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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MALDIÇÃO SOMBRIA / Christine Feehan
MALDIÇÃO SOMBRIA / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Nascida em um mundo de gelo, filha de um pai perverso, Lara Calladine conhecia apenas o terror e o medo. Como criança viveu para fugir, tendo que passar a sobreviver com sua herança como uma grande Cárpato Dragon. Humana e maga, ela carregava o sangue de três espécies, mas não pertencia a nenhuma. Ela escolheu seu caminho por si só, guiada pela sabedoria de suas tias e sem deixar que ninguém soubesse de sua ascendência e poder, nunca confiando em alguém. Alem do inferno gelado de sua juventude havia um mundo de mistérios e perigos ainda maiores.

Hoje, Lara é a maior especialista na área de estudos de gelo de cavernas em todo o mundo e os microorganismos que podem ajudar na cura. Ela está também em busca de algo mais: a fonte dos seus pesadelos e os frios cantos escuros da sua infância. Somente um homem tem a vontade e os poderes para ajudá—la: Nicolas Da Cruz, a quem os séculos de caçar e matar o deixou sem sentir emoções há muito tempo. Perigoso e arrogante, ele ainda anseia sentir o amor sensual sem a fome de sangue. Agora, entre Lara e Nicolas, tem surgido uma tênue confiança e uma paixão que nem um deles jamais conheceu antes, como uma promessa de luz na escuridão.

Mas como em cada canto do mundo os traidores dos Cárpatos vasculham a terra em busca de seu passado, os dois também abrigam um segredo que poderia salvar ou destruí—los.

E, como todos os outros, desejosos de encontrar seu companheiro como um novo começo, eles também estão assombrados com o desconhecido perigo de uma maldição sombria.

 

 

 

 

Hoje era o dia em que fugiria.

       Agora, aos oito anos de idade ela sairia para um mundo ao qual nunca tinha visto e do qual não sabia o que esperar, nem se conseguiria sobreviver. O frio deveria tê—la feito tiritar, mas era o medo, o arrepiante medo que prendia Lara, lhe causando tais tremores que era impossível controlar.

       Se encolheu sobre o chão da caverna de gelo, estudando as paredes de sua prisão. O gelo era formoso, uma parede grossa com finas raias azuis e brancas. Surpreendentes formações penduravam do teto e se elevavam do solo como um bosque de cristal multicolorido. Se encurvou olhando para baixo, às luzes que trêmulavam  através do gelo e criavam brilhantes, deslumbrantes desdobramentos nas paredes. Todo o tempo, seu coração pulsava muito rápido e ela se estrangulava com o terror crescente.        Um suave sussurro em sua mente a ajudava a se estabilizar, a manter—se centrada e tranqüila, quando queria enrodilhar—se como uma bola e chorar. Olhou seus braços e mãos, cobertos por marcas de mordidas, cicatrizes de dentes que lhe furavam a pele para chegar as suas veias. O estômago lhe revolveu. Hoje era o último dia em que lhe romperiam a carne e beberiam seu sangue.   Hoje fugiria ou morreria tentando.        — Estou tão assustada. — Mesmo usando a telepatia, sua voz tremia ligeiramente e logo sentiu a calma vertendo em sua mente. A sensação se estendeu por seu corpo afugentando o frio, lhe dando coragem.        — Não estará sozinha. Ajudaremos você fugir. Deve ser valente, pequena.        — Virá comigo, tia Bronnie? Vocês duas virão? — Sabia que soava lastimosa e atemorizada, mas não o podia evitar. Nunca tinha estado na superfície. A idéia de ir sozinha para um mundo desconhecido a paralisava. Sem suas tias não teria maneira de proteger. As duas haviam lhe ensinado e inserido tantas habilidades e feitiços quanto foi possível em seu cérebro e lembranças, mas ainda era uma menina no corpo de uma menina. Magra. Fraca e pálida, com cabelos acobreados, fartos e incontroláveis.        — Provavelmente não seja possível, Lara e se não pudermos, deve ir por si mesma. Deve se afastar deste lugar e ocultar seus talentos e capacidades para que ninguém jamais te encarcere outra vez. Compreende? Não pode de maneira alguma parecer diferente do mundo exterior.        Suas tias haviam lhe contado coisas sobre o mundo, nas longas noites solitárias em que sussurravam a respeito de lugares sobre a superfície. Sussurraram sobre a lua e o mar, sobre bosques de árvores, animais e pássaros que voavam livres. Haviam enchido sua mente e coração, com imagens tão formosas que lhe tinham roubado o fôlego.        — Por que devo ocultar meus dons ao mundo exterior? — Lara tiritou de frio outra vez, passando—as mãos por seu corpo num esforço para se esquentar. Não era a temperatura da caverna de gelo, pois podia controlar sua temperatura corporal quando se lembrava de pensar nisso, mas a idéia de sair era quase tão apavorante como a idéia de ficar. Ali pelo menos tinha às tias. Lá fora sem sequer sabia o que esperar.        — É sempre melhor mesclar, Lara.  Xavier é um homem cruel e há outros como ele. Você tem um grande poder dentro de si e outros o desejarão. Aprenda em segredo e use o que aprendeu somente para o bem ou para salvar sua vida. Não pode permitir que os outros saibam.        — Venham comigo.        — Sim, podemos, mas não importa, você deve deixar este lugar. Olhe o que nos faz. O que fará a você. Seu poder o chamará e ele tomará tudo de você.        Lara fechou os olhos, o tremor voltando, quase num violento arrepio. Oh, sim! Tinha visto. Tortura. Horríveis feitiços escuros que atraíam demônios com resplandecentes olhos vermelhos e aderido a eles um aroma ruim e nauseabundo. Ouviria os gritos até o dia que morresse. Gritos de outros pedindo clemência, rogando pela morte.        Não podia permitir que seu pai e seu bisavô conhecessem o poder que crescia dentro dela. Poderia revelar que suas tias lhe falavam. Elas lhe ensinavam, enchendo sua mente com tudo o que sabiam, para que à medida que o poder aumentasse, tivesse o conhecimento para acompanhá—lo. Os dois homens tentariam lhe arrancar tudo o que ela era, para controlá—la e se não podiam ela acabaria como os outros. Seres despedaçados enquanto ainda com vida, comidos pedaço a pedaço até que a loucura e a dor eram tudo o que restava.        Hoje era dia seu aniversário e tinha que fugir. Deveria deixar o único lar que havia conhecido e sair para um mundo que só conhecia através de lembranças. Lembranças de suas duas tias, que eram prisioneiras há tantos anos que já tinham perdido a conta. Antes que pudesse acontecer, seria forçada a agüentar os dentes agudos e malvados de seu pai e seu bisavô uma vez mais. Cobriu os olhos e se engoliu um soluço. — Lara. Você é uma Caçadora de Dragões. Pode fazer isto. Somos fortes. Agüentaremos. Não sucumbimos jamais ao mal. Compreende? Você deve fugir.        Tia Bronnie sempre a exortava, mas havia amor em sua voz. Preocupação e determinação. Já tia Tatijana soava triste e fraca, mas o amor estava ali, embora nestes dias, raras vezes esbanjava energia em falar. Lara sabia que algo estava errado, terrivelmente errado e estava assustada e com medo de perdê—las.

—Não quero ficar sozinha. — Sussurrou em voz alta no frio agudo da câmara azulada. Não disse em sua mente para suas tias, porque não queria que soubessem que estava quase paralisada e com medo da partida. Este terrível lugar de dor, morte e frio era seu lar e aqui pelo menos tinha às tias e sabia o que esperar. Fora, estaria sozinha num mundo estranho. O corpo de  Lara ficou ereto de repente. Ao mesmo tempo sentiu o invasor espalhando—se por seu cérebro como lama. Um grito escapou de sua garganta. Seu instinto era lutar contra a ordem, mas forçou sua vontade a permanecer calma, a fingir ser dominada. Era difícil quando tudo nela se estremecia e se retirava da mancha que se espalhava. — Não lute. Não lute. — A voz de Tia Bronnie sussurrou. — Guarde sua força. Permita—lhe pensar que tem o controle. Todas nós atacaremos ao mesmo tempo. Esta será a última vez, menina. A última vez…        Lara se estrangulou com o soluço que brotou de dentro de seu peito. Ter a outra pessoa em seu interior, sentir o mal invadindo seu corpo, empurrando—se em sua mente e forçando sua vontade fazia com que lhe subisse bílis à, garganta alagando sua boca com o ácido abrasador. Deu um passo. Outro. Como uma boneca controlada por cordas. Não podia evitar que seus instintos lutassem. Resistiu, tentando jogá—lo de sua mente, numa pequena rebelião que ganhou vingança imediata.        Seu corpo deu um puxão outra vez e a dor perfurou seu crânio, como punções de gelo abrindo brechas por sua pele e ossos. A sensação de aranhas arrastando—se por sua pele, centenas delas, milhares, sepultando sua pequena forma, aninhando em seu cabelo, mordendo seu couro cabeludo, atacando freneticamente seu corpo. Abriu a boca para gritar, mas não saiu nada. Sabia que Razvan, seu pai, não tinha paciência com lágrimas e nem súplicas. Sua lembrança dele desde pequena era sacudindo—a, grunhindo como um dos lobos capturados, que ocasionalmente ele trazia para sua guarida para atormentar.        As tias lhe haviam dito que uma criança devia ser amada e entesourada, nunca usada para  alimento, mas Lara não estava segura em lhes acreditar. Tinham vivido ali toda sua vida como Lara e todos seus sonhos e promessas de um mundo melhor lá fora e de uma infância amorosa eram somente imagens que elas tinham arrancado da mente de sua própria mãe. E as lembranças, especialmente as antigas, podiam ser imperfeitas. — Ele está me forçando a ir à câmara. — Tentou forçar para dentro de si o pânico crescente, para evitar lutar, evitar expor suas capacidades, mas seu sentido de conservação era forte. — Você está vindo a nós, — recordou—lhe sua tia. — Pense só nisso. Que deixará  este lugar terrível e irá para uma nova vida onde não possam te tocar outra vez. — Lara assentiu e diminuiu sua resposta de luta. Não podia perdê—la inteiramente ou Razvan suspeitaria algo. Estava bastante pronta a saber que ele procurava controlá—la através do temor. Se não estivesse bastante assustada, ele encontraria a maneira de fazê—la recuperar seu terror, para podê—la manter dócil sob seu jugo.        Ela contou cada passo. Já sabia o número exato. Fizera o trajeto muitas, muitas vezes antes. Trinta e sete passos pelo corredor e então seu corpo daria um puxão à direita, e ela atravessaria a entrada da grande câmara onde Razvan e Xavier sempre faziam suas cerimônias rituais. O longo vestíbulo era realmente um túnel com um teto azulado e paredes grossas de gelo. Sob os pés o gelo estava escorregadio, mas sólido, quase como um claro cristal, sempre resplandecendo brilhantemente sob a luz nos spots da parede. A luz piscava nas paredes revelando um arco íris, brilhando como jóias embutidas no mundo congelado.        Amava a belas esculturas laranja, avermelhadas e azul violeta que se elevavam bruscamente do piso, explodindo em faiscantes fontes congeladas na espera que a luz as atacasse para voltar à vida. Moveu—se ao redor das familiares formas com passos curtos, até que esteve em meio à câmara enorme. Colunas enormes subiam para o teto, como o teto de uma catedral. Armas antigas forravam as paredes e a frente na parede, aprisionados pelo gelo havia dois dragões perfeitos, um vermelho e um azul. Lara olhou para cima, com a respiração suspensa em sua garganta como sempre acontecia ao ver suas tias, não encarceradas só pelo gelo, mas presas de uma forma poderosa que não era sua forma verdadeira. Ela não podia mudar ainda, mas sentiu que estava conseguindo se fechar. As tias haviam embutido o conhecimento bem fundo em sua mente, de forma que ela não esqueceria o processo, mas ela não tinha coragem suficiente para mudar de forma. E as tias proibiram que ela tentasse, pois Razvan ou Xavier sentiriam a onda de poder.

O dragão vermelho apertou seu grande olho contra o gelo. Lara percebeu a pálpebra se fechando e abrindo lentamente sobre a órbita redonda. O pequeno reconhecimento lhe deu forças para olhar diretamente para o homem que permanecia no centro do salão, uma carranca marcava seu rosto. Razvan, seu pai, olhou para ela, acenando com um longo dedo.

       As linhas em seu rosto se encovaram desde a última vez que ela o vira somente fazia alguns dias. Seu cabelo escurecera, do acobreado vermelho até o mais fundo castanho, agora raiado de cinza. Seus olhos eram fundos e sob eles havia círculos mais escuros. No momento em que seu olhar a atacou, ele começou a respirar mais rápido, o ar terminava em grandes golfos folhados de excitação. Em uma mão ele segurava o cabo da faca de ritual e o coração de Lara começou a bater mais depressa.

— Ele tem a faca.

       Os dentes que rasgam em sua carne eram ruins, mas a lâmina afiada fatiando, metal contra pele e tecido, invadindo seu corpo e trazendo com ele os gritos das vítimas passadas, gritos que ela não podia suprimir depois, por semanas. Os apelos por clemência assombrando seus sonhos e gelando suas veias até que ela quase sentisse a loucura se aproximando.

       Lara não pode parar o jato de adrenalina e a onda de poder que veio com ela e a retirada instintiva, quebrando a seqüência de passos, tentando recuar. Razvan abriu os lábios, revelando seus dentes manchados.

— Chegue aqui! — Seu rosto era uma máscara de ódio. — Você não é nada. É forragem barata para alimentar o gênio de minha existência. Nada! Uma lombriga que rasteja no chão para grandeza de seu serviço.

       Ele apontou para o gelo e por um momento ela pensou em lutar contra seu poder.

— Não! Você deve fazer como ele diz. Ele não pode saber o poder dentro de você. Ele encarcerará você como Xavier fez conosco. Esta é sua chance, Lara. —

       A voz sussurrada de tia Bronnie, pleiteou, até ordenou. Nada teria sido suficiente para superar os instintos de Lara para sobrevivência e sua repulsa pela faca e Razvan, mas existia o medo totalmente subjacente em cada palavra que sua tia falara com ela. Lara permitiu seu corpo se curvar, ficando de joelhos e rastejando através do chão de gelo. O frio penetrava seus joelhos. Ela permitiu a sensação, não regulando muito a temperatura do corpo. A distração do frio ajudava a tranqüilizá—la.

       Razvan suportou um momento, curvado, sussurrando para si mesmo, com seus olhos indo de azul a verde. Lara estremeceu. Os olhos dele freqüentemente mudavam de cor, dependendo de seu humor e era aquilo que a amarrava a Razvan. Era uma característica que eles compartilhavam e isso significava que o sangue de um monstro corria por suas veias.

       Ele inclinou—se e com uma expressão estranha em seu rosto ele olhou em torno da câmara. Uma mão solta sobre o alto de sua cabeça, sua palma fez o que podia ter sido uma carícia em seu cabelo acobreado. Ele falou num sussurro, com sua voz mofosa e rouca: — Saia. Saia antes de você ser consumida.

       Lara piscou perplexa pela cerimônia estranha que ele sempre invocava antes de pegá—la pelos seus ombros magros e a levantá—la sobre os pés. Seus olhos arderam como um rubi vermelho, brilhando com loucura quando ele apertou seu pulso abrindo ali um corte com a faca de rituais.

       Ela gritou, tentado suprimir o choque do pânico e dor, quando a faca passou cortando a carne para o osso, lembrando os gritos das vítimas múltiplas, das sombras de almas entranhadas na lâmina da arma que as torturara e as matara. Razvan apertou seu pulso em sua boca e começou a sugar sofregamente. Seus dentes prendendo—a como um osso. Ele fazia sons horrorosos quando estava sorvendo. Som que lembrava os gritos dos mortos.

       Lágrimas queimavam sob suas pálpebras, borrando sua visão e sufocando sua garganta. Suas tias estavam certas. Tinha que fugir. Lembrou—se do mundo que a esperava lá fora e não poderia mais suportar dias e mais dias dessa tortura.

— Fique forte. Ele está quase satisfeito.

       Ela se agarrou a isso, sabendo que as tias sempre estavam cientes quando Razvan estava para parar de se alimentar. Ela se sentiu fraca e atordoada, não conseguia mais se firmar sobre os joelhos. E então tudo nela ficou alerta. Os cabelos de sua nuca e de seus braços se arrepiaram e um arrepio de apreensão deslizou sob sua espinha.

       Ele estava vindo. Se Razvan era um monstro, seu bisavô era o epítome vivo do mal. Ela podia sentir sua presença de longe, bem antes dele entrar na câmara.

       Razvan estremeceu visivelmente, ergueu a cabeça e empurrou Lara para trás dele. Lara passou a língua pelo ferimento, para que os agentes curativos em sua saliva lacrassem sua pele.

       Sentiu o odor da chegada da carne decaída e podre de Xavier. Ele entrou com seu corpo emagrecido curvado, com uma mão segurando uma bengala e como ele misturou—se na câmara. A bengala era uma arma de poder surpreendente e era freqüentemente esgrimida para administrar dor. A bata longa cobrindo o corpo magro sussurrava com seu passo, assobiando através do chão de gelo, levantando cristais de forma que a bainha colecionava fragmentos e lascas do brilho branco. A barba branca longa estava quase na cintura do homem velho. Sua imagem era altiva à medida que ele se movia, mas quem estivesse olhando, poderia ver através da ilusão, perceberia a carne apodrecendo sob o deslumbramento.

       Lara sentiu a onda do poder e notou que emanou da bengala, em vez de seu bisavô. Razvan se distanciou do homem velho à medida que ele o abordou. Ela sabia que Xavier era o mais velho mago, o mestre de ambas as magias, branca e negra. Seus ensinos tinham sido a fundação não só da corrida dos magos, mas da gente dos Cárpatos também. Suas tias a educaram na terrível história da família onde houve seqüestro estupro, assassinato e a guerra. Tudo por causa deste homem e sua procura por imortalidade.

       Xavier estirou um braço magro em sua direção, com seus dedos como ossos, de unhas longas e enroladas. Ele acenou. Razvan empurrou Lara longe.

—Você não a tocará. Você tem sua própria provisão.

— Venha para cá, Lara. Agora, enquanto eles brigam por causa de você. Venha para perto da parede e nos ajude a que fique livre.

— Eu não posso mais usá—los como você bem conhece. Eles se tornaram extremamente poderosos para controlar. Eu preciso do livro. Nós devemos achar o livro. — Xavier tropeçou para mais perto de Lara. – De uma vez que eu tenha o livro, eles não poderão me desafiar.

       Razvan se distanciou, mantendo Lara atrás dele. — Este aqui é meu e você não a tocará.

— Não presuma dar ordens a mim. – A voz saiu aos berros nas câmaras vastas. Xavier permaneceu com sua altura cheia e Razvan encolhendo ante ele. — Eu envelheço, mas ainda tenho minhas habilidades e você não sabe o que fazer.

       Lara chegou mais perto da parede, o tempo todo juntando a energia.

— Você não pode até controlar suas próprias crianças. Está tão doente quanto eles, que ainda desafiam você! Você me forçou a trazer minha própria descendência, mas você não pode ter esta aqui. Você mata—os com sua cobiça.

— Você dará ela a mim. — Xavier balançou a bengala e apontou para sua neta.

       Lara usou o momento, puxando todo fragmento de energia da bengala que ela podia em direção à parede de gelo. Ao mesmo tempo, as tias conectaram seu poder com o dela. A parede volumosa borbulhou em direção à câmara. Grandes fragmentos de gelo caíram e então se fragmentaram.

— Parem eles! — Xavier saltou longe das lascas de gelo e gritou uma advertência.

       O dragão vermelho estourou pelo gelo, com suas garras estiradas em direção a Razvan e o dragão azul curvou sua asa para Lara.

— Agora! Suba rápido. — Tia Tatijana chamou a ela.

       Lara não hesitou. Ela saltou agilmente sobre a asa, subindo sobre a membrana e balançou sua perna para cima do dragão.   Imediatamente o dragão de trás com grandes asas batendo fortemente, criou rajadas de vento, soprando os dois homens para trás. Xavier perdeu seu aperto na bengala. Lara se concentrou nisto, dirigindo o vento diretamente na madeira espessa, que rolou para o lado, longe da câmara de gelo. O dragão azul levou no ar.

— Não há muito tempo. Vá, Tatijana, fuja enquanto você pode. — Bronnie pleiteou com sua irmã enquanto lançava seu corpo entre Razvan, Xavier e Lara.

       Lara podia ver que os dragões eram fracos. Sua cor de pele estava se desvanecendo. O esforço para manter os dois magos à distância estava cobrando seu preço. Sentando em Tatijana ela percebeu que eles eram sofridos e tinham fome. Haviam sofrido fome por anos. Xavier só permitiu a eles o alimento, mais a fim de utilizar seu poder. Dos dois, Tatijana era a mais fraca. Bronnie tentou dar tempo a irmã, para alcançar a superfície e fugir.

       Lara notou que Razvan rastejava em direção ao dragão vermelho.

       Bronnie bateu suas asas para manter Xavier no chão e longe da bengala poderosa.

— Cuidado! — Lara tentou advertir sua tia, mas a advertência chegou um segundo tarde.

       Razvan mergulhou a faca cerimonial no tórax do dragão vermelho. Tatijana gritou. O dragão vermelho afundou no chão.

— Saia. Corra. Eu os segurarei até onde posso. — Tatijana estendeu sua asa para permitir Lara rastejar para fora sobre uma borda acima da câmara.

— Vá com Tatijana. — Bronnie pediu.

— Venha comigo. — Lara implorou.

       Tatijana agitou a cabeça. — Não deixarei minha irmã. Vá, pequena. Corra e esqueça este lugar. Não olhe para trás. Está livre para encontrar a felicidade.

       Lara se embrenhou na parede de gelo. Ela ainda teve que achar a saída do labirinto de túneis para a superfície. Olhou para baixo uma última vez, para a única casa que ela conheceria.

       Xavier se recuperou sob os pés e levantou a mão. A bengala hesitou e então voou através da câmara para ele.

— Fique quieto ou morrerá. – Ele comandou. — Você é bobo. — Ele silvou para Razvan.

       O dragão vermelho continuou a lutar, derramando sangue pelo do chão de gelo, em raias vermelhas.

       Xavier apontou para o dragão azul. – Fique quieta ou matarei sua irmã.

       Bronnie cessou todo movimento e deitou arquejante no gelo. O dragão azul revoou próximo a sua irmã, acariciando—a com seu pescoço e a língua longa num esforço para salvá—la.

       Lara conteve um soluço urgente, com a mão firmemente contra a boca.

— Vá antes que seu sacrifício seja em vão. — Tatijana ordenou.

Lara correu.

 

         — Lara, vamos sair daqui. — Disse Terry Vale. — Está anoitecendo e não há nada lá. Olhe para baixo, há cavernas entrecortando a montanha inteira. Escolha.        Lara Calladine não se incomodou em afastar o olhar do lado da montanha onde estava procurando uma pequena fenda que pudesse assinalar a presença de uma caverna. O poder surgiu e crepitou no momento que pisou nas encostas mais altas da montanha. Respirou profundamente e pressionou a mão sobre o coração palpitante. Era ali. Era o lugar que passara toda sua vida procurando. Reconheceria esse fluxo de energia onde fosse. Conhecia cada onda e cada feitiço, seu corpo absorvendo tal poder crescente, que suas veias chisparam e suas terminações nervosas arderam com a corrente elétrica em seu interior.          — Estou de acordo com o Terry. — Adicionou Gerald French. — Este lugar me dá arrepios. Estivemos em muitas montanhas, mas esta não gosta de nós. — Ele soltou uma risada nervosa. — Está me pondo incerto.          — Que é isso, ninguém diz incerto, — murmurou Lara, passando a mão pela rocha, em polegadas da superfície, procurando fios de poder.          — O que seja. — disse Gerald. — Está escurecendo e aqui não há nada mais que brumas. Lara, a névoa é horripilante. Temos que ir.        Lara lançou aos dois homens um olhar impaciente e então inspecionou a campina que os rodeava. O gelo e a neve brilhavam, banhando as montanhas em volta, com o que pareciam ser pedras faiscantes. Abaixo, ao longe, se via castelos, granjas e igrejas, apesar do entardecer crescente. As ovelhas salpicavam as pradarias e podia ver um rio caudaloso. As aves chilreavam no alto, enchendo o céu e caindo em queda livre para frear abruptamente e voltar a voar. O vento mudava continuamente, cortando sua face e cada parte de sua pele exposta, atirando sua trança comprida. Gemendo e uivando todo o tempo. Ocasionalmente, uma pedra caía pela costa, ricocheteando na saliente e inferior ladeira. Um fio de neve e sujeira deslizava perto de seus pés.        Seu olhar varreu a pradaria selvagem. Ravinas e quebradas, cortavam através das montanhas nevadas, plantas se aferravam às paredes nuas e tremiam ao longo das mesetas. Podia—se apreciar a entrada para as múltiplas cavernas e sentia o puxão forte para elas, como se estivessem tentando—a, que deixasse sua localização para explorá—las. A água enchia as depressões mais profundas em baixo, formando uma turfa escura e camas de musgo de um vívido verde, em marcado contraste que os rodeavam. Era ali, neste ponto, esse lugar. Tinha estudado a geografia cuidadosamente e sabia que profundamente dentro da terra, formava—se uma série maciça de cavernas.        Quanto mais alto subia, embaixo parecia tudo menor e mais espessa se tornava a bruma branca que a rodeava. A cada passo, o solo mudava sutilmente e as aves aumentavam o barulho. Coisas simples, sim, mas o subjacente sentido de inquietação, as contínuas vozes sussurrando, lhe advertindo que abandonasse antes que fosse muito tarde, assinalavam—lhe que este era um lugar de poder. Embora o vento continuasse uivando e soprando, a bruma permanecia como um véu espesso envolvendo o pendente mais alto.        — Vamos, Lara. – Chamou Terry novamente. — Nos custou muito obter as permissões. Não podemos perder tempo na área errada. Dá para ver que não há nada aqui.        Desta vez tinha levado muito esforço obter as permissões para o estudo, mas tinha conseguido da maneira habitual, usando seus dons para persuadir aqueles que estavam em desacordo, que com o aquecimento global, o destino das cavernas de gelo era incerto e necessitava de imediata atenção. Mais que isso, os micróbios, os extremophiles, não só sobreviviam dentro das cavernas, como também prosperavam em condições extremas. A esperança estava em que os microorganismos que viviam e se reproduziam longe da luz solar e dos nutrientes tradicionais, pudessem ajudar à ciência médica na luta contra o câncer ou até produzir um antibiótico capaz de erradicar as novas enfermidades resistentes que emergiam.        Seu projeto de investigação estava devidamente fundamentado e embora a considerassem jovem na idade de 27 anos era conhecida como a mais perita no campo de estudo e preservação das cavernas de gelo. Registrava mais horas de exploração, mapeando e estudo as cavernas de gelo ao redor do mundo, que muitos outros investigadores com idade dobrada. Também descobriu mais bactérias resistentes que qualquer outro espeleólogo. A Nasa, um dos investigadores líderes dos extremophiles era um de seus maiores contribuintes.      — Não te soa estranho que ninguém nos queira nesta região em particular? Concordaram em nos dar a permissão para procurar virtualmente em qualquer lugar, ela assinalou. Parte das razões pelas quais insistiu quando não havia cavernas localizadas nos mapas, foi que o chefe do departamento ficara estranho. Estranho e bastante vago, quando olharam o mapa. Depois de estudar a área, a dedução geográfica natural, notou que uma vasta cadeia de cavernas de gelo jazia sob a montanha e ainda assim, a região inteira passara por alto.        Terry e Gerald tinham exibido a mesma conduta, como se não tivessem notado a estranha estrutura da montanha e ambos eram insuperáveis em encontrar cavernas de gelo pela superfície geográfica. A persuasão tinha sido difícil, mas todo esse trabalho era para este momento, para esta caverna, esta descoberta.      — É aqui. — Disse com absoluta confiança.        Seu coração seguia palpitando com excitação, não pelo que encontrara, mas porque caminhar se tornara dificultoso, seu corpo sem querer continuava avançando. Expulsou a compulsão de abandonar o local e pressionou através das salvaguardas, seguindo o rastro de poder, julgando quão perto estava da entrada e quão forte sentia a necessidade de se afastar.        Vozes surgiram no vento, circulando na bruma, dizendo—lhe que se retirasse, que fosse embora enquanto pudesse. Estranhamente, ouvia—as em várias línguas e a advertência mais forte e insistente à medida que percorria a ladeira procurando uma fenda ou algo que pudesse indicar uma entrada para as cavernas que sabia estarem ali. Tudo, enquanto mantinha seus sentidos alerta para a possibilidade de que monstros os espreitassem sob a terra. Mas tinha que entrar. Teria que encontrar o lugar de seus pesadelos, o lugar de sua infância. Tinha que achar os dois dragões com os quais sonhava todas as noites.        — Lara! — Desta vez Terry protestou severamente. — Temos que sair daqui.        Não lhe dando um segundo olhar, ela permaneceu quieta por um longo momento, estudando os afloramentos que se sobressaíam da rocha mais lisa, coberta quase toda por neve espessa, mas ali havia uma raridade que mantinha seu olhar voltado sobre ela. Aproximou—se cautelosamente. Muitas pedras menores jaziam aos pés das formações maiores, entretanto nenhum floco de neve se colava a elas. Não tocou nelas, mas estudou—as de cada ângulo, observado cuidadosamente o padrão no qual estavam alinhadas ao pé do afloramento.          — Algo não está certo. — Disse em voz alta.        Instantaneamente o vento gemeu, o som crescendo até se converter num grito à medida que a rajada se aproximava dela soprando refugos no ar, que a atacaram como pequenos mísseis.        — São as rochas. Olhe, deveriam estar organizadas de outra maneira, — Lara se agachou e colocou a pequena pilha de pedras em outro padrão.        Em seguida o solo sob eles mudou. A montanha rangeu em protesto. Morcegos levantaram vôo, saindo ao céu de alguma fossa a uma curta distância, cobrindo—o até que ficou quase negro.   A fenda escura no passo do afloramento se alongou. A montanha estremeceu, sacudiu e grunhiu como se estivesse viva, como se estivesse despertando. — Não deveríamos estar aqui. —Terry quase soluçou.        Lara respirou fundo e colocou sua mão na fresta estreita da ladeira da montanha, a única entrada para esta caverna em particular. O poder a golpeou e ao redor, ela pôde sentir as salvaguardas espessas e sinistras, protegendo a entrada. — Terry, tem razão. — Concordou. — Não devemos ficar aqui. – Ela retrocedeu do afloramento e gesticulou mostrando o atalho. — Vamos. E rápido.

Pela primeira vez ela estava realmente consciente da hora do pôr—do—sol, da escuridão crescente expandindo—se como uma mancha através do céu.        Ela retornaria na manhã seguinte e sem seus companheiros. Não tinha idéia do que havia nas elaboradas cavernas de gelo sob seus pés, mas não ia expor dois de seus melhores amigos ao perigo. As salvaguardas do lugar os confundiriam, para que não se recordassem da locação da caverna, mas ela conhecia cada malha, cada feitiço e como revertê—los, por isso não a afetariam.        As cavernas de gelo de por si somente já eram perigosas a todo o momento. A contínua pressão de camada sobre camada de gelo, freqüentemente lançava grandes pedaços dos mesmos das paredes, como foguetes disparados capazes de matar a quem golpeassem. A caverna de gelo continha perigo além dos naturais e ela não queria seus companheiros em nenhum lugar por perto.        O solo mudou novamente, fazendo—os perder o equilíbrio. Gerald a segurou para evitar que caísse e Terry se apegou ao afloramento, seus dedos cavando na fenda mais larga. Debaixo de seus pés, algo sob o solo se moveu, levantando a superfície várias polegadas à medida que corria para a base das pedras que Lara havia realinhado.

— O que é isso? — Gritou Gerald, retrocedendo. Empurrou Lara para trás dele, no esforço de protegê—la à medida que a sujeira e a neve eram expulsas como um gêiser, quase em seus pés.        Terry gritou. Sua voz era aguda e atemorizada enquanto caía para trás e a criatura oculta corria para ele por baixo da terra. —Levante—se! Movimente—se! — Demandou Lara, tentando rodear a figura sólida de Gerald para lançar um feitiço de contenção. À medida que ele virava, sua mochila a golpeou, fazendo—a perder o equilíbrio e rolar pela ladeira. Sua marca de nascimento em forma de dragão, estranhamente posicionada sobre seu ovário esquerdo, de repente se fez notar queimando sobre de sua pele, tornando—se vermelho intenso.

       Dois tentáculos verdes escuros e escorregadios de sangue explodiram do solo coberto de neve. A era cor tão escura que se mostrava quase negro. Emergiram pelos lados do tornozelo esquerdo de Terry. Elevou—se o som de lama borbulhante, junto com um pestilento, nauseabundo e pútrido aroma de ovos podres e sulfuretos, tão enjoativo que lhes provocou náuseas. Os extremos bulbosos dos tentáculos se retraíram, revelando cabeças curvas, que atacaram com velocidade brutal. Duas presas curvadas e venenosas penetraram através da pele de Terry quase até o osso. O sangue gotejou na neve antiga. O pequeno buraco no chão começou a aumentar, aproximando—se de Terry. Juntos, os tentáculos rastejaram para a fossa, deslizando através da superfície, arrastando Terry pelo tornozelo. Seus gritos de medo se converteram em gritos de terror e dor.        Gerald se lançou para frente, segurando Terry por baixo dos braços, jogando—o na direção oposta. — Se apresse, Lara!        Lara engatinhou até o topo. A bruma que se formava se espessou em seu redor, dificultando—lhe a visão. Ela estendeu os braços enquanto corria, reunindo energia do céu que estava escurecendo, indiferente a seus companheiros, sabendo que ela era a única oportunidade deles sobreviverem. Não havia usado seus conhecimentos desde que saíra da caverna de gelo, a riqueza de informação que suas tias compartilharam com ela, não estava segura que fosse real, até esse momento. O poder a alagou. Sua mente se abriu. Expandiu—se. Investigando o poço de conhecimento e encontrando as palavras exatas que necessitava. — É muito forte. — Gerald cravou seus pés na terra e sujeitou Terry com cada onça de força que possuía. — Deixe de desperdiçar energia e me ajude. — Maldição! Vamos, Terry, lute.        Abruptamente Terry deixou de gritar e começou a lutar para ganhar, com sua perna livre ele chutava às duas cabeças de serpentes, na tentativa de arrancá—las de si. A planta largou mais tentáculos, caules esverdeados e escuros se retorcendo espantosamente, procurando o objetivo. Os dentes cravaram—se mais fundo no tornozelo de Terry, furando carne e osso no esforço de manter sua presa.        Lara se lançou para frente, levantando o rosto para o céu enquanto murmurava as palavras que encontrara em sua mente. — Eu trago à tona o poder do céu. Desça o relâmpago ao olho da minha mente. Formando, mudando e dobrando—se a minha vontade. Forjando uma foice de aço afiada. O fogo quente e brilhante guie minha mão com precisão.        Um relâmpago ziguezagueou cruzando o céu iluminando as nuvens. O ar ao redor deles se espessou tanto que os pêlos em seu corpo e seus cabelos se arrepiaram. Lara sentiu a eletricidade estalando e chispando nas pontas de seus dedos e ela o enfocou no espaço mais fino entre os corpos longos e grossos e as cabeças bulbosas das trepadeiras… Das serpentes.        Uma luz esbranquiçada sulcou a curta distância e perfurou os pescoços das criaturas. O aroma de carne podre surgiu da vinha. Os dois corpos caíram murchos ao chão, com as cabeças e os dentes ainda cravados no tornozelo de Terry. Os tentáculos restantes retrocederam em choque e logo entraram sob a imundície e a neve.        Terry segurou uma das cabeças para arrancá—la. — Não! — Protestou Lara. — Deixe—a. Não sabe se os dentes são como os anzóis. Temos que ir já embora. — Queima como ácido, — se queixou Terry. Seu rosto estava pálido, quase tão branco como a neve e as gotas de suor que caíam de sua fronte.        Lara sacudiu sua cabeça. — Temos que ir já desta montanha. Não pode se arriscar até que possa dar uma olhada nisso.        Ela pegou—o pelo braço e assinalou para que Gerald segurasse o outro. Colocaram Terry entre eles e começaram a sair da ladeira para o atalho bem marcado à sua direita. — O que era isso? — Gerald perguntou. Seus olhos encontrando os dela sobre a cabeça de Terry. —Você já viu uma serpente assim antes?

— Era encabeçado?— Terry perguntou. A ansiedade o fez ficar ofegante. — Eu não consegui dar uma olhada nisso antes de me atingir. Você pensa que é venenoso?

—Não está atacando seu sistema nervoso central, Terry, — Lara disse, — pelo menos não ainda. Nós conseguiremos levar você de volta a aldeia e encontraremos um doutor. Eu sei algumas coisas sobre medicina. Eu posso cuidar de você quando nós chegarmos ao carro.

       A montanha se movimentou em baixo de seus pés. Lara olhou para as névoas brancas. Acima deles, rachaduras apareciam na neve e começaram a se alargar.

       Gerald gemeu, renovado seu aperto em Terry e começou a correr ao longo da estreita trilha. — Vai descer.

       Terry apertou os dentes, lutando contra a dor que se espalhava por seu tornozelo. — Eu não posso acreditar em que isto está acontecendo. Eu tenho náuseas.

       Lara manteve os olhos na montanha atrás deles à medida que começaram a correr, arrastando Terry. — Mais rápido. Mantenha a mudança.

       O solo tremeu e mudou e pequenos blocos de neve deslizaram em padrões astutos em direção ao declive abaixo deles. A visão estava deslumbrando—os, hipnótica. Gerald agitou a cabeça e olhou para Lara perplexo, diminuindo a velocidade na neve ondeante. — Lara? Eu não posso lembrar o que aconteceu. Onde nós estamos?

—Nós estamos para ser enterrados por uma avalanche, Gerald, — Lara advertiu. – Terry está machucado e nós precisamos correr. Agora, se mova!

       Ela colocou toda grama de compulsão e comando pode reunir, na corrida. Felizmente os dois homens obedeciam, concentrando—se em descerem o declive íngreme tão depressa quanto podiam e não fazendo mais perguntas. As proteções da caverna não eram somente letais, mas confundiam e desorientavam qualquer viajante que tropeçavam nelas. O sistema de advertência normalmente era suficiente para deixar as pessoas tão intranqüilas, que eles deixaram a área. Mas uma vez ativadas, as proteções lutavam para apagar memórias ou até matar para proteger a entrada para a caverna.

       Era definitivamente o lugar que ela procurou por toda a vida. Agora ela teria que sobreviver a fim de voltar e descobrir os segredos enterrados ao longo de seu passado. Gerald tropeçou, e Terry gritou, quando a cabeça de serpente bateu contra uma massa particularmente densa de neve e gelo, empurrando mais os dentes em sua carne.

       Lara sentiu a montanha tremer. A princípio existia silêncio e então um distante barulho. O som continuou aumentando em força e volume até que se tornou um rugido. A neve deslizou, lentamente a princípio, mas ganhou velocidade, batendo e rolando, apressando em direção a eles. Lara fez retroceder o pânico e procurou na fonte de conhecimento que sabia existir em seu interior. Suas tias nunca lhe apresentaram ser humanas, mas suas vozes eram e a imensa abundância de informação que recolheram ao longo dos séculos, estava guardada nas lembranças da Lara.

Era uma Caçadora de Dragão, uma Dragonseeker e possuía um grande patrimônio Cárpato. Era humana, com coragem e com a força. Era maga, capaz de reunir energia e usá—la para o bem. Todos seus ancestrais eram seres poderosos. O sangue de três espécies circulava por suas veias, ainda que não pertencia a nenhum desses mundos e caminhava sozinha por seu próprio caminho, mas sempre guiada pela sabedoria de suas tias.

Sentiu a força vertendo—se nela, o crepitar da eletricidade enquanto o céu se acendia com relâmpagos. Olhando por sobre seu ombro uma vez mais, enviou uma ordem às forças da natureza para rebater a guarda de amparo que a magia escura usara na montanha.

— Convoco—te, água gelada. Encaixe—se em minha mão, me abasteça de amparo, como o ordeno.

A neve deixou de se mover abruptamente, pulverizou—se no ar, congelando—se no lugar, ondulando—se sobre suas cabeças como uma onda gigante, imóvel em meio do ar.

— Corram! — Gritou Lara. – Vamos Gerald. Temos que sair da montanha.

A noite estava caindo e a avalanche não era o pior que poderiam enfrentar. O vento se acalmara, mas as vozes permaneciam gritando advertências que ela não se atrevia a ignorar. Seguraram Terry e correram meio se deslizando e baixando a inclinada colina. Sobre suas cabeças, o pesado manto de neve formava uma onda, com a crista sobre eles, imóvel como uma estátua sinistra.

Terry deixava rastros de sangue enquanto escorregavam sobre a superfície gelada. Transpiravam copiosamente no momento em que chegaram embaixo. Respirando pesadamente, eles pararam procurando o automóvel. Procurar o carro era fácil. Nesta área particular da Romênia, a maioria dos aldeões usava carros puxados por cavalos. Os automóveis não eram nada comuns, ainda que pequeno como era parecia muito moderno para um lugar que possuía séculos de antigüidade.

Gerald arrastou Terry através do prado para onde o automóvel estava estacionado sob alguns ramos desnudos. Lara se virou para a montanha, deixou escapar o fôlego e aplaudiu três vezes. Houve uma pausa estranha, expectante. A onda passou e a neve caiu. A montanha se deslizou, levantando uma nuvem branca para o ar.

— Lara, — ofegou Terry. — Tem que tirar estes dentes de meu tornozelo. Minha perna arde como o inferno e juro que algo se está arrastando dentro de mim, dentro de minha perna.

Ele deitou descuidadamente no pequeno assento traseiro, com a pele quase cinza. A transpiração molhava sua roupa e sua respiração era irregular.

Lara se ajoelhou na sujeira e examinou as espantosas cabeças. Sabia o que eram. Híbridos da magia escura, engendrados para fazer sua vontade. Tinha visto em seus pesadelos. As víboras injetavam um preparado venenoso no corpo de suas vítimas, que incluía parasitas microscópicos. Os organismos eventualmente tomariam o corpo de Terry e logo seu cérebro, até que ele fosse uma mera marionete para ser usada pela magia escura.

— Sinto muito, Terry. — Disse ela, brandamente. — Os dentes são como anzóis e devem ser removidos cuidadosamente.

— Então, tinha visto antes? —Terry agarrou sua mão e a atraiu para perto e ela ficou de cócoras ante a porta aberta do automóvel. Ele estava deitado no assento traseiro, balançando de dor. — Não sei por que, mas o fato de que tenha visto antes me faz sentir melhor.

A ela não a fazia se sentir melhor. Era ainda uma menina, arrastada a um laboratório. Vira e sentira os aromas tão horríveis, que tratou de esquecê—los. O Cheiro do sangue. Os gritos. Os grotescos e diminutos vermes numa bola putrefata, rebolando com frenesi, consumindo sangue e carne humana.

Respirou fundo e o deixou sair. Não tinham muito tempo. Precisava levar Terry a um professor curador que pudesse encarregar—se de tal coisa, mas ela poderia fazer demorar a deterioração.

Gerald olhou a seu redor e depois à montanha, agora quieta. A bruma branca redemoinhava, mas as vozes haviam desaparecido.

Gerald olhou a seu redor e depois à montanha, agora quieta. A bruma branca redemoinhava, mas as vozes haviam desaparecido. As nuvens cresciam pesadas e escuras, mas a montanha se via antiga, intocável, certamente não como se alguém tivesse subido nela e havia sido atacado.

— Lara? — Ele soava tão confuso como se via—. Não posso me recordar onde estamos. Não posso recordar como essas víboras atacaram Terry. As serpentes não necessitam de climas quentes? Como aconteceu isto e o que é o que tenho de errado?

— Neste momento não importa. O que importa é tirar esses dentes da perna de Terry e levá—lo a hospedaria, onde alguém que saiba como podemos ajudar. – Alguém com habilidades mágicas, mais que médicas. Se eles estavam perto de onde ela havia sido retida quando era menina, então pensava, que alguém saberia tratar uma ferida causada por magia.

Fechou os olhos para bloquear a visão do rosto cinza de Terry e ansioso de Gerald. Bem dentro, onde sua fonte do conhecimento jazia, encontrou seu centro de calma. Quase podia ouvir os sussurros das vozes de suas tias, dirigindo—a enquanto a informação alagava sua mente. As presas eram curvadas. Sua ponta parecia um anzol.

— Cabeças severas que remoem, as presas se retiram com calor e luz. Tire o veneno restante, contendo o mal, acalmando a dor.

— Tem que haver alguém melhor para tirá—los, — disse Lara. — Podemos te levar rápido à hospedaria e o casal de proprietários pode encontrar alguém por nós que tenha lidado com isto antes.

Terry sacudiu a cabeça.

— Não posso suportar mais, Lara. Se não tirar já, vou arrancá—los. Realmente não posso suportar.

Ela assentiu e pegou sua faca do cinturão de ferramentas que carregava debaixo da jaqueta.

— Então, vamos tirar. Gerald vá do outro lado do assento e sustente os ombros de Terry. — Mais que tudo, não queria Gerald posicionado onde o sangue poluído pudesse salpicar nele. Os microorganismos eram perigosos para qualquer pessoa.

Gerald a obedeceu sem questionar e Lara estudou a primeira cabeça de serpente. O híbrido era parte planta e parte animal, horripilante. Fora criado para fazer dano a pessoa, sem importar a espécie e colocá—los sob o controle do mago escuro. Não só foram Cárpatos e humanos que torturara, mas também sua própria gente. Ninguém estava a salvo, nem sequer sua própria família, como Lara podia testemunhar.

Fechou os olhos e engoliu com dificuldade, fechando abruptamente a porta de suas lembranças que eram muito dolorosas, muito arrepiantes para recordar, quando tinha uma tarefa tão complexa a sua frente. Raramente usou suas habilidades curativas em alguém mais nos anos passados. Em sua infância, cometeu o engano em muitas ocasiões, viajando com ciganos. Soldou ossos quebrados. Curou um ferimento de faca que poderia ter matado um homem. Removeu uma bactéria daninha dos pulmões de uma criança. Ao princípio a pessoa ficava agradecida, mas indevidamente começavam a lhe temer.

— Nunca mostre que é diferente. Deve se mesclar onde quer que esteja. Aprenda a linguagem e os costumes. Se vista como se vestem e fale como falam. Encubra quem e o que é e nunca confie em ninguém.

Ela gostava de muito Gerald e Terry. Tinham trabalhado juntos por muitos anos e ela havia sido cuidadosa em nunca misturar a nenhum dos dois ou lhes mostrar que era diferente. Tinha sido uma difícil lição que aprendera reiteradamente, cada vez que era arremessada da família que estava cuidando—a.

— Lara.

A voz soluçante em de Terry voltou seus pensamentos à tarefa que tinha nas mãos. Brindou—lhe com um sorriso tranqüilizador. Estavam acostumados que ela fosse a líder quando investigavam as cavernas e era natural que a buscassem agora. Respirou fundo novamente e o deixou sair, empurrando a repulsão que estava brotando.

As palavras do canto curador surgiram do mesmo banco de conhecimentos e ela as repetiu enquanto deslizava a lâmina afiada da faca pela pele de Terry e encontrou as pontas como anzóis.

— Kunasz, nelkul sivdobbanas, nelkul fesztelen loyly. Ot elidamet andam szabadon elidadert. Ou jela sialem jorem ot ainamet é soe ot elidadet. Ou jela sialem pukta kin minden szelemeket helso. Pajnak ou susu hanyet é ou nyelv nyalamet sivadaba. VII ou vermin soe ou verid andam.

A antiga linguagem Cárpato, veio—lhe sem dificuldade; era uma que conhecia da infância. Poderia estar um pouco esquecida, ao nunca ter que usá—lo com alguém, somente para murmurar antes de dormir, mas as palavras, sorteadas num um cântico, sempre a acometiam. Enquanto murmurava as palavras curadoras, bloqueava a dor de Terry. O dente era malvado e horroroso. Curvava—se dentro da pele, alargando, cavando fundo e no extremo havia algo parecido a um pequeno anzol, curvado na direção oposta. Tinha que cortar cuidadosamente a pele para permitir frouxar às pontas de ambos os lados, para levantar sem danificar muito a perna de Terry.

Ao princípio usou sua visão humana, bloqueando todas suas outras habilidades, até que tirou as rebarbas com forma de anzol. Somente então se permitiu olhar com os olhos de uma maga. Vermes brancos e diminutos se retorciam e pinçavam como um enxame para as células, para reproduzir o mais rápido possível. Seu estômago se contraiu. Tomou um tremendo esforço de sua parte se despojar de sua própria consciência e físico e se converter num raio curador de luz branca, o qual verteu na ferida de Terry para queimar os organismos logo que os encontrava.

As criaturas parecidas com vermes tratavam de fugir da luz e dada à oportunidade, reproduziam velozmente. Ela cuidou em ser minuciosa, mas Terry se retorcia e gemia, distraindo—a, enquanto procurava o outro tornozelo, tentando arrancar a outra cabeça.

Abruptamente se encontrou de volta a seu próprio corpo, desorientada e com o pânico golpeando—a.

— Terry! Deixe. Eu tirarei.

Seu grito chegou tarde, enquanto ele arrancava a cabeça completa da víbora, rasgando—a de seu tornozelo. As rebarbas rasgaram de sua pele e os músculos. O sangue regou a parte traseira de sua perna e se disparou pelo assento e salpicando o peito de Gerald.

— Não toque o sangue! —Gritou Lara. — Use a roupa. Gerald, tire a jaqueta.

Ela pressionou as mãos sobre a ferida, apertando forte, ignorando a dor abrasadora quando o sangue cobriu sua pele, ardendo até o osso. Lutou para vencer o próprio medo e o pânico até alcançar o centro calmo em seu interior, chamando à luz curadora, queimando o branco vivo e puro, para rebater o ácido do sangue da víbora. Pela maneira em que sua marca de nascimento estava ardendo, devia haver sangue de vampiro no preparado.

Gerald tirou sua jaqueta e a jogou longe à medida que o material começava a desprender uma fumaça cinza. Esfregou o rosto e os olhos, aplaudindo desde sua face até o peito, para desfazer da sensação de coisas se arrastando.

Terry permaneceu quieto enquanto Lara enviou a luz curadora como um raio através de seu corpo até a ferida aberta em sua perna. O sangramento diminuiu até se tornar um filete e as criaturas parecidas com vermes retrocederam pelo calor desdobrado que Lara gerou. Ela cauterizou a ferida, destruindo tantos parasitas como pôde antes de limpar suas mãos e braços na mesma energia quente.

— Gerald, tem sangue em você?

Ele sacudiu a cabeça.

— Parece—me que não, Lara. Tenho essa sensação, mas sequei minhas mãos e meu rosto e não há nenhuma mancha.

— Logo que levarmos Terry ao médico tome um banho tão logo possa. E queime sua roupa. Não a lave, queime—a toda.

Saiu do assento, ela ajudou Terry a tirar suas pernas da porta e pôde fechá—la e se apressar até o lado do motorista. A cor de Terry era terrível e o pior, não gostava do modo em que ele estava respirando. Em parte podia ser devido ao choque, a respiração rápida e superficial típica do pânico, mas temia não ter detido o assalto dos parasitas em seu corpo. Precisavam de um professor curador imediatamente.

Dirigiu tão rápido como pôde pelo caminho estreito e cheio de fossas da montanha, deslizando em algumas das curvas mais fechadas e ricocheteando sobre os poços lamacentos. A água suja se dispersou no ar enquanto o automóvel passava através do barro e da neve, lançando lama a seu passo. Toda a campina tranqüila ao redor contrastava agudamente com o terror das cabeças das serpentes que tinham sido incrustadas no tornozelo de Terry. Palheiros e vacas os rodeavam. Pequenas casas com teto de palha e carroças com enormes rodas, puxadas por cavalos davam a impressão de voltar no tempo, a uma época mais lenta e muito mais feliz. Os castelos e a variedade de Igrejas davam a área uma aura medieval, da qual se espera que cavalheiros desçam das colinas a qualquer momento.

Lara tinha viajado por todo mundo procurando seu passado. Recordava pouco de sua estadia na caverna de gelo e uma vez que os ciganos a encontraram viajaram por toda a Europa. Passou de família em família e nunca lhe disseram onde a encontraram. Vir às montanhas dos Cárpatos havia sido como voltar para o lar. E quando entrou na Romênia, sentiu—se em casa. Este lugar permanecia selvagem, os bosques agrestes e a terra viva sob de seus pés.

O automóvel deslizou por outra curva e saíram do bosque espesso. O rastro se estreitou ainda mais, serpenteando entre o solo sólido enquanto o aroma da turfa impregnava o ar a seu redor. As árvores cambaleavam e se encurvavam sob o forte peso da neve. Luz à distância anunciava as granjas e por um momento ela pensou em parar para pedir ajuda na mais próxima, mas Terry havia sido mordido por um híbrido, uma víbora criada pelo mago carregando sangue de vampiro. Curar uma ferida feita por magos já era bastante difícil, mas uma de híbrido com sangue de vampiro... Requeria habilidades além de seus conhecimentos ou dos de um doutor humano.

A única esperança residia nos proprietários da hospedaria. O casal tinha nascido e se criado na área, vivendo ali toda sua vida. Lara não podia imaginar que não tivessem algum conhecimento do perigo nas montanhas. Ao passar o tempo se tornava difícil manipular as mesmas lembranças. E havia algo nessa hospedaria, algo que a tinha segurado a ela. Um poder de sugestão, como se talvez houvesse uma sutil influencia no trabalho, empurrava à área aos turistas e visitantes e os fazia querer ficar na hospedaria caseira e amistosa.

Lara se permitiu ser suscetível ao fluxo de poder porque era a primeira vez desde que o dragão a tinha empurrado para a saliência da caverna superior, que tinha encontrado o toque ligeiro e delicado da energia fluindo. Tinha esquecido o que era banhar—se no poder elétrico e crepitante, senti—la envolvendo—a, fluindo através de cada célula até que seu corpo zumbisse. A hospedaria e o povoado inteiro lhe tinham dado essa sensação incrível, embora fosse tão sutil que quase lhe escapara.

— Lara, — Gerald a chamou do assento traseiro. — Minha pele está começando a queimar.

— Logo chegaremos. O primeiro que vai fazer é entrar e se banhar. – Ela não queria pensar no que Terry estava sofrendo. Estava muito calado, às vezes emitindo um suave gemido. — Gerald, quando chegarmos à hospedaria precisamos conversar com os proprietários e perguntar em seguida quem é o curador do povoado.

— A proprietária se chama Slavica e parece ser muito agradável.

— Esperemos que seja também discreta. Certamente parece conhecer todos.

— Não seria melhor perguntar pelo doutor mais próximo? —Perguntou Gerald.

Lara tentou soar despreocupada.

— Às vezes os curadores locais conhecem muito mais de plantas e animais da área. Ainda mais quando não encontramos esta espécie em particular, já que os vilões sim e o curador local provavelmente sabe exatamente o que fazer para extrair o... —Abruptamente ela se tocou. — Veneno.

Lara conduziu o automóvel pelo ascendente caminho até a estalagem nos limites do povoado. Situava—se em frente ao bosque, com seu longo alpendre e balcões convidativos. Estacionou tão perto das escadas como pôde e correu ao para ajudar Gerald tirar Terry do carro.

As sombras se alongavam e cresciam à medida que as nuvens se espessavam com a ameaça de neve. O vento bramava e as árvores se balançavam e rangiam em protesto. Lara olhou ao redor com acuidade e cautela, enquanto abria a porta traseira e segurava Terry.

— Voltarei pegar as cabeças das serpentes para mostrar aos donos da estalagem. Não toque nelas. — Avisou.

Terry era quase um peso morto entre eles. Gerald virtualmente o carregava enquanto tropeçavam através da neve. O caminho era espaçoso, mas eles pegaram um atalho pela frente, para chegar mais rápido ao alpendre.

Um homem alto e de cabelo escuro abriu a porta e se apressou em ajudá—los. Ainda sob as funestas circunstâncias, Lara o achou arrumado, quase irresistível.

— Que o sangue não o toque, — advertiu Lara. — É altamente venenoso.

O olhar do homem de cabelo escuro passeou pelo rosto dela e se congelou, travando nela. Por um momento houve um reconhecimento que sacudiu seus olhos e logo passou, quando colocou seu ombro sob Terry para liberá—la do peso.

Lara girou, voltando—se para automóvel.

— Coloquem—no dentro e peçam aos donos que encontrem um curador. Trarei as cabeças das víboras.

Ela se apressou a descer os degraus, cruzando a distância até o automóvel numa corrida. Quando segurava a maçaneta da porta para abri—la, sua marca de nascimento, que tinha a forma de dragão, começou a arder forte contra sua pele.

Havia uma só coisa que fazia despertar a advertência do dragão. Um vampiro. E ele devia estar perto. Fechou a porta e olhou cuidadosamente ao redor, com uma mão deslizando sob a grossa capa vermelha, para procurar a faca em seu cinto.

 

A noite era amargamente fria. Não deveria ter sentido... Os Cárpatos podiam regular com facilidade sua temperatura corporal, mas ele desejava o frio. Era uma sensação. Não emoção... Mas ao menos era alguma coisa. O frio se parecia talvez à amargura. E a amargura era uma emoção. Talvez fosse o mais próximo de um sentimento que teria antes de sua morte.

Nicolas Da Cruz caminhava pelo povoado a lentos passos, com o rosto afastado das pessoas que compartilhava as calçadas, para evitar que vissem seus olhos. Sabia que a cor normalmente negra como a escuridão da meia—noite, ardia uma fagulha com um vermelho rubi. Um frio intenso se formava no fundo de seu abdômen e profundamente em seu interior, onde sua alma estaria, restando somente uma pequena parte negra... E, além disso, estava cheio de aberturas. Os séculos em que passara a caçar e matar vampiros haviam sido longos.

Elevou o rosto para as nuvens pesadas pela neve. Esta era sua última noite. Tinha acabado com a luta. Tinha servido sua gente e sua família com honra, suportando através dos séculos e caçado mais de seus camaradas caídos, que a maioria. Pela manhã caminharia para o sol e terminaria com sua longa e erma existência.

Estava longe de seu lar e de seus irmãos. Seu irmão mais velho Zacarias, seria incapaz de detê—lo à distância, de fato, não sentiria seu final até que fosse muito tarde. Perguntou—se quanto levaria a sol lhe queimar totalmente. Muito tempo como as manchas de sua alma, mas ainda assim, seus irmãos não teriam que compartilhar a intensidade do sofrimento de seus últimos minutos de vida.

Estremeceu, agradecendo o frio em sua face e em sua pele, agradecendo poder sentir sensações físicas. Emoções... Essas ele havia perdido a tanto tempo, que eram uma lembrança distante ou talvez nem sequer uma lembrança, absolutamente. Três de seus irmãos tinham encontrado suas companheiras e compartilhavam suas reencontradas emoções com ele. De certo modo, a felicidade deles havia sido bem mais difícil de suportar estando tão sozinho.

Havia saído a um último passeio através do povoado antes de encontrar com Mikhail Dubrinsky... Príncipe da gente dos Cárpatos. Tinha viajado de longe para entregar uma advertência, mas agora não via certo se uma reunião cara a cara seria segura... Especialmente nos fechados limites da estalagem. Os batimentos do coração eram ruidosos, lhe bombardeando com a necessidade do rico sangue quente. Dentes afiados alongaram—se contra o interior de sua boca e sua saliva se acumulou à espera de um banquete.

Não levaria muito permitir saborear... Só um momento, uma vez... A quente rajada de sangue carregado de adrenalina que lhe proporcionasse um brilho de emoção perdida. E uma mulher... Adoraria sentir a pele suave de uma mulher, inalar sua fragrância, fingir somente por um momento que tinha alguém a quem amar, que o olhasse com amor... Autêntico amor... Não o calor avaro que chegava no momento em que uma mulher conhecia sua riqueza.

Se pudesse sentir arrependimento, não seria pelas incontáveis vezes que tivera que destruir um velho amigo, nem pelas muitas almas que tinha liberado e enviado ao descanso eterno, mas sim por não ter sentido nunca o autêntico desejo por uma mulher. Nunca tinha sustentado uma mulher a quem amasse entre os braços e a tinha honrado com seu corpo.

Os sussurros em sua mente se tornavam mais fortes, lhe tentando com coisas que nunca tinha conhecido em sua longa vida.

As mulheres se sentiam atraídas por seu aspecto, seu poder e seu dinheiro. Utilizara—as para se alimentar, mas nunca tinha sido capaz de conhecer os prazeres que uma mulher podia trazer para seu corpo, a paz que podia proporcionar a sua mente. Uma vez. Somente uma. Poder cravar seus dentes na pele suave e sentir o fluxo de vida, ouvir como se acelerava o ritmo de seu coração em sintonia com o próprio. Temeria sua dominação, sua absoluta supremacia sobre ela. Vida ou morte. Ele tinha esse poder.

O coração palpitou em seu peito. Seu corpo se estremeceu voltando para a vida. Sentia o aroma uma presa. Uma fragrância que o chamava, estendendo—se através da beleza da noite. Somente tinha que fazer a escolha e poderia experimentar tudo antes que o sol se elevasse e o queimasse. Girou a cabeça e a viu em pé entre as sombras. O ar abandonou seu corpo de repente.

Sua pele era pálida e imaculada. Seu cabelo estava recolhido para trás em uma longa e grossa trança. Seus olhos estavam bem abertos e eram grandes e faiscantes, brilhavam ligeiramente. Parecia estar esperando alguém. Um homem? Um grunhido baixo retumbou em seu peito e ele sentiu seu corpo reagir ante o pensamento. Desligado como estava de suas ações, achou interessante. Nunca havia se sentido ameaçado por homem, fera ou monstro, mas olhando para esta jovem, soube que lutaria até morte pela oportunidade de saborear seu sangue, de sentir a suavidade de sua pele, de ouvir esse coração igualar ao ritmo do seu.

Pela primeira vez em sua longa vida, ele realmente experimentou imagens eróticas por si mesmo, não extraídas da mente de alguém. Elevaram—se para brincar com ele. Esta mulher se retorcendo e gemendo, lhe suplicando que lhe desse tudo. Ele não sentiria nada quando aceitasse seu oferecimento, mas talvez, se tomasse sua vida ao mesmo tempo, teria esse momento...

A cabeça dela virou de repente e o olhou fixamente. Não era o tipo de olhar que ele havia esperado... Uma mulher olhando para um homem atraente. Parecia uma predadora, seu olhar ardente e sua boca firme. Seu corpo era totalmente feminino, vestido com várias camadas de roupa, um pulôver escuro de pescoço alto e mangas longas que cobriam suas mãos. Um par de meias negras se introduziam sob as botas e cobriam pernas bem formadas. Uma saia longa e vaporosa se aderia a sua pequena cintura com um amplo cinto de couro e abraçavam as pernas cobertas, mas lhe proporcionava liberdade de movimento e uma longa capa descia de seus ombros até os joelhos.

Havia algo familiar nela, como se tivessem se conhecido antes. Por mais que tentasse, não podia afastar os olhos dela. Com as mulheres ele sempre se dera bem, atraindo—as com seu aspecto e ar perigoso, mas tinha a sensação de que esta mulher não estava nada consumida de desejo por ele.

Uma vez mais teve uma reação visceral. Uma necessidade de que ela o desejasse.

– Venha para mim agora. Ofereça—se a mim.

Era uma vergonha utilizar o dom de sua voz para atraí—la e cativá—la, sua fantasia teria sido melhor se ela tivesse ido por vontade própria. Depois poderia inclusive ter convencido a si mesmo de que ela lhe desejava, mas não assim, com compulsão. O corpo dela saltou. Elevou o queixo e os olhos brilhantes arderam. Como se soubesse. Começou a caminhar para ele. Ele se internou mais entre as sombras, com o coração palpitante. Já podia saboreá—la em sua boca, sentir a pele suave deslizar contra a sua. Seu sangue se acelerou ardentemente.

Ela era de estatura média e seu próprio tamanho a diminuía, mas tinha curvas femininas e parecia forte. Movia—se com fluída graça, mas tropeçando e detendo—se como se lutasse contra a compulsão. Por um momento as nuvens se separaram e a luz se espalhou por seu rosto. Suas vísceras deram um nó.

— Alto! Volte para trás. Entre dentro da estalagem.

Tinha que salvá—la. Tremiam—lhe as mãos... Tremiam de verdade... E maldito fosse para sempre ao inferno. Seu corpo estremecia, quente, duro e ofegante dela, quando em todos seus anos nunca havia sentido semelhante resposta. A vida dela... Sua alma igual à dele... Estava em perigo. Inclusive enquanto a advertia, deu um passo para frente. Desejando—a. Necessitando—a. Se a tocasse, se aproximasse muito, ambos estariam perdidos.

 

Lara fechou o semblante e pressionou a palma da mão contra o corpo, diminuiu o passo e se deteve, com aspecto confuso.

Lara olhava com dureza o homem alto de ombros largos que caminhava para ela. Era o homem mais classicamente formoso que já tinha visto em sua vida. Seu rosto era pura beleza masculina, seus olhos tão escuros que resultavam quase negros, embora quando se virava de um certo modo, brilhavam como rubis, provocando um estremecimento por sua espinha. Movia—se com uma graça incrível, seu corpo fluindo, de músculos ondeando sutilmente como um gigantesco felino à espreita.

Ela não reagia aos homens, sem importar quão atraentes fossem. Seu corpo permanecia tão frio e frígido e como as câmaras de gelo nas quais tinha passado os primeiros anos de sua vida, mas olhando para este homem, tudo mudava. Sua respiração se acelerou. Seu pulso bateu forte. Seu estômago se contraiu, inclusive seu útero reagiu, esticando—se apaixonadamente. Mas também sua marca de nascimento. E sua marca de nascimento anunciava a chegada de uma única coisa... Vampiro.

Mas a marca parecia estar com algum problema. Em um momento ardia com um calor abrasador e no seguinte ficava fria e sem vida. Tinha faca em sua mão, oculta sob sua manga larga. Não ia se arriscar sem importar quão atraente fosse.

E então ele levou a voz. Suave veludo. Pura sedução. Uma melodia noturna de escuras promessas, em um momento chamando e no seguinte rechaçando. A primeira vez que pronunciou sua ordem ela estivera segura que era um vampiro atraindo—a para que lhe permitisse se alimentar dela. No momento seguinte parecia estar advertindo—a que se afastasse, mas continuava avançando. Os olhos negros vagando sobre sua face como se lhe pertencesse

Nicolas não podia deixar de caminhar para ela... Como se ele e não ela estivesse sob compulsão. Iria ter que chamar Mikhail para que a salvasse. Mas tinha ido muito longe, era possível que encetasse em uma batalha com o príncipe por ela. E Mikhail não podia ser colocado em perigo, não se sua espécie iria sobreviver.

— Vá! — Advertiu—a novamente, com voz baixa e firme, mas falhou em enterrar uma compulsão em seu tom. Por mais que uma parte dele desejasse adverti—la que se salvasse, a outra parte desapegada e ávida por um momento de autêntica vida, de sentir antes do fim de sua existência, não podia ser o bastante nobre para ajudá—la a escapar.

Virou a cabeça, seu olhar examinando as sombras e telhados em busca de perigo. Estava quase sobre ela quando voltou a olhar. De perto era muito formosa. Realmente impressionante. Sua pele parecia deliciosa. Sua fragrância sutil e atraente lhe arrastando. Sentia—se quase em transe, como se fosse possível para alguém como ele.

Rodeou—lhe a mão, com os dedos como um bracelete, leve, embora de aço.

Ela se moveu então, girando para ele, conectando—se com seu esterno. Nicolas mal sentiu o golpe que teria derrubado um humano. De repente seus braços se fecharam ao redor da mulher e sua face se enterrou na espessa massa de cabelo. Era suave. Celestial.

O sangue nas veias dela fluía como a maré, palpitando, lhe fazendo saber que ele, que ambos... Estavam vivos. Não que existiam, mas que viviam. Ali em pé na formosura da noite e com a fragrância do bosque o rodeando enquanto tomava seu último festim.

Os sussurros em sua cabeça se converteram em um rugido possessivo. Ela era somente dele. Não vacilou, baixou a cabeça até seu ombro, afastando o pulôver com o nariz para expor a carne nua de seu pescoço e a pulsação. Não fez nenhum esforço em acalmá—la ou colocá—la sob compulsão. A adrenalina em seu sangue aguçava a experiência, dava—lhe uma rajada de sensação que faria com que sempre retivesse este momento. Cravou os dentes profundamente e tomou a essência de seu ser profundamente em seu interior.

—Me solte, bastardo. — Exclamou Lara, surpreendida pela dor repentina, surpreendida de que depois de todos os anos de jurar a si mesma que ninguém nunca voltaria... Nunca... A tomar seu sangue à força... Estivesse encerrada entre os braços de um vampiro.

Quando menina, tinha sido utilizada somente como alimento. Seu pai e seu avô se equilibraram sobre suas veias, tomado como se ela não fosse nada, nem humana, nem Cárpato e tampouco maga. E ainda assim, depois da mordida inicial, a escura e erótica sedução fez com que alguma parte dela desejasse ser parte dele, a fez desejar sucumbir ao fogo e o calor... Dar sua vida pela dele.

Apertando os dentes, lutou contra a sensação de necessidade e desejo que pulsava através de seu corpo. Não ia se entregar tão facilmente ou a se render. Não tinha nem idéia de que um vampiro podia ser tão ardiloso. Em um minuto disparando um alarme e no seguinte advertindo—a que se afastasse e depois a mordida. A absoluta sedução dessa mordida. Segurou firme a faca em seu punho e tentou conseguir um pouco de espaço para mover a mão para as costelas dele, mas estava de costas e era difícil sentir onde estava colocado quando um relâmpago crepitou e correu em suas veias, lhe roubando a capacidade de pensar.

Nicolas estava tão imerso no êxtase de seu sabor, forma e sensação que levou um momento registrar que ela tinha falado. Solte—me, bastardo. As palavras ressoaram em sua mente, explodindo através de seu subconsciente e criando garras em seu coração.

A emoção entrou em torrentes com vertiginosa velocidade. Rápida e aguda e embrulhou tanto que era impossível tirar nada em claro. O amor que sentia por seus irmãos entrou aos tropeções em seu coração e sua mente. Fúria. A raiva de ter seguido um caminho honorável e ainda assim ter estado tão perto de se converter. Vergonha. Pelo toque próximo com o monstro ao qual havia caçado durante séculos. Mais vergonha por pecados ainda não confessados ao príncipe... Pecados cometidos contra o líder de sua gente. Não em feitos, mas nos corações e mentes de Nicolas e seus irmãos. Alegria pela mulher que tinham entre os braços, que lhe salvaria de um destino que teria desonrado não só a ele, mas também a sua família.

Era demais, para classificar imediatamente. E todo o momento seu corpo estava duro, dolorido, seu membro tão cheio e grosso que o tecido de sua roupa provocava dor física. Desejava—a. Precisava dela. Tinha que possuí—la. O sabor dela não se parecia com nada que houvesse experimentado alguma vez. Esta mulher era sua companheira. A mulher que havia procurado ao longo de vários continentes, a mulher que tinha passado séculos procurando. A única mulher que restauraria suas emoções.

Abriu os olhos e o cabelo dela o deslumbrou. Ali na escuridão, ardia com um vermelho brilhante, mas enquanto o observava, seus olhos burlaram dele, fazendo com que ondas de cor brilhassem metálicas e acobreadas. Não pôde encontrar a força de vontade necessária para afastá—la, para deter o doce fogo que deslizava por sua garganta, unindo—os ao costume de sua gente. Em algum lugar, longe, podia ouvir sua própria mente lhe gritando que estava perdendo a cabeça, que a havia encontrado muito tarde e a estava matando, mas não podia parar.

A dor atravessou seu flanco esquerdo, tirando—o de repente de seu estado de transe. Elevou a cabeça rapidamente sem passar a língua através das espetadas gêmeas sobre a pulsação dela, para fechar a ferida. O sangue gotejou pelo pescoço até seu pulôver. Podia ver o objeto, de uma cor deslumbrante, tons castanhos e dourados e gotas vermelhas pulverizadas por todos os lados e encharcavam a malha.

Cor, depois de séculos de sombras cinza. Formosa e assombrosa cor. Baixou o olhar a seu flanco, de onde emanava a dor. O cabo de uma faca sobressaía de suas costelas. Ela se afastou dele e se virou para lhe enfrentar. Seus olhos eram jóias, ardiam brilhantemente de um profundo esmeralda, não só verdes, mas realmente de cor de esmeraldas. Inclusive enquanto observava, a cor mudou, passando de um verde profundo a um azul ártico. O azul era a cor das geleiras, claro, puro e frio, mas ardia com intensidade e fogo.

Sorriu—lhe.

—Avio—te päläfertiilam. Éntölam kuulua, avio päläfertiilam.

A voz dele era baixa e deslizava sobre seus sentidos, como veludo passando sobre sua pele, excitando—a. Lara tinha ouvido essas palavras antes, a muito, quando suas tias lhe cantavam para que dormisse. Cantavam sobre uma grande historia de amor. Um homem... Tão escuro como o pecado. Uma mulher... Brilhante como a luz. Somente essa mulher podia lhe salvar do pior sofrimento de uma morte honorável ou do destino ainda pior de se converter em vampiro. Ela tinha o poder de restaurar suas emoções perdidas, de restaurar as brilhantes e formosas cores do mundo. A história de amor tinha sido uma das coisas mais bonitas de sua vida quando menina e se obstinara a ela, necessitando de algo ao qual se prender. .

Avio—te päläfertiilam. Éntölam kuulua, avio päläfertiilam. É minha companheira. Reclamo—te como minha companheira. As palavras eram tão formosas, tão enternecedoras, que podia senti—las ressoar em seu coração e em sua mente. Tinham sido as palavras de sua história e tinha sonhado com elas, pensando que eram românticas. Mas o homem não tinha sido tão sedutoramente formoso, nem tão absolutamente perigoso. E certamente não tinha tomado o sangue de sua dama sem permissão. Estava errado. Era uma violação que ela não permitiria.

— Ted kuuluak, kacad, kojed. Pertenço—te. É lidamet andam. Ofereço—te minha vida. Enquanto pronunciava as palavras com a voz perfeitamente tranqüila e suave, ela segurou o cabo da faca e o arrancou de seu corpo. O sangue saiu a rajadas de seu flanco. Ofereceu—lhe a arma, com o cabo adiante.

Lara engoliu em seco, elevando o olhar do ferimento, para seu rosto. Não havia fúria ali. Nenhuma expressão absolutamente. Somente uma estranha serenidade que a sacudiu. Umedeceu os lábios subitamente secos e estendeu a mão para pegar a faca. As pontas de seus dedos roçaram os dele. A eletricidade crepitou por seu braço. Ele simplesmente abriu os braços de par em par, oferecendo seu coração.

— Pesämet andam. Uskolfertiilamet andam. Sívamet andam. Sielamet andam. Ainamet andam. — Os dentes dele cintilaram muito brancos na escuridão. — Dou—te meu amparo. Dou—te minha lealdade. Dou—te meu coração. Dou—te minha alma. Dou—te meu corpo.

Lara compreendeu que ele não estava falando em sentido figurado, mas literalmente. Ele estava oferecendo a ficar ali enquanto ela lhe afundava a faca no coração e tomava sua vida. Não era um vampiro. Não tinha nem idéia do que era, mas as palavras que estava pronunciando estavam no idioma Cárpato, uma linguagem tão ancestral como haviam sido suas tias. E as palavras eram um ritual que unia duas metades da mesma alma. Nunca tinha acreditado nessa história de amor, não realmente, embora soubesse o tipo de coisas que podiam operar através dos elementos, da energia e da magia. Mas enquanto ele pronunciava cada palavra com o tom suave e sedutor e seus olhos negros brilhavam com posse e absoluta determinação, ela podia sentir os laços que se forjavam como aço entre eles.

—Está louco? Tem que estar mal da cabeça. Não que fique aí parado como um idiota. Tem que deter a hemorragia.

Os olhos dele não abandonaram nunca seu rosto. — Sívamet kuuluak kaik että ao Ted. Ainaak olenszal sívambin. —Tomo em mim os teus do mesmo modo. Sua vida será apreciada por mim em todo momento.

Lara balançou a cabeça, sua trança vermelha flagelando seu ombro como um látego, seus olhos azuis faiscando e brilhando de fúria.

— Seriamente? A isto é o que diz de me apreciar? – Ela pressionou a mão contra o pescoço, de onde continuava caindo o diminuto filete de sangue. — Tira de mim sem permissão. Sem perguntar. Sem dedicar um só pensamento de como eu poderia me sentir.

Todo o momento enquanto lhe repreendia, seu olhar ia até o sangue que empapava sua roupa. Ele tinha que deter. Se fosse um Cárpato... E tinha que ser... Poderia fechar o ferimento por si mesmo e evitar que sua essência vital escapasse.

— Você élidet ainaak pede minam. Sua vida será colocada sobre a minha, sempre. —Sua expressão não mudou. Ele mantinha os braços estendidos, apresentando—se limpo, para se deixar matar. Seu olhar não abandonava a face de Lara. Sua expressão era de total e absoluta serenidade, embora seus olhos flamejassem com escura posse.

A fúria a sacudiu.

—Não terá uma vida se não curar a si mesmo.

— Avio—te päläfertiilam. Ainaak sívamet jutta oleny. Ainaak terád vigyázak. É minha companheira. Está unida a mim por toda a eternidade. Sempre aos meus cuidados.

Lara soltou o ar dos pulmões num vaio, apertando os dentes.

—Não pode me reclamar sem mais e pensar que tudo ficará bem. Não quando tomaste meu sangue sem meu consentimento. Seu coração palpitava enquanto observava como a vida dele escapava pelo fluxo de sangue. – Faça alguma coisa.

—Não é minha escolha. Vida ou morte é escolha de minha companheira. Se rechaçares minha reclamação, então me condena e com disposição morrerei por sua mão.

Os olhos azuis eram duas faíscas gêmeas de gelo.

—Não se atreva a me carregar com sua morte. — Mas ela já corria para, incapaz de se deter. Tinha a garganta quase fechada pelo medo, quando pressionou as mãos sobre o ferimento dele. Desejou lhe sacudir. Agarrá—lo literalmente e sacudi—lo até que ele visse o quanto estava sendo ridículo. Ele e sua romântica história de amor.

—Pode ser que seja o homem mais atraente sobre a face da terra, mas seu cérebro é do tamanho de um mosquito. – Ela resmungou. – Feche o ferimento. Eu não tenho esse tipo de habilidade.

—Então é vida o que escolhe para mim.

Se por si só já era suficiente para fazer com que uma mulher quisesse despi—lo e saltar em cima, o efeito que tinha sobre ela a incomodava mais que nenhuma outra coisa.

—Merece morrer sozinho por ser estúpido. – Ela exclamou, mas não soltou seu flanco, apertando firmemente, assegurando—se de que a pressão evitasse mais hemorragia. — Agora se cure.

Ele fez uma ligeira e antiquada inclinação com a cabeça.

—Como deseja.

Essa voz era sedução em si mesma. Seu corpo zumbiu e seus seios incharam e endureceram dolorosamente. Não queria que ele lhe tocasse ou roçasse a face ou o corpo com o olhar negro. Podia ouvir como lhe pulsava o coração, igualando o ritmo do seu. O ar fluía dentro e fora de seus pulmões em sintonia com os dela em um suave suspiro que fazia suas respirações se misturarem. Todo o feminino nela, tudo o que era Cárpato, maga e humana, elevava para encontrar com o masculino nele.

—Acredito que deveria procurar ajuda psicológica. Não parece ter muito claro se é um vampiro ou um caçador. – Ela injetou deliberadamente desprezo em sua voz.

A expressão dele não mudou. Sequer piscou, mas tinha marcado um tanto. Agora estavam conectados, todos os fios inquebráveis que sentia entre eles lhe permitiam ler suas emoções e a davam uma visão do predador que aguilhoava. Seu coração gaguejou e seu ventre se contraiu.

Ele não se moveu, embora estivesse perto, muito perto, com seu corpo pressionado contra as pequenas palmas das mãos dela, onde estavam em seu flanco.

—Não há nada a temer, päläfrtiil. Você tomou a decisão.

A ela não parecia... O suave sussurro de sua voz soava mais ameaçador que tranqüilizador. Ela sentiu o súbito calor estalando do corpo dele, viu o brilho da luz branca através de suas mãos. A carne masculina se esquentou, embora não a queimasse, simplesmente limpou o sangue de sua pele. Deixou cair às mãos bruscamente e se afastou dele, levantando o olhar ao longo de seu corpo até o incrível rosto.

De perto o corpo era muito masculino, muito forte, muito tudo. Ombros largos e sólidos... Parecia invencível... Embora ela houvesse conseguido lhe apunhalar. Tragou seu medo e deu outro passo para trás.

—Tenho que ir.

—Iremos juntos. Não pode fingir que não te reclamei e que você não rechaçou minha reclamação. Escolheu a vida para mim. Nossas almas são uma só.

Lara franziu o cenho. Tinha uma vaga idéia das palavras vinculantes rituais pela história que suas tias lhe tinham contado. As palavras se imprimiam no homem antes de nascer. Uma vez pronunciadas, uniam duas almas como uma só de forma que nenhuma podia sobreviver sem a outra, uma vez o ritual se completasse de tudo. Não sabia no que consistia o resto do ritual, mas se implicava sexo com este homem, certamente não ia estar à altura da tarefa. Inclinou a cabeça e lhe dirigiu um olhar frio. Não podia sentir frieza ou firmeza, mas desejava que ele a entendesse... Que soubesse que se alguma vez em sua vida tinha sido séria em algo, era nisto.

— Sei muito pouco de suas tradições ou sua cultura. Somente historia que minhas tias me contaram quando era menina, mas não importa o que tenha feito para nos unir, deve saber disso: Não o conheço. Não te amo. Não me importa nada. Passei os primeiros anos de minha vida prisioneira e nunca... Nunca... Permitirei que ninguém volte a me encarcerar. Se tentar me obrigar a fazer alguma coisa, se tentar quebrantar minha vontade ou manipular minha mente lutarei contigo até o último fôlego de meu corpo. Então faça à idéia você... Escolhe vida ou morte para nós.

Os olhos dele se obscureceram até se converter em obsidianas, cintilando com uma luxúria sensual que fez com que lhe ardesse o corpo. Ele lhe segurou o queixo com dedos amáveis e inclinou a cabeça lentamente. Hipnotizada, não ela não pôde se afastar. Podia ver o comprimento de seus cílios, as diminutas rugas ao redor dos olhos, o nariz reto e aristocrático, a boca pecaminosamente carnal, mas estampada com a marca de um homem que podia ser cruel.

Conteve o fôlego quando o cabelo dele de lhe roçou a face. Sentiu seus lábios no pescoço. Quente. Ardente. Suave veludo. Sua língua roçou as espetadas gêmeas onde a veia pulsava freneticamente, detendo a tentadora destilação de sangue.

— Escolho vida para nós.

As palavras deslizaram no interior de sua mente como uma carícia. Umedeceu os lábios quando ele se endireitou em toda sua estatura.

—Bem então. Entendemo—nos. – Ela virou—se para voltar a entrar na estalagem... Na segurança, porque não importava o desacordo que se mostrasse este homem, sabia que não estaria a salvo a seu lado e não era inteiramente culpa dele.

Uma vez mais, dedos se fecharam ao redor de sua mão. Quentes. E roçaram as pontas contra a pele nua parte interna de sua mão, detendo—a.

—Não acredito que me entenda de todo e não quero que diga que não estava de posse de todos os fatos.

Lara se voltou contra a vontade.

—Vou te ouvir.

—Você é a única mulher... A única... Minha mulher. Isso é algo que levo muito a sério. Sua saúde. Sua segurança e sua felicidade. Me ocuparei dessas coisas, mas não te compartilharei. Não permitirei que nenhum outro interfira em nossa relação. Nenhum outro. Nem homem nem mulher. Se tiver um problema com alguma coisa, diga—me. Se tiver medo de alguma coisa, diga—me.

—Não te conheço. E não confio nas pessoas tão facilmente.

—Não disse que iria ser fácil. Somente quero que entenda quem sou.

Ela não podia esmagar o crescente pânico. Via—o exatamente como o que era. Um predador. Um caçador. Um homem que tomava decisões e esperava que os que o rodeavam seguissem sua liderança. Já as palavras rituais os tinham unido. Podia sentir o toque dele em sua mente... Inclusive em seu corpo.

Lara deixou escapar o fôlego lentamente.

—Não compartilho meu sangue.

Os lábios dele se curvaram em um sorriso. Ela captou um leve vislumbre de seus dentes brancos e depois o sorriso de predador desapareceu e uma vez mais ele vestiu uma máscara esculpida em pedra.

—Eu notei.

A cor subiu a suas bochechas.

—Tenho que voltar a entrar. Tenho um amigo ferido. Talvez possa lhe ajudar. Obviamente sabe como curar.

Toda ternura abandonou seus olhos.

— Teu amigo é um homem?

Ela estremeceu, subitamente gelada.

— Vim com dois amigos. Estamos investigando as cercanias e nos hospedamos aqui.

—Que tipo de investigação? — Havia um fio em sua voz, uma nota de sugestão.

Agora seu corpo inteiro estava se ruborizando. Zangou—se consigo mesma pelos nervos que revoavam em seu intimo. Estava tentando afiançar como alguém a quem teria que tomar cuidado, mas cada vez que o olhava atentamente alguma coisa em seu interior parecia se derreter.

Ele a assustava à morte. Enfrentara monstros, mas nunca tivera tanto medo como neste momento. Este homem tinha mudado sua vida para sempre. Estava ali em pé, tranqüilo e resolvido, implacável inclusive, olhando—a com posse nos olhos e com uma boca que era tão fascinante. Não podia apartar o olhar, mas sabia que era uma das criaturas viventes mais perigosas da face da terra.

—Bem, é difícil de explicar. Principalmente investigação sexual, experimentando uns aos outros. Já sabe. O sexto sentido em cada cultura através dos tempos.

—Muito divertido.

—Merecia isso. Não gostei de seu tom.

—Tinha um tom?

Lara passou os olhos sobre ele e começou a caminhar de volta à estalagem, bem consciente de que ele estava a seu lado com o silencioso passo um felino.

—Na realidade, eu exploro cavernas e estava investigando formas de vida nas cavernas geladas. — Havia um fio de arrogância em sua voz. – Então responda a minha pergunta: Quanto sabe de cura? Ou conhece alguém que saiba? Fomos atacados por um híbrido... Parte planta, parte serpente... E muito venenoso.

Ele segurou—a pelo cotovelo, obrigando—a a parar.

— Mordeu—te? – Ele já estava passando as mãos por seus braços, lhe inclinando a cabeça de um lado e a outro. E depois sentiu o toque de sua mente contra a dela.

Foi surpreendente, a pura intimidade de sua mente fundindo—se com a dela. Não havia nada suave nele. Podia estalar em violência com veloz eficiência. Quando tinha pensado que era uma das criaturas mais perigosas da terra, não tinha entendido de todo, a máquina de matar que ele era e ainda assim ele não lhe ocultava nada. Não tentou fingir ser diferente e ela viu que poderia ter feito. Poderia ter aparentado gentileza e doçura, mas lhe concedia o respeito de mostrar exatamente com quem e o que estava lidando.

Lara inalou agudamente. Suas tias haviam dito que os Cárpatos eram poderosos. Havia lhes apresentado como heróicos caçadores de vampiros, protetores de humanos e magos por igual. Não estava preparada para a mente desumana e cruel do caçador. E era muito mais arrogante do que nunca tinha conhecido.

Não pôde evitar o tremor de consciência ou o pequeno arrepio de medo. O calor do corpo dele a envolveu, esquentando—a, afugentando o frio da noite quando tinha esquecido de regular sua temperatura. Tentou se retirar, fechando de repente as barreiras de sua mente. Sempre tinha sido poderosa, mas havia passado anos desde que tivera que utilizar suas habilidades para proteger sua mente de algum outro ser e estava lenta e oxidada.

—Não há necessidade de se ocultar de mim. — Disse Nicolas. Não só seu corpo estremecia, mas também sua mente. Ele tinha detonado um poço de medo, conectando—se com algumas velhas lembranças de alguém próximo a ela que havia utilizado indevidamente e abusado de sua confiança. — Não posso te mentir, nem tento acessar o que não me dará livremente. Só procuro parasitas e ferimentos. As serpentes são mais mortíferas do que imagina.

Lara deixou escapar o ar, de algum modo aliviada. Ele não tinha examinado suas lembranças de garotinha perdida. Não sabia quem era ou o que era. Sempre havia poder no conhecimento e ela não confiava em ninguém... E menos no homem que podia fazer voltar seu corpo à vida quando estivera congelado durante tantos anos. Não confiava em nada que acontecesse tão rápido ou que caminhava em uma terra ancestral de enorme poder.

—As serpentes injetaram veneno em meu amigo. Havia diminutos organismos parasitários no veneno e o sangue das serpentes queima como ácido. — Enquanto falava, ela se afastava dele, numa delicada retirada feminina.

Nicolas desejou sorrir. Não sorria com facilidade. Não tinha sorrido em quinhentos anos, mas sua reação pueril quando estava tentando mostrar como uma feroz caçadora era tão Mona. Mona. Nunca antes tinha entendido essa palavra. Tinha ouvido milhares de vezes, mas não tinha tido nenhum conceito real que lhe atribuir até esse momento. Seu instinto lhe disse que ela não apreciaria ser considerada Mona quando acreditava ser dura, então guardou para si mesmo a observação.

Ela era menor que a maioria das mulheres dos Cárpatos, apenas lhe chegava à metade do peito, mas seu corpo era todo formado em curvas femininas. Considerava a si mesma com um pouco de peso... Tinha captado esse pequeno retalho de informação antes que ela estreitasse o fluxo de informação a dados específicos. Não entendia isso tampouco. Ela era perfeita, mas depois pensou que ele a teria considerado perfeita fosse qual fosse seu aspecto. Como poderia ser de outro modo? Ela tinha restaurado sua vida, sua alma. Podia sentir o autêntico amor por seus irmãos. Podia sentir a autêntica honra e uma sensação de dever para com sua gente. Ela tinha convertido um mundo cinza e vazio num deslumbrante mundo de maravilhas. Para ele, ela era o epítome da beleza, com sua clássica estrutura óssea e os reluzentes olhos de Caçadores de Dragão.

O poder crepitava nela. Esta não era nenhuma tímida e retraída donzela, mas uma caçadora preparada para lutar com ele a cada passo. Não sabia que ele já tinha ganhado a batalha. Era em parte Cárpato e sua natureza a atrairia para ele. O toque entre eles cresceria com o tempo e se asseguraria completamente que estar a seu lado quando chegasse o momento de operar sua magia sobre sua companheira.

—Deixa de me olhar assim. — Ela caminhou mais rápido.

Ele seguia—lhe o passo facilmente.

—Não tinha nem idéia de que a olhava de uma forma em particular.

Havia alegria na noite, uma impressionante beleza. Ele maravilhou—se de poder senti—la, vê—la, ser com ela. Pesadas nuvens tomavam formas caprichosas, a deriva no impulso serviçal do vento. O povoado respirava, os corações pulsavam, a risada das crianças vibrava. Por que não ouvia esses sons antes? Sons de vida e amor. Pais murmurando, mães chamando, crianças sorrindo. Havia perdido a magia da vida com o passar dos séculos e agora ali estava, alagando seus sentidos. Os olhos femininos flamejaram para ele. Verdes novamente. O verde era sua cor normal, um deslumbrante esmeralda que fazia mais profundo o vermelho de seu cabelo. O azul era a cor de seu poder, então. Havia certa satisfação em descobrir esse pequeno dado sobre ela. Queria saber tudo imediatamente, mas tinha aprendido há muito a ter paciência e isso lhe tinha sido útil ao longo das centenas de anos. O tempo revelaria seus segredos e cada momento que passasse com ela... Averiguando as pequenas coisas, as intimidades de seu autêntico ser... Proporcionaria—lhe alegria.

Inclusive desfrutava de da dor que ela trazia para seu corpo. Este era outro sinal de que estava vivo... De que vivia, respirava e compartilhava seu mundo com ela. Sua alma estivera muito escura, danificada, tinha sido incapaz de sentir emoções. Havia mantido a dor a raia, a culpa e a vergonha, mas também a autêntica vida.

—Você é um milagre para mim. Talvez seja o que vê em meu olhar. Pura maravilha. —Manteve a expressão tranqüila, sem permitir que sua alegria a afligisse, mas injetou essa escura sedução de veludo negro em sua voz, fazendo com que lhe acariciasse a pele e deslizasse profundamente no interior do corpo dela, iluminando com pequenas faíscas elétricas, dos seios ao canal feminino.

A mulher se deteve bruscamente na porta aberta da estalagem e ele quase tropeçou nela.

 

Lara fechou o semblante, seus olhos verdes de repente se mostraram receosos.

— Você é um Dom Juan? — Toda a conversa doce e açucarada sem nenhum sentido? — Porque lhe digo isso neste momento, já tive experiência com esse tipo de homem e posso notar através da adulação.

Ela estava mentindo. Olhando diretamente em seus olhos e mentindo. Não tinha experiência alguma com homens. E não conseguia deixar de se ruborizar a cada vez que a fitava. O sorriso começou em sua mente e se estendeu aos lábios. Verdadeira e espontânea. Era um milagre que pudesse sorrir... Que tivesse uma razão para sorrir.

Nicolas queria levar—lhe a sua guarida e guardá—la para si durante um ano ou dois, aprendendo cada detalhe a respeito dela. O desejo se elevou agudo e doloroso, mas ele manteve a face inexpressiva.

—Não acredito que alguém tenha dito jamais que falo docemente ou que sou meloso, em todos os anos de minha existência.

Ela soltou um pequeno vaio indecoroso.

—Possivelmente não, mas o achava um Dom Juan.

—Sou um caçador Cárpato de grande habilidade, mas estou seguro de que terei as habilidades necessárias para chegar a ser seu companheiro.

Ela se exasperou e lhe deu as costas, pisando em forte ao entrar na estalagem, com os ombros rígidos. Nicolas caminhou trás dela, muito perto e consciente de que quando entraram os homens se viraram para admirá—la. Ela chamava a atenção com sua pele e cabelo, o resplendor que muitas mulheres Cárpatos possuíam, um tipo de qualidade luminosa combinada com um andar fluídico e sexy que atraía o olhar. Enviou uma mensagem a eles, fazendo—os saber sem palavras que ela lhe pertencia. Os olhos escuros mostravam a morte enquanto ele olhava diretamente a cada homem, para acentuar a posse. Eles afastaram o olhar e dois saíram realmente do ambiente, o que lhe mostrou que as vibrações que emanava eram um muito fortes. Iria ter que aprender a dirigir suas novas emoções.

Nicolas a seguiu pelas escadas até um dos quartos, subindo os lances dos degraus de dois em dois. Ela estirou a mão para a maçaneta. A mão de Nicolas chegou antes que a dela. Ele inseriu brandamente seu corpo entre ela e o quarto.

—Eu entrarei primeiro. —Já tinha esquadrinhado o quarto. Lá dentro estavam dois homens humanos desconhecidos e Mikhail, o príncipe de sua gente. Mesmo assim, embora fosse o príncipe, não ia correr nenhum risco com a segurança dela. Farejou sangue de vampiro.

—É meu quarto, — ela se opôs ela, assombrada do quanto facilmente se colocara a cargo ele.

Os olhos escuros lhe percorreram o rosto.

—Sim, é parece ter um superávit de visitantes masculinos.

E não esperou uma resposta. Abriu a porta, ignorando seu pequeno gemido ultrajado. Mikhail tinha sido totalmente consciente de sua chegada, seu olhar deslizou sobre ele, mas o corpo bem maior de Nicolas bloqueou a porta, evitando que Lara entrasse. Nicolas avaliou a cena, um homem estava se retorcendo de dor na cama. Um segundo homem lhe sustentava os ombros com esperanças de acalmá—lo enquanto o príncipe parecia estar tentando curar as feridas do homem da cama. Nicolas se afastou para permitir que sua companheira entrasse.

—Nicolas, — Mikhail deu um passo adiante para segurar seu braço na saudação tradicional de respeito e honra entre guerreiros. — Me alegro em vê—lo!

Ele não mostrou a preocupação que devia estar sentindo por Nicolas Da Cruz ter viajado pessoalmente desde a América do Sul, para lhe trazer notícias. Compreendia que as notícias não podiam ser boas ou a mensagem teria sido enviada através da rede dos Cárpatos, até sua pátria.

—Trago saudações de Zacarias, assim como de meus outros irmãos. Espero que você e sua mulher estejam bem.

Mikhail assentiu.

—Pressenti uma perturbação antes.

Nicolas não mudou a expressão do rosto e nem afastou o olhar. É obvio que Mikhail tinha pressentido uma perturbação. Nicolas estivera bem perto de se converter, de quase ter tomado a vida de sua própria companheira. Felizmente, ela possuía uma arma e não tinha vacilado em utilizá—la. O sangue tinha desaparecido da camisa de Nicolas, mas Mikhail não se deixava enganar facilmente.

Nicolas se virou para sua companheira.

—Mikhail Dubrinsky é o príncipe dos Cárpatos. — Explicou antes de se voltar para seu príncipe. — Mikhail, esta é avio päläfertiil. —Inseriu uma posse inconfundível em sua voz ainda enquanto descansava a mão nas costas da mulher.

Mikhail inclinou ligeiramente o corpo.

—Encantado em conhecer sua companheira, Nicolas, mas qual é seu nome?

—Seu nome? — Pela primeira vez Nicolas pareceu desorientado.

— Ela tem um nome, certo? — Perguntou Mikhail, claramente divertido.

Nicolas baixou o olhar para o brilhante cabelo vermelho dourado e aos cintilantes olhos verdes como pedras preciosas.

—Qual é seu nome?

—Você nos uniu e nem sequer sabe meu nome, — brincou ela, tentando ignorar o aroma de sangue poluído e podre do quarto. — Está absolutamente louco, sabia? Eu sou Lara. Lara Calladine. E você? — O coração pulsava muito forte em seu peito, sabendo que sua vida havia mudado para sempre. Não podia pensar nisso ainda, contendo a emoção até que tivesse tempo de assimilar o que tinha acontecido e o que poderia fazer a respeito.

O lento sorriso dele quase a derreteu no lugar, uma distração quando se sentia o aposento "longe dela”.

—Nicolas Da Cruz.

—Você é Cárpato. —Foi uma confirmação, olhando de um homem a outro. — Ambos o são. — Era difícil conversar quando estava tiritando de frio, um pouco desorientada e ligeiramente doente.

—Como você. — respondeu Nicolas.

Lara sacudiu a cabeça.

—Em parte, mas não de todo.

As sobrancelhas de Nicolas se elevaram.

—É da linhagem do Caçador de Dragões. Ninguém poderia confundir jamais seus traços ou seus olhos com nenhuma outra coisa.

Seu coração saltou.

—Então conhece minhas tias? Tem notícias delas?

Nicolas queria lhe dar boas notícias. A alegria e esperança em sua face eram assombrosas.

—Sinto muito, päläfertiil, mas só conheço Dominic como Caçador de Dragões puro. Há duas fêmeas, Natalya, a companheira de Vikirnoff, assim como a companheira de meu irmão, Colby, que leva sangue dos Caçadores de Dragões. É uma grande linhagem e um das mais reverenciados em nossa história.

Lara olhou para Mikhail.

—Sabe notícias de minhas tias?

Mikhail sacudiu a cabeça.

—Sinto muito. Não sei de que tias fala. Não há mulheres de sangue puro na linha dos Caçadores de Dragões. Rhiannon era a última e está perdida para nós. Como está relacionada com eles?

Ela abriu a boca e a fechou bruscamente. Era em parte maga. Conhecia a história de Rhiannon, a última filha da linhagem do Caçador de Dragões. Tinha sido a companheira de um grande guerreiro que tinha sido assassinado por Xavier, o grande mago. Xavier tinha mantido Rhiannon prisioneira e viva, forçando—a a dar a luz a seus filhos. Os trigêmeos Soren, Tatijana e Branislava nasceram dessa união ímpia. Soren havia escapado e se unira a uma mulher humana. Teve dois filhos, Razvan e Natalya. O pai da Lara era Razvan. Ela era uma descendente direta do pior inimigo dos Cárpatos, o homem que tinha traído sua confiança e começado uma guerra que finalmente tinha levado a quase extinção de magos e Cárpatos por igual. Sua mãe tinha sido maga, então o sangue dos magos corria forte nela, junto com o sangue dos Caçadores de Dragões.

Lara moveu seu olhar para Terry, que jazia na cama gemendo e balançando—se. Forçou—se a fitá—lo quando o que queria era correr. Tinha visto magos jovens aos quais tinham injetado deliberadamente parasitas que apodreciam de dentro para fora do corpo. O aroma da morte já gotejava por seus poros.

Limpou a garganta.

— Foi capaz de limpar seu sangue de parasitas?

O corpo de Terry deu uma sacudidela e ele se concentrou em seu rosto.

—Lara. Você voltou. Dói uma barbaridade. O que quer dizer, com parasitas?

—A perna direita é bastante fácil, — disse Mikhail em voz alta, — mas a esquerda está me dando alguns problemas. — Ele olhou para Nicolas, utilizando o vínculo telepático comum dos Cárpatos. — Não respondeu a minha pergunta.

Lara se esticou. Eles se comunicavam através do vínculo que suas tias utilizavam com ela. Sempre tinha pensado que havia uma possibilidade de que suas tias tivessem inventado. Que o trauma de sua infância tivesse produzido uma ruptura e ela tivesse chegado a criar um mundo imaginário, mas não havia forma em que o príncipe e Nicolas podiam se comunicar por essa banda exata.

— Ela não está aqui para ser interrogada. — O tom do Nicolas era suave, mas ele se moveu sutilmente, colocando o corpo entre a Lara e o príncipe.

Uma piscadela divertida apareceu nos olhos de Mikhail e depois desapareceu enquanto ela virara o rosto para o homem que se retorcia na cama.

— Ele arrancou a cabeça da serpente antes que pudesse detê—la. As presas eram curvadas com anzóis. Acredito que elas carregavam o veneno e quando foram arrancadas este se liberou, permitindo que o veneno vertesse em seu sistema. — Elaolhou para Nicolas e utilizou o vínculo mental.

— Parece um pouco grosseiro estar discutindo sobre mim quando estou aqui mesmo, mas obrigado por me defender.

A cabeça de Mikhail se virou bruscamente, seus escuros olhos brilhavam. Lara inalou. Não tinha falado daquela forma com ninguém, exceto com as tias em anos e havia sido descuidada, permitindo que o canal de energia se espalhasse o bastante para advertir Mikhail de que estava falando com Nicolas. Irritada consigo mesma, mordeu o lábio fortemente, recordando—se em permanecer calma e tranqüila. Podiam se ocultar a simples vista se fosse bastante perita.

—Terry, não se preocupe, poderemos fazer com que se sinta melhor, — assegurou Lara, ainda evitando olhar diretamente para ele. Tinha que ir a ele pelo menos e lhe sustentar a mão. Que tipo de amiga era? Armou—se de coragem, endireitando o corpo.

A visão do homem se retorcendo de dor disparava lembranças de sua infância. O sangue vivo cheirava a vida, doce e fluída, mas a morte trazia consigo um aroma metálico penetrante. Mas o sangue poluído era putrefato, podre, um aroma ofensivo e nauseabundo. Não conseguia fugir do aroma, mesmo com todas as pequenas artimanhas que suas tias lhe tinham ensinado.

Fez um movimento para passar por Nicolas e se aproximar do homem na cama, mas Nicolas pareceu se mover com ela, deslizando quase sem chamar a atenção. Lara não captou como ele fazia, mas quando tentou pela segunda vez, sua massa sólida continuou lhe bloqueando o caminho.

—Mikhail e eu faremos o que pudermos para curar seu amigo, mas você tem que permanecer atrás até que saibamos com o que estamos lidando.

Lara abriu a boca para protestar, mas voltou a fechá—la. Ele falara em voz baixa, então ela duvidava que Terry ou Gerald tivessem captado o que ele havia dito, mas havia um tom nela, de ordem absoluta. Ele era enormemente forte e ela não sabia que poderes teria, mas pressentia o perigo. Agora, diante de tantos outros, não era o momento de colocá—lo a prova. A ele ou a sua resolução. Significaria se opor a ele abertamente e suas tias haviam lhe ensinado a não atrair a atenção sobre si. As poucas vezes em que tinha feito no passado, encontrara—se em resultados desastrosos. Deixou escapar o fôlego com um pequeno gemido entre dentes. Afinal, possivelmente se sentiria culpado por usar a desculpa que se apresentava, mas o sangue na cama a deixava doente. Permitiu que Nicolas saísse com a sua.

Nicolas guardou um sorriso para si mesmo. Ela acreditava estar ocultando seu desgosto, mas seu cabelo se removia em listas coloridas, em tons vermelhos e loiros. O vermelho dela reluzia quando estava irritada ou zangada e neste momento estava cheio de chamas. A cor de seus olhos tinha passado do verde ao azul glacial, brilhando como gelo, mas ela não disse nada, retrocedeu simplesmente como se fosse obediente e doce.

Ele se abaixou sobre o tornozelo mutilado. Não havia nada doce em sua mulher. Talvez ela ocultasse sua verdadeira natureza a outros, mas era uma pequena tigresa com garras e presas, preparada para lutar quando a situação justificasse. Sua vida tinha passado do árido e cinza a um presente emocionante, num abrir e fechar de olhos. A reação dela ante sua prepotência o fazia desejar encontrar algo mais que fizesse com que seu cabelo chispasse e seus olhos resplandecessem para ele.

Havia massas de parasitas no sistema de Terry e Nicolas franziu o cenho enquanto se concentrava no sangue pesado e lento. Olhou para Mikhail. — Viu alguma vez algo como isto antes?

— Não nesta extensão. Chamei Gregori. É nosso maior curador e a única oportunidade de sobrevivência deste homem. — Mikhail olhou a Lara, incluindo—a deliberadamente na conversa. Sinto muito. Sei que é seu amigo.

O estômago da Lara se contraiu e ela pressionou uma mão contra ele. Era culpa dela. Tinha levado Terry e Gerard com ela em busca da caverna, porque não tinha acreditado que fosse real. Tinha começado a duvidar de si mesma. Em algum lugar profundamente em seu interior havia suspeitado que a caverna talvez estivesse realmente ali quando pela primeira vez solicitara uma permissão, depois de estudar a geologia da montanha. Havia um entusiasmo que não pudera suprimir e deveria ter sabido que estava na pista certa. Se tivesse acreditado mais em si mesma, não teria exposto seus amigos a tal perigo.

— Pode salvá—lo?

Mikhail e Nicolas trocaram um olhar, mesmo que ambos estivessem inclinados sobre o tornozelo de Terry examinando a ferida, mas ela sentiu que algo acontecia entre eles. Não em palavras, sequer por um vínculo telepático particular, mas porque Nicolas mantinha sua mente aberta a ela.

Um vapor verteu pela janela aberta, numa corrente constante de névoa branca que encheu o quarto. Imediatamente o ar ficou elétrico. Lara sentiu arrepiar o cabelo de sua nuca. Retrocedeu, afastando—se da janela para a porta. Não deveria ter se preocupado, imediatamente Nicolas estava ali, inserindo seu corpo entre ela e a névoa e mais uma vez ela não se ofendeu. Não queria ter nada a ver com quem quer que estivesse entrando pela janela.

A energia era algo que um mago aprendia a manipular desde o nascimento. Ela tinha visto muitos jovens magos trabalhar utilizando—a em alguma coisa que estivesse disponível, para tarefas singelas ou complexas. Em tantos anos em observar estudos e experimentos, raramente havia sentido a quantidade de pura energia que vertera no quarto e nunca tinha visto poder procurando outro poder como um ímã e envolvendo uma pessoa como agora. O vapor continuou reunindo—se até tomar a forma de um homem grande e transparente, mas a energia correu para o príncipe, buscando—o, banhando—o em grandes ondas... Proporcionando—lhe um poder inaudito.

Nicolas, Terry e Gerald não pareceram advertir nada, absolutamente. Talvez porque ela sempre tinha sido sensível à presença da energia. Quando menina, tinha sido a advertência de que estava a ponto de ser arrastada para fora de sua câmara e sua carne seria rasgada e seu sangue consumido. Estremeceu, sentindo náuseas.

Apertando uma mão contra o estômago revolto e afastou—se do príncipe e do homem que brilhava tênue. Sua pele se arrepiou. As mãos lhe arderam. Sentia a sensação de aranhas se arrastando sobre sua pele. Lara se sacudiu, tropeçando contra a parede. A temperatura no quarto tinha caído significativamente e ela não podia deixar tremer de frio.

O estranho se voltou para fitá—la, com penetrantes olhos prateados.

—Caçadora de Dragões. — ele disse em voz alta. — O sangue corre forte nela.

A bílis subiu em sua garganta e ela quase se afogou, apenas capaz de inalar ar. As paredes do quarto se ondularam, curvando—se, tomaram a forma de túneis grossos e azuis ao redor dela.

—Gregori, não temos muito tempo — disse Mikhail.

O temor se converteu num monstro, florescendo e crescendo dentro dela até que ela não pôde mais ver corretamente. O chão se moveu sob seus pés. Tanto poder. O aroma de sangue podre era forte. O homem na cama estava além dos vaios agora, gemendo continuamente.

Gregori assentiu, mas os olhos prateados continuaram fixos em Lara, destroçando suas salvaguardas, seus escudos cuidadosamente erguidos, enxergando diretamente através dela até revelar cada um de seus segredos. — Tem muito poder correndo por suas veias.

Seu corpo saltou e sua mente se sobressaltou pela invasão dos olhos luminosos e penetrantes. Tinha visto olhos dessa cor somente em outra pessoa. O medo a sacudiu. Por um momento a face dele ondeou e ela se encontrou olhando fixamente para um rosto diferente, muito familiar em seus pesadelos. Ofegando, se voltou procurando uma saída, mas as paredes frias de gelo eram muito grossas para ser penetradas. Estava presa. Sua mão pulsou e ardeu.

— Lara? O que está acontecendo? — Nicolas deu um passo para ela.

— Mantenha—se fora da minha cabeça! — Não só rechaçou o contato, mas também o expulsou de sua mente, elevando uma barreira com força e rapidez, reunindo a energia que envolvia o quarto como uma capa protetora. Elevou as mãos, um gesto automático de amparo, tecendo rapidamente com perícia assombrosa.

— Parede de luz. Escudo de ouro. Levante—se agora. Agüente. Proteja—se utilizando o profundo conhecimento interior destinado a proteger e aplacar o pecado. Não permita que os demônios do passado, sigam colhendo—a. Acaba com eles rapidamente.

O trovão rugiu, sacudindo o quarto. Uma sólida onda de luz e chamas alaranjadas estalou numa barreira de pura energia.

— Cuidado! — Nicolas gritou a advertência, colocando seu corpo na frente de Mikhail.

Gregori já estava em movimento, lançando—se través do quarto para cobrir o príncipe.

Raios de luz cintilaram em ondas, estalando em brilhantes foguetes, chamas quentes se elevaram em uma parede vermelho alaranjada, quase os cegando. Os homens levantaram os braços para proteger os olhos. O muro de energia golpeou os três machos Cárpatos com a força de tornado, empurrando—os como se não fossem mais que restos flutuantes sobre as ondas de um mar furioso.

Gregori e Nicolas receberam o pior do impacto de energia, ambos absorvendo—a em vez de lutar contra ela, tentando proteger o príncipe na medida do possível. Inclusive enquanto Nicolas era arrojado para trás enquanto mudava no ar, saltando para cobrir sua companheira se Gregori tomasse o ataque ao príncipe com uma ameaça mortal. Estrelou contra Lara duramente, o poder se aderia a ele, iluminando o quarto enquanto cintilava através do ar. Conduziu—a para trás, derrubando—a, cobrindo—a com seu corpo.

Ela sair, mas ele a agarrou pelas mãos, evitando que ela as utilizasse para tecer feitiços, sujeitando—lhe sobre a cabeça e prendendo—a contra o chão.

—Lara, me olhe.

Ela ficou absolutamente imóvel sob ele, com os olhos desfocados. Seu corpo estava frio como o gelo, de um modo alarmante. Nicolas não vacilou. Empurrou sua mente ao interior da dela, seguindo—a ao longo do caminho de suas lembranças.

O cheiro de sangue podre era forte. O aroma se misturava com o da decomposição de carne podre. Então ele ouviu chiados, gemidos e o grito contínuo de alguém em agonia, não só física mas também numa atormentada agonia mental. Nicolas se aventurou pelo corredor gelado. Este se abriu a uma câmara grande. O teto era alto e as colunas se alongavam do solo até ele. Pequenas manchas vermelhas cortavam através do azul e orvalhavam através da parede esquerda onde um homem estava encadeado ao chão. Estava nu e convulsionando, seus olhos brilhavam com loucura enquanto diminutos parasitas brancos se alimentavam de sua carne. Nicolas o reconheceu como um de seus inimigos mais amargos... Razvan, o neto de Xavier, o mais velho e mais poderoso de todos os magos.

Encadeada junto a Razvan estava o que restava de uma mulher que jazia imóvel, sua face era uma máscara de rígido horror e com a boca aberta como se tivesse morrido gritando. Os parasitas se alimentavam dela enquanto Razvan tratava desesperadamente de afastá—los do corpo. Suas mãos estavam ensangüentadas de golpear o gelo. Levantou os olhos bruscamente e Nicolas seguiu seu olhar atormentado até uma menina loira com mechas vermelhas no cabelo, com o punho na boca para evitar gritar. Não era bom julgando idades de crianças, mas para ele a pequena não parecia ter mais de três ou quatro anos. Os olhos da menina estavam fixos na face da mulher e ela soluçava baixinho.

— Mamãe.

Tudo em Nicolas se imobilizou. A raiva nasceu profundamente em seu interior e abriu passo até a superfície. Desejou pegar a menina e colocá—la rapidamente em segurança, mas tudo o que podia fazer era salvar à mulher que prendia sob ele, no tempo real. Segurou o rosto de Lara firmemente. Nenhuma criança jamais deveria ter sido exposta a tal coisa.

—Avio siel, minha alma, volte para mim. — Sussurrou—lhe a ordem, colocando nela uma forte compulsão. – Você está a salvo, Lara. Sou seu companheiro e sempre a protegerei, até meu último suspiro.

O olhar nublado, quase opaco, fixou em seu rosto.

—Sim. Olhe—me. Centre—se em mim. Deixe—me conduzi—la de volta.

Na caverna de gelo de suas lembranças, ele não esperou a que a menina lhe respondesse. Com ternura a levantou, cobrindo—lhe os olhos, escondendo o rosto pequeno contra seu peito, apaziguando—a com sua voz enquanto dava as costas à cena horrível e saíam.

As pálpebras de Lara revoaram. Os selvagens olhos azuis se obscureceram quando o olharam. Respirou. Nicolas a soltou, segurando—a até sentá—la. Ela olhou ao redor, o alarme arrastando em sua expressão.

—Feri alguém? — Ela baixou a cabeça, negando a sustentar seu olhar.

—Ninguém saiu ferido. — Manteve a voz baixa e suave, tranqüilizadora inclusive, enquanto lhe segurava o queixo com dedos firmes e a forçava a manter o contato ocular—. Ninguém aqui te faria mal. Jamais.

O coração dela pulsava muito rápido. Ele colocou a mão sobre seu seio, enviando calor ao frio gelo de seu corpo, ralentizando—lhe o coração para igualasse o batimento constante do dele. Ela lutou para levar ar aos pulmões e ele inclinou a cabeça de forma que suas respirações se misturassem, até que o dela baixou a um ritmo mais calmo e sem esforço. Olhava—o fixamente e Nicolas teve a impressão de ver um brilho, mas nenhuma lágrima se formou nos olhos dela.

—Bloquearei o aroma para você. – Ele tranqüilizou—a enquanto falava com Gregori. — Gregori, não a olhe diretamente, há algo em seus olhos que lhe provoca lembranças da infância. – E voltando a ela, lhe disse: — Deveria ter dito que estava incomodada. Como seu companheiro é meu dever te proteger de tais coisas.

—Sou uma garota grande agora, totalmente adulta.

Ela havia lhe sentido então em suas lembranças, quando ele levou nos braços à menina que ela havia sido para fora da caverna de gelo. Ela havia sentido seu consolo e agora, mesmo com o lábio inferior tremendo ligeiramente de medo, não se afastou de seu toque. Ele se inclinou para diante e suavemente lhe acariciou os lábios com os dele. Sustentou seu olhar durante um longo momento, sua mente movendo na dela, certificando—se de que o mundo de pesadelos de sua infância tivesse retrocedido o bastante para lhe permitir alguma paz.

— Você está bem, Lara? — Perguntou Mikhail.

Sua voz era tão amável como a de Nicolas, decidiu Lara. Devia pensar que estava a ponto de desmaiar. E possivelmente estivesse. Mas Nicolas tinha bloqueado o aroma do sangue e da carne podres, substituindo—o com o aroma fresco do bosque. Podia inclusive sentir uma brisa leve em sua face. Além da humilhação total, estava bem. Tentou firmemente evitar olhar para o curador, mas sabia que, como a proverbial traça, seria incapaz de conter.

Lara segurou a mão estendida de Nicolas e lhe permitiu colocá—la em pé.

—Estou bem, obrigado. Espero que ninguém tenha saído ferido.

—Se estivesse ferido, conseguiria um novo segundo comandante. — Mikhail lhe sorriu. — Não permita que ele a intimide. Ele pratica esse olhar todas as noites junto ao lago.

Antes de poder evitar, seus olhos procuraram os de Gregori. Os olhos prateados a enjoavam, mas se forçou a fitá—lo.

—Não me sinto intimidada, mas lamento. Não pretendia ferir ninguém.

—Ninguém saiu ferido, irmãzinha. — Disse Gregori, mantendo seu olhar sobre Terry. — Se vamos ajudar seu amigo, temos que nos apressar.

O coração da Lara saltou no peito. Tinha esquecido de tudo, de Terry e de Gerald, que tinha sido testemunhas de sua estranha conduta, assim como de suas capacidades para usar a energia. Não deveria ter se preocupado. Não pareciam estar prestando atenção. Um dos três machos Cárpatos havia bloqueado seus sentidos e ha proporcionado lembranças falsas neles, do que tinha acontecido.

Ela estava muito envergonhada de sua conduta diante daqueles homens. Não tinha cuidado de seus amigos. Erguendo os ombros, deu um passo para a cama. A presença dos parasitas tinha aberto as comportas de suas lembranças de infância e nenhuma delas era agradável.

—Proteja a porta. — Ordenou Nicolas, colocando mais uma vez sua massa sólida entre ela e a cama. — Não desejamos que a dona da pousada e nem seu marido entrem no quarto. É muito perigoso.

Ela tentou de não parecer aliviada, assentindo com a cabeça e retrocedendo para lhes permitir espaço. Apoiou um quadril contra a porta e observou o curador trabalhar. Nunca antes havia presenciado como um professor curador levava a cabo suas artes e ficou fascinada pela absoluta concentração e a eficiência que ele demonstrava. O homem se despojou de seu corpo sem vacilação, deixando só a pura energia curativa a sua esteira.

Mikhail acendeu velas e as fragrâncias aromáticas encheram o ar, ajudando no processo curativo. Gregori abandonou o próprio corpo e entrou no do Terry, trabalhando para expulsar as hordas de parasitas que se multiplicavam rapidamente para consumir o corpo do jovem.

Era assombroso observar como a energia aparentemente interminável era absorvida de Gregori, drenando—o de toda força, mesmo com os outros dois machos Cárpatos trabalhando com ele. Seu rosto se tornou cinza, ele cambaleava pela fadiga e o tempo passava com infinita lentidão.

Fora da janela, a neve começou a cair. Primeiro em poucos flocos e logo a um ritmo constante. A estalagem ficou em silêncio quando os patrões se deitaram. Gerald mudava de posição freqüentemente, mas seguiu sustentando os ombros de Terry e lhe falando em tom tranqüilizador. Terry deixou de gemer depois de uma hora e na hora seguinte descansava bem mais cômodo.

Gregori retornou a seu próprio corpo, cambaleando e sentou—se no chão bruscamente, pálido e drenado. Sacudiu a cabeça.

— Os parasitas se multiplicam tão rapidamente como os destruo. Não estou seguro de que poderei reduzir seu número o bastante rápido para desfazer finalmente deles.

Mikhail se mordeu a mão com os dentes e estendeu o braço a ele. O olhar de Lara se viu imediatamente atraída à boca do Gregori, enquanto este pousava os lábios sobre ela. O estômago lhe fez um nó. O trovão ressoou em seus ouvidos.

— Trabalharei contigo. — Ofereceu Nicolas.

— Eu também. — Adicionou o príncipe.

— Não! — Juntos, os machos Cárpatos reagiram violentamente.

— Você não pode, Mikhail. — Disse Gregori. — Não podemos correr o risco que o sangue poluído se aproxime de você. Os parasitas pressentem sua presença. Reunirão—se aos montes no lado mais próximo de ti com a esperança de te poluir.

— Necessitaremos de seu sangue para nos ajudar. — Adicionou Nicolas dando uma olhada rápida em Gregori.

Gregori suspirou enquanto permitia que Nicolas o colocassem em pé. – Ele não é nenhum bebê, Nicolas. É um homem adulto que sabe que a gente dos Cárpatos não pode existir sem ele. Se saísse destruído, nossa espécie desapareceria. Por mais que queiramos acreditar que outra pessoa poderia tomar seu lugar Mikhail, você, igual a nossos inimigos, sabe que não é verdade.

— Não necessariamente. — Se opôs Mikhail. — Savannah leva minha linha de sangue e está grávida de gêmeos. Raven está grávida de meu filho, embora esteja tendo problemas outra vez.

— Não podemos correr riscos. Lucian, Gabriel ou Darius podem tomar facilmente meu lugar como seu imediato, mas não há nenhum outro macho que possa desempenhar sua função. — Havia um tom afiado na voz de Gregori.

A Lara pareceu que tinham esta discussão muitas vezes. Encontrou a o diálogo muito interessante e isso a ajudou a afastar de sua mente o arranhão irregular na mão de Mikhail. Ele tinha passado a língua sobre a ferida, mas ainda podia ver as marcas de dentes e leves manchas de sangue. Seu estômago deu contrações bruscas e a bílis subiu à sua garganta. Sua temperatura corporal caiu bruscamente.

— Existe meu irmão, Jacques. — A voz do Mikhail se tranqüilizou, igualando—se ao tom da voz de Gregori.

— Que ainda não se confia em sua mente sem sua companheira. Não podemos correr risco contigo, Mikhail. — Gregori lhe lançou um olhar enfurecido. — Não me diga mais nada sobre isto outra vez, papaizinho.

Mikhail se afogou e deu um passo para ele, que casualmente era o companheiro de sua filha. A face do Terry se retorceu com repentina malevolência e ele se lançou para o príncipe, grunhindo, com a saliva escorrendo pelo queixo. Gerald lhe segurou os ombros no esforço de refreá—lo, mas Terry era assombrosamente forte para alguém tão ferido gravemente. Lutou para se liberar e saltou para frente com as mãos estendidas, já curvadas como garras, para os olhos de Mikhail.

Nicolas ondeou a mão exatamente ao mesmo tempo em que Gregori. Lara sussurrou um feitiço protetor, ondeando as mãos num complicado padrão. Terry se estatelou contra uma barreira invisível. Seus dentes repicaram, seus olhos giraram nas órbitas e seu crânio se chocou uma e outra vez contra o escudo que protegia o príncipe.

Gerald caiu sobre a cama, tentando controlá—lo, mas Terry lhe deu um murro no rosto, ainda grunhindo como um animal raivoso. Gerald retrocedeu e Terry voltou a dar golpes com a cabeça contra a parede invisível, para conseguir chegar ao príncipe.

Lara alcançou a mente de Terry numa tentativa de acalmá—lo. Tocou sua mente suavemente, tranqüilizando—o. Imediatamente uma bola de parasitas reagiu ante sua presença, retorcendo—se e destroçando num frenesi de necessidade venenosa. Em um momento estava na cabeça de Terry e na seguinte tinha sido rechaçada. Um duro empurrão a tirou bruscamente do cérebro de Terry.

Ela se voltou para olhar para Nicolas. Começava a reconhecer seu toque. Ele não esbanjou um olhar, sua atenção absoluta estava em controlar Terry. Lara olhou para Gregori. O curador realmente tinha pressionado Mikhail contra a parede, mas a concentração em sua face indicava que estava com Nicolas, refreando Terry.

Terry jazia de costas na cama, com os olhos desfocados, mas seu corpo tranqüilo, sem mais lutar. Lara deixou escapar o fôlego lentamente. Gregori fez um gesto a Mikhail para que saísse dali e Mikhail lhe respondeu com outro rápido olhar. Ele não ia a parte alguma e isso se mostrava evidente em seu rosto, em seus olhos.

—Comece a trabalhar — ordenou—lhe, Mikhail.

Gregori encolheu os ombros e uma vez mais, utilizando sua energia curativa, entrou no corpo de Terry.

—O que está acontecendo? — Perguntou Gerald, engatinhando para fora da cama, passando pelo curador Cárpato, para a Lara.

Nicolas se deslizou, cortando a rota de Gerald.

—Tem sangue por toda a camisa. Deveria tomar um banho.

— Ele tem razão, Gerald. — Concordou Lara. — Não é seguro. Queime sua roupa. Tudo o que está usando hoje.

Gerald se deteve, olhou para Terry e depois abriu a porta rapidamente e correu para seu quarto do outro lado do corredor.

Lara apoiou um quadril contra a parede e observou como Nicolas se unia a Gregori, os dois trabalhando freneticamente em equipe, para salvar a vida de Terry. E era uma luta por sua vida... Por sua alma. Os parasitas estavam desesperados para possuir seu corpo, sua mente e dobrá—lo às ordens de seu professor.

Os homens trabalhavam sem parar e o tempo passava. Ambos empalideceram até ficarem cinzentos e finalmente tiveram que sentar na cama junto a Terry. Mikhail uma vez mais abriu tranqüilamente a mão e pressionou sua oferenda a Nicolas.

Lara tentou não olhar o brilhante sangue vermelho. Tentou não observar Nicolas sustentar o braço do príncipe, seus dedos segurando sua mão enquanto a força vital fluía de Mikhail a ele. Não conseguiu. Por mais hipnotizada que estivesse, não pudesse afastar o olhar.

Sua mão queimou. Seus pulmões arderam. Estremeceu. Seu corpo estava frio, por mais que tentasse restaurar e igualar sua temperatura corporal. As paredes ao redor dela se curvaram e tomaram um tom azulado. Ela respirou fundo tentando centrar—se na parede acima do príncipe, mas seu olhar... E sua mente... Voltavam continuamente para a visão do sangue jorrando pelo braço, manchando um pouco os dedos de Nicolas e gotejando até o chão.

Seu estômago se revolveu. Desesperada, centrou—se no rosto de Terry. Também foi um engano. Imaginou os parasitas lançando—se através de sua corrente sanguínea para todos os órgãos, levando a cabo um ataque maciço, lutando contra o curador e Nicolas, para possuí—lo.

O suor gotejou por sua testa. A face de Terry ondeou, seus traços juvenis mudaram, transformando—se. Ele que era inegavelmente bonito, com lindos olhos turquesa e cabelo escuro caindo pela testa, agora se mostrava com o cabelo sulcado com mechas prateadas. Os olhos dele se abriram e fixaram—se nos seus.

O ar parou em seus pulmões. Angústia. Consciência. Fúria impotente. Medo. Tanto medo que o quarto se encheu dele. As paredes se incharam, incapazes de conter tal terror.

— Corra. Corra, Lara. Esconda—se. — Ouviu o soluço em sua voz, o horror insuportável.

Nicolas se encontrou tiritando e com frio em uma câmara de gelo. Encadeado a uma parede, os braços e o peito ardendo pelas ataduras revestidas com sangue ácido de vampiro, Razvan lutava para manter a posse de sua própria alma. A angústia vivia em seus olhos e o cabelo negro estava sulcado de mechas prateadas.

— Lara. — A voz sussurrou com amor. Com temor. Com desespero. — Pequena. Corra. Ele vem e não posso te proteger.

Nicolas sentia elevar o terror, estrangulando— Virou a cabeça para esquadrinhar o lugar. A menina era maior desta vez. Possivelmente quatro ou cinco anos. Estava encolhida contra a parede e tremia. Lágrimas desciam por sua face e seu coração pulsava tão forte que Nicolas podia ouvi-lo acima do próprio, em ritmo constante.

Passos arrastados chegavam de trás. Nicolas se virou e viu uma criatura horrorosa, parte esqueleto, parte homem, vindo para eles. A pele caia em certos lugares e estava estirada fortemente em outros. Toda a carne estava macerada e podre. Umas poucas mechas longas de cabelo cinza restavam na cabeça calva. Uma barba desalinhada descia até seu peito, mas arrastavam insetos dentro e fora do cabelo úmido, movendo-se continuamente. As unhas eram amarelas e em forma de garras, curvando as mãos nodosas. Os dentes eram negros, podres num macabro e malvado sorriso de suficiência. Os olhos estavam vivos no que restava de sua face, mostrando uma cintilação de luz brilhante de loucura.

O medo se agravou até que o batimento do próprio coração de Nicolas começou a mudar, martelando duramente com a espera. Seus pulmões arderam em busca de ar.

— Nicolas! — A voz de Mikhail se converteu em uma ordem aguda, exigindo sua volta ao presente. — Paz, irmãzinha. Você está a salvo. — Acrescentou o príncipe, procurando acalmar Lara.

Nicolas só conhecia uma maneira de Lara evitar suas lembranças do pesadelo, os flashes voltavam com imagens ainda mais agudas nos limites do aposento. Levantou-a em seus braços, fortes e empurrou sua mente completamente na dela, tomando o controle absoluto. O sangue do Caçador de Dragões corria forte em suas veias e estava claro que seria ela capaz de mudar com sua ajuda. Dissolveu-os e a tirou do quarto e da estalagem, para o fresco e limpo ar da noite.

 

       Lara se encontrou no centro de uma câmara muito morna, em baixo da Terra. Água se apressava das paredes da caverna e descia para os charcos deixando fumaça. Os candeeiros de velas nas paredes exalavam luz e cheiravam, lançando sombras nas paredes de cristal. A respiração deixou seus pulmões um pouco apressadamente e ela girou o corpo ao redor. Seus dedos se enrolaram em torno do cabo da faca em seu cinto.      Ela umedeceu os lábios e se virou para confrontar Nicolas.

 

—Onde estou e como exatamente cheguei aqui?

—Antes que te volte louca e me atire à faca que tem na mão, — ele lhe disse, arrastando as palavras, — você não é uma prisioneira. Deixei um caminho em sua mente para que possa encontrar a saída cada vez que sinta necessidade ou queira ir. Este é o lugar mais seguro e tranqüilo que conheço. As salvaguardas estão colocadas para seu amparo. Há uma cama na outra câmara onde pode descansar.

Lara procurou em sua mente e encontrou a forma de sair, cuidadosamente colocada, como se tivesse entrado na caverna milhares de vezes e conhecesse cada câmara e corredor.

—Tenho um quarto na estalagem. — Ela não tirou os dedos da faca.

— No momento, está ocupada por vários homens. Pensei que talvez desfrutasse mais deste retiro.

O cabelo negro de Nicolas se espalhava pela testa, atraindo a atenção para os olhos tão negros. A urgência de afastar para um lado os fios sedosos foi tão forte, que ela afastou um passo para evitar estender a mão para ele.

—Isso não explica como cheguei aqui, nem por que não me consultou.

Ele encolheu os ombros poderosos, provocando um intrigante e muito sexy efeito ondeante sob sua camisa. Lara tentou não fitá-lo.

—Eu a trouxe até aqui. Trocamos nosso corpo para vapor, para poder viajar sem ser detectados, além que é muito mais rápido.

Lara quase se afogou.

—Eu não mudo.

       Os olhos masculinos se ergueram, a diversão suavizava os cantos de sua boca.

—Pois mudou sem o menor problema. Acreditei que fazia isso todos os dias.

       Ela fechou o semblante.

—Então por que não me recordo?

—Você tem lapsos freqüentemente? É algo do qual deveria ser consciente e lhe vigiar isso.

— Hum... Acha—se muito gracioso, não é? Nunca em minha vida eu mudei e menos ainda para vapor. — Ela havia tentando milhares de vezes, até que finalmente acreditou que tinha inventado em sua infância.

—Sabe como fazê-lo. Está aí, em sua mente.

—Está? — Por um momento, ela se esqueceu que estava zangada com ele. Não queria rememorar lembranças profundamente encerradas para averiguar, mas se pudesse mudar, seria certamente um talento útil. Suas tias eram mutantes. Haviam ficado presas na forma de dragão, mas essa não era sua forma natural. Ela deveria ter sabido que elas teriam lhe proporcionado essa habilidade assim como os idiomas, a cura e a magia. — Não sabia.

—Bem, certamente tem o conhecimento. É obvio, necessita de ajuda porque você não é totalmente Cárpato, mas isso é fácil de solucionar. Você tem barreiras. Amparos. Encontrei-as. – Ele disse de um modo totalmente natural, mas estava olhando para ela atentamente. — Mas há salvaguardas feitas por outros. Um toque masculino. Duas mulheres. Não querem que recorde sua infância.

As duas mulheres deviam ser suas tias... Mas e o homem? Seu pai? Não tinha conhecido outro homem. Podia seu pai teria colocado uma barreira em suas lembranças infantis, mas em troca havia permitido que ela visse como se alimentava dela? Seu estômago saltou em seu abdômen e ela deu as costas ao Nicolas, sem querer que ele fosse testemunha de mais debilidade. Freqüentemente tinha pesadelos, mas nunca ninguém tinha estado perto para ver os resultados. E nos flashes... Se isso eram... Nunca antes tinha visto Razvan encadeado e prisioneiro.

— Não entendo nada.

Por que via Razvan como à vítima, em vez da si mesmo? Já nada parecia ter sentido, nem sequer sua própria conduta. Agora não podia explicar por que suas tias e alguém mais... Alguém que ela não conhecia tinha estado em sua mente... Não queriam que recordasse sua infância.

—Não posso imaginar porque quereriam apagar minhas lembranças, —murmurou. Não podia tirar da cabeça a visão do rosto devastado de seu pai.

—Não apagar suas lembranças, mas protegê-la, — esclareceu ele. — As lembranças ainda estão aí, para que as descubra.

—Era real? O que vimos, era real?

Nicolas elevou uma mão e as velas trêmularam. Um aroma consolador de lavanda, mel e lilás encheu a caverna. Queria fazer que com que ela se sentisse melhor, mas um Cárpato não mentia a sua companheira.

—Suas lembranças foram suprimidas, mas não alterados. São muito reais.

— Você viu—o então, viu a mesma lembrança que eu? Disparado pelo sangue, os parasitas e os horríveis olhos prateados. – Ela baixou a cabeça, deixando que sua respiração saísse apressada, antes de inalar os aromas das velas.

—Sim. Reconheci as marcas das correntes que ele tinha. Meu irmão Riordan foi capturado e contido com este mesmo tipo de correntes. É difícil manter prisioneiro um Cárpato. Acredito que quem seja que está por trás disto, esteve aperfeiçoando sua técnica. —E usando primeiro seu pai para experimentar.

Lara captou seus pensamentos antes que ele os pudesse censurar. Procurou ao redor um lugar para se sentar. Imediatamente apareceu em frente a ela um divã baixo, ornamentado com almofadões macios. Não questionou como havia chegado ali, mas se afundou nele, temendo que suas pernas não a sustentassem por muito mais tempo.

—Nicolas, não entendo. Se seu irmão tinha essas mesmas marcas de correntes... Foi feito prisioneiro de Xavier? Fale-me de seu irmão.

—Vivemos na selva pluvial na América do Sul. É nosso lar durante há séculos e agora nossa família está bem estabelecida por lá. Riordan foi patrulhar quando notamos que parecia haver mais is atividades...

—Por atividade, você se refere a Xavier?

Ele negou com um meneio de cabeça, notando que ela continuava esfregando as têmporas. Tocou sua mente para encontrar nela uma dor de cabeça palpitante.

—Não, me refiro a vampiros. As pessoas da espécie do jaguar compartilham o Amazonas conosco e os vampiros se uniram para tentar destruir os Cárpatos. Queriam desfazer—se de um de nossos aliados, por isso começaram a corromper a espécie do jaguar. Riordan tropeçou com provas de sua presença e rastreando—as, caiu vítima de um falso pedido de auxílio.

Nicolas se colocou detrás dela e alongou seus braços até que as pontas de seus dedos pressionaram as têmporas dela. Lara se estirou e retirou bruscamente a cabeça, olhando—o receosamente sobre o ombro.

—Me permita, — disse ele com tranqüilidade. — Não há necessidade de que sofra.

Lara conteve a respiração sem saber o que fazer e isso era estranho nela. Nicolas, com sua proximidade a mantinha desequilibrada. Pareciam compartilhar o mesmo ar. Sentia—o sob a pele. Cada uma das células de sua pele eram extremamente consciente dele.

— Eliminar sua dor de cabeça é pouca coisa.

E negar-lhe a faria se sentir pequena e mesquinha. Encolheu os ombros.

—Me conte mais sobre seu irmão.

—Foi mantido preso em um laboratório.

—Então é o mesmo. Estavam fazendo experimentos nele. Certamente não é uma coincidência.

—Mais que isso experimentam em animais, mas uma vez pegaram Riordan, encadearam-no à parede usando correntes cobertas com sangue de vampiro, parecido com o que recorda ver em Razvan. O sangue queima como ácido, sem piedade. É muito doloroso. Mantiveram Riordan drenado de sangue e fragilizado por meio de um veneno que lhe injetaram.

Lara franziu o cenho, quase alcançando outra lembrança, uma de agulhas, mas a deixou deslizar para longe.

Nicolas pressionou as pontas de seus dedos sobre a pulsação aguda nas têmporas de Lara e as deixou ali, infundindo calor e energia curadora. Ele podia sentir o momento simpatizante e identificando a reação para com o cativeiro de irmão.

—Agora ele está a salvo e muito feliz—adicionou. —Sua companheira o resgatou e trouxe esperança a nossa família, com a crença de que se isso aconteceu com Riordan, se ele pôde encontrar sua companheira em circunstâncias tão improváveis, então provavelmente o resto de nós também poderia. Nós conseguimos resistir mais tempo do que nós já pensamos ser possível. Sua família carregava dons importantes, mas também carregavam um elemento muito perigoso. Enquanto que a escuridão em todos os homens Cárpatos crescia com o passar do tempo, os irmãos Da Cruz haviam nascido com a escuridão já forte neles e foram consumidos rapidamente por ela, glorificando-se no treinamento, na batalha e na caça e mais ainda, na adrenalina da matança.

—Como funciona isso? — Perguntou ela, curiosamente. – Minhas tias diziam que a origem do vampiro estava nos homens dos Cárpatos.

—É uma forma de vê-lo. Certamente todos os homens Cárpatos são capazes de escolher entregar suas almas. Perambulamos por mundos inóspitos com somente nossas lembranças e tocando as mentes de outros que ainda sentem e vêem a beleza de nossa volta. É difícil lutar contra a necessidade de emoção, qualquer emoção.

—Meu pai é um vampiro?

Nicolas ficou em silencio por um momento, mas suas mãos desceram até os ombros dela para liberar a tensão com uma massagem. — Não sabemos o que é seu pai. Num momento pensamos que está morto e então ele reaparece saído de algum lugar. Tem muitas caras e cometeu numerosos crimes contra nossa gente, mas ninguém sabe com certeza o que está acontecendo no campo inimigo. Você pode ser nossa maior pista. Você e suas lembranças perdidas.

—O que significam minhas lembranças? Todo este tempo acreditei que meu pai era um demônio. Tomou meu sangue, rasgou minha mão, meu pescoço e minhas veias. Tratou-me como se eu não fosse nada mais que alimento. Isso é o que me lembro.

—Não conhecemos ou entendemos a linha de tempo. Talvez houve um momento no qual ambos foram prisioneiros.

—Não tem sentido que minhas tias tenham suprimido minhas lembranças dele como prisioneiro. Qual seria o propósito? E você disse que há um toque masculino na barreira. Somente conheço meu pai e Xavier, mas você poderia sentir a mancha do mal se algum deles tivesse tecido uma barreira. Qual seria seu propósito delas ao me deixar só lembranças dele alimentando—se de mim? Por que quereriam que eu pensasse que meu próprio pai era um monstro da pior espécie? — Lara ocultou o rosto entre as mãos.

Nicolas permaneceu atrás dela, tão quieto como um gato, mas suas mãos continuavam massageando a tensão de seus ombros.

—Talvez as lembranças verdadeiras são piores que a crença de que seu pai foi completamente um desalmado.

—Você o reconheceu. Ele ainda está vivo?

—Acreditam que sim.

—Quando o viu pela última vez?

— Ele possuiu o corpo de uma anciã na estalagem em que você tem um quarto. Havia uma celebração de algum tipo e a companheira do irmão do príncipe...

O ar dos pulmões de Lara vaiou entre os dentes e se voltou para enfrentá-lo. — Diga seu nome. Ela tem um nome.

Ele encolheu os ombros, imperturbável ante seu aborrecimento.

—Shea. É a companheira de Jacques Dubrinsky e estava grávida. A anciã a atacou com uma lâmina barbada e venenosa e a teria matado se meu irmão Manolito não se colocasse diante dela para protegê-la. Felizmente ele sobreviveu ao ataque.

Ela deixou escapar um pequeno som e lhe deu as costas outra vez. O aroma consolador da lavanda e mel não podia combater as notícias da traição de seu pai.

—Shea estava grávida e Razvan tentou matá-la e a seu filho por nascer.

—Assim parece.

Lara sacudiu a cabeça.

—Sinto tanto. Não pensei além do que me fez , mas deveria ter feito.

Nicolas se moveu. Deslizou na realidade, uma imagem imprecisa que ela mal viu ou sentiu até que ele ficou em pé a sua frente, lhe elevando o queixo com dedos gentis.

—Você não é responsável por nada do que tenha feito Razvan. Ele leva a carga de suas escolhas sobre os próprios ombros.

Lara administrou-lhe um pequeno sorriso.

—Obrigada por isso. E minhas tias, o que sabe sobre elas?

—Lara, sinto muito, mas não tenho notícias de que tenham sido vistas com vida. Se forem verdadeiramente suas tias.

—Tias avós. — corrigiu ela. — Mas sempre as chamei minhas tias.

Ele sorriu.

—Pensei nisso. Se forem suas tias avós, isso as converte em filhas de Rhiannon. Sabemos que ela teve trigêmeos. Duas garotas, suas tias e Soren, seu avô. Soren foi assassinado por Xavier há alguns anos. Ninguém viu alguma vez às garotas. — Como são?

—Só as vi em forma de dragão. Estavam fragilizadas e doentes. Xavier utilizava seu sangue, as mantinha enfraquecidas. Tinha muito medo. Se uma estava muito fraca ele freqüentemente mantinha uma faca na garganta da outra. Salvaram minha prudência, me sussurrando quando as coisas se tornaram muito difíceis, me distraindo quando me utilizavam para se alimentar.

—Está segura que eram as filhas de Rhiannon?

—A história de amor que me contaram era a de sua mãe e seu autêntico companheiro. Xavier o assassinou e manteve Rhiannon prisioneira, obrigando—a a ter filhos dele. Trigêmeos. Acreditava que podia ser imortal, vivendo do sangue dos Cárpatos. Estou segura de que as coisas que me contaram eram certas, pelo menos disseram que eram. — Ela fitou—o. – Você foi capaz de me ligar com as palavras rituais. Como poderiam elas conhecer o ritual de união Cárpato se não fossem as filhas de Rhiannon?

—O irmão de Rhiannon, Dominic, procurou notícias dela durante muitos anos. Informou—nos de sua morte nas mãos de Xavier e esteve esperando saber de noticias de suas sobrinhas. Estas notícias o entristecerão.

—Ainda podem estar vivas —disse ela. — É possível. Ajudaram-me a fugir da caverna de gelo e talvez elas também puderam fugir. Eram muito poderosas. Xavier as mantinha débeis, mas elas eram preparadas. Podem ter encontrado um jeito. É o que vim a averiguar. Vou procurar evidências sobre o que aconteceu a elas.

Nicolas aspirou bruscamente.

—As cavernas de gelo são muito perigosas. Os últimos visitantes não saíram de lá com vida. Não é um lugar ao qual deva entrar.

Ela manteve seus olhos na água da piscina natural que lambia brandamente as bordas de pedras.

—Você já esteve lá embaixo? — Não lhe importava muito o que ele pensasse. Tinha intenção de ir à caverna e averiguar ela mesma o que tinha acontecido com suas tias.

—Não pessoalmente, mas todos os Cárpatos compartilham o conhecimento. Vikirnoff e sua mulher lutaram por igual quando estiveram lá, contra guerreiros das sombras, vampiros e magos.

Ela franziu o cenho e levantou o olhar para ele num rápido movimento das pálpebras.

—Sua mulher? Outra vez isso... Não. Ela tem um nome? Você tem às mulheres em tão baixa estima que não se incomoda em aprender seus nomes?

Ele se abaixou e colocou os lábios sobre sua orelha.

—Acredito que está tentando começar uma briga comigo porque está irritada pelos flashes de sua mente, que está experimentando. Estiveste o suficiente em minha mente para saber que respeito às mulheres e daria minha vida para protegê-las. – Ele brincou com sua longa trança. — Tenho que ir ver o príncipe e obter notícias de seus amigos. Também preciso me alimentar, igual a você. Fique aqui e relaxe. Trarei algo para você comer e beber e poderemos resolver isto, juntos.

A sensação de seu hálito morno contra a orelha, a carícia leve e hipnotizante de seus lábios, enviaram um arrepio por suas costas. Seus seios formigaram, os mamilos se endureceram. Lara apertou os lábios em um pequeno estalo.

—Não quero nada que tenha a ver com sangue.

—Imaginei. — Ele se ergueu e se afastou dela, deslizando através do piso da caverna, com o silêncio peculiar que a fazia se lembrar de um felino selvagem, à espreita. — Se você se sente o bastante cômoda para ficar sozinha ou ficar clandestina, disparará mais flashes?

Lara lançou-lhe seu olhar mais feio.

—Sou espeleóloga. Exploro cavernas todo o tempo. Tive um probleminha por um momento vendo os pequenos e desagradáveis parasitas. Agora estou bem. Perfeitamente bem. — Deliberadamente, ela olhou ao redor. – Aqui é bastante bonito.

Era e muito. As paredes estavam cheias de minerais e cristais. Havia velas de todos os tamanhos e por todos os lados. O charco parecia acolhedor. O ar estava fresco e calmante. Mas da câmara onde estava, podia ver um dormitório, algo assim como um quarto numa casa subterrânea. Estava claro que Nicolas havia tentado lhe proporcionar um lugar para descansar, tranqüilo e seguro.

—A salvaguardas estão em posição. É um padrão novo, para manter afastados nossos inimigos versados em nossos costumes. Estará segura. Se precisar de mim, somente terá que se estender até mim, —disse Nicolas. — Ouvirei você.

—Como é possível nos comunicarmos desta forma? — Perguntou Lara, com curiosidade. —Não estamos usando a telepatia comum a todos os Cárpatos. Acreditei que isto se estabelecia com um vínculo de sangue. Você tomou meu sangue, mas eu não tomei o seu.

Era um fato do qual ele era mais que consciente. A necessidade rugia em seus ouvidos, troava através de seu coração e avançaram vertiginosamente por suas veias, pulsavam dolorosamente em seu baixo ventre, numa demanda quente. Respirou fundo para manter seu corpo relaxado e sua mente calma, quando seu lado primitivo procurava dominar.

—É minha companheira e nos vinculei. O resto virá quando for o momento certo.

—E se não?

Ele encolheu os ombros.

—Então não sobreviveremos a esta vida e iremos para a seguinte, para tentar novamente.

Lara observou como sua grande constituição se esfumava até se tornar transparente e logo se desvanecia até que não foi mais que vapor saindo da câmara. Nesse momento se deu conta de que estava contendo a respiração. Levantou-se e se estirou, tentando relaxar seus músculos tensos. Não deveria sentir—se aliviada de estar ali, mas zangada. Nicolas a tinha afastado de seus amigos sem seu consentimento, mas para ser honesta, não podia respirar na pousada. Ali não podia pensar claramente. Não era uma curadora o bastante forte para desfazer-se dos parasitas de Terry. Sem sua presença, os Cárpatos poderiam chamar mais dos seus e Terry teria maiores possibilidades.

Suspirou, sabendo que eles apagariam as lembranças de seus amigos para mantê-los a salvo, mas era a única maneira. E talvez por isso suas tias haviam apagado suas lembranças ou pelo menos selado-as. Tirou a roupa e a dobrou cuidadosamente, deixando-a em cima de uma pedra plaina antes de entrar no charco, na piscina e de águas termais cheia de minerais, para diminuir a tensão de seu corpo. A água envolveu suas coxas, afastando o frio das más lembranças.

Nadou através da piscina morna e borbulhante, consciente do alívio instantâneo da dor de cabeça e dos terríveis nós de tensão de seu pescoço. Suspirou e, recostou-se e fechou os olhos.

 

Nicolas rodeou o bosque batendo as asas prazerosamente. Havia mudado para a forma de um mocho, que era a melhor forma de viajar rapidamente. Ainda tinha muito a fazer. Era imperativo falar com o príncipe e lhe entregar a mensagem pela qual tinha viajado de tão longe. No ar, ele demorou desfrutando da incrível sensação de voar em vez de aceitar como certo, pela primeira vez em centenas de anos.

Enquanto ia descendo em espiral até solo do bosque onde aconteceria o encontro, tudo lhe produzia alegria: a sensação da neve caindo suavemente , a dança das árvores quando a brisa sussurrava entre elas, até o aroma do ar frio e o alegrava. Para assegurasse de que os amigos humanos de Lara seguiam vivos, tinha entrado em contato com o príncipe e conseguido um encontro com ele, de passagem. Haviam escolhido o bosque porque as Montanhas dos Cárpatos tinham uma magia especial.

Sentiu a instantânea conexão com a terra enquanto voltava à forma humana. Suas botas afundavam nos cristais de gelo e nas camadas de vegetação sobre ela. Sua espécie pertencia a terra, necessitavam da riqueza do solo para descansar e se rejuvenescer. Sentiam um parentesco com as plantas e as árvores altas e majestosas. Os animais e os pássaros eram como irmãos e Nicolas se embebeu do que o rodeava, permitindo se sentir emocionalmente tocado pela capacidade de simplesmente sentir.

Esperou Mikhail no confortável e denso bosque. Quase desejou ter tido o encontro com o príncipe antes de recuperar suas emoções. Sobre sua cabeça um mocho pousou no galho de uma árvore e suas asas se sacudiram antes de se desdobrar e descender para o chão rapidamente. No último momento, o mocho titilou e tomou a forma de um homem.

—Nicolas, está passeando nervosamente. — Disse Mikhail quando tocou o chão com um passo suave. —Isto não parece ser bom.

—Mikhail, trago notícias e não são boas. Meus irmãos lhe enviam saudações e Zacarias me pediu, que como família renovasse nossa promessa de lealdade e defesa para com você e nossa gente.

—Isso nunca foi questionado.

Nicolas fixou seus olhos, nos negros e sábios do príncipe.

—Quando seu pai reinava e éramos jovens e cheios de arrogância, de importância. Freqüentemente nos sentávamos ao redor de fogueiras e discutíamos outras opções além de seguir cegamente os costumes Cárpatos. Os Malinov e minha família éramos muito unidos. Protegíamo-nos uns aos outros em batalha e compartilhávamos lembranças quando passou o tempo e nossas emoções se desvaneceram. Passávamos muito tempo juntos.

Mikhail assentiu, mas permaneceu calado, esperando, sabendo que a menos que tivesse algo importante a dizer, Nicolas raramente perdia o tempo com conversas.

—Os irmãos Malinov tinham uma irmã, uma garota brilhante e formosa, reverenciada absolutamente por todos nós.

—Ivory. — Disse Mikhail e a imagem da jovem apareceu instantaneamente em sua mente. Alta, esbelta, com o cabelo negro como seda flutuando até a cintura. Era formosa por fora e por dentro. Onde quer que ela fosse, levava uma brisa calmante fresca com a qual podia trazer paz para os corações até dos guerreiros primogênitos, os caçadores mais escuros. É obvio que se lembrava dela. Cantavam-se poemas sobre a legendária Ivory.

—Seus pais morreram pouco depois de seu nascimento e ela foi criada por nossas duas famílias, —continuou Nicolas. — dez irmãos mais velhos, severos e endurecidos pelas batalhas. Para ela devia ser duro, mas sempre estava sorrindo e cantando, fazendo com que o mundo parecesse alegre apesar de que as cores e as emoções se desvaneciam do nosso. Quando estávamos em sua companhia, Ivory restaurava na aparência o que havíamos perdido. Mas queria estudar, ir à escola proporcionada pelos magos. Era muito brilhante e sua mente exigia estímulo. O poder zumbia em suas veias e ela necessitava do conhecimento para usar melhor tal dom.

Mikhail conhecia a história, mas não deteve Nicolas, sabendo instintivamente que este precisava voltar a contá-la, recordar os mínimos detalhes que precisavam ser ditos, mas o mais importante ainda, entregar sua notícias da única forma que podia.

—Nós acreditávamos que Xavier estava traindo a amizade dos Cárpatos. A polêmica explodiu entre nossa gente e queríamos que nossas mulheres fossem protegidas. Quando seu comportamento se tornou cada vez mais imprevisível, muitos dos antigos começaram a incomodar-se e Vlad tentou duramente manter a paz . Não podíamos deter os que queriam permitir que suas filhas e companheiras estudassem, mas nos negamos que Ivory fosse, a menos que pudéssemos estar com ela. Então fomos chamados à luta e por isso ela ficou sozinha.

Desprotegida. O pensamento estava ali, embora Nicolas não dissesse. Recordava esse momento ainda agora, centenas de anos depois, como se fosse ontem. Ivory, sua irmã, o único alívio à existência crua e estéril, sorrindo corajosamente com lágrimas nos olhos e ainda assim infiltrando em suas mentes e corações, amor e ternura, enquanto os via partir. Guardara para si mesma as lágrimas, lhes deixando todo o conforto e as lembranças felizes que pôde proporcionar.

—Mikhail, estou dizendo isto para que você faça uma idéia de nosso modo de pensar no momento em que este pacto escuro foi forjado — disse Nicolas. — Sem intenção de te ofender ou jogar a culpa em sua família. Sei que deu a ordem de destruir seu próprio irmão quando foi necessário. Mas para ser sincero, Vlad deveria ter dado anos antes.

Um músculo se contraiu na mandíbula de Mikhail, mas ele não disse nada, simplesmente esperou.

Nicolas tocou a ponta do nariz e sustentou o olhar de Mikhail.

—Seu irmão era louco e Vlad sabia. Seu irmão queria Ivory, ainda sabendo que não era sua verdadeira companheira. Sua irmã Noelle carregava a mesma raia de loucura.

Mikhail assentiu. Ele não tinha ordenado a morte de sua irmã, tal como seu pai tinha feito com seu irmão... E Jacques havia pago o preço.

—Tanto poder correndo por nossas veias pode corromper e retorcer, como em qualquer outra família.

Nicolas assentiu.

—É verdade. Quando soubemos que um vampiro tinha matado Ivory, procuramos seu corpo na tentativa de recuperá-la do mundo das sombras, mas não pudemos encontrá-la. Nós perdemos a luz brilhante em nossas vidas e não existia nenhum alívio da loucura de nossa existência. Então, tarde na noite, ao redor da fogueira planejamos como derrocar a família Dubrinsky e terminar com o reinado de um homem que não possuía tino para liderar. Nossas famílias haviam descoberto a habilidade de se conectar e compartilhar o poder como pode fazer a linha de sangue Daratrazanoff. Como podíamos fazer, pensamos que devia haver outra família que pudesse ser o receptáculo vivo para nossa gente.

—Um receptáculo vivo deve ser capaz de conter todo o poder e conhecimento, passado e presente, de nossa gente. Conecta-se telepática e fisicamente com todos os Cárpatos através de sua mente. — Disse Mikhail. — Não tenho conhecimento de outra família que possa fazer isto.

Nicolas suspirou.

—Pensamos que se nós podíamos fazer o mesmo que os Daratrazanoff. Devia haver outra família que pudesse conter o poder. Sabíamos que sua família carregava a loucura, manchada pela necessidade de controlar sobre o sexo oposto e acreditávamos poder encontrar outro líder mais digno.

—E idearam uma forma de nos destruir? — Na voz do príncipe havia uma tranqüila aceitação.

—Sim — disse resolvido e honestamente, Nicolas. – E com os irmãos Malinov. E eles estão executando esse plano. Acreditamos que estão fazendo há muitos séculos. Ao princípio como Cárpatos e talvez agora, como vampiros.

Mikhail caminhou nervosamente alguns passos e voltou até onde Nicolas estava.

—Disponho-me a chamar nossos caçadores.

Nicolas alcançou Lara e a encontrou flutuando tranqüilamente na câmara do charco. Assentiu.

—Acredito que não temos outra opção.

— Guerreiros, apresentem-se para formar o Conselho. — Mikhail enviou a chamada imediatamente.

Os dois Cárpatos trocaram um longo olhar, correram dois passos e saltaram ao ar, mudando a forma novamente para o mocho, apressando-se através das nuvens carregadas de neve até chegar à caverna ancestral do Conselho. As duas aves predadoras colaram as asas e voaram através da entrada, passando velozes pelo corredor até a câmara do conselho.

Fazia séculos que Nicolas não entrava na caverna, mas esta ainda lhe produzia a mesma sensação que nos velhos tempos: orgulho, honra e camaradagem. A câmara sagrada do conselho era grande e arredondada, com uma estreita lareira natural no centro. Nas paredes estava escrito na linguagem antiga, o código do guerreiro, pelo qual tinha vivido através dos séculos. Honra. Piedade. Integridade. Lealdade. Determinação mortal. Seu código, sua forma de vida.

As paredes da caverna eram de um profundo azul da meia—noite, quase como o céu mais escuro. Crescendo do chão em semicírculo, estalagmites grandes e altas, quase tocando o forro do teto no qual cresciam estalactites em espirais descendentes, cada uma brilhando por causa dos depósitos de minerais coloridos. Surgiam das paredes e cobriam o solo formando prismas gigantes e cristais de formas geométricas variadas. O interior forçava os Cárpatos a regular sua temperatura, por causa das câmaras de magma que havia sob eles.

Uma vez, a caverna havia sido inundada com a água termal, rica em minerais, deixando depósitos, até que se formaram cristais grandes e brilhantes. Os cristais ajudavam os guerreiros a centrar—se claramente na batalhas vindouras, nas estratégias e na resolução de problemas, assim como no treinamento diário e rigoroso que todos os Cárpatos tinham jurado seguir.

A primeira câmara se abria para uma segunda bem menor, anexada completamente e rodeada por rochas de lava. Vapor purificador se frisava, chamando—os do interior da segunda câmara.

A caverna estava cheia de muitos homens solteiros, sombrios e altos, com seus olhos frios e distantes. Nicolas sentiu desespero por eles, tomado por suas emoções novas. Guerreiros sem esperanças, vivendo somente da honra, batalhando não só com o vampiro, mas pior ainda, com sua chamada. Respirou fundo e deixou que operasse nele a magia da caverna.

Nicolas permaneceu no centro da caverna cristalina, no lugar no qual haviam estado tantos guerreiros antes que ele.

—É difícil enfrentar meus irmãos pela primeira vez com a vergonha pendendo sobre o nome de nossa família.

Mikhail o olhou com exasperação.

—Nicolas, é um pouco arrogante sentir vergonha por coisas que aconteceram há centenas de anos, como se fosse o único que cometeu enganos alguma vez. Seus irmãos e você provaram sua lealdade em mais de uma vez. Manolito salvou minha vida e logo a de Shea e o filho em seu ventre. Devo baixar a cabeça envergonhado, por todos os enganos de julgamento que cometi ao longo dos séculos? Se o fizesse, nunca veria o céu outra vez.

Nicolas encolheu os ombros, enquanto um sorriso breve e sem humor atravessava sua face.

—Idealizamos um plano para derrocar seu pai, uma forma de acabar com o reinado da família Dubrinsky. Mikhail, as coisas que planejamos foram frívolas. A principio, eram somente palavras irritadas, mas quando nos sentamos ao redor da fogueira e elaboramos os detalhes de uma batalha a longo prazo, cometemos traição contra ti e nosso povo. Existe vergonha nisto

Mikhail franziu o cenho.

—Se tivesse destruído a linha dos Dubrinsky... Quem vocês acreditavam que podia levar o poder e o conhecimento de nossa gente?

—Estávamos seguros que tinha que haver outra família e tentamos encontrá-los, já que nós éramos capazes de levar a cabo os deveres da família Daratrazanoff. Logo, é obvio que abandonamos o plano, por isso nunca ninguém se aproximou das outras linhagens para ver se podiam ser um receptáculo vivo.

—E suspeitavam de alguma linhagem que pudesse ser capaz?

—Você fala como se estivesse disposto a abdicar imediatamente.

—Em um segundo — disse Mikhail, para logo suspirar, meneando a cabeça. — Nicolas, não há um único caminho correto e só porque minha linhagem familiar deva levar a liderança, isso não quer dizer que saibamos tudo. Sou tão falível como qualquer outro Cárpato. Cada vez que perdemos uma criança. Cada vez que uma mulher perde um bebê ou morre seu filho, considero—o minha falha e sinto vergonha por saber que não encontrei resposta para nossa raça moribunda. Sinto—me em meu lar protegido, enquanto meus guerreiros vão a batalhas malignas, perdendo no processo, parte deles. Homens bons, melhores que eu, em pé entre o perigo e eu a cada momento. Você sairia de lado e permitiria que outro liderasse? Em um segundo... Especialmente se fossem mais inteligentes que eu.

Nicolas sacudiu a cabeça.

—Mikhail, estávamos equivocados, como está você agora ao pensar dessa forma.

Mikhail lhe lançou um sorrisinho retorcido.

—Pensei em terminar com minha vida. Antes de Raven, antes de encontrar a minha companheira, pensei em terminar com minha vida para não ter que ver a extinção absoluta de nossa raça. Você e outros guerreiros que serviram a meu pai, têm de longe mais anos de experiência. Caçaste durante muito mais tempo, agüentaste mais tempo, entretanto eu não podia continuar sob o peso de minhas falhas. Isso não foi bem pior? Não foi um ato de covardia?

Nicolas negou com um gesto cabeça.

—Acredito que foi um ato de desespero. Eu caminhava pelas ruas esta mesma noite com a intenção de encontrar o amanhecer, embora sem confiar em poder fazê—lo. Mikhail, é a forma de ser de nossa gente. Cada caçador enfrenta esse momento, embora não temos a carga adicionada sobre nossos ombros, de uma espécie inteira.

Mikhail bateu levemente em seu ombro.

—Meu velho amigo, somos homens defeituosos. Até o último de nós. Pecamos e nossas mulheres nos redimem.

Nicolas lhe respondeu com um sorriso irônico.

—É a verdade.

—Nos fale de sua companheira. De onde veio? Corre fortemente nela o sangue dos Caçadores do Dragão.

Os dentes brancos do Nicolas apareceram num sorriso verdadeiro, que chegou até seus olhos.

—É filha de Razvan e é incrível. Não posso nem começar a descrever a forma em que me sinto. Apenas a conheço, mas quero passar com ela cada momento. Simplesmente apareceu de não se sabe onde, no momento perfeito e salvou minha vida, minha prudência e minha alma. Olho ao redor e não sei como sobrevivi sem ela todos estes séculos. Para mim, o mundo está vivo novamente. Havia me esquecido a beleza da natureza. Tinha esquecido na verdade, como era amar realmente a meus irmãos.

Mikhail deixou escapar o fôlego.

—Outra criança com sangue dos Caçadores do Dragão é mais que bem—vindo. E quanto à alegria dos companheiros, já faz anos que tenho Raven em minha vida e ainda, a cada sublevação, encontro—me novamente tocado por tudo o que ela me deu.

Nicolas pigarreou.

—Não estou seguro de que minha companheira veja uma razão para estar comigo.

—Para nossas mulheres não existe outra razão para estar conosco, mais que a forma em que somos capazes de vinculá-las. São luz para nossa escuridão e quanto mais escura é nossa alma, mais forte tem que ser a mulher. Nicolas, guarde bem sua companheira. É um tesouro muito valioso.

Nicolas repassou as palavras de Mikhail em sua mente. Para suas mulheres não havia razão para aceitá—los mais que as palavras vinculantes que uniam suas almas. Com Lara, sendo otimista, o agarre era frágil. Necessitava de tempo para estabelecer seu vínculo, para formar uma espécie de confiança, embora sentia verdadeiramente que ela devia seguir sem questionar sua liderança.

Olhou a seu redor, sentindo fluir a influência sutil, o enfoque dos cristais, a energia da caverna com o magma fluindo sob ela e acima, a milhares de pés, a neve crescente. Nicolas estendeu os braços.

—E este lugar de poder. Tinha esquecido a beleza desta caverna. E a claridade que alguém sente quando está nela.

Mikhail assentiu.

—Não há outro lugar como este na terra. Gelo e fogo encontrando—se como um só. Controle e paixão. A terra sempre contém as respostas para nossa espécie. — Ele olhou ao redor, para o assombroso desdobramento da natureza. — Espero com otimismo que esta noite nos encontremos mais perto de acharmos respostas.

 

Enquanto Mikhail falava, os irmãos Daratrazanoff chegaram. Os quatro irmãos. Altos, de aspecto imponente, escuros cabelos negros recolhidos para trás na nuca e presos com tiras de couro. A mesma fisionomia clássica, ombros e peito largos, quadris estreitos e a postura direta e ágil de um guerreiro de movimentos fluídicos.

Darius, o irmão mais jovem era tão experiente em batalha como o primogênito. Inteligente, ardiloso, capaz de fazer o impossível. Tinha os olhos escuros da raça dos Cárpatos e a face severa que quem possuía conhecimento demais da morte. Junto a ele estavam Lucian e Gabriel, os gêmeos legendários que haviam caçado e lutado pelos Cárpatos. Gabriel esboçou um sorriso de saudação ao estreitar os braços com Nicolas. Lucian e Darius permaneceram inexpressivos, embora seus olhos tivessem genuíno calor quando saudaram seu príncipe

A pequena mulher sob o ombro de Lucian era sua companheira, Jaxon. A face de duende, o cabelo curto loiro platinado e agudos olhos escuros. Ela havia sido policial, talvez ainda fosse, mas agora caçava o vampiro junto a seu companheiro. Nicolas discordou violentamente com a idéia moderna de que mulheres fossem treinadas com habilidades para a luta... Não deviam expor-se ao perigo, mas Jaxon não era sua mulher. Ela pertencia a Lucian, o guerreiro mais legendário e ainda assim ele lhe permitia lutar a seu lado. Possivelmente fosse sutil arrogância por parte do guerreiro. Confiança de que poderia proteger sua companheira de qualquer perigo, mas Nicolas sentia que ela deveria ser mantida longe da vil criatura que era o não-morto.

As mulheres deviam ser protegidas e apreciadas, não colocadas em perigo em um campo de batalha. Um caçador não podia estar preocupado com o amparo de uma companheira quando combatia o vampiro. Nos tempos antigos, a maioria dos companheiros abandonava totalmente a caça, em vez de se arriscarem, com morte para os dois. Isto era um dos maiores pomos de discórdia principal entre os Da Cruz, os irmãos Manilov e Vladimir Dubrinsky. Até então, os índices de natalidade já vinham diminuindo. Nenhum deles acreditava que deviam permitir que as mulheres lutassem quando elas não possuíam a vantagem que os machos tinham. Não a força... Mas a escuridão em si mesma.

Nicolas ocultou seus verdadeiros sentimentos por trás de uma tranqüila máscara enquanto saudava o quarto Daratrazanoff, Gregori, segundo na hierarquia depois de Mikhail. O homem impiedoso no qual se referia os inimigos do príncipe. Ele era um guardião feroz, embora conhecido em todas as partes como o curador mais dotado entre os Cárpatos. Em vez dos brilhantes olhos de obsidiana de seus irmãos, ele possuía reluzentes olhos prateados que sopesavam e julgavam um homem. Parecia apto e saudável, nada do pálido homem de há poucas horas, que lutara para salvar um humano dos parasitas.

— Como você se encontra? Obrigado pelo que fez esta noite pelo amigo de Lara. — Disse Nicolas.

Um laivo de emoção atravessou apareceu no rosto de Gregori e logo desapareceu, numa enorme amostra de emoção, tratando—se dele.

—Fiz todo o possível para liberar seu corpo dos parasitas, mas quantos danos fizeram é algo que não posso dizer. Desejo uma recuperação completa, mas não a espero. Seu amigo ficou com ele e Slavica, a proprietária da estalagem, o vigiará de vez em quando. Se precisar ajuda, ela chamará. — Gregori olhou ao redor da caverna, o calor deslizando—se por ele. – Faz muito tempo desde a última vez que estive aqui.

Seus irmãos assentiram com a cabeça, em sinal de acordo.

Os recém chegados deixaram a conversa quando Jacques Dubrinsky, o irmão do príncipe, entrou. Ele tinha os olhos e o cabelo, negros como a noite mais escura. Uma fina cicatriz branca lhe rodeava sua garganta e outra sobre seu queixo e sua face e se por acaso fosse pouco uma cicatriz raiada rodeava seu peito. Os Cárpatos poucas vezes tinham cicatrizes, o que queria dizer que os ferimentos deviam ter sido terríveis. Ele havia sido vítima de uma tortura tal, que quase o tornou louco. Inclusive ainda agora, tinha seqüelas.

Nicolas deu um passo adiante para saudá-lo, lhe estreitando o braço.

—Bur tule ekämet kuntamak. — Disse Jacques. — Me alegro em vê-lo, irmão. Passou muito tempo desde última vez que te vi. Como esta Manolito?

— Manolito está muito bem. Encontrou a sua companheira. Seu nome é MaryAnn Delaney. Acredito que a conhece. E sua mulher e seu filho?

—Shea está bem e celebraremos a cerimônia de nomeação em alguns dias. Nosso filho cresce forte.

— Boas noticias. A melhor das notícias para todos. — Disse Nicolas.

O bater de asas anunciou dois Cárpatos mais. Vikirnoff Von Shrieder e sua companheira, Natalya. Nicolas estreitou o braço de Vikirnoff, um pouco desconcertado ao ver que Natalya havia respondido à convocação dos guerreiros ao conselho. Nunca teria pensado que Vikirnoff, um guerreiro antigo e de enorme valor, permitisse sua mulher ficar em perigo.

Deu-lhe uma olhada. A mulher tinha o cabelo vermelho vivo e olhos que mudavam do verde brilhante ao azul. Tinha a marca do Caçador de Dragões estampada por toda parte, na aparência clássica, no resplendor que iluminava sua pele, nas mechas de cor em seu cabelo. Conhecia-a por ser boa lutadora... E também irmã de Razvan, o pai de Lara. Afastou-se um passo de Vikirnoff, temendo ser incapaz de se manter em silencio sobre o assunto de se permitir mulheres lutar quando Natalya seria tal prêmio para Xavier, se fosse capturada.

Nicolas sacudiu a cabeça e logo notou Gregori observando-o com seu penetrante olhar de prata. Ele sabia exatamente o que Nicolas pensava.

— Eu estou de acordo, — disse Gregori, enquanto passava por diante de Nicolas para colocar-se ao lado de Mikhail

—Com o que está de acordo? — Perguntou Mikhail, voltando-se e se afastando. — E com quê? Não é sempre que você concorda com qualquer coisa. – Ele se aproximou, de onde  havia estado conversando com Darius. — Não é usual que esteja de acordo com nada.

—Acredito que um dos assuntos que temos que discutir é o bem-estar de nossas mulheres e crianças... De todos eles... Incluindo as mulheres que acreditam ter a necessidade de lutar contra vampiros.

Mikhail mostrou os dentes brancos.

—Gel de ou Ä peje terád. Que o sol o queime, Gregori. Você não me meterá em problemas com minha companheira e minha filha. Não farei seu trabalho sujo… — Ele incluiu Nicolas em seu olhar. – O de nenhum dos dois.

Gregori encolheu os ombros.

—Amaldiçoe quanto queira. É um assunto que tem que confrontar.

—Eu? Ah, não! Nada disso nada. Nego-me a carregar isto. Se entrarmos no assunto, todos expressarão suas opiniões, alto e claro. E as mulheres se elevariam como meu pior pesadelo.

— Se vamos ter um conselho pleno, então deveríamos tratar de todas as questões, não acha? Falo a sério. – Insistiu, Gregori.

Mikhail assentiu com a cabeça.

—Sei que deve ser falado, Gregori, mas ambos sabemos que os velhos costumes desapareceram, há muito. E inclusive tínhamos mulheres caçadoras.

— Não companheiras. — Nunca mulheres, — interveio Nicolas, — que poderiam nos dar filhos ou que quando perdiam levavam seu companheiro com elas.

Mikhail encolheu os ombros.

— Nos velhos tempos, muito poucos companheiros eram guerreiros. As coisas são diferentes hoje. Nossa espécie está à beira da extinção.

— Mais razão ainda para proteger as poucas mulheres que nós temos. — Disse Nicolas. — Às vezes os velhos costumes são bons, Mikhail. Nossas mulheres não deveriam ter que lutar somente para mostrar que podem.

—Estas mulheres não começaram como Cárpatos. Nossa espécie parece humana e quando nos unimos a uma mulher humana, embora seja convertida pelo sangue, ela pensa como humana. Durante séculos as mulheres humanas tiveram que lutar por seus direitos...

—É um argumento fraco. O que fazemos aqui nesta câmara? Juramos nossa lealdade com nossa gente. — Irrompeu Gregori. — Juramos servi-los, independentemente do sacrifício que nos peçam. Nossas companheiras nunca o têm feito. Elas não entendem que para salvar nossa espécie da extinção devem se sacrificar também. Temos um punhado de casais, menos de trinta, Mikhail. Nossos filhos não maturam até depois de uns bons cinqüenta anos. Realmente acredita que podemos permitir perder uma mulher? A um casal?

—Não, mas também sei que estamos em guerra contra inimigos que nos rodeiam por todos os lados. Não podemos nos permitir estar divididos, tampouco.

— Nenhum homem quer que sua mulher lute. Não estamos divididos. — disse Gregori.

Mikhail sacudiu a cabeça, com um sorriso lento tocando sua boca.

—Então acham que deveríamos dizer a nossas mulheres que fiquem tranqüilas e nos deixem tomar decisões por elas? Não são os homens os que se rebelarão, mas nossas mulheres. Contra nós. Livre arbítrio. Esqueceste esse pequeno detalhe? Passamos por isso quando as prendemos a nós, seguimos fazendo assim depois que se convertem em nossas companheiras? Suponho que podemos reduzi-las a pouco mais que  marionetes presas a nossa vontade. Mas sei que tanto Raven como Savannah andaria sob o sol antes de se submeter a tal escravidão.

—Gel de ou Ä peje terád. Que o sol o queime, Mikhail. — Grunhiu Gregori. – Você está me saindo moderno e liberal na velhice.

Nicolas deu as costas ao príncipe quando entrou outro casal. Nicolae, o irmão de Vikirnoff e sua companheira Destiny, apressaram-se a entrar. Nicolas queria dar uma boa examinada na mulher que havia sido capturada por um vampiro quando era somente uma menina. Ela havia suportado a tortura do sangue do vampiro, haviam-na aprisionado com parasitas que se comiam as células, durante anos. Alta e meia curvilínea, ela era formada com músculos bem definidos. Possuía o cabelo negro e espesso, enormes olhos verde azulados e movia-se com a graça, com o passo fluido de um lutador treinado. Notou que seus olhos se mostravam inquietos, movendo-se ao redor da caverna, recolhendo cada detalhe, tomando nota das saídas e entradas, da lareira e do labirinto de túneis.

Destiny era a melhor amiga da companheira de Manolito, MaryAnn.

Ela examinou a cada pessoa, avaliando-os e seu olhar pousou sobre ele somente um segundo mais. Nicolae, seu companheiro estava bem sintonizado com ela. Nicolas notou com aprovação, que ele se colocava entre ela e os homens sem companheiras do aposento. Como a maior parte dos machos Cárpatos, Nicolae era alto e musculoso, com longo cabelo negro e olhos escuros e frios.

— Você é Nicolas, irmão de Manolito. — Saudou-o Destiny, movendo-se para ele, forçando seu companheiro a segui-la, para protegê-la.

Um engano clássico das mulheres ela se esquecer que qualquer um poderia ser um perigo, mesmo ali, num lugar sagrado de poder. Nicolas suspirou e sacudiu a cabeça. Sua mulher aprenderia qual seria seu lugar e cada medida de segurança que pudesse pensar para ela.

—Como está MaryAnn? — Perguntou Destiny

— Eu tenho notícias para compartilhar, mas queiram esperar até que todos nós estejamos juntos. Eu trouxe você uma carta de MaryAnn. — Ele deslizou sua mão dentro da camisa.

Os olhos de Destiny se semicerraram, tornando-se frios e observadores. Ela se moveu ligeiramente sobre as pontas dos pés, girando somente um pouco, num sutil movimento que a colocou em uma boa posição para se defender ou atacar se fosse necessário. Quase como se houvessem coreografado, seu companheiro se moveu ao mesmo tempo, situando-se a poucos passos entre eles, dando-lhe bastante espaço. Uma luta em equipe. Mesmo Nicolas, com todas suas opiniões absolutas sobre o assunto de mulheres caçadoras de vampiros, podia ver que eles estavam em perfeita sincronia. Mas mesmo assim não estava bem.

Pegou a carta de dentro de sua camisa e a ofereceu a Nicolae como amostra de cortesia. De um guerreiro a outro. Nicolae colocoua o sobre a mão, obviamente examinandoa antes de entregála a sua companheira.

—Obrigado. — Disse Destiny a Nicolas. — Eu aprecio você ter trazido-o para mim pessoalmente.

       Ao princípio ele pensou que ela pretendia ser sarcástica porque ele tinha dado a carta a seu companheiro, mas depois compreendeu que o casal realmente estava em perfeita harmonia. Ela não parecia irritada pelo amparo dele, aceitava como se esse fosse seu dever.

Outro macho Cárpato chegou. Era Dominic, do clã Caçador de Dragões, tio avô de Razvan e tio tataravô de Lara, embora os Cárpatos poucas vezes fizessem distinção. Igual Lara se referia a suas tias, chamando-as assim, também iria se referir a Dominic como tio.

Nicolas estudou o rosto severo. O clã Caçador de Dragões era uma das linhagens mais poderosas em toda a comunidade Cárpato. Ele era alto, com ombros largos e metálicos olhos verdes, herança de seu clã. Olhos de videntes que mudavam de cor de acordo com seu humor ou em batalha. Na última batalha para salvar Mikhail e a raça dos Cárpatos, ele havia sofrido severas queimaduras que lhe cruzavam o ombro, subiam para o pescoço até um lado de seu rosto e desciam pelo braço. As cicatrizes estavam ali se olhasse de perto, provas frágeis do da queimadura horrorosa de sua carne. Estranhamente, as cicatrizes lhe acrescentavam uma áurea de perigo. Seu direto olhar verde se fixou em tudo, logo em Natalya durante um breve momento.

Dominic andou a passos largos até Mikhail. Gregori se moveu para interceptá-lo, lembrando a Nicolas que Dominic era um dos antigos que não tinham jurado sua lealdade a Mikhail. Tinha servido a Vlad nos velhos tempos, mas só recentemente havia voltado. Havia lutado junto ao príncipe, oferecendo sua vida para salvá-lo, mas não houvera nenhum juramento de sangue. Jacques se colocou em posição do outro lado de seu irmão, para assegurar seu amparo. Nicolas se encontrou preparando-se no caso de precisar lutar. Ninguém podia se permitir a arriscar a vida do príncipe, mais do que poderiam com suas mulheres.

Dominic se inclinou ligeiramente.

—Én jutta félet és ekämet. Saúdo um amigo e irmão. — Disse enquanto estreitava os antebraços de Mikhail.

—Veri cheiram piros. O sangue é vermelho, Dominic. — Mikhail devolveu a saudação formal, que literalmente significava que ele esperava que Dominic logo visse cores.

O gesto dos ombros de Dominic foi eloqüente. Não tinha encontrado sua companheira em todos os séculos de sua existência e não conteria o fôlego esperando por isso.

Julian Savage, alto, pesadamente musculoso e excepcionalmente loiro Cárpato de olhos dourados entrou com Barack, outro macho Cárpato, a seu lado.

—Trago saudações de Aidan. Ele e Alexandria voltaram para os Estados Unidos. — Saudou Julian. – Ele teria vindo se tivesse perto. Dayan está a caminho. Está comprovando os céus em busca da mancha do não-morto.

Falcon chegou depois, com dois Cárpatos altos e desconhecidos a seu lado. Parecia familiar. Um antigo que Nicolas estava seguro de conhecer de vista, de outros tempos, mas o outro era completamente desconhecido para ele. Ele havia passado a maior parte de seu tempo na América do Sul, longe de sua pátria e fora do alcance da gente dos Cárpatos. O entusiasmo surgiu nele ao pensar em estar entre os grandes homens de seu tempo, outra vez em pé, ombro a ombro, como haviam estado em tempos antigos.

Dayan, violonista dos Trovadores Escuros e pai de uma das poucas meninas chegou com Traian e sua companheira Joie. Nicolas cruzou os braços sobre o peito com desaprovação e observou alguns outros olhar às mulheres e sacudir as cabeças.  Não estava sozinho em sua crença de que os companheiros das mulheres deveriam se encarregar e insistir na segurança antes de qualquer outra coisa.

Outros chegaram. Alguns em casais, outros sozinhos. Nicolas reconheceu alguns dos homens, mas a maioria lhe era estranho. As Montanhas dos Cárpatos já não eram seu lar, embora sua pátria lhe falasse, a terra fosse rica e acolhedora. E ele havia sentido falta deste lugar sagrado e a chamada de irmãos ao conselho.

O último a chegar foi um homem alto e sua face poderia ter sido esculpida em pedra. Entrou silenciosamente e ficou um pouco afastado dos outros. Nicolas reconheceu os sinais de um solitário, de um homem que havia visto incontáveis batalhas e sabia que havia muitas mais por vir. Um homem sem companheira, conduzido à loucura da escuridão que se espalhava através de sua alma. Era Dimitri, guardião dos lobos e se mantinha em pé, ereto, olhando outros guerreiros nos olhos, mas sozinho.

Os Cárpatos se reuniram num círculo frouxo. Gregori ondeou a mão para acender as velas colocadas ao longo das paredes curvas da câmara. Imediatamente os cristais gigantescos cobraram a vida, irradiando suas cores. Aquele era um lugar sagrado, onde um guerreiro endurecido poderia ir. Um guerreiro que se deslizava a beira da loucura e ainda poderia sentir algo semelhante à paz. Talvez fossem alucinações devidas à proximidade dos cristais combinados com o calor intenso, mas uma vez que as velas eram acesas e os rituais sagrados começavam os caçadores a ponto de sucumbir à escuridão se sentiam renovados durante uma temporada.

Alguns guerreiros reclamavam que o estéril mundo cinza era mais difícil de suportar depois do breve indulto, mas Nicolas sempre tinha considerado a caverna dos guerreiros um mundo de comodidade que dava sentido à loucura em que viviam. Depois de longos séculos que freqüentemente passavam juntos, os rituais eram reconfortantes, a velha e tradicional maneira de se tranqüilizar.

—Temos muito do que falar, — disse Mikhail. — Agradeço a todos por ter vindo. Nicolas nos trouxe notícias que ajudarão a entender a atitude de nossos inimigos.

O calor da caverna se verteu sob a pele de Nicolas, apesar de sua capacidade de regular sua temperatura. Já sentia como os cristais trabalham nele, curando as pequenas feridas em seu corpo, proporcionando claridade a sua mente. Tudo se tornou mais agudo, bem mais enfocado e o sentimento de camaradagem se fez mais profundo, fazendo com que ele desejasse ouvir a opinião de cada guerreiro e pudesse ouvi-la com a mente aberta, a todos os pontos de vista.

Mikhail se moveu até o centro do círculo de cristal, que se elevava junto a uma grande coluna avermelhada de minerais cristalinos. Elevando-se do chão quase até o ombro de Mikhail, a coluna era uma das menores do lugar, mas terminava em uma ponta tão afiada como uma navalha. Ele sustentou a mão sobre a ponta do cristal e a estadia ficou instantaneamente em silêncio, os Cárpatos quase contiveram o fôlego, à espera. Quando falou, usou a antiga linguagem de seus antepassados, a língua ainda falada por toda sua gente.

—Sangue de nossos pais... Sangue de nossos irmãos... Procuramos sua sabedoria, sua experiência e seu conselho. Uni-nos com seus irmãos guerreiros e nos guiem através do vínculo de sangue. Prometemos a nossa gente, nossa firme lealdade, coragem ante a adversidade, rápida e mortal vingança, compaixão para aqueles que a necessitam, força e resistência nos séculos por vir e, sobretudo, poder viver com honra. Nosso sangue nos une.

Mikhail deixou cair sua palma sobre a ponta de cristal e esta cortou sua carne com facilidade. Rico sangue vermelho cobriu imediatamente a ponta da coluna.

—Nosso sangue se mistura e lhes chama. Ouçam nossos rogos e uni-os a nós agora.

Quando o sangue do príncipe se misturou aos dos guerreiros de antes, os cristais se iluminaram, pulverizando luz e cor como a aurora... Redemoinhos de luz vermelha iluminaram a câmara e rajas verdes esmeralda cruzaram em ondas a parede. O mutante espectro cobrou vida, reconhecendo o príncipe dos Cárpatos.

Um murmúrio baixo se elevou em um forte cântico quando os Cárpatos reunidos começaram seu ritual ancestral.

— Veri isäakank... veri ekäakank. Veri cheiram elid. Andak veri—elidet Karpatiiakank, és wäke—sarna ku meke arwa—arvo, irgalom, hän ku agba, és wäke kutni, ku manaak verival. Veri isäakank... Veri ekäakank. Verink sokta; verink ka? A terád. Akasz énak ku kA. A és juttasz kuntatak it. Sangue de nossos pais... Sangue de nossos irmãos. O sangue é vida. Oferecemos essa vida a nossa gente com um juramento de sangue, honra, compaixão, integridade e resistência. Os sangues de nossos irmãos e de nossos pais se misturam e clamam.. Ouçam nossas suplicas e uni-se a nós.

Gregori se colocou diante de Mikhail e se inclinou sobre um joelho.

—Ofereço minha vida a nossa gente. Prometo-lhes minha lealdade através de nosso vínculo de sangue. – Ele deixou cair sua mão sobre a ponta de cristal, permitindo que o precioso presente se misturasse com o sangue do Mikhail, com o sangue de cada antepassado que tinha sido guerreiro antes. Depois ofereceu sua mão a Mikhail

—Como Receptáculo de nossa gente, aceito seu sacrifício. — Mikhail respondeu solenemente à promessa, tomando o sangue oferecido, para sempre poder encontrar Gregori em qualquer parte onde ele pudesse estar, a qualquer momento e em qualquer lugar. Isto tornava o caçador vulnerável. Se ele decidisse entregar sua alma e se converter em vampiro, poderia ser rastreado com maior facilidade. Muitos decidiam não participar, conhecendo as conseqüências. Gregori freqüentemente urgia Mikhail a tornar o ritual obrigatório, mas Mikhail acreditava no livre—arbítrio.

Gregori se levantou e Lucian avançou para tomar seu lugar, colocando sua oferenda no cristal, mesclando seu sangue com o de seus antepassados e ajoelhando—se ante o príncipe para jurar sua lealdade e dar seu sangue ao príncipe, como símbolo de sua vulnerabilidade.

Nicolas conteve o fôlego quando Jaxon, a companheira de Lucian, seguiu—o ante o pilar. Este era o mais sagrado ritual de um guerreiro. Das três caçadoras femininas ela era a de menor experiência. Se o cristal a rechaçasse, seu argumento de manter as mulheres protegidas se fortaleceria.

A câmara parecida com uma catedral e estava cheia do som de vozes masculinas. A música dos cristais, harmonizada com o cântico, produzia uma forte e enfeitiçante melodia. O vapor se elevou quando Jaxon se aproximou da escura coluna vermelha. Ele parecia pequena e frágil junto à ampla circunferência do velho cristal de séculos de antigüidade. Sem vacilação, deixou cair sua mão sobre a afiada ponta. O zumbido dos cristais mudou sutilmente, mas continuou tão forte como sempre, simplesmente acrescentando uma nota mais suave, mais feminina. Quando Jaxon se ajoelhou diante de Mikhail para jurar sua lealdade, sua pele tomou um brilho luminoso.

Nicolas se adiantou então. Ele havia levado a cabo este ritual muitas vezes no passado, mas suas lembranças se obscureceram com o passar dos séculos, abandonando-o. Não estava preparado para a magnitude dos sentimentos que verteram sobre ele. No momento em que seu sangue se misturou a de seus antepassados, sua alma chamou a alma dos guerreiros de antigamente... E eles responderam, enchendo-o de força, limpando sua mente de modo que cada detalhe fosse claro e vívido.

Seu coração pulsava a um ritmo diferente, ouvia—se o fluxo vazante do sangue atravessando suas veias, como o infinito ritmo da maré. Ele sentiu a energia dos cristais gerando cura e claridade. Sob o bosque de cristais, a centenas de metros abaixo da câmara, ele sentiu o fundo da rica magma que alimentava o calor da caverna. O calor e o fogo alimentavam as necessidades de seu corpo, aumentando sua fome por sua companheira. Os guerreiros antigos lhe murmuraram na língua de sua gente.

— Eläsz jeläbam ainaak. Kulkesz arwa—arvoval, ekäm. Arwa—arvo cheirm g Ae idnod, ekäm. Longo tempo pode viver na luz. Caminhe com honra, irmão meu. Que a honra te guie, irmão meu. — As vozes continuaram, encorajando—o a avançar pelo caminho do guerreiro como tinham feito eles, antes dele.

Mikhail tomou seu sangue e sentiu a conexão instantânea com os Cárpatos, homens e mulheres por igual, a unidade de sua força e propósitos. Nicolas retornou a seu lugar no circulo, sentindo—se fortalecido e muito mais unido aos outros Cárpatos do que nunca tinha estado antes.

Um a um os guerreiros e as mulheres restantes continuaram prestando juramento até que somente restaram alguns poucos guerreiros.

Gregori olhou além de seu príncipe, para o homem que permanecia à parte, com os braços cruzados, apoiado na parede, perto da entrada. Seus olhos prateados encontraram os olhos verde metálico de Dominic, Caçador de Dragão, em desafio. Um silêncio caiu sobre a caverna. O zumbido dos cristais se tornou mais forte, mais insistente como se chamasse o último guerreiro.

Nenhum homem deve ser forçado a jurar submissão, Gregori. — Mikhail suavemente o repreendeu. — Dominic, você sempre serviu nossas gente com sua lealdade. Ninguém, nunca questionou sua honra. É suficiente que você fez um juramento de sangue com meu pai. — Antes que Gregori pudesse replicar, Dominic sacudiu a cabeça e seus passos eram moderados e firmes quando se adiantou.

—Estes são tempos difíceis e a gente não pode distinguir amigo de inimigo. Gregori não seria digno de sua posição se não o protegesse bem. Durante anos procurei minha irmã perdida, mas sei que está morta, há muito abandonou este mundo e não posso salvá-la, tampouco ela gostaria que fosse chamada do mundo das sombras. Afinal, ela está com seu companheiro e com a lua, espero que esteja em paz. É hora de abraçar outra vez meus deveres para com nossa gente.

Ele deixou cair à mão sobre o cristal e o sangue de um vermelho profundo se mesclou a tantos outros tons. A aurora que enchia a câmara mudou também de cor. O vapor formou redemoinhos e alguns cristais brilharam com uma suave luz branca, como se a própria lua tivesse entrado na caverna e brilhasse intensamente sobre Dominic, como amostra de avaliação. — Ofereço minha vida por nossa gente. Prometo-lhes minha lealdade através do vínculo de sangue. – Ele ofereceu sua mão a Mikhail.

Mikhail aceitou o oferecimento, ingerindo o sangue

—Como receptáculo de nossa gente. Aceitou seu sacrifício.

Dominic se levantou

—Alguém deve ir ao território de nossos inimigos e averiguar o que planejam a seguir. Nossas mulheres e crianças estão em perigo e não podemos ignorar o fato de que há menos de trinta mulheres para reconstruir a raça. As mulheres devem aceitar sua responsabilidade para nossa gente. —Seu olhar se fixou em Natalya e depois em cada mulher. — Não devem colocar suas preciosas vidas em mais perigo. Ofereço-me voluntário para ir ao território de nossos inimigos e colher informação.

Mikhail sacudiu a cabeça.

—Sabem quem está com eles através de um vínculo de sangue. Os parasitas infectam seus sistemas, chamando uns aos outros. Sabemos disso graças a Destiny.

— Gregori tem o sangue e eu posso ingeri-lo.

Destiny ofegou e envolveu a garganta com a mão esbelta.

— Você não pode. O devorarão a cada momento de vigília.

— Você não tem nenhum amparo — adicionou Gregory. – A escuridão anda contigo durante muitos séculos e os parasitas poderiam te empurrar além de sua resistência. Sem companheira para te guiar de volta, seria um suicídio... Mais que isso, provavelmente você sucumbiria à chamada do não-morto.

— Por isso quero que você, seus irmãos, Nicolas e Dimitri, tomem meu sangue. Acredito que com a herança do Caçador de Dragões tenho possibilidades de agüentar mais tempo, possivelmente até um ano, antes de sucumbir. Se não poder enfrentar o sol, então haverá seis dos nossos caçadores mais experientes capazes de me rastrear.

Mikhail sacudiu a cabeça.

— Não podemos nos expor a perder sua linha de sangue Dominic.

— Temos a Natalya e Colby. Possivelmente a jovem Skyler. E agora esta nova jovem, Lara, que é companheira de Nicolas. A linhagem do Caçador de Dragões perdurará.. Não encontrei minha companheira em todos estes séculos e me cansei. Permita—me oferecer este último serviço a nossa gente. Farei todo o possível para me conduzir com honra e enfrentar o sol antes que seja necessário me caçar, mas se não, teriam tomado medidas a respeito. Permitirei a estes caçadores, acesso as minhas lembranças para que sejam totalmente conscientes de como atuo como lutador. Com sorte isso lhes dará vantagem.

O protesto varreu a câmara. Os cristais zumbiram mais forte e emitiram variadas cores. Mikhail descansou sua mão sobre a coluna ensangüentada. Respirou fundo e deixou o ar escapar lentamente.

—Talvez devamos adiar esta discussão até que tenhamos ouvido o que Nicolas tem a nos dizer.

—Me perdoe Mikhail, mas não pode me permitir ouvir nada que Nicolas ou qualquer outro tenha que dizer. Se for, não devo conhecer seus planos, nem ouvir uma só palavra de estratégia. Estamos em guerra e a existência de nossa espécie está em jogo. As escolhas que se tomem aqui serão difíceis. — Seu olhar envolveu a todos e se deteve nas quatro mulheres... Joie, Natalya, Jaxon e Destiny. — Todos nós, devemos fazer sacrifícios e decidir qual é o melhor uso dos recursos de que dispomos. As decisões não são fáceis e não serão populares, mas devem ser tomadas. Eu sou prescindível. Tenho um sangue que pode resistir durante mais tempo a chamada da escuridão. Minha linhagem não leva a carga de outras linhagens. —Sua vista pousou brevemente em Nicolas e ele lhe dedicou uma ligeira inclinação de cabeça, como amostra de respeito.

Nicolas meneou a cabeça e sua garganta de repente se encontrou obstruída. Dominic era uma lenda viva, como Lucian e Gabriel. Ele conhecia... E entendia... A maldição de escuridão sobre os irmãos Da Cruz. Lutavam para manter a honra e sempre tinham presente aquela mancha que se arrastava sigilosa. Agora, quando devia enfrentar o conselho e admitir que ele e seus irmãos tinham participado do planejamento da conspiração para provocar a queda da gente dos Cárpatos, Dominic estava reconhecendo à terrível carga que os irmãos Da Cruz tinham suportado durante séculos.

—Ninguém é dispensável — disse Gregori. — Nem um só guerreiro e certamente não um com sua mestria e sabedoria.

Nicolas permaneceu em silêncio enquanto cada um dos guerreiros dava sua própria opinião. Na câmara sagrada, com seu sangue misturando—se ao de seus ancestrais, o vapor limpando—os e os cristais enfocados em clarificar suas mentes, todos ouviam com grande respeito. Mas ele sabia que Dominic ia ingerir o sangue e tristemente estava de acordo. Estava de acordo em que era o correto, a única opção, quando sua espécie inteira estava a beira da extinção.

Dominic tinha razão. Os Cárpatos tinham que saber o que Xavier e sua coalizão de vampiros e homens jaguar traziam entre mãos. Eles necessitavam de um espião no acampamento inimigo. Os irmãos Malinov nunca seriam capazes de resistir a aceitar que um Cárpato tão poderoso como Dominic se unisse a suas filas e certamente Xavier o consideraria um enorme golpe. A conversão do irmão de Rhiannon seria uma vitória para ele.

Seu olhar se encontrou com a de Mikhail. A dor nua que se via neles se refletia em seu próprio olhar. Mikhail sabia também. Dominic ouviria aos guerreiros ali reunidos, mas não mudaria de idéia. Alguém tinha que ir e Dominic era a opção mais lógica.

Durante um momento, as linhas do rosto do príncipe se tornaram mais profundas. Sua boca se curvou e ele pareceu mais velho, cansado. Cansado da carga sobre seus ombros.

A câmara ficou em silêncio. Mikhail se ergueu em toda a sua estatura, seus olhos escuros brilhavam com um vermelho profundo. Sua fisionomia mudou completamente, de modo que ele pareceu majestoso em cada polegada, o líder dos guerreiros reunidos para tomar decisões transcendentais. O vapor ondeou e em alguns cristais a cor se atenuou até parecer que a lua brilhava profundamente sob a terra, iluminando seu líder. As cores da aurora giravam com vida própria, rajadas de vermelho sangue se moviam através de um oceano de cores.

—Você nos honra com sua coragem, Dominic. – Disse Mikhail, sua voz profunda se deslocou pela caverna. Os Cárpatos nunca esquecerão seu sacrifício.

Dominic baixou o olhar a seu punho fechado, então um por um abriu os dedos. Uma unha se alongou e ele traçou uma linha fina em sua mão, oferecendo seu braço a Gregori. Gregori mostrava uma máscara inexpressiva. Mikhail elevou a mão... Era uma ordem, um decreto. Primeiro Gregori e logo Lucian, Gabriel e Darius avançaram e tomaram o sangue que os uniria a Dominic. Dimitri deu um passo adiante e depois foi à vez de Nicolas. Ele ocupou seu lugar junto ao guerreiro a quem considerava um dos maiores de todos os tempos.

O príncipe, pelo bem dos Cárpatos, enviava Dominic a uma existência muito pior da que qualquer Cárpato poderia conceber. A linhagem dos Da Cruz tinha sido amaldiçoada com a escuridão, mas também haviam sido dotados de persistente força e honra. Nos séculos passados, nenhum Caçador de Dragão havia sucumbido aos sussurros que se tornavam mais fortes, quanto mais se vivia sem esperança e sem emoções. Este homem era o último de uma grande linha de guerreiros, enviado a espionar o inimigo, com o sangue venenoso do vampiro carcomendo—o.

Nicolas encontrou os olhos de Dominic, firme e verdadeiro, negando—se a afastar o olhar da grandeza. Ele não podia salvá—lo, mas poderia despedi—lo com honra e lhe oferecer seu respeito. Dominic lhe deu seu sangue e logo estreitou seus braços à maneira dos guerreiros.

— Arwa—arvod juba eu Kodak. Lute com ferocidade. Que sua honra possa conter a escuridão. — Disse brandamente, Nicolas—

— Jonesz arwa arvoval. Volte com honra. Kulkesz arwaval. Vá com glória, — disse Gregori—

Mikhail se acercou. 

—Jonesz arwa arvoval. Volte com honra. – Ele estreitou os braços de Dominic com força antes de se erguerem.

—É o que se deve fazer. — Assegurou Dominic em voz baixa enquanto estreitava os braços de seu príncipe. – É o único que se pode fazer. Em algumas semanas alguém comece o rumor sobre minha conversa. Se assegure de seja sutil. Será uma grande noticia, o primeiro Caçador de Dragão a sucumbir à escuridão. As pessoas falarão, mas as notícias não podem sair de seu círculo mais próximo. Os falatórios chegarão a eles e os irmãos Malinov me buscarão num esforço por me recrutar

Gregori extraiu um frasco de sangue de uma pequena caixa e o deu Dominic, que o destampou e bebeu sem vacilação. O silêncio na câmara era absoluto. Até mesmo os cristais deixaram de tinir. Ninguém se moveu ou falou até que Dominic fez uma leve reverencia e partiu... Sozinho .

Destiny ofegou e girou a cabeça, enterrando o rosto no pescoço de seu companheiro.

—É como uma navalha que o rasga por dentro, — ela murmurou. As lembranças eram vívidas e agudas.

Nicolae colocou os braços ao redor dela e a abraçou, lhe falando brandamente, em tom baixo, mas consolador.

Algo suave dentro de Nicolas se elevou enquanto os observava. A postura do corpo de Nicolae não era simplesmente protetora, mas amorosa. E quando ela elevou o rosto para ele, pôde ver que o amor brilhar em seu olhar. Ele não tinha isso. Ainda não tinha o respeito de Lara, por não falar de seu amor. Nicolae tinha um tesouro, uma companheira além da compreensão... Um tesouro precioso. E nunca deveria ser tolo o bastante para arriscá-la.

Mikhail encarou seus guerreiros.

—Temos muito a discutir antes que a noite termine. Nicolas trouxe mensagens de nossos inimigos e seus planos. Ele falará esta noite. Uma jovem chegou a nossa vila e é a companheira de Nicolas. Ele fez sua reclamação e os uniu embora o ritual não tenha se completado. — Você Acredita que sua companheira Lara, seja filha de Razvan. – Seu olhar pousou em Natalya.

Natalya deixou escapar um pequeno som. Seu irmão gêmeo estava perdido para ela há anos. Tinha acreditado tê-lo matado numa recente batalha, mas ele havia voltado e possuído o corpo de uma mulher idosa, para atacar Shea e seu filho por nascer.

—Há razões para acreditar que Razvan foi usado para realizar experiências. Que possivelmente foi prisioneiro durante algum tempo antes de sucumbir, — adicionou Nicolas.

—Quero falar com ela — disse Natalya.

Nicolas negou com a cabeça .

—Não completamos o ritual. Ela não confia em nós e tem poucas lembranças de seu pai. Não quero que se estresse. Necessita de tempo.

Os olhos de Natalya passaram do verde escuro ao azul gelo.

— Ela gostará de falar comigo.

Nicolas encolheu os ombros, num movimento casual de músculos que provocou que Vikirnoff se colocasse um pouco adiante de sua companheira.

— Neste momento isso me importa pouco. Ela não sabe de você e eu não vou contar até que tenhamos organizado nossas vidas. Tenho uma leve sujeição sobre ela neste momento, somente através do vínculo entre nossas almas e não o arriscarei.

Natalya abriu a boca para protestar, mas de repente Mikhail se voltou e seu comportamento inteiro mudou, sua expressão era desolada quando olhou fixamente para Gregori durante um segundo e logo depois a seu irmão. Sem uma palavra, seu corpo brilhou e ele saltou no ar, mudando enquanto o fazia.

A face de Gregori empalideceu.

—Discutiremos as coisas para as quais nos reunimos, o quanto antes. Com sorte poderemos voltar a convocar esta reunião na próxima sublevação. Devo ir com Mikhail até Raven agora. – Ele saiu quase tão rápido como o príncipe

Lucian e Gabriel deram um passo adiante, confrontando os outros guerreiros.

—Vão com honra. Encontraremo-nos quando o príncipe nos convocar.

Nicolas não esperou que Natalya ou Vikirnoff o deixasse, simplesmente mudou imediatamente para a forma de uma coruja e voou para casa... E para Lara.

 

Lara abriu os olhos, saboreando o calor e as tranqüilizadoras bolhas na água da piscina mineral contra seu corpo. Havia adormecido em meio à calma. A água lhe lambia a pele, a sensação era como se línguas lhe acariciavam os seios e a garganta. Ruborizou-se. Ela não tinha pensamentos sexuais nem fantasias. Não era dessa maneira, mas em tudo o que podia pensar era na largura dos ombros de Nicolas, na seda negra de seu cabelo e em como o sentia contra sua pele. Seu hálito era quente, atraindo-a como um ímã. Ela se sentia… Instável… Inquieta… Impaciente. Seu corpo parecia tenso e estranho.

Se isto era o ele era para ela, já podia se manter a distância. Depois desse pensamento chegou um protesto instantâneo. A pesar do som tranqüilizador da queda da água no charco ou o calor que envolvia seu corpo, sua mente rechaçou com ênfase o pensamento de nunca mais vê-lo outra vez, estirando-se para ele... Apressando-se até ele. Ele havia saído há bastante tempo e uma parte dela com a qual não estava familiarizada, uma que se tornava mais forte a cada momento, tinha saudades sua presença.

Respirou fundo necessitando… Nicolas. Procurou a conexão com ele, antes de poder se conter.

— Estou aqui.

O alívio de seu toque foi imediato. Não queria necessitar da tranqüilidade do toque da mente dele. — Se isto for o que me faz, não o quero nada disso. – Ela tinha aprendido a viver sozinha. A nunca ser diferente. Se situar. Tentar não se destacar. E nunca necessitar de ninguém.

— É a atração entre companheiros, Lara. É natural. Quando suas tias lhe contaram a história não lhe falaram das necessidades que ardiam entre um casal vinculado?

Ela não pôde evitar rir, em sua maior parte com alivio por ouvir o som tranqüilo de sua voz.

— Provavelmente elas pensaram que eu fosse pequena para esse tipo de revelação.

— Tem razão. Mas considere que os Cárpatos são quase imortais. Se não tivéssemos tal necessidade um pelo outro, a vida seria aborrecida.

Ela surpreendeu a si mesma com um sorriso genuíno. Duvidava que a vida fosse aborrecida com alguém como Nicolas, embora não tivesse a menor idéia, agora que ele os havia unido, de como iria se arrumar. Mas não era seu problema, recordou-se, era o dele. Ele tinha pronunciado as palavras do ritual de vinculação.

A história de amor entre companheiros Cárpatos que suas tias haviam lhe contado tinha sido sua única informação sobre como funcionavam as relações. Naquela época, tinha sido um conto de fadas, mas agora pensava que possivelmente estava no meio de um pesadelo.

— O que sabe sobre sua mãe?

Quando Nicolas fez a pergunta, Lara se estendeu, procurando a resposta, mas só havia um branco espaço vazio em sua mente.

— Não tenho lembrança.

Ele se moveu dentro dela. Lara sentia sua presença, compartilhando sua mente, não só seus pensamentos imediatos. Surpreendendo—se, ela levantou um escudo.

— Sinto-me incômodada contigo fazendo isso.

— Por quê?

Havia curiosidade em seu tom, mas nenhum remorso. Nenhuma aquiescência. Certamente nenhuma afirmação de que não faria outra vez. Um pequeno arrepio correu por sua coluna. O que sabia realmente deste homem? E por que o aceitava tão facilmente?

— Assustei você.

— Um pouco. Não confio tão facilmente.

Ele enviou-lhe uma pequena rajada de calor. — Isso é uma coisa boa. Não desejaria que o fizesse.

Lara afastou o cabelo molhado e afundou sob a água, vadeando até as pedras plainas onde poderia se sentar. A caverna era formosa, com pedras e cristais cintilando sob a luz . A água lambia as pedras com um suave movimento e o som era como de uma canção de ninar. Ela se deu conta de que sentia paz pela primeira vez. — Fale-me de você. — Cruzou os braços sob os seios e inclinou a cabeça para trás para olhar como a luz alongava as velas.

— Tenho quatro irmãos. Passei grande parte de minha vida na selva tropical do Amazonas. Você gostaria. É um lugar formoso e selvagem. Não posso esperar para voltar a vê-lo com cores vívidas. Tampouco posso esperar para ver meus irmãos e sentir pela primeira vez no coração, não só em minha mente, o amor que sinto por eles.

Ela podia sentir o amor que ele tinha por sua família. Captou olhares de quatro homens muito intimidantes, mas bonitos, com o mesmo jeito perigoso que Nicolas possuía. — Quatro irmãos? Cresceu com eles? — Não havia maneira de disfarçar a nota nostálgica em sua voz.

Estava no mundo o bastante tempo para saber o que acreditava ser como uma família era e tinha saudades de uma própria. Possivelmente por isso era tão suscetível a Nicolas. A solidão a afligia. Sempre tinha necessitado do interior fresco das cavernas para ocultar o fato de que não podia suportar muita luz solar, então tinha pouco contato com outras pessoas. Se devia trabalhar pela manhã ou durante as horas da tarde, prevenia—se em usar roupas de mangas longas. Mas raramente saía antes da tarde. Dizia a seus colegas que tinha alergia do sol. Durante a tarde, não conseguia trabalhar e então encontrou na espeleologia uma solução perfeita a todos os seus problemas e nas profundezas de uma caverna, não tinha que ver outras pessoas interagirem com suas famílias.

— Crescer com meus irmãos foi sempre interessante. Acreditávamos que éramos mais preparados, mais rápidos e tínhamos que demonstrar diante dos outros. Fizemos algumas loucuras.

Lara captou imagens de vários meninos caindo de grandes alturas a uma velocidade alarmante, cada um lutando para mudar antes de golpear o chão. Cada menino tentava superar o tempo de que levado antes. Era uma cena vertiginosa, aterradora. Pobre mãe. Cinco filhos loucos. Não acreditava que educar um filho Cárpato seria assim, especialmente um menino.

O que achou mais interessante foi que o menino maior nas lembranças já era um homem em anos humanos. Poderia dizer pela lembrança de Nicolas que eram ainda meninos amantes das diversões, por mais que pareciam adultos.

— Voar é a melhor sensação no mundo, elevando-se alto, cavalgando uma corrente termal, mergulhando nas nuvens. Tinha me esquecido da pura alegria que tive quando menino, até que você entrou em minha vida. Levarei-a na próxima sublevação se quiser.

Ela podia sentir a alegria em sua voz, a emoção se espalhando em sua mente, lhe permitindo experimentar algo que ele estava sentindo. Ela nunca havia se sentido assim. Suas lembranças eram de suas tias lhe sussurrando, tentando lhe consolar. Vozes imateriais, que durante muito tempo pensou que estavam em sua própria cabeça.

— Seria divertido. Quem não gostaria de voar?

Lara entrou mais na mente dele, aconchegando-se ali por um momento, desfrutando dos tempos esquecidos com ele. Mas viu outras coisas. Algo escuro e grotesco movendo-se rapidamente entre as árvores, para ele. Era seu irmão mais velho, Zacarias, lhe lançando uma advertência, lhe dando instruções enquanto corria para se colocar entre Nicolas e o monstruoso ser que se apressava entre as árvores.

Lara ofegou e retrocedeu. — O que foi isso?

— Vampiro. — Nicolas injetou uma nota tranqüilizadora em sua voz. Ainda estava bastante longe dela e precisava encontrar seu alimento antes que a alvorada rompesse. — Minha primeira caça. Ensinávamos Riordan, meu irmão mais jovem, a mudar na carreira e os não-mortos me atacaram. Eu estava à distância de meus irmãos. Acredito que ele pensou que eu tinha detectado sua presença, mas foi uma surpresa imensa. Mal escapei com vida. Zacarias me deu instruções enquanto eu lutava contra ele e consegui destruí-lo antes que chegasse a nós, mas qualquer um teria pensado que fui o único caçador no mundo esse dia. Estava muito cheio de minha própria importância. – Ele injetou uma pequena risada em sua voz.

Para Nicolas, Lara parecia… Assustada ou talvez nervosa, não podia esta seguro sobre sua retirada repentina, mas a olhada breve a um vampiro tinha provocado alguma coisa em sua mente. Não gostava de que ela estivesse sozinha na caverna com o que poderia ser possivelmente outra cena retrospectiva de sua infância. Algo... E ele estava bastante seguro de que tinham sido os parasitas...  Haviam despertado lembranças há muito tempo enterradas em sua mente. Agora que a barreira havia desaparecido, ele suspeitava que ela poderia recordar pedaços de seu passado.

— Logo estarei chegando. — Não queria que ela se sentisse sozinha, nunca mais.

Sob ele, um granjeiro cruzava um pequeno pasto onde havia um celeiro provisório. No corpo da coruja, Nicolas mudou seu vôo, girando em círculos para se assegurar de que o homem estava sozinho e não havia perigo. Ele estava escaneando a região em busca de zonas mortas que indicassem que havia um vampiro presente, antes de começar a descida.

Lara entrou mais na água, decifrando por que se sentia tão nervosa quando momentos antes se sentira segura e envolta em um casulo de calor e fragrâncias aromáticas. Esta caverna era muito diferente da caverna de gelo. Freqüentemente captava brilhos de seu passado, pequenos flashes secretos de uma menina aterrorizada e trêmula, ouvindo a sinistra ruptura do gelo por causa da tremenda pressão. Tudo em suas lembranças era frio, árido e aterrador. Ali, se sentia protegida e segura, o mundo faiscava com pedras e luzes suaves, inclusive…

Nicolas a atraía com o som de sua voz, baixa, atraente e dominante. Sua beleza física, intensamente masculina, a ardente posse em seus olhos escuros, a força de sua personalidade centrada totalmente nela era um pouco assustadora e emocionante. Inclusive suas lembranças de infância, eram formosas. A risada e o companheirismo, tudo o que ela tinha desejado alguma vez. Havia um brilho em todos os meninos.

Um arrepio passou sua coluna. Até que o vampiro saiu do bosque e atacou Nicolas. Ela ficou em pé uma vez mais na brilhante piscina, com os braços cruzados sobre os seios e o coração pulsando muito rápido. A escuridão em Nicolas se elevou para encontrar o vampiro. Não tinha havido nada brilhante em Nicolas naquele momento. A mancha escura cresceu e se pulverizou, consumindo-o até que não podia separar o caçador do não-morto. Como se estivesse vivo, como se fosse uma entidade separada, a escuridão nele tinha saltado além, estendendo-se com anseio para a caça... Para matar. Não houvera vacilação, não por sua parte. Mesmo enquanto esse jovem menino brilhante que ele havia sido tinha abraçado à escuridão que se elevava perdendo-se nela, enquanto se apressava a encontrar o vampiro atacante.

Pressionou as pontas dos dedos contra a estranha marca de nascimento em seu corpo, o dragão que a advertia quando um vampiro estava perto. Antes, quando tinha encontrado pela primeira vez com Nicolas, o dragão esquentou e logo esfriou. Nicolas tinha provocado a advertência com a escuridão nele. Engoliu o nó em sua garganta. Seu coração pulsava agora tão fortemente que podia ver a ascensão e a queda de seus seios, sentia-se afogada. Recordando esse mesmo brilho de calor e frio e os sinais confusos que a tinham assustado tanto ou mais que uma queimadura constante. Seu pai freqüentemente tinha produzido a mesma estranha resposta, quando estava perto dele.

A pulsação troava em seus ouvidos, o coração batia tão forte que ela não podia ouvir a água gotejando pela parede. O que estava acontecendo? Seu estômago se revolveu, suas mãos, a garganta e o pescoço lhe ardiam dolorosamente. Nicolas parecia encantador, mas o que sabia realmente dele? Não tinha discutido com ela. Tinha sido inclusive cortês quando havia empurrado uma faca entre suas costelas, mas na verdade não sabia nada de nada a respeito dele.

O terror brotou. Tinha vivido com humanos, a maioria pessoas verdadeiramente agradáveis, singelas e amáveis. Não, eles não tinham compreendido à menina perdida e a tinham passado de família em família, continuamente em movimento, mas tinham cuidado de suas necessidades básicas e ninguém tinha tentado utilizá-la em seu próprio benefício. Quase tinha esquecido um mundo de enganos, traição, de matar ou ser matado.

Estendeu-se fora outra vez, no mais sutil dos toques, sua mente procurando a de Nicolas. Imediatamente foi consumida pela fome, pela necessidade de sangue. Ouviu o fluxo a vazante da vida surgindo e bombeando enquanto um granjeiro arrastava um bezerro fora do corpo de uma vaca que estava parindo. Ouviu o batimento do coração, constante e forte, farejou a boa saúde, um grande físico masculino secando com uma toalha ao bezerro enquanto mugia para a vaca. Arrastou—se mais para perto, farejando o sangue do nascimento. Isso somente aumentou a necessidade que acreditava dentro dela, à fome que rabiava agora, tomando o controle, guiando-a. Passou a língua pelos dentes e sentiu os incisivos se alongar e afiar. O batimento de seu coração aumentou, começou a tomar o ritmo do crédulo granjeiro agachado junto à vaca.

Unida a Nicolas, ela sentia o tranqüilo e silencioso deslizamento, espreitando à presa. Um cão tentou ladrar, mas Nicolas o deteve com um gesto rápido e dominante da mão. A adrenalina corria por ela. Sentia o movimento nas veias, uma culminação como nenhuma outra. O sangue trovejava em seu pulso, rugia em seus ouvidos. Então se lançou sobre ele, o momento de reconhecimento, o ritmo do coração que pulava no peito, a mente que se rebela, só para ser tomada completamente por Nicolas... Por ela.

Poder último. Vida ou morte. Os dentes cravaram profundamente e o rico sabor ardeu nela, enchendo órgãos e tecidos de força e energia. Lara ofegou e afastou sua mente, tropeçando pela água até as pedras onde poderia se estabilizar.

 A necessidade e a fome se verteram por seu corpo, insuportáveis em sua intensidade. Lutou contra isso, mas sabia, que uma vez que a necessidade estava ali, só o sangue a satisfaria. Havia despertado nela a única coisa que sempre tinha tentado suprimir desesperadamente.

 Nicolas estava tomando sangue de um ser humano. Utilizando essa pessoa. Pior ainda, controlava a mente de sua vítima e o tinha feito sem utilizar feitiços ou poções. Era poderoso.

Sua mão doeu e queimou. Ela olhou para baixo e viu a carne aberta... Mastigada... Como se dentes a houvessem rasgado. O sangue salpicava pelos ferimentos abertos e pequenas gotas caíram no charco. O pescoço doía onde Nicolas tinha cravado os dentes e ela cobriu o lugar com a palma da mão. Manchou—se de sangue. A ilusão era tão forte que ela a olhou fixamente e com horror antes de se dar conta de que era ilusão.

Lentamente, Lara olhou ao redor, para a caverna. Como tinha permitido que isto acontecesse? Por mais cálida e formosa, uma prisão era ainda uma prisão. Um predador era ainda um predador. Tinha sido hipnotizada por ele. Tinha reconhecido o perigo nele desde o começo, mas de algum modo ele tinha feito com que essas preocupações desaparecessem de sua mente. Ele estava controlando—a? Manipulando sua mente?

Tremendo, Lara saiu cambaleando do charco, procurando algo para se secar. Onde havia planejado para ela dormir? No chão com ele? Na cama com ele? Com ele? Por que sequer tinha considerado isso? Não era estúpida, mas o seguira até ali sem duvidar ou protestar. Que mulher iria sozinha com um estranho, de noite, sem que ninguém soubesse onde estava? Nicolas Da Cruz exsudava sexo por cada poro da pele. Sua forma de andar, o ondulação dos ombros, os olhos escuros que ardiam tão intensamente... Ele era um homem sexual e ela estava segura de que ele não esperava dormir em uma cama com uma mulher sem possuir seu corpo.

Lara colocou sua roupa, fazendo caso omisso da forma em que o tecido lhe grudava à pele ainda úmida. O pânico se elevou e se voltou decidida a encontrar a saída. Ele lhe dera instruções… Seriam reais?

— Não seja insensata, Lara. O sol se eleva. Estarei logo aí e então poderemos discutir isto tranqüilamente. Você está sob um ataque de pânico e não há razão para isso.

A voz tranqüila lhe crispava os nervos. Era condescendente e arrogante. Ela tinha toda a razão para se assustar. Qualquer mulher atenta teria feito muito antes. Utilizando as direções de sua mente, saiu da câmara brilhante para um longo corredor.

— Eu a proíbo de se arriscar. Espere-me.

Desta vez a fina camada de civilização se gretou e ela pôde sentir o fio em sua voz. O estômago lhe revolveu. Lara ofegou e empurrou a si mesma, aumentando sua velocidade, utilizando sua visão noturna nos escuros limites da caverna. Não podia pensar na profundidade que estava nem no labirinto de túneis que corriam quilômetros sob a montanha. Seu único objetivo tinha que ser sair tão rapidamente como pudesse. Rodeou uma esquina e o corredor se dividiu em dois atalhos.

— O ar é pesado na caverna, isso torna difícil respirar, correr rapidamente. Cada passo é mais duro. Você está afundando na areia, suas pernas lhe pesam. Está muito cansada, Lara. Por que não se senta e descansa? Sua mente está confusa e as direções se desvanecem em sua memória.

A voz era baixa e insidiosa, lhe enchendo a mente, a compulsão pulverizando-se por seu corpo. Tropeçou confusa e parou, errando o caminho.

— Chega a ser difícil ver na escuridão. Deve permanecer quieta.

— Basta!

—Basta! — Repetiu Lara, gritando em voz alta.

Sua voz ressoou pela caverna, perturbando os morcegos. As criaturas levantaram vôo, milhares deles, enchendo os espaços ao redor dela. Era difícil respirar e impossível se mover.

Deteve-se ali, tremendo e esperando, prisioneira da voz hipnotizadora. Sentiu a onda de poder na câmara que anunciava sua chegada e os morcegos reatando sua atuação acrobática e aérea.

Lara se forçou para respirar. Tinha que resistir. Podia ver na escuridão. Não temia os morcegos. A terra pressionando sobre ela não a incomodava, inclusive ali encolhida na caverna, temendo se mover, seu corpo se sentia torpe, amolecido.

— Sou maga. Sou Caçadora de Dragões. Terá que fazer algo mais que me enganar com sua voz Cárpato. — A fúria ardia nela, torrando os grilhões da compulsão até reduzi-los a cinzas.

— Posso fazer bem mais. Não desperte o demônio em mim, Lara. O amanhecer está rompendo. O sol se eleva.

Ele estava perto. Pressentia-o mais perto. Inclinando o queixo, chamou à energia, elevou os braços, esvaziando sua mente, aceitando o poder que lhe fez arrepiar o cabelo e um débil resplendor banhou a caverna com uma luz suave, agitando mais os morcegos.

— Os que voam e são da noite, me protejam agora com o vôo alado. Reúni-vos, sede um, remova com o sol nascente.

Os morcegos giraram rápidos e apertadamente. A bola crescia mais enquanto eles obedeciam sua ordem, elevando-se e correndo para um oco na caverna escura. Lara golpeou duramente Nicolas, pressentindo sua debilidade ante o sol nascente, vingando-se com outro feitiço.

— Voz sussurrante dentro de minha mente, não a temo e nem a sua telepatia. Voz que seduz e prende, devolvo a intenção a seu dono. Deixa que as palavras detenham e afastem aquele que dificultaria ou impediria meu caminho.

No momento em que as últimas palavras abandonaram sua mente, ela já estava em movimento, correndo rápido, levantando barreiras e escudos em sua mente, para evitar Nicolas. Ele derrubou cada parede facilmente, destroçando suas defesas tão rapidamente como ela as construía. Cada vez que ele penetrava em sua mente, enviava compulsões para que afrouxasse o passo, para dirigi-la pelo caminho errado, confundindo-a para que pensasse que estava desorientada e ela respondesse com mais feitiços para contradizer cada coisa que ele fazia. Lutou contra ele a cada passo do caminho consciente de seu enorme poder, de como se ele se refreava quando poderia ter esmagado sua resistência. Em vez de lhe dar confiança, sua restrição só aumentava seus temores. O que desejava ele? Seu sangue de Caçadora de Dragões? Sabia que corria forte por suas veias, rico e cheio de energia, poder e imortalidade. Seu pai lhe havia dito muitas vezes o quão valioso e extraordinária era à força de seu sangue. Seu bisavô a tinha espreitado repetidas vezes, com seu corpo grotesco e cheio de vermes, a carne podre desprendendo-se enquanto a seguia num esforço de reclamar seu sangue para ele mesmo.

Agora, ali na caverna, sentia o terror florescer enquanto corria, seu coração lhe pulsava muito forte e ela podia cheirar o forte cheiro da carne em decomposição. Sentiu nauseias. Escapou-lhe um soluço enquanto lançava um olhar sobre o ombro para ver se o velho a seguia outra vez.

As sombras se moveram. Uma mão se estendeu, mais e mais perto. Sentia o fôlego quente na pele, no pescoço. As marcas sobre seu pescoço pulsavam. Estava criando Nicolas uma ilusão, retorcendo as lembranças? Era ele o bastante desprezível para fazer tal coisa? Ou estava Xavier realmente ali, perseguindo—a pelas passagens subterrâneas?

— Ele não está aqui. Sua mente está te enganando porque você se permite assustar. Eu nunca usaria suas lembranças contra você. Ele não está aqui.

Nicolas não lhe permitiria estar tão aterrorizada, recordando os monstros que a perseguiam em cavernas de gelo.

Não sabia o que era verdade ou o não e nem lhe importava mais. Tinha que ser livre. Lara redobrou seus esforços. Apostava no feito de que poderia sair ao sol da manhã ,com pequenas repercussões. Uma queimadura solar. Umas poucas bolhas. Os olhos queimariam e a incomodariam durante alguns dias, mas certamente um Cárpato tão velho, com uma alma tão escura como Nicolas, teria que procurar refúgio antes que ela. Tinha que chegar à entrada e achar o caminho até a aldeia.

Podia ver adiante, a luz débil. O coração deu um salto no peito. Ia conseguir. Lara respirou profundamente e se obrigou a ir mais rápido. Seus pulmões ardiam. A garganta lhe doía e sentia as pernas moles. Sentiu uma pontada no flanco. Apertou a mão ali e forçou seu corpo a seguir. A entrada era larga e arredondada, em sua maior parte formada de pedra. A luz se espalhava alguns poucos centímetros pelo corredor, iluminando o túnel estreito.

Lara deu um passo no charco de luz, a um passo da abertura. Uma sombra caiu sobre ela. Um homem alto e escuro com ombros largos encheu a entrada, bloqueando sua saída. Nicolas se deteve. Seu corpo estava imóvel, os braços cruzados sobre o peito, com a mandíbula apertada e a boca cruel, os olhos tão negros como a noite, ardendo com algum fogo interior que ameaçava consumi-la.

Lara parou bruscamente a poucos centímetros dele, com um rugido nos ouvidos e um aperto em volta do coração. A culpa penetrava em sua mente, mas ela se negou a aceitá-la.

—Quero sair. Saia de meu caminho.

—Aonde iria quando o sol já saiu? — A pergunta foi emitida com voz temperada, embora carregasse o aguilhão de uma chicotada.

Ele estava furioso. Podia sentir a ira irradiando dele, embora sua expressão permanecesse em branco e sua voz calma.

Ela elevou o queixo.

—Tenho um quarto na estalagem.

—Que está ocupado atualmente. Seria perigoso ir lá e você é muito consciente disso. Além disso, a estalagem está a uma grande distancia e você se queimaria a luz do sol. Não pode mudar sem mim e arriscar sua vida descendo esta montanha. É ridículo quando não há razão para isso.

—Quero sair deste lugar.

—Sairemos juntos pela tarde, quando for seguro fazêlo. Por ora, trouxe comida e bebida para você.

—Eu disse que quero sair.

A mão de Lara revoou até pescoço, a palma protegeu as marcas sobre a pulsação. Podia sentir sua boca ali, o hálito morno... Não... Quente, o toque dos lábios, suave e sensual contra a pele.

—Obviamente não pensa com claridade, Lara. – Disse, Nicolas. — É perigoso que saia. Não posso permitir que se coloque em perigo.

—Não é sua escolha, — disse bruscamente Lara. Odiava que ele soasse racional enquanto ela começava a parecer histérica. Isto era uma loucura, mas ele estava ali, real e sólido, evitando que ela saísse da caverna, justo como de menina. Lutou contra o pânico, decidida a tentar ser razoável em uma situação irracional.

—Não é só minha escolha e meu direito, mas meu dever como seu companheiro.

Ela tocou sua mente, mais porque não pôde evitar, do que porque quisesse. Como antes, ele estava inteiramente aberto a ela, permitindo—a ver tanto o predador como o homem. Ele estava zangado por seu desafio, seguro de ter razão e pouco acostumado que alguém questionasse sua autoridade. Era um macho dominante, com séculos sobre a terra. Tambem era um caçador extremamente hábil e era um insulto para seu orgulho que sua companheira questionasse não só sua capacidade de protegê—la e cuidá—la, mas que se preocupasse ele que poderia fazer algum dano a ela, de algum jeito.

Não gostava que ninguém desafiasse suas ordens. Permitia somente a sua mulher e não tinha intenção de deixá-la abandonar a caverna enquanto ele acreditasse ser perigoso. Por mais preocupado que estivesse, ela estava ligeiramente histérica e se mostrava completamente irracional.

Lara esmagou o pânico e respirou fundo. Em algum lugar de sua mente podia ver que ele estava tentando controlá-la. Havia algum alívio nisso, embora estivesse bastante segura, a menos que pudesse convencê—lo do contrário, que não tinha intenção de deixá-la sair.

—Acredito que não compreendemos um ao outro. Avalio que você tente cuidar de mim, mas estive fazendo isso completamente só durante anos. Não necessito e nem desejo que me diga o que é bom para mim.

—Obviamente  não é o caso ou não estaríamos aqui na entrada de uma caverna em pleno dia. — Ele se deslizou para frente, um, dois passos e virou se ligeiramente, levantando as mãos.

Lara sentiu a onda de poder, viu-o levantar os braços e soube que ele estava selando e colocando salvaguardas na caverna, o que significava que ninguém entraria... Ou sairia dela. O pânico a golpeou duramente e ela saltou para a luz que se espalhava pela caverna. Captou um olhar no rosto belamente esculpido e muito masculino. A luz evidenciava os detalhes e a ira que ardia nos escuros olhos.

O alarme disparou dentro dela, mas não importava. Nada importava, exceto sair da caverna antes que ele selasse a entrada. Correu rápido, utilizando uma explosão de velocidade. Velocidade essa que sequer sabia que podia alcançar. O desespero a fez ultrapassar Nicolas. Ele estendeu a mão tão rapidamente que ela não pôde vê-lo se mover e segurou-lhe a mão e trouxe seu corpo contra o duro corpo dele.

Lara lutou instintivamente, tentando se libertar de sua garra, mas ele era indiscutivelmente mais forte e seu corpo duro como um carvalho. A luz se desvaneceu enquanto a entrada da caverna se fechava, deixando-os na escuridão. Com a luz, o ar que os rodeava pareceu diminuir, então ela renovou seus esforços, sacudindo-se contra seu peito dele e golpeando-o até que se sentiu machucada.

Nicolas fortaleceu seu aperto sobre Lara, tomando cuidado em não feri-la, mas ela estava como louca, lutando com os punhos e procurando usar magia. Ele podia sentir a energia pulsando, tentando escapar, igual a ela. Envolveu-a com calma, abraçando-a e enchendo-a de tranqüilidade.

—Lara, basta! — Vaiou ele, brandamente. – Vai se ferir.

Ela queria feri-lo. Mover-lhe. Fazer-lhe entender o que estava fazendo. A energia crepitou no ar. Seu cabelo resplandeceu com mechas de vermelho brilhante, rangendo e crepitando com a eletricidade. O chão se sacudiu e ondulou sob seus pés. A montanha gemeu, retumbou. O pó caiu das paredes. Várias pedras pequenas caíram e rolaram.

Nicolas envolveu o braço ao redor de sua cabeça para protegê—la, defendendo o corpo dela com o seu.

—Respire comigo.

Sua voz era tranqüila. Lara odiava que ele estivesse tão tranqüilo enquanto ela estava cheia de medo. Pânico. Sentiu seu hálito quente contra a face, quando ele inclinou a cabeça para ela.

—Temos que sair daqui antes que a montanha caia sobre nós. — Disse Lara, sem compreender por que ele não sentia o mesmo pânico, quando por toda parte a montanha rangia e gemia e os escombros caíam. — Isto é um terremoto.

—Não é natural. Você está causando-o. – ele falou. – Olhe para mim, Lara.

Ela não pôde evitar obedecer. Levantou o rosto e seus olhares se encontraram, os dela retorcendo—se... Mas logo se centraram nos dele.

—Seus olhos mudaram que cor. Você está gerando uma corrente elétrica tremenda. Até mesmo seu cabelo está com mechas avermelhadas. Todos os sinais do poder. Tem que se acalmar.

—Abra a entrada. — Porque sou capaz de fazer com que a montanha inteira caia sobre nós e o preferiria, antes que ficar prisioneira.

Ele sacudiu a cabeça.

—Não me force a protegê-la de si mesma. Sou capaz de fazer tudo para evitar qualquer dano.

Parecia inumano como soava. Não havia rendição nele... Nenhuma compaixão. Nem em seus olhos, nem em seu rosto e certamente não em sua mente. Forçaria sua conformidade sem contemplações. Lara tinha jurado que jamais se sentiria impotente e vulnerável, como quando era uma criança ainda pequena, mas não tinha como comparar sua força física contra a de Nicolas e nem desafiá-lo.

—Você crê realmente que tem direito a me dar ordens?

Ele meneou a cabeça.

—Não. Mas tenho o direito de te proteger. Não estou te ameaçando. Você é a única que nos está nos colocando em perigo aqui. É meu dever te proteger. Seus temores são infundados. Você olhou minha mente e não encontrou nada que pudesse te alarmar…

Ela deixou escapar um ruído zombeteiro e tentou uma vez mais se soltar. Ele reteve a posse de seus braços, sustentando seu corpo perto para evitar que alguma pedra a acertasse.

—Encontrei muitas causas de alarme. Você é tão escuro como um vampiro.

Lara esperava que negasse, desejava que negasse, mas ele simplesmente assentiu com a cabeça, seu olhar ainda sustentando-a cativa.

—Então é isso... Todos os homens Cárpatos que caçam chegam a ser finalmente tão escuros como um vampiro. Como poderíamos não ser, quando tomamos a vida de amigos e familiares? Quando nós somos juízes, jurados e verdugo. Você achou que não haveria um preço a pagar pelo que fazemos? Sempre há um preço, Lara,e nós o aceitamos quando assumimos a carga.

Ela deixou escapar o fôlego lentamente, obrigando-se a controlar a mente.

—Por favor me solte. — Respirando profundamente, conseguiu reter o poder que se desprendia dela, contendo as ondas que causavam o alvoroço na caverna.

—Posso te levar de volta à câmara, bem mais rápido.

—Preferiria andar. — Ela afastou-se para atrás, tentando colocar um pequeno espaço entre ela e o calor do corpo do Nicolas. Ele era muito sólido, muito grande e muito masculino, em sua maior parte muito poderoso, alagando—a com sua completa confiança.

Ele soltou-a no momento em que a terra sob eles e as paredes que os rodeavam deixaram de se sacudir e a última pedra caiu.

Lara respirou fundo outra vez lego e olhou para o escuro corredor.

—Desejaria que pudesse compreender que não acredito que realmente possa permanecer aqui todo o dia. — Foi difícil pronunciar as palavras, tentar raciocinar, argumentar.

—Dou-me conta de que tem pequenos flashes de lembranças, mas te ajudarei a passar por isso.

Sua arrogância a fez rilhar os dentes. Como se ele pudesse resolver seus problemas de pouca importância, quando não ela podia fazê-lo por si mesmo. Lara passou por ele e começou a andar pelo estreito corredor. Todas as velas se acenderam no alto, sobre sua cabeça, lançando sombras sobre as paredes do túnel. A luz não dissipou o temor de sua mente. Era uma prisioneira, olhasse como o olhasse e havia se prometido que nunca voltaria a acontecer... E não aconteceria.

O corredor estreito se expandiu mostrando um véu de estalactites finas, escuras adagas de cor marrom e dourado, afiadas em letais pontas. As lanças pendentes brilhavam com tons terrosos, tão largas e grossas que Lara pensou que elas fechavam o corredor, tornando—o impenetrável desse lado, mas podia ver mais corredores, num labirinto que se introduzia em diferentes direções sob a montanha. Ele poderia ter feito que se perdesse, mas houvera verdade em suas palavras, proporcionando a ela direções para sair, embora não tivesse intenção de deixá-la ir.

—Na história sobre companheiros que minhas tias me contaram, o casal parecia estar apaixonado. Realmente não vejo isso acontecendo entre nós. — Disse Lara, com as costas e os ombros rígidos. – Não é?

—É obvio. —Havia absoluta confiança em seu tom.

Nicolas caminhava facilmente a um passo atrás dela, com seu corpo tão perto que ela podia sentir seu calor. Deu-lhe um pequeno olhar. O hálito dele estava em sua orelha e ele apoiava uma mão em suas costas. Tentou não sentir o toque entre eles, essa química física que persistia sem importar nada mais. Possivelmente se sentia atraída pelo perigo nele que tão arduamente objetava, mas de qualquer maneira, quando ele estava perto dela, era difícil pensar com claridade.

—Foi só uma história que minhas tias me contaram. Talvez nem seja verdadeira.

—É verdadeira. Não poderia nos ter unido se as palavras não estivessem impressas em mim antes de meu nascimento. Casamo-nos com nossa mulher imediatamente, para proteger à espécie da extinção.

—Quão encantador é para a mulher. — O sarcasmo gotejava de sua voz. Olhando sobre o ombro, Lara captou a mais tênue dos sorrisos nele. Não alcançou seus olhos, mas a enfureceu. — Não acredita que esteja errado que possa pronunciar umas poucas palavras e mudar tanto a vida de uma mulher, deseje ela ou não?

—Não. Por que uma mulher iria querer estar com um homem como eu? É a única forma de proteger a nossa espécie da extinção segura. Se não a tivesse presa a mim, não teria vindo tão facilmente comigo.

—Eu disse a você que não seria uma prisioneira. – Ela andou mais rápido.

Nicolas manteve seu passo facilmente.

—E não é.

Ela sacudiu a cabeça.

—Nem sequer falamos o mesmo idioma.

Era impossível não respirá-lo. Sentir seu cheiro. Ele estava muito perto. Andava tão silenciosamente que ela seguia virando a cabeça para ver se ele estava ali. Real e sólido. Amedrontador. Fascinante. Masculino. Absolutamente Macho. Era quase muito bonito para ser real. Mas os olhos o delatavam. Famintos e ardilosos. Inteligente. Um predador. Fazia com que seu pulso se acelerasse e disparasse cada alarma despertasse. Tornava-a consciente dele como homem e a ela mesma como mulher. E a fazia perder a concentração. Não tinha nem idéia de como lidar com ele, mas sabia absolutamente que não lhe permitiria dirigi-la como a uma marionete, como quisera fazer seu pai.

A mão dele acariciou a parte baixa de suas costas e seus dedos se arrastaram por sua coluna.

—Acredito que nos daremos bem, Lara. Dê-nos tempo.

 

A câmara era ainda mais bonita do que Lara recordava. Um deslumbrante desdobramento de pedras e cristais de cores diversos. A água faiscava enquanto vertia da parede para a piscina natural e as gotas eram como milhares de diamantes caindo do céu, mas o calor e a beleza da caverna já não a faziam sentir—se a salvo e confortável. Uma jaula segue sendo uma jaula sem importar seu aspecto. Preferia as cavernas de geleiras azuis, frias e desoladas, porque nelas sabia exatamente o que esperar.

Umedeceu os lábios e estabilizou a si mesmo. Sim, tinha forte sangue Cárpato correndo por suas veias, e se queimava terrivelmente com o sol... Acreditava que era simplesmente questão de sorte com o DNA... Mas não era completamente Cárpato como Nicolas. Não era um caçador que havia matado durante séculos. Não estava perto de se converter em vampiro como ele. E isso queria dizer que simplesmente tinha que calcular seu momento e esperar. Não a preocupavam as salvaguardas da entrada. Era uma maga com talento e tinha observado cuidadosamente como ele havia tecido os fios das salvaguardas.

Procurou algum assunto seguro para conversar. Algo que pudesse evitar que ele tocasse sua mente e descobrisse seu plano.

—Você viu o príncipe? Ele lhe disse como estava Terry?

—Falei com Gregori, nosso curador, e ele me disse que seu amigo tinha boas probabilidades de sobreviver. Não o diria se não fosse certo.

—Gregori tem menos aspecto de curador que alguém que pode imaginar.

—Acredito que sim. Obviamente ele havia visto os parasitas antes.

Tinha compartilhado essa lembrança com ele, não tinha outra opção que admitir. Assentiu com a cabeça.

—Xavier fazia experiências com freqüência tentando encontrar formas de fortalecer sua capacidade de controlar os outros a sua vontade. – Lara não pôde evitar o arrepio que percorreu seu corpo. — Suas criaturas eram vorazes e com freqüências fugiam de suas ordens. Comiam carne humana.

—E sua mãe? — Perguntou ele brandamente, com voz gentil.

Lara engoliu o repentino nó que surgiu em sua garganta. Não pensava em sua mãe há anos. Nunca tinha sido capaz de evocar uma imagem dela em sua mente, sequer uma pequena lembrança. Nem a cor de seu cabelo, sua fragrância. Não tinha conhecido sua mãe até que os parasitas e os olhos prateados de Gregori tinham disparado a lembrança longamente esquecida. – Sim, mas não a recordara até agora.

— Ela era uma maga. — Declarou ele.

Lara franziu a testa. Agora que ele dizia em voz alta, se recordou de suas tias se referindo a sua mãe como maga. Por que não tinha recordado isso antes? Por que não tinha se lembrado que sua mãe tinha o cabelo encaracolado? Ela tocou o próprio cabelo. Havia nascido com o cabelo branco, embora a cor vermelha se desenvolvera muito em breve. Pequenos cachos haviam coberto sua cabeça, espessos e elásticos, impossíveis de controlar. O cabelo de sua mãe tinha sido assim também.

—Sim. Era. Lembro—me vagamente puxar de seus cachos.

A lembrança de sua mãe deitada no solo de gelo e os parasitas atacando seu corpo sem vida a fazia adoecer. Pressionou uma mão contra a boca, notando que estava tremendo e se aproximou do cálido charco. O som da cascata a consolou, permitindo respirar pausada e profundamente e poder assim mudar de assunto. Não queria recordar nada mais.

— Passou fora muito tempo. O que fez esta noite? — Quando não estava controlando a mente de pessoas e roubando seu sangue sem seu consentimento. O pensamento chegou inesperado e ela se manteve de costas, para que ele não pudesse ler sua expressão. Não confiava em nada em si mesma. Nicolas estava acostumado a ler seus oponentes e agora mesmo, soubesse ele ou não, estavam imersos numa batalha pela vida.

—Tivemos um conselho de guerreiros esta noite. Os vampiros se aliaram e estão tentando destruir nossa espécie. Os humanos teriam poucas possibilidades contra eles. Somente fazê-los acreditar que os vampiros existem seria quase impossível.

Seu coração saltou pela surpresa e ela se virou para enfrentá—lo, apesar de sua resolução.

—Os vampiros são muito vaidosos e egoístas para se aliar a alguém. Somente caçam em duplas quando um se converteu na marionete de outro. Sei que isso é certo. Minhas tias me disseram exatamente o que tinha que fazer para matá-los se cruzasse com eles, e me disseram que os vampiros desprezam todo mundo, inclusive uns aos outros. Por isso os caçadores Cárpatos sempre têm vantagem quando lutam contra eles.

—Isso sempre foi dado como certo, ao longo de séculos. – Concordou, Nicolas. — Mas já não é assim. Alguns encontraram a forma de se aliar e estamos imersos em uma longa e amarga batalha pela sobrevivência.

Lara não questionou a razão pela qual o olhar escuro se mantinha sobre a água que lambia gentilmente as bordas do charco, contra as rochas lisas.

—Xavier? Acreditam que continua vivo? Era muito velho há vinte anos, mas era bom conseguindo o sangue Cárpato necessário para prolongar sua vida.

—Acreditam que ainda está vivo e formou uma aliança com cinco irmãos, Cárpatos poderosos que acreditam que se converteram em vampiros.

—Se Xavier ainda está vivo, então minhas tias poderiam estar também. Tenho que entrar nessa caverna.

A cabeça dele se elevou rápido e os olhos negros queimaram sobre rosto de Lara.

—Essa caverna é perigosa. Entrar lá é uma estupidez. Se suas tias estivessem vivas, saberíamos. Elas têm a capacidade de chamar nossa gente pedindo ajuda.

—Se isso fosse certo, — exclamou Lara, o sarcasmo gotejava em sua voz, — então o teriam feito quando eu era menina. Ele as mantém fracas e doentes.

—Os que entraram na caverna viram os corpos de dois dragões encapsulados em gelo... Mortos.

O estômago de Lara deu um salto e ela pressionou uma mão contra o abdômen.

—Xavier as mantinha encerradas no gelo. Congelava seu fornecimento de sangue. Muito ardiloso, não acha? Sabe o tipo de dor que sente uma pessoa quando seu corpo se recupera depois de ser congelado?

Nicolas suavizou sua voz.

—Lara, eu irei à caverna de gelo e comprovarei para você, mas será melhor que você fique longe desse lugar. Xavier deixou amparos... Amparos perigosos, incluindo guerreiros das sombras. Seria um suicídio que você entrasse ali.

Lara apertou os lábios firmemente. Do que servia discutir com ele quando planejava escapar de, todo modo? É obvio que iria. Como poderia não ir? Suas tias nunca teriam deixado de procurá-la, nem deixariam de preveni-la do perigo ou evitasse que fosse ao único lugar onde encontraria os corpos ou pistas.

Olhou ao redor procurando algo... Alguma coisa a dizer. Podia ver o canto da cama na câmara do lado. Uma enorme e antiga cama, com a cabeceira esculpida... E quatro colunas. Não queria entrar na outra câmara ou reconhecer que estava ali. Já podia sentir a tensão aumentando na caverna.

Olhando-o sob a tela dos longos cílios, moveu-se um pouco mais longe de seu alcance. Ele parecia encher o espaço da câmara, embora esta fosse o bastante grande e de teto alto. Resultava impossível não sentir a tensão sexual. Ele era muito bonito e muito sensual, a combinação da forma em que se movia... Passando da mais absoluta imobilidade à ação... Era sexy. O poder era como um fluxo em seu corpo e estava esculpido em cada linha de sua face. Os olhos ameaçadores podiam derreter Lara e quando espalhava a intensidade de seu olhar negro sobre ela, quando se concentrava completamente nela, seu corpo cessava de lhe pertencer e se estendia para ele.

Havia tentado evitá-lo pensando nas conseqüências de que Nicolas a estivesse reclamando como sua companheira. Talvez uma parte secreta dela não acreditasse realmente, que por pronunciar umas poucas palavras ele pudesse mudar sua vida para sempre, mas sentia a conexão... E sexualmente era simplesmente assustador. Pensar em não estar nem sequer meio interessada nos homens com os quais possuía amizade e conhecia, a ter seu corpo ardendo fora de controle por um homem que sequer gostava era horrível.

Quando menina e indefesa tinha jurado que nunca voltaria estaria. Tinha passado anos de sua vida controlando tudo o que a rodeava para não voltar a sentir-se indefesa e vulnerável. Olhou ao redor, para as paredes da caverna. Ali estava vinte anos depois e de volta aonde havia começado, só que esta vez, seu próprio corpo a traía.

—Deixe de me temer, päläfertiil. Não vou pegar nada que você não queira me dar.

Às oscilantes luzes das velas, ele parecia um pouco lobo. Lara cruzou seus braços sobre os seios desejando que seu olhar não vagasse até o corpo duro e masculino e que ele não tivesse esse olhar de quem sabia de tudo, estampado na face. Ele era um Cárpato com sentidos aguçados e saberia que seu corpo estava excitado... Pior ainda, ele provavelmente cheirava seu medo.

Elevou o queixo. Se ele podia cheirar seu medo, então do que servia negar?

— Uniste nossas vidas sem meu consentimento. Isso me diz que você toma o que quer e na realidade não poderia importar menos o que eu quero ou como me sinto.

—É isso o que pensa?

Ela não pôde evitar que seu olhar fosse até a passagem que a conduziria à liberdade. Eram somente alguns poucos e preciosos passos, mas poderiam ter sido milhas.

—Não tem que soar tão protetor. De verdade acredita que as coisas são como na época em que nasceu? Quanto passou, quinhentos anos?

Ele despiu os dentes brancos no que poderia ter passado por um sorriso, mas era mas bem uma advertência.

— Você falhou por uns quantos séculos, mas entendi a questão. Temos direito a reclamar nossas companheiras. Se não lutar contra a inevitável transição será bem mais fácil e simples.

As sobrancelhas dela se arquearam.

—Verdade? Para quem? Devo ter alguns direitos nesta situação. Certamente posso falar com alguém que me aconselhe. O príncipe, talvez.

A tensão na caverna subiu um grau. A expressão dele não mudou, mas diminutas luzes vermelhas titilaram nas profundezas de seus olhos.

—Se quer saber alguma coisa é só me perguntar. Os companheiros não enganam uns aos outros.

—Diz que não sou sua prisioneira, embora o seja. Ensina—me o caminho de saída, mas depois se nega a me permitir tomá-lo.

Ele se moveu, passando da imobilidade a um ondear de músculos sob a fina camisa, como se um grande felino se estirasse e despisse suas garras. O fôlego abandonou os pulmões de Lara numa pequena e rápida rajada e ela realmente deu um passo atrás, embora ele permanecesse em seu lugar.

—O sol queimará sua pele. Não pode esperar que eu permita fazer mal a si mesma simplesmente por um temor infundado. Isso vai contra toda a minha natureza.

—Não acredito que entenda algo tão fundamental como a liberdade, Nicolas. — Disse Lara. — Você é grande e forte e tem um enorme poder. Quando alguém te disse o que tem que fazer? Não posso imaginar que muitos em sua vida lhe tenham dado ordens.

—Não é o mesmo. — Ele soltou um pequeno suspiro. — Nunca tinha feito isto antes e é algo que do qual não estou desfrutando.

—O "isto" é que alguém esteja em desacordo contigo?

—Discutir sem nenhuma razão. Não posso permitir que se queime somente para me desafiar. Que tipo de companheiro seria eu se deixasse? Você realmente gostaria de que fosse alguém que não se importassem com sua saúde e segurança?

— Você diz que os companheiros não mentem uns para os outros. De verdade se nega a me deixar sair porque se preocupa com que minha pele se queime ou a autêntica razão é que me atrevi a desafiar suas ordens?

Nicolas se moveu então num deslizamento tão fluídico que provocou que um arrepio de medo deslizasse por sua coluna vertebral. Parecia uma fera enjaulada, feroz e impaciente e absolutamente perigoso.

—Nego-me a responder semelhante pergunta. Deixo minha mente aberta a você, permitindo que olhe tudo, incluindo minha motivação. Não há nada mais a dizer sobre o assunto.

Lara respirou fundo, sentindo que a raiva dele fervia sob a superfície, mas sem se resignar a se desculpar, sequer a lhe tranqüilizar e deixar que pensasse que estava aceitando seu destino com graça.

Nicolas rompeu o primeiro silêncio.

—Você não se alimentou.

—Na verdade não tenho fome. Foi uma longa noite. – Ela fez uma careta logo que as palavras saíram de sua boca. Não queria que ele sugerisse que fossem para a cama.

—Sei que necessita de sangue, Lara. Há muito do Caçador de Dragões correndo em suas veias para que sobreviva sem ele. Se você tem problemas com a idéia de tomar sangue de um humano, o que faz? O sangue animal nunca é suficiente.

Lara encolheu os ombros.

— Existem bancos de sangue. Não tenho que controlar as pessoas como se fossem marionetes. – Ela lançou—lhe um olhar que dizia tudo e depois passeou pela câmara colocando um pouco de distancia entre eles.

Ele parecia estar em todas as partes e sua presença diminuía tudo. Quando parava de se mover, ficava totalmente quieto e então ela podia ver o caçador nele. Paciente e imóvel. Esperando. Ele poderia esperar para sempre. O pânico se elevou e ela o esmagou. Não, ele somente parecia invencível, todo—poderoso. Igual Razvan e Xavier haviam lhe parecido quando era menina. Havia escapado deles quando acreditava ser impossível e podia fugir deste homem também. Só tinha que seguir pensando.

Nicolas cruzou os braços sobre o peito.

—Sem sangue morremos. Não é melhor tomar o que necessitamos sem assustar à pessoa e depois lhe deixar sem que saiba o que fizemos, que atemorizar alguém quando é completamente desnecessário?

Nicolas observou a Lara se voltar. Seu cabelo estalou com a energia e seus olhos tornaram-se da cor de água-marinha.

—Senti o medo do granjeiro, um momento antes que tomasse o controle de sua mente. E antes, na rua, quando te vi pela primeira vez, não fez nenhum esforço para evitar que eu soubesse o que acontecia quando tomou meu sangue. – Ela deslizou a mão pelo cinto, para comprovar se a faca estava ainda ali, a única arma que teria se fosse atacada novamente. Senti-la lhe deixou tranqüila.

—Não pode ter ambas as coisas, Lara. Ou quer que controle suas mentes e evite que se assustem ou que me alimente sem mais, sem me preocupar de como se sentem .

—Por que não utiliza um banco de sangue?

Ele se sentou à beira da pedra, junto ao charco.

—Já sabe a resposta para isso. Esse sangue não funciona conosco. Podemos sobreviver, mas não prosperar. Luto contra vampiros. Preciso dispor de toda minha força todo o tempo. O que teria que fazer?

Lara passou as mãos pelo cabelo com agitação.

—Não sei. Alguma outra coisa. Algo mais respeitoso. Não deveria utilizar as pessoas assim, para se alimentar. Eles têm sentimentos. Não são marionetes sem discernimento.

—Você não é humana.

Ela elevou o queixo.

— Pode ser que tenha um pouco de sangue correndo por minhas veias, como a maioria dos humanos, é certo, mas sem dúvida penso como uma humana. Sei o que é ser prisioneira e saber que alguém pode rasgar sua carne e beber seu sangue. Eles não se preocupavam se estava assustada ou sentia repulsão. Não lhes importava o que eu pensava ou sentia, eu não lhes importava mais do que esse granjeiro importava a você.

Os olhos escuros vagaram sobre sua face, tomando nota de cada detalhe.

—Deveria nossa espécie entregar suas vidas porque não devemos tomar o sangue dos outros sem consentimento? Somos cuidadosos e respeitosos.

—Não me parece muito respeitoso. — Mentalmente ela chutou a si mesma. Se acreditasse que podia enganá-lo precisava usar um truque para distraí-lo, tipo conversa banal, voz melosa, inclusive injetar um pouco de humor, todas as ferramentas que havia achado de valor incalculável quando estava crescendo. Conversas frívolas.

As confrontações levavam às pessoas ao limite e os advertia que estavam lidando com alguém que tinha algum poder. E seu próprio corpo reagia a seu humor. As famílias com as quais tinha vivido, no fim acabavam sentindo-se incômodas com uma menina cujo cabelo e olhos mudavam de cor quando estava irritada. Não os culpava por pensar que uma filha do diabo. A maioria deles eram supersticiosos e francamente... Bem... Ela era uma filha do diabo ou o mais próximo que havia isso... Pelo menos era tataraneta do diabo.

Nicolas estendeu a mão. Deslizou a palma ao longo da dela... Pele com pele. Seu estômago se contraiu. Os dedos masculinos se enredaram com os dela e o coração de Lara começou a bater fora de controle. Respirou fundo e o fitou. Instantaneamente se sentiu presa... Cativada... Pela intensidade de seu olhar. Ele girou sua mão e a trouxe para o peito.

— Vivi durante séculos, Lara. Nasci com a escuridão espreitando em meu interior e luto contra ela a cada momento de minha vida, com nada mais que minha honra. Não vou me desculpar e só quero que o entenda. Esta noite eu estava muito perto e você me salvou. Estamos unidos, mas o ritual não se completou. Pode ser que eu tenha sido rude e descuidado com o granjeiro, mas se não o acalmei antes que fosse consciente do que acontecia, não foi intencionalmente.

Ela umedeceu os lábios secos. Em seu intimo, onde existia sua prudência, ouviu-se gritar: "Não... Não! Cale-se! Não se comprometa". Mas era muito tarde, as palavras já estavam saindo de seus lábios.

— Existia pressa em você quando o pegou, senti vertendo em você. É viciado nele. É maravilhoso sentir-se o todo-poderoso sobre alguém, esse momento em que sustenta suas vidas em suas mãos e escolhe por eles. – Ela ergueu o queixo para ele, puxando sua mão da dele. — Talvez seja isso que evitou que você se convertesse todos estes anos e não sua honra.

Nicolas retrocedeu, a fúria o atravessava. Sua mente tocou a dela e se retirou, o horror o tomou enquanto retrocedia alguns passos mais, do alcance de um braço, quando desejava segurá—la e sacudi—la. Como ela se atrevia a descartar seus séculos de serviço, sua luta contra a escuridão que se elevava como um monstro a cada dia de sua vida? Pior ainda, que tipo de companheira deixaria deliberadamente seu homem vulnerável, completamente impotente, por convicções egoístas que não eram nem lógicas e nem razoáveis? Podia ver seu plano claro como o dia... Ela estava esperando que o sono de sua gente se abatesse sobre ele e partiria lhe deixando só e sem salvaguardas. Não havia sentido fúria há séculos, agora esta fluía como uma negra parede de raiva. Ninguém questionava sua autoridade e nunca haviam questionado sua integridade. Ela tinha feito ambas as coisas em questão de alguns segundos.

Seus olhos negros brilharam ardentemente e o ar em seus pulmões abandonou em um longo e lento vaio.

—Você pensa em me deixar quando sucumbir ao sono de minha gente, não é? Faria isso? Deixar-me aqui, desprotegido e sem salvaguardas, sabendo que eu não poderia fazer nada absolutamente, se fosse encontrado? Você sabe o que faria qualquer pessoa que encontrasse meu corpo e ainda assim me trairia de semelhante forma.

As ondas de fúria que surgiam dele a afligiram, fazendo-a afastar-se cambaleante. Ele parecia um lobo em cada centímetro, com os dentes brancos nus, a boca traçada em linhas cruéis. Não havia nele piedade para seus inimigos e no momento em que tinha visto que ela tinha intenção de lhe colocar em perigo, convertera-se em sua inimiga.

Um grito se elevou dentro de si, mas ela o conteve, virou sobre o corpo e fugiu... Para onde, não sabia. Somente sabia que se ficasse, o embate completo de seu temperamento cairia sobre ela e ele parecia ser capaz de matá-la.

Ele alcançou-a com rapidez, como um leão derrubando uma presa fácil, puxando-a até detê-la e fazendo-a se voltar para que lhe enfrentasse. Ela elevou o braço livre para proteger-se de golpes que nunca chegaram. Ele segurou seus braços elevados e lhe deu uma forte sacudida.

—Eu não bato em mulheres, embora se alguma necessita, essa é você.

Mantendo-a presa, ele arrastou—a através da caverna até a câmara onde a cama se erguia tão proeminente. O som do coração de Lara trovejava nos ouvidos dos dois. Ele lançou—a facilmente sobre a colcha, para depois passar a mão pelo cabelo espesso.

—Não me toque. — Lara se arrastou até a parte mais afastada da cabeceira, longe dele.

Nicolas se moveu rápido, um borrão de velocidade, erguendo—se sobre ela, mostrando que ela não podia escapar.

—Acha que não podia fazer com que me desejasse? É minha companheira. Seu corpo responde ao meu sem importar o que estiver dizendo sua ridícula boca. — O ardor de seu olhar se converteu em especulação. — Quer medir seu poder contra o meu? Poderia fazer meu seu corpo facilmente e você me desejaria ardentemente noite e dia. Talvez isso simplificasse nossas vidas.

Lara pôde sentir a instantânea reação em seu corpo, cada terminação nervosa se estendia para ele. Ficou horrorizada. Seu corpo inteiro estava ardendo somente pela intensidade de seu olhar e o baixo e sedutor tom de voz que ele utilizava, como se já estivesse roçando sua pele nua com a maciez de sua mão e as pontas de seus dedos. Não lhe cabia dúvida de que ele poderia escravizá—la sexualmente e que não seria mais que uma marionete viva com este homem. Ele era igualmente cruel, o mesmo monstro, só que com um envoltório diferente.

A sensação de sua faca era tranqüilizadora contra o quadril. Se não para ele, então para si mesma. Procurou um modo de desarmá-lo, de dissipar a tensão entre eles. Seu plano ainda era bom, se pudesse pelo menos mantê-lo tranqüilo uma hora ou algo assim. O sol já estava bastante alto. Ela mesma se sentia algo letárgica. Não importava o poder que tivesse, ele não poderia ficar acordado para sempre. Teria que ir para a terra e dormir.

—Não ia deixá-lo sem salvaguardas.

—Suas salvaguardas devem ser conhecidas por cada vampiro e mago daqui. E não tente me mentir. Não vi em você intenção alguma de proteger meu corpo enquanto meu espírito descansava. Nem sequer tinha pensado nisso.

Ela quis negar sua acusação, mas na verdade havia somente pensando em partir. Antes de poder evitar, seu temperamento flamejou.

—Quem protegeria a seu captor? Agora quem está sendo ilógico e incoerente? Não pode ter as duas coisas. — Seu cabelo se encheu de rajas enquanto seu estômago se agitava, tomado pela cólera impotente.

Os olhos negros dele brilharam assustadoramente e sua mão rapidamente segurou o pulso dela, de forma que afastou sua roupa, expondo seu cinturão. Soltou o couro, lhe arrancando a faca e jogando—a através de passagem até o charco. Ela aterrissou com um repique e desapareceu sob a água fumegante.

Lara teve a mais estranha das reações. Uma parte dela quis encolher-se em posição fetal, outra parte desejou lutar com unhas e dentes, mas também teve a mais horrorosa das reações, um estremecimento de espera que fez com que seu útero se contraísse.

—Assim não poderei te apunhalar o coração enquanto dorme? — Alimentou a fúria dele porque temia a escura sedução aveludada de sua voz... O ardor de desejo queimando lentamente em seus olhos. Temia a reação de seu próprio corpo a ele e mais que nunca temeu que ele pudesse escravizar sua vontade.

O sorriso de Nicolas não continha humor, nem iluminou seus olhos, mas foi uma simples amostra dos dentes brancos. O coração de Lara tropeçou quando viu o tamanho de seus caninos. O efeito era sutil mas aí estava. Tentou fazer-se menor quando ele se sentou na cama junto a ela. Uma mão grande lhe segurou o rosto, obrigando-a a olhar diretamente nos olhos hipnotizadores.

—Já tentou me apunhalar uma vez. E escolheu a vida para nós. Espero que mantenha sua palavra. — Enquanto ele falava, seu polegar deslizava pelo lábio inferior dela.

Lara elevou a cabeça de um golpe.

—Está tentando me intimidar.

Uma rápida amostra de impaciência cruzou a face de Nicolas.

—Não acredito que tenha que tentar muito. Deixo minha mente aberta a você. Dou-lhe acesso completo, confio em ti com tudo o que sou e você em troca, fecha-me sua mente, acusa-me de crimes atrozes e mostra receio de mim desde o começo. Estou me cansando desta discussão.

Isso ela esperava. Esperava que ele estivesse tão cansado que fosse para a terra e a deixasse para levar a cabo sua fuga. Ficou calada. O corpo dele se aproximou. Estava tão perto que parecia estar em todas as partes, rodeando-a. Ele pegou a mão dela novamente e estendeu a outra. Veias de minerais apareceram nas paredes da câmara, brilhando brevemente como se esquentassem. Lara piscou ante o súbito brilho. Sentiu um toque em seu braço e um algo pesado e quente se fechou ao redor de sua mão. Abriu os olhos para vê-lo envolver sua própria mão com um grilhão de ferro, prendendo-os juntos.

Lara empalideceu. Afastou o braço de um puxão.

—O que está fazendo? — Com sua mão livre tentou arrancar o bracelete de ferro de sua mão, mas estava muito justo.

Nicolas não lhe prestou atenção e murmurava. Lara sentiu a onda de poder e soube que ele estava colocando camadas de salvaguardas, cobrindo as algemas com magia para que ela não tivesse esperança de abri-la, se não agisse com rapidez.

Contendo um soluço, Lara rebateu sua magia. — Ferro que une e sujeita firme, busque abrir o que me retém. Convoco aos minerais fundidos com a luz, que me forjem uma chave para desfazer esta ofensa. — O poder subiu como minerais crus da terra, fundindo-se por uma luz feroz até formar uma chave.

Nicolas se retorceu rapidamente, empurrando-a para a cama, lhe sujeitando os braços para evitar que suas mãos dela se elevassem, para dirigir a energia em padrões e evitar que pegasse a chave enquanto ele lançava seu feitiço.

— Cesse esta ação, cuja intenção é desatar. Acolho sua energia tornando—a minha.

A chave desapareceu em uma chama de luz. Imediatamente Lara soube que ele havia superado—a. Ele era séculos mais velho e ela havia perdido prática. Tinha esquecido que nos velhos tempos, quando Nicolas tinha sido jovem, magos e Cárpatos compartilhavam segredos. Estava indefesa e completamente sob seu domínio. Uma prisioneira incapaz de fugir. Piscou para ele, desejando lhe amassar a face, mas aterrada das repercussões. Ele se inclinou, tão perto que ela pôde ver os cílios longos e escuros que velavam seus olhos ardentes. Seus lábios lhe roçaram o canto da boca.

— Você parece um gatinho preso, a ponto de vaiar e me cuspir fogo. Durma. Continuaremos com isto na próxima sublevação.

Com isso, ele se recostou para trás, arrastando-a com ele. Rodou sobre o flanco e fechou os olhos... Descartando-a. Lara conteve o fôlego esperando, sem saber o que procurar. Não levou muito tempo. O ar abandonou o corpo dele numa exalação trêmula e ele ficou completamente imóvel. Ela estava encadeada a um homem morto. O tremor começou em algum lugar de suas pernas e correu por seu corpo com tanta força, que ela temeu ser apanhada por convulsões. Estava estendida e olhando para o teto, seu coração pulsava muito rápido e muito ruidoso, ardia-lhe o peito, queimavam-lhe os pulmões pela falta de ar. Sua mente gritava. Era uma prisioneira sem poder, sem nada que dizer sobre sua própria vida. Somente era questão de tempo antes que ele exigisse sexo e ela sucumbisse a seus desejos porque seria incapaz de evitar que seu corpo necessitasse do dele.

Estremece. Depois disso ele tomaria seu sangue. Era a natureza de todos os Cárpatos, tomarem sangue e havia sentido em mais de uma vez, o desejo dele de tomar o dela. Preferia estar morta a viver escravizada. Não podia sobreviver sem controlar sua vida, sem decidir sobre o que e como fazia. Não podia se permitir ser utilizada como alimento ou como temia que aconteceria, para sexo e alimento.

Lara pensou em seu passado, nas poucas lembranças que tinha de sua infância e soube que nunca poderia revivê-la como adulta. Esteve acordada enquanto o sol se elevava completamente e seu corpo se tornou tão pesado que não podia se mover. Quando o sol começou a descer no céu, começou a tentar vários feitiços para se livrar dos grilhões de ferro que a uniam a Nicolas, mas não importava o quanto tentasse, não podia rebater sua magia.

Levantou o olhar para o teto salpicado de pedras preciosas, sem vê-lo. As lágrimas embaçavam seus olhos. Muitas coisas que havia prometido fazer ficavam sem cumprir, mas era muito tarde. Sua primeira promessa tinha sido para si mesma e ela se negava a considerar sequer qualquer outra coisa. Precisava reunir coragem o bastante para fugir, do único modo que restava.

 

Nicolas despertou à deriva, tomando somente um único fôlego superficial a cada poucos minutos, permitindo que sua mente e espírito encontrassem paz na quietude da dormência dos Cárpatos... Não completamente acordado, mas tampouco muito longe da superfície. Lara lhe tinha feito mal e ele não podia se lembrar da última vez que alguém fizera tal coisa. Não sabia que alguém pudesse fazer. Sabia que devia despertar completamente e enfrentá-la, mas precisava sortear suas pouco familiares emoções. Certamente ela tinha picado seu orgulho quando lhe acusara de ser viciado em seu poder. A honra o havia sustentado durante longos séculos, não a adição e era o único que restava para lhe oferecer. Ela lhe arrancara até mesmo isso, com sua acusação descuidada.

Tinha desejado estrangulá-la, mas ao mesmo tempo, a necessidade de beijá-la, de dominar-lhe o corpo com o dele, elevara-se como um terrível demônio, possuindo sua mente. Ela deveria estar agradecida por sua honra. Sem ela, encontraria-se nua e retorcendo-se sob ele. Ela lhe devia deferência e respeito. Ela era muito jovem e inexperiente em tudo. Devia reconhecer sua sabedoria e confiar nele. Não tinha feito nada mais que tentar protegê-la, mas ela insistia em agir como a maioria das mulheres, exigindo coisas estúpidas e perigosas sem pensar nisso.

Sentiu o peito pesado e uma estranha sensação quando deveria se sentir leve. Ardia-lhe a mão, lhe doía. O medo engatinhou por sua coluna e encontrou um caminho até seu subconsciente. Seu espírito reagiu, procurando seu corpo, tomando bruscamente posse dele. Nicolas despertou imediatamente.

Ouviu o som de uma ofegante e viscosa respiração e cheirou a ... Morte! Moveu seu corpo e sentiu o de Lara, gelado junto a ele. Virou a cabeça, viu-lhe o rosto, os olhos abertos e cegos olhando para o teto. Um ondeio de sua mão dissolveu os grilhões, lhe permitindo se levantar de joelhos junto a ela, procurando seu braço frouxo. Seu coração quase parou, depois começou a bater com força e rapidamente em seu peito. A mão dela estava rasgada, com as veias abertas e o sangue caindo pelo flanco da cama.

Veriak ot no Karpattiak. Köd alte hän. Pelo sangue do príncipe. Maldita escuridão. O que havia feito ela?

Amaldiçoando, levou a mão dela a boca, utilizando sua língua e sua saliva curadora para selar a veia e fechar o ferimento. — Lara! Venha comigo! — Era uma ordem. E ele estava furioso com ela por ter feito algo assim.

No que estava pensando? Não sabia o que aconteceria? Lara! O desespero estava fazendo dominando-o. Ela tinha sido como um lobo preso numa armadilha, disposta a morder a pata ou terminar com sua vida antes de ser capturada e retida como prisioneira. Tinha jazido junto a ela, furioso, justamente zangado,e todo esse tempo, ela estivera terminando silenciosamente com sua vida.

Embalou-a entre os braços, balançando-a gentilmente enquanto se despojava de seu corpo físico para entrar no dela. Ela necessitava de sangue. E rápido. Seu corpo trabalhava, sua mente já se fechava para evitar o dano cerebral. Se ela fosse humana e maga sem ser Cárpato, já estaria morta.

Encontrou seu espírito, afastando-se de sua luz... Afastando-se dele.

– Fica comigo, jelä sielamak. Luz de minha alma, fica comigo.

Sua arrogância a conduzira a isto. Não a vira como uma pessoa, não tanto como a si mesmo. Ela era sua salvadora, sua posse, sua para fazer com ela sua vontade. Tinha estado tão seguro de si mesmo, tão seguro de seu direito. Ele, Nicolas Da Cruz, ensinando seus irmãos em como deviam dirigir suas companheiras, assegurando-se em fazer o melhor para todos os que o rodeavam. E depois, era o mais rápido e o mais preparado e tinha vivido muito mais tempo. E ainda assim, sua própria companheira, à mulher que tinha jurado proteger e fazer feliz, a conduzira a isto... A tomar sua própria vida em vez de se submeter-se a ele.

Cantou-lhe docemente, embalou-a, consolou-a enquanto atraía seu espírito para evitar que se afastasse tanto que não fosse capaz de trazê-la de volta. Após ter assegurado-a, voltou para o próprio corpo.

Precisara mostrar, para que ela soubesse quem estava ao mando. Precisava estabelecer seu domínio como uma espécie de guerreiro conquistador, lhe provar que quando ele dizia alguma coisa, ela devia ouvir porque ele sabia mais. Essa tinha sido sua falha. Não tinha tomado tempo para conhecê-la, para entendê-la ou pelo menos lhe dar o crédito de que manteria sua palavra. Ela tinha escolhido vida para eles e se colocou em suas mãos por um momento, confiando nele. E ele havia destruído essa confiança... E a eles.

Não via como alguém separado dele, com seus próprios pensamentos e sentimentos. Sua família tinha sido beneficiada com "muito" de tudo. Muita inteligência. Muita rapidez. Muita confiança e muita escuridão. Na escuridão na caverna, profundamente sob a terra, sustentando o corpo frio de sua companheira, ele admitiu a verdade para si mesmo.

Alongou a unha e a conduziu através do peito, abrindo a veia. Nem sequer podia lhe prometer que não repetiria seus enganos, a escuridão nele podia ter acumulado forças ao longo dos anos, mas estivera ali desde o começo. Mesmo com sua companheira perto era uma entidade viva dentro dele e exigia que os que estivessem a sua volta fizessem as coisas a seu modo. – Lutarei contra sua natureza tanto quanto seja possível, Lara. — Murmurou—lhe brandamente enquanto lhe pressionava a boca contra o corte em seu peito. — Serei tudo para você. Volta para mim e me deixe demonstrar que posso ser o que necessita. – Somente havia considerado o quanto que ela devia mudar para ser o que ele necessitava. Como pudera ser tão tolo?

Ela não respondia. Nem ao aroma de seu sangue, nem suas palavras doces. No fim ele teve que recorrer a uma ordem, fazendo uma careta enquanto erigia. Como poderia ela viver com alguém como ele? Como poderia protegê-la de sua própria natureza? Mesmo agora, quando ela tão claramente escolhia a morte em vez de viver com ele, impunha-lhe sua vontade.

— Juosz és cheiram ainaak sielamet jutta. Beba e se converta em uma amiga. Viva comigo. Nunca serei perfeito, mas farei tudo o que estiver em meu alcance para te fazer feliz. Beba e viva. — Era uma ordem... Uma compulsão... Ele colocou nela cada grama de poder que pôde convocar, porque não era capaz de deixá-la partir. Escolheria a vida para ela e passaria o resto do tempo que tivessem, tentando convencê-la de que tinha feito o correto.

A boca dela se moveu contra seu peito nu. Não estava preparado para a estranha reação de seu corpo. O calor que explodiu convertendo—se em fogo liquida. Seu membro ficou rijo. A ardente necessidade em suas veias. Jogou a cabeça para trás e absorveu a sensação, levou—a profundamente em seu interior e a reteve. A chamada de um companheiro a outro. Sua alma tinha chamado a dela e ela havia respondido. Suas mentes se buscaram a uma à outra, necessitando da cercania constante entre eles. Agora seu corpo estava chamando, decidido a despertar o dela. Onde estava seu coração? Possuíra um alguma vez? Era isso parte da maldição da família Da Cruz? Talvez na verdade eles não tivessem corações... Ou talvez fosse só ele. Mas agora, neste mesmo momento, sentia—se como se o seu estivesse se rompendo. Lamentava—se pelos dois.

Sua força vital se espalhou pelo corpo faminto dela, órgãos, tecidos e cérebro procuraram ansiosos e instintivamente a nutrição... A vida. Assegurou—se de lhe dar o suficiente não só para substituir o que ela tinha perdido, mas para um intercâmbio formal de sangue. Seu primeiro intercâmbio autêntico e era tão necessário. Tinha que encontrar um grau de controle para combater a escuridão que tinha crescido nele até ser tão forte nos últimos séculos. Seu único temor tinha sido se converter em vampiro, converter—se na mais fria das criaturas do mal, mas agora, com sua companheira para proporcionar a luz de sua escuridão, deveria ter ficado livre de preocupações. Sem o intercâmbio formal de sangue, inclusive com o ritual de reclamação, até que fossem um só corpo, igual a uma alma e uma mente, ele era um perigo para todo mundo... Mas principalmente para ela.

Nicolas continuou com Lara entre os braços, perto de seu peito, ainda balançando—a. O sol tinha entrado em algum momento e a noite estava sobre eles. Não fazia nem idéia de quando ela conseguira fazer mal a si mesma ou quanto tempo tinha ficado acordada contemplando a idéia do que ia fazer, mas seu espírito fazia muito que havia abandonado o corpo.

—Ou jelä sielamal. Luz de minha alma, volte para mim. — Ela lutou e a princípio ele pensou que ela decidia se manter longe dele, mas depois compreendeu que seu espírito estava preso em alguma parte. Havia vagado longe e em muito sangue e em alguma parte seu espírito se perdera, passado ou presente ou no mundo das sombras. Ela estava presa numa rede da qual não podia escapar. Sem vacilar, fundiu sua mente completamente a dela, seguindo o caminho para encontrá-la e guiá-la de volta à terra dos vivos.

 

Nicolas estremeceu. Fazia frio. Pela primeira vez em sua vida, quando tentou regular sua temperatura corporal, foi impossível. O frio lhe intumescia a mente. E havia muito medo. Onda após onda se estampava contra ele. O medo não era uma emoção com a qual estava familiarizado e as ondas eram entristecedoras, mantendo fora de equilíbrio, seu corpo tenso e seu coração pulsando ruidosamente. Não questionou se possuía um coração... Ou se o ouvia, já que não estava em seu corpo, simplesmente aceitava tudo o que acontecia e continuava atrás dela.

Encontrou a si mesmo no corpo de uma criança. Era diminuta e seu coração pulsava cheio de terror... O terror dela... Agasalhado em sua mente, enchendo cada canto, cada compartimento até que o respirou, até que foi uma entidade viva dentro de sua alma. Fitava através de olhos horrorizados, um homem encadeado a uma parede de gelo. Uma jovem estava chorando sentada junto a ele enquanto tentava limpar as gotas de suor de seu rosto.

Razvan. Pai.

Nicolas ofegou através do terror e tentou se concentrar no que estava acontecendo. Razvan estava quase drenado de sangue e fraco, apenas capaz de falar coerentemente. Sua voz era baixa e trêmula, de forma que a mulher tinha que se inclinar e pressionar o ouvido contra seus lábios para poder ouvi-lo.

—Shauna, tire-a a daqui antes que seja muito tarde. Tem que deixá-la partir.

A mãe de Lara sacudiu a cabeça, as lágrimas desciam por sua face.

— Ela é muito pequena, Razvan. Nunca conseguirá por si mesma.

—Melhor morta que deixar que ele coloque as mãos nela.

—Não posso suportar. Não posso suportar perder você e ela. Tem que haver outro modo.

—Necessitarei de sangue e você já me deu muito.

—Ela odeia dar sangue. É muito pequena para entender. — Disse Shauna, mas já estava elevando à pequena de cachos avermelhados até seu colo.

Em vez de se sentir reconfortado, Nicolas se viu tocado pelo medo de Shauna também. Estando no corpo da menina, Lara, ele lutou contra os braços que o sujeitavam firmemente, esmurrando, chutando e mordendo enquanto Shauna estendia o braço da menina para o homem que jazia pálido e devastado. Sentiu o coração a ponto de explodir. Tentou se mover, afastar-se dos dentes que se aproximavam de sua pequena e exposta mão. Sempre tinha sido rápido e forte, seu poder tinha sido afiado mesmo quando pequeno, quando poucos meninos poderiam sequer ter pensando em mudar, mas agora era incapaz de se liberar. Somente podia esperar, observando os dentes se aproximando- mais e mais de sua carne.

Seu corpo se encolheu para longe da respiração quente. Ouviu-se gemer e sentiu como o espírito de Lara lutava desesperadamente para se liberar. O pequeno braço já estava coberto de cicatrizes. Esta não era a primeira vez e não seria a última. Não havia forma de fugir dos dentes afiados que rasgavam sua pele e chegavam a suas diminutas veias.

Nicolas empurrou Lara para trás dele, defendendo-a dos dentes que rasgavam a carne de sua mão. A dor floresceu, roubou-lhe a respiração, lhe contraindo o estômago. Sua visão se obscureceu e embaçou. Como não podia minimizar a dor como sempre fizera, teve que deixá-la passar sobre ele, aceitar para evitar desmaiar. Mesmo ainda menino tinha sido capaz de controlar a dor, na quantia de mudanças que fizera calculadas muito perto do solo ou bater contra as árvores ao voar. Mesmo como homem, estava fundido profundamente com Lara, revivendo esses primeiros anos e estava tão indefeso como ela estivera. Fundido tão profundamente com ela, ele não era o Cárpato, capaz de deixar a dor de um lado, tinha que sofrê—la como ela sofrera. Sentiu cada dente, individualmente e sentiu a pele abrir. Sentiu cada tecido e músculo, sentiu a espetada em sua veia e o fluxo de sua vida se obrigado a abandonar seu corpo. Seu espírito se encolheu até que ele se sentiu pequeno e vulnerável, além do alcance de sua imaginação. Nem no pior momento de sua vida havia se sentido assim tão indefeso. Os lábios que sugavam o sangue de seu corpo eram ávidos e esfomeados. Seu corpo se tornou mais pesado e seu coração lutava para encontrar um batimento enquanto seus pulmões procuravam por ar.

—Basta! Basta, Razvan! — Gritou Shauna e empurrou a boca presa à pequena mão. — Vai matar o bebê.

Razvan se afastou abruptamente. Lágrimas rolavam por sua face.

—Sinto muito. Sinto tanto, Lara. Shauna, isto não é seguro. Já não posso me conter. Estou me tornando como ele.

—Não, não é você. — Disse Shauna, ferozmente. – Você não é como ele. Nunca será como ele. —Balançou ao bebê tentando consolá-la.

Razvan se inclinou e fechou a ferida com um toque de sua língua. Nicolas sabia que a saliva curadora não estava de tudo bem, não foi o bastante para intumescer a carne ou curar apropriadamente, razão pela qual a pequena mão tinha cicatrizes por toda parte e por que Lara sentia dor a cada mordida, como se facas a atravessasse.

— Se apresse. Deve partir. Ele voltará a qualquer momento.

Razvan moveu seu corpo  para o lado para revelar um buraco no gelo. Onde antes o gelo era branco ou de uma cor azulada, agora tinha as bordas rosados. Ele abrira um túnel na parede de gelo utilizando o próprio sangue quente para escavar um diminuto passadiço.

Shauna abraçou à menina, soluçando e apertando—a com força contra o peito. Bruscamente empurrou à menina para o interior do diminuto canal.

—Vá. Corra. Siga a água.

O gelo pressionava o pequeno corpo, arranhando sua pele. Ele sentiu as lacerações e as lágrimas enquanto avançava engatinhando. Não havia cantos. Quando tentou engatinhar para trás em vez de seguir para frente, pelo corredor pequeno e escuro, com a fragrância do sangue pesando em suas fossas nasais, seu corpo simplesmente ficou preso. O pânico começou a surgir. Nicolas lutou para mudar, para tornar-se menor, para sair do túnel. O pesado gelo o esmagava. Sobre ele e ao redor dele, o gelo rangia de forma ameaçadora enquanto a pressão alterava constantemente as paredes.

Nicolas não podia atrair ar para seus pulmões, sua cabeça zumbia pela falta de oxigênio. Sentia-se como se estivesse se asfixiando. Sabia que Lara estava experimentando a mesma reação e era totalmente incapaz de ajudá-la. Sentiu ternura pela Lara adulta que tanto tinha sofrido quando menina e raiva e agressividade ante sua própria incapacidade de evitar que ela tivesse que reviver tudo. Tentou golpear o gelo com os punhos, utilizando a pura força de vontade para liberá-la, mas não havia forma de escapar do diminuto espaço. Somente ensangüentar os punhos.

Pela primeira vez em sua vida experimentou a claustrofobia. Sentiu-se preso e sem saída. Sua enorme força não servia de nada. Nenhum feitiço mágico o salvaria. Não podia tecer energia e utilizá-la. Sem importar quanto tentasse usar a força pura para gretar o gelo e se liberar, estava no corpo de uma menina de três anos e não dispunha de seus poderes. Era impossível.

O espírito de Lara estremeceu. Fundidos tão profundamente era quase impossível dizer onde começava um e terminava o outro. Suas almas estavam unidas, presas. – Vá. — O sussurro dela foi fraco. — Não há necessidade de que vivencie isso comigo. Já sobrevivi a isto antes, voltarei a fazê-lo.

Ele não estava seguro de que isso fosse certo, ela não estava apenas viva e em qualquer caso, não havia forma de que abandonasse a sua companheira para que ela revivesse quais fossem as experiências necessárias, para voltar para ele. Ele a tinha empurrado ao passado e a protegeria com tudo o que tivesse do pior de suas lembranças. Não importava o que fizesse, se manteria diante dela. — Descanse ou jelä sielamak. Luz de minha alma. Não a abandonarei aqui. — A ternura em sua voz o surpreendeu, como a dor em seu coração.

Algo afiado lhe atravessou o tornozelo, perfurando-o profundamente,até o osso. Seu corpo se tornou para trás de repente. O gelo o rasgou a pele de seu ombro, dos quadris e dos braços. Tentou chutar para trás, para afastar o que havia ferido seu tornozelo, mas tudo o que fazia lhe causava uma dor execrável. Seu corpo foi miserável puxado para trás através do túnel, lhe levantando a pele enquanto era empurrado de volta à câmara de gelo.

Caiu no duro chão da câmara e o horror o alagou quando viu a mais monstruosa das criaturas... Xavier. Shauna jazia no chão e o sangue gotejava de sua boca e nariz. Já apareciam manchas escuras em sua pele. Ela estendeu a mão para a pequena, mas Xavier afastou à mulher com um chute e levantou Lara (Nicolas) pelos pequenos cachos acobreados. Jogou descuidadamente à menina contra a parede da caverna, esmagando o pequeno corpo.

Xavier era uma massa de carne em decomposição, com dentes serrados e enegrecidos e desumanos olhos prateados. Nicolas observou com horror como o monstruoso demônio chutava à mulher repetidamente nas costelas, suas pernas e seu rosto, esmagando—a, pulverizando—a.

Razvan lutava contra as correntes, fazendo que estas cortassem seu corpo e o sangue corresse em jatos, para jorrar sobre o gelo. Ele gritava, num chiado rouco e impotente. Lágrimas de sangue corriam por seu rosto.

— Fui eu. Não toque nela. Farei o que quer. Por favor... Por favor. – Ele caiu para trás chorando, seus punhos golpeando o gelo até que estes também ficaram ensangüentados.

Xavier o ignorou, continuou chutando e golpeando o corpo de Shauna.

—Olhe o que me fez fazer, — ele gritou para Lara. – Olhe-a. Sua mãe, aceitando seu castigo. Você é a que merece este tratamento. Você tem feito isto. Você a tem feito sofrer. –Ele baixou a mão e pegou da menina pelo cabelo, arrastando—a pelo chão até jogá—la junto de sua mãe. – Roube seu último fôlego, mucosa ingrata. Do que serve, exceto para se alimentar? Você matou sua própria mãe. – Ele cuspiu sobre o corpo e procurou algo no bolso de sua larga túnica, tirando um monte de parasitas brancos. — Meus amigos limparão encantados sua bagunça, embora levará uns quantos dias. Banqueteiem. – Ele disse e lançou os parasitas sobre o corpo amolecido de Shauna.

Os grotescos insetos se lançaram imediatamente sobre sua mãe.

Xavier baixou a mão e levantou Lara, seus olhos prateados brilhavam com um regozijo maligno. Rindo, ele fechou-lhe a uma corrente ao redor da cintura, enganchando—a à corrente de seu pai antes de sair coxeando. Ela tinha pouco espaço e se viu forçada a sentar junto do corpo de sua mãe enquanto seu pai se balançava e gemia e observava aos parasitas consumi—la lentamente.

Poderiam ter sido horas ou dias, que Nicolas passou sentado ali, traumatizado pela brutalidade do pior inimigo dos Cárpatos. Tinha acreditado conhecer o mal intimamente depois de séculos de caçar vampiro, mas isto era muito, muito pior. Xavier havia assassinado à esposa de seu neto diante do mesmo e de sua filha. E o pior, lhes obrigara a observar a lenta consumação de seu corpo pelos vorazes parasitas. Não lhe surpreendia que Lara tinha flashes de sua infância, quando os combinara com a incomum cor dos olhos de Gregori. Não. Não o surpreendia que suas tias e seu pai tivessem sepultado profundamente suas lembranças.

— Estamos contigo, Lara. — Sussurrou brandamente uma voz. — Não tema. Estamos perto. Não olhe o corpo no chão. Essa já não é mais sua mãe. Ela foi para um lugar seguro onde o monstro já não pode alcançá—la.

Nicolas se concentrou nas vozes enquanto estas lhe sussurravam ânimo, contando histórias e tentando ajudar à garotinha a superar o incompreensível. Sem suas tias-avós, Lara teria se rendido e ficado louca. Encontrou-se se aferrando as vozes, deixando que a consoladora compulsão se espalhasse sobre ele enquanto a seguinte cena da infância de Lara se iniciava.

O círculo de medo tinha voltado para o princípio, compreendeu. O espírito dela seguia viajando pelo caminho de sua infância, afastandoa pouco a pouco de seu passado, para a superfície... E para ele. Ela conseguiu avançar um par de anos antes que a rede de horror a envolvesse novamente, retendo-a efetivamente prisioneira em suas lembranças.

Aos seis anos eram pequena e magra, mal alimentada e constantemente sozinha. Tinha um diminuto cubículo, dormia sobre o chão de gelo com somente uma manta fina e sua crescente capacidade de regular sua temperatura corporal. Era difícil para ela manter o calor e o constante tremor que evitava que ganhasse muito peso. Suas tias eram a única influência estável, lhe falando dia e noite, sussurrando sobre lugares longínquos, lhe ensinando tanto quanto uma criança poderia compreender, implantando lições e verdades para que quando ela fosse maior e pudesse aferrar o conhecimento e esgrimir o poder.

Descobriu que elas eram mantidas drenadas de sangue como Razvan, com freqüência eram congeladas, encapsuladas em gelo e que sofriam horrivelmente quando eram descongeladas e que Lara sentia cada momento de sua agonia junto com a de seu pai torturado. Suas vozes eram o único que a mantinha lúcida.

Moveu-se para a superfície com ela, embalando seu espírito, respirando calor em sua mente num esforço para voltar a se conectar com ela. Necessitava de sua confiança e a tinha destroçado do pior modo possível. Agora entendia. Entendia o que se sentia ao ser pequeno e indefeso... E sem esperança. Entendia completamente por que ela tinha escolhido a única saída que restava e que ele era o responsável por fazê-la se sentir indefesa novamente.

No momento em que o terror a afligiu, chegando a ela como uma gigantesca onda, soube que estava presa novamente em um momento significativo de sua vida. Ela foi consciente do momento em que se colocou ante seu espírito novamente, envolvendo—a com seu amparo, permitindo que as ondas de terror o engolissem.

— Não. Vá logo. Saia enquanto possa. Nunca poderemos abandonar este lugar.

— Não irei sem ti, Lara. Você é meu pecado, minhas falhas a enviaram que volta para cá. Não a deixarei. Ficaremos juntos.

E ele falava sério. Abraçou o corpo infantil enquanto ela se sentava com as pernas cruzadas sobre o solo, desenhando a imagem de um dragão sobre a parede de gelo. Era assombrosamente detalhada, para uma criança. Seus pequenos dedos agarravam a ponta de um garfo e esculpia com esmerado cuidado o corpo do dragão e a longa cauda. Ela ficou ali, cantarolando para si mesma, perdida em sua arte.

Um pequeno sussurro a alertou. Lara se enrijeceu e baixou lentamente a mão que desenhava, olhando sobre seu ombro. Os amplos ombros de Razvan enchiam a soleira. Seus olhos estavam obscurecidos pela dor, sua face devastada. Em um momento parecia um homem arrumado que tinha visto muito dor e no seguinte seu corpo se encurvava sob uma terrível carga. Seu rosto se contorcia e seus olhos rolavam para a parte de trás de sua cabeça, enquanto lutava contra um inimigo invisível.

— Lara, vá. Corra, neném. Parta. Ele está em mim, tomou o controle de meu corpo e não posso tirá—lo. Vá.

Mesmo enquanto a advertia, sua voz mudava uma e outra vez, passando da preocupação ao cacarejo. Embora parecesse ser Razvan que estava de pé na soleira, Lara sentia o cheiro de Xavier, do cadáver podre de um homem que se negava a morrer. Nicolas sentiu sua imobilidade, o instantâneo palpitar de seu coração, o terror atendendo sua mente. Cambaleou sobre as mãos e os joelhos até se encolher contra a parede.

—O que é isto? — Perguntou Xavier/Razvan, de pé diante de seu desenho.

Lara/Nicolas permaneceu em silêncio, mantendo as mãos para trás, com o medo estampado em seu rosto. Nicolas a empurrou trás dele quando Xavier se voltou e lhe golpeou, levantando—a de seus pés, lhe enviando no ar.

— Me responda, — vaiou Xavier/Razvan, com desgosto.

Lara/Nicolas se levantou.

—Meu melhor amigo.

A face de Razvan se contorceu como se estivesse lutando novamente. Seu corpo se sacudiu e uma lágrima vermelha gotejou por seu rosto. Durante um momento ele estendeu sua mão, mas bruscamente, os dedos se fecharam em punhos apertados e ele escarneceu.

—Amigo? Acha que esses dragões são seus amigos? Por que uma criatura tão poderosa seria amiga tua? Você não vale nada, é totalmente inútil.

Ele cacarejou e o malvado som provocou arrepios no corpo de Nicolas. A voz era totalmente de Xavier agora, no corpo de Razvan. Uma vez mais, Nicolas sentiu a impotente vulnerabilidade, sabendo que não poderia deter este homem. Era uma menina de seis anos, anêmica, frágil, e sozinha, sem esperança de fugir. Enquanto observava, o dragão começou a surgir da parede, primeiro uma pata, estirando—se, estendendo—se, com as garras curvando—se agudamente. A cabeça emergiu e os olhos piscaram durante um momento antes de brilharem vermelhos. A cauda se agitou e o dragão se liberou, aterrissando no solo a alguns poucos centímetros de Lara. Nicolas a empurrou mais para trás ainda, encurralando seu espírito e protegendo—a enquanto a sentia encolher—se de medo e espera. Isto ia ser ruim. Sabia que não era somente uma briga física, era psicológico, uma tentativa deliberada de derrotar toda a esperança, usando um amigo imaginário da infância que tomava a forma de suas consoladoras tias, contra ela. Possuindo o corpo de seu pai para que fosse ele a lhe fazer o último dano, traindo toda confiança, assegurando—se de que não restasse nada ao qual ela se aferrar. E não podia nem imaginar o que estava sofrendo Razvan, obviamente parte de sua mente era consciente de como seu corpo estava sendo usado para atormentar sua filha.

O dragão balançou a cabeça para frente e para trás, seus olhos giraram e depois se enfocaram na menina. Saltou sobre Lara e Nicolas, vaiando e cuspindo. No último momento Lara se virou e as garras rasgaram suas costas, provocando profundas navalhadas. Ela caiu no chão, encolhida em posição fetal enquanto o dragão mordia suas pernas e a fustigava com sua cauda de aguilhões.

Possuído como estava por Xavier, seu pai ria e a chutava, animando o dragão a cuspir chamas até que ela gritou e Nicolas gritou com ela.

— Não resista. Deixe que tome o que quer de você. — As vozes femininas falaram juntas, em uníssono e Nicolas instantaneamente foi consciente de que Lara estava tentando afastar dos chutes, não o dragão, mas seu pai.

O dragão renovou seu assalto num enlouquecido frenesi de dentes e garras. Nicolas sentia cada corte em sua pele, sentia as aguilhoadas em suas costas quando o músculo se abria sob as afiadas garras. As mordidas eram dolorosas, mas superficiais. O pior era o fogo, orvalhado sobre sua cabeça, queimando sua pele sensível, levantando bolhas instantaneamente.

Repentinamente impaciente, Xavier ondeou a mão e o dragão se derreteu a seus pés. Ele se inclinou e levantou Lara/Nicolas até colocá—la em pé. Seus dentes rasgaram a pequena mão e afundaram para engolir prazerosamente o rico sangue. Nicolas conteve um grunhido de dor quando seu braço pulsou e ardeu. Seu estômago se revoltou e uma vez mais sua visão se enegreceu.

De repente Lara resistiu, balançando o braço em um arco apertado, afundando a ponta afiada do garfo na garganta de Razvan. Xavier gritou e a lançou longe dele, levando a mão ao pescoço sangrento. Lara passou a língua pela mão e retrocedeu lentamente.

Nicolas desejou abraçá—la. Apesar da dor e do puro desespero de sua situação, Lara lutava, negando—se a permitir que um monstro esmagasse seu espírito.

Xavier explodiu de raiva, um fio corria por sua face quando lhe arrancou a roupa, com suas mãos tecendo um complicado padrão. A água verteu do teto sobre ela, que foi elevada de seus pés e voou até o gelo. A parede se abriu para recebê-la, moldando-se ao redor de suas costas, nádegas e pernas, congelando sua pele no gelo.

Só então Xavier ficou quieto. Colocou comida e água a certa distância dela.

—Se quiser comer ou beber, terá que sair você mesma da parede. Se não, a deixarei apodrecer aí e enviarei a meus amiguinhos para comer seu corpo.

Nicolas o observou partir deslizando-se, deixando à menina em meio a uma dor execrável. O sangue que se ralentizava em suas pernas e suas costas já era doloroso. Desejou chorar, quebrar alguma coisa... Aproximá-la e abraçá-la contra seu coração e protegê-la sempre. E mais que tudo, desejou matar Xavier.

De novo o tempo não significava nada para ele. Vagou em muita dor até que as vozes chegaram novamente. Suaves e insistentes. Dando-lhe ânimo. Cantando sobre esperança. Murmurando afeto. Vozes que podia notar, que lhe salvavam do desespero absoluto.

Encontrou-se ascendendo uma vez mais para a superfície com o espírito de Lara. A luz era um pouco mais brilhante, mas ela se sentia maltratada e machucada... Como ele. Tentou se apressar, ansioso para que não revivessem outro evento. Já tinha tido o suficiente... Já havia visto e sofrido experiências... Suficientes. Não queria voltar a se sentir nunca mais tão indefeso e vulnerável. Apurou-a, rodeando a de ternura e tranqüilidade, sentindo sua relutância enquanto se aproximavam mais da liberdade.

Lara tinha mais medo dele que de seu passado. Já tinha vivido sua infância e tinha sobrevivido. Ele era o demônio ao qual ela não conhecia e em sua relação, tinha todo o poder.

— Sou tudo o que acredita que sou, mas posso aprender. Aprenderei. Tenho muitos defeitos, päläfertiil, a arrogância não é o pior deles, mas não estou acima de admitir meus enganos. Venha comigo. Volte para mim e me dê uma segunda oportunidade.

Aceitara... Desde o primeiro momento em que ouvira sua voz, sabia que ela o salvaria... Que ela estava a seus cuidados. Havia resolvido fazer o melhor que pudesse... Cuidar de seu bem—estar físico. Não tinha esperado resistência ou desconfiança por parte dela, mas na verdade, isso não tinha lhe importado... Seu próprio coração não estava comprometido e sabia sem sombra de dúvida que podia fazer tudo a sua maneira. Inclusive acreditava que estava em seu direito. De algum modo, nesta nova noite, soube que as coisas haviam mudado. A pedra dura em seu peito lentamente começava a pulsar ao mesmo ritmo do coração dela. Sabia que estava se tornando mais e mais protetor e sentia mais ternura por ela.

Algo a prendeu, atirando seu espírito para longe dele, paralisando o processo de recuperação. Preocupou-lhe agora, tê-la encontrado muito tarde e que ela se retirara para muito longe ou mesmo que ela já tivesse abraçado a loucura para escapar do desatino que a rodeava. Correu atrás dela, seguindo-a até a rede onde seu espírito jazia enredado nos fios de lembranças que se entrelaçavam, para rodeá-la e capturá-la.

Era mais ou menos um ano mais velha e seus cabelos brilhavam sob as luzes titilantes. Podia ver os princípios do legado do Caçador de Dragões entremeados na cor de seu cabelo, no vermelho brilhante e as mechas mais loiras. Seus olhos passavam de um profundo verde a um azul brilhante. Ela estava de pé a um lado da grande câmara com seu teto de catedral, oculta atrás de uma coluna, encolhida obviamente, tentando evitar ser vista por Xavier e Razvan, que estavam cara a cara.

— Lara. — As vozes sussurraram em seu ouvido. — Xavier não pode saber que você é consciente do que está fazendo a seu pai. Ele a mataria. Não pode falar com seu pai, sequer para aliviar sua mente, porque quando Xavier possuir seu corpo ou Razvan estiver sob suas ordens, ele lhe revelará seus segredos.

— Se contar a meu pai que sei que não é ele quem me faz mal, talvez ele lute com mais força. — Havia esperança... E um pequeno desafio nessa voz infantil.

— Ele a trairá. Não que queira, mas será incapaz de evitar.

— Vocês estão prisioneiras há muito mais tempo. — Lara estava furiosa agora, não queria acreditar. — Xavier não pode lhes controlar.

— Razvan foi torturado, Lara. Xavier fez experimentos com ele, uma e outra vez. Sua saúde e sua força desapareceram. Xavier o utiliza contra você. Xavier não entende ainda o poder de seu sangue. Uma vez que o faça, não haverá nenhuma possibilidade de fugir.

Nicolas sentiu a teimosia em Lara. Ela não respondeu suas tias, negando—se a enganá—las com uma mentira aberta, mas estava decidida a ir até seu pai e confessar que sabia que ele estava sendo manipulado contra ela.

Como pressentindo a teimosia de Lara, suas tias tentaram novamente falar perfeitamente em uníssono, suas vozes eram suaves e melodiosas. Nicolas reconheceu os fios de compulsão tecidos ao fundo. As duas mulheres estavam fracas e a sugestão não funcionaria sobre uma mente forte, mas Lara não estava sã e seu espírito havia sido esmagado.

— Lara, você não pode dar a seu pai nenhuma informação que Xavier possa utilizar contra ele. Razvan não gostaria que fizesse. Ele suportou Xavier durante todos estes anos e tem lutado contra ele porque seu sangue Caçador de Dragões é forte. Xavier sabe que ele logo sucumbirá e terá que buscar alguém que o substitua. Se agora, quando está em seu momento mais frágil, dar—lhe a informação com a qual Xavier poderia lhe fazer mal, sentirá ter perdido o pouco de honra que lhe resta.

A menina que era Lara fechou os olhos com força, sem entender tudo o que suas tias estavam dizendo, mas entendeu que não poderia confiar em seu pai, que entendia que Xavier ou possuía seu corpo ou forçava sua vontade utilizando uma combinação de drogas e magia.

Nicolas sentiu Lara deslizar—se para longe dele, num entristecedor desespero que sentia crescer mais que nunca. Ela olhava para seu pai com uma expressão triste. Sentiu a urgência de trazê—la até seus braços e apertá—la, mas não possuía um corpo real e ela ainda não confiava nele. Agora entendia o por que. Entendia sua necessidade de controle e liberdade. E entendia sua absoluta repugnância a que alguém tomasse seu sangue.

Razvan parecia fraco e seu rosto exposto estava devastado pela dor e o sofrimento. As linhas estavam esculpidas profundamente e as correntes que permanentemente envolviam suas pernas e braços haviam deixado cicatrizes  de queimaduras pelo sangue de vampiro com a qual estavam revestidas. Ele deixou—se cair contra uma coluna, sem sequer lutar para se afastar de Xavier, que tirou um pequeno frasco do bolso de sua túnica. Nicolas sentiu Lara enrijecer e seu pequeno espírito se afastou para trás.

Interessando, ele se adiantou para bloqueá—la, preparado para tomar o embate do que fosse que teria acontecido quando ela estava com sete anos. Xavier claramente fazia experiências com Razvan e ele estava averiguando todo tipo de informação pertinente não só sobre sua companheira, mas sobre coisas que seriam úteis aos Cárpatos. Nicolas desejou agora ter podido evitar que Dominic procedesse com seu plano. Se Xavier havia se sentido compelido a tentar suas experiências com Razvan porque ele possuía o sangue do Caçador de Dragões em suas veias, Dominic certamente seria um enorme prêmio. A maior parte das experiências parecia estar centrada em controlar os Cárpatos ou encontrar uma forma de aprisioná—los embora os mantendo vivos.

— Pare o sangue. — Sussurrou—lhe a voz de Lara. Sua voz adulta, não a da menina. – Ele quer seu sangue da mesma forma que vocês a querem de suas fontes. Manteria—os prisioneiros e drenaria seu sangue. Não seriam nada mais que uma fonte de alimento para ele.

Ele suavizou seu tom voz, com ternura e seu coração se estendeu para o dela. – Lara, eu não te quero por seu sangue. Volte para mim. Realmente sou pior que este lugar de seu passado?

Por um momento ele acreditou ter ganho a primeira batalha, mas então Xavier se moveu e a menina retrocedeu, estremecendo como o fez seu pai. Encolheu-se detrás da coluna enquanto Xavier coxeava pelo do chão da caverna de gelo, sujeitando o frasco entre os dedos nodosos.

—Você deveria ter me dado o que lhe pedi. Entregar-me sua irmã era tão pouco em troca de sua vida e as vidas de seus filhos. — O ancião estalou a língua em reprimenda. — E são tantos filhos. Você traiu sua pobre esposa morta com seu corpo. E todas essas jovens inocentes tão dispostas a se deitar contigo e te dar seus filhos para que pudesse sugar suas vidas.

Razvan estremeceu.

—Você sugou suas vidas e me obrigou a trair a minha esposa. Ela sabia a verdade, sabia que você usava meu corpo. Deixe-me morrer, velho. Servi-te muito tempo e já não sou de nenhuma utilidade a você.

O corpo de Lara saltou com uma negação instantânea. A menina sacudiu a cabeça com força, seus cabelos avermelhados voando em todas as direções. — Não me deixe, pai. Não posso suportar.

— Ele seguirá vivo por você, Lara. – Disseram suas tias, ao mesmo tempo. — Você é a única razão pela qual ele continua sua existência.

Nicolas achou a liga das vozes femininas, consoladora. Sem elas, Lara e provavelmente seu pai, teriam se tornado loucos anos antes. As duas prisioneiras mantinham viva a esperança. Como podiam fazê—lo quando eram prisioneiras e Xavier se alimentaram delas desde que eram meninas? O sangue do Caçador de Dragões devia ser muito forte nelas.

Razvan elevou a cabeça e seu olhar atravessou a câmara, procurando à menina, que ele sabia que devia estar presenciando o confronto entre ele e seu avô. Lara ficou congelada, pressionando—se mais contra a coluna, para evitar ser vista.

Xavier deixou escapar o fôlego n um comprido e lento vaio.

—Acredito que ainda podemos conseguir te tirar alguns filhos mais antes que eu tenha acabado contigo. Meus exércitos podem agora identificar uns aos outros e inclusive ocultar sua existência dos estúpidos Cárpatos, graças a você. E posso reter inclusive o mais forte prisioneiro e me alimentar do sangue do mais poderoso dos imortais, novamente graças a você. Não me apressarei em me liberar de uma ferramenta tão útil. Você pode não ter o sangue puro que necessito, mas passou a seus filhos.

Nicolas se lembrou como fazia tantos séculos que Xavier havia encantado ser o centro de atenção. Considerava a si mesmo brilhante, poderoso e queria que todos os que o rodeavam soubessem que era. Adorava se vangloriar. Nicolas sempre o considerara um narcisista. Xavier acreditava que o mundo lhe devia lealdade e respeito. Acreditava que tinha direito a qualquer mulher que desejasse. Muito antes que Rhiannon desaparecesse, muitas jovens magas tinham vivido para cumprir com cada uma de suas necessidades e desejos. Com freqüência Xavier presenteava os homens Cárpatos com histórias de suas proezas e peripécias sexuais, sem compreender o pouco respeito que eles lhe tinham por não manter suas mulheres em alta estima.

Agora, tendo que se ocultar durante séculos, Xavier não tinha ninguém a quem se gabar, exceto a seus prisioneiros. Obviamente ele desfrutava da dor de Razvan. Nicolas estava seguro de que ele desprezava Razvan porque o sangue do Caçador de Dragões corria forte nele. Xavier era mago. Queria ser imortal e queria que outros o temessem e o admirassem, mas se acreditava muito superior aos Cárpatos. Razvan estava bem perto de ser um Cárpato, com sua capacidade de resistência e seu código. Tinha protegido sua irmã e tentava desesperadamente proteger seus filhos, enquanto era torturado e usado em experiências. Se, Xavier o despreza, porque não tinha quebrado Razvan e o contínuo desafio que custaria caro a seu neto.

— Poderia ter fugido quando conseguiu se liberar a muitos anos, —assinalou Xavier. — Mas como um cão arrastando—se até seu dono, você voltou para mim.

Razvan sacudiu a cabeça.

— Você consegue mudar história e adaptá—la a você mesmo. Como me lembro, segui você até os Estados Unidos porque você iria seqüestrar uma criança e a trazê—la de volta para cá. Você não teve êxito, não foi?"

Xavier explodiu numa raiva enlouquecida, golpeando Razvan com um fino chicote, uma e outra vez até que Razvan caiu molemente em suas correntes.

Uma raiva impotente tomou Nicolas. Não podia suportar ver Razvan tão indefeso, atacado por um monstro por tentar salvar uma criança. Tremia pela necessidade de devolver o golpe, procurando desesperado seu próprio poder, odiando sua incapacidade para salvar Razvan. As emoções eram tão fortes que ele levou poucos segundo para compreender que estava sentindo a mesma necessidade da menina em salvar a seu pai. Igual seus próprios sentimentos.

Ela saiu de um salto de trás da coluna e correu pelo gelo. Nicolas mal teve tempo de empurrar—se para frente, quando a menina chutou o joelho de Xavier com força. O velho se inclinou perigosamente e caiu sobre o solo da caverna, uivando. Lara tentou arrancar as correntes dos braços de seu pai, o sangue de vampiro queimava as pontas de seus dedos. Nicolas sentiu a dor o apunhalando como uma faca até o osso, lhe roubando a respiração. Ela se virou para o homem que tentava levantar—se do chão e se abaixou já mexendo nos bolsos da túnica dele, numa tentativa de encontrar a chave que abria as correntes.

Xavier a golpeou com força, jogando-a. Nicolas realmente sentiu o sangue do Caçador de Dragões nela surgir a primeiro plano para ajudá-la com seus movimentos felinos. Lara foi obviamente inconsciente da forma em que aterrissou sobre os pés, uma menina de sete anos e sem treinamento, mas já se movendo com grande perícia física. Ela se lançou sobre o homem novamente.

Desta vez, Xavier estava preparado para ela. Jogou-a no chão e a açoitou repetidamente com o chicote, desenhando finas linhas e vermelhas sobre seu corpo. Ela girou o corpo e cobriu a cabeça enquanto ele a açoitava viciosamente.

—Quer que o libere? Isso é o que quer, garota? Ele cheirará seu sangue e chegará até você como um cão de caça. Não tem sangue há dias e você morrerá. — O velho a chutou e a arrastou até seu pai.

Razvan lutava contra as correntes, ameaçando Xavier e gritando para que Lara fugisse. Nicolas não podia se levantar. A dor das chicotadas, as queimaduras e estava seguro de que uma costela quebrada era muito para o pequeno corpo que os dois ocupavam. Podia ficar ali cobrindo indefensamente o espírito de Lara, fazendo o que podia para protegê—la enquanto Xavier introduzia uma agulha no pescoço de Razvan e administrava—lhe um líquido amarelado. Xavier se afastou de seu neto e o observou com olhos alegres.

—Quer que o libere, Razvan. Pois bem, lhe concederei o desejo.

— Tatijana! Branislava! Devem vir em sua ajuda. Por favor, por favor, afastem—na de mim. Bloqueiem sua mente, bloqueiem minha mente. Não posso suportar voltar a lhe fazer mal. Isto demais, inclusive para mim.

Nicolas ouviu a súplica em sua mente e o pequeno corpo de Lara tentou se levantar e ele pôde ver a face de Razvan se contorcendo. Viu Xavier se afastar dele, com sua expressão ardilosa. Os olhos de Razvan cintilaram com um brilho vermelho e seus dentes se alongaram.

O medo consumiu Nicolas, corroeu—o por dentro. Engatinhou com Lara, tentando cavar o gelo para encontrar uma saída, mas escorregou. Razvan elevou a cabeça e cheirou o ar... A fragrância do sangue, justo como Xavier havia dito que faria. Girou a cabeça lentamente até que seus olhos enlouquecidos se enfocaram em Lara.

Ela choramingou  e tentou se arrastar para longe, mas ele segurou seu braço, lambendo as gotas de sangue que se formaram sobre sua pele pelas marcas do chicote.

Lutou, tentou lhe afastar, mas ele a segurou e cravou os dentes profundamente em sua mão. Lara gritou.

Nicolas sentiu o corte por sua pele, o lacerar de músculos e tecidos até sua veia. Queimava. Pior que a agonia física era saber que estava tão indefeso. Não importava quanto lutasse, nem importava quantos golpes tentasse, não havia como escapar dos dentes que mordiam sua carne e sorviam seu sangue.

A cada momento ficava mais fraco até que sentiu que não podia levantar os braços para acautelar sua inevitável morte. Quase dava as boas—vidas à morte. Era preferível que estar tão impotente. Seu coração saltou alarmado. Então era assim. Era como Lara se sentia. Impotente. Cheia de desespero. Tão fraca e vulnerável em vez de poderosa e apreciada. Este era o pecado com o qual convivia eternamente.

Xavier afastou Razvan com um empurrão e levou do braço de Lara a própria boca. A dor dos dentes dele foi pior que o de Razvan. Seu neto o empurrava e dava tapas e arranhava Lara e grunhia. Os dois homens se debatiam aos murros e brigavam sobre o prêmio. Lara chorou brandamente até que seu corpo ficou muito fraca até para isso. Ofegando e assobiando, seus pulmões lutavam para procurar ar enquanto Xavier controlava Razvan utilizando magia, enjaulando—o em um campo de energia, lhe devolvendo à suas correntes.

O velho se voltou para olhar à menina caída no chão e sua face era uma máscara de fúria.

— Você se atreve a me tocar? A me chutar? Eu te dou comida. A vida inclusive. Pequena ingrata. – Ele baixou a mão e levantou Lara pelo cabelo. Pelos longos cachos que emolduravam seu rosto.

A energia rangeu e a luz faiscou ao redor de sua mão aberta. Uma tesoura apareceu, afiada e temível. Sem preâmbulos, ele cortou os cachos fazendo com que grandes partes do cabelo sedoso caíssem no chão da caverna de gelo. Lara gritou e se retorceu, tentando desesperadamente se liberar. Xavier a segurou firme e seguiu cortando, enquanto cantarolava.

Horrorizado, Nicolas empurrou Lara para o lado, sabendo que Xavier se propunha humilhá—la, cortar o cabelo tão perto do crânio como fosse possível. Longas mechas de cabelo começaram a cair, longos e espessos fios de uma cor negra como a noite cobriu cada centímetro dos cabelos avermelhados. O cabelo Cárpato crescia com rapidez e era espesso e luxurioso, quase como a pelagem de um animal e poucas vezes eram cortados. Era uma tradição sagrada de sua cultura e especialmente os antigos sentiam aversão a cabelos curtos. Nicolas não era uma exceção. Enquanto as mechas de cabelo caíam, sentiu—se doente por dentro.

O espírito de Lara se comoveu. Gostasse ou não era sua companheira e igual, seu desassossego pesava sobre ele, o dele pesava sobre ela. Entranhou—se mais profundamente na mente dele, permitindo que ele a levasse para longe de suas lembranças de infância. Nicolas não duvidou, considerando sua repentina capitulação como um presente. Rodeou seu espírito e os levou com rapidez do passado ao presente, entendendo completamente por que suas tias e seu pai haviam bloqueado suas lembranças. Ele as vivenciara com ela e se sentia tremulo e doente por dentro.

Nicolas sustentava Lara entre os braços, baixando o olhar para sua face, respirando pelos dois, chamando-a brandamente por seu nome.

—Volte para mim, ou jelá sielamak. Luz de minha alma, venha comigo, Lara.

Ela piscou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, o cansaço marcava seu rosto e a boca trêmula, os dedos se escorregaram do braço dele quando tentou se sujeitar. Elevou a mão e olhou horrorizada para o sangue que a manchava.

 

Nicolas baixou os olhos opacos para os de Lara. Olhos cristalinos. Olhos que não viam. Tinha forçado seu espírito a se aproximar da superfície... Ainda a envolvia ali, negando-se a deixá-la partir... Mas ela não se comprometia a viver. Negava a se comprometer com ele.

— Não posso te culpar Lara, mas te peço uma segunda oportunidade. Volte para mim.

Ela se sobressaltou. Primeiro seu espírito e depois seu corpo físico. Via-o como um inimigo, um homem que a encarceraria e tomaria seu sangue. Que desejava seu sangue. Precisava dela. Estava sedento dela. O reconhecimento enchia sua mente e como estavam fundidos e ele tão honesto com ela como estava insistindo em ser, não podia negar.

Desejaria seu sangue. Era sua companheira e parte de sua união... Uma enorme parte era fazer amor... Seria o intercâmbio de sangue. Uma reafirmação do amor e do compromisso de um pelo outro, não só o coração, a mente e a alma, mas a vida física também.

Ele pressionou sua testa contra a dela. — Encontraremos uma forma de satisfazer as necessidades de ambos. Somente temos que aceitar esse compromisso.

Ele era um homem que sempre estava seguro de cada um de seus movimentos, que sabia o que fazer em qualquer circunstância, mas que de repente havia perdido o equilíbrio, estava inseguro do que tinha que dizer ou fazer. Nunca em sua vida, sequer quando pequeno havia se sentido impotente ou vulnerável, não havia forma de que entendesse de tudo ou o trauma que tinha passado.

Podia abraçá-la como estava fazendo agora, balançá-la gentilmente, sentindo-se perdido. — Não tenho palavras para fazer isto bem.

Ela ainda estava quieta, muito quieta. E ele se sentia quase desesperado. — Minha vida foi muito diferente da tua. Tive pais amorosos e quatro irmãos fortes que sempre me respaldaram. Sempre tive uma força enorme de corpo e de vontade. Minhas habilidades são superiores às de muitos outros e acredito que, desde pouca idade, desenvolvi uma pouco favorecedora arrogância. Sempre fui capaz de me sair bem no que desejava.

Roçou os lábios contra as pálpebras dela, sentindo—os revoar, um sussurro de movimento parecido ao gentil bater de asas de uma mariposa. Estava ela ouvindo—o? Ele tinha uma oportunidade de trazê—la de volta até ele? Ou estaria presa para sempre em um mundo intermediário onde não poderia alcançá—la?

— Eu estava contigo lá desta vez, Lara. Descobri o que é se sentir indefeso, se sentir pequeno e cheio de desespero.

Produziu—se um pequeno silêncio. Nicolas se encontrou contendo a respiração. Ela era consciente dele, estava perto... Tão perto que todos os seus instintos lhe diziam que a pegasse e a segurasse pelo resto do caminho até a terra dos vivos, mas lutou contra esse lado dominante de sua natureza e esperou tão pacientemente como qualquer caçador.

Houve um movimento em sua mente. — Não queria isso para você. — As pálpebras revoaram e Lara abriu os olhos. Dor e culpa se misturavam ao medo. Seu olhar lhe percorreu o rosto e depois subiu para seu cabelo. Seu corpo pulou como se a tivessem golpeado.

Nicolas baixou o olhar para si mesmo. Estava coberto de sangue e das marcas de chicotadas e cortes e suas costelas estavam machucadas pelos chutes. Estava com ferimentos em suas mãos, profundas espetadas e lacerações abertas. Ainda abraçando—a, estendeu uma mão para tocar os cabelos cortador. Seu cabelo havia desaparecido, deixando somente marcas.

Seu coração saltou e depois respirou e deixou o ar sair dos pulmões.

—Lara, fél ku kuuluaak sívam belsö. Amada, deve voltar completamente para este mundo.

O olhar dela continuava vagando por sua face, os olhos verdes azulados estavam cheios de lágrimas, derretendo a pedra fria de seu coração, que na realidade ele nunca tinha usado.

— Não sou amada.

Nicolas capturou—lhe a mão com dedos gentis e a levou aos lábios.

—Você me devolveu minha alma, paläfertiilm e agora restaurou meu coração. – Ele colocou a mão dela sobre o coração. – Ele pulsa novamente. Está pulsando por você.

Ela estava coberta de marcas de chicotadas que já empalideciam, mas tinha que comprovar por si mesmo o que o corpo da Lara conservava daqueles anos de infância. Ela não era completamente Cárpato e duvidava que seus ferimentos tivessem se curado como já estavam fazendo os dele. Ela havia sofrido anos de abuso. Por que não tinha descoberto já?

Nicolas girou sua mão para lhe examiná-la. Havia dezenas de cicatrizes uma sobre as outras. Fatiadas, espetadas e cortes formavam um bracelete em torno dela. As mais frescas provinham de seus próprios dentes quando ela tentara abrir as veias para escapar da escuridão nele. Ele se contraiu diante da visão. A pele cicatrizada dos contínuos abusos da infância lhe tinha salvado a vida, mas como um lobo retalha e morde a própria pata quando é capturado numa armadilha, ela estivera mais do que disposta a fazer o mesmo.

A visão das marcas o envergonhou como nada mais poderia ter feito. Ele tinha revivido somente uma pequena porção de sua vida e tinha ficara sacudido e doente por dentro. Ela tinha suportado anos. Pressionou a mão dela contra a boca. O corpo inteiro de Lara saltou e murmurou brandamente, fechando os olhos. Lágrimas desciam incessantes por sua face.

— Confie em mim, ou jelä sielamak. Luz de minha alma. Confie em mim, Lara.

Ele manteve a voz baixa, sem ser hipnótica. Respirou ar sobre as ásperas cicatrizes e depois baixou os lábios até as mãos dela. Sua língua roçou uma carícia curadora sobre a pele rígida. Seus lábios continuaram roçando num pequeno movimento consolador. Ele sussurrou um cântico curador, rítmico e formoso aos ouvidos, as palavras ancestrais fluindo de sua melódica voz.

Ela deixou de resistir, mas ele a sentiu manter muito quieta como se esperando uma traição. Seu coração chorou por ela, pela criança a quem haviam feito se sentir tão indefesa e pela mulher adulta cujo companheiro descuidadamente a fizera se sentir igual.

Virou-lhe a outra mão e efetuou o mesmo ritual, banhando lentamente sua pele com o agente curativo de sua saliva, enquanto a olhava nos olhos, em busca de um sinal de retirada. Não houve movimento nem um sentido ou o outro. Ela ficou completamente imóvel, muito assustada para sequer piscar para ele, com um animal selvagem preso.

—Não vou fazer te fazer mal. – Ele tranqüilizou-a, mantendo a voz baixa, com intenção de atraí—la completamente de volta à superfície. Ela estava suspensa ali, pronta para voltar a se retirar para um lugar de horror infantil em vez de ficar prisioneira como adulta. – Fique comigo, Lara. Deixe-me te mostrar como um homem dos Cárpatos aprecia sua mulher.

Ele afastou para o lado uma mecha que sobrara do cabelo brilhante, para lhe examinar as marcas do pescoço. As suas estavam ali ainda, duas pequenas espetadas, um pequeno sinal em forma morango. Pressionou a boca nesse ponto, passando a língua pela marca de posse para curá—la completamente. Onde antes seria importante para ele que o mundo soubesse que ela era dele, agora era importante vê—la livre de qualquer lembrança de sua infância. Ela estremeceu e seu corpo ficou tenso, mas novamente, seu espírito parecia suspenso ali, simplesmente esperando.

— Não se alarme, Lara. Preciso examinar suas costas. – Nicolas escolheu usar a forma mais íntima de comunicação, mente a mente, para que seus motivos ficassem absolutamente claros. — Tenho que dar uma olhada em suas costas e pernas.

A urgência em ver por si mesmo era uma necessidade e havia crescido como uma monstruosa compulsão contra a qual não podia lutar. Seu próprio corpo estava coberto de raias brancas que já se curavam, o que significava, que estava seguro. E ela tinha cicatrizes por todo o corpo, avisos constantes de sua impotência e humilhação. Suas mãos foram amáveis quando a estendeu de barriga para baixo sobre as suaves mantas que tinha fabricado para ela. Um pensamento momentâneo o tomou, de ver sua pele brilhando sob a bruxuleante luz das velas. Ela estava tão tensa que tremia, mas jazia imóvel sob as pontas acariciadoras de seus dedos.

Suas costas era um crisol de raias e elevações brancas. O padrão continuava descendo pelas as nádegas e a parte de atrás das pernas. A maior parte eram superficiais e fracas, mas o tecido tinha cicatrizado sobre algumas delas. Sabia, pelo fogo em suas costas e pernas, que ele suportava as mesmas marcas, embora dentro de uma hora, teriam desaparecido de seu corpo como se nunca tivessem estado ali.

Seus olhos arderam e ele os fechou por um momento, desprezando a si mesmo por não saber, por não tomar o tempo necessário para conhecer cada centímetro do corpo de sua companheira, conhecer cada pedaço de seu passado para assegurar sua felicidade futura. Tinha prometido apreciá—la, colocar sua felicidade acima de tudo, inclusive dentro do vínculo dos companheiros, a honra deveria ter ditado que fizesse assim. Estivera consumido por sua própria importância e por seus próprios desejos e suas crenças tinham sido sempre corretas e que outros lhe deviam obediência.

Nicolas se inclinou para frente e pressionou os lábios na metade de uma cicatriz particularmente profunda. Em sua mente, fundido tão profundamente com a dela, cantou as palavras curadoras de sua gente. Palavras cheias de poder. Quando o fez, ondeou uma mão de forma que as velas aromáticas encheram a câmara com fragrâncias consoladoras e curativas. Através do charco mineral, ervas exalavam sua fragrância para acrescentar o ambiente terapêutico.

Nicolas passou uma mão pelo cabelo, sentindo as extremidades cortadas e seu estômago fez um nó em protesto por seu próprio cabelo. Descartando a perturbadora sensação de raiva impotente, inclinou-se sobre as costas da Lara e começou a lenta tarefa de traçar cada cicatriz com a língua. Duvidava que depois de tanto tempo, as marcas fossem desaparecer completamente, mas certamente esmaeceriam até que fosse difícil vê-las. Era o que queria para ela.

Não era tão tolo para pensar que podia fazê-las desaparecer de seu corpo, o trauma abandonar sua mente... Ambos viveriam com o mal que lhe tinham feito, mas... — Não cometerei enganos. — A diversão deslizou sobre sua voz. — Quer dizer, não os mesmos enganos...

Lara deixou escapar um soluço amortecido e tremia da cabeça aos pés.

— Lara. – Ele sussurrou seu nome como uma suave caricia. — Não me tema. Sei que estava equivocado.

— Você, não. Eu. Eu estava equivocada. Minhas tias sempre diziam que onde há vida, há esperança. Foi uma retirada covarde. Não pensei no que te faria ou o que aconteceria a você. Honestamente não sabia que você me seguiria e tentaria me trazer de volta. — Outro soluço a sacudiu.

Ele pressionou beijos ao longo de duas finas nervuras, sua língua seguiu o caminho das marcas do chicote, para apagar as linhas de seu corpo. — Se não fosse por você, nunca teria averiguado o que se sente ao ficar indefeso. Teria dito que entendia, mas como poderia entender? Pode ser que tivesse sentido compaixão ou simpatia, mas nunca teria entendido verdadeiramente. Não, päläfertiilm, tinha que ser deste modo para que me convertesse no autêntico companheiro de minha outra metade.

Lara desejou acreditar em sua voz baixa e hipnotizadora, mas não tinha recuperado a coragem. Aterrava-a um futuro com este homem. Agora, ele lhe estava percorrendo seu corpo com os lábios e as mãos, incitando-a a uma tortura física quando estava tão assustada que não sabia o que fazer ou para quem voltar. Ele esgrimia poder sobre ela, quisesse ela ou não. Ele parecia entender, sua voz era uma promessa de sedução, suas mãos e seus lábios uma hipnótica liga de sedução e caloroso consolo.

Lara jazia com os olhos fechados, absorvendo a sensação das mãos consoladoras sobre sua pele. Era incrivelmente sensual tê-lo lambendo seu corpo com a língua, em longas e lentas carícias que a faziam estremecer. Ele não estava tentando ser sensual. Ele era simplesmente tão natural como seu toque, numa carícia íntima de sua língua ou talvez fora o elo entre companheiros. Sabia que ele não estava tentando excitar seu corpo, estava firmemente no interior de sua mente e podia sentir suas intenções de curá-la, de eliminar qualquer sinal dos abusos.

Suas mãos o modelavam seus quadris e as pontas de seus dedos viajavam sobre a curva de seus seios, sua língua seguindo as finas nervuras brancas. Agora podia sentir seu cabelo, a ilusão da cabeça tosquiada havia desaparecido, assim que a longa cabeleira caía como uma chuva sedosa sobre sua pele nua. Seu útero se encolheu e seus lábios se moveram nervosamente.

A atenção inteira dele parecia estar sobre ela... Sobre seu corpo, sua pele. Passava—lhe as mãos pelos lados dos seios, pelas as costelas, moldava seus quadris e sob o traseiro para acariciar suas nádegas e descendo pelas coxas. O prazer da exploração eram lento, gentil e todo o tempo sua língua lambia as cicatrizes. Podia sentir o rolas de seus lábios quando deixava cada beijo pelo caminho de sua coluna e até a pequena base das costas. Seu corpo vibrava com o toque e cada terminação nervosa estava consciente dele.

Um som escapou, em algum lugar entre um gemido e um lento vaio de desejo. Apertou—se mais contra o travesseiro e as lágrimas ardiam em seus olhos. Como podia lhe desejar deste modo, quando ele havia lhe tinha arrebatado a dignidade, a independência, tão duramente ganhas depois de uma infância de abusos? Mas seu corpo estava aceso por ele. Cada toque de suas mãos e de sua língua, inclusive o roçar de seu cabelo enviava chamas sobre sua pele e aumentava a fome que florescia em seu interior.

— Quase terminei, ou jelä sielamak. Luz de minha alma, fique quieta para mim. Porque se não ficar, seu corpo vai estalar em chamas. – Ela havia começado pensando somente em curá-la, mas já estava duro e dolorido, pressionando firmemente contra a coxa dela enquanto trabalhava.

Nicolas tentou evitar que a sensação acetinada da pele e as curvas arredondadas de seu corpo o afetassem, mas foi impossível. O corpo dela tremia, suas pernas se moviam intranqüilas e ele sentiu o aroma da chamada dos companheiros, mas ouviu um pequeno soluço, amortecido e contido. Seguia profundamente fundido com ela, notando seu desconforto.

— É bom desejar seu companheiro, Lara. Desfrute da sensação, não a tema. Só porque ambos desejamos o corpo um do outro, não significa que tenhamos que atuar a respeito. Está a salvo comigo. Só desejo te curar, não aumentar seus medos.

Houve um pequeno silêncio. Nicolas conteve a respiração esperando sua resposta.

— Não estou preparada. — Havia desculpa e culpa em sua voz.

— Como poderia estar? Tem que confiar antes de entregar seu corpo aos meus cuidados. Não há necessidade de ficar nervosa porque eu a deseje. Você é minha companheira. — Sua língua tocou a parte de trás de sua coxa em um toque lento e intimo sobre uma covinha esbranquiçada. – Acredita—se que devo te desejar e você desejar a mim.

Lara esfregou o rosto contra o travesseiro. A excitação brincava entre suas coxas. — Suponho que isso é algo do qual não temos que nos preocupar. — Cada estocada da língua intensificava o desejo crescente. Estava muito confusa e rasgada pelo medo, temendo se comprometer com ele, embora seu corpo a traísse... Úmido, chorando de fome, chamando o dele, os seios sensíveis e seu sexo inflamado e ansioso. Ele não teve pressa ao trabalhar suas panturrilhas, quando seus próprios apetites acreditavam em cada roçar de sua pele contra a dela.

— Isto não é sexo, Lara, é cura. Quando eu te fizer amor, não haverá duvida sobre o que estou fazendo. Mas você não estará confusa e temerosa. Virá a mim totalmente disposta ou não, absolutamente.

Esse era o problema... Ela estava disposta... Pelo menos seu corpo estava e o fato parecia uma traição a si mesma. Tinha-lhe permitido trazê-la de volta, acordando em essência de comprometer sua vida com a dele novamente, mas ele ainda parecia ter todo o poder.

—O verdadeiro poder jaz em você. — Objetou Nicolas, lendo seus medos facilmente. – Ele se sentou e ondeou a mão de forma que um tecido suave cobriu a pele nua de Lara, evitando que ela se sentisse tão exposta e vulnerável. Apoiou-lhe as costas em seus braços, puxando-a para ele. — Uma mulher é o maior tesouro que um homem pode ter. — Podia sentir como o corpo dela tremia e ela ergueu para ele com expressão preocupada. — Na verdade você está muito fraca para te levar a estalagem, mas se isso a faz sentir melhor, posso levá-la. Meu medo é que se formos atacados, seríamos muito vulneráveis lá.

Precisava de sangue... E também ela. Tão fraco como estava, duvidava que pudesse agüentar mais que algumas horas antes que se visse obrigado a lhe dar outro intercâmbio e não estava seguro de qual era a melhor forma de tocar no assunto.

—Não me dá medo estar aqui.

Isso não tinha sido o problema, Nicolas sabia. E captou seu desejo, apressadamente suprimido, de estar a céu aberto, onde pudesse sentir livre. Não queria movê—la, ao menos até que estivesse significativamente mais forte.

Nicolas se apoiou contra a cabeceira da cama com Lara nos braços. Descansou o queixo no sobre o cabelo sedoso e a sustentou entre os braços, perto de seu peito. Seu coração estava sob o ouvido dela, num ritmo firme que pretendia tranqüilizá—la. Ela desejava estar a céu aberto. Um pequeno sorriso tocou sua boca e ele dirigiu sua atenção para o teto alto da caverna.

As luzes titilantes de repente se apagaram, deixando uma absoluta escuridão. Imediatamente, se deu a sensação de que a câmara crescia e se expandia e depois, a escuridão se iluminou com milhares de estrelas. Lara ofegou, elevando o olhar para as cintilantes estrelas e constelações espalhadas pelo teto. O céu se tornou de um negro, uma cortina de fundo perfeita para as faiscantes estrelas. Uma leve brisa percorreu a caverna, trazendo a fragrância de flores silvestres e grama recém cortada. Lara piscou e notou que as estalagmites, grandes colunas de minerais depositados pela água que gotejara durante séculos, retorceram—se até se converter em grossos troncos de árvores, com galhos que se estendia até chão da câmara, para se entrelaçar umas com outras formando um bosque. As folhas revoavam com a brisa, sussurrando.

Ela se recostou e olhou para cima, encantada.

—É formoso.

Nicolas não podia afastar os olhos da expressão absorta de sua face. Pela primeira vez desde que a tinha conhecido, fazia algo bom.

—Vê essa constelação ali? – Ele assinalou para um grupo de estrelas. — Observe.

A princípio, as estrelas permaneceram imóveis no céu e era difícil distinguir que formavam uma constelação, mas então formaram uma silhueta, dois dragões gêmeos tomando forma lentamente enquanto as estrelas começavam a brilhar mais intensamente, formando os corpos, as longas caudas e as cabeças. Um dragão se estirou, inclinando—se para diante, elevando uma pata em um gracioso movimento. O segundo dragão jogou a cabeça para trás e soltou um jorro de vapor branco. Enquanto observavam, o gás começou a girar, tomando forma como se empurrado pela gravidade, mostrando um longo e fluído tubo opaco.

O dragão moveu as asas, as estrelas que formavam seu corpo resplandeceram de um branco candente. Seu gêmeo elevou os próprios quartos traseiros e abanou o céu, espalhando estrelas em todas as direções.

A suave boca de Lara se curvou tentativamente num sorriso e ela até se recostou contra ele. Estava exausta, incapaz de se sentar de tão fraco que estava. Nicolas recostou—a contra os travesseiros e se deslizou ao lado dela, apoiado sobre o cotovelo, continuando a ilusão de estarem fora da caverna, a céu aberto.

Os cristais da estadia começaram a vibrar, fazendo as folhas dançar e às árvores a zumbir. O solo estava coberto de flores, brotando de todas as partes, mostrando um atalho que conduzia da cama até o arco até a câmara do charco. O arco desaparecia sob as trepadeiras, à medida que estas se envolviam umas nas outras e subiam pelas paredes.

Lara mantinha o olhar fixo nas estrelas. Os dragões saltavam enquanto brincavam com descuidado abandono. Suas travessuras a faziam sorrir.

—Tente você — disse ele.

Ela sacudiu a cabeça.

—Eu não posso fazer isso.

—É obvio que pode. — Nicolas segurou sua mão e entrelaçou seus dedos aos dele, assinalando enquanto um grupo de estrelas sobre as cabeças dos dragões. — Escolha um grupo que lembre um animal.

Ela engoliu visivelmente e Nicolas pôde sentir como seu corpo vibrava pela tensão. Em sua mente ela desenhou o mesmo dragão que havia desenhado em sua parede. O que tinha surgido ante ela e a atacado viciosamente. A solução do problema dos dois podia ser simples em teoria, mas levaria tempo e paciência. Ele precisava fazê-la sentir o poder que corria por seu corpo e sua mente. Era uma Caçadora de Dragões, de uma das mais legendárias e reverenciados linhagens. O conhecimento, não só dos antigos costumes dos Cárpatos e suas habilidades, mas também dos magos, tinha sido introduzido em sua mente. Lara possuía um tremendo potencial. E ele tinha que lhe mostrar esse poder.

Mas ela poderia tentar deixá-lo. O pensamento chegou indesejado e Nicolas sentiu a escuridão nele se elevar. Até seus dentes se alongaram. Agora que suas emoções estavam envolvidas também, ele era mais perigoso que nunca. Lutou para conter a necessidade de dominar e se inclinou para mais perto dela, pressionando os lábios contra seu ouvido de forma que roçassem o macio lóbulo.

—Você tem todas as habilidades,de suas tias, de seu pai e agora minhas, em sua mente. Só tem que encontrar a informação adequada e usá—la. Sua mente está fundida a minha. Siga o que eu fiz e terá o controle absoluto da ilusão. É tudo o que tem a fazer.

Lara estremeceu, seus olhos azuis se intensificaram até se tornarem verdes. Seu cabelo se encheu de mechas coloridas, já passando a um vermelho profundo.

—Mas parece tão real. Se o tocasse, acredito que poderia senti—lo.

— É obvio. Se não, eu não teria feito apropriadamente meu trabalho.

Lara estendeu uma mão para o céu. As estrelas pareciam bem reais, como o bosque circundante e o leito de flores. Ela lançou outro olhar nervoso para Nicolas, lhe recordando novamente uma criatura selvagem abandonada e temerosa por sua vida. Ela estava pronta para se defender se fosse necessário; podia sentir sua mente se preparando para os problemas.

—Tente com o grupo de estrelas dali, à esquerda. Para mim ela gostaria de ter um pequeno com quem brincar.

— Perdi o controle de meu desenho uma vez, — admitiu ela em voz baixa.

Nicolas sentiu as mordidas em seus braços e pernas, como se aqueles dentes afiados lhe estivessem rasgando a carne novamente. Pegou o braço dela e beijou as pequenas e débeis cicatrizes.

—Não perderá o controle desta vez e se acontecer eu te ajudarei.

Ela lhe sustentou o olhar durante um longo momento e depois voltou sua atenção à constelação de brilhantes estrelas que formavam a silhueta do que para ela parecia ser um cão. Concentrou—se, desenhando em sua imaginação, escolhendo as estrelas para a silhueta do corpo de um jovem dragão. Mais magro, menor e mais compacto, mas com as asas estendidas e uma longa cauda cheia de aguilhões. Prestou mais atenção ao detalhe que Nicolas lhe dissera e isso a fascinou. Ela havia passado sua infância com suas tias prisioneiras na forma de um dragão e obviamente sabia.

O dragão dela tinha filas de dentes afiados, embora olhos amáveis. A boca estava ligeiramente aberta e uma firme nuvem de vapor saia em torrentes na noite, criando mais estrelas. A cabeça oscilou para cima e a cauda se retorceu. Lara sorriu, mas seu corpo permaneceu tenso.

— Seu dragão é assombroso, bem mais detalhado que o meu, — disse Nicolas.

O menor de seus dois dragões sacudiu as asas e inclinou a cabeça cuneiforme para o bebê de Lara. Os dois dragões o tocaram com o nariz e o bebê dragão cambaleou para trás. A suave risada de Lara encheu a câmara... E seu coração. Os músculos de seu abdômen se enrijeceram e seu sexo se encheu de sangue quente, endureceu lhe enchendo de uma rajada de emoção.

—Necessitamos de algo mais — disse Nicolas. – Deixe-me ver que posso fazer.

Ele escolheu uma constelação mais longa e fina, usando as estrelas para formar a figura de uma mulher que vestia polainas ajustadas e saia.

— Você está me desenhando. — Lara assinalou para a cabeça. — Não esqueça meu cabelo.

Ele esfregou o queixo pelo ombro dela, injetando um tom zombeteiro na voz e em sua mente.

—Você tem pouca paciência.

Seu sorriso em resposta foi uma tentativa, mas ali estava. Nicolas fez o cabelo de forma deliberadamente torpe, dando—lhe comprimentos diferentes.

Lara o acotovelou, rindo em voz alta.

—Certamente você não é um artista.

—Sou melhor como músico. Faça você o cabelo.

Ela escolheu várias estrelas brilhantes, conectando-as de forma que pareceram longas mechas de cabelo brilhantes emoldurando a forma de um rosto.

Ele segurou-lhe o queixo entre os dedos e inclinou seu rosto de um lado a outro, estudando sua estrutura facial.

— Seu queixo não é pontudo.

—Talvez não, mas a estrela está perfeitamente alinhada.

Ele ondeou a mão e outra estrela apareceu paralela à primeira.

—Isso é armadilha.

Nicolas beijou o alto de sua cabeça.

—Mas se parece muito mais com você. O mesmo diminuto sinal. – Ele esfregou o ponto com a ponta de seu polegar... — É absolutamente adorável. – Nicolas se inclinou para roçar o canto de sua boca e o ponto tentador em seus lábios.

O coração de Lara bater com força no seu peito, mas ele se estirou prazerosamente e se deslizou para fora da cama, para enfrentar bosque de árvores. Elevou os braços e iniciou uma música. Primeiro o baixo pulsar de um tambor, depois o suave acorde de um violão. Um piano se uniu, seguido por vários instrumentos de sopro.

Lara fechou os olhos e se deixou levar pela música. Era bastante bela, obviamente uma peça original. Havia mais em Nicolas que o agressivo caçador que havia pensado a princípio. A água que fluía da parede até o charco se aliava à sensação consoladora do bosque e da música. Sentiu—o deitar na cama a seu lado.

—Tenho que sair por um momento, Lara. — Disse Nicolas. — Devo me alimentar. – Ele passou-lhe a mão pelo cabelo. — Eu não faria isto, sabendo que pode te chatear, mas você está muito fraca e eu preciso fazer com que recupere toda sua força.

Ela umedeceu os lábios, concentrando-se nos acordes da música. Sua pulsação estava acelerada ante o que ele queria dizer. Sabia que era certo. Apenas podia elevar os braços. Se fosse encontrar os corpos de suas tias ou pelo menos as respostas do que tinha acontecido a elas, tinha que recuperar suas forças. E agora existia o quebra-cabeças de seu pai. A menina não tinha visto a verdade de sua terrível existência, mas a mulher sim. Tinha que encontrar as mesmas respostas para ele. Se fosse possível que estivesse vivo, precisava lhe encontrar e liberá-lo.

—Lara? — Nicolas se inclinou para ela, lhe alisando o cabelo com mão gentil. — Entende o que estou lhe dizendo?

Lara obrigou seus olhos a se abrirem para encontrar seu olhar. Era agora ou nunca, saber se ele realmente havia mudado. Ela tentou se levantar e se sentar. Instantaneamente ele estava ali com seus braços, fortes impulsionando-a, arrumando os travesseiros a seu redor para que ela se sentisse cômoda.

Obrigou-se a falar em voz alta, com seu olhar fixo no dele.

—Quer me dar sangue.

Ele não afastou o olhar e manteve sua mente firmemente fundida a dela.

— Preciso te dar sangue, ele a corrigiu, permitindo-a ver a verdade, sentir a fome que tinha dela, de seu sabor, da excitação de segurá—la perto dele e sentir o incrível vínculo entre os companheiros. Acima de sua fome pessoal por intercambiar sangue com ela, sentiu sua necessidade inclusive mais forte de fazê-la recuperar a saúde.

Lara umedeceu os lábios.

—Tenho que voltar para a caverna de gelo — resmungou. — Essa o a razão pela qual vim aqui em primeiro lugar. Tenho que voltar. Não você. Nem outros Cárpatos, mas eu. Minhas tias me mantiveram viva. Não, elas fizeram mais que isso. Mantiveram—me lúcida e suspeito que também a meu pai enquanto puderam. Devo-lhes isso e preciso encontrá-las vivas ou mortas, averiguar o pior, isso não importa. Tenho que fazer.

Aferrou-se à mente fundida, lendo as reações dele, se negando a sobressaltar e afastar o demônio dominante e poderoso que se elevava sobre uma onda de escuridão para protestar. Era sua maldição, havia dito ele. Notava claramente agora. Nicolas nunca seria nada mais que o que era e ele era uma presença enérgica que possuía confiança em suas decisões. Sempre acreditaria em protegê-la em primeiro lugar, mantendo—a a salvo, mas também estava lutando para lhe dar uma sensação de confiança. Via—se como igual, mas também alguém que precisava ser protegido e governado. Estava decidido a crescer, além disso. Notou e sentiu sua luta em conter sua primeira reação. O protesto emanava dele forte... Violento, inclusive.

—Não me vai me deixar isso fácil para mim, não é? — Perguntou Nicolas com um pequeno suspiro.

—Tenho que entrar nessa caverna. Estou te dizendo, para que entenda.

— Pode falar sem reservas, que entendo. Entendo-a. De verdade, eu tenho que voltar para essa caverna. Estive lá contigo, compartilhando os horrores por pouco tempo e suas vozes não só ajudaram somente a você, mas a mim também. Você é minha companheira. Um presente dos deuses e elas a mantiveram viva e lúcida para mim. Entendo tua necessidade de conhecer seu destino. Se estiverem mortas, recuperaremos seus corpos e as levaremos para casa. Se, por algum milagre ainda estiverem vivas e encontrarmos prova disso, nunca pararei até que sejam encontradas.

Pela primeira vez Lara estendeu a mão para ele, pegou suas mãos e segurou entre as suas, seu olhar não vacilou.

—Tenho que ir eu mesma, Nicolas. — Repetiu cada palavra claramente, observando como impregnavam, observando a reação instintiva dele.

Ele parecia tão incrivelmente belo e perigoso com seus ardentes e brilhantes olhos negros e seus traços sensuais. Seu cabelo já estava comprido novamente e recolhido para trás com uma tira de couro, o que a fez perguntar por um momento se deliberadamente havia deixado que as mechas lhe roçassem a pele nua. Sentiu—se ruborizar ante a idéia.

—Leia minha mente, se necessitar. Olhe e sinta por que é tão importante para mim. Só porque sou uma mulher não significa que não tenha as mesmas necessidades que me conduzem a proteger aqueles que amo. Minhas tias foram o único apoio real que tive em minha infância. Não se lembrava de meu pai, até que redescobri a caverna de gelo.

—Köd alte hän. Maldita escuridão. — Nicolas vaiou o juramento entre dentes. O problema era... Que a entendia. Como não poderia? Não queria, não quando a só idéia de Lara nessa caverna o deixava louco. Era muito perigoso. Que tipo de companheiro seria se não a protegesse? Toda sua vida tinha exortado sobre os que homens eram muito indulgentes com suas mulheres, deixando—as se envolver ao redor de seus dedos... Ou jelä peje terád. Que o sol o abrasasse. Estivera disposto a se dirigir ao conselho de guerreiros e exigir que Mikhail proibisse as mulheres caçar vampiro. Se permitisse que esses olhos verdes azulados o afastassem do caminho que sabia correto...

Gemeu.

Não me faça isto, Lara.

— Sei que será difícil para você. Se aprendi alguma coisa sobre você, fundidos como estamos é que estou te pedindo algo enorme... Colocar de um lado sua necessidade de me manter a salvo, mas tenho que lhe pedir isso. Em troca... – Ela umedeceu os lábios repentinamente secos. Seu corpo tremeu e depois ela elevou o queixo. — Não espero que seja o único que se sacrifique. Em troca, aceitarei sua necessidade de meu sangue.

Ali estava. Uma oferta. O companheiro uivou com um júbilo completo. O demônio se elevou, faminto insaciável, golpeando-o com força, com um duro e possessivo desejo. O sangue se esquentou em suas veias e pulsou em sua virilha. Se ela dizia e ele aceitava, não retiraria... Não poderia... Retirar sua palavra.

O demônio, o arrogante e dominante caçador se regozijou. O companheiro deu um passo atrás e avaliou a situação. Ela estava pálida e trêmula, retorcendo-as mãos. O preço era muito alto para os dois e finalmente havia algo que ele podia fazer por ela.

Nicolas respirou fundo... Deixou o ar escapar lentamente. Emoldurou-lhe o rosto com as mãos e sacudiu a cabeça.

—Assim não. Não haverá trato algum entre nós, quando você sente repulsão e a assusta a idéia de fazê-lo. Quando eu tomar seu sangue Lara, será com amor, uma expressão de amor, um ritual entre um homem e sua esposa, tão velho como o tempo. Se não puder fazer com que se sinta o bastante cômoda para confiar em mim, aceitando o vínculo voluntariamente, então não a mereço como companheira. – Ele elevou as mãos para evitar que ela respondesse. – O que não quer dizer que não insista em que aceite meu sangue e se for necessário um intercâmbio, lhe direi. Terá a opção de que eu te controle durante esses poucos momentos para que não tenha medo.

Os dedos de Lara se envolveram ao redor da mão dele.

—E se não puder fazê-lo?

—Então terei que ajudá-la.

—E a caverna?

Este era seu presente para ela, o único que tinha para lhe dar. Tudo nele se rebelava, duros nós retorciam suas vísceras.

— Eu a levarei.

Fez-se um pequeno silêncio enquanto olhava nos olhos, procurando a verdade. Sentiu—a se mover em sua mente. A música continuava, a brisa se movia entre as árvores e os dragões de estrelas dançavam no alto.

— Está falando sério?

—Sou seu companheiro. Busque a resposta em minha mente.

Lara inclinou a cabeça, seu olhar sustentando o dele. Como ele, havia vivido seus primeiros anos e finalmente havia entendido o que era se sentir impotente, vulnerável e humilhado. Ela estivera fundida a ele e estava começando a entender que Nicolas tinha passado séculos protegendo todos os que o rodeavam. Era inerente em sua natureza. E permiti—la se expor ao perigo era uma enorme concessão... Mais ainda, ia contra tudo aquilo no qual tinha acreditado alguma vez ou o que simbolizava.

—Você é um homem surpreendente, Nicolas.

—Não diga isso até que eu consiga te tirar da caverna. Planejaremos cuidadosamente cada emergência. E você fará o que eu te digo. Estou há muito tempo caçando nossos inimigos e embora você conheça as cavernas, eu vi quão brutais eles são e você nunca lutou contra eles.

Ela assentiu com a cabeça.

—Não tenho intenção de fazer outra coisa, — ela o tranqüilizou. Recostou contra os travesseiros, muito cansada para seguir sentada. – Faça-o agora, enquanto soa a música e posso olhar as estrelas. Se não, vou desmaiar.

Ele quase tinha esperado que ela perdesse a consciência ou pelo menos que voltasse para um estado de dormência. Não queria que lhe tivesse medo, não agora que conseguira um pequeno progresso. Ela estava começando a confiar um pouco nele, aproximando-se dele, talvez inclusive dando pequenos passos para se encontrar com ele em algum lugar perto do meio termo.

O problema, Nicolas sabia, é que não havia meio termo para ele. Não sabia como se comprometer. Só podia esperar que seu desejo de entendê-la e fazê-la feliz o ajudasse a sobrepor sua necessidade de dominação total. Entendia por que as palavras rituais eram imprimidas nos homens. Ela não tinha prometido apreciar e pôr sua felicidade acima de tudo... Ele já tinha tomado sua vida, mudando seu curso para sempre. O homem tinha de fazer os sacrifícios para que a união funcionasse. Afinal, era quem mais benefício tirava dela.

Estendeu a mão para ela sem mais preâmbulos, puxando o corpo tenso até seu colo e embalando-a contra seu peito.

—Ouça o vento soprar através das árvores, päläfertiilm. Ouça a música de minha alma chamando à tua. – Ele alisou os cabelos dela e gentilmente virou o rosto dela para seu peito. Sua camisa se dissolveu, deixando os músculos expostos.

— Quando se toma sangue de seu companheiro é um oferecimento, um presente. Não está me fazendo mal, ao contrário. Eu me sinto bem fisicamente e sinto um prazer enorme em troca. Dar sangue é uma oferta de vida, minha vida pela tua, o compartilhar da mesma pele, como fazemos fisicamente quando fazemos amor ou psiquicamente, quando nos fundimos mente a mente. Um autêntico oferecimento é erótico a um companheiro. Entre guerreiros é literalmente um presente de vida. A verdade de um intercâmbio de sangue é bem diferente do conceito corrupto que Xavier tem dele.

Lara fechou os olhos para ouvir melhor o sedutor tom de sua voz. Embora ele tivesse usado a palavra "intercâmbio", ela sabia que Nicolas não tinha intenção de tomar seu sangue, embora o desejo pulsasse nele. Desejava sucumbir por completo a essa voz, a seu companheiro, lhe dar alguma coisa em troca quando ele estava lutando para estender uma ponte entre eles. Se ele podia lhe oferecer algo de tal magnitude, ela podia encontrar em si mesma, igual coragem.

Na verdade não foi difícil. O corpo dele era quente e duro. Seus braços... Enormemente fortes. Seu coração pulsava a um ritmo firme e ela seguiu sua liderança. Sentia-se leve e feminina, com o corpo dolorido e com seus músculos internos se enrijecendo. A excitação brincava entre suas coxas, em seu sexo. Seus seios ansiavam atenção.

Lassa se deixa levar por uma onda de crescente desejo e esfregou o nariz contra o peito dele, a pele estava nua sob sua face, antes de elevar as pálpebras para fitar seus olhos. Ficou atônita pela fome pura contida neles, a crua intensidade do desejo. Sua mente procurou e encontrou a dele enquanto lhe palpitava o pulso e o sangue urgia ardentemente em suas veias. A rajada de calor a tomou de surpresa. Sentiu os dentes afiados, o corpo reagir. O som do coração dele troava em seus ouvidos, o fluxo e vazante de vida através do corpo de Nicolas a enchia de excitação.

Durante um momento sentiu repulsão por sua própria natureza, pela necessidade crescente de tomar a essência vital dele, mas o olhar de Nicolas era tão ardente, tão faminto, que sua fome alimentava a dela. Fechou os olhos, esfregando o nariz contra o peito dele, deslizando os lábios sobre a pele nua. Sua língua passeou sobre o músculo rijo. O corpo masculino palpitou. Contra o traseiro, sentiu a ereção dele, dura como o aço, grossa e rígida, pressionando firmemente nela.

Um gemido escapou de sua garganta. Ela se moveu contra ele inquietamente. Sentia-o intensamente masculino. Forte. Sentia-o como sua outra metade. Seu corpo se derreteu em meio ao calor. O desejo se elevou. Um impotente desejo de saborear... Cada centímetro dele. Uma onda gigantesca de desejo a varreu, levando-a consigo. Lambeu a pele ardente. Uma vez. Duas. E seus dentes se alongaram em espera. Sua boca se encheu de um sabor picante.

Mordeu gentilmente. Uma leve mordida, experimental. Ele estremeceu em resposta, apertando os braços possessivamente, sua ereção pulsou. Lara abriu os olhos uma vez mais, sustentando seu olhar, afogando em sua fome. Então cravou os dentes profundamente. Nicolas jogou a cabeça para trás e gemeu sensualmente, num som rouco que enviou tremores por todo o seu corpo.

O sabor aditivo alagou seus sentidos. Poder. Energia. Uma rajada de luxúria tão forte que seu corpo se abalou. Ele simplesmente a abraçou mais forte, sujeitando com uma mão sua cabeça, mantendo—a contra ele. O poder encheu seus órgãos e células, rangendo através das veias e artérias para centrar em seu sexo e pulsar ali com crescente fome.

Tudo nele era mais vívido, cada um de seus sentidos se aguçaram, de forma que quando inalava o atraía a seus pulmões. Ouvia o ritmo do coração dele chamando e seu coração respondendo.

Ele sussurrava em sua mente, com voz ligeiramente rouca, tão sensual que começou a brincar com imagens eróticas em sua cabeça... Na cabeça dele.

Nicolas gemeu novamente, lutando para se controlar. Desejava mostrar a ela uma experiência sensual, mas ela estava colocando em terra os limites de séculos de contenção. — Lara. Ou jelä sielamak. Luz de minha alma, tem que parar antes que seja muito tarde e não haja volta.

Não queria que ela parasse. Deslizou as mãos por seu corpo, para embalar seus seios nas Mãos. Um só pensamento e suas roupas desapareceriam. Poderia tê—la, entrar no refúgio de seu corpo, levando os dois diretamente para o paraíso.

Os lábios dela se moviam, pressionando contra ele, seu traseiro deslizava intimamente sobre sua ereção, o toque provocava tremores de prazer por todo o seu corpo. Mais um minuto e a decisão já não estaria em suas mãos. Mesmo agora em meio do êxtase de estar tomando o sangue de seu companheiro, o corpo dela estava aceso, dava boas—vindas ao dele, mas ela não estava pronta para o passo seguinte e Nicolas se negava a se aproveitar... Se podia se conter.

Relutantemente, ele abandonou a suavidade de seus seios e deslizou a mão entre a boca dela e seu peito.

— É o bastante, fél ku kuuluaak sívam bels. Carinho, você tem que me ajudar.

Ela passou a língua pelas marcas gêmeas. Seu olhar era uma combinação erótica e dolente que só incrementou seu desejo. Viu como a mão dela subia para lhe rodear o pescoço, atraindo sua boca até a dela.

Seu coração parou quando os lábios dela roçaram os seus. Num lento e ligeiro toque que lhe roubou o ar dos pulmões.

—Realmente você é o mais assombroso dos homens, Nicolas.

Até sua voz era uma sedução. Não ia poder sobreviver a isto. Seus pulmões ardiam, seu membro doía. Cada músculo de seu corpo estava apertado pela tensão sexual.

Inclusive com mais relutância, afastou—se para o lado, pousando—a sobre a cama. Levou—lhe algum esforço conseguir que seu corpo normalmente leve, se movesse para poder se levantar e se afastar um pouco dela a fim de conceder uma pausa temporária a si mesmo. Tinha que sair para o ar fresco da noite e recuperar o controle.

—Tenho que ir, Lara. Descanse até que eu volte. — Era uma retirada covarde e podia notar no rosto dela que ela não gostava, mas era a única saída segura que se abria para ele.

 

—Vai deixar-me aqui? Não quer falar sobre o que aconteceu entre nós? – A mão de Lara tremia enquanto afastava do rosto a sedosa cabeleira.

Nicolas estava num intenso estado de consciência sexual. Estava com fome, morria de fome e o aroma dela o conduzia à loucura. Já podia saboreá—la em sua boca. Seu demônio interior rugiu cobrando vida.

Afastou-se da cama, virando a cabeça, para que ela não visse as vermelhas chamas que sabia estar em seus olhos. Cravou as unhas nas palmas da mão. Os dentes se afiaram e quando falou, a voz que habitualmente mantinha baixa insinuava um grunhido.

–Agora não é momento de falar comigo sobre sexo, Lara. Eu não sou santo de forma alguma.

Ela estudou o rosto afastado. Seu olhar percorreu todo o corpo dele, até a grossa e impressionante protuberância que marcava a parte da frente de sua calça jeans. Sentia um poder embriagador em saber que havia o levado aos limites do controle, mas não estava pronta para confrontar as conseqüências. Nicolas tentava desesperadamente lhe dar tempo e sinceramente, ela necessitava. Suspirou e se retirou da borda do precipício, pelo quão tentada se sentia a pular.

—Não quero ficar sozinha — disse Lara. — Não outra vez. Sequer nesta caverna tão formosa. Preciso sair ao ar livre contigo.

Nicolas passou as mãos pelo cabelo e andou pelo aposento, lhe recordando um felino selvagem preso. Os músculos se ondulavam sob a fina camisa e fluíam com graça a cada grande passo. Bruscamente ele retornou à cama, elevou sobre ela durante um momento e depois se abaixou.

–Fel ku kuuluaak sívam belso. Amada, tenho uma necessidade desesperada de sangue. Tinha planejado deixar de compartilhar nossas mentes para que você não tivesse que experimentar. Não posso te levar comigo e fazê—la ver algo que a angustia, não importa quão necessário seja.

Lara se sentou, surpreendendo—se de que mesmo com a infusão de seu sangue, ainda se sentisse um pouco fraca e enjoada. Ignorando—o, obrigou—se a ficar em pé.

–Então me leve a estalagem. Posso visitar Terry e Gerald. Quero ver se Terry está melhor. Sinto—me responsável. Nunca deveria ter levado—os comigo.

Ele não a queria perto de nenhum outro homem e certamente não antes que se assegurasse de que os parasitas tinham desaparecido completamente do organismo de Terry. Não queria compartilhá—la, não agora e nem com ninguém até que sua união fosse completa, mas ela precisava se conectar a terra. Precisava sentir que não vinha de uma linhagem poluída. Estivera equivocado ao mantê—la afastada a sua família por que queria ser o único em quem ela confiasse.

Respirou fundo, decidido a fazer as coisas bem e não importando o custo, por que toda esta bondade não duraria. Conhecia—se muito melhor que isso. A escuridão era tão parte dele como o fato de respirar.

–Eu posso comprovar seus amigos para ti, mas na verdade tenho algo melhor para que você faça se realmente crê que tem forças para isso.

—O que?

Ele estendeu a mão e esperou que ela estendesse o braço. Segurou a mão dela e a colocou sobre as marcas de seu coração.

–Razvan tem uma irmã gêmea e ela está viva.

Lara piscou. Imediatamente ele sentiu o empurrão de energia. A música que enchia a caverna desapareceu. O cabelo de Lara crepitou e cintilou e seus olhos quando se elevavam para ele mudaram do verde a um azul glacial.

—Quanto tempo faz que sabe disto?

Nicolas baixou o olhar, pás as próprias mãos e depois o elevou para encontrar seu olhar inquisitivo.

– Eu não lhe disse em seguida por que queria nos dar uma possibilidade de estar juntos como companheiros. Você precisava de alguém em quem confiar e queria que fosse eu.

Ela se manteve em silencio durante um momento, com os olhos azuis sobre sua face. Escapou—lhe um pequeno suspiro.

— Realmente você gosta de controlar, verdade?

Ele encolheu os ombros.

–Sim..

—Não volte a fazê-lo outra vez. Não me oculte informação por um pouco tão estúpido. Realmente pensa que confiaria na irmã gêmea a de meu pai tão facilmente depois de ver o que meu bisavô e meu pai eram capazes de fazer?

— Não a conheço, mas ouvi dizer que é uma grande Caçadora. Ela luta contra os vampiros ao lado de seu companheiro.

Lara passou a mão pelo cabelo.

—Está seguro de que é a irmã de Razvan?

— Na dúvida. Posso te levar até ela. É uma boa pessoa, Lara. E seu pai, seja o que for agora, parece ter sido mal julgado. Parece que foi um bom homem em seu tempo. Natalya, esse é seu nome, pode te dizer muito mais dele.

Ela o contemplou e Nicolas sentiu uma estranha fusão próxima a seu coração. Ele a via pálida e vulnerável, com os olhos enormes. Havia sombras e círculos escuros sob seus olhos. Envolveu—a em seu braço e a apertou contra o corpo, abraçando—a para lhe dar consolo. Assombrou—o quão bem a sentia em seus braços.

Acariciando—lhe o alto da cabeça com o queixo, embalou—a com cuidado.

–Se for muito cedo para ti Lara, poderemos esperar para que fale com ela.

Ela não se fundiu exatamente com ele, mas colocou os braços ao redor de sua cintura e o abraçou. – Não sei o que quero fazer.

—Ela esteve na caverna.

Lara se afastou, levantando a vista para olhá—lo.

—Quando? Recentemente?

Nicolas assentiu com a cabeça.

–Não sei muito mais que do que meus irmãos me contaram. Manolito, meu irmão, lutou a seu lado durante uma recente batalha. Ela pensou que tinha matado Razvan com sua espada, mas ele voltou a aparecer outra vez ou ao menos parecia, possuindo o corpo de uma mulher e atingindo Manolito, o que o enviou ao mundo das sombras.

Lara se virou, afastando—se para ocultar a expressão de seus vigilantes olhos. Certamente tinha que ver a irmã gêmea a de seu pai. Mas não sabia se era o bastante forte para averiguar a verdade sobre seu ele. Era bem mais fácil pensar nele como em um monstro, que como em um homem torturado além de toda a resistência. Não podia imaginar a tortura psicológica de saber que o corpo de uma pessoa era usado para ferir outras. Isso seria pior que a tortura física.

—E se for certo, — murmurou em voz alta, — eu o abandonei lá. – Ela levantou o olhar aflito para Nicolas. — Por isso que ele ajudou a apagar as lembranças que tinha dele, não é? E minhas tias acessaram porque não queriam que eu soubesse que abandonava a um pai que havia tentado me proteger. Nunca teria ido embora sabendo que ele estava preso, sendo torturado e vítima de abusos.

Ela esfregou a mão. Nicolas tinha conseguido reduzir a cicatriz, mas alguns ainda estavam ali. Esfregou—as com o polegar num gesto consolador, sem notar que fazia até que notou o olhar fixo de Nicolas sobre sua mão. Envergonhada, colocou o braço atrás das costas.

—Dói?

A suavidade de sua voz fechou sua garganta. Negou com a cabeça.

—Acredito que é um costume. — Mas havia lhe incomodado durante anos, ardendo de vez em quando, doendo sem nenhuma razão.

—Você não o abandonou, Lara. Era uma menina de oito anos. Considere deste ponto de vista. Se ele era inocente e tentava te proteger, o alívio que de se ver livre de permitir que Xavier o usasse contra você, terá sido tremendo para ele. Se tivesse ficado, seu sofrimento teria sido muito maior.

—Isso não se sabe.

Um pequeno sorriso abrandou o canto da boca masculina.

—É um Caçador de Dragões. Cada um de seus instintos o conduz a proteger sua família, sobretudo às mulheres e crianças. Se Xavier realmente possuía seu corpo, utilizando—o para fecundar mulheres, se realmente assassinou sua mãe diante dele como parece que fez e se controlava Razvan obrigando—o a tomar seu sangue, então Razvan sofreu a tortura dos malditos durante séculos. Isso seria o pior que um homem dos Cárpatos poderia sofrer. Seu pai deve ter se alegrado em te apartar dali e fora do controle de Xavier.

Ela apertou os lábios. A fome dele a golpeava, mas ainda assim ele estava tentando tranqüilizá—la, pacientemente, lhe assegurando que ter abandonado seu pai para que fosse torturado e talvez assassinado tivesse sido algo bom.

—Vamos, Nicolas. Eu gostaria de conhecer minha tia.

—Quer tentar mudar? Numa coruja, talvez?

Seus preciosos olhos brilharam para ele. Ele havia lhe dito que era capaz de mudar com sua ajuda e queria que fosse verdade. Certamente estava disposta a tentar.

—Um dragão.

Ele assentiu com a cabeça.

—Certamente, que outra coisa poderia ter escolhido? — Ele sorriu-lhe abertamente, num convite à diversão. Não o vira sorrir assim e o sorriso o fazia parecer mais jovem. — Já está familiarizada com o corpo do dragão. É o mais importante na mudança… — Ele lhe ofereceu a mão e começou a andar com ela através da caverna, entrando no labirinto de túneis. As velas se acendiam nas paredes, lhes precedendo enquanto se apressavam. – E recorde em manter a imagem em sua cabeça todo o momento. Tem que fazer automaticamente, para que o faça realmente sem pensar leva tempo de prática. Quero que mantenha sua mente totalmente fundida com a minha. Uma vez que mude, o entusiasmo e a alegria... Não posso descrever o que sentirá... É fácil que perca o que está fazendo. Então mantenha sua mente firmemente unida à minha para que eu possa te ajudar se necessitar.

Ela sorriu—lhe.

—Não se preocupe, está claro que não quero cair do céu.

Ele riu brandamente, surpreendendo a si mesmo. Não era um homem que sorrisse freqüentemente... Se é que alguma vez sorrisse. Através de seu companheirismo descobria pouco a pouco que Lara também de lhe produzia alegria ao compartilhar as coisas cotidianas. Apertou os dedos dela em torno dos seus, mantendo-a perto enquanto se moviam rapidamente pelo túnel.

— Não notei que explorasse a área de vez em quando procurando vampiros. É muito necessário para a sobrevivência fazer disto um hábito.

— Agora não é um sistema bastante defeituoso?

A sobrancelha dele se elevou.

— Você esteve absorvendo informações em minha mente. — Ela estava contente com ela. Com tudo o que estava acontecendo, não lhe tinha ocorrido que enquanto estava fundida com ele estivesse procurando tanta informação como fosse possível para ajudar em sua própria sobrevivência.

—É obvio. Parece ter muita experiência em caçar vampiros.

A história de sua infância a intrigava e Lara tinha tentado investigar um pouco mais profundamente. A princípio para ver se Nicolas tinha aceitado sempre a luta com o não-morto. Obtinha ele satisfação quando lutava? Quando matava? Tinha encontrado a resposta e esta a preocupava, mas também fascinava que ele não sentisse medo... Nenhum medo... Quando lutava. Ela tivera medo toda sua vida, sempre olhando sobre o ombro, aterrorizada de que descobrissem suas diferenças e a condenassem. Aterrorizada de que Xavier a encontrasse outra vez. Queria parecer com Nicolas, confrontando o pior sem medo.

—Nem todos os homens dos Cárpatos são educados para serem caçadores. Nos velhos tempos éramos uma comunidade e muitos homens eram artesãos. Havia carpinteiros e lapidadores de pedras. Trabalhavam com ervas e faziam velas para desenvolver nossos poderes de cura. Alguns fabricavam espadas. Faziam um incrível e formoso trabalho com as armas. Minha família criava guerreiros. A maior parte das habilidades de nossos antepassados está impressas em nós. Portanto, se tiver nascido de uma linhagem de guerreiros, tem as habilidades e os reflexos já incorporados em você. Em outras palavras, tem vantagem antes de começar a treinar. Os lapidadores de pedras ou os fabricantes de espadas têm outras habilidades impressas, essas habilidades não são nada úteis para a luta.

Havia um pequeno rastro de água que atravessava o caminho. Sem parar de andar, Nicolas pegou Lara pela cintura, levantou-a e continuou andando como se nada os tivesse interrompido.

Quando o pequeno e secreto calafrio provocado pela força de seus braços diminuiu, Lara voltou a deslizar a mão na dele.

— E a escuridão em você? Desde onde provém exatamente?

Os dedos dele se apertaram ao redor dos seus.

—Assusta-a?

Seu olhar pousou por um momento no rosto dele e depois procurou as pedras que bloqueavam a entrada do túnel. O entusiasmo crescia ante a perspectiva de uma mudança de forma.

— Um pouco — ela admitiu.

Ele arqueou uma sobrancelha.

Lara se encolheu.

—Bom, talvez muito. É muito seguro de si.

— Vivi muito tempo. — Ele atraiu—lhe os dedos para os lábios. — Mas tudo isto é novo para mim e tenho descoberto que estou aprendendo sobre a marcha da vida. Sinta-se em liberdade para me mostrar, quando eu cometer enganos.

— Por isso não se preocupe, — lhe disse Lara, segurando sua mão, detendo-o antes que pudesse evitar responder sua pergunta, eliminando as salvaguardas. — De verdade, quero te entender melhor e não posso se estiver preocupada todo o tempo, se por acaso possa te converter em um vampiro.

—Isso já não é uma possibilidade, Lara. – Ele lhe assegurou. – Você é a outra metade de minha alma, a luz de minha escuridão. Uma vez encontrada, sua luz me dirige e me protege. Não me resta dúvida de que sempre serei um homem difícil, mas não me converterei em vampiro. — Ele fez um gesto com o queixo para as rochas, arqueando a sobrancelha em desafio. – Crê que pode eliminar as salvaguardas?

Um sorriso se formou devagar no rosto dela.

—Uma prova. Você está me desafiando.

—Também a cronometro.

Desta vez foi ela quem arqueou uma sobrancelha. Logo se virou para a entrada e levantou as mãos no ar. Cada traço do padrão que ele tinha tecido estava gravado em sua mente. Suas tias a tinham instruído para que observasse até o menor movimento, um gesto rápido com um dedo, uma pequena matiz que marcava a diferença entre fazer bem a primeira vez e sobreviver.

Podia sentir seus olhos nela e a intensidade de seu olhar provocou um arrepio que desceu por suas costas. Teve que se concentrar realmente para lhe bloquear, para realizar os movimentos longos cheios de graça, os curtos e sutis, acompanhados de suaves palavras murmuradas. Era um cântico simples, que inventara e que utilizava repetidamente quando era uma menina, para ajudá—la a memorizar, a aprender como tecer e desfazer feitiços de amparo. Suas mãos se moviam rapidamente, com graça, seguindo cada fio de luz invisível, procurando cada nó e revisando duplamente os fios tecidos do padrão.

— Aranha, aranha, vire sua teia, absorvendo agora estes fios que não se vêem. Aranha, aranha, lance sua linha, tire tudo o que feriria ou prenderia. Aranha, aranha, limpe o caminho, protegendo agora esta entrada.

As pedras balançaram para frente e para trás durante um momento, brilharam e desapareceram. Lara se voltou sorrindo abertamente. E ele ali estava... Muito perto... Sobre ela, de fato. Não tinha ouvido e não havia sentido seu movimento, mas quando se virou, caiu diretamente em seus braços, com a face erguida para a dele. Seus olhares se encontraram. Um arrepio intenso... De excitação... Correu—lhe dos seios às coxas. Ele passou os dedos ao redor de sua nuca, deslizando o polegar sobre sua face enquanto inclinava a cabeça para ela. Sua outra mão deslizou para seu traseiro, impulsionando seu corpo a se aproximar do dele. Lara não se afastou, mas tampouco que se apoiou nele, nervosa e insegura de si e dele.

— Não tenha medo disto, Lara. É somente um beijo. Peço que não me tenha medo. — Seu polegar se roçou ligeiramente sua face e seus olhos escuros lhe sustentavam o olhar. — Não quero que tema nunca, que eu tire de ti algo que não esteja disposta a me dar.

Suas palavras brincaram sobre sua pele, flutuando em seu hálito quente. Podia ver o tamanho de seus cílios e o traço sensual de seus lábios. Ele lhe deu tempo para que se afastasse, que se retirasse, inclinando a cabeça devagar, centímetro a centímetro, até que pousou os lábios ligeiramente sobre os seus, macios como o veludo. O ar retrocedeu em seus pulmões e seu coração lhe palpitou muito forte.

— Não sou uma covarde. — Sussurrou as palavras na mente e se moveu para ele, ajustando seu corpo totalmente ao dele.

— Não, não é.

Nicolas lhe pressionou um beijo no canto dos lábios e logo seus dentes seguraram seu lábio inferior até que a fez gemer de prazer. Ele passou a língua contra seus lábios e depois a lambeu, como se saboreasse seu sabor. A mão dele pressionou mais ainda seu traseiro e seu corpo ficou suave e flexível, moldando—se a ele até que sentiu que compartilhavam a mesma pele. Ele abriu sua mente a dela, vertendo suas emoções.

Imediatamente Lara estava molhada de desejo. Quente. Apaixonada. Mas ao mesmo tempo, havia uma ternura tão íntima que lhe encheu os olhos de lágrimas. Podia sentir sua alegria ao notar que se encontrara com ele a metade do caminho, sua intensa necessidade de protegê-la, sua determinação em ser um bom companheiro para ela e fazê-la feliz e que se sentisse segura.

Também sentiu que a escuridão estava a margem da superfície, o demônio se elevava, reclamando—a. Sem piedade ele o empurrou para baixo, mantendo-o sob controle. Estava começando a necessitá—la... Não a necessidade do Cárpato por sua companheira e tampouco por que o demônio rugia reclamando—a. Nicolas, o homem, desejava seu sorriso, um momento compartilhado de felicidade... Um beijo. E era uma sedução em si mesma.

Devolveu-lhe a mordida, agradecida por seu lado selvagem e dominante estar sob estrito controle e desesperada por sentir os lábios dele sobre os seus. Ele lambeu-lhe os lábios outra vez e ela abriu a boca para acolher o exótico sabor que era exclusivo de Nicolas. Estranhamente, o forte sabor de seu sangue ainda persistia em seus lábios, dentro de sua boca e em segredo sentiu saudade de seu sangue outra vez. Envergonhava-a essa ânsia secreta e ela ocultou-a atrás de uma barreira e agradecia que ele não estivesse sondado.

No momento em que Lara abriu a boca, a língua dele penetrou seu interior reclamando-a. Persuadindo-a. Era mais gentil do que teria gostado, mais terno, por isso não tinha forças para se opor a ele. Era mais quente do que tinha acreditado ser possível. Sua boca era como um refúgio de segredos exóticos, quentes, úmidos e cheios de promessas aveludadas.

Dançaram chamas sobre sua pele, revoavam sobre seu corpo, seu útero se contraiu e seus músculos se enrijeceram. Nicolas a arrastava para uma onda gigante de prazer e para ancorar-se lhe envolveu o pescoço com os braços e enterrou os dedos no cabelo espesso. Ele sabia ser afrodisíaco, poderia ficar viciada facilmente. Ele era masculino, calor e desejo, um mundo de prazer sensual no qual queria se afogar.

Nicolas se afastou primeiro, pressionando a testa contra a dela, respirando-a em seus pulmões.

—Não posso pensar em nada mais e tenho que ser capaz de ter a cabeça limpa quando voarmos juntos.

—Está me dizendo que faço confusão em sua cabeça?

Ele baixou a cabeça, para beijar sua boca outra vez, mordendo o lábio inferior que achava tão intrigante.

—É exatamente o que disse.

Ela riu.

— Eu gosto dessa idéia. Em sua cabeça poderia vir bem um pouco de desordem.

Ele voltou a mordê—la de novo, desta vez lhe causando uma pequena ardência. Imediatamente passou a língua sobre a mordida, tirando o ardor tão rápido como havia causado.

—Ai! — Lara se afastou, não querendo admitir que a pequena mordida havia lhe excitado ainda mais. Precisava se distanciar um pouco dele. — Quero voar. — Ela começou a abandonar a caverna, apressando—se numa vã tentativa de deixar para trás a excitação que enroscava em seu corpo.

Ele a segurou, detendo-a bruscamente.

—A primeira lição é que sempre deve explorar tudo em volta antes de sair ao ar livre, procurando espaços em branco.

—Acreditei que havíamos decidido que os vampiros se tornaram mais hábeis, escondendo a si mesmos. — Irritada por não ter recordado, ela esfregou a pequena marca do dragão sobre seu ovário esquerdo, confiando em que ele não o advertisse.

—Não importa quão hábeis se tornaram, usamos cada ferramenta de que disponhamos para nos dar vantagem. Sei que realmente quer voar, mas sempre é necessário se proteger.

Lara assentiu com a cabeça. Era ele quem distraíra, não a promessa de voar.

—Sinto muito, descuidei—me. — Desejou, que por somente uma vez, ele se distraísse o bastante, para que se esquecesse todo o resto, exceto a ela.

—Estenda seus sentidos e sinta a noite. Funda—se comigo se necessitar e observe como deve sentir os espaços em branco. Ao cabo de alguns momentos se sentirá incômoda, sua mente e sua pele picarão se sentir os não—mortos perto. São uma toxina em nosso meio ambiente e nós somos sensíveis a todas as coisas da terra.

Ela se estendeu como ele lhe dizia, deixando que seus sentidos se expandissem. Requereu um pouco de experiência, mas se sentiu triunfante quando conseguiu. Sentia os animais e às pessoas. O vento lhe sussurrava os segredos da noite ao ouvido.

—Acredito que podemos sair.

Ele assentiu e deslizou os dedos até a mão dela e caminhou com ela da caverna para a beira do escarpado.

Lara tremia de excitação. A noite estava nublada, com grandes nuvens cinza, densas por causa da neve, mas tudo brilhava, tanto no céu como na terra, como se estivesse rodeada de um mundo de diamantes.

—Nunca vi a noite assim antes. Sempre desejei ser capaz de caminhar sob o sol, mas ao ver uma noite como esta, não posso imaginar no que estava pensando.

— Por que gostaria de estar onde a luz faz mal a seus olhos e o sol te queima a pele? —Havia verdadeira curiosidade na voz de Nicolas. — À noite nos pertence. Este é nosso mundo e a melhor parte dele. Quem ia querer o sol quando podem se ter isto? —Ele estendeu os braços para abranger a noite. — Poderia desejar não ser tão vulnerável quando o sol está alto, mas nunca trocaria isto pela capacidade de ver a luz do dia.

Lara franziu o cenho.

—Suponho que é por crescer onde minha pele se queimava enquanto outras crianças brincavam e nadavam, mas eu tinha que me esconder e desejar algo que não podia ter.

Nicolas passou o braço ao redor de sua cintura, aproximando—a para beijar seus lábios.

— Me deixe te mostrar porque a noite é bem melhor. Além da vantagem óbvia de que se encaixa às nossas necessidades físicas… — Sua voz continha um tom sugestivo e ele sorriu quando lhe lançou um rápido olhar. – A noite é simplesmente diversão. Alguma vez já se divertiste sem mais?

Lara olhou para o vale por debaixo deles. Podia ver os pântanos brilhando com seus cristais de gelo, os prados coberto pela neve. O mundo tinha uma qualidade trêmula que nunca antes tinha notado.

—Aspire profundamente.

Lara assim o fez. Arrastou o ar fresco e limpo da noite para seus pulmões.

—Sente a energia? Ela rodeia a cada ser vivo. Se sintonize, a energia alimenta seu poder. Então poderá usá—la para construir tudo o que necessita, com rapidez.

—Os Cárpatos usam a energia de maneira diferente dos magos, — explicou Lara. — Me treinei como maga, não sei de que maneira controlá—la através de mim.

Nicolas negou com um meneio de cabeça.

— Estiveste fazendo durante todo o tempo, quando se altera. Na estalagem, dinamitou—nos de medo. Agrupou a energia e a usou contra nós. Mas agora, tem que sentir o poder, o modo em que se alimenta sutilmente.

Ele levantou os braços para a noite. Na distância, um lobo uivou. Outro lhe respondeu. Um a um e depois vários mais se uniram ao solitário coro.

—Ouve isso?

—Os lobos?

—Um lobo. Aquela nota que parecia diferente. Há um Cárpato que corre com nossos irmãos esta noite. Tem que escutar de verdade, não só ouvir. Tem a capacidade, agora necessita de treinamento e prática.

Lara olhou para baixo, para o interior do escurecido bosque.

—Os Cárpatos correm com os lobos?

—Certamente. Tomamos forma de lobo, escolhemos uma alcatéia e somos aceitos, se desejamos. Faremos isso, se você gosta, mas primeiro, necessita de sua lição de vôo.

Lara se moveu agitada, num pé e noutro, enquanto ele explicava... Com detalhe, com tediosos detalhes... Como ela tinha que manter a imagem em todo momento em sua mente ou cairia do céu.

— Está bem, — lhe disse Lara quando ele começava com as instruções outra vez. — Captei desde a primeira.

O escuro olhar ardeu sobre ela.

—Não seja tão confiante.

Lara lhe lançou um descarado sorriso zombeteiro.

—Você não me deixará cair.

Logo fechou os olhos e imaginou o dragão em sua mente. Havia passado anos desde que tinha visto suas tias presas na forma de um dragão, mas recordava com todo detalhe os corpos grandes e escamados. Manteve a forma em sua mente, a cabeça coniforme e grande, os olhos brilhantes. De alguma parte lhe chegou uma rajada de energia, alagando seu corpo, temperando—a. Seus músculos se contraíram e depois se ampliaram. Sentiu como lhe dobrava o corpo e começava a mudança. Sobressaltada, afastou—se para trás quase ao ponto de se desorientar, de tão assustada que estava quase perdeu a imagem.

Nicolas estava a seu lado imediatamente, tal como ela sabia que estaria, fundindo firmemente, mantendo a imagem para ela. Sentiu a carícia das escamas contra seu braço enquanto seu corpo mudava. Esperou um batimento do coração e depois abraçou a mudança, lançando—se a ela, não querendo que mudasse de opinião. Queria voar. E então se encontrou a beira do escarpado, olhando fixamente para o vale com sua nova visão. Estendeu suas amplas asas, mantendo—se sobre as duas pernas, batendo as asas e criando um vento que sacudiu as nuvens.

— Cuidado! — Advertiu—a Nicolas. — Está me assustando, Lara. Mantenha a atenção.

— Você está me parecendo uma galinha velha. Somente estou provando tudo isto. É tão fresco.

Ela ia fazer com que ele tivesse um enfarte. Sentia—se como uma galinha mãe, tentando cuidar de seu pintinho. Acreditava que devia ser o galo, cacarejando e dando ordens a todo mundo. Se estivesse em sua forma normal estaria suando e a sudorese não era algo que estivessem acostumado a experimentar.

— Salto sem mais do escarpado e agito as asas?

Seu coração afundou no peito quando o dragão fêmea deu um passo para o escarpado como se fosse se lançar por ele. Saltou diante dela, empurrando o dragão menor para trás enquanto ele se mantinha sobre o ar. — Deixe que o dragão tome o controle. Você ainda pensa como Lara. Se quiser voar como um dragão, tem que se converter em dragão.

—Como? Ainda sou eu.

— É e não é. Está aí dentro, mas somente seu espírito. Funda—se com o dragão e leve as rédeas. Uma vez que experimente o sentido do vôo e o modo em que seu dragão vê e pensa, permita seu espírito surgir um pouco mais. Sempre Lara, sempre se lembre de manter a imagem em sua mente aconteça o que acontecer a seu redor.

O dragão de Lara assentiu com sua cabeça em forma de cunha. – Saia para trás e me deixe tentar.

Nicolas, dentro do dragão grande, encontrou sorrindo ante a demanda da voz dela. Descobria que gostava do toque pequeno de mordacidade em sua voz. Tornou—se para trás, afastando—se do escarpado, todo o tempo mantendo sua mente firme na dela. A tensão vibrou através de seu corpo quando ela se atirou do escarpado, com suas grandes asas agitando—se desesperadamente.

— Deixe que seu dragão tome o controle. — Daria—lhe alguns segundos. Se ela não pudesse permitir que o dragão tomasse o comando completamente, teria que encarregar se de sua mente e tomar o controle completo.

— Não se atreva. Acostumarei—me. Deixe de me distrair.

Nicolas sentiu o toque de pânico enquanto a pequena fêmea girava em espiral, fora de controle. Cada instinto lhe gritava que assumisse o controle de sua mente e a dirigisse, mas se agüentou, aferrando—se somente a um fio, para lhe dar um pouco mais de tempo enquanto seu dragão se mergulhava de cabeça atrás de sua parceira.

Profundamente dentro do corpo de seu dragão, Nicolas gemeu quando compreendeu que Lara tinha problemas para ceder o controle. Deveria ter previsto e se preparado para isso. Possuía alguns segundos antes que a ilusão de dar o controle a seu dragão se tornasse realidade quando a Nicolas não restasse outra opção que intervir. O solo se elevava ao encontro dela, enquanto o dragão masculino a seguia a grande velocidade. Nicolas lutou duramente por lhe dar aqueles poucos preciosos segundos mais. E então de repente, Lara respirou, cedendo o controle ao dragão. Imediatamente as asas do dragão feminino pararam de bater grosseiramente e se renderam junto ao corpo, detendo os giros. Então logo se desdobraram e com um poderoso golpe coordenado, a criatura se elevou com graça sobre o ar.

Sua risada inocente ressoou nos ouvidos de Nicolas. Uma mão pareceu lhe apertar o coração ante o som da voz jovem e despreocupada. Ela não tinha tido uma infância, nunca pudera brincar ou sorrir, sentir a liberdade do vento em sua face, olhar para as copas das árvores e os prados brilhantes ou dar um salto mortal no céu da noite. Ela nunca pudera somente se divertir. Agora, uma euforia pura a enviava cantando pelo do céu. O vento soprava em sua face, fresco e enérgico e ele sentiu a alegria nela.

— Nicolas! Isto é… Assombroso.

— Sim. — Ela era assombrosa. Ela fizera alguma coisa dentro dele, que não esperava, virando—o do avesso, simplesmente com sua alegria do momento. Por uma parte, voltara a viver sua própria primeira experiência de vôo, mas de algum modo, desfrutava da dela inclusive mais. Lara nunca tinha provado a autêntica liberdade. Esta era sua primeira exposição à verdadeira beleza de seu mundo e queria que ela desfrutasse de cada momento, que visse a noite como ele a via.

Assombrava-o descobrir que começava a precisar dela para algo mais que tranqüilizar seus demônios ou estender luz sobre sua escuridão... Tinha que ouvir seu riso, ver o prazer inocente nos brilhantes olhos de seu dragão. Encontrou—se admirando sua coragem. Ela se elevara sobre as cinzas da crueldade e do horror conservando ainda a doçura e a esperança e ele nunca teria imaginado que pudesse ser possível, dadas às circunstâncias.

Voando juntos pelo do céu noturno, de repente lhe ocorreu que ela podia ser melhor pessoa que ele, onde o dever e a honra estavam inculcadas nele, levando-o a pensar que era superior àqueles aos quais protegia. Lara realmente se preocupava. Preocupava-se com seus dois amigos e suas tias e começava a se preocupar com o pai, que tinha considerado um monstro durante anos. Ele podia lhe oferecer amparo, mas o que?

Tinha pensado que encontrar sua companheira dava direito a ela, que adoraria a terra em que pisasse... Que devia lhe adorar, mas não tinha considerado que poderia perder o coração. A possibilidade não tinha entrado em sua mente, não até há pouco. Era ela, acreditava, que perderia o coração, mas ele continuaria igual. Agora, tudo havia trocado em seu interior e ele se sentia desequilibrado... E vulnerável. Não queria perdê-la e não por que ela fosse a outra metade de sua alma e pudesse salvá-lo. Simplesmente não queria perdê-la e os alicerces dessa emoção o aterrorizavam.

— Nicolas! Vamos correr até aquela enorme nuvem cinza.

Ele lhe permitiu uma pequena vantagem, mantendo seu dragão a um passo mais moderado, até que ela ficou a várias centenas de metros de distância. Então ela aumentou a velocidade. O dragão feminino brilhou fracamente em vermelho e ouro metálico, suas escamas cintilaram. A lua conseguia penetrar através das nuvens e a iluminava enquanto ela se acelerava pelo céu. Ela emitiu um halo de luz, flamejante, numa chamada muito antiga do dragão feminino a seu macho.

Nicolas se sobressaltou tanto que quase perdeu sua imagem do dragão. A fêmea de Lara chamava seu companheiro e em sua inocência, com o espírito ainda aceso por seu beijo, Lara sem querer aumentava a atração da fêmea por seu companheiro. Lara estava desatando uma tormenta de fome tão intensa, que Nicolas pôde sentir a própria reação instintiva... Seu próprio demônio elevando.

— Não! — Ele tentou conter o macho, mas seu dragão rugiu, liberando-se do controle de Nicolas, mergulhando atrás de sua companheira, com as poderosas asas criando uma tempestade. A risada de Lara se espalhava sobre e contra ele, sua mente se esfregava intimamente contra a dele, em seu entusiasmo. Ela não se precavia da tentação, era completamente inconsciente do calor que despertava no macho... E nele.

A terra embaixo parecia longínqua enquanto os dragões se elevavam bruscamente no céu, dançando como haviam feito os dragões de estrelas, executando um balé aéreo. Rápida e ágil no ar, Lara voava livre, crescendo em confiança enquanto sentia a força do dragão. As criaturas esgrimiam poder e magia e ela se identificava fortemente com eles. Tentou uma série de giros e depois deslizou pelo ar antes de fazer algumas cambalhotas em uma demonstração acrobática e cheia de graça.

Nicolas sentiu seu dragão recuperar a compostura... Esperando... Observando enquanto escolhia o momento preciso para capturá-la no ar. Não havia forma de frear o macho, a não ser que os tirasse do céu. Ela estava quase tão encantado como seu dragão, contando as batidas das asas, enquanto o macho aumentava a velocidade, dando voltas para entrar num ângulo sob ela. O sangue quente se elevou em suas veias, a luxúria o golpeou com força e determinação. A fêmea estendeu amplamente suas asas e o macho fez sua manobra, dirigindo seu grande corpo, colocando-se do reverso sob ela, ventre contra ventre, suas asas a envolveram num forte abraço, suas garras se fecharam sobre as dela enquanto tomava posse de seu corpo, enterrando-se nela profundamente.

 Nicolas sentiu a excitação estupefata de Lara enquanto os dois dragões caíam em espiral para a terra, com as cabeças entrelaçadas, as asas rodeadas um no outro, as garras enganchadas, o macho afundando uma e outra vez na fêmea. Lara e Nicolas estavam separados pelos dragões, somente seus espíritos se mantinham nos corpos físicos, mas ambos sentiam cada acalorada investida, o amor de dois companheiros expresso através da vertiginosa paixão sobre o ar. Nicolas desejava Lara com a mesma intensidade que o dragão sentia por sua companheira. A paixão do dragão só aumentava seu desejo. Acariciou a mente de Lara, numa suave carícia íntima, mostrando-lhe sem palavras como se sentia.

Sem prévio aviso, um raio de fogo como uma lança atravessou o ar, empalando o casal de dragões, entrando diretamente pelas costas do macho, passando por seu ventre até a fêmea e saindo pelas costas desta. O macho gritou alertando e a fêmea gemeu. O sangue salpicou o ar, gotas pequenas dispersaram através das nuvens, misturando-se com a neve que caía sobre a terra. O macho tentou sustentar à fêmea, suas garras se cravaram profundamente no corpo dela enquanto perdia a força, por causa do grande fluxo de sangue. O chão se aproximava com rapidez.

Nicolas sujeitou o espírito de Lara, arrancando-a do dragão feminino, mudando-a para névoa e abandonando os dragões mortalmente feridos.

— Não podemos abandoná-los. — Lara estava horrorizada. E então tossiu. Mais gotas de sangue regaram as nuvens, caindo como chuva para dedilhar a paisagem branca, de vermelho.

— Não temos outra opção. – Ele sustentou—a com desumana determinação, bloqueando tudo exceto o perigo em que se encontravam. – Eles são parte real, em parte ilusão. Nós somos totalmente reais. Temos que nos colocar a salvo. — Ele também estava ferido. Já precisando de sangue, pois havia dado a Lara duas vezes, não podia se permitir perder muita mais... E lutar com o não-morto.

O trovão rugiu e o som sacudiu a terra enquanto um relâmpago se disparava simultaneamente golpeando da terra para o céu, falhando por pouco. A onda expansiva os separou e enviou Lara para baixo, por sobre as rochas.

Nicolas investiu a direção, mascarando o sangue dela, mudando-se para ar, para amortecê-la e baixá-la vagarosamente, mesmo que teria que se expor e atrair o fogo do vampiro. Não faltava muito para que chegassem. Pressentindo uma vantagem, o não-morto se revelou, descendo em picado através do céu, movendo-se tão rapidamente como podia para chegar ao caçador ferido.

Lara aterrissou brandamente sobre a neve acumulada depois da tempestade, elevando as mãos para se assegurar de que tinha retornado a sua própria pele. No momento em que se moveu, sentiu a dor atravessando seu corpo e olhou para baixo para ver seu estômago empapado de sangue. Estava deitada nua sobre a neve e raias carmesins molhavam a antiga brancura que a rodeava

Elevando os olhos, viu Nicolas mudar para retornar a seu próprio corpo, já se encontrando com o vampiro, numa explosão que os enviou fora do céu. Seu coração quase parou, logo começou a palpitar com tanta força que o sangue salpicava o chão. Tinha que fazer alguma coisa. Levantou—se lentamente e ergueu os braços para o alto. Não podia deter o vampiro, mas podia dar a Nicolas alguns poucos e preciosos momentos.

— Cordas de seda, fortes como o ferro, adiantem-se agora para sustentar e atar. Oito patas, rápidas para girar... Girar a tela, pegajosa por dentro, uma tela mantida tensa, que possamos sustentar, agüentar e lutar.

Caíram aranhas do céu, chovendo sobre o vampiro enquanto este caía. O vampiro se enredou com os fios da teia de aranha, brilhantes e grossos, como as teias venenosas que tinha praticado tecer em sua caverna, quando a princípio pensou que poderia parar Xavier com algo assim.

Quanto mais o vampiro lutava contra as cordas pegajosas de seda, mais rápido giravam as aranhas e o envolviam, dando tempo a Nicolas para aterrissar escondido, recolher preciosa terra debaixo da neve e pressionar um punhado na parte dianteira e posterior de seu corpo, para deter a hemorragia.

— Use a terra, Lara. Você é o bastante Cárpato para tanto. Misture-a com saliva e pressione sobre seu ferimento.

Realmente tinha que parar a hemorragia e tecer uma roupa para cobrir seu corpo trêmulo. Não podia entrar em estado de choque se por acaso Nicolas precisasse dela. Caiu de joelhos e cavou na neve até que encontrou o solo. Levou—lhe um momento para pegar e misturar a saliva com a terra e colocá-la sobre seus ferimentos, mas fez e a todo o momento notando como o vampiro golpeava o chão com força, a algumas centenas de metros dela.

Grunhindo de raiva e com os olhos brilhando de vermelho vivo, seu rosto era uma máscara de fúria. Girou os poços sem alma em sua direção e deixou a descoberto seus dentes ferozmente afiados.

— Saia daqui, Lara. Vá. Corra para o povoado.

Abandoná—lo? Como podia fazer isso? Estirou os braços para o céu, necessitando de roupa para se cobrir, Pelo menos se sentiria como se tivesse uma armadura contra o vil mal que tinha rasgado a teia de seda. Uma vez mais se virou para as aranhas de neve, insistindo que elas começassem girar seus delicados fios para esquentá-la.

— Girem pequenas tecelãs. Teçam pequenos fios e me apertem com firmeza. Andem e teçam com sua luz de cristal. Ajustem-me uma segunda pele para que possa sentir calor outra vez.

Ela se encontrou correndo precipitadamente para de afastar do vampiro, em direção ao povoado. Entrou na linha de árvores e parou para vestir sua roupa.

 

Lara girou em círculos, tentando de encontrar Nicolas e o vampiro. Há um momento ambos estavam ali e agora não podia ver nenhum dos dois. Amaldiçoando, voltou a sair correndo de entre as árvores. A terra podia ter parado o pior da hemorragia, mas não tinha eliminado a dor da carne rasgada. Mal podia respirar por causa da dor, mas conseguiu empurrá-la para um lado, em sua ansiedade por ele.

— Nicolas! — No momento em que o chamou temeu que o tivesse distraído no pior momento possível.

Vários metros mais à frente, sobre uma colina, ela viu a neve explodir no ar. Correu ou pelo menos tentou, afundando até os tornozelos na neve. Necessitava de raquetes de neve nos pés ou no mínimo, a capacidade de correr sobre a superfície. Tecendo um padrão com mãos elegantes, Lara saltou como se fosse uma lebre da neve.

— Cordas de tendões e ossos mais finos, se curvem e tomem forma, mudem e se aperfeiçoem. Teçam—se e se coloque sobre estes pés, para que se tornem as mais ligeiras patas de uma lebre de neve.

Lara sentiu um formigamento, uma sensação de estiramento nos pés enquanto voltava a aterrissar na neve e se apressava através da pradaria para a ladeira. A dor em suas costas e estômago crescia a cada passo, obrigou seu corpo a continuar, atemorizada por Nicolas. Ele tinha levado a maior parte do embate do ataque. Agora podia ouvir o vampiro grunhindo e rugindo. Os sons eram horrorosos. Nicolas estava totalmente em silêncio, o que fazia com que o pulso de Lara disparasse e o medo a aferrasse.

Instintivamente, sua mente se estendeu para se conectar com a de Nicolas e encontrou... Um assassino. Não havia nem rastro de seu encantador companheiro, tão decidido a cortejá-la. Não havia compaixão, nenhuma gentileza, nada exceto uma máquina de matar feita de carne, músculos e ossos, afiada por séculos de batalhas e uma mente criada para o combate.

Patinou até se deter, apertando a palma da mão contra a boca. Queria vê-lo assim? Conhecê-lo dessa maneira? O assassino era tão parte dele como o homem suave e encantador, que a tinha beijado até deixá-la sem sentido e a conduzira ao passeio mais selvagem de sua vida e agora estava lutando por sua vida... Pela vida dos dois.

Ela conhecia mal quando o via e o vampiro tinha o mesmo aroma peculiar que os mascotes mutantes de Xavier... Os parasitas. Engoliu a bílis que se acumulava por causa do mau cheiro e forçou seu corpo para diante. Não podia deixá-lo ferido para lutar contra semelhante mal, quando possivelmente poderia encontrar um meio de ajudá-lo.

Lara se deixou cair sobre o ventre e se arrastou o resto da ascensão, para aparecer sobre o banco de neve. Embaixo podia ver manchas pequenas de vermelho carmesim sobre a neve brilhante, como se alguém tivesse jogado tinta vermelha por toda parte. Uma árvore solitária, dobrada sob o peso da neve, agia como uma sentinela observando a antiguíssima batalha entre o vampiro e o caçador.

Nicolas estava a uma distância dela, alto e ereto e seu cabelo fluía, seus olhos  resplandeciam por causa do poder. Apesar dos ferimentos...  Agora abertos onde o vampiro obviamente arranhara seu peito e o ventre com as garras, arrancando o emplastro de terra... Nicolas se movia com fluídica graça, mas num borrão de velocidade que ela não podia compreender e atravessou como um raio a neve, para enterrar o punho profundamente no peito do vampiro.

 O vampiro gritou e arranhou o rosto de Nicolas, mas o caçador já tinha saltado fora de seu alcance, usando sua tremenda velocidade. Este não tinha sido seu primeiro ataque. Lara pode notar mais três feridas profundas no corpo não-morto. Os dois combatentes giraram em círculos.

—Sua mulher será pasto dos animais. Comerão sua carne e beberão o que eu deixar de seu sangue.

Nicolas não replicou e não encetou conversa. Seu olhar não abandonou o vampiro. Sua respiração era lenta e tranqüila, embora Lara não podia imaginar a agonia que ele devia estar sofrendo com ferimentos tão severas. Havia alguma coisa nele. Não podia evitar admirar o guerreiro solitário, encarando um inimigo com tal confiança, sem nada em sua mente exceto a vitória absoluta.

Ela queria ser como Nicolas. Desejava essa confiança em si, saber que poderia dirigir qualquer situação se fosse necessário. Não queria ter medo nunca mais. Podia ver como Nicolas tinha conseguido ser assim... Tinha que estar seguro de si mesmo ao ponto da arrogância. Ele tinha que acreditar em suas próprias capacidades ou nunca teria sobrevivido.

O vampiro cuspiu sangue, o ódio retorcia sua feição. Duas vezes seu olhar se moveu para o céu e ambas às vezes Nicolas fez um movimento, atraindo a atenção de volta a ele. Na terceira vez, Nicolas se moveu novamente com o mesmo borrão de velocidade. O vampiro virou a cabeça no último momento, enfrentando o ataque com um chiado, mudando de forma para evitar a enorme força que esmagou osso e nervo até alcançar o coração vulnerável e enegrecido.

Nicolas golpeou o não-morto enquanto este tentava mudar, metade vampiro, metade lobo. O focinho se alongou e dentes afiados se dirigiram diretamente para o rosto de Nicolas. Lara engoliu um gemido de temor e enterrou o rosto nas mãos. Seu corpo começou a sacudir tão duramente que seus dentes batiam. Como ele podia encarar isso? Nem sequer se sobressaltava. Olhou entre os dedos e viu sua face, numa máscara de sangue e o braço enterrado profundamente no peito da caricatura de homem lobo.

 A criatura tinha quase dois metros de altura e pegou Nicolas com mãos como garras, lançando—o para trás, gritando quando Nicolas se negou a soltar seu coração. O vampiro se sacudiu, golpeando o peito com o punho repetidas vezes num esforço de tirar os dedos que escavavam. Os olhos se tornaram ardilosos e Lara notou que o olhar dele se centrava na garganta de Nicolas. Seu coração quase parou, mas ela levantou as mãos, ondeando um padrão apressado de amparo.

— Minerais da terra, forjados pelo fogo, circulo moldado pela necessidade e o desejo, formem este metal em um anel de duro titânio.

O padrão resplandeceu candente e logo se esfriou enquanto formava um círculo protetor ao redor do pescoço de Nicolas quando o homem lobo lançava já a cabeça diretamente para a garganta exposta de Nicolas. A saliva e o sangue gotejavam, a focinho se abriu e logo se fechou com um rangido espantoso, quando Nicolas lhe arrancava o coração de um puxão. Um terrível som de sucção fez com que o estômago de Lara se revolvesse, mas ela lutou contra a necessidade de vomitar. Os dentes do homem lobo cravaram dura e profundamente, golpeando o pescoço de titânio. O vampiro rugiu enquanto seus dentes se rompiam em pedaços e o coração era completamente extraído de sua caverna podre. Ele cambaleou atrás de Nicolas, que retrocedeu, atirando o órgão enegrecido na neve e chamando o relâmpago ao mesmo tempo.

O trovão surgiu no céu e um raio candente de energia se estrelou contra o coração, incinerando—o e logo saltou ao vampiro. Este resplandeceu, ardendo em chamas vermelho alaranjadas, enviando vapores nocivos no ar. O vampiro se converteu em cinzas e Nicolas dirigiu o relâmpago de energia para queimá—lo de tudo, até que desaparecesse. Só então fraquejou um pouco, alcançando a energia para limpar o sangue ácido dos braços e do peito.

Ele se virou para ela, sua expressão era uma máscara escura, seus olhos se mostravam melancólicos e velados, ocultando seus pensamentos enquanto dava um passo. Nicolas cambaleou e se recuperou. Lara ficou de pé lentamente, seu corpo inteiro tremia. Havia sangue por toda parte e ele tinha feridas no rosto, no abdômen e nas costas. Não sabia como ele ainda podia estar em pé.

O olhou para o céu e saltou a distância entre eles, cobrindo-a com seu corpo  enquanto encarava os rastros de névoa que formavam na neve ligeira que caía.   A névoa começou a brilhar e um homem alto de cabelo negro quase até a cintura chegou a passos rápidos.

—Nicolas?

Os escuros olhos abrangeram os ferimentos de Nicolas, assim como a Lara atrás dele. O olhar saltou de seu cabelo vermelho com mechas douradas até olhos que se entremeavam entre o verde e o azul.

—Não reconheci o vampiro, Vikirnoff. — Disse Nicolas. — Era bastante jovem. Não mais de trezentos ou quatrocentos anos de idade. Por que estão se convertendo tão jovens?

Natalya avançou rapidamente para se deter junto a Vikirnoff. Sempre estava perto de seu companheiro, especialmente se havia um vampiro na área. Nicolas não queria o casal ali. Era mesquinho e o fazia sentir envergonhado e inclusive estúpido por desejar mais tempo a sós com a Lara. Sempre tinha sido tão seguro, mas agora temia perdê—la, temia que ela o abandonasse ou permanecesse com ele por causa do laço de companheiros, mas que nunca encontrasse em seu coração, amor para ele.

Era penoso pensar que desejava seu amor. Tinha sido auto—suficiente toda sua vida e lhe enfurecia pensar que precisava dela. Inclusive agora estava com medo... Medo...  De que ela pedisse asilo para sua parenta.

Nicolas se virou para a Lara e estendeu a mão.

—Deixe—me dar uma olhada em suas feridas. – Ele puxou-a para ele e levantou a prega do suéter.

Lara lhe segurou a mão e olhou para os estranhos, obviamente incômoda.

—A lança de fogo cauterizou as feridas em sua maior parte. Perdi um pouco de sangue, mas não o bastante para preocupar, especialmente uma vez que o enchi com terra. Mas você parece um desastre. – Tocou—lhe o rosto com dedos suaves.

— Fél ku kuuluaak sivam bels. Amada, me deixe ver. Devo te curar antes que possa me ocupar de meus próprios ferimentos.

— Dê—me um minuto. — Os dedos dela procuraram os dele, se entrelaçaram e apertaram.

Nicolas não quis se alegrar tanto de que ela se aferrasse a ele. Roçou-lhe os lábios contra a frente antes de realizar as apresentações em voz alta.

—Lara, este é Vikirnoff e sua companheira, Natalya. Ela é sua parenta de sangue.

Fez—lhe rilhar os dentes de ser tão mesquinho, para se alegrar de que ela estivesse angustiada em companhia da irmã de seu pai, mas não pôde evitar o golpe de satisfação. Nem podia evitar a necessidade de curar suas feridas sem atrasar um momento. Doía vê-la ferida. Voltou-se para fitá-la e deslizou a mão sob seu suéter, pressionando-a sobre a ferida. O calor saltou dele para ela. Assustada, ela levantou os enormes olhos verdes e ele se sentiu... Afogando.

Era uma sensação estranha estar tão desequilibrado. Não gostava muito.

Nicolas afastou a mão tão rapidamente como a havia tocado, colocando—a seu lado para poder atraí—la sob seu ombro, deslizou uma mão ao redor de suas costas onde seus dedos serpentearam sob o suéter até jazer sobre a ferida.

Natalya olhou fixamente à filha de seu irmão gêmeo e seus olhos lhe encheram de lágrimas.

— Você se parece com ele... A mim... A nós. — Ela se recostou contra Vikirnoff buscando consolo. — Sou Natalya, irmã gêmea de Razvan.

Lara engoliu a bola de temor que lhe bloqueava sua garganta, controlando seu corpo para não afastar cambaleante como queria fazer. Estirou para trás até que encontrou a mão de Nicolas para se estabilizar.

—Não me pareço absolutamente com ele. — Negou, consciente de que soava como a uma menina... Inclusive era num tom um pouco alto... – Ela respirou fundo e tentou outra vez. – Ele tinha  cabelo escuro rajado de cinza. Em sua maior parte era cinza. E sua face é marcada com rugas profundas, não lisas. É magro, e pálido.

— Os homens dos Cárpatos não se encanecem a menos que sejam torturados além de sua resistência. Requer... Muito… Produzir cãs, magreza e rugas profundas.

— Você tem rugas profundas.

— Eu participei de inumeráveis batalhas e matado muitos. Cada vez mais acredito que seu pai esteve lutando contra Xavier para salvar não só sua família, mas também possivelmente a todos os Cárpatos.

 — Nós não somos Cárpatos.

— O sangue dos Caçadores de Dragões é forte. Você é Cárpato.

Um só som de dor escapou antes que Natalya pudesse detê—lo. Ela tocou os lábios com a língua e fez um esforço visível para se recuperar das notícias sobre seu irmão.

—Temos que ajudar a seu companheiro. Ele tem que curar seus ferimentos e necessita de sangue rapidamente. Possivelmente gostariam nos acompanhar até nossa casa?

Lara cravou as unhas na palma da mão. Nicolas levou seus dedos aos lábios e lhe mordiscou a pele para distraí-la.

—Estávamos a caminho para lhes visitar quando fomos atacados. Obrigado pelo convite. —Sim ou não? – Ele se voltou para Lara.

Os olhos de Lara encontraram os seus, seu assentimento foi quase imperceptível.

—Obrigado, iremos.

Vikirnoff levou casualmente a mão à boca e a abriu, estendendo o braço para Nicolas. Várias gotas brilhantes de sangue salpicaram o chão. Lara ofegou enquanto a visão a golpeava. Fechou os olhos, incapaz de ver como Nicolas tomava o oferecimento da mão de Vikirnoff. Nicolas vacilou.

—Natalya pode te levar até a casa dela, — lhe ofereceu.

Lara manteve os olhos fechados, tentando não atrair o aroma de sangue aos pulmões. O estômago lhe revolveu, mas ela sacudiu a cabeça.

—Esperarei-te. Acabe com isso.

Nicolas fechou cortesmente a ferida desigual da mão de Vikirnoff.

—Obrigado, mas posso esperar até que estejamos a coberto.

Vikirnoff abriu a boca para protestar. Seu olhar passou pela face pálida de Lara e ele encolheu os ombros.

—Melhor nos apressamos então.

Natalya olhou para Lara agudamente e logo para o corpo destroçado de Nicolas. Seus lábios se apertaram, mas ela não expressou nenhum protesto. Não obstante, Lara soube que queria fazê—lo e esse pequeno olhar a envergonhou. Nicolas tinha lutado para salvar suas vidas e o fizera sem se esquivar da tarefa. Seu corpo suportava muitas feridas profundas, mas ele só tinha considerado cuidar das dela, leves em comparação com as suas e ela não podia suportar a visão dele tomando o sangue necessário para restaurar sua força e eliminar a dor de suas feridas.

— É assunto só nosso o porquê de nosso caminho. — Nicolas lançou um olhar de advertência a Natalya que fez com que Vikirnoff se arrepiasse.

 Natalya colocou sua mão na dele, refreando—o e brilhou, mudando para névoa antes de se elevar no ar. Vikirnoff a seguiu.

—Sinto muito. —Lara piscou para conter as lágrimas que queimavam em seus olhos. — Me  sinto tão envergonhada.

—Não há necessidade disso. Pode ter salvado minha vida com seu pensamento rápido. —Nicolas tocou o pescoço onde o colar tinha evitado que os dentes do vampiro o rasgassem. A mordida não o teria matado na verdade, pois estava preparado para o golpe e a dor, reforçando-se para dar tempo de arrancar o coração do peito do vampiro, mas ela certamente tinha cortado a batalha, lhe dando os preciosos segundos mais. — Isso foi pensar rapidamente e engenhoso de sua parte.

O elogio em sua voz a fez ruborizar.

—Posso te ajudar a se curar? Não sou a melhor curadora, mas tenho algumas habilidades. — Ela não tinha a menor idéia de como ajudá-lo com os ferimentos, mas ele parecia tão só e ela odiava ser a causa que o fazia se sentir assim. Queria mostrar solidariedade, embora sua incapacidade para vê-lo tomar sangue atrasava conseguir ajuda. Sentia-se torpe perguntando, mas não pôde evitar. — Conheço o cântico curador Cárpato. Minhas tias o aprenderam de sua mãe e me ensinaram, mas na verdade não sei muito bem como curar feridas. Talvez você pudesse me ensinar a fazer, no caso de volta a acontecer.

Ele lhe sorriu e sua expressão era terna.

—Acontecerá outra vez. Vamos, podemos reunir a terra mais rica que pudermos encontrar, misturando-a  a nossa saliva.

—Seu agente curativo é provavelmente muito mais forte que o meu.

Ela escolheu um lugar diretamente sob as árvores. Queria um lugar onde as flores crescessem em abundância. As plantas estavam inativas, mas a terra jazia sob a neve, obscurecida pelos minerais. Misturou a terra e a saliva e fez uma compressa para os ferimentos.

— Terra com propriedades curativas, flor sob a terra olhe e trance suas essências, encha estes ferimentos brandamente, aplique sua bênção curativa.

Ela soprou na mistura, cantando brandamente em Cárpato, sem ser consciente de estar fazendo. Adicionou sua própria mistura especial, para ajudar na cura.

— Este homem é uma sombra mais da luz, ajude-o a se curar para reassumir seu combate.

Estava um pouco vacilante, temerosa de lhe fazer mal, mas pressionou a mistura com cuidado nos buracos do peito e do abdômen, com dedos suaves. Fez-se um pequeno silêncio enquanto trabalhava com cuidado, certificando-se de cobrir cada corte. Não podia respirar com a sensação da pele dele sob os dedos, com o calor de seu corpo tão perto. Ele permanecia muito quieto, quase contendo a respiração, mas o batimento do coração de Lara seguia o ritmo do dele em exata sincronização.

—Quanto tempo deixará isto? Eu não gosto de colocar terra em uma ferida. — Sua voz tremeu um pouco.

— Devo poder limpar isso em alguns minutos. — Ele segurou seu queixo com a mão e elevou seu rosto. Deslizou o polegar sobre o lábio inferior dela, numa pequena carícia.

O olhar de Lara se fixou no dele. Sua respiração se imobilizou nos pulmões. Um tremor de excitação lhe sussurrou pela coluna. Havia uma fome crua nos ardentes olhos escuros, um desejo que parecia igualar o repentino ardor no fundo de seu abdômen. O calor se estendeu. A excitação lhe roçou as coxas e seios.

Nicolas inclinou sua cabeça escura para ela e lhe acariciou a boca com os lábios, leves como plumas. Uma pergunta, uma demanda, um rogo suave e uma firme insistência. Ela respondeu, atraindo—o ao refúgio suave de sua boca.

— Estou tão contente de que esteja a salvo. — Sua voz era tímida.

Nicolas permitiu que suas pálpebras caíssem, bloqueando toda sensação exceto a suavidade quente dos lábios dela. Poderia se perder ali, comendo-a, bebendo-a. A lava fundida verteu em suas veias, espessa e quente, abastecendo-o do combustível do desejo.

Aprofundou o beijo, tomando mais, pressionando-a um pouco para ver se ela lhe responderia. Era cada vez mais difícil manter as mãos longe dela quando os demônios rugiam e seu corpo se endurecia com numa dor inexorável. Tudo dentro dele sabia que Lara era a outra metade de sua alma, a guardiã de seu coração. Temia que ela nunca sentisse o mesmo que ele.

As mãos de Lara subiram para se enroscar em seu cabelo, mas era indecisa em sua resposta, um pouco tímida, não o percorria exatamente como desejava. Deixou passar. Este não era o momento nem o lugar e ela não estava exatamente preparada para o seguinte passo com ele. Teria que ficar satisfeito com que ela se estendesse para ele, inclusive que se encontrasse com ele percorrendo parte do caminho.

As mãos foram ternas quando lhe percorreu a face. Adorava o sexy e ligeiramente aturdido olhar em seu rosto.

—Pode mudar outra vez?

Ela piscou várias vezes, os pequenos dentes mordiscaram o lábio inferior e depois assentiu.

Um lento sorriso suavizou o duro traço da boca de Nicolas.

—Siga a imagem em minha mente e sustente—a. Quanto mais praticar mais perita será. Quando cheguemos à casa de Vikirnoff, não levará mais de alguns poucos minutos arrumar tudo.

Ela sabia que ele queria dizer tomar sangue do Vikirnoff. Advertiu que Nicolas cambaleava um pouco e as linhas gravadas em sua face eram um pouco mais profundas. Não pôde encontrar em sua mente nenhuma reprimenda, nenhum desprezo porque ela não pudesse suportar a idéia de que tomasse sangue de outro. Encontrava a genuína aceitação que lhe resultava humilhante e possivelmente um pouco curativa. Respirou um pouco mais facilmente.

—Vamos então. Não quero que tenha que esperar mais tempo do que já esperaste.

Ele deu um passo à direita, sustentando a névoa em primeiro lugar na mente dos dois. Lara sentiu a mudança quase que imediatamente. A onda de adrenalina quase deteve a mudança, mas ela a conteve e deixou seu corpo físico. Foi bem mais fácil aceitar a mudança desta vez e ela estava cheia de júbilo e orgulhosa de ter conseguido mudar a névoa e atravessar o céu com Nicolas. Sabia que ele sustentava a imagem para ela, mas não se importava. Fazia o impossível e o sentia como um imenso marco.

— Aprendi muito esta noite, Nicolas. Obrigado.

Nicolas lhe acariciou a mente com um calor íntimo que se verteu sobre ela como mel. Seu coração se contraiu. Ele estava encontrando o caminho em seu interior,  transpassava cada barreira erguida desde a infância. Sua gentileza era inesperada quando ele era um homem perigoso e arrogante. Ele a fazia se sentir como se fosse à única pessoa importante em sua vida. Não lhe importava Natalya não a aceitava, ela era suficiente para ele tal como era e sua aceitação a fazia se sentir muito mais segura de si mesma.

A casa estava construída no sopé da montanha, tão astutamente que era quase impossível vê—la até que a pessoa estivesse em cima. Lara e Nicolas mudaram nos degraus de pedra que levavam ao arejado alpendre em sombras, tudo construído na  mesma pedra. Lara desfrutou da  sensação de entrar em uma caverna. A parte da frente parecia uma casa, com janelas e uma porta, mas feito da própria montanha. A casa propriamente dita estava bem iluminada com brilhantes candelabros, piso de mármore e madeira polida por toda parte.

— Você decidiu se estabelecer aqui. — Disse Nicolas, olhando ao redor.

—Diferente de você e sua família, — disse Vikirnoff. — Meu irmão e eu só passamos os últimos anos caçando juntos e nunca numa mesma localização. Antes disso, movemo-nos de região em região chegando aonde nenhum antigo foi enviado. É agradável ter um lar depois de tanto tempo. Nicolae e Destiny se estabeleceram aqui também. Poderemos ajudar a proteger o príncipe, às mulheres e as crianças, com esperança de reconstruir  a nossa gente.

Lara agradecia a mão de Nicolas na parte baixa de suas costas, conectando—os. Le estava também em sua mente e lhe proporcionava estabilidade para enfrentar Natalya, que se parecia tanto a ela mesma. Se Razvan foi parecido com ela alguma vez, já não era mais, mas Natalya poderia ter sido sua mãe ou sua irmã.

Natalya gesticulou para uma cadeira funda e de aspecto cômodo.

—Sentem-se, por favor. É assombroso te ter encontrado finalmente.

Nicolas afastou a mão enquanto ela se afundava entre as grossas almofadas, lhe roçando a mão com o polegar numa suave carícia. — Você ficará bem alguns momentos sem mim?

Seu estômago se revolveu. Quando ela tinha chegado a ser tão covarde? Tão desconcertada estava pelo aroma e a vista de parasitas e olhos prateados que já não podia se arrumar sozinha? Possivelmente tinha sido a morte naqueles olhos e o aroma de putrefação? Fosse qual fosse o trauma de infância que havia saído à luz, se negava a desaparecer. A porta havia sido aberta e ela devia lidar com o fato.

Levantou o olhar para Nicolas. Ele parecia tão tranqüilo e controlado, tão em paz enquanto ela se revolvia em muitas dúvidas. Também ele tinha que lidar com seu passado.

— Faremos isso, juntos.

Outra vez ele a encheu de calor, fazendo-a sentir parte dele e não tão sozinha.

— Sim, faremos. Eu ficarei bem. Não se preocupe por mim.

Nicolas se inclinou para depositar um beijo no alto de sua cabeça. — Estenda-se a mim se me necessitar, de outro modo, manterei-nos separados.

 Ella umedeceu os lábios. É obvio que ele pensaria em afastar sua mente da dela, para evitar que ela visse ou sentisse o que ia  a acontecer enquanto tomava sangue. Ela meneou a cabeça para indicar que compreendia, tentando formar um pequeno sorriso.

Natalya observou Nicolas abandonar o quarto, com Vikirnoff.

—Ele é bom contigo?  — Ela perguntou bruscamente. — A família Da Cruz tem uma certa reputação e vivem segundo suas próprias regras.

A pergunta a assustou e ela não estava segura de como responder.

—Acabamos de nos conhecer.

Natalya assentiu.

—E atou a ele, mas o ritual não se completou. Sabe o que lhe acontece ao homem se se completa o ritual?

Lara sacudiu a cabeça.

—Só sei o que minhas tias me contaram através de histórias. Era uma menina e minhas lembranças da maior parte desses anos são vagas, então suponho que algumas coisas poderiam ser inexatas, além disso. Freqüentemente não sei o que é real, plantado por elas ou minha imaginação.

—Deve ser muito confuso para você.

—Sim, mas estou aprendendo muito.

—Sinto, se te faço se sentir incômoda. Alegro-me muito em te conhecer e depois você é minha sobrinha. Colby, que é companheira de Rafael é sua meio-irmã. Razvan era também seu pai.

A tensão lhe bloqueou os músculos e enrijeceu os nervos. Natalya tinha inserido deliberadamente a informação na conversa, para ver sua reação. Lara manteve a face cuidadosamente em branco.

— Estive tendo alguns flashes que podem indicar que Xavier possuiu o corpo de Razvan para seduzir a mulheres e conseguir engravidá—las, assim ele poderia se alimentar do sangue dos Caçadores de Dragões.

Natalya deu um pulo.

—Ele quis me utilizar assim. Razvan o convenceu de que eu não tinha sangue do Caçador de Dragões o bastante forte para lhe ser útil. Protegeu-me durante toda nossa infância e através dos anos posteriores. Não me dei conta do que estava lhe acontecendo até recentemente e então pensei que ele se convertera de algum modo em vampiro ou estava aliado a eles. — Ela se inclinou para frente, com os olhos verdes azulados fixos em Lara. — Sabe se isso é verdade? Sabe se ainda está vivo?

Lara se mordeu o lábio inferior. O que sabia realmente de Razvan? Suas lembranças da infância tinham sido trincados. Recordava pouco até o trauma de ver os parasitas. Era perverso? Convertera—se ao mal? Estava ainda vivo? Havia tantos retalhos de lembranças em conflito que agora se elevavam que não sabia a verdade.

—Não posso te ajudar, por mais que quisesse. Não tenho nenhuma resposta. Vejo coisas que me indicam que Xavier não só possuiu o corpo de Razvan, mas também lhe injetava algo que lhe roubava a vontade... Não sua mente completamente porque ele tentava resistir, mas afinal parecia como se Xavier lhe estivesse fazendo fazer coisas terríveis e Razvan fosse incapaz de vencer a combinação de drogas e feitiços que Xavier tecia.

Vikirnoff e Nicolas retornaram, captando a última parte da conversa. Nicolas já não apresentava um aspecto tão ruim. Ele sentou—se no braço da cadeira de Lara, seu corpo posicionado em atitude protetora para ela.

—A posse e o controle de mentes, convertendo pessoas em bonecos eram o ponto forte de Xavier. Ninguém tinha sua perícia nisso e ele continuou aperfeiçoando—a com o passar dos anos. Era uma das coisas nas quais ele e o príncipe não se acertavam. Algumas coisas não deveriam ser feitas. — Nicolas enredou os dedos no cabelo de Lara. — Xavier sentia que os  Cárpatos usavam o controle mental para sair—se das situações e acreditava ter todo o direito de fazer o mesmo. Era difícil rebater sua lógica.

— Porque havia verdade nela. — Disse Lara.

Nicolas assentiu.

—Naquela época eu sentia que utilizávamos nosso controle da mente para o bem e ele queria usar para seus próprios fins, mas ultimamente aprendi que eu certamente o usei para meus próprios propósitos egoístas. É muito mais fácil e mais rápido quando se quer cooperação, então que faço sem pensar.

Vikirnoff fez um som de desgosto.

—Acalmar os temores de alguém não é o mesmo que lhes obrigar a fazer coisas que  nunca fariam normalmente, — ele se opôs.

—Como dar sangue? — Perguntou Lara.

Vikirnoff se moveu para frente, agressivamente. Natalya colocou uma mão suave em seu braço.

— Você tem cicatrizes nas mãos, Lara. Encontrei uma faca cerimoniosa que tinha sido de Xavier e quando acessei as lembranças, havia uma menina pequena que Razvan usava para se alimentar. Xavier entrava e tentava tomar seu sangue também e ela pôde escapar da caverna com a ajuda de dois dragões.

A mão de Nicolas se curvou na nuca de Lara.

—Era Lara. Suas tias foram apanhadas em forma de dragões e estavam muito fracas para fugir também. Vamos voltar para a caverna para determinar seu destino, para tentar averiguar o que aconteceu a Razvan.

Vikirnoff se endireitou.

—Essa caverna é uma grande armadilha, Nicolas. Nós mal escapamos com vida. Xavier deixou guardiães e havia sinais de que as câmaras ainda estavam em uso às vezes. Estivemos vigiando de perto, mas ninguém entrará lá dentro. É muito arriscado.

Os dedos longos e fortes de Nicolas começaram uma massagem lenta no pescoço de Lara.

—Somos bem conscientes do risco Vikirnoff, mas não poderemos viver bem se não averiguarmos as respostas à nossas perguntas. As tias de Lara arriscaram tudo para salvá—la. E a evidência de que Razvan esteve durante séculos... Não alguns anos, mas séculos... Sendo torturado. É um Caçador de Dragões, o que significa que há possibilidade de que possa sobreviver.

— Nós o vimos atacar Natalya, — indicou Vikirnoff. – E estava em sua cabeça, rastreando—a, tentando atraí—la até ele, para utilizá—la contra nós.

—Mas estava Razvan em sua própria mente? Ou era Xavier possuindo ou controlando Razvan? Lara e eu precisamos encontrar a resposta a essa pergunta. E suas tias estão prisioneiras há bastante tempo. Mortas ou vivas e não esperamos encontrá—las vivas,  somente querem trazê—las para casa.

Vikirnoff pegou a mão de Natalya.

—Você conhecia Razvan melhor que qualquer pessoa viva. Poderia ser isto possível? Poderia ter sido Xavier controlando Razvan?

Ela fechou os olhos brevemente e sacudiu a cabeça.

—Não sei, Vikirnoff. Sinceramente não sei. Ele só veio a mim em meus sonhos. Como poderia Xavier entrar em nos sonhos?

—Como pôde encontrar Xavier um meio de encarcerar e evitar o suicídio de uma das mulheres Cárpatos mais poderosas? O companheiro de Rhiannon foi assassinado, mas Xavier conseguiu forçá—la a ter trigêmeos com ele, — indicou Nicolas. — Eu conhecia Rhiannon e seu companheiro. Ela o teria seguido se pudesse.

Lara pigarreou.

— Minhas tias falavam dela freqüentemente. Foi retida presa por Xavier e uma vez  que teve as crianças permaneceu viva para protegê—los e lhes ensinar tanto quanto pôde sobre as culturas Cárpato e mago. Repartiu o conhecimento rapidamente porque sabia que no fim Xavier a mataria e assim ele o fez.

— Não me tinha contado isso. — A voz do Nicolas se deslizou em sua mente com facilidade.

— Consigo pedacinhos e retalhos de lembranças. Agora acaba de vir a mim. — Não sabia se alegra ou não.

Nicolas não queria que ela se sentisse tão confusa. Com proximidade de Natalya, Lara já estava bastante nervosa. Ocultava bem, mas ela se sentia incômoda. Suas lembranças ainda eram muito cruas. Por duas vezes ela esfregou a mão, embora ele sabia que era mais por hábito que por dor, mas o gesto servia como um aviso de sua infância traumática.

—Quero ir com vocês, à caverna. — Disse Natalya. — Tenho que ir.

—Natalya — advertiu Vikirnoff.

Natalya baixou o olhar a suas mãos, com expressão triste.

—Não só Raven está tendo problemas, mas também Savannah. Não estão bem. Gregori trabalha com as duas e Syndil esteve trabalhando com a terra circundante, mas elas sangram, seus corpos tentam rechaçar os bebês.

Uma explosão de dor na cabeça de Lara a fez liberar a mão de Nicolas para apertar têmporas. Sua mente parecia estilhaçar por momentos e uma porta se entreabriu e ela teve um breve vislumbre de uma mulher soluçando e sagrando no chão e camadas de terra ao redor dela. Xavier se erguia sobre ela sorrindo com satisfação.

—Às vezes devemos fazer pequenos sacrifícios pelo bem comum, carinho. Uma criança perdida, para assegurar que a morte de muitos continue não é um preço muito pequeno a pagar.

A bílis emanou e Lara ficou de pé rapidamente, afastando Nicolas dela e apressando a sair da casa, para ar fresco e o frio onde podia respirar. Nicolas foi atrás dela, colocando as mãos gentis em seus ombros.

Lara o sacudiu, dando um passo adiante, respirando rapidamente.

—Não. Não diga nada ainda.

Ele tinha visto a pequena vinheta de seu passado. Havia o sentido ali ao primeiro indício de dor, antes que nenhum dos dois se desse conta do que acontecia.

—Não pode pensar que você seja de algum modo responsável por tudo o que Xavier fez. Ele desejava a imortalidade e estava zangado e amargurado por não poder tê—la e que os Cárpatos sim. Queria todo o poder que nossa espécie possuía, assim como o seu próprio. Quando o companheiro de Rhiannon foi assassinado e ela desapareceu, soubemos que ele estivera tramando contra nós durante anos. É obvio que não tínhamos maneira de saber a extensão do mal, nem do que havia feito. É um mago professor e inegavelmente poderoso. As sementes do ódio e sua descida à loucura começaram séculos antes que você nascesse.

—Seu sangue está em minhas veias. — Ela gesticulou para a casa. – Nas veias dela. Ele embarcou em destruir a uma espécie inteira da maneira mais asquerosa que pôde imaginar. —Olhou-o então, com seus olhos tristes, envergonhados. — Sabem que é o que vimos. Mais experiências. Ele fez alguma coisa. Esteve fazendo todo o tempo, para fazer que as mulheres abortem, para fazer com que as crianças morram. — Ela inclinou a cabeça em desafio. – Você não o conhece como eu. Não pode matá-lo. Não pode detê-lo. É a criatura mais desprezível sobre a face da terra, a mais perversa.

Nicolas compreendeu o que ela queria dizer. Xavier tinha assassinado seu próprio filho. Tinha raptado, violado e tinha forçado Rhiannon a carregar seus filhos e logo, depois de utilizar seu sangue durante anos, assassinara-a. Havia encarcerado seu neto feito experiências com ele, torturou-o e utilizou seus filhos como um fornecimento de sangue. Tinha assassinado à mulher maga de seu neto. Não havia nada que pudesse redimir Xavier. Nunca gostara dele antes, do nos tempos antigos quando magos e Cárpatos possuíam uma aliança forte.

—Não são todos os magos, sabe disso. – Ela disse. — Minha mãe era maga.

—Fél ku kuuluaak swam bels? — Ele sussurrou.

Amada. Ela era amada? Podia alguém tão forte como Nicolas compreender realmente e aceitar e amar alguém tão prejudicado como ela?

A boca de Nicolas se curvou enquanto a beijava outra vez.  – Nós sabemos que  não estou livre de defeitos, por mais que queria fingir o contrário. Precisa comer esta noite. Iremos à estalagem.

Ela assentiu.

—Quero comprovar meus amigos, de todo o modo. Vamos.

Nicolas voltou o olhar para a casa. Lara necessita de um pouco de tempo. — Levarei—a a estalagem para conseguir algum alimento. Podemos nos encontrar depois do concílio de guerreiros e comprovar a caverna antes de levarmos às mulheres.

Uma voz feminina soltou um pequeno vaio de desdém. — Mulheres?

A voz de Lara se juntou a de sua tia. — Já está volta outra vez com seu assunto sobre mulheres. Suspeito que tem propósitos ocultos, Nicolas.

— Não tem nem idéia.

Agora ela se sentia benévola com ele, mas depois do concílio de guerreiros,  ele não estaria muito contente.

 

A estalagem estava animada quando Nicolas e Lara chegaram. Sempre era necessário manter a pretensão de serem completamente humanos dentro do povoado. Muitos Cárpatos freqüentemente iriam ao restaurante e simulavam jantar. Não foi difícil para Nicolas colocar umas roupas imaculadas e proporcionar a Lara um longo e ondulante vestido, cujo tecido sussurrava ao redor de seus tornozelos, a cada passo que ela dava.

Lara afastou o cabelo, surpreendida porque ele lhe chegava até os pés numa larga queda de seda vermelho dourada. Levantou o olhar para o alto, para belo homem que a fazia se sentir bela. Sua masculina beleza era uma mistura de perigo, animal e pura sensualidade masculina. Engoliu com dificuldade ante o súbito surgimento de desejo e conseguiu formar um rápido sorriso.

—Lembrou-se também da maquiagem?

Ele entrelaçou os dedos com os dela e se levou sua mão num gesto possessivo para o peito, enquanto entravam no vestíbulo, onde inclusive as pessoas do povoado se reuniam freqüentemente para beber.

— Naturalmente.

Tão perto como estava, ela sentiu imediatamente a diferença nele. No momento em que entraram onde estavam os outros, ele passou de cavalheiro a macho duro e primitivo. Seu coração bateu forte no peito. Inclusive o aroma dele estava diferente, numa combinação de musgo, especiarias e o ar livre e selvagem. O traço de sua boca era sensual e mesmo assim possuía um fio cruel de aviso. Seus olhos semicerrados estavam absortos, vagando sobre o aposento como se marcasse cada homem. A mão na parte baixa das costas dela era claramente possessiva. Inclusive ele se moveu uma escassa fração para mais perto dela, de tal modo que parecia estar em todas as partes dominando seu espaço.

Ou talvez a diferença estivesse nela. Era intensamente consciente do obscuramente atraente homem a seu lado, de toda sua crua sexualidade e poder. As mulheres viravam a cabeça e o fitavam com olhos ávidos. Seus olhares a seguiam com um pouco de desdém e de inveja. Ela estava segura de que nunca pareceria bastante mulher para ter um homem tão descaradamente sexual como Nicolas.

No momento em que pensou, ele acariciou seu corpo com ar quente, como se tivesse respirado sobre sua pele nua. Seus mamilos se enrijeceram e o calor correu em sua corrente sangüínea. Levantou o olhar para sua face, para a fome crua nos escuros olhos cada vez que seu olhar deslizava sobre ela. Tocou o lábio inferior com a língua e instantaneamente o olhar de Nicolas se mostrou fascinado.

— Você tem que parar. – Ela lhe sussurrou, com o rubor foi subindo por seu pescoço para lhe dar cor à face. – Você está me ... – Ela se interrompeu apenas capaz de respirar adequadamente. Nunca havia se sentido assim antes… Excitada. Sexy e desejada. Era assombroso e virtualmente incompreensível que ela pudesse atrair a completa e total atenção de um homem como Nicolas Da Cruz. Ela não era intrépida. Não era bela. Certamente não era sexy, embora ele a fazia sentir-se desse modo e isso era um pouco lhe intoxicante.

Lara era muito consciente de seus dedos abertos sobre a curva de sua coluna. O calor se estendia de cada ponto em que ele a tocava enquanto atravessavam o bar, a caminho do restaurante. A música pulsava no bar e alguns poucos casais se balançavam em seu ritmo, abraçando-se mais que dançando. A poucos metros do arco de entrada, Nicolas se deteve bruscamente e seus dedos se fecharam ao redor da mão dela, para colocá-la a frente dele.

A respiração de Lara congelou nos pulmões enquanto ele a atraía para seus braços. Ela se encaixava perfeitamente. Seu corpo se suavizou até se fundir ao dele, tão perto que quase compartilhava sua pele. Os duros músculos se enrijeceram e espreitaram, num ardente e sedutor deslizamento que lhe provocou um arrepio que deslizou por sua coluna e fez com que os seios lhe doessem. Sentia um duro vulto pressionando contra seu ventre, a grossa e desavergonhada evidência de seu desejo por ela. Sua boca ficou seca e um nó se fez em seu abdômen.

Nicolas inclinou a cabeça e seus lábios acariciaram o pescoço exposto e a pulsação frenética, que pulsava ao ritmo da música.

—Relaxe para mim.

Sua voz era rouca, uma mistura de sedução e luxúria, quase como se ele estivesse lhe fazendo amor em vez de dançar com ela.

O tom da voz masculina a envolveu como milhares de pequenas faíscas de desejo. A umidade molhou suas coxas e enviou uma corrente elétrica que disparou por todo corpo. Era sua primeira experiência real com uma reação sexual tão forte e intensa que suas emoções ficaram confusas. Cada terminação nervosa parecia ter cobrado vida. Cada célula era muito consciente de Nicolas, movendo—se tão perto dela.

—Não sei como… Eu nunca… — Ela não sabia se estava dizendo a ele era que nunca havia dançado e não tinha nem idéia do que estava fazendo ou se estava tentando lhe dizer que nunca tinha tido sexo e não sabia uma só coisa sobre como provocar um homem.

Nicolas apertou o abraço sobre ela e seu braço a segurou contra ele enquanto executavam vários passos de uma dança intrincada através da pista. Lara sentiu como se estivesse flutuando nas nuvens, leve e despreocupada e em perfeita sintonia com ele.

—Você é a tentação em si mesma. —Seus lábios lhe acariciaram o lóbulo da orelha enquanto ele sussurrava as palavras.

Seus dentes a beliscaram, a menor das mordidas, deixando—a sem respiração. A excitação tocou seus seios, suas coxas e a provocou sua intimidade. Ele estava seduzindo—a ali na pista de baile e ela sequer queria resistir. Tocou com a língua o lábio inferior, lutando contra os nervos, decidida que fosse esta noite.

Desejava-o desejava pertencer a ele, apesar de sua arrogância e suas maneiras dominantes. Quando sua mente se fundia à dele, podia ver sua determinação de aprender a se controlar, de fazê-la feliz, de ser o homem que ela necessitava. Como podia não desejáolo. Além disso, achava que ele era o homem mais sexy sobre a face da terra.

Ele a virou, colocando suas costas ao amparo de seu corpo e o modo em que fez, tão imperativo, forte e protetor, enviou outra rajada de calor em ondas através de sua corrente sangüínea. Seu aroma a envolveu, com o forte sabor especial e masculino que era exclusivamente dele, misturado ao aroma almiscarado de sua excitação, até formar uma potente combinação. O deslizamento de suas mãos lhe acariciou os flancos dos seios, seu tórax e descansou em sua cintura antes de acabar sobre os quadris para puxar ela mais perto, contra ele.

Outra onda de calor úmido lhe molhou as coxas e seus seios lhe doeram, sentia-os inchados e necessitados. Cada músculo se estirou ao ponto de ruptura. Não podia pensar em nada mais, ondeando-se com a música vibrante em uma onda nascente de desejo, em uma confusa neblina de encantamento sexual.

Ele inclinou a cabeça novamente e desta vez para lhe acariciar o pescoço com o nariz, sua língua tocando a pulsação tão frenética. Normalmente Lara teria retrocedido instantaneamente, mas as pequenas séries de toques suaves de seus dentes dispararam sua temperatura. As chamas dançaram sobre sua pele, centrando entre suas pernas e enchendo-a de tal modo que seu corpo desejou mais. Os lábios masculinos eram incrivelmente quentes e firmes, os dentes uma tortura. Nicolas torturava seu corpo com o desejo. Não podia respirar, o coração pulsava o bastante alto para que os dois o ouvissem.

Nicolas havia reconhecido o perigo no momento em que se aproximou de outros homens com a Lara. O ritual de vinculação não estava completo. Ela ainda podia fugir da chamada e a fera se elevara com um selvagem e exigente rugido. Ele notava cada movimento dos olhos, o modo em que os homens a observavam enquanto se moviam juntos em perfeito ritmo pela pista de dança. Ela exalava desejo.

Lara não se dava conta de quão sedutora era, uma mistura de inocência e fantasia. Sua pele brilhava e seus olhos eram sedutores, enormes, suaves e hipnotizantes. Um homem podia se afogar neles… E ele estava se afogando. E ter outros machos tão perto estava disparando à fera. Podia senti-la arranhando em suas vísceras, exigindo que reclamasse sua companheira, que a fizesse irrevogavelmente dele. Mais que isso, seu próprio medo de perdê-la aumentava seu instinto animal, seu lado primitivo que exigia tomar o que era dele. Estava caminhando sobre uma tênue linha, tentando cortejá-la como ela merecia e ao mesmo tempo, permanecendo estável quando sua companheira estava a seu alcance. Nunca era fácil para o macho equilibrar a urbanidade a sua própria natureza predadora e entrar na estalagem o colocara numa situação volátil que não esperava.

Inspirou profundamente… Lara. Sua feminina chamada fez com que o sangue pulsasse em seu baixo ventre. A sensação de seus seios macios encostados em seu peito quase o deixava louco. Estava desesperado para abraçá-la, tocá-la. Tocar toda a pele acetinada. Cada momento em sua companhia havia intensificado sua necessidade dela. Necessidade que tinha crescido lentamente a princípio e seu desejo de cortejá-la tinham impedido de se dar conta de que o fogo nele havia crescido e se estendido até formar uma tormenta que ameaçava seu controle.

Sua ereção palpitava com o sangue e seu coração batia forte. Sua necessidade agora era brutal, uma contínua e implacável demanda que não tinha compaixão. Sua ereção não desapareceria tão logo, não tinha a oportunidade de se enterrar profundamente no refúgio do corpo feminino. E apesar de tudo isso, cada vez que a olhava, cada vez que seu tímido olhar se encontrava o dele, ativava uma estranha sensação na região de seu coração.

Queria ser de uma vez tão tenro como violento. Queria que ela o necessitasse com cada célula de seu corpo, do mesmo modo aterrador em que ele a necessitava. Tivera uma idéia totalmente errada sobre de companheiras ou talvez fosse distinto com Lara. Tinha pensado que ela o salvaria da escuridão e que a química seria boa, que teriam várias vidas para encontrar um modo de amar um ao outro. Não esperara que o tocasse em lugares que pensara serem de pedra fria. Não tinha esperado sentir tal ternura ou emoções protetoras tão rápidas ou tão fortes, mas ela era realmente a luz de sua escuridão, em todos os aspectos que ele não havia esperado.

Os lábios vagaram pela pulsação dela, enquanto inalava sua essência. Seu longo cabelo sedoso lhe deslizou sobre a face, alguns fios se enredando na sombra ao longo de seu queixo. Pressionou seus quadris contra o dela, massageando a terrível dor que se negava a desaparecer. Tocá-la não era o bastante. Inclusive podia sentir os dentes se alongando e se afiando enquanto todo seu ser exigia que saciasse a fome que crescia em direta proporção com sua necessidade sexual. Estava no limite de seu controle.

Seus olhos brilhavam com chamas vermelhas. Os dentes tocaram a pulsação dela, arranhando-a num ritmo hipnotizador. Estava perto... Tão perto para tomar o que lhe pertencia, tornando-a sua, mesmo que ela havia estado disposta a escapar por meio da morte antes de ser forçada.

Ele nunca tinha experimentado tal luxúria crua e primitiva, brotando numa febre de fome tão aguda e brutal que não podia pensar corretamente. Em sua alma, que havia sido marcada há tempo com fendas até que somente houve restou à escuridão, negra, feia e cheia de morte, ela tinha derramado uma luz brilhante, de um extremo a outro e de algum jeito, por algum milagre, agora ele sentia esperança. E seu coração, afastado do mundo séculos atrás... Há mais tempo que sua alma... Tinha sido restaurado por ela de modo que podia sentir afeto quando já tinha esquecido se antes havia experimentado.

Um pequeno grunhido escapou de sua garganta e ele lutou com mais força, insistindo para seu demônio se acalmar, ser paciente e esperar... Que Lara fosse algo pelo qual valia à pena esperar. E afinal, o que realmente queria era que Lara se entregasse a ele. Que o desejasse. Que desse o passo por si mesma, porque possuía sentimentos puros por ele. Seus dentes se recolheram e a névoa vermelha desapareceu de seus olhos, enquanto a música se desvanecia.

Lara seguiu balançando, com o corpo tenso contra o dele. Ele podia ouvir o coração dela pulsando no mesmo ritmo que o dele. Levantou a cabeça lentamente, relutante a lhe permitir abandonar seus braços.

—Precisa comer alguma coisa. — Prosaico, certo, mas tão afastado do que gostaria de fazer. Não conseguiu que as palavras afastassem o desejo que sufocava sua garganta.

Ela assentiu, mas permaneceu ali, tão perto dele que o suave corpo estava impresso no dele. Lara ergueu a cabeça para fitá-lo. Seus olhos eram tímidos, mas brilhavam com uma luz interior que o fez ser intensamente consciente de sua sexualidade. A pele era luminosa, os olhos brilhavam, o corpo feminino era como cálida seda sob seus dedos errantes.

—Lara?

Ela levantou a mão até o rosto dele, numa carícia suave, terna.

—Quero recordar este momento para sempre. Não tenho muitas lembranças maravilhosas, mas dançar contigo é uma experiência incrivelmente bela e quero saborear esta noite.

Fundido com ela, Nicolas pôde ver a verdade. Ela queria abraçar seu tempo juntos, conservá-lo para mais tarde revivê-lo, momento a momento, sem importar o que acontecesse no futuro. A resposta dela provocou uma onda de sangue tão quente, que quase destruiu seu duramente conquistado controle, mas junto a isso, seu coração respondeu num doloroso desejo de ser amado por esta mulher.

Deslizou a mão pela costa dela, a fim de guiá-la para o restaurante.

—Espero que tenha muitas lembranças iguais. Desfrutarei de cada uma delas.

—Antes de qualquer coisa, preciso ver Terry e dar olá a Gerald. — Disse Lara.

Nicolas sentiu a instintiva reação animal crescendo, ante a idéia de Lara num pequeno quarto com seus dois amigos. Assentiu, obrigando-se a sorrir.

—Por que não usa a cabine para lhes chamar primeiro? Para se assegurar que estão preparados para receber visitas?

O duro nó em seu ventre relaxou quando ouviu que Gerald lhe dizia que acabava de deitar Terry e que ele também iria para a cama. Depois de se assegurar de que tudo estava bem, Lara prometeu que viria mais cedo na noite seguinte tarde, para vê—los.

Nicolas usou sua influência sem pudor para assegurar uma mesa no lugar mais escuro e afastado da sala. Uma só vela iluminava a mesa com um leve brilho e ele a atenuou para apagar suas imagens e evitar que alguém os interrompesse. Afastou a cadeira para que Lara se sentasse e logo se sentou a mais próxima, lhe ocultando o corpo de quaisquer olhos entremetidos que pudessem conseguir deslizar através de seu fino escudo.

Lara se sentiu protegida no calor de Nicolas, presa em uma rede sexual que parecia somente aumentar, mesmo enquanto ele chamava à garçonete, de modo informal.

—O que você gosta? — Ele percorreu seu braço nu de cima a baixo com as pontas dos dedos numa lenta carícia, quase como se não se desse conta do que estava fazendo

O simples timbre profundo de sua voz provocou uma onda de calor por todo o corpo dela, combinada ao seu toque. Lara teria jurado que as chamas lhe lambiam a pele.

Lara pigarreou.

—Algo leve. — Ela queria sair dali, estar a sós com ele. Desejava desesperadamente explorar a sensação dos dedos dele passando por seu braço, sobre seu corpo, dentro de seu corpo. O desejo cresceu tão rápido e agudo que ela sentiu as paredes de sua vagina se contrair, numa onda de calor. — Não estou muito faminta.

Ele murmurou alguma coisa à garçonete que ela não ouviu e nem se preocupou. Só podia olhar para ele, para o puro desejo gravado profundamente na face muito bela, na fome escura nas profundezas de seus olhos. O saber que ele estava ali por ela, que sua total atenção estava centrada nela, provocava o crescimento de sua própria excitação. Seus mamilos endureceram sob o tecido do vestido, roçando-o a cada sutil movimento.

Nicolas se inclinou para ela e enviou uma corrente de ar quente que lhe banhou os seios através do vestido. Ela sentiu o toque de sua língua curvando ao redor do mamilo. Ofegando, se afastou para trás, sem cor no rosto e quando se deu conta havia uma pequena mancha úmida sobre o mamilo devorado.

—Ninguém pode nos ver — murmurou ele. — Tenho que vê-la assim, me desejando.

— Acredito que já conseguiu. — Até a voz de Lara estava diferente. Rouca. Carregada sexualmente. Um convite. Não podia afastar os olhos dele, hipnotizada pelo desejo nu e puro em sua face. Nunca tinha imaginado, sob nenhuma circunstância, um homem olhando-a assim e muito menos um homem como Nicolas Da Cruz. – Você consegue me fazer sentir como se estivesse tão concentrado em mim que não visse nenhuma outra mulher aqui.

—Por que iria olhar outra mulher? Você é a única que me importa. — Ele continuou lhe acariciando ausentemente o braço com os dedos, absorvendo a cálida e sedosa textura de sua pele. – Você é minha mulher.

O suave tom de voz, suave como veludo roçando a pele exposta, provocou contrações em seu útero, que se apertou e sua umidade aumentou. Entrelaçou os dedos no colo sob a mesa, enquanto os tremores começavam a percorrê-la dos pés à cabeça. A música parecia estar soando em sua mente ou talvez fosse à precipitação de seu próprio sangue elevando o ritmo com o dele.

Sentia-se fascinada, incapaz de falar quando seu corpo estava sacudindo de desejo por ele.

Nicolas segurou seu braço até que ela levantou a mão. Os longos dedos acariciaram as cicatrizes de sua mão, agora bem mais pálidas.

—Me prometa que se sentir desesperada novamente, se algo ou alguém a fizer sentir assim, me dirá. — Ele levou a mão até o peito, sobre seu coração, seus dedos continuavam as carícias pela pele nua de seu braço. — Sei que não sou um homem fácil de lidar e tampouco o serei, mas somente quero assegurar seu amparo e sua felicidade.

Ela conseguiu assentir.

—Prometo-lhe.

Ele se inclinou mais perto, com os lábios a poucos centímetros dos dela.

—Quero sentir seu corpo sob o meu e a ouvir gritar de prazer. Quero tomar meu tempo, tendo-a seguidas vezes toda a noite até que nenhum dos dois possa permanecer em pé, até que você não possa pensar, somente sentir. Eu quero ensinar a você toda experiência sensual que eu puder. — Ele levou sua mão aos lábios. — Esperei várias vidas por você, Lara.

Sua voz era suave, baixa e muito sensual, seu negro olhar semicerrado, mas não havia nada suave em seus olhos. Estavam turbulentos. Uma violenta tormenta rugia no fundo deles. A fome que era tão aguda e selvagem que ele parecia estar preparado para colocá—la em cima da mesa e lhe arrancar o vestido do corpo. A idéia aumentou a temperatura que já crescia rapidamente em seu interior. Sua intimidade estava tão quente que ela se sentia em chamas. Na verdade ele não havia tocado nela, embora ela o desejasse quase além do imaginável. As linhas gravadas na face de Nicolas mostravam o controle somente por um fio e parte dela desejava romper esse controle, saber o que era ser atirada sobre a mesa e tomada por um homem com aquela fome insaciável por ela.

Ela se ruborizou e rapidamente baixou o olhar para a mesa quando a garçonete se aproximou.

Ela não podia vê-lo claramente. A voz dele roçou intimamente as paredes de sua mente, fazendo com que seu corpo inteiro formigasse. Desejou estar fora da estalagem e em sua cama. Mal podia respirar, por causa do desejo que a alagava.

A garçonete colocou a terrina de sopa de verduras na frente dela e saiu sem conversar. Nicolas manteve a posse de sua mão. Lara afundou a colher na terrina, tirou—a e começou a fazer pequenas ondas nelas.

— Você tem medo de mim?

Seu olhar saltou para o dele.

—Não de você. Nunca tive sexo antes. Você parece muito experiente.

Um lento sorriso suavizou a boca masculina.

—Tive muitos séculos para aprender as técnicas e especular o que quereria fazer com minha companheira, se alguma vez tivesse a sorte de ter uma. Nossos machos podem ser bastante obcecados pela a idéia do sexo, mas por regra geral, não é satisfatório sem nossa companheira. Talvez seja uma salvaguarda para nossas mulheres, igual para as demais mulheres que nos rodeiam. Meu apetite sexual está rugindo e se alguém não pode saciá-lo, não estou seguro do quanto mais poderei permanecer controlado. Não somos humanos, Lara. Podemos parecer dóceis e civilizados, mas não somos.

Ele não lhe parecia manso ou civilizado. Parecia poderoso e perigoso e muito sexy para uma mulher tão inexperiente como ela. Desejava-o com cada fibra de seu ser.

—Tem que comer para que possamos sair daqui, — lhe recordou ele.

Se era o que faltava, estava disposta. Ela tirou um pouco do caldo na colher e baixou o olhar para a terrina de sopa. Seu estômago se rebelou inesperadamente.

—Acredito que não tenho tanta fome como pensava.

Nicolas franziu o cenho. Tiveram um intercâmbio completo de sangue somente uma vez e também ele lhe dera sangue duas vezes. Ela já era o bastante Cárpato como para que a comida normal não se sentasse bem, mas necessitava de alimento. Ela empurrava revolvia o conteúdo da terrina. Lentamente ele pegou a colher da mão dela e levou o caldo até sua boca.

Lara meneou a cabeça.

—Sempre tive um pequeno problema para comer. Normalmente a sopa é o único alimento que consigo tomar enquanto seja somente de verduras, mas o aroma desta faz com que meu estômago se rebele. Sinceramente não acredito que possa.

Nicolas estendeu a mão livre para curvar a palma sob a queda do sedoso cabelo e lhe acariciar a nuca.

—Tem que comer, Lara. Você teve um intercâmbio completo de sangue e tomou o meu por duas vezes. Não pode estar sem se alimentar. Ajudarei a manter em seu estômago.

Era a última coisa que Lara queria fazer, mas ele estava olhando-a com seus incríveis olhos e ela se encontrou assentindo. Em seu intensificado estado de consciência, o deslizamento da mente dele na dela era quase sexual, uma carícia muito parecida à carícia de seus dedos contra a pele. Sua respiração se tornou entrecortada. Havia muitas fantasias eróticas se apresentando através da mente masculina e cada uma delas era mais surpreendente que a outra.

Ele certamente desejava tirar as coisas da mesa e colocá-la nela, tirar seu vestido um centímetro de cada vez até que pudesse ver e tocar sua pele. Lara tocou os lábios com a ponta da língua, lutando para respirar quando seus pulmões se negavam a trabalhar. O olhar de Nicolas manteve o dela cativo, sem piscar, sem afastar os olhos, até que ela se sentiu consumida por ele.

— Acredito que faremos isso. Não posso esperar outro momento. Pode sair caminhando daqui?

Ela piscou e baixou o olhar para a terrina vazia. Enquanto estava examinando as imagens na mente de Nicolas, ele a alimentara, mas à medida que ela fantasiava, seu crescente desejo obviamente lhe tinha afetado.

— Posso chegar até a porta se você puder.

Ele estendeu-lhe a mão. Lara colocou a sua nela. Os olhos negros mantiveram-se nos dela durante um segundo mais longo.

— No momento em que sairmos daqui, vou tirar cada pedacinho de roupa de seu corpo. Quero te sentir, te ver. Não só em minha imaginação, mas de forma real.

Havia uma advertência e uma promessa em seu tom. Ela estava voltando a ser o perigoso predador e desta vez ela era sua presa. O conhecimento deveria tê-la assustado, mas em vez disso, seu corpo inteiro reagiu com calorosa antecipação. Junto com o arrepio de espera que lhe desceu por sua coluna, sentiu o arrebatamento de desejo através de seu corpo ante a acentuada carícia de sua voz.

Ele puxou a porta para abri-la e saíram para a noite, com sua mão na curva das costas dela, na base da coluna. Seus longos dedos lhe acariciaram a curva do traseiro sob o fino tecido do vestido que havia criado para ela. O tecido era pesado e ardia contra a sensível pele de Lara. Apressaram-se em descer os lances da escada para a rua, onde flocos de neve caíam lentamente para fundir-se contra seus corpos quentes.

Nicolas não esperou, estava impaciente para tocá-la. Apertou-a entre os braços, embalando-a contra o peito, mal recordando mascarar sua presença quando deu dois passos correndo e saltou para o céu.

Lara elevou o olhar para sua face, quase grosseiramente bela, as linhas sensuais, os escuros olhos semicerrados e possessivos. Seus braços eram enormemente fortes e seu corpo estava quente e duro. Ele enterrou a face contra o pescoço dela como se não pudesse esperar, sequer até que estivessem seguros em sua guarida subterrânea. Seus dentes arranharam sua pele e seus lábios roçaram como plumas, sua língua deu pequenos toques que a deixaram louca com cada um.

A respiração de Nicolas se tornou mais acentuada e seus negros olhos se encheram de tormenta e sombras enquanto encontrava os lábios dela com os seus. Ele beijou—a como um homem faminto... Como se ela se tornasse o desejo ao qual ele não pudesse resistir e estivesse desesperado para tê—la. Suas línguas dançaram em longos beijos que a afogaram.

A noite brilhava. Em cima, a lua cintilava prateada através da penugem de nuvens cinza. Os flocos de neve caíam lentamente, diminutos diamantes brancos que flutuavam prazerosamente para o chão. Sob eles havia um tapete branco de deslumbrantes cristais pulverizados pelos prados e cobrindo as árvores altas. Até para eles, as sombras possuíam um brilho prateado.

Lara voltou à face para a noite. Sempre havia sentido se desconjurada, menos quando estava se escondendo, se ocultando durante o dia para que a luz do sol não pudesse tocar sua pele e tentando evitar que outros notassem. Agora, ali nas montanhas, com a noite envolvendo-a, sentia-se realmente viva pela primeira vez. Ela virou a face para ele novamente, procurando outro beijo, fundindo-se contra Nicolas, nele, aconchegando-se tão perto como podia.

Os prados e os pântanos cristalizados passavam sob eles enquanto ele a levava flutuando através das nuvens, com os flocos acariciando seu cabelo e sua pele. Ela elevou o rosto para tentar sentir a neve na língua. Riu brandamente, feliz e excitada. Seu corpo pulsava acalorado pela lenta e sedutora provocação dos dentes e a língua dele que a deixavam louca de desejo.

— Adoro esta sensação. — E adorava. Não estava o mínimo assustada quando ele a colocou no chão sobre a firme rocha da entrada de sua guarida.

Nicolas mal podia respirar de desejo por ela. Tirou-lhe o longo vestido antes que estivesse no interior da caverna, incapaz de esperar um momento mais para estar pele a pele com ela. Ela ficou na entrada, com a neve caindo brandamente a seu redor, com a lua deslizando intermitentemente entre as nuvens cinza, para iluminar a riqueza de sua pele acetinada.

Seus pulmões queimaram em busca de ar. Um fogo rugiu em seu ventre e se estendeu para seu membro.

—Levante os braços acima da cabeça e se volte. – Ele a instruiu com voz enrouquecida.

Lara sentiu o poder de ser não só uma companheira, mas ser uma mulher nesse momento. Estendeu as mãos para o alto da cabeça num lento e gracioso movimento que lhe empinou mais os seios. Ouviu—o gemer. Um profundo retumbar que somente aumentou a sensação quente entre suas pernas. Seu cabelo se espalhou ao redor de sua face e depois fluiu pelas costas num sedoso e sensual deslizamento que aumentou o calor crescente.

O olhar de Nicolas ardia sobre ela, fazendo com que a dor em seu corpo crescesse a cada segundo. Começou a virar lentamente, um pouco tímida, observando a tensão na face dele, observando cada músculo, aumentando a tensão. Ele deu um passo para ela e sua boca ficou seca.

—Você é linda, Lara.

Ele a fazia se sentir bela tanto se fosse ou não. Ele a fazia se sentir sexy, a única mulher viva que podia lhe fazer queimar. Ele levou—a para mais perto da entrada da caverna, com o corpo agressivo. Suas mãos se elevaram para pressionar o peito masculino. Ele capturou—lhe as mãos e deslizou—as para baixo, pelos músculos de seu peito, enquanto suas roupas desapareciam, expondo a pele quente. Sob as palmas das mãos dela, os músculos de seu abdômen se enrijeceram em espera.

A respiração ficou presa em sua garganta. Lara ofegou ante o calor que emanava dele. Seu olhar deslizou pelo corpo tenso.

— Olhe para mim.

Ante a rouca ordem, seu olhar saltou de volta aos olhos dele. O escuro desejo a capturou e manteve enquanto continuava lhe pressionando as mãos para baixo, por seu corpo até sua dura e dolorosa ereção. Os pulmões dela queimaram enquanto ele fechava os dedos dela ao redor do grosso e rijo membro, pulsando de vida, com fome, com muita necessidade. A luxúria nua ardendo nas escuras profundezas de seus olhos quase mantinha o corpo feminino tenso pela surpresa. Ela sentiu a profunda resposta em seu interior, a maré de calor, seus músculos internos se contraindo e se estirando, desesperada por ele.

—Sabe o que quero de você?

Ela sacudiu a cabeça, incapaz de afastar o olhar da exigência em seus olhos.

—Completa rendição, fél ku kuuluaak sívam bels? Amada, nada menos que isso. Quero tudo o que você é. Isso é o que sou.

Ela soubera todo o tempo que ele quereria isso. Seus dedos o acariciaram, ao longo do membro grosso. Sentiu—o como aço, tão duro, possante e pulsando compulsivamente sob sua exploração. Traçou cada amada linha com as pontas dos dedos, desejando tantas coisas.

—Tomar meu sangue é parte de fazer amor para os Cárpatos.

Ele se negou a liberá—la de seu negro e exigente olhar.

—Não pode haver falta de compromisso aqui, Lara. Para nenhum dos dois. Tem que confiar em mim com seu corpo ou podemos esperar até que o faça.

Ela estava repentinamente assustada. Tremia de desejo, seu corpo estava desesperado pela liberação, sua mente na nele, desejando as experiências que seu olhar quente prometia. Ele não aceitaria nada menos que a rendição total, colocar-se em suas mãos e confiar em que ele não faria nada com o qual ela não pudesse entender ou aceitar. A mente dele estava aberta à dela, lhe permitindo ver cada imagem erótica, tudo o que ele desejava dela. A cor subiu do pescoço a sua face, mas ela não afastou o olhar. Queria tudo o que ele lhe desse, mas junto com os beijos ardentes e seu corpo possuindo o dela. Notou claramente como ele planejava seduzi-la para que aceitasse ele tomar seu sangue.

—E se não puder?

Ele inclinou a cabeça para a dela, mantendo seu olhar cativo.

—Então na verdade, nos divertiremos pelo caminho.

Lara não se afastou, em vez disso, levantou a face para a dele. Sua boca era dura, quente e exigente, varrendo a dela com uma tormenta de desejo tal que a fez estremecer sob seus

beijos. Os lábios masculinos se moveram sobre sua face, em cada detalhe, nas maçãs do rosto, na suave curva de seu rosto, na pequena covinha em seu queixo e logo tomou posse de sua boca novamente.

Levantou-a em braços outra vez, sem interromper o beijo. Lara envolveu os braços ao redor de seu pescoço, apertando-o, trazendo-o tão perto como podia, esfregando seu corpo pelo dele, desesperada para aliviar a pressão crescente em seu interior. Estava úmida e quente, frenética para tê-lo.

Nicolas a levou através dos túneis rapidamente, direto à câmara onde havia uma enorme cama. Enquanto a baixava até ela, ondeou a mão para as velas, querendo ver sua face, ver a necessidade por ele ali estampada. Ela estirou as mãos para ele que as segurou e as imobilizou contra o colchão.

—Não se mova. — Foi uma ordem dita entre dentes.

Ele se inclinou sobre ela, bebendo em seu corpo, tombada em sua cama, aberta a sua exploração. Nicolas tremia realmente, a ardente luxúria cravando em seu ventre e espalhando-se até seu membro. Colocou-se de joelhos na cama, ainda lhe sujeitando as mãos dos dois lados da cabeça. Lentamente se inclinou, obrigando-se a ser paciente, a saborear lentamente a textura de sua pele.

Mordiscou o caminho de sua garganta até a curva de um seio. Ela se retorceu sob ele e seus quadris se ondularam, com um rubor estendendo-se por todo o seu corpo.

—Sou muito sensível.

Ele sorriu enquanto movia a língua sobre o mamilo.

—É como supõe que se tem que ser.

Lara ofegou incapaz de compreender, salvo a sensação e a necessidade que a conduziam. A sensação da língua dele e seus dentes contra seu mamilo enviavam um raio de eletricidade para seu ventre e coxas e um gemido profundo ao interior de seu núcleo feminino.

Ele seu mamilo profundamente na boca, sugando com força e seus dentes arranharam com intenção deliberada o mamilo. Ela gemeu, arqueando as costas, incapaz de permanecer quieta como ele havia ordenado. A combinação de dor e prazer enviou ondas expansivas através de seu sistema. A boca de Nicolas era implacável, tornando-a selvagem. Sem pressa, ele dividiu sua atenção entre os seios, passando a língua sobre eles e logo depois, de repente, usando-a lentamente, com longos toques, como se saboreasse cada carícia.

Ele deslizou os dedos pelos braços dela, para acariciar os lados de seus seios, antes de cobri-los com as mãos. Os dedos ágeis a atiçaram, até que ela se separou da cama com desesperados gemidos de súplica.

Lara não estava se afastando, absolutamente. Abandonava a si mesma, mente, coração e corpo abertos a ele e isso era muito. Confiava nele com seu corpo e sua confiança era um presente sem preço. Depois de tudo o que ele tinha feito, ela se entregava totalmente a seus cuidados, confiando que ele decidisse o que podia ou não fazer, confiando nele para estender seus limites sem ir muito longe. Mais que tudo, queria ser digna dessa confiança nele.

Sua boca se moveu sobre a pele de Lara, descendo pelo plano abdômen para brincar e acariciar seu umbigo. Nicolas sentiu uma onda de desejo tão forte por ela que o sacudiu. Sempre soubera que quando encontrasse sua companheira, gostaria que... Não, necessitaria... Dominá-la até que rompesse o alvorada, embora nenhuma só vez lhe ocorrera que sentiria o amor com tal intensidade. O fato o sacudiu como nada mais podia, a necessidade de adorar seu corpo, lhe mostrar sem palavras como se sentia.

Sua necessidade já não se devia somente à luxúria que tão forte o açoitava. Já não era por satisfazer seu próprio apetite. Precisava amá—la com cada toque de sua mão. Com cada carícia de sua língua. Com cada investida de seu corpo. Não era um homem terno. Não tinha palavras bonitas para dizer o quanto equivocado estivera. Somente tinha seu corpo e um terrível amor que o sacudia além de tudo que conhecera alguma vez.

A pele de Lara era seda, tão suave e macia que ele queria entrar profundamente. Ela era como a noite, linda e perfeita e tão malditamente bela que fazia seu coração doer. Segurou suas coxas com as mãos, separando-as, detendo-se durante um momento para memorizá-la.

A face de Lara estava ruborizada, a cabeça se sacudia de lado a lado no travesseiro, os seios se endureceram, os quadris se ondulavam. Ela não tentava esconder a reação a seu toque e esse cru desejo que o fazia querê-la inclusive mais.

Lara o olhou. A expressão dele era quase selvagem enquanto jazia entre suas pernas. Os olhos negros brilhavam, inclusive resplandeciam um pouco mais. Mais de uma vez havia sentido o toque de seus dentes sobre a pele, em cada lugar de sua pulsação. Seu coração trovejou com alarme, mas ele não rompia sua pele, aproveitando-se do frenético desespero que crescia em seu interior. Agora ele parecia um conquistador, com seu cabelo negro como a noite espalhado ao redor da face, as linhas gravadas profundamente, a boca sensual de firmes e desumanos traços.

Seus lábios se fecharam nela, a língua penetrou-a profundamente e ela ouviu seu próprio gemido entusiasta. Ele lambeu-a como um tigre, quase um ataque, não o suave toque de um gatinho, mas longas e ásperas carícias que lhe roubavam a mente. Ele a manteve quando ela tentou se arrastar fora do colchão, sob uma explosão de estrelas em sua mente. Sentiu o fio de seus dentes mordiscando e arranhando ante o forte batimento de sua pulsação. Sentia tão profundamente em seu interior que de algum jeito o medo acrescentou outra dimensão a seu prazer.

Lara estremeceu e a tormenta de fogo no centro de seu corpo cresceu até que ficou fora de controle. Não podia pensar. Não podia respirar. Não podia deter a pressão. Retorceu—se sob a boca que a rondava, sob a perversa língua e dentes que a conduziam cada vez mais alto. E então sentiu um dedo deslizar em seu interior e seus quadris se elevaram abruptamente, enquanto cada músculo se enrijecia ao ponto da dor. A língua dele se agitou contra seu ponto mais sensível.

Ela gritou seu nome, fechando as mãos entre seus cabelos, mantendo-o com ela enquanto seu corpo explodia e as chamas a queimavam de dentro para fora, com calor branco e estendendo-se como uma tormenta, de seus seios até suas coxas.

Antes que pudesse respirar, Nicolas se ajoelhou entre suas coxas, levantando suas pernas sobre os braços. A grossa cabeça de seu membro pressionou tensamente contra sua entrada. Sentia-o duro, quente, embora macio, aumentando o crescente inferno. A respiração de Lara se congelou nos pulmões e ela levantou os olhos para o rosto dele, esculpido com profundas e sensuais linhas enquanto começava a invadi-la. Ele deslizou dentro dela, centímetro a lento centímetro, estirando os tensos músculos, forçando o caminho através do domínio total de ardentes gemidos, enviando relâmpagos que açoitaram seu corpo.

Lara ofegou quando ele se deteve, chegando à barreira de sua inocência.

—Respira por mim, hän ku kuulua sívamet. Respira e relaxe.

Guardiã de meu coração. As palavras em sua língua nativa eram belas quando ele as pronunciava, suave e ternamente, fazendo seu coração bater mais forte. Obrigou seu corpo a relaxar. Nicolas avançou e a mordida de dor incremento sua sensibilidade de tal modo que suas unhas entraram profundamente nos ombros dele enquanto ela tentava se ancorar.

Ele começou a se mover em longas e duras investidas, que enviavam fulgores de calor espalhando-se sobre seu corpo, abrasando suas coxas e lhe queimando o ventre. Seus músculos se enrijeceram mais, fechando-se sobre ele enquanto Nicolas a penetrava, inclusive mais profundo, colocando-se sobre seu corpo de modo que o atrito em seu ponto mais sensível fosse quente, exigente e não se afastava. Ela sentiu a pressão crescendo, aumentando até que ficou com medo de que pudesse perder a cabeça.

Ele segurou ritmo, entrando e saindo dela, com o som de carne encontrando carne soando alto no silêncio da caverna. A respiração feminina se tornou ofegante enquanto o fogo continuava crescendo, exigindo além de sua capacidade de entender. Ela somente podia suplicar pedindo alívio, entre as respirações ofegantes. Iria queimar de dentro para fora, explodir em chamas ou morrer de puro prazer se ele não parasse.

Ouviu o coração dele trovejando em seus ouvidos. Sua boca se encheu com o sabor dele e seus dentes se alongaram, pressionando contra seus lábios. Antes que pudesse pensar, antes que pudesse sentir medo de sua própria reação, ele se afastou para trás e logo começou a intensificar o ritmo em seu interior e isso a fez esquecer tudo, salvo o prazer. Estava queimando viva, gritando enquanto seu corpo se convulsionava, aferrava-se com força a ele, para apertar e sugar.

Ele gemeu roucamente, esvaziando-se em seu interior, inclinando-se sobre ela, com os olhos brilhando cheios de chamas e os dentes evidentes. Nicolas não fez nenhuma tentativa de se esconder de seu aturdido e surpreendido olhar. As réplicas a estremeceram enquanto ele se inclinava lentamente para seu pescoço. Lara não podia se mover, não podia respirar, mesmo que seu corpo ainda tremesse de prazer. Uma parte dela gritava em seu interior e outra queria sentir os dentes dele afundar em seu pescoço.

Os lábios de Nicolas se moveram como plumas sobre sua pulsação. Lara sentiu o provocante toque dos dentes, mas não penetraram sua pele. Ele beijou seu pescoço até o canto de sua boca e quando lhe sorriu, seus dentes haviam retrocedido.

Ainda profundamente dentro nela, ele se moveu e enviou arcos de eletricidade através de seu corpo novamente.

—Não posso me mover.

—Não tem que se mover. Esta vai ser uma longa e prazerosa noite, päräfertiilm. – Ele prometeu suavemente.

 

Lara estava de pé na entrada larga da caverna, ouvindo a suave melodia que provinha de dentro. Eram vozes de mulheres. Os baixos sons produziram instantâneas lembranças de suas tias lhe cantando quando estava só e aflita, profundamente metida no labirinto de cavernas sob a montanha de gelo. Por um momento parou para escutar.

—Conheço esta canção. É uma canção de ninar. — Ela disse. – E linda no idioma Cárpato. Eu a cantava para as crianças nos acampamentos onde vivi. Quando me dava conta de que ninguém compreendia o idioma mudei a versão para o inglês. Nunca estive segura exatamente do que significava a última frase, mas a melodia e a letra sempre me aliviaram e também as crianças para quem cantava.

—A canção é cantada pelas mães antes que criança saia do útero — explicou ele. — Enquanto a mãe espera até a noite em que possa sustentar seu filho nos braços.

Nicolas cantou para ela com uma voz melodiosa, que enviava onda de calor e consolo. — Tumtesz ou wake ku pitasz bels. Hiszasz sívadet. Én olenam gidnod. Seja csecsemõm, ku asz. Rauho jo Ted. Tumtesz ou sívdobbanás ku cheiram lamt3ad bels? Gond kumpadek ku Kim lhe. Pesänak lhe, asti ou jüti, kidüsz.

Ela interpretou a canção de ninar.

—Sinta a força que tem em seu interior. Confie em seu coração, eu serei seu guia. Aquiete-se meu bebê, feche os olhos. A paz virá a você. Sinta o ritmo profundamente em seu interior. Ondas de amor te cobrindo, te protegendo, até a noite em que se eleve. — Ela olhou para ele. — O que significa a última linha?

—Muitas mulheres perdiam seus bebês — disse Nicolas. — As mulheres lhes dizem que o amor os protegerá até que estejam preparados para nascer, para entrar em nossa noite.

—É tão formoso.

Tudo na noite lhe parecia formoso agora. Nicolas passara horas seguidas fazendo amor com ela aparentemente insaciável. Descansaram um pouco, para entrar no calor das águas da piscina mineral, somente para tomá—la ali também. Ele conhecia cada centímetro de seu corpo e o olhar ardente que lhe dedicava a fazia se ruborizar, como se, somente com um pequeno estímulo, pudesse tomá-la ali mesmo, à entrada da caverna das mulheres.

—Não me sinto como se realmente pertencesse aqui, Nicolas. — Ela retorceu os dedos. — Não conheço ninguém. Natalya não vai estar aqui.

Não que ela fosse terrivelmente tímida, mas se reunir com as mulheres Cárpatos em um momento tão emocionante, quando ela já se sentia aberta e emocional era um pouco desalentador.

—Raven pediu que todas as mulheres assistissem e ela pede muito pouco a nossa gente.

—Não acredito que se referisse a mim. Ela sequer me conhece.

—Todos sabem de você, Lara. Esta é uma comunidade muito pequena e compartilhamos um vínculo comum de comunicação. Quando Raven transmitiu a chamada a todas as mulheres para que se unissem a ela, definitivamente se referia a você também. Eu assistiria contigo, mas é uma cerimônia de mulheres.

—Natalya é uma mulher. — Disse ela tercamente, baixinho. — E não vem.

Nicolas lhe emoldurou a face com ambas as mãos.

—Sei que estou pedindo muito Lara, mas esta é uma antiga cerimônia e um pequeno detalhe poderia te ajudar a recordar mais sobre o que viu na caverna de gelo. Nossas crianças raramente sobrevivem ao útero. Fora, estão sozinhos. Não podem ir para a terra como deveriam, onde os pais podem protegê—los. Nossas mulheres não podem lhes proporcionar alimento. Precisamos saber por que acontecem estas coisas e você possivelmente tenha pistas valiosas que nos ajudarão. Este poderia ser simplesmente o momento mais importante para nossa gente.

Ela umedeceu os lábios com a ponta da língua.

—Não posso fazer com que as lembranças retornem. Quando olho muito atentamente, tudo se converte numa página em branco.

—Amparo para você — disse Nicolas. — Mas suas tias não estavam ocultando estas coisas de nossa gente. Se fosse assim teriam apagado suas lembranças, não as teriam preservado.

—Nicolas? —Uma mulher se materializou bastante perto deles. – Ela é Lara? — A mulher sorriu dando-lhe boas-vindas. Sua face era serena sem rugas, apesar da tensão que devia sofrer interiormente. Seu cabelo era vermelho brilhante e caia-lhe dos ombros numa grossa e elaborada trança, até suas costas. — Sou Shea Dubrinsky, Lara. Jacques é meu companheiro. Não podemos te agradecer o bastante por vir. Nicolas nos contou que possivelmente possa ser capaz de nos dar umas poucas peças a mais deste quebra-cabeça, para nos ajudar a encontrar nossas respostas.

Lara respirou fundo, cuidando Nicolas e logo Shea.

—Não posso evocar as lembranças, mas capto vislumbres de vez em quando. Se ajudar, estarei mais que encantada em lhes falar delas.

—Planejamos entrar na caverna de gelo, amanhã pela tarde, — acrescentou Nicolas. — Se nos pode dedicar esse tempo extra, ajudando Raven e Savannah à agüentar um pouco mais, haverá possibilidade de averiguar alguma coisa mais.

Shea franziu o cenho.

—Estou a um bom tempo investigando este problema. Sabemos neste ponto, que trabalhamos contra uma combinação de coisas, inclusive toxinas na terra. Para que a terra nos rejuvenesça e nos cure, absorvemos os minerais necessários através da pele. Cada área tem minerais diferentes e vários níveis de riqueza, mas encontramos cada vez mais toxinas também. Nossa espécie está presa a terra e não podemos sobreviver sem ela. Se Xavier introduziu alguma coisa nela, um composto ou um parasita que durante séculos matou lentamente nossa espécie, se averiguarmos o que é acredito que temos uma oportunidade de combatê-lo.

Shea foi treinada como médica e pesquisadora antes que Jacques a reclamasse.

—Tenho uma lembrança de Xavier quando tinha perto de sete ou oito anos, somente um vislumbre, de uma mulher que acabava de perder a seu bebê. Havia terra no quarto com ela. Xavier estava muito feliz por ela ter perdido à criança.

Pequenas linhas apareceram na testa de Shea enquanto suas sobrancelhas se elevavam.

— Ele teve vários séculos para aperfeiçoar seus ataques.

—Ou introduzir algo que se desenvolva com o tempo, — sugeriu Nicolas. — Tenho que me despedir. — Ele fez uma reverência profunda, num gesto de respeito a Shea. — Temos o conselho de guerreiros esta noite.

Ela lhe fez uma careta.

—O extremo e importante conselho de sobre como manter as mulheres em casa, descalças e grávidas? Sim, diria que têm decisões a tomar. Talvez devesse ficar em casa e me esquecer de toda a minha investigação e deixar sem mais, Gregori e Gary. Tenho um filho ao qual cuidar.

Lara franziu o cenho.

—Não compreendo.

—Nicolas não lhe disse? Os homens têm uma reunião esta noite e discutirão se deveriam permitir às mulheres... Permitir... Lutar contra os vampiros ou não. Ou se deveríamos ficar em casa tendo nossos bebês.

— Acredito que seria uma idéia boa partir agora. — Disse Nicolas, segurando o rosto de Lara entre as mãos, inclinando-se para beijá-la corretamente diante de Shea.

Lara se ruborizou, mas beijou-o, com os olhos brilhantes. Antes que pudesse protestar ou fazer perguntas, ele começou a mudar. Não ia debater com Shea Dubrinsky sobre se as mulheres deveriam sair a lutar contra vampiros ou não. Já ia ser uma discussão suficientemente ardente entre os homens. Não era uma decisão que nenhum deles tomaria sem pensar, mas algo tinha que ser feito para salvar sua espécie. Enviou a Lara uma onda de calor e desapareceu na noite.

Lara observou como ele saía, sem acreditar que a tivesse abandonado com um grupo de estranhas. Além disso, franziu o cenho às suas costas. Ele fizera uma saída do covarde antes que ela pudesse expressar uma opinião sobre o assunto. Sobre homens permitindo ou não, tudo a uma mulher.

— É obvio que ouvirei sua opinião.

A intimidade de sua voz a fez se ruborizar de novo. — Não me deixe por muito tempo.

— Voltarei o mais rápido possível.

Ele podia ouvir a tranqüilidade em sua voz e a fez sorrir enquanto baixava o olhar para o túnel que levava a câmara mais profunda dentro da caverna.

—Há muitas mulheres aqui?

—Atualmente, somos perto de uma dúzia, então estamos mais que contentes de tenha se unido a nós. Não há muitas de nós aqui, nas montanhas. Tivemos que enviar delegadas ao conselho de guerreiros para falar por nós, para que nos informem. Infelizmente, os homens podem ter um argumento legítimo e neste caso, todas nós gostaríamos de ouvir para que possamos ter uma oportunidade de concordar ou não, por nós mesmas.

Era óbvio para Lara, que Shea tentava manter uma mentalidade aberta, mas o assunto a irritava. Segundo Nicolas, ela era uma mulher moderna que tinha feito faculdade de medicina e possuía uma reputação como pesquisadora de valor e sentia que os homens estavam empurrando às mulheres para trás em vez para frente, mas tentava ser justa e esperar para ouvir todos os fatos. Lara gostou.

Shea ondeou a mão para o interior.

—Deixe-me que lhe presente às outras.

Lara a seguiu pelo túnel estreito e sinuoso que se dirigia mais para dentro da montanha. Como as cavernas que Nicolas ocupava, esta era bem mais morna que a parte da rede de cavernas de gelo sob a geleira e à medida que desciam para as profundezas, o calor aumentava. Candelabros iluminavam o caminho, em pequenas piscadelas de tênue luz que resplandeciam e dançavam. As luzes fracas brincavam sobre os afloramentos de cristal nas paredes do túnel. Variadas em cor e forma, as luzes criavam uma exibição vertiginosa, convertendo a parede em algo quase surreal. Em um estado de sonho, Lara se sentia quase como se estivesse avançando para trás no tempo, para o calor e a segurança de um útero.

Quando entrou na câmara principal onde as mulheres estavam reunidas, a ilusão chegou a ser ainda mais forte. Duas mulheres, Raven e Savannah, jaziam no centro, onde a terra negra e rica em minerais, cobria seus corpos. Ao redor delas, num semicírculo frouxo, as mulheres se reuniram para cantar brandamente a canção de ninar Cárpato, oscilando de um lado a outro como se balançassem um bebê.

Outras duas mulheres, uma alta e elegante e uma magra, jovens e de aspecto frágil, estavam de pé nos exteriores da terra, com as mãos levantadas. As duas cantavam num ritmo suave e melodioso enquanto moviam os pés em um intrincado padrão.

—Syndil e Skyler. — Sussurrou Shea. — Elas rejuvenescem a terra. Estão chamando os minerais e às propriedades curativas para que saiam a nos ajudar a salvar a nossas crianças. Ambas foram de valor incalculável para restaurar a terra livre de toxinas para nós. Skyler trabalha como aprendiz de Syndil e já é muito boa.

Era uma visão formosa, as duas mulheres realizavam um antigo ritual de purificação da terra e chamavam à Mãe Natureza para que ajudasse a salvar a seus filhos. Lara ouviu as apresentações, mas todo o tempo estava olhando a cerimônia. Seu coração inchava e sua mente seguia cada vaivém elegante das mãos e dos pés dela. Conhecia a cerimônia, em alguma parte de sua mente. As frases, o ritmo e as pautas eram familiares, como se muito tempo antes de nascer lhe tivessem dado as ferramentas para limpar a terra.

Seus pés desejavam se unir às duas mulheres, suas mãos revoaram, subindo para traçar um arco fluídico no ar. Sentia a pulsação da terra sob ela. Seu coração começou a mudar de ritmo para emparelhar à canção. OH sim, as palavras das mulheres estavam ali, antigas e formosas e cheias do poder.

— OH, Mãe Natureza, somos suas amadas filhas. — Lara se abaixou, inclinando-se com respeito e seus pés se viravam para aprender o elegante giro que Syndil e Skyler completaram em dois dos quatro cantos que rodeavam Raven e Savannah. Instintivamente, Lara tomou o terceiro canto. — Dançamos para curar a terra. Cantamos para curar a terra. Unimo-nos a você agora. Os corações, as mentes e os espíritos são um.

A música já estava em sua alma. Mas necessitavam de uma quarta. As outras mulheres dançavam e cantavam. Suas vozes cresciam em força, mas necessitavam de mais outra voz. Não eram o bastante fortes. Lara olhou para Syndil, com um cenho débil em sua face. Precisavam ajustar os passos.

—Sente-a?

Uma quietude caiu sobre as mulheres. A cálida caverna pulsava com o poder suspenso. Lara deveria se sentir envergonhada por ter todos os olhos pousados nela. Nunca tinha feito isto antes. Não estava segura de que tinha razão, mas sentia que algo estava… Errado. Olhou para Syndil. O poder procedia da mulher, vibrava no ar ao redor dela. Sua aura inclusive pulsava.

Syndil franziu o cenho.

—A dança não está equilibrada, mas pouco podemos fazer a respeito. — Ela olhou para Skyler. — Você o que pensa?

—Funciona, mas não é exato. — A adolescente encolheu os ombros. — Só podemos fazer o que pudermos. Necessitamos quatro e somos somente três. —Syndil assentiu com a cabeça. – A dança e as notas da canção e a quantidade de toxinas que sinto através das plantas dos pés. Com esta terra temos que ser especialmente cuidadosas, porque a preparamos para os bebês.

Lara assentiu, ainda franzindo o cenho. Levantou a mão para sentir o poder que pulsava no quarto.

—Partes das células estão ruins. Necessitamos de uma quarta.

—Não há ninguém. As outras mulheres podem contribuir com o poder, mas não podem produzir a canção curativa da terra.

—Não há nenhuma outra de sua linhagem? — Ela perguntou a Syndil.

Syndil sacudiu a cabeça.

—Não, por isso sei. Suspeitamos que Skyler seja da linha do Caçador de Dragões, mas não sabemos. Ela ouviu a terra gemer, então se não é, ela é como eu, empática para com a terra.

—Ela tem os olhos de Caçadora de Dragões — concordou Lara.

Os olhos do Skyler eram muito velhos para sua jovem face. E Lara podia ver os traços do Razvan neles. Esta então era provavelmente uma das meninas que Xavier tinha forçado o corpo do Razvan a produzir para se alimentar com seu sangue. De algum modo, a garota tinha acabado na raça dos Cárpatos. O pensamento era perturbador e por um momento desejou o consolo dos braços de Nicolas. Sem pensar, estirou a mente até ele. Imediatamente ele estava com ela.

— Você tem necessidade de mim?

Ela se sentiu estúpida. Não era ela que estava a ponto de perder um filho, mas estremecia porque uma garota adolescente tinha os olhos de seu pai. — Não... Não. Tudo está bem.

— Basta tocar minha mente com a tua, Lara e estou contigo.

Sua tranqüilidade a fez se sentir segura e aliviada e pela primeira vez em sua vida ela se sentiu como se pertencesse a alguém.

— Estou bem. — Desta vez ela respondeu com convicção. E depois diretamente com Raven, sustentando firmemente seu olhar preocupado.

—Necessitamos de Natalya.

As mulheres olharam umas às outras.

—Natalya é uma Caçadora. Diz que não pode sentir a terra, — disse Shea. — Não tem a sensibilidade para isso.

As sobrancelhas de Lara se elevaram.

—Realmente? É isso o que ela disse?

Shea Raven intercambiaram um longo olhar e logo Raven franziu o cenho.

—Mikhail me disse que ela não podia curar a terra da maneira em que sua família pode. Não é verdade?

Lara franziu os lábios.

—Natalya pulsa poder. Surpreenderia-me que não pudesse.

—Chamem-na. — Disse Raven.

—Ela está no conselho de guerreiros, falando por nós — recordou Shea.

—Digam-lhe que volte. — Disse Raven outra vez, nesta vez era uma ordem. — Se há esperança de salvar a estas crianças, então isto é muito mais importante que a discussão com os homens. Afinal, será Mikhail quem tomará a decisão, se as mulheres lutarão com seus homens ou não e todos nós a acataremos.

Ninguém ia assinalar com razão, de que necessitassem de Natalya na reunião para assegurar que suas vozes fossem ouvidas. Raven raramente... Quase nunca... Aproveitava-se de ser superior por ser mulher de Mikhail, mas não restava duvida de que desejava que Natalya fosse convocada.

 A face de Raven estava sulcada de lágrimas e sua angústia pesava muito nas mulheres. Raven havia sobrevivido a uma perda e agora outra criança lhe escapava. Junto a ela, Savannah estava pálida e com os olhos fechados, concentrada em sustentar seus bebês com ela.

As duas mulheres podiam se comunicar com seus filhos ainda não nascidos, o que tornava a perda ainda mais difícil de encarar. Os bebês eram reais, com personalidades já desenvolvidas.

—Chame-a agora, Shea. — Insistiu Raven.

Shea alcançou à gêmea de Razvan.

—Por que Shea resiste em chamá-la? — Cochichou Lara a Syndil.

—Natalya é diferente — respondeu Syndil. — É a mulher viva mais velha da linhagem do Caçador de Dragões e como tal, seu sangue é muito poderoso. Além disso, é uma força com a que lutar em todos os sentidos e segue seu próprio caminho. Acredito que ter tido que se ocultar de  Xavier converteu-a numa solitária com o passar dos anos. É sempre agradável e receosa, mas tende a se manter afastada. Raramente é vista sem o Vikirnoff.

Lara não se surpreendeu de que Natalya fosse uma solitária. Ela possuía o estilo de uma mulher muito segura, mas era a irmã de Razvan e neta de um dos homens mais perversos jamais nascidos. O mais provável era que tivesse passado seus primeiros anos olhando por cima do ombro e atemorizada em confiar em alguém. Lara não estava segura de que ela poderia vencer sua própria infância traumática para se comprometer completamente com Nicolas. Certamente podia compreender a reticência de sua tia.

Natalya entrou rapidamente, com sua graça fácil e casual, com os olhos verdes azulados fitando Raven interrogativamente.

—Raven? Você precisa de mim?

Raven assentiu.

—Lara e Syndil pressentem que você é a única pode nos ajudar nisto e estou... Estamos... Desesperadas para salvar nossos filhos.

Natalya olhou ao redor da caverna e logo a Lara.

—Não tenho nenhuma experiência em rituais de cura, mas se disserem a mim o que fazer, farei o melhor que puder.

Raven deixa escapar a respiração suspensa.

—Obrigada, Natalya.

As pálpebras de Savannah se elevaram. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

—Minhas filhas lhe agradecem também. Tentam agüentar, mas meu corpo as rechaça. —Ela envolveu os braços em torno de seu abdômen e se balançou brandamente. – Digo a elas que desejo que permaneçam comigo, mas elas sentem que meu corpo as ataca.

Raven assentiu.

—Não posso suportar perder outro filho.

A dor nua em sua voz rompeu o coração de Lara. Uma mulher alta e elegante, com o cabelo negro, denso e longo até a cintura, ajoelhou imediatamente entre as duas mulheres grávidas, colocando uma mão sobre o ventre das duas.

—Francesca. — Apontou Natalya. — Companheira de Gabriel, é curadora e mãe adotiva de Skyler. É uma mulher assombrosa. Agora me diga que deseja que eu faça.

Lara estava contente de tê-la ali. Não conhecia nenhuma das demais mulheres e olhar para Skyler era como olhar a si mesma quando era jovem. Um pouco perdida. Bem mais sozinha. Traumatizada. A adolescente a fazia se sentir exposta. Natalya era claramente um enigma para as outras mulheres, embora obviamente elas a admiravam.

—Isto vai curar primeiro a terra — explicou Syndil. — Temos a terra mais rica que encontramos e engastamos mais minerais nela, mas temos que curá-la de todas as toxinas.

—E dos parasitas — murmurou Lara para si.

Shea se voltou.

—O que disse?

Lara desejou não ter falado, mas todas a olhavam em franca expectativa. Ela apertou os dedos contra suas têmporas, que de repente pulsavam.

—Sinto muito. Pensei em voz alta.

—Não, preciso saber que disse — insistiu Shea.

Lara encolheu os ombros. Não queria falar de sua infância, nem pensar nela.

—Xavier sempre fazia experiências com parasitas. Nunca estava satisfeito com eles e sempre procurava formas de utilizá-los. Disse uma vez que tinham eram mais úteis que qualquer de seus magos mais talentosos. Não posso imaginar que fizesse alguma coisa sem pensar primeiro neles. Podia criar toxinas para a terra e se criou um parasita que entrasse no corpo do anfitrião e evitasse a gravidez?

Francesca se levantou lentamente. Seus olhos já encontrando os de Shea sobre as figuras de Raven e Savannah.

—Estamos em busca de micróbios estranhos. Esquadrinhamos os corpos das mulheres todo o tempo, — disse Shea. — Gregori nunca passaria por cima algo como isso.

—Possivelmente — disse Lara. — Mas Xavier é um professor trabalhando com amebas microscópicas. E quando se dança para curar a terra, se procura toxinas de hoje em dia.

Shea franziu o cenho.

—Tem alguma idéia de quantas toxinas se encontram no cordão umbilical de um recém-nascido ou no leite materno? A terra é em lugar onde vivemos, o que nos faz rejuvenescer, mas nossas crianças não podem ir para a terra conosco, nem usar o leite nutritivo mais perfeito que a natureza pode proporcionar. Poderia enunciar cada substância química que encontramos na terra, a maior parte causa câncer e…

Raven colocou uma mão no braço de sua cunhada, para refreá-la.

—Lara, nosso abastecimento de água e nossa terra são alimentados pela fonte mais pura, a geleira. Ainda assim, Syndil tem que curar a terra.

—Eu somente digo que possivelmente sua geleira não é a mais pura das fontes. Xavier possui as cavernas de gelo. As cavernas correm durante milhas sob as montanhas, uma cidade inteira na verdade. Sua montanha está acima de seus lares e sua geleira alimenta seu abastecimento de água e se filtra em sua terra. Você o haviam descartado porque acreditavam que estava morto. Bem, pois ele não está. Ninguém vai conseguir matá-lo. E ele odeia os Cárpatos. Se pudesse, ele teria encontrado um modo de introduzir alguma coisa em seus sistemas para fazer com que seus corpos rechaçam uma gravidez.

Lara passou uma mão pelo cabelo.

—Não estou falando de toxinas modernas, só digo que talvez devessem procurar também respostas em seu passado.

Ela não podia acreditar que estivesse expressando sua opinião no círculo de mulheres. Crescendo do lado de fora das cavernas de gelo, ficou sob o radar, permanecendo em calma total como era possível. Tinha aprendido que se queria ficar com uma família ou em um acampamento, devia passar inadvertida e isso não era muito fácil quando saíam raias de cor em seu cabelo e seus olhos mudavam também. Os ciganos com os quais viviam haviam sido amáveis com ela, mas eram supersticiosos e sua aparência estranha, junto com suas capacidades psíquicas, freqüentemente a faziam sentir não bem-vinda.

—Não fique incomodada — animou Francesca. — Necessitamos tanto de novas idéias como é possível.

—Bem, Xavier não é somente uma possibilidade no que a mim concerne, ele tem feito algo para causar tudo isto. Possivelmente seja espalhando toxinas na terra e na água, mas apostaria minha vida que introduziu alguma coisa nas mulheres Cárpato, que causa que elas rechacem seus filhos.

—Verificamos as mulheres completamente, — disse Francesca. — E nem todas têm problemas.

—Vamos começar outra vez. — Disse Syndil. — Raven e Savannah precisam de terra rica para ajudar a fortalecer seus corpos.

—OH, Meu Deus! —Shea se voltou, com os olhos muito abertos, procurando Francesca. — Verificamos as mulheres, mas são os homens que determinam o sexo da criança, em humanos e em Cárpatos. Não verificamos os homens. Nossos problemas começaram com um número desproporcionado de filhos varões.

Francesca tentou claramente suprimir seu próprio entusiasmo, optando pela cautela depois de tantas desilusões.

—Possivelmente. É lógico, mas temos que continuar estudando todas as vias possíveis abertas ante nós.

Shea assentiu com a cabeça várias vezes, mas apertou a mão de Raven.

—Ajudaremos Syndil e às outras a fazer desta a melhor terra possível para você e Savannah. – Ela disse. — E logo irei para meu laboratório e resolverei isto. Tudo o que tem a fazer é agüentar um pouco mais.

Raven assentiu, mas havia linhas brancas ao redor de sua boca e desespero em seus olhos. Lara teve que afastar o olhar ante a dor crua em sua face.

Algumas das demais mulheres deviam ter visto a face de Raven, pois formaram uma vez mais um meio círculo frouxo. Sobre um fogo no canto da câmara havia uma panela grande e Francesca pôs várias pedras de variadas composição na água, junto com ramos de flores azuis e mandrágora de raiz amarga. Enquanto adicionava outras ervas e os ingredientes, outras mulheres acenderam velas aromáticas. Imediatamente os aromas de lavanda e jasmim encheram o ar. As mulheres começaram a cantar a canção de ninar Cárpato.

Lara se encontrou unida a elas, elevando sua voz, sentindo a irresistível sensação de amor pelas crianças não nascidas ainda, chamando-os  a permanecer na matriz, seguros e protegidos, esperando até o momento em que nascessem e pudessem ser sustentados em braços amorosos.

O poder se encrespou e houve uma diferença sutil. A energia feminina era tão poderosa quanto à masculina, mas possuía raízes na criação e na compaixão. Como parte maga, ela era muito sensível às diferenças, revisando os fios individuais e encontrando notando que as camadas que estavam sendo tecidas ao redor de Raven e Savannah possuíam verdadeiro amor e harmonia absoluta. As mulheres se reuniram com um propósito, salvar os bebês e não importava que cada uma fosse diferente ou tivessem origens distintas, suas mentes e corações tinham o mesmo objetivo e intenção.

A força combinada das mulheres era assombrosa. Ela se sentiu apoiada, animada, não só a ser parte da assombrosa irmandade, mas de se sentir equilibrada e segura de si mesma e das outras como um tudo.

Lara olhou ao redor da caverna, para todas as mulheres, bebendo da visão, empapando—se da sensação de unidade. O poder residia em cada uma delas, como fazia em todos os seres vivos e elas reuniam essa energia positiva e a utilizavam para o melhor de todos os propósitos... Salvar vidas.

Acrescentou sua voz, uma suave súplica melodiosa, um consolo tranqüilizador aos bebês não nascidos ainda. As mulheres se conectaram e assim podiam sentir umas a outras, próximas em suas mentes  e também sentiam Raven e Savannah e através delas, seus filhos.

As filhas de Savannah estavam juntas, ouvindo atentamente e tentando ignorar os espasmos que ocasionalmente as empurravam para baixo. A criança de Raven era um menino. Seu corpo tentava abortar desesperadamente, trabalhando duramente para se desfazer do intruso. O bebe sofria muito, dividido entre lutar para permanecer com sua mãe ou ganhar a paz saindo dela. Raven lhe cantava suavemente, balançando-se lentamente e seus braços vazios se fechavam sobre ele como se o estivesse abraçando.

Syndil assinalou Skyler que tomasse sua posição no canto da imensa cama de terra preparada para as duas mulheres grávidas. Natalya e Lara tomaram os cantos inferiores. Uma quietude caiu sobre a caverna até que o único som que se ouviu foi à dificultosa respiração de Raven.

Os braços de Syndil subiram no ar e as outras três mulheres fizeram o mesmo. Seus pés começaram um passo de dança e seu corpo oscilava graciosamente enquanto as mãos fluíam em linhas elegantes. Skyler esperou vários batimentos de coração, cantarolando a melodia em perfeito tom com Syndil até que seus pés tomaram o mesmo ritmo e ela começou a primeira linha do canto, duas linhas por detrás de Syndil. Lara seguiu o exemplo de Skyler, esperando instintivamente até que seus pés e mãos, por vontade própria, começassem a se mover. Sentia a canção curativa elevando—se em seu interior até estalar. O ar brilhava cheio de poder. E então Natalya se uniu a elas.

Suas vozes se elevaram com a canção e elas dançaram um padrão complicado, com o som de seus pés nus tocando a terra como se atraíram a música do centro da mesma. Lara sentia a canção, sentia a dança, através das plantas dos pés. Sabia cada passo antes de dá-lo, cada movimento elegante da mão e o vaivém de seu corpo antes de fazê-lo. A canção era forte em sua mente, em harmonia perfeita com as outras três mulheres, perfeitamente afinadas às notas da terra.

— Oh, Mãe Natureza, somos suas amadas filhas. Dançamos para curar a terra. Cantamos para curar a terra. Unimo-nos a você agora. Nossos corações, mentes e espíritos são um só.

Enquanto cantavam a canção, desta vez corretamente, as mulheres se uniram em unidade com a terra, em harmonia com o céu sobre elas e o centro quente sob elas.

Oh, Mãe Natureza, somos suas amadas filhas. Rendemos comemoração a nossa mãe e apelamos ao norte... — Syndil fez uma reverência profunda e a varreu em um círculo. Sul, Skyler repetiu o movimento em perfeita sincronização com Syndil. Este. Lara se inclinou UEM sinal de respeito, girando com as outras duas mulheres enquanto Natalya era a seguinte. Oeste. As quatro mulheres completaram o quarto arco e se viraram no mesmo exato momento. Em cima e embaixo e dentro também.

O poder estalou através da câmara, vivo agora, com os fios visíveis unindo e prendendo todas as mulheres da estadia, utilizando sua energia.

— Nosso amor à terra curativa é o que se necessita. Unimo-nos a ti agora, terra a terra. O ciclo da vida está completo.

A terra se esquentou sob seus pés. Raven e Savannah ofegaram enquanto a onda se espalhava sobre elas. A cor da terra se obscureceu ainda mais num rico e fértil negro, que cintilava por causa dos minerais.

Lara sentia a alegria da terra através das plantas dos pés nus, subindo pelas pernas para infundir a seu corpo força e felicidade. Como parte de um tudo cósmico, ela era uma com as mulheres, uma com o universo e tinha uma sensação de absoluta confiança e entrega. Durante esse momento no tempo, não houve temor, nenhuma vulnerabilidade. Ela era parte de um todo maior. Estava alagada de uma sensação quase eufórica de bem-estar, transcendida pela energia e a paz que a rodeava.

Elas deixaram de oscilar e as mulheres enterraram as mãos na riqueza da terra fértil, bem mais valiosa para elas que a mina de ouro mais rica. Todas deveriam estar drenadas e fatigadas, mas a terra tinha alagado-as de energia.

A face de Syndil refletia a alegria que Lara estava sentindo, seus olhos brilhavam maravilhados.

—Isto é o que nossa terra deveria ser para nossas mulheres — disse Syndil. — E com quatro de nós, podemos fazer muito mais agora.

—Eu já sinto uma diferença. — Disse Savannah, aliviada. — Minhas contrações são bem menores.

Raven mordeu o lábio e sacudiu a cabeça.

—Não me ajuda. As contrações são mais fortes. — Havia desespero em sua voz.

Lara, como as demais mulheres, se estirou para se conectar com a criança. O temor alagou sua mente, a dor a seguiu. Tinha a sensação de estar sendo arrancada de seu refúgio. Afogou com um grito esfarrapado. O pequeno era consciente do que lhe acontecia e seguia estendendo-se para sua mãe. Raven tentava protegê-lo da dor e do contínuo açoite a seu corpo diminuto. Mais que o assalto físico contra ele, Lara sentia o fluxo sutil de algo mais. Franziu o cenho, olhando para Natalya e logo às demais, para ver se elas captavam também. Todas estavam presas no mesmo temor e dor de perder o bebê.

Lara tocou seus lábios secos de repente com a língua, estirando-se instintivamente para Nicolas. Imediatamente ele estava ali, seu calor rodeando-a, sua força lhe dando confiança. Estabilizada, ela respirou e exalou, tentando seguir o fio de influência escura que trabalhava contra a criança e sua mãe. Antes que pudesse encontrar a fonte, a criança se afastou mais.

Raven começou a chorar. Eram soluços profundos e dilacerados que romperam o  coração de Lara.

—Não posso perder outro filho. É muito pequeno para enviá-lo à próxima vida sem uma mãe. Tenho que ir com ele.

Um ofego coletivo se elevou e as mulheres empalideceram visivelmente.

—Você não pode. – Disse, Shea. — Absolutamente.

—Mãe — protestou Savannah.

—Raven — a voz de Francesca era calma. — Se escolher seguir seu filho, Mikhail a seguirá ao próximo mundo. Nossa gente necessita de vocês. Está cheia de dor e não pensa com claridade.

Raven continuou chorando desesperadoramente. Shea se afundou na terra junto a ela, envolvendo-a nos braços enquanto Savannah lhe segurava a mão.

—Não compreendo que significa, que Mikhail a seguirá — cochichou Lara a Natalya.

—Os companheiros não podem existir um sem o outro. Se Raven escolher a seguinte vida com seu filho, Mikhail não terá outra escolha que segui-la ou se converter em vampiro. Essa possibilidade não pode existir para Raven, especialmente com o Mikhail. É nosso líder. A menos que Savannah possa tomar seu lugar, nossos inimigos terão ganhado a batalha e nossa espécie se extinguirá.

Lara ficou quieta, os dedos do medo corriam por sua espinha dorsal. Nicolas poderia ter se convertido em vampiro. Ela tinha abandonado o mundo por própria escolha, sem compreender completamente as horríveis conseqüências que isso teria para ele nem para as pessoas que a rodeavam. E ele nunca lhe havia dito uma palavra... Nenhuma palavra de recriminação. Nicolas era um caçador experiente. Se tivesse se convertido, teria matado muitos antes de ser destruído.

Recolheu mais da terra rica entre as mãos, enquanto olhava à face de Raven banhada em lágrimas.

—Não pode correr esse risco com a vida de seu companheiro. — Como ela havia feito. Egoisticamente, sem pensar nas conseqüências para outros.

Olhando ao redor da câmara, para as mulheres reunidas juntas para curar a terra e salvar a vida das três crianças, compreendeu que cada pessoa era valiosa a seu próprio modo, que cada uma contribuía a um bem maior. Ela formava parte do círculo da vida igual a Nicolas, como Raven e os bebês por nascer. Cada um deles era especial e importante e tinha uma contribuição a fazer. Possivelmente nenhum deles sabia qual era, mas tinham que reverenciar a vida... Lutar por ela... Contar a cada indivíduo como importante.

—Raven, muitos aqui precisam de você, — murmurou em voz alta, compreendendo pela primeira vez que os indivíduos faziam o total. – Todos nós ficaríamos diminuídos por seu  passo à outra vida.

—Preciso de você, mãe. — Disse Savannah, aferrando o braço de sua mãe. – Necessito ter você comigo. Sou sua filha. Se só tiver a mim, não valho o bastante para que fique aqui? — Ela parecia aterrorizada, muito pálida em contraste com a terra negra. — Mamãe, não pode me deixar.

—Eu sei. —Raven colocou os braços ao redor de sua filha. — Só que não posso suportar perder outro filho. Ele é tão pequenino e quer viver. Está tão longe.

Francesca a segurou pelos braços, sacudindo-a um pouco.

—Raven, olhe para mim. — Ela esperou até que Raven se centrou nela. – Você está cedendo ao pânico. Tem que estar tranqüila para que ele possa permanecer em calma. Tem que acreditar que podemos salvá-lo e assim ele acreditará também.

—Dói-lhe e ele está em estado de choque. — Protestou Raven.

—Eu sei, carinho. E você sente sua dor e seu temor e amplia o seu próprio, mas isso não o ajudará. Podemos, todas nós juntas. Olhe ao redor. Estamos todas aqui contigo. Nós a ajudaremos.

Savannah assentiu com a cabeça.

—Eu também ajudarei. E as gêmeas também.

Lara olhou outra vez para a tênue linha.

—Há uma arte escura trabalhando aqui. Sinto-a quando me conecto contigo e com a criança. Você está sendo influenciada para se render e também seu filho. Tem que se defender, Raven. Não permita que Xavier tenha esta criança. Não permita que ele tome você e a seu filho. Cumpra um pouco de tempo.

Francesca e Shea levantaram as cabeças para olhá-la fixamente, com surpresa.

—Está segura? — Perguntou Francesca. — Realmente segura?

—É sutil, mas aí está. Acreditem-me. Eu poderia reconhecer a influência de Xavier em qualquer parte, não importa quão leve seja seu toque.

—Preciso sentir o que sente. — Disse Francesca. — Natalya? Você o sente também?

Natalya ficou bem quieta e depois assentiu lentamente.

—Sim, tem razão. E a mesma influência trabalha também em Savannah. Não tão forte ainda, porque as gêmeas se unem para reforçar, mas a malha de arte escura as ataca também. Não serão capazes de agüentar isso se continuar, pelo menos não até que estejam prontas para nascer.

Savannah colocou os braços em atitude protetora ao redor do ventre.

—O que podemos fazer?

—Temos que destruir o que os ataca — disse Francesca.

—Devo chamar o Gregori?

—E a Mikhail? — A voz de Raven tremeu.

Lara franziu o cenho.

— Não podemos correr o risco de que isso se retire uma vez sinta a ameaça de um macho. Os homens Cárpato são os protetores e guardiães. E ele não nos percebe como uma ameaça.

—Pode segui-lo? — Perguntou Natalya. — Porque se pode me dar um objetivo, eu posso destruí-lo. — Ela falou com confiança absoluta.

—Posso segui-lo, sim. — Disse Lara.

—Raven? — Disse Francesca, — a decisão é sua. Sua e de Savannah. Se acha que Mikhail e Gregori devem ser chamados de volta para lidar com isto que tenta matar seus filhos, então os convocaremos imediatamente.

Raven e Savannah intercambiaram um longo olhar. O silêncio se assentou na caverna. A água na panela imensa continuou fervendo e as tranqüilizadoras fragrâncias de lavanda e jasmim enchiam o ar. Raven olhou para mulheres que esperavam. Mulheres que tinham vindo com um só propósito: salvar seus filhos.

Raven elevou o queixo, se inclinou, beijou sua filha e enfrentou o olhar verde azulado de Lara.

—Encontre a essa coisa e destrua-a.

 

O zumbido dos cristais saudou Nicolas quando ele entrou nas cavernas profundas. As formações de cristais gigantes nunca deixavam de assombrar e impressioná-lo. Só a natureza poderia ter proporcionado tal abundância de beleza formada de ricos minerais. O gesso, estranho em muitas áreas, não era tampouco muito conhecido nas Montanhas dos Cárpatos. A trezentos metros abaixo da superfície, com o magma quente ardendo mais embaixo ainda, a camada de pedra calcária tinha sido talhada pelo liquido hidrotermal borbulhante. Abrira caminho das câmaras de magma de baixo e alagando as cavernas antes de filtrar, deixando um bosque grosso de selenitas, algumas de mais de 20 metros de altura e dois metros diâmetro.

Nicolas tinha visto os bosques gigantes de sequóias nos Estados Unidos e tinha encontrado árvores impressionantes e grandiosas, mas não se podiam comparar ao bosque magnífico de cristais. Sabia que as colunas de gesso eram muito estranhas, com o passar do mundo tão profundamente clandestino, sumidas no calor e banhados em uma umidade de cem por cem, que fazia com que as grutas subterrâneas fossem muito difíceis de descobrir, mesmo para o mais perito espeleólogo. Mas os Cárpatos prosperavam no ambiente.

Ele olhou ao redor do labirinto de câmaras, cada uma conduzia à seguinte, ante a forma e cores dos enormes cristais. Sentiu um respeito reverencial. Parou um momento para admirar a beleza e se encher dela, desejando que Lara estivesse com ele para compartilhar o momento.

Sentia-se em paz, como se estivesse na mais grandiosa das catedrais, como se o lugar fosse um presente dos céus só para sua espécie. Nenhuma outra espécie poderia resistir às temperaturas e a umidade tão altas durante muito tempo sem se cozinhar, mas sua gente prosperava ali. Detendo-se aos pés de uma coluna gigante de cristal, sentiu-se muito próximo a qualquer deidade que pudesse estar lhe olhando.

Enquanto descia ainda mais para as câmaras interiores, as vibrações aumentaram, sintonizando-se com seu corpo até que ele sentiu a onda de poder atravessando-o. Enquanto se movia pelas câmaras separadas para chegar à estadia do conselho de guerreiros, as paredes, carregadas de cristais pareceram se ondular, numa lenta onda rítmica parecida com o aprazível fluxo da maré. O movimento contínuo aumentava a sensação de ser como a terra, outra ligação do planeta e às montanhas tão ricas em tudo o que os Cárpatos necessitavam.

Pelo menos durante os primeiros poucos séculos, as montanhas haviam provido para eles, mas agora Nicolas suspeitava que Xavier tinha conseguido de algum modo mudar isso. Esperava dirigir essa suspeita e dar assim crédito a sua necessidade de voltar a entrar no labirinto de cavernas dos altos magos das artes escuras. A rede se estendia durante milhas sob as montanhas. Não havia maneira de saber se alguma delas estava ainda ocupada. Xavier tinha deixado poderosas salvaguardas que constituíam armadilhas mortais.

Vikirnoff e ele tinham intenção de encontrar outra forma de entrar nas câmaras do mago escuro após a reunião do conselho. A entrada que estiveram utilizando estava fechada, e os parasitas venenosos dos dentes dos guardiões era um poderoso argumento para lhes dissuadir de tentar atravessar a porta disposta para matar.

Muitos dos machos Cárpato já estavam reunidos e ele os saudou, na mais formal saudação de respeito, antebraço contra antebraço. Com suas emoções tão novas, a camaradagem que sentia era de em certo modo opressiva. Ele sempre tinha sido distante. Para a maioria, além de seus irmãos, muito solitário.  Dentro dos limites da grande câmara dos guerreiros, sentia a força dos Cárpatos, a sabedoria dos antigos e especialmente a conexão que tinham todos através do príncipe.

Deu-se conta de que, uma vez dentro da profunda câmara, de que uma aparência de sobriedade marcava os homens... E três mulheres... Que esperavam ali. Levantou uma sobrancelha enquanto saudava Vikirnoff.

—Raven está com problemas. Gregori chamou a maior parte das mulheres e deseja que realizem sua magia feminina, como todos nós a chamávamos nos tempos antigos. Não tem a menor idéia de que está errado, mas espera que Syndil e as outras possam evitar que ela aborte.

—E Savannah?

—Gregori não a permite se levantar mais que para se ocupar de Raven. Ele está muito calado. Temo que as probabilidades de conservar os bebês não sejam boas.

Nicolas olhou às três mulheres presentes na câmara dos guerreiros: Natalya, Jaxon e Destiny.

—Não deveriam estar com Raven?

—As mulheres são conscientes de que estamos expondo o assunto sobre as mulheres lutadoras e pediram formalmente que três delas falem em nome das outras.

Nicolas sacudiu a cabeça.

—Poderíamos ter uma luta nas mãos.

Vikirnoff encolheu os ombros.

—No fim o príncipe terá que tomar uma decisão sobre o assunto. Natalya caçou vampiros e foi independente durante muito tempo. Destiny caçou sua vida inteira. Sequer estou seguro de que pudesse deixá-lo. Foi escravizada por um vampiro e sofreu muito em suas mãos.

—Estou bem informado dos argumentos — disse Nicolas. — E descobri que não é tão fácil dizer não quando sua companheira insiste em fazer algo perigoso. Tenho fortes reservas contra levar Lara de volta à caverna de Xavier, mas ela é provavelmente a única que poderá desenredar as salvaguardas. Reconhecerá indícios que nós provavelmente passaremos por cima e a viagem pode abrir suas lembranças ainda mais... Lembranças que podemos necessitar para nos ajudar a resolver os problemas que nossas mulheres encaram.

—Não havia considerado isso — disse Vikirnoff. — Na verdade, tinha decidido que deveríamos ir sozinhos esta noite e ver se encontrarmos uma entrada conveniente e deixar às mulheres para trás.

—Sua mulher não o seguiria?

—É obvio. Ela pensaria em me seguir se soubesse. —Vikirnoff lançou a Natalya um olhar de total devoção. — Ela não conhece o significado da palavra "abandono". Por outro lado, eu tenho mais experiência e se for necessário, poderia despistá-la durante algumas horas para explorar o necessário. Ela se zangaria comigo mais tarde, mas prefiro tê-la a salvo.

—E se lhe disser que deixe de caçar?

—Se Natalya decidir que deixar de caçar vampiros é correto, deixará, mas essa será a única maneira de que o faça. Poderia lhe ordenar que deixasse até o fim dos tempos, mas ela segue seu próprio caminho e eu estou orgulhoso de que seja assim.

—Você não será de muita ajuda — assinalou Nicolas.

Vikirnoff franziu o cenho.

—Sempre tive uma taxa de aprendizagem superior de como lidar com mulheres. Descobri que é muito mais fácil evitar um confronto.

—Precisamos que Mikhail tome uma decisão sobre este assunto.

—Acrescentarei minha voz à sua e a de Gregori. Acredito que se não atuarmos logo, será muito tarde. Devemos proporcionar mais esperança a nossos homens. E temos que encontrar um modo de termos mais crianças, assim como todo mundo procurar nossas companheiras. A única esperança verdadeira que resta é que nossas mulheres tenham mais filhos.

Dayan, membro dos Trovadores Escuros, entrou rapidamente e ouviu por acaso o que Vikirnoff havia dito.

—Talvez devêssemos seguir o exemplo de nosso inimigo e abrir um centro psíquico onde poderíamos entrevistar as mulheres sem que elas se inteirem de que estamos fazendo.

Gregori se moveu pelo bosque gigante de cristal, com Mikhail a seu lado. Os dois homens pareciam tensos e cansados. Um silêncio caiu sobre o salão do conselho

—Alguma notícia? — Perguntou Lucian a seu irmão mais jovem.

Gregori passou uma mão pelo espesso cabelo, com um gesto fatigado.

—É pouco o que podemos fazer agora. Estou sustentando as gêmeas em sua mãe. Querem viver. Isso é alguma coisa.

— E Raven? – Perguntou Lucian a Mikhail.

Mikhail sacudiu a cabeça.

—Tenta agüentar. Jacques e eu sustentamos o bebê e ela, mas ambos se estão debilitando.  Logo não terei mais escolha que permitir que a criança deslize de nossas mãos. Não me atrevo a arriscar a vida de Raven. Ela se nega, mas não posso correr riscos com sua vida.

—Se pudermos ajudar de qualquer maneira – ofereceu Lucian. — Estamos mais que dispostos.

Mikhail assentiu.

—As mulheres já estão reunidas. Há muita magia nos antigos costumes. Syndil proporciona a terra mais rica e Shea fez um reforço para ajudar seus corpos a ganhar nutrientes que parecem lhes faltar.

—Há certas razões para acreditar que Xavier tem algo que ver com isto — disse Nicolas, levantando sua voz para que todos pudessem lhe ouvir. Então ele falou—lhes da pequena brecha aberta na memória de Lara. — Esperamos que ela se recorde de mais quando formos à caverna de gelo. Possivelmente haja uma peça do enigma que possamos encontrar a tempo de ajudar.

—A guarida de Xavier é perigosa. — disse Lucian. — Se estiver vivo não terá abandonado completamente. Tinha muitos de seus segredos armazenados ali. – Ele olhou para seu irmão. — Como curador, Gregori, que tipo de coisas ele poderia ter feito em séculos, que causa que nossas mulheres tenham estes problemas?

—O fato dos problemas mudarem com o passar dos anos me leva a acreditar que o que for que Lara tenha visto poderia ser real. Primeiro notamos a falta de bebês meninas, — falou Gregori. — O precedente aconteceu durante um longo espaço de tempo. Já que nossas mulheres geralmente só dão a luz cada cinqüenta anos mais ou menos, ninguém advertiu que o número de homens ascendia enquanto que o de mulheres caía.

—Sua primeira tentativa? – Perguntou Lucian.

—Possivelmente, — refletiu Mikhail. — Teríamos que falar com Shea sobre como ele poderia ter influenciado no sexo das crianças, mas muitos dos nossos estudavam em sua escola. Naquela época, Xavier era um amigo de confiança. Criou salvaguardas para nós, tecendo fios de magia com energia natural para proteger nossos lugares de descanso. Ninguém jamais adivinhou que seus ciúmes por nossa longevidade o levariam a cometer atrocidades durante séculos.

Gregori encolheu os largos ombros.

—Seus ciúmes o conduziram pelo atalho da loucura.

—Agora ele é inteiramente perverso — declarou Nicolas, — se já não era antes.

Natalya se ergueu de repente, tocando o braço de seu companheiro com dedos suaves.

—Sinto muito, mas Raven me convocou. Devo ir a ela.

A face de Mikhail estava pálida e cansada quando a olhou.

—Avalio que possa fazer alguma coisa para nos ajudar, Natalya. — Ele apertou os dedos contra as têmporas. – Está me pedindo que não intervenha com o que estão fazendo.

A face de Gregori estava pálida também.

—Querem Natalya lá agora.

Natalya assentiu.

—Sim, elas estão me chamando e é obvio irei. Aconteça o que acontecer, todos nós a apoiaremos.

Vikirnoff lhe deu um beijo no alto da cabeça e lhe apertou a mão quando ela saía.

—Natalya nem sempre fica cômoda dentro de um grupo.

—Ninguém está cômodo neste momento, — disse Mikhail. — É uma situação horrível para todos. Se Raven e Savannah não podem conservar as crianças, creio que quaisquer umas das mulheres que estão grávidas agora se sentirão como se tivessem a oportunidade de levar a término a gravidez? E as que não estão, acreditam que correrão o risco de sofrer semelhante dor?

—Não terão escolha, Mikhail, se nossa espécie quer sobreviver. — Assinalou Lucian. — Todos sentimos a dor pela perda de nossos filhos, mas não podemos nos render, nem ceder ante essa dor.

Mikhail arqueou uma sobrancelha.

—Não sei que você e sua companheira tenham sofrido a perda de um filho, Lucian.

—Qualquer perda diminui a todos.

—As palavras são de pouco consolo quando a gente sofre a perda de um filho que não é só o melhor da gente mesmo, mas também parte de sua amada companheira. – Concordou, Mikhail. — Falamos com nossos filhos. O animamos, amamos e sofremos a dor quando ele está ferido porque o corpo de Raven o rechaça. É tão real para nós como se pudéssemos sustentá-lo entre nossos braços. Raven já perdeu um filho. Agora tem outro e está perdendo por causa de um inimigo ao não podemos ver e é contra ele que temos que lutar. Cada sublevação ele desliza mais longe de nós, polegada a polegada e nos sentimos impotentes para salvá-lo. Acredita que desejo isto para minha companheira? Ou você para a sua?

Houve um pequeno silêncio. Gregori se mexeu.

—Perguntamos a todos os peritos nestes assuntos porque se não termos respostas logo, nossa espécie não se recuperará.

—Você é curador Gregori — disse Destiny. – Acredita que nós mulheres devêssemos continuar tentando ter filhos, quando não podemos resolver estes problemas? Não seria preferível esperar até que saibamos o que está errado antes de submeter nossos corações, nossas mentes e nossos corpos a semelhante trauma?

—Nosso problema é muito singelo, Destiny. — Respondeu Gregori. — Se não tivermos filhos, desaparecemos. Cada hora que esperamos para ter meninas perdemos mais de nossos homens. Sim, é uma tragédia, é terrível que nossas mulheres devam se arriscar a perder filhos, mas nossos homens carecem de esperança. Ninguém pode continuar sem esperança.

—Parece um sacrifício inútil ficar grávida sabendo que a criança morrerá, somente para dar falsas esperanças a um homem. Afinal, não resta nada, de todo modo. — Indicou Jaxon— Se não pudermos ter filhos sem perigo, possivelmente a solução seja olhar em outra direção. Por que não reunir uma base de dados femininos como Dayan mencionou? Poderíamos encontrar uma forma de averiguar, gravar suas vozes, fazer que nossos homens ouçam e saibam se há uma possibilidade de que possam encontrar suas companheiras assim.

Destiny assentiu.

—Não estamos usando tecnologias modernas para nossas buscas.

—Se criar uma base de dados, nossos inimigos terão objetivos dispostos a eles como um banquete, — se opôs Lucian. – Acredito que no momento em que ouvissem a voz que armazenamos, os nomes e as localizações de companheiras potenciais, nossos inimigos não se moveriam tão rapidamente como pudessem?

Nicolas franziu o cenho.

—Tem que haver uma forma de proteger a base de dados. Não parece má idéia.

—Nosso inimigo pensou nisso antes de nós — disse Destiny. – Existe um centro psíquico de investigação chamado "Centro Morrison" nos Estados Unidos. E que já estabeleceram por toda parte. As mulheres vão ao centro e são colocadas a prova e depois se convertem em objetivo para o assassinato. A base de dados já existe.

Vários dos homens sem companheiras trocaram longos olhares de absoluta compreensão. Um deles deu um passo adiante. Nicolas tinha visto o homem uma vez, há anos, quando este havia passado pela floresta Amazônica perseguindo um vampiro. Como a maioria dos machos sem emoções ou cores, se mostrou bastante solitário e brusco quando se encontraram. Seu nome era André. Nicolas o rastreara e encontrara evidências de que o homem tinha sido ferido na batalha resultante, mas tinha saído do território dos Da Cruz.

André dedicou uma rígida reverência às duas mulheres antes de se dirigir aos outros. Alto e ereto, sua face uma máscara cinzelada, seus olhos vazios.

—Se já existe uma base de dados de companheiras potenciais, eu digo que assumimos o comando. Todos nós acumulamos riqueza com o passar dos anos, podemos comprá-la legalmente ou piratear seu sistema, ou simplesmente entrar e tomar o lugar usando o controle mental. Uma vez que tenhamos o controle, podemos converter o lugar em uma fortaleza.

—É um risco calculado — disse Lucian. — Quanto mais nos expormos, maiores serão as possibilidades de que nos descubram. O mundo dos computadores e a tecnologia moderna... Com câmeras em cada celular e em quase cada lugar público fora destas montanhas... Aumenta o perigo para todos nós.

—Estou mais que disposto a correr o risco se aumentar as probabilidades de que pelo menos um de nós encontre uma companheira. Não podemos nos permitir esperar para proporcionar nosso amparo a essas mulheres — declarou André.

Havia uma nota em sua voz que disse a Nicolas que ele estava pedindo permissão e o mais provável era que iria depois da base de dados tanto se aprovassem ou não. A julgar pelos olhares de outros homens sem companheira, André disporia de muita ajuda.

Gregori começou a falar, mas Mikhail o antecipou se movendo para o centro do círculo. Ele olhou redor da câmara cheia de muitos machos solteiros, homens que tinham dado sua vida para sustentar uma espécie agonizante.

—Esta oportunidade é muito importante para rechaçá—la, qualquer que seja o risco. Em todo caso, se essas mulheres correm perigo, sejam verdadeiras companheiras ou não, necessitam de nosso amparo. Encontrarei—me contigo na próxima sublevação para discutir este assunto e propor um plano de ação.

André fez outra vez uma pequena reverência às mulheres e se deslizou para a parte de trás da câmara da caverna onde obviamente se sentia mais cômodo e menos exposto.

— Mikhail, muitos de nossos homens estão se desesperados. Poderiam abusar desta situação, convertendo-se em perseguidores destas mulheres se não formos cuidadosos. Isto poderia chegar a ser um problema imenso. — Advertiu Gregori.

Sou bem consciente disso. Mas uma vez que uma idéia é expressa, não pode ser retirada. Estes homens estão verdadeiramente desesperados e chegarão aonde for necessário para adquirir esta lista de companheiras potenciais. Se nós controlarmos a lista, poderemos proteger às mulheres.

— Assim espero.

—Uma vez esta informação seja adquirida, de qualquer modo temos que nos assegurar de que um guardião enfrentará a qualquer e a todos os que as forçariam a se entregar. —Mikhail deu um cuidadoso olhar ao redor da câmara para se assegurar de que todos o compreendessem. — Essas mulheres são objetivos para o assassinato. Não queremos expô—la a mais riscos dos que estão.

—É tudo parte do plano maior de destruir nossa espécie. — Disse Nicolas. — Se nossos inimigos podem eliminar exitosamente nossas mulheres e filhos e a todas as potenciais companheiras, toda esperança estará perdida e uma boa parte de nossos homens se unirá as suas filas.

—Vamos nos proteger chamando a todos de volta às Montanhas dos Cárpatos? —Perguntou Gregori. — Temos mais possibilidades de nos proteger nos reunindo. O número de nossos inimigos aumentou e agora andam em grupos. — Ele assinalou Nicolas. — Recebemos notícias perturbadoras que todos devem ouvir, incluindo informações dos vampiros que tentam abrir o mundo das sombras para que seus mortos possam se unir a suas filas contra nós.

Nicolas revelou o complô que seu irmão Manolito havia descoberto quando despertara ainda parcialmente no mundo das sombras depois do ataque a Shea.

—Os irmãos Malinov fizeram uma aliança com Xavier. Não sabemos se Razvan faz parte de sua conspiração ou se ele é um prisioneiro nesta questão. Com os parasitas que Xavier desenvolveu, os vampiros parecem reconhecer uns aos outros e podem ocultar sua presença de nós. Já não podemos seguir confiar em que possamos detectar facilmente um inimigo.

Gregori assentiu.

—O inimigo corrompeu muito dos homens jaguar. Pediremos a Zacarias e a seus irmãos que atuem como emissários e tentem conseguir que aqueles que já não estejam perdidos se unam a nós.

O silêncio na estadia foi quebrado somente pelos cristais que cantarolavam. As notícias não eram boas. Mikhail se adiantou finalmente.

—Muitos de vocês podem ter ouvido que Manolito encontrou sua companheira. Ela é lycanthrope. Essa espécie sempre seguiu seu próprio caminho, mas esgrimem muito poder e seria um aliado tremendo. Precisamos localizá-los e enviar alguém para convencê-los de que se unam a nós.

Houve um murmúrio breve enquanto os homens discutiam a possibilidade de encontrar à espécie longamente desaparecida.

—E os humanos? — Perguntou Jaxon.

Fez-se um longo silencio. Mikhail suspirou.

—Isto foi longamente debatido. A maioria acredita que ainda não é o momento para a aceitação.

—Talvez devamos expandir nosso círculo de confiança. Cullen, Gary e Jubal certamente demonstraram ser mais que de confiança. — Disse Jacques, nomeando a três de seus amigos humanos. — Sem Gary não teríamos chegado tão longe em nossa pesquisa, como estamos. Trabalha duro e nos guarda em nossas horas baixas. Também vigia nossas crianças que não podem ir à terra. Mikhail tem vários amigos na aldeia que provaram repetidas vezes ser de confiança.

—E consideramos nos aliar com a comunidade de magos? Nem todos seguiram Xavier e a maioria sofreu abusos e foram torturados sob seu reinado, — adicionou Nicolas.

Imediatamente, ante a sugestão, estouraram ardentes discussões. Mikhail não disse nada, permitiu simplesmente que os homens discutissem a possibilidade de pedir ajuda a outras comunidades... Algumas delas às quais haviam protegido, mas que tinham tomado cuidado de se não revelar.

Mikhail se sentou silenciosamente, seus sentidos flamejaram para a ponte com o poder que emanava do bosque de cristais. Cada uma cantarolava uma nota ligeiramente diferente. Voltando sua mente às notas, ouviu as vozes sussurradas dos antigos guerreiros que já tinha partido. Cada dito era dos antigos dias quando todas as espécies existiam em harmonia. Os lycanthrope solitários, tão poderosos como os Cárpatos a sua própria maneira, mas guiados por um temperamento explosivo, os machos tão protetores com suas fêmeas quanto os Cárpatos, o que provocou uma situação volátil quando tantos machos Cárpatos não puderam encontrar companheiras entre sua própria raça. Seria um emissário bem-vindo se fossem encontrados? Ou o matariam para proteger à sociedade? Quem quer que enviassem, estaria em perigo.

A liderança não consistia em saber fazer o correto, mas em tomar decisões e estar disposto a aceitar a responsabilidade que vinha com os inevitáveis enganos. Se permitisse a seus homens estar em contato com as variadas espécies, poderia colocar a sua gente em um risco terrível. Com o passar dos anos, os mitos sobre os vampiros haviam crescido e tinham chegado a virar lendas. Poucos distinguiriam entre um Cárpato e um vampiro. Os homens do Jaguar se voltaram contra suas mulheres.

Mikhail esfregou os olhos com cansaço. Seu mundo estava muito em guerra. Tinha tantos problemas tentando manter viva sua espécie agonizante, inclusive nesse momento, rodeado por seus companheiros guerreiros, sua mente tentava continuamente alcançar sua companheira e comprovar seu filho.

Quando a discussão pareceu partir para um caos aberto, interveio.

—Os magos e os jaguares se misturaram com humanos e é claro que os lycanthropea o têm feito também nos últimos séculos. Muitos dos shifters diluíram seu sangue. Carregam os gens, mas já não podem mudar. Shea teve uma mãe humana e um pai Cárpato. Não sabemos se Razvan engravidou deliberadamente mulheres humanas ou se foi forçado a fazê-lo, mas sabemos que as meninas carregam o sangue Cárpato. Nossa espécie não vai ser eliminada por nenhuma outra. Temos que ter aliados e precisamos buscá-los ativamente.

A voz de Mikhail era tranqüila, mas carregava o peso de sua autoridade absoluta.

—Não podemos abandonar outra espécie, deixando—os a lutar sozinhos contra os vampiros. Temos que mudar com o tempo e sermos mais abertos às amizades e às alianças.

—Quantos mais admitamos em nosso círculo, mais difícil será proteger nossas mulheres e crianças, — assinalou Gregori. — Estamos rodeados de inimigos e neste ponto não sabemos diferençar um amigo do inimigo.

—Então temos todos que ser treinados para destruir vampiros.  — propôs Jaxon. — Deveria ser obrigatório, por que sem importar onde estejamos, teremos uma oportunidade de sair com vida.

—Agora treinamos das crianças desde que nascem, — disse Mikhail. — Já estou passando meus conhecimentos a meu filho que está ainda no útero de Raven.

—E suas netas, Mikhail? — Perguntou Jaxon. — Alguém está ensinando-as?

Gregori fechou o semblante. Seus os olhos prateados brilharam com algo próximo a uma advertência.

—Nunca permitirei que minhas filhas e a minha companheira se coloquem diante de uma situação perigosa.

A sobrancelha de Destiny se elevou.

—Isso não é possível que possa saber. Não pode. Ninguém, sequer você tem esse tipo de controle sobre uma vida, especialmente com uma vida tão longa como a nossa. Absolutamente todas as mulheres e inclusive nossas meninas devem ser treinadas em como destruir um vampiro, — disse Destiny. — Só isso tem sentido.

Jaxon assentiu com a cabeça.

—Por que deveriam treinar somente as crianças? Mesmo que uma mulher nunca chegue a ter que usar seu conhecimento, deveria tê-lo. Nunca se sabe quando pode ser atacada e os homens não estão sempre a nosso lado.

—Por que não? — Demandou Nicolas. — Seu companheiro ou qualquer outro homem, parente ou não deveria estar sempre com nossas mulheres quando vão a qualquer lugar. Todas e cada uma de vocês e especialmente nossos filhos devem ter um guarda-costas. Ivory morreu porque abandonou a segurança de sua família. Perdemos Rhiannon pela mesma razão. No momento em que Xavier fechou sua escola aos homens e aceitou somente nossas mulheres, deveríamos nos ter negado a lhes permitir assistir.

Houve um murmúrio de acordo na câmara e vários assentiram com a cabeça. Destiny olhou para seu companheiro, claramente indagadora. Ele franziu o cenho ante as respostas.

—Está falando de algo que aconteceu há séculos, Nicolas. Os tempos mudaram, o mundo mudou. Não podemos viver no passado.

—Não, mas podemos aprender com ele — disse Nicolas. — Perdemos tudo por não proteger nossas mulheres. Tudo. Temos menos de trinta mulheres mais ou menos, que possivelmente possam proporcionar alguma companheira para nossos homens, se conseguimos averiguar que aborta nossas crianças. Não podemos pensar em termos humanos ou de qualquer outra espécie que tem numerosos membros aos quais recorrerem. Se eles escolhem esquecer suas mulheres e crianças, esse é problema deles, mas nós não podemos. Temos que fazer tudo o que estiver em nosso poder para proteger às poucas que temos.

—Não se pode prender às mulheres, Nicolas. — Disse Lucian. – Por mais que desejamos.

—Poderíamos tentar. — Murmurou Dimitri, um dos homens solteiros.

Jaxon lhe lançou um olhar hostil.

—Podem tentar, mas eu não contaria com que acontecesse jamais.

Gregori se revolveu, atraindo todos os olhos instantaneamente.

—Destiny tem razão em que nossas mulheres e crianças deveriam ser treinadas em  como defender a si mesmas. Mas concordo com Nicolas neste ponto. Nenhuma criança e nenhuma mulher sair sem escolta. Temos muitos inimigos e se já não podemos detectá—los, poderiam andar por nossa aldeia e não seríamos conscientes do perigo.

Jaxon franziu o cenho.

—Acreditam realmente que alguma mulher adulta vai ficar sentada em sua casa esperando uma escolta quando tem coisas a fazer?

—Todos nós fazemos sacrifícios em momentos de necessidade — disse Gregori.

Jaxon ergueu os olhos, num gesto de incredulidade.

—Então você esperaria em sua casa, que um de nós vá o escoltar. Tente-o durante algumas sublevações e verá quanto você gosta. — Ela virou a cabeça e encontrou-se com o olhar gelado de seu companheiro. – Se eu sentir vontade de visitar uma amiga ou um parente, certamente o farei.

—Agora você soa como uma menina mal-humorada interpretando mal deliberadamente o que eu disse — falou Gregori. — Ninguém quer te dar ordens. A realidade é bastante simples. Precisamos de filhos e não de combatentes. São as mulheres que têm bebês, não os homens. Temos um superávit de combatentes e muito poucas mulheres, então a tarefa de dar a luz cai sobre as mulheres.

—De verdade?

Destiny levantou a sobrancelha.

—Então que o que estou ouvindo é que Nicolae deveria lhe permitir lutar contra o vampiro, mas não a mim porque se morro perdemos uma égua de cria.

—Isso não foi o que disse, — negou Gregori.

—Mas foi assim que me soou. — Disse Jaxon. — E se ela ficar em casa como uma boa mulher grávida e Nicolae morrer, o que crê que aconteceria de todo modo? Toda esta discussão é ridícula. Possivelmente você procura algum sinal de que deveríamos conhecer nosso lugar em casa e permanecer ali, mas nós não nascemos e nem fomos educadas como Cárpatos. Temos nossa própria bagagem que vem com cada indivíduo e algumas de nós precisamos agir. Outras gostam de permanecer em casa e ainda outras querem curar ou pesquisar, ou mesmo continuar com qualquer trabalho que a interesse. Isso, meu amigo, é direito nosso.

—Não estou de acordo, — disse Gregori, sua voz era tranqüila, mas chegava facilmente a toda à caverna. – Você é Cárpato e como tal sabe que há certas diferenças em nossa espécie que não podemos evitar. Sua primeira lealdade não é para vocês mesmas, mas para com nossa gente como um todo. Fazemos o que é melhor para todos nós, não para os indivíduos. Por exemplo, nosso primeiro dever é com o príncipe de nossa gente. Sem ele nós não podemos existir, então seu amparo deve vir em primeiro lugar sempre. Cada homem, mulher ou criança deve se acostumar a isso, a respeitar isso e a servi—lo incondicionalmente.

—Acredito que todas as mulheres provaram estar dispostas a servir à gente dos Cárpatos. – Disse Jaxon. – Só que não queremos voltar à idade de pedra, quando os homens mandavam sobre as mulheres.

Uma rápida impaciência cruzou a face de Gregori.

—Você acredita honestamente que isto vai de macho contra fêmea? Isto vai salvar uma espécie, não os direitos das mulheres.

—Então, para salvar à espécie tenho que deixar que meu companheiro saia e lute contra o vampiro, me deixando preocupada em casa se por acaso vai voltar ou não? Se ele morrer, ambos o faremos. O risco é grande de qualquer forma. Em um mundo ideal, nenhum de nós estaria lutando contra os vampiros, mas o mundo não é tão perfeito, certo Gregori? Se eu sentir a necessidade de estar ao lado de meu companheiro e ajudo a trazê-lo para casa seguro, pode apostar que é meu direito.

Gregori se inclinou para ela, os olhos prateados perfurando Jaxon.

—Por que crê por um momento, que sua presença tem algum efeito além de diminuir a capacidade de seu companheiro para lutar? Ele é nosso guerreiro maior. Ninguém se compara a ele em batalha. Lutou durante mil anos, tem mais experiência que qualquer outro, mas você, uma fêmea humana, com tão poucos anos que é considerada uma menina em nossa espécie, acredita que ele não está dividido quando combate? Que está menos em perigo por sua presença? O perigo é mais que o dobro. Ele tem que ter um olho em você a toda hora. Ele tem que manter sua mente fundida a sua para se assegurar de sua segurança. Até dirigindo você ele é dividido. Não está completamente enfocada na batalha.

—Gregori. – Advertiu-o, Lucian e seu olhar era duro e frio.

Jaxon elevou a mão.

—Não. Por isso estamos aqui, certo? Para ouvir ambos os lados desta discussão. Quero ouvir por que Gregori e tantos outros se opõem a que as mulheres lutem contra o vampiro. Se eu não compreender por que se opõe, nunca terei oportunidade de estar de acordo com ele.

— Então seja cuidadoso, irmãozinho, em como se dirige a minha companheira.

— Estou dizendo a verdade e você sabe disso. Corre mil vezes mais risco quando ela está a seu lado. Tem que compreender isso.

O olhar frio do Lucian atravessou seu irmão. – Talvez, mas é assunto meu aceitar ou não esse risco.

— Não concordo. Não podemos te perder, nem tampouco nos permitir o luxo de perder sua companheira. Você viveu muito tempo num mundo solitário por seu próprio caminho e tomando suas decisões apoiadas não em salvar uma espécie agonizante, mas à diretiva de Vlad, de procurar e destruir o vampiro. Temos um novo príncipe e uma nova ameaça que deve ser considerada.

— Você está bem perto de receber um chute no traseiro, irmãozinho.

— É mais que bem-vindo para tentar.

Jaxon passou passeou os olhos do olhar frio de seu companheiro ao cortante de Gregori.

—Sei que os dois estão discutindo, mas realmente quero ouvir o que Gregori tem a dizer. Lucian, por favor.

Ela deslizou uma mão tranqüilizadora sobre o braço dele num gesto amoroso que fez com que Nicolas afastasse o rosto e sentisse falta do toque de Lara. Outra vez tentou alcançá-la, mas somente ouviu os sons da canção de ninar esquecida há muito tempo. Voltou sua atenção outra vez à discussão que rabiava a seu redor, mas desta vez não evitar sentir a sensação de que algo não estava bem.

Lucian deslizou o braço ao redor da cintura de Jaxon, mas assentiu com a cabeça para Gregori.

Gregori cruzou os braços sobre o peito.

—Olhe para seu companheiro neste momento. Não há ameaça para você, mas ainda assim ele se mostra protetor, preparado para saltar sobre mim se eu lhe disser uma palavra desconjurada. É nossa natureza, está arraigada em nós desde antes de nosso nascimento para proteger a nossa companheira. As palavras e as circunstâncias não podem mudar isso e nem gostaríamos. Acha que isto é menor na batalha? Antes de você ele só tinha estratégia e sua própria vida nas quais pensar. Agora deve dividir sua atenção e estar atento a você. Mesmo com o conhecimento que compartilha contigo de batalhas, ainda com sua vasta experiência que você utiliza, não pode ser o bastante rápida.

—Todo guerreiro tem que começar de algum lugar — contradisse Destiny. — Têm jovens praticando. Nós podemos fazer o mesmo.

—Por que iriam querer? — Perguntou Nicolas. — Por que iriam querer encarar semelhante monstro e arriscar sua vida quando é tão preciosa para tantos?

—Não posso evitar — respondeu Destiny, sinceramente. – Talvez se Nicolae não caçasse eu poderia deixar, mas na verdade, não estou segura de que possa.

Jaxon encolheu os ombros.

—Eu passei minha vida inteira caçando monstros. Não sei mais o que faria.

—E se tivesse um filho? — A voz de Mikhail como sempre foi baixa, mas percorreu toda a câmara.

Os cristais cantarolaram baixo, o som mais melódico e apaziguador como se tentasse proporcionar paz às duas mulheres.

André e outro Cárpato alto avançaram uma vez mais através das filas de guerreiros. Nicolas reconheceu ao guerreiro solitário, Tariq Asenguard, ao lado do André. Vlad o tinha enviado fora séculos antes. Ainda então já era reservado, perdendo sua capacidade de ver em cor e sentir emoção bastante rápido, depois de perder sua família. Sua mãe tinha sofrido a perda de várias crianças e no fim seus pais tinham escolhido seguir seus jovens ao próximo reino. Nicolas nunca o vira sorrir depois disso. Vlad o tinha enviado ao continente norte-americano e havia rumores que tinha vivido selvagemente durante muito tempo, embora agora parecesse muito civilizado e se misturara com uma comunidade empresarial.

Ambos os homens dos Cárpatos se inclinaram para as mulheres. Outra vez foi André que falou.

—Se uma de nossas mulheres deseja entrar em batalha e seu companheiro permite tal coisa… — Havia uma insinuação de desprezo em sua voz. — Obviamente é sua decisão, mas sabendo que isto acontece quando passamos vidas inteiras combatendo o vampiro. Temos mais experiência e estamos dispostos a sacrificar nossas vidas para que inclusive uma mulher viva e nos dê filhos, então não temos mais escolha que nos unir e proteger essas guerreiras. Quando você entrar em batalha, olhe atrás de você, pois haverá uma legião de guerreiros a defendendo.

Jaxon franziu o cenho.

—Muito obrigado, mas não. Não desejo que ninguém me defenda. Já tenho um companheiro. Trabalhamos juntos. Não desejo que ninguém coloque sua vida em perigo por mim.

—Se escolhe lutar e acha que esse é seu direito, — disse Tariq — então nossos machos sobreviventes que contam com você e a todas nossas mulheres com esperança têm o direito de assegurar seu amparo quando seu companheiro escolhe não fazer.

 Imediatamente estalou um pandemônio. O poder se encrespou na câmara e os cristais vibraram com ira enquanto os homens com companheiras se viravam para os guerreiros, sem elas.

—Chega! —A voz de Mikhail açoitou a caverna. Fez-se um silêncio instantâneo. — O que pensaram que nossos machos sentiriam sobre este assunto? — Ele perguntou a seus homens com companheiras. — Ainda entre vocês as opiniões estão divididas. A maioria sente muito fortemente de uma maneira ou outra que nossas mulheres coloquem sua vida em perigo. Nossos machos solteiros têm um grande interesse nesta discussão e suas vozes têm tanto peso como a de qualquer outro homem aqui. Eles se sacrificaram durante séculos e estão em jogo suas vidas... Suas almas.

Lucian assentiu com a cabeça.

—É verdade. — Era o mais próximo a uma desculpa que podia oferecer. — Mas ninguém ameaçará ou dará ordens a minha companheira. O que fazemos é decisão nossa.

—Então está disposto a dividir a nossa gente? — Perguntou Gregori. — Está disposto a ir contra uma decisão de nosso príncipe? — Ele lançou o desafio no rosto de seu irmão, indiferente que Lucian fosse uma lenda em sua comunidade.

Antes que Lucian pudesse responder, Jaxon elevou as mãos para o rosto dele.

—Me diga a verdade, Lucian. Quando vou contigo à caça, sua atenção fica dividida como diz Gregori? Você fica mais em perigo? — Ela negou a lhe permitir que afastasse o olhar, cravando seus olhos nos dele.

—Isso é assunto meu.

Jaxon respirou fundo e exalou.

—Deveria ter me dito isso.

—Com que propósito? Você não pode ficar sentada em casa. Se pudesse, lhe teria ordenado isso há muito tempo, mas sua natureza exige que procure ativamente justiça. —Lucian a atraiu para ele, com seu corpo grande e protetor. — Tenho plena confiança em minha capacidade para proteger nossas vidas ou nunca a arriscaria. — Ele lançou a seu irmão um olhar frio e afiado. — Não havia necessidade de se ferir com o que outros consideram sua verdade.

—A verdade é a verdade, Lucian. — Disse Jaxon.

Mikhail estudou o casal.

— Você tem necessidade de ação e de ajudar os homens a se desfazer dos monstros do mundo que enfrentamos. Eu necessito de mulheres dispostas a ser ensinadas, a aprender a lutar e depois ensinar a nossas mulheres e filhas. Necessitamos de mulheres dispostas a proteger as outras mulheres e ser a primeira na linha de defesa se a batalha chegar a nossas portas. Talvez isto seja algo que estaria disposta a considerar. Se não… — Ele dirigiu seu olhar a André e Tariq. — Então acredito que não estará sozinha frente ao vampiro na batalha… Jamais.

 

As mulheres se moveram rápida, mas serenas ao preparar a câmara para a nova cerimônia, o ritual mais importante que poderiam realizar. Várias mulheres pegaram ramos de sálvia e atearam-lhes fogo e começaram a caminhar pela câmara, ao longo da parede. Cantavam em voz baixa, orando para limpar e abençoar com energia positiva, alcançando tão alto como fosse possível e logo atravessavam a câmara e repetiam o cântico. A fumaça flutuou através da caverna e quando terminaram, colocaram os molhos de sálvia às pedras quentes alinhadas na parede de trás.

Quatro das mulheres Cárpatos trançavam erva de búfalo já molhada na água, em longas tranças, dirigindo seus propósitos ao trançado, cantando brandamente numa tentativa de atrair a energia para ajudar Lara em sua viagem espiritual.

Francesca já tinha preparado a água energética sob a lua cheia e agora dava para Savannah e Raven beber. Havia limpado vários quartzos rosa de bom tamanho sob a água corrente e logo os colocara numa tigela de água coberta com uma gaze, sob a lua cheia. O quartzo rosa era a pedra mãe e freqüentemente se usava para efetuar uma mudança e abrir o coração.

Pegou as pedras mais suaves de quartzo rosa e ametrine e deu a Raven e Savannah para que as sustentassem nas mãos e as esfregassem enquanto a cerimônia. Depois pegou várias conchas especiais e as colocou ao redor do pescoço das duas mulheres grávidas, noutra chamada de energia. Espalhou botões de rosa sobre a terra rica e acrescentou granada para que ajudasse na cerimônia de renovação da vida.

Logo que Francesca preparou Savannah e Raven, se levantou o som de um pequeno tambor, pintado a mão com um mapa do mundo das sombras e os diversos animais de poder e sabedoria. Ela pegou um maço suave e começou a bater com uma cadência constante, usando o ritmo coletivo dos corações das mulheres.

Lara se sentou junto a Raven e Savannah, formando um triângulo, enquanto ao redor delas, as demais mulheres Cárpatos formavam um estreito círculo. Agora, as tranças de erva doce e a resina da árvore de copal se somavam à seiva fumegante nas rochas quentes junto com as ervas, de modo que a câmara estava envolvida pelos perfumes da natureza. Lara inspirou o perfume, permitindo que a fragrância a estremecesse.

Esta era a tarefa mais importante que iria realizar e poderia lhe custar à vida. Tinha que ter êxito, se não quantos crianças podiam se perder? Sentia que tinha sido colocada na terra para cumprir com este momento, para fazer esta viagem e salvar as três crianças. Xavier havia destruído muitas vidas e ela estava resolvida que ele não tomasse a destas mulheres e destas crianças como tinha tomado de tantos outros.

Esfregando os dedos sobre um cristal de quartzo transparente para favorecer a claridade e o enfoque, ela afastou todos os pensamentos e permitiu que as ondas em sua mente se aproximassem e logo se retirassem por completo. Que sua mente fosse uma superfície de águas tranqüilas, chapinhando implacável nas margens, lista para se expandir.

Nesse estado sereno, ela repassou rapidamente suas lembranças de tempo esquecidas, e encontrou fracos rastros de magia. Seguiu o caminho até que pôde abrir a porta que necessitava. O sangue dos Caçadores de Dragões podia fluir por suas veias, mas ela era uma maga de linhagem pura, graças a sua mãe. A mística era forte nela e tudo o que suas tias lhe ensinaram lhe permitia alimentar os instintos aos quais poderia precisar recorrer. Nesta câmara subterrânea que as mulheres da antigüidade tinham escolhido instintivamente para ser usada em seus rituais, era um lugar de poder, onde o mundo físico se anexava com o plano espiritual. Sentiu a energia fluindo nela, ouviu o som rítmico de um tambor e as distantes vozes femininas cantando. As melódicas notas a levaram mais profundamente para outra esfera.

A fumaça lhe nublava a visão. Nuvens de névoa e bruma flutuavam. Inspirou profundamente, introduzindo a fumaça e o ar em seus pulmões, enquanto deixava sua alma em liberdade de viajar. Encontrava-se nos limites dos dois mundos. A câmara onde estava sentava, serena e tranqüila era a primeira etapa da viagem.

Enquanto sua visão limpava, ela pôde ver uma grande árvore com um labirinto de raízes e galhos se estendendo em frente a ela. A névoa de cores diversas se alternava através e ao redor dos galhos. As folhas sussurravam como se estivessem vivas, de uma cor verde prateada, ondeantes no vento suave e aprazível. O vento era só forte o bastante para agitar a névoa, sem limpá-la, de modo que ela pôde vislumbrar o grosso tronco retorcido, elevando-se para o céu e se aprofundando sob a terra.

Lara se concentrou na árvore. O tronco parecia ser muito antigo, de cor cinzenta. Havia alguns nós escuros nele e nos galhos e um ou dois lugares mais, onde pôde ter perdido uma extremidade com o passar do tempo, mas a árvore parecia estar sadia. Ela continuou movendo—se sobre o prado que se estendia além a árvore e seus pés nus roçavam a grama fresca. Enquanto se movia pelo o campo, as flores surgiam sob as plantas de seus pés como se espalhassem sementes pela terra fértil. Ao aproximar mais da árvore, mais galhos perdidos notava e sob ela, dentro do emaranhado de raízes, as velhas extremidades ermas jaziam como corpos caídos em uma fossa comum.

Ao se aproximar da árvore da vida, ela ouviu vozes gritando, num som de prantos e sentiu gotas úmidas em seu rosto ereto. Lágrimas caíam sobre ela. Eram lágrimas das antigas mulheres que tinham perdido filhos atrás de filhos, nas mãos do assassino desconhecido. As lágrimas caíram sobre a terra até formar um riacho, cada lágrima se unia às demais até que o riacho se converteu em um rio.

Lara abriu passo através da água que ia aumentando até chegar ao longo e grosso tronco, para poder examiná—lo de perto. Marcas. Pouco profunda, elas marcavam o tronco e subiam para os galhos onde esperavam as novas vidas. O filho de Raven e as duas filhas de Savannah. Suas almas estavam agarradas nos mais tenros galhos que se balançavam muito acima dela. Podia ver que os dois galhos estavam enegrecidos, cavados e retorcidos por alguma enfermidade. Acima delas havia também outras almas completamente novas, penduradas de galhos relativamente sadios, mas já poderia se ver os sinais da enfermidade desconhecida correndo pelas extremidades. Estes então eram das gestações dos Cárpatos mais recentes. O assassino tinha pegado primeiro o filho de Raven e depois às filhas de Savannah, mas as outras crianças estavam igualmente em perigo.

Havia uma mancha de maldade. Xavier utilizara magia negra contra os Cárpatos, corrompendo seu dom, retorcendo—o para seu propósito e agora ela poderia ver não só as débeis marcas, mas também o aroma da malevolência ao longo do rastro da alquimia escura. O caminho se dirigia para o alto, para os galhos superiores, mas também seguia pelo tronco até o labirinto de raízes escondidas. Ela desceu pelo tronco e seguiu o sistema de raízes, procurando a fonte.

Lara continuou descendo pelo longo tronco, seguindo os rastros, utilizando o olfato e a visão. Uma vez no emaranhado de raízes, seguir o rastro era bastante mais difícil, já que os rastros apareciam por toda parte. As sombras saltavam e grandes garras ávidas se estendiam para ela. Os gemidos e os lamentos aumentaram a seu redor. O rio de lágrimas continuou crescendo.

Ela pressionou mais forte as pontas de seus dedos contra a superfície de seu cristal e esperou pacientemente. O coaxar de uma rã atraiu sua atenção. A pequena criatura se dirigia para ela sobre uma folha de lírio da água. Ela pulou da correnteza até o tronco de uma árvore, olhando—a com olhos grandes e veementes.

Ela sorriu e saudou a criatura formalmente, com respeito, seu guia espiritual no outro mundo. As rãs eram assombrosas, criaturas mágicas, plenas de energia na terra e na água. Para Lara, a rã simbolizava todo aquilo que as mulheres Cárpato procuravam. A transformação, o renascimento, a união de mãe e filho e a da Mãe Terra com suas filhas. Desbloquear a energia e criar um caminho para que o fluxo cicatrizante pudesse prevalecer, poderia liberar a terra e a água de todas as toxinas e era exatamente o que Lara queria fazer. E o simbolismo continuava mais à frente; quando a população de rãs era numerosa, o ecossistema estava em equilíbrio e a harmonia restabelecida. Estava no caminho correto.

Continuou com mais confiança ainda. A rã saltava com facilidade através do sistema de raízes, se movendo até que encontrou uma raiz extremamente grande e retorcida que parecia sair do resto. Entrava profundamente na terra e quanto mais baixo ia, mais negra e retorcida se tornava. Buracos ocos marcavam a raiz e o caule, como lágrimas negras.

Lara rastreou o débil rastro de maldade ainda mais à frente, baixando vertiginosamente pela longa raiz. A impressão de ódio e desespero se fortaleceu até que ela ficou presa em seu fluxo e sentiu a influência pressionando o corpo da mãe para que rechaçasse o pequeno invasor que aninhava em seu ventre. A ilusão era forte, de uma mãe odiando seu filho, pedindo—lhe que saísse, querendo expulsá—lo, acreditando que o que existia em seu interior era um monstro, não um filho amado.

Ela resistiu enviando a pequena certeza ao menino. Esse não era seu encargo. Ao longe pôde ouvir vozes melódicas cantando brandamente uma canção de ninar. Concentrou—se no batimento de seu coração, no cristal de sua mão que a mantinha enfocada em sua viagem.

As sombras se tornaram mais fortes e escuras. Ondas de desalento fluíram sobre ela. Fios de ódio e fúria misturados a uma corrente de desolação. Uma malha de incrível poder, embora refreado, num trabalho sutil. Conhecia esse toque. Sentira—o com muita freqüência quando era uma menina. Xavier a tinha humilhado. Ele a fizera se sentir fraca e indefesa, nem desejada e nem amada. A se sentir como se as pessoas que a trouxeram ao mundo a rechaçassem e desprezassem. Isto era obra dele. Sua assinatura estava por toda parte. Qualquer que fosse o parasita que ele ideara para levar a cabo sua ardilosa conspiração estava muito perto. Ela se aproximava da guarida do assassino.

Tocou ligeiramente a mente de Natalya. Não poderia permitir ser detectada até que Natalya estivesse pronta para golpear e não se atrevia a continuar até que Natalya tivesse o caminho aberto e seus espíritos estivessem unidos. Esta parte era a mais perigosa. Lara era luz e ar flutuando pela esfera com cuidado em não alertar os outros de sua presença. Natalya era uma Caçadora, perita na arte de matar e agora, apesar de que ter sido uma maga era sobre tudo uma Cárpato. Não tinha perdido nenhuma de suas habilidades como maga, mas era possível que a entidade pudesse sentir sua presença como uma ameaça. Lara se manteve muito quieta até que sentiu o espírito de Natalya se unindo ao dela.

Lara continuou adiante, levando o espírito de Natalya com ela. A entidade tinha escavado profundamente e a energia negativa aumentava a toxicidade da terra até que a alma sensível de Lara sentiu vontade de chorar. Ela pressionou os dedos contra o suave cristal e seguiu adiante, enfocando sua atenção na missão. Usando os buracos no gelo e os extremophiles que encontrou, divisou o assassino como se este estivesse unido a um pequeno cogumelo. Não a surpreendeu absolutamente que Xavier tivesse escolhido usar um organismo semelhante para matar.

Os Extremophiles recebiam esse nome porque podiam sobreviver e prosperar em todo tipo de condições extremas, calor ou frio, escuridão ou luz, inclusive em um ambiente salgado. O micróbio era perfeito como assassino. É claro, Xavier o mudara para servir a seus propósitos. Era um diminuto parasita camaleônico capaz de se fundir com as células e parecer uma parte do que fosse o que escolhesse imitar. Ela sentiu o momento em que o micróbio se deu conta de sua presença e do perigo.

O alarme ressoou em ondas de som. Ela saltou quando o micróbio cuspiu produtos químicos em sua direção. As pequenas de ácido saltaram através do caule e da raiz. A árvore tremeu por causa do ataque. Sabia que os extremophiles cuspiam produtos químicos em outros micróbios para proteger a si mesmos e seus territórios. Ela estava um pouco preparada, mas a repentina agressão a surpreendeu. O micróbio tinha passado ao ataque imediatamente, derramando ácido sobre a raiz numa tentativa de erradicar a ameaça sobre ele.

Lara tinha que atrair à coisa para a superfície para que Natalya pudesse matá—la e tinha que fazê—lo imediatamente. O ataque podia acabar com as últimas forças do bebê. O bebê. O extremophile estava programado para matar um bebê. Nenhum bebê representaria uma ameaça para ele. Conhecendo Xavier, ele teria dado a seu assassino o perfume de ambos os Dubrinsky e sangue dos Caçadores de Dragões.

Pela primeira vez Lara vacilou. Teria que remontar a sua infância e enfrentar seus demônios de novo. Nicolas não estava para se interpor entre ela e suas traumáticas lembranças, mas não podia falhar com esta criança.

— Estou aqui. – A reconfortou, Natalya.

O eco de vozes femininas a envolveu, a apoiou e deu—lhe uma confiança renovada, a oferta da irmandade feminina.

Lara olhou para seu guia espiritual. Sem titubear, a pequena rã que tinha começado na água e metamorfoseada na terra, começou a viagem ao longo de outra raiz. Ela sentiu a deformação no tempo e soube que a rã a fazia retroceder para que tivesse a aparência de um bebê, para o assassino.

No momento o fluxo de ácido parou, mas agora o ataque era diferente, agudo, enfocado e muito complexo. Começou como um sentimento, um temor penetrando em sua mente. Uma voz murmurava em seu ouvido no idioma Cárpato, uma repetitiva mensagem de ódio. O tom insidioso e venenoso se infiltrava em sua mente embora ela soubesse que não era uma menina. A repugnância era uma reminiscência excessiva de sua infância.

Obrigou-se a continuar subindo pela raiz, sabendo que o micróbio sabia e sentia sua presença enquanto sussurrava coisas horrendas. Ninguém a queria. Ela não valia nada. O corpo que a albergava a rechaçava, lutava para se livrar de tão parasitária criatura. — Vá! Vá! Abandone sua anfitriã. Ela detesta carregar algo tão fraco, patético e estranho. Uma pessoa não, uma coisa.

Sem aviso algo a apunhalou, numa punção ardente e cruel que rasgou a camada exterior de sua alma. O micróbio se aproximou o bastante para atacar com um aguilhão retrátil. Ela viu o apêndice desaparecer de volta a um extremophile. A dor a atormentava. Lara tropeçou. No momento, pontos afiados arranharam seu tornozelo. Ela quase cedeu ao pânico, aterrorizada de sofrer uma injeção de uma massa de parasitas. Era somente o cristal em sua mão e o som das vozes femininas se elevando em uma harmonia melodiosa, que evitaram que ela abandonasse sua aparência infantil.

Moveu-se mais rápido, seu pranto infantil claramente esporeava o micróbio a agir mais cruelmente. O murmúrio da voz continuou, empurrando-a implacavelmente a se dar por vencida, a ir embora, já que o corpo em que vivia queria que fosse. O desespero era uma companheira sempre presente e agora seu ambiente se tornara igualmente hostil. Os ataques chegaram em forma de um exército de anticorpos. As pequenas correntes a açoitavam, golpeavam-na na tentativa de desterrá-la. Precaveu-se de que o aguilhão a tinha tocado com seu ataque e agora as cadeias de proteínas defensivas a rodeavam e se dirigiam para ela.

E o mesmo acontecia ao filho de Raven e as filhas de Savannah.

Indignada, Lara se empurrou para cima, para a entrada, onde uma esfera se encontrava com outra. Não importava o que custasse, ela seria a isca e atrairia o horrendo assassino para a superfície onde Natalya esperava.

Enquanto subia sentiu uma sensação de ardor, não em sua camada exterior, mas no interior, como se seu sangue estivesse fervendo. O aguilhão a infectara, não com um parasita, mas com uma incompatibilidade com o sangue de sua anfitriã. As células se rompiam, provocando hemorragias. E durante todo o tempo, a voz continuou lhe dizendo o pouco valor que possuía e o pouco que sua anfitriã a queria ali. Ondas de desespero a afligiam continuamente.

O som começou a afogar por completo a voz enquanto a pressão crescia a seu redor, esmagando—a de uma vez que o som trovejava em seus ouvidos e o batimento de seu coração se acelerava. O som reconfortante da suave e fluída corrente vivificadora se converteu em uma carreira acelerada e forte que rugia em seus ouvidos, soando como um aterrador terremoto sobre ela e por todos os lados.

Lara subiu pela árvore, aferrando-se ao som da canção de ninar, forçando às pontas de seus dedos a manter sobre o cristal, para manter algum toque de realidade. Gritou, provocando o micróbio, deixando que seus gritos infantis o levassem ao frenesi para que o organismo não se desse conta que fazia alguma coisa, exceto tentar fugir de sua presença. Em resposta, pressentindo a vitória, o assassino incrementou seus ataques, forçando um desalento intenso em sua mente enquanto aumentava seu assalto.

Aterrada, ela fixou seu olhar na fumaça e na névoa que se espalhava por toda parte, fora de alcance. O tempo diminuiu a velocidade e ela se sentiu como se estivesse andando sobre areias movediças. Seu ambiente se tornou cada vez menos estável. Pequenos terremotos a balançaram, esmagando—a com sua pressão, encolhendo seu mundo por todos os lados, fluindo por tudo a seu redor até que ela se sentiu como se estivesse se afogando. Vários pequenos tremores sacudiram a árvore dos galhos até as raízes nas profundezas da terra.

Quando pensou que não poderia suportar mais, a pequena rã estava ali, nadando a seu lado, guiando—a através do desmoronamento enquanto as violentas ondas de choque a atacavam. Abriram—se fissuras a seu redor quando a estabilidade diminuiu. Deu um último empurrão desesperado para voltar à superfície, para encontrar sua entrada.

Ofegando, ela inalou a sálvia e a erva de búfalo.

—Agora, Natalya! Agora! — Ela caiu sobre o chão da câmara, na escura e fértil terra, com um cansaço extremo bloqueando seu corpo e o eco de seus pesadelos infantis ressonando em sua mente.

Natalya se inclinou sobre Raven, seu corpo tão quieto como o de uma tigresa, imóvel, cada um de seus sentidos em alerta, enfocada em sua presa, esperando. Golpeou rapidamente quando detectou o débil rastro de um mago e a mancha da magia negra. Sua arma era um ovo. Começou a fazê-lo rolar cuidadosamente sobre Raven, dirigindo o micróbio para o centro do ovo.

Lara não podia falar, mas enviou a Natalya uma advertência usando o canal comum dos Cárpatos que suas tias tinham ensinado. — Cuidado, ele está poluído. Não deixe que te pique.

O ovo já estava balançando e escurecendo. O micróbio enviava ondas de ódio e desespero para a câmara. Uma mistura do cheiro pestilento da carne decomposta e ovos podres, atacou Lara, tornando mais profunda a sensação de estar de volta na caverna de gelo. A pesar do calor que subia das câmaras sob elas, ela tremia de frio e os gélidos dedos do medo desciam por sua coluna vertebral.

A fumaça e o incenso amorteceram rapidamente as energias negativas. Natalya, atenta ao açoite do aguilhão, expulsou ao novo anfitrião da caverna. Convocou uma tormenta elétrica para que por um momento o céu noturno se iluminasse enquanto atraía o relâmpago para incinerar ao micróbio preso dentro do ovo.

Lara se voltou ficou com o olhar fixo no teto. Mãos suaves tocaram sua face e seu corpo enquanto as mulheres procuravam algum ferimento. Não restava energia para lhes dizer que não era seu corpo que precisava ser curado, mas sua mente. Forçou-se a abrir os olhos e olhar Francesca enquanto ela examinava Raven.

— Conseguimos? Está bem o bebê? – Ela não tinha energia para falar em voz alta.

Natalya retornou indo diretamente a ela e tomando sua mão.

Raven fechou os olhos e tocou a mente de seu filho. Suas mãos revoaram sobre seu ventre, roçando-o com suavidade.

—Ele está em paz. Finalmente, está em paz e eu me sinto diferente. Não acredito que meu corpo esteja tentando rechaçá-lo.

Francesca imediatamente se enviou a si mesmo fora do corpo, em busca de Raven. Um sorriso de alegria iluminou sua face.

—É um milagre! Shea, sua pressão sangüínea está bem, não há mais contrações. Ela não sangra e seu corpo não considera o bebê como um intruso, nem tenta se desfazer dele.

Lara fechou os olhos, pressionando as mãos sobre sua cabeça que doía. Queria chorar e rir ao mesmo tempo. Alegrava-se de ter podido encontrar o micróbio, mas agora as lembranças de sua infância a golpearam, imagens de sangue, tortura e os gritos de homens e mulheres. O pior era a sensação de absoluto desespero, uma semente plantada há tanto tempo que ela não conseguia sobrepor. Sua auto-estima estava baixa, o fio insidioso da magia escura segurara sua mente.

Não queria que Raven soubesse que a viagem lhe havia feito, mas lhe revolvia o estômago. Muitas comportas se abriram pelo caminho e se lembrar não era algo bom. Havia uma razão pela qual suas tias haviam construído uma barreira para protegê-la e agora o escudo parecia migalhas. Precisava estar sozinha, longe de todos outros, onde poderia voltar a juntar as partes de sua mente fraturada. O problema era que estava muito fraca para se levantar.

A seu redor, as vozes se elevaram com excitação. Shea e Francesca sussurravam suas consultas, sua linguagem corporal era animada. O filho de Raven estava a salvo e o culpado havia sido encontrado. As demais mulheres se regozijavam e Raven chorava de felicidade.

—O que está acontecendo com minhas filhas? — A voz trêmula de Savannah silenciou a câmara. — Tenho uma dessas coisas dentro de mim atacando às meninas? É por isso que tenho contrações e sangramentos? Gregori! Preciso de você. — Seu grito era sincero. Era a necessidade instintiva de uma mãe de proteger a suas filhas.

Lara ficou imóvel, seu coração começou a lhe martelar no peito. Sabia o que estava vindo, mas não podia fazer nada. Não havia forma possível, com sua mente tão fragmentada, de que pudesse voltar e confrontar sua infância uma segunda vez. Sem ser consciente disso, instintivamente sua mente traumatizada se estendeu para Nicolas.

— Nicolas se apresse. Tenho medo de me perder.

—Lara? — Perguntou Raven. — Savannah tem o parasita em seu corpo atacando às meninas?

Por um momento ela ficou paralisada, com sua mente congelada, rechaçando processar a informação. Ainda era uma menina na caverna, com Xavier sobre ela dizendo que não tinha nenhuma coragem e que tinha matado a sua mãe.

—Tire-o de mim! Afaste-o dos bebês. — Gritou Savannah. – Tire-o de mim agora.

Ela podia se ouvir gritando silenciosamente, em seu intimo, onde ninguém podia ouvi-la.

— Eu te ouço. Estou contigo. — A voz de Nicolas era tranqüila e amável, mas repleta de confiança absoluta. — Espere, hän ku kuulua sívamet, quase estou chegando.

Ele estava vindo e a chama de “guardiã de seu coração”. Lara tratou de se aferrar a isso, tremendo de frio, consciente de pouco a seu redor exceto dos sussurros de seu passado.

Natalya caiu de joelhos ao lado de Lara.

—Ela precisa de sangue. – Ela usou seus dentes para abrir a mão, estendendo-a para a Lara.

O olhar horrorizado de Lara se fixou nos dentes alongados, logo nas gotas vermelhas que surgiam. O fino jorro encarnado lhe revolveu o estômago. Como um caranguejo, Lara engatinhou—se para trás, afastando-se de Natalya, sentindo-se presa.

Todos os olhos se fixaram nela e por um momento as expressões pareceram avaras e desdenhosas. Sua mão ardia e doía. Ela esfregou os dedos sobre as cicatrizes, olhando para a entrada da câmara, julgando a distância que lhe permitiria escapar. — Criatura sem valor, patética. Você matou sua mãe. Não é estranho que seu pai não te queira absolutamente. Deveria lhe permitir te deixar seca.

Ombros longos encheram a entrada e olhos prateados brilharam e percorreram seu rosto. O grito ressoou através de sua mente, crescendo até que se converteu em uma tsunami, saindo a jorros dela, crescendo e se expandindo enquanto a energia explodia para fora.

Nicolas afastou Gregori para um lado e enfrentou o assalto, ondas poderosas de energia o lançaram para trás e o derrubaram. Ambos, Gregori e ele, transformaram-se em névoa quando se moveram. A força do golpe sacudiu a câmara. Alguns candelabros estalaram, salpicando a caverna de cera e fogo. Gregori se materializou, seu corpo protegendo Savannah e Raven dos escombros que caíam.

Lara se obrigou a se levantar e cambaleou para Nicolas, o remorso aumentava seus sentimentos de humilhação e ódio por si mesmo. Ele esteve instantaneamente com ela, levantando-a nos braços, olhando às mulheres. Lara escondeu o rosto contra seu peito, aferrando-se a ele, querendo desaparecer. Sentia-se quebrada, frágil, tosca e exposta.

—A confiei a vocês. — A fúria ardia nele. Seu corpo forte vibrava de poder enquanto a fúria o possuía. Ele sabia que as emoções de Lara desgastavam pouco a pouco seu autocontrole, mas lhe importava pouco. Ela já veio num frágil estado para ser amparada pelas mulheres, que a fizeram migalhas. Desejou aniquilá-las. Para manter controle, deu um passo para trás, para a entrada.

Gregori estendeu os braços num gesto de provocação. Havia autêntica cólera penetrando através de sua pétrea conduta habitual.

—Pegue sua mulher e saia daqui! Nascida de um mago, filha de Razvan, bisneta de Xavier... O que sabemos de verdade, dela? Já é bastante ruim que colocasse em perigo nosso príncipe com sua falta de controle, mas agora colocou a cada uma das mulheres desta câmara em perigo.

Nicolas aspirou com força, à fúria no fundo de seu corpo estava a ponto de explodir.

—Você se atreve a insinuar que ela é uma espiã em nosso acampamento?

O poder brilhou tênuemente por toda a caverna e as paredes ondularam. A terra sob eles tremeu.

—Alto! — Gritou Raven.

—Gregori, você não entende, — interveio Francesca.

—O que está acontecendo aqui? — Mikhail apareceu, situando—se entre os dois homens Cárpatos. – Vocês estão num um lugar sagrado.

— Ela nos prestou um grande serviço, Gregori. — Disse Francesca. – Ela encontrou e trouxe até a superfície o parasita que ameaçava provocar um aborto em Raven. Acreditávamos que o bebê já estava perdido. Ela está exausta e necessita de sangue.

Era mais que isso. Unido como estava a Lara, Nicolas sentia a pressão da tortura de Xavier. Deu a volta com a Lara nos braços e avançou dois passos, mas Savannah gritou, empurrando todos, para bloquear a entrada da câmara. — Ela não pode ir. Não pode. — Seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Lamento o que Gregori disse, mas ela tem que me tirar esta coisa. Está tentando matar minhas meninas.

Gregori colocou brandamente uma mão no ombro de Savannah, ignorando Nicolas, que ainda tremia de fúria.

—Posso me desfazer disso, Savannah. Agora que sei o que procurar.

Natalya negou com a cabeça.

—Ele se esconde dos homens. Xavier foi muito preparado. Ele sabia que todo homem comprova o corpo de sua companheira para avaliar seu estado de saúde. Lara o detectou porque passou anos vivendo com a mancha de Xavier por toda parte a seu redor. Pôde empreender uma viagem espiritual para encontrá-lo instalado dentro de Raven. Usou a si mesma como isca para atrair à entidade à superfície e permitir que eu o destruísse.

Lara deslizou seus braços mais fortemente ao redor do pescoço de Nicolas e enterrou seu rosto contra o pescoço dele. Nicolas lhe acariciou a parte superior da cabeça com o queixo e logo olhou para Gregori. Uma cólera sombria rolava como o trovão em seus olhos.

— Que pena que tenha condenado a minha companheira ao exílio, como espiã do lado inimigo.

Ele rodeou Savannah, para encontrar seu caminho bloqueado pelo corpo sólido de Gregori.

—Não condenará a morte minhas filhas porque está furioso comigo. — Seu corpo rangia pela eletricidade e diminutas faíscas estalavam a seu redor.

—Fora de meu caminho — estalou Nicolas, nada intimidado.

Quando Gregori não se moveu, Nicolas colocou Lara cuidadosamente no chão, afastada da zona de uma possível briga e avançou um passo, cara a cara, olhando diretamente nos olhos de Gregori. Dois perigosos predadores sem ceder uma polegada.

—De verdade quer fazer isto comigo? — A cólera que destilavam de olhos os tornavam secos e frios. O assassino se erguera onde estava o homem.

—Se tiver que fazer... — Respondeu Gregori.

Um gemido coletivo atravessou a caverna. Mikhail suspirou e agitou a mão para os dois homens. O campo de energia ao redor de Gregori se rompeu com uma pequena onda brilhante, antes de se tornar escuridão e os dois homens se encontraram no chão, sentados um ao lado do outro e a beira da terra fértil.

O corpo de Lara se sacudiu com força. Tinha ouvido essas palavras antes. A voz de um homem gritando uma súplica desesperada. Xavier voltando-se para olhar Razvan. Seus olhos prateados e brilhantes cheios pelo desprezo e o triunfo. Ela ficou sem respiração, seu olhar horrorizado foi em busca de Nicolas, sua única âncora quando a verdade a golpeava com seus açoites, rasgando-a.

— Nicolas. Faça por mim. Ele permitiu que Xavier tomasse o controle sobre ele para que eu pudesse viver.

Razvan tinha aberto inadvertidamente sua alma a Xavier quando tentava salvar a vida de sua filha. Tinha exposto sua alma e Xavier a tinha arrebatado, capaz de controlar os movimentos de seu neto, de assumir o controle sem ter que reduzir drasticamente sua energia possuindo seu corpo. Por ela. Para salvá-la. Razvan pagara o último preço, não a morte, mas a destruição de sua alma.

—Nicolas! — Ela o chamou, cobrindo o rosto com as mãos. Ele já estava em sua mente.

— Estou aqui, fél ku kuuluaak sivam belsõ, e não vou a nenhum lugar.

—Voltou muito rápido. — Disse Francesca e afastou Mikhail para se ajoelhar junto à Lara, deslizando seus braços ao redor dela. – Ela está congelada. Gregori, preciso de ajuda.

— Ela voltou para a caverna de gelo, — disse Nicolas. Ele estava já ali, cobrindo Lara com seus braços e abraçando sua mente, fundindo-se com a dela para mantê-la estável. Cantou brandamente para ela, balançando-a de um lado a outro. — Nunca deveria ter ido lá sem mim.

—O que ela fez? — Exigiu Gregori, ajoelhando-se ao lado de Francesca, para examinar Lara. Suas mãos passaram roçando sobre ela.

—Ela usou a si mesmo como isca. A entidade destrói os bebês, então ela retrocedeu e se converteu em uma menina para que ele a seguisse. — Explicou Natalya.

Nicolas amaldiçoou em voz baixa.

—Não deveria ter retornado sem mim — repetiu.

—Ela tem medo de mim. — Disse Gregori, abruptamente. – Você tem que obrigá-la a retornar comigo para recuperar o que perdeu.

Nicolas estudou o rosto de Gregori durante um longo momento, logo assentiu.

Gregori se encurvou muito perto de Lara e a olhou diretamente nos olhos. Assentiu ante o que encontrou ali e murmurou instruções a Francesca, que recuperou seu posto ante seu tambor.

— Ela precisa se sentir segura e amada, Nicolas. — Disse Gregori. – Coloque-a no centro do círculo e abrace-a para que sinta sua presença. Permanece conectado a sua mente. Uma parte dela está tão estressada pelas dolorosas revelações de seu passado que é incapaz de suportar mais lembranças. Temos que convidar essa sua parte a retornar e ela deve se sentir segura para fazer.

—Convidá-la? — Repetiu Nicolas.

Gregori encolheu os ombros.

—Não se preocupe, recuperarei o que ela perdeu. Não nos arriscaremos a deixar sequer um pequeno fragmento de sua alma no outro mundo muito tempo. Se Xavier estiver vivo, ele a sentirá lá, como Lara rastreia sua maldade, ele poderia conseguir um fragmento dela.

Mais sálvia e erva de búfalo foram colocadas sobre as pedras quentes. As mulheres começaram o cântico cicatrizante, na versão mais larga que com freqüência se usava para recuperar a alma de alguém que havia morrido. Nicolas sentiu cada músculo em tensão, os músculos de seu corpo amontoados e presos pela apreensão. Preferiria enfrentar uma dúzia de vampiros peritos antes que ter de confiar em outro homem para ajudar Lara.

— Eu sou um curador e não posso ajudar minhas filhas ou minha companheira.

Nicolas aceitou a breve declaração como o mais próximo a uma desculpa que obteria de Gregori. E agora entendia o que levava a um homem à fúria. A impotência. A indefesa. A incapacidade para defender o que era dele.

Nicolas inclinou a cabeça e depositou beijos suaves na testa gelada de Lara. Ela tremia continuamente, mas era consciente dele. Seu olhar se pegou a dele e mostrava confiança. Ele a agradeceu.

Gregori perdeu pouco o tempo, despojando—se de seu corpo físico e viajando, primeiro para Lara e logo os guiando diretamente para árvore da vida. Sua experiência era manifesta, pensou Nicolas. Ele se movia com total confiança, encontrando os animais pelo caminho, demonstrando respeito quando fazia averiguações, rastreando o que Lara tinha deixado para trás em sua pressa em extrair ao assassino do corpo de Raven.

As maneiras de Gregori durante a viagem eram impecáveis, inclusive quando encontrou o que ela perdeu, convidando—o respeitosamente a voltar, persuadindo o tenso fragmento de que o devolveria a um ambiente seguro. O suave cântico de cura acrescentou a voz persuasiva do curador e no fim, o fragmento retornou a Lara sem muitos problemas.

Gregori cambaleou um pouco, enfraquecido pela drenagem de energia.

— Ela precisa de sangue e descansar. — Ela havia visto o tumulto de lembranças infantis que alagava a mente de Lara.

—Levo-a para casa. — Declarou Nicolas.

—Não! —Savannah pressionou as mãos sobre a curva arredondada de seu ventre. — Sinto essa coisa rasgando minhas filhas, machucando-as. Fazendo-as se sentir não desejadas. Não posso esperar outra sublevação. —Ela estendeu a mão para Lara num gesto suplicante. – Eu juro, eu faria se pudesse. Sei o que custa a você, mas elas sofrem. — As lágrimas deslizavam por seu rosto e ela se voltou para Gregori.

Ele esteve ali instantaneamente, segurando a parte de atrás de sua cabeça, pressionando seu rosto úmido contra o peito, mas não disse nada, simplesmente esperou.

Lara se sustentou sobre as trêmulas pernas, seu estômago se atava ante a perspectiva, mas Savannah tinha razão. Não podiam permitir que os bebês sofressem mais do que necessário.

—Absolutamente não — disse Nicolas. – Eu a proíbo, Lara. — Ele ignorou a expressão teimosa em sua face. – Não apenas o expulsou fora da última vez e saiu faltando um pedaço. Se tiver que fazer, eu farei.

—Como? Se um homem pudesse fazer, o curador o feito já. Tem que ser uma mulher e essa mulher tem que reconhecer o toque de Xavier. É muito fraco e difícil seguir.

—Pode ir você, Natalya. — Disse Nicolas. Ele começava a sentir desesperado, sua pele estava muito tensa, seu crânio pressionava contra seu cérebro.

— Ela não pode e acredito que você sabe. Não há ninguém mais. — Havia um tranqüilo desespero na voz de Lara e isso o destroçava.

A câmara estava em silêncio, mas ele podia sentir que todos o olhavam. Seu olhar estava cravado em Lara. Ela não queria ir e uma parte dela inclusive desejava que ele a detivesse, mas os dois sabiam que na verdade não tinha escolha. Como ela poderia viver consigo mesma se permitisse que dois bebês ainda no ventre da mãe sofressem como ela tinha sofrido, quando ela conhecia as conseqüências? Quando ela sabia que o assassino duplicaria seus esforços para liberar ao mundo das netas do príncipe

— Nicolas.

Ela sussurrou seu nome e pela primeira vez ele ouviu o amor. O coração saltou em seu peito. Isto então era amor. Esta terrível torção em seu interior, uma dor incomparável. A tremenda necessidade de melhorar o mundo dela.

— Sívamet –meu coração.

— Preciso de sangue para fazer esta viagem.

Nicolas engoliu seu protesto. Ela tinha que ir e ele devia deixá-la.

Gregori deu um passo adiante, atraindo sua atenção, estendendo sua mão.

—Ofereço livremente minha vida pela sua vida.

Houve um breve silêncio. Lara forçou um sorriso sem graça.

—Sinto muito. Tenho aversão a beber sangue. Só consegui poder tomar o que meu companheiro me ofereceu.

Gregori assentiu.

—Entendo. E te ofereço minhas sinceras desculpas por minha conduta.

—Realmente não há necessidade.

Lara voltou para os braços de Nicolas, as pontas de seus dedos o acariciaram por baixo da camisa, procurando a pele quente. Ela necessitava e ele provia. Era tão complicado e simples de uma vez. Nicolas retrocedeu para as sombras e nublou sua imagem para ocultar sua reação. Sem importar que ela necessitasse de sangue para sobreviver, para ele era uma intimidade erótica que sempre avivaria a fome física. Seu corpo se endureceu quando sentiu o ligeiro toque de seus dentes, de seus lábios e a pontada de dor que cedeu terreno instantaneamente a uma onda de prazer. Alisou-lhe o cabelo. Seus dedos a acariciaram enquanto lhe entregava sua força. Mesmo quando ela selou as pequenas marcas com uma carícia de sua língua, continuou abraçando-a com força, sem desejar deixá-la ir.

— Está segura?

Ela abriu os olhos e o contemplou, seu olhar verde azulado se fixou no dele. Por um momento não houve ninguém ali salvo eles dois e sob os cílios alongados, o amor... Por ele... Resplandeceu brilhante e perdurável. Nicolas sentiu o impacto, como uma pontada.

— Estou segura. Mas não vá a nenhum lugar.

Ele não tinha intenção de ir a nenhum lugar sem ela.

O micróbio empenhado em destruir as filhas de Savannah e Gregory demonstrou ser mais rápido e mais cruel que o que havia em Raven. Foi só a força combinada dos pais e o fato de que a entidade tinha que trabalhar nos dois bebês simultaneamente o que proporcionou a resistência necessária para sobreviver.

Ela atraiu ao extremophile para a superfície e foi destruído, mas não sem que Lara tivesse que pagar um preço. Sem Nicolas ela sabia que nunca teria conseguido sobreviver. Ele lhe deu seu sangue, mantendo unida sua fragmentada mente para impedir que o trauma de sua infância a destruísse. Ela não estava consciente de quando finalmente ele a levou de retorno a sua caverna.

  

Lara despertou em meio a um dilúvio de sensações eróticas. Nicolas jazia sobre seu lado, seu corpo quente e duro se pressionava contra ela, sua mão lhe segurava a parte inferior de um seio enquanto seus lábios o sugava, seus dentes a arranhavam enquanto sua língua se movia rapidamente contra o mamilo. Ele massageava seu outro seio, atritando e acariciando o mamilo até endurecê-lo. A boca era arruda e possessiva, reclamando seu corpo, marcando-a como sua para sempre.

Outro toque de sua boca fez com que a excitação se estendesse em uma acalorada rajada dos seios até as pontas dos pés. Ela sentia seus braços fortes e protetores ao redor seu corpo, um refúgio seguro quando sua boca era tão exigente. Sua coxa se aconchegou entre as dela, dando—lhe acesso ao quente refúgio entre suas pernas. Sua mão escorregou por seu ventre, para acariciar sua úmida intimidade.

— Quero despertá-la sempre... Desta maneira.

A voz dele deslizou em sua mente, dentro e fora, num suave toque da mesma forma em que faziam seus quadris, pressionando sua ereção ardente contra a coxa. Ela sentia a pressão de seus dedos, o estiramento e o deslizamento, criando um suave calor que enviava ondas de prazer disparadas através do corpo dela. Todo o tempo seus lábios se mantinham ocupados, deleitando-se no broto rijo de seu mamilo.

Desejosa de seu toque, de sua boca e suas mãos, de seu corpo firme se apressando sobre o dela como uma droga. A ternura deu passo à agressividade enquanto ele se deleitava com seus dentes, seus lábios e sua língua reclamavam-lhe o seio, como dele. Todo o tempo seus dedos se moviam dentro e fora dela. Num momento a enchia e no seguinte ela se sentia vazia, até que se empurrou contra sua mão e seu corpo se ruborizou de calor.

Ele deslizou sob o corpo dela, como se fosse sua área de recreio pessoal. Sua pele era acetinada e seu sexo ardente, ele queria conhecer cada centímetro dela. Beijou, lambeu e mordeu até chegar a suas coxas, então afastou as inquietas pernas para revelar o último tesouro. Ela já estava molhada e cheia de desejo, muito formosa para resistir. Colocou-se entre suas coxas e lhe segurando o traseiro, levou-a a