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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LUCKY, UMA MULHER INDOMÁVEL / Jackie Collins
LUCKY, UMA MULHER INDOMÁVEL / Jackie Collins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 LUCKY… UMA MULHER INDOMÁVEL

Primeira Parte

 

                      MAIO DE 1984, LOS ANGELES

 

O júri instalou-se silenciosamente na sala do tribunal. O juiz fez a sua entrada um momento mais tarde e ouviu-se um sussurro de expectativa na sala apinhada de gente.

Lucky Santangelo mantinha-se tensamente de pé, no banco dos réus. Olhava em frente. Impassível. De uma beleza morena, selvagem, Apesar de tudo.

O juiz acomodou-se no seu lugar, ajustou os óculos de aros grossos em osso e aclarou a voz:

- Senhoras e senhores membros do júri, chegaram a um veredicto? perguntou concisamente.

O porta-voz dos jurados adiantou-se. Era um homem de rosto descorado e padecia de um malogrado tique facial.

- Sim, Vossa Honra - disse com voz indistinta, o que levou o juiz a dar-lhe um berro: - Fale alto!

- Sim, chegámos, Vossa Honra - repetiu o primeiro jurado, com o seu tique nervoso a tornar-se cada vez mais evidente.

- Então é favor entregar o veredicto ao funcionário do tribunal - declarou o velho juiz rispidamente.

O primeiro jurado assim fez. O funcionário recebeu o papel dobrado contendo o veredicto e levou-o directamente ao juiz, que o leu atentamente.

Na sala de julgamentos pairou um silêncio de expectativa - um silêncio tão pesado que, a Lucky, mais pareceu um bramido de acusação.

Não olhou para o juiz mas viu-o ler o papel, passá-lo de novo para as mãos do funcionário do tribunal; fechou então os olhos negro-opala num momento breve de oração secreta. Ela, Lucky Santangelo, era acusada de assassínio, e os minutos seguintes determinariam o seu destino.

Tentou respirar suave e profundamente. Esforçou-se por permanecer calma, por se concentrar e ter somente pensamentos positivos.

O funcionário do tribunal começou a falar.

- Santo Deus! Aquilo não podia estar a acontecer-lhe. Não a Lucky Santangelo. Não a ela. Manteve a cabeça bem erguida. Ela era uma verdadeira Santangelo. Nada poderia deitá-la abaixo. Afinal de contas, estava inocente, não estava? Não estava?

 

                         O VERÃO DE 1978

 

Lennie Golden não punha o pé em Las Vegas ia para treze anos, apesar de ser a cidade onde fora concebido, nascera e passara os primeiros dezassete anos da sua vida.

Olhou em volta ao descer do avião, cheirou o ar e inalou profundamente. O odor do local continuava o mesmo.

O aeroporto rumorejava de jogadores de visita, turistas e americanos de classe média em viagem de recreio. Traseiros masculinos anafados bamboleavam-se ao lado de loiras oxigenadas de fatos em tecido plastificado e jóias falsas. Crianças pequenas lamuriavam-se, queixosas. Prostitutas em trânsito, de caicai e calças colantes que lhes delineavam as partes íntimas, chegavam em trabalho. Estrangeiros de tez escura, iam agarrados a maletas de cabedal preto e exalavam alho para cima das amantes de cabelo louro que os acompanhavam.

Jess estava à sua espera. Um metro e cinqüenta de altura, espectacularmente bonita, ela continuava a ter aquele seu ar de garota traquina - característica que a acompanhara nos tempos de escola. Sempre tivera preferência em andar com os rapazes. Especialmente Lennie. Tinham-se tornado grandes amigos logo desde o primeiro ano e a amizade algo inesperada e platônica que os unia foi sobrevivendo e tornando-se mais forte com a passagem do tempo - apesar de pouco se terem visto desde que ele se mudara de Las Vegas para Nova Iorque.

Formavam um casal muito contrastante. Lennie, muito alto e magro, tinha cabelo louro-sujo e olhos verde-mar. Dava ares a Robert Redford, sendo, porém, mais corpulento e com uns toques acentuados de Chevy Chase. E Jess, pequenina e de olhos grandes, tinha uma farta cabeleira ruiva, sardas e um corpo digno de página destacável da Playboy, em miniatura.

Jess aninhou-se nos braços de Lennie.

- É tão bom ver-te! Estás com um aspecto fantástico. Para quem passa a vida a fornicar por aí, não sei como consegues.

- Ei... - Lennie atirou-a ao ar como uma boneca de trapos. -Olha quem fala.

Jess soltou uma risada e agarrou-se fortemente ao amigo.

- Amo-te loucamente, Lennie Golden. Bem-vindo sejas. -"Eu também te amo, cara-de-macaco.

- Não me chames isso! - guinchou Jess, - Agora sou casada. Tornei-me respeitável. Tenho um filho, tudo como deve ser. Portanto, deixa-te disso, Lennie, trata-me como a uma senhora.

Lennie desatou a rir.

-" Se tu és uma senhora, eu sou Raquel Welch.

Jess agarrou-lhe num braço.

- Mas que ricas mamas tens!

Rindo a bandeiras despregadas, dirigiram-se para a saída.

- Então que tal foi a viagem? - perguntou Jess, tentando tirar-lhe a mala de aspecto batido.

Lennie tirou-a à força da mão.

- Longa e chata. Se Deus nos queria pôr a voar, devia ter-nos dado mais hospedeiras de bordo.

- Fizeste alguma conquista? - perguntou-lhe ela piscando-lhe o olho significativamente.

- Afirmativo.

- A sério?

- Por acaso te mentiria? - perguntou-lhe ele, impassível.

Jess riu. Era senhora de uma gargalhada estrondosa que fazia com que as pessoas se virassem e ficassem a olhar.

- Eras capaz de mentir ao Papa se retirasses daí algum benefício.

- E lá vai ela... - cantarolou ele.

- Quem? Onde? - Jess voltou-se automaticamente para examinar a conquista do amigo. Uma freira ia a passar serenamente por eles.

- Já te avisei de que andava a mudar de gostos - observou Lennie com ar grave.

- Muito engraçado! - exclamou Jess, fazendo menção de lhe desferir um soco no estômago.

Lennie ergueu a mão, em sinal de protesto.

- Tem calma. Fiz uma operação recente à língua.

- Ha?

- Lembras-te da gravação do Lee Bryant Shawl Aquela que te disse que andava a fazer?

- Lembro.

- Eles reduziram-me os quatro minutos a trinta segundos. Por pouco nem sequer aparecia.

Jess franziu o sobrolho.

- Nabos. Não sabem o que é bom. Seja como for, agora estás de volta a Las Vegas. O teu tipo de comédia vai pôr esta malta a escangalhar-se a rir.

-Oh, claro, no salão do Magiriano Hotel não há dúvida de que vou provocar uma autêntica sublevação.

- É uma mudança de cenário. Se calhar era do que andavas a precisar. Quem sabe ao que poderá levar?

-Deixa-te disso, Jess. Pareces o meu agente. Faz esta merda aqui, aquela porcaria ali, e quando deres por ela já arranjaste uma participação regular no espectáculo do Carson.

- O teu pseudo agente não passa de um profissional reles de Nova Iorque. - Jess franziu o nariz. - Tu és um grande comediante. Eu é que devia tratar dos teus assuntos. Quero dizer, fui eu que te arranjei esta oportunidade, não fui?

- Quanto queres? Dez por cento? Jess riu com gosto.

- Pensas que desejo perder o título de melhor carteadora de "Vinte-e-Um" de Las Vegas? Achas que sou maluca ou quê? Enfia a tua comissão onde o sol não te bronzeia!

Iam a passar em frente dos lavabos femininos.

- Espera um segundo - pediu Jess. - Estou tão excitada por te ver que tenho de ir fazer chichi.

Lennie riu-se e encostou-se à parede enquanto Jess desaparecia rapidamente de vista. Tinha de facto uma boa amiga ali. Telefonara-lhe duas semanas antes e dissera-lhe que tinha de sair de Nova Iorque.

- Não há problema - replicara ela sem hesitação. - Matt Traynor, o director dos espectáculos do hotel onde trabalho, anda maluco por mim. Manda-me uma gravação que eu faço com que ele te contrate.

Ele assim fizera. Jess conseguira arranjar-lhe um contrato. Uma amiga a valer.

Reparou, ociosamente, numa jovem de cabelos negros, envergando calças de cabedal preto e uma camisa vermelha, que ia a passar. Viu que abria caminho por entre a multidão como se o local lhe pertencesse. Gostou do estilo, já para não falar do corpo.

Jesus! Nunca mais se libertaria? Ele e Éden tinham rompido há seis meses atrás, no entanto, sempre que deparava com uma mulher atraente, não conseguia deixar de estabelecer comparações. Continuava a fazê-lo. Éden Antônio e ele eram águas passadas. Por que não se convencia do facto?

Jess saiu dos lavabos femininos e apertou-lhe o braço.

- É tão bom ter-te aqui - observou ela. - Quero que me contes tudo.

-"Ei... tudo se resume a uma carreira que não conduziu a lado nenhum e a uma vida sexual completamente lixada.

- Parece excitante. E que outras novidades tens?

Tinham acabado de sair para o exterior, sentindo-se envolver pelo calor do deserto.

- Caramba! - exclamou Lennie. - Já me tinha esquecido do calor que faz aqui.

- Ora, deixa-te de lamúrias. Estás a precisar de um bom bronzeado. Fazes lembrar alguém que só vive de noite.

Aproximaram-se de um Camaro vermelho repleto de amolgadelas, que ficara estacionado no parque.

- Vejo que continuas a ser uma motorista exímia - observou Lennie secamente, atirando a mala para dentro do porta-bagagens.

- Nada disso é da minha responsabilidade - replicou Jess indignadamente. - O meu homem não é capaz de dar a volta ao quarteirão sem se meter em sarilhos.

Lennie imaginou o tipo de homem que casara com Jess. Alguém especial, esperava.

- Anda - disse ela, deslizando para trás do volante. - Wayland ficou a preparar o almoço. O bebê começou a emitir sons e garanto-te, Lennie, que vais adorar isto aqui. Foi sempre a tua cidade preferida.

Lennie anuiu com ar sombrio.

-Pois é. Aí está precisamente o que receio.

Lucky Santangelo destacava-se da multidão que atravessava com passo rápido no aeroporto. Era uma mulher esplendorosamente bela de vinte e oito anos, senhora de uma massa rebelde de caracóis negro-azeviche, olhos pretos de cigana, uma boca de lábios grossos e sensuais, um bronzeado profundo e um corpo esguio e flexível.

Envergava calças de cabedal preto macio, uma camisa vermelha negligentemente desabotoada até ao limite e um cinturão largo com aplicações em prata. Das orelhas pendiam-lhe argolas em prata lisas e na mão direita tinha um diamante quadrado de tal tamanho e brilho que qualquer pessoa não seria censurada por imaginá-lo verdadeiro. Era.

Sem ser de uma beleza convencional, possuía um estilo e um porte muito pessoais. De toda ela exalava um ar de confiança semelhante ao perfume exótico com que se impregnara.

- Ei, Boogie - saudou afectuosamente o indivíduo franzino, de cabelo comprido, envergando um camuflado do exército que se acercara para a cumprimentar. - Como vão as coisas?

- Na mesma - retorquiu o homem com voz baixa, os olhos estreitos e rasgados a movimentarem-se incessantemente de um lado para o outro, a observarem todos e tudo, ao mesmo tempo que lhe pegava no malote de cabedal preto e no talão cem o qual podia receber o resto da bagagem.

- Não há nenhuma notícia excitante, nenhum mexerico? - perguntou a jovem, sorrindo, deliciada por regressar.

Ele sabia de mexericos, no entanto não queria ser o primeiro a dar-Lhos a conhecer.

A jovem falou animadamente enquanto se encaminhavam para a longa limusina Mercedes estacionada numa faixa vermelha.

- Penso ter deixado tudo preparado, Boogie. O projecto de Atlantic City está pronto a zarpar. fui eu que o fiz. Eu! Só preciso do okey de Gino para o disco começar a girar. Sinto-me óptima!

Era um prazer vê-la com tão boa disposição. Boogie meneou afirmativamente a cabeça e disse:

- Tudo o que a menina quer, consegue. Nunca duvidei. Os olhos da jovem luziam de excitação.

- Atlantic City - declarou. -Construiremos um hotel que ultrapassará todos os outros!

- Consegui-lo-á - concordou Boogie, abrindo a porta de trás do automóvel.

- Ei - queixou-se Lucky -, sabes bem que vou sempre sentada na frente contigo.

Boogie mudou para a outra porta, deixou-a instalada no lugar ao lado do condutor e foi buscar o resto da bagagem.

Gino Santangelo despertou com um sobressalto. Por um momento sentiu-se desorientado, mas recuperou-se logo a seguir. Podia estar velho, mas senil é que não, graças a Deus. Além disso, ter setenta e dois anos nos tempos que iam correndo não equivalia propriamente a ficar arrumado. Para dizer a verdade, ainda na noite anterior voltara a sentir-se como um rapazote na cama. E por que não, quando se tinha Susan Martino por companhia?

Susan Martino. Viúva do falecido grande Tiny Martino, veterano multitalentoso do mundo da televisão e do cinema. Um comediante cujo nome alinhava ao lado do de Keaton, Chaplin e Benny. Tiny morrera com um ataque de coração ia para dois anos. Gino fora a Los Angeles para assistir ao funeral, apresentara os seus pêsames à viúva - não voltando a vê-la até ela aparecer em Las Vegas, três semanas antes, numa festa de caridade. Agora era a quinta vez seguida que acordava ao lado dela na cama e não lamentava o facto.

Susan, como que adivinhando que ele estava a ter pensamentos agradáveis acerca da sua pessoa, entrou no quarto. Era uma atraente mulher de quarenta e nove anos, sempre muito bem arranjada, que parecia, no mínimo, dez anos mais nova. Tinha uns olhos azul-porcelana, maçãs de rosto salientes, uma pele branca e macia. Usava o cabelo louro-prateado impecavelmente apanhado atrás num chino, embora fossem apenas nove da manhã. Envergava um penteador de seda branca sobre o corpo de formas amenizadas mas perfeito, e trazia um tabuleiro com um copo de sumo de laranja espremido de fresco, um ovo escalfado e duas tostas finas com pouca manteiga.

- bom dia, Gino - cumprimentou.

Gino sentou-se na cama com esforço, passando as mãos pelo cabelo negro desgrenhado, o qual, apesar de ter começado a ficar grisalho nas têmporas, continuava com a mesma fartura e jeitos da juventude. Ainda era um homem em todo o sentido da palavra. Os anos não lhe tinham diminuído a vitalidade e a energia incessante, embora o ataque cardíaco sofrido ia quase para um ano, o tivesse abrandado ligeiramente. Tal como Susan, não lhe davam os anos que tinha.

- Que é isto? - perguntou, indicando o tabuleiro.

- Pequeno-almoço na cama.

- E que foi que eu fiz para o merecer? Susan sorriu.

- Que foi que não fizeste, pergunta antes. Gino sorriu, recordando.

- É verdade. Nada mau para um velho, não é verdade?

Susan pousou o tabuleiro em frente de Gino e sentou-se na beira da cama.

- És o melhor amante que já tive - declarou com gravidade.

O reparo agradou-lhe. Agradou-lhe mesmo muito. Susan Martino não era nenhuma vadia, mas antes de casar com Tiny Martino, vinte e cinco anos antes, tivera a sua fama de mulher bem vivida. Aly Khan, Rubirosa e até mesmo Sinatra constavam, segundo se dizia, entre os que tinham partilhado da sua cama. O que fazia com que Gino se sentisse ainda mais lisongeado pelo elogio recebido.

Não que, evidentemente, ele a tivesse interrogado acerca do seu passado, do mesmo modo que ela não lhe fizera perguntas sobre o seu.

- Quero saber uma coisa - disse ele, agora suficientemente interessado para começar a indagar.

- O quê? - replicou ela, retirando cuidadosamente a casca ao ovo.

- Quando estavas casada com Tiny, alguma vez o enganaste? Susan não hesitou.

- Nunca - replicou firmemente. - Embora não veja por que razão te hei-de dizer...

Gino sentiu-se subitamente possessivo em relação àquela mulher. Àquela loura de classe que era uma senhora. E quantos deles andariam a rondá-la hoje?

Mulheres. "Amá-las ou deixá-las" fora sempre o lema da sua vida. com muito poucas excepções. No ano que decorrera, levá-las para a cama tornara-se um aborrecimento. Mais um corpo. Outra cara bonita. Mais uma nota de mil dólares para uma lembrança, pois não gostava de as mandar embora de mãos vazias. Quando saíam da cama de Gino Santangelo ele queria que levassem a noção de que tinham estado num sítio especial. Não que fosse obrigado a pagar. Nunca, A própria idéia era louca.

- Podemos passar o dia juntos? - perguntou Susan, mergulhando uma fatia fina de tosta no ovo e dando-lha a comer.

Ele estava prestes a responder afirmativamente quando se lembrou de que Lucky chegava naquele dia. A sua filha. A bela e indomável Lucky... com os seus olhos, a sua pele bem morena, o seu cabelo negro-azeviche e o seu prazer pela vida. Como podia ter-se esquecido? Ela estivera ausente durante três semanas, numa viagem de negócios ao Leste. Não fora Susan, as saudades teriam sido imensas.

-Por que não combinamos para amanhã? Hoje tenho coisas a fazer - disse ele, afastando o garfo.

- Oh - exclamou Susan, parecendo desiludida.

Ainda pensou em levar Susan ao seu jantar com Lucky, mas o instinto disse-lhe imediatamente que a filha detestaria. Afinal de contas, era a primeira noite que a filha passava na cidade depois do seu regresso e teriam muito que conversar.

Haveria tempo suficiente para introduzir Susan na vida de ambos, projecto que tencionava concretizar integralmente. Susan Martino era demasiado senhora para representar apenas o divertimento de uma semana.

Durante o percurso que os trouxe do aeroporto, Lucky continuou a pôr Boogie ao corrente dos acontecimentos ocorridos durante a sua viagem. Ele era mais do que seu motorista, fazendo de guarda-costas sempre que o ambiente indicava necessidade de protecção em relação à sua pessoa. Era seu amigo e ela confiava nele sem reservas. Em alturas de problemas, Boogie nunca debandara. Como provara no passado, era um homem leal, sagaz e habitualmente silencioso-excepto quando tinha algo a dizer que valesse a pena - o que agradava bastante a Lucky.

Conduziu-a até à frontaria do Hotel Magiriano, na Strip. A jovem apeou-se e deteve-se por um momento, sentindo a habitual excitação que cada regresso ao seu hotel lhe proporcionava.

O Magiriano - uma combinação dos nomes próprios dos pais - Maria e Gino. O sonho de Gino, transformado em realidade enquanto ele suava sete anos de exílio em Israel por ter fugido ao fisco. Nunca Lucky deixaria de se sentir orgulhosa pelo seu empreendimento. O Magiriano era muito especial.

No vestíbulo havia a habitual miscelânea de turistas e ruído. O casino mostrava-se apinhado de jogadores matutinos. Não havia janelas. Não havia relógios. Vinte e quatro horas de divertimento sem interrupção.

Lucky não jogava. Fosse como fosse, quem precisava de jogar nas mesas quando tudo aquilo pertencia a ela e a Gino? Atravessou o vestíbulo em direcção ao seu elevador particular, oculto por trás de um arranjo de plantas envasadas e onde, depois de inserir um cartão com o código, a entrada lhe foi facultada.

Era bom estar de volta.

Mal conseguia esperar para ver Gino. Tinha tanto a contar-lhe.

Jess não vivia no luxo, no entanto a pequena casa em frente da qual deteve o automóvel dispunha, ao menos, de uma piscina miniatura própria.

- Este lugar não está mal, mas pensamos mudar-nos em breve - explicou Jess despreocupadamente ao abrir a porta da frente. Visitámos um empreendimento que estão a levar a cabo em Lake Tahoe, no qual pensamos entrar.

- Ah, sim? - disse Lennie, perguntando a si mesmo quem é que estaria a pensar em entrar. Segundo depreendera das informações escassas que Jess lhe dera acerca do marido, tudo indicava que este nada mais fazia do que tomar conta do filho de dez meses de ambos, enquanto Jess se encarregava de trazer dinheiro para casa.

- Está alguém? - chamou Jess em voz alta, ao mesmo tempo que viam aparecer um cão rafeiro de ar rameloso, agitando a cauda de aspecto miserável. Jess inclinou-se para o animal, acarinhando-o.

- Este é Erva - explicou. - Encontrei-o metido num caixote do lixo quando era cachorrinho. Engraçado, não é?

Wayland apareceu ou, pelo menos, Lennie imaginou que fosse ele. O seu aspecto indicava tratar-se de mais outra criatura abandonada que Jess encontrara. Envergava umas calças de tecido branco imundo, uma camisa bordada, e tinha os pés sujos descalços. O cabelo louro dava-lhe pelo ombro, com uma faixa central, e o rosto era comprido e pálido. Jess - que escrevia cartas maravilhosas - mencionara que ele pintava. Porém, não referira exactamente o quê.

- Saudações, pá - disse Wayland, completamente pirado pelos efeitos da droga. - Bem-vindo a nossa casa.

E estendeu uma mão fina, trêmula. -Onde está o bebê? - perguntou Jess.

- A dormir.

- Tens a certeza?

- Vai ver.

Durante um momento as feições bonitas de Jess ensombraram-se e Lennie teve a sensação de que. nem tudo eram rosas naquele casamento de um ano de idade. Era só o que lhe faltava, ser apanhado no meio de uma cena miserável. Já tinha problemas que lhe sobrassem.

O almoço acabou por ser uma tigela grande de arroz integral e um bocado de alface murcha e iogurte azedo a acompanhar. Jess esforçou-se por ocultar a ira que sentia - estivera a trabalhar durante toda a noite e deixara instruções a Wayland para que preparasse algo de especial mas fê-lo com dificuldade. Lennie conhecia-a suficientemente bem para se aperceber de que a amiga estava completamente furibunda.

O bebê - um rapazinho chamado Simon - acordou por breves momentos e aceitou um biberão.

- Quero levar Lennie até ao hotel - disse Jess, agitada, depois de o bebê adormecer de novo.

Wayland concordou. Não tinha muito a dizer sobre o que quer que fosse.

Já no carro, Jess acendeu um charro, soprou fumo para o rosto de Lennie e disse agressivamente:

- Não quero falar sobre o assunto, está bem?

- Quem é que pediu? - replicou ele calmamente.

Jess pôs o carro a trabalhar e foi a acelerar ao longo de todo o caminho que os levou até ao Magiriano, diante de cuja entrada parou sem desligar o motor.

- Encontramo-nos daqui a um par de horas - disse ela. - Pergunta por Matt Traynor. É o tipo que te contratou. Ele arranjará alguém para te orientar aí dentro.

- Aonde é que tu vais?

- Eu tenho um... ha... compromisso."

- com que então a fornicar por aí?

- Dá-me uma razão para que não o faça.

Depois de ter conhecido Wayland, não era capaz de se lembrar de nenhuma.

Matt Traynor era velha raposa matreira de cinqüenta e cinco anos, cabelo grisalho, vestindo um fato bege completo. Além de ser o melhor director de espectáculos de Las Vegas, tinha interesses no hotel. Lucky Santangelo incentivara-o pessoalmente a aceitar o emprego e somente a perspectiva de uma participação financeira é que o persuadira.

Disse a Lennie que adorara o videotape que Jess lhe mostrara com o seu trabalho e depois começara a assediá-lo com perguntas acerca da vida dela como se esperasse ficar a conhecer todos os pormenores que lhe diziam respeito.

Lennie desenvencilhou-se razoavelmente diante de algumas perguntas, mas quando Matt começou a inquirir acerca do casamento da amiga, achou que era chegado tempo de ultrapassar a situação. Disse imediatamente que desejava dar uma vista de olhos ao salão onde iria aparecer e ficar a conhecer, em termos gerais, o ambiente. Matt Traynor concordou, deu-lhe umas quantas instruções vagas e despediu-se com um aceno de mão.

Las Vegas. O calor. O cheiro especial. A azáfama.

Las Vegas. O lar. Desde o nascimento até aos dezassete anos.

Las Vegas. Recordações juvenis a encherem-lhe a cabeça. A primeira vez em que fizera amor, se embebedara, ficara com uma "pedrada", fora preso. A primeira vez em que se apaixonara, fugira de casa, roubara o carro dos pais.

A mãe e o pai. O velho casal.

O pai, um cômico à moda antiga. Jack Golden. Homem em quem se podia confiar, um autêntico fura-vidas. Mas um nome que todos conheciam no mundo do espectáculo - todos excepto o público em geral. Morto já ia para trinta anos. Cancro da vesícula biliar.

E a mãe, Alice Golden, anteriormente conhecida pela Rebolona uma das strippers mais famosas da cidade. A velha e boa mãe, agora

Com cinqüenta e nove anos e a viver num apartamento pequeno, na Califórnia. De Las Vegas para Marina del Rey numa escapadela louca com um vendedor de carros usados de Sausalito. Alice não era uma mãe judia vulgar. Usava calções reduzidos, caicais, pintava o cabelo, rapava as pernas e ia para a cama com quem calhava depois de o vendedor de Sausalito se ter posto a milhas da cidade com jóias suas no valor de dez mil dólares.

Alice... era uma mulher muito especial. Lennie nunca se sentira chegado a ela. Nos seus tempos de miúdo, a mãe fazia dele gato-sapato, mandando-o a recados intermináveis e servindo-se dele como seu lacaio. Alice nunca cozinhara uma refeição em dias de sua vida. Enquanto as outras crianças levavam os seus sacos impecáveis de papel castanho com sanduíches de carne picada preparadas em casa, bolos caseiros e queijo, se ele conseguisse deitar a mão a uma maçã do jardim, ainda estava com sorte.

- Tens de aprender a ser independente - dizia-lhe Alice quando ele chegara perto dos sete anos.

Lennie aprendera bem a lição.

Viver com Alice e Jack fora excitante. O apartamento desarrumado em que viviam encontrava-se permanentemente repleto de dançarinas, cantores, gente do casino e do mundo do espectáculo em geral. A vida era divertida, se se pusesse a infância de lado.

Alice. Uma pessoa francamente especial. Lennie aprendera a aceitá-la como era.

Las Vegas. Por que voltara ele?

Porque arranjara um trabalho e um trabalho era um trabalho. E, tal como dissera a Jess, tivera de sair de Nova Iorque. A polícia andava a tratar de lhe deitar a mão depois de ele ter dado uma sova a um gorducho bêbado que o provocara durante uma sua actuação num clube do Soho. O gorducho bêbado era, por acaso, um advogado de fama duvidosa que, ao acordar na manhã seguinte, com um olho negro e o lábio rachado, achara que Lennie Golden devia recolher à choça e lançara mãos à tarefa. O que menos falta fazia na vida de Lennie eram os problemas derivados de uma acção judicial. Sair da cidade parecia ser a melhor maneira de resolver a questão. Além disso, Éden estava na Costa Ocidental e há meses que ele andava a pensar em ir atrás dela. Não que se tivessem separado como bons amigos.

Depois de Las Vegas, tencionava mudar-se para Los Angeles.

Não apenas para ver Éden.

Sim, para ver Éden.

"Admite-o, parvo, continuas preso a ela pelo beicinho."

Lucky entrou na área da piscina e deteve-se por momentos até descortinar Bertil, o sueco responsável por toda a actividade da piscina.

Bertil viu-a de imediato. Era impossível não reparar nela, com o fato de banho preto de peça única a cobrir o corpo flexível e bronzeado de quem possuía as pernas mais compridas da cidade. Pôs-se imediatamente alerta, lembrando-se de que se tratava da patroa, e apressou-se a acercar-se dela, saudando-a com a dose certa de deferência e entusiasmo.

- Seja bem-vinda, Miss Santangelo.

Lucky dirigiu-lhe um aceno de cabeça breve, perscrutando a massa de corpos bronzeados.

- Obrigado, Bertil. Algum problema durante a minha ausência?

- Nada com que se deva preocupar.

- Não hesites em me preocupar - disse Lucky suavemente. - Gosto de estar a par de tudo.

Bertil hesitou, depois lançou-se numa história breve que dizia respeito a dois salva-vidas que tinham andado a atirar-se a hóspedes.

- Despediste-os? - perguntou Lucky.

- Sim, mas eles estão a pensar em nos processar. - Falaste com os nossos advogados?

- Falei.

- Então está tudo resolvido - observou Lucky satisfeita.

Bertil acompanhou-a até uma sala ao lado da piscina, onde Lucky se instalou a observar o movimento.

- Traz-me um telefone - pediu.

Bertil obedeceu à ordem e em seguida deixou-a sozinha.

Lucky tentou contactar, pela terceira vez, com Gino. Continuava fora. Onde diabo estaria? Por que não a fora esperar?

 

- Olympia, tu és uma princesa. Uma deusa. Uma rainha.

O rotundo corpo dourado de Olympia Stanislopoulos estremeceu de deleite.

-"Mais, Jeremy, diz-me mais coisas.

O nobre inglês procurou ajeitar-se em cima do núbil corpo nu da herdeira grega de uma frota de navios e prosseguiu a sua litania de louvores.

- Os teus olhos são o Mediterrâneo. Os teus lábios, uns rubis. A tua pele, o veludo mais macio. O teu...

- Ahhhhh...

O sonoro grito de êxtase silenciou-o. A herdeira esticou as pernas, abrindo-as e voltando depois a fechá-las em torno dele num amplexo doloroso. Enquanto isso, as suas longas unhas recurvas deixaram-lhe um sulco ensangüentado na pele das costas.

O grito de dor que ele soltou juntou-se ao de êxtase libertado por ela.

- Por amor de Deus, Olympia!

Ela não estava interessada nos queixumes dele. Empurrou-o para longe com indiferença.

- Eu não me vim - queixou-se ele.

- Que pena - retorquiu Olympia, rolando para fora da cama. Olympia Stanislopoulos nunca fora conhecida pelo feitio afável e

compassivo. Dirigiu-se rapidamente para o quarto de banho, atirando com a porta e mirando-se ao espelho de corpo inteiro.

Gorda! Rolos de indesejada celulite cheia de pequenas covas! Irada, agarrou na prega de carne que tinha em volta da cintura e guinchou de fúria. Raios partissem o aldrabão daquele médico francês que lhe dera um tratamento de três meses, meia dúzia de fornicadelas de terceira para depois lhe cobrar trinta mil dólares. Não havia dúvida de que esse vira-a vir-se em mais do que uma maneira. Deitou a língua de fora à imagem reflectida no espelho, detestando o que via.

O que via era uma mulher de vinte e oito anos, com um metro e cinqüenta e dois, generosamente curvilínea e possuidora de um par de seios grandes e baloiçantes, uma massa abundante de densos caracóis louros e um rosto bonito. Os olhos eram pequenos e azuis. O nariz, sem nenhuma característica especial. Os lábios pareciam botões de rosa protuberantes. Os homens adoravam-na. Tinha um ar muito sexy. Uma autêntica bomba sexual. Mas uma bomba sexual diferente.

Ao completar o seu vigésimo-primeiro aniversário, Olympia Stanislopoulos herdara setenta milhões de dólares. Sabiamente investidos, esses milhões faziam-na agora valer mais do dobro.

Casara três vezes. A primeira aos dezassete anos, com um playboy grego novato, de vinte anos, cuja família era possuidora de linhagem mas pouco dinheiro. A cerimônia tivera lugar a bordo do iate de seu pai - Dimitri convenientemente atracado à ilha privada deste. A ocasião fora mais do que festiva, contara com a presença de dois príncipes, uma diversidade de princesas, um rei deposto e a maioria da sociedade ociosa da Europa. A lua-de-mel do feliz casal foi passada na índia; após isso, viveram três meses em Atenas e divorciaram-se em Paris quando Olympia deparou com o seu jovem marido de gatas a ser rudemente servido pelo mordomo. Olympia não era de puritanismos, mas havia coisas como o decoro. Dimitri consolou a petulante filha com um magnífico apartamento na Avenida Foch a dois quarteirões de distância da mansão da família.

Passado pouco tempo, conhecia um comerciante italiano milionário. Ou, pelo menos, era assim que ele se dizia. Homem de quarenta e cinco anos, cheio de charme, feições agradáveis, fama de mulherengo e grande apreciador de fatiotas. Cortejou-a através das discotecas da Europa e desposou-a quando fez dezanove anos. Permaneceram juntos durante um ano. Olympia deu-lhe uma filha, Brigette, enquanto ele lhe gastava o máximo de dinheiro que podia. As suas indiscrições chegavam demasiadas vezes aos jornais e revistas. Olympia ficou furiosa ao descobrir que enquanto ela berrava que nem uma possessa na noite do parto, ele passara-a a dançar até altas horas.

Dimitri tratou do divórcio à filha. O segundo erro desta custou-lhe dois Ferraris e três milhões de dólares. Ele não chegou a ter tempo para os gozar. Três meses após o divórcio, ao sair de um carro em Paris, foi pelos ares com a deflagração de uma bomba terrorista. Olympia não teve tempo para usar luto - andava demasiado atarefada a cometer o erro número três, um conde polaco arruinado. Também lhe saiu uma boa peça. Durou dezasseis semanas e deixou-lhe um título mais todas as suas dívidas.

Olympia decidiu riscar o casamento da sua vida, de modo que entregou-se a uma vasta série de ligações amorosas, nenhuma das quais pareceu satisfazê-la. Começou a viajar com freqüência, dividindo o seu tempo entre o seu apartamento de Paris, um pied-à-terre1 em Roma e o Connaught em Londres. Quanto aos verões, passava-os no sul de França. No Natal ia para Gstaad. Acapulco surgia quando estava para aí virada. Os homens iam-lhe passando rapidamente pela cama. A maioria entediava-a depois de lhes ter experimentado o corpo. Necessitava de algo mais do que sexo - necessitava de um estímulo suplementar.

Os homens casados eram divertidos. Os famosos, também, E os poderosos. Quanto mais inatingíveis, melhor.

Levá-los para a cama é que dava gozo. Depois do encontro inicial, que restava? Ela precisava de um desafio. É que descobrira algo que soubera desde sempre: a maioria dos homens era presa fácil. E quem é que queria coisas fáceis?

O primeiro amante de Olympia possuira-a tinha ela apenas dezasseis anos. O cenário fora o sul de França, numa villa que ela e sua melhor amiga, Lucky Santangelo, tinham pedido "emprestada" à tia de Olympia. Andavam fugidas do colégio interno, duas raparigas aventureiras com tempo à disposição, dinheiro para queimar, um Mercedes branco e naturezas curiosas. Era freqüente Olympia recordar esses dias de despreocupação ilícita como os mais felizes da sua vida. Não havia pressões ou fotógrafos bisbilhoteiros escondidos atrás de tudo quanto era arbusto. Não existiam grandes expectativas,

Warris Charters. Recordava-se bem dele. Bem-parecido, de cabelo loiro-trigo e olhos verdes rasgados. Homem mais velho. Produtor de cinema. Sempre sem dinheiro e dotado de uma virilidade extremamente activa.

Havia ocasiões em que dava em se interrogar sobre o que lhe teria acontecido. Warris Charters, entre cujas pernas ela fora apanhada com a sua cabeça aos caracóis louros de dezasseis anos, em plena sessão de

sexo oral. Apanhada pelo seu pai e pelo de Lucky, numa altura em que os dois homens tinham viajado até ao sul de França em busca das filhas errantes.

A última vez em que vira Warris, este era uma figura nervosa a escapulir-se apressadamente na noite tempestuosa levando as duas malas Gucci nas mãos e, nos ouvidos, uma boa série de ameaças de Dimitri.

Depois disso, nunca mais tivera notícias dele. Compreensivelmente.

Também nunca mais soubera nada da sua grande amiga, Lucky Santangelo. O que já não era tão compreensível. Depois de todas as experiências vividas em conjunto, o mínimo que poderia ter esperado era um telefonema. Nunca lhe ocorrera que Lucky, tal como ela, fora proibida de voltar a reatar contacto.

Na sua opinião o que devia ter acontecido era que Lucky a traíra, chamando os dois pais para as irem buscar visto que ela, Olympia, é que estava a divertir-se.

Fosse como fosse, quem é que precisava de Lucky?

- Olympiaaa. - O grito queixoso fez-se acompanhar de umas batidas fortes na porta da casa de banho. - Minha linda. Que estás tu a fazer aí dentro?

Que pensava o idiota que ela estava a fazer? A divertir-se sozinha?

Abriu a porta impacientemente.

Deparou com a erecção desnuda de Lorde Jeremy.

Suspirou.

Estava uma tarde chuvosa em Paris.

Que mais havia para fazer numa tarde chuvosa em Paris?

 

Corpos em biquíni, besuntados e reluzentes, jaziam, em vários graus de desnudamento, ladeando a piscina do Magiriano. Lennie deambulou sem objectivo por entre eles, lembrando-se das vezes incontáveis em que ele e Jess tinham entrado à sucapa nas piscinas em vez de irem para as aulas. Tornara-se um dos passatempos preferidos de ambos, juntamente com a passagem pelos casinos, indo às slot machines sem serem apanhados e tentando esgueirar-se para o interior dos recintos de espectáculos para adultos. Para o fim já não havia guarda de segurança que não lhes conhecesse o rosto, o que sem dúvida lhes atrapalhou o estilo - mas não a energia, sem dúvida.

Trocar Las Vegas por Nova Iorque aos dezassete anos não apresentou dificuldades. Deixar Jess é que não foi fácil. Mas Nova Iorque acenava, chamando de longe, e quem era ele para resistir? Parecia ter, no mínimo,

vinte anos, media um metro e oitenta de altura e possuía um belo corpo e uma elegância despreocupada. Fora sobrevivendo à custa de vários empregos, enquanto se decidia acerca do que desejava ser. Não teve dificuldade em se desenvencilhar. Um quarto alugado em Greenwich Village tornou-se o seu lar e durante os dois anos que passou na costa apenas a gozar a liberdade que a grande cidade lhe proporcionava, nunca lhe faltaram raparigas. Para prover ao seu sustento, fez de tudo um pouco, desde cortar salame numa charcutaria da Sexta Avenida a vender relógios no filoomingdale. Passava os verões em Catskills a fazer de paquete num dos hotéis mais concorridos. Fora aí que aprendera que fazer comédia era mais do que apanhar com tartes na cara ou deixar cair as calças, ao estilo de Jack Golden. Descobriu os discos do grande Lennie Bruce, já falecido (durante algum tempo imaginara que a mãe lhe pusera aquele nome em memória de Lenny Bruce. Pura imaginação. O que ela fizera fora dar-lhe o mesmo nome que um tal primo idiota que tinha em Miami). Descobriu o humor político, o humor irreverente e o monólogo contínuo. Até que tomou consciência, finalmente, do que desejava fazer na vida, lançando-se ao trabalho com grande determinação.

Primeiro vendo a escrita. Números. Pequenas intervenções. Depois arranjou um agente que o representasse e vendesse o seu material. Não lhe deu o suficiente para desistir dos outros empregos - mas era um começo.

Possuía um jeito muito especial para a expressão, área em que não imitava ninguém. Por vezes era um tanto irreverente demais mas, a pouco e pouco, o seu agente começou a arranjar-lhe compradores regulares para tudo o que criasse. Ao chegar aos vinte e quatro anos pôde passar a concentrar-se inteiramente na criatividade. Não fazia uma fortuna mas as coisas estavam a correr lindamente, tinha muitas namoradas e passava belos bocados.

Estar de volta a Las Vegas era estranho.

Passou por uma loura eslava com maçãs de rosto imensamente salientes. A jovem lançou-lhe um olhar prolongado e desprovido de pressa, enquanto esfregava sugestivamente óleo de bronzear nas coxas. Ele não estava para ali virado. Agora que chegara aos trinta, sentia necessidade de mais do que ir simplesmente para a cama com uma mulher. No entanto ela fazia-lhe lembrar vagamente Éden. As mesmas maçãs de rosto altas, um ar de loura gélida e indiferente, os olhos estreitos. Olhos de gata. Éden Antônio. Nunca esqueceria a primeira ocasião em que a vira. Na altura vivia com uma rapariga chamada Victoria, uma modelo fotográfico que fazia lembrar a Rainha das Debutantes - toda ela comprida e esguia e de dentes imaculadamente níveos. Ele imaginara estar a viver uma relação estável durante os dois anos em que estiveram juntos. Ela adorava-o e proporcionava-lhe todos aqueles confortos domésticos de que ele nunca desfrutara em casa. Até que, um dia, ela apresentara-o a outra modelo, Éden Antônio.

Mal pousara os olhos em Éden, percebera que Victoria não passara do hors d'oeuvre. Éden era o prato principal. Acabara de regressar de uma viagem de trabalho com sucesso à Europa e era felina e insinuante como uma gata. Ao contrário de Victoria, não fazia lembrar nenhuma Miss qualquer coisa. Tinha uma aparência pálida e exótica, umas feições de porcelana finamente delineadas e uma estrutura óssea espantosa. Também andava a fazer mais dinheiro do que ele, no entanto a situação melhorava progressivamente para Lennie. Este envolvera-se num novo tipo de espectáculo televisivo, ainda em regime experimental, adequadamente intitulado "Vale Tudo"; era a primeira vez que representava verdadeiramente e adorou a novidade. A reacção do público era uma carga que nunca imaginara poder estimulá-lo ao ponto em que o fez. O show ganhou uma exibição semanal numa estação local. Ele tinha vinte e sete anos e tudo lhe corria de feição. Nada mau para um rapaz que chegara a Nova Iorque com uma mão à frente e outra atrás.

Éden era neurótica, ambiciosa e nada mais nada menos do que a mulher mais excitante que ele alguma vez conhecera. Embora fosse quatro anos mais nova que ele, parecia muito vivida. Viajara por todo o mundo, tivera numerosos amantes e espantara Lennie com a sua sofisticação incrível. Claro que tudo isso aconteceu no princípio. Depois de três anos e meio de uma relação amor-ódio, Lennie ficara a conhecer o verdadeiro significado da pressuposta sofistificação. Éden Antônio era a pessoa mais insegura que ele encontrara em dias de sua vida. Numas alturas sentia pena dela; noutras, ela tornava-o de tal maneira ciumento que poderia matar.

Éden! O que ela lhe fizera passar. A relação intensa e volátil deixara-lhe cicatrizes físicas e também mentais. E no entanto... ele continuava a desejar mais. Podiam degladiar-se constantemente, mas as reconciliações valiam sempre a pena.

- Tu és daquelas pessoas que quanto mais levam, mais gostam - dissera-lhe seu amigo Joey Firello em muitas ocasiões. - Ela fornica-te o juízo mas tu ainda queres mais. Larga-a, Lennie. Não passa de uma oportunista. Uma puta de classe.

Claro que era. Ele sabia. Mas não tinha coragem de renunciar.

- Ela tem-te preso pelos tomates - disse-lhe Joey.

- Nem pensar - retorquiu Lennie. Mas era verdade.

Éden adorava exibir-se. Todas as noites gostava de ir até à cidade. Aos fins-de-semana freqüentava não se sabia que aulas de representação meio idiotas. Desejava ser descoberta e tornar-se estrela de cinema. Aliás, já se considerava como tal. Quando, terminada uma temporada, o espectáculo de Lennie foi cancelado, o único comentário que fez foi: "Jesus! E eu que me preparava para aparecer como artista convidada no teu show! "

Éden achava que a carreira dele não sairia da cepa torta e não se preocupava em escondê-lo. Não que se importasse. Éden só se preocupava com a sua própria pessoa.

Era uma actriz péssima... Lennie vira-a em várias produções de pequena envergadura e achara-a confrangedoramente incapaz. Como modelo, ninguém conseguia suplantá-la.

- Por que não te limitas à carreira de modelo? - perguntara-lhe certo domingo à tarde, depois de a ver assassinar uma cena d& Gata em Telhado de Zinco Quente.

- Vai-te lixar, filho da puta! -gritara-lhe Éden. -Estás a querer dizer-me que não presto?

- Estou a querer dizer-te que mais valia fazeres aquilo em que ninguém te ultrapassa.

- Grande cabrão! - berrara-lhe ela, atirando-lhe com um frasco de perfume. - Seu ordinário! - Seguira-se um pesado cinzeiro de vidro.

- O que tu tens é inveja!

Dois meses e muitas brigas mais tarde, Éden partira para a Califórnia com um actor da sua classe, um parvalhão de cabelo comprido que dava pelo nome de Tim Wealth.

Lennie sentira-lhe a falta. Apesar de continuar a ter trabalho em pequenos clubes de terceira categoria. Apesar de adorar cada minuto. Apesar da reacção do público ser muito positiva e ele começar, gradualmente, a ganhar uma fama modesta mas segura.

As críticas - quando as recebia - eram excelentes. O dinheiro não era nada de especial, no entanto complementava o seu salário com os guiões que ia escrevendo. O seu material tinha sempre procura.

No íntimo sempre soubera que acabaria por ir atrás de Éden até à Califórnia. Las Vegas era o ponto de partida. Se se saísse bem naquela cidade, poderia seguir para Los Angeles sem grandes preocupações. Éden deixava-se impressionar pelo sucesso. Se alguma vez ele o obtivesse, ela voltaria a correr...

A loira eslava fez-lhe sinal e ele apercebeu-se de que devia ter estado a fitá-la fixamente. Seguiu rapidamente o seu caminho, contornando a piscina, e olhando em volta. Viu uma rapariga deitada numa cadeira de recosto, envergando um fato de banho preto. Lembrou-se de que a vira atravessar o aeroporto ainda há pouco. Tivera muitas mulheres depois de Éden mas nenhuma delas ajudara. De todas as vezes imaginava que a seguir seria diferente. Nunca era.

Sem se deter, acercou-se da rapariga de fato de banho preto, escolhendo mentalmente qual das suas formas de abordagem bem-sucedidas deveria adoptar naquele caso. Decidiu jogar pelo seguro, além de que resultava sempre. "Tampas" eram algo que Lennie Golden conhecia muito pouco.

- Tu - disse-, és demasiado bonita para estares sozinha. Então que há-de ser? Uma bebida? Pequeno-almoço? E que tal diamantes? Por mim não há problemas.

Normalmente reagiam numa de duas maneiras: Ou se riam ou pediam rapidamente diamantes. Fosse como fosse, o diálogo ficava iniciado e a partir daí era sempre a aviar. Primeiro fá-las rir, depois atira-te de cabeça, era o seu lema.

Lucky ergueu lentamente os óculos de sol e fitou-o com frieza.

Ele viu-lhe os olhos negro-opala e quase renunciou definitivamente às loiras.

- Tens de prometer que me respeitarás pela manhã - acrescentou Lennie rapidamente. - Sou muito sensível.

Esboçou o sorriso que tantas vezes lhe tinham dito ser irresistível e aguardou o comentário dela.

- Põe-te a andar, idiota - disse a jovem desinteressadamente. - Tenta a palerma que está de pose debaixo da palmeira, tem ar de quem anda a precisar de um pouco desse teu palavreado de mau-gosto. É mais o teu estilo, percebes?

E baixou os óculos, dando a conversa por terminada.

- Espera aí, quem é que andou a escrever o teu guião... eu?

A rapariga era para o gelado mas nada que ele não fosse capaz de derreter.

Antes que pudesse continuar, sentiu uma mão descer-lhe sobre o ombro, vendo um sueco corpulento, de calções de banho azuis, que lhe disse:

- Isto não é nenhuma casa de engate, senhor. É favor retirar-se.

Lennie tentou libertar-se da mão mas Bertil apertava com firmeza.

- Ei, deixe-se disso, homem. Estou hospedado aqui - objectou.

- Mostre-me a chave do seu quarto - disse Bertil, afastando-o rudemente de Lucky.

Lennie não gostava de ser empurrado. Tão-pouco de fazer figura de parvo.

- Faça um favor a si próprio - exclamou furioso. - Tire as mãos de cima de mim. vou actuar no Salão Bahia. Chamo-me Lennie Golden. Sou um artista, por amor de Deus.

O grito de uma mãe aflita atraiu as atenções gerais.

- A minha filhinha não sabe nadar! - gritava a mulher histericamente.

Bertil largou Lennie. Este, juntamente com dois salva-vidas, saltaram para dentro da piscina. Lennie foi o primeiro a chegar junto da criança; puxou-a para cima pelos cabelos e levou-a até à beira da piscina, onde Bertil lha tirou dos braços passando-a depois, chorosa mas sã e salva, à mãe grata. Lennie içou-se para fora de água e ficou a escorrer das calças brancas arruinadas e da camisa que começara a encolher, já para não falar dos tênis alagados. Os dois salva-vidas lançaram-lhe olhares malévolos. Bertil ignorou-os. A mãe estava demasiado interessada no seu rebento acabado de salvar para sequer olhar de relance na sua direcção.

Procurou a rapariga dos olhos negros. Como poderia ela resistir-lhe agora?

Desaparecera.

Era bem feito, para não armar em herói.

- Pensei - disse Lucky -, em ir ter contigo para te pôr ao corrente de tudo. Tenho tanta coisa para te contar.

Passava do meio-dia quando, finalmente, localizara Gino. Falaram ao telefone.

- Estou fatigado, filha - disse-lhe ele. - Tenho de dormir uma sesta para me recompor.

Ela estivera ausente durante três semanas e ele dizia-se demasiado fatigado para a ver. Que se passava?

- Onde estiveste? Liguei quatro vezes - disse Lucky com ar ligeiro, ciente de que com Gino mais valia não forçar.

- Por aí - replicou ele.

"Às voltas com alguma corista ranhosa", pensou ela. "Setenta e dois anos e continua a fornicar."

Obsequiou-o com um pequeno silêncio de desaprovação.

- Irei buscar-te hoje à noite - propôs ele. - Jantaremos pacatamente, só os dois. Às oito horas está bem?

Uma ponta de sarcasmo.

- Tens a certeza de que não te sentes demasiado fatigado?

- Deixa-te disso, filha. Quando é que estou demasiado fatigado para ti?

Agora, apeteceu-lhe responder. Mas não o fez. Concordou com as horas propostas e passou uma tarde impaciente à espera do momento em que lhe contaria o que se passara na viagem, assim como as negociações a que procedera. Ele ficaria tão orgulhoso dela... Estava ansiosa!

- Que foi que te aconteceu? - perguntou Jess.

- Quis ver se esta camisa era à prova de água - replicou Lennie sarcasticamente.

- Não é.

- Achas que não? Então para a próxima lembra-me de que não devo voltar a nadar com ela vestida.

Subiu para o carro e Jess arrancou rapidamente. Os olhos reluziram-lhe perigosamente ao lançar o Camaro vermelho pela Strip abaixo a toda a velocidade, não atropelando, por pouco, um turista que passava com uma T-shirt a dizer "Adoro Chicago".

- Merda! - murmurou Jess.

- Que se passa?

- Há anos que não tenho um acidente.

- Cá por mim não o diria.

Fez virar o carro para o parque de estacionamento de um supermercado e desligou o motor.

- Tenho de comprar comida de cão - anunciou. - E coisas para o bebê, etc.

- O teu homem não se encarrega das compras?

- Viste como foi o almoço. Que queres que te diga? - disse, com uma careta.

- Acho que temos de conversar - observou Lennie. Jess concordou.

- Havemos de o fazer.

Seguiu a amiga até ao interior do supermercado. Uma loira de metro e oitenta, vestindo umas calças cor-de-rosa e um caicai em crochet sorriu-lhe. Ele retribuiu o sorriso.

Um indivíduo baixo e de ar mal-disposto, envergando um fato branco amachucado, desferiu uma palmada no traseiro da ruiva.

- Acaba com isso - disse o homem asperamente.

A ruiva atirou os longos caracóis para trás e fez beicinho.

- Las Vegas está cheia de pegas - observou Jess.

- A mim o dizes - replicou Lennie.

Os artigos de mercearia ficaram em sessenta e três dólares. Lennie fez questão em pagar, porém Jess nem sequer quis ouvir falar no assunto.

- Estás liso - disse.

- De maneira nenhuma.

- Não é necessário.

- Quem é que diz?

- Eu.

- Vai passear, cara-de-macaco.

- Não me chames isso!

Os que se encontravam na bicha, atrás dos dois, aplaudiram quando, finalmente, Jess lhe permitiu que pagasse.

Foram para o parque de estacionamento, rindo.

Viram um rapaz gorducho, de cabelo comprido ensebado, a tentar forçar a entrada no Camaro.

- Ei! - gritou Jess indignadamente.

O rapaz prosseguiu o seu assalto à janela do lado do condutor com um cabide de metal.

Jess deixou cair os dois sacos com as compras e correu para o rapazola.

Lennie foi logo atrás. Juntos, arrastaram o rapaz para longe da sua tarefa. Olhos vidrados destilaram veneno. Viram-no caminhar, cambaleante, pelo parque, até se deter junto de um Ford, lançando-se de novo ao trabalho.

- Não posso acreditar - disse Lennie.

- Agora estás em Nova Iorque, devias acreditar em qualquer coisa respondeu Jess ajuizadamente.

Recolheram as mercearias e chegaram a casa em tempo recorde. Wayland flutuava no meio da piscina, em cima de um colchão azul às riscas, fumando um charro. Simon chorava violentamente em cima de uma manta Navajo imunda.

- Merda! - murmurou Jess. Parecia ser a sua expressão preferida.

Lennie reflectiu se não teria sido mais aconselhável instalar-se num hotel. Tudo indicava que Jess já tinha problemas domésticos mais que suficientes sem um hóspede para complicar a situação.

 

- Ena, estás com óptimo aspecto, garota. Atlantic City fez-te bem, não? - piscou o olho à filha.

- Sabes que mais, Gino, para velhote também não estás nada mal. Ela nunca o tratara por papá. Só às vezes, mentalmente, quando era tarde, ela sentia-se fatigada e as recordações teimavam em vir atormentá-la sorrateiramente...

- Acaba com o "velhote" - declarou ele secamente.

Sorriram um para o outro, deram-se o braço e seguiram para o elevador privado de Lucky.

Como se pareciam um com o outro! Os mesmos olhos ardentes, a tez bem morena, o cabelo negro-azeviche e a boca de lábios grossos e sensuais.

Desfrutavam de um relacionamento perfeito. Eram tão parecidos em tantos aspectos! Desde os gostos gastronômicos aos filmes e dos livros às pessoas, quase sempre formulavam as mesmas opiniões. Gino dizia, "Não confio naquele tipo. Não arriscaria nem o meu tomate esquerdo nele." e Lucky acrescentaria, "Acautela-te com o direito, aquele gajo não é boa rez." Depois deitavam a rir, os olhos negros de um afectuosamente presos nos olhos negros do outro.

Viviam em apartamentos penthouse no cimo dos hotéis de que eram proprietários. Gino habitava no Mirage e Lucky residia no Magiriano. Partilhavam conjuntamente de uma casa nos arredores de Nova Iorque, em East Hampton. Era uma mansão branca, à moda antiga, tão cheia de recordações - muito do passado de ambos...

Outrora tinham vivido naquela casa como uma família. Gino e sua mulher, Maria, os filhos de ambos, a linda e morena Lucky e Dario, o seu irmão louro.

Agora só restavam Gino e Lucky-os dois contra o mundo. Entre ambos existia um elo que ninguém poderia quebrar. Nem sempre as coisas tinham sido assim...

Gino Santangelo nascera em Itália e, em 1909, com a idade de três anos, fora para a América com os pais, um casal jovem e forte, dominado pela ambição e o desejo de conquistar o grande sonho americano. Mas os empregos não abundavam. Havia demasiados imigrantes, todos com a mesma idéia, todos a transbordarem de energia e entusiasmo. Quando Gino chegou aos seis anos, o grande sonho americano azedara. Sua mãe fugira com outro homem, e Paulo, amargurado e desiludido, encetara uma vida de crimes" menores, bebida e mulheres perdidas.

Quando Paulo estava na prisão, o que acontecia com freqüência, o facto não incomodava Gino. Passava a vida a ser empurrado de um lado para o outro, vivendo "em lares emprestados, circunstância que o ensinou a ser desenvencilhado e sagaz, um autêntico puto da rua dotado de grandes ambições. Aos quinze anos foi apanhado a roubar um carro e enviado para a Casa de Correcção de Nova Iorque para Rapazes - um centro de acolhimento de disciplina rigorosa, na Bronx, para órfãos e delinqüentes de primeiro grau. Os irmãos responsáveis formavam um grupo duro. A disciplina era a palavra de ordem do dia e a promiscuidade com os rapazes, a palavra de ordem da noite. Gino conseguiu defender-se a si próprio mas "alguns dos elementos mais jovens já não tiveram a mesma sorte. Um rapazito escanzelado chamado Costa Zennocotti, era constantemente assediado. Os seus gritos de socorro nunca eram atendidos até que, um dia, Gino não foi capaz de suportar a gritaria agonizante que vinha de um dos quartos do fundo. Sem pensar, pegou numa tesoura e entrou furtivamente no dito quarto. Costa estava estendido "em cima de uma mesa, com as calças e as cuecas enroladas nos tornozelos, enquanto um dos irmãos afundava o membro erecto no traseiro franzino da criança. Gino atirou-se para a frente de tesoura em riste.

O resultado foi uma permanência na prisão estadual de Bronx, seis meses de liberdade condicional e um amigo para toda a vida na pessoa de Costa, que, em resultado da publicidade, foi adoptado por uma família benfeitora de São Francisco.

Quando Gino voltou às ruas, era mais velho e mais arguto, levando consigo uma ânsia enorme de ganhar dinheiro e de vencer o sistema. Não desejava ter a mesma vida que seu pai - que continuava a passar pela prisão constantemente, tendo-se casado, na altura, com uma prostituta chamada Vera. De modo que olhou à sua volta e observou os heróis do dia - homens como Salvaíore Charlie Luciano (que mais tarde viria a ser conhecido como o famoso Lucky Luciano), Meyer Lansky e Bugsy Siegel. Eles é que eram os tipos da massa, dos automóveis enormes e das mulheres bonitas, o poder e o respeito.

Gino viu. Gino quis. Gino conseguiu.

A sua subida até ao topo foi demorada e árdua mas acabou por dar frutos. Depois de começar modestamente, meteu-se sozinho nos negócios, dirigindo uma próspera venda de bebidas alcoólicas. Aos vinte e dois anos tinha uma linda namorada chamada Cindy e uma amante rica e de sociedade de nome Clementine Duke, cujo marido, senador, o introduzira no mundo dos investimentos e do verdadeiro dinheiro. O senador Duke conferiu legitimidade aos ganhos de Gino. Aquando da grande queda da bolsa em 1929, Gino estava preparado e, graças ao senador, saiu incólume da crise.

Entretanto arranjara um sócio para o negócio. Enzio Bonnatti; por volta de 1933, os interesses de ambos englobavam o jogo, a agiotagem e os ganhos da venda das bebidas. Gino recusou-se a tocar na prostituição e na droga, apesar da pressão de Enzio. O conflito emergente dessa situação levou a que separassem os seus interesses em 1934 e seguissem caminhos diferentes.

No âmbito da recreação, Gino abriu um clube nocturno. pôs-lhe o nome de Clemmie's e tornou-se uma celebridade mediana. Clementine Duke ficou deliciada. Contudo, o seu entusiasmo foi bem menor ao dar conta do sucesso que Gino obtinha junto, das mulheres. Convenceu-o a casar com Cindy - na esperança de que tal o retirasse do mercado. Mas as mulheres constituíam uma atracção fatal para Gino. Este adorava verdadeiramente fazer amor, tendo sido iniciado nessa arte por uma das suas mães adoptivas aos doze anos, para depois ser levado a novos níveis de satisfação através da versátil Mrs. Duke. Agora as suas conquistas eram muitas e freqüentes.

Cindy depressa se tornou tão rabugenta e enciumada quanto Mrs. Duke. Maquinava vingança, dormia com tudo o que era homem e ameaçava denunciá-lo ao Serviço de Fiscalização de Impostos por fuga ao fisco.

Em 1938 caiu de uma das janelas da sua penthouse, encontrando a morte - um acidente infeliz. Gino fez-lhe um funeral grandioso.

Em 1939, a América era abalada por rumores de guerra na Europa, O Senador Duke reuniu-se certo dia com Gino e os dois tentaram descortinar meios de retirarem benefícios da situação. Gino alinhou em todas as sugestões apresentadas pelo homem mais velho. Nunca, até ali, o senador o aconselhara negativamente.

Gino reflectia freqüentes vezes na maneira como a guerra o envolveria se chegasse a estender-se à América, Não tinha que se preocupar. Na véspera do Ano Novo de 1939, encontrou o pai num hotel de terceira a espancar Vera. Esta não passava de uma pega barata, no entanto fora bondosa para com ele ao longo dos anos. E em retribuição, ele ajudara-a a partir da altura em que dispusera de meios para tal.

Na altura em que Gino deparou com a cena sórdida, Vera erguia uma 38 e estoirava a cabeça a Paulo. Gino retirou-lhe, a custo, a arma

das mãos - e nessa noite, mais tarde, foi acusado do assassínio do próprio pai e, consequentemente, preso. Passou os anos da guerra atrás das barras, punido por um crime que não cometera.

Costa Zennocotti, seu amigo dos velhos tempos e na altura advogado, conseguiu obter uma confissão escrita e testemunhada de Vera pouco antes da sua morte por alcoolismo, sete anos mais tarde. Gino obteve um perdão e uma indemnização miserável. Que quantidade de dinheiro poderia compensar sete anos da sua vida?

Em 1949 decidiu que precisava de mudar de cena, de criar novos interesses. Las Vegas era uma perspectiva sedutora - e Jake, o Rapaz, um velho amigo seu, andava a pressioná-lo para que investisse. Formou uma associação e esta financiou a construção do Hotel Mirage. Las Vegas foi apenas o começo. Bugsy Siegel já abrira o Hotel Flamingo e o casino (mais tarde viria a ser morto por desviar dinheiro), e Meyer Lansky financiara o Thunderbird. Gino quis entrar no negócio. Viviam-se tempos excitantes. Ele queria gozá-los, divertir-se e esquecer os dias sombrios que passara na prisão.

Foi então que conheceu aquela que viria a ser sua esposa, Maria. Esta era jovem, inocente, apenas com vinte anos - senhora de uns cabelos louro-claros e de rosto de madonna frágil. Casaram-se quase logo a seguir. E, em 1950, nasceu Lucky. Até mesmo em bebê se parecia com Gino.

Viviam numa imensa mansão branca em East Hampton, com eucaliptos no jardim, rodeados de paz e de tranqüilidade.

Para que o seu mundo ficasse completo, Maria deu à luz um filho, dezoito meses mais tarde. Puseram-lhe o nome de Dario. Este parecia-se tal e qual com a mãe.

O elevador parou e Lucky saiu para o meio da multidão que enchia o casino. Planeara a localização do elevador de maneira a que este a deixasse precisamente no meio da acção - ao contrário de Gino, cujo elevador, no Mirage, o levava directamente para uma garagem subterrânea onde dispunha de uma limusina com motorista à disposição vinte e quatro horas por dia.

Gino deteve-se por um momento, de olhos atentos. Uma vez miúdo da rua, sempre miúdo da rua. Podia dispor-se de todo o poder e dinheiro do mundo, mas uma pessoa proteger-se a cem por cento nunca era demais. Sentiu a ligeira pressão da arma cuidadosamente escondida num coldre de ombro e, mais sossegado, continuou em frente.

Lucky voltou-se para o pai com um sorriso rasgado.

- O negócio vai florescente, não achas, Gino?

- É verdade, miúda. As coisas mostram-se animadas.

As coisas eram sempre animadas em Las Vegas. Os nabos abundavam por todo o lado com os seus dólares, prontos e dispostos a fazerem uma jogada, a correrem um risco, a ganhar ou a perder, no fundo tanto lhes fazia, desde que corressem o seu risco.

Comeram no resguardado restaurante Rio, do hotel, os dois sozinhos. Lucky falava incessantemente da viagem, os olhos a brilharem-lhe de entusiasmo e as faces ruborizadas.

- Concretizei precisamente o negócio de que andávamos à procura disse. - O terreno indicado, mesmo à beira da praia. Os investidores certos. Até houve arquitectos e empreiteiros que vieram ter comigo trazendo projectos. Se trabalharmos com rapidez, poderemos iniciar o projecto daqui a um par de meses. Está tudo combinado. Só te falta dar a autorização.

Fez uma pausa para respirar.

- Claro que iremos precisar de licenças de construção, autorizações. Mas está tudo sob controlo. Não há problema nenhum.

Sorriu triunfantemente.

Gino escutou atentamente. Ela era esperta, aquela sua filha. Esperta e rápida. Bonita e inteligente. A sua menina. Fazia-o sentir-se orgulhoso. O jeito que demonstrava para os negócios igualava o seu.

Nunca imaginara que alguma mulher pudesse estar ao seu nível mas sua filha estava. A sua Lucky.

Lucky Santangelo foi, desde muito cedo uma criança muito viva e excitável. Dario, seu irmão mais novo, era menos robusto, mais delicado. Tinham apenas dezoito meses a separá-los, mas mesmo quando pequenos, Lucky é que tomava a liderança.

Maria era uma mãe maravilhosa. Gino estragava-os com mimos. Os presentes, os beijinhos e os abraços eram constantes. Em especial para Lucky, que reagia mais a eles que Dario.

Ao fazer cinco anos, ofereceram-lhe uma festa fantástica com cinqüenta crianças. Palhaços. Corridas de burro. Um bolo de chocolate monumental. E Gino ao pé para a atirar ao ar entre os braços e enchê-la de amor. Lucky recordava-se desse dia como o mais feliz da sua vida.

Uma semana depois, Gino partiu em viagem de negócios. Lucky detestava que ele se afastasse, no entanto havia compensações como, por exemplo, tomar o lugar do pai na cama enorme em que este dormia com a mãe e todos os presentes maravilhosos que ele trazia quando voltava a casa.

Mas daquela vez não houve presentes, beijinhos ou risadas. Daquela vez houve somente a dor do assassínio súbito e brutal de sua mãe; Lucky encontrou o seu corpo nu a flutuar em cima de um colchão de ar na piscina, ao levantar-se pela manhã.

As recordações que abrangiam o período a seguir, eram indistintas. Polícias. Fotógrafos. Guardas. Depois uma viagem de avião para a Califórnia. Uma casa nova com barras nas janelas, alarmes e guardas a patrulharem os terrenos circundantes, acompanhados de cães. A vida mudou completamente para Lucky e Dario. Maria, desaparecida para sempre. E Gino tão diferente, enraivecido e triste. Acabaram-se os risos, as brincadeiras, os abraços e os beijos. De facto, ele mal aparecia em casa. Ou ficava no seu apartamento de Nova Iorque ou no hotel em Las Vegas. Quase dava a impressão de não desejar passar nenhum tempo com os filhos. Quem cuidava deles eram amas, tutores e criados.

A dor ganhou consistência no íntimo de Lucky, enquanto Dario se retirava para um mundo de fantasia. Possuíam tudo o que o dinheiro podia comprar. Mas na realidade só se tinham um ao outro.

Quando Lucky se aproximou dos quinze anos, foi decidido enviá-la para um colégio interno na Suíça. A jovem sentiu-se simultaneamente excitada e temerosa diante da perspectiva, mas a idéia de se afastar da mansão de Bel Air era certamente tentadora.

LEvier era um austero colégio particular dirigido por uma mulher nariguda que exigia "respeito e obediência" às suas educandas. Se não tivesse sido a sua companheira de quarto, Olympia Stanislopoulos, Lucky teria detestado a experiência. O lema de Olympia era "o colégio que se lixe. Toca a sair e a divertir". E Lucky não discutia. Juntas, apagavam obedientemente as luzes às 9. 30 da noite. E às 9. 35 da manhã, era vê-las a entrar por uma janela estrategicamente escolhida. Do colégio até à vila mais próxima era só uma corrida de dez minutos, onde eram aguardadas por rapazes, bebidas e paródia. Levaram exactamente dois semestres a serem expulsas.

Gino chegou, para recolher a filha rebelde, com uma máscara de mau-presságio no rosto. Levou-a de volta a Nova Iorque de avião e internou-a imediatamente num colégio ainda mais rigoroso, no Connecticut. Não se passou muito tempo sem que contactasse com Olympia, que se encontrava em Paris, e, juntas, planearam fugir. com a pequena ajuda proporcionada por um par de cartões de crédito, conseguiu seguir de avião para Paris, onde se encontrou com Olympia. Em seguida foram imediatamente para o sul de França num Mercedes descapotável branco, onde forçaram a entrada na villa de uma tia de Olympia, aí fixando residência. As recordações eram agradáveis. Mesmo quando Olympia lá metera o namorado. "Warris, o Sempre-Em-Pé", como Lucky o baptizara.

As recordações ligadas à noite em que os pais de ambas chegaram, já não eram tão doces. Gino Santangelo e Dimitri Stanislopoulos. Depois fora o regresso à mansão de Bel-Air. Dario estava, na altura, ausente, no colégio.

Houvera ocasiões em que detestara o pai - um ódio repleto de fúria, abrasador, que ardia fundo. Noutras amara-o mais que a tudo no mundo. E teria gostado que tudo voltasse a ser como dantes. Ansiava desesperadamente pela atenção do pai, porém tal parecia a última coisa que ele estava preparado para lhe dar.

Ao completar o décimo-sexto aniversário, Gino levou-a de surpresa a Las Vegas, de avião. Uma vez. naquela cidade, mandou-a ao cabeleireiro, comprou-lhe um vestido de colecção e presenteou-a com um par de requintados brincos de diamantes. Depois disse-lhe que deveria acompanhá-lo a um importante baile de caridade oferecido por Mrs. Peter Richmond - a esposa do Senador Richmond. - Lucky ficou entusiasmada. As coisas começavam a animar. Mas no jantar, Gino despachou-a para outra mesa, pondo-a ao lado do horroroso filho de Mrs. Richmond, Craven, não lhe ligando a noite toda.

Mais tarde ela escapulia-se, mudava para uns jeans, atravessava a Strip e acabava numa refrega com um bêbado num parque de estacionamento.

Gino aguardava-a quando chegou às três da madrugada, com as roupas rasgadas e sujas.

Gino foi direito à questão. Ela não passava de uma pequena vadia cujo único objectivo na vida era fornicar pelas esquinas, portanto ele ia casá-la e o assunto ficava arrumado.

Se ela não gostasse...

Paciência.

Gino não pensara em Susan Martino durante toda a noite. Nem o momento fora propício para mencionar o seu envolvimento a Lucky. De modo que se sobressaltara fortemente ao ver Susan entrar no restaurante! acompanhada por um homem, sorrir-lhe, acenar-lhe com a mão e sentar-se numa mesa próxima.

Lucky perguntou:

- Quem é?

- Ei... - Adiou a resposta por momentos. Ninguém lhe contara ainda? - Não conheces a viúva de Tiny Martino?

- Não pessoalmente - respondeu Lucky despreocupadamente. Agora quanto ao velho que está com ela, esse parece-me conhecido.

Gino pestanejou. Tinha falta de vista mas o orgulho impedia-o de usar óculos.

- Sim - concordou. - Parece-me que conheço aquela cara. Começou a ferver por dentro. O homem tinha mais de um metro e oitenta de altura, uma apresentação impecável, cabelo branco farto e feições vincadas mas agradáveis, desfeadas apenas por um nariz excessivamente proeminente. E o filho da mãe estava sentado ao lado de Susan.

Gino ficou carrancudo.

Não era possível que fosse o par de Susan.

Ou seria?

Sentiu-se ferver ainda mais e chamou o chefe de mesa.

- Quem são as pessoas sentadas àquela mesa? - perguntou. - Convidados de Mister Traynor.

- Onde raios está Mister Traynor?

- Prestes a chegar, Mister Santangelo - respondeu o chefe de mesa afastando-se nervosamente.

- Que se passa? - perguntou Lucky calmamente, habituada às explosões do pai. - Trata-se de alguém que não deveria vir aqui?

-Depressa saberei - replicou Gino sombriamente. -Ei... Matt, chega aqui! -gritou, ignorando as outras pessoas que jantavam e se viraram para olhar.

Matt Traynor acercou-se deles, todo sorridente, com o cabelo grisalho a brilhar sob a luz dos candelabros.

- Lucky, bem-vinda sejas. Estás linda. E Gino, que prazer.

- Quem diabo é o parvalhão que está com Susan Martino?

Matt pestanejou rapidamente, ao mesmo tempo que tentava descortinar o que fizera de errado. Ouvira rumores do interesse de Gino na viúva de Tiny, mas não imaginara que se tratasse de algo sério, portanto por que berrava Gino como um amante escarnecido?

- Susan não está com ninguém - explicou rapidamente. - Imaginei que lhe apetecesse um pouco de companhia, portanto convidei-a a juntar-se a mim e a alguns amigos meus.

Fez uma pausa e depois lançou a deixa final com sinceridade melancólica.

- Sabes que Tiny era como um irmão para mim. Gino não se deixou comover.

- Quem é o tipo? - perguntou com maus modos.

- Estarão a falar de alguma coisa que me seja desconhecida? - perguntou Lucky, interrompendo.

-Se me passasse pela cabeça que o facto te incomodava, Gino...

- observou Matt solicitamente.

- Quem raios está incomodado? - gritou Gino. E levantou-se.

- Dimitri Stanislopoulos - apressou-se Matt a esclarecer. -Chegou esta noite. Está cá para participar no jantar de homenagem a Francesca Fern. Instalámo-lo na Suite Presidencial tudo gratuitamente. Normalmente ele fica no Sands e perde no Sands se bem me entendes. Mas encontrei-o em Monte Carlo o mês passado e convenci-o de que o Magiriano seria mais a seu gosto. O tipo tem mais dinheiro que Onassis. E adora jogar baccarat.

- Evidentemente! - exclamou Lucky. - É o pai de Olympia. Não admira que pareça conhecido.

- Olympia? - inquiriu Gino sem perceber.

- Lembras-te - continuou Lucky animadamente-, Olympia era a minha melhor amiga no colégio, fugimos para o sul de França e tu e Dimitri descobriram-nos o rasto. Não há dúvida de que é ele. Nunca poderia esquecer aquela cara.

Gino esboçou um gesto impaciente. Não lhe apetecia recordar o passado.

- Matt- disse bruscamente-, vocês juntam-se a nós. Era mais uma ordem do que um convite.

- com certeza que teremos muito gosto - replicou Matt com ligeireza, embora se sentisse ofendido por ser tratado como um empregadote qualquer. Ainda assim, quando Gino Santangelo falava todos se punham em sentido. - A minha acompanhante não tarda, trazendo também uma amiga para fazer par com Dimitri. Queres que nos juntemos todos a ti?

- Claro. Traz Susan e esse tal de não-sei-quantos agora e os outros quando chegarem- Boa idéia - disse Matt, achando que era detestável. Mal ele se afastou da mesa, Lucky perguntou:

-Por que razão queres que eles venham para aqui? Temos tanta coisa para falar.

- Por que não? - replicou Gino, voltando a sentar-se. - Vais gostar de Susan Martino, é uma mulher adorável.

"Vou gostar uma ova", pensou Lucky. Tornava-se cada vez mais evidente que Gino andara bem entretido durante a sua ausência. E dessa vez não fora com uma corista reles qualquer. Via bem que perdera a atenção do pai e o facto enfurecia-a.

- Tens andado a vê-la? - perguntou com despreocupação.

- De vez em quando - replicou Gino com igual despreocupação. "De vez em quando, uma ova. Disfarças tão mal o teu interesse que toda a sala já deu por ele."

Inexplicavelmente, sentiu ciúmes.

Porquê?

Por que não?

Ele era seu pai.

O papá.

Gino.

Os convites, apressadamente impressos, convidavam as pessoas para o casamento de Lucky Santangelo com Craven Richmond.

Craven Richmond. Alto, franzino, filho do Senador Peter Richmond e da sua atlética mulher, Betty.

Craven Richmond. Atencioso, delicado, chato.

Craven Richmond. Um marido escolhido por Gino para Lucky sem a aprovação ou o consentimento desta.

Ela não se atreveu a desobedecer ao pai. Portanto casaram após o seu décimo-sexto aniversário. Foi um casamento condenado ao fracasso. Passaram a lua de mel nas Bahamas. Uma grande farsa. Apesar de Gino a imaginar uma pequena ninfomaníaca doidivanas e a ter casado para proteger o grande nome dos Santangelo, na realidade Lucky ainda era virgem, no sentido técnico do termo, nunca tendo passado de umas brincadeiras puxadas. Craven, com os seus vinte e um anos, não possuía qualquer espécie de experiência e era incapaz de se empenhar em mais do que três minutos rápidos de sexo por noite.

Ainda a lua de mel não terminara quando Lucky arranjou o seu primeiro amante. E a partir dessa altura, nunca mais olhou para trás. De que outro modo teria conseguido suportar quatro anos de casamento com um homem que fora pago para a desposar? Sim, pago - um facto triste que veio a saber através de Betty Richmond um dia, no decurso de uma discussão familiar. Gino pagara a Craven e fizera chantagem com Betty e Peter para que estes acedessem ao seu intuito.

Assim se viu presa a um casamento sem amor com um homem que não conseguia suportar. E o futuro parecia-lhe sombrio. Viviam num apartamento em Washington, a menos de cinco minutos da casa apalaçada dos Richmond. Craven não trabalhava. Passava os dias a jogar tênis com a mãe e a deambular pela sede de campanha do pai, atrapalhando toda a gente. Lucky preenchia os dias com compras, leitura e passeatas intermináveis pelas autoestradas no seu Ferrari vermelho - um presente de Casamento do papasinho. Não era assim que desejava passar a sua vida.

Certa ocasião dera a entender a Gino que pretendia acompanhá-lo nos negócios da família, no entanto este olhara para a filha como se esta estivesse louca e respondera que só os rapazes é que se metiam em negócios - as raparigas casavam-se, ficavam em casa e tinham bebês.

Lucky sentia-se prisioneira de uma vida que Gino a forçava a ter. Odiava-o apaixonadamente, no entanto desejava desesperadamente agradar-lhe.

Permanecer casada agradava-lhe a ele.

Fornicar pelos cantos agradava-lhe a ela.

Portanto foi o que fez.

Abundantemente.

Até que um dia, tinham-se já passado quatro anos de matrimônio, recebeu um telefonema a chamá-la a Nova Iorque. Gino queria vê-la e, daquela vez, sem Craven. Lucky ficou deliciada. Daria tudo para se afastar e fazia meses que não via o pai - quem sabe este sentia saudades suas.

Ao chegar a Nova Iorque, descobriu que também Dario fora chamado. O irmão de quem outrora fora tão amiga, não passava agora de um estranho reservado. Freqüentava um instituto de arte em São Francisco e nunca comunicava com Lucky fosse de que maneira fosse.

Gino presidiu ao jantar de família, que se arrastou até ele se dispor a fazer a declaração de que ambos tinham estado á espera. Ao que parecia, Gino debatia-se com problemas com as autoridades ligadas aos impostos e corria o risco de vir a enfrentar uma intimação e a possibilidade de prisão. Via-se obrigado a abandonar o país durante uns tempos.

- É uma precaução - disse. - vou passar uma série de assuntos para as vossas mãos. Nada com que devam preocupar-se, terão apenas de pôr a vossa assinatura nuns papéis de tempos a tempos. Costa representar-me-á legalmente e encarregar-se-á de tudo. E Dario, quero que te mudes para Nova Iorque. Tens muito que aprender. Costa começará a ensinar-te.

- Mudar-me para Nova Iorque! - exclamou Dario. - Porquê?

- És um Santangelo, aí tens porquê. E já andaste a perder tempo que baste naquela porcaria de escola de arte. É tempo de entrares para o negócio.

- Então e eu? - perguntou Lucky.

- Tu o quê?

- Se Dario vai aprender o negócio, eu também quero fazê-lo.

- Não sejas tola, rapariga - disse Gino suavemente.

Lucky sentiu quatro anos de raiva reprimida ferverem dentro de si.

- Por que não? - perguntou. - Por que não?

- Porque és uma mulher casada que deverá ficar ao lado do marido e portar-se como uma autêntica esposa. E é tempo de teres um bebê. De que estão à espera, não me dizes?

- De que estou à espera? Estou à espera de ter uma vida primeiro, tens do que estou à espera.

Gino gesticulou, num arremedo sarcástico de desespero.

- Ela quer ter uma vida. Não lhe basta que disponha de tudo o que de melhor o dinheiro pode comprar...

- Incluindo um marido - gritou Lucky iradamente. - Tu compraste-me um marido com o teu maldito dinheiro. Tu...

- Basta.

- Não, não basta, Quero mais - gritou Lucky. - Por que haverá Dario de ter uma oportunidade e eu não?

- Acaba com isso, Lucky! - ordenou o pai com voz gélida.

- Por que raio hei-de fazê-lo?

Os olhos negros de Gino mostravam-se tão determinados quanto os da filha.

- Porque sou eu que mando. E tem cuidado com a linguagem. As senhoras não falam como tu.

Lucky apoiou as mãos naS ancas e enfrentou-o resolutamente.

- Eu cá não sou nenhuma senhora - disse em tom trocista. - Sou uma Santangelo. Sou precisamente como tu, e tu não és nenhum cavalheiro.

Gino fitou a filha rebelde e pensou, "Cristo! Que foi que criei aqui? Nunca lhe faltei com nada. Que mais quer ela? "

- Por que não te calas e sentas? - disse-lhe, cansado. Lucky ficou ainda mais furiosa.

- Oh, claro! É calá-la, casá-la e que interessa que seja feliz ou não? Não passas de um estupor de um chauvinista que pensa que as mulheres só servem para foder e cozinhar. É mantê-las na cozinha ou na cama, como lhes compete. Foi o que fizeste com a mãe antes de ela ser assassinada? Fechaste-a...

Gino atalhou-lhe abruptamente as palavras com um estalo na cara.

Lucky tentou desesperadamente controlar as lágrimas.

- Odeio-te - sibilou. - Nunca mais te quero ver.

Saiu intempestivamente da sala. Ouviu o pai dizer nas suas costas:

- Crianças! Que é que uma pessoa pode fazer? Tenta-se o melhor possível... Uma mulher metida em negócios... Há que ter genica... emocional... Caramba, elas são todas tão diabolicamente emocionais...

Lucky sentia-se repleta de uma ira profunda e fria.

Pouco tempo depois, Gino saiu do país. Instalou-se em Israel para ali passar um período de tempo indeterminado. Algumas semanas depois, Lucky foi contactada por Costa. Havia documentos a assinar e ele ia enviar-lhos.

Quando os recebeu, analisou-os cuidadosamente, não obstante o bilhete de Costa a dizer o seguinte: "Não te dês ao trabalho de os ler, limita-te a assinar nos sítios marcados a lápis, pura formalidade."

Se ela assinava, tinha que os ler primeiro.

Depois pensou, "para quê dar-me ao trabalho de os mandar entregar se podia fazê-lo pessoalmente? "

Algumas horas depois, seguia para Nova Iorque de avião.

Susan Martino estava impecavelmente arranjada desde o topo da sua cabeça belamente penteada até à ponta dos seus sapatos Charles Jourdan dourados. Envergava um vestido simples de Adolfo e umas quantas centenas de milhares de dólares em safiras reluzentes. Estas condiziam com os seus olhos, tão delicadamente maquilhados- nada de espampanante.

Era do tipo de mulher, concluiu Lucky, que dava a impressão de nunca ir à casa de banho. A idéia de Gino e Susan juntos na cama era de morrer de riso.

- Tenho tanto prazer em te conhecer, querida - disse Susan a Lucky. - O teu pai fala constantemente em ti.

Lucky obrigou-se a sorrir e interrogou-se sobre o que teria acontecido à noite aconchegada a dois de que ela e Gino tinham estado a desfrutar. Susan Martino, Dimitri Stanisíopoulos e Matt Traynor foram para a sua mesa. Foi com dificuldade que Lucky controlou a sua impaciência.

Dimitri e Gino recordaram a última ocasião em que tinham estado juntos. Riram-se. Já estava tudo tão longínquo e esmaecido... Agora já as filhas delinqüentes de ambos eram mulheres feitas.

- Cumprimenta Lucky - disse Gino a Dimitri com um sorriso. - De certeza que ela se lembra de ti.

Uma vez esclarecido que Susan não fazia par com Dimitri, Gino acalmara-se. E por que não? Tinha Susan a seu lado, tão feminina, uma senhora na verdadeira acepção da palavra.

- É um prazer, Lucky - declarou Dimitri, levando-lhe a mão aos lábios e roçando-a com um beijo.

Que parvoíce mais antiquada. Lembrava-se dele na sua ilha grega, no verão que ali passara férias com Olympia. Na altura andava de uma ligação com uma morena bem cuidada, fazendo o mesmo, durante as sestas da tarde, com outra das convidadas - uma actriz de cabelos compridos, olhos faíscantes e marido despreocupado. Segundo Olympia, o pai sentia-se na obrigação de fornicar com tudo quanto mexia! Não muito diferente de Gino, pensara Lucky na altura.

Duas coristas aproximaram-se da mesa. Todas dentes, mamas e cabelo. Uma era a acompanhante de Matt Traynor- este tinha gostos de gato - e a outra, uma de recurso para Dimitri. Ambas as raparigas se mostravam nitidamente impressionadas pelo grupo a que se iam juntar.

Lucky pensou em se retirar. Mas por que havia de o fazer? Decidiu ficar e observar Susan Martino em acção.

A loura não a decepcionou. Manobrou Gino com perícia. Não deu um único passo em falso. Era uma cortesã experiente que encontrara alguém que queria para si e que tencionava conquistar.

Lucky não se deixou enganar pela representação.

Gino deixou.

Por que me preocupei eu, perguntou Lucky a si mesma. A vida é dele.

É dele uma ova.

É a nossa vida. E tem-no sido durante este último ano.

Nova Iorque revelou-se excitante. Afastar-se da família Richmond também o foi. E o mais excitante de tudo foi aprender o negócio de Gino.

Lucky encontrou um professor prestável em Costa, que se rendeu ao interesse profundo por ela manifestado e cooperou inteiramente, embora soubesse que Gino não aprovaria o facto. Todos os dias Lucky aparecia no escritório, onde ele lhe explicava os mecanismos que geriam as várias companhias.

- Claro que és apenas uma figura de proa - dizia-lhe ele. - Nunca virás a ser chamada para tomares decisões.

- Ah, não? - Isso era o que ele pensava. Lucky foi absorvendo avidamente todas as informações. Quando Craven lhe telefonou, irado, de Washington, a exigir o seu regresso, ela informou-o de que o casamento de ambos chegara ao fim. Dar esse passo sem ter Gino a dificultar-lhe a vida, foi fácil.

E quando Dario chegou, relutantemente, de São Francisco e encontrou a irmã plenamente lançada, ficou aliviado; a partir daquela altura poderia concentrar-se na sua vida social e fazer tudo aquilo que Gino nunca teria aprovado. O interesse fulcral de Dario eram rapazes, não raparigas.

No espaço de um ano, Lucky ficou a saber tudo quanto havia para saber acerca dos vários negócios Santangelo. Tal como acontecera com Gino, antes dela, aprendeu depressa.

Gino formara uma associação de investidores para financiar a construção do Magiriano. A construção do hotel acabara de principiar e os pagamentos semanais eram vastos. Desde o exílio de Gino da América que alguns dos investidores tinham começado a protelar a atribuição das verbas.

- Não temos documentos assinados por essa gente? - perguntara Lucky.

Costa abanara negativamente a cabeça.

- Não. Foi tudo combinado numa base de confiança.

- Eles deram a sua palavra a Gino, não deram? Que faria ele se essa gente faltasse ao compromisso assumido?

Costa aclarou a garganta nervosamente.

- Ele tinha os seus métodos... próprios.

- Tu ficaste de dirigir as coisas por ele. Por que não te serves dos métodos dele?

- Há coisas que mais vale deixar como estão até surgir o momento certo. Temos de esperar pelo regresso de Gino.

Lucky fitou-o com dureza.

- Não podemos esperar. Não sabemos quanto tempo vai ficar ausente. Até mesmo tu dizes que poderão ser anos. Se eles deram a sua palavra, terão de ser obrigados a respeitá-la. Quero uma lista. Estou convencida de que conseguirei arranjar uma maneira.

Costa riu, incrédulo.

- Não sejas tolinha, estes indivíduos são duros... Os olhos de Lucky eram gélidos.

- Nunca mais me chames tolinha. Costa. Compreendeste?

Costa recordou-se de Gino com a mesma idade. E percebeu que não conseguiria impedi-la de tomar conta da situação durante a ausência do pai.

- Esta noite estreia um comediante novo no Salão Baía - disse Matt a Lucky. - Por que não tomamos o café lá e apanhamos o segundo espectáculo?

- Ele tem piada? Preciso de dar umas gargalhadas.

- Então eu contrataria algum comediante que não tivesse piada? Lucky olhou de relance para a boneca Barbie excessivamente maquilhada e de dezanove anos que lhe servia de par.

- Fazes muitas coisas que me levam a ter dúvidas, Matt.

Estava farta daquela noite. Doera-lhe ver Gino fazer toda aquela fita por causa da embonecada Susan Martino. Dimitri Stanislopoulos falava alto e estava impossível de suportar e as duas coristas eram um embaraço.

- Posso fazer-lhe a sugestão? - perguntou Matt, indicando Gino, perdido no azul-celeste dos olhos de Susan.

- Faz como te apetecer - ripostou-lhe Lucky secamente.

Há um ano que ninguém se intrometia entre ela e Gino, Ninguém permanecera mais de uma hora ou duas na sua cama. E que significara tal? A satisfação rápida de uma necessidade fisiológica com alguma rameira fácil. Não havia dúvida de que para um homem da sua idade, Gino gostava de se divertir. Mas divertir-se era uma coisa... deixar-se envolver era outra.

Que falta é que semelhante atitude lhe faria? Franziu o sobrolho. Se Susan fosse uma criatura afectuosa e adorável seria diferente, mas não o era. Dava mostras de ser uma cabra gélida, controlada, com uma camada fina de charme delicodoce. E Lucky desejava o melhor para seu pai, não uma viúva doidivanas qualquer de Beverly Hills que provavelmente via nele a sua sobrevivência. Notava-se bem que gostava de dinheiro. A julgar pelas jóias que ostentava, quanto mais, melhor. Por que não se virava para Dimitri que, se calhar, até brincava com lingotes de ouro?

Pensativa, Lucky acendeu um cigarro e soprou aros de fumo perfeitos, enquanto Matt combinava com o grupo a ida ao Salão Baía. Havia meses que não dormia com um homem. Simplesmente não lhe apetecera ainda.

Lucky Santangelo, solteira. A idéia divertia-a,

Houvera ocasiões em que se deitara com um ou dois homens diferentes por semana. Se eram atraentes, agradavam-lhe, não desejavam nenhum compromisso e estavam preparados para aceitar o seu breve "Não me telefone. Eu ligo para si." Sob o ponto de vista sexual sempre vivera a sua vida com um homem, e por que não? Desde que não magoasse ninguém. A hipocrisia sexual ultrajava-a. Além disso, quem é que inventara o padrão duplo? Por que designava a sociedade de garanhão um indivíduo que tivesse uma vida sexual activa e diversificada, ao mesmo tempo que chamava a mulher de ninfomaníaca? Para o diabo com semelhante retórica. Ela gostava, muito simplesmente, de ir para a cama quando lhe apetecia sem passar pela atrapalhação de um relacionamento.

Claro que havia sempre uma excepção. Na vida de Lucky, houvera apenas uma: Marco.

Marco entrara na vida de Lucky quando esta tinha apenas catorze anos e ele cerca de trinta. Moreno e melancólico, ele era, a seus olhos, o homem mais atraente que já encontrara em dias de sua vida. Malogradamente, o sentimento não era mútuo. Marco encarava-a apenas como uma miúda tonta, tratando-a como tal. Trabalhava para Gino e, de vez em quando, fazia de guarda-costas e motorista quando Dario ou Lucky iam às compras ou ao cinema - o que era pouco freqüente. Gino não encorajava as saídas dos filhos. Depois da morte de Maria, preferia sabê-los sãos e salvos do lado de lá dos portões vigiados da mansão de Bel Air.

Quando Lucky partiu para o colégio interno, foi Marco que a acompanhou ao aeroporto. Quando ela regressava de férias, encontrava-o sempre à sua espera. Quando Gino a levou, no seu décimo sexto aniversário, a Las Vegas e anunciou que a casaria, ela imaginara por um momento inebríante e maravilhoso que o pai se referia a Marco. Mas tal não viria a acontecer. calhou-lhe Craven Richmond, Washington e a saída de Marco da sua vida - possivelmente para sempre.

Houvera ocasiões, ao longo dos anos que durara o seu casamento imensamente entediante, em que Lucky deparara com homens que lhe faziam recordar Marco. Ou eram os olhos escuros, ou a maneira como o cabelo se encaracolava sobre o colarinho, na nuca, ou talvez um gesto. Fosse o que fosse. Era o suficiente para a fazer ir parar às suas camas. Mas os fantoches de Marco nunca eram o original.

Com Gino fora do país e o casamento posto de lado, Lucky tentou esquecê-lo, lançando-se à solução do problema ligado aos investidores relutantes. Costa era boa pessoa e um advogado brilhante, mas obviamente não era homem de acção. Tornava-se imperativo prosseguir os trabalhos de construção do Magiriano e ela tinha de se certificar de que tal acontecia, portanto foi falar com um antigo sócio comercial de Gino, Enzio Bonnatti. Costa levara-a a conhecê-lo meses antes e tinham simpatizado imediatamente um com o outro. No primeiro encontro havido entre ambos, Enzio declara-se padrinho de Lucky e, como tal, esta achara que podia procurar o seu conselho e ajuda.

- Costa não actuará - disse Lucky depois de explicar a situação mas eu estou disposta a fazer o mesmo que meu pai faria.

Enzio riu.

- Gino nunca aceitou merdas de ninguém, desculpe a minha linguagem. Se quer ser como ele, porque não? Eu empresto-lhe alguns soldados. A miss acagaça o número um da lista que depois não tem problemas com os outros. Se quiser até lhe trato do assunto, com todo o prazer.

Lucky declinou a oferta.

- Basta que me dê apoio.

Começou pelo maior dos investidores, fazendo uma visita a Rudolpho Crown, um "banqueiro investidor" de cabelo gorduroso. Sentado à sua secretária maciça, ouviu-a falar, com desprezo e insolência, do dinheiro que prometera dar mas não dera.

- O senhor deu a sua palavra, Mister Crown - disse Lucky friamente. - Faz parte de uma associação. Se tentar desistir, outros seguirão o seu exemplo e nessa altura os trabalhos de construção do hotel terão de ser suspensos.

- Dei a minha palavra a Gino. E quando ele voltar, honrá-la-ei. A voz com que Lucky falou era muito suave.

- Não interessa onde Gino está. O senhor prometeu. Ele quer que cumpra, agora.

Rudolph sorriu.

- Não se pode dizer que ele esteja em posição de querer o que quer que seja. Consta que vai ficar ausente por muito, muito tempo, se é que alguma vez volta.

Lucky esboçou um sorriso cândido.

- Corra o risco, Mister Crown.

Uma semana mais tarde, o indivíduo foi acordado à meia-noite pelo toque de aço frio nos testículos. Abriu os olhos, tomado de pânico. Tinha dois homens de facas em riste junto do seu pénis encolhido. Começou a gritar, a chorar, a implorar.

Viu uma sombra ao pé da porta e uma voz de mulher dizer:

- Isto é só um ensaio, Mister Crown. Se o seu dinheiro não aparecer imediatamente, o primeiro espectáculo terá lugar para a próxima semana.

Rudolph Crown apresentou o seu dinheiro - de imediato. Seguiram-se-lhe, com igual rapidez, outros investidores. O Magiriano voltava a zarpar de vento em popa.

Pouco depois de resolver o assunto dos investidores relutantes, Lucky apanhou um avião até Las Vegas para verificar pessoalmente os progressos em curso no Magiriano. Naturalmente, hospedou-se no Mirage. E tinha Marco à sua espera, para a cumprimentar. Já não o via desde o dia do casamento.

- Estás com um aspecto sensacional - observou Marco.

- Já tu não estás com muito bom ar.

Calculou rapidamente a idade que ele devia ter naquela altura: quarenta e um. A sua aparência excepcionalmente agradável não sofrera absolutamente nenhum desgaste. Continuava a ser o homem mais atraente que ela já encontrara em dias de sua vida e sentia-se ansiosa por ir para a cama com ele.

- Quanto tempo vais ficar? - perguntou-lhe ele delicadamente.

"O tempo suficiente para te levar para a cama comigo." Esboçou um gesto vago.

- Alguns dias, talvez uma semana.

- óptimo. Quero que conheças a minha mulher. "A sua mulher! "

- Há quanto tempo casaste? - perguntou ela, mal conseguindo respirar com normalidade.

- Há exactamente quarenta e seis horas. Falhaste a cerimônia por pouco.

Marco levou tempo a sentir o calor do desejo dela. Lucky retrocedeu e tratou-o como a qualquer outro empregado.

- Quero o Mirage renovado - disse Lucky a Costa. - Está com um ar antiquado.

Marco ficou furioso.

- Que se passa aqui? - gritou ele a Costa ao telefone, quando os decoradores apareceram. - Tira-me Lucky de cima. Está a desestabilizar tudo.

- Não posso - replicou Costa simplesmente. - Ela é a accionista maioritária. Pode fazer o que lhe apetecer.

Doido de fúria, Marco deu finalmente por ela. Quando reparara nela o suficiente para a desejar, Lucky mostrou-se exclusivamente interessada nos negócios e distante. Não tencionava partilhá-lo com a mulher.

O relacionamento entre ambos esfriava. Lucky viajava constantemente para Las Vegas a fim de inspeccionar as obras no Magiriano. Havia problemas e mais problemas. Nada que ela não pudesse resolver.

Marco aparecia sempre para a cumprimentar.

- Ainda casado? -perguntava-lhe ela com despreocupação, embora o estômago se lhe crispasse diante da possibilidade de ele se ter divorciado.

- Claro que sim. E tu? Ainda a fornicar por aí?

- Indica-me um passatempo mais divertido que eu experimentá-lo-ei - retorquia-lhe ela em tom trocista.

Sabia que a sua vida sexual irregular o indignava.

Certa noite em que a mulher saira da cidade, Marco deu, finalmente, um passo em frente. Tinham jantado juntos, falado dos velhos tempos e depois de a acompanhar até à porta da sua suite, disse:

- vou entrar.

Estava tão próximo que ela sentia-lhe a respiração no rosto. Desejava-o mais do que a alguma outra pessoa na vida. Docemente, disse-lhe:

- Boa noite, Marco. Dorme bem.

E fechou a porta antes que fraquejasse.

Quando o tivesse, teria de ser só para si. Era assim que teria de ser.

À medida que o tempo passava, Lucky trabalhava e jogava no duro. Era uma mulher de negócios resoluta, exigente e que obtinha o máximo das pessoas que empregava. Voava constantemente para Las Vegas, reparando que Marco permanecia firmemente casado. Continuava a desejá-lo, mas teria de ser nos seus termos.

Raramente pensava em Gino, de cujo império estava a assenhorar-se. Construía-lhe o hotel - transformando-lhe o sonho em realidade - contudo ainda não tinham falado ou contactado de qualquer outra maneira. E era assim que ela gostava. Se ele nunca mais regressasse à América, tanto melhor.

O Magiriano ficou finalmente pronto em 1975. Na noite de inauguração, Lucky resplandecia num vestido preto Halston, Marco resplandecia no seu fato de cerimônia - enquanto a electricidade entrecruzava-se entre os dois como fogo-de-artifício. Era a altura certa. De certa maneira, o facto de ele ainda estar casado deixara de ter importância.

Lucky passou a noite num elevado estado de antecipação sexual. Marco sentiu o mesmo.

Mais tarde uniram-se num êxtase exultante. Foi um ritual selvático de sexo inenarrável, seguido pelo alívio de estarem, finalmente, um com o outro. Foi uma fusão de almas gêmeas. Uma fusão de energias.

Fizeram planos. Ele contaria imediatamente tudo à mulher e trataria de um divórcio rápido. Não mais se separariam. Agora que acontecera, seria para sempre.

Quando, pela manhã, ele saiu da cama dela, Lucky soube que encontrara, por fim, aquilo que sempre procurara - um homem que poderia considerar à sua altura, com o qual conseguiria viver e que amaria. Marco era tudo e mais. Marco era o seu mundo.

Às 2. 30 da tarde desse mesmo dia, estava Lucky sentada no restaurante Pátio com Costa, à espera de Marco para almoçarem todos juntos, quando viu Boogie - o seu guarda-costas - a atravessar rapidamente a sala na sua direcção.

Enquanto ele se aproximava, sentiu um arrepio de apreensão.

- Houve um tiroteio - disse Boogie.

Ela soube que fora Marco.

Ela soube que fora o seu futuro.

Fechara os olhos para rezar mas uma sensação de catástrofe disse-lhe que era demasiado tarde.

O Salão Baía encontrava-se apinhado mas arranjaram imediatamente uma mesa para o grupo Santangelo.

Lucky deu consigo sentada ao lado de Dimitri StanisOopoulos.

- Como vai Olympia? - perguntou.

Não que se importasse. Em todos aqueles anos, Olympia nunca quisera entrar em contacto com ela. Nunca mais tinham voltado a falar desde aquela noite fatídica, em França, treze anos atrás. De vez em quando Lucky lia notícias acerca da antiga colega nos jornais, sentindo-se mal impressionada com as excentricidades da loira de aspecto rechonchudo com demasiado dinheiro e demasiados maridos. Podiam ter sido grandes amigas no passado, porém agora não passavam de completas desconhecidas.

- Voltou a divorciar-se - disse Dimitri sem mais explicações. - Pela terceira vez.

Era um homem dotado de uns olhos extremamente penetrantes, cinzento-aço, e de um profundo bronzeado mediterrânico. Os seus olhos demoraram-se na deslumbrante Lucky por momentos, depois a mulher que lhe calhara para par naquela noite puxou-lhe pela manga e dirigiu-Lhe uma pergunta idiota qualquer.

Lucky voltou-se para Gino mas este fixava a sua atenção em Susan. Ainda pensou em se retirar, no entanto ficou para ver o comediante, que naquele momento ajustava o microfone e abria com alguns comentários jocosos sobre as notícias do dia.

A sala, foi atravessada por uma onda de riso. Ele foi rápido a mobilizar a atenção do público, um público mais virado para a discussão das suas perdas e/ou ganhos do que para escurar uma fiada de piadas.

Ele não contava piadas. Comentava a vida.

Era arguto, satírico e dolorosamente realista.

- Como é que ele se chama? - perguntou Lucky a Matt.

- Lennie Golden. Estás a gostar?

- Não é mau.

Matt sorriu. Jess apresentara-lhe um vencedor, graças a Deus. Correra um risco ao contratar o tipo somente para fazer a vontade a Jess. Mas ele andava de cabeça perdida pela pequena Jess e agora que lhe prestara um favor, não seria tempo de ela lho retribuir? Realmente era engraçado - ele nunca gostara de raparigas baixas, sempre se sentira atraído para o tipo alto e escultural. Contudo, Jess, com o seu metro e meio, trazia-o pelo beicinho. Daria tudo para a levar para a sua cama.

Mais ou menos a meio da actuação de Lennie Golden, Gino inclinou-se para Lucky e disse:

- Susan está fatigada. vou levá-la a casa. Até amanhã, miúda. Ajudou Susan a levantar-se.

Por momentos, Lucky ficou sem fala. Era a sua noite com o seu pai e este ia levar Grace Kelly a casa. Merda!

- Boa noite, querida. Gostei muito de a conhecer - disse Grace.

Seria imaginação sua ou notara um brilho de triunfo nos olhos gélidos de Susan? Lucky compôs, no entanto, outro sorriso. Mais valia lidar sorrateiramente com o inimigo do que entrar logo a matar.

- O gosto foi todo meu.

Depois de se retirarem, Lucky sentiu-se demasiado agitada para ficar quieta. Estava aborrecida por não ter sido a primeira a sair. Jáque Gino não se preocupara em não estragar a noite que tinham planeado passar juntos, ele que visse que ela pouco se importava.

Olhou de relance para o comediante, que continuava a fazer rir a assistência; reparou na mão forte de Dimitri, pousada na coxa da sua acompanhante; detestou a onda que Matt fazia na parte da frente do seu cabelo prateado.

Que se fodessem. Grupo mais chato.

- Já volto - sussurrou, embora não tivesse intenção de o fazer. Fora do salão, o enorme casino fervilhava de actividade. Andou de um lado para o outro durante algum tempo, cumprimentando elementos do pessoal, vendo os responsáveis das salas de jogo atentos aos croupiers, reparando nos clientes que gastavam o seu dinheiro, envergando fatiotas bizarras e engraçadas. Em que outro lado seria possível ver calções curtos ao lado de vestidos de noite Balmairíl Camisas atadas na barriga ladeando fraques Halston? Pegas e donas de casa, playboys e jogadores?

"Quero ir para a cama com alguém", pensou. "Oh, Deus, como quero ir para a cama com alguém."

Foi até à recepção e escolheu as chaves de uma suite desocupada. Depois iniciou a sua deambulação. Não podia ser qualquer um. Teria de haver uma certa atracção sexual mútua. Afinal de contas, já se passara muito tempo.

Havia um homem a jogar, sozinho numa roleta. Era moreno, de aspecto reservado. Fazia-a lembrar Marco.

Não!

Afastou-se abruptamente.

Sentia-se solitária. Do que necessitava era de sexo anônimo com um amante anônimo que lhe desse o que ela desejava e depois desaparecesse discretamente.

Uma mão agarrou-lhe no braço. Uma voz disse acusadoramente:

- Foi-se embora antes de eu terminar. Que se passa consigo? Não sabe apreciar um talento excepcional quando o vê?

Lucky voltou-se, hesitou por um instante e depois sorriu deslumbrantemente.

- Lennie Golden - disse. - Você é precisamente o homem de quem ando à procura.

 

Nova Iorque no Verão não era o lugar que Olympia mais apreciava. Tentava deslocar-se a essa cidade o menor número de vezes possível, porém havia ocasiões em que era obrigada a fazê-lo. E o terceiro casamento de sua mãe era uma dessas ocasiões.

Chegara de Paris no Concorde, acompanhada pela filha de nove anos, Brigette, e a ama desta, Mabel. Brigette era uma criança bonita. Herdara o farto cabelo louro e os olhos azuis da mãe e as feições aristocratas e o corpo flexível do pai. Também herdara o temperamento obstinado de Olympia.

A preceptora Mabel era uma cinquentona frustrada que, depois de trinta e cinco anos de "serviço", chegara à conclusão de que desperdiçara a sua vida a cuidar dos filhos dos outros. Olympia fora a última de uma vasta lista de patroas ricas e apesar de só trabalhar para ela apenas há seis meses, aprendera já a abominar a caprichosa herdeira loura. A filha pouco melhor era. Estragada de mimos, egoísta e destrutiva. Uma versão em miniatura da mãe. Felizmente o dinheiro era bastante compensador e a ama Mabel apreciava a limusina, os aviões particulares e o serviço

de primeira categoria. Quando estavam em Paris, Olympia raramente visitava o que designava de "andar infantil" no apartamento duplex da Avenida Foch, de modo que Mabel pouco tinha que a aturar.

Olympia ficara muito aborrecida por ser obrigada a levar Brigíte e a perceptora consigo. Mas a mãe fizera questão em que a criança fizesse de dama de honor no casamento e Olympia não conseguira improvisar uma desculpa adequada.

Charlotte, sua mãe, era uma matrona elegante da sociedade americana. Casara com Dimitri Stanislopoulos aos vinte anos, indo contra as violentas objecções dos pais, dera à luz Olympia nove meses mais tarde e divorciara-se do marido um ano depois. Depois regressara à América e no espaço de um ano voltava a casar, dessa vez com um banqueiro da Wall Street, com a aprovação total dos pais. Olympia vivera os primeiros doze anos da sua vida com eles, na América mas, chegada à puberdade, tornara-se intratável e não descansara enquanto não lhe permitiram ir viver para junto do pai, que dividia o seu tempo entre a sua ilha grega, o iate e a mansão em Paris. Chegaram a um entendimento e enviaram-na para uma série de colégios internos - dos quais conseguia sempre ser expulsa. Olympia acabou por levar a sua avante e foi viver para junto de Dimitri, que a tratava como uma hóspede qualquer.

O banqueiro que casara com Charlotte, padrasto a quem Olympia nunca se afeiçoara, falecera há um ano atrás. Agora Charlotte arranjara nova perspectiva para o altar - um produtor cinematográfico que Olympia não desejava conhecer.

- Mama - disse Brigette, enquanto eram escoltadas para fora da alfândega. - Estou a ver homens com câmaras apontadas para nós.

Aos nove anos falava três línguas fluentemente.

- Cabeça para baixo, olhos fixos em frente - advertiu a preceptora Mabel rispidamente. - Nunca reconhecer a presença deles.

Olympia levou a mão aos caracóis louros, ajeitou-os ligeiramente. Detestava os paparazzi mas já que iam tirar-lhe fotografias... bem, mais valia aparecer o melhor possível. Não queria ser vista com o aspecto de Christina Onassis. Ajustou os óculos escuros e alisou a saia do fato Saint-Laurent.

Os fotógrafos entraram em acção.

Ser uma das mulheres mais ricas do mundo não era fácil.

Dimitri Stanislopoulos não estava interessado na corista que Matt Traynor lhe arranjara para se divertir. Era muito nova e nem por isso muito bonita. Ele tinha sessenta e dois anos. Não estava com disposição para aturar a conversa entediante de uma mulher quarenta anos mais nova. Preferia jogar baccarat, de modo que Matt preparou-lhe uma mesa particular, onde inseriu uma série de outros jogadores de apostas altas. Havia um cantor de peruca muito mal disfarçada; uma princesa francesa com uma pele de cor e textura semelhante a lama cozida; dois reis da electrónica Japonesa; e a namorada inglesa de um traficante de armas árabe.

Dimitri conhecia a mulher. Dirigiu-lhe um cumprimento de cabeça. Ela retribuiu-o. Ele achou-a uma possibilidade muitíssimo mais interessante do que a corista fútil.

- Onde está Saud? - perguntou Dimitri, indo beijar-lhe a mão. - Em L. A. - replicou a jovem. - Voltará amanhã. Fiquei a aquecer-lhe o lugar.

E mais do que isso, pensou Dimitri. As inglesas agradavam-lhe. Na cama, tinham algo de prostitutas. Muito sugestivo. Ninguém em melhor posição para saber do que ele - a sua amante nos últimos oito anos fora uma actriz de teatro inglesa de grande fama chamada Francesca Fern um talento imenso e uma personalidade extravagante. Cinquentona, era senhora de um cabelo ruivo flamejante, olhos penetrantes, lábios suculentos e um nariz adunco que rivalizava com o seu. Francesca. Que mulher! Dimitri adorava o poder que dela emanava, a sua presença dramática, a sua paixão.

Ah... a sua paixão. Era a mulher mais excitante com quem fora para a cama. O que era importante, já que ele dormira com as mulheres mais belas e cultas da Europa.

Dimitri gostava de mulheres caras e conhecedoras de tudo o que havia de mais requintado na vida. Apreciava-as vestidas de zibelina, com jóias de Cartier, Asprey e Bulgari. Adorava-as em roupa Dior, roupa interior de concepção original e sapatos de quinhentos dólares. Delirava sabendo-as conhecedoras da boa gastronomia, dos vinhos de qualidade, de música clássica, ópera e ballet.

Gostava do que tinha classe. E não se importava de pagar para o ter.

Durante a relação de ambos, Dimitri presenteara Francesca com uma colecção de jóias dignas de um resgate real. Ela tudo aceitara com um brilho conhecedor nos olhos e um "obrigado, querido", roucamente sussurrado, como se as oferendas que ele lhe dera não passassem de simples banalidades.

Dimitri admirava o seu estilo portentoso. Já não lhe admirava o marido, um homenzinho insignificante chamado Horace, que se recusava resolutamente a conceder-lhe o divórcio. Algumas das brigas mais violentas havidas entre os dois tinham tido Horace como causa.

- Deixa-o! - gritava Dimitri.

- Não posso - replicava Francesca dramaticamente. - Era o mesmo que matá-lo. Sou a sua vida.

E os olhos fortemente pintados enchiam-se de lágrimas.

- Mas eu quero casar contigo - gritava Dimitri.

- Um dia - prometera Francesca vagamente-, ficaremos juntos para sempre.

Entretanto, Horace não interferia no tempestuoso affaire. Suportara-o como fazia com a maior parte das coisas na vida, e mantivera-se tranqüilamente nos bastidores da vida volátil da esposa. Uma vez por ano iam ficar ao iate oceânico palacial de Dimitri - Francesca e Horace, acompanhados pela criada pessoal e cabeleireiro próprio da primeira e, de vez em quando, pelos seus dois velhos cães pequineses.

Dimitri convidava sempre outras pessoas para o seu cruzeiro de Agosto. Era um período pelo qual ansiava porque teria Francesca só para si - bem, quase. Ela passava as noites todas na cabine de Dimitri. Este nunca descobrira a explicação que ela dava a Horace. Para dizer a verdade, nunca se preocupara com o facto. Horace devia saber. Horace era condescendente.

Ocasionalmente encontravam-se noutras partes do mundo. Nova Iorque, Paris, Roma. Mesmo depois de Dimitri casar pela segunda vez, tinham continuado a ver-se. O seu segundo matrimônio não durara mais do que o primeiro. Não era fácil viver com Dimitri Stanislopoulos.

O jogo de baccará estava a começar.

- Qual é o limite desta mesa? - perguntou Dimitri a um dos croupiers de olhar impávido.

- Seis mil dólares, mister Stanislopoulos - replicou o homem, impassível.

- Dê-me fichas no valor de duzentos mil.

O homem empilhou destramente as fichas pedidas em montinhos impecáveis e empurrou-as para a frente de Dimitri. Apresentaram-lhe, discretamente, um papel para assinar.

Dimitri gostava de jogar. Descontraía-o. E ele precisava de o fazer pois Francesca chegava daí a dois dias para participar numa noite de gala em sua honra que iria ser televisionada, e ele tomara finalmente uma decisão. Oito anos era tempo suficiente. Horace teria de desaparecer, de uma maneira ou outra.

 

-Ei! - exclamou Lucky. -Que se passa consigo?

- Que se passa comigo! - replicou Lennie, ofendido.

Estavam em frente um do outro, fitando-se com ar desconfiado, na opulenta suite de luxo, mergulhada na penumbra, do hotel. Ela dissera, "Você é precisamente o homem de quem ando à procura, " Depois pegara-lhe na mão, acrescentando misteriosamente, "Venha comigo." E conduzira-o até ao elevador mais próximo. Mal tinham acabado de entrar na suite, comprimira-se contra ele, beijara-o prolongada e ansiosamente, apalpando-o nas partes intimas.

Mas ele ainda não estava preparado para ser apalpado. De facto, estava a tentar perceber o que se passava.

- Está a querer fazer negócio? - perguntara-lhe ele.

- Brinca, não? - replicara ela, começando a despir o vestido. Ele dissera:

- Calma aí, não quero que o faça.

Naquele momento enfrentavam-se um ao outro, prontos para a batalha.

- Tens algum problema? - perguntou ela com um suspiro.

- Tenho. Parece-me que tenho realmente um problema.

Um gesto de impaciência. Ela escolhera, obviamente, o tipo errado.

- Qual é? - perguntou sem interesse, voltando a puxar o zipe do vestido de cabedal macio que estivera prestes a despir. Mais valia acabar com aquela cena. E depressa.

Lennie fitou-a estupefacto. Não acreditava no que estava a acontecer. AH! Ali estava aquela mulher, aquela mulher deslumbrantemente bela que ele vira pela primeira vez no aeroporto, com quem falara junto da piscina, o que o levara a ser insultado. Depois ela aparecera no Salão Baía e saíra a meio da sua actuação. Agora atirava-se a ele com toda aquela sofreguidão, contando com acção imediata. Que pensava ela que ele era? Algum garanhão de passagem e desprovido de sentimentos? Ela bem podia ser a mulher mais bonita do mundo mas o sexo sem comunicação não era para ele. Não tinha dezasseis anos nem andava doido para se apanhar na cama com alguém.

-"O meu problema é não saber o seu nome, muito menos o que se passa - disse Lennie secamente.

- Oh, e se eu lhe disser o meu nome tudo ficará bem, é? - troçou Lucky, já com zipe puxado para cima e preparada para sair.

- Sabe perfeitamente o que quero dizer - observou ele furiosamente.

- Não. Não sei o que quer dizer. - Caminhou friamente em direcção à porta. - Na verdade é simples. Eu vi-o. Agradou-me. Pensei que poderíamos desfrutar de uma boa sessão de sexo. Obviamente, enganei-me.

- Por que razão não foi da mesma opinião hoje à tarde? - perguntou ele imediatamente.

- De que está a falar?

- Desta tarde. Ao pé da piscina. Quando a interpelei, tratou-me abaixo de cão.

- Era você?

Jesus! Ela nem sequer se lembrava dele! E queria que ele ficasse preparado para ela?

- Olhe-, disse ela impacientemente, de mão na maçaneta da porta. - Tenho a certeza de que já cometemos erros antes. Por que não esquecemos tudo isto?

Lennie tivera muitas mulheres ao longo da vida, mas aquela levava o prêmio. Nem Éden teria semelhante comportamento.

Gostaria apenas que o aspecto daquela não fosse tão excitante. Como é que podia deixá-la partir quando ela lhe oferecia uma experiência de que provavelmente nunca mais se esqueceria?

Decidiu repor um pouco de charme nos seus modos.

- Sabe o que penso - disse. - Penso que talvez devamos começar pela página um, descer e procurar um bar lá em baixo, tomar uma bebida e travar conhecimento um com o outro. Ei. Ao menos ficarmos a saber o nome um do outro. E depois, linda senhora, é que podemos ter uma bela sessão de sexo. Que acha?

Lucky sentia-se farta de Lennie Golden. Todo o incidente fora um erro. Abriu a porta e dirigiu-se para o elevador.

- Esqueçamos simplesmente o que se passou - disse despreocupadamente.

Ele foi atrás dela, agarrando-a pelo braço.

- Não sou da mesma opinião.

Agora que já não ia poder remediar a situação, também não tencionava ser despachado de qualquer maneira. Orgulho masculino ou alguma tolice do gênero.

- Hmmm... -respondeu Lucky. -Não é má idéia.

Ele tinha-a no papo. Eram todas fáceis. Uma bebida, talvez duas, depois estavam prontinhas a saltar para a cama, cabendo-lhe a ele dirigir as operações.

- Vá andando para o Baía e mande vir um Bloody Mary para mim. vou só refrescar-me. - Lucky sorriu-lhe. - Cinco minutos, está bem?

Lennie inclinou-se sobre o pano verde da mesa de vinte-e-um liderada por Jess. Esta manuseava as cartas com rapidez e eficiência, não desviando nunca os olhos da caixa reluzente que as continha.

-Não vale a pena esperares por mim, esta noite não irei ficar a casa - disse Lennie.

- Por que não? -murmurou Jess pelo canto da boca.

- Por que achas que não? O charme Golden voltou a funcionar.

- Não me digas! E com quem desta vez, pode saber-se?

- Estamos a jogar ou a conversar? - perguntou uma loura beligerante de colete de lantejoulas. Passe-me uma carta.

Jess fez um trejeito, tirou uma de três da caixa, transformando-a com um golpe de mão mágico, num nove - colocando automaticamente a loura de colete de lantejoulas acima do vinte-e-um e, consequentemente, fora de jogo.

- Ora bolas! - exclamou a mulher em voz alta.

Jess permitiu-se uma piscadela de olho cúmplice a Lennie.

- Telefona-me - pediu-lhe formulando as palavras com os lábios.

Jess não tinha o hábito de decidir a sorte dos jogadores às cartas mas havia alturas em que não era capaz de resistir.

Lennie sorriu e afastou-se. Agora que tinha uma noite interessante pela frente, sentia-se melhor. Tinham-no adorado no Salão Baía - fazendo-lhe uma grande recepção. As suas duas semanas de espectáculo iriam ser um grande sucesso-não tinha dificuldade em pressenti-lo. Agora tinha de se haver com aquela mulher de aspecto selvagem, que parecia mais do que disposta a ocupá-lo durante duas semanas. Quem sabe até o ajudava a esquecer Éden, embora ele duvidasse de que ela tivesse capacidade para tal. Como se chamaria, reflectiu, o que estaria a fazer em Las Vegas, como seria na cama...

Isso mesmo - uma relação de duas semanas vinha-lhe mesmo a calhar. Estava farto de ligações duradouras. Primeiro ficavam a noite, depois o fim-de-semana, finalmente tomavam conta de tudo até transformarem um simples duche num longo percurso de obstáculos recheado de calcinhas e soutiens.

Apressou-se a seguir para o Salão Baía, mandou vir uma cerveja para si e um Bloody Mary para ela - fosse qual fosse o seu nome. Não tardaria a saber. Viria a saber muito mais do que o nome dela.

O apartamento de Matt Traynor estava decorado em estilo de novo-rico. Grande abundância de enfeites dourados, peles pretas, imitações de mármore e sofás forrados a damasco. Um letreiro ao fundo do bar dizia, "A Casa de Matt", e os copos de cristal tinham as suas iniciais gravadas, tal como as camisas, meias, cuecas, lençóis, toalhas e pijamas.

- Ena! - exclamou a acompanhante de Matt, saída do Ohio há seis meses e impressionada. - Que lugar fabuloso.

Ele serviu-lhe uísque puro, ligou Sinatra na aparelhagem estéreo e diminuiu a intensidade da luz cor-de-rosa.

- Ena! - repetiu Miss Ohio. - Que cantor fabuloso. Quem é?

- Estás a gozar comigo, menina?

- Quê?

Matt interrogou-se sobre se ela faria sexo oral.

- Sinatra - esclareceu.

- Oh! Fabuloso!

- Tu é que és fabulosa!

A jovem soltou uma risada e chupou sugestivamente um cubo de gelo.

- De facto - acrescentou Matt -, és a rapariga mais fabulosa que encontrei em todo este ano.

- A sério? -A sério.

Matt estendeu a mão para o seio esquerdo da jovem e acariciou-lhe o mamilo com o polegar.

A jovem tomou um gole de uísque, pousou o copo e recostou-se no sofá.

Matt manteve o polegar em actividade e inclinou-se para a beijar.

Ela reagiu agradavelmente, enquanto Sinatra cantava Strangers in the Night com voz macia e aveludada.

Matt retirou-lhe o seio dos confins da blusa de decote redondo e inclinou a cabeça sobre o mamilo erecto.

- Fabuloso! -murmurou ela.

Ele puxou o zipe da braguilha, permitindo que o que considerava de uma erecção saudável se libertasse. Depois pegou-lhe na mão direita e colocou-a onde poderia ter um papel mais activo.

O telefone tocou. Ele esquecera-se de ligar o serviço de atendimento de chamadas.

- Raios partam! -exclamou Matt.

- Não atendas - disse ela.

A sua erecção abrandara. Pegou no instrumento intrusor. -Quem fala? - perguntou com maus modos.

- Matt. Daqui é Lucky. Quero que venhas aqui. Agora: Preciso que me trates de um assunto.

- Não pode esperar até amanhã?

- Não.

Era a segunda vez, naquela noite, que ficava lixado com os Santangelo. Primeiro Gino, agora Lucky. Os dois eram um par de chatos.

- Se é importante...

-É. Vem ter ao meu apartamento.

- vou já.

- Rápido.

Matt atirou com o auscultador para cima do descanso. O pénis pendia-lhe para fora da abertura das calças, uma lembrança lamentável do que poderia ter sido. Puxou rapidamente a braguilha, escondendo-o.

- Tenho de sair - disse.

- Oh, que pena!

- Podes esperar por mim?

- Bem...

- Tens aí a televisão, e podes divertir-te na Jacuzzi- Não demorarei. Não foi difícil convencê-la.

- Fabuloso! -disse, enquanto Sinatra continuava a cantar com voz macia e aveludada.

Lennie olhou de relance para o relógio de pulso. Passara-se meia hora e tornava-se evidente que ela não fazia tenções de vir. Cabra! Eram todas iguais. Mas fosse de que maneira fosse, aquela era uma chanfrada, portanto mais valia que não aparecesse.

Mas, ainda assim... Ele estava furioso - consigo mesmo, no mínimo. Já que a achara com um aspecto tão excitante, por que razão não aceitara a sua oferta? "Ora tome lá e passe bem. Adeusinho, acabou."

Por amor de Deus, que havia assim de tão ameaçador no facto de ser uma mulher a tomar a iniciativa? Não era nada que ele não pudesse suportar.

Ela provavelmente não aparecera porque tomara-o por um nabo. E muito bem pensado. Já não lhe restavam dúvidas de que recusara uma experiência estupenda. Jesus! Estava ansioso por contar o que se passara a Jess. Ao menos dariam umas boas gargalhadas à custa de Lennie Golden- o fornicador relutante! Ei... ele até poderia aproveitar a idéia para a introduzir em alguma comédia saborosa.

Pensou em telefonar-lhe. Que tinha a perder? E quem sabe não era demasiado tarde.

Suite mil cento e vinte e dois - a memória nunca o deixava ficar mal. Correu para um dos telefones internos. Não obteve resposta. Talvez ela estivesse fora do quarto, à procura de alguém que substituísse Mr. Relutante.

Por que se sentiria ciumento em relação a alguém que nem sequer conhecia?

Por que seria ele capaz de se lembrar nitidamente do rosto dela, do lindo rosto dela?

E porque se lembraria dos seus lábios, cheios, sensuais e...

"Acaba com isso, parvalhão. Deitaste tudo a perder. Não te chateies. Esquece." Ao menos o seu espectáculo fora um êxito.

Naquela noite, o Magiriano.

Amanhã, o espectáculo de Carson.

Por que não?

Ele matara-se a trabalhar para ali chegar.

- Despede o comediante - ordenou Lucky. Matt franziu os sobrolhos.

- Quê?

- Lennie Golden. É como se chama, não é?

- Referes-te ao Lennie Golden que esta noite se apresentou no salão?

- Temos dois Lennie Golden a trabalhar para nós?

- Não entendo. A estreia dele foi sensacional. O público adorou-o. Até tu disseste que ele era bom.

Lucky acendeu um cigarro com ar impassível e espraiou o olhar pela vista espectacular sobre a Strip.

- Nunca disse que não prestava. Apenas disse que quero que o despeças.

-"E foi para isso que me chamaste aqui?

- Foi.

- Jesus Cristo, Lucky! - Uma veia pulsou-lhe iradamente na têmpora. - Jesus Cristo! Não sou nenhum lacaio que tu possas pôr a andar numa corda bamba. São duas da manhã. Por que não comunicaste o que tinhas a dizer pelo telefone?

Lucky reflectiu sobre se ele se atreveria a falar a Gino daquela maneira. Chegou à conclusão de que não.

- Gostas do emprego que tens aqui? - perguntou calmamente.

- Não é um emprego. Tenho acções minhas. Sou um dos directores da companhia.

- Claro. Eu tornei-te director, e posso afastar-te em qualquer altura em que o deseje.

- Então fá-lo-"ripostou Matt.

- Talvez o faça.

Entreolharam-se friamente. Matt foi o primeiro a desviar os olhos. Trabalhar para os Santangelo dava-lhe mais poder do que alguma vez tivera na sua vida. Não queria perdê-lo.

- Então o que queres que eu faça? - perguntou com voz azeda.

- Paga-lhe. Despede-o. Põe-no fora das instalações.

- Posso ao menos perguntar porquê?

- Porque ele é demasiado bom para o salão. Faz as pessoas pensar. Fá-las rir. Impede-as de beber e jogar nas mesas. Quero que o despeças e ponhas a andar daqui para fora esta noite.

- Se é o que desejas.

- É exactamente o que desejo.

Depois de Matt se retirar, Lucky terminou o cigarro e depois foi até ao seu gabinete de trabalho, onde preparou um charro. Em vez de ir para a cama com alguém, faria uma trip. O que provavelmente acabaria por se revelar mais compensador.

Que agradável seria telefonar a Gino naquele momento, ter um bate-papo pai-filha.

Ha! Riu alto. Eles nunca tinham tido esse tipo de relacionamento. Não desde os seus cinco anos de idade. Não desde que sua mãe fora assassinada...

Lampejos de dor lancinante. Ainda era capaz de relembrar a cena com a mesma nitidez como se a tivesse presenciado na véspera. A piscina cor-de-rosa... O corpo nu de Maria a flutuar em cima de um colchão de ar... o longo cabelo louro espalhado na água...

Fechou os olhos abruptamente, mas a imagem tornou-se mais vivida. Durante um ano, ela e Gino tinham estado maravilhosamente chegados, mas nunca o suficiente para falarem sobre o que acontecera a Maria, nunca suficientemente chegados...

Começou a chorar. Mas só o percebeu quando as lágrimas lhe rolaram pelas faces.

Lucky Santangelo a chorar. Nunca.

Limpou raivosamente a cara. Raios! Gino arranjara uma namorada e ela ia-se abaixo. Nem sequer sentira a falta do pai quando este estivera sete anos no exílio. Nem sequer lhe dirigira um pensamento quando assumira o controlo do seu império. Agora era ele que ficava na mó de cima e ela na de baixo. Que porcaria era aquela?

Em 1977, Gino regressou à América. Tal foi possível graças a um pagamento de seis milhões de dólares ao fisco, juntamente com o manobrar de alguns cordelinhos.

Lucky aguardou a sua volta com preocupação. Ele não precisava de pensar que estava a retomar o controlo. Ela trabalhara duramente, imprimira o seu cunho pessoal, agora tencionava manter-se no seu posto. Claro que teria de regressar a Las Vegas, cidade de que se mantiver a afastada desde o assassínio de Marco.

Enzio Bonnatti fora maravilhoso. Localizara o assassino, resolvera o problema e tomara conta do Magiriano até ela resolver voltar.

Com a chegada iminente de Gino à América, essa ocasião chegara.

Costa combinou uma reunião dois dias depois do regresso de Gino. Encontraram-se no Hotel Pierre, em Nova Iorque. Pai e filha. Sete anos de separação. Sete anos de silêncio. Lucky mostrava-se hostil e pouco à-vontade, embora Gino estivesse suficientemente amigável. Este não teve dificuldade em ver imediatamente que aquela não era a mesma filha estragada de mimos que deixara atrás de si. Tratava-se de uma mulher, segura de si e confiante.

Gino sorriu e abriu os braços.

- Lucky.

Ela foi apanhada de surpresa. Acharia ele sinceramente que era assim tão fácil?

Gino fitou-a inquiridoramente e tentou improvisar um gesto, um abraço.

- Ora vejam só - observou. - Que crescidinha. Lucky fitou-o friamente.

- Pensei que já estava crescidinha quando me casaste aos dezasseis anos.

- Quer dizer que não resultou. Mas manteve-te afastada de problemas, não foi? Vais manter esse rancor toda a vida, garota?

Lucky detectou uma garrafa de uísque e serviu-se de uma porção generosa.

Gino não tirava os olhos de cima dela.

- Penso que é melhor falarmos - disse ele, por fim. Ela manteve-se impassível perante o olhar fixo do pai.

- Sim - concordou em tom de desafio. - Muita coisa mudou durante a tua ausência. Agora estou envolvida nos negócios. Faço parte deles.

- Assim me constou.

Lucky virou-se de maneira a encarar o pai, os olhos faiscantes.

- Digo-te uma coisa desde já. nem penses em me afastar. Nem penses. Las vegas pertence-me e vou regressar.

- Já é um pouco tarde demais.

- Que queres dizer?

- Vá, Lucky, pareces uma rapariga esperta. Deste Vegas a Bonnatti de mão beijada. Achas que ele concordará em se retirar com um sorriso?

- Eu sei lidar com ele. Gino riu alto.

- Não percebes que Bonnatti já deixou de ser nosso amigo?

- Sim, ela percebera. Embora não tencionasse admiti-lo diante de Gino. Nesse mesmo dia, bem cedo, Boogie chegara de Las vegas trazendo histórias de traição que a tinham feito gelar de fúria e ansiar por vingança. Tudo indicava que a tinham tomado por uma idiota. Bonnatti é que improvisara o assassínio de Marco, Quisera pô-la fora de Las Vegas - o que conseguira livrando-se de Marco. Ela fugira, tal como o estupor previra. E agora mantinha-se no controlo. -Mas não por muito tempo - ela tinha os seus planos. E Gino não iria arruiná-los.

Antes que tivessem possibilidade de discutir a questão, Dario chegara.

Lucky não ficou satisfeita. O que supusera ser uma reunião de negócios estava a transformar-se num encontro de família.

Dario não ficou muito tempo. Estava uma ruína física, inquieto e nervoso, e depois de dez minutos de uma conversa fria, correu para fora da sala como um ladrão.

- Que raio se passa com aquele rapaz? - admirou-se Gino intempestivamente. - Vai buscá-lo, Costa. Acho que chegou a altura de endireitar esse maricas.

Costa pusera-o a par das preferências sexuais do filho, para grande desgosto seu.

- Ora - disse Lucky. - A mim parece-me que chegaste um pouco atrasado. Se lhe tivesses dedicado mais atenção quando era adolescente...

Gino encarou-a furioso.

- E com quem pensas tu que estás a falar? Lucky não se deixou intimidar.

- Quando Dario e eu éramos pequenos, não tivemos uma vida familiar. Trancados no mausoléu de Bel Air como um par de leprosos. Não admira que Dario seja hoje um desgraçado.

Gino olhou penetrantemente a filha.

- Que vida terrível vocês tiveram. Uma casa maravilhosa. Tudo o que de melhor o dinheiro podia comprar.

Lucky, enervada, ergueu a voz.

- Dinheiro. A quem interessa o dinheiro? Eu queria-te a ti quando estava a crescer. Queria que te preocupasses que estivesses junto de mim. Queria que fosses um pai como devia ser.

As palavras dela feriram-no.

- Fiz sempre o melhor que pude por vocês os dois - gemeu. - O melhor que soube...

- Pois bem, não foi suficiente - declarou Lucky triunfantemente. Na rua, ouviram-se sirenes de viaturas da polícia. Costa aproximou-se da janela e tentou perceber o que se estava a passar.

- Põe-te a andar daqui para fora e traz-me Dario de volta - gritou-lhe Gino.

Costa saiu apressadamente.

- Vou-me embora - disse Lucky. Tu e eu... não conseguimos comunicar. Nunca conseguimos.

- Falas em eu ser um pai como deve ser - barafustou Gino. - E que tal seres uma filha como deve ser? A fugir dos colégios. A fornicar com tudo quanto tivesse calças. A ir de...

- Não é verdade - interrompeu-o Lucky, furiosa. - E mesmo que fosse, que tinha?

- Que tinha, pergunta ela! Que tinha? - Gino abanou a cabeça tristemente. - Tens razão, Lucky. Tu e eu, simplesmente não estamos no mesmo comprimento de onda. Por que não te vais embora? Sete anos e nem sequer um miserável cartão postal. Isso é que é ser filha?

Sentiu-se subitamente fatigado. Alguém batia violentamente à porta. Abriu-a e Costa entrou rapidamente, pálido e trêmulo.

- Dario foi alvejado - disse, ofegante. - Em frente do hotel. Morreu.

- Santo Deus! - gritou Gino. - Santa Mãe de Deus! Lucky ficou imóvel, transfigurada.

De repente Gino agarrou-se ao peito e cambaleou em direcção ao sofá. Dos seus lábios escapou-se um gemido baixo.

- Que se passa? - perguntou-lhe Lucky assustada. - Que tens? Gino voltou a gemer, o rosto acinzentado. De repente parecera ter

os seus setenta e um anos.

- Acho... que... é... o... meu... coração... - murmurou. -É... melhor... chamarem... um... médico... depressa.

Foi preciso seu pai estar às portas da morte para Lucky se dar conta do quanto o amava. Ele tinha os seus defeitos, mas não deixava de ser o papá... Gino. E quando ele lhe sussurrara no leito do hospital, onde ficara retido a lutar entre a vida e a morte, que se vingasse, que honrasse o nome da família, ela soubera imediatamente que obedeceria sem discutir.

Enzio Bonnatti.

Amigo.

Padrinho.

Assassino.

Traidor.

Lucky seguiu de carro para a mansão que este possuía em Long Island, dominada por uma calma gélida.

Vingança. Por que não?

Vingança pelos Santangelo e por Marco. Não havia nenhum filho para executar o trabalho - este caía sobre os seus ombros, e ela não fugia às responsabilidades da família.

A morte de Enzio Bonnatti com um tiro fora nitidamente um caso de autodefesa. Aparentemente este tentara violar Lucky Santangelo e esta disparara sobre ele com a própria arma do homem. O caso nem sequer fora a tribunal.

Com Lucky a seu lado, Gino recuperou rapidamente a saúde e os dois redescobriram gradualmente a proximidade que outrora tinham partilhado, antes da morte de Maria. Mudaram-se de novo para Las vegas.

- Tu ficas com o Magiriano, garota - disse Gino. - Eu conservarei o Mirage. Um dia destes havemos de construir um hotel juntos.

Era um sonho. Mas Lucky soubera sempre que podia transformar-se em realidade.

Durante um ano, tinham sido inseparáveis. Agora havia a viúva Martino para aturar.

Na televisão passava um filme antigo com Clint Eastwood. Lucky terminou o charro e ficou a assistir à película durante algum tempo. Gostava de Eastwood. Ele tinha uma espécie de erotismo silencioso que a atraía. Provavelmente era estupendo na cama.

A pouco e pouco deixou-se resvalar para o sono, despertando apenas de madrugada, sobressaltada com um pesadelo esquecido.

Levantou-se, cobriu a nudez com um quimono de seda e ficou a ver o sol erguer-se sobre o deserto. Era um panorama lindo. Noutra altura poderia ter telefonado a Gino, acordando-o para lhe permitir que partilhasse aquele momento com ela. Mas à luz da manhã deu-se conta de que o facto de ele ter encontrado alguém com quem passar a noite, estava certo. Ela podia ser muitas coisas para ele, mas sua amante é que não. E quem sabe o pai necessitava do amparo proporcionado pela proximidade de uma mulher.

Talvez Susan Martino fosse boa para ele.

Talvez.

 

De vez em quando Olympia achava que devia desempenhar o papel de mãe amantíssima. Era pouco freqüente. Não era atitude que lhe desse grande prazer. No entanto, um encontro com sua mãe requeria que fizesse esse esforço.

Charlotte intimidava-a. Era tão entediantemente correcta. Não fumava nem bebia. Droga, nem pensar. Era esguia, activa e uma perfeita chata. Também era muito rica - embora nessa área Olympia a batesse. Ultrapassar a vasta fortuna de Olympia era difícil.

Malogradamente, estar na presença de Charlotte sempre a fizera sentir-se de novo como uma criança, de modo que, antes de sair, Olympia entrou na luxuosa sala de banho da penthouse que o pai tinha na Quinta Avenida e aspirou três linhas de cocaína. O insidioso pó branco fazia-a sentir-se maravilhosa. Uma inspiração profunda, uma mirada ao espelho e estava pronta para enfrentar o que quer que fosse.

A preceptora Mabel e Brigette estavam à sua espera, junto da porta da frente. A criança fitou a mãe com os enormes olhos e o rosto bonito.

-Mama- pediu-, posso comer um cachorro-quente, por favor?

- Quê? - ripostou Olympia com rispidez, ajustando a gola do seu casaco de zibelina diante do espelho do vestíbulo.

- Um cachorro-quente americano - repetiu a menina pacientemente.

- É claro que não - disse a preceptora Mabel com desprezo. - Onde é que foi buscar semelhante idéia?

- Mama? - perguntou Brigette, ignorando a preceptora. - Posso?

- Hmmm... - replicou Olympia distraidamente, passando a língua pelos lábios e chupando as bochechas para dentro. - A preceptora é que sabe...

- A preceptora diz que não - lamuriou-se Brigette. Olympia ergueu ligeiramente a voz.

- Então obedece à preceptora. Venham.

E marchou para fora do apartamento, seguida pelas duas. Desceram no elevador e saíram para o passeio.

O motorista saltou para fora da limusina que aguardava e manteve a porta aberta. Dois paparazzi que deambulavam por ali à espera de que saíssem, puseram as câmaras em posição.

Olympia compôs um sorriso condescendente e pegou na mão de Brigette. A criança deteve-se subitamente e gritou:

- Odeeeio toda a gente!

- Brigette! -exclamou a preceptora, furiosa. -Pare imediatamente com esse comportamento!

Os dois fotógrafos, pressentindo algo mais do que a habitual cena cheia de compostura, começaram a disparar as máquinas com atenção.

Brigette, agora o centro das atenções e a adorar o facto, gritava cada vez mais alto.

Olympia teve vontade de saltar para dentro do carro e afastar-se de toda aquela cena embaraçosa. Mas como podia fazê-lo? O pivete aos berros era sua filha - infelizmente - e ela desempenhava naquele dia o papel da mãe perfeita.

- Faça alguma coisa - sibilou à preceptora.

- Não consigo, madame.

As tentativas por esta levadas a cabo para puxar Brigette para dentro do carro, revelavam-se infrutíferas.

- Santo Deus! - exclamou Olympia.

Um flash explodira-lhe mesmo em frente da cara.

- Vá-se embora homenzinho estúpido - gritou ao fotógrafo. Começara a reunir-se uma multidão, divertida. Olympia não podia suportar a situação por mais tempo. Virou-se para Brigette em fúria, desferiu-lhe um estalo na cara, pegou na criança surpreendida e atirou-a para dentro do automóvel.

As câmaras registaram cada instante.

Um dia depois, Dimitri viu, com um misto de preocupação e ira, a fotografia da neta a levar uma bofetada da filha. Preocupação porque implorava constantemente a Olympia que evitasse a publicidade. Ira porque esta agredira a sua preciosa Brigettesinha, uma criança que ele adorava.

Atirou o jornal ao chão e pegou no telefone. Segundos depois, tinha a preceptora Mabel em linha.

- Madame está a repousar - disse-lhe ela.

- Acorde-a - ordenou Dimitri com voz trovejante.

- Não tenho permissão para o fazer.

- Faça-o! Resmungando para consigo mesma, a mulher obedeceu. Vociferando por causa do abuso, Olympia atendeu.

- Que se passa? - perguntou. Há muito que deixara de se intimidar pelo pai, pelo menos desde que herdara a sua fortuna aos vinte e um anos.

Ele apresentou-lhe as suas queixas durante algum tempo. Ela escutou atentamente.

Deu-lhe ordens sobre a maneira como deveria conduzir-se em público. Ela ignorou-o.

- Por que estás em Las Vegas? - perguntou Olympia quando o pai fez uma pausa para respirar.

Um momento de silêncio e depois:

- Francesca Fern vai ser homenageada. Como sou um amigo chegado, ela e Horace pediram-me que viesse assistir.

Olympia abafou uma gargalhada rude. Deus! Aquele seu pai fazia-a perder a cabeça. Acreditava sinceramente que ninguém sabia do seu romance com a prima donna Fern! Pois se não havia quem não estivesse a par! Passavam a vida a fornicar de uma ponta à outra do globo.

E tinha ele o descaramento de a repreender por causa dos paparazzi! Eles tinham-no apanhado a ele a fazer tudo menos a entrar em vias de facto com uma das suas putas de sociedade.

- Quem é que consegue ser homenageado numa espelunca como Las Vegas? - troçou Olympia.

Dimitri mudou de assunto.

- Quero ver Brigette.

- Ficamos em Nova Iorque até segunda-feira.

- Tentarei dar aí um salto de avião no sábado, depois voltaremos para Paris todos juntos.

- Óptimo.

Ficou satisfeita. Sempre era melhor do que viajar numa carreira comercial. Gostava do Lear Jet de Dimitri com todas as suas comodidades. Quando tivesse tempo, talvez comprasse um para si.

Depois de desligar o telefone, espreguiçou-se na cama e concluiu que, no fim de contas, Nova Iorque até poderia ser um sítio divertido, se se ignorasse os paparazzi - e estes estavam por todo o lado, desde que, naquela manhã, a agora célebre fotografia aparecera na primeira página do The New York Post.

O chá tomado com Charlotte na véspera, correra bem. Brigette, depois da birra, comportara-se impecavelmente. E Charlotte andava tão preocupada com a proximidade do seu casamento que mal arranjara tempo para criticar, embora mencionasse que Olympia tinha uns quilos de peso a mais e precisava de um bom tratamento facial. Mais tarde, Olympia encontrara-se com uns amigos e divertira-se imenso, acabando, às duas da manhã, no Studio 54, que adorava.

Nesse dia iria almoçar ao 21, fazer compras pela Madison e naquele momento repousava antes de mais uma noite na cidade, Quem sabe encontraria algum príncipe encantado... esperava que sim. Dois dias sem sexo era demasiado.

 

Jess apresentou-se no escritório de Matt Traynor às doze horas do mesmo dia em que Lennie foi despedido. Mostrava-se, muito justamente, indignada.

- Por que mandaste Lennie para a rua?

Matt fitou a jovem que, irada, o olhava do outro lado da secretária. Era tão linda, tão bem feita, tão baixinha.

- Jessie querida... - principiou.

- Não me trates por Jessie e muito menos por querida. Dá-me apenas uma resposta.

Matt sabia o que gostaria de lhe dar - ela fazia-o sentir-se incomodativamente excitado. Em vez disso, porém, encolheu os ombros num gesto de impossibilidade e disse:

- Política da casa.

- Merda da casa. Ouvi dizer que ele foi estupendo.

- Sim, foi, e eu próprio lho disse, mas ele impedia as pessoas de jogar nas mesas.

Jess resfolegou depreciativamente.

- Ora, se essa é que é a razão, porque não despedes Ann-Margret, Diana Ross, tom Jo...

Matt ergueu uma mão autoritária e imaginou como seria ela a fazer sexo. Formidável, tinha a certeza.

- Está bem, está bem. Não preciso que me faças nenhuma lista. Por que não jantas comigo hoje à noite que eu tentarei explicar-te o problema como deve ser?

- Estou de serviço.

- Amanhã à noite?

- A mesma coisa.

- Quando é que tens a tua noite de folga?

- Também sou casada. Lembras-te?

- Que tal uma ceia depois de saires do teu turno desta noite?

- Onde?

Ele andava a convidá-la a sair há dois meses. Aquela era a primeira oportunidade que ela lhe dava.

- Em minha casa - disse rapidamente.

Jess riu com vontade. Tinha um riso de hiena, assim como oito mil sardas e um mirabolante cabelo ruivo-alaranjado. Ele achava-a a rapariga mais atraente que vira em meses.

-Que tem a minha casa de tão engraçado? - perguntou agressivamente.

- Nada. Excepto que não há corista na cidade que não conheça a sua localização, tamanho, até mesmo a cor dos teus lençóis.

- Dou muitas festas - disse ele na defensiva.

- Não é tudo quanto dás. Admira-me que nunca tenhas apanhado gonorreia.

Matt conseguiu improvisar uma risada, deveras lisongeado por ela saber tanto a seu respeito. De facto ele nunca apanhara gonorreia, mas o resto correspondia à verdade. E por que não? Ele andava a recuperar o tempo perdido. Casado durante vinte e quatro anos, divorciara-se da mulher ia para cinco anos. Ela é que se divorciara dele. A mulher era louca. Ninguém teria sido melhor marido do que ele. Sentiu-lhe a falta durante os primeiros seis meses até que, de repente, as benesses de ser um homem solteiro, endinheirado e poderoso caíram sobre si. Descobriu então que, enquanto estivera casado, as coisas tinham mudado. Houvera uma revolução sexual, e já não era necessário empreender grandes esforços nem prometer e declarar amor eterno para levar uma rapariga para a cama. A partir desse momento, Matt viveu cada segundo no seu máximo. E quando a sua ex-mulher - uma feminista fora de época - decidiu que deviam voltar a viver juntos, Matt disse-lhe exactamente onde enfiar a idéia.

- Jantas comigo ou não? - perguntou.

Jess mordiscou o polegar durante um momento - um hábito de infância que não conseguia quebrar. Queria de facto descobrir os motivos que tinham levado à demissão tão sem-cerimônia de Lennie. Mas jantar com Matt Traynor - livra! com aquela popa prateada, as correntes de ouro e os perpétuos olhares de soslaio...

Se fossem para casa dele, ao menos ninguém os veria juntos. Seria demasiado humilhante imaginar as pessoas a pensarem que ela fora mais uma conquista a acrescentar à lista dele. De qualquer maneira não era capaz de perceber porque motivo ele a desejava. Ela não fazia nada o seu estilo. Mas não havia dúvidas de que tinha um fraquinho por ela - um fraquinho que lhe valera conseguir, antes de mais nada, o contrato para Lennie. Bastara-lhe mostrar um videotape a Matt com o trabalho do amigo e algumas críticas importantes uma delas, bastante entusiástica, do The Village Voice-para ele lhe dizer, "Claro. Vamos contratá-lo. Se tu dizes que ele é bom, para mim é quanto basta."

Despedirem Lennie sem mais nem menos fora o mesmo que fazerem-na de parva. Lennie alugara um carro e saíra intempestivamente de L. A. a meio da noite, dizendo-lhe à laia de despedida, "Não preciso desta merda. Obrigadinho, Jess."

Jess sabia que assim que ele acalmasse, perceberia que a culpa não fora dela e esperava que na altura em que ele telefonasse a pedir desculpa, ela já soubera exactamente porque motivo aquilo acontecera.

Portanto ia jantar com Matt.

- Está bem - acedeu. Matt pareceu ficar satisfeito.

- Até logo? Jess suspirou.

- Assim parece.

- Não te mostres tão entusiasmada. Quem sabe? Até pode ser que gostes.

- Sou vegetariana.

Matt ficou sem perceber se ela queria dizer que não fazia sexo. Decidiu não aprofundar o assunto.

- Até logo à noite - disse. - Estou encantado.

- Ainda bem que alguém está - murmurou Jess.

- Quê?

- Nada.

O Chevrolet alugado pôs Lennie em Los Angeles às oito da manhã. Nada mau, considerando que saíra de Las Vegas às 3. 30 da madrugada.

A cidade já exalava calor, mostrando um misto de neblina e fumo que fazia prever um dia longo e abafado.

Saiu da auto-estrada na saída para a Sunset Bolevard, virou à esquerda e deu-se conta de que não fazia idéia para onde ia ou do que fazer. Só estivera em L. A. uma vez ainda, no seu décimo terceiro aniversário, na companhia da mãe e do pai. Tinham ficado em casa de uma tia que morava no vale, durante cinco dias de monotonia, O ponto alto da visita fora uma visita à Disneylandia - memorável porque a mãe perdera a cabeça com o entusiasmo e cantara The Star-Spangled Banner a um índio esculpido em madeira.

De modo que ele não sabia muito bem por onde seguir. Contudo, sabia que tivera de sair imediatamente de Las Vegas, depois do director artístico de cabelo prateado lhe comunicar que estava despedido.

Ele, Lennie Golden, estava despedido.

DESPEDIDO.

Posto a andar.

Atirado para o meio da rua.

Demitido.

Merda!

Encostou ao passeio e apalpou o bolso da sua camisa de trabalho desbotada à procura do infame livro negro Golden. Era o seu salva-vidas e nunca se separava dele, fosse para onde fosse. Havia duas páginas repletas de números de telefones de L. A. Amigos. Contactos. Amigos de amigos. Agentes. Clubes. Ligações. E a velha mãesinha querida. A festiva Alice Golden - a mãe judia que não lhe fazia canja de galinha nem perguntas acerca da sua vida amorosa. Muito mais provável era oferecer-lhe um charro e falar-lhe da sua.

Alice. Talvez ficasse na casa dela alguns dias, enquanto pensava no que fazer a seguir. Mas depois lembrou-se do novo namorado da mãe o que ela levara a Nova Iorque o ano passado. Um perfeito nabo de dentadura postiça e riso idiota. Lennie não estava com paciência para o aturar. Continuou lista abaixo.

Havia Jennifer. Uma loura de lábios doces, perfeitamente deliciosa, que abandonara as aulas de representação em Nova Iorque para tentar a sua sorte em L. A.

Havia Susan e Shirley. As gêmeas. Futuras cantoras e actrizes por enquanto a fazerem dobragenj de anúncios publicitários.

Havia o seu amigo Joey Firello, um colega comediante que chegara a L. A. vários meses antes e já tinha uma intervenção semanal regular num show na televisão.

E depois, evidentemente, havia Éden. Não se tinham separado como amigos. Ele saíra intempestivamente da sua vida dizendo-lhe das boas e em bom som.

Ah... Éden, a rainha de todas as cabras. Uma gaja bonita, perversa, lixada, difícil.

Ele queria vê-la.

Ele precisava de a ver.

Talvez ela tivesse mandado o amiguinho actor às malvas e aceitasse reatar a relação.

Sem hesitar, procurou uma moeda e uma cabine telefônica.

Ao terceiro toque atendeu uma voz masculina com um "Está?" pouco amistoso. Seria o tal actor? Ou um tipo novo? Ou talvez um serviço de atendimento de chamadas?

-Éden Antônio - disse bruscamente.

-Quem é que deseja falar com ela? - perguntou a voz com maus modos.

- Hum, diga-lhe que é Lennie.

Por que estaria a sentir-se como um garoto de doze anos a tentar afirmar-se? E antes de mais nada por que é que lhe telefonava? Que lhe diria? Estou aqui. Assim, sem mais nem menos. Sem trabalho. Sem lugar para ficar. Éden mandá-lo-ia pentear macacos.

- Éden não está - disse a voz, desligando.

Éden Antônio não era uma estrela, nem nada que se lhe parecesse, mas de vez em quando trabalhava numa telenovela diária e tinha a certeza de que tal a conduziria a papéis mais importantes.

Sentada no meio da sua cama tamanho gigante, pintava as unhas dos pés: perguntou ao seu namorado do momento - um indivíduo baixo e careca, de dispendioso fato castanho feito à medida extremamente anticaliforniano.

- Quem era, queridinho?

Santino Bonnatti encolheu os ombros com desprezo, ao mesmo tempo que atirava o auscultador para cima do descanso.

- Um nabo qualquer.

Passeou os olhos minúsculos e redondos pelo quarto. Aquela Éden era de se lhe tirar o chapéu, mas o mesmo já não se podia dizer do seu apartamento.

- Andei a pensar - disse. - Que tal mudar-te para fora deste palácio e pôr-te num sítio decente? Gostarias?

Éden concentrou-se nas unhas dos pés. Conhecera Santino Bonnatti há seis semanas atrás e dormia com ele há cinco. Não se podia dizer que fosse um Paul Newman mas segundo Ulla, uma amiga que os apresentara um ao outro, o tipo estava cheio de massa e talvez encarasse com bons olhos investir num filme se visse que valia a pena.

- Em que negócio está ele? - perguntara ela a Ulla. A amiga mostrara-se vaga. - Não tenho bem a certeza. Utilidades, penso. Importação. Exportação. Coisa importante.

Fora o suficiente para despertar o interesse de Éden. Ao menos uma vez na vida queria ter um namorado rico, não apenas um tipo bonito sem mais do que grandes sonhos e uma erecção.

O facto de Santino ter mulher e quatro filhos enfiados numa mansão em Beverly Hills não a preocupava minimamente. Ela não queria casar Com ele, apenas utilizá-lo para chegar onde desejava. - Qual é a tua idéia, exactamente? - perguntou-lhe friamente. Santino endireitou a gravata e mirou a sua imagem reflectida no espelho do armário.

- Não sei - respondeu vagamente. - Podia montar-te uma casa. Era mais fácil para mim.

- Referes-te a comprares-me uma casa? - inquiriu Éden, que nãol perdia uma oportunidade de puxar a brasa à sua sardinha.

-Isso mesmo - replicou ele animadamente. - Por que não? "Por que não, realmente? ", pensou ela, excitada. "Ando a fornicar esse nojo de corpo cabeludo, é tempo de receber alguma recompensa. Uma casa viria mesmo a calhar."

Esticou uma perna comprida e branca e admirou as unhas pintadas de vermelho-sangue. O peignoir que vestia abriu-se, revelando um glorioso monte-de-Vénus coberto de cabelo púbico louro. Ela mandava-o tingir regularmente.

- Parece-me que gostaria muito - disse ela com voz arrastada.

Os olhinhos redondos do homem fixaram-se no seu púbis. Que tipa mais excitante aquela! Meia dúzia de semanas de ligação e já a fazer-se a uma casa. Apeteceu-lhe dar-lhe mais uma fornicadela mas os negócios estavam à sua espera e mais tarde tê-la-ia ali à sua disposição.

- Contactarei com uma amiga que negoceia em propriedades e deve-me um favor - disse Santino. - Arranjar-te-emos uma coisa bonita.

Éden sorriu. Possuía lábios finos e dentes perfeitos.

- Tenho a certeza de que sim, queridinho.

- Tenho de ir - disse Santino.

- Mais um dia de muito trabalho no escritório, não? - perguntou Éden compassivamente.

- Nada disso. Não gosto de ficar sentado atrás de secretárias. - Estou à espera de umas mercadorias estrangeiras que vêm de barco.

Éden não tinha idéia do que Santino fazia. Sempre que lho perguntava, ele dizia-lhe uma coisa diferente. Um dia eram importações de azeite de Itália, noutro café colombiano. Fosse o que fosse, o certo é que o homem nadava em dinheiro.

- Estendeu-lhe os braços convidativamente.

- Então não me dás um beijo de despedida?

Ele fez-lhe a vontade.

Éden esperou que a porta da frente se fechasse depois de ele sair, pôs-se de barriga para baixo e, estendendo a mão para debaixo da cama, carregou na tecla de retrocesso de um gravador escondido, ligado ao telefone. Se Santino achava que podia censurar as suas chamadas, estava muito enganado. Além disso, gravar as conversas dele era fascinante - especialmente quando falava com a ranzinza da mulher com aquele sotaque italiano cantante.

Ele fizera duas chamadas telefônicas na noite anterior. Uma delas, uma conversa complicada onde se falara de carregamentos em navios e vastas somas de dinheiro. E a outra para dizer à mulher que estava em São Francisco e não iria ficar a casa.

Grande mentiroso. Bem, eles eram-no todos. E todos uns merdas. Éden sabia muito bem dessas coisas.

"O nabo qualquer" era, afinal de contas, Lennie Golden. Éden sentiu, por um instante, um assomo de excitação - que estaria ele a fazer na cidade? Se de facto estava. Talvez tivesse ligado de Nova Iorque. Fez a fita retroceder.

-Lennie Golden. Um luxo a que se permitira. Um perdedor. Mas sexy, esperto e divertido, com um corpo estupendo. Oh, sim - ela sentira a falta do amor que costumavam fazer. De certa maneira também as discussões lhe tinham deixado saudades. E tinham sido das boas!

Depois lembrou-se. Lennie Golden. Uma estrada que não levava a lado nenhum. E ela, Éden Antônio, ia direitinha para o topo-com a pequena ajuda de um amigo.

O carro e o motorista de Santino esperavam por este na garagem subterrânea. Blackie, seu guarda-costas, já descera com ele no elevador. Santino nunca ia a lado nenhum sem protecção. Nem outra coisa podia fazer, no seu negócio. Não valia a pena correr riscos desnecessários, precisamente o que o reles apartamento de Éden representava.

- Lembra-me - disse a Blackie -, para arranjar uma casa para esta tipa.

-Sim, patrão - anuiu Blackie.

Santino tirou um vaporizador oral do bolso e levou-o à boca. Éden intrigava-o. Era bonita, fria e oportunista. Seria interessante domá-la. Ela imaginava-o um carneiro pronto a ser tosquiado. Mas não o conhecia, pois não?

Acabaria por conhecê-lo. Quando ele estivesse pronto. Somente nessa altura.

Wayland não se deu ao cuidado de perguntar onde Lennie estava, pelo que Jess não achou necessário explicar a sua partida abrupta.

Regressou a casa depois do seu encontro com Matt, despiu a roupa e deixou-se cair em cima da relva excessivamente crescida que rodeava a piscina suja.

Wayland encontrava-se meio inconsciente - como de costume, com uma "pedrada" tão grande que não se importava com o que pudesse acontecer aos outros. O bebê dormia num cesto de vime, debaixo de uma árvore. Jess mordiscou a unha de um dos polegares, reflectindo sobre a sua vida. Não era perfeita. Quem a tinha assim? Mas realmente poderia ser muito melhor.

Por que casara com Wayland?

Seria o facto de estar grávida de sete meses uma razão suficientemente válida?

Talvez sim. Talvez não. Havia muita gente que tinha filhos sem se casar. Sim, mas talvez não tivessem a mãe a morrer de cancro no hospital, i Uma mãe cujo desejo fervoroso fora ver a filha única casada.

Engraçado, de facto, já que ao longo dos seus trinta anos, sua mãe e ela não tinham feito outra coisa senão discutir por dá cá aquela palha, Desencadeada a doença, Jess descobrira que não haveria nada que não fizesse pela mulher que lhe dera o ser. Portanto casara com Wayland: que, pelo menos antes de darem o nó, parecia um ser humano razoavelmente normal - não o zumbi drogado em que se transformara.

Ele encontrara de facto a cama ideal onde se deitar. Uma mulher que se matava a trabalhar, limpava a casa, cuidava do bebê e lhe sustentava o vício. Que mais poderia um homem desejar? Homem. Já não se aproximava dela há meses. Preferia subir às nuvens do que deitar-se para fazer sexo. Nem sempre os dois se juntavam. Não que ela se importasse. Na verdade preferia que ele não lhe tocasse. Wayland nunca tomava banho, tinha o cabelo constantemente ensebado, os dentes começavam a apodrecer-lhe devido ao hábito péssimo de andar sempre a comer açúcar puro - enfiando-o às colheradas na boca, de dentro do pacote. Nojento!

Jess deixou escapar um suspiro profundo. A partida de Lennie deixara-a deprimida. Quase não tinham passado nenhum tempo juntos e ela albergara a esperança de que, depois de conversarem - de conversarem! a sério - ele a ajudasse com algum conselho. De facto estivera a contar com ele para a tirar da trapalhada em que se metera. Não lhe falara da mãe, não quisera incomodá-lo logo no primeiro dia da sua estada na cidade. Agora era demasiado tarde. E ele a pensar que ela tinha algum arranjinho por fora. Ha! Quem é que dispunha de tempo, energia ou inclinação? O tempo, esse gastava-o ela entre a casa, o hospital e o casino.

Fitou Wayland, odiando-o. Quando se tinham conhecido, ele parecera-lhe uma pessoa meiga, de trato fácil e bondosa. Um tudo nada excêntrico mas que diabo, era um artista! Mostrara-lhe uma pasta cheia de desenhos brilhantes. Desde que se tinham casado, nunca mais pousara uma caneta num papel, quanto mais um pincel numa tela.

Em vez de meigo, mostrara ser um fraco; em vez de pessoa de trato fácil, saíra-lhe um preguiçoso; o bondoso dera em idiota. Emitiu um som de enfado, e nessa altura o bebê começou a chorar. Wayland não tugiu nem mugiu - como era de esperar. Jess levantou-se rapidamente e tirou Simon do cesto. Ao menos tinha um lindo bebê - a relação produzira algo de valor.

Encaminhou-se lentamente para casa e pensou no jantar com Matt Traynor. Não era um acontecimento pelo qual ansiasse mas, ao menos, tentaria descobrir a verdade e, quem sabe, convencê-lo a readmitir Lennie.

Oh, se conseguisse fazê-lo! Precisava de um amigo, e naquele momento.

Éden que fosse passear. Lennie sentiu-se, de certa maneira, aliviado, pois não estava preparado para falar com ela. Seria melhor instalar-se primeiro e só depois telefonar-lhe.

Já que estava junto de um telefone, decidiu ligar para a mãe. Talvez o namorado se tivesse ido embora - com Alice, nunca se sabia. Constatou que a mãe arranjara um aparelho de atendimento de chamadas, ouvindo-a dizer com voz bem-disposta e saltitante: "Ora viva! Sou a Alice. Saí. Desiludido? Não vale a pena. Deixe o seu nome, número de telefone e (risada) risada) estatísticas vitais. Se estiver com sorte, ligarei para si quando voltar."

Por que o faria ela encolher-se de embaraço? Não seriam já horas de ter aprendido a aceitá-la como era? Tentou Joey Firello. Também não estava. A seguir telefonou para as gêmeas.

Foi Shirley quem atendeu; gritou de entusiasmo ao saber que era ele e convidou-o imediatamente para o pequeno-almoço. Não parecia má idéia. Além disso, não tinha mais nenhum lugar para onde ir.

 

Ao acordar, de manhã, Lucky sentiu-se óptima. Estava de volta, o sol brilhava e não entendia porque razão se sentira tão preocupada com Gino e a viúva Martino na noite anterior. Não era nada de importante. Alguém com quem fornicar. Uma pessoa diferente. Qualquer um se aborreceria com um desfile interminável de coristas.

Sorriu. O bom velho Gino. Ainda não perdera a vitalidade. Devia sentir-se orgulhosa dele, não furiosa. E naquele dia combinariam tudo e tratariam dos negócios, como de costume.

Extremamente bem disposta, saltou para fora da cama, executou alguns exercícios isométricos e depois meteu-se debaixo de um duche gelado. Por um milionésimo de segundo viu o rosto sorridente de Marco, tão belo e moreno...

Obrigou-se a afastar a imagem da mente e, em alternativa, pensou no engate circunstancial da noite anterior. Felizmente o sujeito não fora em cantigas, caso contrário pela manhã ela sentir-se-ia arrependida. Que estupidez a sua em ter escolhido um empregado - esperava que Matt tivesse obedecido à sua ordem, despedindo-o.

Saiu de debaixo do chuveiro, sacudiu as gotas de água do cabelo brilhante e enfiou um fato de treino em turco. Começara a correr em Atlantic City e gostara da experiência. Nos terrenos que rodeavam o Magiriano havia uma pista de jogging e ela tencionava utilizá-la.

No piso térreo, os jogadores matinais enchiam o casino. O matraquear das slot machines era um som que se ouvia vinte e quatro horas por dia. Assegurou Lucky de que tudo estava em ordem. Deteve-se para tomar um sumo de laranja no café, trocou algumas palavras com dois dos guardas da segurança e depois seguiu em direcção ao ginásio, onde encontrou Boogie a exercitar-se com os pesos.

-Ora viva! -exclamou Lucky. -Que foi que te deu?

Boogie mostrou-se envergonhado por ter sido apanhado. Era alto, ágil e franzino - nunca pensara em desenvolver os músculos em dias de sua vida.

- "Deve ser amor" - cantarolou Lucky, despedindo-se com um aceno de mão antes de sair para a pista de corridas.

A manhã de Gino progredia a passo mais lento. Susan acordou-o, mais uma vez com um tabuleiro repleto de iguarias, e depois de lhe depositar um beijo leve nos lábios disse-lhe:

- Nunca imaginei vir a encontrar alguém que me fizesse tão feliz como tu.

Gino esforçou-se por acordar, sorrindo. Ali estava, sem dúvida, uma tipa de classe.

- Tu também não te sais nada mal - observou, decidindo comprar-Lhe um presente, talvez uma boa peça de joalharia.

Susan sorriu, toda dentes de pérola e cabelo penteado para trás. Pela manhã fazia lembrar um milhão de dólares.

Ele passou-lhe os dedos pelo decote do penteador de renda bege.

- Alguma vez alguém te disse que tens umas mamas estupendas?

- Gino!

- Que se passa? Nunca ninguém te disse isso?

- Não exactamente dessa maneira. Gino soltou uma gargalhada obscena.

- És mesmo uma finória. É o que mais aprecio em ti.

-"Ah... com que então é o que mais aprecias - murmurou Susan provocantemente.

- Isso e as tuas mamas estupendas!

Gino enfiou-lhe as mãos dentro do decote e Susan esboçou um ligeiro movimento de recuo, não chegando, porém a concretizá-lo.

Gino acariciou-lhe um dos mamilos enquanto lhe guiava a mão para o seu pénis. Susan afastou-se agilmente.

- São horas de tomar o pequeno-almoço - disse ela docemente. A erecção dele esmoreceu obedientemente.

- Ei - objectou Gino -, a última pessoa que me mandou comer o pequeno-almoço foi uma enfermeira de metro e oitenta de altura e pêlos no queixo.

-Come. Gino sorriu.

- Antes preferia comer a tua passarinha.

- Gino! Às vezes não sei se tens setenta anos se dezassete.

- Mantém-te na dúvida, doçura. É assim que gosto delas.

Depois de correr pela pista durante vinte minutos, Lucky deu um mergulho rápido na piscina olímpica. Conseguiu dar vinte e cinco braçadas, o que a deixou satisfeita, considerando que andava com falta de prática. No caminho para o seu andar, passou pelo escritório de Matt mas este não estava.

Sentou-se à secretária dele e telefonou para Gino. Este também não estava. Durante um momento o rosto ensombrou-se-lhe. Duas noites seguidas com a viúva Martino? Duas noites fora quando adorava a sua própria cama? Duas noites de grande fornicação - o que já não era nada aconselhável a um homem de setenta e dois anos e que já tivera problemas de coração.

Franziu as sobrancelhas. O dia já não lhe parecia tão brilhante. Precisava de respostas e ele na cama com uma mulher!

- Ele que me telefone assim que chegar - disse à telefonista. - Oh, e diga-lhe que é urgente.

Quando Gino ficou vestido e preparado para deixar o conforto da casa alugada de Susan, já passava do meio-dia. Susan, envergando um fato de tênis branco e fresco, encontrava-se sentada debaixo de um guarda-sol, no pátio, a beberricar um chá de menta gelado.

- Queres um pouco? - ofereceu ela. Gino continuava bem disposto.

- Que é que tens em mente?

- Chá, querido. Hoje nem o Super homem conseguia fazer mais alguma coisa.

- Ei... disse Gino. -E que tal esta noite? Queres jantar comigo e com Lucky?

A voz cuidadosamente modulada deixou escapar uma pequeníssima nota de surpresa.

- Jantas sempre com a tua filha?

- Ha? Sim... bem, a maior parte das vezes. É uma espécie de hábito que temos.

- Ela não tem nenhum namorado? Gino encolheu os ombros.

- Foi casada com um tipo, um autêntico zero à esquerda. Culpa minha.

- A culpa foi tua?

- Casei-a à pressa quando era muito jovem. Pensei que estava a mantê-la afastada de problemas, em vez de ser ao contrário. Divorciou-se dele quando eu estive fora do país. Agora anda completamente envolvida dos negócios, sabe tanto deles quanto eu.

- E vocês passam sempre o tempo todo juntos? - inquiriu Susan secamente.

- Gostamos os dois de que seja assim.

"Pois eu não gosto", pensou Susan, mas não disse. Em vez disso, sorriu e murmurou:

- Encantador. Jantaremos então todos juntos. Lucky parece-me uma rapariga interessante. Gostarei de a conhecer.

Matt contactou com Lucky antes de Gino. O tom em que lhe falou era frio.

- Estás aborrecido comigo? - perguntou-lhe ela.

- Por que havia de estar? Não tive de me desenterrar da cama às duas da madrugada para despedir um comediante de primeira classe que não fez nada para o merecer.

- Não digas "desenterrar". Faz que pareças um anormal qualquer da Idade da Pedra.

- Obrigado.

- De nada.

Fez-se um silêncio prolongado, que ela finalmente quebrou.

- Vais substituí-lo por quem?

- Por uma freira cantora. Mandará as pessoas para as mesas de jogo aos magotes.

- Ha, ha. Ele ficou chateado?

- Claro que o pobre estupor ficou chateado. O ego dele sofreu um abalo violento.

- Aborrecido.

Lucky fez uma pausa e depois acrescentou:

- Pagaste-lhe as duas semanas completas?

- Até lhe dei um bônus.

- Então está tudo bem.

- Se tu o dizes.

Lucky pousou o telefone e fez votos para nunca mais voltar a ver Lennie Golden. Fora o primeiro homem a rejeitar os seus avanços. Ainda assim... mesmo que ele tivesse alinhado, ela tê-lo-ia despedido. Ele fora apanhado numa situação inultrapassavelmente negativa. A culpa fora mesmo dele, de qualquer maneira. Iniciara todo o processo na piscina, à tarde, fazendo-se a ela como o garanhão do ano. Claro, em termos físicos, ele era inegavelmente atraente. Não o tipo dela, mas ia com estilos Robert Redford. Gostava dos seus homens morenos e duros, com uma certa aura agressiva nas suas personalidades. Fosse como fosse, quem se imaginava o idiota? Detestava sujeitos daquele gênero.

De repente viu o lado divertido da questão. Mr. Engatatão não era capaz de levantá-lo. Só lá chegava à sua maneira.

Lucky esperava que ele tivesse aprendido a lição.

O amarelo puro do anel de diamante que a viúva Martino tinha no dedo mínimo, refulgiu esplendorosamente.

Gino não conseguia apagar o sorriso dos lábios.

Lucky mostrava-se carrancuda.

Mais uma noite sensacional. Daquela vez eram só os três. E a cabra a lançar "dicas" a Lucky que esta identificou como sérios sinais de perigo.

Naturalmente, era tudo muito civilizado. Susan, calma e encantadora. Somente Lucky captava todos os dardos envenenados que ela lhe lançava.

Não se dispôs a morder a isca. Sabia que lhe estava a ser armada uma cilada, porém não tencionava deixar-se cair nela em frente de Gino. Susan queria que ela caísse. Susan queria uma confrontação.

Portanto, Lucky manteve-se impassível. Sorria e respondia evasivamente a perguntas impertinentes, ria e brincava, ao mesmo tempo que os olhos negros lhe brilhavam de raiva por aquela mulher cobiçosa se lhes ter, de certa maneira, imiscuído na vida.

- Que achas? - perguntou Gino orgulhosamente, quando Susan foi, finalmente, aos lavabos femininos.

"Acho que estás a ficar senil." "Acho que ela é uma ordinária."

- Acho que ela é muito... hum... -procurou um adjectivo adequado -... atraente.

Mas à laia de brincadeira, acrescentou:

- Mas não será um tudo nada demasiado velha para Gino o Cobridor?

Lucky utilizara o apelido que tinham posto ao pai durante a juventude deste. Costa contara-lhe tudo acerca daquela parte da vida de Gino.

Gino passou os dedos pela cicatriz quase imperceptível que lhe atravessava a face, outra recordação dos tempos passados, e sorriu melancolicamente.

- Não quero meninas de vinte anos porque não têm que dizer. Não quero as de trinta porque andam todas à procura de engate. Susan é que está bem para mim.

- Que idade é que ela tem?

- Não sei, nem estou preocupado com isso. Quarenta e qualquer coisa. Que interessa?

"Quarenta e qualquer coisa, uma ova. No mínimo terá mais de cinqüenta."

- Devia ser terrivelmente jovem quando casou com Tiny. Eles não viveram juntos durante trinta anos? - perguntou Lucky com ar indiferente.

- Nada disso. - Devem ter sido uns vinte.

- Oh, mas eu li num sítio qualquer que foram trinta.

- Ah, sim?

Ao menos despertara-lhe a suspeita de que a viúva Martino devia ser mais velha do que ele pensava.

-com licença, querido - disse Susan, voltando para a mesa com o pó-de-arroz e o bâton retocados de fresco e a cheirar a Youth Dew de Estée Lauder.

Lucky reprimiu a sua fúria. Não tencionava continuar ali sentada por mais tempo.

- Creio que vou dar uma volta pelo casino. Não se importam, pois não?

Importarem-se? Nem que ela deitasse a correr dali para se atirar do telhado do hotel abaixo.

 

As gêmeas cumprimentaram Lennie exuberantemente. Ele já não as via há dezoito meses e ficou estupefacto com a transformação. Em Nova Iorque, não tinham passado de duas jovens louras de aspecto perfeitamente normal. Graciosas, mas nenhumas belezas espampanantes. Agora eram de fazer parar o trânsito. Loiras platinadas (outrora o cabelo tivera um aspecto insignificante) com plásticas condizentes ao nariz, bronzeados resplandecentes, corpos encantadores e seios pneumáticos (silicone da Califórnia do que havia de melhor).

- Não posso acreditar! - exclamou Lennie.

- Custou uma fortuna mas valeu cada centavo - disse Susan indolentemente.

- Sem dúvida - reforçou Shirley.

- Tu é que estás com um aspecto horrível - observaram as duas em coro.

- Agradecido - replicou Lennie, mesmo a precisar de ouvir observações daquelas.

As jovens viviam numa casa minúscula de andar único na Keith Avenue, em cuja entrada se viam vasos com plantas mortas e uma hera a tentar desesperadamente trepar pela parede. A habitação encontrava-se atravancada de uma amálgama de peças de mobília do Exército de Salvação. Tinha um pátio muito diminuto em frente do qual se via um Volkswagen amolgado.

As duas jovens usavam maillots reduzidos e às riscas, calçando sandálias brancas de saltos muito altos. Eram idênticas.

- Que andas tu a fazer por aqui, Lennie? - inquiriram ao mesmo tempo, instalando-o num sofá cheio de altos e baixos e sentando-se uma de cada lado.

Lennie riu.

- Francamente nem sei. Vim até aqui a guiar ontem à noite sem nenhuma idéia definida na cabeça.

- De Nova Iorque? - perguntou Shirley.

- Isso é que foi uma viagem! - acrescentou Susana. - De Las Vegas- esclareceu Lennie.

- Las Vegas - exclamaram as duas. - Que estavas a fazer por lá?

- É uma história curta. Chata. Lembrei-me de dar um pulo até Las Vegas.

Shirley pôs-se de pé e espreguiçou-se. Lennie não conseguia habituar-se ao novo visual que elas tinham arranjado. A jovem fitou-o significativamente.

- Tens visto Éden? - perguntou-lhe.

- Que Éden? - perguntou ele, fazendo-se de desentendido. -Deixa-te disso, Lennie - disse Suna com um suspiro.

Ele tentou mostrar-se indiferente.

- Éden continua por cá? - perguntou com ar despreocupado.

- Continua - respondeu Shirley.

- E de que maneira - acrescentou Suna.

"Onde está ela? ", apeteceu-lhe perguntar. "com quem vive? Ainda está bonita? Sente a minha falta?" Conseguiu um tom calmo:

- Ela ainda anda com aquele actor meio atrasado? Como é que ele se chama? Tim Wealth ou coisa do gênero.

As duas moças trocaram olhares. Nenhuma delas desejava contar-lhe que Éden Antônio se ligara a um misterioso homem baixo e careca, que era casado e para o qual ela não era mais do que uma mulher mantida.

- Não me parece - disse Shirlee, mudando depois de assunto abruptamente.

-Tens algum agente aqui? - perguntou.

- Não. Mas montes de números para onde ligar. Suna abanou a cabeça com ar sabedor.

- Precisas de um agente. Ninguém vai a lado nenhum sem eles. Não estamos em Nova Iorque, onde se recorre a quem se conhece.

- Portanto arranjarei um agente. Não há problema. Que fazem vocês as duas neste momento? Além de parecerem a reencarnação de Marilyn Monroe.

- Estamos na berra - exclamou Shirley.

- Ou pelo menos, quase lá - acrescentou Suna.

- Participamos numa série - disse Shirlee.

- Acabaram-se as dobragens de vozes. De agora em diante é tudo ou nada - acrescentou Suna, entusiasmada.

- Esta casa pode parecer-te um pardieiro - disse Shirley assumindo um ar sério. - Mas é central. Fica a um quarteirão de Santa Mónica e a três quarteirões de Beverly Hills. Já te apercebeste de quão importante esta localização é?

Não, mas apercebia-se de que aquelas duas bonecas Barbie já não eram as mesmas raparigas que conhecera e apreciara em Nova Iorque. A transformação não se operara apenas nos seus corpos.

- Alguma vez encontraram Éden? -perguntou casualmente, incapaz de fugir ao assunto.

- Assim que chegámos cá - disse Suna.

- Isso, antes de ela ficar numa boa e deixar de atender os nossos telefonemas - escarneceu Shirlee.

- Numa boa?

-" Ela tem um pequeno papel numa telenovela diária. Acha que isso a coloca acima de qualquer outra pessoa. Seja como for, pensei que vocês os dois tinham acabado - disse Suna.

- Sim, acabámos. Senti apenas curiosidade em saber o que era feito dela. Posso servir-me do vosso telefone?

- Claro - responderam em coro. - Só tens que meter o dinheiro na caixa própria.

Ao lado do telefone, que ficava na cozinha cheia de loiça suja, viam-se duas caixas. Numa lia-se "Local" e na outra "Interurbanas". Ele não tinha idéia a qual das duas Marina del Rey pertenceria, portanto enfiou um dólar em cada uma das aberturas. O sistema de atendimento de chamadas da mãe continuava a manter-se de vigília.

Obedecendo a um impulso, ligou para a central telefônica e pediu que o pusessem em contacto com o Hotel Magiriano, em Las Vegas. Apetecera-lhe, por alguma razão, falar com a rapariga de olhos negro-opala.

Quando a telefonista do hotel atendeu, pediu-lhe que ligasse à suite mil cento e vinte e dois.

- Lamento - disse a telefonista -, mas a suite que pediu está desocupada.

Teria ela abandonado o hotel? Tão depressa?

- Bem, dê-me o nome da pessoa que se encontrava aí registada ontem.

- A suite mil cento e vinte e dois está desocupada há cinco dias.

- É impossível.

- Lamento, senhor. A suite não tem hóspedes há cinco dias. A telefonista desligou.

Merda! Ele devia ter-se enganado no número. Agora não tinha maneira de saber o nome dela, e mesmo que se tivesse comportado como o nabo da década, continuava a ter vontade de voltar a vê-la. Por que teria ela tomado aquela última atitude?

- Que se passa, Lennie? - murmurou Suna, entrando casualmente na cozinha.

Provavelmente vinha verificar se ele depositara o dinheiro na caixa.

- Nada. Não consigo apenas encontrar as pessoas com quem desejo falar.

- Está sempre a acontecer-me - disse ela, enfiando um dedo num frasco de doce destapado e chupando-o em seguida.

Lennie perguntou a si mesmo se elas sempre lhe iriam oferecer o prometido pequeno-almoço - até uma simples chávena de café seria bem-vinda.

Shirlee entrou indolentemente na cozinha.

- Onde estás hospedado?

- Não sei. Quando me instalar dou-vos uma telefonadela.

- Agradecemos - disse Suna.

- Sim, fá-lo - reforçou Shirlee.

- Deus me valha! - exclamou Suna ao reparar no relógio da cozinha. - Tenho de me despachar. Ainda chego atrasada à minha aula de dança.

- Eu também! -acrescentou Shirlee. Lá se ia o pequeno-almoço.

Lennie apressou-se a sair.

- Por que razão temos de nos encontrar no parque de estacionamento? - perguntou Matt com ar rabugento.

- Por que não? - replicou Jess, saltando rapidamente para o assento ao lado do do condutor do Excalibur branco de cinqüenta mil dólares de Matt, esperançada em que ninguém a visse.

- Qualquer pessoa seria levada a pensar - disse Matt aborrecido -, que não queres ser vista comigo.

- Disparate - respondeu Jess bruscamente. - Este local pareceu-me simplesmente o mais conveniente.

- Claro que é - observou ele, remexendo nas suas correntes de ouro.

- Vamos - disse Jess impacientemente.

- Qual é a tua pressa?

- Não tenho pressa nenhuma. Se isso te excita, ficamos aqui sentados a noite inteira.

- Tu é que me excitas.

- Vamos ou não?

Matt ligou o motor e seguiu, durante todo o percurso até ao seu apartamento, a uma velocidade exibicionista. Jess não se deixou impressionar. Ainda menos quando entraram no santuário de mau-gosto que lhe servia de habitação.

- Este lugar parece saído das páginas da Playboy - exclamou ela. Matt tomou a observação como um elogio e agradeceu-lho.

Jess absteve-se de mais uns quantos comentários que lhe ocorreram, achando que, se pretendia obter alguma informação dele, mais valia que se comportasse com civismo. De facto ela achava-o patético - um valdevinos a ficar velho mas que não desistia. Se ele assumisse simplesmente a idade que tinha, se tirasse as correntes de ouro, a popa do cabelo e as roupas demasiado juvenis, seria um homem maduro bastante atraente. Umas calças à tom Jones num cinquentão, não eram uma visão agradável. Ele devia ter pelo menos cinqüenta - os vincos na cara assim o diziam. Que viria a seguir? Uma plástica ao rosto?

Matt carregou em alguns botões e as luzes reduziram-se a uma suave penumbra rósea; Sinatra começou a cantar em stereo e o letreiro ao fundo do bar que dizia "A Casa de Matt" ficou a piscar.

- Jesus! - murmurou Jess por entre dentes, afundando-se num sofá forrado a damasco.

- Uísque? - perguntou Matt solicitamente, já atrás do balcão do bar a preparar as bebidas.

- Coca-Cola - disse rapidamente.

- Não tenho nenhuma - replicou Matt. - Mas tenho um bocado de "erva", se estiveres interessada.

- Eu dei em Coca-Cola.

- com uísque?

- Simples.

- Não bebes?

- Às vezes.

- Esta noite não?

- Talvez mais tarde.

O "talvez mais tarde" pô-lo mais bem-disposto. Aquilo significava que ela tencionava ficar durante algum tempo. Talvez toda a noite, se ele tivesse sorte. Ou se fosse ela a tê-la, dependendo do ponto de vista.

Ela adorara nitidamente o apartamento. Desde o momento em que entrara que ainda não parara de olhar em volta.

- Gostarias que te mostrasse a casa? - ofereceu ele, entregando-Lhe a Coca-Cola num copo com as suas iniciais. "Espera até veres o quarto de dormir! "

- Agora ainda não.

- Por que não?

- Porque estou esfomeada e tu convidaste-me para jantar. Lembras-te?

Como poderia ele ter esquecido? Arranjara um jantar magnífico. Mas este só deveria ser entregue dali a uma hora. Albergara a esperança de a levar para a cama antes da chegada da comida. Detestava fazer amor de estômago cheio - ficava com palpitações.

- Jess - disse suavemente-, quero que saibas que és a rapariga mais fantástica que encontrei em todo o ano.

Sentou-se ao lado dela, rodeando-lhe os ombros com o braço, deixando-lhe depois descair a mão casualmente até ao seio direito. Jess afastou-se imediatamente.

- Pára com isso, Matt. Vim aqui para comer e para que me desses umas informações, portanto agradeço que não me apalpes e me venhas com essas tretas. Percebido?

As gêmeas deixaram Lennie deprimido. Ele detestara a transformação. Já não pareciam reais, faziam antes lembrar um par de bonecas enfeitadas - do tipo das que se compram nas lojas pornô da Times Square. Muita gente em Nova Iorque tinha má idéia de Los Angeles. Diziam que era uma terra de fantasia - só fornicação, sol e sexo.

E que tinha isso de mal?

Muito. Se não houvesse mais nada. Suna e Shirlee davam idéia de que não havia mais nada.

Parou para tomar café e comer uns ovos, voltando a tentar ligar para Marina del Rey pela terceira vez. Dessa vez Alice atendeu ao segundo toque.

Disse, de um fôlego só:

- Está, daqui é Alice Golden. Quem fala?

- Estás a pedir um telefonema obsceno- brincou ele.

- Lennie querido. Por que telefonas? Algum problema?

Por ali se via bem como era a relação entre ambos. As conversas ternas mãe-filho não eram para Alice. Ela ia direita ao assunto.

- Estou em Los Angeles - disse Lennie. - Não há nenhum problema.

- Por que é que cá estás?

Teria ele detectado uma nota de alarme? Alice não apreciava o facto de ter um filho de trinta anos. Fazia-a parecer velha.

Lennie tirou a custo um cigarro do bolso da camisa e acendeu-o.

- Tive um espectáculo em Las Vegas e lembrei-me de fazer uma visita.

Pânico.

- A mim?

- Não. A Las Vegas.

Por que havia ele de a visitar a ela? Era apenas sua mãe.

- Que simpático.

- É. Lembrei-me de fazer uns contactos aqui.

- Bem, querido, é uma boa terra para se fazerem contactos.

- E ao mesmo tempo lembrei-me de te fazer uma visita.

Fez-se um silêncio prolongado. Oh, que agradável que era receber uma recepção tão entusiástica!

Lennie livrou a mãe da atrapalhação.

- A não ser que não seja conveniente.

- Querido! És tão compreensivo. Neste momento tenho um namorado novo. Não quero surpreendê-lo. Seja como for, por enquanto não.

- Quando?

- Quando o quê?

- Quando é que o surpreendes? Uma gargalhada esganiçada.

- Nunca, espero. Este é dos vivos!

- Fico satisfeito em ver que estás feliz. - Extáctica.

- Que foi que aconteceu ao idiota da dentadura postiça?

- Águas passadas, Lennie.

- Voltarei a telefonar.

- Se for um homem a atender - desliga.

- Nem sequer me passaria pela cabeça proceder de outro modo.

- És bom rapazinho. E tão talentoso!

Um vislumbre de consciência. Talvez ela devesse oferecer alguma coisa; afinal de contas, ele era da sua carne e do seu sangue e ela adorava-o no seu jeito muito especial. Gostaria apenas de que ele não aparentasse a idade que tinha.

- Lembras-te da minha amiga Rainbow? - perguntou-lhe, sem no entanto aguardar resposta. -Pois bem, ela casou com aquele meshuggener do Foxie, conheces, o que é dono do clube que fica na Hollywood Boulevard. Talvez ele tenha trabalho para dar a uma pessoa divertida como tu. Faz referência ao teu pai, ela foi sempre doida por ele. Não me admira que a tenha catrapiscado nas minhas costas. - Alice riu alegremente. -O que os olhos não vêem, o coração não sente. Devia importar-me. Imaginas que eu mesma não levava uma vida divertida, não? Lennie, eu tinha os homens todos de Las Vegas atrás de mim. Todos!

Uma pausa de reflexão. - Claro, isso foi nos meus tempos áureos. Rebolava-me como nenhuma!

Ele já ouvira contar a história. Alice a Rebolona. O mimo de Las Vegas. E Jack Golden. Que comediante!

Alice nunca chamara comediante a Lennie. Referia-se a ele como uma pessoa engraçada. A seus olhos, ele nada fazia que se relacionasse com a comédia. Limitava-se a ficar no meio do palco em grandes conversas acerca da vida. Quando o vira actuar, pela primeira vez, num clube em Nova Iorque, ficara chocada.

- Tu usas linguagem daquela no palco? E eles deixam-te fazê-lo? O teu pai nunca falou assim. Conseguia pô-los a rir só de estar ali.

O teu pai isto, o teu pai aquilo. Na opinião de Alice, Jack Golden é que fora o maior. Lennie nunca conseguiria chegar nem perto das alturas vertiginosas a que o pai ascendera.

Conversa fiada.

Lennie deixou-a divagar durante um bocado. Alice adorava recordar o passado. E quando se despediu dela, a mãe nem sequer lhe perguntou quando é que voltava a dar notícias. Não ficou surpreendido. Alice era Alice. Não tinha um osso maternal no corpo cuidadosamente preservado.

Sair de casa aos dezassete anos e partir para Nova Iorque fora um dos passos mais fáceis que dera na vida. Ela dera-lhe um bilhete para a camioneta, quinhentos dólares e um beijo na face.

- Boa sorte, Lennie querido - desejara-lhe, deliciada por se ver livre da responsabilidade de criar um filho.

Portanto ele lançara-se à vida, embora o pai tivesse feito uma ligeira tentativa para o convencer a ficar. Pobre velho Jack Golden. Alice cortara-lhe os "tomates" e pendurara-os nas orelhas à laia de brincos. Morrera seis meses depois de Lennie partir. Só dois meses depois do funeral é que Alice se dera ao cuidado de o informar.

"Não consegui encontrar-te, " foi a desculpa desajeitada que dera.

Não fizera grande esforço para tal. Lennie enviara-lhes cartões-postais a indicar o número de telefone e a morada. Alice asseverara nunca ter recebido nenhum.

Agora ele encontrava-se em Los Angeles e ela parecia estar-se nas tintas. Por que se teria ele dado ao trabalho de telefonar?

"Lembras-te da minha amiga Rainbow? "- perguntara a mãe casualmente. Como poderia ele tê-la esquecido? Ela reinara, durante anos, nas suas fantasias de adolescente. Rainbow. A dançarina de strip mais bela de Las Vegas. Fizera com que Alice Golden parecesse uma insignificante.

E Jack Golden andara a pôr-se nela? De verdade? Jack Golden. O machão. Seu pai. A pôr-se na bela Rainbow?

Lennie tinha muita dificuldade em acreditar em semelhante possibilidade, porém fora o que Alice dissera...

Gostaria que Jack estivesse vivo. Imaginou a conversa que poderiam ter tido:

"Ei, pai, alguma vez engataste a Rainbow? "

"Ora, filho, claro que engatei. Queres saber algum pormenor? "

"Quero. Fala-me das mamas dela, da pássara, da pele. Conta-me tudo, pai, porque só de pensar nela me entesava cento e cinqüenta vezes por dia! "

Em certa ocasião, tinha ele os seus doze anos, fizera gazeta às aulas juntamente com Jess. Entraram à sucapa pelas traseiras do clube de strip Hot Banana, apanhando as raparigas em acção. Quando Rainbow entrara, ele quase desmaiara.

A tia Rainbow. Estivera em sua casa várias vezes, Alice e ela costumavam ir às compras juntas. A tia Rainbow era senhora de um busto de metro e nove, de um sorriso doce e de um cabelo ruivo que lhe caía em cascata. A tia Rainbow, que usava um cinto de ligas que deixava pouco à imaginação, um par de cequins cor-de-laranja, meias pretas, saltos muito altos e compridos e uma longa estola de penas.

Um dia, ao ver a tia Rainbow fazer um strip completo, ele viera-se nas calças.

- Que se passa contigo? - perguntara-lhe Jess enojada, ficando depois sem lhe falar durante uma semana.

Depois do sucedido, sempre que Rainbow ia até sua casa, Lennie fazia os possíveis por estar por perto. Certa ocasião apanhara-a na casa de banho do andar de baixo, sentada na sanita, de calcinhas (em renda preta - ainda se lembrava - oh, como se lembrava! ) descidas até aos tornozelos. Ela ficara impávida e serena. Mais tarde ouvira-a dizer a sua mãe, com uma risada, "o teu filho apanhou-me a urinar". Sua mãe também se rira.

Corriam rumores de que Rainbow chegara a Las Vegas, muitos, muitos anos atrás, com quinze anos de idade. Ligara-se a um gangster famoso chamado Jake o Rapaz. (À semelhança de Bugsy Síegel, seu antecessor, era bem-parecido e amigo das estrelas.) Jake cobrira-a de diamantes e peles, depois deixara-a aos dezassete anos. Fora nessa altura que ela iniciara a sua carreira. Quando Lennie a vira pela primeira vez, devia ter à volta de uns quarenta anos - mas ainda continuava de fazer perder a cabeça.

Que aspecto teria presentemente? Provavelmente estava gorda e feia. Velha, sem dúvida. Valeria a pena destruir a fantasia com que ficara? Lembrar-se-ia ela sequer do miúdo que a seguia por todo o lado com os seus olhos de adolescente a brilhar de luxúria e devoção?

Se ele se recordava de Rainbow? Ha!

Achou que era melhor procurar um lugar onde ficar. Acampar em casa de Alice estava nitidamente fora de questão.

Telefonou a Joey Firello, que o aconselhou a ir para o Chateau Marmont-um velho hotel que ficava em Hollywood Hills, onde se reunia muita gente ligada ao show business e não lhe levaria os olhos da cara. Joey parecia sattisfeito por ter notícias dele.

- Instala-te, que mais tarde encontramo-nos.

Lennie não estava muito certo de querer ver Joey.

Joey Firello estava lançado. Lennie Golden não saía da cepa torta. Oh, claro, nunca teria dificuldade em arranjar trabalho, mas aonde é que isso o levava? À sua volta, as outras pessoas iam evoluindo: John Belushi, Dan Aykroyd, Chevy Cnase, Joey Firello. Todos eles iam de vento em popa no que dizia respeito a bons contratos.

Ele imaginara, ingenuamente, Las Vegas como um ponto de partida para trabalhos maiores e melhores. E acabara de rastos.

Seria bom que Los Angeles tivesse algo de excitante para oferecer, caso contrário...

Caso contrário, o quê?

 

Os preparativos para a noite de gala em honra de Francesca Fern decorriam com cuidados especiais. O enorme salão de baile do Magiriano estava engalanado de exóticas orquídeas brancas. Um pormenor íntimo providenciado por Dimitri Stanislopoulos - a sua maneira de prestar homenagem a Madame Fern.

Lucky passou pelo local a certa altura do dia, a fim de se certificar de que tudo estava a correr conforme o previsto. Sem problemas. Ela dispunha de pessoal magnífico que raramente, se é que sequer acontecia alguma vez, cometia erros. E o seu gerente de provisões era o melhor que havia na cidade; a comida seria excelente.

As celebridades foram chegando ao longo do dia-de avião particular, limusina e linhas aéreas comerciais. Naturalmente, tinham cestos de fruta, champanhe gelado, caviar e uma selecção de queijos caros a aguardá-los nas respectivas suites, juntamente com uma nota pessoal de Lucky. Por muito ricas ou famosas que as pessoas fossem, todas elas adoravam receber qualquer coisa de borla - facto da vida que Gino lhe ensinara.

Nunca se encontrara com Francesca Fern, no entanto enviou-lhe seis garrafas de champanhe Cristal e um bilhete de boas-vindas.

Gino já informara Lucky de que traria Susan Martino à festa.

- Quando é que ela se vai embora? - perguntara-lhe Lucky, incapaz de se conter.

- Porquê? - retorquira-lhe o pai, agastado.

Perguntou a si mesmo quando é que Susan partiria. Inicialmente ela dissera que ficaria na cidade durante algumas semanas. O assunto não voltara a ser focado. No que lhe dizia respeito, ela poderia ficar para sempre. Fazia-o, de facto, sentir-se muito confortável.

Mais tarde, ao ir buscá-la para a acompanhar ao jantar em honra de Francesca Fern, abordara a questão.

- Parece que me habituei a ter-te por perto - disse ele. - Não tencionas partir, pois não?

Susan sorriu languidamente.

- A vida continua - disse serenamente. - Assim tudo se passasse conforme os nossos desejos.

- Ha?

Ela dera-lhe uma pancadinha afectuosa no braço, o anel com o diamante amarelo a refulgir fortemente no seu dedo mínimo.

- Tenho uma casa para dirigir e muitas responsabilidades. Há a obra de caridade em que ando empenhada. Os meus filhos... claro que de crianças já não têm nada. Nathan está na faculdade e Gemma deve casar no outono. No entanto continuam a necessitar da minha atenção, especialmente agora que já não temos Tiny connosco.

- Pois é - murmurou Gino pouco à-vontade. Era a primeira vez que ela fazia referência aos filhos. Não sabia porquê mas sempre gostara de imaginar Susan sem mais ninguém na vida além dele.

- Estou a contar partir este fim de semana - continuou Susan. -i Precisarei de uma razão excelente para não o fazer.

Não seria ele razão excelente que chegasse? Caramba! Quantas muLheres não matariam para estar no lugar dela!

Dimitri mirou a sua imagem reflectida no espelho, enquanto ajustava o laço. Ali estava ele, em Las Vegas, à espera do grande acontecimento da vida de Francesca Fern como um cachorrinho obediente! Ela insistira na sua presença. Naturalmente, ele acedera ao desejo dela: chegara mesmo dois dias mais cedo, para ficar repousado e cheio de energia. Francesca era grande admiradora da energia incessante. Ela própria nunca parava, e esperava - embora nunca recebesse - o mesmo tipo de comportamento das pessoas que a rodeavam. "Dimitri", ronronara ela com a sua voz profunda e rouca, "nós somos gêmeos, a mesma estrela, o mesmo destino. Só tu és capaz de chegar ao meu nível".

Ambos eram do signo dos Gêmeos.

Agora Madame Fern chegara de avião com a sua comitiva, que incluía Horace, aquela negação de marido - e onde estava o seu telefonema? Onde estava a sua presença na suite dele? Onde estava a malfadada mulher?

Dimitri sabia exactamente a que horas ela chegara - às onze e meia da manhã. Ele concedera-lhe a cortesia de uma hora para repousar e depois ligara-lhe para a suite, de onde o secretário insolente lhe dissera que a grande Miss Fern se encontrava a meio de uma entrevista para a Time Magazine e que nem pensar em incomodá-la.

- Pois incomode-a! - berrou Dimitri, habituado a levar a sua avante.

- Está fora de questão - replicou o secretário.

- Incomode-a! - trovejou Dimitri pela segunda vez.

- Tenho a certeza de que Madame Fern retribuirá a sua chamada assim que estiver disponível - retorquiu-lhe o secretário, desligando.

Dimitri ficou tão furioso que ligou logo a seguir, aparecendo-lhe então Horace em linha.

- Francesca está ocupada neste momento - disse Horace com a voz lamuriante com que habitualmente falava. - Dir-lhe-ei que lhe telefone assim que puder.

Dimitri passara o dia na sua suite aguardando o telefonema dela. Que nunca chegara.

Estava fora de si. Conhecera tantas mulheres e nunca nenhuma se atrevera a tratá-lo da mesma maneira que Francesca Fern.

Naquele momento estava preparado para assistir à gala em sua honra, sentindo a raiva a correr-lhe nas veias. Ele não era um miserável fã qualquer. Se Francesca pensava que podia tratá-lo assim e sair incólume, estava bem enganada.

Lucky telefonou a Matt à última da hora.

- Tens de me acompanhar à festa desta noite - disse com um suspiro de enfado. -Gino leva Grace Kelly.

- Grace está no Mônaco.

- Alguém devia dizê-lo à querida e velha Susan. Quem sabe ela acabava com a mascarada.

- Não gostas dela?

- Oh, Matt, como és perspicaz... acertaste em cheio.

- É uma senhora bem simpática.

- Hitler só tinha um "tomate" mas também conseguia encantá-las a todas.

- De que estás a falar?

- Esquece. Vem buscar-me às seis e meia.

Matt chegou à conclusão de que tinha um problema. Acompanhar Lucky Santangelo nunca figurara entre os seus projectos. Contara ver Jess mais tarde. Não que ela quisesse voltar a vê-lo mais alguma vez. Fora o que lhe dissera, em termos bem claros. Só porque ele tentara saltar-lhe para a espinha.

Abanou a cabeça. A revolução sexual parecia ter passado por Jess sem lhe tocar. Rapariga tola. Mas ele ainda não estava preparado para depor armas. Agora teria de desistir do que tinha em vista para ir a correr satisfazer a ordem de Lucky Santangelo. Porquê?

"Porque ela é a patroa, parvo, aí tens porquê."

Francesca Fern deu um estalo com os dedos de unhas recurvas pintadas de vermelho.

- Esmeraldas - ordenou.

Horace correu para o estojo de viagem Vuitton para jóias e localizou as pedras preciosas pedidas.

Francesca deu novo estalo de dedos.

- Sapatos brilhantes Jourdan.

Horace correu para o armário e escolheu os sapatos de noite tamanho trinta e nove. Calçou-os amorosamente nos pés avantajados da esposa.

Francesca levantou-se, prendeu uma esmeralda enorme num dos lóbulos distendidos e pediu secamente:

- Perfume.

Horace fez-lhe a vontade, aspergindo-a prodigamente com Joy.

- Vamos - disse Francesca com um suspiro. - A parvoeirada está à espera.

O Príncipe Encantado envergava um smoking de seda branca, um sorriso de plástico e várias pulseiras de ouro. Era uma estrela da canção espanhola que, - segundo o seu relações públicas - punha as mulheres doidas. O seu sotaque era o suficiente para endoidecer qualquer pessoa. Não fora ele um personagem a meio-caminho da celebridade e Olympia tê-lo-ia votado ao desprezo completo. Assim, partilhavam de mesas juntas no New York's Regine, em Park Avenue; Olympia conhecia a loura platinada que o acompanhava -uma espécie de alcoviteira internacional que adorava juntar as pessoas certas. Desse modo, em breve se juntavam todos - o grupo de Olympia, o Mr. Cantor Espanhol e a amiguinha deste. Ele chamava-se Vitos Felicidade e, ao embalar Olympia nos seus braços na pista de dança, sabia exactamente quem ela era, graças à informação que a amiga, entusiasticamente, lhe passara, dizendo-lhe depois em espanhol (as boas alcoviteiras internacionais falavam sempre mais do que uma língua) para se atirar de cabeça. Tanto ele como Olympia pressentiam possibilidades interessantes mas limitadas.

- Tens cabelo maravilhoooso - murmurava ele, premindo o que parecia considerar uma erecção entre as coxas dela.

Olympia permitiu-se dominar pelo desejo, teve esperança de que ele estivesse mais bem equipado do que parecia e disse:

- Tu também.

Embora não tivesse bem a certeza do que ele pretendera referir que ela tinha um belo cabelo ou se um belo aspecto. Como era senhora de ambas as coisas, pouco se importou.

- Fornicooo-te maravflhooosamente-ronronou-lhe ele com um sorriso sedutor. Plástico puro.

"Espero que forniques melhor do que falas inglês", pensou Olympia, passando-lhe disfarçadamente a mão pelo sexo. Deu-lhe um pequeno apertão encorajador e foram-se porta fora.

No exterior do clube, os paparazzi que faziam tempo, ficaram imediatamente alerta. Olympia Stanislopoulos e Vitos Felicidade. Juntos! Mais do que juntos! Os paparazzi puseram-se em posição a fim de registarem a imagem das duas celebridades juntas.

- Que chato que isto é! - queixou-se Olympia.

- Chaaato - concordou Vitos, erguendo a cabeça para não correr o risco de aparecer num ângulo desfavorável. - Vamos no meu carro ou no teu?

Dois motoristas aguardavam junto das respectivas limusinas.

- Que interessa? - disse Olympia com um suspiro, atirando-se para dentro do dele. - Partamos é já daqui.

 

- Detesto estas noites - confidenciou Lucky a Dimitri. - Dão-me vontade de gritar e correr nua para uma praia qualquer. Percebes o que quero dizer?

Dimitri fitou a jovem de olhos negros sem uma ponta de interesse. O que ele queria, com toda a franqueza, era que ela se calasse. O seu único interesse era concentrar-se em Francesca que, à cabeceira da mesa principal, reinava sobre a sua corte como a soberana de Inglaterra.

E ele não estava sentado à mesa principal. Ele, Dimitri Stanislopoulos, fora colocado na mesa ao lado, o maior de todos os insultos.

Lucky aguardou a sua resposta, que não vinha. Reinou o silêncio. Ele que se lixasse. Se não lhe apetecia conversa, podia ter-lho dado a entender. Ela só tentava mostrar-se delicada porque se tratava do seu hotel, ele era um jogador importante e ela não tinha dificuldade em se aperceber de que ficara furibundo com a disposição dos lugares. Ela própria também não estava particularmente satisfeita. O paizinho na mesa número um com a estrela, o marido insignificante desta e um punhado de grandes celebridades. O secretário de Francesca é que organizara a acomodação dos convidados. Muito mal, pensou Lucky. Desejou não ter vindo - aquela merda fazia falta a quem?

Matt, sentado no outro lado, parecia divertir-se. Estava rodeado de amigos e conhecidos de Hollywood, onde passara muitos e felizes anos a trabalhar. Que rico acompanhante ele lhe saíra! Que esperara ela? Al Pacino? Encontrava-se prisioneira entre os dois homens mais entediantes da sala: Matt Traynor e Dimitri Stanislopoulos. Que combinação desgraçada.

"Agradecidíssima, Gino. Foi a isto que a minha vida ficou reduzida? "

Pegou na taça de champanhe e fez sinal a um empregado para que a enchesse novamente. Apanhar um pifo era a única maneira de suportar aquela noitada.

Gino observava Susan em acção. Era a primeira vez que a via actuar no meio da elite do mundo do espectáculo. Não havia dúvida de que sabia como comportar-se. Nem um só movimento em falso.

Que tal seria estar casado com uma mulher como Susan? Ele estava demasiado velho para continuar a andar às meninas. O que mais lhe conviria seria uma mulher a seu lado e na sua cama.

Observou-lhe o perfil cinzelado enquanto Susan tagarelava calmamente com Horace Fern. Depois de Maria, nunca mais a idéia de se voltar a casar lhe cruzara a mente. A querida e doce Maria... morta ia para vinte e três anos...

Não teria já esperado tempo suficiente?

Olhou de relance para Lucky, sentada na mesa ao lado. Como é que ela encararia a questão? Detestá-la-ia. Mas acabaria por se habituar. Não teria outro remédio.

Foi uma noite longa. Uma noite de discursos, actuações e tributos. As câmaras de televisão zumbiam e Francesca Fern florescia. Desempenhava, no seu melhor, o papel de grande dame. Francesca sabia como tirar o melhor proveito de uma noite.

Mais tarde, depois do pessoal da televisão se retirar e de os convidados começarem a dispersar, Francesca, graciosamente, fez uma ronda pelas mesas. Deteve-se ao lado de Dimitri, inclinou-se para lhe dar um beliscão na bochecha e sussurrar:

- Foi muita generosidade tua estares aqui esta noite. O teu gesto é muito apreciado.

Pousou teatralmente ao lado de Dimitri, enquanto o seu fotógrafo pessoal registava a imagem.

Ele agarrou-lhe no pulso com tal força que Francesca quase gritou.

- Que charada é esta? - perguntou-lhe num sussurro áspero. Como te atreves a tratar-me desta maneira? Que jogo é este?

Francesca logrou manter um sorriso fixo, ao mesmo tempo que lhe sibilava por entre dentes, de maneira a só ele poder ouvir:

- Larga-me animal nojento. Sei tudo acerca de ti e de Norma Valentine. Não penses que nos podes ter às duas porque não podes. Eu não aceitarei semelhante humilhação.

Norma Valentine. Quase deitou a rir alto. Norma Valentine era uma actriz inglesa que ele conhecera no sul de França. Fora levada até ao seu iate na semana anterior por um sócio comercial grego e passara lá a noite. Somente uma noite. Nada significara para ele.

- Estive na companhia dela uma vez - explicou Dimitri. - Nem sequer me agradou.

- Ah, mas gostaste dela o bastante para a fornicares. E para lhe mandares uma pulseira do Cartier no dia seguinte - ripostou Francesca: ferozmente.

- Uma dívida de jogo. Ela ganhou às cartas.

- Por favor, Dimitri, concede-me o reconhecimento de alguma inteligência. É maior que a tua, pois digo-te uma coisa, se podes dormir com Norma Valentine, então, por Deus, nunca mais voltas a fazê-lo comigo.

- Tu és casada - objectou Dimitri. - Desde quando é que me proíbes de dormir com qualquer outra pessoa?

- Dorme com quem quiseres - declarou Francesca secamente, o sorriso finalmente a desvanecer-lhe dos lábios. - Porque nunca mais partilharás da minha cama.

Libertou o pulso a custo e afastou-se, de nariz no ar.

- Tenho a impressão de que o caldo ficou entornado - comentou Lucky, que não pôde deixar de escutar a troca de palavras; e as várias taças de champanhe bebidas faziam-na achar tudo muito divertido.

- Que disseste? - perguntou Dimitri, fitando-a irado. Lucky encolheu os ombros.

- Francesca e Norma Valentine rivalizaram pelo papel principal de Siroco Sings há quinze anos atrás. Norma conseguiu-o, ganhou o Oscar com esse filme e venceu como actriz de cinema. F. nunca lá chegou. São arqui-inimigas - é voz corrente em Hollywood. Como é que tu não sabias?

Dimitri sentiu-se ultrajado.

- Estiveste à escuta de toda a nossa conversa?

- Não pude evitar.

- Francamente!

- Descontrai-te, ainda arranjas uma hérnia.

- És uma senhorinha bem vulgar.

- Acaba com essa treta, Dimitri. Já não sou a amiga da tua filhinha. E estou farta de que faças de conta que não existo. - Levantou-se. - Estou no meu hotel. Estiveste a jogar nas minhas mesas toda a semana. Por que não deitas tudo para trás das costas e vamos para qualquer lado embebedar-nos? Ha? Não é uma idéia estupenda? Eu preciso e tu sem dúvida também.

Foi então que ele a viu pela primeira vez. E apercebeu-se de que a sua beleza e juventude ardentes constituiriam a maneira perfeita para desviar Francesca dos seus pensamentos. Lucky Santangelo tinha razão. Ele nunca mais poderia encará-la depreciativamente como a amiga de Olympia.

Os seus olhos penetrantes fixaram-se nos dela.

- Quer então dizer que desejas um parceiro para a bebida, não é verdade?

Lucky devolveu-lhe o olhar, surpreendida por, finalmente, lhe mobilizar a atenção.

- Sim. E tu foste eleito.

- Deveria sentir-me lisongeado? Ela olhou de relance para Gino, apanhando-o a cochichar, muito

entretido, ao ouvido de Susan.

- Sente-te como quiseres mas saiamos daqui. E depressa.

Gino e Susan encontravam-se na suite de Francesca a desfrutarem de um final de festa.

- Tive uma vida movimentada. Fiz muita coisa algumas boas, outras más. Percebes o que quero dizer? - perguntou Gino esfregando a ténue cicatriz que tinha na face.

-Já percebi que não és nenhum Billy Graham - replicou Susan.

- Quando se vem de onde eu vim, tem de se aprender a cuidar de si mesmo. Ninguém o faz por nós.

-Não tenho dúvidas.

- Comecei nas ruas. Nunca tive nenhuma educação formal. A modos que ia pegando nas coisas à medida que elas iam aparecendo.

- És um verdadeiro sobrevivente. Vê onde chegaste hoje.

- É verdade. Saí-me bem. Parece que realizei o grande sonho americano. Parti do nada e tornei-me importante.

-Isso é ser demasiado modesto.

-Conheço presidentes, políticos, presidentes de câmaras, líderes cívicos. Nem tu queiras saber as pessoas que me devem favores.

- Evidentemente.

- Fica comigo, menina, que te mostrarei o que é ter boa vida.

- É alguma proposta, Gino? -Sabes que mais? Acho que é. - Estou... surpreendida.

- Estás surpreendida? Como é que imaginas que eu estou? Trata-se de algo em que terei de reflectir. *

- Então reflecte. Quem é que te impede? Reflecte o tempo que quiseres. Só que precisarei da resposta antes de me ir deitar esta noite não se vá dar o facto de amanhã de manhã mudar de idéias.

Susan riu suavemente.

- Gino, és incorrigível!

- Sou? Dá-me um gozo enorme.

- Devo falar com a minha família, os meus filhos...

- Vês-me a pedir autorização a Lucky?

- Não é assim tão simples.

- Faz que seja... diz que sim.

- Sim - sussurrou ela. -Quê?

- Disse que sim.

- Ei! Diabos me levem! -Pôs-se de pé num salto. -Tenho uma declaração a fazer!

O diversificado grupo fez incidir a sua atenção para ele.

- Esta senhora e eu, Susan Martino e eu... Caramba! Como é que vos hei-de dizer? Vamos casar-nos!

Agora que dispunha da atenção de Dimitri, Lucky achou-o um agradável companheiro de copos. Não era Gino, mas possuía uma certa aura e ela gostava de sentir a autoridade de um homem mais velho. Ele também era estranhamente atraente com a sua densa cabeleira branca, o nariz proeminente e os olhos penetrantes. Quanto mais embriagada ficava, mais atraente o achava.

O papá de Olympia. Ela estava a ter pensamentos eróticos acerca do papá de Olympia!

Ele era muito alto, um homem corpulento. Gino era muito mais baixo, mais peludo. Fisicamente, não podiam ser menos parecidos.

- Isto é divertido - disse Lucky, a certa altura da sua deambulação de bar em bar.

Ele bebia whisky, emborcando-o como se de limonada se tratasse, mas o facto não parecia afectá-lo.

Dimitri anuiu. Não sabia porquê, mas o certo é que estava a divertir-se. Francesca Fern lamentaria aquela noite. Ele faria, pessoalmente, com que ela a lamentasse para o resto da sua vida miserável. Ninguém fazia pouco de Dimitri Stanislopoulos, muito menos uma actriz que não passava de uma pega reles.

Às três da manhã foram ter a um pequeno café grego, vendo-se rodeados de pessoal da indústria hoteleira que saía dos seus turnos, assim como de outros trabalhadores nocturnos. Dimitri pagou bebidas a todos, enquanto um rapaz franzino tocava bandolim - o tema de Zorba, como não podia deixar de ser. Dimitri dançou, equilibrando um prato no cimo da cabeça, e riu tão fortemente que por um momento, Lucky teve receio de que se engasgasse. A seguir partiu vinte e três pratos de uma fiada, deu uma nota de mil dólares ao proprietário sorridente e de mútuo mas não expresso acordo, recolheram ao apartamento penthouse de Lucky.

Por um momento, Lucky sentiu-se nervosa, de novo uma menina. Andou de um lado para o outro, preparou-lhe uma bebida, depois foi para a casa de banho e colocou uma toalha embebida em água fria na testa.

"Estou a ser ridícula", pensou. "Que diabo se passa aqui? "

Voltou à sala de estar e encarou-o.

Dimitri pronunciou o nome dela uma vez, muito lentamente. Depois, sem mais delongas, despiu-lhe o sensual vestido de seda negro com mãos experientes e resolutas.

Lucky sentia-se como uma nadadora prestes a dar o mergulho. Expectante, excitada, pronta a dar o seu melhor.

As mãos dele eram grandes, os seus dedos compridos e firmes. Explorou-lhe lentamente o corpo acariciando-lhe a pele até lhe agarrar na calcinha minúscula - a única peça de roupa interior que envergava - que baixou, fazendo-a passar pelas coxas, pernas e tornozelos.

Ela estava nua mas ele continuava vestido, limitando-se a alargar o nó do laço.

Com grande cuidado, deitou-a em cima do sofá, pegou no seu copo de uísque, mergulhou o indicador no líquido tremeluzente e fê-lo passar primeiro pelo mamilo do seio esquerdo e depois pelo do direito.

O líquido fez menção de escorrer mas apenas por um momento. Quase sem se deter, Dimitri começou a sugá-lo dos seios dela, fazendo-a suspirar de prazer. Lucky atirou os braços para trás da cabeça e espreguiçou-se sensualmente. Dimitri tomou-lhe ambos os seios nas mãos e aflorou os dois mamilos com a língua.

- Despe a roupa - murmurou com entoação urgente. Ele riu.

- Que impaciência! -Tira-a, Dimitri. E já!

Mantendo ambas as mãos sobre os seios de Lucky, Dímitri começou a descer-lhe a língua corpo abaixo.

Ela contorceu-se de excitação. "Talvez eu esteja embriagada", pensou, "mas não há dúvida de que este tipo tem um grande toque. Ou talvez já se tenha passado demasiado tempo desde a última vez".

Ele abriu-lhe as pernas, forçando a cabeça para o meio delas.

- Quero... sentir... o... teu... corpo... - murmurou Lucky. - Por favor... estou... a... pedir-te... com jeitinho...

A língua dele, tal como os dedos, era grossa, movimentava-se lenta e experientemente.

-Ooooh... sim... - gemeu ela. -Oh, sim, sim, sim.

Abriu ainda mais as pernas à medida que sentia a tensão acumulada nos últimos meses a aumentar, preparando-se para se libertar, ficando pronta para explodir.

Dimitri fez uma pausa para humedecer a língua com uísque, ao mesmo tempo que continuava a acariciar-lhe os seios com as mãos.

Lucky sentiu o ardor do álcool, a perícia dos dedos dele e a força da sua língua.

- Oh, Deus, Dimitri! Oh, Deus! Isto é taaão bom. Tão imensamente fantástico. Ohhhh...

Atingiu o orgasmo. Violentamente. E valera a pena esperar por ele.

Dimitri enterrou-lhe a cabeça entre as pernas e desfrutou de cada momento ardente, palpitante.

 

Jess não descobriu nada. Absolutamente nada.

Oh, sim. Descobriu que Matt Traynor sofria de uma erecção constante, falava que se desunhava e imaginava-se uma benesse de Deus.

Teria ele acreditado sinceramente que ela se renderia aos seus encantos comezinhos? Teria ele imaginado verdadeiramente que ela lhe saltaria para dentro dos lençóis castanhos às riscas como todas as outras?

O que ela tivera de fazer fora debater-se contra ele. Lutar. E só tinha o seu metro e meio contra o metro oitenta e tal dele. Fora uma luta de se lhe tirar o chapéu. Se ela não acabasse por lhe acertar nos testículos com o cotovelo, provavelmente ainda lá estaria.

E ao chegar a casa a hora pouco conveniente, encontrara Wayland a receber um grupo de amigos de ar rameloso a comerem a sua comida, a fumarem a sua erva e a sujarem a. sua casa. Perdera de facto a cabeça e, quando tal acontecia, não era flor que se cheirasse.

Wayland exaltara-se - o que nele não era nada habitual - e saíra com os amigos, regressando apenas às sete da manhã, com uma "pedrada" tão grande que nem conseguia falar.

Eram todos o mesmo. E por que não telefonara Lennie? Não saberia que ela estava ralada com ele? Não saberia que ela se preocupava?

De manhã, levou o bebê para junto da piscina, deitando-se com ele sobre a relva crescida. Conceber Simon fora o único acto positivo de toda a sua vida. Era ele que lhe dava razões para continuar em frente, para suportar cada dia e obter aquele cheque de pagamento semanal.

Wayland saiu, a cambalear, de casa.

- Não há leite - queixou-se.

- Vai ao supermercado comprar algum.

- Não tenho dinheiro.

Jess pescou relutantemente uma nota de vinte dólares do bolso dos jeans e atirou-a ao marido. Este acenou ajuizadamente com a cabeça. - Vou arranjar uma provisão.

- Claro que vais - murmurou Jess. - Cinco deles de comida e o resto no que conseguires arranjar de droga.

Wayland não a ouviu. A ela, tanto lhe fazia. Embalou docemente Simon nos braços, entoando-lhe uma canção de embalar em voz baixa. Eram quase horas de ir visitar a mãe ao hospital.

Foxie tinha oitenta e cinco anos, era pequeno como um gnomo e possuía olhos estreitos, argutos e irrequietos e umas orelhas que pareciam saídas de um dos personagens de "O Caminho das Estrelas".

Foxie era sagaz, ordinário, insultuoso, um amigo óptimo e um inimigo a evitar.

Também era uma lenda de Hollywood - embora só para as pessoas do meio.

Foxie era senhor de um ouvido apurado, um discernimento cruel, uma energia sem limites e ausência de pontos fracos.

Para um homem de oitenta e cinco anos era notável.

Lennie nunca chegara a conhecê-lo, apesar da sugestão de Alice de que deveria esforçar-se por tal. No entanto as histórias que ouvira contar acerca dele encheriam volumes, pelo que aguardava a experiência com expectativa.

A casa de Foxie, com o seu nome, ficava localizada na Hollywood BouleVard e tinha uma clientela diversificada. As pessoas acorriam ao Foxie para passarem ali um bocado e divertirem-se. Toda a espécie de pessoas. Desde os chulos e pegas locais a celebridades decadentes de Beverly Hills, a Sam Schmuck do Vale e a uma ou outra estrela de cinema, todos passavam pela Casa de Foxie. A comida era terrível, as bebidas generosas e o entretenimento hilariante. Um misto de novos talentos, strippers, cômicos profissionais e uma noite de "descobertas" que era melhor que o "The Gong Show". Uma vez por mês ocorria a "Noite-do-Tira-Tudo" - noite em que todas as mulheres que o desejassem podiam saltar para cima do palco e exibir o que muito bem entendiam. Para conseguir ir ao Foxie nessa noite era preciso fazer reserva com semanas de antecedência.

Joey Fírello sugeriu passarem por lá.

- Foi onde eu comecei - explicou a Lennie. - Seis semanas lá valeram-me a entrada num espectáculo de televisão. Agora assino autógrafos e dou tampas às mulheres.

Joey fazia lembrar um macaco bonito. Era franzino, baixo e peludo, com um cabelo à Rod Stewart e uns lábios à Mick Jagger. Lennie tinha mais quatro anos que ele.

- Olha - disse Joey -, se Foxie não gostar de ti, iremos ao Improv ou ao Comedy Store. Farás contactos.

- Claro. Eu sei - disse Lennie.

Sentia-se ridículo. Joey o Puto a dar-lhe a ele, conselhos e ajuda. Joey o Puto, que chegara a Nova Iorque três anos antes com vinte e oito dólares no bolso, umas quantas piadas de mau-gosto e muito espalhafato. Dormira, durante nove semanas, no chão da casa de Lennie. O seu espalhafato produzira frutos. Agora usava camisolas de caxemira e conduzia um Jaguar em segunda mão. Foxie recebeu-o como a um irmão.

- Quero que conheças um amigo meu - disse Joey. - Lennie Golden. Fixa o nome dele. O tipo tem piada.

- Tanta piada como tu? - perguntou Foxie agressivamente.

- Deixa-o fazer uma demonstração. Verás por ti próprio.

Foxie esgravatou os dentes com um palito e inclinou a cabeça para o lado.

- Queres experimentar esta noite?

- Não estava a pensar em experimentar - disse Lennie imediatamente. - Tenho um vídeo com o meu trabalho, pensei que se o senhor gostasse, poderíamos fazer negócio.

- Vocês, os janotas da Costa Leste são todos iguais - troçou Foxie. - Nunca querem fazer uma experiência. Querem é que eu gaste o meu tempo a olhar para a merda de uma gravação. -Partiu o palito ao meio e começou a comê-lo. - No Foxie ou se experimenta ou se sai. Posso encaixar-te às dez horas. É pegar ou largar.

Joey acenou afirmativamente com a cabeça.

- Ele aceita.

- Tenho alguma alternativa? - brincou Lennie.

- Nenhuma - disse Joey. - Não hesites. Ele vai adorar. vou pôr-me ao telefone e convocar fãs.

Lennie sentiu-se curioso em saber se o amigo ligaria para Éden. Não tinham falado sobre ela naquela noite. O silêncio estava a dar cabo dele. Por que não lhe faria Joey referência? Deviam encontrar-se. Estava decidido a perguntar.

Cristo! Como se sentia nervoso.

Lennie Golden nervoso. Cristo!

Ele, que já actuara num milhar de casas.

A de Foxie não era diferente.

Com uma excepção.

Na Casa de Foxie ele teria de ter um êxito arrasador.

 

Vitos Felicidade não era o amante mais excitante que Olympia já tivera. O seu interesse residia noutra particularidade: era uma estrela e, consequentemente, um troféu com quem valia a pena gastar algum tempo.

Brigette antipatizou instantaneamente com o homem. A criança estava a tornar-se impossível. Desde a exibição de mau gênio que tivera na Quinta Avenida, descobrira que ser difícil resultava na obtenção de muita atenção; e se havia algo por que Brigette ansiava era atenção. Quando conhecera Vitos pela primeira vez, dera-lhe um pontapé no tornozelo, chamara-lhe porco estrangeiro e correra para o seu quarto aos berros.

Olympia sentiu-se humilhada. Desabafou a sua fúria sobre a preceptora Mabel, que ameaçou imediatamente despedir-se.

Vitos sugeriu-lhe mandar Brigette para um colégio interno. Olympia ficou tentada mas a criança era demasiado nova e ela não podia deixar de se lembrar das malogradas experiências vividas em semelhantes estabelecimentos.

No dia do casamento da avó, Brigette recusou-se a sair da cama. A preceptora Mabel foi a correr ter com Olympia, num estado terrível. Olympia entrou relutantemente no quarto da filha a fim de resolver o problema.

- Não quero ser dama de honor - repetia Brigette teimosamente. Não quero levar nenhum vestido piroso e idiota. Não quero!

- Não tens outro remédio - admoestou-a Olympia, tentando persuadir a filha a alguma forma de Obediência. - A tua avó vai casar-se. E se te portares bem, muito bem, levar-te-ei ao Tiffany, a maior joalharia da Quinta Avenida, e comprar-te-ei o que quiseres.

A preceptora Mabel, que se encontrava ao lado da cama, deixou escapar um som de desaprovação. Tentar subornar uma criança de nove anos com jóias, ridículo!

- O que eu quiser, mama? - perguntou Brigette, esbugalhando os brilhantes olhos azuis. - Tudo o que eu quiser neste mundo?

- Sim - concordou Olympia com relutância.

- Quando?

- Amanhã.

- Está bem - disse Brigette, saltando para fora da cama, radiante. Olympia fitou a preceptora Mabel com aborrecimento.

- Tudo bem, Preceptora? Acha que já pode retomar as suas funções? - com certeza, madame-Apostou a mulher com evidente desaprovação.

Olympia escapuliu-se do quarto e regressou ao santuário que o seu representava. Vitos chegava dali a duas horas e ela tinha muito que fazer.

Mirou-se ao espelho. Nova Iorque não estava a ajudá-la a resolver o seu problema de peso-tinha a cara positivamente redonda. Chupou iradamente as bochechas para dentro. Por que não conseguiria o dinheiro comprar maçãs de rosto bonitas? Por que não teria ela um pouco mais de altura e menos uma dúzia de quilos?

Bah! Vitos não se queixava. Ele achava-a perfeita. Os latinos apreciavam mulheres com boa carne nos ossos, já para não falar de milhões no banco. Olhou, carrancuda, para a sua imagem no espelho.

Vitos chegou vinte minutos depois, envergando um fato cor-de-rosa, óculos escuros e o sorriso de esguelha do costume.

Brigette, prestes a sair à frente na companhia da preceptora, não resistiu a um rápido:

- Estás com um ar taaão horroroso!

Vitos não lhe ligou importância e serviu-se de um dos charutos de Dimitri.

Quando, dez minutos mais tarde, Olympia fez a sua entrada, ele adormecera numa cadeira e o charuto fizera um buraco no tampo polido de uma preciosa mesa antiga.

- Acorda! -guinchou Olympia.

Ele fez-lhe a vontade e, juntos, aspiraram quatro linhas de cocaína excelente, a fim de se prepararem para a ida ao casamento da mãe de Olympia.

Esta última ia de branco. Sabia que era incorrecto, mas que lhe importava? Tinha os caracóis louros frisados e armados. Uma maquilhadora profissional preparara-lhe o rosto. Sentia-se no seu melhor e Vitos parecia um acessório adequado.

Os paparazzi, ao verem o casal tão aperaltado ao meio-dia, acharam que deviam ir casar-se, pelo que seguiram-no numa série de automóveis e lambretas durante todo o percurso até Long Island, onde os esponsais iriam decorrer.

- Que enfadonho! - exclamou Olympia, enquanto os fotógrafos iam parando ao lado da limusina em cada sinal vermelho, fazendo accionar as suas máquinas.

Vitos ergueu o queixo e sorriu.

- Enfadooonho - repetiu, imaginando se aquele fluxo extra de publicidade não lhe faria subir as vendas do novo álbum, nos E, U. que não estava a sair tão bem como todos tinham previsto.

A mãe de Olympia não encarou com agrado a chegada da filha (sempre curiosamente acompanhada - graças a Deus resolvera viver com Dimitri) que trouxera consigo uma quinzena de fotógrafos de ar miserável e um cantor espanhol sorridente mas fútil. Chamou Olympia de parte.

- Não devias usar o branco - disse-lhe severamente. - Torna-te mais gorda. E quem é exactamente aquela pessoa que trazes contigo?

- Vitos - disse Olympia com ar vago. - Canta. É bastante famoso.

- Não quero saber da fama que ele tem - admoestou-a a mãe. Tem ar de chulo.

Olympia soltou uma risada.

- Chulo! Mãe! Onde é que aprendeste palavras dessas?

- Por favor, Olympia. Caso-me hoje. Agradecia que não me aborrecesses.

O pretendente de Charlotte era um indivíduo alto, magro, de olhos malévolos e um leve coxear, de quem Olympia não gostou imediatamente, dizendo para todos os que quisessem ouvi-la, que ele parecia um criminoso de guerra nazi.

A cerimônia teve lugar no jardim às três da tarde e Brigette, levando as suas flores, era a mais bonita das damas de honor. Tem um ar angelical, pensou Olympia com um sorriso de orgulho, ao ver a filha seguir obedientemente atrás da noiva. O seu olhar entrecruzou-se rapidamente com o da preceptora e, por um momento, as duas mulheres ficaram completamente sintonizadas uma com a outra - guardiãs orgulhosas da encantadora herdeirasinha.

A divagação tranqüila foi interrompida por três paparazzi que, aos gritos, caíram da ramada pendente de uma acácia próxima.

- Santo Deus! - exclamou Olympia ao ver os circunstantes entrarem em pânico, imaginando que estava a ocorrer alguma espécie de raio.

- Eu é que irei pagar as favas, de certeza!

- Todos vocês tresandam! - gritou Brigette de repente, pondo-se aos pulos, cheia de regozijo ao deparar com aquela oportunidade perfeita para provocar confusão. - Todos vocês TRESANDAM, TRESANDAM, TRESANDAM!

- Santo Deus! - exclamou Olympia, voltando-se para Vitos em busca de apoio moral.

Este adormecera com o eterno sorriso vazio armado nos lábios. Deu-lhe um pontapé violento no tornozelo.

- Acorda? - ordenou. -Que pensas que isto é... uma estância de repouso?

- Olympeea... principiou Vitos queixosamente.

- Deixa de me chamar Olympia. Faz alguma coisa!

Vitos pôs-se rapidamente de pé e ergueu um punho ameaçador aos fotógrafos, que naquele momento agitavam as suas câmaras a esmo, tirando fotografias a tudo quanto era sítio.

- Todos vocês TRESANDAM! - continuava Brigette a berrar. Olympia agarrou-se ao braço de Vitos e sorriu - mais valia que

ficasse bem nas fotografias, não fosse dar-se o caso de aparecer alguma nas primeiras páginas do mundo. Vitos entendeu a mensagem e também sorriu.

À volta reinava o caos.

 

- Quero falar contigo - disse Gino.

- Já me constou. - retorquiu Lucky, esforçando-se por esconder o sentimento de rejeição que experimentava.

- Andei o dia todo a tentar encontrar-te.

- Agora já me encontraste. - Encolheu os ombros. - Parabéns. Que mais é que queres que diga?

Encontravam-se junto do balcão da recepção do Magiriano. Lucky acabara de chegar de um passeio de carro e vestia uns jeans, uma T-shirt larga e óculos de aviador. Tinha o cabelo displicentemente solto e não usava maquilhagem.

- Ei, miúda, pareces ter uns dezasseis anos - brincou Gino. Lucky passou as mãos pelo cabelo e encarou o pai.

- Estás furiosa comigo - observou Gino.

- Por que havia de estar? - replicou ela sarcasticamente. -Ou seja, tu és só meu pai nada mais. Portanto por que havia eu de ficar furiosa por teres decidido casar e eu saber da notícia através de Matt Traynor? Ergueu a voz. - Por que raio havia de ficar furiosa?

Gino tacteou a cicatriz do rosto.

- Circunstâncias, garota - disse. -Não foi nada que eu planeasse. As coisas simplesmente se ajustaram nesse sentido. Pensei que estivesses na festa quando anunciei o facto publicamente.

- Muito obrigada. Estou a ver que a minha presença realmente é notada.

- Anda, Lucky - tentou Gino acalmá-la. - Assim que me levantei, esta manhã, telefonei para ti. Não tenho a culpa de que tenhas passado o dia todo fora. A propósito, onde é que estiveste?

- Há uma casa de putas a uma trintena de quilômetros da cidade, às vezes dá jeito.

Gino ficou carrancudo diante da impertinência da filha.

- Vamos até lá acima - disse. - Estou aqui há uma hora. Isso não mostra a minha preocupação?

- Grande coisa - murmurou Lucky por entre dentes. Dirigiram-se para o elevador particular, tendo por ruído de fundo

o som reconfortante das slot machines. Estava assustada, verdadeiramente assustada. Se Gino voltasse a casar, que iria ser feito dela?

Conduzira através do deserto durante horas, a pensar no assunto. Quando, ao princípio da manhã, Matt lhe telefonara a dar a notícia, ela ficara completamente devastada. Dimitri partira horas antes e ela encontrava-se sozinha, com uma ressaca e sem disposição para acatar uma informação tão chocante. Vestira-se rapidamente e esgueirara-se silenciosamente para fora do hotel. Ao chegar à garagem subterrânea, entrara para o seu Ferrari e saíra para o deserto levando apenas Otis Redíng no gravador e os pensamentos por companhia.

Agora estava de volta e tinha Gino na sua frente, mas como pudera ele fazer-lhe semelhante coisa?

No interior da penthouse, deparou com inacreditáveis cestos de rosas "Sterling Silver" espalhados por todo o lado. Olhou em volta estupefacta e voltou-se para Gino.

- Foste tu?

A expressão carrancuda do pai acentuou-se.

- Não, não fui.

Pegou num dos cartões brancos presos aos cestos. Uma simples assinatura, nada mais: Dimitri.

Amarfanhou o cartão entre os dedos.

- Quem foi que as enviou? - quis Gino saber.

- Francesca Fern - replicou Lucky rapidamente, atirando o cartão para um canto.

- Simpático da parte dela.

- Por que não? Foi uma grande noite.

- Escuta, garota - disse Gino, sentando-se no sofá com um suspiro. - Cometi um erro. Devia ter-te dito primeiro mas não o fiz, portanto não transformemos o caso num bicho de sete cabeças.

- Quem é que está a transformar o caso num bicho de sete cabeças? Penso apenas que devias ter discutido o assunto comigo antes de informares o mundo.

- Tu és minha filha, não minha carcereira. Achas que preciso da tua autorização?

- Acho que precisas do meu conselho. Gino já estava furioso.

- O teu conselho que se lixe - declarou sombriamente. - Susan disse que irias ficar com ciúmes e tinha razão.

Lucky tinha o mesmo temperamento que Gino. Fitou o pai com ira.

- Estou-me nas tintas para o que Susan disse. A viúva Martino é problema teu e podes crer no que te digo, se casares com ela arranjarás mais problemas do que alguma vez imaginaste ser possível.

- Minha filha, atenção ao que dizes. Nem sequer conheces Susan, portanto pára de a denegrires.

- Só estou a tentar impedir que cometas o maior erro da tua vida!

- Garota, cometi muitos erros durante a minha vida. O maior deles antes de andares sequer por aqui. Sabes que mais? Consegui sobreviver sem o teu conselho portanto enfia-o num certo sítio, põe-me um sorriso nessa cara e deseja-me felicidades.

Lucky forçou um sorriso rígido, odiando-o por ser um velho sem juízo e anuiu.

- Tens razão. A vida é tua e se é o que desejas... bem, então... parabéns.

- Assim já está mais a meu gosto - disse Gino sorrindo, esquecida a zanga. - E agora tenho de ir andando.

Dirigiu-se animadamente para a porta.

- Pára! - exclamou Lucky com uma entoação de urgência na voz. - Não podes manter-me nesta espera durante mais tempo. - Sentia a frustração a aumentar. - Tens de tomar uma decisão acerca de Atlantic City.

Gino olhou para o relógio de pulso com impaciência.

- Agora tenho de me ir imediatamente embora. Falaremos no assunto quando eu regressar.

Lucky fitou o pai.

- Onde vais?

- Não te disse?

Ela abanou negativamente a cabeça e esperou pela bomba. Gino não a desapontou.

- Prometi ir de avião até Los Angeles com Susan. Ela tem de comunicar pessoalmente a notícia aos filhos, não quer que eles fiquem a conhecê-la através de um jornal qualquer.

Estava a começar. Ela perdia-o. Gino... Papá...

- Que filhos? - perguntou calmamente, embora se sentisse tudo menos calma.

- Creio que tem um casal deles. Algo de gelado apertou-lhe o coração.

- Que idade têm?

- Sei lá. Dezanove, vinte.

Susan tinha razão. Ela tinha ciúmes. Mas não da velha jarreta, Dos "filhos", que um dia poderiam considerar Gino como seu padrasto.

Oh, Deus! Ela não era capaz de suportar aquilo. Por que teria acontecido? Por que teria Susan Martino surgido nas suas vidas, estragando tudo?

- Quando é que estarás de volta? - perguntou, escondendo o seu desalento.

- Não ficarei ausente mais do que um par de dias. Telefonar-te-ei. - Mas preciso de uma resposta em relação a Atlantic City – disse ela com desespero. - Gastei uma quantidade enorme de tempo e energia para organizar tudo. Se não asseguramos já as coisas todo o meu trabalho terá sido em vão.

Gino estava ansioso por se pôr a caminho. Susan aguardava-o e, naquele momento, ela estava em primeiro lugar.

- As coisas esperarão - disse confiantemente. - Quando eu voltar, sentamo-nos os dois a combinar a maneira de avançarmos. Prometo. Podes contar comigo.

Outrora teria acreditado nele. Agora já não tinha bem a certeza.

- Pensei que aquilo que mais desejávamos no mundo era construir um hotel juntos - observou Lucky brandamente. - com certeza podes dar um sim ou um não para se iniciar os trabalhos, não?

- Dois dias - disse Gino, beijando-a na cara para desaparecer logo a seguir.

Lucky foi até ao terraço e ficou, durante muito tempo, a olhar em frente sem ver nada em particular. O sol começou a ficar oculto por uma nuvem e uma friagem penetrou o ar cálido. Lucky mordeu pensativamente o lábio inferior. Quem era Susan Martino? Qual era o seu passado? Casada com o famoso Tiny Martino durante muitos anos. Mas antes disso? Saberia Gino alguma coisa acerca dela?

Obedecendo a um palpite, Lucky agarrou no telefone e chamou Boogie. Este precisou apenas de cinco minutos para chegar à sua porta.

- Quero informações completas sobre Susan Martino - ordenou. Tudo. Do nascimento até agora. Entendeste?

Boogie anuiu. Habituara-se ao longo dos anos, aos pedidos mirabolantes de Lucky. Ela tinha sempre uma razão para tudo o que fazia. Lucky Santangelo tinha classe. Era única, e a sua lealdade nunca vacilaria.

Depois de Boogie se retirar, Lucky consultou o telefonista. Dimitri telefonara duas vezes e deixara recado para que ela lhe ligasse.

Dimitri... não sabia se desejava vê-lo ou não.

Dimitri... o pai de Olympia.

Dimitri... um amante cheio de interesse.

Olhou em volta, observando o quarto cheio de flores e concluiu que o veria novamente. Embriagada ou não, apreciara a sua companhia e o acto de amor com ele, embora dificilmente se pudesse dizer que fosse o tipo de homem por quem normalmente se sentia atraída. Por um lado, era demasiado velho e autoritário. Lucky estava habituada a dirigir as operações.

A perspectiva de uma noite sozinha enquanto Gino voava para L. A. com a sua adorada, fê-la correr para o telefone.

- Parto amanhã - informou-a Dimitri. - Portanto esta noite jantamos juntos.

Ele lembrava-lhe, de certa maneira, Gino. Um homem forte que esperava, e habitualmente conseguia, fazer respeitar a sua vontade. Por aquela vez não se importava de nadar a favor da maré.

Susan Martino vivia rodeada de um luxo requintado, na Roxbury Drive. Era uma casa império, carregada de hipotecas - embora Susan não revelasse o facto a Gino.

Perto do edifício, num apartamento improvisado em cima da garagem com capacidade para quatro automóveis, vivia um casal suíço. A mulher desempenhava as funções de cozinheira e encarregada das limpezas, enquanto o homem tomava conta do jardim e fazia pequenos trabalhos de manutenção. Recebiam, por estes serviços, dois mil dólares mensais. O gerente de negócios de Susan informara-a de que não poderia continuar a mantê-los por muito mais tempo.

Na garagem havia um Rolls amarelo - alugado. E um Mercedes castanho - alugado. E uma carrinha Toyota que pertencia ao casal - cortesia de Tiny que, em tempo de vida, gastara dinheiro como se este caísse das palmeiras que ladeavam o caminho de acesso a sua casa. Razão pela qual Susan se achava naquela altura em tão maus lençóis.

Tiny não deixara testamento. Deixara uma barafunda.

Um mês após a sua malograda morte, Susan fora forçada a encarar a realidade amarga: dali a dois anos estaria na miséria. Apesar das vastas somas de dinheiro que Tiny ganhara ao longo de uma carreira espantosamente bem sucedida, conseguira gastar, de uma maneira ou outra, até ao último centavo.

Quando o contabilista começara a examinar as contas juntamente com Susan, esta estremecera. Tiny fizera coisas com o seu dinheiro em que ela mal podia acreditar. Dez mil dólares para um amigo necessitado, vinte mil para aquele outro. Mantinha toda uma família de parentes e apoiava cada história de má-sorte que se lhe atravessava no caminho. Além disso, dava a impressão de que não havia restaurante onde tivesse ido e em que não pagasse ele a conta - e não achava nada de especial gastar cem mil dólares mensais em presentes!

Durante uns tempos, Susan barafustou e enraiveceu-se. Gritou, atirou coisas, soluçou incontrolavelmente. Depois sentou-se a deitar contas à vida. Tinha quarenta e nove anos de idade, maravilhosamente preservados (um toque cirúrgico em volta dos olhos e do queixo e um "erguer" de busto fora tudo quanto fizera), era elegante, encantadora, uma companhia deliciosa e prestável na cama. Que mais poderia um homem desejar? Um homem mais velho. Um homem muito mais velho. Já que ela era suficientemente esperta para se aperceber de que os homens mais velhos necessitavam de extrema juventude-estimulava-lhes as hormonas gastas, já para não mencionar os quadris.

Foi assim que Susan Martino elaborou uma lista de candidatos adequados e lançou-se à tarefa de fazer um deles cair na sua rede.

Foi-os analisando um a um, pondo-os de parte por uma série de razões. Algures no fim da lista - bem no fim - estava o nome de Gino Santangelo.

Susan nunca imaginara vir a escolher Gino Santangelo. Considerava-o uma figura nebulosa com um passado ainda mais nebuloso. Um homem misterioso que vivia em Las Vegas com a filha atrevida. Alguns diziam-no um criminoso que ocultava as suas actividades por trás de um milhar de companhias diferentes.

Susan não se importava. Naquela altura já estava desesperada. Praticamente já não restava dinheiro nenhum e havia que tomar medidas rapidamente. Alugara então uma casa em Las Vegas por um mês, saltara para dentro de um avião e dois dias depois lançava mãos à obra. Voilà!

Gino Santangelo caira que nem um patinho nas suas garras. E a sorte estava do seu lado pois a filha atrevida encontrava-se fora da cidade, o que lhe dava uma nítida vantagem na investida.

Agora tinha-o no papo. Mas alguma vez seria capaz de o apresentar aos amigos?

Muito, muito cuidadosamente. Ele era rude que nem um vagabundo das ruas, apesar da vida que levava e das ligações impressionantes.

Na cama, horrorizava-a. Era tão... ordinário. Nem mesmo a idade o impedia de querer fazer tudo e mais alguma coisa. Estava farta das tentativas que ele empreendia para a levar a atingir o orgasmo. Como se ela se importasse. Durante anos, Tiny atirara-se para cima dela, agitara-se meia dúzia de vezes e vai disto. Na realidade não desejava que a maçassem com mais nenhuma iniciativa. Sexo. Buh! Era tão porco. E Gino era especialmente porco com os seus dedos, a sua língua e a necessidade constante de provar que lhe estava a proporcionar momentos maravilhosos. Merecia o Oscar pela Melhor Actriz na Cama!

Ninguém poderia dizer que ela não era uma executante brilhante.

- Bem-vinda a casa, Mistress Martino - saudou a empregada suíça.

- Obrigada, Heidi, é bom estar de volta - replicou Susan com um sorriso afável. - Este é Mister Santangelo. Ficará connosco alguns dias. Agradeço que lhe prepare uma cama no quarto de hóspedes azul.

Heidi anuiu e foi cumprir a ordem recebida.

- Quarto de hóspedes! - exclamou Gino, beliscando Susan no traseiro - Deves estar a brincar!

- São as aparências - disse Susan. - As crianças chegam amanhã. Gino sorriu.

- Qual é o problema? Elas não sabem que a mama gosta de uma certa coisa?

O sorriso não lhe esmoreceu.

- Gino, querido - disse bruscamente -, não criemos problemas desnecessários. Aquilo que fazemos é problema nosso. Sou pelos bons exemplos em casa.

Gino desferiu-lhe uma palmadinha no traseiro.

- Filha, quando eu estou em casa, quem manda sou eu. Percebeste? Os lábios de Susan crisparam-se, mas não o contrariou. De momento,

era Gino quem mandava.

- Muitas vezes sonho com um homem mais alto que eu, mais rico que eu e mais esperto que eu! -Lucky deixou escapar um soluço delicado. - Sabes que mais, Dimi? Não me parece que ele exista.

Dimitri sorriu e afagou-lhe os seios.

- Talvez o tenhas encontrado - disse suavemente. Lucky soltou uma risada.

- Bem... lá bastante mais velho que eu não há dúvida que és. És o homem mais velho com quem já fui para a cama.

- E o mais rico, presumo.

Lucky estendeu a mão para os cigarros.

- Penso que sim.

- E sou alto.

- Lá isso és.

- E esperto. Extraordinariamente esperto.

- Excepto quando se trata de Madame Fern. Dimitri franziu os sobrolhos.

- Não falemos de Francesca. Lucky sentou-se abruptamente.

- Ei - acabei de ter uma idéia magnífica. Tu podes, ainda é só uma idéia, mas tu podes ser o homem ideal!

- Já não é a primeira vez que mo dizem - observou Dimitri modestamente.

Lucky desceu da cama e atravessou o quarto, nua.

Dimitri admirou as linhas acentuadamente simétricas do corpo longo e esbelto. Ela fazia-lhe lembrar uma jovem actriz francesa com quem andara uma vez. A confiança inerente à sua juventude agressiva, estimulava-o. Não era como outras mulheres jovens, possuía algo de diferente; A sua personalidade tinha uma faceta perigosa, uma certa aura de força e poder. Ele sentia-se intrigado e indiscutivelmente excitado com ela, apesar de a saber da mesma idade que a filha. Normalmente não valia a pena falar com uma mulher - muito menos levá-la para a cama - se não tivesse pelo menos quarenta.

Lucky parecia ser uma excepção à regra. Despertava-lhe um novo tipo de interesse e conseguia desviar-lhe os pensamentos de Francesca - temporariamente.

Quando se lembrava de Francesca, sentia-se invadir por ondas de raiva. Ela tratara-o de maneira indesculpável e teria de lhe implorar o perdão.

Ele conhecia-a como ninguém. Francesca era uma mulher orgulhosa e a indiscrição que ele cometera com Norma Valentine ferira-lhe o ego. Agora que tinha conhecimento da rivalidade inultrapassável existente entre as duas actrizes, era capaz de entender a sua fúria. Mas a rudeza e o desprezo demonstrados não tinham desculpa. Ela teria de vir a rastejar antes de ele sonhar sequer em a aceitar de volta. E ela fá-lo-ia. Se conhecia Francesca tão bem quanto pensava, fá-lo-ia.

Lucky escolheu uma lata de cerveja no seu bem fornecido frigorífico de quarto e caminhou de volta à cama. Ofereceu-a a Dimitri.

- Queres um pouco?

Ele não pôde deixar de se sentir divertido.

- Os teus gostos são muito plebeus.

- Os meus gostos estão óptimos para mim - sorriu, - Para ti o melhor é Courvoisier. Para mim é Coors!

Dizendo isso, fez saltar o segmento da tampa e, colocando um dedo sobre a abertura, permitiu que um fino jacto de líquido cobrisse o peito de Dimitri.

Este não apreciou a brincadeira.

- Lucky, não faças isso!

Rindo, Lucky escarranchou-se em cima dele.

- Por que não, EHmi? Só tu é que te podes permitir brincadeiras criativas?

Lentamente, acariciou-lhe os mamilos com a ponta dos dedos, inclinando-se em seguida para lamber a cerveja que escorria deles com movimentos leves e rápidos da língua.

- Às vezes - disse sabiamente-, o material barato funciona tão bem como o caro.

 

E foi.

Um sucesso de arromba.

No Foxie, adoraram-no. Lennie encontrara um lar.

Foxie ofereceu-lhe um contrato de três meses com possibilidade de dispor de tempo para os spots televisivos que pudessem aparecer. No fundo não estava com vontade de se comprometer por um período de tempo tão prolongado, porém o seu novo agente parecia pensar que era o mais indicado. O agente chamava-se Isaac Luther. Era jovem, cheio de entusiasmo e um autêntico fura-vidas. O facto de ser negro levara Lennie a pensar que talvez se esforçasse mais que qualquer outro. Saíra-se bem com Joeyi Firello - que o recomendara antes de todos os outros. Lennie apreciou a atitude de Isaac. Ambos tinham o mesmo objectivo a longo prazo - estrelato, muita massa e, se tudo corresse bem, controlo criativo.

- Aceita o contrato - aconselhou Isaac. - Toda a gente passa pelo

Foxie pelo menos uma vez por mês. É um sítio obrigatório.

Portanto ele assim fez, instalou-se e descobriu ter sido um dos passos mais bem dados na sua carreira. Foxie não era apenas um clube, Foxie era um modo de estar na vida. As pessoas que o enchiam noite após noite, constituíam o grupo mais interessante, excêntrico e estimulante que Lennie já conhecera. E gostavam realmente do que ele fazia. Especialmente os regulares, que nunca se cansavam de ouvir as mesmas piadas de sempre estavam sempre à mão com encorajamentos e conselhos.

O próprio Foxie dizia sempre a Lennie o que pensava. "Faz isto. Faz aquilo. Gosto da parte da pega de Porto Rico. Larga o número do gatuno."

Tinha um ouvido apurado para o diálogo e um sentido finamente sintonizado para o que daria resultado ou não.

Quando apareciam vaiadores entre a assistência, Foxie tratava sempre pessoalmente deles, saltando da sua mesa pessoal e cobrindo-os de insultos ou exigindo que fossem expulsos por algum dos robustos homens da segurança.

- Eu nunca aceitei poucas-vergonhas na minha casa - declarou ele, finalmente, uma noite. - As pessoas que vêm ao Foxie têm de se portar como seres humanos. Não admito trastes aqui dentro.

Foxie era adorado pelos clientes regulares. Trocavam insultos e imprecações e, uma vez por semana, Foxie pegava no microfone e dava-lhes vinte minutos do seu tipo de humor pessoal. Fazia lembrar um velho e animado Don Rickles com toques de Buddy Hackett e Charlie CalTas.

Aos oitenta e cinco anos, o seu timing continuava impecável.

Rainbow encontrava-se fora.

- De visita à irmã que tem no Arizona - disse Foxie com a sua fala em staccaío. - Conheces a minha Rainbow?

Lennie explicou a ligação, algo que não desejara fazer anteriormente. Foxie deitou a rir, som que se parecia com vários toques curtos de trombeta.

- Que mundo pequeno este! Quer então dizer que és filho de Alice Golden. Lembro-me de Alice a Rebolona. - Os dentes - todos dele manchados de nicotina ficaram à mostra no sorriso manhoso que esboçou. -Imagino que ela pense que já não me recordo dela. Nunca me esqueço de uma boazona.

O sorriso transformou-se num olhar de esguelha malicioso e Lennie visualizou cenas alarmantes de Alice e aquele pequenote juntos na cama. Esforçou-se por compreender, mas caramba, Alice, francamente! As suas escapadelas nunca teriam tido um fim?

Só de observar Foxie se recebiam ensinamentos. E olhar para as stríppers residentes era outro passatempo fascinante. Eram três. Uma mexicana de aspecto glorioso, de cabelos negro-azulados que lhe davam até ao traseiro; uma sueca loura cujos seios desafiavam as leis da gravidade; e uma oriental que actuava com uma delicadeza tal que a palavra "stripper" dificilmente seria a mais indicada para descrever as suas actividades.

- Foi a minha Rainbow que as treinou às duas - vangloriava-se Foxie orgulhosamente. - Saber despir é uma arte que tem que se lhe diga. Nós aqui não vendemos pássaras e tetas, vendemos um espectáculo. Quem quer pássaras vai até ao fundo da rua, a uma daquelas casas pornô e entesa-se juntamente com o resto dos entesados. Nós aqui vendemos arte.

Lennie dificilmente designaria aquilo de arte. Mas tinha de reconhecer que, fosse o que fosse que as raparigas faziam, faziam-no com estilo.

Agora que ficara instalado, ligou várias vezes para Jess, aparecendo-Lhe sempre em linha o monossilábico Wayland. À terceira deixou o seu número de telefone e instruções para que Jess ligasse para ele.

- Não se vai esquecer de lhe dar o recado, pois não?

- Claro que não, pá - replicou Wayland. Quando pousou o auscultador já se esquecera.

Lennie também voltou a ligar para Éden. Três vezes. Na primeira, foi atendido pela mesma voz masculina que já ouvira anteriormente, pelo que nem se deu ao trabalho de falar, limitou-se a desligar. Na segunda, o telefone tocou sem que ninguém atendesse. Na terceira, uma voz impessoal de um serviço de recepção de chamadas pediu-lhe que deixasse ficar o nome e o número de telefone. Não o fez. Tinha de lhe falar directamente.

Joey contara-lhe que Éden tinha um namorado novo.

E depois? Ele não se importava. Eles não podiam passar um sem o outro e ela também o sabia. Era só uma questão de tempo, não tardariam a estar de novo juntos.

Tudo se reduzia a uma rotina, Jess conhecia-a de cor. Guiar até ao hospital, arranjar lugar para estacionar, apresentar-se na recepção, apanhar o elevador até ao quarto piso. Era capaz de o fazer de olhos fechados. E às vezes, quando atravessava a enfermaria das mulheres com doenças mortais, bem desejaria levá-los fechados. Semana após semana, as ocupantes das várias camas, iam mudando. Vagava uma, havia um milhão à espera. E os parentes de visita sempre com a mesma expressão dolorosa "por que estou aqui?" no rosto - uma expressão que Jess conhecia demasiado bem.

Forçou um sorriso ao aproximar-se da mãe. Levava-lhe sempre alguma coisa - muitas vezes era uma nova fotografia do bebê - mas fosse o que fosse, a mãe mostrava-se sempre grata.

Todos os dias se sentava ao lado da austera cama de hospital. Os médicos tinham-lhe dito que era apenas uma questão de tempo. Às vezes o tempo passava tão lentamente...

Ao sair, ia normalmente encharcada em suor e a tremer. Por vezes tinha de ficar sentada no carro estacionado durante um bocado e fumar um charro, antes de ser capaz de pensar sequer com clareza.

Sábado, às duas da tarde em ponto, chegou para a sua visita. Na recepção tentaram detê-la mas ela teimou em subir ao quarto piso.

A cama da mãe estava vazia, os lençóis tirados.

Uma enfermeira negra rodeou-lhe os ombros com um braço compassivo e disse:

- Ontem ao fim da tarde ligámos para si, querida. Não lhe deram o recado?

Sabia que não devia ficar chocada e triste. Sabia que se tratava de um acontecimento para o qual se vinha preparando há meses.

- Não, não me deram nenhum recado - murmurou com os olhos cheios de lágrimas.

- Venha cá para fora - disse a enfermeira compreensivamente. Temos uns estimulantes medicinais para ocasiões como esta.

- Não, obrigada - replicou Jess delicadamente, esforçando-se por controlar as lágrimas. - Que disposições é que... são necessárias que tome?

A enfermeira informou-a sobre o que devia fazer e Jess regressou à recepção, onde preencheu vários formulários, passou um cheque chorudo e saiu.

Ficou sentada no seu carro, a olhar em frente sem ver. Seria possível que do hospital lhe tivessem telefonado a comunicar a morte da mãe e Wayland estivesse com uma "pedrada" tal que se esquecera de lhe dizer? Sabia que ele não andava nada bem, mas aquilo era imperdoável. Se não fosse Simon, nem sequer se daria ao trabalho de voltar para casa. Agora que a mãe falecera, teria de tentar dar novo rumo à sua vida. Manter o mesmo estilo era impossível; não era mulher para permitir que um homem continuasse a utilizá-la tão descaradamente.

Suspirou. Se ao menos Lennie estivesse ali. Falar-lhe-ia da mãe. Se o tivesse feito, ele teria ficado, não partiria como se levasse o diabo atrás de si.

Maldito Matt Traynor. A culpa era toda dele.

Para celebrar a sua primeira semana no Foxie, Lennie levou o grupo a jantar fora: as gêmeas Barbie, Joey, Isaac e a sua bela mulher negra, e a stripper sueca das mamas grandes. Correram a cidade toda e por volta das quatro da manhã, ele acabou na cama de uma das gêmeas. Não tinha bem a certeza se fora Suna ou Shirley, mas nos tempos que iam correndo também não se preocupava muito.

Na noite seguinte, entrou lentamente, no Foxie, tentando recuperar-se de uma ressaca monumental. Tinha a sensação de que o seu cérebro fora amassado por um bulldozer de dez toneladas.

Foxie recebeu-o à porta com uma palmada nas costas e uma piscadela de olho maliciosa.

- Acho bem que esta noite dês o teu melhor - disse-lhe sem rodeios. - Rainbow voltou. E se a minha Rainbow não gostar de ti nem que fosses Bill Crosby e Carson numa só pessoa, se ela não gostar de ti, estás despedido!

 

Dimitri seguiu para Las Vegas no seu Jet lear e Lucky ficou aliviada. Não estava virada para um envolvimento com um homem com idade para ser seu pai. Um interlúdio breve era suficiente.

Dimitri mandou-lhe mais cestos com rosas "Sterling Silver", um convite para se reunir a ele no seu iate e uma lista dos números de telefone que tinha espalhados por todo o mundo. Lucky não lhe sentiu a falta. Mas sentiu a de Gino, que lhe prometera estar de volta dois dias depois - e agora já se passara uma semana.

Boogie chegou com o seu relatório sobre Susan. Era interessante mas nada continha de sensacional. Ela fora, de facto, uma mulher muito entregue aos prazeres da vida antes de casar com Tiny. Que tinha isso de extraordinário? Se calhar despertaria ainda mais o interesse de Gino, em vez de lhe abrandar o ardor. A viúva perfeita nunca fornicara fora do seu casamento com Tiny. Gino adoraria essa notícia. Limitara-se a gastar dinheiro, a organizar grandes festas, a dar generosas quantias a obras de caridade, a comprar jóias e a gastar mais dinheiro.

Tinha dois rebentos - Nathan, de dezanove anos, e Gemma, de vinte. Não havia notícia acerca da actividade destes. Lucky achou que precisava de os conhecer melhor, pelo que mandou Boogie fazer mais investigações.

Os únicos dados que podia utilizar eram o facto de Susan estar arruinada e o de que, se em breve não acontecesse algo, a sua mansão de Beverly Hills poderia ser-lhe arrebanhada de debaixo do traseiro de Beverly Hills. Era possível que Gino estivesse já a pagar-lhe as contas.

Aí estava algo que iria descobrir, e depressa.

Os filhos Martino impressionaram Gino. Eram tão... educados. Ele esperara deparar com algumas imperfeições aqui e ali - nada mais natural em adolescentes. Mas aqueles jovens eram impecáveis, tal qual a mãe.

Nathan era o mais novo. De altura mediana, possuía cabelo acastanhado, olhos da mesma cor e maneiras delicadas. Freqüentava a Universidade, onde cursava Direito e Filosofia. Também fazia parte de um grupo de futebol, era um surfista excelente, popular entre as raparigas e aluno de primeiro nível.

Gemma abandonara a faculdade para seguir uma carreira de decoração de interiores. Era uma rapariga atraente, de cabelos louro-mel cortados curtos e uma inclinação inconfundível para a anorexia. Estava noiva de um rapaz seu colega de escola.

Ambos os filhos viviam com a mãe.

- Eles gostam de ti - anunciou Susan após o primeiro jantar em família.

- E eu gosto deles - replicou Gino, pensando para consigo porque razão Lucky e Dario não teriam sido como aqueles dois. Caramba! Os problemas que ele tivera com a rebelde da filha e o difícil do filho!

- Para eles não vai ser fácil aceitarem a idéia de eu voltar a casar explicou Susan. - Portanto, se não te importas, penso que devíamos aguardar alguns dias antes de lhes dizermos. Entretanto habituar-se-ão a ti e depois já o golpe não será tão violento.

- Ei - objectou Gino-, nós viemos aqui para lhes dar a notícia.

- E assim faremos - sossegou-o Susan. - Mas não temos pressa, pois não? Como a imprensa parece não saber do que se passa connosco, mais vale esperarmos. Só alguns dias.

Esperar não era grande sacrifício. Susan tratava-o como se fosse um rei. Nada dava demasiado trabalho. Gino deleitava-se com todos os confortos caseiros que ela lhe proporcionava. Viver num hotel com serviço de quarto vinte e quatro horas por dia era uma coisa. Mas viver com uma mulher que o apaparicava, satisfazendo-lhe todas as necessidades, era outra. A atenção constante de Susan deixava-o embevecido. E apesar de saber que tinha Lucky à sua espera para a tomada de decisões relativas a Atlantic City, não fez nada para resolver o problema. Vendo bem, se daquela vez colocasse as suas prioridades pessoais à frente dos negócios, não fazia mais do que lhe era devido.

- Francamente, mãe! - queixou-se Nathan. - O homem é um pacóvio.

- Sem dúvida - concordou Gemma furiosamente. - Como pudeste trazê-lo para aqui? Como pudeste?

Susan abrangeu, com um gesto, a impecável sala de estar repleta de objectos de arte e mobiliário caro.

- Nós vivemos assim. E eu tenciono manter o estilo de vida a que estamos habituados. Têm objecções contra o facto?

- Mas ele é tão ordinário e barulhento - disse Gemma.

- Bem - replicou Susan calmamente -, também não se pode dizer que o vosso pai fosse muito mais calmo.

- O papá era uma estrela! - ripostou Gemma agastada. - Espero que não o estejas a comparar com... com... Gino Não Sei Quantos.

- Gangster - disse Nathan. - Passaremos a tratá-lo assim. Susan corou.

- De maneira nenhuma!

-Gangster. - Gemma experimentou a palavra lentamente - Hmmm, nada mal, irmão.

- Mister Santangelo é um homem de negócios americano - declarou Susan asperamente. - Lida com homens de finanças poderosos. Janta com presidentes.

Gema fitou Nathan. Este retribuiu-lhe o olhar.

- Gangster - disseram em uníssono.

- Tens de te conformar, mãe - acrescentou Nathan. - Porque é a verdade.

Tendo-se passado dez dias sem que Gino regressasse, Lucky telefonou. Decidira-se a não entrar em contacto com o pai, porém os advogados de Nova Iorque estavam a exercer pressão. Insistiam em que era impossível continuar a entreter as partes envolvidas por mais tempo. Furiosa, pediu uma ligação para Gino, em Los Angeles.

- Penso que deitámos tudo a perder - declarou. - O negócio foi ao ar.

Gino pouco ligou.

- Talvez seja melhor assim - replicou. - Na minha idade, não sei se teria sido a decisão correcta.

Santo Deus! De repente, Gino ficara velho - e reconhecia o facto. Que estaria aquela cabra a fazer-lhe? A deitar-lhe brometo no café?

- Não posso acreditar no que estás a dizer. Sempre desejámos realizar esta obra, era o nosso... o nosso... sonho - gaguejou Lucky.

- É verdade, garota, mas os sonhos mudam. Falaremos no assunto quando eu regressar.

- E quando é que será? - perguntou ela, sustendo a respiração, esforçando-se por não explodir de fúria. Quando, papá, quando?

- Daqui a um dia ou dois. Agüenta mais um pouco. Arranjaremos outro esquema, algo mais fácil para um velhote.

Lucky atirou com o auscultador para cima do descanso com tal força que este partiu-se em duas partes. Realmente, velhote! Aquele não era o Gino que ela conhecia.

Que iria fazer? Estava presa em Las Vegas, presa a uma ligação comercial com um pai que obviamente sofrera um terrível ataque de senilidade. Não podia dar a merda de um passo sem ele. Estivera muito melhor durante o exílio dele, altura em que as decisões lhe cabiam exclusivamente. Já que ele ia avançar com a idéia daquele casamento, ela queria ficar independente.

Era uma idéia - e bem tentadora.

Lucky Santangelo. Por sua própria conta e risco. Sem ninguém a quem prestar contas senão a sua própria pessoa.

Como iria Gino receber a notícia, perguntou a si mesma. Especialmente quando lhe dissesse que teria de comprar a sua parte.

Cristo! Ele nunca aceitaria a idéia. Tal significaria venderem o Magiriano e dividirem o dinheiro ao meio. E havia que resolver o problema com a associação de investidores, acabando-se o dinheiro fresco que chegava semanalmente.

Mas... ele continuaria a ter o Mirage, assim como todos os seus valores mobiliários, as companhias e outros investimentos. Pouca diferença lhe faria.

Nem pensar em levá-lo a vender o Magiriano. E desejaria ela verdadeiramente afastar-se?

Sim, desejava verdadeiramente. Não tinha sentido continuar por ali com Susan Martino lá.

Além disso, ela também tinha direito à sua vida. E o que tinha em mente era precisamente uma mudança de cenário.

 

Rainbow não estava velha, gorda ou feia, apesar de mostrar umas rugas nos cantos dos olhos e de vincos fundos de riso que lhe marcavam os cantos da boca; e usava uma maquilhagem excessiva. Uma beleza arruinada, era certo. Mas uma ruína espectacular, dotada de um corpo escultural, seios magníficos e uma profusão de cabelo ruivo-claro.

Lennie calculou que Rainbow deveria andar, no mínimo, perto dos sessenta. Ela fazia-o sentir-se como um adolescente, ao mirá-lo de alto a baixo com olho experiente e dizendo:

- Foxie contou-me que és um boneco atrevido. Queres provar-mo esta noite?

Oh, quantas vezes não desejara provar-lho!

- Tentarei - respondeu, obsequiando-a com o seu sorriso de esguelha.

- Se fores minimamente parecido com o teu velho, nunca deixarás de tentar.

Então era verdade - Jack Golden desfrutara dos favores da carne com a espampanante Rainbow.

Felizmente, ela simpatizara com ele.

- Lennie - disse-lhe com ar magnânimo -, tens tanta piada como o teu papá. Num estilo diferente, evidentemente. Jack Golden fazia-os molharem as calças. Mas penso que hoje vivemos num mundo completamente mudado e tu pareces captar muito bem o que se está a passar.

Bebeu um gole do copo de uísque e leite - a sua bebida preferida que tinha na mão - e depois continuou:

- Oiçam o Foxie, esse sabe do que está a falar. E neste negócio, o saber é tudo. - Agitou a cabeleira ainda farta e brilhante. - Eu cá não passo de uma velhota que lhe segue o instinto certeiro.

Lennie teria gostado que a velhota se deixasse daqueles vestidos muito decotados. Sempre que lhe via os seios fartos, a imaginação corria-lhe à solta. Deitar as recordações dos tempos de rapaz para trás das costas não era fácil.

Rainbow tinha um número importante. Não lhe alterara uma linha em todos aqueles anos. O mesmo sorriso, cabelo sapatos de pega e estolas de penas. O mesmo golpe de mão que não permitia ver nada quando se pensava ver tudo. Fantasias à moda antiga. As raparigas despiam-se completamente, mas Rainbow, graças a Deus, mantinha-se apegada ao seu velho número. Uma espreitadela aqui, uma ali. Nada de obsceno. Ela era uma relíquia de outra era e o público entrava em delírio.

- Faz o número uma vez por semana - confidenciou a scrippen oriental a Lennie. -E todos a adoram.

- Vê-se.

- Há noites em que, quando Rainbow tem o seu shaw, eles fazem bicha à volta do quarteirão para entrar.

Lennie não tinha dificuldade em acreditar. Alice cuspiria sangue se soubesse que Rainbow ainda exercia semelhante fascínio. Telefonou à mãe na esperança remota de ela desejar saber o que era feito dele.

Alice não lhe perguntou o que era feito dele, onde estava a morar ou qualquer outro aspecto de natureza pessoal. Limitou-se a dizer:

- Lennie, tenho um rapaz de vinte e cinco anos louco pelo meu corpo. Achas que deva deixá-lo?

Lennie respirou fundo, optou por não responder à pergunta e disse:

- Estou a trabalhar no Foxie. Sabias que a tua amiga Rainbow continua a fazer strip-tease?

Aquilo fez a mãe cair em si.

- Quê? - exclamou ela por fim. -Na idade dela?

- Que idade é que ela tem?

- Mais valia não perguntares. É suficientemente velha para saber que já devia ter parado com isso há anos.

- Eles adoram-na.

- Quem adora quem?

- O público.

- Costumavam adorar-me a mim - observou Alice com um suspiro melancólico. - E há pessoas que ainda adoram. Lennie, querido, diz-me: andar com um tipo de vinte e cinco anos é demasiado descarado para a minha idade?

- É uma pouca vergonha.

- Vê como falas!

- Foxie lembra-se de ti. Notou-se um tom de vaidade na voz da mãe.

- Esse velho malandrão. Era louco por mim. Tinha um coiso" de se lhe tirar o chapéu. Costumava exibi-lo a todas as raparigas. Mas eu nunca o deixei... fazer nada. Entendes o que te digo, querido? Nunca!

O que significava, evidentemente, que ela lhe fizera os miolos em água.

- Lembrei-me de que poderias gostar de assistir ao espectáculo ua destas noites - sugeriu Lennie. - Podia ir buscar-te e mais tarde voltava a levar-te a casa.

- Detesto auto-estradas.

- Não somos obrigados a ir pela auto-estrada.

- Detesto conduzir.

- Quem conduz sou eu.

- Percebes o que quero dizer. Além disso, quem é que tem vontade de ver Rainbow e Foxie?

- Vá, ela era a tua melhor amiga. Além disso, estava a convidar-te para me veres a mim.

- A ti! -Riu rudemente. - A ti, com essa tua linguagem ordinária de palavrões. Uma vez chegou, obrigada. Se o teu pai estivesse vivo, deserdava-te.

Deserdava-o de quê?

- Esquece - disse Lennie simplesmente, desligando.

Para quê ralar-se? Alice Golden estava-se nas tintas para todos excepto para ela própria.

Quase ninguém fora ao funeral. Um par de amigas e companheiras de canasta da mãe, uma prima mais velha que vivia em Tahoe e três vizinhos. Não era uma assistência majestosa, mas Jess fizera o melhor que pudera, convidando todos para irem até sua casa comer galinha frita à moda do Kentucky, com batatas fritas e vinho tinto barato.

Wayland desempenhara o papel de anfitrião perfeito. Saudara as visitas com um gesto indiferente da mão, entregara o bebê a Jess e fora sentar-se debaixo de uma árvore a limpar as unhas e a olhar para o céu com expressão vazia.

Jess reprimiu a ira, entreteve os convidados, deu de comer a Simon, limpou tudo, preparou o bebê para o sono da noite e saiu para o trabalho. Não pedira dispensa. Quem é que precisava de horas livres tendo Wayland por companhia?

Matt abordou-a mal chegou. Aproximou-se da mesa de vinte-e-um, ainda vazia, sentou-se e perguntou:

-Quando é que a garota mais bonita de Las Vegas me dará uma segunda oportunidade?

- Vai-te embora - disse Jess lugubremente.

- Continuas zangada comigo por causa da outra noite?

- Desaparece.

- Devias sentir-te lisongeada por eu me interessar por ti. Que imaginavas tu que íamos fazer para o meu apartamento, jogar ao berlinde?

- Imaginava - respondeu Jess com lentidão-, que íamos jantar e conversar acerca das razões que te levaram a despedir Lennie Golden.

- Despedir o teu amigo não foi idéia minha. Se quiseres encontrar-te comigo mais tarde, contar-te-ei exactamente o que aconteceu.

- Claro, tal como da última vez.

Matt ajeitou um caracol de cabelo prateado que se escapara de uma prisão invisível de laça e tentou descortinar o que haveria de tão diferente naquela rapariga. Por que a desejaria ele tanto - uma modesta operadora de vinte-e-um e, além disso, baixa?

- Jess - disse com sinceridade. - Confia em mim. vou levar-te a jantar fora. Que tal?

Até mesmo jantar com Mat era melhor do que voltar para casa, onde estava Wayland.

Dois dos bancos foram ocupados por jogadores em perspectiva, que lhe atiraram dinheiro. Um apresentou uma nota de vinte dólares, o outro entregou três de dez. Jess empilhou automaticamente as fichas, empurrando os montinhos impecavelmente formados na direcção indicada.

Matt levantou-se.

- À mesma hora. No parque de estacionamento - disse.

Jess acenou afirmativamente com a cabeça. Precisava de falar. Gostasse ou não, Matt Traynor teria de a ouvir.

-É linda - disse Éden.

- Disse-te que te arranjava um sítio jeitoso - vangloriou-se Santino, pavoneando-se pelo terraço da pequena vivenda vazia empoleirada no alto das Hollywood Hills, na Blue Jay Way.

- Terei de arranjar uma decoradora de interiores - disse Éden pensativamente.

- Claro. - Soltou uma baforada do enorme charuto cubano que fumava. - Tenho uma tipa que é decoradora e me deve um favor.

- Parece que conheces uma data de gente que te deve favores.

- É a única maneira de funcionar - observou, deitando cinza para o chão.

Éden caminhou em direcção à refulgente piscina azul que tinha uma fonte numa ponta e dois cupidos em pedra na outra.

- Adoro-a! - exclamou.

Santino estava satisfeito. Quanto mais depressa a mudasse para ali, melhor. Queria-a sob o seu controlo.

Despiu o casaco e acomodou-se numa das cadeiras do pátio. Aquele lugar iria servir às mil maravilhas.

- Por que não dás uma mergulhadela? - sugeriu ele. - Baptizavas o sítio.

Éden fitou-o. Santino transpirava. Aliás, fazia-o constantemente. Bem, quem não transpiraria todos os dias enfiado dentro de um fato completo?

Lembrou-se da primeira vez em que tinham ido para a cama. Por baixo do fato, ele usava ceroulas, meias presas com ligas e um coldre de ombro dentro do qual se aninhava uma pistola de aspecto apavorante. Por momentos imaginara-o da polícia. Um polícia não poderia levá-la para o cinema. Estivera quase para se vestir e partir.

Ulla, a sua amiga sueca, dissera-lhe que Santino Bonnatti tinha mais dinheiro do que miolos. Éden andara toda a vida à procura de um homem com semelhantes qualidades. Esse homem financiaria um filme onde ela entrasse. Ela tornar-se-ia uma estrela. E depois largá-lo-ia. Entretanto ele ia gozando da sorte de a possuir.

- Vá, nada - incentivou-a ele.

O que ele queria sabia ela, mas também não se importava. O desejo dele conferia-lhe poder a ela, sensação que muito lhe agradava. Despiu o vestido com sensualidade estudada. Por baixo nada mais tinha do que pura perfeição. Havia homens que a consideravam para o esguio. Santino gostava dela como era. A mulher dele, viera a descobrir, era do tipo pesado.

Manteve os sapatos calçados, sandálias brancas às tiras, que lhe salientavam as unhas pintadas de vermelho-sangue.

Santino levantou-se.

- Chega aqui - disse com voz rouca. - Acabei de me lembrar de outra maneira de baptizarmos o sítio.

- Hoje está alguém do The Merv Griffin Show numa das mesas da frente-confidenciou uma das strippers a Lennie antes de este entrar.

Lennie não perdeu a cabeça de excitação. Havia sempre alguém no público - um agente, um caçador de talentos, um produtor. Certa vez tinham corrido boatos de que Burt Reynolds estava a beber champanhe na mesa número dois. A stripper sueca ficara tão enervada com a notícia que despira a roupa toda cinco minutos antes da grand finale.

Tinham acabado por saber que Burt Reynold não passava de um sósia daquele, acabado de aparecer num concurso de televisão. Miss Suécia ficara de tal maneira furiosa que se recusara a falar com quem quer que fosse durante uma semana.

Lennie andava naquela vida há tempo suficiente para saber que não interessava quem estava entre o público. Quando se entrava em cena, fazia-se o melhor. Se esse melhor não fosse suficientemente bom que se lixassem.

Ele tinha um material novo que desejava experimentar. Uma cena entre mãe e filho, tendo Alice como modelo. Não seria de morrer a rir, que o homem do Griffin Show o visse, gostasse e fizesse questão em utilizar esse material novo no seu espectáculo Alice adoraria. Provavelmente nem sequer se reconheceria a si própria, embora ele pintasse um retrato implacavelmente cruel mas verdadeiro.

Terminado o seu número sentiu-se agitado. Ninguém viera a correr aos bastidores para o gabar. Não aparecera ninguém do Griffin Show.

Tomara uma bebida num bar e fora para o vazio do seu quarto de hotel. Passava das duas da manhã, mas que se lixasse, necessitava dela. À espera de ouvir a mesma voz masculina das vezes anteriores, o serviço de atendimento de chamadas, ligou o número de Éden.

Foi a própria quem atendeu ao telefone. A mesma voz estranha, gutural, que parecia de alguém a padecer de um grave acesso de bronquite.

- Está? - Uma pausa ensonada, depois uma insistência, mais forte. -Está?

Lennie aguardou as imprecações. Como que respondendo a uma deixa, Éden proferiu uma torrente de obscenidades.

Ele calculara com exactidão o tempo que Éden levaria. Não se vivia com uma mulher durante três anos sem se ficar a conhecê-la a fundo.

Pouco antes de ela atirar com o auscultador para o descanso, falou, Suavemente. Lentamente.

- Éden. Fala Lennie. Prepara-te. Estou de volta à tua vida.

 

Olympia soube, assim que o pai entrou no apartamento que tinha em Nova Iorque, que cometera um erro em ficar ali. Por que teria ela, Olympia Stanisloppulos, uma das mulheres mais ricas do mundo, de se sentir como uma hóspede? Telefonou imediatamente para uma amiga da mãe que negociava em casas, pedindo-lhe que lhe arranjasse um apartamento sem demora.

- com certeza - respondeu-lhe a mulher. - Conheço o lugar ideal.

- Mostre-mo imediatamente - disse Olympia.

Chegara à conclusão de que Nova Iorque era muito do seu gosto e arranjaria casa própria naquela cidade. Os hotéis eram uma maçada e ficar novamente em casa do pai estava definitivamente fora de questão. Partilhar do seu avião, do seu iate, até mesmo da sua ilha privada quando de tal sentia vontade, era aceitável, mas eram indiscutivelmente horas de comprar uma casa para si em Nova Iorque.

Dimitri reparou imediatamente na queimadela de cigarro numa das suas preciosas mesas antigas. Rugiu de fúria e chamou o mordomo. Olympia permitiu que o estúpido do homem arcasse com a culpa. Sentia-se constantemente espantada com o apego que o pai tinha aos seus bens. Ele dava por tudo. Se algum livro estava fora do lugar nalguma das suas casas, detectava de imediato a alteração.

Brigette saudou o vovô, como ela lhe chamava, com um abraço vigoroso e um beijo nos lábios.

Dimitri pegou na criança ao colo.

- Como vai a minha bebê? - cantarolou.

- Muito mal - disse Olympia agoirentamente. - Tem-se portado muito mal. Estragou o casamento da mama.

Dimitri ignorou a informação e presenteou Brigette com uma série de enormes caixas embrulhadas com papel colorido.

Olympia lembrou-se dos seus tempos de criança. Muitos presentes mas os gestos de afecto eram quase sempre reservados para a amante mais recente. Quem sabe o pai começara a ficar piegas. Ou talvez gostasse mais de Brigette do que da própria filha. Chamou a preceptora Mabel e despachou Brigette e os presentes para fora da sala.

- Como estava Las Vegas? -perguntou delicadamente ao pai. -Ouvi dizer que é um lugar pavoroso, cheio de gentinha terrível.

Dimitri fitou-a reprovadoramente. Estava anafada. Por que não cuidaria aquela rapariga de si?

- Tens razão - disse. - Mas fui apenas participar na homenagem a Francesca Fern, não andei a ver as vistas.

- Como vai Francesca? - perguntou Olympia.

Sempre se sentira intrigada com a paixão louca e permanente do pai pela actriz de cara de cavalo. Não havia dúvida de que aquela estava a durar mais do que qualquer das outras.

- Óptima - retorquiu Dimitri com maus-modos.

Não tencionava discutir a sua vida pessoal com a filha mexeriqueira. Se Olympia tivesse conhecimento do fim da ligação, certificar-se-ia de que não houvesse coluna de sociedade no mundo a quem a notícia escapasse.

- Vi uma velha amiga tua - acrescentou rapidamente para lhe desviar a atenção.

- Quem?

- Lucky Santangelo.

Lucky Santangelo. Ex-velha amiga. Oh, as aventuras que tinham partilhado! Há muito tempo. Mais de quinze anos. Provavelmente já nem se reconheceriam uma à outra. E de certeza que nada mais tinham em comum.

- Onde foi que a viste? perguntou Olympia com desdém.

- É dona do Hotel Magiriano.

- Oh! foi o gangster do pai quem lho deu?

- Construiu-o ela mesmo enquanto ele esteve fora do país. É uma mulher de negócios muito esperta.

Olympia ficou silenciosa.

"Construiu-a ela mesmo." Não me digam? com as próprias mãos? Estaria ele a tentar levá-la a sentir-se culpada porque nunca fizera nada excepto herdar dinheiro e casar com uma série de caçadores de fortuna?

- com que aspecto é que ela está? - perguntou Olympia com curiosidade. Dimitri mudou de assunto. Não interessava que a filha se inteirasse da sua última conquista.

- Quem é que repara nessas coisas? - observou com despreocupação. - Desejo partir para o aeroporto ao meio-dia de amanhã. Agradeço que não te atrases.

Olympia anuiu com ar distraído e saiu da sala. Não tencionava partir no dia seguinte mas mandaria Brigette e a preceptora embora. As duas andavam a dar-lhe cabo dos nervos; precisava de um pouco de tempo sozinha a fim de se recuperar do trauma vivido no casamento da mãe. Oh,

o embaraço causado pelo comportamento ultrajante de Brigette! A criança estava a tornar-se um monstro.

Sim, despachá-las-ia com Dimitri ao meio-dia. Ele podia tomar conta delas em Paris, enquanto ela comprava um apartamento em Nova Iorque e pensava, ao menos daquela vez, em si mesma.

Lucky Santangelo uma mulher de negócios muito esperta, ora vejam só! Ora! Olympia lembrava-se dela como uma cigana arrapazada que nem sequer era capaz de arranjar namorado. Ela, Olympia, ensinara-a acerca dos homens, do sexo e das roupas. E que grande agradecimento recebera pelos seus cuidados. Nem uma palavra em quinze anos.

Recordou-se de Lucky a chegar ao L'Evier, o colégio interno que ambas tinham freqüentado na Suíça, uma rapariga franzina de cabelo escuro, que fora registada sob o nome de Lucky Saint porque o apelido do pai deveria permanecer no anonimato.

Como se alguém se importasse.

Gino Santangelo.

A primeira vez em que Olympia pusera os olhos nele, da janela do seu quarto, estremecera. Ele era tão... sinistro de aspecto. Moreno como Lucky. Para o baixo e muito, muito sexy, com o seu cabelo curto e encaracolado, um andar bamboleante e os olhos negros de expressão malévola. Fora a primeira vez que sentira atracção por um homem mais velho.

As suas fantasias tinham evolucionado, durante muito tempo, à volta de Gino. De vez em quando, quando estava para aí virada, imaginava Gino no quarto consigo, sugando-lhe os seios, possuindo-a sem qualquer espécie de cerimônia mas sim com uma energia brutal.

Nunca confidenciara a Lucky o seu desejo secreto de fornicar com o pai desta. A amiga não teria apreciado a idéia.

Olympia soltou um suspiro e recordou a altura em que Gino ficara noivo de Marabelle Blue, uma famosa estrela de cinema loura. Informara Lucky do facto através do telefone, e esta fora meter-se na cama a chorar. Na altura, Olympia não deveria saber da sua identidade, mas claro que a conhecia. Ficara a par do segredo depois de bisbilhotar no diário de Lucky dois dias depois de esta chegar ao colégio. Lucky soluçava, Olympia não conseguia dormir, de modo que fora ter com a amiga, confortando-a suavemente ao princípio, para depois a suavidade se transformar em paixão; não tardou que as duas colegiais se entrelaçassem como amantes.

Foi uma noite de doçura húmida e quente. Na manhã seguinte, as coisas voltaram ao normal. Nenhuma delas mencionou sequer o acontecido. Era como se o contacto amoroso nunca tivesse tido lugar. De vez em quando, Olympia pensava no ocorrido. Ao longo dos anos, tinham aparecido várias mulheres na sua vida. Nenhuma delas lhe proporcionara, nem de perto, a noite de paixão ilícita que vivera com a colega de colégio...

- Mama! -Brigette interrompeu-lhe o encadeamento dos pensamentos. - Olha!

A criança mostrou-lhe um dispendioso relógio Cartier.

Olympia olhou de relance para o relógio. Devia ter custado mais de mil dólares. Por que daria Dimitri semelhantes presentes a uma miúda de nove anos?

- Não o quero - lamuriou-se Brigette. - Quero antes um do Snoopy. mama. Quero ir à Disneylandia.

- Sim, querida - disse Olympia, pegando no relógio e atirando-o para o lado.

Mandaria o motorista comprar um relógio do Snoopy e dá-lo-ia a Brigette pouco antes da partida da criança no dia seguinte. Tal amenizaria uma cena desagradável, pois Brigette não ficaria nada satisfeita ao descobrir que a mãe não fazia tenções de a acompanhar.

Naquela altura Lucky descobrira que era apenas uma questão de aguardar o regresso de Gino para depois lhe dizer das suas intenções de se afastar. O único problema residia no facto de o pai não dar mostras de querer voltar.

Era com dificuldade que suportava o calor de Las Vegas, enquanto os dias passavam lentamente e as noites ainda mais. A certa altura não foi capaz de suportar a situação por mais tempo. Atlantic City estava fora de questão. Era entrar no jogo ou abandonar o campo - ela fora forçada a abandonar o campo.

Dominada pela fúria, seleccionou alguns dos seus livros preferidos, um gravador e uma série de cassettes com música soul. Depois meteu-se no avião para Palm Springs e encafuou-se no Hotel Canyon Club, onde lhe deram instalações próprias, com piscina e privacidade total.

- Telefonem-me assim que Gino voltar - fora a instrução deixada.

A solidão era estranhamente bem-vinda. Passava os dias estendida ao lado da piscina, tendo por companhia Bobby Womack, Teddy Pendergrass e Marvin Gaye. E à noite instalava-se na cama com Mario Puzo, Joseph Wambaugh e o Harold Robbins dos primeiros tempos (era sempre um prazer reler Os Ambiciosos e Os Aventureiros). Desligou completamente. Pediu alimentação racional. Não fumou nem bebeu. Deixou de se maquilhar. E tratou do corpo bronzeado com água mineral pela manhã, meia hora de exercício vigoroso e sauna à tarde.

Nunca se sentia só. Aprendera, desde muito cedo, a satisfazer-se com a sua própria companhia. E apesar de ter tido alturas em que pensava que teria sido agradável ter uma irmã ou um irmão - ainda se lembrava da proximidade que ela e Dario tinham gozado nos tempos de criança estava tudo bem. Sentia-se razoavelmente contente.

A espera parecia interminável. Mas esperar à sua maneira era certamente mais tolerável. De certa maneira aquela paz e solidão sabiam-lhe, bem pois sabia que em breve a situação mudaria. Não tardaria que tudo começasse de novo.

- Tenho de voltar - dizia Gino com freqüência.

- Porquê? - replicava Susan. - Tens gente que trata de todos os teus assuntos. com certeza sempre é mais agradável ficar aqui comigo, não?

Gino não podia deixar de reconhecer que era verdade. Mas começava a sentir-se culpado em relação a Lucky. Sabia-a furiosa com ele; daí que nem sequer se desse ao trabalho de telefonar, depreendendo que seria melhor enfrentá-la face a face.

Em Beverly Hills, a vida assemelhava-se a umas férias prolongadas. Ao viver em casa de Susan, viu-se liberto de responsabilidades. Ao menos, não tinha o telefone sempre a tocar, as pessoas não o incomodavam com problemas menores; podia descontrair-se e fazer o que lhe desse na real gana.

Rodeara-se, de há muito, dos melhores advogados, contabilistas e executivos que o dinheiro podia comprar. Chamava-se a tal tomar conta dos negócios sem, de facto, fazer o que quer que fosse. Aprendera essa lição durante a sua permanência em Israel durante sete anos: delegar poder mas nunca perder o contacto. Além disso, enquanto estivesse ausente, Lucky tomaria conta de tudo. A rapariga tinha a esperteza de qualquer homem. Tinha pena em desiludi-la em relação a Atlantic City - mas se ele ia casar, envolver-se em novos projectos de grande dimensão estava fora de questão. Pelo menos por uns tempos.

Lucky compreenderia. Teria de o fazer.

Susan não mencionou aos filhos que tencionava casar.

- Vá - queixou-se Gino. - Acaba com isso. Não vês que me adoram?

Comunicou-lhes o facto durante um jantar no Chasen, com Gino presente. Os dois deixaram escapar ruídos delicados e deram-se pontapés debaixo da mesa.

- Estás a ver - disse Gino mais tarde-, eles acham bem. Agora tenho de voltar a Las Vegas para resolver alguns assuntos. Partiremos; amanhã.

- Eu não posso ir - disse Susan rapidamente.

- Por que não? Susan baixou os olhos.

Não é simplesmente possível. Quando Tiny faleceu... -Fez uma pausa. -. Realmente não queria falar-te da questão, mas o certo é que ele deixou aquilo que os meus advogados designam de um pesadelo financeiro. Trata-se de algo que tenho de tentar resolver pessoalmente e desde

que andamos juntos que nunca mais prestei atenção aos problemas sórdidos do dinheiro. Se voltas a Las Vegas, então eu...

Gino interrompeu-a, batendo na testa com a palma da mão.

- Caramba! Por que não me disseste? Cristo! Estamos juntos, não estamos? Vamos casar, por amor de Deus! Devia ter-te perguntado se estava tudo bem.

- Não é problema que te diga respeito, Gino - disse Susan firmemente. - Embora aprecie a tua preocupação.

- Escuta. De agora em diante os teus problemas são os meus problemas. Amanhã voltarei de avião e enviarei um dos melhores contabilistas a L. A. para se encontrar com os teus advogados. Ele resolverá a situação e depois ficará tudo em ordem. Que tal te parece?

- Não és obrigado a fazê-lo - disse Susan, concordando logo a seguir.

Gino abraçou-a com força.

- Claro que sou. E no próximo fim-de-semana apanharás o avião para Las Vegas e ficaremos juntos.

Susan nunca imaginara que pudesse ser tão fácil. Por um momento ficou tensa, não se sentindo preparada para mais uma das vigorosas sessões amorosas de Gino. Depois descontraiu-se e suportou o amplexo sufocante. Depois de se casarem, não o deixaria aproximar-se sequer dela.

As mãos dele principiaram a acariciar-lhe os seios.

- És uma gaja sexy - observou ele, rindo. - Sabes isso, não é verdade? Sabes, não é, Susie? És uma gaja bestialmente sexy!

Por dentro, Susan estremeceu. Por fora, sucumbiu.

O contacto rude dele não despertou nela a menor sensação. Foi com ansiedade que esperou que ele se retirasse.

- Graças a Deus ele partiu! -anunciou Gemma minutos depois de Gino seguir para o aeroporto.

Estavam os três sentados na sala de tomar o pequeno-almoço, comendo com pouco apetite.

- Dizes bem, graças a Deus - reforçou Nahtan. - Mãe, com certeza não estás a pensar seriamente em casar com aquele gangster, pois não?

- Não fales assim de Gino - admoestou-a Susan. - E agradeço que aceitem o facto de já aqui não terem o vosso pai e de eu precisar de tratar da minha vida.

- Sim, mas não com aquele ordinário - queixou-se Gemma, mastigando um pedaço de tosta.

- Sem dúvida que não-concordou Nathan, engolindo o sumo de laranja.

Susan suspirou. Criara dois snobs enfatuados e convencidos. Tiny teria ficado horrorizado. Mas claro que, no fundo, concordava com eles.

Ser obrigada a contrair matrimônio com um indivíduo como Gino Santangelo era risível. Por que não teria Tiny cuidado dos seus negócios? Por que não acautelara o futuro? Homem descuidado.

Apertou fortemente o peignoir em volta dos seios e fitou os dois filhos. Gemma, tão magricela e de ar insignificante. E Nathan, rapaz típico da Califórnia, de cabelo abundante e corpo de praticante de surf.

Se não tivesse de os sustentar aos dois... e eles exigiam todo o conforto. As crianças educadas em Beverly Hills eram diferentes das outras. Bebeu delicadamente o seu chá de limão. Graças a Deus, Gino partira. Ao menos não a incomodaria durante algum tempo. Não tencionava regressar a Las Vegas no fim de semana. Havia que planear o casamento, que iria ser um acontecimento magnificente. Ao menos devia essa satisfação a si mesma.

Se Gino desejasse vê-la que voltasse a Beverly Hills.

Esperava que não o fizesse.

Sabia que o faria.

Lucky recebeu o recado ao pé da piscina. Gino regressara. Fez as malas e uma hora depois estava no aeroporto. Iria travar-se uma confrontação de há muito adiada.

 

Ficaram de se encontrar à esquina de La Brea com a Sunset, no Tiny Naylor, um restaurante drive-in'. Lennie foi o primeiro a chegar, deixando-se ficar sentado no seu carro alugado, sem saber, ansioso, se ela apareceria. Eram duas e meia da manhã, uma hora muito pouco propícia a encontros. Mas quando ele lhe sussurrara, "Tenho de te ver", ao telefone, Éden replicara, "Amanhã estou ocupada mas gostaria de me encontrar contigo agora."

Um gesto pouco habitual nela. Esperara ouvi-la barafustar ruidosamente por ele telefonar tão tarde. Em vez disso, mal soubera que era ele, mostrara-se surpreendentemente receptiva e, naquele momento, esperava-o, sabendo que nada seria mais típico de Éden do que fazê-lo sair e depois nem sequer aparecer.

Acendeu um cigarro e mandou vir um burríto e uma Coca-Cola por uma empregada cansada. Duas prostitutas de calças colantes douradas iguais e blusas de malha larga, faziam tempo pelo local.

 

* Restaurante onde servem os clientes no próprio automóvel. (N. da T.)

 

- Queres uma fornicadela ou alguma variante? - perguntou uma, demasiado exausta com a actividade dessa noite para suspeitarem da possibilidade de ele ser da polícia.

- Esta noite não, senhoras - replicou ele delicadamente. Era mentira. Ele queria fornicar Éden.

- Por que não? - perguntou a outra pega, uma mexicana anafada com um dente de ouro à frente. - Dou-te uma amostra, filho, que te vens todo nas calças.

Levantou a aba da blusa transparente e exibiu-lhe dois globos de mamas. Lennie anuiu aprovadoramente e repetiu:

- Esta noite não, senhoras.

- Maricas - chamou-lhe a mexicana sarcasticamente.

- Medroso! - reforçou a colega.

Detectaram uma motoreta com dois tipos de cabelo com brilhantina e dirigiram-se para eles.

A empregada trouxe-lhe o burríto e a Coca-Cola. Lennie acabou avidamente com as duas coisas e depois consultou rapidamente o relógio de pulso. Ela falara em vinte minutos. Já se passara meia hora. Quanto mais tempo iria esperar?

As prostitutas faziam negócio. A mexicana roliça abraçara-se a um dos sujeitos e desaparecera no meio das sombras. A outra inclinava-se sobre o guiador da moto a segredar promessas ao condutor.

Éden não viria. Por que havia de o fazer? Odiava-o. Fora o que lhe dissera, naquela última noite passada em Nova Iorque.

"És um fracassado", dissera-lhe. "Um zero à esquerda, uma nulidade na cama."

Éden sabia jogar com as palavras.

Mas quando se tratava de injuriar alguém, ele também não era exactamente inocente. Chamara-lhe tudo, desde rameira estúpida, a cabra sem miolos e talento.

Não se tinham separado na melhor das harmonias.

E no entanto...

Ele lembrava-se dos bons tempos.

Quando Éden queria, conseguia ser a mais doce das mulheres do mundo. Podia fazer um homem sentir-se como um rei, o amante mais eficiente da terra. Nos três anos que tinham passado juntos, os bons momentos tinham suplantado os maus. E o sexo era estupendo. Éden, com o seu corpo esguio, o longo cabelo sedoso, o rosto em forma de coração e os astutos olhos cor de topázio.

Éden era uma matadora. Possuía uma beleza exótica de que ele não conseguia fartar-se.

Como que em resposta aos pensamentos, o Thunderbird rosa-pálido de Éden estacionou no espaço ao lado daquele onde ele parara. Baixou o vidro da janela e sorriu. Tinha os olhos protegidos por enormes óculos de sol à Jacqueline Onassis e o cabelo oculto por um lenço de seda.

- Olá, Lennie-murmurou na sua melhor entoação rouca estilo Lauren Bacall. - Aposto em como pensavas que já não vinha.

Matt Traynor não se portou como um cavalheiro respeitador. Encontrou-se com Jess no parque de estacionamento, tal como ficara combinado. Levou-a a jantar a um restaurante polinésio. Encheu-a de cocktails até ela mal conseguir andar. E depois levou-a para o seu apartamento e tentou fornicar com ela.

Jess não objectou.

Não saberia como.

Mal tinham chegado, ela desmaiara em cima do sofá. Ele levantara-lhe a saia, puxara-lhe as calcinhas para baixo e estava prestes a lançar-se a toda a brida quando tomara consciência do acto que ia cometer. Que raio estava ele a fazer?

Freneticamente, voltara a puxar-lhe as calcinhas para cima, compondo-lhe novamente a saia. Sentia-se o pior malandro do mundo. Resmungando consigo mesmo, serviu-se de um uísque e apercebeu-se de que estivera prestes a cometer um acto imundo. Depois tapara Jess com uma manta feita de pele de leopardo e começara a andar nervosamente de um lado para o outro no apartamento.

Jess ficou inconsciente até às cinco e meia da manhã e, quando acordou, praguejou em voz alta, pediu as chaves do carro dele e correu para a luz do início da manhã, dizendo à laia de despedida:

- Deixo-te as chaves debaixo do lugar da frente.

Matt ficou descoroçoado. Esperara, chegara mesmo a ensaiar a cena Doris Day-Rock Hudson:

Doris (perturbada): "Oh, Deus me valha! Que aconteceu? Diz-me imediatamente. Nós fizemos... alguma coisa? "

Rock (com um sorriso valoroso, consciente): "Fizemos o quê?"

Doris: "Não me atormentes. Sabes ao que me refiro."

Rock (reconfortante): "Claro que não. Por que tipo de homem me tomas? "

Doris (aliviada e grata): "És o meu tipo de homem."

Fim de cena.

Agora ela partira. E nem sequer lhe perguntara. Importar-se-ia?

Entrou na sua cozinha de aço inoxidável e preparou um café instantâneo para si. Doíam-lhe as costas. Toda aquela posição encurvada. Ardiam-lhe os olhos. Toda aquela tensão.

Perguntou a si mesmo se ela voltaria a falar com ele mais alguma vez.

- Sabia que virias - disse Lennie, embora a incerteza o tivesse dominado.

Saiu do seu carro e entrou para o Thunderbird de dois lugares. Éden envergava um vestido de praia reduzido e sandálias de salto alto. Lennie estendeu a mão e tirou-lhe os óculos escuros. Não vinha maquilhada mas, ainda assim, apresentava um aspecto excelente.

- Viva - disse Lennie, tocando-lhe no cabelo que aparecia por baixo do lenço. - É bom ver-te.

Éden fitou-o longa e ardentemente.

- Viva, Lennie. És uma surpresa, mas agradável.

Éden sabia como mexer os cordelinhos - sempre soubera.

- Achei que podíamos dar uma volta até à praia - sugeriu Éden -, para tu poderes contar-me o que andas a fazer por aqui.

"Bem, Éden, vim até à costa para poder fazer novamente amor contigo. A minha carreira que se lixe."

- Boa idéia. Posso ir eu a guiar? - perguntou Lennie, esperando estar a portar-se com naturalidade.

Éden acedeu.

Saiu do carro e deu a volta, enquanto Éden se mudava para o outro assento.

A prostituta mexicana regressava naquele momento do meio da escuridão, trazendo um sorriso de triunfo nos lábios.

- Mudaste de idéia, borracho? - gritou a Lennie. - Podes ter-nos às duas no paraíso por vinte dólares.

Lennie Ignorou-a e instalou-se atrás do volante.

Éden aproximou-se mais dele.

- Tive saudades tuas, grandão - murmurou ela suavemente, pousando-lhe a mão em cima da coxa.

Lennie ficou com uma erecção que não voltou a abrandar.

Seguiram ruidosamente pela Sunset abaixo, chegaram a Brentwood em oito minutos, às Palisades em doze, e vinte minutos depois percorriam a Auto-estrada da Costa do Pacífico, em busca de um lugar adequado para estacionarem.

Éden encarregara-se de toda a conversa, falando-lhe dos papéis que desempenhara.

- Nunca deixo de ter trabalho - confidenciara-lhe. - Creio que sou melhor actriz do que imaginas.

Ele não estava com vontade de enveredar por aquele assunto.

Pararam o carro junto de um declive e desceram para a praia. Estava uma noite magnífica. A luz brilhava e o oceano apresentava-se tranqüilo. Caminharam ao longo da beira-mar, de mãos dadas como amantes recentes, molhando os pés na linha de rebentação. Depois deixaram-se cair em cima da areia como amantes antigos, redescobrindo cada zona secreta com familiaridade feroz.

Éden enlaçou-lhe o pescoço com as pernas, balançando ao ritmo dele como se desejasse nunca mais vê-lo parar.

Ele deu-lhe o que ela queria, o que ele queria. Lentamente. Depressa. Muito depressa. Depois de novo devagar, mantendo o seu controlo ao recitar mentalmente o malfadado alfabeto, porque não queria vir-se, não queria que aquilo terminasse, desejava que aquele acto de amor durasse eternamente.

-Tu... sempre... foste... o... melhor - murmurou Éden com voz enrouquecida. - Jesus... Lennie... meu... grande... homem...

Lennie sentiu-lhe os espasmos e deixou-se ir, enquanto Éden gemia de prazer intenso. Quando terminaram, ele afagou-lhe o cabelo sedoso e disse, muito calmamente:

- Pertencemos um ao outro. Sabes isso, não sabes?

Éden não respondeu. O único som que se ouvia era o do mar a bater brandamente na praia.

Jess correu para o hotel no carro ridículo de Matt. Deixou-o ficar no parque de estacionamento e saltou para o seu Camaro. Depois chegou a casa em tempo recorde.

Ao estacionar, chegou-lhe o som do choro de Simon. Sentia a cabeça a latejar violentamente. Demasiadas bebidas sofisticadas, no entanto, a embriaguez desviara-lhe os pensamentos do funeral, o que era importante. A casa tinha um aspecto revoltante. Wayland voltara, obviamente, a receber visitas. Latas e garrafas vazias, o cheiro forte a marijuana que ficara a pairar no ar, embalagens McDonald vazias. E o corpo de um homem desconhecido a dormir no meio do chão da sala.

- Diabos me levem! - gritou Jess, dando um pontapé no dorminhoco, que gemeu e rolou para o lado.

No quarto, Wayland estava esparramado em cima da cama, completamente vestido. Simon chorava, no seu berço. Sentia-se o cheiro a urina e algo pior. Pegou no filho e mudou-lhe as fraldas. Fatigada, levou o bebé para a cozinha e preparou-lhe um biberão. O choro estava a dar-lhe conta da sanidade mental. Enfiou a tetina na boca de Simon e desfrutou, finalmente, de tranqüilidade.

Naquela semana trataria de mandar Wayland dali para fora.

- Estou-me nas tintas para o que queres fazer! - gritou Gino.

- E eu estou-me nas tintas para o que tu pensas-gritou Lucky. Fazia uma hora que berravam um com o outro - uma interminável hora recheada de insultos, recriminações e acusações. A harmonia desfrutada no último ano passado juntos, desvanecera-se, voltando o antagonismo e a má vontade dos velhos tempos.

- Não mandas na minha vida - declarou Lucky intempestivamente. - Não sou a menina bonita que faz as vontades todas ao papá. E também não trabalho para ti.

Fez uma pausa para recuperar o fôlego e fitar o pai. Ele queria tudo à sua maneira. Queria casar com Susan e manter a filha querida à sua disposição, reduzida a uma espécie de subchefe que tomaria conta dos negócios enquanto ele se pisgava para Beverly Hills.

Pois bem, a filha querida não estava para ali virada. De maneira nenhuma. De maneira estuporadamente nenhuma. A filha querida ia pôr-se a mexer.

- Somos sócios - disse Lucky friamente. -Metade do Magiriano pertence-me e eu quero que me dês o que me cabe em dinheiro, para ir fazer outras coisas. Portanto ou vendes a tua parte ou compras a minha. Qual é que preferes?

Gino não podia deixar de reconhecer que a filha tinha "tomates". Apesar de furioso como estava, tinha de a admirar. Ela era uma chata mas esperteza não lhe faltava, nem astúcia nem dureza. Era uma vencedora nata da vida.

- Ei. - Abriu os braços. - Se queres sair, faço-te a vontade. Estamos a discutir sobre o quê? Se desejas meter-te noutras coisas, não te impeço. Comprarei a tua parte. Mas não te esqueças, garota, tudo o que possuo será teu um dia.

Quem é que ele queria enganar? Se casasse com Susan Martino, todos os seus pertences passariam a ser dela.

- Então está combinado - disse Lucky serenamente, farta da discussão.

- Isso mesmo. E se tens a certeza de que é a tua vontade, porei imediatamente as coisas a andar - disse Gino secamente. "Não é o que eu quero, sim o que tu queres."

- Há mais um pormenor-disse Lucky.

- Que é?

- A casa em East Hampton - disse Lucky impulsivamente. - Gostaria de ficar com ela.

- Ha?

Gino fitou-a - olhos negros duros encontraram-se com outros precisamente iguais.

- Porquê - quis saber.

- Porque não desejo que leves outra mulher para viver lá. Era a casa da mama quando formávamos todos uma família. É o único lar verdadeiro que alguma vez conheci e quero tê-lo para mim.

Gino sentiu-se novamente furioso. Primeiro a filha quisera vender o hotel, agora queria que ele lhe desse a casa de East Hampton. Que raio de merda era aquela?

- Está bem, está bem, é tua - acedeu de má vontade.

Lucky pretendia conduzir o assunto como se de um negócio se tratasse, consciente de que devia proteger os seus próprios interesses para quando o pai casasse com Susan.

- Mandarei um agente imobiliário avaliá-la e depois comprar-ta-ei. O dinheiro pode sair da minha parte no hotel.

Gino abanou a cabeça como se lhe custasse a acreditar no que estava a acontecer.

- Lucky - disse ele suavemente -, por que estamos os dois a comportar-nos como se fôssemos um casal em pleno processo de divórcio? Quando menos esperarmos, estamos a comunicar um com o outro através dos advogados.

- Por falar em advogados - disse Lucky secamente -, tenho a certeza de que não te esqueceste de pedir a Susan para assinar um contrato pré-nupcial.

- Que espécie de observação descarada é essa? - gritou Gino. - Caramba! És realmente danada! Mal conheces Susan e já a estás a vê-la arrebanhar-me o dinheiro todo.

- Estou somente a comportar-me da maneira como me ensinaste. Estamos na Califórnia e existem coisas como as leis de propriedade.

- Jesus Cristo! - exclamou Gino, chocado.

Lucky saiu calmamente da sala. Fora o mais longe que se atrevia.

Susan Martino, descobriu Gino através do contabilista enviado a Los Angeles, tinha dívidas que ascendiam a várias centenas de milhares de dólares.

Conversaram ao telefone.

- Como é que te meteste em semelhante trapalhada? - perguntou-lhe.

- Por que não perguntas antes como é que Tiny me meteu em semelhante trapalhada? - replicou Susan com lógica.

- Eu encarregar-me-ei de resolver o assunto. Não se sentia propriamente satisfeito mas era algo que não podia deixar de ser feito.

- Já te disse que não és obrigado a isso - lembrou-lhe Susan.

- Faz de conta que é um presente de casamento - ofereceu ele magnanimamente.

- Fico-te agradecida. O seu tom era apreciativo, mas não em excesso.

Gino admirou o requinte com que ela se comportava em todas as ocasiões, Era realmente uma mulher de classe.

- Já tens saudades minhas?

- Tenho. Mas preciso de planear o casamento, o que me dá imenso trabalho.

- Que é que há para planear? Saltas para dentro de um avião e tratamos do assunto aqui. Não tem nada de complicado. - Fez uma pausa para acender um charuto, apesar de o médico ter insistido para que largasse o vício, depois do ataque de coração. - Ei, que tal fazermos isso este fim-de-semana? Ficava despachado.

Susan negou delicadamente.

- Estás a brincar, não estás? Santo Deus, Gino, "ficava despachado", até parece que é uma trivialidade qualquer.

- Tens outros planos?

- Claro que tenho. Um casamento é uma ocasião sagrada. com certeza desejas que tudo corra como deve ser, não é verdade?

- Podemos fazer que tudo corra como deve ser em Las Vegas.

- De maneira nenhuma - admoestou-o Susan. - Temos de casar em Beverly Hills. Tenho todos os meus amigos aqui. Será um dia glorioso... um dia para lembrar.

- Os meus amigos estão aqui - salientou Gino. - E passaremos a viver aqui. Não queria dizer-to ao telefone, mas Lucky vai-se embora.

- Vai-se embora?

- Vai. Fez-me um sermão completo sobre a sua vontade de se afastar e ir para Nova Iorque. Digo-te uma coisa, Susie, estou farto disto.

Ele podia estar farto mas ela estava extasiada. Nunca imaginara que fosse tão fácil livrar-se da filha rebelde de Gino.

- Estou certa de que assim é melhor, Gino querido - disse em tom confortante.

- Achas que sim?

- Oh, sem dúvida.

Susan não lhe disse que o seu plano para o fim-de-semana era ficar em Los Angeles. Desligou com juras de amor e depois ligou para os seus advogados a fim de se informar sobre a altura em que todas as suas dívidas ficariam saldadas. Gino Santangelo fora, obviamente uma opção excelente. Velho, rico e manejável. com demasiados apetites sexuais para um homem da sua idade mas esse aspecto poderia ela suportar durante mais algum tempo.

Aturar homens. A história da sua vida. Desde os quinze anos, altura em que fora desflorada por um actor de cinema fanfarrão dos anos 50, enquanto a mãe, cabeleireira, ficava no andar de baixo a beber vodka; e, agora, Gino.

Aturar homens. Uma série deles, ricos e importantes. Enquanto a mãe desfrutava dos benefícios de ter uma filha adolescente bonita. Não havia propriamente troca de dinheiro, no entanto acontecia sempre algo. Um Cadillac branco novo para a mãe. Três televisões. Montes de roupas. Montanhas de comida. Grades de champanhe.

Susan sentia asco sempre que um homem a tocava.

"Vai lá para cima com Mr. Fulano, Susan, ele quer mostrar-te uma coisa."

Homem rico após homem rico, até se tornar um modo de vida e ela submeter-se automaticamente à jogada porque alguém tinha de fornecer à mãe os pequenos luxos a que esta estava habituada e os copos permanentes.

Ao chegar aos vinte, a mãe passou um sinal vermelho à esquina da Sunset com a Fairfax e morreu instantaneamente numa colisão com o camião de um jardineiro. O motorista mexicano foi processado. Susan, naturalmente, arranjou alguém que lhe tratasse do caso. Seis meses mais tarde, foi suficientemente esperta para descobrir Tiny ao fazer trabalho extraordinário num dos filmes em que este participava. Ele não perdia uma oportunidade. Ela sabia o que queria e deitou mãos ao trabalho com dedicação e constância. Tiny divorciou-se da primeira mulher sem grandes problemas, casou com Susan e, juntos, foram subindo na hierarquia social de Hollywood. Ela tornou-se uma anfitriã perfeita, uma confidente afável e a mãe dos seus dois filhos.

Passados alguns anos, Tiny fornicava em tudo quanto acenava na sua direcção- estar casado com uma das rainhas do jet set de Beverly Hills e Bell Air não era tarefa fácil.

Alguns anos mais tarde, Susan conheceu uma massagista russa bem fornecida de músculos chamada Gloria, que foi até sua casa para lhe aliviar a tensão. Acabou por descobrir que Gloria conhecia muitos outros sítios onde a tensão podia ser libertada e Susan sucumbiu. Sucumbiria várias outras vezes. Mas nos últimos três anos vinha mantendo uma relação altamente satisfatória com a mulher de um produtor chamada Paige Wheeler. Ambas as mulheres desfrutavam de contactos discretos em variados locais, entre os quais se incluíam as casas de uma e outra, sempre que podiam livrar-se da criadagem. Malogradamente, Ryder, o marido de Paige, produzira recentemente um filme de sucesso monumental, o que significava que Paige tinha o seu tempo tomado por um conjunto inevitável de compromissos sociais. Para além do facto de também se ocupar com a decoração de interiores. E Susan, como era evidente, andara ocupada em Las Vegas com Gino. As duas mulheres já não se viam há meses.

Susan pousou a mão no telefone. Merecia umas tréguas. Umas pequenas tréguas.

Na manhã a seguir à discussão com Gino, Lucky acordou muito agoniada. Vomitou, sentiu-se apenas ligeiramente melhor e voltou, trôpega, para a cama. Os enjôos não tinham nada a ver com a sua pessoa. Havia tanta coisa para fazer. Tinha de começar a fazer as malas, encontrar-se com os seus advogados e pôr tudo em ordem.

Por um momento interrogou-se sobre se estaria a dar o passo acertado. Mas no íntimo sabia que se Gino casasse com Susan, ela ficaria melhor se afastada deles. Talvez Susan fosse um ser humano maravilhoso. Talvez amasse Gino pelo que ele era.

Talvez...

Obedecendo a um impulso, agarrou no telefone e ligou para Costa Zennocotti, em Miami. Este reformara-se há um ano atrás e estava muito feliz por ter encetado uma vida pacata depois de quarenta anos como advogado e melhor amigo de Gino. Também era amigo dela. Afinal de contas, fora Costa quem lhe acalentara as ambições e lhe ensinara tudo acerca dos negócios enquanto Gino elanguescia em Israel.

- Tio Costa - saudou-o afectuosamente quando ele atendeu. - Como tem passado?

- Neste momento encontro-me a dominar a arte de bem fazer uma tosta francesa - replicou ele, feliz por ouvi-la. - Cheguei finalmente à conclusão, na minha avançada idade, que devo aprender a cozinhar.

Lucky riu, bem-disposta. Era bom falar com Costa.

- Pensei que tinhas montes de mulheres à tua volta a fazerem-te isso - brincou.

Sabia que ele andava a dar-se com uma divorciada que, ao que tudo indicava, o fizera engordar mais de sete quilos.

- Sim, sim - disse ele rapidamente. - Mas tu conheces-me. Detesto depender de quem quer que seja.

De facto ela conhecia-o. O tio Costa. Um homem tranqüilo, de modos suaves. Casado durante mais de trinta anos com a tia Jen, que falecera há vários anos. Um daqueles casamentos raros em que ambos os cônjuges crescem juntos e permanecem felizes e apaixonados. Nada de pisar fora do risco para o tio Costa. Fora o marido perfeito.

- Quando é que soubeste de Gino pela última vez? - perguntou-Lhe Lucky.

- Já há bastante tempo. Porquê? Há algum problema?

- Oh, umas coisas e outras. Nada de especial. Sou capaz de vender a minha parte do Magiriano.

-Nada de especial, diz ela! Isso é especial. Que se passa, Lucky?

- Posso apanhar um avião para ir falar contigo? Preciso de desabafar.

- Quando?

- Daqui a alguns dias.

- Quando quiseres, minha querida. Sabes que para ti estou sempre disponível.

Sabia. O tio Costa estava sempre à sua disposição. Mas... e Gino?

- Voltarei a ligar para ti.

- Não demores muito. -Está bem.

Desligou e pensou que sim, que seria uma bela idéia visitar o tio Costa. Sempre que conversavam, ela conseguia descobrir algo mais do passado colorido de Gino. Costa adorava recordar, do mesmo modo que adorava que o escutassem. Sua mãe, Maria, era sobrinha do tio Costa.

E também tinham corrido boatos de que sua avó, a mãe de Maria, andara envolvida com Gino.

Estremeceu. Costa nunca lhe falaria disso.

Sentindo-se ligeiramente melhor, levantou-se, vestiu-se e aventurou-se a descer até ao piso térreo. O casino era uma colmeia fervilhante devido aos jogadores matutinos que ali acorriam em plena força. Deu de caras com Matt, que lhe pareceu inusitadamente fatigado. Teria de convocar uma reunião com o seu pessoal principal a fim de lhes transmitir o seu afastamento. Fosse como fosse, todos eles consideravam Gino como o verdadeiro patrão. Até ali não permitira que a idéia ocorresse ao seu espírito, mas naquele momento dava-se conta de que era verdade.

"Ficarás entregue a ti mesma, rapariga, pela primeira vez na tua vida", pensou.

Era excitante.

Era muito excitante.

Sorriu. E de repente sentiu-se muito melhor. Talvez acabasse por ir para Atlantic City. Sem Gino. Encontraria outro terreno, novos investidores. Ora - era capaz de tal. Sabia que era capaz - tinha apenas que convencer todos do facto.

 

Lennie dormiu como já não lhe acontecia há muito - um daqueles sonos sem sonhos em que uma pessoa se sente no meio de um casulo formado por nuvens e de tal maneira confortável e em paz que nunca se tem vontade de acordar. Mas fê-lo. E era meio-dia.

Saltou para fora da cama e enfiou-se imediatamente debaixo de um duche quente, onde cantou Staying Alive a plenos pulmões.

Observou as cicatrizes da batalha ao espelho. Éden e as suas unhas letais. As suas costas pareciam um mapa das estradas entrecruzado de finos traços vermelhos.

E que tinha? Possuíra-a de novo. Que importância tinham algumas cicatrizes entre amigos?

Deteve-se a reflectir por um momento. Eles não tinham conversado verdadeiramente, limitaram-se a desfrutar de uma grande sessão de sexo e do corpo um do outro. Ela estava tão faminta dele quanto ele dela. No caminho de regresso, Éden adormecera enrolada contra ele. Levara-a até ao seu carro e sugerira acompanhá-la a casa.

- Não - respondera-lhe ela -, estou à espera de uma visita de manhã cedo.

De modo que ele ficava a vê-la afastar-se aurora dentro, pois eram cinco da manhã quando se separaram.

Agora só lhe restava passar o dia sem ela. Ocorrera-lhe que lhe devia ter perguntado onde era o seu local de trabalho, para se encontrarem para almoçar. Já que pensava no assunto, de ter perguntado muita coisa. Nem sequer sabia onde ela vivia. Apenas tinha o seu número de telefone.

Naquela noite queria acompanhá-la ao Foxie. Sentá-la-ia numa das mesas da frente e deixá-la-ia sentir o feedback que ele recebia do público. Éden sempre lhe criticara o trabalho. Quando o visse a actuar em Los Angeles, perceberia até que ponto se enganara.

Era tão bom terem voltado a unir-se. Claro, tinham as suas divergências, mas quem as não tinha? Ele e Éden formavam uma combinação imbatível.

Uma voz interior troçou, "Quem é que estás a enganar, Lennie Golden? Ela serve-se de ti e depois cospe-te para o lado. Tu e Éden juntos... esquece."

Ele ignorou o alerta subliminar.

Éden mentira. O que fazia freqüentemente. com muita arte. Não esperava nenhuma visita matutina. O primeiro compromisso marcado na sua agenda era um encontro, à uma da tarde, com a decoradora de interiores que devia um favor a Santino Bonnatti.

Levantou-se tarde, deliciou-se com um banho perfumado, vestiu-se lentamente e chegou à casa na Blue Jay Way vinte minutos atrasada para o encontro marcado. A pontualidade não era uma das suas prioridades.

O facto de a decoradora ser mulher contrariava-a. Detestava lidar com mulheres. Estas ou detestavam-na por causa da sua beleza ou adulavam-na por ela ter já sido uma das melhores modelos fotográficos da América antes de desistir em prol da sua carreira de actriz.

Aquela mulher era diferente. Baixa, na casa dos quarenta, possuía uma massa de cabelos frisados cor de bronze, e usava uma saia com uma racha que lhe ia até à virilha. Também era muito profissional, tinha um assistente gay, e trazia consigo uma prancha de desenho e muitos esboços e idéias. Chamava-se Paige Wheeler. Éden ainda sentiu curiosidade em saber que espécie de favor ela deveria a Santino mas não esteve para perguntar.

- Quero muito branco - disse em tom vago. - Sofás e tapetes brancos e tudo moderno e de boa qualidade, com muitos espelhos. Também gosto de cromados. Quero que a casa fique deslumbrante.

Paige anuiu, tomou notas, apresentou-lhe as amostras de materiais que trazia e fez algumas sugestões.

Éden concordou com a maior parte das coisas. Estava tão ansiosa por sair do seu apartamento como Santino em instalá-la naquela casa. Desde que o lugar ficasse sensacional no People e no Us, que lhe importava o resto? De qualquer maneira só lhe serviria de lar durante um período curto porque quando atingisse o estrelato, partiria para outra situação.

Não tencionava ficar a dormir com Santino Bonnatti durante o resto da vida - apenas o tempo necessário para atingir os seus objectivos.

Durante um momento recordou Lennie e o amor que tinham feito. Oh, Lennie... ele não havia perdido, sem dúvida, o seu jeito. O tipo era formidável na cama. Verdadeiramente bom. E ninguém como ela para o saber. Muitos tinham sido os homens que, depois de subirem ao paraíso, se tinham retirado sem deixar credenciais.

Era uma pena que fosse um perdedor. Sempre fora, sempre seria. A trabalhar numa espelunca qualquer da Hollywood Boulevard. Então ele não sabia que a Hollywood Boulevard ficava fora da cidade, caramba? Na Cidade de Nenhures. Tal como a porcaria de espectáculos que ele dera em Nova Iorque.

Ninguém poderia dizer que ela não dera uma oportunidade a Lennie. Três anos de oportunidade. Mas no campo do sexo ele era ainda especial, e depois das atenções simiescas de Santino, ela necessitava de um alívio. Aí estava. Sentía-se contente por ele ter telefonado. Contente por tê-lo visto. Agora só esperava que ele se afastasse discretamente.

- O papel de parede em tonalidade de pêssego ficará muitíssimo bem no quarto de dormir - disse Paige com vivacidade. - Talvez o possamos incorporar na concepção geral.

- Hmmm... -concordou Éden. -E gostaria de uma coberta em pele para a cama. Algo ousado e sexy... algo... digno de uma estrela de cinema.

- Estou a ver exactamente o que pretende - anuiu Paige, trocando um olhar divertido com o assistente.

- Óptimo - disse Éden. - Terminámos?

Tinha uma marcação na manicure e já estava vinte minutos atrasada.

Não havia maneira de se ver livre de Matt Traynor. Ali estava ele de novo, a rondar a sua mesa, a perguntar-lhe como ela se sentia, mais uma vez a convidá-la para sair. Jess não era capaz de suportá-lo, e no entanto... ao menos ele encontrava-se ali e parecia preocupar-se com ela no seu jeito peculiar.

- Imagino que tenha feito figura de idiota a noite passada - murmurou Jess.

Ela não descobrira! Matt sentiu-se invadir por uma onda de alívio. Dispunha de mais uma oportunidade.

- De maneira nenhuma. Falaste-me da tua mãe. Embriagares-te fez-te bem.

- Qualquer coisa me faria bem ultimamente.

- Repitamos esta noite. - O quê, embriagar-nos? -Só conversar.

Jess decidira dizer a Wayland para partir. Por que não deixava passar mais uma noite para ver se se sentia mais capaz de resolver o problema? Talvez devesse pedir conselho a Matt. Havia sempre aspectos legais ligados a situações daquele tipo. Livrar-se de Wayland talvez não fosse tão simples como imaginara.

- Está bem - acedeu, surpreendendo ambos. - Desde que não seja nenhum jantar a dois na "Casa de Traynor".

Às três da tarde, Lennie encontrava-se principescamente instalado à beira da piscina do Chateau Marmont, a bronzear-se. Bem, não era exactamente o mesmo que estar principescamente instalado ao estilo do Hotel Beverly Hills- ali era mais o gênero do telefone instalado no recinto da piscina tocar e uma loira de rabo-de-cavalo gritar:

- Há aqui alguém chamado Golden?

Pensou tratar-se de Éden e levantou-se de um salto.

Não era Éden. Era um angariador do The Merv Griffin Show, que lhe disse que um dos produtores o vira no Foxie na noite anterior, que tinham uma aberta daí a três dias e que a punham à sua disposição se ele quisesse.

Se a queria. Entrava Barbara Walters em "Special"? Clint Eastwood fazia de "Dirty Harry"? Se ele a queria? Ha!

- Aceito - respondeu. - Creio que se encaixa no meu programa. E deu-lhe o número de telefone do seu agente.

Éden iria adorar aquele acontecimento. Iria com ele à gravação, segurar-lhe-ia na mão, talvez se pusesse de joelhos no camarim e lhe desse um pouco dos seus desejos de boa-sorte especiais. Finalmente! Estava lançado.

Começou a reflectir freneticamente no que poderia, ou não, utilizar. Actuar na televisão era diferente de o fazer em clubes nocturnos. A televisão exigia um grande visual, materiais decentes, nada de linguagem porca e números novos e originais. Ele escrevia o seu próprio material ninguém se metia no que Lennie Golden queria dizer.

Ficou sem saber se deveria continuar a bronzear-se ou voltar a correr para o seu quarto. Éden dissera que o achava pálido.

"Pareces um nova-iorquino", observara com a sua voz rouca.

E que tinha de mal parecer um nova-iorquino?

Que se lixasse. Voltou apressadamente para dentro. Havia trabalho a fazer.

- Saíste ontem à noite - disse Santino suavemente.

- Não saí - mentiu Éden indignadamente. Não fazia tenções de dar contas da sua vida a Santino. - Fiquei a ver televisão a noite toda e foi extremamente aborrecido.

A voz dele fazia lembrar o sibilar de uma cobra.

-Onde foste?

- A parte nenhuma. Já te disse. Eu...

A bofetada dele projectou-lhe a cabeça para trás e deixou-lhe a marca irada da mão marcada a vermelho na face.

Éden ficou em estado de choque, aparvalhada.

- Como te atreves a... -principiou. Uma segunda bofetada calou-a.

- Nunca me mintas, Éden - disse Santino brandamente. -Nunca. Desta vez passa, mas escuta o que te digo... nunca mais voltes a fazê-lo.

Santino saiu do apartamento a passadas largas e a falar sozinho por entre dentes.

Blackie perguntou, ao descerem no elevador:

- Está tudo bem, patrão?

Santino não se deu ao trabalho de responder ao seu guarda-costas. Falava quando queria e só nessa altura.

Flectiu os nós dos dedos e examinou as pontas bicudas dos sapatos italianos feitos à mão.

Mulheres. Havia que lhes mostrar logo de princípio quem é que mandava. O mesmo se aplicava às pessoas que trabalhavam para si.

Era a demonstrar força, que não havia revolução.

Matt levou Jess a um restaurante italiano. Esta descobriu que estava esfomeada e deu conta de uma pasta salad, uma costeleta de vitela acompanhada por spaghetti e amêijoas, e uma bela fatia de tarte de framboesa. O seu apetite fora sempre afectado pela tensão e pelas preocupações; nessas alturas entregava-se a lautos banquetes.

Passou um guardanapo pelos lábios, fitou Matt penetrantemente, quase o fazendo engasgar-se com a sua salada e disse:

- Vá, diz.

- Pensei que eras vegetariana - disse ele desajeitadamente, esforçando-se por encontrar alguma coisa para dizer.

- De vez em quando - retorquiu Jess com ar distraído, pegando no copo de vinho. Estava vazio.

Matt mandou vir nova garrafa, perguntando a si mesmo se aquela noite iria ser uma repetição da anterior e lamentando o facto de não estarem a jantar no Magiriano, onde sempre poderia assinar um cheque. Mas quem imaginava que a vegetariana e abstêmia mudaria de gostos com tanta determinação?

-Anda- voltou Jess a insistir-, fala-me do que se passou com Lennie. É tempo de te abrires. Se não foi por tua vontade que o despediste, então foi por vontade de quem?

Matt achou que não havia mal nenhum em lhe dizer a verdade. E também não havia motivo para que ele arcasse com as culpas. Devia-lhe

algo - dar-lhe-ia a informação. Talvez ela ficasse suficientemente grata para consumarem devidamente a relação.

- Foi Lucky Santangelo que exigiu que eu corresse com ele - disse Matt suavemente. - Não me perguntes porquê pois não te sei responder. Fez-me sair da cama às duas da manhã para o despedir.

- Lucky Santangelo - repetiu Jess lentamente. - Por que havia ela de despedir Lennie? - Franziu a testa. - Não a imaginava envolvida sequer em semelhantes assuntos. Não entendo.

- Eu também não. No entanto digo-te mais, posso ter toda a autoridade do mundo mas, querida, se algum dos Santangelos quer alguma coisa, eu salto, tal como qualquer outra pessoa.

Brincou com uma das suas correntes de ouro. Por que estaria a fazer-Lhe semelhante confidência? Devia engrandecer a sua imagem, não diminuí-la.

A mente de Jess trabalhava rapidamente. Lucky Santangelo. A Patroa, como era conhecida. Que razão possível tê-la-ia levado a pôr Lennie na rua?

- Agora já sabes a história - continuou Matt. - E não me parece que tenha de te dizer que é estritamente confidencial.

- Que pensas que vou fazer... mandar que saia em anúncio? Matt encolheu os ombros.

- Só não quero que se saiba que partiu de mim, nada mais.

Jess aquiesceu. Por que não teria Lennie telefonado? Sentia realmente a falta dele. E precisava dele. Além de que agora tinha algo para lhe contar.

- Matt - disse com voz lenta -, tens algum advogado? Creio que preciso de um conselho.

- Que tipo de conselho? - perguntou calmamente.

- Dos que dizem respeito a divórcios.

Começou a falar-lhe de Wayland e, uma vez lançada, não conseguiu parar - mencionou a droga, os amigos bizarros e do estado de sonolência permanente. Tudo lhe saiu em catadupa.

- Eu é que pago as contas - disse Jess. - Ele não contribuiu com um dólar desde que casámos. Se lhe disser que se vá embora, achas que irá?

Matt escutou atentamente. E não gostou do que ouviu. Jess estava presa a um drogado, o que não era nunca uma situação invejável pois eles jamais se iam embora de bom-grado. Lembrava-se do caso de uma sua amiga, cantora, que vivia com um consumidor de cocaína. Quando lhe dissera que partisse, ele ferira-a na garganta com uma navalha. Ela sobrevivera mas a voz não.

- Ele é violento? - perguntou Matt, pondo em dúvida a própria sanidade mental por se envolver em semelhante assunto.

- Não. Nada violento. De facto, é bastante brando, especialmente com o bebê - suspirou. - Não vai ser fácil dizer-lhe que parta. É como uma criança grande. De certa maneira até tenho pena dele.

- Tens de falar com um advogado - declarou Matt em tom preocupado. - Marcar-te-ei uma entrevista. E se te arranjasse já uma para amanhã de manhã com o meu? Telefona-me às dez para eu te dizer a que horas é.

Jess apertou-lhe a mão com gratidão.

- Obrigada - agradeceu. - És realmente um homem muito bom.

"Apesar do teu cabelo idiota, das tuas correntes de ouro e do apartamento de mau gosto", apeteceu-lhe acrescentar, abstendo-se, porém. Começava a mudar lentamente de opinião acerca de Matt Traynor. Não era tão má pessoa como parecia.

A rapariga do serviço de atendimento de chamadas começava a ficar entediada.

-Sim, Mister Golden. Transmiti os seus quatro recados. E não, Mister Golden, não é por culpa minha que Miss Antônio não respondeu às suas chamadas.

- Agora encontro-me noutro número - disse Lennie enervado, dando-lhe o telefone do Foxie. - Portanto esta é a mensagem número cinco, e agradeço que lhe diga que é urgente.

- Sem dúvida que o farei, Mister Golden.

- Obrigado.

- De nada.

Lennie desligou, detestando cada vez mais a telefonista.

Por que andaria Éden a brincar com ele? Por que agiria como uma cabra antes de voltarem sequer a engrenar um com o outro? Raios a partissem! Por que se metia ele naquilo?

Subiu ao palco e, pela primeira vez, saiu-se pessimamente.

Foxie concedeu-lhe o benefício de uma torrente de insultos, Isaac estava presente nessa noite e declarou que fora uma sorte o angariador do Griffin Show não estar na sala naquela noite.

Rainbow sorriu.

- Estás com o período, querido?

Voltou a tentar o número de telefone de Éden vezes sem conta. Ia sempre parar ao serviço de atendimento. Recusavam-se a dar-lhe o endereço. Joey Firello, que talvez o conhecesse, estava fora da cidade. Suna e Shirlee passavam aquela semana fora. No dia seguinte trataria de o descobrir. E também descobriria que espécie de brincadeira andava ela a fazer com ele.

Recusava-se a dar cabo da sua vida por causa, mais uma vez, de Éden Antônio.

Jess telefonou a Matt exactamente às dez da manhã. Este cumprira a promessa feita e combinara um encontro entre ela e o seu advogado para o meio-dia e meia. Jess mostrou-se adequadamente agradecida e dessa vez não tentou acordar Wayland que, esparramado em cima do sofá em mau estado da sala de estar, dormia profundamente.

Deu a Simon um almoço adiantado e deitou-o para que dormisse uma sesta. Depois esgueirou-se silenciosamente para fora de casa.

Wayland acordou um quarto de hora depois. Estava com os sentidos embotados, ainda efeito da "pedrada". Procurou por Jess e ao descobrir que esta não aparecia, percebeu que fora mais cedo para o trabalho e não lhe deixara dinheiro nenhum.

Ele precisava de dinheiro. Edge ia passar lá por casa mais tarde para lhe deixar uma dose de bom material, e ele prometera dar-lhe cento e cinqüenta palhaços. Jess ia aos arames quando lhe pedia dinheiro. Se ao menos conseguisse levá-la a alinhar com ele, fazendo que lhe vendesse algum do material no casino, fariam uma bela maquia. Havia de a convencer a meter-se no negócio com ele. Tinha de...

Esquecendo-se do que estava a pensar, abriu a braguilha das calças e urinou de encontro à parede da sala de estar. Depois reuniu alguns comprimidos sortidos, os últimos que lhe restavam da sua provisão, e voltou a lembrar-se de que precisava de dinheiro para se reabastecer. Jess não andava a tratá-lo decentemente. Não se devia ter escapulido para o trabalho sem lhe deixar dinheiro.

"Às vezes escondia-o."

Iniciou uma busca desvairada, atirando coisas ao chão, entornando café, açúcar e farinha para fora dos respectivos recipientes, na cozinha.

"Às vezes ela..."

Não conseguiu formular o pensamento. Mas sabia que Edge estava para chegar e ele precisava de se reabastecer.

No quarto, o bebê começou a chorar.

"Às vezes ela escondia-o..."

A idéia voltara-lhe.

Uma vez ela escondera quinhentos dólares debaixo do colchão do bebê.

Entrou no quarto a cambalear. Na noite anterior ele entrara em órbita com alguns amigos. Tinham ido ali para casa. Que mais poderia fazer? Não podia ir para lado nenhum quando estava a tomar conta do bebê.

Tirou a criança de dentro do berço e pousou-a cuidadosamente no chão. Simon começou imediatamente a gatinhar em direcção à porta que, aberta, deitava para o pátio, mas Wayland estava demasiado fora de si para reparar.

Começou a puxar freneticamente pelos lençóis e cobertores. Depois levantou o pequeno colchão e atirou-o para o meio do quarto.

Nada. Nem um cêntimo.

Nem um dólar. Absolutamente nada.

A fadiga venceu-o. Caiu sobre a cama e resvalou imediatamente para mais um sono profundo.

 

O relógio do Snoopy não trouxe paz. Brigette gritou que nem uma possessa quando descobriu que Olympia não voltava a Paris com ela. Era quase como se a criança sentisse uma retracção da mãe e quisesse demonstrar a sua revolta.

- Quero a minha mama! - gritou, estrebuchando até se libertar da preceptora Mabel, que tentava segurá-la como um torno para melhor a arrastar para a limusina.

- A mama irá a seguir a ti - disse Olympia com um suspiro, detestando a cena. - Daqui a um dia ou dois.

- Não, não irás! - berrou Brigette. - Não irás! Não irás!

- Irei - insistiu Olympia.

- Por amor de Deus - exclamou Dimitri ao deparar com a cena e mostrando-se furibundo. - Por que tomaste a decisão de não vir, Olympia? É irresponsável da tua parte estares a comunicá-lo à criança agora.

Desviou o olhar de Olympia para Brigette, que se calou imediatamente.

- Partamos imediatamente - disse. - A tua mãe irá ter connosco daqui a alguns dias. Entretanto, ficarás comigo.

O rosto de Brigette animou-se. Desde que não a deixassem sozinha com a preceptora Mabel!

- Obrigada, pai - agradeceu Olympia com um suspiro, dando um toque nos cabelos louros.

Dimitri franziu o sobrolho.

- Não mais de uma semana - advertiu. - Tenho reuniões em Londres e em Roma e não tenciono levar Brigette comigo.

- Claro que não, pai.

Trocaram beijos de obrigação até que, finalmente, Dimitri, Brigette e a preceptora Mabel se puseram a caminho.

Olympia foi logo tomar um banho de imersão, mandou vir duas garrafas de champanhe Lotas Roederer Cristal e uma generosa porção de caviar, e a seguir convocou Vitos para passar a noite consigo.

Este chegou com notícias de uma festa que ia ser dada por um grupo rock inglês ultrapassado, chamado Layabouts, contemporâneos dos Beatles e dos Stones.

Olympia decidiu que queria conhecê-los já que o vocalista sempre a intrigara, embora nunca o tivesse conhecido pessoalmente. O seu nome era Flash e fazia lembrar um refugiado de um acampamento cigano. Caracóis compridos e escuros, pele marcada pelas bexigas, franzino, lábios cruéis, dentes em processo de deterioração, olhos amarelados perigosos e um corpo fibroso.

Vitos fez faiscar o seu sorriso perfeito e vazio.

- Iremos - declarou, depois de o informarem de que seria exactamente o que fariam.

A limusina transportou-os até um enorme sótão na Village, onde dois guardas de segurança de aspecto obtuso os revistaram. Ali estava algo que Olympia aprendera a adorar em Nova Iorque - apareciam sempre situações inesperadas.

Uma vez no interior, Olympia sorriu durante todo o caminho que teve de abrir por entre a multidão de freaks agitados, ajudada por Vitos, até chegarem ao santuário interior, onde pousou os olhos em Flash pela primeira vez.

Há anos que o via na televisão e nas revistas. Era uma figura de culto, ao mesmo nível de Andy Warhol e Mick Jagger. Também era um consumidor de heroína reformado, um fornicador dedicado e, possivelmente, o melhor guitarrista de rock do mundo. Travar conhecimento com uma herdeira grega de estaleiros razoavelmente bonita e rechonchuda nada lhe fez pela líbido. Não tinha idéia de quem ela era.

- Olá, querida - disse. - Queres inalar? Olympia apaixonou-se instantaneamente. Nunca ninguém a acusara de ter bom gosto.

Agora que tomara uma decisão, Lucky não sentia desejo de passar mais tempo que o necessário com Gino. Não queria arriscar-se a que o pai tentasse fazê-la mudar de idéias porque sabia que tomava a decisão acertada.

Ele voltara para Las Vegas sozinho. De Susan, nem sinais. A Viúva Perfeita permanecera em Los Angeles, onde tratava dos preparativos nupciais.

- Vens ao casamento, não vens? - perguntou Gino.

Lucky não tinha vontade de ir àquele casamento. Por que havia de estar presente e vê-lo cometer um acto insano?

-Bem... -principiou, procurando uma desculpa.

- Quero-te lá - declarou Gino. - É uma ordem, não um pedido.

- com certeza - concordou Lucky relutantemente, admirada por ainda saltar ao mínimo pedido do pai.

Não havia necessidade de ficar por ali enquanto a papelada necessária seguia os seus trâmites normais, de modo que planeava partir daí a uma semana. Primeiro queria ir visitar Costa a Miami, depois seguir para Nova Iorque, cidade que, decidira, lhe serviria de base. Deixar o negócio do hotel de Las Vegas iria ser obra, não valia a pena iludir-se.

E deixar Gino...

Uma noite jantaram juntos. A conversa foi formal. As coisas tinham mudado. Lucky comunicou-lhe a data de partida e Gino anuiu resignadamente.

"Diz-me que está tudo acabado entre ti e Susan que eu não me mexerei daqui", pensou.

Gino não disse uma palavra.

Matt soube da tragédia pelos primeiros noticiários da manhã. Mais um afogamento doméstico - dessa vez fora um garotinho de onze meses que gatinhara para o pátio por uma porta aberta e caíra na piscina da família.

A locutora que transmitira a notícia, uma mulher que parecia saída de um concurso Miss América, assumira uma expressão grave e informara os telespectadores de que, apesar de não se suspeitar de crime os pais, Jess e Wayland Dolby, tinham sido conduzidos à esquadra da polícia para mais informações.

Matt ficou siderado por um momento. "Era Jess. Era o filho dela. Que diabo acontecera? "

Galvanizado para a acção, agarrara no seu casaco e saíra porta fora do escritório.

Susan e Paige encontraram-se numa casa, em Brentwood, que Paige andava a redecorar. O proprietário, uma superestrela masculina que aparecera no filme de sucesso do marido de Paige, estava no Havai, juntamente com outra superestrela, também masculina.

Susan chegara à casa primeiro e aguardara impacientemente em frente desta no seu Rolls amarelo. Paige fizera-a esperar apenas alguns minutos antes de chegar no seu Porsche dourado metálico. Saiu do carro e precipitou-se para Susan que agora a esperava ao lado do seu Rolls, permitindo que a afeição que sentia por Paige a envolvesse. As duas mulheres abraçaram-se. Formavam um par incongruente - Susan muito elegantemente arranjada com um fato de seda macia, o cabelo louro apanhado no alto, e Paige, com a sua massa de cabelo frizado e a saia aberta até ao limite.

- Desculpa o atraso - pediu Paige, libertando um misto de perfume forte e odores corporais almiscarados. - Acabei de receber mais uma casa para decorar, um trabalho urgente. Uma estrelinha qualquer que um dos investidores de Ryder está a instalar. Ela quer o costume, brancos Monroe, espelhos e cobertas de cama em pele tudo o que há de melhor para se foder!

Susan sorriu. Se Gino tivesse feito uma observação tão ordinária, tê-lo-ia repreendido com um olhar.

Entraram na casa. Estava quase completa, uma fantasia masculina em madeira e cabedal.

- Qual é a tua opinião? - perguntou Paige, levando-a de divisão em divisão.

- Muito impressionante - observou Susan entusiasmada, embora estivesse um tudo nada visto.

-Ted vai adorar - disse Paige. - E o namorado também.

Chegaram ao quarto e detiveram-se em frente da cama 3e quatro colunas, em madeira de carvalho escura.

- Tamanho gigante - disse Paige-, para condizer com o dono.

- Como é que sabes? - perguntou Susan rapidamente. - Desconfiava de que Paige de vez em quando dormia com os clientes, embora nunca tivesse exprimido semelhante pensamento.

- Porque toda a gente sabe - replicou Paige. - Da mesma maneira que toda a gente sabia que Tiny era senhor de um dos maiores pénis de Hollywood.

Susan compôs uma expressão aborrecida. Às vezes Paige ia longe demais. Susan desejaria que ela não mencionasse Tiny. Agora que o marido desaparecera, preferia esquecê-lo a ele e ao seu órgão detestável o qual, de facto, fora um dos apêndices mais espantosos que vira. Fitou Paige significativamente, fazendo deslizar o casaco do fato de seda dos ombros.

- Sentiste a minha falta? - perguntou. - Porque eu senti a tua. Paige sorriu.

- Mas evidentemente - respondeu, saindo de dentro da saia. Susan retirou apressadamente o resto das roupas e aguardou o toque especial de Paige. O sexo com uma mulher era tão natural. Não havia nenhuma da violência subjacente que parecia estar presente quando se dormia com um homem. Susan não se sentia ameaçada ou violada. Era tão delicioso entregar-se completamente. Deitar-se de costas e sentir-se tão completamente à-vontade.

O seu orgasmo, quando chegou, fê-la vibrar de verdade. Quando estava com um homem, simulava-o sempre. Daquela maneira era, de certo modo, mais fácil.

Deixou-se ficar, nua e saciada, no meio da enorme cama de madeira de carvalho e começou a falar de Gino.

Paige escutou atentamente o desenrolar da história.

Susan concluiu com um suspiro. - vou casar com ele - disse -, receio que seja a única solução. Paige anuiu. Francamente, tinha a impressão de que Gino Santangelo parecia dinamite. O problema era que Susan não sabia reconhecer uma coisa boa quando a via. Analisando bem a questão, uma foda era uma foda - independentemente do sexo com quem era praticada.

- Quero que saibas - continuou Susan-, que o facto não fará nenhuma diferença à nossa relação.

Paige levantou-se da cama.

- O casamento assenta-te bem - disse. -Precisas de ter um homem por perto, quanto mais não seja para te pagar as contas.

Susan espreguiçou-se languidamente.

- É de ti, minha adorada, que preciso.

Num gesto de abandono, abriu as pernas. Nunca se cansava de sexo com Paige. com Gino era sempre demasiado.

- Tenho de me apressar - disse Paige, começando a vestir-se. - Esta noite recebo doze convidados para jantar. Vamos visionar o novo filme de Bronson. Ter-te-ia dito para ires mas já sei que detestas andar sozinha. Não importa, em breve farás novamente parte de um casal.

- É verdade - disse Susan vagamente irritada.

Preparara-se para um pouco mais de amor e agora Paige saía-se com todas aquelas pressas! Era realmente uma pena, considerando que não se viam há meses.

- Poderemos encontrar-nos em breve? - perguntou.

- Poderemos - disse Paige com ar pensativo, aplicando bâton. - Mas não sei se estou preparada para partilhar a cama com o meu cliente que é estrela de cinema. Volta amanhã. O que me fez lembrar que preciso de flores frescas, mais almofadões e... -Correu para a bolsa de mão, de onde retirou uma agenda Gucci com caneta. - Francamente não sei onde hei-de arranjar tempo para tanta coisa. Sou como um prestidigitador, sempre com as bolas no ar. Ryder cairia aos bocados se não fosse eu, e os monstrinhos adolescentes são tão exigentes. Bradford foi expulso do colégio a semana passada por passar erva. E Ricky espatifou o seu Corvette novinho em folha.

Mais tarde, conduzindo de regresso a casa, Susan chegou à conclusão de que os seus dois rebentos pedantes não eram assim tão maus. E Gino... bem, seria agradável voltar a ter um homem a seu lado. Houvera tempos em que Paige não se teria atrevido a dar uma festa sem ela. Agora era "Sei que detestas vir sozinha" - e pronto.

Ao chegar a casa, telefonou para Gino. Este pareceu-lhe triste. Ela animou-o com palavras meigas e decidiu concretizar o casamento o mais depressa possível.

Gino aprendera, ao longo dos anos, a apreciar uma relação que lhe trouxesse algo mais do que simples sexo. Qualquer idiota podia ter sexo; desenvolver uma situação de proximidade entre duas pessoas é que era realmente importante.

Ele casara duas vezes na sua vida. Da primeira vez, com Cindy. Não se podia confiar nesta. Da segunda, com Maria. O único amor verdadeiro da sua vida.

Nos intervalos tinham aparecido algumas mulheres, que lhe deixaram a sua marca.

Clementine Duke - mulher de um senador. Uma senhora fria e de classe que entrara na sua vida tinha ele vinte e dois anos e o orientara para as coisas boas da vida.

Bee, que o acolhera quando ele necessitara de ajuda, esperando por ele enquanto passava sete anos na prisão.

Marabelle Blue, símbolo sexual supremo. Acabara por demonstrar ser uma mulher neurótica e confusa que tentara suicidar-se quando ele a rejeitara.

E a última ligação permanente fora com uma viúva atraente, uma mulher não diferente de Susan no que dizia respeito a aparência. Mudara-se com ele para Israel e partilhara do seu exílio. Quando regressara à América, deixara-a ficar.

Agora era Susan.

Estaria a cometer um erro? Tinha sempre aquele momento de dúvida.

Achava que não.

Acendeu um charuto Havana comprido e fino e reflectiu longamente sobre o futuro.

O detective ostentava algumas madeixas de cabelo gorduroso cuidadosamente penteadas.

Jess não conseguia deixar de o olhar fixamente, apesar de saber instintivamente que o facto lhe desagradava. Infantilmente, pensou que se fixasse o olhar durante tempo suficiente, talvez todo aquele pesadelo inacreditável se desvanecesse.

- Por que o deixou com o seu marido se sabia que ele andava pirado da cabeça? - perguntou o detective. - Nunca ouviu falar de negligência com crianças? Se quer saber a minha opinião, é como se você mesma tivesse atirado o miúdo para a piscina. Quem sabe se o fez? Já nada me surpreende neste mundo lixado.

As palavras cruéis não a atingiam. Jess recusou-se a ouvir o que ele dizia. Sabia que não poderiam retê-los. Tinham de deixá-la partir. Ela não fizera nada...

Excepto unhar, arranhar, dar pontapés e gritar, e se tivesse uma arma nas mãos, teria morto o filho da puta.

Wayland.

A dormir.

Como se nada mais lhe importasse no mundo.

E o seu bebê...

Simon.

A flutuar...

Como um boneco...

A constatação do horror. Aquilo não estava a acontecer, não podia estar a acontecer.

O ar a faltar-lhe. Os reflexos a diminuírem.

Começara a gritar. E depois tirara o bebê da piscina, agarrando-o pelo cabelo. O filho de um vizinho aparecera e inclinara-se sobre a forma tumefacta e sem vida.

A certa altura Wayland saíra de casa a cambalear, de olhos de expressão vazia e de tronco nu.

- Que se passa? - murmurou.

Jess atirara-se a ele, socando-lhe o peito com os punhos, arranhando-Lhe o rosto odioso com as unhas, até os seus gritos atraírem mais vizinhos e, por fim a polícia.

A partir daí, tudo parecera ficar mergulhado numa névoa indistinta. Uma névoa de ódio, confusão e desespero. Naquele momento aguardava o despertar daquele pesadelo horrendo, porque tinha a certeza de que nada daquilo podia ser real.

E no entanto... ela tivera o corpo frio e molhado de Simon nos braços, do seu único filho, e soubera, sem a menor dúvida, que a vida se esvaíra dele.

Era óbvio que Éden não tinha intenção de responder às suas chamadas. Lennie não conseguia acreditar que ela pudesse voltar casualmente à sua vida, enchê-lo de ilusões e depois esperar que ele desaparecesse como se nada se tivesse passado.

- Miss Antônio recebeu todas as suas mensagens - dissera-lhe a rapariga do serviço de atendimento telefônico quando ele lhe ligara ao meio-dia. - E entrará em contacto consigo assim que tiver possibilidade.

"Portanto vai-te foder", era o que o recado deixava transparecer. "Vai-te foder e não voltes a telefonar."

Ele estava furioso. Ela desejara-o com a mesma força com que ele a desejara. Raios. Que porcaria era aquela?

Voltou a pegar no telefone e ligou para o serviço de atendimento de Joey Firello. Ninguém pegaria no próprio telefone na Califórnia? - Mister Firello encontra-se fora da cidade? Transmitir-lhe-ei o seu recado.

-Preciso de falar com ele agora - disse Lennie rapidamente. -Não em nenhum número para onde eu lhe possa ligar? - Dar-lhe-ei o seu recado - replicou a telefonista, ignorando o pedido dele.

Maldita zombie!

Conseguiu, a custo, localizar Susan e Shirlee em Palm Springs. Nenhuma delas conseguiu recordar-se da morada de Éden, embora lhe assegurassem que era perto da casa onde viviam. -Grande ajuda - troçou Lennie. - Não vais vê-la, pois não? - perguntou Suna. -Vocês os dois juntos são veneno - acrescentou Shirlee, numa extensão do telefone. - Quem é o agente dela? - perguntou rapidamente.

Ele não telefonara a pedir-lhes conselho. - Ninguém importante - disseram em uníssono. -Quero um nome, não uma classificação.

Forneceram-lhe um nome. Lennie telefonou e foi informado, por uma secretária, de que nem pensar em lhe desvendarem a morada de uma cliente.

- É urgente - declarou secamente.

- Deixe recado - replicou a mulher. Cabra insensível.

Largou o telefone. Estava de facto a ser uma realidade. Éden voltara à sua vida por uma noite e ameaçava enlouquecê-lo.

Sabia que, se fosse esperto, deitaria tudo para trás das costas. Afastá-la-ia dos pensamentos, da mesma maneira como ela provavelmente fizera pelo seu lado.

Mas quem é que era esperto? Quando se tratava de Éden, ele era o nabo mais burro da cidade.

A marca da mão de Santino queimava-lhe a pele pálida da face. Éden olhou-se ao espelho, os olhos ensombrados de fúria. Nunca ninguém lhe batera anteriormente. Nunca ninguém se atrevera.

Filho da mãe!

Filho da mãe peludo!

Fazia lembrar um macaco careca. Ela calculara que Santino Bonnatti dificilmente poderia ser considerado um príncipe encantado, mas nunca esperara semelhante ataque vicioso.

Mas, fosse como fosse, como é que ele soubera da sua saída? Teria alguém a vigiá-la?

Decidiu largá-lo.

A decisão durou cinco minutos. Era tudo uma questão de oportunidade e agora que dispunha de uma casa nova e da possibilidade de ele investir num filme, não era a altura indicada para dizer adeus.

Aproximou-se mais do espelho e examinou o rosto. Depois levou a mão às marcas deixadas pelos ciúmes de Santino.

Foi à cozinha, colocou gelo dentro de uma toalha e manteve esta de encontro à face.

O telefone tocou três vezes e a seguir o serviço de atendimento recolheu a chamada. Não sentia vontade de falar com ninguém. Lennie Golden deixara recados sem conta. Provavelmente era outra vez ele.

Lennie que se lixasse. Ele era a causa de todos os seus problemas.

E Santino Bonnatti que se lixasse!

Filho da mãe!

Não escaparia incólume depois de semelhante comportamento. Pagaria por ele.

Em determinada altura.

Quando fosse a ocasião indicada.

Quando ela estivesse pronta.

O uísque amenizou a rejeição - meia garrafa - e quando Lennie subiu ao palco, no Foxie, ia beligerante e malévolo, com uma ponta de crueldade no seu humor.

Rainbow estava ao lado do palco quando ele terminou o seu número. Indicou o telefone, que estava ao canto, com a cabeça.

- Alguém telefonou-te de Las Vegas. Disse-lhes para voltarem a ligar dez minutos mais tarde.

-Quem era? - perguntou Lennie mal-humorado.

- Tenho ar de secretária?

- Tens ar de um belo pedaço de traseiro.

E ao dizer isto, fez menção de se aproximar dela.

- Calma aí, Lennie, acaba com isso - disse-lhe Rainbow, dando-lhe um empurrão, contrariada. - Se Foxie estivesse aqui descascava-te os tomates.

-Ao menos ainda os tenho. Rainbow riu sonoramente.

- Filho, nunca os terás como Foxie!

O telefone de moedas tocou, salvando-o de ter de arranjar uma resposta adequada.

Tinha curiosidade em saber quem poderia estar a ligar-lhe de Las Vegas e esperou que fosse Jess. Precisava de falar. Tinha de afastar Éden da cabeça de uma vez por todas.

 

Matt disse:

De facto gostaria que viesses ao funeral esta tarde. Jess está completamente desfeita. A tua presença significará muito para ela. - Mal conheço a rapariga - replicou Lucky.

- Trabalha para nós há mais de dois anos. Não lhe podes fazer esta amabilidade? Quero que saiba que nos importamos com ela.

Lucky reflectíu no envolvimento de Matt. O sofisticado e sabido Matt. IDesde quando é que teria ficado com o coração mole? - Está bem - acedeu. - Irei.

E depois acrescentou, num ímpeto súbito de simpatia por Jess: -Posso fazer alguma coisa? -Limita-te a aparecer lá... é o suficiente. Lucky anuiu.

- Talvez possamos tomar providências para que goze de três meses de licença com vencimento. Manda-a para qualquer lado afastado, onde possa espairecer. Vai levar tempo...

Por momentos recordou-se de Marco. O seu sorriso, a maneira como o cabelo preto se lhe encaracolava por cima do colarinho, na nuca, e a forma como costumava olhá-la.

Oh, Deus. Ainda sonhava com ele nas noites em que se sentia tão só que apenas ele poderia fazer-lhe companhia.

- Eu sei - disse Matt. - Ia sugerir-lhe ir comigo até à Europa. Fez uma pausa, esperançado. - Podias dispensar-me por algumas semanas, não podias?

Lucky ficou sem saber se devia aproveitar a ocasião para lhe dizer da sua retirada. Achou que não devia.

- Até que ponto estás envolvido com ela? - perguntou. Matt encolheu os ombros.

- Eu estou envolvido. Ela não.

- Bem... espero que tenhas sorte.

Matt sentia vontade de desabafar. Disse rapidamente:

- Sei que ela tem menos vinte anos que eu e que nada possuímos em comum. Nem sequer é o meu tipo, mas Jesus, quando olho para ela, fico perdido. Podia tornar-me um homem muito feliz.

Lucky levantou-se. Não se sentia muito bem.

- Por que não lho dizes a ela, não a mim?

Dirigiu-se para a porta, não querendo parecer indelicada mas também não sentindo vontade de ouvir a confissão de um chauvinista convicto. Quase foi obrigada a pô-lo fora.

Depois de Matt se retirar, mandou vir chá e torradas do serviço de quartos e sentou-se à secretária a ver uns papeis.

Sentia-se horrivelmente enjoada. Eram só nervos. Uma vez lançada, as coisas seriam diferentes.

Matt regressou apressadamente ao seu apartamento, onde a criada ficara a vigiar Jess. Esta estava sentada no sofá a olhar em frente con expressão vazia.

- Adivinha que mais? - anunciou Matt. - Lucky Santangelo quer assistir ao funeral. É realmente extraordinário. Os teus anos de trabalho aqui devem realmente ter causado uma boa impressão. - Foi até ao bar e deitou uma porção generosa de uísque num copo. - Vai aparecer muita gente. A maioria são croupiers, algumas coristas, umas quantas empregadas. Oh, e Manny, conheces, o teu encarregado de jogo preferido. Esse vem de certeza.

Entregou-lhe o copo.

- Não é nenhuma festa - observou Jess num sussurro. -Bebe tudo, ficarás melhor.

- Não é nenhuma festa - repetiu Jess tristemente. Matt pegou-lhe na mão.

- Eu sei, amorzinho. Mas acredita no que te digo, as pessoas gostam de ti. Querem transmitir-te as suas condolências.

Jess tomou um gole de uísque.

- Afinal és um homem muito bom - murmurou. Matt sentiu-se embaraçado, pensando que, vendo bem, ele não era

assim tão bom.

- Contactei com o teu amigo que está em Los Angeles - disse rapidamente. - Foram precisos vários telefonemas mas consegui encontrar-lhe o paradeiro, no Foxie. Chega hoje de avião, já não deve faltar muito Mandei um carro buscá-lo ao aeroporto para o trazer directamente para aqui.

Por um momento houve um lampejo de sorriso.

-Lennie- disse Jess suavemente - é o maior amigo que tenho no mundo.

- Compreendo - disse Matt tranquilizadoramente. - Disseste-me ontem. Foi nessa altura que soube que o querias aqui.

Matt encarregara-se de dar todos os passos desde que recebera a notícia. Fora ele quem se dirigira à esquadra da polícia para trazer Jess, mandara vir um médico que a enchera de sedativo, vigiara-lhe o sono inquieto na sua cama, ouvira-a divagar acerca da sua vida.

Fora ele que tratara do funeral, organizara o cortejo e a afluência do que esperava que fosse uma assistência adequada.

Fora ele que a alimentara com sopa quente e a mantivera abraçada contra si enquanto ela soluçava pela noite fora.

No dia anterior, mostrara-se histérica. Agora estava silenciosa, quase infantil.

- Lennie é o meu melhor amigo - repetiu. - Crescemos juntos, sabes.

- Sim, sei. Falaste-me nele.

Não se atrevera a perguntar se a amizade de ambos alguma vez adquirira algum aspecto sexual.

E se ela se pusesse a andar com o tipo? E se ele, Matt Traynor, o nabo, fosse o responsável pela vinda dele à cidade?

Agora não eram horas de se preocupar. Tinha demasiadas coisas para organizar. O funeral era às três da tarde e queria certificar-se de que tudo corria impecavelmente.

Lucky achou que enviar uma carta aos seus executivos principais seria a medida mais acertada a tomar. Fez o rascunho de várias, acabando por deitar todos fora.

Matt telefonou a informar que combinara com Boogie para que este fosse buscá-la às duas horas. Não havia dúvida de que se mostrava muito empenhado, chegando ao ponto de fazer combinações com o motorista dela. Em qualquer outra ocasião, ter-lhe-ia ouvido das boas.

A última coisa que lhe apetecia fazer era assistir a um funeral, especialmente numa altura em que o céu, habitualmente azul, do deserto, começava a tornar-se cinzento e as estações de meteorologia previam temporais. Porém não deixaria Matt ficar mal.

Mas sentia-se tão cansada, como se lhe tivessem esvaído do corpo todas as gramas de energia. Só lhe apetecia dormir.

Lembrou-se de que devia consultar a sua médica, fazer um check up, tomar umas vitaminas. Não valia de nada correr à conquista de Nova Iorque com as forças tão em baixo. Telefonou à médica e fez uma marcação para a manhã seguinte.

Gino voltara para Los Angeles a fim de ali passar alguns dias.

Alguns dias. Deviam antes ser algumas semanas.

Susan acenava-lhe de longe.

Ele ia a correr.

Que bonito que era ter uma erecção permanente na sua idade. Talvez fosse de família.

Riu secamente. Sexo era a última coisa que de momento lhe ocorria à idéia. Ela queria construir um império - o seu próprio império - e só depois, talvez, pensar na sua vida vazia de sexo. Depois de Dimitri Stanislopoulos não houvera mais ninguém No entanto, não se importava.

O sexo era importante quando ela desejava que o fosse.

Só nessas ocasiões.

 

A viagem de avião foi atribulada, e quando chegou a altura de se prepararem para aterrar, chovia.

Não havia nada que se comparasse a uma tempestade no deserto, pensou Lennie. Nuvens negras, graniso rijo e perfurante e um calor húmido que não abrandava. Estava com uma ressaca. E guardava a recordação de uma discussão feroz com Isaac Luther, quando o informara de que não poderia aparecer no Griffin Show.

- Que queres dizer com essa? - perguntara-lhe Isaac aos berros.

- Não posso aparecer no espectáculo porque uma amiga minha está a precisar de mim em Las Vegas e tenho de ir até lá.

- Os amigos que se lixem. Esta é a grande oportunidade, homem. Se a deitas a perder estás maluco.

Lennie encolheu os ombros.

- Há coisas na vida que têm prioridade. Talvez eles reprogramem o meu número.

- O mais provável é que te reprogramem o cu - explodiu Isaac Estás a deixá-los de mãos vazias à última da hora. Não o faças, Lennie.

Ele gesticulara de impaciência.

- Não tenho alternativa.

Foxie mostrara-se, no seu jeito inimitável, mais compreensivo.

- Vai. Fica lá. E não voltes até te sentires recuperado. Não gosto de bêbados e não admito números de merda na minha casa. Nestas duas últimas noites deste-me as duas coisas.

Quanto àquele aspecto, não havia discussão possível.

Portanto ali estava ele, de volta a Las Vegas, com a chuva a chatear e um gosto desagradável na boca.

Em Los Angeles, o sol brilhava e ele estaria a preparar-se para aparecer diante das câmaras de televisão.

Também estaria sem receber resposta da bela Éden. Uma verdadeira desavergonhada. Como de costume. Que fosse para o diabo. Não era pessoa importante. O que lhe interessava era o que se passava na vida de Jess.

Matt Traynor telefonara-lhe na noite anterior. O mesmo Matt Traynor que o pusera a andar.

- Jess precisa de si aqui - dissera-lhe, fazendo-lhe a seguir um resumo breve do que se passara.

Jesus! Só de olhar para o freak com que Jess casara lhe dera arrepios. Wayland - o estupor de um drogado que lhe desbaratava o dinheiro todo que ela levava para casa. Por que não interviera ele, Lennie, na vida da amiga, inteirando-se, ao menos durante algum tempo, do que se passava?

Mas não. Não o fizera. Fugira a sete pés da cidade como se levasse fogo no rabo por ter sido corrido e só ele, Lennie, importava.

Raios para aquilo tudo!

Jess precisava dele.

Ele não ficara junto dela, preocupando-se.

E agora o bebê da amiga morrera e quem sabe ele poderia ter impedido a tragédia.

Tinha um carro à sua espera. Um Oldsmobile guiado por uma corista reformada que se apresentava com uma fatiota colante em cor de púrpura. Ah... Las Vegas... cidade de mau gosto.

A ex-corista conduzia como Paul Newman numa pista de corridas, e quando chegaram ao apartamento de Matt, Lennie levava os nervos num farrapo. Ao sair do carro, foi saudado por trovões e relâmpagos. Puxou o colarinho do casaco para cima e correu para dentro de casa.

Matt olhou em volta, mirando a multidão heterogênea que se encontrava reunida junto da sepultura e tomou mentalmente nota dos favores a pagar àqueles que tinham comparecido. Não era um grupo numeroso à volta de uma vintena de pessoas. Mas vinte era um número respeitável e ele estava satisfeito. Lucky - Deus a abençoasse - estava presente. Não o deixara ficar mal. Mantivera-se mais atrás, debaixo de um enorme chapéu de chuva preto, de cabeça baixa, enquanto o pequeno caixão, de fazer pena, era baixado para a terra.

Lennie encontrava-se de um lado de Jess, a sustê-la, e Matt ficara do outro. Sentia-lhe o corpo a estremecer sob o efeito dos soluços silenciosos e não sabia que fazer. Ela inibia-o. Desejava apenas protegê-la do mundo. E se ela lho permitisse, saberia exactamente o que fazer. Na qualidade de segunda Mrs. Traynor, Jess gosaria de protecção mais do que suficiente.

Wayland não estava presente. Wayland ainda devia andar à procura de boleia para sair da cidade, atitude que, segundo Matt lhe asseverara, era a mais saudável que podia tomar.

A chuva não abrandava. Tinha de chover, reflectiu Matt, para acrescentar ainda mais tristeza à cena patética. Providenciara bebidas para todos num restaurante próximo, depois da cerimônia. Fora um erro. O que as pessoas mais desejavam era porem-se a andar dali para fora.

Durante um momento, Lennie não reconheceu a mulher. Levava o cabelo negro puxado para cima e os olhos expressivos tapados por óculos escuros. O corpo, esse estava oculto sob um casaco comprido de cabedal, apertado na cintura. Fazia lembrar uma espiã saída de um dos romances de Lê Carré. Bela, misteriosa e sensualmente distante.

A certa altura lembrou-se. A rapariga do casino. Aquela com a qual quase passara uma noite. Por que estaria ainda em Las Vegas?

Assim que teve uma aberta, acercou-se dela, que ficara no bar a beber um Pernod com gelo.

- Ei- disse acusadoramente-, deixou-me pendurado.

Ela não tirou os óculos escuros, portanto Lennie não poderia saber se o fitava ou não.

-Conheço-o? -perguntou friamente.

- Quase fizemos história, mas você quis iniciar o seu curso antes de eu estar preparado. Lennie Golden. Lembra-se?

Uma aquiescência imperceptível.

- Então, que foi que aconteceu? Ficou de se encontrar comigo no bar.

- Talvez tenha encontrado alguém mais disponível para aprender. Dê-me licença.

Passou por ele, aproximou-se de Jess, sentada ao lado de Matt, proferiu algumas palavras e partiu.

Primeiro Éden, agora aquela. Estaria o famoso charme Golden a evaporar-se?

Cristo, como os funerais eram deprimentes! A pobre da pequena Jess parecia uma menina desamparada. Desejou que Matt Traynor a deixasse em paz, o velho era um engatatão dos diabos, sempre de língua de fora atrás dela como se Jess fosse a única mulher na cidade. Nunca ouvira falar em sentido de oportunidade?

Lennie reflectiu no que poderia fazer para aliviar a dor de Jess, esta parecia tão perdida. Acercou-se dela e apertou-lhe a mão.

Esperou desencadear alguma espécie de reacção.

- Como te sentes, cara-de-macaco? Jess abanou a cabeça com ar alheado.

Não havia nada a dizer numa altura como aquela. Talvez a simples presença fosse bastante.

Santino voltou às sete da manhã. Éden estava a dormir mas ele tinha chave própria para entrar no apartamento (facto em que insistira a partir do momento em que começara a pagar a renda e todas as contas), portanto assim fez, entrou no quarto e sentou-se, ficando a observá-la durante algum tempo. Éden dormia, nua, em lençóis castanho-chocolate, o que contrastava agradavelmente com a palidez da pele e o louro do cabelo. com quem pensava ela que andava a brincar? Um erro era tudo quanto lhe permitiria. Se ela voltasse a enganá-lo, não se livraria só com um estalo na cara.

Era uma gaja magrita.

Depois de Donatella, sua mulher, Santino considerava todos quantos se situassem abaixo dos setenta quilos, muito magros.

Ainda conseguia distinguir-lhe a marca da mão na bochecha, o que o excitou. As tipas como Éden Antônio necessitavam de atenção constante. Fora o pai quem lho ensinara. "Toda a gaja que se imagine material do bom tem de ter a peida bem vigiada", anunciara Ensio, seu pai, certa manhã ao pequeno-almoço, a Santino e a Carlo, seu irmão mais velho. "Para as manter na ordem há que dar-lhes muitos presentes, fodê-las com fartura, chegar-lhes a roupa ao pêlo de vez em quando."

Enzio rira estrondosamente diante da própria esperteza e sabedoria. Mas a esperteza e a sabedoria não tinham sido suficientes para o protegerem do assassínio friamente premeditado às mãos de uma mulher.

Santino compôs uma carranca de fúria ao lembrar-se do dia fatídico que tivera lugar há um ano atrás. E ainda mais carrancudo ficou ao recordar-se das instruções que Carlo recebera dos associados comerciais do pai: "Acabaram-se as vinganças. A violência tem de terminar."

Ficaram, assim, sem mais nem menos, proibidos de tomar alguma medida.

Em relação a Santino, foi o mesmo que cortarem-lhe os tomates. Se bem que Carlo tivesse aceite a directiva com a calma de um padre estuporado.

Santino coçou a careca e pensou no irmão. Carlo era um medroso, um imprestável. Infelizmente eram sócios e irmãos de sangue e, como tal, tinham de se manter unidos. Mas não na mesma cidade.

Desaparecido Enzio, Santino mudara o seu ramo dos negócios para Los Angeles. E tencionava ficar ali mesmo. Uma decisão acertada. Sem Carlo a vigiar-lhe os passos, poderia expandir o negócio. O negócio da família englobara uma série de salas de massagens. Santino descobriu que as revistas pornô vendidas nesses estabelecimentos rendiam uma fortuna. Informou-se acerca de editores e distribuidores. Homens razoáveis. Pouco tempo depois, Santino participava na actividade - e com o material que importava da Dinamarca e da Tailândia, além de vídeos, nadava em lucros. Tinha mais dinheiro do que Carlo. O medroso do Carlo - que tipo de homem se recusaria a actuar perante a morte do próprio pai?

Santino sabia que lhe cabia a ele ajustar as contas com aquela cabra da Lucky Santangelo. E fá-lo-ia um dia. De certeza.

Éden agitou-se e atirou os braços para cima da cabeça.

Os olhos pequenos de Santino detiveram-se nos seios de mamilos róseos. Pequenos mas perfeitos. Os da mulher eram enormes. Era como fazer sexo com uma vaca grávida. Levantou-se sem perder mais tempo e baixou as calças de jogging que levava. A seguir permitiu que a sua erecção deslizasse para fora dos confins das ceroulas estampadas.

Éden suspirou, a dormir.

Santino puxou-lhe rudemente o lençol para trás, expondo-lhe o corpo todo. Ela tinha o cabelo púbico louro, o que o deixava louco. Tinha um fraquinho pelas louras. com um movimento rápido, cavalgou-lhe o peito e enfiou-lhe o membro erecto na boca.

Ela ainda mal tinha os olhos abertos, e já ele se balançava para trás e para a frente.

- Chupa-o - ordenou com voz rouca. - Toma-o, pequena. Toma-o todo. Sabes que o adoras. Sabes que Santino é Rei.

O culto da droga sempre exercera fascínio sobre Olympia, embora esta nunca se tivesse empenhado nele a fundo. Muita cocaína e fartura de "erva" era tudo quanto provara até à altura. Não queria ficar totalmente dependente como algumas das suas pseudo amigas, que não conseguiam levantar-se da cama de manhã sem uma inalação. Ela era esperta. Era uma consumidora social. E se não tencionava sair, podia passar dias sem utilizar o material nem sequer lhe sentir a falta. No que lhe dizia respeito, uma pitada de coca era o equivalente moderno a um uísque com gelo. Não havia nada de errado nisso.

Dimitri perguntara-lhe uma vez se ela se drogava.

- com certeza que não - replicara ela, adequadamente indignada.

- Óptimo- dissera o pai, abanando pensativamente a cabeça. -Porque uma rapariga na tua posição tem de ter muita, muita cautela. São inúmeras as pessoas que gostariam imensamente de descobrir que tens uma fraqueza. Serias explorada sem piedade.

Que pensava ele que ela era? Parva? Ela casara com três homens, que a tinham explorado, sem excepção, até ao limite. Por que não a advertira ele em relação aos homens? Eram bastante mais perigosos que as drogas.

Esquecera-se completamente de que, de facto, Dimitri alertara-a. Constantemente.

Portanto... as drogas não representavam problema. Faziam-na sentir-se bem, permitiam-lhe desfrutar de momentos fantásticos nas festas e não lhe provocavam ressacas ou engordavam.

Esqueceu convenientemente as suas ânsias por bolo de chocolate, tartes de chantilly e gelado de rum com passas.

Tinha a certeza de que Dimitri consumia coca. Ou pelo menos algumas das suas amigas do jet-set faziam-no. Como era possível participar no círculo social e não desfrutar desse prazer?

Flash consumia droga. Em grande quantidade. Poderia ser um antigo viciado em heroína, mas o facto não o impedia de agarrar em tudo o mais a que pudesse deitar mão. Estimulantes, calmantes, suporíferos, narcóticos, "erva" e, evidentemente cocaína. A droga do homem rico. Acontecia simplesmente que Flash nunca tivera de pagar por ela devido ao facto de ser tão famoso - ou quem sabe mal-afamado - pois os penduras, apoiantes, acompanhantes e fãs arranjavam sempre maneira de lhe proporcionar tudo o que desejava a troco de nada.

Flash andava à procura de uma casa para se instalar em Nova Iorque. Tinha uma residência permanente nas Bahamas (por razões ligadas ao fisco) e em Los Angeles ficava com uma estrela de cinema dissoluta (do sexo masculino) com olhos vidrados e um esgar que o fazia lembrar um gato doente. Mas Flash precisava de uma base em Nova Iorque. E Olympia parecia a pessoa certa para lha providenciar.

Entra Flash.

Sai Vitos.

Flash fizera muito dinheiro mas era conhecido pela sua avareza. Para quê gastar quando havia outros que o faziam por ele?

A primeira noite em que dormira com Olympia, não fazia idéia da identidade desta. Afastaram-se durante algumas horas, indo rolar para cima de uma cama de água de um apartamento emprestado. Na realidade ela não era o seu tipo. Demasiado roliça. O seu estilo eram normalmente as modelos jovens, altas, de cabelos finos e compridos e com rostos belos e inexpressivos. Mas Olympia estava à mão, a atirar-se a ele em grande e Flash precisava de ir para a cama com alguém. Precisava constantemente de o fazer. Portanto despedira-se do seu séquito e levara-a para o apartamento emprestado.

Olympia disse a Vitos que tinha uma importante proposta comercial a discutir com Flash. Vitos não pareceu importar-se. Estava profundamente entretido a conversar com Bianca Jagger - ou seria Diane Von Furstenberg? Olympia nunca conseguia distingui-las.

Flash provou que a fama que tinha era justificada. E Olympia sentiu-se feliz. Retirou-se, apanhando um táxi, deixando-o a dormir. E ao meio-dia do dia seguinte, deixou que ele se inteirasse que ela não era nenhuma fã qualquer. Acordou-o com seis caixas de Dom Pérignon, uma generosa porção de caviar iraniano e um pequeno presente do Tiffany. O presente era um alfinete de peito em forma de guitarra, em ouro sólido e diamantes. Nele lia-se, gravado, o seguinte:

 

         OLYMPIA / FLASH NOVA IORQUE

                     1 9 7 8

 

Até mesmo Flash sabia que conseguir que a Tiffany gravasse algo em meia dúzia de horas era só privilégio de quem era muito importante.

Ela incluíra um cartão seu - Olympia Stanislopoulos - onde vinha o seu endereço e número de telefone. O apelido era tão conhecido como o de Onassis.

- Quem é ela - perguntou, passando o cartão a Como Rose, seu empresário.

Como olhou para o cartão, arrotou sonoramente e disse:

- É a filha de Dimitri Stanislopoulos, caramba! Mais rica que os Getty.

Flash sabia conhecer um golpe de sorte quando este se lhe apresentava. E Olympia dera-lho a mostrar em profusão.

Sorriu, revelando uma fileira completa de dentes perigosamente soltos e a apodrecer. Os dentistas não constituíam parte importante na sua vida.

- Telefona-lhe - disse. - Manda-a estar aqui às cinco. vou levá-la ao concerto.

Olympia chegou às cinco e meia, vestida de tafetá, rendas e diamantes.

- Estás bestialmente atrasada - disse Flash. - Bestialmente vestida em excesso. E vamos precisar de mais algumas caixas daquele material às bolhinhas. Arranja-o.

Nunca ninguém falara a Olympia naqueles modos. Ela gostou. Muito, Uma mudança refrescante.

Inalaram várias linhas de coca, emborcaram champanhe durante o caminho para o estádio onde os Layabouts iam dar o seu primeiro concerto em Nova Iorque depois de cinco anos, e lançaram os paparazzi em perfeito frenesim.

Uma semana depois, Olympia adquirira um enorme apartamento com vista para Central Park e Flash montara residência nele no mesmo dia que ela.

Nessa noite, deixaram-se ficar no terraço panorâmico a admirar a cidade estendida a seus pés.

- Nada mau, doçura - anunciou Flash, acendendo um charro. Olympia bebeu da garrafa de Dom Pérignon que tinha na mão (seu novo hábito) e concordou. Por que desperdiçara ela tanto tempo na Europa quando Nova Iorque era tão divertida?

Perguntou a si mesma o que deveria fazer em relação a Brigette. Até ali não referira a existência da filha a Flash. Talvez pudesse continuar a esquecer-se dela por mais uma semana ou duas. Para quê falar no assunto e estragar tudo?

Flash inalou forte e prolongadamente o fumo do charro. Por que não se teria lembrado antes de tirar proveito de uma tipa rica? Era indiscutivelmente a melhor maneira de gozar a vida.

Perguntou a si mesmo o que deveria fazer em relação à esposa de dezasseis anos que tinha escondida algures em Inglaterra. Até ali não referira a sua existência a Olympia. Bem, fora um casamento secreto ninguém sabia. Talvez pudesse simplesmente esquecer-se dela por algum tempo. Ela estava habituada a ausências prolongadas. Para quê falar no assunto e estragar tudo?

Olympia e Flash combinavam lindamente.

 

O funeral da criança deprimira Lucky. Parecera tão... sem sentido. Fizera-a sentir-se irada e impotente. Se as pessoas traziam filhos ao mundo, deviam cuidar deles. A morte do bebê não fora nenhum acidente. Fora causada por erro humano. Matt falara-lhe de Wayland. Se fosse seu marido, tê-lo-ia pendurado pelos tomates.

Ficar de pé, à beira da sepultura e debaixo de chuva, fora de arrasar. Mas mais tarde, no restaurante, ainda fora pior. Uma bebida rápida e afastara-se. Fizera a Matt o favor por este pedido - era suficiente.

Estava sozinha no bar a beber um Pernod quando o comediante se materializara junto de si. Era alto e magro, com olhos verdes e um sorriso irresistível. Lembrara-se imediatamente dele. Até se lembrara do nome antes de ele voltar a apresentar-se. Lennie Golden. Comediante. E de que maneira.

Tivera vontade de dizer, "Que diabo está você aqui a fazer? Mandei que o despedissem e não contava voltar a pôr-lhe os olhos em cima." Em vez disso, nada dissera, enquanto ele se atrapalhava com as palavras. E quando ele lhe dissera o nome, ela fizera de conta que não sabia quem ele era, levantando-se e deixando-o especado no lugar.

A verdade era que o achava perturbadoramente atraente. Ele recusara-a uma vez e ela não tencionava repetir a dose. Que descaramento em lhe dirigir sequer a palavra.

Quando voltasse ao hotel, decidiu que não permaneceria por mais tempo ali. Não tinha motivos para ficar; até mesmo Gino partira. Telefonou a Costa e avisou-o de que chegaria a Miami no dia seguinte. Depois começou a fazer as malas, atirando apressadamente com as suas coisas para dentro de várias. Algo lhe dizia que devia sair imediatamente daquele local.

Em Bel Air reinava a tranqüilidade total. A cozinheira preparara galinha com gergelim, um dos pratos preferidos de Gino. No canal adventista da televisão passava um excelente jogo de basebol, ao qual ele assistiu de uma poltrona confortável, enquanto Susan, de aspecto todo senhoril, embora sexy, envergando um penteador azul-pálido, trabalhava nos seus bordados.

Isto fica a uma grande distância das ruas da Bronx, pensou - as ruas maléficas e distantes onde ele começara sem uma moeda para telefonar à família.

Fumou deliciadamente um fino Havana e mergulhou uma colher de prata num prato de gelado.

Sim. Ele estava a dar o passo certo. Aquela era a vida que lhe convinha.

Susan marcara a data. Ele estava pronto.

Lucky apanhou um dos primeiros aviões da manhã de Las Vegas. Passou pela sua médica a caminho do aeroporto para tomar uma injecção de Vitamina B12. A sua médica, uma mulher -porque os médicos do sexo masculino pareciam tratar as mulheres como crianças retardadas insistiu em lhe fazer algumas análises antes de lhe dar a referida injecção.

- Nunca consigo fazê-la vir aqui para um exame geral - queixou-se a Dr.a Liz Tierney com um sorriso. - Portanto trato de a agarrar enquanto posso.

- É melhor agarrar rapidamente - replicou Lucky, submetendo o seu braço à recolha de sangue.

- Sempre a correr. Já alguma vez pensou em abrandar?

- Para quê? Tenho muito que fazer.

- Bem, arranje tempo para me dar uma amostra de urina, se faz favor.

- Dê-me apenas a injecção, doutora. É quanto me basta.

A Dr.a Tierney entregou-lhe um pequeno frasco e indicou-lhe a localização da casa de banho.

- Eu lhe direi do que precisa.

O vôo para Miami deu a impressão de nunca mais chegar ao fim. O avião fez duas paragens, acrescentando mais horas à viagem. Quando Lucky chegou, estava esgotada.

Costa encontrava-se no aeroporto para a receber. O tio Costa. Lucky já não o via há um ano e ficou maravilhada por achá-lo com muito melhor aspecto. Da última vez em que se tinham encontrado, ele estava grisalho e de olhos fatigados. Agora exibia um bronzeado saudável, e por detrás dos distintos óculos de aros de tartaruga, os olhos mostravam-se vivos e brilhantes. Usava um elegante casaco desportivo, calças impecavelmente vincadas e uma camisa branca aberta no pescoço. Era a imagem do homem de negócios respeitável reformado. Precisamente a sua condição.

- Estás com tão bom aspecto! - exclamou Lucky, lançando-lhe os braços ao pescoço e abraçando-o com força.

Costa afastou-se ligeiramente e mirou-a com ar crítico.

- E tu, Lucky, bem... tu pareces cansada.

Uma pessoa podia sempre contar, em se tratando do tio Costa, com a verdade.

- Obrigadinha.

- Preferias que mentisse? - Preferia. Por que não?

- Porque eu nunca menti a Gino e agora não ia começar a fazê-lo contigo. Tens uma boa noite de sono e amanhã estarás mais bonita que nunca.

- Não marquei reserva em nenhum hotel.

- Nem eu esperaria semelhante coisa. Ficas em minha casa. Dirigiram-se para um Chrysler enorme, seguidos por um carregador

Com a bagagem de Lucky. Esta tencionava enviar o resto dos seus pertences directamente para a casa de East Hampton. Contente, Lucky enfiou o braço no de Costa.

- Já contava que me convidasses. Creio que já fiquei farta de hotéis para sempre. Vai ser óptimo ficar contigo.

Costa lançou-lhe um olhar arguto mas nada disse. Mais tarde haveria tempo para conversar com ela e descobrir o que a preocupava. Ele sempre gostara de Lucky como se esta fosse sua própria filha e ela poderia ter sempre dele o que desejasse - mesmo que fosse apenas o seu tempo.

- Vais para Los Angeles comigo - disse Lennie.

Jess reflectiu em todas as razões que a poderiam impedir de o fazer.

Não havia nenhumas.

- Vou para Los Angeles com Lennie-disse a Matt.

Este não acreditou. Ficou desvairado. A elaboração de planos absorvera-o de tal maneira que se esquecera de falar a Jess do futuro casamento de ambos. Queria tomar conta dela, trabalhar para ela, até casar com ela.

- Não podes fazer semelhante coisa - disse entarameladamente.

- É a única coisa que posso fazer - replicou Jess debilmente. - Estou farta de Las Vegas. Demasiadas recordações. Lennie tem razão, tenho de sair daqui!

- Não, não tens - protestou Matt.

- Sim, tenho.

Queria falar-lhe dos seus sentimentos. Dizer todas as coisas certas e, desse modo, convencê-la a perceber que tinha de ficar. Mas expressar-se, revelar os verdadeiros sentimentos, não era tarefa fácil para um homem como Matt. Este não sabia simplesmente por onde começar.

- Que farás em Los Angeles? - perguntou inexpressivamente. Jess encolheu os ombros.

- Hei-de arranjar-me.

Matt tinha a certeza de que assim seria. As raparigas como Jess eram uma raridade. Era bonita, esperta, vulnerável e prudente. Algum tipo a apanharia desprevenida. Algum parvalhão. Enquanto ele, Matt Traynor, o homem da cidade, experiente, nem sequer era capaz de encontrar as palavras necessárias para a fazer ficar.

- Vai dando notícias - pediu, cabisbaixo.

- Claro - murmurou Jess.

Mas ele sabia que ela não o faria.

 

Estar na companhia do tio Costa era quase tão bom como no último ano que passara com Gino - o ano que antecedera a entrada de Susan Martino nas suas vidas.

Lucky conversou com Costa pela noite fora. Todos os seus receios e frustrações, esperanças e ambições, vieram ao de cima. Costa escutou-a pacientemente, sem nunca interromper, sem nunca criticar.

- Eu adoro Gino - concluiu Lucky ferozmente, já a luz da madrugada começava a esgueirar-se sorrateiramente para dentro da confortável sala de estar do apartamento à beira do oceano. - Mas ao mesmo tempo detesto-o. - Passou a mão pelos caracóis negros rebeldes, gesto que fez imediatamente Costa lembrar-se de Gino. -Ele consegue ser tão... tão... estúpido! - Levantou-se de um pulo e começou a passear de um lado para o outro, na sala. - Susan Martino não é o seu tipo de mulher. Não passa de uma cabra superficial, aperaltada até às orelhas e uma finória que lhe vai deitar a mão ao dinheiro e fazer-lhe a vida num inferno. Qualquer idiota pode vê-lo. Por que razão ele também não vê?

- Lucky - disse Costa, escolhendo as palavras cuidadosamente. Gino é exactamente como tu. Sabe o que quer e consegue-o sempre. Se decidir casar com essa tal de Martino, fá-lo-á. Nada do que tu ou eu possamos dizer fará a menor diferença.

- Eu sei.

- Além disso, quem sabe se não estás enganada acerca da mulher? Talvez ela seja boa para ele. - Soltou um suspiro profundo. -Um homem precisa da companhia de uma mulher. Estar só não é nada bom.

- Ele não estava só - protestou Lucky. - Tinha-me a mim.

- Partilhavas da cama dele à noite? - perguntou Costa brandamente. -Ele podia ir para a cama com quem quisesse - replicou Lucky desafiadoramente.

- E alguma vez te passou pela cabeça que um homem da idade dele poderá precisar de mais do que aventuras passageiras? Quando se chega a velho, Lucky, o mais importante de tudo é o companheirismo. Ter alguém que cuide de nós.

- Tu estás sozinho. E és feliz.

- Se conseguisse encontrar a mulher certa, casava com ela no mesmo instante.

- Merda - murmurou Lucky.

Não estava a ganhar guerra nenhuma.

- Aceita o facto - disse Costa. - Ao mudares-te para Nova Iorque estás a dar o passo acertado. Agora. podes olhar em volta e fazer o que tu queres... quebrar o elo entre ti e Gino. Tudo o que até hoje fizeste teve de contar com a aprovação dele. Chegou a altura de viveres a tua própria vida.

Lucky ficou três dias em Miami. O tempo estava agradável, o estilo de vida era simples e o tio Costa era uma companhia interessante e sensata.

Ao princípio da manhã de sábado, apanhou o avião para Nova Iorque, descobrindo, ao chegar, que chovia e a cidade mostrava-se hostil e atarefada. As ruas encontravam-se apinhadas. Oh, Deus! Como ela sentira saudades do ritmo daquela cidade! Sentiu-se imediatamente óptima. Havia uma excitação no ar. Nova Iorque era um desafio. Costa tinha razão, ela tinha de começar a viver a sua própria vida. Se não o fizesse, arrepender-se-ia.

Instalou-se no Hotel Pierre e reflectiu por onde devia começar.

Tinha algumas mensagens à sua espera. Uma de Costa, que queria saber se chegara bem, e outra da Dr.a Liz Tierney. Que raio desejaria ela?

Lucky sentiu uma ponta de apreensão. Todas aquelas análises idiotas que Liz fizera questão em tirar... talvez houvesse algum problema grave com a sua pessoa. Oh, merda. Andava de facto a sentir-se cansada.

Convencida de que padecia de algum mal terrível, telefonou para o consultório.

Liz Tierney mostrou-se entusiasmada e foi direita à questão.

- Lucky - anunciou sem mais delongas-, tenho o prazer de lhe dizer que terá de abrandar o ritmo da sua vida.

- Porquê? - perguntou Lucky, desconfiada.

- Porque, minha querida, está grávida!

 

                         O VERÃO DE 1980

 

Carrie Berkeley aguardava o seu sexagésimo sétimo aniversário com uma amálgama de sentimentos. Por um lado, tinha um aspecto explêndido.

EEsguia, atlética, a sua pele negra esticada quase não mostrava sinais da

passagem do tempo, o cabelo escuro curto, com o último corte da moda,

revelava apenas alguns cabelos brancos.

Por outro lado, não podia fugir à circunstância de sessenta e sete anos serem sessenta e sete anos e aí é que a questão começava a preocupá-la. Se se atrevesse, sequer, a reflectir no facto... ele significaria que ela estava realmente a ficar velha.

Carrie estremeceu perante o simples pensamento, alvoroçando-se pela sua casa em Fire Island, a endireitar almofadões e a colocar a sua colecção de molduras em prata Art Deco numa posição diferente.

A casa era adorável. Confortável e de bom gosto, um autêntico reflexo do seu estilo pessoal. De vez em quando os editores da Vogue ou do Harper's Bazaar telefonavam-lhe a implorar a oportunidade de a fotografarem em sua casa. "De maneira nenhuma", respondia ela firmemente. "Já não quero aparecer publicamente."

E era sincera na sua afirmação. Três anos antes divorciara-se do marido, um proeminente homem de negócios e proprietário de teatros chamado Elliot Berkeley. E ao fazê-lo desistira de toda a pompa ligada ao facto de ser a esposa de um homem rico e de sociedade. A bela Mrs. Elliot Berkeley, anfitriã perfeita, figurino da moda perfeito, perfeita, perfeita, perfeita.

Oh, se ao menos eles soubessem a verdade...

Carrie Jones, prostituta de treze anos. Posta a percorrer as ruas pela avó e pelo tio. Enviada para o Centro de Recuperação de Menores de Island. Presa a um chulo chamado Whitejack que a enchia de droga enquanto ela trabalhava no seu comércio. Aos quinze fora parar a uma instituição para doentes mentais, fora de si e completamente sozinha no mundo. Ninguém se importava que vivesse ou morresse.

Ficou fechada durante nove longos e angustiosos anos. E depois apareceram os empregos - de tudo, desde trabalhar como criada a dançarina à-moeda. Até dar consigo grávida e perceber que a única maneira de arranjar dinheiro suficiente para sobreviver era voltar à vida que tão bem conhecia.

Uma casa de prostitutas sempre era melhor do que andar pelas ruas.

Uma casa de prostitutas significava que Steve, o filho recém-nascido, tinha um lar, roupas limpas e uma ama para tomar conta dele.

Uma casa de prostituição foi a sua vida até o querido e meigo Bernard Dimes a resgatar de lá mais ao seu filho Steven, na altura com quatro anos.

Berna introduzira-a num mundo diferente. Era um homem elegante, com dinheiro e classe. Também era um produtor teatral bem sucedido. Quando casara com Carrie, deixara os amigos e conhecidos chocados. Quem era ela? De onde viera? E como poderia ele casar com uma negra?

O divertimento secreto de Bernard - a produção mais arrojada que ainda lhe faltava fazer - fora a criação dos antecedentes de Carrie que tornaram esta, inesperadamente, aceitável aos olhos preconceituosos das pessoas. Segundo a história de Bernard, Carrie era uma linda princesa africana que ele conhecera num safari ao Quênia e atraira à América, juntamente com o seu filho bebê, a fim de o desposar.

Que mentira mirabolante. Só alguém como Bernard seria capaz de a apresentar como verdadeira.

Carrie vivera a charada porque esta divertia Bernard. E ao vivê-la, tornara-se parte dela - não tardando a ser apaparicada pelos órgãos de comunicação social. Até seu filho, Steven, só tomou conhecimento da verdade em 1977, altura em que ela se vira forçada a revelar tudo.

Carrie despedaçara-lhe o seu mundo, a sua segurança, a sua herança. Desorientado e enraivecido, Steven abandonara o emprego que ocupava como respeitável procurador público e trocara a América pela Europa, por onde deambulou cerca de dois anos, regressando finalmente em finais de 1979. Visitou a mãe uma vez para lhe dizer que compreendia. Mas ela sabia que tal não correspondia à verdade. O filho mostrava-se frio e distante. Nunca mais tivera notícias dele desde então.

Até que, inesperadamente, dois dias atrás, ele lhe telefonara.

- Tenho de falar contigo - anunciara-lhe.

E não tardaria a chegar.

Steven Berkeley conduzia um Porsche preto. Não lhe pertencia. Era propriedade de seu amigo Jerry Myerson, que lho emprestara por dois dias. Jerry era um dos advogados mais bem sucedidos de Nova Iorque. Merecia um Porsche, se era isso o que o entusiasmava. No fundo, Steve achava que pagar cinqüenta mil dólares por um automóvel era ridículo. Mas, tinha de o admitir, dava gozo conduzi-lo.

Brincou com o acelerador, secretamente satisfeito pelo impulso de força que a pressão provocava.

Jerry Myerson era um bom amigo. Tinham andado juntos no liceu e depois na Faculdade de Direito. Jerry fora padrinho de casamento de Steven quando, em 1966, este casara com uma dançarina de má fama chamada Zizi. Zizi não era boa peça. Um metro e sessenta de dinâmica permanentemente turbulenta. O casamento durara cinco anos. O divórcio fora um alívio. Carrie sempre a detestara.

Carrie.

Sua mãe.

Por um momento sentiu o impulso habitual de rejeição e raiva. Sentimentos que esperava já ter ultrapassado naquela altura. Desde que ela lhe contara... revelara a verdade...

Toda a sua vida acreditara ter nascido em África, que o pai fora morto e que Carrie o trouxera para a América em bebê.

A verdade fora um choque.

Nascido na América. Criado num bordel. E o pai podia ser um de dois homens - ambos brancos.

Ele obrigara a mãe a revelar os nomes. Um fora uma ligação de uma noite. O outro, uma violação. Ele fora concebido há quarenta e um anos atrás e Carrie não lhe sabia dizer qual dos dois fora o pai. Mas ele tinha de saber. Depois poderia prosseguir a sua vida.

O pé carregou automaticamente no acelerador e a boca formou-lhe um rictus sombrio. Steven era inegavelmente bem parecido. com mais de um metro e oitenta de altura, possuía um corpo de atleta, uns olhos verdes muito directos, cabelo preto encaracolado e a pele em tom de chocolate. Os anos assentavam-lhe bem. A cada um que passava, mais bonito ficava. Houvera tempos em que fora o assistente do Procurador Distrital com maior saída no meio feminino de Nova Iorque. Um advogado possuidor de uma vontade de aço e de uma reputação incorruptível. Mas as revelações de Carrie tinham-no deixado desvairado e passara os últimos três anos às voltas pela Europa, aceitando empregos transitórios e tentando adaptar-se à realidade das suas origens.

Carrie fizera-o crescer acreditando num sonho. Ao despedaçar esse sonho, dera-lhe igualmente cabo da vida. Voltar a reunir os fragmentos estava a levar o seu tempo.

Ao dirigir-se para Fire Island, sabia já o que tinha a fazer, finalmente. Três anos antes a mãe dera-lhe a conhecer dois nomes: Freddy Lester e Gino Santangelo. Um deles era seu pai. E quer ela gostasse ou não, teria de o ajudar a descobrir qual era.

 

O sol quente queimava o corpo de Lucky, que estava estendida sobre um colchão de água à beira da piscina de água salgada em forma de gruta.

Usava apenas a parte inferior de um biquíni minúsculo e a pele luzia-lhe de óleo de bronzear. Tinha o cabelo negro-azeviche preso num rolo grosso e, a seu lado, estava um Sony Walkman, os auscultadores firmemente colocados nos ouvidos. Escutava os sons cheios de sentimento de Bobby Womack, seu favorito de há muito tempo. E a voz dele envolvia-a, não lhe deixando espaço para os pensamentos enquanto se perdia em Inheri the Wind. Só quando a fita chegou ao fim com um clique é que abriu, finalmente, os olhos.

Estava um dia quente. Céu azul, com pequenos cúmulos tão altos que vagueavam, fazendo lembrar decorações. Uma brisa muito ligeira tornava o calor respirável.

Lucky levantou-se, espreguiçou-se langorosamente e mergulhou na piscina. A água estava fria mas revigorante e cheia de frescura. Começou a nadar sem esforço, sulcando a água com uma simetria cheia de estilo. Só parou quando os sapatos brancos, já conhecidos, de Dimitri, se detiveram à beira da piscina.

- Mister Stanislopoulos- cumprimentou ela formalmente, atravessando a água.

Os olhos perscrutadores dele encontraram os dela. Lucky gostava dos olhos de Dimitri. Eram profundos, conhecedores. Ele tinha o ar de um homem que estivera em muitos lugares e fizera muitas coisas.

- Lucky - retribuiu Dimitri, de maneira igualmente formal-E como estás tu hoje?

Como se ele não soubesse. Como se não gosassem, de há dois anos àquela parte, da maior intimidade que podia existir entre duas pessoas.

Dimitri Stanislopoulos. Sessenta e quatro anos. Suficientemente velho para ser seu pai.

E, tal como seu pai, um homem de firmeza e poder. Um homem com o qual fora capaz de encontrar um companheirismo confortável e uma espécie de amor. Não a paixão incandescente de Marco, mas um relacionamento satisfatório.

Quando Lucky chegara a Nova Iorque, pronta para começar do princípio e conquistar o mundo, não planeara ir grávida. Raios, de maneira nenhuma! Nunca lhe passara pela cabeça ter um filho. Instinto maternal. era qualidade que não possuía. Os bebês eram para mulheres que gostavam de ficar em casa a mudar fraldas e a vegetar.

Pensara friamente em fazer um aborto. Fora dormir a reflectir no assunto e oito horas mais tarde acordara com a certeza de que essa não era a solução.

Claro, sabia quem era o pai. Quanto a isso não haviam dúvidas. Dimitri fora o único homem com quem dormira em meses.

Santo Deus! Dimitri Stanislopoulos, pai de Olympia. Santo Deus!

Guardara o segredo consigo durante uma semana. Não era obrigada a revelá-lo a ninguém, nem mesmo a Gino. Poderia ter o bebê e criá-lo ela mesma - era mais do que capaz de o fazer e independência financeira era particularidade que não lhe faltava. Depois a mente enchera-se-lhe de outros pensamentos. A criança, quando começasse a crescer, quereria saber quem era o pai. E com certeza tinha direito a conhecê-lo... A criança. Rapaz ou rapariga?

Para ela, tanto fazia. Fosse qual fosse o sexo, desejava-a. De repente a sua vida assumira uma nova dimensão. Telefonou para Dimitri, que estava em Paris, procurando o número entre aqueles que ele lhe deixara.

Eram três da manhã lá. Dimitri estava a dormir e ficou mal-disposto por ser acordado.

- Quem fala? - perguntara com maus modos. - É Lucky Santangelo. Vais ser pai - anunciara. Não valia a pena estar com rodeios.

- O quê?

- vou ter um bebê. E tu és o afortunado papá.

Dimitri sentou-se na cama, dando graças aos céus por estar sozinho.

-Não compreendo... - principiou.

- É simples. Entrámos num jogo. Marcámos um golo. Agora que já me habituei à idéia, estou deliciada. E tu, como é que te sentes?

Dimitri aclarou a garganta e consultou, com esforço, o relógio de pulso.

- Tens alguma idéia das horas que são? - perguntou asperamente.

- Que se passa contigo? Acabei de te informar de que vais ser papá e tu preocupado com as horas!

Dimitri ficou sem saber o que dizer. Portanto disse o que lhe ocorria sempre em semelhantes ocasiões de dúvida.

- Queres dinheiro?

- Ha?

Ele não deu pelo tom gélido que se insinuara na voz de Lucky e foi mais longe.

- Liga para a minha secretária quando forem horas decentes. Ela enviar-te-á um cheque para fazeres o aborto, mais despesas.

- Graaaaande estupor! - gritou Lucky. - Então julgas que te telefonei por causa do dinheiro? Filho da mãe descarado! Vai cair morto!

E atirou com o auscultador com fúria.

Quem é que o sujeito se imaginava? Como se atrevia a falar-lhe como se ela fosse alguma pegasita a tentar arranjar umas massas? Como se atrevia? Dimitri Stanislopoulos que se lixasse. Mais os seus estúpidos milhões. A única coisa que ela procurara, ao telefonar-lhe, fora a alegria dele.

Passaram-se vários meses, tempo durante o qual Lucky se mudou para a casa de East Hampton. Agora que estava grávida, já não se sentia pronta para conquistar Nova Iorque. E no entanto, ficar inactiva durante meses a fio também não era para o seu feitio. Foi consultar um ginecologista de fama, que lhe assegurou que os enjôos matinais e o estado de exaustão permanente pouco mais tempo durariam. Receitou-lhe vitaminas, uma alimentação saudável e descanso.

Lucky estava farta de descanso. Precisava de acção.

No correio da manhã chegou um convite para o casamento de Gino. Telefonou imediatamente a Costa. Conversaram sobre o assunto e decidiram ir juntos. Não que ela tivesse vontade de aparecer. E no entanto sabia que não podia deixar de o fazer. Recusava-se a conceder a Susan Martino a satisfação de não estar presente.

O casamento foi um circo. Um nunca mais acabar de estrelas de cinema, executivos de estúdios, advogados do mundo do espectáculo, directores e produtores. Os amigos de Gino que vieram de Las vegas, ficaram perdidos no meio da confusão.

Lucky sentiu-se uma estranha. Por que tinha a sensação de estar no funeral de Gino e não no seu casamento? Trocou apenas algumas palavras com o pai e sentou-se silenciosamente à mesa com Costa, observando o relacionamento social de Beverly Hills. Levava um simples vestido de seda branca e umas esmeraldas que oferecera a si mesma. A sua gravidez, agora com quatro meses, ainda não se notava, mas o estado permanente de exaustão traçava-lhe olheiras em volta dos olhos.

Gino não teceu comentários acerca da sua aparência mas Costa ficou imediatamente preocupado. Quis saber o que ela andava a fazer, e quando a ouviu responder com um gesto de desprendimento, "nada", franziu o sobrolho porque, conhecendo Lucky como conhecia, sentia que algo não estava bem. Ela não tinha feitio para ficar sem fazer nada. Atribuiu o facto ao casamento de Gino, que devia perturbá-la mais do que ela se permitia admitir.

Quando Lucky foi apresentada aos dois rebentos de Susan, detestou-os instantaneamente. Um par de meninos ricos e snobs, completamente convencidos da sua própria importância.

E depois observou a entrada da prima donna inglesa, Francesca Fern, acompanhada do seu séquito. Cinco minutos depois aparecia Dimitri Stanislopoulos.

- Oh, não! - murmurou Lucky.

- Que foi? - perguntou Costa.

- Nada.

Encolheu-se na cadeira que ocupava no pátio protegido por toldos, esperançada de que Dimitri não a visse. Melhor ainda, que não se lembrasse dela. O seu bebê não era para partilhar. Ele tivera a sua oportunidade e perdera-a.

Mas Dimitri reparou nela. Mais tarde. Felizmente encontravam-se rodeados de pessoas quando ele se acercou da sua mesa, beijou-lhe a mão e formulou algumas frases idiotas. Lucky reparou que ele a percorria com os olhos, em busca de um indício, na dúvida se imaginara a conversa tida em Paris.

Lucky mostrou-se friamente delicada. Ele que se fosse lixar. Uma semana mais tarde, Dimitri apareceu-lhe à porta da casa de East Hampton. Era o Outono. Ela envergava um fato de treino branco, tênis e não se maquilhara. Tinha o cabelo negligentemente preso no cimo da cabeça.

- Estás com um ar muito jovem - disse-lhe Dimitri, detendo-se no umbral da porta, enquanto a sua limusina e o motorista o aguardavam junto ao passeio da frente.

- Que queres? - perguntou Lucky sem rodeios.

Os olhos dele baixaram para o ligeiro volume que se notava no ventre de Lucky e que esta não se dera ao cuidado de ocultar.

- Quero saber se é verdade. Vais ter um filho meu? A voz dela tinha a frieza do gelo.

- Não.

Ele era muito alto. Um homem corpulento. De aspecto poderoso, com a sua farta cabeleira branca e os olhos penetrantes.

- Penso que estás a mentir.

- Estou-me nas tintas para o que tu pensas.

- Se é esse o caso, por que me telefonaste?

- Isso foi há meses atrás - disse Lucky friamente. - Estava a pôr-te à prova. Não passaste.

Os olhos dele prenderam-se, chamejantes, nos dela. Olhos conhecedores do mundo e repletos de ardor grego.

- Voltarei - declarou.

E assim fez. Lucky não conseguiu livrar-se dele. Como que para compensar a sua reacção inicial, Dimitri perseguiu-a sem descanso. Rosas de cor púrpura-prateada todos os dias. Grades de champanhe. Boiões de caviar. Cestos de frutas exóticas.

Finalmente, Lucky permitiu que ele a levasse a jantar fora. Dimitri mandou o seu helicóptero buscá-la e a refeição foi tomada a bordo do seu iate, que deu a volta a Manhattan enquanto eles se deleitavam com patê e lagosta.

Mais tarde, fizeram amor. As mãos enormes dele seguiram-lhe suavemente o contorno do ventre.

- Quero um rapaz - disse.

- Não sejas tão chauvinista - replicou Lucky.

No dia dois de Julho de mil novecentos e setenta e nove, Lucky dava à luz um filho numa casa de saúde particular do Connecticut. Dimitri assistiu ao nascimento.

Puseram o nome de Roberto Stavros Gino Santangelo Stanislopoulos à criança. Esta era o segredo de ambos. E assim ficara.

Lucky pôs-se a flutuar de costas e estendeu convidativamente os braços a Dimitri.

- Anda - chamou. -Está uma maravilha.

Dimitri não precisou de receber segundo convite. Despiu a camisola branca Lacoste. Desapertou o cinto de pele de cobra preto, atirou os sapatos para o lado, baixou os calções de linho branco. Dimitri Stanislopoulòs não gostava de roupa interior. Possuía um corpo firme, forte, um físico excelente para um homem da sua idade. Era um homem grande em todos os aspectos, orgulhando-se bastante da sua fortaleza física e robustez de saúde. Saltou para dentro de água com um rugido, tentando agarrar em Lucky, que tentou escapar-lhe ao amplexo, mergulhando no fundo da piscina.

Ele seguiu-a com um crawl poderoso, até a encurralar na ponta mais funda. Nessa, ponta da piscina havia sombra e um dos recantos era formado por uma cascata entalhada na rocha. Lucky nadou na sua direcção e tentou abrigar-se por trás dela, fora do alcance de Dimitri.

Este passou pela água que caía e empurrou-a de encontro à parede rugosa. com uma mão rasgou-lhe a parte inferior do biquini, penetrando-a imediatamente.

- Filho da mãe traiçoeiro - objectou Lucky, meio a brincar, ao mesmo tempo que começavam a ir para o fundo da água fria esverdeada.

Dimitri não diminuiu o amplexo, limitando-se a prendê-la com mais força, as coxas como aço enquanto se balançavam, juntos, por baixo de água. Quando voltaram à superfície, Lucky aspirou sofregamente o ar mas manteve as pernas fortemente apertadas em torno da cintura de Dimitri e o seu rosto mostrava-se ruborizado de prazer. Terminaram o acto silenciosamente, explodindo de prazer ao mesmo tempo.

Dimitri largou-a.

- Penso que são horas de almoçar - disse.

- Jesus! - exclamou Lucky. - Sexo. Comida. Não há dúvida de que gostas de satisfazer os teus apetites.

- Por que não? A vida é para ser aproveitada no seu melhor. Trabalhei muito para conquistar o que hoje possuo. Agora regalo-me. com certeza concordas, não?

Içou-se para fora da piscina e vestiu um roupão turco. Lucky nadou para perto dele.

- Espero que o nosso filho não saia a ti. Dimitri estendeu-lhe a mão para a ajudar a sair.

- Espero que saia.

- Pois. Será um garanhão gordo. Estupendo! Mal posso esperar. Dimitri riu ruidosamente.

- Eu sou gordo, Lucky? E sou algum garanhão?

- À primeira oportunidade - provocou-o ela.

Dimitri sorriu e passou-lhe um roupão. Depois perscrutou o horizonte e disse:

- Esperemos que hoje não haja paparazzi escondidos por aqui. Não gosto de dar espectáculo.

Lucky seguiu o olhar de Dimitri. A piscina deitava para o mar. Não havia nenhuma embarcação visível. Às vezes pequenos barcos disfarçados de embarcações de pescadores vogavam à distância, com operadores de câmara munidos de teleobjectivas potentes a bordo. A ilha de Dimitri era considerada obstáculo fácil. Aquele dia mostrava-se totalmente límpido.

- Almoço - disse Dimitri firmemente.

- Vai andando. Daqui a cinco minutos irei ter contigo.

- Como desejares.

Ela ssentia-se satisfeita por ter cedido, permitindo que Dimitri partilhasse do filho de ambos. Ele era um pai extremoso quando ela lho permitia. Mas, a cada dia que passava, tornava-se mais complicado manterem o seu segredo. Ela tinha a certeza de que os criados da villa grega sabiam. E CeeCee, a bonita jovem negra que tomava conta de Roberto. E o casal idoso que cuidava da casa de East Hampton. E o advogado de Dimitri.

Um segredo deixa de o ser quando é partilhado por mais de duas pessoas. Lucky suspirou. Dimitri continuava a falar em casamento, mas ela era avessa à idéia. Tentara uma vez e detestara até mais não.

Cada dia Dimitri se tornava mais insistente. Ele desejava falar ao mundo do seu filho. Queria certificar-se de que todos reconheciam Roberto como seu herdeiro de direito.

- Se alguma coisa acontecer - advertia Lucky constantemente -, só enfrentarás problemas.

- Porquê? - perguntara-lhe ela. - Já me disseste que alteraste o testamento.

- Não basta - observara, preocupado. - Olympia quererá ficar com tudo. Irá contra as minhas instruções. Conheço-a.

Lucky não renovara a sua amizade com Olympia. Dimitri achara melhor não se encontrarem. Também não dissera a Gino que era avô. Este desposara Susan e instalara-se em Beverly Hills como um velho senil. Ela ouvira dizer que o pai colocara pessoas a dirigir os hotéis de Las Vegas e liquidara uma série de outros negócios que o ocupavam. Ela recebera mais que a parte que lhe competia do Magiriano, metera o dinheiro no banco e esquecera-o. A sua carreira ficara em suspenso, enquanto desfrutava do prazer de ter um filho. Por que havia ela de o partilhar com Gino? Este raramente lhe telefonava. Já não o via desde o casamento.

Às vezes acordava a meio da noite com saudades do pai. Este estava velho. Já sofrera um ataque cardíaco. Por que não iria ela ter com ele, mostrar-lhe o neto, esquecer velhas discórdias?

"Porque ele não queria saber dela."

"Porque ele preferira Susan Martino a ela."

O almoço foi servido no magnífico terraço que deitava para o mar. Lucky lembrava-se de ter visitado a ilha particular de Dimitri nos seus tempos de adolescente, com Olympia. Nunca imaginara ali voltar na qualidade de mãe do filho dele. Alguns dos empregados eram os mesmos. Lembrar-se-iam dela, interrogou-se. Iriam contar a Olympia?

- Olympia raramente vem aqui - disse Dimitri, azedamente, quando ela falara no assunto.

Lucky sabia que ele não aprovava o tão falado romance da filha com uma estrela do rock inglês ex-drogada. Saíam constantemente nas primeiras páginas. O facto enfurecia Dimitri.

-A rapariga é uma parva - comentava. -Casou com três caçadores de fortuna. Agora está a viver com este... este... degenerado.

Lucky reprimiu uma gargalhada. Havia ocasiões em que Dimitri aparentava a idade que tinha.

Não na cama. Na cama era um mestre. Umas vezes demasiado controlado e tecnicamente perfeito. Sabia tudo o que havia para saber e utilizava os seus conhecimentos de acordo.

Lucky certa vez perguntara-lhe quantas mulheres tivera.

- Milhares - replicara ele sem um vestígio de embaraço. Milhares. Hmmm... não admirava que conhecesse todos os passos a dar.

Teria Gino tido milhares, pensou.

Provavelmente. Os dois tinham muito em comum.

Depois do almoço, CeeCee apareceu com Roberto ao colo. Este parecia-se com Lucky - de cabelo escuro e olhos negros, com um sorriso contagiante. Também dava ares a Gino. Ela sabia que manter os dois separados estava a ser uma injustiça.

O rosto de Dimitri iluminou-se. Encontravam-se na ilha com ele havia uma semana e nunca se cansava de estar junto do filho. Normalmente só o via quando visitava a casa de Lucky em East Hampton.

Depois de CeeCee levar a criança para dormir a sesta, Dimitri começou a passear-se agitadamente pelo terraço.

- Lucky - disse com impaciência, fazendo estalar irritantemente os nós dos dedos -, penso que o que é de mais não presta. O meu filho tem de ter o meu apelido. Legalmente. Insisto. Devemos casar.

- Que romântico - murmurou Lucky.

- Por amor de Deus - sabes que te adoro.

Adoraria? Tinham passado o último ano intermitentemente juntos. Ela sabia que, durante esse tempo, ele vira Francesca Fern. Não lhe fizera perguntas. Ser possessiva não era o seu estilo.

- Não sei... principiou ela.

- Que posso fazer para te persuadir?

Que podia ele fazer? Ela começara de novo a pensar em Atlantic City. Sentia a falta dos negócios ligados à hotelaria. A excitação, o poder...

Tinha dinheiro seu mas nem de longe o suficiente. Como Mrs. Dimitri Stanislopoulos, poderia fazer o que muito bem entendesse.

E Dimitri tinha razão. Roberto merecia a protecção que a utilização legal do nome do pai lhe traria.

- Quero construir um hotel - principiou lentamente. Dimitri acenou afirmativa e encorajadoramente a cabeça.

- Podes ter o que quiseres, Lucky. Basta que me digas do que se trata, que será teu.

 

- Não - disse Jess, com o auscultador aninhado junto do ouvido. Lennie Golden tem o tempo completamente ocupado durante os próximos meses. Não tem possibilidade absolutamente nenhuma de ler o guião.

- Por favor - implorou a pessoa no outro lado da linha. - Se ele o ler vai adorar e quererá fazê-lo.

- Lamento.

Pousou o auscultador e gritou:

-Vickie, onde raio estás?

Vickie entrou na sala a bambolear-se perigosamente no cimo de saltos extremamente finos e altos. Usava-os com meias pretas tipo rede, calções Spandex e um caicai Lurex. O bonito cabelo castanho estava ripado até ao limite e o rosto marcadamente feio apresentava-se cuidadosamente maquilhado. Fazia lembrar a simpática prostituta do lado, não uma secretária particular, função que se pressupunha desempenhar. Jess queria despedi-la mas Lennie não desejava nem ouvir falar no assunto.

-Desculpa, Jess - disse Vickie com a sua voz esganiçada-, mas estava na retrete. Esta semana tenho andado com um pequeno problema de barriga.

- Andas sempre com um pequeno problema de barriga - queixou-se Jess, levantando-se da secretária velha e usada atrás da qual estivera sentada. - Atender telefonemas não faz parte das minhas funções. É para isso que te pagamos.

Vickie baixou o par de pestanas postiças.

- Desculpa, Jess.

Onde é que Lennie ia descobrir aqueles espécimes? A última que contratara antes daquela, parecia um homem disfarçado mas, ao menos, ela/ele atendia as chamadas telefônicas. Aquela passava a vida na casa de banho.

- Tenho de sair - disse Jess, relutante em deixá-la sozinha a tomar conta das coisas. - És capaz de dar conta do recado?

Vickie sorriu. Nunca conseguira arranjar dinheiro para pôr umas capas nos dentes, que se apresentavam numa desgraça.

- Se posso tomar conta disto? Que pergunta!

- Toma nota. dos recados - admoestou-a Jess secamente. Vickie anuiu.

Jess saiu do pequeno escritório localizado num edifício incaracterístico da Sunset e não teve dúvidas de que necessitavam de um espaço mais alargado e de duas secretárias decentes. Lennie estava a ter muito que fazer e conduzia o negócio de maneira insignificante. Há seis meses atrás teria bastado, agora, porém, não. Não com Lennie a subir meteoricamente.

Jess apanhou o elevador até à garagem subterrânea, onde foi buscar o seu carro - um Datsun usado. Pensava constantemente em trocá-lo por algo melhor mas quem é que tinha tempo? Acontecera tanta coisa, tanta coisa boa. Graças a Deus dera ouvidos a Lennie e trocara Las Vegas por Los Angeles. A princípio fora horrível. Não saía do seu quarto no hotel onde Lennie a metera, onde ficava em frente da televisão dia e noite. Ele permitira-lhe que o fizesse durante algumas semanas, até que um dia dissera, "Muito bem, garota. Acabou. Vais voltar à luta." E a partir desse momento não mais a deixara sozinha - arrastava-a para todo o lado onde ia. Conheceu todos os seus amigos - Suna, Shirley, Joey Firelo, Foxie e a escultura! Rainbow, Isaac e a bonita mulher. Todos a aceitaram imediatamente e esforçaram-se por integrá-la no seu convívio. As gêmeas levaram-na para o ginásio onde andavam; Joey fez questão em tê-la presente em várias das suas gravações para a T. V. Rainbow acompanhou-a ao Frederick's, uma ousada loja de roupa interior na Hollywood Boulevard, encorajando-a a comprar uma camisa de noite em cetim purpúreo com uma racha lateral enorme; Isaac e a mulher convidaram-na para uns churrascos de domingo na casa que tinham no vale. E Foxie, cuja rudeza era lendária, não tardou em ficar pelo beicinho, aproveitando sempre a sua presença para a regalar com histórias da sua vida colorida. Como tinha agora oitenta e seis anos, nunca passavam da conversa.

Lennie, evidentemente, estava sempre à sua disposição, com o seu apoio e compreensão, um verdadeiro amigo. Sem ele, Jess sabia que teria ficado destroçada. Mas ele ajudara-a a recompor-se e estava-lhe imensamente grata.

Até que chegara a altura de deixar de ficar dependente das outras pessoas. O dinheiro começava a escassear-lhe e não fazia tenções de cravar Lennie. Mas que fazer? Voltar para Las Vegas estava fora de questão e os lugares de croupiers não abundavam propriamente na área de Los Angeles. Pediu conselho a Foxie.

Este mordiscou a ponta de um velho charuto fedorento, cuspiu no chão e sugeriu algo que nunca lhe passara sequer pela cabeça.

- Torna-te empresária artística de alguém - disse. - És uma tipinha esperta e com muita cabeça. Serve-te dela.

- Empresária artística de quem? -De Lennie, evidentemente.

- Lennie já tem um.

- Quem é que está a falar em agentes? - disse Foxie, agitando vivamente o charuto.

- Se ele tem Isaac, para que precisa de um empresário artístico? Foxie abanou a cabeça, incrédulo.

- E eu a pensar que eras esperta. Para rapariga criada em Las Vegas, não sabes grande coisa.

- Claro que sei - encrespou-se Jess. - As estrelas têm agentes e empresários artísticos. Quando podem.

- E como é que pensas que chegam ao estrelato, antes de mais nada? -Não sei.

Foxie abanou a cabeça com ar conhecedor.

- Então escuta.

Falava depressa, as palavras a jorrarem-lhe em catadupa. E o que dizia fazia sentido. Claro que Lennie tinha um agente, e Isaac era competente - representava um grupo estável de jovens comediantes e fazia o melhor que podia -por todos eles. Mas o seu melhor, dividido por todos os seus clientes, não era simplesmente suficiente. Foxie citou o "Merv Griffin Show" como exemplo.

- Lennie saiu daqui para comparecer ao funeral do teu filho. Pensas que Isaac voltou a sugerir-lhes o nome de Lennie Golden? Nem pensar. Borra-se de medo - pensa que isso poderá afectar os outros clientes que tem nas intervenções que estão a fazer nesse espectáculo. Aí tens o que é um agente. Agora vejamos, um empresário artístico não os largaria enquanto não conseguisse levar água ao seu moinho. Topaste a diferença?

Jess topara. E fazia sentido. Também era a primeira vez que ouvia falar do facto de Lennie ter perdido a sua oportunidade de aparecer no "Griffin Show" para estar com ela. Devia-lhe mais do que supunha e estava decidida a recompensá-lo.

- Como é que uma pessoa se torna empresária artística? - perguntou.

- Inteiras-te da maneira como os negócios se fazem. Acreditas duzentos por cento no teu cliente. E lanças mão de todos os recursos para lhe arranjares contratos. Se eu tivesse querido, poderia ter sido o melhor empresário no ramo. Poderia ter vendido merda a um estábulo de cavalos com desinteria!

Jess riu-se. O velho Foxie sabia realmente expressar-se de maneira curiosa.

- Ensina-me - implorou Jess.

- Tu tens jeito - replicou ele. - E dispões da mercadoria certa para vender. Lennie vai subir muito. Percebi logo quando o vi actuar pela primeira vez.

Passada uma semana, Jess voltou a arranjar uma participação de Lennie no Merv Griffin Show.

Lennie ficou encantado.

- Como é que conseguiste, rapariga? Jess sorriu.

- com cabeça e sem hipotecas.

- Ha?

- Esquece.

Assim principiara a sua ascenção. Jess era dedicada, e não tinha mais nada a preocupá-la. De modo que lançou mãos à tarefa, tal como Foxie lhe dissera. E Lennie era bom, portanto tudo o que lhe arranjou deu dinheiro e conduziu a outras coisas.

A princípio Isaac ficou aborrecido mas depressa se habituou - especialmente depois de Jess lhe provar que sabia o que fazia melhor que ninguém.

Primeiro foi o Griffin Show. Duas semanas depois, nova participação porque Merv gostara dele. Uma terceira um mês mais tarde porque a reacção do público fora entusiástica. Duas participações na hora de comédia de Joey Firello como artista convidado. Depois disso, a oferta de um espectáculo semanal na televisão, onde desempenhava o papel de médico louco numas termas de saúde. O programa intitulava-se As Fontes, e era um misto de Tudo em Família e A Balada de Hill Street. Começou com níveis de audiência praticamente nulos e foi subindo até se transformar num pequeno culto, depois num culto vasto para, de repente, subir até ao topo das tabelas e, mais ou menos a meio da sua segunda temporada se tornar um sucesso espantoso. De um dia para o outro, Lennie e os restantes elementos de um elenco virtualmente desconhecido, atingiram o topo do estrelato televisivo.

O facto tivera lugar seis semanas atrás. Dizer que Lennie estava agora na mó de cima, era demasiado simplista.

Jess conduziu o Datsun para o meio do trânsito lento da tarde. Havia tanto que fazer e tão pouco tempo para tratar de tudo. Businou a um condutor indisciplinado que, prontamente, lhe fez um sinal obsceno.

- Enfia-o pelo cu acima, nabo - gritou-lhe ela, ultrapassando-o rapidamente.

A primeira medida a tomar era conduzir Lennie ao bom caminho. Corriam rumores de que este andava a beber, embora não o fizesse na sua frente. Mas também era preciso ver que, desde o sucesso do espectáculo que ela mal lhe pusera a vista em cima. Ou ele estava a dar entrevistas, ou a trabalhar ou a divertir-se com a série de louras esplendorosas que lhe passavam efemeramente pela vida.

Era só o que lhes faltava: um problema de alcoolismo precisamente quando o êxito lhes sorria.

O condutor indisciplinado atalhou na frente dela, obrigando-a a travar bruscamente. Tentou dominar a cólera mas não foi capaz de resistir a lançar-lhe uma businadela violenta.

"Mantém a calma", aconselhou a si mesma. Ia almoçar com Lennie e não queria chegar descomposta. Manter uma aparência fria e serena. Seria a melhor maneira de descobrir o que se estava a passar com o amigo.

A loira dissera ter dezanove anos mas Lennie não acreditava muito no facto. O mais provável seriam uns dezassete. Uma experiente jovem de dezassete anos de que ele estava ansioso por se livrar. Umas horas de luxúria era quanto bastava. Desejaria que elas não mostrassem sempre vontade de ficar a noite toda.

A jovem estava a vestir-se. Lentamente. Calças brancas, blusa decotada, sapatos de atacador, dúzias de pulseiras.

- Podes deixar-me ficar em Wesrwood? - perguntou a jovem.

- Não vou para esses lados. Mas chamarei um táxi.

- Não tenho dinheiro nenhum.

- Eu pago ao motorista.

A rapariga ligou a televisão e pôs-se a ver uma telenovela enquanto Lennie ligava para a empresa de táxis a pedir que mandassem um rapidamente. Queria-a fora do seu apartamento. Não que houvesse algo de errado com a moça. Era bonita, possuía um corpo californiano e a sua personalidade era suficientemente agradável. Mas era a terceira loura que tinha naquela semana e o abuso das pequenas disponíveis não andava a deixá-lo muito satisfeito consigo mesmo.

Quando o táxi apitou da rua, Lennie enfiou-lhe vinte dólares na mão e prometeu telefonar-lhe em breve, fechando a porta, depois de ela sair, com um suspiro de alívio.

Foi imediatamente tirar os lençóis da cama, amontoou-os no chão, abriu as janelas todas e preparou um refrescante vodka com laranja para si. Eram onze da manhã. Nada mal. Era o seu dia de folga e não tinha nada para fazer até à uma da tarde, altura em que ficara de ir almoçar com Jess ao Scandia.

Andara a trabalhar sem descanso. Não só reescrevera o diálogo de As Fontes, como também actuava em espectáculos quase todos os dias; no entanto ia reunindo algum material novo para o seu número e também tentava trabalhar num guião para o cinema. E depois também havia constantemente publicidade para fazer e uma festa diferente todas as noites.

Bem, por que não? Não mereceria ele, finalmente, aquilo?

O telefone tocou. Era a mãe. A querida velha Alice reentrara intempestivamente na sua vida. Era espantoso o que uns vislumbres de fama podiam fazer.

- Lennie, querido - disse ela.

Lennie pegou no copo de vodka e voltou a enchê-lo.

- Sim?

- Andei a pensar.

- Sim?

- Por que não me metes no Merv Gríffin Show? i Ele não podia acreditar no que ouvia.

- O quê?

- Não te mostres tão surpreendido. Eu faria um sucesso estrondoso!

- A fazer o quê?

- A fazer aquilo que sei fazer melhor que qualquer pessoa. A falar da vida. A contar histórias.

- Que histórias?

- Acerca de Las Vegas. Do teu pai. De mim. De todas as pessoas conhecidas, ninguém teve uma vida mais interessante do que eu. Deviam escrever um livro sobre mim. Seria um best seller! Tremo só de pensar.

- Eu também.

- Não sejas malcriado.

- Quem é que está a ser malcriado?

- Desde que começaste a aparecer todas as semanas na televisão que ficaste malcriado. Nunca sei de ti, nunca te vejo. Como é que achas que me sinto com semelhante atitude? Sou tua mãe, Lennie, e tu atiraste-me para o lado como um trapo.

De repente, Alice a Rebolona era sua mãe, facto que nunca admitira meses atrás. Depois do seu segundo aparecimento no Merv Griffin, ela escrevera-lhe uma carta a falar no espectáculo. Ele telefonara à mãe e escutara-lhe as queixas. Tudo indicava que a sua zanga se devia ao facto de ele não a ter convidado para a gravação. Logo a seguir ao telefonema. Lennie deslocou-se a Marina del Rey e passou um dia na companhia da mãe. Ela preparou-lhe uma sanduíche de bacon, fez-lhe confidências acerca do namorado mais recente - um músico de vinte e seis anos que "andava na estrada" - e embaraçou-o com uma exibição de seis novos exercícios que asseverava manterem-na em forma, jovem e sexualmente activa.

Lennie não via a mãe depois dessa ocasião, mas ela telefonava-lhe regularmente - muito regularmente, desde que As Fontes tinham dado um pulo para elevados níveis de audiência.

Mandava-lhe dinheiro, facto que ela nunca mencionava, e aturava-Lhe os telefonemas. Que mais poderia fazer? Ela era sua mãe.

- Então? -perguntou Alice.

- Muito.

- O quê?

- Muito bem.

Fez-se um silêncio gélido, enquanto Alice reflectia no que devia dizer a seguir. Saiu-se então com uma de arrasar. - Estou a pensar em arranjar um agente. Lennie pegou no copo com vodka.

- Para que raio?

- Ha! Pensas que és o único a dever ter uma carreira? Se te ralasses minimamente comigo davas-me o teu agente. Eu canto, danço, conto histórias engraçadas. Por que não me arranjas uma entrada no teu espectáculo como artista convidada?

A idéia de ir ter com Isaac Luther e propor-lhe Alice para cliente era demasiado hilariante para ter em conta. Lennie reprimiu uma gargalhada.

- Tenho de ir. Já estou atrasado.

- Vai pensando em me apresentares ao teu agente. Não te arrependerás. Nunca é demasiado tarde para ter sucesso, sabias?

- Sabia, mãe.

- Trata-me por Alice, soa melhor. E não digas a idade que tens. Fica-te nos vinte e cinco, também não pareces mais velho. Passas perfeitamente.

- Obrigado pelo conselho.

Desligou, ainda a rir. A mãe era, no mínimo, muito engraçada.

Pouco depois chegou Harriet, a criada. Era extremamente velha e custava-lhe andar. Os seus trabalhos de limpeza deixavam muito a desejar, mas herdara-a ao alugar aquele apartamento - uma penthouse de divisão única num prédio utilitário em Dohney.

- bom dia, mister Gold - cumprimentou a mulher.

- Golden - corrigiu ele.

Ela ainda só trabalhava para ele há um ano. Disse-lhe que sim com a cabeça, distraída, e foi para a cozinha, onde descalçou os sapatos e ligou a televisão.

Lennie voltou à casa de banho. Despiu o roupão e meteu-se debaixo de um duche frio. Estava ansioso por almoçar com Jess e depois, às três horas, tinha uma entrevista para a revista People. Detestava dar entrevistas. Representavam uma intrusão na sua privacidade e ele nada tinha a dizer acerca da sua vida pessoal.

Que vida pessoal?

Fazer sexo com quem calhava era muito pessoal? Duvidava.

Esfregando-se com uma toalha até ficar seco, pensou no que havia de vestir. A maior parte da sua roupa jazia no meio do chão, em monte, à espera de que alguém a levasse para a lavandaria. Tirou umas calças pretas do meio do monte e uma camisa da mesma cor. Jess provavelmente queixar-se-ia.

"Precisas de comprar roupas novas", dir-lhe-ia.

Agora que tinha dinheiro, não tinha tempo.

Para que lhe servia o tempo?

Para trabalhar.

Fornicar. Beber.

Trabalhar.

A pequena Jess dera-lhe realmente uma volta à vida. Um dínamo. Pegara-lhe na carreira estáctica e enfiara-a pelo traseiro do público como um foguete. E na altura exacta. Ela salvara a vida de ambos. E agora ele estava de facto lançado. Séries na T. V. Dinheiro com fartura. Cristo, se a revista People demonstrava interesse por ele era porque se tornara alguém. Iam tirar-lhe fotografias; um dia na vida de Lennie Golden. Perguntou a si mesmo se Éden as veria e ficou a pensar nela.

Éden Antônio eram águas passadas.

Éden Antônio nada significava para ele.

Rememorou o relacionamento de ambos. Três anos de vida em comum em Nova Iorque. A lutarem como tigres. A partida dela para o Oeste. Ele a seguir-lhe o rasto. Um encontro. Uma grande sessão de sexo. E pronto. Ela servira-se dele porque provavelmente sentira vontade de ir para a cama com alguém, e depois largara-o com tanto sentimento quanto o de uma esfinge. Cristo, como ele a detestava.

Uma ova.

O quê?

Uma... ova. Como se não te agarrasses logo a ela se te aparecesse.

Talvez.

Não me venhas com essa treta do talvez.

Odiava as conversas que se desenrolavam na privacidade da sua cabeça porque lhe diziam a verdade.

Ele sabia de factos ligados à vida de Éden.

Ela vivia com um malandrim qualquer que era casado. O tipo comprara-lhe casa, roupas, jóias.

As gêmeas forneciam-lhe pormenores. Ele tentava aparentar desinteresse.

Sabia onde ficava a casa dela. Conhecia o seu número de telefone privado. Passara de carro em frente da casa várias vezes. Telefonara e desligara outras tantas.

Mas recusava-se a contactar com ela. Se ela o quisesse, que fosse ela a vir a correr.

E se alguma vez o fizesse...

Vestido de preto, preparou-se para sair do apartamento.

Harriet preguiçava na cozinha, com as pernas cheias de varises estendidas à sua frente, assistindo a um concurso na televisão.

- Estou só a fazer um intervalo para almoçar, mister Gould - disse a mulher tranqüilamente.

- Faça a cama de lavado - instruiu ele, sabendo que quando voltasse teria de ser ele mesmo a fazê-la. Ter pena da velhota era uma coisa, agora precisava desesperadamente de uma criada.

Foi buscar o seu novo BMW preto à garagem subterrânea. Que carro! Entrara no salão de mostras e comprara-o imediatamente, ia fazer seis semanas. A sua primeira extravagância. Soube-lhe bem. Desejaria ter alguém com quem partilhar o seu sucesso. Jess era estupenda mas não a tinha ao pé quando, nas horas frias e vazias da madrugada, ele desejava o calor de uma amante, de uma companheira, de uma alma gêmea.

Às vezes agarrava-se à loira que dormia a seu lado, acordava-a suavemente e faziam amor.

Não. Amor, não. Sexo. Apenas sexo.

O sucesso era óptimo. O dinheiro era óptimo. A fama era óptima.

Simplesmente, não bastava.

Faltava-lhe algo na vida.

Conduzindo de volta a Nova Iorque, Steve Berkeley tentou chegar a uma conclusão sobre o encontro que tivera com Carrie, sua mãe.

Esta ficara muito emocionada por vê-lo, mostrando-se extremamente solícita. Pedira-lhe que ficasse para o fim de semana mas ele recusara, ansioso por falar no assunto que o levara ali e depois partir.

- Olha - dissera por fim. - Não te posso mentir e não tenciono fazê-lo. Preciso de endireitar a minha vida e para tal tenho de saber quem é o meu pai.

Houvera uma grande pausa, durante a qual a mãe se levantara, andara de um lado para o outro na sala, voltara a sentar-se para, finalmente, o fitar nos olhos.

- Já te disse tudo o que sabia... Falava num sussurro quase inaudível.

- Deste-me dois nomes - disse Steven asperamente. - Dois nomes e achas que devo dar-me por satisfeito? Pois bem, não estou. Nem de longe nem de perto. Tenho de saber qual dos dois é o meu pai. E tu tens de me ajudar.

Não fora fácil. Carrie não queria colaborar. Não desejava remexer nas cinzas do seu passado. Mas ele acabara por convencê-la, a pouco e pouco, de que se queria voltar a vê-lo novamente, não lhe restava outro remédio. Até que ela concordara com o plano por ele apresentado.

Naquele momento, ao percorrer a auto-estrada quase deserta, teve dúvidas de que estivesse a proceder da maneira correcta. Jerry Myerson aconselhara-o a não mexer em nada.

"Que é que tu pensas que vai acontecer?" perguntara-lhe Jerry. "Obrigas Carrie a ir falar com um tipo que talvez possa, e acentuo o talvez possa, ser teu pai. Depois apresentas-lhe os factos, ou seja, há quarenta e dois anos atrás, foi para a cama com Carrie, e depois pedes-lhe que faça umas análises ao sangue. Estás a brincar? Se fosses branco, punham-te fora da porta com um pontapé no cu. Mas quando olharem bem para ti, vão-se rir. Para quê sujeitares-te a semelhante coisa? E porquê humilhar Carrie? "

Jerry não entendia. Havia coisas na vida que não podiam deixar de ser feitas.

Ele sabia do paradeiro de Gino Santangelo. Ainda era vivo. Setenta e quatro anos. Casado com a viúva de Tiny Martino e a viver em Beverly Hills. Não havia dúvidas de que se tratava do mesmo Gino Santangelo com quem Carrie tivera a ligação de uma noite em 1938, nos tempos em que o homem era dono de um clube nocturno chamado Clemmie's.

Localizar Freddy Lester não fora tão fácil. A única informação de que Carrie se recordava era a de que pertencia a uma família da sociedade nova-iorquina, o seu melhor amigo chamava-se Mel e na altura em que o conhecera, deixara a universidade há pouco.

Steven encontrara três candidatos: um juiz, um editor e um médico reformado. Os três tinham mais ou menos a idade certa, viviam em ou perto de Nova Iorque e partilhavam versões diferentes do mesmo nome. Juiz Frederick Lester. Fred E. Lester. Fredd Lesster, médico. Carrie teria de escolher entre os três.

Jerry Myerson tinha razão. Não iria ser simples. Mas Steven, como antigo procurador-geral, possuía tenacidade e determinação e, o que ainda era mais importante, sabia que o seu desejo podia ser satisfeito.

Com uma pequena ajuda de Carrie. A mãe devia-lhe, no mínimo, isso.

 

Já há algum tempo que Olympia desconfiava de que o pai tinha uma amante secreta. Não que se Importasse. Dimitri podia fazer o que muito bem entendesse, o mesmo se passando com ela. Mas tinha-lhe despertado a curiosidade. Quem era a mulher misteriosa? E para quê tanto segredo?

Encontrou Francesca Fern em Nova Iorque, no 21.

- Querida! - ambas exclamaram. - Estás divina! Temos de almoçar juntas. - Beijos a roçarem faces.

- Que tal amanhã? - perguntou Olympia, interessada em descobrir o que Francesca sabia acerca do assunto.

Francesca, que não tinha nenhum desejo especial em almoçar com a petulante filha de Dimitri, não foi capaz de arranjar uma desculpa rápida.

- Na Casa de Chá Russa à uma da tarde - comunicou Olympia em tom que não admitia réplica.

Francesca anuiu com ar vago, planeando cancelar em cima da hora.

Mas de manhã Horace aborreceu-a, teve uma discussão violenta com o seu agente ao telefone e o almoço com Olympia pareceu-lhe uma desculpa bem-vinda para sair intempestivamente de casa.

Olympia acordou tarde no seu luxuoso apartamento da Quinta Avenida que deitava para Central Park. Flash encontrava-se no sul de França a trabalhar num novo álbum com os Layabout. Tencionava juntar-se a ele daí a alguns dias mas, na realidade, aquela paz e tranqüilidade estava a saber-lhe bem. A vida ao lado de Flash era uma série de festas e gente bizarra, incursões ao mundo da fantasia, noite fora, através da droga e de sexo extravagante. Não que ela se importasse com qualquer dessas particularidades, porém o intervalo seria salutar a ele - fá-lo-ia apreciá-la melhor. De vez em quando tinha a impressão de a tomar como demasiado garantida. Estava sempre à espera de que fosse ela a pagar tudo - o que correspondia à realidade.

"A ricaça paga isso", dizia a quem lho perguntasse. "Tem mais dinheiro do que o raio da rainha da Inglaterra."

Olympia lembrou-se do compromisso para almoçar com Francesca e correu a vestir-se. Envergou uma mini-saia de cabedal em tom creme, cujo zipe não conseguiu puxar. Atirou a peça para o lado e enfiou-se, a custo, dentro de um vestido de seda Chloé, que a fazia parecer gorda. Finalmente decidiu-se por um fato de linho que escondia uma série de pecados. Ultimamente, Flash dera em chamar-lhe "Banhas", o que a enfurecia. Em paga apelidara-o de "Ossos", o que o fazia rir à sucapa.

Banhas e Ossos. Os meninos-bonitos dos mexericos da altura. Oh, se ao menos o público soubesse!

As duas mulheres chegaram ao mesmo tempo, beijaram-se superficialmente na face e instalaram-se num reservado de canto; Olympia mandou imediatamente vir um Bloody Mary e Francesca optou por um Perríer. Olympia arrependeu-se imediatamente de ter decidido convidar Francesca para almoçar. De que iriam falar durante duas horas? Não tinham nada em comum excepto Dimitri, assunto que em cinco minutos ficou esgotado.

- Tenho uma marcação com o meu costureiro para as duas horas anunciou Francesca bruscamente, como que pensando no mesmo.

- Óptimo - replicou Olympia imediatamente. -Eu tenho manicure às duas.

Francesca pegou na bolsa e tirou do interior desta um charuto fino e preto. Colocou-o entre os lábios fortemente pintados em tom de carmim e dois empregados inclinaram-se solicitamente. Aceitou-lhes a deferência com a atitude de uma estrela e, agitando o cabelo ruivo-flamejante, anunciou a Olympia:

- Parto amanhã para Paris. Viajo constantemente. Olympia foi directa ao assunto.

- Tem visto Dimitri ultimamente? - perguntou.

- Não está na Grécia? - perguntou Francesca desprendidamente.

- Está - replicou Olympia, fazendo uma pausa cheia de mistério Mais uma vez.

Francesca não mordeu a isca. Passou os olhos inexpressivos pela sala e chamou o maitre com a sua voz sensual.

- O menu - ordenou. Parecia entediada. Olympia não esmoreceu.

- É a terceira vez que vai à ilha este ano. Francesca encarou-a.

- E então?

- Então... não acha um pouco... estranho?

Francesca encolheu os ombros, tirou o menu das mãos do empregado curvado e examinou-o atentamente.

- Nada de estranho. É a ilha dele.

- Hum - disse Olympia. - Eu acho estranho que ele transmita instruções explícitas para ninguém visitar a ilha enquanto ele lá estiver. E eu estou incluída. Quis mandar a minha filha para junto dele mas fui informada de que não podia.

Francesca inalou profundamente o fumo do seu charuto e acenou a um produtor conhecido que passava.

- Por que mo diz a mim? Não desejo ir para lá.

- Você e Dimitri são tão bons... amigos. Pensei que talvez soubesse das razões que o levam a ter este comportamento. Terá alguma namorada nova?

Francesca desviou o olhar brilhante para o maitre.

- Uma omeleta de verduras - pediu. - E uma salada crua. Sem sobremesa.

Olympia franziu o sobrolho. Francesca dava a impressão de não se preocupar minimamente com a possibilidade de Dimitri andar entusiasmado com um amor novo e secreto.

-E para si, Miss Stanislopoulos? -perguntou o maitre respeitosamente.

- Blinis, natas azedas, caviar, panquecas de maçã e um prato de morangos no fim.

O olhar de Francesca foi extremamente expressivo.

- Não tem cuidado com a sua alimentação? - murmurou.

- Não - replicou Olympia em tom de desafio. - Vai tudo para as minhas mamas - e é para elas que Flash olha.

Depois disso, o almoço não encerrou nada digno de nota - conversa salteada e grande pressa para ver quem era a primeira a sair.

-Adeus - despediu-se Francesca graciosamente. -Espero que nos voltemos a ver, como de costume, em Agosto.

- Não me parece - replicou Olympia. - Dimitri poderá ter outros compromissos. Possivelmente cancelará o cruzeiro.

- Não me parece - disse Francesca com um sorriso conhecedor, retirando-se logo a seguir.

Olympia não conseguia suportar a mulher. Decidiu ficar e mandar vir nova dose de morangos, mais um Bloody Mary e talvez um pedacinho de tarte de queijo.

Deu graças por tê-lo feito pois passados alguns minutos chegou Vitos Felicidade, o amante efêmero que tivera antes de Flash.

- Vitos! - gritou, acenando-lhe vigorosamente.

Vitos deteve-se, olhando na direcção dela. Levou algum tempo a reconhecê-la mas quando tal aconteceu, o seu sorriso foi perfeito e o beija-mão impecavelmente executado.

- Oleempeea! Tão liiiinda.

Vitos fora alvo de grande atenção por parte dos órgãos de comunicação social no ano que decorrera e naquela altura era ainda mais famoso do que quando se tinham conhecido. Trajava impecavelmente: um fato Savile Row em seda azul, uma camisa feita por encomenda, botões de punho em ouro e uma pulseira de identificação com diamantes que de discreta não tinha muito. Encontrava-se acompanhado por duas mulheres. Uma delas era a sua relações públicas e a outra, uma gorducha que levava um gravador e uma pasta com recortes de jornais.

- Esta aqui é The New York Times - anunciou, indicando a gorducha. Ana e... Pamela.

A relações públicas cumprimentou com um aceno rápido de cabeça enquanto Vitos apontava para Olympia com um gesto teatral.

- Senhoras, permitam-me que vos apresente a senorita Oleeempea Staneeezlopoulos.

Ambas as mulheres se mostraram imediatamente atentas, ficando a olhar para a loura voluptuosa e bochechuda. Há dois anos que o romance desta com a figura de culto do rock que era Flash, não saía nos cabeçaLhos dos jornais.

Olympia retribuiu-lhes o aceno de cabeça com indiferença - detestava tudo quanto fosse imprensa, excepto quando se tratava da Vogue ou do Bazaar. Até a Architectural Digest não parecia digna da sua atenção.

Escrevinhou um número de telefone num boletim de apostas e entregou-o a Vitos.

- Telefona-me - instruiu-o com um olhar significativo. - Mais tarde.

O sorriso dele manteve-se perfeito. Bateu com os calcanhares à moda antiga, cumprimentou e afastou-se, com as duas mulheres no seu encalço.

Olympia franziu os lábios. Ele poderia providenciar-lhe uma variante agradável. A tarde estendia-se à sua frente, interminável. Não tinha nenhuma marcação na manicura. De facto, nada tinha para fazer excepto regressar ao seu apartamento (aborrecido sem a presença electrizante de Flash) e à sua filha Brigette, agora com onze anos e um monstro ainda pior. Ela e Flash tinham-se odiado à primeira vista e, um mês depois do encontro entre os dois, Olympia tomara providências para que a filha fosse prosseguir a sua educação em Inglaterra. O gerente de Flash sugerira um colégio adequado em Oxfordshire, e Olympia despachara imediatamente a preceptora Mabel e Brigette. Brigette freqüentava o internato durante a semana e a preceptora ficava instalada numa casa próxima, para que Brigette tivesse algum sítio onde passar os fins de semana. Estava tudo a correr razoavelmente - se se optasse por ignorar os pavorosos boletins informativos.

O principal problema eram as férias. Como era natural, Olympia tinha de passar algum tempo com a filha e, nas férias, não tinha por onde escapar. Contara poder enviar Brigette e a preceptora para a ilha de Dimitri mas este, surpreendentemente, dissera que não. Fora nessa altura que Olympia desconfiara de que algo se estava a passar. Imaginara Francesca capaz de lhe fornecer algumas respostas mas não tivera essa sorte.

Ser mãe não era fácil. Responsabilidades mirabolantes. E Brigette nunca se mostrava agradecida. Quanto mais velha ficava, mais difícil se tornava. Aperceber-se-ia de que naquele momento Olympia estava a desperdiçar tempo precioso que poderia passar com Flash?

Não, claro que não se apercebia.

Ao sair do restaurante, Olympia dispensou a limusina e foi a pé pela rua até ao Bedel's uma das suas lojas preferidas. Deambulou durante algum tempo e escolheu uma fatiota bege-claro e um par de sapatos em pele de oitocentos dólares. Ordenou que lhos enviassem a casa.

Estava um dia de verão agradável, não demasiado húmido, portanto seguiu para o Bergdorfs e largou mais dois mil dólares nesse estabelecimento. Quando seguia pela Quinta Avenida em direcção a casa, reparou numa banca de jornais à esquina. Deu-lhe uma vista de olhos porque no meio de uma série de revistas masculinas, mesmo ao lado do Enquirer e do Star, estava um pasquim chamado Pointer. E na primeira página deste vinha uma fotografia enorme de Flash, a olhar de soslaio, nu da cintura para cima com excepção de um lenço comprido e esfarrapado ao pescoço, e com o braço esquelético a rodear os ombros de uma boneca franzina e de cabelos louros que não podia ter mais de dezassete anos. E o cabeçalho

dizia: FLASH CASA SECRETAMENTE com ADOLESCENTE.

Olympia parou e ficou a olhar fixamente. Os pequenos olhos azuis reduziram-se-lhe a uma fenda estreita. Tirou uma nota de dez dólares da sua bolsa Hermes que estendeu ao vendedor ao mesmo tempo que pegava num exemplar do jornal ofensivo. Enquanto o velho procurava troco, leu a legenda que vinha por baixo da imagem. Era resumida e ia directa à questão:

Flash, a lendária superestrela do rock revelou, no sul de França, onde se encontra a trabalhar num novo álbum com os Layabout, que está há três anos secretamente casado com Kipp Hartley, hoje com dezoito anos. Kipp, estudante quando se conheceram, aguarda o primeiro filho de ambos para o próximo ano.

 

A decisão estava tomada. Lucky ia casar-se. Pela segunda vez.

- Nada de uma cerimônia pomposa. Façamo-lo só com o pessoal a servir de testemunha - pediu a Dimitri.

Dimitri concordou. Dessa maneira as pessoas não saberiam quando é que o casamenTo tivera lugar e Roberto não teria de viver nem sequer com um vestígio do estigma da ilegitimidade.

Decidiram realizar a cerimônia na véspera de abandonarem a ilha. O advogado de Dimitri chegou quarenta e oito horas antes. Trazia consigo uma pasta cheia de papéis. A maioria destinava-se a ser assinada por Lucky. Esta não se importava, desde que o mais importante de todos se encontrasse incluído. Dizia respeito ao acordo feito entre ela e Dimitri, segundo o qual este responsabilizar-se-ia totalmente pela compra do terreno, construção e financiamento do hotel de Atlantic City, que depois passaria a pertencer-lhe exclusivamente. E, por sua morte, passaria para as mãos de Roberto, seu filho.

- É o meu presente de casamento para ti - disse Dimitri, assinando o documento com um floreado.

Lucky acrescentou a sua própria assinatura. Quanto à maior parte da fortuna de Dimitri, renunciava a ela. Mas que importância tinha? Roberto receberia, em qualquer dos casos, metade de tudo, para além do facto de o hotel ser um investimento de vários milhões de dólares que lhe pertenceria inteiramente.

O dia do seu casamento esteve perfeito. Lucky usou um vestido branco simples e levou flores nos cabelos. Dimitri escolheu um fato ligeiro nada de demasiado formal.

Do continente chegou um padre ortodoxo para efectuar a cerimônia. Os convidados eram o pessoal e Roberto, que passou a maior parte do dia equilibrado na anca de CeeCee, sem compreender patavina do que se passava mas apreciando o clima de excitação que reinava no ar.

Lucky recordou-se do primeiro casamento, tinha ela dezasseis anos. Las Vegas. Quinhentos convidados. Um vasto circo pomposo em que ela participara. Contra vontade.

Culpa de Gino. O processo que Gino encontrara para se livrar dela.

O sol esfriou, Roberto foi posto na cama e Dimitri e Lucky jantaram, sozinhos, no terraço. Festejaram a ocasião com cabrito assado aromatizado com ervas e cortado em fatias finas, batatas assadas temperadas com alho, pequenas ervilhas frescas salteadas em manteiga. E de sobremesa, um bolo de casamento em miniatura, feito de morangos e merengue.

Brindaram à saúde um do outro com ouzo, o licor preferido de Dimitri e, mais tarde, nadaram nus na piscina.

Na cama, fizeram amor lentamente e ela entregou-se ao ritual da arte experiente e talentosa de fazer amor de Dimitri.

Que diferente que aquela sua noite de núpcias estava a ser da que passara com Craven nas Bahamas... Ele queimara-se em excesso sob o quente sol tropical e passara a noite a praguejar e a gemer. Que parvalhão!

"Amanhã saímos da ilha", pensou Lucky.

"Amanhã devo telefonar a Gino e a Costa."

"Amanhã... amanhã... amanhã..."

Deslizou para o sono, com um braço displicentemente pousado em cima do novo marido.

Gino largou da mão mais cinco mil dólares para mais uma causa de indigência. Susan passava a vida com causas de indigência a sairem-lhe por tudo quanto era sítio. Eram umas atrás das outras. Não era defeito que se pudesse apontar a Susan Santangelo. Era pródiga com as causas de caridade. com o dinheiro dele.

Susan presenteou-o com um sorriso esfusiante.

- Obrigada, querido - sussurrou-lhe.

Encontravam-se numa festa que decorria no Hotel Century Plaza. Mesa para doze. A mesa dele. Não, dela. Ele pagava. Ela convidava.

Gino ficara sentado entre Susan e a grande amiga desta, Paige Wheeler. Gostava de Paige. Ela tinha um sentido de humor, qualidade que já não se podia atribuir à maioria dos "bons amigos" de Susan.

Os outros convidados englobavam o marido de Paige, Ryder, um produtor cinematográfico que só sabia conversar acerca da "indústria". E uma variedade de pessoal que servia Susan. O seu cabeleireiro, o costureiro, o dentista. E, evidentemente, os seus filhos. Gemma, miss Toda-Poderosa. E Nathan - "não posso sujar as mãos com um dia de trabalho agora que acabei de me formar".

Anteriormente achara-os encantadores, um motivo de orgulho para a mãe. Mas dois anos na sua companhia tinham-no ensinado a ver que não era assim. Estavam convencidos de que o mundo lhes devia todas as honrarias - ambos vítimas de demasiada fartura demasiado cedo, e uma vida regalada desde sempre. Dois fedelhos de Beverly Hills com as suas roupas desportivas de marca e descapotáveis a condizer.

Gino teve de admitir, entristecido, que não era capaz de se afeiçoar a nenhum dos dois, embora o tivesse tentado muitas vezes.

Sabia que eles não o apreciavam nem aprovavam.

Que se fodessem. Que lhe importava a ele? Casara com Susan, não com os filhos desta.

Susan estava decidida a que formassem todos uma família grande e feliz, e nunca cessava de tentar aproximá-los.

Tratavam-no por Gino.

Susan queria que lhe chamassem pai.

Eles tentavam manter-se afastados do seu caminho.

Susan queria que ele os adoptasse legalmente.

Caramba! Ele rira-se-lhe na cara quando a ouvira fazer a sugestão pela primeira vez.

- Deixa-te disso. Eles são crescidos, adultos. Que treta é essa da adopção?

- No fundo são umas crianças. Precisam de um pai! a sério. Ou os adoptas, Gino, mostras-lhes que te importas verdadeiramente com eles, ou então não te posso assegurar que alguma vez te aceitem.

- Uma merda.

-Não querido. Encara a verdade.

Susan já discutira o assunto com o seu advogado, o qual, segundo ela, achara a idéia excelente.

Sempre que a mulher tocava no assunto, o que era freqüente, Gino desviava a conversa.

- Não seria agradável - gostava muito Susan de dizer -, teres filhos que gostassem verdadeiramente de ti?

Era a sua maneira de deitar a piada a Lucky.

Era verdade. Nunca mais tivera notícias da filha. Esta assistira ao seu casamento com uma expressão pouco amistosa e não achava que lhe tivesse telefonado, depois disso, mais que duas vezes.

Quando casara com Susan, inicialmente não dera muita importância aos sentimentos que Lucky poderia ter experimentado em relação ao assunto. Quem se casava era ele. Que tinha a filha a ver com tal? Mas, em retrospectiva, talvez ele devesse ter-lhe demonstrado mais consideração- no fim de contas, há mais de um ano que eram inseparáveis, depois de toda uma vida de desentendimentos de brigas - e ele apreciara tanto essa aproximação quanto ela.

Os Santangelos. Pai e filha. Uma combinação imbatível. Sentia a falta da filha. Talvez fosse chegada a altura de ultrapassar incompreensões.

- Cá por mim acho que está com a sua mente noutro sítio qualquer - segredou-lhe Paige ao ouvido. - E quem poderá censurá-lo? Estes acontecimentos são uma chatice.

Voltou-se para olhar para a amiga de Susan. Era uma mulher atraente, com o seu cabelo rebelde frizado e aquilo que no seu tempo eram chamados de "olhos de cama".

Paige apoiou-lhe a mão ao de leve na coxa.

- Os bailes de caridade sempre me aborreceram de morte. Mandar um cheque é o meu lema. Não concorda?

Gino podia sentir-lhe o calor da mão através do tecido das calças, assim como também podia sentir o seu pénis a tornar-se erecto. Susan, por uma variedade de razões, não dormia com ele há seis semanas. Ele podia estar velho, mas enterrado é que não. Sentia a necessidade de sexo com regularidade.

A mão de Paige não se mexeu. Se se desviasse um centímetro perna acima, poderia sentir a força da reacção dele.

Ela não precisava de a mexer. Sabia o que estava a acontecer.

- Você é um homem muito sexy, Gino - disse Paige, certificando-se de que as palavras eram captadas unicamente pelos ouvidos de Gino.

- E você também é uma gaja que não está nada mal - replicou ele, entrando na jogada e gostando.

- Não acha - disse Paige muito, muito suavemente -, que são horas de fazermos alguma coisa relacionada com o facto?

Ele não andara a enganar Susan. Fora-lhe fiel.

A fidelidade que se lixasse. Há muito tempo que não se sentia tão excitado. Para dizer a verdade, Susan não era grande coisa na cama. Demasiado senhoril. Era uma esposa fantástica para quem gostasse de festas de sucesso, bordados à mão e fins de semana em Palm Springs a correr com um pau atrás de uma bola de golfe.

Paige, sem que ninguém na mesa reparasse e sob a protecção da toalha de abas compridas, movera a mão para cima e começara a acariciar-lhe a erecção. Gino quase gemeu alto.

- Isso mesmo - encorajou-a ele grosseiramente.

- Telefone-me para o escritório - respondeu Paige com um último apertão. - Breve. Muito breve.

 

Lennie não contara aparecer na capa. Não na maldita capa da revista People.

Toda a gente ficou impressionada.

Excepto Alice.

Naturalmente.

A mãe telefonou-lhe, enfurecida.

- Mal fazem referência à minha pessoa - gritou. - Não vem nenhuma fotografia minha. Estás a tentar sabotar a minha oportunidade de também ter uma carreira?

Lennie não conseguia acreditar no que ouvia.

- Vá... - principiou.

- Não. Quem vai és tu - berrou-lhe ela. - Escrevi-lhes uma carta. Exijo um pedido de desculpas. Quero que eles façam um artigo acerca de mim.

Não havia nada que satisfizesse Alice. Em vez de se sentir orgulhosa com o sucesso do filho, tinha inveja. A sua própria mãe com inveja! Era ridículo.

As gêmeas fizeram questão em organizar uma festa em sua honra. Estavam em plena ascenção, depois de terem realizado uma série de anúncios publicitários, altamente lucrativos, de uma pasta de dentes, que as tornara conhecidas do público. Suna andava com um cirurgião plástico e este autorizara a realização da dita festa na sua casa de Coldwater fcanyon, à qual não faltava nem uma jacuzzi nem um campo de tênis. Foram convidadas cem pessoas. Apareceram duzentas.

O cirurgião plástico serviu comida mexicana. A música, ruidosa, foi fornecida por um estridente grupo rock (cortesia de Shirlee, andava com o baterista). E todos se divertiram em grande.

Lennie deu consigo, às quatro da manhã, de cabeça completamente perdida e nu, na Jacuzzi, na companhia de três raparigas e de uma variedade de drogas gentilmente fornecidas pelos amigos. Ele fumava um charro, enquanto duas das moças inalavam coca e a terceira quase se afogou ao tentar atirar-se para cima dele. Aquilo é que era o estrelato? Aquilo é que era ter tudo o que havia de melhor? Droga de borla e demasiada fartura de mulheres? Tinha de haver algo mais...

Sentiu-se aliviado por Jess se ter retirado. Ele sabia o que a amiga pensava sobre "deixar as coisas sairem do controlo". "Faças o que fizeres, Lennie", dissera-lhe Jess ao princípio da noite, "não te transformes num parvalhão".

Ele sabia exactamente qual o significado das palavras dela. Mas não podia ser um parvalhão só por uma noite? Quantas vezes na vida uma pessoa se apanha nua numa Jacuzzi acompanhada por três mulheres excitadas e podendo tomar quanta droga desejar?

Uma das raparigas possuía uns seios enormes. Colocou-se em cima dele, encostando-o a um dos jactos de saída de água e agitou-os em frente da cara dele. Lennie apanhou um dos mamilos com a boca e lançou mãos à obra.

Uma das outras jovens, igualmente bem fornecida, decidiu entrar também em vias de facto. Enfiou-lhe o mamilo direito na boca.

Lennie sugava ora um, ora outro, enquanto a terceira rapariga lhe fazia o mesmo a ele.

Sentiu-se levitar.

A subida rápida e súbita.

O atingir do clímace.

As vibrações.

O regresso à terra.

Jeeeeesus!

Não havia nada como ser uma estrela.

Tinha vontade de ir para casa. Empurrou o mulherio para longe de si e saltou para fora da piscina. Por todo o lado se viam pessoas nos mais variados graus de nudez. Foi abrindo caminho por entre os corpos, encontrou as suas roupas e vestiu-se.

Tinha o seu carro em frente do passeio. Jess prendera-lhe um bilhete no pára-brisas.

"Nabo", escrevera, "guia com cuidado".

Lennie assim fez. Dali até ao apartamento dela, que ficava apenas a um quarteirão de distância do dele.

Jess deixou-o entrar sem se queixar, deu-lhe café forte e ficaram sentados a conversar até o sol da manhã brilhar no céu. Lennie desabafou tudo o que tinha dentro de si. O prazer de ter finalmente alcançado o sucesso. A constante sensação incomodativa de que tudo era apenas temporário, que talvez ele não devesse entusiasmar-se demasiado - não iria durar.

- Tu durarás - assegurou-lhe a amiga. - Isto é apenas o começo.

- Dito por ti...

Abraçaram-se com força. Lennie ia a dizer algo acerca de Éden mas depois mudou de idéias.

Jess preparou-lhe Bacon com ovos e pô-lo a dormir na sua cama. Felizmente era domingo. Não havia trabalho. Não havia que lutar pela vida.

Jess foi para outra divisão e telefonou a Matt. Tinham-se mantido em contacto. Quando Gino Santangelo se casara e saíra de Las Vegas, promovera Matt a director geral do Magiriano. A única pessoa a quem Matt tinha de prestar contas era o próprio Gino.

Ele ficava sempre deliciado em receber notícias dela. Ainda mais deliciado ficou ao saber que, daí a alguns dias, Jess voltaria a Las Vegas com Lennie. Só por uma semana, mas sempre era melhor que nada.

Seis meses atrás, antes de Lennie ficar verdadeiramente na berra, Matt contratara-o para aparecer no salão principal do Magiriano para participar numa actuação de primeira juntamente com Vitos Felicidade. Que par! Quando procedera à combinação, ainda nenhum dos dois era uma grande estrela. Agora ambos eram.

-Queres libertar-nos do contrato? - brincou Jess, tal como vinha fazendo nos últimos dois meses.

- Engraçadinha.

- Obrigada.

-Em que te posso ser útil hoje?

- Quero apenas confirmar pormenores.

- Já os confirmaste uma centena de vezes.

- Sou uma pessoa meticulosa.

Jess apreciava as suas conversas com Matt. De uma maneira curiosa, quase lhe sentia a falta. Perguntou a si mesma se ele ainda andaria com correntes de ouro, arranjaria o cabelo com o secador e atirar-se-ia a todas as coristas da cidade. Esperara, de certo modo, que ele visitasse Los Angeles, o que não acontecera nunca.

"Demasiado atarefado", explicara Matt quando, certa vez, lhe perguntara porque não o fazia.

Jess sabia o que era andar atarefado. A carreira de Lennie não a deixava parar um minuto. Não tinha tempo para mais nada - nem sequer para ter uma vida pessoal. Em dois anos, permitira-se apenas uma ligação. Fora um actor que em determinada altura lhe aparecera, dotado de uns peitorais espectaculares, coxas espantosas e uma dureza de rocha em tudo o mais, mas com o cérebro de um adolescente retardado. A ligação de ambos durara exactamente seis semanas. Fora tudo quanto pudera suportar de um sexo fantástico e praticamente nada mais. Quando se separaram, ele sugerira que ela se tornasse agente dele. Agente dele! Dormir com ele já era provação suficiente.

Depois de conversar com Matt, vestiu uns calções e uma T-shirt, confirmou que Lennie dormia e foi de carro até ao Mercado Carl, onde comprou artigos de mercearia e os jornais. Não conseguia deixar de se preocupar com Lennie. Éden Antônio continuava a exercer domínio sobre ele. Só iria ficar completamente bem quando a pusesse definitivamente para trás das costas. E como poderia fazê-lo se nem sequer andava a vê-la?

Jess tinha uma expressão preocupada. Nunca conhecera Éden mas ouvira contar histórias suficientes para saber que a mulher era uma cabra mimada que vivia com um mafioso qualquer e era ambiciosa até mais não. Alguns dias na companhia dela não permitiriam que Lennie visse o que era de facto?

Teria sido bom.

Ele estava apanhado.

A única maneira de se libertar era fazê-lo ele próprio.

Éden fitou a capa da revista People e mordeu fortemente o lábio inferior. Filho da puta! O estupor conseguira lá chegar. Quem teria imaginado Lennie Golden a conseguir aparecer na capa de People? Ela não, pelo menos. Na sua opinião, Lennie tinha muito pouco talento. Oh, claro, na cama não havia melhor. Mas ser bom garanhão não bastava para aparecer em capas de revistas.

Estreitou os olhos cor de topázio e fitou longamente a fotografia dele. Lennie sorria. Para ela? Como se lhe dissesse: "Escuta, miúda, bem te disse que lá chegava. Agora que raios andas tu a fazer? "

Que andava ela a fazer?

Não o suficiente.

De maneira nenhuma.

Vivia na casa que Santino Bonnatti lhe comprara e era virtualmente sua prisioneira. Ele mantinha-a trancada na Blue Jay Way com um motorista guarda-costas a prover a todas as suas necessidades. Fora o que Santino dissera ao instalar o capanga, como se estivesse a fazer-lhe um favor.

"Este é Zeco. Vai tomar conta de ti e andar contigo por todo o lado. Tratará de tudo o que precisas. Okay, rabo de coelho? "

Que poderia ela ter respondido? Que não? Ou aceitava a vontade de Santino ou acabava rapidamente com a relação. E ela era demasiado esperta para se afastar antes do momento certo. Santino era a chave para o seu futuro e, apesar de estar a ser demorado, ela sabia que aconteceria na altura certa.

Agora, ao menos, havia um guião decente, um director interessado e um produtor legítimo - Ryder Wheeler. O filme intitulava-se A Minha Vida Como Mulher da Vida e ela iria ser a estrela principal. Era Santino quem entrava com a maior parte do dinheiro, do mesmo modo que era o produtor executivo.

Éden estava entusiasmada. Demorara muito tempo a tornar-se realidade.

Zeko entrou na sala. Só tinha um olho verdadeiro, o outro era de vidro. O facto dava-lhe uma aparência bizarra. com um metro e noventa e cinco de altura, era liso como o traseiro de um bebê. Éden tinha a certeza de que ele a espreitava quando tomava banho na sua linda casa de banho em mármore com uma parede de vidro protegida por uma folhagem densa no exterior. Podia imaginá-lo a esgueirar-se por entre os cactos cheios de espinhos para dar uma espreitadela. Perversamente, não mandara pôr gelosias. Ele que olhasse, se isso o excitava. De vez em quando abria as pernas e afagava o sexo loiro, proporcionando-lhe um autêntico espectáculo.

- Que é? - perguntou com ar altivo.

- Agora vou buscar mister Bonnatti - disse ele.

- Então vai - despachou-o ela.

Passava do meio-dia e ainda não se vestira. Envergava um pijama de seda e calçava sapatos de salto alto. Santino visitava-a sempre depois do almoço de domingo com a família, acontecimento que dava a impressão de deixá-lo excepcionalmente excitado. Ela aprendera, de maneira perversa, a desfrutar das atenções que ele lhe dispensava. Ele era tudo quanto os outros que tivera ao longo da vida não tinham sido. Comportava-se como se fosse capaz de conseguir tudo o que desejava - o que parecia compensar a sua ausência de atributos físicos. Às vezes era um pouco excêntrico e já se entusiasmara em excesso em algumas ocasiões, chegando ao ponto de a magoar. Mas ultimamente ela achava que ainda tinha a primeira palavra a dizer. Santino adorava-a obviamente - e nem outra coisa seria de esperar. Onde é que um homem como ele encontraria uma mulher como ela?

Éden descobrira como é que ele fazia o seu dinheiro, que não lhe vinha de importações de azeite e café. Santino Bonnatti negociava em pornografia e droga. Estremeceu e lançou mais um olhar à fotografia de Lennie, atirando depois a revista para o lado e indo para a casa de banho tomar duche e vestir-se. Santino gostava dela bem lavada, em contraste com a mulher que, segundo ele, só tomava banho uma vez por semana.

Terminado o duche, inspeccionou o seu guarda-fatos. Tanta roupa e tão poucas oportunidades para a vestir. Santino só a levava a sair de tempos a tempos, embora afiançasse que em breve jantariam com Ryder Wheeler e o novo director no Chasen's. Éden aguardava a ocasião com ansiedade e planeara o que iria levar vestido: o sensacional Halston vermelho com o colar de rubis que Santino lhe oferecera no aniversário. Às vezes ele era muito generoso. Aturar um homem como Santino Bonnatti tinha de ter algumas compensações.

 

Vitos telefonou. Exactamente na altura combinada.

- Vamos divertir-nos - disse Olympia.

- Da última vez que nos divertimos piraste-te com Flash, deixaste Vitos sozinho.

- Eu fiz isso? Não foi minha intenção.

- Agora Vitos é grande estrela e tu quereres ele outra vez. Por que hei-de ir?

- Porque terás a coisa chupada como gostas.

- Oleeempeea!

Foi buscá-la numa limusina comprida e branca, e correram tudo quanto era festa na cidade. Dessa vez Olympia não se esquivou aos paparari de atalaia. Pelo contrário, fez pose para eles, com um braço em volta do pescoço de Vitos.

Este reagiu agradavelmente. Na América, o que importava acima de tudo era a publicidade. E quem melhor do que uma das mulheres mais ricas do mundo para lha dar?

Não que considerasse Olympia uma mulher. Ela era agarotada, fazia lembrar uma boneca excitável. Também estava bastante mais roliça que da última vez em que tinham estado juntos. Na cama, o facto não o incomodava. Sempre gostara de mulheres com carne nos ossos. Olympia tinha mais do que carne, tinha batatas e vegetais também. Despida, era uma gorducha.

Ele gostava de fazer amor com ela. Afundava-lhe os dentes nos rolos de carne perfumada. Enterrava-lhe a cabeça entre as coxas sufocantes. Deleitava-se entre as maravilhas que eram os seus seios enormes.

Olympia gostava de atingir o clímace várias vezes. Não era fácil de contentar e, passadas duas horas, estavam ambos banhados em suor, exaustos.

- Por que não nos casamos? - sugeriu Olympia, enfiando uma almofada atrás de si e sentando-se na cama.

Vitos sorriu. Dentes maravilhosos. Um sorriso de ídolo de matinê, Era uma pena ter o cabelo a escassear.

- Que queres dizer, Oleeempeea?

Ela piscou-lhe o olho. Vitos era bonito mas estúpido. Flash, com todos os seus problemas de droga, conseguia ser dez vezes mais homem do que Vitos.

- Casar. C-A-S-A-R. Entendes o que estou a dizer?

Ela calculara o esquema. Casar com Vitos. Pôr Flash na alheta - era muito bem feito para o estupor. Quando Flash tivesse recebido a sua lição, ela simplesmente divorciar-se-ia de Vitos. Está bem que despachar Vitos iria custar uns milhões. Mas valia o preço.

- Gostas da idéia de casamento? - perguntou Vitos, afagando-lhe a coxa e pensando na influência que casar com Olympia Stanislopoulos exerceria sobre os seus níveis de audiência.

- Acho que fazemos um par bonito. Não és da mesma opinião?

- Talvez façamos.

- Isso é que sim?

- Amanhã vou para Las Vegas. Uma semana no Hotel Magiriano. Tu vens comigo. Falamos.

- Que raio de resposta - ripostou Olympia agastada. - Não é todos os dias que pergunto a uma pessoa se quer casar comigo.

- Oleeempeea - disse Vitos amenizadoramente. - Eu agora ser uma grande estrela. As mulheres americanas adoram-me. Dás-me um bocado de tempo e fazemos isso. Que dizes amor?

Olympia absteve-se de dizer o que realmente tinha na vontade e aquiesceu compreensivamente.

- Claro, Vitos, irei contigo. Esperarei e veremos o que acontece. Certo?

Vitos sorriu, feliz.

- Certo, Oleeempeea. Certo, minha querida.

Ficaram sentados na sala de tribunal do juiz Frederick Lester durante dois dias. Durante o intervalo para o almoço do segundo dia, Carrie voltou-se para Steven e disse:

- Não é ele. Agora tenho a certeza.

Steven sentiu um arrepio de desilusão. De todos os candidatos, o juiz Frederick Lester era o que esperara descobrir como sendo seu pai.

- Como é que podes ter a certeza? -perguntara ele à mãe com voz baixa e irada. - Já se passaram mais de quarenta anos.

- Tenho a certeza. Tive o homem na minha frente durante dois dias. Estava à beira das lágrimas mas reprimiu-as, não desejando que Steven percebesse a sua angústia.

Saíram do tribunal e detiveram-se em frente do edifício, na escadaria.

Carrie olhou absortamente em frente, reflectindo no resultado a que Steven iria chegar na sua busca do passado. Ela não desejava recordar... mas era impossível esquecer.

Era o vigésimo-primeiro aniversário da sua amiga, Goldie. Esta tinha um encontro com Mel, o namorado, que, por sua vez, iria trazer Freddy Lester consigo. A saída ficara combinada para depois do espectáculo e a rapariga que concordara em ser o par de Freddy, torcera o tornozelo e ficara a coxear, cheia de dores. Goldie olhou implorativamente para Carrie.

- Por favor! - pediu fervorosamente.

Carrie não via maneira de recusar. No final de contas, era o aniversário de Goldie. De qualquer maneira, algum dia ela teria de aprender a confiar em si mesma; não podia permanecer uma reclusa durante o resto da sua vida. Bastavam os nove anos que passara fechada dentro de uma instituição.

- Está bem - concordou relutantemente.

Quando voltaram a sair do teatro, Mel e Freddy - que era bastante bem-parecido e tinha consciência do facto - aguardavam-nas do lado de fora, à porta do palco. Cumprimentaram as jovens com entusiasmo.

- Olá, meninos - disse Goldie na sua melhor imitação da voz de Mae West.

- Parabéns, borracho - replicou Mel, prendendo-a num abraço possante e dando-lhe um beijo em cheio na boca.

Carrie e Freddy entreolharam-se atentamente.

- Calminha! - exclamou Goldie, empurrando Mel. - Estás a dar cabo do meu baton, grande idiota. - Sorriu para Freddy. - Olá, sou Goldie, como se não soubesses. E esta é Carrie, a tua acompanhante de sonho para esta noite. Ora vejam se não estás cheio de sorte!

A expressão de Freddy não dava a entender que se sentisse minimamente com sorte. Cumprimentou Carrie com um rápido aceno de cabeça, enquanto os quatro percorriam a travessa, em direcção ao carro de Mel. Uma vez chegados junto deste, Mel abriu as portas. Goldie subiu para o banco da frente e Carrie instalou-se no das traseiras, enquanto Mel e Freddy ficavam do lado de fora durante uns momentos.

- Que se passa contigo? - ouviu Carrie Mel perguntar ao amigo.

- Jesus! - replicou Freddy, no que imaginava ser um sussurro - É o estupor de uma preta!

- E então? - respondeu Mel com ar resoluto. - Nunca ouviste falar em pudim de chocolate?

- Claro - replicou Freddy -, mas nunca o levei a sair comigo.

- Ora, deixa-te disso - riu Mel. - Vamos à função.

Subiram para o carro. No seu lugar, Carríe olhava pela janela, sentindo-se pessimamente. As palavras detestáveis que acabara de ouvir não lhe saíam da cabeça: estupor de preta. Pudim de chocolate.

Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas que rolaram silenciosamente pelas faces. Manteve a cabeça resolutamente voltada para a janela para que ninguém reparasse na sua infelicidade.

Começaram a noite num pequeno clube de jazz da Rua 52. Havia uma orquestra a tocar razoavelmente, o champanhe corria. Goldie mostrava-se delirante. E quando Carríe declarou que preferia ficar pelos refrigerantes, ela não a poupou.

- Ei, escuta, menina. São os meus anos e tenciono divertir-me. Se te pões para aí com essa cara de caso, estragas tudo. Agora toma um pouco de champanhe, por amor de Deus, e mete-me um sorriso nessa boca!

Carríe fez-lhe a vontade. Esquecera o gosto forte do champanhe, apesar do Whitejack, o seu primeiro chulo, em alturas de fartura de dinheiro, o comprar às caixas.

A seguir à primeira taça veio a segunda, depois a terceira; foram até outro clube, onde os espumosos daiquiris eram tão deliciosos que tomou pelo menos quatro. No fim de contas eram bebidas tão pequenas que mal não deviam fazer.

Quando os quatro entraram no clube nocturno Clemmie's já iam anestesiados. Carríe e Freddy estavam grandes amigos, soltando risadinhas e gargalhadas, dançando. E quando as mãos dele lhe roçavam propositadamente pelos seios, ela não se importava minimamente. Sentia-se livre e viva. Era a primeira vez, em anos, que podia dizer sinceramente que vivia.

- És simplesmente fantástica, sabias? - ronronou Freddy.

Carríe, em resposta, prendeu-lhe as mãos em torno do pescoço e mergulhou o olhar no dele. A frase "estupor de preta" deixara de lhe reverberar na mente.

- Obrigada - murmurou com sinceridade.

Há muito tempo que ninguém lhe dirigia semelhante elogio.

- Não, estou a falar a sério - insistiu Freddy, como se estivesse à espera de que ela discordasse.

- Ei - disse Goldie, chamando a atenção a Carríe. - Estás a ver aquele tipo além? É Gino Santangelo. O dono do estabelecimento. Uma vez apresentaram-mo. É um verdadeiro malandrote.

 

1 Bebida de rum com limão. (N. da T.)

 

Carríe pousou o olhar no sujeito, apreciando-o.

- Passaram-me muitos malandrotes pelas mãos nos meus tempos vangloriou-se.

- Carrie! - exclamou Goldie rindo. - Nunca te vi assim.

- É verdade. Não sabes da missa nem a metade! Goldie fez sinal a Mel.

- Ela está mesmo pirada. Mel sorriu.

- Que me dizes a ganhar cinqüenta dólares, Carrie?

- Que é que tens em mente, rapagão?

- Aposto cinqüenta dólares em como não és capaz de catrapiscar mister Santangelo.

- Ah, sim? - Os olhos brilharam-lhe. - Acabas de perder uma aposta.

Antes que algum deles pudesse detê-la, Carrie pusera-se de pé e abria caminho por entre a multidão que enchia o clube. Goldie levou a mão à boca, estupefacta.

- Oh, meu Deus, Mel! Que fizeste? Ela não costuma ser assim. Mel riu perversamente.

- Ora, boneca, não será nada que ela não tenha já feito uma centena de vezes antes.

Freddy, embriagado, fez uma careta.

- Então muito obrigado, amigo - queixou-se.

Sentado na sua mesa habitual, Gino reinava, qual galo no seu galinheiro. Um fluxo constante de clientes passava para lhe prestar homenagem.

Envergava o seu costumeiro fato escuro completo, camisa branca de seda, gravata de bom gosto. Tinha o cabelo negro alisado com brilhantina. De vez em quando o enorme diamante do anel que usava no dedo mínimo, captava a luz e brilhava dispendiosamente. A cicatriz na face dava-lhe um aspecto vagamente sinistro - isso e os olhos negros de expressão dura, que uma mulher comparara recentemente aos de Rudolph Valentino.

Tomou um gole do seu uísque e examinou a mulher que vinha na sua direcção. Negra. Exótica. E seios de fazer parar o trânsito.

A jovem chegou junto da sua mesa e sorriu.

- Mister Santangelo?

- Sim.

- Ouvi dizer que é dono desta casa. Pensei apenas em vir dizer-lhe que acho que este local tem muita classe.

Gino sorriu, Gostava de mulheres arrojadas. Às vezes.

- Sente-se, tome uma bebida.

Carrie sentou-se. Sentia-se maravilhosamente. Bebera apenas o suficiente para acreditar que podia possuir o mundo se o desejasse.

- Champanhe? - perguntou Gino.

- Naturalmente.

Gino deu um estalo com os dedos e a seu lado apresentou-se imediatamente um criado.

- Uma garrafa do melhor champanhe.

Gino examinou-a. Uma beleza rara, fora do comum. Uma taça e levá-la-ia para casa.

Mais uma taça e ela iria.

Mais tarde, juntos, no apartamento dele, fizeram amor com gosto. Depois de terminarem, ele quis que ela se fosse embora. Levantou-se da cama.

- Ora esta - comentou. - Aposto em como não aprendeste a fazer isso na escola.

O champanhe ainda coloria a mente de Carrie. Esta sentia-se poderosa, no controlo e, oh, tão bem. Gino Santangelo não se servira dela. Ela não se servira dele. Fora uma experiência mutuamente agradável.

Espreguiçou-se langorosamente. Sentia o corpo renascido, como se alguém o tivesse libertado de todas as tensões.

- Tenho o carro lá em baixo. O motorista levar-te-á para casa. quando estiveres pronta - disse Gino com descontracção. - Oh, e tem aqui um presentinho para ti. Compra algo de bonito.

Entregou-lhe cem dólares. Dava sempre uma lembrança às mulheres que levava para a cama. Era uma idiossincrasia sua, e nunca ninguém objectara.

- Filho da mãe! - gritou Carrie, levantando-se da cama com um salto. - Pensas que sou alguma puta?

- Ei, claro que não...

- Como te atreves! Como te atreves!

Vestiu atabalhoadamente a roupa, fitando-o iradamente e gritando como uma gata selvagem.

- Ei, escuta, se eu pensasse que eras uma prostituta, tinha-te pago segundo a taxa. Este dinheiro é um presente.

- Vai-te foder! - berrou Carrie. - Se eu fosse uma prostituta custar-te-ia muitíssimo mais.

E atirando-lhe o dinheiro à cara, saiu intempestivamente do apartamento.

Ignorou o carro de Gino, cujo motorista aguardava junto ao passeio e começou a caminhar pela Park Avenue. A sobriedade regressava-lhe rapidamente. A frase "estupor de preta" começara de novo a assediar-lhe a mente. E no seu íntimo crescia uma raiva desmedida.

Que esperara ela ao abordar Gino Santangelo daquela maneira? Que outra senão uma prostituta iria ter à mesa com um homem, sentando-se e, meia hora depois, partilhando da sua cama?

Estupor de preta. Prostituta. As palavras corriam-lhe celeremente pela cabeça. Fizera um esforço enorme para ser decente, e agora - depois de uma noite - voltara ao ponto de partida.

Percorreu sete quarteirões antes de apanhar um táxi, e o motorista, depois de lhe lançar um olhar dúbio, declarou:

- Não vou para o Harlém, queridà.

- Eu também não, querido.

A resposta não lhe agradou. Manteve um silêncio gélido durante todo o percurso até Village.

Carrie pagou-lhe e subiu os três lances de escadas que a levaram ao sótão espaçoso que partilhava com Goldie. Uma vez dentro de casa, ficou descoroçoada ao deparar com Freddy Lester na cama. Na sua cama. Não podia acreditar no que via.

Abanou-o furiosamente até o acordar.

- Põe-te daqui para fora - disse num sussurro furioso.

- Ora, anda daí, jeitosa - disse ele com voz entarameláda, de olhos raiados de sangue, ainda bêbado.

Não fazia tenções de se levantar e ir para casa.

- Importas-te de sair da minha cama? - insistiu Carrie.

- Por que não vens para ao pé de mim? Tenho estado à tua espera toda a noite - disse ele com voz pastosa.

- Por que não te pões na alheta? Ele prendeu-lhe o pulso.

- Vá, amorzinho, porta-te bem.

- Larga-me.

Ele era surpreendentemente forte. Não teve dificuldade em puxá-la para a cama.

- Se não paras ponho-me a gritar - declarou Carrie enraivecida.

- Não faças isso, doçura.

E dito isto, tapou-lhe a boca com a palma da mão pesada, impedindo-a de gritar e, ao mesmo tempo, mantendo-a presa. com a outra mão, puxou-lhe a saia e arrancou-lhe as calcinhas.

Carrie ficou sem acção. Sentia-se completamente sem forças.

Freddy considerou tratar-se de um sinal de aquiescência e conseguiu tirar o pénis para fora, começando a tentar forçá-lo entre as pernas.

Carrie deixou escapar pequenos sons sufocados pela garganta. Obrigou a mente a não pensar em nada e mesmo depois de ele retirar a mão, não gritou. Aguardou que ele terminasse e a seguir disse calmamente:

- São trinta dólares, mister. Trinta das grandes.

- O quê? - murmurou Freddy.

- Fodeu uma puta, mister, portanto paga - disse ela com modos frios e impassíveis. - Especialmente se fodeu o estupor de uma preta.

- Mas...

- Ou paga ou acuso-o de violação. Ele pagou.

Seis semanas mais tarde, Carrie apercebeu-se, com um choque de estupefacção, que estava grávida. A notícia atingiu-a como uma bomba porque sempre se imaginara estéril.

"Não podes ter filhos", assegurara-lhe Whitejack em muitas ocasiões.

Agora estava grávida e não fazia idéia de quem era o pai.

Gino Santangelo. Freddy Lester. Podia ser um dos dois.

Não sabia o que fazer nem para onde se voltar.

- Bem - disse Steven rigidamente. - Penso que a seguir vamos ver o editor. Arranjarei uma entrevista, podes dizer que queres escrever um livro sobre a tua vida.

Carrie anuiu, alheada. Por que estaria Steven a torturá-la daquela maneira? Ela fora uma boa mãe Ele nunca sofrera por causa da vida que ela outrora levara. Mesmo na altura em que dirigia um bordel e vendia droga para o conhecido Enzio Bonnatti, sempre tomara medidas para que ele não fosse envolvido.

- Quando? - perguntou com indiferença.

- Tratarei do assunto o mais depressa possível.

Carrie voltou a anuir e durante um momento breve odiou o filho bonito e insensível. Que sabia ele do sofrimento da mãe? Que importância tinham para ele, sequer?

Falaram ao telefone. Lucky e Costa.

- Tio Costa?

- Sim.

- Casei-me.

- O quê?

- Voltei a casar-me. com uma pessoa muito boa, vais gostar dela. -Resta-me alguma alternativa? Confia em mim.

- Ah, Lucky, nunca deixei de o fazer. O teu pai sabe?

- Hmm... ainda não. vou dizer-lhe.

- Quando?

- Breve.

Um som de reprovação.

- Quem é o rapaz? Uma gargalhada nervosa.

- Bem... ha... não é exactamente um rapaz.

O telefone deixou passar um som abafado, enquanto Costa mudava de posição.

- Quem é?

Lucky mudou rapidamente de assunto.

- Tenho outra surpresa para ti. -Uma não chega?

- És tio-avô.

- Obrigado.

- Não, não, tio-avô.

-Creio que não estou a perceber... -Sim, estás. Tenho um bebê. -Bebê de quem?

- Meu.

Lucky percebeu-lhe o choque pela voz. Costa sempre fora um puritano.

- Teu, Lucky? Que significa isso?

-Significa - disse ela pacientemente-, que há dezasseis meses atrás dei à luz um rapazinho fantástico que se chama Roberto, e casei com o pai dele há dois dias.

Silêncio.

Um silêncio prolongado.

Depois:

-Gino sabe?

-Ainda não.

Um suspiro muito fundo.

-Ainda não?

-Não me repitas dessa maneira, detesto!

- Que queres que eu diga?

- Parabéns. Diz-me que é maravilhoso e que estás ansioso por apanhares o avião para me vires ver a mim e a Roberto. Porque nós estamos mortos por te ver.

- Dezasseis meses atrás tiveste um bebê e agora estás morta por me ver. Ora!

-Não estejas zangado - implorou Lucky. -Sabes que te adoro.

- Que maneira de o demonstrares! Não me sinto nada bem com a notícia. Já imaginaste como Gino vai ficar?

-Ele não se importará -tem a sua própria vida com a Supermulher. Ela é que vai detestá-lo por ser avô. Deitar-lhe-á as ondas do cabelo abaixo durante uma semana!

- Lucky -penso que é melhor visitares Gino. Não te recomendo que lhe dês a notícia pelo telefone.

- Já não sou nenhuma criança - teimou ela. - Não preciso de lhe pedir licença para nada.

- Quem é que está a falar de licença? - replicou Costa suavemente. - Podes fazer o que muito bem te apetecer, mas parece-me que seria um gesto simpático, ou não? O primeiro neto de Gino, o único...

Ele já não é muito novo... o coração não anda em muito boa forma... - Aconteceu alguma coisa? - perguntou Lucky rápida e ansiosamente.

- Não, não, nada aconteceu. Mas falei com ele há algumas semanas e pareceu-me farto e entediado. Disse que tinha saudades tuas.

- Disse mesmo? - Não tenho o hábito de inventar as coisas.

Lucky ficou pensativa por um momento. Por que não ir à Califórnia fazer uma visita a Gino? Levar Roberto. Oh, mal podia esperar para ver a cara que ele faria ao ver um bebê tão adorável. O seu bebê. O seu feito. E poderia falar-lhe do hotel e do casino que estava a construir em Atlantic City. Finalmente. Sem a ajuda dele.

- Irei - decidiu impulsivamente. - Também queres vir, Costa? Teria muito gosto.

Costa hesitou.

- Não sei se seria boa idéia. Estarás tu, o bebê, o teu marido...

- Oh, esse não irá. Anda fora, numa viagem de negócios e só regressará daqui a uma semana.

- Pareceu-me ouvir-te dizer que tinhas casado há dois dias.

- E que tem? Não é por causa disso que somos obrigados a andar atrelados um ao outro. Cada um tem a sua própria vida.

Costa suspirou.

- Esta gente nova...

- Hum... ele não é assim tão novo...

- Que queres dizer com isso?

-Falar-te-ei do assunto quando estivermos juntos.

Paige Wheeler gemeu ruidosamente. Várias vezes. Gino Santangelo podia ser velho. Mas era dinamite.

Susan nunca a fizera gemer. Nem Ryder. Mas também era preciso ver que Ryder não nutria qualquer interesse pelo sexo. Só os negócios o excitavam-uma das razões que levava Paige a ter tantos amantes.

Ela e Gino partilhavam uma enorme cama dupla no Hotel Beverly Wilshire. Paige reservara a suite para um cliente dois dias antes. O Beverly Wilshire era o local ideal para um encontro. Central. Luxuoso. E se alguém era apanhado no lobby ou redondezas, pois bem, estivera simplesmente de visita ao Tiffany's (que ficava na porta ao lado) ou a almoçar no elegante restaurante El Padrino, ou a passar um bocado de tempo na livraria Bentrano. Álibis perfeitos, todos eles.

- Hmmm... - murmurou Paige, sentando-se na cama e pegando num cigarro. - Agora percebo porque razão Susan anda sempre a queixar-se.

- De que se queixa ela? perguntou Gino, passando com a mão em frente dos seios fartos para chegar aos fósforos e acender-lhe o cigarro.

Paige inalou profundamente o fumo do cigarro.

- Do teu... ha... entusiasmo, resistência e poder de concentração.

- Não me vais dizer que vocês falam de sexo...

- De que mais se pode falar?

- E ela queixa-se?

- Mulher parva.

- Caramba!

- Susan nunca soube como divertir-se. O pobre Tiny passava a vida a ter que procurar consolo noutros lados.

Gino teve a impressão de estar a receber uma lição. Desde que casara com Susan que esta vinha a mostrar-se cada vez menos interessada em partilhar a sua cama. Quanto mais ela o repudiava, mais ele tentava agradar-lhe. Cristo! E ele que pensara que havia algum problema na sua pessoa! Como, por exemplo, a possibilidade de a idade o ter apanhado de calças caídas e a ele faltar-lhe o que era preciso. Andara ralado até mais não e agora a melhor amiga de Susan informava-o de que esta não gostava de sexo. As fitas que ela não devia ter feito ao princípio. Caramba!

-Estou a fazer-te alguma revelação, Gino?

- Alguma quê? -Não sabias?

Sentia-se ridículo- posição em que raramente se encontrara.

- Penso que sabia - disse cautelosamente-, caso contrário não estaria aqui contigo hoje.

E tinha de reconhecer que estar com uma mulher como Paige era um alívio depois de dois anos passados com Susan. Paige despia todas as inibições juntamente com a roupa. Não era nenhuma beleza especial mas era uma mulher extremamente sensual.

- Talvez eu não devesse ter dito nada - observou Paige delicadamente.

- Que poderia ter-te detido? - replicou Gino. - Um tanque. Paige tirou uma das pernas de debaixo do lençol e passou-lhe os dedos pelo peito abaixo.

- Tu... - murmurou sensualmente-, és um homem muito devasso. E eu... sou uma mulher muito devassa. Será que temos de perder o nosso tempo a falar acerca de Susan?

Gino levou os dedos do pé de Paige à boca e começou a chupá-los um a um.

- Quem é que está a falar? - murmurou.

 

Lennie, Jess, Isaac e a sua bonita mulher, mais um repórter da Rolling Stone, seguiram para Las Vegas num avião privado, cortesia de Matt Traynor e do Hotel Magiriano. Durante cerca de dez minutos tentaram esconder o facto de se sentirem impressionados.

Lennie foi o primeiro a ceder.

- Tenho de vos dizer - se Alice pudesse ver-me neste momento, tinha um ataque!

Isaac começou a rir.

- E que dizes da minha mãe, homem? Costumava lavar o chão das outras pessoas e agora tem o filho a voar alto. Espera até eu lhe contar!

Irena, sua mulher, puxou timidamente de uma máquina fotográfica e começou a utilizá-la.

- Não há nada como uma pequena prova - murmurou.

O repórter da Rolling Stone não estava absolutamente nada impressionado. Passava a vida a viajar em aviões particulares com as estrelas do rock. A excitação do grupo divertiu-o e prometeu não lhe fazer referência nos seus escritos.

- Claro - murmurou Jess, a cínica do grupo. - Ele vai fazer-nos parecer um punhado de labregos acabados de sair da camioneta.

- A quem é que interessa? - riu Lennie. - A única coisa que fica na cabeça do leitor é o nome da pessoa. É o que me dizes constantemente.

- Desde que o soletrem devidamente - acrescentou Isaac, o rei dos clichês.

Jess negociara o espectáculo no Magiriano. Era ela quem conduzia as negociações na maior parte dos contratos de Lennie, mas continuava a pagar a Isaac dez por cento de comissão.

- Já não precisamos dele - apontara ela a Lennie meses atrás. - Estás a pagar-lhe para nada.

- Que seja - respondera Lennie com indiferença. - Ele aceitou-me quando ninguém queria saber de mim. Podemos agüentar com a despesa.

Quando Matt adocicara o acordo de Las Vegas com o avião particular e outros pormenores, Lennie sugerira imediatamente levarem Isaac e Irena com eles. Jess concordara. Não tinha nada contra eles em termos pessoais; eram um casal simpático. Só a nível comercial é que se aborrecia com a situação.

- Penso - disse Lennie -, que esta noite vou espatifar mil dólares nas mesas. Sempre tive vontade de o fazer.

- Quanto é que eles lhe estão a pagar por este contrato? - perguntou o repórter da Rolling Stone.

-Ele nunca discute questões de dinheiro nem a sua vida sexual. Limita-se a gozar acerca desses aspectos nas outras pessoas - atalhou Jess rapidamente.

Lennie travou-a com um olhar. Ultimamente Jess andava a exagerar ligeiramente. Ele podia responder às perguntas sobre a sua própria pessoa e tencionava fazê-lo na íntegra. Não precisava de nenhuma ama-seca.

- Estás tão... diferente - exclamou Jess. -Perdeste peso. Estás... óptimo.

Matt sorriu.

-Deitei sete quilos abaixo. Cortei o cabelo. E faço jogging duas horas por dia. Mantém-me em forma.

O Matt Traynor dos velhos tempos desaparecera. No seu lugar estava um homem magro de aspecto cuidado, de cabelos grisalhos cortados curtos e estômago liso. Em vez das roupas de mau gosto, usava calças simples escuras e uma camisa aberta à frente.

- Acabaram-se as malfadadas correntes - observou Jess sorrindo.

- Mandei-as derreter e enviei-as a Sammy Davis Jr.

- Aposto em como ficou encantado.

- Nunca mais me largou o telefone. Trocaram sorrisos.

- E tu? - perguntou Matt. - A história de miss Sucesso. Quando é que te metem no Forbes?

- Quando eu lhes der autorização.

- Agora a sério, Jess. Estou muito satisfeito por ti.

- Obrigada.

Jess vestira-se com cuidado especial. Ele não dissera uma palavra acerca do aspecto dela.

Enquanto admiradores pululavam em volta de Lennie, mostrando a este e aos restantes elementos do grupo as suites que lhes estavam reservadas, Matt ofereceu uma bebida a Jess.

- No teu apartamento? - brincou ela.

-Desisti dele. Agora vivo aqui.

- Mostra o caminho.

Na suite penthouse de Lennie não faltava o mínimo detalhe. Cama de água. Tecto espelhado. Jaccuzzi. Alcatifa espessa. Televisões a cor por todo o lado - incluindo a casa de banho. Um terraço magnífico com um panorama de cortar a respiração.

Tudo.

Excepto.

Éden.

Ele imaginara - só por um momento - que Éden estaria ali, à sua espera...

Quem é que precisava dela?

Havia um bar fartamente fornecido e, lá em baixo, uma imensidade de belas contas disponíveis. Ele agora era uma estrela. Podia escolher quem desejasse.

Nem um só copo com iniciais à vista. Nenhum mármore de imitação, dourado ornamental ou luz rosada difusa. Apenas uma penthouse moderna e funcional, de linhas simples e com um toque masculino.

- Uma bebida? - ofereceu Matt.

- Algo que seja fresco e não alcoólico - pediu Jess, olhando em volta apreciativamente. - Mudaste o teu estilo de vida - comentou.

-Já era tempo - replicou Matt, preparando-lhe um copo alto de

sumo de uva com gelo triturado atrás do bar de teca.

Jess aceitou a bebida e sorveu-a lentamente.

- Ummm, deliciosa.

- Informarei o serviço de quartos. -É assim que agora vives? Deixas tudo para o serviço de quartos

e nunca tens de fazer nada sozinho?

- Eu dirijo este hotel, Jess. Estou de serviço vinte e quatro horas por dia. Nunca tenho tempo para mais nada.

- Nada? - brincou ela. -Bem... isto e aquilo. Ambos riram, ficando sem saber que mais dizerem a seguir. Portanto,

naturalmente, começaram a falar ao mesmo tempo.

- Achas que... - começou Jess.

-Pensei que mais tarde... principiou Matt.

Um dos três telefones localizados no bar começou a tocar.

- com licença - pediu Matt. -com certeza,

Jess beberricou a sua bebida e observou-o enquanto atendia a chamada. Estavam a ser tão delicados um com o outro. Era como se fossem simples conhecidos, não duas pessoas que tinham partilhado a tragédia da sua vida. Jess raramente se permitia pensar no pesadelo que fora perder Simon. Mas nunca esqueceria que Matt é que a agüentara durante as primeiras quarenta e oito horas. Se ele não tivesse estado a seu lado ela provavelmente teria engolido o frasco de comprimidos mais próximo, acabando com tudo.

Matt pousou o auscultador com uma careta.

- Que se passa? - perguntou Jess.

- Vitos Felicidade alargou o número de acompanhantes. Vem a caminho de Nova Iorque e traz Olympia Stanislopoulos, a filha desta e a respectiva preceptora. Estou a ficar sem penthouses.

- Oh, que maçada!

- Continuas a mesma engraçadinha de sempre.

- Realmente. Mas olha onde isso me fez chegar.

- Tenho de ir falar com o meu gerente de reservas.

- Compreendo.

- Já está a chegar.

Jess pousou o copo e dirigiu-se para a porta.

- Também já tinha terminado. Matt apressou-se a acercar-se dela.

- Esta noite quero oferecer um jantar a Lennie e aos seus amigos.

- Virei com ele.

-Liga para mim assim que souberes. Informa-me do número de pessoas.

Jess anuiu e retirou-se.

Assim que a porta se fechou atrás de Jess, Matt suspirou de alívio. Decidira-se a não fazer figura de parvo e parecia-lhe ter conduzido a situação bastante bem. A experiência do passado mostrava-lhe claramente que Jess nunca o consideraria mais que um amigo, mas apesar de continuar a desejá-la mais que nunca, decidira não o demonstrar. Era demasiado velho para andar a correr atrás de quem não o queria. Demasiado velho e demasiado experiente.

Jess examinou o seu reflexo na parede espelhada do elevador. Pareceu-lhe estar com muito bom aspecto. Bronzeado de Los Angeles. Corte de cabelo curto a José Eber. Um macacão em algodão verde que lhe ficava bem com o cabelo ruivo. Os sapatos de saltos altos que lhe acrescentavam centímetros, fazendo-a mais alta.

Hmmmm... ele não fizera nenhum comentário ao aspecto dela.

Não que ela se importasse.

Por que raio havia de se importar?

Mas gostara de o saber pelo beicinho por ela. Oh, sim, lembrava-se de como as mãos costumavam tremer-lhe quando estava perto dela, a maneira como a fitava constantemente - e muito francamente, sentira a falta dessa atenção fervorosa durante os dois anos de afastamento.

Agora Matt era um homem de negócios importante. Encantador e simpático, mas onde estavam as mãos trêmulas e os olhares dengosos?

Talvez ele só tivesse gostado dela quando era uma maria-ninguém.

Ele estava com bom aspecto. Seria possível que agora que ele já não se interessava por ela, ela andasse caidinha por ele?

Disparate.

Estar de volta à sua cidade natal, na qualidade de estrela, dava muito gozo a Lennie. E a altura era a ideal. Capa da People. Rapaz local alcança êxito. O filho de Jack Golden - Lennie. Mais bem sucedido do que o pai alguma vez sonhara em ser.

Por instantes, pensou em Alice. Ela teria adorado voltar ali em grande. Mas a mãe andava tão atarefada a fazer-lhe a vida negra por causa da sua própria carreira (que carreira? ) que ele nem sequer se dera ao cuidado de a informar do seu retorno ao Magiriano.

Dois anos antes, ele partira da cidade completamente fora de si. Na altura teria estrangulado Matt Traynor de bom grado. Mas o tempo passa... acontecem factos... Jess explicara que a culpa não fora de Matt. Uma cabra qualquer da direcção ordenara-lhe que o pusesse na rua. Lucky Santangelo - fosse quem fosse. "A patroa", sussurrara-lhe Jess.

Ela que se lixasse. Aparentemente já nada tinha a ver com o hotel - ele certificara-se disso antes de concordar em regressar.

Agora regressara. E eles estavam a proporcionar-lhe todos os confortos que uma estrela aprende a apreciar e a esperar. Avião particular. Limusina de serviço permanente com motorista. Um guarda-costas (necessitaria ele verdadeiramente de um guarda-costas? ). E a caneta.

Ah... a famosa caneta de Las Vegas. Não se tratava de uma caneta a sério -" apenas da permissão para assinar tudo o que se desejasse sem nunca ter de pagar nada. Comida, bebida, serviço de quartos... fosse o que fosse. Oh, as vezes que ele e Jess tinham sonhado em possuir semelhante poder. Somente as grandes personalidades e as grandes estrelas recebiam esse privilégio. Estava mais satisfeito com a caneta do que com tudo o resto.

Jess chegou muito bem disposta. Sentira-se ligeiramente preocupada em relação ao seu regresso a Vegas e às recordações, mas parecia genuinamente ter deitado tudo para trás das costas. Nem uma referência a Wayland ou ao bebê.

-Bem, bem, bem -exclamou, olhando para os cestos de flores, o champanhe a refrescar no gelo e no enorme prato com frutas exóticas preparadas e dispostas numa mesa de buffet. - Vejo que te deram as boas-vindas como deve ser.

-Ei... - Lennie sorriu. -... têm sorte em me ter aqui. Se fosse de rancores nunca me apanhariam de novo nesta casa.

Jess pegou numa fatia de papaia.

- Matt quer dar um jantar em tua honra esta noite; podes convidar quem quiseres.

- Que tal está o teu namorado?

- Não digas isso - disse-lhe Jess rispidamente e um tudo nada demasiado depressa, fazendo Lennie erguer uma sobrancelha.

- Onde está o teu sentido de humor, cara de macaco? - perguntou.

- Não me chames isso! - gritou Jess. Lennie ergueu as mãos num gesto pacífico. -Venho como amigo. Tem piedade. Jess não pôde deixar de rir.

- Ei - disse ele -, quero servir-me do estupor da caneta, o problema é que não tenho falta de nada.

- Ser estrela é duro - comentou Jess secamente.

-Vamos ao supermercado. Estou com uma vontade irracional de assinar.

-Telefona para baixo. As estrelas mandam vir as coisas.

Lennie agarrou-a pela mão e sairam os dois da suite.

O supermercado, localizado no mesmo piso da piscina, vendia de tudo, desde cuecas de papel a biquínis de pele de marta de três mil dólares. Lennie agarrou num cesto de metal e começou a enchê-lo de artigos: pasta de dentes, escovas de dentes, loção para depois da barba, champô.

Jess seguia pacientemente atrás dele.

- Precisas verdadeiramente de tudo isso? - perguntou-lhe.

-Rapariga, é de borla - murmurou Lennie, acabando de encher um cesto e começando a fazer o mesmo a outro.

- Lennie - sugeriu Jess -, já que fica tudo de graça, optemos pelos materiais caros.

Arrastou-o até ao balcão dos cosméticos.

- Dê-me uma gama completa da Estée Lauder - ordenou, compenetrando-se do espírito inerente à ocasião. - E da Dior. E da Clinique. Encheram um segundo cesto, depois um terceiro.

- Penso que basta - disse Jess, ao vê-lo começar a empilhar um fornecimento de doces para um mês.

- Mas ainda não tenho tudo aquilo de que preciso - objectou Lenie, agarrando em três caixas de Tampax e numa mão-cheia de Durex lindamente embalados.

Jess começou a rir e, quando tal acontecia, todos os que se encontravam nas proximidades davam por ela. O riso dela ainda fazia lembrar o de uma hiena enlouquecida.

-Oh, merda! - exclamou Lennie ao ver que os olhavam. - Não foi você que saiu na capa da revista People? – perguntou uma mulher bronzeada, de calções, que exibia umas coxas enormes e cheias de celulite.

- Oh, você é Lonard Goldman - anunciou uma morena alta - como se ele não soubesse.

Lennie sorriu contravontade. Começou a formar-se uma multidão. - Quem é o nabo? - quis saber um nova-iorquino de rosto avermelhado.

-Ninguém-"replicou a amiguinha.

Lennie voltou-se para Jess em busca de socorro. Esta, dobrada sobre si mesmo, estava perdida de riso junto da banca das revistas.

- Pode dar-me o seu autógrafo? - pediu uma jovenzinha encantadora com um suspiro. - Vejo o seu programa todas as semanas. É o meu favorito.

Estavam a fechar o cerco à sua volta - uma muralha de gente. Lennie começara a ficar encurralado a um canto e, de repente, sentiu-se vulnerável e alvo de ataque. Canetas e pedaços de papel eram empurrados para a sua frente. Escrevinhou o seu nome várias vezes. Merda! Se aquilo é que era o estrelato, passava muito bem sem ele!

Uma rapariga grávida tocou-lhe no cabelo.

- É para me dar sorte - disse com uma risada.

Uma mulher de mais idade sibilou-lhe pelo canto da boca: - Deus está a vigiá-lo. É melhor ter cuidado. Deus não perdoa. Lennie queria escapar dali para fora. Precisava de ser salvo. Felizmente Jess recuperou o domínio sobre si mesma e chamou um guarda da segurança. Juntos, fizeram passar Lennie através da multidão e meteram-no apressadamente dentro do elevador mais próximo.

- Aquele monte de gente ali fora não era nada - troçou o guarda, pessoa de certa idade. - Uma vez tive de salvar Elvis. Rasgaram-lhe as calças. Tê-lo-iam morto de amor. Foram precisos oito de nós para o levarmos a salvo para dentro de uma limusina. Esses é que eram bons tempos.

De novo na sua suite, Lennie disse melancolicamente:

- Não cheguei a assinar despesa nenhuma. Jess sorriu.

- De qualquer maneira que poderias fazer com oito pacotes de Durex?

- Fornicar muito.

- Qual é a novidade?

Vitos não contara que Olympia insistisse em levarem a filha e a preceptora com eles para Las Vegas. Mas, de facto, ela fizera questão.

- Brigette irá ser a minha dama de honor - disse Olympia. - Não me posso casar sem a presença dela. Que espécie de mulher pensas que sou?

A verdade era que Olympia não queria a preceptora Mabel e Brigette em Nova Iorque para atenderem telefonemas e contarem histórias acerca de si. Queria-as junto de si, para melhor as poder vigiar. A partir daquela altura, quando Flash ligasse, seria recebido pelo serviço de atendimento, ficando sem saber do paradeiro dela. O estupor que sofresse. Não a teria de volta facilmente.

A possibilidade de ele não a querer de volta nunca ocorrera a Olympia. Esta zarpava pela vida com suprema confiança - era fácil, quando se podia comprar a maioria das pessoas.

Antes de sair de Nova Iorque, contactou com o seu advogado.

- Mande-me um contrato de casamento pelo correio - ordenou. Sabe ao que me refiro - um acordo pré-nupcial.

- Não vai voltar a casar-se pois não? - resmungou o advogado incredulamente.

- É possível.

- Por favor, não poderá esperar até conversarmos devidamente sobre o assunto? Os seus negócios andam complicados. Tratar do assunto vai levar o seu tempo.

- Quero o que pedi agora. Imediatamente.

Olympia nunca estivera em Las Vegas anteriormente, achando a cidade simultaneamente fascinante e repelente.

- Que gente pavorosa - queixou-se a Vitos ao atravessarem rapidamente o vestíbulo do hotel com o séquito de acompanhante.

Vitos disse que sim como um boneco, fazendo faiscar o perfeito sorriso Felicidade às fãs.

- Todos têm um aspecto tão... tão... barato- continuou Olympia, já no elevador.

- Estes labregos compram os meus discos - observou Vitos ponderadamente.

- Não haviam de o fazer! - murmurou Olympia por entre dentes. Foram instalados em suites adjacentes. Vitos ficara com a mais requintada, o que enfureceu Olympia. Decidiu ligar a Lucky Santangelo para apresentar reclamação. Dimitri referira que Lucky era a proprietária do Magiriano. Seria interessante voltar a vê-la...

Que aspecto teria agora? Estaria casada? Teria filhos?

Uma vez instalada, Olympia mandou a preceptora, juntamente com Brigette, passar uma vista de olhos pelo local, a seguir telefonou para a recepção.

- Fala Olympia Stanislopoulos-anunciou autoritariamente. -Agradeço que digam a Lucky Santangelo que desejo vê-la.

- Miss Santangelo já não se encontra entre nós - disse a telefonista. -Onde está?

- Receio não saber informá-la, minha senhora.

- Quem pode?

- Talvez o gerente ou mister Traynor.

- Um dos dois que ligue para mim. Imediatamente.

Sentiu-se estranhamente desiludida. Teria sido interessante ver Lucky novamente. Ou não seria? Tinham partilhado recordações tão agradáveis de um Verão descuidado, já lá ia tanto tempo... Lucky fora a sua primeira amiga. Mas quem é que precisava de amigas? Acabavam sempre por desiludir uma pessoa.

Vitos falava caloradamente com o seu empresário em espanhol. O cerne da troca de palavras reportava-se à sua situação marital. Fora casado, aos dezoito anos, com uma rapariga da sua terra, em Espanha. Quando a sua estrela começara a subir, na América, o casamento fora anulado. Agora desejava desposar Olympia. A anulação teria sido legal? Não havia filhos. E onde estavam os documentos?

O empresário fez uma careta. Ali estava uma grande oportunidade. Famoso como Vitos estava a tornar-se, o seu casamento com Olympia Stanislopoulos só poderia significar mais fama e aceitação na América a Terra Prometida. Não era algo que se pudesse tratar com ligeireza.

- Temos de nos inteirar devidamente dos aspectos legais - advertiu. - E mandarei procurar os papéis.

- Depressa - acautelou Vitos.

Tinha o pressentimento de que Olympia não era mulher de grande paciência.

Brigette examinou as mesas de jogo atarefadas, as multidões que se movimentavam apressadamente, as empregadas que serviam as bebidas escassamente vestidas, as pegas excessivamente maquilhadas.

- Este sítio tresanda! - informou Brigette em voz bem alta. -Shsss- admoestou-a a preceptora.

- Tresanda! -gritou Brigette. -Tresanda! Tresanda! Tresanda! Detesto-o.

No íntimo, a preceptora Mabel era da mesma opinião, mas não tencionava ouvi-la mencionada pela sua pupila precoce. A criança estava cada vez mais parecida com a mãe.

- Está calada - ordenou a preceptora Mabel com severidade.

- Não estou! -gritou Brigette. - Não pode obrigar-me. Este sítio tresaaaaanda! "

-Se se portar mal aqui, serei obrigada a contar à sua mãe. E ela... Antes de poder continuar, uma mulher da segurança, de arma à cintura e ar de poucos-amigos, aproximou-se delas.

- Cale a boca à miúda - ordenou. A preceptora Mabel lançou um olhar de advertência a Brigette.

- Não me calo - berrou Brigette. - vou fazer o que muito bem me apetecer. Isso mesmo, sua porca gorda e estúpida!

- Ai isso é que não vai - exclamou a guarda.

- Ai isso é que vou - disse Brigette.

- Deus me valha! -disse a preceptora Mabel.

Matt Traynor apresentou-se à porta da suite de Olympia.

- Quem é você? - perguntou ela, apertando fortemente o robe chinês à volta do corpo.

- Sou eu quem dirige o hotel, miss Stanislopoulos. Imagino que lhe tenham dado o meu recado.

- Que recado?

- Acerca de Lucky Santangelo.

- Não, receio bem que não.

- Bem, onde está ela?

- Miss Santangelo já não está ligada ao Magiriano. Olympia franziu as sobrancelhas.

- Que maçada.

Matt não gostou do facto de o deixarem à porta como um paquete.

- Posso entrar?

- Para quê?

Matt concluiu que a herdeira loura e rechonchuda não era pessoa do seu agrado com a sua expressão petulante e todo aquele charme de balconista de mau feitio.

- Tivemos um pequeno problema com a sua filha...

- Que chatice! Que foi que ela fez?

- Deu um pontapé numa guarda da segurança, tentou desmantelar uma mesa de jogo e...

- Onde está ela? - interrompeu Olympia.

- Temo-la lá em baixo num escritório. Está a criar uma confusão considerável. Recusa-se a... estar calada... até a Miss a ir buscar.

- Deus! - Olympia estava nitidamente irritada - E a preceptora dela? Por que não resolve ela o assunto?

- Parece não conseguir controlar a situação. Olympia rolou os olhos para o alto.

- Que coisa mais aborrecida - declarou petulantemente, como se fosse culpa do próprio Matt. - Espere. Tenho de me vestir.

Atirou-lhe com a porta na cara e deixou-o a andar furiosamente de um lado para o outro do corredor, durante dez minutos. Acabou por aparecer e os dois desceram as escadas em silêncio.

Brigette, sentada no interior de uma sala pequena, cantarolava:

- Las Vegas tresanda! Las Vegas tresanda! - no volume máximo da sua voz.

A preceptora Mabel, de rosto muito vermelho, mantinha-se do lado de fora, enquanto uma guarda de segurança, de ar carrancudo, esperava em sentido.

Olympia fixou um olhar azul-gélido em Brigette e esta calou-se.

- Que se passa? - perguntou Olympia. Brigette fez jorrar um caudal de lágrimas fáceis.

- Mama, mama - choramingou -, esta gente foi tão má para mim. Má mesmo de verdade.

- Dê-me licença - disse a mulher da segurança. - Esta criança precisa de um bom par de açoites. É malcriada e cheia de mimo e...

- Não estou interessada na sua opinião - disse Olympia com indiferença. - Vem daí, Brigette. São horas de ir para a cama. - Fitou Matt. - A minha filha está fatigada. Foi um dia movimentado.

Dizendo isto, pegou na mão de Brigette e saiu porta fora, com uma preceptora Mabel enervada no seu encalço.

Carrie Berkeley tinha imenso estilo. Durante muitos anos, enquanto casada, primeiro com Bernard Dimes e depois com Eliot Berkeley, fora uma celebridade - o tipo de celebridade que nunca faz nada de facto para o ser mas que é constantemente mencionada nas colunas sociais e freqüentemente fotografada para as revistas da moda. Durante vários anos seguidos, aparecera na Harper's Bazaar como uma das "Dez Mulheres Mais Belas da América."

Quando se divorciara de Elliot e fora viver de vez para Fire I&land, retirara-se da vida pública. Mas continuava a gozar de um nome muito conhecido, pelo que não teve problemas em conseguir uma entrevista na Fred E. Lester, da Editora Lester e Wellington.

Steven quisera acompanhá-la, porém ela recusara-se a permitir-lho.

- Sou perfeitamente capaz de descobrir se é ele ou não - disse-lhe friamente.

Ultimamente era assim que se sentia em relação a Steven. Fria, afastada. Ele era seu filho, mas ela nunca lhe perdoaria o inferno por que estava a fazê-la passar. Nunca.

Que importava saber qual deles era seu pai? Ambos eram uns bastardos. Quem se importava?

Fred. E. Lester encontrava-se sentado atrás de uma enorme secretária em madeira de carvalho, num gabinete espaçoso e confortável. Era um homem alto e de ombros largos, calvo e com um tufo de cabelos brancos a rodear-lhe a cabeça e um saudável bronzeado de fim-de-semana. Teria perto de setenta anos. Levantou-se quando Carrie foi acompanhada até ao interior do seu gabinete por uma secretária solícita, deu a volta à secretária e, estendendo-lhe a mão, disse:

-Não creio que se recorde de mim, foi há tanto tempo, mas...

Carrie sentiu, por um momento, um pânico avassalador. Era ele.

Ficou mortalmente pálida e sentiu uma sensação agonizante na boca do estômago.

- num baile de caridade - dizia o editor. - Deve ter sido há uns vinte anos. O seu aspecto continua exactamente o mesmo. Bonita como sempre.

Aliviada, deixou-se cair numa cadeira. Não era ele. Fred. E. Lester não tinha nada a ver com o estudante universitário de há tantos anos atrás. Como iria ser possível reconhecer um homem com o qual só passara uma noite quarenta e dois anos antes? Maldito fosse Steven. Para quê fazê-la passar por aquela situação?

- Café? Chá? Talvez uma bebida? - ofereceu Fred Lester. A secretária aguardava junto da porta.

- Chá - pediu Carrie calmamente. - com limão.

- Traga para os dois -disse Fred, sentando-se à sua secretária e brincando com uma caneta de prata.

Carrie tentou recuperar a compostura. Olhou à sua volta, observando o gabinete. Havia estantes com livros encadernados em todas as paredes.

- Os meus sucessos-indicou Fred com um sorriso modesto. -Neste negócio, uma pessoa vangloria-se com os sucessos e tenta ocultar os fracassos.

Carrie sorriu delicadamente.

- Agora vejamos - disse Fred, juntando as mãos. - Oxalá nós os dois consigamos alcançar grande sucesso. - Como disse?

- Quer escrever um livro para nós, não quer? Carrie lembrou-se de ser essa a razão pela qual se encontrava ali sentada naquele gabinete. Steven telefonara a marcar a entrevista. "Mistress carrie tem uma idéia interessante para um livro", dissera. A entrevista fora imediatamente marcada. -Tenho algumas idéias - balbuciou.

- É por aí que tudo começa - retorquiu Fred Lester, satisfeito. Carrie fitou-lhe a cabeça calva. Esta brilhava, como se alguém a tivesse polido com um pano macio. A cabeça de Whitejack também costumava brilhar. Era negra e luzidia. Às vezes ele passava-lhe óleo. "Entusiasma todas as damas bonitas", tinha o hábito de dizer com um sorriso malicioso, exibindo os enormes dentes brancos.

- Tenho um palpite que me diz que deseja escrever um livro sobre beleza - disse Fred Lester - Tenho razão?

- Beleza e... hum... talvez moda, estilo - replicou Carrie, agarrando na idéia. - Não podia ser melhor. É a altura ideal.

Ele tinha olhos de boa pessoa. Olhos castanhos bondosos. Sobre a sua secretária viam-se três molduras de prata com fotografias da família. Carrie sentia-se segura na companhia dele. Fazia-a lembrar, curiosamente, Bernard, o seu primeiro marido.

-Pois muito bem - disse ele-, por que não me fala do que tem em mente para depois podermos partir daí? Parece-lhe bem?

Carrie concordou e pôs a cabeça a trabalhar em busca de idéias.

Costa foi esperar Lucky ao aeroporto de Los Angeles. Apaparicou Roberto como se fosse ele o avô baboso.

- Não disseste nada a Gino, pois não? - perguntou Lucky.

- Cheguei ontem à noite - retorquiu Costa. - Ele nem sequer sabe da minha presença.

- Óptimo. Vai ser uma autêntica surpresa.

Instalou-se num bungalow no Hotel Beverly Hills e telefonou imediatamente a Gino.

Para sua desilusão, o pai saíra. Agora que se decidira a pô-lo ao corrente da situação, sentia-se demasiado impaciente para empecilhos. Era só uma questão de tempo para que Dimitri anunciasse o acontecido, e de facto ela não queria que Gino soubesse do seu casamento através dos jornais.

- Quando é que volta? - perguntou à empregada. -Mais tarde - respondeu a mulher, sem poder adiantar mais nada. Mais tarde poderia significar qualquer hora. Interrogou-se sobre onde estaria o pai. Que poderia uma pessoa que não andava no negócio do cinema, fazer em Los Angeles? Gino fora sempre tão activo. Não sentiria a falta da agitação de Las Vegas? com certeza não devia passar os dias a passear-se pela Rodeo Drive acima e abaixo.

Lucky e Costa almoçaram à beira da piscina, enquanto Roberto dormia a sesta.

- Bem, Lucky - perguntou Costa -, quando é que tencionas dizer-me? Quem é o homem com quem casaste?

Lucky respirou fundo.

- Dimitri Stanislopoulos- anunciou. - Agora a sério, quem? - insistiu Costa. Lucky encolheu os ombros.

- Dimitri. Costa abanou a cabeça e mostrou-se contristado. -'Por amor de Deus, não é nenhum crime - disse Lucky calmamente. - Está bem, ele tem mais uns anos do que eu. Grande coisa.

- Quem me dera que a tua tia Jennifer fosse viva - disse Costa sombriamente.

- Todos nós gostaríamos que ela estivesse viva. Mas não está e mesmo que estivesse, não seria ela a dizer-me o que fazer.

- Estiveste demasiado tempo entregue a ti mesma - observou Costa. - Nunca tiveste ninguém para quem te voltares. Devias ter tido uma mãe quando estavas a crescer. Alguém em quem confiasses. Uma...

- Queres acabar com essa treta? Eu gosto de ser independente.

- Dimitri Stanislopoulos é um velho.

- Também tu. - Isso faz de ti alguma pessoa execrável?

- Lucky, Dimitri Stanislopoulos é uma figura paternal. Não vês o que fizeste? Tu...

- Vai-te lixar, Costa. - Os olhos negros luziram-lhe de fúria. - Esperava um sermão de Gino mas não sou obrigada a escutar esta porcaria de conversa vinda de ti. Tenho quase trinta anos. Quando é que pararão de me dizer o que devo fazer?

Levantou-se intempestivamente da mesa.

Paige Wheeler dominava uma técnica que o fazia ficar preso dentro de si como um torno.

- Andei com um curandeiro de vaginas - informou ela a Gino quando este lhe perguntou onde aprendera semelhante técnica.

- Um quê?

- Um ginecologista. Ensinou-me tudo quanto sei. O homem era um perito. Bem, olhava para elas todos os dias. Imagino que tenha aprendido uma coisa ou outra.

Gino apreciava aquele seu pequeno truque. Significava ele poder continuar durante quanto tempo quisesse, para depois ela assumir o controlo, segurando-o, mantendo-o erecto, até ele ficar pronto para repetir a função. Gino nunca gostara de se apressar. Adorava genuinamente proporcionar prazer às mulheres. Observar o abandono e o prazer concupiscente destas representava um verdadeiro estímulo para si. Por isso achava o casamento com Susan uma desilusão de todo o tamanho. Paige tinha tezão - Susan não gostava de sexo. Por que não reparara ele nesse indício antes de se casar? Agora estava preso a um matrimônio que na realidade não desejava.

Todos os dias pensava em se afastar, telefonar a Lucky e dizer, "Ei, miúda. Estava enganado. Partamos à conquista de Atlantic City para lá Construirmos o nosso próprio hotel. Ponhamos o estupor do mundo em chamas! "

Não era assim tão simples. Susan nunca punha um pé em falso. Era solícita e atenta. Cuidava-lhe da alimentação. Certificava-se de que ele fazia exercício. Mandava a cozinheira preparar-lhe os pratos preferidos. E também tinha um aspecto explêndido. Atraente, arranjada, impecavelmente vestida. Assistiam a todos os acontecimentos sociais importantes, incluindo as festas de primeiro escalão. Pondo o sexo de parte, Susan era a esposa perfeita. Também era sufocantemente chata.

Gino detestava Beverly Hills. Detestava toda aquela sociedade mistificadora. Detestava as festas importantes cheias de velhos senis. A mesma gente. A mesma conversa. A mesma chatice do caraças.

Gino Santangelo queria afastar-se. Só lhe faltava arranjar maneira de o fazer.

- Ora viva, Susan - cumprimentou Lucky. Lá tinha ela de aturar Grace Kelly. - Gino está?

- Onde estás? Na Califórnia?

"Não. Estou na merda do polo norte. De onde é que lhe parecerá que estou a telefonar? "

- Sim, de facto estou.

- Que bom.

- É, não é? - Uma ova. - Posso falar com Gino?

- Lamento, querida. Ele saiu.

- Quando é que estará de volta?

- com Gino nunca se sabe.

- Lá isso é verdade. - Ao menos estava a par desse pormenor. Telefonarei mais tarde.

- Óptimo.

"Claro. Estás verdadeiramente satisfeita com a minha presença. Nem sequer quiseste saber onde estou hospedada. Ou fizeste um convite para nos juntarmos todos."

Entreteve-se pelo bungalow. Roberto estava na piscina com CeeCee. Não sabia onde Costa se metera. Não se importava.

Oh, mas importava-se. Ele preocupava-se com ela. Que direito tinha de o censurar por isso? Dimitri tinha mais trinta e cinco anos que ela. Costa teria apenas de os ver juntos para depois se aperceber de que a relação resultava.

Paige vestiu-se. Usava roupas deliciosamente atrevidas e conduzia um Porsche dourado que Ryder lhe oferecera no Natal. Às vezes admirava-se bastante acerca da amizade de Susan e ela. Era tão diferente das outras amigas de Susan - as educadas esposas de Hollywood, com as suas roupas originais, impecáveis plásticas faciais e código de ética rígido.

- Susie gosta de mim porque sou descarada e atrevida - confidenciou-lhe Paige.

Não quis acrescentar que Susan gostava dela porque há vários anos que vinham tendo uma relação escaldante e profunda.

Paige apercebeu-se de que poderia estar a conduzir um jogo perigoso, indo para a cama tanto com a mulher como com o marido. Não se teria importado de desistir de Paige. Mas Gino era irresistível e óptimo na cama.

Parecia improvável virem a fazer confidências um ao outro, daí que não visse nenhuma razão premente para desistir de nenhum dos dois.

- Amanhã - disse Gino. No mesmo lugar. À mesma hora.

- Impossível. Prometi a Ryder acompanhá-lo a Las Vegas. Ele tem de fazer as honras da casa a um dos seus investidores.

Gino lançou-lhe um olhar incrédulo.

- Vais a Las Vegas e não me disseste? Deves estar a brincar. O estupor dessa cidade já foi minha. Podia arranjar-te as melhores reservas, as mesas mais bem situadas, tudo o que quisesses.

Paige aplicou baton vermelho-luminoso nos lábios cheios.

- Ryder passou a sua juventude a levar jovens senhoras a passarem fins de semana devassos a Las Vegas. Não creio que apreciasse quaisquer sugestões sobre o sítio onde instalar-nos e o que fazermos.

Gino encolheu os ombros.

- Não estás a perceber. Só há uma maneira de ir a Las Vegas e essa é comigo.

- Levávamos a tua mulher e o meu marido ou íamos sem eles? Gino ignorou a piada.

- Quando é que voltas? - perguntou.

- Quarta-feira.

- Encontramo-nos na quinta. No mesmo lugar, à mesma hora.

- Não posso. Estarei a trabalhar.

- Então cancela.

- Estou a tratar de uma casa para um actor de cinema heterossexual em Bel Air e ele é muito exigente.

Gino agarrou-a pela cintura e balançou-se de encontro a ela.

-Eu também.

Susan riu. Deus! Aquele homem devia ter sido o maior feiticeiro vivo nos seus tempos de juventude. Ainda hoje era mais sensual e potente que muitos homens com metade da sua idade.

- Sim, eu sei. É por essa razão que preciso de uns dias de afastamento das tuas atenções amorosas.

Gino estreitou os olhos.

- Quem mais é que andas a fornicar? Paige afofou o cabelo frisado.

- Quem quer que deixe cair as calças por mim. Tal como tu. Gino sorriu.

- És uma gaja e peras. Não te atrapalhas nunca. Gosto disso.

- Obrigada. Adoro elogios.

Rodeo Drive não era local ao seu estilo, mas Lucky resolveu dar-lhe uma vista de olhos. Foi até à Lina Lee e comprou um casaco de cabedal cor de púrpura-escura com ombros enormes. Examinou as montras de Fred, o joalheiro, e depois caminhou calmamente rua abaixo, até ao Giorgio, onde adquiriu vários vestidos fora do comum. Fazer compras não era uma das suas grandes paixões - preferia limitar-se aos jeans e às camisas - mas de vez em quando prevaricava. Quando se vestia cuidadamente, adorava fatiotas extravagantes. A maneira de vestir das estrelas do rock atraía-a. Elas tinham um estilo especial, uma despreocupação, uma forma de estar fascinante. Ainda há pouco vira Flash na televisão. Vestia cabedal preto, lenços brancos esfarrapados e argolas de ouro. Estava com um aspecto sensacional.

Dimitri mencionara-lhe o facto de Olympia estar a viver com Flash. Que dupla não deviam formar!

Lucky estava ansiosa por voltar a vê-la. Nunca tivera outra amiga ao longo da vida senão Olympia, durante um certo período. Tinham sido tão íntimas...

E se Olympia ficasse furiosa com o seu casamento com Dimitri?

E se...

Ora, merda. Detestava brincar ao "E se? ". Era uma parvoíce. Quando Dimitri regressasse da sua viagem de negócios, anunciariam o seu casamento. Quer Olympia gostasse ou não. Fosse como fosse.

- Lucky telefonou para ti - disse Susan. Gino chegara a casa há uma hora.

- Por que não me disseste antes? - perguntou iradamente.

Susan fez um gesto vago.

- Não me parece que fosse importante.

- Que disse ela?

- Que disse ela em relação a quê? Gino esforçou-se por conter a ira.

- Se era importante ou não?

- Não disse.

Gino fez menção de se dirigir para o seu gabinete.

- Não está em Nova Iorque - acrescentou Susan.

- Onde está então?

-Creio que me pareceu ouvi-la referir que se encontrava cá.

- Que número deixou?

- Não deixou nenhum.

Agora é que ele estava verdadeiramente furioso.

- Por que não lho pediste?

Nas faces de porcelana de Susan apareceram duas manchas vermelhas.

- Não sou tua secretária, Gino.

- Então não atendas o estupor das chamadas que são para mim. Retirou-se intempestivamente para o seu gabinete. Lucky estava na cidade e ele não sabia onde raio encontrá-la. Que se passava com a sua vida?

Lucky pediu desculpa a Costa quando regressou da ida às compras. Este abraçou-a e disse-lhe que a única coisa que se preocupava era com o bem-estar dela. Sentaram-se na sala Polo e Lucky começou a fazer-lhe confidencias sobre os planos que tinha.

Costa observou-a atentamente. Era tão parecida com o pai... Ah... ele lembrava-se dos velhos tempos como se ainda tivessem ocorrido na semana anterior. Gino - com o mesmo entusiasmo e optimismo inabaláveis. Eram ambos uns lutadores. Mas Lucky conseguira o que desejara num mundo que se pressupunha ser exclusivo dos homens. Não fora fácil. Ser casada com um homem rico e poderoso como Dimitri só podia ajudar.

Às cinco da tarde, Lucky olhou para o relógio e disse:

- Vamos telefonar a Gino.

Um empregado trouxe-lhe o telefone para a mesa e ela pediu a ligação. Atendeu uma criada.

- Mister Santangelo, por favor - disse Lucky.

- Um momento, por favor.

Lucky susteve a respiração. Já há vários meses que não falavam. Ela adorava-o. Detestava-o. Raios, sentia saudades dele.

O cumprimento do pai foi enganadoramente indiferente. -Olá, miúda.

- Olá, Gino.

- Onde estás?

-Em Los Angeles.

- Onde?

- No Hotel Beverly Hills.

- Então não avisaste ninguém da tua vinda?

- Porquê? Terias mandado uma banda receber-me ao aeroporto?

- Engraçadinha.

Lucky sentiu uma afabilidade de que sentira falta. Conhecia-o muito bem. Sabia-o sinceramente satisfeito por ter notícias dela.

- Tenho uma surpresa para ti - disse rapidamente.

- Sabes que não gosto de surpresas.

- Esta vais adorar.

- Sim?

- Sim.

- Como tens passado, moça? -Muito bem. E tu?

- Vai-se andando.

- Costa está aqui comigo.

- Costa! Caramba! Por que não vêm até cá? - Gostaríamos muito.

Susan encontrava-se sentada diante do seu toucador a retirar a maquilhagem do dia com creme. Gino entrou no quarto.

- Lucky e Costa vêm cá jantar hoje. Avisa a cozinheira.

- Esta noite jantamos fora - informou-o Susan.

- Altera.

- Não posso fazê-lo. Vamos a um jantar sentado para vinte em casa de April Crawford.

- Telefona-lhe. Diz à velha que não podemos ir.

Susan continuou a retirar a maquilhagem, agora com um lenço de papel.

- April Crawford não é uma velha - disse calmamente. - April Crawford é uma actriz óptima e respeitável, uma autêntica estrela de cinema da velha escola. Não temos possibilidade de cancelar a ida, é o seu aniversário. - Amachucou o lenço de papel usado e recostou-se. - Assentei este compromisso na tua agenda há três semanas. Está na tua secretária.

- Ei, a minha filha está na cidade. Vem cá a casa. Aí tens o que vamos fazer esta noite.

- É a mesma filha de que não tens notícias há meses? A mesma filha que nunca telefona ou escreve?

Gino não esteve para aturar críticas de Susan em relação a Lucky. Os seus olhos assumiram uma expressão dura.

-"Ei, fala-barato - disse. - Tu vais à festa de April Crawford. Eu fico em casa. Diz à cozinheira para preparar alguma coisa.

Um momento de pausa. Susan sabia exactamente até onde podia chegar. Levantou-se, aproximou-se de Gino e deu-lhe um beijo carinhoso na face.

- Desculpa, querido - sussurrou. - Nem sequer me passaria pela cabeça ir sem ti. vou dizer à cozinheira para preparar um prato delicioso. Claro que devemos ficar em casa para receber Lucky e Costa, Desculpa o meu sarcasmo, acontece apenas que às vezes sinto-me tão... magoada por ti. Uma filha como deve ser seria... Oh, esquece que disse alguma coisa.

- Isso. O melhor é eu esquecer.

 

O jantar que decorreu no restaurante Rio do hotel, foi um acontecimento ruidoso. Estavam presentes: Lennie, muito bem-humorado por causa do excesso de vodka; Isaac e Irena; o repórter da Rolling Stone com uma jovem fotógrafa misteriosamente conhecida por Boca; Matt, acompanhado por uma atraente trintona divorciada; e Jess. Sozinha. Sóbria. E a sofrer com uma dose dupla de raiva.

Primeiro, estava zangada porque Matt levava uma acompanhante.

Segundo, estava zangada consigo própria por estar zangada.

- Por que não te descontrais? - sibilou-lhe Lennie. - Pareces uma solteirona num casamento.

- Por que não vais dar uma curva? - sugeriu-lhe Jess.

Boca atarefava-se com uma série de câmaras. Era de uma beleza da qual sabia tirar proveito, usando o cabelo eriçado e possuindo olhos argutos e seios pontiagudos e sem soutien por baixo da T-shirt larga.

Isaac e Lennie trocavam histórias que Irena escutava com admiração.

O par de Matt parecia deslocado com o seu vestido de cocktcail e a estola de marta.

O repórter da Rolling Stone observava todos e tudo.

Matt desempenhava o papel do anfitrião ideal.

Jess tentava ser simpática sem o conseguir.

Do restaurante, seguiram todos para a suite de Lennie. Isaac ofereceu um pouco de "erva" de boa qualidade, o que tornou Matt pouco à-vontade, levando-o a retirar-se, com a acompanhante pelo braço.

Todos ficaram animados, com excepção de Jess. Esta não estava para aí virada.

Ouviram música, beberam um pouco, fumaram qualquer coisa. E mais tarde, Lennie descobriu por que razão a fotógrafa tinha a alcunha de Boca. Esta saiu da suite dele às cinco da manhã com um sorriso e uma série de fotografias estupendas.

Lennie não conseguia dormir. Desceu até à piscina e deu umas braçadas. Passeou em frente do hotel e inspeccionou o anúncio luminoso que lhe fora dedicado. Lennie Golden. Em letras de seis centímetros. Lennie Golden. Milhares de luzes tremeluzentes. Proporcionava uma sensação de irrealidade. Deu dez dólares a um bêbado que passava para ter sorte e tomou o pequeno-almoço num café. Era demasiado cedo para as fãs. Só se viam alguns jogadores nocturnos e umas quantas pegas de aspecto combalido.

Naquela noite seria a sua estreia. Partilharia as luzes da ribalta com Vitos Felicidade. Não se sentia nervoso. As actuações nunca lhe provocavam inquietude. Na realidade, estar no palco a comunicar com o público era o único lugar onde se sentia verdadeiramente seguro e no comando das operações. Nos seus tempos de puto, na escola, conseguia mobilizar as atenções a contar anedotas porcas, quando e sempre que queria - quanto mais porcas, melhor. Jess fornecia-lhe, habitualmente, o material de que necessitava. Ele adorava-a. Ela era a sua verdadeira família. Alice nem sequer contava.

Terminou o pequeno-almoço e regressou à sua suite. Tinha um programa muito preenchido. De manhã cedo haveria ensaio. Almoço com o repórter da Rolling Stone para uma conversa "em profundidade". Dois guiões de The Springs para ler. E mais uma sessão de fotografias com Boca.

Lamentava ter-lhe permitido que lhe fizesse as coisas em que era perita. Jesus! Se ele fosse mulher, teria a fama de ser a tipa mais fácil de levar para a cama na cidade. Aquilo de que sentia verdadeiramente falta com uma mulher era uma relação sólida. Só lhe passavam pelas mãos encontros fortuitos e passageiros. Que tal alguém que se interessasse por ele e partilhasse do seu sucesso? Alguém que não lhe saltasse simplesmente para dentro da cama por ele ter o raio de um nome conhecido?

Éden.

Éden que se fodesse.

Não gostarias de ser tu a fazê-lo?

Não.

Por um momento, ela ocupou-lhe a mente.

Mas apenas por um momento.

As coisas começavam a melhorar.

Olympia sentia-se entediada. Viera para Las Vegas para espicaçar Flash e casar com Vitos. Mas Vitos parecia mais preocupado com a sua estúpida noite de estreia, ensaiando e gorgolejando constantemente com não se sabia que mistela feita à base de mel. Agora estava plantada à beira da piscina na companhia de uma preceptora desaprovadora e uma filha truculenta, e nada mais tinha para fazer do que enfadar-se.

De fato de banho de peça única branco, rolos de carne em excesso a sairem-lhe por tudo quanto era sítio, encontrava-se deitada numa cadeira de repouso, debaixo de um guarda-sol protector. Comprara pilhas de revistas, mas observar quem passava era infinitamente mais interessante. Há muito tempo que Olympia não freqüentava uma piscina pública. Podia ter ficado lá em cima, no seu terraço privado, mas estava muito quente e, além disso, Brigette pedira-lhe para descerem até à piscina e Olympia estava num dos seus dias de "mãe exemplar".

- Vamos dar um mergulho, mama - sugeriu Brigette.

Era, de facto, uma menina muito bonita - pena que a sua personalidade não fosse a condizer com a aparência.

- Agora não, querida - disse Olympia. - Preciso de descansar. A preceptora leva-te.

A preceptora Mabel, com um ar bizarro no seu fato de banho antiquado, fitou a patroa.

Olympia ignorou o olhar reprovador. Estava demasiado ocupada a mirar os salva-vidas de calções de banho reduzidos, cujas frentes proeminentes eram alvo de toda a sua atenção.

Hora de almoço. E Lennie tranqüilamente sentado ao lado do repórter da Rolling Stone.

Jess, quando ia a atravessar o vestíbulo, dera de caras com Matt.

- Como vão as coisas? -perguntara ele. Jess sorriu esfusiantemente.

- Óptimas.

-Não precisas de nada?

- Não vejo do quê.

- Lennie está satisfeito?

- Parece que sim.

- Como é que a festa acabou? Saiu-lhe antes de o poder evitar.

- Pensei que tu é que estavas a ter uma festa.

Matt riu despreocupadamente e respondeu, referindo-se à sua acompante da noite anterior:

- Tina é uma velha amiga.

Mais uma vez, Jess não foi capaz de se conter.

- Velha é a palavra certa. Matt voltou a rir.

- Que tal irmos comer qualquer coisa?

Pegou-lhe no braço, presumindo que a resposta seria afirmativa.

- Tenho muito que fazer.

- Tens de comer.

- Mandarei que me mandem alguma coisa lá acima. Estou à espera de telefonemas de Los Angeles.

- Senhora diligente.

- Gosto do meu trabalho.

- Não há dúvida de que tens ajudado Lennie.

- Ele teria lá chegado sem a minha ajuda. É brilhante. Devias tê-lo percebido quando o tiveste aqui pela primeira vez.

Matt franziu o sobrolho. Claro que Lennie Golden era bom. Mas por que ficaria Jess tão entusiasmada ao falar dele? Por que se iluminaria o seu rosto?

Ela andava a dormir com ele. Tinha a certeza. E isso significava que ele, Matt Traynor, não tinha a menor possibilidade.

Sempre o soubera. Desde que ela saira de Las Vegas na companhia de Lennie que tivera a certeza. Por essa razão nunca fora atrás dela.

- Encontramo-nos mais tarde - disse. - Tens a certeza de que não precisas de nada?

- Tenho.

"Ele já não está interessado em mim", pensou Jess. "Já não quer saber de mim para nada. Por que havia de querer?" Por que havia ela de se importar? Só sabia que se importava.

- Fale-me da sua mãe - pediu o repórter da Rolling Stone. Lennie tinha a boca cheia de hamburger. Mastigava lentamente.

- Que quer saber?

- Bem... o seu pai foi comediante - segundo me contou. Não tem irmãos nem irmãs. Chegou a Nova Iorque aos dezassete anos e pegámos na história a partir dessa altura. Mas nunca fez referência à sua mãe. Ainda é viva?

Que tentador era arrasar Alice. Matá-la em termos de opinião pública e nunca mais ter de a aturar. Mas Alice dificilmente aceitaria semelhante atitude. Agora que ele atingira a fama, achava perfeitamente aceitável ter um filho de trinta e dois anos.

- Sim, ainda é viva - disse.

- Qual é a opinião dela em relação ao seu material? Os seus números mãe-filho tocam uma corda secreta em todos nós. Ela aprecia-os? Fica perturbada? Como reage?

Lennie deixou descair os ombros. Estava farto de entrevistas. Quem é que se ralava com o que Alice pensava! Ela nunca apresentara nenhuma opinião. Ele nunca lha pedira. O único comentário que alguma fizera sobre os seus números fora o de o aconselhar a pô-los decentes.

Sorriu, endireitando-se.

-Olhe, se quer saber factos desse tipo, vai ter de lhos perguntar a ela. - Olhou de relance para o relógio de pulso. - Tenho de ir andando! Até logo. Estará no espectáculo, não é verdade?

O repórter anuiu e desligou o gravador de pequenas dimensões.

Lennie levantou-se, piscou o olho a uma criada que estava por perto e na véspera lhe pedira o autógrafo, e saiu do restaurante.

Às três da tarde, Olympia saiu da piscina a fim de se preparar para a tarde que tinha pela frente. Vitos estava na sua suite, estendido em cima de uma prancha inclinada a praticar escalas.

- Oleeempeea! - exclamou. - Tão lindaaa.

- Vitos - disse-lhe secamente. - Não vim para este palácio de jogo pindérico para ficar a um canto. Que se passa?

- Amanhã saberei - disse Vitos, sentando-se com um sorriso rasgado nos lábios.

Dissera a Olympia que precisava de determinados documentos que mandara vir de Espanha. Era verdade, Tinha de estar de posse dos papéis relativos à anulação do seu primeiro casamento e ninguém parecia saber do seu paradeiro.

Olympia tirou um cacho de uvas de uma mesa a abarrotar de fruta e amuou.

- Quanto tempo teremos de ficar aqui? - perguntou.

- Uma semana.

- Ainda bem que é só isso. Este local é um horror.

Lennie envergava um casaco de cabedal preto, calças pretas justas, uma camisa aberta à frente, uma gravata estreita de cabedal preto e sapatos de tênis brancos. Tinha o cabelo louro-areia artisticamente penteado.

Jess pôs-se na ponta dos pés e beijou-o na face.

- Estás uma maravilha - sussurrou-lhe.

A seguir, avançou para o palco.

Respirou fundo.

A adrenalina começou a jorrar.

Avançar!

Éden, sentada entre a audiência, perguntou a si mesma se Lennie daria por ela. Dificilmente poderia deixar de o fazer. Ela ocupava a melhor mesa, no meio da primeira fila. Encontrava-se acompanhada por Paige e Ryder Wheeler, Quinn Leech, o director do tal filme que estava em estudo e a namorada desdenhosa e insignificante deste. E Santino, evidentemente. E dois conhecidos que este tinha em Las Vegas.

"São investidores em potência", advertira-a ela na véspera. "Trata-os com gentileza."

Ambos os homens eram repelentes. Um era baixo e atarracado, com o cabelo a sair-lhe abundantemente das orelhas, nariz, pescoço e mãos. Éden ficava arrepiada só de olhar para ele. O outro, enorme e pançudo, era senhor de uns olhos pequenos e maldosos e tinha o cabelo penteado para trás com brilhantina. Nenhum dos dois levava par, o que significara, depois de lançarem olhares indagadores a Paige (quarentena, portanto, demasiado velha para os seus gostos aberrantes) e para a namorada de Quinn Leech (demasiado insignificante para as suas mentalidades Playboy), concentrarem toda a sua atenção em Éden.

Esta reagira com olhares desdenhosos e uma conversa indiferente. Viver com um homem como Santino Bonnatti já era suficientemente mau. Por que teria de se mostrar simpática com um par de gorilas que só talvez investissem no filme? Fosse de que maneira fosse, Santino não precisava de investidores - tinha dinheiro que chegasse para se bastar a si próprio nesse campo.

Olhou para Lennie, no meio do palco. Parecia-lhe estupendo. Bem, ele sempre fora um filho da mãe com óptimo aspecto. Felizmente ela também se sabia estupenda. Levava um vestido prateado, muito decolado e de tecido fino. E pusera o seu colar e brincos de rubis - presente de Santino. O cabelo, dividido ao meio, caía-lhe sobre os ombros - uma cortina clara que lhe servia de moldura às feições finamente cinzeladas.

Quando Santino lhe anunciara a ida a Las Vegas alguns dias atrás, Éden ficara radiante. Passar a vida na casa da Blue Jay Way como uma autêntica prisioneira era simplesmente de morrer de tédio. Estava ansiosa pelo começo do filme para poder sair e reatar alguma espécie de vida normal. Quando as filmagens começassem, Santino teria de a deixar em paz. Haveria provas de adereços, reuniões sobre o guião, ensaios - assim esperava. Alguns realizadores gostavam de trabalhar durante semanas com os actores antes do início das filmagens.

Como de costume, Santino não lhe dera tempo nenhum para se preparar.

"Vamos a Las Vegas", anunciara; uma hora depois encontravam-se dentro do automóvel, a caminho, com Zeko a conduzir. Teria sido agradável ela ir a um cabeleireiro e à manicure, quem sabe fazer umas compras.

Mas não. Santino fazia as coisas à sua maneira. Éden aprendera a adaptar-se ao facto.

Uma vez chegados, Santino instalara-a numa suite do Hotel Sands, com Zeko a tomar conta; depois partira, regressando uma hora mais tarde.

- Veste-te - disse. - Vamos a uma estreia.

- Que estreia? - perguntou Éden.

- Daquele chulo espanhol que canta, Vitos qualquer coisa. Toma Metera-lhe um maço de notas na mão. - Vai comprar algo de vestir que me entese. Leva Zeiko.

Éden não fazia a menor idéia de que Lennie Golden actuaria juntamente com Vitos Felicidade. Só ao chegarem diante do Magiriano é que vira o enorme anúncio luminoso.

Paige inclinou-se sobre a mesa e segredou-lhe algo.

Éden não a percebeu.

- O quê?

- Sensual, não acha? - repetiu Paige. Faz-me lembrar um Robert Redford sexy com um toque do encanto de Paul Newman.

Éden lembrou-se de que ninguém sabia da sua ligação de três anos com Lennie Golden. Por alguma razão obscura, ela considerava o facto embaraçante. Ele nem sequer lhe fizera referência no artigo da revista People - declarara apenas, vagamente, que saíra com uma série de modelos em Nova Iorque.

Não faria ela parte do seu passado? Uma parte importante.

Pensar que ele alcançara o sucesso primeiro, enfurecia-a. Ela que devia estar a ser alvo de todas as atenções. Ela é que devia ter saído na capa da People.

Paige aguardava nitidamente uma resposta ao seu comentário.

- Não está mal - lograra responder.

- Não está mal! - exclamou Paige. - Ele é fogo, querida. Quando eu afirmo que alguém é fogo, acredite que sei o que digo.

Éden apreciava bastante Paige Wheeler, embora pouco tempo tivesse passado com ela. Um par de jantares, dois ou três almoços, com a permissão de Santino. Paige era divertida. Gostava de gozar a vida e não se inibia de o fazer. Oh! Então não seria interessante ver a cara dela se Éden lhe confiasse até que ponto Lennie era realmente fogo?

E sentiu a falta dele.

Por um momento.

Só por um momento.

E só na cama.

O público adorou-o. Era nele que residia a verdadeira força: podia fazer ou destruir uma estrela.

Ele soubera que o conquistara mal entrara no palco. Podia sentir as vibrações - sentir que queria partilhar o sucesso daquela noite com ele.

O seu humor foi implacável, irônico, demolidor.

O público alinhou imediatamente, apreendendo a mais pequena nuance.

Ele contou verdades. Deixou-os descoroçoados.

Deitou abaixo a televisão. Adoraram-no.

Enveredou pelas relações familiares. As pessoas choravam de tanto rir.

Lennie dominou a audiência. Confiante, no controlo, com um timing impecável.

Até que, a certa altura, a viu.

- Onde diabo pensas que isso te vai levar? - gritou Jerry Myerson. Steven e ele encontravam-se nos extremos opostos da sala de estar da casa que Jerry tinha em Nova Iorque. Ambos estavam furiosos. Steven porque desejava que Jerry não se intrometesse na sua vida e Jerry porque, nos seus tempos de muito jovem, albergara uma paixão secreta por Carrie e detestava ver o que o filho lhe estava a fazer. Steven esboçou um gesto de impaciência.

- Depois te direi, quando obtiver resultados.

- E quando é que isso terá lugar? - perguntou Jerry sarcasticamente.

- Não achas que eu gostaria de saber?

Steven voltou-lhe as costas e olhou, através da janela, para o trânsito que, a custo, percorria a Rua 54. Um motorista de táxi fazia sinais obscenos ao condutor de um enorme camião de entregas que bloqueava a via. Não tardaria a eclodir uma luta corpo-a-corpo.

- O melhor que tens a fazer é retomares o trabalho - declarou Jerry secamente. - Já te disse que tens um lugar à tua espera na minha firma assim que o desejares.

Steven deu meia-volta.

- Isso é o que tu queres que eu faça. E assim que a situação estiver resolvida, será o que eu farei.

- Óptimo. Então podes pagar-me o dinheiro que te emprestei. Os olhos de Steven faiscaram.

- Estás preocupado com o teu dinheiro, Jerry?

- Não. Parvalhão. Estou preocupado contigo e o teu estado mental. Discutiram durante mais algum tempo mas ambos sabiam que não faria nenhuma diferença. Steven tinha uma missão a cumprir. Nada o faria deter.

No dia seguinte, Jerry levou Carrie a almoçar ao Lê Cirque. A mãe tinha um aspecto fatigado mas ficou contente por vê-lo e abraçou-o com força. Ele era a única pessoa que sabia do seu passado, para além de se mostrar muito mais compreensivo do que Steven.

- Amanhã ele vai levar-me a ver o médico reformado - disse Carrie sombriamente. - Quem sabe? Talvez o rosto condiga com o nome.

- Espero que sim - disse Jerry -, para bem de vocês os dois. Carrie remexeu no seu copo de Marfim, baixando os olhos.

- Jerry - principiou, hesitantemente-, já não sei simplesmente o que fazer. Quando estou com Steven, sinto que ele me odeia. É como se ele colocasse uma grade de aço à sua volta e não houvesse maneira de eu entrar dentro dela. Só fiz o que qualquer mãe teria feito - protegi-o da verdade.

-Eu sei - disse Jerry compreensivamente. - Não tens que te culpar. Ele foi apanhado por uma crise de identidade. Só há uma maneira de se livrar dela, que é pelos seus próprios meios. Não és apenas tu. Nenhum de nós dois pode ajudá-lo.

- Ainda bem que compreendes.

- É para isso que servem os amigos.

-Obrigada, Jerry. - Pousou a mão sobre a dele e apertou-lha. -E como vão as coisas do teu lado?

Jerry sorriu.

- Lá vou conseguindo ficar solteiro, apesar das contrariedades que tal acarreta. Não é fácil ser rico, honesto e bem-sucedido em Nova Iorque. As damas passam a vida atrás do velho aro de ouro do matrimônio.

Carrie sorriu e, pela primeira vez em semanas, sentiu-se descontrair.

Fred Lesster, médico, vivia a meio caminho entre Nova Iorque e Filadélfia. Depararam com um homem de oitenta e cinco anos de idade e meio libanês. Um olhar foi suficiente para o porem de parte.

Steven, mais uma vez com o Porsche de Jerry, conduziu Carrie de volta à cidade, em silêncio. A mãe ficara no apartamento de uma amiga. Esta fora para a Europa por seis meses parecera mais sensato ela ficar ali do que na sua casa de Fire Island.

- Por que não sobes? Preparo-te uns ovos ou algo do gênero - ofereceu ela.

Steven negou com a cabeça.

Carrie teve vontade de estender a mão e afagá-lo. Parecia-lhe tão infeliz. Por que não conseguiria ele simplesmente aceitar os factos tal qual se apresentavam?

- Lamento o dia de hoje - disse ele, olhando em frente. - Foi uma viagem escusada.

- Não tem importância.

- Sim, tem. Não voltará a acontecer.

Carrie ficou sem saber se ele queria dizer que desistia de Freddy Lester ou não. Talvez no final de contas não precisasse dele. Talvez Gino Santangelo fosse o pai. Steven sabia do paradeiro de Gino. Por que não apanharia ele o avião até à Califórnia e o convencia a fazer umas análises ao sangue?

Quase riu alto. Gino Santangelo nunca se lembraria dela. Consideraria Steven um louco, um doente mental. Cuspir-lhe-ia na cara.

- E agora? - perguntou ela calmamente. Steven inclinou-se e abriu-lhe a porta.

- Daqui a um dia ou dois volto a falar contigo - disse com brusquidão.

"Muito obrigada. Deverei parar de viver até dares o próximo passo? "

- Boa noite - disse Carrie, apeando-se do carro de Jerry.

Steven lançou-se ruidosamente pela noite dentro sem sequer um olhar de relance para trás. Nem ao trabalho de ver se ela entrava no edifício em segurança se deu. Era a paga do amor e dos cuidados de que ele outrora fora alvo em tão grande abundância. O filho causava-lhe muita tristeza.

Carrie não conseguiu dormir, pelo que ficou sentada à janela durante algum tempo, observando as sombras da noite e escutando o gemido constante das sirenes da polícia. As recordações invadiram-lhe a mente e quando, finalmente, adormeceu, foi um repouso agitado.

 

Susan era a perfeição em pessoa quando se tratava de fazer as coisas à sua maneira. Três quartos de hora depois, telefonara a April Crawford queixando-se de uma enxaqueca pavorosa; ligara para o Chasen a encomendar um fornecimento do seu chili saborosíssimo; aplicara uma maquiIhagem discreta e envergara um cafetã simples em tom de pêssego. Quando Lucky e Costa chegaram, estava pronta.

Gino também estava pronto. Foi com enorme satisfação que recebeu a filha, cuja falta descobrira sentir profundamente.

- Miúda! Abriu-lhe os braços.

- Papá!

Lucky abraçou-se a Gino. Se ele não gostasse da forma de tratamento, paciência - apetecera-lhe utilizá-la uma vez mais. Susan sorriu graciosamente a Costa.

- Bem-vindo. Faça favor de entrar.

Dirigiram-se todos para dentro de casa. Uma simples mansão californiana no valor de quatro milhões. Nada de pretensioso.

- Ora, ora, ora - exclamou Gino, observando Lucky com um sorriso. - Mais bonita que nunca. E voltando-se para Costa e dando-lhe um pequeno soco de brincadeira na barriga. - E tu, meu amigo, a ficares ligeiramente barrigudo. Demasiados petiscos caseiros, não? Demasiadas viúvas de Miami a aquecerem-te a cama, ha?

- É verdade - reforçou Lucky. - Tenho andado para te falar no peso, Costa. - Estão a transformar-te num gorducho!

Todos riram ruidosamente excepto Susan, que não era capaz de achar piada ao facto de alguém se deixar engordar. Ela era meticulosa em relação a tudo o que metia na boca, uma das razões que a levara a deixar de fazer fellatio a Gino um mês depois de casarem. Ele não ficara muito

satisfeito mas que remédio, não podia fazer nada para a levar a mudar de idéias.

- Que desejam para beber? - perguntou Gino, pondo um braço à volta de Lucky e o outro de Costa, enquanto os guiava em direcção ao bar.

- Pernod com gelo - pediu Lucky.

- Algo suave - disse Costa. - Algo suave! A história da tua vida! - brincou Gino, preparando-se

para fornecer as bebidas.

- Hans trata disso, querido - sugeriu Susan com voz meiga, aproximando-se.

- Nem pensar. Eu é que as preparo - replicou Gino, já a deitar cubos de gelo nos copos.

Susan fez sinal a Hans, o mordomo, para se retirar. Depois voltou-se para Lucky com um sorriso simpático.

- E como tens passado tu, minha querida? Já lá vai bastante tempo! "Gaja fingida", pensou Lucky. "Não mudaste. Continuas a armar em Grace Kelly."

- Estou em boa forma, Susan. "Ha! Espera até saberes do meu casamento com Dimitri Stanislopoulos. Vais molhar as calças! "

- Não há dúvida de que estás com muito bom aspecto - disse Susan. - Um pouco cansada, mas espero que seja da diferença horária. Fico sempre de rastos quando faço esta viagem. Três horas de diferença pode não ser muito mas acredita que...

- Ei, Gino - chamou Lucky, não lhe ligando nenhuma. - Tens tido saudades de Las Vegas?

Gino sorriu.

- E tu?

- Eu? Tenho tido outras preocupações.

- Como por exemplo?

- Atlantic City. vou avançar, antes que seja demasiado tarde.

- Vais?

- Por que não? É o que sempre desejei. E agora disponho de financiamento.

- Sim?

- Sim.

- De quem?

- Mais tarde te conto.

O sorriso de Susan era amarelo. Não fazia a menor idéia do que falavam.

- Mandei vir chili do Chasen - anunciou. - Espero que ambos gostem, mas Gino avisou-me com tão pouco tempo de antecedência que realmente...

- Por que não me podes dizer agora? - perguntou Gino, seguindo o exemplo de Lucky e ignorando Susan.

- Porque - replicou Lucky -, é uma longa história.

- Tenho a noite toda.

Os olhos negros dela brilharam.

- Por que estás tão ansioso por saber? Queres fazer-te meu sócio?

- Ei - riu Gino. - Sei qual é a tua jogada. Não tens o dinheiro todo e queres que eu entre com uma fatia da acção. Certo?

- Errado.

- Sim?

- Sim. vou finalmente construir o meu hotel. Não preciso de sócios.

- E como foi que conseguiste? -Não gostarias de saber?

- Saberei porque vais contar-me.

- Sim? Não apostes nessa.

Ambos sorriam abertamente, brincando um com o outro, atirando palavras um ao outro como costumavam fazer quando as coisas corriam bem entre ambos e a proximidade era uma realidade.

- O jantar chegará não tarda nada - disse Susan secamente.

- Pareceu-me ouvi-la falar em chili, não? - perguntou Costa delicadamente.

- Exacto - replicou Susan, lançando-lhe um olhar e não gostando particularmente do que via. Por que a sobrecarregaria Gino com os seus amigos insípidos, assim como com a filha difícil?

- Talvez - se não for demasiada maçada - eu pudesse comer outra coisa - pediu Costa calmamente. - Uma lata de sopa, uns ovos. - Bateu ao de leve no estômago. - O chili é demasiado condimentado para mim. Ordens do médico.

- Verei o que posso fazer - disse Susan gelidamente.

Gino e Lucky tinham-se afastado para a ponta do bar, profundamente embrenhados numa conversa. Gino começara a afastar-se dela - sentia-o há meses. Agora que o via a falar com a filha, tão animado e vivaz, apercebia-se de que mais valia usar de precaução. Corria o risco de o perder. E não estava preparada para tal. Ainda não.

Aproximou-se rapidamente do marido e agarrou-lhe possessivamente no braço.

- Vejamos, Lucky, queremos saber tudo quanto tens feito, querida. Tudo. - A sua voz era mel, o sorriso rígido, açucarado. - Sabes, este núcleo familiar sente verdadeiramente a tua falta. Sentimos a falta dela, não sentimos, Gino querido?

Gino fez questão em que o jantar fosse servido na cozinha.

- Por amor de Deus, é chili. Para quê complicar as coisas? Portanto o jantar foi na cozinha, para grande aborrecimento dos criados. A cozinha era o seu domínio; não gostavam de ser banidos dele.

Susan manteve o sorriso armado durante toda a noite, mas não foi fácil. Gino, Lucky e Costa formavam um grupo. Gino só desejava falar acerca dos bons velhos tempos de Nova Iorque, e Costa era o acompanhante perfeito, Lucky a ouvinte ideal.

Susan não tinha vontade de ouvir nada daquilo. Os bons velhos tempos pareciam sórdidos e revoltantes.

A certa altura, ia o jantar a meio, Gemma chegou a casa acompanhada de vários amigos.

- Pensei que iam sair - disse rudemente. - E que raio estão a fazer na cozinha?

Susan limpou delicadamente os lábios com um guardanapo.

- Uma alteração de planos, querida. Gemma, lembras-te de Lucky, não é verdade? E este é Costa... -fez uma pausa, tentando recordar-se do apelido - Zennacot.

- Zennocotti - corrigiu Gino.

- Ah, sim - disse Susan rapidamente. - Zennocotti.

- Viva - disse Gemma, sem o menor interesse, porém. Esperara dispor da casa para si e para os amigos poderem descontrair e tomar um pouco de coca. Agora teriam de ir para outro lado qualquer. Não tencionava ficar por ali sentada ao pé daquele grupo ultrapassado. Saiu da cozinha com ar contrariado.

Lucky afastou o prato de chilli meio consumido. Gostaria de poder ficar a sós com Gino. Havia algo de inibidor em Susan. O seu sorriso falso, a maneira como tentava integrar-se. E a casa era tão opressiva, nada tinha de acolhedora, parecia algo saído de uma revista. E agora Gemma, a filha arrogante. Gino parecia tão igual ao que fora nos velhos tempos! com certeza não gostava de viver com aquela gente...

- Por que não vens até ao hotel? - disse-lhe ela calmamente. - Tenho uma surpresa para ti.

- Que é?

- Vem comigo e eu mostro-te - provocou-o ela. Gino não precisou de grande persuasão.

- Vamos.

Susan não ficou satisfeita por se retirarem logo" a seguir ao jantar. Quis acompanhá-los mas Gino disse:

- Não, depressa estarei de volta. Ficas aqui.

Empilharam-se no carro alugado de Lucky e correram para o hotel, rindo durante todo o caminho como miúdos de gazeta à escola.

Enquanto estacionava o carro na Crescent Drive, Lucky reflectiu na enormidade da surpresa que estava prestes a fazer saltar sobre Gino. Nem sequer lhe dissera que casara. Respirou fundo. Ele não podia deixar de ficar entusiasmado. Que outra reacção se poderia esperar dele quando pusesse os olhos em Roberto pela primeira vez? Seu neto. Sua carne e sangue. Oh, Deus! Por que se sentiria tão nervosa?

Caminharam cautelosamente ao longo dos carreiros ladeados de folhagem que conduzia ao seu bungalow. Lucky meteu a chave à porta, abriu-a e ligou as luzes.

- Onde está a minha surpresa? - perguntou Gino alegremente, olhando em volta.

- Que esperavas? Um Ferrari? - brincou Lucky.

- Creio que imaginei que tinhas o meu retrato à minha espera. Sempre me apeteceu estar pendurado na parede de alguém. Lucky riu suavemente.

- Esperem! - ordenou. - Costa, prepara-lhe uma bebida.

Seguiu apressadamente para o seu quarto, fechando a porta atrás de si. Roberto dormia numa caminha ao lado da sua. CeeCee via televisão no quarto ao lado.

Fitou o seu bebê, o seu rapazinho. Dezasseis meses e perfeitamente sensacional.

Dormia de barriga para baixo. Cabelo negro Santangelo. Olhos negro-azeviche. sombreados por longas pestanas recurvas.

Amava-o tanto. Gino sentiria da mesma maneira. Tinha de sentir.

Pegou suavemente na criança. Esta estava quente, macia e cheirava a pó de talco e a sabonete.

- Roberto - sussurrou. - A mama está em casa. - Os olhinhos do bebê pestanejaram antes de se abrirem completamente. -Ei, este é um dia grande - ciciou. - Tu, meu fantástico rapazinho, estás prestes a conhecer o teu avô. -Estreitou-o contra si. -Vais portar-te bem, não vais?

Roberto exibiu um sorriso de três dentes. Estava com a melhor disposição do mundo.

Lucky abraçou-o ainda com mais força.

- Vamos a isto, garoto - disse. - Toca a causar boa impressão.

 

Lennie teve a impressão de que alguém lhe desferia um soco no estômago. Pumba. Em cheio no plexo solar. "Toma, filho da mãe!"

Durante uma fracção de segundo, os seus olhos entrecruzaram-se com os de Éden. Esta limitou-se a voltar-se para o homem sentado a seu lado e a pedir-lhe um cigarro. Ele sabia que ela o fazia propositadamente. Era um gesto de "não quero saber". Um encolher de ombros de indiferença como que a dizer: "O resto da audiência poderá imaginar-te uma maravilha mas eu, francamente, estou-me nas tintas para ti, "

Cabra mentirosa.

Estava com um aspecto fascinante.

Enquanto todos estes pensamentos lhe tumultuavam a cabeça, mantinha um exterior indiferente. Não se enganou numa linha. Continuou apenas a actuar conforme o programado, enquanto a cabra fumava o seu cigarro, beberricava o seu vinho e fazia de conta que não o conhecia de lado nenhum.

Éden estimulou-o. Fê-lo elevar-se a grande altura. Tornou-o mais quente que uma pega em dia de pagamento. Lennie ultrapassou o que planeara e ensaiara. Improvisou, brincou com o público, fez dez minutos a mais e recebeu uma ovação entusiástica.

Lennie Golden. Estrela. Se ela não o sabia antigamente, agora ficara sem dúvidas. Saiu do palco, ébrio de adulação e aplausos, pronto a fazer tudo de novo.

- Foste estuporadamente sensacional - elogiou-o Jess entusiasmada, os olhos brilhantes de alegria.

Os aplausos estrondosos não abrandavam. Lennie voltou ao palco três ou quatro vezes para agradecer, até ao tema musical de Vitos Felicidade abrir caminho por entre o barulho, e este tomar conta da segunda parte do espectáculo.

- Santa Madre de Deus - exclamou Jess. - Não há dúvida de que esta noite foste de arrasar!

Todos se apinharam no camarim: Isaac e Irena, Matt Traynor, Boca com as suas câmaras, o sempre presente repórter da Rolling Stone.

Lennie desejava ficar sozinho. Precisava de alguns minutos de paz e tranqüilidade. Jess captou a mensagem e esvasiou o quarto enquanto ele se enfiava na casa de banho, despia a roupa e se metia debaixo das agulhas geladas de um duche frio.

Éden estava ali.

Quem sabe viera especialmente para o ver. Pouco provável mas, ainda assim, uma possibilidade.

Desligou o chuveiro, enrolou uma toalha à volta da cintura e voltou a entrar no camarim.

Jess estava sentada no sofá, de braços à volta dos joelhos e com uma taça de champanhe na mão. Ergueu-a na direcção dele.

- Salute.

- Éden está aqui - disse ele. - Descobre quem raio a acompanha.

Vitos Felicidade fitava-a directamente nos olhos. Ela sabia-o mas recusava-se a reagir Como todas as restantes mulheres presentes no meio do público desfaleciam de prazer, ela não tencionava juntar-se ao clube. Ela era Olympia Stanislopoulos. E podia ter qualquer homem que desejasse. Em qualquer altura. Em qualquer sítio.

Infelizmente, depois das atenções rudes mas aventurosas de Flash, Vitos, com o seu pulso fraco e o seu sorriso doentio, não representava nenhum desafio. Mas serviria. De momento.

Naquele momento gorjeava sobre amores e paixões perdidas e noites de verão estreladas. Francamente, Olympia achou o comediante, Lennie qualquer coisa, muito mais interessante do que Vitos alguma vez seria. Aquele sim, era sexy do mesmo jeito de Flash. Sabedoria das ruas - frase que Flash lhe ensinara e que ela adorava.

Sabedoria das ruas. Conjurava visões de alguém que sabia o que era a vida a sério. Vitos parecia existir num vácuo de perfeição. Também era um pavor na cama. O pulso fraco não era o único problema de que padecia.

Agitou-se, sentindo-se desconfortável. Toda aperaltada e ainda tinha mais meia hora das melodias enjoativas de Vitos para aturar. Não sabia se conseguiria agüentar.

Lennie representava no quarto. No camarim. Mais fácil que estar no palco mas, ainda assim, um jogo. Estava a ficar um perito nas perguntas ligadas ao meio. Estavam presentes dois repórteres locais, para além do habitual da Roling Stone. Todos eles queriam saber as mesmas coisas. Como é que ele começara? Onde nascera? Quando é que se decidira pela comédia?

Por que diabo não liam os dados biográficos impecavelmente dactilografados por Jess?

Perguntas idiotas. Perguntas chatas. Mais um par de meses e desistira completamente das entrevistas. Isso, evidentemente torná-lo-ia ainda mais interessante e sedutor.

Jess voltou a entrar no quarto. Lennie aproximou-se dela, seguido por Boca, que naquela altura já lhe devia ter tirado, no mínimo, um milhar de fotografias.

- Então?

- Más notícias.

- O quê?

- Ela está com um par de malfeitores de Las Vegas e um compadre deles de Los Angeles.

- Como é que sabes?

-Veio direitinho da boca do capitão. Somos velhos amigos. Ele conhece perfeitamente tudo e todos. Acredita no que te digo, Lennie, aqueles tipos são gente importante, não uns borra-botas quaisquer, portanto mantém-te ao largo. Estou a fazer-me entender?

Lennie anuiu.

Mas ambos sabiam que não era assim.

Éden admirou o estilo de Vitos Felicidade. Ele era suave, seguro, provavelmente um amante solícito e sensual.

Fazer amor com Santino era como estar na cama com um babuíno que se babava todo. Não fazia idéia de como satisfazer uma mulher. O mais provável era que nem sequer tivesse conhecimento de que as mulheres podiam atingir o orgasmo. A única coisa que lhe interessava era aliviar os tomates, acrescentando ao acto uma pitada de crueldade e violência quando estava para aí virado.

- Que achas do chulo espanhol? - perguntou-lhe Santino, como que lendo-lhe os pensamentos.

- Porquê? - perguntou ela de sobreaviso.

- Quinn e Ryder acharam que ele podia servir para o filme. Éden esforçou-se por não reagir.

Conhecia Santino suficientemente bem para saber que se mostrasse o mais leve indício de entusiasmo, Vitos Felicidade deixaria de ser um concorrente.

- Como é que podes dizer que ele sabe representar? - perguntou despreocupadamente.

- As mesmas razões que te levam a pensar que pode. - Soltou uma gargalhada grosseira, levando imediatamente um "chiu" de uma mulher na mesa ao lado.

Éden ficou furibunda.

- Eu freqüentei aulas de representação em Nova Iorque - sibilou. E apareci numa série de espectáculos na televisão. Não me compares com o chulo do teu cantor espanhol.

Excelente. Agora ele pensaria que ela detestava Vitos. E talvez o contratassem. E se o fizessem, ela teria uma ligação amorosa com ele. Uma ligação amorosa discreta. Não tão discreta se o filme fosse um grande êxito. Se fosse, ela abandonaria Santino imediatamente.

Vitos estava quase no final da sua actuação. Resplandecente com o seu laço preto e smoking, atirou um beijo a Olympia e apresentou-a aos presentes. Depois dedicou-lhe o seu último êxito, O Ünico Amor da Minha Vida, começando a cantá-lo apoiado num joelho, de olhos fitos nela.

Olympia adorou completamente a charada. Quando as pessoas souberam de quem se tratava, começaram a olhar mais para ela do que para Vitos. Ela era uma herdeira rica a aparecer constantemente nos cabeçalhos dos jornais, com uma fiada de maridos e uma aventura escandalosa com o lendário Flash.

Endireitou os ombros e sorriu sedutoramente.

Matt levou uma nova acompanhante à festa de gala que teve lugar no salão de baile privado - uma festa em honra de Lennie Golden e Vitos Felicidade. Tratava-se de uma corista reformada: quarentona, ainda bonita e com um metro e oitenta e dois de altura.

Jess deitou uma olhada e afastou-se. Alta, arrogante, alta, elegante, alta, sofisticada, alta.

Raios partissem Matt Traynor. De novo com a mania das coristas. De qualquer maneira, o homem era um parvalhão.

Ambas as estrelas tinham a sua comitiva respectiva. A de Vitos era mais numerosa que a de Lennie. Empresários artísticos, gerentes, fotógrafos, repórteres, penduras. E Vitos e Olympia. Mas Lennie vinha na última capa da People. Portanto os dois atraíram igual atenção ao chegarem, com uma diferença de cinco minutos um do outro, à festa.

Santino e o seu grupo já se encontrava instalado numa das melhores mesas. Enzio Bonnatti, pai de Santino, ensinara-lhe, desde tenra idade, que, "quando vais ao estupor de uma festa, chegas lá cedo, apanhas a melhor mesa e não tiras o cu do lugar nem que caia o Carmo e a Trindade".

Santino não possuía a inteligência nem a sabedoria de Enzio. Que homem o pai fora! Um verdadeiro chefe. Sabia como conduzir os negócios, puxar os cordelinhos às pessoas e dar-lhes cabo dos estuporados tomates se elas não faziam as coisas à sua maneira.

O facto de estar sentado no salão de baile do Hotel Magiriano trouxe-Lhe recordações. Em 1975, Enzio tomara conta do Magiriano. Cuidara de toda a operação Santangelo em Las Vegas para prestar um favor a Gino Santangelo - fora do país por causa de uma trapalhada qualquer com os impostos - e a Lucky Santangelo, que fugira da cidade quando Marco, o namorado, fora morto.

Os Santangelo que se lixassem. Tinham retribuído os favores de Enzio com ameaças, não com gratidão. E num dia quente de Setembro, corria o ano de 1977, Lucky Santangelo - caramba, a afilhada de Enzio - chegara à mansão que Enzio tinha em Long Island e matara-o. "Dera-lhe um tiro no estômago, outro no pescoço e outro nos tomates. Três malditos tiros."

Auto-defesa, clamara. "Ele estava a atacar-me, a tentar violar-me." E as autoridades acreditaram na gaja! O caso nem sequer chegara a ir a tribunal. Ela estava livre que nem o estupor de um 747. O derradeiro golpe de misericórdia fora a ordem de proibição de vingança. A Família dissera não. Carlos não tinha tomates mas Santino continuava a matutar no assunto.

Carlos que se lixasse.

A Família que se lixasse.

Os Santangelos ainda iriam ter de se haver com Santino Bonnatti. Nem mais nem menos.

Por um momento, Gino não proferiu palavra. Fitou Lucky e o bebê, depois voltou-se para Costa em busca de uma explicação. Costa aclarou a garganta e nada disse.

- Este é Roberto - disse Lucky, com uma entoação de orgulho na voz. - O teu neto.

Novo momento de silêncio, prolongado.

Lucky susteve a respiração. Queria que Gino se mostrasse entusiasmado, deliciado, extasiado!

- Ei - disse ele finalmente, sentando-se. - Que surpresa.

- Melhor que um retrato, não achas?

- Que foi que fizeste, adoptaste uma criança? - perguntou Gino.

- Não. Este é Roberto - disse ela com indignação. - Meu filho. Nossa carne e sangue. Teu neto. Tem dezasseis meses e estava ansioso por te conhecer.

Gino olhou mais uma vez para Costa, mas este achou que se tratava de uma questão onde não devia intrometer-se.

- vou para a cama - disse Costa. - Telefono-te pela manhã, Gino. Boa noite.

E saiu.

- Então? -disse Lucky com uma risada nervosa. -Que achas?

- Acho - replicou Gino lentamente -, que se o miúdo tem estado à espera, podiam ter combinado algo há mais tempo. - Estendeu os braços para a criança. - Talvez deva pegar nele. - Sentou Roberto cuidadosamente no colo. - Já há muito tempo que não agarro num bebê disse, agitando-se desajeitadamente.

- Roberto é rijo. Não se partirá.

Deus! Ela parecia uma daquelas mães recentes todas babadas. Mas sentia-se óptima. Juntara finalmente as duas pessoas mais importantes da sua vida.

- Então... - Gino embalou ligeiramente o bebê-... queres falar-me do assunto?

- Parece-se com os Santangelo, não parece?

- É tal e qual tu com a idade dele. Lucky ficou entusiasmada.

- A sério. De verdade?

- Sem tirar nem pôr.

- Quem me dera ter fotografias tuas nessa idade.

- Ei... já muita sorte tinha eu em comer uma refeição por dia. Não havia dinheiro para fotografias.

- Sabes uma coisa? - Inclinou-se para beijar o pai. - Adoro-te, adoro-te de verdade.

Na última vez em que lhe dissera aquelas palavras, Gino estava à beira da morte, depois do ataque cardíaco. Agora voltava a proferi-las e a estranheza vivida por ambos naqueles dois últimos anos pareceu nunca ter existido.

- Sinto o mesmo por ti, miúda. Posso nem sempre demonstrá-lo, mas sabes como é, depois do assassinato da tua mãe, eu...

O telefone tocou, interrompendo as palavras proferidas com suavidade. Gino voltou a fechar-se imediatamente.

Lucky sentiu-se furiosa. Precisamente quando o pai estava prestes a abrir-se pela primeira vez. Nunca falara do assassinato de Maria com ela, ou mencionara sequer o dia fatídico em que, tinha ela cinco anos de idade, deparara com o cadáver da mãe a boiar na piscina. Agora que estivera prestes a fazê-lo, o maldito do telefone interrompia-o. Levantou o auscultador, prestes a gritar de frustração.

- Quem é?

- Lucky, querida... - era a voz de entoação bem modulada de Susan. - Gino está?

Passou o telefone ao pai. Lucky tirou-lhe Roberto do colo e levou-o de novo para a sua caminha. Quando voltou à sala, Gino acabara de desligar. "Então?" apeteceu-lhe perguntar. "Quando a Viúva Perfeita liga, tens de ir a correr?" Em vez disso, observou:

- Imagino que tenhas de voltar para casa.

- Houve um problema com Gemma e os amigos - disse Gino com um suspiro.

- Só tu podes resolvê-lo, ha?

- É. Bem, sou a única pessoa a quem eles dão ouvidos quando os ponho a correr de lá para fora.

- vou levar-te.

- Não te preocupes, miúda - liguei para a recepção e eles arranjaram-me um carro.

Lucky abriu a porta da saída, tentando esconder o desalento que sentia.

- Amanhã tomamos o pequeno-almoço juntos? - sugeriu Gino. Nessa altura poderemos conversar.

Lucky anuiu. Mas sabia que de manhã não seria a mesma coisa.

- Boa-noite, miúda.

- Boa-noite, Gino.

Gino abraçou-a mas na realidade já ia a caminho de casa. Lucky ficou sentada no meio da escuridão, reflectindo durante algum tempo. Depois pegou no telefone e ligou o número de casa do pai. Foi Susan que atendeu. Quando Gino veio ao telefone, parecia aborrecido.

- Que se passa?

- É só mais um pormenor. Estou casada, sabes.

- Não sabia. Pensei que tinhas mantido a questão da criança em segredo por não o seres.

- Que arcaico! - troçou Lucky. - Por amor de Deus, estamos em 1980!

- Então... onde está o teu marido?

- Em viagem. É um homem de negócios. Fez uma pausa e depois acrescentou:

- Deves lembrar-te dele.

- Conheço-o?

- De certeza que sim. Dimitri. Dimitri Stanislopoulos. O pai de Olympia.

A festa tinha comedores-de-fogo. E prestidigitadores vestidos de palhaços, de cara branca. E um elegante cantor negro. E uma orquestra excelente. Também havia um sumptuoso buffet, fartura de coristas bonitas e muitas celebridades para além das duas estrelas em honra de quem a festa estava a ser realizada.

A imprensa estava presente em peso. Lindas raparigas vestidas a rigor, de blocos e canetas na mão. Fotógrafos suados carregando volumosas máquinas. Algumas pessoas das redes televisivas, de câmaras de filmar ao ombro.

Vitos e Lennie, acompanhados dos respectivos séquitos, formavam campos separados.

Lennie viu-se rodeado de mulheres e como reparara em Éden, sentada numa das mesas com um grupo que parecia saído directamente de The Valachi Papers, não se importou absolutamente nada.

Vitos também tinha mulheres a saracotearem-se à sua volta. Reagiu encantadoramente. Olympia reagiu com uma carranca feroz e viu-se empurrada de um lado para o outro.

Jess percorreu a sala à procura de alguém com quem pudesse divertir-se. Estava farta de andar permanentemente sozinha - a boa velha Jess - a menina boasinha, a que tratava de tudo. Talvez já fosse tempo de arranjar uma vida amorosa para si própria.

Matt dividia-se entre os dois campos. A sua namorada da noite mostrava-se profundamente excitada com Vitos, tendo-se sentado a uma mesa e recusando-se a sair dela.

Não se perdia grande coisa, concluiu Matt. Viu Jess a tagarelar com um dos membros da banda de Vitos e perguntou a si mesmo o que poderia ela ter para falar com o sujeito. Ao ver que a conversa ultrapassava os dez minutos, resolveu aproximar-se deles.

- É tempo de termos uma conversa de negócios - disse ele bruscamente, pegando-lhe no braço.

- Que negócios? - perguntou Jess, enquanto ele a levava em direcção ao bar.

- Lennie obteve tão grande sucesso esta noite que pensei que poderíamos iniciar negociações para o próximo ano.

- Agora?

- Por que não?

- Porque estamos numa festa.

- Não ligam bem contigo.

- O quê?

- As festas.

- És maluco.

- Tu e Lennie andam a dormir juntos?

- Não é da tua conta.

Dito isto, Jess afastou-se com passo altivo. Era difícil andar com passo altivo quando se tinha apenas um metro e meio de altura, mas lá conseguiu sair-se minimamente bem.

Ryder Wheeler apresentou Paige a Vitos. Este executou uma vénia. Bateu com os calcanhares. Murmurou:

- Enchanté.

Paige achou-o piroso até mais não.

Éden dançava com o mais alto dos amigos de Santino, o dos olhinhos malévolos e cabelo cheio de brilhantina. Havia que acrescentar mau hálito e palmas das mãos suadas à lista de atributos do homem.

Esperava que Lennie não estivesse a observá-la.

Apesar do facto de este estar rodeado por raparigas, sabia que a olhava. Podia tê-lo de volta em qualquer altura que o desejasse. Um sinal de encorajamento da parte dela e aí o tinha a correr para si.

O facto fazia-a sentir-se bem, apesar do Mãos Suadas lhe roçar a erecção pelas coxas.

Lennie levantou-se, aliviou Boca das suas câmaras e rodopiou com ela pela pista de dança, ignorando os seus protestos em como não estava vestida para dançar.

- És a rapariga com melhor aspecto que aqui está dentro - disse Lennie, assim que ficaram suficientemente próximos de Éden para esta os ouvir.

- Tenho de trabalhar - insistiu Boca. - Leva-me de volta para as minhas câmaras.

Lennie reparou que Éden sorria imperceptivelmente. Esta tinha uma maneira irritante de erguer o canto dos lábios.

Os olhos dos dois encontraram-se e cada qual fez de conta que não reconheceu o outro.

Olympia anunciou desejar conhecer o comediante. Matt providenciou para que o acontecimento tivesse lugar em território neutro, entre os dois campos.

- Você é muito engraçado - disse Olympia com os seus modos mais encantadores. - Tenho de ver o seu espectáculo na televisão. Ouvi dizer que é de morrer a rir.

Lennie agradeceu com um sorriso e ia a seguir o seu caminho quando reparou que Éden o observava. Dessa vez não tinha o trejeito irônico na boca. Dessa vez sentia ciúmes.

"Que é preciso para fazer ciúmes a Éden Antônio? "

"Uma das mulheres mais ricas do mundo."

Presenteou Olympia Stanislopoulos com o verde-oceano dos seus olhos e um sorriso de esguelha.

- Quer dançar? - convidou.

Olympia sorriu. Sorriso lindo. Cabelo bonito. Mamas adoráveis. Era uma pena ter tantos quilos a mais.

- Quero - respondeu ela.

Foram para a pista de dança ao som de Street Life.

A noite foi seguindo o seu curso.

A sobremesa fora servida em gigantescas taças de gelado com dez sabores diferentes e enfeites variados. O negro elegante saiu-se muito bem em interessantes imitações de Stevie Wonder e Smokey Robinson.

Vitos Felicidade desfrutava das atenções de todas as mulheres no recinto. Não reparou que Olympia se sentara a um canto na companhia de Lennie Golden e que a conversa que ambos travavam parecia mais do que casual.

Éden reparou. ÍDançou com os amigos horrorosos de Santino e reparou em muito mais pormenores.

Jess reatou o contacto amigável com o membro do grupo de músicos de Vitos com quem estivera a falar anteriormente. Tocava guitarra, falava um inglês sofrível e possuía uns olhos e umas mãos muito expressivos.

De longe, Matt observava-a. Era óbvio que Jess estava a atirar-se ao tocador de guitarra porque