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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MÃE / Máximo Gorki
MÃE / Máximo Gorki

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

M Ã E

 

Todas as manhãs, por entre o fumo e o cheiro a óleo do bairro operário, apitava, trémula, a sirene da fábrica.

Dos casebres escuros saiam apressadas, como baratas assustadas, pessoas de semblante carrancudo, com os músculos ainda cansados. No ar frio do amanhecer, seguiam pelas ruelas de terra batida em direcção à enorme jaula de pedra que, serena e indiferente, os esperava com os seus inúmeros olhos, quadrados e viscosos. Ouvia-se o chapinhar dos passos na lama. Entrecruzavam-se exclamações roucas de vozes ensonadas e elevavam-se no ar injúrias soezas. Também havia outros sons: o ruído surdo das máquinas, o silvo do vapor. Sombrias e austeras, perfilavam-se as altas chaminés negras, grossas colunas dominando o bairro.

 

A tardinha, quando o Sol se punha e os vidros das janelas das casas reflectiam os seus raios avermelhados, a fábrica vomitava das suas entranhas de pedra a escória humana. Os operários, de rostos enegrecidos pelo fumo onde sobressaiam os dentes brancos de esfomeados, espalhavam-se novamente pelas ruas, deixando no ar exalações húmidas do óleo das máquinas. Agora, as vozes eram animadas e até mesmo alegres. O trabalho de forçados tinha terminado por aquele dia e em casa esperava-os o jantar e o descanso.

 

A fábrica tinha devorado o trabalho dos homens. As máquinas tinham sugado aos seus músculos toda a força de que necessitavam. O dia tinha passado sem deixar vestígios, cada homem tinha dado mais um passo em direcção ao túmulo, mas a doçura do repouso aproximava-se, bem como o prazer da taberna cheia de fumo, e os homens sentiam-se contentes.

 

Nos dias de festa dormia-se até às dez horas. Depois, as pessoas sérias e casadas vestiam as suas melhores roupas e iam à missa, reprovando nos jovens a sua indiferença pela religião. No regresso da igreja, comiam e deitavam-se novamente até ao anoitecer.

 

A fadiga, acumulada durante anos, tira o apetite e, para comer, bebiam, excitando o estômago com a queimadura aguda do álcool.

 

À tarde, passeavam preguiçosamente pelas ruas. Os que tinham botas de borracha, calçavam-nas mesmo que não chovesse, e os que possuiam um guarda-chuva levavam-no ainda que o Sol brilhasse.

 

Quando se encontravam, falavam da fábrica, das máquinas, ou desfaziam-se em invectivas contra os capatazes. As palavras e pensamentos não iam além dos assuntos referentes ao trabalho. Raramente uma ideia, pobre e mal formulada, chispava solitária na monotonia cinzenta dos dias. De volta a casa, os homens altercavam com as mulheres e frequentemente lhes batiam, sem poupar as pancadas. Os jovens deixavam-se ficar no café ou organizavam pequenas reuniões em casa de algum deles, tocavam acordeão, cantavam canções ignóbeis, dançavam, diziam obscenidades e bebiam. Extenuados pelo trabalho, os homens embriagavam-se facilmente. A bebida provocava uma irritação infundada, mórbida, que precisava de um escape. Então, para se libertarem, arranjavam um qualquer pretexto fútil, e atiravam-se uns contra os outros num acesso de fúria bestial. Produziamse rixas sangrentas, das quais alguns saiam feridos. Chegava por vezes a haver mortos...

 

No relacionamento entre eles predominava um sentimento de animosidade sempre latente, que a todos dominava é que parecia tão normal como a fadiga nos músculos. Tinham nascido com esta enfermidade na alma, herdada dos pais, que, como uma sombra negra, os acompanhava até ao túmulo e os levava a cometer actos odiosos, de uma crueldade inútil.

 

Nos dias de festa, os jovens voltavam de noite, muito tarde, com os fatos rotos, cobertos de lama e de poeira, os rostos feridos. Gabavam-se, com voz maldosa, das pancadas infligidas aos seus companheiros, ou, então, regressavam furiosos ou chorando devido aos insultos recebidos, ébrios, lamentáveis, infelizes e repugnantes. Às vezes eram os pais que traziam o filho para casa. Tinham-no encontrado embriagado, perdido à beira do caminho, ou na taberna. As injúrias e as pancadas choviam sobre o corpo inerte do rapaz; depois deitavam-no com mais ou menos precauções, para o acordarem bem cedo, na manhã seguinte, e o enviarem para o trabalho quando a sirene, qual sombria torrente, soltasse o seu grito irritado.

 

Os insultos e as pancadas abatiam-se duramente sobre os rapazes, mas as suas bebedeiras e lutas pareciam perfeitamente legítimas aos velhos; também eles, na sua juventude, se tinham embriagado e lutado; também eles tinham sido espancados pelos pais. Era a vida. Tal como uma água turva, que desliza lenta e sempre igual, assim um ano se seguia ao outro. Cada dia era igual ao precedente, feito dos mesmos hábitos de pensar e de agir, antigos e tenazes. E ninguém sentia o desejo de mudar coisa alguma.

 

Por vezes apareciam estranhos no bairro, vindos não se sabia de onde. De início atraíam as atenções, apenas porque eram desconhecidos. Suscitavam logo a curiosidade, quando falavam dos lugares onde tinham trabalhado. Depois, o interesse pela novidade desaparecia, as pessoas acostumavam-se à presença deles e voltavam a passar despercebidos. As suas histórias confirmavam uma evidência: a vida do operário é igual em todos os lugares. Assim sendo, para quê falar dela?

 

Mas, por vezes, acontecia que contavam coisas inéditas no bairro. Ninguém discutia com eles, mas escutavam, sem acreditar, as suas estranhas frases que provocavam, nalguns uma irritação surda, noutros inquietação. Não faltava quem se sentisse assaltado por uma vaga esperança e então bebia, ainda mais, para apagar aquele sentimento inútil e incómodo.

 

Se um estranho apresentasse algo fora do comum, os habitantes do bairro olhavam-no de soslaio e tratavam-no com instintiva repulsa, como se temessem vê-lo trazer para as suas vidas algo que pudesse perturbar o seu quotidiano sombrio e penoso, mas tranquilo. Habituados a serem esmagados por uma força constante, não esperavam que algo pudesse melhorar e consideravam que qualquer mudança iria apenas servir para lhes tornar o jugo mais pesado ainda.

 

As gentes do bairro ouviam em silêncio os que falavam de coisas novas. Depois desapareciam, retomavam a estrada, ou, se ficavam na fábrica, viviam à margem, sem conseguirem fundir-se com a massa uniforme dos operários...

 

O homem vivia assim durante cerca de cinquenta anos e depois morria...

 

Tal era a vida do serralheiro Mikhail Vlassov, um ser sombrio, peludo, de olhinhos desconfiados sob espessas sobrancelhas e sorriso maldoso. O melhor serralheiro da fábrica e o hércules do bairro. Ganhava pouco porque era grosseiro com os chefes. Todos os domingos deixava alguém sem sentidos; toda a gente o detestava e o temia. Tinham tentado dar-lhe uma tareia, mas não tinham conseguido. Quando Vlassov via que ia ser atacado, apanhava uma pedra, uma tábua, um pedaço de ferro, fincando-se sobre as pernas afastadas, e em silêncio esperava o inimigo. O rosto, coberto por espessa barba negra desde os olhos até à garganta, e as mãos peludas suscitavam o pânico geral. Assustavam, acima de tudo, os seus olhos, pequenos e agudos, que pareciam trespassar as pessoas como se fossem uma ponta de aço; quando se cruzava aquele olhar sentia-se como se se estivesse em presença de uma força selvagem, inacessível ao medo, pronta a ferir sem piedade.

 

- Fora daqui, bandalhos! - dizia surdamente. Os dentes amarelos reluziam no meio da espessa barba do seu rosto. Os adversários enchiam-no de insultos, mas retrocediam intimidados.

 

- Bandalhos! - continuava a gritar-lhes, e o seu olhar brilhava, maldoso, agudo como uma sovela. Depois, erguia a cabeça em ar de desafio e perseguia-os, provocando-os:

 

- Então, quem é que quer morrer? Ninguém queria...

 

Falava pouco e a sua expressão favorita era -bandalhos". Chamava assim os capatazes da fábrica e a polícia; empregava o mesmo epíteto quando se dirigia à mulher:

 

- Não vês, bandalha, que tenho as calças rotas?

 

Quando o filho, Pavel, já tinha catorze anos, Vlassov tentou un dia arrastá-lo pelos cabelos. Mas Pavel apoderou-se de um pesado martelo e disse-lhe secamente:

 

- Não me toque.

 

- O quê? - perguntou o pai, avançando sobre o rapaz alto e esbelto, como uma nuvem sobre uma bétula jovem.

 

- Basta - disse Pavel -, não deixarei que me volte a bater... - E brandiu o martelo. - O pai olhou para ele, Com as mãos peludas cruzadas atrás das costas e disse zombando:

 

- Ah, sim?

 

E acrescentou, com um suspiro profundo:

 

- Raio de bandalho... Pouco depois disse à mulher:

 

- Não me peças mais dinheiro. De hoje em diante será Pavel que irá sustentar-te. Ela ousou perguntar:

 

- Vais gastar o dinheiro todo na bebida?

 

- Não é assunto da tua conta, bandalha. Arranjarei uma amiguinha...

 

Não arranjou nenhuma amante, mas desde aquele momento e até à sua morte, durante quase dois anos, não voltou a olhar para o filho, nem lhe dirigiu a palavra.

 

Tinha um cão tão grande e peludo como ele. Todos os dias o animal o acompanhava à fábrica e, à tarde, esperava por ele, à saída. Ao domingo, Vlassov percorria os cafés. Caminhava sem dizer palavra, parecia procurar alguém, olhando insolentemente as pessoas, enquanto passava. O cão seguia-o o dia inteiro, a cauda caída, grossa e peluda. Quando Vlassov, embriagado, regressava a casa, sentava-se à mesa e do seu próprio prato dava de comer ao cão. Nunca lhe batia, nem lhe ralhava, mas também não o acariciava. Depois de comer, se a mulher não levantava depressa a mesa, atirava os pratos ao chão, colocava à sua frente uma garrafa de aguardente e, de costas apoiadas à parede, berrava uma canção numa voz surda que causava arrepios, com a boca aberta e os olhos fechados. As palavras da canção, melancólicas e vulgares, pareciam enrolar-se-lhe no bigode, de onde caiam migalhas de pão; o serralheiro cofiava a barba com os dedos e cantava. As palavras eram incompreensíveis, arrastadas; a melodia lembrava o uivo dos lobos no Inverno. Cantava enquanto houvesse aguardente na garrafa; depois, deitava-se de lado sobre o banco, ou pousava a cabeça sobre a mesa, e dormia assim até se ouvir o silvo da sirene. O cão deitava-se ao seu lado.

 

Morreu de uma hérnia. Agitou-se na cama durante cinco dias, a tez sombria, as pálpebras cerradas, rangendo os dentes.

 

 

Às vezes dizia à mulher:

 

- Dá-me veneno para os ratos, envenena-me...

 

O médico receitou cataplasmas, mas acrescentou que era indispensável operá-lo e que era necessário levar o doente imediatamente para o hospital.

 

- Vá para o diabo... morrerei sozinho! Bandalho! - gritou

Vlassov.

 

Quando o médico se foi embora, a mulher, chorando, quis convencê-lo a submeter-se à operação; ele disse-lhe, ameaçando-a com o punho:

 

- Se me curar vai ser pior para ti!

 

Morreu numa manhã, no momento em que a sirene chamava para o trabalho.

 

No caixão, tinha a boca aberta e as sobrancelhas franzidas e irritadas. Acompanharam o enterro a mulher, o filho, o cão, e Danilo Vessovchikov, velho ladrão bêbado expulso da fábrica, para além de alguns miseráveis do bairro. A mulher choramingava. Pavel não verteu uma lágrima. Os transeuntes que se cruzavam com o enterro paravam e persignavam-se, comentando com os vizinhos:

 

- A Pelágia deve estar contente que ele tenha morrido!

 

E rectificavam:

 

- Que tenha rebentado!

 

Depois de ter sido sepultado, todos abandonaram o local, menos o cão, que ficou estendido na terra remexida e, sem ladrar, farejou o túmulo durante muito tempo. Mataram-no uns dias mais tarde; ninguém soube quem...

 

 

Um domingo, quinze dias após a morte do pai, Pavel Vlassov regressou a casa embriagado. Cambaleante, entrou na sala batendo com o punho na mesa e gritando como fazia o pai:

 

 

- O jantar!

 

A mãe aproximou-se, sentou-se ao seu lado e abraçando-o aproximou a cabeça do filho do seu peito. Ele, apoiando a mão no ombro dela, empurrou-a, gritando:

 

- Vá, mãe, despache-se!

 

- Coitadinho! - disse ela numa voz triste e acariciante, ignorando a resistência de Pavel.

 

- E vou fumar! Dê-me o cachimbo do pai - grunhiu o rapaz; a língua rebelde articulava com dificuldade.

 

Era a primeira vez que se embriagava. O álcool tinha-lhe debilitado o corpo, mas não lhe tinha apagado a consciência e na sua cabeça formulava insistentemente uma pergunta:

 

- Estou bêbado...? Estou bêbado...?

 

Os afagos da mãe confundiam-no e a tristeza que via nos seus olhos deixava-o comovido. Apetecia-lhe chorar e, para vencer este desejo, fingiu estar mais embriagado do que na

realidade estava.

A mãe acariciava-lhe os cabelos, desgrenhados e empapados em suor, falando-lhe docemente:

 

- Não devias...

 

As náuseas invadiram-no. Depois de uma série de vómitos violentos, a mãe meteu-o na cama e cobriu-lhe a fronte lívida com uma toalha humedecida. Recompôs-se um pouco, mas via tudo a girar à sua volta, as pálpebras pesavam-lhe, tinha na boca um gosto desagradável e amargo. Olhava o rosto da mãe através das pestanas e pensava:

 

"Ainda é muito cedo para mim. Os outros bebem e não lhes acontece nada, mas a mim faz-me vomitar..."

 

Ouvia a voz doce da mãe como se viesse de muito longe:

 

- Como é que me vais sustentar, se começares a beber... Ele fechou os olhos e disse:

 

- Todos bebem...

 

Pelágia suspirou. Tinha razão. Ela bem sabia que não havia outro local, além da taberna, onde ir buscar um pouco de alegria. Apesar disso, respondeu:

 

- Mas tu não bebas! O teu pai já bebeu o bastante por vocês os dois. E muito me fez sofrer... Podias ter pena da tua mãe.

 

Pavel escutava estas palavras tristes e ternas. Recordava a existência silenciosa e apagada da mãe, vivendo na expectativa angustiada das pancadas do marido. Nos últimos tempos, Pavel raramente tinha estado em casa, a fim de evitar encontrar-se com o pai. Tinha abandonado um pouco a mãe. E agora, recuperando devagar os sentidos, olhava-a fixamente.

 

Era alta e ligeiramente encurvada. O corpo, desgastado por um trabalho incessante e pelos maus tratos do marido, movia-se em silêncio, de esguelha, como se receasse tropeçar nalguma coisa. O rosto largo, sulcado de rugas, um pouco inchado, era iluminado por dois olhos escuros, tristes e inquietos, como os da maioria das mulheres do bairro. Uma cicatriz profunda elevava levemente a sobrancelha direita e também parecia que a orelha desse lado estava colocada mais acima do que a outra; dava o ar de estar sempre de ouvido à escuta. As cãs contrastavam com o farto cabelo negro. Toda ela era doçura, tristeza, resignação...

 

As lágrimas corriam-lhe lentamente pela face.

 

- Não chores mais! - disse docemente o filho. - Dá-me de beber.

 

- Vou buscar-te água com gelo.

 

Mas quando Pelágia regressou, ele tinha adormecido. Ela cleixou-se ficar um instante imóvel junto dele. O jarro tremia na sua mão e o gelo tilintava suavemente no bordo. Pousou a vasilha sobre uma mesa e ajoelhou-se em silêncio diante dos ícones. As vidraças das janelas vibravam com os gritos dos bêbados. Na obscuridade e na névoa daquela noite de Outono, gemia um acordeão. Alguém cantava em voz alta. Alguém praguejava, gritando palavrões. Ouviam-se vozes de mulheres inquietas, irritadas, cansadas...

 

Na pequena casa dos Vlassov a vida continuou, mais tranquila, com mais paz do que outrora e de um modo um pouco diferente do das outras casas. O prédio ficava ao fundo da rua principal, junto de uma ladeira íngreme que terminava num pântano. Um terço da casa era ocupado pela cozinha, que um tabique separava de um quarto pequeno onde a mãe dormia. O resto era um quarto quadrado com duas janelas. Num canto estava a cama de Pavel, no outro uma mesa e dois bancos. Algumas cadeiras, uma cómoda para a roupa encimada por um pequeno espelho, um baú, um relógio de parede e dois ícones noutro canto. Era tudo.

 

Pavel fez tudo o que era habitual num rapaz. Comprou um acordeão, uma camisa com peitilho engomado, uma gravata berrante, botas de borracha, uma bengala, tornando-se assim mais um, no meio dos jovens da sua idade. Foi a festas, aprendeu a dançar a quadrilha e a polca, ao domingo regressava a casa depois de ter bebido muito e continuava a suportar mal o vodka. No dia seguinte tinha dores de cabeça, ardia-lhe o estômago, estava lívido e abatido.

 

Um dia, a mãe perguntou-lhe:

 

- Então, divertiste-te muito ontem?

 

Ele respondeu, carrancudo e irritado:

 

- Aborrecí-me de morte! Será melhor passar a ir pescar; ou então compro uma espingarda.

 

Trabalhava com zelo, sem ausências nem reprimendas. Era taciturno, e os seus olhos azuis, grandes como os da mãe, expressavam um permanente descontentamento. Não comprou a espingarda, nem foi à pesca, mas afastou-se cada vez mais do modo de vida que levavam os outros jovens. Passou a frequentar as festas cada vez menos e, onde quer que fosse aos domingos, regressava a casa sem ter bebido. A mãe, que o observava atentamente, via vincarem-se as feições no rosto moreno do filho. A sua expressão tinha-se tornado mais grave, e os lábios tinham adquirido um vinco de estranha severidade.

 

Parecia cheio de uma cólera surda, ou minado por alguma enfermidade. Outrora, os companheiros vinham visitá-lo, mas agora, como nunca o encontravam em casa, tinham deixado de aparecer. A mãe via com prazer que Pavel já não imitava os rapazes da fábrica, mas quando se apercebeu da sua obstinação em escapar à corrente sombria da vida comum, o seu coração pressentiu um perigo obscuro.

 

- Não te sentes bem, Pavel? - perguntava-lhe às vezes.

 

- Sim, estou bem - respondia.

 

- Estás tão magro! - suspirava ela.

 

Começou a trazer livros e a lê-los às escondidas. A seguir fechava-os em qualquer sítio. Às vezes, copiava uma passagem num pedaço de papel, que também escondia.

 

Falavam pouco um com o outro. De manhã ele tomava o chá sem falar e saía para o trabalho. Mal se viam. Ao meio-dia ia almoçar a casa. Trocavam algumas palavras insignificantes e desaparecia novamente até à noite. Terminado o dia de trabalho lavava-se cuidadosamente, comia a sopa e depois ficava durante muito tempo a ler os seus livros. Ao domingo, saía de manhã e só regressava caída a noite. Pelágia sabia que ele ia à cidade, que frequentava o teatro, mas não vinha ninguém da cidade visitá-lo. Parecia-lhe que quanto mais o tempo passava, menos comunicativo o filho ia ficando, notando ao mesmo tempo que, em certas ocasiões, ele usava palavras novas que ela não compreendia, enquanto as expressões brutais e grosseiras tinham desaparecido da sua linguagem. No seu comportamento havia muitos pormenores que chamavam a atenção de Pelágia. Deixou de aperãltar-se, mas passou a ser mais cuidadoso com a limpeza do corpo e das roupas. A sua forma de andar tornou-se mais livre e solta e a sua aparência mais simples e doce. A mãe preocupava-se. Na sua atitude em relação a ela havia também algo de novo. Às vezes varria o quarto, aos domingos ele mesmo fazia a sua cama, e esforçava-se por aliviá-la do trabalho. Mais ninguém procedia assim no bairro...

 

Um dia pendurou na parede um quadro que representava três pessoas que caminhavam com ligeireza e conversavam.

 

- É Cristo ressuscitado a caminho de Emaús - explicou Pavel.

 

Pelágia gostou do quadro, mas pensou: "Veneras Cristo mas não vais à igreja..."

 

A quantidade de livros aumentava de dia para dia sobre a bela prateleira que um carpinteiro, amigo de Pavel, tinha fabricado. A casa começava a tomar um aspecto agradável.

 

Ele tratava-a por "senhora" e chamava-lhe "mãe", dirigindo-lhe às vezes palavras afectuosas:

 

- Eu hoje volto tarde, mãe, não fique preocupada.

 

Sob estas palavras, ela pressentia que existia alguma coisa forte e séria que lhe agradava.

 

Mas a sua inquietação aumentava, e o tempo não passava de maneira a deixá-la mais tranquila. O pressentimento de alguma coisa extraordinária rondava o seu coração. Por vezes, ficava aborrecida com o filho e pensava:

 

"Os homens devem viver como homens, mas este porta-se como se fosse um monge... É demasiado sério... Não parece um rapaz da idade dele..."

 

E questionava-se:

 

"Terá, talvez, uma namorada..."

 

Mas para ter uma amiguinha era necessário dinheiro, e ele entregava-lhe o seu salário quase por completo.

 

Assim se passaram semanas, meses, dois anos de uma vida estranha, silenciosa, cheia de pensamentos obscuros e de medos cada vez mais terríveis.

 

Uma noite, depois do jantar, Pavel, fechando as cortinas das janelas, sentou-se num canto e pôs-se a ler sob o candeeiro de petróleo pendurado na parede acima da sua cabeça. A mãe, tendo acabado de lavar a loiça, saiu da cozinha e aproximou-se no seu passo hesitante. Ele levantou a cabeça e olhou-a com ar interrogativo:

 

- Não... não ê nada, Pavel, sou eu - disse ela, e afastou-se rapidamente, a testa enrugada e um ar confuso. Por um momento deixou-se ficar imóvel, no meio da cozinha, pensativa, preocupada. Lavou as mãos vagarosamente e voltou para junto do filho.

 

- Queria perguntar-te - disse em voz muito baixa - o que é que estás sempre a ler.

 

Ele largou o livro.

 

- Sente-se, mãe.

 

Sentou-se pesadamente ao lado dele, e endireitou-se, esperando que algo de grave acontecesse. Sem a olhar, a meia-voz e, sem saber porquê, num tom brusco, Pavel começou a falar.

 

- Leio livros proibidos. É proibido lê-los porque dizem a verdade sobre a nossa vida de operários... São impressos em segredo e se os encontrarem aqui, metem-me na cadeia... na prisão, porque quero saber a verdade. Compreende?

 

Ela sentiu subitamente dificuldade em respirar e fixou no filho os olhos espantados. Ele pareceu-lhe diferente, estranho. Tinha uma voz diferente, mais baixa, mais cheia, mais sonora. Com os dedos afilados, retorcia o bigode ainda ralo de adolescente e o olhar vago, sob as sobrancelhas, perdia-se no vazio. Sentiu-se invadida por um sentimento de medo e de piedade pelo filho.

 

- Porque fazes isso, Pavel? - perguntou.

 

Ele levantou a cabeça, olhou-a de relance e, sem levantar a voz, respondeu tranquilamente:

 

- Quero saber a verdade.

 

A voz de Pavel era baixa mas firme e os olhos dele brilhavam de obstinação. No seu coração, ela compreendeu que o filho se tinha dedicado para sempre a qualquer coisa terrível e misteriosa. Ao longo da vida sempre tudo lhe tinha parecido inevitável. Estava acostumada a submeter-se sem reflectir e apenas foi capaz de chorar, de mansinho, sem encontrar palavras, o coração apertado de angústia.

 

- Não chore! - disse Pavel. Mas à mãe parecia que a sua voz suave encerrava uma despedida.

 

- Raciocine. Que vida é a nossa? A mãe tem quarenta anos. Pode, por acaso, dizer que viveu verdadeiramente? O pai batia-lhe... agora compreendo que ele se vingava em si da sua própria miséria, da miséria da vida que o sufocava sem que ele compreendesse porquê. Trabalhou trinta anos. Começou quando a fábrica era apenas dois edifícios e agora já são sete!

 

Ela escutava num misto de terror e avidez. Os olhos do filho brilhavam, belos e claros. Apoiando o peito sobre a mesa, tinha-se aproximado da mãe e, quase tocando o seu rosto banhado em lágrimas, contava-lhe pela primeira vez tudo o que tinha aprendido. Com toda a fé da juventude e o ardor do discípulo, orgulhoso dos seus conhecimentos em cuja verdade acreditava religiosamente, ele falava de tudo o que para ele era evidente. Falava no entanto menos para a mãe do que para se certificar das suas próprias convicções. Detinha-se, aqui e acolá, quando lhe faltavam as palavras e, então, via o rosto aflito onde brilhavam uns olhos bondosos, cheios de lágrimas, de terror e de perplexidade. Teve pena da mãe, mas continuou a falar, só que agora era dela e da sua vida que ele falava.

 

- Que alegrias teve a mãe? Diga-me, que houve de bom em toda a sua vida?

 

Ela escutava e abanava tristemente a cabeça. Experimentava uma sensação nova que não conhecia, de alegria e de dor, que afagava deliciosamente o seu coração sofrido. Era a primeira vez que ouvia falar dela mesma e cia sua vida naqueles termos, e aquelas palavras despertavam nela pensamentos vagos, adormecidos havia muito tempo. Reavivavam devagarinho o sentimento extinto de uma insatisfação obscura em relação à existência, reanimavam as ideias e impressões de uma longínqua juventude. Falou da sua infância, das suas amigas, falou longamente de tudo, mas, tal como elas, apenas sabia lamentar-se. Jamais ninguém lhe explicara porque é que a vida era tão penosa e difícil. E agora o seu filho aii estava, sentado junto dela, e tudo o que os seus olhos diziam, o seu rosto, as suas palavras, tudo chegava ao seu coração enchendo-a de orgulho perante o filho que com-

preendia tão bem a vida da sua mãe, que lhe falava dos seus sofrimentos e a lamentava.

 

As mães, ninguém as lamenta.

 

Ela sabia-o. Tudo o que Pavel dizia sobre a vida das mulheres era verdade, a amarga verdade. No seu peito palpitava uma infinidade de doces sensações, cuja ternura desconhecida confortava o seu coração.

 

- E então, que pensas fazer?

 

- Aprender, e em seguida ensinar os outros. Nós, os operários, devemos estudar. Devemos saber, devemos compreender onde está a origem da dureza das nossas vidas.

 

Era agradável para a mãe ver os olhos azuis do filho, sempre sérios e severos, brilharem agora com tanta ternura e afecto. Nos lábios de Pelágia surgiu um leve sorriso de alegria, enquanto algumas lágrimas tremiam ainda nas rugas da sua face. Sentia-se interiormente dividida. Estava orgulhosa do filho, que tão bem compreendia as razões da miséria da vida, mas não podia esquecer a juventude dele, que ele não falava como os seus companheiros e que tinha tomado a decisão de lutar sozinho contra a vida rotineira que os outros levavam, e ela também. Quis dizer-lhe: "Mas, meu filho... que podes tu fazer?"

 

Pavel viu o sorriso nos lábios da mãe, a atenção no seu rosto, o amor nos seus olhos; acreditou ter-lhe feito compreender a sua verdade, e o orgulho juvenil na força de persuasão da sua palavra exaltou a sua fé em si mesmo. Falava, excitado, ora sarcástico ora franzindo as sobrancelhas. Por vezes o ódio ressoava na sua voz, e quando a mãe ouvia aquele tom de voz cruel, abanava a cabeça, espantada, e perguntava em voz baixa:

 

- Isso é verdade, Pavel?

 

- É, sim! - respondia ele com voz firme.

 

Falava-lhe, então, dos que queriam a felicidade do povo, que semeavam a verdade, e por causa disso eram perseguidos pelos inimigos da vida como se fossem animais selvagens, encarcerados, condenados a trabalhos forçados.

 

- Conheço essas pessoas - exclamou com ardor. - São as melhores do mundo!

 

Mas a mãe continuava assustada, e perguntou ao filho:

 

- Pacha, isso é verdade?

 

Sentia-se insegura. Sem forças, escutava o que Pavel contava sobre aquelas pessoas, para ela difíceis de compreender, que tinham ensinado ao seu filho um modo de falar e de pensar tão perigoso para ele.

 

- É quase manhã, devias ir deitar-te - disse ela.

 

- Vou já - e inclinando-se para ela, perguntou:

 

- Compreendeu o que lhe disse?

 

- Compreendi! - murmurou a mãe. Estava de novo a chorar, e acrescentou num soluço:

 

- Tu vais perder-te!

 

Ele levantou-se e deu alguns passos na sala.

 

- Bem, agora já sabe o que faço e para onde vou. Contei-lhe tudo... Suplico-lhe, mãe, se me tem amor, que não tente impedir-me...

 

- Meu filho! - exclamou ela. - Talvez tivesse sido melhor que não me tivesses dito nada...

 

Ele pegou-lhe numa mão e apertou-a com força entre as suas.

 

Ela comoveu-se com a palavra "mãe", que ele tinha pronunciado com tanto calor, e com aquele apertar de mãos, novo e estranho.

 

- Nada farei para te contrariar - disse com a voz trémula. - Apenas quero que tenhas cuidado, que tenhas muito cuidado!

 

Sem saber com que é que ele devia ter cuidado, acrescentou tristemente:

 

- Estás cada vez mais magro...

 

E, envolvendo o corpo robusto e bem proporcionado do filho num olhar quente e terno, disse-lhe rapidamente e em voz baixa:

 

- Que Deus te proteja! Faz o que entenderes, que eu não te impedirei. Só te peço uma coisa: que sejas prudente quando falares com os outros. É preciso desconfiar. Eles odeiam-se uns aos outros. São ávidos e invejosos... Gostam de fazer mal. Se começas a dizer-lhes as tuas verdades, a julgá-los, vão detestar-te e tudo farão para causar a tua perda.

 

De pé, junto da porta, Pavel escutava, sorrindo, estas palavras amargas.

 

- As pessoas são más, é verdade. Mas quando aprendi que havia uma verdade sobre a Terra, elas tornaram-se um pouco melhores.

 

Sorriu de novo.

 

- Eu mesmo não compreendo como é que isto aconteceu. Desde criança que sempre tive medo de toda a gente. Quando cresci, dei por mim a odiar uns pela sua cobardia, outros não sei por quê, por nada... e agora vejo-os com outros olhos, tenho pena deles, acho eu... não sei como foi, mas o meu coração enterneceu-se quando compreendi que nem todos são responsáveis pela sua baixeza...

 

Calou-se por um instante, parecendo escutar algo dentro de si mesmo e depois continuou, pensativo:

 

- Foi assim que se me revelou a verdade! Ela levantou os olhos até ele e murmurou:

 

- Como estás mudado, e como eu receio essa tua mudança, oh, meu Deus!

 

Quando o filho se deitou e adormeceu, a mãe levantou-se sem fazer barulho e aproximou-se devagarinho da cama dele. Pavel dormia deitado de costas, e o seu rosto moreno, obstinado e severo, desenhava-se na brancura da almofada. De mãos cruzadas sobre o peito, descalça e em camisa, a mãe ficou junto da cama do seu filho. Ia movendo os lábios em silêncio e dos seus olhos, uma após outra, lentamente, corriam grossas lágrimas de angústia.

 

E a vida deles prosseguia, silenciosa. De novo se sentiam simultaneamente afastados e próximos um do outro.

 

Num dia de festa, a meio da semana, Pavel, prestes a sair, disse à mãe:

 

- No próximo sábado virão convidados da cidade.

 

- Da cidade? - repetiu a mãe, e repentinamente começou a soluçar.

 

- Então, mãe, porque é que está a chorar? - perguntou Pavel aborrecido.

 

Ela suspirou, enxugando o rosto com o avental.

 

- Não sei... por nada.

 

- Tem medo?

 

- Tenho - confessou.

 

Inclinando-se para ela, ele disse-lhe em voz irritada como a de uma criança:

 

- Todos rebentamos de medo! E os que mandam em nós aproveitam-se desse medo para nos assustarem ainda mais.

 

A mãe gemeu:

 

- Não te zangues! Como podia eu não ter medo? Toda a minha vida tive medo!

 

Ele respondeu a meia-voz, mais calmo:

 

- Desculpe. Não sei reagir de outra maneira. Depois saiu.

 

Ela tremeu durante três dias. O coração parava de bater sempre que se lembrava que "aquelas pessoas" viriam a sua casa. Estranhos que deviam ser temíveis... Tinham sido eles que tinham mostrado ao seu filho o caminho que ele agora seguia...

 

No sábado à tarde, Pavel voltou da fábrica, lavou-se, mudou de roupa e saiu de novo, dizendo sem olhar para a mãe:

 

- Se eles chegarem, diga-lhes que não demoro. E, por favor, não tenha medo...

 

Ela deixou-se cair sem forças sobre o banco. Pavel franziu as sobrancelhas e sugeriu-lhe:

 

- Talvez... a mãe prefira sair?

 

Ela sentiu-se vexada. Abanou negativamente a cabeça.

 

- Não! Porque havia de sair?

 

Estava-se em fins de Novembro. Durante o dia tinha caído, sobre o solo gelado, uma neve fina como poeira, que ela ouvia agora ranger sob os passos de Pavel, que se afastava. Nas vidraças das janelas acumulavam-se as trevas espessas, inamovíveis, hostis, vigilantes. A mãe, com as mãos apoiadas sobre o banco, permanecia sentada e esperava, com os olhos postos na porta.

 

Parecia-lhe que, no escuro, seres malvados envergando estranhas vestimentas convergiam de todos os lados em direcção à casa. Avançavam a passo de lobo, encurvados e olhando em redor. Havia mesmo alguém que rondava a casa, tacteando a parede com as mãos...

 

Ouviu-se um assobio. No silêncio, soou como um silvo breve, triste e melodioso, como se vagueasse meditando no vazio das trevas. Ia-se aproximando como se procurasse qualquer coisa. Subitamente, desapareceu sob a janela, como se tivesse penetrado na madeira do tabique.

 

Ouviram-se passos arrastados na entrada. A mãe estremeceu e, com os olhos dilatados, pôs-se em pé.

 

A porta abriu-se. Primeiro apareceu uma cabeça coberta por um enorme gorro de peles, depois um corpo alto, encurvado, deslizou lentamente, endireitou-se, ergueu sem pressa o braço direito e, suspirando ruidosamente, com uma voz vinda do mais fundo do peito, disse:

 

- Boa noite!

 

A mãe inclinou-se sem pronunciar uma palavra.

 

- O Pavel não está?

 

O homem despiu lentamente o casaco forrado, levantou um pé, sacudiu com o gorro a neve da bota. Repetiu o mesmo gesto com a outra bota, atirou o gorro para um canto e, balançando-se sobre as pernas altas, entrou na sala. Aproximou-se de uma cadeira, examinou-a como para se certificar da sua solidez, finalmente sentou-se e, levando a mão à boca, bocejou. Tinha a cabeça redonda e o cabelo rapado, as faces barbeadas e compridos bigodes de pontas pendentes. Inspeccionou o aposento com os seus grandes olhos cinzentos, salientes, cruzou as pernas e perguntou, baloiçando-se na cadeira:

 

- A cabana é vossa, ou é alugada?

 

Pelágia, sentada à sua frente, respondeu:

 

- Alugada.

 

- Não é grande coisa - observou ele.

 

- O Pavel deve estar a chegar. Por favor, aguarde - disse ela num fio de voz.

 

- É isso mesmo que estou a fazer - respondeu tranquilamente o homenzarrão.

 

A sua calma, a voz doce e a simplicidade daquele rosto encorajaram a mãe. O homem olhava-a de frente, com um ar bondoso. Uma luzinha de alegria bailava no fundo daqueles olhos transparentes e em toda a sua angulosa pessoa, encurvada, de pernas altas, havia algo de divertido que predispunha a seu favor. Vestia uma camisa azul e calças pretas metidas nas botas. A mãe teve vontade de lhe perguntar quem era, donde vinha, se já conhecia o seu filho há muito tempo, mas subitamente o desconhecido balançou o corpo e perguntou-lhe:

 

- Quem é que lhe fez essa cicatriz na testa, mãezinha?

 

O tom era familiar e nos olhos brilhava um sorriso. Mas a pergunta irritou Pelágia. Apertou os lábios e, depois de um momento de silêncio, respondeu com fria cortesia:

 

- Que é que isso lhe interessa, meu caro senhor? Ele voltou para ela o corpo alto.

 

- Vá lá, não se aborreça! Fiz-lhe essa pergunta porque a minha mãe adoptiva também tinha um buraco na testa, como o seu. Foi o marido dela, um sapateiro, que lho fez com uma sovela. Ela era lavadeira e ele sapateiro. Depois de me ter adoptado encontrou aquele bêbado não sei onde, e foi a desgraça dela. Ele espancava-a e não vale a pena dizer mais nada. Eu tinha um medo dele...

 

A mãe ficou desarmada com a franqueza dele, e pensou que por certo Pavel ficaria irritado por ela ter manifestado mau humor em relação àquele ser original. Sorriu, pouco à vontade:

 

- Não estou aborrecida, mas você fez-me a pergunta assim... tão de repente... Foi o meu marido quem me ofereceu esta prenda. Deus tenha piedade da sua alma! Você é tártaro, não é?

 

As pernas altas sobressaltaram-se, e o rosto iluminou-se num largo sorriso em que até as orelhas se alongaram para a nuca. Depois, disse muito sério:

 

- Não, ainda não sou.

 

- Mas fala de uma maneira que não parece a de um russo!

- explicou ela, sorrindo e compreendendo o gracejo.

 

- É melhor que a de um russo - gritou alegremente o visitante, abanando a cabeça. - Sou Ucraniano, mais propriamente Pequeno Russo, da cidade de Kaniev.

 

- Há muito tempo que veio para cá?

 

- Vivo na cidade há quase um ano, e há um mês que estou na fábrica. Encontrei lá gente boa, o seu filho e outros... Quero ficar por cá! - disse retorcendo o bigode.

 

Ele agradava-lhe e, grata pela boa opinião que tinha do seu filho, deu livre curso à vontade de lho demonstrar:

 

- Quer tomar um pouco de chá?

 

- Quero, mas não vou tomá-lo sozinho! - respondeu, encolhendo os ombros. - Dar-nos-á essa honra quando todos tiverem chegado...

 

O medo regressou.

 

"Se todos forem como ele...", desejou esperançada.

 

Novamente se ouviram passos no vestíbulo, a porta abriu-se rapidamente e a mãe levantou-se. Mas, para seu grande espanto, entrou uma jovem, pequena, com um rosto simples de camponesa e uma espessa trança de cabelos louros.

 

- Estou atrasada?

 

- De modo algum! - respondeu o Ucraniano, que não tinha saído da sala. - Vieste a pé?

 

- Claro! A senhora é a mãe de Pavel? Boa noite, chamo-me Natacha.

 

- E qual é o seu patronímico?

 

- Vassilievna. E o da senhora?

 

- Pelágia Nilovna.

 

- Bom, agora já nos conhecemos.

 

- Sim - disse a mãe com um leve suspiro. Sorrindo, examinou a jovem.

 

O Ucraniano ajudou-a a tirar o sobretudo.

 

- Está frio?

 

- Sim, lá fora está muito frio. O vento sopra...

 

Tinha uma voz sonora e clara, a boca era pequena e carnuda, toda ela era roliça e fresca. Depois de tirar o sobretudo, esfregou vigorosamente as faces rosadas com as pequenas mãos, roxas do frio, e entrou rapidamente no quarto fazendo soar os tacões das botinas sobre o soalho.

 

"Não tem galochas" -, pensou a mãe.

 

- Estou completamente gelada... - disse a rapariga, arrastando as palavras e tremendo.

 

- Vou preparar-lhe um chá! - disse a mãe, com vivacidade, dirigindo-se para a cozinha. - Ele irá aquecê-la.

 

Parecia-lhe conhecer a jovem havia já muito tempo, e que já gostava dela com o afecto de uma mãe bondosa e compreensiva. Sorrindo, ia prestando atenção à conversa que se desenrolava na sala.

 

- Não estás com um ar alegre, Nakhodka.

 

- Assim, assim... - respondeu o Ucraniano a meia-voz. Esta viúva tem olhos doces, e estava a pensar que os da minha mãe talvez sejam parecidos. Penso muitas vezes na minha mãe, e acredito que esteja viva.

 

- Não disseste que ela tinha morrido?

 

- Não, essa era a minha mãe adoptiva. Refiro-me à minha verdadeira mãe. Imagino que pede esmola em qualquer lugar, em Kiev. E que bebe vodka... E que, quando está bêbada, os "chuis" a desancam.

 

"Pobre homem!" -, pensou a mãe, suspirando.

 

Natacha pôs-se a falar depressa, acaloradamente, mas em voz baixa. Depois, ressoou novamente a voz sonora do Ucraniano:

 

- És muito jovem, camarada, e ainda não viveste bastante. Pôr um filho no mundo é difícil, mas educá-lo convenientemente é ainda mais duro.

 

"Ora vejam!", pensou a mãe. Tinha vontade de dizer uma palavra amável ao Ucraniano. Mas a porta abriu-se devagar e entrou o filho do velho ladrão Danilo Vessovchikov. Todo o bairro considerava Nikolai Vessovchikov um urso, conservava-se afastado dos demais, era insociável, e toda a gente troçava dessa sua maneira de ser.

 

Admirada, Pelágia perguntou-lhe:

 

- Que queres, Nikolai?

 

Ele enxugou o rosto gelado, de maçãs salientes, com a grande palma da mão, e sem dar as boas-noites, perguntou numa voz surda:

 

- O Pavel não está? -Não.

 

Deitou uma olhadela à sala e entrou.

 

- Boa noite, camaradas. "Também ele?", pensou a mãe com hostilidade, e ficou muito surpreendida por ver Natacha estender-lhe a mão com um ar alegre e afectuoso.

 

Depois, chegaram dois rapazes muito jovens, quase crianças. Pelágia conhecia um deles, Theo, sobrinho de um velho operário na fábrica chamado Sizov. Tinha feições angulosas, a testa alta e os cabelos ondulados. Não conhecia o outro, de cabelo liso e aspecto modesto, mas também este não tinha um aspecto de meter medo. Finalmente, chegou Pavel, acompanhado de dois amigos que ela conhecia, operários na fábrica. O filho disse-lhe com amabilidade:

 

- Fizeste chá? Obrigado.

 

- É preciso ir comprar vodka? - perguntou ela, sem saber como lhe manifestar o sentimento de gratidão que experimentava insconscientemente.

 

- Não, não é preciso - respondeu Pavel, sorrindo-lhe com doçura.

 

Subitamente, ocorreu-lhe que o filho tivesse propositadamente exagerado o perigo daquela reunião, para troçar dela.

 

- São estas as pessoas perigosas? - perguntou em voz baixa.

 

- Pode ter a certeza! - disse Pavel, entrando na saleta.

 

- Se é assim! - respondeu ela divertida, mas pensando com os seus botões:

 

"Continua a ser uma criança!"

 

A água fervia no samovar, e ela trouxe-o para o quarto. Os convidados apertaram-se à volta da mesa, e Natacha, com um livro na mão, tinha-se sentado a um canto, sob o candeeiro.

 

- Para compreender por que razão as pessoas vivem tão mal... - disse Natacha.

 

- E porque é que essas mesmas pessoas são tão maldosas... - interveio o Ucraniano.

 

- É necessário ver como começaram a viver...

 

- Olhem, meus filhos, olhem! - murmurou a mãe, enquanto preparava o chá.

 

Calaram-se todos.

 

- Que diz, mãezinha? - perguntou Pavel, de sobrancelhas franzidas.

 

- Eu? - vendo todos os olhos fixos nela, a mãe justificou-se atabalhoadamente. - Não estava a dizer nada... bem... não era nada.

 

Natacha desatou a rir, e Pavel sorriu, enquanto o Ucraniano dizia:

 

- Obrigado pelo chá, mãezinha.

 

- Ainda não o beberam e já estão a agradecer! – replicou ela. Em seguida, olhando para o filho, acrescentou: - Estou a incomodá-los?

 

Foi Natacha quem respondeu:

 

- Como poderia a dona da casa incomodar as visitas? E pediu num tom infantil e queixoso:

 

- Dê-me já o chá, minha boa Pelágia! Estou a tiritar... Tenho os pés gelados.

 

- É para já, é para já - disse a mãe com vivacidade.

 

Natacha bebeu o seu chá, suspirou profundamente, afastou a trança por cima do ombro e começou a ler um livro ilustrado, de capa amarela. A mãe esforçava-se por não fazer ruído com as chávenas, servia o chá e escutava atentamente a voz harmoniosa e clara da rapariga, acompanhada pela doce canção do samovar. Numa sequência magnífica, desenrolava-se a história dos homens primitivos e selvagens, que viviam em cavernas e derrubavam os animais ferozes à pedrada. Era como um conto maravilhoso, e Pelágia dirigiu várias vezes um olhar ao filho, desejosa de lhe perguntar o que é que havia naquela história que fosse proibido.

 

Mas em breve se cansou de seguir o fio à narrativa e pôs-se a observar os convidados.

 

Pavel estava sentado ao lado de Natacha e era o mais belo de todos. A jovem, inclinada sobre o livro, puxava continuamente para trás os cabelos que lhe caíam sobre a testa. Sacudia a cabeça e, baixando a voz, abandonava o livro para fazer alguns comentários da sua lavra, enquanto o olhar deslizava com doçura sobre os rostos dos seus ouvintes. O Ucraniano apoiava o peito largo no canto da mesa, entortanto os olhos num esforço para ver as pontas rebeldes dos bigodes. Vessovchikov estava sentado numa cadeira, rígido como um manequim, as mãos pousadas sobre os joelhos, o rosto impávido, desprovido de sobrancelhas, os lábios delgados, imóvel como uma máscara. Os olhos semicerrados, olhavam obstinadamente a cintilação do brilho do cobre do samovar, parecendo não respirar. O pequeno Theo escutava a leitura, movendo silenciosamente os lábios, como se repetisse as palavras do livro, enquanto o seu camarada, inclinado, apoiando os cotovelos nos joelhos, as faces encostadas às palmas das mãos, sorria pensativo. Um dos rapazes que chegaram com Pavel era ruivo, de cabelo encaracolado, e estava ansioso por falar, agitando-se com impaciência. O outro, de cabelo louro muito curto, passava a mão pela cabeça, inclinava a testa quase até ao chão, não se lhe via a cara. Estava-se bem na sala. A mãe sentia um bem-estar especial, desconhecido até então, e enquanto Natacha prosseguia a leitura, ela recordava as festas ruidosas da sua juventude, as palavras grosseiras dos jovens, que exalavam um hálito a álcool, e as suas brincadeiras estúpidas.

 

Estas recordações provocavam-lhe um sentimento de piedade por si mesma que lhe roía surdamente o coração.

 

A sua imaginação reconstituiu o pedido de casamento feito pelo seu defunto marido. Durante uma reunião tinha-a abraçado na obscuridade da entrada, apertando-a com todo o seu corpo contra a parede, e com voz surda e irritada tinha-lhe perguntado:

 

- Queres casar comigo?

 

Ela sentiu-se ofendida. Ele magoava-a oprimindo-lhe o peito. A respiração ofegante dele lançava-lhe no rosto um bafo quente e húmido. Tentou libertar-se, fugir.

 

- Onde vais? - rugiu ele. - Aceitas ou não? Sufocando com a vergonha e profundamente ferida, ela calou-se. Alguém abriu a porta do vestíbulo, ele soltou-a sem pressa, e disse:

 

- No domingo mando-te a casamenteira... Tinha cumprido.

 

Pelágia fechou os olhos e soltou um profundo suspiro...- Subitamente, ouviu-se a voz irritada de Vessovchikov.

 

- Não preciso de saber como é que os homens viviam antigamente. O que me interessa saber é como devem viver agora!

 

- É isso mesmo! - disse o ruivo, levantando-se.

 

- Não concordo! - gritou Theo.

 

Estalou a discussão. As exclamações brotavam como línguas de fogo numa fogueira. A mãe não compreendia porque é que gritavam. Todos os rostos estavam vermelhos com a excitação, mas ninguém se injuriava nem pronunciava as palavras grosseiras a que ela estava habituada.

 

"Estão embaraçados com a presença da jovem", pensou.

 

Agradava-lhe observar o rosto sério de Natacha, que os olhava com atenção, como uma mãe olha os seus filhos.

 

- Esperem, camaradas - disse subitamente a jovem. Calaram-se todos, olhando para ela.

 

- Os que dizem que devemos saber tudo, dizem a verdade. A luz da razão deve iluminar-nos. Se queremos esclarecer os que estão nas trevas, devemos estar preparados para sermos capazes de responder a todas as perguntas, de uma forma honesta e verdadeira. Devemos conhecer toda a verdade e toda a mentira...

 

O Ucraniano escutava, inclinando a cabeça ao ritmo das frases. Vessovchikov, o ruivo e o operário que tinha chegado com Pavel formavam um grupo à parte, e a atitude deles desagradava à mãe sem que ela soubesse porquê.

 

Quando Natacha terminou, Pavel levantou-se e perguntou tranquilamente:

 

- Será que tudo o que esperamos da vida é comer e beber até nos fartarmos? Não! - respondeu ele à sua própria pergunta, olhando os três homens com firmeza. - Devemos mostrar aos que nos têm amarrados pelos colarinhos e nos tapam os olhos que vemos tudo, que não somos nem idiotas nem brutos, e que o que queremos é não apenas comer mas viver uma vida digna de ser vivida. Devemos mostrar aos nossos inimigos que a vida de forçados que nos impõem não nos impede de nos medirmos com eles em inteligência, e mesmo de nos elevarmos muito mais alto do que eles!

 

A mãe escutava e estremecia de orgulho de o ouvir falar tão bem.

 

- Há muitos velhacos, mas pouca gente honrada - disse o Ucraniano. - Através do pântano que é a nossa vida podre, devemos constuir uma ponte que nos conduza a um mundo novo onde reine a fraternidade. É esta a nossa tarefa, camaradas.

 

- Quando chega o momento de lutar não há tempo para limpar as armas - respondeu Vessovchikov.

 

Passava da meia-noite quando se separaram. Os primeiros a sair foram Vessovchikov e o ruivo, o que desagradou à mãe.

 

"Estão cheios de pressa!", pensou, hostil, respondendo à -boa noite- deles.

 

- Acompanha-me, Nakhodka? - perguntou Natacha.

 

- Decerto - respondeu o Ucraniano.

 

Enquanto Natacha vestia o sobretudo na cozinha, a mãe disse-lhe:

 

- Essas meias são muito finas para o frio que faz. Se quiser posso fazer-lhe umas de lã.

 

- Obrigada, Pelágia, mas as meias de lã picam! - respondeu Natacha rindo.

 

- Far-lhe-ei umas que não piquem.

 

Natacha olhou para ela piscando um pouco os olhos e aquele olhar fixo perturbou a mãe, que acrescentou em voz baixa:

 

- Desculpe a minha tolice... era com todo o coração...

 

- Que boa que é! - respondeu docemente Natacha, apertando-lhe a mão.

 

- Boa noite, mãezinha! - disse o Ucraniano olhando-a de frente. Em seguida inclinou-se e saiu atrás de Natacha.

 

A mãe olhou o filho que sorria, de pé na ombreira.

 

- De que estás a rir? - perguntou desconcertada.

 

- De nada... estou contente!

 

- Claro que estou velha e sou ignorante, mas sei compreender o que é bom - observou ela, um tanto ofendida.

 

- Tem razão - respondeu ele. - Vamos deitar-nos, já é tarde.

 

- Vou agora mesmo.

 

Apressou-se a levantar a mesa, satisfeita, transpirando um pouco, grata pela emoção que sentia. Estava feliz por tudo se ter passado tão bem e sem incidentes.

 

- Tiveste uma boa ideia, Pavel. O Ucraniano é muito simpático. E a menina... Ela, sim, é uma rapariga inteligente! Quem é ela?

 

- Uma professora primária - respondeu Pavel, enquanto dava largas passadas pela sala.

 

- É muito pobre! E estava tão mal vestida... Com tão pouca roupa... Deve ter muito frio. Onde estão os pais dela?

 

- Em Moscovo. - Detendo-se em frente dela, Pavel acrescentou num tom grave:

 

- Escute, mãe. O pai dela é rico, vende ferro, tem muitas casas. Expulsou-a por ela ter escolhido esta forma de vida. Teve uma boa educação, foi mimada por toda a gente, e, como vê, agora tem de caminhar mais de sete verstás, de noite, sozinha...

 

Estes pormenores comoveram Pelágia. De pé, no meio do quarto, olhava para o filho sem dizer uma palavra, com as sobrancelhas arqueadas de espanto. Perguntou-lhe:

 

- Ela vai para a cidade?

 

- Sim.

 

- Ah!... Ela não tem medo?

 

- Não, não tem medo - disse Pavel sorrindo.

 

- Mas, porquê? Ela podia ter passado a noite aqui, dormia na minha cama...

 

- Isso não é assim tão fácil. Podiam vê-la sair amanhã de manhã, e isso não seria nada conveniente.

 

A mãe olhou para a janela com ar pensativo, e disse com doçura:

 

- Não compreendo, Pavel, o que é que possa haver de perigoso, de proibido... Não há nada de mal em tudo isto, pois não?

 

Não estava segura, e esperava que o filho a tranquilizasse. Ele olhou-a nos olhos, serenamente.

 

- Não, não fizemos nada de mal. Mas mesmo assim, é a prisão que nos espera a todos, é preciso que a mãe o saiba.

 

As mãos da mãe tremiam. Com voz insegura, disse:

 

- Mas, talvez... Se Deus quiser, isso não irá acontecer.

 

- Não! - disse ternamente o rapaz. - Não quero enganada. Nós não escaparemos.

 

Sorriu.

 

- Vá para a cama, que deve estar cansada. Boa noite. Quando ficou só, aproximou-se da janela e pôs-se a olhar

 

a rua. Lá fora estava frio e escuro. O vento varria a neve sobre os telhados das casitas adormecidas, batia nas paredes, sibilante, abatia-se sobre a terra e espalhava ao longo das ruas nuvens brancas de flocos de neve fina como poeira...

 

- Jesus, tem piedade de nós - murmurou docemente a mãe.

 

Sentia uma enorme vontade de chorar, e esta desgraça inevitável, de que o seu filho tinha falado com tanta serenidade, tanta certeza, agitava-se dentro dela como uma borboleta nocturna, cega e desamparada. Diante dos seus olhos apareceu uma planície nua, coberta de neve, onde, sibilante, o vento frio sopra e rodopia em turbilhão, branco, inflexível. No meio da planície caminha, solitária e vacilante, uma pequena silhueta escura. O vento enrosca-se-lhe nas pernas, levanta-lhe as saias, fustiga-lhe a cara com pequenos e cortantes cristais de neve. Tem dificuldade em avançar, os pés afundam-se na camada espessa. Tem frio e medo. A rapariga, curvada, é como um filamento de erva na imensa planura, amedrontada, apanhada no meio do louco revoltear do vento de Outono. À direita, ergue-se sobre o pântano o muro sombrio formado pelo bosque de pinheiros e bétulas geladas e despidas. Algures, longínquo, diante dela, o clarão débil das luzes da cidade.

 

- Senhor, tende piedade de nós! - murmurou a mãe, tremendo de pavor.

 

Os dias sucediam-se, um após outro, como as contas de um ábaco, formando as semanas e os meses. Os camaradas de Pavel todos os sábados se reuniam em casa deste. Cada reunião era como um degrau numa escadaria de suave lançado que conduzia algures, longe, e que lentamente ia elevando aqueles que a iam subindo.

 

Iam aparecendo caras novas. A pequena sala dos Vlassov ia-se tornando demasiado apertada, asfixiante. Natacha chegava enregelada, cansada, mas nunca deixando de trazer consigo inesgotáveis reservas de alegria e entusiasmo.

 

A mãe tinha-lhe feito umas meias, e ela mesma lhas calçou. Natacha riu-se, mas logo o seu rosto se tornou pensativo, e murmurou:

 

- A ama que tive também era assim, cheia de bondade. É espantoso que o povo que leva uma vida tão dura, tão cheia de humilhações, tem um coração maior, melhor que o dos outros.

 

E fez um gesto com a mão, como se indicasse um lugar desconhecido, longe, muito longe...

 

- A menina também é muito boa - disse a mãe. - Deixou os seus pais, deixou tudo...

 

Não chegou a terminar o seu pensamento. Suspirou e ficou em silêncio a olhar para Natacha; estava-lhe grata e não sabia porquê. Deixou-se ficar acocorada no chão, na frente dela, e a rapariga, inclinando a cabeça, sorria, sonhadora.

 

- Deixei os meus pais? - repetiu ela. - Isso não foi nada. O meu pai é tão grosseiro, o meu irmão também... e bebe. A minha irmã mais velha é uma infeliz. Casou com um homem muito mais velho do que ela, muito rico, maçador, avarento. Da minha mãe é que eu tenho pena. É uma pessoa simples, como a senhora. É pequena, como um ratinho, sempre a correr de um lado para outro, sempre com medo de toda a gente. Às vezes desejaria tanto voltar a vê-la!

 

- Pobrezinha! - disse a mãe, movendo tristemente a cabeça.

 

A jovem ergueu-se rapidamente e estendeu a mão, como para rejeitar alguma coisa.

 

- Oh, não! Também tenho vivido momentos de tanta alegria, tanta felicidade!

 

O seu rosto empalideceu, e os seus olhos brilharam. Pousou a mão no ombro da mãe e disse com uma voz profunda e intensa:

 

- Se a senhora soubesse... se pudesse compreender a grandeza daquilo que nós estamos a fazer!

 

Um sentimento próximo da inveja tocou o coração de Pelágia. Levantou-se e disse tristemente.

 

-Já sou muito velha para isso... e muito ignorante.

 

Pavel tomava a palavra cada vez com mais frequência, as suas discussões eram cada vez mais calorosas, e emagrecia. A mãe julgava notar que quando Pavel falava com Natacha, ou olhava para ela, o seu olhar geralmente severo se tornava mais doce, a sua voz se enternecia, todo ele parecia mais natural.

 

-Queira Deus!", pensava ela. E sorria.

 

Quando, no decorrer das reuniões, as discussões ganhavam um tom mais caloroso, ou mesmo violento, o Ucraniano levantava-se e, balançando como o badalo de um sino, falava com a sua voz sonora e cadenciada. A simplicidade e a bondade das suas palavras conseguiam acalmar os ânimos. Vessovchikov, sempre descontente, provocava uma atmosfera de tensão geral. Era ele e o ruivo Samoilov que iniciavam todas as disputas. Ivan Bukhine, o rapaz da cabeça redonda e sobrancelhas louras que parecia ter sido lavado com lixívia, apoiava-os. lakov Somov, sempre lavado e bem penteado, falava pouco, com voz serena e grave. Ele e Theo Mazine, o jovem de testa alta, eram sempre da mesma opinião que Pavel e o Ucraniano.

 

Por vezes, no lugar de Natacha, era Nicolai Ivanovitch quem vinha da cidade. Usava óculos e uma barbinha clara. Era natural de uma qualquer província longínqua, e conservava a pronúncia da sua terra. Tinha um ar distante. Falava

de coisas simples; da vida familiar, das crianças, do comércio, da polícia, do preço do pão e da carne, de tudo o que dizia respeito à vida quotidiana. Em tudo descobria a hipocrisia, a desordem, qualquer coisa de estúpido, por vezes ridículo, mas sempre nocivo para o povo. Parecia a Pelágia que ele vinha de muito longe, de outro reino, onde todos levavam uma vida honesta e fácil, enquanto a vida que viviam era para ele uma vida muito estranha que não conseguia aceitar. Era uma vida que lhe desagradava e suscitava nele um desejo calmo, mas obstinado, de reconstruir completamente a sociedade de acordo com as suas ideias. Era macilento, tinha finas rugas em torno dos olhos, a sua voz era suave e as mãos eram cálidas. Quando cumprimentava a mãe, envolvia-lhe toda a mão com os seus dedos vigorosos. Com esse gesto acalmava e tranquilizava o coração de Pelágia.

 

Entre as pessoas que também vinham da cidade, uma das mais assíduas era uma rapariga alta e bem feita, com uns olhos imensos que contrastavam no seu rosto magro e pálido. Chamava-se Sachenka. No seu andar e nos seus gestos havia algo de masculino. Franzia as negras sobrancelhas com ar irritado, o seu nariz era direito e quando falava as suas delicadas narinas tremiam.

 

Foi Sachenka a primeira a dizer, na sua voz brusca e sonora:

 

- Nós somos socialistas...

 

Quando a mãe ouviu esta palavra olhou para a rapariga, silenciosa e assustada. Ela tinha ouvido contar que os socialistas tinham morto o Czar. Tinha sido nos tempos da sua juventude. Dizia-se então que os latifundiários, quando o Czar libertara os servos da terra, para se vingarem, tinham jurado não cortar o cabelo enquanto o não matassem. Por isso lhes chamavam socialistas. A mãe agora não conseguia compreender por que motivo o filho e os seus camaradas eram socialistas.

 

Quando todos saíram, dirigiu-se a Pavel:

 

- É verdade que és socialista, Pavlucha?

 

- Sim - respondeu ele, franco e firme como sempre. Porquê?

 

Ela suspirou profundamente, e continuou, baixando os olhos.

 

- Como é que pode ser, Facha? Eles estão contra o Czar, até já mataram um!

 

Pavel deu alguns passos pelo quarto, passando a mão pelo rosto, sorriu e respondeu:

 

- Talvez nós não precisemos de fazer isso.

 

Por um longo momento Pavel falou com a mãe, com uma voz macia e tranquila. Ela olhava-o nos olhos, e pensava:

 

"Ele não fará mal a ninguém. Não seria capaz."

 

Depois desse dia a terrível palavra passou a repetir-se com frequência, aos poucos foi perdendo a sua virulência, e acabou por se tornar tão familiar para os seus ouvidos como tantas outras palavras que não compreendia. Mas continuava a não gostar de Sachenka, e quando esta aparecia a mãe sentia-se inquieta, pouco tranquila.

 

Uma noite disse ao Ucraniano, com um trejeito de desaprovação:

 

- É muito autoritária, esta Sachenka! Está sempre a dar ordens: "você deve fazer isto, você deve fazer aquilo..."

 

O Ucraniano riu com gosto.

 

- Bem observado! A mãezinha tem razão. Ouviste, Pavel? E piscando o olho à mãe, disse com um ar maroto:

 

- É assim, a nobreza! Pavel respondeu secamente:

 

- É uma boa rapariga.

 

- Pois sim, confirmou o Ucraniano. Só parece não compreender que enquanto ela deve, nós queremos e podemos.

 

Puseram-se então a discutir sobre outras coisas incompreensíveis para a mãe.

 

A mãe observou também que Sachenka era particularmente dura com Pavel, por vezes até violenta. Pavel sorria, calava-se e olhava para a rapariga com o mesmo doce olhar que antes havia tido para Natacha. Nada disto agradava a Pelágia.

 

Às vezes a mãe surpreendia-se perante o júbilo ruidoso e comunicativo a que os mais jovens subitamente davam largas. Isto acontecia geralmente nas noites em que liam nos jornais alguma notícia sobre os movimentos operários no estrangeiro. Então, todos os olhos brilhavam de alegria, todos ficavam, estranha coisa, felizes como crianças, voltavam a ler a notícia com risos claros e satisfeitos, e davam palmadas amigáveis nas costas uns dos outros.

 

- Bravos camaradas alemães! - gritava um deles, embriagado de alegria.

 

- Vivam os operários de Itália! - gritavam de outra vez. Enviavam estas aclamações para longe, para amigos que

 

os não conheciam nem compreendiam a sua língua, e pareciam seguros de que esses desconhecidos os ouviriam e entenderiam o seu entusiasmo.

 

O Ucraniano, de olhos brilhantes, cheio de um amor que abraçava todos os seres, declarava:

 

- Seria bom se lhes escrevêssemos, hem? Para eles saberem que têm na Rússia amigos que professam a mesma fé que eles, que vivem com os mesmos objectivos e se alegram com as suas vitórias!

 

E todos, com um olhar sonhador e um sorriso nos lábios, falavam longamente dos franceses, dos ingleses, dos suecos, como se fossem amigos chegados, tão próximos, tão estimados que com eles partilhavam alegrias e tristezas.

 

Nascia naquela pequena sala um sentimento de parentesco espiritual que unia os trabalhadores do mundo inteiro. Este sentimento, que a todos fazia vibrar num mesmo coração, era partilhado pela mãe, e embora o não compreendesse muito claramente bebia a alegria e a juventude deles e deixava-se embriagar com a sua força e a sua esperança.

 

- Como vocês são... todos iguais - disse um dia ao Ucraniano. - Para vocês todos são camaradas... os arménios, os judeus, os austríacos... Vocês alegram-se e entristecem-se por todos eles.

 

- Por todos, sim, mãezinha, por todos! - exclamou ele. - Para nós não existem nações nem raças, existem apenas camaradas e inimigos. Todos os proletários são nossos camaradas, todos os ricos, todos os que governam, nossos inimigos. Quando olhamos o mundo com o coração e vemos como somos numerosos, nós, os operários, e a força que temos, sentimos uma alegria tão grande que é uma festa para as nossas almas. E o mesmo se passa, mãezinha, com um francês ou um alemão que compreenda a vida, e um italiano alegra-se da mesma maneira. Somos todos filhos de uma só mãe, de um mesmo pensamento invencível: o da fraternidade entre os trabalhadores de todos os países. Este sentimento de fraternidade é para nós um conforto, é um sol a brilhar no céu da justiça, e este céu está no coração do operário; que lhe chame cada um como quiser, o socialista é nosso irmão em espírito, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos.

 

Esta fé infantil, mas inquebrantável, manifestava-se dentro do pequeno grupo cada vez com mais frequência, como uma força crescente. E a mãe, à medida que via este transbordar de esperança, sentia instintivamente que, na verdade, alguma coisa grande e resplandecente havia nascido no mundo, como um um sol, parecido com aquele que via no firmamento.

 

Muitas vezes cantavam. Cantavam canções familiares com alegria e entusiasmo. Outras vezes entoavam canções novas, de uma singular beleza, mas com algo de estranhamente triste na melodia. Então, baixavam a voz, gravemente, como se estivessem cantando um hino religioso. Uns rostos empalideciam, outros inflamavam-se, e daquelas estranhas palavras emanava uma força imensa.

 

Uma destas novas canções, sobretudo, inquietava e torturava Pelágia. Não exprimia as tristes meditações de uma alma ferida, errando solitária pelos caminhos sombrios de dolorosas incertezas, nem exprimia o desalento de uma alma abatida pela miséria, aterrorizada, informe e sem cor. Também não ressoavam nela os suspiros angustiados de um coração

 

forte, obscuramente ávido de espaço, nem os gritos de desafio do audaz provocador, pronto a esmagar indistintamente o mal e o bem. Também não era o ressentimento cego do ofendido, capaz, por uma vingança, de arrasar tudo, mas impotente para criar o que quer que fosse. Não havia nessa canção nenhum eco do velho mundo, do mundo dos escravos.

 

As palavras duras e a melodia austera da canção não agradavam à mãe, mas havia neste cântico uma força maior do que as palavras e os sons, que ia para além deles, e fazia despertar no coração o pressentimento de alguma coisa maior que o próprio pensamento. Isto era o que ela conseguia ler nos rostos, nos olhos dos jovens, o que sentia no peito deles e, vencida por uma misteriosa força de atracção, escutava sempre aquela canção com uma atenção especial, com uma inquietação maior do que a habitual.

 

Cantavam-na tão suavemente como cantavam as outras, mas soava com mais força e era como o ar de um dia de Março, do primeiro dia de Primavera.

 

- É tempo de começarmos a cantá-la pelas ruas - dizia, carrancudo, Vessovchikov.

 

Quando o pai dele, mais uma vez, foi preso por roubo, declarou tranquilamente:

 

- Agora já nos podemos reunir em minha casa.

 

Quase todas as tardes, depois do trabalho, algum deles vinha a casa de Pavel. Liam juntos, copiavam passagens dos livros, andavam preocupados e não tinham tempo nem para se lavar. Jantavam e bebiam chá sem largar os panfletos, e as suas palavras eram cada vez mais incompreensíveis para a mãe.

 

- Precisamos de um jornal! - dizia Pavel muitas vezes.

 

A vida tornava-se cada vez mais agitada e febril. Passavam cada vez mais rapidamente de um livro a outro, como abelhas de uma flor para outra flor.

 

- Começam a falar de nós - disse um dia Vessovchikov. Certamente não tardarão muito em prender-nos.

 

- O destino da codorniz é cair no laço - disse o Ucraniano.

 

Este agradava cada vez mais a Pelágia. Quando a tratava por "mãezinha", parecia-lhe que a suavidade de uma mão de criança lhe acariciava o rosto. Ao domingo, se Pavel estava ocupado, era ele quem rachava a lenha. Um dia chegou com uma tábua de madeira ao ombro, pegou no machado, e habilmente substituiu uma tábua que estava podre junto à soleira da porta. De outra vez reparou a cerca, que estava a cair aos pedaços. Enquanto trabalhava, assobiava belas canções melancólicas.

 

Um dia, Pelágia disse ao filho:

 

- E se tomássemos o Ucraniano como pensionista? Para vocês seria melhor do que passarem a vida a correr de uma casa para a outra.

 

- Porque há-de a mãe sobrecarregar-se de mais trabalho?

- perguntou Pavel, encolhendo os ombros.

 

- Que ideia! Trabalho tenho eu tido toda a vida sem saber porquê, bem posso tê-lo por um bom rapaz.

 

- A mãe faça como quiser - replicou Pavel -, se ele aceitar, eu ficarei contente.

 

E o Ucraniano foi viver com eles.

 

A pequena casa, no extremo do bairro, despertava as atenções. As suas paredes exteriores eram observadas por muitos olhares desconfiados. Sobre ela pairavam suspeitas, sobre ela se murmurava isto e aquilo. As pessoas tentavam descobrir o mistério que encerrava. De noite, espreitavam pela janela. Outras vezes alguém batia no vidro e em seguida fugia cobardemente, sem se mostrar.

 

Um dia o estalajadeiro Beguntsov abordou Pelágia na rua. Era um velhinho de boa presença, que usava sempre um

lenço de seda preta à volta do pescoço vermelho e flácido e um colete lilás. Usava uns óculos de aros de tartaruga encavalitados sobre o nariz pontiagudo e luzidio, o que lhe valera a alcunha de "olhos de osso." Dirigiu-se-lhe com uma avalancha de palavras secas e crepitantes como lenha a arder, de um só fôlego e sem esperar resposta.

 

- Como vai, Pelágia Nilovna? E o seu rapaz? Não pensa casá-lo tão cedo? Olhe que ele já está em muito boa idade. O casamento dos filhos é a tranquilidade dos pais. É no seio da família que um homem se conserva melhor, de corpo e de espírito. É como o cogumelo em vinagre. Eu, no seu lugar, casava-o. Hoje em dia o comportamento das pessoas deve ser vigiado. Cada um vive como muito bem lhe parece, andam por aí ideias esquisitas, e fazem-se coisas abomináveis. Os jovens deixaram de frequentar a casa de Deus, evitam os lugares públicos, reúnem-se pelos cantos, às escondidas, a cochichar. Que andarão eles a cochichar, não me dirá? Porque fogem da sociedade? Aquilo que um homem tem para dizer di-lo na taberna, diante de todos. Quando não o faz é porque esconde qualquer mistério. Mas o lugar dos mistérios é a nossa Santa Igreja Apostólica. Outros mistérios que existam por aí pelos cantos só podem ser o resultado de espíritos perturbados. Desejo-lhe boa saúde.

 

Dobrando o braço com afectação levantou o boné, agitou-o no ar e foi-se embora perante a perplexidade da mãe.

 

De outra vez foi Maria Korsunova, uma vizinha dos Vlassov, que era viúva de um ferreiro e vendia comida à porta da fábrica. Encontrou a mãe no mercado e disse-lhe:

 

- Vigia o teu filho, Pelágia.

 

- Porquê?

 

- Correm por aí uns boatos... - disse-lhe Maria com um ar misterioso. - E não são nada bons, minha amiga. Dizem que está a organizar uma espécie de associação religiosa. Chamam-lhes seitas. Açoitam-se uns aos outros com vergastas, como os flagelantes.

 

- Não digas tolices, Maria!

 

- Há que censurar a quem as faz, e não a quem as diz respondeu a vendedeira

 

A mãe repetiu todas estas palavras ao filho, que encolheu os ombros e não respondeu. O Ucraniano por seu lado riu às gargalhadas.

 

- Também as raparigas andam aborrecidas convosco - disse ela. - Vocês são noivos que qualquer uma delas desejaria ter, são bons trabalhadores, não bebem, mas nem olham para elas. Diz-se que há mulheres de má vida que vêm da cidade visitar-vos...

 

- Claro! - disse Pavel com uma careta de desaprovação.

 

- Num pântano não há nada que não cheire a podridão

- disse o Ucraniano suspirando. - E a senhora, mãezinha, devia ter explicado a essas tontas o que é o casamento, para que não tenham tanta pressa em começar a levar pancada.

 

- Meu filho, elas sabem e compreendem tudo isso muito bem, mas não sabem o que hão-de fazer das suas vidas.

 

- Não compreendem nada. Se compreendessem encontrariam outro caminho - observou Pavel. A mãe olhou o seu rosto sério.

 

- Podiam ensinar-lhes vocês. Começavam por convidar as menos tontas...

 

- Não pode ser - replicou secamente Pavel.

 

- E se experimentássemos? - perguntou o Ucraniano. Pavel permaneceu silencioso por um instante.

 

- Começariam por se juntar aos pares, dariam passeios, alguns acabariam por casar, e pronto.

 

A mãe voltou a mergulhar nos seus pensamentos. A austeridade monástica de Pavel perturbava-a. Via que os seus conselhos eram seguidos até pelos camaradas mais velhos, como o Ucraniano, mas parecia-lhe que todos o receavam um pouco, que não o amavam bastante, por causa desta sua severidade.

 

Uma noite, estava já deitada enquanto Pavel e o Ucraniano liam ainda. Através do delgado tabique, conseguiu ouvir a conversa deles, em voz baixa.

 

- Gosto da Natacha, sabes? - disse subitamente o Ucraniano.

 

-Sei.

 

Pavel havia demorado um pouco a resposta.

 

Em seguida, a mãe ouviu o Ucraniano levantar-se e começar a andar pelo quarto. Arrastava os pés nus pelo chão, e assobiava uma melodia triste. Depois disse:

 

- Ela já terá percebido?

 

Pavel continuava sem dizer nada.

 

- E tu, o que é que achas? - perguntou o Ucraniano baixando a voz.

 

- Percebeu, e foi por isso que abandonou o nosso grupo de trabalho.

 

De novo se ouviram os passos arrastados do Ucraniano, de novo se ouviu o seu triste assobiar. Depois perguntou:

 

- E se eu lhe dissesse?

 

- Se lhe dissesses o quê?

 

- Se lhe dissesse... isso. Que eu... - tentou explicar timidamente.

 

- Dizer-lhe para quê?

 

O Ucraniano parou, e a mãe compreendeu que sorria.

 

- Bom, parece-me que quando gostamos de uma rapariga... bem, temos de lho dizer, senão de que é que adianta?

 

Pavel fechou o livro bruscamente.

 

- E que esperas tu obter daí?

 

Por um momento calaram-se ambos.

 

- Não percebo - disse o Ucraniano.

 

- Uma pessoa tem de saber claramente aquilo que quer, Andrei - explicou calmamente Pavel. - Suponhamos que ela também te ama. Não o creio, mas vamos supor que sim. Vocês casam-se. Um casamento interessante: uma intelectual e um operário. Vêm os filhos, e vais ter de ser tu sozinho a trabalhar... e muito. A vossa vida está condenada a ser uma luta contínua contra a fome. Os filhos, a casa... acabariam, um e outro, por se perder para a nossa causa.

 

Fez-se um silêncio. Em seguida, Pavel continuou com uma voz mais suave:

 

- É melhor esqueceres tudo isso, Andrei. E não a desencaminhes.

 

De novo se fez silêncio. O relógio cadenciava o tiquetaque dos segundos.

 

O Ucraniano disse:

 

- Metade do coração ama, a outra odeia. Será isto um coração?

 

Ouvia-se o ruído do voltar das páginas. Pavel havia retomado a sua leitura. A mãe deixou-se ficar deitada, de olhos fechados, sem ousar fazer um movimento sequer. Sentia-se comovida até às lágrimas pelo Ucraniano. Sentia-se mais comovida ainda pelo seu filho. E pensava: "Meu querido!"

 

Subitamente, Andrei perguntou:

 

- Devo então calar-me?

 

- É melhor - disse Pavel docemente.

 

- Bem, farei como dizes - disse o Ucraniano. Um instante depois acrescentou tristemente.

 

- Também para ti será duro, Pacha, quando chegar a tua vez.

 

- Para mim já é duro.

 

Uma rajada de vento varreu as paredes da casa. O relógio continuava a marcar a passagem do tempo.

 

- Estas coisas não são brincadeiras - disse lentamente o Ucraniano.

 

A mãe afundou a cabeça na almofada e chorou em silêncio.

 

Na manhã seguinte Andrei pareceu-lhe mais frágil e mais amável. O seu filho estava igual a sempre. Magro, direito e taciturno. Até aí ela havia sempre tratado o Ucraniano por Andrei Onissimovitch, mas nesse dia, sem mesmo dar por isso, disse-lhe:

 

- Tem de mandar arranjar as suas botas, Andriucha. Assim vai andar com os pés enregelados.

 

- Quando receber o salário, compro umas novas! - respondeu ele rindo. Em seguida, colocando a sua larga mão sobre o ombro dela, perguntou:

 

- Quem sabe se é a senhora a minha verdadeira mãe? Só não quer reconhecê-lo diante de toda a gente, talvez não me ache bonito o bastante...

 

Ela deu-lhe uma palmadinha na mão. Teria querido dizer-lhe muitas palavras afectuosas, mas o seu coração sentia-se afogado em piedade, e a língua recusava-se a obedecer-lhe.

 

O bairro inteiro murmurava dos socialistas, que por todo o lado espalhavam folhetos impressos a azul. Esses folhetos denunciavam energicamente aquilo que se passava na fábrica, relatavam as greves dos operários em Petersburgo, e apelavam para que os operários se unissem em defesa dos seus interesses.

 

Os mais velhos, que ganhavam um salário melhor na fábrica, exclamavam:

 

- Agitadores! Estão a pedir poucas!...

 

E iam entregar os panfletos à direcção. Os jovens, esses, liam-nos com entusiasmo.

 

- É a verdade!

 

A maioria, esgotados pelo trabalho, e indiferentes a tudo, diziam sem esperança:

 

- Isto não serve para nada! O que é que nós podemos fazer?

 

Mas os folhetos suscitavam interesse, e se por acaso alguma semana eles não surgiam, diziam uns para os outros:

 

- Devem ter desistido.

 

Mas na segunda-feira reapareciam as folhas, e as pessoas voltavam a comentá-las em surdina.

 

Pela fábrica e pela taberna começaram a circular pessoas que ninguém conhecia. Faziam perguntas, observavam, farejavam, e chamavam a atenção de todos, nuns casos por uma prudência suspeita noutros por uma amabilidade excessiva.

 

A mãe compreendia que toda esta agitação era obra do seu filho. Via que as pessoas o rodeavam, e o seu receio pelo futuro misturava-se com um grande orgulho. Era o seu filho!

 

Certa tarde, Maria Korsunova chamou-a à janela, e quando a mãe lha abriu disse-lhe baixo e precipitadamente:

 

- Tem cuidado, Pelágia. A brincadeira dos teus cordeirinhos acabou. Esta noite hão-de vir passar uma busca na tua casa, na de Mazine, na de Vessovchikov...

 

Os grossos lábios de Maria fecharam-se num esgar, o seu nariz carnudo fungou ruidosamente, os olhos piscaram e olharam de soslaio para um lado e para o outro, a ver se haveria alguém na rua.

 

- Mas olha que eu não sei de nada, não te disse nada, e nem sequer te vi hoje, percebes?

 

Desapareceu.

 

A mãe fechou a janela, e deixou-se cair numa cadeira. Mas a consciência do perigo que ameaçava o filho fê-la levantar-se rapidamente. A seguir vestiu-se, cobriu a cabeça com um xaile, e correu a casa de Theo Mazine, que estava doente e não tinha ido trabalhar. Quando ela chegou, Theo estava sentado junto à janela, lendo um livro, segurando a mão direita com a esquerda, para manter o polegar afastado. Quando ouviu a notícia levantou-se de um salto e o seu rosto empalideceu.

 

- Agora é que vai ser... - murmurou.

 

- O que é que é preciso fazer? - perguntou Pelágia, enxugando o suor da testa com a mão trémula

 

- Esperar, e não ter medo! - respondeu Theo, e passou a mão válida pelos cabelos ondulados.

 

- Mas você também tem medo! - exclamou ela.

 

- EU?

 

As suas faces coraram bruscamente, e sorriu embaraçado.

 

- Sim, que diabo! É preciso avisar Pavel. Vou mandar-lhe um recado imediatamente. A senhora vá para casa. Não vai acontecer nada. A si ninguém lhe irá fazer mal.

 

Mal chegou a casa, a mãe começou a empilhar os livros, estreitou-os contra o peito, e assim percorreu toda a casa espreitando dentro do forno, debaixo da estufa, e até dentro da barrica da água. Pensava que Pavel largaria o trabalho e viria a correr para casa, mas tal não aconteceu. Por fim, fatigada, sentou-se num banco da cozinha, arrumou os livros no colo, sobre a saia, e assim, nesta posição, sem ousar mover-se, permaneceu até à chegada de Pavel e do Ucraniano.

 

- Vocês já sabem? - perguntou sem se levantar.

 

- Sim - disse Pavel sorrindo. - A mãe está com medo?

 

- Oh, sim, tenho medo! Tenho medo!

 

- Não vale a pena - disse Andrei - não resolve nada.

 

- Nem sequer preparou o samovar! - observou Pavel

 

- A mãe levantou-se, mostrou os livros e disse perturbada:

 

- Foi por causa disto...

 

O seu filho e o Ucraniano começaram a rir, o que lhe restituiu um pouco a coragem. Pavel pegou nalguns volumes, e foi escondê-los lá fora, enquanto Andrei acendia o samovar.

 

- Não precisa de estar assustada, mãezinha. A única coisa vergonhosa é que haja pessoas que se ocupam de coisas como estas. Vão aparecer aí uns pobres diabos, de sabre à cintura e esporas nas botas, e vão pôr-se a remexer por toda a parte. Vão espreitar debaixo da cama, debaixo da estufa. Quando há uma cave descem até lá, quando há um sótão também lá vão, as teias de aranha caem-lhes no focinho, e grunhem. Não lhes agrada nada fazer o trabalho que fazem, sentem-se humilhados, por isso fazem aquelas caras de maus e de zangados. É um trabalho sujo, e eles bem o sabem. Uma vez vieram a minha casa, remexeram em tudo e depois foram-se embora. De outra vez levaram-me com eles, meteram-me na prisão, e lá estive quatro meses. Foi só uma temporadazita! Levam-nos com eles, escoltados, pela rua, e fazem-nos uma quantidade de perguntas. Não são maus, são só estúpidos. Levam-nos para a prisão, tratam assim as pessoas, mas é para justificar o ordenado que ganham. Depois acabam por nos libertar, e pronto.

 

- Você fala sempre de uma maneira, Andrei!... - gemeu Pelágia.

 

Ajoelhado em frente ao samovar, o Ucraniano soprava com força para atear as brasas. Levantou a cara, vermelho do esforço, e perguntou alisando o bigode:

 

- E como é que eu falo?

 

- Como se nunca ninguém o tivesse ofendido...

 

Ele levantou-se e disse, sorrindo e movendo a cabeça:

 

- Existe neste mundo alguém que nunca tenha sido ofendido? Ofenderam-me tanto que já não me irrito com isso. O que é que se há-de fazer? As humilhações impedem o homem de trabalhar, e ficarmos a pensar nelas é uma perda de tempo. É a vida! Dantes costumava zangar-me com as pessoas, mas depois de reflectir melhor no assunto achei que não valia a pena. As pessoas vivem receosas de serem agredidas pelo seu vizinho, e por isso se apressam em ser as primeiras a agredir. É assim a vida, mãezinha.

 

As suas palavras fluíam tranquila e suavemente, e apaziguavam a ansiedade provocada pela espera dos que viriam fazer a busca. Os seus olhos salientes sorriam, claros, e todo o seu corpo se balançava e parecia estranhamente flexível.

 

A mãe suspirou e disse ternamente:

 

- Meu querido Andriucha, que Deus o faça feliz!

 

O Ucraniano deu uma larga passada, voltou a pôr-se de cócoras na frente do samovar, e disse:

 

- Se a felicidade me for oferecida, certamente não a recusarei, mas pedi-la... também não. É algo que não farei nunca.

 

Pavel regressou do pátio.

 

- Não vão encontrar coisa alguma - disse ele num tom seguro, e começou a lavar-se.

 

Depois, enquanto secava as mãos cuidadosamente:

 

- A mãe não pode mostrar-se amedrontada. Se o fizer, dir-se-ão: "Se ela treme de medo é porque alguma coisa há nesta casa." Mãe, compreenda que não queremos o mal, a verdade está do nosso lado, e por ela vamos trabalhar a nossa vida toda. Não estamos a cometer nenhum crime. Porque havemos nós de tremer?

 

- Eu vou ter coragem, Pacha - prometeu a mãe. Em seguida, cheia de angústia, deixou escapar:

 

- Se ao menos viessem depressa!

 

Mas não veio ninguém naquela noite. De manhã, prevendo que iriam rir-se dos seus receios, foi ela a primeira a troçar de si própria:

 

- Tinha medo... de ter medo!

 

Apareceram cerca de um mês depois daquela noite de susto. Nikolai Vessovchikov estava com eles, e os três estavam conversando sobre o jornal. Era tarde, quase meia-noite. A mãe já se tinha deitado, estava quase a adormecer, e ouvia o rumor indistinto das vozes, baixas e preocupadas. Andrei levantou-se subitamente e atravessou a cozinha nos bicos dos pés, fechando silenciosamente a porta atrás de si. Ouviu-se no pátio um ruído metálico, de repente a porta abriu-se de par em par, o Ucraniano avançou pela cozinha e disse, em voz baixa mas clara:

 

- Ouve-se um ruído de esporas!

 

A mãe saltou da cama, e pegou na roupa com as mãos a tremer, mas Pavel apareceu à porta e disse-lhe serenamente:

 

- A mãe deixe-se estar deitada... Está doente.

 

Do pátio vinha um sussurro de vozes. Pavel aproximou-se da porta, empurrou-a com a mão e perguntou:

 

- Quem está aí?

 

Com a rapidez de um relâmpago, uma silhueta alta e cinzenta surgiu no umbral, seguida de uma outra. Os dois polícias ladearam Pavel. Então, ouviu-se uma voz aguda,e trocista.

 

- Não somos quem vocês esperavam, hem?

 

Quem falava, era um oficial alto e magro, com um bigode negro e ralo. Junto ao leito da mãe surgiu Fediakine, o polícia do bairro. Levou a mão à pala do boné, e enquanto com a outra apontava para Pelágia disse com um olhar ameaçador:

 

- Esta é a mãe dele, Excelência.

 

Depois, agitando os braços na direcção de Pavel, acrescentou:

 

- E este é ele!

 

- Pavel Vlassov? - perguntou o oficial, semicerrando os olhos. Pavel disse que sim com a cabeça. O oficial continuou, cofiando o bigode:

 

- Tenho de fazer uma busca à tua casa. Levanta-te, velha! Quem é que está aí?

 

Lançou um olhar ao quarto, e em grandes passadas dirigiu-se para lá.

 

- Os vossos nomes?

 

Entraram então dois homens, chamados para servir de testemunhas. Eram o fundidor Tvariakov e o seu inquilino, o fogueiro Rybine, de cabelo e barba escura, um homem sério que disse com uma voz cheia e sonora:

 

- Boa noite, Nilovna!

 

Pelágia vestia-se, e enquanto isso, para ganhar coragem, ia murmurando:

 

- Que maneiras! Virem assim de noite... está uma pessoa deitada, e eles entram por aí...

 

Estavam todos apertados dentro do quarto, e havia no ar um forte cheiro a graxa. Dois polícias e Ryskine, o comissário de polícia do bairro, batiam ruidosamente com as botas no chão, tiravam os livros da estante e amontoavam-nos sobre a mesa, na frente do oficial. Outros dois batiam nas paredes com os punhos fechados, olhavam debaixo das

 

cadeiras, um deles, não sem dificuldade, subiu para cima do fogão. O Ucraniano e Vessovchikov estavam num canto apertados um contra o outro. O rosto bexigoso de Nikolai tinha-se coberto de manchas vermelhas, e os seus pequenos olhos não conseguiam deixar de fitar a cara do oficial. Andrei retorcia o bigode e quando a mãe entrou no quarto sorriu-lhe e dirigiu-lhe com a cabeça um aceno tranquilizador.

 

Esforçando-se por dominar o medo que a invadia, a mãe entrou, não de lado, como era seu costume, mas avançando com o peito, o que lhe dava um ar de importância cómico e afectado. Caminhava com passos ruidosos e as suas pestanas tremiam.

 

O oficial ia pegando rapidamente nos livros entre os dedos afilados das suas mãos brancas. Folheava-os, sacudia-os e, num gesto hábil, ia-os pondo de lado. Por vezes algum volume caía pesadamente no chão. Estavam todos em silêncio. Ouvia-se o resfolegar dos guardas, o tilintar das esporas, e de quando em quando uma pergunta:

 

- Já viram aqui?

 

Pelágia colocou-se ao lado de Pavel, junto do tabique, cruzou os braços como ele, e pôs-se também a olhar para o oficial. Sentia os joelhos a tremer, e uma névoa que lhe velava os olhos.

 

De repente, a voz de Vessovchikov ressoou, cortante:

 

- É preciso atirar com os livros para o chão?

 

A mãe estremeceu. Tvariakov fez um movimento com a cabeça, como se lhe tivessem dado uma pancada na nuca. Rybine tossiu e olhou atentamente para Nikolai.

 

O oficial franziu as sobrancelhas, e por um momento cravou o olhar no rosto frágil e imóvel. Os seus dedos continuaram a voltar as páginas ainda mais depressa. Abria por vezes de tal maneira os seus olhos cinzentos que parecia que se estava a sentir terrivelmente mal, e que ia lançar um grito de fúria, incapaz de lutar contra a sua dor.

 

- Soldado! - voltou a dizer Vessovchikov. - Apanha esses livros.

 

Os polícias foram até junto dele, depois olharam para o oficial, que levantou a cabeça, envolveu a silhueta maciça de Nikolai num olhar perscrutador e disse numa voz arrastada e nasal:

 

- Bem... apanhem-nos.

 

Um dos polícias baixou-se e, olhando Vessovchikov pelo canto do olho, começou a recolher os livros de folhas amarrotadas.

 

- Nikolai devia ficar calado! - sussurrou Pelágia ao filho. Pavel encolheu os ombros. O Ucraniano baixou a cabeça.

 

- Quem é que a lê a Bíblia?

 

- Eu - disse Pavel.

 

- A quem pertencem estes livros todos?

 

- A mim - respondeu de novo.

 

- Bem! - disse o oficial reclinando-se sobre as costas da cadeira. Entrelaçou os dedos das suas finas mãos, estendeu as pernas por cima da mesa, compôs o bigode e interpelou Vessovchikov.

 

- O Andrei Nakhodka és tu?

 

- Sim - respondeu Nikolai, avançando. O Ucraniano estendeu a mão, segurou-o pelo ombro e fê-lo retroceder.

 

- Ele está enganado. O Andrei sou eu.

 

O oficial ergueu a mão, e disse a Vessovchikov, ameaçando-o com o dedo indicador:

 

- Tem cuidado, tu!

 

Começou a remexer nos seus papéis. Lá fora, os olhos indiferentes da clara noite de luar olhavam pela janela. Alguém passava diante da casa. A neve caía.

 

- Tu, Nakhodka, já foste investigado por delitos políticos?

- perguntou o oficial.

 

- Sim, em Rostov e em Saratov... Mas os polícias de lá não me tratavam por tu.

 

- O oficial piscou o olho direito, esfregou-o, e disse, mostrando os dentes pequenos:

 

- E não conhecerá o senhor, Nakhodka, precisamente o senhor, os canalhas que andam na fábrica a distribuir folhetos criminosos?

 

O Ucraniano balançou-se sobre as pernas e, com um largo sorriso nos lábios, ia para dizer qualquer coisa quando de novo soou a voz irritada de Nikolai.

 

- É esta a primeira vez que vemos canalhas.

 

Fez-se silêncio, e por um momento ninguém se moveu.

 

A cicatriz da mãe tornou-se mais clara, e a sua sobrancelha direita ergueu-se bruscamente. A barba negra de Rybine começou a tremer de uma forma estranha. Penteou-a com os dedos, lentamente, de cabeça baixa.

 

- Ponham lá fora este animal! - disse o oficial.

 

Dois polícias agarraram-no por baixo dos braços, e arrastaram-no sem cerimónias até à cozinha. Aí, fincando os pés com força no chão, deteve-se e gritou:

 

- Parem! Tenho de vestir-me! Entrou o Comissário da Polícia.

 

- Não há nada. Procurámos por todo o lado.

 

- Claro! - exclamou o oficial com um sorriso. - Não estamos em presença de um novato.

 

A mãe escutava aquela voz fluida e cortante, olhava aterrorizada aquele rosto amarelado, e sentia neste homem um inimigo sem piedade, um coração cheio do mesmo desprezo que o aristocrata sente pelo povo. Tinha visto na sua vida muito poucos destes indivíduos, e quase tinha esquecido que existiam.

 

"São estes os que se sentem ameaçados por nós", pensou.

 

- Senhor Andrei Onissimovitch Nakhodka, filho de pai desconhecido, está detido.

 

- Por que motivo? - perguntou tranquilamente o Ucraniano.

 

- Isso dir-lho-ei mais tarde - respondeu o oficial com cinismo. Voltou-se para Pelágia:

 

- Sabes ler?

 

- Não - respondeu Pavel.

 

- Não é a ti que estou a perguntar - disse severamente, e insistiu:

 

- Responde, velha!

 

A mãe, tomada por um sentimento de ódio instintivo contra este homem, ergueu-se bruscamente, tremendo como se tivesse caído dentro de água gelada. A sua cicatriz tornou-se púrpura e a sua sobrancelha voltou a descer.

 

- Não grite! - disse ela esticando um braço na direcção do oficial. - Você ainda é muito novo, não sabe o que é a desgraça...

 

- Acalme-se, mãe! - deteve-a Pavel.

 

- Espera, Pavel! - gritou ela debruçando-se sobre a mesa. - Porque é que eles vêm aqui prender-nos?

 

- Isso não é da tua conta. Cala-te! - exclamou o oficial levantando-se. - Tragam-me o Vessovchikov.

 

Pegou num papel, levantou-o até à altura da cara, e pôs-se a ler.

 

Trouxeram Nikolai.

 

- Tira o gorro! - gritou o oficial interrompendo a leitura. Rybine aproximou-se de Pelágia, tocou-lhe com o ombro e disse-lhe em voz baixa:

 

- Não te exaltes, mãezinha!

 

- Como posso tirar o gorro se tenho as mãos presas? - perguntou Nikolai interrompendo a leitura do processo verbal.

 

- O oficial atirou com o papel para cima da mesa.

 

- Assinem!

 

A mãe observou-os enquanto assinavam o processo verbal. A sua exaltação tinha desaparecido, e o seu coração sentia-se desfalecer. Tinha nos olhos lágrimas de humilhação e de raiva. Havia chorado lágrimas semelhantes durante os vinte anos que durara o seu casamento, mas nos últimos tempos quase esquecera o seu sabor amargo.

 

- É muito cedo para a senhora chorar. Guarde as suas lágrimas para mais tarde, que vai precisar delas.

 

Ela respondeu-lhe, de novo encolerizada:

 

- As mães têm lágrimas que chegam para tudo... para tudo. Se você tem mãe, ela também deve saber isso.

 

O oficial guardou rapidamente os seus papéis numa carteira nova com o fecho a brilhar, e ordenou:

 

- Em frente, marchem!

 

- Até à vista, Andrei. Até à vista, Nikolai - disse Pavel em voz baixa mas calorosa, apertando a mão dos seus camaradas.

 

- Sim, claro, até à vista! - repetiu, irónico, o oficial. Vessovchikov fungava ruidosamente. O seu largo pescoço

 

estava congestionado, e os seus olhos cintilavam de raiva. O Ucraniano todo ele sorria, inclinou a cabeça e segredou algumas palavras à mãe, que o abençoou com o sinal da cruz, e disse:

 

- Deus olha pelos justos...

 

Por fim o pelotão de homens de capote cinzento aproximou-se da porta, tilintou as esporas e desapareceu. O último a sair foi Rybine. Envolveu Pavel com um olhar perscrutador dos seus olhos negros, e disse com um ar pensativo:

 

- Bem... adeus.

 

E saiu sem pressa, tossindo por detrás da barba.

 

Com as mãos atrás das costas, Pavel percorreu lentamente o quarto de um lado ao outro, caminhando por entre os livros e a roupa que estava espalhada pelo chão. O seu rosto estava sombrio.

 

- A mãe está a ver como é?

 

Olhando indecisa o quarto em desordem, a mãe murmurou angustiada:

 

- Para que é que Nikolai foi grosseiro com ele?

 

- Com certeza estava com medo - disse Pavel docemente. -Vieram, prenderam-nos, levaram-nos... murmurou Pelágia com impaciência.

 

Restava-lhe o filho. O seu coração acalmou-se um pouco, enquanto o seu pensamento tentava compreender aquilo que acabava de se passar.

 

- Ele riu-se de nós, ameaçou-nos...

 

- Basta, mãe! - disse Pavel súbita e resolutamente. - Ajuda-me a arrumar isto tudo.

 

Chamava-lhe mãe e tratava-a por tu, como só fazia quando se sentia muito próximo dela. A mãe fez um gesto na sua direcção, olhou-o nos olhos e perguntou muito baixo:

 

- Para ti, foi uma humilhação?

 

- Sim! É duro... preferia que me tivessem levado também. Pareceu à mãe ver lágrimas nos olhos de Pavel, e para o consolar, sentindo confusamente o sofrimento dele, disse com um suspiro:

 

- Deixa estar. Hão-de vir prender-te também.

 

- Sim.

 

Depois de uma pequena pausa, disse ainda com tristeza:

- Como és rude, meu Pavlucha. Podias ao menos consolar-me, mas não. Eu digo coisas horríveis, e tu respondes coisas mais horríveis ainda.

 

Ele olhou-a, aproximou-se dela, e disse com doçura:

 

- Não sou capaz, mãe. Tens de te acostumar a isso.

 

Ela suspirou e ficou em silêncio. Em seguida, contendo um estremecimento de terror, disse:

 

- Será que eles torturam as pessoas? Que lhes rasgam a carne, que lhes quebram os ossos? Quando penso nisso, Pacha, meu querido, é horrível!

 

- Eles torturam a alma, e isso ainda é pior, com as suas mãos sujas...

 

No dia seguinte souberam que tinham sido detidos Bukhine, Samoilov, Somov e mais cinco. À tardinha chegou Theo Mazine a correr. Tinham feito uma busca também em sua casa. Estava contente, sentia-se um herói.

 

- Tiveste medo, Thep? - perguntou a mãe.

 

- Tive medo que o oficial me batesse. Era gordo, de barba preta e patilhas, e sobre o nariz trazia, uns óculos de lentes escuras, parecia que não tinha olhos. Gritava, batia com os pés no chão, "hãs-de apodrecer na prisão", dizia-me. A mim nunca me bateram, nem o meu pai nem a minha mãe, sou filho único, eles gostavam de mim.

 

Por um momento fechou os olhos, apertou os lábios, puxou o cabelo com um gesto rápido das mãos e, olhando para Pavel com os olhos vermelhos, disse:

 

- Se alguma vez me baterem, cravo-me neles como uma faca, e desfaço-os com os dentes. Será melhor que me matem logo.

 

- És tão fraco, tão frágil! - exclamou Pelágia. - Como poderias lutar contra eles?

 

- Luto, sim! - respondeu Theo entre dentes. Quando saiu, a mãe disse a Pavel:

 

- Este vai ser o primeiro a fraquejar. Pavel ficou em silêncio.

 

Momentos depois a porta da cozinha abriu-se devagar, e entrou Rybine.

 

- Boa noite - disse ele sorrindo. - Bom, aqui estou eu outra vez. Ontem fui forçado a vir, mas hoje venho de minha livre vontade. - Apertou vigorosamente a mão de Pavel, e pousou uma mão no ombro da mãe. - Não me ofereces um pouco de chá?

 

Pavel examinou em silêncio o seu rosto largo e bronzeado, de barba espessa e olhos sombrios. Os seus olhos tranquilos pareciam querer dizer alguma coisa importante.

 

Pelágia foi até à cozinha preparar o samovar. Rybine sentou-se, pousou os cotovelos sobre a mesa, e envolveu Pavel com o seu olhar negro.

 

- Pois é isso mesmo... - disse ele como se estivesse retomando uma conversa interrompida. - Tenho de falar-te com franqueza. Há muito tempo que tenho vindo a observar-te. Somos quase vizinhos. Tenho reparado que recebes muita gente, mas ninguém se embebeda, nem fazem escândalos. Isto é a primeira coisa. Quando as pessoas não fazem barulho, os vizinhos estranham, não é verdade? Bom, as pessoas também falam de mim, porque vivo sozinho.

 

Falava gravemente, mas com desenvoltura. Com a sua mão morena ia cofiando a barba, e os seus olhos olhavam fixamente os de Pavel.

 

- Falam muito de ti. Os meus patrões chamam-te herege, porque não frequentas a igreja. Eu também não vou lá. Além disso há essa história dos panfletos que apareceram por aí. És tu que estás por detrás disso?

 

- Sim.

 

- Mas tu... - exclamou a mãe alarmada, vinda da cozinha. - Não és tu sozinho!

 

Pavel sorriu, e Rybine também.

 

- Bom - disse este último.

 

A mãe, um pouco aborrecida por não darem importância às suas palavras, fungou ruidosamente e voltou para a cozinha.

 

- Os folhetos foram uma boa ideia, espevitam as pessoas. Escreveram dezanove?

 

- Sim.

 

- Li-os todos. Bem, houve uma ou outra coisa que não compreendi, mas isso não tem importância, porque quando um homem fala demasiado há palavras que não servem para nada.

 

Rybine sorriu, os seus dentes eram brancos e fortes.

 

- Houve depois a busca. Foi o que me predispôs a vosso favor. Tu, o Ucraniano e Nikolai comportaram-se...

 

- Mostraram uma grande firmeza. Como se tivessem dito: "Excelência, faça o seu trabalho, que nós faremos o nosso." O Ucraniano é um bom rapaz. Ouvi muitas vezes a forma como fala dentro da fábrica, e tenho pensado:' "A este, não vão conseguir vergá-lo; só a morte poderá vencê-lo. Tem peito." Acreditas, Pavel?

 

- Sim - disse o jovem acenando com a cabeça.

 

- Bom... Olha, tenho quarenta anos, o dobro da tua idade, e desta vida conheço vinte vezes mais cio que tu. Fui soldado durante mais de três anos, fui casado duas vezes, a minha primeira mulher morreu, a segunda abandonei-a. Estive no Cáucaso, conheço os "doukhobors..". julgam-se os senhores da vida, meu filho, mas não o são...

 

A mãe escutava com avidez aquelas palavras firmes. Estava satisfeita por ver que um homem maduro vinha junto do seu filho e lhe falava com tanta sinceridade, e parecia-lhe que o filho o estava tratando com alguma frieza. Por isso, para disfarçar esta impressão, perguntou a Rybine:

 

- Queres comer alguma coisa, Mikhail?

 

- Obrigado, mãezinha, já jantei... Então, Pavel, tu achas que a vida não é o que deveria ser?

 

Pavel levantou-se e começou a passear pelo quarto com as mãos atrás das costas.

 

- Não, a vida é boa. Veja, foi ela quem o trouxe a minha casa de coração aberto. Aos poucos, vai-nos unindo. Trabalhamos a vida inteira, e virá um tempo em que nos unirá a todos. É injusta, dura para nós, mas também é ela que nos abre os olhos, nos mostra o seu sentido amargo, e nos mostra como apressar a marcha dos acontecimentos.

 

- É verdade! - interrompeu Rybine. - É preciso renovar o homem. Se tem sarna, leva-se aos banhos, lava-se, veste-se-Lhe roupa limpa, e ele cúra-se. Não é verdade? Mas como se pode lavar um homem por dentro? Esse é o problema.

 

Pavel começou a falar, com calor e energia, das autoridades, da fábrica, da forma como os operários defendiam os seus direitos noutros países. Por vezes, Rybine batia na mesa com os nós dos dedos em sinal de assentimento, mas nem uma só vez gritou "é isso mesmo".

A certa altura riu um pouco e disse com suavidade:

 

- Tu és jovem, não conheces a humanidade.

 

- Não falemos de velhice nem de juventude. Vejamos antes quais são as ideias mais justas.

 

- Pensas então que também acerca de Deus fomos enganados? É isso, eu também creio que a religião que nos ensinaram não é a verdadeira.

 

Neste momento a mãe interveio. Quando o seu filho falava de Deus e de tudo aquilo que, estando ligado à sua fé, era para ela querido e sagrado, procurava sempre o olhar de Pavel, para, sem uma palavra, lhe pedir que não ferisse o seu coração com manifestações brutais de incredulidade. Atrás do cepticismo do filho, ela julgava detectar alguma fé, e isso tranquilizava-a. "Como seria possível que não compreendesse o pensamento do seu próprio filho?", perguntava-se. Imaginava que seria desagradável e ofensivo para Rybine, um homem de idade madura, escutar os discursos de Pavel, mas quando Rybine lhe dirigiu aquela pergunta não pôde conter-se, e disse, breve mas firmemente:

 

- Com respeito ao Senhor, vocês deviam ter mais cuidado. Vocês façam como entenderem...

 

Tomou alento e recomeçou ainda com mais veemência:

 

- Uma velha como eu, se lhe tiram o seu Deus, onde irá ela buscar forças para suportar os seus desgostos?

 

Os seus olhos encheram-se de lágrimas. As suas mãos tremiam-lhe enquanto lavava a loiça.

 

- Não compreendeste, mãe - disse Pavel docemente.

 

- Perdoa-me, mãezinha - acrescentou Rybine com voz lenta e expressiva. Olhou para Pavel, depois sorriu e disse:

- Tinha esquecido que já és muito velha para te tirarem as verrugas...

 

- Eu não me referia - prosseguiu Pavel - ao Deus bom e misericordioso em que tu acreditas mas a um outro Deus de que os popes se servem para nos ameaçarem como se fosse um cacete. Um Deus em nome do qual nos querem submeter a todos à vontade cruel de uns poucos.

 

- Sim, é isso, isso mesmo - gritou Rybine batendo na mesa. - falsificaram-nos o nosso Deus. Tudo, aliás, o que tomam nas suas mãos, é para ser utilizado contra nós. Lembras-te, mãezinha? Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, por isso Deus se parece com o homem, e o homem se parece com Deus. Mas nós não nos parecemos com Deus, parecemo-nos mais com animais. Aquilo que nos mostram na igreja não passa de um espantalho. Temos de renovar Deus, mãezinha, purificá-lo! Vestiram-no de mentiras e de calúnias e desfiguraram-lhe o rosto para nos matarem a alma...

 

Falava baixo, mas cada palavra que pronunciava caía sobre a cabeça da mãe como uma pancada violenta que a deixava aturdida. E aquele rosto largo assustava-a, rodeado por aquela barba negra. Era-lhe impossível suportar o brilho sombrio daqueles olhos, que fazia despertar uma dolorosa angústia no seu coração.

 

- Não, prefiro ir-me embora! - disse ela abanando a cabeça. - Ouvir'essas coisas... é superior às minhas forças!

 

E fugiu para a cozinha, enquanto Rybine exclamava:

 

- Estás a ver, Pavel?! Não é a cabeça mas o coração que dita os actos do ser humano. O coração é o lugar do homem onde nunca ninguém poderá penetrar jamais.

 

- Somente a razão poderá libertar o homem - sentenciou Pavel.

 

- A razão não incute coragem - exclamou Rybine numa voz confiante. - É o coração que nos incute coragem, e não a razão. É isso.

 

A mãe despiu-se e deitou-se sem fazer as suas orações. Tinha frio, sentia-se desconfortável. E Rybine, que a princípio lhe tinha parecido tão sereno, tão sensato, despertava agora a sua hostilidade.

 

"Herege! Agitador,..", pensava, enquanto ouvia a sua voz.

 

"Tinha de vir mais este!"

 

E ele ia falando, seguro e tranquilo:

 

- Um lugar santo não deve permanecer vazio. A nossa alma é um ponto sensível. É a morada de Deus. Se Ele a abandona, formar-se-á uma ferida. É preciso criar uma nova fé, Pavel, uma fé num Deus que seja amigo dos homens.

 

- Aquilo que Cristo foi - exclamou Pavel,

 

- Cristo não tinha uma vontade firme. "Afasta de mim este cálice", disse. Reconhecia César. Deus, que é todo poder, não pode aceitar o poder de um homem sobre os outros. Dentro da sua alma não faz divisões, não diz: "Isto é divino, isto é humano." Mas Cristo admitia o comércio, admitia o matrimónio. E amaldiçoou a figueira, foi injusto. Que culpa tinha ela de ser estéril? Se a alma não dá bons frutos, não é culpa dela. Fui eu que semeei o mal que existe em mim? Ora aí está!

 

As vozes dos dois homens não deixavam de se fazer ouvir no quarto, entrelaçando-se e combatendo como num jogo animado. Pavel andava de cá para lá, o chão cedia sob os seus passos. Quando falava, todos os outros sons se fundiam no da sua voz, e quando Rybine replicava no seu tom grave e tranquilo, ouvia-se o tiquetaque do relógio e os estalidos secos do gelo que, com as suas garras afiadas, arranhava as paredes da pequena casa.

 

- Eu sou fogueiro, e vou explicar-te isto à minha maneira: Deus é como o fogo. É isso mesmo. Vive no coração. Foi Ele próprio quem o disse. Deus é o Verbo... e o Verbo é o espírito.

 

- A razão! - repetiu Pavel, obstinadamente.

 

- É isso mesmo, o que significa que Deus está no coração e na razão, mas não na igreja. A igreja é o túmulo de Deus...

 

A mãe adormeceu e não ouviu Rybine sair.

 

Começou a aparecer com frequência, e se lá estava algum dos camaradas de Pavel, o fogueiro sentava-se num canto e guardava silêncio dizendo apenas de quando em vez:

 

- Aí está! É isso mesmo!

 

Uma vez lançou o seu olhar sombrio sobre a assistência, e disse com ar carrancudo:

 

- Falemos do presente. O futuro não sabemos como vai ser. É assim mesmo. Quando o povo for livre, ele mesmo verá o que é melhor para ele. Já lhe meteram na cabeça muitas coisas que não lhe interessavam. Já chega. Que veja por si mesmo como são as coisas. Poderá até não aceitar nada, a vida, as ciências, poderá acabar por concluir que todas as coisas foram dirigidas contra ele, até o Deus da igreja. A única coisa que se pode fazer é colocar-lhe todos os livros nas mãos, e ele será o único responsável pelos seus actos. Nem mais.

 

Mas quando encontrava apenas Pavel, imediatamente se lançavam em intermináveis, embora amigáveis, discussões. Quanto à mãe, escutava-os inquieta e seguia-os com o olhar, tantando compreender aquilo que diziam. Parecia-lhe, por vezes, que tanto o mujik de ombros largos e barba negra como o seu filho, forte e esbelto, se deixavam levar por uma espécie de cegueira. Lançavam-se de um lado para o outro, procurando uma solução, agarravam os objectos, agitavam-nos nas suas mãos vigorosas e rudes, mudavam-nos de um sítio para outro e deixavam-nos cair no chão para depois os pisarem. Esbarravam nas coisas, tacteavam-nas, afastavam-nas, e tudo isto sem perderem a fé e a esperança.

 

Tinham-na acostumado a ouvir uma quantidade de palavras, terríveis pela sua franqueza e pela sua audácia. Estas palavras já não a feriam com a violência da primeira vez, e contra elas tinha já construído as suas próprias defesas. Algumas vezes, por detrás das frases com que negavam Deus, Pelágia sentia que existia uma sólida fé. Sorria então, com doçura e indulgência. Quanto a Rybine, se continuava a não simpatizar com ele, também já não o detestava verdadeiramente.

 

Uma vez por semana ia à prisão levar roupa lavada e alguns livros ao Ucraniano. De uma das vezes conseguiu autorização para o ver. Quando voltou, comentou enternecida:

 

- Continua o mesmo que era aqui em casa. Amável com toda a gente. Todos brincam com ele. Tuclo aquilo é duro e penoso, mas ele não se queixa.

 

- Tem de ser assim - disse Rybine -, vivemos na dor como vivemos na nossa pele, respiramo-la, é como a roupa que vestimos. Nem vale a pena uma pessoa lamentar-se. Algumas pessoas têm os olhos fechados, mas há outras que os fecham voluntariamente, isso é que é a verdade. Quando as pessoas são estúpidas, o que é que se pode fazer?

 

A pequena casa cinzenta dos Vlassov atraía cada vez mais a atenção do bairro. À sua volta havia todo um interesse no qual existia muita desconfiança, prudência e inconsciente hostilidade, mas aos poucos e poucos ia nascendo também um sentimento de curiosidade confiante. Por vezes aparecia um desconhecido. Olhava em volta com ar circunspecto, e dizia a Pavel:

 

- Bem, meu rapaz, tu que lês tantos livros, deves conhecer as leis, por isso vê lá como é, explica-me...

 

E relatava a Pavel alguma injustiça cometida pela polícia ou pela administração da fábrica. Nos casos mais complicados Pavel escrevia um bilhete e remetia-os para o homem da cidade, um advogado seu conhecido. Quando o caso era mais simples tentava ele próprio resolver-lhes o problema.

 

A pouco e pouco ia crescendo um sentimento de respeito em redor deste rapaz sério que de tudo falava com simplicidade e audácia, tudo observava e escutava atentamente, encarava como seus os problemas que lhe expunham, e conseguia ver o fio interminável que a todos unia por milhares de nós apertados.

 

O prestígio de Pavel cresceu mais ainda depois da questão do "kopek do pântano."

 

Por detrás da fábrica estendia-se um vasto pântano plantado de abetos e bétulas, rodeando-a quase por completo, como um anel de podridão. No Verão soltava espessos vapores amarelados e nuvens de mosquitos que se espalhavam pelo subúrbio, semeando febres. O pântano era propriedade da fábrica, e o novo director, querendo tirar partido disso, concebeu o projecto de o drenar, aproveitando para extrair a turfa. Esta operação, segundo explicou aos operários, tornaria mais salubre o lugar e melhoraria as condições de vida de todos. Deu então ordens para que, em cada rublo dos seus salários, fosse descontado um kopek para a dita obra.

 

Os operários indignaram-se. Irritava-os sobretudo que os empregados de nível mais elevado tivessem ficado isentos deste novo imposto.

 

No sábado em que a decisão do director foi dada a conhecer, Pavel estava doente. Não tinha ido trabalhar e não estava ao corrente de nada. No dia seguinte, cerca do meio-

 

-dia, o fundidor Sizov, um velho que todos respeitavam, e o serralheiro Makhotine, um homem alto e irascível, vieram contar-lhe o sucedido.

 

- Nós, os mais velhos, reunimo-nos - disse tranquilamente Sizov -, discutimos o assunto, e os camaradas mandaram-nos perguntar-te, já que és um homem instruído, se existe alguma lei que permita ao director acabar com os mosquitos à custa dos nossos kopeks.

 

- Não sei se te lembras - disse Makhotine, fazendo girar os olhos oblíquos -, vai para quatro anos, os desavergonhados recolheram dinheiro para fazer umas instalações sanitárias. Juntaram três mil e oitocentos rublos... que é feito deles? E quanto às casas de banho, nem uma!

 

- Pavel explicou que este desconto era injusto, e referiu os lucros enormes que dele adviriam para a fábrica. Depois saíram os dois. de semblante carregado. A mãe acompanhou-os à porta, e em seguida disse com um sorriso:

 

- Vês, Pavel? Até os velhos vêm aconselhar-se contigo. Sem responder, o jovem, preocupado, sentou-se à mesa e

 

pôs-se a escrever. Alguns minutos mais tarde, disse-lhe:

 

- Faça-me um favor, mãe. Vá até à cidade e entregue este papel...

 

- É perigoso?

 

- Sim. É preciso ir ao local onde imprimem o nosso jornal. É indispensável que esta história do kopek apareça já no próximo número.

 

- Está bem, está bem! - disse ela. - Vou já.

 

- Era a primeira missão que o filho lhe confiava. Estava feliz por ele lhe revelar do que se tratava.

 

-Já compreendi, Pavel - disse ela enquanto se vestia. - É um roubo, nem mais nem menos. Como se chama o homem que imprime o jornal? Igor Ivanovitch?

 

Regressou já tarde, de noite, cansada mas contente.

 

- Encontrei Sachenka - disse ela a Pavel. - Manda-te cumprimentos. E esse Igor Ivanovitch é muito simpático, está sempre a brincar.

 

- Ainda bem que gostas deles - disse Pavel com doçura.

 

- Que gente tão simples, meu filho! Quando as pessoas são naturais, é tudo muito melhor. E todos eles gostam de ti.

 

Na segunda-feira Pavel também não foi trabalhar. Tinha uma enxaqueca. À hora do almoço veio Theo Mazine numa corrida, agitado e feliz. Quando recuperou o fôlego, disse:

 

- Vem, está toda a fábrica em pé de guerra. Mandaram-me buscar-te. Sizov e Makhotine dizem que tu és capaz de expor o problema melhor que ninguém. Se visses o que está a acontecer!

 

Pavel vestiu-se sem dizer uma palavra.

 

- As mulheres também lá estão, isto vai dar um sarilho!

 

- Eu também vou - disse a mãe. - O que é que está a acontecer? Também vou!

 

- Vem - disse Pavel.

 

Caminharam em silêncio, rapidamente. A mãe desfalecia de emoção, e sentia que algo de grave se ia passar. À porta da fábrica, um grupo de mulheres gritava e protestava. No momento em que os três conseguiram entrar no pátio viram-se rodeados por uma multidão compacta, negra, que vociferava excitada. A mãe viu que todas as cabeças estavam viradas para o mesmo lado, na direcção do muro da oficina das forjas. Aí, em cima de um monte de ferros, e destacando-se do fundo de ladrilho vermelho, gesticulando, estavam Sizov, Makhotine, Vialov e outros cinco ou seis operários respeitados, de idade madura.

 

- Vem aí Vlassov! - ouviu-se alguém gritar.

 

- Vlassov? Que venha para aqui...

 

- Silêncio! - gritaram ao mesmo tempo vozes dispersas. Algures, não muito distante, soou a voz monótona de

 

Rybine:

 

- Não é por causa de um kopek que devemos ir à luta, é pela justiça. O que importa não é o nosso kopek, que não é maior que os outros, mas é mais pesado. Contém mais sangue humano que um rublo de um director. E não é o kopek que nos importa, mas sim o sangue e a verdade. É isso mesmo!

 

- Certo! Bravo, Rybine!

 

- O fogueiro tem razão.

 

- Aqui está Vlassov!

 

Abafando o barulho surdo das máquinas, os suspiros profundos do vapor e o gorgolejar das canalizações, as vozes juntavam-se num torvelinho de sons tumultuosos. De todos os lados chegavam pessoas que agitavam os braços e se excitavam umas às outras com palavras febris e violentas. A revolta que sempre dorme nos peitos cansados, despertava agora procurando uma forma de se libertar. A cólera voava, triunfante, estendendo cada vez mais as suas asas sombrias, apoderando-se das pessoas com uma força crescente, levantando-os e fazendo-os embater uns contra os outros, animando-os de ardor e raiva. Sobre a multidão pairava uma nuvem de fuligem e pó, os rostos congestionados estavam cobertos de um suor que escorria sobre as faces como lágrimas negras, os olhos cintilavam, os dentes reluziam.

 

Pavel colocou-se ao lado de Sizov e Makhotine, e ouviu-se a sua voz:

 

- Camaradas!

 

A mãe observou que o rosto do seu filho estava pálido e que os seus lábios tremiam. Sem pensar, ia abrindo caminho por entre a multidão, e assim se ia aproximando. Diziam-lhe asperamente: "Onde é que te queres meter?" Mas isso não a detinha. Com os ombros e os cotovelos ia afastando as pessoas, até conseguir aquilo que desejava, que era colocar-se junto dele.

 

Quando Pavel soltou aquela palavra, na qual punha um significado tão profundo e grave, sentiu na sua garganta o espasmo da alegria do combate. Estava invadido pelo desejo de lançar à multidão o seu coração, que ardia num sonho abrasador de verdade e justiça.

 

- Camaradas! - repetiu, pondo nesta palavra toda a sua alegria e entusiasmo. - Somos nós que construímos as igrejas e as fábricas, que forjamos as correntes e fundimos as moedas. Somos nós a força vital que a todos dá o pão e a alegria, do berço ao túmulo...

 

- É verdade! - gritou Rybine.

 

- Sempre, e em todo o lado, somos os primeiros quando se trata de trabalhar, e os últimos quando se trata de gozar a vida. Quem se preocupa connosco? Quem procura o nosso bem? Quem nos olha como seres humanos? Ninguém!

 

- Ninguém! - respondeu uma voz como se fosse um eco. De novo senhor de si, Pavel começou a falar com mais

 

simplicidade e mais calma. Lentamente, a multidão ia-se aproximando dele, aglomerando-se como um corpo indistinto de múltiplas cabeças. Olhavam-no com centenas de olhos atentos, sorviam as suas palavras.

 

- Não conseguiremos melhorar a nossa sorte enquanto não nos sentirmos camaradas, enquanto não formarmos uma família, unidos pela amizade e pelo mesmo forte desejo: o desejo de lutarmos pelos nossos direitos.

 

- Vamos ao que interessa! - gritaram perto da mãe algumas vozes rudes.

 

- Não interrompam! - disseram alguns.

 

Os rostos, negros e carregados, pareciam desconfiar. Apenas um ou outro olhar pensativo se fixava em Pavel.

 

- Ele é socialista, mas não é parvo! - disse alguém.

 

- E não tem medo! - replicou um mocetão vesgo, empurrando a mãe pelos ombros.

 

- É hora, camaradas, de compreendermos que ninguém nos ajudará se não formos nós próprios. Um por todos e todos por um, tem de ser essa a nossa lei, se quisermos vencer o inimigo.

 

- Ele tem razão, rapazes! - gritou Makhotine.

 

E com um gesto largo sacudiu no ar a sua mão fechada.

 

- Tragam aqui o director - prosseguiu Pavel.

 

Parecia que um furacão se tinha abatido sobre a multidão. Balançavam e gritavam em coro:

 

- O director! O director!

 

- Vamos mandar-lhe uma delegação.

 

Pelágia estava na primeira fila, e cheia de orgulho olhava para cima, para o seu filho. Ali estava Pavel, entre os operários mais velhos e mais respeitados. Todos o escutavam e apoiavam. Ao contrário de alguns outros, Pavel não perdia as estribeiras nem praguejava, e isso também a enchia de satisfação.

 

As exclamações entrecortadas, as imprecações e as invectivas choviam como granizo sobre um telhado de zinco. Pavel olhava para baixo para a multidão, e parecia procurar alguma coisa.

 

- Delegados!

 

- Sizov!

 

- Vlassov!

 

- Rybine! É duro de roer.

 

De repente, ouviram-se algumas exclamações menos sonoras:

 

- Vem aí!

 

- O director...!

 

A multidão abriu-se, deixando passar um homem alto com uma barbinha pontiaguda na cara larga.

 

- Com licença - dizia, afastando os operários do seu caminho fazendo um gesto com as mãos, mas sem lhes tocar.

 

- Olhava para todos os lados, e com o olhar perscrutador de um experiente dominador de homens, estudava as fisionomias dos trabalhadores. Passava, alguns descobriam-se, inclinavam-se, enquanto ele continuava a andar sem responder a estas manifestações de respeito, semeando à sua passagem silêncio e emoção. Sentia-se já no ar, debaixo dos sorrisos embaraçados dos operários e do tom surdo das exclamações, um arrependimento de crianças conscientes de terem feito travessuras.

 

Passou na frente da mãe,-deitando-lhe um olhar severo, e deteve-se perante o monte de pedaços de ferro. Estenderam-lhe de cima uma mão, mas ele recusou-a. Subiu com um impulso vigoroso e flexível, e colocou-se entre Pavel e Sizov.

 

- Que significa esta reunião? Por que motivo abandonaram o vosso trabalho?

 

Por alguns segundos fez-se silêncio. As cabeças ondulavam como uma seara. Sizov agitou o boné no ar, encolheu os ombros e baixou a cabeça.

 

- Respondam! - disse o director.

 

- Pavel colocou-se junto dele, e designando Sizov e Rybine, disse com voz forte:

 

- Nós os três fomos escolhidos pelos nossos camaradas para falar consigo em nome de todos, e queremos que volte atrás com a decisão de reter um kopek...

 

- Porquê?

 

- Consideramos injusto o imposto - disse Pavel com voz sonora.

 

- Quer dizer que no meu projecto de secar o pântano, vocês só vêm o desejo de vos explorar, e não a vontade de melhorar as vossas condições de vida? É isso?

 

- Sim - respondeu Pavel

 

- Você também? - perguntou o director a Rybine.

 

- Somos todos da mesma opinião - respondeu este.

 

- E você, amigo? - perguntou o director dirigindo-se a Sizov.

 

- Eu também lhe peço que nos deixe o nosso kopek. Baixando de novo a cabeça, Sizov fez um sorriso de atrapalhação.

 

O director percorreu a multidão lentamente com o olhar, e encolheu os ombros. Em seguida, olhou Pavel com olhar penetrante, e disse-lhe:

 

- Você parece um homem instruído. Não compreende a utilidade da medida que tomei?

 

- Se a fábrica secar o pântano à sua própria custa estaremos todos de acordo.

 

- A fábrica não faz filantropia - disse secamente o director. Em seguida ordenou: - Vão todos trabalhar imediatamente!

 

E começou a descer do monte de ferro, tacteanclo cada passo com a ponta do sapato, e sem olhar para ninguém. Um rumor de descontentamento percorreu a multidão.

 

- O quê? - disse o director, detendo-se.

 

Calaram-se todos. Apenas, do meio dos trabalhadores, se ouviu ao longe uma voz:

 

- Vai tu!

 

- Se dentro de um quarto de hora não estiver cada um no seu posto de trabalho, faço aplicar multas a todos - respondeu o director, fazendo ressoar as palavras como pancadas de um martelo.

 

Retomou o seu caminho através da multidão, mas atrás dele surgiu um murmúrio surdo, e à medida que se afastava o rumor das vozes crescia.

 

- Valeu a pena falar com ele!

 

- É esta a importância que dão aos nossos direitos!... Estamos bem arranjados! Gritavam a Pavel:

 

- Então, advogado, o que é que fazemos agora?

 

- Lá falar, falaste tu muito bem, mas ele esteve cá e não se resolveu coisa alguma.

 

- E agora, Vlassov, o que é que havemos de fazer?

 

Os apelos tornavam-se mais insistentes. Pavel declarou:

 

- Camaradas, proponho que abandonemos o trabalho até que desistam de nos descontar o kopek.

 

A excitação subiu então de tom:

 

- Tomas-nos por idiotas?

 

- A greve? -;

 

- Por um kopek?

 

- Claro, declaramos a greve!

 

- Punham-nos a todos na rua!

 

- E quem viria fazer o nosso trabalho?

 

- Não faltará quem!

 

- Sim, os judas!

 

Pavel desceu e colocou-se ao lado da mãe. À sua volta o rumor tinha recomeçado. Discutiam uns com os outros, agitados, aos gritos.

 

- Não conseguirás declarar a greve - disse Rybine aproximando-se de Pavel. - O povo quer os seus direitos, mas tem muito medo. Talvez não conseguisses nem trezentos que se pusessem ao teu lado. Não se pode levantar um monte de estrume tão grande com uma forquilha só.

 

Pavel não dizia nada. Olhava o rosto enorme e negro da multidão que se agitava e o olhava, à espera que ele fizesse alguma coisa. Parecia-lhe que as suas palavras se haviam desvanecido sem deixar vestígios naqueles homens, como um ligeiro chuvisco caindo sobre uma terra extenuada por uma longa seca.

 

Voltou para casa triste e cansado. A mãe e Sizov vinham atrás dele. A seu lado caminhava Rybine, e a voz dele zumbia-lhe ao ouvido.

 

- Falas bem, mas não vais direito ao coração, é isso. E é o fundo dos corações que é preciso incendiar. Não conseguirás conquistá-los através da razão. A razão é um sapato demasiado fino, demasiado estreito para os pés desta gente.

 

Sizov dizia a Pelágia:

 

- É tempo de nós, os velhos, irmos para o cemitério. É um novo povo, aquele que agora se levanta. Como é que nós vivíamos? Arrastávamo-nos, de joelhos, saudávamo-los até tocar a terra com o rosto. Mas hoje... eu não sei se os jovens ganharam consciência ou se estão a errar mais ainda do que nós, mas não são os mesmos, isso é fácil de ver. Falam com o director como com um igual, sim... Até à vista, Pavel Mikhailovitch. Fazes bem, rapaz, em tomar a defesa dos teus. Com a ajuda de Deus, pode ser que encontres maneira de resolver tudo isto. Oxalá! E foi-se embora.

 

- Pois então vai lá para o teu cemitério! - resmungou Rybine. - Vocês, nesta altura, já nem são homens, são betume que só serve para tapar frestas. Viste, Pavel, aqueles que gritavam que te nomeassem delegado? Eram os mesmos que diziam que eras um socialista e um desordeiro. Os mesmos.

 

- Acabará por ser despedido da fábrica! - dizem. - Pois que o despeçam, é o que ele merece.

 

- Têm razão, do seu ponto de vista.

 

- Os lobos também têm razão quando se devoram entre si.

 

O rosto de Rybine estava sombrio, e a sua voz tremia de forma desusada.

 

- As pessoas não crêem em palavras nuas. Há que impregná-las de sangue e sofrimento...

 

Durante todo o dia Pavel esteve triste, abatido, cheio de uma estranha inquietude. Os seus olhos brilhantes pareciam procurar alguma coisa. A mãe observava-o e perguntou alarmada:

 

- Que tens, Pavel?

 

- Dói-me a cabeça - disse ele pensativo.

 

- Deita-te. Vou chamar o médico. Ele olhou-a, e apressou-se a responder:

 

- Não, não é preciso. E logo, em voz baixa:

 

- Sou jovem, falta-me segurança, é apenas isso. Não confiaram em mim, não me seguiram, e isso aconteceu porque eu não soube falar-lhes com realismo. É duro... e é humilhante para mim.

 

A mãe olhou o seu rosto sombrio, e para o consolar disse-lhe com doçura:

 

- Tens de aprender a esperar. Não te compreenderam hoje, hão-de compreender-te amanhã.

 

- Deviam ter-me compreendido hoje!

 

- Claro, já se sabe, se até eu fui capaz de entender a tua verdade!

 

Pavel aproximou-se dela:

 

- Mas a mãe é uma mulher maravilhosa!

 

E voltou-se. Ela estremeceu como se estas palavras a tivessem queimado, levou a mão ao coração e afastou-se levando consigo, como algo precioso, as palavras meigas do seu filho.

 

Nessa noite, quando ela já dormia e Pavel, deitado, lia, voltaram os polícias. Começaram de novo a sua busca, furiosamente, por toda a parte, no pátio, no sótão. O oficial de cara amarelada comportou-se como da primeira vez. Desagradável, trocista, comprazendo-se em escarnecer e tentando feri-los no coração. A mãe mantinha-se silenciosa, sentada num canto, sem desviar os olhos do filho. Este tentava dominar o seu nervosismo, mas o riso do oficial fazia-o contrair os dedos de uma forma estranha, e ela compreendia que lhe era difícil conter-se, não responder, que lhe era penoso suportar aquela humilhação. Pelágia estava menos assustada do que da primeira vez. Sentia um imenso ódio contra estes homens vestidos de cinzento e com esporas nas botas, e este ódio absorvia o seu medo.

 

Pavel conseguiu segredar-lhe:

 

- Vão levar-me...

 

Ela, baixando a cabeça, respondeu muito baixo:

 

- Compreendo...

 

Compreendia, sim. Iam levá-lo para a prisão porque naquele dia tinha falado aos operários. Mas todos concordavam com aquilo que ele havia dito, e tomariam a sua defesa. Não demorariam a soltá-lo.

 

Teria querido estreitá-lo nos braços e chorar, mas a seu lado o oficial olhava-a com atenção. Os seus lábios estremeciam, o seu bigode agitava-se. Pelágia sentiu que aquele homem esperava lágrimas, lamentos, súplicas. Reunindo todas as suas forças, esforçando-se por não dizer uma palavra, segurou a mão do filho. Depois, retendo a respiração, murmurou lentamente e em voz muito baixa:

 

- Até breve, Pavel... Tens tudo o que necessitas? - Sim, não te preocupes.

 

- Deus te acompanhe.

 

Quando o levaram, ela sentou-se num banco, fechou os olhos e soluçou mansamente. Com as costas encostadas à parede, como noutro tempo fazia o seu marido, contraída pela angústia e pela humilhante consciência da sua impotência, com a cabeça baixa-, por longo tempo soluçou, vertendo no seu gemido monocórdico toda a dor do seu coração ferido. Na sua frente, como uma mancha imóvel, via o rosto macilento de bigodes ralos e olhos franzidos que expressavam satisfação. Sentia como se tivesse uma bola negra a apertar-lhe o peito, sentia uma cólera exasperada contra aquelas pessoas que tiravam um filho a uma mãe apenas porque procurava a verdade.

 

Estava frio. A chuva batia com força nos vidros das janelas. Parecia-lhe ver, na noite, silhuetas cinzentas de braços compridos e rostos largos, vermelhos, sem olhos, que rondavam a casa, fazendo tilintar levemente as esporas.

 

"Se ao menos me tivessem levado também a mim...", pensava.

 

A sirene tocou imperiosamente chamando ao trabalho. O seu uivo era surdo, inseguro. A porta abriu-se perante Rybine. Enxugando com a mão as gotas de chuva da barba, perguntou:

 

- Levaram-no?

 

- Sim, malditos!

 

- É assim - disse Rybine com um sorriso irónico. - Em minha casa remexeram tudo, gritaram, procuraram por todo o lado, mas não acharam nada. De qualquer forma ofenderam-me. Quer dizer então que levaram Pavel! O director aponta, o polícia concorda, põem-se de acordo, e lá se vai mais um homem. Eles lá se entendem. Enquanto um vai explorando o povo o outro fá-lo calar com pancada.

 

- Vocês têm de fazer qualquer coisa pelo Pavel - disse a mãe erguendo-se. - Ele, aquilo que fez, fê-lo por vocês.

 

- E quem é que deve fazer alguma coisa por ele?

 

- Todos!

 

- Que ideia a sua! Nem pense nisso.

 

E foi-se embora com os seus passos pesados. As suas palavras, duras e despidas de esperança, aumentaram a angústia da mãe.

 

- E se lhe batem? Se o torturam?

 

Imaginou o corpo do seu filho desfeito com pancada, ferido, ensanguentado, e o terror veio pousar sobre o seu peito como uma laje fria, esmagando-o. Doíam-lhe os olhos. Não acendeu o lume, não preparou nada para comer, nem sequer o seu chá. Só à noite comeu um pedaço de pão. Quando se foi deitar pensou que nunca, em toda a sua vida, se havia sentido tão só. tão indefesa. Ao longo dos últimos anos tinha-se habituado a viver na esperança de alguma coisa importante que estaria para acontecer. À sua volta os jovens agitavam-se, barulhentos, cheios de entusiasmo, e perante os seus olhos tinha sempre o rosto sério do filho, o criador dessa vida inquieta, mas boa. Agora ele não estava, nada mais lhe restava.

 

O dia passou-se lentamente, seguiu-se-lhe uma noite de insónia, e outro dia ainda mais longo. Ela esperava que alguém viesse, mas isso não aconteceu. Caiu a tarde, veio a noite. Uma chuva glacial suspirava e retumbava ao longo das paredes, o vento soprava na chaminé. Alguma coisa se agitava no chão. A água gotejava do telhado, e a sua canção melancólica acompanhava estranhamente o tiquetaque do relógio. Parecia que a casa inteira vacilava, indiferente a tudo, mergulhada em angústia.

 

Bateram no vidro. Uma vez, duas...

 

Estava habituada a este sinal, que já não a assustava, mas desta vez teve um sobressalto de prazer. Um vago sentimento de esperança fê-la saltar da cama. Pôs um xaile pelos ombros e foi abrir a porta.

 

Entrou Samoilov, seguido de uma personagem com o rosto oculto pela gola levantada do casaco, e um gorro enterrado até aos olhos.

 

- Acordámo-la? - perguntou Samoilov, sem a cumprimentar. Ao contrário do que era seu hábito, tinha um ar sombrio e preocupado.

 

- Não estava a dormir - disse ela e, silenciosa, cravou nos visitantes uns olhos cheios de ansiedade.

 

O companheiro de Samoilov, com um pesado suspiro, rouco, tirou o gorro, estendeu à mãe uma larga mão de dedos curtos e disse-lhe cordialmente, como a uma velha amiga:

 

- Boa noite, mãezinha, não me reconhece?

 

- Você? - gritou Pelágia com uma súbita explosão de alegria. - Igor Ivanovitch!

 

- Em carne e osso - disse ele, inclinando a sua cabeça grande com os cabelos compridos como os de um pope.

 

Um sorriso franco iluminava-lhe o rosto redondo. Os seus pequenos olhos cinzentos envolviam a mãe com um olhar afectuoso e claro. Fazia lembrar um samovar, com o seu pescoço largo e os seus braços curtos. O seu rosto reluzia, ele respirava ruidosamente e qualquer coisa rouquejava no seu peito.

 

- Entrem, eu vou já vestir-me - disse a mãe.

 

- Precisamos de falar consigo - Samoilov parecia preocupado e olhava-a de soslaio.

 

Igor Ivanovitch entrou no quarto e disse:

 

- Esta manhã, Nikolai Ivanovitch, que a senhora conhece, saiu da prisão.

 

- Esteve preso?

 

- Dois meses e onze dias. Esteve com o Ucraniano e com Pavel, que lhe mandam saudades. O seu filho pede-lhe que não se inquiete, e que compreenda que, no caminho que escolheu, as nossas benévolas autoridades, às vezes, mandam-nos passar uns tempos de repouso na prisão. Agora, vamos ao que importa. Sabe quantas pessoas prenderam eles ontem?

 

- Não, há outros, para além de Pavel?

 

- Contando com ele, foram quarenta e nove - interrompeu tranquilamente Igor. E calculamos que acabarão por prender ainda mais uma dúzia. Este amigo aqui, por exemplo.

 

- Sim, a mim também - disse Samoilov com um ar sombrio.

 

Pelágia sentiu que respirava melhor. "Não está sói", pensou ela nura relâmpago. Quando acabou de se vestir, entrou no quarto e dirigiu às suas visitas um sorriso corajoso.

 

- Certamente não os terão presos muito tempo, se são tantos...

 

- É isso - disse Igor Ivanovitch. - E se conseguirmos confundi-los um pouco será ainda melhor. Trata-se do seguinte: Se deixamos neste momento de distribuir os nossos folhetos na fábrica, os malditos polícias tirarão do facto lamentáveis conclusões, e não deixarão de as utilizar contra Pavel e contra os seus camaradas na prisão.

 

- Como? - perguntou a mãe sobressaltada.

 

- É muito simples - disse Igor com suavidade. - Os polícias, às vezes, também são capazes de raciocinar. Pense: quando Pavel está presente, há folhetos e letreiros; quando Pavel não está presente, não há folhetos nem letreiros. O que significa isso? Que era Pavel quem os distribuía, não é? Então os polícias começarão a actuar. Eles gostam muito de ferrar os dentes numa pessoa até a reduzir a pó.

 

- Compreendo, compreendo, meu Deus, que podemos nós fazer?

 

Samoilov elevou o tom da voz.

 

- Os grandes porcos prenderam-nos a todos, ou quase, mas nós precisamos de continuar o nosso trabalho como antes, não só pela causa mas também para salvar os companheiros.

 

- Mas não temos ninguém que faça o trabalho - acrescentou Igor com um sorriso. - Temos óptima literatura, eu próprio a escrevi. O problema é como introduzi-la na fábrica.

 

- Agora revistam toda a gente à entrada - disse Samoilov.

 

A mãe compreendeu que alguma coisa era esperada dela, e apressou-se a perguntar:

 

- Então, o que é que eu tenho de fazer, e como? Samoilov deteve-se à porta, e perguntou:

 

- Pelágia Nilovna, conhece a vendedeira Maria Korsunova?

 

- Sim, e então?

 

- Fale com ela, ela pode passar a propaganda. A mãe fez com a mão um gesto negativo.

 

- Oh, não! É uma tagarela! Saber-se-ia que fui eu... que isto vem de minha casa, não, não...

 

Em seguida, iluminada por uma súbita ideia, disse baixo:

 

- Dêem-mos a mim. A mim! Eu cá me hei-de arranjar, encontrarei uma maneira... Pedirei à Korsunova que me tome como ajudante, porque preciso de trabalhar para comer. Olhem, irei também levar comida aos operários. Cá me hei-de arranjar.

 

Com as mãos sobre o peito apressou-se a prometer que faria tudo bem, sem se fazer notar, e concluiu triunfante:

 

- Eles verão que, embora Pavel não esteja com eles, a sua mão consegue, da prisão, chegar até eles. Eles vão ver!

 

Sentiram-se os três mais animados. Igor sorria e esfregava as mãos vigorosamente.

 

- Maravilhoso, mãe! Se soubesse o que isto significa... É simplesmente formidável!

 

- Se isto resultar, sentir-me-ei na prisão tão bem como se estivesse confortavelmente numa poltrona - disse Samoilov.

 

- É maravilhosa, mãezinha! - acrescentou Igor com a sua voz rouca.

 

A mãe sorriu. Tinha compreendido. Se as folhas continuassem a aparecer na fábrica, a direcção seria forçada a admitir que não era o seu filho quem as levava. Achando-se capaz de cumprir a tarefa, sentia-se estremecer de alegria.

 

- Quando for para junto de Pavel - disse Igor a Samoilov -, tem de lhe dizer que tem uma mãe extraordinária.

 

- Vê-lo-ei em breve - prometeu Samoilov esboçando um sorriso.

 

- Diga-lhe que farei o que for preciso. Quero que ele saiba disso.

 

- E se não o prenderem? - disse Igor, apontando para Samoilov.

 

- O que é que se há-de fazer? Paciência!

 

Os dois homens começaram a rir. Ela compreendeu a sua tolice, e riu-se também com uma gargalhada contida e embaraçada, um pouco maliciosa.

 

- Uma pessoa já tem os seus problemas, como é que vai pensar nos dos outros? - disse baixando a voz.

 

- É natural - exclamou Igor. - E voltando a Pavel, a senhora não se inquiete, nem esteja triste. Vai sair da prisão melhor do que estava quando para lá entrou. Lá uma pessoa pode descansar, ler... Quando uma pessoa está em liberdade não tem tempo para essas coisas. Eu, por exemplo, estive preso três vezes, e não me foi muito agradável, claro, mas para o coração e para o espírito foi-me muito útil.

 

- Você respira com dificuldade - disse ela olhando com simpatia aquele rosto ingénuo.

 

- Há razões para isso - explicou ele, levantando um dedo no ar. - Portanto, màezinha, estamos entendidos? Amanhã trazemos-lhe o material, e a máquina que vai aniquilar as trevas de há tantos séculos poderá de novo pôr-se em movimento. Viva a liberdade de palavra e o coração das mães! Entretanto, até à vista!

 

- Até à vista - disse Samoilov, apertando-lhe com força a mão. - Eu não tenho a mesma sorte, não posso contar à minha mãe uma palavra sequer de tudo isto.

 

- Um dia, todos compreenderão - disse Pelágia para o consolar.

 

Quando saíram, fechou a porta, ajoelhou-se no meio do quarto e começou a rezar, enquanto lá fora a chuva caía. Rezava sem palavras, unindo num só pensamento todos aqueles que, através de Pavel, tinham entrado na sua vida. Via-os passar entre ela e as santas imagens dos ícones, e eram todos tão simples, tão estranhamente próximos uns dos outros, e tão sós!

 

No dia seguinte, muito cedo, foi visitar Maria Korsunova. A vendedeira, sempre suja de gordura, e sempre barulhenta, acolheu-a com simpatia.

 

- Estás preocupada? - perguntou dando com a sua mão engordurada uma pancadinha no ombro de Pelágia. - Não te inquietes. Levaram-no... ora, não há mal nenhum nisso. Antigamente prendiam as pessoas quando roubavam, agora prendem-nas quando dizem a verdade. Talvez Pavel tenha dito alguma coisa que não devia, mas foi em defesa de todos, e todos compreendem isso, não te preocupes. Nem todos se atrevem a falar nisso, mas as pessoas honradas sabem-no muito bem. Queria ter ido a tua casa, mas sabes como é, não tenho tempo. Trabalho, faço o meu negócio, e hei-de morrer tão pobre como sempre fui. Os homens a quem dou o meu amor comem-me tudo. Devoram como baratas em migalhas de pão. Mal consigo juntar dez rublos, vem um qualquer desses hereges e num minuto mós suga. É uma desgraça ser mulher. Que nojo de vida! Viver sozinha já é duro... a dois é pior ainda.

 

- Vim pedir-te que me tomes como ajudante - disse Pelágia, interrompendo aquela catadupa de palavras.

 

- Como? - perguntou Maria. Em seguida, quando a sua amiga acabou de falar, baixou a cabeça em sinal de assentimento.

 

- Está bem, pode ser. Lembras-te de todas as vezes que me protegeste do meu marido? Pois bem, agora serei eu a proteger-te, a ti, da necessidade. Deviam ajudar-te todos, porque o teu filho está a sofrer por uma causa que diz respeito a todos. É um bom rapaz, todos são dessa opinião e se compadecem da sua sorte. Eu não creio que estas prisões vão trazer nada de bom à fábrica, não vês o que se está a passar? Há muito descontentamento, minha amiga. Os da direcção dizem: "mordemos o homem no calcanhar, não poderá caminhar muito mais." Mas o resultado é que, por cada dez que conseguiram calar, há centenas que estão encolerizados.

 

As duas mulheres puseram-se de acordo. No dia seguinte, à hora do almoço, Pelágia estava na fábrica com dois tachos de comida feita por Maria, enquanto esta, por sua vez, foi vender para o mercado.

 

Os operários imediatamente se aperceberam da presença da nova vendedeira de comida. Alguns aproximavam-se dela para a animar:

 

- Arranjaste trabalho, Pelágia Nilovna?

 

E consolavam-na, dizendo-lhe que Pavel em breve seria libertado. Outros dirigiam-se-lhe num tom pesaroso que alarmava o seu coração ferido. Outros ainda não poupavam as críticas à direcção e à polícia, e esta cólera encontrava na mãe um profundo eco. Também não faltavam aqueles que a olhavam com uma satisfação maldosa. O anotador Isaías Gorbov chegou mesmo a dizer-lhe entre dentes:

 

- Se eu fosse Governador, fazia enforcar o teu filho. Para ele aprender a não andar a desencaminhar o povo.

 

Esta ameaça odiosa deixou-a completamente gelada. Não respondeu a Isaías, limitou-se a olhar o seu rosto magro e coberto de sardas, suspirou e baixou os olhos.

 

O ambiente na fábrica era de agitação. Os operários reuniam-se em pequenos grupos, discutiam entre si a meia-voz, os capatazes, preocupados, rondavam por todo o lado, e a cada momento havia quem praguejasse e soltasse palavrões irritados.

 

Pelágia viu passar junto dela Samoilov no meio de dois polícias. Levava uma mão no bolso e passava a outra pelos cabelos loiros acobreados. Acompanhava-o talvez uma centena de operários, que troçavam dos polícias com dichotes e insultos.

 

- Vais dar um passeio, Gricha? - gritou alguém.

 

- Que honra para os operários! - disse outro. - Já têm direito a escolta...

 

E praguejou violentamente.

 

- Está-se mesmo a ver que dá menos lucro prender os ladrões - gritou encolerizado um operário alto e estrábico. Agora prendem as pessoas honradas.

 

- Se ao menos fosse de noite! Mas não têm vergonha, mesmo em pleno dia, os sacanas!...

 

Os polícias caminhavam rapidamente e de cara fechada. Esforçavam-se por não ver nada e pareciam não ouvir as exclamações dos que os rodeavam. Três operários avançaram para eles, segurando uma grossa barra de ferro, com a qual os ameaçavam, gritando:

 

- Vocês gostam de pescar, mas tenham cuidado!

 

Ao passar por Pelágia Vlassova, Samoilov sorriu-lhe, fez-lhe um sinal com a cabeça e disse:

 

- Prenderam-me!

 

Silenciosa, Pelágia respondeu com uma saudação amiga, comovida com o espectáculo daqueles jovens valorosos e sóbrios que iam para a prisão com um sorriso nos lábios. Começava a sentir por eles um compassivo amor de mãe. No regresso da fábrica, passou toda a tarde em casa de Maria, ajudando-a no trabalho e ouvindo a sua tagarelice. Era já de noite quando voltou à sua casa, que estava vazia, fria e desconfortável. Largo tempo caminhou para cá e para lá, incapaz de se sentar, sem saber o que fazer. Estava inquieta por ver chegar a noite sem que Igor aparecesse com os folhetos, como lhe tinha prometido.

 

Por detrás da janela caíam os pesados flocos cinzentos da neve de Outono. Pegavam-se aos vidros, deslizavam e derretiam, deixando um rasto de humidade. Pensava em Pavel.

 

Bateram à porta de mansinho. Pelágia correu a abrir o ferrolho, e Sachenka entrou. Fazia tempo que a mãe a não via, e a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que lhe pareceu que ela tinha engordado de uma forma desmedida.

 

-Boas noites - disse, feliz por ter companhia e não ir passar sozinha aquele bocado do serão. - Há muito que não nos víamos. Esteve de viagem?

 

- Não, estive na prisão - disse a jovem, sorrindo - com Nikolai Ivanovitch, lembra-se dele?

 

- Como poderia esquecê-lo? - exclamou a mãe. - Igor disse-me ontem que o tinham libertado, mas a seu respeito não me disse nada... Ninguém me disse que estava...

 

- Ora, falar nisso para quê? Vou mudar de roupa enquanto esperamos por Igor - disse a rapariga, olhando à sua volta.

 

- Está encharcada...

 

- Trouxe as folhas e os folhetos.

 

- Dê-mos! - Disse a mãe com entusiasmo.

 

A jovem desabotoou rapidamente o casaco, sacudiu-se, e do seu corpo, como se fossem folhas de árvore, desprenderam-se maços de papéis. A mãe recolheu-os rindo.

 

- Disse a mim própria ao vê-la tão gorda: "Deve ter casado, estará grávida, certamente." Que quantidade trouxe! E veio a pé?

 

- Sim - disse Sachenka, que estava esbelta e elegante como dantes.

 

A mãe observou o seu rosto cavado. Os olhos, rodeados de olheiras fundas, pareciam imensos.

 

- Acabam de pô-la em liberdade... devia descansar - disse a mãe com um movimento da cabeça. - E em vez disso...

 

- Tinha de ser feito... Diga-me, como está Pavel Mikhailovitch? Não está muito deprimido?

 

Falava sem olhar Pelágia. Inclinando a cabeça, ajeitava os cabelos com as suas mãos trémulas.

 

- Não, ele aguenta bem.

 

- Ele não tem problemas de saúde, pois não? - perguntou a rapariga muito baixo.

 

- Nunca esteve doente. Mas como você treme! Vou preparar-lhe um chá com compota de framboesa.

 

- Isso seria óptimo! Mas... porque há-de ter esse trabalho? É tarde, dê-me o necessário, e eu própria o farei.

 

- Cansada como está? - replicou a mãe em tom de censura, e começou a preparar o samovar. Sachenka seguiu-a até à cozinha, sentou-se no banco com as mãos atrás da nuca, e disse:

 

- De qualquer forma, a prisão é esgotante. Maldita inacção! Não há nada mais penoso. Sabendo tudo o que há para fazer, estar ali, enjaulada, como uma fera...

 

- Quem irá recompensar-vos por tudo isso?

 

E suspirando, a mãe respondeu à sua própria pergunta:

 

- Ninguém senão o bom Deus. A Sachenka com certeza também não é crente?

 

- Não - disse a jovem secamente, abanando a cabeça.

 

- Pois olhe, eu acho que não está a dizer a verdade declarou a mãe com uma súbita animação.

 

Limpou as mãos ao avental, que estavam sujas de carvão, e continuou com ardente convicção:

 

- Você não conhece a sua própria fé. Como é possível viver uma vida como a sua sem crer em Deus?

 

Arrastaram-se na entrada passos ruidosos, e ouviu-se uma voz. A mãe foi tomada por um estremecimento. A jovem ergueu-se rapidamente e segredou:

 

- Não abra! Se for a polícia, diga que não me conhece. Enganei-me na casa, entrei aqui por acaso, desmaiei, a senhora desapertou-me o vestido e encontrou os folhetos, compreende?

 

- Minha querida filha! Mas para quê? - perguntou a mãe enternecida.

 

- Espere! - Sachenka estava à escuta. - Parece-me que é o Igor.

 

Era ele, encharcado, morto de cansaço.

 

- Ah! Ah! Um bom samovar é a melhor coisa que existe no mundo, mãezinha! Já chegaste, Sachenka?

 

Enchendo a estreita cozinha com a sua voz rouca, ia tirando lentamente o casacão, sem parar de falar.

 

- Sabe, mãezinha, temos aqui uma jovem que se conseguiu tornar num grande incómodo para as autoridades! Como um guarda da prisão a insultou, declarou que se deixaria morrer de fome se não lhe fossem apresentadas desculpas, e durante oito dias não comeu. Esteve perto de não sair de lá com vida. Que tal, hem? E da minha barriguinha, o que é que vocês me dizem?

 

Conversando, e com os seus curtos braços segurando o ventre que pendia, pesado, entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.

 

- É possível que tenha passado oito dias sem comer? perguntou a mãe assombrada.

 

- Eles tinham de me pedir desculpa - respondeu a rapariga, sacudindo os ombros energicamente.

 

A sua calma e a sua austera obstinação suscitaram na alma da mãe um vago sentimento de censura.

 

"Eles são assim...-, pensou ela, e perguntou novamente:

 

- E se tivesse morrido?

 

- Paciência! - respondeu Sachenka em voz baixa. - De qualquer forma ele pediu-me desculpa. Não se deve perdoar uma ofensa.

 

- Sim... sim... mas a nós, mulheres, a vida não pára de nos ofender.

 

- Descarreguei a minha encomenda - disse Igor abrindo a porta. - O samovar está pronto? Dêem-me licença, eu vou buscá-lo.

 

Trouxe o samovar, e acrescentou:

 

- O meu digno pai não bebia menos de vinte copos de chá por dia, e por isso viveu neste triste mundo setenta e três anos, tranquilo e sem doenças. Pesava oito pudes, e era sacristão na aldeia de Voskressenski...

 

- Você é filho do tio Ivan? - gritou Pelágia.

 

- Sim, mas como sabe?

 

- Porque eu também sou de Voskressenski.

 

- Da minha terra? De que família?

 

- Dos seus vizinhos. Os Sereguine.

 

- A filha do Nil coxo? Conheci-o bem, algumas vezes me puxou as orelhas.

 

Estavam um na frente do outro, e riam, sob o que parecia ser um fogo cruzado de perguntas e respostas. Sachenka ia preparando o chá, e olhava-os sorrindo. O tilintar dos copos chamou a mãe à realidade.

 

- Oh, perdão, não paro de falar, mas é tão agradável encontrarmos alguém da nossa terra!

 

- Sou eu que devo pedir-lhe perdão pela sem-cerimónia, mas já são onze horas, e tenho muito caminho pela frente.

 

- Onde vai? À cidade? - admirou-se a mãe.

 

- Sim.

 

- Como? É tão tarde, está a chover, e você está exausta. Fique a dormir aqui em casa. Igor dormirá na cozinha, e nós as duas aqui.

 

- Não, tenho de ir-me embora - disse a rapariga com simplicidade.

 

- Sim, patrícia, esta jovem tem de se ir embora. Há aqui pessoas que a conhecem, e seria grave se amanhã fosse vista por estes lados - declarou Igor.

 

- Então e ela... vai sozinha?

 

- Sim - disse Igor, esboçando um sorriso.

 

A rapariga serviu-se de um copo de chá, pegou num pedaço de pão de centeio, e começou a comer, olhando pensativamente para a mãe.

 

- Como é que pode? E Natacha fazia o mesmo. Eu não iria, teria medo...

 

- Ela também tem medo - não é verdade, Sachenka?

 

- Claro!

 

A mãe olhou sucessivamente para um e para outro, e murmurou:

 

- Como vocês são duros!

 

Quando acabou de beber o seu chá, Sachenka apertou em silêncio a mão de Igor e, seguida pela mãe, dirigiu-se para a cozinha.

 

- Se estiver com Pavel, dê-lhe saudades minhas, peço-lhe. Tinha já a mão no fecho da porta quando se voltou bruscamente e perguntou a meia-voz:

 

- Posso abraçá-la?

 

Sem responder, a mãe abraçou-a e beijou-a calorosamente.

 

- Obrigada! - disse a jovem, e saiu, despedindo-se com um movimento da cabeça.

 

De novo no quarto, a mãe lançou um olhar angustiado pela janela. Das trevas, flocos de neve semifundidos caíam lentos e pesados.

 

- Lembra-se dos Prozorov? - perguntou Igor. Tinha-se sentado com as pernas muito abertas, bebendo

 

ruidosamente o seu chá. O seu rosto estava corado, coberto de suor e de satisfação.

 

- Sim, lembro-me - disse ela absorta, aproximando-se dele com o seu andar oblíquo. Sentou-se, deitou a Igor um olhar triste, e disse em tom compadecido:

 

- Ai, em que estado irá Sachenka chegar a casa?

 

- Muito cansada! A prisão não lhe fez bem algum. Dantes era uma rapariga forte, mas não foi habituada à nossa vida dura. Desconfio mesmo que já tem qualquer coisa nos pulmões...

 

- De que família vem? - perguntou a mãe muito baixo.

 

- É filha de um latifundiário. O pai é um crápula, como ela própria diz. Sabe, mãezinha, que eles estão a pensar em casar?

 

- Quem?

 

- Ela e Pavel. Mas não conseguem. Quando ele está em liberdade, está ela presa, ou o contrário.

 

- Não sabia! - disse a mãe após uma pausa. - Pavel nunca fala de si próprio.

 

Sentiu mais pena ainda da rapariga, e com um olhar de antipatia involuntária contra o seu hóspede, acrescentou:

 

- Você devia tê-la acompanhado.

 

- Impossível - respondeu ele tranquilamente. - Tenho muitas coisas para fazer aqui, e vou ter de andar, andar o dia todo... O que não é nada bom para a minha asma.

 

- É uma boa rapariga - disse a mãe num tom indefinido.

 

Pensava no que Igor lhe tinha dito, e sentia-se ofendida por ter sido um estranho, e não o seu próprio filho, a dar-lhe a notícia. Apertou os lábios e franziu as sobrancelhas.

 

- Muito boa! - Igor inclinou a cabeça. - Mas vejo que lhe faz pena. Porquê? Se for a compadecer-se de todos os revolucionários, não haverá piedade que lhe chegue! A vida é dura para todos, essa é a verdade. Olhe, um dos meus camaradas regressou há pouco do desterro. Quando chegou a Nijni-Novgorod, a mulher e o filho esperavam-no em Smolensk, e quando chegou a Smolensk já eles estavam presos em Moscovo. Agora é a mulher dele que está na Sibéria. Eu também tive. mulher, uma esposa excelente, mas cinco anos desta vida atiraram com ela... para o cemitério.

 

Bebeu de um trago o seu copo de chá, e continuou a falar. Enumerou os anos, os meses de prisão e de desterro, contou desgraças várias, a pancada que apanhara nas prisões, a fome que sofrera na Sibéria. A mãe olhava para ele e escutava-o, admirando-se da tranquila simplicidade com que descrevia aquela vida cheia de sofrimentos, perseguições, humilhações...

 

- Mas vamos ao nosso assunto.

 

A sua voz modificou-se, o seu semblante tornou-se mais grave. Perguntou-lhe primeiro como pensava introduzir os folhetos na fábrica, e Pelágia estava assombrada com os conhecimentos precisos e detalhados que ele possuía.

 

Quando terminaram, voltaram a evocar a sua aldeia natal. Enquanto Igor ia gracejando, Pelágia viajava no tempo. Os anos pareciam-lhe estranhamente semelhantes a um pântano coberto de pequenos montes de turfa, todos iguais, plantado com arbustos semelhantes a estremecimentos de medo, com pequenos abetos e bétulas brancas perdidas por entre os outeiros. As bétulas cresciam lentamente, permaneciam cinco ou seis anos naquele terreno movediço e pútrido, e depois caíam, para por sua vez apodrecerem também. A mãe imaginou este quadro, tomada de uma dolorosa piedade. Na sua frente, via um vulto de rapariga, de rosto duro e obstinado. Caminhava sob os flocos de neve, sozinha, cansada. E o seu filho estava na prisão! Talvez não estivesse ainda a dormir, talvez estivesse meditando. Mas não estaria pensando nela. Havia agora outra mulher que lhe estava mais próxima ainda. Como nuvens de reflexos multicoloridos e de formas instáveis, pensamentos sombrios assediavam-na e oprimiam terrivelmente o seu coração.

 

- Está cansada, mãezinha. Vámo-nos deitar - disse Igor com um sorriso.

 

Ela deu-lhe as boas noites e, andando de lado, silenciosa, entrou na cozinha levando no coração aquela dolorosa amargura.

 

De manhã, enquanto tomavam o chá, Igor perguntou-lhe:

 

- E se a apanham, e lhe perguntam onde arranjou esses folhetos proibidos, o que é que lhes vai dizer?

 

- Digo-lhes que não é da conta deles.

 

- Sim, mas eles não pensam assim - replicou Igor. - Estão plenamente convencidos de que o assunto é da conta deles, sim. E vão interrogá-la com insistência, e durante muito tempo.

 

- Mas eu não digo.

 

- Eles levam-na presa.

 

- Ah, sim? Graças a Deus que pelo menos ainda sirvo para alguma coisa - disse ela com um suspiro. - Quem é que ainda precisa de mim? Ninguém! Além disso, dizem que não torturam...

 

- Hummm! - clisse Igor depois de a olhar atentamente. Torturar, não... Mas uma mulher de valor como a senhora deve ter cuidado.

 

- Não é você a pessoa mais indicada para me vir dar lições - disse a mãe com um sorriso amargo.

 

Por um instante Igor guardou silêncio. Deu depois alguns passos pelo quarto e aproximou-se dela.

 

- É duro, patrícia! Sei até que ponto é duro para si!

 

- É duro para todos - respondeu ela fazendo um gesto com a mão. - Talvez seja mais fácil para os que compreendem... mas, aos poucos, também eu vou compreendendo o que querem as pessoas de bem...

 

- Se compreende isso, mãezinha, todos nós precisamos de si - disse Igor numa voz grave.

 

Ela olhou-o e sorriu silenciosa.

 

Ao meio-dia, tranquila e prática, cobriu o peito de folhetos, com tal habilidade que Igor deu um estalo com a língua, satisfeito, e disse:

 

- Sehr gut!, como diz todo o bom alemão depois de beber uma caneca de cerveja. Os folhetos não se vêem, mãezinha, continua a ser uma excelente mulher de meia-idade, alta e forte. Que todos os deuses a abençoem nesta empresa!

 

Meia hora mais tarde, curvada sob o peso da sua carga, serena, calma, chegou à porta da fábrica. Dois guardas, irritados com as troças dos operários, apalpavam sem delicadezas todos aqueles que entravam no pátio, dirigindo-lhes insultos. Junto deles estavam um polícia e um indivíduo de pernas bambas, corado e de olhar fugidio.

 

Mudando o tabuleiro de um ombro para o outro, a mãe seguia-lhe os movimentos pelo canto do olho. Era um bufo.

 

Um rapaz alto, de cabelos encaracolados e o chapéu atirado para a nuca, dizia aos guardas que o revistavam:

 

- Vocês têm de procurar é nas cabeças, não é nos bolsos! Um dos guardas respondeu:

 

- Na cabeça não há nada para além de piolhos.

 

- Então catem-nos, é tudo o que vocês sabem fazer! O bufo envolveu-o num olhar rápido, e cuspiu.

 

- Querem deixar-me passar? - pediu a mãe. - Não vêem como venho carregada? Tenho as costas partidas!

 

- Anda, anda - gritou-lhe, furioso, o guarda. - Não fales tanto.

 

Chegada ao seu lugar, a mãe pousou os sacos no chão e deitou uma olhada em redor, enxugando o suor do rosto.

 

Imediatamente os serralheiros, os irmãos Goussev, se aproximaram dela, e Vassili, o rnais velho, perguntou alto, franzindo as sobrancelhas:

 

- Trazes pastéis?

 

- Amanhã trago - respondeu ela.

 

Era uma contra-senha. Os rostos dos dois homens iluminaram-se. Não podendo conter-se, o mais novo disse:

 

- Ah, mãezinhha, és uma boa mulher!

 

Vassili pôs-se de cócoras, olhou para dentro de um dos sacos, enquanto um maço de folhetos ia deslizando para debaixo do seu casaco.

 

- Ivan - disse em voz alta -, não vamos a casa, comeremos daquilo que traz. - Escondeu rapidamente os folhetos no cano das suas botas. - É preciso ajudar a nova vendedeira.

 

- Claro! - aprovou Ivan, sem poder conter o riso.

 

A mãe olhava atentamente à sua volta, e de quando em quando gritava:

 

- Sopa, macarrão quentinho...

 

E pegando disfarçadamente nos maços de folhetos, fazia-os deslizar até às mãos dos operários amigos. Por cada pacote que entregava, parecia-lhe ver diante dos olhos, como uma mancha amarela, semelhante à chama de um fósforo num quarto escuro, o rosto do oficial da polícia. Então, dizia mentalmente para si própria, cheia de uma perversa alegria:

 

- Toma, é por ti, meu filho!

 

Ao entregar o pacote seguinte, acrescentava satisfeita:

 

- Toma, aí vai outro!

 

À medida que os operários se aproximavam dela com o prato na mão, Ivan Goussev ria-se ruidosamente, e Pelágia, interrompendo a distribuição, servia sopa de couves e macarrão enquanto os Goussev iam dizendo graças:

 

- Tem jeito, a Nilovna!

 

- A necessidade ensina a caçar ratos - disse um fogueiro com ar sombrio. - Levaram-te o teu sustento... Canalhas! Dá-me três kopeks de macarrão. Não te preocupes, mãezinha, as coisas hão-de melhorar.

 

- Obrigada pelas tuas palavras. - E Pelágia sorriu.

 

- Uma boa palavra não custa nada! Pelágia voltou a apregoar:

 

- Sopa quente! Macarrão! Sopa de couves!

 

E pensava que teria, depois, de contar ao filho aquele episódio. O rosto amarelo do oficial, estúpido e malvado, estava permanentemente perante os seus olhos. Os seus bigodes negros agitavam-se, denunciando a sua irritação, e sob o lábio superior, contraído e colérico, brilhava o marfim dos seus dentes cerrados. A alegria cantava como um pássaro no coração da mãe, os seus olhos piscavam de malícia, e enquanto distribuía habilmente a sua mercadoria, dizia para consigo mesma:

 

- Toma... mais outro... e outro ainda...

 

Nessa noite, enquanto tomava o seu chá, ouviu pela janela o ruído dos cascos de um cavalo sobre a lama, e em seguida ouviu uma voz familiar. Precipitou-se da cozinha até à porta. Alguém atravessava o pátio a grandes passadas. A vista turvou-se-lhe e, encostando-se à ombreira, empurrou a porta com o pé.

 

- Boas noites, mãezinha! - disse uma voz que ela bem conhecia, enquanto umas mãos secas e largas pousavam nos seus ombros.

 

Sentiu-se dividida entre a amargura da decepção e a alegria de voltar a ver Andrei. Os dois sentimentos brotaram em simultâneo, misturando-se num só, profundo e escaldante, que lhe encheu o coração, a ergueu e a lançou contra o peito de Andrei. Ele estreitou-a num abraço trémulo. A mãe chorava mansamente, sem dizer uma palavra. Andrei acariciou-lhe os cabelos, e disse-lhe suavemente:

 

- Não chore, mãezinha, não esgote o seu coração. Dou-lhe a minha palavra que em breve o soltarão. Não têm nenhuma prova contra ele, e os rapazes têm-se aguentado, mudos como peixes.

 

Com o seu braço em volta dos ombros de Pelágia, Andrei conduziu-a até ao quarto. Agarrada a ele, Pelágia enxugou as lágrimas do rosto, num gesto rápido de esquilo, e todo o seu ser, ávido de ouvir o que Andrei tinha para lhe contar, pareceu ficar suspenso dos seus lábios.

 

- Pavel manda-lhe saudades. Está bem de saúde, e tão feliz quanto possível. Está-se muito apertado na prisão. Entre os que prenderam aqui e os que prenderam na cidade, foram mais de cem, metem aos três e aos quatro em cada cela. Mas dos directores da prisão não temos nada a dizer. Não são maus, andam é muito cansados. Os demónios dos polícias dão-lhes tanto trabalho! Mesmo assim os directores não são muito severos, passam o dia a dizer: "Vamos lá, rapazes, calma, não nos compliquem as coisas." De forma que acaba por se tornar suportável. Conversa-se, trocam-se livros, partilha-se a comida... É uma boa prisão. É muito velha e suja, mas pelo menos há sossego, não nos faz alterar a bílis. Os presos de delito comum também são bons rapazes, e ajudam-nos muito. A mim já me soltaram, e a Bukhine, e a outros quatro. Pavel em breve também irá ser posto em liberdade, estou certo disso. Já Vessovchikov não devem soltá-lo tão depressa. Estão furiosos com ele. Provoca-os constantemente. Os polícias não podem nem vê-lo. Talvez o levem a tribunal, ou então um dia destes dão-lhe uma boa surra. Pavel faz o possível para acalmá-lo: "Deixa-os lá, Nikolai, não é por os insultares que se vão tornar melhores." Mas ele continua a resmungar: "Hei-de rebentar com eles, que nem coelhos.- Pavel está óptimo, firme e sereno com toda a gente. Volto a dizer-lhe que muito em breve o soltarão.

 

- Muito em breve! - disse a mãe, tranquilizada e sorridente. - Sim, em breve, eu sei.

 

- Bem, então se sabe, ainda bem. Dê-me um pouco de chá e conte-me como vão as coisas.

 

Olhava-a sorrindo, próximo dela, e nos seus olhos redondos e cheios de bondade cintilava uma chama afectuosa e triste.

 

- Gosto muito de si, Andrei - disse a mãe com um profundo suspiro, enquanto olhava aquele rosto magro e cómico, semeado de pequenos tufos de pêlos negros.

 

- Se gostar um bocadinho, já fico contente. E eu sei que gosta. A mâezinha é capaz de gostar de toda a gente. Tem um grande coração - disse o Ucraniano, balançando-se na cadeira.

 

- Não, de si gosto de uma maneira especial - insistiu ela.

- Se o Andrei tivesse mãe, as pessoas haviam de a invejar por ter um filho assim.

 

- Eu tenho uma mãe... em algum lugar - disse ele muito baixo.

 

- Sabe o que fiz hoje? - exclamou ela e, vibrando de satisfação, contou-lhe com entusiasmo, adornando um pouco a sua história, como havia conseguido introduzir os folhetos na fábrica.

 

O Ucraniano começou por abrir os olhos de assombro. Em seguida, rebentou numa gargalhada, agitando as pernas, batendo na cabeça com a mão, e gritou cheio de alegria:

 

- Oh, oh...! Mas isso não foi brincadeira nenhuma, foi um trabalho muito bem feito! Como Pavel vai ficar contente! Isso foi muito bom, para Pavel e para todos.

 

Estalava os dedos com entusiasmo, assobiava e balançava-se na cadeira. O seu contentamento despertava nela um eco muito forte.

 

- Meu querido Andrei... - disse ela como se o seu coração se abrisse e dele brotassem, semelhantes aos sons melodiosos de uma nascente, palavras que exprimiam a serena alegria de que transbordava. - Pensei na minha vida... Jesus Cristo! Para que vivi eu? As pancadas... o trabalho... não vivi para outra coisa que não fosse o meu marido, não conheci outra coisa que não fosse o medo. Nem sequer pude dar a atenção que queria ao crescimento de Pavel. Tê-lo-ei amado enquanto o meu marido era vivo? Nem eu própria o sei. Todos os meus cuidados, todos os meus pensamentos, eram para uma só coisa: alimentar aquele animal para que estivesse satisfeito e de barriga cheia, servi-lo a tempo, para que não se encolerizasse e não me batesse... para que me respeitasse, pelo menos algumas vezes. Mas não me lembro que me tenha respeitado nunca. Batia-me... talvez não porque me quisesse bater a mim, mas sim a todos aqueles a quem odiava. Vinte anos vivi desta maneira, e já nem me lembro de como era antes de me casar. Igor Ivanovitch, que é da minha terra, esteve aqui, e conversámos sobre isto e aquilo. Eu lembro-me das casas, das pessoas... mas como se vivia, o que se dizia, os acontecimentos, tudo isso são coisas que já não consigo recordar. Lembro-me dos incêndios, de dois incêndios... Tudo o resto me fugiu, tenho a alma fechada como uma casa em ruínas, cega, surda...

 

A mãe tomou fôlego, inspirou o ar sofregamente, como um peixe fora de água, inclinou-se e continuou, baixando mais o tom de voz:

 

- Quando o meu marido morreu, agarrei-me ao meu filho, mas ele começou a dedicar-se a... estas coisas. Nessa altura não me parecia bem, e sentia pena dele... Como viverei, sozinha, se ele morrer? Passei tantas angústias, tantas inquietações, o meu coração despedaçava-se quando pensava no que poderia acontecer-lhe.

 

Calou-se, movendo um pouco a cabeça, e prosseguiu gravemente:

 

- O amor das mulheres não é um amor puro. Amamos aquilo que temos necessidade de amar. E olhe, quando penso que você sonha com a sua mãe... Que falta lhe faz ela? E os outros todos que sofrem pelo povo, que são mandados para a prisão ou para a Sibéria, que morrem... Essas raparigas que partem sozinhas na noite, por entre a lama e a neve, debaixo de chuva, andando sete verstás para chegarem até aqui, o que é que as move, o que é que as faz andar? O amor! Isso é o amor puro! Crêem, têm fé, Andrei. Mas eu não sei amar assim, amo aquilo que é meu, aquilo que me toca.

 

- É possível - disse o Ucraniano que, sem a olhar, coçou a cabeça e esfregou as faces e os olhos energicamente com as duas mãos, como era seu hábito. - Toda a gente ama aqueles que lhe estão próximos, mas para um grande coração todos estão próximos. A senhora pode amar muito. O seu grande coração de mãe...

 

- Se Deus quiser! - disse ela em voz baixa. - Claro, eu compreendo-o, é bom viver assim. Olhe, talvez eu o ame a si mais do que a Pavel. Ele fecha-se... Sabe, quer casar-se com Sachenka, e não mo disse, a mim, que sou mãe dele...

 

- Não é verdade. Eu sei que não é verdade. Eles amam-se, sim, mas casar, não... Ela queria, mas Pavel não quer.

 

- Como é possível? - disse a mãe pensativa, de novo olhando tristemente para Andrei. - Então é assim? As pessoas renunciam a si próprias...

 

- Pavel é um ser de excepção - murmurou Andrei. - Tem uma vontade de ferro.

 

- E agora está na prisão - continuou Pelágia no mesmo tom. - Tudo isto é medonho, assustador, mas de um modo diferente. A vida já não é o que era, e o medo também não. Eu vivo assustada por todos vocês. Também o meu coração é outro, a minha alma abriu os seus olhos, olha, sente pena mas sente também alegria. Compreendo mal as coisas, mas é para mim tão duro, tão amargo, que vocês não acreditem em Deus... Enfim, é assim, e não há nada a fazer. Mas vocês são bons. E deram-se a uma vida difícil, pelo povo. A uma vida dura, pela verdade. A vossa verdade, eu também a compreendo. Enquanto existirem ricos, o povo não terá nada, nem justiça, nem alegria, nada! Repare, eu vivo no meio de vocês, e as vezes, de noite, recordo a minha vida passada, a minha força espezinhada, o meu jovem coração esmagado... compadeço-me de mim mesma, e é amargo... Mas, de qualquer maneira, a vida é agora melhor para mim, conheço-me melhor...

 

O Ucraniano levantou-se, começou a caminhar de um lado para o outro, alto, magro, esforçando-se por não arrastar os pés...

 

- Disse muito bem, muito bem... Havia em Kertch um judeu muito jovem que fazia versos, e um dia escreveu:

 

- E aos inocentes executados ressuscitá-los-á a força da verdade.

 

Foi morto pela polícia, em Kertch, mas isso não importa. Ele conhecia a verdade, e semeou-a entre os homens. E a senhora é também uma inocente condenada à morte...

 

- Estou para aqui a falar - continuou a mãe. - Falo, oiço-me, mas não creio naquilo que os meus ouvidos ouvem. Em toda a minha vida, não pensei senão numa coisa: ficar de lado, à margem, despercebida, tentando só não ser maltratada. E agora penso no mundo inteiro. Pode ser que eu não compreenda bem todas as coisas de que vocês falam, mas pelo menos agora todos os seres humanos me estão próximos; tenho piedade de todos, afecto por todos. Principalmente por si, Andrei.

 

Ele aproximou-se e disse:

 

- Obrigado!

 

Tomou-lhe uma das mãos entre as suas, estreitou-lha muito, sacudiu-a, e afastou-se rapidamente. Fatigada pela emoção, a mãe lavou a louça devagar. Estava agora silenciosa, e sentia uma coragem que lhe confortava docemente o coração.

 

O Ucraniano disse-lhe:

 

- Olhe, mãezinha, devia ir um dia animar um pouco o Vessovchikov. O pai dele também lá está na prisão. É um velho nojento. Quando Nikolai o vê pela janela dirige-lhe insultos. Isso não está bem. Nikolai é bom, gosta dos cães, dos ratos, de todas as criaturas. Só não gosta das pessoas. Um homem pode chegar a isto!

 

- A mãe dele abandonou-o, o pai é um ladrão e um bêbado... - disse Pelágia pensativa.

 

Quando Andrei se foi deitar, Pelágia deu-lhe a sua bênção sem que ele se apercebesse. Estava deitado talvez há uma meia hora, quando ela lhe perguntou docemente:

 

- Não está a dormir, Andrei?

 

- Não, porquê?

 

- Boa noite!

 

- Obrigado, mãezinha, obrigado - respondeu ele com ternura.

 

No dia seguinte, quando Pelágia chegou à porta da fábrica com o seu carrego, os guardas detiveram-na violentamente, mandaram-lhe que pousasse as panelas no chão e examinaram-na com minúcia.

 

- Vão fazer que a comida arrefeça - disse ela tranquilamente, enquanto, descarados, lhe revistavam as roupas.

 

- Cala-te! - Replicou um guarda com voz áspera.

 

O outro, empurrando-a ligeiramente pelo ombro, exclamou com convicção:

 

- Digo-te que os atiram por cima da cerca.

 

O primeiro que se aproximou dela foi o velho Sizov. Olhou cautelosamente em torno de si, e disse em voz baixa:

 

- Já ouviu o que dizem por aí, mãezinha?

 

- O que é?

 

- Aconteceu que voltaram a aparecer os folhetos. Há-os por todo o lado. Estão espalhados como o sal sobre o pão. As prisões e as buscas que fizeram não lhes serviram para nada. Meteram o meu sobrinho Mazine na prisão. Bom! E agora? Prenderam o teu filho, mas agora ficou provado que não foram eles.

 

Agarrou a barba com a mão, olhou para Pelágia e disse, enquanto se afastava:

 

- Aparece lá por casa. Deve ser aborrecido estar sozinha. Ela agradeceu e, apregoando a sua mercadoria, observava

 

com olhar atento a agitação pouco usual que reinava na fábrica. Todos os operários pareciam excitados, formando grupos que em seguida se dispersavam, correndo de uma oficina para outra. Pelo ar, carregado de fuligem, havia como um sopro de coragem, de audácia. Aqui e ali ouviam-se exclamações de aprovação, um ou outro gracejo. Os operários mais velhos sorriam apenas. Os encarregados iam e vinham, preocupados. Os polícias corriam. Os operários, ao vê-los, separavam-se lentamente ou, deixando-se estar onde estavam, interrompiam as suas conversas e olhavam em silêncio aqueles rostos zangados, furiosos.

 

Os operários pareciam todos ter acabado de se lavar. Por todo o lado se via a alta silhueta do mais velho dos Goussev. O irmão seguia-o sempre, rindo à gargalhada.

 

Junto da mãe, em passo lento, passaram Vavilov, o chefe da carpintaria, e o apontador Isaías. O apontador, baixo, franzino, com a cabeça levantada e o pescoço voltado para a esquerda de forma a olhar para o rosto inchado e impassível do carpinteiro, falava depressa, enquanto a sua barbicha se agitava:

 

- Veja, Ivan Ivanovitch. Eles divertem-se e riem, embora isto seja a destruição do Estado, como disse o senhor Director. Aqui, Ivan Ivanovitch, o que é preciso não é mondar o campo mas ará-lo...

 

Vavilov caminhava com as mãos atrás das costas, e viam-se-lhe os dedos crispados.

 

- Imprime o que quiseres, filho da puta - disse ele em voz alta -, mas não te atrevas a falar de mim!

 

Vassili Goussev aproximou-se da mãe:

 

- Vou comer outra vez daquilo que trazes. É boa, a tua comida.

 

Depois, baixando a voz, acrescentou com uma piscadela de olho:

 

- Acertou no alvo, mãezinha. Muito bem!

 

Pelágia acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. Estava contente por ver aquele rapaz, o mais brincalhão do bairro, tratá-la com secreto respeito. Sentia-se feliz com a excitação geral, e pensava:

 

"Se não fosse eu..."

 

Perto dela pararam três operários, e um deles lamentou-se a meia-voz:

 

- Já não consegui encontrar nenhum.

 

- Vão ter de ser lidos em voz alta. Eu não sei ler, mas é fácil de perceber que isto para eles foi como uma paulada nas costas.

 

- Vamos até às caldeiras.

 

- Isto está a fazer o seu efeito - sussurrou Goussev com outra piscadela de olho.

 

Pelágia regressou a casa muito contente.

 

- Têm pena de não saber ler - disse ela a Andrei. - Eu, quando era nova, sabia mas agora já me esqueci.

 

- Tem de voltar a aprender.

 

- Na minha idade? Para todos se rirem de mim?

 

Mas Andrei tirou um livro da estante, e mostrou-lhe uma letra da capa, apontando-a com a ponta da sua navalha:

 

- Que letra é esta?

 

- R! - Respondeu ela rindo.

 

- E esta?

 

Sentia-se incomodada e humilhada. Por um momento julgou ver o riso e a troça nos olhos de Andrei, e desviou o olhar. Mas a voz dele soou doce e tranquila, e o seu rosto estava sério.

 

- Será possível, Andrei, que queira realmente ensinar-me? - perguntou ela, forçando um sorriso.

 

- E porque não? Se já sabia, será mais fácil recordar. Olhe o provérbio que diz "se não vier um milagre, paciência; se vier, tanto melhor".

 

- Também se diz que "burro velho não aprende línguas".

 

- Ah, sim - disse o Ucraniano movendo a cabeça. - Não faltam para aí provérbios: -Quanto menos se sabe melhor se dorme." Será verdadeiro, esse? Nos provérbios é o estômago que pensa, e é como se a alma ficasse prisioneira dentro dele. E esta letra?

 

Com o olhar tenso, as sobrancelhas franzidas, ela ia-se esforçando por recordar as letras esquecidas e, completamente absorta, alheava-se do mundo à sua volta. Mas a sua vista rapidamente se fatigou. Vieram-lhe aos olhos primeiro lágrimas de cansaço e em seguida, mais prementes, lágrimas de tristeza.

 

- Aprender as letras! - disse, rebentando em soluços. Aprender a ler aos quarenta anos!

 

- Não há razão para chorar! - disse o Ucraniano em voz baixa e suave. - A sua vida não podia ter sido outra, e no entanto compreende agora que as pessoas vivem mal. Há milhares de pessoas que podiam viver melhor do que nós, e no entanto vivem como animais, e ainda por cima se gabam! Que há de bom nas suas existências? Hoje trabalham e comem, amanhã a mesma coisa, e assim todos os dias da sua vida, trabalhar e comer. Entretanto vão pondo filhos no mundo, e se primeiro se alegram com isso, quando as crianças começam, por sua vez, a comer com apetite, os pais irritam-se e maltratam-nas. "Depressa, cresçam mais depressa, comilões, é preciso trabalhar!" Gostariam que os filhos fossem como animais domésticos, mas eles começam por sua vez a trabalhar para a sua própria barriga, e acabam também eles por arrastar uma vida miserável, como condenados arrastando as suas correntes. Os únicos homens verdadeiros são aqueles que conseguem quebrar as amarras da razão humana. Agora, também a mãezinha, na medida das suas forças, se uniu a esta tarefa.

 

- Não pense nisso - suspirou ela. - Que posso eu fazer?

 

- Porque é que não há-de poder? Isto é como a chuva, cada gota dá de beber a uma semente. E quando souber ler...

 

Começou a rir, levantou-se e passeou-se um pouco pelo quarto.

 

- É claro que vai aprender! E quando Pavel voltar, hem?

 

- Ah, Andrei - disse ela. - Quando uma pessoa é jovem, é tudo muito fácil. Mas à medida que os anos passam, vamo-nos carregando de sofrimentos, vamos ficando mais fracos, e na cabeça também já não há nada...

 

Nessa noite, o Ucraniano saiu. Pelágia acendeu o candeeiro e sentou-se a fazer meia, mas em seguida levantou-se, deu alguns passos indecisos, foi até à cozinha, trancou a porta e com uma ruga de preocupação na testa voltou para o quarto. Correu as cortinas, depois pegou num livro da estante, sentou-se outra vez à mesa, olhou à sua volta e debruçou-se por cima das páginas movendo os lábios. Quando da rua lhe chegava algum ruído fechava o livro com receio e escutava com atenção. De novo, com os olhos ora fechados ora abertos, murmurava:

 

- Nossa te-rra... te-rra...

 

Bateram à porta. Levantou-se rapidamente, atirou com o livro para a estante e perguntou ansiosa:

 

- Quem é? -Eu...

 

Entrou Rybine. Alisou gravemente a barba e disse:

 

- Antigamente deixavas entrar as pessoas sem perguntar quem era... estás sozinha? Pensei que o Ucraniano cá estivesse. Vi-o hoje. A prisão não faz bem nenhum a um homem.

 

Sentou-se.

 

- Bom, conversemos um pouco...

 

Tinha um ar grave e misterioso que causou à mãe uma vaga impressão.

 

- Tudo custa dinheiro - começou com a sua voz forte. Nada se faz de graça, nem sequer nascer ou morrer. Os folhetos e as folhas também custam dinheiro. Sabes de onde vem o dinheiro, quem as paga?

 

- Não sei - disse docemente Pelágia. pressentindo um Perigo.

 

- Justamente. Eu também não sei nada. Já agora, sabes quem as escreve?

 

- Pessoas que sabem...

 

- Senhores! É isso mesmo! - proferiu Rybine, e o seu rosto barbudo ruborizou-se, tenso. São, portanto, senhores os que escrevem e distribuem os panfletos. Panfletos escritos contra eles. Agora diz-me: que proveito podem eles tirar do dinheiro que gastam a levantar o povo contra si próprios?

 

As pálpebras da mãe tremeram, e ela exclamou assombrada:

 

- O que é que tu estás a pensar?...

 

- Hum!... - murmurou Rybine movendo-se pesadamente na cadeira, como um urso. - Pois é! Eu também senti um calafrio quando comecei a pensar nisto.

 

- Ouviste por aí alguma coisa, foi?

 

- Mentira! Isto tresanda a mentira. Eu não sei de nada, mas tenho a certeza que estamos a ser enganados. E eu quero a verdade, e encontrei-a. Não me vou pôr do lado dos senhores. Quando precisam de nós empurram-nos à frente deles para que os nossos ossos lhes sirvam de ponte para alcançarem aquilo que desejam.

 

As suas palavras sombrias afligiam o coração da mãe.

 

- Senhor! - exclamou transida de angústia. - Será possível que Pavel não compreenda? E os outros todos que...

 

Os rostos sérios e honrados de Igor, Nikolai Ivanovitch e Sachenka pareciam estar ali, na sua frente, e o seu coração enterneceu-se.

 

- Não, não! - disse, movendo a cabeça negativamente. Não posso acreditar. Eles agem de acordo com as suas consciências.

 

- De quem é que estás a falar?

 

- De todos, de todos os que conheço, sem excepção.

 

- Não é aí que temos de procurar, mãezinha, é mais longe

- disse Rybine, baixando a cabeça. - Os que vêm cá, os que conhecemos de perto, também não devem saber de nada. Eles crêem que estão a agir da maneira certa. Mas pode ser que por detrás deles existam outros que só procuram tirar vantagens. Um homem não age assim contra o seu próprio interesse...

 

E com a sua convicção obstinada de aldeão, acrescentou:

 

- Nunca se pode esperar nada de bom dos senhores.

 

- E o que é que decidiste fazer? - perguntou a mãe, novamente dominada pela dúvida.

 

- Eu? - Rybine olhou-a, calou-se por um momento e repetiu: - Não nos podemos pôr do lado dos senhores. É só isso!

 

Ficou novamente em silêncio, sombrio.

 

- Queria unir-me aos teus rapazes para trabalhar com eles. Sou bom para isso, sei o que é preciso dizer às pessoas. Mas agora vou-me embora. Já não tenho confiança, e por isso vou-me embora.

 

Baixando a cabeça, reflectiu:

 

- Irei sozinho, pelas aldeias, pelas cabanas... Levantarei o povo. É preciso que seja o próprio povo a actuar. Quando tiver compreendido, há-de encontrar o seu caminho. Eu tratarei de o fazer compreender. Não tem esperança senão em si mesmo, e não ouve outras razões que não a sua própria. É assim!

 

A mãe sentiu pena e receio por ele. Nunca lhe tinha sido muito simpático, mas agora, de repente, sentia-o muito próximo. Disse-lhe com ternura:

 

- Vão apanhar-te...

 

Ele olhou-a, e respondeu serenamente:

 

- Vão apanhar-me... e depois hão-de soltar-me. E eu recomeçarei.

 

- Os próprios camponeses te atarão as mãos e te conduzirão ao cárcere.

 

- Se me prenderem, sairei. E voltarei a fazer o mesmo. E quanto aos camponeses, atar-me-ão as mãos uma vez, duas, e depois compreenderão que o que é preciso fazer não é entregarem-me mas escutarem-me. Dir-lhes-ei: "Não precisam de acreditar em mim, só quero que oiçam o que tenho para vos dizer." Se me ouvirem, acreditarão em mim.

 

Falava lentamente, como se pesasse cada palavra antes de a pronunciar.

 

- Aqui, nestes últimos tempos, tenho engolido e compreendido muitas coisas...

 

- Podes morrer, Mikhail Ivanovitch! - disse Pelágia, abanando melancolicamente a cabeça.

 

Fixou nela os seus olhos escuros e profundos, que pareciam esperar por uma resposta. Inclinou para a frente o corpo robusto e o seu rosto moreno empalideceu, emoldurado pelas barbas negras.

 

- Sabes o que Cristo disse sobre o grão de trigo? Que ele "deve morrer para ressuscitar numa nova espiga." Não morrerei tão cedo! Sou muito manhoso!

 

Agitou-se na cadeira e levantou-se devagar.

 

- Vou até à taberna, ficarei por lá um bocado, a conversar. Parece que o Ucraniano não vem. Já estás a trabalhar?

 

- Estou - respondeu a mãe, sorrindo.

 

- Isso é que é preciso. Repete-lhe o que eu te disse. Saíram lentamente para a cozinha e trocaram algumas palavras sem se olharem.

 

- Bem, então adeus!

 

- Adeus! Quando te despedes do trabalho?

 

- Já o fiz.

 

- E quando é que partes?

 

- Amanhã de manhãzinha. Adeus!

 

Rybine curvou-se e saiu para o vestíbulo, desajeitadamente, como se não tivesse vontade de o fazer. A mãe permaneceu no umbral, durante alguns momentos, prestando atenção a quem passava e às dúvidas que sentia no seu coração. Depois, entrou silenciosamente em casa, levantou uma ponta da cortina e olhou pela janela. Para lá da vidraça, a escuridão era impenetrável.

 

- Vivo de noite - murmurou.

 

Tinha pena daquele camponês, de temperamento pensativo, tão alto e tão forte...

 

Chegou Andrei, animado e alegre.

 

Quando ela lhe contou a visita de Rybine, ele exclamou:

 

- Muito bem, pois, que vá pelas aldeias, que proclame a verdade e desperte o povo. Não se sentia bem connosco. As suas ideias de camponês começaram a germinar na sua cabeça, e não havia lá lugar para as nossas...

 

- Esteve a falar dos senhores e há qualquer coisa de certo no que ele disse - observou ela prudentemente. - Desde que não nos enganem...

 

- Está preocupada com isso? - exclamou, rindo, o Ucraniano. -Ah, mãezinha, se tivéssemos dinheiro! Vivemos com o dinheiro que nos dão. Olhe, o Nikolai Ivanovitch ganha setenta e cinco rublos por mês e entrega-nos cinquenta. E como ele todos os outros. Há estudantes que passam fome e que, mesmo assim, nos mandam algum dinheiro quando podem, poupado kopek a kopek. Há senhores de todos os géneros, uns enganam outros deixam-se levar, mas os melhores estão connosco.

 

Esfregou as mãos e prosseguiu com veemência:

 

- A nossa vitória não será para breve, mas enquanto esperamos, vamos organizar o nosso Primeiro de Maio! Vai ser modesto, mas animado!

 

O entusiasmo dele afastou a inquietação deixada por Rybine. O Ucraniano andava pela sala passando a mão pela cabeça, e dizia, olhando para o chão:

 

- Sabe, às vezes sinto no meu coração uma vitalidade extraordinária. Onde quer que eu vá, sempre encontro camaradas ardendo no mesmo fogo, alegres, bons, simpáticos... Compreendemo-nos uns aos outros sem precisarmos de falar. Vivemos em boa harmonia, e em cada peito ressoa uma canção. Estas canções são como riachos que correm a juntar-se a um único rio, que por sua vez alastra e corre livremente para o mar, o mar das claras alegrias de uma vida nova!

 

Pelágia não se movia para não o perturbar nem o interromper. Ouvia-o sempre com mais atenção do que aos outros porque ele falava com mais simplicidade e as suas palavras apelavam mais fortemente ao coração. Pavel nunca dizia como seria o futuro, enquanto para Andrei esse porvir fazia parte do seu próprio ser. Quando falava, a mãe julgava estar a ouvir um belo conto, sobre a grande festa que chegaria e traria a alegria à humanidade inteira. Esta ilusão dava, aos seus olhos, um sentido à vida e ao trabalho que estava a ser realizado pelo seu filho e pelos camaradas dele.

 

- Mas quando volto à realidade - disse o Ucraniano, abanando a cabeça - e olho à minha volta, apenas vejo o frio e a sujidade, as pessoas cansadas e irritadas...

 

Prosseguiu com profunda tristeza:

 

- É humilhante, mas não podemos confiar no homem, devemos receá-lo... odiá-lo, até. O homem é complexo. Desejaríamos que fosse possível amá-lo, simplesmente, mas como é isso possível? Como perdoar a alguém que se lança sobre nós como um animal selvagem, que não reconhece a existência da nossa alma viva e que fere o nosso rosto com uma carga de murros? É impossível perdoar. Não o digo por mim, porque suportaria todos os ultrajes se fosse eu o único, mas não quero ceder perante os que usam a força, não quero que as minhas costas sirvam para eles aprenderem a agredir os outros.

 

Tinha um brilho frio nos olhos. Inclinou a cabeça, com um ar obstinado, e prosseguiu com mais firmeza:

 

- Não devo perdoar nenhuma má acção, mesmo que não me atinja pessoalmente. Não estou sozinho sobre a Terra. Suponhamos que permito que hoje me ultrajem, que chego mesmo a rir-me disso, que não me ofendo... Mas, amanhã, o ofensor que experimentou a sua força comigo, experimentá-la-á na pele de outro. Por isso é necessário distinguir as pessoas, é preciso ter firmeza e dizer: estes são meus irmãos, aqueles não... É justo, mas também é doloroso.

 

A mãe, sem saber porquê, pensou no oficial e em Sachenka. Suspirando, disse:

 

- Como é que se pode fazer pão com trigo que não foi semeado...

 

- Essa é que é a desgraça - disse Andrei.

 

- Sim! - respondeu ela.

 

Subitamente, veio-lhe à memória a imagem do marido, tosca e pesada, como um pedregulho coberto de musgo. Imaginou o Ucraniano casado com Natacha e o seu filho casado com Sachenka.

 

- E porquê? - perguntou Andrei, entusiasmando-se. - É tão óbvio que chega a ser cómico. É porque, simplesmente, nem todos são iguais. Pois bem, ponham-se todos num mesmo plano. Partilhe-se equitativamente tudo o que foi produzido pela razão, tudo o que foi fabricado com as mãos. Libertar-nos-emos da escravidão do medo e da inveja, das cadeias da ambição e da estupidez!

 

O Ucraniano e a mãe conversavam assim, frequentemente.

 

Andrei, que tinha sido readmitido na fábrica, entregava todo o seu salário a Pelágia, que aceitava este dinheiro com a mesma naturalidade com que aceitava o de Pavel.

 

Algumas vezes, Andrei, com olhos risonhos, propunha:

 

- Vamos ler um pouco, mãezinha?

 

Ela recusava-se, gracejando, mas obstinada. O sorriso de Andrei confundia-a e, um pouco irritada, pensava: "Para quê, se te ris?"

 

Mas perguntava-lhe, cada vez com maior frequência, o significado desta ou daquela palavra, mais culta, e que ela desconhecia. Perguntava, sem olhar para ele, num tom de voz que se esforçava para que soasse indiferente. Ele compreendeu que ela estudava sozinha, às escondidas. Apercebeu-se da vergonha que ela sentia e deixou de lhe propor que lessem juntos. Passado pouco tempo, a mãe confessou-lhe:

 

- Cada vez vejo pior, Andrei. Preciso de uns óculos.

 

- Isso é muito simples. No domingo vamos à cidade, ao médico, e logo terá uns óculos.

 

Já por três vezes tinha ido pedir autorização para visitar Pavel, e de cada vez lhe tinha sido amavelmente recusada pelo chefe da polícia, um velhote grisalho, de faces avermelhadas e nariz grande.

 

- Daqui por uma semana, mãezinha, não antes. Daqui por uma semana logo se verá, mas agora é impossível.

 

Era rubicundo e gorducho, lembrando uma ameixa demasiado madura, coberta por uma penugem de bolor. Palitava continuamente os dentes, brancos e pequenos. Os olhinhos redondos e esverdeados sorriam afectuosamente e a sua voz tinha uma entoação amável, amistosa.

 

- É muito educado - disse a mãe ao Ucraniano. - Sorri sempre.

 

- Oh! Pois sim! Eles são muito educados e sorridentes. Se lhes disserem: "Têm aqui um homem inteligente e honrado, mas é perigoso. Enforquem-no." Eles sorriem, enforcam-no e voltam a sorrir.

 

- O que veio aqui a casa fazer a busca era menos dissimulado. Percebia-se logo que era um canalha.

 

- Não são homens, são como martelos para bater nas pessoas e ensurdecê-las. São instrumentos. Servem para manipular o povo, para que este funcione melhor. Eles mesmos estão afeiçoados à mão que os dirige, podem executar qualquer tarefa que lhes seja ordenada, sem reflectirem, sem perguntarem porquê.

 

A autorização foi finalmente concedida a Pelágia. No domingo sentou-se timidamente num canto da sala de espera da prisão. No compartimento sujo e pequeno, de tecto baixo, estavam outras pessoas que também esperavam pela hora da visita. Sem dúvida que não era a primeira vez que vinham, pois já se conheciam. Entre elas estabeleceu-se um diálogo em voz baixa e arrastada, entretecido de queixas e coscuvilhices, pegajoso como uma teia de aranha.

 

- Sabem uma coisa? - perguntava uma mulher gorda de rosto flácido, com um saco sobre os joelhos. - Esta manhã, durante a primeira missa, o mestre de capela quase arrancou uma orelha a um dos meninos do coro.

 

Um homem de idade, usando um uniforme de militar reformado, tossiu ruidosamente e retorquiu:

 

- Os meninos de coro são uns diabinhos!

 

Um homenzinho calvo, de pernas curtas e braços compridos, maxilar saliente, passeava pelo compartimento com ar preocupado. Sem se deter, disse com voz trémula:

 

- A vida está cada vez mais cara, por isso é que as pessoas vivem cada vez pior. A carne de segunda está a catorze kopeks a libra, o pão está a dois kopeks e meio...

 

Às vezes entravam presos de uniforme cinzento e com pesados tamancos de couro. Pestanejavam ao entrarem no compartimento mal iluminado. Um deles tinha correntes nos pés.

 

De tudo se desprendia uma estranha calma e uma desagradável simplicidade. Dir-se-ía que toda aquela gente estava acostumada àquela atmosfera, e que esta lhes era familiar. Uns estavam tranquilamente sentados, outros montavam guarda, preguiçosamente, outros, resignados e pontuais, vinham apenas visitar os presos. O coração da mãe palpitava impaciente. Olhava perplexa tudo quanto a rodeava, admirada com aquela simplicidade asfixiante.

 

Ao seu lado, tinha-se sentado uma velhota de rosto enrugado, mas de olhar ainda jovem. Esticando o pescoço delgado, prestava ouvidos à conversa e olhava toda a gente com um ar estranhamente provocante.

 

- Quem é que tem aqui? - perguntou docemente Pelágia.

 

- O meu filho. É estudante - respondeu rapidamente a velha em voz alta. - E você?

 

- O meu filho também. É operário.

 

- Como é que ele se chama?

 

- Vlassov.

 

- Não o conheço. Há muito tempo que ele cá está?

 

- Há mais de seis semanas...

 

- E o meu há mais de dez meses!

 

Pelágia julgou perceber na sua voz um sentimento indefinível, próximo do orgulho.

 

- Sim, sim - dizia nervosamente o velho calvo. - A paciência esgota-se, toda a gente se irrita, grita, os preços estão sempre a subir... Como consequência, as pessoas valem menos. Já não se ouvem vozes conciliadoras.

 

- Absolutamente certo - disse o militar. - Está tudo numa enorme desordem! É preciso uma voz forte capaz de finalmente ordenar "Silêncio!." É isso precisamente que faz falta. Uma voz forte.

 

A conversa generalizava-se, animava-se. Cada um ia dando as suas opiniões sobre a vida, mas todos falavam a meia-voz, e em todos a mãe adivinhava algo que lhe era estranho. Em sua casa falava-se de outra maneira, uma linguagem mais compreensível, mais pura, mais exacta.

 

Um vigilante gordo, de barba ruiva quadrada, gritou o nome dela, olhou-a da cabeça aos pés e afastou-se coxeando, depois de lhe ter dito:

 

- Segue-me.

 

Ela seguiu-o, com vontade de lhe empurrar as costas, para que andasse mais depressa. Numa sala pequena, Pavel, de pé, sorria e estendia-lhe a mão. A mãe agarrou-a, pôs-se a rir, piscando muitas vezes os olhos e sem encontrar palavras. Por fim disse docemente.

 

- Bom dia... Bom dia...

 

- Acalme-se, mãe. - Apertou-lhe a mão com força.

 

- Não é nada!

 

- Tu aí, a mãe - disse o vigilante, suspirando. - Afasta-te. Tem de haver uma distância entre vocês os dois.

 

E bocejou ruidosamente. Pavel perguntou-lhe como estava a saúde dela, perguntou pela casa... Ela esperava outras perguntas, procurou-as nos olhos do filho, mas não as encontrou. Estava tranquilo, como sempre, mais pálido, isso sim, e os olhos pareciam maiores.

 

- A Sachenka manda-te saudades.

 

As pálpebras de Pavel tremeram, a expressão suavizou-se e sorriu. Uma aguda amargura apertou o coração da mãe.

 

- Vão soltar-te em breve - disse ela, humilhada e irritada. - Por que é que te prenderam? De qualquer modo os papéis voltaram a aparecer.

 

Os olhos de Pavel cintilaram de alegria.

 

- Outra vez? - perguntou.

 

- É proibido falar desses assuntos - avisou o vigilante num tom negligente. - Apenas de assuntos de família.

 

- Então estes não são assuntos de família? - replicou ela.

 

- Disso não sei. A única coisa que sei é que é proibido respondeu indiferente o carcereiro.

 

- Mãe, fale-me da família - pediu Pavel.

 

Ela sentiu nascer dentro de si um sentimento de audácia juvenil.

 

- Levo tudo para a fábrica... Deteve-se e depois continuou, sorrindo:

 

- Sopa, massa, tudo o que a Maria cozinha e ainda outros alimentos...

 

Pavel compreendeu. Mordeu os lábios para conter o riso. Puxou os cabelos para trás e disse, como uma voz carinhosa, que a mãe não lhe conhecia:

 

- É bom que tenha uma ocupação, assim não se aborrece.

 

- E quando os papéis voltaram a aparecer, vieram revistar-me também - declarou Pelágia, com uma ponta de fanfarronice.

 

- Outra vez! - disse o vigilante, irritado. - Já lhes disse que é proibido. Prende-se um homem para que não saiba o que se passa lá fora, e tu continuas a insistir. Têm de compreender que é proibido.

 

- Bem, mãe não falemos mais desse assunto - disse Pavel. - Matvei Ivanovitch é um bom homem e não vale a pena aborrecê-lo. Damo-nos bem os dois. Hoje por acaso é ele que está aqui, mas habitualmente é o director que está presente.

 

- Terminou a visita - avisou o carcereiro, olhando para o relógio.

 

O filho abraçou-a com força e beijou-a. Comovida e feliz, ela começou a chorar.

 

- Separem-se! - disse Matvei. Enquanto acompanhava a mãe. murmurou-lhe:

 

- Não chores... vão soltá-lo. Soltam todos... Aqui já não há mais espaço.

 

De regresso a casa, animada e sorridente, disse ao Ucraniano:

 

- Disse-lhe tão habilmente que ele compreendeu. E suspirou.

 

- Compreendeu! Se não tivesse compreendido não me tinha beijado. Nunca o tinha feito antes.

 

- Ai, a senhora - disse Andrei rindo. - Toda a gente procura qualquer coisa, mas uma mãe... procura sempre carícias.

 

- Oh, Andrei... as pessoas que vão lá - exclamou ela com súbito assombro - já estão acostumadas! Retiraram-lhes os filhos, meteram-nos na prisão, e elas não se preocupam. Chegam, sentam-se, esperam, conversam... Se até as pessoas instruídas se habituam, que dizer do povo trabalhador?

 

- É muito natural - disse Andrei com um sorriso -, para eles a lei é sempre mais branda do que para nós, e eles precisam mais dela do que nós. De tal maneira que, quando a lei lhes cai em cima, só faz uma pequena mossa, mais nada. Dói muito menos quando apanhamos com o nosso próprio bastão.

 

Uma noite em que a mãe estava sentada, fazendo meia, e o Ucraniano lia em voz alta a história da sublevação dos escravos romanos, alguém bateu à porta com força. Quando Andrei abriu, entrou Vessovchikov, carregando um embrulho debaixo do braço, o gorro de peles descaído para a nuca, coberto de lama até aos joelhos.

 

- Ia a passar e vi luz na janela. Entrei para vos cumprimentar. Acabo de sair da prisão - explicou excitado, e agarrando a mão de Pelágia apertou-a vigorosamente. - O Pavel manda-lhe saudades.

 

Depois, vacilante, deixou-se cair sobre uma cadeira, percorrendo a sala com um olhar desconfiado e sombrio.

 

A mãe não gostava dele. A cabeça angulosa e rapada e os olhos pequeninos tinham qualquer coisa que sempre a tinha assustado, mas agora estava contente e, sorridente e amável, disse com vivacidade:

 

- Estás mais magro! Andrei, vamos fazer-lhe um chá...

 

- Vou preparar o samovar - respondeu ele, indo para a cozinha.

 

- E como está Pavel? Soltaram outros ou foste o único? Nikolai baixou a cabeça e respondeu:

 

- Pavel ainda ficou lá. Paciência. Só me soltaram a mim. Levantou a cabeça, olhou a mãe e prosseguiu, devagar, entre dentes:

 

- Disse-lhes: "Já estive aqui demasiado tempo, soltem-me. Se não o fizerem ainda mato alguém e a seguir mato-me a mim..." E eles libertaram-me.

 

- Estou a ver... - disse Pelágia, afastando-se dele. Os olhos pestanejaram involuntariamente quando se cruzaram com os de Nikolai, pequenos e estreitos.

 

- E Theo Mazine? - gritou o Ucraniano da cozinha. - Escreve versos?

 

- Escreve. Não o compreendo! - disse Nikolai abanando a cabeça. - Ele é algum canário? Metem-no na jaula e põe-se a cantar. Só sei uma coisa, é que não tenho vontade nenhuma de ir para casa.

 

- Claro, o que é que vais encontrar quando lá chegares?

- disse Pelágia pensativa. - Está vazia, o fogão apagado, um frio de rachar...

 

Ele manteve-se calado, por um momento, franzindo os olhos. Tirou um maço de cigarros do bolso e pôs-se a fumar lentamente. Seguia com o olhar a coluna de fumo cinzento que se dissipava na sua frente, e desatou a rir, um riso sombrio que lembrava o latido de um cão.

 

- Sim... gelada, é como a casa deve estar. Deve haver baratas geladas pelo chão. Até os ratos devem ter rebentado com o frio. Deixa-me passar aqui a noite? - perguntou numa voz surda, sem olhar para a mãe.

 

- Claro que sim! - disse ela.

 

A presença dele incomodava-a.

 

- Hoje em dia os filhos envergonham-se dos pais...

 

- O quê? - perguntou a mãe, estremecendo.

 

Ele olhou-a de relance, fechou os olhos e o rosto picado das bexigas pareceu subitamente o de um cego.

 

- Os filhos começam a envergonhar-se dos pais que têm. É como lhe digo! - repetiu, com um suspiro. - Não é o seu caso... Pavel nunca se envergonhará de si. Mas eu tenho vergonha do meu pai. Jamais voltarei a entrar na casa dele. Já não tenho pai... nem casa. Estou em liberdade condicional, se não fosse isso, partiria para a Sibéria. Uma vez lá ajudaria a libertar os deportados, organizaria a sua fuga...

 

A mãe compreendeu que o jovem sofria, mas a dor dele não lhe inspirava compaixão.

 

- Claro. Se as coisas são como dizes, é melhor que partas

 

- disse ela para não o ofender com o seu silêncio.

 

Andrei regressou da cozinha, rindo: - '

 

- Que estavas para aí a dizer? A mãe levantou-se:

 

- Vou preparar qualquer coisa para comer. Vessovchikov olhou fixamente o Ucraniano e disse, subitamente:

 

- Penso que há pessoas que é preciso eliminar.

 

- Oh! oh!... E porquê?

 

- Para que desapareçam.

 

O Ucraniano, alto e seco, de pé no meio do quarto, balançava sobre as pernas e olhava Nikolai do alto da sua elevada estatura, com as mãos nos bolsos. Vessovchikov estava firmemente sentado na cadeira, envolto numa nuvem de fumo, enquanto manchas vermelhas se destacavam na sua fisionomia cinzenta.

 

- Hei-de arrancar a língua ao Isaías Gorbov, vais ver.

 

- Porquê?

 

- Para que não ande a espiar e a denunciar. Foi por causa dele que o meu pai se tornou no que é, e agora quer fazer dele bufo - disse Vessovchikov, olhando Andrei com sombria hostilidade.

 

- Pois sim! - exclamou o Ucraniano. - Mas quem é que te pode culpar a ti? Só os imbecis!

 

- Imbecis e inteligentes, é tudo a mesma coisa - replicou o outro com firmeza. - Repara: tu és um tipo inteligente, e Pavel também. Será que para vocês eu sou igual a Theo Mazine, ou a Samoilov, ou igual ao que vocês são um para o outro? Não mintas! De qualquer modo eu não te acreditaria... todos vocês me deixam de lado, me põem de parte.

 

- Estás doente, pobre Nikolai - disse o Ucraniano com suavidade e ternura, sentando-se junto dele.

 

- Doente... vocês estão tão doentes como eu... só que as vossas feridas parecem-vos mais nobres que as minhas. Todos nós somos uns patifes uns para os outros. O que é que me respondes a isto?

 

Cravou em Andrei o seu olhar agudo e ficou à espera, mostrando os dentes numa careta trocista. O seu rosto picado das bexigas estava impassível, mas os seus grossos lábios tremiam como que abrasados por um líquido ardente.

 

- Não respondo nada - disse o Ucraniano, e o olhar triste e acolhedor dos seus olhos azuis acariciava o olhar turvo de Vessovchikov. - Sei muito bem que não vale a pena tentar discutir com um homem que tem o coração a sangrar, só iria irritá-lo mais ainda. Sei isso muito bem, meu irmão.

 

- Comigo não se pode discutir, eu não sei discutir - murmurou Vessovchikov baixando a cabeça.

 

- Penso que todos nós já caminhámos descalços sobre estilhaços de vidro - prosseguiu Andrei.

 

- Cada um de nós, nas suas horas negras, já ardeu no mesmo fogo em que tu estás a arder neste momento...

 

- Não há nada que me possas dizer - disse lentamente Vessovchikov. - A minha alma uiva como um lobo dentro de mim!

 

- Não pretendo dizer-te nada, mas sei que isso vai passar. Talvez leve algum tempo, mas vai passar.

 

Riu-se e deu uma palmada amigável no ombro de Nikolai.

 

- Isso, meu velho amigo, é uma doença infantil, como o sarampo. Passamos todos por ela. Os fortes sofrem um pouco menos, os fracos um pouco mais. Ataca as pessoas como nós, quando encontraram aquilo que procuravam, mas não compreendem ainda a vida nem sabem qual é o lugar que ela lhes reserva. Julgamos ser únicos na nossa espécie, como um belo fruto ou um bom pepino que todos querem morder. Depois, ao fim de algum tempo, compreendes que o melhor que há em ti se encontra também nos outros, que afinal não são tão maus assim... e ficas contente. Ficas então um pouco envergonhado por teres subido ao campanário para tocar a sineta, tão pequena que nem se ouve quando toca o sino grande dos dias de festa. Compreendes então que a tua sineta se ouve no coro, mas que, sozinha, o seu toque se afoga no dos sinos grandes, como mosca em gordura. Compreendes o que quero dizer?

 

- Posso compreender! - Nikolai baixou a cabeça. - Mas não acredito.

 

O Ucraniano riu-se, levantou-se de um salto, e começou a caminhar ruidosamente.

 

- Bem, eu também não acreditava. És como um pedaço tosco de madeira.

 

- Porquê? - Perguntou Nikolai forçando um sorriso.

 

- Porque sim, é o que tu pareces.

 

Vessovchikov escancarou a boca numa gargalhada sonora.

 

- O que é que te deu agora? - perguntou o Ucraniano surpreendido, detendo-se na frente dele.

 

- Bom, estava a pensar que aquele que alguma vez te insultar é um idiota.

 

- Insultar-me, como?

 

- Não sei - disse Vessovchikov sorrindo com ar bonacheirão. - O que quero dizer é que se um qualquer te insultasse, havia de sentir logo a consciência bem pesada.

 

- Ah,.é ai que queres chegar!... - disse Andrei a rir.

 

- Andrei! - chamou da cozinha a voz da mãe. Este saiu.

 

No momento em que ficou sozinho, Vessovchikov lançou um olhar à sua volta, estendeu a sua perna com uma pesada bota calçada, examinou-a, inclinou-se, apalpou a sua grossa barriga da perna, depois levou a mão à altura do rosto, olhando atentamente a palma e em seguida as costas. Era uma mão robusta, de dedos curtos e coberta de pêlos de cor clara. Agitou-a no ar e levantou-se.

 

Quando Andrei voltou com o samovar, Vessovchikov estava diante do espelho.

 

- Há muito tempo que não olhava para o meu focinho. Sorriu ironicamente e acrescentou:

 

- É feio que se farta!

 

- E porque é que te hás-de importar agora com isso? disse Andrei, olhando-o com curiosidade.

 

- Sachenka diz que a cara é o espelho da alma! - murmurou lentamente Nikolai.

 

- Pois não é verdade. Ela tem o nariz aquilino, as maçãs do rosto como tesouras, e a alma como uma estrela.

 

Vessovchikov olhou para ele e sorriu.

 

Sentaram-se para o chá.

 

Vessovchikov serviu-se de uma batata grande, salgou abundantemente um pedaço de pão, e pôs-se a mastigar tranquilamente como um boi.

 

- E como vão as coisas por aqui? - perguntou com a boca cheia.

 

Quando Andrei, satisfeito, lhe contou como estavam a introduzir a propaganda na fábrica, ficou de novo sombrio e disse com voz surda:

 

- É muito lento, tudo isso, muito lento. Temos de ir mais depressa.

 

A mãe olhou-o e voltou a experimentar um sentimento de animosidade contra ele.

 

- A vida não é um cavalo que se possa fazer andar mais depressa à força de chicotadas - disse Andrei.

 

Mas Vessovchikov sacudia teimosamente a cabeça.

 

- É demasiado lento, eu não tenho paciência, o que é que hei-de fazer?

 

Abriu os braços num gesto de impaciência, olhou para o Ucraniano e calou-se, aguardando uma resposta.

 

- Temos todos de aprender, e ensinar aos outros, é essa a nossa tarefa - disse Andrei devagar.

 

- E o combate, quando será?

 

- Sei bem que vamos levar muita pancada - disse o Ucraniano com um sorriso. - Mas quando será o momento da batalha, isso não posso sabê-lo. Olha, primeiro temos de armar as nossas cabeças, e só depois as mãos, acho eu.

 

Nikolai continuava a comer. A mãe ia observando furtivamente o seu rosto largo, tentando encontrar algo que a reconciliasse com ele, com aquele tipo maciço talhado a golpes de escalpelo. Quando encontrava o olhar penetrante dos seus pequenos olhos, as pálpebras da mãe batiam assustadas. Andrei estava agitado. Falava, ria, e subitamente calava-se e punha-se a assobiar.

 

A mãe julgava compreender a sua perturbação, mas Nikolai permanecia sentado e em silêncio, e quando o Ucraniano lhe perguntava alguma coisa ele respondia lacónico e visivelmente contrariado.

 

A mãe e Andrei sentiam-se incomodados e apertados no pequeno quarto, e lançavam olhares furtivos ao visitante.

 

Por fim, este levantou-se:

 

- Vou-me deitar... Tanto tempo preso, agora de repente soltaram-me, caminhei... Estou exausto.

 

Foi para a cozinha, ainda se mexeu, agitado, durante um bocado, e depois ficou imóvel como um morto. A mãe, que estava à escuta, murmurou para Andrei:

 

- Pensa coisas terríveis...

 

- É um rapaz difícil - concordou o Ucraniano movendo a cabeça. - Mas isto passa-lhe. Eu também já fui assim. Quando no coração não arde uma boa chama, forma-se fuligem. Vá deitar-se, mãezinha, eu ainda fico um bocadinho a ler.

 

Ela foi até ao canto onde estava a sua cama, separado por uma cortina de chita, e Andrei, sentado à mesa, ainda ouviu durante muito tempo o murmúrio débil das suas orações e dos seus suspiros. Voltando rapidamente as páginas do livro enxugava a testa febril, cofiava o bigode com os seus dedos grandes, agitava os pés. O pêndulo do relógio batia, o vento gemia na janela.

 

A voz baixa da mãe ouviu-se:

 

- Meu Deus, tanta gente que há no mundo, e cada um se queixa à sua maneira. Será que há pessoas felizes?

 

- Há sim, e em breve serão muitos, muitos! - respondeu o Ucraniano como um eco.

 

O tempo ia passando rapidamente, com os seus dias de fisionomias variadas, claros ou sombrios. Aquilo que cada um deles ia trazendo de novo já não afligia a mãe. Cada vez com mais frequência, vinham desconhecidos a meio da noite, falavam com Andrei em voz baixa, parecendo preocupados, e só saíam muito tarde, de gola levantada e o gorro enterrado até aos olhos. Desapareciam na noite, sem ruído para não levantar suspeitas. Sentia-se que todos eles ocultavam a sua excitação, que todos teriam desejado cantar e rir, mas que, sempre apressados, não tinham tempo. Uns, irónicos e graves, outros, cheios de uma força que transbordava de juventude, outros ainda, pensativos e serenos, todos tinham, aos olhos da mãe, o mesmo ar obstinado e confiante, e embora tivessem cada um os seus traços particulares, era para a mãe como se se fundissem num só rosto delgado, animado por uma tranquilidade resoluta, uma fisionomia clara e uns olhos graves de olhar profundo, acariciador e sério, o olhar de Cristo a caminho de Emaús.

 

A mãe ia-os contando e imaginava-os como uma multidão que rodeava Pavel. No meio deles, o seu filho poderia passar mais despercebido aos olhos dos seus inimigos.

 

Uma noite, chegou da cidade uma rapariga de cabelos frisados. Trouxe um pacote para Andrei, e ao partir despediu-se de Pelágia com um olhar alegre e brilhante:

 

- Até à vista, camarada!

 

- Até à vista! - respondeu a mãe contendo um sorriso. Depois de acompanhar a jovem à porta, aproximou-se dajanela para, sorrindo, olhar a sua "camarada" que se afastava pela rua caminhando alegre com o seu passo miúdo, fresca como uma flor da Primavera, ligeira como uma borboleta.

 

"Camarada", pensou a mãe quando a visitante se perdeu' de vista. "Ah, minha querida! Que Deus te dê um bom camarada para toda a vida!"

 

Notava muitas vezes nestes visitantes da cidade algo de infantil, e sorria com indulgência, mas o que mais a emocionava e lhe causava uma agradável surpresa era a sua fé, de cuja profundidade se apercebia cada vez melhor. Estes jovens sonhavam com o triunfo da justiça, e isso era para ela comovente e reconfortante. Ao escutá-los, suspirava sem querer, tomada de uma vaga tristeza. Mas aquilo que mais a sensibilizava era a naturalidade deles, o seu belo e generoso esquecimento de si próprios.

 

Compreendia já grande parte das suas discussões sobre a vida. Pressentia que eles tinham descoberto a verdadeira causa da infelicidade dos homens, e concordava já espontaneamente com as suas opiniões. Mas no fundo não acreditava que conseguissem modificar a vida à sua maneira, nem que tivessem forças bastantes para insuflar a sua chama a toda a classe trabalhadora. Cada um quer ser saciado imediatamente, ninguém quer adiar o seu almoço para amanhã, se puder comê-lo hoje. Poucos seriam os capazes de seguir aquele caminho longo e difícil. Nem todos os olhos seriam capazes de ver que esse caminho conduzia ao reino maravilhoso da fraternidade universal. Era por isso que os visitantes, apesar das suas barbas e dos seus rostos, alguns deles fatigados, lhe pareciam crianças.

 

"Meus queridos filhos!", pensava ela, abanando a cabeça.

 

Mas todos eles viviam uma vida recta, séria e inteligente, falavam bem e, desejosos de transmitir os seus conhecimentos a outros, faziam-no incansavelmente. Pelágia compreendia que eles pudessem amar este modo de vida, apesar dos perigos e, suspirando, recordava o seu próprio passado, que lhe vinha ao pensamento como uma estrada interminável, sombria, estreita, limitada. Sem que desse por isso, foi-se formando nela uma tranquila consciência da utilidade que poderia dar agora à sua vida. Nunca antes tinha sentido que a sua vida fosse útil a ninguém, e agora via claramente que eram muitos os que dela necessitavam. Era para ela uma sensação nova e feliz, que a fazia erguer a cabeça...

 

Continuava pontualmente a levar as folhas para a fábrica, com a sensação de estar a cumprir um dever. Já era apenas mais uma, a quem os polícias não prestavam atenção. Muitas vezes a tinham revistado, mas sempre no dia seguinte àquele em que tinha aparecido a propaganda. Quando não trazia nada com ela, sabia atrair as suspeitas dos bufos e dos guardas. Então detínham-na, revistavam-na toda, ela fingia zangar-se, pegava-se com eles, e depois de os ter enganado ia-se embora orgulhosa da sua esperteza. Era um jogo que começava a agradar-lhe.

 

Vessovchikov não tinha sido readmitido na fábrica. Empregou-se como moço de recados numa serração, e andava pelo bairro a entregar carregamentos de vigas, tábuas e lenha. A mãe quase todos os- dias o via passar. Fincando no chão as patas, que estremeciam com o peso da carga, seguiam os dois cavalos pretos, velhos, escanzelados, balançando as cabeças cansadas e tristes, os olhos inflamados piscando de cansaço. Atrás deles estendia-se uma viga que oscilava, comprida e molhada, ou uma pilha de tábuas que chocavam ruidosamente umas contra as outras. Ao lado, deixando as rédeas lassas, seguia Nikolai, andrajoso, coberto de farrapos, calçando umas botifarras e de chapéu caído para a nuca, rígido e desajeitado como uma raiz saída da terra. Também ele balançava a cabeça, de olhos fixos no solo. Os cavalos chocavam contra as carroças e contra as pessoas que vinham em sentido contrário. À sua volta voavam insultos furiosos como moscardos, e gritos zangados que rasgavam o ar. Ele, sem levantar a cabeça, sem responder, lançava assobios estridentes e ia resmungando com os cavalos:

 

- Andem! Tomem lá!

 

Sempre que os camaradas de Andrei se reuniam em sua casa para ler os folhetos ou o último número de um jornal impresso no estrangeiro, Nikolai chegava, sentava-se num canto, e escutava em silêncio durante uma hora ou duas. Terminada a leitura os jovens discutiam longamente, mas Vessovchikov jamais tomava parte na conversa. Ficava até um pouco mais tarde, e de uma vez, estava sozinho com Andrei, perguntou-lhe com o seu ar tosco:

 

- E quem foi o grande culpado disto tudo?

 

- O primeiro que disse: "Isto é meu." Olha, foi alguém que já morreu há milhares de anos, e já não vale a pena zangarmo-nos com ele - disse Andrei em tom de brincadeira, mas com uma expressão inquieta.

 

- Mas... os ricos? E todos aqueles que os protegem?

 

O Ucraniano inclinava-se, com a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e falava longamente e com simplicidade sobre a vida e sobre os homens. Mas das suas palavras depreendia-se sempre que ninguém era perfeito, e isso não agradava a Nikolai. Apertava os seus grossos lábios, abanava negativamente a cabeça, num tom desconfiado declarava que não era assim, e saía, descontente e sombrio.

 

Uma vez, gritou:

 

- Não, tem de haver responsáveis, andam por aí, sou eu que te digo... Há que passar o arado a fundo, por todo o lado, como num campo cheio de ervas daninhas, sem piedade!

 

- Isso foi o que o apontador Isaías disse um dia de ti! observou a mãe.

 

- Isaías? - perguntou Vessovchikov após uma pausa.

 

- Sim, o malvado, espia toda a gente, faz perguntas, passa a vida na nossa rua, espreita pelas janelas...

 

- Espreita? - repetiu Nikolai.

 

A mãe estava já deitada e não lhe via a cara, mas achou que tinha falado demais, porque o Ucraniano replicou vivamente em tom conciliador:

 

- Ora! Deixa-o andar, e espreitar, se não tem mais nada que fazer...

 

- Não, espera! - disse Nikolai em surdina. - É ele o culpado.

 

- De quê? De ser parvo? Vessovchikov não respondeu e saiu.

 

O Ucraniano deu alguns passos pelo quarto, lentamente, cansado, arrastando as suas pernas secas e compridas como as patas de uma aranha. Tinha tirado as botas, como de costume, para não incomodar Pelágia, mas esta não dormia.

 

- Estou assustada! - disse ela inquieta, depois de Nikolai ter saído.

 

- Sim - disse o Ucraniano, arrastando as palavras. - Ele é muito irritável. Não lhe fale de Isaías, mãezinha. Isaías é um bufo e anda realmente a espiar-nos.

 

- Não é de admirar, tem um compadre que é polícia.

 

- Pode ser que Nikolai lhe dê uma tareia - continuou Andrei alarmado. - São esses os sentimentos que os senhores oficiais da nossa sociedade fazem nascer nos simples soldados. Quando as pessoas como o Nikolai tomarem consciência das humilhações que sofreram, e se lhes acabar a paciência, o que é que vai acontecer? O sangue vai espirrar até às nuvens, e a terra vai-se cobrir de espuma vermelha como sabão a derreter-se.

 

- É terrível, Andrei! - disse a mãe com doçura.

 

- Se as moscas não os picassem, já eles não escoiceavam

- disse Andrei após um silêncio. - E no entanto, cada gota de sangue já terá sido lavada por torrentes de lágrimas do povo.

 

Riu levemente e acrescentou:

 

- Será justo, mas não me consola.

 

Um domingo, quando a mãe, ao regressar das compras, abriu a porta e chegou ao patamar, sentiu-se subitamente inundada de uma alegria que era como a chuva cálida de um dia de Verão. Acabava de ouvir, no quarto, a voz de Pavel.

 

- Chegou! - gritou o Ucraniano.

 

Ela notou a rapidez com que o seu filho se voltou, e como os olhos dele se iluminavam com uma emoção prometedora de grandes alegrias.

 

- Voltaste... para casa - murmurou. A surpresa fê-la vacilar, e sentou-se.

 

Ele inclinou-se por cima da mãe. Estava pálido, e duas lágrimas pequenas e claras brilhavam nos seus olhos. Tremiam-lhe os lábios.

 

O Ucraniano passou por eles a assobiar e saiu.

 

- Obrigado, mãezinha! - disse Pavel numa voz profunda e baixa, segurando a mão dela entre os seus dedos trémulos. Obrigado, querida mãe.

 

Estremecendo de alegria ao ver o rosto do filho e ao ouvir o tom da sua voz, acariciou-lhe a cabeça e, reprimindo as batidas do seu coração, disse:

 

- Louvado seja Deus! Porque me agradeces?

 

- Pela tua ajuda na nossa grande causa. Quando um homem pode dizer que sua mãe lhe é querida também pela comunhão de espírito, isso é uma felicidade rara.

 

Em silêncio, de coração a transbordar, a mãe aspirava avidamente estas palavras e contemplava-o cheia de amor. Estava ali, na frente dela, tão aberto, tão próximo...

 

- Mãezinha, eu via que a nossa vida era desagradável e dura para ti, pensava que nunca chegarias a sentir-te bem connosco, nem a adoptar a nossa forma de pensar, que irias suportando em silêncio, como suportaste sempre tudo. Custava-me muito...

 

- Andrei fez-me compreender muitas coisas.

 

- Sim, ele já me contou - disse Pavel rindo.

 

- Igor também. Somos da mesma aldeia. Andrei até me quis ensinar a ler.

 

- E a mãe teve vergonha, e pôs-se a aprender sozinha, às escondidas.

 

- Ah! Ele andou a espreitar-me - disse ela envergonhada, e, agitada e feliz, propôs a Pavel:

 

- Vamos chamá-lo, saiu lá para fora para não nos incomodar. Ele... como não tem mãe...

 

- Andrei! - gritou Pavel abrindo a porta da rua. - Onde estás?

 

- Aqui. Vou rachar lenha.

 

- Chega cá!

 

Andrei não veio imediatamente, mas ao entrar na cozinha disse, falando como se fosse o dono da casa:

 

- É preciso dizer a Nikolai que traga lenha, já não há muita. Já viu, mãezinha, como está o nosso Pavel? Em vez de castigar os revoltosos, as autoridades engordam-nos.

 

A mãe riu-se. Tinha o coração a transbordar de uma doce euforia, estava ébria de alegria, mas já um sentimento de avara prudência lhe fazia desejar ver o seu filho tranquilo, como dantes. Era uma felicidade grande demais para ela, e aquela alegria, a primeira grande alegria da sua vida, queria fechá-la para sempre dentro da sua alma, para que aí permanecesse, viva e forte, tal como havia entrado. Receosa de que aquela felicidade lhe fugisse, apressava-se a escondê-la rapidamente, como um passarinheiro que por sorte tivesse conseguido apanhar um pássaro raro.

 

- Vamos para a mesa, Pavel. Não deves ter comido nada disse ela solícita.

 

- Não, o carcereiro disse-me ontem que tinham decidido soltar-me hoje, por isso esta manhã não consegui comer nem beber.

 

- O primeiro que encontrei quando cheguei - contava Pavel. - foi o velho Sizov. Quando me viu atravessou a rua para me cumprimentar. Disse-lhe: -Agora é preciso cuidado comigo, sou um homem perigoso, e estou debaixo da vigilância da polícia." Respondeu-me que não fazia mal. E sabem o que me perguntou com respeito ao sobrinho? -E Theo, tem-se portado bem na prisão?" "O que é que quer dizer com portar-se bem?" "Bom... se não se lhe escapou alguma palavra que comprometesse os camaradas..." Quando lhe disse que Theo é um rapaz inteligente e leal, cofiou a barba e disse-me com orgulho: "Na nossa família, dos Sizov, não há gente má."

 

- Não é tolo, o velhote - disse Andrei inclinando a cabeça. - Conversamos muito os dois, é um bom homem. E Theo? Irão soltá-lo em breve?

 

- Eu penso que irão soltá-los a todos. Não têm provas contra eles, para além das denúncias de Isaías, mas o que é que o Isaías pode dizer?

 

A mãe ia e vinha, contemplando o seu filho. De pé, junto à janela, com as mãos atrás das costas, Andrei escutava o relato de Pavel, que passeava pelo quarto. A sua barba tinha crescido, e formava pequenos caracóis negros que suavizavam o seu rosto moreno.

 

- Para a mesa! - chamou a mãe servindo o almoço. Enquanto almoçavam, Andrei fez recair a conversa sobre

 

Rybine. Quando acabou de contar o que se passara, Pavel disse com pena:

 

- Se eu cá tivesse estado, não o teria deixado partir. Que levou ele consigo? Um grande sentimento de revolta, e um punhado de ideias confusas.

 

- Sim, mas quando um homem tem quarenta anos, e há muito que se bate contra os seus próprios fantasmas, é difícil transformá-lo.

 

Entabularam então uma discussão utilizando muitas palavras que, como de costume, eram incompreensíveis para a mãe. Tinham acabado de almoçar e continuavam a metralhar-se encarniçadamente com um dilúvio de palavras difíceis. Uma ou outra vez exprimiam-se de forma mais simples.

 

- Devemos seguir o nosso caminho sem nos desviarmos um centímetro - declarou Pavel com firmeza.

 

- E nesse caminho chocaremos com dezenas de milhões de homens que nos tratarão como inimigos.

 

A mãe escutava. Compreendia que Pavel não gostava dos camponeses, enquanto Andrei tomava a sua defesa e tentava demonstrar que também a eles era preciso ensinar o caminho certo. Ela compreendia melhor Andrei, e parecia-lhe que era ele quem tinha razão, mas de cada vez que ele dizia alguma coisa a Pavel, apurava o ouvido e sustinha a respiração, esperando com impaciência a resposta dele, ansiosa por saber se o Ucraniano o teria ofendido. Mas, embora discutissem com ardor, nenhum deles se irritava com o outro.

 

De vez em quando, Pelágia perguntava ao filho:

 

- Isso é verdade, Pacha?

 

E ele respondia sorridente:

 

- Claro que sim!

 

- O senhor - dizia Andrei com amável sarcasmo - comeu bem, mas não mastigou bem a comida, e tem um pedaço atravessado na garganta. Devia gargarejar.

 

- Não sejas parvo - respondia Pavel.

 

- Estou tão sério como num enterro.

 

A mãe abanava a cabeça e ria baixinho.

 

Aproximava-se a Primavera, e a neve começava a derreter, deixando a descoberto a lama e a fuligem que estavam dissimuladas sob a sua brancura. De dia para dia a lama tornava-se presente de uma forma cada vez mais agressiva, e o bairro inteiro parecia vestido de farrapos sujos. Durante o dia os telhados gotejavam, as paredes cinzentas das casas pareciam suar e fumegar cansaços, até que, ao crepúsculo, de novo por toda a parte se formavam estalactites de gelo de um branco duvidoso. O sol começava a mostrar-se cada vez.

 

Com maior frequência e começava a ouvir-se o murmúrio dos regatos que corriam para o pântano.

 

Preparava-se a festa do Primeiro de Maio.

 

Na fábrica e no bairro circulavam as folhas, a explicar o significado desta festa, e até os jovens que ainda não lhes tinham prestado muita atenção diziam ao lê-las: - É preciso organizar isto!

 

Vessovchikov, sempre rabujento, exclamava:

 

- Vai sendo tempo, já basta de jogarmos às escondidas. Theo Mazine regozijava-se. Tinha emagrecido muito, e onervosismo dos seus gestos e das suas frases fazia lembrar uma cotovia numa gaiola. Ia sempre acompanhado por lakov Somov, um rapaz taciturno, mais sério do que o normal para a sua idade, que trabalhava agora na cidade. Samoilov, que parecia ainda mais ruivo desde que tinha saído da prisão, Vassili Goussev, Bukhine, Dragunov, e alguns outros, consideravam necessário arranjarem algumas armas, mas Pavel, o Ucraniano, Somov e outros não estavam de acordo.

 

Chegou Igor, cansado, suado, a arfar, como sempre. Gracejava:

 

- A derrocada do poder estabelecido é uma grande obra, camaradas, mas para que se processe com maior rapidez, tenho de comprar umas botas novas. - E mostrava as suas, rotas e molhadas. - As minhas galochas padecem da mesma enfermidade incurável, e ando o dia todo com os pés encharcados. Não quero partir deste mundo antes de termos abjurado o velho, publica e claramente. Por isso declino a proposta do camarada Samoilov sobre uma demonstração armada, e proponho que me armem a mim com um par de sólidas botas, o que, estou plenamente convencido, será muito mais útil ao triunfo do socialismo do que a melhor cena de pancadaria.

 

No mesmo tom irónico contou como o povo tentava, em vários países, melhorar as suas condições de vida. A mãe gostava de ouvir estes discursos, que provocavam nela uma estranha impressão. Os mais astutos inimigos do povo, os que mais cruelmente o enganam, eram uns homenzinhos barrigudos e vermelhuscos, sem escrúpulos, ávidos, falsos e sem piedade. Quando o poder dos czares lhes dificultava a vida, excitavam a arraia miúda contra ele, e quando esta se sublevava e arrancava o poder das mãos do czar, estes homenzinhos conseguiam habilmente apoderar-se dele e devolviam ao povo a sua triste condição de oprimidos. Quando o proletariado discutia com eles, faziam-no chacinar às centenas e aos milhares.

 

Um dia, encheu-se de coragem, contou-lhes qual era a visão que ela própria tinha das coisas, e no fim perguntou, sorrindo um pouco receosa:

 

- É assim, Igor Ivanovitch?

 

Este começou a rir, rolando os olhos, respirou fundo, e esfregou o peito com as mãos.

 

- É de facto assim. A mãezinha conseguiu agarrar o touro da História pelos cornos. Enfeitou um pouco as coisas à sua maneira, mas são detalhes que não modificam em nada aquilo que é importante. São justamente esses homenzinhos balofos os maiores pecadores e os insectos mais venenosos que picam o povo. Os franceses chamam-lhes placidamente "burgueses.. Lembra-te, mãezinha, "bur-gue-ses...". Devoram-nos, chupam-nos o sangue.

 

- Os ricos? - perguntou a mãe.

 

- Exactamente. Repare, se aos poucos se for deitando cobre na comida de uma criança, isso impedirá o desenvolvimento do esqueleto, e ela torna-se anã. Da mesma forma, se se intoxica um homem com ouro, a sua alma torna-se pequena, lívida e cinzenta, como uma bola de borracha de cinco kopeks.

 

Pavel disse uma vez referindo-se a Igor:

 

- Sabes, Andrei, aqueles que mais brincam são os que mais sofrem...

 

O Ucraniano ficou silencioso por um momento e depois respondeu:

 

- Se isso fosse verdade, a Rússia inteira morreria de tanto rir.

 

Natacha reapareceu. Também ela tinha estado presa, noutra cidade, mas isso não a modificara em nada. A mãe reparou que na presença dela o Ucraniano era mais alegre, gracejava, metia-se com todos sem malícia nem maldade, e fazia-a rir, mas quando ela se ia embora punha-se a assobiar tristemente as suas intermináveis canções, e punha-se a andar no quarto para lá e para cá, arrastando os pés.

 

Sachenka vinha muitas vezes, sempre sombria, sempre apressada, e tornava-se cada vez mais cortante e mais brusca.

 

De uma vez Pavel acompanhou-a até à saída, e não fecharam a porta, e a mãe ouviu a sua rápida conversa:

 

- Será você a levar a bandeira, Vlassov?

 

- Sim, tenho esse direito.

 

- Será de novo a prisão.

 

Pavel não respondeu.

 

- Você não pode... - deteve-se ela.

 

- O quê?

 

- Deixar para outro...

 

- Não - disse ele em voz alta.

 

- Pense bem. Você aqui tem muita influência, gostam de si, você e Nakhodka são os dois mais activos, há tantas coisas que vocês poderão fazer, se estiverem em liberdade... Pense bem, vão desterrá-lo para longe, por muito tempo.

 

A mãe julgou encontrar na voz de Sachenka dois sentimentos que ela bem conhecia: a angústia e o medo. As palavras da rapariga caíram sobre o seu coração de mãe como grossas gotas de água gelada.

 

- Não, estou decidido - disse Pavel. - Nada me fará renunciar.

 

- Nem sequer se eu lhe suplicar?

 

Pavel respondeu imediatamente com uma voz áspera.

 

- Não deve falar assim. O que é que pensa? Não deve...

 

- Sou um ser humano - disse ela mansamente.

 

- Sim, uma boa rapariga - respondeu Pavel com doçura, mas num tom estranho, como se lhe faltasse a respiração. -

 

Um ser que me é muito querido. E precisamente por isso... não deve falar assim.

 

- Adeus - disse a jovem.

 

Pelo barulho dos tacões dos seus sapatos, a mãe percebeu que se afastava rapidamente, quase correndo. Pavel saiu atrás dela.

 

Pelágia sentia o peito esmagado por um terror doloroso e asfixiante. Não tinha compreendido bem a conversa, mas pressentia uma desgraça.

 

"O que irá ele fazer?"

 

Pavel regressava com Andrei, que dizia abanando a cabeça:

 

- Que havemos de fazer com esse maldito Isaías?

 

- Aconselhá-lo a abandonar a sua actividade de delator disse, sombrio, Pavel.

 

- Filho, que vais fazer? - perguntou a mãe de cabeça baixa.

 

- Quando?... Agora?

 

- No... no Primeiro de Maio.

 

- Ah! - exclamou Pavel num tom mais baixo. - Vou levar a bandeira. Vou colocar-me com ela à frente de todos... e por isso é provável que me metam outra vez na prisão.

 

Os olhos da mãe luziram, secou-se-lhe a boca. Pavel tomou-lhe a mão e acariciou-lha.

 

- Tenta compreender. É uma coisa que eu tenho de fazer.

 

- Eu não digo nada - murmurou ela erguendo a cabeça. Mas ao cruzar o olhar brilhante e obstinado de Pavel, cur-vou-a novamente.

 

Ele largou-lhe a mão, suspirou e disse em tom de censura:

 

- Não devias entristecer-te, mas alegrar-te. Quando haverá mães capazes de enviar corajosamente os seus filhos... até para a morte?...

 

- Oh, oh! - resmungou o Ucraniano. - Lá vai o grande senhor a galope!

 

- Eu disse alguma coisa? - repetiu a mãe. - Eu não te impeço, e se me sinto triste, isso são coisas do meu coração de mãe.

 

Ele afastou-se, e Pelágia ouviu estas palavras duras, cortantes.

 

- Há afectos que matam... ou que não deixam viver.

 

A mãe estremeceu com medo que ele dissesse alguma coisa que pudesse feri-la, e gritou energicamente:

 

- Não fales assim, Pacha! Eu compreendo que não podes fazer outra coisa... pelos camaradas...

 

- Não. Por mim próprio.

 

Andrei deteve-se um momento no umbral. Era da altura da porta e parecia estar numa moldura. Dobrava pitorescamente os joelhos, apoiava um ombro na ombreira, e projectava o pescoço, a cabeça e o outro ombro para a frente.

 

- O senhor fazia melhor em ficar calado - disse com ar sombrio, olhando Pavel com os seus olhos salientes.

 

Parecia um lagarto na fenda de uma pedra. A mãe sentiu vontade de chorar, mas não quis que o filho se apercebesse, e murmurou apressadamente:

 

- Meu Deus, tinha-me esquecido...

 

Entrou no vestíbulo e aí, com a cabeça apoiada na esquina da parede, deu livre curso às suas lágrimas. Chorava docemente, sem gemidos, sentindo-se desfalecer como se, juntamente com as lágrimas, lhe jorrasse o sangue do coração.

 

- Parece que te divertes a atormentá-la! - dizia o Ucraniano.

 

- Não tens o direito de dizer isso - respondeu Pavel.

 

- Não seria um bom camarada se me calasse perante as tuas parvoíces. Sabes, ao menos, porque razão lhe disseste aquilo?

 

- Há que saber dizer com firmeza sim e não.

 

- À tua mãe?

 

- A todos. Não quero amor nem amizade que me retenham, me cortem as pernas.

 

- Ora o herói! Vai-te assoar! E vai dizer tudo isso a Sachenka, que é quem deve ouvir essas coisas.

 

-Já lhe disse.

 

- Desta maneira? Mentira! Com Sachenka falaste ternamente, com doçura. Não te ouvi, mas sei. Na frente da tuamãe tiveste de armar em herói. Compreende, animal, que esse teu heroísmo não vale um kopek.

 

Pelágia enxugou rapidamente as lágrimas do rosto. Temia que o Ucraniano ofendesse Pavel. Apressou-se a abrir a porta e, entrando na cozinha a tremer de frio e de medo, disse:

 

- Que frio! E estamos na Primavera...

 

Remexendo à toa nos utensílios de cozinha, levantou o tom de voz numa tentativa de dominar a voz dos rapazes, mais grave, e disse:

 

- As coisas mudam. As pessoas andam acaloradas, o tempo arrefece. Antigamente, nesta altura, já fazia calor, o céu estava claro e o sol brilhava.

 

Fez-se um silêncio no quarto. Ela deixou-se ficar na cozinha, esperando não sabia o quê.

 

- Ouviste? - perguntou em voz baixa o Ucraniano. - É preciso compreender, que diabo! Ela tem mais coração do que tu...

 

- Querem chá? - perguntou a mãe com voz insegura. E sem esperar resposta, para ocultar o seu tremor, gritou:

 

- Não sei o que tenho, que estou gelada.

 

Pavel aproximou-se dela lentamente. Deitou-lhe um olhar furtivo e os lábios agitaram-se-lhe num sorriso culpado.

 

- Perdoa-me, mãe - disse ele a meia-voz. - Continuo a ser um garoto, e um tolo...

 

- Não me fales assim - disse ela tristemente, apoiando a cabeça de Pavel contra o seu peito. - Não me digas nada! Faz o que quiseres, é a tua vida... Mas não me digas palavras duras. Poderá uma mãe não sentir piedade? Não, eu sinto pena por todos vocês. Tenho-vos amor, a todos! E vocês bem o merecem. Quem, se não for eu, se compadecerá de vocês? Tu vais, atrás de ti outros partirão, deixarão tudo... Pavlucha!

 

Sentia no seu coração um pensamento grande e cheio de um ardor que lhe dava asas e a inspirava. Era alegria misturada com angústia e sofrimento. Mas não encontrava palavras e, angustiada por não saber exprimir-se, agitava a mão e deitava a Pavel um olhar abrasado por uma intensa dor.

 

- É verdade, màezinha. Perdoa-me, eu compreendo murmurou Pavel baixando a cabeça e dirigindo-lhe um olhar rápido e sorridente. Logo acrescentou, afastando-se confuso mas alegre:

 

- Não hei-de esquecer-me disto. Palavra de honra.

 

Ela recuou também. Com o olhar procurou Andrei que estava no quarto, e disse-lhe com uma voz suplicante e afectuosa:

 

- Andrei... não se zangue com ele. Claro que você é mais velho...

 

O Ucraniano, que estava de costas, não se voltou, mas rugiu com uma voz estranhamente cómica:

 

- Ai zango! E se for preciso até lhe dou uma surra. A mãe foi devagar até ele com a mão estendida.

 

- Meu bom, meu querido Andrei...

 

- O Ucraniano afastou-se, baixou a cabeça como um touro, e com as mãos atrás das costas passou junto dela e foi até à cozinha, de onde a sua voz ressoou num tom de amarga ironia:

 

- Sai daqui, Pavel, se não queres que te arranque a cabeça. Estava a brincar, mãezinha, não acredite. Vou preparar o samovar. Ah, que porcaria de carvão este! Está todo húmido! Que porcaria!

 

Calou-se. Quando a mãe entrou na cozinha estava de cócoras preparando o samovar. Murmurou sem olhar para ela:

 

- Não tenha medo, eu não lhe toco, sou mais manso que um cordeirinho. E tu, herói, não ouças isto. Gosto muito dele. Só não gosto do seu colete. Estreou um colete novo, imagine, e está radiante. Anda por aí de peito para fora, a empurrar toda a gente, "vejam o meu belo colete!-. É claro que o colete é bonito, mas vale a pena andar a empurrar as pessoas? Já estamos aqui bastante apertados.

 

Pavel sorriu.

 

- Ainda vais ficar muito tempo para aí a resmungar? Uma boa resposta não te chega?

 

O Ucraniano, que continuava de cócoras, observava o

 

samovar que tinha colocado entre as pernas. A mãe, de pé junto à porta, fixava os seus olhos afectuosos e tristes na nuca redonda e no pescoço largo e curvado de Andrei. Este inclinou-se para trás, apoiou as mãos no chão, olhou a mãe e o filho, piscou os olhos congestionados, e disse:

 

- Vocês são boa gente. Essa é que é a verdade. Pavel aproximou-se e puxou-o por um braço.

 

- Não puxes, vais fazer-me cair.

 

- Porque é que vocês estão aborrecidos? - disse tristemente a mãe. - Podiam dar um bom abraço...

 

- Queres? - perguntou Pavel.

 

- Porque não? - respondeu Andrei levantando-se.

 

Abraçaram-se. Imóveis por um instante, os seus dois corpos não eram mais do que uma só alma que ardia numa amizade eterna.

 

Lágrimas caíam pelo rosto da mãe, mas desta vez não eram lágrimas amargas. Enxugou-as, confusa:

 

- Nós, mulheres, gostamos de chorar. Choramos de tristeza como choramos de alegria.

 

O Ucraniano afastou Pavel com um gesto brando, secando também os olhos.

 

- Basta, chega de brincadeira.

 

- Porcaria de carvão! De tanto soprar as brasas, já tenho os olhos a arder.

 

Pavel sentou-se junto à janela e olhava para o chão.

 

- Estas não são lágrimas que envergonhem ninguém... disse ele suavemente.

 

A mãe veio sentar-se junto dele. Uma sensação de coragem suave e leve enchia o seu coração. Sentia-se triste, mas também feliz e serena.

 

- Eu ponho a mesa, deixe-se estar sossegada e sentada, mãezinha - disse o Ucraniano dirigindo-se para o quarto. Descanse agora, já foi hoje bastante massacrada.

 

Quando ele deixou de se ver, a sua voz clara tornou-se mais sonora.

 

- E bom viver assim, como seres humanos.

 

- Sim - disse Pavel lançando um olhar à mãe.

 

- Tudo mudou - disse esta. - A dor é outra e a alegria também.

 

- Tinha de ser assim - replicou o Ucraniano. - Há um coração novo que cresce, mãezinha, e é por isso que a vida cresce também. Chega um homem iluminado com o fogo da razão, que grita, que chama: "Eh, povos de todas as nações, unidos numa só família!" E à sua chamada todos os corações, juntando aquilo que têm de melhor, se unem num só coração imenso, forte, sonoro como um sino de prata...

 

A mãe apertou os lábios com força para os impedir de tremer, e fechou oS olhos para reter as lágrimas.

 

Pavel levantou a mão, ia a dizer qualquer coisa, mas a mãe baixou-lha, murmurando:

 

- Deixa-o falar!

 

- Sabem? A humanidade tem ainda muito que sofrer. Ser-lhe-á sugado ainda muito sangue, mas tudo isto, a minha dor e o meu sangue, são um resgate pequeno para aquilo que tenho já no meu peito e na minha cabeça... Sou rico, cintilo como uma estrela... Suportarei tudo, aguentarei tudo, porque nasceu em mim uma alegria que nada nem ninguém podem destruir. É nesta alegria que está a minha força.

 

Beberam o seu chá, e sentados à mesa até à meia-noite conversaram amigavelmente sobre a vida, a humanidade, o futuro.

 

Quando compreendia uma ideia, Pelágia suspirava, escolhia uma recordação do seu passado, difícil sempre e sempre rude, e servia-se dela como pedra de toque para melhor compreender esse pensamento.

 

O seu temor tinha-se fundido na cálida torrente da conversa, e sentia-se agora como no dia em que o pai lhe tinha dito com dureza:

 

"Não te faças esquisita! Apareceu um imbecil que quer casar contigo, agarra-o. Todas as raparigas se casam, todas as mulheres têm filhos, todos os filhos são uma carga para os pais. Tu não és um ser humano?"

 

Viu então o inevitável caminho que na sua frente se estendia, sem horizonte, em torno de um lugar deserto e sombrio. E a necessidade fatal de tomar esse caminho tinha enchido o seu coração de uma calma resignada e cega. Sentia agora a mesma coisa-. Mas pressentindo a chegada de uma nova desgraça, dizia no seu íntimo sem saber a quem:

 

- Toma, aguenta!

 

Assim aliviava a secreta dor que, vibrando, ressoava dentro de si como uma corda esticada.

 

No fundo da sua alma, que a ansiedade da espera perturbava, ardia a chama de uma esperança, débil, mas viva. A esperança de que não o prendessem, não o levassem todo. Alguma coisa dele teria de ficar.

 

De manhã, quando Pavel e Andrei tinham acabado de sair, Maria Korsunova bateu ansiosamente na janela, e gritou agitada:

 

- Mataram o Isaías! Vamos lá vê-lo!

 

A mãe tremeu. O nome do assassino atravessou a sua mente como um relâmpago.

 

- Quem foi? - perguntou rapidamente pondo um xaile pelos ombros.

 

- Quem quer que fosse, não se deixou lá ficar a olhar para ele, que diabo! Matou-o e fugiu! - respondeu Maria.

 

Pelo caminho continuou:

 

- Agora vão começar a investigar, a procurar o culpado. Ainda bem que os teus rapazes estavam em casa esta noite, eu posso testemunhá-lo. Passei diante da vossa casa perto da meia-noite, olhei pela janela, estavam todos sentados à mesa.

 

- Que dizes, Maria? Como poderiam acusá-los? - exclamou a mãe aterrada.

 

- Quem o teria morto? Certamente foram os vossos - disse Maria com convicção. - Toda a gente sabe que ele andava a espiar-vos.

 

A mãe deteve-se sem fôlego, e pôs a mão sobre o peito.

 

- Que tens tu? Não tenhas medo! Aquele que o matou não o fez para roubar. Vamos depressa, antes que o levem...

 

A pesada lembrança de Vessovchikov fez titubear Pelágia.

 

"Afinal sempre o matou!", pensava ela aturdida.

 

Não muito longe dos muros da fábrica, junto à porta de uma casa que tinha ardido há pouco tempo, uma multidão de gente reunida zumbia como um enxame de abelhas pisando os restos calcinados e a cinza que esvoaçava. Estavam lá muitas mulheres e uma multidão de garotos, lojistas, moços da taberna, vários polícias, entre os quais Petline, um velho de barba prateada e medalhas ao peito.

 

Isaías estava meio recostado no chão. Tinha as costas apoiadas numa viga enegrecida pelo fogo, e a sua cabeça descoberta pendia sobre o ombro direito. Tinha a mão direita no bolso das calças e os dedos da esquerda cravados na terra mole.

 

A mãe observou-lhe o rosto. Os olhos vítreos pareciam estar fixos no gorro, colocado entre as suas pernas, molemente estendidas. Tinha a boca entreaberta numa expressão de assombro, e a barba ruiva estava eriçada de um lado. O corpo magro, com a cabeça ponteaguda e o rosto ossudo e coberto de manchas, parecia mais pequeno, como se a morte o tivesse encolhido. A mãe persignou-se, suspirando. Vivo, causava-lhe repugnância, mas agora inspirava-lhe uma certa piedade.

 

- Não há sangue - observou alguém a meia-voz. - Deve ter sido a murro.

 

Uma voz atrevida disse muito alto:

 

- Calaram o bico a um bufo!

 

O polícia teve um sobressalto e, separando com as mãos o grupo das mulheres, perguntou ameaçadoramente:

 

- Quem é que disse isso, hem?

 

As pessoas separaram-se instintivamente. Alguns fugiram rapidamente. Ouviu-se uma risada maliciosa.

 

A mãe voltou para casa.

 

"Ninguém o chora", pensava ela.

 

A silhueta maciça de Nikolai erguia-se na frente dela como uma sombra. Nos seus olhos pequenos havia um olhar frio e cruel, e balançava a mão direita como se lhe doesse...

 

Assim que Pavel e Andrei chegaram para o almoço, perguntou-lhes:

 

- Então? Não prenderam ninguém, por causa do Isaías?

 

- Não ouvimos dizer nada - respondeu o Ucraniano. Viu que estavam ambos acabrunhados.

 

- Não dizem nada do Nikolai? - inquiriu em voz baixa. O olhar severo do filho pousou sobre ela, e respondeu

 

realçando bem as palavras:

 

- Não. Nem sequer pensam nele. Não está cá. Ontem ao meio-dia foi para o rio, e ainda não voltou. Tive notícias dele...

 

- Bom... graças a Deus! - disse a mãe, com um suspiro de alívio. - Graças a Deus!

 

O Ucraniano deitou-lhe um olhar e baixou a cabeça.

 

- Está estendido... - continuou a mãe, pensativa. - Tem uma cara... de assombro. E ninguém o chora, ninguém tem uma palavra de compaixão. Está tão pequeno que quase não se vê. Parece um bocado de uma coisa qualquer que se partiu e ficou ali caída no chão.

 

Durante o almoço, Pavel afastou bruscamente a colher e exclamou:

 

- Não compreendo!

 

- O quê? - perguntou o Ucraniano.

 

- Matar um animal, só porque precisamos de comer, já é repugnante. Matar um animal selvagem, uma ave de rapina, é compreensível. Eu próprio seria capaz de matar um homem que fosse como uma besta selvagem para os seus semelhantes. Mas matar um ser tão miserável... como se pode levantar a mão para fazer uma coisa assim?

 

Andrei encolheu os ombros e disse:

 

- Não era menos daninho que um animal feroz. Matamos o mosquito que nos chupa uma gota do nosso sangue...

 

- Claro, não queria dizer isso. Só digo que me repugna.

 

- O que é que se pode fazer? - replicou Andrei encolhendo de novo os ombros.

 

Fez-se um longo silêncio.

 

- Serias capaz de matar assim alguém? - pergntou Pavel pensativo.

 

O Ucraniano olhou-o com os seus olhos redondos. Em seguida lançou à mãe um rápido olhar e respondeu tristemente mas com firmeza:

 

- Pelos camaradas... pela nossa causa, seria capaz de tudo. Mataria até o meu próprio filho.

 

- Oh Andrei!... - exclamou a mãe debilmente. Este sorriu:

 

- Não se pode fazer de outra maneira. É a vida!

 

- Sim... - repetiu lentamente Pavel. - A vida...

 

De repente, tomado por uma súbita excitação, obedecendo a um impulso interior, Andrei levantou-se, agitando os braços.

 

- Que podemos nós fazer? Somos obrigados a odiar a humanidade, para que venha mais depressa o momento em que poderemos admirá-la sem reservas. É preciso destruir aquele que constitui um obstáculo à marcha da vida, ao que vende o seu próximo por dinheiro, por interesse ou por honras. Se no caminho dos justos há um Judas que os espera para os atraiçoar, eu seria um outro Judas se o não destruísse. Acham que não tenho esse direito? E os nossos patrões? Têm o direito de dispor de soldados e de carrascos, de casas de prostituição, de prisões, de colónias penais e de tudo o que é infame, para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? E se um dia eu lhes puder tirar o cacete das mãos? Que faço? Não vou recusá-lo, mas sim empunhá-lo. Matamnos os nossos às dezenas e às centenas... Isso dá-me o direito de levantar o meu braço e abatê-lo sobre a cabeça doinimigo, daquele que avança para mim para destruir a obra de toda a minha vida... A vida é assim. Luto contra a minha própria vontade. Sei que o sangue do inimigo não cria nada, não é fecundo! A verdade cresce quando o nosso sangue rega a terra como uma espessa chuva, mas o deles é sangue podre, desaparece sem deixar rastro. Sei de tudo isso. Pois então tomarei esse crime sobre as minhas costas. Matarei se necessário for. Falo apenas em meu nome, e esse é um crime que morrerá comigo, não manchará o futuro nem com a mais leve partícula, não sujará ninguém... ninguém, senão a mim. Ia e vinha pelo quarto agitando a mão direita, como se cortasse alguma coisa no ar, à sua frente, e a arremessasse para longe. Cheia de aflição e tristeza, a mãe olhava-o. Compreendia que alguma coisa se havia quebrado dentro dele, e que sofria. Os seus pensamentos sombrios e temerosos em relação ao assassinato tinham-na abandonado. "Se Vessovchikov não era o assassino, então nenhum dos outros camaradas de Pavel poderia sê-lo", pensava ela. Pavel, de cabeça baixa, escutava o Ucraniano que continuava com energia e determinação.

 

- Enquanto avançamos, temos de lutar às vezes até contra nós próprios. Temos de ser capazes de tudo sacrificar, até o coração. Consagrar a vida a uma causa, morrer por ela, não é difícil. Sacrifica mais, sacrifica também aquilo que te é mais querido que a própria vida; crescerá então com pujança o teu maior tesouro: a tua verdade.

 

Parou no meio do quarto, pálido, com os olhos semicerrados. Prosseguiu, levantando a mão como para fazer um juramento solene:

 

- Sei que virá o tempo em que os homens se admirarão mutuamente, em que cada um será como uma estrela aos olhos dos outros. A Terra será um lugar onde só viverão homens livres, engrandecidos pela liberdade. Cada um caminhará de coração descoberto, puro de todo o ódio, e nenhum homem conhecerá a maldade. Então, a vida será um culto rendido ao homem, a sua imagem elevar-se-á muito alta. Os seres livres podem atingir as alturas... Então a humanidade viverá num mundo de verdade, liberdade e beleza, e os melhores serão aqueles que melhor souberem albergar o mundo no seu coração, e que mais profundamente o amarem. Esses serão de todos os mais livres, e os mais belos. Serão verdadeiramente grandes, os seres humanos que viverem essa vida.

 

Fez um breve silêncio, endireitou-se e disse com uma voz saída do mais profundo do seu ser:

 

- E por essa vida, eu estou disposto a tudo...

 

O seu rosto contraiu-se. Uma após outra, pesadas lágrimas caíram dos seus olhos.

 

Pavel levantou a cabeça e olhou-o. Também ele estava pálido e tinha os olhos inchados. A mãe endireitou-se na cadeira. Sentia uma estranha angústia a crescer à sua volta.

 

- Que tens, Andrei? - perguntou Pavel em voz baixa.

 

O Ucraniano fez um movimento brusco com a cabeça, o seu corpo ficou tenso como uma corda, e disse, olhando Pelágia:

 

- Eu vi... eu sei.

 

Ela levantou-se, aproximou-se dele rapidamente, tomou-Lhe as mãos... ele tentou desprender a mão direita, mas a mãe segurava-lha com força e firmeza e murmurou com emoção:

 

- Meu filho, acalma-te... querido!

 

- Esperem! - disse ele em surdina. - Eu conto-vos como foi...

 

- Não - murmurou ela, olhando-o com lágrimas nos olhos.

- Não é preciso, Andrei...

 

Pavel aproximou-se lentamente, com os olhos húmidos. Estava pálido e sorria:

 

- A mãe tem medo que tenhas sido tu...

 

- Não tenho medo! Não acredito! Ainda que o tivesse visto, não acreditaria!

 

- Esperem - disse o Ucraniano sem olhar para eles, baixando a cabeça e tentando libertar a mão. - Não fui eu... mas podia tê-lo impedido.

 

- Cala-te, Andrei! - disse Pavel.

 

Estreitando a mão do Ucraniano na sua, pousou-lhe a outra no ombro como para fazer parar a tremura daquele corpo enorme. Andrei inclinou-se sobre ele e continuou com voz baixa e entrecortada:

 

- Eu não queria, tu bem sabes, Pavel. Aconteceu assim: tu ias à frente, e eu fiquei à esquina da rua com Dragunov... quando, pela outra rua, se aproximou Isaías. Parou a alguma distância de nós. Olhava-nos com cara de troça. Dragunov disse-me: "Estás a ver? Anda todas as noites a espiar-nos. Ainda dou cabo dele.." E foi-se embora, pensei que fosse para casa. Foi então que Isaías veio junto de mim.

 

Suspirou profundamente.

 

- Nunca ninguém me humilhou tanto como aquele cão. Em silêncio, a mãe puxou-O pelo braço até junto da mesa,

 

até que conseguiu fazê-lo sentar. Em seguida sentou-se ao seu lado. Pavel estava de pé em frente dos dois, e puxava pela barba com ar preocupado.

 

- Disse-me que nos conhecia a todos, que a polícia nos tinha debaixo de olho, e que nos prenderiam a todos antes do Primeiro de Maio. Não lhe respondi, ri-me, mas cá por dentro comecei a ferver. Depois disse-me que eu era um rapaz inteligente, que não devia seguir este caminho, mas sim um outro caminho melhor que ele conhecia...

 

Parou para enxugar o rosto. Os seus olhos tinham um brilho frio.

 

- Compreendo - disse Pavel.

 

- ...melhor... entrar ao serviço da Lei... Estendeu o braço e sacudiu o punho fechado.

 

- Ao serviço da Lei... maldita seja a sua alma! - disse entre dentes. - Seria melhor que me tivesse dado uma bofetada... teria sido menos penoso para mim... e quem sabe para ele. Mas quando me lançou no coração a sua saliva infecta, perdi a paciência.

 

Febrilmente, largou a sua mão da de Pavel, e enojado, com voz surda, acrescentou:

 

- Dei-lhe um murro no meio da cara e fui-me embora. Atrás de mim ouvi Dragunov dizer suavemente: "Deste-lhe bem?!" Tinha ficado à esquina...

 

Depois de um momento de silêncio, continuou:

 

- Eu não me voltei, mas ouvi... ouvi que lhe batiam. Segui tranquilamente como se tivesse afastado um sapo com o pé. Estava no trabalho quando gritaram: "Mataram o Isaías!" Não acreditei. Mas tinha a mão magoada... não a mexia bem. Não me doía propriamente, era como se tivesse encolhido...

 

Olhou de soslaio para a mão:

 

- Acho que nem em toda a minha vida vou conseguir lavar esta nódoa nojenta.

 

- Desde que o teu coração seja puro, meu filho! - disse a mãe docemente.

 

- Eu não me acuso, não - disse o Ucraniano. - Mas repugna-me. Eu não precisava...

 

- Não compreendo bem - disse Pavel encolhendo os ombros. - Não foste tu quem o matou, mas mesmo assim...

 

- Saber que se está a cometer um assassínio, e não fazer nada para impedi-lo...

 

- Não compreendo realmente - disse Pavel com firmeza, e acrescentou após uma breve reflexão:

 

- Quer dizer, posso compreender, mas sentir... não.

 

A sirene apitou. O Ucraniano inclinou a cabeça sobre o ombro para ouvir melhor o seu grito imperioso, e disse com um estremecimento:

 

- Não vou trabalhar.

 

- Eu também não - replicou Pavel.

 

- Vou até aos banhos - disse Andrei com um sorriso. Preparou-se rapidamente, sem dizer uma palavra, e saiu sombrio.

 

- Diz o que quiseres, Pavel. Eu sei... eu sei que é pecado matar um homem, mas parece-me que ninguém aqui é culpado. Senti pena de Isaías, quando o vi... pequeno como uma pulga... quando olhei para ele, lembrei-me que ameaçou fazer que te enforcassem, e já não sentia ódio contra ele, nem alegria por vê-lo morto. A única coisa que sentia era piedade. Mas agora já nem piedade sinto.

 

Calou-se, pensou por um instante e observou com um sorriso estranho:

 

- Senhor Jesus... Pavel, ouves o que te digo?

 

Era evidente que ele não a escutava. De cabeça baixa, pensativo e sombrio, passeava lentamente pelo quarto.

 

- É assim a vida - disse o jovem. - Vês como os homens se põem uns contra os outros? De boa ou de má vontade, temos de bater. E bater em quem? Num homem que privam dos seus direitos como nos fazem a nós, talvez mais desgraçado do que nós, porque ainda por cima é estúpido.

 

A polícia, os agentes, os denunciantes, são nossos inimigos, e no entanto são de carne e osso como nós. Também eles dão o seu suor e o seu sangue, e também eles são considerados pouco mais do que bichos. É sempre a mesma coisa. Desta forma conseguem dividir os homens, cegá-los com a estupidez e o medo, atá-los de pés e mãos, fazê-los suar, esmagá-los e fazer que se firam uns aos outros. Transformam-nos em espingardas, em cacetes, em ferro, e dizem: "É o Estado!"

 

Aproximou-se dela.

 

- É um crime, mãe. Um atroz assassínio de milhões de seres humanos, o assassínio das almas... Compreende, é a alma que eles matam. Tu vês a diferença que há entre eles e nós. Quando um de nós dá um murro num homem, sente vergonha, repugna-lhe, sofre, o seu coração estremece. Já eles... matam gente aos milhares, tranquilamente, sem piedade, sem uma hesitação. Matam por prazer! Estrangulam apenas para conservar o dinheiro, o ouro, os desprezíveis pedaços de papel, todas as porcarias miseráveis que, através do poder, conseguem obter dos outros homens. Pensa bem... não é para se protegerem a si próprios, nem para se defenderem, que chacinam o povo e mutilam as almas, não o fazem por uma questão de sobrevivência, mas por amor aos bens materiais que possuem. Não é por dentro que se protegem, mas por fora.

 

Pegando nas mãos da mãe, inclinou-se acariciando-lhas:

 

- Se pudesses sentir todo este nojo, esta podridão infame, compreenderias a nossa verdade, e até que ponto é grande e bela!

 

A mãe levantou-se, emocionada, invadida pelo desejo de unir o seu coração e o do seu filho numa única chama ardente.

 

- Espera, Pavel, espera! - murmurou radiante. - Estou a começar a compreender, espera!

 

Ouviu-se ruído na entrada. Estremeceram ambos, entreolhando-se.

 

A porta abriu-se lentamente, e entrou Rybine com o seu andar pesado.

 

- Bom! - disse, levantando a cabeça e sorrindo. - Sou eu, cumprimentem-me e façam-me as honras da casa.

 

Vestia um casaco curto de pele de borrego manchado de alcatrão, e calçava alpercatas de casca de bétula entrançada. Trazia umas luvas penduradas no cinturão, e na cabeça um gorro de peles.

 

- Como vai a saúde? Já te soltaram, Pavel? Bom! E tu, Pelágia Nilovna, como vais?

 

Todo ele sorria, mostrando os dentes brancos. A sua voz tinha um timbre mais suave, e o rosto quase desaparecia por detrás da barba cerrada.

 

Feliz por voltar a vê-lo, a mãe aproximou-se dele, apertou-lhe a mão grande e escura, e disse, aspirando o cheiro forte e saudável do alcatrão que dele emanava:

 

- És tu? Como estou contente por te ver! Pavel examinou Rybine e disse com um sorriso:

 

- Está um perfeito mujik!

 

Rybine despiu lentamente o casaco.

 

- Sim, voltei a ser mujik. Vocês tornaram-se um bocadinho mais senhores, eu voltei um pouco para trás, é isso.

 

Alisou a camisa de cotim, entrou no quarto e olhou à volta.

 

- Vejo que os móveis não aumentaram, mas os livros sim. Bem, como vão as coisas?

 

Sentou-se com as pernas bem abertas e as palmas das mãos apoiadas nos joelhos. Fixando em Pavel os seus olhos negros, sorriu bondoso e esperou a resposta.

 

- As coisas não vão mal de todo - disse Pavel.

 

- Lavramos e semeamos, não nos gabamos, e depois da colheita fazemos um bom vass, não é verdade? - brincou Rybine.

 

- E você, Mikhail Ivanovitch, como vai a sua vida? - perguntou Pavel sentando-se defronte do seu visitante.

 

- Também não vai mal de todo. Deixei-me ficar em Enguildievo, conheces? É uma aldeia bonita. Duas feiras por ano, mais de dois mil habitantes, triste gente. Não há terras. Alugam-nas, mas não valem nada. Coloquei-me como moço de recados em casa de uma dessas sanguessugas... São mais do que moscas em cima de um cadáver, por aqueles lados. Extrai-se alcatrão, fabrica-se carvão... ganho quatro vezes menos do que aqui, e fico com as costas duas vezes mais partidas, isso é que é a verdade. Somos sete a trabalhar para este explorador. São todos rapazes do lugar, menos eu, e todos sabem ler. Há um, chama-se Efime, que é um apaixonado, Santo Deus...

 

- E conversa com eles? - perguntou animadamente Pavel.

 

- Não me calo. Levei comigo todas as folhas que vocês fizeram aqui, trinta e quatro, mas prefiro servir-me da minha Bíblia, está lá tudo o que é preciso. Um livro grosso, autorizado e impresso pela Igreja, todos o aceitam.

 

Piscou um olho a Pavel e sorriu:

 

- Mas é pouco, e por isso vim a tua casa buscar mais alguns. Viemos dois, Efime e eu, trazer alcatrão. Fizemos um desvio e viemos visitar-te. Dá-me alguns folhetos antes que Efime chegue, ele também não precisa de saber demasiado. A mãe olhava para Rybine e parecia-lhe que ele não tirara apenas o casaco, havia tirado alguma coisa mais. Já não tinha a gravidade de antes, e o seu olhar tornara-se mais astuto e menos sincero.

 

- Mãezinha - disse Pavel -, vai buscar-nos alguns livros. Eles sabem o que te hão-de dar, diz-lhes que é para as aldeias.

 

- Está bem - disse a mãe. - O samovar está quase a ferver, vou a seguir.

 

- Também tu, Pelãgia Nilovna, estás metida nisto? - perguntou Rybine rindo. - Muito bem. Há muita gente a gostar de livros, lá na aldeia. O professor, por exemplo. Parece-me um bom rapaz, apesar de ter sido educado num seminário. Há também uma professora primária, a sete ou oito verstás. Mas não querem nada com livros proibidos. São empregados do governo e têm medo. Preciso de um desses livros clandestinos, um desses bem subversivos, para fazer circular. Se a polícia ou o pope virem que é um livro proibido, pensarão que foram os professores que lhos deram. A mim, por enquanto, não me conhecem, não tenho nada a ver com o assunto.

 

Satisfeito com a sua esperteza, riu, mostrando os dentes. "Ora vejam!" Pensou a mãe. "Parece um urso, mas é uma raposa!..."

 

- Você acha então - perguntou Pavel - que se suspeitarem que os professores andam a distribuir livros proibidos os vão meter na prisão por causa disso?

 

- Claro! E então?

 

- Mas terá sido você a distribuir os livros, e não eles. Era você quem devia ir para a prisão!

 

- Espertalhão! - exclamou Rybine rindo e dando palmadas nos joelhos. - Quem é que vai pensar que eu, um simples mujik, possa estar metido nisso? Nunca se viu uma coisa assim. Os livros são coisa de senhores, e são eles que devem responder por isso...

 

A mãe sentia que Pavel não compreendia Rybine. Via o filho franzir as sobrancelhas, o que era nele um sinal de aborrecimento. Por isso resolveu intervir, dizendo cautelosamente:

 

- Mikhail Ivanovitch quer fazer todas essas coisas, mas irão ser castigados outros no seu lugar...

 

- É isso! - afirmou Rybine cofiando a barba. - Para já...

 

- Mãezinha - replicou secamente Pavel -, se um dos nossos, o Andrei, por exemplo, fizesse alguma coisa em meu nome, e me viessem prender a mim, que pensarias tu?

 

A mãe estremeceu, olhou para o filho desconcertada, e respondeu abanando a cabeça negativamente:

 

- Como se pode fazer uma coisa dessas a um camarada?

 

- Ah! - disse Rybine arrastando as sílabas. - Agora compreendo-te, Pavel!

 

Com uma piscadela de olhos maliciosa, dirigiu-se a Pelágia:

 

- Isto, mãezinha, é um assunto delicado. Voltou-se para Pavel adoptando um tom sentencioso:

 

- Tu ainda és um inocente, rapaz. Aquilo que pretendemos fazer é ilegal, não nos podemos preocupar com questões de honra. Pensa um pouco: em primeiro lugar vão meter na cadeia as pessoas que forem encontradas com os livros, e não os professores. Segundo, nos livros autorizados de que os professores se servem vêm as mesmas coisas que vêm nos proibidos, embora não com as mesmas palavras, e com menos verdade. Isto significa que eles anseiam por alcançar o mesmo objectivo que eu, só que eles tomam um caminho muito complicado, enquanto eu vou direito às questões. Para a polícia somos todos igualmente culpados, não é verdade? E terceiro, filho, eu não tenho nada a ver com eles. O peão não é bom companheiro para o cavaleiro. Talvez eu não agisse desta maneira contra um aldeão. Mas trata-se do filho de um pope, e a rapariga é filha de um grande latifundiário, por isso não entendo que motivo podem ter para querer sublevar o povo. Eu, mujik, não posso penetrar nos seus pensamentos de seres instruídos. Sei da minha vida, não sei da deles, nem quero saber. Há mil anos que os grandes muito bem têm vindo a desempenhar o seu ofício de senhores. Esfolaram o camponês, e agora de repente acordaram, e decidiram abrir-lhe os olhos. Eu não acredito em contos de fadas, rapaz, e, como podes ver, é o que esta história parece. Seja como for, esses senhores estão demasiado distantes de mim. Se vou no Inverno pelo campo, e vejo que alguma coisa se agita na minha frente, o que poderá ser? Um lobo, uma raposa, ou apenas um cão, não posso sabê-lo, está demasiado longe.

 

A mãe deitou um olhar a Pavel. Parecia desgostoso.

 

Os olhos de Rybine brilhavam com um fulgor sombrio, e passava, febril, os dedos pela barba.

 

- Não tenho tempo para delicadezas. A vida não se compadece de ninguém. No canil não é como no curral, cada matilha ladra à sua maneira.

 

- Há senhores que se sacrificam pelo povo, que sofrem a vida inteira nas prisões... - disse a mãe, recordando alguns rostos familiares.

 

- Com eles é diferente. Quando o mujik enriquece, transforma-se num senhor, e quando o senhor empobrece, transforma-se em mujik. A alma tem por força de purificar-se, porque a bolsa está vazia. Lembra-te, Pavel. Foste tu que me explicaste que as pessoas pensam de acordo com a sua maneira de viver, e que quando o operário diz que "sim", o patrão deve dizer que "não", e quando o operário diz que "não", o patrão, até pela sua própria condição de patrão, tem de gritar que "sim". Bem, pois o mujik e o senhor também não têm a mesma natureza. Quando o mujik sacia a fome, o senhor não dorme de noite. É claro que todas as classes têm os seus desavergonhados, eu não pretendo defender todos os mujiks...

 

Endireitou-se, escuro, impressionante. O seu rosto tinha-se tornado sombrio, a barba tremia-lhe como se batesse os dentes. Continuou, baixando a voz:

 

- Anelei por aí, de fábrica em fábrica, durante cinco anos, e já estava desacostumado do campo, é isso. Regressei, vi o que se passa por lá, e disse para mim mesmo: "Eu não posso viver assim!" Compreendes? Não posso! Vocês aqui não podem nem imaginar o que são as humilhações que as pessoas sofrem por lá. A fome persegue o ser humano como uma sombra, e as pessoas já nem esperam conseguir o pão necessário. A fome vai devorando as almas, vai criando espectros que já nem fisionomia de homens têm, e apodrecem numa miséria inacreditável. Enquanto isso, à volta deles, as autoridades montam guarda, vigiam-nos como corvos, a ver se terás um pedaço a mais. Se vêem que tens alguma coisa roubam-ta, e ainda por cima te dão pancada...

 

Rybine olhou à sua volta e inclinou-se para Pavel apoiando as mãos sobre a mesa:

 

- Quando voltei a conhecer esta vida de perto, senti vontade de vomitar. Pensei que já não seria capaz de suportá-la. Mas dominei-me. "Não faças disparates", disse para mim mesmo. "Ficarei aqui. Não tenho pão para lhes dar, mas vou semear a desordem." E é Q que farei. Sinto um grande rancor contra aqueles gatunos. A humilhação está-me cravada no coração como se fosse um punhal.

 

Tinha a fronte coberta de suor. Aproximou-se lentamente de Pavel e pousou-lhe no ombro uma mão que tremia.

 

- Ajuda-me! Dá-me livros que não mais deixem descansar aqueles que os lerem. Quero pôr-lhes um ouriço debaixo da cabeça, um ouriço que pique bem. Diz a essa gente da cidade que escreve para vocês que deve escrever também para os camponeses. Que nos preparem um molho com tantas especiarias que vire as aldeias de pernas para o ar, para que os nossos mujiks combatam até à morte.

 

Levantou o braço e acrescentou com voz surda, deixando cair cada palavra:

 

- Curar a morte com a morte, aí está! Isso quer dizer que é preciso morrer para que o mundo ressuscite. E que morrerão milhares, para que milhões vivam sobre a terra. É isso. É fácil morrer. Se os homens ressuscitassem, se se levantassem!...

 

A mãe trouxe o samovar olhando dissimuladamente para Rybine, cujas palavras brutais e violentas a feriam. Havia alguma coisa naquele homem que lhe lembrava o marido. Lembrava-se de ver nele a mesma expressão, o mesmo gesto das mãos quando arregaçava as mangas, a mesma raiva impotente, embora muda. Rybine falava, e parecia agora menos terrível.

 

- Sim, temos de fazer isso. Dêem-nos factos concretos, e nós imprimiremos um jornal.

 

A mãe olhou para Pavel com um sorriso, a seguir vestiu-se em silêncio e saiu.

 

- Imprime-o! Nós arranjamos-te o que for preciso. Mas não escrevas coisas complicadas, tem de ser tão simples que até os carneiros o entendam - exclamou Rybine.

 

A porta do vestíbulo abriu-se, e entrou alguém.

 

- É o Efime - disse Rybine, espreitando para a cozinha. Entra, Efime. Este é o Pavel, o rapaz de quem te falei.

 

Um mocetão robusto, de rosto largo, cabelos acastanhados e olhos cinzentos estava diante de Pavel e olhava-o de cima abaixo. Vestia um casaco curto de pele de carneiro e trazia na mão um gorro de peles.

 

- Como está? - disse com voz rouca. Apertou a mão de Pavel e alisou os cabelos ásperos. Percorreu o quarto com o olhar e em seguida dirigiu-se caminhando lentamente, quase furtivo, até à estante cheia de livros.

 

-Já os viu! - disse Rybine piscando o olho a Pavel. Efime virou-se, olhou-o, e começou a examinar os livros, dizendo:

 

- Tem aqui muito para ler! Não deve ter é muito tempo para isso. Nós no campo temos mais tempo.

 

- E menos vontade? - perguntou Pavel.

 

- Porquê? Pelo contrário! - respondeu o rapaz coçando a barbicha. - As pessoas começam a usar a cabeça. Geologia, o que é?

 

Pavel explicou-lhe.

 

- Não precisamos disso - disse Efime voltando a colocar o livro no seu lugar. - O mujik não está interessado em saber de onde surgiu a terra, mas sim de que maneira foi distribuída, de que maneira os poderosos a roubaram ao povo. Que a terra gire ou que não se mova, isso não nos importa. Por mim até podem pendurá-la numa corda, contanto que dê de comer, que alimente os seus.

 

- História da escravidão - continuou Efime a ler, e perguntou de novo:

 

- Fala de nós?

 

- Aqui há um sobre a servidão - disse Pavel estendendo-lhe outro livro.

 

O camponês pegou-lhe, revirou-o nas mãos, em seguida pousou-o e disse tranquilamente:

 

- Isso são coisas do passado.

 

- Você tem terras arrendadas?

 

- Nós? Sim, temos. Somos três irmãos, temos quatro hectares. Areia boa para limpar cobre, mas para o trigo não presta...

 

Depois de um silêncio, continuou:

 

- Libertei-me da servidão da terra. Para que serve a terra? Não nos dá o sustento e ata-nos as mãos. Há quatro anos que trabalho como assalariado rural. No Outono vou para a tropa. Aqui o paizinho Mikhail diz-me "não vás!". Diz que agora mandam/a tropa bater no povo, mas eu penso ir. Também no tempo de Pougatchev e de Stenka Razine a tropa combateu contra o povo. Temos de acabar com isso. O que é que você acha? - disse ele olhando fixamente Pavel.

 

- Sim, é altura - respondeu o jovem com um sorriso. - Só que não é fácil. Temos de saber o que havemos de dizer aos soldados, como havemos de falar-lhes...

 

- Aprende-se, há-de conseguir-se! - disse Efime.

 

- Se o apanham, podem fuzilá-lo - ctisse Pavel olhando o camponês com curiosidade.

 

- Eles não perdoam, isso é certo! - concordou tranquilamente o rapaz, e de novo se pôs a examinar os livros.

 

- Bebe o teu chá, Efime. Temos de ir andando! - disse Rybine.

 

-Já vamos... Revolução, significa revolta?

 

Chegou Andrei, vermelho, suado e taciturno. Apertou em silêncio a mão de Efime, sentou-se junto de Rybine e depois de o olhar atentamente começou a rir.

 

- Pois não pareces muito contente... - comentou o Ucraniano.

 

- Também é operário? - perguntou Efime designando Andrei com um movimento de cabeça.

 

- Sim - disse Andrei. - Porquê?

 

- É a primeira vez que vê operários fabris - explicou Rybine. - Ele acha que são pessoas diferentes.

 

- Porquê? - perguntou Pavel.

 

Efime observou Andrei atentamente, e disse:

 

- Têm os ossos mais ponteagudos. O mujik tem-nos mais arredondados.

 

- O mujik aguenta-se nas pernas com mais firmeza - acrescentou Rybine. - Sente a terra debaixo dos pés. Mesmo não sendo sua, é a terra. O operário da cidade é como um pássaro. Não tem morada certa. Hoje está aqui, amanhã está ali. Nem sequer uma mulher é para ele uma amarra.. À primeira discussão com ela... adeus querida... passa bem. E vai procurar coisa melhor noutro sítio, já d mujik prefere ficar onde está, não gosta de mudar de poiso. Ah, chegou a mãe!

 

Efime aproximou-se de Pavel e perguntou:

 

- Quer emprestar-me um livro?

 

- Com muito prazer - respondeu Pavel.

 

Os olhos do rapaz brilharam de avidez, e acrescentou com vivacidade:

 

- Eu devolvo-lho. Os companheiros trazem alcatrão para perto de aqui, e eu mando-lho por eles.

 

Rybine tinha voltado a vestir o casaco, cingindo bem o cinturão:

 

- Vamos, já é tempo.

 

- Agora, já tenho que ler - exclamou Efime, mostrando os dentes num sorriso rasgado.

 

Quando partiram, Pavel disse para Andrei:

 

- Viste-me estes diabos?

 

- Sim... - disse lentamente o Ucraniano. - Parecia que vinham das nuvens.

 

- Vocês estão a falar de Rybine? - interrompeu a mãe. - É como se nunca tivesse estado a trabalhar na fábrica. Voltou a ser um perfeito mujik! E é terrível!...

 

- Foi pena que não estivesses aqui - disse Pavel a Andrei que, sentado à mesa, contemplava sombrio o seu copo de chá. - Tu, que falas tanto do coração, terias podido observar o que vai pelo coração de Rybine. Expressou aqui ideias tão absurdas que me deixaram transtornado, sem fôlego... nem sequer consegui responder-lhe. Como ele desconfia da humanidade, e como a detesta! A mãe é que tem razão, este homem alberga dentro de si uma força terrível...

 

- Eu bem o vi - disse Andrei, sempre carrancudo. - Envenenaram os homens. QUando se erguerem vão derrubar todos os obstáculos, um por um. Precisam da terra nua à sua frente, vão arrancar tudo aquilo que a cobre.

 

Falava devagar, e percebia-se que o seu pensamento estava noutro lugar. A mãe disse-lhe com ternura:

 

- Esquece um pouco, Andrei.

 

- Espere, mãezinha, espere - replicou ele doce e afectuosamente.

 

E, reagindo subitamente, disse, batendo com o punho na mesa.-

 

- Sim, Pavel, se os camponeses se sublevarem, vão destruir tudo à sua passagem! Como depois de uma peste, vão arrasar tudo para fazer desaparecer nas cinzas os vestígios de todas as humilhações sofridas.

 

- E a seguir vão atravessar-se no nosso caminho - observou suavemente Pavel.

 

- A nossa missão é não permitir que isso aconteça. Temos de os conter, Somos quem está mais perto deles, hão-de acreditar-nos. Hão-de seguir-nos.

 

- Sabes, Rybine propôs que editássemos um jornal para ser distribuído pelas aldeias.

 

- Temos de fazê-lo!

 

- Sinto-me envergonhado - disse Pavel rindo - por não ter trocado mais algumas ideias com ele.

 

O Ucraniano observou calmamente:

 

- Haverá outra ocasião. Toca a tua flauta, e aqueles que não tiverem os pés enterrados na terra hão-de dançar ao som da tua música. O que Rybine diz é verdade; não sentimos a terra debaixo dos pés. E ainda bem, uma vez que somos nós que vamos ter de a pôr em movimento. Hão-de seguir-nos quando a sacudirmos uma primeira vez, depois outra vez havemos de a sacudir, e de novo nos hão-de seguir.

 

A mãe sorriu:

 

- Andrei, para ti tudo é simples.

 

- É verdade - replicou ele. - Simples. Como a própria vida.

 

Uns instantes depois, disse:

 

- Vou dar uma volta pelo campo.

 

- Depois do banho! Está um vento capaz de trespassar uma pessoa... - disse a mãe.

 

- É disso justamente que eu preciso.

 

- Tem cuidado, vais constipar-te - disse Pavel solícito. Fazias melhor se te fosses deitar.

 

- Não, vou sair.

 

Vestiu-se e saiu sem uma palavra.

 

- Anda desgostoso - observou a mãe com um suspiro.

 

- Sabes - disse Pavel -, depois do que se passou... fazes bem em tratá-lo por tu.

 

Ela olhou-o admirada:

 

- Mas eu nem dou por isso! É uma coisa minha... não sei como hei-de explicar-te.

 

- Tens bom coração, mãe - disse Pavel em voz baixa.

 

- Se pudesse ajudar-te, por pouco que fosse... e aos outros... se soubesse!

 

- Não te preocupes, tu vais saber ajudar-nos. Ela pôs-se a rir docemente:

 

- Bem, há uma coisa que não sei: não ter medo!

 

- Não falemos mais, mãe. Mas quero que saibas que te estou muito grato.

 

A mãe foi para a cozinha, para não o perturbar com as suas lágrimas.

 

O Ucraniano regressou de noite, já tarde, cansado, e deitou-se imediatamente dizendo:

 

- Devo ter andado pelo menos dez verstás.

 

- E fez-te bem?

 

- Vou dormir, não me maces!

 

Calou-se e ficou a dormir como uma árvore.

 

Pouco depois chegou Vessovchikov, esfarrapado, sujo e mal humorado como sempre.

 

- Não ouviste dizer quem matou o bandido do Isaias? perguntou, passeando desajeitadamente pelo quarto.

 

- Não - disse Pavel secamente.

 

- Bem, algum tipo que não teve nojo. E eu que tanto queria estrangulá-lo... era uma coisa que estava talhada mesmo para mim.

 

- Não digas uma coisa dessas, Nikolai! - disse-lhe Pavel em tom amigável.

 

- É verdade! - interveio afectuosamente a mãe. - Você tem bom coração, e no entanto não pára de fazer ameaças. Porquê?

 

Naquele momento, comprazia-se em olhar para Nikolai. Parecia-lhe ver mesmo alguma beleza no seu rosto marcado pelas bexigas.

 

- Sou um inútil que só diz tolices - disse ele com um encolher de ombros. - Penso, penso, e onde é o meu lugar? Não vejo nenhum. É preciso falar às pessoas, e eu não sei fazê-lo. Vejo todas as vilanias que fazem aos homens, sinto-as, mas não consigo exprimi-las. A minha alma não sabe falar.

 

Aproximou-se de Pavel e, de cabeça baixa, arranhando a mesa com o dedo, disse com uma voz de queixume, como a de um garoto, uma voz que não era a sua voz habitual:

 

- Dêem-me um trabalho duro, não importa qual seja. Não consigo viver assim, sem fazer nada. Vocês todos estão em actividade. Eu vejo que as coisas avançam, mas eu estou à margem. Carrego vigas, tábuas... não se pocle viver só para isso. Dêem-me um trabalho duro!

 

Pavel pegou-lhe por uma mão, puxando-o para si:

 

- Vamos dar-to.

 

Mas do outro lado do tabique, ouviu-se a voz do Ucraniano:

 

- Nikolai, eu ensino-te os caracteres de imprensa e tu passas a ser um dos nossos tipógrafos, queres?

 

Vessovchikov aproximou-se do tabique:

 

- Se me ensinares, ofereço-te um canivete...

 

- Vai para o diabo com o teu canivete! - exclamou o Ucraniano, desatando a rir.

 

- Um bom canivete! - insistiu Nikolai.

 

Pavel ria também. Nesse momento, Vessovchikov deteve-se e perguntou:

 

- Vocês estão a rir-se de mim?

 

- Naturalmente! - respondeu Andrei saltando da cama. Vem, vamos passear pelo campo, está um luar lindíssimo. Vamos?

 

- Está bem - disse Pavel.

 

- Eu também vou - declarou Nikolai. - Gosto de te ouvir rir, Nakhodka.

 

- E eu gosto de te ouvir... prometer presentes. Enquanto se vestia na cozinha, a mãe disse-lhe em tom

rabujento:

 

- Agasalha-te melhor!

 

E quando os três saíram, foi olhá-los pela janela. Em seguida deitou um olhar aos ícones, e disse:

 

-Senhor... ajuda-os!

 

Os dias sucediam-se com uma tal rapidez que a mãe não conseguia nem sequer ter tempo para pensar no Primeiro de Maio. Só à noite, quando, fatigada da ruidosa agitação e das emoções do dia, se deitava na sua cama, sentia o coração oprimir-se-lhe de melancolia:

 

-Já falta pouco...

 

Ao amanhecer a sirene da fábrica uivava. Pavel e Andrei bebiam apressadamente o seu chá, comiam qualquer coisa e saíam, deixando a mãe entregue a um sem número de afazeres. E ela passava o dia inteiro às voltas como um pássaro numa gaiola. Fazia a comida, preparava uma espécie de gelatina de cor violeta para se imprimirem os cartazes e também a cola para os afixarem, recebia desconhecidos que lhe entregavam bilhetes para Pavel e logo desapareciam, contagiando-a com a sua excitação.

 

Esses cartazes, que convidavam os operários a festejar o Primeiro de Maio, apareciam quase todas as noites nas vedações, e até na porta da esquadra da polícia. Todos os dias surgiam na fábrica. De manhã os polícias calcorreavam o bairro. Arrancavam as folhas violetas, raspavam, praguejavam. À hora do almoço já eles voavam de novo pelas ruas, caíam aos pés dos transeuntes. Chegaram da cidade agentes da polícia secreta. Encostados às esquinas, observavam atentamente os operários que iam almoçar, ruidosos e animados, ou que regressavam ao trabalho. Toda a gente se divertia com a impotência da polícia, e até os operários mais idosos diziam com um sorriso nos lábios:

- O que é que eles podem fazer?

 

Por todo o lado se formavam pequenos grupos que discutiam acaloradamente aquele apelo perturbador. A vida fervilhava nessa Primavera, e era uma vida que a todos parecia mais interessante, a cada um trazia algo de novo. A uns, uma razão mais para se sentirem irritados contra os sediciosos e os cobrirem de insultos: a outros, uma vaga inquietação e uma esperança; a um punhado deles, uma alegria pungente e a consciência de serem eles a força que estava despertando todos os outros.

 

Pavel e Andrei quase não dormiam. Chegavam a casa um momento antes da chamada da sirene, cansados, roucos, pálidos. A mãe sabia que se organizavam reuniões pelos bosques e no pântano. Não ignorava que os delatores vigiavam, os destacamentos da polícia montada rondavam toda a noite pelo subúrbio, detendo e revistando os operários que seguiam sozinhos, dispersando grupos, prendendo às vezes este ou aquele. Ela bem sabia que uma noite também Pavel e Andrei podiam ser presos, e quase o desejava, parecendo-lhe que seria melhor para eles.

 

Sobre o assassínio de Isaías tinha-se feito um estranho silêncio. Durante dois dias a polícia local tinha interrogado uma dezena de pessoas sobre o assunto. Em seguida, parecia ter-se desinteressado do caso.

 

Maria Korsunova, em conversa com a mãe, contou-lhe o que se comentava na polícia, com quem estava de excelentes relações, como estava aliás com toda a gente.

 

- Como é que eles vão descobrir o culpado? Naquela manhã Isaías foi visto por mais de cem pessoas, das quais pelo menos umas noventa com muito prazer lhe teriam dado uma boa sova. Há sete anos que não parava de incomodar toda a gente.

 

O Ucraniano modificava-se a olhos vistos. O seu rosto estava mais magro, e as pesadas pálpebras caiam-lhe sobre os olhos salientes, semicerrando-lhos. Das asas do nariz desciam-lhe agora duas finas rugas até às comissuras dos lábios. Falava menos das coisas do quotidiano, mas inflamava-se cada vez mais, tomado de um entusiasmo que contagiava aqueles que o ouviam, exaltando o futuro, a festa luminosa e magnífica do triunfo da liberdade e da razão.

 

Quando a morte de Isaías parecia esquecida, disse um dia num tom desdenhoso, sorrindo tristemente:

 

- Se não amam o povo, os nossos inimigos também não estimam aqueles que lhes servem de cães de fila. Não lamentam o seu fiel Judas, mas sim as suas moedas de prata.

 

- Não fales mais nisso, Andrei - disse Pavel com firmeza. A mãe acrescentou a meia-voz:

 

- Um tronco apodrecido levou uma pancada, e desfez-se em pó.

 

- É justo, mas não me consola! - replicou Andrei taciturno.

 

Repetia muitas vezes estas palavras que, na sua boca, se revestiam de um significado particular, mais abrangente, amargo e corrosivo.

 

E chegou por fim o tão esperado Primeiro de Maio.

 

A sirene chamou como de costume, imperiosa e dominadora. A mãe, que não tinha pregado olho toda a noite, saltou da cama e acendeu o samovar que tinha ficado preparado de véspera. Ia, como todos os dias, bater à porta de Pavel e Andrei, mas deteve-se, deixou cair o braço e sentou-se junto à janela, apoiando o rosto sobre a mão, como se lhe doessem os dentes.

 

Pelo céu azul pálido, um rebanho de nuvens leves, brancas e rosa, deslizava ligeiro. Dir-se-ia um bando de pássaros que fugiam voando, assustados com o rugido surdo do vapor. A mãe fitava as nuvens e ouvia as batidas do seu coração. Sentia a cabeça pesada e os seus olhos, congestionados pela insónia, estavam secos. Reinava uma estranha calma no seu peito, as batidas do seu coração eram regulares, e ela pensava em coisas sem importância.

 

- Acendi o samovar cedo demais, vai evaporar-se. Deixá-los dormir mais um bocadinho, andam os dois tão cansados!

 

Um raiozinho de sol, alegre e familiar, entrou pela janela. Pelágia estendeu a mão, e quando ele pousou, luminoso, sobre os seus dedos, acariciou-o docemente com a outra mão, sorridente e pensativa. Em seguida levantou-se, retirou o tubo do samovar e, esforçando-se por não fazer ruído, lavou-se e pôs-se a rezar, persignando-se com fervor e movendo os lábios silenciosamente. O seu rosto ia-se iluminando, enquanto, abaixo da cicatriz, a sua sobrancelha direita se elevava lentamente para logo voltar a descer.

 

Soou a segunda chamada da sirene, menos forte, menos segura, com um som trémulo, denso, concentrado. Pareceu também à mãe mais longo que o habitual.

 

Ouviu-se a voz clara do Ucraniano:

 

- Pavel, estás a ouvir?

 

Enquanto um, descalço, arrastava os pés pelo chão, o outro bocejava bem disposto.

 

- O samovar está pronto - disse a mãe.

 

- Já nos levantamos - respondeu alegremente Pavel.

 

- Já nasceu o sol - disse Andrei. - E há nuvens a passar. As nuvens hoje estão a mais.

 

Entrou na cozinha despenteado, com olhos de sono, mas alegre.

 

- Bons dias, mãezinha. Dormiu bem?

 

Ela aproximou-se e disse-lhe em voz baixa:

 

- Andrei, vais estar ao lado dele, não é verdade?

 

- Claro - sussurrou o Ucraniano. - Vamos juntos, e juntos seguiremos seja para onde for, pode ter a certeza.

 

- Que estão vocês a conspirar? - perguntou Pavel.

 

- Nada!

 

- Está a dizer-me para me lavar bem. As raparigas vão olhar para nós - disse Andrei saindo para o pequeno vestíbulo para se lavar.

 

- De pé, ó vítimas da fome.,. - cantarolou Pavel.

 

O dia ia clareando, e as nuvens desapareciam varridas pelo vento. A mãe olhou para a mesa, moveu a cabeça sem compreender. Os dois amigos gracejando, sorrindo, naquela manhã... em que ninguém podia saber o que os esperava ao meio-dia.

 

Ela própria se sentia tranquila, quase alegre.

 

Deixaram-se ficar sentados à mesa um longo momento, esforçando-se por abreviar o tempo de espera. Pavel, como sempre, remexia lenta e minuciosamente com a colher para desfazer o açúcar no fundo do copo, e salgava cuidadosamente um pedaço de côdea, a parte do pão de que mais gostava. O Ucraniano agitava os pés debaixo da mesa. Nunca conseguia colocá-los comodamente quando se sentava, e olhando um raio de sol que se estendia ao longo do tecto e da parede, contou:

 

- Quando eu era um rapazito aí dos meus dez anos, um dia quis agarrar o sol. Peguei num copo, aproximei-me da parede em bicos de pés, e... zás! Fiz um golpe na mão, e ainda por cima me bateram. A seguir vim para o pátio, vi o sol a brilhar num charco, fui lá pisá-lo, salpiquei-me de lama de alto a baixo. Bateram-me outra vez. Então pus-me a gritar para o sol: "Não me dói, diabo encarnado, não me dói!- Deitava-lhe a língua de fora, e ficava contente.

 

- Porque é que ele te parecia vermelho? - perguntou Pavel sorrindo.

 

- Porque defronte da nossa casa morava um ferreiro de cara rubicunda e barba avermelhada. Era um mujik alegre e bondoso, e eu achava que o sol se parecia com ele.

 

Não podendo mais, a mãe disse:

 

- Vocês deviam era falar do que vai acontecer!

 

- Falar daquilo que já está decidido só serve para atrapalhar as coisas - disse Andrei docemente. - Se acontecer que eles nos prendam, mãezinha, o Nikolai Ivanovitch vem cá dizer-lhe o que há-de fazer.

 

- Está bem! - suspirou a mãe.

 

- Devíamos estar na rua - disse Pavel pensativo.

 

- Não, é melhor ficares em casa, à espera - aconselhou Andrei. - Não te interessa seres visto pela polícia. Já te conhecem à légua!

 

Theo Mazine chegou a correr, radiante, com as faces coradas. A emoção e o júbilo de que transbordava dissiparam a tensão do tempo de espera.

 

-Já começou! As pessoas já começaram a movimentar-se, yão pela rua abaixo com umas caras... que parecem machados! O Vessovchikov, o Vassili Goussev e o Samoilov estão desde manhãzinha à porta da fábrica a falar às pessoas. Muitos voltaram para casa. Vamos, chegou o momento, já são dez horas.

 

- Vou então - disse Pavel em tom resoluto.

 

- Vocês vão ver - afirmou Theo -, a esta hora já deve estar tudo em pé de guerra! - e saiu a correr.

 

- Arde como um círio ao vento - disse a mãe com doçura. Em seguida, levantou-se e foi-se vestir.

 

- Onde vai, mãezinha?

 

- Vou com vocês!

 

Andrei olhou para Pavel retorcendo o bigode. Com um gesto vivo, Pavel alisou o cabelo para trás e seguiu-a até à cozinha.

 

- Mãezinha, eu não te direi nada... e tu também não me dirás nada. Entendido?

 

- Sim, sim... e que Deus vos acompanhe! - murmurou ela.

 

Quando, ao sair para a rua, ouviu o rumor das vozes, um rumor inquieto, estremecido da angústia da espera, e quando viu por todo o lado, nas portas e nas janelas, grupos que seguiam Pavel e Andrei com um olhar curioso, apareceu na frente dos seus olhos uma mancha brumosa que ondulava, mudando de cor, ora de um verde transparente, ora de um cinzento turvo:

 

As pessoas cumprimentavam os dois jovens, e aqueles cumprimentos tinham alguma coisa de especial. O ouvido da mãe ia apreendendo fragmentos de comentários feitos em voz baixa.

 

- Lá vão os cabecilhas.

 

- Não sabemos quem são os cabecilhas! *.

 

- Bom, eu também não disse nada de mal. Mais longe, uma voz irritada:

 

- Se a polícia os apanha, estão perdidos.

 

- Isso já se sabe.

 

Um grito exasperado de mulher saiu, aterrado, por uma janela, e chegou à rua:

 

- Perdeste a cabeça? Pensas que ainda és um rapaz novo, ou quê?

 

Quando passaram diante da casa de um tal Zossimov, que tinha perdido ambas as pernas num acidente de trabalho, e por causa disso recebia uma pensão, este assomou a cabeça à janela, e exclamou:

 

- Pavel! Ainda te hão-de torcer o pescoço por causa dessas tuas histórias, imbecil! Podes ter a certeza!

 

A mãe deteve-se, estremecendo. Aquele grito havia despertado nela uma cólera aguda. Olhou fixamente para a cara redonda, inchada, do inválido, que se retirou para dentro a blasfemar. Ela apressou o passo para se juntar a Pavel, e caminhou atrás dele tentando não se atrasar.

 

Pavel e Andrei pareciam não ver nada, não ouvir as exclamações que os acompanhavam. Caminhavam tranquilamente, sem se apressarem. Foram detidos por Mironov, um homem maduro e modesto, respeitado por todos pela sua vida limpa e sóbria.

 

- Também não está a trabalhar, Danilo Ivanovitch? - perguntou Pavel.

 

- A minha mulher está quase a dar à luz. E além disso há hoje muita agitação pelo ar - explicou Mironov. Depois, olhando fixamente os dois camaradas, perguntou: - E vocês, rapazes? Diz-se por aí que querem fazer um escândalo ao director, partir os vidros...

 

- Por acaso estaremos bêbados? - replicou Pavel.

 

- Iremos apenas pela rua, com bandeiras, e cantaremos canções - disse Andrei. - Escute-as, elas proclamam a nossa fé!

 

-Já conheço a vossa fé - respondeu Mironov pensativo. Li os vossos folhetos... Então, Pelágia Nilovna? Também vais com os revoltosos? - perguntou ele, com um sorriso nos seus olhos inteligentes.

 

- É preciso estar do lado da verdade, mesmo quando estamos com os pés para a cova!

 

- Ora vejam... Parece que têm razão aqueles que dizem que és tu que levas os folhetos proibidos para a fábrica.

 

- Quem é que disse isso? - perguntou Pavel.

 

- Diz-se... por aí! Bem, então até logo, e não façam nenhuma tolice...

 

A mãe pôs-se a rir de mansinho. Sentia-se lisonjeada por falarem dela daquela maneira. Pavel sorriu e disse:

 

- Ainda acabas na prisão, mãezinha.

 

O Sol erguia-se no horizonte e misturava o seu calor à estimulante frescura do dia primaveril. As nuvens deslizavam mais lentamente, e a sua sombra tornava-se mais fina, mais transparente. Estas sombras que se moviam preguiçosas pela rua e sobre os telhados envolviam as pessoas. Pareciam purificar o bairro, ocultando o lodo e o pó das paredes e dos telhados e o tédio dos rostos. A alegria era contagiante e as vozes tinham-se tornado mais sonoras, abafando o eco longínquo do ruído das máquinas.

 

Novamente das janelas, dos pátios, de todo o lado, as palavras se escapavam e voavam até aos ouvidos da mãe, inquietas ou maliciosas, resolutas ou alegres. Pelágia teria querido agora replicar, agradecer, explicar, misturar-se na vida excepcionalmente colorida daquele dia.

 

Numa esquina da rua principal, numa ruela estreita, tinha-se reunido uma centena de pessoas. Ouvia-se troar o vozeirão de Vessovchikov:

 

- Espremem-vos o sangue como das groselhas se espreme o sumo.

 

As suas palavras desajeitadas abatiam-se sobre a cabeça dos seus ouvintes.

 

- É verdade! - responderam ao mesmo tempo várias vozes que se misturaram num rumor confuso.

 

- O rapaz está a dar o seu melhor! - disse o Ucraniano. Vamos ajudá-lo.

 

Curvou-se, e antes que Pavel pudesse detê-lo, com o seu corpanzil abriu caminho por entre a multidão, como se fosse um saca-rolhas. A sua voz bem timbrada logo se fez ouvir.

 

- Camaradas, dizem que há muitos povos sobre a Terra, judeus e alemães, ingleses e tártaros. Eu creio que isso não é verdade. Existem apenas dois povos, duas raças irreconciliáveis: os ricos e os pobres. Os homens podem vestir-se de modo diferente, falar de modo diferente, mas quando vemos a forma como os franceses ricos, ou ingleses, ou alemães que sejam, tratam os trabalhadores, apercebemo-nos de que todos eles são verdugos autênticos para os operários. São uma espinha cravada na nossa garganta.

 

Alguém riu por entre a multidão.

 

- E se olharmos as coisas pelo outro lado, vemos que o operário francês, como o tártaro e o turco, leva uma vida de cão igual à que levamos nós, os proletários russos.

 

A multidão não parava de aumentar à sua volta. Um após outro, os operários iam deslizando com dificuldade pela ruelazita estreita, iam-se aproximando silenciosos, esticavam o pescoço, erguiam-se nos bicos dos pés.

 

Andrei levantou a voz:

 

- No estrangeiro, os trabalhadores compreenderam esta verdade tão simples, e hoje, nesta jornada luminosa do Primeiro de Maio...

 

- A polícia! - gritou alguém.

 

Quatro polícias a cavalo dobravam a esquina da rua em direcção ao grupo, e agitando as chibatas gritavam:

 

- Vamos a dispersar!

 

Os rostos tornavam-se sombrios. Diante dos cavalos, a multidão afastava-se de dentes arreganhados. Alguns subiram para as vedações.

 

Uma voz sonora e provocadora gritou:

 

- Puseram os porcos em cima dos cavalos, e eles agora começaram a grunhir que são uns grandes chefes!

 

O Ucraniano ficou sozinho no meio da rua. Dois dos cavalos avançavam para ele movendo as cabeças. Afastou-se enquanto a mãe lhe pegava por um braço, o levava com ela e o censurava entre dentes:

 

- Prometeste ficar junto de Pavel, e agora expões-te a ti próprio a levar pancada!

 

- Desculpe-me! - disse ele sorrindo.

 

Um cansaço, misturado com angústia e abatimento, apoderou-se de Pelágia. Sentia-o crescer pondo-lhe a cabeça a andar à roda, e a tristeza e a alegria apoderavam-se alternadamente do seu coração. Queria ouvir quanto antes a sirene do meio-dia.

 

Chegaram ao largo, junto à igreja. Lá estavam, apertados, sentados ou de pé, uns quinhentos jovens e rapazes cheios de ardor e alegria. A multidão ondulava. As pessoas levantavam a cabeça e olhavam ao longe, para um e outro lado, numa atitude de espera impaciente. Havia no ar uma espécie de efervescência. Uns pareciam desorientados, outros afectavam indiferença. Ouviam-se de quando em quando débeis vozes femininas, que logo eram abafadas pelas dos homens. Estes afastavam-se com desprezo, praguejando e soltando palavrões a meia-voz. Um surdo rumor de palavras ásperas envolvia a multidão.

 

- Mitenka! - tremia uma voz de mulher. - Tem cuidado!

 

- Deixa-me em paz!

 

Ouviu-se a voz de Sizov, grave, persuasiva:

 

- Não, não podemos deixar os jovens sozinhos! A audácia deles é mais sensata que a nossa prudência. Quem foi que fez tudo na história do kopek do pântano? Eles! Não devemos esquecer isso. Todos nós beneficiámos, mas só eles é que foram parar à prisão.

 

O sombrio rugido da sirene abafou o barulho das conversas. Um estremecimento percorreu a multidão. Os que estavam sentados levantaram-se, num instante todos se imobilizaram, tensos, esperando, e muitos rostos empalideceram.

 

- Camaradas!

 

Era a voz de Pavel, sonora e firme. Uma névoa seca velou os olhos da mãe que, recuperando com um só movimento todas as energias do seu corpo, se colocou ao lado do filho. Todos se voltaram para Pavel, rodeando-o como limalha de ferro atraída por um íman. A mãe olhava para ele e apenas via os seus olhos, orgulhosos, audazes, ardentes...

 

- Camaradas! Nós, que decidimos declarar abertamente quem somos, levantamos hoje a nossa bandeira, a bandeira da razão, da verdade, da liberdade.

 

Uma haste comprida e branca surgiu no ar, inclinou-se, desapareceu entre a multidão para se reerguer um instante depois, desfraldando, como um pássaro escarlate, a enorme bandeira do povo trabalhador.

 

Pavel levantou o braço. A haste vacilou. Dezenas de mãos seguraram a madeira lisa e branca, e entre estas mãos estava a da mãe.

 

- Viva o povo trabalhador! - gritou.

 

Centenas de vozes lhe responderam, fazendo um eco fortíssimo.

 

- Viva o Partido Operário da Democracia Social! O nosso Partido, camaradas! A nossa pátria espiritual!

 

A multidão estava efervescente. Aqueles que conheciam o significado do estandarte abriram caminho até ele. Mazine, Samoilov, os dois Goussev, vieram colocar-se junto de Pavel. Nikolai Vessovchikov, de cabeça baixa, fazia de barreira à multidão. Outros que a mãe não conhecia, jovens de olhar inflamado, detinham-na, empurravam-na.

 

- Vivam os operários de todos os países! - gritou Pavel. Com um entusiasmo e uma alegria crescentes, mil vozes

 

lhe responderam num tom sonoro que fazia estremecer a alma. A mãe segurou a mão de Nikolai e a de outro qualquer, sentia-se afogada em lágrimas que não conseguia chorar, e tremiam-lhe as pernas. Balbuciou:

 

- Meus filhos...

 

Um sorriso enorme rasgou-se no rosto bexigoso de Nikolai que fitava a bandeira, estendia o braço para ela e gritava qualquer coisa. De repente baixou a mão, segurou Pelágia pelo pescoço, beijou-a e desatou a rir.

 

- Camaradas! - começou o Ucraniano. Sobrepondo a sua voz doce e bem timbrada ao ruído da multidão. - A nossa procissão vai caminhar em nome de um novo Deus, o Deus da luz e da liberdade. O nosso objectivo está ainda muito longe, e a coroa de espinhos muito próxima. Os que não crêem na força da verdade, os que não tàm a coragem de a defender até à morte, os que nãotêm confiança em si mesmos e temem o sofrimento, devem ir-se embora. Apelamos àqueles que crêem na vitória. Aqueles que não tiverem fé no nosso objectivo, não nos sigam. Só vos espera a desgraça. Formar fileiras, camaradas! Viva a festa dos homens livres, viva o Primeiro de Maio!

 

A multidão tornou-se mais compacta. Pavel agitou a bandeira que se desfraldou, flutuando, brilhando sob o sol como um enorme sorriso vermelho.

 

- De pé, ó vítimas da fome... - entoou Theo Mazine com voz forte.

 

Dezenas de vozes continuaram, numa onda suave e poderosa:

 

- ... De pé, famélicos da Terra...

 

Com um sorriso ardente nos lábios, a mãe caminhava atrás de Mazine, e por cima das cabeças via o seu filho e a bandeira. À sua volta dançavam caras alegres, olhos de todas as cores... Pavel e Andrei iam à frente, ouvia as suas vozes. A de Andrei, doce e velada, misturava-se harmoniosamente com a de Pavel, cheia e mais baixa:

 

- ... Bem unidos, façamos / Desta luta final...

 

E toda gente corria ao encontro do estandarte vermelho, se misturava com os outros e seguia com a multidão, e os seus gritos eram abafados pela canção, aquela canção que em casa cantavam mais baixo que as outras, e que na rua fluía como um rio cheio de força. Parecia a voz da própria audácia, que se por um lado convidava os homens a seguir o longo caminho do futuro por outro lado também os alertava lealmente para as dificuldades que os aguardavam ao longo desse mesmo caminho. Na sua enorme chama serena fun-

diam-se as misérias do passado, a dura cadeia dos sentimentos rotineiros e o maldito temor do futuro que ficavam assim reduzidos a cinzas.

 

Ao pé da mãe, uma figura desconhecida, ao mesmo tempo assustada e alegre, ia-se balançando ao som da canção, e uma voz, trémula de soluços, chamava-o:

 

- Mitri, onde vais?

 

Pelágia respondeu-lhe sem se deter:

 

- Deixe-o ir, não se inquiete. Eu também levo o meu medo na primeira fila. O que leva a bandeira é o meu filho!

 

- Bandidos! Onde vão vocês? A tropa está lá em baixo! Agarrando subitamente o braço de Pelágia com a sua mão ossuda, a mulher, alta e magra, exclamou:

 

- Como eles cantam! E Mitri a cantar também!

 

- Não se inquiete - murmurou a mãe. - Esta é uma causa santa! Pense que não existiria Cristo se por amor dele não tivessem morrido tantos!

 

Este pensamento tinha subitamente nascido no seu espírito e tinha-a surpreendido pela verdade clara e simples que encerrava. Olhou o rosto da mulher que lhe apertava o braço, e repetiu com um sorriso de espanto.

 

- Não haveria Cristo se não tivesse morrido tanta gente por ele, por Nosso Senhor.

 

Sizov apareceu ao lado dela. Tirou o gorro e agitou-o no ar ao ritmo do canto.

 

- Estão cheios de coragem, hem, mãe? Inventaram um hino... e que hino, mãezinha! Não têm medo de nada... mas o meu filho está na sepultura...

 

O coração da mãe bateu mais forte e parou um instante. Empurraram-na para um laclo e ficou encostada a uma vedação, enquanto a espessa onda humana passava na sua frente. Viu então como era imensa a multidão, e sentiu-se feliz.

 

- De pé, ó vítimas da fome...

 

Dir-se-ia que um clarim gigantesco tocava no ar, reanimando os homens, despertando nuns a combatividade, noutros uma confusa satisfação, o pressentimento de alguma coisa nova e grandiosa, uma curiosidade ardente. Aqui fazia nascer uma esperança inquieta, ali soltava a áspera torrente de uma ira acumulada ao longo dos anos.

 

Todos os olhares se dirigiam para a frente, para o local onde balançava e flutuava a bandeira vermelha.

 

- Já lá vão! Bravo, rapazes!

 

E o homem, experimentando certamente um sentimento tão grande que se não podia expressar por palavras simples, começou a praguejar energicamente. Mas também o ódio, o ódio sombrio e cego dos escravos, silvava como uma serpente, retorcia-se em palavras de raiva, alarmado com a luz que o denunciava.

 

- Hereges! - gritou alguém com voz entrecortada, agitando de uma janela o seu punho ameaçador. E um murmúrio penetrante e obsessivo feriu os ouvidos da mãe.

 

- Contra o Imperador? Contra Sua Majestade o Czar? Uma revolução?

 

Figuras desorientadas passavam na sua frente, homens e mulheres saltavam, corriam. A multidão assemelhava-se a uma lava escura arrastada por aquele canto, cuja poderosa melodia parecia tudo derrubar e tudo transformar à sua passagem. A mãe olhava de longe a bandeira vermelha, não via o seu filho mas imaginava o seu rosto bronzeado e o seu olhar a arder nas chamas devoradoras da fé.

 

Encontrava-se agora nas últimas filas, no meio de pessoas que caminhavam sem pressa, que olhavam em frente com indiferença, com a fria curiosidade de espectadores que assistissem a uma peça conhecendo já o seu desenlace final. Caminhavam comentando a meia-voz, com segurança:

 

- Está uma companhia junto à escola, e outra na fábrica.

 

- Veio o governador...

 

- A sério?

 

- Vi-o eu com os meus próprios olhos. Alguém praguejou de forma pitoresca, e disse:

 

- De qualquer maneira, começam a ter medo de nós. Se vieram as tropas, e o governador...

 

"Meus queridos filhos-, pareciam dizer as batidas do coração da mãe.

 

Mas os que agora a rodeavam eram pessoas frias e sem entusiasmo. Apressou o passo para se afastar destes que o acaso havia feito seus companheiros de marcha, e não lhe foi difícil ultrapassar o seu passo lento e preguiçoso.

 

De repente, a frente do cortejo pareceu tropeçar num obstáculo. O longo corpo da multidão não se deteve mas vacilou, e foi percorrido por um rumor inquieto. O canto estremeceu também um pouco, mas recomeçou com mais força e mais vivacidade. De novo a densa onda de sons esmoreceu, recuou. Uma após outra as vozes foram-se calando. Ouviram-se ainda, aqui e além, vozes que tentavam entusiasmar o coro, refazê-lo na sua plenitude, incentivá-lo.

 

- De pé, ó vítimas da fome...

 

- ... De pé, famélicos da Terra...

 

Mas já não havia neste apelo a mesma unidade cheia de segurança viril, e sentia-se a ansiedade a crescer.

 

A mãe não via nada, não sabia o que se estava a passar na primeira linha. Furando pelo meio da multidão, abria caminho rapidamente. As pessoas chocavam com ela, baixavam a cabeça, as sobrancelhas franziam-se, alguns sorriam embaraçados, outros assobiavam em ar de troça. Ela, angustiada, ia examinando os rostos, os seus olhos perguntavam, suplicavam, chamavam...

 

A voz de Pavel ressoou:

 

- Camaradas! Os soldados são pessoas como nós. Não vão atacar-nos. Porque haviam de fazê-lo? Porque nós trazemos a verdade, necessária a todos? Também eles precisam desta verdade! Não a compreendem ainda, mas aproxima-se o momento em que hão-de levantar-se também ao nosso lado, para marchar, já não sob a bandeira da pilhagem e do assassínio mas sob a nossa bandeira, a bandeira da liberdade. E para que eles mais depressa compreendam a nossa verdade, devemos seguir em frente. Em frente, camaradas, sempre em frente!

 

A voz de Pavel era firme, e as suas palavras soavam no ar nítidas e claras, mas a multidão começou a dispersar-se. Uns após outros foram-se afastando, uns para a direita outros para a esquerda, em direcção às suas casas, deslizando ao longo das paredes. O cortejo tinha agora a forma de uma cunha, da qual Pavel era a ponta, e sobre a sua cabeça flamejava, vermelha, a bandeira do povo trabalhador. A multidão parecia um enorme pássaro negro de asas abertas, vigilante, pronto a levantar voo, e Pavel era o seu bico.

 

Ao fundo da rua. fechando o acesso à praça, a mãe viu uma parede cinzenta de homens sem rosto, todos iguais. Ao ombro de cada um deles, brilhava friamente a fina folha de aço de uma baioneta. Desta parede imóvel e silenciosa parecia soprar sobre os operários um vento gelado que trespassava o coração da mãe.

 

Infiltrou-se na multidão tentando ficar mais próxima daqueles que conhecia. Estavam mais adiante, junto à bandeira, misturados com desconhecidos como que apoiando-se neles. Sentiu-se apertada contra um homenzarrão sem barba. Era zarolho, e voltou bruscamente a cabeça para a ver.

 

- Que estás aqui a fazer? Quem és tu?

 

- Sou a mãe de Pavel Vlassov - disse ela.

 

Sentia tremerem-lhe as pernas e sem querer deixou descair o lábio inferior.

 

- Ah! - disse o zarolho.

 

- Camaradas! - recomeçou a voz de Pavel. - A vida inteira está na nossa frente... não temos outro caminho.

 

Seguiu-se um silêncio cheio de expectativa. A bandeira ergueu-se, balançou, flutuou calmamente sobre as cabeças e chegou sem atropelos até à muralha de soldados. A mãe estremeceu, fechou os olhos e soltou um gemido. Pavel, Andrei, Samoilov e Mazine destacaram-se da multidão. A voz clara de Theo Mazine vibrou lentamente:

 

- Bem unidos, façamos... - entoou.

 

- ... Desta luta final... - responderam como um eco duas vozes baixas, surdas, como dois pesados suspiros. A multidão retomou a marcha, batendo cadenciadamente com os pés no chão, e de novo o canto se elevou, arrebatador e resoluto.

 

- ... Uma terra sem amos... - modulou a voz forte e límpida de Theo.

 

- ... A Internacional! - concluíram em coro os camaradas.

 

- Ah, ah! - gritou alguém maldosamente. -Já começam a cantar o ofício dos mortos, filhos da puta!

 

- Matem-no! - ressoou outra voz numa exclamação de raiva.

 

A mãe apertou as mãos contra o peito. Olhou em volta e viu que a multidão que enchia a rua, e que ainda há pouco era uma massa compacta, permanecia agora quieta e indecisa. Destacava-se dela o grupo dos que estavam com a bandeira. Somente algumas dezenas de pessoas os tinham seguido. A cada passo havia algum que saltava para um lado, como se o chão estivesse incandescente e o queimasse.

 

- E a injustiça cairá... - profetizaram cantando, os lábios de Theo.

 

- ... E o povo se levantará... - respondeu-lhe um coro de vozes fortes, seguras e ameaçadoras.

 

Mas através da harmonia do hino ressoaram palavras frias:

 

- Preparar!

 

E um grito brutal:

 

- Baionetas, apontar!

 

As baionetas descreveram unta curva no ar, desceram, apontaram na direcção da bandeira, zombeteiras, brutais.

 

- Em frente, marche!

 

- Vêm aí! - disse o zarolho e, enfiando as mãos nos bolsos, afastou-se a grandes passadas.

 

A mãe observava tudo atentamente.

 

A onda cinzenta dos soldados levantou-se e, estendendo-se a toda a largura da rua, avançou com movimentos regulares de autómatos, projectando à sua frente uma espécie de ancinho de dentes de aço a cintilar. A passos largos, a mãe aproximou-se do filho. Viu Andrei dar também um passo colocando-se à sua frente para o proteger com o seu corpo enorme.

 

- Ao meu lado, camarada! - gritou Pavel em tom rude. Andrei cantava, com as mãos atrás das costas e a cabeça erguida. Pavel empurrou-o com o ombro e exclamou de novo:

 

- Ao meu lado! Não tens o direito! A bandeira deve ir à frente!

 

- Dispersar! - gritou um oficial magrizela com uma voz aguda, agitando o sabre desembainhado.

 

Caminhava levantando muito os pés, sem dobrar os joelhos, batendo ameaçador com os pés no chão. As suas botas engraxadas luziram aos olhos da mãe.

 

A seu lado, um pouco mais atrás, caminhava pesadamente um homem bem barbeado, de estatura elevada e espesso bigode cinzento. Vestia um casaco largo cinzento forrado a vermelho, e calças ornamentadas com faixas amarelas. Como o Ucraniano, também ele tinha as mãos cruzadas atrás das costas e, levantando as espessas sobrancelhas grisalhas, fitava Pavel.

 

A mãe olhava mais do que os seus olhos podiam abarcar. No seu peito estava cravado um grito, pronto a rebentar, pronto a soltar-se a cada suspiro. Sentia-se sufocada por este grito, mas tentava contê-lo comprimindo o peito com as duas mãos. Empurrada por todos os lados ia vacilando, mas continuava caminhando sem pensar, quase inconscientemente. Apercebia-se que atrás dela o número de pessoas diminuía sem cessar. Aquela onda glacial avançava ao seu encontro e dispersava-as.

 

Os jovens da bandeira vermelha e a espessa cadeia de homens cinzentos avizinhavam-se rapidamente. Distinguia-se agora claramente o rosto dos soldados, que pareciam estender-se a toda a largura da rua, unidos numa estreita faixa de um amarelo sujo. Olhos, de cores variadas, olhavam de modo desigual, e as pontas afiadas das baionetas brilhavam cruelmente. Apontadas ao peito das pessoas, ainda sem lhes tocarem, conseguiam que, um a um, todos se afastassem.

 

A mãe ouvia atrás de si as passadas dos que fugiam. Vozes inquietas, abafadas, gritaram:

 

- Fujam, rapazes!

 

- Foge, Vlassov!

 

- Vem para trás, Pavel!

 

- Dá-me a bandeira, Pavel - disse Vessovchikov com ar sombrio. - Dá-ma, que eu escondo-a.

 

Com uma mão pegou na haste. A bandeira oscilou para trás.

 

- Larga! - gritou Pavel.

 

Nikolai retirou a mão como se se tivesse queimado. O canto extinguia-se. Os jovens detiveram-se rodeando Pavel dentro de um círculo compacto, mas ele conseguiu abrir caminho à sua frente. De repente fez-se um silêncio, como se uma nuvem invisível e transparente tivesse descido e envolvesse os manifestantes.

 

Debaixo da bandeira já não se mantinham mais de uma vintena de jovens, mas esses resistiam ainda. A mãe tremeu por eles e sentiu o vago desejo de lhes dizer qualquer coisa.

 

- Pegue... nessa coisa, tenente - ordenou a voz monótona do velho de grande estatura.

 

Estendendo a mão, designou a bandeira. O pequeno oficial correu até junto de Pavel, agarrou na haste e gritou com voz esganiçada:

- Larga!

 

- Tira as mãos! - disse Pavel com voz forte.

 

A bandeira oscilou, vermelha, no ar, inclinando-se para a direita e para a esquerda, até se erguer de novo. O pequeno oficial saltou para trás e caiu no chão. Vessovchikov passou na frente da mãe com uma rapidez que ela não lhe conhecia. Tinha um braço estendido e o punho fechado.

 

- Prendam-nos! - rugiu o velho batendo com o pé no chão.

 

Adiantaram-se alguns soldados. Um deles brandiu a coronha. A bandeira estremeceu, inclinou-se e desapareceu no meio da massa cinzenta dos soldados.

 

- Ai! - suspirou tristemente alguém.

 

A mãe soltou um grito, um uivo animal. Mas a voz forte de Pavel respondeu-lhe do meio dos soldados:

 

- Até à vista, mãezinha! Adeus, querida mãe!

 

"Está vivo! Lembrou-se de mim!" Estes dois pensamentos brotaram no coração da mãe.

 

Ergueu-se na ponta dos pés, agitando os braços, tentando erguê-los. Por cima das cabeças dos soldados descobriu o rosto redondo de Andrei, que lhe sorria e lhe acenava.

 

- Meus filhos!... Andrei... Pavel... - exclamou.

 

- Até à vista, camaradas!

 

Respondeu-lhes um eco multiplicado, desgarrado. vinha das janelas, dos telhados.

 

Sentiu uma pancada no peito. Através da névoa que lhe toldava os olhos, viu na sua frente o pequeno oficial que tinha o rosto vermelho e congestionado e lhe gritava:

 

- Sai daqui, velha!

 

Pelágia olhou-o de cima a baixo. A seus pés viu a haste de madeira partida em dois pedaços. Um deles tinha ainda agarrado um farrapo de tecido vermelho. Ela baixou-se e apanhou-o. O oficial arrancou-lho das mãos, atirou-o para o lado e gritou, batendo com o pé no chão:

 

- Desaparece, já te disse!

 

Do meio do pelotão dos soldados brotou um canto a querer ganhar força:

 

- De pé, ó vítimas da fome...

 

De repente, tudo pareceu girar, vacilar, estremecer. Havia no ar um silvo como o dos fios do telégrafo. O oficial deu um salto e grunhiu furioso:

 

- Faça-os calar, ajudante Krainov!

 

Titubeando, a mãe aproximou-se do pedaço da bandeira que o tenente tinha deitado fora, e voltou a apanhá-lo.

 

- Quero-os de bico calado!

 

O canto tornou-se confuso, entrecortado, desgarrado, e finalmente extinguiu-se. Alguém segurou a mãe pelos ombros, fê-la dar meia volta e empurrou-a para fora dali...

 

- Vai-te embora, vai...

 

- Limpem a rua! - gritou o oficial.

 

A uns dez passos, a mãe viu que de novo se juntara uma multidão compacta. As pessoas rugiam, resmungavam, assobiavam e, retrocedendo lentamente até ao fundo da rua, espalhavam-se pelos pátios vizinhos.

 

- Vai-te embora, demónio! - gritou-lhe ao ouvido um soldado de grandes bigodes que se tinha aproximado dela, empurrando-a para o passeio.

 

Pelágia começou a caminhar, apoiada no pedaço da haste da bandeira. Mal se aguentava nas pernas. Para não cair ia-se agarrando com a outra mão às paredes e às vedações. As pessoas iam recuando à sua frente, enquanto atrás dela e ao seu lado os soldados iam avançando, gritando:

 

- Vamos, vamos embora...

 

Foi ficando para trás, e parou olhando à sua volta. Atrás dela, ao fundo cia rua, formando um cordão menos compacto, os soldados barravam a passagem para a praça, que estava deserta. Na sua frente os vultos cinzentos avançavam lentamente, gritando, levando a multidão adiante deles.

 

Quis voltar para trás, mas continuou a avançar sem mesmo dar por isso. Ao chegar a uma ruela estreita e vazia, meteu por ela.

 

Parou outra vez. Suspirou e tentou escutar alguma coisa. Ao longe ouviam-se vozes indistintas.

 

Apoiando-se sempre no pedaço do pau da bandeira, retomou a caminhada movendo as sobrancelhas. Subitamente, a testa humedeceu-se-lhe. Os seus lábios tiveram um movimento, a mão esboçou um gesto. No seu coração brotou uma torrente de palavras que se foram comprimindo dentro dele e acenderam nela um desejo ardente e imperioso de as gritar.

 

A ruela virava bruscamente para a esquerda. A mãe viu então um grupo de pessoas, denso e bastante numeroso, de onde se elevava uma voz enérgica:

 

- Por um momento de irreflexão, rapazes, não se enfrentam as baionetas!

 

- Vocês viram? Os soldados a carregarem sobre eles, e eles nem se mexiam. São rijos, os nossos rapazes.

 

- O Pavel Vlassov é um tipo e tanto!

 

- E o Ucraniano...

 

- Que colosso! As mãos atrás das costas, um sorriso...

 

- Amigos! Gente boa! - gritou a mãe abrindo caminho por entre eles.

 

Deram-lhe passagem com respeito. Alguém começou a rir.

 

- Vejam, traz a bandeira! Tem-na na mão!

 

- Cala-te! - disse alguém com severidade. A mãe abriu os braços.

 

- Ouçam, pelo amor de Deus! Todos vocês são dos nossos... São gente com coração... Abram os olhos, não tenham medo de olhar... Que foi que aconteceu? Os nossos filhos, do nosso sangue, levantam-se, procuram a verdade, e fazem-no por todos nós! Foi por vocês e pelos vossos filhos que se condenaram ao caminho do Calvário! Anseiam por dias de luz... Querem outra vida, com verdade, com justiça. Querem o bem de todos.

 

O seu coração dilacerava-se, sentia um peso no peito, a garganta seca e febril. Era do mais profundo de si que brotavam estas palavras, palavras de um amor imenso que abrangia todas as coisas e todos os seres, palavras que lhe queimavam a boca e lhe saiam numa torrente, cada vez mais fortes e fluidas.

 

Viu que a escutavam, que permaneciam em silêncio. Compreendeu que à sua volta as pessoas reflectiam, e sentiu crescer um desejo do qual tinha agora plena consciência: o de os conduzir para diante, ao encontro do seu filho, de Andrei, de todos os que estavam agora nas mãos dos soldados, dos que eles próprios haviam abandonado.

 

Percorrendo o olhar pelos rostos sombrios e atentos, continuou com doçura e firmeza:

 

- Os nossos filhos vão pelo mundo em busca da alegria, e fazem-no por amor de todos nós, por amor da verdade de Jesus Cristo. Marcham contra todas as coisas com as quais os malvados, mentirosos, ladrões, nos têm aprisionado, acorrentado, esmagado! Amigos, é a nossa juventude que se levanta em nome de todo o povo, é o nosso sangue que se levanta em nome do mundo inteiro, em nome dos seus operários! Não os abandonem, não os reneguem, não deixem que os vossos filhos sigam este caminho sozinhos! Tenham piedade de vocês mesmos! Tenham fé nos corações dos vossos filhos, que fizeram nascer a verdade, e morrem por ela! Tenham fé nos vossos filhos!

 

A sua voz entrecortou-se, vacilou, no limite das suas forças, e alguém a segurou pelos braços.

 

- É a voz de Deus que fala! - exclamou uma voz velada pela emoção. - A voz de Deus, boa gente, ouçam-na!

 

Um outro apiedava-se dela:

 

- Ela está a matar-se, coitada!

 

- Não, ela não se mata, está é a dar-nos uma bofetada a todos, imbecis que nós somos, compreende isso!

 

Uma voz aguda, trémula, elevou-se acima da multidão.

 

- Filhos de Deus! O meu Mitri, uma alma pura, que foi que ele fez? Seguiu os seus camaradas, os seus amigos...

 

- Falou a verdade. Porque havemos de abandonar os nossos filhos? Que mal nos fizeram eles?

 

- Volta para casa, Nilovna! Vai, mãe! Estás esgotada - disse Sizov.

 

Estava pálido, a sua barba eriçada agitava-se. Subitamente franziu as sobrancelhas, lançou um olhar severo sobre o grupo, levantou-se e disse com voz clara:

 

- O meu filho Matvei morreu num acidente na fábrica, todos vocês o sabem. Mas se fosse vivo, eu mesmo teria feito que se alistasse nas fileiras deles, com eles... Ter-lhe-ia dito: "Vai, Matvei! É uma causa justa; vai e cumpre o teu dever."

 

Interrompeu-se. Todos se calaram, taciturnos, dominados por um sentimento grande e novo que já os não assustava. Sizov levantou o braço, agitou-o e continuou:

 

- É um velho que vos fala. Todos vocês me conhecem bem. Há trinta e nove anos que trabalho aqui, há cinquenta e três que vivo neste mundo. O meu sobrinho, um rapaz saudável, inteligente, voltou a ser preso hoje. Ia à frente, ao lado de Vlassov, junto à bandeira...

 

Agitou o braço, dobrou-se sobre si mesmo e pegou na mão de Pelágia.

 

- Esta mulher disse a verdade. Os nossos filhos querem viver honradamente, dentro da razão, e nós abandonámo-los, fugimos... Vai. Pelágia Nilovna.

 

- Meus amigos! - disse ela olhando-os com os olhos cheios de lágrimas. - A vida foi feita para os nossos filhos, a Terra.foi feita para eles!...

 

- Vai, Nilovna. Toma, leva-o - disse Sizov entregando-lhe o pedaço da haste da bandeira.

 

Olhavam-na com tristeza, com respeito. Acompanhava-a um rumor de simpatia. Sizov foi-lhe abrindo caminho em silêncio, as pessoas afastavam-se também sem dizer palavra e, como se obedecessem a uma força misteriosa, seguiam-na lentamente, trocando algumas frases a meia-voz.

 

Perto da porta de casa ela voltou-se e, apoiando-se na haste, acenou-lhes e disse docemente, com a voz embargada pela gratidão:

 

- Obrigada a todos...

 

E, recordando novamente o pensamento que sentia que lhe tinha nascido no coração, disse:

 

- Nosso Senhor Jesus Cristo não existiria se não tivessem morrido tantos pela sua glória...

 

A multidão olhou-a em silêncio.

 

Ela inclinou-se de novo e entrou em casa, seguida por Sizov, dobrado na sua alta estatura.

 

As pessoas permaneceram ali uns momentos, trocando ainda algumas reflexões.

 

Depois, dispersaram lentamente.

 

O resto do dia foi deslizando numa névoa colorida de recordações e numa pesada lassidão que oprimia o corpo e a alma. A mãe via na sua imaginação a mancha cinzenta do pequeno oficial que saltava, o rosto de Pavel que se iluminava, os olhos risonhos de Andrei...

 

Andava pelo quarto de um lado para o outro, sentava-se junto à janela, olhava para a rua, caminhava mais um pouco franzindo as sobrancelhas e tremendo. Lançava um olhar à sua volta, com a cabeça vazia, procurava qualquer coisa sem saber o quê. A água que bebia não acalmava a sua sede, não conseguia apagar dentro do peito o braseiro ardente de angústia e de humilhação que a consumia. O dia tinha-se dividido em duas partes; a primeira teve um sentido, um conteúdo, mas na segunda parecia que tudo se tinha desmoronado. Em frente da mãe abria-se um vazio desolador, e torturava-a a pergunta que fazia a si própria, e para a qual não encontrava resposta:

 

- Que vou eu fazer agora?

 

Chegou Maria Korsunova. Gesticulou muito, gritou, chorou, exaltou-se, bateu com os pés no chão, alvitrou e prometeu coisas confusas, proferiu ameaças, nem sabia contra quem. A mãe manteve-se indiferente.

 

- Ah, ah! - dizia a voz aguda de Maria. - Isto espicaçou as pessoas, viste? Toda a fábrica se sublevou!

 

- Sim, sim - respondia docemente Pelágia, inclinando a cabeça, e o seu olhar fixo via de novo aquilo que pertencia já ao passado, aquele bocado dela que Andrei e Pavel haviam levado consigo. Não conseguia chorar, não restavam lágrimas no seu coração oprimido, os seus lábios estavam secos e na sua boca também não havia saliva. Tremiam-lhe as mãos e breves arrepios de frio gelavam-lhe as costas.

 

A polícia veio de noite. Recebeu-os sem estranheza e sem temor. Entraram ruidosamente. Pareciam alegres e satisfeitos. O oficial amarelento disse-lhe em ar de troça:

 

- Muito bem... como tem passado? É a terceira vez que nos encontramos, hem?

 

Ela mantinha-se em silêncio, passando a língua seca pelos lábios. O oficial não se calou, pedante, e ela apercebeu-se do prazer que ele sentia em ouvir-se a si próprio. Mas as palavras dele não lhe tocavam, não a afectavam. Só re,agiu quando o ouviu dizer:

 

- Tu, mãe, também és culpada por não teres sabido incutir no teu filho o respeito a Deus e ao Czar.

 

De pé, junto à porta, ela respondeu em surdina e sem olhar para ele:

 

- Sim, os nossos filhos são os nossos juizes, e é com toda a justiça que nos vão condenar por os termos abandonado na sua luta.

 

- O quê? - gritou o oficial. - Fala mais alto!

 

- Digo que os nossos juizes são os nossos filhos - repetiu ela suspirando.

 

Ele pôs-se então a perorar rapidamente e num tom irritado, mas a torrente das suas palavras não a tocava sequer.

 

Maria Korsunova tinha sido convocada como testemunha. Mantinha-se ao lado da mãe, mas não olhava para ela, e quando o oficial lhe fazia uma pergunta, ela inclinava-se profundamente e respondia em voz monótona:

 

- Não sei, Excelência. Sou uma mulher sem instrução, trato da minha venda, sou uma tola, não sei de mais nada...

 

- Então cala-te - ordenou o oficial, retorcendo o bigode. Ela curvou-se, fez-lhe uma figa pelas costas e sussurrou a

 

Pelágia:

 

- Toma!

 

Mandaram-na revistar a mãe. Os seus olhos pestanejaram e fixaram-se no oficial. Disse em tom de queixume:

 

- Não sei como se faz, Excelência.

 

Ele bateu com os pés no chão com impaciência e começou a gritar. Maria baixou os olhos e disse suavemante à mãe:

 

- Bem, desabotoa-te, Pelágia Nilovna!

 

Olhou e apalpou as roupas dela. A certa altura subiu-lhe o sangue à cabeça, e murmurou:

 

- Cães!...

 

- Que estás tu para aí a rezingar? - perguntou o oficial com severidade, olhando para o canto onde Maria fazia a sua busca.

 

- Coisas de mulheres, Excelência! - respondeu ela amedrontada.

 

Quando o oficial ordenou à mãe que assinasse o processo verbal, ela com mão desajeitada traçou no papel, em letra de imprensa, com caracteres brilhantes e nítidos: "Pelágia Vlassova, viúva de um operário."

 

- Que escreveste tu aí? Porque é que puseste isso? - Exclamou o oficial com uma careta de desdém. Em seguida, irónico, acrescentou:

 

- Selvagens!

 

Saíram. A mãe colocou-se em frente à janela, com os braÇos cruzados sobre o peito, e os olhos fixos na sua frente, sem ver nada, permanecendo assim por muito tempo. Levantava as sobrancelhas, apertava os lábios e fechava os maxilares com tanta força que não tardaram a doer-lhe os dentes. O petróleo acabou-se no candeeiro, e a luz apagou-se, de mansinho. Ela soprou a mecha, e ficou às escuras. Uma indiferença angustiada encheu-lhe o peito como uma nuvem sombria que impedia o seu coração de bater. Assim permaneceu por longo tempo, sentindo o cansaço das suas pernas e dos seus olhos. Ouviu Maria deter-se sob a sua janela e exclamar com uma voz que parecia embriagada:

 

- Estás a dormir, Pelágia? Pobre mártir...

 

Deitou-se na cama sem se despir e, rapidamente, como se rodasse num remoinho, caiu num sono profundo.

 

Sonhou com o monte de areia amarela que havia do outro lado do pântano, a caminho da cidade. No alto do declive que dava para o sítio onde iam buscar a areia, estava Pavel cantando docemente com a voz de Andrei:

 

- De pé, ó vítimas da fome...

 

Ela passava na frente do monte de areia, punha a mão na testa e olhava o filho. A silhueta do jovem destacava-se, nítida, no fundo azul do céu. Ela sentia vergonha de se aproximar dele, porque estava grávida. Levava outra criança nos braços. Continuou o seu caminho. Pelos campos havia crianças a jogar à bola. Eram muitos, e a bola era vermelha. O bebé que levava estendeu os braços para eles e pôs-se a chorar ruidosamente, Ela deu-lhe o peito e voltou para trás. O pequeno monte estava agora ocupado por soldados que apontavam as baionetas para ela. Correu rapidamente até uma igreja que se erguia no meio do campo, etérea, que parecia feita de nuvens, e de uma altura desmedida. Havia um enterro. O caixão era grande, negro, e tinha a tampa pregada. Mas o padre e o sacristão iam pela igreja vestidos de branco, e cantavam:

 

- Cristo ressuscitou dos mortos...

 

O sacristão agitou o turíbulo e saudou-a, sorridente. Tinha os cabelos de um vermelho resplandecente, e um rosto alegre como o de Samoilov. Do alto da cúpula desciam raio de sol, largos como toalhas de altar. Alguns meninos de coro cantavam suavemente:

 

- Cristo ressuscitou dos mortos...

 

- Prendam-nos! - gritou subitamente o padre, parando no meio da igreja. A alva que trazia vestida desapareceu, e no seu rosto apareceu um severo bigode cinzento. Desataram todos a correr, e o sacristão também, que atirou com o turíbulo para um canto, segurando a cabeça com as mãos, como fazia o Ucraniano. A mãe deixou cair a criança aos pés dos fiéis. Estes, correndo, evitavam pisá-la e olhavam temerosos o pequenino corpo nu, enquanto ela, de joelhos, lhes gritava:

 

- Não abandonem o menino! Levem-no...

 

- Cristo ressuscitou dos mortos... - cantava o Ucraniano sorrindo, com as mãos atrás das costas.

 

Ela inclinou-se, recolheu a criança e colocou-a sobre uma carreta de pranchas de madeira, ao lado da qual caminhava lentamente Nikolai que dizia, rindo:

 

- Deram-me um trabalho duro...

 

A rua estava enlameada. As pessoas vinham à janela e assobiavam, gritavam, gesticulavam. O dia estava claro, o Sol brilhava, ardente, e não havia uma sombra.

 

- Canta, mãezinha! - dizia o Ucraniano. - É a vida!

 

Ele cantava, e a sua voz abafava todos os outros ruídos. A mãe seguia atrás dele. De repente tropeçou e mergulhou num abismo sem fundo que uivava à medida que ela ia caindo.

 

Acordou a tremer. Dir-se-ia que uma mão pesada e áspera agarrava o seu coração e o apertava devagar numa brincadeira cruel. A sirene da fábrica tocava obstinadamente, e ela percebeu que era já a segunda chamada. No quarto em desordem, os livros estavam misturados, remexidos, estava tudo de pernas para o ar, e no chão viam-se as marcas de sujidade feitas pelos pés dos polícias.

 

Levantou-se e começou a arrumar tudo à sua volta, antes mesmo de se lavar ou de fazer as suas orações. Na cozinha encontrou o pedaço do mastro da bandeira, ainda com o farrapo de algodão vermelho agarrado. Pegou-lhe contrariada e quis deitá-lo para o forno, mas dando um suspiro retirou o pedaço de tecido, dobrou-o cuidadosamente e ocultou-o no bolso, partindo no joelho o resto do pau e atirando os dois pedaços para o caixote da lenha. Em seguida lavou os vidros, esfregou o chão, preparou o samovar, vestiu-se, sentou-se na cozinha junto à janela e de novo se pôs a pensar, como na véspera:

 

"E agora, o que é que eu faço?"

 

Lembrando-se de que ainda não tinha rezado, permaneceu de pé alguns instantes diante dos ícones, e voltou a sentar-se. Sentia o coração vazio.

 

Reinava uma estranha calma. Parecia-lhe que as pessoas que na véspera tanto tinham gritado nas ruas, se escondiam hoje nas suas casas para em silêncio reflectirem sobre aquele dia extraordinário.

 

De repente, recordou uma cena a que tinha um dia assistido, na sua juventude. No velho parque da família Zaoussailov havia um tanque muito grande todo coberto de nenúfares. Num dia cinzento de Outono, ela havia passado por ali e tinha visto um bote no meio do tanque. O tanque estava sombrio, tranquilo, e o barco parecia literalmente colado à água negra e ao seu melancólico adorno de folhas amareladas. Uma tristeza profunda, uma dor misteriosa desprendia-se daquela barca sem remador e sem remos, imóvel sobre a água opaca, entre as folhas mortas. Pelágia tinha permanecido ali durante muito tempo, perguntando-se quem teria podido empurrar o bote para tão longe, e por que motivo. Naquela noite soube-se que a mulher do intendente do castelo se tinha afogado no tanque. Era uma mulher pequena, de andar rápido e cabelos negros, sempre despenteados.

 

A mãe passou a mão pelos olhos, e no seu pensamento deslizou a recordação dos acontecimentos da véspera. Foi invadida por eles, e ficou um grande bocado imóvel na cadeira, com os olhos fixos no copo de chá, que entretanto arrefecera. Sentiu vontade de ver alguma pessoa simples e inteligente, e de lhe fazer um monte de perguntas.

 

Como se tivesse ouvido o seu pedido, Nikolai Ivanovitch apareceu nessa mesma tarde. Ao vê-lo sentiu-se tomada de uma grande inquietação, e sem responder ao seu cumprimento, disse-lhe em voz baixa:

 

- Ah, meu filho, não devia ter vindo aqui. É uma imprudência, e se o vêem de certeza que o levam preso...

 

Ele apertou-lhe vigorosamente a mão e endireitou os óculos. A seguir, inclinando o rosto até junto do da mãe, explicou-lhe em poucas palavras:

 

- Pavel, Andrei e eu combinámos que se eles fossem presos eu viria buscá-la no dia seguinte, para a levar para a cidade. - Falava de um modo afectuoso e preocupado. Vieram passar busca?

 

- Sim, procuraram por todo o lado, revistaram-me a mim... Essa gente não tem vergonha nem consciência.

 

- Como é que haviam de ter? - disse Nikolai encolhendo os ombros. E continuou, explicando-lhe as razões pelas quais devia ir viver para a cidade.

 

Ela escutava com simpatia a voz cheia de solicitude daquele rapaz que a olhava, sorrindo palidamente, e, se não compreendia tudo o que ele lhe explicava, sentia-se tranquilizada pela terna confiança que ele lhe inspirava.

 

- Se é a vontade de Pavel, e se não vou incomodá-lo...

 

- Não se preocupe com isso. Vivo sozinho, só a minha irmã é que lá aparece de vez em quando.

 

- Quero ganhar o meu pão - objectou ela.

 

- Se faz gosto nisso... alguma coisa se há-de arranjar. Para ela, a ideia de trabalho estava já associada a uma

 

actividade semelhante à de Pavel, Andrei e dos seus camaradas. Aproximou-se de Nikolai, e perguntou-lhe olhando-o nos olhos:

 

- Arranjar-me-ào que fazer?

 

- A minha casa é pequena, é a casa de um homem solteiro.

 

- Não me refiro a esse tipo de trabalho - disse ela docemente.

 

Suspirou, um pouco magoada que ele não a tivesse compreendido, mas Nikolai, sorrindo com os seus olhos míopes, disse-lhe em tom sonhador:

 

- Quando vir Pavel, se lhe pudesse pedir a direcção dos tais camponeses que pediram um jornal...

 

- Eu conheço-os! - disse ela alegremente. - Saberei encontrá-los e farei tudo o que o Nikolai me disser. Quem é que vai pensar que eu possa levar papéis proibidos? Sabe Deus a quantidade deles que levei para a fábrica!

 

Subitamente, sentiu-se invadida pelo desejo de ir sem destino, pelas estradas, pelos bosques, pelas aldeias, de mochila ao ombro, bastão na mão.

 

- Encarregue-me desse trabalho, peço-lhe! - disse. - Irei onde quer que me mandem, em todas as províncias saberei encontrar o caminho. Irei de Verão e de Inverno... até ao túmulo, como um peregrino. Não é um destino invejável para mim?

 

Sentiu no entanto angústia quando em pensamento se viu sem casa, errante, pedindo debaixo da janela das isbás uma esmola por amor de Deus.

 

Nikolai pegou-lhe ternamente na mão e acariciou-lha com os seus dedos quentes. Depois, olhando o relógio, disse:

 

- Falaremos disso mais tarde.

 

- Meu amigo! - exclamou ela. - Os nossos filhos, que têm o lugar mais querido no nosso coração, sacrificam a sua liberdade, a sua vida, sem se lamentarem. O que não farei eu, uma mãe?

 

Nikolai empalideceu e disse, muito quieto, olhando-a com uma atenção que era quase uma carícia:

 

- Sabe que é a primeira vez que ouço semelhantes palavras?

 

- Que posso eu dizer? - perguntou Pelágia inclinando tristemente a cabeça e deixando cair os braços num gesto de impotência. - Se encontrasse palavras para dizer tudo o que sinto no meu coração de mãe...

 

Levantou-se, levada pelo impulso de uma força que crescia no seu peito e a inebriava numa torrente de palavras indignadas:

 

- Muitos chorariam... até os malvados, os sem consciên-cia.

 

Nikolai levantou-se também e mais uma vez olhou as horas.

 

- Então, fica decidido. Vem viver comigo?

 

Ela concordou em silêncio.

 

- Quando? Tem de ser o mais rápido possível. E acrescentou com doçura:

 

- Fico preocupado consigo.

 

Ela olhou-o admirada. Que interesse poderia ela inspirar-lhe? Ele permanecia na frente da mãe, de cabeça baixa, com um sorriso embaraçado nos lábios, míope, vestido com um modesto casaco preto. Toda a roupa que trazia vestida parecia ter sido emprestada.

 

- Tem dinheiro? - perguntou ele timidamente.

 

- Não.

 

Ele tirou rapidamente a carteira do bolso. Abriu-a e estendeu-lha:

 

- Tome, por favor, tire o que precisar. A mãe sorriu sem querer, e observou:

 

- Tudo se modificou. O dinheiro não tem valor para vocês. As pessoas perdem a alma por ele, e a vocês não vos importa. Parece que só o querem para poderem socorrer os outros...

 

- O dinheiro é uma coisa muito incómoda e muito desagradável. Tanto é desagradável recebê-lo como dá-lo.

 

Pegou-lhe na mão, apertou-lha com força e repetiu:

 

- Virá quanto antes, não é verdade?

 

E foi-se embora, tranquilo como sempre. Quando regressou, depois de o acompanhar, Pelágia pensou:

 

"Como é bondoso! Mas não sentiu piedade de nós!"

E não percebeu se isto a magoava, ou apenas a surpreendia.

 

No quarto dia depois da visita de Nikolai Ivanovitch, pôs-se a caminho. Quando a carroça que a conduzia, a ela e às suas duas maletas, saiu do bairro para se enfiar pelo campo, virou-se para trás e sentiu subitamente que partia para sempre daqueles lugares onde tinha vivido o período mais sombrio e penoso da sua vida, e onde havia iniciado uma nova era, cheia de novas tristezas e alegrias diferentes, uma era em que os dias passavam rapidamente, como se fossem devorados.

 

Semelhante a uma imensa aranha vermelha escura, a fábrica estendia-se sobre o solo negro de fuligem, erguendo as suas chaminés até ao céu. À sua volta apertavam-se as pequenas casas dos operários, de um único piso. Cinzentas, achatadas, estreitavam-se, compactas, ao longo do pântano, olhando-se lastimosamente umas às outras com as suas pequenas janelas sem cor. Mais adiante erguia-se a igreja, de um vermelho sombrio, como a fábrica. O campanário da igreja, esse, era mais baixo que as chaminés da fábrica.

 

A mãe suspirou e desabotoou a gola da blusa, que lhe apertava a garganta.

 

- Anda! - rabujava o cocheiro agitando as rédeas sobre o lombo do cavalo. Era um homem de idade difícil de precisar, de cabelo descorado e olhos de cor indefinida. Caminhava ao lado do carro coxeando de uma perna, e via-se que o objectivo da viagem lhe era completamente indiferente.

 

- Anda! - dizia com voz branda, esticando comicamente as pernas arqueadas. Calçava umas botifarras cobertas de lama seca. A mãe lançou um olhar à sua volta. Os campos estavam desertos, vazios, como a sua alma.

 

O cavalo balançava tristemente a cabeça, enterrando pesadamente as ferraduras na areia solta que rangia, aquecida pelo sol. A carreta, mal oleada e desengonçada, rangia também, e todos esses ruídos, juntamente com a poeira, eram coisas que a viajante ia deixando para trás.

 

Nikolai Ivanovitch morava nos confins da cidade, numa rua deserta, num pequeno pavilhão verde pegado a uma casa triste de dois pisos, carcomida pela velhice. Na frente havia um pequeno jardim pouco tratado. Os ramos dos liláses e das acácias e as folhas prateadas das jovens bétulas espreitavam ternamente pelas janelas dos três compartimentos da casa. Estes quartos estavam limpos e silenciosos. A sombra da vegetação recortava-se no chão, as paredes estavam cobertas de estantes carregadas de livros sob os retratos de algumas personagens de rosto severo.

 

- Sentir-se-á bem aqui? - perguntou Nikolai, conduzindo a mãe a um dos quartos cujas janelas davam uma para o jardim e outra para o pátio, oncle crescia uma erva espessa. Também naquele quarto as paredes estavam cobertas de armários e estantes repletas de livros.

 

- Gosto mais da cozinha - disse ela. - É clara e limpa...

 

Pareceu-lhe que Nikolai receava alguma coisa. Mas quando, confuso e embaraçado, tentou dissuadi-la e conseguiu que renunciasse à cozinha, recuperou instantaneamente toda a sua alegria.

 

Eram três divisões, e nelas reinava uma atmosfera particular. Respirava-se um ar leve e agradável, mas falavam baixo mesmo sem querer; era como se não quisessem falar alto, nem perturbar a silenciosa meditação daquelas personagens que, do alto das paredes, os observavam com ar pensativo.

 

- É preciso regar as flores - disse a mãe, depois de apalpar a terra dos pequenos vasos das janelas.

 

- Sim, sim - respondeu o dono da casa, com um ar culpado. - Eu gosto de flores, sabe, mas não tenho tempo para me ocupar delas...

 

Pelágia reparou que, mesmo no conforto do seu lar, Nikolai se movia com precaução, distante, como se fosse um estranho no meio das coisas que o rodeavam. Aproximava a cara dos objectos que observava, ajustando os óculos com os dedos finos da mão direita, franzia os olhos e dirigia o olhar numa interrogação muda sobre o que lhe interessava. Às vezes, pegava no objecto, aproximava-o do rosto e apalpava-o suavemente. Dir-se-ía que acabava de chegar com Pelágia, e que tudo dentro de casa lhe era tão desconhecido como o era para ela. Vendo-o tão distraído, a mãe sentiu-se como se estivesse na sua própria casa. Seguia Nikolai fixando o lugar de cada objecto e fazia-lhe perguntas sobre a sua maneira de viver. Ele respondia como se estivesse a desculpar-se por não fazer as coisas como devia, mas também como alguém que não soubesse agir de outro modo.

 

Ela regou as flores, agrupou, numa resma ordenada, os cadernos de música espalhados sobre o piano e reparou no samovar.

 

- É preciso limpá-lo - disse.

 

Ele passou o dedo sobre o metal baço, aproximando-o em seguida do nariz enquanto o examinava compenetradamente. A mãe sorriu, indulgente.

 

Quando se deitou e fez o balanço dos acontecimentos do dia, ergueu a cabeça da almofada, espantada, e olhou à sua volta. Pela primeira vez na vida estava sob o tecto de um desconhecido e não se sentia incomodada com isso. Teve pena de Nikolai e sentiu vontade de fazer tudo o que lhe fosse possível para o ajudar, para trazer à sua vida um pouco de calor e de afecto. Comovia-a que o seu hóspede fosse tão desajeitado e tímido, totalmente desprovido de conhecimentos de ordem prática, e comovia-a a expressão simultaneamente prudente e infantil dos seus olhos claros. Depois, voltou a pensar no filho, relembrou aquele Primeiro de Maio cheio de ressonâncias novas, animado de um novo sentido. E a dor que sentia quando recordava aquele dia era tão única quanto o era o dia em si mesmo. Não obrigava a baixar a cabeça até ao chão como acontece quando se fica atordoado com um murro, antes feria o coração como mil punhaladas, provocava uma cólera tranquila que fazia erguer as costas encurvadas.

 

- Os filhos partem por esse mundo fora... - pensava, escutando os ruídos desconhecidos da vida nocturna da cidade, que entravam pela janela aberta, agitando a folhagem do jardim, longínquos, esbatidos, que se esvaíam, abafados, dentro de casa.

 

No dia seguinte, bem cedo, limpou o samovar, acendeu-o e arrumou silenciosamente a loiça. A seguir, deixou-se ficar sentada na cozinha, à espera que Nikolai acordasse. Ouviu-o tossir. Ele apareceu trazendo os óculos numa mão e protegendo a garganta com a outra. Depois de responder ao cumprimento dele, Pelágia levou o samovar para a sala, enquanto ele se lavava, salpicando o chão, deixando cair o sabão e a escova dos dentes e resmungando contra si próprio.

 

Durante o pequeno-almoço Nikolai desabafou:

 

- Tenho um emprego muito triste na administração provincial. Observo a ruína dos nossos camponeses...

 

Sorriu com um ar culpado.

 

- Estas pobres gentes, debilitadas por uma fome de séculos, morrem antes de tempo. As crianças já nascem raquíticas e morrem como moscas no Outono. Nós bem o sabemos, conhecemos as causas desta calamidade, e depois de as termos devidamente anotado, recebemos o nosso salário. A bem dizer, é tudo o que fazemos.

 

- Você é estudante? - perguntou ela.

 

- Não. Sou professor primário. O meu pai é director de uma fábrica em Viatka e eu decidi ser professor. Mas comecei a fazer circular livros entre as pessoas da aldeia e meteram-me na prisão. Depois estive empregado numa livraria, mas não fui prudente, apanharam-me novamente e mandaram-me para Arkhangel... Também aí tive problemas com o governador e então enviaram-me para as margens do Mar Branco, onde vivi numa cabana durante cinco anos.

 

A voz ressoava monocórdica e tranquila no quarto inundado de sol. A mãe já tinha ouvido muitas histórias semelhantes e nunca havia conseguido compreender porque é que os amigos de Pavel as contavam com tanta calma, como se falassem do inevitável.

 

- A minha irmã chega hoje - anunciou.

 

- Ela é casada?

 

- É viúva. O marido foi desterrado para a Sibéria, mas conseguiu fugir e acabou por morrer tuberculoso no estrangeiro, há dois anos.

 

- Ela é mais nova do que você?

 

- Tem mais seis anos. Devo-lhe muito. Logo vai ouvi-la tocar! Esse piano é dela, assim como muitas das coisas que estão aqui em casa, mas os livros são meus.

 

- Onde é que ela vive?

 

- Em qualquer lugar - respondeu ele, sorrindo. - Ela está onde quer que seja necessária a presença de uma pessoa corajosa.

 

- Ela também trabalha... para a causa?

 

- Há muito tempo!

 

Partiu para o escritório, enquanto a mãe ficava a pensar "na causa" que alguns homens defendiam, dia após dia, com obstinação e serenidade. Perante eles, ela sentia-se como se estivesse frente a uma montanha em plena noite.

 

Por volta do meio-día chegou uma senhora alta e elegante, vestida de preto. Quando a mãe abriu a porta, a visitante pousou no chão uma mala amarela e apertou vivamente a mão de Pelágia.

 

- É a mãe de Pavel, não é?

 

- Sou, sim - respondeu ela, intimidada com a elegância das roupas da outra.

 

- Você é exactamente como eu a imaginava. O meu irmão escreveu-me a contar que você vinha viver em casa dele disse a senhora, tirando o chapéu na frente do espelho. Pavel e eu somos amigos há muito tempo. Ele falou-me de si muitas vezes.

 

A voz era baixa. Falava devagar, mas os movimentos eram vivos e enérgicos. Os seus grandes olhos cinzentos sorriam, cheios de juventude e franqueza. Sobre as sobrancelhas percebiam-se já algumas pequenas rugas muito finas e madeixas de cabelos grisalhos brilhavam como prata por cima das pequenas orelhas.

 

- Tenho fome - disse. - Apetece-me um pouco de café.

 

- Vou já prepará-lo - respondeu a mãe. E tirando uma cafeteira do armário, perguntou em voz muito baixa:

 

- É verdade que Pavel fala da mim?

 

- Fala, muitas vezes...

 

Pegou num pequeno estojo de couro, de dentro do qual tirou um cigarro que acendeu e, andando de um lado para o outro na sala, perguntou:

 

- Está muito preocupada com ele?

 

Olhando a chama azul da lamparina de álcool, que tremia sob a cafeteira, a mãe sorria. A perturbação causada pela senhora desaparecera, face a uma alegria tão profunda.

 

"Sempre é verdade que ele fala de mim...", pensou, e disse pausadamente:

 

- É muito duro o que está a acontecer, mas dantes ainda era pior. Agora, pelo menos, sei que ele não está só...

 

Fixando o olhar no rosto da visitante, inquiriu:

 

- Como é que a senhora se chama?

 

- Sofia.

 

A mãe observava-a com atenção. Ela tinha qualquer coisa de imoderado, de audácia excessiva, de precipitado... Sofia falava num tom seguro:

 

- O principal é que não estejam muito tempo na prisão, que sejam julgados depressa. E quando Pavel for desterrado ajudá-lo-emos a fugir. Não podemos ficar aqui muito tempo sem ele.

 

Incrédula, a mãe olhou para Sofia, enquanto esta, com os olhos, procurava um sítio para apagar o cigarro. Espetou-o na terra de um vaso.

 

- Vai dar cabo das flores! - observou maquinalmente a mãe.

 

- Desculpe - disse Sofia. - Nikolai está sempre a dizer-me isso. - Retirando a beata da terra, atirou-a pela janela.

 

A mãe ficou atrapalhada, olhou-a nos olhos, e disse com um ar culpado:

 

- Desculpe! Falei sem pensar. Quem sou eu para lhe estar a fazer reparos.

 

- Porque não, se eu fui descuidada? - respondeu Sofia, encolhendo os ombros. - O café está pronto? Obrigada! Porque é que só arranjou uma chávena, você não toma?

 

Subitamente agarrou a mãe pelos ombros, atraiu-a para si e, olhando-a nos olhos, perguntou-lhe, admirada:

 

- Sente-se pouco à vontade comigo? Pelágia disse, sorrindo:

 

- Acabo de lhe fazer uma chamada de atenção, e pergunta-me se me intimida!

 

E, sem ocultar a sua própria admiração, prosseguiu como se estivesse a interrogar-se:

 

- Cheguei ontem a esta casa, e sinto-me aqui como se estivesse na minha, não receio nada, digo o que me apetece...

 

- É assim que deve ser - respondeu Sofia.

 

- Não sei onde tenho a minha cabeça, já não me reconheço - acrescentou a mãe. - Antigamente, girava muito tempo à volta das pessoas antes de ser capaz de lhes dizer fosse o que fosse com franqueza, e agora... o meu coração abre-se logo e digo sem rodeios coisas em que, noutros tempos, nem sequer ousava pensar...

 

Sofia acendeu outro cigarro. Os seus olhos cinzentos pousaram sobre a mãe, claros e afectuosos.

 

- Disse que organizaria a evasão de Pavel. Muito bem, mas como é que ele irá depois viver? - A mãe tinha finalmente formulado a pergunta que a atormentava.

 

- Vai ser uma brincadeira - respondeu Sofia, servindo-se de mais café. - Viverá da mesma maneira que vivem dezenas de outros evadidos... Olhe, acabo de instalar um deles, um homem igualmente imprescindível que foi desterrado por cinco anos e apenas lá ficou... três meses e meio. A mãe olhou-a fixamente, sorriu e disse em voz baixa, abanando a cabeça:

 

- Foi a jornada do Primeiro de Maio que me transtornou. Sinto-me insegura, como se caminhasse ao mesmo tempo por dois caminhos diferentes. Tão depressa me parece que compreendo tudo, como logo a seguir me sinto perdida no nevoeiro. Agora mesmo, estou a olhar para si... que é uma senhora e, apesar disso, luta pela causa. Conhece Pavel e gosta dele, e eu estou-lhe muito grata...

 

- Vamos lá a ver, é a si que é preciso agradecer - disse Sofia, rindo.

 

- Porquê a mim? Não fui eu quem lhe ensinou tudo o que ele sabe... - respondeu a mãe, com um suspiro.

 

Sofia pousou o cigarro sobre um pratinho, sacudiu a cabeça fazendo que os seus cabelos dourados lhe caíssem em espessa cascata sobre os ombros, e saiu da sala, dizendo:

 

- Chegou o momento de mudar de roupa e de pôr de lado toda esta elegância...

 

Nikolai regressou ao meio-dia. Enquanto almoçavam, Sofia contou, rindo, como tinha encontrado e escondido o fugitivo. Ela receava muito os delatores, e via-os por todos os lados. O camarada evadido era muito pitoresco. O tom da voz dela fazia lembrar à mãe a vaidade de um operário que tivesse executado bem um trabalho difícil e que estivesse satisfeito com isso.

 

Sofia vestia agora uma roupa leve e larga, de cor cinzenta. Parecia, assim, mais alta, os olhos eram mais escuros e os gestos mais serenos.

 

- Sofia - disse Nikolai, quando acabaram a refeição temos outro trabalho para ti. Avançámos com a tarefa de fazer um jornal para os camponeses, mas após as últimas prisões perdemos todos os contactos. Só a Pelágia é que nos pode ajudar a encontrar o homem que se encarregará de fazer a sua distribuição. Discute este assunto com ela, é urgente.

 

- Muito bem - disse Sofia, fumando um cigarro. - Vamos, Pelágia?

 

- Claro! Vamos!

 

- Fica longe?

 

- Umas oitenta verstás.

 

- Óptimo. Agora vou tocar piano. Gosta de música, Pelágia?

 

- Não me pergunte... Faça como se eu não estivesse aqui

- disse a mãe, sentando-se na beira do sofá. Percebia que os dois irmãos, sem parecerem estar a dar-lhe atenção, agiam sempre de maneira a que ela não ficasse fora da conversa.

 

- Bem, então ouve. Nikolai. É Grieg. Trouxe-o hoje... Fecha as janelas.

 

Abriu a partitura e deslizou levemente a mão direita pelo teclado. As cordas vibraram, brandas e densas. Primeiro, um profundo suspiro, logo seguido de outra nota, um som cheio que se uniu aos primeiros acordes. Sob os dedos daquela mão libertavam-se estranhos gritos transparentes que rodopiavam inquietos, sons cristalinos que revolteavam, batiam asas como pássaros assustados sobre o fundo sombrio das notas baixas.

 

De início, aquela música não teve qualquer efeito sobre a mãe. Na sequência de sons mais não via que uma cacofonia. O seu ouvido não conseguia captar a melodia na vibração confusa e torrencial das notas. Meio adormecida, observava Nikolai sentado, com as pernas cruzadas, na beira oposta do largo divã. Observava o perfil severo de Sofia