar-me nomes e a empurrar-me. - Estremeceu, tocando delicadamente no braço. - Estou cheia de nódoas negras.

    - Suspeito que tenha havido mais do que uma pequena provocação, mas não há desculpa para teres posto as mãos na tua irmã.

    - Não, senhora. - Cade reforçou o que disse abanando firmemente a cabeça e lamentou q,ue uma idiotice pudesse ter chegado a contornos tão implacáveis. - Tem razão. Desculpe.

    - Muito bem. - Margaret fixou o olhar de Faith. - O que é do Cade é para ele usar ou emprestar quando e a quem quiser. E vamos pôr um fim a isto.

    - Só quero sair desta casa por umas horas. - Não conseguiu conter a fúria, e as palavras jorraram-lhe da boca. - Ele podia bem usar a camioneta. Só quer ir para qualquer sítio escuro e sossegado e apalpar a Tory Bodeen.

    - Que bela conversa - murmurou Cade. - Muito simpática.

    - Ora, é verdade. Toda a gente na cidade sabe que vocês andam enrolados um com o outro.

    Margaret deu dois passos em frente antes de recuperar o controle.

    - Vais... Pretendes ir ter com a Victoria Bodeen esta noite?

    - Sim.

    - Desconheces os meus sentimentos em relação a ela?

    - Não, mãe. Não desconheço.

   

    - Obviamente, eles não te interessam. O fato de ela ter participado na morte da tua irmã, o fato de ela recordar constantemente essa perda, não significam nada para ti.

    - Não a culpo pela morte da Hope. Lamento que a mãe o faça e lamento ainda mais que a minha amizade com ela lhe cause dor e sofrimento.

    - Guarda as tuas desculpas - disse Margaret friamente. - As desculpas não passam de capas para atitudes pouco próprias. Podes optar por trazer essa mulher para a tua vida, mas mantém-na fora da minha. Entendido?

    - Sim, senhora. - A voz dele era gelada, num reflexo direto da dela. - Está perfeitamente entendido.

    Sem mais uma palavra, ela virou-se e saiu, em passos lentos e calculados.

    Cade ficou a olhar na direcção em que ela saíra, desejando não ter visto aquele último flash de dor nos olhos dela. Desejando não se sentir responsável por ele. Para se distrair da culpa, lançou a Faith um olhar violento.

    - Belo trabalho, como sempre. Tem uma boa noite.

    Ela fechou os olhos enquanto ele saía com passos furiosos. Tinha um buraco no estômago, que ardia devido à sua própria leviandade. Por um momento, ficou com pena de si própria, sentou-se e balançou-se para a frente e para trás. Depois pôs-se de pé, de um salto, e saiu a correr como uma flecha na direção das escadas. E ouviu a porta da frente bater.

    - Desculpa - murmurou, e sentou-se no patamar. - Não pensei. Não queria que acontecesse nada disto. Não me odeies. - Deixou cair a cabeça nos joelhos. - Já me odeio a mim própria.

   

    - Espero que perdoe o comportamento dos meus filhos, Gerald. - Margaret regressou ao salão, onde o seu velho amigo a esperava.

    Não havia tais comportamentos na casa dele quando as filhas viviam debaixo do seu teto. Mas, pensou, as suas filhas tinham sido criadas para se comportarem como senhoras, em qualquer ocasião.

    Ainda assim, ofereceu a Margaret um sorriso compassivo e afetuoso.

    - Não, Margaret, não tem de se desculpar. Animemo-nos. - Pegou no copo de xerez que ela pousara antes de subir e voltou a oferece-lo.

    Havia música a tocar baixinho. Bach. Uma das preferências de ambos. Ele comprara rosas, como fazia sempre, e Lilah já as pusera na jarra Baccarat, sobre a grande cauda do piano.

    A sala, com as suas poltronas em azul profundo e as suas madeiras antigas e polidas, era perfeita, tranquila, e precisamente como Margaret queria. O piano raramente era tocado, mas mantinha-se afinado. Ela gostaria que as filhas se tivessem dedicado àquele instrumento, mas ficara desiludida.

    Não havia fotografias de família, nesta sala. Todas as recordações tinham sido cuidadosamente selecionadas para que as suas heranças se misturassem perfeitamente com as suas próprias aquisições.

    Não era sítio onde um homem pusesse as botas em cima da mesa, nem onde uma criança espalhasse brinquedos no tapete.

    - Animemo-nos - repetiu ela. - É muito simpático da sua parte, dizer isso. - Aproximou-se da janela e viu o carro de Cade a toda a velocidade pelo caminho. A contrariedade picava-lhe a pele como lã áspera. - Receio bem que se trate de muito mais, e de muito menos, do que animação.

    - Os filhos crescem, Margaret.

    - Alguns.

    Ele não disse nada durante algum tempo. Sabia que o assunto de Hope nunca era fácil para ela. E como preferia as coisas fáceis, ia deixar que as palavras se esvaíssem como se nunca tivessem sido ditas.

    Conhecia-a havia trinta e cinco anos, e a dada altura chegara a cortejá-la. Ela escolhera Jasper Lavelle, que era mais rico e tinha sangue mais azul. Isso não fora um espinho no caminho de Gerald, ou pelo menos ele gostava de pensar isso.

    Nessa altura, quando era um jovem advogado, já tinha ambições. Ele também casara bem, criara duas filhas e era confortavelmente viúvo havia cinco anos.

    Tal como a sua velha amiga, preferia a viuvez ao casamento. Exigia muito menos tempo e energias.

    Era um homem alto e bem constituído, de sessenta anos, com os traços dramáticos decorrentes de umas sobrancelhas enormes e pretas, que se erguiam como penas onduladas no rosto quadrado e digno.

    Fizera da lei a sua vida, com os seus altos e baixos, prosperara e conseguira uma posição respeitável na comunidade.

    Gostava da companhia de Margaret, das conversas que tinham sobre arte e literatura, e costumava acompanhá-la em ocasiões sociais. Nunca tinham trocado mais do que um beijo breve e educado na face.

    No sexo, ele gostava dos favores de jovens prostitutas, que trocavam fantasias sexuais por dinheiro e não tinham nome.

    Era um republicano convicto e um batista devoto. Considerava as suas aventuras sexuais uma espécie de passatempo. Afinal, não praticava golfe.

    - Não sei bem se sou boa companhia esta noite, Gerald.

    Era também uma criatura de hábitos. Era a noite em que costumavam jantar calmamente em Beaux Revés, um jantar a que se seguia café e uns agradáveis trinta minutos nos jardins.

    - Sou um amigo demasiado antigo para se preocupar com isso.

    - Acho que preciso mesmo de um amigo. Estou transtornada, Gerald. Victoria Bodeen. Achei que conseguia lidar com o regresso dela a Progress. Mas fiquei agora a saber que o Cade anda saindo com ela.

    - Ele é um homem adulto, Margaret.

    - É meu filho. - Nessa altura virou-se, o rosto duro como pedra. - Não vou tolerar isto.

    Ele quase suspirou.

    - Parece-me que se insistir no assunto vai dar-lhe demasiada importância, e a ela também.

    - Não tenciono insistir. - Não, ela sabia o que precisava de ser feito, e ia tratar disso. - Ele devia ter casado com a sua Deborah, Gerald.

    Era algo que ambos lamentavam, mais moderadamente no caso dele, o que o fez sorrir tristemente.              

    - Podíamos ter netos comuns.                                          

    - Que idéia - murmurou Margaret, e decidiu beber outro xerez.

   

    Tory estava à espera que ele aparecesse. Já tinha percebido tudo. Precisava sempre de um pouco de tempo e de distância para perceber que Cade a manipulara. Fazia isso muito suavemente, muito dissimuladamente e muito habilidosamente. Mas não deixava de manipulá-la.

    Era dona da sua vida há demasiado tempo para permitir que alguém se sentasse ao volante.

    Ele era um homem simpático, e Tory não podia negar que gostava da companhia dele. Ficou orgulhosa por aquilo soar tão calmo e maduro quando ensaiou ao espelho. Tal como ficou satisfeita com o resto do discurso que tencionava fazer.

    Estava demasiado ocupada a instalar o seu negócio, a estabelecer-se na cidade, a voltar a relacionar-se com a zona, para gastar tempo e esforço numa relação com ele ou com qualquer outra pessoa.

    Claro que se sentia lisonjeada por ele estar interessado nela, mas seria melhor para todos se se afastassem agora. Esperava que continuassem a ser amigos, mas não poderiam ser mais do que isso. Nem agora, nem nunca.

    Passou os dentes pelo lábio inferior. Reacendeu o sabor dele. Tinha jeito para reacender sabores, mesmo quando não queria.

    O sabor quente e doce dos pêssegos atirados ao chão pelo vento, debaixo da velha árvore retorcida junto ao rio, à saída da cidade. As abelhas, bêbadas no sumo fermentado, cobriam a fruta caída e zumbiam agradavelmente.

    Ela não esperava que o sabor dele fosse tão quente e doce, e tão forte.

    Não esperava ter ficado tão perfeitamente ligada a ele naquele momento, como se ele fosse um dos pedaços perdidos do puzzle da sua vida.

    Estava a romantizar uma coisa sem importância, disse a si mesma. Era idiota fingir que não tinha imaginado como seria beijá-lo. Afinal, era humana.

    Era normal.

    Mas quando o imaginara, tudo fora bastante suave, agradável e simples. Na realidade não fora um beijo, fora mais uma amostra. E ela supunha que ele fizera isso de propósito, só para intrigá-la.

    Inteligente da parte dele, decidiu. Ele era um homem inteligente. Mas não ia resultar.

    Estava pronta para ele, agora, e estava decidida. Não havia raiva nem embaraço a toldar-lhe os sentidos. Ela sairia assim que ele estacionasse. Dessa forma, impedi-lo-ia de entrar e de ter oportunidade de voltar a confundir tudo. Faria o seu belo discurso, desejar-lhe-ia tudo de bom e depois voltaria para casa e fecharia a porta.

    E ficaria segura.

    O plano voltou a deixá-la à vontade, com uma sensação de controle. Por isso, quando o ouviu chegar deu um pequeno suspiro de alívio. Tudo estava prestes a voltar a entrar em ordem.

    Depois, saiu e viu a cara dele.

    Estava sentado no bonito conversível, com a massa de cabelos já totalmente despenteada, com as mãos pousadas no volante. Lançou-lhe um sorriso agradável, mas por detrás dele ela viu raiva e frustração. Acima de tudo, viu uma infelicidade amarga.

    Nenhuma manobra que ele pudesse ter arquitetado, nenhum plano que ele pudesse ter feito conseguiria atingir a fraqueza dela com maior eficácia.

    - Essa é uma das coisas que mais gosto em ti, Tory. És despachada. - Saiu do carro e começou a dar a volta para abrir a porta do outro lado.

    Ela não lhe tocou. A ligação tendia a tornar-se demasiado próxima com o contacto físico.

    - Diz-me o que se passa.

    - O que se passa? - Ele olhou para baixo e começou a ceder, mas depois ergueu as defesas. Recuou e voltou ao seu lugar enquanto ela entrava no carro. - Abres a cabeça às pessoas e espreitas lá para dentro?

    A cabeça dela balançou para trás, como se tivesse levado uma pancada. Depois, cruzou as mãos no colo. Era melhor assim. De qualquer modo, teria acabado por acontecer, lembrou a si prórpia. Quanto mais cedo e rápido, melhor.

    - Não. Isso seria má educação. Ele riu e sentou-se ao volante.

    - Ah, estou a ver. Há uma ética no que toca à leitura de pensamentos.

    - Eu não leio pensamentos. - Entrelaçou os dedos com força, em grande tensão, brancos nos pontos de pressão. Soltou um suspiro para aliviar a pressão no peito e olhou em frente. - É mais uma leitura de sentimentos. Aprendi a bloquear isso, porque penses o que pensares não é agradável ter as emoções das outras pessoas a cair-nos em cima. É bastante fácil filtrar isso, mas de vez em quando, se não prestar atenção, há qualquer coisa, principalmente emoções fortes, que consegue passar. Desculpa intrometer-me na tua privacidade.

    Por um momento ele não disse nada, limitou-se a ficar sentado com a cabeça para trás e os olhos fechados.

    - Não, eu é que peço desculpa. Foi horrível da minha parte. Sinto-me horrível, como já percebeste. Acho que estava a precisar de descarregar em alguém e tu foste a escolhida.

    - Compreendo que seja desconfortável estar com alguém em quem não se pode confiar. Alguém que se sente que pode tirar e vai tirar vantagem dos nossos pensamentos e sentimentos e usá-los para controlar-nos ou para dominar a nossa vida. Essa foi uma das razões por que tentei explicar-te que não tenho jeito para relações, por que não quero envolver-me numa.  É perfeitamente  compreensível ter questões e dúvidas, e que essas questões e dúvidas conduzam a ressentimentos e a desconfianças.

    Calou-se e usou o silêncio para recuperar forças para o resto.

    - Isso - disse Cade suavemente - é um surpreendente monte de asneiras. Posso perguntar-te de quem são as palavras que acabaste de pôr na minha boca?

    - Foram as tuas palavras. - Mexeu-se um pouco, usando o seu próprio naco de amargura para enfrentá-lo. - Sou o que sou e não posso mudar isso. Sei como hei de lidar com isso. Não quero nem espero que ninguém fique ao meu lado. Não preciso. Aprendi a aceitar a minha vida tal como ela é e não me importo se tu ou qualquer outra pessoa não a aceitam.

    - É melhor teres cuidado com os buracos, Tory. Estás sentada num cavalo muito alto. - Quando ela pôs a mão na maçaneta da porta, ele ergueu o sobrolho. - Covarde.

    Os dedos dela apertaram a maçaneta e depois soltaram-na.

    - Filho da mãe.

    - Tens razão, foi o que eu fui por ter descarregado em ti um bocado do meu mau humor. Esta noite disseram-me que as desculpas são apenas capas para atitudes pouco próprias, mas, seja como for, desculpa. Mas tu estás a atribuir-me opiniões que eu não exprimi e não tenho. E não te posso exprimi-las, porque ainda não acabei de formá-las. Quando uma coisa é importante, gosto de pensar nela com tempo. E tu me pareces importante.

    Ele inclinou-se na direção dela.  Instintivamente,  ela voltou a aconchegar-se no lugar.

    - Sabes, isso é uma coisa que me irrita até à medula. - Calmamente, ele puxou o cinto de segurança dela e prendeu-o. - E, ao mesmo tempo, é um desafio. Sabes, estou decidido a não deixar de tocar-te, de aproximar-me cada vez mais, até tu deixares de empurrar-me.

    Pôs o motor a trabalhar, pôs o braço em cima do assento, deixou o seu olhar pousar no dela antes de fazer marcha atrás no caminho.

    - Podes achar que é tudo orgulho e ego, não me importo. Fez-se à estrada e acelerou.

    - Nunca bati numa mulher. - Disse aquilo no que se esforçou por ser um tom normal, mas ela ouviu a raiva contida. - E não vou começar por ti. Gostava de pôr-te as mãos em cima. Sei que vou acabar por pôr-te as mãos em cima. Mas não vou magoar-te.

    - Não acho que todos os homens batem em mulheres. - Olhou pela janela, tentando manter a compostura da mesma forma que costumava empilhar tijolos para a sua parede. - Trabalhei esse e vários outros assuntos na terapia.

    - Ótimo - limitou-se ele a dizer. - Então não preciso preocupar-me, não vais pensar que cada gesto meu é uma ameaça para ti. Não me importo de te deixar nervosa, mas importo-me se te deixar assustada.

    - Se eu tivesse medo de ti não estaria aqui. - O vento soprava-lhe no rosto, entre os cabelos. - Não sou ingénua, Cade, nem capacho de ninguém. Já não.

    Ele esperou um pouco.

    - Se fosses, não te quereria aqui.

    Ela virou a cabeça, só um pouco, e observou-o longamente, de perfil.

    - Disseste uma coisa muito inteligente. Talvez a melhor coisa que podia ser dita. Melhor ainda: acredito que a disseste a sério.

    - Sou uma dessas criaturas estranhas que tenta dizer as coisas a sério.

    - Também acredito nisso. - Respirou fundo. - Tinha decidido não vir, esta noite. Ia sair de casa, dizer-te que não vinha, explicar-te como as coisas iam passar a ser. E aqui estou eu.

    - Tiveste pena de mim. - Lançou-lhe um olhar. - Foi o teu primeiro erro.

    Ela soltou uma gargalhada curta.

    - Acho que sim. Onde vamos?

    - A nenhum lugar especial.

    - Muito bem. - Recostou-se, surpreendida com a rapidez e a facilidade com que descontraiu. - É um bom lugar.

    Cade foi até mais longe do que tencionava, escolhendo estradas secundárias ao acaso, mas sempre rumo a este. Em direção ao mar. O Sol mergulhava cada vez mais baixo, atrás deles, lançando raios vermelhos pelo céu que pareciam sangrar até aos campos, entornar-se sobre os pequenos bosques, mergulhar nas curvas serpenteantes do rio.

    Ele deixou-a escolher a música, e embora fosse Mozart a ouvir-se bem alto, em vez do rock que ele teria escolhido, parecia condizer com o crepúsculo.

    Descobriu um pequeno restaurante à beira-mar, bem a sul das multidões que acorriam a Myrtle Beach. Estava suficientemente agradável para ficarem sentados cá fora, a uma pequena mesa onde uma vela baixa e grossa, branca, ardia num globo de vidro e a conversa à volta deles era abafada pelo bater ritmado das ondas.

    Na praia, crianças perseguiam caranguejos, fazendo-os esconder nos seus buracos, ou atiravam migalhas de pão para o ar, para as gaivotas que gritavam. Um grupo de jovens chapinhava, emitindo os guinchos e os gritos a meio caminho entre a infância e as tentativas de chamar a atenção do sexo oposto.

    Num céu ainda azul profundo dos últimos bafejos do dia, piscou a primeira estrela, brilhando como um diamante isolado.

    A tensão e os problemas do dia evadiram-se da mente de Tory.

    Não sabia que tinha fome. O seu apetite nunca era particularmente forte. Mas lançou-se à salada, enquanto ele começava a falar-lhe do seu trabalho.

    - Quando sentires que os olhos estão a começar a fechar-se, manda-me calar.

    - Não me aborreço com essa facilidade. E sei umas coisas sobre algodão biológico. A loja onde eu trabalhava, em Charleston, vendia camisas de algodão biológico. Trazíamo-las da Califórnia. Eram caras, mas vendíamo-las bem.

    - Dá-me o nome da loja. A Algodão Lavelle começou a trabalhar com algodão orgânico o ano passado. Posso garantir que o nosso preço será melhor do que o da Califórnia. Isso faz parte do que ainda não consegui fazer tão bem como gostaria. Competir com os métodos químicos com o produto pronto a ser utilizado. E o produto ganhar vantagem no mercado.

    - O que significa mais lucro.

    - Exatamente. - Pôs manteiga num pãozinho e passou-lhe. - As pessoas dão mais ouvidos ao lucro do que às preocupações ambientais. Posso falar nos resíduos dos pesticidas, nos efeitos que têm na vida selvagem e nas espécies de risco...

    - Espécies de risco?

    - Codornizes e outras aves que nidificam na erva ao longo dos campos. Os caçadores matam as codornizes, comem as codornizes e consomem os pesticidas. E há também os inseticidas. É verdade que matam as pragas, mas também matam os insetos bons, infetam aves, reduzem a cadeia alimentar. Um pinto come um inseto morto ou moribundo que foi pulverizado e esse pinto fica infetado. É um ciclo vicioso que só se quebra quando se tenta outro método.

    Estranho, pensou ela, aperceber-se de que tinha dentro de si a visão que o seu pai tinha da agricultura, em que a natureza era o inimigo a combater dia após dia e o governo o inimigo número dois.

    - Adoras isto. A agricultura.

    - Sim. Porque não haveria de adorar?

    Ela abanou a cabeça.

    - Muitas pessoas ganham a vida a fazer coisas de que não gostam e para as quais não têm verdadeiro talento. A mim, estava reservado trabalhar na fábrica de tintas e ferramentas, depois do liceu. Fiz cursos de gestão em segredo, em vez de rebelar-me contra esses planos. Por isso, acho que sei o que é lutar contra a corrente para se conseguir fazer o que se quer fazer.

    - Como sabias o que querias fazer?

    - Só queria ser inteligente. - Para fugir, pensou ela, mas voltou a centrar a conversa nele. - O método biológico é sensível e, sem dúvida, muito avançado, mas se não usas químicos tens ervas daninhas e doenças e pragas. Tens uma colheita doente.

    - O algodão é cultivado há mais de quatro mil anos. O que achas que as pessoas faziam até há sessenta, setenta anos, antes de começarem a usar aldeído, metilo e trifluralina?

    Ver aquela força nele intrigava-a, interessava-a. Sentir a paixão que vibrava nele e transparecia assim.

    - Tinham escravos. E depois disso a mão-de-obra deixou de poder trabalhar um número de horas obsceno por um salário de escravo. Essa foi uma das razões, caso estejas a interrogar-te sobre isso, que levou o Sul a perder a guerra entre os estados.

    - Podemos falar de história noutra altura. - Inclinou-se para a frente, para esclarecer o seu ponto de vista. - O algodão cultivado biologicamente pode usar e usa mais mão-de-obra, mas também faz uso de recursos naturais. Adubo orgânico, composto, em vez de fertilizantes químicos que podem poluir as águas subterrâneas. Culturas de cobertura, para ajudar a controlar as ervas daninhas e as pragas, e a conservação básica do solo através da rotação. Os insetos bons, como as joaninhas, os louva-a-deus, e outros, são usados para acabar com as pragas do algodão, e trabalhadores, vizinhos, crianças, não são expostos aos resíduos dos pesticidas. Deixamos que as plantas morram naturalmente, em vez de as matarmos com produtos químicos.

    Voltou a sentar-se direito quando as entradas foram servidas, serviu mais vinho, mas estava ligado à corrente.

    - Cumprimos as regras durante o processo de descaroçamento. Limpamos as fibras de quaisquer resíduos, segundo o regulamento federal. Por isso, quando é vendido, é puro, livre de químicos. Nem toda a gente considera isso importante numa camisa, ou nuns calções de montar, mas o algodão, para além de fibra é também sementes.

    E as sementes de algodão entram numa grande quantidade de comidas preparadas. Que quantidade de pesticidas achas que ingeres de cada vez que comes um pacote de batatas fritas?

    - Acho que não quero saber. - Mas lembrou-se do pai, a chegar a casa e a amaldiçoar a terra. Lembrou-se de ver as nuvens de pesticidas serem lançadas sobre as plantas e de como uma parte delas era levada pelo ar, na direção da casa.

    Lembrou-se do cheiro. E do calor no ar.

    - Como te interessaste pelo método orgânico?

    - No primeiro ano da universidade. Comecei a ler sobre o assunto e, bem, para dizer a verdade, havia uma certa rapariga.

    - Ah! - Divertida, Tory cortou um pedaço de truta. - Agora já estou a ver.

    - Chamava-se Lorilinda Dorset, de Mill Valley, Califórnia. Fiquei de língua de fora, a primeira vez que a vi. Uma morena alta e esguia, de calças apertadas.

    Soltou um suspiro, diante da recordação adoçada pela distância.

    - Era membro da PETA, do Greenpeace, da Conservação da Natureza, e sabe Deus que mais. Então, claro, para impressioná-la, fartei-me de ler sobre os direitos dos animais e a agricultura biológica e por aí adiante. Não comi carne durante dois meses.

    Tory franziu a testa ao olhar para o bife que ele tinha no prato.

    - Deve ter sido amor.

    - Foi, durante umas semanas radiosas. Deixei que ela me arrastasse até um seminário sobre agricultura biológica, e ela deixou que eu a tirasse daquelas calças de brim apertadas. - Rasgou um sorriso lento e malicioso. - Claro que a minha necessidade desesperada de comer um hambúrguer acabou por suplantar a minha devoção, e a Lorilinda, agastada, afastou-se do carnívoro.

    - Que outra coisa podia ela fazer?

    - Precisamente. Mas continuei a pensar no que tinha ouvido no seminário e no que tinha lido naqueles livros, e as coisas foram fazendo cada vez mais sentido para mim. Vi como podia fazer-se e porque devia fazer-se assim. Por isso, quando fiquei com Beaux Revés, iniciei este processo, longo e não inteiramente desprovido de conflitos.

    - A Lorilinda ficaria orgulhosa.

    - Não, nunca há-de perdoar-me aquele cheeseburger. Foi uma verdadeira machadada na fé. Depois disso, durante meses e meses não consegui engolir outro, tal era a culpa.

    - Os homens são uns filhos da mãe.

    - Eu sei. - Também sabia que ela conseguia comer uma refeição completa, se ele continuasse a manter-lhe o pensamento ocupado. - Mas, se perdoares esse defeito genético, o que achas de seres o ponto de venda exclusivo em Progress dos produtos da Algodão Biológico Lavelle?

    - Queres que eu venda as tuas camisas na minha loja? - perguntou, surpreendida.

    - Não necessariamente camisas, se elas não se adequarem ao ambiente. Mas que tal roupa de casa? Toalhas de mesa, guardanapos, esse tipo de coisa?

    - Bem... - Apanhada de surpresa, pensou em termos do negócio. - Havia de querer ver amostras, obviamente. Mas como o produto seria fabricado aqui, no estado, deve adequar-se à minha loja. Vamos precisar de discutir custos, quantidades e qualidade e estilo, claro. Não quero produtos fabricados em série. Quero dar a conhecer às pessoas peças únicas e representativas da enorme variedade de artistas e de artesãos que temos na Carolina do Sul.

    Fez uma pausa para beber um gole de vinho e pensar um pouco.

    - Atoalhados de algodão biológico - murmurou. - Dos campos à mesa, tudo dentro de Georgetown County. Pode ser muito interessante.

    - Ótimo. - Ergueu o copo e tocou no dela. - Havemos de encontrar uma maneira de fazer com que funcione para nós dois. Para fazer com que tudo funcione - acrescentou.

   

    Sem dúvida, a noite estava a terminar num tom bem mais agradável do que aquele em que começara. Com a lua cheia por cima das suas cabeças e uma adorável neblina causada pelo vinho, dentro delas. Tory não tinha intenção de beber, raramente o fazia, mas era tão agradável estar ali sentada à beira-mar, a saborear o vinho.

    Tão agradável que bebera dois copos em vez de um, e estava agora tomada por uma agradável sonolência. O carro seguia rapidamente e sem sobressaltos, e o vento que soprava sobre a sua cabeça cheirava ao verão que se avizinhava.

    Fê-la pensar em madressilvas e rosas muito abertas, no cheiro do alcatrão a derreter sob o sol e no zumbido preguiçoso das abelhas cortejando as flores de magnólia no pântano.

    Como desejava que refrescasse um pouco agora, que o Sol já se pusera. Se não aparecesse uma carona depressa, podia guardar o polegar e fazer todo o caminho a pé até à porcaria da praia. Claro que a culpa foi da Mareie, aquela cabra, deixá-la para trás para poder enrolar-se com aquele parvalhão do Tini. Bem, estava se lixando para a Mareie, havia de arranjar carona para Myrtle Beach e divertir-se imenso.

    Tudo o que precisava era a porra de uma carona. Vá lá, querido, pára o carro! Aí está. Maldito calor.

    Tory ergueu-se no assento, com os olhos muito abertos, arquejante como alguém que viesse à tona depois de um mergulho longo e profundo.

    - Ela entrou no carro. Atirou a mala para o assento de trás e entrou no carro.

    - Tory? - Cade encostou à beira da estrada e agarrou-a pelos ombros. - Está tudo bem. Adormeceste por um minuto.

    - Não. - Empurrou-o, sentindo-se mal e desesperada e puxou o cinto de segurança. Havia mãos a apertar-lhe o coração, por isso ele doía-lhe a cada batida. - Não! - Abriu a porta, saiu e começou a correr ao longo do acostamento. - Ela está a apanhar carona para a praia. Ele deu-lhe carona lá atrás, algures lá atrás.

    - Espera. Calma! - Ele conseguiu alcançá-la e teve de agarrá-la com firmeza. - Querida, estás a tremer.

    - Ele levou-a. - Estava tudo a entrar na cabeça dela, imagens e formas, sons e cheiros. A garganta ardia-lhe, irritada como a de alguém que fumara demasiados cigarros. - Ele levou-a, saiu da estrada, saiu e meteu-se por entre as árvores. E bateu-lhe com qualquer coisa. Ela não consegue ver o que é, sente apenas a dor e está tonta. O que se passa? O que é isto? Ela está a empurrá-lo, mas ele está a arrastá-la para fora do carro.

    - Quem?

    Ela abanou a cabeça, tentando encontrar-se a si própria no meio da confusão, da dor. Do terror.

    - Naquela direção. Logo ali, naquela direção.

    - Está bem. - Os olhos dela estavam enormes, desfocados, e tinha a pele fria e úmida sob as mãos dele. - Queres ir até ali?

    - Tenho que ir. Deixa-me.

    - Não. - Ele segurou-a com firmeza. - Não deixo. Vamos andar um bocado. Estou aqui. Podes sentir-me: estou aqui, ao teu lado.

    - Eu não quero isto. Não quero! - Mas começou a andar. Conseguiu dominar o seu instinto de autopreservação. Não lutou enquanto as imagens passavam e se solidificavam.

    As estrelas moviam-se lá em cima, tão brilhantes que cegavam. O calor apertava-a como um punho cerrado.

    - Ela queria ir para a praia. Não conseguia arranjar boleia. Estava zangada com a amiga, Mareie. Uma amiga chamada Mareie, tinham combinado viajar juntas para passarem o fim-de-semana. Agora ela tem que apanhar carona porque não quer deixar aquela cabra estúpida estragar-lhe a viagem. Ele vem na direção dela e ela está feliz. Está cansada e com sede, e ele diz que vai para Myrtle. Fica a menos de uma hora, de carro.

    Tory parou e levantou a mão. Deixou pender a cabeça para trás, mas os olhos continuaram abertos. Escancarados.

    - Ele dá-te uma garrafa. Jack Black. Blackjack. Bebes um gole. Bem longo. Para matar a sede e porque é tão fixe pegar carona bebendo uísque. Deve ter sido com a garrafa que ele te bateu. Deve ter sido, porque lha passaste e estavas a rir e depois qualquer coisa te bateu na cabeça. Meu Deus! Dói!

    Tory vacila e leva a mão à cara. O sabor a sangue enche-lhe a boca.

    - Não. Não! - Cade abraçou-a contra si, surpreendido por ela não lhe escorrer por entre os braços como fumo.

    - Não consigo ver. Não consigo! Não há nada nele. Só vazio. Espera. Espera! - Com as mãos fechadas, arquejante, empurrou-o. Sentia-se nauseada, mas libertou-se. E viu.

    - Ele levou-a para ali. - Começou a balançar-se para trás e para a frente. - Não consigo. Não consigo.

    - Não tens que conseguir. Já passou. Volta para o carro.

    - Ele levou-a para ali. - O sofrimento e a dor sobrepunham-se a tudo o resto. - Está a violá-la. - Agora, fechou os olhos, deháando acontecer, deixando arder. - Lutas por um momento. Ele está a magoar-te e tu estás tão assustada, por isso debates-te. Ele bate-te outra vez, duas vezes, com força, na cara. Ai, dói, dói. Não queres estar aqui. Queres a tua mãe. Gritas enquanto ele grunhe e arfa e acaba. Sentes o cheiro do suor e do sexo dele e do teu próprio sangue, e já não consegues debater-te.

    Tory ergueu as mãos e passou-as pelo rosto. Precisava de sentir os traços da sua própria face, o nariz, a boca. Precisava de se lembrar quem era.

    - Não consigo vê-lo. Está escuro e ele é uma mera coisa. Não há nada nele que me faça sentir que ele é real. Ela também não o vê. Nem mesmo quando ele a estrangula com as mãos. Não demora muito, porque ela está meio inconsciente e quase não oferece resistência. Não esteve com ele mais do que meia hora, e está morta. Estendida no chão, nua, à sombra das árvores. É aí que ele a deixa. Ele... ia a assobiar quando voltou para o carro.

   

    Nessa altura afastou-se de Cade, da forma deliberada que era habitual nela. Ele olhou para o rosto dela, pálido como a lua, com aqueles olhos a desfazerem-se em espirais de fumo.

    - Ela só tinha dezasseis anos. Uma rapariga bonita, com cabelo comprido, louro, e pernas compridas. Chamava-se Alice, mas não gostava do nome, por isso toda a gente lhe chamava Ally.

    A exaustão e a dor venceram-na.

    Cade segurou-a, pegou-lhe ao colo. Estava inerte, como se estivesse morta. Abalado pela súbita imobilidade dela e pela história que ela contara, apressou-se a levá-la dali. Pensou que, esperou que, se a levasse daquele sítio, daquele lugar, ela ficaria melhor.

    Quando ele se inclinou para voltar a pô-la no carro, ela mexeu-se. Quando abriu os olhos, estavam escuros e vítreos.

    - Está tudo bem. Tu estás bem. Vou levar-te a casa.

    - Só preciso de um minuto. - A náusea e o frio tinham voltado. Mas iam passar. O horror demoraria mais tempo. - Desculpa. - Encolheu os ombros, sem forças. - Desculpa.

    - Porquê? - Deu a volta pela frente do carro, até junto do volante. Depois sentou-se. - Não sei o que posso fazer por ti. Deve haver qualquer coisa que eu possa fazer. Vou levar-te a casa e depois vou voltar e... vou encontrá-la.

    Confusa, Tory olhou fixamente para ele.

    - Ela não está ali, agora. Aconteceu há muito tempo. Há anos. Ele começou a falar e depois interrompeu-se. Alice, dissera ela.

    Uma rapariga loura chamada Alice. Aquilo despertou-lhe a memória e uma espécie de náusea no estômago. - Acontece-te sempre assim? Vindo do nada?

    - Às vezes.

    - Faz-te sofrer.

    - Não, esgota-me, deixa-me um bocado enjoada, mas não sofro.

    - Faz-te sofrer - repetiu ele e deu a volta à chave.,

    - Cade. - Hesitante, tocou na mão dele. - Foi... Desculpa falar-te nisto, mas tens que saber. Foi como a Hope. Por isso foi tão forte. Foi como a Hope.

    - Eu sei.

    - Não, não compreendes. O homem que matou aquela pobre rapariga e a deixou ali, no meio das árvores, foi o mesmo homem que matou a Hope.

   

     Progress

    Quando compreenderes o que é a Revolução, chama-lhe Progresso; E quando compreenderes o que é o Progresso, chama-lhe

    Amanhã.

    Victor Hugo

    

    Eu não queria acreditar. Havia - hã - dúzias de razões racionais e lógicas pelas quais Tory está enganada. Pequenas coisas e outras maiores que tornam impossível o que ela diz sobre a adolescente morta à beira da estrada. A rapariga não pode ter sido morta pelo mesmo monstro que matou a minha irmã.

    A pequena Hope, com o seu cabelo esvoaçante e os seus olhos cheios de alegria e de segredos.

    Posso fazer uma lista dessas razões imediatamente, apesar de não a ter conseguido apresentar a Tory, a noite passada. Sei que a decepcionei. Sei, pela maneira como ela olhou para mim, pela maneira como se barricou atrás daquele silêncio dela. Sei que a magoei porque não dei a devida importância ao que ela disse, pela forma como sugeri, não, insisti em que ela não pensasse mais nisso.

    Mas o que ela me disse, o que me deixou ver através dos olhos dela, o horror que reviveu à minha frente e do qual falou mais tarde de modo tão contido, trouxe tudo de volta. Fez-me recuar até àquele verão distante, quando tudo mudou no mundo.

    Talvez ajude mais escrever sobre a Hope do que sobre aquela rapariga desgraçada que nunca conheci.

    Aqui, sentado à escrivaninha do meu pai - porque para toda a gente, incluindo para mim próprio, ela será sempre a escrivaninha do meu pai - recuo os dias e meses e anos até voltar a ter doze anos e ser suficientemente inocente para não dar grande atenção às pessoas que amo, e ver os meus amigos como mais importantes do que a família, em todos os aspectos, até voltar ao tempo em que ainda sonhava com o dia em que teria idade para conduzir, ou para beber, ou para fazer qualquer das coisas mágicas que pertencem ao almejado mundo dos adultos.

    Naquela manhã, tinha feito as minhas tarefas como sempre. O meu pai insistia nas responsabilidades e martelava-me constantemente a cabeça com aquilo que era esperado de mim. Pelo menos era assim antes de termos perdido a Hope. Tinha saído com ele, a meio da manhã, para dar uma volta pelos campos. Lembro-me de estar ali, a olhar para aquele oceano de algodão. O meu pai cultivava sobretudo algodão, mesmo quando muitas das fazendas vizinhas se viraram, para a soja ou para o tomate ou o tabaco. Beaux Revés era algodão, e eu nunca deveria esquecer isso.

    Nunca esqueci.

    E naquele dia foi tão simples ver porquê, a olhar para aquele espaço vasto, para a magia das cápsulas que se abriam em fios. A ver as hastes vergadas sob o peso - algumas delas com o que devia ser uma centena de capsulas, todas abertas como ovos. E naquela época do ano, com os campos tão cheios, todo o ar cheirava a algodão. O cheiro quente do fim do verão.

    A colheita ia ser boa, naquele ano. O algodão espalhar-se-ia pelos campos, seria apanhado, ensacado e processado. Beaux Revés ia continuar, mesmo que aqueles que ali viviam fossem pouco mais do que fantasmas.

    Fiquei livre pouco depois do meio-dia. Embora o meu pai esperasse que eu trabalhasse, aprendesse, suasse, esperava também que eu fosse um rapaz. Era um bom homem, um bom pai, e nos primeiros doze anos da minha vida foi tudo de sólido e quente e bom.

    Já tinha saudades dele muito antes de ele morrer.

    Mas naquele dia, quando ele me dispensou, peguei na minha bicicleta, aerodinâmica e com doze velocidades, que me tinha sido oferecida no Natal, e atravessei a parede de ar espesso e quente até à casa do Wade. Tínhamos uma casa na árvore, nas traseiras do quintal do Wade, no alto de um velho sicómoro. O Dwight e o Wade já lá estavam, bebendo limonada e lendo livros de quadradinhos. Estava demasiado calor para fazer o que quer que fosse, mesmo para nós, com os nossos doze anos.

    Mas a mãe do Wade nunca nos deixava sossegados. Estava sempre a vir cá fora e a perguntar se queríamos isto ou aquilo ou porque não íamos para dentro, tomar uma bela bebida fresca e comer um sanduiche de atum. A Mrs. Boots sempre tivera um coração doce, mas foi uma chata para nós, naquele verão. Estávamos no auge da nossa masculinidade, ou pelo menos era o que achávamos, e era mais do que humilhante alguém oferecer-nos atum e Pepsi, sendo esse alguém uma mãe, de avental impermeável e sorriso indulgente, que nos fazia recuar à infância.

    Fugimos, fomos até ao rio, nadar um pouco. Acho que lançamos insultos mal-educados, mas para nós brilhantes, a propósito do rabo branco e gordo do Dwight. Em resposta, ele comparou as nossas partes masculinas a vários vegetais pouco atraentes. Evidentemente, tais atividades mantiveram-nos em histeria durante uma hora.

    Era muito fácil ter doze anos. Discutíamos assuntos importantes: A Aliança Rebelde regressaria e derrotaria Darth Vader e o Império do Mal? Quem era o mais fixe: o Super-Homem ou o Batman? Como havíamos de convencer os nossos pais a levar-nos a ver o último filme, Sexta-feira, 13? Nunca conseguiríamos enfrentar os nossos colegas na escola se não víssemos o louco Jason a matar a sua quota anual de adolescentes.

    Naquele momento, eram essas as questões vitais das nossas vidas.

    Pouco depois das quatro, após termos comido uns pêssegos meio azedos e picados das vespas e umas pêras ainda verdes, o Dwight teve de ir para casa. A sua tia Charlotte vinha a Lexington, de visita, e ele tinha de lavar-se e estar pronto a tempo para o jantar. Os pais do Dwight eram severos e não lhe poderia passar pela cabeça chegar atrasado.

    Sabíamos que ele ia ser obrigado a usar calções bem vincados e laço, e com a generosidade dos amigos esperamos que ele já não pudesse ouvir-nos para gozar à vontade.

    O Wade e eu fomo-nos embora pouco depois, e separámo-nos no meio do caminho. Ele em direção à cidade e eu a Beaux Revés.

   

    No caminho, passei pela Tory. Ela não tinha bicicleta. Ia para casa e cruzou-se comigo. Pensei que devia ter estado a brincar com a Hope. Tinha os pés descalços e cheios de pó e a camisa ficava-lhe demasiado pequena. Naquela altura não notei nada disso, mas agora lembro-me exatamente do aspecto dela, daquele cabelo castanho-escuro apanhado atrás, daqueles olhos grandes e cinzentos que fixaram os meus enquanto eu passava por ela, sem dizer uma palavra. Eu não podia parar para falar com uma rapariga e continuar a manter a minha dignidade masculina. Mas lembro-me de ter olhado para trás e de a ter visto afastar-se, caminhando com as suas pernas fortes e bronzeadas pelo verão.

    Quando voltei a ver as pernas dela estavam cheios de vergões recentes.

    Quando cheguei, a Hope estava no alpendre, a jogar três-marias. Será que as meninas continuam a jogar três-marias, hoje? A Hope era imbatí-vel. Tentou convencer-me a jogar, até prometeu dar-me vantagem. Coisa que, evidentemente, me insultou para além de todos os limites. Acho que lhe disse que jogar três-marias era para bebês e que eu tinha coisas mais importantes para fazer. O riso dela e o som da bola seguiram-me quando entrei em casa.

    Daria um ano da minha vida para voltar àquele momento e sentar-me no alpendre enquanto ela me ganhava jogando três-marias.

    O serão passou como de costume. A Lilah enxotou-me para cima, para eu tomar banho, porque cheirava a zorrilho do rio.

    

    A mãe estava na saleta da frente. Eu soube, porque a música de que ela gostava estava tocando. Não entrei, porque sabia, por experiência, que ela não gostava muito de rapazes malcheirosos e suados na saleta da frente.

    É engraçado, olhando para trás, vejo o quanto eu, o Wade e o Dwight éramos dominados pelas nossas mães. A do Wade, com as suas mãos sempre em movimento e os seus olhos quentes, a do Dwight, com os seus sacos de bolachas e de doces, e a minha, com as suas idéias rígidas sobre o que era tolerável e o que não era.

    Nunca tinha percebido isto antes, e acho que agora já não importa. Podia ter importado naquela altura, se nos tivéssemos apercebido disso.

    Naquela noite, o que importava era evitar a desaprovação da minha mãe, por isso subi diretamente as escadas. A Faith estava no quarto dela, a vestir uma das Barbies com um vestido janota. Sei, porque me dei ao trabalho de parar à porta dela e espreitar.

    Tomei uma ducha, por ter decidido, pouco antes, que os banhos de imersão eram para as raparigas e para os homens velhos e cheios de rugas. Tenho a certeza de que pus as minhas roupas sujas no cesto, porque a Lilah me teria torcido a orelha se eu as tivesse posto noutro lado qualquer. Vesti roupa lavada, penteei-me, e devo ter demorado alguns minutos a treinar os meus bíceps e a observar os resultados no espelho. Depois, fui para baixo.

    Tivemos galinha para o jantar. Galinha assada, com puré de batata e molho, e ervilhas vindas diretamente da horta. A Faith não gostava de ervilhas e recusou-se a comer as dela, o que até podia ter sido tolerado, mas ela resolveu armar uma cena por causa disso, como fazia frequentemente, e acabou por responder mal à mãe, que a mandou sair da mesa, de castigo.

    Acho que o Chauncy, o fiel cão do pai que morreu no verão seguinte, comeu o resto do jantar dela.

    Depois do jantar, fui dar uma vista de olhos lá fora, pensando numa maneira de convencer o pai a deixar-me construir um forte. Até ao momento, os meus esforços nessa área tinham sido um rotundo fracasso, mas pensei que se lhe dissesse exatamente o sítio certo, de onde não se visse a estrutura, que o pai achava que ia ser uma monstruosidade, poderia ser bem-sucedido.

    Foi durante esse reconhecimento que encontrei a bicicleta da Hope, no sítio onde ela a escondera, atrás das camélias.

    Nunca pensei em denunciá-la. Era assim que funcionávamos enquanto irmãos, a não ser que algum interesse particular falasse mais alto do que a lealdade. Nem sequer fiquei curioso, embora imaginasse que ela estivesse a planejar esgueirar-se para se encontrar com a Tory algures, naquela noite, porque andavam coladas uma à outra naquele verão. Sabia que já não era a primeira vez, e não a censurava por isso. A mãe era muito mais rigorosa com as filhas do que era com o filho. Por isso, não disse nada sobre a bicicleta e concentrei-me no forte.

    Uma palavra minha e os planos dela teriam ficado destruídos. Ela ter-me-ia lançado um dos seus olhares furiosos, e provavelmente ter-se-ia recusado a falar comigo durante um dia, dois, se conseguisse aguentar.

    E estaria viva.

    Em vez disso, voltei para casa quando começou a escurecer e plantei-me diante da televisão, como era meu direito numa noite comprida de verão. Como tinha doze anos, tinha um apetite voraz e acabei por levantar-me do sofá para ir arranjar qualquer coisa para comer. Comi batatas fritas e vi A Balada de Hill Street, e pensei em como seria a vida de um polícia.

    Quando me fui deitar, com o estômago cheio e os olhos cansados, a minha irmã já estava morta.

    Pensava que conseguiria escrever mais, mas não foi capaz. Tinha a intenção de escrever o que sabia sobre o homicídio da sua irmã, e sobre o homicídio de uma rapariga chamada Alice, mas os seus pensamentos tinham-se desviado dos fatos e da lógica e tinham-no deixado mergulhado em dor e recordações.

    Não percebera ainda como ela ficava viva, para ele, se ele escrevesse sobre ela. Como as imagens daquela noite, e as horríveis imagens da manhã seguinte, corriam no seu pensamento como um filme.

    Seria assim também com Tory?, pensou. Como um filme projetado na mente e que não podia ser parado?

    Não, era mais. Saberia ela que quando fora apanhada naquela visão, na noite anterior, falara com a rapariga e não sobre ela? Talvez a rapariga Alice tivesse falado através dela.

    Que tipo de força era necessária para enfrentar isso, para sobreviver a isso e construir uma vida?

    Pegou no que escrevera e começou a metê-lo numa gaveta da velha escrivaninha, na intenção de a trancar em seguida. Mas, em vez disso, dobrou as páginas e fechou-as num envelope.

    Precisava de voltar a ver Tory. Precisava de voltar a falar com ela. Tinha toda a razão naquele primeiro dia em que a vira e lhe dissera que o fantasma da irmã estava ali, no meio deles.

    Não conseguiriam avançar nem recuar até cada um deles conseguir lidar com o que perdera.

    Ouviu o velho relógio do avô dar as horas, com o ecoar das suas batidas secas. Apenas duas. Estaria a pé dali a quatro horas, a vestir-se iluminado pela luz pálida, a comer o pequeno-almoço que Lilah insistiria em preparar, e depois a ir de campo em campo, para observar as colheitas com toda a fé e todo o fatalismo com que todos os agricultores nasciam, à procura de pragas, a observar o céu.

    Apesar, ou talvez por causa de toda a ciência que estudara e implementara, a Beaux Revés de Cade era mais uma plantação do que a fazenda que fora do pai. Cade contratava mais trabalhadores, envolvia mais mão-de-obra do que a geração anterior. Investia mais esforços e mais lucro na colheita, na compressão, no armazenamento e no processamento do que o pai e o avô tinham estado dispostos a fazer. Isso fizera de Beaux Revés uma plantação independente, à maneira antiga, e, ao mesmo tempo, uma espécie de fábrica ativa e diversificada.

    E, ainda assim, com os seus gráficos e a sua ciência e os seus planos cuidadosos, observava o céu e esperava que a natureza colaborasse.

    No fim, pensou enquanto pegava no envelope, tudo se resumia ao destino.

    Apagou a luminária da escrivaninha e usou o luar que se entornava pelas janelas para se guiar enquanto descia a escada curvilínea e saía do escritório. Precisava daquelas quatro horas de sono, disse a si próprio, porque depois de fazer as tarefas da manhã tinha reuniões na fábrica, à tarde. Lembrou-se que tinha de arranjar umas amostras para Tory e escrever uma proposta.

    Se conseguisse fazer tudo isso, podia ir ter com ela na noite seguinte. Quando entrou no quarto, sopesou o envelope que tinha na mão e depois acendeu a luz e meteu-o na pasta que estava junto às suas botas de trabalho.

    Estava a desabotoar a camisa quando uma brisa fraca com cheiro a fumo de cigarro o fez olhar na direção da porta que dava para a varanda. Deu um passo, notou que estavam entreabertas, e através do vidro viu o brilho vermelho de um cigarro aceso.

    - Estava pensando que nunca mais descias. - Faith virou-se. Tinha vestido o roupão que era o seu preferido ultimamente, e com os braços apoiados na pedra encontrava-se numa espécie de pose.

    - Porque não vais fumar na tua janela?

    - Não tenho esta varanda bonita, como o dono da casa. - Aquele fora outro pomo de discórdia. E embora ele achasse que ela teria usado melhor a suíte principal do que ele, não valera a pena tentar contrariar a insistência da mãe em que fosse ele a ficar ali após a morte do pai.

    Ela levantou o cigarro e aspirou-o lentamente.

    - Ainda estás zangado comigo. Não te censuro. O que fiz foi indecente. Quando perco a cabeça, não penso.

    - Se isso é um pedido de desculpa, está bem. Agora, vai-te embora e deixa-me deitar.

    - Ando dormindo com o Wade.

    - Meu Deus! - Cade pressionou os dedos contra os olhos e ficou admirado por eles não lhe entrarem pelo cérebro dentro. - E achas que essa é uma coisa que eu preciso de saber?

    - Descobri um dos teus segredos, por isso estou a dizer-te um dos meus. Ficamos quites.

    - Vou ver se não me esqueço de pôr um anúncio no jornal. O Wade. - Deixou-se cair pesadamente na cadeira de ferro que havia na varanda. - Raios partam!

    - Ora, não fiques assim. Estamos a dar-nos muito bem.

    - Até acabares de mastigá-lo e o cuspires.

    - Não tenciono fazer isso. - Depois, soltou uma gargalhada curta e forçada. - Nunca tenciono. Acontece, simplesmente. - Mandou a chepa do cigarro pela grade da  varanda, sem pensar que a mãe ia encontrá-la e ficar aborrecida. - Ele faz-me sentir bem. Porque tem de haver algum mal nisso?

    - Não tem. O assunto só a ti diz respeito.

    - Assim como o teu e da Tory é vosso. - Aproximou-se dele e acocorou-se, para os olhos de ambos ficarem ao mesmo nível. - Desculpa, Cade. Fui má e desprezível por ter dito o que disse, e gostava de poder voltar atrás.

    - Gostavas sempre.

    - Não, posso dizer sim, mas em metade das vezes não quero dizer nada disso. Mas desta vez é verdade, gostava mesmo. - Como havia mais cansaço do que fúria nos olhos dele, ela estendeu a mão para lhe passar os dedos pelo cabelo.

    - Mas não dês ouvidos à mãe. Ela não tem nada que dizer-te o que deves fazer. Mesmo que, provavelmente, tenha razão.

    Ele sentiu o cheiro ao jasmim da mãe, que enfeitava a noite.

    - Ela não tem razão.

    - Bem, eu sou a última pessoa que devia dar conselhos no que toca a relações românticas...

    - Exatamente.

    Ela ergueu o sobrolho.

    - Ai, essa foi certeira. Mas, como eu ia dizer antes de começar a sangrar, esta família já está estragada sem ser preciso acrescentar um elemento estranho como a Tory Bodeen à mistura.

    - Ela faz parte do que aconteceu naquela noite.

    - Por amor de Deus, esta família já era o que era antes de a Hope ter morrido.

    Ele ficou com um ar tão frustrado e tão cansado depois daquela afirmação, que ela quase recuou e quase disse uma patetice qualquer sobre aquilo tudo. Mas tinha pensado muito desde que Tory chegara à cidade. E estava na altura de dizê-lo.

    - Pensa. - A raiva em relação a ele e a si própria tornou a voz dela aguda como pontas afiadas. - Ficamos entalados no momento em que nascemos. Nós três. E a mãe e o pai, antes de nós. Achas que o casamento deles era alguma história de amor? Podes gostar de ver o lado bom das coisas, mas sabes isso perfeitamente.

    - Faith, eles tinham um bom casamento até...

    - Um bom casamento? - Com um som de aversão, pôs-se de pé e tirou os cigarros do bolso do robe. - Que diabo significa isso? Um bom casamento? Que estavam destinados um ao outro, que era inteligente e conveniente para o herdeiro da plantação maior e mais rica da região casar com a debutante bem de vida? Muito bem, foi um bom casamento. Talvez até sentissem alguma coisa um pelo outro, pelo menos por uns tempos. Cumpriram o seu dever - disse ela amargamente, pegando no isqueiro. - Fizeram-nos.

    - Fizeram o melhor que sabiam - disse Cade, exausto. - Tu nunca quiseste ver isso.

    - Talvez o melhor deles nunca fosse suficientemente bom, pelo menos para mim. E não vejo porque o foi para ti. Que escolha te deram, Cade? Durante toda a vida foste educado para ser o senhor de Beaux Revés, e era isso que se esperava de ti. E se tu quisesses ser encanador, por amor de Deus?

    - Essa foi sempre a ambição secreta da minha vida. Costumo consertar torneiras que pingam só pelo entusiasmo da coisa.

    Ela riu, e a aresta mais viva da sua fúria suavizou-se.

    - Sabes muito bem o que quero dizer. Podias ter querido ser engenheiro, ou escritor, ou médico, ou qualquer outra coisa, mas não te foi dada hipótese de escolha. Eras o filho mais velho, o único filho, e o teu caminho estava traçado.

    - Tens razão. E não sei o que podia ter acontecido se eu tivesse querido ser uma dessas coisas. Mas, Faith, a questão é que eu não quis.

    - Bem, como poderias ter querido, a crescer e a ouvir «Quando o Cade estiver à frente de Beaux Revés» e «Quando for o Cade a mandar»? Nunca tiveste hipótese de ser qualquer outra coisa, nunca disseste «Vou tocar guitarra numa banda de rock-and-rolh.

    Desta vez ele riu e ela suspirou e voltou a encostar-se ao gradeamento. Percebeu porque vinha tantas vezes ao quarto dele, porque procurava tantas vezes a sua companhia. A Cade podia dizer aquilo que precisava de dizer. Ele deixava-a. Ele ouvia-a.

    - Cade, não vês? Eles fizeram de nós o que somos, e talvez tu tenhas conseguido ser o que querias, no meio de tudo isto. Ainda bem para ti, e digo isto com sinceridade.

    - Eu sei que sim.

    - Mas isso não significa que as coisas estejam certas. De ti esperava-se que fosses inteligente, soubesses coisas, descobrisses coisas. E enquanto tu andavas a aprender o teu ofício, diziam-me para me comportar bem, para falar em tom baixo e para não correr pela casa.

    - Se te serve de consolo, bem podes dizer que raramente ouviste.

    - Talvez tenha ouvido - murmurou ela. - Talvez tivesse ouvido, se não tivesse percebido que esta casa era o lugar de treino para uma boa esposa, um bom casamento, tal como aconteceu com a mãe antes de mim. Nunca ninguém me perguntou se eu queria mais alguma coisa, outra coisa, e quando eu questionava mandavam-me calar. «Deixa o teu pai preocupar-se com isso, ou o teu irmão. Pratica piano, Faith. Lê um bom livro, para poderes discuti-lo de forma inteligente. Mas não demasiado inteligente. Não vá algum homem pensar que és mais inteligente do que ele. Quando casares, é teu dever construir um lar agradável.»

    Olhou fixamente para a ponta do cigarro.

    - Um lar agradável. Isso era supostamente a soma de todas as minhas ambições, segundo as regras dos Lavelle. Por isso, claro que sendo como sou decidi fazer exatamente o contrário. Não ia me deixar descobrir aos trinta anos que era uma mulher seca e reprimida. Nem pensar! Quis ter a certeza de que isso não ia acontecer. Fugi com o primeiro rapaz de conversa mole e olhos vivos que me pediu, um que era tudo o que eu não devia querer. Casada e divorciada antes dos vinte anos.

    - Isso deu-lhes uma lição, não foi? - murmurou Cade.

    - Sim, deu. Assim como deu a minha investida seguinte no casamento e no divórcio. Afinal, fora exatamente para o casamento que me tinham educado. Não o gênero de casamento da mãe. Recusei-me e paguei bem por isso. E aqui estou eu, vinte e seis anos e dois pontos contra mim. E nenhum outro lugar para ir, senão este.

    - Aqui estás tu - comentou Cade. - Vinte e seis anos, bonita, inteligente e com experiência suficiente para não repetir os mesmos erros. Nunca pediste nada da fazenda, nem da fábrica. Se quiseres aprender, se quiseres trabalhar...

    O olhar que ela lhe lançou deteve as palavras. Era tão disfarçadamente indulgente.

    - És realmente demasiado bom para nós. Sabe Deus como consegues isso. É demasiado tarde, Cade. Sou um produto da minha educação e da minha própria rebeldia contra ela. Sou preguiçosa e gosto. Um dia destes vou encontrar um velho rico e pateta e convencê-lo a casar comigo. Vou tratar bem dele, claro, e gastar-lhe o dinheiro como água. Talvez até lhe seja fiel. Fui fiel aos outros, e vê do que me valeu. Depois, com sorte e com o tempo, vou ser uma viúva rica, o que vai assentar-me que nem uma luva, acho eu.

    Da mesma maneira que assenta à mãe, pensou amargamente. Amargamente.

    - És mais do que achas que és, Faith. Muito mais.

    - Não, doce, parece-me é que sou muito menos. Talvez tivesse sido diferente, apenas um pouco diferente, se a Hope não tivesse morrido. Sabes, ela nem sequer teve oportunidade de viver.

    - Isso não é culpa de ninguém, a não ser do filho da mãe que a matou.

    - Achas que não? - disse Faith calmamente. - Pergunto-me: teria ela saído naquela noite, escapado para ter a sua aventura com a Tory, se não se sentisse tão sufocada aqui dentro como eu? Teria saído por aquela janela se soubesse que era livre de fazer o que entendesse, com quem entendesse, na manhã seguinte? Eu conhecia-a, melhor do que qualquer outra pessoa nesta casa. As gêmeas são assim. Ela teria feito qualquer coisa da vida dela, Cade, porque teria escapado lentamente às grades. Mas não chegou a ter hipótese. E quando morreu, a ilusão de equilíbrio nesta casa foi com ela. Ela era a mais amada, sabes disso.

    Faith pressionou os lábios um contra o outro e atirou o cigarro por cima do gradeamento.

    - Mais do que tu ou eu. Não sei quantas vezes depois, quando um deles olhava para mim, para mim que tenho um rosto igual ao dela, eu vi nos olhos deles o que eles estavam a pensar. Porque não tinha sido eu a ir àquele pântano em vez da Hope.

    - Não. - Ele levantou-se. - Isso não é verdade. Nunca ninguém pensou isso.

    - Eu pensei. E foi isso que senti da parte deles. E eu recordava-Ihes constantemente que ela tinha morrido. E não devia ser perdoada por isso.

    - Não. - Ele tocou-lhe no rosto e viu a mulher e a criança que ela fora. - Que ela era.

    - Mas eu não podia ser ela, Cade. - As lágrimas que lhe enchiam os olhos brilhavam à luz difusa, tornando-as, pensou ele, brutalmente vivas. - Ela era algo que eles partilhavam como não podiam partilhar mais nada nem mais ninguém. Mas não conseguiram partilhar a perda.

    - Não, não conseguiram.

    - Por isso, o pai construiu este altar para ela e encontrou alívio na cama de outra mulher. E a mãe tornou-se mais fria e mais dura. Tu e eu limitamo-nos a seguir os caminhos para os quais já estávamos direcionados. E aqui estamos, a meio da noite, sem ninguém que nos pertença. E ainda não temos ninguém que faça de nós os mais amados.

    Doía ouvir aquilo, e saber que era verdade.

    - Não temos que ficar assim.

    - Cade, nós estamos assim. - Ela encostou-se a ele e pousou a cabeça quando ele a rodeou com os braços. - Nenhum de nós amou ninguém, pelo menos o suficiente para recuperar esse equilíbrio. Talvez amássemos a Hope o suficiente, talvez mesmo nessa altura já soubéssemos que era ela que mantinha a coesão.

    - Não podemos mudar o que aconteceu, nada do que aconteceu. Apenas o que fazemos com isso, agora.

    - É, não é? E eu não quero fazer nada sobre nada. Odeio a Tory Bodeen por ter voltado aqui, por me fazer lembrar da Hope, sentir saudades dela e voltar a sofrer por ela.

    - Ela não tem culpa, Faith.

    - Talvez não. - Fechou os olhos. - Mas eu tenho de culpar alguém.

    

   

    O assunto tinha de ser resolvido, o mais rapidamente e o mais eficazmente possível. O dinheiro, como Margaret sabia, apelava a um certo tipo de pessoas. Comprava o silêncio delas, a sua lealdade e aquilo que passava por ser a sua honra.

    Vestiu-se cuidadosamente para o encontro, mas afinal vestia-se sempre cuidadosamente. Usava um traje azul-marinho, de corte impecável, e ao pescoço o colar de pérolas da avó, de uma única volta. Sentara-se ao seu toucador, como fazia todas as manhãs, não tanto para disfarçar os sinais da idade, pois considerava a idade uma vantagem, mas para usá-los para mostrar o seu caráter e o seu regulamento.

    Caráter e regulamento eram a espada e o escudo.

    Saiu de casa às oito e cinquenta em ponto, dizendo a Lilah que tinha um encontro, cedo, e que depois ia almoçar em Charleston. Estaria de volta às três e meia.

    Chegaria à hora marcada, é claro.

    Margaret calculou que o assunto que tinha que tratar antes de se dirigir para sul não demoraria mais de trinta minutos, mas pensou em quarenta e cinco, o que ainda lhe daria tempo para tratar da sua curta lista de compras antes do almoço.

    Podia ter contratado um motorista, ou até mantido um no pessoal. Podia ter deixado as compras para uma empregada. Eram caprichos e, por conseguinte, fraquezas que não podia permitir.

    Na sua opinião, a dona de Beaux Revés devia ser vista na cidade, fazer as compras em determinadas lojas e manter uma relação adequada com os negociantes e os membros certos do poder local.

    Esta responsabilidade cívica nunca deveria ser descurada por conveniência.

   

    Margaret fazia mais do que passar cheques generosos às suas instituições de caridade selecionadas. Tinha posições em comitês. O instituto de arte local e a sociedade histórica podiam ser interesses pessoais, mas essa tendência não tornava menos válidos o tempo, a energia e os fundos que canalizava para eles.

    Em mais de trinta e dois anos como dona de Beaux Revés, nunca faltara aos seus deveres. E não tencionava faltar hoje.

    Não vacilou quando passou pelas árvores cobertas de musgo que marcavam a entrada do pântano, nem abrandou ou acelerou. Não notou que as tábuas da pequena ponte tinham sido substituídas e que o sumagre estava cortado.

    Passou com firmeza pelo local da morte da filha. Se sentiu alguma coisa, o seu rosto não o revelou.

    Como não revelara no dia em que aquela criança fora sepultada, quando o seu coração estava dilacerado e a sangrar.

    O rosto manteve a compostura enquanto ela virava para o caminho estreito que conduzia à Casa do Pântano. Estacionou ao lado da station wagon de Tory e pegou na carteira. Não deu um último olhar a si própria no retrovisor. Isso teria sido vaidade e teria sido fraqueza. Saiu do carro, fechou a porta e trancou-a.

    Havia dezesseis anos que não ia ao pântano. Sabia que tinham sido feitas mudanças, mudanças que Cade encomendara e pagara, ignorando o seu silêncio de desaprovação. Em sua opinião, tinta fresca e arbustos floridos não mudavam o que estava feito.

    Uma cabana. Um pardieiro. Estaria melhor arrasado por um bulldozer do que habitado. A certa altura, no meio da sua dor, quisera queimá-lo, deitar fogo ao pântano, ver arder tudo num inferno?

    Mas isso, claro, era uma loucura. E ela não era uma mulher dada a loucuras.

    Era propriedade dos Lavelle e, apesar de tudo, devia ser mantido e passado à geração seguinte.

    Subiu os degraus, ignorando o encanto da floreira comprida, de barro, cheia de flores pendentes e de heras, e bateu bruscamente na madeira da porta de tela.

    Lá dentro, Tory interrompeu-se quando se preparava para pegar numa chávena. Estava atrasada, mas não estava muito preocupada com isso. Estava cansada até à medula, adormecera tarde e ainda tinha de se vestir. Estava a tentar compor para si própria um sermão sobre responsabilidade, admoestar-se por ceder a pequenas veleidades. Esperava que o café conseguisse fazê-la regressar à vida, para poder entusiasmar-se para ir à loja e acabar os preparativos para a abertura.

    A interrupção não era apenas mal-vinda, era quase intolerável. Não havia ninguém que quisesse ver, nem quaisquer palavras que quisesse trocar. Queria, acima de tudo, voltar para a cama e conseguir o sono tranquilo e sem sonhos que lhe escapara durante a noite.

    Mas foi atender, porque ignorar que alguém estava batendo à porta seria fraqueza. Pelo menos isso Margaret teria compreendido.

    Diante da mãe de Hope, Tory sentiu-se imediatamente culpada, exausta e embaraçada.

    - Mistress Lavelle.

    - Victoria. - Margaret observou, com o seu olhar gelado, os pés descalços de Tory, o robe enrodilhado e o cabelo em desalinho. Esta preguiçosa, disse a si própria com uma satisfação gélida, não era nem mais nem menos do que ela esperara de uma Bodeen. - Peço desculpa. Pensei que já estaria levantada às nove horas, se preparando para trabalhar.

    - Sim, sim, já devia estar. - Tristemente consciente do estado em que estava, Tory puxou pelo cinto do robe. - Eu estava... Desculpe, mas adormeci.

    - Preciso de uns momentos do seu tempo. Será que posso entrar?

    - Sim. Claro. - Com toda a sua etiqueta, tão cuidadosamente aprendida, absolutamente incapaz, Tory lutou desajeitadamente com a porta de tela. - Desculpe, a casa não está muito mais apresentável do que eu.

    Havia encontrado uma cadeira de que gostara, um cadeirão estofado em azul desbotado. Isso e a mesinha que tinha pensado em restaurar constituíam o total da sua mobília de sala.

    Não havia tapete, nem cortinas, nem luminária. Também não havia sujidade, nem pó, mas Tory recuou como se estivesse a convidar uma rainha para um abrigo.

    A sua voz ecoou, desconfortável, na sala quase vazia, enquanto Margaret permanecia de pé, fazendo uma avaliação silenciosa e arrasadora.

    - Tenho estado concentrada na preparação da minha loja e não...

    Tory deu por si a torcer as mãos e, deliberadamente, desenlaçou os dedos. Raios, já não tinha oito anos, não era uma criança mortificada e assustada diante da desaprovação régia da mãe de uma amiga.

    - Acabei de fazer café - disse ela, rigidamente delicada. - Quer?

    - Há algum lugar onde possa sentar-me?

    - Sim. Parece que vivo sobretudo na cozinha e no quarto, e é assim que vai ser até ter o meu negócio montado e a correr bem. - Estás a dizer tolices, disse Tory a si própria enquanto mostrava o caminho a Margaret. Pára de dizer tolices. Não tens razões para te desculpares.

    Tinha todas as razões para se desculpar.

    - Por favor, sente-se.

    Pelo menos comprara uma mesa e cadeiras sólidas para a cozinha, pensou. E a cozinha estava limpa, quase alegre com as pequenas ervas aromáticas que tinha em vasos no parapeito e, em cima da mesa, a tigela escura e brilhante que trouxera da sua própria loja.

    Sentiu-se melhor servindo o café, tirando o açucareiro do armário, mas quando abriu a geladeira a mortificação fez-lhe subir o rubor às faces.

    - Lamento, mas não tenho nata. Nem leite.

    - Assim serve. - Margaret afastou a chávena uns escassos centímetros. Uma bofetada sutil e intencional. - Não se quer sentar, por favor? - Margaret deixou o silêncio pairar por um momento. Conhecia o valor dos silêncios e do tempo certo.

    Quando Tory se sentou, Margaret cruzou as mãos na beira da mesa e, com um olhar suave e direto, começou.

    - Chegou ao meu conhecimento que te envolveste com o meu filho. - Outro momento de silêncio, enquanto via a surpresa aflorar o rosto de Tory. - Numa cidade pequena, os mexericos são tão indesejáveis como inevitáveis.

    - Mistress Lavelle...                                                     

    - Por favor. - Margaret interrompeu-a, erguendo um dedo. - Estiveste fora durante vários anos. Embora tenhas relações familiares em Progress, és, virtualmente, uma estrangeira. Uma estranha. Virtualmente - repetiu Margaret. - Mas não inteiramente. Seja por que motivo, decidiste voltar, estabelecer aqui um negócio.

    - Está aqui para saber das minhas razões, Mistress Lavelle?

    - Não têm qualquer interesse para mim. Vou ser franca e dizer-te que não concordei com o fato de o meu filho te ter alugado um espaço para o negócio, nem esta casa. No entanto, o Cade é o chefe da família e, como tal, as decisões de negócios cabem-lhe apenas a ele. Quando essas decisões, e os resultados delas, afetam a posição da nossa família, o assunto é diferente.

    Quanto mais Margaret falava naquele tom suave e implacável, mais fácil era para Tory acalmar-se. O seu estômago continuava aos saltos, mas quando falou a sua voz foi igualmente suave e igualmente implacável.

    - E, Mistress Lavelle, será que o meu negócio e o meu local de residência afetam a posição da sua família?

    - Só isso já teria sido difícil de tolerar. As circunstâncias são inconvenientes, como tenho a certeza de que muito bem sabe. Mas este elemento pessoal não é, de forma alguma, aceitável.

    - Portanto, embora tolere, por agora, a minha associação com a sua família em termos de negócio, está a pedir-me que não veja o Cade de uma forma pessoal. Correto?

    - Sim. - Quem era esta mulher de olhos frios, que permanecia tão calma, tão controlada?, perguntou-se Margaret. Onde estava a criança esquelética que aparecia e desaparecia repentinamente nas sombras?

    - Isso é problemático, dado que ele é o senhorio, quer da minha casa, quer da minha loja, e parece levar as suas responsabilidades bastante a sério.

    - Estou preparada para compensar-te pelo tempo e pelo esforço que terás de investir para te mudares. Talvez voltares a Charleston, ou a Florence, onde tens família.

    - Compensar-me? Estou a ver. - Com uma calma de morte, Tory pegou na sua chávena de café. - Seria indelicado da minha parte perguntar-lhe que tipo de compensação tem em mente? - Sorriu um pouco e viu o maxilar de Mafgaret retesar-se como as cordas de um arco. - Afinal, sou uma mulher de negócios.

    - Toda a situação é indelicada, e deplorável para mim. Não vejo alternativa senão descer ao teu nível, para preservar a minha família e a nossa reputação. - Abriu a carteira que tinha no colo. - Estou disposta a passar-te um cheque de cinquenta mil dólares, se concordares em cortar relações com o Cade e com Progress. Dou-te metade dessa quantia hoje, e o resto ser-te-á enviado para o local onde te instalares. Dou-te duas semanas para saíres daqui.

    Tory não disse nada. Também conhecia a arma do silêncio.

    - Essa quantia - continuou Margaret, com uma voz mais cortante - vai permitir-te viver de forma bastante confortável durante a tua transição.

    - Oh, sem dúvida. - Tory bebeu mais um gole de café e depois pousou cuidadosamente a chávena no pires. - Mas tenho uma pergunta. O que a leva a pensar, Mistress Lavelle, que eu possa estar de qualquer forma receptiva ao insulto de um suborno?

    - Não finjas ter uma sensibilidade que não possuis. Eu te conheço - disse Margaret, inclinando-se para a frente. - Sei de onde vens e de quem vens. Podes pensar que consegues esconder-te atrás de uns modos calmos, atrás da máscara de uma falsa respeitabilidade. Mas eu te conheço.

    - Pensa que me conhece. Mas juro-lhe que não me sinto nada calma nem respeitável, neste momento.

    Foi a compostura de Margaret que vacilou, que teve de ser recuperada, enrolada como um novelo de lã.

    - Os teus pais não prestavam, e deixavam-te à solta como um gato, a cirandar na rua para desencaminhares a minha filha. Para a afastares da família dela e, finalmente, para a levares à morte. Custaste-me uma filha e não vais custar-me outro. Aceita o meu dinheiro, Victoria. Tal como fez o teu pai.

    Estava profundamente abalada, até ao coração, mas aguentou-se.

    - Que quer dizer, como fez o meu pai?

    - Para eles, só foram necessários cinco mil. Cinco mil para te levarem da minha vista. O meu marido não quis mandá-los embora, embora eu lhe implorasse que o fizesse.

    Os lábios tremiam-lhe, mas depois recuperaram a firmeza. Fora a primeira e a última vez em que lhe implorara alguma coisa. Em que implorara alguma coisa a alguém.

    - Acabei por ter que ser eu a resolver o assunto. Como agora. Vai-te embora e leva a vida que devias ter perdido naquela noite em vez dela, e vai vivê-la noutro lado qualquer. E afasta-te do meu filho.

    - Pagou-lhe para ele se ir embora. Cinco mil - disse Tory. - Devia ter sido muito dinheiro para nós. Porque será que nunca o vimos? O que terá ele feito com ele? Bem, não interessa. Lamento desapontá-la, Mistress Lavelle, mas não sou o meu pai. Nada do que ele me fez pode fazer-me gostar dele, e o seu dinheiro não vai mudar isso. Vou ficar, porque preciso ficar. Seria mais fácil não ficar. A senhora não compreende, mas seria mais fácil. Quanto a Cade...

    Recordou-se de como ele ficara distante, tão longe, depois do episódio da noite anterior.

    - Não há tanta coisa entre nós como parece pensar. Ele tem sido simpático para mim, nada mais, porque ele é um homem bom. Não tenciono pagar essa simpatia quebrando uma amizade, ou contando-lhe esta conversa.

    - Se fores contra os meus desejos, dou cabo de ti. Vais perder tudo, como já perdeste antes. Quando mataste aquela criança em Nova Iorque.

    Tory ficou branca e, pela primeira vez, as mãos tremeram-lhe.

    - Eu não matei Jonah Mansfield. - Sentiu dificuldade em respirar e soltou uma espécie de suspiro quebrado. - Só não consegui salvá-lo.

    Ali estava o ponto fraco. E Margaret mergulhou os dedos nele.

    - A família achou que eras responsável, e a polícia. E a imprensa. Uma segunda criança morta por tua causa. Se ficares aqui, haverá falatório sobre isso. Sobre o papel que desempenhaste. Não vai ser bom.

    Que louca fora, pensou Tory, ao achar que ninguém a ligaria à mulher que ela fora em Nova Iorque. À vida que ela construíra e destruíra lá.

    Não era possível fazer nada para mudar isso. A única coisa a fazer era enfrentá-lo.

    - Mistress Lavelle, vivi com coisas pouco boas a minha vida inteira. Mas aprendi que não tenho que tolerar o que não quero, na minha própria casa. - Tory pôs-se de pé. - Vai ter que sair agora.

    - Não vou voltar a fazer esta oferta.

    - Não, acho que não. Acompanho-a à porta.

    De lábios apertados, Margaret levantou-se e pegou na carteira.

    - Eu sei o caminho.

    Tory esperou até que a distância da sala as separasse.

    - Mistress Lavelle - disse, calmamente. - O Cade vale muito mais do que a senhora acha. E a Hope também valia.

    Rígida de dor e de fúria, Margaret agarrou a maçaneta da porta.

    - Atreves-te a falar comigo sobre os meus filhos?

    - Sim - murmurou Tory quando a porta bateu e ela ficou sozinha na casa. - Atrevo.

   

    Trancou a porta. O clique funcionou como um símbolo. Nada que ela não quisesse entraria. E nada do que já estava lá dentro a magoaria, decidiu. Foi até ao banheiro e despiu-se, impaciente por ver-se livre das roupas com que dormira. Pôs a água quente a correr, quase demasiado quente para conseguir suportá-la, e meteu-se naquele calor e naquele vapor imensos.

    Ali, permitiu-se chorar. Não era pena de si própria, pensou. Só que enquanto a água lhe batia na pele e a fazia sentir limpa outra vez, as lágrimas lavavam a amargura que tinha dentro de si.

    Recordações de outra criança morta e da sua impotência.

    Gritou até ficar vazia e a água começar a correr fria. Em seguida, virou o rosto para cima, para o chuveiro gelado, e deixou-se acalmar.

    Depois de se ter secado, usou a toalha para limpar o vapor do espelho. Sem compaixão, sem desculpas, observou o seu rosto. Medo, negação, evasão. Estavam todos ali, admitiu. Sempre tinham estado ali. Regressara e depois se enterrara. Escondera-se no trabalho e na rotina e em pormenores.

    Nem uma única vez se abrira a Hope. Nem uma única vez fora para lá das árvores, visitar o lugar que tinham construído ali. Não fora uma única vez ao túmulo da sua única amiga verdadeira.

    Não enfrentara, uma única vez, a verdadeira razão pela qual estava ali.

    Era diferente de uma fuga?, perguntou-se. Era diferente de aceitar o dinheiro que lhe tinha sido oferecido e fugir para qualquer lado que não fosse este?

    Covarde. Cade chamara-lhe covarde. E tinha razão.

    Voltou a vestir o robe e regressou à cozinha para procurar o número. Marcou e esperou.                                       

    - Bom dia. Biddle, Lawrence e Wheeler.

    - Fala Victoria Bodeen. Miss Lawrence está disponível?

    -Um minuto, Miss Bodeen.

    Não foi preciso mais para ouvir Abigail do outro lado da linha.

    - Tory, que bom ouvir-te. Como estás? Está tudo a correr bem?

    - Sim, obrigada. Vou abrir a loja no sábado.

    - Já? Deves ter andado a trabalhar noite e dia. Bem, lá vou ter que ir visitar-te um destes dias.

    - Espero que sim. Abigail, tenho um favor a pedir-te.  

    - Claro. Devo-te um e bem grande, por causa do anel da minha mãe.                                                                                                                          

    - O quê? Ah, já me tinha esquecido.

    - Duvido que tivesse dado com ele. Quase nunca mexo em papeladas antigas. O que posso fazer por ti, Tory?

    - Eu... Estava a pensar que talvez tenhas algum contacto com a polícia. Alguém que pudesse dar-te informação sobre um caso antigo. Eu não... Acho que compreendes que eu não queira contactar a polícia diretamente.

    - Conheço umas pessoas. Vou fazer o que puder.

    - Foi um homicídio sexual. - Inconscientemente, Tory começou a pressionar e a esfregar a têmpora direita. - Uma rapariga. Dezasseis anos. Chamava-se Alice. O apelido... - Pressionou com mais força. - Não tenho bem a certeza. Lowell ou Powell, acho. Estava de carona na... 513, em direção a este, a caminho de Myrtle Beach. Foi desviada da estrada, levada para as árvores, violada e estrangulada. Com as mãos.

    Soltou um suspiro enorme, aliviando a pressão no peito.

    - Não ouvi nada sobre isso nas notícias.

    - Não, não é recente. Não sei exatamente quando aconteceu. Desculpa. Há dez anos, talvez menos, talvez mais. No verão. Foi durante o verão. Estava muito calor. Mesmo à noite, estava muito calor. Não estou a dar-te grande ajuda, eu sei.

    - Não, já é qualquer coisa. Deixa-me ver o que consigo saber.

    - Obrigada. Muito obrigada. Vou estar em casa durante mais um bocado. Vou dar-te o número daqui e o da loja. Tudo o que possas dizer-me, qualquer coisa que seja, ajuda.

    Manteve-se ocupada durante quase cinco horas, ininterruptamente, e Abigail não voltara a telefonar.

    As pessoas paravam junto à vitrine da loja e admiravam o expositor que ela criara com caixas velhas de madeira, panos de limpeza e vistosas peças de cerâmica, vidro feito à mão e ferro. Encheu as prateleiras e os armários, pendurou amuletos e aquarelas.

    Pôs alguns artigos publicitários em cima do balcão, mas depois mudou de idéias e escolheu outros. Desejando que o telefone tocasse, organizou caixas e sacos.

    Quando alguém bateu vigorosamente à porta, quase ficou aliviada. Até ter visto Faith do outro lado do vidro. Será que os Lavelle não podiam deixá-la em paz um único dia?

    - Preciso de um presente - disse Faith, assim que Tory abriu a porta, e teria entrado de imediato se Tory não tivesse bloqueado a entrada.                                                                                 

    - Não está aberta.

    - Ora, que diabo, também não estava aberta ontem, pois não? Só preciso de uma coisa, e de dez minutos. Esqueci-me do aniversário da minha tia Rosie, e ela acabou de telefonar dizendo que vem visitar-nos. Não posso magoá-la, pois não? - Faith tentou um sorriso de súplica. - Ela é meio maluca, e isto pode deixá-la fora de si.

    - Compra qualquer coisa no sábado.

    -Mas ela vem amanhã. E se gostar do presente virá ela própria aqui, no Sábado. A tia Rosie está cheia de dinheiro. Vou comprar uma coisa muito cara.

    - Vê lá se compras mesmo. - Resmungando, Tory deixou-a entrar.               

    - Está bem, dá-me uma ajuda. - Faith entrou de rompante e começou a andar de um lado para o outro.

    - De que é que ela gosta?

    - Ora, gosta de tudo. Eu podia fazer-lhe um chapéu de papel que ela ficava feliz que nem um passarinho. Deus do céu, tens muito mais coisas aqui do que eu imaginava. - Faith estendeu o braço, fazendo tocar um dos amuletos de metal. - Nada prático. Isto é, não quero dar-lhe um conjunto de taças para salada, ou esse tipo de coisa.

    - Tenho umas caixas de jóias que são bonitas.          

    - Caixas de jóias? São um dos apelidos da minha tia.

    - Então, vai gostar da grande. - Interessada em despachar o assunto, Tory escolheu uma grande caixa de vidro biselado. Os painéis estavam cortados em forma de diamante e pintados à mão com pequenas violetas e rosas cor-de-rosa.

    - Toca música, ou qualquer coisa assim?

    - Não.                                                                                                                            

    - Não faz mal. Se tocasse, ela ia pô-la a tocar o dia inteiro e metade da noite, e enlouquecer-nos a todos. Provavelmente, vai enchê-la de botões velhos e parafusos ferrugentos, mas vai adorá-la.

    Faith virou a etiqueta e assobiou.                              

    - Bem, vejo que vou cumprir a minha palavra.

    - Os painéis são cortados e pintados à mão. Não há duas iguais. - Satisfeita, Tory levou a caixa até ao balcão. - Vou embrulhá-la e pôr-lhe um cartão de presente e um laço.

    - Muito generosa. - Faith pegou no talão de cheques. - Parece-me que estás pronta para o negócio. Para quê esperar até sábado?

    - Ainda há uns pormenores a organizar. E sábado já é depois de amanhã.

    - O tempo voa. - Olhou para o total que Tory registrara e passou o chque enquanto ela embrulhava o presente.

    - Escolhe um cartão dali, e escreve o que quiseres. Depois, enfio-o neste cordão.

    - Hummm. - Faith escolheu um com uma pequena rosa no centro, rabiscou uns parabéns e acrescentou beijinhos e abraços a seguir ao nome. - Perfeito. Agora, durante meses, vai me achar a maior.

    Viu Tory atar a caixa com uma fita branca e brilhante, enfiar nela o cartão, depois torcê-la e terminar tudo num elegante laço.

    - Espero que ela goste. - No momento em que lhe entregou a caixa, o telefone tocou. - Dá-me licença.

    - Claro. - Qualquer coisas nos olhos de Tory fez Faith ficar alerta. - Deixa-me só anotar o valor do cheque. Estou sempre a esquecer-me. - O telefone tocou uma segunda vez. - Podes atender. Saio daqui a um segundo.

    Encurralada, Tory pegou no telefone.

    - Boa-tarde, Conforto do Sul.

    - Tory. Desculpa ter demorado tanto tempo a telefonar-te.

    - Não, não faz mal. Obrigada. Conseguiste a informação?

    - Sim, acho que tenho o que procuras.

    - Podes esperar um momento? Acompanho-te à porta, Faith. Com um ligeiro encolher de ombros, Faith pegou na caixa. Mas enquanto saía, perguntou-se quem estaria ao telefone e por que razão o telefonema fizera tremer as mãos ligeiras e habilidosas de Tory.

    - Desculpa, tinha uma pessoa na loja.

    - Não há problema. O nome da vítima é Alice Barbara Powell, sexo feminino, branca. Dezesseis anos. O corpo só foi descoberto cinco dias depois do homicídio. O desaparecimento só foi comunicado ao fim de três dias, porque os pais pensavam que ela estava na praia com amigos. O que restava... bem, Tory, os animais já tinham devorado uma parte. Disseram-me que não foi bonito de se ver.

    - Apanharam-no? - Já sabia a resposta, mas precisava de ouvi-la.

    - Não. O caso continua por resolver, mas não está a ser investigado. Já lá vão dez anos.

    - Foi em que data? A data exata do homicídio.

    - Tenho-a aqui. Só um minuto. Foi em vinte e três de agosto de 1990.

    - Meu Deus! - Um arrepio percorreu-a, até aos ossos, até ao coração.

    - Tory? O que foi? Posso fazer alguma coisa?

    - Neste momento não posso explicar-te. Abigail, preciso perguntar-te se podes voltar a usar o teu contacto. Se há alguma forma de descobrir se houve mais algum crime do gênero nos oito anos anteriores e nos dez anos seguintes. Se consegues saber se houve outras vítimas desse tipo de homicídio nessa data. Ou próximo dessa data, em agosto.                    

    - Está bem, Tory. Vou perguntar. Mas quando eu souber a resposta, vou precisar que me digas porquê.

    - Preciso da resposta primeiro. Desculpa, Abigail, preciso da resposta. Tenho que ir. Desculpa.

    Desligou rapidamente e depois sentou-se no chão. A 23 de agosto de 1990, Hope estava morta havia exatamente oito anos. Teria dezesseis anos naquele verão.

   

    Os vivos traziam flores para os mortos, lírios elegantes ou simples margaridas. Mas as flores morriam rapidamente quando postas sobre a terra. Tory nunca entendera o simbolismo de deixar em cima da campa de alguém que se amava uma coisa que iria murchar e morrer.

    Talvez trouxesse conforto aos que ficavam por cá.

    Não trouxe flores a Hope. Em vez disso, trouxe um dos poucos objectos de valor sentimental que guardava. Dentro do pequeno globo voava um cavalo alado, e quando era agitado brilhavam estrelas prateadas.

    Fora um presente, o último presente de aniversário dado por uma amiga perdida.

    Transportou-o ao longo do campo enorme e irregular onde gerações de Lavelle, gerações de pessoas de Progress, eram deixadas a descansar. Havia lápides, das mais simples, feitas com uma simples pedra, até às elaboradas, como a imagem de um cavalo e do seu cavaleiro em bronze.

    Hope chamava ao cavaleiro Tio Clyde, e era, de fato, a representação de um dos seus antepassados, um oficial de cavalaria que morrera na Guerra Civil, quando o Norte invadiu o Sul.

    Uma vez, Hope desafiara-a a montar atrás do Tio Clyde, no seu belo garanhão. Tory recordava-se de ter subido e de se ter sentado no metal aquecido pelo sol que lhe deixou a pele vermelha, e de se ter perguntado se Deus a fulminaria com um raio para castigá-la por blasfêmia.          

    Não a fulminara e, por um momento, agarrada ao bronze, com o mundo refletido em verdes e castanhos aos seus pés, o sol a bater-lhe na cabeça como um martelo pesado, sentira-se invencível. As torres de Beaux Revés tinham-lhe parecido mais próximas, tangíveis. Gritara a Hope que ela e o cavalo iriam voar até lá e aterrar no torreão mais alto.

    Quase partira o pescoço, ao descer, e tivera sorte por aterrar de bunda e não de cabeça. Mas a nódoa negra com que ficara não fora nada, comparada com aquele momento tão alto em cima do cavalo.

    No seu aniversário seguinte, o oitavo, Hope dera-lhe o globo. Era a única coisa que Tory guardava daquele ano da sua vida.

    Agora, tal como antes, carvalhos vigorosos e magnólias perfumadas guardavam as pedras e os ossos, e ofereciam sombra entrecortada pela luz. Separavam também aquela prova de mortalidade da casa monumental que sobrevivera a tantos donos e ocupantes.

    O caminho desde o cemitério até à casa era agradável. Ela e Hope tinham-no feito vezes sem conta, com bolhas nos pés no verão, e na chuva no inverno. Hope gostava de ver os nomes gravados na pedra, lê-los em voz alta, para dar sorte, dizia.

    Tory aproximou-se da campa e do anjo de mármore que tocava harpa. E disse o nome em voz alta. -Hope Angélica Lavelle. Olá, Hope.

    Ajoelhou-se na erva fofa e apoiou-se nos calcanhares. A brisa era suave e morna, e transportava o perfume doce das pequenas rosas cor-de-rosa que ladeavam o anjo.

    - Desculpa não ter vindo antes. Tenho adiado sempre, mas tenho pensado muito em ti ao longo destes anos. Nunca tive outra amiga como tu, alguém a quem pudesse contar tudo. Tive tanta sorte em ter-te.

   

    Quando fechou os olhos e se abriu às recordações, alguém observava, abrigado pelas árvores. Alguém com os punhos cerrados com força. Alguém que sabia o que era querer dizer o indizível. Viver, ano após ano, com aquele desejo escondido num coração que batia agora, descompassadamente, ao sabor desse desejo e das suas certezas.

    Dezesseis anos e ela estava de volta. Ele esperara e estivera atento, sabendo sempre que havia a hipótese de um dia, e apesar de tudo, ela fechar o círculo e regressar ao sítio onde tudo começara.

    Que belo quadro faziam. Hope e Tory, Tory e Hope. A escuridão e a luz, a estragada com mimos e a vítima de maus tratos. Nada do que ele fizera antes, nada do que fizera depois daquela noite em agosto lhe tinha causado a mesma emoção. Tentara reviver essa emoção; quando a pressão subia demasiado dentro dele, reconstruía essa noite e a sua glória perfeita e inexplicável.

    Nada se lhe assemelhava.

    Agora, era Tory a ameaça. Podia tratar dela rapidamente, facilmente. Mas se o fizesse perderia esta sensação única de viver no limite. Talvez, talvez fosse disto que ele estivera à espera todo este tempo. Que ela regressasse, que ele voltasse a tê-la ali, outra vez.

    Teria de esperar até agosto, se conseguisse. Uma noite quente de agosto, quando tudo estivesse como estava dezoito anos antes.

    Podia ter tratado dela em qualquer altura, em todos estes anos. Acabado com ela. Mas era um homem que acreditava em símbolos, em imagens grandiosas. Tinha que ser aqui. Onde começara, pensou, e observá-la, imaginá-la, levou-o ao clímax, como noutras vezes em que observara Tory secretamente. Hope e Tory. Tory e Hope.

    Onde tudo começara, voltou a pensar. Onde tudo terminaria.

   

    Um arrepio percorreu-a, um dedo gelado desde a nuca até à base da coluna. Olhou nervosamente por cima do ombro, mas achou que era produto da atmosfera e dos seus próprios pensamentos.

    Afinal, estava em propriedade alheia, uma intrusa entre os mortos e amados. A luz estava a desaparecer e grossas nuvens cinzentas rolavam, vindas de este, para cobrir o sol. Para contentamento dos agricultores, ia chover naquela noite.

    E ela não ia ficar ali por muito mais tempo.

    - Desculpa não ter aparecido, naquela noite. Devia ter ido, mesmo depois da surra. Ele nunca teria pensado que eu o desafiaria e sairia de casa. Ninguém teria ido verificar se eu estava no quarto. Nunca consegui explicar-te como era quando ele me batia com o cinto. A forma como cada vergastada me tirava a coragem, me tirava o meu próprio ser, até não restar nada senão medo e humilhação. Se eu tivesse tido coragem e tivesse saído pela janela, naquela noite, talvez nos tivesse salvo às duas. Nunca vou saber.

    Os pássaros cantavam, trinados e coros. Era um som vivo e insistente que se pensaria estar no lugar errado, mas que, em vez disso, era perfeito. Os pássaros, o zumbido das abelhas esvoaçando preguiçosamente sobre as rosas, e o cheiro forte das próprias rosas.

    Lá em cima, o céu estava a preparar-se, túrgido de nuvens tempestuosas empurradas pelo vento que soprava alto, demasiado alto para refrescar o ar onde ela estava ajoelhada.                             

    Quando respirava era como se respirasse água. Parecia estar a afogar-se.

    Voltou a pegar o globo e fez tremeluzir as estrelas prateadas.

    - Mas voltei. Dê no que der, voltei. E vou fazer tudo o que puder para te compensar. Nunca te disse o que significavas para mim, que só por seres minha amiga despertaste qualquer coisa em mim, e que quando te perdi deixei que essa coisa voltasse a fechar-se. Durante demasiado tempo. Vou tentar libertá-la, ser o que era quando estavas aqui.                                               

    Voltou a olhar para trás, na direção das árvores e das torres de Beaux Revés que se erguiam por detrás delas. Poderiam vê-la dali, da torre de pedra? Estaria alguém de pé, atrás do vidro da janela, a observá-la?                              

    Sentia que sim, como se uns olhos e um pensamento e um coração se escondessem atrás de um vidro, à espreita. À espera.

    Deixa-os observar, pensou. Deixa-os esperar. Voltou a olhar para o anjo, e depois para a pedra.

    - Nunca o encontraram. O homem que te fez isto. Eu vou encontrá-lo, se conseguir.

    Virou o globo e depois colocou-o aos pés do anjo, para o cavalo poder voar enquanto as estrelas brilhavam. E, deixando-o ali, afastou-se.

   

    A chuva caía forte e fresca quando Cade saiu da cidade e tomou o caminho para casa. Era boa aquela chuva, que iria ensopar a terra sem estragar as plantas jovens. Com sorte, a chuva cairia durante quase toda a noite e deixaria os campos molhados e satisfeitos.

    Queria recolher amostras do solo de vários dos seus campos e comparar o sucesso das suas várias plantas de cobertura. Semeara favas no ano anterior, pois forneciam o nitrogênio de que o seu algodão estava tão ávido.

    Recolheria as amostras no dia seguinte, após a chuva, e depois faria a comparação e o estudo dos registros dos últimos quatro anos. As favas tinham-se desenvolvido razoavelmente bem, mas não tinham dado um lucro sólido. Se resolvesse tentar outra vez, teria de ser capaz de justificar a escolha.

    A si próprio, pensou Cade. Mais ninguém prestava atenção aos seus registros. Até Piney, que era leal ao ponto de, pelo menos, fingir interesse, olhara para o lado quando lhe tinham sido mostrados os gráficos.                                                                                     

    Não importava, decidiu Cade. Ninguém tinha de entender os gráficos senão ele próprio.

    E, para ser honesto, tinha de admitir que, de momento, nem ele estava muito interessado neles. Estava a usá-los para manter o pensamento longe de Tory e do que acontecera na noite anterior.

    O melhor que tinha a fazer era lidar com ela e com toda a situação. Pôr tudo em pratos limpos antes de ir para casa e tomar um banho para limpar o dia de trabalho que trazia colado ao corpo.

    As sobrancelhas de Cade uniram-se quando o Mustang vermelho conversível que vinha à sua frente virou para o caminho de acesso à casa de Tory. Virou atrás dele e as sobrancelhas arquearam-se-lhe quando viu J.R sair dele.

    - Então, o que achas? - Com um sorriso de orelha a orelha, J.R. passou a mão pelo para-lamas do carro, enquanto Cade se aproximava.                       

    - É seu?

    - Fui buscá-lo esta manhã. A Boots diz que estou na crise da meia-idade. Cá para mim, a mulher vê talk-shows a mais. Acho que se nos dá prazer e podemos pagar, qual é o problema?

    - É uma beleza, não há dúvida. - Com a chuva a cair, ambos os homens se aproximaram do capô e J.R. abriu-o. Ficaram ali, de mãos nos quadris, a admirar o motor.

    - Bem servido. - Cade fez um gesto de admiração com a cabeça. - Dá quanto?

    - Cá entre nós, fui até aos cento e oitenta e ele continuou suave como vidro polido. E faz as curvas como um campeão. Fui ontem ao Broderick's. Estava na altura de trocar o meu sedan. Estava a pensar em comprar outro quando vi esta beleza. - J.R. sorriu e passou os dedos pelo bigode grosso e prateado. - Amor à primeira vista.

    - Quatro velocidades? - Cade deu a volta para espreitar lá para dentro.

    - Claro! Em quarta, piso a fundo. Já não fazia isto desde, bem, desde que era mais novo do que tu. Só quando carreguei no pedal é que percebi o quanto tinha sentido a falta. Não gostei nada de ter que pôr a capota quando começou a chover.

    - Se anda a carregar no acelerador assim, pode preparar-se para colecionar multas.

    - Vai valer a pena. - J.R. voltou a passar a mão afetuosamente pelo carro, e depois olhou na direção da casa. - Vens ver a Tory?

    - Pensei em vir.

    - Muito bem. Tenho umas novidades para contar, de que ela pode não gostar. É bom que ela tenha um amigo junto quando as contar.

    - Que se passa, que aconteceu?   

    - Não é nada de terrível, Cade, mas vai deixá-la perturbada. Vamos lá dizer tudo de uma vez. - Entrou no alpendre e bateu à porta. - É estranho bater à porta quando se trata de família, mas adquiri o hábito com a minha irmã. Não era de deixar a porta aberta, à espera de companhia. Aqui está a minha rapariga! - Soltou a exclamação sem reservas, quando Tory abriu a porta.

    - Tio Jimmy. Cade. - Embora sentisse o estômago embrulhar-se um pouco quando viu os dois no seu alpendre, afastou-se da porta para deixá-los entrar. - Entrem, saiam da chuva.

    - Encontrei-me agora com o Cade, parece que nos lembramos os dois de passar por aqui. Eu só vim mostrar-te o meu carro novo.

    Como seria de esperar, Tory olhou lá para fora.

    - É um belo... - Ia a dizer brinquedo, mas depois pensou que talvez isso magoasse os sentimentos do tio. - Uma bela máquina.

    - Ronrona como um gatarrão. Levo-te a dar uma volta quando o tempo estiver bom.

    - Gostava muito. - Mas de momento tinha dois homens molhados na sala, uma cadeira e uma dor de cabeça persistente. - Porque não vamos todos até à cozinha? Há onde nos sentarmos e acabei de fazer chá quente, para afastar a umidade.

    - Soa bem, mas não quero molhar a casa toda.

    - Não se preocupe. - Guiou-os até à cozinha, esperando que a aspirina que tomara fizesse efeito sem os dez minutos de sono com que planejara acompanhá-la. A casa cheirava a chuva, à umidade e às profundezas do pântano. Noutra altura, teria gostado disso, mas agora fazia-a sentir sufocada.

    - Tenho umas bolachas. São compradas, mas melhores do que se fosse eu a fazê-las.

    - Não tenhas esse trabalho, minha querida. Não posso demorar-me, tenho de ir para casa. - Mas como ela já estava pondo as bolachas num prato, tirou uma. - A Boots não compra coisas doces. Está de dieta e isso quer dizer que eu também estou.

    - A tia Boots está com um ótimo aspecto. - Tory tirou chávenas do armário. - E o tio também.

     -É isso mesmo que eu lhe digo, mas todas as benditas manhãs amaldiçoa a balança. Parece que um quilo a mais aqui ou ali é o fim do mundo. Até ela estar satisfeita, vou passar a comida de coelho. - Serviu-se de outra bolacha. - Até estou admirado por o meu nariz não começar a tremer.

    Esperou até ela servir o chá e sentar-se.      

    - Ouvi dizer que a tua loja está ficando muito bem. Ainda não tive um minuto para passar lá.

    -  Espero que consiga ir no sábado.     

    - Não perdia isso por nada. - Bebeu um pouco de chá, mexeu-se na cadeira e suspirou. - Tory, não queria nada vir até aqui tão tarde, falar numa coisa que deve te chatear, mas parece que deves saber quanto antes.

    - É mais fácil se me disser do que se trata.

    - Não sei bem se sou capaz. Recebi um telefonema da tua mãe, há pouco. Quando a Boots e eu estávamos a acabar de jantar. Está com problemas ou não me teria telefonado, como acho que sabes. Não nos falamos com regularidade.

    - Está doente?

    - Não, não é bem isso. - Soltou um suspiro. - Tem a ver com o teu pai. Parece que se meteu num sarilho qualquer. Raios partam! - J.R. pousou a chávena no pires e depois olhou Tory nos olhos. - Parece que atacou uma mulher.

    Na sua cabeça, Tory ouviu o tilintar de serpente do grosso cinto de cabedal. As três vergastadas, com força. Os dedos estremeceram-lhe e depois recuperaram a firmeza.

    - Atacou?

    - A tua mãe disse que não passou de um engano, e o que consegui arrancar-lhe foi à força. O que ela me disse foi que uma mulher acusou o teu pai de, bem, de a ter agarrado à força. Tentou, bem... molestá-la.                                 

    - Tentou violar uma mulher?

    Infeliz, J.R. voltou a agitar-se na cadeira.

    - Bem, a Sari não tinha grandes pormenores. Mas seja o que for que tenha acontecido, o Han foi preso. Voltou a beber. A Sarabeth não queria dizer-me isso, mas eu obriguei-a. Ficou em liberdade condicional, obrigado a uma reabilitação. Acho que ele não gostou da idéia, mas não teve escolha.

    Pegou no chá para molhar a garganta seca.     

    - Depois, há umas semanas, fugiu.                   

    - Fugiu?                                                                                                                         

    - Não tem estado em casa. A Sarabeth diz que não o vê há mais de duas semanas e que ele violou a liberdade condicional. Quando o apanharem, vai... vão metê-lo na prisão.

    - Sim, suponho que sim. - De certa forma sempre a surpreendera o fato de ele nunca ter estado atrás das grades.

    Deus sabia o que fazia, pensou.

    - A Sarabeth está desesperada. - Sem pensar, J.R. mergulhou a bolacha no chá, um hábito que a sua mulher detestava. - Está ficando sem dinheiro e está muito preocupada. Vou lá vê-la amanhã e tentar entender as coisas com um pouco mais de clareza.

    - Acha que eu devia ir consigo.

    - Não, querida, isso é contigo. Não há motivo nenhum para eu não tratar disto sozinho.

    - E não há nenhuma razão para ter de tratar. Eu vou consigo.

    - Se é isso que queres, fico satisfeito com a companhia. Estava pensando partir logo de manhã cedo. Estás pronta por volta das sete?

    - Sim, claro.

    - Muito bem. Muito bem. Ótimo. - Um tanto embaraçado agora, levantou-se. - Vamos resolver isto tudo, vais ver. Venho buscar-te de manhã. Não, fica aí sentada a beber o teu chá. - Pôs-lhe a mão na cabeça antes de ela conseguir levantar-se. - Eu saio sozinho.

    - Está embaraçado - murmurou Tory quando ouviu a porta da frente abrir-se. - Por ele, por mim, pela minha mãe. Disse-me enquanto estavas aqui porque deve ter ouvido as intrigas que a Lisy Frazier anda a fazer e pensou que eu estaria melhor contigo do que sozinha.

    Cade manteve o olhar fixo no rosto dela. Ela não mostrara qualquer reação. Achou espantoso o controle dela, embora isso o frustrasse.

    - E ele tem razão?

    - Não sei. Estou mais habituada a estar sozinha. Estás pensando porque não estou particularmente preocupada com o meu pai nem com a minha mãe?

    - Não. Estou a pensar no que terá acontecido entre vocês para não estares particularmente preocupada. Ou para estares tão determinada a não estares preocupada ou a não mostrares que estás preocupada pelo que o J.R. te contou.

    - De que vale ficar preocupada? O que está feito está feito. A minha mãe opta por acreditar que o meu pai não fez aquilo que o levou a ser preso. Mas claro que fez. Se tinha andado a beber, não seria tão cuidadoso a manter a violência dentro de portas.

    - Ele maltratava a tua mãe?

    Um canto da boca de Tory retorceu-se num esboço de sorriso.

    - Quando eu estava presente, não. Não era preciso.

    Cade acenou com a cabeça. Ele sabia. Uma parte dele sabia, desde aquela manhã em que viera a casa dele contar-lhe tudo sobre Hope.

    - Porque tu eras o alvo mais fácil.

    - Há muito tempo que não tem podido pôr-me as mãos em cima. Porque eu decidi que seria assim.

    - Porque estás a culpar-te?

    - Não estou. - Como ele não desviou os olhos, ela fechou os dela. - É o hábito. Sei que ele a usa como saco de boxe desde que me fui embora. Nunca tentei fazer nada para mudar isso. Não que algum deles me deixasse fazer fosse o que fosse, mas nunca tentei. Só o vi duas vezes desde que fiz dezoito anos. Uma vez, quando vivia em Nova Iorque, quando era feliz, tive a sensação de que poderíamos consertar as coisas que estavam mal, pelo menos algumas delas. Nessa altura, viviam num trailer, perto da fronteira da Geórgia. Têm mudado muito de sítio desde que saímos de Progress.

    Ficou assim, sentada, com os olhos fechados, em silêncio, enquanto a chuva caía no telhado.                                          

    - O pai não conseguia manter um trabalho por muito tempo. Alguém lhe arranjava sempre uma chatice, pelo menos era o que ele dizia. Ou havia um emprego melhor noutro lugar. Perdi a conta a todos os lugares diferentes por onde passamos, escolas diferentes, quartos diferentes, rostos diferentes. Nunca fiz amigos a sério, por isso não importava. Estava só à espera de poder ir-me embora. Poupei dinheiro às escondidas e esperei que a lei dissesse que podia sair de casa. Se tivesse saído antes, ele tinha-me feito voltar e pagar por isso.

    - Não podias ter pedido ajuda? A tua avó.

    - Ele ter-lhe-ia feito mal. - Tory abriu os olhos e encontrou os de Cade. - Ele tinha medo dela, tal como tinha medo de mim, e ter-lhe-ia feito qualquer coisa. E a minha mãe teria ficado do lado dele. Sempre ficou. Por isso é que não fui ter com a minha avó, quando me fui embora. Se ele descobrisse, não teria descansado. Não consigo explicar-te, nunca consegui explicar a ninguém como é que um medo consegue viver dentro de nós. A forma como nos diz como pensar e como agir, o que dizer, o que não nos atrevemos a dizer.

    - Acabaste de explicar-me.                                      

    Ela abriu a boca e depois voltou a fechá-la, antes que lhe saísse alguma coisa em que não tivesse pensado bem.

    - Queres mais chá?                                       

    - Senta-te. Eu vou buscar. - Levantou-se antes de ela conseguir e voltou a pôr a chaleira ao lume. - Conta-me. Conta-me o resto.

    - Não lhes disse que ia sair de casa, embora tivesse tudo muito bem planejado sobre o que iria fazer e para onde iria. Fiz a mala e fugi no meio da noite, fui até à cidade, à estação de ônibus, e comprei uma passagem para Nova Iorque. Quando o Sol nasceu, estava a quilômetros de distância, sem intenção de voltar. Mas...

    Libertou os dedos enlaçados e depois voltou a enlaçá-los, como se rezasse.                                                       

    - Fui vê-los, daquela vez - disse, cuidadosamente. - Tinha acabado de fazer vinte anos. Estava fora havia dois. Tinha um emprego, trabalhava numa loja, na baixa da cidade. Uma loja com coisas muito bonitas. Tinha um bom salário e tinha a minha casa para morar. Não era muito maior do que um armário, mas era minha. Entrei de férias e apanhei o ônibus até à fronteira da Geórgia para os ver, bem, em parte talvez fosse para lhes mostrar que tinha feito qualquer coisa da minha pessoa. Tinha estado fora dois anos, e em dois minutos parecia que nunca me tinha ido embora.

    Ele acenou com a cabeça. Ele fora para a universidade, e fizera-se homem nesses quatro anos. E quando regressara o ritmo era o mesmo.

    Mas para ele tinha sido o ritmo certo, apenas adiado. - Nada do que eu fazia - prosseguiu ela -, tivesse feito ou pudesse fazer estava certo. Olha a forma provocante como me vestia. Ele bem sabia o tipo de vida que eu levava no Norte. Achou que eu só tinha ido a casa porque estava grávida de um dos homens com quem andava. Eu ainda era virgem, mas para ele era uma devassa. Naqueles dois anos tinha-me fortalecido um pouco, o suficiente para lhe fazer frente. Pela primeira vez na minha vida ousei fazer-lhe frente. 0 resto da minha semana de férias foi para curar as nódoas negras com que fiquei na cara, pelo menos para poder cobri-las com maquiagem e voltar ao trabalho.                                              

    - Meu Deus, Tory.

    - Só me bateu uma vez. Mas tinha as mãos grandes. Mãos grandes e duras, que se transformavam facilmente em punhos. - Distraidamente, levou a mão à cara e passou-a pela linha do nariz, ligeiramente adunco. - Bateu-me e fez-me cair contra o balcão da cozinha minúscula e suja. Não percebi que tinha o nariz partido. É que a dor era-me tão familiar...

    Sob a mesa, as mãos de Cade fecharam-se em punhos, inúteis e extemporâneos.                                     

    - Quando avançou outra vez na minha direção, agarrei a faca que estava no lava-louça. Uma faca de cozinha grande e com o cabo preto. Nem sequer tinha pensado nisso - disse ela numa voz calma e cuidadosa. - Apareceu  na minha mão. Ele deve ter visto na minha cara que eu a usaria. Que teria adorado usá-la. Saiu do trailer, com a minha mãe a correr atrás dele, a implorar-lhe que não fosse. Ele deu-lhe um safanão como se ela fosse um inseto, atirou-a para a lama, mas mesmo assim ela continuou a chamá-lo. Meu Deus, rastejou atrás dele de gatas. Nunca vou me esquecer disso. Nunca!

    Cade aproximou-se do fogão, da chaleira que estava a apitar, para dar tempo a que Tory se acalmasse. Em silêncio, mediu o chá e deitou a água quente. Voltou a sentar-se e esperou.

    - És bom ouvinte.

    - Termina de contar. Livra-te disso.

    - Está bem. - Calma agora, Tory abriu os olhos. Se nos dele houvesse piedade, talvez as palavras não tivessem saído. Mas o que ela viu foi paciência.

    - Senti pena dela. Estava enojada com a atitude dela. E odiei-a. Naquele momento, acho que a odiei mais do que a ele. Pousei a faca e peguei na minha mala. Nem sequer a desfizera, ainda não tinha passado uma hora. Quando saí, ela ainda estava sentada na lama, a chorar. Mas olhou para mim, e havia tanta raiva nos olhos dela! - Porque é que tiveste de o fazer zangar? Só arranjas problemas. - Estava sentada na lama, com o lábio a sangrar, ou de ele lhe ter batido, ou de o ter mordido quando caiu. Continuei a andar, sem lhe dizer uma palavra. A minha própria mãe, e não falo com ela desde os meus vinte anos.

    - A culpa não é tua.

    - Não, a culpa não é minha. Andei anos fazendo terapia para poder dizer isso com segurança. Nada foi culpa minha. Mas eu fui a causa. Acho que ele me castigava por eu ter nascido. Por ter nascido como era. Até à altura em que mostrei que era diferente, ele deixava-me em paz. Eu era problema da minha mãe, e ele raramente tinha tempo para mais do que uma palmada distraída. Depois disso, acho que não houve uma semana em que eu não tivesse sofrido os abusos dele.

    - Não sexualmente - disse ela quando viu a cara de Cade. - Nunca me pôs as mãos em cima dessa forma. Queria fazê-lo. Meu Deus, ele queria, e isso assustava-o ainda mais, por isso batia-me mais. E sentia um prazer doentio com isso. O sexo e a violência estão misturados dentro dele. Seja o que for que digam que ele fez àquela mulher, ele fez. Não foi violação, ou pelo menos isso não pôde ser provado, ou não o teriam deixado sair em liberdade condicional tão facilmente. Mas a violação é apenas uma forma de um homem magoar e humilhar uma mulher.

    - Eu sei. - Pôs-se de pé para ir buscar a chaleira e servir chá a Tory. - Disseste que os tinhas visto duas vezes.

    - A eles não, a ele. Há três anos ele veio a Charleston. Veio a minha casa. Seguiu-me quando saí do trabalho. Tinha descoberto onde eu trabalhava e seguiu-me até casa. Apanhou-me quando eu estava a sair do carro. Fiquei morta de medo. Já não tinha grande coisa daquele aço que tinha conseguido forjar em Nova Iorque. Disse-me que a minha mãe estava doente e que precisavam de dinheiro. Não acreditei. Ele tinha estado a beber. Pude perceber, pelo cheiro.

    Conseguia cheirá-lo agora, se quisesse. O cheiro pestilento e quente, como um mau sabor no ar. Em vez disso, pegou na chávena e cheirou o chá.

    - Agarrou-me o braço com a mão. Percebi o que ele queria fazer. Torcer-me o braço, partir-me o osso, movido pelas imagens que tinha na cabeça. Passei-lhe um cheque de quinhentos dólares, ali mesmo. Não o deixei entrar em casa. Não ia deixá-lo entrar na minha casa. Disse-lhe que se me magoasse, ou tentasse entrar em casa, se fosse ao sítio onde eu trabalhava, se fizesse qualquer dessas coisas, eu cancelava o cheque e nunca mais haveria dinheiro. Mas se ele pegasse no cheque e se fosse embora e nunca mais voltasse, eu mandava-lhe cem dólares por mês.

    Tory soltou uma pequena gargalhada.                            

    - Ficou tão surpreendido com a idéia que me largou. Sempre gostou de dinheiro. De ter dinheiro. Gostava de pregar sermões sobre os homens ricos de olhos aguçados, mas gostava de ter dinheiro. Entrei em casa e fechei a porta à chave. Passei essa noite sentada ao telefone, com o atiçador da lareira no colo. Mas ele não tentou entrar. Nem naquela altura, nem nunca. Cem dólares por mês compraram-me uma espécie de paz de espírito. Não foi um mau preço a pagar.

    Bebeu um longo gole de chá, que estava demasiado quente e demasiado forte e que, apesar de tudo, lhe deu força. Incapaz de ficar sentada, levantou-se para olhar pela janela, para a chuva que continuava a cair.

    - Pois aqui tens alguns dos segredos feios da família Bodeen.

    - Os Lavelle também têm segredos feios. - Levantou-se para ir ter com ela, e passou a mão pela trança cuidadosamente feita, que lhe caía pela costas. - Ainda tinhas a tua força, Tory. Tinhas aquilo de que precisavas. Ele não conseguiu quebrá-la. Nem sequer conseguiu vergá-la.

    Pousou os lábios de leve no alto da cabeça dela, e ficou contente por ela não se ter afastado como de costume.

    - Já comeste?

    - O quê?                                    

    - Provavelmente não. Senta-te. Vou mexer uns ovos.

    - Do que é que estás a falar?

    - Tenho fome, e se tu não tens devias ter. Vamos comer uns ovos.

    Virou-se e estremeceu quando ele a abraçou. Os olhos encheram-se rapidamente de lágrimas, e ela pestanejou para acabar com elas.

    - Cade, isto não vai a lado nenhum. Tu e eu.

    - Tory. - Ele afagou-lhe a nuca até a cabeça dela pousar no seu ombro. - Já foi a algum lado. Porque não ficamos um pouco onde estamos, a ver se nos agrada?

    Era uma sensação tão boa, de segurança, ser abraçada desta maneira, desta forma fácil e familiar.

    - Não tenho ovos. - Recuou e olhou-o nos olhos. - Vou fazer sopa.                                                       

    Às vezes, a comida era apenas um apoio. E ela estava a usá-la agora, pensou Cade. Talvez ambos estivessem a usá-la, enquanto ela mexia a sopa no fogão e ele reunia o necessário para fazer sanduíches de queijo quente. Uma refeição agradável e caseira numa noite de chuva. Idêntica à que um jovem casal pode partilhar acompanhada de uma conversa ligeira e, para animar, de uma boa garrafa de vinho.

    Apetecia-lhe uma noite como essa, pensou. Em vez disso, ali estava a espalhar manteiga no pão, como Lilah lhe ensinara a fazer, e a tentar encontrar a maneira de penetrar no escudo espinhoso de Tory.

    - Podias comer bem mais do que uma sopa e um sanduíche em Beaux Revés.

    - Podia. - Pôs a frigideira ao lume e ficou próximo de Tory. Próximo, mas não o suficiente para tocar-lhe. - Mas gosto da companhia aqui.                      

    - Então passa-se qualquer coisa contigo.

    Ela disse aquilo tão secamente que ele demorou um minuto a reagir. Com uma gargalhada, colocou os dois sanduíches na frigideira quente.

    - Provavelmente tens razão. Afinal de contas, sou um belo partido. Saudável, não demasiado desagradável à vista, tenho uma casa grande, boas terras e dinheiro suficiente para manter os lobos esfaimados à distância. E, a acrescentar a tudo isto e aos meus encantos sutis, sei fazer uns sanduiches de queijo magníficos.

    - Sendo esse caso, porque é que ainda nenhuma mulher espertalhona te fisgou?

    - Milhares já tentaram.

    - Um bocado escorregadio, não és?

    - Ágil. - Virou os sanduíches. - Gosto de pensar nisso como sendo ágil. Estive noivo, uma vez.

    - Estiveste? - Disse-o distraidamente, enquanto tirava as tigelas do armário, mas ficara de repente mais atenta.

    - Hum-hum. - Conhecia a natureza humana suficientemente bem para ter a certeza de que, se deixasse o assunto no ar por um instante, ela iria rebentar de curiosidade ou render-se.

    Ela aguentou até terem posto os pratos e as tigelas na mesa e se terem sentado.

    - Achas-te muito esperto, não achas?      

    - Querida, um homem na minha posição tem que ser. Estamos bem aqui, com a chuva lá fora e tudo isso, não estamos?

    - Está bem, que diabo! O que aconteceu?

    - A quê? - A forma como os olhos dela se semicerraram deliciou-o. - Ah, à Deborah? A mulher a quem estive a ponto de prometer amar, honrar e acarinhar até à morte e por aí adiante? A filha do juiz Purcell. Deves lembrar do juiz, só que acho que ele ainda não era juiz quando foste embora.                                       

    - Não, não me lembro dele. Duvido que os Bodeen se movessem na esfera social dele.

    - Seja como for, ele tem uma filha adorável, e ela amou-me durante uns tempos, mas depois decidiu que afinal não queria ser mulher de um agricultor. Pelo menos não de um agricultor que trabalhasse mesmo na terra.

    - Lamento.

    - Não foi uma tragédia. Eu não a amava. Gostava bastante dela - disse Cade enquanto provava a sopa. - Era muito bonita, interessante, e... digamos que éramos compatíveis em certas áreas vitais. Exceto numa. Não queríamos a mesma coisa. Descobrimos isso, mutuamente embaraçados, poucos meses depois de estarmos noivos. Rompemos o noivado amigavelmente, o que só mostra que houve um alívio considerável de ambos os lados, e ela foi viver em Londres durante uns meses.

    - Como conseguiste... - Interrompeu-se e encheu a boca de sanduíche.

    - Vá lá, podes perguntar.                                                         

    - Estava só a pensar como conseguiste pedir alguém em casamento e depois deixá-la ir sem nenhum remoque.

    Ele refletiu, mastigando o sanduíche como se estivesse a mastigar também os seus pensamentos.

    - Acho que houve alguns pequenos remoques. Mas a verdade é que, visto à distância, eu tinha vinte e cinco anos e havia um pouco de pressão por parte da família. A minha mãe e o juiz são bons amigos, e ele era também amigo do meu pai. A idéia era que estava na altura de eu assentar e arranjar um herdeiro ou dois.

    - É um plano muito frio.

    - Não totalmente. Sentia-me atraído por ela, tínhamos muitos conhecimentos comuns. O pai dela foi advogado do meu durante muitos anos. Foi fácil pensar num acordo que agradasse a ambas as famílias. Depois, à medida que o tempo foi passando, comecei a sentir-me como quando a gravata está demasiado apertada. Não se consegue respirar bem. Por isso, perguntei-me como seria a minha vida sem ela. E como seria com ela, dali a cinco anos.

    Deu mais uma dentada no sanduíche e encolheu os ombros.

    - Acontece que gostei bastante mais da resposta à primeira parte do que à segunda. E, por sorte, ela também. Os únicos que ficaram verdadeiramente aborrecidos foram as nossas famílias. - Fez uma pausa, vendo-a comer. - Mas não podemos viver as nossas vidas de acordo com o que os nossos pais querem ou não querem para nós, não é, Tory?

    - Não. Mas, seja como for, vivemos as nossas vidas carregando conosco esse peso. A minha família nunca me aceitou como eu era. Durante muito tempo tentei ser alguém e alguma coisa diferente. - Levantou o olhar. - Não consigo.

    - Eu gosto de quem tu és.                                 .

    - A noite passada tiveste dificuldade.

    - Alguma - admitiu ele. - Preocupaste-me. Estavas frenética - acrescentou, pousando a mão sobre a dela antes de ela conseguir soltá-la. - E depois frágil. Senti-me desajeitado. Não sabia o que fazer, e estou habituado a saber.

    - Não acreditaste em mim.

    - Não duvido do que viste, ou do que sentiste. Mas não posso deixar de pensar que uma parte pode ter a ver com o teu regresso aqui, com a recordação do que aconteceu à Hope.

    Ela pensou no telefonema de Abigail, nas datas de ambos os homicídios. Mas conteve-se. Já confiara antes, já partilhara antes. E perdera tudo.

    - Tem tudo a ver com o meu regresso aqui. E com a Hope. Se não fosse a Hope, não estavas sentado aqui.

    Voltando a pisar terreno mais seguro, ele recostou-se na cadeira e continuou a comer.

    - Se eu te tivesse visto pela primeira vez há quatro ou cinco semanas, se nunca nos tivéssemos visto antes e não houvesse nada entre nós até então, teria descoberto uma maneira de estar sentado aqui, agora. A verdade é que se tivéssemos começado há semanas e não há anos, acredito piamente que já te teria naquela cama interessante.

    Ele sorriu, calma e afavelmente, quando ela voltou a meter a colher na sopa, com um ligeiro «plop».

    - Acho que está na altura de deixarmos o assunto em aberto, para poderes pensar nele.

   

    A viagem foi bastante agradável e fê-la lembrar-se de tudo o que perdera por não ter ficado com J.R. Havia nele uma tal grandeza, na voz, no riso, nos gestos! Por duas vezes teve de evitar o braço dele quando ele o atirou na sua direção para apontar qualquer coisa que se via da estrada.

    Parecia engolir-nos apenas com a simples alegria de existir.

    Ia sentado no pequeno carro, com os joelhos quase a tocarem-lhe no queixo, a mão grande e larga agarrando a alavanca das mudanças como Tory já vira alguns rapazes manusear um joystick num jogo de vídeo.

    Pelo divertimento e pela competição.

    Pela forma como mergulhava naquele dia, dir-se-ia que o objetivo da corrida era um piquenique louco qualquer e não o cumprimento de um dever junto a uma família em sofrimento.

    Viver o presente, pensou ela, era algo para que J.R. era dotado e uma capacidade que ela sempre lutara por conseguir, ao longo da sua vida.

    Ia satisfeitíssimo no seu carro novo, cruzando a estrada a grande velocidade, com os seus CD de Clint Black e Garth Brooks a tocar bem alto, e um boné de xadrez, de corte impecável, enterrado no tapete de lã de ovelha com que se parecia o seu cabelo cor de gengibre.

    Perdeu o boné depois da saída para Summer, quando um sopro de vento fresco o arrancou, atirando-o para a estrada e para baixo das rodas de uma Dodge. J.R. nem sequer abrandou, e riu como um louco.

    Com a capota puxada para trás e a música altíssima, a conversa decorria aos gritos, mas, mesmo assim, J.R. conseguia mantê-la, com os seus assuntos de interesse a saltitar como uma grande bola de borracha da loja de Tory: política, gelado baixo em calorias e o mercado de ações.

    Quando se aproximaram da saída para Florence, referiu a possibilidade de, se houvesse tempo, passarem pela casa da sua mãe para lhe fazerem uma visita. Era a primeira vez, desde que fora buscá-la, que falava na família.

    Aos gritos, Tory disse que adoraria ver a avó. Depois pensou em Cecil e perguntou-se se J.R. saberia da nova situação. Isso manteve-lhe o espírito ocupado e entretido até passarem Florence e seguirem para nordeste.

    Nunca fora à casa dos pais na saída de Hartsville. Não fazia idéia do que faziam na vida, nem como passavam o tempo juntos ou separados.

    Nunca perguntara à avó e Íris nunca falara no assunto.

    - Estamos quase lá. - J.R. mexeu-se no assento. Tory sentiu que a disposição dele também mudara. - Da última vez que soube alguma coisa, o Han trabalhava numa fábrica. Tinham alugado um pedaço de terra e criavam galinhas.

    - Estou a ver.

    J.R. pigarreou, como se fosse falar outra vez. Mas manteve-se em silêncio até saírem da estrada principal e entrarem num caminho asfaltado e esburacado, sem acostamento.

    - Ainda não consegui ver a casa deles. Ah, a Sarabeth deu-me as direções quando eu lhe disse que vinha.

    - Tudo bem, Tio Jimmy, não se preocupe comigo. Ambos sabemos o que esperar.

    As casas que se avistavam eram pequenas e esqueléticas, ossos amarelados metidos em quintais cobertos de vegetação mal cuidada ou de pó. Uma pickup ferrugenta, com o pára-brisas quebrado como uma casca de ovo, jazia inclinada sobre blocos de construção. Um cão preto, feio, puxava a corrente e ladrava, furioso, enquanto a menos de meio metro uma criança que vestia apenas uma camisola interior de algodão encardido e um emaranhado de cabelo escuro estava sentada numa velha máquina de lavar estragada, abandonada num quintal cheio de erva. Estava a chupar o dedo e olhou, com ar vazio, quando o conversível elegante passou.

    Sim, pensou Tory. Sabiam exatamente o que esperar.

    A estrada virou, subiu um pouco e depois bifurcou-se repentinamente. J.R. desligou a música e abrandou drasticamente para prosseguir pelo caminho de lama e cascalho.

    - Os nossos impostos são bem aplicados - disse ele, tentando fazer uma piada, e depois suspirou e fez avançar o carro pelo caminho de terra batida que conduzia à casa.

    Não, uma casa não, corrigiu Tory. Um barraco. Não se podia chamar àquilo uma casa, e nunca um lar. O telhado estava cedendo e, como o sorriso de um velho, tinha buracos onde as telhas de ardósia tinham sido levadas pelo vento ou tinham caído. O velho tabuado cinzento estava carcomido e em pedaços. Uma das janelas estava tapada com cartão. O quintal, se é que podia chamar-se-lhe assim, estava entupido de ervas. Dentes-de-leão e cardos cresciam em abundância.  Uma velha bacia de ferro forjado estava virada ao contrário, evidenciando um buraco do tamanho de uma mão fechada. Os lados e as traseiras da casa eram um edifício de metal, encardido e com manchas de ferrugem cor de sangue. Uma rede de arame saía de um dos lados, encerrando cerca de uma dúzia de galinhas escanzeladas que debicavam na terra, num permanente queixume. O cheiro delas ardia no ar.

    - Meu Deus - murmurou J.R. - Não pensei que fosse tão mau. Nunca se pensa que pode ser tão mau. Não há necessidade disto. Não havia necessidade de chegar a uma coisa destas.

    - Ela sabe que chegamos - disse Tory sem deixar transparecer emoção, e abriu a porta do carro. - Tem estado à espera.

    J.R. bateu também a sua porta e depois, enquanto se encaminhavam para a casa, pousou a mão no ombro de Tory.

    Ela perguntou-se se ele estaria lhe dando apoio ou pedindo.

    A mulher que apareceu tinha cabeço grisalho. Cor de pedra, impiedosamente repuxado e afastado de um rosto magro. A pele também parecia repuxada, com os ossos salientes como nós. As linhas que lhe delimitavam a boca podiam ter sido gravadas com uma faca, e o seu entalhe profundo puxava-lhe os lábios para baixo, num ar de miséria.

    Usava um vestido de algodão amarrotado, que lhe ficava demasiado grande, e uma pequena cruz de prata entre os seios sem vida.

    Os olhos, aureolados de vermelho como fogo, olharam para Tory e depois desviaram-se rapidamente, como se um olhar pudesse queimar.

    - Não disseste que ela também vinha.

    - Olá, mãe.                                                                         

    - Não disseste que ela também vinha - repetiu Sarabeth e depois abriu bruscamente a porta de tela. - Não tenho já preocupações que cheguem?                        

   

    J.R. apertou o ombro de Tory.

    - Estamos aqui para fazer o que pudermos para ajudar, - mantendo a mão no ombro de Tory, entrou.

    O ar cheirava a lixo antigo e a suor bafiento. A desespero.

    - Não sei o que podem fazer, a não ser que consigam levar aquela mulher, aquela devassa mentirosa, a Hartsville e fazê-la dizer a verdade. - Tirou um lenço esfarrapado do bolso do vestido e assoou-se.

    - Estou a enlouquecer, J.R. Acho que aconteceu qualquer coisa horrível ao meu Han. Ele nunca esteve fora tanto tempo como desta vez.

    - Porque não nos sentamos? - Transferiu para a irmã a mão que tinha pousada em Tory e depois observou o espaço.

    Sentiu uma cãibra no estômago.

    Havia um sofá arruinado, coberto com um pano amarelo sujo e desbotado, e um cadeirão nojento, atado com fita adesiva. As mesas estavam cheias de lixo: pratos de papel, copos de plástico e aquilo que ele supôs serem os restos do jantar da noite anterior. Um fogão a lenha, coberto de fuligem, estava a um canto, amparado em três pernas, com um pedaço de madeira no lugar da quarta.

    Havia uma imagem de um Jesus magoado, exibindo o seu Sagrado Coração, numa moldura barata.

    Como o rosto da irmã continuava enterrado no lenço, J.R. conduziu-a até ao sofá e lançou a Tory um olhar suplicante.

    - E se eu fosse fazer café?

    - Sobrou algum, instantâneo. - Sarabeth tirou o lenço da cara e olhou para a parede, mas não para a filha. - Não me tem apetecido muito ir à loja, não queria afastar-me de casa porque o Han...

    Sem dizer nada, Tory deu meia volta. A casa era desagradável e intimidatória, por isso ela foi direta à cozinha. Havia pratos empilhados no lava-louça, e as manchas no fogão eram velhas e secas, os sapatos pegarem-se ao chão de linóleo carcomido.

    Durante a infância de Tory, Sarabeth limpava como um tornado, acabando com pó e sujidade, girando entre eles como se fossem pecados contra a alma. Enquanto enchia a cafeteira, Tory perguntou-se quando teria a mãe desistido daquele hábito nervoso, quando teriam a pobreza e o desinteresse suplantado a ilusão de que estava construindo um lar ou de que Deus entraria nele quando o chão estivesse varrido.

    Depois, parou de interrogar-se, parou de pensar e bloqueou tudo exceto o gesto mecânico de aquecer água e deitar num pequeno jarro de vidro uma colher de grãos de café transformados em cimento castanho.

    O leite estava azedo e não encontrou açúcar. Levou para a sala duas canecas cheias de um líquido com mau aspecto. O seu estômago rejeitá-lo-ia, desde logo, só pela aparência.

    - Aquela mulher - estava Sarabeth a dizer. - Tentou provocar o meu Han. Atacou-o na sua fraqueza, tentou-o. Mas ele resistiu. Ele contou-me tudo. Não sei onde foi que lhe bateram, provavelmente algum tarado a quem ela se vendeu, mas ela disse que foi o Han, como vingança por ele lhe ter resistido. Foi isso que aconteceu.

    - Pronto, Sari. - J.R. sentou-se no sofá ao lado dela e fez-lhe uma festa na mão. - Não vamos preocupar-nos com essa parte agora, está bem? Tens alguma idéia de onde o Han possa ter ido?

    - Não! - gritou a resposta, levantando-se de um salto e quase derrubando o café que Tory pusera em cima da mesa. - Achas que eu não iria atrás dele, se soubesse? Uma mulher está sempre junto do marido. Disse a mesma coisa aos polícias. Disse-lhes exatamente o que vos estou a dizer. Não espero que um punhado de polícias corruptos e banidos por Deus acreditem na minha palavra, mas espero que quem é da minha carne e do meu sangue acredite.

    - Eu acredito. Claro que sim. - Ele pegou numa caneca de café e colocou-lha suavemente nas mãos. - Só pensei que podia ter-te ocorrido qualquer coisa, que talvez te lembrasses de alguns lugares para onde ele foi quando desapareceu, de outras vezes.

    - Ele não desaparece. - Os lábios de Sarabeth tremiam-lhe, enquanto ela bebia o café. - Só precisa de ir-se embora e pensar, mais nada. Os homens sofrem muita pressão. E às vezes o Han só precisa de estar sozinho, para pensar nas coisas, para rezar. Mas desta vez já está fora há muito tempo. Acho que talvez esteja ferido.

    As lágrimas voltaram a assolar-lhe os olhos.

    - Aquela mulher mentindo, a metê-lo naquela confusão toda, estava se tornando muito pesado para ele. Agora a polícia fala como se ele fosse um fugitivo. Eles não compreendem.

    - Ele ia ao programa de reabilitação, por causa do álcool?

    - Acho que sim. - Fungou. - Ele não precisava de programa nenhum. Não era um bêbado. Só bebia de vez em quando, para acalmar. Jesus bebia vinho, não bebia?

    Jesus, pensou Tory, não tinha por hábito tragar quase uma garrafa de Wild Turkey e espancar mulheres para lhes tirar o diabo do corpo. Mas a mãe era incapaz de ver a diferença.

    - Estão sempre a chateá-lo no trabalho, sabes, porque sabem que ele é mais esperto do que eles. E as galinhas dão mais despesa do que tínhamos pensado. Aquele filho da mãe, da casa de sementes, aumentou os preços para poder dar perfumes caros à amante. O Han contou-me como era.

    - Querida, tens que enfrentar o fato de, ao desaparecer assim, o Han ter violado a liberdade condicional. Ele infringiu a lei.

    - Bem, a lei está errada. O que vou eu fazer, J.R.? Estou à beira de um ataque de nervos. E toda a gente quer dinheiro, e não entra nada exceto o que consigo com os ovos. Fui ao banco, mas aqueles ladrões mentirosos roubaram-nos o que tínhamos lá e disseram que o Han tinha esvaziado a conta. Esvaziado a conta, foi o que disseram, com aqueles sorrisos todos delicados.

    - Eu trato das contas. - Já não era a primeira vez. - Não te preocupes com isso. Ouve o que acho que devíamos fazer. Acho que devias pegar algumas coisas e vir para casa comigo. Podes ficar comigo e com a Boots até as coisas estarem resolvidas.

    - Não posso ir-me embora. O Han pode chegar a qualquer momento.

    - Podes deixar-lhe um recado.

    - Isso ia deixá-lo furioso. - Os olhos dela começaram a olhar em volta, em todas as direções, como pássaros desnorteados procurando um lugar seguro, longe da fúria legítima do marido. - Um homem tem o direito de esperar que a mulher esteja em casa quando ele chega. Que ela esteja à espera, debaixo do telhado que ele pôs sobre as suas cabeças.                                                          

    - O seu telhado tem buracos, mãe - disse Tory calmamente, o que lhe valeu um olhar duro, como um chicote.

    - Nunca nada foi suficientemente bom para ti, pois não? Por mais que o teu pai trabalhasse e eu suasse, nunca era suficiente. Querias sempre mais.

    - Nunca pedi nada.

    - Eras suficientemente esperta para não dizeres nada. Mas eu via isso, via isso nos teus olhos. Eras uma fingida, uma manhosa - disse Sarabeth, retorcendo a boca com violência. - E fugiste na primeira oportunidade e nunca olhaste para trás, nunca honraste o teu pai e a tua mãe. Tinhas a obrigação de retribuir os sacrifícios que fizemos por ti, mas foste demasiado egoísta. Tínhamos uma vida decente em Progress, e ainda teríamos se tu não a tivesses estragado.

    - Sarabeth! - Desamparado, J.R. bateu-lhe ao de leve na mão. - Isso não é justo e não é verdade.

    - Ela trouxe-nos a vergonha. Trouxe-nos a vergonha no minuto em que nasceu. Éramos felizes antes de ela ter aparecido. - Recomeçou a chorar, em soluços violentos que lhe sacudiam os ombros.

    Sem saber o que fazer, J.R. abraçou-a, procurando sossegá-la. Com o rosto e a mente vazios, Tory baixou-se e começou a tirar o lixo da mesa.

    Sarabeth levantou-se, veloz como um raio.     

    - O que pensas que estás a fazer?                                   

    - Como está decidida a ficar, pensei em limpar isto.

    - Não preciso que me critiques. - Atirou os pratos para o chão. - Não preciso que chegues aqui cheia de nove horas e as tuas roupas chiques, a tentar fazer-me parecer má. Há anos que me viraste as costas, e pela parte que me toca podes continuar bem longe.

    - A mãe virou-me as suas a primeira vez que ficou calmamente sentada enquanto ele me espancava.

    - Deus fez o homem dono e senhor da sua casa. Tu nunca te vergaste, não merecias.

    Vergaste, pensou Tory. Palavra feita de terror.                 

    - É assim que consegue dormir à noite?

    - Não sejas insolente comigo. Não desrespeites o teu pai. Diz-me onde ele está, raios te partam! Tu sabes, consegues ver. Diz-me onde ele está para eu poder ir tratar dele.

    - Não vou procurá-lo. Se tropeçasse nele a sangrar, numa vala, deixava-o lá. - A cabeça foi impelida para trás quando Sarabeth lhe deu uma bofetada, e a marca vermelha ficou na face. Mas ela não vacilou.                                         

    - Sarabeth! Deus Todo-Poderoso, Sari! - J.R. agarrou-a, imobilizou-lhe os braços enquanto ela se debatia, soluçava e gritava.

    - Ia dizer que desejava que ele estivesse morto. - Tory falou calmamente. - Mas não desejo. Desejo que volte para si, mãe. Desejo, de todo o coração, que ele volte para si e lhe dê a vida que a mãe merece.

    Abriu a carteira e tirou a nota de cem dólares que lá metera, de manhã.

    - Se ele voltar, quando ele voltar, diga-lhe que este é o último pagamento que terá da minha parte. Diga-lhe que voltei a viver em Progress, que estou lá a construir uma vida para mim. Se ele quiser vir ter comigo e voltar a levantar-me a mão, então é melhor que consiga fazer com que seja a última, é melhor espancar-me até à morte, desta vez. Porque se ele não acabar comigo, acabo eu com ele.

    Fechou a carteira.

    - Espero no carro - disse a J.R. e saiu.

   

    As pernas só começaram a tremer-lhe quando ela se sentou e fechou a porta. Depois, o tremor começou-lhe nos joelhos e foi subindo, fazendo-a cruzar os braços sobre o peito e fazer pressão com força, de olhos fechados, à espera que passasse.

    Ouvia o choro vindo da casa, derramando-se como lava, e o cacarejar monótono das galinhas à procura de comida. Mais perto soou o ladrar feroz de um cão.

    E, contudo, os pássaros ouviam-se acima de tudo aquilo, em notas decididamente alegres.

    Concentrou-se naquele som, e procurou afastar dali o pensamento. Estranha e inesperadamente encontrou-se na sua cozinha, com a cabeça no ombro de Cade, com os lábios dele pousados no seu cabelo.

    A descansar ali, só ouviu o tio quando ele se sentou ao lado dela e fechou a porta.

    Não disse nada enquanto se afastava da casa, nada quando parou uns metros adiante e ficou sentado, com as mãos no volante e os olhos a observar o vazio.

    - Não devia ter-te deixado vir - disse por fim. - Pensei... Não sei o que pensei, mas acho que me ocorreu que talvez ela quisesse ver-te, que as duas pudessem conseguir consertar as coisas, com o Han assim, desaparecido.

    - Só faço parte da vida dela para ser acusada. Ele é a vida dela. É assim que ela quer.

    - Porquê? Por amor de Deus, Tory, porque quereria ela viver assim, viver com um homem que nunca lhe deu alegria?

    - Ela ama-o.

    - Isso não é amor. - Cuspiu as palavras, juntamente com a fúria e a revolta. - Isso é doença. Ouviste-a a desculpá-lo, a culpar toda a gente menos a ele. A mulher que ele atacou, a polícia, até o raio do banco.

    - Ela quer acreditar nisso. Precisa acreditar. - Vendo que ele estava mais perturbado do que ela pensara, Tory pôs-lhe a mão no braço. - O tio fez tudo o que pôde.

    - Tudo o que pude. Dei-lhe dinheiro e deixei-a ali, naquele barraco. E vou dizer-te a verdade, Tory: dou graças a Deus por ela não ter querido vir comigo, por eu não ter que levar aquela doença para minha casa. Tenho vergonha. - A voz quebrou-se-lhe e ele encostou a testa ao volante.                                                        

    Sentindo que ele precisava, Toiy desapertou o cinto de segurança e inclinou-se para ele, pousou-lhe a cabeça no braço, desenhando círculos com a mão nas suas costas enormes.

    - Não há vergonha nenhuma nisso, Tio Jimmy, não há vergonha nenhuma em querer proteger a sua casa e a Tia Boots, em querer manter tudo isto à distância. Eu podia ter feito o que ela me pediu para fazer. Podia ter-lhe dado isso. Mas não dei, nem vou dar. E não vou ficar com vergonha por causa disso.            

    Ele acenou com a cabeça e, tentando recuperar a compostura, voltou a endireitar-se.

    - Somos uma família e tanto, não somos, querida? - Suavemente, muito suavemente, tocou com as pontas dos dedos na marca que ela tinha na face. Depois, engatou a primeira e acelerou. - Tory, se não te importas, não tenho coragem para ir ver a tua avó, agora.

    - Nem eu. Vamos para casa.

    Quando o tio a deixou, Tory não entrou em casa. Dirigiu-se antes ao carro e seguiu diretamente para a loja. Tinha horas de trabalho à sua frente e estava agradecida porque o trabalho e a azáfama manteriam à distância os seus pensamentos sobre aquela manhã.

    O seu primeiro telefonema foi para a florista, a dizer que já podiam entregar o ficus e o arranjo de flores que encomendara na semana anterior. O seguinte foi para a padaria, a confirmar se os bolinhos e os petitsfours que escolhera estariam prontos para ela ir buscar logo de manhãzinha.                            

    Já era tarde quando se deu por satisfeita com a disposição dos vários artigos na loja. Para dar um ar festivo, começou a entrelaçar luzes por entre os ramos graciosos do ficus.

   

    A pequena campainha da porta soou, lembrando-lhe que se esquecera de trancá-la após a última entrega.

    - Ia a passar e vi-te. - Dwight entrou, olhou em volta e depois soltou um ligeiro assobio. - Vinha ver se estava tudo a funcionar ou se precisavas de alguma ajuda de última hora. Mas parece que tens tudo controlado.

    - Acho que sim. - Endireitou-se, com a ponta do fio de luzes na mão. - A tua equipe fez um trabalho maravilhoso, Dwight, não podia ter ficado mais satisfeita com o trabalho.

    - Não te esqueças de falar na Frazier's, se alguém elogiar o trabalho de carpintaria.

    - Podes contar com isso.

    - Olha só, que belo trabalho. - Aproximou-se de uma tábua de cortar, enfeitada por várias tiras de madeira de diferentes tons e maravilhosamente aparada, lisa como vidro. - Belo trabalho. Faço uns trabalhos com madeira, como passatempo, mas nada tão bonito como isto. É quase demasiado bonito para usar.

    - Forma e funcionalidade. É essa a chave, aqui.

    - A Lissy está muito contente com aquela coisa com a vela que comprou aqui, e não perde uma oportunidade de exibir o espelho. Disse-me que não ia ficar nada chateada se eu viesse até cá dar uma olhadela nas jóias e encontrasse alguma coisa que a deixasse bem-disposta.                               

    - Ela não se sente bem?

    - Oh, está ótima. - Dwight acenou com a mão, enquanto se movia pela loja. - Fica um bocado irritada, de vez em quando, por causa do bebê, mais nada. - Meteu os polegares nos bolsos da frente das calças e sorriu mansamente. - Já que aqui estou, acho que devo pedir desculpa.

    - Sim? - Como ele parecia tencionar demorar-se mais um pouco, Tory continuou a entralaçar as luzes nos ramos. - Porquê?

    - Por ter deixado a Lissy pensar que tu e o Cade andavam a apreciar a companhia um do outro.         

    - Gosto da companhia do Cade.

    - Não sei bem se estás a gozar comigo ou a deixar-me pendurado como estás a fazer a essas luzes. O que se passa é que, bem... a Lissy toma o freio nos dentes no que toca a certas coisas. Não desiste de tentar arranjar alguém para o Cade, e quando não é ele, é Wade. Tem uma pancada qualquer em casar os meus amigos. O Cade só queria livrar-se da última tentativa que ela fez e disse-me que lhe dissesse que estava...

    Corou, enquanto Tory o observava em silêncio.        

    - Que estava, digamos, envolvido com alguém. Disse-lhe que eras tu, pensando que, como chegaste à cidade há pouco tempo, ela acreditaria e deixaria as coisas sossegadas por algum tempo.

    - Hã-hã. - Terminada a tarefa, Tory ligou as luzes à tomada e depois recuou um pouco, para avaliar os resultados.

    - Devia ter pensado melhor - continuou Dwight, nervosamente. - Deus sabe que não sou surdo e que sei que a Lissy tem tendência para falar. Quando o Cade chegou ao pé de mim para me esfolar vivo, eu já tinha ouvido de seis pessoas diferentes que vocês dois estavam quase noivos e a pensar ter um rancho de filhos.

    - Devia ter sido mais simples contar-lhe a verdade, que o Cade não estava interessado em ser agarrado.

    - Bem, eu não diria mais simples. - Os bonitos dentes dele voltaram a brilhar num sorriso rápido, encantador e masculino. - Se eu lhe disser isso, ela vai querer saber porquê. E eu digo-lhe que há homens que não andam à procura de casamento. Ela volta ao ataque e diz como tu, não é? Gostavas era de andar à solta como os teus melhores amigos. Eu digo não, queridinha, mas nessa altura já tenho um pé na casota do cão.

    Tentando fazer um ar digno de pena, coçou a cabeça.

    - Digo-te uma coisa, Tory: o casamento é uma caminhada numa corda ensebada, e qualquer homem que te diga que não sacrificaria um amigo para continuar a equilibrar-se é um grande mentiroso. Além disso, ouvi dizer que tu e o Cade têm saído juntos algumas vezes.

    - Estás a afirmar ou a perguntar? Ele abanou a cabeça.

    - Devia ter dito que lidar com uma mulher é como andar na corda bamba. O melhor é desistir enquanto ainda se consegue pôr o pé em terreno firme.

    - Boa idéia.                                                   

    - Bem, a Lissy está a dar uma festa de galinhas, num encontro de mulheres - apressou-se a corrigir, ao ver as sobrancelhas de Tory arquearem-se. - Vou encontrar o Wade, ver se ele quer ir jantar e fazer-me companhia até ser seguro ir para casa. Passo por cá amanhã. Talvez queiras ajudar-me a escolher uns brincos, ou qualquer coisa.

    - Com muito prazer.

    Encaminhou-se para a porta, depois parou.

    - Isto está muito bonito, Tory. Elegante. Este lugar vai fazer bem à cidade.

    Ela assim o esperava, pensou, enquanto o seguia para trancar a porta. Mas, mais ainda, esperava que a cidade lhe fizesse bem.

    Dwight caminhou até à passadeira, para atravessar nos sinais. Como presidente da câmara, era importante dar o exemplo. Deixara de atravessar com o sinal vermelho, de beber mais de duas cervejas num bar e de ultrapassar o limite de velocidade. Pequenos sacrifícios, pensou, mas de vez em quando tinha vontade de quebrar as regras.

    Supôs que devia ser por ter desabrochado tarde, pensou, enquanto respondia com um breve cumprimento à buzina do carro de Betsy Gluck, que ia passando. Só no meio da adolescência começara a abrir caminho, depois ficara tão admirado por as raparigas quererem falar com ele que se enrolara rapidamente com Lissy no assento de trás do seu primeiro carro - bem, com algumas outras e depois com Lissy -, e dera por si a sair com a rapariga mais bonita e mais popular do liceu. Antes de perceber, estava alugando o fraque para o casamento.

    Não que o lamentasse. Nem por um instante. Lissy era exatamente o que ele queria. Continuava tão bonita como no liceu. Talvez se queixasse e amuasse algumas vezes, mas qual a mulher que não o fazia?

    Tinham uma bela casa, um filho lindo e mais um bebê a caminho. Uma boa vida, ele era o presidente da câmara da cidade onde, antes, era alvo de piadas.

    Tinha que apreciar a ironia disso.

    O fato de apreciar, de vez em quando, outras mulheres, era perfeitamente natural. Mas a verdade é que não queria estar casado com alguém que não fosse a sua Lissy, não queria viver senão em Progress e queria que a sua vida continuasse exatamente como era.

    Abriu a porta da sala de espera do consultório de Wade, bem a tempo de ser abalroado por um cão pastor, muito nervoso, que se preparava para a fuga.

    - Desculpa. Oh, Mongo. - A loura que tentava segurar a trela era bonita e desconhecida. Com os seus olhos verdes e suaves lançou a Dwight um olhar de desculpa, enquanto os seus lábios de boneca se abriam num rápido sorriso. - Acabou de tomar as vacinas e sente-se traído.

    - Não posso censurá-lo. - Uma vez que um procedimento diferente comprometeria a sua masculinidade, Dwight estendeu os dedos e afagou o cão através do tufo de pêlo cinzento e branco. - Não me recordo de tê-la visto, nem ao Mongo, na cidade.

    - Só estamos aqui há umas semanas. Mudei-me de Dillon. Sou professora de Inglês no liceu. Bem, estou dando aulas nos cursos de verão e depois vou começar a tempo inteiro no outono. Sentado, Mongo - Atirando o cabelo um pouco para trás das costas, estendeu-lhe a mão. - Sherry Bellows, e pode me culpar por ter as calças cheias de pêlos do cão.

    - Dwight Frazier, prazer em conhecê-la. Sou o presidente da câmara, por isso é a mim que deve procurar se tiver alguma queixa.

    - Oh, está tudo muito bem. Mas não me esqueço. - Virou a cabeça para a sala do consultório. - Todos têm sido muito amáveis e prestáveis. É melhor levar o Mongo para o carro antes que ele parta a trela e tenha que passar-me uma multa.

    - Precisa de ajuda?

    - Não, está seguro. - Riu quando ela e o cão saíram disparados pela porta. - Ou quase. Prazer em conhecê-lo, Presidente Frazier. Tchau, Max.

    - Igualmente - murmurou ele, e depois olhou para Maxine, na recepção. - Não tive professoras de Inglês como esta quando andava no liceu. Teria demorado mais uns anos a formar-me.

    - Homens! - Maxine riu, tirando a mala da última gaveta. - Tão previsíveis. O Mongo foi o nosso último paciente, Senhor Presidente. O doutor Wade está a lavar-se, lá atrás. Importa-se de dizer-lhe que vou correndo para a aula da noite?

    - Vá lá. Tenha uma boa noite.                  

    Entrou e foi encontrar Wade arrumando o armário dos medicamentos.

    - Alguma coisa boa?

    - Tenho aqui uns esteróides que fazem crescer pêlos no peito. Não tens nenhum.

    - Porque os usaste todos no teu rabo - disse Dwight, prontamente. - E então aquela loura?

    - Hã?                                                                                                        .       - Credo, Wade, tens andado a tomar remédios dos cães? A loura, com o cãozarrão que acabou de sair. Professora de Inglês.

    - Ah, o Mongo.

    - Bem, estou vendo que já é tarde demais. - Dwight abanou a cabeça e deu balanço para se sentar na marquesa. - Quando alguém começa a não reparar em louras bonitas, que enchem as calças como aquela, e se lembram de um cão grande e esgrouviado, é um caso perdido que nem a Lissy consegue resolver.

    - Não vou a mais nenhum encontro às cegas. E reparei na loura.

    - Diria que ela também reparou em ti. Lançaste-lhe a escada?

    - Credo, Dwight, ela é uma paciente.

    - O cão é que é o paciente. Estás a perder uma oportunidade de ouro, filho.

    - Esquece a minha vida sexual.

    - Não tens. - Dwight apoiou-se nos cotovelos e sorriu. - Se eu fosse solteiro e semifeio como tu, teria trazido aquela loura para cima desta mesa, e não aquele cão grande e peludo.

    - E quem te disse que não fiz isso?

    - Só em sonhos.

    - Ah, mas os sonhos são meus, não são? Porque não estás em casa a lavar as mãos para o jantar, como um menino bem-comportado?

    - A Lissy tem uma série de mulheres lá em casa, por causa de uns Tupperware, ou qualquer coisa assim. Não posso ir para casa.

    - É maquiagem. - Wade fechou a porta do armário. - A minha mãe também vai.

    - Seja que diabo for. Sabe Deus que aquela mulher não precisa de mais pinturas para a cara nem de mais tigelas de plástico, mas aborrece-se de morte quando está grávida. Por isso, que tal irmos beber uma cerveja e comer qualquer coisa? Como nos velhos tempos.

    - Tenho coisas para fazer aqui. - Faith podia aparecer, pensou.

    - Vá lá, Wade. Só umas horas.

    Começou a recusar outra vez. Que diabo se passava com ele, a fechar-se neste apartamento, à espera que Faith telefonasse? Era tão mau como uma adolescente a suspirar atrás de uma estrela de futebol. Pior.

    - Pagas tu.

    - Merda. - Animado, Dwight saltou da marquesa. - Vamos telefonar ao Cade, a dizer-lhe para ir ter conosco. Depois, fazemo-lo pagar o jantar.

    - É uma idéia.

   

    Não esperava sentir-se nervosa. Estava preparada. Verificara e voltara a verificar todos os pormenores, até a cor e o peso da fita para atar as caixas. Tinha experiência e conhecia cada objeto que tinha na loja quase tão bem como os artistas que os tinham criado.

    Ultrapassara cada passo e cada fase da criação da sua loja com calma e, quase sempre, com olho clínico e mão firme. Não havia erros, falhas ou imperfeições.

    A loja em si tinha um ar perfeito, calorosa, acolhedora e luminosa. Por sua vez, ela tinha um ar profissional e eficiente. Estranho seria se assim não fosse, pois passara a hora entre as três e as quatro da manhã numa agonia, a escolher a roupa, antes de se ter decidido pelas calças azul-marinho e pela camisa branca de linho.

    Agora estava preocupada, porque talvez se parecesse demasiado com um uniforme. Agora estava preocupada com tudo.

    A menos de uma hora da abertura, todos os nervos e dúvidas e medos que conseguira ignorar durante meses caíram-lhe em cima como pedaços de tijolos.

    Ficou sentada no escritório, à escrivaninha, com a cabeça entre os joelhos.

    A sensação de náusea e de fraqueza insultava-a, envergonhava-a. Quando estava prestes a desfalecer, ralhou consigo própria. Era mais forte do que aquilo. Tinha que ser. Não podia ter chegado tão longe, trabalhado tanto, e depois cair a alguns centímetros da meta.

    As pessoas viriam. Não estava preocupada com o número de pessoas. Elas viriam e ficariam de boca aberta, e lançar-lhe-iam olhares rápidos e curiosos, que ela já estava habituada a que lhe lançassem quando andava pela cidade.

    A miúda Bodeen. Lembram-se dela. Uma coisinha pequena e estranha.

    Não podia deixar que isso a afetasse. Mas, oh! Claro que afetava. Fora uma loucura voltar ali, ali onde toda a gente a conhecia, onde nenhum segredo ficava verdadeiramente guardado. Porque não ficara em Charleston, onde era seguro, onde a sua vida era tranquila e a sua privacidade completa?

    Ali sentada, com a pele úmida e o estômago às voltas, sentiu desesperadamente a falta da sua casa bonita e acolhedora, do seu jardim bem cuidado, da rotina do seu trabalho, exigente mas impessoal, na loja de outra pessoa. Ali sentada, teve saudades do anonimato em que conseguira encerrar-se durante quatro anos sem sobressaltos.

    Nunca devia ter voltado. Nunca devia ter-se arriscado a si própria, às suas economias, à sua paz de espírito. O que lhe teria passado pela cabeça?

    Hope, admitiu, e levantou lentamente a cabeça. O que lhe passara pela cabeça fora Hope.

    Louca, inconsequente, pensou. Hope estava morta e partira, e ela não podia fazer nada para alterar isso. Agora, tudo aquilo por que trabalhara estava em risco. E para evitar o descalabro, teria de enfrentar os olhares e os falatórios.

    Quando ouviu bater à porta da loja, o seu primeiro instinto foi gatinhar e esconder-se atrás da escrivaninha, enrolada sobre si mesma, com as mãos nos ouvidos. O fato de quase o ter feito, de conseguir ver-se ali encolhida, obrigou-a a pôr-se de pé.

    Tinha trinta minutos até à hora de abertura, trinta preciosos minutos para se recompor. Quem quer que estivesse a bater à porta teria que ir-se embora.

    Endireitou os ombros, passou a mão pelo cabelo, para alisá-lo, e depois preparou-se para dizer a quem estava à porta e que chegara adiantado que teria que voltar às dez.

    Viu o rosto da avó do outro lado do vidro e correu para a porta. - Avó, oh, avó! - Lançou os braços ao pescoço de Íris e agarrou-se a ela como se estivesse suspensa de um rochedo. - Estou tão contente por vê-la. Não pensei que viesse. Estou tão contente por tê-la aqui!

    - Achaste que eu não vinha? Para a tua grande inauguração? Ora, estava ansiosa por chegar. - Empurrou Tory suavemente para dentro da loja. - Deixei o Cecil doido, a dizer-lhe constantemente que acelerasse mais. Lá está o Cecil, atrás do milho, e a Boots atrás da montanha que é o Cecil.                         

    Tory inspirou pesadamente e depois conseguiu soltar uma gargalhada quando Cecil espreitou por entre as folhas compridas como espadas.

    - É maravilhoso, e a avó também. Vocês todos. Vamos pô-lo... - Olhou em volta, avaliando espaço e impacto. - Ali mesmo, no final daquele armário envidraçado. Era mesmo o que precisava.

    - A mim parece-me que não precisas de nada - comentou Íris.

    - Tory, este lugar está tão perfeito como uma noiva de junho. Tantas coisas bonitas. - Passou o braço pelos ombros de Tory, observando a loja, enquanto Cecil colocava a planta ornamental no seu lugar. - Sempre tiveste bom gosto.

    - Mal posso esperar para comprar alguma coisa. - Boots, resplandecente como uma moeda nova no seu vestido amarelo, bateu palmas como uma garota. - Quero ser a primeira a comprar-te qualquer coisa hoje, e avisei o J.R. de que ia ficar com o cartão de crédito a arder.

    - Tenho um extintor. - Tory riu e virou-se, para abraçá-la.

    - E muitas coisas que se partem. - Acautelando-se, Cecil pôs as mãos nos bolsos. - Faz-me sentir desajeitado.

    - Quem parte, paga - disse Íris com uma piscadela de olho. - Muito bem, pote de mel, o que podemos fazer?

    - Estarem aqui já é suficiente. - Tory soltou um longo suspiro. - Não há mesmo nada para fazer. Mais pronta não podia estar.

    - Nervosa?

    - Aterrorizada. Só preciso de arranjar o chá e as bolachas e manter as mãos ocupadas durante os próximos minutos. Depois... - Virou-se quando ouviu o som metálico vindo da porta.

    - Entrega para si, Srta. Bodeen. - O rapaz da florista trazia uma caixa branca e brilhante.

    - Obrigada.

    - A minha mãe vem até aqui mais tarde. Disse que queria ver como ficavam os arranjos, mas eu espero que ela queira ver o que tem para vender.

    - Fico à espera dela.

    - Coisas aqui não faltam. - Esticou o pescoço para dar uma vista de olhos, enquanto Tory tirava um dólar da gaveta do dinheiro. - Acho que as pessoas devem estar chegando. Não se fala noutra coisa.

    - Espero que sim.

    Meteu no bolso a nota que Tory lhe estendia.

    - Obrigado. 'Té logo.

   

    Tory pousou a caixa em cima do balcão e tirou o cordel. Estava cheia de gerbérias de cores vivas e de girassóis grandes e refrescantes.

    - Que bonitas! - Íris inclinou-se sobre o ombro de Tory, para ver melhor. - E ficam mesmo bem aqui. As rosas não condizem com a tua cerâmica, nem com a madeira. Alguém teve sensibilidade para te mandar flores bonitas e adequadas.

    - Sim. Já abrira o cartão. - Alguém que parece saber sempre qual é a coisa certa a fazer.

    - Ai, são tão queridas, são tão bonitas! - Boots passou as mãos pelas flores. - Tory, querida, vais pôr-me louca se não me disseres quem tas mandou.

    Boots pegou no cartão que Tory lhe estendia.

    - «Boa sorte no teu primeiro dia. Cade.» Uau!

    Inclinando a cabeça, Íris apertou os lábios.

    - Será o Kincade Lavelle?

    - Sim, será.                   .                                                       

    - Hummm.

    - Hummm porquê? Está apenas a ser atencioso.

    - Quando um homem manda flores a uma mulher, as flores certas, é porque tem essa mulher na cabeça. Não é verdade, Cecil?

    - Acho que sim. Quando se quer ser atencioso oferece-se uma planta. As flores significam romance.

    - Ora, aí está. Vêem porque é que eu amo este homem? - Íris puxou-o pela camisa para o fazer baixar e dar-lhe um beijo, deixando Boots com um sorriso radioso.

    - As gerbérias e os girassóis são apenas um gesto de amizade - corrigiu Tory, mas teve de resistir a suspirar por causa delas.

    - Flores são flores - disse Boots com firmeza. - Quando um homem as manda significa que está a pensar numa mulher. - E agradou-lhe sinceramente a idéia de Cade Lavelle estar a pensar na sua sobrinha. - Agora, vai lá arranjá-las, que eu vou pôs as bolachas num prato. Não há nada que me agrade mais do que preparar as coisas para uma festa.

    - Não se importa? Tenho uma das jarras raku no depósito. É perfeita para estas flores, e o conjunto vai acrescentar um belo efeito ao balcão.

    - Vai lá, então. - Íris apressou-a. - E dá-nos instruções para as coisas que precisam de ser feitas. Vamos lá pôr isto em marcha.

    Os primeiros clientes entraram às dez e um quarto, com Lissy à frente. Tory decidiu guardar todos os pensamentos desagradáveis sobre Lissy quando ela começou a guiar as amigas pela loja e a soltar pequenas exclamações de satisfação.

    Por volta das onze, tinha quinze clientes a cirandar pela loja e já fizera quatro vendas.

    À hora do almoço estava demasiado ocupada para estar nervosa. Havia olhares e havia segredinhos. Aos seus olhos e aos seus ouvidos chegou mais do que um, mas ela envolveu em aço a sensação de desconforto e embrulhou os artigos escolhidos pelos curiosos.

    - Era amiga da garotinha Lavelle, não era?

    Tory continuou a embrulhar os candelabros de ferro em papel pardo.

    - Sim.                                                                                                                                         

    - Uma pena terrível o que lhe aconteceu. - A mulher, com os seus olhos afiados de águia fixos no rosto de Tory, inclinou-se para a frente, ficando mais próxima. - Pouco mais do que um bebê. Foi você que a encontrou, não foi?                                             

    - Foi o pai dela que a encontrou. Quer uma caixa ou um saco?

    - Uma caixa. São para a filha da minha irmã. Casa-se no mês que vem. Acho que andou na escola com ela. Kelly Anne Frisk.

    - Não me lembro de muitas das pessoas com quem andei na escola. - Tory mentiu com um sorriso agradável, enquanto metia os artigos na caixa. - Foi há tanto tempo. Quer que embrulhe para presente?

    - Eu faço isso, querida. Tens outros clientes - interrompeu Íris. - Com que então a Kelly Anne vai casar. Acho que me lembro muito bem dela. É a filha mais velha da Marsha, não é? Meu Deus, como o tempo passa!

    - A Kelly Anne teve pesadelos durante um mês depois daquilo da garota Lavelle. - A mulher disse aquilo com uma satisfação tranquila, que ressoou nos ouvidos de Tory quando ela saiu.

    Tory sentiu-se tentada a esgueirar-se até às traseiras, apenas para respirar até conseguir que o coração parasse de bater como louco. Mas optou por virar-se para uma mulher morena que se debatia com a escolha de uma tigela de servir.

    - Posso ajudá-la?

    - É difícil decidir, com tantas opções bonitas. A JoBeth Hardy, a tia da Kelly Anne, ali? É uma mulher muito desagradável. E é difícil responder àquelas observações dela. Você sempre foi uma pessoa cuidadosa e reservada. Não deve lembrar-se de mim.

   

    A mulher morena estendeu-lhe a mão.     

    - Não, desculpe.

    - Bem, naquela altura eu era bastante mais nova, e você não estava na minha turma. Eu era professora, e continuo a ser, do segundo ano da escola primária de Progress. Marietta Singleton.

    - Ah! Miss Singleton! Claro que me lembro. Desculpe. Prazer em voltar a vê-la.

    - Tenho estado ansiosa pela abertura da loja. Pensei várias vezes no que seria feito de si, ao longo destes anos todos. Talvez não saiba que fui amiga da sua mãe. Anos antes do seu nascimento, claro. O mundo é pequeno.

    - Pois é.

    - Às vezes, um pouco pequeno de mais. - Olhou na direção da porta quando Faith entrou. As duas cruzaram olhares e soltaram-se faíscas antes de Marietta lhe virar as costas para voltar a observar as taças. - Mas temos que viver com isso. Acho que vou levar esta aqui, a azul e branca é muito bonita. Não se importa de guardá-la atrás do balcão enquanto dou mais uma olhada?

    - Claro que não. Vou buscar-lhe uma, empacotada, no depósito.

    - Victoria. - Marietta baixou a voz e passou a mão pelas costas de Tory. - Teve muita coragem, para regressar aqui. Sempre teve muita coragem.

    Afastou-se enquanto Tory ficava parada, confusa e surpreendida pela onda de dor que se desprendera da mulher e pairava no ar.

    Foi até ao depósito para deixar assentar idéias e para ir buscar a taça, e ficou aborrecida quando Faith entrou atrás dela.

    - O que é que aquela mulher queria?

    - Desculpa. Mas aqui é só para empregados.

    - O que é que ela queria?

    - A Marietta? - Friamente, Tory tirou a taça da prateleira. - Isto. Algumas pessoas que aqui vêm querem comprar coisas. Por isso é que isto se chama uma loja.             .

    - O que é que ela te disse?

    - E porque é que isso seria da tua conta?

    Faith cerrou os dentes e tirou um maço de cigarros da bolsa.

    - Não se pode fumar aqui.

    - Raios! - Voltou a meter os cigarros na bolsa e começou a andar de um lado para o outro. - Aquela mulher não tem nada que andarilhar pela cidade.    

    - Aquela mulher pareceu-me perfeitamente simpática. E eu não tenho tempo para as tuas irritações nem para as tuas bisbilhotices. - Embora não pudesse negar que a sua curiosidade estava a aumentar. - Agora, a não ser que me queiras ajudar a repor artigos ou voltar a encher o jarro do chá gelado, vais ter de sair.

    - Não a considerarias tão simpática se ela andasse enrolada com o teu pai. - Com aquela explosão de fúria, Faith deu meia volta e preparou-se para abrir a porta. Tory lembrava-se muito bem do gênio de Faith e, colocando-se em antecipação, pousou a tigela e pôs uma mão na porta antes de Faith conseguir abri-la.

    - Não te atrevas a fazer uma cena. Não te atrevas a trazer os teus problemas familiares para a minha loja. Se quiseres armar uma briga de gatos, vai para outro lugar.

    - Não vou fazer uma cena. - Mas estava fora de si. - Não tenho intenção de dar motivos para falatórios às pessoas que aqui estão. E esquece o que eu disse. Não devia tê-lo dito. Tivemos muito trabalho para abafar a relação do meu pai com aquela mulher. Por isso, se eu ouvir alguma coisa, vou saber que foste tu que começaste.

    - Não me ameaces. Os tempos em que me amedrontavas já lá vão, por isso recolhe as garras, se não quiseres que eu te responda.

    Teria deixado as coisas por ali, estava suficientemente zangada para isso, mas viu o lábio de Faith tremer. Num pequeno laivo de emoção, Tory viu Hope.

    - Porque não te sentas e ficas aqui um minuto? Vá lá, senta-te até te acalmares. Se saíres daqui assim não vai ser preciso fazeres uma cena para as pessoas falarem. Além disso, nesta altura estão se divertindo imenso a falar sobre mim.

    Abriu a porta e olhou para trás.

    - Não se pode fumar - repetiu, e fechou a porta atrás de si. Faith deixou-se cair numa cadeira e, olhando para a porta, tirou os cigarros da bolsa. Voltou a guardá-los de imediato, com ar culpado, quando a porta se abriu outra vez.

    Mas, em vez de Tory, foi Boots que entrou no quarto. Lá porque estava a divertir-se imenso às voltas pela loja, não queria dizer que estivesse cega a sutilezas. Vira o fogo da raiva no rosto de Faith, tal como via agora a infelicidade e o embaraço.

    - Aquilo ali fora está de mais. - Falou animadamente, agitando a mão diante do rosto. - Preciso de um minuto longe da multidão. - E pensou que era a oportunidade perfeita para encurralar a mulher que tinha Wade embrulhado em nós.

    - Porque não se senta, Miss Boots? - Faith apressou-se a levantar-se. - Eu estava mesmo de saída.

    - Oh, faz-me companhia por um instante, está bem, querida? Estás tão bonita hoje. Pensando bem, estás sempre.

    - Obrigada. Posso dizer o mesmo de si. - Agora que estava de pé, Faith desejou ter qualquer coisa que fazer com as mãos. - E deve estar muito orgulhosa da Tory, hoje.

    - Sempre estive orgulhosa dela. E como vai a tua mãe?

    - Está bem.

    - Há muito tempo que não está de outra maneira. Não te esqueças de lhe dar os meus cumprimentos. - Sorrindo naturalmente, Boots aproximou-se da caixa da padaria e pegou num bolinho. - Não viste o Wade hoje, pois não? Espero que ele consiga vir até cá.

    - Não, ainda não o vi hoje. - Ainda.

    - Aquele rapaz trabalha tanto. - Suspirou e mordiscou o bolinho coberto de açúcar. - Quem me dera que ele assentasse, encontrasse uma mulher que o ajudasse a construir um lar.

    - Hã-hã.

    - Ora, não vale a pena ficares atrapalhada, querida. - Boots continuou a mordiscar o bolinho, e os seus olhos eram suficientemente perspicazes para apanhar até uma borboleta esperta como Eaith. - Ele é um homem feito e tu és uma mulher bonita. Porque não haviam de sentir-se atraídos um pelo outro? Sei que o meu rapaz tem uma vida sexual.

    Bem, ali estava, pensou Eaith.

    - Mas preferia que não a tivesse comigo.

    - Ora, ora, eu não disse nada disso. - Pegou noutro bolinho e ofereceu-o a Faith. - Estamos as duas sozinhas, Faith, e as duas somos mulheres. Isso quer dizer que ambas sabemos como levar um homem a fazer uma coisa que queremos que ele faça, pelo menos quase sempre. Tu tens uma veia selvagem. Não me importo. Talvez eu tenha pensado noutro tipo de mulher para o meu Wade, mas ele pensa em ti. Adoro-o, por isso quero para ele o que ele quer para si próprio. E parece que és tu.

    - O que há entre nós não é bem isso, Mistress Mooney.

    A formalidade divertiu Boots. Se não estava enganada, isso queria dizer que Eaith se sentia intimidade.

    - Não? Não paras de andar atrás dele, pois não? Alguma vez te perguntaste porquê? Não - disse ela, erguendo um dedo rematado por uma unha envernizada de cor-de-rosa. - Talvez devesses pensar nisso. Quero que saibas que gosto de ti, sempre gostei. Isso te surpreende?

    Estupidificava-a.                 

    - Sim, acho que sim.

    - Pois não devia surpreender. És uma jovem esperta e inteligente, e não tens tido uma vida tão fácil como há quem pense. Gosto bastante de ti, Faith. Mas se voltas a magoar o meu Wade, vou ter que abanar esse teu pescoço lindo, como se fosse um galho.

    - Bem. - Faith deu uma dentada no bolinho e semicerrou os olhos. - Isso deixa tudo claro.

    De súbito, o rosto de Boots voltou a suavizar-se e os seus olhos tornaram-se suaves e sonhadores como sempre. Soltou uma gargalhada leve e musical e, para confusão de Faith, envolveu-a num abraço e beijou-a na face.

    - Gosto mesmo de ti. - Com o polegar, limpou a marca de batom do rosto de Faith. - Agora senta-te e come o teu bolinho, até te sentires um pouco melhor. Como já me sinto bem, acho que vou lá para fora, comprar qualquer coisa. Não há nada melhor do que fazer compras, pois não? - acrescentou, enquanto abria a porta.

    - Credo! - Sem fala, Faith sentou-se. E comeu o bolinho.

    Tory estava ocupada, mas viu Faith sair dez minutos depois. Tal como viu chegar Cade, com a Tia Rosie a reboque, no momento da primeira calmaria da tarde.

    Era impossível não reconhecer Rosie Sikes LaRue Decater Smith. Aos sessenta e quatro anos, a mulher passara tão despercebida como no baile de debutantes, em que chocara a sociedade ao dançar um jitterbug, descalça, no campo de tênis do country club. Casara com Henry LaRue, dos Savannah LaRue, quando tinha dezessete anos, e perdera-o na Coreia, antes do primeiro aniversário de casamento.

    Fizera um luto de seis meses, e depois optara pelo papel de viúva alegre, ostentando um caso tórrido com um artista em ascensão, e suspeito de ser comunista, com quem casara aos vinte anos. Tanto ela como o artista eram partidários do amor livre, e organizavam o que muitos consideravam orgias, na sua propriedade de Jekyll Island.

    Enterrou o segundo marido após dezanove anos tumultuosos, quando ele caiu da janela de um terceiro andar depois de ter passado a noite com uma garrafa de brandy Napoleão e uma modelo de vinte e três anos.

    Houve quem dissesse que a história envolveu crime, mas nunca se provou nada.

   

    Com a bela idade de cinquenta e oito anos, casou com um admirador de longa data, mais por pena do que por amor. Ele morreu dois anos depois, no segundo aniversário de casamento, após ter sido despedaçado e meio devorado por um leão, durante a viagem que fizeram a África, em segunda lua-de-mel.

    O fato de ter enterrado três maridos e um número indizível de amantes não ensombrara o estilo de Rosie. Usava uma peruca, pelo menos Tory achou que era uma peruca, de um louro-platinado, um vestido vaporoso, até aos pés, de riscas vermelhas e brancas como um toldo, e jóias suficientes para fazer cair uma mulher menos bem constituída. Tory viu o brilho dos diamantes por entre as contas de plástico. - Brinquedos. - disse ela, numa espécie de guincho enferrujado, e esfregou as mãos. - Afasta-te, rapaz, estou com vontade de fazer compras.

    Ziguezagueou até ao armário envidraçado onde estavam os pesos-de-papéis de vidro soprado, e começou a empilhá-los na dobra do cotovelo. Meio divertida, meio alarmada, Tory apressou-se a ir ter com ela.

    - Posso ajudá-la, Miss Rosie?                                  

    - Preciso de seis. Os seis mais bonitos.

    - Sim, claro. São presentes?

    - Presentes, uma ova. São para mim. - Sem qualquer cuidado, fez os objetos de vidro tilintar uns contra os outros e fez o coração de Tory parar.

    - Talvez seja melhor eu pôr estes em cima do balcão.

    - Muito bem, são pesados. - Os olhos de Rosie, sob o peso de umas pestanas postiças que se assemelhavam desconcertantemente a aranhas, fixaram-se no rosto de Tory. - És a rapariga que costumava brincar com a pequena Hope.

    - Sim, minha senhora.

    - Lembro-me que gostava de ti. Uma vez, uma cigana leu-me a palma da mão, na Transilvânia. Disse que eu teria quatro maridos, mas diabos me levem se quero outro. - Rosie estendeu uma mão, coberta de anéis e pulseiras. - Que me dizes?

    - Desculpe. - Em vez de se sentir perturbada, Tory estava maravilhosamente divertida. - Não leio a palma da mão.

    - Então, folhas de chá, ou qualquer coisa assim. Um dos meus amantes, um jovem de Boston, dizia que era a reencarnação de Lorde Byron. Não é coisa que se espere ouvir da boca de um ianque, pois não? Cade, vem cá e pega nestas coisas de vidro. De que serve ter um homem conosco se não pudermos usá-lo como burro de carga? - disse ela a Tory, piscando o olho.

    - Não faço idéia. Quer chá gelado, Miss Rosie? Bolinhos?

    - Primeiro, vou ganhar apetite. Vejamos, que raio é esta coisa? - Pegou numa tábua de madeira polida, com um buraco.

    - É para segurar uma garrafa de vinho, deixá-la repousar.

    - Não é o máximo? O que levará alguém a deixar uma garrafa de vinho repousar transcende-me. Embrulhe-me dois. Lucy Talbott! - Lançou um grito a outra cliente, do outro lado da loja. E partiu na direção dela como um foguete, com as riscas vermelhas e brancas a flutuar.

    - Não se consegue mudar a Tia Rosie - disse Cade, com um sorriso. - E o teu dia, como está correndo?

    - Muito bem. Obrigada pelas flores. São lindas.

    - Ainda bem que gostaste. Espero que me deixes levar-te jantar fora, esta noite, para comemorar o teu primeiro dia.

    - Eu... - Já tinha pedido para ser dispensada da noite em casa do tio, prometendo estar presente no almoço de família de domingo, o dia seguinte. Ia estar cansada e cheia de adrenalina. Não ia ser uma boa companhia. - Gostaria muito.

    - Passo pela tua casa por volta das sete e meia. Está bom?

    - Sim, perfeito. Cade, a tua tia quer mesmo estas coisas todas? Não sei o que pode alguém querer fazer com seis pesos-de-papéis de vidro.

    - Vai gostar deles e depois vai esquecer-se de onde os comprou e inventar uma história qualquer sobre tê-los encontrado numa loja cheia de pó em Beirute. Ou dizqr que os roubou ao amante, o conde bretão, quando o deixou. E depois vai dá-los ao rapaz que distribui o jornal ou às próximas Testemunhas de Jeová que lhe baterem à porta.

    - Ah, bem...

    - Não a percas de vista. Tem tendência a meter coisas nos bolsos. Sem dar por isso - acrescentou, quando Tory abriu muito os olhos. - Vê bem o que ela mete ao bolso e depois põe na conta, no final.

    - Mas... - No preciso momento em que olhou para Rosie, viu-a meter um encosto para colher no bolso lateral do vestido. - Oh, por amor de Deus! - Tory apressou-se a ir ter com Rosie, deixando Cade a rir.

    - A Rosie não mudou nada - comentou Íris.            

    - Não senhora, nem um bocadinho. Abençoada. Como está, Miz Mooney?

    - Bastante bem. Tu também não pareces nada mal. Estás urn homem. Como está a tua família?

    - Está bem, obrigado.

    - Lamento, o teu pai. Era um bom homem, e interessante também. Nem sempre se consegue reunir ambas as características.

    - Suponho que não. Ele falava sempre muito bem da senhora.

    - Deu-me a oportunidade de ganhar a minha vida de forma decente depois de ter perdido o meu marido, a oportunidade de pôr comida na mesa para os meus filhos. Não me esqueço disso. Tens qualquer coisa dele nos olhos. És um homem justo como ele era, agora que cresceste, Kincade?

    - Tento ser. - Quando Rosie soltou um cacarejo e bateu nos amuletos para fazê-los cantar, Cade olhou e viu os olhos desesperados de Tory. - A Tory não tem mãos a medir.

    - Ela dá conta do recado. É boa para dar conta do recado. Às vezes, até um bocado boa de mais.

    - Vira-nos as costas quando queremos ajudar.

    - É verdade - concordou Íris. - Mas quer-me parecer que queres mais da Tory do que ajudá-la. Diria que há qualquer coisa mais básica na tua idéia, e tal como espero ter razão nesta suposição gostaria de dar-te uma coisa que toda a gente precisa de tempos a tempos e que ninguém gosta de receber.

    Ele ajustou o peso dos pesos-de-papéis que continuava a carregar.

    - Um conselho?

    Ela olhou para ele, com um grande sorriso.

    - És um rapaz esperto. Sempre achei isso. Pois é, um conselho. Um pequenino. Não arrastes os pés. Se há coisa que uma mulher merece, pelo menos uma vez na vida, é ser arrebatada e sentir os seus pés no ar. Agora, dá cá uma dessas coisas antes que se partam.

    - Ela ainda não tem a certeza. - Cade entregou a Íris dois dos pesos-de-papéis e levou os outros dois para o balcão. - Precisa de tempo.

    - Ela te disse isso?

    - Mais ou menos.

    Íris revirou os olhos.

    - Homens. Sabes? Uma mulher só diz isso por uma de três coisas. Ou não está verdadeiramente interessada, ou é tímida, ou alguém a magoou antes. A Tory dir-te-ia logo se não estivesse interessada, não tem um único osso tímido no corpo, o que nos deixa a hipótese número três. Vês aquele homem ali?

    Perplexo, Cade olhou para o sítio onde Cecil dispunha bolinhos num prato, com as suas mãos do tamanho de presuntos.

    - Sim, senhora.

    - Se fizeres mal à minha menina, mando aquele urso velho atrás de ti com uma chave-inglesa. Mas como acho que não vais fazer isso, sugiro que mostres à Tory que há homens em quem se pode confiar.

    - Estou tentando.

    - Como a minha menina está tentando convencer-se de que vocês dois não são mais do que amigos, aconselhava-te a trabalhar mais depressa.

    Ora fica lá a remoer isso, pensou Íris, e depois afastou-se para tentar vender mais alguma coisa.

    - Meteu cinco argolas para guardanapos no bolso. - Às seis e dez, com a porta trancada e Cecil a dormitar no armazém, Tory deixou-se cair na cadeira, atrás do balcão, e deitou as mãos à cabeça. - Cinco. Se fossem quatro ou seis, eu ainda podia tentar entender. Mas que tipo de pessoa leva cinco argolas para guardanapos?

    - Não penses que ela estava a formar um conjunto.

    - Acrescenta dois encostos para colheres, três tampas de garrafa e um par de talheres de salada. Meteu-os no bolso enquanto eu estava mesmo ali, a falar com ela. Meteu-os no bolso, sorriu, e depois tirou o colar de contas de plástico e deu-mo.

    Ainda divertida, Tory tocou no colar que tinha ao pescoço.

    - Ela gosta de ti. A Rosie está sempre a dar coisas às pessoas de quem gosta.                         

    - Não acho certo cobrar-lhe aquelas coisas. Se calhar, ela nem as queria. Meu Deus, avó, ela gastou mais de mil dólares! Mil - repetiu, levando a mão ao estômago. - Acho que vou vomitar.

    - Não vais nada. Vais ficar toda contente assim que te acalmares. Agora, vou abanar o Cecil e levá-lo daqui, para poderes recuperar o fôlego. Aparece em casa do J.R. amanhã, por volta da uma. Há muito tempo que não temos a família reunida.

    - Lá estarei. Vó, não sei como lhe agradecer por ter ficado o dia todo. Deve estar cansada.

    - Os meus pés estão a começar a reclamar, e eu estou pronta a pô-los em cima de uma almofada e deixar a Boots dar-me um copo de vinho. - Inclinou-se para beijar Tory na face. - Vai festejar, ouviste?

    Festejar, pensou Tory, depois de ter anotado e limpado tudo, e fechado a loja. Mal conseguia pensar, quanto mais festejar. Conseguira ultrapassar aquele dia. Mais, disse a si própria, entorpecida, a caminho de casa. Provara que estava de volta, para ficar, para deixar uma marca.

    Desta vez não se tratava apenas de sobrevivência, mas de sucesso. Alguns podiam olhar para ela e ver a rapariga franzina de olhos vazios e roupas em segunda mão. Mas não importava. Mais iriam olhar e ver apenas o que ela fizera de si própria. O que queria ser.

    E ela faria com que o importante fosse isso.

    Não ia falhar e não ia fugir. Desta vez, ia finalmente vencer.

    Aquela sensação boa começou a instalar-se quando ela entrou no caminho de acesso à casa, quando viu a casa como fora e como era. Quando se viu a si própria, como fora e como era.

    Incapaz de continuar a conter-se, encostou a cabeça ao volante e deixou que as lágrimas rolassem.

   

    Estava sentada no chão, tentando não chorar. Só os bebês choravam. E ela não era um bebê chorão. Mas as lágrimas corriam, sem que ela conseguisse contê-las.

    Esfolara os joelhos e o cotovelo e a palma da mão, quando caíra da bicicleta. A pele arranhada ardia e sangrava. Quis ir ter com Lilah e ser abraçada e mimada e acalmada. Lilah dar-lhe-ia uma bolacha e fá-la-ia sentir-se melhor.

    Fosse como fosse, também não queria aprender a andar na estúpida da bicicleta. Odiava aquela bicicleta estúpida.

    Estava ao lado dela, um soldado derrubado, com uma roda ainda girando, troçando dela, enquanto ela tinha a cabeça apoiada nos braços e fungava.

    Tinha apenas seis anos.

    - Hope! Que diabo estás fazendo? - Cade correu pelo carreiro, com os tênis Nike a evidenciar-se no cascalho. O pai deixara-o à porta de Beaux Revés, dando-lhe liberdade para fazer o que quisesse durante o resto do dia. Todo o seu mundo parecia depender da rapidez com que ele conseguisse pegar na sua bicicleta e pedalar até ao pântano para se encontrar com Wade e com Dwight.

    E ali estava a sua linda e amada três velocidades toda amassada, com a sua irmãzinha estatelada ao lado dela.

    Não estava certo do que queria mais: gritar com ela ou acalmar a sua bicicleta ferida.

    - Bolas, olha para isto! Estragaste a pintura! Raios partam! - Disse a última frase entre dentes. Estava começando a experimentar praguejar, em segredo. - Não tinhas nada que ir pegar a minha bicicleta. Tens a tua.

    - É de bebê. - Ergueu o rosto e as lágrimas escorreram pela fina camada de sujeira que lhe cobria o rosto. - A mamãe não deixa o papai tirar as rodinhas.

    - Ora vê lá se sabes porquê. - Aborrecido, endireitou a bicicleta e lançou a Hope um ar superior. - Vai para dentro e diz à Lilah que te lave. E mantém os teus dedos pegajosos longe das minhas coisas.

    - Só quero aprender. - Passou a mão pelo nariz e através das lágrimas brilhou uma luz de desafio. - Podia andar tão bem como tu, se alguém me ensinasse.

    - Pois, pois. - Riu com ar de troça e montou a bicicleta. - Não passas de uma garotinha.                                                                :

    Nessa altura, ela pôs-se de pé de um salto, com o peito magro a arquejar de insulto.

    - Vou crescer - disse entre dentes. - Vou crescer e vou andar mais depressa do que tu e toda a gente. Depois, vais me pedir desculpas.

    - Oh, estou a tremer. - O divertimento voltou a surgir nos seus olhos azuis, enrugados nos cantos. Se um tipo tinha de aturar duas irmãs pequenas, o mínimo que podia fazer era arreliá-las. - Vou ser sempre maior, vou ser sempre mais velho, vou ser sempre mais rápido.

    O lábio de baixo tremeu-lhe, num sinal inequívoco de que mais lágrimas queriam correr. Ele lançou-lhe um olhar trocista, encolheu os ombros e começou a pedalar pelo carreiro acima, equilibrando-se momentaneamente numa só roda para provar os seus talentos superiores.                                                    Quando olhou para trás, de sorriso trocista, para ter a certeza de que ela vira as suas habilidades, viu que ela tinha a cabeça caída, com o cabelo pendurado para a frente, como uma cortina. Um fio fino de sangue escorria pelo seu tornozelo.

    Parou, revirou os olhos e abanou a cabeça. Os amigos estavam à espera. Havia um zilião de coisas para fazer. Metade do sábado já tinha ido ao ar. Não tinha tempo para gastar com raparigas. Especialmente com irmãs.

    Mas soltou um suspiro pesado e voltou para trás. Tão chateado com ela como consigo próprio, desmontou.

    - Anda lá. Raios partam!        

    Ela voltou a fungar, esfregou os olhos e olhou para ele.

    - Verdade?

    - Sim, sim, anda lá. Não tenho o dia todo.

    A alegria tomou conta dela, fazendo o coração bater mais depressa enquanto ela se sentava na bicicleta. Enquanto as suas mãos agarravam as pegas de plástico e ela ria nervosamente.

    - Presta atenção. Isto é um assunto sério. - Olhou para trás, na direção da casa, esperando que a mãe não pudesse vê-lo. Ia esfolar os dois no jantar.

    - Não, tens que... bem, centrar o corpo. - Ficou embaraçado ao dizer corpo, embora não soubesse bem porquê. - E olha sempre em frente.

    Ela olhou para ele, confiante, com um sorriso radioso como o sol que escorria por entre as folhas novas de primavera,    

    - Está bem.

    Ele lembrou-se de como o pai o ensinara a andar de bicicleta, e manteve a mão na parte de trás do assento, correndo um pouco quando ela começou a pedalar.

    A bicicleta balançava de forma cômica. Conseguiram andar três  metros antes de ela cair.

    Não chorou, nem hesitou em levantar-se e em voltar a montar. Ele teve de reconhecer que ela tinha coragem. Pedalaram e correram juntos, carreiro acima e carreiro abaixo, passando pelos velhos carvalhos, pelos narcisos com cara de sol, pelas tulipas jovens, enquanto a manhã dava lugar à tarde.

    A pele dela estava agora transpirada, e o coração continuava a bater, a bater, a bater. Mais de uma vez, mordeu o lábio inferior para não guinchar quando a bicicleta se inclinava. Ouvia a respiração dele perto do ouvido dela, sentia a mão dele segurá-la. E sentiu-se cheia de amor por ele.

    Mais do que por ela, era agora por ele que estava decidida a conseguir.

    - Eu consigo. Eu consigo - murmurava para si própria, enquanto a bicicleta se inclinava e era endireitada. Os olhos semicerravamm, na concentração feroz de uma criança que tinha apenas um objetivo, um mundo, um caminho. As pernas tremiam-lhe e os músculos dos  braços estavam tensos como tambores.

    A bicicleta inclinava-se debaixo dela, mas não caía. E, de repente, Cade estava a correr ao lado dela, com um sorriso radioso na cara.

    - Estás conseguindo! Continua, estás conseguindo!

    - Estou andando! - Debaixo de si, a bicicleta transformou-se num cavalo majestoso. Com a cara levantada, pedalou veloz como o vento.

    Tory acordou no chão, ao lado do carro, com os músculos a tremer, a pulsação descompassada, com uma dor feita de alegria e perda no coração.

    

    Só se lembrou do jantar alguns minutos antes de Cade bater à porta. Mal tivera tempo de lavar a cara e de disfarçar os vestígios do choro e do que se lhe seguira, e não tivera tempo de pensar numa desculpa aceitável para mandá-lo embora.

    Não conseguia deixar de pensar no assunto. As lágrimas tinham-na deixado vazia, a mente e o corpo. O regresso ao passado de Hope trouxera-lhe desconforto e dor.

    E emoção. Essa era a parte mais estranha, admitiu. A emoção da primeira vez em que andara de bicicleta, a felicidade pura de deslizar por aquele carreiro sombreado, com Cade a correr ao seu lado.

    A forma como os olhos dele, tão azuis, riam nos dela.

    O amor que sentira por ele, o amor inocente de uma irmã, ainda luzia dentro de si e misturava-se, perigosamente, como sabia, com as suas próprias emoções, que eram muito adultas e nada tinham a ver com laços de família.

    A mistura tornou-a vulnerável, a si própria e a ele. Era melhor, mais sensato, estar sozinha até aquilo passar.

    Ia dizer-lhe que estava exausta, demasiado cansada para comer. Isso, pelo menos, seria verdade.

    Ele era um homem razoável. Quase demasiado razoável, disse a si própria. Iria compreender e deixá-la sossegada.

    Quando abriu a porta, ele estava ali, de caçarola na mão. Os vizinhos, pensou ela, traziam comida quando alguém morria. Bem, os seus pés estavam mortos, por isso pareceu-lhe razoável.

    - A Lilah mandou isto. - Entrou e entregou-lhe a caçarola. - Disse que quem trabalha como tu trabalhaste não devia ter que fazer o jantar, ainda por cima. Tens instruções para pores isto no congelador e prepará-lo da próxima vez que chegares a casa e precisares de sentar-te com os pés numa almofada. O que - acrescentou ele, continuando a observar-lhe o rosto - parece ser esta noite. Sim, pensou ela, quase demasiado razoável.

    - Ainda não tinha percebido como estava cansada. Agora que acabou tudo, estou de rastros.

    - Estiveste chorando.

    - Reação a posteriori. Alívio. - Levou a caçarola para a cozinha, para guardá-la, e depois pensou no que iria fazer a seguir. - Sobre esta noite, desculpa. Foi uma boa idéia, sair para festejar. Talvez daqui a uns dias possamos... - Virou-se e chocou contra ele, ficando encostada à bancada.

    Houve uma explosão de desejo. Dela, dele, não teve a certeza.

    - Tiveste muito que fazer, hoje. - Não lhe deu espaço. Achou que já lhe tinha dado o suficiente. Pousou as palmas das mãos na bancada, uma de cada lado de Tory. Prendeu-a ali. Viu-lhe nos olhos que ela percebeu o movimento. Viu que ela ficou alerta. - Muitas pessoas, e as recordações que trazem com elas.

    - Sim. - Começou a mexer-se e percebeu que não podia ir para lado nenhum. O seu sangue estava quente, pensou com algum embaraço. Quente, rápido e ávido. - As recordações pareciam seixos atirados com uma fisga.

    Que tinham acabado por derrubá-la.

    - Todas dolorosas.

    - Não. - Meu Deus, não me toques. Mas no momento em que ela pensou isto, as mãos dele pousaram nos ombros dela e começaram a descer-lhe pelos braços. Tudo dentro dela começou a pulsar. - Foi maravilhoso ver a Lilah... e o Will Hanson. Está muito parecido com o pai. Quando era pequena, Mister Hanson, o velho Mister Hanson, costumava fiar-me Grape Nehi quando eu não tinha dinheiro. Coisa que acontecia muitas vezes. Cade...

    O nome dele soou quase como uma súplica. Não saberia dizer porquê.

    Estava tremendo. Os pequenos calos que ele tinha nas palmas das mãos eram maravilhosamente estimulantes.

    - Gostei de te ver, hoje. Toda arranjada. Calma e fresca. Fico sempre pensando no que se passa debaixo dessa capa.

    - Estava nervosa.

    - Não se notava. Pelo menos da maneira como se nota agora. Baixa as defesas, Tory. Quero que baixes as defesas. Vou aproveitar-me disso.

    - Cade, não tenho nada para dar-te.    

    - Então, porque estás a tremer? - Tirou-lhe a fita do cabelo e ouviu a ligeira alteração da respiração dela. Fixou os olhos nos dela, vendo as íris escurecerem enquanto ele lhe penteava o cabelo com os dedos e desfazia o apanhado. - Porque não me mandas parar?

    - Eu... - Estaria sentindo os joelhos fraquejarem? Esquecera-se de que isso podia ser uma sensação maravilhosa. Rendição nem sempre significava fraqueza. - Estou pensando nisso.

    Ele sorriu, um sorriso divertido e com um prenúncio de força.

    - Então, vai pensando. Eu vou-me aproveitando. - Desapertou-lhe o primeiro botão da camisa, depois o segundo.

    Ele ensinara Hope a andar de bicicleta, pensou Tory. Tinha apenas dez anos e fora homem suficiente para se preocupar.

    Hoje tinha-lhe mandado flores. As flores certas, porque sabia que iriam agradar-lhe.

    Agora estava a tocar-lhe como ninguém lhe tocava havia muito tempo.

    - Estou destreinada.              

    Ele desapertou o terceiro botão.                                

    - De pensar?

    - Não. - A respiração dela soltou-se num riso trémulo. - Penso quase sempre muito bem.                                  

    - Então, pensa nisto. - Deu um pequeno puxão na camisa, para desprendê-la do cinto das calças. - Quero tocar-te. Quero sentir a tua pele com as minhas mãos. Assim. - Passou as mãos nas costas dela, para cima e para baixo. O estômago dela tremeu quando ele lhe desapertou as calças. - Não, fica com os olhos abertos.

    Curvou-se sobre ela e mordeu-lhe o queixo. Uma pequena mordidela que lhe enviou uma dor ao centro do corpo.

    - Como estás destreinada, vou guiar-te. E quero que olhes para mim enquanto estou a tocar-te.

    Olha sempre em frente, dissera ele a Hope. E segurara-a.

    - Quero olhar para ti - disse-lhe ela.

    Ele abriu o fecho, lentamente, com os nós dos dedos a roçarem a pele dela. O leve gemido que ela soltou troou-lhe nos ouvidos.

    Passara tanto tempo desde a última vez que um homem a desejara. Desde que um homem a fizera desejar. Quis ficar tensa, rígida, à idéia de invasão da privacidade, de invasão do seu ser. Mas o corpo dela o desejava.

    - Tira os pés - murmurou ele, quando as calças dela lhe caíram aos pés. Quando ela pestanejou e abriu a boca para falar, ele cobriu-a com a dele. Suave e quente, tranquilizadora até, mesmo deixando transparecer a impaciência.

    Depois, os braços dele envolveram-na, deslizando-lhe pelas costas, enquanto ele a levava, numa valsa de sedução, até à porta. Os nervos seguiram o calor que lhe subiu à pele.

    - Cade.

    - Quero levar-te para a luz. - Ela já era dele. Nenhuma barreira, nenhuma dúvida o deteria. - Para poder ver-te quando estiveres debaixo de mim. Quando estiver dentro de ti.

    À porta do quarto, pegou-a no colo.

    - Há uma série de coisas que imaginei fazer-te nesta cama. Deixa-me experimentar.

    O sol brilhava, rico e dourado, na tarde de primavera. Derramava -se sobre a cama, derramou-se sobre o rosto dela quando ele a deitou. O colchão cedeu sob o peso dele, e ele entrelaçou os dedos nos dela. E a olhar para ela, sempre a olhar para ela, tomou-lhe a boca.

    Lentamente, primeiro, e docemente, até as mãos dela cederem sob as dele, até os lábios dela se tornarem suaves e se entreabrirem num convite. Ele sentiu o coração dela começar a bater mais devagar e de forma mais densa. E quando ela se abriu a ele, ele mudou de registro e deu início ao ataque.

    A urgência súbita apunhalou-a, chocando os sentidos, cortando os nervos. Ela arqueou o corpo quando o calor se enovelou no estômago e o gemido se estrangulou na sua garganta. Ele fê-la tremer convulsivamente com a boca.

    Não queria que ela se antecipasse. Queria todos os seus sentidos entorpecidos e a sua mente vazia de tudo, exceto de prazer. Pensaria nele, apenas nele. Ele faria com que assim fosse. Quando ela mergulhasse nele, ele tê-la-ia, finalmente.

    O corpo dela era leve, os músculos surpreendentemente firmes, quase rijos, num contraste delicioso com a pele delicada. Ele saboreou-a, enquanto uma parte dele pensava em como afastar aqueles nervos e destruir todas as barreiras.

    Puxou-a para cima, com rudeza, à beira de lhe deixar nódoas negras, arrancando-lhe outro gemido enquanto a cabeça lhe tombava para trás, com o cabelo solto. Depois, com as pontas dos dedos, fez passar as alças do sutiã pelos ombros. Os dedos dele dançaram levemente sobre os seios, e com o polegar circundou-lhe os mamilos, sobre o algodão.

    -Já te lembras agora?

    Ela sentia a cabeça tão pesada, a pele tão quente.

    - O quê?

    - Muito bem.              

    Ele desapertou-lhe o sutiã e atirou-o para o lado. Mas quando ela quis tocá-lo, ele segurou-lhe as mãos à cama, empurrando-as para trás até ela ficar com os braços esticados.

    - Quero que aproveites. Que aproveites até não poderes mais. Depois, podes soltar-te e dar. Tudo.

    A boca dele apossou-se da dela, movendo-se violentamente, arrebatando-a.

    Ela quis resistir, empurrá-lo antes que ele a arrastasse para lá de uma linha que ela jurara não voltar a atravessar. Mas a boca dele já voltava a tomar conta da boca dela, arranhando-a com os dentes, despertando com a língua pontos de prazer dentro dela. As costas dela arquearam-se, num convite, e os lábios dela começaram a sugá-lo. Pequenos gritos e gemidos, ela já não conseguia contê-los. Os braços tremiam-lhe de esforço, enquanto o seu corpo rejubilava. Uma agitação descontrolada tomava conta dela, querendo libertar-se.

    Um orgasmo intenso e rápido fê-la abrir muito os olhos, deixando-a entorpecida e embaraçada. Depois, ele puxou-a para si, agarrando-a com força. - Solta-te.

    Deitou-a de costas na cama, arrancando a camisa. Ela tinha o olhar enevoado, agora, a respiração tão ofegante como a dele. Desta vez, quando ela quis tocar-lhe, ele entrou no abraço dela.

    A boca dele tinha pressa, as mãos moviam-se com impaciência. Ela puxou-lhe as calças, desesperada, agora que os nervos tinham sido tragados pelo desejo. Ele atirou-as para o lado e depois fê-la voar quando a puxou subitamente pelas ancas e a tomou com a boca.

    As mãos dela agarraram com firmeza os ferros da cama, como ele imaginara. A cabeça dela descaiu-lhe para o lado, enquanto as sensações mais secretas a invadiam. O sabor dele, o cheiro dele inundavam-lhe os sentidos, extravasando-os até não existir mais nada. A respiração dela soltou-se, numa convulsão momentânea, antes do seu grito longo e inesperado de libertação.

    Ela sentiu as mãos liquefazerem-se e ele prendeu-as com as suas. Tinha o coração a bater descompassadamente, numa fúria de sangue. A derradeira luz do dia e a brisa da noite roçavam o rosto dela. O cabelo dela era uma massa solta sobre as almofadas, emoldurando-lhe o rosto afogueado.

   

    Ele nunca se esqueceria disto. E ela também não, prometeu a si próprio.

    - Abre os olhos. Tory, olha para mim. - Quando as pálpebras dela se abriram rapidamente, ele agarrou-se à última réstia de controle, inclinou a cabeça e beijou-a longamente, profundamente. - Diz o meu nome.

    A pressão voltara, o calor terrível e glorioso da pressão.

    - Cade.

    - Diz outra vez.

    Os dedos dela dobraram-se sob os dele. Teve vontade de chorar. Ou de gritar.                                                                     

    - Cade.       

    - Outra vez. - E mergulhou nela.

    A mente dela iluminou-se. Moveu-se com ele, ao encontro de cada impulso lento e suave. Absorvendo-o, alimentando-se de cada sensação, até ambos se transformarem numa celebração gloriosa.

    Cade, quente e firme dentro dela, o seu peso sólido, forte. A colcha macia nas costas dela, a barra de ferro contra as suas mãos. E os últimos raios de luz, acinzentando-se com o crepúsculo.

    Quando o ritmo aumentou, ela estava pronta, ansiosa e enlevada pela forma como os olhos dele, o seu azul espantoso, se mantinham fixos nos dela.

    - Fica comigo. - Ele estava perdido dentro dela, agora. A afogar-se nela, agora. O coração dele batia brutalmente contra o de Tory quando ele enterrou a cara nos cabelos dela.

    Com as mãos ainda entrelaçadas, deixaram-se ir.       

    Nunca tinha sido tomada tão completamente. Por ninguém. Nem pelo homem que amara. Tory achou que devia estar preocupada com isso, mas naquele momento não conseguia reunir energia para preocupações e análises.

    Ficou deitada debaixo dele enquanto o ar no quarto adquiria a suavidade do crepúsculo. Pela primeira vez em muito, muito tempo, sentia-se completamente descontraída, corpo e espírito.

    Tinha uma mão emaranhada no cabelo dele. Parecia certo deixá-la ali.

    Quando ele virou a cabeça e os seus lábios lhe roçaram o seio, sorriu, sentindo o prazer lânguido do gesto.

    - Parece que, afinal, comemoramos - murmurou ela, e pensou se seria má educação deixar-se adormecer, assim mesmo.

    - Vamos ter muito mais ocasiões para celebrar, daqui em diante. Desde que te ajudei a carregar esta cama até aqui que queria meter-te nela.

    - Eu sei. - Tinha os olhos quase fechados, mas sentiu-o mexer a cabeça outra vez, sentiu-o a olhar para ela. - Não foste muito sutil sobre o assunto.

    - Fui bem mais sutil do que queria. - Pensou em como pensara em ornamentar a primeira vez com música e luz de velas.

    - Saímo-nos bem sem elas - disse ela, sonolenta.

    - Sem o quê?

    - Sem a música e... - Abriu os olhos de repente, horrorizada, e fixou os dele, que a observavam. - Desculpa. Desculpa. - Tentou empurrá-lo. Libertar-se, mas o peso dele reteve-a.

    - Desculpa, porquê?

    - Eu não queria. - Pressionou as mãos contra a cama, agarrou a colcha, quase começando a tremer. - Não vai acontecer outra vez. Desculpa. Eu não queria.                                                 

    - Ler-me o pensamento? - Ele mexeu-se, de modo a poder apoiar-se nos cotovelos e pegar-lhe no rosto com as mãos. - Pára com isso.

    - Vou parar. Desculpa. Lamento imenso.              

    - Não, raios. Pára de desculpar-te. Pára de antecipar as minhas reações. E, raios partam, pára de pensar se e quando irei chatear-me contigo.

    Sentou-se e puxou-a para cima, para que ela pudesse olhar de frente para ele. O rosto dela perdera aquele brilho de cor e de felicidade e estava pálido, os olhos estavam aflitos, quase aterrorizados.

    Ele detestou isso.

    - Alguma vez te ocorreu que talvez haja alturas em que um homem não se importa que uma mulher lhe leia o pensamento?

    - É uma invasão de privacidade indesculpável.

    - Pois sim. - Para surpresa dela, ele rolou para o outro lado e fê-la rolar com ele, pelo que ela ficou deitada em cima do seu peito. - Parece-me que há uns minutos atrás invadimos a privacidade um do outro de uma forma bastante eficaz. Vai-me roubando um pensamento ou outro, que eu logo te digo se ficar chateado.

    - Não te entendo.

    - Devias ter uma boa pista, já que estou aqui deitado, nu, na tua cama. - Manteve um tom de voz propositadamente despreocupado.

    - Se isso não te serve, volta a observar bem e logo vês o que encontras.

    Ela não sabia se havia de sentir-se insultada ou horrorizada.

    - Não é assim.

    - Não? Então diz-me como é. - Quando ela abanou a cabeça, ele segurou-a pela nuca e começou a afagá-la. - Diz-me como é.

    - Eu não leio pensamentos. Não acontece por acaso, pelo menos quase nunca acontece. Só que estávamos muito próximos fisicamente.

    - Não consigo contra-argumentar.

    - E eu estava quase a dormir. Às vezes, pode aparecer quando me deixo ir, assim. Tu tinhas uma imagem na cabeça. Era uma idéia muito clara, muito distinta, e aconteceu. Luz de velas, a música a tocar, nós dois de pé, junto à cama. Vi-a na minha cabeça.

    - E o que tinhas vestido? - Quando ela abanou a cabeça, ele encolheu os ombros. - Deixa lá. Posso guardar esse para mim. Tu recebes imagens, imagens de pensamentos.

    - Às vezes. - Ele parecia tão descontraído, tão a vontade. Onde estava a fúria dele? - Meu Deus, tu me confundes.

    - Ainda bem, assim vais querer saber mais sobre mim. E isso funciona sempre assim?

    - Não, não. Porque quando se tem alguma decência, não se anda a espreitar os pensamentos privados dos outros. Consigo bloqueá-los. É simples, porque de qualquer forma eles só vêm ter comigo com esforço, ou se houver muita emoção de ambos os lados. Ou se eu estiver muito cansada.

    - Está bem. Então, da próxima vez que fizermos amor e tu estiveres a deixar-te dormir, o melhor é eu tirar da cabeça as mjnhas fantasias sobre a Meg Ryan.

    - Meg... - Perplexa, Tory voltou a sentar-se, cruzando automaticamente um braço sobre os seios. - Meg Ryan.

    - Perfeita, atraente, inteligente. - Cade abriu os olhos. - Parece ser o meu tipo. - Inclinou a cabeça e observou-a. - Estou tentando imaginar-te loura. Podia dar certo.

    - Não vou fazer parte de uma fantasia doentia que cozinhaste sobre uma atriz de Hollywood. - Impaciente, fez menção de sair da cama e voltou a achar-se deitada de costas, debaixo dele.

    - Vá lá, querida, só desta vez.                 

    - Não.

    - Meu Deus, tu riste. A Meg tem um riso sensual, assim. - Mordeu o ombro de Tory. - Agora estou excitado.           

    - Larga-me, seu idiota.

    - Não posso. - Cobriu-lhe o rosto de beijos, loucos e doces como os de um cachorro. - Sou vítima das minhas fantasias, não posso fazer nada. Ri outra vez. Estou a implorar-te.

    - Não! - Mas riu. - Não! Nem sequer penses em... Credo! - As gargalhadas e as tentativas de libertação pararam quando ele deslizou suavemente para dentro dela. Os lábios entreabriram-se-lhe e as mãos dela agarraram os quadris dele. - Não te atrevas a chamar-me Meg.

    Ele baixou a cabeça, contendo o riso enquanto voltava a fazê-la sua.

    Comeram a refeição que Lilah mandara e acompanharam-na com vinho. E voltaram para a cama, com a avidez e a energia que alimenta os novos amantes. Fizeram amor ao luar, com os raios prateados sobre os seus corpos juntos. Depois, dormiram com as janelas abertas para deixar entrar a brisa suave e os cheiros verdes do pântano.

   

    - Ele vem aí outra vez.

    Hope estava sentada, de pernas cruzadas, no alpendre da Casa do Pântano. O alpendre que não existia quando ela estava viva. Tinha a mão cheia de peças de metal do jogo das três-marias e começou a jogar.

    - Ele está vendo.

    - Quem? Quem está ele vendo? - Tory voltara a ter oito anos, o rosto magro desconfiado, as pernas cheias de nódoas negras.

    - Gosta de fazer mal às meninas. - Lançou a última peça e voltou a apanhá-la. - Sente-se grande, importante. Dois a dois. - Mantendo o ritmo, começou a fazer pares.

    - Ele também fez mal a outras meninas. Não foi só a ti.

    - Não foi só a mim - concordou Hope. - Tu já sabes. Três a três. - As peças batiam umas nas outras e a bola batia metodicamente na madeira. Uma ligeira brisa volteava, misturada com o aroma das rosas e das madressilvas. - Tu já sabes, como quando viste a fotografia do rapazinho, daquela vez. Tu soubeste.

    -Já não consigo fazer isso. - Dentro do peito da criança, o coração de Tory começou a aumentar de tamanho e a bater com força. - Já não quero fazer isso.

    - Vieste - disse Hope, simplesmente, e começou a apanhar as peças quatro a quatro. - Tens de ter cuidado para não ires demasiado depressa, nem demasiado devagar - prosseguiu ela, continuando a jogar. - Ou perdes a vez.

    - Diz-me quem ele é, Hope. Diz-me onde ele está.

    - Não posso. - Apanhou outro conjunto, mas depois uma das peças escapou-lhe. - Ups. - Olhou para Tory, com olhos límpidos. - É a tua vez, agora. Tem cuidado.

   

    Tory abriu os olhos de repente. Tinha o coração a bater contra as costelas e a mão fechada num punho apertado. Tão apertado que quase ficou surpreendida por não rolar lá de dentro uma pequena bola vermelha quando abriu os dedos doridos.

    Estava completamente escuro. A lua desaparecera e deixara o mundo na perfeita escuridão. A brisa suave desaparecera com ela, por isso o ar estava quieto. Silencioso.

    Ouviu um mocho e o som estridente das rãs. Ouviu a respiração regular de Cade, a seu lado, no escuro, e percebeu que se chegara para a beira da cama, afastando-se dele o mais possível.

    Nenhum contacto durante o sono. A mente estava demasiado vulnerável para dar-se ao luxo de um abraço casual.

    Esgueirou-se da cama e foi até à cozinha, em bicos de pés. No lava-louça, abriu a torneira e deixou correr a água até esfriar, e depois encheu um copo.

    O sonho dera-lhe uma sede desesperada, e recordara-lhe porque não devia estar a dormir com Kincade Lavelle.

    A irmã dele estava morta, e se ela não era a responsável sentia-se como tal. Já se sentira assim antes e avançara. O caminho que tomara trouxera-lhe grandes alegrias e uma dor enorme. Nessa altura, dormira com outro homem e entregara-se sem reservas e com um amor inocente.

    Quando o perdera, perdera tudo, e prometera a si própria nunca mais voltar a fazer aquele tipo de escolha, a cometer aquele tipo de erro.

    No entanto, ali estava ela, aberta a toda aquela dor pela segunda vez.

    Cade era o tipo de homem por quem as mulheres se apaixonavam. O tipo de homem por quem ela podia apaixonar-se. Depois de dado esse passo, coloria todos os pensamentos, todas as ações e sentimentos. No espectro da felicidade. No cinzento profundo do desespero.

    Por isso, não podia dar este passo. Outra vez, não. Teria de ser suficientemente sensível para aceitar a atração física, apreciar os resultados dessa atração e manter as emoções à parte e controladas. Que outra coisa tinha ela feito ao longo de quase toda a sua vida?                                                                                                       

    O amor era uma coisa temerária e perigosa. Havia sempre qualquer coisa à espreita na sombra, ávida e maliciosa, à espera.

    Levou o copo aos lábios e viu. Do outro lado da janela, do outro lado do escuro. Nas sombras, pensou, lentamente. À espera. E o copo escorregou-lhe das mãos e espatifou-se no lava-louça.

    - Tory? - Cade acordou de repente e chamou-a, saltou da cama e caminhou na escuridão, aos tropeções. Praguejando, correu na direção da cozinha.

    Ela estava ali, sob a luz, com as mãos no pescoço, a olhar fixamente para a janela.

    - Está alguém no escuro.                          

    - Tory. - Viu o brilho do pedaço de vidro que saltara do lava-louça para o chão. Pegou-lhe nas mãos. - Estás ferida?

    - Está alguém no escuro - repetiu ela, numa voz muito parecida com a de uma criança. - À espreita. No escuro. Já esteve aqui antes. E vai voltar. - Os olhos dela fixaram os de Cade, viram através deles, e tudo o que ela viu foi sombras, silhuetas. E sentiu frio. Muito frio.

    - Ele vai ter de matar-me. Não sou eu, mas ele vai ter de matar-me, porque eu estou aqui. A culpa é minha. Toda a gente consegue ver isso. Se eu tivesse ido com ela naquela noite, ele só teria ficado à espreita. Como já tinha feito. Só teria ficado à espreita, a imaginar-se a fazer aquilo. A imaginar e a usar a mão, para poder sentir-se um homem.

    Os joelhos vacilaram-lhe, mas protestou quando Cade a agarrou.

    - Estou bem. Só preciso de me sentar.

    - Deitar - corrigiu ele. Quando voltou a levá-la para a cama, vestiu as calças. - Não saias daqui.

    - Onde vais? - O terror súbito de ficar sozinha devolveu-lhe a força nos joelhos. Pôs-se de pé de um salto.

    - Disseste que estava qualquer coisa lá fora. Vou ver.

    - Não. - Agora, todo o medo era por ele. - Não é a tua vez.

    - O quê?

    Ela juntou as duas mãos e afundou-se no colchão.

    - Desculpa. A minha cabeça está confusa. Ele foi-se embora, Cade. Não está lá fora agora. Esteve a espreitar, antes, acho que era antes. Quando nós... - Sentiu-se enjoada. - Quando estivemos a fazer amor, ele esteve a espreitar.

    Com um sorriso estranho, Cade acenou com a cabeça.

    - Seja como for, vou ver.

    - Não vais encontrá-lo - murmurou ela, enquanto Cade saía.

   

    Mas ele queria encontrá-lo. Queria encontrar alguém e usar os seus punhos, usar a sua fúria. Acendeu as luzes do exterior e observou a área varrida pela luz amarela e pálida. Foi até à sua camioneta, tirou uma lanterna da caixa de ferramentas e a faca que guardava ali.

    Armado, deu a volta à casa, apontando a luz para o chão e para as sombras. Perto da janela do quarto, onde a erva precisava de ser aparada, acocorou-se junto a uma área pisada, onde podia ter estado um homem.

    - Filho da mãe. - Soltou a frase entre dentes e a mão apertou mais o cabo da faca. Endireitou-se e virou-se, pronto a encaminhar-se na direção do pântano.

    Ficou ali, a lutar contra a impotência. Podia ir, dar uma vista de olhos, despejar alguma da sua ira. E deixar Tory sozinha.

    Optou por voltar para dentro e deixou a faca e a lanterna em cima da mesa da cozinha.

    Ela continuava ali sentada, com as mãos fechadas sobre os joelhos. Levantou a cabeça quando ele entrou, mas não disse nada. Não foi preciso.

    - O que fizemos juntos ali dentro foi nosso - disse Cade. - Ele não muda isso. - Sentou-se ao lado dela e pegou-lhe na mão. - Não consegue, se não o deixarmos.               

    - Ele tornou tudo uma coisa suja.

    - Para ele, para nós não. Para nós não, Tory - murmurou, virando o rosto dela para si.

    Ela suspirou e tocou-lhe com os dedos nas costas da mão.

    - Estás tão zangado. Como consegues controlar-te assim?

    - Dei uns pontapés na minha camioneta. - Deu-lhe um beijo no cabelo. - Queres dizer-me o que viste?

    - A raiva dele. Mais negra do que a tua poderia ser alguma vez, mas não... Não sei como explicar, não era substancial, não era real. E uma espécie de orgulho. Não sei. Talvez seja mais uma satisfação. Não consigo ver isso, ver a ele. Não sou eu quem ele quer, mas ele não pode deixar-me ficar, não pode confiar em mim por eu ser tão próxima de Hope.

    - Não sei se são os meus pensamentos ou os dele. - Ela fechou os olhos, com força, e abanou a cabeça. - Não consigo vê-lo claramente. É como se faltasse alguma coisa. Nele ou em mim, não sei. Mas não consigo vê-lo.                                                       

    - Não foi um estranho que a matou. Como pensamos todos estes anos.

    - Não. - Ela voltou a abrir os olhos e afastou-se do seu sofrimento, concentrando-se no dele. - Foi alguém que a conhecia, que a observava. Que nos observava. Acho que eu sempre soube disso, mesmo naquela altura, mas tinha tanto medo que não disse. Se tivesse voltado lá naquela manhã, se tivesse tido coragem de ir lá contigo e com o teu pai em vez de vos ter dito onde ela estava, talvez tivesse visto. Não tenho a certeza, mas talvez tivesse. E teria acabado tudo.

    - Não sabemos. Mas podemos começar a pôr um fim a tudo, agora. Vamos chamar a polícia.

    - Cade, a polícia... - Sentiu sua garganta se fechar. - É muito raro que a polícia me ouça, mesmo os polícias de mente mais aberta. Não espero encontrar alguém dessa raça aqui, em Progress.

    - O chefe Russ pode levar algum tempo a se convencer, mas vai ouvir-te. - Cade assegurar-se-ia disso. - Porque não vais vestir-te?

    - Vais telefonar-lhe agora? Às quatro da manhã?

    - Sim. - Cade pegou no telefone que estava em cima da mesa-de-cabeceira. - É para isso que lhe pagam.

    

    O chefe da polícia, Cari D. Russ, não era um homem grande. Aos dezesseis anos atingira a altura de um metro e sessenta e cinco e por aí ficara.               

    Não era um homem bonito. Tinha o rosto largo e picado de bexigas, com as orelhas presas de cada lado como asas de chávena gigantes. O cabelo era grisalho como uma almofada gasta.

    Tinha uma constituição bastante magra. Bem vestido e ensopado até aos ossos.

    Os seus antepassados tinham sido escravos, trabalhado nos campos. Mais tarde, tinham sido rendeiros nuns parcos metros de terra, de onde retiravam apenas o suficiente para o sustento familiar.

    A mãe ambicionara mais para ele, e forçara, insistira, dera sermões e ameaçara até que, sobretudo por autodefesa, ele se dispusera a querer mais.

    A mãe de Cari D. gostava do fato de o seu rapaz ser chefe da polícia, quase tanto como ele próprio.

    Não era um homem brilhante. A informação se cruzava no seu cérebro, percorria os seus meandros, enveredava por caminhos e desvios até assentar em pensamentos. Tinha tendência para trabalhar muito e ser muito lento.

    Tinha também tendência para ser exaustivo.

    Mas, acima de tudo, Cari D. era afável.

    Não praguejou nem resmungou por ser acordado às quatro da manhã. Limitou-se a vestir, às escuras para não incomodar a mulher. Deixou-lhe um bilhete na cozinha e meteu no bolso a última lista de coisas que ela anotara para ele fazer.

   

    -Isso foi a pior coisa que aconteceu por estes lados. O chefe Tate achou que tinha sido um vagabundo a fazer aquilo à menina. Nunca encontrou qualquer prova em contrário.

    - Nunca encontrou nada - corrigiu Tory. - Quem a matou conhecia-a. Tal como me conhece, e a si, e ao Cade. Conhece Progress. Conhece o pântano. E esta noite veio à janela da minha casa.

    - Mas não o viu?

    - Não da maneira que está a dizer.

    Cari D. recostou-se na cadeira e franziu os lábios. Pensou um pouco.

    - A avó da minha mulher, do lado da mãe, tem longas conversas com parentes que já morreram. Não vou dizer que isso é verdade ou que não é, porque não sou eu que tenho essas conversas. Mas no meu trabalho, Miz Bodeen, tudo se resume a fatos.

    - O fato é que eu soube o que tinha acontecido à Hope, e onde ela estava. O homem que a matou sabe isso. O chefe Tate não acreditou em mim. Concluiu que eu tinha estado ali, com ela, e que tinha fugido com medo. Que a tinha deixado ali. Ou que a tinha encontrado depois de ela estar morta e tinha ido para casa, esconder-me até de manhã.

    Havia bondade nos olhos de Cari D. Criara duas filhas.

    - A menina pouco mais era do que um bebê.

    - Mas agora sou adulta, e estou lhe dizendo que o homem que matou a Hope esteve ali fora, esta noite. Já matou outras moças, pelo menos mais uma. Uma moça a quem deu carona na estrada para Myrtle Beach. E já tem mais alguém em mira. Mas não sou eu. Não é a mim que ele quer.

    - Consegue  dizer-me  tudo  isto,  mas  não  consegue  dizer-me quem ele é.

    - Não, não consigo. Mas posso dizer-lhe o que ele é. Um psicopata, que acha que tem o direito de fazer o que faz. Porque ele precisa disso. Precisa da excitação e do poder que isso lhe dá. Um misógino, que acredita que as mulheres existem para serem usadas pelos homens. Um assassino em série, que não tem qualquer intenção de parar ou de ser parado. Tem dezoito anos disto - disse ela, calmamente. - Porque haveria de parar?

    - Não lidei muito bem com o assunto.

    Cade fechou a porta de trás e voltou a sentar-se à mesa. Ele e Cari D. tinham percorrido a propriedade e vasculhado as orlas do pântano. Não tinham encontrado nada, nenhuma pegada, nenhum pedaço de tecido preso num ramo.

    - Disseste-lhe o que sabes.                                

    - Ele não acredita em mim.                                                     

    - Quer acredite, quer não, vai fazer o que tem a fazer.

    - Pois, como fizeram há dezoito anos.

    Por um momento ele não disse nada. A recordação daquela manhã significava sempre um murro súbito e forte no estômago.

    - Quem estás a culpar, Tory? A polícia ou tu própria?

    - Ambas. Ninguém acreditou em mim e eu não consegui explicar-me. Sabia que ia ser castigada, e que quanto mais dissesse pior seria o castigo. Acabei por fazer o que pude para me preservar.

    - Não foi o que fizemos todos? - Ele afastou-se da mesa e aproximou-se do fogão para servir-se de uma chávena de café que não queria. - Eu sabia que ela tinha saído de casa naquela noite. Sabia que ela estava planejando esgueirar-se. Não disse nada, nem naquela altura, nem no dia seguinte, nem nunca, sobre ter visto a bicicleta dela escondida. Naquela noite considerei isso uma espécie de código de honra. Não se faz uma denúncia, a não ser que se consiga alguma coisa em troca. Que mal tinha ela querer pegar a bicicleta e ficar fora de casa algumas horas?                                                  

    Virou-se, e viu Tory a olhar para ele.

    - No dia seguinte, quando a encontramos, não disse nada. Isso também foi autopreservação. Haviam de culpar-me, tanto como eu me culpava a mim próprio. E passado algum tempo, parecia já não valer a pena. Faltava-nos um pedaço a todos, e nunca poderíamos recuperá-lo. Mas consigo voltar àquela noite, revê-la na minha cabeça. Só que desta vez conto ao meu pai que ela tem a bicicleta escondida, e ele vai buscá-la e dá um grande sermão à Hope. Na manhã seguinte, ela acorda na cama dela, sem lhe ter acontecido nada.

    -  Lamento.                                                                                                                            

    - Oh, Tory. Também eu. Há dezoito anos que lamento. E durante esse tempo tenho visto a irmã que me resta fazer tudo o que pode para estragar a vida. Vi o meu pai afastar-se de todos nós, como se estar conosco o magoasse mais do que ele podia suportar. E a minha mãe fechar-se atrás de camadas e camadas de amargura e de modos requintados. Tudo porque eu estava mais interessado nas minhas coisas do que em saber se a Hope estava deitada na cama dela, onde devia estar.

    - Cade. teria acontecido noutra noite.

   

    - Negócios?

    - Tenho as tais amostras lá fora, na camioneta. Vou buscá-las e depois fazemos negócio.

    Tory olhou para o relógio. Ainda mal eram sete horas.

    - Porque não? Desta vez, fazes tu o café.

    Faith esperou até às dez e meia, quando teve a certeza de que a mãe e Lilah tinham saído para a missa. Há muito que a mãe deixara de esperar que Faith fosse à missa ao domingo, mas Lilah tinha a cabeça dura quanto a estas questões de Deus, e considerava-se muitas vezes o Seu sargento mandatário, arrancando as tropas da cama e mandando-as para a igreja sob ameaças de condenação eterna.

    Sempre que ela estava em casa, Faith tinha o cuidado de se esconder e de se esconder bem, aos domingos de manhã. Compensava-a ocasionalmente, usando um vestido modesto e apresentando-se na cozinha para que Lilah pudesse arrastá-la em direção à redenção.

    Mas naquele domingo não estava com disposição para fazer favores a ninguém, nem para se sentar num banco duro, a ouvir um sermão. Só queria afogar as mágoas numa tigela de sorvete de chocolate ao pequeno-almoço, e não se esquecer de que os homens eram uns grandes filhos da mãe.                                         

    Quando pensava em todo o trabalho a que se dera por causa de Wade Mooney, tinha vontade de vomitar. Tinha espalhado creme perfumado por todo o corpo, vestido a lingerie mais sexy que o dinheiro podia comprar, e estava disposta a deixá-lo arrancar aqueles pedaços de cetim e de renda. Calçara uns sapatos com um salto de dez centímetros e metera-se num vestido preto e minúsculo que gritava «Quero pecar».

    Vasculhara a adega, à procura de duas garrafas que custavam mais do que um curso universitário e que iam fazer com que o Cade a esfolasse viva, se descobrisse.

    E quando chegara a casa de Wade, toda aprumada, resplandecente e perfumada, ele não tivera a decência de estar em casa.

    Filho da mãe.

    Pior, esperara por ele. Arrumara-lhe o quarto como uma empregada, acendera velas, pusera música. Depois, quase adormecera durante a espera.

    Esperara mais uma hora, até quase à uma da manhã, já movida por um objectivo diferente. Como desejara que ele entrasse por aquela porta para ela poder dar-lhe uns bons pontapés no rabo e atirá-lo das escadas abaixo.

    Por culpa dele ficara meia bêbeda com o vinho, e por culpa dele, devido ao álcool que tinha no sangue, calculara mal a distância entre os portões e riscara o carro.

    Por isso, era dele a culpa por ela estar ali sentada num domingo de manhã, com uma ressaca miserável, a empanturrar-se de sorvete.

    Nunca mais queria vê-lo.

    Na verdade, pensou em desistir dos homens definitivamente. Não valiam o tempo nem o trabalho a que se dava uma mulher. Ia expulsá-los da vida dela e encontrar outras áreas de interesse.

    Cade entrou no momento em que Faith voltava a meter a colher na embalagem de quase dois litros de sorvete, e como sabia o tipo de disposição que conduzia àquele tipo de comportamento tentou esgueirar-se.

    Mas não foi suficientemente rápido.

    - Senta-te. Não vou morder-te. - Acendeu um cigarro e depois continuou, fumando com uma mão enquanto comia com a outra. - Foram todos à igreja, salvar as suas almas imortais. A Tia Rosie foi com a Lilah, acho eu. Gosta mais de ir à igreja da Lilah do que à da mãe. Vi-as sair. A Tia Rosie tinha um chapéu grande como um prato para servir um peru e uns tênis verde-lima, por isso não pode ter ido com a mãe.

    - Foi uma pena eu ter perdido isso. - Pegou numa colher, sentou-se e tirou um pouco de sorvete. - Então, que se passa?

    - Porque havia de passar-se alguma coisa? Estou contente como um ganso com um ninho de ovos de ouro. - Soprou o fumo, semi-cerrou os olhos e olhou-o fixamente.                              

    Tinha o cabelo um pouco úmido, por isso as pontas douradas estavam viradas para fora. Isso significava uma ducha tomada há pouco tempo, já que Cade nunca se dava ao trabalho de fazer mais do que esfregá-lo numa toalha para secá-lo.

    Os olhos, azuis como os dela, estavam preguiçosamente satisfeitos, e os lábios se curvavam num sorriso meio trocista.

    Ela conhecia o tipo de atividade que punha aquele olhar no rosto de um homem.

    - Trazes a mesma roupa de ontem. Não vieste a casa, pois não? Ora, ora, ora. Acho que alguém teve sorte, ontem à noite.

    Cade lambeu a colher e observou-a.

    - E eu acho que alguém não teve. Não vou ficar aqui a discutir a minha vida sexual enquanto comes o teu sorvete ao pequeno-almoço.

    - Tu e a Tory Bodeen. Não é uma perfeição?   

    - Eu gosto. - Cade tirou mais uma colher de sorvete. - Não te metas, Faith.

    - Porque havia de meter-me? Que me importa isso? Só não entendo o que vês nela, só isso. É bonita, mas há uma espécie de frieza à volta dela. Mais cedo ou mais tarde, vai congelar-te. Ela não &eac