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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MARIANA / Katherine Vaz
MARIANA / Katherine Vaz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MARIANA

 

Mariana contava anjos quando se sentia demasiado inquieta e não conseguia adormecer. O pai tinha‑lhe dito que todas as crianças em Portugal faziam isso.

            ‑ Os tempos de hoje são perigosos ‑ prevenia‑a o papá. ‑ E durante as horas em que eu não puder proteger‑te, os anjos hão‑de velar por ti. Trata tu do outro mundo e deixa este comigo.

            Quando o pai estava ausente, Mariana contava as horas, redondas e da cor do ar, como relógios invisíveis. E quando se mostravam insuportavelmente atrevidas, imaginava que as entretecia em colares feitos de céu.

            As vezes Mariana gritava: ‑ Falem! Contem‑me coisas da guerra!

            As horas alongavam‑se tomando a forma de dentes arreganhados e respondiam: "A guerra tem arestas cortantes e está a comer‑nos vivos".

            O céu não resistia a responder a Mariana, que possuía olhos da cor de folhas acabadas de cair de um ramo, daquele verde intenso que enleva quem o vê. Os seus membros eram magros e de um tom castanho viçoso. O cabelo era comprido e escuro e enrolava‑o à volta do punho quando os caracóis a importunavam. Tinha músculos salientes nos braços e nas coxas, testa alta, maçãs do rosto largas e lábios firmes de um vermelho‑gerânio, o que lhe dava um ar de criança com traços invulgares.

            Uma tarde, ao ver uns garotos a arreliar Baltazar, o seu irmão mais novo, por a sua família apoiar a luta pela liberdade, agarrou num alaúde que os pais tinham na sala de visitas e saiu a correr em sua defesa.

            ‑ Larguem o meu irmão! Deixem‑no em paz! ‑ gritou.

            Ao princípio os rapazes ficaram demasiado espantados para reagir e ela deu‑lhes com o instrumento até o partir nas costas do atormentador mais corpulento. E só parou quando as cordas se envencilharam nas mãos. Os miúdos fugiram, chamando‑lhe nomes por cima dos ombros. Mariana riu‑se por eles não se darem conta de que aquela bravata provava apenas que, além de derrotados, estavam a ser absurdos.

            Quando a mãe lhe perguntou por que razão tinha usado o lute em vez de um pau, Mariana respondeu que o lute era um instrumento bonito enquanto um pau não valia nada e que Baltazar merecia ser defendido com uma bela arma.

            Mariana bateu o pé ao doce reparo da mãe de que talvez arranjassem alguém que o pusesse como novo, replicando que o lute ficava melhor assim, pois agora constituía uma prova visível do seu amor pelo irmão.

            Não permitiria que fosse arranjado.

            O silêncio do lute todo desfeito era também uma homenagem adequada à Guerra da Independência, a qual muitas vezes parecia tão sossegada e invisível como as horas com forma de relógio.

            O papá dizia à Mariana:

‑ Espera e já vais ver.

            Há sessenta anos que a Espanha ocupava Portugal e agora que os espanhóis combatiam contra os franceses na Guerra dos Trinta Anos, Portugal tinha aproveitado a ocasião para declarar a sua independência. O papá tinha convencido muitos nobres locais a apoiar a nomeação de um deles como rei rebelde. O rei espanhol era um impostor.

            ‑ Espera ‑ repetia o papá em tom zangado, como se esperar fosse um acto violento e não de paciência. ‑ Neste momento tudo está calmo, mas quando os espanhóis se cansarem de combater os franceses e se virarem contra nós, vão esmagar‑nos. Um homem que pensa vencer ‑ e é assim que eu penso tem de fazer planos antecipadamente e ter tudo a postos antes da batalha final.

            O destino de toda a gente era incerto, mas a guerra exigia que todos fizessem o que pudessem.

            O papá percorria a cavalo as terras da rebelde Coroa portuguesa. A colheita de trigo daquele ano tinha sido miraculosa e ele organizou o seu envio para os moinhos que mandara construir ao longo do rio Guadiana a fim de alimentar as tropas portuguesas.

            Também enviara os melhores cavalos reprodutores para as fazendas que o rei lhe oferecera em agradecimento pelos serviços prestados. Os soldados portugueses precisavam dos melhores cavalos da Europa.

            Nenhum trabalhador era castigado sem o merecer.

            Ninguém poderia impedir o pai de fundar o seu próprio morgadio - um "pequeno reino", como lhe chamava Mariana, que visitava amiúde as propriedades da família e estudava os planos do pai, dando igualmente o seu exaltado parecer.

            O papá guardava os recibos de todas as transacções, contas ou propostas, assinando‑os "Francisco da Costa Alcoforado" e entrelaçando, como o costume ditava, a inicial do seu nome com a inicial do da mulher, Leonor. Juntas, as letras "F" e "L" formavam um floreado semelhante ao ferro forjado. A assinatura dele impressionava‑a. Que emoção, que maravilha que a escrita pudesse conter o ser amado!

            As festas mais faustosas de Beja eram obra do papá. Mariana adorava‑as, adorava o odor das águas de lima, das pomadas e do alho (especialmente do alho, suficientemente forte para ficar agarrado à pele durante dias), e resplandecia no meio de toda aquela agitação. A estas festas vinham muitos nobres que se declaravam espanhóis e que até já tinham aprendido a linguagem da poderosa nobreza castelhana, mas saíam de lá cheios de conhaque do papá, proclamando estar dispostos a morrer para salvar o seu país ocupado.

            Vê‑los a cambalear fazia com que ela própria se sentisse tonta por puro amor às festas. Entrava no quarto com a cabeça a andar à roda e sentia‑se tão livre que se maravilhava com tudo, esquecendo‑se do que estava a pensar. E caía então dentro do próprio espanto: exércitos de anjos invadiam‑lhe o quarto, incluindo aqueles cujas túnicas de gaze tinham sido despedaçadas pelos soldados espanhóis. Alguns dos anjos eram vingativos porque tinham andado a vaguear por campos de batalha e vinham de lá sem braços ou com buracos em vez de barrigas, mas Mariana não tinha medo deles. Esta guerra também era sua: durava já há tantos anos quantos a sua idade, pois tinham ambas nascido em 1640. No dia do seu baptizado, o padre tinha‑lhe pintalgado o sinal da cruz na nuca para a proteger do demónio; e se os anjos a assustassem, virar‑se‑ia de costas e afastaria os longos cabelos castanhos para os afugentar com o que restava dos óleos sagrados da cruz.

            ‑ Vão incomodá‑la a ela ‑ dir‑lhes‑ia Mariana, apontando para a irmã mais velha, Ana Maria, a ressonar pelo seu grande nariz na cama ao lado.

            ‑ Vão nadar no penico dela que eu cá não me importo.

            A pequenina Catarina tinha dois anos e dormia em paz como uma morta. Embora Mariana admirasse o facto de ela não espernear nem guinchar de noite, não se preocupava muito com ela.

            Baltazar dormia num quarto a meio do corredor, junto de Miguel, o irmão mais novo. Uma vez por semana, as criadas abriam as grossas cascas das nozes verdes que tinham caído no pátio e esfregavam‑nas nos painéis de madeira do corredor. Baltazar tinha só cinco anos, mas gostava de ajudar as criadas a polir as madeiras até o corredor ficar a brilhar, tons escuros e humidos sobre tons escuros e secos como nos quadros de Velásquez, a alegria do papá, que dantes estavam lá pendurados. Mas agora, por causa da guerra, tinha‑os tirado. Um homem que aclamava a insurgente Coroa portuguesa não podia possuir uma pintura espanhola em casa.

            - Se meterem medo ao Baltazar ‑ disse aos anjos amargurados - quem vos dá uma punhalada sou eu.

            A avó, deitada numa cama de dossel no enorme quarto ao fundo do corredor, saberia o que fazer se lhe acontecesse algum mal durante a noite. Diria aos anjos esfarrapados para se irem embora e eles obedeceriam. E se os mandasse chegar mais perto para os ver melhor, também lhe obedeceriam.

            às vezes era tão intolerável ficar separada da avó, mesmo por uma só noite, que Mariana percorria o corredor às apalpadelas, entrava pé ante pé no quarto da avó e penteava‑lhe o cabelo em leque sobre a almofada enquanto ela dormia.

            ‑ És tão bonita, avozinha ‑ murmurava.

            E, dirigindo‑se aos anjos, dizia: - Estão a ver o cabelo da minha avó? É mais bonito do que as vossas túnicas alguma vez o serão.

            Antes de os anjos partirem, envergonhados, Mariana perguntava‑lhes se eles, como toda a gente em Beja, iriam fazer queixinhas ao pai.

            ‑           Digam‑lhe que vocês se portam muito mal em vez de velar por nós. Digam‑lhe que eu sei que ele quer construir um mundo onde todos nós estaremos a salvo, mas que a guerra já entrou nos nossos sonhos.

 

            Uma tarde, quase ao anoitecer, Mariana e a avó decidiram dar um passeio proibido. Os pais de Mariana proibiam‑nas de sair da propriedade e a avó gostava de desobedecer a quem lhe dissesse o que fazer. Enquanto Mariana se esgueirava pela cozinha para embrulhar uns bolos de amêndoas e gemas de ovo num pano, sussurrou toda contente à avó:

‑ Vamos meter‑nos num lindo sarilho!

            ‑ Pois vamos! ‑ disse a avó a tremer de excitação.

            Era pequenina e pesada e gostava de mostrar que podia enfiar‑se no meio de uma multidão e usar o amplo peito como alavanca. Onde quer que os seus seios se metiam, o resto do corpo vinha atrás e, antes de as pessoas se darem conta de que estavam a ser afastadas, já ela se encontrava à frente das bichas do mercado.

            Em vez de ajudar Mariana a embrulhar os bolos, a avó começou novamente a vangloriar‑se de que os seus seios eram uma arma sem rival para conseguir o que queria.

            ‑ Shh! Despacha‑te! ‑ interrompeu‑a Mariana, que não queria ser apanhada sem ter realizado algo de ousado.

            ‑ Não posso ir a nenhum lado sem as minhas jóias ‑ anunciou a avó recusando baixar a voz.

            Desde a morte do marido, o pai da mamã, que se vestia de luto, o único pormenor que dava a entender que a avó talvez o tivesse amado, em particular porque era suficientemente ousada para usar uma mantilha preta com uma faixa por debaixo do peito e um alfinete de pérolas em forma de folha.

            Os dedos da avó estavam demasiado inchados para fechar o alfinete e Mariana teve de pousar os bolos de amêndoa para a ajudar. Parecia uma folha a brilhar no meio de uma montanha negra.

            A avó bateu as palmas como uma criança e disse:

‑ Vamos lá! E os olhos bem abertos!

            Tirou a chave escondida na faixa e abriu a fechadura do portão de ferro forjado. Cuspiu para o chão na direcção onde julgava que a Holanda se situava, como fazia todas as manhãs, pois os holandeses estavam a aproveitar‑se das dificuldades de Portugal e atacavam as suas rotas e entrepostos comerciais. Lançaram um olhar à casa imponente, quadrada, austera e com ameias como um forte amarelecido. As varandas nos andares de cima e de baixo permitiam que a família avistasse, de várias alturas, as distantes planícies onde, segundo se constava, havia soldados acampados à espera do momento oportuno e que ocasionalmente se envolviam em escaramuças.

            Meteram‑se a caminho passando pela tabuleta com grandes letras pintadas a preto que diziam "Alcoforado". O papá mandara colocá‑la ali porque queria ter a sua própria paragem oficial de carruagem perto de casa para quando os amigos regressassem das suas visitas a Lisboa ou Versalhes.

            ‑ Vamos visitar as alminhas? ‑ perguntou Mariana.

            ‑ Vamos! Devem estar cheias de fome ‑ respondeu a avó. ‑ aliás, eu também!

            Desembrulhou o pacote de bolos que a neta transportava e tirou um, insistindo para que ela comesse também. Mariana assim fez e o prazer que sentiu na língua alastrou‑se pela garganta abaixo.

            O sol quente batia‑lhes em cheio e avançavam levantando poeira. Quase a meio caminho do santuário dedicado às almas penadas apareceu‑lhes pela frente um grupo de quatro soldados espanhóis, vindos não se sabe de onde. A avo lembrou a Mariana a lição dos bichos selvagens: um animal maior recua se o mais pequeno o fitar nos olhos. É assim que um cão pode afugentar um lobo.

            Como os espanhóis se encontravam ali há mais de meio século, a sua presença não era novidade nenhuma. A única diferença era a atitude das pessoas, o que sentiam dentro de si. Os soldados aproximaram‑se. As suas largas botas de cabedal chegavam‑lhes até aos joelhos, as esporas em forma de estrelas arrastavam pelo chão e as faixas douradas estavam bastante sujas. Um deles tinha perdido as penas do chapéu e as jarreteiras estavam esfiapadas. E outro, apesar do calor, calçava luvas bordadas.

            - Senhora! ‑ saudou o de luvas, fazendo uma vénia à avó e piscando o olho.

            Os soldados deram‑se cotoveladas cúmplices, convencidos de que uma velhota e uma rapariguinha não resistiriam a tanta cortesia.

            Mariana fitou‑os intensamente nos olhos, mas não conseguia fazer com que eles caíssem mortos; aliás, para seu espanto, um deles afastou o olhar.

            ‑ Hum! ‑ disse a avó enviando‑lhes beijos.

            Eles riram‑se, mas não roubaram o alfinete da avó, não lhes tiraram os bolos e nem sequer as mataram. Mariana tentava fixar o máximo de pormenores para mais tarde contar a Baltazar, mas não aconteceu nada. Os homens prosseguiram o seu caminho com as espadas a arrastar ao lado como espinhas dorsais soltas. Fumo proveniente de acampamentos distantes desvanecia‑se no céu. A avó explicou que os soldados andavam a perder a vontade de combater e passavam o tempo à procura de lugares onde pudessem embebedar‑se. Esta guerra ainda ia acabar por morrer de tanta espera.

            A corpulência da avó impedia‑as de andar depressa e o suor envolvia‑as como renda molhada. O gorro branco e o vestido de linho de Mariana pareciam tecidos de claridade.

            ‑ Qual é coisa qual é ela que nós beijamos mas não adoramos? ‑ perguntou‑lhe a avó.

            ‑           Soldados espanhóis! ‑ respondeu Mariana prontamente.

            ‑Não.

            ‑           Então o que é?

            ‑           Não te digo, minha mais‑que‑tudo. É uma adivinha. Tens de descobrir. Não sejas tão impaciente, Mariana.

            Pararam junto de um poço perto do santuário às almas penadas. Desceram o balde de madeira na água escura e voltaram a içá‑lo. Beberam pela concha amarrada ao balde e a luz do sol transformou a água num espelho tão cintilante que tiveram de beber à pressa. Por insistência de Mariana, a avó foi a primeira. Beberam várias conchas cheias.

            Mariana olhou para todos os lados à procura de mais soldados, mas não viu nenhum. Ficou desapontada. Havia sobreiros à volta, com a casca despegando‑se do tronco onde as facas tinham feito entalhes. Junto a um dos sobreiros havia uma plataforma de madeira coberta apoiada em estacas. Era como uma casa de pássaros com pernas. Alguém a construíra para abrigar as almas de pessoas que tinham morrido sem concluir as suas obrigações na Terra: apesar de já não estarem vivas, não tinham paz no outro mundo. Talvez tivessem traido um amigo ou cometido qualquer acção imperdoável que impedia as suas almas de serem livres. Talvez não tivessem usado completamente as suas qualidades, ou talvez tivessem contraído dívidas, ou não tivessem amado alguém suficientemente, ou tivessem morrido deixando em aberto um grande número de dúvidas a seu respeito. Mariana tinha pena que estas almas fossem condenadas a procurar os santuários para poderem beber a agua benta e comer a comida que os vivos lhes deixavam.

            No interior do santuário havia ramos de rosas murchando por causa do calor. A avó atirou‑as para o chão, resmungando que isso era outro sinal de que o país estava a desmoronar‑se. Afinal de contas, talvez fosse melhor que os espanhóis continuassem a mandar.

            Mariana colocou no altar os bolos que restavam.

            ‑ O que nós beijamos mas não adoramos, são as almas penadas, avozinha?

            ‑Não.

            ‑ Avozinha, quem é que morre depois de ter cumprido as suas obrigações em vida? Não nos tornamos todos em almas penadas?

            ‑ Quero morrer depois de ter cumprido todas as minhas obrigações - disse a avó enquanto ornamentava o santuário com flores selvagens. ‑ Não vou andar por aí com essas palermas.

            ‑ Se são palermas, por que é que estamos a ser boazinhas com elas? - perguntou Mariana soltando uma risadinha.

            ‑ Sinto uma certa compaixão pelo seu sofrimento.

            O açúcar que cobria os bolos de amêndoa já estava a derreter. Mariana compreendeu então que quem se bateria mais depressa pelos doces seriam os soldados; mas, quer fossem almas, gente ou pássaros, valia a pena ter corrido todos os riscos para estar ao ar livre em companhia da avó. Sim, passearia por onde lhe apetecesse! Um dia visitaria a corte de Luís XIV, como os amigos do papá tinham feito, e iria a bailes de máscaras vestida de tafetá. Se um marquês qualquer a importunasse, puxar‑lhe‑ia as orelhas com tanta força que os caracóis da cabeleira ficariam todos desfrisados! E quando fosse a Goa e a Macau, inalaria o aroma das especiarias. Não era por acaso que era afilhada do bisneto de Vasco da Gama!

            A melhor maneira de evitar ser uma alma penada era viver um amor que não estivesse sujeito às leis dos mortais. Ela tinha de ser como Inês de Castro, a bela Inês, que vivera o romance mais sublime do mundo há quase trezentos anos atrás. Casara secretamente com Pedro, filho do monarca português. Como não estava a par do casamento, o rei acabou por acreditar nos nobres, que a denunciavam como espia, e ordenou que fosse degolada. Dois anos mais tarde, quando subiu ao trono após a morte do pai, D. Pedro perseguiu os criminosos por toda a parte e acabou por os matar, comendo‑lhes depois o coração. Mandou então desenterrar Inês e sentou‑a no trono ao seu lado, obrigando toda a corte a tratá‑la como rainha e a beijar‑lhe a mão putrefacta.

            Ainda hoje, e por decreto‑real, D. Pedro jaz num túmulo em frente do da sua amada, e quando ambos ressuscitarem no dia do Juízo Final, ela será a primeira pessoa que ele há‑de abraçar. Até lá, terão de testemunhar serenamente toda a história humana e os lánguidos tempos de Deus.

            Mariana sentia um calafrio sempre que pensava em Inês e D. Pedro pois não se tratava de uma história de fadas. Era autêntica.

            Em breve teria onze anos e já era altura de fazer planos para o futuro. Não tinha outra escolha senão tornar‑se numa ressurreição de Inês. Já que se tinha de viver, por que não ser adorada para além do definhar da carne, por que não ascender no fim da vida para ser dona dos céus? Sim! Por que não? Mariana balançou‑se nos calcanhares ao pensar nesse triunfo, nessa derrota das leis que governavam a existência humana. Teria de encontrar alguém cuja alma, idêntica à sua, só poderia encontrar repouso reclinando‑se na vastidão do seu amor.

            Já tinha feito a sua escolha aliás: Rui de Melo Lobo. O papá haveria de dar a sua permissão. Rui pertencia à nobreza mais antiga de Beja e a coragem da sua família era lendária. Os irmãos Lobo ocupavam postos de chefia na Guerra da Independência. O papá estava sempre a dizer que eles possuíam a energia e o fervor que nos salvariam. Rui, com aquela cicatriz no queixo que a barba ruiva não conseguia encobrir, além da claudicação causada por uma punhalada que recebera na coxa durante uma batalha, era suficientemente temerário para ostentar a sua paixão no corpo. As pessoas diziam que era feio, mas Mariana via‑o resplandecente e coberto de feridas que não lhe doíam. Rui gostava de cantar, jogar e contar histórias da guerra. Rasgava a vida de alto a baixo como se desembrulhasse um presente de modo impaciente. Um dos seus antepassados enviara a alguém a cabeça de um rei como oferta.

            Rui tinha mais do dobro da sua idade, mas ela saberia convencer o pai de que só alguém valente como ele poderia estar ao lado dela. Além de que isso seria a melhor maneira de juntar as duas melhores famílias da cidade ‑ uma, antiga e impetuosa; a outra, recente e disciplinada, mas não menos exuberante.

            Como se lesse os seus pensamentos, a avó entoou:

 

Considera, meu bem, Considera, Considera, considera bem...

 

            Decidiram aventurar‑se até à cidade e visitar o mercado. A avó gostava tanto do mercado que ficava a olhar durante longos minutos para todo aquele reboliço antes de entrar pelo meio de toda a gente com o peito em riste. Mariana esperava que o pai desse novamente pela sua falta e viesse procurá‑la a cavalo. Veria então como ela era valente e fitava destemidamente os soldados espanhóis nos olhos. E depois, iria contar a Rui como era merecedora da sua admiração. Mas tudo se desvaneceu ao ouvir o familiar galope do cavalo de Luís, o criado do papá, que vinha buscá‑las e pôr fim à aventura daquele dia.

 

            A mamã estava à espera delas em casa. Mariana ficou preocupada ao notar uma expressão de dor branca na mãe, como leite quente a correr sob a pele. Toda a gente se encontrava na cozinha, excepto o papá. Ana Maria estava a amassar pão, Catarina estava sentada no chão e brincava com uma boneca e Miguel gatinhava por debaixo das mesas. Quando Baltazar a abraçou, Mariana sentiu‑se envergonhada por o ter assustado e escondeu o rosto nos seus cabelos pretos e ondulados.

            A mãe e a avó começaram a discutir, mas zangavam‑se tantas vezes que nenhuma das crianças prestou atenção.

            ‑ Toda a gente te acha muito esperta, mas a verdade é que és burra a valer! ‑ disse Ana Maria tirando as mãos da massa e gesticulando na direcção de Mariana. ‑ Espero que um dia aprendas uma boa lição.

            ‑ Sabes por que é que me chamaram Mariana? Porque é Ana Maria escrito ao contrário. A mamã e o papá tiveram‑me para corrigir o erro que tinham feito contigo ‑ ripostou Mariana.

            Mas aguardava‑a um castigo pior do que ter de ouvir a irmã mais velha:

o jantar iria ser migas. Migas! Que tortura! Odiava aquele prato. E isso significava que o papá não jantaria em casa, pois também ele odiava migas. Costumava deixar Mariana e os irmãos comer à mesa da sala de jantar juntamente com ele e a mãe. Chamava‑lhes o seu verdadeiro país e dava‑lhes licença para falar se eles pousassem os talheres de prata e o pedissem.

            ‑ Não lhe permito que saia novamente de casa, mãe! ‑ gritou a mamã quando a avó lhe virou as costas e saiu a largas passadas para se meter no quarto. Mariana riu‑se ao imaginar a avó a usar o peito como cunha para passar pela mamã quando lhe apetecesse sair de casa.

            ‑ Mariana! ‑ chamou‑a a mãe pegando em Miguel ao colo. ‑ O que é que eu vou fazer contigo?

            ‑ Fomos só dar de comer às almas.

            ‑ Gosta de fazer de Joana d'Arc ‑ troçou Ana Maria. ‑ Ouve vozes e vai salvar‑nos a todos.

            ‑ Cala‑te, cabeça de melão! ‑ berrou Mariana.

            ‑ Não admito esse tipo de conversas cá em casa ‑ disse a mãe.

            Catarina começou a choramingar e a mãe pô‑la também ao colo. As costas dela curvaram‑se sob o peso das duas crianças. Se lhe fosse possível, acartaria com os filhos todos até Mariana desatar a gritar: ‑ Põem‑nos no chão, mamã! Estamos a dar cabo de ti!

 

            ‑ Aquilo que beijamos mas nunca adoramos, são os nossos paiss ‑ perguntaria Mariana mais tarde a avó.

            ‑ Não, minha mais‑que‑tudo. Tenta adivinhar outra vez.

            Mas era uma resposta tão inteligente que não pôde deixar de a considerar com atenção.

 

            "Se eu ficar o tempo suficiente à espera, as respostas de todas as adivinhas virão ter comigo", disse Mariana para consigo mesma. Estava sozinha na sala de jantar porque a mamã a proibira de sair da mesa antes de acabar as migas que tinha na frente. Fitou o prato e desejou tê‑lo lançado à cara de Ana Maria. Já todos tinham comido e estavam deitados e, pelo vistos, a avó não vinha socorrê‑la. O pai poderia estar em qualquer sítio. A noite projectava‑se através das janelas, mantos escuros de céu e mantos brancos da luz das estrelas. Anjos agrupavam‑se às janelas, à espera que ela os contasse um por um até adormecer, mas Mariana mandou‑os embora. Será que Inês teria tolerado tal intromissão? Será que Inês fora obrigada a comer migas? Rezou para que os espanhóis lançassem trapos a arder para cima do telhado da casa, como haviam feito uma vez na casa dos Almeida; mas desde que a guerra afrouxara não tinha havido muitos casos desses. Resistiria à fome. A lua podia subir e descer mil vezes mas ela não se mexeria da cadeira, até as migas endurecerem no prato e mirrarem de velhas. Tudo isto servia para praticar o seu propósito de vir a ser Inês e esperar que Deus lhe concedesse a eternidade.

            Pôs‑se a olhar desafiadoramente para o prato. Se ao menos o papá a viesse libertar! Mas só ouviu uns barulhos por volta da meia‑noite, quando Baltazar, com a camisa de noite a arrastar pelo chão, entrou como um sonâmbulo na sala de jantar.

            ‑ Baltazar! ‑ exclamou.

            ‑ Pega‑me ao colo ‑ pediu o garoto.

            ‑ Claro ‑ disse ela sentando‑o nos joelhos.

            Mariana gostava de lembrar‑se de Baltazar em bebé, quando tinha o tamanho ideal para ser embalado nos braços e fingir que era seu filho. Não sabia explicar por que razão não via Catarina ou Miguel assim. Era assim que sentia. Baltazar era tão pequenino quando nasceu que tiveram de lhe atar o anel de ouro ao dedo médio com uma fita.

            Se Mariana lhe pedisse, Baltazar viria viver com ela e com Rui, o seu grande amor.

            ‑ Não consegues dormir? ‑ perguntou‑lhe.

            ‑ Não. O bicho‑papão vai comer‑me.

            ‑ Não vai que eu não deixo.

            ‑ Então vai comer‑te a ti.

            ‑ Eu cá só tenho pele e ossos. E ele ainda se engasga.

            E Mariana imitou o som de quem se engasga.

            ‑ Há‑de apanhar‑te e eu terei de o matar.

            ‑ Ah! Ah! Então não tens medo dele.

            Baltazar sorriu e encostou a cabeça ao peito da irmã.

            ‑ Quem é que te falou do bicho‑papão? ‑ perguntou Mariana.

            ‑ Foi a Ana Maria.

            ‑ E o que é que ela te disse?

            ‑ Que é um monstro que vive nos telhados e entra nas casas para comer os meninos. Engole‑os para dentro de uma bolsa que tem debaixo da boca.

            ‑ E não te contou que ele só come as meninas más chamadas Ana Maria?

            ‑ Também não quero que ele a coma! ‑ berrou Baltazar.

            ‑ Shh! Eu não deixo que ele nos apanhe ‑ disse Mariana. ‑ Damos‑lhe outra coisa qualquer para comer.

            Amassou as migas em forma de boneco e atirou‑o pela janela fora.

            ‑ Já está! O bicho‑papão vai enfiar aquilo pelas goelas abaixo e há‑de morrer engasgado. Ninguém consegue engolir aquela porcaria.

            Baltazar abafou uma gargalhada cobrindo a boca com as mãos.

            Depois levou‑o às cavalitas novamente para o quarto. Miguel, que tinha um ano, dormia numa cama junto à de Baltazar. Os azulejos azuis e brancos que decoravam as paredes representavam fontes e planícies ondulantes. Em alguns deles havia fendas da espessura de cabelos que traçavam ziguezagues, como raios de relâmpago, lembrando as nervuras hirtas de uma tempestade a pairar sobre uma paisagem encantadora.

            Baltazar adormeceu finalmente. Apesar da pressa de voltar à cozinha seria trágico que a mamã entrasse e julgasse que ela se rendera e acabara por comer as migas! ‑, Mariana arrancou os fios das mantas que cobriam Baltazar e colou‑os com saliva à testa do irmão. Procedeu da mesma maneira com Miguel. A avó fazia isso quando eles eram pequeninos para que o bicho‑papão pensasse que eram demasiado horríveis para serem comidos ou raptados.

            Voltou à cozinha e encheu o prato com mais migas. Ordenou às pesadas pálpebras que se mantivessem abertas, mas não conseguia decidir se queria que o tempo passasse devagar ou depressa.

            A mamã, vestida com uma camisa de noite toda amarrotada, apareceu à porta e disse:

‑ Eu também não consigo dormir

            ‑ Ah sim? ‑ comentou Mariana friamente.

            ‑ Estou preocupada contigo.

            Mariana não disse palavra e a mãe sentou‑se ao seu lado.

            ‑ Vamos deitar isto aos porcos e não contar nada a ninguém?

            ‑ Não vale a pena. Acho que nem os porcos querem comer esta porcaria.

            ‑ Por favor, Mariana. Estou muito cansada.

            ‑ Lamento que não consigas dormir por minha causa. O papá já veio? Tenho de falar com ele.

            ‑ Não fui ao quarto dele. Não sei onde está ‑ disse a mãe.

            ‑ Então boa noite. Eu estou bem aqui.

            Leonor olhou para a filha e desejou estar vestida com uma das blusas em que cosera fileiras de botões a mais na parte interior das mangas para que toda a gente visse. Acrescentara os botões para que a sensação de vazio não fosse tão terrível quando não trouxesse nenhum dos filhos ao colo. Pesos mais leves do que moedas talvez compensassem essa ausência. Uma camisa de noite era ligeira como um fantasma. De todos os filhos, Mariana era a mais difícil. Mas nada a impediria de os adorar a todos. Tê‑los fora como arrancar o coração por entre as pernas e receava ser demasiado velha para poder ter mais ‑ corações, - filhos. Tinha as pernas cobertas de veias azuis e verdes devido ao peso de carregar os filhos, um corpo que emergia em cores marítimas; contudo, queria continuar a dar à luz. Até gostava de José, o rapaz que o marido tivera de outra mulher anos antes de Leonor casar com ele. No Natal, o bom do José costumava trazer castanhas e figos às crianças. Entrara para o Convento de Nossa Senhora das Neves com tenra idade e sem protestar e agora era frade. Nunca tinha visto neve e certamente nunca a veria, mas dizia que um nome daqueles dava um ar exótico ao convento e fazia pensar num palácio imaginário feito de cristais. Um filho bastardo de Francisco da Costa Alcoforado não devia sentir‑se envergonhado e seria aceite como membro da família, mas ele insistia que não pretendia nenhuma parte do morgadio. Ser monge de mágicos Invernos podia ser um belo destino e Francisco da Costa Alcoforado doava todos os anos um estipêndio ao convento para pagar as despesas de José. Leonor gostaria de roubar um pouco da afabilidade do padre para dar a Mariana, cujos olhos possuíam tal vigor que podiam devorar, um a um, os livros que o pai guardava na biblioteca. "Olhem só para o ar casmurro desta rapariga...". Agora que já tinha dois rapazes, talvez Francisco deixasse de tratar Mariana como um filho.

            ‑ Diz‑me uma coisa, mamã ‑ perguntou Mariana de repente interrompendo os pensamentos da mãe. ‑ O que é que achas dos Lobo?

            Havia só uma coisa que Leonor apreciava naquela família: não tinham medo de nada e lutariam até às portas do Inferno para proteger um amigo. Embora detestasse a ideia, sabia que o marido andava a considerar seriamente casar uma das suas preciosas filhas com um desses brutamontes. Para se convencer, Leonor não se cansava de repetir para consigo mesma: segurança, protecção, riqueza e terras. Um espadachim seria um bom defensor. Apesar de não se comportarem como tal, os Lobo eram aristocratas. As mulheres deles seriam bem tratadas e protegidas, mas ela preferia fingir que esse casamento nunca aconteceria.

            ‑ Acho que és mais dura de roer do que qualquer um deles ‑ respondeu Leonor à filha enquanto levava as migas para a pia.

            Mariana abraçou‑se a ela com toda força. Leonor, assustada com tanta efusão, deu‑lhe um, dois beijos e ficou a vê‑la ir a correr para a cama na esperança de que um dos beijos lhe perguntasse: "O que é que há? Porquê tanto alarido?".

            Mariana meteu‑se na cama, mas não conseguia adormecer. Os nervos agitavam‑se como chicotes vivos. Ana Maria dormia ruidosamente na cama ao lado, mas decidiu não se zangar. A mamã tinha pouco mais ou menos concordado que Rui era um bom partido e Mariana não conseguia tirar a imagem dele da cabeça. às vezes Rui punha‑se a contar uma história mas depois ficava tão excitado que tinha de cantar e dançar. Fora ele que a ensinara a cuspir as cascas das favas por cima do muro. E um dia trouxera uma caixa e mostrara‑lhe indigo em pó, o corante mais caro que existia. Era o azul mais sumptuoso que Mariana jamais vira, um azul meio‑púrpura e negro em cristais, como açúcar. Quase desmaiara quando Rui lho oferecera. A partir daquele momento deixou de se importar por viver no interior e não ver o mar. Rui tinha‑lhe dado uma caixa com um bocado do oceano lá dentro. Desenhou as iniciais dele enlaçadas com as suas na superfície azul. A colcha da cama também era azul e ela imaginava que dormia sob toneladas do seu amor por Rui, embora fosse o padrinho dela, D. Francisco da Gama, bisneto de Vasco da Gama, que a trouxera de Macau como prenda de anos. Havia caracteres chineses bordados a vermelho sobre o azul e Mariana passou a mão por cima deles para dar sorte.

            A cor das paredes e da mobília da futura casa de Mariana, bem como os lençóis de linho onde se deitaria com Rui, haveriam de ser azuis. Que pensamentos mais escandalosos, que cor mais alarmante! Viveriam sempre em festa, envoltos pelos trajes enfeitados dos convidados, plantas exóticas e tapeçarias. Rui chocaria toda a gente rodopiando com ela pelos salões apenas ao som das vibrações dos objectos tingidos de cores berrantes.

            Saltou da cama, como se tivesse de pôr os seus planos imediatamente em prática. Que fazer primeiro que tudo? Assegurar que o peixe chegasse fresco todos os dias? Engordar os animais de criação, remendar as toalhas de mesa? O esforço de imaginar o que era preciso para viver plenamente os seus desejos fê‑la desfalecer no quarto às escuras. Ficou ali deitada no chão a gemer enquanto tudo girava à sua volta. Ouviu uma voz murmurar: "É isto o que ganhas por quereres pôr em ordem as coisas deste mundo!". E viu então desintegrar‑se diante de si a festa que imaginara. Rui desaparecera. As moscas pousavam nas iguarias e as larvas rastejavam pelas mesas. Choramingou, sem forças para se levantar.

            Como é que a mamã soube que Mariana precisava de ajuda?

            Leonor debruçou‑se sobre a filha e sussurrou‑lhe uma canção de embalar, pondo‑a a dormir num instante e curando‑a da sua tontura.

 

            O primeiro canto do galo despertou‑a em alvoroço. Vestiu‑se enquanto a aurora lhe dizia: "Vai falar com o teu pai e diz‑lhe que queres ser noiva de guerra! Não há motivo para esperar o amor se já sabes quem amas".

            Percorreu o corredor, passou por várias salas e parou à porta do solário na ala oriental, onde àquela hora o pai se encontrava normalmente a ler ou a conversar com os amigos. Chamava a isto pôr o dia em ordem.

            Ele estava no fundo do vasto salão. O papá e vários amigos ‑ reconheceu o marquês de Niza, embaixador de Portugal em França, e D. Joaquim Ferreira de Fontes, que tinha um morgadio próprio ‑ estavam sentados à volta da mesa de castanheiro. O pai estava a falar com tanta veemência que não se apercebeu da presença dela à entrada do solário, junto das estantes. As mãos gigantescas do sol apertavam o tecto em cúpula criando uma esfera de luz cujos raios transbordavam sobre o pai e as lombadas douradas dos livros. A Carta de Privilégios que, por ordem de D. João IV, rei de Portugal, nomeava Francisco da Costa Alcoforado "cristão nobre para todo o sempre", estava pendurada sob o brasão dos Alcoforado: uma águia pousada num escudo azul prateado, em lugar de destaque na parede. Uma salva com laranjas, ao alcance de todos os convidados, ocupava o centro da mesa.

            O pai estava vestido de preto, ao estilo dos ministros franceses, e a camisa branca saía das mangas fendidas do gibão como gomos de ar frio. Tinha uma beleza austera. Contava menos de cinquenta anos de idade e tinha um perfil bem delineado. Mesmo à distância, conseguia cheirar ‑ ou sentir nas narinas aquilo que, se estivesse mais próxima, cheiraria ‑ o tabaco e a cera do bigode do papá. O cabelo preto luzidio caía‑lhe pelos ombros. A única imperfeição era uma ruga profunda que lhe sulcava a testa. Um dia ele havia de pedir a Mariana para lhe segurar com ambas as mãos nas frontes e levantar‑lhe o alto da cabeça para lhe ler os pensamentos. Muitos homens gostariam de fazer o mesmo e teriam inveja dela. Mariana aguardava ansiosamente por tal momento. Mas o papá só a chamaria quando o marquês de Niza e aqueles homens de ar lúgubre fossem embora.

            Luis, o criado, servia aos convivas orelhas de porco fritas juntamente com café do Brasil e chá de Ceilão. Tinha olhos azuis demoníacos e sentido de humor. Vestia uma túnica bordada no peito e de mangas compridas a que ele chamava o seu estilo romano‑chinês. Colocou uma chávena em frente do pai e, segurando um cubo de açúcar de cana com pinças de prata, derramou o café por cima para que o açúcar se derretesse por igual e não ficasse no fundo, coisa que D. Francisco detestava. A seguir, voltou a postar‑se no seu lugar à direita do dono da casa e piscou o olho a Mariana. Faltava pouco para que o papá reparasse na presença dela.

            Mas, em vez disso, foi D. Joaquim Ferreira de Fontes quem reparou na sua presença e cantarolou em voz derretida:

- ó menina, minha menina pequenina!

            "Valha‑me, Deus!", pensou Mariana. "Espero que o papá não permita que um homem com tanta falta de tino faça planos de guerra!".

            Francisco da Costa Alcoforado ergueu a cabeça na direcção dela e o olhar de ambos entrelaçou‑se. Era senhor de todos os gestos que fazia, sem esforço e imperiais. "Papá!", gritavam os nervos dela, "Papá!". Nunca lhe perguntara se a preferia a Ana Maria. Achava que sim. Todos os convidados a fitavam agora, à espera que ele a mandasse embora.

            - Meu bem! ‑ exclamou.

            Ah! valera a pena ter vindo interrompê‑lo e ter passado a noite sem dormir. Compreendeu quanta ternura havia naquelas palavras:

            - Minha querida. Meu tesouro, espera só um minuto e serei todo teu. Fica. Observa.

            Mariana tirou um livro da estante para lhe mostrar que, apesar de a tutora, a Dona Néné, ter fugido para o reino dos Algarves, ela continuava a estudar francês. Adorava livros ‑ as páginas creme, os estalidos de agradecimento que as páginas davam ao ser abertas. O papá não fizera caso daqueles que diziam que ensinar as filhas a ler era um desperdício. Sorriu ao ver o pai voltar aos seus afazeres. Agora que o papá dera o seu assentimento, esta reunião poderia demorar semanas. Esperar não tinha importância, pois em breve seria a sua única audiência e essa antecipação enchia‑a de prazer.

            O marquês apercebeu‑se de que deveria fingir que ela era invisível e disse:

‑ Como os franceses ainda estão a combater contra Espanha, temos de nos perguntar o que é que eles ganharão em ajudar‑nos. Ouvi dizer que o povo francês não tem intenção de alastrar esta guerra.

            ‑           Hão‑de continuar a fazer tudo para prejudicar a Espanha ‑ disse outro homem. ‑ Não querem uma península espanhola unida às suas portas.

            ‑           Não podemos depender dos franceses nem de ninguém para combater por nós, nem prescindir de metade do Brasil como pagamento pelos seus serviços ‑ atalhou o marquês de Niza.

            Mariana ficou um pouco apoquentada ao ouvir D. Joaquim Ferreira de Fontes dizer:

‑ É melhor meio reino do que nada. Mais vale pagar aos franceses. Senão, no final do século, ou até mais cedo, deixaremos de existir.

            Mariana tentou imaginar o desaparecimento de toda uma nação, a sua.

            ‑           Precisamos imediatamente dos franceses aqui ‑ declarou Francisco da Costa Alcoforado.

            ‑           D. Francisco ‑ disse o marquês. ‑ Peço desculpa, mas os franceses são extravagantes e preferem governar sozinhos. Não há dinheiro na Europa que os convença que quem paga é quem manda.

            ‑           O nosso povo vai ficar agitado quando descobrir que os impostos estão a ser usados para corromper a corte de Luís XIV ‑ disse um dos convidados.

            ‑ Sempre tivemos sarilhos com a Espanha ‑ prosseguiu o marquês. E havemos de continuar a tê‑los. Deveríamos serenar um pouco e aprender espanhol.

            ‑ Acha realmente iSSO?

            O tom da voz do pai fez com que Mariana levantasse OS olhos do livro.

            O marquês hesitou. Toda a gente o fitava.

            ‑ Acho ‑ acabou por dizer.

            ‑ Então deixe‑me dizer‑lhe uma coisa ‑ prosseguiu Francisco. ‑ Os espanhóis estão a fortificar guarnições ao longo da nossa fronteira e a ganhar novo fôlego. Combatem‑nos em alguns Sítios unicamente para manter a prática. Tem sido uma guerra muito enfadonha e eles julgam que acabaremos por nos esquecermos de que existe.

            ‑ Talvez fosse o melhor. Pelo menos teríamos paz ‑ comentou o marquês. ‑ Os próprios franceses também estão fartos...

            ‑ Os franceses farão o que o seu rei disser!

            Mariana ficou de olhos fixos enquanto a voz do pai subia de tom até se transformar em berros.

            ‑           Tem andado a beber do vinho deles? ‑ trovejou. ‑ Os tratados podem ir para o inferno! Sabe com o que pode contar? Os franceses sabem muito bem que depois de ganharem a guerra contra Espanha ‑ e hão‑de ganhá‑la, os espanhóis vão empurrar‑nos mar adentro. E depois, independentemente das tréguas com França, marcharão para Norte e só hão‑de parar quando tiverem touradas nos jardins de Versalhes!

            ‑ Mas o dinheiro... ‑ disse o marquês.

            ‑ Tenho de ser eu a fazer tudo? Informe os agentes franceses do que precisamos e depois dêem‑lhes o que quiserem. Pague‑lhes e ofereça‑lhes uma garrafa de vinho do Porto. É uma pena O cardeM Richelieu ter morrido. Esvaziem a melhor garrafa na sua campa. É preciso que as tropas francesas cheguem aqui antes de todos estes cobardolas estarem a falar castelhano.

            E D. Francisco fez sinal a Luís para lhe trazer o sinete, tinta e papel pergaminho.

            ‑ Como vereador, tenho o direito de mandar os cobradores de impostos angariar fundos para O esforço de guerra. Não me importo que parte desse dinheiro vá parar aos bolsos de políticos franceses favoráveis à nossa causa. Se a Espanha conseguir os seus intentos, ninguém terá de se preocupar com perdas porque irá tudo por água abaixo. Estão a perceber?

            ‑ Espero que ganhemos ‑ disse D. Joaquim Ferreira de Fontes.

            ‑ Eu nunca espero, sei ‑ retorquiu D. Francisco.

            Preferia utilizar tinta‑da‑china sólida para que a escrita cheirasse a Oriente. Mariana adorava aquele odor. Luís esfregou O pau de tinta num recipiente de ardósia acrescentando uma colher de água para formar uma poça negra. Até parecia que ela própria sentia aquele cheiro do lugar onde estava...

            Mariana apercebeu‑se, com satisfação, de que ainda tremia devido aos berros do pai e, para se acalmar, escolheu outro livro enquanto O pai redigia as suas ordens. O seu livro favorito tinha capa azul e era de Cervantes. Segundo a avó, este autor dissera que os portugueses morrem de amor. Era uma pena que ele não tivesse escrito nada a respeito de Inês e D. Pedro e também era uma vergonha que ele tivesse morrido há décadas, porque assim nunca iria escrever sobre Mariana e Rui. Ocorreu-lhe que devia ocultar o livro: O papá esquecera‑se certamente de esconder os escritores espanhóis. Arrumou o livro por detrás de um volume de Shakespeare ilustrado com aguarelas de nobres e jograis. A língua inglesa era difícil, mas o papá dizia que o povo inglês, apesar dos ataques navais ao nosso litoral, um dia seria nosso aliado. A Espanha é que era o verdadeiro inimigo de Inglaterra.

            Luís aproximou‑se da mesa para secar a carta e pô‑la dentro de um envelope, chegando depois um pau de lacre a uma chama. Lágrimas vermelhas caíram. E Francisco assentou o sinete brasonado na ardente flor vermelha.

            Se Mariana pudesse ao menos ver o "L" de Leonor que o papá colocava na sua assinatura... Os franceses haviam de obedecer ao papá. O coração de Mariana bateu ao ver o pai meter a carta numa bolsa de veludo e entregá‑la ao marquês de Niza. Deu por finda a audiência com um aceno de mão, como se as pessoas que ali se encontravam fossem moscas. Era magnífico!

            Esquivou‑se quando o marquês tentou beliscar‑lhe o rosto. Já não era nenhum bebé.

            ‑ Consegues guardar todos os nossos segredos, menina?

            Os outros homens saíram solenemente mal reparando nela. Luís tirou as chávenas e pratos da mesa. Finalmente encontrava‑se a sós com o pai!

            ‑ Papá! ‑ exclamou.

            ‑ Meu anjo!

            O suor que lhe molhava o rosto envelhecia‑o, como se tivesse estado a combater as vastas planícies ou o próprio ar. O pai era natural do norte montanhoso e ela reconhecia que isso lhe permanecia na massa do sangue. Sempre que ele olhava pela janela para as planícies de Beja, tinha de fazer um esforço para não lhes ordenar que se amontoassem e alteassem. Contara‑lhe uma vez que tinha vivido um grande momento ao dar‑se conta de que as planícies, lentas como a eternidade e que pareciam nunca mudar, o ensinavam a perceber as mudanças mais subtis.

            ‑ Tenho de falar contigo, papá.

            ‑           Coisas de negócios? ‑ perguntou a brincar, ajoelhando‑se em frente dela. ‑ Não achas que por hoje já chega?

            ‑           Não ‑ respondeu ela abraçando‑o.

            ‑ Muito bem. Queres outra boneca?

            ‑ Não ‑ disse Mariana, afastando‑se dele para lhe mostrar que estava zangada. Contudo, uma nova boneca seria benvinda e já estava arrependida de a ter recusado tão depressa.

            ‑ Por que é que acordaste tão cedo?

            ‑ Para te visitar.

            ‑ Ah, sim? ‑ disse em tom trocista.

            ‑ És tão desconfiado, papá.

            Sentou‑se à mesa e o pai seguiu‑a, sentando‑se na sua poltrona.

            ‑ Eu sei, meu anjo.

            ‑ Não sabes, não!

            ‑           Nunca ouço O que os outros me dizem, não é? Prefiro ouvir as suas entranhas ‑ disse o pai apontando com um dedo para O peito dela.

            Fora ele quem lhe ensinara o ditado "Boca de mel, coração de fel".

‑ Posso tomar café, papá?

            Francisco da Costa Alcoforado fez um sinal com a mão e Luís serviu‑lhe uma chávena.

            ‑           Obrigada, Luis ‑ agradeceu.

            O pai franziu o sobrolho. Não se devia agradecer a ninguém por cumprir o seu dever.

            ‑           Papá! ‑ repetiu Mariana, bebericando o café. ‑ Quero casar.

            O pai soltou uma gargalhada.

            ‑           Ah, queres?

            ‑           Quero.

            ‑           E estás a pensar casar com alguém em especial?

            Tinha chegado o momento de dizer o nome de Rui, mas a sua fantasia tinha‑se tornado tão grande, muito mais sentimento do que meras palavras, que seria heresia soletrar uma sílaba que fosse. Permaneceu sentada, muito quieta. O papá sabia ler os pensamentos e havia de perceber quem era a pessoa que ocupava o seu espírito à noite quando se deitava e quando acordava todas as manhãs.

            ‑           O nome não é importante, papá ‑ disse por fim.

            ‑           O nome é muito importante ‑ corrigiu ele. ‑ A tua mãe está a par do que se passa?

            ‑ Claro que não.

            ‑           Fala sempre da tua mãe com respeito.

            ‑           Sim, papá.

            ‑ E a tua avó sabe? Isto cheira‑me a coisas dela.

            ‑           Também não, papá.

            ‑           Ainda deves esperar uns anos...

            ‑           Assim farei, papá. O noivado pode durar uns três anos e, até eu chegar à idade de casar, poderemos dar festas.

            Os olhos do pai pareciam duas brasas de carvão que tivessem caído no seu rosto encarquilhado.

            ‑           Sabes que OS espanhóis estão aqui há muito e querem que façamos parte de Espanha? ‑ perguntou‑lhe. ‑ E também sabes que tivemos o maior império do mundo e que navegámos por mares nunca dantes navegados... e que agora esse império está a desmoronar‑se?

- Sei.

- Sabes por que razão a Espanha e a França estão em guerra?

                        ‑ A Dona Néné e tu já me explicaram tudo. Tanto o monarca de França como o de Espanha querem dominar a Europa, mas o que realmente desejam é tomar conta de todo o comércio na Ásia e no Novo Mundo.

                        ‑ És uma rapariga esperta, Mariana. Sabes o que eu penso? Ou mandamos em todo o mundo ou então devemos desistir. És como eu. Nada nos satisfaz entre estes dois extremos.

‑ Obrigada, papá.

            O café caía‑lhe no estômago como labaredas pretas. Sentia‑se a menina mais feliz do mundo.

            ‑ Percebes o perigo que corremos? ‑ insistiu o pai.

            ‑          Sabes bem que sim. É por isso que preciso de casar. Para que o meu marido cuide de mim.

            ‑           Eu é que hei‑de proteger‑te, Mariana. Qualquer marido com idade suficiente para te defender também terá idade suficiente para libertar o seu país.

            ‑ Eu espero por ele.

            ‑ És bem capaz de já ser uma velha quando ele voltar para casa.

            ‑ Não faz mal.

            Rui crescia dentro dela como uma vinha, uma vinha azul, azul escura, Indigo, da cor do oceano que nunca vira e que ele lhe oferecera. Parte era vermelho, vermelho florido, da cor do seu cabelo e barba e das feridas que tinham posto em risco a sua vida. Se ela não falasse e dissesse algo, a vinha sair‑lhe‑ia pela boca fora e enroscar‑se‑ia à volta do pai.

            ‑ Conhece‑lo bem, papá ‑ quase gritou. ‑ Se acontecer alguma coisa à tua terra, ele bater‑se‑á por ela!

            Francisco ergueu‑se, contendo a fúria. Ela percebeu então por que razão todos lhe obedeciam, por que Os embaixadores lhe pediam conselho ou o rei D. João IV o nomeara para guardar o tesouro real de Beja. A sua força de vontade era enorme.

            ‑ No dia em que um rapaz tiver de lutar por mim, é porque estou acabado. O que eu possuo permanecerá intacto, Mariana. Nunca te esqueças disso. Ficará sempre intacto.

            ‑ Papá ‑ murmurou num tom que suplicava perdão.

            Luis fez‑lhe uma careta de simpatia, mas não ousou intervir.

            O pai deu uns passos em direcção à biblioteca e quando Mariana se levantou para sair, disse‑lhe de costas viradas para ela: ‑ Se esta situação absurda continuar, terei de tomar uma decisão. A Ana Maria é mais velha do que tu e também tenho de pensar nela.

            Concentrou a sua atenção na leitura de um livro, mas acrescentou: - Vai ver se a tua mãe precisa de alguma coisa. Ela não anda a sentir‑se bem.

            Mas, ao fugir do solário, Mariana não foi ter com Leonor. Que dia mais fútil e sem graça! Tarefas, comida. Iria morrer de tanto olhar com ódio para Ana Maria. O convite da avó para dar outro passeio não a interessou. Escondeu‑se no quarto e ficou a olhar para Os azulejos mudéjar. Gostava de identificar os seus sentimentos em determinado sítio e em dado momento, bem como deixar que Os sentimentos dos Outros penetrassem a sua carne como alfinetes. O esforço para os compreender deixava‑a a tremer. Todos Os sentimentos ao longo do tempo, os dela e os dos outros, faziam parte da história de um determinado lugar. Hoje sentia‑se possuída pelo sentimento de se encontrar num oceano de pó. Examinar os azulejos talvez a ajudassem a distrair‑se momentaneamente deste dia miserável.

            Acordou a meio da noite na sua cama. Certamente que a mãe a deitara lá. Ana Maria estava na cama ao lado, de braços colados ao corpo, a praticar para ser cadáver. Quem é que quereria casar‑se com ela? Ninguém. Comia fruta sem sequer se dar ao trabalho de a descascar, era gorda como uma pipa e não tinha um bom padrinho. Pobre Catarina, que teria de esperar que as irmãs mais velhas casassem!

            Saltou da cama e, pegando num par de tesouras, cortou os longos cabelos negros da irmã. Ana Maria não se apercebeu de nada. Estão a ver? Está morta. Como era gorda de mais para ter um marido, umas madeixas a menos não tinham grande importância.

            Mariana olhou para as suas mãos. Sentiu‑se esquisita, ali de pé no chão frio a segurar no cabelo de Ana Maria no meio daquela escuridão. O que é que a levara a fazer aquilo? O cabelo da irmã parecia um pequeno tapete todo desfiado. Escondeu‑o por debaixo da cama de Ana Maria.

            Acordou de manhã de um sono sombrio e viu Ana Maria e a mãe debruçadas sobre si com Catarina a fazer uma birra atrás delas.

Leonor, com as filhas todas alvoroçadas à sua volta, sentia as entranhas a saírem‑lhe do corpo. Doía‑lhe o corpo todo. Como era ridículo quando as pessoas diziam: "Estive a repousar durante todo o dia". Como era isso possível em tempos de guerra? Ou mesmo em tempos de paz? (Se é que a paz tivesse existido alguma vez). Quando é que a dor de amar cessaria e os sentimentos deixariam de funcionar? Quando é que uma família não precisaria de ser protegida?

                        ‑           Corta o cabelo dela! ‑ berrou Ana Maria.

                        ‑           Não fui eu ‑ murmurou Mariana agarrada à colcha da cama.

                        ‑           Por favor, não mintas, Mariana ‑ pediu‑lhe a mãe.

                        ‑ Sim, mamã. Desculpa, mamã.

                        ‑           Pede desculpa mas é a mim! ‑ vociferou Ana Maria.

                        ‑           De ti não tenho pena nenhuma e nunca hei‑de ter.

                        ‑           Mariana! ‑ repreendeu‑a a mãe.

‑Mamã!

                        Ana Maria pôs‑se a chorar e Catarina desatou num berreiro.

                        ‑           Não fiz nada de mal ‑ desculpou‑se Mariana. ‑ Há‑de tornar a crescer.

                        ‑ Corta‑lhe o cabelo, mamã. Ou então corto eu! ‑ ameaçou Ana Maria soluçando e puxando os tufos desgrenhados que lhe restavam.

                        ‑           Experimenta se és capaz! ‑ desafiou‑a Mariana.

                        ‑           Diz‑me só o que é que eu posso fazer contigo, Mariana ‑ lamentou‑se a mãe.

                        ‑           Deviam dar‑me uma recompensa. Ela ficou muito mais bonita - disse Mariana em voz hesitante.

                        Por que razão teria feito uma coisa tão estúpida? Segundo as palavras do papá, teria de esperar que Ana Maria casasse primeiro e, tornando‑a mais feia, atrasaria o casamento. Pela primeira vez sentiu pena da irmã mais velha.

                        Ana Maria atirou‑se a ela às bofetadas antes de a mãe ter tempo para intervir. Catarina atirou‑se para o chão a chorar. A mamã disse que tinha muita pena mas teria de castigá‑la. Ficaria fechada no quarto o dia inteiro. Leonor pegou em Catarina e soltou um gemido, saindo porta fora com Ana Maria.

            "Estava a ter pena de ti, minha porca careca, até me pregares uma bofetada!", pensou Mariana.

                        Imaginou as notícias do seu castigo a espalhar‑se por toda a região de Beja. Soldados da resistência iriam a votoS para ver quem a salvaria, mas seria

Rui quem amarraria uma escada à janela para a tirar dali.

Passou‑se um minuto, dois... Nada. Como é que ela aguentaria um dia inteiro? Percebia agora por que razão as pessoas, quando esperavam, diziam que estavam a morrer para que alguma coisa acontecesse. Ansiar muito por algo era morrer por isso. E se fugisse? Uma Lobo nunca se deixaria prender! Foi até à janela e viu Baltazar a apanhar nozes no pátio.

            ‑ Baltazar! ‑ gritou. ‑ Arranja alguém que me tire daqui!

            Ele acenou‑lhe com a mão sem compreender o que se passava.

            ‑ Espera! Tens de me ajudar!

            Por onde andaria a avó agora que precisava dela?

            Em vez de ser uma Lobo, seria melhor se fosse Santa Bárbara, cujo pai a encerrara na torre de um palácio para ocultar a sua beleza. Poetas, filósofos e homens sensatos tinham vindo postar‑se sob a sua janela para lhe falar dos segredos do universo. E quando Santa Bárbara fora torturada até à morte por causa da sua fé, o pai dera‑lhe o golpe de misericórdia decepando‑lhe a cabeça. Mariana não entendia por que razão o pai da santa não impedira, primeiro que tudo, que ela fosse torturada. Talvez não tivesse poder para tanto... Mariana arranjara uma vez sarilhos com a tutora, a Dona Néné, por lhe perguntar por que razão Deus deixava que os santos fossem torturados se gostava tanto deles. A D. Néné respondeu‑lhe que toda a gente perguntava a mesma coisa, mas que os desígnios divinos eram insondáveis. Esta resposta vaga não a impediu de continuar a venerar os santos, especialmente aqueles que levitavam, como São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. E isto apesar de serem espanhóis. Mariana desejava ser como Santa Teresa, que sofreu durante trinta anos até ser recompensada pelos céus com uma vida de êxtase. Imagine‑se só o que seria ficar envolta em amor e magia e desaparecer sob a forma de estrela! Mariana rogou a Deus o favor de lhe enviar uma visão porque já desesperava de estar fechada no quarto.

            Desejou isso com tanta força que sentiu o crânio a estalar, mas não lhe apareceu nenhuma visão.

            Encontrou papel e uma pena dentro da escrivaninha de Ana Maria. Resistiu à vontade de aparar a monótona penugem e pôs‑se a escrever:

 

            Meu querido Baltazar,

                        Não te esqueças de mim aqui fechada. Tens de convencer a mamã, o papá ou a avozinha a libertarem‑me. Da próxima vez que houver leitão assado, dou‑te a pele.

                        Da tua irmã encarcerada que muito te ama, M.

 

Atirou a mensagem para O jardim, mas as palavras esvoaçaram ao vento e Baltazar, entretido a brincar, não notou nada.

            De repente todos os seus sentimentos mudaram pois viu o bordado de Ana Maria no chão. Jazia ali todo amarrotado, assassinado; certamente caíra durante a confusão de há pouco. Pendiam fios dos lados. O bordado representava uma encosta coberta de flores selvagens e Ana Maria tinha urdido a montanha com insípidos pontos castanhos, deixando a melhor parte para o fim, exactamente O contrário do que Mariana teria feito. O facto de ela não ter começado logo a bordar as flores e o azul do céu dava àquele trabalho um aspecto desmazelado e triste. Mariana sofria como se tivesse aberto a irmã de alto a baixo e derramasse toda a insipidez que havia dentro dela. Sentia um pesar que dizia: "Com tanta vida que tens, Mariana, não podes passar parte do teu entusiasmo arrebatado à Ana Maria?".

 

            Uma manhã, Ana Maria olhou para as suas pernas e disse:

‑ Ponho‑me de pé com as pernas juntas e, em alguns sítios, sinto o vento a soprar entre elas!

            A gordura das pernas estava a subir‑lhe para os seios. Passava‑lhe do rosto para o cabelo mal cortado, tornando‑o mais farto e luzidio. Um novo lustro dava vida às suas unhas. A gordura derretia‑se dos braços, fazendo‑os mais macios. A sua voz já não era esganiçada e todas as manhãs Mariana ia espreitá‑la ao acordar para ver o que havia de novo. Falavam uma com a outra e Ana Maria ria‑se com as graças da irmã. Mariana atou uma fita verde à volta do cabelo de Ana Maria quando este já estava suficientemente crescido. A irmã agradeceu‑lhe, agradavelmente surpreendida.

            ‑Já sei o que devíamos fazer ‑ disse‑lhe Mariana.

            Ana Maria encostou o rosto ao da irmã. Estavam ambas afogueadas.

            - Sim?

            ‑ Chegou a altura de enterrar Santo António ‑ Ana Maria anuiu com a cabeça.

Desenterrá‑lo‑iam logo que ele tivesse cumprido a sua missão de padroeiro dos apaixonados. Tiraram a imagem que estava no quarto da avó e levaram‑na para O canteiro dos lírios. Nas mãos de Mariana, Santo António olhava impassivelmente para ambas as raparigas. A tinta seca descolava‑se da madeira. Ao longo dos anos de casamento, a avó tinha pintado vestes amarelas, capas escarlates e túnicas floridas na imagem para o convencer a interceder em seu favor quando se sentia pouco amada. E quando ele não correspondia aos seus pedidos, pendurava‑o pelo pescoço num armário. Mas se ele lhe fazia as vontades, punha‑o no toucador e pintava‑lhe novas roupas sobre

as antigas em agradecimento, sem notar que as camadas de tinta estavam a tornar‑se cada vez mais espessas e pardas. A mamã dizia que costumava avaliar as relações dos pais pelo estado da imagem de Santo António.

            Ana Maria hesitou.

            ‑           Ele não vai ficar zangado connosco se o enterrarmos?

            ‑           Não ‑ assegurou‑a Mariana. ‑ A avozinha diz que ele não se importa desde que o recompensemos depois de nos ajudar. Temos de portar‑nos muito bem para chamar a atenção dos Céus. Ela e o Santo António dão‑se lindamente.

            ‑           Então achas que não fizemos mal em roubá‑lo do quarto dela?

            Mariana revirou os olhos para cima com saudades dos tempos em que Ana Maria era sua inimiga.

            ‑           Ele não vai ficar enterrado durante muito tempo. Quando nos arranjar um namorado, desenterramo‑lo, damos‑lhe roupas novas e pintamos‑lhe outra vez o rosto. Trata‑se de um empréstimo e a avozinha não se importará.

            ‑           Não temos de enrolá‑lo num pano?

            ‑           Não ‑ respondeu Mariana.

            A conversa já estava a tornar‑se irritante.

            ‑           Vamos metê‑lo de pernas para o ar ‑ explicou à irmã. ‑ Dessa maneira o sangue desce‑lhe à cabeça e ele pensa mais depressa. Vá lá, cava um buraco.

            ‑           Cava tu.

            ‑           Não, tu. És mais velha e ele tem de tratar de ti em primeiro lugar - disse Mariana.

            Cruzou os braços e ficou a vê‑la abrir um buraco. Depois meteu o Santo António lá dentro com a cabeça para baixo e tapou‑o com terra.

            ‑           Desculpa ‑ murmurou Ana Maria a Santo António.

            ‑           Não peças desculpas. Estamos apenas a pedir‑lhe que cumpra o seu dever e que seja rápido ‑ disse Mariana em voz segura, embora várias perguntas a atormentassem: o que é que o Santo António faria se duas mulheres desejassem o mesmo homem?

            ‑           A avó já te perguntou aquela adivinha sobre quem beijamos mas nunca adoramos? ‑ perguntou Mariana, pensando que a resposta certa talvez fossem os santos.

            ‑           Não. Ela não tem confiança em mim, Mariana. Aliás, ninguém tem. Tu és talvez a única pessoa.

‑           Podes estar certa de que tenho confiança em ti - disse Mariana encostando a cabeça ao ombro da irmã, pois era horrível olhar para a solidão de Ana Maria. Falaram das várias maneiras como Santo António poderia trazer‑lhes o amor. Quando uma pessoa encontrava o amor, este nunca mais a abandonaria pois não sabia como fazê‑lo. Quando Ana Maria confessou que não conseguia pensar em quem amar, Mariana hesitou. Deveria dizer à irmã que era apenas uma questão de abrir o coração e ver o que havia lá escondido? Deveria falar‑lhe de Rui? A oportunidade de revelar o nome do seu amado veio e foi‑se, deixando‑a silenciosa.

            - Não te preocupes. A tarefa de Santo António não é ocupar‑se dos pormenores - disse Mariana apontando para a sepultura recém-tapada.

           

Quem espera deve rezar por mudanças rápidas? Ou deveria antes dizer para consigo mesmo que Deus é lento e permite‑nos reconhecer

infinitas variações num só momento?

                        Ana Maria e Mariana, agora servidoras de Santo António, espreitaram pelo buraco da fechadura da sala de jantar. A mamã pusera um vestido branco de seda florida que parecia uma cama branca coberta de flores. A sua pele era líquida como azeite sob a luz trémula do candelabro. O cabelo preto estava penteado num carrapito, mas tinha uns caracóis Soltos. Ana Maria e Mariana empurravam-se para ver melhor.

            - Leonor - disse opapá fazendo‑lhe uma festa no pescoço.

            - Oh! - exclamou Ana Maria cobrindo o rosto com as mãos.

 

                        Mariana ocupou o lugar dela sem conseguir deixar de espreitar os pais.

O papá baixou a mão até ao ventre da mamã e esta pousou a mão sobre a dele.

Os partos tinham tornado o seu ventre saliente e duro. Ambos se agarravam a um globo que tinham criado sob uma colcha branca enfeitada de flores.

            - Mariana! - chamou Ana Maria puxando a irmã e dizendo que deviam ir lá fora olhar para o alto e esperar que o Céu deixasse cair qualquer coisa nos seus olhos. Para apagar uma visão que não deveríamos ter visto, pensou ela em acrescentar, mas não disse nada com receio de que Mariana se zangasse.

            - Sim! - respondeu Mariana. Para gravar afogo uma imagem de amor no nOSSo cérebro!, desejava ela gritar.

                        Lá fora o céu estava escuro e perfurado de estrelas. Era provável que a rapidez e a lentidão juntas constituíssem o melhor dos mundos e uma estrela fosse o seu sinal: às vezes a luz das estrelas explodia e atravessava o céu a toda a velocidade ou pendia lá em cima sem se mexer.

            ‑ É o Rui ‑ disse Mariana surpreendida consigo mesma. ‑ Amo o Rui de Melo Lobo.

            ‑Ele é...

            Ana Maria queria que, pelo menos por uma vez, a irmã se mostrasse razoável.

            ‑ Ele é um pouco bruto, não achas, Mariana?

            ‑ Nunca hei‑de pensar isso dele ‑ respondeu Mariana.

            Haveria de escrever a história do seu grande amor a partir desta noite em que o nome dele ressoou tão alto como as estrelas. E a história principiaria assim: "Uma noite, a minha irmã e eu assistimos ao mistério dos nossos pais. O ventre da mamã sobressai como um globo por ela ter dado à luz quatro filhos. E o papá adora‑o". Se o pai alguma vez escrevesse a história da família, era bem capaz de começar assim: "Uma vez, em que O planeta se destruia a si próprio, os Alcoforado possuíam um globo que era só deles".

 

            Maria Alves procurou por toda a parte o seu alfinete de pérolas em forma de folha. Será que Mariana o teria tirado outra vez? Não queria perguntar, temendo que fosse mais um desses episódios, ultimamente mais frequentes, em que ela própria extraviava as coisas e depois culpava os outros pelo seu desaparecimento. Na semana passada acusara Leonor de lhe ter tirado os brincos de ouro até esta lhe fazer notar que ela própria os trazia nas orelhas! Maria sabia que nunca fora uma boa mãe, era demasiado irascível. E se tinha esperança que a sua alma repousasse eternamente após a morte, isso poderia vir a ser a sua perdição. Também não se sentia em paz com Francisco, o seu falecido marido. Era um estranho destino ter um Francisco como marido e outro como genro, ambos dotados de uma vontade férrea que simultaneamente admirava e odiava. Toda a gente que conhecia, incluindo ela mesma, mostrava‑se relutante em acabar com rixas entre famílias. Nunca tinha quebrado o juramento de vingar‑se do marido por causa das suas aventuras de saias.

            Vasculhou o armário à procura da imagem de Santo António. Se não quisesse passar o repouso eterno em santuários com correntes de ar, teria de perdoar ao marido e pedir urgentemente a assistência do arcanjo do amor. Onde é que ele se teria metido?

            Deveria esforçar‑se por conseguir conjurar alguns perdões. Refugiou‑se em recordações mais agradáveis: a sua atitude fora digna de louvor quando o marido sofria de pedras nos rins. Rezara a São Benedito, o padroeiro invocado para esse mal do organismo, pedindo‑lhe que a deixasse padecer por ele. E quando o marido se viu finalmente livre da pedra, ficou espantada por esta ser tão pequenina; e então o seu amor vacilou, pois ele não era diferente de todos aqueles a quem uma coisa tão minúscula podia causar as piores agonias.

            Talvez conseguisse perdoar ao marido se forçasse os seus sentimentos até ao ponto de ruptura. Ele gostara suficientemente da filha, Leonor, para a encarregar da contabilidade da sua firma de importação de produtos orientais antes de morrer. Foi uma novidade uma rapariga a tratar da contabilidade!

            Oh! Ai, ai, ai! O seu coração pesava como uma bala de canhão. Santo António, resmungou, será possível que eu te tenha enterrado e me tenha esquecido? Sinto que estás a fazer algum trabalho para mim, velho amigo. Devo ter‑te metido de pernas para o ar em qualquer sítio para me virares do avesso e... ai, ai, que dor! Estou exausta. Amo‑te, meu Santo Antoninho, mais do que jamais amei o meu marido, pois sabes bem que as mulheres amam a abstracção dos homens e não tanto o que eles são. Dei dinheiro para quatro missas todos os anos durante tanto tempo quanto o mundo durar: uma pela alma do meu pai, outra pela da minha mãe, a terceira pelas almas no Purgatório e a quarta por mim e não pelo meu marido! Se eu não consigo perdoar‑lhe, em que é que essas missas poderão ajudar‑me?

            Fui dar com ele nos braços daquela mulher e queimei a roupa dela. O fumo ergueu‑se no céu e, para meus tormentos, tomou a forma do corpete de rendas dela e ficou ali a pairar para a toda a gente ver.

            Perguntei‑lhe uma vez: "Em que é que estás a pensar?". E ele respondeu‑me: "Em nada". Mas as imagens dos seus devaneios eram tão nítidas que eu via outra mulher a dançar nas suas pupilas.

            Maria Alves, com medo de estar a sufocar, rogou a Santo António o favor de parar com aquilo. Preferia ser uma alma penada. Encontrar niotivos para absolver o marido não bastava. O amor era uma sensação, não um motivo ou uma revisão; e se as suas emoções há muito empedernidas mudassem, sentir‑se‑ia roubada das suas derradeiras forças. Ficaria incapaz de mexer‑se ou de erguer um braço acima da cabeça. Teria de desistir e nunca mais se meteria à frente das multidões. E, sobretudo, nunca mais poderia escapulir‑se com a neta, Mariana. Fatigada, esticou‑se em cima da cama. Ralhou com o coração, dizendo‑lhe para se acalmar, mas ele era teimoso. Os membros tornaram‑se mais pesados pelo esforço de terem de puxar pelo coração. Adeus, vida! falou ela com os seus botões. ‑ Estou demasiado velha e gorda para conseguir viver e perdoar ao mesmo tempo.

            Faltavam‑lhe as forças. Ficaria ali a assistir ao espectáculo dos sentimentos antagónicos de amor e ódio e de perdão e orgulho tomarem posse do seu corpo e prepararem‑se para se combaterem, dentro de si, até à morte.

            Quando a filha e a neta entraram no quarto, não teve ânimo para falar, embora quisesse dizer‑lhes para não se apoquentarem. Era divertido ver como os sentimentos a utilizavam como campo de batalha. Como Leonor parecia triste! Dizia sem parar: ‑ Mãe, diga‑nos qualquer coisa. Vai haver uma festa daqui a uns dias. Mãe?

            Maria Alves mexeu os lábios: ‑ Não estou a ser uma boa mãe agora? Não estou a dar‑te nenhuma maçada. Mas o cansaço impediu que as palavras saissem.

            Mariana sacudiu o braço da avó e murmurou:

‑ Avozinha? Por que é que estás a olhar assim? Estás doente? O papá diz que vai dar uma grande festa para anunciar um casamento. Um casamento!

            Maria Alves cerrou os olhos. Um casamento? Como era enfadonho ouvir falar de amor. Sentiu que Leonor lhe punha mantas por cima. A tensão para tentar perdoar ao marido afundou Maria Alves em estado de coma. Ouviu a voz da sua mais‑que‑tudo a chamá‑la: ‑ Avozinha? ‑ Estendeu a mão na direcção de Leonor e de Mariana e esse mero esforço mortal provocou o desmoronamento de todas as suas reservas físicas. Embora ainda não estivesse morta, a sua participação activa no mundo tinha acabado, e o seu espírito viu‑se obrigado a despedir‑se sem desperdiçar sentimentos.

 

Mariana e Ana Maria percorreram a estrada vazia a caminho de Beja. Mariana tinha perdido horas a fio a convencer a irmã a fugir consigo. Ninguém conseguia acordar a avó do seu estranho sono. Mariana ficara à sua cabeceira na noite anterior, falando com ela e chamando‑a à superfície. A avó tinha de estar presente na festa! A mamã dissera que Mariana tinha urgido o pai a reconhecer que as suas meninas estavam a ficar umas senhoras. Ele tinha mencionado que chegara a altura de pensar em casamento, promessas e noivados antes da guerra acabar. Era impossível ficar quieta! Era espantoso como Santo António trabalhava depressa. Os irmãos Lobo viriam à festa e Mariana tinha a certeza de que o papá, depois de ter dado Ana Maria em casamento a Bartolomeu ou Cristóvão, saberia ler os seus pensamentos e ofereceria a sua mão a Rui.

            Pararam não muito longe do castelo, onde um grupo de soldados portugueses partilhava uma garrafa de bagaceira. O aroma medicinal da bebida misturava‑se com o fumo das fogueiras dos acampamentos espalhados pela planície. As raparigas lançaram um olhar de horror prazenteiro aos buracos nas muralhas do castelo através dos quais antigamente se deitava óleo a ferver sobre os invasores. Um cão desdentado engasgara‑se ao tentar comer um pássaro, perante o riso dos soldados e de mulheres vadias. Mariana levou Ana Maria pela rua da Crista Branca. Passaram pela Igreja de Santa Maria, onde tinham sido baptizadas, e entraram na praça em frente do Convento Real da Conceição, onde vivia a irmã de Rui, Leonor Henriques. Ao fundo de uma ladeira ficava o mercado construído como uma loggia italiana, onde se vendia garrafas de âmbar, carapaus, azeitonas e couves da cor do jade. Havia camélias dispostas na galeria superior. Mariana lembrou‑se dolorosamente da avó.

            Vacas e bezerros vagueavam pelo meio da praça. Homens e mulheres enfeitavam o gado com flores de papel. Mulheres carregadas com cestos andavam por entre os soldados a vender pedaços de porco cru e telhas curvas para os cozinharem nas fogueiras dos acampamentos. Tudo era castanho escuro ou vermelho, o verde era inexistente. O céu azul fazia Mariana lembrar‑se de Rui, mas pairava por ali uma atmosfera inquietante.

            Os espanhóis estavam acampados ao longe nas planícies, no ponto mais remoto que a sua visão alcançava. E se ela os conseguia ver, certamente que também os soldados portugueses a viam. Também havia tropas espanholas em Mértola, mais a sul, a cerca de uma tarde de caminho. Mas não havia qualquer movimento. Os soldados guardavam o convento ‑ o mais rico do país, e por isso sob protecção real ‑, enquanto algumas freiras espreitavam da varanda.

            Mariana devia continuar a caminhar até à hora da festa, senão era capaz de começar a levitar.

            Ouviram música de guitarras e palmas e juntaram‑se a uma multidão que admirava uma cigana a dançar. Os tacões da bailarina batiam nas pedras da calçada ao compasso das notas musicais. O seu estado de transe arrebatava os espectadores e o guitarrista, que se moviam ao ritmo dela. O vigor transbordante da dança era tão puro que O corpo da mulher se transfigurava.

            ‑ Vamos para casa, Mariana ‑ disse Ana Maria.

            ‑ Duende! ‑ gritou alguém.

            Um tumulto geral devorou a praça. Ninguém parecia importar‑se que uma expressão espanhola transmitisse tal estado de espírito.

‑ Duende! ‑ gritou uma mulher batendo palmas compassadamente.

‑           Duende! Duende! Duende! ‑ repetiram outras vozes enquanto a bailarina continuava a dançar.

            Os espanhóis tinham trazido aquela expressão do outro lado fronteira e Mariana reflectiu, com deslealdade e satisfação por o seu pai não estar ali para ler os seus pensamentos, que era uma pena Os portugueses não poderem escolher os espanholismos que quisessem de modo a incluírem na definição de duende o sentido espanhol de que uma pessoa podia ficar tão possuída por uma ideia, uma música ou o próprio espírito, que se tornava num autêntico duende. As pessoas podem transformar‑se num calor branco. Mas isso era o mais perigoso: aniquilar a mente e o corpo e deixar‑se possuir para sempre por um duente.

            A bailarina não conseguia parar.

            As freiras na varanda estendiam os braços para captar aqueles sons excitantes. O sol desenhava motivos luminosos nos seus véus sombrios transformando‑os em mantilhas.

           ‑ Mariana, por favor! ‑ suplicava Ana Maria. ‑ Devíamos estar a ajudar a Bastiana a preparar a festa.

            Um bando de soldados espanhóis aproximou‑se atraído pela música. Alguns rasgaram os enfeites de papel do gado com as espadas. As pessoas começaram a afastar‑se. Um soldado pegou num balde com alcatrão a ferver e atirou‑o para o meio das gentes. Os gritos e as gargalhadas dos espanhóis fenderam a música flamenca, que cessou abruptamente. O corpo da bailarina forçou o espírito a parar o seu rodopio. Os guardas encostados aos muros do convento endireitaram‑se.

            Um dos soldados espanhóis, rodeado pelos companheiros, postou‑se à frente da multidão e, brandindo a espada, ordenou ao guitarrista que continuasse a tocar.

            ‑ Dança para mim ‑ disse, voltando‑se para a cigana.

            Os espectadores dispersaram quando o músico começou a dedilhar a guitarra. A bailarina recomeçou a sua dança enquanto os soldados espanhóis faziam gestos obscenos que deixaram Mariana boquiaberta. Alguns soldados portugueses aproximaram‑se a cambalear de bêbados e os guardas do convento desembainharam as espadas. A técnica de Mariana de fitar os espanhóis nos olhos parecia não surtir qualquer efeito. Pegou na mão de Ana Maria e desataram a correr. Um dos soldados portugueses empunhou uma garrafa no ar e berrou:

‑ Ninguém sabe como se livrar dos espanhóis? Passem‑lhes com as vacas por cima!

            ‑ Ateiem fogo ao rabo das vacas! ‑ gritaram os seus companheiros.

As vacas, já enfurecidas, começaram às patadas e os espanhóis agruparam‑se preparando‑se para fugir. Uma freira empurrou as outras para dentro do convento.

                        Os soldados portugueses agarraram nas vacas e nos bezerros que mugiam e batiam com os cascos no solo e untaram‑lhes as caudas com alcatrão.

                        ‑           Mãos à obra! ‑ exclamou um soldado dando palmadinhas na lombada de um dos animais. ‑ Depressa! Despachem‑se!

                        ‑           Minha vaquinha, queres casar comigo? ‑ cantava um soldado beijando‑lhe o focinho.

            ‑ Quem tem fogo? ‑ bradou alguém.

            Um dos soldados pegou num tição de uma fogueira e chegou‑o à cauda de um animal. Os outros imitaram‑no e um exército de vacas enfurecidas começou na debandada. Mas em vez de espezinharem os espanhóis, partiram em todas direcções aos coices antes de caírem para O lado a contorcer‑se em horríveis mugidos. As pessoas gritavam e tropeçavam no meio de uma chuva de faíscas. As costelas de Mariana dissolveram‑se e entraram‑lhe pelo estômago adentro, onde voltaram a transformar‑se novamente em costelas. A irmã agarrou‑se a ela. Entretanto, os espanhóis haviam‑se retirado já para a planície, e na opinião de alguns era a gente de Beja que ia morrer toda ali.

            Lançaram baldes de água às vacas, mas estas continuavam a marrar em tudo o que viam. Uma delas atirou um homem contra uma árvore e depois deu‑lhe tal marrada que a árvore abanou. Mariana deteve‑se e fez sinal à irmã para deixar de a puxar para casa. Tinham de salvar aquele homem. Mas alguém se antecipou e agarrou na cauda em chamas do animal.

            Um bezerro avançou na direcção das duas, os olhos esgazeados de pavor. Antes de Mariana ter tempo para reagir, a irmã atirou‑se para cima dela e caíram no chão; embora Ana Maria tivesse perdido peso, Mariana não conseguia sair de debaixo daquele corpanzil.

            O animal tinha parado diante delas e fitava‑as com olhos salientes. Ana Maria olhou‑o fixamente. A coragem era, no final de contas, uma coisa de nada. Mariana berrava: ‑ Ana Maria! Ana Maria! ‑, debatendo‑se para se desenvencilhar da irmã, mas esta apenas sorria. Na retina do bezerro estava gravada às avessas uma imagem dela de barriga para o ar e braços afastados. As pesadas pálpebras do animal piscaram, depois recuou e afastou‑se a trote.

            Ana Maria nunca salvara a vida à irmã e nunca ouvira Mariana pedir‑lhe socorro. Agora já não sonhava ser outra pessoa... E, por outro lado, Mariana pensava: "Protegeste‑me com o teu próprio corpo, Ana Maria. Estou‑te eternamente grata".

            Francisco da Costa Alcoforado, montado num cavalo, procurava desesperadamente as filhas no meio da multidão e da gritaria. Um homem que não sabia cuidar da família não sabia nada. Traria as filhas sãs e salvas para casa e dir‑lhes‑ia o que pensava. E elas haveriam de aceitar que O pensamento dele fosse o delas.

            Mariana foi a primeira a vê‑lo chegar.

            ‑ Vem aí o papá! - exclamou. ‑ Repara no fogo dos olhos dele. Deve estar a pensar que tem umas filhas tão valentes que merecem casar com militares.

 

Bastiana deitou açúcar a ferver sobre tiras de massa para a endurecer e fazer uma sobremesa de rosquilha branca. Umas horas depois voltou a deitar outra camada de açúcar e esperou até a massa ficar como conchas quebradiças. Um caldeirão ao lume continha sangue de porco para fazer salsichas. Uma galinha e um coelho marinavam em aguardente, vinho branco e folhas de louro dentro de tachos de barro. Ana Maria arranjara várias travessas com bolos de mel, tortas de queijo de ovelha e uns doces chamados "de comer‑e-chorar‑por‑mais" comprados no Convento da Conceição. Luís matara um peru cuja carne ficara de molho em aguardente durante vários dias para se tornar mais tenra. ("O meu companheiro de copos", dissera Luís na brincadeira a Mariana.) A tarefa desta era cortar tomates às fatias de maneira a lembrarem asas de borboleta; mas como fazia tudo às pressas, mais pareciam rodelas vermelhas.

            Pôs o vestido branco rendado algumas horas antes da festa começar. Sentia um grande alvoroço dentro de si. Não percebia por que razão Ana Maria ainda estava a ajudar na cozinha e não se preparava. Mariana foi espreitar a avó, que continuava a não querer acordar. A mamã tinha dito que podia ser um truque da avó para fazer com que toda a gente tentasse adivinhar que doença era.

            ‑ Esta noite preocupa‑te contigo, Mariana. Quando a festa acabar, iremos contar tudo à avó ‑ disse a mãe.

            Não disse aquilo com muita alegria, provavelmente porque estava preocupada com a sogra, ou então porque já sentia a falta das filhas.

O padre José, da Nossa Senhora das Neves, chegou cedo. Mariana, doente de ansiedade, estava no quarto. O padre foi ter com ela e disse‑lhe:

‑ Estás mais bonita do que habitualmente, Mariana.

            ‑ E tu estás descalço! ‑ replicou ela.

                        Procederam a um ritual de que ambos gostavam: o padre gostava de sentir a colcha azul debaixo dos pés nus e ela tirava os sapatos para se juntar a ele em cima da cama. E então dançavam, fingindo que estavam a andar sobre a água.

                        ‑           O teu pai quer convencer os franceses a vir em nossa ajuda ‑ disse José. ‑ Mas agora tem de convencer a aristocracia local a pôr de lado a presunção de que é espanhola. Imagino que esta festa seja por causa disso.

            Mariana olhou‑o com ternura. Sim, esta festa tinha a ver com política, mas também era por causa dela. Era para anunciar o seu amor. E era igualmente dedicada a Ana Maria. José tinha olhos tristes, o cabelo despenteado e uma maneira infantil de inclinar a cabeça como para ouvir melhor. Era tão bem educado que nunca se referia ao papá como pai nem a Mariana como meia‑irmã.

            Baltazar entrou no quarto a correr e atirou‑se para cima da cama. Mariana fez‑lhe cócegas com os pés e depois pegou nele ao colo e levou‑o à janela para ele ver as lanternas chinesas penduradas entre os castanheiros. Bastiana e Luís tinham colocado uma mesa cheia de iguarias ao ar livre. Os convidados tinham começado a chegar e reuniam‑se à volta dela. Surgiu uma dama lindamente cintada e Mariana ficou com curiosidade de ouvir a voz que sairia de uma cintura tão apertada.

            ‑ Mariana ‑ chamou Baltazar metendo‑lhe um punhado de amêndoas pela boca abaixo.

            As amêndoas estavam suadas das mãos dele e ela pensou que daí em diante todas as amêndoas teriam o sabor do irmão.

            ‑ E não há nada para mim? ‑ perguntou José fingindo‑se pesaroso.

            Baltazar ficou sem saber o que dizer. O padre tomou‑o pela mão e levou‑o até à janela.

            ‑ Estás a ver aquela comida toda lá em baixo na mesa?

            Baltazar acenou que sim com a cabeça.

            ‑ Vamos comer até fartar e as pessoas vão perguntar: "Aqueles dois ali são reis ou porcos?".

O miúdo riu‑se, divertido.

  1. Joaquim Ferreira de Fontes e a mulher entraram no pátio acompanhados por outros nobres de Vila Viçosa. A conversa subiu de tom; discutia‑se o motim das vacas. O marquês de Niza costumava vir às festas dos Alcoforado, mas desta vez ia a caminho de França. Toda a gente aguardava a chegada dos Lobo, em particular de Cristóvão Pantoja, que fora recentemente libertado da cadeia.

            O pai, Bartolomeu Lobo, falecera já, mas o seu nome continuava a ser sinónimo de infâmia. Um monge tinha‑o feito esperar um dia inteiro e depois recusara‑se a pedir‑lhe desculpa. Bartolomeu matara‑o à chicotada e, em consequência, foi levado para a torre sob escolta. à medida que avançava pelas ruas, com o seu chapéu de abas largas majestosamente posto, fitava de modo altivo a população que se concentrara para ver o nobre mais importante da região ser levado contra a sua própria vontade. Contudo, ninguém ficou surpreendido por ele não ter sido levado a tribunal.

            Os seus filhos eram igualmente temidos. Gil Vaz Lobo, o mais novo, morrera como mercenário na Índia; e outro, Bartolomeu como o pai, era oficial de infantaria na fronteira e passara algum tempo na prisão do Limoeiro em Lisboa. Mas o mais célebre de todos era Cristóvão Pantoja Lobo, que fora recentemente libertado do cepo. Estava sempre a ser preso por distúrbios e ameaças a toda a gente, incluindo ao juiz local, mas depois libertavam‑no sempre porque era o soldado mais temido do exército. Certa vez ouviu alguém comentar que "só um marechal conseguiria dobrar o Cristóvão"; então, abrindo caminho a golpes de cutelo por entre as fileiras de um regimento inimigo, ficou frente a frente com um marechal espanhol e apunhalou‑o. Nunca se vira ninguém matar tantos homens com tanta rapidez apenas para provar que aquilo que disseram como elogio era na verdade um insulto. Cristóvão considerava‑se invencível. Ainda estava para nascer o marechal que O vencesse.

            Os Lobo também tinham uma irmã, Leonor Henriques, freira da Ordem Franciscana do Convento Real da Imaculada Conceição. Havia ainda Rui, um valente soldado que nunca cometera nenhum crime.

            Mariana estava ansiosa por O ver. De súbito, susteve a respiração e lançou um rápido olhar à sua volta. Sentiu que O mundo ruia. Ali estavam os irmãos Lobo ‑ Bartolomeu, Cristóvão e o seu Rui ‑, a avaliar a situação e esperando que as pessoas fossem ter com eles. Mariana sentiu um aperto no estômago ao ver as suas botas polidas e a sua indumentária vermelha e verde, as cores do Portugal independente.

            ‑ Olhem! Olhem! ‑ exclamou para Baltazar e José. Apetecia‑lhe gritar até perder o fôlego.

‑           Aquele patife está muito bem enfarpelado ‑ comentou o padre José reparando na agitação de Mariana. ‑ Deve andar a preparar alguma... Estás a ouvir-me, Mariana?

                        ‑           O quê? ‑ repetiu ela encarando o meio‑irmão. ‑ Desculpa. Tenho muitas coisas para tratar. Vem comigo.

            E, sem esperar resposta, desandou dali para fora para ir ter com Rui.

 

                        Leonor observava a festa. Os Lobo gabavam‑se das suas proezas, como de costume. Mas a sua sobranceria não a iludia. Tivera uma discussão com Francisco por causa do motim das vacas: quatro pessoas haviam morrido e as suas próprias filhas poderiam ter corrido grave perigo. Quanto a ela, as filhas deviam estar num convento a rezar para que toda esta loucura acabasse. Mas, em vez disso, Francisco estava decidido a unir a sua casa com a dos Lobo, dona do maior morgadio de Beja. Mas por que razão havia que sacrificar uma das filhas para tal? O marido prometera‑lhe, contudo, que nenhuma delas casaria com Bartolomeu ou Cristovão.

                        ‑           Muito bem, minha querida ‑ dissera Francisco. ‑ Respeitarei os teus desejos quanto a esse assunto.

            Mas nada se passava como ela desejaria. Por que é que Mariana andava naquela roda‑viva, a dar empurrões às pessoas? Ah! Já estava a perceber... Tudo aquilo era para se aproximar dos Lobo. Valha‑me o Santíssimo Sacramento! Então não é que agora a rapariga enlaçava as mãos nas manápulas peludas de Rui, como se estivesse a dar‑lhe as boas‑vindas ao seio da família Alcoforado, como se adivinhasse as intenções do pai!...

 

            Ana Maria, vestida de púrpura, ficou pasmada quando o papá a preveniu de que naquela noite ficaria noiva. Dirigiu‑se à cova onde ela e a irmã tinham enterrado a imagem de Santo António e balbuciou: ‑Já não desejo casar‑me. Não fui eu que tive essa ideia, foi a Mariana. Por favor, diz ao Céu que foi um engano. ‑ Pegou num prato de peru e feijões com ovos estrelados mas não conseguiu comer nada; acabou por partir tudo em pedacinhos para dar a Miguel, que gatinhava pelo relvado. Sentou‑se na relva, na esperança de que o seu vestido ficasse tão sujo que ninguém a quisesse e pôs Miguel ao colo, como um escudo protector. Em breve teria treze anos de idade. Era demasiado jovem para um choque destes. Não havia na festa ninguém que lhe interessasse. Nem sequer de longe. Reparou em Mariana toda satisfeita ao lado de Rui e ficou contente por Santo António não se ter enganado quanto a uma delas.

 

            Luz negra, luz das estrelas. Recortada em formas amareladas e sombrias na abertura da lanterna. "Oh, possuir a noite!", pensou Mariana. "Possuir a própria Noite estriada dos dias que hão‑de vir!".

            Fitou o rosto de Rui. A sua presença, apesar de forte, exalava uma masculinidade dominante e uma rígida arrogância militar que cheirava a bagaço e vibrava de histórias de guerra. Um sentimento de tons azuis fê‑la estremecer e as palavras deles pairaram no ar azul escuro da noite.

            ‑           Quais são os planos do papá? - perguntou‑se melo‑trocista.

‑ Ele tem estranhas ideias para me acalmar.

Acalmará? Desprezo a calma. E tu, Rui?

            ‑           Conheces‑me bem, Mariana.

            ‑Já comeste? Tens frio? Estaremos em segurança?

            ‑           Dos espanhóis não há nada a temer, pelo menos por esta noite. A noite do meu destino. Estamos seguros, a não ser que Cristóvão beba de mais.

            ‑           Tu hás‑de proteger‑me.

            ‑           Protegerei a minha nova família até à morte.

            Quando é que ela se afastou dele a flutuar e ouvindo vozes? O papá, de pé ao lado de Rui, mandou calar toda a gente. As cabeças deles brilhavam como a lua cheia.

            ‑           É com grande prazer que abençoo os três anos de noivado do meu futuro genro, Rui de Melo Lobo, com a minha filha mais velha, Ana Maria. Possam as casas dos Alcoforado e dos Lobo viver durante muito tempo e prosperar unidas.

            Ergueu a mão na direcção de Ana Maria que, boquiaberta, se agarrava a Miguel. Chamou quase em pranto:

‑ Mariana! Mariana!

            Mariana esperou que o pai desse pelo erro cometido. Era a sua mão que ele devia dar a Rui, depois de anunciar o noivado de Ana Maria com outra pessoa qualquer. E, aparentemente, Ana Maria pensara a mesma coisa. Olhava alternadamente para Mariana e para a mãe, que baixara os olhos. Mariana viu Ana Maria, em pânico, deixar Miguel e colocar‑se, com movimentos de sonâmbula e sem olhar para Rui, diante dos convivas que aplaudiam e lhe faziam brindes. Aquele pesadelo terminaria em breve. Mas não terminou. Ana Maria fitava os pés. Rui juntou‑se aos irmãos e o papá e a mamã eram felicitados por toda a gente. Finalmente, Ana Maria olhou para a irmã. Mas Mariana não conseguia fazer um gesto.

 

                        Mariana murmurou ao ouvido da avó:

‑ Diz‑me o que devo fazer, avozinha. Esta noite tiraram‑me aquele que eu amo, mas o meu amor é mais forte do que nunca.

                        A avó estava a dormir.

            ‑           Prometes que vais falar com Santo António e explicar‑lhe o engano? ‑ perguntou Mariana.

                        O cabelo da avó era uma flor branca a desabrochar no travesseiro.

                        Ana Maria entrou no quarto da avó com o rosto sulcado de lágrimas.

                        ‑ O que é que vamos fazer, Mariana?

                        ‑ O que o papá quiser.

            ‑           Por favor, odeia‑me, Mariana! - suplicou Ana Maria. ‑ Não te mostres tão calma. Odeia o papá. Faz qualquer coisa! Vou dizer ao Rui que és tu quem gosta dele, não eu.

            ‑           Mas eu não te odeio ‑ disse Mariana. ‑ É óbvio que o Rui não me estava destinado.

            Uma alegria magnífica nascia dentro de si. O orgulho predominaria sempre sobre a sua tristeza. Quanto a isso, era igual ao pai.

            E, contudo, depois de meter Ana Maria na cama e desejar‑lhe mil felicidades, Mariana refugiou‑se no pátio e foi tomada de dores. Tinha a impressão de que ia vomitar tudo o que comera.

            No meio da sua agonia, viu Baltazar aproximar‑se e pôr‑lhe a mão na testa.

            ‑ Senti que estavas triste e vim fazer‑te companhia ‑ disse‑lhe o irmão.

 

Nos braços da mãe, braços com botões suplementares pregados, Mariana ouvia‑a dizer que a época em que viviam era de milagres. Deus estava por detrás de tudo o que acontecia, e por definição tudo era bom, mesmo que assim não parecesse ao princípio. Era uma questão de compreender as surpresas divinas como caminhos para dias melhores. Se Deus destruia as colheitas, era um milagre. O que Ele estava a dizer era: "Não plantem cevada, mas trigo". E se as colheitas fossem boas, era porque dizia: "Concedo‑vos o milagre da abundância". Milagrismo. Era tudo produto de uma intenção divina directa e, em tempos de guerra, toda a gente acatava essa noção. Não havia necessidade de dizer que esses dias eram fatais. Deus havia de dar a conhecer os Seus estranhos desígnios.

            Mas Mariana não entendia por que razão estes acontecimentos eram miraculosos. Esperou meses para que o papá desse conta do seu erro, para que Rui a libertasse do seu quarto. Pouco depois de fazer onze anos, soube que era próprio do amor surpreendê‑la; e se acreditasse em milagres, então encontraria um amor maior do que aquele que sentia por Rui. Devia reivindicá‑lo. Passou duas horas a bater com uma pedra na fechadura do portão até o abrir e partiu ao encontro do seu futuro. Chegou aos santuários das almas penadas antes do criado a encontrar. Luís disse‑lhe que lamentava, mas que ela devia regressar a casa. Na manhã seguinte voltou a quebrar a fechadura que ele consertara e partiu novamente, balançando os braços e de cabeça erguida, como a avó lhe ensinara. Desta vez Luís alcançou‑a passado pouco tempo.

            Ao pequeno‑almoço do dia seguinte, a mãe perguntou‑lhe:

‑ Hoje vais portar‑te bem, Mariana?

- Vou - respondeu, e depois arrombou o portão e partiu estrada fora.

            Ao décimo dia caminhou mais depressa, mas Luís surgiu a cavalo e chamou‑a:

‑ Mariana, não me dizes bom dia?

            ‑           Bom dia ‑ disse, apressando o passo.

            ‑           Quando é que vais parar com estas tolices? ‑ desmontou e caminhou ao lado dela.

            Não respondeu.

            ‑           Mariana! ‑ insistiu Luís, agarrando‑a pelo ombro. ‑ Ainda te vai acontecer uma desgraça.

            ‑           Não me importo ‑ atalhou, tentando libertar‑se.

            ‑           A cidade está cheia de soldados.

            ‑           Não faço tenção de parar em Beja. Quero ir até Évora.

            A capital do Alentejo era maior do que Beja e era ali que ela encontraria outro destino.

            ‑           Mariana, achas que vais conseguir ir a pé até Évora? É tão longe...

            Ela parou e fitou‑o.

            ‑           Se eu der um passo e depois outro e continuar a andar, hei‑de conseguir chegar lá.

            ‑           Enlouqueceste?

            ‑           Não ‑ disse irritada. Luís começava a aborrecê‑la.

            ‑           Olha, Mariana, tenho de levar‑te para casa. Não compliques as coisas.

            ‑           Está bem.

Luís montou‑a no cavalo e ela fechou os olhos e crispou os músculos em protesto. Mas passado um bocado teve pena dele e pediu‑lhe que a pusesse no chão. Voltaria para casa a pé.

            O destino de Mariana aguardava‑a realmente. O papá estava ao portão à espera dela. Falou‑lhe do Convento de Nossa Senhora da Conceição, frequentado por meninas da sua idade e até mais novas. O convento, que tinha mais de dois séculos, recebia muitas doações reais e era um dos mais seguros do país. Muitas filhas da nobreza haviam‑se refugiado lá até a guerra acabar e o papá' já falara com a Madre Superiora, Maria de Mendonça, que dera o seu consentimento.

                        A mamã, de lágrimas nos olhos, veio também falar com Mariana, dizendo‑lhe que faria muitas amigas no convento. Era o único lugar onde uma rapariga como ela poderia ler, estudar, aprender latim e rezar aos céus.

 

            As costelas de Maria Alves vibraram de perdão e brilharam como uma estranha tiara. Mas os órgãos por baixo permaneceram intactos e palpitaram com o adeus que recebeu da sua neta preferida. Que a maldição caísse sobre esse perdão! O seu peito era uma montanha inútil que a esmagava. Quando Mariana dissera "Adeus, avozinha, minha mais‑que‑tudo! Um dia hei‑de encontrar a resposta para a adivinha", Maria Alves tentara gritar: "O teu pai diz que o convento é um lugar seguro em tempo de guerra e que podes estudar lá, mas o que ele quer é proteger os seus bens de demasiados genros. Claro que és tu quem deve ir, Mariana, pois Ana Maria é dócil e perfeita para a vida de casada".

            Mas nenhum som lhe saiu da garganta. Fez um esforço para que a tiara das suas costelas se abrisse e libertasse todo o calor aí armazenado para proteger Mariana.

 

            Francisco da Costa Alcoforado, vestido a rigor, levou Mariana ao Convento da Conceição. Luís seguiu‑os carregando as malas. Havia festa no convento e a porta que dava para a praça estava aberta de par em par. Via‑se gente da cidade por todo o lado. Uma mulher com uma fina toalha branca na cabeça levava um tabuleiro de doces de ovos e amendoas e ofereceu alguns a Mariana e ao pai. Disse‑lhes que a Madre Superiora os aguardava. Algumas noviças de véu branco corriam umas atrás das outras. Contudo, ao repararem nos olhares de Francisco, desapareceram.

A Madre Superiora, Maria de Mendonça, saudou Francisco com uma vénia. Acariciou o rosto de Mariana e disse‑lhe:

‑ És muito bonita. Serei uma mãe para ti.

            ‑           Não é nada a minha mãe ‑ disse Mariana.

            ‑           Mariana! ‑ repreendeu‑a o pai.

            - Mas hei‑de ser, se me deixares ‑ prosseguiu a Madre. ‑ Preparei o teu quarto e acho que vais gostar.

            ‑           Tenho a certeza que não.

            A Madre ajoelhou‑se e fitou Mariana.

            ‑           Gosto dos corações cândidos e por isso tenho a impressão de que vou gostar muito de ti.

            ‑           Onde está a escrivã? ‑ perguntou D. Francisco.

            Nesse preciso instante entrou no locutório a irmã Maria Madalena, como se os desejos de Francisco exigissem uma materialização imediata. Vinha acompanhada pela escrivã Brites de Brito, uma jovem freira que trazia nas mãos um livro enorme de capa manchada e páginas em pergaminho. A escriva pousou o livro numa mesa com uma toalha de damasco antigo. Com um gesto, Francisco expulsou um visitante bêbado de uma poltrona de couro russo, de espaldar alto e com incrustações adamascadas. Sentou‑se enquanto a escrivã abria o livro no ano de 1651 para registar o nome de Mariana.

            Francisco tirou um documento do gibão e leu‑o em voz alta. Pagaria ao convento um estipêndio de 300000 réis pela pensão de Mariana. Doaria ainda uma parcela de um campo de trigo, com a condição de ser usado para alimentar o convento e constituísse um complemento do estipêndio para cobrir as despesas de Mariana e se tornasse propriedade do convento após a morte da filha. Haveria outras dádivas quando Mariana tomasse votos. Mariana Alcoforado renunciava a todos os direitos de herança da parte da mãe ou do pai, excepto o que desejasse doar aos santos evangelistas.

            A Madre Superiora mostrou‑se chocada por ele ter registado tudo por escrito e ainda mais perturbada por Francisco o ler na presença da filha. A doação era generosa, mas o facto de a proclamar daquela maneira denotava falta de sensibilidade.

            ‑ Quero um recibo, Madre.

            ‑ Um recibo? ‑ exclamou ela, perplexa.

            Nunca ouvira tal exigência. As Irmãs Maria Madalena e Brites de Brito coraram. Toda a gente sabia que uma freira não podia herdar nada directamente dos pais. A Madre pousou as mãos nos ombros de Mariana. Era estranho que aquela menina não se mostrasse assustada nem perturbada, sempre impenetrável. Perguntou‑se se Mariana compreenderia o que se passava. Ela mesma, também de estirpe nobre, levara anos para entender que os pais a tinham posto no convento a fim de manter intacta a herança do morgadio. E os Alcoforado tinham tantas filhas que eram obrigados a proceder da mesma maneira.

                        Francisco da Costa garantiu à filha que nenhum soldado entraria ali e que ela era demasiado esperta para que a deixasse ser a mulher de qualquer um.

                        A Madre Superiora concordou. Viver no meio de mulheres tinha as suas vantagens e Mariana aperceber‑se‑ia disso com o tempo.

                        ‑ Adeus, minha querida filha - despediu‑se o pai inclinando‑se para lhe dar um beijo.

                        Mariana sentiu o odor a laranjas e cinzas do seu cabelo e disse:    Não podes deixar‑me aqui, papá ‑ agarrou‑se a ele e recusou‑se a chorar. Foi preciso que a Madre, uma das Irmãs e o próprio pai a afastassem. Ela voltou a abraçar‑se a ele e tiveram de desprender‑lhe novamente os dedos um a um. Um calafrio percorreu o pai perante o impressionante vigor da filha.

                        Ao sair, deixando Mariana aos cuidados das religiosas, a filha voltou a chamá‑lo: ‑ Papá! ‑ uma última lança que lhe acertou em cheio no coração.

                        ‑ Vem ver o teu lindo quarto - suplicou a Madre.

            Um bilhete de boas‑vindas da parte da Irmã Leonor Henriques, irmã de Rui, aguardava Mariana nos seus aposentos. Uma almofada bordada a rosas ocupava a cabeceira da larga cama de madeira de teca e ela passou os dedos por cima das iniciais "JMJ" ‑ Jesus, Maria e José ‑ gravadas no interior de um coração esculpido na madeira.

            A Madre apontou para o ramo de flores em cima de uma arca lacada.

                        ‑ É um presente meu. Gostas?

                        ‑ Não - respondeu Mariana. ‑ Cheiram mal.

            ‑           Tens um óptimo olfacto. Estas flores não têm odor... Ah! Parece‑me que sorriste.

            ‑           Não sorri nada. Se essas flores não cheiram a nada, então para que servem?

            ‑           Havemos de ter muitas discussões filosóficas dessas. Vou ser tua professora.

            Mariana virou‑se para ela.

            ‑           Peço então que me perdoe. Adoro professores ‑ disse com os lábios a tremer.

            ‑           Adorar? Não ‑ disse a Madre pegando‑lhe nas mãos. ‑ Suspeito bem que és tu quem me vai ensinar muita coisa. Agora vou deixar‑te para ficares à vontade.

- Não me deixe! ‑ rogou Mariana.

            - Esta será a nossa primeira lição: aprender a sentir a presença daqueles que amamos mesmo quando não se encontram ao nosso lado.

            ‑           Sim ‑ disse Mariana, dando‑se conta de que a Madre a tinha levado a prometer amor à sua superiora. Sorriu pela primeira vez naquele dia.

            ‑           Gosto de ser posta à prova. Hei‑de passar todas as provas.

            ‑           Muito bem. Até breve.

 

            Mariana tentou sentir a presença da sua família ‑ e da Madre Superiora ‑ nos quadros das paredes e junto do crucifixo. Tentou senti‑la no tapete que decorava o soalho ou na pia de água benta. Explorou os seus novos aposentos. Um armário encostado à parede e, em cima da mesinha de cabeceira, um breviário e uma lamparina. A escrivaninha de nogueira tinha muitas gavetas. Duas cadeirinhas de palha e duas maiores de castanheiro ocupavam os cantos da sala. A mamã dissera‑lhe que as filhas dos nobres tinham quartos como este a que chamavam "casinhas" por serem tão grandes, enquanto as outras freiras eram alojadas em celas, bem como os refugiados sem abrigo e algumas mulheres cujos maridos estavam frequentemente fora por causa da guerra. Duzentas e onze mulheres e crianças viviam no Convento da Conceição, mais cinquenta do que era costume. No breve espaço de tempo que estivera com o pai no andar de baixo, tinha visto homens ‑ trabalhadores, pais, maridos - entrando e saindo do locutório com notícias de casa, das ruas e dos campos de batalha, ou uma jóia ou um cesto com comida. Aparentemente, a porteira deixava entrar toda a gente, excepto soldados espanhóis.

            Mariana deixou‑se cair na cama exausta por tentar sentir a presença de gente que não estava ali. Por que razão tinha de fazer isso? Por que razão o sofrimento tinha de ser um jogo? Queria algo de real, uma companhia verdadeira. Continuava à espera que o pai corrigisse o erro de a levar para o convento. A Madre Superiora não voltou e a Irmã Leonor Henriques não a veio visitar. Despiu‑se e examinou o hábito branco que deveria vestir.

            Lembrou‑se da promessa que fizera: Suportarei tudo isto. Se for a bem de glória futura, disfrutarei de uma situação ainda pior.

            As suas primeiras visitas antes do jantar foram a mamã, Ana Maria com Miguel ao colo e Baltazar de mão dada com Catarina. A mamã deu‑lhe uma caixa cheia de botões.

‑ Despreguei‑os das mangas das minhas blusas. Já que não te posso ter nos braços, prefiro senti‑los vazios.

            ‑           Hei‑de visitar‑te, nem que enlouqueça, estás a ouvir, Mariana? - disse‑lhe Ana Maria.

                        Baltazar disse:

‑ Odeio conventos ‑ e a mamã repreendeu‑o por blasfemar.

            à noite, Mariana sacudiu a caixa de botões e imaginou que os braços da mãe a embalavam ao som dos botões. Levou a caixa consigo quando tentou fugir do convento, mas um soldado apanhou‑a e mandou‑a para o quarto.

                        Não conseguiu adormecer. Perto da madrugada, uma rapariga veio ter com ela apresentando‑se como Brites de Freire, uma noviça de treze anos.

                        ‑ O meu nome é Mariana Alcoforado.

                        ‑ Da família dos Alcoforado?

            Mariana encolheu os ombros.

            Brites saltou para cima da cama e encostou‑se à parede.

            ‑           Reparaste no que a marquesa Dona Fernandes trazia esta manhã na missa? Diamantes! Espanta‑me que os espanhóis não a tenham roubado. Bem gostaria que isso tivesse acontecido.

            ‑           Eu estava nas filas de trás.

            Brites de Freire soltou uma gargalhada.

            ‑           É verdade que a igreja fica apinhada de gente. Os ricos da cidade ocupam os melhores lugares. Oh! Desculpa... não queria ofender.

            ‑           Quero ir para casa ‑ disse Mariana.

            ‑           Não te preocupes, isto não é assim tão mau ‑ disse Brites pegando‑lhe na mão.

            E como Mariana parecia interessada, continuou:

            ‑           Sabes o que há de bom nos véus e nos hábitos? Realçam‑nos o rosto. Já reparaste como os rostos das freiras ficam puros e belos? Parecem flutuar... Tens olhos castanhos expressivos e eu não me importava de ter um nariz pequeno como o teu. A tua pele é macia e tens um interessante ar triste. Aposto que um dos teus pais é moreno e o outro claro. Tens ossos de animal, mas não muito grandes, o que é bom... A maior parte das mulheres têm ossos de pássaro. Como eu.

            ‑           Não tens, não ‑ disse Mariana. ‑ Mas era melhor que os tivesses, porque assim podias voar daqui para fora e levar‑me contigo

            ‑           O meu pai diz que lá fora não é lugar para meninas.

            ‑           Porquê? Porque podes apaixonar‑te por um espanhol?

Riram‑se. Mariana apercebeu‑se de repente de que não podia viver sem cumplicidades.

- Vamos explorar o convento ‑ convidou Brites.

            A Superiora nunca contava as pensionarias à noite nem fechava a porta dos dormitórios à chave.

            Desceram até à cozinha. As cozinheiras trabalhavam de noite para que as guloseimas que vendiam à gente da cidade aparecessem como por magia logo de manhãzinha. Dado que as claras dos ovos eram usadas como goma nos hábitos e nas toucas, para não desperdiçar as gemas tinham de produzir uma data de doces. O facto de prepararem tanta coisa a partir da mesma substância espicaçava‑lhes a imaginação, e assim davam nomes humorísticos às suas invenções culinárias: "barrigas‑de‑freira", "papos‑de‑anjo" ou "orelhas‑de‑abade". Mariana e Brites ficaram encantadas com esta actividade frenética que vinha de tempos imemoriais, com estas mulheres que acordavam antes do amanhecer para trabalhar, inventar e divertirem‑se.

            O labor das doceiras era tão lento como a oração que recitavam: "Deus, Deus, onde estás? Deixa‑me vislumbrar‑Te".

            "Sou um fogo tão ardente que não pode ser visto. Morrerias se me visses", prevenia Deus.

            "Torna o êxtase mais suave, meu Deus, para que possamos olhar para Ti e sobreviver", respondiam as almas laboriosas.

            As cozinheiras trabalhavam envoltas em nuvens de farinha. E como era o momento do Grande Silêncio, continuavam o refrão em mutismo: "Deus! Deus!", até que, para as apaziguar, Ele deixava cair aparas de estrelas nos seus olhos. Quem suportaria mais do que pequeninos reflexos do Seu esplendor?

            Os olhos das mulheres brilhavam de dor e de angústia por não ousarem pedir algo mais ardente.

            A imagem de Mariana e Brites ali juntas lembrava aquela em que Mariana e Ana Maria admiraram as estrelas que pairavam por cima da casa paterna. O espírito de Mariana acompanhava o coro interior das freiras a trabalhar: "Deus! Deus! Deus! O que é a vida senão esperar por Ti?".

            Numa das mesas da cozinha estava uma tigela com gemas de ovo, sóis que chocavam uns contra os outros. Tinham a cor que Mariana escolhera como tom de um fogo todo‑poderoso. Junto a esta tigela havia uma outra maior cheia de claras, uma massa gelatinosa que parecia sair dos olhos de Deus.

 

LISTA PARCIAL DAS FREIRAS DO CONVENTO REAL DA CONCEIÇÃO

 

FRANCISCA FREIRE: encarregada do scriptorium. (Aquela com Coração de Pomba).

BEATRIZ MARIA DE ReSeNDE: cantora desde a infância; perdeu a vista por excesso de dedicação ao estudo da música de órgão.

BRITES DE BRITO: foi eleita Madre Superiora e governou o convento de maneira excelente até encontrar uma morte gloriosa. Antiga encarregada das "Quarenta Horas".

MARIA dE SANTIAGO: deu o exemplo libertando‑se de toda a correspondência desnecessária e procaz.

BRITES FRANCISCA DE NORONhA: viveu sempre no maior temor a Deus.

MICHAELLA DOS ANJOS: arruinou a saúde através de constantes abstinências e, segundo as freiras que assistiram à sua morte, o seu corpo enrijeceu e distendeu‑se repetidas vezes.

IGNEZ DE SÃo JOSÉ: entrou no convento ainda muito criança; passou a adolescência sempre doente; amava os jardins.

MARIA DOS SERAFINS: permanecia em oração até quase de madrugada.

BRITES DOS SERAFINS: agiu com sobranceria para com Nossa Senhora, e por conseguinte foi castigada.

 

Igualmente entre as que se encontravam no convento:

 

IRMÃ DOLORES: encarregada do coro.

IRMÃ ANGÉLICA DE NORONHA: encarregada da cozinha.

IRMÃ JULIANA DE MATOS: encarregada da enfermaria.

IRMÃ MARIA De CASTRO: amiga de juventude de Mariana; foi obrigada a estudar na galeria do coro a fim de conter a sua tendência para atitudes espalhafatosas.

IRMÃ BRITES DE FREIRE: confidente de Mariana, também nobre e igualmente colocada no convento muito nova.

IRMÃ MARIA DE SÃO FRANCISCO: rebelde na juventude, serenou mais tarde pela força de uma contemplação interior.

IRMÃ MARIA DE MENDONÇA: adorável e sensata preceptora das noviças e primeira professora de Mariana no convento. Antiga Madre Superiora.

IRMÃ GENEBRA NOGUEIRA: cristã‑nova (descendente de uma família judia que a Inquisição forçou a converter‑se ao cristianismo). Porteira do convento durante a maior parte da guerra.

IRMÃ LEONOR HENRiQUES: da infame e rica família Lobo, de Beja. Cristóvão Pantoja, Rui de Melo, Bartolomeu e Gil Vaz (que morreu jovem na Índia) eram seus irmãos. Amiga dedicada de Mariana.

IRMÃ MARIA MADALENA DE CASTRO PEREIRA: nobre idosa, Madre Superiora durante o motim contra os soldados ingleses em 1662 e novamente nomeada quase no fim da guerra após a morte da irmã Isabel; considerada afável e modesta, mas também decrépita e incompetente.

IRMÃ JSABEL PEREIRA: irmã de sangue de Maria Madalena de Castro. Madre Superiora na altura das "Cartas de Amor", tendo morrido antes de completar as suas funções.

IRMÃ JOANA DE LACERDA: nobre bastante idosa que também ocupou o lugar de Madre Superiora na época da guerra. Não teve qualquer controlo sobre o convento.

 

Rios de ouro desaguavam no convento. Trigo dourado, velo de carneiro ondulado pelo sol, moedas como olhos de anjo. O temor da morte tornava as pessoas generosas. Queriam que as freiras rezassem por elas ou registassem os seus bens como oferendas a Deus antes de serem confiscados pelos espanhóis. Ao longo das horas que diariamente passava no scriptorium, a Irmã Mariana Alcoforado assentava as doações num volumoso livro de contabilidade. Cada registo provocava‑lhe uma intensa sensação, como se esses rios de ouro fossem rebentar as portas do escritório e abater‑se sobre si. Apesar desse receio, os rios percorriam‑lhe docemente os braços e emergiam em escrita fluida. Aprendera com o pai (se ele a visitasse, haveria de contar‑lhe tudo!) que aquele que possuía a chave dos registos de uma propriedade seria o seu dono e surpreendia‑a que poucas freiras sentissem prazer em captar a história dos dias ali passados, sobretudo em dias como estes. As vezes fingia que as suas somas de dinheiro eram um exército de anjos sob o seu comando. "111" eram três colunas de serafins nesta fortaleza de mulheres no meio de Beja, presa das garras das tropas espanholas que continuavam a avançar e que durante a última década tinham sido combatidas ao longo do rio Guadiana e em cidades fronteiriças a leste, norte e sul da província. Aguardavam o momento oportuno para cerrar as garras e penetrar no interior dividindo o país em dois. Beja era o cerne. O exército espanhol poderia então investir a oeste e destruir Lisboa. Se Évora, localizada a norte, continuasse a resistir à pressão, as garras manter‑se‑iam abertas; mas se fosse tomada, Beja seria o próximo alvo e era por isso que há muito tempo os soldados ingleses haviam estabelecido ai uma guarnição como aliados. Tal como toda a gente, também eles andavam tensos por causa da espera. Haviam sido feitas tantas queixas por causa do seu mau comportamento que os habitantes de Beja já se tinham esquecido de que os ingleses combatiam a seu lado. Era o vigésimo segundo ano da guerra que Mariana considerava ser a sua. Era‑lhe tão difícil crer que alguém considerasse Beja um ponto estratégico como reconhecer‑se adulta e freira há seis anos, desde que fizera os seus votos aos dezasseis. Parte dela aguardava que o pai viesse libertá‑la para que a sua verdadeira vida pudesse começar. Como poderia sobreviver, como poderia distrair‑se sem essa loucura?

            Hoje era impossível não se levantar da comprida mesa de carvalho para olhar pela janela que dava para o pátio. O vento agitava os loureiros, as plantas e os fetos à volta da cisterna. As suas amigas, as Irmãs Brites de Freire e Maria de Castro, costumavam dizer‑lhe que se preocupava de mais. Mas não era nada disso, dizia‑lhes, era a sua pele que se abria e estendia como orelhas à escuta. Postulantes, noviças, freiras, Irmãs laicas e refugiadas apinhavam‑se no claustro à volta do altar a São João Baptista chorando os seus mortos.

            - Vai acontecer algo terrível - disse a Irmã Mariana.

            - A tua irmã vai ter mais um par de gémeos? - troçou a Irmã Francisca Freire, mulher de quarenta anos e superiora de Mariana.

            Deviam trabalhar em silêncio, mas todas elas infringiam as regras. Como Mariana, também a Irmã Francisca sentia que havia algo errado, mas preferia fingir que não dava importância para não perturbar Mariana.

            - Pois, é isso mesmo - concordou Mariana e sorriu.

            Adivinhava sempre quando a sua velha amiga tentava ser simpática.

            - Ou talvez os soldados espanhóis tenham invadido o refeitório - prosseguiu.

            ‑           Assim não daremos com eles - comentou Mariana, e ambas se riram nervosamente.

            Com tantas mulheres e raparigas no convento, o refeitório também servia de dormitório e as suas ocupantes andavam sempre em desacatos por causa do espaço. As refeições eram desconfortáveis pois as freiras eram obrigadas a comer encostadas umas às outras. A situação era tão má que as pensionárias ricas raramente saíam das suas "casinhas" e os pais delas mandavam criados para as servir. A Irmã Brites de Freire, que trabalhava na cozinha, contara‑lhes que quase tinha de bater nos criados que se arrogavam o direito de ir buscar o que queriam à despensa.

            ‑           Hoje estão a fazer tanto barulho que quase fendem o chão ‑ disse Francisca afastando a amiga da janela.

Ver Mariana assim lembrava‑lhe quando esta chegara ao convento, sempre à espera que algum familiar a visitasse. Ana Maria vinha frequentemente, mas agora que tinha quatro filhos era‑lhe difícil aventurar‑se pelas ruas. Corria‑se sempre o risco de encontrar algum bando de ingleses bêbados. A mãe de Mariana também tinha novos bebés para cuidar e o pai andava ocupado com a construção de uma Casa da Moeda. Baltazar tinha sido colocado num convento em Beringel e Mariana dizia que um dia destes ainda iria explodir de ansiedade por saber novas dele.

            Francisca passou o braço por cima dos ombros de Mariana e sugeriu que continuasse a trabalhar. Fazer a contabilidade talvez parecesse pouco importante em tempo de guerra, mas cumprir uma tarefa vulgar era uma forma de cantar um desafio a caminho do cadafalso.

 

            Mariana voltou aos seus registos. Inscrevera a doação de cem caixas de velas de sebo. Muitos dos números que anotava eram chorudos, inchados como uivos. Outros eram mirrados e esticavam‑se como se quisessem espreitar por cima dos muros do convento para descrever o caos exterior antes de atingir o convento.

 

            A Irmã Francisca estava impressionada. Tudo o que a mão de Mariana escrevia tomava sempre a forma da sensação predominante nesse momento.

 

            Por vezes os números eram a própria Mariana, altos e bem constituídos, de feições intensas e pronunciadas.

            Na altura da chegada de Mariana, a Superiora Maria de Mendonça tinha‑a louvado como uma aluna excepcional, muito meticulosa e, contudo, envolvia sempre o seu trabalho num manto de mistério esplendoroso. Fora mandada para o scriptorium a fim de prosseguir os seus estudos sob os cuidados da Irmã Francisca Freire. Além de ser excelente em Latim, Grego, Escrituras e Teologia, Filosofia, História e Caligrafia, Mariana era também uma notável contabilista e em breve se tornou no membro mais jovem do conselho de administração e do comité financeiro.

            Ao princípio, a Irmã Francisca examinava os registos de Mariana e ocasionalmente dizia:

‑ Não. Não sinto nada. Recomeça. ‑ Os totais estavam correctos e os obituários eram bem escritos, mas a Irmã Francisca nunca ficava satisfeita. E dizia: ‑ O teu coração tem de sangrar sobre as páginas, Irmã Mariana. Até mesmo um simples número tem a ver com a vida e a morte de todos os dias. E eu, só de olhar para ele, deveria ficar a tremer.

            ‑ Sim, Irmã Francisca. Queira desculpar ‑ respondia Mariana.

            Francisca era conhecida por "Aquela com Coração de Pomba" e Mariana respeitava‑a imenso. O casamento dos pais dela fora um escândalo.

O pai, um aristocrata, casara por amor e não se importara quando a família o deserdou por isso. A mulher era filha de um cirurgião de Beja de Posses modestas. Como fora criada numa casa onde reinava a ternura, Francisca tornou‑se numa alma sensível e forte, o que a levou a decidir que o único amor superior ao dos pais era o amor a Deus. E, ao contrário da maior parte das freiras, entrou para o convento de livre vontade.

            A Irmã Francisca dissera uma vez que as páginas dos arquivos das há muito esquecidas Madres Superioras encontravam-se assim amarelecidas não por causa do tempo, mas porque tinham sido tingidas pelas estrelas.

            Costumava elogiar Mariana pela sua maneira de escrever, isenta de qualquer gongorismo, esse estilo afectado e sentimental influenciado pelo poeta espanhol Go ngora y Argote e Popular em toda a Europa. Os floreados não se sobrepunham à emoção de ler ou escrever e a Irmã Francisca estava grata por a sua pupila evitar essas palermices instintivamente. Nas páginas escritas por Mariana, todos os pontos e vírgulas figuravam como incisões e reflectiam, como num espelho, a incisão que lhe talhava a alma. Francisca espantava-se por a jovem não desfalecer. Nunca conhecera ninguém que desse provas de tanto zelo, mas isso tornava curioso o facto de Mariana continuar a procurar a sua aprovação com tanta ansiedade.

            Na manhã em que ambas tiveram a intuição de que se preparava uma trágica tempestade, a Irmã Francisca disse a Mariana:

- Estás a carregar tanto na pena que quase furas o papel.

            - Oh! - exclamou Mariana segurando o papel à contraluz.

            O pranto das mulheres no claustro flutuou através das letras e números. Era como se a sua escrita chorasse. Tantas surpresas vindas de sabe Deus donde! Este dia, haveria de lemhrar-se para sempre, fora aquele em que escrevera no ar.

            - Ah! - disse a Irmã Francisca. - Isso é o sonho de um contabilista. Deixar arranhões no céu!

 

            Querido Baltazar,

                        Meu mandrião! Andas a Portar‑te muito mal comigo. Ouvi dizer que passas o tempo a ir à caça com os monges, mas não tens tempo para me escrever uma carta. Hoje sinto‑me preocupada e esperava que tu, onde quer que estivesses, te desses conta. Como é que vou saber de ti se vivemos separados! Quando é que vais tomar OS teus votos religiosos- Privam-me de te ver chegar à idade adulta. Vi‑te tão Poucas vezes nos últimos onze anos! E nos últimos dois, desde a chegada dos ingleses, nunca mais. Agora falas como o papá? (Ele visita‑te? Se sim, por favor diz‑lhe que preciso de falar com ele.)

Como é que tu és, meu irmão? Usas bigode? Estás finalmente mais alto do que a tua desamparada irmã?

                        Baltazar, se tens algumas palavras de conforto para dizer à tua pobre Mariana, se aprendeste alguma coisa no convento que me convença de que o teu destino e o meu, embora separados, são abençoados e terão uma finalidade mais elevada do que aquela que a minha ignorância entende, o teu conselho será recebido com eterna gratidão.

                        Ouvi dizer que o prussiano que contratámos para chefiar o nosso exército, o general Schomberg, está a sair‑se bem, mas o resultado da guerra continua a ser incerto. Tinha tantas esperanças de que a guerra terminasse antes de tu cresceres!

                        Peço‑te que vivas para sempre.

                        Com beijos infinitos, da tua constante

                        Mariana

 

                        Na varanda ao fundo do novo dormitório, junto à capela da Nossa Senhora dos Anjos, e na janela em frente do portão que dava para a estrada rumo a Mértola, a Irmã Mariana oferecia um lanche. Catarina de Bragança, filha do falecido rei D. João IV, celebrava o segundo ano de casamento com o rei Carlos II de Inglaterra. A rainha Catarina tinha levado para a corte inglesa o chá que Portugal recebia do Oriente. Os ingleses andavam malucos com o chá, graças à sua rainha portuguesa.

                        Brites fez o que Mariana lhe pedira e roubou da cozinha umas guloseimas feitas com sumo de laranja e gordura de porco; assim, ela, Mariana, Ignez de São José e Maria de Castro podiam brincar às senhoras finas.

                        ‑           Disseram‑me que está tanto frio em Inglaterra que as pessoas usam casacos dentro de casa ‑ disse a irmã Maria de Castro servindo‑se da manga do escapulário para limpar a boca.

                        Alcunhava‑se a si mesma e às outras freiras de "cabeças de sino" por causa do modo com os véus lhes caíam sobre os ombros. Trabalhava na lavandaria e chamava à sua tarefa "lavagem dos sinos". Nos primeiros tempos de convento, ela e Mariana tinham cortado os polegares para fazer um juramento de sangue.

                        ‑ Usam principalmente casacos de peles ‑ disse Brites de modo autoritário.

‑ São protestantes e é um erro deixarmos que eles venham para cá, mesmo que seja para nos ajudar ‑ sentenciou Ignez de São José. ‑ Já nos roubaram o chá, Bombaim e Tânger.

            ‑ Podem muito bem ficar com Bombaim. Eu é que nunca hei‑de pôr lá os pés - comentou a Irmã Maria de Castro.

            - Não nos roubaram nada o chá. Foi a rainha Catarina quem o introduziU - disse Mariana. - E a cedência de terras fazia parte do contrato de casamento. Acho que até deveríamos fazer um brinde à Inglaterra e a Schomberg.

            Todas elas concordaram que Portugal deveria terminar a guerra para que pudessem recomeçar a viver uma vida normal antes de serem velhas, mesmo que isso significasse adquirir assistência militar à custa do que restava da Índia e do Brasil, ou até mesmo ficarem devedores da Inglaterra, da França ou da Prússia.

            ‑ É fácil para uma Alcoforado falar assim ‑ disse Brites.

            ‑ Oh, cala‑te! ‑ ordenou Mariana.

            Fizeram um brinde ao pai de Mariana por este ter a ideia de criar uma Casa da Moeda; e depois, de chávenas de chá na mão, debruçaram‑se à varanda para ver os soldados ingleses. Mariana meteu os dedos na chávena e salpicou chá sobre as cabeças deles como se fosse água benta. As amigas seguiram o seu exemplo. Maria de Castro derramou o conteúdo da chávena sobre eles. Espantados por sentirem o gosto a chá, os soldados olharam para cima. O sol no rosto deles ofuscava, o chá era familiar e por uns momentos toda a gente se sentiu transportada para outro lugar.

 

A Irmã Francisca tinha notado que o facto de disciplinar as horas nos conventos de modo a tornar os dias monotonamente iguais produzia uma espécie de transe espiritual e corporal que levava ao êxtase. Como se reduzindo as horas a uma rotina vulgar pudesse abolir a vulgaridade e destituir o tempo de significado.

            Mariana encarava as horas canónicas como escadas de degraus bem marcados que as mulheres e as raparigas subiam e desciam incessantemente.

            O primeiro degrau era o "Grande Silêncio". O silêncio devia começar à hora de deitar, às sete, mas quase nunca era cumprido. A Senhora Alexandra Teixeira Bettencourt, que usava camisas de noite com dourados nas costuras e mangas largas, escondeu o seu anel de rubis no claustro e anunciou que ia haver uma caça ao tesouro.

            Mas as freiras eram tímidas e tagarelavam umas com as outras. Tudo porque a endiabrada da Mariana andava a dizer que vinha aí um cataclismo. Por ser uma Alcoforado, julgava que estava em contacto directo com Deus?

            Matinas e Laudes eram o seguinte degrau da escada ‑ "Irás com alegria buscar água às fontes do Salvador" recitavam metade das freiras na escuridão da meia‑noite na capela principal. ‑ "Que o orvalho tombe, ó Céus, e que as nuvens chovam em cima do justo" ‑ ecoava a resposta antifónica da outra metade da capela.

            A Irmã Maria de Mendonça saiu da enfermaria para recitar as Matinas. Não conseguia ver‑se livre de uma má premonição quanto aos soldados ingleses aquartelados na cidade, muito embora isso pudessem ser vestígios do choque que recebera quando o Santo Padre virara as costas ao seu país, dando ouvidos aos jesuítas espanhóis que lhe diziam que Portugal era uma mera extensão de Espanha. Cantar hinos à meia‑noite aliviava o seu sofrimento devido ao abandono do Papa. E também lhe dava imenso prazer ver a sua antiga pupila Mariana fazendo‑lhe sempre um aceno com a mão antes das Matinas, como se dissesse: "Comecei no convento consigo e ainda hoje começo todos os dias também consigo, Irmã Maria de Mendonça".

 

            Certo dia, depois de a Espanha ter conquistado a fronteira do leste, o corpo de Mariana ficou coberto de manchas vermelhas.

            E hoje um dos seus braços estava todo vermelho.

            Após as Matinas, Maria de Mendonça sentiu momentaneamente que os seus pensamentos transbordavam de água e frescura e foi ver se conseguia fazer desaparecer a angústia que manchava o braço da sua jovem amiga.

            ‑ Consegue compreender‑me como se eu sonhasse consigo ‑ disse Mariana vendo parte da vermelhidão desaparecer ao contacto da mão da sua antiga professora.

 

            Dormir ‑ mais umas horas. A Superiora Maria Madalena Pereira sofria de vertigens. No centro da queda encontrava‑se a recordação que acalentava: era uma jovem freira e estava a varrer o chão. De repente sentiu‑se envolta no que parecia um envelope de luz pegajosa. Sentiu‑se como uma carta, mas a luz desapareceu. Aquela sensação nunca mais se repetira, mas nunca mais se esquecera de que tudo o que estava escrito dentro de si era precioso para alguém a quem ela podia chamar Deus.

            Sentia‑se em paz, apesar de pensar que a Irmã Mariana tinha razão. A hora do julgamento final podia muito bem estar a pairar sobre elas.

 

Primeira hora do dia: Primas e Missa Matinal. A Irmã Maria de Castro recitou do seu saltério: A estrela da manhã sucede‑se à noite". Estava enjoada dos figos com amêndoas que roubara na cozinha, mas dava‑se conta de que a Irmã Maria Beatriz de Resende cantava o "Tantum Ergo". Que voz Imponente!

            Apesar de ter pouco mais de vinte anos, a Irmã Beatriz estava a perder a vista. Era uma cantora de tal magnitude que quem a ouvia cantar e tocar órgão sentia vontade de se prostrar no chão e nunca mais se levantar.

            A Irmã Maria de Castro nunca fizera nada de tão elevado. Fora recentemente apanhada a entornar o frasco de sanguessugas na enfermaria e tinha vergonha de olhar para a Irmã Juliana de Matos, a enfermeira. A Irmã Maria de Castro tinha gritado às sanguessugas: "Depressa! Fujam! Estamos metidas num sarilho!". Achou aquilo histericamente engraçado, mas a enfermeira não. A Irmã Maria de Castro usava uma túnica de seda sob o hábito e não se ralava que o castigo fosse a proibição de falarem com ela durante dois anos.

            A Superiora Maria Madalena Pereira quase não conseguia permanecer acordada quanto mais manter a ordem! As freiras tinham de ficar por detrás das grades que separavam a galeria superior e inferior do corpo principal da igreja, reservado à gente da cidade, soldados franceses e portugueses e até mesmo alguns ingleses, mas elas não obedeciam.

            O que era aquilo? Um clamor, ruído de objectos metálicos?

            ‑ Estou a ouvir barulho lá fora! ‑ gritou a Irmã Maria de Castro interrompendo a consagração da missa.

            A congregação virou‑se para a fitar e um murmúrio de vozes elevou‑se na capela. Afinal, aqueles sons de terror não ecoavam apenas nas cabeças delas...

            O padre que dava a missa gritou‑lhes:

‑ Irmãs! Lembrem‑se por que razão estão aqui! Rezem para esconjurar os ruídos assustadores!

 

            As nossas tarefas diárias são uma Dádiva. A Irmã Mariana Alcoforado, desalentada com a agitação da amiga durante a missa, seguiu para o scriptum com o seu odor a cola. Da pilha de livros saía um cheiro a animais cozidos que a transportava para a biblioteca do pai. Gostava da pergunta que se lia no "Cântico dos Cânticos": "Aonde vai o meu amor? Onde está ele?". Mas hoje estava assustada. Os números que escrevia pareciam insectos com muitas patas. Esperou por Manuel, o encarregado das provisões do convento, para saber notícias do exterior.

 

            Como de costume, Manuel entrou no convento pelo portão principal, mas hoje o seu passo era apressado, embora a caixa de fruta que transportava fosse pesada. Sentia‑se feliz por estar longe do centro da cidade. Com um biltre como Cristóvão Pantoja Lobo no cargo de governador de Beja, era de admirar que ainda não tivesse havido nenhum motim até então.

            Há muito tempo que Manuel deixara de se espantar com o facto de entrar nos claustros de modo bastante casual. Ninguém o impedia a ele ou a qualquer outro homem, - tanto quanto se apercebia ‑ de vaguear por ali à vontade. Quando a vida aqui voltasse a ser normal, seria um triste dia, pois gostava de trabalhar com a Irmã Mariana, um génio financeiro. (Uma coisa estranha a respeito desta Irmã é que dizia frequentemente "para as freiras", como se não fosse uma delas.) Como Mariana transferira ilegalmente para a conta dos alimentos um subsídio para limpar os ladrilhos da cozinha, Manuel comprara pêras a um inglês a um preço especial. Mariana adorava pêras, mas hoje disse:

‑ Esqueça as pêras. Pela sua expressão, passa‑se qualquer coisa.

            ‑ Um inglês pôs fogo à casa do ferreiro porque este não lhe quis dar uma bebida ‑ disse Manuel afundando‑se numa cadeira a convite de Mariana e pousando a caixa da fruta no chão. - Apagaram o incêndio e prenderam o inglês, mas apareceram os irmãos Lobo e Cristóvão obrigou D. Lourenço, o inspector das tropas inglesas, a tirá‑lo da prisão. Ele próprio chicoteou o prisioneiro em hasta pública, e depois ele e os irmãos partiram para a caça.

            ‑ O preso ainda está vivo?

            ‑ Ficou estendido no chão e mal se mexe. E agora o major D. Miguel está a pedir explicações a D. Lourenço. Quer saber por que razão obedeceu aos Lobo sem o consultar primeiro.

            ‑ Ouvimos barulho durante toda a manhã.

            ‑ Esperemos que tudo isto se resolva depressa. D. Miguel e D. Lourenço podem não fazer as pazes, mas não devem tardar muito a acabar com esta gritaria. Quer provar uma pêra, Irmã Mariana?

            ‑ Certamente que não posso fazer uma coisa tão divina neste instante.

 

Outro degrau da escada diária das horas era o Terço às nove da manhã.

            As freiras entoavam "Senhor, salvaste‑me de todas as desgraças e os meus olhos assistiram à queda dos meus inimigos". Desfilavam diante de Nossa Senhora do Leite e subiam até à galeria superior onde as cadeiras, embutidas na parede, estavam ligadas umas às outras. Um gorducho querubim de carvalho tinha o umbigo dourado, provavelmente pintado pela marquesa Dona Fernandes.

            Passou‑se qualquer coisa com os soldados ingleses e os irmãos Lobo estão metidos nisso ‑ segredou a Irmã Maria de Santiago à Irmã Brites de Freire. E, a meia voz, o coro dos hinos transformou‑se em "passou‑se qualquer, passou‑se qualquer coisa" à medida que a mensagem passava das sopranos às contraltos.

            A Irmã Maria de Mendonça teve de desculpar‑se. Cambaleou do claustro até à enfermaria, certa de que mais más notícias dariam cabo dela. Até agora ocultara a sua doença, vaga e sem nome, da maior parte das freiras. Há três anos que não andava bem, desde 1659, quando o Tratado de Paz dos Pirinéus fora assinado. A França ganhara a Guerra dos Trinta anos à Espanha, mas concordara em deixar a Espanha fazer o que quisesse com Portugal.

            Era um insulto ser atirado como concessão ao país vencido. Ela também não percebia por que razão a França ignorara o tratado enviando tropas para aqui e ajudando Portugal a angariar os serviços do general Schomberg. A guerra era absolutamente pérfida de ambos os lados.

            Os sinos da torre da cidade repicavam. A Irmã Maria de Mendonça ouviu um clamor e correu à procura de Mariana. O impulso de se esconder nunca superaria a necessidade de proteger a sua antiga pupila predilecta. Onde é que ela estaria? As freiras e refugiadas, assim como alguns homens, corriam pelos claustros em direcção às varandas para ver o que se passava. A Irmã Maria de Mendonça quase desmaiou no meio daquela multidão de mulheres e crianças. Era pior do que o motim das vacas há uns dez anos atrás, pois desta vez homens, mulheres e crianças perseguiam os soldados ingleses à pancada, arrastando‑os para a rua e batendo‑lhes com paus, barrotes, tijolos e sapatos. Atiravam‑lhes com cestas de limões e com bacalhau, ao mesmo tempo que garrafas partidas voavam pelos ares e os cães ladravam. A banca do mercado estava de olhos esbugalhados, boquiaberta. A Irmã Michaella dos Anjos recitava o rosário no meio dos empurrões na varanda e a Irmã Dolores gritava para que a massa de povo parasse. Os soldados portugueses de guarda ao convento mantinham‑se indiferentes, apesar das pedras e do lixo que caíam perto das varandas, fazendo gritar as freiras que, na confusão, se calcavam umas às outras. Uma mulher arrastava um soldado inglês pelos cabelos. A Irmã Maria de Mendonça tentou chamá‑la, mas a sua voz foi abafada pela gritaria. Chamou então por Mariana até desfalecer e ser transportada para a enfermaria, onde despertou cheia de dores. Ouviu nitidamente o clamor do motim antes de este esmorecer, até se tornar apenas num eco na sua cabeça e desaparecer.

            Mariana encontrava‑se na varanda. Ao ver uma postulante de uns dez anos a tremer de medo, abraçou‑se a ela e apertou‑a contra o tecido preto do seu escapulário, levando‑a depois para a segurança da sua "casinha", onde o barulho, embora abafado, ressoava nas paredes de pedra.

            ‑           Vamos morrer? perguntou a rapariguinha.

            ‑           Não sei o que é que está a acontecer ‑ respondeu Mariana beijando‑a. ‑ Tudo o que posso dizer‑te é que ficas comigo até este pesadelo acabar. E se a morte vier, morreremos juntas. Nunca abandonaria ninguém que precisasse de mim.

 

            Oferecemos mais uma vez o nosso trabalho em louvor e glória do Seu nome. A Irmã Leonor Henriques ouviu dizer que os seus irmãos estavam envolvidos no motim. E eles ainda esperavam que ela escolhesse um deles como herdeiro dos seus campos de trigo quando ela morresse... Até então, as suas óbvias tentativas para ganharem o seu afecto só a tinham incomodado, mas agora estava furiosa. Molhou os dedos na fonte de água benta por cima da cama e aspergiu‑se a si mesma.

 

            O avanço divino das horas não parava por causa de tragédias ‑ Sexta Hora, meio‑dia, a hora da Paixão de Cristo. Cântico: "Ó sagrada cabeça rodeada por uma coroa de espinhos". As freiras deviam pensar em traição, agonia, morte.

            E assim faziam nas suas celas separadas e "casinhas". Ninguém assistiu aos ofícios divinos a não ser a Superiora, que chorou pela sua incapacidade de fazer o convento cumprir os santos horários.

 

O degrau beatífico do dia ‑ Jantar (em silêncio) seguido por Estudo e Meditação. Nonas, três da tarde, hora da morte de Cristo. Estudo. Coro. Aulas.

            Ninguém comeu nem estudou. As freiras meditaram, como era seu dever, sobre a morte. Mariana vigiou o sono da postulante.

            Outro importante degrau da escada do dia ‑ o Encontro Diário na Sala do Capítulo para discutir os assuntos temporais e espirituais da comunidade. As dez freiras de serviço, ignorando as ordens da Superiora para observarem silêncio, falavam dos dois soldados ingleses mortos no decorrer do motim. A guarnição inglesa tinha, consequentemente, saído da cidade.

            E, com a retirada dos aliados, Beja estava mais do que nunca aberta a qualquer invasão.

            Vésperas e uma refeição ligeira, a Colação ‑ Ao ver Mariana entrar na enfermaria com um prato de orelhas‑de‑abade, Maria de Mendonça sentou‑se na cama. As mulheres diziam a brincar que estes doces lhes faziam crescer as orelhas e ter melhor ouvido.

            Descanso e Completas, as últimas horas canónicas dos ofícios divinos - apenas algumas freiras compareceram para recitar o salmo 90: "Mil podem cair ao teu lado e dez mil cair à tua direita que o terror da noite nunca se aproximará de ti".

            A Irmã Leonor Henriques sonhava acordada com as rosas bordadas nas almofadas de Mariana já gastas. O que significava que Mariana as usava para pousar a cabeça nelas. Que importava que os ingleses se enfurecessem, os franceses abandonassem o país, Schomberg perdesse a reputação ou os espanhóis invadissem Beja? Que importava que os seus irmãos se combatessem pelos seus campos de trigo? Devia seguir o exemplo de Mariana e usar rosas invisiveis.

 

            Mais uma vez, o Grande Silêncio. A Irmã Brites de Brito, numa cela com outras três irmãs, não conseguia dormir. Estava a pensar que a Irmã Mariana devia ocupar‑se das "Quarenta Horas". Acontecera tanta coisa durante o motim que se sentia derrotada. O compilador das "Quarenta Horas" tinha de registar tudo o que se passava no convento em quarenta horas, todos os pensamentos e acções de todas as freiras e Irmãs laicas. A Irmã Brites de Brito nunca convencera ninguém a ocupar‑se desta tradição pois exigia aptidão para escrever sinfonias e manter fidelidade às minúcias da história. Mariana poderia fazê‑lo. O problema era que Mariana tentaria incluir tudo e toda a gente e a sua frustração poderia transformar cada linha numa cacofonia.

            O Grande Silêncio seria o degrau de baixo do dia anterior ou o de cima da escada que Mariana tinha de subir? As escadas pareciam criar um presente imutável, mas o dia de hoje constituía a prova de que tudo podia mudar num instante. Costumava imaginar que as escadas das horas estavam verticalmente ligadas umas às outras e que se elevavam em direcção ao céu, e mesmo mais alto, até permitirem escalar os muros: iria buscar Baltazar a Beringel e ultrapassariam a lua juntos, mas isso não era verdade. As horas e os dias repousavam horizontalmente no seu peito, como pilhas que a esmagavam.

            A sua oração naquela noite foi: "Hei‑de vencer esta prova e todas as provas. Nada ‑ ser freira, estar encarcerada, viver em tempo de guerra ‑, nada me separará da vida do meu coração. Envia‑me todos os obstáculos que quiseres, meu Deus, para que eu possa ultrapassá‑los. Aqueles ingleses não tinham de morrer, meu Deus. Acredito que saibas isso".

 

            ‑ Mamã! Mamã! ‑ gritou Mariana agarrando‑se às grades que separavam as freiras das visitas.

            Toda a gente ignorava essa separação. As visitas entravam nos claustros e as freiras passeavam‑se lá fora, mas a mãe de Mariana não aprovava isso. A mamã tinha enfrentado o sangue e a confusão das ruas para a ver!

            ‑ Minha filha! ‑ exclamou Leonor. ‑ Perdoas‑me por não ter vindo mais cedo? Oh, se te tivesse acontecido alguma coisa...!

            ‑ Estou bem, mamã. Tu é que não devias ter saído. É perigoso.

            ‑ Corre‑se perigo em todo o lado. Até mesmo em casa ‑ e começou a queixar‑se.

            O pai cobrava despesas da casa a Ana Maria e a Rui; dizia que enquanto vivessem sob o seu tecto, Rui tinha de contribuir antes de gastar no jogo tudo o que possuía. E Rui chamava‑lhe sovina. O incidente com os ingleses tinha redobrado as suas altercações.

  1. Francisco fora de cavalo à cidade durante os motins e, empunhando a espada, ordenara aos desordeiros que voltassem para casa, culpando‑os da calamidade que haviam originado.

            - O teu pai dispersou a multidão. Os irmãos Lobo é que foram os culpados.

            Mariana perguntou à mãe o que é que os Lobo tinham feito exactamente, mas a mãe, distraída, nem sequer a ouviu.

            - Aconteceu outra coisa - prosseguiu Leonor. ‑ Tive uma filha que morreu.

            Filipa ‑ Mariana via essa Filipa, que vivera tão pouco tempo, como uma ameixa branca e quente. Era pecado ter ciúmes: embora Filipa não tivesse feito nada para ser amada, será que a mamã gostava mais dela do que dos outros filhos?

            ‑ Lamento muito, mamã.

            ‑ Estás a salvo destes desgostos ‑ disse a mãe levantando‑se para ir embora. Não podia ficar muito tempo longe de casa e era impossível prometer quando voltariam a ver‑se. O seu cabelo grisalho estava despenteado e olheiras vermelhas rodeavam‑lhe os olhos. Beijaram‑se encostando o rosto uma à outra até onde as grades o permitiam.

            Mariana tentou manter uma lembrança agradável da visita, mas ao ver a mãe partir soluçou:

‑ Como podes gostar tanto de mim e estar tão enganada a meu respeito, mamã? Eu sei muito bem o que são desgostos.

            A mãe tinha outras crianças com quem se entreter. Ana Maria tinha filhos, Francisco de Melo e Luís, e filhas, Inês e Caetana. Era estranho imaginar a mãe e a irmã grávidas ao mesmo tempo e a serem tratadas pela sua irmã Catarina, ainda uma criança. O que acontecera ao seu próprio destino de ser amada e ter filhos?

            Também sentia pesar por ter perdido a ocasião de gritar ao pai quando este passara pela cidade a cavalo: "Papá, o mundo estava em chamas e eu encontrava‑me tão perto. Por que razão não vieste salvar‑me? Por que razão confias que os soldados do rei me defendam quando só posso imaginar ser salva por ti?.

            Chamou em voz tão alta pelos pais que a postulante que ela consolara entrou na "casinha" dela.

            ‑ Não tenha medo, Irmã Mariana ‑ disse‑lhe a rapariga abraçando‑a.

‑ Eu estava na minha cela mas ouvi‑a gritar.

            "Sou frágil", parecia dizer‑lhe o corpo da rapariguinha. "Não sou suficientemente grande para te confortar, mas é tudo o que tenho".

 

Ao ver o seu irmão Rui no locutório, a Irmã Leonor Henriques não perdeu tempo e perguntou‑lhe:

‑ Tiveste alguma coisa a ver com o motim?

                        Mariana levava uns missais restaurados para a capela e observou a expressão dele com desprezo.

            ‑ Isso é maneira de me saudar? ‑ ripostou ele.

            ‑ Saúdo‑te como me apetecer! ‑ disse Leonor Henriques.

                        ‑           Estou a ver! Suponho que não te interessa saber que o conde de Chamilly, um dos maiores oficiais do exército francês, manifestou desejo de conhecer os teus irmãos, que são considerados os soldados mais valentes de Portugal.

                        ‑           Isso não me interessa nada.

                        Rui virou‑se para Mariana.

                        ‑           A ti interessa, não interessa?

                        ‑           A única coisa que me interessa é que agora estamos indefesas ‑ disse Mariana.

                        ‑           Não te preocupes. Os meus irmãos e eu havemos de vos proteger, a ti e aqui à minha furiosa irmã.

                        ‑           Pedi‑te para me dares uma explicação, Rui ‑ insistiu Leonor Henriques.

            Mariana quase não prestou atenção a Rui quando este disse à irmã que ela devia zangar‑se antes com Cristóvão, pois esse filho da mãe não merecia herdar os campos de trigo. No seu testamento deveria lembrar‑se de Rui, pois quando ele, Cristóvão e Bartolomeu voltaram à cidade depois da caça, D. Miguel e D. Lourenço ainda discutiam e D. Miguel chamara Cristóvão de cobarde, a pior coisa que se podia chamar a um Lobo. Cristóvão pegara num chicote para enfrentar D. Miguel, mas na confusão dera uma chicotada no rosto de D. Lourenço. Alguém gritara então do meio da multidão que se juntara que eles não deviam estar ali a derramar o seu próprio sangue, mas o sangue dos ingleses.

                        ‑           A morte diverte‑te ‑ disse Leonor Henriques.

            ‑ Então por que é que tenho tantos filhos? A vida é que me diverte - riu‑se Rui.

            Mariana fugiu do locutório. Como ousava ele falar assim do facto de engravidar Ana Maria! O que é que a impressionava sempre que Rui ia ao convento? Era o facto de ele não ser capaz de dar um momento de paz a uma mulher e a certeza de que esse tipo de tumulto não se assemelhava em nada ao tumulto do amor. Como Ana Maria se tornara pesada e histérica! Alguma vez Mariana dissera à irmã, quando ficavam as duas a contemplar o céu, que amaria Rui para sempre? Não. A ideia que fazia dele é que a seduzira. Um pano negro tapava o retrato de Rui que ela trouxera consigo para o convento, mas mantinha‑o ali porque nunca poderia voltar para trás depois de ter utilizado a palavra "sempre", embora fosse apenas uma criança quando a dissera. Mas esse retrato estava escondido sob as cores do luto.

 

            ‑ Mariana!

            O seu nome ecoou pelas quadras que formavam as galerias cobertas em torno do claustro. A Quadra de São João Baptista, a Quadra da Portaria, perto da entrada, a Quadra de São João, o Evangelista, e a Quadra do Rosário, onde os corpos das freiras mortas jaziam sob lápides anónimas.

            ‑ Mariana! Mariana! ‑ o seu nome voltou a ecoar furiosamente, embatendo contra as paredes da sala da prisão na ala ocidental do antigo dormitório há muito não usada. O grito "Mariana" fez estremecer e tilintar os frascos azuis da enfermaria e as ventosas que se colocavam nos pacientes para extrair tumores malignos.

            Era a voz de um homem.

            ‑ Mariana! Mariana! Mariana!

            Os berros chegaram aos ouvidos de Mariana no scriptorium e perguntou à Irmã Francisca:

‑ Está a ouvir o que eu ouço? O que será?

            O seu coração batia, alvoroçado: sabia o que era.

            A Irmã Francisca levantou‑se para examinar o livro de contabilidade. Mariana estava a registar uma doação de peças de linho e a sua letra vibrava como se a tinta fosse sorvida pela luz do sol. Todos os momentos eram vitais, mas alguns, como este, exigiam que uma pessoa os agarrasse bem.

            ‑ Estão a chamar‑te ‑ disse Francisca. ‑ Vai depressa.

            Mariana saiu a correr, atravessou a Quadra do Rosário e passou pela porta que dava para o corpo principal da igreja. Teria reconhecido aquela voz em qualquer parte, por muito que tivesse de esperar que os encantos dessa voz lhe inundassem e abençoassem os ouvidos. Lá estava ele na nave, de punhos cerrados pelo esforço de berrar o seu nome, fazendo o tabernáculo e as imagens tremer e sem se importar que as freiras o mandassem calar. Não trazia o hábito de monge mas um gibão, de rosto vermelho como se o coração estivesse prestes a rebentar. Era Baltazar.

            ‑ Eu sabia, eu sabia que eras tu! ‑ gritou Mariana precipitando‑se nos seus braços.

Ele fê‑la voltear no ar em direcção ao altar e quase tropeçou na pedra que sobressaía do solo para Tembrar às freiras que ninguém deve lançar pedras aos outros pelas suas faltas. Os pés de Mariana ergueram‑se num arco e derrubaram um candelabro. Quando Baltazar finalmente a pousou no chão, estavam ambos sem fôlego, como se também ela tivesse gritado o nome dele aos berros e durante muito tempo. Ela agarrou‑lhe o rosto para o manter bem gravado na memória, para o conjurar após ele partir. Baltazar estava muito alto e tinha ombros largos. O rosto exibia a expressão montanhesa do pai e os olhos lançavam faíscas. Como podiam eles passar pacientemente o tempo a ler as Escrituras?

            ‑           Baltazar ‑ murmurou, como se ao pronunciar o seu nome o pudesse guardar junto de si.

            ‑           Senti‑me tão culpado quando recebi a tua carta, Mariana. E depois aconteceu aquela coisa com os ingleses. Não imaginas como tenho andado preocupado por tua causa. Mas agora estou aqui! O teu humilde servo em pessoa. Roubei um cavalo e umas roupas ao duque de Sidónia. Está descansada que ninguem me viu escapar. É escusado dizer‑te que é quase impossível tentar sair seja para onde for!

            ‑           Aqui, se vamos lá fora, nem que seja para fazer um recado qualquer, somos logo excomungadas. Mas tu e os teus amigos do convento conseguis sempre o que quereis, não é verdade?

            ‑ Deixa‑os excomungarem‑me! Até os felicitaria por isso!

            ‑ Mas o que é que o papá iria dizer?

            ‑           Havia de ouvir das boas, como faz o Rui. Já tenho dezassete anos e faço o que me apetecer.

            ‑           Não gosto de ouvir‑te falar assim. ‑ E pôs as palmas das mãos por cima do véu para tapar os ouvidos.

Baltazar agarrou‑a pelos cotovelos e levantou‑a no ar. Ela desatou a rir e suplicou‑lhe que a colocasse no chão. A Irmã Michaella dos Anjos olhava‑os com reprovação enquanto arrumava ruidosamente os livros dos hinos na galeria inferior. Mariana ignorou‑a.

            ‑           É verdade, Mariana. Ele quer que eu me porte como um homem e para isso devo obedecer‑lhe. Que homem é que eu seria então? Seria igual a ele. Não ouviste falar do que se passa com o Convento de Santa Clara? Vou apelar contra o papá no tribunal: comprou a propriedade deles por um preço irrisório e não quer revendê‑la.

            ‑           Por que é que havia de fazer tal coisa? E por que é que tu estás a falar disso agora?

‑           Toda a gente sabe que ele os obrigou a fazerem o que não queriam. Da mesma maneira que me obrigou a ir para o convento... só porque decidiu que eu não podia tomar conta das suas propriedades. Sou o mais velho e tenho de defender os meus direitos.

            - Onde é que aprendeste a falar assim?

            ‑           No convento. É no que dá toda aquela leitura, embora comece a tornar‑se um pouco aborrecida... Pensando melhor, até devia agradecer ao nosso pai por me ter mandado para lá. Mas podes ter a certeza de que não vou ser padre. Toda a gente diz que temos de estar preparados para quando os ingleses partirem. Quero alistar‑me no exército com o Rui, o Cristóvão e o Bartolomeu logo que eles entendam oportuno.

            ‑           Não suportaria que fizesses tal coisa.

            - Sentirias mais orgulho de mim se eu deixasse os outros combater em meu lugar?

            ‑           Não tens de fazer nada para eu me orgulhar de ti. Vamos falar sobre outros assuntos. Como está a mamã? E a Ana Maria, Catarina, Miguel, a avozinha e os bebés?

            Esta conversa não tinha nada a ver com aquela que andava a ensaiar há anos. O abraço fora como ela imaginara, mas as palavras que trocaram decididamente que não. A postura de Baltazar também correspondia ao que imaginara. Para si, o irmão continuava a ser uma criança, apenas maior e mais velho.

            - Conheci um francês, capitão de cavalaria, que quis a toda a força conhecer os irmãos Lobo ‑ prosseguiu Baltazar sem reparar na expressão da irmã. ‑ Encontrava‑me com eles quando veio visitá‑los. Nunca fiquei tão impressionado na minha vida. O homem é formidável!

            ‑           Ainda bem ‑ balbuciou ela.

            ‑           Não suporto ver‑te triste, Mariana ‑ disse Baltazar tirando uma romã da sacola e abrindo‑a com a faca.

            Os bagos vermelhos reluzentes contrastavam com a alvura da polpa. Soltou uns poucos com a ponta de uma lâmina.

            ‑           É boa? ‑ perguntou.

            ‑           Lembraste‑te de que eu gosto de romãs ‑ disse Mariana, o fruto tingindo‑lhe a boca de vermelho. ‑ Lembraste‑te de como eu gosto de ti.

            ‑           Não tenho de lembrar‑me do que nunca me sai da cabeça!

            Querido Baltazar, como ele a conhecia bem! Quem mais se lembraria de lhe trazer uma romã? Ela apreciava a doce perversão de um fruto que dava tanto trabalho a comer e que oferecia pequenos bagos de gosto e cor embebidos numa massa amarga. A visita de Baltazar tornava‑se luminosamente vermelha

no amâgo dos insípidos anos passados no convento. Ele arriscara tudo para vir ter com ela.

            ‑           Quando era mais pequeno, não podia desafiar os monges e o papá para vir ver‑te, mas agora sou suficientemente crescido para não me importar. Pode haver certas demoras entre as visitas ‑ disse, sem acrescentar que seriam devidas ao facto de se alistar no exército. - Mas continuarei a vir ver‑te. Mesmo que me amarrem dentro da cela e deitem fora a chave! Por mais regulamentos que tu e eu tenhamos de infringir, estás a ouvir‑me?

            ‑           Sim ‑ murmurou Mariana.

            Ele levantou‑lhe o rosto. Os olhos dela brilhavam.

            ‑           Prevines‑me se souberes de um sítio para onde eu possa levar‑te para que tu possas viver feliz? - perguntou‑lhe o irmão.

            ‑           Não existem sítios desses. Mas é adorável da tua parte quereres que eu encontre um. Sei que tens de partir.

            ‑           É melhor ir andando, sim. Antes que dêem pela minha falta... Mas não te digo adeus.

            ‑           Não, não me digas adeus.

            Baltazar deu‑lhe um beijo e afastou‑se rapidamente. Mariana correu para o portão e, encostando‑se ao braço da porteira, a Irmã Genebra, gritou‑lhe:

‑           A partir de agora vou sentir‑me bem nesta capela, Baltazar! Estivemos juntos aqui!

            ‑           Então hei‑de sentir‑me bem em todos os SítioS! ‑ gritou‑lhe ele virando‑se para a ver mais uma vez. ‑ Estarás sempre ao meu lado!

            Mariana não assistiu a nenhuma missa naquele dia e quando Brites e Maria de Castro tentaram fazê‑la sair da sua "casinha", recusou e fechou‑se à chave. Pouco antes do Grande Silêncio, Maria de Mendonça entrou‑lhe pelo quarto dentro, frágil e curvada, a pele da cor de um fruto apodrecido.

            ‑           Irmã Mariana, creio que me magoei na mão graças à tua teimosia.

            ‑           Como é que conseguiu abrir a porta? A Brites bem tentou mas não conseguiu.

            A Irmã Maria de Mendonça pareceu ficar satisfeita.

            ‑           O desejo de ver‑te deve ter‑me transformado numa mulher ousada. Pena é que a transformação não seja para sempre. Dás licença que me sente?

            E, sem esperar resposta, sentou‑se na cadeira da escrivaninha de Mariana.

            ‑           Não me viu durante as Vésperas nem no refeitório e veio à minha procura ‑ murmurou Mariana quase como se falasse com os seus botões.

‑           No meio da desordem que vai neste convento, uma pessoa nem conseguiria encontrar Aníbal montado num elefante ‑ disse Maria de Mendonça levando a mão a uma mecha de cabelo grisalho que se desprendera no esforço de abrir a porta. ‑ Soube que hoje viste o Baltazar e pensei logo que estivesses aqui enfiada. Pelos vistos tinha razão.

            ‑           Morro se alguma coisa acontecer ao meu irmão!

            - Estás a ouvir este barulho? São mulheres a chorar. São tuas irmãs. Os pais, maridos e irmãos delas estão a morrer. E eles também são teus irmãos. Não gosto nada que estejas para aqui a cismar exclusivamente contigo mesma e com a tua família.

            ‑           Não estou a pensar em mim ‑ replicou Mariana. - Só desejaria que todos nós vivêssemos noutro sítio bem longe daqui.

            Suspeito que o teu pai não gostaria muito de ouvir‑te falar assim.

            ‑           Nem sequer me lembro de quando o meu pai veio ver‑me.

            ‑           Deve andar ocupado a tentar salvar o país do qual desejas tanto fugir.

            - Tenho a febre das ilhas. Quero ir a todo o lado.

            ‑           Se estás disposta a ir a todo o lado é porque ainda não sofres da febre das ilhas, minha querida.

            ‑           Sofro, sim.

            ‑           Não sofres nada. Da maneira como o dizes, não sabes o que é a febre das ilhas. Um dia hás‑de reconhecê‑la e saberás então se a tens ou não. Devo ter sido uma má professora, não fui, Irmã Mariana?

            Sentou‑se ao lado de Mariana à beira da cama. Mariana abraçou‑se a ela e murmurou:

‑ Continua a ser uma belíssima professora. Mas o que eu disse é verdade. Lamento parecer egoísta, mas se o meu irmão morrer eu também deixo de ter motivos para viver.

            Maria de Mendonça fez‑lhe uma festa sobre o véu negro que cobria a cabeça de Mariana encostada ao seu peito, como se lhe acariciasse o cabelo.

            ‑           Não precisas de motivos. Tens apenas de viver por amor a Deus. És demasiado pura para não viver. Perdoa‑me, mas és demasiado inteligente e preocupada e isso fez‑te viver em sofrimento.

            Sentiu o sorriso de Mariana de encontro ao seu pescoço.

            ‑           Prometes‑me dormir em paz, Irmã Mariana? Faz como a minha mãe me dizia e conta anjos para adormecer.

            ‑           Não creio que alguma vez tenha dormido em paz.

            Foi a vez de Maria de Mendonça sorrir.

            ‑           E se eu disser que fico preocupada quando te sinto inquieta?

‑           Então, hei‑de dormir como se estivesse a descansar no fundo do mar azul.

            ‑           Deus seja louvado! ‑ exclamou Maria de Mendonça beijando‑lhe a fronte. ‑ Conhecer‑te foi o único prazer da minha vida.

            ‑           Posso chamar‑lhe Madre?

            ‑           Apesar de eu já não ser a Superiora?

            ‑           É a minha segunda mãe e há‑de sê‑lo sempre.

            ‑           Então terei muita honra em infringir os regulamentos do convento. Boa noite, Irmã Mariana. As nossas orações têm de vencer os perigos que se avizinham.

            ‑           Boa noite, Madre. Prometo‑lhe que Deus há‑de ouvir as minhas preces.

 

            Como desapareceu depressa o horror motivado pelo motim e como as mulheres voltaram a instalar‑se rapidamente na rotina do convento, na subida da escada das horas de todos os dias!

            A Irmã Angélica ficara indignada. Se ao menos a senil Superiora soubesse impor o respeito! Após a inspecção anual, o abade declarara: "Isto não é um convento, é uma festa! Trabalhadores a entrar e a sair, visitas constantes!". As freiras franciscanas do Convento da Conceição não permaneciam atrás das grades, mas passeavam‑se pelo locutório. E uma data de soldados iam à cozinha buscar comida e bebida.

            Como encarregada da cozinha, a Irmã Angélica de Noronha ressentia‑se. Era impossível impedir as pessoas de entrarem na despensa ou prepararem comida nas "casinhas" e oferecê‑la às visitas. Manuel aquiescia de boa vontade a comprar às freiras o que elas queriam.

 

            A Irmã Ignez de São José olhou para o Palácio dos Fundadores. Uma passagem ligava o coro superior do convento ao palácio, actualmente fechado, onde os duques de Beja tinham residido nos últimos duzentos anos desde a morte do rei que fundara o convento. A rainha costumava ir ouvir música ao coro superior e quando o rei falecera tinha dado entrada no convento.

            A Irmã Ignez de São José sentia vergonha por ter pensamentos tão frívolos, mas achava que era uma pena o convento não comprar a propriedade ao actual duque de Beja e arranjar o jardim. O jardim no pátio do convento era tão exíguo que era como se não existisse. "Devias ter vergonha!", censurava‑se a si própria. "Depois de tudo o que aconteceu, vamos acabar por ser dominados pelos soldados espanhóis". Mas sempre que visitava a capela principal não se continha e ia contemplar as talhas que pareciam ferro dourado.

 

            O general Schomberg, de dentes cerrados, andava impacientemente de um lado para o outro enquanto o seu amigo, o capitão Salomon, tentava acalmá‑lo. Mas quem é que podia estar calmo quando esta sua última viagem a Lisboa atrasara os seus planos? Os espanhóis decidiram tomar Évora e ele estava a tentar impedi‑los, mas isso revelava‑se cada vez mais difícil.

            Irritava‑o que no decorrer da sua convocação a Lisboa, por ordem da rainha mãe, D. Luisa, tivesse sido obrigado a enfrentar os generais portugueses que queriam discutir assuntos protocolares. Diogo Gomes de Figueiredo, general de Beja, insistira que, na medida em que se tratava de uma guerra em território nacional, a última palavra devia ser de um comandante português.

            Graças a Deus que o capitão Salomon fizera notar que voluntários vindos de países tão longínquos como a Itália chegavam a Portugal para ter o privilégio de servir sob as ordens de Schomberg e que as constantes contra‑ordens dos generais portugueses, meramente para mostrar quem mandava, podiam ser fatais a Portugal. A Coroa, ou o conde de Castelo Melhor ‑ que se auto‑nomeara Primeiro Ministro ‑, deveria decidir agora se queria realmente ganhar a guerra e deixar de convocar Schomberg para resolver ninharias.

            Diogo Gomes de Figueiredo protestara por ver as suas opiniões tomadas como ninharias, mas o conde de Castelo Melhor tinha confirmado a autoridade de Schomberg como comandante supremo e pacificara os generais atribuindo‑lhes novos títulos.

            Toda esta loucura fora uma perda de tempo e Schomberg e o capitão Salomon tinham sido obrigados a cavalgar durante uma noite inteira e todo o dia seguinte para regressarem ao acampamento militar a noroeste da província alentejana. Schomberg, irritado, andava de um lado para o outro no interior da sua tenda. Nas imediações, os seus guardas de elite dormiam com os seus casacos azuis vestidos, para não perderem tempo se fossem convocados.

            Como acontecia frequentemente, a energia do general Schomberg enchia o capitão Salomon de admiração.

            ‑ Achas que vamos ganhar?

            Schomberg soltou uma gargalhada.

‑           Não faço a menor ideia. Estou quase no fim da minha carreira, meu caro, e a ideia de aceitar este desafio agrada‑me.

            O capitão bebeu água de um púcaro de barro e passou‑o a Schomberg.

            ‑           Agora senta‑te e descontrai‑te, Frederic. Por que é que estás tão inquieto?

            ‑Já alguma vez salvaste um país? Fiz muitas coisas, especialmente em nome de França, mas isto nunca ‑ disse Schomberg.

            Levou o púcaro à boca e deu um grande sorvo molhando os bigodes.

            ‑           Achas que o rei de França quer invadir Portugal e deseja que nós o ajudemos a manter este país sem forças?

            ‑ O seu desejo é que este território não seja espanhol. A questão é essa, e quanto a mim chega e sobra.

            ‑Viste a sala onde aferrolharam o rei português? Pobre tipo...

            ‑ Trata‑se de um personagem sem importância nenhuma. O problema é o general Gome de Fig... como é que ele se chama? Nem consigo pronunciar o nome dele. Havemos de ouvir falar desse tipo novamente.

            ‑ Julgas que ele não vai obedecer às ordens da sua própria Coroa? - perguntou o capitão surpreendido.

            ‑           Pelo menos vai tentar. Mas esta gente está apaixonada pelas suas próprias paixões. São conhecidos por isso. Vão acabar por se deixarem levar pelas emoções. E então ele e eu havemos de enfrentar‑nos outra vez, e eu hei‑de vencer. E o que acontecerá à paixão dele? Aumentará! Ora, não vamos ficar nestas planícies durante muito tempo.

            ‑           O melhor que temos a fazer é ir dormir ‑ sugeriu o capitão Salomon pensando na mulher que deixara na Prússia e que a esta hora já devia estar na cama.

            ‑           Dormir? Nem pensar! Traz‑me os mapas, por favor.

            Os dedos dos dois homens percorreram as áreas ocupadas pelas tropas espanholas. Se conquistassem Évora, alcançariam Beja e cortariam o país ao meio. Se chegassem a Beja, a guerra estaria perdida. Schomberg e o seu exército estavam isolados no Alto Alentejo e precisavam de marchar antes do amanhecer para fazer frente ao inimigo em Évora. Se os espanhóis não fossem detidos ali, Schomberg teria de posicionar as suas tropas em lequc em direcção ao sul para impedir o cerco que iria apertar‑se em círculo à volta da garganta da nação. Se os soldados espanhóis completassem o cerco, invadiriam Beja a oeste como sangue derramado do pescoço de Portugal para arrancar a coroa da cabeça sem vida que se encontrava em Lisboa.

O capitão Salomon comentou que naquela noite as estrelas estavam mais cintilantes do que era costume e que para uma pessoa supersticiosa isso talvez fosse um bom agoiro.

            Nas estrelas nada indicava que os aguardavam muitos meses de combate.

 

            - Fazes tenção de não voltar a falar comigo? - perguntou Francisco Alcoforado à mulher.

            Leonor abanou a cabeça. A partir daquele momento nunca mais lhe dirigiria a palavra, nem a ele nem a ninguém, até ele renunciar a que a sua própria filha pagasse as despesas da casa. Recusava‑se a permitir que Ana Maria sofresse mais do que o necessário. Ter‑se casado com Rui de Melo Lobo já era suficiente. Há meses que Leonor dava dinheiro à filha às escondidas, mas Francisco havia descoberto. Após terem discutido, Leonor dera‑se conta de que a única possibilidade de levar a melhor era empregar a táctica das planícies onde nascera ‑ o silêncio. Sabia que a intenção do marido era fazer o genro perder dinheiro até não ter nada de seu, coisa a que não se opunha. Mas não podia consentir que a filha fosse vítima dessa manobra. Com a guerra a rondar por perto, uma batalha por farinha e azeite era pura loucura.

            ‑ A tua atitude custar‑te‑á mais caro do que a mim ‑ disse Francisco.

            Admirou a esperteza do múndo em empregar uma expressão associada a dinheiro, mas lamentou não poder felicitar a sua perspicácia.

            ‑ Vou à Casa da Moeda. As prensas chegam hoje.

            Leonor acenou com a cabeça e deu‑lhe um beijo, acenando alegremente com a mão. Apesar de ninguém acreditar, amava‑o imenso. Fazia sentido que os seus desacordos alcançassem portanto proporções desmedidas.

            Bastiana estava na cozinha a fazer coalhada de leite de ovelha. Leonor afastou‑se. Era um trabalho que lhe provocava náuseas. Tinha a certeza de que ficara assim por fazer tanto queijo quando estava grávida (a necessidade de preparar comida para os filhos). Os anos de parto haviam findado, mas às vezes (com bastante frequência ultimamente) sentia‑se invadida pela sensação de ainda estar prenha, como se um vento frio proveniente da terra dos mortos soprasse na sua direcção. Bastiana olhava para ela e perguntava‑lhe se queria sentar‑se.

            Abanou a cabeça. "Não, obrigada". Bastiana era o tipo de mulher que compreenderia um comentário como "o leite coalhado dá‑me náuseas". Leonor estava irritada consigo mesma por ter prometido engolir todas as palavras a fim de ganhar uma discussão sobre as despesas da casa.

Dirigiu‑se ao quarto da mãe e entrou batendo ruidosamente com os pés no chão: não desistira de a acordar do seu estado de coma. O ar entrava e saía dos pulmões adormecidos de Maria Alves. Leonor pusera‑lhe um xaile por cima dos ombros e costumava puxar pelas pontas para sentar a mãe na cama. Continuava tão gorda que Leonor sentia vontade de rir: "Está tão imensa como a paisagem. Arrasada como o país gasto em que vivemos".

                        Agora que Leonor jurara não proferir palavra, lembrava‑se de uma litania que gostaria de cantar à mãe: "Sou teimosa como tu. Por este andar vou ficar muda para sempre. Sim, mamã, a culpada és tu. Acorda, por favor, e grita de alegria. Lembras‑te da conversa que tivemos há quase meio século? Acho que estavas a ser amável. Acho que querias que eu não tivesse medo de nada e conseguiste‑o".

                        Quando Leonor tinha cinco anos de idade, a mãe dissera‑lhe para começar imediatamente a pôr a vida em ordem antes de morrer.

                        ‑           Eu não vou morrer ‑ respondera‑lhe Leonor.

                        ‑           Desculpa desapontar‑te quando ainda és tão pequenina ‑ dissera a mãe. ‑ Mas vais, sim. Toda a gente morre.

                        ‑           Eu sou eu, mamã. Não sou toda a gente.

                        ‑           És o meu anjo, o meu passarinho, a minha querida, a minha mais‑que‑tudo. Mas vais morrer. Não gosto de mentir às crianças e tu ainda tens muito tempo para te preocupares com isso. Eu irei à frente.

            Leonor lembrava‑se de ter pensado que a mãe podia fazer tudo o que quisesse (sempre o fizera), mas que ela própria deveria ter direito a tratar dessa coisa da morte à sua maneira. Não desejava sobretudo que a mandona da mãe fosse à frente.

            Passado pouco tempo, uma arca com produtos da Índia foi entregue no armazém dos pais, em Beja, e a mãe não permitiu que a abrissem. Segundo se contava, um mercador de Lisboa tinha aberto uma arca proveniente de Calcutá e o ar que continha matara‑o instantaneamente. A teoria era que vapores exóticos e mortais se tinham concentrado dentro da arca durante a longa viagem por mar. Os pais de Leonor haviam por conseguinte decidido abrir as arcas aos poucos para que o ar venenoso se dissipasse. O risco valia a pena, pois esperavam ganhar uma fortuna com as sedas. Durante semanas, a tampa da arca era aberta um pouco todos os dias até que finalmente retiraram peças de seda tão belas e macias que Leonor ficou maravilhada. Pareciam água pintada.

            Centenas de arcas mais tarde e à medida que os pais foram enriquecendo, Leonor continuou a ouvir comentários sobre a morte: "Aquela família Nicudes pensa que vai viver para sempre" ou "Se eu não tivesse tanto dinheiro, não precisava de me preocupar com a minha ida para o Céu". Chegou até a informar‑se junto dos irmãos mais velhos, mas estes não souberam explicar‑lhe nada. Ocorreu‑lhe então que ninguém tinha mil anos de idade, o que provava que a mãe estava certa. Leonor sentiu‑se quase triste por ter de morrer para dar lugar aos mais jovens.

            A solução era lidar imediatamente com o inevitável. Cinco anos de vida valiam praticamente tanto quanto cinquenta. Já que tinha de morrer, o melhor seria morrer de uma maneira bela e exótica. E quando a próxima arca chegou da Índia, abriu a tampa de repente e inspirou uma golfada de ar. Não lhe aconteceu nada. Tirou um pano de seda escarlate e encostou‑o ao nariz durante uns minutos. Os aromas indianos insistiam em poupá‑la. Estendeu a seda no chão e espojou‑se nela. Nada. Em vez de morrer, sentia‑se como se voasse num tapete colorido. Foi invadida por uma sensação de êxtase. A mãe tinha‑a prevenido em relação à morte, mas não que um deliberado acto de desafio pudesse provocar a alegria que sentia.

            Já mulher, deitava‑se sobre roupa branca à espera do marido e pensava:

"Que felicidade! Oh! Ser infeliz é a coisa mais fácil do mundo, é muito mais difícil ser‑se feliz!".

            Hoje, Leonor foi buscar um lençol de seda branca para colocar debaixo da mãe e pensou: "Felicidade, mamã. Por que razão não nos fundimos nesta simples palavra? Nunca nos demos bem, mas não podemos concordar com isto?".

            Ora cá estão elas, as senhoras da casa!

            Uma voz que ela odiava interrompeu os seus devaneios.

            Leonor voltou‑se para encarar Rui, o seu rosto coberto de cicatrizes enrugado num sorriso.

            - Pensa enrolá‑la num lençol para a festa desta noite?

            Olhou‑o fixamente. A sua promessa de não falar quase lhe rebentava as entranhas.

            - Vejamos, o que é que eu terei feito desta vez? Não vim para casa ontem à noite. É por isso que não me dirige a palavra? O que vale é que já estou habituado. A minha mulher também costuma tratar‑me assim... Terá sido ideia dela ignorarem‑me?

            "Filho da mãe! A minha filha está de cama porque a engravidaste outra vez. Não consegues ler o meu rosto? Claro que não. Canalha! Assassino! Estás a ficar com cara de velho". - que lhe Não julgue que não sei que está do lado do seu marido. Também quer dinheiro?

            Tirou umas moedas do bolso e atirou‑as para os pés de Leonor.

            ‑ Vá. Apanhe‑as. Continua sem fala? Julga que vou zangar‑me e ir‑me embora? Gosto de mulheres que sabem ficar caladas. A propósito, essas moedas são da nova Casa da Moeda. A do seu marido, exactamente! Roubei‑as! Julga que não sei que me querem ver morto para ficarem com o meu dinheiro? A herança do meu pai. Tenho direito a algumas migalhas vossas.

            Mesmo que pudesse falar, não lhe teria dito que estava enganado e que se permanecia em silêncio era para obrigar Francisco a ser mais generoso com Ana Maria (e, por defeito, com Rui, mas contra isso não podia fazer nada). Ingrato! Apanhou as moedas e enfiou‑as no sapato que tinha descalçado e depois atirou‑o com toda a força à cabeça de Rui. Acertou‑lhe em cheio na cara.

            ‑ Raio de mulher! Está maluca ou quê? gritou ele.

            O sapato caiu no chão e as moedas espalharam‑se. Enquanto ele rogava pragas, Leonor poderia jurar que as feições da mãe se tinham animado.

 

            Quando chegou a hora da inauguração da Casa da Moeda, Leonor mostrou a Luís e Bastiana como deveriam transportar Maria Alves até à carruagem. Leonor ocupou‑se dos filhos e netos e envolveu Ana Maria em mantas, dando‑lhe a entender, em silêncio, que o ar faria bem ao bebé. Ana Maria, segurando a barriga, olhou para as pernas inchadas e perguntou à mãe se ela e o papá se tinham zangado. Leonor teve pena de não poder explicar‑lhe o que se passara.

            Como Francisco lhes ordenara, os habitantes da cidade compareceram em peso à festa para construírem a última parede da Casa da Moeda. Apesar do incidente com os ingleses ter sido há quase um ano, ainda se mostravam assustados.

            Quando os espanhóis invadissem Beja (já ninguém dizia "se" mas "quando", Francisco queria que toda a população se mostrasse atarefada e não medrosa, à espera de ser assassinada na cama. A vitória dependia dos pormenores, como gostava de dizer: bons cavalos, bons biscoitos, escadas de madeira bem feitas, pólvora, espadas bem afiadas e abençoadas, belos trajes para levantar o ânimo, festas, moeda própria e planos. Deviam viver como vencedores. Estava farto de passar a vida a dizer‑lhes o mesmo. Onde estavam as guitarras? Deu ordens para que a parede fosse elevada e pregou uma placa na fachada da Casa da Moeda onde se lia: "1663 Beja/Pax Vobiscum/ Ora Pro Nobis".

            Barris de azeite coroados de chamas proporcionavam luz e calor. As pessoas passavam vinho e grandes tabuleiros de porco assado de um lado para o outro. Leonor acenava com a cabeça quando alguém a cumprimentava. Ignorava aqueles que diziam: Por que razão se terão zangado desta vez?

            A noite caíra. Deus, travesso e entusiasmado como uma criança, decidira traçar a negro a silhueta das árvores, dos arcos e das pessoas. Coloriu todo o resto de cores variegadas e laranja.

            Leonor instalou‑se junto da mãe e Ana Maria, cujos filhos Inês, com Oito anos de idade; Luís, com sete anos; e os gémeos, Caetana e Francisco, com três tentavam carregar pedras para construir a parede. Eram crianças confusas, com tendência para pesadelos à noite. A filha mais nova de Leonor, Maria Peregrina, que contava três anos de idade, enchia copos com água para levar ao pai. Leonor ficava satisfeita ao vê‑lo parar de trabalhar e beber um copo de água; depois pegava na filha ao colo e declarava: "É ela quem mais trabalha aqui!". Peregrina estava encantada. Francisco da Costa ‑ Leonor admirava‑o, embevecida ‑ tinha mais de sessenta anos e fazia um esforço tremendo para mostrar aos outros que acreditava na vitória. Ela sabia que ele estava mais preocupado do que parecia. Afastou o desgosto que sentia por se ter zangado com ele. O facto de ele andar ansioso não significava que ela não se batesse pela filha. Fitava‑o porém com pena. O marido costumava sentar‑se no solário com um pincel de tinta‑da‑china suspenso sobre uma folha de papel à espera de inspiração divina para fazer um desenho. A mão devia mover‑se sem a controlar. Aguardava que Deus lhe enviasse um plano para ganhar a guerra antes que Portugal fosse à falência.

            E como Deus não lhe tinha revelado nada, o marido decidira pintar ele mesmo o território com dinheiro. Não havia tempo para esperar por Deus.

            O marquês de Niza e D. Joaquim Ferreira de Fontes pediam em altos gritos que lhes dessem mais argamassa e incitavam toda a gente a despachar‑se a fim de acabarem a parede para poderem beber durante toda a noite. E quando alguém observava que não fazia sentido levantar uma parede que certamente seria destruída a tiros de canhão, o marquês condenava‑a a acartar mais pedras.

            Peregrina mergulhou a concha no balde de água e correu a levá‑la ao irmão Miguel, que dava ordens imitando o pai. Disse à irmã para não o incomodar. Leonor fez um esgar de descontentamento. Miguel tinha catorze anos e era alto e ríspido, enquanto Francisco, com Oito, era quase tão competente mas mais doce. Quando Peregrina lhe trouxe a concha, a água derramou‑se, mas ele ajoelhou e fingiu beber a água do chão, o que divertiu a pequenita.

            Se Leonor e o marido fossem presos, aquelas crianças não sobreviveriam, mas Peregrina poderia ser poupada durante o tempo suficiente até o seu nome a inspirar e escapar para vaguear por ai.

            Bastiana e Catarina preparavam caldeirões de guisado. Adorável, esquecida (por quase toda a gente, excepto por Leonor), infatigável Catarina que tão bem tratara da mãe e da irmã quando estiveram de cama! Uma rapariga com menos qualidades do que Catarina tornar‑se‑ia facilmente numa desmazelada. Mas Catarina sabia instintivamente como portar‑se. Todos os seus gestos, mesmo os mais simples e insignificantes, eram cerimoniosos. Quando a mãe ou a irmã estavam acamadas, enfeitava os tabuleiros das refeições com guardanapos dobrados em forma de cisne. Despiolhava‑as e punha‑lhes óleo de amêndoa na testa, apesar de o seu próprio cabelo estar fraco e desgrenhado. Imitava muito bem D. Joaquim Ferreira de Fontes. Apesar de ainda não ter quinze anos, supervisionava as lidas da casa e tratava dos cavalos e do jardim. Sabia que os tempos não eram propícios e que o pai não estava aberto à ideia do seu casamento, embora já tivesse idade para pensar em arranjar marido. No entanto, não andava a choramingar pelos cantos nem procurava descobrir os planos que o pai lhe reservara.

            Catarina era tão especial que não esperava por nada para definir a sua existência.

            Algumas horas antes de a parede estar acabada, Leonor sentiu um peso no ventre. As palavras que havia engolido inchavam dentro de si como uma criança constituída pelas frases que não proferira. Palavras feitas carne. O ruído das pedras a empilharem‑se umas sobre as outras foi‑se desvanecendo. Ana Maria, agasalhada ao seu lado, sonhava acordada e Leonor decidiu fazer o mesmo. Era esse o dom que o espírito dava às mulheres grávidas, um estranho redemoinho de fantasias e desejos vindos não se sabe de onde que obrigava o corpo a sujeitar‑se: aquilo que em língua portuguesa se chamava "entojo".

            Ouviu o coaxar de rãs. Diziam: "Por que razão te abandonas às fantasias do entojo, Leonor Mendes? Não terás mais filhos".

            "Os meus filhos são eternos", disse ela às rãs.

            Abriu os olhos e viu Rui completamente bêbado segurando um gato pelo pescoço.

            ‑ Vou fazer um acordo consigo. Se falar, não faço mal a este gato.

            Ana Maria acordou e disse‑lhe:

‑ Rui, larga o gato!

            - Deixa o pobre bicho em paz! - ordenou Catarina dando‑lhe uma palmada nos braços.

            ‑ Só o largo se a tua mãe falar. Quero ouvi‑la dizer: "Tem razão, Rui. Tudo o que possuímos é seu, incluindo a nossa filha".

            Ana Maria tentou tirar‑lhe o gato.

            ‑ Pára com isso, Rui! Pára!

            As tentativas da mulher para libertar o gato fizeram‑no rir.

            Leonor não se mexeu. Fitou‑o intensamente e fez sinal às filhas para estarem quietas. Ia ensinar a este homem o que as mulheres desta família valiam.

            ‑ Então? Diga que me odeia! ‑prosseguiu Rui.

            Agarrou o gato pela cauda e rodopiou‑o por cima da cabeça. Ana Maria soltou um grito.

            Leonor não desviou o olhar.

            ‑ Vou chamar o papá ‑ disse Catarina.

            Leonor sacudiu a cabeça: "Não, eu trato dele".

            Rui atirou o gato ao ar e voltou a apanhá‑lo. O gato estava todo amarfanhado. Leonor permanecia impassível. Ana Maria suplicava a Rui que largasse o animal. Andavam para a frente e para trás, com Catarina agarrada ao gato, Ana Maria chorando, Caetana batendo com os pés no chão e Rui repetindo "Fale! Fale! Fale!" e atirando repetidamente com o gato ao ar. Mas Leonor recusava‑se a dizer uma palavra que fosse. Até que finalmente o bicho caiu nos braços de Rui com o pescoço partido.

            No dia seguinte Rui trouxe a Leonor um ramo de flores. Sentia admiração por ela. Leonor esperava ter transmitido à filha que a morte de um animal não a impressionava muito; o certo é que reduzira a valentia de Rui a uma palhaçada. Que grande homem! Assassino de animais! Valia a pena vê‑lo envergonhado e dar‑se conta de que elas nunca mais se comportariam como ele queria. Só o marido de Leonor tinha esse dom.

            "Livrámo‑nos do poder do Rui", pensava Leonor. "Se alguma vez tentar rebaixar as minhas filhas, só terão de lembrar‑lhe a cena do gato".

            As pessoas cochicharam sobre a vitória de Leonor. Fora a única pessoa que chamara cobarde a um Lobo e ficara viva. E nem sequer lhe dirigira uma única palavra!

            "Sou mais dura de roer do que os demais", dizia‑se ela. "Mereço o marido que tenho, o homem que procurei desde a infância sem o saber, o homem que dedicou a sua vida a congeminar uma maneira de não morrer".

 

Mariana debruçou‑se à janela do convento para tentar ouvir o distante barulho da festa. A neblina banhava‑lhe o rosto e murmurou: ‑ Acorda, avozinha! Está uma noite como tu gostas, envolta em mantos de fantasmas. Estás a ouvir‑me? O que é aquilo que beijamos mas nunca adoramos, avó? São os nossos destinos?

            Lembrava‑se das discussões que a avó e o pai haviam tido sobre o futuro do país ‑ dependia de nobres como ele ou de mercadores como a avó e o marido, que enriquecera a importar produtos do Oriente. Foram os mercadores, e não os nobres, que haviam construído mosteiros, teimava a avó, contudo sem nunca exasperar Francisco de mais.

            ‑ Acorda, avozinha! ‑ suplicou Mariana. ‑ Acorda e faz‑lhe frente! Ele fingia zangar‑se, mas no fundo adorava aquelas discussões. Tu e a Santa Clara são as minhas heroínas da noite!

            Santa Clara, a fundadora da Ordem, fora fechada no quarto pelo pai mas uma noite conseguira fugir para ir ter com São Francisco, objecto da sua devoção. Ele e os seus discípulos, empunhando archotes, encontraram‑se com ela para celebrar a sua dedicação. Mariana adorava aquela história. Imaginava a avó acordada, com o seu alfinete de pérolas espetado no vestido, tirando uma chave da bolsa e dizendo: ‑ Vem, minha mais‑que‑tudo, chegou a altura de escaparmos e brincarmos às adivinhas.

 

            Um tremor percorreu Maria Alves e os nós nos músculos que recusavam perdoar ao marido soltaram‑se. Onde é que o ano passado se tinha metido? Como é que 1662 se dissolvera em 1663? As suas tarefas estavam quase findas.

            Quem é que lhe invadia o quarto? Era a filha, com Peregrina agarrada à camisa de noite. Catarina, Ana Maria, Francisco e Miguel vinham atrás dela, exigindo saber por que tinham de participar num jogo tão inútil como aquele. Inês, Caetana, Francisco de Melo e Luís, os filhos de Ana Maria, também lá estavam. A neblina da meia‑noite cobria o céu. Juntaram‑se à janela para a ver.

            ‑ Faz um tempo de D. Sebastião, avó! ‑ exclamou Ana Maria.

            Não admirava que Maria Alves estivesse contente. Era uma sebastianista convicta. Todos os bons súbditos do rei aguardavam aquele manto de nevoeiro húmido. Há mais de um século, o jovem rei tinha combatido na batalha de Alcácer‑Quibir. Milhares de portugueses morreram mas o corpo dele nunca foi encontrado. Dois anos mais tarde, a Espanha apoderou‑se de Portugal. E agora o sebastianismo era uma conspiração da memória. O povo rezava para que o rei, a última alma penada, voltasse numa manhã de nevoeiro para os salvar. A sua loucura fora um desperdício de dinheiro e possibilitara a vinda dos espanhóis. Era um soberano intolerante e guerreara os mouros, mas já lhe haviam perdoado isso. A maior parte dos sebastianistas saudosos, tristes e satisfeitos por terem uma boa desculpa para beber uns copos ‑ estaria em peso lá fora aguardando uma visão.

            ‑Já podemos voltar para a cama? ‑ perguntou Miguel.

            ‑ Mamã ‑ perguntou Catarina ‑, D. Sebastião vai voltar? Não o vejo.

            ‑ Mais uma das nossas estúpidas lendas! ‑ comentou Miguel.

            ‑ Tira daí o cotovelo, estúpido! ‑ disse o pequeno Francisco.

            ‑ Calem‑se! ‑ ordenou Inês.

            Era uma tortura para Leonor não poder abdicar do seu silêncio para falar com os filhos. Queria gritar‑lhes: "Olhem para a noite! É uma vergonha termos de dormir e perder as noites. D. Sebastião, sei que vos chamamos O Desejado. Acredito que o vosso nevoeiro proteja do mal a minha Mariana e o meu Baltazar e acalme as preocupações do meu marido. Aqui estão a minha mãe, os meus filhos e os meus netos. A nossa liberdade pode acabar amanhã, mas esta noite somos livres. Durante toda a vida raramente senti, como neste momento, que tudo por que ansiei é meu".

 

            Quem chegou de manhã quando a neblina se levantou não foi a visão de um Salvador mas um mensageiro meio‑esfomeado que entrou na cidade a cavalo transportando o estandarte do rei de Espanha. Beja ainda dormia, após o labor da noite anterior na Casa da Moeda, mas Francisco Alcoforado já se encontrava no escritório a planear transferir o gado para alimentar as tropas.

            O mensageiro encontrou Francisco facilmente. Soube por instinto que quem procurava era aquele homem de cãs brancas que o fitava como se se desse conta de que o futuro só traria dissabores.

            ‑ Trago uma mensagem do rei de Espanha ‑ anunciou.

            ‑ Não lhe dei licença para falar ‑ ripostou Francisco.

            ‑ Tenho a autorização do rei de Espanha.

            ‑ Mas ele não está aqui.

            ‑ Há‑de estar muito em breve, senhor. Ou, antes, os seus soldados. Capturámos Évora e o rei ordena‑lhe que entregue as chaves da sua cidade. É melhor que se renda.

Francisco manteve‑se impávido. Há um ano que negociava o regresso do exército inglês para proteger Beja desta fatalidade. Encontrava‑se sozinho o mensageiro, cujos superiores não haviam tido a cortesia de enviar uma missiva com os termos da rendição. Não se tinham dado ao trabalho de enviar um general ou o rei e a sua guarda. Sentia‑se gravemente ofendido.

            ‑           Também tenho uma mensagem ‑ e desembainha a espada e um punhal.

            E, com uma agilidade que surpreendeu o pobre soldado, encostou‑lhe as duas pontas de aço ao peito.

            ‑           Tratamos bem os nossoS prisioneiros- senhor ‑ disse o trémulo emissário, de costas contra a parede e o queixo enfiado no pescoço.

            ‑           Volta para donde vieste e diz ao teu rei que deve vir em pessoa clamar as chaves da minha cidade! ‑ gritou Francisco. ‑ Beja não se renderá sem dar combate e o rei de Espanha terá de arrancar as chaves do meu punho depoiS de morto!

            Baixou a espada e o punhal e o soldado fugiu a toda a pressa.

            Francisco dirigiu‑se então à Casa da Moeda, onde deparou com Rui ressonando a um canto. Deu‑lhe um violento pontapé e quando ele se ergueu de um pulo levando a mão à espada, disse‑lhe simplesmente:

‑ Os espanhóis tomaram Évora.

            Rui foi imediatamente acordar os irmãos e quando estes viram a sua expressão e Francisco a abrir a caixa de pólvora, aperceberam‑se logo de que se passava algo.

            Em breve toda a população estava a par das notícias. Miguel queria tocar os sinos do campanário a rebate, mas o pai insistiu que deviam pôr em prática o plano de defesa sem mais demoras. O fabricante de sabão e a mulher trouxeram para a rua os mosquetes que haviam escondido no sótão. O açougueiro tirou o canhão que guardara em casa. As mulheres fizeram ligaduras e foram buscar água ao poço. Os Lobo percorreram a cidade a cavalo dando ordens. Por iniciativa de Francisco, a defesa de Beja concentrava‑se nas muralhas viradas a norte, face à estrada que os espanhóis haveriam de tomar, onde carroças carregadas de munições chegavam a toda a pressa.

            Rui, Cristóvão e Bartolomeu ladearam Francisco, que perscrutava o horizonte. Leonor postou‑se como uma sentinela na parte inferior da muralha. Cobriu peregrina e o jovem Francisco com a sua capa. Ana Maria e Catarina

juntaram-se‑lhes- bem como a taciturna avó. A cidade esvaziou‑se pois as pessoas haviam‑se aglomerado no largo. Miguel subiu para a muralha para estar junto do pai, apesar dos gestos da mãe para ficar com ela. Leonor continuava a recusar quebrar o seu voto de silêncio. Aliás, estavam a viver agora momentos para além de qualquer discurso. E limitava‑se a abanar a cabeça sempre que o marido lhe dizia para chamar a carruagem e regressar a casa. Morreriam juntos.

            Antes de reunir o seu estado‑maior, Francisco, de capa ao vento, veio ter com a mulher.

            - Leonor, não creio que ganhemos esta batalha, e por conseguinte gostaria que um de nós saísse vencedor. Tu. É fútil dizer isto agora, mas prometo que a partir de hoje a minha filha e o meu genro já não têm de participar nas despesas da casa. Não faz sentido estarem a pagar o meu enterro. Acabaste por ganhar. Daria tudo para ouvir novamente a tua voz encantadora antes de morrer.

            Ela fitou‑o, surpreendida por ele ter cedido. Era totalmente inesperado. As palavras emperraram‑se‑lhe na garganta e, à vista de toda a cidade, tudo o que saiu da sua boca foi um queixume por Mariana.

            Francisco assegurou‑lhe que ela se encontrava bem protegida no convento e que tinha pena do soldado que tentasse fazer‑lhe mal.

            E quando ela mencionou Baltazar, o marido disse:

‑ Baltazar é louco e Deus protege os loucos.

            - É o amor do meu coração! ‑ gritou Leonor.

            ‑ Eu é que sou o amor do teu coração! ‑ rugiu Francisco.

            ‑           É verdade. Sim, Francisco. És tu o amado do meu coração ‑ repetiu, sem se importar que toda a cidade ouvisse.

            Agora não importava que o mundo acabasse ali.

            Francisco e os irmãos Lobo ficaram de atalaia até ao anoitecer, nunca descansando um só instante. E quando Ana Maria veio trazer‑lhes comida, recusaram. Alguns dos defensores falavam em render‑se. Por que razão teriam de morrer? Só porque os Alcoforado e os Lobo eram teimosos? Que mal fazia tornarem‑se espanhóis?

            Quando este murmúrio se elevou até ao alto da muralha, Rui berrou à população:

‑ Aqueles que quiserem render‑se terão de se haver comigo!

            ‑ Tragam‑nos vinho! ‑ ordenou Francisco. ‑ Ainda não estamos mortos!

            E como eles demorassem a obedecer‑lhe, gritou‑lhes:

‑ Despachem‑se! É preciso que os espanhóis nos vejam bem dispostos e em festa. Vivam como gente livre até ao último momento!

            Alguns deles puseram‑se então a comer e a beber e até dançaram. Mas Francisco manteve‑se no seu posto. Leonor cantou umas baladas aos filhos para eles não sentirem medo. Como as palavras soavam gloriosas, libertas do voto de silêncio!

 

            A Irmã Ignez de São José estava a olhar da varanda para a estrada de Mértola quando o ferreiro surgiu no largo para dar o alerta. Os soldados que guardavam o convento prepararam‑se para o combate.

            A Irmã Angélica de Noronha estava na cozinha a fazer bolos e ouviu gritar: ‑ Évora foi conquistada! ‑ Teve de agarrar‑se à mesa para não cair. A Irmã Brites de Freire pensou: "Que pena! Logo agora que gosto mais da Madre Superiora é que vamos ser todas massacradas".

            A Irmã Beatriz Maria de Resende saiu da sua cela a correr e foi para o coro. Apesar de os seus pobres olhos mal verem as notas da pauta, pôs‑se a tocar a "Avé Maria" no órgão. Pudesse a música pairar no ar por cima do que em breve estaria coberto pelos corpos das freiras suas amigas!

            Ao ouvir dizer que o pai se encontrava na muralha norte da cidade, Mariana sentiu tal confusão de vazio, orgulho e preocupação com a mãe que foi à procura da Irmã Maria de Mendonça, acabando por a encontrar na enfermaria.

            ‑           Madre! Está novamente aqui? Por que razão não me disse que estava doente?

            Maria de Mendonça não teve forças para se endireitar na cama, mas insistiu que Mariana se sentasse ao seu lado.

            ‑           Tenho de confessar que estou com medo ‑ disse, inclinando a cabeça para que a enfermeira, a Irmã Juliana de Matos, não a ouvisse.

            A confissão fê‑la tossir e Mariana pegou num lenço para lhe limpar o sangue.

            ‑           Meu Deus! Quando os espanhóis me vierem cortar as goelas, já não terei uma pinga de sangue. Não receio morrer ‑ prosseguiu Maria de Mendonça. ‑ O que eu receio é desaparecer quando há tanto que fazer. Não achas que estou a ser demasiado arrogante julgando‑me indispensável?

            A Irmã Juliana de Matos aproximou‑se.

            ‑           Irmã Mariana, deixe‑a sossegada. Devia estar na capela a rezar.

            ‑           Deixa‑a rezar comigo ‑ pediu Maria de Mendonça. ‑ O confessor foi‑se embora antes de eu confessar o meu egoísmo por querer companhia. Digamos que esse é o meu último desejo...

            Apesar de não concordar que Mariana ficasse ali, a enfermeira deixou‑as sozinhas.

- Alguma vez te expliquei o que significa mouvement? ‑ perguntou Maria de Mendonça.

            - A irmã Juliana tem razão ‑ disse Mariana. ‑ Precisa de descansar.

            ‑ Devo ensinar‑te coisas que me esqueci de mencionar. Trata‑se de uma palavra francesa e sei que conheces essa língua razoavelmente bem. Significa o arrebatamento que escapa à nossa consciência e vontade. Como as noções sagradas.

            ‑ Sim, Madre.

            ‑ É a melhor palavra que existe no universo ‑ continuou Maria de Mendonça. ‑ O movimento e a emoção que arrebatam uma pessoa. êxtase. Sinto‑me um pouco melhor, sabes? Expliquei-te o significado de uma palavra maravilhosa. Estou a tentar lembrar‑me de tudo o que queria ensinar‑te. Quis esperar pelo momento apropriado para te ensinar esta palavra, mas nos tempos que correm já nem sei o que isso é.

            Mariana limpou o sangue que escorria da boca de Maria de Mendonça.

            ‑ Todas as palavras que me diz são preciosas. Tem de melhorar para me explicar mais coisas.

            Maria de Mendonça acenou com a cabeça e reclinou‑se na almofada lançando um olhar cúmplice a Marina.

            ‑ Obrigada. Considero‑me boa professora graças a ti. Tenho sorte.

            Mariana ouviu gritos de aflição ecoar no convento. Tinha visto freiras à espera da morte na varanda. Onde estaria Baltazar? Como seria bom se ele entrasse a cavalo pelo convento dentro para a salvar! Mas ele não vinha.

            E então... nada. Não aconteceu nada. Tanta espera e nada. Apenas a noite e o fim da noite.

            A noite desaparecendo na madrugada.

            Mariana acordou sobressaltada. Viu a irmã Juliana a lavar Maria de Mendonça e a murmurar que ela morrera para tirar esse prazer aos espanhóis. Mariana disse que não, que Maria de Mendonça estava viva. A Irmã Juliana fitou‑a e pegou‑lhe nas mãos, cruzando‑as no peito de Mariana.

            ‑ Sim, ela vive aí, dentro de ti. É tudo o que resta dela.

            Mariana saiu da enfermaria com as mãos cruzadas sobre o peito e dirigiu‑se para a varanda da galeria superior com as mãos ainda nessa posição. Olhou para as planícies vazias. A brisa afagou‑lhe o rosto. Mouvement? Madre, esqueci‑me de te perguntar como é que este mundo sangrento pode conter palavras tão belas.

            Brites, toda alvoroçada, veio ter com Mariana dizendo que andara à procura dela por toda a parte para lhe dar uma notícia maravilhosa. O compatriota do general Schomberg, o conde de Vila Flor, tinha derrotado os espanhóis em Ameixal. Haviam detido o seu avanço em direcção a Beja.

            ‑ O teu pai ainda está nas muralhas, mas já não é para enfrentar o inimigo. É porque toda a gente o aclama. Estás a ouvir‑me, Mariana?

            Brites ficou surpreendida ao ver que a amiga tremia e que as suas mãos estavam cruzadas no peito como uma cruz de ferro. As lágrimas estavam suspensas no seu rosto, contrariando as leis naturais.

 

            Leonor estava espantada por se sentir tão serena quando Beja estava prestes a ser destruída. A sua cidade e a sua família estavam a salvo, pelo menos por agora, mas o seu ventre fechava‑se, tinha os braços e as pernas hirtas e os músculos das pálpebras partidos. Estava quase a fazer cinquenta anos. Será que o seu corpo estava a endurecer por causa da dor de não poder ter mais filhos ou por os ter tido? Debateu‑se contra a vontade de gritar pela mãe. As pessoas diziam que o marido não a compreendia, mas ela sabia bem que não era assim. Certa vez ele entrara no seu quarto com um desenho que fizera dela deitada nua sobre um pano.

            ‑ Aguardei, novamente em vão, pela inspiração divina, e por isso desenhei‑te a ti.

            Baltazar fora concebido nessa noite.

            Hoje ele entrara no seu quarto com o testamento que Leonor redigira no dia anterior e dissera‑lhe:

- O que é que isto significa? Achas que sobrevivemos à ameaça de sermos massacrados para tu desistires de tudo?

            ‑ Ontem pensava que ia morrer ‑ respondeu Leonor. ‑ Agora não receio a paz dos Céus.

            ‑ Proibo‑te de morrer.

            Riram‑se ambos, mas o esforço para não chorar traçou rugas na testa do marido. Nos primeiros tempos de casados, ele escovava‑lhe o cabelo todas as noites, mas há muito tempo que não o fazia. Porém, Francisco pegou numa escova e penteou‑a longamente. Deleitada, Leonor encostou a cabeça ao peito dele. Há muito tempo que também não fazia aquilo. Talvez fosse um gesto mais próprio para os jovens e para os velhos, mas sempre negligenciado ao longo dos anos entre essas duas idades. O espanto de ouvir, com a cabeça encostada ao peito, a respiração profunda, a serenidade, o pensamento que dizia: Pertenço‑te! Pertenço‑te! A ti!

            Se se deitasse sem se mexer, talvez o seu corpo crescesse e se transformasse em paisagem, num país coberto de planícies e contorcendo‑se na terra sedosa. O seu cabelo lustroso e macio seria um rio. Podia permanecer assim unida à terra, vendo o marido lutar por ela e os filhos a correr por cima de si e a dizer: "Não te preocupes, mamã. Vamos explorar as tuas grutas e voltar". Se ela fosse o país do marido e dos filhos, não a abandonariam. O seu peito arfou com uma ferocidade que quase a curou quando o marido disse: Amo‑te com todo o meu coração e do fundo da minha alma. Não te rendas. Não desistas agora. A paz chegará em breve.

            Há meia vida que ouvia dizer aquilo. Era um país exausto e já não podia esperar para viver em paz.

            Mais valia que tivesse deixado este mundo ao ouvir Francisco reiterar finalmente que a amava, mas a época moderna tinha arruinado a precisão do tempo. Viveu durante mais uns dias. Embora o marido lhe fizesse companhia fielmente, não esteve junto dela no momento final. Houve pessoas que perceberam que Leonor, por instinto, tinha morrido para assegurar que a sua querida Mariana sofresse duas perdas de uma só vez: a mãe verdadeira e a Madre do convento. Outras diziam que Francisco da Costa Alcoforado fizera tudo para que ele e a família vivessem para sempre e que agora estava irritado por a mulher o ter surpreendido com aquela desfeita. Deviam ter vergonha de pensar tal coisa, replicavam ainda outras. Francisco da Costa deixara que a mulher levasse a melhor na presença de imensa gente. Chamem‑lhe o que quiserem, mas o amor deles era demasiado ardente para vocês entenderem.

            Quando Leonor se ergueu da cama e se deitou ao lado da mãe, o marido tinha ido receber uma carta real ordenando que Beja resistisse e prometendo reforços.

‑           Mãe, fica aqui comigo e repousa - murmurou Leonor. ‑ Mas faz‑me um favor. Deixa‑me ser eu a ir à frente.

 

            Mariana recuou.

            - Catarina! - exclamou. ‑ Como cresceste!

            ‑           Mariana! - disse uma rapariga de saia azul até aos tornozelos e corpete da mesma cor. Trazia um cesto vermelho e verde coberto por um pano branco na mão. Uma touca azul celeste emoldurava‑lhe o rosto redondo. A pele era branca como a do pai e o cabelo castanho dourado. Segurava pela mão uma menina vestida com um manto vermelho vivo e botas de carneira que ressoavam no chão de ladrilhos do locutório. Tinha os dedos da mão livre metidos na boca.

‑ Peregrina, diz olá à tua irmã mais velha. Lembras‑te de eu te dizer que o nome dela é Mariana? ‑ disse Catarina.

                        A menina fitou Mariana.

            ‑Tem medo das freiras, mas não te preocupes ‑ explicou Catarina.

                        ‑ Freiras? ‑ repetiu Mariana. Será que se parecia com uma freira?

            Catarina destapou o cesto e ofereceu um bolo de amêndoa a Mariana.

            ‑Já comeste? ‑ perguntou‑lhe docemente.

                        Mariana fugiu. Ninguém dava más notícias sem primeiro inquirir se a outra pessoa tinha o estômago cheio. Refugiou‑se na cama. Lá fora os trabalhadores arrastavam blocos de pedra para construir uma nova ala. Marteladas leves e pesadas tiravam das pedras uma música estranha acompanhada de grunhidos e suspiros ofegantes que a impediam de dormir. Sentiu fome, primeiro um pequeno apetite a gotejar e depois uma necessidade urgente a jorrar. Corria o risco de encontrar Catarina no refeitório. Era muito possível. "Era como procurar uma freira num guisado de freiras", como Brites costumava dizer.

            O fumo dos archotes do refeitório envolviam as freiras sentadas nas mesas compridas. Mariana lançou uma espreitadela e não viu Catarina.

            A Irmã Angélica de Noronha ralhou com Mariana por chegar tarde. Serviu‑lhe uma concha de sopa e meteu‑lhe no prato uma côdea de pão para servir de colher. A maior parte das freiras já estavam a comer bocados estaladiços de encharcada gemas de ovo com açúcar e canela.

            Mariana sentou‑se entre as Irmãs Dolores e Maria de São Francisco. De repente avistou Catarina, vestida com o hábito branco das postulantes e noviças, sentada a uma das mesas com Peregrina ao colo e ensinando‑a a servir‑se do pão como colher. Catarina viu‑a e certamente também a vira quando entrara no refeitório. Mariana deixou a côdea de pão cair na sopa, como se dissesse: "O meu estômago está vazio. Por favor, não me dês nenhuma notícia triste!".

            Catarina fez‑lhe um gesto como se dissesse: "Come, Mariana. Peço‑te. Não deves culpar‑me por ter algo para te dizer". A seguir levou as mãos ao rosto e deixou‑as escorregar lentamente enquanto fechava os olhos.

            Uma máscara da morte.

            Espirais de fumo esculpiam no ar o diálogo silencioso entre as duas irmãs. Alguém morrera.

            A Irmã Francisca Freire bateu no peito fazendo sinal a Mariana para comer: "Tem coragem. É preciso que saibas a verdade".

Mariana mastigou um bocado de pão e depois pousou o prato de sopa no chão. Fez um amplo gesto à frente dos seios, como se fossem gigantescos, para perguntar se era a avó.

            Catarina abanou a cabeça e ambas taparam a boca com as mãos ao mesmo tempo para não desatarem a rir. A lenda do tamanho do peito da avó perdurava.

            A Irmã Michaella dos Anjos cerrou os lábios reprovadoramente. Algumas freiras puseram‑se a observar os gestos das irmãs Alcoforado.

            A Superiora bateu com as mãos. Não era antipática, mas tinha aquele ar de fadiga de alguém prestes a desfalecer numa cadeira sem motivo aparente e gemesse "Ai, meu Deus!", como se tivesse acabado de escalar uma montanha. Era tão difícil fazer qualquer coisa neste país! Tanta poeira do passado, como nuvens invisíveis, nos ombros das pessoas!

            A Superiora pegou numa colher e apontou para Mariana e Catarina para lhes indicar que comessem e se deixassem de graças. As palhaçadas não eram a mesma coisa que o silêncio.

            Mariana e Catarina entreolharam‑se e ficaram à espera que as outras recomeçassem a comer.

            Tremendo de medo, Mariana levantou um punho ao nível do peito ‑ o papá desembainhando a espada.

            Catarina moveu os olhos de um lado para o outro. Não, não era o pai.

            "Não aguento mais!", disse o olhar implorador de Mariana.

            A irmã rodou gentilmente o rosto de Peregrina na direcção de Mariana.

            "Não!". Os dentes de Mariana morderam o interior das faces até sentir o gosto do sangue na boca. "Não!".

            Os lábios de Catarina estremeceram, mas manteve a cabeça de Peregrina virada para a irmã. Mariana olhou para a Superiora na esperança de que esta batesse novamente com as mãos e lhe desse a entender que Catarina mentia.

            Peregrina tinha os olhos e o cabelo da mãe e o mesmo olhar compenetrado. Era a mamã. Catarina estava a dizer‑lhe que a mãe tinha morrido. Leonor tinha agora o tamanho de uma criança, uma nova vida, como se dissesse: "Aqui está esta criança para me substituir. Adeus, Mariana! Adeus! A tua mãe manda‑te muitos beijos. Lembras‑te que púnhamos imenso pó‑de‑arroz no rosto quando havia festas e dizíamos que parecíamos fantasmas? Não é difícil ser fantasma. Sê tão forte como sempre foste, Mariana".

 

Nessa noite, antes do Grande Silêncio, a Irmã Leonor Henriques explicou a Mariana que a Ordem tinha concordado em aceitar Catarina e Peregrina, embora esta fosse demasiado nova. Ana Maria tinha‑se oferecido para tomar conta de toda a gente e tratar da casa, mas isso era de mais pois agora tinha cinco filhos para criar. O barulho das pedras que Mariana ouvia provinham da construção de uma nova ala que o pai oferecera em nome da mulher. As filhas viveriam nesses novos aposentos. Peregrina ficaria com Catarina ao lado da "casinha" nova de Mariana, mais agradável do que a que tinha agora.

                        ‑ A vossa mamã quis que vocês ficassem a viver juntas num lindo lugar

‑ disse a Irmã Leonor Henriques.

                        A Superiora haveria de escolher outras freiras de famílias nobres para ficar nos alojamentos restantes.

 

            Querida Ana Maria,

                        É‑me impossível pegar na Peregrina ao colo. Parece‑se tanto com a mamã! Fujo quando ela chora e para mim é um alívio haver tantas freiras que cuidem dela, como se brincassem com uma boneca, e a levem para toda a parte. Catarina trabalha no jardim e deixa‑a fazer pequenas tarefas. Isto não é tão idílico como parece, pois o jardim nunca foi bem tratado.

                        Do que te lembras da mamã? Tenho saudades do que não sei dela. Esta vida tempestuosa não satisfaz nenhum dos meus desejos!

                        Lamento saber que o Rui e o papá continuam de más relações. Parabéns pelo nascimento dopequenino Bartolomeu! Espero que ele te traga o conforto que mereces. Por favor, deixa de te censurares por não me teres visitado ultimamente.

                        Mil beijos da tua constante,

                        Mariana

 

            Catarina Alcoforado possuía uma paciência de vegetal. Tirava água do poço e ficar a olhar a superfície do balde em forma de moeda à espera que o limo vermelho afundasse para poder então regar a horta com água cristalina. Mariana não tinha tanta paciência; pegava logo no balde e regava os canteiros deixando que a água e o limo se misturassem em poças vermelhas que eram sorvidas pela terra.

            Catarina roubava colheres da cozinha ‑ era uma Alcoforado, e quando queria qualquer coisa apoderava‑se dela ‑ e usava‑as para verter a água, gota a gota, nas fendas de terra seca, como se estivesse a fazer uma operação cirúrgica ao jardim. Possuia a tolerância e a fé de um autêntico jardineiro. As plantas haviam de desabrochar...

            Quando tentou convencer Mariana a plantar uma laranjeira, esta não se mostrou muito entusiasmada pois a árvore só ficaria grande depois de terem morrido.

            Catarina respondeu‑lhe:

‑ Mas vê‑la‑emos crescer enquanto estivermos vivas.

            Os aposentos que o pai mandara construir ficaram prontos quase de um dia para o outro. Como a Superiora prometera, Catarina e Peregrina ficaram alojadas ao lado da nova "casinha" de Mariana, que mudou toda a sua mobília para lá: cama, escrivaninha, tapetes, crucifixo e cadeiras. Era como se possuisse um pequenino reino só dela. (Para Mariana, um reino era um Sítio onde podia refugiar‑se, mas para o pai um reino devia ser tão grande que só pudesse ser percorrido a cavalo).

 

            Matinas

            O coro ensaiou a "Hossana" em canto gregoriano. A Irmã Dolores ensinava os princípios do estilo reiterativo que entrelaçava e difundia a linha melódica. Denominava‑o "oriental". Mas as freiras mais velhas resmungavam que lhe faltava clareza.

            A marquesa Dona Fernandes, que gostava de assistir aos ensaios, imitou o rei D. Afonso VI, um rapaz de dezanove anos, louco e coxo, que o ambicioso irmão prendera num quarto.

            Brites riu‑se, mas Mariana deu‑lhe uma cotovelada para ela se calar. Receava que fosse um mau agoiro o facto de ter tomado os votos no mesmo ano em que morrera D. João IV, rei da guerra, o seu rei. Tornara‑se freira no ano em que a imbecilidade começara a reinar.

 

            Oferecemos ao Céu as nossas tarefas quotidianas.

            A Irmã Michaella dos Anjos polia os escudos na Sala dos Brasões do convento. Cuspiu no brasão azul e prata dos Alcoforado pois culpava Francisco da Costa pela presença de mercenários estrangeiros em Portugal. Também não gostava que Mariana andasse por ali como uma rainha. E também desprezava o brasão dos Lobo. Rui julgava‑se muito esperto e entrava com os seus amigos soldados no locutório para atormentar a Irmã Leonor Henriques a propósito das suas propriedades. As freiras ficavam ali sentadas de boca aberta enquanto Rui se gabava das suas proezas. Ah! Como os detestava a todos!

            Virou‑se e viu Catarina e Peregrina a observarem‑na. Tê‑la‑iam visto cuspir no brasão do pai?

            ‑ É muito simpático da sua parte dar‑se a todo esse trabalho para que o escudo da minha família brilhe ‑ sorriu Catarina.

 

            Terço

            Ao reler as "Regras" de Santa Clara, a Irmã Leonor Henriques ficou impressionada com uma passagem do livro: "As Irmãs não podem possuir quaisquer bens nem casa, absolutamente nada. Serão peregrinas e estrangeiras neste mundo...". Teria Peregrina sido enviada para lhes lembrar tal coisa?

 

           Dona António Sofia Baptista d'Almeida, uma freira que viera da Évora cercada, queixava‑se do frio. Toda a gente lhe dizia que fazia calor e que estava a ser absurda. Mas Catarina Alcoforado tinha‑lhe trazido mais cobertores pois compreendia‑a. Que frio! Tal acto de compaixão tinha aquecido a alma da Irmã António Sofia Baptista d'Almeida.

 

            Todas cantaram o "Stabat Mater", a "Ave Verum". Catarina Alcoforado tinha uma voz de alto tão horrível e exuberante que a Irmã Dolores lhe disse:

‑ Minha querida, por favor canta mais baixo.

            ‑ Pensei que tinha de cantar suficientemente alto para que a minha voz chegasse ao Céu. Está tão longe! ‑ respondeu Catarina.

            A Irmã Maria de Castro sufocou de riso. A Irmã Dolores pensou: "Esta alegre rapariga engana‑se. O Céu está onde ela está".

 

            A Irmã Brites de Freire tinha aprendido a dobrar guardanapos em forma de pássaros. Catarina confessou que também fazia o mesmo quando tratara da mãe e da irmã ‑ transformar as coisas vulgares para as alegrar.

 

            Apesar de a Irmã Ignez de São José sonhar com jardins, nunca plantara nada. Como toda a gente pisava o chão, seria um desperdício. Mas Catarina plantava e voltava a plantar quando uma planta era espezinhada, e ria‑se, avisando as freiras que passavam para se afastarem das suas plantas. Ao ver Ignez a observá‑la, Catarina convidou‑a para tratar de uma trepadeira na parede e a sua inveja desapareceu logo.

 

            Certo dia a Irmã Maria de São Francisco raptou Peregrina. Catarina, desesperada, encontrou‑as na antiga prisão. Se a sala pudesse conter todas as que mereciam ser presas por violar os regulamentos do convento, as paredes ter‑se‑iam desmoronado. A Irmã Maria de São Francisco gostava de esconder‑se ali porque ninguém ia lá e porque imaginava que os gritos das freiras outrora presas ainda ecoavam nas paredes, o que lhe provocava dores na alma. A Irmã Maria de São Francisco pensou: "A Catarina foi capaz de seguir o palpitar do coração da Irmã". E acrescentou em voz alta: Não pensaste que ela tivesse saído do convento, pois não?

            Quando olhava para as Irmãs Alcoforado, sentia o fogo da rebelião incendiar‑lhe as entranhas, o desejo de ser temerária. Como era bom sentir a ousadia destemida delas fazendo subir‑lhe a temperatura do sangue!

 

            Sexta

            A Irmã Brites de Freire repreendeu Mariana por evitar Catarina e Peregrina. (Não era muito frequente sentir‑se superior a Mariana).

 

            Na escuridão, a Irmã Michaella dos Anjos ergueu os olhos para a imagem de São Jorge no altar, com a sua armadura e montado num cavalo branco. E pensou: "A Peregrina Alcoforado gostaria de ter um brinquedo assim?".

 

            A Irmã Maria de Santiago foi apanhada a vestir Peregrina e a pintá‑la como se fosse uma verdadeira Boneca das Vaidades.

                        A Irmã Maria de Santiago confessou a sua vontade de fingir que Peregrina era sua filha, ao que Catarina respondeu: ‑ É tua filha. Não tens de fingir.

 

                        Estudo e Meditação

                        A Irmã Mariana pouco saía do scriptorium. A Irmã Brites de Brito encarregara‑a de escrever as "Quarenta Horas" e era difícil saber o que merecia ser anotado. Quais foram as melhores coisas que aconteceram nas últimas quarenta horas? Incluiu o sermão da Superiora Joana de Lacerda sobre o que se passava no Convento da Esperança das Carmelitas, em Beja. A Superiora declarara que a autenticidade dos estados de êxtase que a Irmã Mariana da Purificação registara nesse convento era um problema cuja resolução pertencia aos pais espirituais da Igreja. O desejo de escapar a esta época tumultuosa tinha influenciado as jovens freiras e levara‑as à histeria.

            Mariana sentiu afinidades com essa freira que nunca encontrara e que possuía o mesmo nome. A marquesa Dona Fernandes descobriu uma cópia do relatório da Irmã Mariana da Purificação e fez circular (em voz baixa, de mão em mão) aquelas palavras proibidas entre as outras freiras do Convento da Conceição. Mariana arriscou‑se a transcrever nas "Quarenta Horas" algumas passagens desse relatório:

            " Onde poderei viver sozinha com o meu Amor longe de todas as actividades terrenas- Porque eu habito com o meu Esposo Celeste e nunca estou só. Ele visita‑me em arrebatamentos amorosos e faz‑me esquecer tudo e todos e transporta‑me para o deserto.

            Sou possuída por êxtases! O meu coração explode e voa para onde quer e prova que não pode viver dentro de mim, apenas com o meu Divino Esposo. Ele junta‑se a mim na cama e eu passo toda a noite em união com o meu Amor. É tão doce que por vezes me levanta no ar, envolta na força do Seu amor, como se me chamasse.

            Ouço coisas, coisas que a voz humana não pode proferir! Sei bem que não consigo libertar‑me, e quando o meu corpo é tomado por estes espasmos, não ouço nem vejo ninguém. Ele abre os braços e eu sinto um fogo ardente queimar‑me as entranhas. Vem sem aviso. Na noite passada ardi nesse fogo desde a hora do jantar até às nove da noite; o ardor divino nunca cessou. Quem, na história da humanidade, poderá relatar estas revelações? Sinto tanto amor, Irmãs, que devo contar‑vos tudo, embora sofra dores horríveis e impossíveis de relatar quando não tenho o meu Amor, e mesmo quando sou consumida".

            O que é que Mariana poderia escrever mais? O que é que havia de comparável a este majestoso enlevo? Da janela do scriptorium via Catarina e Peregrina no jardim alçando um balde de água do poço. A chefe das cozinheiras, a Irmã Angélica de Noronha ‑ esse ogre ‑, ajudou Catarina a transportar o balde. Pararam para Peregrina pôr as mãos nas asas do balde e fingir ajudá‑las, transformando assim uma operação rápida, e que requeria apenas uma pessoa, numa brincadeira. Trouxeram o balde até à porta da cozinha, que a Irmã Brites abriu, despejando então a água fresca num caldeirão. Seguiu‑se uma cena curiosa: Catarina e a Irmã Angélica ajudaram Peregrina a subir para dentro do balde, agora vazio, e ambas levaram a criança de novo até ao poço. Por vezes pousavam o balde para recuperar o fôlego, enquanto Peregrina batia palmas de contentamento. Todas elas riam, felizes.

            Há mais de treze anos que Mariana se encontrava no convento e nunca tinha visto a Irmã Angélica de Noronha rir.

            Deveria incluir nas "Quarenta Horas" a cena que acabara de presenciar?

            Decidiu omiti‑la, mas nessa noite foi ter com as irmãs quando elas se retiraram para os seus aposentos.

            ‑ O que é que foi toda aquela brincadeira no jardim? ‑ perguntou a Catarina sem olhar sequer para Peregrina. ‑ E com a resmungona da Irmã Angélica de Noronha ainda por cima?...

            Era muito simples, explicou Catarina. Ao entardecer esperavam que a Irmã Angélica acabasse o seu trabalho na cozinha e viesse carregar baldes de água e brincar com Peregrina. Quando era criança, a Irmã Angélica costumava ter a seu cargo a tarefa de transportar a água e isso permitia‑lhe não sentir tantas saudades de casa. Talvez Peregrina lhe lembrasse uma irmã mais nova que não via há muito tempo. Mas Mariana, que estava ali há tanto tempo, certamente estava a par disso.

            ‑ Ela é muito boazinha, não achas, Mariana? ‑ perguntou Catarina.

            - Quem? A Irmã Angélica de Noronha?

            Mariana não respondeu. A primeira coisa que lhe ocorreu foi que a irmã se ocupara sempre da lida da casa e possuía o condão de a tornar numa tarefa agradável. E a segunda foi que Catarina descobrira algo sobre a irmã Angélica que de certo modo a tornava humana.

            ‑ Amanhã vens ter comigo ao scriptorium? ‑ perguntou Mariana. - Desculpa se ainda não me interessei pelo teu trabalho. Hás‑de mostrar‑me o teu jardim.

            Catarina respondeu‑lhe que o dia de amanhã iria ser glorioso.

 

                        O nosso encontro diário para discutir os assuntos temporais e espirituais da comunidade.

                        A Superiora avisou as freiras que as violações às regras de indumentária deveriam cessar e que não podiam pedir aos oficiais de cavalaria que frequentavam o convento para entregar missivas. Tais comunicações com o exterior eram comuns, mas contra os regulamentos. Sabiam elas que os franceses tinham o hábito de ler por diversão as cartas pessoais em salões mundanos? Queriam que as suas palavras íntimas fossem expostas assim?

            A Sala do Capítulo, revestida de azulejos mudéjar, era tão magnífica que Mariana teve vontade de gritar: "São exactamente iguais aos que há lá em casa, Catarina!".

            Era difícil manter‑se calma e não apontar para as falhas deliberadamente introduzidas nos azulejos para que essa perfeição não superasse a de Alá.

            Gostaria que a Superiora se calasse. Mariana queria dizer a Catarina que deviam deixar‑se transportar nessas curvas do azul e voar para longe. Coroas azuis, traços azuis, adagas azuis, lagos azuis. Olhos azuis, escrita azul.

            A Superiora fazia agora a comparação entre o ambiente austero de Santa Clara e a desobediência e extravagância que reinavam ali. A guerra não constituía nenhuma desculpa.

            Aquela hora parecia não terminar.

 

            Quando Mariana chegou ao scriptorium no dia seguinte, Catarina já lá se encontrava à sua espera. Lia um livro, com Peregrina dormindo no seu colo. Mariana ainda não conseguia olhar para a criança, mas disse a Catarina:

‑ Pensava que não sabias ler.

            ‑ E não sei ‑ murmurou Catarina para não acordar Peregrina. ‑ Mas reconheço as letras do teu nome. Escreveste‑mas um dia, quando ainda viviamos todos juntos, e eu guardei a folha de papel. Estavas a exibir‑te, mas eu não me importei.

            ‑ Tu ainda eras um bebé. Devias ter mais ou menos a idade de... ‑ e apontou para Peregrina sem ser capaz de lhe tocar ou pronunciar o seu nome.

            ‑ Eu sei. Olha! Descobri um "a" e um "i". E aqui está um "m"...

            ‑ Não. Isso é um "n".

            O rosto redondo e vermelho de Catarina iluminou‑se.

            - Um "n"? Tens a certeza? Hoje percebi finalmente o que é um "N"!

            Ambas gostavam muito de santos e comentaram a história de Maria de Vilíani, que dizia que o seu coração fora trespassado por uma espada espiritual. Após a sua morte, a autópsia provara que ela tinha uma ferida cautenzada em forma de beijo igual à que descrevera em vida. Catarina também gostava de Fiacre, o padroeiro dos jardineiros, e Mariana gostava de Edite, que vivera num claustro mas apreciava roupas finas, e que mesmo assim fora canonizada santa. Estavam ambas de acordo quanto a Santo António, padroeiro dos apaixonados e de Portugal, cuja língua, após a sua morte, nunca se decompusera ("Sanduíche de língua", disse Catarina). E sobre o arcanjo Rafael, que abençoava os encontros felizes ("Sim!", exclamaram Mariana e Catarina ao mesmo tempo). Apreciavam A Admirável Cristina, que levitava para escapar ao fedor das pessoas. ("Deve ter vivido em conventos apinhados de freiras", disse Mariana, e Catarina riu‑se tanto que quase acordou Peregrina).

            Santa Catarina de Bolonha, da Ordem das Pobres Claras, tinha ilustrado um breviário no século XV. Os monges não eram os únicos artistas... O corpo dela não se corrompera e exalava um odor a violetas.

            ‑ Vou mostrar‑te o meu livro preferido ‑ disse Mariana. ‑ Mas tens de prometer que não dizes a ninguém.

            ‑ Prometo ‑ concordou Catarina.

            Por detrás de um painel escondido no fundo de um armário de pau‑brasil estava um livro, seco como uma folha, que a Irmã Francisca Freire mostrara uma vez a Mariana. Tratava‑se de um relato dos milagres vividos pelas freiras do Convento da Conceição. Mariana leu algumas passagens a

Catarina:

            "O rosário da Irmã Maria de Assunção embranqueceu nas suas mãos quando assistia ao enterro de outra freira".

            "A Irmã Catarina do Espírito Santo disse aos pais que preferia Jesus ao marido que haviam escolhido para si, e uma hora depois de ter morrido no claustro, o seu corpo foi consumido por um fogo divino".

            "Uma noite, a Irmã Helena de Jesus viu um grupo de santos a passear nas arcadas do claustro".

            "Quando a Irmã Catarina de Aragão, freira muito dada ao jejum e à penitência, foi a enterrar, surgiram estrelas à sua volta".

            "A Irmã Guiomar de Jesus, encarregada do coro e do ofício divino, encontrava‑se doente na cama e não podia assistir às matinas. Mas arrastou‑se até ao coro e caiu, recitando sozinha a missa a que tinha faltado. Uma freira que se encontrava por perto ouviu vozes celestiais a acompanhar a oração da Irmã Guiomar.

            ‑           Deus meu! ‑ suspirou Catarina,

            ‑           Também desejo presenciar um milagre ‑ confessou Mariana. ‑ Tu não?

            Para ela, os santos eram possuidos por Deus, eram os eleitos, os escolhidos, e ficavam envoltos de glória.

            ‑           É por isso que gostas dos santos? ‑ perguntou Catarina.

            Peregrina despertara entretanto.

            ‑           Não é por isso que toda a gente gosta deles? São lembrados por serem especiais.

            ‑           Sofrem todos os dias ‑ disse Catarina. ‑ Santa Teresa agarrava‑se às grades quando levitava, suplicando a Deus que lhe retirasse aquele poder. Os santos são gente comum, não achas, Mariana? Os milagres surgem das coisas simples. Pensa nas mulheres desse livro. Uma que recitava o rosário, outra que jejuava.

            ‑           E as outras que tiveram visões de mortos?

            Catarina reflectiu ao mesmo tempo que brincava com Peregrina.

            ‑           Como todos nós morremos, a visão da morte não será a coisa mais vulgar do mundo? É apenas uma questão de nos predispormos para esse momento. É como uma recordação, apenas mais luminosa. Vejo a mamã todos os dias e tenho a certeza de que tu também.

            Mariana admitiu que era verdade e Catarina disse‑lhe que bastava de teologia. O sol já nascera e queria mostrar‑lhe o jardim.

            ‑           O jardim é outro milagre vulgar. Não queres vir?

            ‑           Vamos - concordou Mariana.

 

            Nessa noite, Catarina ouviu a Senhora Dutra, uma refugiada, a chorar na "casinha" ao fundo do corredor. O seu marido tinha morrido numa batalha.

            Catarina bateu à porta de Mariana e entregou‑lhe Peregrina: ‑ Toma conta dela que eu vou reconfortar a Senhora Dutra.

            Mariana deitou Peregrina num canapé ao canto do quarto.

            ‑           Agora dorme.

            Revirou‑se na cama e tentou descansar, mas sentia a criança a olhar para si. Ergueu‑se e fez sinal à irmã.

            ‑           Vem cá, mas fica quieta. Senão voltas para o mesmo lugar.

A pequenina subiu para a sua cama e Mariana deitou-se afastada dela, não fazendo menção de lhe falar, de a beijar ou mesmo de a tocar.

 

            Querido Baltazar;

                        Tudo o que posso fazer é não ralhar contigo por te teres deixado influenciar por Rui e andares todo entusiasmado com batalhas. Apesar do prazer que senti ao beijar-te hoje (bem como Catarina e Peregrina) fiquei chocada ao ver-te fardado. A minha única consolação é que o papá se sinta orgulhoso de ti e possa mudar de ideias quanto ao teu futuro. Julguei que ele nunca te permitisse sair do convento, mas, segundo tudo leva a crer, a tua impetuosidade ganhou.

                        O teu entusiasmo era tal ao falar dos oficiais franceses acampados perto de ti e era tal a tua esperança em encontrar o general Schomberg que te perdoo e permito que sigas a carreira militar. Não deves culpar-me por sentir receio por ti.

                        Sê cuidadoso. Todo o meu carinho,

                        Tua, Mariana

 

            Catarina havia aprendido a penetrar no silêncio quando se ocupava da casa dos pais. O sossego ajudava-a a suportar o tédio do trabalho e os seus ouvidos sentiam-se confortados pelo cantar abafado da mãe que lhe chegava aos ouvidos. Ensinou Mariana a escutar o que se passava para lá dos muros do claustro, a debruçar-se sobre o silêncio interior e

deixar-se transportar. Mariana não ouviu as árias que a mãe costumava cantar, mas escutou a respiração de Baltazar, assegurando-se assim de que ele estava vivo algures. Pelo ritmo da sua respiração, podia avaliar se ele estava com medo. Ansiava por o ouvir, e então a sua imaginação inventou o ruído de espadas a cruzarem-se, tiros de mosquete e cavalos a relinchar. Tapou os ouvidos, amedrontada.

            Catarina deitou-se ao lado de Mariana para viajarem juntas. Talvez fosse menos assustador. Deram as mãos e ficaram muito quietas para ver aonde o silêncio as levaria.

            O espírito de Mariana passou pelos sobreiros do Alentejo, os ramos nus como pernas de meias brancas no ar, os troncos vermelhos e as cabeças enfiadas no solo. As pernas das árvores abriam-se, indefesas.

            - Baltazar? - chamou, vagueando por cima dos acampamentos militares. - Por que é que não há guloseimas nos santuários às almas penadas?

            Foi pelos ares até à mansão onde ela e Ana Maria tinham nascido antes do papá mudar para a propriedade nos arrabaldes da cidade. Avistá-la do convento era impossível e ela desejava voltar a ver o touro que o pai gravara numa das paredes. A casa havia pertencido à avó, mas o papá ficara com ela dizendo que, como nobre e oriundo de Trás-os-Montes, tinha esse direito. Encontrava-se agora vazia, mas o pai recusava vender o que era dele. Ficava na Rua do Touro, em honra do animal que é dono da terra que percorre. Mariana voou até lá e acariciou o touro gravado pelo pai.

            Por que não esgueirar-se até a um dos quartos de Beja e, a coberto da noite, ver o que se passava? A Senhora Ferreira de Fontes a ser despida por um rapaz e acariciando-lhe a cabeça enquanto ele a descalçava.

            Ana Maria, mulher casada. Os filhos choravam com cólicas. A avó ali deitada sem ouvir Mariana a dizer: "Avozinha, vem connosco. Vem!".

            Por que razão não ir até ao mar? (Não, não podia ir ver esse azul espesso sem Baltazar). Como era injusto e terrível ter nascido em Portugal! Por que razão não voar até Madrid para ver as torres? Por que razão não se aventurar nos salões franceses onde as mulheres ajustavam o cabelo e os corpetes? Haveria de espreitar homens a despirem-se.

            Viajou até ao Convento da Esperança para fazer uma visita à Irmã Mariana da Purificação e esperou para ver o Divino Esposo entrar na cama dela. Fartou-se de esperar.

            - Mariana - sussurrou Catarina. - Agora volta e diz-me aonde foste.

            Mariana abriu os olhos e contou-lhe as peripécias da sua viagem sem lhe falar dos homens.

            - E tu? - perguntou a Catarina.

            Catarina apertou-lhe a mão.

            - Não fui a lado nenhum. Quando foi a última vez que estivemos juntas, só tu e eu, como agora? Tudo o que fiz foi apaixonar-me pela maneira como respiras. Nunca passei tanto tempo contigo, Mariana.

 

            Nos arcos junto da Sala do Capítulo estavam esculpidos corpos cobertos de escamas com garras afiadas como sabres contorcendo-se nas chamas do inferno. A rosa mística do céu figurava na abóbada dos arcos. Entre os horrendos corpos e a rosa mística encontrava-se um caracol.

            - Consigo ver o Céu e o Inferno muito bem - disse Catarina. - Mas tenho de admitir que o caracol me faz confusão.

            - A Irmã Maria de Mendonça explicou-me quando cheguei aqui pela primeira vez - disse Mariana, que detestava ter de confessar a Catarina que dantes havia coisas que ela própria desconhecia. - Disse-me que a falta de imaginação era um dos maiores males da humanidade. A inactividade era mortal. O melhor era que o caracol olhasse e declarasse o que é o Céu em todas as suas manifestações e o que é o Inferno.

            - É melhor estar vivo, vendo e imaginando o melhor e o pior de tudo, do que ser cobarde? É melhor possuir o espírito todo e aventurarmo-nos?

- É.

            - Mariana! - exclamou Catarina a rir. - Quer dizer que tenho de deixar de detestar os caracóis por comerem as minhas plantas?

            - Agradece-lhes por te ensinarem a ser activa e arrojada e depois esmaga-os com o pé.

 

            Algumas crenças expressas por Catarina Alcoforado quando se preparava para ser admitida como franciscana na Ordem das Pobres Claras: A tarefa das freiras é chorar a Criação>

cantá-la e expiar as suas faltas. Não devem refugiar-se do mundo, mas esforçarem-se por o alimentarem.

            A tarefa das freiras é lutar contra o impulso de usar as ora ções como se fossem pedidos. (Os dias de Mariana eram uma constante procura de realizações, páginas escritas, números correctos e preces que eram súplicas. Ficou espantada por Catarina não pedir nada quando rezava).

            A oração era a atenção na sua forma mais pura. O facto de Catarina levar Peregrina a ver os frascos na enfermaria por isso encantar a irmã era uma oração.

            Era uma oração todas as vezes que Catarina cantava no coro, tão alto e desafinado que todas se divertiam, incluindo a Irmã Beatriz Maria de Resende, cuja voz era o oposto da de Catarina.

            Catarina adorava o sistema das "Quatro Águas" de Santa Teresa. O primeiro nível ou água tinha a ver com a vontade: uma pessoa declarava-se responsável pelo seu próprio destino. Era preciso uma certa força, mas era a fase mais fácil. A segunda água era o estado de abertura à inspiração. Os artistas conseguiam isso por vezes. A terceira água era deixar-se possuir totalmente e perder completamente a vontade própria. (A Irmã Mariana da Purificação?). Era o domínio dos génios e dos grandes apaixonados.

            A quarta água era conhecida apenas por algumas pessoas - místicos e santos. E talvez também a bela Inês de Castro. Era o êxtase do Céu.

            Quando alguém perguntou a Santa Teresa por que razão chamara "á'guas" a estas fases, respondeu: "Porque adoro a água".

            Catarina sugeriu que a jardinagem ficava entre a segunda e a terceira águas. Adorava aqueles canteiros bem regados. E toda a gente, incluindo Mariana, gostavam de tudo o que ela pensava e fazia.

 

            Mariana foi a correr dizer a Catarina que estivera a contemplar a Nossa Senhora do Leite tão intensamente que fora como uma oração: era a primeira vez na vida que não pedira nada ao Céu. Pensara: "Leite, Senhora, abundância, alimentação para todos... Catarina". Tinha sido essa a sua oração.

            Como não podia esperar, precipitou-se pelo quarto com uma bacia de água na mão para falar imediatamente com Catarina. Mariana viu um animal vermelho do tamanho de uma mão fechada a sair do peito da irmã como se estivesse a dar à luz o coração ou o corpo.

            Mariana soltou um grito.

            - Shb, Mariana! - murmurou Catarina cobrindo-se. - Não quis dizer nada com medo que te zangasses.

            Mariana puxou-lhe o véu e os cabelos enquanto Catarina tentava acalmá-la. Mariana gritou novamente.

            - Vou zangar-me, sim! E vou fazer um alarido neste convento como ainda ninguém ouviu!

 

            Na manhã em que devia tomar os votos - prostrar-se aos pés do altar coberta por um véu branco e anunciar que estava morta para o mundo -, Catarina encontrava-se coberta por um lençol branco na enfermaria: o seu coração fazia-a sofrer tanto que uma mão suspensa acima dele e sem lhe tocar lhe provocava um esgar. Mariana estava na sua "casinha" a escrever uma carta:

 

            Querido Espírito Santo>

                        Que a Tua Magnanimidade restaure a saúde de uma das Tuas filhas> Catarina Alcoforado. Prometo que nunca mais Te pedirei nada. Por favor> diz ao Santo António que enterrámos que já não precisa de se incomodar a meu respeito (não que ele tenha feito grande coisa) mas acho que mais uma promessa ajudará). Já não desejo ser Inês de Castro. Lamento ter de me dirigir a Ti nestes tempos catastróficos, mas espero que tenhas notado que flagelei as costas até sangrar, na esperança de que, na Tua infinita misericórdia

, possas lancetar o mal que corrói a minha pobre irmã. Deve ser uma agonia terrível, pois ela nunca negligenciaria o seu jardim.

                        Embora não deseje que deixes de escutar as súplicas da terra dos meus antepassados, devo pedir-Te que faças tudo para salvar Catarina.

                        Espero que esta carta seja uma oferenda mais eloquente do que a oração que eu recito constantemente dentro de mim. Catarina não ficaria contente se soubesse que eu estou a aproveitar-me novamente de uma oração para fazer mais um pedido. Castiga a minha impudência e esquece todas as minhas outras súplicas egoístas. Faz o que quiseres, mas poupa-a. Ela tem apenas quinze anos de idade.

                        A tua serva,

                        Irmã Dona Mariana Alcoforado,

                        da Ordem das Pobres Claras de São Francisco de Assis, Beja,                  1665

 

            Queimou a carta de modo a que esta ascendesse aos Céus. Céu incensado. Ela e Brites ajudaram a Irmã Angélica de Noronha a preparar um coelho temperado com aguardente e vinho do Porto, alho, cebolas, tomates, salsa e presunto. Mariana levou-o à enfermaria, cortou os pedaços mais tenros e deu-os a comer a Catarina. Deu-se conta de que a carne era demasiado indigesta para a irmã e também comeu um pouco. Três lágrimas de carne para que ela se curasse depressa e pudessem dar-se as mãos em breve. Quando as freiras vieram visitar a irmã, Mariana mandou-as embora. Só ela sabia como cuidar de Catarina.

            A Irmã Ignez de São José veio todos os dias informá-las dos progressos no jardim, mencionando principalmente a laranjeira, que agora tinha metade do tamanho de uma rapariga. Continuava a ocupar-se de Peregrina. As freiras debateram se Peregrina poderia visitar Catarina, mas Mariana gritou-lhes que a levassem dali.

            A Superiora Joana de Lacerda fez uma prece: "Lembra-me, Deus, que ela vai a caminho de Ti. É o momento que ela e todos nós desejamos". Considerou repreender Mariana por esta passar demasiado tempo na enfermaria; todas as freiras devem amar as suas Irmãs por igual e nenhuma em particular, mas nunca devem descuidar os seus deveres. O sermão a dar a essa impetuosa rapariga era: "Espero que, à medida que o tempo se desgastar, deixes de agarrar a vida com as tuas mãos nuas e permitas que ela venha a ti, como um estado de graça". Mas lembrou-se a si própria que era uma má Superiora, que o convento era mal dirigido e que agora não era altura para resolver a situação de modo abrupto.

            A Irmã Francisca Freire, Aquela com Coração de Pomba, pediu a Catarina que passasse as mãos suadas pelas páginas dos livros de registo e depois agradeceu-lhe profusamente por ter manchado os livros com vida juvenil. Dormia aos pés da cama da doente, como se ela própria estivesse doente, e não marcou as faltas de Mariana ao seu trabalho no scriptorium.

            Lágrimas depositavam sal nas rugas da Irmã Angélica de Noronha enquanto esta rezava: "Mais vale um breve período com ela do que nunca a ter conhecido". Repetia muitas vezes esta prece, mas não conseguia acreditar nela. E então orava: "Deus, remove o mal do corpo da única pessoa que me deu amizade. Eu sou velha. Dá-me a doença dela".

            Era Mariana que se encontrava sempre à cabeceira de Catarina quando esta acordava ou enquanto dormia. E dava-lhe de comer e mudava-lhe a roupa. As Irmãs Brites de Freire e Maria de Castro ajudavam-na a rolar Catarina na cama para tirar o lençol para ser lavado com água do poço; depois penduravam-no a secar ao luar. As exalações das plantas de Catarina faziam os lençóis balançar levemente e Mariana acreditava que a influência do jardim poderia restaurar as forças da irmã e que a lua, a água e os caules a curariam. Quando a noite era fria, arejavam a roupa com as mãos para que secassem depressa após as matinas. Mãos movendo-se, acenando sem cessar até às primeiras horas canónicas. De madrugada, sempre de vigília, traziam os lençóis e faziam a cama. As três eram ajudadas pelas Irmãs Juliana de Matos e Ignez de São José, enquanto Peregrina brincava no chão caso Mariana não a mandasse embora; levantavam os braços e as pernas esqueléticas de Catarina para que ela sentisse a doçura da brisa.

            Sozinha com Catarina, com as mãos magras dela nas suas, Mariana ordenou a todo o poder que a habitava que penetrasse na débil carne da irmã e lhe desse saúde. Apertou mais as mãos da irmã: "Toma a minha força, apodera-te dela", disse para consigo mesma até a sua pulsação bater ao ritmo dessas palavras.

            - O teu desejo é tão forte que me magoa - murmurou Catarina.

            - Diz-me o que posso fazer por ti.

            - Possuo tudo o que quero. Tenho-te a ti.

            - Sim! Apodera-te da minha força e usa-a! - exclamou Mariana.

            - Poupa alguma para a Peregrina, por favor. Tomarás conta dela?

            - Vou cuidar de ti até que estejas boa.

            - Mariana!

            - Vê como sou forte. Consegues senti-lo? Toma alguma da minha força. Não preciso de toda. É muita só para mim.

            - Mariana! Mariana! - repetiu Catarina. - Recuso-me a deixar-te fraca e esgotada.

            - Nunca estou fraca - assegurou Mariana. - Nunca te preocupes comigo.

            Catarina sorriu.

            - Pareces o papá.

            - Pareço a Mariana e estou aqui agora a dizer-te o que fazer.

            Apertou as mãos da irmã com mais força.

            - Toma a minha força! - insistiu. - Toma-a de mim. Tenho mais do que necessito. Toma-a toda! Juro que não preciso!

            - Oh, Mariana! Nunca pensei que seria eu a partir à aventura. Mais longe do que o silêncio. Imagina só, eu!

            Mariana não a escutava. A força e o desejo latejavam nas suas veias e escoavam do seu espírito para a irmã.

            - Toma-me toda! - suplicava incessantemente. - Por favor, Catarina! Toma tudo o que precisas de mim!

            Uma última vaga de força fez estremecer o corpo de Catarina, uma resistência muito ligeira mas insistente que parecia dizer a Mariana que poupasse a

sua força a fim de se poupar a si própria, de poupar a vida para os vivos. Foi a

última oferta de Catarina à irmã.

 

            Pela primeira vez desde o início da guerra, Francisco da Costa Alcoforado pensou que, aos sessenta e cinco anos, já não viveria para ver o seu fim. Também já não sentia o mesmo fervor quanto ao resultado. Não partilhava esta heresia com ninguém. Suportava a ideia de perder um filho numa batalha, na medida em que isso se transfiguraria em honra, mas perder Leonor, e agora Catarina, era de mais. Era mais difícil justificar um mundo inexpugnável para a sua família se todos os seus entes queridos morressem. Nos velhos tempos conseguia encontrar incentivos, até mesmo em tragédias, para se dedicar mais; mas actualmente já não sabia ao certo. O seu próprio filho, Baltazar, falava-lhe com insolência. E o mesmo acontecia com Rui. Francisco entrava muitas vezes em conflito com eles. Uma coisa que não podia suportar era tornar-se num velho ridículo.

            Não. Isso não era verdade. Isso era o que teria dito há um ano. O que não podia suportar era sentir-se incapaz de impedir a destruição da sua família. Escolheu um vestido branco para a filha que ia a enterrar.

            Quando se deslocara ao convento para abraçar a cabeça sem vida da filha contra o peito, dissera-lhe: "Trouxe-te o vestido de rendas".

            Impressionara-o o facto de ter soltado um estranho grito - um pormenor fútil -, um grito que desconhecia dentro de si desde a morte de Leonor.

            Tinha uma vaga lembrança de Mariana lhe pedir que a levasse para casa. Gritou-lhe que ela estava em casa pois era uma freira e nenhum Alcoforado jamais quebrara um juramento. Quando a filha lhe respondera absurdamente que, se ele quisesse, poderia modificar tal promessa, gritou-lhe que se tivesse poder para modificar alguma coisa, seria para ressuscitar a mulher.

            Enviou uma carta a Mariana a dizer que a amava e que se encontrava perturbado pelo que acontecera recentemente. Apesar de não poder pedir desculpa por dizer a verdade, desejava dizê-lo com a elegância que uma freira como Mariana merecia. Mais tarde um mensageiro devolveu-lhe a carta rasgada em mil bocados, embora Mariana tivesse o cuidado de não destruir as iniciais do nome que ele continuava a entrelaçar com um "L" de Leonor.

 

            A Irmã Ignez de São José, ansiosa por sair da cela partilhada com duas outras freiras no antigo dormitório, aceitou mudar-se para a "casinha" contígua à de Mariana para cuidar de Peregrina. Mariana sentiu que isso não era exactamente o que Catarina tinha em mente quando lhe pedira para se ocupar da garota, mas por enquanto era o melhor que conseguia fazer. Não lhe sobrava amor nem desejo de amar ninguém. Tinha agora vinte e cinco anos e estava demasiado velha para amar. Tudo o que desejava era que Baltazar sobrevivesse à guerra e que a vida dela prosseguisse tão rotineiramente como o seu trabalho no scriptorium. Baltazar era avesso a escrever cartas, mas ela escrevia-lhe todos os dias pedindo-lhe notícias suas. Havia um oficial francês perito em contornar os regulamentos (e grande apreciador do conhaque feito no convento). Mariana falava-lhe frequentemente e ele levava-lhe as cartas para a frente de batalha. Desde a infância que não tivera oportunidade de praticar francês.

            à medida que trabalhava no registo das "Quarenta Horas", tentando fazer uma razoável descrição de um dado período de tempo, a sua aversão pela sua própria história ia aumentando. Perder a mãe verdadeira e a mãe de adopção quase ao mesmo tempo, e a seguir a irmã! Eram demasiadas tragédias, ou coincidências! Qualquer pessoa teria feito a observação de que uma história melhor seria a de uma só perda que todos pudessem sentir com o mesmo pesar. Perda após perda era demasiado, mesmo em tempo de guerra!

            Mas a História nunca prestou atenção ao facto de a humanidade necessitar de simetria e harmonia.

            No scriptorium, Mariana assentou uma doação de milho. A maior parte das freiras tinha relutância em provar este cereal proveniente das Américas e davam-no aos porcos. Mariana achava que os bagos de milho pareciam dentes amarelos, dentes de morto.

            Os algarismos que escrevia eram largos e quadrados e lembravam sepulturas.

            Quando entregou o trabalho do dia, os olhos da Irmã Francisca ficaram rasos de lágrimas.

            - Nunca vi algarismos que magoassem tanto como estes. Penso que o tempo cura todos os pesares, mas tu és demasiado esperta para acreditar nisso.

            Mariana reagiu gritando. Era capaz de acalentar uma ideia, de levantar os braços e registar números, e isso significava que ainda tinha alguma força. Não tinha dado a Catarina tudo o que podia. Fracassara, era uma fingida, uma cobarde; não tinha amado a irmã suficientemente. Se o tivesse feito, não teria braços. Não estaria viva.

 

            A Irmã Beatriz Maria de Resende ouviu alguém dizer que em Montes Claros milhares soldados se batalhavam de modo sanguinolento; mas o resultado do confronto só o futuro o diria. Decidiu continuar a cantar e manter-se no coro com a sua música até a batalha acabar. Como a sua vista era muito fraca, percorria a pauta com a ponta dos dedos e a sua respiração obedecia às notas musicais. Quando tocava órgão e as teclas se toldavam na boca aberta de um leão, não temia percorrer os seus dentes com as mãos, tocando de olhos fechados. Os pés faziam funcionar os pedais até sentir cãibras nas pernas.

            Na décima hora, a Superiora disse-lhe para se deitar. A Irmã Beatriz Maria de Resende respondeu que quando ficasse totalmente cega continuaria a cantar de memória. O que eram os seus olhos comparados com as mortes que estavam a ocorrer? Deus podia tirar-lhe a vista e em troca poupar a vida de dois homens ou de dois batalhões.

 

            Levado pelos irmãos Lobo, Baltazar encontrava-se na frente de batalha. Mariana debruçou-se sobre o silêncio e ouviu o barulho das suas botas. Sentiu uma dor nas costas que se contraía ao compasso da música tocada pela Irmã Beatriz Maria de Resende, como se se tivesse curvado para que as suas mãos servissem de apoio ao pé de Baltazar e o ajudassem a fugir das trincheiras. Dormiu no chão do coro pois a música abafava os sons de batalha que ouvia. Tiros de arcabuzes, o entrechocar de espadas, o relinchar de cavalos com os arreios salpicados de sangue.

            A Irmã Beatriz Maria de Resende recusou comer e beber, mas aceitou que a Irmã Maria de Castro lhe enxugasse a fronte. Enquanto cantava, o suor escorria-lhe pelo véu abaixo e pingava como chuva das pontas do hábito.

            Cantou aleluias e um salmo da "Hora do Angelus", a sua voz baixando até ao chão da igreja e escoando-se através das portas e janelas para o exterior.

            Cantou ainda "Elevatis oculis in coelum", uma "Kyrie Elison" e "Dies Irae" acompanhada por um grupo de sopranos e altos dirigido pela Irmã Dolores.

            Após doze horas de canto continuo, a maioria das freiras foi descansar, mas a Irmã Beatriz Maria de Resende não. E quando a sua voz enrouqueceu, Mariana disse-lhe:

- Deixa-me ajudar-te.

            Continuaram a cantar juntas e Mariana projectava a voz bem alto, inspirada pela recordação de Catarina. As Irmãs Brites de Freire, Maria de Castro, Angélica de Noronha e Ignez de São José, com Peregrina sentada a seu lado, fizeram-lhes companhia. Cantaram durante toda a noite até à madrugada do dia seguinte para que Deus as ouvisse e acabasse com a guerra. Tinham de ouvir a Irmã Beatriz Maria de Resende para saberem que alguns seres humanos eram admiráveis e que nem todos mereciam ser destruidos.

            A batalha de Montes Claros terminou ao terceiro dia. Por essa altura, já todas as freiras, excepto Mariana e a Irmã Beatriz Maria de Resende, tinham sentido a necessidade de comer e dormir. A Irmã Beatriz arrancava as últimas notas das cordas vocais.

            Para Mariana, Deus deveria ter pensado: Vou acabar com a mais longa batalha desta guerra em troca da vista da minha querida serva, Beatriz Maria de Resende", porque quando passou uma mão em frente do rosto de Beatriz, notou que a mais talentosa freira do convento havia cegado devido aos esforços para fazer com que a guerra se rendesse perante a sua bela música. Ainda mexia os lábios, mas nenhum som se soltava da sua garganta.

            Mariana beijou-lhe as mãos e acariciou-lhe a garganta dizendo-lhe que ela dera tudo, e com tal devoção que esgotara para sempre os seus mais preciosos dons e prazeres, e que agora devia parar.

            - Lamento que agora já não consigas ver - disse a Irmã Mariana.

            A Irmã Beatriz Maria de Resende, os olhos cegos tão negros como a noite, balbuciou num fio de voz:

- Foi o concerto da minha vida. E tu, Irmã Mariana, ficaste comigo até ao fim!

            Deus não tomou a vida de Baltazar em troca, que mandou transmitir a Mariana que tinha sido poupado. Aliás, parecia que se fortalecera na batalha. Deus deu a vitória às tropas que lutaram por Portugal - morreram 4.000 espanhóis e 5.000 foram feitos prisioneiros - mas, por motivos que Mariana não conseguiu entender, não pós termo à guerra.

 

Querido papá,

                        Somos tão parecidos! Sinto-me mal por ter devolvido a sua carta daquela maneira. Somos ambos muito orgulhosos. Por favor, rasgue esta carta e envie-me os pedaços para ficarmos pagos e não termos de esperar que o outro se renda.

                        Se assim tiver de ser, não me importo se nunca mais voltar a vê-lo nem tiver notícias suas, mas preciso de saber que não me despreza.

                        Baltazar sobreviveu à grande batalha que teve lugar em Alca ria de la Puebla. Escreveu-me a dizer que gostava de combater ao lado dos franceses.

                        Não há dia em que eu não pense naqueles que sobreviveram até agora e nos que morreram.

A sua filha que muito o ama, Irmã Mariana Alcoforado ao serviço de Deus

 

            Um mensageiro trouxe-lhe a carta que enviara ao pai: vinha rasgada aos bocados e dentro do envelope encontrava-se uma flor de íris da propriedade dos Alcoforado. Quando juntou os fragmentos da carta - como o pai sabia que ela faria-, viu um "L" e um "F" entrelaçados na inicial do seu nome.

 

            - Nunca escreves cartas de amor, Frederic? - perguntou o capitão Salomon.

            - Não tenho tempo - respondeu o general Schomberg.

            O exaspero de Schomberg divertiu o capitão. Mencionou este curto diálogo ao escrever à mulher. Contou-lhe que esperavam ganhar a última batalha que poria fim à guerra e incluiu umas linhas admirativas quanto ao comportamento dos franceses. Ele próprio aconselhara Schomberg a promover Noel Bouton, conde de Chamilly, a capitão de cavalaria. Bouton merecera tal promoção na batalha de Montes Claros e, após três anos de guerra, entendia-se às mil maravilhas com os soldados portugueses, que muito o admiravam.

            Salomon concluiu a carta, declarando que a floresta onde se encontrava era magnífica. Foi-lhe impossível dizer à mulher que a amava, mas ela compreenderia. Uma vez tinham feito amor numa floresta perto de casa e qualquer referência a isso constituía o seu secreto código de carinho.

            Deu a carta a um oficial que ia para o Norte através dos Países Baixos, de onde poderia ser enviada para a Prússia. Schomberg e o capitão Salomon montaram a cavalo à frente de um exército de três mil soldados de infantaria e mil e quinhentos de cavalaria. Passaram o rio Guadiana e entraram em Espanha. Ao terem conhecimento de que o próprio Schomberg ia atravessar aquela região, os alcaides espanhóis hastearam bandeiras brancas e fugiram, abandonando as populações à sua sorte.

            A pequena aldeia de Paymogo estava deserta. Salomon pediu licença para ficar ali a repousar durante uns dias. Mais tarde juntar-se-ia ao grosso do exército.

            - Julgo que eles perceberam finalmente que não somos para graças disse-lhe o general Schomberg. - Fica uma semana, se quiseres. É uma pena a guerra não ser sempre assim tão fácil.

            O capitão despediu-se do amigo e depois saquearam a aldeia e fizeram um banquete.

            Nessa mesma noite, a sentinela adormeceu. Quando se deram conta de que estavam a ser atacados, já era demasiado tarde. O capitão Salomon contava-se entre as vitimas.

            Schomberg perguntou ao mensageiro que lhe veio dar a notícia da morte do amigo se continuava ali especado à sua frente para o ver chorar como uma mulher.

            - Não, Excelência - respondeu o soldado perfilando-se.

            - Então sai da minha vista! - berrou-lhe o general.

            Depois examinou atentamente os mapas de campanha. As suas tropas deviam espalhar-se por toda a região alentejana como uma teia. Tinha de ordenar ao coronel Briquemault que trouxesse a cavalaria para Campo Maior, a curta distância de Beja. Postaria regimentos a oeste e sul dessa cidade e alguns soldados dentro das muralhas pois os espanhóis poderiam tentar tomá-la. Após vinte e seis anos de guerra, chegara o momento de fazer convergir todas as suas forças. Entraria triunfalmente em Beja, que lhe pertencia por direito pois saíra vitorioso das últimas batalhas. Nunca mais voltaria a baixar a sua guarda. Só quando os sinos repicassem a festejar a assinatura do tratado de paz. E talvez então pudesse chorar a morte do amigo.

 

            A Irmã Mariana continuava a trabalhar no scriptorium ao lado da Irmã Francisca Freire. Desde a morte de Catarina no ano anterior, Mariana passava a maior parte do tempo na sua "casinha" ou ali, a trabalhar. Não falava muito com as amigas e estas deixavam-na em paz. Buscava consolo na biblioteca, nas magníficas "Regras da Ordem de Santa Clara", no "Flos Sanetorum" e nos livros de registo de décadas de transacções e óbitos. Consolava-se folheando os ensaios de Francis Bacon e um estudo sobre a guerra entre Maria Stuart e Isabel de Inglaterra. Ficava acordada até tarde e faltava aos ofícios divinos para comparar bíblias escritas em francês, latim, grego e português. As obras de Santa Teresa de Ávila, de São João da Cruz e do famoso Padre António Vieira renovaram o seu fervor. Deus ainda lhe enviaria um milagre.

            Nunca queria sair da biblioteca! Rolos de sermões em papel de pergaminho atados com fitas cor de ferro

empilhavam-se em estantes altas. Flores de lis, gnomos (que lhe lembravam Baltazar) e dragões azuis embelezavam as letras maiúsculas dos missais com iluminuras. Armários de pau-brasil com estreitas gavetas catalogadas continham fólios amarfanhados por muitas, muitas estrelas.

            Podia ocupar-se a restaurar antigos documentos do tempo de Superioras mortas, e dizia às amigas que aquelas tarefas a mantinham ocupada.

            Um dia a Irmã Brites precipitou-se no scriptorium gritando que os franceses tinham chegado. Uma gloriosa parada militar passava pelo convento e dirigia-se para a praça a fim de celebrar a vitória.

            - Mariana, estás a ouvir-me?

            - Hmm - respondeu Mariana sem erguer a cabeça dos registos.

            Brites teve de repetir, dizendo que os cavalos eram lindos e as fardas muito elegantes, tentando aliciar Mariana a olhar pelo menos na sua direcção.

            - Anda, Mariana! - suplicou-lhe Brites.

            As Irmãs Brites de Brito, Maria de Castro, Juliana de Matos de mão dada, Preregrina e Dolores conduzindo a Irmã Beatriz Maria de Resende atravessaram a sala gritando:

- Despachem-se!

                        - Vem, Mariana - insistiu Brites.

                        - Vão sem mim - disse Mariana.

                        A Irmã Francisca Freire levantou a cabeça e disse:

- Estás aqui metida há horas, Irmã. Anda ver a parada. É possível que o teu irmão e o teu cunhado passem a cavalo pelo convento.

                        Mariana considerou essa possibilidade. Terminou o que estava a escrever e soprou na tinta.

                        - Despacha-te, Mariana! - apressou-a Brites.

                        Mariana seguiu a amiga através do novo dormitório. As freiras subiam as escadas a correr na direcção das varandas e das janelas. Mariana mantinha a cabeça baixa, deixando que Brites a puxasse até à janela que dava para a estrada de Mértola. Ao abrir as janelas de par em par, uma rajada de aclamações e poeira entrou pelo convento adentro e obrigou Mariana a erguer os olhos. Avançou lentamente, mas o tumulto lá fora invadiu-a. Apressou o passo e as outras freiras afastaram-se, abrindo-lhe caminho.

                        Ao chegar à varanda, lançou um olhar para a rua, onde a única coisa que viu foi um capitão francês montado a cavalo. Naquele preciso momento os seus olhos encontraram-se, como se ele estivesse à espera dela. à volta dela, as freiras, os soldados de guarda ao convento e a população acenavam com lenços brancos, não só para saudar as tropas mas também para afastar a poeira.

                        Mariana não pestanejou nem se mexeu. E quando o capitão puxou as rédeas e o cavalo se empinou executando uma perigosa gavota, levou a mão ao coração. O olhar do oficial consumia-a só a ela e a mais ninguém. Colunas de

porta-bandeiras e soldados com fardas vermelhas passavam sob a varanda, mas ele continuava a empinar o cavalo e a dançar à roda.

                        - Olhem para aquele lindo cavalo! - exclamou a Irmã Maria de São Francisco.

 

                        Como o céu era infinito! Uma tigela virada ao contrário por cima de Mariana, derramando todo o seu azul sobre ela, através dela!

 

                        Naquela noite Mariana não conseguiu afastar-se do clamor que reinava no locutório, onde os soldados de visita bebiam e falavam das suas aventuras em voz alta. A Irmã Genebra Nogueira abrira-lhes as portas do convento. A multidão abriu novamente caminho quando Mariana entrou. Sabia que ele se encontrava ali para a ver.

            E lá estava ele. Não sabia o seu nome. Era uma silhueta na noite. Andava à procura dela. Avançaram um para o outro ao mesmo tempo, Mariana estendendo as mãos para encontrar as dele. A peruca do capitão estava impecavelmente penteada e a sua farda era a mais resplandecente que jamais vira. Ele colocou-lhe nas mãos uma medalha de São Cristóvão, o Viajante. A medalha queimou-lhe os dedos. Ele inclinou-se e beijou-lhe a mão. Em breve ela estaria deitada, às voltas na cama sem poder dormir, incapaz de ficar dentro da sua própria pele.

            "Catarina!", quase gritou. "Catarina! Estás a pregar-me uma partida? Tu, que disseste que a minha vontade era o mais puro dos impulsos, em nada comparável às surpresas reservadas para quem vive uma vida aberta? Tu, que manchaste os registos com a tua febre? És tu quem me aconselha a não me fechar sobre mim mesma?".

            Viu Catarina lá no alto lascando as estrelas para que corpúsculos flamejantes caíssem nos olhos de Mariana. Era assim que um pintor animava um retrato - uma pincelada de branco, uma estrela branca, ou pequenos cachos de pontos cintilantes nas pupilas escuras e sem vida.

            A queimadura dos fragmentos das estrelas que lhe davam vida obrigaram-na a cerrar os olhos.

            De volta ao quarto, com a medalha que era tão quente como mãos entrelaçadas, reescreveu as palavras dele, não no seu espírito mas no sangue que corria violentamente nas suas veias, um jorro quente da lembrança das palavras dele: "...o mais belo oásis, a mais bela mulher! Só tu, bela, como jamais vi!...".

            Dissera-lhe mesmo isso? Teria sonhado? Não! Na sua mão tinha a medalha de São Cristóvão como prova. Era suficientemente dura para que as rosas luminosas subissem à tona da sua pele. Oh, o sangue a desabrochar! Ah! Não combinara nada com ele! Para onde teria ido? Esquecera-se de lhe perguntar o nome. O que é que ela tinha dito? Falara? Quem é que a tinha visto? Queria que toda a gente fosse testemunha, mas que ninguém a espreitasse às escondidas. Agora ele

tinha-se ido embora; não um nome, mas uma força: "Quero... desejo...". O que é que ele tinha dito? Ou teriam essas palavras saído dela? De ambos ao mesmo tempo? Estava sozinha nos seus aposentos, o seu pequeno reino, e sentia o corpo desfalecer enquanto repetia as palavras que a libertavam: Só tu, só tu, Só tu.

 

 


Terceira Parte

 

 


Ele é o grande herói que todos elogiam! As freiras e a população, homens e mulheres, toda a gente canta como anjos em honra dele e do seu heroismo. As pessoas falam e gesticulam agitando o ar como se caíssem filamentos de asas frenéticas!

            Sente-se no ar tamanha excitação.

            Os soldados comem e bebem no locutório; e quando aquele zunido chega aos ouvidos de Mariana, tapa-os com ambas as mãos, mas tudo aquilo apenas confirma como o seu coração pulsa sobressaltado e lhe murmura:

"Desperta para a vida, desperta para a vida, quer queiras quer não! Aceita".

           "O capitão de cavalaria... Noel, o nome dele é Noel Bouton, conde de Chamilly... ", repete o zunido. "Mariana, muda de vida, muda a própria vida... no instante em que o viste desististe de dormir, ficaste sem sossego e sem paz e perguntaste: Onde estou". O que era eu antes desta agitação que não me deixa dormir".".

            No scriptorium, viu-se a pairar acima do invólucro morto da pessoa que fora. Pensou: "O que é que aconteceu para que durante os primeiros vinte e seis anos da minha vida nunca adivinhasse que o amor não intervém na escolha?".

            A Irmã Brites de Brito pousou a mão no seu braço e Mariana, sobressaltada, soltou um grito vindo não se sabe de onde. Abraçou-se a Brites, que disse: - Tens estado a fitar essa folha de papel sem escrever nada. Nem pareces tu... - a voz dela hesitou, pois Mariana tremia como se tivesse sido atirada para os braços dos mundo e a sacudissem.

            - Explica-me por que razão toda a gente diz tão bem do oficial francês que se chama Noel - perguntou Mariana sem poder ouvir a resposta porque o zunido dentro de si abafava tudo.

            "E o coro da gente a louvá-lo, é a alma e a carne dele que me chamam. Quando estendo a mão, sinto que as palavras que dizem sobre ele formam uma parede que me ampara nesta doença estranha e nova. Quando a Irmã Maria de Castro disse ontem: "Ouviram falar dos seus actos heróicos em Alcaria de la Puebla".", e quando a Irmã Genebra disse: "Usa fitas tão lindas e os soldados portugueses adoram-no porque os trata tão bem!", a minha mão estendeu-se como se quisesse encontrar e agarrar tudo o que ele é, e estas palavras parecem formar outra parede para evitar que eu desfaleça, para me levantarem, trémula, da cadeira.

            E eu digo: Palavras, levem-me às cegas pelo corredor que estão a formar; levem-me ao seu encontro. E então direi: Estou acordada agora e não sei por que razão tive de passar pela morte para me sentir tão violentamente avassalada pela vida".

            - Mariana, estás bêbada? - perguntou a Irmã Brites.

            - Sim - respondeu. Estou a descobrir o que é a religião.

 

            "Eis o tratado que cumprirei: se for ao locutório e tu estiveres lá, é porque estás à minha espera. Se não estiveres, tenho andado a sonhar e abençoado sejas por tal sonho".

            Estava à espera dela. Era grande e elegante no meio dos rudes soldados e a Irmã Angélica de Noronha ria a propósito de algo que ele contava.

            O capitão Noel Bouton viu Mariana e... - o que era isto, toda aquela situação que nunca vira antes e que estava para além dele a sorrir-lhe? Tudo desapareceu em seu redor, embora ele continuasse a falar com os outros por cortesia. Como parecia triunfante! Ansiava que a sua pele respondesse à dele. Ele aguardava-a. Sentia-se para além de qualquer espera que tivesse experimentado ou testemunhado. Sabia.

            Sabia que viria aqui por causa dele, sabia que tinham sido feitos para estarem um com o outro, que devíamos esperar pelo amor à primeira vista, esperar para mudarmos para sempre, porque tal amor subjugava qualquer trabalho, paciência, planos, votos ou guerra.

            Todo o seu coração.

Mariana não prestou atenção aos bancos, às estátuas, aos azulejos, ao retábulo por detrás do altar, às freiras. Tudo se afastou para lhe ceder passagem. Não estava a caminhar, era conduzida. Viu uma das freiras dar uma cotovelada a outra. Porquê? Estava apenas a caminhar, prestes a falar com ele em bocados de português, um pouco de francês, como o resto dos presentes fazia.

            Ele era corpulento e Mariana reparou que começavam a crescer-lhe as patilhas na face. Fechou os olhos; imaginava-o a sair à pressa do acampamento militar para vir vê-la, o corpo dele a aquecer e a suar pêlos para que ela encostasse o seu rosto até a marcar, até lhe imprimir os seus sinais.

            Que loucura!

            Estendeu a mão aristocraticamente e sorriu. Era louro, mas tinha os olhos negros e brilhantes.

            - Mariana - disse ele.

            - Noel - disse ela, como se ele se tivesse apresentado como sendo ela e ela lhe retribuisse o favor. - Sabe o meu nome?

            - Como sabe o meu?

            Sorriram-se. Ele continuava a segurar-lhe a mão. Inclinou a cabeça e a farda rígida rangeu. As freiras afastaram-se. Mariana ouviu um murmúrio mas não se importou. Deus dizia-lhe para estar ali e não lhe passava pela cabeça desobedecer-Lhe.

            - Está tanta gente aqui - disse ele.

            "Há um oceano a jorrar de dentro de mim", pensou ela.

            - Por que é que está aqui quando todo o mundo lá fora é seu? - disse.

            - A morte espreita lá fora e a vida está cá dentro - respondeu ele fazendo uma vénia.

            Era um verdadeiro cavalheiro.

            - A vida está aqui - concordou Mariana.

 

            Na terceira noite em que ele contava histórias às freiras no locutório, Mariana aguardou em gloriosa agonia que elas terminassem as suas perguntas sem fim. Tinha apenas uma pergunta a fazer-lhe: "Está aqui por minha causa, não é verdade?".

            Finalmente, as outras foram deitar-se, lançando um olhar silencioso a Mariana e abanando a cabeça. Havia operários quebrando os azulejos gastos para os substituirem. Através do martelar incessante, ela disse-lhe:

- Ouço-os a trabalhar no meu quarto no novo dormitório; é o sétimo da ala leste, no segundo andar.

            - O seu quarto fica assim tão longe?

            - Tão perto... - disse ela. - Os homens consertam o corredor durante toda a noite.

            E foi-se embora a correr pois a Irmã Genebra observava-os para ver quanto tempo Mariana ficaria a falar sozinha com um homem.

            Lançou um olhar para trás para a porta do locutório e viu que ele se virara para a ver.

 

            Quando ele veio à sua porta envolto numa capa de pedreiro, ela não exclamou: "Como é possível que ninguém te tenha visto e impedido!".

 

            Mas como ele estava destinado a encontrar-se ali, não seria apanhado. Em vez disso, perguntou-lhe:

- É verdade que em França as pessoas saem para bailes?

            - Sim - disse ele estendendo os braços sem se dar ao trabalho de tirar a capa; ela encostou a cabeça ao seu ombro e deram as mãos

            - Aqui não temos música - prosseguiu o capitão.

            - Toca-a na tua cabeça para eu a escutar - murmurou Mariana.

            E dançaram, enlaçados, à volta do quarto. Mariana tremia, descalça e vestida apenas com a camisa de noite. Ele respirava e dançava pesadamente enquanto ela se movia com ligeireza sentindo o seu odor.

            - Esta música toca na tua cabeça, meu querido amor - disse ele. - Consigo ouvi-la.

            Querido amor! Ele dançava tão bem, de modo tão cortês!

            - O que é que a música na minha cabeça está a dizer? - brincou ela.

            - Que és a mulher mais bela do mundo e que eu sou o mais afortunado dos homens.

            Foi ela quem deu o primeiro beijo, para surpresa dele: sentiu-se logo arrebatada no ar, os braços e as pernas à volta dele. A mais bela das mulheres, o mais afortunado dos homens.

            É provável que outras mulheres, poucas, se tenham sentido assim, mas nenhuma delas sentiu tão intensamente como ela.

 

            Era inútil estar ali, extenuada, a recitar matinas. Os seus lábios moviam-se, não para soletrarem palavras, mas para tentarem relembrar o que era beijá-lo. Como podia sobreviver até à noite? E se ele não a viesse visitar?           Tinha de vir! As suas costelas ainda estavam doridas do peso dele, as entranhas doíam tanto que não sabia ao certo se era devido à paixão dele ou à sua. O facto de o amor causar tanta dor no início não a surpreendia.

 

            A Irmã Brites disse-lhe: - Mariana, estás acordada? Julgas-te muito especial, não julgas?

            Mariana fez de conta que não a ouviu. O que os outros diziam não tinha importância.

 

            - Oh! - exclamou, sentando-se nua na cama. - Tive medo que não viesses.

            Ele tirou a capa.

            - E se formos apanhados? - perguntou-lhe.

            - Que importa!

            - Deliciosa criatura! - disse ele, espantado, precipitando-se para a beijar. -Tu...

            Emoldurou o rosto dela nas mãos e Mariana sentiu que todos os seus sentimentos, todo o seu sangue e todas as partículas de força que a constituíam se concentravam onde ele lhe tocava. Não se mostrou enleada nem desviou os olhos.

            - És bela e feroz - disse, rindo-se. - Nunca vi um soldado tão feroz como tu.

            - Obrigada - disse ela. Mil vezes obrigada.

            Nunca a tratou por freira e falava português muito bem. Há três anos que combatia neste país. Misturava palavras em francês e ela também. Pintava em francês uma palavra e outra em português, sobrepunha-as e enrolava-as na conversa. A palavra francesa para "coração" era muito semelhante à palavra portuguesa para "cor". Mariana acariciou-lhe o pescoço. Não usava lenço. Baltazar dissera-lhe que Noel andava sempre fardado e ela pensou: "Expões-te a todos os perigos por mim? Por minha causa? Nunca te magoarei!". Beijou-lhe o pescoço, que era mais pálido do que o seu rosto por estar sempre encoberto pelas protecções metálicas.

            Ele não receava apertar-lhe a mão contra o peito. Apertava-a com tanta força que Mariana julgou que ele queria enfiá-la dentro de si para lhe tocar no coração como tocara no resto do seu corpo. Certamente que os seus dedos deixariam um rasto de folhas douradas que iluminariam as entranhas dele.

            Naquela noite ficou tanto tempo imóvel dentro dela que o sagrado coração esculpido na cabeceira da cama lhe ficou gravado na testa. Passou a mão pelas costas nuas dele.

            - És audaciosa e infatigável - disse ele. - Onde é que aprendeste a amar assim?

            - Nasci com essa sabedoria - respondeu ela.

            - Vens ter comigo amanhã? - perguntou-lhe Mariana enquanto ele se vestia com as roupas que usava para se introduzir no quarto dela. Seria horrível se fossem descobertos!

            Não! Todos os riscos que corriam valiam a pena!

            Se fosse castigada, como as leis do seu país exigiam, com dez anos de prisão (ele pagaria apenas uma multa), haveria de chorar e gritar até se dissolver em água e escorrer por debaixo da porta! Fluiria como um rio até ao campo de batalha onde o seu amor se encontrava e ele bebê-la-ia. E depois perduraria como um mar dentro dele.

            Se fossem postos a ferros, ela emagreceria até ficar do tamanho de uma lima e livrar-se-ia das correntes. E quando o encontrasse, ele escondê-la-ia no cinto. Baltazar haveria de contar aos amigos que a irmã sempre desejara transformar-se numa arma.

            Noel tinha um ar patusco vestido com aqueles trajes de pedreiro. Mariana cobriu o rosto com as mãos e desatou a rir. E ele sorriu então, só para ela.

            - Amanhã? - repetiu ela.

            - Só amanhã? - brincou ele.

            - Todos os amanhãs, todos os hojes! - disse ela. - Morro sem ti!

            - Temos de descobrir maneira de viveres para sempre, Mariana - sussurrou.

            Ficou acordada ao longo de toda aquela noite maravilhosa, recusava adormecer e pôr termo àquela noite. Um mocho distante cantou para si. Ouvia os fiapos das raízes dos sobreiros afagando os músculos vermelhos da terra - pequeninas harpas subterrâneas.

            Durante o dia, acarinhava o seu corpo dorido, a prova de que ele a desejava. Estava ausente, mas sentia que ele a queria tanto como o seu corpo ansiava por ele.

            Ao jantar foram servidas pequenas aves às freiras. Manuel devia ter feito um bom negócio. As pélvis das aves jaziam espalmadas nos pratos e a sua carne arreada deliciou Mariana. Imaginava a Irmã Angélica de Noronha, na cozinha, a espalmar as pequenas aves com a lâmina de uma grande faca. Zás! E todas elas se abriam como por magia.

            As freiras comiam em silêncio no refeitório apinhado.

            Caiu-lhe um pêlo no prato. Era de Noel. Teria ficado colado ao seu pescoço desde a noite anterior? Que maravilha! Eram provas reais da sua existência e da noite, por toda a parte! O dia era apenas o forro pálido da noite.

            A Irmã Brites de Freire olhava-a com insistência. Fez um gesto como se lhe dissesse: "O que se passa contigo?".

            O quê, realmente?

            "Estás a irritar-me. Acorda! O que se passa contigo?" - diziam os seus sinais.

            As Irmãs Brites de Brito e Maria de Castro também a fitavam. Mariana engoliu o pêlo que caíra no prato juntamente com uma garfada e decidiu que tinha de usar tudo o que estava ao seu alcance - o silêncio, o trabalho, a sua espera pelo anoitecer - para obliterar o resto do mundo.

            Quando saiu do refeitório, sentindo um delicioso desfalecimento por não ter dormido, os ladrilhos azuis, verdes e amarelos toldaram-se à sua passagem. Era assim que guardava Noel dentro e fora de si - uma tempestade de cores. A sua sonolência fazia-os girar à sua volta.

            Noel! A alegria é isto. E, se o permitires, esta alegria será eterna.

 

            A Irmã Francisca Freire observava Mariana, que somava as despesas do mês com carne e peixe.

            - Irmã Mariana. Explique-se.

            - Desculpe?

            Aquela com Coração de Pomba pegou no papel das contas. Mariana tinha a certeza de que estavam correctas pois verificara-as três vezes.

            - Posso perguntar-te o que sentiste quando ficaste junto da Irmã Beatriz Maria de Resende enquanto ela cantava até ficar cega durante a batalha de Monte Claros? - prosseguiu.

            - Não tenho bem a certeza - retorquiu Mariana. - Mas penso que a Irmã Beatriz arruinou a vista para nos dizer que os seres humanos são melhores do que a soma das suas acções.

            A Irmã Francisca Freire acenou a cabeça pesarosamente.

            - Concordo que o que ela fez foi de uma grande nobreza. Também me ocorreu que a História haveria de registar o que aconteceu naquele dia durante a batalha de Montes Claros e ignoraria o sacrifício dela. Tantas mortes... Porquê?

            - Não sei - disse Mariana, tentando perceber o que é que aquilo tinha a ver com as contas.

            - Suspeito que sabe. Mencionar a beleza assusta mais as pessoas do que falar de massacres. A beleza, a dádiva da beleza extrema, continua no seu ímpeto até encontrar o obstáculo de uma grande dor. Desde muito nova que aprendi que essa é uma das leis da vida. Suponho que quando a beleza não encontra resistência, pode ir mais longe. Posso contar-lhe uma história pessoal?... Um dia os meus pais e eu fomos convidados para um jantar elegante em casa de amigos. Eu era muito pequena e havia lá muita gente. Assustei-me e pus-me à procura dos meus pais. Ergui os olhos e reparei que todas as pessoas tinham um ar magoado e tenso apesar de ser um serão agradável. Talvez soubessem que a guerra era inevitável. A minha única preocupação era encontrar os meus pais. Compreendi que os consideravam estranhos por estarem apaixonados um pelo outro e que os olhavam com hostilidade, especialmente o meu pai... por ser rico e a minha mãe pobre e por ter casado com ela em regime de comunhão de bens. Compreendes o que quero dizer... Durante a festa veio-me à cabeça tentar encontrá-los

deixando-me conduzir por sensações de afecto: encontrei-os imediatamente. O meu pai tinha um ar resplandecente, e embora a minha mãe estivesse a conversar afastada dele, parecia que um fio luminoso os ligava. Qualquer estranho que entrasse notaria que eles estavam juntos. Achei isso surpreendente e ainda hoje acho o mesmo. Quando ela se movia, um fio de luz unia-se a outro fio de luz emanado pelo meu pai, e o seu amor entrecruzava-se no ar, transfigurando os espaços em redor na sua própria teia maciça e privada.

            - Era isto o que eu te queria contar, Irmã Mariana. Nessa altura desatei a chorar porque era o mais lindo espectáculo a que tinha assistido. Tecer uma teia luminosa tão leve e invisível apesar de saberem que isso só serviria para aumentar a sua mágoa quando um deles morresse. Uma beleza que não esmorecia até encontrar o último e definitivo obstáculo. Geralmente não sou mórbida. Os meus pais vieram consolar-me e eu chorei ainda com mais força. Aquela teia de amor

protegia-me agora e eu sabia que sempre que a visse

sentir-me-ia magoada. Dói-me sempre que vejo vestígios dessa teia em alguém.

            Pousou então as contas de Mariana em cima da mesa e decidiu que ambas deveriam tirar uma hora de folga. Além do mais, Mariana resplandecia de cansaço.

            Mariana esperou que a Irmã acrescentasse mais alguma coisa a fim de perceber o sentido das suas palavras, mas esta não deu mais explicações. Ao abandonar a sala, disse apenas:

- Tem cautela, minha amiga. Quer queiras quer não, estarei sempre ao teu lado para te consolar.

 

            Nos corredores, as Irmãs cochichavam de cabeça baixa. Uma ou duas cruzaram os braços e, abanando a cabeça, retiraram-se para os seus quartos como se uma horrível maravilha as tivesse ferido.

 

            - Será mais uma das tuas partidas, Baltazar? Por que é que ele não pode vir ver-me esta noite? - perguntou Mariana em voz baixa a um canto do locutório pois a Irmã Michaella dos Anjos estava a observá-los. Baltazar tinha um unicórnio gravado na fina couraça metálica que lhe cobria o peito. Não sabia ao certo o que a alarmava mais, se a caveira esculpida no cabo do punhal ou as fitas que enfeitavam o capacete do irmão.

            - Porque vamos atacar um acampamento espanhol à

meia-noite - sussurrou ele.

            - Se ele se importasse comigo, não iria.

            - Importa-se o suficiente para pedir-me que te trouxesse esta mensagem. Devias mostrar mais respeito pelos moços de recado, minha irmã.

            -Julgava que a guerra tinha acabado.

            - Mais ou menos - disse Baltazar sorrindo. - Mas os espanhóis ainda não estão totalmente convencidos.

            - Ainda não?

            - Não! - disse Baltazar. Discutira com o pai naquela manhã, o que lhe dava grande satisfação. Tinham ido passear pelo mercado e algumas pessoas saudaram-nos enviando-lhes beijos. Mexericos segredados pairavam no ar. Quando o pai lhe perguntou por que razão toda a gente se comportava como chacais, Baltazar riu-se, satisfeito por estar a par de boatos que o pai desconhecia. Parte de si desejava gritar o seu contentamento por ter ajudado Mariana a contrariar as regras do pai, as regras da sociedade. Ao ouvir o capitão Noel Bouton mencionar uma freira de figura sublime que avistara na varanda do Convento da Conceição, Baltazar teve imediatamente a certeza de que se tratava da irmã e disse-lhe logo que ela era magnífica e merecedora de todas as atenções. Não fora ele que decidira que o amigo, militar que admirava, seduzisse a irmã. No entanto, agradava-lhe imenso o facto de o destino ter tomado aquele rumo. Além do mais, ela não era freira, era Mariana. Tinha direito a ser feliz; e se a sua felicidade contrariasse a arrogância de Francisco da Costa Alcoforado, tanto melhor. Embora o pai tivesse assinado os papéis que o tornavam, como filho mais velho, herdeiro do morgadio, continuava a dirigir-se a ele como se não fosse digno de confiança e incapaz de tomar decisões acertadas. Por isso tomara a decisão de desafiar o pai, abandonando o mosteiro e alistando-se no exército. Não tinha ele obrigado o pai a aceitar esta mudança e a deixar que ele próprio fosse dono do seu destino? O que haveria de mais determinante do que relacionar-se com a cavalaria francesa? E, acima de tudo, que melhor acção podia ter feito do que ajudar Mariana a triunfar?

            -           Se ele me amasse - prosseguiu Mariana -, não iria para a guerra nem correria riscos desnecessários. É insensato. Diz-lhe isso.

            Ele olhou-a. Tinha o rosto corado e húmido.

            -           E eu, Mariana? Não te apoquenta que eu vá para a guerra?

            -           Diz-lhe isso! Por favor, Baltazar! - suplicou ela agarrando-lhe na manga com tanta força que ele teve de dar um puxão para se libertar. Ao afastar-se, perguntou a si mesmo se a irmã o teria ouvido despedir-se.

 

            Debruçou-se sobre o silêncio, como Catarina lhe tinha ensinado. Não sabia bem se o zunido distante que subia e descia como uma escala musical era Noel ou o seu medo.

            Na "casinha" ao lado da de Mariana, onde a Irmã Ignez de São José vivia com Peregrina, a Boneca das Vaidades encostada à parede tinha um ar estranho, como se estivesse pintalgada às cores.

            -           Tens brincado com ela? - perguntou a Irmã Ignez.

            -           Sim. A laranjeira da Catarina teve o seu primeiro ramo bebé. Pedi à boneca para se sentar no ramo. Eu também queria, mas tive medo de o partir.

            -           Como é que a boneca ficou toda colorida?

            Peregrina encolheu os ombros:

- Talvez Catarina a tenha mascarado.

            A Irmã Ignez não sabia se devia perguntar a Mariana que barulhos eram aqueles que por vezes ouvia à noite, e se ela não se importava de vir visitar a irmã de quando em quando. A Irmã Juliana de Matos andava a espalhar boatos de que a ala dos Alcoforado estava assombrada. A Irmã Ignez ouvia suspiros que a faziam abraçar-se à sua Boneca das Vaidades sem saber ao certo se desejava que tais suspiros desaparecessem ou que fosse ela a soltá-los.

            -           Tens saudades da tua irmã? - perguntou a Peregrina.

            - Qual delas? A Catarina vem falar comigo muitas vezes, mas tenho mais saudades da Mariana.

 

 

            -           Noel? Noel!

            -           Mariana!

            Já nos seus braços, disse-lhe: - Estava tão preocupada.

            -           Por minha causa? - perguntou ele afastando-a para a ver melhor.

            -           Por nossa causa.

            Tranquilizou-a uma vez mais. Passava sem problemas pela Irmã Genebra na porta de entrada. Mesmo sem contar com a negligência da porteira, muitos operários, soldados e refugiados entravam no convento. A dificuldade, admitia, era passar sem ser visto pelo portão que conduzia ao claustro e rezar para que ninguém estivesse nos corredores quando subia as escadas a correr.

            -           Não te inquietes - disse-lhe a sorrir. - Gosto de correr riscos. Algumas das freiras são tão velhas que julgam que eu sou um enorme morcego.

            -           Noel, por favor, não brinques com coisas sérias. Promete-me que terás cuidado.

            -           Estou habituado a combater... Acho que consigo iludir umas pobres freiras.

            Ela fez um esforço para rir.

            - Assim é melhor - disse ele beijando-lhe o rosto.

            - Quero-te sempre aqui comigo - ripostou Mariana, pensando que ele não falaria de forma tão romântica se não se sentisse apaixonado.

            - Sempre? Haverias de cansar-te de mim e metias-te em sarilhos.

            -Já estou metida até ao pescoço num bom sarilho.

            - Não fales tão alto.

            -           Tens realmente vinte e nove anos?

            -           Tenho. Já sou um velho.

            -           Não é por isso. Não consigo imaginar-te com essa idade e ainda solteiro.

            -           Talvez ainda não tenha encontrado a mulher ideal. - Mas ao ver a sua expressão, apressou-se a acrescentar: - Estava a brincar, Mariana! Espanta-me que todas as tuas ansiedades ainda não te tenham aniquilado.

            -           Não me importo que me matem.

            - Mas eu importo-me.

            -Tu?

            - Não vês como te amo?

            As mãos dele envolveram-lhe a cabeça e pronunciava as palavras junto da sua fronte. Quem poderia reivindicar tanta felicidade!.

            - Amo-te mais do que a toda a minha vida - murmurou ela.

            Não compreendia como é que uma mulher podia passar por Noel e não ficar perdida de amores por ele, como acontecia com ela, sem sentir a invisível e implacável atracção que tornava impossível qualquer resistência. Sentia necessidade de lhe tocar, de tocar o ar e possui-lo mesmo quando ele não estava presente, tal como os beija-flores espetavam, desesperados, o bico no ar, tecendo e urdindo furiosamente estames invisíveis como se sentissem necessidade de se refugiarem em flores mesmo quando não havia flores por perto.

 

            Na capela, às nonas, Mariana deu uma gargalhada. A Irmã Dolores franziu o sobrolho. As Irmãs Leonor Henriques, Brites de Freire e Maria de Santiago mostraram-se visivelmente embaraçadas. As outras freiras ocultaram o seu mal-estar.

            Não a preocupava que soubessem do seu amor!

            Na próxima visita de Noel confessar-lhe-ia que o seu nome de família a espantava: "botão". A mãe dela costumava pregar botões no interior das mangas. Por conseguinte, Mariana estava fadada já em criança para o encontrar. Desde o principio que se preparara para se sentir amada e confortável nos braços com botões. Como se a mãe lhe tivesse proporcionado o primeiro sonho do amor e Noel lhe devolvesse agora a mãe, sonhada de novo.

            Como se sentia feliz! Doravante só cantaria o nome de Noel, sussurrar-lho-ia ao ouvido dele, pois agora era a sua autêntica fé e pátria.

 

            Vestida com a sua camisa de noite branca, aguardou no Grande Silêncio. Por vezes ele chegava tarde e ela dedicava-se então a um jogo. Não era difícil esperar um minuto. Entretinha-se a contar os segundos. Podia aguentar mais dois minutos, dizia-se, e desta maneira conseguia passar uma hora - uma tortura controlada. Este método tinha-a ajudado a sobreviver vinte e seis anos, vinte e seis anos de guerra.

            Durante a reunião dessa tarde na Sala do Capítulo sobre os assuntos espirituais e temporais do convento, a Superiora passou por um momento horrível. A Irmã Joana Veloso de Bulhão quis que lhe explicassem uma passagem de "A Fortaleza Interior", de Santa Teresa, a qual dizia que o diabo era incapaz de associar a dor ao sossego e deleite espiritual das almas. Era assim que se podia julgar se um determinado estado de êxtase era abençoado ou não.

            -           O diabo é incapaz de associar a dor ao deleite espiritual? Quer ela dizer que a dor é sinal da presença de Deus? Como pode isso ser verdade? perguntava a Irmã Joana Veloso de Bulhão consternada. A Superiora, desprevenida, murmurou que ela devia descobrir por si mesma e saiu da sala a cambalear.

            Ninguém sabia dar uma resposta. Mariana queria afirmar que a agonia mais pura e sagrada era desejar o ser amado e ter de esperar para o ver novamente. O êxtase sem dor era prova da indiferença demoníaca.

            Depois, quando ele partia, era de novo o mesmo terror, em sentido contrário.

            Naquela noite preparou um discurso receosamente: "É perigoso. Leva a minha alma e o meu corpo contigo. Que uso lhes posso dar durante as horas em que não estás comigo? Nenhum céu se compara à felicidade que me dás. Quando surges diante de mim, não consigo deixar de abraçar-te. E quando não estás comigo, tudo o que faço e penso é também um abraço que te dou. Sem a tua presença, sinto-me como se estivesse na minha sepultura".

            De repente Noel entrou no quarto e o seu discurso desapareceu. Precipitou-se nos seus braços e ele apertou-a contra o peito; e quando lhe pediu que fizessem amor por todo o quarto, para que, assim unidos um ao outro, alterassem o espaço deste lugar desprezível, ele acedeu e cantou o nome dela. Pareciam estar a dançar num salão de baile em França: ela ignorava as roupas elegantes e os leques a abanar recatadamente à sua volta, vestindo apenas uma grosseira camisa de noite branca e descendo descalça uma escadaria gritando ao seu amado perante o escândalo dos presentes: "Lembras-te dessa noite? A única escolha épossuir tudo sem fim". E ele comportar-se-ia assim em frente de toda a gente: transportá-la-ia e quase a esmagaria nos seus braços; e ela enlaçaria as pernas em volta dele de um canto do quarto para o outro, sem que mais nada nem mais ninguém existisse. E as pessoas sussurrariam: "Que vergonha! Que vergonha!". E quando ela gritou: - Meu Deus, Noel, amo-te tanto! - ambos partilharam aquele sublime medo de se possuírem. Mariana teve plena consciência de que acabavam de viver um momento perfeito. Enlevaste-me, as nossas almas flutuaram,

salvaste-me. O perfeito estado de graça.

            Quando ele a pousou no chão, sentiu-o tremer. Depois tirou duas pulseiras do bolso e, sem dizer palavra, colocou-as no pulso de Mariana.

            "É o dia do meu casamento", pensou ela, não ousando respirar.

            Noel deu-lhe um retrato seu em forma oval e pintado em esmalte.

            - Por que choras? Por que razão chora o meu anjo?

            Porque acaricias o meu cabelo curto como se fosse a mais sumptuosa cabeleira da mais bela mulher. Porque quero voltar a viver um momento perfeito outra vez. Porque não quero sujeitar-me novamente a um prazer tão atormentador, porque a partir de agora todos os outros momentos exigirao a mesma saciedade. Porque o meu quarto se transformou. Agora o ar é diferente e não tenho outro remédio senão respirar-nos. Porque nunca ninguém me inflamou tanto com os louvores que tu me ofereces. Porque o peso destas pulseiras fortalecem o nosso amor, mesmo se são já uma recordação que necessita de uma lembrança. Porque o meu espírito continua apegado à fome do meu corpo, que nunca soube tão profundamente que existia, e pergunto-me se estarei louca. Submeto-me ao desejo, à minha boca e aos meus membros, a um estranho fogo dentro de mim, não ao meu espírito. Porque me fazes detestar a serenidade. Porque toda a gente te admira, porque és amigo do meu irmão e porque a tua bravura inspira os homens, o que te torna três vezes, infinitamente mais amado. Porque enlouqueço como um animal. Porque te amo tanto que todas as gotas de morte que trago comigo - e tenho a barriga cheia delas - e todos os direitos à vida emergem em gloriosos extremos.

            - Porque não consigo imaginar nada melhor do que

guardar-te para sempre - disse Mariana apertando o retrato contra o seu peito nu e trémulo.

            O facto de ele se inclinar e afogar com beijos as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto fê-la verter ainda mais lágrimas.

 

            -           Minha querida! Por favor! Se soubesse, não te teria dito nada. Vá, sê razoável. Estavas sempre a perguntar-me. - E acrescentou: - Devias falar mais baixo.

            -           Não me importa que todo o convento ouça. Não percebo como é possível. Não quero perceber.

            Era irritante vê-lo vestir-se logo que acabavam de fazer amor e ouvi-lo dizer sem pesar: - Até daqui a uma semana, ou mais tarde. Vamos atravessar

a fronteira - como se isso não fosse uma eternidade. Como se ele fosse imune à captura ou à morte, como se ele pudesse conceber tudo menos festejar o

seu ardor. É verdade que o pressionara a confessar se amara já outra mulher. O que ela queria dizer era: "Não te agrada saber que ninguém significou tanto para ti como eu? Não é um alívio ter encontrado um amor mais verdadeiro do que a maior parte das pessoas alguma vez encontrará? O amor à primeira vista não é o melhor de todos?". Mas em vez disso saiu-lhe: - Nunca amaste outra mulher, pois não?

            Não procurava nenhuma discussão, apenas queria compreender como é que Noel esperava que ela reagisse quando lhe confessou de modo casual que amara uma francesa. Era óbvio que ela não exigia tanta franqueza, mas uma verdade mais elevada.

            -           Encontrei-a antes de ti - disse-lhe. - Sê sensata, minha querida.

            -           Não quero ser sensata. Devias olhar para todos os teus romances anteriores sob outra perspectiva e dar-te conta de que já não podes considerá-los como amor.

            Exasperava-a que ele fingisse não perceber, que fosse incapaz de ultrapassar a barreira que separava as línguas que falavam.

            -           Não queres vestir uma farda e dar-nos assistência? Poderias ajudar-nos na frente de batalha, Mariana. És o amor mais feroz que um homem pode desejar encontrar. Não estragues esta noite, por favor. Não te sentes feliz?

            Mariana sentou-se na borda da cama e envolveu o corpo com os braços. Estava a ser ridícula. Agora sentia uma imperiosa necessidade de lhe explicar que, independentemente do que o amor pudesse ser, não sabia ao certo se tinha a ver com felicidade. E depois pensou: "Por amor de Deus, Mariana, não te atormentes mais!" - e soltou uma risadinha.

            - Assim é que é! - exclamou ele abotoando a capa. Como esta tinha capuz, não se dera ao trabalho de pôr a cabeleira. Uma vez ficara ligeiramente irritado por Mariana a ter experimentado e declarar que daria tudo para se ver ao espelho.

            Quando a beijou no alto da cabeça, ela agarrou-se à sua capa.

            -           Tenho medo que me abandones. Não suporto quando partes assim. O que será de mim quando me deixares?

            Não tencionava dizer nada, mas as palavras eram como alfinetes nos seus pulmões e irromperam pela garganta.

            -           Estou aqui agora e não vou permitir que estragues os momentos que passámos juntos. Serei cuidadoso. Vou combater e depois hei-de voltar. Não te vou abandonar, meu amor.

            -           Não me abandonas?

            -           Como poderia eu fazer tal coisa? Estás a segurar-me pela capa!

            Ela riu-se e encostou a cabeça à sua cintura. Ele acariciou-lhe a nuca. No meio de tantos medos, de tantas obsessões, era um instante divino pelo qual valeria a pena morrer. Ele ajoelhou-se e fitou-a, levantando-lhe o queixo com um dedo.

            - Posso jurar-te uma coisa. Nunca encontrei e jamais

hei-de encontrar alguém tão apaixonada como tu!

            Quando a cavalaria francesa partiu de Beja na manhã seguinte sob o comando dos generais Schomberg e Diogo Gomes de Figueiredo, Mariana não foi à missa. Ficou na varanda a ver o conde de Chamilly a afastar-se ao longo da estrada que conduzia a Mértola. Alabardas e canhões, escudos e estandartes, poeira, fardas vermelhas e verdes; batalhões passaram pelas portas da cidade, mas ela não teve dificuldade em avistar Noel garbosamente montado no seu cavalo. Ele

virou-se e ergueu o sabre na mão com que lhe abençoara a nuca.

            Estaria a fazer-lhe um sinal? Ou simplesmente a dar ordens aos seus homens? Oh!... quase atropelava a pessoa à sua frente. Pensaria nela?

            Não fazia ideia.

            A Irmã Brites de Brito passou no corredor e disse-lhe:

- Agora as questões militares interessam-te?

 

            - Capitão Bouton! Desculpe!

            - A culpa foi minha - disse Noel puxando as rédeas do cavalo.

            Tinha embatido num soldado que marchava à sua frente. Não devia baixar guarda e cortejar assim o perigo. Uma falta estúpida, mas estava sempre pronto a admitir os seus erros, mesmo perante um subordinado. Não por humildade, mas porque era a atitude correcta e os seus homens respeitavam-no por isso.

            Vira a freira à varanda. O que é que levava as mulheres a dilacerar o amor? A esvaziá-lo da sua alegria? Quando um homem tentava agradar-lhes e trazer-lhes prendas, achavam que nunca era suficiente. Mariana havia-o desapontado. A maior parte das mulheres era reservada e não tão ávida de amor. Mas não podia dizer o mesmo de Mariana, que não se dava conta de que o afectava como nenhuma outra mulher o conseguira. Julgava que ela sabia o que estava a fazer e que soubesse controlar-se. Sentia-se lisonjeado por ela ter reparado nele. Se as mulheres o vissem em combate, talvez o admirassem tanto como os seus homens. Mas não era assim. Excepto talvez Mariana. Mostrara-se honesto ao jurar-lhe que nunca haveria de encontrar uma mulher tão apaixonada. Sentia-se dominado por aquela paixão, o que era perigoso. Nunca dera bons resultados e podia matar alguém.

            Não era dado a este tipo de reflexões, nem costumava deixar de prestar atenção ao que estava a fazer. Um inocente podia ser morto por isso. A verdade é que ela era a primeira mulher bonita que lhe prestava uma atenção tão ardente. Estava a ficar apaixonado por ela, o que era bastante perigoso.

            - Em frente! - gritou, e o seu regimento partiu a galope para a frente de batalha.

 

            Ela via-o na música. Quando a Irmã Dolores perguntou quem sabia recitar as três categorias principais dos cantos gregorianos, Mariana baixou a cabeça e disse:

            - Há a silábica, com uma nota musical para cada sílaba do texto; a neumática, em que vários grupos de notas são cantados numa sílaba; e a melismática, na qual grupos de notas longas são absorvidos em cada sílaba.

            - Muito bem, Irmã - disse a directora do coro. - E eu a pensar que estivesse semi-adormecida! Qual é o efeito da melismática?

            - Tornar as palavras exultantes, mais ricas. Abri-las para as fazer explodir.

            Via-o na cor dos paramentos. Quando o celebrante dava missa em vestimentas verdes sacerdotais para designar o tempo laico, Mariana pensava jubilantemente: "Verde? O verde devia ser banido. O tempo nunca mais será o mesmo".

            Encontrava-o no vasto pesar da noite quando contemplava o seu retrato e a medalha de São Cristóvão. Murmurava o nome dele.

            E no scriptorium, quando fazia as contas. As chamas elevavam-se dos pergaminhos onde assentava as somas. A Irmã Francisca deixou cair uma das páginas do livro de contas como se a escaldasse.

            - Irmã Mariana! - exclamou. - Deseja dizer-me alguma coisa?

 

            A Irmã Maria de São Francisco, furiosa por não servirem lombo de porco ao jantar, atirou o prato de guisado ao chão. Algumas postulantes imitaram-na. Todas estavam descontroladas. A Superiora, Dona Joana de Lacerda, tinha morrido. Outra nobre, Dona Isabel Pereira, ainda mais decrépita do que a sua antecessora, viu-se obrigada a aceitar aquele cargo que mais ninguém queria, embora estivesse geralmente tão doente que não podia presidir às refeições.

            - Passam-se aqui coisas ainda piores - proclamou a Irmã Juliana de Matos fungando. - Há aqui histórias bem piores.

            Através de gestos, a Irmã Brites de Noronha fez notar que aquela quebra de silêncio por parte da Irmã Juliana, embora desculpável, constituía uma ofensa.

            -           Não te ponhas a agitar as mãos à minha frente! - vociferou a Irmã Juliana de Matos.

            -           É pecado desperdiçar comida - resmungou a Irmã Michaella dos Anjos limpando os restos do prato da Irmã Maria de São Francisco. - Há homens a morrer e tu portas-te como uma rainha que quer criados rodopiando à sua volta em atenções!

            -           Conheço uma pessoa que recebe muitas atenções! - disse a Irmã Maria de Santiago.

            O embaraço e o choque reinou no refeitório, levando as pessoas presentes a conformar-se às regras de silêncio. O desconforto abateu-se sobre todos quando notaram que a Irmã Mariana não se encontrava no meio das freiras. Era evidente que nem sequer se dava ao trabalho de sair dos seus aposentos para cantar, trabalhar e comer com as suas irmãs.

 

            Enquanto lavava a roupa de Mariana, a Irmã Maria de Castro procurava vestígios de sangue. Nunca encontrara nada, mas a roupa estava sempre impregnada de um odor masculino. O inexplicável era que, durante a estadia das tropas francesas na fronteira, os lençóis de Mariana tinham o mesmo odor, como se ela tivesse absorvido o seu suor quando se deitava com ele e agora o transpirasse para o possuir, invisível, ao seu lado. Maria de Castro estava impressionada. Isto era muito mais miraculoso do que a tediosa tarefa de tratar da roupa das outras freiras!

            Nessa noite, ao sair sorrateiramente do dormitório para ir à "casinha" de Mariana, Maria de Castro ficou magoada com o ar desapontado da amiga ao vê-la.

            -           Sou apenas eu - lamentou-se.

            -           Também não consegues dormir? - perguntou-lhe Mariana.

            -           Não. Posso dormir na tua cama? Quero enrolar-me nos teus lençóis, se não te importas. Só desta vez?

 

            No pátio, à volta do poço, as freiras tagarelavam a propósito de Mariana. A Irmã Ignez de São José foi ter com elas e disse-lhes:

            - Por que não têm esse tipo de conversa suja com o vosso confessor? Não vêem que a irmã dela está mesmo ali?

            -           A irmã dela? - retorquiu a Irmã Cecilia Sebastiana. - Não creio que a pretensiosa da Mariana tenha dirigido duas palavras à Peregrina desde que ela está aqui. Até parece que nem a conhece.

            -           A Peregrina ainda é uma Alcoforado - insistiu a Irmã Ignez de São José. - O que significa que compreende mais do que pensas.

 

            A Irmã Brites de Freire levou a Mariana um empadão de galinha e sopa de lebre com toucinho. Estava deitada em cima da cama, mas sentou-se assim que Brites entrou.

            -           Estou preocupada contigo - disse Brites.

            Há muito que desejava visitá-la a fim de não odiar Mariana por esta ser uma amiga tão pouco atenciosa.

            -           Sinto-me muito feliz.

            -           Não pareces. Deves estar esfomeada.

            Passou-lhe a comida e ficou a ver Mariana devorá-la.

            -           Oh! Desculpa! - disse Mariana. - Queres provar?

            "Enganei-me", pensou Brites. "Como a pele dela brilha! As íris dos olhos parecem esmeraldas e o calor que emana faz-me sentir como se estivesse nua nos campos".

            Mordeu os lábios para evitar chorar.

            -           Estás a afastar-te de mim - murmurou.

            -           Estou aqui mesmo ao teu lado, minha tontinha.

            -           Não me chames tontinha. - Tirou-lhe o prato vazio das mãos. Pelo menos... - baixou os olhos. - Pelo menos diz-me o que é que se sente.

            Foi a vez de Mariana baixar a cabeça e fazer um esforço para não chorar.

            -           Se pudesse, contava-te tudo. A ti mais do que a qualquer outra pessoa. Mas a maldição é que não pode ser descrito de nenhum modo exacto.

            Mais tarde ocorreu-lhe que poderia ter dito: "Sabes, aqueles ex-votos que lançamos ao fogo, Brites? A perna de cera quando uma tia quebra uma canela, um bebé de cera quando um bebé está doente, um braço de cera quando alguém perde o braço na guerra? Pensamos que é uma perna, um braço, um bebé. Um coração de cera quando um homem parte. Atiramos os nossos desejos de cera à fogueira para que as nossas preces sejam acolhidas favoravelmente e o fogo diz: "Tens a pretensão de os conhecer? Então onde é que está a perna, o braço, o coração? É tudo meu. É tudo fogo".

 

            Finalmente! Finalmente! Apesar de ele parecer terrivelmente fatigado, não conseguia parar de gritar:

            - Não podes terminar esta guerra?

            - Ficaria sem trabalho e teria de aturar a sociedade francesa.

            Noel caiu na cama.

            - Eu hei-de manter-te ocupado - murmurou ela atirando-se para cima dele.

            Como é que ele podia adormecer neste momento?

            - Darias cabo de mim.

            -           Como podes falar assim? - disse ela sentando-se na cama e cobrindo o rosto com a mão.

            -           Por que é que eu tenho de medir todas as palavras quando estou contigo?

            -           O que é que queres dizer com isso?

            -           Estás a ver? Todas as palavras exigem prudência. É muito fatigante.

            -Noel...

            Prudência? Entre eles nada tinha a ver com prudência.

            -           Sim?... - permanecia de olhos fechados.

            -           É tudo tão simples.

            -           Não é, não. Mas não vamos zangar-nos.

            Adormeceu. Ela não compreendia como ele podia fazer tal coisa, mas pensou: " O amor vai ensinar-me tudo o que há para aprender na Terra".

            Enquanto Noel dormia, estudou as linhas da palma da sua mão e tentou lê-las, acariciou-lhe as unhas e amou-o assim deitado. Repreendeu-se: "No limiar do sono profundo, mesmo assim ele arranjou maneira de chegar até ti".

 

            A Irmã Francisca Freire fazia o possível para ler as notas e as marcas, como piolhos a fugir, na pauta de música para órgão da Irmã Beatriz Maria de Resende, dirigindo os dedos da freira cega ao longo do teclado. A maior parte dos ocupantes do convento dormia. A Irmã Francisca Freire não tinha quaisquer conhecimentos musicais - levava imenso tempo a descobrir os acordes -, mas receava que a Irmã Beatriz Maria de Resende morresse se ninguém a ajudasse a aprender novas composições.

            -           Queres parar? Já estás rouca - disse a Irmã Beatriz.

            - Sou uma péssima executante. Desculpa-me.

            -           Não é isso. Desde que perdi a vista, o meu ouvido tornou-se excelente. Pareces ansiosa.

           A Irmã Francisca Freire concordou que estava realmente ansiosa, mas não entrou em pormenores. Tinha visões de teias de aranha com os fios partidos, como se houvessem desfiado e espalhado amor pelo Convento. Devia estar preparada para quando Mariana necessitasse de si.

 

            Embora isso fosse proibido, a Irmã Leonor Henriques escreveu uma carta ao seu irmão Rui para lhe dizer que iria considerar a possibilidade de ele vir a herdar a sua propriedade em Viana do Castelo se tratasse melhor a mulher e a família. Bem precisavam disso agora. Não entrou em pormenores pois tinha a certeza de que Rui certamente já ouvira os boatos que corriam. Quando terminou, foi dar um passeio na nova ala. Uma luz dourada fluia pelas fendas da porta de Mariana. Bateu e quebrou o Grande Silêncio, murmurando através da porta: - Estou preocupada contigo. Estás bem?

            Uma lanterna luzia à cabeceira. E uma resposta jorrou dos lábios de Mariana: - Não. Estou muito doente.

            -           O facto de pertencer ao clã dos Lobo treinou-me para muitas coisas

-           disse a Irmã Leonor Henriques. - O Rui, o Cristóvão e o Bartolomeu costumavam ter horríveis dores de cabeça quando eram pequenos. Sentava-os ao meu lado e forçava-os a concentrarem-se no que tinham na cabeça até os pensamentos deles transbordarem nas minhas mãos. Desse modo conseguia ver o que se passava dentro deles e libertava-os do que os incomodava. Foi assim que se viram livres das dores de cabeça. Mas não consegui tirar-lhes as ideias que mais tarde os levariam a praticar toda a espécie de atrocidades.

            -           Gostaria de experimentar - disse a Irmã Mariana. - Tanto pelo prazer da tua companhia como para ver se dá resultado.

            Mariana aninhou a cabeça nas mãos de Leonor Henriques e sentiu os seus tormentos voarem como corvos para fora do seu espírito; e descobriu, para seu grande desapontamento, que não estava grávida. Teria exultado em sofrer mais um vexame. Talvez obrigasse Noel a levá-la para França a toda a pressa. Por que razão é que ele, um génio em estratégia, nunca concebera um tal plano? Tinha dois criados portugueses, Manuel e Francisco, com quem contava regressar a França. Por que razão lhe dizia sempre: "Espera um pouco mais, os diplomatas ingleses estão a fazer o que podem em Madrid, mas o tratado ainda não foi assinado".

            Não devia o amor desprezar todos os esquemas a não ser os que ele próprio engendrava? Oh! Ela era bem a santa padroeira da maldição dos Alcoforado: planear tudo com tanta antecipação que o resto do mundo nem sequer sabia que devia cooperar! Por que é que ele não se queixava dela e lhe dizia: "Dá provas do amor de que tanto te vanglorias e abandona a tua família, o teu país e este convento onde te encarceraram contra a tua vontade! Denuncia tudo menos a tirania do amor! Vem combater comigo até que a guerra acabe! Arrebatar-te-ei na minha sela e transportar-te-ei por montes e vales!".

            Iria ela realmente para França?

            O amor forjava os seus próprios motivos, forçava as suas próprias soluções. Com um amor como o deles, tudo era possível. E ele até podia ficar aqui! Não tinha pensado nessa possibilidade, mas fazia sentido! Há anos que Noel vivia em Portugal. Jogava às cartas e ia à caça com a gente da região. Era estimado por todos.

            Era inimaginável - não, nem sequer por um instante! - que ele pudesse existir sem esta paixão. Era a única certeza que ela possuía!

            Vieram-lhe à cabeça pensamentos dolorosos - Talvez tivesse de dizer adeus ao pai, a Ana Maria, a Brites de Brito? À Irmã Francisca Freire? A Leonor Henriques, a Maria de Castro e às outras? Seria capaz de enfrentar os mexericos em França? - que deixou escorrer por entre as mãos da Irmã Leonor Henriques, que soltou um queixume.

            - Minha filha, a tua cabeça está a latejar mais do que nunca. A minhas mãos tremem de frio. Não consegues acalmar-te?

            - Não, não consigo. Lamento imenso.

 

            Jamais uma mulher se atirara a um homem com tanto ódio, tanto amor! Estava à beira do desespero. Quando ele chegou, bateu-lhe com os punhos no peito. Ele disse que não podia demorar-se. Havia um torneio na cidade para festejar a vitória na fronteira. Foi preciso uma hora para a acalmar. Ele falou do irmão, Gérard, que lhe escrevera a preveni-lo de que a guerra se estendera aos Países Baixos. Falou de Rui e de Cristóvão, que tinham combatido como leões, e de Baltazar, que ensinara os soldados a enrolar um pano à volta de um pente para tocar música. Noel pôs-se a imitá-lo até que ela, divertida, ficou mais calma.

            Deitaram-se sob uma coberta e ele descreveu-lhe Paris e Espanha, os aquedutos flamengos, as tapeçarias inglesas e como eram os sinais que as mulheres francesas usavam. Mariana conhecia o costume de as mulheres demasiado bonitas porem um pequeno sinal no rosto para não ofender Deus?

                        Mariana nunca ouvira falar de tal coisa! Como era excitante estar ali com ele a abater os muros daquela prisão para que o mundo entrasse por ali dentro.

            Sabia Mariana que essas mulheres por vezes colocavam os sinais de modo a transmitir mensagens secretas a um amante? E que tais sinais também eram usados para esconder uma imperfeição cutânea, por exemplo?

            -           Quer dizer, então, que isso pode ser tomado como uma mensagem quando tudo o que uma mulher deseja é esconder uma borbulha? - disse Mariana.

            Ambos desataram a rir.

            -           Devias fazer um sinal - propôs ele. - És tão bonita que certamente ofendes Deus.

            -           Tenho a certeza que não. Deus fez-me assim e acho que Ele gosta de mim. Mas já que as francesas usam sinais, também gostaria de ter um.

            -           Aqui tens o teu sinal - disse ele beijando-a na face. - E outro. Deu-lhe um beijo no queixo. E beijou-lhe o rosto todo.

            Mariana contou-lhe que o pai costumava transportá-la às cavalitas e lhe dizia: "Dá uma palmada no céu! Vá, Mariana! Mais alto!". Falou-lhe dos filhos de Ana Maria e do ventre da mãe redondo como um globo, das nogueiras, dos santuários, da sua colcha azul vinda de Macau, das aventuras com a avó e da Madre Maria de Mendonça. De repente pôs-se a chorar por causa de Catarina e da mãe até ele dizer: - Shh! Shh! Mariana!

Amo-te.

            Falou-lhe ainda do santuário a Nossa Senhora da Varanda Superior e contou-lhe tudo do que se lembrava para lhe oferecer como prenda.

            Começava a pensar que era assim que poderiam amar-se um ao outro quando vivessem juntos - contando histórias simples ao longo da noite, falando de acontecimentos vários, sem estarem sempre hesitantes, inflamados e de coração dilacerado - e talvez viessem a ser os primeiros amantes da História da humanidade a conseguir domesticar a paixão. Enfrentar o desafio da felicidade pura e trazer a paixão a uma casa onde aumentaria em vez de diminuir. Um feito inédito até então! Havia de consegui-lo. Haviam de consegui-lo juntos.

            Enquanto imaginava isto tudo, Noel disse:

            - Tenho de ir jogar às cartas, minha querida.

            Dominou o hábito de protestar. Tranquilidade, amor ensurdecedor, idas e vindas - tudo isto devia coexistir na sua relação, mas nenhum desses factores diminuiria o amor que sentiam um pelo outro.

            - Se vires o Baltazar, diz-lhe que estou contente por o saber são e salvo

- disse docemente.

            Ele pareceu surpreendido por ela aceitar tão bem a sua partida. Era um alívio. Mariana dava provas de bom senso, e assim não haveria querelas.

            Depois de ele partir, Mariana pôs-se a dançar à volta do quarto. Tinha embarcado numa longa viagem com ele e descobriria o afecto selvagem e o

afecto domesticado. Todas as suas facetas. Violento e sem tréguas, terno e sem exigências, como nesta noite escura transformada em sinal de beleza.

 

            Por amor de Deus, Mariana! Da última vez que a vira, pensara que tudo se resolvera da melhor maneira. As mulheres faziam isto. Tinham de transformar tudo em pesadelos. Ficou surpreendido pelo modo como ela lhe arrancava a roupa, falando - onde estava a sua dignidade? - das suas coxas, dizendo que o desejava ardentemente. A ele? Qualquer idiota podia perceber que tudo aquilo não tinha nada a ver com ele.

            Mariana surgia-lhe agora num estado lamentável. Os braços não o apertavam bem, não metia a língua suficientemente fundo nos lábios que se afastavam dela, as costas não se arqueavam o suficiente para quebrar e pôr fim a esta miséria porque - e a Virgem Maria era testemunha! - estava constantemente a arder de desejo.

 

            Ana Maria gritou aos filhos para pararem de correr e estarem quietos. Estava a limpar o sangue que escorria do nariz de Miguel, que tinha andado à pancada na cidade.

            - Explica-te! Explica-te! - vociferava o papá.

            à medida que se aproximava dos setenta anos de idade, o velho Alcoforado enfurecia-se cada vez mais facilmente com a ideia de que, mesmo que vivesse para ver a paz assinada, estaria demasiado fraco para tirar qualquer proveito dela. Por outro lado, este seu filho de dezassete anos temia que a guerra acabasse sem participar nela.

            - Não permito que nenhum dos meus filhos ande à pancada na rua como um rufia! Não admito tamanha vulgaridade!

            - Sabe muito bem que não sou eu quem é vulgar - ripostou Miguel. - Por que é que não fala assim com a Mariana?

            - Cala-te, Miguel! - ralhou Ana Maria.

            Francisco da Costa fitou-o. O seu filho de treze anos, Francisco, e as duas netas, Caetana e Inês, pararam de brincar, assustados com a sua fúria. Bastiana, a criada, trouxe outra bacia de água fria para Ana Maria tratar da ferida de Miguel e levou a que já estava suja de sangue.

            Nessa altura Rui entrou em casa dizendo:

            - Chegou o herói.

            - O que é que vieste cá fazer? - gritou Ana Maria ao marido. - As putas da cidade estão todas ocupadas?

            Atirou o pano ensanguentado para dentro da bacia e disse a Miguel: - Trata de ti mesmo. - Depois, virando-se para o pai, perguntou-lhe: - Onde équevai?

            - Que raio é que está a acontecer? - bradou Rui seguindo Ana Maria até ao quarto. Ela lamentou-se então que as crianças andavam a portar-se mal e que Miguel desrespeitava o pai. Mas por que é que ela se dava ao trabalho de explicar tudo isto a um bêbado viciado no jogo e vadio? Não via ele que o seu mau feitio e teimosia contribuíam para apressar a morte do pai? Ergueu um dedo acusador na sua direcção:

            - Se calhar apostaste com esse francês que ele não conseguia seduzir a minha irmã. Não me admiraria nada!

            - Cristo! Achas que eu era capaz de uma coisa dessas? - gritou-lhe Rui. - Não me conheces nem um pouco... Nem sequer suspeitas de quem é a culpa...

            Ana Maria tapou o rosto com as mãos; detestava que o marido a visse chorar.

            Ele aproximou-se dela e agarrou-a pelo braço:

- Ana Maria.

            - Não me dirijas a palavra nem me toques. Sou gorda.

            - Não digas isso. Es a minha mulher, a mãe dos meus filhos - murmurou. - Nunca faria mal a uma mulher, sobretudo a Mariana. Pobre coitada, ali fechada naquele convento.

            - Que estupidez a minha! Não me lembrei que os Lobo eram gente de honra.

            -Temos mais honra do que esta nova geração que anda por aí.

            - Que Deus nos ajude

            - Tens toda a razão.

            - Magoas-me.

            - O quê? Nunca na vida.

            - Todas essas mulheres com quem andas e as bebedeiras que apanhas!

            - Quem é que se importa com isso?

                        -Eu.

            - Bem! - suspirou Rui. - Se te serve de algum consolo, estou a ficar velho. Tenho quase cinquenta anos. Olha para mim - fez uma pausa. - Olha para mim, por favor.

            - Está bem - disse ela olhando-o de soslaio.

            - Não pretendia contar-te nada, mas devo dizer-te que embora esse tipo seja meu amigo, desafiei-o para um duelo. Mas como eu estava um bocado bêbado, ele aconselhou-me a dormir e depois fomos enviados para a fronteira e perdi-lhe o rasto. A propósito, finalmente vamos ser um país livre. O tratado de paz vai ser assinado dentro de um ano.

            Ana Maria fungou e acenou a cabeça sem saber o que fazer.

            - Quem é que ajudou o francês a encontrar-se com Mariana? - perguntou docemente.

            - Não tem importância.

            - Não quero que o papá venha a descobrir o que se passa com a Mariana. Eu sei que não te interessa, mas devo dizer-te que estou à espera de outro filho.

            -Ana Maria, o teu pai sabe que a Mariana anda metida com um homem. Ainda não quer acreditar, mas sabe.

 

            Francisco da Costa estava sentado à cabeceira da cama de Maria Alves, que continuava mergulhada no seu sono profundo. Disse-lhe:

- Fale comigo, velha matreira. Agora que a Leonor faleceu, não tenho ninguém com quem falar. Deveríamos discutir o que a paz nos trará.

            Censurou-a por se ausentar durante quinze anos. Por não o ajudar a criar a tribo de netos que não lhe tinha qualquer respeito. O seu próprio filho desrespeitava-o. Não os tinha educado para agora se revelarem tão frouxos. Principalmente Baltazar, que insistia para que as questões legais do Convento de Santa Clara ficassem concluídas e que Francisco deixasse de os pressionar para venderem as suas propriedades. Os termos do negócio tinham sido considerados duros, embora razoáveis quando o convento se encontrava numa situação desesperada. Não havia razão para ele voltar a vender o que adquirira. Hoje em dia ninguém cumpria a sua palavra num negócio que devia estar assente para sempre e ele nem precisava sequer de explicar tudo isto ao seu próprio filho. Baltazar devia preparar-se para herdar o morgadio, mas os tempos vindouros teriam de ser prósperos para compensar a fraqueza do filho. Baltazar não se importava que o pai tivesse dedicado a vida a libertar o país do jugo de Espanha.

            O seu criado Luís veio ter com ele e, ignorando o facto de Francisco da Costa estar a falar com Maria Alves, levantou as pálpebras desta para observar os seus olhos vítreos. Não iria embaraçar o patrão perguntando-lhe por que razão estava a conversar com uma mulher em estado de coma; mas se alguém aparecesse, haveria de encontrar uma desculpa para tal comportamento por parte do seu amo. As pessoas andavam a troçar de Francisco da Costa e Luís sentia que não estava a cumprir o seu dever de velar por ele. Já não sabia o que detestava mais, se a sua incapacidade ou a ingratidão da gente que se divertia à custa do homem que dera origem à moeda nacional de um país que voltaria a ser livre em breve. Soldados da cavalaria tinham sobrevivido porque Francisco da Costa mandara criar melhores cavalos. A curta memória dessa gente era revoltante.

            - Senhor? - disse Luís interrompendo o monólogo do amo.

            - Eu sei que ela não me ouve. Sabes por que é que eu e a minha sogra estávamos sempre a discutir? Tratava-se de um jogo entre nós para saber quem iria prevalecer, se a classe nobre ou os comerciantes. Mas, pelos vistos, nenhum de nós ganhou.

           Mandou Luís à Rua do Touro para fechar as persianas da casa desocupada em frente do convento. Fecharia para sempre os olhos do lugar onde Mariana nascera.

            Dirigiu-se depois à biblioteca e escreveu uma carta destinada à Casa Real Portuguesa. Os franceses aquartelados em Beja e arredores constituíam um vexame para a população. Como antigo alcaide da cidade e instigador da entrada de tropas estrangeiras na cidade, competia-lhe decidir quando estas deviam partir. Pediria a Schomberg que se retirasse.

            Um homem de vontade e visão devia definir o seu poder escrevendo uma carta que alterasse o curso da História.

            Lacrou a missiva e pegou na bengala. Precisava de ar. Luis selou um cavalo e foi entregar a carta enquanto ele ficou à porta apoiado à bengala. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Sentia a falta de Leonor. Não temia a morte pois morrer significava ir ter com ela. Esperara para receber o punhal do rei de Espanha, mas não suportava as punhaladas que sentia no peito por causa da filha. Tinha coragem para enfrentar os inimigos, mas não Mariana. Nunca mais voltaria a vê-la e jamais falaria dela.

            Ao regressar, Luís notou que Ana Maria tentava convencer o pai a entrar. Francisco da Costa tinha a boca escancarada e escorriam-lhe lágrimas pelo rosto enrugado, mas não se ouvia nenhum som. De repente soltou um gemido: - Mariana! Mariana! - Quebrara a promessa de nunca mais pronunciar o nome dela. Luís viu que Ana Maria estava assustada. Ambos sabiam que, por terem presenciado aquela cena, Francisco da Costa se viraria contra eles para tentar varrer qualquer indício de piedade que sentissem por ele.

 

            -Noel?

            -           Quase me apanhavam. E já não poderia vir ao teu encontro.

            Encostou a cabeça ao peito de Noel. Ouvia o seu coração pulsar, prova de que ele a amava e se apressara para estar consigo.

            -           Deixa-me ouvir o teu - disse Noel encostando a cabeça ao peito dela.

            Como o coração de Mariana batia! Tão violentamente como o dele. Será que Noel conhecia o termo mouvement? Não? Devia estar a brincar com ela. Era uma palavra francesa!

            - Nunca ouvi falar de tal palavra - disse ele. -

Explica-me o que é.

            A definição não era completa porque não o incluia a ele. Mariana pensou contar-lhe que aquele dia moribundo ressuscitara agora porque estavam juntos de novo.

            Disse:

- Mouvement. Isto. Aqui. Tu, meu mais-que-tudo.

            E contudo, na noite seguinte, quando ele a visitou e fizeram amor e ele estava deitado ao seu lado a olhar para o tecto, Mariana disse:

- Sinto que não estás aqui. Por que é que não te vais embora?

            Na noite seguinte, Noel trouxe-lhe flores selvagens das planícies, cardos de um púrpura profundo.

- Perdoa-me.

            Ela recusou largar as flores enquanto ele a despia.

            - Agora mereço-te? - perguntou Noel. - O que vai ser de mim? Arruinaste-me, meu anjo.

            As noites concentravam-se então naqueles momentos. E por muito que ele se demorasse no vão da porta, o refrão final era sempre: "Adeus, Mariana! Adeus!". E ela dizia:

- Amo-te de toda a minha alma e coração. Despacha-te. Não vá alguém ver- te.

            Quando Noel se foi embora, ainda estava agarrada às flores. Sentia que o seu quarto se havia transfigurado, pois ele transformara-o em mares e planícies. Ao centro estava o seu retrato, o presente que lhe dera, escondido. Podia esperar até depois da guerra, esperar para além do tempo de que ele precisava para tratar de tudo. Podia esperar em louca adoração e aninhar-se nos seus braços décadas depois de ele ter partido, caso tivesse de esperar tanto tempo, e dizer-lhe depois: "Nunca duvidei de ti. O meu ardor não diminuiu; aumentou".

           Seria paciente, mesmo que a sua temperatura oscilasse tão loucamente como na manhã seguinte, passando de tremores quentes a frios e obrigando-a a dar entrada na enfermaria. As suas convulsões levaram a própria Irmã Juliana de Matos a dizer em voz baixa:

- Pobre Mariana. Repousa. Desculpa-me por odiar-te.

            Perto da meia-noite saiu da cama e arrastou-se até à sua "casinha", pois nada era pior do que sentir a falta dele. Ao encontrá-la a tremer, Noel disse:

- O que é que eu te fiz? Não pareces tu.

            - Sou mais eu do que jamais fui - disse-lhe ela.

            - Não acredito! - disse ele, divertido.

            - É verdade, é!

            - Quando era garoto ajudei a colher maçãs, e acho que com laranjas é o mesmo. Conseguia apanhar mais maçãs ou laranjas numa hora do que tu.

            - Não acredito! - gritou ela.

            -Shh!

            - Sei trepar às árvores - continuou Mariana.

            A sua rapidez a subir às laranjeiras tinha a ver com o seu desejo de apanhar frutos que lhe lembravam Catarina, mas não lhe contou isso.

            - Sabes fazer tudo muito bem, não sabes?

            Beijou-a para emudecer o seu riso.

            Quando se separaram, ela disse:

- O Baltazar ensinou-me a usar um lenço à volta do pescoço e da cintura para apanhar laranjas mais depressa. Como ele é teu amigo, talvez te ensine também.

            - É um amigo para falarmos de ti, mas nunca tivemos oportunidade de trepar juntos a árvores.

            Noel contou-lhe uma história sobre um soldado que se punha a tossir e depois fingia tirar fitas às cores da boca. Escondia-as no colarinho. Era um truque mágico tão estúpido que toda a gente se ria.

            Mariana riu-se novamente. Tossiu e fingiu puxar fitas do ar e ambos riram até correrem o risco de serem apanhados.

            - Parece-me o género de coisas que o Baltazar é capaz de fazer - disse ela. - Tens a certeza de que não estás a falar dele?

            - De facto, podia ser ele. Mas não. Era outro soldado.

            Quando Noel a deixou naquela noite, os seus temores acalmaram. Agora podiam falar de amor e de coisas absurdas. Podiam aventurar-se numa paixão tão profunda que o amor ficava esquecido.

            "Boa noite, minha Mariana", disse o seu beijo ao despedir-se. Era um beijo cálido. Sim, o amor podia alhear-se de si próprio e ser leve e divertido!

            Mariana tossiu.

 

            Fica comigo, fica comigo!

            Respirou fundo, os olhos abertos fixando os dele. Desejava que este momento durasse para sempre.

            "Não digas nada. Lembra-te" - repetiu para si mesma. "Não penses nem digas nada".

            - Mariana - disse ele enlaçando-a nos seus braços.

            Um frágil oceano de suor passava entre eles.

            Sim. Ele também não dizia: Hei-de lembrar-me, mas Eu sou isto, isto agora, apenas contigo.

 

            Noel Bouton tentou acalmar-se. Nunca em toda a sua carreira militar fora censurado pelo comandante. Ter sido convocado pessoalmente pelo general Schomberg equivalia a cair em desgraça. E quando Schomberg lhe gritara "Não me diga que não sabe quem é o pai dela?!", ficara chocado.

            Mas o general era uma pessoa decente e prometeu usar a sua influência para que o capitão Bouton ascendesse a marquês de Chamilly e conde de Saint-Léger pelos serviços prestados e fosse transferido para o Sul. Um barco iria largar da costa algarvia dentro de uma semana rumo a França. A data da sua partida ficaria em branco para que ninguém suspeitasse que as razões da sua transferência eram desonrosas.

            Bouton agradeceu ao general e acrescentou que recentemente recebera cartas do irmão e do rei de França pedindo-lhe para comandar uma força de cavalaria nos Países Baixos.

            Depois pediu ao criado, Manuel, que arranjasse transporte para daí a cinco dias e mandou o seu outro criado, Francisco, levar uma carta ao convento. Escreveu umas linhas a

despedir-se de Mariana, dizendo-lhe que o dever o chamava. Desculpava-se pela sua brusquidão, mas era imperioso

cumprir as ordens recebidas. Ela devia prometer-lhe que não se esqueceria dele.

            Não foi ao convento nessa noite e enviou outro bilhete a Mariana na manhã seguinte. Habituara-se a falar todos os dias com ela sempre que não se encontrava na frente de batalha. Na terceira noite, dois dias antes da chegada da carruagem que o transportaria ao Algarve, repreendeu-se. Devia despedir-se dela pessoalmente.

            Nessa mesma noite, ao terminar o que tinha a dizer-lhe, Mariana encontrava-se serenamente sentada num ninho de cobertores e disse-lhe:

- Não acredito no que estás a dizer. Não posso acreditar em ti.

            - Com o tempo hás-de pensar em mim com simpatia - retorquiu ele. Noel preparara-se para um encontro tempestuoso. Era uma mulher inteligente e talvez o deixasse partir, grata e aliviada por compreender que isso poria fim às suas ansiedades.

            - Por que é que eu reduziria o meu amor por ti a uma simples simpatia, a nada mais do que uma vaga lembrança? Por que não amares-me para sempre?

            Não soube o que responder. Ela não compreendia como lhe custava estar com ela naquele momento.

            - No meu país dizemos au revoir, Mariana. Não é um adeus definitivo. Significa simplesmente até voltarmos a

encontrar-nos.

            - Cobarde! Mentiroso! Não preciso que me dês uma lição de francês! Diz-me que me amas! Não me separaria de ti por nada deste mundo. Como podes tu mostrares-te tão impassível?

            - Mariana.

            Ajoelhou ao lado da cama. Tinha de sair com rapidez. Beijou-lhe os joelhos através do hábito negro. Ela tinha tirado o véu.

            - Amo-te - murmurou Noel.

            - Oh! - exclamou ela enojada e com um sobressalto de pânico. - Não me enganes com as palavras que eu te peço para me dizeres! Não mo digas apenas porque eu to digo! Diz o que o teu coração dita!

            Agarrou-lhe a cabeça com as mãos, que penderam sem forças quando ele se ergueu.

            - Escrever-te-ei.

            - Não me escrevas. Oh, meu amor, vem aos meus braços! Fica comigo. Tens de ficar comigo. Como podes pensar que temos outra escolha?

            Como ele se dirigia para a porta, foi atrás dele e abraçou-o. Se se agarrasse a ele, Noel não partiria. Era uma tal agonia sentir o seu corpo, o escudo de carne das suas costas, aquela abóbada possante a que as mulheres se agarravam quando faziam amor. Ele não estava a falar a sério. A maneira como ela lhe tocava dar-lhe-ia coragem para ele lhe dizer que a guerra ainda não terminara mas que quando esse momento chegasse, ele voltaria depois de ter arranjado um lugar no mundo onde pudessem viver, o que seria fácil pois já existia um lugar no coração. Não precisava de bagagem, roupas elegantes, jóias ou de uma casa grande, queria-o apenas a ele e estava disposta a esquecer-se da família, da sua honra e do seu título. Noel não marcava nenhuma data para se encontrar novamente pois receava desapontá-la. Sim, era isso mesmo, era assim que as coisas aconteciam durante a guerra e ela devia saber isso porque desde que nascera nao tivera um momento de paz. "Amo-te, amo-te para sempre!", dizia no fundo do coração, pois o seu coração sabia exprimir-se melhor. Mariana sentia que, sob o abraço apertado, Noel aguardava que ela o deixasse. Noel não estava a portar-se como um amante mas como um cavalheiro, aguardando que ela o soltasse. Murmurava os motivos que o levavam a deixá-la, fria e ordenadamente, mas a mão acariciava-lhe os cabelos e isso bastava para despedaçar a alma de Mariana. E quando ele voltou a dizer: - Pensa em mim - ela pensou: "O que é que me restará então? Se nunca mais puder voltar a ver-te? Não! Isso é impossível! Ficarei sem olhos! Não te ouvir mais? Perderei as orelhas. Nunca mais me queimar no fogo que nos consome? De que me servirá então o tacto?".

            - Não! - gritou. - Não e não! Não!

            - Mariana! - exclamou ele recuando.

            Mariana parecia em fogo. E se tentasse falar, seria como cuspir pedaços do seu esqueleto dilacerado. As lágrimas jorravam silenciosas, a boca aberta sem poder falar, a mágoa e as palavras escoavam-se do seu corpo ao vê-lo partir.

            Noel saiu apressadamente pelo corredor fora e a sua mente dizia-lhe:

"Não olhes para trás, por muito que queiras. Dentro de pouco tempo tudo se recomporá e não passará de uma recordação agradável. Como deveria ter sido desde o início".

            Tinha-lhe entregado a última carta.

            Mariana não correu atrás dele. Era suficientemente forte, como sempre. Nunca suplicaria pelo amor.

            Mas uma hora mais tarde censurava-se por não ter ido no seu encalço. Por que não vestira um disfarce para cavalgar ao lado dele e partir sem ter de viver aquela horrível expectativa? Agora só lhe restava passar horas à janela e rezar: "Amo-te! Continuo a amar-te! Sempre te amarei! Acaricio todas as alegrias amargas do nosso amor! Virei à janela em todos os aniversários deste dia e repetirei esta oração. Acrescentarei uma linha todos os anos até voltar a

abraçar-te!".

            Abriu a última carta que ele lhe entregara e leu-a. As mesmas palavras. Nenhumas promessas, apenas desculpas.

            Como não conseguia extinguir o fogo que a consumia, receou ficar reduzida a cinzas. Não conseguia ver com os olhos, perdeu as sensações e a única melodia aparente era o eco interior dos seus gritos angustiados que continham toda a angústia que jamais conhecera.

 

            - Oh, minha filha, o que é que fizeste?

            Mariana ouviu estas palavras distintamente ao tentar libertar-se das cinzas que a amortalhavam. Contorcia-se de gatas no chão, fazendo amor com o ar. Quem estava ali? Quem falava? Os ouvidos abriram-se lentamente ao exterior. Parte das suas sensações voltava. Alguém lhe agarrou no pulso e na pulseira de Noel que ela mantinha escondida debaixo das largas mangas do hábito. Alguém a puxava por um braço para fora do uivo que saía de dentro de si.

-           O que é que fizeste, minha filha? -. ouviu ela novamente. Era Uma voz de mulher. Alguém que segurava uma pulseira e que lhe falava aquelas palavras.

            - Estás a ouvir-me, Irmã Mariana?

            Era a Irmã Francisca Freire.

            - Há um ruído aprisionado dentro de ti. Vou ter de te abrir a boca para que saia e não te mate. Está bem? Está bem, Irmã Mariana?

            Um grito horrível, final, saiu à força de dentro dela. Sentiu-se tão debiliitada que ficou aninhada como um gato morto no regaço da Irmã Francisca Freire. Percebia vagamente que Brites lhe oferecia água, mas sentia-se mergulhada numa agonia azul, numa leve sensação de azul que a banhava e envolvia, como se estivesse a ser transportada pelos céus. Reconheceu a melodia que a Irmã Francisca entoava

            Quando Brites ergueu à frente dela, como se fosse um espelho,, Uma patena dourada roubada na capela, disse:

- Olha, Mariana. Por que é que tens o rosto coberto de pintas vermelhas?

            - Porque o meu coração não serve para nada. Porque explodiu e agora sai aos bocados do meu corpo. Vai-te embora! Que espécie de amiga és tu? Não me quero ver.

            O seu confuso reflexo cintilou no ouro da patena redonda como uma aura.

            Quando a Irmã Ignez de São José lhe trouxe a Boneca das Vaidades, Mariana contemplou as pintas coloridas sem conseguir lembrar-se se a tinha pintado assim por as cores do seu amor precisarem de encontrar outro corpo para enfeitar ou se a boneca havia mudado por estar encostada à parede adjacente, sorvendo avidamente o que fluía do seu quarto quando Noel estava consigo.

            Quando Noel estivera. Não, era impossível.

            A Irmã Francisca Freire dormiu no chão do quarto de Mariana.

            - Não faça isso, Irmã - implorou. - Vai adoecer.

            - Removerei então parte da tua doença. Agora dorme. Mandei chamar o Baltazar. Acho que ele pode confortar-te melhor do que ninguém.

            Ao acordar, Mariana deu com Peregrina metida na sua cama abraçada a si. Desatou a gritar e a chamar pela mãe e teve de ser levada para a enfermaria até Baltazar finalmente chegar.

            Alguém se ajoelhou junto à sua cama. Não sabia há quanto tempo se encontrava ali. A ausência de Noel e a leitura das suas últimas cartas com todas aquelas racionalizações tornavam-lhe os sonhos destituídos de conteúdo. A realidade da sua partida mordia-lhe os braços e as pernas.

            O irmão sussurrava-lhe:

- O que é, Mariana? O que é que se passa contigo?

            Não se importava que a Irmã Juliana estivesse a

observá-los. Vira mortos no campo de batalha com menos feridas vermelhas do que a irmã. Ela murmurava palavras ininteligíveis sobre Noel.

            Tentou distraí-la. Falou-lhe da carta que o general Schomberg enviara dirigida a "Quem quer que seja que comande em Lisboa", na qual declarava não ser conveniente que as tropas estivessem tão longe de Beja. Iria aquartelá-las mais perto da cidade, quer quisessem ou não.

            Não era hilariante?

            Mariana não o escutava. Baltazar agarrou-lhe na mão. Estava à beira das lágrimas.

            - Não era para ser assim, Mariana. Juro que não. Diz-me o que devo fazer. Não suporto ver-te assim. Farei tudo o que quiseres.

            - Tenho de escrever-lhe uma carta.

            - Hei-de arranjar maneira de lha entregar. Os franceses estão sempre a viajar de um lado para o outro.

            De repente ela ficou cheia de entusiasmo. Por esta altura Noel devia estar já em França a recomeçar uma nova vida. Mas não importava! O irmão estava a dar-lhe uma oportunidade para mudar isso tudo, para se salvar. Baltazar foi buscar uma pena e papel.

            Mariana hesitou.

            - Não sei o que devo escrever - confessou.

            - Começa como começas tudo, Mariana - disse Baltazar fazendo um esforço para falar com firmeza. - Fala com o teu coração.

            Com a cabeça inclinada sobre o papel e a pena erguida, aguardou, como o pai costumava fazer, que Deus lhe enviasse uma mensagem urgente. Consultou o coração e, tão rapidamente como um milagre, tão rápido como um desejo, as palavras brotaram:

 

                        Meu adorado coração, que sentes profundamente a falta de uma visão! Oh> coração mal-afortunado! O teu fervor foi traído e as tuas falsas esperanças seduziram-me.

                        A paixão que outrora me prometera incontáveis prazeres não é agora senão desespero mortaL, tão cruel como a sua causa: a separação do meu bem amado. O meu pesar recorda com ingenuidade a sua ausência e não sabe que nome triste lhe dar. Ficarei para sempre privada da contemplação daquele olhar onde dantes bebia tanto amor, que me ensinou êxtases incomparáveis, que era tudo para mim> tudo o que esperei para me preencher até ao fim dos meus dias. Escuta-me, meu amor: os meus olhos, pobre de mim, perderam a única luz que lhes dava vida. Apenas as lágrimas os animam; SÓ posso ordenar-lhes que chorem infindavelmente desde que percebi que tinhas decidido partir - afastamento tão insuportável que certamente não sobreviverei.

                        E, contudo, agarro-me com afeição ao sofrimento que me causaste: consagrei a minha vida à tua desde o primeiro momento em que te vi e orgulho-me de ter feito tal sacrifício. Mil vezes por dia envio os meus suspiros para te procurarem por toda a parte, mas a única resposta à minha inquietação é uma prudente voz de aviso, frei ao meu triste destino e suficientemente desumana para me proibir a mais ligeira ilusão, que me repete a todo o momento: "Descansa, pobre Mariana! Deixa de te mortificar em vão e de procurar um amante que nunca mais voltarás a ver, que atravessou os mares para fugir de ti e que está agora em França, rodeado de alegrias, sem pensar um só instante na tua aflição, um amante que encontrou novos prazeres e nem se lembra daqueles que partilhou contigo".

            Mas não, não me resolvo a julgar-te mal; estou empenhada em absolver-te. Recuso acreditar que me tenhas esquecido. Não sou já suficientemente infeliz atormentando-me com falsas suspeitas". Por que hei-de eu esquecer os teus esforços para me convenceres do teu afecto". Ficava tão encantada que seria bem ingrata se não te desejasse com o mesmo abandono que a paixão instilou em mim quando me declaraste o teu amor pela primeira vez.

            Como é que esses doces momentos se tornaram tão cruéis". Terão de desafiar a sua própria natureza e servir agora apenas para dilacerar o meu coração". Ai, pobre coração! A tua última carta reduziu-o a um estado bem singular! O meu peito parecia prestes a abrir-se com os fortes sobressaltos do coração que lutava para se libertar e ir à tua procura.

            Tanta ansiedade dentro de mim deixou-me prostrada e sem sentidos e durante três horas perdi-me do mundo. Quase não tive forças para voltar a uma existência que, por direito, devia perder por ti, pois é-me interdito devotar-me a ti. Finalmente, e muito contra a minha vontade, voltei a mim; agradava-me sentir que morria de amor e havia algum alívio em não ser despedaçada a cada instante pela tua ausência.

            Esta perturbação tem permitido que outros males crónicos se apoderem de mim. Mas como poderei deixar de sofrer se nunca mais te verei". Suporto porém este sofrimento sem queixas porque é causado por ti. Em ti se materializa toda a minha dor. É assim que me pagas por querer-te tanto"

            Mas não, não! Devo parar!. Estou decidida a adorar-te para além da eternidade e a não ter olhos senão para ti. Também seria digno da tua parte decidires não amar nenhuma outra mulher. Uma paixão menos ardente do que a minha contentar-te-ia". Talvez encontres beleza noutras paragens - houve um tempo em que dizias que eu era muito bela -, mas nunca hás-de encontrar ninguém que te ame tanto e tudo o mais não é nada.

            Não enchas as tuas cartas com desculpas, nem me peças que me lembre de ti. Sou incapaz de te esquecer e não perco a esperança de que venhas passar algum tempo comigo. Oh, meu amor, por que não passamos o resto da vida juntos? Se eu pudesse sair deste malfadado convento, acredita que não ficaria em Portugal aguardando o cumprimento das tuas promessas. Partiria sem hesitar e iria procurar-te, abraçar-te e amar-te em toda a parte.

                        Não sou tão insensata a ponto de imaginar que isso possa acontecer nem quero nutrir falsas esperanças, pois podem dar-me algum alívio e eu devo apenas consagrar-me à minha dor e infortúnio. Confesso, contudo, que quando o meu irmão me concedeu a oportunidade de te escrever, surpreendi em mim alvoroços de alegria que por uns momentos suspenderam o meu desespero.

                        Peço-te que me digas o que te levou a encantar-me assim, sabendo que havias de me abandonar. Meu Deus! O que te possuiu para me enlevares tão profundamente para agora me abandonares e desgraçares? Por que não me deixaste entregue à minha vida e sossegada no claustro? Que mal é que eu te fiz?

                        Perdoa-me. Não te culpo de nada, nem me encontro em condições de pensar em vingança. Censuro apenas este Destino que nos separou e nos castigou do modo mais crueL, mas que nunca conseguirá afastar os nossos corações. O amor, bem mais forte do que o Destino, uniu-nos para lá do tempo. E tu, se sentes alguma ternura por mim, escreve-me muitas vezes. Mereço que me abras o teu coração e me fales da tua vida. Mas, acima de tudo, suplico-te... vem ver-me.

                        Adeus. Não consigo separar-me desta folha de papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a sua sorte! Que loucura a minha - sei bem que isso não é possível!

                        Adeus; o espírito abandonou-me.

                        Adeus. Ama-me sempre e eu resistirei ainda mais.

 

            Dona Maria Madalena Pereira nem queria acreditar que tinha de suportar ser Superiora outra vez. Este cargo estava amaldiçoado. Ninguém podia exercer tal cargo e sobreviver! Primeiro morrera Joana de Lacerda, e agora tinha sido a vez de Isabel Pereira, a irmã de Maria Madalena. Ninguém queria aquela tarefa miserável, mas um grupo de freiras, chefiado pela Irmã Brites dos Serafins, fora ter com Maria Madalena e pedira-lhe o favor de aceitar que se elegesse uma nova Superiora ainda nesse ano. Quando Maria Madalena sugeriu que poderiam fazer uma eleição nessa mesma semana, a Irmã Brites dos Serafins quase desmaiou. O período electivo nunca tinha sido violado. Todo o mecanismo da vida no convento parecia à beira do colapso.

            A Irmã Michaella dos Anjos acrescentou que Maria Madalena poderia começar as suas funções ouvindo as queixas de várias freiras contra a Irmã Mariana que, como toda a gente estava ao corrente, havia cometido um grave crime. Ou teria Maria Madalena receio de castigar uma Alcoforado?

            Maria Madalena replicou que havia tantas coisas a tratar naquele convento que não via motivo para começar por uma rapariga que há semanas vomitava na enfermaria.

            No decorrer das aulas de coro, a Irmã Dolores anunciou que a Superiora Maria Madalena queria que as freiras mudassem de lugar no coro a fim de acabar com os mexericos e a tendência a criar amizades que não obedeciam aos regulamentos da Ordem.

            A Irmã Genebra Nogueira declarou que, como a Irmã Mariana não vinha às aulas, ela também não viria.

            Ao perder o seu lugar no coro junto da Irmã Beatriz Maria de Resende, ficando assim privada da única emoção na vida agora que Catarina Alcoforado morrera, a Irmã Angélica de Noronha chorou furiosamente.

            A Irmã Maria de São Francisco, ao perder o lugar ao lado da melhor cantora do mundo, atirou com a pauta para o chão.

            - Por que é que estou a ser punida? - gritou.

            Peregrina continuou junto da Irmã Ignez de São José.

            A Irmã Maria de Castro pensou: "Cabeças de sino a repicar".

            - Irmãs! - clamou a Irmã Dolores.

            A Irmã Brites de Freire sentiu-se envergonhada com toda aquela gritaria, que tanto tinha a ver com Mariana como com o facto de toda a gente estar excitada com as notícias de paz. Que misterioso sentimento era esse em que a aflição de uma amiga a reconfortava?

            A Superiora Maria Madalena dirigiu-se à "casinha" de Mariana, um espaço próprio e especial num edifício doado pelo seu abastado pai. As freiras tinham razão. Mariana era uma rapariga mimada. Já por cinco vezes se recusara a ver o padre confessor dizendo que não se arrependia de nada! Quando melhorasse, obrigá-la-ia a confessar-se e depois havia de castigá-la como merecia.

            Entrou de rompante no quarto de Mariana e deu com ela deitada e ofegante como se já não tivesse mais lágrimas para chorar.

            - Por amor de Deus, da Virgem e de Santa Clara, Irmã Mariana! O teu comportamento é abominável. Conseguiste desassossegar-nos a todas.

            Mariana pronunciou palavras sem nexo como se tivesse enlouquecido.

            - Fala de modo que eu perceba! O que é que tens para dizer em tua defesa?

            Para confusão da Superiora, Mariana articulou frases sem nexo. Queria ver-se livre do corpo... era torturada por sonhos em que via bordas de mulheres atropelarem-se para possuírem o homem que ela amava... que ela não tinha cura e preferia morrer de pesar... a fúria do pai afligia-a... macacos com asas esvoaçavam à noite no seu quarto zombando dela: "Nunca, nunca mais". Dizia que havia recebido umas notas garatujadas à pressa pelo seu Capitão, nas quais afirmava claramente que a repudiava e se absolvia de qualquer indício de culpa.

            - Então estás arrependida - disse a Superiora.

            - Não! - gritou Mariana. - Nunca! Desejo-o mais do que nunca.

            A Superiora cobriu-a com uma manta. Pobre rapariga. Não podia ser tão dura com ela. Os quistos desfiguravam o rosto de Mariana.

            - Minha querida - disse a Superiora pousando a mão fria na testa manchada de Mariana. - Se te dirigisses a Deus com essa mesma intensidade, estou certa de que Ele te receberia como a rainha dos Céus.

 

            Por respeito ao amor que Catarina dedicara à irmã, Angélica de Noronha trouxe a Mariana as primeiras folhas de laranjeira misturadas com mel e nozes.

            - Come isto, minha querida. Tem gosto a Catarina. Ela

há-de ajudar-te.

            A Irmã Maria de Castro leu a Mariana uma carta escrita pelo seu irmão Francisco Alcoforado. Dizia que, apesar de não a conhecer bem, a doença dela entristecia-o. Devia deixá-lo tratar de qualquer problema que surgisse.

            A Irmã Maria de Castro dobrou a carta e disse:

- Mariana, estás tão distante.

            A Irmã Brites de Brito trouxe-lhe o livro das "Quarenta Horas", julgando que o trabalho talvez lhe fizesse bem. Mariana recomeçou a chorar; não tinha outra escolha senão registar "Meu mais-que-tudo" durante quarenta horas até a mão se dissolver em tinta.

            Quando a Irmã Maria dos Serafins informou Mariana que tinha ficado acordada a rezar por ela até à primeira hora canónica, Mariana ficou ainda mais triste - eram as horas em que Noel costumava vir vê-la.

            Quando a Irmã Francisca Freire não estava a trabalhar sozinha no scriptorium ou não estava a ler música à Irmã Beatriz Maria de Resende, sentava-se em silêncio à cabeceira de Mariana recusando-se encher as goelas do tempo com palavras vãs.

            Finalmente cedeu perante a insistência da irmã Brites de Freire, que queria que ela fosse respirar ar fresco à varanda. Mariana saiu a cambalear do quarto, piscando os olhos por causa da luz do sol, mas a recordação de se encontrar ali quando avistara o amante a cavalo na praça pela primeira vez, fê-la recuar. Voltou a correr para o quarto, chorando e arrepelando-se. Queria libertar-se da prisão do corpo e do pensamento. Há meses que não tinha notícias dele. Nem uma única carta. Ao ver o tormento da amiga, Brites de Freire pediu-lhe que desabafasse, que lhe contasse tudo sobre ele. E detestou-se por isso, pois no meio da sua simpatia reluzia o prazer de ver que Mariana, acostumada a tratamento especial e privilégios, sofria realmente uma perda importante.

            Peregrina provou que estava a ser bem educada pela sua preceptora, deixando folhas de nogueira à porta de Mariana com um recado que dizia:

"Como tudo deve parecer-te triste. Não chores, irmã".

            A Irmã Ignez de São José fez notar que embora Peregrina tivesse escrito mal a palavra "tudo", era impressionante como uma menina de oito anos se mostrava tão sensata.

            O meio-irmão delas, o padre José da Costa da Nossa Senhora das Neves, foi informado pela Irmã Genebra Nogueira de que Mariana recusava receber visitas. Era evidente que o padre José fizera uma grande caminhada para chegar ao convento e ela teve pena dele.

            - O tempo perdido e a distância são pouca coisa. Gosto muito da minha irmã. Por favor, dê-lhe isto - disse o padre entregando-lhe um pedaço de tecido que ele próprio tecera com o que encontrava a fim de reproduzir a colcha de seda azul de Mariana sobre a qual tinham dançado descalços há muito tempo. Soube que a pele de Mariana estava repleta de feridas e pensou que se ela as cobrisse com um pano, talvez desaparecessem.

            O padre José também visitara o pai, Francisco da Costa, mas este chamara-lhe bastardo. Só a sua humildade o impedira de lhe gritar: "A culpa foi sua! Fez de todos nós o que somos agora!".

            Ao longo da fatigante viagem de regresso ao seu mosteiro, o padre José da Costa rezou a Deus para que o iluminasse a fim de impedir que Mariana desaparecesse da memória da gente de Beja, pois o pai proibia que se pronunciasse o nome dela. O próprio irmão de Mariana, Miguel, andava a denunciá-la. O processo de aniquilação de Mariana já estava em curso.

            Ana Maria não se importava que a população a mirasse com hostilidade por não ter vergonha de sair à rua no seu estado de gravidez. Fitava-os com atrevimento, o que, comparado com Mariana, constituía apenas um pequeno gesto de coragem. Batia ao portão do convento, esperando que a irmã não se recusasse a vê-la. Admitia francamente que parte deste desejo fosse motivado por puro egoísmo. Mas Mariana não desaprovaria esse egoísmo. Precisava de escapar de casa. O pai passava quase todo o tempo sentado na biblioteca. E quando o marquês de Niza ou D. Joaquim Ferreira de Fontes o visitavam, ele gritava-lhes que se fossem embora. O pior de tudo era a companhia de Rui. Dava mais trabalho que as crianças e o vil irmão dele, Cristóvão, estava constantemente lá por casa. Tinham sobrevivido a três décadas de guerra e agora, em tempos de paz e liberdade, não sabiam o que fazer.

            A porteira levou a Mariana a mensagem de Ana Maria enquanto esta ficou à espera no portão. De repente Ana Maria surpreendeu-se ao ver Rui aproximar-se de si.

            "Valha-me Deus", pensou. "Ele não tem mesmo nada que fazer!".

            - O papá expulsou-te novamente de casa? - perguntou ao marido.

            - Anda demasiado taciturno para pensar nisso.

            - Não admito que fales do meu pai nesse tom. Não há por aí nenhuma batalha para te entreteres?

            Ficou espantada ao sentir uma pata dele pousar docemente no seu ombro. Normalmente, o único contacto físico que tinham era à noite, quando ele estava bêbado e achava que devia sobrecarregá-la com outro filho em vez de veicular os seus vis instintos para outro sítio qualquer. O que faziam então não tinha nada a ver com amor. Apenas faziam coisas que a envelheciam ainda mais.

            Estava ali para reconfortar Mariana, mas também queria perguntar-lhe: "Sou uma velha mulher casada, mas explica-me uma coisa. Se o amor só serve para atormentar, por que razão o desejamos tanto?".

            - Minha bela Ana Maria - disse Rui.

            - Vai-te embora, Rui.

            - Vem comigo.

            - Perdeste o juízo? Não vou nada. Além do mais, vim ver a minha irmã.

            Para sua surpresa, ele ajoelhou-se e beijou-lhe a mão.

            - Bate-me se quiseres, minha querida. Mas não me mandes embora. Nada é comparável a estar contigo.

            - Mentiroso! Não sejas ridículo! - disse Ana Maria.

            Não se conteve contudo. E, soltando uma risadinha,

fez-lhe uma festa na face coberta de cicatrizes. Era a única demonstração de afecto que podia dar ao marido. Não era muito, mas vinha dela.

            Quando a porteira voltou para lhe comunicar que Mariana não se sentia suficientemente bem para ver quem quer que fosse, Ana Maria conformou-se a ir para casa com Rui. Mas este, logo que chegaram, foi jogar às cartas com Cristóvão, deixando-a sozinha a partilhar a tristeza por Mariana. O amor podia surgir inesperadamente, mas era eternamente breve.

 

            Pior do que a falta de amor, pior do que o silêncio! Havia chegado uma carta dele nessa manhã: "Como estás> Mariana". Eu estou bem. A guerra está prestes a terminar e usufruirei de uma licença prolongada". - Era tudo! Pior do que a absurda meia folha que recebera a semana passada: " Tenho saudades tuas. Fica bem".

            Mariana arranhou o rosto até o sangue escorrer, como se não conseguisse repirar e quisesse aliviar-se do ultraje! Como é que ele podia estar "bem"? Como era possível que não estivesse doente a viver o pesadelo daquela separação?

            Cada dia a aproximava do dia em que ele se apercebera de que o amor que partilhavam não era como o dos outros.

 

            Uma manhã, ao acordar, disse em voz alta: "Meses. O tempo transformou-se em meses desde que ele esteve aqui comigo, na minha cama, no meu quarto, noite após noite".

            Depois disse para consigo mesma: "Anos. Se eu consigo aguardar um só instante sem ele, posso esperar anos, pois será como se me tivesse deixado há pouco".

 

            Numa manhã de brisa, a consciência do tenente Foucault trouxe-o ao Convento Real da Conceição. Tinham-se passado meses desde que o capitão Bouton partira da frente de batalha, mas o barco que o levara juntamente com o tenente tinha naufragado na costa meridional. A tripulação sobrevivera, mas definhavam ali enquanto o barco estava a ser consertado. Bouton tinha mencionado então uma freira e mostrara ao tenente uma das cartas dela. As suas palavras ardentes e desconsoladas obcecavam Bouton, mas também afectaram o tenente.

            Foucault rompera recentemente o noivado com uma jovem francesa, que não se mostrou particularmente perturbada por o perder. Ao ler a carta da Irmã Mariana, o tenente ficara intrigado. Como é que ela seria? Iria a Beja no dia seguinte antes de embarcar. O pretexto para a visitar seria

entregar-lhe uma missiva de Noel, que ainda se encontrava em Portugal, mas não por muito tempo.

            Lamentou tal curiosidade quando viu a freira no parlatório, emaciada e com erupções na pele. Ela ouviu-o enlevada e mostrou-se ansiosa por falar francês com ele, mencionando algo sobre a incapacidade do tempo e da água em separarem duas pessoas que se sentiam unidas. Foucault

sentiu-se obrigado a fornecer-lhe mais pormenores do que deveria sobre o naufrágio e Bouton; ao confessar-lhe que não lhe trouxera qualquer carta, ela lançou-se num discurso longo e veemente. Mariana estava a suar quando se ausentou para ir buscar papel a fim de escrever uma carta a Bouton e ele insistiu para que ela não se demorasse pois não podia ficar ali mais tempo.

            - Ele está bem - repetiu o tenente. - Divertiu-se muito a jogar às cartas durante a viagem. Alegra-a o facto de ele estar bem disposto durante a viagem?

            - Ah, sim? Estou a perceber.

            E Mariana disse a si mesma: "Fala, coração despedaçado, como se hoje fosse o teu último dia". E escreveu:

 

                        O teu tenente acaba de me contar que uma tempestade te obrigou a procurar refúgio no reino do Algarve. Temo que tenhas sofrido no mar e este temor apoderou-se tão vividamente de mim que nem tenho pensado nas minhas mágoas. Achas que o teu tenente se preocupa mais do que eu com o que te acontece". Por que razão está ele mais bem informado". Por que é que não me escreveste".

                        Sentir-me-ia desgraçada se, desde a tua partida> ainda não tiveste ocasião de o fazer, mas sentir-me-ia ainda mais atormentada se a tiveste e não me escreveste. Não conheço maior ingratidão e injustiça. Ficaria aflitíssima, contudo, se te acontecesse qualquer desgraça, pois prefiro não ser vingada a que sejas castigado. Resisto a todos os sinais que me tentam persuadir de que já não me amas e sucumbo à imperiosa necessidade de me entregar cegamente à minha paixão do que às razões que tenho para deplorar o teu abandono.

                        Quanta inquietação me terias poupado se, quando nos conhecemos, te tivesses mostrado tão indiferente como nos últimos tempos. Mas quem, como eu, não se deixaria enfeitiçar por manifestações de devoção que julgava sinceras? Que duro tributo me cobraste! Como temos relutância em convencer-nos de que deveríamos duvidar da lealdade de quem adoramos!

            Torna-se agora claro que a mínima desculpa serve os teus propósitos, e mesmo quando não te dás ao incómodo de me enviar uma, o meu amor é tanto que não consigo apontar-te faltas, excepto a esplêndida alegria de as examinar e, apesar de todas as evidências, proclamar a tua inocência.

            Devoraste-me com a perseverança dos teus galanteios, puseste o meu corpo em fogo com o teu ardor, encantaste-me com o teu doce namoro, confiei nas tuas juras... mas foi a minha natureza furiosa que me seduziu. Dessa violência, tão abençoada e gloriosa, só restam lágrimas, suspiros e uma triste morte sem cura.

            O nosso amor proporcionou-me os prazeres mais inesperados, mas agora sinto-me transida com uma dor inexprimível: despertas em mim emoções extremas. Se tivesse resistido obstinadamente aos teus avanços, se tivesse provocado o teu ciúme para aumentar as tuas atenções, se tivesses notado quaisquer artifícios da minha parte, se, enfim, eu tivesse usado as vulgares armas do namoro e a razão em vez de me entregar à natural atracção que sinto por ti (embora tais esforços fossem sem dúvida inúteis), então

ser-te-ia lícito exerceres com justiça o domínio que tens sobre mim. Mas eu julguei-te digno do meu amor antes de tu dizeres que me amavas; juraste-me a tua paixão ardente e eu fiquei tão enlevada que me entreguei a ti perdidamente.

            Não estavas tão cego como eu; por que permitiste então que eu me afundasse nesta perplexidade? Por que razão desejaste o meu afecto, que deve ter-te importunado? Se sabias que não ficarias em Portugal, por que razão me escolheste para me sentenciares? Terias certamente encontrado no meu país uma mulher mais provocadora que te proporcionasse o mesmo prazer, pois buscavas apenas prazeres grosseiros. Ela ter-te-ia amado fielmente enquanto estivesses aqui, e depois da tua partida o tempo facilmente a confortaria. Poderias tê-la abandonado sem traição nem crueldade. O teu procedimento é mais próprio de um tirano empenhado em perseguir do que de um amante que se dedica a procurar os caminhos do deleite.

            Por que razão tratas com tanto desprezo um coração que é todo teu? Sei que te persuades facilmente contra mim, tão prontamente como eu me deixei persuadira teu favor.

            Ignorava completamente que estava a ser exigente e, mesmo sem invocar a ajuda de uma simples partícula da ferocidade do meu amor, teria resistido a razões bem mais fortes do que as que te levaram a abandonar-me. Todas elas me pareceriam insignificantes e frágeis e nenhuma poderia arrancar-me a ti. Mas tu agarraste-te a todas as desculpas possíveis para regressares a França. Um barco partia. Por que não o deixaste partir"... A tua família tinha-te escrito. Não sabes o quanto a minha me tem censurado"... A tua honra obrigou-te a abandonar-me. Importei-me eu com a minha"... Tinhas de ir servir o teu rei. Se o que dizem dele é verdade, não precisa de ninguém e ter-te-ia dispensado.

            Como eu teria sido ditosa se tivéssemos passado a vida juntos! Mas como o nosso destino era separarmo-nos, acho que devo estar satisfeita por nunca ter sido infiel; por nada deste mundo teria cometido tal traição. E tu" Como pudeste mergulhar na minha alma e ternura até ao fundo e deixar-me para sempre! Como pudeste expor-me ao tormento dejá não pensares em mim, ou de vires a lembrar-te de mim apenas para te dares ares de conquistador perante alguma nova paixão?

            Sei que te desejo como uma mulher que perdeu a razão, mas não me queixo das minhas tumultuosas saudades. Estou a habituar-me às emoções que me oprimem e não poderia viver sem esta alegria que descubro no meio destas incontáveis dores: ainda te amo. Amo-te mais do que toda a força do mundo o permite.

            O que me mortifica incansavelmente é o nojo e a aversão que sinto por tudo. A família, os amigos e este convento são insuportáveis. Tudo o que sou obrigada a ver, tudo o que tenho de fazer, é-me odioso. Sou tão ciosa da minha paixão que julgo que todas as minhas acções e obrigações são declarações do amor que te tenho. Sim, sinto-me infeliz quando tu não ocupas o centro de todos os momentos da minha vida.

            Ai, que seria de mim sem tanto amor e ódio a encher-me o coração? Como poderia eu sobreviver ao que me preocupa obsessivamente e levar uma existência tranquila e monótona? Não!... Desprezo esse desânimo, esse vazio emocionaL Nunca seria feliz!

            Toda a gente se apercebeu da total mudança do meu carácter, dos meus modos, do meu ser. A Madre Superiora

falou-me nisso, primeiro deforma irada, mas depois com certa doçura. Já nem me lembro do que lhe respondi. Julgo que lhe contei tudo. Até as freiras mais severas têm dó do meu estado e olham-me com uma certa brandura e simpatia. Todas se comovem com o meu amor... Só tu te mostras indiferente, escrevendo-me apenas cartas frias cheias de banalidades gastas. Deixas metade do papel em branco, dando grosseiramente a entender que estavas impaciente por as acabar.

            Nestes últimos dias, a Dona Brites tem insistido para que eu saia do meu quarto. Quer distrair-me e levou-me a passear até à varanda de onde se avista Mértola. Segui-a, mas senti-me imediatamente aturdida com uma recordação tão cruel que passei o resto do dia a chorar. Trouxe-me novamente para o quarto. Atirei-me para cima da cama e fui assaltada por reflexões sobre a pouca esperança que tenho de um dia encontrar a paz. Tudo o que os outros fazem para me consolar agrava o meu sofrimento e nos seus gestos amáveis encontro motiv os privados que aumentam a minha aflição. Foi dessa varanda que eu te vi passar a cavalo muitas vezes, com uma elegância e graça que me deslumbravam. Efoi lá também que dei por mim no dia fatal em que comecei a sentir os efeitos da minha desgraçada paixão.

            Pareceu-me que te tinhas apaixonado por mim à primeira vista, antes mesmo de nos termos encontrado. Tive a impressão de que me escolheras de entre todas as outras; quando paravas ou fazias rodopiar o cavalo, julgava que o fazias para eu te ver melhor e admirasse a tua destreza e o teu garbo. Assustava-me quando executavas qualquer manobra perigosa; seguia secretamente com o coração todos os teus movimentos e tinha a impressão de que partilhavas desta magia... que tudo o que fazias era por mim.

            Sabes muito bem o que se passou depois. Embora não precise de ser prudente agora, é melhor não falar desses tempos arrebatados pois receio dirigir uma luz ainda mais brilhante sobre a tua culpa se isso fosse possível - e por medo de me incriminar a mim própria como fonte de tantos fúteis esforços para te obrigar a ser fiel - coisa que nunca hás-de ser, nunca! Se não consegui vencer a tua ingratidão com o meu amor, como posso esperar que as minhas cartas e lamentos o consigam? A tua frieza não me dá razões para eu duvidar do meu destino. Deveria temer o pior: a verdade é que me abandonaste.

            O teu encanto só a mim domina. Como é que outras mulheres não se sentem seduzidas por ti? Clamo por provas dos seus sentimentos afim dejustificar os meus. Faço votos para que todas as mulheres em França se sintam atraidas por ti; mas que nenhuma delas te ame nem te agrade. Tal capricho é ridículo, impossível - além de saber por experiência própria que és incapaz de uma afeição duradoura e que, para me esqueceres, não precisas do incentivo de uma nova paixão. Talvez eu deseje que me desses uma explicação razoável para o teu desaparecimento. E embora isso me tornasse talvez mais infeliz, poderia atenuar a tua culpa.

            É evidente que permanecerás em França - sem grande prazer, mas em total liberdade. E aí permanecerás, na fadiga de tão longa viagem, nas tuas conveniências mesquinhas ou na vergonha de não saberes corresponder ao meu desejo. Ah! Não receies nada de mim. Contentar-me-ia em ver-te de tempos a tempos, em saber meramente que vivemos sob o mesmo céu.

            Talvez me iluda. Será que a frieza de outra mulher te sensibilizará mais do que a minha ternura? Será possível que o desdém te excite mais? Mas antes de te abandonares à tirania do amor, pensa nos tormentos da minha aflição, na incerteza dos meus planos, na confusão das minhas emoções, na extravagância das minhas cartas; pensa na minha confiança, no meu desespero, no meu desejo e ciúmes... Considera pois a minha loucura, aprende com as minhas aflições, para que o meu sofrimento não seja em vão.

            Há cinco ou seis meses atrás, perturbaste-me com uma confidência. Falaste-me de uma mulher que tinhas amado no teu país. Se é ela quem impede o teu regresso, diz-mo sem rodeios para que eu ponha fim à minha inquietação. Uma réstia de esperança ainda me sustém; mas se não a puder manter, prefiro perdê-la agora e perder-me também. Envia-me o retrato dela e algumas das suas cartas. Conta-me tudo o que ela te diz: talvez encontre consolação nessas verdades ou razões para me afligir ainda mais. Só sei que já não consigo viver este dilema a que me encontro confinada, qualquer mudança é preferível. Também gostaria que me mandasses o retrato do teu irmão e da tua cunhada; tudo do que gostas é-me precioso. A minha dedicação estende-se a tudo o que o teu coração abarca. Tudo o que se refere a mim não me preocupa. Ás vezes

pergunto-me se não me sujeitaria a servir uma mulher que amasses. O teu desdém abalou-me tanto que por vezes acho que sou eu a culpada, pois manifesto ciúmes que podem

desagradar-te; faço mal em censurar-te e não devia revelar tão febrilmente estes incontroláveis sentimentos que não aprovas.

            Hájá muito tempo que o oficial a quem vou entregar esta carta está à espera. Tencionava escrever algo que te proporcionasse um prazer incondicional mas, como vês, as minhas palavras referem o contrário. Tenho de acabá-la, mas, ai de mim!, faltam-me as forças. Quando escrevo parece que falo contigo e sinto a tua presença ao meu lado. Prometo que a próxima carta não será tão longa nem cansativa. Devia deixar de falar-te de uma paixão que tu votaste ao abandono. Não voltarei a falar dela.

            Dentro de uns dias vai fazer um ano que me entreguei inteiramente a ti sem reservas e sem qualquer sentimento de propriedade ou moderação. A tua paixão era tão ardente que nunca sonhei que a minha pudesse engendrar tal enfado a ponto de te veres obrigado a percorrer 500 léguas e a correr o risco de naufrágios só para te afastares de mim. Nunca esperei que alguém me tratasse assim. Devias lembrar-te do meu pudor, da minha timidez e da minha perplexidade, mas nas tuas recordações não guardas nada que possa levar-te a amar-me.

            O oficial que deve levar esta carta previne-me, pela quarta vez, que deseja partir. Tanta pressa! Provavelmente também abandonou uma desgraçada neste país.

                        Adeus:           magoa-me mais terminar esta carta do que te custou deixar-me, talvez para sempre.

                        Adeus:           não me atrevo a chamar-te mil nomes ternos que poderiam dar voz ao meu desejo, nem abandonar-me sem restrições ao tumulto da paixão no meu coração. Amo-te mil vezes mais do que à própria vida, mil vezes mais do que seria imaginável. Como te amo! Como é cruel! Nunca me escreves! Não consigo silenciar este refrão

                        É como se voltasse a escrever outra vez a mesma carta e o oficial vai partir... Mas o que me importa? Que parta!

Escrevo mais para mim do que para ti.

Procuro libertar-me deste peso e consolar-me.

Procuro na escrita uma forma de aliviar o peso do meu coração.

                        A extensão desta carta vai assustar-te certamente e não a lerás.

            O que é que eu fiz para ser tão desditosa? E por que é entraste na minha vida para a envenenares?

                        Ó meu amor, por que éque eu não nasci noutro país"

                        Adeus: Perdoa- me! Não ouso suplicar que me ames. Vê em que profundezas o destino me encarcerou!

                        Adeus!"

 

            Tinha isso eternamente gravado dentro de si: há um ano que Se entregara a Noel. O que importava que uma carta tivesse partido das suas entranhas apenas há uns dias?

            Oh! este dia, este mensageiro, veio visitá-la. O seu aniversário, ficaria marcado, pois Baltazar, Precipitou-se nos seus braços aos gritos: Onde está ele?

- Leva-lhe esta carta. Vai buscá-lo. Por favor, Baltazar.

Pára com isso Por favor, Baltazar.

            As lágrimas escorriam pelas suas feições contorcidas. Não conseguiu manter-se de pé e enfiava as unhas nos braços dele.

            Baltazar agarrou-a e disse:

- Olha para mim. Sou eu, o Baltazar. Não me vês? Não me podes saudar, perguntar como estou, Mariana?

            Mais valia que ela fosse surda. O irmão podia estar estendido no chão a sangrar que ela passaria por cima do seu corpo para chegar a esse estrangeiro.

- Faz com que ele volte! - murmurou agarrando-se a ele.

            - Mariana! - exclamou o irmão horrorizado, afastando-a. - Onde está a irmã que eu conheço? Desprezo essa Mariana. Então, quando essa outra Mariana voltar a aparecer, manda me chamar, pois é essa que se lembra de mim.

            Foi-se embora antes de poder impedir que ela entregasse a carta a um soldado francês que teve pena dela e lhe disse que toda a gente en Dijon conhecia a família Bouton. Contudo, acrescentou ainda o soldado, o rapaz ficaria certamente a residir em Paris se sobrevivesse à campanha nos Países Baixos. Uma diligência militar partiria em breve e o soldado

proneteu-lhe que a carta seguiria viagem pois, segundo lhe pareceu, ela combatê-lo-ia se tivesse recusado.

 

            "O que vai ser de mim? Que queres tu que eu faça? Estou tão distante de todos os meus planos e sonhos! Esperava que me escrevesses dos lugares por onde viajasses, que as tuas cartas fossem longas, que alimentasses a minha paixão com a promessa que voltaria a ver-te outra vez e que uma inteira confiança na tua fidelidade me desse algum sossego. Até fizera uns vagos projectos de reunir todas as minhas forças para me curar caso viesse a convencer-me de que te tinhas esquecido de mim. A tua ausência, a minha aspiração a ser devota, o temor de arruinar por completo o que me resta de saúde com tantas noites sem dormir e de vigília, as poucas probabilidades do teu regresso, a frieza dos teus sentimentos e da tua despedida, a tua partida justificada com falsos pretextos e tantas outras razões, tão boas como inúteis, prometiam ser um refúgio feito de verdade se viesse a precisar dela. Fui sempre a minha própria inimiga, e não podia suspeitar que recusaria esse refúgio nem prever tudo o que sofro.

                        Ai; que tristeza! Não tenho meios para partilhar o meu pesar contigo! Não mereço eu compaixão? Por que razão tenho de estar só, totalmente só nesta agonia? É isto que me dilacera.

                        Morro ao pensar que és agora indiferente ao meu desprezo porque talvez nunca te tenhas sentido arrebatado no fundo da alma pelos prazeres que partilhámos. Pobre de mim, só agora vejo a falsidade dos teus arrebatamentos. Enganavas-me quando me falavas da suprema felicidade que sentias quando estavas a sós comigo. Os teus estados de êxtase deviam-se meramente à minha insistência; planeaste friamente a minha perda; encaras a minha paixão como uma conquista e não permitiste que ela te chegasse ao coração. És tu quem merece compaixão por não teres a delicadeza de acalentar o nosso amor. Como é possível que um amor tão desmesurado como o meu não te tornasse no mais abençoado dos homens? Lamento, apenas por amor de ti, todos os prazeres que perdeste; como é possível não desejar ficar arrebatado por tais transportes? Se os conhecesses, haverias de os achar infinitamente mais valiosos do que a vanglória

de me teres seduzido, e terias compreendido como é muito mais exaltan te amar violentamente do que ser amado.

            Não sei o que sou, nem o que faço, nem o que desejo; sou atormentada por mil sentimentos contrários... Quem poderia imaginar um tal calvário? Amo-te tão desesperadamente e, contudo, o meu respeito por ti é tal que não ouso desejar que as mesmas emoções se apoderem de ti. Matar-me-ia ou morreria de desgosto se viesse a saber que nunca mais tinhas descanso, que tudo te era odioso e que passavas o tempo a chorar. Não aguento o meu próprio sofrimento; como poderia resistir à dor que o teu sofrimento me causaria e que me magoaria infinitamente mais do que se fosse minha?

            No entanto, não consigo desejar que não penses mais em mim; e, para falar sinceramente, tenho terríveis ciúmes de tudo o que em França possa dar-te alegria ou prazer. Nem sei por que te escrevo: sentirás som ente compaixão por mim, e não é a tua piedade que eu quero.

            Fico furiosa comigo mesma quando penso em tudo o que sacrifiquei por ti: perdi a minha reputação; expus-me à ira da minha família, à severidade das leis eclesiásticas e à tua ingratidão, o maior de todos os males. Apesar disso, sei bem que os meus remorsos são falsos pois do fundo do coração desejaria ter enfrentado mais perigos pelo teu amor e sinto orgulho por ter arriscado a vida e a honra por ti. Não deveria eu ter-te oferecido o que possuo de mais precioso? E não deveria sentir-me satisfeita por te haver dado tudo o que dei"

            Não vivo contente com a dor das minhas feridas e o excesso da minha paixão, e apesar de me lisonjear com o facto de que não posso viver sem ti... toda via vivo, meu Deus, pobre de mim! Vivo e esforço-me tanto por conservar a vida como por perdê-la. Morro de vergonha. Será que o meu desespero se encontra apenas nas minhas cartas? Se te amasse tanto como te disse mil vezes, não teria eu morrido já há muito tempo" Enganei-te, és tu quem deveria queixar-se de mim. Censura-me! Vi-te partir, perdi a esperança de te ver regressar e, contudo, continuo a viver! Embora eu peça perdão por te ter iludido, não me perdoes. Trata-me impiedosamen te! Declara a minha paixão inferior à que eu manifesto! Exige que eu morra de amor! Ah! Ajuda-me a vencer a minha fraqueza de mulher para que eu ponha fim às minhas indecisões num autêntico acto de desespero!

                        Um fim trágico obrigar-te-ia sem dúvida a pensar em mim. A minha recordação seria amada e isso seria preferível ao estado a que me reduziste. Adeus: seria melhor nunca te ter encontrado. Ah, também isto é um sentimento vazio! Neste preciso momento em que te escrevo, reconheço que prefiro a angústia de te amar a nunca te ter conhecido.

                        Aceito sem queixas a minha sina, pois recusaste-te a torná-la melhor. Adeus! Promete-me que terás saudades minhas se eu vier a morrer de tristeza; promete que pelo menos o desvario desta paixão te ensine o amargor pelas coisas terrenas e pelos seus prazeres. Basta-me essa consolação: se está escrito que eu devo deixar-te para sempre, o meu desejo é que não pertenças a mais ninguém. Não seria injusto que te servisses do meu desespero para te tornares mais sedutor e te vangloriares de me ter inspirado a maior paixão do mundo?

                        Mais uma vez adeus.

                        As cartas que te escrevo são demasiado longas; não tenho consideração por ti. Perdoa-me. Tem dó de uma pobre alma insensata que, como sabes, não era tão agitada antes de te amar.

                        Adeus! Falo-te de mais da minha inquietação, mas agradeço-te do fundo do coração pelo desespero que me causas. Odeio a paz em que vivia antes de te conhecer.

                        Adeus! A minha paixão aumenta a todo o momento. oh, meu amor! Quantas coisas tenho ainda para te dizer!"

 

            A Irmã Francisca Freire tirou os óculos italianos do nariz e disse:

- Experimenta-os, Mariana.

            Com uma pena na mão trémula, Mariana fazia um esforço para assentar a despesa anual de velas do convento. Fungava e tinha o rosto banhado em lágrimas. A Irmã Francisca Freire fora ao quarto de Mariana e dissera-lhe que chegara a altura de resgatar as suas faltas pelo trabalho. Mariana escreveu o número " 1" e a sua mão ficou exausta de cansaço.

            A Irmã Francisca Freire tirou a pena da mão de Mariana, que se deixara cair sobre a secretária.

            - Por hoje basta - disse-lhe a freira.

            Limpou-lhe o rosto com a manga do seu próprio hábito e levou-a para a "casinha". A seguir dirigiu-se aos aposentos da Madre Superiora e comunicou-lhe

            que a porteira do convento, a Irmã Genebra Nogueira, tinha de ser despedida

            das suas funções. Tal cargo deveria ser exercido por Mariana.

            A Superiora deu a entender que tanto lhe fazia, mas que não estava certo

            dar um emprego tão modesto a uma pessoa da classe social de Mariana. O pai

            poderia ficar ofendido.

            - Não creio que tenhamos de nos preocupar com isso - disse a Irmã

           Francisca Freire. - Acho que ela tem de fazer alguma coisa simples e apanhar ar fresco até ficar boa para voltar a trabalhar comigo.

            Pensou também, embora não o exprimisse em palavras, que Mariana precisava urgentemente de contactar com o exterior.

           Ao assumir o novo cargo, Mariana olhava atentamente para a gente que passava na rua procurando vislumbrar Noel Bouton. Fitava as pessoas que traziam cartas na mão, esperançada de que lhas viessem entregar. Durante as suas tentativas para se curar, fazia esforços para o imaginar com outra mulher, mas o resultado era ficar a tremer e sem forças. A Irmã Francisca Freire aproximava-se então e erguia-lhe o queixo.

            - Não percas o orgulho - dizia-lhe.

 

                        A última partícula de imperdoabilidade que restava num dos cabelos de Maria Alves, que continuava em coma, soltou-se do seu corpo atarracado e pequeno deixando-a deleitada, melancólica e em pânico. Há muito que não se sentia tão vingativa e tal sensação não era inteiramente confortável.

                        -           Estou a sucumbir à morte por perdão - proclamou, esperando que o marido morto a ouvisse.

                        -           Então vem ter comigo - respondeu ele.

                        -           Preferia ir ter com a Leonor. Imagino que estejas no inferno.

                        -           Nada disso, minha querida. Fui absolvido. Pensei que me tinhas perdoado.

                        -           E perdoei. Senti a falta de sentimentos familiares. Do modo como as pessoas berram nesta casa, não me admira nada que tenham acordado os mortos. Tenho de dar o meu broche de pérolas a uma das minhas bisnetas - disse. - E tenho de roubar uma chave para ir ver a Mariana. Devo-lhe a resposta de uma adivinha.

            -           A Mariana deveria saber que nem todas as adivinhas têm resposta.

                        -           Sabes o que é aquilo que nós beijamos mas nunca adoramos?

                        -           Não - respondeu o marido. - Serão os esposos após dezenas de anos de casamento?

            -           Não. És muito divertido. Ficarei zangadíssima se, no outro mundo, formos meras versões de nós próprios.

            -           Vem!- insistiu ele. - O homem que morreu depois de ter aberto todas aquelas arcas vindas da Índia está aqui. Despacha-te. Há tantos soldados mortos à minha volta. É difícil passar através desta multidão.

            -           Deixa isso comigo - disse Maria Alves batendo nos seios enormes.

- Havemos de chegar à primeira fila, mas primeiro tenho de dizer as minhas orações.

            A alma dela disse:

- Escuta-me bem, Deus. Tenho andado a armazenar forças para as passares à Mariana, a minha companheira. Dá-lhe paz. Diz-lhe que, morta ou viva, hei-de fazer o que puder para que viva aventuras mais felizes. Cá vou eu, meu Deus, e previno-Te que não Te darei sossego até sarares as suas feridas.

 

            A 13 de Fevereiro de 1688, o rei Carlos II de Espanha, que contava oito anos de idade, assinou um tratado com D. Afonso VI, embora este já tivesse perdido o trono, dando a independência a Portugal e pondo termo a uma guerra que durava há vinte e oito anos. Para celebrar a paz entre um louco deposto e uma criança incompetente, as freiras do Convento da Conceição deram uma festa de despedida em honra dos refugiados que tinham abrigado. Toda a gente estava bem disposta, passando-se delicadamente bandejas com doces e discutindo como é que Manuel conseguira arranjar-lhes ananases dos Açores. A Irmã Beatriz Maria de Resende cantou o hino nacional sob a nova bandeira e foi modestamente aplaudida.

            -           Os meus pêsames pela tua avó - disse a marquesa Dona Fernandes dando um presente a Mariana.

            -           Obrigada - retorquiu Mariana. - Sempre pensei que ela vivesse para sempre.

            -           Eu também pensei que viveríamos aqui para sempre - disse a marquesa, detendo-se a meio da frase. - Oh! Perdoa-me!

            -           Não faz mal - desculpou-a Mariana. - Se a minha avó já não me vem buscar, não tenho outro sítio para onde ir.

            Desembrulhou o presente: era uma pena de pato nova.

            -           Ouvi dizer que eras uma excelente escritora - disse a marquesa. E sussurrou-lhe ao ouvido: - Sei que posso convencer-te a transgredir os regulamentos e a escrever sobre mim!

            Mariana franziu o sobrolho mas assentiu por delicadeza. Como tudo lhe parecia frívolo. Reduzir a redacção de cartas preciosas a uma violação infantil! Era evidente que a marquesa nunca lhe responderia.

            Quando Peregrina lhes trouxe uma bandeja com bolos de limão, Mariana sorriu e agradeceu-lhe.

            Os beijos e abraços de despedida prosseguiram à porta do convento. Pais e parentes vinham buscar raparigas que gritavam de excitação. A Irmã Maria dormia num banco da igreja e a Irmã Brites de Brito estava sentada a roer as unhas. Levantou-se e aproximou-se de Mariana para lhe dizer:

            - Todo este divertimento dá cabo de mim. Já encomendaste o teu vestido para a festa?

            Quando Mariana foi ocupar o seu posto à porta da entrada, a Irmã Maria de São Francisco disse:

- Se a guerra já passou e isto é paz, então por que é que nada mudou? Não achas que devíamos sentir-nos de maneira diferente?

            - Parece que todos os sentimentos jamais inventados deviam ser diferentes dos de agora - respondeu Mariana.

            Foi um alívio ficar sozinha nessa noite a olhar para a paisagem imutável e imaginar que a poeira a rodopiar era a avó preparando-se para ir assombrar a casa das pessoas que celebravam a paz. Ela era essa poeira e iria ler nos lábios

            o que toda a gente dizia e meter-se-ia na cama com os que se deitavam bêbados e livres.

            - Vai ver o mundo por mim, avozinha - murmurou Mariana. - E se a poeira que se enfia nos meus ouvidos durante as noites sem sono e fala-me de todos os lugares que animaste com a tua presença. Mesmo quando estavas em coma, eras mais viva do que a maioria das pessoas. Tenho saudades tuas.

            Quando um soldado passou, Mariana deu-lhe os doces que tinham sobrado da festa e suplicou-lhe que os levasse a um santuário à beira daestrada. A avó estava provavelmente em paz; mas se por acaso não estivesse, Mariana queria que ela encontrasse vestígios da neta e que estes lhe dissessem para a vir buscar. Era a única cerimónia que ainda tinha qualquer significado.

            - Está a chorar, Irmã? Perdeu alguém? - perguntou o soldado.

            A Irmã Francisca Freire - aquela peste! - aproximou-se e, erguendo o queixo de Mariana, disse:

- Orgulho.

            E, assim, Mariana limitou-se a sorrir ao soldado e resistiu à tentação de dizer: " Neste momento da nossa vitória, percebi que perdi tudo, caro

            senhor".

            Ao ser eleita Madre Superiora por um período de três anos, em conformidade com os métodos prescritos pelo escrutínio secreto, a Irmã Brites de Noronha anunciou que seguiria a política de Maria Madalena, instituindo mudanças para lhes lembrar quem eram e onde se encontravam. Nessa ocasião, a Irmã Francisca Freire dissera a Mariana:

- Começa a tirar notas para ficares a saber o que deves fazer. Quero que um dia sejas tu a Madre Superiora.

            Ao ouvir tal coisa, Mariana desatou a rir como há muito não se ria e pensou que a amiga estava a dizer aquilo para a alegrar.

            Agora que a paz reinava, a sua espera por Noel despertara e voltava a torturá-la. Agora, mais do que nunca, ele tinha que a procurar e vir buscá-la. O seu coração palpitava: " Meu amor, meu amor!". E quando uma voz interior a admoestava, respondia: " Deixa-me sonhar".

            Quando a Irmã Maria de Castro foi castigada por falar no refeitório, escondeu o livro de salmos por vingança.

            E quando ordenaram à írmá Maria de Santiago que entregasse o seu alfinete de diamantes, esta pôs-se a gritar que fora o irmão, morto na guerra, quem lho dera quando tinha cinco anos e que a Superiora teria de lho tirar pessoalmente.

            Um oficial francês veio à porta do convento e falou durante toda uma manhã com a Irmã Mariana sobre Noel Bouton, mencionando que a França assinara um tratado de paz com os Países Baixos em Aix-la-Chapelle. Mariana arriscou-se a ser punida pela Superiora escrevendo ali mesmo uma longa carta enquanto o militar esperava para ir entregá-la:

 

                        Cometo de certeza a pior das afrontas ao meu coração ao tentar futilmente dar-te conta dos meus sentimentos por escrito. Como seria feliz se os conhecesses pela veemência dos teus próprios sentimentos! Mas não posso esperar isso de ti; nem posso deixar de repetir -     embora com menos força do que o sinto - que não me devias humilhar com um esquecimento que me inquieta e que te envergonha. É justo que suportes as minhas queixas motivadas pela desolação que começou a devorar-me quando soube que me irias deixar. Reconheço que me enganei ao pensar que procederias comigo de forma mais leal do que é costume. A grandeza do meu amor pôs-me acima de quaisquer suspeitas e, em contrapartida, deveria merecer uma fidelidade igualmente extraordinária. Mas a tua tendência para

atraiçoar é maior do que o teu sentido de justiça em relação a tudo o que sign ifiquei para ti.

            Não seria menos infeliz se me amasses apenas porque te obriguei. Não desejo mais nada do que o teu afecto natural por mim

mas isso está tão longe de ser o caso que já se passaram seis meses sem receber carta tua! Só posso atribuir a culpa à cegueira com que me abandonei a ti. Não devia eu ter previsto que os nossos abraços terminariam mais depressa do que o meu amor? Como ousei eu imaginar que passarias toda a vida em Portugal, renunciando à tua fortuna e ao teu país para não pensares senão em mim? O meu desespero não tem sossego e, ao lembrar-me como outrora me davas alegrias, ainda me sinto mais infeliz. Será que os meus desejos nunca se cumprirão? Nunca mais voltarás a abraçar-me no meu quarto com o ardor que manifistavas? Que ilusão a minha! Reconheço com pesar que esses arrebatamentos que intoxicaram o meu coração e o meu espírito foram para ti apenas simples prazeres que bem depressa se extinguiram.

            Nesses instantes de delícia suprema, deveria ter chamado a razão em meu auxílio para moderar os fatais excessos do meu prazer e prever assim o meu sofrimento presente. Mas entreguei-me a ti sem reservas; não estava em condições de imaginar que o ardor da tua paixão pudesse envenenar a minha alegria. Sentia-me demasiado cativa de amor junto de ti para imaginar que pudesses partir um dia.

            Lembro-me contudo de te ter dito ocasionalmente que me desgraçarias, mas tais temores depressa se desvaneciam quando protestavas que isso nunca aconteceria. Sentia-me aliviada e, querendo tudo ignorar, rendia-me a ti ainda com maior enlevo.

            O remédio para o meu mal é evidente: ficaria curada se deixasse de te amar. Oh! Que cura terrível! Não! Prefiro sofrer ainda mais do que esquecer-me de ti. Dependerá isso unicamente de mim? Como poderei punir-me por não ser capaz de contemplar um único momento sem te amar?

            Mereces mais a compaixão do que eu. Mais vale sofrer como sofro do que espojar-se nas tépidas diversões que as tuas amantes te proporcionam em França. Não invejo a tua indiferença; desprezo-a. Desafio-te a esquecer-me completamente. Agarro-me à minha dignidade dizendo-me que, sem mim, terás de te contentar com prazeres menos perfeitos.

            E sinto-me mais feliz porque tenho mais em que me ocupar. Nomearam-me recentemente porteira do convento. Todos os que falam comigo julgam que enlouqueci. Não tenho noção do que lhes respondo; as freiras devem estar tão loucas como eu para me julgarem capaz seja do que for.

            oh, como invejo a sorte do Manuel e do Francisco! Por que razão não posso estar sempre ao pé de ti, como eles? Ter-te-ia seguido e trataria de ti muito melhor do que eles.

            Nada mais desejo no mundo do que ver-te. Lembra-te pelo menos de mim! Bastar-me-ia ter um lugar no teu pensamento, mas já não sei nada, nem mesmo isso. Quando te via todos os dias, nunca imaginei que seria obrigada a limitar tanto as minhas esperanças, mas a crueldade da tua vontade é tal que não tenho outra escolha.

            Não me arrependo de te adorar. Regozijo-me por me teres seduzido e até fico contente por me teres traido. Suportei a prova da crueldade da tua ausência, talvez para sempre, e descobri que em nada diminui a força do meu amor. Quero que todo o mundo o saiba; não pretendo ocultá-lo em mistérios. Tenho orgulho em tudo o que fiz por ti desafiando todo o sentido do decoro. A minha honra e a minha religião consistem apenas em amar-te toda a vida até morrer, pois esse amor despertou desde a primeira vez que te vi.

            Não menciono nada disto para te forçar a escreveres-me. Não quero nada de ti que não seja dado de boa vontade: tudo o que possa reter ou controlar o amor não me interessa. Se te apraz, estou pronta a desculpar-te a inconveniência de me escreveres; terei prazer em desculpar-te; o meu grande desejo éperdoaras tuas faltas.

            Esta manhã, um oficial francês teve a amabilidade de me falar de ti durante mais de três horas. Disse-me que a França assinou finalmente o tratado de paz. Se assim é, não poderias vir ver-me e levar-me contigo para lá? Mas não o mereço. Faz como te aprouver. O meu amor já não depende da maneira como me tratas. Desde a tua partida que tenho andado doente; o meu único alívio é repetir constantemente o teu nome. Algumas freiras que conhecem as causas do triste estado a que me condenaste falam de ti com frequência. Raramente saio dos meus aposentos, onde tantas vezes vieste visitar-me, e estou sempre a contemplar o teu retrato, que para mim é mais caro do que a minha própria vida. Isso dá-me algum conforto, mas

também me faz sofrer, sobretudo quando tenho consciência de que nunca mais te verei.

                        Por que fatalidade não posso voltar a ver-te? Abandonaste-me realmente para sempre? Sinto-me destruída só por pensar nisso. A tua pobre Mariana já não pode mais; desfalece ao terminar esta carta: Adeus.

                        Adeus! Tem compaixão de mim."

 

            Uma carta enviada pelo capitão Noel Bouton e dirigida à " Irmã Alcoforado, chegou finalmente.

            Era terrivelmente breve, mas ao princípio nem sequer conseguia lê-la até ao fim. Mas fez um esforço para a ler na íntegra.

            Releu-a várias vezes durante os dias seguintes para ter a certeza de que não estava a interpretar mal o que a carta dizia, e depois tirou ambas as pulseiras que trazia escondidas sob as mangas. Despedir-se do São Cristóvão e do retrato do amante custou-lhe bastante mais e ficou a fitar a sua fisionomia até a gravar na memória - como se ele já não existisse irrevogavelmente dentro de si. Juntou estas coisas às outras cartas dele. Guardaria esta última, juntamente com outra breve missiva que, compreendia-o agora, ele esperara ser a sua última carta para ela. Haviam de lembrar-lhe que ele estava a ajudá-la a ser forte. Graças a Deus que no país dela as pessoas não passavam cartas umas às outras para entretimento geral - Mariana morreria de vergonha se as lamentáveis cartas que ele lhe escrevera fossem mostradas em público!

            Ao dirigir-se ao quarto de Brites com o seu tesouro na mão, teve de amparar-se a uma parede várias vezes. Passou pela Irmã Joana Veloso de Bulhão, que estava furiosa por a Madre Superiora a ter obrigado a deitar-se de borco na capela para se redimir por ter chegado tarde às Nonas.

            Mariana precipitou-se nos braços da Brites e entregou-lhe as pulseiras, a medalha e o retrato.

            - Tens de ajudar-me - disse. - Senta-te aqui comigo enquanto escrevo uma carta e não deixes que me levante até a ter terminado.

 

                        Escrevo-lhe pela última vez e espero que entenda pelo tom e conteúdo desta carta que estou finalmente convencida de que já não me ama, e eu não tenho outro recurso senão deixar de amá-lo. Devolver-lhe-ei na primeira oportunidade o que ainda tenho de si. Não receie que eu volte a escrever; nem sequer porei o seu nome na encomenda. Encarreguei Dona Brites de tratar de tudo, que em assuntos muito diferentes deste tem sido a minha confidente. Posso confiar nela mais do que em mim mesma para cuidar dos pormenores. Dona Brites tomará portanto todas as medidas necessárias para que receba o retrato e as pulseiras que me deu.

            Há já alguns dias que me sinto tentada a queimar ou a destruir todas estas provas do seu amor e que outrora me foram tão queridas. Mas dei provas de tanta fraqueza que talvez me julgue incapaz de cumprir tal promessa. Suportarei, contudo, o desgosto que sinto ao separar-me delas. Talvez sintas algum pesar ao recebê-las. Confesso, para vergonha minha e sua, que me sinto mais afeiçoada a estas futilidades do que desejaria. E apesar de me felicitar pela decisão de acabar com tudo entre nós, tive de conjurar toda a minha força para me separar de cada uma delas. Mas quando uma decisão éfundada em tantos motivos como os meus, consegue-se sempre o que se deseja.

            Pus tudo nas mãos de Dona Brites. Quantas lágrimas esta decisão me custou! Não pode imaginar as minhas infinitas hesitações e que certamente não irei enumerar. Dei instruções à minha amiga para nunca mais voltar a mencionar estes doces tesouros nem mos devolver; embora possa vir a suplicar-lhe que mos deixe ver uma última vez. Ela deve remeter-lhe todas estas coisas sem me prevenir.

            Só me dei conta do desvario da minha paixão quando quis curar-me dela por todas as vias possíveis e temo que nem sequer ousaria tentá-lo se tivesse previsto que seria tão difícil e violento. Julgo que, apesar da sua ingratidão, sofreria menos se continuasse a amá-lo do que se o deixasse para sempre. Descobri que não era a si mas à minha paixão que eu amava; surpreende-me que me tenha custado tanto a

combatê-la, mesmo depois de ter consciência de todo o seu comportamento ignominioso. O orgulho próprio do meu sexo não me ajudou a rebelar-me contra si. Suportei o seu desprezo, pobre de mim, e teria suportado o ódio e o ciúme que o seu amor por outra me provocasse. Nesse caso, pelo menos teria uma razão real para enfrentar; mas a sua indiferença foi-me intoleráveL. Os seus impertinentes protestos de amizade e as ridículas palavras bonitas da sua última carta fizeram-me compreender que tinha recebido todas as que lhe escrevi e que, apesar de as ter lido, o seu coração não ficou

perturbado. Ingrato! Que insensatez lamentar-me não poder iludir-me mais com a ideia de que as minhas cartas talvez não tivessem chegado às suas mãos!

            Detesto a sua franqueza! Acaso lhe pedi que me dissesse a verdade? Por que não me deixou entregue aos meus sonhos? Bastaria não me ter escrito; eu não pretendia acordar da ilusão. Não serei ainda mais infeliz por nem sequer se ter dado ao trabalho de deixar que a minha paixão me iludisse? E certamente tentaria ainda desculpá-lo não fossem as suas dúbias qualidades denunciá-lo abertamente.

            Se tudo o que fiz por si merece algum respeito,

conceda-me um pequeno favor: suplico-lhe que não me escreva mais; ajude-me a esquecê-lo totalmente. Se me mostrasse, por muito subtilmente que fosse, ter sentido algum pesar ao ler esta carta, talvez acreditasse em si; as suas palavras de arrependimento talvez me enchessem de despeito... e isso poderia atear novamente o fogo dentro de mim. Não me responda nem intervenha na minha vida; qualquer intromissão da sua parte destruiria os meus planos. Não desejo conhecer as consequências desta carta. Não perturbe o estado ao qual desejo entregar-me. Contente-se com o mal que já causou. Qualquer que tenha sido a sua intenção de me desgraçar; não me tire agora desta incerteza. Com o tempo, espero transformá-la numa paz relativa. Não hei-de odiá-lo. Nem sequer me atrevo a intentá-lo, pois apercebi-me do preço a pagar pelos sentimentos exaltados.

            Deveria procurar um amante mais leal, mas quem é que ousaria amar-me novamente? Conseguiria a paixão de outro homem absorver-me, quando fui testemunha do fraco poder que a minha exerceu sobre si? Não provei eu que um coração terno é completamente afectado quando desperta da sua inocência para prazeres que até então desconhecia? Que todas as suas emoções estão ligadas ao ídolo que o primeiro amor cria? Estes primeiros ferimentos nunca saram, nunca desaparecem. Todas as paixões que se oferecem tentando satisfazê-lo e apaziguá-lo nunca voltam a capturar a profundidade inicial de tamanhas emoções e servem apenas para lembrar ao coração que os prazeres das novas paixões nunca são tão acarinhados como a lembrança do amor de outrora.

            Por que razão me deu a conhecer a imperfeição e o desencanto de um afecto que não deve durar eternamente e a amarga litania de um amor violento quando não é correspondido? Que destino cego e cruel nos impele para os braços daqueles que gostam de outro alguém? Mesmo que eu buscasse a distracção de um novo amante e encontrasse um homem em cuja fidelidade pudesse confiar; tenho tanta consciência do que sou agora que hesitaria em infligir à mais vil das criaturas o estado a que correntemente me acho reduzida. Estivesse eu em condições de lhe dar a provar o que eu provei e, embora não lhe deva qualquer espécie de respeito, nunca teria a coragem de o devastar dessa maneira.

            Procuro desculpá-lo. Compreendo que, regra geraL, uma freira não inspira amor;' mas se a razão interviesse na escolha de uma amante, as freiras seriam então mais merecedoras e preferíveis a outras mulheres. Nada as impede de se encerrarem constantemente na sua paixão e as múltiplas distracções do mundo não as perturbam. Parece-me que não é do agrado de um homem ver a amante sempre distraída por uma miríade de trivialidades, e ele teria de ser bastante superficial para evitar ficar exasperado e suportar ouvi-las falar de festas e lojas, enfeites e passeios. Os pormenores mesquinhos e os ciumes são incessantes quando as mulheres são obrigadas a certas convenções, delicadezas e tagarelices com toda a gente. Quem pode garantir que nessas ocasiões não estejam envolvidas numa aventura amorosa e sofram com desgosto as atenções dos maridos? Tais mulheres desconfiam de um amante que não exija delas um relato pormenorizado do que andaram a fazer ou que acredite impavidamente em tudo o que lhe contam e confiem que cumprem as suas fúteis obrigações.

            Não é minha intenção fornecer-lhe boas razões para lhe provar que me devia amar. A razão é um fraco meio de persuasão; muito tentei sem melhores resultados. Conheço bem o meu destino para tentar mudá-lo. Hei-de ser infeliz toda a minha vida. Não o era eu já quando o via todos os dias? Receava que me fosse infiel; ansiava vê-lo a todo o momento e isso não era possível. O perigo que corria ao introduzir-se no convento atormentava-me; sentia-me morrer quando partia para a guerra; desesperava por não ser mais bonita e digna de si. Lamentava a baixeza da minha condição social. Temia que o seu amor por mim o prejudicasse ou que eu não o amasse suficientemente. Tinha medo que a cólera da minha família se abatesse sobre si - por outras palavras, encontrava-me num estado tão miserável como aquele em que estou agora.

            Se me tivesse feito chegar a mais pequena prova de amor depois de ter partido de PortugaL, eu teria arrostado todos os perigos para sair daqui; ter-me-ia disfarçado para poder juntar-me a si. O que teria sido de mim se me abandonasse depois de eu chegar a França? Que horror! Que loucura! Que vergonha para a minha família, que é mais querida desde que deixei de o amar!

            Como vê, reconheço agora que podia ser ainda mais digna de dó do que sou. Ao menos desta vez falo-lhe com ponderação. Esta moderação agrada-lhe certamente; mas, quer lhe agrade ou não, não estou interessada em o saber. Volto a suplicar-lhe que não me escreva mais.

            Nunca pensou, nem sequer um pouco, na maneira como me tem tratado? Nunca lhe ocorreu que me deve mais obrigações do que a qualquer outra pessoa? Amei-o desalmadamente, desprezando tudo o resto. Mas o seu comportamento nunca foi o de um homem honrado. Deve sentir qualquer aversão por mim pois não me amou com paixão. Deixei-me seduzir pela mediocridade. Como é que me enfeitiçou? Que sacrifícios é que fez? Não se dedicou a outras diversões, à caça, ao jogo? Renunciou a alguma coisa? Não! Foi o primeiro a partir para a guerra e o último a regressar? Por muito que lhe tivesse pedido que se poupasse por amor de mim, expôs-se levianamente ao perigo. Nunca tentou sequer ficar em Portugal onde era estimado. Bastou uma carta do seu irmão para que partisse imediatamente. E, mais tarde, não ouvi eu muita gente dizer que estava muito bem disposto durante a viagem?

            Tem de concordar que tenho todo o direito de o desprezar mortalmente. Oh! Admito que a culpada fui eu! Dei-lhe a conhecer, desde o início e muito ingenuamente, a minha grande paixão. Tem de se usar mais subtileza e artifício no amor. Infelizmente, o amor por si só não suscita amor. O seu intuito era fazer com que eu o amasse e, uma vez que se decidiu a tal desígnio, fez tudo para o conseguir. Caso fosse necessário, teria sido até capaz de me amar para me seduzir. Mas deu-se rapidamente conta de que podia chegar aos seus fins sem me amar... Que baixeza! Pensou que podia enganar-me impunemente? Juro-lhe que se voltara pôr os meus pés no meu país eu própria o entregarei à vingança da minha família.

            Horroriza-me ter vivido submetida a uma idolatria durante tanto tempo. O remorso persegue-me. Tenho vergonha dos crimes que fui obrigada a cometer consigo; já não possuo, pobre de mim!, o amor que me impedia de reconhecer tal monstruosidade. Quando é que o meu coração irá sarar? Quando é que me livrarei deste desassossego? Acredite, por favor, que não lhe guardo nenhum maL,.poderia até desejar que fosse feliz - mas como poderá sê-lo se não tem coração?

            Gostaria de lhe escrever outra carta para lhe mostrar que, com o tempo, hei-de viver em paz. Quando já não me sentir profundamente magoada, talvez me agrade atirar-lhe a sua ingratidão à cara e manifestar o meu desprezo falando da sua traição com indiferença e dizendo que esqueci as minhas alegrias e sofrimentos. Só me lembrarei de si quando quiser lembrar-me.

            Hei-de reconhecer sempre que teve um grande domínio sobre mim e que me inspirou uma paixão que me transtornou, mas não precisa de vangloriar-se disso. Eu era jovem e ingénua e estava fechada neste convento desde pequenina; nunca tinha conhecido o agrado do amor e nunca ouvira as frases que constantemente me dirigia. Parecia que lhe devia a beleza e os encantos que admirava em mim e para os quais foi o primeiro a chamar-me a atenção. As pessoas diziam bem de si; toda a gente o elogiava. Fez tudo o que pôde para despertar o amor em mim, mas finalmente quebrei esse encantamento. A sua ajuda para conseguir tal intento foi muito valiosa e não devo esconder que precisava desesperadamente dela.

            Ao devolver as suas cartas, guardarei as duas últimas e hei-de lê-las ainda mais vezes do que li as primeiras para não voltar a cair nas minhas fraquezas. Oh! Como as paguei bem caro! Como seria feliz se tivesse consentido que eu o amasse para sempre! Continuo envolta nos meus lamentos. Como disse, prometi a mim mesma ficar mais tranquila, e consegui-lo-ei, ou então tomarei uma resolução mais desesperada da qual virá a ter conhecimento sem grande desgosto. Não quero mais nada de si. Sou louca por repetir tantas vezes a mesma coisa. Devo deixá-lo e não pensar mais em si. Não lhe escreverei mais. Que obrigação tenho eu de lhe dar conta de tudo o que transpira dentro efora de mim?

 

            A rebelião das freiras do Convento da Conceição começou por causa de um objecto que alguém deitou fora. Menos de três meses após a assinatura do tratado de paz, a Irmã Maria de São Francisco ouviu tocar o sino que as despertava para servir o Senhor e correu pelos corredores fora; arrancou o sino das mãos da Irmã Ignez de São José e atirou-o para o chão com toda a força. A paz da noite e do dia desvaneceu-se. A Irmã Maria de Castro, farta de lavar roupa, deu um pontapé num balde cheio de um pó branco de desinfectante que secou por entre as pedras do pavimento como luz de luar gasta. Uma postulante encarregada de limpar os escudos da Sala dos Brasões

recusou-se a trabalhar, declarando que os pais lhe tinham dito que os nobres não eram melhores do que ela. Algumas noviças foram procurar no lixo o cabelo que lhes tinham rapado e colocaram na Quadra de São João Baptista uma corda de tranças para fazer tropeçar a Irmã Ana Henriques. A Irmã Angélica de Noronha, perturbada por pensamentos em forma de morcegos, queimou a comida, o que provocou grande descontentamento no refeitório. A Irmã Brites, preocupada com o estado de Mariana - não gostava de a ver aflita, mas tão-pouco gostava de vê-la contente -, de pouco servia para evitar que acontecessem mais desastres na cozinha.

            A nova Madre Superiora, Brites de Noronha, andava de um lado para o outro na passagem que ligava a galeria superior do coro do convento ao palácio adjacente onde o duque de Beja se encontrava preso. Contemplava os azulejos vermelhos com motivos árabes como se pudessem dar-lhe uma resposta. Apesar de ser jovem, as freiras tinham de aprender a respeitá-la. Rezou para ter forças. Seria odiada pelo que quer que fizesse. Admirava-a que a paz, a liberdade e a independência há tanto desejadas dessem azo a estas demonstrações. Uma vez, em criança, o pai fora perseguido por um touro tresmalhado. Conseguira fugir-lhe, enquanto ela, sem saber o que fazer, contemplava a cena. Horas mais tarde, quando já não sentia medo, fora assaltada por uma sensação de medo e ultraje e os joelhos tremeram-lhe.

            O grito de batalha da Irmã Maria de São Francisco

ouviu-se enérgico:

-           Por que é que nada parece diferente? Se o que aconteceu foi o que mais desejámos durante toda a vida, por que é que a noção de liberdade ameaça sufocar-nos?

            Mariana não participou na revolta; mas, por causa da sua tranquilidade, o motim parecia irradiar de si. Mantinha-se calada junto do portão principal e passava o resto do dia e da noite fechada na sua " casinha". Deu tratos à cabeça para saber o que devia pensar, mas foi apenas invadida por uma tristeza que a impedia de se mexer. Não restava mais nada. Tinha dito tudo nas suas cartas e agora tudo desaparecera para sempre. Reconhecia que era uma pessoa fechada como lhe tinham dito que deveria ser neste mundo, quer em tempo de paz ou de guerra. Viveria assim mas recusava-se a aceitá-lo e esperaria por ele. E ele dir-lhe-ia que ela o proibira de lhe escrever e, por conseguinte, viera ele em pessoa salvá-la.

            A Irmã Francisca Freire veio visitá-la e disse-lhe:

- Endireita as costas, Irmã Mariana. É preciso ter orgulho. Tens de salvar-te a ti mesma.

            - A mim mesma? - disse Mariana enquanto a amiga insistia para que ela comesse.

            -           E a mim também - disse a Irmã Francisca Freire. - És parte de mim.

 

            - Deveríamos agradecer a Deus pela paz - disse a Irmã Leonor Henriques.

            -           Obrigada, obrigada, obrigada, ó Deus! - clamaram as noviças atirando os missais ao ar, e as freiras mais velhas fizeram o mesmo ou fugiram, faltando ao jantar. Andaram a jogar à bola nos claustros dizendo que era a cabeça do rei deposto, pobre diabo. (Palavra feia! Vivam as palavras feias!). As raparigas corriam atrás umas das outras com baldes de água na mão; e quando os véus ficaram molhados,

envolveram-nos em volta das cabeças das estátuas. A Irmã Angélica de Noronha não conseguia impedi-las de comer os doces encomendados pelas famílias de Beja que continuavam a festejar o tratado de paz. Moças irrequietas iam ao quarto de Mariana espreitar o que ela estava a fazer. Na enfermaria, a Irmã Juliana de Matos enrolava ligaduras. Jogava-se aos dados durante toda a noite. A Madre Superiora, exausta por andar sempre a correr de um lado para o outro, apanhou duas postulantes a jogar à espada com castiçais de prata.

Tirou-lhes os candelabros das mãos e perguntou-lhes se queriam ir embora. No seu posto, Mariana viu a Madre Superiora a empurrá-las para fora do convento. Ficou à espera. As raparigas puseram-se a gemer:

- Perdoe-nos, Madre! As nossas famílias não nos aceitarão em casa! - A Madre Superiora permitiu-lhes que voltassem a entrar e mandou-as polir os castiçais com cinzas pois tinham de ser vendidos para pagar a conta da comida daquele mês.

            Em muitos vestíbulos da cidade de Beja, as salvas onde eram depositados os cartões de visita estavam cheias de cartões com o canto dobrado, sinal de que a pessoa em causa devia dinheiro. Havia muitos nobres falidos.

            Ao terceiro dia da revolta, a Madre Superiora considerou chamar as autoridades, mas apercebeu-se a tempo de que isso só provaria que ela não conseguia dominar uma crise. O duelo das duas raparigas deu-lhe uma ideia, e assim anunciou no refeitório que as freiras que desejassem partir eram livres - ou antes, encorajadas - a fazê-lo. Teve de gritar para ser ouvida no meio do barulho das conversas e não repetiu o que acabara de dizer quando as freiras mais faladoras se puseram a perguntar umas às outras:

- O quê? O que foi que ela disse?

            Ficou acordada a maior parte da noite a ouvir várias freiras que, de trouxa na mão, atravessavam os claustros e iam até ao locutório, mas que depois não se atreviam a sair do convento. Não tinham outro sítio para onde ir. A Irmã Maria de São Francisco deitou-se junto do portão a chorar.

            Depois vieram uma a uma colocar-se à porta da Madre Superiora e disseram-lhe:

- Madre, a senhora é má.

            Voltaram a seguir para as suas celas. Ao amanhecer, e como o pressentira, a Madre Superiora sentiu-se transtornada. Sabia que a maior parte das freiras se censuraria de maneira diferente.

            No decorrer da sua aprendizagem com a Irmã Ignez de São José, aos oito anos de idade Peregrina escreveu que um enorme pássaro voara sobre o convento e lhe ordenara que descrevesse as suas asas e escrevesse " um pássaro voou por cima". Como por milagre, voo, pássaro, asas e a sua imaginação

            tinham aparecido.

            Peregrina achou que toda a gente devia ajudá-la a decidir se aquilo era o Espírito Santo que tinha vindo inspirá-las ou se se tratava de um mau presságio. Passou pelas celas do velho dormitório e dirigiu-se às "casinhas" do

           novo dormitório, algumas das quais agora desocupadas desde a partida das refugiadas de guerra. As freiras olharam para Peregrina e, cada uma por sua vez, disseram-lhe:

            - Talvez seja melhor dizer que foi o Espírito Santo.

            Peregrina, minha criança tão engraçada, tão séria. Vamos chamar-lhe Espírito

            Santo, ficas contente? Vês cada coisa!

            Chegou finalmente à ala dos Alcoforado. A " casinha" de Mariana era a última e, para sua surpresa, a irmã não a mandou embora. Quando Peregrina, com uma expressão franca nos olhos castanhos, lhe perguntou se o pássaro que ela inventara era o Paracleto ou uma sombra sinistra, Mariana foi a única freira que quis que ela mesma o explicasse.

            - Diz tu o que é que achas que era - pediu-lhe Mariana.

            - Não sei. Escrevi que podiam ser ambos.

            - Então o teu sonho não receia ver o bem e o mal na mesma coisa. O teu sonho é completo.

            Peregrina sorriu. Há anos que queria conquistar o afecto de Mariana. Podia esperar mais algum tempo. Não sabia por que razão a irmã mais velha, com idade para ser sua mamã, era tão sossegada, como alguém que andara a correr com areia nos punhos fechados e que tivesse chegado ao fim de uma longa corrida sem areia nas mãos.

            - Ouvi dizer que és boa aluna - disse Mariana. - É verdade?

            Peregrina não disse palavra. Bebeu as palavras da irmã, dominando a sua vontade de se mexer.

            No final da revolta de três dias, as horas voltaram para trás e recomeçaram a avançar com a lentidão e doçura das planícies. Todas as freiras diriam posteriormente que tinha sido preciso a visita de uma criança, o astuto estímulo de uma Alcoforado, para lhes lembrar que, se erguessem a cabeça e olhassem para o alto, os sonhos continuavam a ser possíveis.

            Ou se baixassem a cabeça e assentassem os sonhos.

 

            A Irmã Brites recebera algo de que andava à espera desde que se encontrara com Mariana (embora não notasse ao princípio que a amiga talvez quisesse um reconforto tão desagradável). Era mais forte do que Mariana, que necessitara da sua ajuda. Viera ter com ela com aquelas pulseiras e o retrato na mão. Os meses passaram e era evidente que a amiga sofria. Por que razão, então, Brites ficara recentemente satisfeita quando Mariana lhe perguntou:

- Mandaste tudo? - à procura de uma oportunidade para falar daquele homem e para que Brites replicasse: - Pediste-me para não te deixar falar mais sobre esse assunto.

            Embora Mariana não tivesse acrescentado palavra, irradiava dela um desejo obstinado de falar. Brites sentiu-se vexada. Mesmo mantendo-se calada, a força de Mariana

impunha-se. Brites ainda estava indignada por a amiga lhe ter entregue aquelas coisas ordenando-lhe que, mesmo que ela suplicasse como Ulisses o fizera ao navegar no reino das sereias amarrado ao mastro do seu barco, devia seguir o exemplo da tripulação de Ulisses e não devia dar-lhe ouvidos.

            Quem era Ulisses? Por que é que a Mariana se vangloriava de ter recebido uma educação primorosa?

            Não se conteve e disse a Mariana:

- Pareces mais sossegada. Que bom ver-te assim! Acho que já estás melhor daquilo que tu sabes... Daquele fantasma.

            Tão calma como a hora do cantar do galo, Mariana replicou:

- Não é nenhum fantasma.

            - Mais valia que o fosse, não é? Quer dizer, ainda o vês?

            - Sim, vejo-o - respondeu Mariana com ligeireza. - Por toda a parte, mas lembra-te de que não devemos falar dele.

            Mais tarde, Brites chorou no seu quarto por causa do modo injusto como os dons eram distribuídos pelas pessoas. Mariana tinha um pai famoso e um capitão que a amava. O único dom de Brites, se assim se podia dizer, era

a revelação de que tinha ciúmes da sua melhor amiga.

 

            Á janela da sua " casinha", Mariana pensava que fazia um ano que Noel a abandonara e rezou:

- Amo-te. Ainda te amo. Hei-de amar-te sempre. Venero todas as alegrias e sofrimentos que o teu amor me proporcionou. Não quero curar-me do meu amor por ti. Sou suficientemente forte para saber amar-te, embora talvez nunca mais volte a ter-te. Serei alguma vez capaz de sentir alegria com as tuas viagens, jantares, o facto de estares bem sem mim? Um dia hei-de imaginar tudo isso sem pestanejar.

            Hei-de ser capaz, meu amor.

            Mas hoje não. Hoje tenho igualmente de suportar a inveja da minha amiga. Deus do céu, como é que alguém pode ter inveja de mim?

 

            O capitão Noel Bouton, recentemente feito conde de

Saint-Léger e marquês de Chamilly, não apreciava festas. Gostava de vestir-se para esse efeito mas a tagarelice enfastiava-o. Os salões parisienses, incluindo os salões literários de Montespans e de Maintenons, davam recepções em honra das tropas vitoriosas. Era convidado para a maior parte delas por ter servido em Portugal e nos Países Baixos e por ter sido promovido pelo general Schomberg; mas no momento em que começava a contar sobre as suas campanhas, os ouvintes afastavam-se discretamente, deixando-o a contemplar a sua bebida.

            E Mariana ainda o acusava de ser um devasso e de fazer a corte a todas as mulheres! Devia ver o que se passava ali à volta dele e pedir-lhe desculpa: mulheres de corpete, saias de arminho e todas enfeitadas que não se sabia quem eram nem o que queriam. Como usava um traje religioso, Mariana vestia-se com simplicidade e isso, quanto a ele, confirmava que a elegância não necessitava de adornos. Os seus insultos eram inexplicáveis. Como ela mesma fizera notar, nunca se pôs a questão de ele ficar a viver num país pobre. Se alguma vez lhe dissera para não se preocupar pois faria tudo por ela, fora porque Mariana quisera ouvir aquelas palavras e ele desejava vê-la feliz. Escrevera-lhe cartas amigáveis como prova de que se importava com ela e Mariana havia-as desprezado. Se fora obrigado a escrever aquela carta final em que explicava claramente o que Mariana recusava encarar na sua histeria, a culpa era dela. E Mariana, como uma criança mimada,

devolvera-lhe os presentes que lhe oferecera.

            Os seus criados portugueses, Francisco e Manuel,

tinham-no ajudado a traduzir as cartas dela. Um dos principais problemas com as mulheres era que, como não tinham muita coisa para fazer, faziam inumeráveis exigências românticas aos homens. Estava disposto a perdoar-lhe, pois as cartas delas constituíam prova de que ele não era o amante apático e desajeitado que as cansativas mulheres que costumavam frequentar estas festas insistiam que ele era. Tais mulheres mostravam a toda a gente as cartas que os maridos ou os amantes lhes enviavam; e quando voltavam, os homens que partiam para a guerra ou em negócios vangloriavam-se das cartas açucaradas que tinham recebido das esposas ou amantes; e ao ler as partes arrebatadoras que ele não conseguia de forma alguma digerir, toda a gente exibia uma falsa ternura na voz. Outro problema com as mulheres era que gostavam de floreados, mesmo quando estes eram falsos. Mariana, pelo menos, tinha sido franca e honesta. Admirava-a por isso, embora preferisse que ela tivesse usado uma linguagem de salão a fim de poder mostrar as suas cartas como os outros faziam.

            Uma mulher com um vestido de tafetá verde e largas anquinhas disse-lhe ao ouvido:

- Noel! Quem é que vos convenceu a vir aqui esta noite?

            Baixou a cabeça abrupta e rigidamente e controlou-se para não corar quando ela abriu um leque para esconder um pequeno sorriso trocista.

            - Não podia faltar a esta festa, Mademoiselle Bourbon.

            - Claro que não! Um homem tão selvagem como vós! - exclamou ela rindo.

            Outra mulher passou-lhe sob o nariz uma bandeja com bolinhos como se ele fosse um cavalo e disse:

- Abra, Noel... Quer dizer, marquês... De certeza que não resistirá a estes doces...

            Noel voltou a baixar a cabeça e ambas as mulheres desataram a rir.

            - Vós sois mais doce do que os doces - disse, tentando furiosamente adivinhar o que deveria dizer. A galanteria era mais difícil do que matar um homem.

            - Agora que a guerra acabou, deveis ter cuidado para não engordar - disse Mademoiselle Bourbon.

            - Assim farei - retorquiu o marquês. - A boa vida tem sido amável comigo. Ou, deveria antes dizer, pouco amável.

            O esforço do discurso fê-lo resfolegar. As mulheres gostavam dos homens que se autocriticavam, outro motivo que tornava o convívio com soldados menos degradante.

            -           No vosso lugar, não diria palavra - atalhou aquela que segurava na bandeja de bolinhos. - Ficai apenas aí todo aprumado para nosso prazer.

            Seguiu-se outra explosão de riso; e depois deram-se o braço e foram para junto da orquestra que tocava os primeiros acordes de uma gavota. Noel Bouton, marquês de Chamilly, dirigiu-se para a varanda onde poderia estar sozinho. O som da música seguiu-o. Não era dado a sonhos, refúgio das pessoas sem ambições, mas de quando em quando permitia-se sentir saudades dos campos de batalha do Alentejo onde conhecera momentos de glória. Mariana havia preservado um pouco disso ao dizer que ele montava bem a cavalo. Gostava do modo violento como ela o amara. Admirava a violência das suas cartas, a sua franqueza, e era por isso que as trazia consigo. Oferecera-lhe as pulseiras para agradecer o seu orgulho e recompensar a sua delicadeza, embora agora apreciasse que ela as tivesse devolvido. O seu a seu dono.

            Ouviu a voz de Mademoiselle Bourbon descrever a um grupo de damas o seu encontro com ele e, sem esperar que elas o avaliassem como potencial amante, foi-se embora rente às paredes usando os reposteiros como um escudo.

 

            Na noite seguinte não lhe custou muito decidir levar as cartas da freira, que os criados haviam ajudado a traduzir para francês, para a festa onde Mademoiselle Bourbon estaria presente. Era uma pena que Mariana não apreciasse o requinte das conversas de salão. Os convivas haviam de ridicularizar o seu sotaque provinciano e o facto de não saber descrever as coisas com frases bonitas. As pessoas que rodeavam Noel estavam acostumadas a ler as cartas umas das outras e não missivas que falavam de morrer por amor. Mas, por outro lado, as cartas de Mariana poderiam emudecê-los para sempre.

            Noel entregou as cartas de Mariana a uma dama que uma vez troçara dele dizendo que ele devia frequentar os salões acompanhado por uma escolta. Para dizer a verdade,

agradava-lhe imenso ver que as cartas da freira estavam a estragar a festa. A mulher ao seu lado leu a primeira carta, fitou-o e depois continuou a leitura, passando uma página a outra que queria saber o que se passava. Os que dançavam começaram a aproximar-se e os criados não conseguiam convencer ninguém a provar os aperitivos. As mulheres encostavam-se pesadamente às paredes para ler aquelas cartas. Uma delas que, há alguns minutos estivera a mostrar cartas do marido, parecia envergonhada agora. Noel disfarçou um sorriso quando Mademoiselle Bourbon exclamou que quase se sentia no papel o calor escaldante desse pequeno país. Que gente ardente devia ser! Uma tal paixão!

            Alguém insinuou que fora Noel quem escrevera as cartas para os impressionar, mas uma das damas logo atalhou que nem o marquês de Chamilly nem nenhum outro homem podia conhecer uma mulher assim tão bem, acrescentando que queria ter cópias daquelas cartas para poder lê-las quando se sentisse melancólica.

            Poucas semanas depois, muitos outros salões parisienses clamavam as cartas de amor de Noel. Dizia-se que as mulheres quase desmaiavam ao lê-las e que os criados tinham de

abaná-las. O facto de Mariana afirmar que tinha pena de Noel por este não padecer de amor causava particular furor. Noel não se importava de ser alvo de comentários sarcásticos em troca dos olhares que as mulheres lhe lançavam agora nas ruas de Paris ou de Versalhes. Os bilhetes que elas lhe enviavam pedindo-lhe namoro divertiam-no moderadamente. O incidente mais picante foi Mademoiselle Bourbon ter dito no decorrer de um jantar elegante que talvez se tivesse enganado a respeito dele. Foi com prazer que Noel repeliu a corte dela.

            Os poderes de Mariana eram tais que conseguiam torná-lo atraente. Sentiu gratidão por ela.

            Cópias das cartas continuavam a ser distribuídas por França. Um livreiro parisiense, Claude Barbin, contactou-o e declarou-lhe que o estilo das cartas era revolucionário pela prosa isenta da pieguice e sentimentalismo dos livros da época. Noel Bouton apreciou o elogio mas mostrou-se prudente. Barbin insistiu que as cartas tinham o aroma do corpo nu de uma mulher, eram escandalosas e ferozmente ingénuas. Sendo a sociedade francesa tão pretensiosa e reservada, o ambiente era propício a uma ponta de audácia, a um pouco do ardor do Sul. A publicação das cartas fá-los-ia ganhar bom dinheiro. Era curioso encontrar uma mulher que falava do amor com a sensibilidade do seu sexo, mas com uma franqueza de homem. Barbin considerava isso mais notável e comercialmente mais prometedor do que o facto de ser escrito por uma freira. Toda a gente compreendia que os conventos em Portugal estavam tão cheios de raparigas sem vocação religiosa como em França.

                        Barbin aconselhou Noel a tomar uma decisão rapidamente. Outros editores estavam a tentar adquirir direitos sobre as cartas. Um editor holandês de visita a Paris ouvira alguém ler algumas das cartas e manifestara o seu entusiasmo. A Holanda tinha substituído os portugueses em muitas rotas comerciais que estes haviam descoberto e o holandês estava convencido de     que tais cartas obteriam grande sucesso no seu país. Alguns editores ingleses e italianos também se mostravam interessados.

                        Barbin propôs então que, com o consentimento do marquês de Chamilly, ele obteria, através de um privilégio real, os direitos para a publicação exclusiva das cartas em Paris durante um prazo de cinco anos e que lhe pagaria uma percentagem previamente combinada sobre as receitas.

                        Noel considerava que as cartas eram dele e que podia fazer com elas o que queria, mas mil objecções invadiram os seus pensamentos. A publicação

'           era uma versão em larga escala da prática de mostrar cartas a toda a gente, não era? Mariana, cuja família estava longe, não sofreria com isso. Mas se ele viesse a casar, talvez esta acção lhe perturbasse a consciência. Exprimiu este último pensamento em voz alta.

                        Claude Barbin não deu importância às suas preocupações.

            -           Desejais proteger-vos? - disse, soltando uma risadinha. - Contra í alguma futura esposa ou sogro?

                        Explicou-lhe então que seria ainda melhor se publicassem as cartas anonimamente. Mencionariam até o nome de um tradutor qualquer para lhes dar maior autenticidade. Todas as referências a Noel Bouton seriam eliminadas. Toda a gente saberia a quem as cartas eram dirigidas; mas legal e tecnicamente, Noel Bouton negaria tal coisa. Barbin

ofereceu-se para pedir a Gabriel Lavergne de Guilleragues, director da Gazette de France, que emprestasse o seu nome.

            - Conhecei-lo? É um tipo pretensioso, mas escreveu umas coisas. Passa a vida sentado à mesa a comer.

                        Noel concordou que era uma maneira honrosa de tratar do assunto. Devia partir numa expedição a Creta para combater os turcos e só voltaria após a publicação do livro. A sua ausência permitiria que a produção prosseguisse sem o culpar directamente de a ter posto a funcionar, embora lamentasse não poder ver a cara de Mademoiselle Bourbon quando lesse, impressas e irrefutáveis, as palavras que haviam sido escritas para ele.

            A verdade é que não tinha disposição de voltar a ler aquelas cartas. Estava habituado a enfrentar o sofrimento; a sua tarefa era que os homens sob o seu comando sofressem o menos possível. A angústia de Mariana pertencia a um tipo de sofrimento que lhe causava espanto. Os leitores certamente concordariam com ele que ela não tinha razão para o vilipendiar por ter partido.

 

            Os portugueses cobriram o general Schomberg e o rei Luís XIV com tantas honrarias que um certo número de franceses lançaram um olhar às ruas húmidas de Paris e decidiram reformar-se antecipadamente. Dizia-se que os portugueses recebiam os mais humildes cidadãos franceses como heróis. Portugal estava interessado em receber gente com dinheiro para gastar. As famílias francesas que iam para lá levavam consigo as " Cartas Portuguesas" em francês. Os livros passaram as fronteiras e desaguaram no porto de Lisboa, dispersando-se por todo o país. Alguns dos recém-chegados traziam volumes dessas cartas no fundo das malas. Por causa da censura, nunca se sabia. Dizia-se que muito em breve estas escandalosas cartas seriam incluídas no "Índex" dos livros proibidos.

            A aristocracia portuguesa que tinha preferido estabelecer morgadios nas áreas rurais e não penetrar nos labirintos da Corte de Lisboa construía bibliotecas impressionantes. Livros franceses e ingleses eram procurados para encher as suas estantes pois estava na moda possuir obras estrangeiras e alguns volumes proibidos.

            Baltazar, que se encontrava em Beja sem saber o que fazer pois o exército já não precisava dele, deu-se conta de que as pessoas olhavam para ele de soslaio. Ao princípio pensou que era porque tinha movido uma acção contra o pai. Não tinha a capacidade do pai para gerir as propriedades da família e detestava dar ordens a torto e a direito. A certa altura, chegara a sugerir afastar-se e dar o seu lugar a Miguel, mas o pai barafustou que o tinha feito seu herdeiro: " Por amor de Deus, Baltazar, tens de cumprir o teu dever". O único conforto de Baltazar é que não estava sozinho. Como não havia trabalho, a maioria dos soldados que haviam regressado após a guerra não sabia o que fazer. Era patético ver Rui a negociar em gado para o sogro, vendendo carneiros e vacas e discutindo com aqueles que queriam comprar a crédito. O pai de Baltazar usava a sua influência para que Rui fosse aceite na Ordem Militar de Cristo - mais medalhas e mais títulos do antigo regime. O Conselho de Guerra finalmente absolvera Rui e os irmãos do motim de 1662 contra

a guarnição inglesa, embora toda a gente dissesse que esse longo e ambivalente silêncio provava quão questionável era a inocência dos Lobo. A admissão de Rui na Ordem Militar de Cristo mantinha-se suspensa por causa da má reputação da sua família. O próprio grão-mestre daquela Ordem, Francisco da Costa, já não conseguia obter nomeações à altura do esplendor de outrora.

            Entretanto, Cristóvão Pantoja Lobo tinha rejeitado o seu cargo de governador de Pernambuco, queixando-se de que se sentia cansado, e mudara-se com a mulher, dois filhos e uma filha para Viana d'Alvito, propriedade mantida em estado jacente pela irmã, Leonor Henriques, pois esperava vir a herdá-la.

            Baltazar debateu consigo mesmo se devia contactar Santa Clara e admitir que cometera um erro em processar o pai. Mas se desistisse, seria ridicularizado tanto pela sua fraqueza quanto pelo seu actual comportamento.

            Um dia, um bêbado insultou Mariana e Baltazar feriu-o de tal maneira que o homem ficou tolhido de um braço. Baltazar não sabia ao certo se ao defender a honra da sua família, ou a dos Lobo, não se portara como o pai: lutar primeiro e lidar com as consequências depois.

            - Oh, por que é que não me levas para França contigo? Por que é que não me levas para França? - entoaram em coro o açougueiro e a mulher quando Baltazar entrou no talho.

            - O que é que vai ser de mim? Oh, oh! - disse entredentes o fabricante de velas enquanto remexia o caldeirão de cera.

            - Adeus, mais uma vez adeus! - trauteou uma rapariguinha na rua para espanto de Baltazar.

            Dirigiu-se a casa de um amigo, Humberto Sousa, para saber o que estava a passar-se. Humberto serviu-lhe um cálice de vinho do Porto e insistiu para que ele o bebesse.

            - Não posso acreditar que não saibas - disse Humberto.

            Baltazar sentiu o sangue a ferver. Sabia que o que acontecera entre Mariana e o conde de Chamilly era do conhecimento geral; mas, por discrição e respeito por Francisco da Costa - Baltazar era bem capaz de invocar essas razões quando era necessário -, por que razão as pessoas não baixavam a cabeça e olhavam para outro lado? Baltazar tivera uma reacção completamente diferente daquela que estava a ser manifestada. As pessoas deviam olhar para ele e Mariana com reverência e chamá-los os criadores de uma nova Ordem - o que eles faziam seria considerado tão exaltante e provocante como a construção de uma Casa da Moeda. Pouco importava que o pai fosse o padroeiro da independência nacional; Baltazar e Mariana seriam vistos como os padroeiros da liberdade individual. Nada funcionava como devia ser. A sua última visita à irmã tinha sido horrível. Ela estava num estado miserável, doente e desesperada, e suplicara-lhe que fizesse qualquer coisa. Não conseguia tirar essa imagem da cabeça.

            Não havia nada que pudesse fazer por ela, absolutamente nada.

            Quando o amigo lhe mostrou um livro escrito em francês, Baltazar censurou-se por não ter aprendido essa língua suficientemente bem, embora pudesse entender algumas frases que gemiam nas páginas. Segundo as palavras de Mariana, não havia qualquer dúvida - e Humberto, caso ele não entendesse, chamou-lhe a atenção sobre isso - que Baltazar era mencionado como tendo entregue parte dela ao homem que a mergulhara no mais profundo desespero. Baltazar tinha-a injuriado no decorrer da sua última visita e este era o pagamento que recebia. Tapou os ouvidos. As súplicas e o choro da irmã eram mais do que ele podia suportar. Fechou o livro, mas continuava a ouvir os gritos dela.

            -           Lamento - disse Humberto. - Toda a cidade conhece estas cartas. Julguei que soubesses. Não ia contar-te nada, Baltazar, mas sempre é melhor que seja eu do que outra pessoa qualquer.

            -           O melhor é que nada disto tivesse acontecido.

            Humberto hesitou.

            -           Devias falar com o teu pai. Mais cedo ou mais tarde...

            -           Ele já não sai do escritório.

            -           De qualquer modo, há-de vir a saber. Toda a gente fala disto. Tenho realmente muita pena.

            Baltazar levantou-se sem dizer palavra e atravessou a cidade a correr. As cabeças das pessoas pareciam inchadas em formas grotescas. Proferiam palavras demoníacas. Chegou ao convento mas Mariana não estava de serviço no portão. Teria de falar com elas através das grades. O locutório estava vazio e haviam fechado já a porta que dava para os claustros. A Madre Superiora estava realmente disposta a repor o convento em ordem. Gritou:

- Mariana!

 

Meu querido Baltazar,

                        A tua visita, após tão prolongada ausência, está gravada no meu coração. Aceita ofacto de te escrever como sinal de afecto.

                        Encostei-me com tanta força às grades para estar mais perto de ti que ainda tenho as marcas no rosto. Ultimamente mantêm-nos isoladas do resto do mundo. Irmão, meu atormentado irmão, o teu estado de espírito perturbou-me! Parecemos dois fantasmas tristes. Vou seguir o teu conselho e aplicar água do poço nas chagas que tenho no pulso esquerdo. Prometo viver durante muito tempo e pedir que este voto te inspire a fazer o mesmo. Fiz mal em arreliar-te dizendo que, em vez de me visitares, passas a vida a divertir-te e a caçar. Faz o que te apetecer, mas conta-me tudo, escreve-me e eu ficarei contente.

                        Peço-te que não me fales mais do passado, nem te censures por me teres ajudado a pôr de parte todas as regras da decência. Fico-te eternamente grata por tudo o que causaste. Não posso imaginar maior triunfo na vida do que aquele que jorrou das nossas almas. Ambos ousámos clamar tanta beleza!

Fica hem paz e transborda de saúde. Sê incrivelm ente feliz. Mil beijos, A tua Mariana.

 

            Os representantes do Convento de Santa Clara chamaram Baltazar para lhe agradecerem a entrega do contrato em poder do pai. Tinham encontrado a prova de que as propriedades de Santa Clara só haviam sido cedidas temporariamente. A palavra " temporário" era a chave do problema. A redacção tão grosseiramente inexacta do documento devia-se ao facto de ninguém ter podido prever quando a guerra terminaria. Entretanto, tinham perdido as cópias que lhes cabiam do contrato por culpa da má administração do convento.

            Mas quando as autoridades conventuais lhe disseram que iam apresentar o caso às autoridades locais para que os seus bens fossem devolvidos, Baltazar gritou-lhes:

- Mudei de ideias!

            Os funcionários pestanejaram enquanto Baltazar se lançou num discurso confuso para explicar como a mente do pai funcionava. Para Francisco da Costa, a palavra " temporário" não possuía o significado que tinha para as outras pessoas. No seu testamento, incluira propositadamente uma cláusula que assegurava a administração do morgadio até o mundo acabar. Tratava-se de um homem para quem " temporário" poderia querer dizer dez gerações.

            As autoridades replicaram que para a gente de Santa Clara " temporário" significava que eles tinham o direito de reclamar e voltar a comprar os seus bens. E agora, graças a Baltazar, tinham em seu poder um documento assinado que provava que a aquisição de Francisco da Costa não era permanente. Opiniões quanto ao tempo era um assunto para ser decidido por juizes.

            Baltazar foi a cambalear como um homem ferido

confrontar-se com o pai. O medo devorou o longo discurso que tencionava fazer e no qual a sua culpabilidade figuraria. Em vez disso, gaguejou que ia regressar à vida monástica. Não se adaptava ao mundo normal e não suportava a sociedade dos homens. O pai, espantado com tanta parvoice, reuniu todas as suas forças para o lembrar de que lhe cabia administrar o morgadio. Tal decisão era final.

            - Estou perdido - disse Baltazar.

            - Deixa-te de criancices! - berrou o pai. - Porta-te como meu filho.

            - Sou seu filho. Um bastardo como aquela que se encontra num convento, tal como eu devia estar!

            Fez uma pequena trouxa e partiu imediatamente. Quando Luís, o criado, correu atrás dele para o avisar de que o pai nunca mais o perdoaria se não se mostrasse sensato, Baltazar retorquiu que não desejava ser perdoado e que não havia grandes probabilidades de algum dia recuperar a sensatez.

            Apesar de raramente sair da sua cela do mosteiro de Beringel e de só em certas ocasiões ter acompanhado o duque de Sidónia em caçadas, Baltazar encontrou alguma tranquilidade nas poucas vezes que se aventurou nos bosques. Costumava então apontar para uma poça de água e descrever o monstro que via reflectido aí. Quando trazia alguns coelhos ou pombos aos monges, gracejava que fora ele quem os matara mas que não os prepararia. E entregava as peças de caça ao Irmão António para serem cozinhadas. Dizia ainda que outrora fora soldado a valer, mas que actualmente era um soldado da floresta!

            Ganhou a reputação de pantomineiro porque metia as sandálias nas mãos e executava números de dança nas mesas. Os monges adoravam as suas infantilidades.

            Uma noite, porém, o vento sussurrou a Baltazar: " Quando o meu irmão me deu a oportunidade de te escrever, senti-me momentaneamente menos desesperada". E de manhã a água da sopa a ferver gemeu: " Ah, por que é que eu não nasci noutro país!".

            O espírito da reforma acabou por apanhar Baltazar e os outros monges, que foram então proibidos de se ausentarem do convento tantas vezes como dantes. O isolamento deu-lhe um novo brilho ao olhar e Baltazar deu-se ao luxo de fingir que era um orgulhoso marginal. Nesta época de lacaios, bajuladores e latifundiários impiedosos, deveria haver mais rebeldes como ele. Era então visitado por recordações do sofrimento da irmã ou pelo olhar assombrado do pai e tinha de sentar-se, maravilhado por perceber que a liberdade pela qual combatera seria assim. Violaria uma vez mais todos os regulamentos para ir ter com Mariana se tivesse a certeza de que isso iria modificar alguma coisa.

 

            Francisco da Costa pressentia que talvez não atingisse o seu objectivo de chegar até aos cem anos de idade. Cem era um número inesquecível. O primeiro algarismo era uma linha isolada representando um homem só ao lado de dois símbolos do infinito. Desejava ser descrito como centenário - uma realização impressionante. Talvez fosse isto o que significava ser velho: trinta anos mais parecia uma penitência.

            Queria modificar o testamento e deserdar Baltazar de modo a que Miguel ficasse legalmente encarregado do morgadio, mas um solicitador informara-o de que nem mesmo um Alcoforado podia alterar as leis testamentárias. Francisco desembainhara a espada e ameaçara o solicitador, tendo depois desatado a insultar-se a si próprio pelo seu acto. Um Lobo não se teria portado melhor. Um testamento facilmente emendado podia prejudicar os herdeiros legais. O morgadio só poderia passar para o nome de Miguel após a morte de Baltazar. Este cooperava, assinando escrituras e procurações quando era necessário; mas, metido na sua cela, não participava activamente na prosperidade das propriedades. Francisco da Costa e Miguel faziam o que podiam, mas a falta de autoridade era má para o negócio.

            Uma tarde, Francisco da Costa convenceu-se de que Rui andava a retirar dinheiro da venda do gado. Apesar do calor, vestiu uma jaqueta e um pesado capote, calçou botas de cano alto e ordenou a Luís que lhe selasse um cavalo. Luís teve um grande trabalho para cumprir esta tarefa pois também envelhecera.

            Francisco dirigiu-se à taberna que Rui frequentava na cidade; ao passar pela Casa da Moeda, reparou no lixo amontoado à porta. Havia de dar uma descompostura ao capataz por tal falta de respeito. Os donos das lojas que varriam a calçada ou colocavam caixas com legumes na rua olhavam-no de soslaio sufocados de riso. E apesar da jovial saudação do velho fidalgo, não lhe responderam com o respeito devido. Idiotas! A situação económica que estava a dar cabo deles podia ser resolvida se tivessem miolos.

            Rui estava refastelado, meio-adormecido e de camisa desabotoada, a uma mesa redonda num canto sombrio da taberna. Bartolomeu, esparramado ao seu lado, segurava uma garrafa vazia. Francisco reconheceu o seu amigo D. Joaquim, que ultimamente bebia no meio de um grupo de homens para esquecer os seus problemas de dinheiro. Os comentários trocistas dos seus companheiros à elaborada maneira de vestir de Francisco - em voz suficientemente alta para serem ouvidos, e ao mesmo tempo suficientemente baixo para que pudessem ser negados - enervaram D. Joaquim. Envergonhava-se da satisfação que sentira ao ler as " Cartas Portuguesas". Francisco podia salvar uma nação, e contudo não conseguia meter os filhos na ordem; mas, por uma questão de honra, também queria proteger o amigo e impedir que este soubesse da existência de tais cartas.

            Levanta-te! - gritou Francisco ao genro.

            O cabelo ruivo de Rui, todo despenteado, era um tufo de chamas errantes. Fitou o sogro. Bartolomeu coçou os pêlos da barba como um gato impassível e anafado.

            - Andas a vigarizar-me com o dinheiro da venda do gado. Vives em minha casa sem pagar um tostão. Quero o dinheiro que me deves!

            - Tenha calma - disse Rui em tom aborrecido. - Não lhe roubei nada. Ninguém tem dinheiro para pagar as dívidas.

Hei-de esticar o pernil em breve e os seus netos meterão a unha no que é meu. Vá-se embora e deixe-me em paz.

            - Assim é que é falar! - atalhou Bartolomeu.

            - Cala-te, meu estúpido! - silenciou-o Rui. - Estou rodeado de bestas.

            Deixou pender a cabeça no braço esticado sobre a mesa. Parecia um homem morto a tentar alcançar qualquer coisa.

            - Quero que me pagues já! - prosseguiu Francisco.

            No terrível silêncio que pairou na taberna, um dos homens sentados junto de D. Joaquim estalou os beiços num beijo sonoro. Seguiu-se um gracejo quanto à necessidade de Francisco ter de consultar a filha para aprender a lidar com os homens.

            Francisco virou-se e desembainhou a espada para encarar o homem que dissera aquilo.

            - Sou um velho, mas vou matar-te aqui mesmo.

            - Que loucura! - exclamou D. Joaquim precipitando-se num salto para agarrar no braço de Francisco, mas este encurralara já o ofensor contra a parede. O homem procurava atabalhoadamente uma navalha nos bolsos. Francisco

encostou-lhe com desprezo a ponta da lâmina ao pescoço. Os jovens de hoje só tinham garganta; não sabiam agir com rapidez.

            - Antes de te matar, vais pedir perdão à minha filha.

  1. Joaquim, dois dos seus companheiros, o dono da taberna, Rui e Bartolomeu tentaram em vão afastar Francisco da sua vítima. D. Joaquim suplicou ao amigo que perdoasse o comentário. Umas palavras de mau gosto não eram motivo para matar um homem.

            -           Uma única palavra é motivo suficiente - disse Francisco levantando a espada.

            -           A culpa é do seu filho! Do seu próprio filho! - barafustou o homem colado à parede. - Foi ele quem fez pecar a sua filha! Toda a gente pode ler isso no livro que ela escreveu!

            -           Livro? - murmurou Francisco boquiaberto, baixando a espada.

            O cabelo branco emoldurava-lhe o rosto como uma aura e os seus olhos percorreram a assistência.

            Rui agarrou na mão do sogro que empunhava a espada.

            -           Vá para casa, Francisco - aconselhou D. Joaquim.

            -           Este lugar não é bom para si. Tem muita gente estúpida que não sabe o que diz - disse Rui afastando Francisco e dando um violento soco no estômago do homem encostado à parede.

            -           Hei-de voltar e dar-te uma boa lição! - silvou Rui ao ouvido do homem dobrado em dois.

            Conduziu o sogro a casa e, apesar das súplicas deste, recusou-se dizer palavra sobre o livro de que o homem falara.

            No dia seguinte, Francisco tentou saber o que se passava, lembrando a toda a gente que conhecia que sempre se orgulhara de saber de tudo.

            O marquês de Niza, embaixador em França, deu-lhe uma tradução francesa das cartas e Francisco encontrou rapidamente a passagem que dizia respeito a Baltazar. Não conseguiu ler o resto, era como se contemplasse uma das suas filhas a

despir-se. Fechou o livro e arremessou-o ao chão.

            Tratava-se de uma partida de alguém e essa pessoa pagaria por tal afronta.

            Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e apercebeu-se então de que se aquilo era verdade, como pressentia que fosse, a descrição pelo próprio punho de Mariana também era autêntica.

            Pegou novamente no maldito livro e o seu olhar caiu sobre outra passagem - Mariana a dizer a esse homem que ele era a sua honra e a sua religião. Quem teria a coragem de exprimir tal horrível convicção senão a filha? As palavras saltavam como espadas apontadas aos seus olhos. Ela tinha-o apunhalado no coração e agora talhava-lhe o rosto. Não era preciso ler mais. Queimou o livro na lareira e pediu assistência ao marquês de Niza para irem de porta em porta à procura de outros volumes das cartas e queimá-los. O marquês ficou comovido pela dor do seu amigo, mas fez-lhe notar que era impossível percorrer todas as casas do país.

           - Vamos começar imediatamente - disse Francisco. - E depois faremos a mesma coisa em França.

            Como o marquês se recusasse a acompanhá-lo, Francisco foi sozinho, batendo às portas com os punhos. Algumas pessoas tinha dó dele e ofereciam-lhe de beber, o que ele recusava. As mulheres fingiam não compreender o seu pedido pois não estavam dispostas a devolver aquelas cartas de amor. Após ter percorrido uma centena de casas, Francisco desmaiou de exaustão. Rui veio buscá-lo de carruagem e consolou-o, jurando que o nome dos Alcoforado não era citado em nenhum desses livros. As cartas vogariam a deriva no éter da História!

- Acalme-se, senhor - disse Rui apressando os cavalos.

            A situação já era suficientemente má. Oxalá ninguém reparasse que Francisco murmurava palavras incoerentes em delírio.

            - Papá! - exclamou Ana Maria, que saíra da cama para vir esperar por ele. - Agora tem de ficar sossegado.

            Francisco voltou para o seu gabinete. O filho, Francisco, mandou os criados trazerem café e fez-lhe companhia em silêncio. Há muito que Francisco da Costa não experimentava semelhante comunhão com ninguém, dever filial, sem haver necessidade de palavras.

            Uma tarde, quando estava a fazer uma sesta, a neta, Inês, cobriu-o com uma manta. Ele deu um pulo e desatou aos gritos:

- Mariana! Mariana!

- Não, avozinho - respondeu Inês, sobressaltada. - Sou eu, a Inês. A bela Inês?

            A menina sorriu.

            - Se assim o diz, avô.

            Não quis assustar a criança contando-lhe como contara à Mariana

quando ela era bem mais pequenina que D. Pedro tinha amado tanto a bela Inês que a mandara desenterrar e a coroara rainha.

            Na sua cabeça, Francisco enterrou todas as recordações que tinha de Mariana. Dentro de si havia um trono vazio onde sentou a filha, dizendo para consigo mesmo que estava morta. Leonor não se importaria. Leonor implorava-lhe que amasse Mariana, mesmo que não pudesse perdoar-lhe. Oh, Mariana! Traidora! Mas ela era a jóia do seu coração. Olhou-a sentada no trono e imaginou-se ajoelhado a seus pés beijando-lhe a mão maculada. Recusava-se a vê-la novamente em carne e osso.

            Depois de tamanho desgosto, não ficou muito transtornado ao saber que Baltazar também o havia atraiçoado ao entregar às autoridades do convento os papéis relativos à venda das propriedades de Santa Clara, e não contestou o que se encontrava claramente expresso nos documentos. Devolveria as terras e os prédios que lhe tinham sido confiados contra o pagamento da quantia estipulada. O notário que lhe apresentou a petição em nome do convento ficou desapontado. Francisco da Costa tinha a reputação de ser ferozmente intransigente. Mas, em vez disso, deparou com um homem de mãos trémulas e teve pena dele.

            - Senhor - disse, - guardando os papéis assinados numa pasta. - Talvez lhe interesse saber que embora tenha sido o seu filho a fornecer-nos as provas, a verdade é que ele também nos enviou uma carta pedindo que a nossa reivindicação não fosse avante. Tem de compreender que não podíamos fazer tal coisa pois tínhamos nas mãos o documento de que necessitávamos. Mas o facto de o frade Baltazar se arrepender das suas acções no último minuto deveria servir-lhe de conforto.

            Francisco soltou um suspiro. O último minuto.

            - Não tenho nenhum filho chamado Baltazar - disse.

            Como o pai já não tinha forças para lutar, cabia a Miguel defender a honra da família. E quando um dia alguém fez um comentário sobre Mariana, Miguel espancou-o impiedosamente. Os habitantes desta patética cidade tinham de aprender a não se meter com ele. E, além do mais, ele considerava a irmã uma puta morta. Ninguém proferia as palavras " cartas de amor" mais de uma vez com Miguel por perto.

 

            O confessor José Trindade interrogava-se se devia perguntar à Irmã Mariana Alcoforado se ela sabia que as suas cartas de amor circulavam por toda a Europa. Tinha folheado uma edição francesa antes de falar com ela, mas não conseguira lê-la completamente. O facto de ela saber ou não que as suas palavras eram repetidas em países estrangeiros nada tinha a ver com o facto de ser acusada de um crime grave. Várias freiras tinham escrito ao padre acusando-a de estar envolvida numa recente rebelião que durara três dias.

            O padre José Trindade perguntou-se se ela estaria ao corrente de que a sua história levara o rei D. Pedro II a tomar medidas drásticas contra os escândalos e desordens que reinavam nas instituições religiosas.

            O amor de Mariana tinha tomado proporções que afectavam os assuntos do Estado.

            Por debaixo do título <Investigação sobre os crimes da Irmã Mariana Alcoforado do Convento Real da Conceição em Beja", o padre José Trindade escreveu: " A questão da penitência".

            -           Arrependes-te do que fizeste, Irmã?

            O tom da sua voz era untuoso.

            -           Oh, não, padre.

-Como?

            -           Lamento que nada tivesse corrido como eu esperava. Não era minha intenção dar qualquer desgosto à minha família. Sabe onde está o meu pai? Está bem de saúde? Não pode convencê-lo a visitar-me?

            O confessor ficou sem saber o que dizer durante uns instantes.

            - Como é possível dizeres que não estás arrependida? - perguntou finalmente.

            - Mais depressa iria para o inferno do que arrepender-me de conhecer as alturas e as profundezas do universo. Por que não? Já vivo no inferno sem poder escapar.

            - O arrependimento alivia, Irmã - disse o padre. - Não quer tornar isto mais fácil para mim e para si?

- Fácil? - repetiu a Irmã Mariana abanando a cabeça. - Nunca, nunca!

            O padre José Trindade não assentou no seu livro que ficara muito impressionado ao ver as lágrimas que escorriam pelo véu da freira deixando um rasto que dava à dor a forma de garras. Queria antes escrever: " Esta rapariga é bela, espantosamente bela. Por que é que me mandaram torturá-la?".

            Quando mencionou a sentença prescrita de dez anos - reclusão numa cela sem comunicar com o mundo exterior - para as freiras que tinham ligações ilícitas, ela nem sequer esboçou qualquer gesto.

            -           Amo para sempre - foi tudo o que disse.

            -           Irmã Mariana. Vi a cela que te será destinada neste convento. As paredes estão cobertas de vermes. É húmida. Não pareces estar bem de saúde e eu não posso, em boa consciência, permitir que sejas encarcerada lá. Arrependes-te, pelo menos, das tuas acções para que eu possa absolver-te?

            -           Se tivesse encontrado o amor, o próprio Deus, arrepender-se-ia?

            -           Vejo que te castigas mais a ti mesma do que eu ou qualquer outra pessoa poderia castigar-te. Gostaria que não o fizesses. Deus é amor. Permites-me que te absolva?

            -           E ter de dizer que me arrependo do amor? Ter de o apagar, varrê-lo da minha memória?

            - Nunca diria a ninguém para se arrepender do amor.

Peço-te apenas que te arrependas de ter quebrado o teu voto de religiosa.

            - Quebrei um voto que me foi imposto. Nunca quebrei o voto que se encontra alojado no meu coração. Nunca, nunca!

            -           O rei D. Pedro está zangado por causa de todos estes escândalos.

            -           O rei? O homem que roubou a mulher ao irmão aleijado para se apoderar do trono?

            -           Devo pedir-te que não fales nesse tom - disse o padre, embora sorrisse pela primeira vez. - Darias uma boa professora, Irmã Mariana. As pessoas eruditas têm de saber discutir e ser fiéis às suas convicções mesmo que isso as prejudique.

            - Sou uma erudita.

            -           É verdade - assentiu o padre. - A Irmã Francisca Freire disse-mo. Está preocupada contigo.

            -           Lamento causar-lhe dissabores. E lamento que também pareça estar triste, padre.

            -           Lamentas isso tudo? Isso chega-me. Embora não queiras, absolver-te-ei já.

            Ergueu as mãos num gesto de bênção e recitou o "Te Absolvo"; e, para penitência de Mariana, disse: - A vida é preciosa. Não te tornes azeda. Vou recomendar que não sejas encarcerada. As outras terão de aprender a viver contigo e tu com elas. Já sofremos o suficiente neste país e não precisamos de andar a fazer queixas uns dos outros.

            - Teresa de Ávila resistiu a penitências e doenças durante trinta anos até entrar em êxtase. Eu senti o êxtase antes de ter passado por essas provas. Trinta anos de penitência não são nada para mim. Triplicarei a sentença que deveria ter-me aplicado para que aconteça um milagre e Deus me permita vislumbrar o reino dos Céus.

            - Deus não precisa de nada disso, Irmã Mariana. Não se faz negócios com Deus.

            - Ele não conseguirá resistir a mim, padre - prosseguiu a irmã Mariana. - Perdi o meu direito à tranquilidade. Que alívio!

            O         padre José Trindade fechou o seu livro. Mesmo que a Irmã Mariana não estivesse ao corrente do interesse que as suas cartas despertavam nas pessoas, a força dela dava-lhes vida.

            A sentença de trinta anos de penitência que Mariana se impôs a si mesma começou imediatamente. Uma dieta de água e vinagre em certos dias submergiu-a de fome. Sem as pulseiras do amante, sentia os braços impiedosamente leves. Andava de joelhos pelo quarto fora, mas isto avivava-lhe a memória e recordava-lhe dores benvindas, o prazer da carne que recusava desaparecer.

            Por vezes acordava com Peregrina adormecida sobre o seu braço e, sob o peso da irmã, o braço de Mariana ficava sem sangue, silvando como uma serpente incapaz de se mexer.

            Negava-se doces e aguardente e o desejo insatisfeito provocava-lhe inchaços no corpo.

            Assistia exemplarmente a todas as missas e, na sua " casinha", mantinha-se horas a fio de braços esticados até estes se contorcerem com espasmos pela tortura da espera. Quando Deus lhe enviasse um milagre, os seus braços estariam bem abertos para o receber. Deitava-se de barriga para baixo sobre espinhos de rosas e usava uma camisa interior de serapilheira que pertencia à sua inimiga, a Irmã Michaella dos Anjos.

            Mas continuava a amar. Quando Peregrina fazia chá com flores da laranjeira de Catarina e insistia para que Mariana o bebesse, Mariana adorava provar, sentir o cheiro e o calor da água, a recordação de Catarina.

            Falava alegremente através das grades com Ana Maria, que a visitava com o filho mais novo, Gomes Freire de Andrade Pantoja.

            - Coitadinho! É o mais pequenino, o meu último filho. Não é muito brilhante, mas será o meu mais-que-tudo - dizia Ana Maria da criança doente.

            Também ali havia amor. Mariana passava os dedos pela pele do bebé e agarrava-se à mão da irmã.

            O pai não vinha ver Mariana. Era essa a maior penitência.

            Além de exercer o cargo de porteira, Mariana forçou-se a aprender a aplicar dourados nas encadernações em cabedal dos livros. O árduo trabalho e as noites sem dormir não conseguiam, contudo, eliminar as dores do amor; pelo contrário, aumentavam-nas.

            Quando a Irmã Joana Veloso de Bulhão, a Irmã Cecilia Sebastiana ou a Irmã António Sofia Baptista d'Almeida vinham queixar-se a ela, Mariana não lhes fazia ver que elas não tinham razão. E, perante uma observação da Irmã Brites de Freire em que claramente transparecia o seu espírito invejoso, Mariana manteve-se calada imaginando-se a mastigar e a engolir fogo, as entranhas a arder pela solidão de todos os homens e mulheres.

            Murmurava sempre:

- Oh, meu amor, a tua ausência é o castigo mais cruel de todos. As minhas penas não são uma maneira para me livrar de ti. Para possuir o maior amor, tenho de aceitar tudo, incluindo o oposto, a grande tristeza.

            Entendia que aquelas palavras não se dirigiam a Noel, mas ao mistério do amor sem forma, ao puro amor, ao amor que dá uma razão para viver mesmo quando drena toda a razão.

 

            Cristóvão Pantoja Lobo dormia uma sesta no jardim. Há três anos que havia paz e isso fatigava-o. Estava empanturrado de vinho e de cabrito assado. A mulher, Dona Mécia de Sousa, estava na dispensa a varrer moscas mortas. Estava cansada de pedir ao marido que fossem viver para Miranda, perto da sua família. Perdera este combate como perdera todos os combates com o marido. O seu filho mais velho, José de MeIo, queria tomar conta das propriedades e cobiçava os terrenos jacentes da tia, Leonor Henriques. Planeava uma maneira de tirar partido da indolência do pai.

            Um criado aproximou-se em bicos dos pés por detrás da cadeira onde Cristóvão dormitava, embora pudesse saltar sobre ele montado num leão a rugir: mesmo assim o homem não teria acordado. O criado ganhou coragem lembrando-se das muitas vezes em que Cristóvão lhe batera e o insultara. Ergueu um punhal e cravou-o no peito do patrão, mandando assim desta para melhor o homem que outrora se vangloriara de que ainda não nascera nenhum rei ou general que pudesse domá-lo.

            Nem reis nem generais; tal acção estava destinada a ser cumprida por um criado.

            O criado ficou livre da prisão porque corria o boato de que Cristóvão o contratara para assassinar a mulher e dessa forma poria termo à sua insistência em mudar para a sua propriedade. O filho mais velho tinha descoberto o plano e convencera o criado a matar o tirânico patrão pois isso era mais honroso do que matar uma mulher.

 

            No decorrer de uma das suas penitências, Mariana sentiu tanta fome que pensou que a morte havia chegado para a salvar, mas depois o instinto de sobrevivência foi mais forte e tentou vencer a fome trepando a parede e saindo pela janela. O quarto parecia o seu estômago vazio, com a boca escancarando-se lá em cima; se chegasse até lá, escaparia das suas entranhas vazias. Nunca conseguiu perceber como subira uma parede tão alta usando apenas as mãos e o seu desejo de escapar. Agarrara-se à janela e gritara, assustando umas postulantes que se encontravam no pátio. As palmas das mãos tinham ficado em carne viva.

            A Madre Superiora mandou colocar grades nas janelas de Mariana e as freiras não sabiam bem se eram para a proteger ou puni-la. Quando estava deitada na cama, as sombras

envolviam-lhe o corpo como rendas.

            Para lhe curar as mãos, a Irmã Leonor Henriques levou-a ao coro onde a Irmã Beatriz Maria de Resende tocava órgão. Quando esta começou a cantar, Leonor Henriques colocou as mãos de Mariana na garganta dela e a sua voz maviosa apaziguou os ferimentos.

            Mariana disse: Não, parem. A Irmã Leonor Henriques acabou de perder um irmão. Merece sentir a música da mais bela voz do mundo. Não há nada pior do que perder um irmão.

 

            Tendo confiscado um volume das Lettres Portugaises a uma postulante, a Madre Superiora percorreu o livro e depois escondeu-o na sua secretária. Escreveu uma carta à irmã pedindo-lhe que se informasse da distribuição daquela obra no estrangeiro.

            A irmã mandou dizer-lhe que existiam vinte edições das cartas na Europa, traduzidas em três ou quatro línguas, mas que Francisco da Costa Alcoforado e os seus amigos tinham prevenido que arruinariam o editor que as publicasse em Portugal.

            A Madre Superiora foi ajoelhar-se na capela; mas apesar de ter rezado três horas a fio, Deus não lhe enviou nenhum conselho. A Irmã Mariana tinha o direito de saber o que estava a acontecer. Mas, por outro lado, o que é que isso faria? Talvez a envergonhasse ainda mais, a ela e a todas as outras. Era necessário controlar as modificações que o mundo exterior trazia aos sonhos de uma pessoa.

            Como era igualmente aristocrata, a Madre Superiora tomou a decisão de a proteger do escândalo. Ninguém seria admitido no convento sem que as suas bagagens fossem revistadas e excomungariam logo quem fosse apanhada a fazer mexericos. As freiras que espalhassem boatos sobre o livro seriam punidas discretamente e toda aquela excitação acabaria por acalmar.      Informaria a sua sucessora da política a seguir; para já iria destruir o livro que tinha em seu poder. A capa foi consumida a custo pelas chamas. Por fim explodiu, deixando marcas indeléveis nos tijolos da lareira.

            Poucas notícias do mundo exterior se infiltravam no convento. Certo ano, as freiras vieram a saber que o rei de França, Luís XIV, tinha proibido uma cor.

            Duzentos e cinquenta mil protestantes, os huguenotes, estavam a ser expulsos de França. O rei chegava ao fim da vida e julgava que os seus pecados seriam perdoados se perseguisse aqueles que, segundo a sua opinião, não eram eleitos por Deus. E assim declarou guerra a Guilherme de Orange, que tomara o partido da causa protestante.

            Orange nome de fruto e de cor - foi banido de França, e a partir desse momento tudo o que era laranja passou a ser proibido naquele país.

            Mariana lamentou que negassem a Noel uma cor. Imaginava as amantes dele a esconder tristemente os seus topázios e as saias cor de laranja. As laranjeiras seriam igualmente envoltas em panos de luto? Nunca mais se jantaria e falaria pela noite fora com os cotovelos pousados numa toalha cor de laranja? E os botões de laranjeira que enfeitavam os leques? E também destruiriam as bengalas de madeira de laranjeira e os livros encadernados naquela cor? Nunca mais veriam fitas cor de laranja? Que quadros teriam de ser arrumados em sótãos por temor à ira real? As casas em França não seriam aquecidas pelas chamas laranja das lareiras e as crianças deixariam de ser cobertas por mantas da mesma cor. Uma paisagem sem cor!

            Noel percorreria o seu país perguntando a si mesmo: " O que é que falta aqui? A cor que me foi recusada faz-me falta. Sinto tanto a sua falta que nenhuma outra cor existe".

            Contemplando o céu ao entardecer, Mariana pensou: " O rei há-de sorrir quando sair do palácio para dar um passeio e não vir flores de laranjeira, ou quando pedir chá e lho trouxerem sem laranja numa bandeja".

            " E ao anoitecer verá os tons alaranjados do céu e o sol poente, um dossel que ele não poderá destruir. E essa cor laranja banhará a pele dos franceses, abençoará as suas roupas e redobrará a sua vontade de possuírem o que lhes foi negado; entrará pelas janelas e o rei dar-se-á conta (embora não o queira admitir) que a mesma cor voltará no crepúsculo seguinte enquanto a eternidade existir. Por onde quer que ande, Noel vagueará através da cor laranja proibida".

            Mariana curvou o pescoço para trás a fim de receber a carícia do céu alaranjado. O mesmo céu aqui como em França, recusando-se a obedecer ao rei. Negue-se algo, mesmo uma cor, e esta inunda tudo, anunciando: " Estou em toda a parte, sou o calor do sol moribundo e proibido! Usa-me na tua pele! Quanto mais te dizem que não me podes ter, mais falta sentes de mim!".

 

            " Amo-te. Ainda te amo. Hei-de amar-te sempre. Amo todas as alegrias e pesares que o teu amor me dá".

            Durante a primeira década da sua penitência, Mariana não se esqueceu de cumprir a promessa de oferecer todos os anos uma oração no dia de aniversário da partida de Noel, mas nem sempre mencionou o nome dele.

            Certo ano acrescentou: " Há cinco anos que não vejo Baltazar, mas por vezes parece que escuto uma criança pedir-me para que a proteja da noite. Sei que é o meu irmão.

Escrevo-lhe, mas ele não me responde".

            Outro ano acrescentou: " A minha irmã Ana Maria e o meu irmão mais novo, Francisco, visitam-me com frequência. Francisco já é crescido e matriculou-se na Universidade de Coimbra para ser juiz".

            E outro ano ainda: " Recomecei a fazer a contabilidade e ajudo a Irmã Francisca Freire nas horas de lazer".

            E mais outro: " Há pouco tempo, estava eu de guarda ao portão, vi o meu pai passar a caminho do mercado. Pareceu-me envelhecido e fraco. Desobedeci aos regulamentos do convento e gritei Papá!, mas ele fingiu não me ouvir. Voltei a gritar e preparava-me para correr atrás dele, mas ele voltou-se então e sorriu-me tão tristemente que eu me lembrei que ainda tenho um coração vulnerável. Mandou-me um beijo que eu fingi apanhar com a mão. Também lhe mandei um mas sem que ninguém visse. E ele prosseguiu então o seu caminho".

            E outro: " Brites e eu temos longas conversas, mas faz-me pena que sejamos ambas tão prudentes quanto ao que dizemos, como se uma de nós pudesse descobrir de repente por que razão desconfiamos uma da outra".

            E outro mais: " Tenho trinta e seis anos. Como é que cheguei a esta idade? A minha irmã Peregrina tem quase dezasseis anos. às vezes penso que partilho tudo isto contigo, Noel. Mas outras penso que o volume do livro da minha vida continua a escrever-se por si só, quer queiras ou não

sentar-te ao meu lado junto à lareira e lê-lo. Quer queiras ou não que a maior parte dele continue a ser colorido pela minha paixão".

 

            A Irmã Peregrina Alcoforado imaginou que estava no meio de uma densa folhagem, embora o convento não tivesse espaço para vegetação luxuriante.

A festa para dar as boas-vindas à comunidade franciscana das Pobres Claras era modesta por causa da falta de fundos, mas a Irmã Angélica de Noronha dera-se ao trabalho de preparar comida que chegasse para todos. No decorrer da cerimónia, o bispo declarou que nesse dia Deus se encontrava no céu e a Irmã Peregrina sentiu que a sua primeira alegria estava a ser estragada pela dissensão: Não, não! - O bispo tinha-se enganado. Deus estava ali mesmo, no meio de toda a gente.

            A Irmã Angélica repreendeu, embora sem muita severidade, duas postulantes que atiravam colheres de arroz-doce uma à outra. Peregrina ficou contente. Até mesmo o pecado de desperdiçar comida parecia exuberante. Ajeitou o cordão à volta da cintura. Tinha-se visto livre do cinto de corda das noviças.

            No pátio, flores de papel suspensas das árvores balouçavam como sinos silenciosos. Apesar de não ser o que desejariam, ela e Irmã Ignez de São José tinham enfeitado o pequeno jardim o melhor que podiam. O espaço reservado aos legumes estaria mais bonito se as freiras tivessem cuidado onde punham os pés. A laranjeira de Catarina florescia a um canto, os ramos como os braços de uma rapariga, o tronco sólido e os frutos maduros como se desafiassem a proibição em França.

            As freiras vieram, uma a uma, felicitar Peregrina e esta, segurando um envelope, aguardava ansiosamente por Mariana, que se mantinha sentada longe de toda a gente. Peregrina estava preocupada: a irmã cumpria o seu oitavo ano de penitência e precisava de descansar.

            Trémula, Mariana tinha dificuldade em olhar para Peregrina, não porque ela parecesse uma versão da mãe aos dezasseis anos, mas porque se parecia com ela própria quando, vinte anos atrás, entrara para o convento. Aceitar Peregrina como freira era o mesmo que aceitar a verdade sobre si própria. Era estranho ter estado à espera durante todo esse tempo por alguém que lhe dissesse que podia cumprir agora a sua vida: ainda havia tempo. Lembrava-se de pensar no dia em que tomara os votos, de que iria representar o que as freiras e os pais tinham decidido ser necessário por ter cuidado dela durante a guerra. Na altura em que os seus melhores sonhos florescessem, partiria a fim de encontrar uma recompensa para a sua paciência.

            Na festa - igual a esta - em que fora aceite como noiva de Cristo, Mariana comera papos-de-anjo. A sua túnica era de um branco encardido. Devido às restrições impostas pela guerra, a Madre Superiora de então, Maria de Mendonça, aproveitara uma cortina do seu gabinete para a fazer. Cheirava ao hálito das suplicantes do último século e à caveira que se encontrava perto dos reposteiros. Para entreter a amiga Brites, Mariana fingira estar morta e percorrera a nave da capela toda hirta.

            Compareceu diante do bispo, que a cobriu com um pano branco que simbolizava a sua morte para o mundo; quando se ajoelhou, ele perguntou-lhe se seria obediente, pobre e casta.

            Mariana respondeu: Sim, sim, sim.

            Compreendia que iria sacrificar o direito de possuir propriedades, de receber quaisquer dons ou heranças ou prendas pessoais que não fossem partilhadas pela comunidade?

            - Sim.

            Compreendia que o pecado tanto podia ser exterior como interior tal como uma crítica não expressa de um superior?

            Sim. A sua resposta não tinha corpo; por que não? Quem dizia aquilo não era ela.

            Mariana compreendia que tinha de defender-se contra pensamentos inti mos ou representações sedutoras da sua imaginação e contra todas as amizades e afectos ternos?

            Dissera que sim. Estavam em tempo de guerra, não tinha nada a ver com a vida do coração que escolhera. Como é que qualquer afecto podia ser demasiado terno?

            Compreendia ela que os Seus olhos deviam evitar leituras perniciosas, os seus ouvidos deviam resistir à lisonja e a sua boca não devia pronunciar palavras ambíguas nem canções profanas?

            Sim. Mas como é que a leitura ou o canto podiam ser petigosos?

            O bispo enfiou-lhe uma aliança de ouro no dedo da mão direita e as freiras cantaram a " Regina Coelis". Deu por si a ser esmagada contra o peito dos convivas, o rosto arranhado pelas jóias das refugiadas ricas.

            Mais tarde trocou a túnica de noviça por um hábito negro de lã grosseira. A testa, a garganta e o pescoço foram cobertos por um tecido branco e um véu caía-lhe até aos ombros.

                        Hoje, ao ver novamente tudo isto representado por Peregrina, era como se a irmã proclamasse: " Isto eras tu, Mariana. Isto és tu! A tua vida está aqui, assim como eu. Aceitas isso ou vais continuar a enganar-te?".

            Aproximou-se da Irmã Peregrina e beijou-a. Peregrina entregou-lhe um envelope e disse-lhe para ler o papel que estava dentro.

                        Tratava-se do enxoval de Peregrina redigido pelo pai. A quantia era a mesma que ele concedera a Mariana, excepto que, quando Peregrina morresse, o quinhão de terra e trigo que lhe cabia não seria entregue ao convento,

mas a pessoa ou instituição que Peregrina escolhesse - " ...pois fora colocada neste convento quando ainda era quase bebé. Por conseguinte, eu, Francisco da Costa Alcoforado, em consideração disso e das recomendações feitas pelo seu excelente progresso nos estudos, exijo que ela tenha contactos moderados com o exterior".

            Por baixo destas palavras Peregrina tinha escrito: "Através deste documento declaro que, depois da minha morte, todas as minhas propriedades e bens acrescidos sejam entregues à minha irmã Mariana, que fará com eles o que a consciência lhe ditar, em agradecimento por ter cuidado de mim neste convento desde os três anos".

            Mariana ficou a olhar, atónita, para o papel à espera que fizesse algum sentido. Mas a perplexidade persistiu.

            -           Não! - exclamou. Não está certo!

-           Está perfeitamente certo e é isso o que eu quero. Não podes recusar

- disse Peregrina agarrando nas mãos de Mariana.

            -           Não fiz nada por ti. Faz um testamento em favor da Irmã Ignez.

            -           Quero que sejas tu. Disse à Irmã Ignez o que queria fazer e ela concordou.

            Mariana sabia que tinha de dizer qualquer coisa ou pereceria ali mesmo.

            -           Estás a planear morrer antes de mim, Peregrina? Podias ser minha filha e ainda pensas que vais morrer primeiro do que eu? - disse de sobrolho carregado.

            Peregrina sorriu.

            -           Farei o que disseres. Mas pode ser que eu não obedeça às tuas ordens.

            -           Hei-de ser a Superiora deste convento e proibo-te que morras antes de mim.

            -           Tens mais outras ordens a dar-me?

            -           Sim. Tens de encontrar a solução da adivinha que a nossa avó me perguntou um dia. Ela morreu antes de poder dizer-me. Lembras-te da avozinha?

            - Lembro-me que ela nunca saía da cama. Nunca a ouvi falar. Que adivinha é?

            - O que é que nós beijamos mas nunca adoramos?

            -           Vou pensar numa solução. E se um dia concorreres a Superiora, hei-de votar por ti. Outra coisa, Mariana... Se a avó nunca te disse qual era a resposta da adivinha, como é que vamos saber se eu estou certa ou errada?

            -           Acho que vamos saber. Diremos as duas ao mesmo tempo: " É isso mesmo.".

            Peregrina riu-se.

-           Ainda não me disseste como é que eu estou.

            Mariana deu um passo atrás e examinou-a.

            - Pareces uma freira. Estás linda.

 

            Francisco da Costa Alcoforado tinha ensinado os netos e as netas a jogar xadrez. Para si, jogar xadrez com as crianças era decidir quando empregar a força da sua perícia e sair vitorioso para lhes dar uma lição ou deixá-los ganhar ocasionalmente de modo a aprenderem a disfrutar o sabor da vitória. Alternava estes dois métodos, embora fosse ele quem controlasse o jogo em ambos os casos.

            E assim, foi com grande espanto que uma vez, no decorrer de um jogo, ouviu Caetana dizer-lhe:

- Desculpa, avozinho, mas é xeque-mate. - A rainha e o bispo tinham-no encurralado a um canto. Deitou o seu rei no tabuleiro em sinal de derrota e ficou satisfeito por dar-se conta de que, apesar de velho, ainda havia novas emoções para experimentar. Era a primeira vez que perdia sem querer e estava comovido por ver que Caetana receava tê-lo magoado.

            - Bem jogado!          - felicitou-a.

            Ela pegou no rei de marfim e pô-lo em pé.

            -           Não, minha querida - disse Francisco tornando a deitá-lo no tabuleiro. - Ele está acabado. Não lhe dês falsas esperanças.

-           Posso agora escovar o teu cabelo, avozinho?

            - Podes sim, meu amor.

            Caetana usou a escova de cabo de prata que pertencera à avó Leonor, que falecera quando Caetana tinha três anos. O cabelo do avô era comprido, espesso e branco, como a juba de um leão fantasma.

            Costumavam brincar para ver quanto tempo ela levava a adormecê-lo com a escova a lavrar-lhe a cabeça para cima e para baixo revelando o crânio nu e rosado aqui e ali.

            Francisco lutou contra o sono a fim de prolongar o prazer de sentir a mão da neta a passar-lhe pelo cabelo, a sensação dos pêlos duros da escova. O melhor momento era saber que em breve tudo isso seria para ele um maravilhoso esquecimento. As mãos apertaram as lapelas do roupão, o mesmo que Leonor usara após cada um dos filhos nascer. Ainda cheirava a ela e a todos os seus filhos. Ela adormecia na mesma poltrona com uma das crianças ao colo e ele olhava-a e tinha a sensação de que o mundo se criara a si mesmo e era abundante; deixava-a techando a porta devagarinho para não perturbar nada. Não concordava com aqueles que diziam que ele era um pai severo. Os tempos eram perigosos. A sua tarefa era ensiná-los. Lembrava-se de que uma vez fora passear com Ana Maria e Mariana e

mostrara-lhes uma moita de amoras dizendo-lhes que aquela fruta era miraculosamente doce. Esperou para ver o que elas fariam. Ana Maria tentou arrancar umas amoras mas os espinhos picaram-na. Mariana apanhou um ramo de árvore caído e, seguida da irmã mais velha, abriu caminho até a uma clareira no meio da moita onde as amoras eram mais abundantes. Mas a densa folhagem voltou a fechar-se sobre elas e ele ouviu a voz de Mariana gritar: " Papá, vem salvar-nos!

            Endireitou-se, sobressaltado, na poltrona. Caetana já não lhe escovava o cabelo. Estava sozinho; devia ter adormecido.

            Mariana havia chamado por si. Levantou-se e teve uma tontura. Lembrou-se de que ela tinha desonrado a família e escrevera uma espécie de diário verg'onhoso que fora parar às mãos de certas pessoas, agentes secretos, e agora ele tinha de recolher esses escritos para que ninguém se risse dela. A sua missão, como pai, era ir de casa em casa daqui até ao mar. Não por causa da desgraça que Mariana provocara, mas porque ela estava a chamar por ele. Quanto tempo tinha dormido? O som da voz de Mariana era ensurdecedor. Lembrava-se vagamente da promessa de a tratar como se estivesse morta, mas ao mesmo tempo confundia isso com o facto de a filha estar metida no meio de uma moita de espinhos por que ele, diga se em boa verdade, a mandou para lá.

            -Já vou, Mariana! Espera só mais um bocadinho! - gritou. - Espera por mim! Tem cuidado!

            Ocorreu-lhe que devia vestir-se de maneira a que as pessoas percebessem que tinham de afastar-se do seu caminho. Pegou na espada para o caso de ter de cortar os espinhos. Preparava-se para sair quando viu Caetana.

            - Ensinei-te a contar anjos para adormeceres? - perguntou-lhe.

            - Ensinou sim, avô. Costumo contar anjos e estrelas e adormeço profundamente. Por que é que está vestido dessa maneira?

            - Chamaram-me. Vou sair.

            - Por que é que não volta para o seu quarto, avô? Vou pedir a Bastiana que lhe traga o lanche. Não quer tomar chá comigo?

            - Ah! Para que possas vangloriar-te da tua vitória ao xadrez?

            - Ensinou-me que só as pessoas indelicadas se vangloriam.

            Francisco inclinou-se e deu-lhe um beijo no alto da cabeça.

            - Pois ensinei. - Disse - e fiz uma data de coisas. Achas que hás-de lembrar-te de mim?

            - Por que é que está a falar assim, avozinho? - perguntou-lhe Caetana agarrando levemente no rico tecido das suas mangas.

            - Porque este mundo é muito estranho, minha filha, e eu estou cansado de tentar torná-lo diferente. Desculpa... agora tenho de ir-me embora.

            Francisco da Costa Alcoforado chegou à extremidade da sua propriedade onde esta se confundia numa linha invisível com a vastidão errante da planície. Mariana encontrava-se na cidade que se estendia diante de si. Era urgente que fosse lá, mas sentia-se fatigado. Tinha de descansar. Ela esperaria; e quando a visse, explicar-lhe-ia que demorara porque tinha estado a fazer um ramo com as cartas dela. Esquecera-se do que isto tinha a ver com a filha. Mas o sentido do dever, incompreensivelmente misturado com um sentimento de amor, alvoroçava-o e ele tentava dar-se conta do que tinha de fazer. Entretanto, era bom estender-se no chão e esperar que a tarefa a cumprir lhe viesse à cabeça.

            Também tinha passado muitas horas de pluma na mão à espera que Deus lhe enviasse uma mensagem, mas nada chegara. O céu por cima de si era uma folha de papel em branco e escaldante e pensou: " Tens estado à minha espera para que seja eu a dizer-Te, meu Deus? Garatujar as minhas recordações no céu? A minha missão é espantar-Te?".

            Ouviu Mariana berrar:

- Papá!

            - Sim, minha querida! Vou já! - respondeu.

            Como era estranho que a terra se estivesse a afundar sob si! Descera das montanhas da sua juventude para cavalgar nas planícies e dizer-lhes que não fossem complacentes - tinham de dar a vida pela independência. Morrer em liberdade! Livres para sempre! Os filhos livres, quer compreendessem ou não. Teve a visão de que, a certo ponto, os homens que construíssem as suas vidas poderiam agarrar-se aos alicerces do que tinham conseguido realizar, fazendo assim parte da estrutura da História. Tinha pensado que o destino de um homem teria ímpeto e seria sólido; uma coisa feita de cavalos, moinhos, moedas, selas, colheitas. E não esta sensação de flutuar acima do solo.

            Estendeu o braço e murmurou:

- Leonor, minha querida. Fiz-te esperar

            Luís encontrou-o assim, de braço esticado para o céu. De acordo com o seu testamento, o patrão vestira-se como desejava ser enterrado. Uniforme de gala, capa vermelha e botas altas, de modo a que ninguém testemunhasse a sua nudez. Tivera a elegância e decência de sair do quarto para que as crianças não o vissem e se assustassem. A placa em que se anunciava que deviam ser rezadas quatrocentas missas pela sua alma no sepulcro do Mosteiro de São Francisco tinha sido forjada há muito tempo. Luís sentia que este homem severo mas generoso se deitara no solo de modo a que metade do corpo ficasse dentro das suas terras e a outra metade na terra da nação que tanto amara.

            Ao princípio, Luís ajoelhara-se para fechar os olhos do patrão, mas não se deu conta de que ambos os braços de Francisco da Costa, rigidamente apontados para o céu, estavam hirtos. Não podiam ser baixados. A explicação que lhe veio à cabeça foi que o fundador da incomparável casa e destino dos Alcoforado não era homem para partir docilmente deste mundo. Certamente ordenara a Deus que se despachasse e o levasse dali quanto antes.

 

            Por toda a província do Alentejo, toda a gente se interrogava por que razão a pior crise económica de sempre reinava nesta época de liberdade. Também havia muitas conversas sobre Baltazar Vaz Alcoforado que, com pouco mais de trinta anos e, regra geral, de boa saúde, contraíra paludismo como um soldado nos trópicos e morrera no dia de Natal no mesmo ano em que o pai.

            As últimas palavras de Baltazar tinham sido:

- Sou o maior pecador do mundo!

            Grande parte da população acreditava que Baltazar escolhera o dia do nascimento de Cristo para encenar a morte e provar assim que possuia uma natureza contraditória. A sua declaração às portas da morte era uma jactancia porventura motivada pelo delírio. Orgulhava-se de ter desempenhado certo papel num amor marginal.

            Outros cidadãos discordavam. Baltazar era uma alma torturada. Vivia retirado numa cela e a sua declaração final era interpretada como puro remorso.

            Ninguém sabia ao certo. A inflexão da sua voz, segundo os monges que estavam com ele, não revelara nada.

 

            No Convento da Conceição o dia de Natal de 1676 passou-se normalmente. As Irmãs Angélica de Noronha e Brites de Freire prepararam caldei rões de guisado de carneiro com favas e doces de caramelo queimado, figos com mel, compota de pera e limão com açúcar. Os monges do hospício de Santo António, localizado perto do convento enviaram codornizes que tinham caçado. A população de Beja mostrou se generosa embora pouca gente pudesse dar-se a esse luxo, e ofereceram velas, açafrão, caixas de sândalo, molhos de rosmaninho atados com fitas e uma cadeira chinesa lacada.

            As freiras usaram as suas modestas mesadas para comprar lenços ou medalhas miraculosas umas às outras. As mais pobres ofereceram ramos espirituais, promessas para rezar por quem recebia tais prendas.

            A Irmã Mariana havia amealhado a percentagem que lhe cabia do terreno de trigo doado ao convento como parte do seu enxoval e encomendara um carregamento de fruta apanhada numa noite de Verão. Tinha planeado tudo de antemão e encarregara Manuel de apanhar figos e pêssegos a fim de fazer compotas para oferecer no Natal. Agradava-lhe a ideia de as pessoas provarem algo deliberadamente escolhido à luz das estrelas.

            Ao tomar conhecimento da morte de Baltazar e das suas últimas palavras, a actual Madre Superiora, Constança Evangelista, pediu às Irmãs Leonor Henriques e Francisca Freire que fossem com ela dar a trágica notícia a Mariana, a qual parecia ainda não estar recuperada da morte do pai, muito embora fosse difícil aferir o que se passava com ela.

            Mas, para sua surpresa, Mariana meramente observou que fazia algum sentido que o irmão tivesse morrido no meio de crises de intenso calor e de intenso frio, dois extremos.

            - Temos muita, muita pena, minha querida - lamentou a Irmã Leonor Henriques.

            -           O seu nome figurará no altar durante a missa da manhã - disse a Superiora.

            - É muito bondoso da sua parte - murmurou Mariana, muito calma.

            Mariana permaneceu serena, cumprindo as suas funções de porteira como habitualmente. Cumprimentava as outras freiras quando isso era apropriado e mantinha-se emudecida quando chegava a hora do silêncio. Passava cada vez mais tempo a trabalhar no scriptorium com a Irmã Francisca Freire. As freiras mostravam-se muito simpáticas com ela. A certa altura, Mariana reparou que se movia como alguém de vestes pesadas a andar na água. Por vezes ficava extraordinariamente consciente de cada movimento. Quando saía da cama, por exemplo. Cada gesto era separado dos outros. Erguer a cabeça. Afastar o cobertor. Assentar os pés no chão. Pôr-se de pé. Era divertido. Como era complicado levantar-se da cama!

            Uma vez, a Irmã Michaella dos Anjos fez-lhe uma pergunta abrupta a propósito de Baltazar:

- Achas que o teu irmão, ao dizer o que disse à hora da morte, queria mostrar-se arrogante ou pesaroso?

            - Saberia responder-te se tivesse estado ao lado dele nessa altura - respondeu Mariana impassivelmente.

            - Andas a portar-te de uma maneira estranha, Irmã. Até parece que não te importas.

            - Preferias ver-me chorar?

            - Não é isso...

            - Julgo que preferias. Desculpa, mas agora tenho de ir embora.

            E afastara-se. Sabia que um grito de dor e um grito de triunfo se assemelhavam, e por conseguinte não contara a verdade à Irmã Michaella dos Anjos. Estava à espera que Baltazar lhe explicasse o sentido das suas palavras ao morrer, mas ninguém tinha nada a ver com isso. Nunca se sentira tão sossegada e lenta. Colocar o véu. Calçar o sapato do pé esquerdo. Calçar o outro pé. Era como se tivesse dado um passo atrás e estivesse a cair num túnel escuro que atravessava a Terra mas não se despenhava no vazio; flutuava por ali abaixo; e embora houvesse pouco ar e nenhuma luz, percebia que ainda estava viva pois continuava a cair. Ás vezes era como se estivesse no alto de um abismo a observar-se. Era tão engraçado que tinha ataques de riso; mas, no meio de tal queda, ninguém a podia ouvir.

            Moreau & Zwick, uma companhia franco-alemã de criação de aves instalada em Portugal depois da guerra, queixou-se de um recibo que ela lhes apresentara. Em vez de "saldo", Mariana escrevera " Baltazar".

            Mariana agradeceu à Irmã Ignez de São José por se ter ocupado tanto tempo com Peregrina. As suas últimas palavras de agradecimento arrastaram-se porque se deu conta de que estava a cair e já estava muito longe para ser ouvida.

            Cair como a neve - algo que nunca vira -, umas rendas aqui, outras rendas ali.

            A Irmã Francisca Freire perguntou-lhe certa vez:

- Que penitências andas a fazer? Estás muito pálida.

            Mariana explicou-lhe que as suas mortificações não eram muito duras.

            -           Não aprecio lá muito as mortificações - comentou a Irmã. - A minha heresia choca-te? Penso que não devíamos maltratar deliberadamente ninguém, incluindo nós próprias.

            -           Tens razão, Irmã - disse Mariana em voz ténue, pois tivera de percorrer uma longa distância para subir novamente o túnel.

            -           Desejas continuar a penitenciar-te durante trinta anos? Tenho uma penitência para ti que é muito mais exigente. Achas que serás capaz? - perguntou a Irmã Francisca Freire.

            -           Acho que sim - respondeu Mariana algo sonhadoramente. - Talvez.

            - É muito mais difícil amar do que sofrer. Amar com toda a simplicidade, sem termos de nos pôr à prova, é bom. Mas amar após enfrentarmos uma tragédia é heróico. Deverias penetrar no amor e voltar a senti-lo, Irmã Mariana.

            - É o que faço.

            - Não fazes nada. A dor instalou-se no teu espírito como um livro colocado numa prateleira muito alta. Pega nesse livro e abre-o porque o nome daqueles que amas está lá inscrito.

            -Não.

            A Irmã Francisca Freire, Aquela com o Coração de Pomba, não tinha medo de chorar.

            - Sim. Tens de o fazer. Regressa ao mundo e ama-o,

ama-nos.

            -Não.

            Mas Mariana não conseguia desobedecer-lhe. Nessa mesma noite, nasua " casinha", ao flutuar pelo túnel abaixo, esticou o braço e tirou o livro sobre Noel que se encontrava no interior do túnel sem fundo. Abriu a capa do livro. Dores agudas fizeram-na rodopiar à volta; apesar de as freiras dizerem que o tempo curava tudo, nunca deixara de amar Noel. Ele devia ter abandonado a sua casa, a sua família e o seu país, como ela ainda estava disposta a fazer. Nunca aceitaria que tal não tivesse acontecido. Apenas aceitava como verdade, verdade permanente, o facto de ele desejar prazeres imperfeitos.

            Nesse momento, como se ele tivesse partido ontem e ela ainda sentisse o seu rosto molhado contra si, ouviu-o murmurar " Amo-te!" e ela dizer " Sim".

            A recordação deixou-a trémula. O túnel onde estivera a flutuar era o abismo sem fim do seu coração.

 

                        Há uma década que não abraço e os meus braços vazios ainda sentem a tua falta sem se agarrar a nada e a mesma ideia volta-me à cabeça: nunca mais. Parece que estou destinada a ficar neste quarto, a conhecer todas as espécies e permutações do amor; a morte do amor é a própria morte.

                        Sou suficientemente forte para resistir a tudo. O amor dá-me as asas de que preciso para voar até à sepultura do meu pai e dizer-lhe que ele não viveu em vão.

            O amor dá-me as asas de que preciso para abrir o livro do meu irmão e ir ter com ele.

            Vejo-te deitado na tua cela, Baltazar. Enxugo-te o suor da fronte. Os monges, teus amigos e companheiros, encontram-se à tua volta. No meio do odor da doença, contam-me histórias divertidas sobre ti. Um deles conta-me que tu punhas girinos nos jarros de água para pregar uma partida ao Superior do mosteiro. Um outro diz-me que nunca te penteavas. E um terceiro disse que roubavas os cintos dos hábitos para fazer truques de magia. Outros dizem que gastavas dinheiro que não tinhas para lhes comprar presentes, que cuidavas do jardim e fazias tarefas simples; ao contrário dos nobres, que viviam a experiência asceta como quem experimenta novas roupas e se consideravam acima do trabalho. Partiste, Baltazar. Pegava em ti ao colo quando eras bebé e apertava-te nos meus braços quando Rui e Miguel te traziam para me visitares. Sendo mais velha do que tu, inventava cenas de morte contigo ao meu lado!

Inclino a cabeça, tento ouvir as tuas últimas palavras. Sorris-me. Digo-te com severidade: Não podes morrer. Já perdemos o papá. É um absurdo pormenor de família perder opai e um irmão no mesmo ano. Dizes-me: Ele foi para um nível superior e eu tenho de sair daqui para acabar com as nossas discussões. Abano-te e respondo: Nunca mais havemos de discutir! Acabaram-se as discussões, Baltazar. Agora estamos em paz. Não sei se estás a brincar ou não...

            Achas que morrer no dia do Natal suplanta a morte d'Ele? Isso é ridículo. Ordeno-te que não morras!

            E tu dizes: Não fiz sempre o que querias, Mariana? Mesmo dando mau resultado?

            Digo: Prometeste que cuidarias sempre de mim.

            A tua resposta é que cuidas de mim o suficiente para morrer das consequências do amor.

            Grito que não deves morrer de amor para me poupar a necessidade de o fazer, mas sei que estás a deixar-me e agarro-te para as últimas palavras ficarem tão perto de mim como eu estou de ti, Baltazar. E tu dizes: " Sou o maior pecador do mundo!".

            Irmão do meu coração, ouço com todo o corpo, bem alerta, com toda a alma, as minhas recordações da nossa breve infância juntos, escuto para lá dos meus sonhos desfeitos que podíamos ter vivido de maneira muito diferente: Não sei exactamente o que queres dizer. Não posso dizer francamente se estás a ser orgulhoso e provocador ou angustiado.

                        Não posso adivinhá-lo.

                        Não tenho outra escolha, portanto, senão chamar-te quente, frio, desamparado, triunfante. O que é que as frases finais interessam? Como tu eras tudo para mim, é natural que eu decida que tu possuias todas as potências de cor, subtileza e alcance.

                        Adeus, meu Baltazar.

                        E adeus também, meu pai.

 

            Amor malvado, imprevisível, inconstante! Que injustiça perder tantos, tanto! No momento em que a razão diz que não se deve confiar no amor e nos diz para vivermos sem sentimento -, surge o amor. Mariana sentiu-o invadi-la, vivo, fazendo-a contorcer-se num calor estrelado, com Noel e os defuntos amados abraçados a si. Gemeu em voz alta: " Ah, Noel, tu, nos meus braços! Aqui!". Todos os seus entes queridos eram sonhados na realidade. O desafio da alegria não era apenas permitir-lhes estar constantemente presentes, mas saber e sentir que eles também tinham partido para sempre. Os seus gemidos aumentaram no crescendo de um uivo e forçou-se a sair do túnel do coração; viu o amor tão sem forma como um esplendor sideral aguardando o que ela faria a seguir. No meio daquela cegueira e do seu uivo de assentimento e protesto, uma freira que parecia a mãe, - mas tinha idade para ser sua filha -, precipitou-se no seu quarto. Era a irmã, aquela cujos estudos eram tão estrelares e que brilhava no jardim do qual tratava tão bem quanto podia. A aluna-estrela. Peregrina teve força suficiente para erguer o corpo torturado da Mariana e dizer:

- Prometo que nunca te deixarei, Mariana.

 

 


Quarta Parte

 

 


Impacientes viravam a cabeça até a sua vista pousar no rosto angelical da Irmã Mariana. As Irmãs Peregrina, Brites de Freire, Francisca de Freire e Juliana de Matos, outras tantas sacerdotisas seráficas, andavam de cama em cama na enfermaria a colocar toalhas húmidas nas freiras doentes e limpando os fluidos escuros que lhes saíam da boca. Paravam de quando em quando para ajudar a Irmã Mariana a levantar-se e punham-lhe debaixo do braço a bengala que lhe servia de muleta. Os seus trinta anos de penitência haviam terminado já há alguns anos, mas haviam deixado mazelas. O facto de ter passado horas ajoelhada em capachos de palha na capela do Sagrado Jesus destroçara-lhe um dos joelhos. Rezava ao Senhor para continuar a sentir o amor que nunca a abandonara e que ela nunca quis que a deixasse. A sua dedicação à contabilidade do convento e a instrução de Peregrina tinham-lhe gasto a vista. Uma errática dieta de sal não pusera cobro aos seus desejos, mas tinha-lhe dado a sensação de ser cristalina, gloriosamente sedenta e resplandecente, o que tornava a sua velha idade radiante - um sinal que confirmava o parecer da Irmã Francisca Freire, segundo o qual Mariana encontraria a alegria, a inefável alegria, apesar de tudo o que lhe acontecera ou viria a acontecer-lhe. Agora que contava sessenta anos de idade, atribuía a sua serenidade ao tempo que passava a criar Peregrina. Ser mãe fora coisa que Mariana nunca imaginara que pudesse proporcionar tal relação. As freiras doentes queriam banhar-se no amor quase sobrenatural que transbordava dela e chamavam pela Irmã Mariana para que esta viesse assisti-las na sua última hora.

            A Madre Superiora, Dona Mariana dos Serafins, gemia que a pele lhe queimava o crânio. Tinha recebido o " Viaticum" recentemente, a eucaristia dada aos moribundos, e esforçava-se por ignorar a sua agonia para que os seus queixumes não a prejudicassem ao comparecer perante Deus. A Irmã Mariana dirigiu-se apressadamente, a coxear, à cama da Superiora.

            - Madre! Temos o mesmo nome e devemos ajudar-nos uma à outra. Pode passar-me parte do seu sofrimento? É horrível estar a arder - disse Mariana estendendo ambas as mãos para a abadessa as apertar.

            A Superiora queixou-se por não ter sabido proteger as freiras. Se tivesse encerrado o convento, tornando-o inviolável, a peste que infestava Beja e a maior parte do país nunca teria chegado aos claustros.

            - Quem somos nós para desejar não sermos afectadas pelo mundo? - disse a Irmã Mariana.

            - Vou morrer agarrada às mãos de uma pecadora? - gritou a Superiora.

            A Irmã Mariana sorriu.

            - Está a lisonjear-me, Madre. Jesus era amigo dos pecadores e gostava mais deles do que dos outros.

            Peregrina lançou um olhar à irmã. Perturbava-a ver Mariana tocar despreocupadamente em mãos febris e mudar a roupa de camas infectadas. As mãos de Mariana estavam vermelhas, contaminadas pelo fogo que consumia a abadessa moribunda.

            Apesar de ninguém ter vontade de comer, as Irmãs Joana Veloso de Bulhão e Ignez de São José trouxeram as refeições do refeitório para a enfermaria. Embora assustadas, as Irmãs Caetana e Inês, filhas de Ana Maria e Rui, ajudaram a alimentar as doentes. A Irmã Francisca Freire, tão velha como um pergaminho, talvez quisesse encerrar o capítulo final da sua longa vida com acções piedosas, mas elas eram duas mulheres que mal tinham quarenta anos. Quando a Irmã Caetana disse isso à tia, Mariana envergonhou-a respondendo que todos os pensamentos ou acções sem risco eram apenas uma pausa antes da chegada de outro perigo. Ao contrário de um refúgio, os claustros intensificavam as exigências emocionais da humanidade.

            Leonor Jacoba, a filha de Francisco, o irmão mais novo de Mariana, também se encontrava no convento. O facto de estar lá devia-se a uma prova de afecto do pai pois, sendo juiz, passava o tempo a viajar de um lado para o outro. Francisco visitava a filha e as irmãs sempre que podia. Em contraste, Miguel pusera as duas filhas no Convento da Esperança. Mariana ficou ofendida e estupefacta por Miguel preferir expô-las a práticas que ecoavam os transportes da Irmã Mariana da Purificação, que morrera em 1695 e tivera

visões em que dormia com o Redentor. Relatórios provenientes do Vaticano levavam a pensar que ela viria a ser considerada inocente.

            As Irmãs Leonor Jacoba e Maria de Castro partilhavam a tarefa de lavar as enormes quantidades de roupa.

            Depois da morte da Superiora, a Irmã Josefa Maria de Jesus começou a delirar. Dizia que era a rainha e que queria reunir as suas tropas. Recebeu o " Viaticum" de um dos monges que dormia no palácio do duque de Beja e era habitualmente chamado para dar a extrema-unção às freiras moribundas.

            Entretanto, o convento perdeu a Irmã Inês dos Serafins, graças a quem um oratório havia sido construído no pátio pois vira lá dois anjos a voar. Apesar da objecção de algumas das freiras, Mariana inscreveu-a no " Livro dos Milagres" do convento.

            Perderam ainda as Irmãs Genebra Nogueira, Cecilia Sebastiana e Brites de Brito.

            As Irmãs Peregrina e Joana Veloso de Bulhão

encarregaram-se de transportar a mobília e pertences das vítimas para o pátio central a fim de serem queimados. Se pelo menos a rabugenta da Irmã Inês de Melo, filha de Bartolomeu Lobo, e a preguiçosa da freira Antónia Sofia Baptista d'Almeida fizessem o que lhes competia! A exemplo de certas freiras, mantinham-se nas suas celas recusando sair até a epidemia ser debelada. Como a peste tinha começado no ano anterior ao do fim do século e estava agora no seu segundo ano, tinham engordado e tornaram-se taciturnas, como animais em hibernação. A Irmã Caetana deixava-lhes comida à porta das celas e interpretava a sua taciturnidade como um sinal de contemplação.

            A Irmã Peregrina ordenou à Irmã Joana que pegasse fogo à pilha de roupa, mobílias e objectos pessoais amontoada no pátio e proveniente dos quartos dos doentes. Benzeram-se enquanto as chamas consumiam aquilo tudo. Uma parte do jardim de Peregrina e Ignez ficou permanentemente queimado. Apesar de o fogo ser o meio adequado para se desembaraçarem dos itens sagrados como breviários, escapulários, crucifixos e gravuras de santos, era difícil ver os bens de uma vida serem reduzidos a cinzas. Um dos passatempos de Peregrina era fazer Hortae Conclusae, pequenos jardins interiores de papel, fitas e ramos, e gravuras de santos emolduradas em caixas fechadas. Estas Hortae Conclusae compensavam a pequenez do jardim do convento e permitiam a Peregrina decorar os quartos das amigas.

            Agora, muitos dos seus trabalhos manuais tinham sido destruidos e as freiras tiveram de calafetar as portas dos seus quartos com panos para se protegerem das cinzas. Peregrina, cansada, passou um braço por cima do ombro da Irmã Joana. A secretária da Superiora jazia agora meio-carbonizada no meio de arcas e cobertores.

            -           Parabéns - disse a Irmã Joana. - Havemos de festejar o dia dos teus anos assim que houver oportunidade.

            -          O meu aniversário foi no mês passado - disse Peregrina, que tinha feito quarenta e um anos. -

Festejá-lo-emos no próximo ano.

            -           E achas que sobreviveremos até lá?

            -           Prometi a Mariana que não morreria antes dela. E vejo com agrado que ela tem todo o aspecto de poder durar para sempre.

            -           Quando eu morrer, quero que sejas tu a escrever o meu obituário. É a única oportunidade que tenho de vir a alcançar a imortalidade - disse a Irmã Joana.

            Pedaços de papel chamuscado com frases parciais dos livros da Superiora vogavam no ar. Eram palavras suficientemente poderosas para terem resistido ao fogo! Peregrina considerou aquilo um improvisado tributo aos anos em que aprendera a escrever com Mariana. A irmã costumava pregar: " Usa os elementos da terra, ar, água e fogo. Escreve palavras vivas. Integra a tua escrita na página". Mariana passara muitas aulas a ensinar-lhe a importância de escrever cada número como se este contivesse a soma total da memória e da História.

            Ao ser eleita Superiora em 1681, o primeiro acto oficial de Francisca Freire foi demitir Mariana das suas vergonhosas funções de porteira e nomeá-la chefe do scriptorium. Mariana tomou Peregrina aos seus cuidados e depois das lições de História, Latim e Filosofia, ensinou-a a escrever as " Quarenta Horas" e a registar obituários e doações. Quando Mariana foi nomeada vice-Superiora em 1693, Peregrina, embora demasiado jovem para tal honra, ficou encarregada do scriptorium. Os seus obituários - todos os seus escritos revolucionaram os costumes. Em vez de registar simplesmente a data e lugar de nascimento, data de entrada no convento, doações e data da morte das freiras, Peregrina escrevia autênticas crónicas. Quando a Irmã Maria de São Francisco morreu contaminada pela peste, Peregrina escreveu sete páginas sobre a participação da defunta numa rebelião e a sua posterior conversão. Peregrina mostrava-se intransigente e recusava descrever a vida de uma freira como se fosse a de uma santa. Mariana reorganizou então as finanças do convento de modo a arranjar mais papel, penas e tinta a fim de satisfazer os desejos de Peregrina. O obituário da Irmã Leonor Henriques, morta em 1696, cobriu dez páginas, sendo duas delas reservadas ao facto de não ter decidido quem herdaria a sua propriedade de Viana d'Alvito, deixando Rui e Ana Maria em guerra com o ganancioso filho de Cristóvão. Peregrina e Mariana escreveram petições a vários magistrados em nome de Ana Maria e dos seus filhos, mas até então nenhuma decisão tinha sido tomada.

            A peste matou trinta freiras e, por conseguinte, Peregrina estava continuamente a trabalhar e a chorar. Uma tarde em que estava sozinha no pátio a vigiar mais um monte de objectos a arder, viu um livro cair para fora da fogueira. Ia devolvê-lo às chamas, mas de repente algo a impeliu a

apanhá-lo. Estava escrito em francês, língua que Mariana e a Irmã Ignez de São José lhe tinham ensinado. A maior parte do livro estava destruída, mas Peregrina não teve dificuldade em descobrir do que se tratava. Mariana tinha-lhe confessado há muito tempo que se apaixonara por um oficial francês durante a guerra. O seu amor tinha-se consumado no quarto mesmo ao lado do de Peregrina, que porém não se apercebera de nada. De qualquer modo, com as postulantes recém-chegadas a apontar para Mariana e a dizer segredinhos umas às outras, e com os mexericos das freiras mais velhas, era impossível que Peregrina não ficasse a par do gravia delicta da irmã. Mariana chegara a admitir ter enviado cinco cartas a esse homem, capitão de cavalaria e conde, mas não lhe dissera nada sobre um livro. Quantos exemplares existiriam? Leu uma passagem em que a irmã dizia que o seu coração ameaçava sair-lhe do peito e voar ao encontro do seu apaixonado. Os cantos das páginas pareciam líquenes negros por causa da fogueira. Era provável que Mariana não lhe tivesse falado da publicação das cartas porque queria manter uma certa privacidade.

            Ou porque não sabia nada quanto a isso. Seria possível? Não deveria Peregrina, que contava tudo à irmã, mencionar-lhe que encontrara este livro meio-queimado? Desde os três anos de idade vira poucos homens, que despertavam nela apenas uma vaga curiosidade. Preferia não ter de os ouvir.

            Em vez de voltar a pôr o livro na fogueira, escondeu-o sob uma laje solta da sua " casinha", dizendo para consigo mesma que no momento oportuno pediria à irmã explicações sobre o amor e perguntar-lhe-ia se sabia que tinha dado origem a um livro.

           Peregrina foi chamada à enfermaria. A Irmã Juliana de Matos recebeu os sacramentos e disse que, como durante toda a vida tinha tratado das doenças dos outros, esta era a última oportunidade para ficar doente também. Até então, ninguém a ouvira dizer uma piada. Morreu com um sorriso magnífico nos lábios.

            A Irmã Dolores exprimiu o desejo de ver a família, agora no céu por causa da peste. Há anos que não via nenhum dos seus parentes. E nunca vira a Capela dos Ossos em Évora. Depois de os monges residentes morrerem, os seus ossos foram usados na construção desta capela. Os crânios formavam as paredes e os fémures os pilares. A Irmã Dolores sempre desejara vê-la, mas o pai tinha-a metido no convento. Escrevera cartas suplicando ao irmão mais velho que fosse lá e lha descrevesse a fim de ela deixar de ter medo da morte. Mas o irmão nunca lhe respondera. Algumas freiras falaram-lhe da capela e

disseram-lhe que quando se entrava lá ficava-se com a triste convicção de que a vida não era mais do que uma acumulação de ossos; ou então aplaudiam o bom humor dos monges que tinham consentido em dar os ossos para a sua construção. É verdade que tais ossos pareciam gargalhar: " Saltaremos às cavalitas uns dos outros, como crianças, e os nossos ossos hão-de dançar traquinamente à noite e chocalhar. E havemos de rir-nos de quem olhar para nós e pensar: Eu cá não! Eu cá não! Só os velhos é que morrem!".

            É por isso que à porta da Capela dos Ossos se lê: " Os nossos ossos aguardam os vossos".

            Ás palavras delirantes da Irmã Dolores sobre a capela, replicou a Irmã Caetana:

- É demasiado púdica para se despir assim dos seus ossos.

            A Irmã Dolores riu-se:

- Pois sou! - E, em pleno delírio, repetiu:

- Pois sou! Pois sou! - até as outras pacientes suplicarem que se calasse.

            A Irmã cega, Beatriz Maria de Resende, cantou uma missa por alma da Irmã Dolores.

            - Que pena! - pensou a Irmã Caetana enquanto penteava o cabelo desgrenhado da defunta. - Os esqueletos dos monges podem dançar durante toda a noite e nós somos enterradas debaixo de lajes.

            Fingia estar a pentear a juba branca do avô, Francisco da Costa Alcoforado.

            Quando a Irmã Angélica de Noronha adoeceu, a supervisão da cozinha ficou a cargo da Irmã Brites de Freire. Além de cozinhar, uma das suas tarefas era também colocar comida - caldos de trigo moído e guisados de porco à porta das celas das freiras que Julgavam que a peste não entraria lá dentro.

            - Catarina! - chamou a Irmã Angélica de Noronha quando Peregrina lhe trouxe água. - Oh, Catarina! Devo estar no Céu.

            - Sim, Irmã - disse Peregrina.

            Mariana estava a um canto da enfermaria a derramar desinfectante à volta de uma cama onde outra freira tinha morrido. Em breve teriam de transportar a defunta para o cemitério na Quadra do Rosário, onde uma cova

recentemente aberta e cal aguardavam. Desde que tirara o livro das cartas da fogueira que Peregrina não olhava directamente para a irmã.

            - Tu não és a Catarina - exclamou a Irmã Angélica de Noronha - Onde é que ela está?

            - Espere um pouco - disse Peregrina.

            Saiu da enfermaria e dirigiu-se ao jardim onde estava a laranjeira de Catarina carregada de belos frutos. As folhas da árvore exalavam um forte aroma e os ramos pareciam os braços de uma deusa indiana. Apanhou uma laranja para levar à Irmã Angélica.

            - Aqui tem - disse Peregrina estendendo o fruto à freira moribunda.

            E a Irmã Angélica, apertando a laranja contra o peito, disse que era como estar abraçada a tudo o que sabia do amor.

            Quando a Irmã Ignez de São José desfaleceu, Peregrina acorreu-lhe, meteu-a na cama e foi ao jardim colher um ramalhete que simbolizasse a vida da freira: para a infância de Ignez - funcho.

            Colocou um talo desta erva com odor a alcaçuz na mão da amiga doente. O funcho significava a ânsia de mimos. Tal qual uma criança! Lembrava a Ignez a sua infância antes de entrar para o convento, com lindos vestidos de laços. Certamente que o pai a adorava. Quando ele tratava de negócios, Ignez batia com o pé exigindo que lhe prestasse atenção.

            Chame-se ao funcho a primeira década da vida.

            Deu-lhe também uma maçã - fruta de paixão e desejos. Ser uma jovem rapariga! Pensar que se podia dar uma dentada no mundo e sentir o seu sumo escorrer pelo pescoço abaixo!

            Como não conseguiu encontrar uma folha de carvalho, Peregrina pediu a Ignez que a imaginasse. O carvalho era a árvore da liberdade. Do fim da guerra. De Ignez aos trinta anos.

            Que outra planta devia Peregrina dar-lhe? Uma folha de laranjeira. Tal como o consolo e os ensinamentos de Ignez, o seu odor penetrava tudo.

            - Por teres sido uma esplêndida professora e guia - sussurrou Peregrina colocando a folha de laranjeira nas mãos de Ignez.

            Saberia Ignez que os seus botões eram as flores das noivas?

            Podia-se chamar aos botões de laranjeira as flores das noivas de Cristo?

            Se pelo menos pudesse encontrar uma rosa... se pelo menos o jardim do convento fosse grande! Pediu a Ignez para imaginar uma rosa. Correspondia aos cinquenta anos de Ignez - colorida, encorpada, cheirosa.

            Para os sessenta anos da amiga moribunda -

cravo-da-índia. Foi roubá-lo à cozinha. Pungente. A planta da dignidade, em forma de estrela.

            E agora a casa dos setenta, o fim dela - Peregrina estendeu-lhe uma caneca de água e disse: - Água, a substância que alimenta as plantas, que é absorvida por tudo em que toca. A tua água que se derramou em mim. Tomaste conta de mim e deixaste-me partir sem ter ciúmes. Fizeste com que Mariana e eu nos encontrássemos.

            - Que menina tão esperta! Percorreste toda a minha vida comigo - disse Ignez a arder de febre e tocando no rosto de Peregrina como fizera quando esta, do tamanho de uma boneca, chegara ao convento: - Obrigada.

            E Ignez de São José fechou os olhos.

            A mão de Peregrina Alcoforado teve um longo espasmo ao terminar o obituário da Irmã Ignez de São José.

            Quando a peste amainou, por volta da Primavera de 1701, apenas cento e cinquenta e cinco freiras haviam sobrevivido. Mesmo no caso de serem filhas das raras famílias que podiam dar-se ao luxo de fazer doações generosas, poucas raparigas batiam ao portão do convento para se tornarem postulantes. Ficavam em casa a ajudar os lares destruidos pela doença.

 

            Mariana e Peregrina sentaram-se no pátio para observar o poleiro dos passarinhos.

            - Diz-me o que é o molinismo - disse Mariana.

            Peregrina sorriu e pegou-lhe na mão. O sol escaldava. Sempre que brincavam a este jogo, Peregrina era transportada aos tempos da sua adolescência quando a irmã lhe dava lições. Aprendera com ela coisas sobre o Brasil, contabilidade básica, lendas chinesas, a história dos Alcoforado e o que era a menstruação. Aprendera duas categorias de preces - consolações, orações que começavam na natureza humana e terminavam em Deus, e deleites espirituais, com origem em Deus e que transbordavam na natureza humana. Nesses anos, ela e Mariana tinham encostado as camas à parede que separava as suas " casinhas" de modo a que os seus sonhos nocturnos se engastassem na mesma pedra e cal. Peregrina nunca se cansara do instinto maternal que levava Mariana a querer ensinar-lhe tudo.

            - O molinismo é um sistema filosófico concebido por um espanhol que viveu em Évora e centra-se no problema de reconciliar a livre vontade e a presciência divina - respondeu Peregrina.

            - E qual é a tua opinião?

            - Creio que Deus tem consciência antecipada do que a nossa livre vontade pode causar.

            - Gosto dessa resposta - comentou a irmã Mariana. - E agora, por que razão os japoneses têm um prato chamado tempura?

            - Por causa da presença, no século passado, dos portugueses no Japão. Quando os missionários comiam peixe em vez de carne, os japoneses repararam que se relacionava com uma determinada altura da semana ou do ano. E os missionários costumavam fritar a comida, um processo que tem de ser cuidadosamente cronometrado. Tempura deriva da palavra portuguesa " tempo" ou " temporada".

            -           Que outras consequências teve a permanência dos nossos compatriotas na Ásia?

            -           A destruição da arte e a interferência de uma religião que eles não compreendiam - baixou a voz. - Perdão pela heresia.

            -           Diz-me quais são as " Quatro Águas" de Santa Teresa.

            -           Com muito prazer. A primeira água é o estado em que o efeito total da vontade de uma pessoa é evidente. A segunda água é a orientação da inspiração, uma ligeira perda da vontade individual. A terceira água é a possessão, a perda completa da vontade, e a quarta água é o êxtase celeste.

            -           Qual é a raiz latina ou grega da palavra " êxtase"?

            -           A latina é ecstasis e a grega ekstasis. Ambas indicam " um ser fora de lugar".

            -           Para onde sonhas retirar-te?

            -           Não sonho ir para lugar nenhum. Prefiro estar aqui.

            -           Lembras-te da Catarina?

            -           Muito pouco. Era pequenina quando ela morreu.

            -           És parecida com ela. Muito parecida.

            -           Ainda bem - disse Peregrina.

            -           Nomeia uma ironia da História.

            Ambas desataram a rir.

            -           Por onde começar? - interrogou-se Peregrina. - O facto de o general Schomberg, contratado pela França para lutar em nosso favor estar agora contra esse país por causa da atitude anti-protestante dos franceses, constitui uma ironia da História.

            -           Quem é a melhor escrivã de Beja? Não, espera. Quem é a melhor escrivã da nossa nação livre?

            -           Oh, Mariana. Não me embaraces.

            -           A resposta não é essa. Quando é que essa melhor escrivã será Superiora para que a sua irmã mais velha possa sentir que ambas atingiram o apogeu?

            Tiveram de largar a mão uma da outra para cobrirem a boca e rirem como adolescentes.

- Tu, Mariana, é que deverias candidatar-te a Superiora.

- Não posso. E creio que tu sabes porquê.

            Andorinhas e beija-flores esvoaçavam junto ao poço, bicando os fetos e fugindo novamente. Peregrina achou que era uma boa ocasião para perguntar à irmã se sabia que as suas cartas tinham sido publicadas. Mas o momento passou.

            -           Não posso - prosseguiu Mariana. - Para começar, não sei o suficiente. Não sei o que beijamos mas nunca adoramos. Já descobriste o que é?

            -           Será a nossa história passada?

Reflectiram sobre isso.

            -           Não, não me parece - disse Mariana finalmente.

            Uma vez, a Irmã Francisca Freire dissera que sabia a resposta desta adivinha pois a mãe, quando ela era criança, contara-lha. Estava disposta a explicar-lhes, mas preveniu-as de que ficariam desapontadas pela sua absurdidade.

            -           Pergunta-me uma coisa que eu possa responder - disse Peregrina.

            -           Estamos salvas da peste?

            -           Por enquanto sim. Mais perguntas.

- O que é o estilo manuelino?

            -           É um estilo do final do século xv, princípio do século XVI, concebido no decorrer do reinado de D. Manuel. Os seus ornamentos náuticos celebram os espaços abertos e arejados e induzem um sentimento de optimismo. Foi criado para sugerir horizontes distantes.

- O que é que tu vês no horizonte?

- Os muros do convento.

- Fala a sério.

- Não estou a brincar.

- O que é que verias se te imaginasses a navegar num barco?

- Nunca imaginei tal coisa.

- Tenta.

            Peregrina enrugou a testa fingindo concentrar-se, mas depois encolheu os ombros.

            -           O meu maior desejo seria levar-te a toda a parte - disse Mariana. A Évora, Lisboa, ao mar. Não gostavas de ver o mar?

            -           Não. Não penso nisso.