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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MARCADOS PARA MORRER / Camille Adorno
MARCADOS PARA MORRER / Camille Adorno

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MARCADOS PARA MORRER

 

Pelé Problema passou a lâmina ao longo da coxa da mulher, descoberta até o quadril pela fenda em seu vestido longo e escuro.

Cabeção sacudiu os ombros e se abaixou, apertando os olhos, ao som do rap em volume ensurdecedor que ultrapassava os limitações do walkman preso à cintura e se espalhava pelo ambiente. A letra dos Detentos do Rap falava das agruras da vida bandida e da esperança de um tempo novo: crítica penetrante como um punhal, vazada na linguagem crua das ruas.

Petecão se balançava em cima de um banco da plataforma de embarque de passageiros, fumando um baseado.

Pelé encostou a ponta do canivete no espaço entre os seios da mulher, nos seus ombros nus, na reentrância na base do pescoço. Os olhos castanhos pareciam observá-lo com desprezo.

Petecão riu.

¾ Ei, Problema... Vai transar com essa dona? ¾ perguntou sorridente, tentando aproximar-se de Pelé. Falhou: a pergunta estatelou-se feito chumbo na plataforma de concreto da estação de ônibus.

Pelé Problema acompanhou com a ponta da faca a parte interna do braço da mulher, dobrado como um cabide, contornado o antebraço e detendo-se na mão que empunhava um microfone com a logomarca da TV Universal.

O som do motor foi aumentando com a aproximação do coletivo. O vento cortante sibilava, prenunciando a madrugada fria.

¾ O baú ¾ alertou Petecão, escorregando do banco. Apertou os olhos esbugalhados, confirmando a previsão e se aprumou, torcendo as pontas do colarinho do blusão de nylon. ¾ Eu falei. Olha aí o baú. Tava mais que na hora.

Cabeção parecia concentrado na busca de outra FM, passando por anúncios, notícias, conversas; procurando mais uma música igual à anterior. Enquanto viajava na onda da droga, levantou-se e foi em direção à pista do ônibus. Os passos ritmados marcaram a cadência da música, o movimento do corpo filtrando vida através da música.

Pelé Problema deu um passo para trás, a fim de poder ver a mulher inteira. Contemplou a imagem no cartaz com indisfarçável desejo. O quadril esquerdo estava jogado para a frente, a mão apoiada levemente na cintura, sem muita firmeza; apenas passando de leve, como um carinho. Sua pele era branca: branca em contraste com o vestido escuro, o cabelo castanho, os lábios pintados de vermelho. No pulso esquerdo ela usava uma pulseira de ouro. No anular direito, um anel de prata. Calçava sapato preto sem salto. Pelé suspirou longamente. Já tinha ido a todos os lugares, feito de tudo ¾ e faria tudo outra vez, se houvesse algo novo; mas sabia que sair com ela era quase impossível.

O vento soprou com mais força ao longo do corredor formado pela avenida. O cartaz era maior do que os outros afixados nas colunas da plataforma de embarque; a mulher era quase do tamanho real, fotografada diante de um cenário que reproduzia os contornos de Goiânia: prédios altos delineados contra o céu noturno, sob a lua crescente. O lago e a vegetação do Parque Vaca Brava faziam o contraste entre a paisagem natural e a criação do homem. Na parte superior do cartaz, em letras vermelhas como o batom da mulher, o convite irrecusável: Não durma sem Raquel Azevedo. Abaixo dos seus pés, em letras maiúsculas prateadas, lia-se uma ordem: Assista diariamente às últimas notícias no seu Canal 33 com Raquel Azevedo, ‘De olho na cidade’.

Pelé Problema queria possuir aquela mulher. Encostou a ponta da faca entre as pernas torneadas, à altura da junção das coxas e empurrou-a com força, furando o papelão. Puxou a mão e começou a esfaquear a virilha da mulher.

Petecão ria, batendo nas coxas.

¾ Mete nela, cara, mete nela. Ei, Cabeção. Saca só. O Pelé tá metendo na puta... ¾ Petecão contorcia-se e sacudia o corpo, soluçando de tanto rir.

Cuidadosamente, Pelé Problema cortou o pescoço da mulher.

O ônibus aproximou-se suavemente da plataforma, o ruído do motor possante engolindo o chiado insistente do walkman, enchendo o silêncio da estação de barulho. Pelé Problema afastou-se do cartaz, recolheu a lâmina do canivete, guardou-o no bolso da blusa e virou de costas.

¾ Ei! Vamos nessa, cara ¾ Petecão estava parado na porta dianteira do coletivo, metade do corpo balançando do lado fora, sustentado pela mão direita firmada à porta.

¾ Solte a porta e suba ¾ a voz do motorista parecia cansada.

Petecão ergueu o dedo e fez um gesto obsceno para o motorista. Olhou para Pelé, buscando aprovação.

Pelé Problema pôs a mão sobre o peito de Petecão ¾ era macio, desossado ¾ e empurrou-o para dentro do coletivo.

¾ Vamos nessa, idiota. Você ouviu o homem.

Pelé ficou na porta enquanto o ônibus dava partida, olhando a mulher que não iria mais perturbá-lo. Passou pela catraca eletrônica e foi até o meio do veículo. Encostou-se num banco e ficou olhando para a frente; as mãos nos bolsos das calças jeans, joelhos flexionados para aparar os solavancos, olhando fixo para as pernas de uma morena com uniforme de enfermeira.

Desde o ponto terminal na Praça da Bíblia até aquela estação na Praça do Bandeirante, o ônibus do Eixo Anhanguera só conseguira pegar poucos passageiros. Eram pessoas fora de sintonia com o resto do mundo: trabalhadores entrando ou saindo de seus turnos; pessoas da noite saindo cedo, madrugadores se arrastando de volta às suas casas. E especialistas: um bêbado que dormia profundamente, embalado pelas ondulações do asfalto que cedera ao tráfego intenso; um pichador de muros que ia saltar próximo ao Setor Rodoviário ¾ seu estúdio; lá ele passaria a noite decorando galpões de transportadoras e armazéns de atacadistas. Imaginava pichar mensagens cifradas da torcida organizada do seu clube de futebol, provocações aos adversários..

Os passageiros se sentavam a uma distância de fuga, enrolados num manto de medo, intuindo que qualquer um ¾ a não ser a enfermeira ¾, podia ser um assaltante.

Cabeção aumentou o volume do walkman para poder ouvir a música acima do barulho do ônibus.

Petecão deu um último trago no baseado e jogou a ponta, com um peteleco, pela janela aberta. O cigarro desviou-se e caiu no assento ao lado do homem de boné que lia um livro. O homem empurrou a ponta com o livro.

¾ Ei, babaca, é proibido jogar lixo no chão. ¾ Petecão riu enquanto falava; olhou para as costas de Pelé Problema, pedindo-lhe com o olhar que se virasse e observasse. Quando voltou-se, o homem estava encarando-o, percebendo sua dependência. Petecão quis disfarçar: começou a ler um cartaz que estava bem acima da cabeça do homem ¾ ou pelo menos tentou; largara a escola no primeiro ano.

Pelé Problema fixou os olhos na enfermeira. Despiu-a mentalmente, bem devagar, arrancando as camadas de tecido cuidadosamente passadas e assépticas ¾ até o pequeno corpo aparecer inteiro à sua frente. Fez “psiu” e sorriu quando percebeu que ela não olharia para ele; sabia que a moça escutara. Sentou-se na frente dela com as pernas esticadas, o tênis Nike preto quase tocando os sapatinhos brancos.

Ela puxou os pés para trás.

Ninguém entrou nem saiu do ônibus na estação da Avenida Tocantins.

Pelé Problema ergueu-se num movimento rápido; sentou-se ao lado da enfermeira. Ela cheirava a limpeza. As mãozinhas delicadas, unhas bem feitas, seguravam com força a bolsa sobre o colo. O rosto estava inerte de medo; os olhos arregalados.

Pelé botou o nó do dedo no pescoço da enfermeira, atrás de sua orelha; levantou os cachos de cabelo negro encaracolados que desciam até os ombros.

¾ E aí linda... a gente podia se divertir pra caralho...

Ela fechou os olhos e prendeu a respiração; Pelé passou a unha no lóbulo da orelha da moça.

¾ Você não sabe o que está perdendo...

A enfermeira levantou-se e andou com passos duros na direção da porta do meio do ônibus. Pelé alcançou-a, agarrou seu pulso e virou-a. Puxou-a para perto; inclinou sua cabeça para beijá-la na boca. A moça virou o rosto, enchendo sua boca de cabelos.

Petecão riu; finalmente, vira uma chance de bajular o líder. Deu um passo à frente e parou ao lado de Pelé Problema, levantando o dedo indicador entre os olhos da enfermeira.

¾ Ô, putinha, você não gostou do meu amigo, é?

Pelé pegou Petecão pela gola da blusa e jogou-o de encontro à catraca.

¾ Fica na porta e não deixa ninguém entrar.

Petecão ¾ seu nome era Roberto ¾ levantou e abaixou os braços.

¾ Como é que eu vou fazer isso?

Sentiu o peso do olhar do homem de boné e não quis olhar para ele.

Pelé Problema curvou-se, desanimado.

¾ Você tem um canivete, não tem?

Alegre por ser lembrado disso, Petecão tirou o canivete do bolso, acionou um dispositivo no cabo e a lâmina cortou o ar, antes que pulasse a catraca, aproximando-se do motorista.

¾ Ninguém se mexe.

Sentiu que o homem de boné se movimentara na poltrona.

Cabeção já se posicionara na porta traseira; segurava o canivete com as duas mãos, como um lutador.

Pelé ergueu o canivete na frente do rosto da enfermeira e soltou a lâmina. A moça estremeceu. Ele riu.

¾ Ih, garota.. Fica fria. A gente vai curtir numa boa...

Os passageiros continuavam sentados, dormentes e surdos, réplicas de seres humanos, rezando para que tudo acabasse. Menos o homem de boné, que estava atento ao que ocorria à sua volta. Antebraços apoiados nas coxas, livro nas mãos abertos feito um missal, assistia à cena sem ler o texto.

O ônibus foi diminuindo de velocidade; aproximara-se da estação do Lago das Rosas. Cabeção vasculhou a plataforma, temendo que alguém estivesse esperando o ônibus e ele fosse obrigado a usar o canivete.

¾ Ei, Pelé ¾ ele estremeceu ao ver o olhar de reprovação que Pelé lhe lançara por ter dito seu nome. ¾ Eu... eu só queria saber se a gente ia descer aqui...

Pelé Problema desceu pelo corredor batendo nas pernas da enfermeira com os joelhos para obrigá-la a andar. Parava em frente a cada passageiro para zombar, à medida que desviavam o olhar.

¾ Covardes fodidos. Não vão ajudar a garota? Filhos da puta. Querem um pouco também, babacas? Querem transar com ela, não é? ¾ riu com deboche. ¾ Vão se foder. Eu e os meus amigos aqui vamos fazer uma festa. O resto vai ficar onde está. Não vão sair atrás da gente, dar alarme, chamar um cana filho da puta. E continuem pra onde estão indo. Se esqueçam que viram alguma coisa. Ninguém se lembra de nada. A gente não vai machucá-la; vamos fazer um rock legal, falou?

Pelé colocou o cabo do canivete entre os dentes e passou a mão nos seios, no ventre e nas nádegas da enfermeira.

Petecão riu, mas sabia que não ia conseguir ter uma ereção. Ele ia ser o último, como na vez em que a prima do Boca de Pá Mecânica transara com todos eles; a lembrança deixava-o enjoado até agora.

O ônibus estava quase parando na estação.

¾ Pelé ¾ o homem de boné estava em pé no corredor. Fechou o livro e guardou-o num bolso da calça.

Pelé tirou o canivete da boca e apontou-o para o pescoço da enfermeira.

¾ Senta aí, cara.

¾ Solte a moça ¾ disse o homem, levantando a voz apenas o suficiente para ser ouvido acima do barulho do ônibus. ¾ Salta aqui, como você disse; mas sem ela! Salta aqui... numa boa. Sem polícia, sem nada. Agora solte-a.

O homem tinha o corpo atlético, músculos bem delineados sob a ampla camiseta de malha. Usava um sapato de couro macio de solado baixo, sem salto. Podia ser um estudante um pouco fora de época ou um professor jovem.

¾ Solte-a ¾ repetiu.

Era uma ordem ¾ não uma sugestão, ou um pedido.

Pelé Problema sentiu a autoridade do homem; percebeu sua força e rapidez, mas já estava muito excitado com o perigo ¾ tarde demais para voltar atrás...

¾ Pega descendo e fica na sua ¾ rosnou Pelé.

¾ Pelé ¾ Petecão pulou a catraca, pronto para a fuga. ¾ A gente tá parando.

O homem deu um passo adiante.

¾ Solta ela... Pelé. ¾ O homem sorriu com a vantagem, embora pequena, que o conhecimento do nome do adversário lhe dava.

Pelé pressionou a ponta do canivete contra a pele da enfermeira, ameaçador

¾ Fica aí, filho da mãe.

O homem continuava a avançar; lento, ágil. A enfermeira abriu os olhos.

¾ Não, por favor. Ele vai me matar.

O homem parou. Virou-se abruptamente e levantou a mão na direção de Cabeção, que se aproximava cauteloso.

¾ Fique aí, moleque.

Cabeção sorriu e passou o canivete de uma mão para a outra.

O homem tirou o revólver de um bolso na parte de dentro do casaco e apontou para o rosto do Cabeção, dobrando ligeiramente os joelhos, os pés afastados, ambas as mãos segurando a arma. O Cabeção amoleceu.

Nesse momento, o ônibus parou; as portas se abriram.

¾ Petecão! Fica de olho no motorista. Deixe as portas abertas. ¾ Pelé começou a andar, de costas, até a porta situada no meio do veículo, arrastando a enfermeira com ele.

Petecão rosnou pela perda do anonimato.

¾ Pelé!

Num gesto louco, Pelé tirou o rosto de trás de seu escudo, compelido pelo grito do homem. Os dois eram mais que adversários; eram bailarinos numa mesma dança. Ele tinha que responder. A bala acertou sua testa bem entre os olhos.

O peso de Pelé derrubou a enfermeira em cima do braço de um banco, tirando-lhe o fôlego. Quando conseguiu respirar de novo, ela gritou.

Os passageiros se jogavam no chão, encolhiam e gritavam. Petecão e Cabeção fugiram, quase atropelando-se na corrida pela plataforma. O motorista colocou o ônibus em movimento por puro instinto, atabalhoadamente.

O homem puxou o corpo de Pelé Problema de cima da moça; jogou-o no piso como se não pesasse nada. Guardou a arma; tocou no ombro da enfermeira e esperou até que olhasse para ele. Então sorriu, pôs a mão na cabeça dela, foi até porta no fundo do coletivo e pulou na plataforma, os braços estendidos. Caiu e rolou; levantou-se puxando a arma e parou, pés afastados, segurando o revólver com ambas as mãos.

A estação estava vazia. O homem guardou a arma, bateu as mãos nas calças para tirar a poeira, molhou a ponta do dedo na boca e esfregou um arranhão na palma da mão esquerda. Tirou o boné, passou a mão pelo cabelo e foi andando até a saída.

 

A noite cobria a cidade com um manto de sombras. Estavam numa área cheia de prédios abandonados; obras inacabadas de um conjunto residencial. A construtora falira e os esqueletos das construções estavam entregues aos viciados. Ali estava instalado o reino do crack. Os sons da avenida chegavam como vindos através de uma espessa neblina. De vez em quando, ouvia-se os guinchos agudos de ratos, através das paredes carcomidas e vigas podres dos edifícios.

Era grande a escuridão. Maurício não morria de amores pelo local, mas a pessoa que queriam encontrar insistira naquele lugar.

¾ Você conhece bem esse homem? ¾ perguntou-lhe Paula.

Maurício fitou-a.

¾ Estive trabalhando com ele nos últimos seis meses. ¾ Notou-lhe o tom de voz. ¾ Confio o suficiente.

Paula tremeu um pouco.

¾ Não gosto deste lugar ¾ disse ela, como que repetindo os pensamentos de Maurício.

¾ Ele deve ter uma razão para nos encontrar aqui ¾ opinou Maurício.

Paula olhou em volta.

¾ É fácil ficar encurralado aqui.

¾ Não se preocupe ¾ observou Maurício. ¾ O cara conhece esta área.

A moça dirigiu-lhe um pequeno sorriso.

¾ Estou nervosa.

Maurício acompanhou com os olhos a longa e graciosa curva do belo pescoço da moça.

¾ Podia ter ficado; lhe disse para ficar e casa.

¾ Não. ¾ Ele se moveu e o corredor encheu-se de sombras. ¾ Não iria ficar só.

Nesse momento, Maurício observava a entrada do corredor. Notara algum movimento ali. Sombra e luz, movendo-se.

Paula virou a cabeça. Maurício sentiu a tensão que se formava no corpo da moça.

¾ É ele?

Maurício olhou para o homem musculoso, de boné. Era muito velho para estar ali; aquele lugar era freqüentado por adolescentes, garotos que viviam pelas ruas.

¾ Não ¾ respondeu Maurício, vigiando o homem. Nesse momento ele conversava com alguns garotos na entrada de um prédio. Quando começaram a rir alto, Maurício desviou a atenção da cena.

¾ Está atrasado ¾ disse Paula.

¾ Ele virá.

Olhava nesse momento para um ponto além dos garotos que fumavam crack.

Aproximava-se outro homem; parou antes de entrar no beco e passou a ponta do dedo no bigode. Começou a dirigir-se para a frente.

¾ Chegou.

Maurício estava sob a luz e o homem corpulento de bigode viu-o. Com um movimento disse a Maurício que ficasse onde estava.

O traficante deu a volta em torno dos garotos. Ouviu-se um estampido: de repente o homem de bigode pareceu tropeçar. Com um grito, caiu à frente; os garotos resmungaram, expulsos de seus lugares.

Nesse momento Maurício viu o homem musculoso de boné, correndo de volta pela rua estreita pela qual acabara de chegar o traficante.

Maurício saltou na direção do grupo de viciados. Paula passou rápida ao seu lado, abaixando-se enquanto ele se curvava sobre o homem corpulento e o virava. Havia sangue por toda parte. Atingiu o coração!, pensou; é um profissional ¾ e dos bons.

Nada havia no rosto do homem caído: nenhum sinal de reconhecimento, nenhuma inteligência. A fagulha fora extinta em questão de segundos. Da vida para a morte, sem aviso.

Ignorando os gritos dos garotos, Maurício pegou a mão de Paula e afastou-se. Devia saber o perigo que corria, pensou. Aquele mundo era isso mesmo: drogas e morte andavam sempre juntas.

 

Todos os homens no bar estavam vendo a TV, um pouco acima de suas cabeças, como devotos perante um altar.

A mulher no vídeo tinha o cabelo castanho; a pele clara e os lábios vermelhíssimos. Os olhos também eram castanhos. Usava uma blusa azul piscina cujo último botão, aberto, revelava uma faixa de renda branca.

¾ Boa noite. Eu sou Raquel Azevedo, com o último noticiário da noite no seu Canal 33, de olho na cidade... As primeiras notícias desta noite: o secretário da Segurança Pública e o Chefe do Policiamento da Capital garantiram em entrevista coletiva hoje à tarde que a guerra contra os assaltos nos ônibus do transporte coletivo urbano da Capital já foi vencida. Daqui a pouco, Afonso Borges comentará as medidas anunciadas, mas antes disso...

Seguiu-se um anúncio de cerveja.

¾ Sim? ¾ Quem atendia no bar era uma loura despenteada, rosto assimétrico.

¾ Uma cerveja ¾ disse o homem de boné.

¾ Bavária? ¾ ela voltou o rosto para a televisão. ¾ Está na hora de uma Bavária.

¾ Schinkariol ¾ disse o homem. Esfregou a palma da mão, onde havia uma marca vermelha.

Ela pôs as mãos nos quadris.

¾ Skol, Antárctica, Bhrama, Budweiser, Heineken...Todas, menos essa!

¾ Skol.

¾ Uma Skol. Por que será que sempre que eu digo o nome das cervejas que a gente tem, as pessoas acabam pedindo Skol?

O homem olhou para a tela da TV. Raquel Azevedo estava sentada numa espreguiçadeira, pernas cruzadas, coxas à mostra através da fenda na sua saia cinza. O roteiro estava no seu colo; o braço direito estava pendurado nas costas da cadeira num gesto que fazia o tecido da blusa ajustar-se, moldando o formato dos seus seios.

¾ Gosta dela? ¾ perguntou a balconista. ¾ Muitos caras gostam. ¾ Ela colocou a lata de cerveja. ¾ Nunca conheci alguém que não gostasse.

O homem começou a bebericar a cerveja. Suas mãos estavam tremendo. Da última vez em que bebera uma cerveja, suas mãos tremiam: acabara de matar um homem, para proteger uma mulher. Mas não conseguira protegê-la. Chegara tarde demais. Tudo o que pudera fazer fora matar seu atacante e proteger outros inocentes.

A moça do bar veio se aproximando dele, limpando o balcão com uma toalha.

¾ Você machucou a mão? ¾ ela pegou a mão dele; tocou com delicadeza a pele esfolada. ¾ Um arranhão e tanto. Você tem que lavar isso. Vou pegar um pouco de água quente.

Quando voltou com a água quente e mercúrio, o homem fora embora, largando a cerveja por terminar e uma nota de dez reais sobre o balcão.

¾ É, Gabriela, você realmente tem o toque mágico. E ganhou uma boa gorjeta também ¾ falou consigo a balconista, guardando a nota no caixa da lanchonete.

 

Raquel Azevedo tirou os sapatos. Esse gesto era sua marca registrada: sinal de que o programa acabara e um convite aos colegas nas plataformas acima do vão onde Raquel estava sentada para que descessem de seus palanques e esperassem, em volta de sua cadeira branca de couro, enquanto os créditos iam passando. Para o público em casa, os outros eram apenas silhuetas; o único foco de luz iluminava Raquel Azevedo.

Esticou o corpo longilíneo, pôs as mãos atrás do pescoço comprido e branco, balançou os cabelos castanhos e sorriu. Sua voz de gelo contrastava com o sorriso.

¾ Eu não quero ser feita de idiota outra vez.

Para a audiência, dava a impressão de estar conversando amenidades, aproveitando a satisfação de um trabalho bem-feito.

Luiz Valadares, o meteorologista, tomou a iniciativa.

¾ Não tinha como evitar aquela previsão, Raquel.

Raquel Azevedo parecia acreditar que os telespectadores achavam que eram os meteorologistas que controlavam o clima ¾ de que outra maneira poderiam saber o que ia acontecer? ¾ e que previsões sinistras como as de Valadares ¾ anunciando chuva no fim de semana ¾ levava-os a mudar de canal.

Raquel estendeu sua mão, convidando Valadares, com um sorriso, a pegá-la.

¾ Luiz, meu querido, não seja bobo. O período das chuvas já acabou. As pessoas gostam de ter uma desculpa para passar um fim de semana tranqüilo.

Em casa as pessoas se perguntavam se eles tinham um caso. Estavam sempre se tocando, sorrindo um para o outro.

Kleber Araújo, o comentarista esportivo, limpou a garganta.

¾ É... eu espero que você não tenha se importado com a piadinha.

Na reportagem sobre uma investigação policial, com base em denúncias de que muitos jogadores de futebol da Capital estavam usando cocaína, ele se referira ao principal clube do Estado afirmando que fora convidado para disputar a primeira divisão do Campeonato Nacional da Bolívia, com patrocínio da Coca. Raquel gostava de fazer as piadas ¾ ou, pelo menos de saber quando elas viriam de outras fontes, para que pudesse comprovar com sua gargalhada extravagante o quanto eram engraçadas.

Raquel puxou a mão e deu um apertãozinho na mão de Araújo.

¾ Kleber... aquilo foi bem engraçado.

Os lábios de Ione Faria tremeram; comprometera sua reportagem exclusiva sobre a iminência de um acordo na greve dos trabalhadores na rede pública de saúde, ao afirmar, “esperançosamente”, que o atendimento retomaria a normalidade na segunda- feira. Lembrava-se bem: quando assumiu a editoria-geral, Raquel deixou bem claro que não queria advérbios no seu programa.

Entretanto, Raquel não estava olhando para Ione, nem para o comentarista de variedades Baltazar Andrade; olhava para Afonso Borges, com um sorriso que o público julgava cheio de veneração. Borges era um notável do jornalismo televisivo local. Coordenador geral dos noticiários do Canal 33 durante 15 anos, Afonso Borges fora transferido para o banco de reservas quando a direção da estação, ávida por uma fatia maior de audiência, eliminou 80% dos noticiários, substituindo-os por programas de fofocas e de “baixaria explícita”. As últimas notícias passaram para o horário das 23 horas; Raquel Azevedo foi trazida das colunas de amenidades sociais para estreá-lo.

¾ Você ferrou com tudo, Afonso ¾ disse Raquel, substituindo um de seus verbos preferidos por outro mais difícil de ser adivinhado pelos telespectadores, através da leitura labial. ¾ Aquela matéria dos assaltos no transporte coletivo estava uma boa merda. ¾ Deu um sorriso bem grande, especialmente ao pronunciar o palavrão, de modo a disfarçá-lo. ¾ Não vou admitir reportagens como essa no meu programa. A cidade inteira sabe que é uma mentira, e não quero que me achem também uma mentirosa, por associação.

Afonso meteu a mão no bolso do paletó e apalpou a pequeno canudo de prata que usara ao cheirar cocaína pouco tempo antes do programa, enquanto Raquel e os outros estudavam seus roteiros.

¾ Só estou contando os fatos, chefe.

As luzes das câmaras se apagaram e as do estúdio se acenderam. Acabara o desfile dos créditos; o programa saiu do ar. As pessoas em casa assistiam à publicidade da rede de concessionárias Chevrolet, anunciando promoções incríveis a partir da próxima semana.

¾ Os fatos! ¾ gritou Raquel. ¾ Que fatos? A merda do secretário de Segurança deu uma entrevista coletiva. E daí? Este é um ano de eleição; pelo amor de Deus! O que ele iria dizer? Que está perdendo a guerra contra o crime, em todas as frentes? Droga.

A equipe, que costumava ir embora rapidamente, continuou em pé nas sombras, observando o que já estava se tornando um desfecho habitual do programa.

Afonso tirou a mão do bolso e tocou o nó de sua gravata Armani.

¾ Você não está se esquecendo de alguma coisa? Tudo isso começou com a nossa matéria exclusiva. Minha, aliás. O Diário da Manhã afirmou que as recentes prisões tinham diminuído o índice de assaltos. O secretário foi surpreendido por uma pergunta durante o anúncio do novo grupo de motociclistas da PM e admitiu que essa afirmação era verdadeira. E ninguém noticiou o fato. Eu consegui o relatório inteiro, do qual o Diário só publicou uma parte; inclusive com dados estatísticos: número de prisões de assaltantes, o aumento do efetivo que fazia o policiamento ostensivo, a criação das patrulhas nos ônibus, os motociclistas do GIRO, mais cachorros...

¾ Cachorros ¾ disse Raquel com desprezo.

¾ A entrevista coletiva de hoje confirmou nossa exclusiva ¾ disse Afonso. ¾ É uma boa notícia, sob qualquer aspecto: a imprensa desconhecia o fato e a situação realmente está melhorando. Mas, enfim, você já sabe disso tudo.

Raquel Azevedo pôs a mão no peito, fingindo inocência.

¾ Você está dizendo que nenhum ônibus foi assaltado hoje, Afonso?

Afonso pôs a mão no bolso e alisou a superfície do canudo de prata.

Raquel Azevedo riu.

¾ Você conseguiria olhar para a cara de uma vítima de assalto e dizer a ela que a guerra contra o crime foi vencida?

Afonso deu-lhe as costas.

Raquel Azevedo riu outra vez.

¾ O que a gente devia ter feito, ou melhor, vamos fazer da próxima vez que o secretário Xavier tentar nos impressionar com números é mandar uma equipe ao centro da cidade exatamente na hora em que ele estiver dando sua entrevista. E vamos encontrar pessoas que acabaram de ser assaltadas, ter suas bolsas roubadas. Não vai ser difícil. Os delitos leves podem estar diminuindo, mas não acabaram. Perguntaremos a essas vítimas quem está ganhando a guerra contra o crime. Vamos colocar o Dr. Xavier frente a frente com essas vítimas. Era isso que devíamos ter feito ¾ concluiu.

Raquel voltou-se para um assistente de produção: ¾ Diga ao Humberto que venha até aqui.

¾ Ele já foi para casa ¾ respondeu o assistente.

¾ Pra casa? Como é que o produtor pode ir pra casa no meio do programa? Ligue no celular dele.

¾ Não está atendendo ¾ disse o assistente. ¾ A ligação cai na secretária eletrônica.

Raquel Azevedo revirou os olhos. E lentamente, com um volume de voz suficientemente alto para que todos ouvissem, disse: ¾ De hoje em diante, ninguém vai pra casa sem que eu mande. Ninguém da equipe de produção, nenhum redator, nenhum técnico, ninguém! ¾ Olhou propositadamente para os colegas a fim de que soubesse que estava se referindo a eles. ¾ A hora de falar sobre o que há de errado nesses programas é assim que eles acabam, e não na tarde seguinte. Aí nós devemos estar nos concentrando no próximo programa. Se ficarmos o tempo suficiente, com freqüência, talvez não tenhamos tantas coisas dando errado; nem que ficar até tão tarde, tantas vezes. Até que isso aconteça todo mundo fica... Está claro? ¾ e começou a subir a rampa na direção da porta.

Afonso Borges sabia que era uma causa sem futuro, mas ainda assim era uma causa; foi atrás dela.

¾ E se não acharmos nenhuma vítima?

Raquel Azevedo parou e voltou-se lentamente, encarando-o.

¾ O que você disse?

¾ E se não encontrarmos ninguém que tenha sido assaltado na mesma hora em que o prefeito estiver dizendo que a criminalidade está diminuindo?

Raquel Azevedo riu, com indisfarçável superioridade.

¾ Ah, meu Deus, Afonso. Você é tão chato. Tão... educado. Não era à toa que o seu programa tinha uma audiência tão ruim... algumas pessoas com insônia esperando que você os embalasse com notícias sobre taxas de juros.

Voltou pela rampa até sua cadeira, onde ficou dando voltas e voltas, com uma das mãos no encosto, enquanto falava.

¾ Nunca houve um programa de notícias local em nenhum horário, em nenhum mercado, com índices de audiência tão altos quanto este. Você sabe disso. O que não tenho certeza é se você sabe por quê. Este programa tem índices de audiência superiores ao de qualquer outro, porque eu não digo às pessoas o que elas não querem ouvir. Eu digo a elas que esta cidade é uma selva, que as ruas estão cheias de delinqüentes, o asfalto desmancha com as primeiras chuvas e a população é tratada com indiferença pelas autoridades a maior parte do tempo. Eu digo a elas a verdade. Chame a isso de más notícias; eu chamo de verdade. A única boa notícia que eu permito nesse programa é a previsão do tempo. O clima é a única coisa em que as pessoas ainda têm alguma esperança; eu odeio negar isso a elas. ¾ A ironia brincava nos olhos de Raquel.

Respirou fundo e abaixou o tom de voz, antes de prosseguir, ferina;

¾ Você conta os fatos às pessoas, mas não conta a verdade que existe apesar dos fatos. Afonso, você nunca diz que o índice de desemprego diminuiu, mas as pessoas estão sem emprego; os crimes estão diminuindo, mas ninguém está seguro nas ruas.

Afonso suspirou, resignado. Raquel acompanhava atentamente as reações visíveis através do seu semblante. E não estava disposta a deixar passar essa oportunidade de esmagá-lo, literalmente. E continuou, enfática:

¾ Sexo e violência: é essa a fórmula, não? Isso vende filmes, entretenimento no horário nobre. Mas não é só a violência física que vende; é a violência emocional, política, econômica, ambiental. Você nunca contaria isso às pessoas, Afonso, e por isso elas não te assistiam. Você acha que só porque falava sobre taxas de juros, estava falando sobre violência econômica, Violência econômica não é falar das taxas de juros; é o sofrimento de um pobre coitado que recebe a pressão de agiotas e não tem a quem apelar. Esse é o tipo de matéria que eu faria. Encontre esse homem pra mim, Afonso, e você terá uma boa matéria. ¾ Raquel fez uma pausa.

   Afonso queria esquivar-se do monólogo áspero mas Raquel não lhe deu oportunidade. E continuou a repreendê-lo, indiferente ao seu constrangimento.

¾ Você me perguntou o que fazer se não achasse ninguém assaltado enquanto o secretário de Segurança dava a entrevista alardeando a vitória contra o crime. Pois bem: eu inventava uma vítima. Era isso que eu faria. Encontrava um cara, punha na frente da câmara e fazia ele contar como fora roubado enquanto o Dr. Xavier estava sendo entrevistado. E o cara ia fazer isso. Não ia achar que estava contando uma mentira; e eu não iria pensar que o fizera mentir. Ele ia estar contando a verdade ¾ a verdade do ponto de vista dele. Porque a verdade é que as pessoas estão amedrontadas, independente dos fatos proclamados pela polícia; e pessoas com medo são vítimas.

Raquel Azevedo parou de dar voltas na cadeira e andou na direção de Afonso Borges, parando com o rosto a pouco centímetros do dele. Sentiu o cheiro de uísque.

¾ Andou bebendo de novo, Afonso? Você sabe o que eu acho disso.

Afonso apertou o bolso com força, pressionando o canudo, com vontade de cravá-lo no pescoço de Raquel Azevedo.

¾ Essa é mais uma razão, Afonso... ¾ disse Raquel, subindo pela rampa outra vez ¾ ...essa e todas as outras que mencionei, para pedir ao Bezerra que tire você do programa, de uma vez por todas. Os meus espectadores querem a verdade; não vou ser feita de palhaça por pessoas na minha equipe que não querem contar a verdade a eles.

Afonso acompanhou-a com o olhar, silenciosamente. Raquel empurrou a porta à prova de som com o ombro e saiu.

 

Meio atordoada, Raquel sentiu que estava sendo arrastada.

Sentiu-lhe a presença como um calor acima do corpo. Sabia que a mataria se reagisse. Caída embaixo dele, teve certeza do que teria que fazer. Aquele homem não era diferente do resto; ia utilizar esse fato contra ele.

Ouviu-lhe a respiração ofegante. Ergueu a mão, passou-a pelo pescoço dele e puxou-o de encontro a seu rosto. Notou faixas de luz amarela refletindo-se nos olhos do homem. Sentiu o cheiro da excitação dele. Matar faz isso com certas pessoas, ouvira dizer.

Precisava de tempo para recuperar-se, escolher uma estratégia. Abriu as pernas e projetou os seios para a frente. Durante todo o tempo, a mão que colocara atrás da cabeça movia-se lentidão. Empinou os seios sob as mãos do homem. Nesse momento, o seu polegar estava justamente sobre o lado direito do pescoço dele. Sentiu a virilidade do homem de encontro à sua pele macia e isto foi demais. Queria só uma oportunidade.

A bala certeira cortou sua esperança. O efeito sobre a mulher foi espantoso. Ele saltou, como peixe no anzol. Os olhos se esbugalharam, ela viu escleróticas por toda parte, que começaram a saltar enquanto a cor desaparecia-lhe do rosto. Lágrimas de dor inundaram-lhe os olhos; cuspiu sangue e bile ao morrer.

O homem levantou-se e olhou o corpo que acabara de abraçar; a expressão do rosto era de total indiferença.

 

Uma hora depois, o assistente de produção Enzo Felipe ouviu o telefone tocando na sala de Afonso Borges e entrou para atendê-lo. Havia uma garrafa de uísque vazia na beira da escrivaninha.

Do outro lado da linha, a mulher de Afonso estava preocupada com a demora do marido; Enzo disse a ela que houvera uma reunião de trabalho. Costumava ligar a essa hora; e ele sempre lhe dizia que Afonso acabara de sair, apesar do jornalista sair ainda mais cedo do que alguns membros da equipe.

Enzo Felipe jogou a garrafa de uísque na cesta de lixo debaixo da mesa de Afonso. Ia deixar a sala quando resolveu pegar a garrafa. Ao fazer isso descobriu uma pequena caixa de papelão que antes contivera 12 balas calibre 38. A caixa estava vazia. Levou a garrafa e a caixa até uma cesta de lixo no corredor e jogou-as ali, cobrindo tudo com folhas de fax usadas. Começou a descer o corredor, mas voltou; pegou a caixa e achatou-a, guardando-a no bolso. Entrou na sala da redação.

A única pessoa na sala era a nova assistente da produção: uma moça bonita que estava prendendo o cabelo liso com uma liga colorida. Ela disse que morava no Jardim América e que torcia para não ter que esperar pelo coletivo por muito tempo. Ele respondeu que estava de carro e iria na mesma direção.

¾ Quer uma carona?

¾ Claro.

Enzo Felipe jogou a caixa de papelão numa lata de lixo, à entrada do estacionamento.

 

Túlio Martins observou o cartaz de Raquel Azevedo e enfiou a camisa para dentro da calça. Mesmo sem rosto, ela fazia com que se sentisse desarrumado.

Manoel Cabral estava de pé ao seu lado.

¾ Meu Deus.

¾ Acho que alguém não gosta do programa dessa moça ¾ disse Martins.

¾ Fui lá uma vez, lembra-se? Não ao programa dela; um debate que ela coordenou: “Assassinos, Policiais e a Justiça” – falou Cabral.

¾ Não vi; devia estar assistindo algum jogo ¾ disse Martins. ¾ Esses cortes são recentes ¾ falou, observando o cartaz.

Lúcio Castro esgueirou-se à frente dele e passou os dedos pelo cartaz, como um especialista.

¾ Não foi uma navalha; foi uma lâmina fina. Um canivete, talvez.

Itamar Mendonça riu.

¾ Talvez, Sherlock?

¾ Um canivete igual ao do cara que chegou morto ao hospital ¾ disse Castro.

Mendonça rodeou o banco e sentou-se. Acendeu um cigarro. O comissário Martins espreguiçou-se, tentando expulsar do corpo os últimos vestígios de sono.

¾ Já vi o bastante. Vamos embora daqui.

“Aqui” era a estação de embarque dos ônibus do Eixo Anhanguera, na Praça do Bandeirante, onde o motorista dissera aos policiais militares que Pelé Problema e dois outros jovens negros entraram no coletivo na direção oeste, às 23:26 ¾ se é que o ônibus estava no horário ¾ na noite anterior. Os detetives vinham atravessando a cidade, desde o Lago das Rosas, onde o motorista avisara a PM sobre os tiros e era o ponto onde os amigos de Pelé e também o assassino haviam desembarcado.

Tinham poucas provas materiais ¾ não tão poucas quanto em alguns outros homicídios, mas bem menos que na maioria dos casos. O veículo coletivo fornecera poucas informações: o corpo de Pelé com uma bala na cabeça; o sangue do morto; um canivete com as suas impressões, que já estavam registradas na memória do computador do Centro de Informações Criminais e em dúzias de documentos nos arquivos do Instituto de Criminalística, nas instituições de recuperação do Estado; o último centímetro de um cigarro de maconha, com uma impressão parcial no papel Colomy; em suma: alguns rastros da vítima e de seus companheiros, mas nenhum vestígio do assassino, com a exceção, talvez, de impressões parciais na porta de onde ele pulara do ônibus.

Os policiais sabiam que o assassino pulara graças a Osmar Pincel, o pichador de muros, que era até o momento a melhor testemunha. Trabalhador noturno ¾ “Eu vou para as ruas umas seis, sete noites por semanas” ¾ Pincel não se importara em continuar por ali para falar com os PMs até bem depois dos outros passageiros ¾ os que não escapuliram quando o ônibus parou na estação do Lago ¾, alegando exaustão, irem para casa, alguns deixando telefone e outros os endereços onde poderiam ser contatados para prestar outros esclarecimentos. Ele havia prontamente aberto mão de sua arte em prol de uma noite de experiências num novo veículo cultural. Quando os detetives da Delegacia de Homicídios começaram a escutá-lo, ele já havia tecido uma história lapidar.

¾ Estou bem ali sentado, cara, visualizando na minha cabeça o que eu vou fazer nessa noite; e de repente aparece esse negrão com a faca; aí ele pega a enfermeira pelo pescoço e começa a dizer que vai sair do trem e transar com ela, cara, ele e os amigos dele; aí um cara levanta e diz: “O que foi, seu babaca? O que você vai fazer? Você não vai fazer merda nenhuma, vai é sair dessa porra desse ônibus, você e esses babacas seus amigos, mas sem levar enfermeira nenhuma, falou?...”

¾ Foi isso que ele disse, Osmar ¾ interrompeu-o Martins ¾ ou essa é a sua interpretação artística?

¾ Ahn? Ah. Droga, não, não foi isso que ele disse; eu não lembro o que ele disse, não me lembro direito. Ele disse... droga, eu não me lembro. Mas é, quer dizer, é... foi mais ou menos isso que ele disse, entende?

¾ Continue ¾ disse Martins.

¾ Onde é que eu tava?... Tá bom. Pois é. O neguinho do walkman, que tá do outro lado do ônibus, vem andando por trás do cara do boné; cara, e o homem puxou o berro, cara, e aponta ele pra cabeça do neguinho e o neguinho desaparece, cara; quer dizer, ele tava ali e de repente tinha fugido. E o ...

¾ Você entende de armas, Osmar? ¾ interrompeu Cabral.

¾ Ahn? Não. Eu? Eu sou um artista, cara; não saco nada de armas.

¾ Então você não sabe se era um revólver ou uma pistola automática, nem o calibre, ou o tamanho, ou a cor...

¾ Cor? Claro, eu sei que cor era. Era preta, cara, mais preta do que o negrão. E era um revólver. Não era muito grande, não; mas também não era pequena. Mas que saco, vocês não tão com a bala?

¾ Continue ¾ disse Martins.

¾ Onde é que eu tava?... Tá bom. Pois é. O negrão agarrado com a enfermeira, cara, começou a andar de costas pra porta, porque o baú tava parado agora, sacou? E o cara do boné gritou “Ei, Pelé”, que ele sabe ser o nome do negrão porque o outro, o negro que tá perto da porta da frente falou o nome dele; chamou o cara pelo nome, pode? O merdinha. Cara, só tem uma coisa mais burra que um negro: dois negros; e a única coisa mais burra que...

¾ A minha mulher é negra.

¾ O quê? Ah, puxa, comissário, eu não falei por mal, desculpe. Eu só tava dizendo que era uma coisa meio burra pra se fazer...

¾ Continue ¾ disse Martins.

¾ Onde é que eu tava? Tá bom. Pois é. “Ei, Pelé”, o do boné grita, e o Pelé olha assim de trás da enfermeira que ele tá segurando na frente dele e leva um, cara... quer dizer, um tiro fodido bem no meio da testa, cara. Pô, você devia ver o presunto, você sabe o que eu quero dizer. E os outros dois negros, cara... desculpa, comissário... os outros dois caras, quer dizer, eles foram embora. E as portas fecham, o ônibus começa a andar; o cara do boné pega o tal Pelé, sabe, o Pelé caiu em cima da enfermeira, cara, depois de levar o tiro; pega o cara e joga ele no chão, cara, como se ele fosse feito de ar, cara...

¾ No chão do ônibus, Osmar? ¾ perguntou Cabral. ¾ Ou na plataforma?

¾ Ahn? É no chão, cara; quer dizer, no chão do trem.

¾ Continue ¾ disse Martins.

¾ Onde é que eu tava? Tá bom. Pois é. O cara do boné vai andando até a enfermeira; cara, dá um sorriso pra ela, cara, e aí ele vai até o ...

¾ Que tipo de sorriso? ¾ pergunta Martins. ¾ Você acha que ele a conhecia?

¾ Ahn? Não. Quer dizer, porra, não sei. Conhecia ela. Não, acho que ele não conhecia ela. Pelo menos eu acho que não. Eu não sei.

¾ Continue.

¾ Onde é que eu tava? Pois é...

¾ Osmar? ¾ disse Cabral.

¾ O quê?

¾ Será que você podia parar de dizer “onde é que eu tava?” toda vez que vai responder a uma pergunta?

¾ Cara, eu só tou...

¾ Detetive Cabral.

¾ Detetive Cabral. Eu só tô tentando não me esquecer de nada, sabe. Quer dizer, às vezes quando eu tô desenhando nos prédios eu me distraio, sabe, os guardas vêm, um desses seguranças, e quando eu volto a pensar eu tenho que me perguntar: “Osmar, onde é que você tava, cara?”

¾ Então o indivíduo de boné sorriu pra enfermeira, Osmar ¾ disse Martins. ¾ E a enfermeira sorriu pra ele?

¾ Ahn? Não. Quer dizer, droga, eu acho que não.

¾ E aí, o que aconteceu?

¾ Aí, o cara do boné vai pra frente do ônibus, cara, e sai pela porta; e quando eu olho, cara, ele tá rolando pela plataforma, cara. Quer dizer, o cara pulou do ônibus, cara, um pouco antes da gente deixar a estação. Ele rolou e ficou em pé, cara; parecia até que ele já tinha feito isso uma mil vezes antes...

¾ Continue ¾ disse Martins.

¾ Foi isso aí, cara. Foi tudo o que aconteceu. A gente saiu da estação e todo mundo tava gritando e berrando...

¾ Como era o assassino? ¾ perguntou Martins.

¾ Ahn? Porra, cara, ele era alto, branco. Não vejo diferença entre uma cara e outra, sabe?.

¾ Osmar Pincel... ¾ disse Martins ¾ ...você sabia que tem uma coisa nova por aí, para as pessoas que picham muros, paredes, monumentos públicos? Você não vai preso, mas também não leva só uma palmadinha. No seu caso, você ia ter que passar todos os fins de semana durante um mês limpando pichações pela cidade.

¾ Ei, comissário, até que é uma boa idéia, porque não tem mais espaço pra gente trabalhar. Você devia dar uma olhada no meu trabalho de vez em quando, cara.

¾ A única coisa, Osmar ¾ disse Martins ¾ é que agora nós não estamos falando de danos contra a propriedade. Estamos falando em dificultar uma investigação de assassinato, e aí você vai ter umas lindas paredes vazias onde trabalhar, só que não vai ser por toda a cidade; vai ser na cadeia.

¾ Ele era alto ¾ disse Osmar. ¾ Talvez 1,85m. Cabelo castanho, nem curto nem comprido. Boné Hang Loose marrom na cabeça, . Tava de blusa marrom-clara e jeans. Era velho; quer dizer, bastante acabado, o jeans. Não reparei no sapato dele; devia ser um sapato qualquer. Ele tava usando uma camiseta de malha branca. Mas, porra, meu irmão, por que você tá perdendo seu tempo? O negrão tava merecendo, cara... desculpe, comissário... o cidadão de cor tava merecendo; o do boné só deu o que ele tava pedindo! O camarada era mau, cara, com um canhão na mão!

¾ Você disse que a arma não era grande, Osmar ¾ disse Cabral.

¾ Ahn? Não, não era. Mas eu tô falando é do estilo dele. Tava pronto pra uma guerra.

¾ Então ele não acertou só por sorte ¾ disse Martins.

Osmar encarou-o.

¾ Sorte? Puta que o pariu!

¾ Como é que ele ficava em pé? Com os pés separados? Segurando a arma com as duas mãos?

¾ Pior que é; é isso aí.

Martins olhou para Cabral, que sacudiu a cabeça. Isso significava que não queria fazer mais nenhuma pergunta.

¾ Mais alguma coisa, Osmar?

¾ Ahn? Não. Bom, é. O neguinho menor, desculpe comissário, o cara menor, sabe...

¾ O que tem ele?

¾ O Pelé, cara; chamou ele de Petecão.

¾ Petecão?

¾ É isso aí.

¾ E o outro? O que estava com o walkman. Alguém disse o nome dele?

¾ Não.

¾ Onde é que você pegou o ônibus? ¾ perguntou Martins.

¾ Eu já falei, cara. Na Praça do Botafogo.

¾ Não, você não disse. E ficou bastante tempo no ônibus antes dos rapazes entrarem. E o assassino? Onde foi que ele entrou?

¾ Não sei, meu irmão. Eu te disse: tava distraído.

¾ Imaginando o que ia fazer?

¾ Certo.

¾ Mas você reparou quando os rapazes entraram.

¾ Eu senti o cheiro do bagulho. O Petecão tava fumando um. Ele quase tacou o bagulho no cara do boné, quando acabou de dar o tapa e foi dispensar a ponta.

¾ Ele quase tacou, ou jogou mesmo?

¾ Ah, cara, ele tacou. A ponta caiu perto do cara. Ele empurrou ela pro chão com o livro.

¾ Livro?

¾ É, um livro de capa mole.

¾ Você reparou no título?

¾ O que você acha que eu sou, cara? Um intelectual? Tava pensando no meu trabalho, cara. Não tava reparando em livro nenhum.

¾ Deve ser por isso que você é o rei ¾ disse Martins. ¾ Toda essa concentração...

¾ É por isso... Ei, comissário, me desculpe ter falado aquilo, sabe: que a única coisa mais burra do que um negro é dois negros. Eu não sabia da sua patroa, sabe? Bem, eu não falei por mal.

¾ Pode ir pra casa agora, Osmar ¾ disse Martins. ¾ Nós entramos em contato com você se precisarmos de mais alguma coisa. Você já deve ter dado o seu telefone a um dos policiais, mas dê também ao detetive Cabral, só para garantir.

 

O comissário Túlio Martins e o detetive Manoel Cabral eram conhecidos na delegacia como a equipe que cuidava dos casos mais difíceis. Normalmente não se envolviam com homicídios insignificantes. Mas o assassinato de Pelé Problema dentro do coletivo, apesar de todas as suas características de homicídio sem maior importância, estava sendo transformado em algo muito maior pelos jornais e estações de rádio ¾ e seria ainda maior no noticiário da TV daquela noite.

O Diário da Manhã fizera uma manchete batizando o assassino de Justiceiro. O Popular, outro jornal, comparava-o a um anjo da guarda. Além disso, a Gazeta de Notícias, em carta aberta na primeira página, convidava o assassino ¾ palavra que o jornal, aliás, não empregou ¾ para usar suas páginas como uma tribuna onde pudesse contar o seu lado da história. Teria sofrido alguma tragédia que o deixara amargurado com a falta de segurança que assolava a cidade? Ou teria agido espontaneamente, levado pelo apelo da enfermeira indefesa a falar a única língua que um canalha como Pelé Problema poderia entender? A carta também evocava a imagem de defensores fictícios dos oprimidos.

As emissoras de rádio, por seu lado, estavam procurando brechas. A história era matéria de destaque em todos os noticiários, e equipes de telejornalismo esquadrinhavam os locais do acontecimento em busca de alguém que tivesse visto alguma coisa ¾ ou simplesmente tivesse opinião a respeito.

Era uma matéria excelente ¾ do tipo homem morde cachorro, a vítima mata o assaltante. E ficava ainda melhor diante da recente declaração do secretário da Segurança Pública proclamando a vitória na guerra contra o crime. “O que parecia ¾ disse a Gazeta em seu editorial ¾, era que não só a guerra contra o crime não fora ganha, como também a defesa contra os criminosos dependia ainda mais dos próprios cidadãos.”

O governador do Estado, compreensivelmente, queria acabara com aquele rebuliço de opiniões e desmanchar a atmosfera circense criada pelos meios de comunicação de massa especializados na exploração da miséria humana. Queria uma captura, e que fosse rápida. Foi o que ele avisou ao secretário Xavier; que, por sua vez, avisou ao titular da delegacia de homicídios, Doutor Ibrahim Morelli ¾ que avisou ao seu principal auxiliar, o comissário Túlio Martins, tirando-o de um sono profundo às sete horas da manhã do sábado.

¾ Túlio, eu sei que hoje é sua folga ¾ começou Ibrahim.

¾ É minha folga ¾ disse Martins, sonolento, tentando puxar o braço direito de baixo do tronco de Maria sem acordá-la.

¾ E eu sei que lhe prometi um descanso a mais pelo seu trabalho no caso do casal de médicos ¾ disse Ibrahim.

¾ Você me prometeu um descanso a mais pelo meu trabalho no caso do casal de médicos ¾ disse Martins, soltando o braço e sorrindo ao ver, na parte de dentro do braço, a marca deixada pelo batom.

¾ Mas... ¾ disse Ibrahim.

¾ Eu ligo daqui a pouco, Morelli ¾ disse Martins. ¾ Vou fazer um pouco de café e pegar o meu caderninho. E não quero acordar a patroa.

¾ Mande lembranças a Maria, Túlio ¾ disse Morelli. ¾ E diga-lhe que eu sinto ter que lhe arrancar de casa. Pode ligar para o escritório. Vou ficar esperando.

¾ Deve ser importante ¾ disse Martins ¾ pra você estar no escritório num sábado...

¾ É uma questão política ¾ disse Ibrahim.

¾ Então, está bem ¾ concordou Martins.

Quando o café ficou pronto ¾ os pães de queijo descongelados, o copo de suco de laranja sobre a mesa ¾, Martins ligou de volta para Ibrahim; ouviu as poucas informações de que este dispunha, tomando nota na agenda. Quando Ibrahim acabou, e depois de tomar o seu café, Martins telefonou para Cabral: pensava em chamá-lo para este trabalho.

A secretária eletrônica estava ativada; Túlio Martins deixou um breve recado, pedindo a Cabral que retornasse a ligação. Martins não se preocupou em telefonar para a casa de Cabral; sabia que não havia possibilidade dele estar em casa ¾ não num sábado de manhã, depois de uma folga na sexta-feira à noite. Mas também não havia chance de saber onde estava: raramente saía com a mesma mulher mais de umas poucas vezes. Cabral dizia a Martins ¾ sempre que este perguntava o porquê dele parecer tão determinado a dormir com todas as mulheres razoavelmente jovens e atraentes da cidade ¾ que estava compensando o período da juventude: nessa época se dedicara apenas ao trabalho duro. Quando se sentisse satisfeito da diversão, estaria disposto a constituir família. Martins não dizia a Cabral que há 8 anos ouvia esta mesma história e ele nunca parecia saciado; afinal, esse assunto não era mesmo da sua conta.

Decidiu ligar para a delegacia, onde Cabral iria checar a razão de ter sido chamado; pediu à policial da mesa telefônica que dissesse ao detetive para telefonar à sua casa. Feito isto, entrou no banheiro e começou a barbear; sabia que Cabral não ia simplesmente pular da cama ¾ ele daria à moça um adeus carinhoso.

Já estava vestido e barbeado quando o telefone tocou. Antes de poder dizer qualquer coisa, Cabral exclamou:

¾ Mas que merda, Túlio.

¾ Desculpe, colega ¾ mas é assim mesmo; somos os melhores...

 

Túlio Martins pesava cem quilos (Maria regulava a balança na marca dos oitenta e quando faziam amor deslizavam um contra o outro, como baleias alegres); o cabelo escuro e encaracolado, independente do quanto estivesse comprido ou curto, sempre parecia estar do mesmo comprimento ¾ e nunca penteado, não importava o quanto gastasse num corte. As roupas que usava brigavam entre si, mais do que combinavam.

Manoel Cabral era baixo e moreno; cabelo cuidadosamente penteado, roupas alinhadas. Tinha uma maneira cuidadosa de nunca deixar que seu rosto revelasse o que estava sentido até ter certeza de que era o sentimento certo para a situação. Se Martins era, às vezes, desengonçado em sua maneira de fazer uma investigação, Cabral era exageradamente cuidadoso. Embora não fosse exatamente algo que as Academias de Polícia ensinassem, aquela era uma mistura perfeita de estilos, e os resultados eram impressionantes: mais captura e crimes solucionados. Isso, além do número elevado de condenações a partir das suas investigações, prendendo suspeitos de atos que marcaram a memória dos seus contemporâneos. Muitos seqüestros e homicídios foram resolvidos por meio das suas ações.

Eram tão eficientes que tinham sido dispensados da maioria dos procedimentos habituais. Faziam seus próprios horários, montavam suas semanas de trabalho e, embora operassem numa Delegacia com atuação específica, não ficavam restritos aos seus limites. Como consultores, atuavam em diversos outros casos em andamento, envolvendo investigações aparentemente insolúveis. Isso, diziam, ajudava a ampliar a prática dedutiva, embasando com consistência os seus argumentos para chegar à uma conclusão nos casos mais difíceis. Eles iam onde eram necessários. Esse fato poderia ter despertado rivalidades entre as outras equipes, mas Martins e Cabral nunca abusavam; não passavam por cima dos outros nem interferiam nos procedimentos tradicionais. Não tentavam funcionar como chefes, mas como profissionais com habilidades especiais.

A presença deles numa investigação era o suficiente para incentivar outros detetives ¾ principalmente os mais jovens ¾ a tentar agir com mais determinação. Por exemplo: mesmo depois de Martins dizer que já vira o bastante na plataforma da estação do transporte coletivo da Praça do Bandeirante, Lúcio Castro, cheio de adrenalina por ter sido escolhido para trabalhar com Martins e Cabral, mergulhou repentinamente sob um banco ¾ no qual Itamar Mendonça estava sentado, fumando ¾ e emergiu segurando uma caixa de fósforos de papelão,

¾ Isso é seu, Itamar? ¾ perguntou Lúcio.

Mendonça, um policial gordo e preguiçoso, incapaz de ser estimulado por qualquer coisa a não ser a proximidade de sua hora de almoço ou o final de seu turno, abanou a cabeça.

¾ Ficou maluco, Lúcio? Eu não fumo... ¾ e mostrou a binga.

¾ Suponhamos, comissário ¾ ele segurou a caixa de fósforo com o rótulo exposto, bem visível a propaganda de quem oferecia o brinde ¾ que o garoto que estava fumando o baseado... Petecão, foi o nome que o tal pichador disse que ouviu... suponhamos que ele tenha acendido o baseado aqui... ¾ interrompeu, abaixando-se para catar inúmeros palitos de fósforo de papelão já riscados, do solo ¾ e esta caixa...

Martins sorriu.

¾ Nós já sabemos que eles pegaram o coletivo aqui, Lúcio. O motorista tem certeza disso, e um monte de passageiros também, incluindo o pichador, Osmar Pincel.

¾ O que não é nenhuma grande surpresa ¾ disse Itamar Mendonça. ¾ Esse é o ponto mais próximo do salão de bilhar que o morto freqüentava diariamente com os seus amigos.

¾ Mas o morto não pode nos dizer nada sobre o assassino; os caras que estavam com ele podem. Essa caixa de fósforos tem o endereço de um armazém, “Empório”, no Setor Marista, e é lá que iremos procurar esse tal de Petecão.

Túlio Martins sentiu que Lúcio estava tenso, e pensou em como poderia lhe explicar a importância relativa daquela evidência. Ele também já se sentira entusiasmado assim, procurando por cada pecinha de um quebra cabeças quando apenas a parte central era importante.

¾ Nós vamos encontrar os amigos do Pelé, Lúcio. Já sabemos o apelido de um deles; sabemos o nome e o endereço do Pelé. Vamos falar com a família dele, perguntar na vizinhança. Vamos pegar eles. Se isso vai ou não nos ajudar a pegar o assassino eu não sei; mas vamos pegar eles... Isso que você está fazendo é um bom trabalho, só que fora do alvo. Estaria certo se nós não soubéssemos de nada: nenhum apelido, nenhum endereço, nada. Aí o Armazém Empório ia ser um ótimo lugar para investigarmos.

Martins observou o olhar atento de Lúcio e concluiu:

¾ Itamar vai pegar no seu pé por causa disso durante um mês. Não ligue. Isso só quer dizer que você está concentrado no seu trabalho, se esforçando; e é preferível ser assim, a agir como ele faz: apenas pegar o pagamento no final do mês. O Cabral também vai pegar no seu pé, mas por outra razão. Vai pegar porque quer que você seja esforçado, mas onde interessa e quando interessa. Se ele não lhe dissesse nada seria por você estar deixando de ver as coisas bem debaixo do nariz; então ele o trataria como imbecil. Por isso, não ligue quando o Itamar falar qualquer coisa, e se alegre com o interesse de Cabral.

¾ Entendi, comissário. Obrigado.

Martins aproximou-se de Cabral, que estava examinando o cartaz cortado de Raquel Azevedo.

¾ Você acha que isso quer dizer alguma coisa, Túlio?

Martins começou a dizer não, mas logo disse “talvez...” e pareceu olhar à distância por uns instantes, tentando imaginar o que poderia ter acontecido.

¾ Suponhamos que o Pelé tenha cortado esse cartaz. Talvez fosse um dos outros; mas é provável que tenha sido o Pelé. Ele estava esperando o ônibus, viu o cartaz, ficou motivado com ele. É um cartaz provocante, não é? E deixou o cara maluco. Ela não é uma mulher que ele pudesse ter; mas é o tipo de mulher que um cara como ele sonha em ter. Então ele corta o cartaz; depois pega o ônibus e vê uma enfermeira nova, bonitinha. Fica excitado, passa dos limites...

E leva um tiro ¾ disse Cabral.

Martins cruzou os braços.

¾ É. Mas de quem?

Era muito mais fácil fazer especulações sobre o Pelé Problema do que sobre o assassino. Deu as costas ao cartaz e deu dois passos em direção a Itamar.

¾ Itamar, ligue para as pessoas que integram a relação de passageiros testemunhas do crime elaborada pela PM. Pergunte a eles se viram onde o assassino pegou o ônibus.

Martins pôs-se a pensar sobre o que teria feito o cara do boné, após sair o ônibus. Não achava que tivesse ido atrás dos outros jovens; seria tolice. Ele tinha que sair dali o mais rápido e discretamente possível, pegar um táxi ou ir embora a pé mesmo.

¾ Ah, Itamar... Verifique os pontos de táxi próximos daqui. Veja se alguém viu o assassino; se pegou um taxi, ou se alguém suspeito foi visto perambulando pelos profissionais estacionados nas proximidades, após o barulho do tiro. Cheque os registros de corridas dos radio-táxis...

¾ Registro de corridas? ¾ gemeu Itamar. ¾ Comissário, pelo amor de Deus, era sexta-feira à noite. Você sabe quantas chamadas são feitas aos serviços de rádio-taxi para esse trecho do centro numa noite dessas?

   ¾ Não ¾ disse Martins. ¾ Mas quando terminar de checar os registros você me conta. E eu não estou dizendo pra fazer todo esse trabalho sozinho; designei cinco caras e mais os auxiliares que você precisar; é só sair em campo.

Martins virou-se para Lúcio Castro que estava se divertindo ao ver Itamar Mendonça recebendo ordens.

¾ Lúcio, você ligou para a perícia, como eu pedi? O que temos sobre a bala?

Cabral agora estava sentado no banco, e Martins sentou-se ao lado dele.

¾ Pode falar, Manoel, porque eu estou com a sensação de que você está pensando o mesmo que eu.

Manoel Cabral passou a mão atrás do pescoço.

¾ Estou pensando em fazer alguma coisa a respeito dessas dores na nuca.

Martins riu.

¾ A noite ontem foi dura?

¾ A noite, nem tanto; o pior foi o telefonema pela manhã...

Martins tornou a rir.

¾ E a garota que estava com você? É alguém que eu conheço?

Agora foi a vez de Cabral rir.

¾ Você me conhece, Túlio. Cada noite é uma estrela diferente.

¾ Eu queria mesmo lhe perguntar, Manoel. Você anda tomando viagra ou coisa parecida? Alguma droga para dar conta de tanta atividade extra?

Cabral sorriu irônico.

¾ Até agora não precisei de nada disso. Você sabe como é. A gente começa a se tocar e por aí vai rolando naturalmente... mas por que? Você está com algum problema dessa natureza...?

Martins desconversou, sabendo que era bobagem ficar provocando Cabral. Era bem humorado e rápido nas respostas. Ficariam horas dizendo bobagens, passando o tempo. E Cabral sentiu que era hora de dizer o que realmente pensava.

¾ Calibre 765. Uma arma poderosa. Arma de profissional.

Martins balançou a cabeça afirmativamente.

¾ Exatamente o que eu estava pensando.

¾ O pichador também teve esta impressão. Então talvez nós tenhamos aqui muito mais do que parece ¾ disse Cabral. ¾ Pode ser um profissional indo ou voltando do seu serviço. Está no trem, três marginais entram e começam a causar problemas para a enfermeira. Não gosta de marginais, tem uma queda por enfermeiras; tenta convencer os caras a pararem, segundo Osmar Pincel, mas eles não querem ouvir. Então faz a única coisa que sabe quando alguém se recusa a fazer o que ele quer.

¾ Foi o que pensei.

¾ Bom, existe uma outra possibilidade ¾ disse Martins.

¾ É ¾ concordou Cabral. ¾ O assassino pode ser um policial. E foi embora porque não queria submeter-se ao constrangimento de ser identificado, responder a um processo e talvez até ser julgado, atraindo a atenção e a curiosidade pública sobre a sua vida.

Martins balançou a cabeça, concordando.

Cabral voltou a sorrir.

¾ Se ele não for um policial, e sim um profissional, vai estragar a festa dos repórteres que estão tentando transformá-lo num misto de anjo e vingador: herói do cinema.

Martins concordou. Depois disse:

¾ Só ma coisa me faz achar que o assassino não é um profissional: ele estava com um livro.

¾ É. Nunca conheci um matador profissional que se interessasse por livros ¾ concluiu. ¾ Mas a gente acaba pegando ele. O crime não compensa, não é mesmo? ¾ e riu novamente, pensando o quanto o crime compensava, na maioria dos casos...

 

No alto do morro da Serrinha, Cabeça resumiu a situação para o amigo:

¾ Ou a gente sai fora, cara, ou vai pra cadeia. Eu não vou pra cadeia; por isso tô saindo fora. Tenho um tio em Brasília.

Petecão olhava além da cidade, cinzenta, à distância. Estava com dor de cabeça, sentindo frio e precisando dormir. Apesar disso, podia perceber a sutileza do seu dilema: falar qualquer coisa seria o mesmo que dizer que tinham estado lá. A não ser ...

Petecão bateu no ombro de Cabeção com as costas da mão.

¾ Ei, Cabeção. Já saquei, cara. Escuta: a gente não diz pra polícia que tava com o Pelé; diz só que tava no baú, voltando pra casa.

Cabeção levantou-se de uma vez da pedra enorme em que estivera sentado. Ele parecia nu, sem o walkman.

¾ A enfermeira, cara. Os outros passageiros. Eles também vão dizer que a gente era só passageiro? Merda!

¾ Bom, então não. Ei... olha, Cabeção. Escuta só: a gente liga pra eles e diz como era o cara que apagou o Pelé.

Cabeção subiu até o ponto mais alto da Serra.

¾ Eles não vão me achar, cara. Não vou deixar que eles me peguem. Vou sair fora. Vou dar um tempo, cara. Vê se toma cuidado; eu vou pra Brasília, mesmo!

¾ Ei, Cabeção, espera aí... O seu tio... você acha que dá certo?

Cabeção deu de ombros.

¾ Não sei, cara.

Petecão levantou-se. A cidade fazia com que ele se sentisse minúsculo. Mas ainda assim ela se lançava longe dali. Como seria viver num outro lugar? Com o amigo era diferente: Cabeção estava cheio de dinheiro ¾ trabalhava numa loja de artigos esportivos do Shopping Flamboyant e recebera o pagamento do mês na sexta-feira; era o suficiente para chegar a Brasília e procurar trabalho.

¾ Ei, Cabeção!

Mas Cabeção já estava descendo a Serrinha. Acompanhou-o. Como seria simples, pensou Petecão, se ele morresse e acabasse tudo, pondo fim à ansiedade. Petecão imaginou como seria fácil, se apenas pulasse na frente de um carro e morresse.

Chegaram à avenida que contornava o pé da serra, ainda em silêncio. Cabeção esperou até a pista ficar vazia e pulou na estrada. E quando Petecão parou na divisão de concreto, esperando para seguir atrás dele, entendeu: não seria simples pular na frente de um carro. Seria mais difícil do que qualquer coisa que já tivesse feito: para isso teria que agir por conta própria. E não havia ninguém para empurrá-lo ¾ a não ser que fosse o homem de boné, com os olhos que sabiam de tudo.

 

Gabriela estava de pé, imóvel: tentando ver o futuro. Não conseguiu; mas mesmo assim virou e subiu correndo as escadas do Shopping Bougainville, atrás do homem de boné de couro que passou por ela com um jornal na mão. Alcançou-o. Passou à sua frente e começou a andar de costas.

¾ Oi... lembra de mim?

Ele parou e olhou-a cuidadosamente. Nos seus olhos cinzentos havia uma centelha de reconhecimento ¾ não dela, mas de sua necessidade.

Para Gabriela, aquele olhar era tão familiar quanto seu próprio rosto refletido no espelho.

¾ Certo. O Shopping das Delícias. Ontem à noite. Volta lá outra vez que eu lhe pago a cerveja que você não terminou. Como é que está a sua mão ? Ah... meu nome é Gabriela.... e o seu?

Ele sorriu. Teve que sorrir: gostou dela.

¾ Fausto.

O nome pareceu estranho aos seus próprios ouvidos. Não parecia falso, mas... antigo.

Gabriela enfiou as mãos nos bolsos de trás de suas calças Levi’s, um presente que dera a si mesma. Teve que inclinar a cabeça para trás a fim de olhá-lo nos olhos. O sol bateu em cheio no seu rosto. Ela se sentiu indolente.

¾ Fausto... o que mais?

¾ Seabra. ¾ Ele passou a mão sobre os lábios ao dizer isso, moldando-os a uma aproximação da verdade.

Bonito nome. Bonitos olhos. Rosto bonito. Bem vestido ¾ descontraidamente, como ela gostava que os homens se vestissem. Estava usando uma camisa azul clara, confortável. Gabriela se sentiu como a personagem de um filme, como a mulher de uma de suas músicas prediletas ¾ de Rita Lee.

¾ Mora por aqui?

¾ Não.

Ele diria onde estava morando quando quisesse que ela soubesse. Ela estava começando a conhecê-lo.

¾ Sou de fora. Vim para cá a trabalho; ver o campus da Universidade Federal. E ontem andava pelas livrarias do centro, à procura de um livro. Um colega freqüentou a Universidade e falava muito sobre a cidade. Estou aproveitando para conhecer melhor.

¾ Também estou na universidade. E dirijo uma companhia de teatro infantil, sabe? Teatro para crianças é apaixonante.

Fausto sorriu.

¾ Parece interessante.

¾ Se você gosta de trabalhar com atores ¾ disse Gabriela. ¾ Às vezes, são piores do que crianças. É “eu, eu, eu”, o dia todo. Mas ainda não é o suficiente para garantir minha sobrevivência; estamos começando. Como as pessoas bebem, sem se preocupar em saber como está a economia, fui para uma escola, e aprendi a fazer batidas, coquetéis, drinques. Sei fazer alguns que você nunca ouviu falar. Ei... vamos lanchar no Bob’s? ¾ mudou de assunto, bruscamente, como se lembrasse de algo muito importante. ¾ Estou com fome ¾ concluiu naturalmente.

Fausto deu uma olhada no sol por cima da cobertura transparente do 3º piso do Shopping. Surpreendeu-se ao ver a intensidade do seu brilho; o calor não o estava aquecendo, não estava afastando o arrepio gelado que sentia entre as omoplatas. Talvez ficar algum tempo ao lado daquela mulher fosse a coisa certa. Quando fora a última vez que lanchara só com uma garota, naquela cidade? Nos anos 70? Ele quase sorriu, porque fora mesmo nessa época.

Lembrou-se que comera pizza com Liebe, loura ¾ como essa Gabriela ¾ magra, clara e bonita. Certamente a mesma idade: 17. À época estava esmagado pelo peso da insegurança; naquela tarde deveria retornar à Brigada de Pára-quedistas, em Brasília, e ouvira rumores de que iriam partir no final da semana para uma operação contra um foco de guerrilha no Vale do Araguaia. Ficaram sentados no restaurante, entrelaçando as mãos geladas e morrendo de medo. Era ele quem ambos imaginavam que poderia morrer; foi ela quem morreu, ajudada por uma seringa, em cima de um colchão vazio em um hotel barato, num barraco em Planaltina.

Gabriela tocou no braço de Fausto. Segurou a mão dele e levantou-a, examinando com delicadeza.

¾ Está desinchando. O que você estava fazendo? Lutando Karatê ou coisa parecida?

Fausto sorriu e resistiu ao seu puxão. Não dissera nada a ela, e precisava dizer-lhe tudo; mas não havia tempo e nunca haveria.

¾ Não vou ficar muito tempo por aqui. Quando for embora, não vou mais voltar.

Gabriela sorriu.

¾ Um homem honesto... Vai ser curto, então. Mas curto é melhor do que nada. Eu moro do outro lado da 85. Vou levar você lá1

Enquanto tentava andar no passo dela, Fausto jogou o jornal num cesto de lixo.

¾ Ei! ¾ disse Gabriela. ¾ Queria ler sobre o assassino do ônibus. Ouvi alguma coisa na TV.

Mas Fausto não deixaria que ela voltasse.

¾ É só o que você ouviu na TV; nada pra se ler com fome.

 

Enzo Felipe levou um susto quando a porta do elevador se abriu: Raquel Azevedo estava na sua frente, usando um vestido de noite longo e preto. Sorriu ao perceber que era apenas uma fotografia, como milhares de outras espalhadas pela cidade, em painéis de anúncio e nos pontos de ônibus. Estava montada numa moldura branca e pendurada na parede do saguão do lado de fora do apartamento de Raquel ¾ o único apartamento no vigésimo segundo andar do Edifício Tropical, um dos mais privativos no setor Bueno. O chão do saguão era acarpetado de branco. As paredes e a porta do apartamento estavam pintadas de branco. Quando a porta do elevador se fechou, Enzo viu que também era branca.

Enzo esperou ao lado enquanto o zelador enfiava uma chave na fechadura de cima. Ele girou e então escolheu outra entre as dezenas de chaves em seu chaveiro, enfiando-a na fechadura de baixo. Antes de movê-la, olhou por cima do ombro para Enzo.

¾ Tem certeza que não há nenhum problema? ¾ disse o zelador. Ele era cinzento: cabelo grisalho, a pele cinzenta, calças e uma camiseta que, de tão velha, adquirira uma tonalidade cinza. Só os seus sapatos eram pretos; mas estavam cobertos por uma poeira fina de asfalto.

¾ Absoluta ¾ disse Enzo Felipe. ¾ A Srta. Raquel me pediu para vir pegar umas coisas pro programa dela. Está muito ocupada para vir aqui.

O zelador sacudiu a cabeça, como se fosse a resposta errada.

¾ Eu já falei: ela não saiu hoje de manhã. O porteiro da noite viu ela entrar à uma hora... nós temos uma lista de moradores e anotamos quando eles entram e saem, por questão de segurança... mas o porteiro do dia não viu ela sair; ou seja: não saiu.

Enzo não disse a ele que entrara pela portaria sem ser impedido e ido direto até o apartamento do zelador, nos fundos do andar térreo, sem que um único porteiro ou qualquer outra pessoa lhe perguntasse o que queria. Ele apenas disse:

¾ Já lhe mostrei o bilhete da Srta. Raquel. Será que não dá pra pegar as coisas logo?

Queria acabar com aquela missão o mais rápido possível: com certeza que alguma coisa estava errada.

 

Apesar de sábado ser seu dia de folga, ninguém no Canal 33 conseguia entender porque Raquel Azevedo não estava na emissora logo pela manhã, coordenando a cobertura do assassinato no ônibus do Eixo Anhanguera.

Flávio Bezerra, seu produtor, não conseguia entender aquilo: recebera um telefonema de Raquel à uma e meia da manhã; ela escutara no rádio, a caminho de casa, as primeiras reportagens improvisadas sobre o assassinato, e estava quase fora de si de alegria.

¾ Escuta, Flávio ¾ ela dissera ¾ ligue na Rádio K. Houve um assassinato no Eixo Anhanguera. Você se lembra das declarações do secretário Xavier: havia uma guerra contra o crime nos ônibus do transporte coletivo, mas acabou. Eu quero uma equipe no local. Quero que eles saiam agora, e não pela manhã. Mande a melhor equipe filmar tudo o que se mover. Ah, e quero um repórter com garra nessa matéria. Vamos dedicar o programa inteiro a ela, se for preciso. Com testemunhas oculares, policiais, políticos. E também a porra do secretário; quero ele desta vez. Se não quiser falar, manda uma equipe cercar o prédio da secretaria até ele mostrar a careca bonitinha. Você junte todo o material que o nosso pessoal conseguir.

¾ Mais alguma coisa? ¾ perguntara Flávio Bezerra.

¾ Sim. Eu quero o Afonso Borges fora do programa imediatamente.

¾ Vamos conversar sobre isso na segunda, Raquel... tá bom?

¾ Ainda vou querer que ele saia na segunda. Não volto atrás nisso. Ou ele vai embora, ou eu saio. Tá certo?

¾ Bem, então você não quer que eu o chame para esse trabalho ¾ disse Bezerra.

¾ É isso; todos, menos ele ¾ dissera ela.

E todo mundo, menos Afonso Borges estava na emissora ¾ ou na rua ¾ na manhã do sábado, investigando a matéria; todos, menos Raquel Azevedo.

Bezerra encarregou Enzo Felipe de telefonar de meia em meia hora para a casa dela. Todas as vezes em que telefonou, foi atendido pela secretária eletrônica. Finalmente, às 23:15, Bezerra foi ao escritório de Raquel e no seu computador digitou um bilhete no formato personalizado; destinou-o ao zelador do prédio, dizendo que esquecera um material de que o programa necessitava; e pediu-lhe que acompanhasse o portador, deixando-o pegar os documentos e trazendo para ela. Bezerra assinou em nome de Raquel, tentando reproduzir fielmente a sua assinatura, mas apenas se aproximou de sua letra grande e retorcida.

¾ E se o zelador me perguntar por que ela não me deu as chaves? ¾ perguntou Enzo Felipe a Bezerra.

¾ Diga que ela não confia em você e pediu a ele também que o vigiasse.

 

O zelador girou a chave de baixo e empurrou a porta do apartamento.

¾ Está sem a corrente ¾ disse Enzo. ¾ Ela deve ter saído.

¾ Se tivesse saído o porteiro teria anotado a sua saída ¾ insistiu o zelador.

Enzo deu um suspiro.

¾ Posso entrar?

O zelador deu um passo para o lado e deixou que ele entrasse; mas assim que Enzo pôs o pé do outro lado da porta, agarrou-o pelo braço.

¾ Vem cá, porque a Srta. Azevedo não te deu a chave dela? Por que ela te deu esse bilhete pra me entregar?

¾ Ela não confia em mim ¾ disse Enzo, incapaz de olhar nos olhos do zelador. ¾ E quer que você me vigie.

O zelador riu e deixou Enzo passar pela porta.

Sentiu uma onda de vertigem quando entrou. As janelas ficavam mais próximas da porta do que poderia esperar, e se sentiu como se estivesse entrando no espaço. A vista da janelas ia do teto ao chão e dava para o Parque Vaca Brava ¾ e até mesmo do Lago das Rosas, situado à distância, no setor Oeste.

Com exceção do chão brilhante de tacos de madeira corrida, tudo era branco: banquetas, cadeiras, tapetes, luminárias de chão, lâmpadas, mesas de canto cilíndricas e uma mesa de centro. Nas paredes, quadros: um abstrato e um nu feminino em tamanho real, visto de costas. O telefone numa das mesas de canto era branco.

O corpo nu de Raquel Azevedo era branco também. Seu cabelo cobria o rosto. As unhas estavam pintadas de prateado. A bala deixara um buraco no seio esquerdo. O sangue já havia parado de jorrar de seu corpo há muito tempo e formava uma poça vermelha grudenta no assoalho.

 

Lilian Velasco passou a manhã de sábado indo a todas as livrarias do centro da cidade: queria ter certeza de que cada uma recebera vários exemplares do seu livro e o estava expondo de forma visível.

Mesmo quando os exemplares eram suficientes e a disposição bem escolhida, Lilian pedia para falar com o gerente ¾ e o fazia alto o bastante para ter certeza de que os compradores ouviriam seu nome

Inevitavelmente, assim que acabava de agradecer ao gerente pela atenção, alguém vinha a ela com um exemplar do livro, pedindo que o autografasse. E as pessoas lhe agradeciam por ter posto em palavras o que elas sentiam ¾ eram todas mulheres! ¾ mas nunca tinham conseguido expressar.

O editor de Lilian planejara um extenso circuito publicitário para promover o livro, marcado para começar dali a duas semanas, próximo à época da data oficial de publicação. Mas ela sabia que a maioria das lojas punha os livros na prateleira assim que recebia o carregamento; e que uma certa dose de publicidade pessoal seria indispensável naquele momento. Também sabia que havia uma diferença entre esperar na fila para falar com um autor dando autógrafos numa mesa e ficar cara a cara com esse autor no corredor de uma livraria. Lilian queria que seus leitores a vissem como uma amiga ¾ e como uma amante.

Era essa a mensagem de seu livro, intitulado Paixões, aclamado pela imprensa especializada como um dos livros mais interessantes e controvertidos dos últimos anos. A mensagem poderia ser simplificada em uma tese: os homens eram uma etapa superada no relacionamento das mulheres, que deveriam deixar de insistir em procurar neles o amor e a confiança idealizadas ao longo dos séculos; deveriam, isso sim, procurar amizade e amor exclusivamente em outras mulheres.

Lilian Velasco não era, como ressaltava na introdução de Paixões, uma lésbica por tendência; era uma heterossexual para quem o heterossexualismo deixara de ser viável. Também não estava sugerindo, frisava ela, que as mulheres abrissem mão de seu papel de geradoras de filhos, embora argumentasse que os avanços científicos tinham lançado uma nova luz sobre esse papel. O sêmen era necessário para a reprodução ¾ os homens, não. E em muito breve, a pesquisa sobre clones eliminaria até esse inconveniente.

Depois de ir à Livraria Cultura, Lilian chamou um táxi e voltou ao seu apartamento. Apesar de ser sábado, queria trabalhar algumas horas no livro que estava escrevendo: um romance baseado em suas experiências. Já estava quase terminando e ansiosa por entregar os originais ao editor antes que o exaustivo circuito publicitário começasse.

Lilian quase passou direto pela caixa do correio, pois não queria que contas ou cartas a atrapalhassem. Mas estava curiosa para saber se Marta recebera sua carta e o que tinha a dizer sobre ela. Assim, abriu a caixa e pegou a correspondência.

Havia, surpreendentemente, pouca coisa: uma conta da companhia telefônica, um pedido de levantamento de fundos de uma entidade assistencial, um aviso da revista Veja avisando que o prazo de sua assinatura estava prestes a acabar, e um envelope pequeno sem remetente. Nenhuma notícia de Marta, nada sobre o que ela acharia de Lilian ficar em sua casa quando fosse ao Rio de Janeiro.

Lilian colocou a conta telefônica no bolso de seu conjunto azul-marinho, jogou o pedido de contribuição e o aviso da Veja no cesto de lixo que o zelador providencialmente pusera perto das caixas de correio, e abriu o envelope sem identificação.

Continha um pedaço de papel dobrado, com poucas palavras impressas: você será a próxima.

¾ Serei a próxima o quê? ¾ disse ela em voz alta, amassando o papel e o envelope e jogando-os na lata de lixo. Subiu as escadas até seu apartamento de fundos no segundo andar, pensando que talvez ligasse para Marta ¾ não agora, mas quando tivesse terminado de escrever.

 

Íris Morais olhou com raiva a fotografia de seu irmão. Era uma fotografia antiga, na qual Carlos, o Pelé Problema, ainda era uma criança; vestia uma roupa de primeira comunhão e exibia um meio sorriso nos lábios. Os seus olhos pareciam advertir ao fotógrafo para não tentar conseguir nada além disso.

¾ Já foi tarde! Meu irmão era um animal... Como é fácil pra mim falar nele usando os verbos no passado.

¾ Bom... ¾ disse Martins. ¾ Mas o caso, Srta. Mendes, é que alguém o matou; e isso é contra a lei, fosse ele um animal ou não.

Ela bufou e inclinou a cabeça na direção da sala de jantar; sua mãe, alguns vizinhos e um padre lamentavam-se num cântico.

¾ Vocês deviam estar ali. Para eles, crime é o Carlos ter morrido sem extrema unção. Meu Deus, que mundo: um homem ajuda uma mulher inocente, livra o mundo de um inseto, ou pior, de um vírus; e vocês querem puni-lo!

¾ Só prender ¾ disse Cabral. ¾ Nós não punimos ninguém.

¾ Mesmo assim, é uma perda de tempo.

¾ Talvez.... ¾ disse Martins ¾ mas acontece que suspeitamos que o matador do seu irmão é um assassino profissional. Achamos que esse foi uma situação em que um indivíduo envolvido na realização de um crime não consegue realizá-lo devido a outro indivíduo que age ainda mais criminosamente.

Íris Mendes deu uma risada teatral, pondo uma das mãos no rosto.

¾ Será que você não quer assistir à minha aula qualquer dia desses, comissário? Dou aula de comunicação e expressão numa escola da rede estadual. Meus alunos escrevem e lêem sobre todos os assuntos. Com certeza seria interessante saber especialmente a opinião das garotas acerca do verdadeiro significado de frases como “indivíduo envolvido na realização de um crime” quando se está falando de um tarado, um animal, um estuprador.

Martins desviou os olhos de uma cena de presépio que chamara sua atenção enquanto Íris Mendes falava. Alguém desenhara um bigode, a caneta, no Menino Jesus, alterando completamente o espírito da cena; os reis magos pareciam mafiosos vindo pedir uma ajuda ao pequeno chefão.

¾ Srta. Íris, eu sei sobre o que você está falando. “Uma massa de palavras em latim cai sobre os fatos como neve macia, atenuando os contornos e cobrindo os detalhes”. Também já li alguma coisa. Mas no tipo de trabalho que fazemos, vemos um monte de coisas horríveis. Chamá-las pelo verdadeiro nome o tempo todo é monótono e cansativo. Então usamos esses... eufemismos, que nos ajudam a não enlouquecer. Nós vemos lixo como o seu irmão, como você não chegou a dizer, todo dia. E é duro, no fim de um dia difícil, ter de encarar o fato de passarmos tanto tempo enfiados no lixo até a orelha.

Íris Mendes tentou disfarçar um sorriso mas não conseguiu. Cabral sorriu também. Martins prosseguiu:

¾ O homem que matou Carlos pode ser alguém que já matou antes e que vai matar outra vez. Gostaríamos de por um ponto final nessa matança. Você não tem que pensar nisso como justiça, vingança ou qualquer coisa, mas nos ajudaria muito se nos falasse sobre os amigos do seu irmão, porque eles talvez possam nos dizer alguma sobre esse indivíduo. Especialmente sobre um rapaz chamado Petecão.

¾ Eles não vão procurar vocês, certo? Também são culpados de alguma coisa, não são? Tentativa de estupro ou...

¾ Ninguém é culpado de nada, a não ser que seja condenado ¾ disse Cabral. ¾ Mas eles podiam ser acusados de agressão, com uso de armas e até tentativa de estupro.

¾ Mas a pena seria menor se eles falassem do homem que matou o Carlos? ¾ perguntou Íris Mendes.

¾ Se você quer saber se seria possível diminuir as acusações contra eles em troca do que sabem a respeito do assassino, a resposta é que o promotor de Justiça certamente faria um trato com eles ¾ respondeu Martins.

¾ Pois eu queria vê-los na cadeia ¾ concluiu revoltada com a lembrança dos amigos do irmão.

¾ Se eles continuarem a andar com tipos como o seu irmão, com certeza acabarão lá ¾ disse Martins.

Sua falta de tato pareceu ofendê-la, mas depois de um instante ela relaxou e começou a bater com a ponta da unha nos dentes.

¾ Só estava tentando dizer... Não acho que eles deviam sofrer menos por aterrorizar uma mulher inocente, só porque vão dar o nome do assassino do meu irmão. Acho o machismo a pior coisa do mundo; eu sofro com essa coitada, e todas as mulheres sofrem com ela.

¾ Acho que você está certa. De qualquer maneira, não sei se os amigos de Carlos vão nos dar o nome do assassino. Achamos que nem eles nem o seu irmão conheciam o cara. O máximo que podemos esperar é uma descrição dele. Os outros passageiros também pensam como você; acham que o assassino devia ser perdoado. Estão com dificuldade para lembrar a aparência dele. Mas os amigos do seu irmão estavam do outro lado do cano, como ele. Existe uma grande possibilidade de que se lembrem bastante bem do cara que estava apontando a arma para eles.

Sem virar a cabeça, Íris Mendes olhou para a porta da sala de jantar e levantou o indicador, demonstrando sua suspeita de que estavam sendo ouvidos.

¾ Petecão ¾ disse Íris ¾ é como eles chamam Roberto Amaral. Ele mora neste prédio, no terceiro andar, com a mãe Provavelmente eles estavam com o Cabeção. Eu não sei o nome, mas mora em cima de um armazém na esquina...

¾ O Empório?

Ela fez que sim com a cabeça, observando sem comentar que ele já conhecia bem a vizinhança.

 

A mulher os recebeu com aparente felicidade.

¾ Que bom vocês terem vindo logo ¾ disse a mãe do Cabeção.

¾ Ahn... O que a senhora quer dizer com isso? ¾ perguntou Cabral.

¾ O meu filho desapareceu. Acabei de telefonar para a polícia comunicando que ele sumiu e vocês já chegaram!

¾ Bem, podemos entrar e conversar um pouco, por favor, dona? ¾ disse Cabral.

 

Martins tocou a campainha e deu um passo para trás, olhando a janela do segundo andar.

Um homem de camiseta pôs a cabeça para fora da janela.

¾ Sim?

Francisco César? ¾ perguntou Martins.

O homem apontou para o peito com o polegar.

¾ Seu filho.

O homem deu de ombros e começou a praguejar.

Martins levantou sua carteira de identificação, com o emblema da polícia em relevo, e guardou-a novamente.

O homem saiu da janela e em seu lugar apareceu uma mulher.

Você quer falar com o Chico?

¾ Sim ¾ disse Martins.

A mulher não sabia onde o Cabeção estava. Ele não voltara para casa na noite anterior, embora isso fosse comum ¾ era sexta-feira. Mas não fora trabalhar naquela manhã, o que era estranho. Ele adorava trabalhar na loja de artigos esportivos e sonhava em ter a sua própria loja um dia. O gerente telefonara às dez horas para perguntar pelo Chico e novamente ao meio-dia para dizer que ainda não aparecera.

¾ Obrigado ¾ disse Martins.

  

Isabel Carajá era tão frágil que mal fazia volume sob o uniforme do hospital. Ela falava baixo e Martins teve que se sentar na beira da cadeira, como um músico de câmara.

¾ Estou com muito medo. Vocês não conseguem entender isso?

Martins olhou-a com carinho, como se tivesse trazido um bichinho de brinquedo para alegrá-la.

¾ Claro, entendemos, Isabel; e é por isso que já oferecemos proteção policial a você. Mas aqueles dois imbecis não são razão pra você ter medo. Já cercamos a casa deles. Terão que voltar para casa alguma hora, e nós os pegaremos. Mesmo que não voltem, o nosso pessoal nas ruas está alerta. Sabemos os nomes deles. Fique tranqüila.

Ela virou o rosto para o outro lado.

¾ Não quero saber o nome deles.

Martins chegou sua mão mais perto.

¾ Isabel... O homem que atirou no Pelé ... você deve ter visto bem o rosto dele.

A enfermeira continuou afastada, aparentando desinteresse pela conversa.

¾ Não. Eu estava de olhos fechados ¾ fechou os olhos, como demonstração ¾ com muito medo. Ele era... um homem. Só tenho certeza disso.

Isabel observou discretamente como os dois estavam reagindo à sua história.

Martins andou para trás e deu uma pequena volta pela sala.

¾ Entendo porque você não quer dedurar ele, Isabel, mas acontece que não temos muita certeza se isso foi uma dessas coisas que acontecem de vez em quando nesta cidade violenta. Não sabemos se esse cara anda por aí matando gente para ganhar a vida.

¾ Não! ¾ disse num grito. O seu rosto estava vermelho e refletia a sua irritação. ¾ Nada disso! Era um homem bom!

Martins encostou-se na parede, perguntando a si mesmo se chegaria o dia em que todas as pessoas iriam odiar umas às outras.

Cabral, do outro lado da sala, aproximou-se lentamente e pôs a mão no ombro da moça, de um jeito provisório, pronto para puxá-la caso o repelisse.

¾ Pode parecer absurdo, mas talvez seja a verdade. É o que estamos procurando saber. Talvez ele mereça uma medalha. Mas se fosse mesmo um cara tão bom; um herói, como os jornais estão dizendo, por que iria fugir? Se ele tem uma licença para andar com aquela arma, se não tem antecedentes criminais, se está limpo, ninguém nesse planeta ou nas proximidades irá julgá-lo culpado de qualquer coisa. Então por que ele fugiu? É o que precisamos descobrir. E isso levanta a suspeita de que não ele é tão heróico assim.

Cabral tirou a mão do ombro da moça e afastou-se, olhando para Martins como se dissesse que era a sua vez de tentar novamente.

Martins não achava que ela seria persuadida. Pelo menos, não por enquanto. Puxou um cartão e escreveu os telefones de suas casas, deixando-o sobre a mesa de centro.

¾ Ligue-nos, se achar que tem alguma coisa que devamos saber, Srta. Isabel. Pode ligar a qualquer hora. Quando estiver se sentindo melhor, vamos lhe pedir que veja umas fotografias e auxilie o nosso desenhista na montagem do retrato falado do homem que atirou no seu agressor. Se precisar de algo, entre em contato. Estamos à sua disposição.

Isabel Carajá recusou-se a olhar para eles enquanto saíam. Seu silêncio os contagiou; não disseram uma palavra enquanto esperavam o elevador. Estavam cansados de conversar. Por que nunca encontravam testemunhas que falassem tanto quanto eles? As únicas testemunhas que falavam bastante eram como Osmar Pincel, o rei dos pichadores, que falava para ouvir o som de sua voz.

Quando chegaram ao saguão, Martins disse:

¾ Então, o que acha?

¾ Acho que Isabel está apaixonada.

Martins fez que sim com a cabeça.

¾ O problema é que se esse cara for mesmo um profissional, ela não terá mais vontade de identificá-lo do que está tendo agora, só que por outros motivos. Acontecerá a mesma coisa com Osmar. E com todos os outros passageiros. O filho da puta poderá fugir.

¾ Almoço ¾ disse Cabral.

¾ É, está bem.

¾ Tem um lugar ali na esquina que eu conheci quando trabalhava no caso do professor da Universidade que usava drogas com os alunos. O Le Steak.

¾ Esse, com certeza, não é um daqueles lugares de comida natural, certo?

¾ É comissário.. Pensando bem, acho que você devia comer alguma coisa leve...

¾ Outra coisa: vi que você estava meio interessado na Isabel.

¾ Só curioso ¾ disse Cabral. ¾ Sabe, já tive contatos com índios, nos tempos da guerrilha do Araguaia. Não tenho boas lembranças.

¾ Mas tem quanto tempo isso? Uns vinte anos?

¾ Vinte anos, onze meses e dezesseis dias ¾ disse Cabral ¾ mas quem está contando?

 

Os olhos vermelhos do dragão eram delineados de dourado, e sua língua vermelha se espichava por entre as presas também douradas, fazendo cócegas no mamilo esquerdo de Fausto. O corpo do dragão, verde e de escamas azuis, ondulava sobre seu ombro. O rabo se enrolava debaixo da omoplata esquerda.

Gabriela passou os dedos pelas vértebras do dragão.

¾ Não doeu?

¾ Provavelmente. Estava muito bêbado quando fiz essa tatuagem.

¾ Deve ter levado muito tempo.

¾ Eu ficava bêbado a maior parte do tempo.

¾ Quando? Onde?

¾ Ah, muito tempo atrás, num lugar distante.

¾ Como num conto de fadas ¾ disse Gabriela; e não insistiu mais, temendo que como num sonho ele também desaparecesse ou se transformasse, ¾ Quis fazer uma tatuagem, certa vez. Uma flor, num lugar secreto para só alguém especial poder ver. Aí eu resolvi que estava pensando ao contrário; primeiro devia encontrar alguém especial e depois fazer-lhe uma surpresa.

E aí?

Gabriela riu.

¾ Devia ter feito a tatuagem. Pelo menos o tatuador podia ficar excitado.

Fausto puxou seu rosto até o dele e beijou-a

¾ Tenho que sair um minuto.

¾ Claro. ¾ Ela virou-se para olhar pela janela, coberta de poeira dourada. Se ele ficasse mais um tempo, talvez ela lavasse as janelas, mandasse limpar o tapete e até fizesse um corte de cabelo diferente. Mas ele estava com uma passagem de avião no bolso da blusa; vira quando ele pendurara a blusa no encosto da cadeira de madeira maciça que ficava ao lado da cama. Um homem que andava com uma passagem de avião no bolso não estava pretendendo ficar num lugar por muito tempo; não o suficiente para merecer um renascimento.

Fausto veio até o seu lado da cama, já vestido com o jeans e a camisa azul. Sentou-se na ponta do colchão.

¾ Gabriela...

¾ Eu sei. Você tem algumas coisas para fazer. É que hoje é sábado. Não tenho que trabalhar esta noite. Pensei que podíamos ir a um cinema, ou...

¾ ...ou sair da cama? ¾ interrompeu Fausto, sorrindo. ¾ Não vou demorar. Só algumas horas. E ficaremos juntos.

Assim que a porta se fechou, Gabriela já estava de pé, tirando o envelope com a passagem de dentro do bolso da blusa, segurando-o entre os dedos, lembrando um filme sobre “batedores de carteiras”. Virou as costas para a janela, aproveitando a luz da janela para ler as anotações no bilhete.

   Não havia nenhuma passagem dentro do envelope, apenas um recibo de um vôo de São Paulo para Goiânia. Três dias antes. Primeira classe. Em nome de Marcos Seabra.

Marcos? Por que dar meio nome falso?

Ao devolver o envelope ao bolso da blusa, Gabriela percebeu que havia nele algo escrito a mão. Puxou-o e leu outra vez:

 

   Barros – prédio abandonado

   Pimentel – T-63, nº 333 – Oficina de Motores

   Cabral – Rua 44, nº 46 – Setor Sul

 

                   A descarga disparou.

Gabriela começou a guardar o envelope outra vez, mas ele ficou preso em alguma coisa e não quis entrar completamente. Largou-o assim mesmo e jogou-se na cama.

Fausto saiu do banheiro e puxou a blusa da cadeira pela alça costurada na gola. Depois vestiu-a, deu um puxão nas lapelas e passou o dedo levemente pelos bolsos para ver se tudo estava em seu lugar. Enfiou a mão no bolso de dentro e ajustou o envelope da passagem.

Gabriela ignorou exageradamente sua presença.

¾ Nos vemos daqui a pouco.

Estava segurando um livro de bolso, tirado de algum lugar do casaco.

¾ O que você está lendo?

Mostrou-lhe a capa.

¾ Não acredito. O Capoeira. É o meu livro predileto. Você gosta de romance policial?

Fausto sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Durante todos aqueles anos, através de toda aquela distância, sempre conseguia ler livros feitos no Brasil, produtos da realidade brasileira.

¾ Sabia que tínhamos muito em comum.

Fausto inclinou-se e beijou sua testa outra vez.

¾ Só umas horas.

Quando ele saiu, Gabriela se levantou, vestiu um jeans e camiseta e foi para a janela. Viu-o sair pela porta da frente e descer a rua até a esquina da avenida.

Ficou pensando no homem que entrara no Le Steak quando Fausto e ela estavam saindo: um homem baixo, magro, mas resistente, de cabelo escuro e roupa na moda. E no outro que estava com ele, baixo e gordo, que se vestia com péssimo gosto. Os dois ficaram em pé na entrada por um segundo, esperando que os olhos se acostumassem com a diferença entre a claridade da rua e a meia-luz do restaurante.

Fausto e Gabriela acabavam de deixar a mesa ¾ tinham dividido a conta ¾ e estavam andando em direção à porta. Gabriela ia à frente e ouviu Fausto emitir um som, como um sinal de que esquecera alguma coisa, ou se vê algo ou alguém que não esperava ver. Estava com as mãos no meio de suas costas, empurrando-a levemente para a frente, mas ao abrir a porta, depois de passar entre os dois homens, percebeu que Fausto não tinha vindo. Ele andara até um telefone à esquerda dos dois homens e estava em pé, de costas para eles, segurando o fone ao ouvido.

Os dois homens escolheram uma mesa perto da porta, e o pequeno parrudo fora ao banheiro. Assim que ele entrou, Fausto desligou o telefone ¾ não houve qualquer som de dinheiro caindo ou sendo devolvido, e Gabriela teve certeza de que ele não estava falando com ninguém. Ele foi encontrá-la, olhando demoradamente para o homem baixo e gordo que estava sentado. O gorducho não reparou, porque estava completamente concentrado no menu.

Gabriela agora se perguntava se o homem pequeno e parrudo seria Barros, Pimentel, Cabral ou mais alguém. Ela se perguntava quem era Marcos Seabra, qual seria o sobrenome de Fausto e se seu nome era mesmo esse; se perguntava o que estava fazendo ao esperar que ele voltasse.

 

¾ O Senhor Razuk ¾ disse Itamar Mendonça ¾ viu os dois negros de uns vinte e poucos anos saindo da estação, correndo muito. Um deles, o mais alto pulou por cima da roleta, o que até o fez rir, porque geralmente eles querem pular a roleta para o outro lado. Disse que o homem de boné saiu poucos minutos depois ¾ talvez uns dois minutos ¾ andando devagar, como se não tivesse nada com que se preocupar. Não saiu como se estivesse perseguindo os culpados...

¾ Ele era o culpado ¾ disse Martins.

¾ Certo. Enfim, ele não estava atrás deles, segundo o Razuk; estava andando naturalmente. Infelizmente não viu o cara direito. A iluminação não o atingiu diretamente ¾ resumiu Mendonça. E concluiu o relatório: ¾ Mas o melhor depoimento sobre o cara que eu consegui das testemunhas foi o de uma senhora que conseguiu ler o nome do livro que o assassino estava lendo. Também leu esse livro e sabia qual era pela capa: O Capoeira.

¾ Bem, detetive, e essa testemunha com tão boa visão não acrescentou nada ao retrato falado do suspeito? Nenhum detalhe?

Itamar Mendonça olhou para o chão.

¾ Chefe, a mulher fez questão de dizer que o cara é muito bonito. Parecia de cinema.

Todos deram uma gargalhada

¾ Isso não é uma coisa que se possa incluir num pedido de captura. Frise que o cretino tem boa aparência ou isso ainda acaba pegando mal.... ¾ riu novamente Martins. ¾ Mais alguma coisa?

¾ Por enquanto é só ¾ disse Lúcio Castro.

O telefone tocou.

Cabral atendeu e retransmitiu o recado:

¾ Era o Bonfim, da Tóxicos, com uma informação que talvez seja importante: um homem morto com uma 765. Morreu ontem à noite ou hoje cedo. Vamos nos encontrar com ele para saber dos detalhes.

¾ Por falar em mortes ¾ disse Itamar Mendonça ¾ vocês já sabem da Raquel Azevedo?

¾ Nos convidou para o seu programa? ¾ perguntou Martins.

¾ Também levou um tiro ¾ disse Itamar. ¾ Um 38, talvez ontem à noite, ou hoje cedo. O Pedro Henrique é que está trabalhando nesse caso e sabe os detalhes. Nenhum sinal de arrombamento nem de estupro. Parece que foi trabalho profissional.

Martins olhou para Cabral, que estava enchendo um copo de água.

¾ O cartaz no metrô ¾ disse Cabral.

¾ Você não acha... ¾ começou a perguntar Martins...

¾ Deve ter sido uma coincidência ¾ ponderou Cabral.

¾ Mesmo assim ¾ insistiu Martins.¾ Pode ser que haja alguma coisa...

¾ É ¾ admitiu Cabral.

 

Bonfim deu-lhes todas as informações.

¾ Dois meses atrás um informante me disse que tinha sangue novo na cidade, um cara vindo de Brasília; muito bem relacionado, com bastante mercadoria pra passar. Fez bons negócios, apesar de estar tentando controlar uma área de um chefão conhecido, dos antigos. Deixamos ele trabalhar e descobrimos quando pegava a mercadoria ¾ maconha, cocaína, haxixe e ácido. Um dos rapazes simulou uma compra, mas o cara não apareceu; estava morto! ¾ suspirou.

¾ Depois fiquei sabendo que uma patrulha atendeu uma chamada ao 190 depois da meia-noite de sexta-feira, de um casal que achou um cara morto em uma rua do centro da cidade. Disseram ter visto um cara musculoso, de boné, correndo do local; estava escuro e não puderam ver o seu rosto A balística informou que a bala era 765. Mas não é só isso. ¾ Bonfim fez uma pausa e continuou, as palavras parecendo jorrar num fluxo inesgotável:

¾ Sabemos o nome do cara: Juvenal de Barros. Tinha uma placa de identificação no pescoço. Ex-pára-quedista., da Brigada do Exército. Temos essa fotografia ¾ e tirou do bolso do paletó uma foto 20 x 25 em papel brilhante, dobrada ao meio. ¾ Bicho feio, não? Aí não aparece, mas ele tem uma tatuagem no ombro esquerdo, um dragão, bem extravagante, que desce até o meio das costas. Pedi a ficha completa ao Exército. Logo saberemos tudo sobre ele ¾ foi encerrando a conversa, lembrando-se que tinha um compromisso com a mulher e não podia chegar atrasado.

¾ Até mais ¾ despediu-se Martins, procurando por Cabral para saírem. Estava no banheiro e retornou poucos minutos depois, pálido e abatido.

¾ Estava vomitando.

¾ O Bonfim consegue fazer isso com a gente. Como ele fala!

¾ Deve ter sido aquela comida.

¾ Descanse hoje. Já vimos muita coisa. É hora de parar para pensar um pouco. Tem certeza que está bem? Parece que viu fantasma...

¾ Ufa! Essa comida é muito pior que isso ¾ disse Cabral.

Martins riu.

 

No apartamento, Gabriela olhava para Fausto, estirado a seu lado, as pernas cruzadas nos tornozelos.

Ela tomara um banho quente longo e depois fizera amor com Fausto. Fora isso o que mais desejara. Agora fitava o vazio com os olhos escuros imóveis. Após algum tempo, moveu-se, como se tendo chegado a uma conclusão.

¾ Fausto, você não compreende. Eu queria ser parte de você. Se não posso ajudar...

Fausto virou a cabeça e sorriu. Tomou-lhe a mão na sua.

¾ Se não tivesse desejado sua companhia, teria dado um jeito para que você não ficasse comigo

Fausto desviou a vista. Gabriela pensou: qual é o problema? Descalço, ele se dirigiu ao banheiro. Não se importou em fechar a porta. Sua mente estava longe. Pensava em como mudara desde que chegara ao Brasil. Ele se tornara simultaneamente mais seguro de si e mais sigiloso.

Gabriela ouviu o som de água na pia. Puxou os joelhos para o queixo e observou-lhe a sombra bloqueando a luz do banheiro caindo em ângulos nítidos sobre o mosaico.

Ao sair do banho de chuveiro, ele fitou-lhe o belo rosto e pareceu que via sua preocupação.

Nesse momento Maurício estava muito perto dela. Sentia-lhe a força. Era como se estivesse sendo banhada pelos raios do sol do meio-dia.

¾ O que está acontecendo, Fausto? O que você não está me contando?

Ele sorriu inesperadamente e beijou-lhe com força os lábios.

¾ Nada ¾ disse. ¾ E voltou a beijá-la.

Enquanto abraçava-o, Gabriela refletia. O que seria? O que estaria anuviando os pensamentos de Fausto? Podia sentir aquilo. Durante um instante, teve uma premonição: uma fulgurante espada de luz perfurou-lhe a consciência. Havia algo mais; algo de que talvez ele mesmo não estivesse consciente. O arrepio de medo percorreu-a.

Gabriela abriu a boca para dizer a Fausto que queria ajudá-lo muito mais, mas ele se virara e ela sentiu que se afastara dela, com tanta certeza como se tivesse saído pela porta.

 

O telefone acordou Martins de um sonho do qual não conseguia se lembrar, mas que ficou contente de esquecer.

¾ Alô? ¾ A voz saiu sonolenta; o relógio digital ao lado da cama marcava 5:59.

¾ Oi Túlio.

A voz do delegado Ibrahim Morelli era inconfundível: educada, grave e um pouco rouca.

¾ Pode falar, chefe.

Desculpe-me por acordá-lo. É coisa urgente. Vou tirar você do caso do assassino do ônibus. Preciso do seu trabalho no caso da jornalista Raquel Azevedo. Muita pressão de cima e dos lados. Você ficou sabendo do que aconteceu, não?

¾ Pouca coisa.

¾ O Pedro Henrique lhe dará todas as informações ¾ esclareceu Morelli. ¾ Parece que saiu uma carta num jornal que tem alguma relação com o caso. Disse a ele que o procurasse na Delegacia, assim que pegasse a carta.

Martins sentou-se, passando os pés por cima da cama. O chão parecia estar uns quarenta andares abaixo.

¾ Quem assume o caso do ônibus?

¾ Estou pensando em designar o Itamar Mendonça e continuam os outros que você convidou. São experientes; não terão dificuldades em prosseguir investigando. A prioridade agora é pegar o psicopata que matou aquela moça.

Um psicopata vai ser fácil de encontrar, pensou Martins. Existem milhares deles andando pela cidade.

 

Pedro Henrique Ribeiro contou-lhe detalhadamente como estavam as investigações no caso da jornalista.

¾ O programa da Raquel Azevedo vai de 23 horas até a meia noite. Depois do último programa ela arrasou com a equipe. Estava zangada com a história da diminuição da criminalidade; a matéria foi preparada por Afonso Borges, que era o astro antes dela aparecer. Disse a ele que faria com que o demitissem; ele anda bebendo demais. Um assistente de produção, Enzo Felipe, entrou na sala de Afonso para atender um telefonema e encontrou uma garrafa de uísque vazia e uma caixa de balas calibre 38 vazia. A caixa estava num cesto de lixo da sala; o assistente pegou e jogou tudo fora em uma cesta no corredor. O cara gosta do Afonso e ficou com medo que alguém descobrisse e que isso causasse problemas. ¾ Fez uma breve pausa antes de prosseguir com a narração.

¾ Raquel Azevedo chegou em casa à uma hora da manhã, segundo as anotações do porteiro no livro de registro de entrada e saída de moradores do seu prédio. É um bom método de controle, só que depende da responsabilidade do porteiro. Sabemos que isso não funciona o tempo todo; os moradores já informaram que é possível alguém ter entrado sem ser visto, enquanto um dos porteiros estivesse fora do posto. Parece que lá isso acontece freqüentemente. Os moradores têm chave da portaria e qualquer pessoa que estivesse esperando do lado de fora do prédio poderia chegar até a porta antes dela fechar-se atrás de um morador. É uma hipótese. O legista calculou o momento da morte por volta de uma hora; então o assassino devia estar esperando por Raquel ¾ no apartamento ou na escada, quando ela chegou. ¾ Pedro Henrique tomou um gole de café, antes de continuar.

¾ Estava nua. Não sei o que pensar quanto a isso. Suas roupas estavam dobradas em cima de uma poltrona no quarto. Não havia nenhum buraco de bala nem sinal de pólvora nas roupas; não existe sinal de agressão. Certamente não foi violentada. O apartamento fica num andar alto; estamos investigando se há algum bisbilhoteiro conhecido num dos apartamentos da região que permita a visão do local. A porta estava trancada com duas voltas na chave; o assassino usou uma chave para entrar ¾ o trinco não foi forçado. Acho que ela conhecia o assassino. Talvez um namorado. Isso explica porque estava nua. Ele abriu a porta, ou talvez ela abriu. Tem muitas impressões na maçaneta de dentro, mas não é possível identificar. O problema com esta hipótese é que o pessoal da emissora disse que ela não tinha namorado. Estava aqui há pouco tempo. Era viciada em trabalho. Ia a festas grandiosas, noites de estréia, jantares beneficentes, coisas assim. Quando estava com alguém, era sempre um sujeito famoso... políticos, advogados... e nunca a mesma pessoa duas vezes seguidas. Os porteiros disseram que chegava sempre com alguém diferente. E ninguém subia com ela sozinho; apenas grupos de pessoas. Chegaram a insinuar que ela era homossexual, mas não foi vista com ninguém. ¾ Fez uma pausa, como se refletisse antes de falar.

¾ Tem também esse tal de Afonso Borges. Parece que havia ódio recíproco entre eles. O cara tem um 38, está registrado. Afonso sumiu e ninguém sabe para onde foi; ninguém viu ou ouviu falar dele, depois do programa da sexta-feira. Poderia tê-la seguido; até chegado antes, e se escondido no apartamento. Ela chega em casa, entra no quarto, tira a roupa. Vai tomar banho. Afonso aparece, ela foge; ele a pega na porta e lhe dá um tiro no peito. Ele sai do apartamento, tranca a porta, desce as escadas, espera até descer e sai do prédio. O único problema com essa teoria é a carta que foi entregue à Gazeta de Notícias. Esse jornal ofereceu um espaço para o assassino do ônibus defender-se. Alguém entregou uma carta no escritório depois da meia-noite de ontem. Eles não publicam o jornal no domingo e não havia ninguém lá. O vigia ouviu a campainha, mas não viu ninguém pelo circuito de TV. Por volta das três e meia, deu uma saída para arejar, encontrando a carta enfiada embaixo da porta da frente. Não tinha nenhum endereço, nome, nada. Só dizia: Urgente. Abra imediatamente. Ele abriu. Isso não faz parte do seu trabalho, mas teve a sensação de que era o melhor a fazer. Aqui está. Totalmente limpa, sem impressões. ¾ Trazia o envelope em um saco plástico.

Martins tirou o envelope do saco impermeável. Um envelope branco. A mensagem fora impressa a jato de tinta.

¾ O vigia cortou o envelope com um canivete.

¾ Vocês fizeram um bom trabalho. Não teria feito melhor ¾ disse Martins.

Bateu no envelope para que a carta caísse e abriu-a em cima da mesa. A folha fora impressa com o mesmo equipamento jato de tinta.

 

         À Gazeta de Notícias

 

Li com interesse a sugestão dada ao homens que vocês batizaram como Justiceiro, para que utilizasse suas páginas e explicasse a morte do marginal no ônibus. Não acham esse crime insuficiente para vender jornais?

Caso se interessem por outro assassinato, talvez queiram saber por que morreu Raquel Azevedo, a vagabunda do noticiário da TV. Posso lhes contar; fui eu quem a matou.

Matei-a porque era uma assassina e merecia morrer. Todas as noites ela usava a mídia para massacrar seres humanos ¾ e diante de milhares de pessoas. Ganhava uma fortuna para fazer isso. Não é a única; o mundo está cheio de seres assim. Sugam a vida, o espírito dos homens.

Matei Raquel Azevedo. E vou matar outras, até não sobrar nenhuma. Suas páginas vão ficar repletas com minhas eliminações. Podem esquecer esse Justiceiro; ele só fez o que qualquer um faria. O que eu farei será uma verdadeira limpeza.

 

¾ Cara legal ¾ disse Martins, dobrando a carta novamente, devolvendo-a ao envelope. ¾ Alguém mais sabe dessa carta?

¾ O editor geral da Gazeta. Está esperando para falar com você. Queria publicar a carta.

¾ Você mesmo falará com ele. Não pode publicar a carta, nem falar nela. Ficamos devendo um favor. E diga a ele que o tal Justiceiro apagou um traficante antes de pegar o ônibus naquela noite. Que ele mande ligar para o Bonfim, da Tóxicos e conseguirá esse furo. Diga que ninguém mais tem a notícia e ele irá publicar tudo. Se ele pegar leve no caso da Raquel Azevedo, nós lhe daremos em primeira mão tudo que houver de novidade.

¾ E quanto ao Afonso Borges? ¾ perguntou Pedro Henrique. ¾ Acha que ele escreveu essa carta para nos tirar dos calcanhares?

¾ Pode ser. Acho que esse Afonso é um bêbado, não um assassino. E se ele for como penso, não fica pior quanto mais bebe; fica mais manso, até não sobrar nada além de pele e osso ¾ nenhum músculo, sem energia suficiente para puxar um gatilho. ¾ Respirou fundo e observou Cabral que acabara de entrar na sala.

¾ Está melhor, Cabral? Sabia que se você dormisse sozinho uma noite iria recuperar-se. Até você precisa dar um tempo, garanhão...

Cabral sorriu discretamente. Pedro Henrique despediu-se e saiu para falar com o editor da Gazeta.

¾ Amigo, o nosso trabalho agora é investigar esse caso da jornalista. Você a conheceu na TV. O que achou dela?

¾ Fomos apresentados antes do programa. Era do tipo que olhava através de você, a não ser que tivesse algo que ela quisesse. E havia um monte de gente por perto: outros debatedores ¾ advogado, juiz, promotor de justiça, jornalista convidado. Depois do programa ela continuou trocando idéias com o advogado, o juiz e o promotor, sobre se eram condescendentes com os criminosos, se faziam muitos arranjos. Ninguém prestou muita atenção em mim durante o programa, nem depois; então fui embora.

¾ Não a viu de novo?

¾ Só na TV ¾ disse Cabral.

¾ Você via o programa dela? Quando tinha tempo? Pensei que estava sempre em atividade por volta da meia-noite...

Cabral riu novamente.

¾ Só nos finais de semana, Túlio. Nas outras noites, quando estou acordado vejo o noticiário.

Martins mostrou a carta ao colega; quando este acabou a leitura, perguntou-lhe:

¾ E aí?

¾ Consigo imaginar que ela fizesse um cara ficar assim ¾ disse Cabral. ¾ Um cara que não fosse muito seguro de si, que estivesse sendo passado para trás por mulheres no trabalho, que não estivesse conseguindo nada com a mulher, com a namorada... Raquel Azevedo era sensual; ela ostentava isso. Posso entender como era capaz de deixar alguém revoltado.

¾ O problema ¾ disse Martins ¾ é que esse tipo de cara não elabora um plano; sai de casa, consegue entrar no apartamento de uma pessoa e a mata. Nem diz que vai matar outras mulheres com quem não simpatiza.

Ficaram calados algum tempo, até que Martins propôs que fossem tomar um lanche.

¾ Não vou querer nada, Túlio ¾ disse Cabral.

¾ Você ainda está mal?

¾ Não. Vou ficar no suco de laranja e dar um descanso ao estômago por hoje. Mas o acompanho. Vamos lá.

 

A Oficina de Motores, no número 333 da avenida T-63, era exatamente o que se esperava ¾ um prédio de concreto cinzento entre outros prédios parecidos. A rua estava inesperadamente movimentada para uma noite de domingo. Fausto observou a quantidade de carros que estava no depósito do prédio. Esperou durante meia hora até as luzes da oficina estarem apagadas. Só as do escritório nos fundos continuavam acesas.

A porta de correr estava trancada por dentro, bem como a pequena porta do lado dela. Outra passagem dava acesso diretamente ao escritório. Fausto fiou esperando, ouvindo o som de dedos sobre um teclado, digitando com velocidade impressionante. Números, pensou, observando o ritmo das batidas. Imaginou o ocupante da sala de cabeça baixa, entretido com seus cálculos, para então dar uma olhada rápida através do vidro.

O homem careca, com uma coroa de cabelos que deixara crescer demais para compensar a calvície estava sentado numa escrivaninha de metal, de costas para Fausto. Sob a mão direita havia uma máquina de calcular; na esquerda, um maço de papéis. Um único foco de luz, vindo de uma luminária cônica pendurada sobre sua cabeça, produzia reflexos na cabeça calva.

Fausto ficou de frente para a porta, encostou uma das mãos e girou a maçaneta, suavemente. Levou um minuto inteiro para completar o giro e sentir a lingüeta recolher-se completamente, sem provocar o menor ruído.

Respirou fundo e certificou-se de que o careca ainda estava ocupado. Empurrou a porta com cuidado, abrindo-a silenciosamente.

O homem levantou-se repentinamente, murmurando um palavrão. Foi até um arquivo de metal. Abriu uma gaveta, depois outra, até encontrar um maço grosso de papéis. Fechou o arquivo ruidosamente e voltou para a escrivaninha.

Fausto continuou imóvel, sabendo que o homem não podia enxergá-lo daquele ângulo. O careca sentou-se, puxou um cigarro do maço no bolso da camisa e acendeu-o com um isqueiro paraguaio. Deu dois tragos e deixou o cigarro sobre o cinzeiro.

Empurrou a porta, esgueirou-se para dentro e fechou-a, pressionando-a de volta ao lugar. Apertou o botão de trancar e virou-se de frente para as costas do homem.

O careca não ouviu nada. O telefone sobre a escrivaninha tocou e ele atendeu, após deixá-lo tocar três vezes. Acomodou o fone embaixo da orelha, enfiou o cigarro na boca e continuou digitando na calculadora enquanto falava.

¾ Estava querendo saber quando você ia ligar. Chegaram os carros. Combinei com três mecânicos para trabalharem neles amanhã. Dezesseis carros só hoje, cara! Uma hora e meia para cada um. Às seis horas está bom. Não quero saber de papo tipo ‘pago quando meu contato me pagar’... Você também, mala... Então até às seis.

Fausto deu a volta na sala, tomando cuidado para não pisar nos montes de lixo jogados por todo lado. Assim que o homem desligou o telefone, Fausto penetrou no foco de luz.

¾ Os negócios vão indo bem, Pimentel?

¾ Que merda é essa? Quem?...Ei. ¾ Pimentel empurrou sua cadeira para longe da mesa e se levantou. A luminária tampava o rosto de Fausto. O home inclinou-se para o lado, tentando enxergá-lo. ¾ Como você entrou aqui? Não o conheço! Quem é você, cara?

¾ Vim fazer uma entrega, Pimentel ¾ disse Fausto ¾ e você me conhece.

Pimentel deu um passo atrás, aproximando-se da mesa. Os dedos tateavam a superfície de madeira; parecia um mau pianista tocando em pé para mostrar-se.

¾ Se tem uma arma nessa gaveta, Pimentel, não tente pegá-la ¾ Fausto esticou o braço para dentro do círculo de luz, mostrando sua pistola automática 765 ¾ a não ser que você prefira morrer agora e acabar logo como a coisa. Eu pretendia ver você se contorcer um pouco, como fiz com o Barros.

¾ Barros? Quem é essa porra de Barros? ¾ A careca de Pimentel brilhava de suor, que escorria em seus olhos e descia pelo nariz.

¾ Barros também era um negociante bem sucedido, Pimentel ¾ disse Fausto. ¾ Narcóticos. Engraçado, foi na brigada que ele entrou de cabeça no tráfico de drogas; e você também começou a comprar e vender coisas roubadas no quartel. Não era muito diferente do que você faz agora, não? Roubando carros, desmontando e vendendo as peças. Todo mundo diz que não se aprende nada no Exército. Isso não é verdade, não é? Juvenal Barros aprendeu tudo sobre tóxicos, você aprendeu a roubar e eu aprendi a sobreviver.

Pimentel estava tremendo. O suor escorria em seu rosto como água de chuva.

¾ Fausto?

 

Desde que haviam chegado ao Araguaia, chovia todos os dias quase ininterruptamente. As trilhas na mata estavam intransitáveis. Era quase impossível descobrir pistas. As poucas informações eram obtidas com muito esforço e incrível perda de tempo. Ninguém informava detalhes: localização, número de guerrilheiros, armamento, pontos de apoio.

O comandante da companha estava estressado. Fizera prisioneiros em toda a região. Os interrogatórios eram duríssimos. Mesmo assim, não obtivera informações além daquelas passadas pelo pessoal infiltrado junto ao comando da guerrilha. A estratégia dos guerrilheiros estava funcionando; as forças do governo não conseguiam avanços significativos. Mas ele não seria feito de trouxa por aqueles babacas. Alguém iria abrir o bico. E eles veriam do que era capaz. Enquanto isso tentava administrar os problemas internos, como o daquele soldado novato que amarelara. O veado do soldado era excelente atirador e especialista em artes marciais, combate corpo a corpo. Fausto Molina. Em tempos de paz, até lutava no regimento e era considerado um dos melhores do país,. Ainda assim, era um bunda mole e quase pusera tudo a perder. Tentara impedir que o cabo Pimentel acertasse aquele velho safado com um tiro certeiro de fuzil. E fora preciso desmaiá-lo para poder interrogar a velha índia à vontade. Lembrou-se com prazer da coronhada que desferira na cabeça do atrevido, quando tentara interferir no seu trabalho. Mandara que o amordaçassem e prendessem dentro da gaiola de madeira, junto com a moça. Cretino! ¾ pensou. Vou foder esse desgraçado!

O capitão Fabricio deu um longo suspiro. Passou a língua na ponta da lâmina da faca que usara fazer a carreira de cocaína. Havia cheirado quase uma grama, sozinho. Foi até a jaula de madeira onde o soldado estava preso, junto com a garota amarrada. Era a única sobrevivente de uma família que havia sido detida para interrogatório. Moravam no meio da mata e eram as únicas pessoas num raio de quase 100 km. Era impossível que não tivessem qualquer contato com os malditos comunistas. Ainda mais com as suas táticas de aproximação das comunidades locais. Eram espertos e cooptavam aqueles roceiros estúpidos. O velho tentara fugir e fora morto. A velha quase enlouquecera ao ver o marido morrendo. Foram duros com ela, mas não adiantara de nada. Cansado de perguntar inutilmente, sem qualquer resposta inteligível, mandara os homens jogar a mulher dentro do poço da cisterna. O corpo caiu sem um gemido, fazendo um barulho abafado. Restava a garota, quase um troféu. Era uma beleza índia. Devia parecer com a mãe, quando nova. O capitão riu ao pensar nas surpresas que ela teria com eles. Viu que a menina estava de olhos abertos, apavorada, enquanto o filho da puta do soldado parecia inconsciente. Afastou-se pensando no que faria com aquele problema.

Aproximou-se da barraca onde os soldados descansavam. Estavam aninhados como ratos, sob a lona. Os grossos pingos de chuva faziam lama por toda a parte. Abaixou-se na entrada e chamou. O soldado Cabral e o sargento Barros levantaram com preguiça. Não haviam conseguido pregar o olho durante a noite. Ainda era madrugada e aquele drogado dos infernos já estava atazanando. Maldito capitão!

¾ Vamos andar. Vou conversar com a indiazinha. Ela sabe de alguma coisa e vai falar. Depois levantamos acampamento e seguimos até o povoado. O batedor deve ter encontrado os rastros do grupo que emboscou a 3ª Companhia.

Foi até a jaula de madeira e abriu a porta. Mandou à indiazinha que saísse e ajudou-a, arrastando-a pelos cabelos. As lágrimas escorriam dos olhos da garota e se misturavam com a chuva que empapava seu vestido. O capitão ficou excitado ao ver o volume dos seios molhados, modelados sob o tecido fino. Apalpou-a com a mão, exibindo um sorriso malicioso e antecipando o prazer que teria ao possuí-la assim, amedrontada e indefesa.

Começou a abraçá-la, mordendo-a com selvageria. Rasgou o vestido da garota, que apesar de exausta debatia-se entre seus braços. Prendeu sua cabeça entre as mãos, apertando-a com força e olhou-a dentro dos olhos, com ferocidade. Deu uma gargalhada ao sentir o pânico da garota. Nesse momento sentiu o impacto na nuca, uma incrível sensação de calor e torpor invadindo o seu corpo. Não soltou sequer um gemido. Caiu arrastando a garota até o solo.

O capitão Fabricio estava morrendo. Só muito vagamente notava o ambiente em volta. A consciência era ligada e desligada em pequenas explosões brilhantes, cheias de dor. Em um desses rapidíssimos momentos de lucidez, deu-se conta de que o som de torneira aberta que o seguira emanava de suas entranhas. Sentia os pulmões pesados e cheios. Era um tormento simplesmente respirar.

Enrodilhou-se no chão. A chuva caia forte sobre ele. A lama insinuou-se entre os dedos das mãos. Esta foi sua última recordação: o esmagamento do lodo, a pasta amassada de seres humanos alimentando-se de si mesma, combinando-se com a terra.

O soldado Molina olhava a faca de lâmina longa na mão. Limpou-a do sangue nas calças. O corpo do capitão estava caído, imóvel, enquanto a garota tentava levantar-se. Assustou-se ao ouvir os tiros e pôde ver a garota sendo atingida duas vezes antes mesmo de levantar-se. Instintivamente, atirou-se ao chão e saiu rastejando, tentando afastar-se o mais rapidamente possível. Alcançou a vegetação espessa e saiu correndo abaixado, com a maior velocidade possível, ouvindo os gritos dos colegas berrando uns com os outros, sem saber direito o que fazer. Teve certeza de que deveria aproveitar aquele instante de vacilo para colocar a maior distância possível entre ele e os outros soldados. Sabia que não teria a menor chance com eles; acertara o capitão bem na nuca com a faca que trazia na bota; o ferimento era fatal. E não estava disposto a enfrentar uma corte marcial por causa daquele bandido, se sobrevivesse à crueldade dos seus ‘colegas de farda’. Naquela companhia, todos eram amigos e parceiros de longa data ¾ menos ele, que juntara-se a eles naquela maldita operação anti-guerrilha. Agora, só podia contar com a seu treinamento. Mesmo assim, não perdeu a esperança; apesar da tensão, sentia uma sensação que sequer imaginara antes. Sentia-se calmo, feliz, como se houvesse exorcizado todos os demônios daquela guerra ao matar aquele infeliz. Iria fugir pela mata ¾ e sobreviver.

Enquanto andava, Fausto lembrava sua última noite com os outros soldados, no povoado. Observara o comportamento dos conhecidos e notara que haviam mudado durante aquele breve período. A operação começara há seis meses e parecia que eles eram outras pessoas, diferentes daquelas com quem convivera no Rio de Janeiro, na Brigada de Pára-quedistas. Foram colegas desde o curso de formação, fizeram inúmeros treinamentos juntos, mas foi obrigado a reconhecer que não sabia nada sobre eles; era como se fossem absolutamente estranhos. Naquela noite, teve receio do que eles seriam capazes de fazer ¾ e certamente vinham fazendo com a população ribeirinha. A arrogância, a prepotência e a crueldade pareciam dominá-los, como se fosse uma febre maligna, poderosa e contagiante.

Agora estava naquela situação. E o pior é que não tivera escolha. Mas fizera o que achava certo. Desde o momento em que despertara e vira a garota ao seu lado na gaiola, sabia que não teria chance com o capitão e o restante da companhia. Semiconsciente, escutara os gritos lancinantes da velha índia; vira o corpo ser arremessado no fundo do poço. Percebera que o sadismo e a violência haviam dominado inteiramente as suas mentes. De qualquer forma, iria resistir. Nunca se sentira vencido, mesmo quando eventualmente perdia uma luta; sabia que a derrota era um estado de espírito; vencedores são os que reagem e não desistem, jamais.

Abriu a tampa da bússola embutida no cabo da faca e tentou orientar-se. Seguiria rumo ao Norte, em direção ao Pará. Naquela direção não encontraria o restante dos soldados. Precisava evitar as patrulhas e ter o cuidado de não cair nas mãos dos guerrilheiros. Então sobreviveria.

 

Cabral foi o primeiro a aproximar-se do corpo caído do capitão.

¾ Desgraçado! O cara matou ele! Desgraçado! ¾ Enquanto os outros se aproximavam rapidamente, pôs-se a chutar o corpo sanguinolento da indiazinha, falando palavrões.

Pimentel e Barros se aproximaram e o contiveram. Precisavam agir com objetividade. Após alguns instantes parado, Cabral recobrou a calma. Os olhos estavam fixos, inteiramente imóveis como os de um lunático.

¾ Pimentel, o capitão Fabricio está morto. Agora você é o nosso comandante. O Fausto fugiu. Entra em contato com o QG e diz a eles o que aconteceu. O desgraçado era um maldito comunista e tentou libertar uma guerrilheira. O capitão quis detê-los; conseguiu atirar, acertando a guerrilheira. Fausto matou-o e fugiu, desertando. Deve ter ido unir-se aos guerrilheiros. Sabe a nossa posição; por isso precisamos sair daqui, certo? ¾ falou Cabral, raciocinando friamente, como estava habituado a fazer.

¾ Você acha que irão acreditar nessa história absurda?

¾ Claro que sim. Foi o que aconteceu. É só agirmos rápido. Não se preocupem em seguir aquele desgraçado. Agora tanto faz. O importante é sairmos daqui.

 

Fausto precisava descansar, mas sabia bem demais que era um fugitivo. A pé, em um tempo como aquele, havia uma distância finita que poderia percorrer antes de desmaiar.

Seus perseguidores saberiam disso, e com toda certeza, já haviam calculado um círculo usando o local de onde fugira como ponto central. Não podia cair na armadilha de tentar correr mais do que eles. Melhor seria vencê-los pela inteligência.

Olhou para cima, para chuva que batia em suas pálpebras. Compreendeu o que devia fazer. Isto significava usas as mãos, os braços, erguendo-os acima da cabeça. A alternativa seria a morte.

Rilhando os dentes, estendeu os braços e agarrou um galho que se projetava. Subiu do solo da mata e desapareceu entre a folhagem da árvore. Sobre um galho, estirou-se e mergulhou em um sono profundo e sem sonhos.

 

¾ Ei, Fausto. Eu não tive culpa de nada. Você matou o capitão, cara! Era o nosso trabalho. A gente estava todo mundo junto naquilo ¾ repetiu Pimentel pela vigésima vez. Então mudou de tática e inclinou a cabeça, com ar de curiosidade.

¾ Onde é que você esteve esse tempo todo? Você está precisando de emprego, não é? Vou te arrumar algum dinheiro. Não é empréstimo, não. Ganho muito dinheiro aqui, sabe? Posso ajudá-lo. Vamos lá. A gente bebe alguma coisa, conversa sobre algum negócio juntos...

Enquanto falava sem parar, Pimentel foi se afastando da mesa, andando na direção de um armário de metal que ficava nas sombras ao longo da parede.

¾ Você podia me contar o que tem feito. Por onde andou? Faz muito tempo, Fausto. O Cabral e o Fabricio eram amigos, você sabia? O Barros achava que eles eram veados. Eu não sei. Ei, o Barros... Você disse que viu ele, certo? Como é que ele está? Cara, a gente devia se reencontrar... Onde é que está a porra da garrafa ? Tinha uma garrafa de uísque aqui. O ajudante deve ter levado. Esse é o problema neste negócio; você não pode confiar em ninguém.

Ao dizer isto, Pimentel virou-se segurando um revólver 38 que estava escondido no fundo do armário. Mas não chegou a puxar o gatilho. A bala da pistola 765 acertou seu peito em cheio e ele caiu de costas dentro do armário.

 

Prostitutas, cafetões, drogados, delinqüentes, malandros e perdidos formavam a clientela do Hotel Sol, a pouca distância da Praça do Bandeirante. O gerente reconheceu Afonso Borges como um dos últimos hóspedes a entrar. Foi só quando conseguiu ler o jornal de domingo que tomou conhecimento da suspeita do envolvimento dele no homicídio da jornalista.

¾ 406 ¾ disse o gerente. ¾ É o último dos fundos.

¾ Tem certeza de que ainda está lá? ¾ perguntou Martins.

¾ Desde que se registrou, às 3:00 horas da manhã de sábado, ele não saiu. Recebeu uma entrega no sábado à tarde. Muita bebida. Pelo que eu vi, ainda deve ter pelo menos uma garrafa com ele. O cara deve beber como uma esponja! ¾ concluiu, sarcástico.

Naquele dia Martins já ouvira Enzo Felipe, o assistente de produção que encontrara o corpo de Raquel Azevedo; o zelador do prédio; Bezerra, o produtor do programa; e todos os integrantes da equipe, portanto as últimas pessoas que viram a jornalista viva. E falara com a esposa de Afonso Borges ¾ que por falta de melhor opção, parecia ser o maior candidato a assassino.

Depois das conversas que tivera, Martins sabia mais coisas sobre jornalismo televisivo, problemas de convivência entre colegas na TV, e os dilemas da mulher de um alcoólatra do que queria saber. A única coisa que não sabia era quem matara Raquel Azevedo, como conseguira aproximar-se o bastante para fazer isso e por quê.

Havia outra coisa que ele não sabia: o que estava se passando na cabeça de Manoel Cabral. Cabral escutara as mesmas conversas que Túlio Martins, mas não ouvira como ele ¾ sabendo que eram inevitáveis e que em algum lugar ali dentro poderia haver algo que eles queriam saber. Cabral escutara sem ouvir, com os olhos presos em algum lugar acima das cabeças dos falantes, seu olho mental fixando, vidrado, algo que Martins desconhecia. Podia perguntar a Cabral o que estava acontecendo. Mas sabia que ele diria o que achava quando tivesse vontade, se tivesse.

Sentia que Cabral não estava desligado do caso; na verdade, estava mais impaciente do que o normal ¾ impaciente para mover-se, em vez de ficar sentado ou parado, escutando. Cabral andou até o balcão, esticou a mão e disse:

¾ A chave.

O gerente foi até o quadro das chaves e pegou a chave do quarto 406, mas não a tirou do gancho.

¾ Então esse é mesmo o cara da TV! Sempre via o programa dele...

¾ A chave ¾ disse Cabral. ¾ E chega de conversa.

O gerente entregou-lhes a chave sem dizer uma palavra, sem fazer o menor som. Os policiais pegaram o elevador para o quarto andar, foram até os fundos e encontraram o quarto 406, ao lado de uma janela que dava para um poço de ventilação.

Martins tocou a campainha. O único barulho era o dos bombos arrulhando no poço. Afastou-se, para que Cabral enfiasse a chave na fechadura. Antes que girasse a chave, Martins segurou seu braço; com a outra mão, girou a maçaneta. Abriu a porta suavemente e os dois entraram segurando as armas com as duas mãos. Olharam ao redor do quarto à procura de Afonso.

Afonso estava deitado na cama perto da janela, que dava para os fundos de outro hotel. Martins foi até a cama e sacudiu Afonso Borges pelo tornozelo. Entre os seus braços, uma garrafa de Jack Daniels, como se fosse um bebê; mais meia dúzia de garrafas estavam jogadas pelo quarto, que cheirava a banheiro de botequim.

Afonso se mexeu e segurou a garrafa com mais força. Tinha uma leve sombra de barba grisalha por fazer no queixo e nas maçãs do rosto, no espaço entre o nariz e o lábio superior. Sua gravata estava frouxa e retorcida; a camisa, amassada e manchada de suor; a braguilha de sua calça bege, cheia de manchas de urina.

Martins olhou para Cabral, que acenou com a cabeça, guardou a arma, deu alguns passos atravessando o quarto, entrou no toalete, foi até a banheira e ligou o chuveiro. O jato de água saiu quente, produzindo uma nuvem de vapor. Então voltou, abaixou-se, pôs os braços sob as axilas de Afonso e acenou a Martins para que o levantasse pelas pernas.

Ao levarem o homem, viram o cano da arma aparecendo debaixo do travesseiro. Continuaram na direção da banheira e deixaram Afonso dentro da água quente

Afonso piscou quando a água bateu em seu rosto.

Martins voltou ao quarto, colocou uma luva cirúrgica e pegou a arma. Era um 38 Taurus. Guardou o revólver nu saco de provas, colocou uma etiqueta e guardou tudo no bolso do paletó. Quando voltou ao banheiro, Afonso acordara e estava divertindo-se com a água quente.

Martins desligou a água e aproximou-se de Afonso, olhando de frente para o homem que com certeza absoluta que não era o assassino de Raquel Azevedo, pronto para ouvir mais falação. E para falar.

¾ Meu nome é Túlio Martins. Somos da Delegacia de Homicídios, Este é o detetive Cabral. Viemos aqui para prendê-lo como suspeito principal do assassinato de Raquel Azevedo. O gerente diz que você não saiu deste quarto desde as três horas da manhã de sábado. Pelo jeito e cheiro desse quarto... e seu... eu diria que ele está certo. O que eu quero saber é o que você fez entre 0:45, quando todo mundo te viu pela última vez no estúdio do Canal 33, e a hora em que se registrou nesta espelunca.

Afonso continuava piscando com a água que escorria em seus olhos, Suas mãos continuavam curvadas, como se estivessem segurando a garrafa.

¾ Onde é que você estava, Afonso? ¾ perguntou Martins.

Afonso esbugalhou os olhos, finalmente processando o que Martins lhe dissera.

¾ Raquel morreu?

¾ Morreu ¾ disse Martins. Alguém atirou no seu coração com um 38. Uma arma como a sua. Mas o que eu quero é só saber onde você estava., entre 0:45 e 3:00 de sábado. Quero o nome de alguém que te viu nesse horário. E depois, que vá para casa ficar com a sua mulher, que está morrendo de preocupação com um marido idiota. Martins deu um passo para fora do banheiro.

Cabral continuou a fazer as perguntas:

¾ Onde você foi depois de sair do estúdio, Afonso?

¾ Saí da TV e desci pela avenida, em direção ao centro até que achei um bar. Parei, entrei, bebi demais e fiquei com medo de voltar a dirigir. Disse ao garçom que não daria conta de voltar para casa. Então ele me disse que eu estava no bar de um hotel. Pedi um quarto e é só.

Martins chamou Cabral e disse a ele que fosse ao bar do hotel, verificar a história. Quando voltou, o detetive confirmou a história de Afonso.

¾ Ë verdade, chefe. Falei com o garçom que o atendeu; lembra-se bem do horário em que ele chegou; o bar estava começando a ficar movimentado. Ele conhecia Afonso do programa de televisão e o reconheceu. Disse que na hora em que ele chegou, um noticiário especial informava um ataque dos USA ao Iraque; era exatamente 0:55. E o Afonso saiu de lá direto para esse quarto.

Martins aproximou-se do homem na banheira.

¾ Vou levar o Afonso para casa e depois vou pra casa também. Nos veremos amanhã, por volta do meio-dia, está bem? Descanse bastante.

¾ Obrigado, Túlio.

 

¾ Você pode guardar um segredo, Afonso?

Afonso virou o rosto para dentro do carro ¾ estava com a cabeça na janela, pegando vento, arejando sua mente um pouco mais ¾ e deu um pequeno sorriso.

¾ Eu?

¾ Um segredo profissional ¾ disse Martins. ¾ Se eu ouvir no Canal 33 ou ler em algum jornal e perceber que foi você quem contou, vou te botar numa gelada.

O sorriso de Afonso se alargou.

¾ Agradeço o que fez por mim, comissário. Está certo, eu sei guardar segredo.

¾ O assassino de Raquel Azevedo escreveu uma carta dizendo que ela não vai ser sua última vítima ¾ disse Martins. ¾ Mandou a carta para a Gazeta de Notícias, achando que se interessariam pela história dele. Mas não tenho esperança de que continue em segredo. Vão acabar descobrindo um jeito de publicá-la. ¾ Martins observou o rosto de Afonso, antes de prosseguir o relato.

¾ Tenho certeza de que é um homem. O sujeito disse nas entrelinhas da carta que está de saco cheio dessas mulheres tipo Raquel Azevedo, que vão subindo na vida à custa do que você poderia chamar de charme sexual. Pareceu um cara cansado de ver gente como ela, que aparece em anúncios nos jornais, nos cartazes e nos outdoors, presente pela cidade inteira como um objeto sexual, quando na verdade o que ela devia ser era jornalista. Como você, como um monte de outros caras e tantas mulheres que conseguem trabalhar sem... bom, sem ter que tirar a roupa para isso.

Afonso riu.

¾ Eu concordo com esse indivíduo, comissário. Apesar de estar chocado com a morte de Raquel, não consigo deixar de pensar que ela denegria a reputação da nossa televisão.... Será que isso me inclui novamente na lista dos suspeitos?

¾ Para lhe dizer a verdade, a razão de contar tudo isso sobre a carta, é que você já trabalha nesse negócio de noticiário de televisão há muito tempo. Passei quase o dia inteiro falando com outras pessoas da televisão: seu produtor, as pessoas que trabalham no seu programa; e ninguém acha que você matou Raquel, se isso lhe serve de consolo.

¾ Serve sim ¾ disse Afonso, baixinho.

¾ E tem mais: pensei que alguém de fora, de outro programa de notícias, outro canal de TV, poderia ficar bastante contente com a morte dela; já que você sabe tanto sobre televisão e também da carta, poderia ter alguma idéia sobre quem essa pessoa podia ser, se existisse alguém nessa situação.

Afonso pensou por um momento, antes de falar.

¾ Não me ocorre ninguém, comissário. Os produtores, os executivos de todos os noticiários de Goiânia vão ficar satisfeitos; ela representava uma concorrência que no momento era impossível vencer. Ao mesmo tempo, eles sabem que a Raquel, em si, não interessava. Ela era a materialização de uma idéia de um produtor, diretor, publicitário, consultor de comunicação de massa. Em determinado momento, eu também já representei uma idéia parecida. Se tivesse morrido de forma violenta, seria facilmente substituído por outro representante da mesma idéia. A mesma coisa acontece com Raquel; existe a demanda de um determinado público por um gênero de produto, com estilo e perfil definido. E alguém será modelado para preencher esse vazio.

¾ Entendi ¾ interrompeu Martins. ¾ Preciso procurar um interessado na morte dessa moça em outro lugar, não nas emissoras de televisão. Bem, já avisei sua mulher que você estava bem e indo para casa. Vou ficar com sua arma por uns tempos; tenho medo que você faça alguma besteira consigo mesmo ¾ concluiu, observando atentamente sua expressão enquanto falava.

Afonso levantou o pino da porta, mas não a abriu.

¾ Devo-lhe um grande favor, comissário.

¾ Não me deve nada ¾ disse Martins. ¾ A sua dívida é com as pessoas que se importam com você, se é que ainda existe alguma. O meu filho... ah, deixa pra lá. Você tem que subir.

¾ Era alcoólatra? Era isso que ia dizer?

Martins fechou os olhos e os apertou com as pontas dos dedos, criando fogos de artifício verdes e pretos.

¾ Que diferença faz?

Afonso abriu a porta mas não saiu do carro.

¾ Escutei sua conversa com o detetive Cabral. Sei como ele deve estar chateado.

¾ Ah, é?

¾ Você não sabia? ¾ Afonso balançou a mão, como se quisesse afastar o que estava prestes a dizer.

¾ Sabia o quê? ¾ perguntou Martins.

Afonso pareceu surpreso.

¾ Não tenho certeza, mas acho que o detetive e Raquel são...eram...amigos.

¾ Por quê você acha isso?

Afonso pensou durante um momento

¾ Há mais ou menos um ano, o detetive Cabral foi convidado para um debate na TV Universal. A Raquel era a moderadora. Pouco tempo depois, talvez semanas... vi os dois juntos.

¾ Os dois?!?

¾ A Raquel e o detetive Cabral ¾ confirmou Afonso.

¾ Onde você os viu?

¾ No Sala de Controle, um bar que fica a um quarteirão do Canal 33. É um local muito freqüentado pelo pessoal da emissora.

¾ E eles estavam se encontrando? ¾ perguntou Martins.

¾ A única palavra para definir a atitude deles é intimidade. Aparentavam um conhecimento bastante próximo, e uma relação de afeto.

Martins despediu-se de Afonso, ligou a ignição e foi deixando o Setor Bueno, indo em direção à Nova Suíça. Por que ele não me disse nada? ¾ Era a pergunta que fazia a si mesmo.

 

¾ Já lhe disse para não voltar mais aqui ¾ disse Lilian Velasco.

¾ Você me deixou entrar.

¾ Porque se não tivesse deixado, você ia fazer alguma coisa absurda, como escalar o muro do jardim. Algo bem macho.

¾ Você sempre gostou de um pouco de violência.

¾ Gostava ¾ disse Lilian. ¾ Agora, será que você podia ir embora, por favor? Não quero vê-lo mesmo.

¾ Li o seu livro.

Ela riu.

¾ É claro. Você adora se castigar.

¾ Agora você vai conseguir realizar o seu desejo... ser convidada pela TV.

¾ Não é um desejo, é uma fantasia. E eu já fui convidada.

¾ É uma pena que as mulheres que lêem o seu livro não saibam que foi escrito por uma ninfomaníaca. Paixões. Grande merda. É uma pornografia sofisticada, só isso, feita para deixar os homens excitados e você excitada com essa idéia.

¾ Obrigada. Sofisticada? Uau!

¾ Tem alguma coisa para beber?

¾ Não para você. Quero que vá embora. Se não for, chamo a polícia.

Ele se sentou na poltrona e cruzou os braços atrás da cabeça.

¾ E vai gritar ‘estupro’? É bem seu estilo, não? E você descreverá detalhadamente aos policiais tudo o que eu fiz com você, mesmo que não tenha feito; e logo vocês estão subindo pelas paredes e depois subindo um em cima do outro.

¾ E você ia ficar olhando? ¾ perguntou Lilian.

Ele apontou com o queixo para a pilha de folhas impressas sobre a mesa.

¾ Um romance. E você está nele, para sua tristeza.

¾ Como é aquilo que você sempre diz? Que um escritor só pode escrever sobre o que conhece?

¾ No livro você não está tão mal, no fim das contas ¾ ou melhor, não vai ficar, se for embora agora. Eu tenho tido a idéia de transformar o seu personagem... num assassino, um maníaco misógino.

¾ Misógino?!?

¾ Mas isso iria complicar a trama sem necessidade. Depois, apesar da sua pose, você na verdade é um gatinho inofensivo. E um masoquista. Você nunca iria matar as mulheres que lhe causam tanta dor prazerosa.

Ele sorriu.

¾ Queria ler isso.

Lilian riu com desdém.

¾ Ninguém lê o meu trabalho antes que o termine. Nem o meu editor, ninguém.

Ele voltou a sorrir.

¾ Você é uma piranha idiota, sabia disso?

Lilian inclinou a cabeça, sem entender.

¾ Era isso mesmo que eu queria saber. E nem tive que lhe perguntar.

Ela ficou curiosa.

¾ Queria saber para quê?

Puxou uma arma de dentro da blusa e apontou para o rosto dela.

¾ Porque quando eu levar isso embora, não vai mais existir...

Lilian começou a piscar incontrolavelmente.

¾ Guarda esse negócio, por favor...

¾ ... E já que ninguém mais leu, não vai ser possível juntar as peças e dizer que eu sou um dos personagens.

Pegou uma almofada e envolveu a arma. Andou até ela e afastou o cabelo espesso e negro de sua face com o cano da arma. Lilian tremia.

¾ Por favor.

¾ Você acertou em cheio. Maníaco misógino, hein? Gostei disso.

¾ Marta tem uma cópia ¾ disse ela, ou tentou dizer. Moveu os lábios mas não conseguiu emitir qualquer som. A língua estava paralisada; a garganta, seca. Tentou engolir e dizer outra vez ‘Marta tem uma cópia’. Antes que conseguisse ele enfiou uma bala em seu cérebro.

 

Gabriela fechou os olhos e tentou ver, com a memória, o mais jovem dos homens que entraram no Le Steak quando ela e Fausto saiam.

Abriu os olhos e olhou para a fotografia da primeira página do Diário, deixado por um freguês em cima do balcão.

Era o mesmo homem. Releu a legenda que lera uma dezena de vezes: Polícia investiga morte da jornalista.

O texto da matéria trazia poucos informes sobre o crime, mas com declarações dos policias que estavam nas fotos: detetive Manoel Cabral e comissário Túlio Martins, que conduziam as investigações.

Cabral. O nome escrito no envelope da passagem, no bolso da blusa de Fausto, junto a um endereço do Setor Sul. Gabriela olhara na lista telefônica para saber se algum Manoel Cabral morava na Rua 110-A. Não havia nenhum telefone para esse endereço ¾ o que, por um lado, fazia sentido: ele era um policial e poderia ter inimigos. E um deles poderia ser Fausto Cabral, o homem que estava ficando com ela; que lhe dissera chamar-se assim, mas comprara uma passagem de avião em nome de Marcos Cabral. Teve que admitir: nada sabia sobre ele, mas já estava apaixonada.

Gabriela assustou-se com o barulho da chave na porta. O relógio digital em cima da mesa marcava quatro e meia da manhã. Como pudera apaixonar-se por um homem que voltava para casa às quatro e meia da manhã, e não iria lhe dizer ¾ tinha certeza disso! ¾ onde estivera? Dobrou o jornal, empurrou-o no cesto de lixo e foi encontrá-lo, esperando estar com um sorriso nos lábios.

¾ Oi.

¾ Oi ¾ disse Fausto. ¾ A que horas você chegou em casa?

É verdade! Geralmente trabalhava até a hora da lanchonete fechar; não chegava em casa antes das 4:00 horas. Talvez não houvesse razão para desconfiar.

Pare de se enganar, Gabriela. Esse cara pode ser perigoso.

¾ Saí um pouco mais cedo hoje. Achei que você ia estar aqui.

¾ Fui ver um amigo. Disse que ia chegar tarde.

¾ Sei. Só que...

Fausto aproximou-se e pôs as mãos sobre seus ombros.

¾ Gabriela...

Soltou-se das mãos dele. Não gostava que a segurassem daquela maneira. Lembrava a maneira como seu pai a segurava ¾ antes de bater no seu rosto ou atirá-la contra a parede.

¾ Não fala nada. Sei o que você vai dizer. Desculpe. Não posso fazer nada; é só isso. Gosto de você. E quero ficar perto.

Fausto enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans e arrastou os pés no chão.

¾ Acho melhor ir embora.

Deixe-o, Gabriela. Deixe-o ir.

¾ Não. Não vou deixar. Mesmo que seja por pouco tempo, quero esse tempo para mim.

Aproximou-se dele, puxando suas mãos de dentro dos bolsos e pondo-as sobre seus seios. Levantou a cabeça, segurou os cabelos e puxou a boca para si.

Estou louca! Mas... e daí? No máximo ele pode me matar; não iria mais sentir saudade.

 

Enquanto Gabriela dormia, Fausto se lembrava do Araguaia.

Andou durante uma semana, seguindo em direção ao Pará. Viajava de noite e dormia de dia, vivendo da terra.

Encontrou um rio e atravessou-o Sentiu cheiro de comida, ouviu crianças chorando, cachorros latindo ¾ os sons da paz. Aproximou-se, agachado, e percebeu que o responsável pela paz era uma cerca de madeira. Pode ver as taperas dos índios e uma grande barraca de campanha, onde um jovem de chapéu ensinava português às crianças sentadas em bancos de madeira.

Fausto afastou-se e entrou no mato. Não queria ser visto como estava. Ficou à distância, observando o movimento das pessoas. Sentiu saudade de casa. Queria estar com os pais, Liebe.

O homem vinha se aproximando, caminhando lentamente. Enquanto andava, lia um livro pequeno. Quase tropeçou por duas vezes. Parou sob a sombra de uma árvore e ficou lendo. Não notou quando a cobra veio se arrastando em sua direção. O réptil contornou o tronco e aproximou-se dele; de súbito, a cobra estacou, detectando a presença estranha. Armou o bote e preparou-se, ameaçadoramente, para atacá-lo. Quando a jaracuçu estava erguida no ar, desferindo o ataque fatal, a faca foi arremessada e cravou a cabeça no tronco da árvore. Assustado, o homem parou a leitura e olhou a cobra presa à árvore pela faca; virou-se e deparou com o rosto barbudo e sujo do seu salvador; estava imóvel. Levantou-se e foi na direção dele.

¾ Obrigado! Quem é você? Salvou minha vida! ¾ exclamou.

Fausto estava com os olhos fixos no livro que o homem trazia na mão. Leu a capa: A Bíblia Sagrada. Não teve receio de aproximar-se mais. E falou com alguém pela primeira vez desde o dia em que fugira do acampamento.

¾ Preciso de ajuda! ¾ foram as palavras que pronunciou antes de cair, exausto pela fadiga e esforço na longa fuga.

Fausto acordou deitado numa esteira, vestindo roupas de algodão limpas e secas. Sentiu o cheiro suave de uma fragrância natural. Olhou ao redor e viu um crucifixo sobre um pedaço de madeira utilizado como mesa. Ao lado, uma foto de um jovem em vestes sacerdotais. Reconheceu o padre católico: era o homem a quem salvara do ataque da jaracuçu. Fechou os olhos e tornou a dormir.

 

O corpo de Lilian Velasco foi encontrado na tarde de quinta-feira por dois policiais ¾ os últimos elos de uma cadeia de preocupação que vinha crescendo desde a manhã.

O motorista chegara ao apartamento de Lilian às oito horas para levá-la, por ironia, aos estúdios do Canal 33, onde seria a convidada do Bom Dia, Goiânia, um programa de notícias e entretenimento. Como não recebeu resposta ao tocar insistentemente a campainha da frente, o motorista ligou para o celular; a ligação caiu na secretária eletrônica. Em seguida, ligou para o serviço de relações públicas que o contratara para conduzir a escritora. Falou com a chefe. Priscila ligou para Lilian e deixou um recado duro na secretária; já que escrevera um livro controvertido, deveria estar preparada para lidar com isso. Só depois de voltar do almoço e descobrir que Lilian não respodera ao seu chamado, telefonar outra vez e novamente receber a resposta da secretária eletrônica, Priscila resolveu que aquele assunto exigia algo mais que uma simples abordagem telefônica. Foi até o apartamento de Lilian e tocou a campainha, sem resultado. Deu a volta e tentou entrar pelos fundos; estava tudo fechado. Contornou o corredor e parou ao lado de uma pequena janela lateral que estava aberta; preocupada com o mau cheiro que vinha de dentro, chamou a polícia.

Enquanto isso, todos os jornais da cidade recebiam uma carta impressa, postada na segunda-feira pela manhã em uma agência próxima ao apartamento de Lilian, anunciando sua morte e afirmando que era a segunda numa série começada com Raquel Azevedo. A carta recapitulava o sentimento expresso na primeira e recomendava aos editores que ignorassem as tentativas de suprimir essas comunicações, por parte da polícia. E falava em outras mortes, ‘até que todas fossem exterminadas’.

Os jornais planejavam aproveitar a notícia ao máximo. Equipes de televisão filmaram as redações e salas de impressão, dando destaque para a cobertura do homicídio da escritora.

A Gazeta de Notícias trazia um furo: a menção ao fato de que a polícia encontrara uma carta no cesto de lixo, próximo às caixas do correio no condomínio de Lilian; estava endereçada a ela e dizia “Você será a próxima”. A fonte dessa informação fora Túlio Martins, retribuindo ao jornal o favor de não terem publicado o texto da primeira carta.

¾ Se tivesse deixado que publicassem a carta, e ela tivesse lido, podia ter ligado os fatos e entendido que era um aviso.

¾ Não havia como você saber, Túlio ¾ falou Pedro Henrique.

¾ Um psicólogo está analisando as cartas, tentando fazer um perfil do cara. Eu podia economizar o tempo dele: o cara é maluco ¾ observou Martins.

¾ Ele devia conhecer essas donas, não acha, Túlio? ¾ perguntou Pedro Henrique. ¾ Do contrário, como é que se explicam todas as entradas e saídas limpas? Ou deixaram ele entrar, ou tinha a chave; e trancou a porta quando saiu. Já mandei interrogar a tal Priscila, relações públicas da escritora. Pedi uma lista de homens, amigos, conhecidos, etc., alguma coisa para ser comparada com a lista dos amigos da Raquel Azevedo.

Martins concordou, mas não entendeu bem a finalidade da coisa.

¾ Você não acha que podíamos procurar uma mulher, também? A relações públicas me disse que o livro é sobre lesbianismo. Talvez devêssemos estar procurando amigas, conhecidas, etc.

¾ A única coisa, Túlio ¾ disse Cabral ¾ é que não tem nada na vida dela para deixar uma mulher com tanta raiva a ponto de querer matar a Lilian; ela caía em cima dos homens.

¾ Você já leu o livro dela? ¾ perguntou Martins.

Cabral fez que não com a cabeça.

¾ Li a respeito. Saiu um artigo na Época. É um negócio bem forte. Parece que ela propunha uma sociedade de mulheres vivendo juntas, criando filhos nascidos de processos artificiais; nenhuma relação com homem. Nessa lista de amigos deve ter um cara que talvez estivesse pensando em alguma coisa diferente em relação a ela, Lilian Velasco.

Pedro Henrique deixou a sala. O detetive Cabral estava brincando com um abridor de envelopes entre os dedos. Martins observava-o atentamente.

¾ Cabral, você esqueceu de me dizer que não encontrou Raquel Azevedo só uma vez ¾ e que a conhecia.

Cabral parou o movimento das mãos. Parecia tenso.

¾ Foi há uns seis meses. Eu a conheci naquele programa de que lhe falei. Como ela nem olhou para mim, fiquei surpreso quando telefonou uma semana depois me convidando para conversar. Encontrei-a no bar próximo à TV. Falamos sobre trabalho, coisas assim. Ficamos no contato superficial.

¾ Nunca mais a viu?

Cabral balançou a cabeça, negativamente.

¾ Só na fotografia na plataforma da estação.

Martins ficou pensando em como ela conseguira o telefone dele; não estava na lista. Mas podia ter sido fornecido pelo produtor. Bem, mas de qualquer forma aquilo devia ser bobagem, pensou.

 

Priscila Reis ¾ a relações públicas de Lilian Velasco ¾ consultou a sua agenda e a da escritora e forneceu mais de setenta nomes naquele dia e no dia seguinte; não parava de telefonar para acrescentar mais algum. Trinta deles, e depois mais dez, também constavam da lista de amigos e conhecidos de Raquel Azevedo.

Todos foram investigados; aparentemente, nenhum deles estava envolvido em qualquer dos crimes. Alguns moravam em Brasília, outros em São Paulo, e há tempos não vinham à cidade. Outros não estavam na capital, ausentes em viagens de negócios ou lazer, quando Lilian ou Raquel foram mortas. Todos com álibis consistentes ¾ e o mais importante: ninguém com motivo para cometer os crimes; ao contrário, só foi possível identificar perdas provocadas pelo falecimento de ambas.

Na tarde de sexta-feira, Martins foi visitar Priscila e encontrou a relações públicas ¾ que também fazia as vezes de agente literária da escritora ¾ desolada.

¾ Além de tudo, perdi o romance.

¾ Romance? ¾ perguntou Martins.

¾ O romance que a Lilian estava escrevendo ¾ disse Priscila. Ela pegou uma cópia do inventário feito pela polícia no apartamento de Lilian Velasco, incluindo os arquivos armazenados no computador e no notebook da escritora. Bateu no documento com a ponta do dedo.

¾ Não está aqui. Ele não está aqui.

¾ Estava escrevendo um romance? ¾ perguntou Martins.

¾ Quase acabando. Talvez já tivesse terminado. Ia ser o seu livro mais importante; iria chocar a opinião pública.

¾ Como assim? ¾ perguntou Martins.

Priscila Reis curvou-se um pouco:

¾ Não li o livro; nenhuma palavra. A Lilian era assim. Outros escritores mostrariam alguns capítulos ao seu agente; alguns fazem uma sinopse, para apresentar aos editores. Com ela era diferente. Me passava o livro quando terminava e sequer demonstrava interesse em saber opiniões a respeito. Escrevia o que queria , sem ouvir sugestões.

¾ Faz sentido ¾ disse Martins. ¾ Eu acho. Não faz?

¾ Algumas coisas se perdem, comissário. Muitos escritores perderam trabalhos por diversas razões: manuscritos destruídos acidentalmente, arquivos com originais danificados por panes em computadores. As idéias são muito frágeis, comissário; às vezes o próprio autor se esquece de uma boa idéia e nunca mais consegue lembrar-se.

Martins pensou durante certo tempo qual deveria ser sua próxima pergunta. Tudo o que conseguia pensar era: “E daí?”

¾ O romance sumiu, comissário.

¾ Você acha que o assassino o levou?

¾ Eu é que não fui. Você também não. E nenhum dos seus homens... então quem foi?

¾ E você está me dizendo que não existe sequer uma cópia?

¾ Nenhuma, a não ser...

¾ O quê?

¾ Bem, Lilian comentou comigo uma vez, meses atrás, que uma amiga dela, chamada Marta, não estava gostando do desenvolvimento do romance... A Marta... bom, a Marta era a guru da Lilian, na verdade. Foi ela que inspirou Lilian a escrever Paixões e também a encorajou a desistir dos homens na vida particular. Eram namoradas. Depois que Paixões foi publicado, a Marta deixou a Lilian e se mudou para o Rio de Janeiro. Disse a Lilian que ela iria transformar-se numa espécie de guru, também... para outras mulheres que iam ler o livro... e não precisaria mais dela, Marta; era necessário que Lilian desenvolvesse uma filosofia e um estilo de vida próprios. Lilian ficou arrasada. E começou a sair com uns caras, outra vez. Muitas dessas coisas, pelo que Lilian me contou, estavam no romance. Imagino que por isso mesmo Marta não estava gostando do desenvolvimento do livro. Não sei se Marta chegou a ler, ou se reagiu ao que Lilian lhe contou.

Martins pensou longamente outra vez.

¾ Deixe-me recapitular. Você acha que essa Marta pode ter pego o romance?

Priscila balançou a cabeça, negando.

¾ Lilian pode ter mandado uma cópia do livro para ela... o romance inteiro ou só alguns capítulos.

Martins começou a se sentir excitado pela primeira vez desde o começo das investigações.

¾ O romance era autobiográfico, não? Sobre Lilian Velasco e as pessoas que ela conhecia. Já que existe uma possibilidade dela conhecer o assassino, talvez ele esteja no livro; não indicado claramente, mas de um modo que possa ser reconhecido, não acha?

Priscila concordou.

Martins levantou-se.

¾ Obrigado, Srta. Priscila.

 

¾ Está ocupado, comissário? ¾ perguntou Lúcio Castro.

Martins olhou para os seus pés, descansando em cima da mesa.

¾ Acho que não, Lúcio. O que há?

Lúcio puxou uma cadeira até a mesa de Martins.

¾ O Cabral está por aí?

¾ Pedi a ele que investigasse alguns álibis de pessoas conhecidas de Raquel Azevedo e Lilian Velasco.

Lúcio Castro franziu as sobrancelhas.

¾ Queria falar uma coisa com o senhor ¾ disse Castro. ¾ É sobre o assassinato do cara, o Pelé Problema.

¾ Como você está se saindo com o Itamar, aquele filho da mãe preguiçoso? ¾ perguntou Martins.

¾ Era sobre isso que eu queria falar. O Itamar acha que esse cara fez o que era certo: quer dizer, atirar no mala. Ele só está deixando o barco correr, simulando. Como na história da Oficina de Motores. Ele não quis nem ir até lá. Até me disse para não ir; seria perda de tempo. Fui sozinho, comissário. E não foi perda de temo. Há uma conexão. Esse cara está seguindo uma linha.

¾ Espere um pouco, Lúcio. Você está passando na minha frente ¾ disse Martins. ¾ Que história da Oficina de Motores é essa?

¾ Um cara chamado Frederico Pimentel foi morto na Nova Suíça na noite de domingo para a manhã de segunda ¾ disse Castro ¾ um tiro de calibre 765 no peito. Era a mesma arma, e veja só: esse cara foi colega do falecido Juvenal de Barros, no Exército. Bem, acho que você também não sabe nada disso: o traficante que estava sendo investigado pelo Bonfim, e foi encontrado morto no prédio abandonado, chamava-se Juvenal de Barros. Lembra que o Bonfim disse que ele tinha uma tatuagem? Um dragão que subia pelo ombro e descia até o meio das costas? Esse Pimentel também tinha. E no pescoço, trazia uma placa de identificação de prata, daquelas que informam o tipo sangüíneo para atendimento em caso de emergência; essas placas eram fornecidas pelo Exército aos combatentes nas operações anti-guerrilha no Araguaia, nos anos 70. Fiz a triagem das informações, chequei as fichas e descobri que ambos estiveram em ação juntos, combatendo os guerrilheiros comunistas na região do Araguaia e Bico do Papagaio. Ambos foram condecorados, deram baixa com louvor. Verifiquei as fichas deles nos Estados onde estiveram a serviço. Depois da baixa, Juvenal de Barros esteve envolvido com o contrabando de armas no Rio, em conexão com as gangs de tráfico dos morros; foi preso com um carregamento de armas automáticas. E teve uma outra detenção em São Paulo, num jatinho que transportava cocaína .

¾ Você foi fundo mesmo! O que importa é saber que o Juvenal de Barros foi morto com uma 765 na sexta-feira à noite ou na segunda-feira pela manhã; o Frederico Pimentel também foi morto com a mesma arma, usada pelo assassino do Pelé, que escolheu o cara errado para criar problema...

¾ E tem mais: esse Pimentel era dono de uma Oficina de fachada: seu ramo era o desmanche de automóveis. Um policial que investigava suas atividades, Celso Fernandes, me passou as informações da ficha dele. O cara estava ligado a ladrões de carros, traficantes; atuava como agiota e dono de uma boate onde era cafetão de garotas de programa de alta classe ¾ concluiu Lúcio Castro.

¾ Como o Itamar está conduzindo a investigação?

¾ Quando expliquei como estava a situação, ele disse: Se continuar desse jeito, a gente vai ter que dar uma medalha pra ele! Perguntei o que ele pretendia fazer e me respondeu que ia esperar. Não sei não, comissário; ele está no comando e devo fazer o que ele disser. Mas não posso ficar sem fazer nada; não está certo. Então eu queria falar com o detetive Cabral; ele também esteve no Exército e também combateu a guerrilha no Araguaia. Talvez tenha ouvido falar no Juvenal de Barros ou no Frederico Pimentel. Fiquei pensando que a ligação entre os mortos e o suspeito pode ser antiga e queria tentar qualquer coisa; só não posso ficar esperando.

Lúcio Castro, pensou Martins, iria longe na profissão.

¾ Você já tem um contato no Exército, certo? ¾ perguntou Martins.

¾ Sabe como é, comissário... ¾ riu Lúcio. ¾ Tem uma garota no Centro de Comunicação Social do Exército que me ajudou bastante. Liguei para ela algumas vezes, pedindo informações sobre esses caras e ela foi muito atenciosa. Por que?

¾ Pensei num favor que você podia pedir a ela ¾ disse Martins.

¾ Veja se ela consegue uma lista de todos que estava na mesma companhia do Barros e do Pimentel, se possível com endereços de quando foram dispensados. Provavelmente serão endereços dos pais. Comece a telefonar à procura de alguém que conhecia a eles. Verifique se existe alguém daquela época com algum motivo para matá-los, e para matar mais alguém conhecido deles. Descubra se há mais alguém da companhia morto com uma bala calibre 765; talvez esses dois não sejam os primeiros da lista desse cara. É um trabalho chato, mas por um lado o Itamar Mendonça está certo: não há muita coisa para se fazer, a não ser esperar.... esperar que o cara cometa um erro. Mas isso não significa que não haja nada a ser feito; procure, e talvez apareça alguma coisa ¾ e justamente o que você queria saber.

¾ Você está certo, comissário. Os amigos do Pelé ainda não apareceram; devem ter saído da cidade, até as coisas esfriarem. Mas uma hora ou outra eles vão aparecer.

¾ Isso me lembra outra coisa: não chegamos a dizer para a imprensa qual era o nome do livro que o cara estava lendo. O Capoeira, não é? Divulgue isso. Alguém pode ler e se lembrar; alguém pode ter visto o vizinho com o livro no elevador, ou coisa parecida.

O rosto de Lúcio Castro iluminou-se, mas logo se tornou sombrio outra vez.

¾ O Itamar vai dizer que é perda de tempo. Vou ter que falar com ele antes.

Martins balançou a mão, afastando a idéia.

¾ Não estou falando de uma ação formal. Basta chamar uns repórteres amigos e passar a informação; peça discrição. E a notícia irá espalhar-se.

A nuvem de preocupação passara.

¾ Obrigado, comissário. Obrigado por me ouvir.

 

¾ Srta. Marta, meu nome é Túlio Martins. Sou comissário de Polícia, da Delegacia de Homicídios de Goiânia. Estou investigando o assassinato de Lilian Velasco, que segundo fui informado era sua amiga. Gostaria de expressar meus pêsames pela morte da sua amiga e assegurar que estamos fazendo o possível para pegar o criminoso. ¾ Fez uma pausa antes de prosseguir.

¾ Pois não, comissário. Como posso lhe ajudar? ¾ perguntou a voz feminina ao telefone, suave e educada.

¾ A razão de lhe telefonar é que a relações públicas Priscila Reis, mencionou que a Srta. Lilian conversara com você sobre um romance que estava escrevendo na época em que morreu. O original aparentemente desapareceu do apartamento dela. Não sabemos se foi levado pelo assassino ou se está escondido. A Srta. Priscila imaginou que talvez você tivesse lido uma cópia. Estamos interessados porque tivemos a informação de que trata-se de um romance autobiográfico; pode haver alguma pista no livro sobre a identidade do assassino. Temos motivos para suspeitar que ela foi morta por alguém que a conhecia. Você leu o livro?

¾ Sim. Ela me enviou uma cópia, pelo e-mail. Estava lendo o último capítulo no dia em que soube do assassinato.

¾ Deve ter sido um choque.

¾ Sim.

¾ Você poderia mandar-me essa cópia, Srta. Marta? Esperamos que haja alguma pista nela sobre a identidade do assassino.

¾ E tem mesmo.

¾ Tem?!?

¾ Sim. Marcelo a matou

¾ Você por acaso saberia quem é esse Marcelo? Presumo que seja o nome de um personagem do livro e não uma pessoa real.

¾ Sim.

¾ E você sabe qual é o verdadeiro nome desse Marcelo?

¾ Não.

¾ Eu realmente gostaria de ler esse livro, Srta. Marta...

¾ Estou indo para Goiânia no vôo das 19:00 horas, comissário. Vou levar uma cópia. Ligue no meu celular, amanhã pela manhã, certo?

¾ Está certo. Ligarei amanhã.

Martins desligou o telefone e teve que fechar os olhos para que sua cabeça parasse de rodar. Aquela sim, era uma mulher como ele. Nada de conversa, nada de papo furado, nada de digressões. Apenas ‘sim’ e ‘não’; simples fatos.

 

¾ Aonde você vai? ¾ perguntou Gabriela.

¾ Vou sair.

¾ O que vai fazer? ‘Nada’ ¾ imitou ela.

Ele parou com a mão na maçaneta.

¾ Vamos ao cinema mais tarde? Você está de folga hoje, não?

Gabriela levantou-se e veio em sua direção.

¾ Já lhe disse: vou trabalhar. Você nem estava escutando... Em que estava pensando? Na Liebe?

Os olhos dele se apertaram; afastou-se da porta.

¾ Mexi na sua carteira quando você dormia ¾ disse Gabriela. ¾ Achei a foto dela: Para Fausto, com amor, Liebe. Quem é Liebe? Quem é Fausto? E quem é Marcos Seabra... O Marcos Seabra que tem uma carteira funcional dizendo que ele trabalha para a Cruz Vermelha Internacional, com a sua fotografia? E quem é você, afinal?

Ele entrou no quarto e voltou um segundo depois, carregando o exemplar de O Capoeira. Parou na frente dela.

¾ Desculpe-me.

¾ Tudo bem.

Gabriela queria abraçá-lo, puxá-lo para o sofá, senti-lo próximo. Mas ficou imóvel.

¾ E quem é Cabral? Barros? E... como era o nome do outro? Pimentel?

Fausto largou o livro e agarrou os ombros da mulher.

¾ Esquece esses nomes. Me esquece. Esquece tudo.

Gabriel olhou dentro de seus olhos e disse com firmeza:

¾ Me... solta.

Ele a soltou, pegou o livro e foi até a porta; Gabriela riu.

¾ Você não vai me matar também? Do jeito que matou a Raquel Azevedo e a outra, a escritora? Ou eu não sou bastante charmosa? Podia ficar mais bonita, se você quisesse. Mesmo se você me matasse. Não vá embora, por favor.

Ele se foi, e por um instante foi como se não tivesse ido. Logo a dor aflorou, preenchendo cada poro de seu corpo.

 

Será que devia pegar o Cabral agora? Não queria fazer isso; queria esperar. Estava gostando de fazê-lo suar. Sabia que Cabral estava suando. Sempre cheio de cuidados, olhando para trás, mudando os caminhos ¾ que Fausto já sabia ¾ eram seus caminhos habituais. Mas não era cuidadoso o bastante para enxergá-lo no meio da multidão. Estava esperando um disfarce; que se movimentasse de um modo furtivo. Não esperava que passasse perto dele, como fizera muitas vezes nos últimos dias. Fausto sabia que o melhor disfarce era estar descoberto, sem camuflagem, desprotegido. Aprendera isso na mata.

 

O homem estava agachado ao lado da cama improvisada em que ele descansava após a longa fuga.

¾ Você está bem?

¾ Graças a Deus ¾ respondeu. ¾ Espero poder retribuir a ajuda.

¾ Ainda bem que você se ofereceu, meu filho; ia pedir-lhe a cooperação. Meu nome é Lucas Seabra. Sou padre e dirijo este posto avançado da Cruz Vermelha. Estávamos dando assistência aos índios Wai-Wai. A minha equipe irá deixar esta área nas próximas 24 horas. Você parece conhecer bem os perigos da mata e será muito útil em nossa viagem.

Fausto estendeu-lhe a mão.

 

Três semanas após ter chegado ao acampamento, estava em Belém. Contara a sua história a Lucas Seabra, que se dispusera a ajudá-lo. Dera a ele a certidão de nascimento do irmão, que o auxiliava na missão junto aos índios e falecera um ano antes, vitimado pela malária. Com aquele documento era possível obter nova identidade, CPF e até passaporte. Sabendo dos riscos que o desertor correria, Lucas Seabra providenciou sua ida para a Europa.

Durante o período em que estiveram juntos, o padre Lucas lhe contara a história da vida do irmão: nascera no Rio de Janeiro, fora educado em escolas públicas, freqüentara a UFRJ; cursara filosofia; entrara para a Cruz Vermelha como assistente administrativo, estivera em Bangladesh, no Líbano, em Biafra e na Amazônia. Seus pais eram filhos únicos e já haviam falecido, vitimados por um desastre aéreo. Tornara-se um viajante e tinha poucos amigos, nenhum dos quais era íntimo; a única pessoa próxima era o irmão, padre dedicado à pastoral missionária.

A oferta da identidade resolvia os problemas imediatos; poderia ir para onde quisesse, trabalhando para a Cruz Vermelha como voluntário.

Escolheu a matriz, em Genebra. Queria um tempo antes de pensar na volta ao Brasil. Talvez, no futuro, o País estivesse diferente. Então voltaria e acertaria as contas pendentes.

 

Marta Queiroz estava sentada, imóvel, como ficara desde que soubera da morte de Lilian. Tinha medo de mexer-se muito rápido ¾ mesmo que fosse um gesto tão inofensivo quanto estender a mão e pegar a xícara de chá na mesinha ao lado da poltrona; queria evitar que a arrumação cuidadosa de suas emoções, conseguida a duras penas, se desequilibrasse, derrubando todos os seus sentimentos.

Marta não sabia que ainda estava apaixonada por Lilian; nem percebera o quanto a amava. Poderia ter continuado sem nunca saber disso, caso Lilian não tivesse sido morta. Afinal, tomara a firme resolução de nunca mais vê-la outra vez, e resistir aos seus pedidos de que se encontrassem quando fosse ao Rio de Janeiro para promover seu livro.

Era necessário mover-se; batiam pela segunda vez na porta do quarto do hotel e não havia ninguém mais para fazê-lo.

Levantou-se lentamente, segurando a cabeça, e dirigiu-se até a porta. Percebeu que não poderia abri-la da maneira como estava vestida ¾ de calcinha e com uma camisa de homem que usava como camisola. Lilian adorava vê-la assim; costumava tirar sua calcinha e fazer amor como ela sem tirar a camisa. Marta não podia receber o comissário de polícia dessa maneira. Martins? Era esse o nome dele?

Não tinha mais nada para vestir. Uma aeromoça descuidada derramara vinho tinto na calça de linho que estava usando no avião; agora precisava de uma lavagem a seco para ser salva. Só levara uma saia, guardada na mesma bolsa onde estava uma cópia impressa do original de Lilian, que ficara completamente amassada. Acordara às oito horas e chamara o serviço de lavanderia para mandar passar a saia, mas só buscaram às nove e meia. Por isso não estaria pronta antes das onze, a hora em que o policial avisara pelo celular que viria conversar com ela.

Ainda não eram onze horas ¾ ou eram? Abaixou cuidadosamente a cabeça, olhando para o pulso esquerdo; viu a hora no relógio: 10:20. Então não podia ser o policial. Talvez fosse uma camareira com a saia, passada antes do tempo ¾ assim como Lilian, assassinada antes do tempo.

Mas quem não era assassinado antes do tempo? As pessoas podiam morrer antes do tempo, no tempo certo e até depois do tempo previsto; mas de assassinato só se morre antes do tempo ¾ que nunca está marcado. Ou está? Algumas pessoas não esperam ser mortas? Até mesmo pedem para ser mortas? Criminosos, mafiosos. Faz parte do seu meio. E policiais também; todo policial é um alvo.

Pensou novamente em Lilian. No avião, Marta lera outra vez a segunda metade do romance de Lilian, a metade em que Marcelo aparecia com destaque. Agora tinha menos certeza de que Marcelo ¾ ou o homem no qual o personagem se baseava ¾ era o assassino de Lilian. E não conseguia relembrar a sensação que lhe dera tanta certeza. Talvez fosse porque odiara Marcelo na primeira leitura ¾ como odiaria qualquer homem por quem Lilian afirmasse estar apaixonada; talvez porque ao reler o livro, achasse Marcelo menos verossímil, menos interessante.

Marcelo não era nem alto nem baixo, nem moreno nem claro, nem falante nem taciturno. Não tinha passado ¾ pelo menos não falava sobre ele com Bia, a protagonista ¾ e Bia não fazia perguntas; ela só estava interessada no presente, e já que Marcelo era o presente, era interessante. Tudo mais ou menos simples assim. Ele era um instrumento em vários sentidos; Bia o estava usando para vingar-se de Monica ¾ a própria Marta ¾ por tê-la deixado. Principalmente, por tê-la deixado sem a desculpa de estar envolvida com outra mulher: Bia só sabia ser hábil com os homens; com as mulheres, não sabia seduzir ¾ apenas ser seduzida.

Outra batida na porta.

Ande, Marta. O policial está aí.

Não posso. Tenho que resolver isso tudo antes que ele chegue.

Não é ele. É outra pessoa. É muito cedo.

É isso.

Marta puxou a camisa para baixo, fechou a gola com as mãos e encostou a boca na porta.

¾ Quem é?

¾ Serviço de quarto ¾ disse uma voz de homem.

Serviço de quarto? Não chamara. Ou teria chamado? Estava tomando chá; então devia ter pedido. Mas isso tinha sido há horas, logo após levantar-se.

¾ Eu...

É claro! O rapaz do serviço de quarto voltara para levar a jarra de suco, o bule de chá...

¾ Ah, só um minuto.

Foi até a mesa, pegou a bandeja e levou até a porta. Ficou parada por um instante e depois colocou tudo sobre a mesa novamente. Aquilo era o serviço de quarto; não precisava ficar carregando nada.

Será que devia abrir a porta vestida daquele jeito? Por que não? Não vira o rosto do garçom quando lhe entregara o chá; pedira que deixasse o carrinho com a bandeja junto à porta. Quando foi pegar a bandeja, viu que era um homem jovem, alto e forte. Ele ia gostar de vê-la de camisão e calcinha, com seus cabelos longos despenteados de um jeito atraente. Ia ser o acontecimento do dia dele. E talvez fosse o acontecimento do seu. Não agora ¾ o policial devia estar chegando ¾ mas mais tarde, quando ele largasse o trabalho. Marta não tinha programa; só ir ao túmulo de Lilian. Aquela puta.

Marta Queiroz sorriu para sua imagem no espelho. Repentinamente entendeu o porquê de ter vindo a Goiânia ¾ não fora para chorar sobre o túmulo de Lilian, mas sim para dançar sobre ele, para celebrar sua última vitória.

Bom, talvez fosse Marcelo quem tivesse vencido. Marta tivera Lilian e a abandonara. Marcelo a tivera e a matara. Mais dramático, mais direto, mais definitivo. Era o estilo de Marcelo: mau-caráter; a tatuagem daquele dragão do ombro até as costas significava a maldade que ia no coração do cara.

No romance, Marcelo disse a Bia ¾ Lilian ¾ que, se quisesse, poderia matá-la só com as mãos.

‘Já fiz isso’, disse ele.

‘Onde?’, perguntou Bia.

‘No Exército.’, disse Marcelo

Aquela era a informação mais próxima, no romance, de uma revelação sobre seu passado. Nada além disso foi dito, porque Bia só queria saber do presente. Certa vez, quando ele lhe disse: ‘No meu trabalho você aprende a desconfiar de todos, porque todos acham que você desconfia deles e age de um jeito falso; se esconde’, Bia o interrompeu: ‘Não me fale sobre o que você faz; odeio que você seja detetive de polícia. Só quero saber o que você faz comigo’.

Outra batida na porta.

¾ Estou indo ¾ disse Marta Queiroz, aproximando-se da porta, não sem antes abrir outro botão de sua camisa. Destrancou a porta.

A bala percorreu uma distancia pequena antes de acertar sua testa. Ainda assim, tal é o mistério da mente humana, que naqueles milésimos de segundo, Marta ainda teve tempo para se espantar:

¾ Marcelo?

 

Era engraçado, pensou Martins, como se podia saber sobre o que as pessoas estavam falando, mesmo quando não se sabia o que estavam falando.

Como no dia em que os militares haviam tomado o governo. Martins estava de folga e fora fazer compras com Maria. Ela possuía energia suficiente para ficar fazendo compras até ser empurrada porta afora no final do expediente no supermercado, mas Martins se cansava ao fim de uma hora e fora até a lanchonete tomar uma xícara de café.

Dois homens ¾ como ele, trabalhadores que de vez em quando ganham um dia de folga e são recompensados saindo para fazer compras com as mulheres ¾ estavam em pé no saguão do lado de fora da lanchonete, bebendo café e conversando.

¾ Não consigo acreditar ¾ disse um deles.

¾ Se você não acredita, foda-se ¾ disse o outro. ¾ Você não acredita que em 1964 exista um monte de milicos cretinos dispostos a tudo pelo poder?

Isso foi tudo o que disse ¾ e Martins soube que alguma coisa acontecera com o governo democrático. Nunca entendeu como soube, mas naquele momento teve certeza de que estava ocorrendo um golpe militar. Talvez fosse alguma coisa no jeito como os homens estavam parados ¾ um pouco duros, talvez, segurando as xícaras de café como se fossem jogá-las fora se alguém aparecesse e lhes dissesse que não era hora de estar bebendo café. Talvez não; Martins não sabia explicar.

Da mesma forma, não sabia explicar como tinha certeza que o garçom do Hotel Carajás acabara de encontrar Marta Queiroz morta em seu quarto. Mas ele tinha certeza. Talvez fosse o rosto pálido do rapaz, sua maneira de levantar um pouco o queixo, como se quisesse impedir que alguma coisa caísse de sai boca ¾ palavras, soluços.

¾ Meu Deus ¾ foi tudo o que o rapaz disse quando conseguiu falar. Disse isso só uma vez, mas Martins sabia o que estava falando mesmo sem saber sobre o que falava.

Martins chegara ao Carajás poucos minutos antes das onze e estava no hall, olhando o marcador digital ao lado da porta, enquanto o elevador subia.

O garçom desceu pelas escadas ¾ não correndo, mas com uma pressa cuidadosa. Martins imaginara, por um momento, que o rapaz sempre andava pelas escadas, para manter-se em forma. Viu o seu rosto pálido, queixo levantado; e ouviu aquele ‘Meu Deus’.

O elevador estava no quarto andar, subindo. Martins foi pelas escadas ¾ subiu de dois em dois degraus no primeiro lance e depois foi de um em um. No terceiro andar já estava exausto; no quarto achou que ia morrer; no quinto, teve certeza que estava morto; e não se lembrava como chegara ao sexto, mas chegou.

O 606 ficava ao lado da escada. A porta estava escancarada. Sobre o tapete do corredor, metida num cabide e envolta em plástico, havia uma saia bege. Apesar da falta de ar, Martins reconstituiu mentalmente a cena: o rapaz viera devolver a saia que fora mandada para o serviço de lavanderia lavar ou passar; encontrara a porta do 606 entreaberta; olhara dentro do quarto, largara a saia e descera correndo pelas escadas.

Ofegando, Martins olhou para dentro da suite e viu o que apavorara o rapaz: uma mulher deitada de costas, usando camisa e calcinha brancas. Morta.

Martins deu uma rápida olhada ao redor e viu o que o rapaz não vira ¾ que em nenhum lugar do quarto, nem nas gavetas das mesas, nem no armário, ou na única bolsa de Marta Queiroz, estava a cópia de um romance.

 

¾ Ibrahim Morelli ao telefone ¾ disse Pedro Henrique. ¾ Quer saber o que está acontecendo.

¾ Diga que eu ligo quando tiver certeza que o cara não está mais no hotel.

¾ Revistamos todos os quartos, comissário ¾ disse o policial. ¾ O porão. O telhado. Tudo limpo.

¾ Não tem ninguém escondido debaixo da cama, é isso ¾ disse Martins ¾ mas este hotel não vai estar limpo até termos falado com todos os hóspedes, garçons, empregadas, cozinheiros, ajudantes, todo mundo.

Cabral aproximou-se de Martins.

¾ Mandei todo mundo que estava trabalhando na entrada do hotel ir para o escritório do gerente, Túlio. Quer falar com eles agora?

Túlio Martins fez um gesto com a cabeça, concordando. Cabral parou à porta do escritório do gerente.

¾ Você está bem, Túlio?

¾ Ainda um pouco sem ar, mas estou bem.

¾ Foi falta de sorte, Túlio. O rapaz deve ter chegado só uns segundos depois do cara. E você perdeu ele por poucos minutos.

¾ Pois é. Ia ficar mais surpreso se ele tivesse vindo direto para cima de mim do que se tivesse escapado... O negócio estranho, Manoel, é que eu não sei quem sabia que ela estava aqui.

Cabral levantou os ombros.

¾ Alguns amigos do Rio de Janeiro, talvez. Uns amigos daqui, amigos de Lilian Velasco. Vamos ter que olhar a lista outra vez, falar com as pessoas novamente.

‘Falar’, pensou Martins.

 

O gerente se chamava Humberto.

¾ O nosso hotel é um local muito sossegado, comissário ¾ disse Humberto, antes que Martins perguntasse qualquer coisa. ¾ Nunca aconteceu uma coisa dessas por aqui.

¾ Quantos quartos tem o hotel?

¾ Trinta quartos. É um hotel pequeno.

¾ E quantos hóspedes estão nesses trinta quartos? ¾ falou Martins.

¾ Quarenta e três, sem contar com a Srta. Marta Queiroz.

¾ Quantos já se hospedaram aqui antes?

¾ Doze são residentes; dos 31 restantes, 14 já ficaram aqui pelo menos uma vez antes.

¾ Nenhum suspeito?

¾ Há um hóspede que me parece estranho. Senhor Almeida. Está no 404. Chegou ontem à noite, sem bagagem ou reserva. Pagou duas noites adiantado, em dinheiro. Pelo que eu sei ainda não saiu do quarto. Não pediu jantar nem café da manhã. Não recebeu nenhuma entrega de comida

¾ Ele estava no quarto na hora da revista, Cabral? ¾ perguntou Martins.

¾ Almeida, 404. Ele estava lá, Túlio. Quer que eu vá chamá-lo?

Martins fez que sim com a cabeça.

Cabral saiu.

¾ E você, rapaz? Viu alguém estranho circulando pelo hotel? ¾ perguntou Martins ao jovem encarregado da portaria.

¾ Não, senhor.

¾ Algum de vocês notou qualquer presença ou movimentação estranha, em alguma das dependências do hotel? ¾ indagou Martins, voltando-se para os empregados que enchiam a sala da gerência.

O silêncio que tomou conta da sala. Ninguém notara nada suspeito. Martins observou cada semblante. A curiosidade confundia-se com o espanto nos olhos atentos daqueles jovens. Martins suspirou longamente. Sabia que mais uma vez não teria uma testemunha.

Cabral enfiou a cabeça pela porta.

¾ Estou com o senhor Almeida.

¾ Está bem. Vou aí. Você assume o controle aqui.

 

¾ Sr. Almeida?

¾ Sim?

¾ Onde o senhor estava hoje pela manhã entre dez e onze horas?

¾ No meu quarto.

¾ O senhor veio a negócios?

¾ Isso mesmo. Eu alugo equipamentos agrícolas.

¾ Notou algum barulho diferente? Um estampido abafado, talvez?

¾ Não, senhor. Quando cheguei ao quarto, tomei um comprimido para dormir. Dormi como uma pedra. Acordei quando os policiais faziam a revista no hotel.

 

¾ Marta Queiroz pegou o vôo 161 da TAM. ¾ disse Cabral. ¾ O avião aterrissou às 22:15. Ela deve ter pego um taxi: chegou às 22:45. Pediu à telefonista que a acordasse às 8:00 e ligou para o serviço de lavanderia pouco depois dessa hora; pediu que buscasse uma saia para ser passada e em seguida pediu um bule de chá ao serviço de quarto. Falou com você às 9:00 pelo celular. Ligou em seguida ao serviço e disse que precisava da saia antes das 11;00, pois tinha um compromisso. Quando o rapaz foi levar a saia encontrou-a morta. ¾ concluiu o detetive.

¾ A bala era uma 38. O legista disse que ela morreu entre dez e meio dia. Sabemos que não morreu depois das onze; então foi entre dez e onze. Ninguém ouviu o tiro. E a perícia está averiguando se é a mesma arma que matou Raquel Azevedo e Lilian Velasco ¾ foi a vez de Pedro Henrique acrescentar uma informação.

¾ Pode ser o mesmo cara ¾ disse Martins. ¾ Ou não?

¾ Isso não encaixa, Túlio ¾ disse Cabral. ¾ Os jornais não ouviram mais falar do cara. Marta Queiroz não era uma figura de destaque junto ao público, como Raquel e Lilian eram. Não era uma desconhecida, mas também não era alguém como as outras, com foto no jornal, aparecendo na TV, essas coisas. Não encaixa.

¾ Se a arma for a mesma, encaixa. Eu diria que as chances de encaixar são enormes. Agora é saber como o cara soube que ela estava na cidade, e como se aproximou sem que desconfiasse de algo. Era alguém que ela conhecia? Estamos de volta ao início: faremos uma lista de pessoas conhecidas da moça ¾ falou Martins, respirando com aparente esforço. ¾ Mas falta alguma coisa. Veja só: o cara mata Raquel, mata Lilian, leva o original do romance do apartamento; isto, porque sabe, ou desconfia, que ele está no livro... que há um personagem baseado nele no livro; se alguém ler o romance com cuidado saberá quem é ele. Também sabe ¾ ou imagina ¾ que Marta recebeu uma cópia do texto. Descobre que ela chegou à cidade e onde está. O que não é simples, e não podia planejar com antecedência e mandar uma carta aos jornais, é escolher o momento adequado para matá-la. Um hotel não é um prédio comum; você não pode simplesmente entrar e sair se que as pessoas reparem. Então ele precisava esperar o momento certo, o que pode significar que estava rondando o hotel desde ontem à noite.

Martins passeou com o olhar pelos seus ouvintes. E dirigiu-se a Pedro Henrique:

¾ Mande alguém dar uma volta no quarteirão; talvez algum funcionário que estava trabalhando até tarde tenha visto algo suspeito. ¾ Martins fez uma breve pausa antes de concluir. ¾ Resta uma questão: ninguém sabia que ela estava vindo a Goiânia com a cópia do livro.

¾ Estive pensando ¾ interrompeu-o Cabral ¾ que esse cara pode ser um profissional. É só um palpite, mas não consigo parar de achar que esse cara pode ser alguém que a gente conhece.

¾ Gente conhecida?

¾ Um cara como nós: um policial. Pensamos que ele teve facilidade porque as vítimas o conheciam. Pode ser que batia nas portas ou tocava a campainha; dizia que era um policial e mostrava o distintivo. É uma hipótese.

¾ Talvez. Ainda gosto da idéia de que o assassino conhecia todas essas pessoas; por isso quero ler esse romance ¾ disse Martins

Pedro Henrique entrou na sala e disse que a perícia determinara que a bala encontrada em Marta Queiroz saíra da mesma arma que matara Raquel e Lilian.

 

Fausto desceu a rua e atravessou-a na direção do hotel na hora em que os policiais estavam saindo para encontrar os jornalistas. Ficou parado ao lado de um cinegrafista da televisão, com ar de quem fazia parte do grupo.

Observou Cabral ao lado do policial que dava entrevista; ele mantinha os olhos abaixados a maior parte do tempo, a não ser no momento em que olhou para cima a fim de responder a uma pergunta que lhe fizeram. Quando olhou ao redor da multidão, passou direto pelo rosto de Fausto.

Fausto sorriu. E se lembrou.

 

Desceu a calçada da rua principal da cidade, passando por todos os rostos que conhecia e que não o reconheciam mais. Tomou um café na lanchonete e foi atendido por uma garçonete que já lhe atendera centenas, milhares de vezes antes ¾ não servindo café, mas Coca-Cola e cachorro quente. Entrou na mercearia e comprou um maço de cigarros ¾ parara de fumar, devido às circunstâncias, na selva; mas retornara o hábito em Genebra ¾ com nada mais nada menos que sua tia Zina. Ao sair, segurou a porta para o sócio de seu pai no negócio de construção, que lhe agradeceu. Dirigiu o carro alugado até o lugar onde fora sua casa, num condomínio chamado Floresta. Bateu à porta e perguntou por Liebe a uma senhora ¾ aparentando cinqüenta anos ¾ que carregava dois gêmeos de dois anos de idade, um em cada quadril.

¾ Não tem nenhuma Liebe por aqui. Mas sei quem é a moça. Mudou-se. Foi há muito tempo ¾ disse a mulher. ¾ Ouvi dizer que ela morreu. Meu marido sabe toda a história.

¾ O que aconteceu a ela?

¾ Tinha um namorado. Acho que ele a deixou. Mudou-se para Planaltina, envolveu-se com drogas e acabou morrendo de overdose. A mãe dela vendeu a casa para o meu marido, pouco tempo antes de morrer. Acho que morreu de desgosto. Mas quem é você? Por quê quer saber? ¾ perguntou a mulher, curiosa.

Fausto estava calado. Nos canto do olho brilhava uma lágrima solitária.

Os olhos da mulher se estreitaram.

¾ Você... é o tal namorado? Só pode ser! Seu miserável cretino! Sabe o que você fez com a vida dessa moça? Saia daqui, antes que eu chame a polícia! ¾ disse a mulher em voz baixa, mal contendo a irritação ao intuir que estava diante do responsável pela tragédia que devastara aquela família.

 

De volta ao seu escritório em Genebra, Fausto decidiu que ainda não havia morrido bastante gente ¾ ainda não. Só quando os outros estivessem mortos, poderia ficar em paz.

 

O telefone continuava tocando mesmo depois de Martins ter atendido. Apertou todos os botões do aparelho ¾ mas o som da campainha continuou.

Sem abrir os olhos, Maria disse:

¾ É a campainha, Túlio.

Era mesmo. Apesar da hora: duas da manhã. Martins só chegara em casa à uma; tomara uma cerveja e comera um pedaço do bolo que Maria deixara no refrigerador. Tomou um banho e deitou-se. Programou o alarme do despertador para as seis horas.

Desceu as escadas e parou no andar de baixo, em dúvida se deveria voltar para pegar a arma. Decidiu que não era necessário e foi pela sala de estar até a porta da frente. Encostou o rosto no vidro e reconheceu Lúcio Castro. Abriu a porta.

¾ O que aconteceu, Lúcio?

Castro levantou os braços, impotente.

¾ Desculpe comissário, mas precisava falar com o senhor pessoalmente.

¾ Entre.

¾ Obrigado, chefe.

¾ Você quer um café?

Foi até a cozinha, pensando que Maria provavelmente deixara café pronto, esperando-o; ao abrir a porta deparou com a mulher na cozinha. Deixou a porta aberta para poder ouvir o sinal da cafeteira. Deu um sorriso para Maria e voltou à sala.

¾ Me desculpe pela hora, comissário. Vou lhe contar tudo o mais rápido possível. É sobre os caras mortos com a mesma arma, a 765. Lembra-se que as informações sobre as atividades do tal Frederico Pimentel me foram passadas pelo detetive Celso Fernandes?

“Fernandes me telefonou a noite passada. Perguntou-me porque não estava mais trabalhando no caso do metrô. Até pensei que o babaca do Itamar me tirara da investigação, sem me avisar. Aí eu disse: ‘O que você quer dizer? Pelo que eu sei, continuo no caso’. Ele respondeu: ‘Engraçado. Um detetive daí da homicídios chamado Cabral me telefonou ontem perguntando tudo o que eu sabia sobre um defunto chamado Frederico Pimentel. Disse que havia ligação com um caso para o qual fora designado, de um cara que foi morto em um ônibus coletivo e de um traficante que fora morto em um prédio abandonado...

“Acho que devia ter ligado para alguém; saber o que estava acontecendo. Mas não fiz isso. Não liguei para ninguém porque aconteceu outra coisa, pouco antes do Celso Fernandes me telefonar; e essa coisa estava me deixando maluco. Queria descobrir tudo; e o telefonema do Celso tinha a ver com isso.

“Como você sugeriu, pedi à minha amiga no Centro de Comunicação Social do Exército a lista dos colegas do Barros e do Pimentel, os da mesma companhia. A lista era enorme. Só consegui terminar a conferência ontem à tarde. É que eu contei a um amigo no Diário sobre o livro que o cara lia no ônibus. O senhor não queira imaginar: todo mundo que tem um inimigo que leu esse livro telefona para dizer ‘sei quem é o Justiceiro’; parece que metade da população da cidade leu O Capoeira! E a outra metade liga para contar!

“Quando estava examinando a lista aconteceu um fato surpreendente. Não sabia por onde começar; aí pensei: vou iniciar pelo Barros. Fui passando as páginas, e logo um nome saltou do alto de uma página... não o que você está procurando, mas um que você conhece...

¾ Cabral ¾ disse Martins.

¾ Isso mesmo! ¾ respondeu Castro.

Martins virou de lado com dificuldade para pegar o telefone, mas mudou de idéia e voltou a sentar-se de frente a Lúcio Castro.

¾ E foi só depois que você viu o nome do Cabral que o Celso Fernandes lhe telefonou?

¾ Uma hora depois. Como eu disse, estava ficando maluco tentando desvendar essa história. Cabral viu a fotografia do Barros que estava com o Bonfim, não viu?

¾ Viu.

¾ E ouviu o Bonfim falando da tatuagem do cara, não ouviu?

¾ É.

¾ Então, mesmo que o Barros tivesse mudado muito desde o Exército, você não acha que o Cabral podia tê-lo identificado?

¾ Acho.

¾ Mas não identificou. E a notícia sobre a morte do Pimentel não informou nenhum detalhe. Como o Itamar não achou que tinha alguma coisa nessa história, não falamos nada sobre ela, mesmo quando ligamos os fatos e percebemos que o cara que matou o dono da oficina era o mesmo que havia matado o Pelé e o traficante. Se Cabral sabia que Barros fora assassinado, também devia saber disso, porque descobriu tudo sozinho. ¾ Lúcio Castro fez uma pausa; em seguida falou rapidamente, quase com temor:

¾ Não contei nada a ele nem ao Itamar. Comissário, o senhor não acha que foi Cabral quem matou Pimentel, acha?

¾ Não. Tente ficar tranqüilo. Foram todos mortos com a mesma arma. Temos uma descrição do cara que matou o Pelé; e não é uma descrição do Cabral. Onde está a lista?

 

Gabriela leu pela centésima vez a notícia recortada da coluna ‘Fio direto’, do Diário da Manhã:

 

A polícia já sabe o nome do livro que estava sendo lido pelo homem que matou, com um tiro, um jovem que molestava uma enfermeira no ônibus do Eixo Anhanguera: O Capoeira.

 

A nota terminava com um número oferecido pela polícia a quem tivesse alguma informação sobre o caso. Todos os telefonemas seriam confidenciais.

Como fizera muitas vezes nos três dias seguintes à leitura da notícia pela primeira vez, Gabriela sentou-se à mesa da cozinha, puxou o telefone para perto de si e discou o número. Desta vez não desligou imediatamente após terminar de discar; deixou o telefone tocar. Quando o sexto toque começou, alguém atendeu.

¾ Delegacia de homicídios.

¾ O detetive Cabral, por favor.

¾ Alô! ¾ disse o policial, quase gritando, para encorajá-la a falar mais alto.

¾ O detetive... Cabral... por favor.

¾ Quem está falado?

¾ Não quero me identificar. Tenho que falar com o detetive Cabral. É sobre o tal Justiceiro.

¾ Você tem informações relacionadas com o assassinato no ônibus? ¾ perguntou o policial.

¾ Sim.

¾ Qual informação?

¾ Quero falar com o detetive Cabral.

¾ O detetive não está disponível neste instante. Por que você não me informa de que se trata? Seu telefonema será mantido em sigilo.

Gabriela desligou.

Uma hora mais tarde ela telefonou novamente. Esperou que atendessem.

¾ Alô?

¾ O detetive Cabral.

¾ Só um momento... Cabral! Ela ligou de novo.

Outra voz atendeu:

¾ Cabral falando.

¾ Detetive Cabral?

¾ Sim.

¾ Eu, ahn...

¾ Qual é o seu nome? Não precisa se preocupar; não vou divulgar. Só que vai ser mais fácil conversar se eu souber o seu nome.

¾ Gabriela.

¾ Gabriela de quê?

¾ Você é o detetive Cabral que saiu numa fotografia no jornal há pouco tempo?

¾ Sou.

¾ E foi você que almoçou no sábado passado... na semana passada... no restaurante Le Steak?

¾ Sim.

Gabriela não disse nada durante alguns longos segundos.

¾ Gabriela?

¾ Estou com medo.

¾ Eu entendo. Onde você está?

¾ Em casa.

¾ Ele está com aí?

¾ Ele? Não. Ele...

Gabriela lembrou-se que o telefone da polícia deveria ter um identificador de chamadas.

¾ Vou encontrá-lo em algum lugar. Vou até aí. Até a sua delegacia.

¾ Não ¾ disse Cabral. ¾ Ele pode estar lhe vigiando. Pode segui-la. Deixe que eu vá onde você está. Ele não vai saber que sou policial.

¾ Mas ele te conhece! ¾ gritou Gabriela.

¾ Eu sei ¾ disse Cabral, em voz baixa. ¾ Vamos nos encontrar em algum lugar, Gabriela. Você conhece a Pizzaria China? É um bom lugar; está sempre cheio de gente. Encontro você lá daqui a vinte minutos. Você sabe como eu sou, não sabe? Do jornal?

¾ Sei.

¾ Vinte minutos, Gabriela. Gabriela?

¾ O quê?

¾ Não fique com medo.

¾ Certo.

 

O sol nascera vermelho sangue ¾ mas a manhã estava ficando bonita.

Túlio Martins e Lúcio Castro haviam examinado a lista rapidamente, na esperança de que algum nome revelasse algo. Nenhum deles revelou nada; então os dois a releram com mais cuidado, procurando um padrão que não estavam certos se saberiam reconhecer. Não encontraram nada.

¾ Está bom ¾ disse Martins. ¾ Ligue para ela.

Lúcio Castro ligou para a sua amiga no Exército. Pediu a ela que fizesse uma pesquisa sobre aquela companhia; queria saber se algo fora do comum ocorrera naquela companhia durante os seis anos e tanto em que Manoel Cabral fora um dos membros. A moça ficou de retornar a ligação assim que tivesse encontrado alguma coisa.

O telefone tocou às 9:15. Lúcio deu um pulo para atendê-lo, mas voltou atrás.

¾ É melhor o senhor atender, comissário.

Martins pegou o fone.

¾ Delegacia de homicídios, comissário Martins falando.

¾ Oi, comissário. Aqui é a tenente Morais, do Centro de Comunicação Social do Exército.

A voz da garota era doce, agradável.

¾ Olá, tenente.

¾ Comissário, o detetive Lúcio Castro me disse que você estava interessado em saber se alguma coisa “fora do comum” foi registrada na 4a Companhia, da Brigada de Pára-quedistas, nos anos 70?

¾ É isso mesmo.

¾ Bom, eu disse ao Lúcio que precisava de mais informações para fazer a pesquisa; essa companhia não era especialmente incrível, nem completamente apagada. Era comum, mesmo... a não ser por um incidente. Não sei se é isso que vocês estão procurando, mas achei que economizaria tempo se dissesse logo.

¾ Por favor ¾ disse Martins.

¾ Durante a campanha no Araguaia... operações anti-guerrilha... Um capitão, Fabricio Guimarães, de 36 anos, levou uma facada de um soldado de primeira classe; Fausto Molina, vinte anos, natural da Cidade de Goiás, e morreu.

Enquanto ela falava, Martins ia folheando a lista do computador, marcando os nomes de Fabricio e Fausto.

¾ Pelo que consegui entender, supostamente o capitão Guimarães pegou o soldado Molina tentando dar fuga a uma guerrilheira aprisionada, tentou impedi-lo e foi morto. Molina fugiu antes de ser preso e nunca mais se ouviu falar dele. Segundo essa ficha.

¾ E o que isso quer dizer? ¾ perguntou Martins. ¾ Que as fichas nem sempre são precisas?

¾ Elas são precisas até os seus limites ¾ disse a tenente. ¾ O crime foi cometido, registrado, mas nunca foi levado a julgamento devido ao desaparecimento do criminoso. A ficha diz isso. O que a ficha não dá é o relatório a respeito do paradeiro de Molina. Só descobri depois de checar várias fontes sob este nome. Encontrei uma referência indicando que recentemente foram feitas consultas sobre o indivíduo em questão.

“Se houvesse alguma informação precisa sobre o paradeiro de Molina... se o corpo dele tivesse sido encontrado... ou mesmo uma identificação segura por parte de um informante confiável... isso obviamente estaria na ficha. Encontrei apenas um sinal de que houve um relato, porém com reconhecimento impossível de ser verificado.

¾ Mas houve relato? ¾ perguntou Martins.

¾ Houve ¾ disse a tenente. ¾ Há mais ou menos um ano, no dia 15 de agosto, para ser mais exata, o delegado de polícia da Cidade de Goiás nos contatou dizendo que um homem que eles acreditavam ser Fausto Molina fora visto na área fazendo perguntas a alguns residentes do local. Uma mulher... o nome dela não consta do relatório... telefonou para o delegado e afirmou que o homem havia ido até a sua casa. Alguma coisa no comportamento do homem... o relatório não entra em detalhes... fez com que ela desconfiasse que ele era Molina. Ela só telefonou para o delegado dois dias depois da visita do homem. O relato não diz porque. ¾ A tenente fez uma pausa por um instante. E foi direto ao ponto que interessava ao comissário.

¾ Quanto aos outros nomes em que o senhor estava interessado, comissário.... É interessante: todos três foram consultados recentemente. Perguntas de rotina sobre atualização de endereço. Não há indicação quanto à procedência dessas perguntas.

¾ Obrigado, tenente. Foi uma grande ajuda. Mas vou lhe pedir outro favor. Você pode me informar se existe alguém nessa lista que você conheça, que se lembre dos tempos da campanha no Araguaia e com quem poderíamos falar um pouco? Alguém que conhecesse as pessoas da nossa lista e nos ajudasse a esclarecer os fatos que aconteceram nesse tempo?

¾ Comissário, na primeira vez que olhei a relação dos soldados, um nome chamou a minha atenção: Juarez Machado. Dirige um hospital em Brasília. Esteve no combate à guerrilha. Conheci-o como oficial-médico. Um militar de carreira, era o que todo mundo dizia. Um dia simplesmente largou tudo e pediu demissão; parece que estava passando por alguma crise. Seria uma boa pessoa com quem conversar. Vou lhe dar o telefone dele.

¾ Está bem, tenente. Vou passar o telefone ao Lúcio e você diz a ele; é quem está encarregado diretamente do caso. Ele quer mesmo falar com você.

 

Juarez Machado lembrava-se bem da campanha do Exército contra a guerrilha. E foi objetivo ao contar a história.

¾ Éramos um grupo de cinco ¾ disse Juarez Machado. ¾ Todos amigos: Juvenal de Barros, Frederico Pimentel, Manoel Cabral, Fausto Molina e eu. Fausto Molina era o mais novo. Estávamos juntos desde o treinamento básico. Fazíamos as mesmas coisas, juntos: trabalho, diversão... Saíamos juntos sempre que possível. Havia um laço que nos unia: éramos praticantes de artes marciais. Karatê, jiu-jitsu, box ¾ qualquer forma de luta nos interessava. Isso estreitava ainda mais os laços que nos uniam. ¾ Enquanto falava, Juarez pareceu sentir saudade de um tempo longínquo. ¾ Após o período de serviço obrigatório, decidimos em conjunto continuar engajados. Estávamos juntos há quase dois anos e formávamos uma equipe. Foi quando o Fausto teve a idéia de fazer a tatuagem. Fomos com ele. Depois que ele fez, resolvemos fazer também; alguns de nós bêbados, outros na onda da maconha, fizemos todos a mesma tatuagem. Naquela época, comissário, tudo era brincadeira: tínhamos todo o tempo do mundo. ¾ Juarez Guimarães calou-se, pensativo. Após breve pausa, prosseguiu:

¾ A mudança começou quando surgiram os primeiros boatos acerca da ação no Araguaia. O Exército estava preparando uma ofensiva anti-guerrilha. Havia um capitão de quem éramos mais amigos: instrutor de técnicas de combate corpo a corpo, exímio atirador. Esse cara deu a sugestão para que fossemos voluntários na campanha do Araguaia; aceitamos de imediato ¾ menos Fausto. Por algum motivo, ele não gostava do capitão. Após seis meses em que vivemos o inferno daquela operação, Fausto juntou-se a nós: ele e toda o resto da companhia. Parece inacreditável, mas havíamos nos transformado completamente naquele curto espaço de tempo.

“As nossas incursões contra um inimigo invisível levavam-nos à loucura. A cumplicidade da população local com os guerrilheiros era absoluta; a ligação entre as comunidades ribeirinhas e os forasteiros foi sedimentada à base de cooperação e amizade. Os guerrilheiros eram pessoas bem preparadas intelectualmente e, principalmente, movidas por uma devoção quase religiosa à causa comunista. Agiam solidariamente, cooperavam com as famílias, auxiliavam no que podiam. Com isso, ganharam a admiração daquelas pessoas simples, que viam-nos como iguais. Quando chegamos à caça deles, fizemos tudo errado. Prendíamos, espancávamos, interrogávamos, torturávamos. Criamos um clima de revolta que tornava ainda mais difícil o nosso trabalho. E o que é pior: fomos nos degradando cada vez mais. Após três meses no Araguaia, qualquer um de nós era capaz da maior crueldade; as ordens e os exemplos de cima nos estimulavam. E alguns de nós se revelavam especialmente felizes com aquilo; sádicos, mesmo. Foi o caso do capitão Fabricio. ¾ concluiu.

Juarez Machado suspirou longamente. As lembranças haviam modificado a sua aparência. As rugas na face pareciam ainda mais fundas. Os olhos estavam com um brilho de tristeza.

¾ Quando reencontramos Fausto Molina, foi como se acabássemos de nos conhecer: havíamos nos transformado completamente. E na primeira incursão em que participou, aconteceu o confronto.

“Eu estava em uma missão com um batedor, à procura de um guerrilheiro que ficara ferido em um encontro acidental com uma patrulha.

“O resto da equipe saiu em busca do apoio dos guerrilheiros. Estavam numa área onde eles circulavam à vontade; chegavam a fazer ataques de emboscada, durante o dia, com pleno domínio do terreno. O capitão Fabricio estava especialmente irritado. E o estado de espírito de todos não era dos melhores: muitos de nós abusávamos das drogas e do álcool; era a forma de entorpecer o que restava de consciência.          

“Fausto Molina ficou visivelmente abalado quando viu o nosso método de trabalho. Quando chegaram à casa da família que servia de apoio aos guerrilheiros, um deles tentou fugir e foi morto, desnecessariamente. Fausto tentou salvá-lo; foi atingido pelo capitão e ficou desacordado um bom tempo. O capitão mandou que o prendessem na jaula de madeira improvisada para prender a única sobrevivente da família: uma jovem mestiça. A mãe dela, uma velha índia, não sobreviveu ao interrogatório. ¾ Juarez Machado ficou calado por alguns instantes. O peso das lembranças parecia insuportável, obrigando-o a parar. Respirou com força antes de continuar.

¾ Éramos cruéis com os prisioneiros, como era o costume. De madrugada, o capitão foi até a jaula, onde o Fausto estava preso e quis estuprar a indiazinha. Fausto estava consciente e matou-o com uma facada certeira na nuca. Os rapazes atiraram e acertaram a moça. Fausto fugiu e nunca mais ninguém soube dele. Quando encontrei a equipe no povoado, não fiquei sabendo da verdade de imediato; contaram-me a versão que haviam montado para livrar a própria pele, incriminando o Fausto. Pensei que não havia mais nada a fazer ¾ a não ser ficar calado. ¾ Juarez ficou em silêncio por alguns instantes. Pareceu voltar de um pesadelo ao fazer a pergunta:

¾ Quer dizer que o Fausto voltou? É... não estou surpreso.

¾ Não está surpreso dele ter sobrevivido na mata por não sei quanto tempo, sem nada?

¾ Sabia que ele iria sobreviver; era um verdadeiro lutador. Um guerreiro; por isso reagiu diante da crueldade. Deve ter pensado que seria um covarde, se não fizesse nada. E como um guerreiro, agora está lutando pelo que considera justo: castigar os responsáveis pela tragédia que se abateu sobre ele.

¾ Parece que ele não está atrás de você ¾ disse Martins. ¾ Você não participou dos acontecimentos. É atrás do Barros, do Pimentel... e do Cabral que ele está...

¾ Você acha que ele está errado, comissário? ¾ perguntou Juarez Machado.

¾ Não sou juiz de ninguém ¾ disse Martins.

 

¾ Gabriela.

¾ Oi, detetive Cabral.

Cabral abriu a porta do carro. Gabriela entrou rapidamente. Ficaram em silêncio até que o carro começou a movimentar-se. O tráfego estava fácil; o ar fresco entrava pelos vidros abertos. Começaram a seguir em direção à parte norte da cidade.

¾ Bom, Gabriela, por que você não começa a me contar a história toda? E tenta não esquecer nada. Não vou interrompê-la. Quando tiver terminado, a gente revê tudo e eu lhe pergunto o que achar que você esqueceu.

¾ Não sei por onde começar.

¾ Do começo.

¾ Foi na sexta-feira passada. Ele entrou no Shopping das Delícias, onde eu trabalho à noite. Pediu uma cerveja. Estava com a mão machucada. Entrei para pegar uma toalha; quando voltei ele havia ido embora. Ele ficara vendo a televisão. Sabe a Raquel Azevedo? A mulher que foi assassinada? Pois é, estava passando o programa dela e ele estava olhando para a televisão. Depois ele foi embora...

“Saí para dar um passeio no dia seguinte de manhã e vi ele descendo a rua, lendo um jornal. Vi a manchete no jornal sobre o assassinato no metrô na noite anterior. Sabe o crime do Justiceiro? Ele não quis nem me deixar ler; jogou o jornal no lixo. Eu... gostei dele. Queria conhecê-lo melhor. Então eu propus que almoçássemos no Le Steak. Foi um almoço ótimo. Jogamos conversa fora... e gostamos um do outro. Você entrou no restaurante bem na hora em que estávamos saindo ¾ você e o seu colega. Não sabia quem você era; só vi uma fotografia sua no jornal uns dias depois. Mas sabia que ele lhe conhecia e não queria ser visto por você. Ele foi ao telefone e ficou de costas até você passar; depois veio me encontrar onde eu estava.

“Ele disse que se chamava Fausto Seabra. Tinha uns documentos... carteira de motorista e de identidade... dizendo que o nome dele era Marcos Seabra. Tinha uma passagem de avião em nome de Marcos Seabra, Rio de Janeiro ¾ Goiânia. Eu mexi nas coisas dele. Havia pedido a ele que ficasse comigo; acabou permanecendo na minha casa uns dias.

“Ele saía o tempo todo... à tarde, à noite, pela manhã cedo. Saíra quando aquelas mulheres foram mortas... a Raquel Azevedo e a outra, a escritora: Lilian Velasco. E a terceira... Marta, não é? Marta Queiroz. Ele também a matou. Tenho certeza. Matou todas elas.

“Quem é o Barros? E o Pimentel? Por que ele estava com o seu nome? Ele trazia escritos os nomes de vocês no verso da passagem de avião. Os nomes... e os endereços. Por quê? Quem é ele? O que está fazendo? Acho que ele matou o garoto também. E está lendo aquele livro... O Capoeira. É o meu livro favorito ¾ e ele estava lendo!

¾ Está bem, Gabriela. Vou lhe fazer algumas perguntas. Alguma vez ele falou no nome “Fausto”?

¾ Não. Bom, tinha uma fotografia de uma garota com a dedicatória ‘Para Fausto, com amor’.

¾ Ele disse quem era esse tal de Marcos Seabra?

¾ Não disse quem era; mas disse que tinha um amigo... não disse o nome mas falou que freqüentara a Universidade e ia ao Shopping das Delícias. Por isso ele foi lá. Disse que queria ver os lugares que o amigo falava. Acho que esse amigo era Marcos Seabra, da Cruz Vermelha Internacional.

¾ Cruz Vermelha? ¾ murmurou Cabral. ¾ Então foi assim...

¾ O quê? ¾ perguntou Gabriela.

Cabral balançou a cabeça.

¾ Você disse que ele saíra quando a Raquel Azevedo foi morta, Gabriela. Ela foi morta entre a meia-noite de sexta-feira e a manhã de sábado. Mas ele saiu do bar enquanto o programa dela estava no ar; e você só esteve com ele outra vez no sábado, quase na hora do almoço. Certo?

¾ Certo. Só queria dizer... eu não estava com ele na hora.

¾ Você disse que ele também saíra quando Lilian Velasco foi morta. Foi na segunda-feira pela manhã cedo. Ele já estava ficando na sua casa nesse dia?

¾ Estava e tinha saído. Desde a noite de domingo.

¾ Você disse que ele também estava fora quando a terceira mulher, a Marta Queiroz, foi morta? Ela morreu no sábado, entre dez e onze horas.

¾ Ele... não saíra; fora embora. Me deixou nesse dia de manhã...

¾ Por quê?

¾ Disse a ele que eu sabia tudo sobre as mulheres que ele matara.

¾ O que ele disse?

¾ Não disse nada. Foi embora. Perguntei a ele quem você era; o que representava para ele. E também quem eram o Barros e o Pimentel. Perguntei o que você representava para ele.

¾ O que ele disse?

¾ “Esqueça esses nomes. Me esqueça. Esqueça tudo.”

Cabral agiu com tal rapidez que só depois da manobra ter terminado Gabriela pôde reconstituir mentalmente os movimentos: o carro virou de supetão para a esquerda, passou por cima de um canteiro, virou outra vez à esquerda e seguiu em direção à parte sul da cidade, voltando por onde tinham vindo.

¾ Onde é... o que foi? ¾ perguntou Gabriela.

¾ Estamos indo para a sua casa, Gabriela ¾ disse Cabral. ¾ Vamos ao seu apartamento.

¾ Não. Eu não posso. Ele pode... voltar.

¾ Por que ele iria voltar, Gabriela? ¾ disse Cabral, com um tom de desprezo na voz. ¾ Ele já lhe deixou; disse para esquecer tudo, para você esquecer-se dele. Por que iria voltar?

¾ Então... então por que nós estamos indo para a minha casa?

Com paciência forçada, Cabral respondeu:

¾ O homem por quem você se apaixonou é um assassino. Matou Juvenal de Barros, Frederico Pimentel e está querendo me matar.

¾ Por quê?

¾ Já não basta saber que ele é um assassino, que ele quer me matar?

¾ Eu...

¾ Ele está me seguindo ¾ disse Cabral. ¾ Deve ter me seguido hoje. Mas me perdeu, por enquanto. Quando ele voltar a me seguir, vou levá-lo para o seu apartamento. Não me pergunte por quê, Gabriela.

¾ Mas por que você não...?

Cabral tirou os olhos da estrada e sorriu.

¾ Por que não faço o quê?

¾ Você é da polícia. Por que simplesmente não... prende ele?

Cabral olhou o relógio. Ligou o som do carro na rádio K. A última notícia: os jornais da cidade receberam nova comunicação do assassino de Raquel Azevedo, Lilian Velasco e Marta Queiroz ¾ e ele prometia continuar matando.

Cabral desligou o rádio e não falou mais nada ¾ a não ser quando pediu a Gabriela o seu endereço.

Gabriela queria saber por que iam para o seu apartamento. Se Cabral estava montando uma armadilha, não era o bastante que ele estivesse lá? E por que logo em seu apartamento? Mas Gabriela teve medo de perguntar.

 

O agente de polícia Murilo Alexandre estava com dificuldade para se explicar, com o olhar severo do comissário Túlio Martins cravado no seu rosto.

¾ Por que, Murilo ¾ perguntou Martins ¾, você informou Cabral sobre a chamada para o telefone especial e não disse nada ao detetive Itamar Mendonça, ou ao Lúcio Castro, que são os encarregados do caso?

¾ Foi o que eu disse, senhor; mas a mulher pediu para chamar o detetive Cabral.

¾ Que não está nesse caso.

¾ Mas estava, senhor. Vocês dois... no começo...

¾ Agora o detetive Cabral não está mais no caso; e os detetives Itamar e Lúcio estão ¾ e tem que ser notificados de todos os telefonemas, se possível quando ainda estiverem em andamento. Mas agora, passe logo a fita gravada da conversa.

Murilo balançava a cabeça de um lado para o outro.

¾Não dá, comissário.

Martins seguia Murilo com os olhos.

¾ Quer dizer que você se esqueceu de gravar o telefonema? E como era a voz da mulher que ligou?

¾ Não esqueci, comissário; alguém desgravou a fita.

¾ Desgravou? ¾ a voz de Martins refletia surpresa.

¾ O detetive Cabral apagou a gravação, comissário. Tentei alertá-lo sobre o que estava fazendo; mas ele me mandou embora.

Martins acenou com a cabeça, lentamente.

¾ Como era a voz da mulher?

¾ Era jovem. Acho que entre 25 e 35. Mandou chamar o detetive Cabral. Disse que era sobre o assassino, o tal Justiceiro. Respondi que o detetive Cabral não estava disponível no memento e ela desligou.

¾ Aí você ligou para o detetive Cabral?

¾ Sim, senhor. E disse a ele que uma mulher com informações sobre o crime no ônibus estava tentando falar com ele.

¾ E o que ele disse?

¾ Ele disse que já estava vindo. Que ia cuidar do assunto e que não era para falar com o detetive Itamar Mendonça nem com o detetive Lúcio Castro. Nem com o senhor, comissário.

Martins sacudiu a cabeça, concordando.

¾ E daí?

¾ Ele chegou uns 15 minutos depois que liguei. Ficou aqui sentado, bebeu um café, deu uma olhada no jornal. O telefone tocou outra vez. Estava perto da janela, olhando a rua. Perguntei: “O senhor quer que eu atenda, detetive?” Ele disse: “Você atende, se for pra mim eu pego”. Atendi a ligação; era a mesma mulher ¾ e passei a ele. Quando pegou o telefone, ele apontou a porta, me mandando esperar no corredor. Indiquei o gravador, tentando avisar que ele deveria gravar o telefonema; ele fez que sim com a cabeça e apertou o botão que volva a fita para trás. Tentei avisar que não era para fazer aquilo; ele me ignorou e apontou a porta, insistindo para que eu saísse.

¾ E aí? ¾ disse Martins.

¾ Ele falou durante uns dois minutos. Dava para ouvir, mas não conseguia entender; só sei que não estava falando muito. Ouvi ele desligar. Em seguida saiu da sala, me disse que iria manter contato e foi embora. Fui à mesa ouvir a gravação para catalogar a chamada; apertei o botão e nada: ele não gravara a chamada. Foi quando o detetive Itamar chegou; contei o que havia ocorrido e ele chamou o senhor.

Nesse momento Itamar Mendonça entrou na sala.

¾ O Cabral não atende o celular nem está na casa dele. Ninguém sabe informar onde ele está.

¾ Obrigado, Murilo. Pode ir ¾ disse Martins.

¾ Sim, senhor ¾ disse Murilo Alexandre, indo embora.

¾ Fausto Molina foi quem matou Juvenal de Barros e Frederico Pimentel. Agora está atrás de Cabral. Ele também matou o Pelé Problema, mas isso não conta: foi só uma boa ação. Acho até que devíamos chamá-lo de Justiceiro, mesmo. Cabral sabe que Fausto está atrás dele. Se essa mulher que ligou o conhece mesmo, Cabral foi à sua procura para obter mais informações.

“Se nós encontrarmos Cabral, encontramos Fausto Molina. E é o que queremos. Só que eu e Cabral devíamos estar procurando o cara que matou essas três mulheres. O que ele acha que está fazendo ao tentar resolver esse caso sozinho? Emita um aviso de alerta para Cabral. Renove o alerta sobre o Justiceiro e avise ao pessoal que o nome dele é Fausto Molina. Que coisa... só estou encontrando lixo atrás de lixo...

Martins parou com a mão levantada a meio caminho da cabeça. Continuou parado durante algum tempo. Então, falou:

¾ O computador. Ela deve ter uma cópia do texto gravada em alguma mídia. Mini-disc, disquete, cd-rw... E o notebook!

Itamar estava com a mão na porta, pronto para sair e passar as informações dos alertas à central de comunicações. Virou-se.

¾ O quarto ¾ disse Martins. ¾ O cara que matou Marta Queiroz não ia querer ser visto. Atirou e foi embora. Alguma cópia está guardada em algum lugar; ela sabia o quanto era importante a leitura do romance para descobrirmos o assassino.

Túlio dirigiu-se a Itamar:

¾ Mande alguém lá, vasculhar todos os locais do quarto, inclusive os cestos de lixo. Se não acharem nada, mande alguém no primeiro vôo para o Rio de Janeiro. Pesquisem no computador da escritora; arquivos de todo tipo. E vejam na Internet. Ela pode ter enviado o arquivo para algum serviço, via e-mail; assim o livro estaria preservado.

¾ Comissário, estou me lembrando de uma coisa... ¾ disse Itamar. ¾ O detetive Cabral sugeriu que o assassino podia ser um policial... Mas isso não quer dizer que foi ele, não?

¾ É o que vamos ver, Itamar ¾ disse Martins.

 

Fausto estava tomando um café na lanchonete que ficava em diagonal ao prédio de Cabral. Já se transformara num freguês habitual. Dissera ao atendente que estava vigiando alguém que lhe devia dinheiro. O homem tinha um cunhado caloteiro; solidarizou-se com Fausto e tratava-o com familiaridade.

Fausto havia estacionado a motocicleta quando Cabral saiu, apressado, do carro. Fora à delegacia e vira o carro de Cabral estacionado no pátio. Dera uma volta pela cidade e parara na lanchonete. Pediu uma Coca-Cola.

¾ Hoje um carro patrulha parou num prédio do outro lado da rua. Pensei que talvez estivessem procurando o seu amigo; você não deve ser o único que ele enganou. Eles entraram, ficaram uns dez minutos e foram embora.

¾ O prédio é grande. Pode ser coincidência... ¾ riu Fausto.

Dez minutos depois, Cabral entrou de carro na garagem do edifício. Passados cinco minutos, saiu pela portaria, seguindo na direção oeste.

André deixou uma nota de dez reais no balcão.

¾ Ei! ¾ disse o atendente ¾ você não precisa deixar uma gorjeta dessas, ainda mais com o cara lhe devendo grana. O que você está fazendo?

Fausto acenou e disse em voz baixa.

¾ Não vou voltar.

¾ Ah... ¾ disse o homem ¾ você vai voltar? Até mais tarde, então.

Cabral continuou andando pela avenida enquanto Fausto o seguia com os olhos. Esperou que ele se distanciasse; ligou a motocicleta e saiu lentamente.

Cabral atravessou a rua, entrou no Parque Vaca Brava, seguindo pela calçada ao longo da avenida, repleta de ciclistas, corredores e pedestres.

Fausto o acompanhava, pensando: “Ele sabe que estou aqui. Quer que eu o siga. Não quer me pegar ¾ nem que eu o pegue; mas quer ser seguido.”

Do outro lado do Parque Vaca Brava, Cabral passou a andar em direção ao norte, mantendo-se na calçada do lado leste ¾ o lado ensolarado. Seguiu até a T-4, atravessou-a e mudou de direção, seguindo para oeste, pelo lado sul da rua.

Fausto estacionou a motocicleta e ficou parado, observando-o à distância.

Cabral subiu a T-4 até um edifício quase no final do quarteirão e entrou. Era o edifício de Gabriela.

Fausto ficou imóvel durante alguns segundos. Ligou o motor e saiu. Foi ao Shopping das Delícias e pediu uma cerveja ¾ uma Skol.

 

Um policial chamado Mateus foi quem encontrou o MD com a cópia do livro; estava no debaixo do saco de lixo do cesto do banheiro, dentro do quarto do Hotel Carajás. O romance de Lilian Velasco cheirava a sobras do café da manhã de algum hóspede.

Martins depositou o MD no meio de sua mesa e cutucou-o com um abridor de cartas.

¾ E agora, quem vai ler isso?

¾ Comissário? ¾ disse Itamar.

¾ O quê?

¾ Não sei se seria o caso, chefe, mas o Lúcio gosta de ler e entende tudo dessas mídias. E lê numa velocidade impressionante; lê o caderno de esportes em minutos.

¾ Vá chamá-lo.

Quando Lúcio Castro apareceu, Martins disse:

¾ Este é o MD com a cópia do tal livro. Pelo que fiquei sabendo, você não irá demorar muito tempo com ele... Desconfio principalmente que o assassino pode ser um personagem chamado Marcelo. Dê uma olhada e veja se encontra alguma pista que possa ajudar a identificar esse cara.

¾ Está bem, comissário.

Depois que Lúcio saiu carregando o MD. Martins voltou a ler o último bilhete enviado aos jornais pelo matador das mulheres.

 

Marta Queiroz foi a número três. Vai haver outras.

 

¾ Ele está com pressa ¾ disse Martins. ¾ Alguém deve estar chegando perto dele. Só queria saber se somos nós.

O telefone especial para receber informações sobre o Justiceiro tocou. Mendonça atendeu.

¾ É para o senhor, comissário.

¾ Alô ¾ disse. ¾ Aqui é o comissário Túlio Martins... O que você quer?

¾ Você está procurando o homem que matou aquelas três mulheres?

¾ Certo ¾ disse Martins. Mas o número que você digitou não é o que divulgamos para receber informações sobre esses crimes... Por que você ligou para este telefone?

O homem suspirou.

¾ Que diferença faz? Queria falar com você. E estou falando.

¾ A única diferença ¾ disse Martins ¾ é que talvez você tenha discado este número porque já o decorou; porque conhece o cara que matou o rapaz no ônibus e também matou Juvenal de Barros e Frederico Pimentel; e que está querendo pegar Manoel Cabral.

Houve uma pausa muito longa, que Martins quebrou ao dizer:

¾ Fausto?

Seguiu-se outra pausa. E Fausto então disse:

¾ Me dê outro número; um telefone sem gravador.

¾ Por que eu iria fazer isso?

¾ Porque eu sei quem matou aquelas três mulheres.

¾ Ah, é... E eu sei que você matou três homens e está querendo matar um quarto...

¾ Eu não quero o Cabral ¾ disse Fausto. ¾ Pode ficar com ele.

Outra pausa. Então Fausto disse:

¾ Estou falando de um telefone público numa lanchonete ao lado do Parque Vaca Brava. Vou dar o nome quando for desligar. Não se preocupe em mandar alguém aqui; não vou estar quando chegarem. Preste atenção: vou ligar para este número em oito minutos. Aí a gente conversa.

¾ Por que não podemos falar agora?

¾ No Shopping das Delícias, na T-4.

Martins levantou-se rapidamente e despediu-se de Itamar.

¾ Vou estar no Shopping das Delícias, próximo ao Vaca Brava. Irei sozinho. Mas quero cobertura. Nada de barulho. Quero ser discreto.

 

O telefone tocou três minutos depois de Martins ter chegado ao Shopping das Delícias.

¾ Bem na hora ¾ disse Martins.

¾ O Cabral está na T-4, Edifício Ilhas do Caribe, apartamento 2301..

¾ Devo admitir que você tem coragem, Fausto. Foi muito esperto me tirando daquele telefone. Você está ligando de onde?

¾ O Cabral matou aquelas mulheres ¾ disse Fausto.

¾ Por que eu iria acreditar em você?

¾ Vocês policiais são tão comprometidos com os seus colegas que nem conseguem ver a sujeira na cara deles.

¾ É mesmo? E como é que você sabe quem matou as mulheres?

¾ No sábado passado, de madrugada ¾ disse Fausto ¾ o Cabral saiu do apartamento dele à meia-noite e meia e pegou um táxi até o Condomínio Jardins. Esse endereço lembra alguma coisa, Martins?

¾ Lembra.

¾ É o endereço de Raquel Azevedo ¾ disse Fausto. ¾ Ele chegou lá por volta de 00:40.

¾ Você o estava seguindo? ¾ perguntou Martins.

¾ É isso. Se você já sabe alguma coisa sobre mim, o Barros, o Pimentel, o Cabral e a campanha do Exército no Araguaia... então sabe que eu estava seguindo ele.

Martins teve que admitir que era aquilo mesmo.

¾ Cabral tinha a chave da portaria. O porteiro saiu uns minutos; Cabral entrou e pegou o elevador para o último andar.

¾ Como você sabe?

¾ Dava para ver o painel do elevador pela porta da frente. A Raquel Azevedo chegou em casa um pouco depois da uma, de táxi. O porteiro já retornara ao seu posto. O Cabral desceu uns cinco minutos depois... e não saiu pela porta da frente; usou uma porta lateral. Depois seguiu pela rua e pegou um táxi que passava... Você quer ouvir mais?

¾ Quero, Fausto.

¾ Você quer ter outra mulher morta nas suas mãos? ¾ perguntou Fausto.

¾ O que está querendo dizer?

¾ Estou falando de Gabriela Amaral.

¾ Ah, está bem... Gabriela Amaral. Qual o endereço mesmo?

¾ Está bem, Martins. Era domingo à noite, segunda pela manhã cedo. Rua T-55. Dessa vez o Cabral chegou a pé... o carro ficara estacionado perto da T-63... bem, ele tocou o interfone de uma mulher chamada Lilian Velasco. Ficou lá durante umas três horas. Anotei o endereço e consultei a lista telefônica; foi assim que descobri o nome da moradora.

¾ Você não dorme nunca, Fausto?

¾ Quando saiu, Cabral foi até uma caixa do correio em frente ao Posto de Gasolina da Praça T-63 e colocou umas cartas... parecia ser mais de uma... numa caixa do correio. Aí ele foi até o local onde estacionara e pegou o carro.

O fone estava quente e machucava a orelha de Martins.

¾ E no sábado pela manhã, no Hotel Carajás?

¾ Bom ¾ disse Fausto. ¾ Você está começando a entender. O Cabral...

¾ Espere ¾ disse Martins. ¾ Deixe-me tentar... Eu marquei um encontro com uma mulher no Carajás às onze. E disse ao Cabral que se encontrasse comigo ao meio-dia. O Cabral chegou antes de mim?

¾ Por volta das 10:15 ¾ disse Fausto. ¾ Pegou um táxi da casa dele até o Hotel San Marino e depois andou até o Carajás. Entrou pela porta da frente, demorou lá dentro no máximo uns dez minutos e saiu pelo mesmo lugar. Andou em direção à Praça Cívica. Não sei para onde foi; voltei ao hotel.

¾ E me viu entrando ¾ disse Martins ¾ um pouco antes das onze.

¾ Depois vi um monte de policiais.

¾ Inclusive Cabral... que estava na mesa dele quando telefonei à Delegacia... Mas, afinal, quem é essa Gabriela Amaral? ¾ perguntou Martins, lembrando-se que estava perdendo tempo. ¾ Onde mora?

¾ É uma mulher que eu conheço; acha que eu matei aquelas mulheres. Saía a toda hora para seguir o Cabral; como e nunca estava em quando alguma delas morria, pensa que eu matei-as. O endereço dela é o que eu lhe dei.

Martins saiu correndo da lanchonete. O carro estava estacionado à porta. Entrou no carro e saiu em alta velocidade, quase atropelando um garoto que vendia jornais na esquina

Itamar Mendonça contou a Túlio que havia recebido uma ligação no celular. Era Lúcio Castro; acabara de ler o romance de Lilian Velasco: o tal Marcelo é detetive; combateu a guerrilha no Araguaia e tem uma tatuagem enorme de um dragão nos ombros e nas costas, com as cores bem nítidas em tons de verde e azul.

Martins balançou a cabeça afirmativamente.

¾ Puxa, comissário.

¾ É ¾ disse Martins.

¾ Deve haver uma explicação, Túlio.

¾ Será a explicação do porquê de eu nunca ter visto Cabral sem camisa todos esses anos em que trabalhamos juntos. Tenho a impressão de que ele achava que tinha alguma coisa para esconder. E ele estava certo, pensou. As marcas no seu passado iam muito além da tatuagem.

 

Cabral não tinha dúvidas: a loucura estava aumentando. Respirou profundamente. Aquele era do bom mesmo! Há quanto tempo não sentia aquela sensação! Encontrar-se nas proximidades da insanidade era como ficar perto demais de um incêndio incontrolável.

Lembrava-se de Raquel. Os olhos dela eram como carvões acesos. Certa vez, fora caçar onça no Araguaia. Bichos enormes, selvagens, egressos de uma pré-história com a qual só se podia conjeturar.

Ele e o caçador haviam passado três dias seguindo o rastro fraco de um macho de grandes proporções. O animal era como um espírito: podiam ouvi-lo às vezes; bufando, rosnando baixo no fundo da garganta. Em certa ocasião, tivera certeza de haver sentido o cheiro da fera. Mas nunca conseguiram vê-la.

Na última noite no acampamento, resolveram dar por encerrada a caçada. Chovia muito. Estavam ensopados até os ossos e a busca parecia infrutífera. O vento noturno açoitava o acampamento.

Ouvira um som rápido e seco e, virando a cabeça, olhara apavorado para as espáduas maciças do animal na escuridão, a não mais de meio metro de distância. Prendera a respiração, o medo como um ser vivo contorcendo-se em sua barriga.

Os músculos do pescoço, tão altos acima dele, estavam contraído de tensão; enquanto olhava para aquilo em um fascínio impotente, a onça sacudiu violentamente a imensa cabeça. Ouviu um claro estalo, como se uma árvore madura houvesse sido rasgada por um raio.

Sobressaltara-se; a grande cabeça felina se levantara. Uma fungada áspera; estava olhando diretamente para o focinho da criatura. Durante um momento, houve silêncio completo. Logo depois, a onça rosnara; a boca encurvando-se para trás e mostrando as longas presas.

Os grandes olhos espelhados, inteiramente redondos, amarelos e estriados como cornalinas polidas, emitiam luz própria, vivida e luminosa. Os olhos estavam incrustados na noite, brilhando de poder e força; tivera absoluta certeza que só ele e a fera existiam.

Sabia que nos próximos instantes, viveria ou morreria. Sabia também que não tinha vontade nesse assunto; sabia, finalmente, que casso se movesse a onça saltaria sobre ele sem aviso.

Coube à fera decidir.

Soltou um pequeno suspiro de resignação; olhando dentro da face da morte, reconhecera-a. Não se surpreendera quando o animal se afastara, toda a iluminação desaparecida, o mundo extraordinário que aqueles olhos lhe haviam revelado apagando-se, a força bruta, a energia infatigável. Só restara a noite.

 

         7:27; 7:28; 7:29

 

Gabriela olhava o relógio digital e marcava os minutos, preocupada.

¾ Isso não está parecendo muito.... oficial, não ¾ disse Gabriela.

Da janela, Cabral resmungou.

¾ Não estou entendendo. Você mesmo disse que se ele falou que ia embora, não voltaria; porque haveria de voltar?

Cabral riu.

¾ Você não entende, é?

Só então Gabriela notou que o policial estava drogado. A expressão de deboche e cinismo, os gestos de tocar o nariz a todo instante, fungando incessantemente... Miserável!, pensou.

¾ Você não acha que deviam chamar algum tipo de reforço? Estou com medo que possa acontecer alguma coisa.

Cabral aproximou-se de Gabriela. Puxou o revólver de seu coldre de ombro e encostou a boca do cano nos lábios dela.

O pânico a dominara. Sentiu-se próxima da morte. O suor escorria pela sua nuca. Pode notar o brilho pervertido nos olhos do detetive. Sem querer, trouxera a fera à sua casa, onde estava indefesa! Quis gritar; sentiu-se muda: uma súbita rouquidão a deixara sem fala. Caminhou de costas, afastando-se lentamente. Fechou os olhos, pensou em orar, lembrou-se de Deus.

¾ Sente-se, sua puta!

Ao ouvir aquela voa, Gabriela deu um sorriso de felicidade. Sentiu como se retornasse à vida, após tê-la deixado. Obedeceu rapidamente, disposta a não fazer mais pergunta alguma. Sabia que estava com alguém prestes a perder o controle. Qualquer descuido seria fatal.

O telefone tocou

Cabral acertou sua boca com as costas da mão que estava livre, empurrando-a para cima da mesa. Gabriela caiu em cima de uma cadeira, arrastando o telefone na queda até o solo. Tentou levantar-se. Deu um grito. Alguma coisa bateu atrás da sua orelha. Sentiu a forte dor transformando-se numa sensação agradável. A cabeça foi ficando leve e seus pés saíram do chão. Voava cada vez mais alto quando começou a cair, lentamente, em direção ao chão, que estava macio e ondulante quando o seu corpo aterrissou.

 

Droga! ¾ disse Martins

¾ O que foi, Túlio? ¾ perguntou Mendonça.

¾ Alguém atendeu, largou o telefone; ouvi gritos e um barulho estranho. Aí desligaram.

¾ Vai ligar de novo?

¾ Sim ¾ disse Martins, apertando a tecla de rediscagem. ¾ Ocupado. Deve estar fora do gancho.

¾ Estamos chegando ao prédio, comissário.

O porteiro abriu o portão eletrônico ao ver a identificação dos policiais. Não queria encrenca com ninguém, muito menos com a polícia. Martins foi direto ao assunto:

¾ Recebi um chamado com pedido de ajuda urgente do apartamento 2001; já estou subindo ¾ e foi passando rapidamente pela portaria, caminhando em direção ao elevador. E concluiu:

¾ Abra o portão das garagens e oriente os policiais que deverão chegar aí em baixo agora.  

Martins pegou o elevador e desceu na porta do apartamento de Gabriela.

Através da janela do corredor, que dava para o poço de ventilação, subiu o som de uma sirene.

Respirou fundo e bateu à porta.

¾ Cabral?

Lá dentro, alguém se mexeu; ouviu o ruído de pés contra o piso. Uma cadeira foi arrastada.

Martins afastou-se da porta, encostando-se contra a parede. Levou a mão à arma. Desistiu.

Quando abriu a boca, a mentira já não convencia; mas não tinha outra alternativa.

¾ Cabral, nós pegamos o Fausto. No final do quarteirão. Alguém ligou para a policia informando sobre o reconhecimento de um suspeito residente nesta área. Revistaram-no e encontraram aquele livro que ele estava lendo. Contou toda a história do Araguaia. Disse que estava lhe seguindo; que viu você entrando aqui com a tal Gabriela. Então acabou, Cabral. Vamos descer e fechar esse caso. Ei, foi um bom trabalho fazer com que ele o seguisse até aqui. Só que você devia ter avisado alguém do que ia fazer. ¾ Martins riu e encolheu-se diante de sua própria falta de naturalidade.

Havia uma torneira aberta. Um copo tiniu e borbulhou enquanto estava enchendo. Depois a água parou de correr.

Martins tirou as chaves do bolso e sacudiu-as.

¾ Cabral, peguei as chaves com o porteiro. Vou abrir esta porta para podermos conversar melhor. Sei que você passou a corrente, certo? Então não precisa ter medo que eu entre. Só vou abrir uma frestinha para podermos conversar melhor. Um copo d‘água caía bem, sabe? Está muito quente aqui no corredor. Cabral? Eu estou sozinho.

Sempre espere o inesperado. Esse era o lema do Professor Rabelo, o melhor instrutor que Túlio Martins conhecera na Academia de Polícia. ‘Pense sobre tudo que pode acontecer; depois prepare-se para isso não acontecer, porque o adversário não quer que você saiba o que ele vai fazer. Depois pense em tudo o que você não está imaginando, e pode estar certo de que e uma dessas coisas que vai acontecer’. Fácil, não?

Martins foi surpreendido; pensava que Cabral só reagiria depois que começasse a destrancar a porta com as chaves; então lhe pediria para parar, afastar-se da porta e ir embora dali.

Enquanto Martins abria a tranca de cima, e em seguida, a de baixo, Cabral aproveitara o barulho das trancas sendo abertas para abrir o trinco e tirar a corrente sem ser ouvido. Abriu a porta e apontou sua arma para a cabeça do comissário.

Túlio Martins deu de ombros.

¾ Queria que eu o pegasse. Sei que era essa a sua vontade: escrevendo aqueles bilhetes, arriscando sua sorte seguindo as mulheres; deixou outras coisas pelo seu apartamento, para que as encontremos depois?

Cabral apontou a arma para o coração de Martins.

¾ Pega ela bem devagar, Túlio. Com os dois dedos. Pela ponta.

Arrancou a arma da mão de Martins. Fez menção de jogá-la pela janela, parou e guardou-a na parte da trás da calça, sob o blusão. Outra arma apareceu num coldre no quadril.

¾ Entre ¾ disse Cabral, segurando a arma com o cano a dois centímetros da têmpora de Martins.

Entrou na cozinha fechando os olhos e apertando-os com força, acostumando-se ao escuro. A primeira coisa que viu ao abri-los foi o vulto de uma pessoa encolhida embaixo de uma mesa.

¾ Ah, não, Cabral, não.

¾ Sente-se, Túlio ¾ disse Cabral. ¾ pegue as suas algemas: prenda o pulso direito; ponha as duas mãos atrás, em volta das costas da cadeira.

Martins obedeceu.

¾ Cabral, se ela... você devia chamar a ambulância.

Cabral passou a corrente das algemas ao redor da travessa de madeira que ligava as pernas da cadeira e fechou a pulseira no pulso esquerdo de Martins.

¾ Esta é uma situação em que nunca pensei ficar... algemado a uma cadeira; você em pé ao meu lado, com três armas.

¾ Túlio ¾ disse Cabral ¾ desta vez não vai funcionar.

Martins riu.

¾ Só queria conversar sem armas.

Cabral saiu da sala. Foi conferir as janelas do quarto!, pensou Martins.

¾ Viu, Cabral? ¾ gritou Martins. ¾ É como eu disse; estou sozinho. Ei! Estava brincando sobre o Fausto! Não o pegamos; me ligou.

Cabral não parecia dar-lhe importância.

¾ O que foi, Manoel? Qual é o seu problema com as mulheres? Entendo um cara como você ficar puto com uma Raquel Azevedo. Vocês são da mesma idade; inteligentes, bonitos... e ela estava ganhando um milhão de reais por mês enquanto você não ia alem dos mil e quinhentos... e não tinha sua foto espalhada por toda a cidade. E Lilian... bom, não sei qual foi o problema com ela. Não entendo esse tipo de mulher; não sei como a cabeça delas funciona. Não ia saber o que dizer se a encontrasse numa festa. É como se elas fossem seres de outro mundo; não tenho nada contra elas – mas não consigo entendê-las. Deve acontecer a mesma coisa com você; não entende e não gosta que elas fiquem escrevendo livro sobre você e todas essas coisas.

“Achamos o livro que a Lilian escreveu. Marta guardou um MD com o texto; no cesto de lixo do hotel, debaixo do saco plástico... Inteligente, não? Você não teve tempo para procurar. Fazer aquilo não foi nada inteligente.

Cabral parecia distante, como se vivesse uma fantasia. Seus olhos vagavam pelo apartamento, ausentes.

A droga fazia efeito. Sentia-se maravilhosamente desperto; explosões no seu cérebro faziam-no sentir-se feliz como era há tempos. Qual era mesmo a sua idade? Envelhecera? Por que se sentia forte, vigoroso? E aquela voz?

Olhou com curiosidade para Martins, que não parava de falar.

¾ Quando foi que começou, Cabral? ¾ perguntou Martins com delicadeza. ¾ Quando sentiu que devia fazer isso? Não acontece com todas as mulheres, não?

Cabral riu baixinho.

¾ Você não sabe de nada, Túlio. E aquelas cretinas mereciam morrer. Você devia ver a Lilian comigo. Depois escreve um livro dizendo que os homens são inúteis como amantes; queria me atingir. E nesse livro, me descrevia como um otário; pior, débil mental.

“Não vou mais fugir, Túlio. Chega; sou o que sou; vou encarar. Sabe, acho que você nunca me conheceu. Estivemos juntos esse tempo todo ¾ e você nunca entendeu que tipo de cara eu sou! Não imagina as experiências que vivi; não faz idéia das coisas que aconteceram comigo.

“No Araguaia, foi uma loucura. Toda a brutalidade que existe no ser humano, tomou conta de mim. Era senhor da vida e da morte. Devorei meus inimigos. E para destruí-los, provoquei dor, sofrimento. Você pode entender isso, Túlio? Estava na selva; era um bicho.

“Acha que iria aceitar aquelas idiotas passando a milhares de pessoas a idéia de que sou um estúpido? Me expondo, como a um tolo? Mostrei a elas do que sou capaz. Como fiz àqueles roceiros estúpidos da região do Araguaia. Apenas dei a elas o que mereciam ¾ e me fiz respeitar.

Martins achou que vira alguma coisa se movendo sobre um telhado. Dentro do quarto estava completamente escuro Se houvesse algum atirador ali fora, ele também corria o risco de ser alvejado.

Cabral afastou-se da janela, como se recebesse um aviso de Martins.

¾ Você leu as cartas, Túlio. Não preciso dizer mais nada; é o que eu acho.

Cabral entrou na sala e depois no quarto.

Martins ouviu água correndo no banheiro. Levantou-se da melhor maneira que pode; conseguiu aproximar-se do telefone.

Cabral saiu do banheiro, passou pelo quarto e andou até a janela da sala. Embalado pela cocaína, sentia a tensão multiplicada: o coração batia descompassadamente. Caminhava angustiado de um lado para o outro; ia de um extremo de calma e concentração ao máximo de desespero. A cabeça latejava.

¾ Cabral, se houver algum atirador lá fora, você está se tornando um alvo fácil.

Cabral riu.

¾ Acha que estou preocupado? Pensa que vou para a cadeia? Está maluco? E se eu fosse, acha que iria ficar preso? Sou poiícial, esqueceu? E o Fausto Molina? Não vou deixá-lo me pegar.

¾ Então você concorda comigo; fique tranqüilo. Não vai acontecer nada a você. A gente resolve tudo isso. Vou cuidar de você, fazer os contatos certos. Ninguém vai por a mão em você. Confie em mim, amigo.

¾ Agora confio em você; sabia que podia contar... ¾ Cabral começou a falar e foi interrompido pelo estampido.

Cabral estremeceu. Naquele momento nada havia dentro dele; apenas um ferimento aberto, um poço mais fundo que a escuridão que o envolvia. Ele era igual a todo mundo. Sentiu a dimensão da sua fraqueza.

A bala transformou Cabral numa massa ensangüentada. O corpo do detetive tremia quando caiu no solo. O atirador instalado no alto do telhado não desperdiçara a oportunidade. Vira o cara de costas; as vítimas protegidas. Atirara uma só vez.

Martins abaixou-se, assustado. Não acreditou no que estava acontecendo. Aproximou-se do colega, querendo que nada daquilo fosse real.

Ouviu um gemido. A mulher estava viva. A raiva que sentia acabou cedendo lugar a uma calma imensa. Algo de bom acontecera, afinal. Pela primeira vez nos últimos dias, sentia-se útil: chegara antes que fosse tarde demais ¾ e algúem sobrevivera.

Dessa vez não sobrara ninguém. Fausto Molina devia estar saindo do país, pensou. Martins estava cansado. Queria apenas se afastar de tudo; ir para algum lugar onde houvesse paz. Observou impotente os últimos sinais da vida deixando aquele corpo. Estava acabado.

 

                                                                                Camille Adorno  

 

                      

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